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Álvaro Bianchi • Amarílio Ferreira Jr. •Ariovaldo Umbelino de Oliveira • Elias Thomé Saliba • Giulio Pietranera • Fábio Faversani • Jorge Grespan • Lincoln Secco • Marisa Bittar • Miguel Urbano Rodrigues • Modesto Florenzano • Norberto Guarinello • Pablo Rieznik • Paula Beiguelman • Pedro Paulo Funari

Organização: Osvaldo Coggiola

MANIFESTO COMUNISTA ONTEM & HOJE
Trabalhos apresentados durante as comemorações dos 150 anos do Manifesto Comunista Departamento de História — FFLCH — USP 1 a edição — 1999

SUMÁRIO Apresentação, 2 Osvaldo Coggiola Anotações sobre a Europa em 1848, 3 Modesto Florenzano A revolução fora do tempo — Marx, Engels em 1848, 9 Álvaro Bianchi O espectro do comunismo, 19 Giulio Pietranera O Manifesto em 1848 e hoje, 24 Paula Beiguelman O Manifesto Comunista e o mundo de hoje, 26 Miguel Urbano Rodrigues O Manifesto Comunista: um panfleto atual, 29 Marisa Bittare Amarílio Ferreira Júnior O Manifesto Comunista: método do programa e programa do método, 32 Jorge Grespan O Manifesto Comunista e o proletariado no século XIX, 36 Lincoln Secco A ditadura do proletariado como um ato de sensatez (e uma referência ao amor), 40 Pablo Rieznik Humor romântico e utopias: reflexões sobre alguns registros cômicos na época do Manifesto Comunista (1814-1857), 48 Elias Thomé Saliba O Manifesto Comunista e a Antigüidade Clássica, 53 Norberto Luiz Guarinello O Manifesto Comunista e a crítica da razão sistêmica, 60 Osvaldo Coggiola A Antigüidade, o Manifesto e a historiografia crítica sobre o mundo antigo, 75 Pedro Paulo Funari O Manifesto e o classicismo, 79 Fábio Faversani Os 150 anos do Manifesto e a luta pela terra no Brasil, 83 Ariovaldo Umbelino de Oliveira

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APRESENTAÇÃO
Em 1998, cumpriram-se 150 anos da primeira edição do Manifesto Comunista. Dois marcos fundamentais, estreitamente interligados, da história geral e da história das idéias contemporâneas, estavam em pauta: as revoluções de 1848 e a publicação da primeira obra de referência da corrente político-ideológica mais influente da contemporaneidade, o marxismo. A data, portanto, era um convite, não só para a reflexão acadêmica, mas também para a reafirmação (e atualização) de princípios, por parte dos militantes de esquerda e do movimento dos trabalhadores em geral. Através da história e do balanço do Manifesto, é a própria história do século e meio mais convulsionado da história da humanidade o que está em discussão. E, bem além disso, também a questão da validade do método materialista e dialético (o materialismo histórico) para a análise da realidade histórica e social. Uma comissão nacional foi constituída, então, para organizar e tentar centralizar, na medida do possível, as inúmeras iniciativas que, no Brasil todo, nos sindicatos, universidades, associações de bairro e comunitárias, assentamentos agrários, se dispunham a comemorar a data. A comissão ficou composta por universitários e intelectuais, sindicalistas e militantes, estudantes e trabalhadores, e vinculou-se internacionalmente ao coletivo Espaços Marx que programou (e realizou) um encontro mundial sobre o Manifesto, em Paris, durante a segunda semana do mês de maio. A comissão recusou a divisão entre reflexão “acadêmica” ou intelectual, e militante ou política. Por isso, em São Paulo, programou uma série de eventos que se desenvolveram na CUT, na USP, na Unicamp, na Unesp, na PUC/SP, em associações comunitárias, enfim, suscitando a participação do maior número de pessoas, independentemente de sua titulação acadêmica ou política. O conjunto das atividades culminaram numa grande jornada político-acadêmica e cultural, realizada no Tuca, em 2 de maio, depois das comemorações do 1o de maio. Coube-me exercer diversas responsabilidades dentro da comissão, entre elas a de coordenar as atividades realizadas na Universidade de São Paulo. O volume que agora apresentamos ao leitor reúne, justamente, os principais trabalhos que foram apresentados nas três jornadas realizadas na USP, nos Departamentos de História e Geografia e na Faculdade de Educação, de 28 a 30 de abril. Algumas palavras sobre os autores. Modesto Florenzano é professor de História Moderna na FFLCH-USP, autor de As revoluções burguesas e doutorado em História pela USP. Álvaro Bianchi é pós-graduando em Ciências Sociais na Unicamp, membro do Instituto de Estudos Socialistas. Giulio Pietranera foi um teórico marxista independente, italiano, já falecido, que redigiu o texto aqui reproduzido (e inédito) por ocasião do centenário do Manifesto, em 1948. Paula Beiguelman, historiadora bem conhecida, autora de Os companheiros de São Paulo, é professora aposentada da FFLCH-USP. Miguel Urbano Rodrigues é um dirigente histórico do Partido Comunista Português, por longos anos exilado no Brasil, onde editava o jornal Portugal Democrático. Marisa Bittar e Amarílio Ferreira Jr. são professores de História na UFSCar (Universidade Federal de São Carlos), com longa experiência no movimento sindical docente. Jorge Grespan é professor de História da América na FFLCH-USP, com doutorado no Instituto de Economia da Unicamp e pós-doutorado na Alemanha. Lincoln Secco é mestre em História pela USP e membro do corpo editorial da revista Praxis. Pablo Rieznik é dirigente do Partido Obrero da Argentina e professor de Economia na Universidade de Buenos Aires. Elias Thomé Saliba, autor de As utopias românticas, é professor de Teoria e Metodologia da História na FFLCH-USP. Norberto Guarinello é professor de História Antiga na FFLCH-USP, autor de livros didáticos e membro do Conselho Editorial da Revista da Adusp. Pedro Paulo de Abreu Funari é professor de História da Antigüidade no IFCH da Unicamp, com doutorado em História pela USP. Fábio Fauersani é posgraduando em História pela USP e professor no Departamento de História da UFOP (Universidade Federal de Ouro Preto). Ariovaldo Umbelino de Oliveira, conhecido especialista na questão agrária, com diversos livros publicados (4 geografia das lutas do campo no Brasil, entre outros) é professor de Geografia na FFLCH-USP. A leitura do conjunto dos trabalhos evidencia que em momento algum tratou-se de uma comemoração retórica, ou de uma reflexão puramente acadêmica, mas de um momento reflexivo dentro de uma luta mais que secular. Osvaldo Coggiola Professor livre-docente do Departamento de História da FFLCH da Universidade de São Paulo. Membro do corpo editorial da revista internacional Em defensa de´l marxismo (publicada na Argentina).

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ANOTAÇÕES SOBRE A EUROPA EM 1848 Modesto Florenzano
É um lugar comum dizer que se as idéias não movem o mundo o mundo não se move sem idéias. E a Europa nunca foi tão povoada de idéias visando mover o mundo como na década de 1840. Não são poucos os historiadores, das mais diferentes concepções, que chamaram a atenção para esse fato. Para Namier, que era um conservador, “a revolução de 1848 foi precedida por um período de florescimento intelectual como a Europa nunca conhecera antes nem conheceria depois”; para Godechot, que era um liberal-democrata, entre 1815 e 1848, “nunca se tinha visto — e nunca se veria a seguir — um tão vivo florescimento de teorias políticas”; e para Hobsbawm, que é um marxista-comunista, em 1848, havia três modelos de revolução em circulação ao mesmo tempo: “o liberal moderado”, “o democrata radical” e “o socialista”.1 Lembremos, nesse sentido, que, entre as décadas de 1830 e 1840, Comte, Tocqueville e Marx/Engels já tinham elaborado e formulado suas respectivas filosofias da História, constituindo, cada uma delas, como todos sabem, as mais elevadas e influentes teorias sociais deixadas pelo século XIX. Ora, essas teorias expressavam o que H. Arendt definiu com perspicácia, mas de maneira negativa e algo exagerada, como a “tremenda mudança intelectual que ocorreu em meados do século XIX (que) consistiu na recusa de encarar qualquer coisa „como é‟ e na tentativa de interpretar tudo como simples estágio de algum desenvolvimento ulterior”.2 Embora as influências desses pensadores, sobretudo de Marx e Engels, só se fizessem sentir depois de 1848, a maneira como todos eles interpretaram o papel e a importância da História não poderia expressar melhor a atmosfera intelectual reinante, na Europa, naquele momento. Num lúcido comentário ao Manifesto Comunista, por ocasião do seu centenário, o historiador Carr, assinala que o famoso panfleto “apresenta a metodologia marxista em sua forma completamente desenvolvida: uma interpretação da História que é, ao mesmo tempo, um chamado à ação”. E embora outros escritos anteriores e posteriores ao Manifesto, prossegue Carr, “parecem insistir nas leis férreas do desenvolvimento histórico, que deixariam pouca margem à iniciativa da vontade humana... não alteram a dupla ortodoxia estabelecida no Manifesto Comunista, onde interpretação e ação, predestinação e livre-arbítrio, teoria revolucionária e prática revolucionária marcham triunfalmente de mãos dadas”.3 Talvez, não constitua um exagero afirmar que todo o acirrado e rico debate, conhecido como Zusammenbruchstheorie, que se desenvolveu no final do século passado e início deste, no interior do marxismo, sobre a existência ou não existência, em O Capital de Marx, de uma teoria do colapso do capitalismo, teve como fundamento precisamente a tensão, e o enigma, entre determinação e liberdade.4 Assim, e voltando a 1848, quando Joseph Proudhon, o fundador do socialismo anarco-sindicalista, escreveu, nas Confissões de um revolucionário, publicadas em 1849, que o governo provisório, na França, criado pelas jornadas de fevereiro, era um “governo sem idéias e sem escopo”, não estava apenas formulando mais um paradoxo, ele que uma vez chamou a si mesmo de “um homem de paradoxos”5. Estava, talvez, lamentando não a ausência de idéias, mas o seu excesso (e, naturalmente, a ausência das idéias dele, Proudhon). Na verdade, havia, entre os contemporâneos de 1848, tanto por parte dos que queriam (um)a revolução, quanto dos que a ela se opunham, uma aguda percepção sobre o poder transformador e subversivo das idéias, já que todos se lembravam dos precedentes revolucionários de 1789, de 1792-3 e de 1830. A ação das sociedades secretas, como a dos carbonários, e o livro de Filippo Buonarroti, A conspiração dos iguais de Graco Babeuf, editado em Bruxelas, em 1828, vieram enriquecer o acervo em matéria de revolução; como se sabe, quando os eventos se materializam, chegam à prática é porque antes aconteceram nas mentes. Ninguém se expressou melhor sobre isso do que os alemães, dos dois lados da barricada, isto é, dos que queriam levar a teoria à prática e dos que queriam impedir que isso ocorresse. Não vou lembrar aqui, de Marx e Engels (cujas brilhantes formulações nesse sentido são conhecidas de todos), mas do rei Guilherme, do pequeno Estado alemão de Würtemberg, da sua formulação, lapidar, verbalizada a um diplomata, em 9 de maio de 1848, “Não posso montar a cavalo contra as idéias”.6 Assim, tanto quanto a presença das muitas idéias e dos vários programas revolucionários, o que ainda distingue 1848 é que, de ambos os lados da barricada, eram muitos os que sabiam que a revolução estava a caminho. Por isso, tanto Namier, quanto Hobsbawam, começam e terminam suas interpretações sobre 1848, com citações dos contemporâneos para enfatizar a consciência que estes tinham da iminência da revolução. Para Namier, “a revolução de 1848 era universalmente esperada, e foi supranacional como nenhuma outra antes ou depois de então”, e, para Hobsbawm, “raras vezes a revolução foi prevista com tamanha certeza, embora não fosse prevista em relação aos países certos ou às datas certas”.7 Assim, quando Tocqueville advertiu no profético, e muito citado, discurso à Câmara dos Deputados, de 27 de janeiro de 1848, sobre a iminência da revolução (“Não ouvis então... que direi?... Um vento de revoluções que paira no ar? Esse vento, não se sabe onde nasce, de onde vem, nem, acreditai, o que carrega...”8), ele já havia sido precedido por outros. A começar por Vitor Hugo que, ainda em 1831, escrevia que ouvia por toda parte “o barulho surdo que fazem as revoluções, ainda encravadas nas entranhas da terra, estendendo sob todos os reinos da Europa suas galerias subterrâneas, ramificações da grande revolução central cuja cratera é Paris”. E por Metternich que, em 1832, escrevia: “Existe apenas um assunto sério na Europa de 1832, a revolução (...) a revolução social (que) ataca os alicerces da sociedade”. Ninguém percebeu com mais profundidade do que o ministro prussiano, o conde von Galen, que a crise econômica geral, iniciada em 1848, e que iria se agravar o ano seguinte, havia tornado a revolução impossível de ser detida. Escrevia o ministro prussiano, em 1847, “o ano velho se encerrou em meio à carestia, o novo se abre em meio à fome. A miséria espiritual e física percorre a Europa em formas espantosas: uma sem Deus, a outra sem o pão. Ai se elas se dão as

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mãos”. E foi, precisamente, o que aconteceu. Nas palavras do historiador Taylor: “Os ideólogos tinham apelado às massas por 60 anos; em 1848 as massas finalmente responderam ao seu chamado”.9 Todos os historiadores estão de acordo em considerar que a revolução de 1848 foi o resultado da fusão de duas crises: uma crise política e uma crise econômica. Não tenho espaço aqui para tratar desta última, lembro apenas que o historiador Labrousse demonstrou, por ocasião do centenário de 1848 e, salvo engano, foi o primeiro a fazê-lo,10 que, entre 1846-1848, a França (e o mesmo, mutatis mutandis, vale para boa parte da Europa) passou, simultaneamente, pela última crise, aguda, de tipo antigo regime (isto é, por uma grave escassez de gêneros alimentícios básicos e que, a partir da agricultura, afetou também a indústria têxtil e o comércio a ela vinculados) e pela primeira crise, igualmente aguda, de tipo novo (isto é, capitalista, de superprodução, com escassez financeira e paralisação da indústria metalúrgica e ferroviária). Se cada uma das duas crises já era suficiente para provocar fome e desemprego e, em conseqüência, agitação social e revolta, as duas somadas, ao deixarem milhões de famintos e desempregados, agravaram a crise social já em curso por causa da industrialização, e em conseqüência, abriram o caminho à revolução. Mas, como notou Labrousse, no texto já citado, embora existam crises econômicas decenais, não há revoluções decenais. Tanto é verdade que, os dois países mais industrializados da Europa, a Inglaterra e a Bélgica, estiveram entre os mais afetados pela crise, mas escaparam da revolução. Assim, o curso da crise econômica determina o momento da eclosão da revolução, mas esta só ocorre onde a crise econômica cruza-se, e funde-se, com uma crise política que a antecede. Não que na Bélgica e na Inglaterra não tenha havido problemas e agitações políticas em 1848, mas, em ambas, não havia mais, por parte das classes proprietárias, questionamento às instituições políticas básicas, isto é, à monarquia e ao parlamento. Por isso, em 1848, na Bélgica, bastou ampliar um pouco mais o número de eleitores para colocar todos os proprietários do lado do governo. E na Inglaterra, o governo não sofreu nenhum abalo, apesar do problema irlandês; apesar da intensa agitação promovida pela Anti-corn-law League; e, sobretudo, apesar do cartismo. Este último, expressava a questão operária, que se havia tomado aguda precisamente nos 10 anos que antecederam 1848. Os cartistas desenvolveram, a partir de 1838, uma intensa campanha de mobilização e de agitação, para angariar assinaturas e forçar o Parlamento a aprovar seu programa democrático de seis pontos, a Carta ao Povo, visto como condição indispensável para dar a todos os trabalhadores a possibilidade de obter sua emancipação política e econômica. O último esforço dos cartistas, a realização de uma manifestação monstro em 10 de abril de 1848, terminou em fracasso. Sobre esse acontecimento, vejamos o testemunho de Fulk-Greville que, em seu diário do dia anterior, escrevia: Londres inteira está preparada para responder a um levante dos cartistas amanhã: o qual será ou muito sublime ou muito ridículo. Todos os empregados e demais pessoas que se encontram nos diferentes escritórios devem, por ordem do governo, prestar juramento como guardas especiais e formar guarnições (...) Amanhã passaremos todo o dia no escritório, e eu mandarei todos os meus fuzis; em suma, estamos em estado de guerra (...) em Londres, todo gentleman tomou-se um guarda... No dia seguinte comenta: A anunciada tragédia transformou-se rapidamente em uma leve farsa. Mas prevalece a satisfação: todos se alegram pelo fato da demonstração defensiva ter sido feita, por que proporcionou uma grande e memorável lição, que não será esquecida (...) e produzirá um grande efeito em todos os países estrangeiros, mostrando como são sólidos os fundamentos sobre os quais nos apoiamos. Mostramos uma grande resolução e uma grande força... E, Cantimori, o historiador italiano do qual extraímos essa citação, acrescenta: “É conhecido como os reacionários, os conservadores e os moderados franceses aprenderam a lição inglesa”.11 Na verdade, o que aconteceu na Bélgica e na Inglaterra foi que 1848 havia sido decidido em 1831 e 1832. A constituição belga de 1831 reunia tudo o que liberais e burgueses poderiam querer como forma ideal de governo: uma monarquia constitucional, rigidamente limitada, que estabelecia o claro reconhecimento da soberania do povo, um legislativo bicameral (onde as câmaras eram inteiramente eleitas pelo povo), um poder judiciário (completamente independente), um clero pago pelo Estado (mas dele independente), e uma declaração de direitos dos cidadãos solidamente baseada nos princípios de 1776 e 1789 (e sob muitos aspectos mais avançada do que estes 12). Não admira, assim, que, em 1848, a constituição belga tenha exercido uma considerável influência na Alemanha, Itália, Escandinávia e outros países. Quanto à Inglaterra, o Ato de Reforma, aprovado em 1832, ao aumentar em 50% o número de eleitores (e deve ser dito que mesmo antes da reforma o número de votantes na Inglaterra, era o maior da Europa, superior àquele estabelecido pela constituição sueca de 1809, espanhola de 1812, norueguesa de 1814, holandesa de 1815, francesa de 1830 e belga de 1831) e ao reformar as circunscrições eleitorais com base na população, abriu caminho legal para a classe média, a burguesia empresarial, finalmente, poder ser maioria no Parlamento. A reforma de 1832, eliminava qualquer possibilidade de conflito sério entre o capital agrário e o industrial e de uma eventual aliança entre este e a classe operária. O historiador Rude colocou em dúvida que a Inglaterra tenha estado perto, ou na iminência, de uma revolução não só em 1848, como até mesmo em 1830-32, como chegaram a acreditar muitos historiadores. Afirmou Rude, com razão, que não houve revolução em 1832 não apenas por que os tories ou os lordes cederam às ameaças dos whigs ou dos radicais, como também por que ninguém importante queria uma revolução e por que aquela combinação de fatores políticos e materiais, a única a poder fazer a revolução possível, estava conspicuamente ausente.13 Com efeito, examinando-se todas as grandes revoluções do Ocidente, da inglesa de 1640 à russa de 1917, verifica-se que, em todas elas, ocorreu, previamente, entre outras coisas, uma alienação dos intelectuais com relação ao Estado e uma fratura — e uma crise moral — no interior das classes ou frações de classes dominantes. Ora, nenhuma dessas duas condições existia na Inglaterra e na Bélgica em 1848, bem como também não existia (ou porque tinha acabado de ser

e. Comecemos pela França. desprezando o “país real”. como ele próprio reconheceu. agravada ainda pelo problema nacional. ele e o liberalismo burguês francês como um todo — que havia sido tão criativo e rico. “foi a última vez que a França espirrou e o resto da Europa apanhou um resfriado”. convencido que o 1830 francês era o perfeito equivalente do 1688 inglês. tinha já explodido em Palermo. Nas Lembranças de 1848. a história da França parecia-me tão subvertida quanto a própria França”. entre duas burguesias e as massas.20 E de acordo com o historiador italiano Candeloro. A nobreza legitimista porque nunca aceitou a nova dinastia. todos legitimistas. tinha jurado fidelidade à nova dinastia porque. também Guizot. pelos sete Estados italianos e. sobretudo. a alienação dos intelectuais. fora “uma revolução pela metade”. que a Revolução Francesa não tinha acabado ainda. Como Hegel. apesar de tudo. Alemanha e Império Austríaco. na feliz formulação de Vitor Hugo. rapidamente.15 Se. Em outras palavras. em 24 de fevereiro de 1848. o governo inteiro. a burguesia não só se tornou a única dirigente da sociedade. herdada dos próprios contemporâneos. Bassermann. com o novo regime. todas as franquias. os legitimistas. isto é. obcecado com sua política do juste milieu. porque não havia emergido) na Suíça. Como muito bem notou Godechot: “não se pode afirmar que sem a revolução parisiense funcionando como detonador ela não teria. tinha. em Turim e em Roma. o drama iniciado em 1789. em 1848. a nobreza legitimista. a superdimensionar o papel desempenhado pela França na Revolução de 1848. acreditava no fim da História. a começar por Guizot. e para retomar a formulação de Rude. na véspera de 1848. temos que recebê-las de Paris”. ou porque estava em refluxo. e depois de abandonar. ao contrário de Quinet e Tocqueville. eu senti o golpe de duas maneiras. Por esta nova Revolução. do que a Educação sentimental de Flaubert. quando. Na França. levarmos em conta os que estavam acima da burguesia. devia àqueles pensadores — não tinha mais nada a dizer e face à revolução de 1848 e suas lutas de classes. tinha confundido o fim de um ato com o fim da peça. Assim. estava convencido que. isolou-se perigosamente no poder. a luta de classes que conflagrava a sociedade francesa era quadrangular. melhor do que os livros de História. um dos líderes dos liberais moderados no Parlamento de Frankfurt”. assim revelava sua perplexidade: “Quando eclodiu sobre nós a catástrofe de 1848. chegou até mesmo a votar com os republicanos contra o governo. até 1848. finalmente. “As nossas revoluções.5 superada.. como propuseram os historiadores Labrousse e Droz. Tocqueville assim interpretou esse comportamento: todos os poderes políticos.. durante a Restauração.19 Contudo. segundo a famosa frase. como cidadão e como historiador. E existia também. Mas. a melhor das repúblicas. ou. mas também converteu-se em sua arrendatária. ficou completamente traumatizado. Se a opinião de Engels (que era também a de Marx) é mais do que justa. e o de todas as frações da burguesia. Mas. Em 1853. D. depois de 1830. mais do que o rei. encontraram-se encerrados e como que amontoados nos limites estreitos da burguesia. retornou à capital e à política. O movimento italiano tinha já chegado espontaneamente a um ponto muito avançado quando recebeu um novo e . Como bem lembrou o historiador Droz. como as nossas modas. segundo a qual. deu-se conta de que. escrevia em 1849. o historiador republicano Edgar Quinet advertia: “A burguesia acusou a antiga realeza de ter oposto uma resistência implacável ao espírito de seu tempo. posto fogo na Europa”. ficou na oposição e. a Revolução de 1830. para começar. ou seja. em algum momento dos anos 1840.16 Mas. F. ministro e ideólogo do regime. ainda. o historiador liberal Augustin Thierry. a onda revolucionária de 1848 teve precisamente na Itália um dos seus principais centros de irradiação: das agitações e das reformas de 1846-47 saiu com efeito a revolução de Palermo de 12 de janeiro de 1848 e. refugiando-se em suas terras e reaproximando-se dos camponeses. pois ela permite corrigir a tendência.17 Passemos agora. Paris e a política. e sobretudo. um mês e meio antes. no fim. Guizot. do que o romance Lucien Lewen de Stendhal. os romances de Balzac explicam a sociedade francesa de classes. na Escandinávia e na Rússia (daí porque em nenhuma dessas regiões houve revolução). não nos esqueçamos o quanto o conceito de luta de classes de Marx.14 À oposição que reclamava a reforma eleitoral e parlamentar. durante a Monarquia de Julho. em todo o vasto território formado pelos 39 Estados alemães. com a exclusão (de direito) de tudo o que estava abaixo dela e (de fato) de tudo o que estivera acima. mas confrontaram-se com um rei que se opôs a toda emancipação política e que se negou a reconhecer outra coisa que não fosse o „país legal‟. ficou até o fim. em 1840. E a burguesia orleanista porque. Deve-se olhar com muita atenção para a conjuntura histórica existente na Itália a partir de 1846. por outro. e não apenas triangular. nesses países. e de ter acumulado por isso uma revolução igualmente implacável. pois. as prerrogativas. em Florença. e em menor escala. em um segundo momento. os responsáveis pelo fracasso do regime criado em 1830. Em 1830. a fratura — e a crise moral — no interior das classes dominantes existia na França. Guizot. a grande burguesia orleanista. deve ser lembrado que a revolução antes de explodir em Paris. eram numerosas as pessoas importantes que queriam uma revolução. a qual parecia apenas aguardar o sinal vindo de Paris. acabado. Na verdade. na Sicília. cabe acrescentar que nenhum livro de História permite compreender melhor o comportamento e a mentalidade da nobreza legitimista e da burguesia orleanista. em oposição a seus pais e amigos. ao contrário do que ocorria na Inglaterra. à revolução de 1848 na Itália. pelo Império Habsburgo. Por isso. dir-seia que. foram.”. por um lado. em um primeiro momento.18 Em 1848. na Polônia. como bem viu Tocqueville. Que ela se cuide para não cair no mesmo erro. como afirma nas Lembranças. de meados do século XIX. conseqüentemente. ele não foi o único. na Península Ibérica. com seu exclusivismo. isto é. É conhecida a opinião de Engels. como Guizot e tantos outros liberais. Tocqueville. e os seus grandes porta-vozes e líderes. respondia enrichessez-vous. a concessão de Estatutos (Constituições) em Nápoles. os franceses tinham sonhado com um soberano que os levaria ao sufrágio universal e com uma monarquia que seria. como lembrou de maneira espirituosa Taylor. Novamente.

rutenos. os que antes formularam esse conceito de nacionalidade que é lingüístico e racial. ou democrática. e/ou de uma etnia próprias e. Como assinalou Taylor. para designar a confusão e a falta de coordenação que marcaram a revolução italiana de 1848. o que iria acontecer. a revolução de Viena foi o evento central de 1848. a revolução de 1848. Por isso pode-se até mesmo afirmar que o rápido e aberto desenvolvimento do movimento liberal e nacional na Itália nos 20 meses compreendidos entre a eleição de Pio IX e a revolução parisiense exerceu um notável influência sobre a situação européia. serão. foram os alemães. desafiando a ordem tradicional da Europa. pelo menos na aparência e no curto prazo. dando lugar a formas compósitas e bizarras. naqueles o Estado (portanto. o social. os poloneses lutavam nos dois campos — resistiram às reivindicações dos alemães na Posnânia. húngaros e poloneses. e. Mas. romântico. italianos. quer fosse somente a liberdade política. no antigo regime e em tudo o que o caracterizava. etc. . Mas. senão a encarnação viva. lírico. o tempo se arrasta e os princípios e as instituições representativas do que é arcaico e do que é moderno combinam-se de maneira singular. profeticamente: “Se a ordem social chegar a ser genuinamente ameaçada. como se sabe. precisamente em 1848. e também.6 poderoso impulso da revolução parisiense de fevereiro de 1848 e da conseqüente revolução de março em Viena. os direitos das nações nas ruas de Viena. para caracterizar o clima. o curso da História. croatas e sérvios que. ainda que no Leste suas próprias reivindicações “históricas” eram desafiadas pelos ucranianos. com profundidade. mais do que político e territorial. “a questão da nacionalidade está destinada a dar o seu nome ao século”25). em um Estado nacional. sociedade hierárquica e aristocrática. queriam ser reconhecidas como nações. Ora. não é que. na Alemanha e no Império Austríaco foi exemplar. ou a nacional. a nacionalidade existe em decorrência de uma língua. pela espionagem e pela censura onipresentes. Os franceses cunharam a expressão esprit quarante-huitard. E no entanto. Não vou aqui tratar do primeiro fator. b) aos vários e conflitantes nacionalismos e c) à habilidade do Império Habsburgo em se reformar e lidar com os problemas. como a dos checos. Camilo Benso di Cavour. “A nação é a universalidade dos cidadãos que falam a mesma língua”. quanto da Revolução Industrial inglesa. em 1853. reinante em fevereiro de 1848. Ainda em 1846. era o objeto de todos os descontentamentos e de todos os ódios. Enquanto neste havia sido o Estado (portanto. e os italianos a expressão fare um quarantotto. anteviu. deveu-se. o culto do princípio começou”. Lembro apenas que. sobretudo. os checos questionaram o predomínio alemão na Boêmia. os primeiros a aliaremse aos flancos do partido conservador”. Os princípios e a realidade histórica decorrentes tanto da Revolução Francesa de 1789. na Itália. os mais entusiásticos republicanos. que viviam sob o domínio do Império Habsburgo que anelavam por liberdade. eslovenos. decorridas poucas semanas das jornadas de fevereiro. bem como as chamadas nações “nãohistóricas”. Depois. o futuro arquiteto da unificação italiana. a política) o ponto de partida da nacionalidade. entre os momentos de nascimento do novo e da morte do velho e seus. croatas. sentiam-se tolhidos. mais tarde. uma vez iniciada a revolução. e irrealista. o político e o nacional. Giuseppe Ferrari. entre 1815-1848. e onde todos os componentes de 1848 estiveram presentes: o econômico.. com as várias burguesias. reprimidos e sufocados pela burocracia. que lutavam para construir seus respectivos Estados independentes: alemães. tinham dado um golpe de morte. na Itália não tinha ainda chegado a revolução do rico”. ou todas elas juntas. a três fatores: a) ao medo que a burguesia tinha da revolução social.) ambas simbolizavam a velha ordem e caíram com ela. escrevia em 1832. triunfos e retiradas do cenário histórico. onde se manifestaram com mais intensidade a confusão e o espírito romântico. na Itália. sérvios e romenos repudiaram a Grande Hungria. isto é. ou a econômica. fundamentalmente. Para Taylor. o direito dinástico sobre os povos perdeu sua sustenção em 13 de março de 1848.. a revolução explode em Berlim e em Viena. seu curso descombinado e seu resultado contraditório. de todas as condições e nacionalidades.22 Mas. como se sabe.21 Seja como for. juntamente com a Rússia. que me parece bastante conhecido. Por isso. a surpresa de 1848 foi o aparecimento das nações não-históricas: as nações históricas. se os grandes princípios sobre os quais ela repousa vierem a estar diante de um sério risco. pela polícia. uma vez passada a tempestade revolucionária. de tudo isso? Os muitos milhões de europeus.24 Como se sabe. e profeticamente. eram elas mesmas desafiadas pelas nações nãohistóricas.23 Nesse sentido. em 1789 (. Era na Prússia e no Império Habsburgo que se localizavam as “nações históricas”. então muitos dos mais decididos oposicionistas. a Áustria. a defensora intransigente. Era o fim do governo baseado na tradição. por causa disso. Os direitos do homem triunfaram nas ruas de Paris. do princípio das nacionalidades (“A única idéia hoje fecunda e poderosa na Europa é a idéia da liberdade nacional. não é linear. o que era a Áustria de Metternich. Daqui para a frente os povos poderiam ser governados somente pelo consentimento ou pela força. temos certeza. foi na Alemanha. assim se exprimia sobre a situação contraditória vivida pelos burgueses na Itália (e. respectivos. a política) era o ponto de chegada. elas devem ter o direito de se constituírem em uma comunidade política independente. o Império Habsburgo sobreviveu até a Primeira Guerra Mundial? Pode-se dizer que o fracasso da revolução de 1848. daí seu caráter confuso. também na Alemanha e Áustria). o princípio nacional reivindicado em 1848 tinha uma fundamentação distinta do princípio francês. eslovenos. Em 1848. Eslovenos e croatas disputavam as históricas reivindicações da Itália nacional. e a figura emblemática. A autoridade monárquica sobre os „súditos‟ perdeu sua sanção divina em 14 de julho de 1789. afirmava. relações ainda feudais no campo. absolutismo político. ou a social. foi o italiano Giuseppe Mazzini o grande teórico. em 1848: “Na França pedia-se a revolução do pobre. tão significativo quanto a Queda da Bastilha. entre 11 e 18 de março. na Alemanha e no Império Habsburgo. a começar pelo filósofo Herder.

só Hobsbawm está vivo.30 Compreende-se assim. de liderança (bem como o sonho de Mickiewicz que considerava a Polônia “Cristo das nações” que “ressurgirá e libertará da escravidão todas as nações da Europa” e o de Michelet que escrevia. 4. minha pátria somente pode salvar o mundo”26) o que não se poderia esperar do nacionalismo alemão? O filósofo Fichte acreditava que somente os alemães constituíam uma verdadeira nação. porque em plena crise revolucionária. p. estavam imbuídos de sentimento nacionalista.28 Cavour. Em suas interpretações sobre 1848 eles exploraram ao máximo esse aspecto e demonstraram. o líder do movimento nacional checo escreveu: “Na realidade. mas nada tem sido tão ruinoso para a nossa monarquia como a insurreição dos camponeses. de crença na superioridade do alemão sobre os demais povos. Conta-se que o príncipe Alfred Windischgrätz. vivaio di storia”. foi para Praga em missão oficial. se o Império Austríaco não existisse. 1970. Einaudi. o Estado austríaco aboliu a servidão que ainda pesava sobre os camponeses e com isso rompeu uma possível e irresistível aliança revolucionária entre campo e cidade. em 1848. apesar da insurreição vitoriosa em Viena. em abril de 1848. ao passo que as outras línguas “mortas na raiz”. militar e social. p. do Estado permaneceu intacto. Instituto Geográfico De Agostini. para dialogar com os checos. exceto o princípio de um Estado nacional poderoso. O imperador da Prússia. o Império Austríaco dos Habsburgo conseguiu uma sobrevida. porque. eram portadores desse sentimento. 24-25. Il Marxismo e il „crollo‟ del capitalismo. pois. Se até mesmo o sonho mazziniano de uma comunidade universal de nações irmãs. o que significa dizer que. Rio de Janeiro. uma missão. Lewis. 230. um dos líderes das assembléias de Frankfurt. era irrealizável. In: Estúdios sobre Ia revolúcion. von Wachter. quer pelo medo. Arendt. Um mês antes. contra as reformas que haviam prejudicado os interesses dos grandes proprietários. a Rússia pronto a ajudá-los e. Turim. entre outras coisas. 3. 2. que uma das mais altas personalidades austríacas tinha-lhe confidenciado o seguinte: “As desordens italianas e suíças causaram-nos muito dano e a crise financeira causou-nos muitas dificuldades. Namier. todas as esperanças da humanidade para a cura dos seus males profundos pereceriam também”. de origem burguesa ou nobre. e é vossa missão desenvolvê-la. falando uma língua viva. todos os princípios. Palacky. Ver Colletti. Sim. afirmou: “O germanismo mal nasceu e já ameaça turvar o equilíbrio europeu. 1979. Rio de Janeiro. “II Quarantotto. Edward Hallet. Documento.29 O poder da dinastia Habsburgo. As origens do totalitarismo. mesmo tendo fracassado. e declarou que “nós os alemães queremos tomar os checos em nossos braços. em fevereiro de 1850. um dos arquitetos da reconstrução do domínio Habsburgo. a Revolução Alemã conseguiu assustar outras nacionalidades. quer por sua capacidade de se autoreformar. com uma reforma pelo alto a ameaça mais séria: a revolução camponesa. como bem assinalou Hobsbawm.31 Assim. assim exortava os alemães: “De todas as nações modernas sois vós que carregais mais claramente a semente da perfeição humana.”. Novara. Le Rivoluzioni del 1848. como a sonhada por Mazzini e tantos outros. como a burguesia alemã. “El Manifiesto Comunista”. com poucas exceções. Em 1808. implicava no que Namier chamou de “uma grande guerra européia de cada nação contra seus vizinhos”. esteve disposta a negociar. malgrado seu. Quando em maio de 1848. Esses dois historiadores comprouveram-se em mostrar que até revolucionários radicais e internacionalistas. Hannah. In: La rivoluzione degli intellettuali. que antes e durante a tempestade de 1848. Cavour pareceu entrever o que o poeta Heine profetizou em 1834: A revolução alemã não será mais nobre e mais suave pelo fato de ser precedida pela crítica de Kant ou pelo eu transcendental de Fichte ou pela própria filosofia da natureza. No prefácio à edição italiana de 1893 do Manifesto Comunista. porque souberam eliminar. não é que a Europa tenha falhado em mudar em 1848. Depois da queda de Metternich e da abdicação do imperador. de um aliado. Madri. Alianza Editorial. Se ela perecesse em vós. isto é. os seus executores testamentários”. seria necessário criá-lo sem demora”. hesitação. Assim. desunião e fraqueza dos adversários. e até mesmo a renegar. nos seguintes termos: “Nem mesmo o comunista mais avançado ousou pedir as leis que Vossa Majestade decretou”. Engels escreveu que “os homens que abateram a revolução de 1848 foram. sobretudo. Laterza. 127. Dos três historiadores. Carr. escrevia o acadêmico Dahlmanm. exclamaram estes. Hobsbawm. ou melhor da humanidade. proferido em outubro de 1848. para estrangular-nos”. em um discurso. p.7 Mas. parecia impossível. Estas doutrinas serviram para liberar forças revolucionárias que esperam apenas pela sua hora para explodir e encher o mundo de temor e de estupor. era contraditória: sua realização. à Itália cabia um lugar. Eric J.. no interesse da Europa. “falhou foi em mudar de uma forma revolucionária”. como Marx e Engels. protestou junto ao próprio imperador. não estava isento do preconceito de superioridade. já manifesta pensamentos de predomínio e de usurpação”. praticamente todos os alemães instruídos. Paz e Terra. 1979. se recompor. p. A era das revoluções 1789-1848. 1957. pôde. . de maneira brilhante diga-se. baseada no princípio da língua. que se caracterizava precisamente por ser supranacional.. “A liberdade através do poder: tal o caminho destinado à Alemanha”. uma vez refeito do susto e da paralisação inicial. uma Europa das nações. de março a outubro. 211. a uma delegação polonesa da Posnânia. Jacques. 130. em 1846. 1973. 1977. “Minha pátria. porque dispunham de um exército estruturado e obediente. não eram mais do que ecos. E pôde se recompor porque. Roma-Bari. os novos dirigentes puderam explorar a fundo as divisões e os temores que dominavam as várias camadas da burguesia e manobrar à vontade entre os povos.32 NOTAS: 1. Lúcio. Frederico Guilherme IV disse em 23 de março de 1848. o esteio burocrático. p.27 Os historiadores Namier e Taylor estavam convencidos que. Godechot.

Op. mythes et interprétations 1789-1970. 19. Citado por Gérard. “Le rivoluzioni del 1848”. 219. Citações retiradas de Namier. cit. 1789: tres fechas en Ia historia de Ia Francia moderna”. p. das quatro nações históricas. 1961. 1970. 26. já falecido. 3. 25. H. op. São Paulo... Europa: Restauracion e revolucion 1815-1848. Giorgio Candeloro. 1974. A. p. Madri. J.. Cantimori. c/t. Gaetano. p. só os alemães não estavam sob dominação estrangeira. J. 267: a de Metternich. Citado por Lewis Namier. 13 e Hobsbawm. Companhia das Letras. Rude. p. todas se encontravam sob dominação estrangeira: ou prussiana. 1991. Delio. Milão.. cit. Op. op. p. Garzanti. Einaudi.17. ou russa. 463-478. As três citações foram retiradas de Namier. 155 e 122. Penguin Books. In: Fluctuaciones economicas e historia social. p. 1998. J. a de von Galen. p. cit. Op.. Tocqueville. cit. J. Storia del mondo moderno. 165 e 175. Op. Hobsbawm. Paris. No entanto. 30. 15. reproduzido em Fohlen. 20.8 5. In: Storia del mondo moderno. op. In: Studi di storia. Scritti sul Risorgimento. do ensaio “1848”. 9. cit. cit. 189. 10. Paris. 16. p. embora estivessem politicamente separados e sob dominação absolutista. A era do capital 1848-1877. 8. p. Belo Horizonte. assim chamadas por que em algum momento do passado haviam vivido como unidades políticas independentes. “Avertissement au pays”. Romantismo e revolta. 1976. P T. La Revolution Française. Editorial Tecnos. cit. In: Storia del mondo moderno. 21. p. Taylor. 179. Milão. Edward Hallet. 586. 29. Paz e Terra. Milão. 13. 30. Lewis. . Lewis. 32. Delio. R. 6. 51. Idem. p. em algum momento do passado. 1973. entre as nações não-históricas. 15 e a de Taylor. Textes d‟Histoire Contemporaine. A citação de Vitor Hugo. Itatiaia. Flammarion. J. 7. p. p. Namier. p. George “Why was there no revolution in England in 1830 or 1848?”. cit. L. p. Sedes. 686. P. e Suratteau. Godechot. 31. 29-30. p. op. Europa 1815-1848. op. A citação de Vitor Hugo foi retirada de Hawgood. p. p. A citação de Cavour encontra-se em Hobsbawm. 494. cit. México. de Talmon. 238. J. Siglo XXI. In: Studies Über Die Revolution. Jacques. cit. p. cit. Alice. vol.. p. 23. Berlin. 31. Editorial Verbo. “Realtà storica e utopia nel 1848 Europeo”. “Liberalismo e sviluppi constituzionali”. Eric. vol. Citado por Cantimori. e também especialista no tema. respectivamente. 243. 332. Namier. “Introdução”. cit. 1970. cit. 17. São Paulo. p. R T. 24. Boitempo. In: Storia del mondo moderno (ed. 9. Lewis... Em 1848. s/d. Op. 462. Op. Taylor. X. Taylor. ou austríaca. também já falecido. Storia dell‟Italia moderna. 21. 44-60. “No inicio de 1848 ninguém considerava iminente uma explosão revolucionária”. Labrousse. “Nazionalità e nazionalismo”. 1977. O discurso de Alexis de Tocqueville pode ser lido na edição brasileira de sua A democracia na América. ao passo que. tradução de Modesto Florenzano. 1967. Idem. 11. 33-34. 5. p. p. op. p. J. cit. 82. Rio de Janeiro. cit. para o historiador Charles Pouthas. desfrutado de unidade e independência política. 18. 1960. Jacques. A frase de Engels foi retirada de Osvaldo Coggiola (org. 27. Turim. “Proudhon: El Robinsón Crusoe del socialismo”. Op. 28. Lisboa. O historiador Rude também já é falecido. de Namier. Feltrinelli.. J. 3. 1967. P historiador conservador inglês. 12. 28.) Manifesto Comunista de Marx e Engels. Alexis de. J. p. p. Feltrinelli. Sobre Proudhon. P. J. A. 35. p. In: Europe: grandéur and decline. 685. As jornadas revolucionárias em Paris.. p. p.. assim chamadas porque nunca haviam. 272. p. p.. Londres.. Cf Hawgood. Ernest “1848. 35 e a de Ferrari em Salvemini. op. C. 14. Akademie-Verlag. cit. 179. 1977. ver o ensaio de Carr. Lembranças de 1848. P Op. A era do capital 1848-1875. 30. 252. (vários autores). op. 36. Citado por Bury. p. J. 1967. 1830. Op. 22.. H. foi retirada de Bury. 236 e a de Droz. p. p. p. italiana da The new Cambridge modern history).. Idem. A. A. vol. p.

Dia 1 1 . uma revolução de caráter continental. o que viria a ocorrer no ano de 1848. ao encerrar de forma esquemática em celas temporais o pensamento de Marx e Engels. Em 15 desse mês. Era chegada a hora. quando a construção de partidos operários de massas colocava novas perspectivas para a luta operária. sem dúvida os acontecimentos de 1848.9 A REVOLUÇÃO FORA DO TEMPO MARX. A revolução adquiriu impulso com a vitória do povo parisiense. rígidas tentativas de periodização costumam ser arbitrárias. Muito mais fértil do que esse afã classificatório é o programa lançado por Karl Korsh em Marxismo e filosofia: a aplicação da concepção materialista da história à própria história do marxismo. do Piemonte. desde o momento em que Marx e Engels começam a trabalhar com a possibilidade de uma revolução iminente. A hora de Berlim chegou um dia depois. Devemos ter em mente esta impossibilidade de promover uma periodização rigorosa quando procuramos reconstituir uma teoria de revolução em Marx durante o período que se inicia com os artigos da Deutsche Brüsseler Zeitung até o fim da Neue Rheinische Zeitung. provocaram uma inflexão em seu pensamento. e. lançou um desafio a toda França burguesa. Praticamente nenhum país ficou imune ao vendaval revolucionário que agitou a Europa.3 A pátria da revolução havia dado o sinal. a população de Palermo se ergueu contra a monarquia absolutista de Fernando II. mas. a partir das conclusões obtidas. o povo invadiu a Câmara dos Deputados e forçou o governo provisório a proclamar a República. a toda a França. A insurreição obrigou o rei da Prússia a formar um governo composto por liberais . a própria emancipação. uma gama de situações que lhe valeram a alcunha. Revoluções de caráter democrático e burguês. Dois dias depois começou a insurreição em Viena que provocou a fuga de Metternich. Foi a primeira vez em suas vidas conscientes que ambos presenciaram um processo revolucionário. lutas pela independência nacional. na medida em que fossilizam seu objeto para melhor enquadrá-lo num esquema préestabelecido. ao mesmo tempo.1 Tal classificação. de “1789 europeu”. não dá conta das profundas transformações pelas quais ele passou no interior de tais celas. Hobsbawm distingue três fases: uma que tendo início na metade dos anos 1840 se encerra no começo da década de 1850. No dia 14 de fevereiro. O que o proletariado conquistava era o terreno para lutar pela sua emancipação revolucionária. quando não inúteis. As tentativas de classificação. É sobre a base do estudo dessa revolução que Marx formulará um esboço de teoria da revolução. impresso nas páginas imortais do Manifesto Comunista. de modo algum. apareceu imediatamente em primeiro plano. Eric J. bastante imprópria. reformulá-las. através do Governo Provisório. segundo Marx a primeira participação do proletariado como classe independente: O proletariado ao impor a República ao Governo Provisório e.2 Vincular as sucessivas elaborações de Marx e Engels aos abalos sociais de então e as transformações no pensamento de ambos ao desenrolar da luta de classes do período pode esclarecer a aparente inconstância de seus movimentos políticos e da tática por eles defendida. foi criada uma Assembléia Popular em Praga. em 1849. os cigarreiros de Milão se insurgiram. sorte diferente não tiveram aqueles que exerceram seus dotes classificatórios com diferentes aspectos particulares do pensamento de Marx e Engels. até o momento da derrota desta. A revolução de 1848 marcou de forma profunda o pensamento de Marx e Engels. ENGELS EM 1848 Álvaro Bianchi Numa obra tão vasta e polifacética como a de Marx e de Engels. outra nos 25 anos posteriores. O monarca foi obrigado a ceder e outorgar uma constituição. período de desenvolvimento do capitalismo e de inércia do movimento operário. o grande exemplo revolucionário sobre o qual Marx e Engels se debruçaram para analisar foi a Revolução Francesa de 1789. Na madrugada do dia 25. Marx tinha apenas 12 anos e Engels 10. com o fracasso das revoluções de 1848. são limitadas em si. Até 1848. Quando do ensaio parisiense de 1830. revoluções agrárias. As razões do fracasso dessa empreitada não podem ser atribuídas à forma de trabalho desordenada de Marx e aos incontáveis projetos que começou e deixou inacabados. insurreições operárias. no velho continente. Hobsbawm é um dos autores que tenta fazer uma periodização do pensamento de Marx e Engels sobre os aspectos políticos da transição do capitalismo para o socialismo. por último a fase dos últimos anos de Engels. no dia 24 de fevereiro. derrubou a monarquia de Luís Felipe e criou um governo provisório com a participação de dois ministros socialistas. promulgou uma constituição. Era. No dia 2 de janeiro. que. mas não. O ano de 1848 combinou. como o partido independente. A insurreição de Veneza contra a dominação austríaca teve início no dia 17. começou a Revolução Húngara. Mas. No dia 12. Em 5 de março. Roma ganhou uma constituição dia 14. A vaga foi prenunciada pela derrota dos cantões da liga clerical (Sunderbund) na Suíça em novembro de 1847. Nos anos posteriores. o rei Carlos Alberto. Torna-se impossível proceder a tal enquadramento sem deixar muito a desejar quando se trata de obra da extensão da qual falamos e de pensadores que constantemente submetem suas hipóteses e teorias à prova da prática para. Ou seja. foi a vez do papa Pio IX criar uma comissão para promover uma reforma liberal. num contínuo processo de destruição-reconstrução teórica. a derrubada da dinastia dos Bourbon só motivou reflexões ocasionais. Luis Blanc e Albert (codinome do operário mecânico Alexandre Martin). Se uma divisão do conjunto do pensamento de Marx e Engels em fases e subfases costuma ser problemática. herança de um pensamento positivista.

não sei quando. o peso das antigas classes sociais era predominante. que de modo nenhum irão apenas derrubar tal lei. apenas 47 cidades haviam ultrapassado os 100 mil habitantes. idéias. uma penúria muito bem retratada por Engels em A situação da classe trabalhadora na Inglaterra. Depois da invenção da iluminação a gás. Engels escrevia em dezembro daquele ano que “nada decisivo havia sido levado a cabo durante o ano de 1847. progressivamente. o estranhamento entre mestres e aprendizes. As revoluções se sucediam numa velocidade superior à dos próprios meios de comunicação. levava cinco dias.8 Nas cidades a situação era de extrema penúria. eu reconheço. Nas antigas guildas. se casarem com as filhas dos mestres. Somente na década de 1840 cerca de 640 milhões de toneladas de carvão foram produzidas no mundo. mas não vedes que as suas paixões. abdicou. Na França esse índice chegava a 75% e na Noruega e Suécia a 90%. 2.7 O declínio dos artesãos se deu numa velocidade menor à que Marx supunha e assumiu formas que se manifestaram nas revoluções de 1848. estão tranqüilas. Um retrato das condições de vida desses operários pode ser pintado a partir das sucessivas legislações — raramente aplicadas — regulamentando as condições de trabalho.4 A proximidade da revolução era uma perspectiva generalizada em todo o movimento democrático e mais além dele. continuava a ser. De Paris a Viena o serviço de comunicação mais rápido.500 30. Ano 1800 1820 1840 Ano 1800 1820 1840 Produção de carvão (milhares de toneladas) Inglaterra França Alemanha (Zollverein) 10. A Europa. Em menos de um mês a paisagem política da Europa se encontrava completamente transfigurada. que hoje. demarcados uns dos outros”. Hamerow. mesmo tal governo. fundamentalmente. que possibilitava o trabalho noturno. quando penetram profundamente nas massas. Dia 19.8 milhões de artesãos e 571 mil operários fabris. com o declínio das guildas. Na Prússia. Segundo Gouldner. Segundo Theodore S. Já no ano de 1847 a conjuntura européia emitia sinais de que mudanças significativas estavam para acontecer. status diferentes correspondiam a diferenças geracionais. não eram raros os casos de jornadas diárias superiores a 15 horas. da Baviera.100 1. sendo equivalentes a hierarquia etária ocupacional.390 190 400 DORMIMOS SOBRE UM VULCÃO Mas se a economia se desenvolvia com uma velocidade impressionante as estruturas sociais e políticas de então evoluíam num ritmo consideravelmente menor.10 burgueses. tal ministro. ocorreu um novo levante em Milão contra a ocupação austríaca. acarretar as mais temíveis revoluções? Tal é. de políticas se tomaram sociais? Não vedes que pouco a pouco se propagam em seu seio opiniões. Em 27 de janeiro de 1848. O capitalismo havia colocado em movimento. na década de 1840 havia na Prússia. mas durante esses 12 meses os partidos se enfrentaram em todos os lugares de forma nítida e aguerrida. concentrando 5% dos habitantes do continente. Pelo menos por enquanto. no dizer do próprio Marx.5 A crise que Tocqueville previra com tanta lucidez assumia características diferentes da anteriores. minha convicção profunda. É verdade que não são atormentadas pelas paixões políticas propriamente ditas. até mesmo. a possibilidade de ascensão ficou reduzida e ocorreu. apesar do crescimento do proletariado urbano. tomando estes permeáveis à propaganda revolucionária. como podemos ver abaixo. forças até então inimagináveis e essas forças estavam fora de controle. devem cedo ou tarde. obra de 1845. o rei Luís I. o então deputado na Câmara francesa Alexis de Tocqueville.000 3. O surgimento do proletariado e a decomposição das antigas classes sociais havia modificado profundamente os centros urbanos. A ordem instituída depois da derrota de Napoleão e materializada na Santa Aliança havia deixado de existir. senhores. 72% da população vivia no campo. aproximadamente. no mesmo grau em que foram por elas atormentadas outrora. Mas as diferenças entre mestres e aprendizes eram aceitas na medida em que os últimos tinham a perspectiva de se tornarem mestres ou de.100 800 300 12. a jornada de 10 horas só foi regulamentada em 1847 e. mesmo assim. quando se propagam de uma maneira quase geral. Mesmo nas cidades.500 1. quando tais opiniões tomam raízes. Em 1850. o do banco Rothschild. Nos primeiros 40 anos do século passado a produção de ferro bruto aumentou 475% na Alemanha (Zollverein).400 Produção de ferro bruto (milhares de toneladas)6 Inglaterra França Alemanha (Zollverein) 190 40 60 370 90 140 1. creio que dormimos no momento em que estamos sobre um vulcão. Na Inglaterra.000 3. alertava o regime: Olhai o que se passa no seio dessas classes operárias. somente para mulheres e . mas a sociedade e abalá-la sobre a bases nas quais hoje repousa? Não ouvis que entre elas se repete constantemente que tudo o que se acha acima delas é incapaz e indigno de governá-las? Que a divisão dos bens feita até o presente no mundo é injusta? Que a propriedade repousa em bases que não são equitáveis? E não credes que. uma Europa rural. Na mesma data.

posteriormente. o líder da liga.14 As relações entre os dois grupos continuaram por todo o ano de 1846. Bauer e Joseph Moll. a fração burguesa que havia se incrustado ao aparelho Quem dominou sob Luís Felipe não foi a burguesia francesa. The Northern Star. do qual Marx e Engels faziam parte. chegando Engels a levantar a hipótese de uma ruptura. Alojou-se em todos os cargos. dos ministérios às lojas de tabaco.13 É a perspectiva de uma revolução iminente o que explica os passos dados para uma unificação entre o Comitê de Correspondência de Bruxelas. a oportunidade de desenvolver nosso comunismo crítico num manifesto que. as prerrogativas. até que a Liga dos Justos enviou a Bruxelas o relojoeiro Joseph Moll com a missão de estabelecer contato direto com Marx e. o escritor e deputado francês Alexis de Tocqueville dizia: Em 1830. que recém havia formado uma organização chamada Fraternal Democrats. destacando porém. Seja sob a bandeira da democracia.10 estatal: Diagnóstico semelhante fez Karl Marx. dirigido por ele mesmo. Um ano depois houve a primeira greve geral. A passagem de camadas sociais cada vez mais amplas para o campo da oposição verificou-se no restante da Europa. os reis das estradas de ferro. mas uma fração dela — os banqueiros. Legislação proibindo o trabalho de crianças menores de 9 anos e regulamentando o trabalho infantil foi promulgada. em 1839. Na França a autosuficiência das classe dirigentes contribuiu para aumentar essa insatisfação. o governo inteiro. A reação a essas condições de vida veio através da disseminação do associativismo entre os trabalhadores. unificando a ala esquerda do cartismo com a Liga dos Justos. as frações burguesas afastadas do poder. pelos grilhões feudais à volta da agricultura e do comércio com ela relacionado. as diferentes frações da burguesia estavam completamente afastadas do poder. a burguesia não só se tornou a única dirigente da sociedade.12 Tal situação forçou a passagem da burguesia para o campo da oposição. existiam 160 associações de ajuda mútua. comunicou a formação de um Comitê de Correspondência. que todos os poderes políticos. com ambos os lados mantendo suas mútuas reservas. com 11 mil membros e na Itália. Assim. o país real exigia ser ouvido. todas as franquias. Engels conhecia Harney desde 1843 e desde 1845 colaborava em seu jornal. em seguida. Que se quiséssemos ingressar. pela superintendência bisbilhoteira a que uma burocracia ignorante e presunçosa submetia todas as suas transações. Os contatos dos dois com o grupo de Londres existiam desde 1846. a constituição de um Comitê de Correspondência naquela cidade. esses grupos participaram de poderosos movimento ligados “à destruição de um sistema social vinculado ao absolutismo e ao particularismo”. Desejava ela assumir no plano político o lugar que possuía na vida econômica desde a criação da união alfandegária. dar-nos-ia. Esta ocupava o trono. Segundo Engels. Schapper. e a sessão londrina da Liga dos Justos. com a riqueza crescente e o comércio em expansão. mas também converteu-se em sua arrendatária. H. O líder cartista.11 crianças. A sociedade secreta dirigida por Auguste Blanqui promoveu uma fracassada tentativa insurreicional em Paris. Schapper também deixou claro suas reservas em relação a Marx e Engels que considerava pessoas dispostas a criar uma “aristocracia de sábios”. com Engels. ditava as leis nas câmaras e distribuía os cargos públicos. mas também da necessidade de libertar a Liga das velhas tradições e formas conspirativas. George Julian Harney. O desejo de liberdade e as aspirações nacionais confluíram num contexto marcado pela crise da política e da divisão territorial definida pelo Congresso de Viena. que se encontrava em Paris. aumentou prodigiosamente seu número e habituou-se a viver quase tanto do tesouro político quanto de sua própria indústria. Oposição essa que se fazia sentir de forma cada vez mais intensa à medida em que a crise fiscal do Estado havia colocado o rei da Prússia em campanha por um aumento dos impostos. o Zollverein. propuseram a um dos dirigentes da esquerda do movimento cartista. mas propôs que os dirigentes da liga fossem consultados antes de qualquer iniciativa. seja sob o estandarte da libertação nacional. a burguesia cedo chegou a um estágio em que achou o desenvolvimento dos seus mais importantes interesses refreado pela constituição política do país — pela sua divisão fortuita entre 36 príncipes com tendências e caprichos em conflito. 38 destas associações. Em Paris. o triunfo da classe média foi definitivo e tão completo. Na Alemanha. na Prússia. A legislação francesa é de 2 anos depois. encontraram-se encerrados e como que amontoados nos limites estreitos da burguesia. país de desenvolvimento capitalista retardatário. À insatisfação social somava-se a insatisfação política. com a exclusão (de direito) de tudo o que estava abaixo dela e (de fato) de tudo o que estivera acima. 9 Os levantes e greves também se generalizaram durante os 10 anos que antecederam as Revoluções de 1848. num congresso da liga. Em fevereiro daquele ano. seria publicado NASCE O PARTIDO DE MARX E ENGELS . Em suas Lembranças de 1848. As de Marx e Engels cresceram com a posição da liga frente à luta contra as idéias de Kriege no Comitê de Bruxelas e com a convocação por parte desta de um congresso comunista sem tê-los consultado previamente. no ano de 1839. Este último resumira dessa forma a missão de Moll: Disse-nos que estava convencido não só da justeza geral de nossa concepção. principalmente a industrial. no ano de 1823. respondeu afirmativamente. também. O contato foi realizado em maio e rendeu bons frutos. os proprietários das minas de carvão e de ferro e de explorações florestais e de uma parte da propriedade territorial aliada a ela — a chamada aristocracia financeira. À margem do país legal.11 Na oposição encontravam-se não só as massas populares como. e convidá-los para integrar a liga. Numa carta de 6 de junho. As relações ficaram congeladas. os reis da Bolsa. a pequena burguesia e os camponeses.

de derrubar a supremacia burguesa e de assumir o poder político tal qual Marx e Engels expressam nos objetivos seguintes dos comunistas. O texto diz ser o objetivo imediato dos comunistas “o mesmo que o de todos os demais partidos proletários: constituição dos proletários em classe. antes de mais nada. para centralizar todos os instrumentos de produção nas mãos do Estado.22 Engels destaca que na Inglaterra. O congresso modificou o nome da organização. cuja consciência é desmistificada e desmistificadora. mas que terminaria com a vitória do proletariado. Qual o exato significado de “democracia” para ambos? Para alguns intérpretes. levado a cabo em Londres nos meses de novembro e dezembro do mesmo ano. da Comuna parisiense de 1871 haviam imposto a conclusão de que não bastava à classe operária apoderarse da máquina estatal. que passou a se chamar Liga dos Comunistas. onde o proletariado constitui a maioria do povo. durou dez dias. em 1871. Na França e na Alemanha. a realização de seu devir. ambos pensam um partido-consciência.19 À época do Manifesto. Uma “democracia operária” implica não apenas uma forma de exercer o poder mas a afirmação dos meios pelos quais ele é exercido. então. Em 1848. é que a questão da forma e dos meios seria plenamente equacionada. Nos referimos ao sufrágio universal. A transformação do proletariado em partido deve ser entendida como a transformação do proletariado em sujeito autoconsciente e auto-organizado. embora mantivessem suas reservas. Para além do partido-organização.. Maximilien Rubel. Marx e Engels não conseguiriam formular uma resposta para o problema da forma e dos meios de exercício do poder operário. assim. uma Constituição democrática do Estado. Associar a “democracia” ao domínio político do proletariado era comum nos setores mais avançados do movimento democrático da época e entre os comunistas. Era. como Estado.. são os cartistas e todos os movimentos da classe. tal qual aparece nessa passagem do Manifesto. Partido é a Liga dos Comunistas. O segundo congresso. a frase citada aparece como la conquête du pouvoir public par la démocratie. Engels coloca que a revolução “estabelecerá. em nenhum momento do texto mencionada. é uma “democracia operária”. escrito em novembro de 1847.20 A afirmação coloca um problema interpretativo de primeira grandeza. O primeiro é a conquista da democracia que permite ao proletariado aparecer em cena como classe que almeja a conquista do Estado. que veio à luz em fevereiro de 1848. levantando a hipótese de que a tradução tenha sido revista por Engels. principalmente. Mas além dos movimentos da classe também estão se referindo à classe em movimento. poucos dias antes da revolução irromper em Paris. segundo narra Engels. Só depois dos resultados concretos obtidos. a conquista da democracia. direta ou indiretamente. isto é. mesmo. mais adequada à época e aos objetivos visados. Para Marx e Engels (. e com ela.21 Enganam-se. O segundo é a organização do proletariado como classe dominante. ocorreu em junho de 1847. do proletariado organizado em classe dominante. Marx e Engels não se referem a um determinado tipo de democracia e sim à democracia como “ser genérico”.23 Dizer que Marx e Engels se referiam a uma “democracia operária” tem como inconveniente o fato de se antecipar à elaboração teórica de ambos. procurando formular os diferentes momentos pelos quais o proletariado deverá passar nas revoluções que se aproximavam e sua atitude neles.16 Na mesma ocasião Marx e Engels receberam a incumbência de elaborar “um programa pormenorizado do partido. Não é outro o motivo que leva Marx e Engels a afirmarem no prefácio de 1872 que a parte referente às medidas revolucionárias enumeradas ao final do segundo capítulo deveriam ser retocadas. a democracia levaria diretamente ao poder político do proletariado. e que poderíamos também contribuir para a substituição da arcaica organização da Liga por outra nova. Somente com a análise dos acontecimentos da Comuna de Paris. liberdades estas que se encontravam ausentes em toda a Europa. São. embora intimamente vinculados. Interessa-nos. As experiências das revoluções de 1848 e. Marx teve nele a oportunidade de expor suas idéias e depois de um grande debate elas foram aceitas por unanimidade. conquista do poder político pelo proletariado”. o total de forças produtivas. A constituição do proletariado em classe é. O proletariado utilizará sua supremacia política para arrancar pouco a pouco todo capital à burguesia. Marx e Engels atribuem um caráter ambíguo ao termo “partido”.24 . é que Marx decidiu participar de forma mais efetiva. Marx e Engels passam.17 O programa.18 A ordem do enunciado é pertinente. consideravam que a classe operária alemã necessitava de uma organização para a propaganda e aceitaram o convite. é a Associação Operária de Colônia. Uma vez assentados os objetivos finais. O problema da forma e dos meios começava. observa que na tradução realizada por Laura Lafargue. e para aumentar. a “democracia”. o domínio político do proletariado”. onde o proletariado não era a maioria do povo talvez fosse necessária uma segunda luta. a tratar os temas referentes à tática e à estratégia.) a primeira fase da revolução operária é o advento do proletariado como classe dominante. portanto sujeito capaz de operar a mudança social. derrubada da supremacia burguesa. unicamente. ao mesmo tempo teórico e prático”. no Manifesto.12 como manifesto da liga. O objetivo primeiro dos comunistas é a constituição do proletariado em classe. a adquirir um contorno mais nítido. e discutiu seus novos estatutos. constituindo o círculo de Bruxelas da Liga dos Comunistas. nesse congresso. reunião e imprensa. Para eles a conquista dessas liberdades teria como conseqüência inelutável a dominação política do proletariado. Em Princípios básicos do comunismo. o mais rapidamente possível. “em partido político”.15 Marx e Engels. Em outras ocasiões Marx e Engels procederão à mesma associação. Sequer a questão do que fazer com a antiga ordem estatal estava para ambos resolvida. ao direito de organização. ficou imortalizado com o nome de Manifesto Comunista. O que aqui lhes interessa é a conquista de liberdades que retirem os entraves para o desenvolvimento das forças do proletariado. Não é nossa intenção fazer aqui uma análise detalhada do Manifesto. em suas notas ao Manifesto Comunista na edição da Bibliothèque de la Pléiade. com a participação de Engels representando o Comitê de Correspondência que havia constituído em Paris. aqueles aspectos políticos de uma teoria da revolução. a base do movimento cartista na Inglaterra. momentos diferentes. O primeiro congresso. portanto.

o setor extremo do movimento revolucionário. Trata-se de uma revolução proletária. uma política concreta a ser seguida pelos comunistas nos movimentos revolucionários que se avizinhavam. Queriam que os . cujas despesas de impressão dos primeiros exemplares foram custeadas pelo próprio Marx. desfazem a idéia de fácil aceitação das propostas dos comunistas.35 Apesar de uma ampla política de alianças. Marx afirmou que ele era “o modo plebeu de lutar contra os inimigos da burguesia.26 Depois de abordar o problema da transição da democracia ao proletariado organizado como classe dominante. nacionalização dos transportes. Somente o primeiro ponto do programa. geral e gratuito. levar a termo a revolução burguesa e romper definitivamente com a antiga ordem. partia claramente das dez reivindicações presentes no Manifesto Comunista. uma prática e formas organizativas que estavam associados a um projeto de classe e não poderiam ser transpostos ao movimento proletário. no máximo. O partido democrático mais esquerdista não ia além da defesa de uma República Federativa. O texto enumera dez medidas que constituem o programa do proletariado. criava as condições para a aceitação destas. A afirmação que fazem da estratégia e dos problemas da transição política e da transformação do modo de produção não deixaram.33 Este último chega a firmar que o espírito reinante em abril de 1848. Na França. (Não existia tal partido constituído.13 Interpretada dessa forma a “conquista da democracia”. Apenas quatro delas figuravam no texto das Reivindicações. não vêem como limite a conquista de uma democracia representativa por um movimento unânime de todo o povo sob a bandeira da fraternitè e sim uma segunda revolução surgida no coração da primeira. o feudalismo e os filisteus”.. já era um divisor de águas entre o partido do proletariado e os demais. podem ser consideradas como um programa para a transição. só poderá ser o prelúdio imediato de uma revolução proletária.) Na Suíça. apóiam o partido radical. como insinuam David McLellan. a propriedade rural feudal e a pequena burguesia. embora no Manifesto isso não esteja explícito. Marx e Engels deixavam claro que não esconderiam os antagonismos existentes entre a burguesia e o proletariado. Não estavam. ou seja. entretanto. à mecânica da revolução. evidentemente mais moderadas.. uma revolução que tenha à frente o proletariado. Elas.25 Em 1848 Marx e Engels. contra o absolutismo. Ambos não duvidam de que os aspectos antiburgueses do Terror serviram para garantir a vitória da nova ordem burguesa. os comunistas estão aliados ao partido social-democrata. o desenvolvimento da Revolução Francesa de 1789 e a chegada ao poder dos jacobinos. ou seja. no sentido que Trotski dava à expressão.. no terreno ideológico. por conseguinte.30 Mas é para a Alemanha que os olhos dos comunistas estão voltados. O programa. Mais de uma vez os autores do Manifesto denunciaram “a fé supersticiosa nas tradições de 1793”. Marx e Engels não pretendiam repetir em 1848 o modo jacobino de agir. o setor extremo do movimento democrático inicial. Percebem o caráter burguês e democrático da revolução e apresentam. e o conhecido biógrafo de Joseph Weydemeyer. não mais unânime. os autores do manifesto afirmam: a Alemanha se encontra nas vésperas de uma revolução burguesa. Os cuidados tomados por Marx e Engels na divulgação do texto e o fato de não ser mencionado posteriormente na Neue Rheinische Zeitung. ainda. A referência à Revolução Francesa de 1789 e à ascensão do jacobinismo ao poder restringe-se. como Estado. Um programa cujo objetivo não é “partir das condições atuais e da consciência atual de largas camadas da classe operária” e conduzi-la a uma única conclusão: “a conquista do poder do proletariado”. da pequena burguesia e da classe camponesa lutar pela implementação destas medidas com todas suas energias”. As dez medidas foram muitas vezes interpretadas como um programa de transição. entretanto. as Reivindicações do Partido Comunista Alemão. Marx e Engels presos de forma esquemática a ela. e o jornal La Réforme. imposto progressivo e ensino público. à forma como seus diferentes momentos se encadeiam. entretanto.. determinada pelo caráter das revoluções que se aproximavam. mas eram. Referindo-se ao Terror do ano II. Luis Blanc. apoiado nas massas sans-culottes. O que os autores do Manifesto denominam como tal é a fração de Ledru-Rollin. O ano II do calendário revolucionário foi o que permitiu à Revolução Francesa cumprir suas promessas. no Manifesto. Os defensores da revolução agrária são apoiados na Polônia. Karl Obermann. eram apenas um programa prático para a revolução democrática que se avizinhava. para essa realidade dada. afirmam Marx e Engels. no próprio Manifesto.28 Não podemos. em sua biografia de Marx. Essas medidas embora possam parecer “insuficientes e insustentáveis” advertem os autores. sequer colocadas como tarefas para um hipotético governo operário levar a cabo. e porque realizará essa revolução nas condições mais avançadas da civilização européia e com um proletariado infinitamente mais desenvolvido que o da Inglaterra no século XVII e o da França no século XVIII a revolução burguesa alemã. Marx e Engels passavam. para cumprir as promessas que a primeira não havia sido capaz. afirmava o texto das Reivindicações. como o próprio texto diz é um programa para quando o proletariado já estiver constituído como classe dominante. a tratar da transição para o comunismo. concordar com a afirmação. nem organizar um partido à imagem e semelhança dos companheiros de Robespierre.: criação de um banco nacional. no campo democrático. para citar apenas um exemplo — “todo o território alemão formará uma república una e indivisível”34 —. como alerta Engels. outros problemas se colocam: como se dá a transição da conquista da democracia para a conquista do Estado? Em outras palavras: uma vez conseguidos os meios para o proletariado derrubar a supremacia burguesa e conquistar o poder político.29 pelo simples motivo que. como ele o faz? Marx e Engels tomam como ponto de referência.27 As medidas vão desde a expropriação dos latifúndios até o ensino público e gratuito para todas as crianças.32 Mas embora tivessem esse caráter estavam muito distantes. “ultrapassarão a si mesmas e serão indispensáveis para transformar radicalmente todo o modo de produção”. O movimento jacobino possuía um ideário. no parlamento. constituído por democratassocialistas e burgueses radicais.31 Marx elaborará um programa específico para a Alemanha. “É do interesse do proletariado alemão. Depois de anunciar que lutarão de acordo com a burguesia sempre que esta agir de forma revolucionária contra a monarquia absoluta. de poderem ser admitidas por qualquer democrata radical.

e guerra com a Rússia. Marx se incorporou ativamente à Sociedade dos Direitos Humanos. levando consigo as mil primeiras cópias do Manifesto Comunista e o folheto Reivindicações do Partido Comunista na Alemanha. a maioria artesãos. de certa forma. Marx e Engels se recusaram a participar da Associação. eles esperavam por outro levante.14 operários transformassem as condições sociais e políticas criadas pela revolução burguesa em armas contra a própria burguesia. herança da Revolução Francesa de 1789. conquistadas pelas revoluções. poderia ser levado a cabo em condições abertas e muito melhores na nova conjuntura. Chegaram no dia 10 de abril. como anunciava seu subtítulo. As liberdades democráticas parciais.”40 O Apelo para a fundação da Neue Rheinische Zeitung só de passagem mencionava a condição operária. através do qual pudessem expressar suas opiniões. Assim que chegou a Paris. Não era mais necessário recorrer às formas conspirativas da Liga dos Comunistas. A Associação recrutou. Marx e Engels deram início a um projeto há meses acalentado: fundar um jornal nacional.37 Embora possa ser analisada a existência de um Marx e de um Engels “etapistas” é mais produtivo. E mesmo assim para. onde havia chegado 3 anos antes. do ponto de vista interpretativo. Através da Neue Rheinische Zeitung. Mas daí a uma interpretação caricatural como a que foi levada a cabo pelo stalinismo durante décadas há uma grande distância. membro do governo provisório da França. portanto. A liga conseguiu fazer com que mais de 400 operários alemães retornassem a seu país para se engajarem no movimento revolucionário. depois de mencionar o desemprego e a miséria. É no desenvolvimento desse movimento unitário que o proletariado surgiria como uma força social independente. uma sobreposta a outra. recebeu uma carta de seu conhecido Ferdinand Flocon. Julgavam seus objetivos econômicos estreitos e acusavam seus dirigentes de provocarem o isolamento político dos trabalhadores. dessa vez nitidamente proletário. foi eleito secretário. as coisas voltariam inevitavelmente ao que eram antes daquele acontecimento”.41 O fato de se auto-intitular “órgão da democracia”. Pior ainda. Marx e Engels acompanharam o desenvolvimento da revolução . O jornal. A Associação afirmava que os trabalhadores não poderiam participar de eleições indiretas — os eleitores escolheriam apenas aqueles que definiriam quais seriam os deputados — e propôs o boicote. seria um “órgão da democracia”. No dia 10 de março. As diferenças com Gottschalk aumentaram com as eleições para a Assembléia Prussiana e para o Parlamento Nacional de Frankfurt. caracterizavam a primeira revolução como limitada e parcial. Marx. 0 programa do jornal era muito simples e podia ser resumido a apenas dois pontos: “República alemã democrática. está presente em Marx e Engels. se encontravam constantemente ameaçadas pela atitude conciliadora das novas classes governantes. que havia viajado a Paris para entregar uma mensagem da Associação dos Trabalhadores Alemães de Londres ao governo provisório. Franz Raveau. não transformou a Neue Rheinische Zeitung no porta-voz da esquerda parlamentar. o Comitê Central da Liga Comunista promoveu uma reunião que elegeu Marx presidente. Depois de 24 de fevereiro e de 18 de março. A capital da Renânia era a terceira maior da Prússia. apesar das pressões econômicas que sofreram e da perseguição da censura. presente nos fundadores do socialismo científico. compreender a forma como viam a passagem de uma revolução a outra. Afirmar a necessidade de uma revolução burguesa nunca significou para eles admitir a necessidade de um desenvolvimento pacífico das forças proletárias depois de tal revolução. que teria como objetivo acabar com as contradições sociais colocadas a nu pelo primeiro. Os autores do Manifesto não se cansavam de alertar que “a menos que uma nova revolução se seguisse à de março de 1848. além de liquidar as velhas classes dominantes e colocar a nu as contradições sociais fundamentais. chegaram a Paris notícias da revolução em Berlim. já mencionado. Marx e Engels pensavam uma revolução por etapas. O governo temia que ele utilizasse os 6 mil francos que herdara de sua mãe (mais do que sua renda total nos três anos anteriores) para financiar o movimento revolucionário. argumentando que seu objetivo. no dia 1o de junho.38 A PROVA DOS NOVES Logo a revolução obrigou Marx a submeter seu esboço de uma teoria da revolução à prova da prática. um militante da Liga Comunista. e possuía uma grande tradição democrática.36 A idéia de que a revolução democrática e burguesa seria o prolegômeno indispensável do levante operário está. Os editores sempre a mantiveram independente. una e indivisível. Schapper. o que trazia implícita a restauração da Polônia. No mesmo dia que foi notificado de sua expulsão. A cidade escolhida por Marx e Engels. fundada por LedruRollin e Flocon. quatro dias depois de Andreas Gottschalk. um número verdadeiramente impressionante. “A melhor forma de governo é aquela na qual as contradições sociais abrem caminho livremente e se encaminham assim rumo a sua solução”. com quase 100 mil habitantes. ter fundado a Associação dos Trabalhadores.39 Ao mesmo tempo em que participavam da Sociedade Democrática. A pretensa república social na França e a realização de eleições indiretas para as Assembléias Nacional e Constituinte. um dos maiores clubes políticos de Paris. que se havia unido ao primeiro em Paris. No dia 20. tal é o desejo geral. A idéia de duas revoluções. Marx e seus companheiros decidiram retomar à Alemanha imediatamente. a aspiração unânime”. Não é completamente descabido afirmar que. que havia ajudado a fundar a Sociedade Democrática de Colônia. As revoluções que então se avizinhavam deveriam nascer como um movimento de todo o povo contra o absolutismo. promoveu a candidatura de um democrata. 3 de março. dizer que “destruir esse estado de coisas. Pouco depois Marx a dissolveu. Consideravam-na necessária porque ela. 8 mil trabalhadores. abrindo-lhe as portas de seu país. que veio à luz sob o nome de Neue Rheinische Zeitung. na Alemanha. foi Colônia. Os enfrentamentos levaram Gottschalk a se afastar da Liga. além do ministério Camphausen na Alemanha. daria a liberdade de reunião e imprensa necessárias para tornar mais efetivo o combate proletário. a propaganda. Mal começaram os levantes populares e Marx foi expulso de Bruxelas. em poucos meses.

Becker e Schaper foram presos. que escreveram a respeito algumas das melhores páginas da história do jornalismo. Ou se estava com os 40 mil trabalhadores insurretos ou do lado dos 200 mil membros do exército. As críticas à esquerda também são uma constante. bombardeando incessantemente os bairros ocupados pelos trabalhadores. permanece. em Berlim e em Frankfurt.43 A senha para a burguesia havia sido dada pela Inglaterra. Cansado de ver os direitos conquistados em fevereiro sendo usurpados pelo novo governo. As regiões ocupadas pelos operários transformaram-se num verdadeiro campo de batalha. Os redatores da Neue Rheinische Zeitung tiveram ordens de prisão expedidas. dentro do ponto de vista do campo democrático.. deveria ocorrer poucos dias depois. Inferiorizados numericamente. respondeu a magnanimidade do proletariado. As palavras são duras: “pedimos ao partido denominado democrata radical que não confunda o ponto de partida da luta e do movimento revolucionário com o ponto de chegada”. Suas posições despertaram a ira dos representantes da grande burguesia e dos democratas e o número daqueles que apoiavam financeiramente o jornal caiu ainda mais.46 As sucessivas vacilações da burguesia liberal e dos partidos da “esquerda parlamentar” levaram Marx a abandonar. desde o primeiro dia às tentativas do governo Camphausen de estabelecer um pacto de governabilidade com a monarquia e as assembléias de Frankfurt e Berlim. da Guarda Móvel e da Guarda Nacional. Não houve quem ficasse impassível frente ao acontecido. de fato. em protesto contra o armistício com a Dinamarca. o que. Esse avanço se manifestou nas próprias assembléias.) todos os partidos sabem que a luta que é preparada em todos os países civilizados é uma luta completamente diferente e incomparavelmente mais importante do que todas as revoluções anteriores. A questão polonesa mereceu da parte de Marx e Engels especial atenção. líder dos democratas moderados chegou a fazer uso da palavra no parlamento para afirmar que na Alemanha “não se produziu uma revolução. criticando as vacilações do partido democrático e a aliança que a grande burguesia promoveu. a própria idéia da revolução. O povo na ma não era mais invencível. acusados de complô contra a ordem estabelecida. semelhante àquela utilizada para denunciar o massacre de junho em Paris. Foi uma luta pela conservação ou o aniquilamento da ordem burguesa”. Um levante popular ocorreu em Frankfurt.45 Os acontecimentos de junho foram acompanhados atentamente por Marx e Engels. Nas eleições para as assembléias de Berlim e Frankfurt havia sido eleito um número significativo de democratas. A Guarda Civil foi dissolvida e todas as .. o Comitê de Segurança Pública e a Associação Operária convocaram uma manifestação de apoio. A insurreição ecoou em Colônia.44 e com poucas armas. O exército. Moll. onde a Sociedade Democrática. o proletariado da capital francesa se ergueu contra o fechamento dos ateliers. negando a sua necessidade e os seus resultados. Somente em 5 de janeiro de 1849 é que aparecerá o primeiro artigo de Marx denunciando a exploração capitalista. A Neue Rheinische Zeitung acompanhou passo a passo a ação destes. no terreno definido anteriormente pela Neue Rheinische Zeitung. isso sim. porque tanto em Viena como em Paris. cujo governo reprimiu duas manifestações semelhantes nos dias 16 de abril e 15 de maio. criados para dar emprego aos trabalhadores de Paris. uma transição mediatizada entre a Coroa e o povo”. A Inglaterra seguiu-se a França. trata-se de uma revolução cujas conseqüências imediatas enchem de pavor a todos os burgueses acomodados e especuladores. que a única saída para salvar a revolução era a guerra contra a Rússia.47 O artigo pode ser interpretado como uma ruptura definitiva entre Marx e o movimento democrático. progressivamente. erguendo bandeiras com a inscrição “Pão ou morte!”. Já no primeiro número Engels denunciou a Assembléia de Frankfurt por não ter tomado nenhuma medida enérgica frente à investida do exército prussiano sobre os revoltosos de Mongúcia. No número sete do jornal é possível encontrar uma crítica dos programas do partido democrata-radical e da esquerda de Frankfurt. Mais de 3 mil presos foram executados.15 européia passo a passo. que viam como um bastião da reação européia. e o anúncio da revolução operária que viria ganhavam destaque: (. trata-se de derrocar o poder político da burguesia. que presidia a Associação Operária a partir da prisão de Gottschalk. sem generais. desde o primeiro minuto da revolução. Uma prosa vigorosa. Marx a critica por ela não conseguir promover sua própria revolução e recuar amedrontada. como em Paris. houve. É uma crítica levada a cabo. que se recusou a atear fogo na cidade e promover uma guerra total. Foi a partir de setembro que a política de Marx e Engels começou a sofrer uma inflexão. A análise que Marx e Engels fazem do levante nas páginas da Neue Rheinische Zeitung adquire contornos marcadamente classistas. Essas críticas fizeram com que o jornal perdesse boa parte de seus acionistas logo no primeiro número. constantemente. ou como até a Inglaterra chegou a fazer. As baterias do novo jornal estavam dirigidas. entretanto. Mas foram derrotados. Hansemmann. conseguiu escapar. comparando a covardia destes à valentia dos trabalhadores nas barricadas. Nos meses seguintes continuaram a acompanhar o avanço da contra-revolução e a alertar aos democratas honestos dos perigos que estavam por vir. A insurreição de setembro em Frankfurt foi logo sufocada e o governo nomeou o general Pfüel para formar um novo gabinete. Os operários construíram suas barricadas. A crítica de Marx à burguesia. em Londres e em Milão. A revolução de junho pôs um fim à era das revoluções unânimes. denunciou a divisão da Polônia pela Prússia e pela Rússia e agitou. o discurso democrático e a denunciar. Ela foi “a primeira grande batalha entre as duas classes em que se divide a sociedade moderna. Mas os acontecimentos adquiriram grande velocidade com a insurreição parisiense que começou no dia 23 de junho. os deputados confiscaram. Na Itália o poder retornou às mãos de Fernando II no dia 15 de maio. A repressão a uma manifestação cartista no dia 10 de abril deteve o avanço da revolução. A Neue Rheinische Zeitung ficou do lado dos polacos.42 A atitude dos democratas e da burguesia possibilitou o avanço da reação. chefiado por Cavaignac. através do voto. portanto. Os combates duraram quatro dias. A repressão foi implacável. No dia 25 de setembro. com as classes remanescentes do antigo regime. com vigor cada vez maior seus antigos aliados. os operários resistiram bravamente. Em Berlim.

que tinha grande influência no norte do país com o Congresso Geral Operário Alemão. mas 263 deputados permaneceram em Berlim. na cidade homônima. No dia 9. O jornal só reapareceu no dia 12 de outubro. O giro de Marx e Engels ao jovem movimento operário consolidou-se com a renuncia destes e de seus colaboradores aos postos que ocupavam na Sociedade Democrática da Renânia. No dia seguinte o rei da Prússia substituiu Pfüel por um conservador ainda mais enérgico. Ela não representava a vitória de uma nova ordem social.16 organizações políticas proibidas. Depois de quase um mês de combates as tropas austríacas e croatas entraram em Viena e levaram a cabo uma sangrenta repressão. exigindo que a Assembléia Nacional saísse de Berlim e fosse para a pequena cidade de Bradenburgo. Desde o primeiro momento Marx e Engels não duvidaram que Viena seria esmagada. O congresso promoveu a unificação da Irmandade. do comitê regional renano das associações. Marx e Engels defenderam que a Associação Operária apoiasse os candidatos democratas. A organização de Bom adquiriu grande influência entre os operários e fez parte ativamente da insurreição de Frankfurt. o conde de Bradenburgo ordenou que a assembléia suspendesse suas sessões e que só as retomasse no dia 27. fundador da irmandade e antigo membro da Liga Comunista.49 A constituição outorgada por Frederico Guilherme previa novas eleições. No final de janeiro Marx e Engels se reuniram com dirigentes da Irmandade Operária. Caso contrário o conde poderia intervir com suas tropas.50 Os democratas obtiveram na Renânia uma vitória esmagadora. Annecke. No dia 5 de dezembro. Ao contrário do que defendia Gottschalk. que um vínculo mais estreito das associações operárias é preferível porque elas estão compostas por elementos mais homogêneos. Uma assembléia da Associação ratificou a nomeação. Sua vitória era como a luz das estrelas que muito tempo depois de haverem se extinguido chega até à Terra. o conde de Bradenburgo. na medida em que era impossível a vitória dos operários era necessário unir-se aos democratas para impedir a vitória do inimigo comum: a monarquia absolutista. Suas páginas relatavam a revolução ocorrida em Viena no dia 6. Marx argumentava que. a Neue Rheinische Zeitung publicava uma carta assinada por Marx. Os artigos que publicou na Neue Rheinische Zeitung. sediado em Leipzig. onde sua influência seria bem menor. No dia 1 1 de março a Neue Rheinische Zeitung publicou um documento da Associação Operária propondo a todas as organizações operárias da região que estabelecessem ligações entre si para preparar o congresso. Esta é a razão pela qual nos demitimos. que recebeu a incumbência de convocar um congresso de toda a Alemanha para criar uma União Geral dos Operários da Alemanha. entre eles Stephen Born. com o título A burguesia e a contra-revolução. que aglutinava várias organizações operárias no sul. que propunha que a Associação lançasse candidatos próprios. na medida em que o terreno contra-revolucionário é revolucionário ao seu modo”. expressam a nova postura assumida por Marx. No dia 15. Também a burguesia renunciou à hipocrisia do terreno jurídico. as inúteis tentativas das assembléias de Berlim e Frankfurt de fazer um pacto com a Coroa. substituído Moll. A Assembléia de Frankfurt não fez outra coisa do que patéticos chamados a que os governos apoiassem Viena.51 . entretanto. permitiu à Coroa dissolver rapidamente a assembléia.48 Comparando-a com as revoluções inglesa de 1648 e a francesa de 1789. Situou-se no terreno revolucionário. elegendo 200 dos 344 representantes que participariam da eleição dos deputados. A reação imediatamente lançou a palavra-de-ordem “a assembléia a Bradenburgo ou Bradenburgo à assembléia”. Frederico Guilherme dissolveu a assembléia e outorgou uma constituição feita por encomenda. A falta de iniciativa dos parlamentares e o medo destes de que os trabalhadores interviessem na crise. seu filho ilegítimo. Apesar de sua posição nas eleições. As duas organizações formaram um Comitê Central unificado. As possibilidades de acordo com os democratas eram cada vez mais escassas. Marx decidiu então aceitar a proposta da Associação Operária e tornar-se seu presidente provisório. a Irmandade tinha uma atividade política muito forte. a idéia de que a burguesia cumpria um papel cada vez mais contrarevolucionário e que os democratas eram incapazes de fazer frente de forma conseqüente à monarquia absolutista adquiria contornos mais nítidos. Consideramos. Marx chegava à conclusão de que a revolução que teve início em março de 1848 em Berlim era uma revolução anacrônica. A vacilação dos democratas. que fugira para Londres. A luz da revolução de 1848 “emanava do cadáver de uma sociedade que se encontrava há muito tempo putrefata”. Schapper. A direita parlamentar obedeceu candidamente. Marx e Engels viam um crescimento considerável do movimento operário alemão e da atenção que este dedicava aos problemas políticos. A reunião de Marx com os líderes da Irmandade Operária ocorreu pouco depois do congresso que esta realizou em Heidelberg nos dias 28 e 29 de janeiro. embora já fosse evidente que ela não aceitaria acordo algum. a partir de hoje. mas já era tarde demais. Ao mesmo tempo. tendo participado do congresso dos democratas realizado em Berlim no mês de outubro. Wolff e Becker: Avaliamos que a organização atual das associações democráticas mantém em seu seio elementos por demais heterogêneos para que seja possível uma atividade proveitosa em relação ao objetivo fixado pela causa. Polemizaram com Gottschalk. Logo no início advertia: “O terreno que nós pisamos não é o terreno jurídico e sim o terreno da revolução. Os acontecimentos motivaram uma detalhada análise por parte de Marx. Os 180 deputados que resistiram conclamaram o povo a não pagar mais impostos. recém-saído da prisão. a hostilidade da burguesia para com a revolução e o crescente avanço da contra-revolução levaram Marx e Engels a redesenhar sua tática política. Logo depois da reunião a Associação Operária de Colônia resolveu vincular-se ao Comitê de Leipzig.

Hobsbawm. p. E nem poderia ser diferente. In: Idem. p. do seu transcrescimento. Numa época histórica marcada por tão profundas transformações. “Aspectos políticos da transição do capitalismo ao socialismo”. Porto. Hamerow. Esboços que procuravam responder a uma realidade que já não se assemelhava com a da Revolução Francesa de 1789. México. Alfa-Ômega. 1991.. 13. Como homens de sua época. (org. como afirma Michael Löwy. como Joseph Hansen. 136. Mas são dois momentos diferentes.17 Quando encerrou sua curta e atribulada vida. Alvin W. E. 10. “The german artisan movement”. Amsterdã. Friedrich. et alli. fechada pelas autoridades. 3. Revolução e contra-revolução na Alemanha. são apenas esboços intuitivos. 1983. de 1905. a teoria da revolução de Marx e Engels não poderia apresentar outra forma senão a de elaboração marcada por sucessivas reviravoltas e descontinuidades. com programas diferentes e sujeitos sociais diferentes. por exemplo. 1988. Engels. 4. c/t. Não apresenta essa teoria de forma acabada. Marxismo e filosofia. 6.56 A idéia de uma antecipação.53 Marx. vol. 8. 7. In: Engels. Paz e Terra. “Discurso pronunciado na Câmara dos Deputados. apresenta momentos geniais nos quais os autores do Manifesto parecem vislumbrar as características das futuras revoluções. 34-35. Ele considera possível que depois da revolução burguesa venha a surgir uma revolução proletária. Marx e Engels carregaram as tintas ora no caráter democrático da revolução. Alfa-Ômega. por sua vez. I. Friedrich. equivocadamente. 1977. In: Hobsbawm. que teve seu apogeu com o 1789 francês. mas não o suficiente como para que a classe operária — o produto de novas condições de produção — aparecesse como uma força política decisiva”. 1981. argumentando que não podia participar oficialmente de um movimento alheio a seu partido. Korsh. afirma que Marx e Engels esperavam. Op. p. acompanhados de outros nos quais a influência das revoluções burguesas do século anterior é patente.58 Marx não fala da transformação da revolução burguesa em revolução proletária. ora na impossibilidade do movimento democrático levá-la a bom termo e na constituição do proletariado como uma alternativa política. São Paulo.52 UMA ERA DE TRANSIÇÃO O desligamento do partido democrático marcou o fim de um período da política revolucionária de Marx e Engels. Marx. Karl. Afrontamento. 21: p. 1987. 12(4): 521532. Louis et alli. I . Siglo XXI.d. De Ia Liga de los justos al Partido Comunista. 112.” In: Marx. “As lutas de classes na França de 1848 a 1850.d. em 27 de janeiro de 1848. Rocca. 1780-1848. NOTAS: 1. 579. Karl. J. “Los movimentos revolucionários de 1847”.. 117. Uma análise superficial da política de Marx no período e uma leitura mais do que ligeira do Manifesto Comunista levaram muitos autores a estabelecer uma linhagem direta entre a teoria da revolução permanente de Trotski e a política de Marx e Engels na revolução de 1848. a Neue Rheinische Zeitung já não se dirige a seus leitores como um “órgão da democracia” e sim como defensora da emancipação do proletariado. 1848 não pertence mais à era das revoluções burguesas. 11. Karl e Engels. Journal of Central European Affairs. Mesmo assim. Itatiaia. vol. Lisboa.). . A partir daí a independência de classe passou a ser parte integrante do discurso e da prática de ambos. Alexis de. México. ela não vai mais além disso. está presente também naqueles autores que caracterizam as dez reivindicações contidas no final do Manifesto como um programa de transição. s. O momento histórico no qual viviam não permitia nada além disso. La época de Ias revoluciones europeas. em 1848. redigiu a famosa Mensagem do Comitê à Liga dos Comunistas em 1850. Tocqueville. Theodor S. São Paulo. mas que ainda não era a da revolução proletária. que colocava novos problemas ao mesmo tempo em que deixava velhas questões em aberto. onde proclamava a independência de classe e lançava como palavra de ordem de “revolução permanente”. uma transformação da revolução burguesa em revolução socialista. Tocqueville. p. As jornadas revolucionárias em Paris.” In: Marx. p. Tratava-se de uma era bastarda. da teoria da revolução permanente.1 5. 72. I. Belo Horizonte. 1961. Marx. 14. na discussão do projeto de declaração de voto em resposta ao discurso da coroa”. 1848 e 1905. Bergeron. 12. entretanto. Friedrich. no dia 19 de maio. Jacques. s. cit. Trotski. São Paulo. J. 1815-1848. p. Companhia das letras.. Apud Gouldner. Obras escolhidas. Siglo XXI. Europa: restauración y revolución. Rio de Janeiro. p. Gouldner. “Artisans and intellectuals in the German revolution of 1848”. Karl e Engels. 1974. p. 319. Engels. Obras escolhidas. Essas reivindicações. 305. Marx e Engels trabalharam naqueles anos com uma teoria da revolução que era a imagem do momento vivido. Theory and society. recusou-se a participar do governo provisório de Baden. Também não é parte ainda da era das revoluções proletárias.57 Apesar da política de Marx e Engels apresentar traços de uma teoria da revolução permanente. para afirmar que em 1848. E. Avante. 280. 1977. Madri. Karl. o “capitalismo tinha feito progressos de tal monta como para fazer necessária a abolição das velhas condições feudais. Em seu artigo comemorativo dos 90 anos do Manifesto Comunista. que captavam as transformações sociais e econômicas que recém tinham se iniciado. Engels. Alvin W. No interior desse período. 1973.54 Acreditamos ter demonstrado que a idéia de que a teoria da revolução em Marx e Engels durante as revoluções de 1848 ser apresentada como um todo homogêneo constitui um grande equívoco. Louis et alli. ele estabelece de maneira adequada as diferenças entre as revoluções de 1789. F. Droz. 523. p. por parte de Marx. p. História do marxismo. p. Trotski contribui para essa confusão. Edusp. Lembranças de 1848. 2. São Paulo.55 Mas em Resultados e perspectivas. Bergeron. Op. 294. Friedrich. Um período caracterizado por um turn over. Alexis de. “As lutas de classes na França de 1848 a 1850. 9. A democracia na América. conseqüência direta do desenvolvimento do imperialismo e do declínio das forças produtivas. Só é possível encontrar em Marx e Engels uma teoria da revolução permanente em sua forma embrionária. vol. coincidindo com os diferentes momentos vividos pela revolução.

Notas aclaratorias. David.-dez. Obras escolhidas. Ruedo Ibérico.d. Claudín. George. Op. Friedrich. Ibidem. 41. Neue Rheinische Zeitung. Obras escolhidas.d. 3. 84. Karl e Engels. 28. “La insurrección de Francfort”. Trotski. Londres: 177: sept. Friedrich. 51. p. 57. Roca. Neue Rheinische Zeitung. s. F. 3. Sobre o tema é possível consultar Löwy. Idem. Friedrich.. Marx. 58. 17. p. out. São Paulo. In: Marx. Friedrich. In: Marx. Obras escolhidas.. “Princípios básicos do comunismo”. 29 de junio de 1848.. p. Karl. Engels. 2. D. Friedrich. e Claudín. Las revoluciones de 1848. vol. Engels. p. 34. é provável que Trotski tenha extrapolado as afirmações de Marx para amparar a teoria da revolução permanente com a autoridade deste. p. Friedrich. O mesmo ocorre com a interpretação que Trotski. t. Karl. Engels. “Man/festo Comunista”. Op. 165. cit. 14 de abril de 1849. cit. 63. s. São Paulo. Marx. Karl e Engels. p. cit. 1582-1583. 36.. Karl. antigo oficial e revolucionário francês que participou das revoluções de 1830 e 1848. cit. p. “Manifesto Comunista”. cit. 7 de junio de 1848”. vol. I . David. Marx.. Fernando. Bibliothèque de la Pléiade. p. Pluma. 10 de diciembre de 1848. 83. Las revoluciones de 1848. New Left Review.. “Notes et variantes”.3. “Programas del Partido Demócrata-Radical y de la isquierda. “Prefácio à edição alemã de 1872 do Manifesto Comunista”.. Op. Marx. Karl. Neue Rheinische Zeitung. A organização dos proletários é atribuída a Kersausie. Engels. “Mensagem do comitê central à Liga dos Comunistas”. Engels. McLellan. vol. I. Friedrich. Obras Fundamentales de Marx y Engels. “Un documento autêntico de Ia burguesia. Marx. Alfa-Ômega. Neue Rheinische Zeitung.. 37. Leon. 39. 38. cit. Siglo XXI. In: Marx. São Paulo.. p. Gallimard. p. Bogotá. vol. 5 de enero de 1849. Idem.14. Madri. Alfa-Ômega. n° 7. Karl e Engels. Karl.d. Brossat.. “Contribuição à história da Liga dos Comunistas”. 9. Friedrich. Neue Rheinische Zeitung. Revolução e contra-revolução na Alemanha. 1905. México. vol. Karl. México. In: Marx.. In: Engels. 243-246. Op. Marx. Op. 1971. Op.. São Paulo. em A revolução permanente. Karl e Engels. 147. Idem. 6 1. São Paulo. “A luta de classes na França de 1848 a 1850”. 29.. In: Marx. Obras escolhidas. Ver Riazanov. 1982. 1963. p. Friedrich. Obermann. Fontamara. I . I. en Francfort”. n° 16. s. et alli. Friedrich.... n° 29. p. cit. Las orígenes de la revolución permanente. “Alan/festo Comunista”. . 40. In: Idem. Friedrich. 152-168. Ver por exemplo Hansen. “El programa de transición de Trotski: sus origenes y su importância actual. p. “Reivindicaciones del Partido Comunista de Alemania”. Idem. Engels. In: Marx. 1973. Op. 1973. E m meio à luta política contra a teoria do socialismo num só país. Op. p. McLellan. p. 55. 32. a do desenvolvimento desigual e a do socialismo num só país. A agonia mortal do capitalismo e as tarefas da Quarta Internacional.. 18. Friedrich. In: Marx. 83-92. vol. In: Marx. 19-34. n° 301. 25. Marx.. Karl. Friedrich. 1975. Op. Friedrich.”. Marx. Resultados y perspectivas. 56. Friedrich e Marx. Karl Marx. 19. Karl e Engels. vol. infinitamente superior às duas sacolas onde o stalinismo carregava toda sua teoria. Karl e Engels. Lisboa. Karl. 203.. 45. 49. 35. Friedrich. p. n° 187. Ibidem. Introducción al Programa de Transición. Riazanov. Karl. Neue Rheinische Zeitung. 31. 129. De La Liga de los justos al Partido Comunista. p. 185. Petrópolis. Karl e Engels. “Contribuição à história da Liga dos Comunistas”. Idem. Friedrich.. 210. 54. 1989. Friedrich. 425.. p. Op. Alfa-Ômega. Michael. p. Michael. Karl e Engels.. Manifiesto del partido comunista. Karl e Engels. 160. F. cit. México. Karl e Engels. 15 de diciembre de 1848”. cit. Oeuvres. Las revoluciones de 1848. Selección de artículos de la Nueva Gazeta Renana. Marx. p. Alfa-Ômega. Las revoluciones de 1848. p. Marx. “La burguesia y la contrarrevolución. “La campaña alemana en pro de la constitución del Imperio”. “La burguesia y Ia contrarrevolución”. Programa de Transição. Tais exageros não retiram a validade de sua teoria e seu potencial político e interpretativo. p. 13-14. Obras escolhidas. Michael. p. 1979.. vol. Rubel. p. A dissolução da Liga Comunista por Marx é motivo de polêmica entre os historiadores. vol. Fernando. 1990. Löwy. Ibidem.. Citado por Claudín. 48. Karl e Engels. In: Marx. vol. 30. Las revoluciones de 1848.. Marx. 1989. Obras escolhidas. I.. 218. faz da “ditadura democrática dos operários e camponeses” defendida por Lenin. cit p. 13. 91. Fernando. 15. 15 de diciembre de 1848. 87-91. Friedrich. Alfa-Ômega. Idem. Barcelona. 26. p./ oct. 83. “A los obreros de Colônia”. Joseph. 1978. 16 de junio de 1848”. The poetry of the past: Marx and the French Revolution.. Maximilien. 53. Karl e Engels. Moscou Misl. Anexo a Obermann. In: Marx. 18. Joseph e Novack. vol. Fondo de Cultura Econômica. Las revoluciones de 1848. “Marx e a Nova Gazeta Renana”. 44. Informação. Karl e Engels. Friedrich. Alain. Karl e Engels. Karl. 31.. p..18 14. In: Idem. p. “Reivindicaciones del Partido Comunista de Alemania”. 1978. É o caso de D. 46. Op. p. vol. p. Engels. Le Mouvement Social. Friedrich. Avante.d. 161. 37.. cit. 37. Karl e Engels. 50. 16. 42. Paris. 22. 89. p. cit. Las revoluciones de 1848. São Paulo. vol. 55. In: Marx. Vozes. Friedrich. 47. Friedrich. cit. Revolução e contra-revolução na Alemanha. 1964. Paris. In: Engels..” In: Hansen. Sobre a relação de Marx e Engels com o jacobinismo ver Löwy. México. Friedrich e Marx. 33. Marx. 13-18. Friedrich. Las revoluciones de 1848. p. In: Marx. Ediciones de Cultura Popular. I . 1971. 52. Op. Siglo XXI. I. Ibidem. Economie I. Engels y la revolución de 1848. “o primeiro grande general das barricadas”. n° 169. Neue Rheinische Zeitung. cit. 142. “Neue Reinische Zeitung. cit. Karl e Engels. Op. “As lutas de classes na França de 1848 a 1850. Friedrich. Engels. A versão de Marx e Engels pode ser encontrada em Engels. Engels. p. Marx. p.d. p.” Op. p. 24. 213. Friedrich. n° 165. Leon. Karl. Paris. p.. p. Las revoluciones de 1848. In: Marx. I . 185. vol. 136. Karl e Engels. 5. Leon. 3. Neue Rheinische Zeitung. 45. 46. “Aux origenes de la Neue Rheinische Zeitung”. In: Idem. p. Citado por Engels em “El debate de Berlin sobre Ia revolución”. 190. 71. s.. Trotski. p. p. s. “Appel pour Ia fondation de la neue Rheinische Zeitung”. “Prefácio à edição alemã de 1872 do Manifesto Comunista. Karl.. “La revolución de junio”. 43. Soius Kommunistov (Liga dos Comunistas). 23. 74. como foi chamado por Marx. Obras escolhidas. 47. p. Fernando. “La burguesia y la contrarrevolución. 19 de mayo de 1849. São Paulo. “90 anos del Manifiesto Comunista”. Trotski. Los revoluciones de 1848.. I . p. 232. 20. Escritos. Alfa-Ômega.... Op. 46-47. Ibidem. p. Idem. et alli. n° 169. A exceção foi Joachim René Théophille Gaillard de Kersausie. Vida e pensamento. p. 29. Marx. 1989. Karl.. 27. Citado por Claudín. 21.

nos limites da propriedade privada. Eles fundaram em 7 de fevereiro de 1840 a Associação Pública dos Operários Alemães para a Propaganda Cultural. assim chamado por Marx no Pariser Vorwärts de 1844. associação que servia de cobertura à reconstituída Liga dos Justos e como meio de recrutamento. juntos em Londres. como o puro princípio da liberdade humana na Europa. a Liga dos Justos se transformou de liga alemã em liga internacional. o alemão era a sua língua típica.5 Os membros mais enérgicos saíram chefiados por Schuster: esses acentuavam o caráter comunista e proletário e propugnavam uma constituição democrática. a virtude civil e a união do povo.3 Uma revolução puramente política não tem sentido: o nosso povo. enquanto Wilhelm Weitling fazia o mesmo na Suíça. que deveria dividir com Ruge e. a fundação e a conservação da igualdade e da liberdade política e social. de outro lado temos a interpretação dada por Riazanov. esses totalmente secretos. Na sociedade operária se achavam além de alemães e suíços. eslavos meridionais. Em Londres. mas a monarquia. está no privilégio. O grosso da liga era formado por alfaiates. assim como a Liga dos Proscritos tinha buscado apoio na Sociedade dos Direitos do Homem. poderiam operá-la. contra a humanidade. nem por uma moral frouxa”. com o crescimento do capital. Para melhor conhecer a vida dos círculos operários comunistas. apoiando-se na Sociedade das Estações do Ano. o genial alfaiate. O progresso da indústria é portanto o retrocesso na felicidade e na cultura humanas. em 12 de maio de 1839. aspirante a um “Estado livre” que. as classes “cujas urgentes necessidades exigem a transformação do nosso Estado de um modo conforme a igualdade”. Seguidores de Lamennais.8 A Liga dos Justos foi abalada pela derrota da Sociedade das Estações. por Mayer e por Grünberg. substancialmente exatas segundo as novos dados e documentos acrescentados por Mehring. se não aprendessem com o exemplo da malograda república dos Estados Unidos. e portanto por cisão. com suas variedades alemãs”. atacou a doutrina de Venedey: somente a revolução poderia realizar a igualdade dos homens e só as classes não corrompidas “por uma ciência de ponta-cabeça.9 Schapper e Bauer. reataram os fios da organização e a eles uniu-se Joseph Moll. A Liga dos Justos surgira em Paris em 1836 para o aprofundamento revolucionário comunista e proletário. Os estatutos da liga lhe assinalavam. para estudar o socialismo francês. No princípio de 1834 o governo francês tinha suprimido uma sociedade popular pública surgida para socorrer a imprensa de oposição da Alemanha meridional.7 O próprio Marx escrevia que a doutrina secreta da liga “passou por todas as modificações do socialismo e do comunismo francês e inglês. Como doutrina. dois antigos livre-docentes: Wilhelm Schuster de Göttingen e Jakob Venedey de Heidelberg. com graus hierárquicos e com incondicional obediência para os superiores. não somente de derrubar o monarca. russos e . cometeriam um delito contra si próprios. foi então que os refugiados alemães fundaram a sua primeira organização secreta com a Liga dos Proscritos. sobretudo. A Liga dos Justos apareceu como uma sociedade de conspiradores. A liga. Temos de um lado as recordações de Engels.6 Surgiu assim em 1836 a Liga dos Justos que contava entre os seus membros mais distintos Karl Schapper. holandeses. Heinrich Bauer e Wilhelm Weitling de Magdeburgo. antes da ruptura de 1847 (. depois de longa prisão.. A história londrina da Liga dos Justos e a sua transformação em Liga dos Comunistas não estão de fato claras. no sentido “marxista” o primeiro dos seus escritos surgem elementos que apaixonadamente reúnem os sintomas difusos do futuro Manifesto. formada como as sólidas organizações secretas. checos.19 O ESPECTRO DO COMUNISMO1 Giulio Pietranera DA LIGA DOS JUSTOS À LIGA DOS COMUNISTAS Até o fim de 1843 Marx se estabelecia em Paris para a nova impressão dos Anais franco-alemães. da Liga dos Proscritos. Karl Pfänder e Georg Ecarius. todos os povos da terra. deveria assegurar a igualdade social com a segurança do necessário e a tributação do supérfluo. A riqueza dos ricos cresce pari passu com a miséria dos pobres. como objetivos. pequeno-burguês e radical o segundo. a revista mensal que era órgão da liga. a Liga dos Justos era fortemente influenciada pelo comunismo cristão primitivo de Weitling. também escandinavos. por Londres e Paris.2 A dissensão interior se personificou nas pessoas dos seus dirigentes. abandonar a França e parar em Londres. Trata-se..). na próxima revolução. que dirigia naqueles anos a comunidade parisiense da Liga dos Justos {Bund der Gerechten) e desse modo o comunismo operário se apresentou a Marx nas vestes daquela liga. e os transformava em emissários e propagandistas. o que demonstra a influência que tinha sobre esta as idéias de Blanqui: Karl Schapper e Heinrich Bauer deveriam.4 Em 1835 a Dieta federal prussiana induziu o governo francês a expulsar Schuster e a levar os operários a abandonar Paris. e o privilégio de todos os privilégios é a riqueza. Marx relacionava-se de preferência com Everbeck. foi sustentada pela “sagacidade” dos governantes que expulsavam os operários indesejáveis. Foi de fato Wilhelm Schuster que no quinto fascículo do Proscrito. como observa Engels. húngaros. A cisão da Liga dos Proscritos ocorreu ao mesmo tempo em que na Suíça foi suprimida a Jovem Alemanha. A liga era. a libertação e a regeneração da Alemanha. e dado que os alfaiates alemães estavam bem espalhados pela Suíça. Comunista. A monarquia porém não está no brasão nem na coroa. por outro lado. naquela França que os revolucionários alemães viam então como o princípio político. Segundo Engels.

Marx e Engels porém continuaram mantendo relações com a liga. “Esses estavam — assim nos disse — convencidos da absoluta exatidão da nossa concepção. Sebastian Zeiler. Moses Hess. do comunismo verdadeiro cristão de Weitling e do “verdadeiro” socialismo alemão. De acordo com Engels. Naqueles anos Marx e Engels atingiram a plena consciência da sua doutrina do materialismo histórico e fizeram a síntese entre socialismo e movimento operário. e precisamente por seu caráter comunista. que dirigia a seção parisiense. Moll visitou Marx em Bruxelas e Engels em Paris. encontraram de 1845-46 em diante o dever decisivo de suas vidas: fundir os grupos intelectuais e proletários. em uma situação similar àquela dos comunistas alemães do período 1846-1848. mas ignoravam totalmente a economia política. com o escopo de “aproximar os revolucionários de todas as nacionalidades. o desenvolvimento dos tempos. de Heilbronn. e foi no esforço de propagar as suas idéias que se encontraram novamente na Liga dos Justos. algumas semanas depois da Revolução de Fevereiro. Ocorreram assim o primeiro congresso no verão de 1847 e a organização interior da liga. mas Engels naturalmente tinha recusado. De positivo só o fato de que os velhos membros da liga. a influência de Weitling era preponderante. expedido depois a Londres para a impressão. surgida como Democratic Friends o f all Nations. convidando-os insistentemente e em nome de todos os companheiros a entrar na liga. Existia porém a Sociedade Alemã de Estudos fundada por Schapper e companheiros. representa muito mais um relato didático escrito para influenciar os social-democratas alemães que se achavam. Proudhon recusou e Garny — que tinha em 1845 fundado com outros cartistas uma sociedade revolucionária internacional. depois de alguma hesitação. os cartistas não se filiaram à liga por causa do caráter especificamente inglês e não-revolucionário do seu movimento. Marx e Engels poderiam assim desenvolver o seu comunismo crítico num manifesto. os mazzinianos e a emigração polaca oficial. . em seus estudos que foram concluídos em 1924:11 uma análise crítica detalhada desta introdução (aquela de Engels a Perante os jurados de Colônia) e o confronto dos dados de Engels com os dados fornecidos muito antes por Marx no seu Herr Vogt. porque se via nele um teórico comunista que podia se colocar ao lado dos grandes teóricos franceses da época. Karl Pfänder. um segundo congresso os adotou definitivamente em 8 de dezembro de 1847. que Marx e Engels estabeleceram relações mais íntimas e pessoais por ocasião da sua viagem à Inglaterra no verão de 1845. mas não se pode provar que essa servisse de cobertura à secreta Liga dos Justos e é com essa sociedade. por isso. como da necessidade de eliminar da liga as antigas formas e tradições de conspiração”. e Georg Eccarius. reduzidos à atividade clandestina. isto é. continuaram a desenvolver sua atividade revolucionária na Inglaterra e na Suíça. superados os pontos controversos e as objeções. não fizeram mais que acelerar a crise interior da própria liga e a impeliu cada vez mais a livrar-se dos resíduos do comunismo igualitário simplista de tipo francês e de origem babeuvista. a influência entre os dirigentes de Londres. Sabe-se. Philip Gigot e outros operários.10 No segundo congresso — que durou ao menos dez dias — Marx defendeu a nova teoria e. de “dois homens infinitamente mais capazes de adquirir noções teóricas”. Joseph Weydemeyer. idealmente corporativos. A liga tinha relações com os revolucionários franceses por meio dos combatentes de 12 de maio de 1839 e com os radicais polacos. mais tarde. AS INTERPRETAÇÕES HISTÓRICAS Riazanov coloca radicalmente em dúvida a veracidade de todo o relato de Engels. seja através de correspondência. que seria depois publicado como manifesto da liga. como com os cartistas da Northern Star e especialmente com Garny e Jones. Marx e Engels buscaram colocar no grupo Proudhon 13 e os cartistas ingleses mais notórios. deu seu apoio. a nova visão. os novos princípios foram acolhidos por unanimidade e Marx e Engels encarregados da redação do Manifesto. abandonando Paris. e o sacrifício teórico e a oferta dos renovados membros da liga. Logo denominou-se Círculo Operário-Comunista de Estudos e na carteira dos sócios aparecia o lema “Todos os homens são irmãos” reproduzido em pelo menos 20 línguas. depois de 1840 é impossível achar qualquer traço de existência da organização. de reforçar a fraternidade entre os povos e de conquistar os direitos políticos e sociais”. na fraternidade e na justiça. nos convenceram que toda a história da Liga dos Comunistas até 1848. como a lemos nas páginas de Engels. aceitou. Contrariavam-lhe. e foi somente Engels que. foram fixados os novos estatutos sobre bases absolutamente democráticas e. o caráter de artesão dos membros da liga e especialmente o seu caráter de artesãos alemães e. depois que as sessões os discutiram. das consciências e das convicções teóricas dos membros da liga. impedia que a liga se constituísse conscientemente em partido proletário. levaram Marx e Engels a aceitar. A necessidade de uma organização propagandística em meio à classe operária alemã. colocou-os em contato com a Liga dos Comunistas. além disso poderiam reorganizar a associação em novas formas mais adaptadas ao momento. seja através de Everbeck. Acreditavam firmemente na igualdade. como tinham fundido idealmente socialismo e movimento operário. Já em 1843 Schapper tinha proposto a Engels que entrasse na liga. os Irmãos Democratas — ainda que cético. Na primavera de 1847. um dos campeões do “verdadeiro” socialismo alemão. porém.12 A história da Liga dos Justos seria relatada com inexatidão. Em Bruxelas havia sido formado um importante círculo que seguia as doutrinas dos mestres: Wilhelm Wolff. Os dois que tinham até então forjado nos seus estudos as armas da revolução e atuado principalmente no ambiente da “burguesia intelectual”. seja porque estes estavam convictos de que a revolução vitoriosa deveria ser européia. que sob iniciativa de Schapper foi organizada a primeira associação internacional. em 1880.20 ingleses. Também a sociedade secreta seguiu o exemplo da associação pública internacionalizando-se e o fez seja devido à diversificada nacionalidade dos seus membros. da Turíngia. Em 1847 a ruptura de Marx com Weitling acentuou a separação de idéias entre a liga e os campeões do comunismo. Esta ruptura e o prestígio crescente de Marx e Engels. Foi o grupo de Bruxelas que constituiu o núcleo de uma nova organização comunista internacional.

tendo o objetivo de aproximar os revolucionários de todas as nações e portanto. esses necessitavam e procuravam a integração com o proletariado. assumindo o de Jovem Geração. em 1847.21 A nova organização surgiu como Comitê Comunista de Correspondência. onde demonstra um claro conhecimento da estrutura econômica da sociedade burguesa. aqueles mais “à esquerda”. provavelmente. Foi assim que. de marxismo avant la lettre. por iniciativa de Schapper. Além disso dificilmente se pode ver nos Comitês Comunistas de Correspondência. chefiados por Schuster. devido ao pensamento de Schuster que já colocamos apropriadamente aqui em relevo. pode-se pensar que Moll os havia realmente convidado para entrar na liga. não deveriam ter formado outra? Não estavam assim em concordância no momento do novo exílio? E como pode Engels dar por viva (ainda que escrevendo em 1885). a partir de setembro de 1841 essa teve uma revista mensal. De outra parte. A revista inclui um artigo/programa (com toda probabilidade devido a Schapper. Wilhelm Weitling tinha se hospedado em Paris em 1835 e era um dos membros da liga parisiense por ele fortemente influenciada. porém. um ensaio sobre a situação política na Prússia (Engels) e uma resenha político-social devida a Wilhelm Wolf. a liga. e pelo menos seis meses antes da publicação do Manifesto. Foram adotados os novos estatutos depois de longa discussão e se acolheu a proposta de Engels. em vez da primitiva Profissão de fé. da qual conhecemos a profissão de fé cujos sócios adquiriam no momento da admissão. era preciso vencer oposições utopistas (Cabet) e democrático-burguesas (Heinzen). Por outro lado. assim como não conhecemos os longos debates que levaram à aprovação dos estatutos. onde reuniu os membros mais conhecidos da Sociedade Alemã de Estudos e Garny. Weitling recolhe em Paris os elementos esparsos e em 1840 se transfere à Suíça. apareceu o primeiro número (número de ensaio que não teve seguimento) do primeiro jornal proletário marxista.18 A reconstrução crítica de Riazanov revela indubitavelmente muitas lacunas na detalhada história da Liga dos Justos que nos oferece Engels. Todos esses comitês se reuniram em um congresso em Londres. compreende ser um progresso que o trabalho manual sucumba diante da grande indústria e vê como esta última cria as reais condições da revolução proletária. um artigo que analisa e rejeita o plano de emigração de Cabet. Há.19 Porque Schapper e Bauer. no pouco caso que fazem das idéias dos membros da liga e em algumas contradições. com a Sociedade das Estações. Proudhon aceita se tomar “um dos . por outro lado. Engels ficou em Paris para organizar um outro comitê e conseguiu. e isso devia fazer gravitar a liga para os Comitês Comunistas de Correspondência. como essa é e como deveria ser (1838). Elaboraram os estatutos e fixaram para um próximo congresso a apresentação de uma profissão de fé comunista. Não é menos verdade. qualquer coisa além de um círculo literário e de difusão de idéias. Eccarius estava muito avançado no seu comunismo e o demonstrou com o seu estudo sobre os alfaiates de Londres (que leva o subtítulo “Sobre a luta entre o grande e o pequeno capital”).14 Um comitê similar surgiu em Londres. Lê-se como lema e pela primeira vez. depois de lutar contra uma forte oposição influenciada pelos proudhonianos. O Manifesto estava na gráfica quando explodiu em Paris a revolução. não se sabe em quais termos. e é por isso presumível que essa fosse somente a forma exterior anódina de alguma coisa mais séria.17 O NASCIMENTO DO MANIFESTO Somente Marx era o responsável pela redação do Manifesto perante o congresso. Todos os artigos são anônimos. arrasta a Liga dos Justos. deveria essa extinguir-se depois de maio de 1839. foi fundada a associação internacional Democratic Friends of all Nations. de publicar um Manifesto do Partido Comunista. achamos porém nas relações de Marx e Engels os objetivos didáticos de que fala Riazanov. uma secreta Liga dos Justos. que foram os membros mais ardentes. organizados por Karl Grün e pelos cabetianos. em setembro de 1847. onde se fixou permanentemente a partir de 1841. e tomaram a decisão de reunir-se em uma liga comunista. uni-vos!. aqueles originariamente alemães da Liga dos Justos). exceto se supormos uma verdadeira liga de ação marxista e referirmos a essa a negativa de Proudhon. a imortal invocação: Proletários de todos os países. mas isso não resulta do teor das duas cartas.21 A correspondência de Marx/Proudhon não prova nada. Antes de tudo ele resiste às provas negativas: não há nenhuma declaração ou proclamação publicada pela liga de 1840 até sua pretensa transformação em Liga dos Comunistas e nesse terreno não há nada a afirmar. somente para fins de propaganda. pelas reivindicações do Partido Comunista formuladas pelo comitê central recém-constituído. não se pode negar que houvesse na liga uma tradição de comunismo revolucionário. e isto o comprovam as cartas trocadas por Marx e Engels nesse período. organizados por Marx e Engels. Foi precedido. O Grito de Auxílio da Juventude Alemã. saídos com Weitling da parisiense Liga dos Justos. que mudou o nome. em janeiro de 1842. quando ainda viviam outros anuentes do Manifesto e ex-membros da liga e ainda estava viva a tradição? Precisaria supor um acordo entre esses e Engels. a Kommunistische Zeitschrift16 (Revista Comunista). é verdade que estes últimos não relevaram tais desenvolvimentos e isso se pode ver no seu objetivo didático. que em 1836 fundaram a Liga dos Justos. quando homens tenazes e enérgicos como Schapper e Bauer saíram das prisões francesas e emigraram para um ambiente relativamente favorável como a Inglaterra? A Sociedade Operária de Educação foi fundada realmente por eles e é difícil aceitar que semelhantes homens se contentassem com tão pouco (de fato foi em 1844 que. O segundo congresso se desenvolve em novembro/dezembro de 1847. contraposta por Marx àquela dos Irmãos Democráticos: “Todos os homens são irmãos”. Depois da tentativa de revolução de 1839 que.15 A luta no interior do comitê se prolongou depois do primeiro congresso.20 o nome dos seus membros nos mostra o caráter “intelectual”. No outono de 1846. Tudo isso demonstra como provável a orientação da Liga dos Justos para Marx e Engels. especialmente com o escrito A humanidade. Ali fundou com Simon Schmidt. pois uma prova indireta a favor da existência da Liga dos Justos. mas não nos parece assim fundamental reduzir o relato engelsiano a pura propaganda.

é um fato que dessa saiu o Manifesto e com essa os proletários. e com eles também o salário da força produtiva. concorrência dos braços produtores. E ainda que em pormenores fosse grande a divergência entre nossas idéias. espirituoso.. para que no futuro todos os homens possam ser irmãos”. cit. Schapper — Bauer — Moll. E é pela pena comovida desses intelectuais que podemos recordar aqueles grandes homens novos. “Proletários de todos os países. 84. p. pintor de miniaturas. juntaram-se com os intelectuais de Bruxelas. “Proletários de todos os países. As medidas contra a Liga dos Proscritos não fizeram mais do que reforçar o caráter revolucionário. Nós os encontramos ao lado dos “doutores da universidade” alemã: Karl Schapper. “um gigante resoluto e enérgico”. Este texto foi escrito em 1948 por ocasião do centenário do Manifesto. não chegar a Londres antes de terça-feira. inserese numa tradição de discussão no interior do pensamento político italiano. Assim o comunismo historicista crítico e tático se separava da sua matriz utopista-democrática. Ibid. N. Joseph Moll. homens de trabalho. Karl Pfänder de Heilbronn. “um verdadeiro homem” (Engels). avidamente. entre outros comunistas? O fato é que em 26 de janeiro de 1848. Esta questão de palavras não faz lembrar um pouco aquela célebre. os preços dos produtos caem. a mim que. “revolucionário profissional”. op. disseram os comunistas. Nesta tradução. sapateiro da Francônia. relojoeiro de Colônia. “justos” e evoluídos até a doutrina do comunismo. nova fonte de indigência e miserabilidade. em meio à queda geral. dialética” — (Engels). as máquinas surgem para substituir a força humana. 2.. Mehring. uma carta: O comitê central encarrega o comitê regional de Bruxelas de informar o cidadão Marx que se o Manifesto do Partido Comunista. A Liga dos Justos estava coligada à Jovem Alemanha e ao movimento mazziniano através da pessoa de Karl Schapper de Nassau que participou da expedição de Savóia. Parece-nos. V. cit. 3. o nosso objetivo vai muito além. diziam os justos. alfaiate. certamente entendendo: “uni-vos. seu é o gozo da centuplicada operosidade. e é assim que. o “uni-vos” pressupõe uma direção autoritária.. que. da arte refinada. Georg Eccarius da Turíngia. eram os primeiros proletários revolucionários que eu via. uni-vos”. Mehring. Os próprios lemas das duas ligas nos dizem o seu espírito: “todos os homens são irmãos”. nem freqüentemente”. 5. 85. op. sempre em Londres. (. ocorrida 56 anos depois. Permaneceu inédito por 50 anos.. e superior em engenho” (Engels). 0 que Proudhon recusa são os princípios marxistas e portanto outra coisa. porque não é do nosso caráter iludir ninguém. nas condições da nossa sociedade. igual aos seus dois companheiros em energia e resolução. Não é talvez uma questão bizantina de terminologia. Schuster escrevia: “Sim! Declaramos vigorosamente diante de nossos amigos e inimigos: não é nossa intenção contentar-se com uma miserável farsa teatral. E é sempre a sucessiva e diversificada redação do lema da Liga dos Comunistas que nos ilumina sobre o seu caráter absolutamente democrático segundo os estatutos. A História não perdeu por esperar. desperto. O “unamo-nos” de Schapper foi substituído pelo “uni-vos” do Manifesto. na arte. todo progresso na indústria.. Em nome e por ordem do comitê central. primeiro de fevereiro do ano corrente. Seu é o fruto da fadiga de outros. nessa altura. NOTAS: 1. símbolo de todos aqueles que a fria pobreza e a vida dura impediram o seu livre desenvolvimento. 82 e ss. com a avidez de lucro o espírito de invenção. nós o proclamamos doravante em alta voz. Com a riqueza cresce a avidez de lucro. p. “um homenzinho vivo. cujo corpo pequeno guardava muita astúcia e decisão”. em conclusão.). selecionamos trechos de sua parte histórica e eliminamos outros em que o autor se reporta a circunstâncias específicas da Itália e do ano de 1948 (pós-Segunda Guerra). 4. do T.. sendo publicado na Itália em 1998. assinala um regresso na felicidade dos cidadãos e na cultura da humanidade”. p. sua a benção de todos os benefícios e de todos os sacrifícios da união social. Heinrich Bauer. não se pode negar veracidade substancial ao relato de Engels. O nosso objetivo é: . o comitê central endereçava ao comitê regional de Bruxelas. unamo-nos” — assim estava escrito na Revista Comunista. “um Hércules de estatura média — quantas vez ele e Schapper não defenderam vitoriosamente a porta de uma sala contra centenas de adversários que avançavam impetuosamente!”. Tudo pressagia o naufrágio da felicidade pública. reais ou lendárias. e Lessner e Lochner. ascende. “um diplomata nato. aqui excluída. A parte filosófica do texto. de modo incomensurável. o capital. “uma cabeça firmemente pensante.) nunca esquecerei a enorme impressão que esses três verdadeiros homens me causaram. ainda estava para me tornar um homem (Engels). serão tomadas medidas contra ele.. espirituosa. para o bem ou para o mal. irônica. o comitê central pede o reenvio imediato de todos os documentos colocados à disposição de Marx. No caso em que o cidadão Marx não execute o trabalho.. da Liga dos Comunistas na Liga dos Justos. concorrência dos capitais.. Uma viva concorrência toma vigor. Conheci-os a todos os três em 1843 em Londres. Assim escrevia Schuster no Proscrito: “Eu digo ampliação (da riqueza dos ricos e da pobreza dos pobres) porque o país se povoa e as sedes da indústria se multiplicam em razão do encurtamento das distâncias e da melhor rapidez das comunicações. Em um dos seus últimos artigos no Proscrito. Uma coisa só. de que ele foi encarregado de redigir pelo último congresso. acrescentando somente (questão essa de fato independente da aceitação): “Não prometo por isso vos escrever muito. Ainda que se possa pensar acerca das origens. O “unamo-nos” é democrático. V. (. com mudanças de governo e de constituição. compositor-tipógrafo e depois professor de línguas em Londres. na falta de documentos específicos. insaciavelmente: a riqueza de poucos.22 destinatários da vossa correspondência”.

sobre o título Kommunistische Zaltschrift. 102). op. p. 1853. 13. seja — enfim — da propaganda socialista que é possível desenvolver na Alemanha com este meio. As correspondências deviam ser enviadas a um Bildungsverein für Arbeiter. in: Marx. 14. mais do que democrático da liga. Londres. v. Engels refere-se às palavras de Moll: “estavam (os membros da liga) convencidos da exatidão absoluta da nossa concepção. os estatutos da Liga dos Comunistas. p. p.: “A Liga dos Comunistas foi criada em Paris em 1836. J. Vide a carta de Marx a Proudhon em apêndice às Confessions d‟un révolutionnaire (in Oeuvres completes de P. Riazanov.. 10. o que deveríamos fazer de melhor. op. Tratava-se de um catecismo comunista. N. vol. cit. K. Marx. A interpretação da carta de Proudhon é de grande importância para a controvérsia entre os sustentadores da tradição de Engels ou da reconstituição de Riazanov.. Revelações sobre o processo dos comunistas em Colônia. se se falou depois longamente de uma profissão de fé e a idéia do Manifesto foi apresentada pelo próprio Engels? . D. seja de fornecer um panorama crítico dos escritos populares. 121). p. se pensamos que a recusa seja mais substancial nos aproximamos de Riazanov. O preço de venda na Inglaterra era de dois pence e fora fixado a seis kreuzer para a Alemanha e a quatro soldi para a Bélgica e a França. naquela forma adotada isso não convém. característica de sociedades secretas.. Engels tinha proposto 25 perguntas. De particular interesse são todos os pontos dessas reivindicações difundidas por meio de panfletos durante a Revolução Alemã (vide introdução citada de Engels a Revelações. 8. 23). 198-202. portanto. manter informados os estrangeiros sobre movimentos socialistas que se desenvolveram na Alemanha e informar os alemães na Alemanha sobre o progresso do socialismo na França e na Inglaterra.. Já Moses Hess tinha publicado uma espécie da catecismo comunista em 21 e 28 de dezembro no Vorwärts de Paris.23 radical emancipação social e política das classes operárias” (in: Mehring. é renunciar à forma catequista e tomar como título: Manifesto Comunista. K.. II. o que o diferencia da antiga classe trabalhadora. op. coleção Ciccotti. Misturo a tudo isso muitas coisas secundárias e. Molitor aos apêndices do Manifesto. R J. crises e conseqüências. existente na sede do 191 Drury Lane. Proudhon. desenvolvimento da oposição entre proletariado e burguesia. “Em todo caso não se tratava de um simples comitê de literatura e de edição”. 20.. Ao contrário. High Holborn.. 12. op.. a política do Partido Comunista na medida em que se pode expor diante do público” (vide a nota preliminar de J.“Organizei uma correspondência regular com os comunistas e socialistas alemães.. como na Alemanha em geral — os imigrantes alemães — resenha política e social”. Este é o passo que o movimento social deve dar na sua forma de expressão literária para libertar-se da limitação nacional” (Carta de Marx a Proudhon.. 11. o nome de Comitê Comunista de Correspondência (Kommunistisches Korrespondenz Komitee). Vide: Marx. Introduction historique au Manifeste Communiste. “Introdução”. 17. 9. 86 e ss. cit. 19. cit. “História da Liga dos Comunistas”.. I. para a sua organização. desvalorizando completamente a Liga dos Justos que não nomeia. Certamente o nome é revolucionariamente significativo. de Bruxelas em 5 de maio de 1846). K. 87 ss. Editado por Molitor. o motivo da cisão foi a exigência de obediência incondicional a chefes não conhecidos. Riazanov. 16. por último. D. 6. loc. 85). cit. op. que Moll tivesse sua oferta de desenvolver o seu comunismo antigo num manifesto. Cf. porém. In: Pariser Vorwärts. O índice do primeiro número trazia: “Introdução e o plano de emigração do cidadão Cabet — a dieta prussiana e o proletariado na Prússia. do T. (trad. vol.). cit. como da necessidade de tirar a liga das antigas formas e tradições conspiratórias” (vide Rivelazioni. op. como Corresponding Societies. Paris. que respondeu a sete das perguntas feitas pela federação. O objetivo fundamental da nossa correspondência será.. Mehring. mas o Círculo Comunista de Paris o reprovou por intervenção de Engels. ao meu ver. a qual se ocupará seja da discussão de questões científicas. e isto acentua o caráter comunista e proletário. I. como seremos obrigados a recontar mais ou menos a História. p. cit. todavia. cit. sob outro nome”.. Engels. Assim. sobre este está a invocação: Proletarier aller Länder vereinigt Euch!. a tendência comunista proletária vemos somente em Schuster. talvez recordando da Revolução Francesa (Comitês de Correspondência Jacobinos) ou das antigas sociedades revolucionárias inglesas que foram assim em grande parte até o fim do século XVIII. Qual das duas interpretações deveu-se à “tendenciosidade” de Mehring? O que positivimante resulta é a negação de obedecer a chefes desconhecidos. cit. A revista leva de fato a indicação “Probeblatt”. 18. vol. 1929) e a resposta na Correspondance de Proudhon. p. Começo com a pergunta: o que é o comunismo? Depois passo ao proletariado: origens. cit. estabelecer a ligação dos socialistas alemães com os socialistas franceses e ingleses. observa Riazanov (op. J. p. O próprio Engels renunciou depois ao projeto da Profissão de fé e tinha proposto a Marx o Manifesto Comunista numa carta de 24 de novembro de 1847: “. 21. 16. anteposta à obra de Marx. Se a se considera como uma resposta a uma oferta de Marx para participar de um grupo literário de correspondência (Mehring) tem-se um motivo para acolher o relato de Engels. Segundo Mehring (op. F. Contribuirei pouco porque estou sempre ocupado. Em O senhor Vogt. Rivière. 1885.. 7. 15. p. Marx e Engels escolheram. Revelações. 1844. Como é possível. o próprio Mehring afirma que a cisão deveu-se realmente ao fato de que os membros proletários da liga tinham melhor “compreendido os próprios interesses”. Il signor Vogt. na introdução de Friedrich Engels. Molitor. o próprio Hess retomou o projeto e o catecismo. J. para publicar como manifesto da liga.

exponencialmente representadas nas crises comerciais cíclicas. num certo momento. vêm à tona as contradições a ele inerentes. com suas classes e seu antagonismo de classes. instauram-se o capitalismo e a sociedade burguesa. uma seqüência de modos de produção. Foi assim que. . quando a burguesia industrial recebeu o apoio dos operários: as barricadas tomavam conta dos bairros populares onde as bandeiras vermelhas eram entusiasticamente desfraldadas. passaram a entrar em contradição com as relações feudais de propriedade. informando-se com base nos despachos das agências de notícias. surgirá uma associação em que o livre desenvolvimento de cada um será a condição do livre desenvolvimento de todos”. Mesmo assim. com ativa participação do proletariado. que ganhava visibilidade política. cujos 150 anos estão sendo celebrados em todo o mundo. escrevendo em 1850. o curso do desenvolvimento do proletariado. A esse respeito lê-se no Manifesto. Temos aí retratados os acontecimentos políticos franceses de 1830 e. Marx termina a brilhante análise do período compreendido entre fevereiro e junho de 1848 com uma mensagem dialética de esperança acerca da importância política do sangue derramado pelos insurretos de junho. a pedir o seu auxílio. fornece ao proletariado as armas com que este há de combatê-la. “Em lugar da velha sociedade burguesa. o proletariado. o triunfo certamente seria alcançado quando a massa inteira dos operários agisse em uníssono e com coesão. a disciplina e a habilidade militar dos operários. mais tarde. presente no sistema capitalista e nos que o antecederam. como a de superprodução. em continuação: Em todas essas batalhas a burguesia vê-se obrigada a apelar para o proletariado. Impõe-se. a fim de realizar a ruptura radical com as relações tradicionais. pois a Revolução de Fevereiro na França ainda estava por acontecer quando o Manifesto era redigido e começava a ser impresso. uma época de longo refluxo revolucionário. pois se encontrava na Alemanha. lê-se. como fora o feudalismo. abre o processo do desaparecimento dos antagonismos de classe — e das classes em geral. derrubar a hegemonia burguesa. Assim ocorreu realmente em fevereiro de 1848 na França. de muitos modos. a conquista revolucionária do poder pelo proletariado. em benefício da imensa maioria.24 O MANIFESTO EM 1848 E HOJE Paula Beiguelman O Manifesto Comunista foi escrito numa conjuntura de efervescência social. Elogiando a bravura heróica. Ou seja. com aquelas partes da própria burguesia cujos interesses se tornaram contrários ao progresso da indústria”. que corresponde a instauração do sistema econômico capitalista? Em resposta a essa questão é construída. O proletariado se educava — e reivindicava. que faz parte da obra As lutas de classes na França. Ocorrem. Engels observava que a Revolução de Junho era a primeira que dividia verdadeiramente a sociedade em dois grandes campos inimigos representados pela Paris-Leste e Paris-Oeste. Engels nota que. a arrastá-lo para a arena política. cada um deles. com a correlata luta de classes. se apesar de serem 40 mil lutando contra um inimigo quatro vezes mais numeroso só por um triz não conquistaram a vitória. O texto luminoso contém uma indagação fundamental: como se estabeleceu o domínio da burguesia. engendrando o subseqüente. a propriedade privada burguesa. cobrindo os acontecimentos de junho para o periódico que fundara com Marx e escrevendo quase na própria ocasião em que ocorriam os combates de rua. no esplêndido estilo dos seus autores. torná-lo classe dirigente. quando parte da riqueza produzida é periodicamente destruída. O sistema capitalista é portanto vulnerável. como é sabido. por isso. O objetivo dela é abolir o modo de apropriação vigente. As últimas palavras desse estudo. Nem a derrota desanima. dá ao proletariado os seus elementos de educação geral e política. só assim pode ser eliminada. que ao mesmo tempo que se liberam as potencialidades produtivas do novo modo de produção. A própria burguesia. organizar o proletariado. De início com a aristocracia. depois do seu desenvolvimento. em outras palavras. são: “E nós bradamos: A revolução está morta! Viva a revolução!” E voltemos ao Manifesto Comunista. Engels. com a correspondente apropriação dos instrumentos de produção e a liquidação das relações de produção vigentes. Mas sua vulnerabilidade essencial consiste no fato de haver produzido a classe trabalhadora moderna. violentamente reprimida. os de 1848. Marx e Engels plantavam o alicerce do socialismo científico. a burguesia passa a fustigar o proletariado até levá-lo à insurreição de junho do mesmo ano de 1848. No Manifesto lê-se: “Os conflitos entre classes da velha sociedade apressam. pois. porém. Contudo iniciava-se. mas de elaborar uma teoria estreitamente vinculada à concomitante ação proletária. operar a conquista do poder político pelo proletariado. Não se tratava apenas de conclamar à luta. Por isso. única classe realmente revolucionária. as forças produtivas já desenvolvidas dentro do próprio sistema econômico no qual se baseava a sociedade feudal. Na mesma passagem do Manifesto. uma vez no poder. A burguesia está envolvida numa batalha permanente. premonitoriamente. Operada a ruptura. Só assim a exploração de uma parte da sociedade por outra. num raciocínio dialético. Com o Manifesto.

17/4/1998. monumental. 2) Desregulamentação liberal — suprimir qualquer defesa ou proteção. a “flexibilização” suprimindo-se direitos historicamente conquistados. no caso brasileiro (como em outros) se traduz em visitas freqüentes para inspecionar o Plano Econômico. do Alasca à Patagônia. . o sistema. por meio das chamadas privatizações. observe-se ainda: que. dentro da investida contra os Estados nacionais e sua soberania. dentro da frenética busca de competitividade. Por esse acordo. no exercício de uma ingerência espantosa que só um governo títere ou consular pode admitir. caso seja implementado. Marx a realizou n‟O Capital. a confirmação sobre a natureza das contradições que minam o sistema. {O Estado de S. na marcha para a implantação plena do neoliberalismo e da globalização. genocida: há que diminuir o número de bocas a serem assistidas. um mercado. em oportunidade de vibrante convocação à luta. nacional ou social. através de uma demonstração irrefutável. Os slogans atuais para a abertura completa ao imperialismo são: 1) Um mundo. Que a celebração dos 150 anos do Manifesto se constitua. qualquer que seja a importância estratégica do setor. sejam elas de crianças ou de idosos.) Para finalizar. no jornal O Estado de S. é uma aceleração do processo de concentração e contração da economia. reduzindo-se inclusive a produção de alimentos. como certamente ocorrerá. que retira qualquer vestígio de freio às atividades do capital. A nova ordem. A ordem é proceder à predatória desregulamentação da economia. Estaríamos gastando demais. em detrimento dos respectivos povos e em benefício das corporações e do capital especulativo. por exemplo. contraposta à progressiva concentração dos meios de produção num número cada vez menor de mãos privadas. ou seja. aspectos apresentados no Manifesto em linhas gerais e em síntese. ou de pessoas de qualquer idade! Genocida e delinqüente no sentido estrito. Paulo lê-se uma notícia cujo título é o seguinte: “Gasto com Saúde desagrada ao FMI”. A propósito. associada a uma anexação econômica semelhante à que vitimou o México pelo Nafta (Acordo de Livre Comércio da América do Norte). que aprofunda em detalhe e com rigor. O resultado. no presente. associado a um brutal desemprego das massas trabalhadoras. o avanço tecnológico se associa à retratação da economia. Em conseqüência. o esmagamento total das economias nacionais. Com esse trabalho gigantesco. já colocou em pauta. a fim de tentar escapar do declínio inevitável. Paulo. o Acordo Multilateral de Investimentos. paralelamente se processa a corrida do capital financeiro. a abertura predatória plena dos nossos mercados nacionais. a fundamental diz respeito à socialização do trabalho. É por isso que. o proletariado ganhava. como dissemos. o capitalismo se tornou malthusiano. ou melhor dizendo. e com ela a certeza de ter a História a seu favor. sem barreiras. como a nossa Vale do Rio Doce. Dessas contradições. e também à desregulamentação das relações no trabalho. É o caso da pretendida Alca (Área de Livre Comércio das Américas) um mercado único. para a apropriação espúria e escusa de ativos reais importantes. intensificar-se-á. O neoliberalismo e a globalização — pois é disso que falamos — constituem a resposta do sistema ao profundo aguçamento da crise característica da atual etapa do capitalismo monopolista. pelos vínculos extensos com o narcotráfico — mais uma face da barbárie instaurada.25 A tarefa de formular a teoria do sistema capitalista. Não podemos esquecer de mencionar o monitoramento estreito do Fundo Monetário Internacional que. sob os auspícios da Organização Mundial do Comércio (OMC). à qual dedicaria sua vida.

intervieram no seu estilo. Nos anos dourados do capitalismo — como lhes chama Eric Hobsbawm — as décadas de 50 e 60. de Lenin a Fidel. Na maior parte dos casos não se tratou de homenagens sinceras. o Manifesto Comunista não poderia dar resposta a situações que se produziram no desenvolvimento da História. agora. desencadeou nova metamorfose do capitalismo. as palavras de abertura do Manifesto Comunista conservam atualidade num contexto histórico muito diferente. vigilantes. Os analistas burgueses do Manifesto que hoje pretendem atribuir-lhe objetivos que ele jamais teve demonstram que nada entendem de marxismo.26 O MANIFESTO COMUNISTA E O MUNDO DE HOJE Miguel Urbano Rodrigues Anda um espectro pela Europa. em meios de comunicação que. O Manifesto Comunista expôs uma lúcida visão da História e trouxe a milhões de revolucionários ensinamentos muito valiosos. a estabilidade do emprego. A partir de 1973. Temos a prova desse medo no fato. Os mecanismos de exploração mantiveram-se.. só na União Européia — a poderosa máquina difusora do pensamento único promoveu no mundo uma gigantesca campanha de perversão ideológica. terem também comemorado os 150 anos do Manifesto com suplementos especiais e páginas inteiras. Margaret Thatcher foi pioneira do Estado Mínimo embora a expressão tivesse sido popularizada por Reagan. Mas não estabeleceu um calendário. laissez passer foi arquivado como obsoleto e o Estado capitalista passou a intervir maciçamente na economia. controlados pelo capital. aos eletrodomésticos. a quantos se mantêm fiéis ao projeto comunista. como árbitro ativo. jornalistas. A ofensiva. A própria palavra Manifesto foi tema de debate. o comunismo. . O objetivo era perverso: forjar um imaginário abismo entre Marx e os marxistas do fim do século XX. mas a revolução. assistiu-se a um endurecimento brutal nas relações entre o capital e o trabalho. Este não pretendia ser um exercício de futurologia. O Manifesto limitou-se a prever que o capitalismo seguiria a sua marcha trituradora até desaparecer. As teses ultra-liberais do austríaco Friedrich Hayek que haviam permanecido engavetadas desde a publicação de seu livro O caminho da servidão. opor Marx aos seus continuadores. paradoxal. sendo uma necessidade. os grandes da mídia. homens de negócios. Assumiu o papel que antes lhe era negado como fonte criadora de emprego. Mas Marx e Engels não podiam evidentemente prever que após a Revolução Russa de outubro de 1917 o capitalismo. pouco a pouco. Obviamente. de um pouco por todo o mundo. paralela e simultânea contra o chamado Estado de bem-estar social desencadeada em escala mundial. para sobreviver a grande crise de 1923/30 iria reformar-se contra sua própria lógica aparente. o espectro do comunismo. LA Todos os poderes da velha Europa se aliaram para uma caçada a esse espectro. Conforme salientou Pierre Bourdieu. Sob certos aspectos o mundo tomou-se mais cruel do que era então. tomaram-se de repente a bíblia dos neoliberais. A ofensiva adquiriu proporções mundiais. não fixou datas. Entretanto. Em tempo brevíssimo. Mas nos Estados Unidos.. do Collége de France. quebrando-as. mais distante. um trabalho constante foi empreendido. o 13° e o 14° salários.” Transcorridos 150 anos. Dos países industrializados passou ao Terceiro Mundo e. o neoliberalismo ortodoxo foi erigido em catecismo do capital. onde quer que encontrou resistências. Cabe recordar que o texto foi impresso na Inglaterra pouco antes da Revolução de Fevereiro de 1848 na França. mesmo após a desintegração da União Soviética e a reimplantação ali do capitalismo — esse fantasma continua a assustar os responsáveis pelo desgoverno do mundo. aos benefícios da previdência (escassos nos Estados Unidos) criaram a ilusão de que o capitalismo reformado se humanizava. na Inglaterra. Na Europa e nos Estados Unidos o acesso ao automóvel. parece. Marx e Engels foram incumbidos em 1847 pela Liga dos Comunistas — uma associação secreta alemã que depois se tornou internacional — de redigir um programa simultaneamente teórico e prático — um guia para a ação revolucionária na Europa. Não é correto afirmar que o capitalismo não evoluiu de acordo com as previsões do Manifesto. Foi essa a primeira metamorfose do sistema. contrapor o Manifesto às lutas atuais pela colimação dos seus ideais revolucionários. de riqueza. o FMI e o Banco Mundial. o que por si só confere atualidade aos ideais comunistas proclamados no Manifesto. Em poucos anos assistiu-se a uma concentração brutal do capital nas mãos de uma minoria cada vez mais rica enquanto a situação dos assalariados se degradava e a percentagem de pobres aumentava de maneira alarmante. prólogo de rupturas que iriam estender-se a quase toda Europa. E cumpriram a tarefa. foi o complemento natural e indispensável da estratégia neoliberal. As causas dos grandes movimentos revolucionários do século XIX não desapareceram. na França o liberalismo tradicional do laissez faire. e por economistas da Escola de Chicago. A crise do petróleo ao provocar uma revisão estratégica. associando intelectuais. inspirada nas teses de lorde Keynes. as lutas sociais no mundo industrializado atenuaram-se com as grandes conquistas realizadas pelos trabalhadores. seu discípulo aplicado. A sacralização do mercado foi acompanhada pela política de privatizações selvagens. Como a lógica do sistema gerava um desemprego elevadíssimo — 20 milhões atualmente. o fantasma. à casa própria. ou seja. se impuseram como tendo legitimidade para dar força de evidência a uma visão neoliberal que no essencial veste de racionalização econômica os pressupostos mais clássicos do pensamento conservador de todos os tempos e todos os países.

Responsabilizar o marxismo pelo fracasso do socialismo na União Soviética é uma atitude tão pouco inteligente como a daqueles que responsabilizam a receita quando o pudim se queima no forno. Análises que considerem essas questões são hoje fundamentais porque uma sociedade alternativa não brota magicamente do espaço. que a sociedade capitalista está pondo em crise as relações de produção criadas pelo próprio sistema. Aquilo que divide hoje os espíritos progressistas em todo o mundo não é a rejeição do pensamento único. A erradicação do comunismo e a implantação do consumismo foram. com a máquina digital e robótica? De que maneira a introdução das novas tecnologias no processo de trabalho afeta as relações técnicas e sociais de produção. defensora da irracionalidade. pergunto. Marx partiu de um conhecimento científico da Revolução Industrial para a formulação das suas análises e conclusões. por exemplo. Enunciou uma verdade. labirinto sem centro. o capitalismo prosseguiu a sua marcha sórdida para se apoderar do valor criado pelo trabalho humano que continuou a ser subtraído aos trabalhadores. o Estado. ampliado e realizado da maneira mais dramática. aparecem mascaradas de progressistas. muitíssimo mais complexa do que a dos meados do século XIX. esteja já a assumir aspectos antropofágicos. nos está envenenando a alma e nos está a deixar sem mundo. quando procuramos respostas à velha pergunta de Lenin: que fazer? É aqui que entra Marx. Penso que todos estamos de acordo com as belas metáforas de Galeano e sua conclusão. Porventura conhecemos minimamente o funcionamento daquilo que o sociólogo espanhol Manuel Castells chama a sociedade informacional. abrangente e lúcido como o de Marx sobre a sociedade industrial para compreendermos a nossa época. temos respostas satisfatórias para as conseqüências a curto prazo do funcionamento de um mercado sacralizado onde somente o jogo especulativo do dinheiro no mercado de divisas representa 50 vezes o valor do comércio mundial? Porventura temos alguma idéia sobre a maneira de parar engrenagens financeiras como as que mergulharam alguns países da Ásia Oriental numa crise cujos efeitos já começaram a afetar o conjunto da humanidade? A subalternização da produção e o agigantamento da especulação. enquanto o mundo. confirmaremos. A sociedade informacional gerou uma globalização imperial incompatível com a globalização humanista que responde à vocação do homem. se formos capazes de abstrair daquilo a que nos possa conduzir a interpretação dos fatos concretos que temos perante nós. Os opositores são fustigados como gente arcaica. numa evolução inquietante. O projeto neoliberal é apresentado como humanista e renovador e as suas teses. . sobretudo nos países industrializados. O roubo manteve-se. que devemos recordá-lo e meditar sobre o Manifesto e os seus ensinamentos. também confunde a natureza com a paisagem. se o fizermos sem preconceitos. as relações de distribuição e consumo? Que modificações sofreram tanto o proletariado como a burguesia numa era em que o conhecimento passa a representar um elemento fundamental das forças produtivas? Para onde caminha a atual globalização e quais as suas conseqüências? Quais os elementos que podem constituir uma base objetiva potencial para a transformação deste modo de produção? Estas perguntas não são minhas. é aquele que está aniquilando o corpo. Acredito que o instrumental científico de Marx será de enorme utilidade nessa tarefa. a da democracia. não dispomos ainda de um estudo tão rigoroso. Sugere-se que o Estado é vocacionalmente inimigo do homem moderno e que o mercado sem controle algum responde às aspirações mais espontâneas e nobres do homem.27 Perante o controle quase absoluto do sistema mediático pelo grande capital. Não vamos baixar os braços pelo fato de o capitalismo na sua mais perigosa versão — a neoliberal — ter alcançado uma vitória temporal que erigiu os Estados Unidos em polícia do mundo. o processamento e a transmissão da informação se convertem em fontes fundamentais da produtividade e do poder devido às novas condições tecnológicas surgidas neste período histórico? A resposta é negativa. Ao relermos o Manifesto Comunista hoje. isto é. Eduardo Galeano. ao segundo. ao extremo de que. Foram formuladas pela chilena Marta Harnecker num livro fascinante que acaba de publicar em Havana: Haciendo posible lo imposible — La izquierda en el umbral del Siglo XXI Porventura. com o mercado a colocar-se acima dos Estados permite que o capitalismo. o mercado. O mundo — repito — mudou efetivamente muito. fundado na exploração do próximo e na aniquilação da natureza. o conceito de mais-valia. Obviamente que o mundo mudou e as classes sociais não são hoje. o companheiro de Fidel que foi ministro da Cultura do seu país. se dedica a romper o seu próprio céu”. numa conferência internacional sobre ecologia e espiritualidade emitiu o seguinte desabafo: Este sistema de vida que se oferece como paraíso. verificamos que ele não só elaborou a melhor descrição da sociedade do seu tempo como nos deixou um legado que conserva atualidade. mas endosso-as integralmente. ou seja a forma novíssima e específica de organização social em que a geração. um êxito. Não dispomos sequer de uma análise global que nos habilite a compreender o capitalismo da revolução eletrônico-informática. como operação. criou-se uma situação aberrante que inverte os papéis. terá de surgir das potencialidades emergentes daquela em que vivemos no final do milênio. é associada a idéia de tirania. Conforme nos lembra o cubano Armando Hart. conceito central da análise criativa do capitalismo em Marx. As nossas dificuldades principiam quando entramos no debate em torno da alternativa. as que ele tão bem soube analisar e retratar. Nem vamos confundir a Revolução de Outubro com os erros e perversões que contribuíram para a trágica destruição da União Soviética. Ao primeiro. o crescimento com o desenvolvimento e o grandote com a grandeza. Marx lembra-nos que o motor da História desde tempos remotos foi sempre a luta de classes. Entretanto. Como se modifica. profundamente reacionárias. E conclui: “a civilização que confunde o relógio com o tempo. mas o doente está a morrer.

Itália. A intensidade e a profundidade do debate sobre a globalização imperial — creio que a expressão foi cunhada por Fidel — e as conseqüências dramáticas da irracionalidade de um mercado sem controle confirmam que tanto na Europa como na América Latina a mobilização para lutas de novo tipo é acompanhada de uma conscientização sobre a importância da teoria. não há revolução. são esclarecedores do emprego da metodologia marxista por analistas da Casa Branca e do Pentágono. Não sou pessimista. sobretudo naqueles países em que a esquerda tem grandes tradições de luta como França. uma lição esquecida: lembra-nos que o grande desafio. Estou convicto de que o conhecimento das nossas mazelas e insuficiências e o debate sobre as mesmas contribui para a melhora do nosso trabalho e a elevação do nível da luta contra o grande inimigo. egoísmo. Mas pode-se dizer que o processo ainda vai no adro. Sem teoria revolucionária. o desafio eterno que os homens enfrentam para mudar a História. é sempre a transformação do impossível em possível. Essa tarefa primordial e prioritária foi durante muitos anos subalternizada pelos intelectuais revolucionários. desprezo pelos direitos dos povos e falta de ética nas relações internacionais só encontra precedente na que o Terceiro Reich desenvolveu. . o capitalismo neoliberal e a política imperial da potência que se apresenta como seu porta-voz — uma política que pela sua ambição.. Penso ser dramaticamente urgente a revalorização da teoria.28 É melancólico reconhecê-lo. já dizia Lenin. O Manifesto Comunista encerra. Um dia sairemos do atual pântano neoliberal em que o Estado que menos respeita os direitos humanos. quando se organizam coletivamente. Marx aponta-nos o caminho no Manifesto Comunista. nomeadamente no que se refere ao papel dos militares na política e a questões conceituais sobre o Estado e a democracia. Na Europa estão para ser dados os primeiros passos nesse sentido. O marxismo não é estático. Parágrafos do Documento de Santa Fé. Felizmente está a ocorrer uma reação salutar. Se fosse — como alguns admitiram após a morte de Lenin e sobretudo na época de Brejnev — não seria uma ciência. Portugal. mas não chegamos sequer a uma globalização das nossas lutas contra as conseqüências das estratégias neoliberais. Julgo oportuno sublinhar que o imperialismo tem dedicado ao marxismo uma atenção que quase nos tem passado despercebida. Não temos programa. A ciência da História — e quero enfatizar que Marx foi também um grande historiador — entrou em crise na União Soviética precisamente porque pretenderam oficializá-la. se exibe como protetor da humanidade por ele desprezada e agredida como guardião do mercado. Temos de criar tudo a partir de uma situação extremamente desfavorável. A própria idéia da revolução aparece como impossibilidade quase absoluta quando não estão criadas as condições mínimas que levam mais tarde a grandes rupturas que mudam o rumo da História. Isso não acontece apenas hoje. não temos teoria.. Grécia e Espanha. Ora os dogmas são a antítese do pensamento científico criador. entre muitas. breviário de uma estratégia que tantos males causou na América Latina. sempre foi assim.

Sobre o futuro. com a natureza. aliás. A reação imediata de quem o lê pela primeira vez é indagar-se sobre o que fazer para mudar o mundo. A lógica interna da desigualdade. ao abordar o “sesquicentenário da publicação deste pequeno panfleto”. ele é a expressão de uma época otimista. o apelo à ação política pesa fortemente e esse é um dos seus encantos. apenas dúvidas. José Rainha. marginalidade. muito mais válida hoje do que no final do século XIX. não tendo desaparecido o objeto de análise de Marx e Engels — o modo de produção capitalista — e tendo. o escrito político individual mais influente desde a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. por isso. os riscos ecológicos e a “dissolução de valores estáveis”. a dignidade ética da revolução. levaram-nos à compreensão de que o proletariado crescia e de que seria a verdadeira e única força revolucionária capaz de liquidar o “comitê executivo” da burguesia. a conquista da democracia”. surgido novas formas de exploração. Aliás. É que o advento da chamada “sociedade informática” trouxe consigo a falsa idéia de que só valem as informações do momento presente e isso provocou uma mudança drástica na forma de encarar o passado. e a “primeira fase da revolução operária” deveria consistir na “elevação do proletariado a classe dominante.5 Depoimentos como esses demonstram que a crítica radical ao capitalismo. a apresentação de um caminho para essa reconciliação final. o ressurgimento dos nacionalismos. da dignidade das atividades ligadas à produção e reprodução da vida. a mensagem de igualdade permanece em pauta. A inserção de Marx e de Engels nessas lutas e polêmicas teóricas. A perda de referência histórica é um dos fenômenos de nossa época. somada aos seus estudos sobre o capitalismo. colocam-nos em face de um cenário incerto. segundo palavras de Hobsbawm. o Estado capitalista. da Revolução Francesa”. é mais atual do que nunca. ao mesmo tempo. de tal forma que. pobreza. utopias e ações políticas de uma classe operária que ensaiava as primeiras iniciativas contra o poder burguês já em fase de consolidação. “De todas as classes que hoje em dia se opõem à burguesia. a pergunta sobre a atualidade de um texto escrito há 150 anos pode soar como questão ociosa. Ao tempo em que o Manifesto foi redigido havia a expectativa da eclosão de movimentos anticapitalistas. isto já estava expresso na famosa tese sobre Feuerbach com a reivindicação de Marx de uma atitude dos homens que fosse além da mera interpretação do mundo. ele ganhou o estatuto de valor perene: é um patrimônio vivo do pensamento político que resiste ao passar do tempo. Que eles fossem irmãos ou parentes.29 O MANIFESTO COMUNISTA: UM PANFLETO ATUAL Marisa Bittar Amarílio Ferreira Júnior No momento em que vivemos o triunfo do efêmero e da aparência e os efeitos da revolução técnico-científica que se manifestam. o Estado socialista. Essas coisas vinham à minha cabeça. exortaram o proletariado à sua organização como classe para si. como todo texto clássico. induz a uma práxis não se constituindo. 2) A ética.3 Para a concretização de tal fim. Aliás. Mas em 1848 não era assim. eis a resposta: o Manifesto do Partido Comunista.4 A mensagem de igualdade também não passou despercebida pelo líder do Movimento dos Sem-Terra. encontramo-nos mergulhados em profunda crise. em seus aspectos gerais. quase com certeza e de longe. para ele era necessário também a sua transformação. num materialismo contemplativo. aliadas aos fenômenos da exclusão. A esperança de que o proletariado completaria o ciclo revolucionário desencadeado em 1789. tanto é verdade que o momento era de grande agitação revolucionária na Europa.2 afirmaram eles. no lugar das certezas que tínhamos há dez anos. por se tratar de um manifesto. Porque tinha muito a ver uma coisa com a outra”. desenraizamento cultural de milhões de pessoas no mundo. só o proletariado é uma classe verdadeiramente revolucionária”. 3) O caráter visionário do Manifesto. pode parecer absurdo que haja atualidade numa obra que comemora 150 anos. Lembremo-nos de que o documento havia sido encomendado “ao cidadão Marx” em novembro de 1847 pela Liga dos Comunistas. exploração desenfreada e dominação unilateral que Marx e Engels analisaram em 1848 atingiu o ápice neste final de século. para a maioria das pessoas. que é o socialismo como maneira de construir o comunismo para todos. expondo a sua essência fundamental. O fim do desemprego cíclico. ou seja. estava presente no pensamento de Marx e de Engels quando escreveram o belo e memorável texto. É quase impossível lê-lo sem que se sinta impelido a tomar partido: a força do texto reside no impacto que causa ao oferecer uma explicação global da História e uma crítica radical do capitalismo. o colapso da União Soviética. redigido em fevereiro de 1848. A propósito. Ele apresenta um sonho. Entretanto. para instaurar a radicalidade democrática. isto é. contida no Manifesto. o historiador Eric Hobsbawm afirmou que ele “é. uma sociedade secreta revolucionária . derrotando a burguesia. como resgate da vida do trabalhador. na enorme velocidade com que as informações são veiculadas. enfatizando a importância da educação política como elemento mediador da prática revolucionária. a construção de uma humanidade reconciliada consigo mesma. A propósito. Em primeiro lugar. tanto que o Manifesto Comunista nos fala não apenas de uma revolução específica mas anuncia a emergência de um período revolucionário. Por isso. entre outros aspectos. assim expressou-se o frei Leonardo Boff sobre os três pontos que o impactaram na primeira leitura: 1) A força da perspectiva dos oprimidos e também a beleza retórica e denunciatória dessa perspectiva. que relata: “Eu lia muito a Bíblia e pensei: esse Marx deve ter sido um amigo de Jesus Cristo.1 Em segundo lugar. A idéia expressa no Manifesto de uma sociedade burguesa destruindo todos os velhos valores tradicionais parece. ao comemorarmos os seus 150 anos. Época prenhe de sonhos. portanto.

Marx dependia unicamente do desenvolvimento intelectual da classe operária.6 Mas a liga não precisou ser tão drástica: no prazo previsto a tarefa destinada aos dois jovens comunistas estava realizada. Isso sem falar do desemprego que joga nas ruas milhões de trabalhadores em todo o mundo. tomar-se-iam “medidas contra ele”. cuja relevância no curso do capitalismo já havia sido notada por ele. O proletariado não cresceu nem se pauperizou na proporção prevista pelos autores. Mesmo porque. ela mantém as mais primitivas. 150 anos após a conclamação veemente expressa na palavra de ordem Proletários de todo o mundo. Tal fenômeno apenas confirma a interpretação contida no Manifesto segundo a qual “a burguesia não pode existir sem revolucionar incessantemente os instrumentos de produção. por conseguinte. é tal que.14 A chamada “globalização”. assumindo funções novas e papéis múltiplos. em 1850. já sem o parceiro Marx. o qual deveria resultar da unidade da ação e da discussão”. Eles também previram que as contradições fundamentais do modo de produção capitalista levariam a uma simplificação dos antagonismos de classe a dois pólos: burguesia e proletariado. Engels quisesse chamar a atenção para o papel não realizado pela classe operária ao lembrar que “para o triunfo decisivo das idéias formuladas pelo Manifesto. Depois. o proletariado não apenas se multiplica.. estão ainda em formação. de um lado. Leandro Konder. Ora. Em vez da união de operários em fábricas. O poder da burguesia. que criou um Estado mais complexo. A propósito. intitulada “Burgueses e proletários”. e os capitalistas e latifundiários. forças para um “novo assalto ao poder das classes dirigentes” e foram forçados “a limitar-se a uma luta pela conquista de espaços políticos”.9 O que ocorreu foi o fato de que as contradições presentes no capitalismo ao tempo de Marx e Engels não levaram o sistema à morte. A questão sobre a qual é necessário nos debruçar. da superestimação da maturidade revolucionária do proletariado”8. principalmente se levarmos em consideração o crescimento do setor terciário da economia. escreveram Marx e Engels. a onda de revoluções eclodiu. no Prefácio à edição inglesa de 1888. Todavia. inclusive. constata “o aparecimento de grupos instáveis e camadas de difícil definição. de outro — se assenta. ao lado das formas mais avançadas de produção.7 Em 1937. que escreveram: “Com o desenvolvimento da indústria. uni-vos!. de um lado. está mostrando a capacidade da burguesia no sentido apontado pelo Manifesto. Mas tal não aconteceu por conta do desenvolvimento do capitalismo no século XX. a contar de então. já existentes à época de Marx. Engels voltou ao tema. então. A “globalização”. temos hoje trabalhadores amedrontados pelo desemprego e talvez com menor “força” e “consciência” política do que imaginaram Marx e Engels. Alguns entendem que as fronteiras nacionais parecem estar se dissolvendo à medida que as mercadorias e informações se movem livremente. observando que a partir da derrota da insurreição parisiense de 1848 — a primeira grande batalha entre o proletariado e a burguesia — as aspirações sociais e políticas do operariado europeu passaram para “um segundo plano”. os dois autores reconheceram que a perspectiva da continuação do processo revolucionário estava inviabilizada pela retomada da prosperidade industrial. o que alguns economistas já estão chamando de “novo capitalismo”. ao homenagear os 90 anos do Manifesto e analisar os seus pontos problemáticos. observou que o economista inglês se esquecia de que “o aumento constante das classes médias — que estão entre os operários. as relações de produção. a par de haver causado a redução quantitativa do proletariado. a despeito das crises mundiais do capitalismo.13 eis o final profético da primeira parte do Manifesto Comunista. com isso. em Bruxelas. como os acontecimentos indicavam a explosão revolucionária. num processo incessante de substituição do . então.. comprime-se em massas cada vez maiores. na obra As lutas de classe na França. novas camadas sociais emergiram. os operários não reuniam. com todo o seu peso sobre a base trabalhadora e aumenta a segurança social e o poder dos 10 mil de cima”. como se previa. sem que se concretizasse o sonho socialista de “assalto ao poder” que colocaria fim ao Estado burguês. e. Essas mudanças. todas as relações sociais”. cresceram e tiveram aumentada a sua inserção no cenário político de nossa época. a revolução de 1848 era de cunho democrático-burguesa. polemizando com Ricardo. deparamo-nos com um panorama diverso do previsto para o século da Revolução Industrial. que morrera em 1883. Num excerto extraído das Teorias sobre a mais-valia. sua força cresce e ele adquire maior consciência dela”. é essa: onde estão os seus “coveiros”? Dito de outra forma: quem são os atores sociais que “empunharão as armas” contra o domínio do poder burguês globalizado? Esses atores. a burguesia não arregimentou “os homens que manejarão as armas” que desferirão o golpe mortal no capitalismo. concluiu que “o erro de Marx e Engels a respeito dos prazos históricos decorria. “forjou as armas que lhe trarão a morte e produziu os homens que empunharão essas armas — o proletariado (. Hoje. da subestimação das possibilidades posteriores do capitalismo e. a análise que nos cabe fazer passa pela constatação de que. o sentimento dos comunistas era de urgência: eles chegaram a enviar uma advertência impaciente a Marx. Leon Trotski.11 De fato. que nunca desistiu de fazer do “governo moderno” um “comitê para gerir” os seus próprios “negócios”. é contra as imensas maiorias e se faz em benefício de mais concentração de riquezas. como a exploração do trabalho infantil e o trabalho escravo em várias partes do mundo. na Alemanha. a presença dessas classes é cada vez maior. o sistema ainda dá sinais de força: hoje a fusão de megaempresas estrangeiras anuncia. ao analisar o fenômeno. onde o Manifesto Comunista teve mais influência. Assim. podemos dizer que estamos à procura dos “coveiros” que sepultarão o capitalismo. Para ele. que repercutem na sociedade e influenciam a vida política e cultural”. Outras. comunicando que se o Manifesto não chegasse a Londres antes do dia 1o de fevereiro de 1848. devido às profundas e rápidas transformações do modo de produção capitalista. É o caso das classes médias urbanas.) a burguesia produz seus próprios coveiros: seu declínio e a vitória do proletariado são inevitáveis”. E.12 Assim. apesar do termo. que nada mais é do que o reinado do capital financeiro. proliferando entre o proletariado e a burguesia. Talvez no Prefácio a que nos referimos. de outro.10 Todavia. Entretanto. mas de pouca expressão.30 fundada por artífices alemães em Paris. A burguesia.

ou seja. Boitempo Editorial. No caso brasileiro. a dos partidos social-democratas da época de Marx e Engels. Ocorrerá o mesmo entre burgueses e proletários? A solidez de “burgueses e proletários” se “desmanchará no ar” no processo revolucionário que dará passagem à próxima formação social? Este hipotético desfecho para a luta de classes entre burgueses e proletários guarda simetria com a própria concepção de História formulada por Marx e Engels. 109. Ibidem. centrada na necessidade constante de uma “análise concreta da situação concreta”.). 5/4/92. p. em decorrência da derrocada do chamado “socialismo real”. 164.15 Assim. inconformado com o uso vulgar e não-dialético que a nova geração de marxistas vinha dando ao materialismo histórico. 125. Lisboa: Edição “Avante!” & Moscou: Edições Progresso. 456. “Prefácio à edição inglesa de 1888”. 2. Op. a centralidade da questão da terra para a conquista de uma verdadeira democracia. 16. Karl. Boitempo Editorial. Engels. 1982. 5. do tipo daquela que se inaugurou com a Revolução Industrial do século XIX. Karl. Folha de S. Marx. Karl. Ibidem. São Paulo. Ibidem. p. pôr fim à lógica histórica da luta de classes. Friedrich. 6. Manifesto do Partido Comunista. O processo social de substituição do proletariado fabril por outros tipos de protagonistas do largo espectro dos explorados ainda não está totalmente definido. quando a classe operária era o centro das manifestações anti-capitalistas. In: Fernandes. São Paulo. Konder. 1998. I. Paulo. 13. p. 1/2/98. Engels. 1982. Se os “coveiros da burguesia” não são mais pura e simplesmente os operários fabris. Marx. Aqui reside o seu nó górdio. 9. O dilema hoje vivido pelas esquerdas tem origem nas profundas transformações que as atuais relações capitalistas de produção foram capazes de engendrar na estrutura de classes. Osvaldo. contudo. 15. p. 1998. 8. a pergunta que se coloca é: quem será o seu sucedâneo e quanto tempo será necessário para a sua gestação? Essa pergunta conduz a uma reflexão de igual magnitude e complexidade histórica. São Paulo. Schmidt. deram lugar a novos atores sociais que estabeleceram um outro tipo de organização societária sem. coloca em relevo os milhões de despossuídos que hoje ocupam o cenário político. p. In: Coggiola. 4. por outros protagonistas sociais que não são produtos genuínos da sociedade urbano-industrial. p. Sobre história. cit. 5 de agosto de 1890”. Osvaldo (Org. 114. Friedrich. Obras escolhidas. In: Idem. p. Edição “Avante!” — Moscou. na expressão de um partido que o dirigisse à revolução socialista. Obras escolhidas. lembramos que o próprio Engels. Leonardo. In: Idem. p. Manifesto do Partido Comunista. Nos anos 90 o capitalismo brasileiro produziu uma radicalidade da manifestação desse fenômeno. In: Coggiola. Engels. provocou o surgimento de novos grupos e camadas sociais.. 1983. p. Karl. Osvaldo (Org. 14. p. São Paulo. Friedrich. 7. Manifesto Comunista. Folha de S. é o declínio dos históricos partidos comunistas cuja matriz residia no marxismo da Segunda Internacional. Lisboa. 4. Marx. Difel.. Teorias sobre a mais-valia. Manifesto Comunista. “Carta a C. p. Friedrich. “90 anos do Manifesto Comunista”. Boitempo Editorial. 12. t. 1998. 09. Com isso queremos dizer que não é o apego a dogmas que dará a resposta para os difíceis desafios que ora enfrentamos nas lutas sociais destinadas à construção de uma sociedade “na qual o livre desenvolvimento de cada um é a condição para o livre desenvolvimento de todos”. Florestan (Org. Edições Progresso. 76. São Paulo. no entanto.31 trabalho vivo pelo trabalho mecânico. Engels. Eric J. A classe operária fabril está sendo forçada a deixar o palco da luta de classes ser ocupado. 1998. Aquelas estruturas de classes.). A perspectiva apontada ali estava em consonância com a expectativa do crescimento e da pauperização do proletariado e da sua necessidade de organizar-se enquanto classe para si. 117. acima de tudo. no sentido preconizado por Marx e Engels. p. Mais!. Paulo. In: Coggiola. Rainha Jr. São Paulo. que se autodenominava “o segundo violino”. t.). além de novas formas de organização e manifestação políticas diferentes daquelas previstas no Manifesto Comunista. “O dia em que eu li o Manifesto”. tais como os sem-terra no Brasil e os zapatistas no México. 490. “Introdução”. 11. “O que será do marxismo no século XXI?”. “O dia em que eu li o Manifesto”. Hobsbawm. ibidem. 75. Companhia das Letras. . São Paulo. 124. Friedrich. José. Coggiola. São Paulo. 1/2/98. em termos da validade e do alcance dos pressupostos marxistas para a contemporaneidade. advertia: “Nossa concepção de História é. p. p. Os modos de produção escravista e feudal foram superados sem que houvesse um vencedor na luta de classes entre escravos/senhores e servos/nobres. I. 10. Ática. 4. p. um guia de estudo. paulatinamente. Paulo. 1989. e não um guindaste de construção a hegelianismo”. 294. 116. Assistimos atualmente a complexa e contraditória manifestação social dos explorados num conjunto muito variado de organizações político-culturais. p. Marx. Marx-Engels: história. Leandro. fundadas no antagonismo. Trotski. Folha de S. Boff. Osvaldo (Org. São Paulo. Mais!. diferentemente das décadas de 70 e 80.). Mais!. Leon. Engels. Manifesto Comunista. O que verificamos hoje. 5.16 NOTAS: 1. 3.

numa relação que os exclui reciprocamente mas os reúne. que os proletariza. Marx e Engels afirmam. para descrever o processo de supressão da propriedade do pequeno-burguês e do pequeno agricultor pelo capital industrial. Mais adiante. em que a negação ainda conserva o outro como referência do que foi ultrapassado. ele pode ser considerado como um programa da teoria desenvolvida por Marx a seguir. Aqui a diferença é estabelecida pela relação. ou seja. sendo desta também excluído. seus objetivos e caráter. já à primeira vista.2 Aceitando essa sugestão. convertese numa simples diferença. O Manifesto inicia com uma das proposições mais conhecidas e importantes do materialismo histórico: “a história de toda a sociedade até hoje é a história das lutas de classes”. burguesia e proletariado. o caráter de sua luta. é o modo lúcido e sucinto com que nele são apresentadas as principais teses da concepção materialista da História de Marx e Engels. da relação de trabalho industrial. portanto. o trabalho cria propriedade para outro.1 devido ao desenvolvimento histórico do capitalismo e do movimento operário. mas também por seu método. Do mesmo modo. ou seja. transformando a diversidade de classes típica das sociedades pré-capitalistas na oposição burguesa de duas classes. além de um programa político. transformando sua posição social externa à relação industrial em uma posição determinada por essa relação.32 O MANIFESTO COMUNISTA: MÉTODO DO PROGRAMA E PROGRAMA DO MÉTODO Jorge Grespan No prefácio da edição de 1872 do Manifesto Comunista. o caráter de um “documento histórico” ao qual não seria mais o caso de “acrescentar alguma coisa”.5 Em primeiro lugar. Precisamente isso. resultante da transformação contínua das outras classes nessas duas. Enquanto que no outro caso. esta segunda parte do Manifesto utiliza “suprimir” para caracterizar a incompreensão dos objetivos . na terceira parte do Manifesto. Com isso. que Marx cuidadosamente distinga.3 Segue-se a ela uma enumeração dessas classes que. discutindo seu método e. ao apresentar o projeto revolucionário em forma de polêmica contra objeções burguesas. o que desse modo é dito. De fato. para evitar sua eliminação enquanto classe pela grande indústria. porém. portanto.4 Aqui o crucial é como se define a diferença: as classes médias — pequenos artesão. ainda segundo seus autores. o texto descreve o processo de “simplificação” que nela ocorre como uma cisão cada vez mais profunda do todo social em apenas duas classes. anuncia algumas das preocupações centrais da futura “crítica da economia política”. pois é a relação entre os conceitos que aí define e desdobra as significações mais complexas e instigantes. E isso não apenas por seu conteúdo. a fazer uma reconstituição dessas relações conceituais do texto. enfrentando-se. nesse sentido. opondo-se mutuamente. na segunda parte do Manifesto. comerciantes e agricultores — também lutam contra a burguesia. Referiam-se. pois. Daí o texto conservar sempre. Encontram-se aí algumas de suas idéias mais conhecidas. especialmente da proletarização sofrida pela antiga pequena burguesia. empregando o primeiro. Por isso. e isso ocorre porque. O tecido amplamente diferenciado de outras sociedades. a aspectos específicos de seu conteúdo. Examinemos mais detalhadamente. uma leitura do Manifesto Comunista atenta somente ao conteúdo de suas proposições seria unilateral e empobrecedora. a diferença nega mas também define afirmativamente. estrategicamente situado no ponto de inflexão entre as reflexões de juventude e a obra de maturidade de Marx. que se determina enquanto classe pela relação de trabalho com o capital. O que mais chama a atenção na leitura do Manifesto Comunista. ou a definição da luta de classes como o motor da História. porém. o método não deve ser objeto de uma análise que o destaque e autonomize. como sabemos. pretendo concentrar-me aqui na análise desse “documento”. Essas classes se relacionam a ele talvez só indiretamente. o Manifesto sintetiza os resultados alcançados até 1848 e. que não determina o que é o outro termo. permite a Marx e Engels o julgamento do projeto revolucionário das outras classes: elas “surgem e sucumbem com a grande indústria. beneficiando-se ou não da acumulação de riquezas e da expansão do mercado geradas pela indústria. colocando os dois termos como diferentes um para o outro. que seu texto já naquela altura havia “envelhecido [veraltet] em alguns pontos”. a variedade dos grupos que nelas conviviam. eles mesmos. que antecipa em muitos aspectos a dialética de O Capital. pois à expressão “luta de classes” corresponde a “oposição de classes”. É esse processo de despojamento que define a diferença entre burgueses e trabalhadores assalariados e que atua também para proletarizar as classes médias. o proletariado é seu próprio produto”. ressalta-se o enfrentamento. a explicação do desenvolvimento histórico pela tensão entre as forças produtivas e as relações de produção. ao mesmo tempo. Proponho-me aqui. Num caso. os verbos “suprimir” (abschaffen) e “superar” (aufheben). a diferença se constitui por uma negação que simplesmente exclui ou suprime a classe social em questão. É sintomático. sendo a mera exclusão a definição de sua diferença para com a burguesia. sem dúvida. como afirma o Manifesto. ao caracterizar a sociedade burguesa. tentando avaliar até que ponto elas preparam a forma de apresentação da obra posterior. como a determinação da vida intelectual e cultural pela base econômica. à recíproca negação de uma classe pela outra. que se constitui como “produto” da indústria. o assalariado é despojado da propriedade dos meios de produção. apesar de breve. contudo. sendo dele excluído. “cria capital. que elas não querem integrá-lo diretamente e desaparecer nele. evidentemente. Inseparavelmente ligado ao seu conteúdo. por exemplo. É justamente essa distinção crucial da sociedade burguesa que. mas para salvar-se da proletarização. Elas se excluem. ao contrário do verbo “superar”. por fim. como acabamos de ver. mas não ao conjunto de idéias por eles expostas. é extremamente reveladora de como seus autores definiam tal luta. pela exposição geral do materialismo histórico que ele realiza. a propriedade que explora o trabalho assalariado”. evidencia que elas são estranhas ao processo industrial. em que uma classe está diante da outra. Trata-se de uma diferença que apenas nega. Por isso. É distinto o caso do proletariado. o trabalho do proletário não cria propriedade para ele.

Deve ser mencionada como exemplo a objeção burguesa à “supressão” da propriedade privada. portanto. que compõe a totalidade da qual o trabalho é apenas uma parte. e não é o que o outro é. O conceito de oposição. E com a instituição do mercado como o lugar social exclusivo em que se realiza a mensuração. Controlando a capacidade de medir-se. novamente nas palavras de Marx. o eterno movimento e a incerteza distingue a época burguesa de todas as anteriores. sendo.6 justamente isso. de universalização e de concentração do capital. em que os adversários contra quem Marx e Engels polemizam pensam que os comunistas querem “suprimir” relações sociais e instituições burguesas. E o capital se configura. um todo formado por capital constante e capital variável. Daí a oscilação de todo o texto em contrapor ao proletariado ora a burguesia. É suficientemente conhecida de todos nós a dialética materialista entre relações de produção e forças produtivas. de modo a ser “uma mercadoria. numa palavra. mas a inclusão é assimétrica. O progresso da indústria repousa. as ligações afetivas e permeadas pela hierarquia do mérito e da honra desaparecem. conforme outra passagem: “não há senão instrumentos de trabalho. porque a permanência do domínio de classe burguês pressupõe seu oposto. A dignidade. assim. É assim que tendem a desaparecer os vínculos sociais típicos do feudalismo e da ordem aristocrática. em verdadeiro escravo. por ser comprado por este no mercado. Opera-se. pois a propriedade comunista terá na forma privada uma referência negativa a partir da qual ela mesma se constituirá. dessa maneira. convertendo-o em miserável.10 A necessidade. “na sociedade burguesa o trabalho vivo é apenas um meio para incrementar o trabalho acumulado”. O mesmo procedimento é adotado nas outras objeções hipotéticas. assim definida. e o é. o raciocínio de seus autores é coerente com a lógica da oposição. Alguns dos parágrafos mais interessantes do Manifesto tratam justamente desse processo de acumulação do capital e de mundialização dos mercados. como dirá Marx posteriormente em O Capital. pelo mercado. por outro lado. outra das mais famosas e controvertidas afirmações do Manifesto: o progresso da indústria. incluído em sua órbita. Em primeiro lugar. isto é. diante . O que me interessa destacar. com seu cortejo de imagens e concepções consagradas. Por esse raciocínio. A exclusão é recíproca. dispensando-se uma repetição. porque ao trabalhador despojado da propriedade de meios de produção.33 comunistas por seus adversários. de seu progresso. ao contrário. Nas palavras do Manifesto: a revolução contínua da produção. são as considerações de Marx e Engels sobre o processo de expansão. como um todo constituído por “trabalho acumulado” e “trabalho vivo”. Marx e Engels chegam a prever a gradativa pauperização do proletariado. de aperfeiçoar sempre os meios e métodos de produção leva a permanentes alterações das formas de organização e. Por ser um programa político.]. só resta vender sua energia laboriosa para o burguês. Também aqui tudo se apresenta dialeticamente. quando de fato o verbo “superar” é geralmente o mais adequado para compreender o seu projeto. em outro trecho. a comoção ininterrupta de todas as condições sociais. o trabalho converte-se em instrumento do capital. Mas seus autores mesmos dizem “a burguesia. “reduzido a dignidade pessoal a valor de troca”. possível porque todas as barreiras sociais e nacionais são “superadas” pela força do valor de troca. como qualquer outro artigo de comércio”. objeto de “cálculo” e de “pagamento”. cada termo é o que o outro não é. o trabalho assalariado é “produto” da indústria. o capital não encontra limites externos para sua tendência a expandir-se e a revolucionar os meios e técnicas da produção. todas as recém-formadas envelhecem antes de ossificar. todo o sagrado é profanado[. que tem o sentido de permitir a medida. Todas as diferenças qualitativas — da cultura e do direito — mais uma vez se dissolvem e reduzem à quantidade mensurável.13 É o capital e não a burguesia. também de outras relações sociais resistentes à lógica do capital. portanto. faz com que ele possa ser empregado pelo capital. faria com que ela piorasse ainda mais. mas negativamente — o trabalho é a nãopropriedade e a propriedade é o não-trabalho. só o trabalho é meio para o incremento do capital. ao invés de também melhorar a vida do trabalhador. Todas as relações tenazmente enrijecidas. pois na medida em que a inclusão é assimétrica. Nesse todo. a modificação constante das condições que garantem esse domínio. e que até a expansão militar se torna secundária. o desenvolvimento das forças produtivas. de forma que a hegemonia burguesa teria. excluindo-o. Com a instituição do mercado. impulsionando. da coerção ao trabalho pela força. o trabalho é incluído como parte do capital. contudo. mas “superá-la”. transformando-se em relações de “pagamento”. Assim.. porém. em “meio” para a finalidade de “incrementar” seus lucros. admitem ser a burguesia “o portador [ou representante — Träger] involuntário e incapaz de reação do progresso industrial”. Os aspectos qualitativos que distinguem os homens e suas relações se reduzem todos a valor de troca. substituídos pela racionalidade do mercado. uma mudança no tipo de raciocínio. uma verdadeira transformação da qualidade em quantidade. que caracteriza a relação de produção burguesa de modo a permitir a contínua e exclusiva apropriação de riquezas pelos proprietários dos meios de produção. e “superar” como a forma correta de expressar suas metas. isto é.. o Manifesto deve referir-se a classes e agentes sociais. alcançam-se as condições para uma autonomização dessas relações face a seus agentes. cujo custo varia de acordo com a idade ou o sexo”. É a oposição. por outro lado.11 Aqui é possível perceber. respondida por Marx e Engels já com a mera troca de palavra para “superação”: o programa revolucionário não pretende simplesmente “suprimir” a propriedade privada. o capital”12 e. a algo homogêneo e mensurável em dinheiro. a inclusão do trabalho no capital depende da exclusão do trabalho pelo capital. com isso.9 Deixando de lado a controvérsia sobre esse tema. Ou melhor. como pensam os burgueses. imposta pela concorrência intercapitalista. possui no Manifesto um significado ainda mais rico e preciso. no entanto. Todo o estamental e estancado se esfuma. se ele é por um lado excluído da propriedade dos meios de produção. como vimos antes. presididas pelo “interesse nu” e pelo “cálculo egoísta”. são dissolvidas. ou. Em outras palavras. O capital não é um meio para a melhoria da vida do proletário. pois só o trabalho se inclui como parte do capital.7 Ou ainda. apresentando sempre a burguesia como o oponente dos comunistas.8 Ao ser comprado “como qualquer artigo de comércio”. num movimento dialético que define a oposição entre os dois termos: eles se definem um pelo outro. na simultânea inclusão e exclusão do trabalho assalariado pelo capital. evidentemente. por seu turno. De acordo com uma das citações anteriores. a burguesia descobre que não há necessidade da violência feudal. excluído de seus frutos. ora o capital.

a adotar o modo de produção da burguesia. a substância de que se constitui o capital. de fato.34 da força do capital: “os preços baixos de suas mercadorias são a artilharia pesada. demasiados meios de vida. ele é uma tendência inerente ao capital que. porém. Ou. cujo elemento destrutivo se manifestará novamente no futuro. está presente a idéia central de que é a expansão e concentração do capital que permite a expansão e unificação do movimento de reação contra ele. porque o trabalhador vende seu trabalho ao burguês numa relação jurídica. sujeito de direitos políticos.15 A burguesia. ao excluir de si o que ele mesmo inclui.17 Em outras palavras. reconhecendo-se em todas as partes. situação que prepara. significa em geral cidadão. o proletariado só encontra emprego “enquanto seu trabalho acrescenta o capital”. é o de tornar-se efetivamente o que ele é apenas de modo ainda potencial: a verdadeira totalidade da produção social.16 O excesso surge porque as quantidades produzidas extravasam sua medida. vista sob a ótica da oposição no começo deste texto. com a qual todas as Muralhas da China são derrubadas. enquanto trabalho acumulado nos meios de produção. entretanto. Como dizem os autores do Manifesto: “na sociedade burguesa o trabalho vivo é apenas um meio para aumentar o trabalho acumulado. se não querem sucumbir. com a qual se obriga mesmo a xenofobia mais teimosa dos bárbaros à capitulação”. isto é. Bürger (burguês). o capital é valor que se valoriza. demasiada indústria. ele é excluído. preocupados nesse momento com a elaboração do materialismo histórico. é o aspecto quantitativo da expansão das forças produtivas que se refere ao aspecto qualitativo das relações sociais de produção. mais do que de mercadorias: nestes momentos “a sociedade possui demasiada civilização. A burguesia produz. o capital exclui do consumo de seus produtos uma grande parte da população mundial. “a condição do capital é o trabalho assalariado”. Isso acontece porque o trabalho está incluído no capital. No argumento de Marx e Engels. Antecipando a versão refinada de O Capital. idéia fundamental no desenvolvimento posterior da obra econômica de Marx. Em toda a descrição do fortalecimento da luta do proletariado contra a burguesia. posto de outra forma. definindo-se a medida como a expressão da quantidade na qualidade. Se as condições burguesas são adotadas no mundo inteiro. apenas do ponto de vista formal. É preciso lembrar. seus próprios coveiros”. é a situação em que a qualidade não mais expressa a quantidade: é a desmedida. do valor. É o final do longo processo de inclusão. como a solução prática para a crise não consegue eliminar a oposição constitutiva da sociedade burguesa. cria um mundo para si. numa contradição clara com a finalidade do capital. Por outro lado. demasiado comércio”. o capital se acumula e expande pelo mundo.14 Mediante a constante transformação da qualidade em quantidade. como. Revela-se. em que as diferenças se dissolveriam na homogeneidade do valor de troca. que nesse modo de produção a inclusão se determina dialeticamente através da exclusão. o capital está. inverte-se a ordem de . o avesso da sua acumulação e do seu alargamento de horizontes: sobrevêm as crises. exclui-se de si mesmo. E já no Manifesto. o capital entra em oposição a si mesmo. Esse final aparente esconde. na grande identidade burguesa. ou seja.20 O trabalho cria valor e. se universaliza. limitando para si próprio seu mercado. e diminui os meios de evitá-las”. isto é. o trabalho cria. que Marx operou sobre a palavra “burguês”: na língua alemã. caracterizadas já pelo Manifesto como “periódicas”. negando a si próprio. o que se amplia é sua oposição ao capital. Marx inaugura uma nova acepção para o burguês. ao negar o que simultaneamente afirma. Outra saída é a retomada da expansão. por outro lado. contratual. pois estes dependem da exclusão da propriedade. remodeladas à sua imagem e semelhança. nem por isso se universalizam. Para superar suas crises. antes de mais nada. portanto. de sua exclusão da propriedade e dos direitos civis que ela traz consigo. só formalmente a sociedade civil universaliza seus direitos e condições. Na crise. podendo traduzir-se a expressão bürgerliche Gesellschaft também por sociedade civil. da inflexão semântica. Sua oposição ao trabalho assalariado aparece. contraria a ordem necessária para a acumulação de capital e ameaça sua própria existência. numa teoria subconsumista que muitos acreditam ser também a de Marx.19 Ou ainda. E fica clara a proposição do Manifesto: “com o desenvolvimento da grande indústria. nas palavras de Marx e Engels. E esse último raciocínio recoloca a questão da relação entre capital e trabalho. assim.21 Nessa inversão do meio e da finalidade. então. que ocupa o final da primeira parte do Manifesto. ocorre um incremento das forças produtivas para além das potencialidades inerentes às relações de produção burguesas. ao demonstrar que a cidadania moderna repousa sobre a propriedade privada. Tal expansão do capital só é possível pela reprodução crescente das condições de despojamento do proletariado. deve-se notar que. substancial. portanto. enriquecer. Na sociedade comunista. a superprodução é definida como excesso de forças produtivas. é tirado de sob os pés da burguesia a própria base sobre a qual ela produz e se apropria do produto. promover o processo de vida do trabalhador”. Dessa maneira. constrangendo-as a introduzir a chamada Civilização. a sociedade burguesa é forçada a destruir o que está em excesso. na formulação precisa que Marx adotará mais tarde. a medida daquelas. nesse ponto. A desmedida se determina porque divergem e se opõem o mensurado — as forças produtivas — e o mensurador — as relações de produção. com a conquista de novos mercados. que é precisamente a referência para se caracterizar o excesso. como contradição. De certa forma. já claramente explicadas no Manifesto como resultado da superprodução. sendo essas. como prossegue o texto anterior: “obriga todas as nações. assim. A universalidade do capital corresponde à expansão também do despojamento sobre o qual ele se baseia. ou. de valorizar sempre o valor existente. “crises mais violentas e multilaterais. A crise é a nãocorrespondência entre as forças produtivas e as relações de produção. que passa a ser também o proprietário. Se o trabalho é formalmente apenas uma parte da totalidade composta pelo capital. entretanto. Devido a esse caráter dialético de sua força expansiva. como foi dito. em outro trecho. ampliando suas bases junto com as desse último. é só uma parte. comparado por Marx e Engels a uma “súbita barbárie”. Porém. Esse estado. por outro lado ele é que integra em si o todo real. a fazerem-se burgueses”. “suprimindo” forças produtivas. de que o capital. o trabalho acumulado é apenas um meio para ampliar. excluindo a si de si próprio. a superprodução não é apenas de mercadorias que não se consegue vender. O sentido da luta do proletariado. a nova etapa de expansão se realiza através de uma inclusão ainda determinada pela exclusão.18 A inclusão do trabalho no capital se dá. então.

p.35 inclusão do trabalho como parte ou meio do capital e do capital. 2. 476. só pode ser elaborado dessa forma. p. ibidem. v. Idem. Friedrich. Manifest der Kommunistischen Partei. In: Marx-Engels Werke. porém. Idem. e sim social. como parte ou meio do trabalho elevado à condição de totalidade. Dietz Verlag. 472. Idem. NOTAS: 1. 5. do trabalho acumulado. O meio agora são os instrumentos de produção. 573-574. ou melhor. Um manifesto comunista. a base real da dialética materialista. 4. ibidem. Idem. Mas essa nova relação não recria as condições de exclusão que definem a sociedade burguesa. Karl e Engels. ibidem. p. ibidem. Até chegar esse momento. p. A inclusão não depende mais da exclusão. p. 462. 1959. Marx. 468. ibidem. excludente. 6. 3. . Idem. ibidem. nesse sentido. Idem. 469. ferreamente comprometida com sua origem. Berlin. 7. Principalmente por isso. contestando a validade eterna e universal das verdades burguesas. 4. 574. ibidem. 8. de modo que desaparecem as oposições de classe. 475. p. esse programa revolucionário expõe também as bases do programa de toda a teoria posterior de Marx. a dialética aparece como a única forma de análise de uma sociedade marcada por tais oposições. se pretende ser o que Marx e Engels idealizaram para ele: uma peça básica na luta intelectual que expressa a luta real entre “opressores e oprimidos”. Idem. p. p. cuja propriedade não é mais privada.

conforme os seus fichamentos e comentários (1842-43) de livros sobre o papel das classes sociais na Revolução Francesa. O Manifesto é ele mesmo representativo da noção de práxis: exposição sumária do materialismo histórico. históriasíntese. Marx adquiriu o conceito de luta de classes de historiadores franceses. programa para a ação. Fala-se em gradações ou camadas subordinadas em cada classe. a que mais influenciou o curso posterior dos partidos operários que esposaram a teoria de Marx e Engels. a tese gerando sua antítese. O Manifesto permite engatar o passado. enquanto cânone de interpretação histórica. pelo vigor analítico e literário. o Manifesto Comunista. o presente e o futuro imediato. Marx e Engels chegaram por vias diferentes a compreender a importância do proletariado na sociedade capitalista. eles se debruçaram sobre a sociedade de sua época e reconstruíram a evolução histórica do capitalismo à luz dos conhecimentos existentes na primeira metade do século XIX. Engels o fez com seus estudos empíricos sobre os trabalhadores de Manchester e outras cidades inglesas. mas a sua influência sobre Marx é tema ainda controvertido. não só para aqueles que são adeptos da teoria marxista. Entretanto. . constituindo-se. sem perder o tom ao mesmo tempo didático e prospectivo. Por outro lado. Trata-se do estudo mais sistemático sobre o papel do proletariado na s o c i e d a d e industrial. unindo julgamentos científicos e postulados éticos. que os autores iniciam a obra.36 O MANIFESTO COMUNISTA E O PROLETARIADO NO SÉCULO XIX Lincoln Secco Redigido e publicado em 1848.3 A práxis era. também se desenvolve — a classe de trabalhadores que só vive se encontra trabalho. em principal obra do marxismo clássico. Além disso. anteriormente anunciada. o capital. Enfim. portanto.5 Outros autores que trataram da questão do proletariado. mostra a relação proporcional entre o desenvolvimento do proletariado e da burguesia: “Na proporção em que a burguesia. o Manifesto foi um documento destinado à intervenção política imediata. o Manifesto não deriva diretamente a classe trabalhadora das condições de produção. embora se admita que o capitalismo tenha simplificado economicamente os antagonismos de classes. É. como se aquela fosse epifenômeno destas. com inegável atualidade. Ambos já haviam considerado imprescindível juntar suas críticas teóricas à sociedade capitalista com um movimento político-prático que visasse a transformação concreta dessa sociedade.4 O PROLETARIADO NO MANIFESTO A primeira parte do Manifesto chama-se “burgueses e proletários”. que justificam a hipótese teórica. a atualidade não pode ser dissociada daquilo que é eminentemente histórico na obra. em A situação da classe trabalhadora na Inglaterra (1845). o Manifesto sobreviveu. e só encontra trabalho na medida em que este incrementa o capital”. um documento de divulgação da teoria comunista. tiveram influência menor do que o crítico Lorenz von Stein. A contemporaneidade do Manifesto reside no fato de que sintetiza os fundamentos da concepção sociológica e histórica de Marx e Engels.6 A referência inicial do Manifesto à “moderna classe trabalhadora” já traz a lume duas idéias correlacionadas e essenciais. sobre os quais não terá nenhum controle: “Mas não somente a burguesia forjou as armas que representam sua morte. Há a mediação da consciência. lições metodológicas de grande importância. é um documento “datado”.7 A segunda idéia. o feiticeiro libertando “poderes infernais”. como os românticos alemães Adam Müller e Franz von Baader. daquela maneira mais odiada pela “historiografia oficial”. portanto. guia para a compreensão das contradições básicas da sociedade. proposta de um “partido político” destinada a convencer todos os partidos operários da Europa a cumprirem os dois postulados fundamentais da conjuntura: organização dos trabalhadores como classe e realização de uma revolução social para destruir violentamente a sociedade burguesa. que “podia ser lido e memorizado por qualquer operário europeu medianamente culto” da época. isto é. quando este propugnava que a filosofia deveria “tornar-se filosofia prática ou antes uma filosofia da atividade prática. Entretanto. de Marx e Engels. o Manifesto deixou. de que toda a História tem sido movida pela luta de classes. exercendo uma influência direta na vida social e revelando o futuro no reino da atividade concreta”. A primeira idéia relaciona dialeticamente o surgimento da burguesia e o do proletariado. Além disso. encarnando perfeitamente a noção de práxis. Captando as determinações básicas da sociedade capitalista. inserido em circunstâncias históricas específicas que não mais se repetiram. capaz de demonstrar como a ascensão histórica da ordem social competitiva traz em seu íntimo os elementos da sua desagregação. a sociedade não é reduzida a duas classes. se desenvolve. ela também trouxe à vida os homens que manejarão essas armas — a moderna classe trabalhadora — os proletários”. autor do livro O socialismo e o comunismo da França atual (1842).1 sendo a mais editada e lida. na mesma medida o proletariado. a moderna classe trabalhadora. Marx e Engels não estudaram um objeto teórico e abstrato no Manifesto. da práxis. pela formação das classes sociais fundamentais do modo de produção capitalista. elemento já integrante e pedra angular da atividade filosófica e política de Karl Marx e Friedrich Engels.2 O conceito de práxis havia sido desenvolvido por August von Cieszkowski (1838). anterior ao de Engels.

o Partido Agrário polonês. Eram os casos de São Petersburgo. e somente se constituído politicamente em classe. Liverpool e Birmingham eram cidades autenticamente operárias. Assim. seja no mundo da produção material. As cidades industriais desse tamanho eram mais raras. como uma “massa incoerente”. era geralmente a sede político-administrativa de um reino ou império. e é essa posição nuclear e única dos proletários que lhes permite desempenhar um papel mais revolucionário que qualquer outra camada social. Eram grandes. e busca nos proletários uma base de apoio. era uma imposição política da realidade. em 1850. Contra o regime aristocrático. porque é entendida também em sua dinâmica histórica. em nossa língua. da experiência política que a própria burguesia lhe fornece. foi pouco estudada. respectivamente. Numa fase superior. como a história da Liga dos Comunistas (da qual o Manifesto seria.8 a qual só pode se emancipar universalmente. como afirma o Manifesto. avaliadas em duas obras magníficas: a Contribuição para a história da Liga dos Comunistas. Marx e Engels manejam a análise dialética com mestria. que se tornaram centros de produção. qual classe trabalhadora “empírica” Marx e Engels tinham diante dos olhos em 1848. Os autores do Manifesto não trabalham com dois conceitos diferentes de classe: um sociológico. por isso. As palavras finais do Manifesto só poderiam ser. a “formação dos operários em classe”. o programa político). Por isso. seja na arena política. concentra-se em virtude do desenvolvimento industrial (são as condições objetivas necessárias para que tome consciência da sua força). Este é “produzido” e organizado pela fábrica moderna. Manchester. posto que não existem. na definição da natureza do futuro governo dos trabalhadores e “limpando o terreno” das diversas manifestações ideológicas socialistas anteriores. outro. quais eram aqueles “aliados” do proletariado aos quais o Manifesto faz referência. De onde o proletariado retira meios para sua politização? Em primeiro lugar. A grande cidade não era enorme apenas pelo desenvolvimento industrial nela contido. sob os auspícios do Partido Trabalhista britânico. porque o proletariado é uma classe universal. Esse chamado se dirige aos trabalhadores do mundo inteiro. A figura histórica do proletariado. que concentra muitos operários num exército industrial. nos estreitos limites de espaço desse artigo. em 1800. não pode ser a vanguarda revolucionária proposta por Marx e Engels. radicais suíços. Viena e Berlim. ou seja. o proletariado organiza-se em classe “e conseqüentemente em partido político”. poderia ser essa: o que era a classe trabalhadora na Europa (e até certo ponto também nos Estados Unidos) em meados do século XIX? Considerá-la como produto da revolução industrial. Na sua formação. unindo as condicionantes objetivas e subjetivas do proletariado. ou tinha razões históricas para ter crescido. Deixaremos de lado outras questões relevantes da obra. o Manifesto não se detém no esboço histórico inicial. e a famosa introdução que Harold Laski preparou para a edição comemorativa do centenário do Manifesto Comunista. Em seguida. proposta na parte final. Mas se não se torna consciente de seus interesses históricos e nem se organiza politicamente. mas ele também se autoproduz e é “recrutado em todas as classes da população”. acostumadas à rigorosa delimitação de seus campos de saber. um chamamento à ação. mas tinham menos que a metade da população de Paris ou ¼ da de Londres. que tinham. avançando em medidas práticas de uma possível revolução proletária. A cidade industrial européia e norte-americana era de tamanho médio (Barmen. escrita por F. era mais do que uma preferência teórica dos autores do Manifesto. O Manifesto define que “o movimento proletário é o movimento consciente da imensa maioria. a classe trabalhadora é uma processualidade.9 A terceira questão. suas populações variavam de 242 a quase 400 mil habitantes. populações que variavam de 71 a 82 mil habitantes. Engels. supostamente. as diversas organizações de oposição na Alemanha e os reformadores agrários nos Estados Unidos. a burguesia vê-se obrigada a defender a ampliação da democracia e do sufrágio. A primeira pergunta. mas em nenhum lugar constituíam a maioria da população. a análise das correntes socialistas da época (nem sempre justa. diga-se en passant) e a política de alianças. que são a fração mais resoluta do movimento proletário. Também alguns elementos das classes dirigentes que foram proletarizados fornecem condições de educação e progresso ao proletariado. tem uma força centrípeta de aglutinar outros interesses sociais. cidade de Engels. A classe trabalhadora é o mesmo ente social. econômico. esta há muito com . e o que significava dizer que os proletários deviam estabelecer-se em “partido político”. O PROLETARIADO E OS “PARTIDOS” NO SÉCULO XIX Para dar substância a algumas das proposições teórico-políticas apresentadas na seção anterior. Só o cartismo inglês é mais conhecido entre nós. Os operários de fábrica eram realmente numerosos na Inglaterra. numa abordagem ao mesmo tempo genética e estrutural. emancipando toda a humanidade em todas as partes. uma minoria significativa na França. a partir da sua simples forma de inserção nas relações de produção capitalistas. tinha 75 mil habitantes). em proveito da imensa maioria”. o proletariado passa por uma fase de dispersão. e jamais erigindo uma dominação particular de um novo grupo ou casta. Elas ajudarão a entender. A sua morfologia alia-se com o estudo da sua formação e tendências de natureza política.37 Esses aspectos da obra de Marx e Engels provocam uma dificuldade que se apresenta à sociologia e à ciência econômica acadêmicas. em 1850. Os comunistas. depois do arrazoado teórico e histórico anterior. ao menos três indagações devem ser feitas sobre o substrato histórico do Manifesto. mas também como sujeito da sua própria formação em classe. mas. mas também tinham grande importância política ou cultural e em breve se aproximariam do meio milhão de habitantes. As duas primeiras questões foram. muitos livros que tenham reconstituído a história dos partidos referidos pelo Manifesto em 1848 (Parte IV — “a posição dos comunistas em relação aos vários partidos de oposição”): social-democratas franceses. têm como finalidade imediata a mesma de qualquer partido operário. A classe não é definida em termos estáticos.

de 47. mas é preciso lembrar que a Inglaterra não era o mundo. no início do século XIX. fossem artesãos ou operários. como nós já vimos. que produzia em quantidade sem precedentes. Antes de 1848.11 O fato é que. de apenas 23% da população economicamente ativa. toda a administração pública. cuja tradição revolucionária era mais rica. em 1841. em 1866. Marx não conseguira tornar-se privatdozent na universidade. não se sujeitava ao chanceler. A educação foi relegada à indiferença ou à iniciativa privada (o que no fundo é a mesma coisa) e somente em 1880 a instrução primária tornou-se obrigatória em todo o Reino Unido. desenvolvendo um alto senso de responsabilidade com sua própria educação política. Marx e Engels não poderiam ignorar esse esforço de trabalhadores.5% de camponeses). partidos políticos. com sua natural acuidade. os dois partidos burgueses. o Grande (século XVIII). que partia da sua incipiente compreensão das contradições geradas pela industrialização.8% da população total (um contraste com a França. e cuja recompensa salarial era bem mais modesta que suas ambições. Outra questão de relevo poderia ser assim formulada: quem eram os aliados desses trabalhadores? Essa pergunta só exige uma ponderação marginal para explicar a seguinte frase do Manifesto: “Ademais. era um salto gigantesco que deve ter impressionado os comunistas da época. O que era um partido do proletariado ou de qualquer outra camada social. e certamente não queriam) ser aproveitadas pelo regime político que vigorava na maior parte da Europa: regimes aristocráticos convivendo com economias capitalistas em expansão. com o avanço da indústria. Os autores do Manifesto não eram operários.671. Além disso.12 Suas formações educacionais de altíssimo nível. e depois da geração de notáveis que renovou. a universalização da educação pública era vista com reservas pela aristocracia e pela burguesia. Schapper e Bauer. expressa nos seus sindicatos. formada como partido no Congresso de Gotha. não podiam (mesmo se quisessem. O reform act (1832) ampliou o sufrágio e permitiu que as camadas industriais da burguesia participassem da gestão governamental. ou seja. melhor desenvolvidas pelo enorme talento pessoal. a realmente grande cidade européia. que tinha 74. 10 anos depois.38 uma população acima dos 2 milhões. a preocupação com a educação pública remonta a Frederico. Em 1833. juntamente com a aristocracia. em 1875. foi principalmente através da autoconsciência e auto-educação. as grandes cidades não eram apenas operárias. As biografias de ambos nos permitem dizer que eles eram os mais singulares representantes de um tipo de intelectual desterrado numa sociedade burguesa movediça. recebendo ordens apenas do kaiser. Na Prússia. Na França. Mas uma derradeira pergunta ainda persiste. De toda maneira. burocracia estatal etc. etc. eram meras etiquetas que encobriam disputas locais. o chamado “proletariado” estava ainda repleto de camadas sociais apenas formalmente subordinadas ao capital. conforme demonstrou Thompson. Engels não concluíra nenhum curso superior. a firma Engels & Ermen. se a classe operária de fábrica formou-se no século XVIII e na primeira metade do século XIX. mas não o povo. de antes de 1848. ou ao menos ameaçadas em suas condições de existência. que não eram uma classe extinta. E de . o conservador e o liberal. ainda trabalhavam na agricultura 43% da sua força de trabalho. sociedades de auxílio mútuo. Elas suprem o proletariado com novos elementos de esclarecimento e progresso”. havia uma maioria esmagadora de trabalhadores de algum tipo. embora fosse um eficiente administrador dos negócios da família. Na própria Liga dos Comunistas. nem mesmo representava a realidade européia continental. o crescimento das cidades e. Na Inglaterra. Em cada cinco habitantes londrinos. Muito menos pessoas perfeitamente ajustadas na classe média (burguesia). movimentos religiosos e educativos. espoliado e humilhado. ainda assim eram os junkers que forneciam os “intelectuais” para as carreiras de Estado. agitações públicas. por exemplo. muito mais conhecido do que se tivesse conseguido uma cátedra universitária. nada parecido aos modernos partidos políticos do século XX.14 abrindo postos de trabalho para os “proletários intelectuais” de que costumava falar Marx. os professores. um era empregado doméstico (era esse tipo de gente. os principais líderes eram artesãos afetados pelo desenvolvimento da grande indústria: Moll. instituições educacionais. só adentrava os escolhidos pela nobreza prussiana. enquanto o número de tecelões algodoeiros em teares manuais era de 213 mil. mas de maneira alguma poderíamos encaixar essa maioria numa categoria homogênea. principalmente na França. periódicos. da classe operária. Se tomarmos o caso de Londres. no sentido empregado no Manifesto? Sem dúvida. a participação eleitoral era limitada e os partidos operários que surgissem não poderiam se organizar em função do parlamento. eram associações difusas. com elas.13 Na Inglaterra. cujo modelo pioneiro foi a socialdemocracia alemã. em produzir suficiente número de postos de status adequado para os educados. em massa. são jogadas no proletariado. A participação da agricultura no emprego da força de trabalho inglesa era. e no corpo de oficiais das forças armadas que. incluindo a educação. sem desprezar uma minoria numericamente significativa. profissionais para a burocracia de grandes empresas privadas. para criar uma identidade de interesses materiais e culturais. eles monopolizavam a administração dos condados (até 1891).10 embora a quantidade de pessoas que vivia em áreas rurais ainda fosse. Os partidos da Revolução Francesa (ou clubes) que inspiraram outras organizações posteriores. que receberam Marx e Engels no seu meio político. fosse recorrendo a críticas passadistas ou a ações verdadeiramente destemidas contra o capital. a força de trabalho adulta nas indústrias têxteis era de 191. mas ainda não desenvolvidas suficientemente para agregar e cooptar. como os tradicionais artesãos. Certamente. mas a economia era mais pobre que a inglesa.15 Os aliados do partido do proletariado eram recrutados nessa massa insatisfeita de intelectuais. Era esse proletariado em movimento. muitos intelectuais dedicavam-se à atividade de publicistas revolucionários. resumiu bem o problema: O radicalismo dos intelectuais possuía raízes um pouco menos profundas: tinha sua base largamente (como se descobriu depois) na inabilidade da nova sociedade burguesa. seções inteiras das classes dirigentes. Mesmo na Inglaterra. mesmo à época de Bismarck. muito tempo depois. que temiam o papel da elevação educacional no aumento da contestação social e política da monarquia e do próprio sistema capitalista. como operários de fábrica. Além disso. sem organicidade. Eric Hobsbawm. onde o proletariado era forte e organizado. que Marx chamava de “escravos domésticos”). Tornou-se um jornalista e agitador político radical. stricto sensu.

1994. Avineri. E. p. As duas melhores biografias de Marx e Engels. 1987. Marx. em consensuais no conjunto da sociedade. São Paulo. em cada país. Apud: Bottomore. Pioneira. 1979. 1990. p. 101-111. México. p. São Paulo. 1957. p. A formação da classe operária inglesa. 10. M. Tom. em 1843. Escritos de juventud. K. In: Marx. K. Tom. Mayer. p. Linhagens do Estado absolutista. 500. São Paulo. 9. dos quais surgiram a Crítica da economia política e O Capital. A força da tradição. op. Ática. Ensaios de sociologia geral e aplicada. Carlos Marx. e Engels. Shlomo. Roca. 1988. Vide Marx. a burguesia industrial estava longe de tomar a dianteira. 17. Foi publicada em português pela editora Zahar (3a edição. Thompson. 16. Rio de Janeiro. as duas clássicas: Mehring. O Capital pode ser a mais importante contribuição científica do marxismo clássico. e Mayer. FCE. 1981. 12. nem formavam um partido à parte dessa classe. The Communist Manifesto. o que pensar da maioria da população britânica? Em 1850. Paz e Terra. . México. Brasiliense. p. mas sim política. mas foi muito menos influente sobre a história do movimento socialista e comunista posterior do que o Manifesto. Marx adotou. foram retiradas de Marx. 2. Rubel. In: Bottomore.P. 2. 6. 1996. Paz e Terra. 90. respeitando suas limitações. mediante o domínio político do proletariado. Liga dos Comunistas) que foram publicados. em meio às várias existentes. Karl Marx. subordinando-se à liderança desses partidos (como os próprios autores do Manifesto fizeram em relação aos operários da liga). La ideologia alemana. Friedrich Engels. Londres. mas colaborar com eles. 1989. S. Grijalbo. só havia ligas e seitas revolucionárias. 2a ed. 1960. NOTAS: 1.. De la Liga de los Justos al Partido Comunista. Phoenix. Companhia das Letras. Rio de Janeiro. Sua função não era concorrer com os demais partidos operários. “O proletariado”. 11. Samuel Moore. quatro a cinco vezes maior. sendo que a elite fundiária britânica continuou muito importante até a Grande Guerra de 1914. 2a ed. A era do capital. precisando de unidade de ação contra a força repressiva do Estado. A persistência do Antigo Regime. 3. Fernandes. Anderson. 256. Franz. v. São Paulo. Tinham comando centralizado. Nova Fronteira. México. Landes. F. Não é por outra razão que dizem ser a tarefa primordial dos comunistas apoiar. 14. p. Barcelona.39 qualquer maneira. vanguardistas. Paris. conforme se pode inferir dos poucos documentos da Liga dos Justos (depois. p. Perry. 52 e Marx. p. integrando-se a eles para. 8. p. p. Florestan. invariavelmente excluídos da participação política legal. “Critica de la filosofia del derecho de Hegel”. Fernandes. 3a ed. FCE. In: Escritos de juventud. sem sombra de dúvida. “Marx e o pensamento sociológico moderno”. Rio de Janeiro. Embora seja paradoxal que tivessem escrito o Manifesto sob as ordens do comitê central da Liga dos Comunistas. K. Os próprios estudos de economia política empreendidos por Karl Marx no decênio de 1850. Zahar. K. In: Idem. Kuznets. os autores definem “partido” como o conjunto de trabalhadores que têm consciência dos interesses da sua classe. e Engels. são. Prometeu desacorrentado. ajudarem-nos a elevarem sua compreensão da missão histórica do proletariado: a realização do comunismo. David. ou seja. São Paulo. e Hess. 1982). cit. da qual Engels fizera parte como secretário. Cenit. Entre socialistas e comunistas. Crescimento econômico moderno. 7. p. 15. História. K. 4. entrementes. os movimentos da classe trabalhadora. 15. Karl Marx: essai de biographie intellectuelle. cujos objetivos podiam se tornar. eles se destacavam principalmente pela compreensão mais acurada das contradições sociais e pelo internacionalismo. provavelmente.5 milhões de habitantes. 4a ed. 1973. Gustav. 271. Arno. Hobsbawm. Eric. a vanguarda do proletariado. em classe. cit.. 1932. 350. Marcel Riviere. Os comunistas não eram. o conceito de “classe universal”. op. a Inglaterra possuía 1 milhão de eleitores entre 27. Em A ideologia alemã. 13. Florestan. Vide Marx.17 É preciso notar. 1989. na época de. Marx e Engels. Madri. e não mais do que isso (o ditador plebiscitado Napoleão III). gradualmente. 302).16 Se a burguesia ainda não atingira sozinha o tope. 41. Abril Cultural. mas somente na França um chefe de Estado conseguiu o apoio de quase 8 milhões de eleitores. Rio de Janeiro. 1986. 1987.. em termos políticos. predispostas à ação violenta para instaurar uma nova ordem social. 72. que não é essa organização que Marx e Engels tinham em mente quando se referiam à constituição do proletariado em partido político. Não se trata de um julgamento da sua importância cientifica. 34. F. trad. ele retomou a mesma idéia. Maximilien. F. Esta e todas as demais referências posteriores do Manifesto. As ligas tinham consistência programática e organizacional exatamente porque tinham feição clandestina. 12. O eleitorado norte-americano era. vieram da “necessidade de dar bases teóricas mais sólidas ao programa político estabelecido em o Manifesto Comunista” (Cf. E isso só depois de 1848! Em tal situação não havia partidos organicamente constituídos para disputar o governo. p. 5. Engels.

porque é o resultado conclusivo de um trabalho sistemático. no que consideraram como a especificidade de seu próprio trabalho. constituem a base da história política e intelectual desta mesma época”. de partir da raiz do fenômeno exposto e desdobrar sua própria dinâmica com a convicção de que são o homem e sua própria vida que brotam em uma pintura impressionante. há algum tempo atrás. essa luta encontra-se. Ele o fez nos seguintes termos: a) “que a produção econômica e a diferenciação social entre os homens que. em uma dada época (. A idéia que a ditadura do proletariado corresponde à própria essência do pensamento marxista identifica-se.) surge necessariamente daquela. ou seja. às relações humanas. que a leitura do mesmo deva começar pelo final. obviamente. Nisso consiste a vigência do próprio Manifesto Comunista. da integridade que transborda em sua formidável síntese do movimento da sociedade moderna. a referência ao “amor” carece. em uma época da qual somos. Em se tratando de resumir e expressar a “idéia fundamental” que contém o Manifesto. Não é um manifesto da classe operária como categoria sociológica. assinalar alguns dos elementos constitutivos desta “idéia fundamental” para considerar o conteúdo do Manifesto — esse é o objetivo do presente trabalho. é a afirmação de princípios do proletariado revolucionário que. como resultado de seu caráter radical. deixar claro que. b) “que. Não é algo metafórico porque.. de uma vez por todas. da plenitude que expressa a articulação de seus enfoques de problemas. nada mais. em circunstâncias históricas muito precisas. Um mundo concebido pela revolução ao finalizar a primeira metade do século XIX.. contemporâneos: vivemos na era do capitalismo. neste caso. Do mesmo modo. Trata-se de um conceito que nos parece chave para a compreensão do pensamento marxista e da forma definitiva que se apresenta no Manifesto Comunista. entender porque aqui se . no presente. como é o Manifesto Comunista. Mas. o partido operário. Uma tarefa a que seus autores se lançaram como homens de ciência e como revolucionários. em uma fase na qual a classe explorada e oprimida (o proletariado) não pode emancipar-se da classe exploradora e opressora (a burguesia). cuja lógica essencial descreve-se com admirável simplicidade. seus autores se formaram sob o impacto das enormes transformações surgidas no cenário da revolução burguesa e de suas implicações sociais. se organiza como partido. em princípio. A “IDÉIA FUNDAMENTAL” A força inigualável do Manifesto Comunista é fruto do conjunto da obra. Será possível.. nada menos que um século e meio de uma obra de difusão universal. fins e tendências. conforme a “acusação” que recebeu um breve trabalho sobre o capitalismo e o socialismo deste final de século. a “alienação” não é uma referência vaga às evidências de uma existência social completamente transtornada do homem de nossos dias. políticas e econômicas. consciente e implacável por compreender e assimilar os resultados da teoria e da prática do mundo em que viviam. deve-se entender a fidelidade consciente aos princípios. o que não significa. com a “sensatez”. não existe nenhuma que já não houvesse sido formulada previamente. sinal de que pertence a uma causa que interessa ao melhor do ser humano. Sua originalidade deve ser valorizada. como se sabe. um manifesto autêntico do próprio partido”. ainda. a contar do desaparecimento da propriedade coletiva do solo. pode sugerir uma aproximação “heterodoxa” a um problema clássico do marxismo e pouco de acordo com o caráter rigoroso que merece um artigo dedicado a comemorar. sem emancipar. de seu retrato deslumbrante de um desenvolvimento histórico. a sociedade inteira de toda a exploração. pelo contrário. porque foi Engels quem — 35 anos depois de sua publicação — se ocupou de assinalá-la no prólogo de uma nova edição. a História inteira tem sido uma história de luta de classes exploradas e exploradoras (. além disso. no entanto. É importante. Esse rigor do Manifesto é a conseqüência da evolução de vida de seus autores.) qualquer que fosse o grau de progresso social alcançado por umas e outras” e c) que. Cabe. em conseqüência. a tarefa é muito simples. A própria “índole” do marxismo e desta obra que marca sua maturidade deve ser apreciada como o topo do pensamento e da ação humanas. justamente por isso. ou seja. parece tomar vida o pensamento que “tende a se tornar realidade” (Marx). na medida de sua própria conformação como um programa de ação. e é capaz de confrontar a ação própria e coletiva com a realidade. Para um leitor desavisado. como uma “exposição aberta à consideração de todos os propósitos.1 Por “ortodoxia”. que se opõe à lenda pueril do fantasma comunista. e ao amor. conseqüentemente. quaisquer que sejam as novidades presentes 150 anos após sua publicação. portanto. de toda a opressão e de toda a luta de classes”... como um todo. “finalmente. Pelas características apontadas. tal é a matéria que constitui o “próprio partido”. se tomadas isoladamente as diversas propostas do Manifesto. como antípoda da “alienação” à qual está submetido o homem na sociedade capitalista contemporânea. No Manifesto. Nada nele é improvisado.40 A DITADURA DO PROLETARIADO COMO UM ATO DE SENSATEZ (E UMA REFERÊNCIA AO AMOR) Pablo Rieznik O título deste trabalho requer uma breve explicação inicial. de toda conotação de romantismo resplandecido (mas não necessariamente de romantismo) e vale no título para chamar atenção a uma consideração do próprio Marx relativa ao dinheiro.. a proposta é abordar a questão no contexto de uma “visão ortodoxa”. O leitor poderá encontrar a citação na parte final do texto.

A desvalorização do mundo aumenta em relação direta com o aumento do valor do mundo das coisas (. tanto do ponto de vista biológico como social.. esse estranhamento. Por essa razão. ou seja. quanto mais bens cria. instalou a consciência humana na determinação concreta do mundo real e fez da abstração um instrumento da compreensão teórica para a transformação real e prática do mundo prático e real. e contempla seu próprio reflexo em um mundo que ele construiu”. mas sim ativamente e em um sentido real. conseqüentemente. condicionada por determinações históricas concretas. do mundo real uma abstração. O objeto do trabalho é. para Hegel.6 Estamos na presença. por sua capacidade simbólica e seu produto social. a natureza aparece como sua obra e sua realidade. para evitar todo equívoco ou compreensão sectária. cria e recria — através do trabalho — uma “verdadeira natureza humana”. ao contrário. portanto. o homem forma e transforma a relação original com a natureza em uma relação com suas produções. não desenvolve livremente suas energias . a obra recebe a natureza do configurador. as produções humanas: mediante a configuração. O próprio homem. de dar ao significado de “produção” uma dimensão desprovida de qualificativos desnecessários. ALIENAÇÃO E DESUMANIDADE O “fato contemporâneo”.. trabalha para outro e produz algo que é propriedade de outro. opõe-se a ele como um ser exterior. mediante ela. Por esta razão. então. seu produto.3 A produção do homem é sua vida ativa como espécie. como tal.. O trabalhador toma-se mais pobre na medida em que produz mais riqueza (. em sua forma natural. o mundo do trabalho.. — é alguém com sua atividade vital. definitivamente. mas sim da degradação...) o trabalhador põe sua vida no objeto e sua vida já não lhe pertence. Trata-se. O trabalho não é a vida “objetivada”. no entanto. a objetivação da vida do homem como espécie. verdadeiro — porque é real — como o resultado de seu próprio trabalho”. Se considerarmos o trabalho como o intercâmbio de toda forma de vida com seu meio natural. O homem faz da natureza seu “corpo inorgânico”. o trabalhador na sociedade moderna não vive seu trabalho como o universo da liberdade. o trabalho “é” o homem em sua manifestação real.2 Nessa perspectiva.. o homem sabe produzir de acordo com as normas de toda espécie e sabe aplicar a norma adequada ao objeto (. um poder independente do produtor”.. o verdadeiro e essencial trabalho era o “espiritual” e o mundo apenas uma manifestação da “idéia”. Marx desenvolverá essa concepção: “é em seu trabalho sobre o mundo objetivo que o homem mostra-se realmente como ser genérico”. poucas vezes pontuada. Por esse motivo. O homem. a origem e o ponto de chegada de tudo o que existe.5 Em uma célebre passagem de O Capital se afirma que. experimenta uma sensação de mal-estar mais do que de bem-estar. o absoluto e universal. menos possuirá (. de “completar” o Manifesto com um texto que seus autores elaboraram apenas dois anos depois... uma produção que se auto-realiza. configura seu próprio mundo e seu próprio ser: “o homem é o mundo dos homens”. “O animal — antecipa-se nos Manuscritos. mas sim um meio de vida. A alienação da atividade é a atividade da alienação: o trabalhador não se realiza em seu trabalho.4 É aqui que o discípulo deixa para trás o mestre pois. então. a particularidade do trabalho humano está determinada pela consciência do homem. O trabalho. O TRABALHO E O HOMEM O conceito fundamental de produção “econômica” como base da “história humana” deve ser definido com amplitude. escrito em 1844. Quanto maior for sua atividade. em primeiro lugar.. é um produto que produz. Um produto que se concretiza.) constrói também de acordo com as leis da beleza”. é que a manifestação efetiva. ao “compreender a autoprodução do homem como um processo” e “conceber o homem objetivo. Em segundo lugar. A consciência. então. do trabalhador que carece de toda propriedade que não seja sua própria capacidade para trabalhar. ao contrário. mediante o intercâmbio de suas próprias disposições corporais com as da natureza e sem as quais não se poderia conceber sua existência. porque ele já não se reproduz só intelectualmente como na consciência. o trabalho de quem. Um recurso que lhe permitia resolver suas contradições intelectualmente.41 enfatiza. o “objeto produzido por seu trabalho. Marx. o “homem é livre frente a seu produto”. Popitz destacou o reconhecimento expresso — por parte de Marx — do significado do conceito de trabalho na filosofia hegeliana. visto que. tem uma atividade vital consciente”. do sofrimento. entre a pior construção de um carpinteiro humano e o mais harmônico e perfeito favo da abelha. Hegel fazia. específica. enquanto “os animais constróem somente de acordo com as normas e necessidades da espécie à qual pertencem. O homem é o ser cuja relação com o mundo exterior consiste no fato de que ele deve construir seu próprio mundo. a linguagem. denominado “Circular da Liga dos Comunistas”. real e concreta do trabalho humano apresentase em oposição às determinações que acabamos de pontuar.. essa distância-separação do objeto produzido com relação ao produtor é também a forma na qual se manifesta a própria atividade de trabalho.) o homem faz de sua própria atividade vital um objeto de sua vontade e sua consciência. da desumanidade. em particular. Neste caráter universal da produção humana reside a especificidade de sua espécie e o significado próprio de seu trabalho e atividade vital. histórica. a diferença consiste no fato de que o primeiro pode representá-lo primeiro em sua cabeça. mas sim do trabalho assalariado. se abate.) toma-se uma mercadoria mais barata. igualmente abstrata. mediante o pensamento e a elaboração especulativa. mas sim ao objeto. não do trabalho em geral. foi revelada como a peculiaridade própria que dava ao trabalho seu caráter especificamente humano.) A vida que ele dá ao objeto se lhe opõe como uma força exterior e hostil. Não distingue a atividade de si mesmo (. é o mundo inadequado a seus fins. é um produto. Nos célebres Manuscritos econômico-filosóficos de Paris. a necessidade. É nessa produção que o homem “exterioriza-se”.

um objetivo. apenas algum tempo depois e que. que se revela como impropriamente humana. Com Marx. o destaque deste significado dos Manuscritos.42 mentais e físicas uma vez que se encontra fisicamente exausto e mentalmente abatido (. Por isso é uma vida alienada — a vida não é vida para o trabalhador moderno. política.. dominados pelo “sistema” de Hegel — entrará em contato. O certo é que. mais pobre e desprovido encontra-se em relação à sua própria produção. em uma descrição ad hominem. pode ver — na “alienação — o último elo de ligação de Marx à “filosofia”. Essa é a base do “fato econômico contemporâneo”. O trabalho. ou seja. ou seja.) o conceito de alienação transformou-se no conceito central de toda a teoria de Marx”. só um meio de satisfazer outras necessidades.. e a cuja essência etérea e espiritual havia de remeter-se. no pior sentido da palavra. revela suas raízes nas condições materiais da vida humana. são a primeira síntese integral à qual chega Marx em torno de sua concepção do homem e sua vida. a “alienação” é provada como mutilação do homem de sua “objetividade real”. para entender a dinâmica da história humana... O animal toma-se humano e o humano torna-se animal. consideradas abstratamente — à parte das demais atividades humanas. conseqüentemente. mas sim como sua completa alienação. por um lado. em sua terra natal. relativos ao “trabalho alienado” são o antecedente mais importante para a compreensão da “idéia fundamental” do Manifesto Comunista sobre o lugar determinante que ocupa a “produção econômica”. e apresentar o stakhanovismo e o embrutecido “homem de mármore” como o ideal do trabalhador na sociedade “comunista”. com Marx.. com a obra dos principais expoentes da “economia política”. “Reconhecendo que a chave de toda alienação — religiosa.. o homem sente-se realmente ativo só em suas funções animais — comer. do clima e dos debates da filosofia da época. A oposição entre um e outro Marx — o da juventude e o dos anos maduros. para encobrir as formas do trabalho alienado na própria União Soviética. Desse modo. Mas. mas não lhe pertence aquilo em que trabalha. “o trabalho alienado que tira do homem o objeto de sua produção. a necessidade de manter sua existência física (. “A vida produtiva do homem aparece agora perante o homem unicamente como um meio para a satisfação de uma necessidade.. beber e procriar.. conforme a confissão dos autores. A mais plena das manifestações humanas — sua peculiar capacidade como ser natural para transformar e transformar-se mediante sua própria vida produtiva social — aparece como sua negação. não havendo uma obrigação física. abstrato ou especulativo. ou seja. é a atividade própria do empobrecimento. e convertidas em fins definitivos e únicos — são funções animais.. em sua casa e na vida pessoal —. que mortifica. que outro controla e manipula. à pura especulação e à fuga metafísica. de não fazer de seu trabalho sua vida. etc. “filosófico”.. ou. . moral. a que fixa um tipo de programa de ação — teórico e prático — ao qual se manterá fiel pelo resto de sua vida.. porque constituem a dobradiça fundamental na evolução de Marx até o comunismo. que além da morfologia do fenômeno. de suas determinações materiais e biológicas próprias como ser natural. de não trabalhar para si. é evitado como uma praga. quanto mais produz.. Os Manuscritos. para usar as palavras de A ideologia alemã — aquele trabalho que Marx completa com Engels. através da qual o trabalho humano e suas “capacidades universais” apresentam-se não como realização positiva do trabalhador. artística. mas sim da “terra ao céu”. beber e procriar são também. da vida material do homem contemporâneo. A atividade vital do homem em seu trabalho apresenta-se não como realização integral de suas capacidades. sua objetividade real como espécie e transforma sua vantagem sobre os animais em uma desvantagem. o da redação em O Capital e o organizador do movimento operário — é uma assertiva de filiação stalinista. É na capital francesa que Marx — embebido. a expressão criativa — na vida material — da distinção do homem no reino animal como um ser consciente e pensante. O trabalho não é um fim. de uma máquina alheia ao produtor-trabalhador que nada possui e torna-se um puro meio para a reprodução elementar. Comer.) a própria vida aparece só como um meio de vida”. seu corpo orgânico. nessas condições. ao qual se converte definitivamente durante sua estada em Paris. nessa alienação. supostamente. em cuja elaboração encontrará os elementos para compreender a “anatomia da sociedade civil”.7 Quem se atém à superfície ou à aparência das coisas. enquanto que em suas funções humanas.. O HOMEM E A SOCIEDADE Os Manuscritos. ou seja. Quando o “humano torna-se animal”. para onde se dirigiu em outubro de 1843.) Não é a satisfação de uma necessidade. com o movimento operário revolucionário francês e. funções humanas genuínas. É rebaixado à condição de mero instrumento. a natureza (que o mesmo configura humanamente) lhe é arrebatada. Seu caráter alienante demonstra-se claramente no fato de que. vê-se reduzido à condição animal. quando muito. — é o “trabalho alienado”. enquanto. jurídica. uma tarefa que esgota. mas sim como exploração de seu potencial: o homem trabalha. em uma concepção que parte do homem “tal como é”. porque é a expressão do trabalho para outro.” Não existe nessa descrição do trabalho alienado nada de metafísico. o conceito puramente filosófico de alienação transformou-se em algo terreno. idealmente definido. no pilar de uma doutrina que não vai do “céu à terra”. capaz apenas de trabalhar para outro. O trabalho assalariado moderno tem sua gênese nessa exploração. para compreender um tipo de homem universal. como fora da própria vida empírica. nesse confisco. para além da realidade. Devemos a um enorme trabalho de Mészáros da década de 70. como natureza. a forma alienada da atividade produtiva prática do homem. estabelece o “ajuste de contas final” com a herança filosófica de sua juventude. Marx pôde basear toda sua concepção em um fundamento sólido (. É falso que inclusive no “jovem Marx” a natureza humana apareça como indeterminada e não-histórica. também arrebata sua vida. de uma classe de homens que não possuem o controle dos meios de produção. visto que os perdeu a favor do monopólio dos mesmos por outra classe de homens. de ferramenta. por outro lado.

como organizador prático do movimento operário de sua época. sua velha conotação filosófica quando sua superação aparece determinada pela “recuperação” material prática do homem de suas condições de vida e trabalho.. por parte da sociedade. em proletários modernos. A forma positiva de superar a alienação do trabalho humano consiste na reapropriação. essa alienação (sic) — para nos expressarmos em termos compreensíveis para os filósofos —. recupera sua dimensão autenticamente humana. apropriando-se do trabalho alheio”.. O certo. Pode-se afirmar que o “programa” do Manifesto está essencialmente resumido nos Manuscritos.9 É somente considerando esse desenvolvimento prévio que pode ser plena a compreensão desse magnífico final do Manifesto.. se compreendemos a redundância. quem revelou “a essência subjetiva da propriedade privada” que.. surgirá uma associação em que o livre desenvolvimento de cada um será a condição do livre desenvolvimento de todos”.10 Isso significa — parafraseando um trabalho prévio do próprio Marx sobre a “questão judaica” — que: a) o aburguesamento da religião transforma-a em um assunto humano. A “alienação” perde. a alienação . não podem dominar. o poder social. mas que para superar a propriedade privada verdadeira é necessária a atividade comunista: “a História a produzirá. mas não libera o homem da religião e b) a economia burguesa admite a propriedade privada como resultado do trabalho. aparece agora como uma dupla relação: de um lado. é incorporado à esfera da religião. em condição de existência do próprio capital. perfeitamente natural: “visto que o homem é parte da natureza”. No Manifesto. na procriação. como relação natural. ou seja. algum a priori sobre o “dever ser” do homem. a economia política — cujo princípio é o trabalho — leva à conclusão lógica da negação do homem”.. de tal forma que o ato prático-histórico que transforma a propriedade em propriedade burguesa é ignorado: a expropriação de camponeses e artesãos que originalmente transforma os trabalhadores pré-capitalistas em classe operária.). quanto a aleatória. só pode ser superada partindo de premissas práticas (.) não como um poder próprio unificado. Agora. na medida em que integra as dimensões do homem como ser natural. pode ser percorrido de um modo igualmente “natural”: A produção da vida. Com a aparência de um reconhecimento do homem. nos leva ao Manifesto Comunista. das condições de sua própria vida e reprodução: abolir a propriedade privada dos meios de produção. O Marx filósofo metamorfoseia-se no ativista do comunismo.43 A chave do equívoco consiste em mal interpretar o conceito de “natureza humana”. de outro. O caminho que a partir dos Manuscritos. de forma polêmica. Adam Smith negou a riqueza como algo externo ao homem e independente deste. portanto. de qualquer modo e para qualquer fim. no trabalho. A continuidade e ruptura dessa colocação com o pensamento da época. em conseqüência. Riazanov” destaca que o Manifesto Comunista inscreve-se nessa tarefa de Marx. dirige essa vontade e esses atos (. o próprio homem é incorporado na esfera da produção privada.. É por isso que. e o desenvolvimento — que já reconhecemos em pensamento como vontade autotranscendente — irá supor. e que. tanto a determinada. conseqüentemente. na verdade.... quando neles se afirma que para se superar a idéia de propriedade privada bastam as idéias comunistas. ao concluir seus dois magistrais capítulos iniciais indicando que “em lugar da antiga sociedade burguesa. que não sabem de onde procede.. “essencial”. como resultado.) [é] o movimento real que anula e supera o estado de coisas atual. É a superação da “alienação humana”. algo que deriva de sua vida e história real: o indivíduo isolado e as robinsonadas8 constituem a abstração “antinatural”. deixou de ser considerada “meramente como uma condição exterior ao homem”. mas não libera o homem da propriedade privada... e todos os dias continua a aboli-la gradualmente (. o caráter social consciente do trabalho humano realizar-se-ia sem mediações alienantes. “Mas. mas como um poder aleatório situado à margem deles. Então. passando por A ideologia alemã. com Lutero. inclusive. em conseqüência. como ser dado na materialidade própria de sua atividade — social e consciente — de produção e auto-reprodução.) o comunismo não é um estado que deve ser estabelecido.) o comunismo não dá a ninguém o poder de apropriar-se dos produtos sociais. e ao qual se atribui uma filiação “antimarxista” — como se fosse a definição de uma “essência” não-histórica. Marx desenvolve extensamente a conclusão de sua análise. o que ele impede é o poder de escravizar. quaisquer que sejam as condições. no Manifesto Comunista ironiza-se a “acusação” de que os comunistas pretendem expropriar a propriedade privada como sinônimo da apropriação dos resultados do trabalho individual: “o desenvolvimento da indústria (capitalista) decretou sua abolição. ECONOMIA E HISTÓRIA Nos textos de Paris. alguma coisa própria do reino místico ou espiritual. da mesma forma que. Marx afirma que Engels tem razão quando indica que Smith é o Lutero da economia política: assim como Lutero reconheceu a religião e a tornou a essência do mundo real — e.. presente repetidamente nos Manuscritos. a cujo estudo havia se dedicado. visto que percorre uma série de fases e etapas de desenvolvimento peculiares e independentes da vontade e dos atos dos homens. portanto. esclarece-se quando Marx explicita o significado revolucionário e os limites que não se pode salvar da economia política. a força produtiva multiplicada (... Uma das confusões chaves da economia política consiste em não distinguir entre a propriedade privada fundamentada no trabalho próprio e a propriedade privada fundamentada no trabalho alheio... nem para onde se dirige e que. O homem é “naturalmente” um “ser social”. como relação social — social no sentido de que se entende por isso a cooperação de diversos indivíduos. um processo duro e prolongado”. um ideal ao qual tenha que se prender a realidade (. anulou a religiosidade exterior transformando-a em essência interior do homem —. é que a “natureza humana” à qual se refere Marx é. Foi Adam Smith quem reconheceu o trabalho como princípio da propriedade privada. na tradição de um “humanismo” vago e etéreo. pelo contrário.

então real. Foi pouco depois da publicação da Circular da Liga Comunista. desse modo. como o resultado da História. “O poder político. é a declaração de propósitos da atividade e a atividade de propósitos que se apresentam como resultado da evolução da história humana tal como foi. a existência das próprias classes e impedirá. não temos feito senão prosseguir o curso da luta na qual está empenhada a sociedade atual até o momento em que há de irromper em franca revolução. por outro lado... quando a produção inteira estiver concentrada nos indivíduos associados. Uma “reclamação” da História que se expressa nas crises. mas somente para definir o conteúdo que assume o domínio de uma classe. o caráter de uma supremacia de classes”. para realizar a opressão da outra”. e na qual.. de “toda a história da sociedade humana até nossos dias”. pontuando que nisso consistia precisamente seu “descobrimento”. visto que a existência de classes e da luta de classes já havia sido assinalada anteriormente. também. que “erguerá o proletariado como classe dirigente” e “suprimirá as condições que determinam o antagonismo de classe. deve ser considerado como parte integrante do próprio Manifesto. nem Engels pensaram em construir um modelo universalmente aplicável da forma da ditadura do proletariado..) ordenará infrações despóticas ao direito de propriedade e às condições burguesas de produção”. uma apropriação social dos produtos sociais. o proletariado há de estabelecer sua dominação”. A burguesia “já criou forças produtivas cuja prodigiosa variedade e colossal poder excedem a tudo quanto sabiam fazer todas as gerações que nos precederam”. A alienação é a marcha até a construção humana do mundo diante da desumanidade.) na imprensa. A transição entre um e outro ponto do devir histórico é precisamente a “ditadura do proletariado. tal como é. no homem real em seu desenvolvimento histórico. porque “implica uma transformação incessante nos instrumentos de produção. Não é casual que Marx tenha utilizado o termo “ditadura do proletariado” em 1851. porque reclamam uma ordem social superior. de um modo nada eufemístico. de um modo direto. o Manifesto é energia pura. sendo seu objetivo conciliar a transformação democrática da vida política das massas com as medidas necessárias para impedir uma contra-revolução da classe dominante desalojada do poder. de uma reivindicação que requer grandes justificativas. algo que — três anos depois da redação do Manifesto — Marx colocaria explicitamente em destaque em uma célebre carta a Wiedemeyer. O Manifesto é rotundo e claro nesse sentido. da história da luta de classes. Por isso. Do mesmo modo que a “ditadura da burguesia” pode-se expressar das formas mais diversas — e até a república mais democrática segue sendo uma ditadura do capital —. enquanto que a “condição essencial de todas as classes industriais do passado era a estagnação. celebra o significado “revolucionário” da burguesia e do universo que cria à sua “imagem e semelhança”. organizado. os proletários”. dos confrontos e choques — que são suas manifestações particulares — que a própria História se livrará de seu passado de “desumanidade”. harmônico: “o proletariado suprimirá as condições que determinam o antagonismo de classes. além disso. é por meio dessa mesma luta.12 O objetivo transforma-se em subjetivo. Não se trata. as definições desse último com relação a esse tema são suficientemente claras: a) “ao enumerar as fases mais gerais do desenvolvimento do proletariado. a existência das próprias classes e impedirá. A idéia subjacente de que a “violência é a parteira da História” percorre todo o texto. produziu os homens que manejarão essas armas (. portanto. verdadeiramente. DITADURA DO PROLETARIADO A condição prática desse processo é a “revolução”. a História toma um caráter consciente quando o proletário — como sujeito — termina com a “pré-história” de exploração do homem e forja a “nova história” de uma humanidade sem classes antagônicas. como indicou Hobsbawm. que a conclusão da ditadura do proletariado está indissoluvelmente vinculada a toda a arquitetura do Manifesto e à sua conclusão inevitável. Não se propuseram a isso. em épocas passadas. porque a consciência e a potência social do ser humano realiza-se de um modo complementar. e. Por isso. o caráter de uma supremacia de classes”. É claro. conseqüentemente. e não podiam prever os vários tipos de situação em que esta poderia se impor.) os operários modernos. julgou-se insensata — a epidemia da superprodução”. assim como no Manifesto Comunista (sic) mostrou ser a única correta. Somente quando “pelo andar das coisas hajam desaparecido as diferenças de classe.14 . transformado em classe dirigente (. Não são poucos os que se perguntam — sem muito resultado — o porquê de uma definição tão contundente como essa não aparece enunciada no próprio Manifesto. Naturalmente. b) “o proletariado. de 1850. sua própria supremacia. c) “[o proletariado] suprimirá violentamente as condições antigas da produção”. conforme indicamos mais acima. No entanto. porque seus membros participaram energicamente em todos os lugares onde se produziu movimento (. nas barricadas e nos campos de batalha (.. Civilização e crise. “a propagação de uma epidemia social que. pelo derrubamento violento da burguesia. um texto que.44 do trabalho apresenta-se. nem Marx. a Liga saiu com honra de uma dupla prova: primeiro.) Além disso. sua própria supremacia. a “história”..13 Marx não usou o termo “ditadura” para sublinhar uma forma institucional específica de governo. das condições da produção e de toda a organização social”.. os poderes públicos perderão seu caráter político”. Se a História foi a história da luta de classes. porque a própria Circular se ocupa de traçar esta continuidade: durante os dois anos revolucionários de 1848. A alienação não necessita aqui ser predicada. diante da história necessária da exploração do homem pelo homem. porque a concepção que a Liga tinha do movimento — tal como foi formulada nas circulares dos Congressos e do Comitê Central em 1847. desse modo. é o poder de uma classe. forças que o regime de propriedade da burguesia não pode conter.. poder social da produção e barbárie de miséria e destruição: “a burguesia forjou as armas às quais sucumbirá e. a imutabilidade do antigo modo de produção”. porque transforma-se em matéria.

em 1848. Na Circular. apenas se manifestou. É uma espécie de “quarto capítulo ampliado”. da luta de classes. hoje. a Circular complementará esse texto com uma detalhada elaboração tática e estratégica. uma pequena ameaça de revolução geral. mas de abolir as classes.. de tal forma que os governos democrático-burgueses não somente percam imediatamente o apoio dos operários.) Tal união deve ser.. por sua vez legal e secreta.16 As palavras finais da Circular. o fato não altera em nada a consideração metodológica relativa a suas diferenças com o “modelo clássico” de Paris de 1789: no lapso entre uma e outra época. e fazer de cada comunidade o centro e o núcleo de sociedades operárias. Conseqüentemente. e que tende a ofuscar seu vinculo indissociável com os “propósitos” fixados pelo Manifesto. Foi redigida nos termos seguintes — que reproduzimos com alguma extensão (e com grifos nossos) — justamente pelo esquecimento injustificável ao qual normalmente é relegado. até que seja descartada toda dominação das classes de maiores ou menores proprietários até que o proletariado conquiste o Poder do Estado.. a “ditadura do proletariado” está definida “extensamente”.. seja por uma insurreição independente do proletariado francês. à reconciliação. a própria dinâmica do processo social. impondo “pela força” suas reivindicações e suas necessidades. mas sim contra os antigos aliados. as forças produtivas decisivas estejam concentradas nas mãos do proletariado. 4) “Mas para poder opor-se enérgica e ameaçadoramente a este partido. 1) “Quando a pequena burguesia democrática é oprimida (. se em 1848 a Alemanha encontrava-se às vésperas de uma revolução burguesa que finalmente não se concretizou na data prevista. e até que. a Liga — devem procurar estabelecer junto aos democratas oficiais uma organização independente do partido operário. os operários — e antes de tudo. pela inocultável vigência que mantém para todos aqueles empenhados. seja por uma invasão da Babel revolucionária (refere-se a Paris) pela Santa Aliança”. como se vejam.. é preciso causar a desconfiança não contra o partido reacionário derrotado. mas de estabelecer uma nova. temerosos — sobre todas as coisas — das energias incontíveis que poderiam ser liberadas da própria classe operária.. A Circular prognostica que.). arrematava em uma síntese conceituai o alcance de sua contribuição.. toda tentativa de desarmamento será rechaçada. pouco depois. desde o primeiro momento. seria desempenhado — na próxima revolução — pelos pequeno-burgueses democráticos”. não se trata de atenuar os antagonismos de classe. até que a associação dos proletários se desenvolva e não só em um país. Em função disso é que Marx e Engels esperam. vigiados e ameaçados pela autoridade por trás da qual se encontra a massa inteira dos operários. resolutamente rechaçada (. na verdade.) não só não devem se opor aos chamados excessos. em caso de necessidade.. em geral. pelo menos. Marx considera o descobrimento científico da “ditadura do proletariado” como o mecanismo político da transição do capitalismo a uma ordem social superior. na mesma tarefa delineada desde então (graças aos quais.. É por isso que merece ser considerado como uma continuidade natural do célebre programa. o leitor pode fazer um exercício “prático” sobre a “tradução” desse texto à realidade do período presente em numerosos países). em continuidade quase imediata com o Manifesto. aos atos de vingança popular contra indivíduos odiados ou contra edifícios públicos que o povo só pode recordar com ódio. Em síntese: no primeiro momento da vitória. se nos permite a expressão. além dos interesses da mesma burguesia em acabar com a herança do velho regime feudal e aplainar o terreno para seu domínio de classes. na terra de Engels e Marx. a Circular está inteiramente dedicada a determinar a “atitude do partido operário revolucionário” perante a revolução que se considerava iminente.) no qual as reivindicações específicas do proletariado são colocadas de lado em nome da tão desejada paz (. portanto. Para nós. Por essa razão. alterou-se. estes devem estar armados (.. da revolução. em proporções tais que cesse a competição entre os proletários nesses países.. Se neste. nas quais a atitude e os interesses do proletariado possam discutir-se independentemente das influências burguesas”....) exorta.) Sob nenhum pretexto entregarão suas armas. os operários deverão constituir imediatamente [no curso da revolução] governos operários revolucionários. mas sim em todos os países dominantes do mundo. como devem tomar sua direção (. insistem: “o grito de guerra do proletariado há de ser: a revolução permanente”.45 REVOLUÇÃO PERMANENTE A Circular de 1850 é a elaboração da experiência desses anos-chave. ou melhor. cuja traição aos operários começará desde os primeiros momentos da vitória. nem munições. de uma tal densidade — em termos de programa de ação política para a “vanguarda do proletariado” (termo do próprio documento) — que Riazanov” afirma que Lenin “a conhecia de cor”. não se trata de melhorar a sociedade existente.. contra o partido que queira explorar a vitória comum em seu exclusivo benefício”. 3) Duplo poder: “ao lado dos novos governos oficiais. 5) Nossos interesses e nossas tarefas consistem em fazer a revolução permanente. Se no Manifesto indica-se que “a revolução alemã será o prelúdio da revolução proletária”. estende-lhe a mão e trata de criar um grande partido de oposição (. um aborto da própria revolução. seja na forma de clubes operários ou de comitês operários. Recordemos que.. conseqüentemente.. uma nova “revolução provocada. o quarto e último capítulo (“A atitude dos comunistas perante os partidos da oposição”) consagra uma breve página para determinar com rigor conceituai a conduta a ser adotada diante da revolução em curso. 2) [Os operários] devem atuar de tal forma que a excitação revolucionária não seja reprimida (. parecenos pertinente a definição sobre seu caráter diretamente complementar do texto de fevereiro de 1848: formula as conclusões derivadas dos mesmos acontecimentos para os quais o próprio Manifesto havia sido publicado. não só devem tolerar tais atos. . se for preciso. determinado pela imensa covardia dos “liberais burgueses”.. mas de aboli-la. não se trata de reformar a propriedade privada. pela força das armas”.. essas garantias devem ser arrancadas pela força”. seja na forma de comitês ou conselhos municipais. Por isso. “o papel de traição que coube aos liberais burgueses alemães em relação ao povo. pouco tempo antes.) devem exigir garantias para os operários assim que os democratas burgueses disponham-se a tomar o poder. Mais ainda. a Circular considera que. o proletariado à união. apresentada como a tarefa própria do “proletariado em armas” e da necessidade de lutar por seu “poder”. produziu-se o desenvolvimento incipiente da classe operária e sua organização. em 1850. Quando.

Isso. de um governo operário e camponês (antecipado na elaboração e balanço que fez Trotski da “primeira revolução russa” de 1905. conseqüentemente. Lenin retornou do exílio (logo após a revolução que. Lenin teve de conquistar seu próprio partido para a revolução socialista. Se almejo algo. ou seja.17 escrito na véspera da Revolução de Outubro. o texto transformou-se em uma denúncia implacável do stalinismo. na medida em que se rebelam contra essa barbárie. os sovietes). Em abril de 1917. de ação plenamente humana para acabar com a alienação do homem pelo homem. Não como resultado de uma evolução puramente “objetiva”. no partido nacionalista burguês. em nome da suposta filiação antimarxista do conceito de revolução permanente.. A exteriorização do pensamento.46 Por essa mesma razão. as 346 maiores fortunas pessoais do mundo acumulam um montante equivalente ao que dispõem para subsistir — melhor seria dizer não-sub-sistir — os 40% “mais pobres” de todo o planeta). que se atribuiu a um desvario — supostamente contra-revolucionário — de Trotski. Em 1927. Recordemos também que. ditado pela herança do passado (com que outra “herança” pode contar o homem em seu trabalho em qualquer esfera de sua atividade vital?). Encontramo-nos dessa forma. realistas. os dirigentes do PC chinês foram liquidados impunemente por seus “aliados”. parafraseando a Marx da época dos Manuscritos.. a suas possibilidades e carências. confusão dessa época. ao derrubar o czarismo. quer dizer. O “marxismo” de Stalin transformava-se em política de desarme contra-revolucionário da classe operária. em oposição a isso. em primeiro lugar. deu lugar à vitória da burguesia liberal) e proclamou que aquele não era mais que o prelúdio da “revolução dos sovietes”. DITADURA E PODER POLÍTICO Não é o objetivo deste trabalho desenvolver a relação existente na proposta da ditadura do proletariado com a teoria marxista do Estado. mas como conseqüência do empenho do próprio Lenin em traduzir. que na década de 20 lançou sua campanha contra a “oposição de esquerda”. a essa mercadoria especial e única. para que seu pleno significado não seja completamente distorcido. os epígonos de Stalin proclamaram a “revolução por etapas”.) traidora e prostituta universal dos homens e das nações”. definir a ditadura do proletariado como um ato de sensatez. quer dizer. que se refere à ditadura do proletariado. o universo da criação de relações humanas não mediadas pela exploração e pela luta de classes irreconciliavelmente opostas. conforme versos de Shakespeare. novamente. sua forma terrena transformadora no plano das relações sociais é a “ditadura do proletariado”. a essa “divindade visível (. mas na transformação do mundo. um capítulo especial está dedicado ao dinheiro. do aparato estatal. em outubro de 1917. Inversamente pode-se ter o dinheiro para possuir tudo e não almejar nada. para terminar com a alienação mediante a qual o homem é dominado pelas coisas. como se sabe.. antimarxismo. . Isso é stalinismo puro. não na interpretação. com a “idéia fundamental” do Manifesto. é a tarefa dos homens sensatos. É um ato de sanidade social contra esta loucura. ao valor como tal na sociedade capitalista. como parto inevitável. Claro que a sociedade andará por esse caminho com os recursos iniciais bárbaros da violência e da força. que o roteiro de outubro de 1917 seguiu o caminho traçado pela Circular. quando nasceram historicamente os conselhos operários. na prática. inclusive nos círculos mais importantes do partido bolchevique. concreto e único. Não está errado. na mesma medida em que desenvolve as premissas materiais de um mundo no qual o trabalho de cada um corresponderá a suas capacidades e o retorno a suas necessidades. as lições do movimento operário revolucionário. Naquele momento. É o ato de força que acaba com a “pré-história” e dá o primeiro passo da “história humana” porque tende a dissolver o poder na sociedade. ao equivalente universal de todos os valores. que o próprio Marx cita.. Em todo caso.. de sua progressiva extinção. de sua capacidade coercitiva como ferramenta peculiar separada e aperfeiçoada por sobre a própria sociedade. conscientes. mas não tenho dinheiro para possuí-lo. de seus instrumentos repressivos. que na Rússia tomaria a forma. Os “propósitos” do Manifesto mantêm sua atualidade total. liga o homem à vida. que para bem ou para mal. Mas há um ponto que tem de ser explicitado. Os acontecimentos do século XX contribuíram para difundir a idéia de que a ditadura do proletariado (que não é outra coisa que a vitória da revolução operária como o início do processo de transformação material em direção de uma nova sociedade) é apenas o começo de um processo de fortalecimento do poder. porque é o meio real. e em nome da necessidade de cumprir com a etapa chinesa correspondente à “revolução burguesa”. vale a pena precisar.. pensou-se que ele havia enlouquecido. no cenário da maior revolução posterior à façanha de 1917.. levando seu partido a tirar todas as conclusões da situação. para a qual continua sendo insubstituível o renomado texto de Lenin. quer dizer. revolucionários. obrigaram o PC chinês a se dissolver em “um grande partido de oposição”. para desenvolver o itinerário de sua própria agonia.. para que esta caminhasse “objetivamente”. FINAL AMOROSO Nos Manuscritos. Sujeito e objeto se fundem no trabalho teórico-prático. a se desarmar e a renunciar a qualquer forma de duplo poder. O dinheiro é tudo na sociedade capitalista. associado unilateralmente a essa suposta “novidade”. pela fome que provoca a superprodução. pela perversão social de um sistema que acumula montanhas de riqueza — material e monetária — em um pólo da sociedade e miséria incalculável no pólo oposto (de acordo com uma informação recente. divulgada pelo Financial Times. mas minha apropriação será igualmente real. minha aspiração não é nada. A peculiaridade específica da ditadura do proletariado é que nasce para morrer..

. de te converter em pessoa amada. pode ser imaginada. O homem tem consciência de si próprio como indivíduo e como espécie. segundo semestre.47 Se tenho vocação para o estudo. Hobsbawm. mas possuo o dinheiro e a vontade para fazer isso. na sociedade e sem ajuda alheia. 10. 11. Isso acontece quando o homem é homem por intermédio e através do dinheiro. Riazanov. 8. “Sobre a ditadura do proletariado” na antologia do mesmo autor História do marxismo. tenho uma vocação efetiva (. Todas as citações desse parágrafo correspondem ao Manifesto Comunista. Buenos Aires. Resultados y perspectivas. 1971. V. A “Circular. Marx y su concepto del hombre. El Yunque. é tomado possível pelo dinheiro. Friederich. o amor em ódio. Fondo de Cultura Econômica. Marx. portanto. Karl e Engels. 1979. 12. cit. que é resultado do trabalho e do trabalhador. O dinheiro inverte tudo. 5. Karl. quer dizer. mas careço de dinheiro para estudar. Marx et Engels. op. o vício em virtude..). Erich. 17. Op. 3. Manuscritos. Várias edições. Trabajo y capital monopolista. México. cit. o servo em amo. do homem que não é homem porque não pode se expressar como tal. (N. Se amas sem invocar o amor como resposta. 15. Este também é o Marx descobridor da ditadura do proletariado. como coisa. Pablo.. 6. objetivamente como é. a estupidez em inteligência e a inteligência em estupidez”. Harry. El hombre alienado. 1971. teu amor é impotente e uma desgraça. não tenho vocação. em que “o homem é homem e que sua relação com o mundo é uma relação humana”. La ideologia alemana. Em espanhol. se quiseres influir em outras pessoas. Buenos Aires. quer dizer.. Marx.) 9. Marx.. mediante a manifestação de ti mesmo como homem amante. se realmente não tenho vocação para o estudo. aos 26 anos. Rio de Janeiro. no entanto. no cruzamento de caminhos no sentido da sua conformação como revolucionário acabado. . Dicionário da Real Academia Espanhola). Karl. La teoria de Ia enajenación em Marx. Várias edições. se não sois capaz. Paris. correspondente ao objeto de sua vontade. Eric J. o que todas minhas faculdades individuais são incapazes de fazer. Manuscritos económico-filosóficos. Inversamente. 2.. Feuerbach. In: Actuel Marx n° 16. Era. é “a confusão e a troca de todas as qualidades naturais e humanas (. 1980. Marx.. David. o ódio em amor. op. Se quiseres gozar da arte. 4. Ver Fromm. “Capitalisme et socialisme.” pode ser encontrada na maioria das edições das obras escolhidas de Marx e Engels.. México. PUF. 1979. 7. estabelecia assim uma distinção entre a consciência do homem e dos animais.. então. o próprio símbolo do fetiche do capital. Del Sur. em uma sociedade que seja humana. Nuestro Tiempo. Ver Braverman. para além da alienação. Cada uma de suas relações com o homem e a natureza devem ser uma expressão específica. Algo cuja superação. Popitz. 1994. Leon. El Estado y la revolución.. Paris. O dinheiro é o meio e o fim pelo qual este mundo aparece invertido. Riazanov. México. Então. Rieznik. várias edições. I97S. sou incapaz de fazer e. 1966. a confiança pela confiança. o amor só pode se intercambiar por amor.. David. Isztván. aparece com mero objeto. daquilo que o capitalismo explora e que. diz-se do homem que. décennie 90”. 13. 14. de sua verdadeira vida individual. Assim são a ditadura do proletariado. a virtude em vício. a sensatez e o amor cento e cinqüenta anos após o Manifesto Comunista. de sua aparência de sujeito e construtor de nossa sociedade. Anthropos. tens de ser uma pessoa que estimule e impulsione realmente a outros homens. O que eu sou como homem. NOTAS: 1. basta-se a si mesmo (Cf. da própria representação da alienação. etc. Mészáros. Heinrich.. Karl. tens que ser uma pessoa artisticamente cultivada. Ver Trotski.. do T. 16. por isso mesmo. As citações que estão neste capítulo correspondem todas aos Manuscritos. Paz e Terra. Robinsonadas refere-se a Robinson Crusoé.) transforma a fidelidade em infidelidade. cit. do qual Marx toma o termo “ser genérico”. Lenin.

Lembre-se que os próprios autores românticos chegaram a teorizar sobre o humor. como os românticos. sustentar uma atitude não conformista face à sociedade e à História. fazem derrapar os sentidos estabelecidos e. deslocando os significados estáveis pelo não-senso. pois não se contraria apenas o hábito. Marx teria sido um dos únicos autores a transformar os dois lados numa só visão crítica do tempo presente.. nesse caso. mas sem tréguas. é por demais conhecida a passagem do Manifesto que deplora as utopias comunistas. Como procurei sugerir num livreto sobre o tema. no limite. Todas as suas . esta mobilização de energia imaginativa e poética fazia parte de um luta sutil. no auge da batalha. as pessoas comuns. O humor serve para verificar a quantidade de verdade que existe em nossos preconceitos favoritos. Muito já se escreveu sobre a dupla herança. expressa no escritos de Hazlitt. (1814-1857) Elias Thomé Saliba Uma vez tomadas pela fome de progresso. pois é o único que percebe a diferença entre o que as coisas são e o que deveriam ser”. às vezes de quase delírio onírico. correm literalmente para ele. diagnosticou Alfred de Musset no seu Confissões de um filho do século. filósofo que escreveu O conceito de ironia. através dos registros cômicos. então das duas uma: ou se detêm. tomando-se. Friedrich Schlegel. pois. concluiu Hazlitt. Nesse sentido. que geralmente não têm a menor sensibilidade para o futuro. e que fez do cômico. era marcar pontos na luta para. Hazlitt assinala que o cômico nasce da colisão entre o objeto e nossas expectativas e o ridículo ocorre quando a mesma colisão aparece aumentada por alguma deformidade ou inconveniência. a longo prazo. Ora.1 Não há dúvida de que um dos elementos centrais desse último argumento teria sido o enfático abandono marxista do caráter utópico das correntes românticas. O tema do desencanto romântico alimentava as energias utópicas. “O homem é o único animal que chora e ri. inclusive. de que o que provoca o riso é “a repentina transformação de uma expectativa tensa em nada”.4 O objetivo desse pequena intervenção é analisar a concepção de história e de utopia entre os românticos.48 HUMOR ROMÂNTICO E UTOPIAS: REFLEXÕES SOBRE ALGUNS REGISTROS CÔMICOS NA ÉPOCA DO MANIFESTO COMUNISTA. Embora reconhecida a validade em lutar com as palavras. marcham para os quatro cantos do mundo como se o espírito do progresso tivesse braços e pernas. que nos escritos de Marx da segunda metade do século XIX. fazia-se na superfície dessa. Não é difícil concordar com tal tipo de análise. iluminista e romântica. oferecem subsídios importantes para a compreensão da própria utopia. mas o próprio sentido das coisas e a razão. no espaço simbólico. “das superfícies e das dobras.3 os românticos forjaram suas utopias como esquemas de um tempo futuro que servia como móvel de superação de um presente degradado. as condições históricas da emancipação pelas condições fantasistas”. como os falanstérios de Fourier. a arte. ou se voltam. ou de uma forma mais extensa sobre a ironia. “Tudo o que era deixou de ser. que tinha o costume. das singularidades nômades e dos pontos aleatórios — sempre deslocados”. como William Hazlitt.2 Os analistas.. deixando de lado. o guia temático de todos os seus escritos. enquanto a raiz propriamente romântica se esgota. Se tomarmos a definição romântica do cômico. especialmente no que se refere ao seu traço utópico. dada a sua generalidade. Cabeça baixa e olhos fechados. como Kierkegaard. a nosso ver. atenuando as lutas de classes e conciliando os antagonismos históricos. fragmentos do Athenaeum. tudo o que será não é ainda”. nos escritos de Marx. de 1819. Sabemos que humor e a ironia constituem dois caminhos pouco explorados nos escritos românticos e. Utilizar-se. de agarrar covardemente os soldados pela garganta e voltar seus rostos para o inimigo. desabrocha somente a raiz utilitarista. contrariando o costumeiro e o desejável. constituíam partes do projeto utópico romântico. porque não começar a análise do humor romântico exatamente com Kierkegaard. quando chega a afirmar.5 Pode-se perguntar. a fertilidade e a enorme variedade das correntes românticas. Aqui teríamos — segundo a argumentação deste autor em 1819 — o grau mais elevado do cômico. Retomando a célebre observação de Kant. sugerimos o quanto essas atitudes de exagero imaginativo. da imaginação social. ao mesmo tempo. veremos que o móvel utópico já está presente e a saída cômica parece ser a única diante de uma atitude geral de desencanto e de frustração com o tempo presente. a corrente romântica o segundo. como opressoras. acabam por transtornar completamente nossas concepções de tempo. essa arma ofensiva. por excelência. “substituem a atividade social pela imaginação pessoal. Particularmente no Manifesto Comunista e nos escritos anteriores de Marx a revolução industrial capitalista e o conjunto de relações sociais objetivas desencadeadas por ela são descritas como libertadoras e. o humor era um desses elementos da crítica da linguagem entre os românticos pois. Só não é possível concordar com a continuidade do argumento. como Paul Breines. para delimitar uma nova comunidade de linguagem e um novo campo de significações. O iluminismo e a sua descendência utilitarista sublinharam o primeiro lado do quadro. pois deslocam significados. Se por acaso não quebrarem o pescoço. Apesar de descrições utópicas delirantes e não-factíveis. 1798. A estas últimas é preciso tratar à maneira de César. parece que ficaram presos apenas a essa passagem famosa.

depois o humor transformado em coisa prática e por fim o humor transformado em coisa necessária. sabemos que Hegel estava muito distante de satisfazer-se com uma anedota mas. inclusive do foco central. por conta de sua extrema preocupação com os ditames de conduta dos personagens. A obra de Kierkegaard é a escrita que duvida de si mesma. numa passagem. pois isso se vê. Sob os escritos de Hazlitt ou de Kierkegaard. de uma maneira geral. O criado de quarto. até hoje. o humor transformado em coisa possível. A idéia do “sósia”. Não crê que a estrela existe. Perdida sua sombra. perturbando os circuitos de contato com a realidade. Peter percorre todo um calvário de sofrimentos. outras tantas vezes na história universal — um acontecimento veio ocupar o lugar de uma ação. A primeira acentua traços de obsessão ou neurose compulsiva. a bota de sete léguas. Veja-se. faz lembrar aquele famoso exemplo que Hegel nos dá dos “criados de quarto” psicológicos. explicada. irônica. três exemplos de escritos da época romântica que. A segunda. o criado Bendel resolve emprestar sua sombra ao seu patrão Peter. a paródia kierkegaardiana que ousava colocar o humor no interior da tríade dialética: primeiro. quando. o modo mais notável para captar a dissolução das personalidades na realidade social pósrevolucionária. é fina a casca do ovo e ela se quebra com muita facilidade. Esta fábula protokafkiana parece impor. nas Migalhas filosóficas. objeto de humorismo no mundo antigo e renascentista encontra na fábula do homem que perdeu sua sombra. O mesmo vale em relação ao acontecimento histórico”. O foco da narrativa de Chamisso é uma singularidade histórica. quando. no qual o infeliz Peter ganha. prosaica... da galhofa e do chiste. porém — como já tantas vezes em minha vida e. Os diálogos criados por Chamisso são extensos exercícios de um humorismo de pés leves já que. como é o caso — veremos adiante — da obra de Charles Renouvier. fundindo tais traços nas generalidades — a mais evidente dessas generalidades é tratar o absurdo como inerente ao mundo e não como resultado da ruptura dos fios que tecem a trama social e histórica. etc. mas porque o segundo é criado de quarto. do que um acontecimento realizado?9 O que temos aqui é o autêntico desterro do exilado num mundo socialmente destroçado e carente de significados coletivos.8 Tais linhas interpretativas apenas criam obstáculos para o historiador da cultura. como um espécie de exercício sugestivo. Aprendi a respeitar lucidamente a necessidade. com ironia. Desde a sua primeira publicação o escrito de Chamisso recebeu as mais diversas interpretações. mas no quarto — eu lhe digo — minha filha será a mulher de um outro. no humor. dou-lhe um prazo de três dias para que providencie uma sombra. Como pai tenho de zelar por ela. aliás. Mais tarde eu me reconciliei comigo mesmo. como ocorre nas esquizofrenias. dentro de amplo espectro. realizar tal desiderato. parecem ter chegado ao limite da sua fecundidade. sabe que ele bebe um bocado de champanhe. para consolo. o filósofo dinamarquês propunha a fé como base do conhecimento da História. como nos ensinava André Breton. olhando o universo do alto.6 Daí a necessidade de suspensão do juízo cognitivo. O homem perdeu sua sombra pela malévola necessidade histórica. além da ambigüidade infinita de significados do homem que perdeu a sua sombra parece impingir-nos a figura inquietante do indivíduo sem memória. acentuando os aspectos metafísicos. com sua fidelidade quase bovina ao patrão sem sombra. do deslocamento ou recriação do sentido. só pode ser vista pela ótica do deslocamento ou da recriação de sentidos. mas apenas em troca de sua alma. enfatiza o combate eterno do homem com o absoluto e Deus. base para uma visão humorística do mundo e da História. provoca o riso. publicado em 1814. a resposta do Chefe Florestal quando o infeliz Peter pede a mão da filha Mina em casamento: O senhor pede a mão de minha filha. Eu acrescentei (e Goethe o repetiu dez anos depois) não porque o primeiro não seja herói. do ângulo metafísico. não se esconderiam laços mais profundos entre o cômico e as utopias? Tomemos. uma tensão enorme à razão contemporânea pois. Bendel. cada um à sua maneira. por exemplo.” Ora. que lhe permite viajar por todo o mundo em questão de segundos. Marx provavelmente teria lido com prazer. será bem-vindo. buscando demolir o símbolo filosófico da temporalidade. é provérbio bem conhecido. afinal resolvido nesse caso pela própria escrita. diz: Aqui. outros fazem o mesmo. este lhe propõe devolver a sombra. O primeiro é a conhecida novela de Chamisso. para ficar nos mais famosos. escrevendo: Nenhum homem é herói para o seu criado de quarto. não é aceito em lugar nenhum e nos sucessivos reencontros com o famoso homem de casaca cinza e de silhueta mais fina do que uma agulha. quando. pelo própria figura de Peter Schlemihl. ajuda-o a deitar-se.. irado. ou seja. que Hegel condena os “esmiuçadores de alma” que destacam apenas as particularidade da vida privada dos grandes personagens históricos. Ele descalça as botas do grande homem. que “a fé crê no que não vê.7 Todos conhecem a história do homem que. embora seja uma singularidade nômade e aleatória. Mas Marx se afastaria. sem possibilidade de superar a tragédia da mortalidade e o sono profundo do esquecimento. sem identidade e sem nação — portanto. podemos perceber o quanto a situação chega muito próxima da dialética. criando um vazio analítico — como passam ao largo dos traços singulares da narrativa romântica. pela chamada escrita fantástica ou literatura do absurdo. quase alegre. pois nele podemos ler tanto uma sátira feroz ao titanismo dos românticos como uma quase paródia das definições hegelianas dos “indivíduos histórico-cósmicos”. embora sem eliminar o cristianismo da História.49 proposições são atrevidas.. Duas linhas interpretativas — uma de cunho mais psicológico e a outra. na fábula de Chamisso. . argumentando. pois. procuraram. todos os seus argumentos descambam no chiste e na paródia. Se dentro de três dias o senhor me aparecer com uma sombra bem adequada. Mas o próprio tema do desterro nos é apresentado de maneira leve. e o que é mais próprio dela do que uma ação cumprida. que se instaura e se questiona ao mesmo tempo. mas crê que a estrela veio a ser. não apenas deixam de lado a história social. tem que evitar o sol e a luz do luar.10 No episódio final. mas é uma dialética da derrisão. É na sua Filosofia da História. Chamisso trata de um mundo muito bem situado historicamente e no qual a ruptura do indivíduo com a sociedade e a conseqüente dissolução da sua personalidade. A história maravilhosa de Peter Schlemihl. necessitado de dinheiro vendeu sua sombra ao diabo.

como é que eu. reverteria em seu crédito. O resultado é absolutamente estapafúrdio. condenando nosso riso inoportuno: “Como pode. foge aos limites ficcionais — é a Ucronia (Uchronie). que transcreve o primeiro manuscrito da Ucronia. Não é de todo impossível ler aí um notável intuito cômico. sonha com o passado — daí por que os quadros históricos. transmutado no senhor Cinábrio. Aliás. e que fala exatamente sobre o que não foi e o que poderia ter sido — poderia satisfazê-los?16 Assim. Nessa fábula cômica de Hoffmann. se os próprios historiadores da realidade não conseguem por eles mesmos. depois do conselho do seu ilustrado ministro. a Ucronia faz derrapar todos os nossos sentidos de tempo. O príncipe Paphnutius. pois tanto o primeiro quanto os sucessivos manuscritos. No posfácio. o texto do neto. “tudo de excelente que alguém mais pensasse. O problema é que a esse esquema já complicado. expulsar do reino as fadas. Para subtrair os homens à tirania dos fatos e às ilusões da necessidade histórica. para que tal decreto se efetivasse. daí o móvel do seu humor. escrito em 1857. o melhor amante. Assim. um jogo de espelhos e contra-espelhos. que a escuridão provém principalmente da ausência de luz. não há essências atrás das aparências. cronologicamente começam com Império Romano. o melhor funcionário do Estado — até chegar a ministro e ser condecorado com o mais alto galardão real: a Ordem do Tigre Mosqueado de Verde com 20 botões!14 Neste conto. livro publicado pela primeira vez em 1857. que ganhou renome depois de ter estabelecido.. a de que a percepção do tempo é algo intrínseco ao ser humano. as fadas continuaram a freqüentar o principado. escrevendo sobre . apesar de todas as precauções.. a inusitada supressão do cristianismo da história também conduz-nos ao enredo da comédia. No mesmo ambiente da poesia romântica. negligenciado pela natureza.” Assim. escrito na Holanda em 1658.50 O segundo registro é a novela de ETA. um ser encantado. acabam. é o melhor súdito. plantar acácias e choupos. quando poderíamos supor a apresentação de algumas chaves para toda essa confusão. o Zacarias.. Paphnutius resolveu. parece tratar todas as coisas transcendentes — anjos. um “legítimo macaco brasileiro”. depois de reconhecer a fragilidade. o melhor poeta. que não existe mais. confundido com o macaco. fazer os jovens entoarem a duas vozes os seus cantos matinais. O cômico de Hoffmann é o grotesco construído na superfície da linguagem que trabalha. que. O pequeno Zacarias chamado Cinábrio. o livro parece a todo momento querer empurrar o leitor pelo caminhos obscuros do equívoco e do embuste.. por articular a conspiração de todo o principado. apesar de datados. um veneno secreto que tomava as pessoas absolutamente inaptas para o serviço do iluminismo”. mandrágoras — como coisas inerentes à vida humana e à História. sem as lentes distorcidas do prestígio e da veneração. depois de exemplificar com uma improvável demonstração geométrica a impossibilidade das verdades de fato se encaixarem em qualquer sistema. apocalípticos ou finalistas. a fada que irá encantar o pequeno diabinho. de Charles Renouvier. nesse caso. segunda ilusão: a crença no fato consumado na história. todos os nossos territórios de historicidade — esvaziando a cronologia cristã. em lugar de sonhar com o futuro. por decreto. banir todos os indivíduos de convicções perigosas que não dão ouvidos à razão e seduzem o povo com uma leva de tolices. com a suspensão da crença. escrito em 1709 e o posfácio do editor. finalmente. revertendo o finalismo agonístico e revirando o mundo instituído. como nas novelas góticas. satisfazer os diversos críticos no que se refere à verossimilhança. Sobretudo Rosabelverde. O terceiro registro. para reverter a visão global que temos do mundo.13 depois. essas “inimigas das luzes que se ocupavam perigosamente do maravilhoso e propagavam. pois. sobretudo..15 Apesar de não-ficcional. animais falantes. mais ou menos no ano 50 — e terminam com o Império Carolíngio. aplicar vacina contra a varíola mas. tornando absolutamente impossível eliminar a contingência. A escrita de Renouvier não é fluente talvez porque a abundância de idéias não lhe permitisse encontrar a expressão adequada. como Mosch Terpin. construir estradas. já que estimula-nos a conceber a História despida de quaisquer dos seus traços genéticos. repreendêlo pela penúria dos fatos que inventou e condená-lo pelo arranjo polêmico pelo qual dispôs os mesmos eventos. Se Hoffman foi mestre na arte de sugerir e engendrar espanto e angústia. Hoffmann. de três palmos de altura. Hoffmann. decide instituir. A sensação de estranhamento no leitor. O autor coloca-se como um editor. escrito por um monge visionário. provém talvez do fato de que o manuscrito da Ucronia quer acabar com duas ilusões: primeira ilusão. raquítico. o Iluminismo. Os funcionários são burocratas grosseiros que fazem qualquer negócio por dinheiro ou vantagens pessoais. operam num vácuo cronológico. o embuste continua: Será fácil — escreve Renouvier — criticar o autor por ser incapaz de imitar a variedade infinita da vida. duendes. é o humor que predomina. bem menos conhecido. O subtítulo já é rebarbativo: esboço histórico apócrifo do desenvolvimento da civilização européia tal como não foi e tal como teria sido. sob o nome de poesia. supondo-se portanto o apagamento do cristianianismo da História. outros desvios se apresentam noutros momentos. Os indivíduos que circundam o palácio só conseguem ver o poder. que consistia em mandar abater as florestas. a impossibilidade e o caráter quimérico da Ucronia”. se acrescentam três outros textos: o do filho do monge. o senhor Cinábrio. daí talvez o efeito cômico. seu humor é destilado como o supremo produto da imaginação que cria e destrói segundo a sua própria vontade. com experimentos físicos notáveis. com os vários narradores estabelecendo significados os mais disparatados: uma vez estabelecido um desvio possível num certo momento da história. tornar os rios navegáveis. disforme. Até as fadas fazem acordos espúrios para não serem expulsas do reino e. na sua forma tacanha. para pôr fim ao prestígio do pequeno Zacarias chamado Cinábrio. na ânsia de governar. atenuando os equívocos. apenas um narrador duplamente apócrifo.. depois destas quase 500 páginas. melhorar as escolas do vilarejo. symia belzezu. Renouvier ainda satiriza conosco. cultivar batatas. Mas. como pode o leitor ter a coragem de ainda rir e divertir-se?17 Como um moralista cínico.12 Nem é preciso dizer que.. falasse ou fizesse em sua presença. os intelectuais vegetam como imbecis completos na Universidade de Kerepes.

La raison dans l‟Histoire. H. no “pensamento dos possíveis que não se realizaram e elevar-se. os registros cômicos românticos. Hoffmann. portanto. onde o futuro irrompe e esvazia a falsa plenitude do presente. podendo ser pensado. G. Adelbert von. o humor dos românticos. 46. 31-34.. Paris: Editions Sociales. Trad. Sem querer polemizar e. tal como ela brilhava. o humor romântico constituiu um duro exercício de desesperança porque afinal não queria nada. Luiz R. Kierkegaard. Points of view. 1973. da renitente falta de acordo entre o sentimento e a inteligência. NOTAS 1. ao pensamento dos possíveis que ainda estão em suspenso no mundo”. moralmente. p. R. Riens philosophiques. no texto do Manifesto Comunista. 7.22 Talvez.21 Mas não precisamos concordar inteiramente com a análise desses autores para extrair delas aquilo que nos interessa mais de perto: a estrutura da comédia e da ironia e o seu significado mais vasto em termos de uma compreensão da temporalidade e da História. Marcus Vinícius Mazzari. Hegel..20 Hayden White e Kenneth Burke já analisaram as estruturas tropológicas contidas no textos de Marx em geral e. 6. 1965. mais forte. W. São Paulo: Brasiliense. bem mais tarde). Kostas Papaioannou.. Knud Ferlov e Jean Gateau. Manifeste du Parti Communiste. particularmente do Manifesto Comunista. Nova York: N.19 Mas se trata apenas de uma indicação isolada. como uma epifania da emoção. Lógica do sentido. através do riso. Idem. São Paulo: Ars Poetica. Hazlitt. Idem. fora de suas manifestações históricas singulares. Idem.18 Surgindo da ruína da antiga síntese. pois os espasmos do diafragma oferecem melhores chances para o conhecimento do que os espasmos da alma. 5. que esteve na base do desencantamento em relação ao presente. os frêmitos sagrados e o entusiasmos cavalheirescos do passado” foram impiedosamente despedaçados e submersos “nas águas geladas do cálculo egoísta”. O tempo expresso no Manifesto Comunista é mais o tempo de Cronos. Trad. 10. é claro que Marx abandonou a ótica romântica de análise da realidade. Deleuze. a partir de perspectivas díspares. O humor romântico também falava-nos — como o Manifesto — da dissolução dos vínculos sociais. Peter. numa atitude de desencanto romântico. 1942. pois. particularmente. atribuía inconscientemente ao presente — a frase é de Kant — “uma espécie de direito divino que era arbitrariamente negado a todas as outras épocas”. O pequeno Zacarias chamado Cinábrio. deram substância a uma forma de humor de linhagem romântica. Detroit: Wayne State Un. por contraponto. repentinamente. os três registros. que “as exaltações piedosas. Cinábrio e Zacarias eram aquelas singularidades nômades. As utopias românticas. 127. Trad. esforçava-se apenas por “apropriar-se de uma reminiscência. cada um a sua maneira. contudo obriga o espírito humano. H. 1977. Edição bilíngüe. A. W. Trad. São Paulo: Perspectiva. se distanciou. 475-477. G. p. 1989. buscando uma outra temporalidade que não fosse. p. é o tempo de Aion — o tempo no qual o futuro e o passado dividem aleatória e infinitamente o presente. Gleckner. vivenciaram os mesmos impasses e as mesmas aporias que circulavam no oxigênio cultural que presidiu a escrita marxista. Ou. 9. mostravam o quanto Marx se afastou dessa concepção não-linear e fragmentária — na verdade derivada de fontes pagãs ou anticristãs. Georg W. 16. de seu caráter fragmentário e aforístico. 137. Mas. afirmando que a sociedade capitalista não era permanente mas. Gilles. para Renouvier. Apesar de suas impropriedades. como um dos elementos da atitude utópica entre os românticos. 259-261. dentro dos limites muito estreitos da minha análise. 8. 13. por momentos. ao abandonar a ótica das utopias românticas. São Paulo: Estação Liberdade. particularmente nos registros que analisamos. Romanticism. “Marxism. como todo iluminista entusiasta do progresso. ele ainda se permite a condenar o nosso riso inoportuno. da coisificação das relações sociais e do fracasso da comunicação entre os seres humanos. Chamisso. 145. Registros que se contrapunham à concepção de tempo herdada do cristianismo e do Iluminismo e que. É conhecida a passagem no início do Manifesto que constata. “On wit and humor”. 1991. e Enscoe. Marx deixou de lado a força e o impacto que o registro cômico exercia sobre a compreensão crítica do presente. From Pope to Croce. F.. Salinas Fortes. afinal como não rir desse frenético e infinito jogo de espelhos que é a Ucronia? Se a Ucronia atrapalha a compreensão da História. aquela outra passagem.P. T. Press. (como diria Walter Benjamin. p. Paris: Gallimard. p. por extensão. F. o esgotamento de todas as formas de utopias na conjuntura das revoluções sociais de 1848. que não há melhor começo para o pensamento do que o riso. o próprio Benjamin tenha dito certa vez. 49. aquela de um tempo vazio e homogêneo. apenas apressar a derrocada das ilusões sociais em relação ao poder burguês. pois percebeu. aqui brevemente indicados. por isso. p. p. temporária. e Clark. Karin Volobuef. 143. 62. 11. p. 1975. Ali. induziram a uma concepção de tempo que o Manifesto e. E. 3.. ela. Marx também partilhou desta atitude de desencantamento com o presente. Trad. In: Allen. A história maravilhosa de Peter Schlemihl. Romanticism and the case of Georg Luckács”. 2. 1994. Paris: Union Genérale d‟Editions. In: Studies in romanticism. a menos que ela própria afundasse “na ruína comum das classes em contenda”. num momento de perigo na História”. criadas para expressar. S. Fora do tempo cumulativo e dos sentidos estáveis. E. Chamisso. a necessidade de superação daquele presente degradado. 4.U. Literary Criticism. Nova York: American Book. a deterse. Marx. uma fase da História destinada a ser substituída por outra.51 manuscritos apócrifos. Ainda que limitado.. Era preciso articular um futuro factível que esvaziasse a falsa plenitude do presente. dando lições a respeito dos momentos certos que temos para rir. com acuidade e lucidez. p. . eu diria que. enquanto o tempo do humor romântico. p. 12. Também eles se batiam contra algo que dentro da tradição hegeliana figurava sempre como pertencente a uma espécie de realidade autônoma. 1971. 1948. Estes três registros. a obra posterior de Marx.

(1a ed. Uchronie:. 1992.. p. In: Obras Escolhidas. e no caso do Alan/festo Burke. 22. Meta-História.. 468. op.. 17. 167173. Kenneth. São Paulo: Brasiliense.52 14.. São Paulo. Uchronie (L‟Utopie dans l‟Histoire). tel qu‟il aurait pu etre. Sérgio Paulo Rouanet. Charles. José Laurênio de Melo. Manifest du.. a imaginação histórica do século XIX. p. .. 16. A Grammar of Motives. in: Lógica do sentido. p. 21.. 20. 56. Tomei como inspiração as páginas que Deleuze escreveu sobre o tema. 465-466. p. Idem. 1857) Paris: Fayard. p. 224.ldem. trad. 1985. 18. Edusp. p. esquisse historique aprocryphe du développement de Ia civilisation européenne tel qu‟il n‟a pas été. 143. cit.. 1988. Idem. Hayden. “Sobre o conceito de História”. 1969. 15. White. Renouvier. Respectivamente. 19. Trad. Berkeley: University of California Press. Benjamin.. Walter. Idem. ibid.

(que) adotou a forma de uma encarniçada luta de classes. no entanto. ora aberta. cada vez. simultaneamente. recorrente nos escritos de Marx e Engels. não raro da própria Antiguidade: Homem livre e escravo. mestre de corporação e companheiro. a especificidade de sua sociedade. contudo.1 Trazia uma reflexão nova sobre um mundo também novo. mesmo que perfunctória. Partilha. longe de estar ausente. Um ponto comum parece perpassar quase toda a historiografia marxista sobre a Antiguidade. em diversas passagens de O Capital. de alguns princípios gerais que regem a transformação das sociedades humanas. sob diversas roupagens: na Ideologia alemã. Engels no princípio do ano fatídico de 1848. Apontava. suas leis próprias de desenvolvimento? Como definir se os princípios analíticos. e com as diretrizes para transformá-lo. um ponto de partida e um contraponto para o desenvolvimento do capitalismo. em torno de duas classes fundamentais. influenciou notavelmente a própria historiografia especializada. trazia em si todas as marcas da urgência com que fora escrito. os textos mais mencionados e explorados nos dias de hoje. patrício e plebeu. fez mais justiça ao texto que seu próprio presente. A escravidão teria sido a primeira forma de exploração e as sociedades escravistas as primeiras sociedades de classes. desenvolvidos por Marx e Engels para a análise do capitalismo. precisamente. como que anunciando a onda revolucionária que varreria a Europa.7 E os exemplos que enuncia são exemplos do passado. de modo aparentemente insólito. duas realidades. Mesmo. desde os mais remotos tempos. mostrando a vitalidade das leituras às quais o Manifesto se abria. em particular. largamente influente (mesmo para seus detratores) e permanentemente relido nestes últimos 150 anos. São. e firmemente regida pelo esquema de etapas do desenvolvimento social da cartilha stalinista. Sob o manto desse acordo.8 A historiografia soviética sobre a Antiguidade. De modo geral.3 A Antigüidade Clássica. da visão absolutamente genérica e generalizante da história humana que se pode ler no Prefácio da Contribuição à crítica da economia política. diferenças profundas. naquela do capitalismo. Anuncia. não tenha deixado vencedores. numa palavra. mas cujas raízes eram já identificáveis nos dilemas e conturbações de então. é um texto essencialmente preocupado com o presente. e a despeito de inúmeras incongruências. para se ter uma idéia da riqueza das questões propostas pelo marxismo aos historiadores da Antiguidade. tem uma presença e um papel de grande importância no Manifesto Comunista. p. em particular. ou dois termos. escrito por K. O conflito fundamental foi identificado nas lutas entre senhores e escravos. neles. com efeito. o capítulo sobre as formas que precedem à produção capitalista. que “a queda da sociedade romana. oprimidos e opressores.9 Até meados da década de 1950. com efeito. os Grundrisse e. em última instância. Essa presença da Antigüidade Clássica é. como se sabe. que se erguia diante do olhar espantado de todos. E isso merece uma explicação. com o capitalismo. em A origem da família. O Manifesto. Um futuro que. Como definir seu modo de produção. um clássico. sempre teve a luta de classes como seu ponto central. terminando com a „destruição das classes em conflito‟”. mais do que tudo. ao mesmo tempo. cuja relação não é evidente.10 . de toda a obra de Marx e Engels. por uma revolução dos escravos contra seus proprietários. tornou-se um marco do pensamento social contemporâneo. (Manifesto.2 O Manifesto Comunista.4 É. como no capitalismo. da propriedade privada e do Estado. a primeira a constituir-se no campo marxista. ao interminável debate sobre o chamado modo de produção asiático. representaram uma fonte de inspiração e muitos desafios.53 O MANIFESTO COMUNISTA E A ANTIGÜIDADE CLÁSSICA Norberto Luiz Guarinello O título deste artigo aproxima. que assistiram à dissolução da comuna primitiva até o fim do Império Romano. com seu presente. marxista ou não. talvez nenhum tenha exercido uma influencia mais marcante sobre a historiografia da Antiguidade Clássica do que o Manifesto Comunista. no movimento da História. Marx e F. a história da luta de classes. o Manifesto do Partido Comunista.. ou pela reconstituição revolucionária de toda a sociedade ou pela destruição das classes em conflito. com efeito. geral. opressor e oprimido permaneceram em constante oposição um ao outro.5 O conjunto dessas referências à Antiguidade. compõem. provavelmente. no Prefácio da Contribuição à crítica da economia política. na correspondência e. por sua profundidade e argúcia.6 Mas de todos os escritos de Marx e Engels. 94) Mas quais classes? Como pensar os conflitos de classe numa sociedade não-capitalista? Quais as semelhanças e as diferenças entre o passado pré-capitalista e o mundo criado pelo capital? As respostas a essas perguntas variaram enormemente ao longo destes 150 anos. como afirmava Kovaliov. de Engels. senhor e servo. tais como: qual a posição da chamada Antiguidade Clássica na História Universal e. no entanto. as lutas de classe na Antiguidade Clássica foram rigidamente enquadradas numa Filosofia da História derivada. a absoluta singularidade da sociedade capitalista. Para os historiadores marxistas. que terminou. ao mesmo tempo que permite ressaltar. ou sobre o caráter de classe da escravidão antiga. derrubado. são também válidos para as sociedades que o precederam? Basta uma olhada. ora disfarçada. logo em seu início. a formulação mais completa. coloca. levando a efeito uma guerra ininterrupta. escondem-se. até mesmo. Quando veio à luz. e que o conflito se dava. entre opressores e oprimidos. uma questão central fundamental para os historiadores marxistas da Antiguidade uma questão central: a História é. Afinal. o domínio do capitalismo sobre o mundo e sua inevitável superação. articulada e coerente da especificidade histórica da Antiguidade Clássica. certamente. mais ou menos.. em passagens cruciais dos Grundrisse. para um futuro radicalmente diferente do presente. e sempre foi. para o futuro. até recentemente: que o mundo antigo também se organizava em classes de explorados e exploradores. já em meados dos anos 30.

para a Grécia. J. como a especificidade do mundo antigo frente ao capitalismo. a expressão do modo pelo qual a exploração é efetivada — o modo pelo qual as classes proprietárias vivem das não-proprietárias — então.16 Dizia Parain: A oposição mais profunda. Contudo. P. O esquema stalinista não atuou como um fantasma.13 O sistema entra em crise.”. no âmbito dos próprios livres. como o conflito principal que. a velha noção da escravidão como primeira forma de exploração de classe. Na sociedade escravista. dera-se em outro nível. e uma paralela mudança de ênfase. greco-romano.) Mas como nas sociedades de classes se mantêm resíduos dos modos de produção anteriores e se formam novos elementos. o texto de Utchenko já aponta para uma crítica da versão stalinista do mundo antigo. solapando as bases do sistema escravista sem conseguir alterá-lo. M. entre ricos e pobres. mas podiam coexistir. para o Ocidente. com o antigo sistema binário. do Manifesto Comunista. Croix representam a tentativa mais brilhante e coerente de ler a Antiguidade Clássica à luz das obras de Marx e. Duas características marcam essa revisão: uma ruptura progressiva com noção de etapas. Vernant.. nos escritos de Staerman.. para o marxismo ocidental. engendra o conflito “principal” entre estes últimos e os ricos. explicar a escassez e a irrelevância dos escravos. é a oposição entre livres e escravos. quanta novidade! As lutas entre senhores e escravos. ou uma camisa de força e o Manifesto foi lido. Em seus primeiros trabalhos reproduz ainda. Utchenko é um exemplo dessa última tensão: A sociedade escravista. mas com características próprias. um ideal verdadeiramente revolucionário (. O conflito aberto. e uma ênfase na especificidade das leis de evolução desse mundo frente ao capitalismo.)18 A própria presença de escravos. sem grande preocupação com as fontes antigas.. a classe dos pequenos produtores era uma das classes acessórias. Como conciliá-las com as contradições decorrentes da exploração econômica dos escravos? Como pensar a especificidade das lutas de classe no mundo antigo? E uma questão que jamais se colocou para a historiografia soviética: é lícito falar em classes na Antiguidade? Ch. que não apenas se sucediam. não à luz do Prefácio da Contribuição. e o conflito entre exploradores e explorados.. A classe explorada e oprimida era fundamentalmente a escrava (. tornou-se mais flexível. ocupando postos acadêmicos e com acesso ao mundo editorial data apenas dos anos de 1960. compunha-se de homens livres e escravos. Parain para o mundo romano e. como as revoltas da Sicília ou o levante de Espártaco. Podemos acompanhar essas mudanças na obra de uma das maiores historiadoras soviéticas da Antiguidade.) dividia-se em duas classes: os grandes proprietários de terras (. que caracterizariam esse mundo em diferentes épocas e lugares. L. em muito maior medida. Mais recentemente. sem sombra de dúvida. rompendo.. das lutas de classe para as contradições sistêmicas. na própria França. no sentido estrito do termo e. Há. não pelo conflito entre senhores e escravos. justificar a evidente importância das lutas políticas entre os homens livres. Uma delas é a tendência à multiplicação das formas de exploração do trabalho. sem deixar de ser eficaz. uma historiografia marxista consistente. uma maior atenção para a multiplicidade de modos de produção característicos do mundo antigo. mas... no século III d. desde os tempos remotos de babilônicos e egípcios antigos. gerando o empobrecimento da maioria dos homens livres.) e os pequenos produtores..) a população livre (.. (.) Sua grande debilidade (dos escravos em luta) foi que nunca puderam levar adiante e propor. Também aqui o Manifesto exerceu uma notável influência.19 Na Inglaterra. Staerman.. entre duas classes fundamentais. Se a divisão em classes econômicas é.54 Kovaliov representa. diz ele. de Ste. mas a todas as vítimas da sociedade existente. assim.. dos Grundrisse e do próprio O Capital.12 A inspiração no Manifesto é clara. acima de tudo.. podemos explicar a existência de classes acessórias (de transição).14 A escravidão desapareceu por suas contradições internas. Na sociedade escravista. mais do que qualquer outro...” Sua principal dificuldade era.) Cada um dos modos antagônicos de produção (na História) engendra duas classes fundamentais. determina toda sua história. o exemplo de uma leitura do Manifesto Comunista à luz do Prefácio da Contribuição. uma ameaça quase sempre surda. sem qualquer -revolução. mesmo que tenha sido um conflito latente. ou. o que não significa que esta tenha sido sempre a oposição principal... a dimensão política das cidades-Estados antigas. os trabalhos de G. caracterizadas pela coerção extra-econômica dos produtores diretos. atuam no plano das relações econômicas. A luta de classes permaneceu como uma categoria fundamental.C. enfatizando-se. E. Só o foi quando a produção escravista era dominante17 (.15 Nos países ocidentais. no mínimo uma maior flexibilidade no seu ordenamento. Por outro lado. o caráter extra-econômico das formas de exploração na Antiguidade. assim como a idéia de um conflito binário. enquadrando a escravidão como uma entre tantas relações de dependência. “A ausência de interesse dos escravos por seu trabalho era o principal obstáculo no desenvolvimento da vida econômica no mundo antigo. várias pistas para os desenvolvimentos mais recentes da historiografia marxista soviética. aqui. e potencialmente transformador. em particular. Mas seu foco de interesse é o Império Romano e. depois dele. entre escravos e donos de escravos. de apenas duas classes fundamentais. de modo acanhado e quase mecânico. escravos e proprietários de escravos são essas duas classes (. à parte alguns episódios de rebelião aberta. a idéia de classes fundamentais parece ceder lugar a uma visão multifacetada do universo da exploração e do conflito de classes. não apenas a seus companheiros de miséria.. em última instância.. O próprio conceito de classe..20 Ste. tanto na derrubada da República romana como na queda do Império romano do Ocidente. que explica o desenvolvimento político do mundo antigo. Croix afirma peremptoriamente a eficácia do conceito de classe social para o estudo do mundo antigo. e as lutas entre cidadãos livres. mas baseado sobretudo em citações de Marx e Engels. mais precisamente. há uma . A revisão da interpretação stalinista da Antiguidade Clássica iniciou-se ainda nos anos 50. econômicas. propuseram responder a tais questões estabelecendo uma sutil diferença entre oposição de classe fundamental (entre senhores e escravos) e oposição principal (entre livres e escravos). para o Oriente antigo. as chamadas relações de dependência. permaneceram um foco de constantes preocupações. por sua própria natureza. Um esquema não apenas rígido. nesse sentido. Um artigo de S. que deu às sociedades antigas seu caráter específico em relação às sociedades medievais e modernas...

precisamente. Primeiramente. entre cidadãos. se a estrutura de classes. Croix. as condições objetivas de sua leitura. não puderam ser resumidos a um conflito fundamental. seus estrangeiros e metecos. seus literatos colocam problemas que a historiografia marxista não soube resolver. agentes econômicos. Croix. conceitualizando essa ruptura na História? A própria aplicabilidade do conceito de classe social na Antiguidade. grupos de prestígio e status hierarquizados num continuum ou. menos o signo de uma opressão que deve ser extirpada que uma estratégia econômica de ampliação da produção mercantil. mas estruturas adequadas a diferentes tipos de sociedades. referido exclusivamente às relações de produção. que é essencialmente mercantil e regido pelas leis do mercado. O escravismo se expande. como todo clássico que se abre a infinitas e sucessivas leituras. vale dizer.21 Havia. no sentido pleno da palavra. e talvez por conta dessas aporias não resolvidas. um mundo estagnado. entre senhores e escravos acima de tudo. por redes de relações pessoais. que parecem tê-la conduzido a um impasse. O mundo antigo passou a ser visto como um mundo à parte. Para Faversani. A despeito das inúmeras variantes disponíveis. aparecem apenas nas sociedades em que o valor de troca e a produção de bens de consumo se desenvolvem em toda a sua potencialidade. com seus libertos enriquecidos. estamentos. exprimir. na última década. Mas então. a estrutura de exploração é um elemento essencial. sem resolver.27 A luta desaparece. antes de tudo.”. estamos longe do Manifesto Comunista. que sempre atuou como guia ou contraponto dessa historiografia. para os conflitos sociais.24 aparecem como uma alternativa a um conceito de classe social que “se mostra. mas tais classes são. Os marxistas italianos ainda lêem as sociedades da Antiguidade Clássica como divididas em classes fundamentais: grandes proprietários de terra e camponeses (modo de produção antigo). com as noções de valor de uso e de valor de troca. Finley. sua difícil classificação. verticalizadas. Em todo caso. que parece mover-se por forças próprias? Ou da política. de uma racionalidade econômica própria. com o diferente potencial transformador e unificador do capitalismo e do escravismo. a par com a perda de eficácia das ações coletivas. A historiografia marxista sobre a Antiguidade clássica vive hoje. Weber e cujo impulso inicial foi dado pelos trabalhos de M. É uma posição quase isolada. as “relações diretas de poder”. como Padgug: os estamentos e as classes sociais não são diferentes classes de fenômenos (pois funcionam relacionados). e sim pelas restrições do mercado à universalização do valor de troca.55 incessante luta entre classes exploradas e exploradoras e. Para alguns. não sociais. seus escravos domésticos ou trabalhando independentemente. São as possibilidades do mercado. claramente insuficiente para a análise da sociedade romana. mas não pelos conflitos de classe. mas por ordens. procurando entender a posição social de um rico liberto no Império Romano. sem dúvida. Os marxistas italianos. na verdade. no que reside a especificidade do mundo antigo? Não seria melhor falar em mundo pré-capitalista? Um mundo construído em negativo. outras formas de exploração e de conflito. sem produção mercantil e ordenado. a visão predominante. exceto aquela política. mas esse permanece como o conflito essencial. ou quase. As classes sociais. sem conexão histórica com o desenvolvimento do capitalismo. diferentes percursos neste século. uma direção. como o capitalismo. Terá o Manifesto Comunista. o contexto no qual se apresenta como texto. cuja produção foi muito intensa nos anos 80. de palco quase imóvel. 26 Há vários pontos de contato entre essa escola e o marxismo mais recente. não parece hoje tão segura. mesmo que indireta e a longuíssimo prazo. A exploração do escravo toma-se. que conduzem à dissolução da sociedade antiga e ao desenvolvimento do modo de produção escravista. A insistência de Ste. E de que história? Da econômica. a própria dificuldade de explicar as transformações do chamado “capitalismo tardio” e a fragmentação e multiplicação dos agentes sociais. tal é. da evolução do mundo antigo. uma causação. a complexa estratificação social do mundo antigo. senão explicativo. em essência. o marxismo vem perdendo influência no contexto da historiografia sobre a Antiguidade. seus camponeses mais ou menos pobres.. Croix na luta de classes como motor da História tende a colocar as estruturas econômicas como uma espécie de pano de fundo. E o capitalismo aparece como novidade absoluta na História. Mudaram. não é a luta entre as classes que determina a passagem de um modo de produção a outro.25 Não precisamos ir tão longe para perceber que o modelo dual — das classes fundamentais em conflito — deixou de ser coerente e que a própria noção de luta de classes. que as noções de coerção extra-econômica. por exemplo. um impasse. A História deixa de ter um motor. não por classes sociais. Para Ste. Sua preocupação central é com a esfera da produção e da circulação. precisamente no Manifesto Comunista. para Finley como para Weber. juntamente com as classes.. nas sociedades burguesas. fruto. que parece ignorar as relações de produção? Podemos pressentir uma forte tensão entre economia e política nos estudos marxistas sobre a Antiguidade. As aporias no pensamento marxista sobre a Antiguidade Clássica parecem refletir. a penetração do valor de troca. seus artesãos livres. senhores e escravos (modo de produção escravista). quer essa se expresse politicamente ou não. as próprias mudanças nas relações econômicas resultam da luta de classes. entre patronos e seus dependentes. sem dúvida. que exerce uma forte influência mesmo sobre os historiadores marxistas. assim.23 A multiplicidade das formas de dependência. necessita de urgente reflexão. tendem a diminuir a importância da própria luta de classes como fator causai. A historiografia marxista sobre a Antiguidade Clássica seguiu. mesmo que atuantes em diferentes períodos. aplicada à Antiguidade. fortemente influenciada por M. Nada impede que releiamos o Manifesto Comunista com nossos olhos novos. aboliu a noção de revolução como lei histórica universal. procuram. única. Os conflitos de classe.22 Aqui. na Antiguidade. ou aos quais não deu importância. para Ste. nem se pode comprovar sua permanente eficácia como motor da História. Para autores como Andrea Carandini. Talvez os problemas da realidade contemporânea . como a chave. mais recentemente. como o oposto do capitalismo? E não estaria Marx. sobretudo para a chamada Escola de Cambridge. mesmo se apenas os senhores podiam conduzir tal luta com eficácia. ou de relações de dependência. derivadas de uma certa leitura do chamado marxismo analítico. mas sua expansão é limitada. uma perda de identidade. de modo sintomático. das transformações do mundo antigo. perdido sua atualidade? Não creio. ou seja. sobretudo aqueles ligados ao Instituto Gramsci. na melhor das hipóteses.

O Manifesto transmite.36 Dessa maneira. uma gradação múltipla das condições sociais. pouco a pouco. mas é uma característica do futuro.30 Outras definições podem ser encontradas. visão do futuro. os vassalos. p. que parece percorrer o Manifesto. Na Roma Antiga. a prever um “desfecho” para a História. dominada por um único e irreversível conflito. do uso do termo classe em análises conjunturais. efetivamente. Um mundo complexo. mas aquela pela qual vislumbravam um futuro. necessário sem dúvida. os pequenos industriais. 150 anos após o Manifesto Comunista e ninguém se arriscaria.37 Não nos tornamos uma sociedade dual. apenas aquelas entre explorados e exploradores. ligado à definição de modo de produção e claramente polarizado em classes fundamentalmente antagônicas. a visão dual das classes? Vejamos a continuação do trecho: “No entanto. com muita propriedade. e no qual restaram apenas duas classes. o capitalismo não se universalizou. Mas “de todas as classes que hoje se defrontam com a burguesia. em oposição ao texto prévio de Engels que com ele guarda muitas semelhanças32 é um texto essencialmente histórico. todas as demais podem ser encontradas e lidas no Manifesto Comunista. como aquelas que privilegiam a classe para si. a época da burguesia. como não poderiam ser. O Manifesto. muito menos do passado. essencial e radicalmente. Detenhamo-nos. os servos. 94). no Manifesto. os guerreiros. Afinal.31 Com exceção da divisão tripartite. Pelo menos ainda não. de uma época em que o capitalismo já se universalizou. portanto. em primeiro lugar. ela se resolve no futuro. que tanta importância teve nas interpretações marxistas da Antiguidade. a luta de classes. Permaneceu assim presa à armadilha teleológica de Hegel e das utopias do progresso. p.34 As velhas classes sobrevivem no presente de Marx. um esquema essencialmente dual. ao longo de lutas setoriais. a historiografia marxista sobre a Antiguidade Clássica projetou sobre o passado greco-romano. como em O 18 Brumário de Luís Bonaparte.35 E é sua solução no futuro que nos permite entender os conflitos no passado. é essa. que mescla com mestria passado. ainda não). embora seu impacto se faça sentir por toda a parte. a consciência de classe como pré-requisito para sua definição. e isso Marx e Engels deixam claro desde o início. encontramos. suas lutas mais promissoras? Como pensar o espaço dessas lutas? Que objetivos propor à sociedade e. a não ser às custas de transformar-se. só é compreensível. portanto? Não. a partir do futuro33 A definição da luta de classes como um conflito binário e polarizado não advém do passado e Marx e Engels deixam isso claro: Desde as épocas mais remotas da História. do presente. E o mesmo parece aplicar-se à detida análise que Marx e Engels fazem. como A. de status e não necessariamente. mas que exercem uma ação social importante. de um vir a ser. dos conflitos do presente. é apenas aparente porque. p. em duas grandes classes que se defrontam — a burguesia e o proletariado” (ibidem. mas produziu o próprio presente. a diversidade cultural e social dos povos do planeta não foram simplesmente abolidas pelo capitalismo. que dominou essa historiografia por largos anos. a escória da sociedade. possui uma característica: simplificou os antagonismos de classe. tão caras ao século XIX e às quais Marx e Engels não foram imunes. desde sempre. aristocratas. A burguesia cria o proletariado e este. da História. o de Marx em 1848. Ora. 103). não a estrutura pela qual Marx e Engels viam o presente no Manifesto. sem uma definição conceituai precisa. em praticamente toda parte. Mas esse processo. parecer estranha. O passado não apenas corrobora a análise do presente. 94). certamente influenciados pelo Manifesto. outras camadas subordinadas (Manifesto. suas zonas possíveis de fratura. uma visão histórica da humanidade: a história do comunismo. e. Giddens. De onde vem. os artesãos. coerente e única é um lugar-comum na historiografia marxista. que é própria do capitalismo. precisamente. ou apenas. sobre o caráter dual da luta de classes. No passado. uma divisão tripartite. mas distribuíam-se numa gama variada de subdivisões dependentes de fatores políticos. os companheiros. pode. portanto. hoje. presente e futuro numa relação dialética. O método é claramente teleológico e o materialismo histórico de seus autores não deixa de ser. os camponeses. os plebeus. os aprendizes. quase simultaneamente e sem que seus autores se assombrem com essa aparente incoerência. O capital não se transformou no sujeito único. ainda. culturais . Visão do presente. cego e automático. as divisões entre oprimidos e opressores não eram. que é a mesma que conduzirá ao futuro: à luta de classes. quais os limites físicos. já abrange o mundo. A utopia lhe é consubstanciai.29 Olin Wright.28 Ou. já estava lá. Se a História é a história da luta de classes essa luta também tem uma história. na Idade Média. que nos são postas pela realidade de hoje: como pensar a ação dos grupos sociais. menos utópico. a nossa época. Mais do que isso. como aparece no último livro de O Capital. no Manifesto Comunista o que. como agrupar os conflitos de interesse na sociedade contemporânea. A tensão entre esquema binário ou multifacetado. não como a história de uma idéia. ainda. sobretudo. A ênfase no dualismo do conflito de classes. de forma alguma. mas que não se dava a ver nas décadas passadas. através da ação de uma única força geral. a brusca interrupção no livro terceiro de O Capital de uma discussão que Marx apenas esboçara sobre as classes sociais. políticos. apenas o proletariado é uma classe realmente revolucionária. A oposição binária não advém.56 nos permitam ler. As barreiras dos Estados-nacionais. porque aquele futuro não se concretizou (ao menos. em quase todas essas classes. que atua como base e contraponto do presente e do futuro. das relações de exploração. aparentemente. que pranteia. por científico. As outras classes decaem e por fim desaparecem com o desenvolvimento da indústria moderna” (ibidem. os senhores. que se reflete mesmo em não-marxistas. mas não acontecido. hoje. só é visível. Devemos tentar interpretar o passado à luz das indagações que nos são contemporâneas. Será mesmo incoerência? Depende de como leiamos o Manifesto: como o enunciado das leis gerais e permanentes da História ou como a descrição de um processo. os escravos. para seus autores. uma complexa divisão da sociedade em estamentos (Stände) diferentes. que é uma classe para Marx? A ausência de uma definição explícita. os pequenos fabricantes. temos os patrícios. a posição do Manifesto? Sim e não. separa um conceito abstrato de classe. transforma sua condição de classe em consciência de classe e se torna o algoz da própria burguesia. Mas isso se dá. mas como a história das condições objetivas que o tornaram possível e necessário. Há uma forte tendência a ver em Marx. os mestres. A sociedade global divide-se cada vez mais em dois campos hostis. as classes médias inferiores. É a tendência do capitalismo e Marx o diz explicitamente.

nos deixarmos ofuscar pelo brilho do poder político ou o fulgor da cultura erudita. bem como em quase todos os demais escritos de Marx ou de Engels. É um texto que visualiza a força da ação humana na História como instância transformadora por excelência! Nisso reside. sobre sua especificidade e. ou de a cidade de Roma ser o núcleo de um processo de formação imperial não implica. afinal. na formação de uma comunidade global. isto é. sobre as especificidades em seu interior. O futuro. mas globais? Podemos. de modo radical. “a escória da sociedade. 103). Marx e Engels pensavam o capital a partir de sua forma mais desenvolvida. Marx e Engels pensam a universalização do capitalismo como uma universalização da Europa sobre um mundo sem História. mais atenta às história locais. é o eurocentrismo que marca a visão do passado. a adotarem o que ela chama de civilização. Essa visão parece hoje.. que cresce sem cessar nesse mundo globalizado e liberal? Podemos apontar. Marx.. encontramos novas necessidades que requerem para sua satisfação os produtos das regiões mais longínquas e dos climas mais diversos. 9. o Império Romano. na medida que generaliza. com insistência. hoje. é um futuro europeu.38 A história universal do comunismo que traçam é essencialmente européia. um século e meio depois de escrito. talvez. sem dúvida. e. da separação entre as sociedades humanas. p. como o romano. O fato de Atenas. . Mais que isso. sobretudo. NOTAS: 1. na luta pelo futuro. mas sempre como nãoHistória. ou seriam absolutamente secundárias: Por meio de sua exploração do mercado mundial. dito em outros termos. E a contrapartida dessa europeização do futuro ou. retirou da indústria sua base nacional. como estagnação39 E a América comparece. portanto. ou de concentrar a produção intelectual e. mais que tudo. bizarra.. ainda. a se tomarem burguesas. de culturas distintas. satisfeitas na produção nacional. 97) Uma visão bastante atual. Neste sentido. que é herança histórica?). mas que a historiografia marxista sobre a Antiguidade preservou em nosso século. situações históricas particulares e reproduzem. é central para uma releitura. ao mesmo tempo. crescentemente. Há várias pistas que podemos seguir. 150 anos do Manifesto Comunista. a imagem que herdamos do século passado sobre a Antiguidade Clássica. cria um mundo à sua imagem. no mínimo.. em todas as direções. A Antiguidade à qual Marx e Engels se referiam era um mundo restrito e específico: Atenas em sua época clássica. Para os historiadores da Antiguidade isso coloca novos desafios. com as imensas facilidades dos meios de comunicação. ainda fértil. me parece.. cidades. calcada no modelo de sucessão de civilizações e de centros de poder. no Manifesto Comunista. sem dúvida. ao abrir-se à leitura. provavelmente. as ênfases das próprias fontes antigas. sobretudo em A origem da família. a história da luta de classes? E como definimos essas classes? Como se dá essa luta? Como pensá-la. As velhas indústrias nacionais foram destruídas ou estão se destruindo dia a dia.40 Uma visão típica do século XIX. não apenas em termos locais. O Manifesto Comunista revela-se. na qual as diferenças entre os povos desapareceriam. livresca em língua grega. a única então possível. em redimensionar a Europa nos quadros de uma história mais universal e que seja. a burguesia deu um caráter cosmopolita à produção e ao consumo de todos os países. sobretudo nos Grundrisse. Mas isso é um outro tema. traçado a partir da Europa. p. mas apenas como ilustração de um passado que a Europa já superara. a República de Roma. a visão universalizante da História que aparece no Manifesto Comunista envelheceu. sem qualquer crítica. mas de um futuro que ainda não se realizou. universaliza. propor um desfecho à cada vez mais aguda exploração do homem pelo homem? Podemos pensar a exclusão como uma forma de opressão? Corno incluir. “Manifesto Comunista”. É verdade que a Ásia começa a aparecer. sobrevivendo e atuando mesmo sob o manto de um império politicamente centralizado. Com o rápido crescimento de todos os meios de produção. (Ibidem. universalizada e concebiam a própria história humana como história da universalização do capital. mesmo o da revolução proletária. O. em lugar das antigas necessidades. esse produto passivo das camadas mais baixas da velha sociedade” (Manifesto. em detrimento da história do conjunto. efetivamente.. não precisariam ser levadas em consideração. nos seus contornos. É preciso refazer. Não há porque privilegiar uma linha histórica. ter dominado um extenso império marítimo. hoje. Em lugar do antigo isolamento local e da autosuficiência das nações.57 dessas sociedades? Haverá fins comuns a todas as sociedades humanas. intrinsecamente ligados.. entendido como continuação da história de Roma. In: Coggiola.. só possível. mais que em qualquer outro ponto. Não há porque.. Cf. dessa visão exclusivamente européia do futuro. de modo de produção e de identidade cultural aparecem. Karl e Engels. sua maior riqueza e seu maior impulso ao nosso presente. sobre sua posição na história da Europa (mas será da Europa? Não será o Islão o verdadeiro herdeiro das sociedades clássicas? E. que também a História se concentrasse nessas cidades. mesmo as mais bárbaras. desenvolvem-se. tribos.41 Uma escolha fundada em critérios políticos e culturais que correspondem à formação cultural dos dois autores (sobretudo de Marx) e à compartimentação da história corrente no século XIX. necessariamente. São Paulo. Friedrich. para algum desfecho? O Manifesto Comunista ainda nos faz pensar. p.. ainda. impérios. nos escritos de Marx e Engels. cuja introdução se toma uma questão de vida e morte para todas as nações civilizadas. um intercâmbio e uma interdependência universais. ou pensável. a burguesia arrasta todas as nações.. a todas as comunidades de homens? Formamos uma comunidade global? Como agir globalmente para transformar o mundo? A questão da comunidade. para a civilização. de histórias locais. do Manifesto Comunista. por algumas décadas. Em uma palavra. Boitempo. 1998. Força todas as nações. Há uma urgência. como a convivência de sociedades estruturadas diferentemente. Para desespero dos reacionários. Nos propõe questões fundamentais: Para onde caminhamos? É a História. onde os conceitos de comunidade. cujas particularidades culturais seriam simplesmente tragadas pelo capitalismo ou que. nos escritos da década de 1850. São suplantadas por novas indústrias.

é a seu modo uma realização cientifica de primeiro nível. para o qual a descoberta da América preparou o terreno. com os escravos constituindo uma espécie de pedestal passivo. O conceito ao qual Staerman se opunha era o de que “a classe de vanguarda é sempre. Staerman. Kovaliov. as oportunidades estruturais. p. 1986. In: El modo de produccion esclavista. também. p. p. p. E. 79. acompanhada de uma análise crítica.. citado à nota 12. o intercâmbio com as colônias. “Los caracteres específicos de la lucha de clases el Ia Antigüedad clásica”. H. 12. 165-190.. Formações econômicas pré-capitalistas. Akal. particularmente do artigo de Schiavone. ibidem. reflete-se. 176. como veremos. (org. veja-se. Da mesma Staerman vejam-se também: “Alcuni problemi della storia delia schiavitú delia tarda repubblica romana” In: Biezunska Malowist. Akal. Idem. aqui apenas enunciada por Marx e Engels. “Clases y estructuras de clases en la sociedad esclavista antigua”. O tema da luta de classes. a luta entre latifundiários e proprietários de fazendas escravista (estes os derrotados). Cahiers du Communisme. p. ora é a burguesia que atua. 4. 10. às comunicações por terra. Natunewicz. Gesammelte Aufsätze zur Soziologie und Sozial Politik. 1978. à navegação.. ou seja. M. em conseqüência. livres e escravos. M. Roma. p. 1978. O próprio Marx parece hesitar entre diversas alternativas: patrícios e plebeus.. no 18 Brumário. Rio de Janeiro. Paz e Terra. V. dominio del valore d‟uso e funzione idelogica”. Essa tensão entre sujeitos. Veja-se. “La esclavitud antigua en Ia storiografia sovietica”.) a burguesia destruiu todas as relações feudais.. a Marx. cit. entre livres ricos e livres pobres. Veja-se a introdução de Hobsbawm. 18. Berlim: Akademie verlag. 1964. B. no livro primeiro de 0 Capital. K. Vernant. em A ideologia alemã. pode ser encontrada em Vittinghof. aqui. Riuniti.. p. ou motores. 1978. In: La transicion del esclavismo al feudalismo. J. entre os dois modelos de transformação histórica que transparecem em suas obras. 492-518. 3a ed. 1978. 273. “Remarques sur Ia lutte de classe dans Ia Grèce ancienne”. reagiu sobre a extensão da indústria” (Manifesto. à indústria. 1981. F. a toda a riqueza de questões que o Manifesto nos coloca. & Trofimova. cit. 14. Veja-se. 1979 e seu fundamental Die Krise der Sklavenhalterordnung im Westen des römischen Reiches. L‟Erma di Bretchneider. p.. Madri. na formação do capitalismo. 149-172.)” (p. Ch. ao menos eu. op. que possibilitam e determinam o desenvolvimento e a futura crise do capitalismo. neste trabalho. Madri.. da pequena contra a grande propriedade. p. na mesma obra. livres e escravos. cit. etc. G. Madri. Introduzione. 36. Utchenko. 68). Sobretudo. no Manifesto. favoreceram o rápido desenvolvimento do elemento revolucionário na sociedade feudal em decomposição”. 1978. I.. M. Utilizamos. 9. mas permeia.. no prefácio à edição alemã de 1890. por sua vez. a respeito. numa carta a Engels de 8/3/1885. The class struggle in the ancient greek world. 7. com os plebeus passando à condição de subproletariado. P. 5. Isto não pode ser negado (. no Império. Parain.)” “A burguesia não pode existir sem revolucionar continuamente(. de modo não resolvido. “Prefácio a obra de Staerman”. sem dúvida é central ao texto. 6. xi-xv. Londres: Duckwoth. Madri. Veja-se Biezunska Malowist. Der Sozialismus. “Per una rilettura delle „Formen‟: teoria delia storia. p. 7 e 12-13. 2a edição. também. 8.)” (p. “La investigacion de Ia época clásica en Europa Oriental: algunas tendencias recientes”. Os mercados das Índias Orientais e da China. Madri. Citado a partir de Ste Croix. O mercado mundial deu um imenso desenvolvimento ao comércio. “La teoria del materialismo historico sobre el Estado esclavista” In: El modo de produccion esclavista. S.” (p. 67) E também “A grande indústria criou o mercado mundial. I. ora são os mercados. rejeito). 1952. Não faço juz. 13.) Schiavitú e produzione nella Roma Repubblicana.. 23-47. o aumento dos meios de troca e das mercadorias em geral deram ao comércio. Vejam-se os parágrafos que se iniciam com: “A descoberta da América. 268. op. 122. por mais que possamos rejeitá-lo em suas teses essenciais (como.. 13-64. E. 257-287. O Manifesto Comunista de Marx e Engels.. P. J. In: El marxismo y los estudios clasicos. mas nele também encontramos o germe de uma outra tensão. (Manifesto. p. 4. a maioria dos trabalhos que mencionaremos. sobretudo na Itália.. No próprio Manifesto. Zahar. 1978. 49-66. “(. in: El Modo de produccion esclavista. p. op. Madri. Compare-se com as descrições da burguesia como ator: “A burguesia desempenhou na História um papel extremamente revolucionário” (68). Basta mencionar a insuspeita visão de Max Weber: “Este documento. esp. p. “El vuelco social del siglo III al V en el Imperio Romano de Occidente”. 66-68. “El régimen esclavista”. 11. Uma relação bastante completa dessas passagens. a circunavegação da África. M. & Trofimova. 68). p. 15. Eirene. p. 3. S.. 16. Akal. p.. e em todas as partes. cit. J. Akal. Akal. Rio de Janeiro. Akal.. p. “A burguesia rasgou o véu (. um impulso jamais conhecido antes e. E. 1977.. o texto do Manifesto Comunista traduzido e publicado em Laski. Vejam-se as referências completas em Vittinhoff. Petit. Staerman. A afirmação e o texto foram retirados de Mazza. a colonização da América. Os Fundamentos são o pano de fundo essencial à discussão da obra coletiva Analisi marxista e società antiche. 69). M. entre credores e devedores. 553). “A burguesia despojou (. abriram um novo campo de ação à burguesia nascente. In: El modo de produccion esclavista. enquanto as classes econômicas se opõem a isso” (em Stalin. p. Roma. A. p. 75-107.. 69). Esse desenvolvimento. 504-5. L.58 2. xvii-xviii... II. 17. a promotora da utilização das leis econômicas no interesse da sociedade. La esclavitud en la Italia Imperial. 1981. p. C. 1924. in: El modo de produccion esclavista. M. além do artigo citado de Vittinghof. . & Sharevskaia. Akal. J. 5-19.)” (Weber. na historiografia marxista sobre a Antiguidade Clássica. 216-217. op.. 1978. “Les problèmes économiques du socialisme en URSS”. na obra citada à nota I.)” “A burguesia revelou (. 1965. Como lembrava o próprio Engels. Veja-se Mazza. entre agência humana e agência estrutural. F. 1980. E. p. Parain. I. Madri. da História. Madri. Akal. à navegação. p. Ch.

toma as análises de Marx como descrevendo um presente concreto e plenamente realizado.166-167. “Karl Marx and the interpretation of Ancient and Modern History”. 22-24 mai 1986). 109. como afirma E. 92-94. vol. oprimida”. In: El Marxismo y los estudios clasicos. Memoirs of the American Academy in Rome. Croix. op. p. (org. O. (Actes du Colloque de Sienne. “Prólogo”. Wright.) Patronage in Ancient Society. “Apresentação”. 1980. 1961. p. Riuniti. Concepção marxista da História. 107-108 e 139-140. Por esse texto é fácil perceber o impacto da perspectiva histórica sobre o conteúdo do Manifesto e de sua visão das sociedades de classe. 41.) El marxismo: una perspectiva analítica. p. A. respectivamente. 1990 e por último. Porto. Andreau. Veja-se o meu “Revalorização da origem da família. 1989. In: Analisi marxista e società antiche. “What is marxist and what is neo in neo-marxist class analysis”. Hobsbawm. São Paulo. “Classe e estamento”. 29. In: Roemer. México. Veja-se Schiavone. aparecia como uma cartilha de perguntas e respostas. 1995. na verdade. de Ste. 1989. 7-35 21. que viria a revelar-se correta. R. Annequin. precisamente. In: El marxismo y los estudios clasicos.. p. Vejam-se. Afrontamento. ambos. “Clases y sociedad en la Grecia Clasica”. Nos Princípios do comunismo. 30. 9-52. The Seaborne Commerce of Ancient Rome: Studies in Archaeology and History. Sciences Sociales. “Per una rilettura delle Formen: teoria delia storia. Giddens. Ehesc. Veja-se Vittinghof. 5. 1996.) Manifesto do Partido Comunista. p. 1978. G. 23. do próprio Finley. 27.59 19. A economia antiga. Cf. 39. G. p. dar uma dimensão histórica ao que. para uma visão particular da relação entre marxismo e futuro. p. FCE.. da propriedade privada e do Estado de F. J. “Roma imperialistica: un caso di sviluppo precapitalistico”. H. p. 1980. Kolendo. 38. Hobsbawm: “a perspectiva de 1848 baseava-se na hipótese. 36. 54-55. “Marx‟s abstract model of class is a dichotomous one”. F. 1989.. Sobretudo dos trabalhos de John Elster. em particular. Paris. vide seu “Tres desafios al concepto de clase social”. 32. citado à nota 32. 165-187. R. 1983. Prieto. Akal. Riuniti. p. p. Veja-se. Martins Fontes. A.. La formazione economica della societa prima del capitale. republicados. como os de Labriola. L‟Anatomia della Scimmia. Paz e Terra. no texto de Engels. A. Feltrinelli. 66. “Présentation: vingt ans après L‟Économie antique de Moses l Finley”. Roma. J. Refiro-me aos Princípios do comunismo. 35. Milão. Londres. cit. 2a ed. O objetivo do Manifesto era. (org. 235. XXXVI. Petrópolis. 25. Madri. de que o desenvolvimento da economia capitalista teria avançado tanto a ponto de tornar possível. Madri. In: Marx en perspective. A. São Paulo. 33. (org. J. Annales. de. na obra citada à nota 1. In: El modo de produccion esclavista. 1981. Croix. E. de que a crise dos velhos regimes levaria a uma vasta revolução social. 1996. entre outros. Vittinghof. 1991. Trimalchio... as p. Diz Engels: “Enquanto a produção não for suficiente tanto para cobrir as necessidades de todos como também para fornecer um certo excedente de produtos destinados ao incremento do capital social e ao ulterior desenvolvimento das forças produtivas da sociedade. que. Porto. E. “Em memória do Manifesto Comunista” e de Jaurès. M. 1981. Vejam-se. 37. 1978. necessariamente uma classe dominante que disponha das forças produtivas da sociedade e uma classe pobre. M. 1979. (org. Roma. Croix. p. p. p. Padgug. Escravidão antiga e ideologia moderna. já citado. História Antiga. 947-961. J. Arciniega. Akal. A. Marx ieri e oggi. In: Coggiola. Sobre a obra de Finley. Clavel-Lévêque & F. Faversani. p. The class struggle. 40. M. Rio de Janeiro. p. Veja-se Fleischer. Vol. “Karl Marx y la Historia de la Antiguedad Clasica”. uma visão polarizada das classes sociais aparece. bastante pertinentes. 28. che sembrano cosi lontani”. Histoire. Humanitas.. 103-127. Rio de Janeiro. 20. Vejam-se as observações. Ste. 22. “O Manifesto Comunista de Marx e Engels”. do próprio A. 105-138. A bibliografia é extensa. Prefazione — “Quando la dimora dello strumento e l‟uomo”. Routledge.. e também da hipótese. Boringhieri. Roma. J. E. de Engels. . Favory. Carandini. op. In: História do marxismo. In: Amphores romaines et histoire economique: dix ans de recherche. p. Veja-se Hadrill-Wallace.) Marx e Engels na História. p. In: Marx en perspective. Graal. de. 11. IXLX. 1978.. E. Macmillan. Schlesinger. entre outros. como princípio de toda a História. entre outros. 24. os artigos reunidos em Analisi marxista e società antica. como resultado de tal revolução. p. Ecole Française. 112. Turim. 34. I. 1980. Ehesc. que depois se revelaria equivocada. devem existir. M. Engels”. 52-54. Akal. no entanto. Testemunhos e modelos. Paris. Que a descrição que Marx e Engels fazem do capitalismo no Manifesto refere-se ao futuro fora já observado em comentários clássicos ao Manifesto. 31. “L‟economia italica fra tarda Repubblica e medio Impero considerata dal punto di vista di una merce: il vino. 222. p. 1978. 1988. Madri. 1995. p. 1985. In: Formas de exploração do trabalho e relações sociais na Antiguidade Clássica. 87. “Aspectos políticos da transição do capitalismo ao socialismo”. p. I 1-20 e. 319. Revista de História. In: A contemporary critique of historical materialism. 505-521. Londres. Vozes. 17-18. O. p. Vejam-se Ste. 78-79. cit. 1985. bem como. dominio del valore d‟uso e funzione dell‟ideologia”. A. 26. p. redigidos por Engels em 1847 como esboço de um programa para a Liga dos Comunistas e publicados por Nogueira. a vitória do proletariado”. 134. L‟Agricoltura nell‟Italia Romana. Ricordando i tempi dello scavo ostiense. A. Afrontamento..

de outro.. Ele mesmo é um documento histórico da tendência já existente no operariado europeu de meados do século XIX para o confronto revolucionário contra o capital. repetindo-se periodicamente. do socialismo reformista (ou “republicano”) — Giovanni Arrighi pretende arbitrariamente que só meio século mais tarde será consumada a cisão entre anarquistas. a história da indústria e do comércio não é senão a história da revolta das forças produtivas modernas contra as modernas relações de produção. o que explicita claramente seu objetivo político. é precisamente o „sistema‟ o perecível. mas da organização consciente dos trabalhadores. conduzem em direção da revolução proletária. em especial. não é concebida no Manifesto sem a mediação da política (ou seja. que em qualquer outra época teria parecido um paradoxo. a sociedade burguesa moderna. A que leva isso? Ao preparo das crises mais extensas e mais destruidoras e à diminuição dos meios de evitá-las. em especial. contra as relações de propriedade que condicionam a existência da burguesia e seu domínio. O pior erro que se pode cometer — e o mais freqüentemente cometido — é analisá-lo à margem das coordenadas de tempo e espaço. Surge ali a crítica do proudhonismo. O título correto. reformistas e socialistas revolucionários — e. O PARTIDO COMUNISTA Na época da sua redação. sua redação lhes fora encarregada por uma organização operária (a Liga dos Comunistas) no sentido lato e estrito do termo. e completo. REVOLUÇÃO E CLASSE OPERÁRIA A revolução. O Manifesto foi publicado quando explodiam as revoluções de 1848. Uma epidemia. que conjurou gigantescos meios de produção e de troca. A preocupação dos autores em deixar claro que não pretendiam formar uma seita de iluminados (“os comunistas não constituem um partido à parte. no caso do proletariado (de acordo com o Manifesto) a sua “fração mais consciente e resoluta”. ou seja. assim como “um primeiro genial esboço de crítica das categorias da economia política” (nas palavras de Marx) redigido por Engels em 1843 (e freqüentemente reeditado sob o título de Para a crítica da economia política). Friedrich Engels O Manifesto Comunista resume as tendências históricas que. No próprio Manifesto. do célebre texto. Cada crise destrói regularmente não só uma grande massa de produtos fabricados.”) não significa que não quisessem formar um partido. n‟0 Capital. assemelha-se ao feiticeiro que já não pode controlar os poderes infernais que invocou. Basta mencionar as crises comerciais que. A sociedade vê-se subitamente reconduzida a um estado de barbárie momentânea (. mas o resultado objetivo das contradições capitalistas. em especial pelos chamados “uto-pistas”. n‟A luta de classes na França (1848-1850). E de que maneira consegue a burguesia vencer essas crises? De um lado. oposto aos outros partidos operários.) O sistema burguês tomou-se demasiado estreito para conter as riquezas criadas em seu seio.. Marx e Engels careciam de uma análise da anatomia da sociedade capitalista comparável àquela que será desenvolvida. da democracia revolucionária. da sua natureza histórica. da ação humana consciente) o que é surpreendentemente ignorado em algumas análises mais recentes do texto (confusão vinculada à simplificação de que foi objeto seu título). a derrubada do capitalismo não seria o resultado automático das contradições daquele. portanto.60 O MANIFESTO COMUNISTA E A CRÍTICA DA RAZÃO SISTÊMICA Osvaldo Coggiola “Em todos os filósofos. o regime burguês de propriedade. como o movimento operário da época. isto é. o comunismo não é um mero ato de vontade. nos artigos jornalísticos na Nova Gazeta Renana e. pela simples razão de que surge de um eterno desejo do espírito humano: o de superar todas as contradições”. explicada no Manifesto em termos que não serão basicamente alterados nos trabalhos posteriores de Marx e Engels: A sociedade burguesa. uma entidade que não engloba — em nenhuma circunstância — a totalidade dos membros da classe respectiva. nem sequer uma maioria deles mas. o que levou Marx à elaboração do conceito de . é Manifesto do Partido Comunista. pois se os seus autores eram de origem burguesa-intelectual. que conduzem à crise. uma crítica do capitalismo e uma análise das suas contradições amplamente desenvolvida. Mas já possuíam. desaba sobre a sociedade — a epidemia da superprodução. em que diversos conceitos políticos (já contidos no Manifesto) foram precisados à luz da experiência histórica.. pela destruição violenta de grande quantidade de forças produtivas..1 Por outro lado. mas também uma grande parte das próprias forças produtivas já criadas. ameaçam cada vez mais a existência da sociedade burguesa. pela conquista de novos mercados e pela exploração mais intensa dos antigos. na sociedade capitalista. uma década e meia mais tarde. Há dezenas de anos. com suas relações de produção e de troca. social e política. e é importante lê-lo junto ao balanço feito por Marx desse período revolucionário.

afirmou claramente que o proletariado de 1848 carecia ainda do desenvolvimento social que lhe permitiria candidatar-se ao poder: O proletariado era ainda fraco demais: faltavam-lhe organização. tinham atingido ainda o grau que teria tornado possível uma reconstrução social. todas as relações sociais. O outro aspecto a ser levado em conta é a maturidade das condições objetivas para a revolução proletária. numa futura (e próxima) revolução. ele e Engels viam no comércio (e na emigração) com a Rússia e a América nãocapitalista um fator de abrandamento dos antagonismos classistas na Europa capitalista: “Ambos os países proviam a Europa de matérias-primas sendo ao mesmo tempo mercado para a venda de seus produtos industriais..2 CONDIÇÕES OBJETIVAS Isso não significa que a formação e diferenciação social do proletariado seja um dado que se adquire de uma vez e para sempre: as reflexões de Engels e Trotski referem-se à conjuntura específica de 1848. ou seja. o antagonismo entre o proletariado a burguesia tinha ido longe demais para permitir à segunda assumir sem temor o papel de dirigente da nação. quererão detê-la no estágio em que seus estreitos interesses de classe sejam satisfeitos. A “constituição do proletariado em classe”. as relações de produção e. experiência e conhecimentos. também contida n‟A luta de classes na França): em carta a Engels. processos sociais objetivos. nascida das novas relações industriais. 13 anos depois. de uma revolução burguesa. mas o reflexo. com isso. Nos outros países. Grande parte da obra ulterior de Marx e Engels pode ser vista como uma pesquisa acerca da maturidade dessas “condições materiais”. já a essa altura. do desenvolvimento dos antagonismos de classe nos países capitalistas. os operários. derrubando o governo. A constante mudança no número. essa agitação permanente e essa falta de segurança distinguem a época burguesa de todas as precedentes. Mas. mas não de método. mas não o bastante para levar ao primeiro plano. portanto. Mais de quatro décadas mais tarde. peso e composição social do proletariado é uma decorrência da característica histórica específica do modo de produção capitalista. Dissolvem-se todas as relações sociais antigas e cristalizadas. depois. consagrada à crítica da “literatura socialista e comunista” existente. à classe operária. foi esta que levantou as barricadas e que pagou com a vida. na Itália. embora profundamente conscientes do antagonismo fatal que existia entre a sua própria classe e a burguesia. O capitalismo tinha se desenvolvido o suficiente para tornar necessária a abolição das velhas relações feudais. pelo contrário. com sua correspondente base de classe). As divergências políticas e ideológicas no interior do proletariado (que justificam e tornam necessária a organização dos comunistas em partido diferenciado) não são um processo puramente ideológico. De uma maneira ou de outra. com seu cortejo de concepções e de idéias secularmente veneradas. as relações que as substituem tornam-se antiquadas antes de se consolidarem. como força política decisiva. social e de classe. o caráter proletário de 1848 foi reafirmado por Engels no seu prefácio de 1893 à edição italiana do Manifesto: Por toda a parte a revolução de então foi obra da classe operária. Em última análise. Na Circular à Liga dos Comunistas de 1850. Essa subversão contínua da produção. de suas causas acelerantes e compensadoras. O Manifesto refere-se a elas como responsáveis (pela sua ausência) do fracasso do “socialismo e comunismo crítico-utópico”. condições que apenas surgem como produto da época burguesa”. Essas divergências tem portanto uma raiz social. derrubar o regime da burguesia. Engels afirmará que o erro da Circular. A impossibilidade.” EXPANSÃO MUNDIAL . Marx chama a desconfiar dos “democratas pequeno-burgueses” que. e da expansão mundial do novo modo de produção.61 “ditadura do proletariado” como mediação política necessária entre o capitalismo e a consolidação de uma sociedade socialista. como um “plano de guerra contra a democracia” (entendendo por “democracia” uma corrente política. Ainda no caso da Alemanha. Marx caracterizou a Circular. propondo a fórmula de “revolução em permanência” (ou “permanente”. de maneira insuperada até hoje: A burguesia não pode existir sem revolucionar incessantemente os instrumentos de produção. o método de Marx e Engels na parte III do Manifesto. primeiro. nem o progresso econômico do país nem o desenvolvimento intelectual das massas operárias francesas. Esse foi. ou seja. a “conquista do poder político”. A conservação inalterada do antigo modo de produção era. Qualquer polêmica “marxista” que não as desvende será incompleta e idealista.. justamente. como também devido à ausência das condições materiais de sua emancipação. De modo análogo em O Capital. e aceleram. fora de ritmo (a iminência de uma revolução) devido a que o capitalismo continha ainda importantes possibilidades de um amplo desenvolvimento das forças produtivas. contudo. na Áustria. por considerar as idéias em si mesmas. León Trotski. e sua conseqüência. Tudo o que era sólido e estável se desmancha no ar. que “fracassaram necessariamente não só por causa do estado embrionário do próprio proletariado. esse abalo constante de todo sistema social. e não o suficientemente longe para permitir ao proletariado assumi-lo no seu lugar. por conseguinte. desvinculadas da sua base material. direto ou indireto. são portanto o arremate de uma luta de idéias em que essas expressam. desde o princípio. pilares da ordem européia vigente. portanto. a primeira condição de existência de todas as classes industriais anteriores. os frutos da revolução foram colhidos pela classe capitalista. Mas só os operários de Paris tinham a intenção bem definida de. em que Marx via no desenvolvimento do comércio exterior um fator compensador da queda tendencial da taxa de lucro. eram.. não fizeram mais do que levar a burguesia ao poder.. que o Manifesto conseguiu resumir em seus termos mais gerais. das constantes pressões e mudanças sociais que o próprio proletariado experimenta. na Alemanha.

para dizer de outro modo. continuaram a afirmar seu compromisso com aquele legado. os príncipes e a burguesia europeus viam na intervenção russa a única maneira de escapar do proletariado que despertava. Esse dinamismo contraditório determina não só a luta política (de classe) entre o proletariado e a burguesia. cuja introdução se toma uma questão vital para todas as nações civilizadas — indústrias que já não empregam matériasprimas nacionais. a base do regime político em sua totalidade. para quem: Essa trajetória de negações sucessivas e cumulativas do legado de Marx por indivíduos. por outro lado. é Giovanni Arrighi. a burguesia imprime um caráter cosmopolita à produção e ao consumo em todos os países. para Marx. A escalada da luta pelo poder interEstados e o colapso concomitante do domínio do mercado mundial impuseram aos seguidores de Marx a necessidade histórica de escolher entre estratégias alternativas que. mas também a luta política interna do proletariado. de Marx o primeiro apóstolo da “globalização”: Pela exploração do mercado mundial. deu aos Estados Unidos a oportunidade de explorar seus imensos recursos industriais. tinha um efeito deletério sobre a troca comercial entre o berço histórico do capitalismo e as regiões periféricas.4 e se identificou inicialmente pela defesa da ditadura proletária contra o anarquismo. A existência de uma “corrente marxista” no interior do movimento operário não foi uma criação artificial. Ao contrário. Marx e Engels assim escreviam no prefácio à sua primeira edição russa (de 1882): Que diferença hoje! Foi justamente a imigração européia que possibilitou à América do Norte a produção agrícola em proporções gigantescas. Ou. ESCOLHAS ESTRATÉGICAS De nossos dias. O termo “marxismo”. como fator de estabilidade da Europa. arruinarão o monopólio industrial da Europa Ocidental. a perspectiva da revolução proletária (comunista) encontrava-se vinculada a: a) A maturidade social e política do proletariado para realizá-la. identificado como a expressão de setores artesanais em vias de proletarização. embora não o único. São suplantadas por novas indústrias. cuja concorrência está abalando os alicerces da propriedade rural européia — a grande como a pequena. O representante mais significativo. o que dependia: b) Das condições materiais objetivas.. sobreviveu ao desaparecimento . Pouco a pouco. o que quer que isso signifique. Hoje ele é. No lugar do antigo isolamento de regiões e nações auto-suficientes. previsível ou não (e seria alheio a esse legado conceber uma circunstância absolutamente previsível). que reclamam. pela primeira vez nas regiões industriais. em que diversas frações expressam condições históricas ultrapassadas (como o “socialismo crítico-utópico”) ou pressões externas àquele (como o “socialismo burguês”). em Gatchina. dentro em breve. os produtos das regiões mais longínquas e de climas os mais diversos. E há ainda quem opine que o início da revolução proletária na Rússia contrariou os “esquemas” marxistas. por sua vez. pela primeira vez exposto de maneira geral e sintética no Manifesto Comunista. consideremos inicialmente sua improcedência metodológica: a escolha de “estratégias alternativas” foi imposta ao próprio Marx desde o início da sua trajetória política. especialmente o da Inglaterra. mas o resultado de sucessivas “escolhas estratégicas”. Para desespero dos reacionários. medidas pela própria maturidade do capitalismo. uma formação histórica que está de acordo com o desdobramento real do legado marxiano em circunstâncias não previstas por aquele legado. na substância dessa afirmação. não eram absolutamente alternativas. pretende fazer tabula rasa da penosa história do desenvolvimento dos fatores objetivos e subjetivos da revolução. para sua satisfação. A expansão mundial do capital. assim como sobre a possibilidade de que a Rússia e a América jogassem o papel de gendarme da reação internacional. com tal energia e em tais proporções que. a pequena e a média propriedade rural. Ao invés das antigas necessidades. desenvolvem-se um intercâmbio universal e uma universal interdependência das nações. Ao mesmo tempo. pois essa se insere na trajetória do movimento operário (que já tinha elaborado “estratégias alternativas” antes do próprio Marx). Três décadas e meia depois do Manifesto.3 Sem nos ocuparmos. que opunham a base da sua própria existência social (a pequena propriedade) ao avanço da grande propriedade capitalista: a corrente “anarquista”. determinado pela “subversão contínua da produção” própria do capitalismo. satisfeitas pelos produtos nacionais. de imediato. tem um caráter metodológico. recentemente. Ambos fatores têm um caráter dinâmico. de um século e meio de duração. não vinculado a nenhuma “circunstância histórica” específica. em nome de Marx. grupos e organizações que. As velhas indústrias nacionais foram destruídas e continuam a ser destruídas diariamente. ela roubou da indústria sua base nacional. mas sim matérias-primas vindas das regiões mais distantes. prisioneiro de guerra da revolução e a Rússia forma a vanguarda da ação revolucionária na Europa. genial antecipação do Manifesto pela qual não poucos interessados fizeram. tem se desenvolvido uma corrente que. O czar foi proclamado chefe da reação européia. o marxismo foi feito por seguidores bona fide de Marx.. surgem novas demandas. mas em circunstâncias históricas que não foram nem prefiguradas para eles nem foram de sua responsabilidade. ilustrada pelo próprio Manifesto. mas em todas as partes do mundo. o “legado marxiano”. apesar disso. E a Rússia? Durante a revolução de 1848-49. e isto em escala internacional. sucumbe diante da competição das fazendas gigantescas. um numeroso proletariado e uma concentração fabulosa de capitais. dessa corrente. não descreve uma „traição‟ do marxismo. E isto se refere tanto à produção material como à produção intelectual. foi inicialmente cunhado pelos seus adversários. partidários de um “socialismo antiautoritário”. ao mesmo tempo formam-se. como se sabe. descreve o marxismo tal como ele é. e cujos produtos se consomem não somente no próprio país. porém. vinculadas ao desenvolvimento concreto de alternativas históricas. devido a que essa história teria sido presidida por um gigantesco equívoco histórico. Essas duas circunstâncias repercutem de maneira revolucionária na própria América do Norte. Resumindo: de acordo com o método de Marx e Engels.62 Mas o capitalismo era o primeiro modo de produção tendencialmente mundial da História.

IMPERIALISMO Na vida de Marx. resultante da competição. não uma dedução. porque visão e conclusão não derivavam da mesma análise. o proletariado. Este baseia-se exclusivamente na concorrência dos operários entre si. qualquer conclusão relativa à sua subversão revolucionária seria “escatológica”. devido. A condição de existência do capital é o trabalho assalariado. de 1844) para daí debruçar-se na análise do desenvolvimento contraditório do capitalismo como seu fundamento histórico: a revolução comunista não foi. como já vimos. é seu produto mais autêntico”. em prol de uma nova ordem social. por definição. qualquer teleologia deduzida de uma suposta “natureza humana” in abstracto. para tirar uma conclusão bastante geral: A visão do Manifesto sobre o desenvolvimento histórico da “sociedade burguesa”. justamente. À revolução comunista não está inscrita na “natureza e desenvolvimento do capitalismo”. se uma teoria só pudesse analisar as leis de desenvolvimento da realidade imediata. A meta do comunismo. O trabalhador torna-se um indigente e o pauperismo cresce mais rapidamente do que a população e a riqueza. O caráter historicamente revolucionário do proletariado. e não de um argumento “sobre a natureza e o destino humanos” em geral. por sua união revolucionária resultante da associação. para Marx. que constitui. não pode exercer o seu domínio porque não pode mais assegurar a existência de seu escravo. o pensamento de Marx rejeitou. Considerar essa análise falha — embora a época atual a confirme com todas as letras — é bem diferente do que considerá-la inexistente ou puramente “filosófica”... do fato da revolução proletária em desenvolvimento (a organização dos operários na Inglaterra. por outro lado. tem encontrado inúmeros adeptos nos últimos anos. tem a ver. o que a Marx. Numa segunda etapa. De fato. Fica assim evidente que a burguesia é incapaz de continuar desempenhando o papel de classe dominante e de impor à sociedade. Quanto ao papel do proletariado na derrubada do capitalismo. não foi deduzida da análise da natureza e desenvolvimento do capitalismo. uma “dedução filosófica”. também desfaz a idéia do suposto “messianismo proletário” que. afinal de contas. é colocado no Manifesto com base no mesmo método materialista de análise usado para a sociedade burguesa: O operário moderno. ele era produto da “observação” essencial de Marx. mas de um argumento filosófico. que . Desde o seu início. substitui o isolamento dos operários. de que a burguesia é agente passivo e involuntário. Que Hobsbawm. situou-se no vértice oposto ao dos utopistas que “substituem a atividade social por sua própria imaginação pessoal. sobre a natureza e o destino humanos. na base de seu desenvolvimento desigual: o surgimento dos monopólios. às condições históricas da emancipação por condições fantásticas”. à possibilidade de desvincular. que inclui a classe operária por ela gerada. Do ponto de vista teórico. ou seja. que tinha um grande respeito pela lógica. primeiro aparece como uma dedução filosófica em vez de um produto da observação. que o apresentam como grande novidade. longe de se elevar com o progresso da indústria. ANÁLISE E PROPOSTA Cabe aqui fazer um parêntese para referir-se à relação existente entre as análises e os prognósticos marxistas. na qual se apóia toda sua teoria: “As outras classes degeneram e perecem com o desenvolvimento da grande indústria. e a conclusão da partilha do mundo entre as potências capitalistas. nas palavras de Lenin. na melhor hipótese. inaugurado pelo “revisionismo” de Eduard Bernstein. além de desfazer o mito do mecanicismo econômico atribuído ao marxismo. como lei suprema. manifestou dúvidas e ceticismo quanto ao comunismo: seus artigos na Gazeta Renana o comprovam). como discípulo de Hegel. adotada antes de Marx tornar-se “marxista”. a “escolha estratégica” do comunismo referiu-se à sua delimitação do utopismo e do (proto)anarquismo. por isso. do capital financeiro. ou com uma escatologia muito mais acentuada do que a criticada em Marx (porque reafirmada depois de negada. pois Marx partiu. A idéia — fundamental para Marx dali em diante — de que o proletariado era uma classe que não poderia libertar-se sem com isso libertar a sociedade como um todo.5 Do ponto de vista histórico. Hobsbawm está errado. mas uma premissa.). caindo abaixo das condições da sua própria classe. O Manifesto. com o sentimentalismo. ao assim fazer. mesmo no quadro de sua escravidão. nunca lhe teria ocorrido). o historiador inglês Eric Hobsbawm parte da constatação bastante banal de que os prognósticos revolucionários daquele não se realizaram nas revoluções de 1848 (o que. mas uma realidade histórica (enquanto Marx se manteve apenas no terreno da filosofia. alhures. abriria o caminho para o desenvolvimento do comunismo. não levava necessariamente à conclusão de que o proletariado derrubaria o capitalismo e. desce cada vez mais. Em recente introdução ao Manifesto.63 da sua base histórica. Esse procedimento. seria a “herança judaica” — ! — de Marx: os messias.. as condições de existência de sua classe. no marxismo. para o movimento operário. se declare marxista. pelo contrário. ela foi determinada pelas conseqüências políticas. da transformação qualitativa operada no capitalismo pela sua expansão mundial. a análise teórica da conclusão revolucionária. segundo os autores mais superficiais. se depreende de uma análise do conjunto da história humana e de seu desenvolvimento dialético. pois a análise científica deste só pode levar à conclusão de que leva à maioria da humanidade a um estado de barbárie: a conclusão de que esse estado pode e deve ser rejeitado conscientemente por essa maioria. fora mais do que amplamente analisado por Marx nos seus escritos imediatamente posteriores). na verdade escatológico. o fundo do seu pensamento histórico. em que pese seu caráter centenário. aos “pecados oportunistas do movimento operário” (o que. o único conteúdo do parágrafo citado é o profundo empirismo de Hobsbawm.. a insurreição dos trabalhadores franceses em Lyon. não pecam. O progresso da indústria.

mas que o inclui) nos países imperialistas. onde se relacionam com as mudanças estruturais já visíveis no capitalismo e que estavam preparando o caminho para o “capitalismo monopolista”. o preço do trabalho em relação tanto com a mais-valia como com o valor do produto. é maior nos segundos países do que nos primeiros. na qual as taxas de lucro dos países ricos estão abaixo da média internacional e a dos pobres.6 Marx já chegara à conclusão de que se produzia um movimento de capitais desde os países mais adiantados até os mais atrasados. a um certo grau de desenvolvimento da grande produção. SUPERBENEFÍCIOS Não só o monopólio encontra-se antecipado n‟O Capital. Por conseguinte. o papel da Bolsa de Valores e dos bancos.. tirando delas as principais conclusões históricas e políticas: “O desenvolvimento das forças produtivas do capitalismo mundial deu um salto gigantesco nas últimas décadas. atingido mais ou menos na virada para o século XX. o valor relativo do dinheiro será menor nos países em que impere um regime progressivo de produção capitalista do que naqueles em que impere um regime capitalista de produção mais atrasado. isso é. no sentido capitalista da palavra. o equivalente de força de trabalho expresso em dinheiro. Uma oligarquia financeira instalou-se no poder e dirige a produção. A superprodução de mercadorias. A esse processo se vincula o surgimento de uma “aristocracia operária” (conceito mais amplo que o de “burocracia sindical”. em somas de dinheiro que variam segundo os valores internacionais. ambos conceitos têm uma profunda filiação marxista (outra coisa é que Lenin. surgimento do capital financeiro como produto da fusão do capital bancário e industrial. a grande produção saiu vitoriosa em todas as partes. Cria-se uma taxa de lucro média internacional. a concentração e centralização do capital como resultado inevitável da luta competitiva são mencionados no livro I. que não era um acadêmico ou um exegeta de Marx. as observações de Marx sobre o surgimento da empresa comercial e os “empresários”. Mas ainda prescindindo dessas diferenças em relação ao valor relativo do dinheiro nos diferentes países. fizesse para cada conceito teoricamente novo o mesmo trabalho filológico realizado em O Estado e a revolução). é maior nos primeiros países do que nos segundos. a intensidade e a produtividade do trabalho dentro dele vai remontando-se sobre o nível internacional. e no resumo dessa obra. inerente ao desenvolvimento das grandes empresas. As trocas comerciais crescem. por exemplo. que se encontra reunida em uma só feixe por meio do bancos. a produção aumenta. ou seja. baseada nos diversos níveis de desenvolvimento das forças produtivas: Conforme a produção capitalista se desenvolve em um país. Daqui se segue igualmente que o salário nominal. Do socialismo utópico ao socialismo científico. a desproporção crescente entre a indústria. Engels também trata brevemente dessas tendências no Anti-Dühring. divisão do mercado mundial entre os monopólios capitalistas e competidores. etc. mas também a base para a análise dos superbenefícios obtidos pelo capital monopolista da exploração das nações atrasadas. Hilferding. Hobson. que se converteram nos intérpretes fiéis dos interesses do capital financeiro. semanal.. segundo Lenin. as diversas mercadorias da mesma classe produzidas em países distintos durante o mesmo tempo de trabalho têm valores internacionais distintos expressos em preços distintos. conclusão da divisão territorial do mundo. Para Lenin. Em O Capital. A teoria do imperialismo de Lenin se insere no quadro de um amplo debate com a participação de autores marxistas e não-marxistas (Bukharin. Para a crítica revisionista. No entanto. o imperialismo e a aristocracia operária foram conceitos arbitrariamente concebidos por Lenin para justificar opções políticas prévias.64 determinam o ingresso do capitalismo em sua fase imperialista. tem de ser também maior nos primeiros países que nos segundos: o que não quer dizer. o capital monopolista expressava as leis básicas de movimento de capital em condições históricas concretas: Essa mudança é devida ao desenvolvimento. e são tratados mais especificamente no livro III. De acordo com isto. agrupando os magnatas do capital em uma férrea organização que extendeu sua ação à totalidade da vida econômica. como a antesala da socialização dos meios de produção. “a fase monopolista do capitalismo”. A definição mais breve possível do imperialismo seria. o movimento comercial determinou uma internacionalização das relações econômicas e do capital. em busca de taxas de lucro superiores. Veja-se. predomínio da exportação do capital sobre a exportação de mercadorias. o processo de organização das partes economicamente avançadas da economia mundial é acompanhada de um agravamento extremo da concorrência mútua. quer dizer. Suas características essenciais são conhecidas: papel decisivo do monopólio. o que é a base do superbenefício dos monopólios. Cada um das economias nacionais desenvolvidas. a grande produção adquiriu proporções tais que os monopólios substituíram a livre concorrência. De outro lado. No processo de luta pela concorrência. transformou-se em uma espécie de truste nacional de Estado.7 Bukharin resumiu as características essenciais do imperialismo “econômico”. que esse critério seja também aplicável ao salário real. Essas tendências marcantes foram observadas ao longo dos séculos no mundo todo. a um certo nível do desenvolvimento das trocas. segundo o termo que os marxistas empregariam mais tarde. ampliação e extensão das tendências mais profundas e essenciais do capitalismo e da produção mercantil em geral. de . de modo algum. Kautski. acima. a política de exportação dos cartéis e a redução dos mercados por causa da política colonial e aduaneira das potências capitalistas. Rosa Luxemburgo) e de longos anos de discussão no interior do movimento operário e socialista internacional. Ora. Esse processo de organização partiu de baixo para se consolidar no marco dos Estados modernos. onde as sociedades anônimas são caracterizadas como o ponto mais alto da organização capitalista da produção. encontramos com freqüência que o salário diário. enquanto que o preço relativo do trabalho.

pois ela foi comprovada pela pesquisa histórica mais recente: “No que se refere ao século XIX britânico. em parte. tal é o ideal sonhado pelo capital financeiro”. Sob a imensa pressão do imperialismo. que testemunha a maturidade mundial das forças produtivas capitalistas para a passagem para uma nova ordem social. por exemplo. as colônias e semicolônias se viram obrigadas a abrir mão das etapas intermediárias.. de qualquer capital e não necessariamente do monopolista. Por ser a fase mais avançada do capital.. obriga imperiosamente à formação de um truste capitalista estatal mundial. em sua situação histórica concreta. só podem ser entendidas cabalmente como expressão de revolta das forças produtivas contra o quadro. Por outro lado. industrial e financeiro invadiu. o imperialismo é uma era de guerras e revoluções. o conceito (de aristocracia operária) apóia-se sobre bases econômicas e políticas sólidas”. enfim. antecipou-se criticamente aos atuais teóricos da “globalização”. o fenômeno já tinha sido embrionariamente captado pelos clássicos. também. que dependem da concreta evolução histórica do capital. Se para Lenin o imperialismo era a fase monopolista do capitalismo. situação em que a expansão ulterior e. que evidenciam a crescente inadequação daquelas às relações de produção imperantes. por último. esta nação mais burguesa que todas as demais tende a ter. para a Rosa Luxemburgo é a forma concreta que adota o capital para poder continuar sua expansão. iniciada nos próprios países de origem e levada. em última instância. e a agricultura.65 desenvolvimento formidável.14 Não é uma inverdade. no século XX. O desenvolvimento da Índia não duplicou o desenvolvimento da Inglaterra. sujeitando-os ao sistema industrial e banqueiro do Oeste. como uma burguesia. como revela uma carta de Engels a Marx na última fase da vida deste: O proletariado inglês está-se tomando cada vez mais burguês. tornado historicamente estreito. na força e potência da organização do Estado e em primeiro lutar da sua frota e de seus exércitos. auto-suficiente. que não fazem senão repetir. Na conclusão mais geral. para quem o imperialismo é necessidade inelutável do capital. considerar apenas a queda tendencial da taxa de lucro sem considerar os seus fatores compensadores. desde o exterior. de modo que. deixou claro em que ponto exato essa mudança histórica qualitativa se contrapunha à perspectiva inicialmente traçada por Marx (“O país mais desenvolvido industrialmente — escreveu Marx no prefácio da primeira edição d‟O Capital — não faz mais do que representar a imagem futura do menos desenvolvido”): Somente uma minoria de países realizou completamente a evolução sistemática e lógica desde a mão-de-obra.. ao permitir à burguesia dos países imperialistas a elevação artificial do nível de vida de uma camada da classe operária metropolitana (a “aristocracia operária”). ao plano internacional. entretanto. o que faltou à teoria do imperialismo de Rosa Luxemburgo. longe de desaparecer a categoria em questão. isto se explica até certo ponto no caso de uma nação que explora o mundo inteiro. atrasada. Qualquer que seja. esse processo se vê contrariado por uma tendência mais forte à nacionalização de capital e ao fechamento de fronteiras”. ao que parece. a imensa proporção da exportação de capital e a submissão econômica de países inteiros por consórcios de bancos nacionais.13 Sobre a base teórica do imperialismo. tanto uma aristocracia burguesa. a medida que avança. destruindo em parte as formas primitivas da economia nativa e. portanto. os países atrasados. por sua própria dinâmica interna. apoiando-se ao mesmo tempo artificialmente em um nível ou em outro. um pilar da ordem européia. far-se-ão impossíveis.11 Não se tratou de uma observação incidental ou superficial.9 Bukharin. O capital comercial. no século XIX. mal requentadas.8 ARISTOCRACIA OPERÁRIA Trotski.12 Mas Engels ainda “afirmava que essa aristocracia operária se tornara possível graças ao monopólio industrial da Inglaterra e que. um papel semelhante. e que foram cuidadosamente detalhados por Marx no volume III d‟0 Capital. . não foi para ela mais que um complemento. fórmulas que com maior propriedade já tinham sido expostas em inícios do século por Kautski (com a teoria do “superimperialismo”) e Hobson: “O processo de internacionalização dos interesses capitalistas. através da manufatura doméstica até a fábrica. em que se implanta e cria as bases de seu próprio desmoronamento. portanto. seu vigor. os superbenefícios monopolistas cumprem. Esses grupos confiam. aumentando sem fim sua força até governar o mundo em um império universal. levam o antagonismo entre os interesses dos grupos nacionais do capital até o paroxismo. exaspera os antagonismos de classe e a anarquia econômica e política internacional a tal ponto que provocará uma rebelião do proletariado mundial contra seu domínio muito antes que a evolução econômica tenha chegado a suas últimas conseqüências: a dominação absoluta e exclusiva do capitalismo no mundo. Rosa Luxemburgo afirma que: deste modo o capital prepara duplamente sua derrubada: por um lado. que Marx submeteu a uma análise detalhada. Certamente. A Primeira Guerra Mundial e sua conseqüência mais importante (o início de um ciclo revolucionário internacional com a revolução de outubro de 1917 na Rússia). a acumulação. Aqui. desapareceria ou se confundiria com o resto do proletariado com o fim daquele monopólio”. IMPERIALISMO E REVOLUÇÃO Foi justamente a análise do conjunto dos desdobramentos da expansão mundial do capital. Lenin conseguiu estabelecer porque. pondo um obstáculo ao desenvolvimento revolucionário. ao extender-se a custa das formas de produção não-capitalistas.10 Assim como o intercâmbio comercial com as regiões periféricas tinha sido. por outro lado. extendeu-se a outros países europeus. aproxima-se o momento em que toda a humanidade se comporá efetivamente de operários e capitalistas. como último recurso. mas uma unilateralidade. equivalente a.. Uma unidade econômica e nacional.

à beira da modernidade burguesa. e que as áreas menos desenvolvidas. que pretende explicar o aumento da dimensão dos massacres no século XX a partir da disseminação de uma cultura da violência e do desprezo à vida dos outros. o autor explica a amplitude e radicalidade da Grande Guerra — que desencadearia toda a “cultura da brutalidade” — pelo fato de que os interesses econômicos e políticos das grandes potências imperialistas eram radicalmente excludentes. é encontrado no “extenso espaço” e não na natureza particular da economia dos países beligerantes. a “economia” e a “política” aparecem fundidas numa identidade completa — “Na era imperialista a política e a economia se haviam fundido” —. a classe dirigente capitalista. pois somos todos marionetes na valsa dos “sistemas” (a não ser os poucos privilegiados que têm consciência da sua existência e. a que foi conduzido geraram um mercado mundial e uma divisão internacional do trabalho. sobretudo. Foi através de sua relação com o mercado mundial que os Estados capitalistas nacionais adquiriram sua fisionomia específica. A idéia básica que permeia essa visão e a do “mito ideológico da soberania do Estado (que) nunca foi uma entidade política completamente autônoma. e as suas tentativas de implantação de uma ordem humana. finalmente. estabeleceu-se politicamente através do . Além disso.16 Como veremos. e das tentativas mais ou menos conscientes dos homens por dominá-la (que não se limitam às revoluções socialistas. Não podiam nem podem agir de outra maneira. não por acaso os Annales. e não um hipotético sistema histórico.18 A História. ao obscurantismo. a esperança e o drama da Revolução de Outubro se resolvem em um par de idéias lapidares: O movimento socialista mundial. o que demonstra mais uma vez a recusa do autor inglês a perceber o complexo da economia como momento preponderante da totalidade social. na verdade todas as formas de movimento anti-sistema.17 Para Immanuel Wallerstein. conseqüentemente. demonstra que as forças produtivas postas em marcha pelo modo de produção capitalista não podem estar contidas dentro das áreas geograficamente confinadas dos velhos Estados dinásticos da Europa. assumiram uma posição de dependência. CAPITALISMO E GUERRA Qualquer outro ângulo para apreender a dinâmica histórica de nosso século conduz necessariamente ao subjetivismo e. acerca das suas contradições concretas. O problema consiste em que os defensores de tal teoria pouco têm a dizer sobre esse “conjunto de regras e legitimações” e. os quais facilitariam a aceitação da violência a partir de desenvolverem a impessoalidade da guerra (o que significa conceber a tecnologia. portanto. a conseqüência como causa e a conclusão final só pode ser que somos marionetes de forças históricas que estão fora de nosso alcance. contribuiu também muito o caráter “popular” dessas guerras. pois não existe necessidade dela. A investigação histórica. encontram-se na base das visões sistêmicas mais recentes. no caso armamentista. Os desdobramentos históricos desses episódios e a sobrevivência do capitalismo mundial ao longo do século XX explicam a presença e o crescimento constantes da reação política e do massacre. presentes no último livro de Hobsbawm. o de uma ordem socialista mundial. mas que remontam também a todas as revoluções prévias da humanidade. É interessante sublinhar que. o socialismo era um substituto mais ou menos adequado dos elementos constitutivos religiosos do modo de produção capitalista na Europa Ocidental. Os Estados se desenvolveram e moldaram como pontos integrantes de um sistema interestatal. suas limitações. mas a excreção de processos internos ao sistema. justa e igualitária). desde a Reforma”. assim como todos os Estados revolucionários e/ou socialistas. na época histórica que.66 das relações capitalistas e dos Estados Nacionais que as organizam e expressam concentradamente. que teria sido gerada pela Primeira Guerra Mundial. nessa tentativa de explicar o “motor inicial” da Grande Guerra e. pelo contrário. Na certeira crítica de Golbery Lessa. seus efeitos negativos fazem parte do balanço do capitalismo histórico. Em Robert Kurz. A verdadeira “causa primeira” da Grande Guerra aparece como se fosse a rivalidade “geohistórica” das potências européias. também. criando uma massa de veteranos de guerra dispostos a guiar os seus povos para renovadas hecatombes. que obrigou líderes políticos a mobilizarem a massa através da “demonização” dos seus inimigos. a força histórica concreta do capital é substituída pela abstração da “modernidade”. levou à ciência e à técnica a um ponto mais alto. que compunha um conjunto de regras no interior do qual funcionavam os Estados e um conjunto de legitimações sem o qual os Estados não sobreviveriam”. concepção na qual a erudição (às vezes abrumadora) parece estar a serviço da confusão. portanto. da sua própria impotência). Por isso. como na escola dos Annales. a medida que entravam em contato com o mercado mundial. a qual teria acostumado a população européia a ser indiferente às carnificinas sistemáticas e. Suas falhas.15 O fator coadjuvante é apresentado como principal. A principal causa da reprodução desse “imaginário” da indiferença e da brutalidade teria sido a invenção de meios assépticos e impessoais de matar.19 (grifo OC). a ser tão profundamente pacifista que não se dispunha a enfrentar atentados violentos à própria “legalidade civil”. em especial a concepção histórica de Braudel. acabou. Ao mesmo tempo. o “movimento”. da queda do grau de civilidade no século XX. como o bombardeiro e o rifle de longo alcance. Não são estruturas externas ao sistema histórico. têm refletido todas as contradições e todas as limitações do sistema. pois capaz de assumir as roupagens mais diversas: assim “para a Rússia. contraditoriamente. mais poderosa ainda. que ainda nem existe. O surgimento do capitalismo e a industrialização dos países avançados. A VISÃO SISTÊMICA Igual conformismo histórico (e historiográfico) impera na visão da revolução nessa concepção de um mundo governado por forças desconhecidas e inatingíveis. a burguesia. como o demiurgo da História). da análise das suas contradições. são eles próprios produtos integrais do capitalismo histórico.

liderada por Tony Cliff.. Isso se manifestou em rivalidades e tensões entre as principais potências. a troca (desigual. que tomaram possível essa exportação de capital. as classes e o modo de produção que as põe em conexão não têm a possibilidade.. O capital não corre avassaladoramente dos países capitalistas maduros para os em desenvolvimento. é precisamente o intercâmbio desigual. pois privada de conceito e conteúdo. no sentido marxista. em alianças e preparativos de guerra e finalmente na própria guerra. no sentido leninista do termo. de fato é) maior do que nos países atrasados (ou seja. A visão sistêmica nada tem para oferecer em substituição a esse desenvolvimento histórico ou. o sistema interestatal é identificado como superestrutura (palavra incautada ao marxismo): mas de que estrutura? Da economiamundo. portanto. nela. que a produção de mais-valia relativa é bem maior naqueles). depois de terminada a primeira Revolução Industrial na Europa e América do Norte. elas se resumem basicamente em duas. posto que as possibilidades da primeira Revolução Industrial se esgotaram precisamente quando se constituíram os monopólios. o proletariado metropolitano estaria objetivamente interessado na exploração das nações atrasadas. Juan Pablo Bacherer deixou claro o equívoco da concepção citada: A frustração da acumulação originária (nos países atrasados) explica essa obrigada combinação do capitalismo com modos de produção pré-capitalistas (. mas isso não autoriza a dizer que está acontecendo cada dia a gestação e o nascimento do cachorro. Por sua importância política. os investimentos estrangeiros são crescentemente realizados entre os próprios países desenvolvidos. por oposição à reprodução ampliada normal. Havia. O Estado se definiu na esfera econômica mediante suas próprias leis. além de histórica e prática. mas igualmente troca) com a expropiação compulsória e violenta. No conjunto. a remuneração do trabalho começará também a ser desigual. e talvez sobretudo lógica. ça va de soi! Em conclusão.21 Segundo essa teoria. Autores dessa corrente não tiveram dificuldade em destruir empiricamente a “teoria do intercâmbio desigual”. que sustenta que a exploração das nações atrasadas pelas potências capitalistas teria cessado em função da emancipação das “multinacionais” de toda base nacional (nos últimos tempos. características da acumulação originária. O próprio da acumulação primitiva. devido à diferença da produtividade do trabalho (que se acentua com o tempo) a taxa de mais-valia nos países metropolitanos pode ser (e. demonstrando que. mistério maior ainda. No extremo oposto. a “teoria da globalização” desenvolveu argumentação semelhante). porém. entende-se. porque são definidos pelo sistema interestatal. porque compartilharia com “sua” burguesia os frutos da exploração dos operários e camponeses da periferia. Como exemplo da primeira (a “teoria do intercâmbio desigual”). a sistêmica e estruturalística economia-mundo se morde a cauda.. a saber. uma contradição entre as tendências internacionais unificadoras das novas tecnologias e a influência constritora do Estado nacional. em certos casos estudados. O caráter combinado da economia dos países atrasados é justamente uma conseqüência do desenvolvimento desigual do capitalismo em escala mundial: naqueles “o capitalismo nasce sem que tivesse podido se desenvolver plenamente a acumulação originária (mas) sob a influência da penetração do capital financeiro internacional”. diz Wallerstein: são então primordiais? Não. já que pressuposta. fazendo uma descrição superficial) e o movimento de capitais. e já sem referência alguma ao marxismo. que são fenômenos qualitativamente diferentes (. não uma “segunda infância” dele. o que significaria afirmar que o capitalismo está nascendo novamente. Essa nova especialiazação internacional constituirá a base de intercâmbio das mercadorias (produtos de base por produtos manufaturados. sequer lógica. A esse absurdo se chega ao identificar o inidentificável. Wallerstein nos faz saber que esse sistema é um pressuposto de qualquer sistema estatal: mistério. O mecanismo de acumulação primitiva em benefício do centro reaparece. se os Estados modernos definem as classes. citemos a análise de Samir Amin: O imperialismo.. A “troca desigual” de produtos com preços de produção diferentes configuraria uma nova “acumulação primitiva”. de serem definidas. tarifas e restrições ao movimento dos fatores de produção. Não há razão para discutir o argumento do “amortecedor” em profundidade: por mais que fossem importantes os países atrasados ao absorver a expansão descontrolada e desproporcional desse ou . a não ser que se considere que um assalto à mão armada constitui uma “troca” entre o ladrão e o assaltado. aparece quando as possibilidades do desenvolvimento capitalista se esgotam. Surge a periferia. como afirma Gianfranco Pala. que tem suas próprias leis e atua sobre cada uma de suas partes. veremos que elas não se mantêm ao fazermos um exame das condições atuais. A partir desse e de outros dados concluiu que os dados atuais simplesmente não mantêm as teses de Lenin. na expansão colonial.22 O imperialismo expressa a senilidade do capital em termos mundiais. encontra-se a teoria do “capital transnacional”.) O fundo do erro [de Samir Amin e outros. citemos como exemplo a corrente do International Socialism. quem os define? São as unidades básicas da economia-mundo. Pelo contrário.67 Estado nacional e assim surgiu um sistema de Estados que encarnavam diferentes interesses nacionais. Temos que distinguir o nascimento das células daquele do organismo total.) No organismo do cachorro nascem cotidianamente novas células. são desiguais. E. OC] consiste em não levar em conta a unidade mundial da economia capitalista. E isto passa-se de acordo com a lógica. A partir desse momento. sistema monetário. em sua forma contemporânea. Esta volta a pôr em contato — ainda que sob formas novas — formações sociais diferentes: as do capitalismo central e as do capitalismo periférico em vias de constituição. quer dizer. Então se impõe uma nova extensão geográfica. amparada pela conquista colonial. o intercâmbio de produtos cujos preços de produção. pois se nos recordarmos das razões que Lenin apresenta para a exportação de capital.20 TEORIAS SOBRE O IMPERIALISMO A teoria do imperialismo foi objeto de inúmeras controvérsias e deformações.

um fenômeno de altitude”.23 Trata-se do caso típico de contraposição de uma análise conjuntural a uma caracterização estrutural. de um lado. e por outro lado. ou seja que é eterno. Está entre uma postura “conservadora”. porque não há movimento. o crescimento do fluxo de capitais entre países imperialistas não elimina — até acentua — a exploração das regiões atrasadas. vale a mesma crítica feita ao “intercâmbio desigual”: assim como os superbenefícios monopólicos não anulam — podem até acentuar — a exploração dos trabalhadores metropolitanos (a existência de uma “aristocracia operária” não elimina esse fato.27 Braudel. do tipo “para mim. o seu papel é secundário neste caso hoje em dia. aumentando também a sua exploração. embora seja de grande importância política). O capitalismo não seria um conceito suficiente. que resultaria na continuação da desintegração do sistema e sua subseqüente transformação numa ordem mundial incerta. em proveito de uma minoria. A “relação”„ entre os “três planos” é o que há de mais obscuro na obra de Braudel. para uni-los numa explicação global”. Atualizada. que não pode haver “leis de movimento”. ou uma “burguesia socialista”. Mas. Tudo fica então numa espécie de indeterminação. a “economia-mundo”. a partir do qual lançam um olhar sobre os avatares patéticos da crise contemporânea. a crise da economia mundial se inseriria no mais amplo “colapso da modernização”. Este autor privilegia na sua pesquisa “os usos repetidos. o da “vida material”.24 O capitalismo estaria sobredeterminado pelo processo da “vida material” (situado na “longa duração”) onde a imutabilidade e o atavismo são tais. uma acumulação sem precedentes de superbenefícios monopólicos originados na exploração das nações atrasadas. são assuntos prosaicos que Wallerstein deixa aos cuidados dos mortais que ainda se ocupam com a luta de classes. “da quase imóvel presença do espaço e do clima até os acontecimentos políticos cotidianos. tal como exposta por Marx nos Grundrisse. UNI-VOS! Para Robert Kurz. o da “vida econômica” e. os procedimentos empíricos. que não permite realizar nenhum prognóstico acerca do futuro do capitalismo. com a seguinte tese de Kurz: Tendencialmente. Essa última tese é bastante velha (foi exposta. etc. não há nexos que nos expliquem como os elementos de um plano atuam sobre outros. herdeiro dos Annales.68 daquele ramo ou setor da economia no ápice da supremacia industrial britânica e do laissez faire clássico. pretendendo “integrá-lo” no seu sistema. como a moeda ou a divisão cidade-campo”. o que sobrou para os seus discípulos mais “especializados” foi “o fenômeno da altitude”. porém. o “jogo capitalista”. finalmente. as soluções vindas da noite dos tempos. aumentou — a dependência delas em relação às metrópoles. pois deveriam ser relacionados três planos. mas não necessariamente melhor). as velhas receitas. A procura de um suporte teórico em Fernand Braudel não deve surpreender. das quais nos ocuparemos. ao situá-lo como uma explicação de um “momento secundário” (o capitalismo moderno) da sua “grande teoria”.26 também o é que. SISTEMAS E LEIS O que aqui temos chamado de “visão sistêmica” tem por característica diluir o capitalismo e suas leis de movimento dentro de “entidades” (ou “sistemas”) maiores (a “modernidade”. isso é. A expansão capitalista de pós-guerra teve razões específicas. A internacionalização crescente do capital nos países metropolitanos teve por base. um fenômeno de minoridade. e até sua própria definição.28 O que seja uma sociedade “relativamente (!) sem classes”. o que é facilmente comprovável medindo o aumento das remessas de lucros e da dívida externa nas décadas do pós-guerra.25 Se é verdade que. que manteria o processo de exploração da força de trabalho mundial. a convulsão das últimas décadas evidenciaria que a forma que a luta vem assumindo não é a do socialismo contra o capitalismo. e tentaria criar então um sistema histórico alternativo. como afirma Josep Fontana. evitou habilmente qualquer confronto direto com Marx. identificar a tendência para a extinção da lei do valor. o capitalismo é um fenômeno de superestrutura. são desconhecidas. poderia-se dizer que as diferenças de Kurz com a análise marxista são apenas semânticas (“socialismo de caserna” em vez de “estado operário burocratizado”. sem o seu indubitável talento historiográfico. há décadas. mas a de uma transição para uma sociedade relativamente sem classes contra uma transição para algum novo modo de produção baseado em classes (diferente do capitalismo histórico. pois consubstanciai com sua natureza: “Privilégio da minoria. A industrialização artificial das regiões atrasadas não diminuiu — ao contrário. onde ela assumiria uma roupagem “socialista”. para Braudel. pela primeira vez na história capitalista está diminuindo também em termos absolutos — independentemente do movimento conjuntural — a massa global do trabalho abstrato produtivamente explorado. ela é feita de observações incidentais. A alternativa para a burguesia mundial não está em manter o capitalismo histórico ou se suicidar. Contra a argumentação exposta.) cujas leis de movimento. o capitalismo tornou-se “incapaz de explorar”. Na verdade. uma tentativa ousada de tomar o controle do processo de transição. e isso em virtude da intensificação permanente da força produtiva. mas muito provavelmente mais igualitária. e assim por diante): a própria tese do “colapso final” estaria contida nas velhas teses de Rosa Luxemburgo sobre o colapso mundial da acumulação de capital. Não seria correto. no qual inclui também o fim do chamado “socialismo de caserna”. FILÓSOFOS DO MUNDO. e muito menos prever a sua substituição por um novo modo de produção da vida social. invólucro político-ideológico passagem das sociedades do Leste para a “modernidade”. Arthur Rosenberg e até pelo “guerreiro frio” James Burnham). por Boris Souvarine. Para chegar à conclusão de que “é impossível chegar a uma boa compreensão da vida econômica se não se analisam antes as bases do edifício”. o “jogo” capitalista (nascido dos “jogos das trocas”) conclui sendo uma espécie de atavismo espontâneo da sociedade humana. o capitalismo é impensável sem a cumplicidade ativa da sociedade”. para o teórico da “economia-mundo”. . justamente. devido à crescente dependência tecnológica (industrial) e financeira. não há nenhuma relação plausível. Assim.

e esperou. para Giovanni Arrighi. animal ou humano. à destruição do ovo. ao contrário. de ser absoluta. isso é. pois resultante de uma radicalização unilateral e absurda das teorias “sub-consumistas”. que essa divisão. em uma abstração que conclui por não dar conta de nada relativo ao movimento concreto da história e das forças sociais atuantes.69 Para Marx. devido à sua própria dinâmica. ou seja. nada mais significa que medir conteúdos sensíveis de qualidade totalmente diferente com os mesmos critérios de uma lógica que se tomou independente. mas também e sobretudo para achatar salários. e isso é apenas possível por meio da consciência e. através da expropriação do capital. trabalho infantil e até prostituição infantil em grande escala. então? Kurz responde que “teria primeiro que se formar um movimento de supressão. Como. e em especial a crise finisecular. a não ser o consumo suntuário dos capitalistas) demolida em inícios do século por Kautski. para repetir o elementar do Manifesto. mas o seu peso relativo comparado com o trabalho “morto” tendia a uma magnitude insignificante). que é confundido com as sociedades em colapso da modernização recuperadora. com isso.30 ARRIGHI e o MANIFESTO Se. como entrelaçamento global do conteúdo da reprodução humana. e isso é grave para quem pinta com cores tão (corretamente) dantescas o “colapso”. mas por outras razões. com isso. como força social. Mas qual seria o elemento “conscientizador”? (A) razão sensível. obviamente. jamais alcançável. quanto Wallerstein acerca das leis da “economia-mundo”. E muito menos sobre a “força social” (quem?) que seria portadora dessa “razão”. revela-se todo o marxismo da história como parte integrante do mundo burguês da mercadoria moderna. para Kurz o atual “colapso” estaria criando nada menos do que as bases do comunismo.. mas precisamente por isso não foi uma revolução proletária: .29 O problema é que Kurz tem tanto a nos dizer sobre a “razão sensível”. Nessa crise. Mas Kurz vai fundo nessa tese. sendo por isso atingido ele próprio pela crise. Mas a coisa muda de cor quando se observa que o crescimento sem precedentes do “exército industrial de reserva”. e. A análise de Kurz parece-se. A escolha foi imposta pela divisão crescente entre as duas tendências no espaço da economia mundial. não serve só para deixar desempregados ociosos. onde havia mais penúria. a escalada da luta pelo poder inter-Estados fortaleceu ambas as tendências e aumentou sua divisão espacial. numa sociedade sem trabalhadores. a intensificação da força produtiva através do incremento relativo do capital constante em relação ao variável tornava absurda a medida do valor pelo tempo de trabalho vivo (não que este desaparecesse. e não destruindo-as: O comunismo. dentro do invólucro capitalista do sistema mundial produtor de mercadorias. Na certeira crítica de Pablo Rieznik. muito além da realidade. que seria “uma revolução de fato. o mais próximo que encontramos na realidade. a “segunda metade do século XX” torna evidente o limite imanente do capital. que no nível intelectual restabelece o contexto perdido”. ela já não pode ser criticada ou até superada a partir de um ponto de vista ontológico do “trabalho”. um ovo é um ovo e não pode entender que a “afirmação” do ovo conduza ao ser adulto. uma “revolução proletária” é impensável. Marx não teria previsto que o poder social do proletariado europeu (e seu nível de vida) cresceriam enormemente no interior da sociedade burguesa. também evidenciam um (ou o) limite do capitalismo. ou Braudel acerca das leis do movimento (imóvel) da “vida material” situada na “longa duração”. praticamente nada.. na supressão negativa do trabalho abstrato pelo capital e dentro do capital. No Manifesto. mas não daquele tipo no qual uma „classe‟ dentro da forma-mercadoria (e constituída por essa) tivesse que „derrotar‟ outra „classe‟. para Kurz. a “revolução socialista” começou. abstrata. Por isso não entende a “afirmação” da classe operária como um movimento que. para dizê-lo em termos da pedagogia engelsiana do Anti-Dühring. portanto sem consumo. ou da “luta das classes trabalhadoras”. ou com os segmentos do proletariado mundial que experimentaram mais direta e sistemicamente a tendência ao poder social crescente. um fenômeno já presente. Como seja. de caráter mais histórico. burguesa e vinculada à formamercadoria. que se observa atualmente. como sujeito antípoda”. com a utopia de Tugan-Baranovski (uma sociedade sem operários. que é exatamente o contrário da razão iluminista. Ao invés disso. introduzir a “flexibilização laborai” sob todas as suas formas. da destruição do Estado capitalista e da ditadura do proletariado conduz à “negação” da classe operária e a “emancipação de toda forma de exploração do homem pelo homem”. Isso impôs ao marxismo uma (falsa) escolha: Desenvolver vínculos orgânicos ou com os segmentos do proletariado mundial que experimentaram mais direta e sistemicamente a tendência à crescente penúria maciça.. e em virtude dela. A “divisão crescente” da economia mundial pela “luta inter-Estados” (que só agora estaria sendo superada) provocou a queda do mercado mundial (que só agora — “globalização” mediante — estaria sendo restabelecido). o mesmo período. já observável em forma embrionária em sua própria época. supostamente fracassado. chegando à conclusão central: Uma vez que essa crise consiste precisamente na eliminação tendencial do trabalho produtivo e. Para Kurz. a pretensão de explicar a evolução do mundo contemporâneo. da “classe trabalhadora”.. Pensar que isso não é capitalismo equivale a pensar que o “verdadeiro” capitalismo não é a barbárie. Marx pensou. Revelar-se-ia então que a pretensão dessa. mediante a conscientização. diminuísse com o tempo. apelando genericamente ao que o autor denomina a dinâmica do “sistema produtor de mercadorias” se transforma em um movimento de sombras chinesas. Nessas condições. na forma de um comunismo das coisas. não é nem utopia nem um objetivo distante. De fato. enquanto que a penúria que Marx associava ao capitalismo se espalharia exatamente nas regiões do mundo em que o proletariado era socialmente mais fraco. Faltaria apenas um empurrão. mas sim. ainda que na forma errada e negativa. quebrar todas as conquistas sociais e reintroduzir as formas mais arcaicas e bárbaras de exploração do “trabalho livre”: escravidão.

enfim. o proletariado industrial não teve poder social. em algumas localidades. e desde 1963 em diante o grande aumento no gasto militar gerou uma taxa de crescimento muito mais rápida.32 A crise atual. O pensamento dialético trilha outra via. As vastas demandas de gastos militares pelo Estado absorveram o excedente depois de 1937. e com a Segunda Guerra. capitalisme oblige. Devemos aqui passar. que se extendeu por uma década. Espanha) e. A boa nova seria que. o nazi-fascismo. Até a Segunda Guerra Mundial o excedente de capital acumulado nos países industriais avançados do capitalismo criou as crises periódicas do capital. o desenvolvimento dos Estados Unidos gozou da pre-eminência de um território imensamente grande e de uma riqueza natural incomparavelmente maior que os da Alemanha. O mesmo cabe dizer das condições de vida dos explorados: se a degradação nas metrópoles é evidente. elas demonstraram a impenetrabilidade histórica do proletariado industrial às ideologias e práticas revolucionário-socialistas. O papel de “locomotiva” dos Estados Unidos deveu-se a uma série de fatores históricos precisos. Posteriormente. A penúria maciça começou a se disseminar pelo proletariado do núcleo orgânico. combinados com a corrida espacial. assim como a tabula rasa feita de todas as lutas políticas desse longo período de 3/4 de século. muito especificamente em 1929 e 1937. as expectativas da revolução estão postas no mais atrasado país europeu. ou seja. Em resumo. mas a crise reapareceu em fins dos anos 40 nos Estados Unidos. e onde a revolução socialista teve clientela. como pilar hegemônico do imperialismo: Além das numerosas e valiosas vantagens de seu caráter histórico. ou da supostamente recente homogeneização das condições sociais do proletariado “orgânico” e do periférico (Arrighi). em ambas teorias as catástrofes do século XX. Isso sem falar nas situações revolucionárias na década de 30 (França. No próprio Manifesto. Havendo se adiantado consideravelmente à Grã-Bretanha. se elas medem o “poder social” (e não se vê outra maneira de medi-lo) foram arrasadas na periferia no último período. ganham um ar de fatalidades históricas. as conquistas sociais. Quanto ao crescimento do poder social do proletariado periférico. sobretudo. com bastante esforço. estamos nos aproximando do cenário imaginado por Marx e Engels no Manifesto — um cenário no qual o poder social e a penúria maciça do proletariado afetam o mesmo material humano em vez de segmentos separados e diferentes do proletariado mundial. consideradas conjuntamente. os gastos militares dos Estados Unidos. com seu “marketing publicitário” (os partidos revolucionários). a república norte-americana chegou a ser. afunda suas raízes nas tendências mais profundas do capitalismo em sua fase monopolista. como se esta fosse um produto à espera de potenciais compradores e. Mais esforço ainda para aceitar o conceito de “clientela” da revolução socialista. isso não é verdade: a degradação das condições econômicas nos países periféricos não fez senão aumentar a sua distância com relação ao que Arrighi chama de “núcleo orgânico”. que se converteu no século XX no modelo mais perfeito do capitalismo. só recentemente atingido (Kurz). onde a tendência socialista do proletariado metropolitano foi tão forte ou mais do que a do proletariado vitorioso da Rússia. mantiveram uma taxa de crescimento constante. qualquer que fosse seu estágio. a revolução socialista não teve clientela. a barbárie. ela atinge proporções de catástrofe na periferia. CRISE DO “SISTEMA” OU CRISE DO CAPITAL? Quer se trate do “limite imanente” da produção de mercadorias. na Segunda Guerra Mundial. no início do século atual.70 O traço mais surpreendente dessas tendências divergentes — o desenvolvimento do poder social do operariado. E aqui está uma das conseqüências básicas do “pensamento sistêmico”: o de deformar a realidade para fazê-la entrar no “sistema”. Onde o poder social do proletariado era significativo e crescente. Todas as potencialidades do capitalismo encontraram nesse país sua mais alta expressão. enquanto que o poder social começou a gotejar para o proletariado da periferia e semiperiferia. Estritamente falando. A atual crise seria a da “modernidade” ou. o “caos sistêmico”. junto com a tendência ao desaparecimento dos Estados Nacionais. e da revolução socialista contra a penúria maciça. para Arrighi. mas da crise do Estado territorial: “A impossibilidade de conter a violência no mundo contemporâneo está estreitamente associada ao definhamento do moderno sistema de Estados territoriais como locus primário do poder mundial”. que em sentido estrito ainda não era um país: a Alemanha. por cima da simplificação mais do que excessiva que Arrighi faz da história do movimento operário da Europa Ocidental e dos Estados Unidos. da padronização das condições econômicas mundiais. e em nenhum caso a crise do capital. que não deixariam nenhuma lição para o futuro (a não ser de caráter moral). Os claros sintomas de barbárie presentes não seriam uma manifestação daquela. Marx esperava um desdobramento proletário da revolução democrática (que não aconteceu): o Manifesto é um texto para intervir na revolução em curso. e não de espera do preenchimento de condições objetivas ideais. que não teriam podido ser evitadas e. em outras — é que.31 Isso seria o efeito socialista (ou comunista) da “globalização”. que os colocaram já no entre-guerras no centro do capitalismo mundial. ainda que lenta para toda a economia. em certos casos. agora. Seria simplificar em demasia o pensamento de Marx atribuir-lhe expectativas revolucionárias vinculadas a uma “homogeneização capitalista” do mundo.33 . desde a Comuna de Paris até as revoluções abortadas do primeiro pós-guerra. Em parte alguma de nosso planeta pôde a burguesia realizar empresas superiores às da República do Dólar. e não só na África. a praça forte da burguesia mundial. A internacionalização do capital do último período não fez senão aumentar o desenvolvimento desigual a escala mundial. que provocasse uma uniformização das condições de vida (a obra de Marx está cheia de exemplos contraditórios). seus holocaustos. porém. com seus mais de 80 milhões de mortos em duas guerras mundiais. poder social e penúria maciça não estão mais tão polarizados em diferentes segmentos do proletariado mundial quanto estiveram na metade do século XX.

Alemanha 7. a produção industrial aumentou.2% em 1900-1913) e a do comércio. mesmo assim. nos Estados Unidos. a taxa média esteve entre 5% e 6% anuais. Mas foi necessário esperar que as ilusões dos “30 gloriosos” desaparecessem para que aqueles fizessem irrupção no pensamento econômico.35 Com a expansão comercial “puxando”„ o crescimento industrial. 22%. mas tentando mantê-lo como conceito teórico: A teoria do imperialismo viu-se prejudicada em seu desenvolvimento pela separação da análise de classe da análise nacional. trata de uma base química e elétrica que remonta a um século atrás. no outro? A resposta é: não muitas e. embora os dados históricos e científicos já existissem para pôr em questão a aparente ruptura representada pelas taxas mais altas de crescimento do período após-guerra. Zaire 5%. entre a ciência. o próprio pensamento marxista sofreu os efeitos. tanto quanto os avanços tecnológicos dos anos do após-guerra apóiam-se numa base científica. o crescimento percentual anual nos países desenvolvidos importantes foi Japão 9. Índia 3%. Segundo a crença geral. ou quase nada. Egito 3%. o que devia fazer-se . afastando-se da concepção do imperialismo como “capitalismo agonizante ou em decomposição”. CIÊNCIA.5% entre 1860 e 1870). Dado que o incremento. Além disso. seja do consumo pessoal nos velhos países capitalistas ou da industrialização artificial das nações atrasadas. ou seja. Que provas incontestáveis existem de uma ligação. não poucos acreditaram na existência de uma “revolução técnico-científica” e até numa “terceira revolução industrial”.6% (a maior. uma extensão da análise marxista do capitalismo em uma nova fase.37 Nessas condições. maior ainda. Na indústria eletrônica. Argentina 2%.1%. e o emprego só 40%:36 O processo de crescimento econômico dos países industrializados foi retomado por volta de 1950 {boom coreano). tinha sido 4. como consumidor e como financiador do consumo. como meio para tirar a economia norte-americana da depressão. não foi a realização do “superimperialismo” kautskyano.. Indonésia 4%. não há dificuldade em enumerar um conjunto de novos produtos e processos.39 EXPANSÃO E INTERVENCIONISMO A expansão. mas na intervenção externa do Estado. das tradicionais energias produtivas do Ocidente. na verdade. de 5. França 4%. foi elaborada posteriormente como uma teoria das relações econômicas entre Estados desenvolvidos e subdesenvolvidos. Os Estados Unidos se viram obrigados a financiar (Plano Marshall) a reconstrução capitalista da Europa e do Japão (para conter desenvolvimentos revolucionários e/ou a expansão da União Soviética). e a expansão econômica. existiam elementos suficientes para questionar a “revolução tecno-científica” ou a “terceira revolução industrial”. e no clima ideológico gerado pelo boom capitalista. num extremo. deveu-se a um comércio mais intensivo entre os países capitalistas ocidentais desenvolvidos — dos 2/5 do total em 1950 a aproximadamente a metade atualmente — parece que temos todos os motivos para pensar que o comércio seja a chave da economia posterior à guerra. retrospectivamente. Superadas as breves tensões de 1949. e tinha sido consagrada teoricamente pela “teoria” keynesiana que. em 1948-71. elevando-se a média nos anos 60 a 7% anual. No entanto.34 Outro autor aponta que a estabilidade e o elevado nível de emprego foram atribuídos à grande expansão do comércio internacional ocorrida a partir da guerra. durante esses anos. enquanto que nos dois períodos anteriores de maior crescimento neste século. Que há no curso do desenvolvimento tecnológico para explicar essa ruptura? A resposta pode ser: nada. o comércio mundial cresceu em média de 6% anual. antes disso. Por mais que os gastos com pesquisa e desenvolvimento tenham aumentado desde 1945. o melhor que se pode fazer é apontar para uma correlação entre os gastos com P&D e as taxas de crescimento das diferentes indústrias. e a 9% ou 10% nos anos 1963-66. porém. Mas a maioria deles remonta aos anos do entre-guerras. não está claro que eles tenham aumentado significativamente mais depressa do que numa ou duas gerações anteriores.5%. Entre 1953 e 1960. Certamente. a teoria que teve sua origem (em Lenin. depois de um período de lenta incubação. enquanto o emprego industrial caiu 11%. a bancar a reconstituição dos imperialismos rivais. as economias capitalistas usufruem: a) da junção de altos níveis técnicos. Esta expansão foi muito considerável: nos anos 50. irregulares. a produção aumentou (1947-1952) 275%. em primeiro lugar a economia americana. em sua maior parte. A primeira experiência em grande escala desse tipo tinha tido lugar nos Estados Unidos na década de 30. Itália 5. De fato. o que não significa outra coisa que as próprias contradições e decomposição capitalistas impedem a realização (pacífica ou não) do “superimperialismo” que estaria na lógica abstrata do monopólio. Estados Unidos 3.71 A hegemonia norte-americana. Em outras palavras. não se baseou no livre e espontâneo desenvolvimento das forças produtivas capitalistas. ou mais até. nos Estados Unidos.3% e Grã-Bretanha 2. a taxa média de crescimento da indústria mundial foi. de 7. c) de um mercado interno e externo potencialmente dilatado. Brasil 6%.38 A questão do “desenvolvimento” ocupou o centro das atenções num mundo em que os mais importantes países capitalistas desenvolvidos cresciam a uma taxa mais rápida que os mais importantes dos atrasados: entre 1950 e 1959. fazendo da necessidade virtude. como os “30 anos dourados” do capital. b) da coordenação ao redor de alguns centros motores. com um forte dinamismo científico. 1910-14 e 1921-29. glorificou a política intervencionista ex post facto. TÉCNICA A expansão capitalista de pós-guerra fez muitos autores caracterizá-la. COMÉRCIO. Praticamente.7%.. Marx e Rosa Luxemburgo) como uma teoria de classe.3% (superando o recorde histórico de 5.5% para os mais importantes dos subdesenvolvidos foi.

a chamada “exclusão social” típica da atual crise. de quatro a seis empresas abocanham 60% a 80% da produção) a inflação virou um imposto privado que o capital percebe dos consumidores. Tratouse. A extensão do trabalho improdutivo e do gasto público aplicado em atividades que não produziam valor compensavam as tendências ao inchaço do desemprego estrutural induzido pela elevação da produtividade. que nada mais é do que o crescente desemprego de trabalhadores não-qualificados. para as indústrias nãoarmamentistas. A inflação vira um meio para intensificar a acumulação e ampliar suas bases sociais. Encontra sua expressão concreta na política de salários da Lei de Recuperação Nacional da Indústria. foi o gasto armamentista.‟41 O gasto público garantiu o pleno emprego que vigorou durante mais de duas décadas. seguindo. inscrita em seu nascedouro. que voltar simplesmente aos esquemas pré-bélicos teria deixado a Europa à mercê dos Estados Unidos nos aspectos econômicos tradicionais. Nessas condições teve lugar a expansão do sistema capitalista internacional. o gasto improdutivo do Estado. e apropriá-la sem reembolso nem juros. Tão logo os capitalistas descobrem que a taxa de lucro desce. e do novo gigante russo nos militares. o que acelera a atuação da queda tendencial da taxa de lucro. Ao mesmo tempo havia existido tal progresso nas técnicas e produtos industriais durante a guerra. começa a descender a taxa de lucro social. É prontamente aceita pelos políticos e de forma entusiasta pelos líderes operários. O grande motor. pelo desaparecimento da concorrência de preços. para o sistema mundial capitalista. 69% a mais de trabalho qualificado e 25% a mais de trabalho semi-qualificado do que a indústria em geral. aqui também.72 era aumentar os salários na indústria em geral. Prepara. CRISE O financiamento público da produção. a principal causa da expansão e ainda do desaparecimento de uma parte das desproporções que antes limitavam a capacidade de expansão. a partir de então. onde o primeiro problema que se apresentou no pós-guerra foi o de reparar as devastações produzidas durante o conflito. em especial nos Estados Unidos. a diminuir o ritmo de crescimento do emprego produtivo mas. foi depois sob influência das forças do mercado que a expansão prosseguiu. os pedidos do Estado e o consumo das camadas improdutivas faziam recuar os limites da realização da mais-valia. por outro lado. era um território particularmente inóspito: nos Estados Unidos essas indústrias usam proporcionalmente 23% a mais de trabalho de profissionais especializados.40 A intervenção do Estado na política salarial. de uma expansão capitalista de tipo normal: a multiplicação das indústrias de bens de produção e o desenvolvimento do mercado civil eram as condições que permitiam realizara mais-valia. Em todo o continente a destruição material havia sido enorme e havia existido muito pouco investimento neto. gerou a inflação que se transformou. DESEMPREGO. Para eles a indústria armamentista. propicia atividades intensivas em capital (constante).‟42 INFLAÇÃO. por outro lado. além disso. a fixar (pela “formação — monopólica — dos preços”) seu montante em função de seu programa de investimentos. A crise do “modelo” estava. portanto. ou seja. Teve um papel importante na política econômica do New Deal. Os encargos militares davam solução ideal ao problema colocado pela realização da mais-valia: preservavam a taxa de lucro no conjunto da economia e abriam. mercados que de outro modo não teriam existido. na Lei de Salários e Horas que estabeleceu um mínimo de salários e um máximo de horas e na ajuda prestada pelo New Deal à recuperação e expansão dos sindicatos. Esse ponto de vista encontra um grande apoio popular. que os dividendos das sociedades por ações começam a baixar. enormemente influenciada pelos pontos de vista dos teóricos do subconsumo. se apresenta o . inclusive à de baixos recursos. ou não aumenta o suficientemente rápido como para compensar o aumento da composição orgânica do capital. que durante a Segunda Guerra tinha permitido absorver o desemprego criado pela crise da década de 30. dos quais dependia a recuperação (eles haviam protagonizado os debates sobre a propriedade pública antes da guerra) e coordená-los em termos nacionais. se o boom armamentista motorizou a economia até um certo nível. e é a panacéia favorita para restabelecer os bons tempos. exigiu um grau inédito de integração dos sindicatos ao Estado (e reforçou a “aristocracia operária” nos países imperialistas). obrigando toda a população a contribuir compulsoriamente para a acumulação capitalista. a praticar uma espécie de poupança forçada. em contraposição com a tendência estrutural ao desemprego que as condições econômicas favoreciam: De um lado. o aumento da produtividade tendia. em que pese a rapidez da expansão econômica. O gasto armamentista. quantidades nunca antes atingidas. empréstimos bancários) que centralizavam a poupança das classes médias para transformá-la em capital. O maior poder de compra que isso gera constitui o mercado necessário para a recuperação e para estimular os empresários a aumentar a produção e a ocupação. Numa época dominada pela extensão dos cartéis internacionais e das firmas multinacionais no mercado dos principais produtos (em geral. generalizada nos países capitalistas no segundo pós-guerra. num meio de prosseguir e intensificar a acumulação. e posteriormente tirar (sob pretexto da guerra da Coréia) o país da recessão do final da década de 40: Os gastos militares somaram. A intervenção estatal como garantia do ciclo do capital em seu conjunto foi particularmente marcante na Europa. Esse poder permite aos oligopólios obrigar à população. especialmente na América do Norte. que tem uma pronunciada tendência à qualificação. porém. Era particularmente importante — e custoso — modernizar os serviços básicos de transporte e de energia. a partir da Guerra da Coréia (1950). o “modelo” típico das crises: Quando a taxa de mais-valia já não aumenta. Esses setores foram objeto da primeira onda de nacionalizações que ocorreu depois da guerra. para o capital. também. Os gastos militares eram. superposta aos mecanismos tradicionais (emissão de ações e obrigações. Mas. independentemente dos obstáculos criados pelas flutuações conjunturais.

Do ponto de vista econômico. o declínio do papel do capital bancário (como) tendência universal”. impulsionando ao mesmo tempo uma enorme inflação.46 O desemprego na CEE pulou 2.. nos Estados Unidos. conduzem a explosões.8% em 1981.. de tal modo que a desproporção entre a capacidade de produção e a de consumo evoluiria em direção de um paroxismo. nos anos 70. a suposta “definitiva decadência do domínio do capital-dinheiro sobre o capital-mercadoria.73 desastre financeiro. sendo um retrocesso às formas usurárias do capital. A taxa de lucros.000 vezes mais.) Essas contradições. nesse contexto.6% em 1973. a tendência é nesse sentido: a proporção entre a renda dos 20% mais ricos da população mundial. e para 13. que está longe de realizado. já que na visão dos países europeus. caiu de 7. os Estados Unidos haviam abusado durante anos de sua liderança na política monetária. na qual a necessidade de reduzir o tempo de trabalho necessário provocaria o retrocesso gradual dos mercados. pois com essa medida o governo dos Estados Unidos se livrava definitivamente do saneamento econômico interno e transpassava ao estrangeiro toda a carga do ajuste. em que pesem as efêmeras “recuperações”. saturação dos mercados. E os demais países simplesmente não tinham outra opção senão aceitar essa decisão unilateral diante da maré de dólares que se estendia em escala mundial. A destruição violenta de capital. (. atingindo atualmente a fabulosa cifra de 42 milhões para os países da OCDE. Primeiro “fez emanar dólares-ouro de suas máquinas” destinados a financiar seu crescente déficit na balança de pagamentos e a afiançar seu predomínio político e econômico sobre o Ocidente.2% em 1950-73. e dos 20% mais pobres.45 CRISE E FALÊNCIA DO CAPITAL Com a crise mundial. é uma expressão do esgotamento do modo de produção capitalista. convulsões agudas. pois grande parte desse capital ocioso são créditos incobráveis contra empresas e nações na bancarrota. ao mesmo tempo que deflagrava uma profunda luta interimperialista. para 3. Mas a sua expansão é insuficiente para mobilizar todo o capital ocioso gerado pela crise. e a realidade. A taxa de crescimento anual das exportações. para 8. que ameaça com a falência do sistema financeiro mundial. Mesmo que o assalariado da sociedade automatizada ganhasse 100 ou 1. as catástrofes sociais e políticas serão de tal magnitude que elas porão o poder político em jogo. provam a tendência à desagregação do primeiro. é a forma mais flagrante pela qual lhe é dado advice to be gone and to give room to a higher state of social production.. que demoliu uma das críticas principais à teoria marxista do imperialismo. a diminuição absoluta do trabalho assalariado.. motor da expansão de pós-guerra. crises.. crises nas quais a cessação momentânea de qualquer trabalho e a destruição de uma grande parte do capital fazem regressar este ponto em que ele is enable fully employing its productive powers without commiting suicide” (em inglês no original).44 A declaração de inconvertibilidade do dólar pelos Estados Unidos (1971) já expressava a falência do suposto “modelo”. ela não consumiria 100 ou 1. não temos feito senão assistir à expansão e profundização cada vez maiores dos elementos dessa crise.5% em 1985. não por condições que lhe seriam exteriores. para todas as classes sociais. e inadaptada à produção automatizada. Como afirmar. uma solução à crise baseada nas “novas tecnologias” somente seria possível num quadro de barbárie. que estaríamos em presença da “renovação do mercado mundial auto-regulador” e da “tendência a barrar a escalada do caos sistêmico mediante um processo de formação de um governo mundial”?49 As cifras. O capitalismo chegaria assim a uma nova etapa histórica. mas como condição da sua conservação.. tão logo ela tem de descer devido a que o aumento da composição orgânica do capital não pode ser já compensado pelo aumento da taxa de mais-valia. A dívida externa. como foi pontuado numa “antiutopia”: O mesmo movimento que leva a produtividade do trabalho para seu zênite implica também. expresso na monumental dívida externa desses países que. o que cria a tendência para a queda da rentabilidade (com o) esgotamento dos esquemas de acumulação dos anos 50 e 60 (saturação dos mercados e resistência do mundo do trabalho)”. o armamento se transforma no único mercado capitalista que não retrocede. quando seu elementos já estão presentes no final da década de 60 sob a forma de “aumento dos custos. e nas mesmas proporções. cresceu de 30/1 em 1960. Os europeus viram na suspensão da convertibilidade do dólar a culminação do abuso de poder por parte dos norte-americanos. A crise é verificada apenas quando começa a descer a taxa de lucro.000 vezes mais os mesmos produtos. A “rolagem das dívidas” e o retrocesso produtivo criaram a agora chamada “financeirização da riqueza”. antes de se realizar essa “des-utopia” de uma sociedade de “novos párias”. para 78/1 em 1994 (segundo cifras da ONU). Mas. caiu de 8. of course. a saber. e como questão de vida ou morte . após-impostos. contra os imperialismos rivais e as nações atrasadas. que seria uma espécie de “crise permanente”.48 Desde então. acentuação da concorrência. e o segundo só pode ser aceito se for o “governo mundial” dos Estados Unidos. Ainda que aumentasse a procura das camadas capitalistas e da aristocracia salarial.”47 O retrocesso produtivo evidencia o mecanismo típico da crise exposto por Marx nos Grundrisse: A inadequação crescente do desenvolvimento produtivo da sociedade com as suas relações de produção até aí existentes exprime-se por contradições.43 A crise é identificada vulgarmente com o “choque do petróleo” de 1973. a semi-industrialização de (alguns) países atrasados se realizou com base num fantástico desenvolvimento parasitário.9% em 1973-1990. ela seria qualitativamente diversa daquela da sociedade de consumo. não experimentando recuperação significativa posterior. e só poderia sê-lo através de um cataclisma histórico. evidenciam que o capital é cada vez mais incapaz de reproduzir-se produtivamente (como capital industrial). A concentração da totalidade da renda social nas mãos de uma fração reduzida da população abalaria a estrutura do consumo.50 No entanto.3% em 1961-65 para 5. Por outro lado. à escala nacional e internacional.3% em 1970.

Pierre. Samir. p. Nikolai. p. Pablo. 63. São Paulo. “Per la critica delia concezione sistemica del mondo”. 1982. v. 1981. 16. Storia sociale del mondo contemporaneo. 20. Braudel. e Smith. n van der Wee. Davis S. Op. L‟historien et le mouvement social. 1906). 54. Planeta-De Agostini. México. Michael. F. p. s. 1973.74 para os trabalhadores. Londres. 35. Cf. 21. Fernand. Campinas. Immanuel. Kidron. 1982. in: Economi a nazionale e mercato mondiale. Beaud. Trotski. p. “Perspectives du développement capitaliste”. p. 33. Companhia das Letras. 41. N. Iniciativas. 106. São Paulo. Giovanni. Idem. Wallerstein. 47. 6. 14. 115. Mandei. La acumulación del capital. 470. 9. São Paulo. Prometeu desacorrentado. Giovanni. 304-305. Zwischen zwei Weltkriegen? (1936). cit. Traité d‟économie marxiste. Paris. México. Maspéro. Mitchie. 316. Landes. p. Guadarrama. p. Ensaio-Unicamp. NOTAS: 1. 20. Capitalismo e teoria. México.570. p. Golbery. 25. Cf. n° 10. e Owen. Arrighi. México. 13. Civilización material y capitalismo. Milão. 1995. Kemp. 10-11 e 456. O marxismo de nosso tempo. Bacherer. Eric. E. Estey. Leon. Haupt. Pala. “Um olhar moderado sobre o século dos extremos”. p. p. Managing the global economy. Tratado sobre los ciclos econômicos. A. desde 1750 até nossa época. Tom. p. Eric. p. Nova Fronteira. p. In: Sobre História. A crise do capital. Todas as citações do Manifesto Comunista são extraídas da tradução de Álvaro Pina. Paris. 12. 32. En defensa del marxismo. Seuil. Paz e Terra. J. FCE. Outubro. J. 170. p. p. Rio de Janeiro. 4. Ernest. 248-249. Paris. R. Immanuel.. p. Paris. Yves (org. n° 16. p. Mandei. 31. p. 42. 430. Oxford University Press. 8. 1969.. 532. 1995. apud Natalie Moszkowska. Leon. O capitalismo histórico. Arrighi. Otto. 1994. p.. “Préface”. Braudel. cit. Paris. “Bilan et perspectives”. 22. 1978. Trabajadores. 461. Et desarrollo desigual . Hobsbawm. cit. Paris. In: Revolucionários. Barcelona. Havana. B. Buenos Aires. Michel. p. Pierre. 1979. 1990. Manes. 293 e 303. Labor. 343.. Payot. A dinâmica do capitalismo. 415 (Ia edição. Rostow. Rosa. 44. 36. 28. J. 1976. “Una revolución sin sujeto e un sujeto sin revolución”. Op. 3. Paris.. Les étapes de la croissance économique. Grijalbo. 31. “O breve século XX 1914-1991”. Paz e Terra. 1986. 127. “Lenin e a aristocracia operária”. 11. 39. 536-537. Lessa. A ilusão do desenvolvimento. Rio de Janeiro. p. Santarelli. Feltrinelli. 1971. Op. Op. 1997. Boukharine. Karl. Vozes. cit. junho 1998. G. O colapso da modernização. Estudios sobre la Teoria del Imperialismo. p. 1992. São Paulo. cit. 3. Kurz. cit. p. n° 20. 1977. K. Histoire du capitalisme. 149. 5. In: Lacoste. p. La Verité. p. Ciências Sociales. incluída na edição de Coggiola. Michael. Brasiliense. 29. 18. Paris. Anthropos. “Sobre la acumulación originaria de capital”. p. Sutcliffe. 1962. 30. e não em caprichosos esquemas “sistêmicos” ou “pós-modernos” que se verifica a atualidade da dialética corrosiva do Manifesto Comunista. E. Crítica. Hobsbawm. Kurz. La geometria del imperialismo. Rocco. V. Marx. 9. I. Arrighi. Op. Barcelona. São Paulo. Belo Horizonte. 1996. n° 527. p. 1987. Osvaldo (organização e introdução). e Engels. Companhia das Letras. Buenos Aires. Seuil. Fernand. p. Lenin. 45.. Luxemburgo. 1968.). Madri. Praxis. São Paulo. Selected correspondance. Contribuición a la dinâmica del capitalismo tardio. 87. Pasado y Presente. Rio de Janeiro. Bauer. in: 1905. Prosperidad y crisis (1945-1980). Barcelona. Crítica. 1983. p. Rio de Janeiro. Op. 91. p. Op. Arrighi. 1995. p. Boukharine. 1962. Lisboa. Manifesto Comunista. 37. 1981. 26. cit. p. p. 332. El Capital. 10. J. 7. In: En defensa del marxismo. 90. 15. Gianfranco. ERA. “La aristocracia obrera en la Gran Bretaña del siglo XIX”. 1978. 1948. Trotski. 43. 1986. UGE. 24. 136. Nikolai. 4. Transformação tecnológica e desenvolvimento industrial na Europa Ocidental. . L‟économie mondiale et l‟imperialisme. p. 201. São Paulo. Rio de Janeiro. 316-340. Minuit. Siglo XXI. FCE. p. 23 e 232. Hobsbawm. 226-228 e 232. Juan Pablo. abril 1964. 1998. 23. Nápoles. In: Boukharine. 1998. 125. março 1997.d. Barcelona. 47. Hobsbawm.. p. p. Robert. 27. Papirus. 1989. 2. Marx. Wallerstein. W. Trotski. 46. La dynamique du capitalisme au XX Siècle. 17. p. Giovanni. Georges. Rober. 342-343. 23. 42. 1934. 1972. 146. 49. Souyri. Op. vol.. Boitempo Editorial. Rieznik. 38. Ernest. Giovanni. 340. O longo século XX. Amin. 48. El capitalismo Occidental de la pos-guerra. Fontana. Arrighi. Barcelona. México. p. 40. outubro 1997. p. Josep. 1982. É nessa crise. Ler Braudel. I. W. Historia: análisis del pasado y proyecto social. “Introdução ao Manifesto Comunista”. 19.. Souyri. In: Era dos extremos. Contraponto-Unesp. O longo século XX. Kidron. cit. Enzo. 43. Giovanni. p. 50. Leon. 34.

ao estudar o mesmo fenômeno de aculturação. De qualquer forma. não deixaria de denunciar esse conservadorismo um pouco ingênuo. De fato. de um lado. Marx e Engels publicavam o Manifesto Comunista. por Moses Finley e hoje consolidado na chamada “Escola de Cambridge”. haveria acomodação. como prefere Robert Kurz. mas almejavam mostrar-se superiores.6 O cerne do interesse de Marx encontrava-se. sempre. assim como. Se por vida tomarmos o seu oposto. pode servir para diferenciar uma elite “de primeiro mundo”. têm vivido numa luta ininterrupta. em constante oposição. As duas atitudes mentais mencionadas. Não me parece relevante tratar daquela corrente. originalmente. que tudo “americanizariam”. de forma explícita. o uso do inglês. Alain Touraine 1 propôs que bastaria substituir “burguesia” por “globalização” e eis o mundo atual descrito por Marx. naturalmente. o período helenístico. pois as aristocracias locais não buscavam tomar-se romanas. para. se informam na crítica marxista. a um só tempo. à Antiguidade: A História de todas as sociedades que existiram até hoje tem sido a história da luta de classes. . para além do deleite que. cavaleiros. por meio de um exame aprofundado de um período comparável da história da filosofia grega. em seguida. um uma transformação revolucionária da sociedade inteira. no estudo do mundo antigo. como tampouco hoje um americanófilo tenta ser americano. não casualmente. talvez o ponto tratado com maior brevidade e menor profundidade? A resposta. de uma ou outra forma. a resposta só poderá ser negativa. escravos. daí. em ambiente local.9 Trata-se. a servir de modelo para o estudo do mundo antigo. ora franca. de início. no Manifesto.2 Nesse contexto. justamente. ou pela ruína das classes em luta. mas cuja posteridade e. por sua parte. dependerá da acepção que se tenha da vitalidade de uma obra como essa. Sem negar a pertinência das diferenciações de ordem jurídica. em decorrência.10 Suposta. Livre e escravo. A própria linguagem utilizada demonstra o comprometimento da historiografia tradicional. de movimento que se modifica a cada instante. então. senão como exercício historiográfico. da transposição da suposta superioridade e mágica dos americanos. em autores como Kiakov e Kovaliev3 e uma infinidade de estudos que.8 estava a servir à causa da crítica do contemporâneo. não têm hesitado em adotar um ponto de vista das elites. e revolucionária. O MANIFESTO E A HISTORIOGRAFIA CRÍTICA SOBRE O MUNDO ANTIGO Pedro Paulo Funari Há 150 anos. portanto. Outros prefeririam concluir que “a luta de classes chegou ao fim e com ela o Manifesto Comunista também perdeu sua força”. Assim.75 A ANTIGUIDADE. com objeto imediato em Epicuro. uma complexa divisão da sociedade em várias ordens. pois. assim. podem ser bem exemplificados com as diferenças entre a esterilização dos esquemas sobre a Antiguidade. representava. 12 Mais que conflitos. na Kritik. Marx havia defendido in absentia sua tese de doutoramento em Jena sobre a diferença entre a filosofia da natureza em Demócrito e Epicuro. aqui ou ali. a própria escolha do tema de sua tese tinha por objetivo compreender a situação filosófica após Hegel. encontramos. naturalmente. A historiografia marxista. Em sociedades em que as classes baixas falavam uma língua vernácula. pois. a leitura das obras latinas e gregas em seu original. obra que revolucionou a história política moderna e que. hoje. aceitação dos destinos e valores atribuídos. a literalidade. haveria sentido em se buscar a atualidade do Manifesto para a compreensão da Antiguidade Clássica. A primeira questão. de outro. a exegese e a descoberta de verdades inefáveis que já se encontrariam em um corpus hermético a ser decifrado por iluminados. em abril de 1841. encontramos patrícios. Por outro lado. uma graduação variada de posições sociais. ao restante da população. seguramente importante. de raiz weberiana. é que apenas a consciência da existência de classes e seus interesses permite transcender o discurso conservador do senso comum. pois. a pertinência do Manifesto para compreender o mundo capitalista. então poderemos perceber o quão pertinentes foram as observações do Manifesto. Na Roma antiga. e os locais. vitalidade não se concretiza. pela elite. que se referem. quase por toda parte. os conceitos de estatutos jurídicos e de continuum de gradação social esvazia não só o conceito marxista de classe como.11 o latim servia como arma de poder. pois a adoção de costumes romanos. Os paradigmas dominantes. ou mesmo a importância do status nas relações sociais no mundo antigo. Recentemente. senhor e servo. Nesta ocasião. tratarei de mostrar como as discussões sobre o funcionamento e transformações do mundo antigo têm tocado em questões apresentadas. aqui. deixa transparecer. uma luta que terminou. O modelo historiográfico dominante mais bem articulado e difundido funda-se em uma interpretação. patrício e plebeu. numa palavra. plebeus. sujeição. após tantas transformações sociais. a possibilidade de análise das clivagens e lutas de classes na Antiguidade. a erudição clássica de Marx e sua preocupação com o mundo contemporâneo. a ressaltar. ao imitarem o dominador. uma estratégia para manter sua hegemonia no interior da sociedade em suposta aculturação.4 Menos de 7 anos antes. o que nos interessa. por parte das elites locais. se tomarmos a vitalidade em sua acepção mais profunda. pois. no passado.6 trabalho que já nos está a demonstrar. propugnado. antes de mais nada. continua atual. se retomarmos o sentido último da Kritik proposta por Marx. opressor e oprimido. a começar de suas primeiras frases. em fevereiro de 1848. refere-se ao caráter da classe da sociedade antiga e às contradições decorrentes. ora disfarçada. Nas primeiras etapas da História. como quando um autor americano propõe que “a superioridade (s/c) cultural romana bastou para romanizar inteiras províncias „pois havia‟ uma mágica (s/c) associada aos membros da civilização dominante”.7 Para Marx. no presente e. o apego exegético à forma externa do marxismo e o uso da critica marxista. exercer uma crítica filosófica. mestre de corporação e jornaleiro.

a despeito da existência da escravidão: No mundo antigo. no entanto. um “escravo assalariado”. Na verdade. Saitta. no passado. A ideologia dominante burguesa e moderna.22 Em seguida. servos. a uma economia escravista. pelos próprios pobres e escravos. geralmente. Estudiosos das sociedades arcaicas. pois que uma categoria social importante do mundo romano. como vimos há pouco. em determinados momentos. os próprios historiadores da Antiguidade Clássica. como parte da “ideologia dominante”. o estudo e a valorização das elaborações culturais populares. segundo o ponto de partida. como destacado pela historiografia crítica. não deixaria de influenciar diversos estudiosos marxistas da Antiguidade. e mesmo simples camponeses. No próprio interior do marxismo. entenda-se.20 como no que se refere ao mundo romano. na qual os produtores de trabalho geram mais-valia e os apropriadores são distintos. na sociedade antiga. escravos. já ressaltado por diversos observadores. ou “assalariado”. estudados. justamente. está a indicar a fecundidade de uma abordagem menos parcial e redutora da História àquela dos dominantes.32 Isso explicaria a pouca atenção que prestariam à busca do lucro. n‟0 Capital. os conflitos de classe atingiam. gerando uma irracionalidade inevitável.31 A historiografia aferrada a uma leitura da História a partir dos pontos de vista da elite tem ressaltado que haveria uma alteridade radical entre a racionalidade capitalista e uma visão de mundo aristocrática e pouco afeita a preocupações comezinhas. seria compartilhado. estes tão magnificamente chamados. Nas palavras de Finley. seus estereótipos e visões de mundo comprometidos com seus interesses. termo usado para designar todos os explorados do passado.17 que buscam a continuidade das relações sociais. e como se aplicou essa leitura aos próprios autores antigos. seguia padrões de . uma leitura parcial do famosa proposição.16 De fato. pode passar-se para a dominação. pois. operários. o mercennarius. em muitos casos. De fato. uma “psicologia da vida ociosa” a impedir a racionalidade econômica. ao desenvolvimento das culturas rentáveis que lhes permitissem vender o mais possível”. pode chegar à simples transformação de um sistema de escravidão patriarcal. muitas vezes.14 A historiografia marxista tem insistido.36 tem encontrado inúmeros estudos de caso que contraditam suas assertivas. para afirmar que o desprezo que a elite antiga sentia pelo trabalho manual. nem muito menos de enaltecer as classes subalternas e suas manifestações políticas e culturais como contraposição àquelas dos dominantes. ao menos.35 No entanto.21 Além disso.30 Um aspecto do mundo antigo tem causado particular discussão e se refere ao papel desempenhado pela economia. à prática de atividades lucrativas e.34 Haveria. os agricultores antigos calculavam seus “lucros” e “perdas”. no mundo contemporâneo. ter sido um homem livre. daquelas camadas sociais da Antiguidade que não seriam apenas ignaras ou imitadoras da elite. e a produção de mais-valia. em particular.40 enquanto as estradas. à diferença dos modelos normativos de cultura. bem como na importância da bipolaridade15 entre apropriadores e apropriados. têm sido interpretadas como importantes artérias econômicas. “dado que o camponês não pode despedir os membros de sua família”. que se pensava. voltada para a produção para o mercado. as interdições. a longa distância. na realidade. sempre. elite e povo. Tradicionalmente. em um sistema voltado para a produção de maisvalia.37 “proprietários rurais escravistas que visavam à produção no melhor dos seus interesses.24 Ademais. no mundo antigo. pois. Um caso paradigmático consiste. também. portanto. as idéias dominantes são aqueles constructos ideológicos da elite que esta tenta impor. por tanto tempo consideradas de uso exclusivamente militar e estratégico. Nesse sentido. como meio de sustentação de um paradigma. a ação do comércio e o desenvolvimento do capital mercantil levam. para que possa dominar. em termos gerais. posições não apenas redutoras da realidade como incapazes de explicar sua inevitável interação. com relações de classe. Assim.26 fez com que se aceitasse que uma única ideologia seria prevalecente. as contradições de classe podem assumir contornos violentos. como Randall McGuire e Dean J. elitista. a despeito das diferenças entre eles”. as elites ditassem comportamentos e idéias. bem como dos bancos. orientado à produção de meios diretos de subsistência. os dominantes. na verdade.18 podem ser considerados como igualitários e estratificados a um só tempo e. de esquecer o entrelaçamento inevitável entre as classes sociais.13 Essa proposta teórica de Harris encontra respaldo em estudos específicos. confesso que não ficaria horrorizado com o pensamento de que a maioria dos escravos e praticamente todos os assalariados — um grupo mal conhecido — pode ser considerado como membros de uma mesma classe social. pelos historiadores marxistas japoneses.33 Desinteressados.19 Já nas sociedades com divisão de classe. na Antiguidade.25 às vezes imersos. não lhe resta a possibilidade de maximizar o lucro e minimizar os custos.38 Diferentes estudiosos mostraram a importância dos mercados locais39 para a troca. mas por que buscam estabelecer a dominação de classe. o marxismo tem sempre ressaltado que os interesses e os conflitos são características inerentes à vida em sociedade. de produtos excedentes. ressaltaria que: “Em todo caso.29 Não se trata. era. de caráter legal e de prestígio. em sua própria cultura de elite. têm demonstrado como o conceito de classe é apropriado para o estudo de todas os tipos de sociedades. também.76 William V. Harris.41 O assentamento humano. a própria noção de modo de produção escravista foi concebida. Dominantes. admitida a inevitável existência de conflitos. essa subestimação do cálculo e dos interesses econômicos dos antigos. pouco teriam atentado para os possíveis benefícios que aufeririam de uma mais racional exploração da mão-de-obra. na aplicabilidade do uso do conceito de classe para estudar as sociedades humanas. determinaria uma vida social dominada pela honra. antes que pelo interesse econômico. “aqueles que servem. ou.23 aceitando. em particular nas lutas dos escravos. segundo a qual “as idéias dominantes de uma época sempre foram as idéias da classe dominante”. por Walter Benjamin. Marx. não por que sejam prevalecentes. mal definidos como “simples”. por analogia com o mundo moderno. como hoje. pois mesmo grupos pré-históricos. aristocratas. o historiador tratou do passado a partir das idéias das elites. acima citada de Marx. a submissão dos grupos e dos indivíduos às regras sociais. não hesitou em descrever a economia antiga como. de qeknechteten. consideraram natural que. na leitura reducionista da frase. na esteira do Manifesto. escravos”. entretanto. explícito nas fontes eruditas antigas.27 Ellen Meikins Wood28 estudou a criação do mito da plebe ociosa.

a contínua relevância das tragédias gregas ou de Aristóteles. Cario. 1996. 20. labor. 1/2/98. 80-136. Randall. Tóquio. “O Manifesto Comunista”. “Why complexity is too simple”. and resistance”.. Oxford. 64. Miguel. em muitos aspectos. 108: bipartition between popular and learned Culture is more useful than a holistic model. nas palavras de Lietta de Salvo. “Der „mercennarius‟ und die Lohnarbeit”.). p. Princeton University Press. 1997. 32. R. 13. Philip. Saitta. cf. 24. 11. em particular para grupos privilegiados. 1996. Benjamin. 352. p. In: Journal of Anthropological Archaeology. Crítica. In: Toledo. p. Por outro lado. em conclusão. In: Crítica Marxista 1. Differenz der demokritischen und epikureischen Naturphilosophie. “A luta de classes como fundamento da História”. Lisboa. Sobre esta historiografia. 18. 11. In: Antiquity. tomo 2. 1974. Changes in the Roman Empire. The archaeology of ethnicity. p. William. Na . 8. 1992. Dean J.77 circulação e de troca de mercadorias42 e “o livre mercado romano deve ter tido uma extensão muito mais ampla do que se admitia até há pouco”. ao descrever a sociedade antiga como essencialmente baseada no status e na honra. “Radicai archaeology and middle-range methodology”. 7-26. em vvaa. A Antiguidade Clássica. Ensaios sobre o Manifesto Comunista. 2. anthropological perspectives. 35. Clavel-Lévêque. p. 201-227. J. Foss. T. Paynter e R. no caso do mundo romano. en passant. Benoit. Sobre o modelo normativo de cultura. Randall e Saitta. 1. 3. “Ethnic strife: a necessary amendment to a consideration of class struggle in Antiquity”. objeto tão pouco mencionado. 46. Tradução do autor. 15. C. N. McGuire. 3. 1997. 13 et passim. 12. mesmo historiadores não-marxistas têm ressaltado as contradições e lutas intestinas no interior das classes antigas. “Pompeii. “Um apelo à libertação”. 3. Franz Steiner. “Latin and punic in contact? The case of the Bu Njem Ostraca”.43 ainda que fatores políticos. Annequin. Marx (1839-1841). 9. they obey them badly: the dialectics of prehispanic Western Pueblo social organization”. Funari. 1988. Alfons. Masaoki. uma crítica consistente encontra-se em Siân Jones. 1982. “Impérialisme. In: Forms of control. David. Touraine.111 et passim. développement et transition: pluralité des voies et universalisme dans le modele impériale romain”. tese xii. 7. p. Caio Navarro de (org. NOTAS 1. Pedar. In: Zeitschrift der Savigny-Stiftung für Rechtsgeschichte. Xamã. 45-69. I. Paulo. McGuire. “Power. a distribuição política de recursos. In: Cesammelte Schriften. domination. p. Kohl. “Considerações em torno das „Teses sobre a Filosofia da História‟. Blackwell. com bibliografia anterior. p. 1990. Barcelona. E. McGuire. In: Civilization in crisis. buscando uma práxis autoreflexiva.. 1977. J. v. 14. como referencial. p. Bürge. V. O Manifesto. 1-25. Walter. Robert. pode afirmar-se que os estudos modernos não deixam de dialogar com concepções da História radicadas nas reflexões nele contidas. “Über den Begriff der Geschichte”. 603. in: Journal of Roman Archaeology. Monique. Consulte-se Doi. 4S-S3. Folha de S. “Agency. In: American Antiquity. Dean. Dietz Verlag. Escritos sobre Epicuro. Formos de exploração do trabalho e relações sociais na Antiguidade Clássica. p. 2. mantendo-o. McMullen. p. S. Suhrkamp. and the dynamics of change in Chacoan Political economy”. 198-4. nesses 150 anos. Crítica Marxista. Dean J. redistributivos. Calgary. “Sobre a crítica (dialética) de O Capital”. 107. e Favory. Crítica. pelo Manifesto. In: Debating complexity. como é o caso de Alföldy. Routledge.46 estão a demonstrar a vitalidade da dialética materialista. Römische Sozialgeschichte. The results and issues of post-war Japans studies on slavery in classical antiquity. tem sido abordada. organizado por P. Cf. McLellan. In: The archaeology of inequality. Cf. não possam ser deixados de lado. Frankfurt. 1994. pois. por sua parte. 84. Como quando menciona. explicitamente. 197-216. 21. in: Interview. 5. Londres. Geza. p. Kurz. p. 62. p. Ginsburg. não deixa de construir seu discurso em oposição ao marxismo. de Walter Benjamin”. abriu perspectivas genéricas de uma leitura crítica da História. p. Folha de S. 6. Hector. 19. 10. In: American Antiquity. 1994. 1997.45 Em outros termos. 22. 1991. 1990. 1978. Alain. class. Tóquio. 17. “Presentación”. 196. University of Florida Press. sob o espectro do materialismo de Marx. “Although they have petty captains. Hector. Nesse sentido amplo. veja-se. Berlim. Clavel-Lévêque. explica-se pela configuração das relações econômicas antigas: “as condições econômicas de então explicam porque é que a política desempenhava o papel principal”. 889.3. 1/2/98. organizado por Christine Ward Gailey. 9. 61. Journal of Roman Studies. Estampa. “The archaeology of inequality: material culture. Benoit. não pode ser entendida senão como reflexo de estruturas e interesses econômicos dos atores sociais em embate. 16. Paulo. Saitta. 1. 1988. 1992. “On the applicability of the concept of class in roman history”. 106 et passim. S. p. Pedro Paulo A. 6. 1986. Adams. “Radical History Review”. bem como da complexa relação dialética entre as interpretações e realidades atuais e aquelas referentes ao mundo antigo. Marx. Gainesville. and archaeological interpretation”. 13. New Jersey. p. Constructing identities in the past and present. de forma indireta e mediada. “Apresentação”. I97S. 1-7. os inúmeros estudos que têm tratado dos interesses das classes em confronto.44 A própria mediação política. M. p. Barcelona. Karl Marx: su vida y sus ideas.g. São Paulo. F. La Pensée. como os soldados ou a plebe. A historiografia moderna que enfatiza a alteridade. 4. Harris. Dawson e D. p. Hanna. p. the social city”. Essay in the ordinary. . 66. Dean. Saitta. 22. Ramsay. p. p. Candel. Wiesbaden. 23. 1998.

Gurevich. Editions Sociales. Samperi. traders and the Ancient City. Fábio.Cohen. p. Andrew. “Cité. Nicolet. 29. 1992. 1989. 13. Milão. 1967. Messina. 32. Barcelona. Revista de História. Routledge. 37 et passim. Ray. Yavetz. exigem uma análise de sua especificidade. 41. Londres. I. Horsfall. 6. Le Capital. 1988. 225-227. Princeton University Press. Jaques. 629. Ricardo. La società romana. Afrontamento. 1998. Guerrini. Le Capital. Academic Press. 15. p. Funari. 39. 46. 42. p. Wallace-Hadrill. A cultura popular na Antiguidade Clássica. apenas ao se estudar seus códigos específicos. Pedro Paulo A. Cf. 1980. 192. Aron. 1994. p. “Economia e sociedade antigas. 37. Cf. Economia privata e pubblici servizi nell‟impero romano.Gabba. Marx. Paris. in: La Pensée. Assim. Princeton University Press. César & Funari. p. PPU. Paris. Slaves and slavery in ancient Rome. “Der praefectus annonae und die Wirtschaft der westlichen Provinzen”. Musse. 615. Moses I. 38. Marx. In: Journal of Roman Archaeology. I corpora nauiculariorum. 30. 44. 161. 1997. Oxford. Remesal. Funari. 1988. Houses and society in Pompeii and Herculaneum. Paris. p. 144149. 1967. E. 244. Monique e Favory. 26-35. 40. Transaction. “Cultura popular e classicismo”. São Paulo. Porto. et passim e a resenha que publiquei em LPH. Dressel 20 inscriptions from Britain and the consumption of Spanish olive oil. pois essas manifestações só existem em contextos específicos que. Paul. 1985. p. 1992. Trade. 1990. Contexto.Annequin. Britannia y el Mediterraneo: Estudios sobre el abastecimiento de aceite bético y africano en Britannia. p. p. p. économie et société dans la Rome Antique. Claude. Randall. Mireille. não implica elogiar a cultura popular. Veyne. 93. Barcelona. 1996. cf. conceitos e debates”. 45.g. 1994. A economia antiga. E. se pode compreendê-la. E. Zvi. Stuttgart. p. Cf. R Kehoe. 1993. 1992. In: Clássica. 275 et passim. Lietta de. P. 1991. San Diego. In: Epigrafia. 5. 1988. Saggi di storia economica e sociale del mondo antico. practice and the economy”. 31.78 25.Corbier. Emilio. Verso. remarques sur l‟esclavage dans l‟antiquité”. École Française de Rome. mais que elogios. 1998. Wood. Essa análise contextual. Tempus Reparatum. 1989. Athenian economy and society. Nicholas. R R A.Salvo. Heeresversorgung und die wirtschaftlichen Beziehungen zwischen der Baetica und Cermanien. “Economic rationalism in Roman agriculture”. Laurence. François. S I . Ellen Meikins. p. In: La Pensée. 1988. Rendre à César. Cambridge University Press. Finley. . 1977. McGuire. não cabe elogiar o erudito ou o popular. Ciro Flamarion Santana. Karl. De buon uso delia ricchezza. “Land transport in roman Italy: costs. P. Dennis. Peter. Faversani. 1992. p. Roma. p. Mais!. E. 1994. como a que desenvolvi em A cultura popular na Antiguidade Clássica. José. In: Ktema. p. I. New Jersey. Paulo. 4. 34. Carreras. p. “Pratique scientifique et théorie des sociétés de l‟antiquité”. A marxist archaeology. 144. 27. 129-148. Laterza. 28. Medieval popular culture: problems of belief and perception. A. 337. “Formes de contradiction et rationalité d‟un système économique.g. mas mostrar que. Oxford. p. In: Helen Parkins & Christopher Smith (eds). Cardoso. the foundations of the athenian democracy. 69. Princeton. 35. 43. p. Idem. 1996. Londres. A banking perspective. Karl. 33. 96. 1988. A. Editions Sociales. In: LPH: Revista de História. 36. Peasant-citizen and slave. 475-484. Roma. “Esboço de história universal”. I. Como ressaltam Clavel-Lévêque. Hertz. Cambridge. territoire et fiscalité”. Universidad de Barcelona. 148. La cultura delia plebs romana. p. Gallimard. Folha de S. Theiss. 26.

Luta de classes entendida. por toda a parte. deveria ser construída pelo proletariado. Se o Manifesto não fosse um texto ainda hoje importante. Sobre isso. que lembrava que. ele teria sido esquecido.4 Parece-nos temerário dizer que morreu o comunismo. Se não fosse assim. ao mesmo tempo que previam sua liquidação enquanto profissionais (seriam proletarizados). a vitória da revolução comunista mundial está assegurada”. Há até quem tenha se apressado em dizer que não só o comunismo morreu. mas que a História mesmo acabou. O comunismo como alternativa de superação do capitalismo era aquela que. A nosso ver. como bem demonstrou Hector Benoit. Por isso ele segue atual. É preciso compreender que o Manifesto. E volta-se a fazê-lo. mas é relevante.10 Estaria essa teoria colocada em cheque pela queda do Muro de Berlim e o colapso do comunismo . E é a essa maioria que cabe reinventar a sociedade de tal sorte que as condições de existência da humanidade atinjam uma qualidade jamais vista. a nosso ver. a idéia de que o capitalismo. Em especial no que se refere à historiografia da Antiguidade. Sempre foi preciso encorajamento para enfrentar a luta contra o capitalismo. para mantermo-nos no Manifesto. Trotski. como se quer muitas vezes fazer crer. ensina-nos Raymond Boudon que: Todo o pensamento filosófico clássico testemunha (. funda-se uma nova ética possível para a atuação política. para que o esforço e o sacrifício de construção de um partido proletário e da revolução? De fato. o movimento operário deu um giro não só da utopia à ciência como também da utopia à política”.. afirmam Marx e Engels..) um esforço para exorcizá-lo [o erro]. a luta para a superação do capitalismo passava pela luta de classes. o elemento mais importante na criação da Quarta Internacional falava do “prognóstico de Marx sobre a inevitabilidade do socialismo”. apostavam que era razoável dizer que “um espectro paira sobre a Europa. visto que o sonho comunista está morto e enterrado. como teoria da revolução permanente mundial”. são de natureza a fazer triunfar a idéia verdadeira sobre a idéia falsa. em sentido amplo. mas não era a única. para muitos. isto é. todos os movimentos sociais foram desencadeados por minorias em proveito de minorias. pode assassinar milhares de operários. É por isso que pela metade dos anos sessenta. Ao longo desse ano em que se comemoram os 150 anos da publicação do Manifesto do Partido Comunista. o espectro do comunismo”. “se a vitória de nosso programa é tão inevitável como o nascer do sol amanhã”. como o efetivo lugar de pensar em concorrência com outros. em larga medida. como “teoria da revolução permanente. Demonstrativo disso são as palavras de Lenin na abertura da Terceira Internacional: “A burguesia pode exercer represálias.9 O que nos importa destacar é que o Manifesto traz como contribuição. que há duas alternativas de desenlace: A luta de classes. não apontava para um fim da História preciso e inevitável. assim como a produção marxiana em geral.8 Mas. essa e outras passagens que podem ser lidas nos mais importantes marxistas e mesmo em Marx e em Engels. O Manifesto marca uma etapa.79 O MANIFESTO E O CLASSICISMO Fábio Faversani O Manifesto é. aos olhos de Marx. se colocarem a discuti-lo já faz com que se torne um pouco desnecessário o debate a respeito de sua atualidade. É. talvez soasse ridícula a pretensão daquele pequeno grupo de alfaiates e outros artesãos que. Não nos parece ser razoável esse tipo de assertiva. “historicamente. Para os autores do marxismo. a concorrência entre os intelectuais..2 Essa é a idéia. que permanece atual. O fato de tantos.7 É verdade que não apenas os detratores do marxismo auxiliaram para criar essa confusão. Com esse texto.1 A negação da ética política burguesa e sua superação tornam-se sonhos possíveis a partir do texto de Marx e Engels. Como nos diz Jacob Gorender a propósito disso: “Com Marx e Engels. Já o movimento proletário caracteriza-se por ser um movimento consciente e autônomo de uma maioria esmagadora. Na época de Weimar. Mas as coisas não se passam bem assim. seu final foi anunciado com gritos e fanfarras. a meu ver. Os preceitos lógico-explicativos que fundam o socialismo científico do século passado não morreram. importante por defender uma compreensão do mundo e não por compreendê-lo. se o caso é de um comunismo inevitável. ademais. para que arriscar o pescoço pelo que acontecerá independentemente do que façamos. diversos encontros foram realizados com o fito de se discutir a atualidade desse texto de Marx e Engels. enquanto superação das contradições do capitalismo e as chagas sociais por ele geradas. A grande inovação ética se resume a que: “Na História. Coloca o comunismo. ou seja. em proveito dessa mesma maioria”.3 Em 1848. E essa atitude em relação ao erro estendeu-se a essa forma moderna do erro que representa.. sempre terminou ou numa reestruturação revolucionária da sociedade inteira ou no aniquilamento das classes em luta”. bem conhecida a possível conseqüência desses sempre repetidos anúncios do fim das ideologias. engendra a miséria da maioria. um momento. Alguém poderia dizer que é inadequado apontar aí a atualidade do Manifesto. alguns anos antes da tomada do poder por Hitler. mas a vitória é nossa. em absoluto. a ideologia. a maior contribuição do Manifesto foi apontar para a necessidade de uma luta internacional em favor da superação das crises crescentes geradas pelo capitalismo. também Mannheim o anunciou. caberia aquela crítica de Plekhanov. atribuindo-o a forças obscuras que é importante dominar.5 O nazismo não é exatamente o que eu tomaria por idéia verdadeira. A diferença parece sutil.6 Basta lembrar. revelam muito mais uma manifestação de convicção de militantes do que um axioma teórico a respeito da revolução. à sua maneira: a circulação de idéias. Ao menos o comunismo como o fazem entender Marx e Engels no Manifesto. sugeriu então.

deve ter causas explicativas e estas esclarecem ou contribuem para esclarecer o modo pelo qual a doutrina suportou o critério da prática”. mas também enquanto historiador. Mesmo que a utilização das idéias de classe e luta de classes venha se tomando uma via pouco procurada pelos historiadores da Antiguidade..) A multiplicidade das formas de dependência.. Isso significaria questionar a propriedade de pensar-se sempre o conflito social como tendo um caráter de classe. que estudo. nem se pode comprovar sua permanente eficácia enquanto motor da História. antes de mais nada.. aliás. Poderia ter escrito: “Um espectro paira sobre o comunismo.27 .19 Há. como antevia Marx. Chegou a hora de um novo começo. mas a união cada vez mais abrangente de todos os operários”.. aplicada à Antiguidade.) “e. Creio mesmo que a reflexão acerca do mundo romano. mais do que nunca. estão vinculadas a grupos stalinistas e pequeno burgueses que se afastaram daquela teoria revolucionária da História” (. portanto. O surgimento de idéias como a de “empregabilidade” é a uma clara demonstração disso. mas a organização internacional dos trabalhadores é insignificante. como ele previa. Robert Kurz. Vitórias.21 Uma terceira forma que tem sido adotada é repensar o lugar da luta de classes enquanto idéia à luz de novas possibilidades conceituais. É preciso abrir mão de direitos sociais e se tornar mais rentável do que o trabalhador asiático para que seu emprego não evapore! Mas o que Marx não antevia é que as lutas empreendidas pelos setores subalternos não levou a ganhos organizativos crescentes. (. obtivemos muitas nesses 150 anos. acontece um triunfo de operários.80 na União Soviética e países da Europa Oriental? Para Hector Benoit “essas derrotas. Fazê-lo poderá significar repetir os acertos e erros. a complexa estratificação social do mundo antigo (.25 O mais dramático é que tais estudiosos buscam justificar essa pretensão com o glorioso passado clássico. mas um triunfo passageiro. um impasse. Hoje. Mas não acreditamos que mesmo isso seja possível.17 A verdade é que isso não aconteceu. sua difícil classificação. aboliu-se a noção de revolução como lei histórica universal. que: A historiografia marxista sobre a Antiguidade Clássica vive hoje. Tenho feito isso não só como militante sindical em minha categoria profissional. parece-nos fundamental repensar o lugar da idéia da luta de classes no marxismo. às vezes. O mais importante documento da Quarta Internacional. 90 anos depois.22 Na historiografia da Antiguidade Clássica há uma cada vez mais difundida presunção de inexistência de classes não só formalmente. das classes fundamentais em conflito. a Organização Internacional do Comércio. como também do lugar ocupado por esse elemento analítico no pensamento marxiano. Os conflitos de classe. não só como conceito.13 Trotski bem poderia ter parafraseado o Manifesto. tem uma contribuição importante a dar nesse esforço18 que se tem empreendido de repensar a idéia de classes e de luta de classes no interior do marxismo. já que: “a prevalência de uma versão inautêntica.20 Uma segunda maneira de abordar a idéia-chave do Manifesto é procurar preservar a idéia de luta de classes. três formas básicas pela qual esse debate tem sido pensado. buscando reapropriá-la de modo a dar conta dos desafios colocados presentemente ao marxismo. na sua maioria. inicia-se com as seguintes palavras: “A situação política mundial no seu conjunto caracteriza-se. em especial se comparada com a dos capitalistas que têm o Banco Mundial. não cremos tão pouco que seja possível reiniciar do zero. a Albânia. por exemplo. em vez da versão supostamente autêntica. na verdade... deve-se ao desejo de muitos classicistas (por vezes declarado explicitamente) de viver em uma sociedade mais elitizada. o autor conclui. o espectro da burocratização”. mesmo que atuantes em diversos períodos.) a própria noção de luta de classes. Um bom balanço dessa utilização para o estudo do mundo antigo é feito por Norberto Luiz Guarinello. essa tem abrangido um longo leque de alternativas. a China. pela crise histórica da direção do proletariado”. Para ele: O velho “internacionalismo” dos blocos e dos “países guias” — como a União Soviética. o Fundo Monetário Internacional. É preciso pensar o porquê disso.. Como nos lembra Gorender a esse propósito: “não existe marco zero na história”.15 É preciso refletir sobre os novos desafios colocados ao marxismo. etc.12 Não há mesmo como entender a surpresa de que tais entendimentos surjam em muitas dessas avaliações suscitadas pela comemoração do aniversário do Manifesto. É o que faz. necessita de urgente reflexão.) O modelo dual. não puderam ser resumidos a um conflito fundamental.11 No mesmo sentido investe Michael Löwy. É pouco. Primeiramente.. uma perda de identidade.24 Essa tendência. Nossa opção tem sido por essa última alternativa. A idéia de que os regimes instalados no campo do socialismo real acabaram mais por atrapalhar do que por avançar a revolução não é nova.. Diziam-nos Marx e Engels no Manifesto: “Ocasionalmente. a nosso ver com razão. que escreveu que: “a luta de classes chegou ao fim e com ela o Manifesto Comunista também perdeu sua força”. ainda que concordemos que não podemos parar de lutar no sentido que nos apontou Marx. Uma delas é simplesmente decretar o fim da luta de classes. Ele foi o instrumento de burocracias nacionais mesquinhas que o utilizaram para legitimar seu poder político de Estado. deixou de ser coerente e (. (. suas palavras iniciais. — está morto e enterrado.16 Para realizar essa reflexão. “atualizando”.) colocam problemas que a historiografia marxista não soube resolver ou aos quais não deu importância. o Programa de Transição. mas enquanto aquela idéia de conflito social criador.. entre outros organismos.23 Os pressupostos que levam a uma injustificada elitização de nossa visão do passado fundam-se em muito no pressuposto de que nenhum instrumental analítico dará conta da complexidade social da Antiguidade.26 A partir da recuperação desse debate. que ao mesmo tempo preserve o que de melhor havia nas tradições internacionalistas do passado. mesmo a maioria dessas derrotas apenas confirma e atualiza mais ainda aquela teoria”.14 Mas. O verdadeiro resultado dessas lutas não é o êxito imediato. como pretendem Löwy e Benoit. Isso se vincula a uma tendência elitista de perceber a Antiguidade Clássica. Há uma verdade insofismável que devemos enfrentar: temos perdido feio a luta que Marx e Engels nos propuseram com o Manifesto. as lutas sociais assumem um caráter mundial.

mas não perderam nunca o seu referencial clássico por longo tempo reconstruído. 13. 8. Global.Trotski.) A questão do programa. fonte inspiradora da burguesia. p. 10. São Paulo. cit.) Ensaios sobre o Manifesto Comunista.). 4a ed. Gorender. é extremamente importante ter clara a importância de se estudar a Antiguidade. 37. 1982. 9. 73. uma explicação para o porquê da revolução. ainda investe na “aplicabilidade do uso do conceito de classe para estudar as sociedades humanas. Caio Navarro de. Manifesto do Partido Comunista. Karl. Löwy. temos feito uso do instrumental que vem sendo construído pelo marxismo analítico. tanto quanto aqueles da elite. Abster-se de fazê-lo é dar a exclusividade de repensar a Antiguidade Clássica aos antípodas do sonho marxista. (org. Isso é relevante particularmente quando se trata da Antiguidade Clássica. 122. já que o Brasil se insere dentro do quadro da construção de uma “História Cultural do Ocidente” e é mais do que razoável que se espere que nós. Friedrich. p. pretendemos revitalizar a idéia de transformação social a partir do conflito de interesses. Op. uma sociedade não capitalista é fundamental para pensarmos a possibilidade de transformar a sociedade no sentido inventado por Marx. elite e povo”. Caio Navarro de. Isso explica porque essa área do conhecimento humano se preocupou fundamentalmente com as elites greco-romanas. Para tanto. Global. 4a ed. O que pretendemos demonstrar é que estudar. 19. 12. Friedrich. Marx. Ática. 6. fracassou. mais claramente desde o Renascimento. Nesse sentido. Op. Pedro Paulo Abreu Funari. p. Michael. Marx. Michael. já teríamos feito a revolução. como quer Norberto Guarinello. “Marx entre a utopia e a ciência”. por exemplo.). o espaço de uma perspectiva de transformação da sociedade pela maioria em favor da maioria tem se reduzido cada vez mais nos estudos clássicos. “Mundialização e internacionalismo: a atualidade do Manifesto Comunista”. “Programa de transição. Benoit. p. Karl.” In: Toledo. São Paulo. curiosamente. que. a partir dos pressupostos criados pelo marxismo. Leon. 17. 5. cit. “Mundialização e internacionalismo: a atualidade do Manifesto Comunista”. 124. Karl. Nesse sentido. Xamã. 28. cit.” In: Hardman. p. 1984. Manifesto do Partido Comunista. 120. A ideologia. Cf. Em especial em Minas Gerais. Hector. Boudon. 4. 1998. Benoit. p. E não a fizemos. São Paulo. Engels. São Paulo. como também necessário. p.. que se modificaram em muito ao longo do tempo e do espaço. Hector. para a qual ele construiu suas idéias. (org. Kairós. nesse sentido. Cf. mas sem pressupor que todo interesse que move os agentes é um interesse de classe. em detrimento daquelas que teriam realizado se se comportassem como pertencentes a uma classe. Pensamos que se deve construir um instrumental que permita uma compreensão da sociedade que tome os subalternos como agentes sociais plenos. Jacob.. Trotski. fundado com o Manifesto. 1984. ignorando ou desprezando os setores subalternos. 1989. Löwy. In: Toledo. É esse lugar comunista. (org. Contudo.81 É verdade que tal leitura não é consensual. revisando os conceitos de Marx. 1988. como quer Pedro Paulo Funari e da sua abolição enquanto possibilidade analítica. p. em especial à burguesia européia. p. Michael. . Desse modo. 11. 68. São Paulo. ibidem. onde o estudo da história antiga foi eliminado dos currículos das escolas públicas estaduais. 25. Marx. que permanece não apenas atual.).28 A alternativa em que tenho trabalhado pessoalmente é diversa da manutenção da formalidade da lição marxiana do confronto bipolar de classes. Op. 2a ed. possamos produzir algo sobre esse momento fundamental do pensar nossa própria cultura. p.). Os quatro primeiros congressos da internacional Comunista. 1984.. Palavra. São Paulo. Uma primeira distinção importante dessa alternativa com relação à adoção da idéia de classe social seria que esses grupos não obedecem a uma pressuposta posição em função de seu lugar nas relações sociais de produção. Löwy. cit. O marxismo de nosso tempo. “Mundialização e internacionalismo: a atualidade do Manifesto Comunista”. coloca-se como fundamental a reflexão sobre os estudos clássicos. brasileiros. concluímos que o Manifesto impôs uma compreensão da sociedade que nos inspira até hoje. Creio que o desafio colocado hoje para o marxismo é investigar. Se o fosse. Engels. “A luta de classes como fundamento da história. 66. NOTAS 1. p. Visamos valorizar as opções efetivamente adotadas pelos agentes na sua prática enquanto sujeitos da História. Raymond. 4a ed. tal qual pretendia Marx. Não me parece algo muito inteligente a se fazer. Global. 1979.. bem como a importância da bipolaridade entre apropriadores e apropriados. Caio Navarro de. Outubro. que atuam racionalmente e transformam sua realidade. Idem. é a área que o próprio Marx elegeu para produzir sua tese de doutorado. 132 2. que buscava na cultura clássica legitimação para a sua prática e discurso.30 Enfim. Leon. 3. Caio Navarro de. Nossa idéia é pensar a posição social como uma construção realizada pelo agente a partir das interações que esse estabelece. Engels. e bastante sinteticamente. p. In: Toledo. Francisco Foot (org. Manifesto do Partido Comunista. (org. pretendemos pensar em grupos sociais em confronto. In: Toledo.29 Isso significa pensar que os grupos sociais em conflito são construídos a partir das interações que os agentes vivenciam. Caio Navarro de. 19. 7. Os estudos clássicos interessaram. Op. em sentido amplo. Friedrich. Desse modo. O estudo da Antiguidade Clássica nos diversos campos disciplinares das ciências humanas se reveste de enorme importância já de muito tempo. em especial quando essa procurou se afirmar ao longo do período moderno. Isso se deve a um processo histórico que elegeu Grécia e Roma clássicas como fontes privilegiadas da cultura ocidental e suas sociedades e culturas como legitimadoras de diversos discursos através da história. (org. p. In: Toledo. São Paulo. São Paulo.

82 14. Diga-se, aliás, que seria muito interessante a realização de um estudo comparativo entre o Manifesto e o Programa de transição. Há visíveis paralelismos entre esses dois documentos tão importantes para a luta comunista. 15. Gorender, Jacob. “Marx entre a utopia e a ciência”. In: Toledo, Caio Navarro de. (org.). Op. cit., p. 130. 16. Gorender, Jacob. Idem, ibidem, p. 129. 17. Marx, Karl; Engels, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. 4a ed. São Paulo, Global, 1984, p. 26. É a idéia de ganho organizativo, que esteve tão em voga nos finais de todas as greves derrotadas em nosso país no campo das conquistas imediatas. A nosso ver, a organização dos trabalhadores da área de educação, para citar um exemplo, construiu-se, em parte, com esse espírito. Para um estudo de caso, veja-se Furtado, João Pinto. Trabalhadores em educação. Experiência, imaginário e memória sindical nos anos 80 e 90. Ouro Preto, Editora da Ufop, 1996. 18. Tanto é assim que diversos pesquisadores que estudam o mundo antigo têm participado ativamente do debate acerca dos 150 anos do Manifesto (e.g. Hector Benoit; Norberto Luiz Guarinello, Pedro Paulo Abreu Funari). 19. Nunca é bastante lembrar que essa reflexão data de antes da queda do Muro de Berlim. A queda do Muro aumentou, talvez, o número de ex-marxistas, mas não daqueles que pensam as categorias teóricas fundamentais do marxismo. 20. Kurz, Robert. “O Manifesto Comunista.” Folha de S. Paulo, 1/2/98, 5, p. 3. Citado por Funari, Pedro Paulo Abreu. “O Manifesto e o estudo da Antiguidade: a atualidade da crítica marxista.” Crítica Marxista, n° 6, 1998. p. 106-1 14. É curioso perceber que toda essa fúria de “enterrar viva” a luta de classes se constrói a partir da idéia de que a queda do Muro de Berlim a teria sepultado. Mas o que pensam os alemães sobre isso? Perguntados se “hoje a luta de classes está ultrapassada; patrões e empregados devem se tratar como parceiros”, ou se “é correto falar de luta de classes; patrões e empregados têm no fundo interesses totalmente incompatíveis” pelo jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung (que não nutre qualquer simpatia pelo marxismo), os alemães ocidentais responderam da seguinte forma em 1990: 58% disseram que não havia mais luta de classes; 25% ainda percebiam sua existência. Em 1997, a tendência se inverteu: 41% responderam pela primeira formulação e 44% pela segunda. Na antiga República Democrática Alemã, que mais teria “empurrado” o Muro, a maioria é ainda mais destacada: 58% se vêem metidos em uma luta de classes, enquanto só 26% pensam ter saído dela. Dados publicados em Le Monde Diplomatique, n° 526, jan. 1998, p. 8, citados por Löwy, Michael. “Mundialização e internacionalismo: a atualidade do Manifesto Comunista”. In: Toledo, Caio Navarro de. (org.). Op. cit., p. 122. 21. É o que fazem, por exemplo, Benoit, Hector. “A luta de classes como fundamento da história.” In: Toledo, Caio Navarro de. (org.). Op. cit., p. 45-69. e Funari, Pedro Paulo Abreu. “O Manifesto e o estudo da Antiguidade: a atualidade da critica marxista”, Crítica Marxista, n. 6, 1998. p. 106-114. No campo dos estudos clássicos, não se esperou a queda do Muro. O “enterro” da luta de classes tem em um artigo de Finley um ponto de partida que foi adotado por muitos, criando uma tendência largamente hegemônica de desacreditar a idéia de uma luta de classes na análise do Mundo Antigo. (Finley, Moses I. “Between slavery and freedom” In: Economy and society in ancient Greece. Harmondsworth, Penguin, 1983. 22. Para uma mais pormenorizada justificativa dessa filiação ver Faversani, Fábio. “As relações diretas de poder enquanto instrumento analítico para a compreensão da pobreza no Satyricon de Petrônio”. História Revista, 1, 1. Goiânia, UFG, 1996, p. 43-70; e “Trimalchio, classe social e estamento” Revista de História, 134. São Paulo, DH/FFLCH/USR 1996, p. 7-18. 23. Sobre isso, ver Funari, Pedro Paulo Abreu. Cultura popular na Antiguidade Clássica. São Paulo, Contexto, 1989. Em especial p. 9-10. Lévêque, Pierre. “Problèmes téoriques de l‟histoire et sociétés antiques” (Entretien avec P. L., par MarieLuce Hazebroucq). In: vv.aa. Aujourd‟hui l‟Histoire. Paris, Éditions Sociales, 1972. p. 71-93. 24. Um autor fundamental para a construção dessa posição, hoje hegemônica, é Moses Finley. Para uma boa defesa de que tais argumentos não levam ao descarte dos pressupostos analíticos marxistas: Cardoso, Ciro F. S. “Economia e sociedade antigas. Conceitos e debates”, Clássica I (1988): 5-19. 25. Para a apresentação de um caso que nos parece paradigmático, Faversani, Fábio. “A tipicidade de Trimalchio.” História, 15. São Paulo, Unesp, 1996, p. 245-252. 26. Guarinello, Norberto Luiz. “O Manifesto Comunista e Antiguidade Clássica”. São Paulo, texto datiloscrito, 1998. [publicado na presente edição, p. 159-178. N. do E.] 27. Guarinello, Norberto Luiz. “O Manifesto Comunista e Antiguidade Clássica”, já citado. Guarinello chega mesmo a negar a existência da bipolaridade da luta de classes como um mecanismo de apreensão da realidade em Marx. Para o autor: “A oposição binaria não advém, portanto, do presente, muito menos do passado, mas é uma característica do futuro, de uma época em que o capitalismo já se universalizou, já abrange o mundo, e no qual restaram apenas duas classes.” Contudo, é possível ler claramente, no próprio Manifesto, que as oposições binárias são fundamentais ao correr da história (lembrar do início do capítulo “Burgueses e proletários”). Não é possível, ou-trossim, pensar que o capitalismo se faria uma oposição só entre duas classes no futuro, pois Marx mesmo indicava que as condições objetivas para a construção da revolução estavam dadas. Marx não era, definitivamente, um adivinho do futuro. Nem é preciso dizer em que deu Stalin e sua compreensão de adivinho do texto marxiano... Cremos melhor evitar essa alternativa que já se mostrou suficientemente desastrosa. 28. Funari, Pedro Paulo Abreu. “O Manifesto e o estudo da Antiguidade: a atualidade da crítica marxista.” Crítico Marxista, n° 6, 1998. p. 106-1 14. p. 109. 29. Para essa discussão: Faversani, Fábio. “A sociedade em Sêneca: debate sobre instrumentos analíticos.” Trabalho apresentado no XIV Encontro Regional de História da Anpuh-SR realizado em São Paulo, setembro de 1998. 30. Desse modo seguimos a lição de Marx nas Teses sobre Feuerbach, em especial as teses VI e VIII.

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OS 150 ANOS DO MANIFESTO E A LUTA PELA TERRA NO BRASIL Ariovaldo Umbelino de Oliveira
A burguesia submeteu o campo à cidade. Criou grandes centros urbanos; aumentou prodigiosamente a população das cidades em relação à dos campos e, com isso, arrancou uma grande parte da população do embrutecimento da vida rural. Do mesmo modo que subordinou o campo à cidade, os países bárbaros ou semibárbaros aos países civilizados, subordinou os povos camponeses aos povos burgueses, o Oriente ao Ocidente. Marx e Engels1 A compreensão da luta pela terra, dos movimentos sociais no campo, do MST, e a discussão sobre a reforma agrária, têm, a nosso juízo, de estar articulada a forma de entender o desenvolvimento do capitalismo nas diferentes formações sociais, como contraditório e desigual. Têm de compreender que as elites brasileiras gestaram uma forma específica de articulação política que consolida politicamente a irracionalidade da propriedade da terra no desenvolvimento do capitalismo no país. Aqui no Brasil: A propriedade da terra é o centro histórico de um sistema político persistente. Associada ao capital moderno, deu a esse sistema político uma força renovada, que bloqueia tanto a constituição da verdadeira sociedade civil, quanto da cidadania de seus membros (...) No Brasil, o atraso é um instrumento de poder (...) O modelo brasileiro inverteu o modelo clássico. Nesse sentido, reforçou politicamente a irracionalidade da propriedade fundiária no desenvolvimento capitalista, reforçando conseqüentemente, o sistema oligárquico nela apoiado (...) portanto (...)comprometeu os grandes capitalistas com a propriedade fundiária e suas implicações políticas.3 O Brasil, não custa nada lembrar, possui a estrutura fundiária mais concentrada que a história da humanidade já registrou. A soma da área ocupada pelas 27 maiores propriedades do Brasil é igual a área total do Estado de São Paulo, ou ainda, a soma da área ocupada pelas 300 maiores propriedades do Brasil é igual a duas vezes a superfície total do Estado de São Paulo. Essa estrutura fundiária violentamente concentrada, em 1992 possuía um total de 5.147.000 imóveis rurais ocupando uma área de 639.026.992ha. Os latifúndios por dimensão e por exploração somavam ao todo, 1.219.167 imóveis com 424.977.156ha de extensão (66,5% do total). Entre esses latifúndios, segundo a Lei 8.624 de 25/02/93, foram considerados improdutivos 85.781 imóveis rurais ou seja 1,6% do total, que ocupavam 115.054.000ha (18% da área total) e pertenciam a 57.188 proprietários.4 Por outro lado, a sociedade brasileira nessa última década às vésperas do terceiro milênio, tem visto aumentar a massa de excluídos: mais de 32 milhões de brasileiros estão abaixo da linha da miséria absoluta, 6,9 milhões de famílias (18% do total) são classificadas como indigentes, e 14,4 milhões de famílias (38% do total) são classificadas como pobres. Nas áreas urbanas, cada vez mais concentradas, vivem mais de 120 milhões de pessoas, mais de 80% da população brasileira. No campo, 90% dos estabelecimentos rurais têm menos de 100ha e ocupam apenas 20% da área total, mas respondem por quase a metade da riqueza produzida. Enquanto isso, os estabelecimentos com mais de 1.000ha (1% do número total que ocupam 44% da área do país) respondem por menos de 20% da riqueza produzida. Mais de 1,5 milhão de estabelecimentos estão sob controle de posseiros, meeiros e rendeiros. Os filhos dos camponeses que possuem propriedades com áreas inferiores a l0ha (53% do total) não terão no futuro sequer a possibilidade de continuarem camponeses nas terras dos pais. Enfim, há no campo brasileiro mais de 5 milhões de famílias sem terra. Esses camponeses sem terra têm historicamente lutado pela obtenção de um pedaço de terra neste país dos latifúndios. A violência contra essa luta tem também sido histórica. Morreram mais trabalhadores em conflitos de terra no Brasil do que qualquer outra revolução, com ou sem aspas. Os camponeses-proprietários que eram em 1940 perto de 1,6 milhões, em 1985 passaram para mais de 5,2 milhões. Nos últimos 17 anos os camponeses sem terra em sua luta cotidiana conquistaram em mais de 1.000 assentamentos, mais de 7 milhões de hectares de terra, para mais de 140 mil famílias trabalharem. Falar do MST, é pois falar de parte dessa história. É falar da história real e simultaneamente, daquela história não contada por muitos intelectuais que, falam sobre o campo, mas que infelizmente só conhecem o campus. É falar pois da luta na realidade e falar da luta na teoria. Luta teórica essa que leva muitos intelectuais a insistirem na postura que nega na prática a existência desses novos personagens sociais. Por isso que a sua compreensão tem de ser buscada na estrada. Compreender o Brasil de hoje, compreender seu território, passa necessariamente pela compreensão do MST. E isso tem de ser dito, doa a quem doer. Não se faz essa opção apenas por razões pessoais, ao contrário, essa opção tem de nascer da necessidade histórica desse tempo. Um tempo que não é local ou nacional. Um tempo que está datado historicamente. Um tempo universal, mundial como preferimos nós. Um tempo de guerra e de paz. Um tempo de vida e de morte. Um tempo talvez, sem igual na história mundial. Assim, a opção nasceu na trajetória da vida e o tributo nasceu no caminho, que foi sendo construído caminhando. A estrada é a raiz da práxis. Por isso a opção voltada para compreender a trajetória dos camponeses sem terra na luta pela terra, pelo trabalho livre, enfim, pela cidadania. A estrada que a História legou ao Brasil, não passou primeiro pela presença cativa da terra, mas ao contrário, passou pela pessoa cativa do escravo. No cativeiro dos homens, a liberdade do acesso à terra foi negado primeiro, aos negros

84 escravos e depois aos brancos ou mestiços sem terra. Nesse país, os camponeses lutam desde o início de sua ocupação para obter um pedaço de terra e poder construir livremente o lugar de suas vidas. Por isso que este século XX está marcado pela luta pela terra. Este século constitui-se no século por excelência de formação do campesinato brasileiro. Dessa forma, a história da maioria dos trabalhadores do país tem muita semelhança. Expulsos da terra, pela transformação nas relações de produção e de trabalho no campo, proletarizaram-se nos empregos urbanos e industriais deste país. Porém, mesmo assim, não abandonaram o ideal da terra como lugar da liberdade. É esse ideal utópico, não compreendido por muitos intelectuais, que leva camponeses proletarizados a empreender o retorno à terra. Por isso não medem sacrifício; lutam, morrem para conquistar o lugar de realização de seus ideais: a terra. Também por isso, são na atualidade, a força social movente do campo brasileiro. Um campo conflitado, um campo apropriado privadamente. Absurdamente concentrado em poucas mãos. Nunca na história da humanidade se viu concentração fundiária como essa que temos no Brasil. Por isso, o conflito e as mortes sempre foram constantes na manutenção dessa ordem anacrônica. Mas, o combate, a luta dos trabalhadores formam parte fundamental da história brasileira, uma história repleta de conflitos no campo. Assim, conflitos sociais no campo, no Brasil, não são uma exclusividade de nosso tempo. São, isso sim, uma das marcas do desenvolvimento e do processo de ocupação do campo no país. Os povos indígenas foram os primeiros a conhecerem a sanha de terra dos colonizadores que aqui chegaram. Esse genocídio histórico a que vêm sendo submetidos, há quase 500 anos, os povos indígenas brasileiros é marca original das muitas histórias de massacres no campo. O território capitalista no Brasil se fez como produto da conquista e destruição do território indígena. Espaço e tempo do universo cultural índio foram sendo moldados ao espaço e tempo do capital. O ritmo compassado do tic-tac do relógio no seu deslocar temporal nunca foi a marcação do tempo para as nações indígenas. Lá, o fluir da História está contado pelo passar das “luas” e pela fala mansa dos mais velhos registrando os fatos reais e seus mitos. Talvez, estivesse aí o início da primeira luta entre desiguais. A luta do capital em processo de expansão, desenvolvimento, em busca de acumulação, ainda que primitiva, e a luta dos “filhos do sol” em busca da manutenção do seu espaço de vida no território invadido. A marca contraditória do país que se desenhava podia ser buscada na luta pelos espaços e tempos distintos e pelos territórios destruídos/construídos. Essa luta das nações indígenas e a sociedade capitalista européia primeiro, e nacional/internacional hoje, não cessou nunca na história do Brasil. Os indígenas, acuados, lutaram, fugiram e morreram. Na fuga deixaram uma rota de migração, confrontos entre povos e novas adaptações. A Amazônia é seguramente seu último reduto. Mas a sociedade brasileira capitalista, internacionalizada, insiste na sua capitulação. O Banco Mundial acena com recursos para a demarcação de suas “prisões”. As “reservas” indígenas, frações do território capitalista para aprisionar o território liberto indígena, são demarcadas para não serem respeitadas. Novamente espaços e tempos distintos são produtos da luta desigual do e no território. O espaço liberto e o tempo cíclico da vida indígena são novamente sacudidos pelo tempo do relógio e pelo espaço-prisão, do capital. Tal qual no passado, essa luta continua, com um único derrotado: o índio, e com ele uma fração da humanidade. Simultaneamente à luta dos indígenas contra o tempo e o trabalho dos brancos capitalistas, nasceu a luta dos escravos negros contra espaços e trabalhos para os senhores fazendeiros rentistas. Quilombos surgiram, Palmares cresceu. Zumbi nasceu, Ganga Zumba lutou, Zumbi morreu. Na terra da liberdade e do trabalho de todos nasceu, no seio do território capitalista colonial, o território livre, liberto, dos africanos/brasileiros escravos, mercadorias antes de trabalhadores, para a primitiva acumulação do capital já mundializado. Palmares cresceu; negros acolheu e brancos juntou. Procurava-se construir, agora por dentro, o território da liberdade negra da África no Brasil. A produção coletiva era crime contra a lógica da produção privada/expropriada do escravo pelo senhor. A guerra/destruição de Palmares viu a presença dos bandeirantes — Domingos Jorge Velho e outros — destruidores da terra e da liberdade negra, indígena e de homens libertos: jagunços históricos dos senhores rentistas do açúcar. Hoje são outros os jagunços da história das classes dominantes que desde os tempos da ditadura militar dos anos 60 e 70, vêm tomando a bandeira da guerra/destruição das terras de trabalho dos posseiros dos povoados empoeirados, enlameados do sertão, e/ou da terra livre e do território sem cercas dos povos indígenas da Amazônia. Os posseiros lutam numa ponta contra a expropriação que os gera, e na outra, contra o jagunço, gendarme de plantão do latifundiário especulador e grileiro das terras indígenas. Não lhes é dado sequer a possibilidade de serem senhores de seu vir a ser. Matam os posseiros, seus defensores e seus seguidores. Matam a possibilidade de criação e recriação do espaço liberto da produção familiar. Matam/destroem o território liberto das posses livres e das terras de trabalho da Amazônia retirante, da Amazônia dos retirantes. Mas da luta e da morte que atravessam essa conquista do território coletivo livre do índio, nascem e se reproduzem as roças comunitárias e a produção coletiva do território liberto dos posseiros contra a sanha e a sina da expropriação e da proletarização. Canudos, Contestado, Trombas e Formoso fazem parte da história das lutas pela terra e pela liberdade no campo do país. São memórias da capacidade de resistência e de construção desses expropriados na busca pelo espaço livre onde possam ser proprietários coletivos de um tempo descompromissado com o relógio capitalista. São também memórias da capacidade destruidora do capital e dos capitalistas perante o temor de uma destruição inevitável.

85 Inevitáveis e históricas, as Ligas Camponesas sacudiram o campo nordestino nos anos 50 e 60. A violência do golpe militar de 64 sufocou o anseio de liberdade do morador sujeito dos latifúndios armados do Nordeste brasileiro. Caçaram e cassaram as lideranças dos camponeses em luta. Muitos “fugiram” fingindo, sumiram, foram assassinados. Mas mesmo assim a Contag — Confederação dos Trabalhadores da Agricultura — nasceu e não morreu. Nos confins do sertão, na Amazônia, as lideranças camponesas se esconderam para não morrer. E vivos, voltaram em outro tempo, para atuar nos sindicatos e organizar a resistência dos posseiros contra os empresários do Centro Sul, travestidos de grileiros rentistas. O Estatuto da Terra era uma espécie de bandeira militar levada ao campo em luta para, através da guerra, impor a “paz na terra”. Mais de 20 anos se foram e os militares não permitiram sequer que o Estatuto se tornasse Plano. A “Nova República” se incumbiu dessa missão histórica, mas se esqueceu de pedir a fiança do PMDB, do PFL, dos latifundiários, da UDR, enfim, esqueceu-se que para o Estatuto sair do Plano/papel para a realidade em reforma, havia o fosso controlado pelos especuladores rentistas. Aliás, mais que isso, o fosso estava controlado pela aliança entre os setores nacionais do capital internacionalizado do mundo, agora territorializados. O número de mortos nos campos, pelas batalhas da terra, foi crescendo, dobrando. E se transformando qualitativamente. Não morrem unicamente os posseiros que ocupam as posses, morrem também as lideranças sindicais, aqueles que os apóiam e defendem: os padres, os pastores, os agentes pastorais, os advogados, etc. Essa luta também chegou ao Congresso Constituinte em 1988. Os setores reacionários, proprietários/latifundiários/rentistas não abrem mão da necessidade de se implantar no campo o princípio legal considerado “injusto e ilegítimo” da “justa e prévia indenização em dinheiro da terra e das benfeitorias”. No entanto, se da violência nasce a morte, nasce também a vida. O Movimento dos Trabalhadores Rurais SemTerra é produto dessa contradição. A negação à expropriação não é mais exclusividade do retirante posseiro distante. Agora ela é pensada, articulada, executada a partir da cidade, com a presença dos retirantes a quem a cidade/sociedade insiste em negar o direito à cidadania. Direito agora construído e conquistado na luta pela recaptura do espaço/tempo, perdidos na trajetória histórica da expropriação. Acampamentos e assentamentos são novas formas de luta de quem já lutou ou de quem resolveu lutar pelo direito à terra livre e ao trabalho liberto. A terra que permite aos trabalhadores — donos do tempo que o capital roubou e construtores do território coletivo que o espaço do capital não conseguiu reter à bala ou por pressão — reporemse/reproduzirem-se, no seio do território da reprodução geral capitalista. Nos acampamentos, camponeses, peões e bóias-frias encontram na necessidade e na luta a soldagem política de uma aliança histórica. Mais que isso, a evolução da ação organizada das lideranças bóias-frias, abre novas perspectivas para os trabalhadores. Greves rurais na cidade para buscar conquistas sociais no campo são componentes ainda localizados no campo brasileiro, sinal de que estes trabalhadores, apesar de tudo, ainda vivem e lutam. No entanto, se o horizonte do campo no Brasil é contraditório na essência, é nessa contradição ou conjunto de contradições que se deve desenvolver a compreensão dessa realidade. Essa compreensão seguramente passa pela distribuição territorial desigual dessas contradições e movimentos. Talvez aí esteja um espaço para a participação dos geógrafos e da geografia: estudar o desenvolvimento econômico, social e político da sociedade em que se inserem. Esse momento do desenvolvimento do capitalismo é fundamental para o campo, pois as bases para sua industrialização estão lançadas, e o capital, feito rolo compressor, tudo esmaga na rota da acumulação e da sua reprodução ampliada. É nessa rota que entendemos os conflitos sociais e a luta pela terra no Brasil. A ocupação recente da Amazônia é síntese e antítese desse processo violento. Se a abertura da posse pelo posseiro deriva da negação consciente à proletarização, a colonização tem sido a válvula de escape das pressões que a concentração e o remembramento da terra traz consigo. A pressão que o capital faz “aqui”, libera parcialmente “lá”. Da pressão e contra-pressão, nasceu o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra. Um movimento camponês em pleno limiar do terceiro milênio. Está posta pois, a necessidade urgente de compreendermos particularmente a luta camponesa pela terra, e no interior dessa luta é inegável que o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra ocupa lugar de destaque. O MST como o movimento social rural mais organizado nesse final de século, representa no conjunto da história recente deste país, mais um passo na longa caminhada dos trabalhadores rurais brasileiros em sua luta cotidiana pela terra. Essa luta camponesa revela a todos interessados na questão agrária, um lado novo e moderno. Não estamos diante um processo de luta para não deixar a terra, mas sim, diante um processo de luta para entrar na terra. Terra que tem sido mantida improdutiva e apropriada privadamente para servir de reserva de valor e/ou reserva patrimonial às classes dominantes. Trata-se pois, de uma luta de expropriados, que na maioria das vezes, experimentaram a proletarização urbana ou rural, mas que resolveram construir o futuro baseado na negação do presente. Não se trata pois, de uma luta que apenas revela uma nova opção de vida para essa parcela excluída da sociedade brasileira, mas revela muito mais, revela uma estratégia de luta acreditando ser possível hoje, a construção de uma nova sociedade. Uma nova sociedade dotada de justiça, dignidade e cidadania. Por estas razões, essa luta contraditória não excluiu nem mesmo o interior do Estado de São Paulo, onde o desenvolvimento do capitalismo fincou sua mais espetacular expansão nas últimas décadas. Mesmo assim, ou por isso mesmo, é que parte dos trabalhadores proletarizados do campo e da cidade passaram a negar essa condição. E como produto dessa negação, organizaram-se para lutar por um pedaço de terra, para poder reconquistar a perdida autonomia do trabalho. Reconquistada agora, nas experiências coletivas ensaiadas pelos campos conquistados na luta. Assim, as transformações profundas que a agricultura brasileira tem passado nesse final de século XX revela suas contradições presentes no interior da estrutura agrária e revela sua componente contemporânea: a luta pela reforma agrária.

E mais do que isso. metamorfoseando-a em capital. enfim. Com certeza a História não acabou. ao mesmo tempo que nos explora e nos atormenta. Se a mundialização da economia capitalista traz à tona novos sujeitos sociais e novas articulações. Nós. está o processo de expansão da agricultura camponesa. Produziu. Creio que nós e aqueles que virão depois de nós continuarão lutando para fazer com que nos sintamos em casa neste mundo. Suas marchas fazem parte da longa marcha do campesinato brasileiro. De um lado. está a industrialização da agricultura. flexível. Abre possibilidades para edificar-se o território da liberdade e dos sonhos. como foram aqueles que acreditaram cegamente na modernização O processo de modernização. como propõem muitos geógrafos. Por isso. as ocupações. Móvel. conquista da cidadania. a partir da compreensão da espacialização da luta pela terra pelos diferentes rincões do país. dos posseiros. Assim. têm de ir além da chamada espacialidade diferencial. basta olharmos para o México. e se tomando cidadãos. Século. uma produção humana. a possibilidade histórica da realização da utopia já começou a se tornar realidade. Ao contrário. por excelência de formação do campesinato brasileiro. fincando alicerces. revela a relação orgânica entre a luta pela terra e a conquista da democracia por esses excluídos. Assim. movente. É através dessa lógica contraditória que uma parte dos geógrafo procura entender a realidade agrária brasileira. em particular. Ponto de retorno que deve procurar abrir novos horizontes para a luta dos Sem-Terra. e por isso reafirmamos que o território não pode ser entendido como equivalente. está marcado por dois processos contraditórios e distintos. mesmo que os lares que construímos. Contraditoriamente. É por isso que o capital. Nesse caminho. De outro lado. com olhar de geógrafo. posseiros. e mais do que isso. e muito menos a utopia. Têm de buscar no entendimento da luta. de sua identidade camponesa. construindo as bases para continuar a luta. o desenvolvimento da agricultura capitalista abriu possibilidade histórica aos proprietários de terras ou aos capitalistas/proprietários de terra para a apropriação do lucro e da renda capitalista da terra. O campo brasileiro nesse final de século. abriu a possibilidade para se renovar. dos Sem-Terra são marcas visíveis dessa contestação. e essa tem de ter como ponto de retorno os movimentos sociais. sua dimensão espacial. a luta do campesinato brasileiro não se desmancharão no ar. são a nossa esperança. O MST é parte substantiva e moderna desta sociedade. como bem disse o poeta Afagar a terra. Essa é base da compreensão que temos sobre a lógica do desenvolvimento capitalista no campo neste país. onde o capital monopolista procura desenvolver liames para subordinar/apropriar-se da renda da terra camponesa. Desvendar o território pode e deve ser uma perspectiva científica para a geografia. os monopólios se territorializaram. é na relação estabelecida entre prática e teoria. construiu. Por isso insistimos: temos de aprofundar a diferença que nos move frente a essa luta de cunho teórico. é portanto. traz também à tona a luta de novos personagens sociais. É como se eles não estivessem em lugar nenhum e ao mesmo tempo estivessem em todos os lugares onde há a necessidade de erguer uma bandeira de luta. insistimos. pelos posseiros e pelos Sem-Terra. porém. é anterior ao território. Por causa de todas as relações que envolve. a luta camponesa pela terra tem se constituído em marca histórica deste século XX. como igual ao espaço. transformando-a. E qual foi o resultado desse processo? Uma pequena parte da humanidade apropriou-se de forma privada do mundo. Nós. certamente. espacialiazando com ela a luta pela cidadania. reencontrando sua identidade. logo espaço de luta.86 Mais do que isso. assim é a luta travada pelos camponeses. e lá estão os zapatistas em luta. pequenas parcelas estão sendo retomadas pelos povos indígenas. dos colonos. devemos mostrar a todos que a luta possibilitou o assentamento. Esse processo permitirá que a consciência construída também. Por isso. Os acampamentos. que os geógrafos também vão gestando caminhos para se entender o mundo. temos de entendê-lo ou então seremos reféns da História. A territorialização camponesa. o lugar da luta cotidiana da sociedade pelo seu devir histórico. A sua luta espacializou-se. sendo pois. transformou seu território. Mas o MST. São homens. o capital. . Cio da terra propícia estação E fecundar o chão. mas monopolizam o território marcado pela produção camponesa. e com ele o movimento de luta se territorializou. dos posseiros ou do MST. as caminhadas. inscreve-se no campo do poder. os estudos sobre o campo têm de dar passos na direção da teoria. mundializou seu território. Nelas estão semeando a utopia. Dos sonhos camponeses utopicamente re-construídos na proletarização e na luta pela conquista da terra. O caminho teórico para o estudo da questão agrária e particularmente dos movimentos sociais no campo. agora é contestado. se fortalecer. mulheres. (Tudo que é sólido desmancha no ar. é importante trabalhar com a noção de espacialização da luta. nos impele a apreender e a enfrentar o mundo que a modernização constrói e a lutar por tomá-lo o nosso mundo. ou seja. torna-se fundamental compreender que o espaço é uma propriedade que o território possui e desenvolve. Marshall Berman) Muitos textos e teorias sobre o campo e sobre o MST certamente desmancharão no ar. Conquista da democracia que se consuma na conquista da terra. Por isso eles brotam por todos os cantos cantando seus hinos de guerra. O território por sua vez. intelectuais. Nesse caso. de luta de classes ou frações de classes. irá contribuir para sua organização no plano nacional e por certo. etc. os monopólios não se territorializam. dos colonos. são processos que fazem a luta mover-se pelo território apropriado privadamente pelos proprietários de terra e ou pelos capitalistas. É preciso lembrar que para uma parte desses que não cessam a luta. Com isso poder-se-á dar mais um passo no caminho da necessária construção de uma teoria que dê conta da explicação geográfica dessa realidade. Conhecer os desejos da terra. O território capitalista confiscado historicamente no processo de sua construção. O chão e a história deste país neste final de milênio. O capital mundializando-se. à rua moderna. o espírito moderno continuem a desmanchar no ar. internacional. A luta dos indígenas. crianças que fizeram da opção pela terra uma luta cotidiana sem fim. é um espaço transformado pelo trabalho.

Boitempo Editorial. J. 1998. Karl e Engels. “Dados das Estatísticas Cadastrais Anuais do Incra. 79 e 80. 44. Hucitec. 1994”. 2. Abra. . p. Martins. Marx. O poder do atraso. S.87 NOTAS 1. 13. Friedrich. Gomes da Silva. jan-abr/l995. São Paulo. 3. 1992” e “Estatísticas Especiais do Recadastramento de 1992. Campinas. Incra. In: Reforma Agrária. Manifesto Comunista. p. J. 1994. São Paulo.

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