E-BOOK EXCLUSIVO
SEMANA DA PSICOPATOLOGIA 2024 E-BOOK EXCLUSIVO
SUMÁRIO
AULA 1:
Diagnósticos em Psicopatologia:
PASSADO, PRESENTE E FUTURO 001
AULA 2:
Fundamentos da Psicopatologia:
DO BÁSICO AO AVANÇADO
021
AULA 3:
Introdução ao Manual Diagnóstico ATUAL
em Saúde Mental (DSM-5-TR)
068
AULA 4:
Entrevista Diagnóstica NA PRÁTICA!
111
AULA 5:
5 Passos para um DIAGNÓSTICO ASSERTIVO
132
ESPECIAL 5 ANOS
AULA 1
Diagnósticos
em Psicopatologia:
PASSADO, PRESENTE
E FUTURO
1
SEMANA DA PSICOPATOLOGIA 2024 E-BOOK EXCLUSIVO
O que você vai
encontrar nessa aula:
1 Por que diagnosticar?
Diferenciando o normal do
2
patológico
Overview do DSM (Manual
3 Diagnóstico e Estatístico de
Transtornos Mentais)
Iniciativas em desenvolvimento -
HiTOP (Hierarchical Taxonomy
4
of Psychopathology) e RDoC
(Research Domain Criteria)
5 Psicólogo pode dar diagnóstico?
2
1 Por que diagnosticar?
Atualmente, a existência dos diagnósticos
O NIH (National Institutes of Health)
divulgou um relatório informando que
170 mil pessoas com diagnósticos de
em saúde mental é inquestionável.
transtornos mentais estão na fila
para serem atendidas.
No entanto, algumas críticas ainda são
[Link] nhs-faces-avalanche-
of-demand-for-autism-and-adhd-services-thinktank-warns
feitas em relação ao diagnóstico, como:
o diagnóstico é apenas a descrição de um sofrimento natural da
existência humana. Ou seja, é uma forma de rotular o sofrimento.
os transtornos mentais não têm marcadores biológicos e
sintomas patognomônicos.
Porém, o que sabemos hoje é que os diagnósticos não são formas
de rotular o sofrimento humano, são ferramentas cruciais para
compreensão e tratamento dos transtornos mentais. O objetivo
de qualquer classificação, incluindo a dos transtornos mentais, é
tornar algo compreensível e inteligível, agrupando semelhanças e
diferenças.
Portanto, diante dos dados alarmantes, questionar a validade dos
diagnósticos é simplista e desconsidera a urgência de
tratamento para quem está sofrendo.
O diagnóstico serve para adotar ações terapêuticas e
medidas preventivas. Diagnóstico é ciência!
3
SEMANA DA PSICOPATOLOGIA 2024 E-BOOK EXCLUSIVO
Para além das críticas, precisamos entender quais os são os
benefícios do diagnóstico
validade do diagnóstic
confiabilidade
fatores de risc
prognóstic
desenvolvimento de tratamento
comunicação entre profissionais
Além disso, quando falamos em diagnóstico, é fundamental para
diagnosticar: saber diferenciar o normal do patológico.
4
2
Diferenciando o
normal do patológico
Discernir o normal do patológico é uma tarefa árdua e
multifacetada. A fronteira entre essas duas condições é tênue,
envolvendo debates que perpassam até mesmo esferas religiosas.
Nenhuma abordagem isolada é suficiente para traçar essa linha
divisória com precisão.
No entanto, temos algumas tentativas de delimitar o que é
patológico, entre elas:
estatístic
sofrimento
necessidade de tratamento
5
Além disso, alguns modelos
buscam definir o que seria
“normalidade”, na tentativa
de traçar uma linha entre o
patológico e o normal.
Entre os modelos, temos:
Modelo da OMS (Organização Mundial de Saúde): a saúde
como o complemento entre bem-estar físico, mental e social
e, não somente, como ausência de doença.
Normalidade baseada em aspectos funcionais: o fenômeno é
considerado patológico quando produz sofrimento para o
indivíduo ou para seu grupo social.
Normalidade ideal: se estabelece uma norma ideal do que seria
considerado um indivíduo sadio.
6
SEMANA DA PSICOPATOLOGIA 2024 E-BOOK EXCLUSIVO
Apesar de todos esses modelos, a questão
central permanece: como definir o que é normal
e o que é patológico?
Nesse sentido, a psicopatologia também recorre aos
“4 Ds” que auxiliam na compreensão dessa
diferenciação:
Deviance (Desvio
Distress (Sofrimento
Disfunction (Disfunção)
Danger (Perigo)
7
Mas, como o DSM-5-TR define
aquilo que é um transtorno mental?
O DSM-5-TR define transtorno mental como um conjunto de
sinais e sintomas caracterizado por perturbação clinicamente
significativa na cognição, regulação emocional ou
comportamento de um indivíduo que reflete uma disfunção nos
processos psicológicos, biológicos ou de desenvolvimento
subjacentes ao funcionamento mental.
Os transtornos mentais também são frequentemente associados
a sofrimento ou incapacidade significativos que afetam
atividades sociais, profissionais ou outras atividades
importantes.
8
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De forma resumida, um transtorno mental precisa ter:
frequênci
intensidad
sofrimento clinicamente significativo
Para Canguilhem (Autor do livro "O normal e o patológico"), os
critérios para definir o que é normalidade dependem de opções
filosóficas, ideológicas e pragmáticas.
As tentativas de classificação começaram há mais de
2.000 anos e seguiram por toda a história:
Aristóteles: o encéfalo era o palco de ideias e o coração a
sede do comportamento.
Hipócrates: desenvolve a teoria dos quatro temperamentos
Joseph Gall: o tamanho do crânio predizia comportamentos
e habilidades (frenologia)
Philippe Pinel: pioneiro no tratamento de transtornos
mentais.
Wilhelm Wundt: criou o primeiro laboratório de psicologia
Sigmund Freud: muda a história da psicoterapia
Kraepelin: afirma que os transtornos mentais têm bases
biológicas. É considerado o pai da psicopatologia ateórica.
9
Quais os limites da psicopatologia?
Como Karl Jaspers observou, a psicopatologia, embora busque
estudar o homem em sua totalidade, acaba sendo o estudo do
homem em sua enfermidade.
Devemos lembrar que cada indivíduo é único e complexo, e que há
aspectos de sua experiência que podem escapar a compreensão
psicopatológica tradicional:
“[...] quanto mais reconhece e caracteriza o típico, o que se acha de
acordo com os princípios, tanto mais reconhece que, em todo
indivíduo, oculta algo que não pode conhecer.”
(JASPERS, 1979, p. 12).
10
3 Overview do DSM
O que é o DSM?
O DSM é um Manual Diagnóstico e Estatístico usado por psicólogos
e psiquiatras do mundo todo para diagnosticar transtornos
mentais e doenças psiquiátricas. Ele é formado por três
componentes principais:
Classificação diagnóstic
Conjunto de critérios diagnósticos
Texto descritivo
Quem criou o DSM?
Criado em 1952 por uma força-tarefa da Associação Psiquiátrica
Americana (APA), o DSM passou por várias revisões ao longo dos
anos.
A APA continua responsável pelas atualizações do manual,
buscando incorporar novas descobertas de pesquisa e aprimorar a
precisão diagnóstica.
Essas revisões são propostas por especialistas no campo, revisadas
pelos editores e pelo Comitê Diretivo do DSM.
11
Por que o DSM foi criado?
A necessidade de uma classificação dos transtornos
mentais é clara ao longo da história.
Porém, sempre houve pouco consenso sobre quais transtornos
deveriam ser incluídos e como organizá-los.
Com o DSM, a classificação tornou-se mais sistemática,
facilitando o entendimento e a comunicação entre profissionais
de saúde mental.
12
Histórico dos
DSM’s
DSM-I: publicado em 1952, continha 132 páginas e 106
1
diagnósticos. Tinha como base a psicopatologia psicodinâmica
e uma baixa confiabilidade.
DSM-II: publicado em 1968, continha 134 páginas e 182
2
diagnósticos. Semelhante ao DSM-I, tinha como base a
psicopatologia psicodinâmica e uma baixa confiabilidade.
DSM-III: publicado em 1980, continha 494 páginas e 265
3 diagnósticos. Introduz critérios padronizados e uma
abordagem descritiva (ateórica), rompendo com a
psicopatologia psicodinâmica.
4 DSM-III-TR: publicado em 1987, continha 567 páginas e 292
diagnósticos.
13
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5 DSM-IV: publicado em 1994, continha 886 páginas e 297
diagnósticos. Introduz o sistema multiaxial, com uma
abordagem politética onde não precisava ter todos os sintomas
para ter o diagnóstico.
6 DSM-IV-TR: publicado em 2000, continha 943 páginas e 297
diagnósticos.
7 DSM-5: publicado em 2013, continha 947 páginas e 370
diagnósticos. Abandona o sistema multiaxial, onde os
transtornos eram divididos em eixos, e reorganizou os
transtornos num novo sistema, onde os transtornos são
divididos por similaridade e em fases da vida
(neurodesenvolvimento até neurodegenerativos). Além
disso, a partir do DSM-5 inicia-se a tentativa de inserir o Modelo
Dimensional.
DSM-5-TR: publicado em 2022, contém 1142 páginas e trouxe
um transtorno novo: Transtorno do Luto Prolongado.
Embora o DSM não seja perfeito, é o modelo de classificação
mais utilizado atualmente e representa uma ferramenta valiosa
para profissionais de saúde mental. Conhecer sua estrutura e
sua evolução ao longo do tempo é fundamental para uma
prática clínica informada e eficaz.
14
Iniciativas em
4 desenvolvimento
Quando se trata de estudar e classificar
os transtornos mentais, algumas instituições
se destacam:
American Psychiatric Association (APA):
Manual Diagnóstico e Estatístico de
Transtornos Mentais (DSM)
O DSM adota um modelo categórico, onde cada transtorno é definido
por um conjunto específico de características. Neste sistema, as
psicopatologias são consideradas entidades separadas e o
diagnóstico é baseado na presença ou ausência de um número de
sintomas-chave
Organização Mundial da Saúde (OMS):
Classificação Internacional de Doenças (CID)
A CID também utiliza um modelo categórico, descrevendo cada
transtorno em termos de sintomas típicos. Assim como o DSM, a CID
considera as psicopatologias como categorias independentes e o
diagnóstico é feito através da correspondência dos sintomas do
paciente com os perfis prototípicos descritos na classificação.
15
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National Institute of Mental Health (NIMH):
Research Domain Criteria (RDoC)
O RDoC adota um modelo alternativo, sendo uma agenda de
pesquisa acerca dos transtornos mentais e não um sistema
diagnóstico em si.
Ele busca entender os transtornos mentais em termos dimensionais,
explorando os papéis de sistemas biológicos, psicológicos e
comportamentais nas diferentes psicopatologias.
Hierarchical Taxonomy of Psychopathology
(HiTOP)
O HiTOP representa uma abordagem alternativa, abandonando a
noção de categorias fixas em favor de uma perspetiva dimensional.
Neste modelo, os transtornos mentais são classificados em diferentes
níveis de uma hierarquia complexa, com um fator geral no topo
responsável por explicar uma variedade de sintomas
psicopatológicos.
O diagnóstico pelo modelo HiTOP visa descrever perfis de sintomas,
adotando uma abordagem mais flexível e dimensional. Em vez de
classificar os transtornos em categorias independentes (abordagem
qualitativa) o HiTOP reconhece que as psicopatologias são extremos
de experiências comportamentais, afetivas, cognitivas e físicas
(abordagem quantitativa).
16
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Representação hierárquica das relações
entre as dimensões do modelo HiTOP:
Representação hierárquica das relações
entre as dimensões do modelo HiTOP:
Nota: Os superespectros destacados em cinza são hipotéticos e demandam validação empírica.
As variâncias do subfator mania são explicadas pelos espectros do transtorno do pensamento e
internalizante, e isso está sendo mais bem analisado empiricamente (razão das setas estarem em
cinza). Parte dos sintomas e traços delineados é apresentada na terceira coluna da tabela.
Fonte: Oliveira e Trentini (2023, p. 349)
17
SEMANA DA PSICOPATOLOGIA 2024 E-BOOK EXCLUSIVO
Então, podemos utilizar
os novos modelos,
RDoC e HiTOP, na
prática clínica?
NÃO! O RDoC e o HiTOP têm surgido como modelos alternativos
por entenderem a insuficiência e fragilidade do modelo
categórico do DSM proposto pela APA
nas últimas décadas.
No entanto, o modelo vigente de classificação permanece
sendo o DSM-5-TR.
18
5 Iniciativas em
desenvolvimento
A dúvida quanto a se o psicólogo pode dar diagnóstico
ainda persiste entre alguns profissionais, muitas vezes atribuída
à Lei nº 12.842/2013 (Ato Médico).
ca n d o aq ui
Acesse a Lei cli
No entanto, é importante destacar que o inciso do Art. 4º,
que originalmente limitava o diagnóstico exclusivamente à
Medicina, foi vetado.
qui
a Re s o lu ç ão c li ca n d o a
Ace s se
Além disso, a Resolução CFP n.º 006/2019 enfatiza que é facultado ao
psicólogo o uso de manuais de classificação, como a CID e o DSM.
Isso significa que, legalmente, os psicólogos estão autorizados a
realizar diagnósticos psicológicos.
19
SEMANA DA PSICOPATOLOGIA 2024 E-BOOK EXCLUSIVO
Entretanto, é crucial entender que dominar o diagnóstico não se
resume a rotular todas as pessoas com transtornos.
O papel do psicólogo vai além disso, envolvendo uma avaliação
cuidadosa e contextualizada, que considera não apenas os sintomas
apresentados, mas também o contexto social, cultural e individual do
indivíduo.
Diagnosticar adequadamente requer habilidades técnicas e éticas,
além de uma compreensão profunda da psicopatologia e dos
instrumentos de avaliação disponíveis.
É um processo delicado que exige sensibilidade e responsabilidade
por parte do profissional.
Portanto, embora os psicólogos tenham o direito e a capacidade de
realizar diagnósticos psicológicos, é essencial lembrar que isso deve
ser feito com cuidado e respeito, visando sempre o bem-estar e a
qualidade de vida dos clientes!
Psicólogo pode dar diagnóstico,
desde que saiba!
20
ESPECIAL 5 ANOS
AULA 2
Fundamentos
da Psicopatologia:
DO BÁSICO AO
AVANÇADO
21
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O que você vai
encontrar nessa aula:
1 Semiologia dos transtornos mentais
2 Avaliação das funções psíquicas
3 Função psíquica "juízo de realidade"
4 Função psíquica "pensamento"
5 3 eixos da psicopatologia
6 Definição de transtorno mental
7 Causa do transtorno mental
Cura do transtorno mental e
8
prognóstico
22
1 Semiologia dos
transtornos mentais
A semiologia é a ciência dos signos que não se restringe à
psiquiatria ou à psicologia. É um campo de grande importância
para o estudo da linguagem, da música, das artes em geral e de
todos os campos de conhecimento e de atividades humanas que
incluem a interação e a comunicação entre dois interlocutores por
meio de sistemas de signos.
A semiologia visa o estudo dos signos, dos significados, e na
psicopatologia ela está relacionada ao estudo dos sinais e
sintomas dos transtornos mentais que são interpretados como
um significado.
E qual a diferença entre sinais e sintomas?
Sinais são observáveis. Exemplo: cuidado pessoal, roupas,
limpeza, comportamentos verbais e não verbais.
Sintomas são subjetivos e dependem do relato do paciente.
Exemplo: pensamentos, sentimentos, alucinações, delírios etc.
23
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Esse estudo dos sinais e sintomas é muito importante em
psicopatologia pois não temos marcadores biológicos para
transtornos mentais que direcionam o processo diagnóstico. É
essa semiologia que complementa a entrevista diagnóstica em
psicopatologia.
Em resumo, a semiologia psicopatológica une sinais e sintomas
dos transtornos mentais para chegar em um significado, um
signo, que vai ser o nome que vai ser dado a determinado
transtorno.
Porém, falar em psicopatologia é falar em uma "arte" não exata, pois
da mesma forma que não existem marcadores biológicos para um
determinado transtorno, também não existem sintomas
patognomônicos. Ou seja, a presença de um sintoma x não significa
a presença de um transtorno Y.
Um mesmo sintoma pode estar
presente em vários transtornos.
24
SEMANA DA PSICOPATO 2024 E-BOOK EXCLUSIVO
Se não dá pra diagnosticar um paciente seguindo apenas os seus
sinais e sintomas, por que precisamos estudar sobre eles? Porque
só é possível identificar e diferenciar aquilo que se conhece.
E o que precisa ser considerado na hora de
avaliar um sintoma na psicopatologia?
Patogênese: a forma dos sintomas. É a sua estrutura básica,
semelhante nos diversos pacientes e nas diversas sociedades.
Exemplo: alucinação, delírio, ideia obsessiva, fobia etc
Patoplastia: o conteúdo dos sintomas que são oriundos da
história do indivíduo e de sua subjetividade. Elementos que
mudam a depender de aspectos culturais e da personalidade do
próprio indivíduo. Ex: o conteúdo de culpa, religioso ou de
perseguição de um delírio, de uma alucinação ou de uma ideia
obsessiva.
Entender os sinais e sintomas é
fundamental para entender e fazer bem o
diagnóstico do seu paciente.
25
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Para chegar nesses sinais e sintomas, temos
técnicas e procedimentos específicos de
observação e coleta.
Para os transtornos mentais, utilizamos a seguinte semiotécnica:
entrevista direta com paciente e familiares e demais pessoas com
quem o paciente convive.
E por que isso? É importante conversar com alguém que convive
com o paciente porque muitos transtornos são egossintônicos.
Egossintônico - sentido como parte de si mesmo, como o jeito de
ser da pessoa. Ex: transtorno da personalidad
Egodistônico - sentido como estranho. O indivíduo nota uma
mudança em seu funcionamento. Ex: Depressão.
Então, tem muitas coisas que precisamos saber e entender para além
de conhecer todos os diagnósticos, dentro da psicopatologia
descritiva.
Além disso, desse processo de avaliação dos sinais e sintomas,
também precisamos avaliar as funções psíquicas.
26
2
2 Avaliação das
Avaliação das
funções psíquicas
funções psíquicas
As funções psíquicas estão relacionadas a nossa
forma de captar a realidade e de sermos
influenciados por ela.
São as funções psíquicas que integram a vida mental.
São construtos aproximativos da psicologia e da psicopatologia
que permitem uma comunicação mais fácil e um melhor
entendimento dos fatos.
Além disso, principalmente por questões didáticas, as funções
psíquicas são divididas em dois tipos
Funções psíquicas elementares ou básicas: consciência,
atenção, orientação, vivências do tempo e do espaço,
sensopercepção, memória, afetividade, vontade,
psicomotricidade e o agir, pensamento, juízo de realidade e
linguagem;
Funções psíquicas compostas ou complexas: o eu/self,
personalidade, inteligência e cognição social.
27
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Didaticamente falando, fica mais fácil dividir dessa forma, mas é
importante destacar que as funções psíquicas não são entidades
separadas umas das outras, com vida própria.
Elas são um todo integrado da vida mental, que funciona de
forma integrada, inclusive.
Os transtornos mentais não se tratam
apenas de agrupamentos de sintomas que
coexistem. Esses sintomas possuem uma
ligação estrutural entre si e as funções
psíquicas fazem parte disso.
28
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Da mesma forma que não existe um sintoma exclusivo para cada
transtorno, também não há uma função psíquica exclusiva para
cada disfunção.
Porém, a depender do transtorno - ou do tipo de transtorno -
temos uma ou outra, ou várias funções psíquicas que podem estar
alteradas.
Funções mais afetadas nos
transtornos psico-orgânico
Nível de consciência, Atenção (também nos quadros afetivos,
como na mania), Orientação, Memória, Inteligência, Linguagem
(também nas psicoses)
Funções mais afetadas nos
transtornos do humor e da personalidad
Afetividade, Vontade, Psicomotricidade, Personalidade
Funções mais afetadas nos transtornos psicótico
Sensopercepção, Pensamento, Juízo de realidade, Vivência do
eu e alterações do Self
29
E como se avalia essas funções psíquicas?
Existem alguns instrumentos que podem auxiliar, mas essa
avaliação é feita quase que majoritariamente por entrevista clínica.
A atenção se refere ao conjunto de
processos psicológicos que torna o ser
Entre os testes e escalas estão:
humano capaz de selecionar, filtrar e
organizar as informações em unidades
Para avaliar atenção controláveis e significativas.
Bateria Psicológica para Avaliação da Atenção (BPA)
Teste de Dígitos (Digit Span ou Extensão de dígitos) das
baterias WISC-III e WAIS-II
Teste Stroop - teste livre
Teste de Bourdon
Testes de desempenho contínuo – TDC
CTT: Teste das Trilhas Colorida
TMT: Teste de Trilhas A e
Teste de Cancelamento dos Sino
Teste FDT (Teste dos Cinco Dígitos
Teste Stroop (Stroop Test)
30
A “Afetividade” é um termo
genérico, que compreende várias
modalidades de vivências afetivas:
1. Humor ou estado de ânimo
2. Emoções
3. Sentimentos
4. Afetos
Para avaliar afetividade 5. Paixões
Escala de depressão e Ansiedade de Hamilton (HAD
Escala de Ansiedade de Beck
Escala Breve de Avaliação Psiquiátrica
Questionário de Sensações Corporai
Escala de Medo da Avaliação Negativ
Escala de avaliação de mania de Young, BDI –
inventário de depressão de Beck
A memória é a capacidade de
codificar, armazenar e evocar as
experiências, impressões e fatos
que ocorrem em nossas vidas.
Tudo o que a gente aprende na
nossa existência depende
Para avaliar memória intimamente da memória.
Subtestes Dígitos e Vocabulário do WISC-IV e do WAIS-II
Subteste de Memória Lógica da Wechsler Memory Scale
(WMS)
Teste de Aprendizagem Auditivo-Verbal de Rey (RAVLT)
Subtestes de Memória das baterias CERAD e CAMCOG
Teste de Retenção Visual de Bento
Teste Comportamental de Memória de Rivermead
As demais funções psíquicas não contam com tantos instrumentos
disponíveis, por isso essas 3 foram trazidas a título de exemplo.
31
3
Função psíquica
"Juízo de realidade"
O que é?
Produzir juízos é uma atividade humana por excelência. Ajuizar quer
dizer julgar. Todo juízo implica, certamente, um julgamento, que,
por um lado, é subjetivo, individual e, por outro, social, produzido
historicamente, em consonância com os determinantes socioculturais.
É por meio dos juízos que o ser humano afirma sua relação com o
mundo, discerne a verdade do erro, assegura-se da existência ou não
de um objeto perceptível (juízos de realidade ou de existência), assim
como distingue uma qualidade de outra (juízos de valor).
Juízos falsos podem ser produzidos
de inúmeras formas e podem ser ou
não patológicos.
32
Erro simples x delírio
Em psicopatologia, a primeira distinção essencial a se fazer é entre
o erro simples e as diversas formas de juízos falsos determinados
por transtornos mentais, sendo a principal delas o delírio.
O erro se origina da ignorância, do julgar apressado, do uso de
premissas falsas ou da carência de lógica no pensamento.
Os erros simples são social ou psicologicamente compreensíveis,
enquanto o delírio tem como característica principal serem
incompreensíveis.
Os erros são passíveis de correção pela experiência, pelas provas
e pelos dados que a realidade oferece, por se aprender a pensar
com lógica, diferente dos delírios.
33
Principais alterações psicopatológicas
do juízo de realidade
1. Ideias prevalentes ou
sobrevaloradas
O que são?
As ideias prevalentes são ideias que, por conta da importância
afetiva que têm para o indivíduo, acabam predominando sobre os
demais pensamentos. É comum o paciente dizer: “Não consigo
pensar em outra coisa”.
Alguns exemplos de ideias prevalentes
ou sobrevaloradas em alguns transtornos
ou alterações patológicas
Anorexia Nervosa (observa-se também na bulimia)
“Tenho certeza de que estou muito gorda”,
“Minha barriga está enorme”
Transtorno Dismórfico Corporal
“Meu nariz é disforme, enorme e muito feio”
Ansiedade de Doença
: “Estou convencido de que tenho câncer de estômago”
Ciúmes patológico não delirante
“Tenho certeza de que minha mulher está tendo um caso.”
34
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2. O Delírio
O que é?
É a principal alteração do juízo de realidade. Equivale a um
erro do ajuizar que tem origem no adoecimento mental.
Ideias delirantes típicas, observadas na prática clínica.
Por exemplo:
“Tenho certeza de que meus pais (ou os vizinhos) querem me
envenenar”,
“Eu sou a nova divindade que tem poderes para acabar com o
sofrimento no mundo a hora que quiser”,
”Implantaram um chip em meu cérebro que comanda meus
pensamentos”.
35
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Karl Jaspers descreveu três características ou
indícios externos que, do ponto de vista prático, são
muito importantes para a identificação clínica do
delírio:
1. O indivíduo que apresenta o delírio tem convicção
extraordinária, uma certeza subjetiva praticamente absoluta.
Sua crença é total; a seu ver, não se pode colocar em dúvida a
veracidade de seu juízo delirante.
2. É impossível a modificação do delírio pela experiência
objetiva, por provas explícitas da realidade, por argumentos
lógicos, plausíveis e aparentemente convincentes.
3. O delírio é, quase sempre, um juízo falso; seu conteúdo é
impossível.
De maneira geral, os delírios podem ser divididos
em delírio primário e secundário.
Delírio primário ou ideias delirantes verdadeiras
- O delírio primário é psicologicamente incompreensível, não
tem raízes na experiência psíquica do ser humano sadio; por
isso, é impenetrável.
O verdadeiro delírio expressa uma quebra
radical na biografia do sujeito.
36
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As chamadas intuições ou ideias delirantes são as ideias que
surgem como que a partir do nada, sem nenhuma relação com as
informações perceptuais.
Podemos ter, como exemplo, as seguintes afirmações: “o diabo vai
me pegar”, “o senhor diz que é meu médico e que quer me ajudar,
mas eu sei que também está com eles”, “tenho certeza de que os
marcianos pretendem acabar comigo” ou “sei que o mundo está
para se findar”.
Delírio secundário, ou ideias deliroides,
e os delírios compartilhados
- Delírio secundário ou ideias deliroides são aqueles que, apesar de
absurdos, surgem em decorrência de situações desencadeadoras
compreensíveis, explicáveis e relacionadas com os fatores que as
causaram (eventos traumáticos, depressão, mania etc.). Por
exemplo: ideias de grandeza em pacientes maníacos; ideias de
culpa, ruína ou perseguição em pacientes deprimidos; ideias
persecutórias em prisioneiros, refugiados, vítimas de violência etc
Os delírios podem ocorrer eventualmente em mais de uma pessoa.
São os chamados delírios compartilhados da loucura a dois (folie à
deux). Nesses casos, em geral há um sujeito realmente psicótico,
com esquizofrenia ou transtorno delirante, por exemplo, que
apresenta delírio primário e, ao interagir intimamente com outra
pessoa influenciável (ou com mais pessoas; folie à trois, à quatre
etc.), acaba por gerar o delírio em tal pessoa.
37
Surgimento e evolução do delírio:
estados pré-delirantes
Em geral, os delírios surgem após um período pré-delirante,
denominado humor delirante.
Nesse período, o paciente experimenta aflição e ansiedade intensas,
sente como se algo terrível estivesse por acontecer, mas não sabe
exatamente o quê.
Curiosamente, após a revelação do delírio, o indivíduo muitas vezes
se acalma, como se tivesse encontrado explicação plausível para a
perplexidade anteriormente inexplicável.
38
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Principais tipos de delírio:
a) Delírios de perseguição
O indivíduo acredita com toda a convicção que é vítima de
um complô e está sendo perseguido, que querem envenená-lo,
prendê-lo, torturá-lo, matá-lo, prejudicá-lo no trabalho ou na escola,
desmoralizá-lo, expô-lo ao ridículo ou mesmo enlouquecê-lo.
Exemplo:
“Sei que todas as câmeras da rua e os celulares das
pessoas ficam registrando onde estou. Isso é coisa dos
comunistas que querem me matar!”.
b) Delírio de referência
(de alusão ou autorreferência)
O paciente acredita ser o centro das atenções, más intenções e
conspirações, e de que as pessoas estão sempre voltadas para ele,
observando-o, fiscalizando-o, falando mal dele, olhando para ele etc.
Exemplo:
"Eles estão falando de mim."
39
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c) Delírio de influência ou controle
(também denominado vivência de
influência)
O paciente acha que sua mente é manipulada ou influenciada por
pessoas ou entidades sobrenaturais, frente às quais não pode resistir.
Exemplo:
Paciente acredita que há uma antena que envia raios que controlam
seus pensamentos e seus sentimentos.
d) Delírio de grandeza ou missão
(ou de enormidade)
O paciente possui convicção delirante de ser superior às
demais pessoas. Tal superioridade pode ser no âmbito da
inteligência, beleza, poder, riqueza, talento, linhagem familiar,
características sobrenaturais e religiosas.
Exemplo:
“Eu inventei o micro-ondas, o telefone celular e a internet. Abdiquei
do reconhecimento e do dinheiro porque os homens fracos
precisam mais disso que eu.”
40
SEMANA DA PSICOPATOLOGIA 2024 E-BOOK EXCLUSIVO
e) Delírio religioso ou místico
O paciente acha que foi escolhido por Deus para salvar o mundo
e proclama que recebe mensagens espirituais das divindades,
que é o portador da Verdade Revelada por Deus, que é onisciente,
que pode operar milagres, que está em luta contra o demônio etc.
Exemplo:
"Eu sou o mensageiro do Senhor."
f) Delírio de ciúmes e de infidelidade
O paciente está absolutamente convencido de que o parceiro
está tendo ou terá um relacionamento sexual com outra pessoa,
mesmo sem nenhuma evidência, de tal forma que esta convicção
se torna elemento essencial na sua vida psíquica.
Exemplo:
“Eu vejo como ela dá bom dia para o porteiro! Ele até abriu a porta
para ela! Eu sei que estão me traindo!”
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SEMANA DA PSICOPATOLOGIA 2024 E-BOOK EXCLUSIVO
g) Delírio erótico (erotomania, síndrome
ou delírio de Clerambault)
Aqui, o indivíduo afirma que uma pessoa, geralmente de destaque
social ou de grande importância para o paciente, está totalmente
apaixonada por ele e irá abandonar tudo para que possam
ficar juntos, se casar.
h) Delírios de falsa identificação
É quando o paciente acredita que as pessoas com as quais ele
interagia foram substituídas por duplas ou sósias. Tais sósias o
estariam enganando e, de modo geral, agindo ou tencionando agir
contra ele.
Também pode acontecer quando o paciente crê que diferentes
pessoas de seu ambiente são, de fato, uma só pessoa que muda de
aparência rapidamente; em geral para lhe causar algum mal.
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SEMANA DA PSICOPATOLOGIA 2024 E-BOOK EXCLUSIVO
i) Delírio de ruína (ou niilista)
Há uma convicção delirante de não ter recursos suficientes para
sobreviver. O paciente, mesmo dispondo de dinheiro ou bens, acha-
se irremediavelmente arruinado, falido, desgraçado, à beira da
miséria. Cada perda financeira é vivida como a perda de uma
parte de si mesmo.
Exemplo:
“Vou perder tudo, não vou ter dinheiro para mais nada. Preciso parar
o tratamento e sair de casa. Vou morar na rua e virar mendigo.”
j) Delírio de culpa e de autoacusação
Envolve uma convicção delirante de ter feito alguma coisa errada
e sentir-se culpado por isso.
Exemplo:
“Eu roubei uma caneta no hotel há 20 anos. Tem um mandamento
na bíblia que proíbe isso! Eu sei que vou para o inferno.”
43
SEMANA DA PSICOPATOLOGIA 2024 E-BOOK EXCLUSIVO
k) Delírio hipocondríaco
É uma convicção delirante de estar gravemente doente.
Mesmo com exames provando sua saúde, o paciente se apega à
certeza da doença, às vezes utilizando probabilidades marginais e
exceções raríssimas para corroborar sua crença.
Exemplo:
“Não adianta me mostrar os exames de novo! O vírus está aqui, eu
sei! Esses exames só têm 99% de sensibilidade e especificidade. O
vírus pode ter mutado ou estar escondido em um linfonodo!”
44
Como avaliar o delírio e as
demais alterações do juízo
de realidade?
Existem perguntas que podem ser feitas numa
entrevista diagnóstica a fim de investigar e avaliar
essas alterações.
É importante começar a entrevista com perguntas neutras (idade,
estado civil, onde mora etc.). Depois de estabelecer esse contato,
vamos com cuidado “chegando perto” dos delírios. Sempre que o
paciente relatar o delírio ou algo dele, podemos perguntar “como é
que você sabe disso?”, “como chegou a essas conclusões?”.
45
Entre as perguntas que podem
ser feitas nesse processo de
avaliação estão:
Delírios de perseguição:
Você tem motivos para desconfiar de alguém? Alguém tentou
prejudicá-lo? Recebeu ameaças? Foi roubado ou enganado?
Alguém o persegue? Tem inimigos? Insultam-o? Por que motivos?
Trata-se de um complô, de uma “armação”, de uma máfia?
Como se comporta sua família em relação a você? Também querem
prejudicá-lo? E seu cônjuge, confia nele? Também quer prejudicá-lo?
Quando começou a perseguição e por que motivo? Você está certo
do que me disse ou acha que podem ser “coisas de sua
imaginação”? Você não está enganado? Como pensa defender-se
desses perigos?
Delírios de referência:
Observou se as pessoas falam de você quando conversam? Tem
notado se, na rua ou em outro lugar, alguém o segue ou espia?
Alguém faz gestos ou sinais quando você passa? Viu nos jornais ou
na televisão alguma coisa a seu respeito? Conhece as pessoas que
fazem essas coisas? Que intenção elas têm?
46
Delírios de influência:
Já sentiu algo externo influenciando seu corpo? Já recebeu algum
tipo de mensagem? Alguma força externa influencia ou controla
seus pensamentos? Já teve a sensação de que alguém ou algo
pode ler sua mente? Já sentiu que seus pensamentos podem ser
percebidos ou ouvidos pelos outros? Tem a sensação de que
controlam seus sentimentos, seu corpo ou suas vontades?
Ideias/delírios de ciúmes:
Você confia no seu cônjuge? Tem motivos para suspeitar de sua
fidelidade? Tem provas de que o enganou ou o traiu? Como foi que
começou? Como tem certeza de que o traiu?
Delírios de grandeza:
Sente-se especialmente forte ou capaz? Tem algum talento ou
alguma habilidade especial? Tem projetos, realizações especiais
para o futuro? Aumentou ultimamente sua capacidade para o
trabalho? Observou se uma pessoa importante se interessa por
você? Você é uma pessoa rica?
Delírios religiosos:
Você é uma pessoa religiosa? Já teve contato ou recebeu
influências de espíritos ou forças sobrenaturais? Você sente que tem
uma relação especial com Deus? Teve contato com forças
sobrenaturais, como espíritos, anjos ou demônios? Já conversou
com Deus? Já conversou com espíritos?
47
4
Função psíquica
"Pensamento"
O que é?
Pensamento é a interpretação que se faz das situações do
mundo. Sua constituição é resultado da agregação de:
• conceitos (essência das coisas): elemento estrutural básico do
pensamento que se forma a partir das percepções e representações.
O conceito é algo puramente cognitivo, intelectivo, não devendo
ter qualquer resquício sensorial. Não é possível visualizá-lo, ouvi-lo
ou senti-lo. Ex: conceito de cadeira, conceito de utilidade.
• juízo (relação entre os conceitos): juízos são afirmações ou negações
de relações entre conceitos e é através deles que a gente
determina o que é verdadeiro e o que é falso. Ex: a cadeira é útil.
• raciocínio (relação dos juízos): relaciona conceitos e juízos
formando uma narrativa ou argumentação.
48
É importante destacar que:
O pensamento está fortemente ligado ao juízo de
realidade, pois se o juízo de realidade for falho, a
forma de pensar também estará alterada.
Erros de pensamento podem acontecer na população sem
transtornos mentais, como é o caso dos erros e vieses, que são
comuns e sistemáticos.
O viés de confirmação consiste em uma tendência relativamente
comum de muitas pessoas em distorcer, de modo inconsciente, os
dados e as percepções da realidade para confirmar hipóteses
previamente formuladas no início de um raciocínio.
O viés de salto para as conclusões se verifica quando conclusões
apressadas, sem base nas evidências factuais, são formuladas com
grau de certeza incompatível com tais evidências
49
O processo do pensar e
suas alterações
Uma forma de analisar o pensamento é distinguindo os seguintes
aspectos do processo de pensar: o curso, a forma (ou estrutura) e o
conteúdo (ou temática) do pensamento.
O curso do pensamento é o modo como o pensamento flui, sua
velocidade e seu ritmo ao longo do tempo.
Já a forma do pensamento é sua estrutura básica, sua arquitetura,
preenchida pelos mais diversos conteúdos e interesses do
indivíduo.
Por sua vez, o conteúdo do pensamento pode ser definido como
aquilo que lhe dá substância, seus temas predominantes, o
assunto em si.
A forma e o curso do pensamento estão diretamente relacionados
pois muitas vezes a alteração de curso acaba alterando a forma e
vice-versa.
50
Alterações do curso do
pensamento
As principais alterações do curso do pensamento são a aceleração,
a lentificação, o bloqueio e o roubo do pensamento.
· Aceleração do pensamento
Também conhecido como taquipsiquismo, refere-se à aceleração
do pensamento, com uma ideia se sucedendo à outra
rapidamente, podendo até ser difícil acompanhar o ritmo do
indivíduo.
· Lentificação do pensamento
Também conhecido como bradipsiquismo, corresponde a
lentificação do pensamento. O discurso pode se tornar tão lento
que chega a parecer sem sentido, confundindo a avaliação. Há
certa latência entre as perguntas formuladas e as respostas.
· Bloqueio ou interceptação do pensamento
Há uma interrupção abrupta no fluxo do pensamento ou da fala,
sem motivo aparente. O paciente relata “eu não consigo pensar por
que a minha mente para de repente”.
Vale lembrar que situações ansiogênicas e de fadiga podem
ocasionar bloqueios episódicos, como os famosos “brancos” que
ocorrem com estudantes em provas ou apresentações, o que não
representa necessariamente um evento patológico.
51
Roubo do pensamento
É uma vivência, frequentemente associada ao bloqueio do pensamento,
onde o indivíduo tem a nítida sensação de que seu pensamento
foi roubado de sua mente, por uma força ou ente estranho,
por uma máquina, uma antena etc.
Alterações da forma do pensamento.
As alterações formais incluem: afrouxamento das associações,
descarrilhamento, dissociação e incoerência do pensamento e
desagregação do pensamento.
· Afrouxamento das associações
Nesse caso, embora ainda haja lógica entre as ideias, é possível observar o
afrouxamento dos enlaces associativos. As associações parecem mais
livres, não tão bem articuladas.
· Descarrilhamento do pensamento
Aqui o pensamento passa a se extraviar de seu curso normal, toma
atalhos, desvios, pensamentos supérfluos, retornando aqui e acolá ao seu
curso original.
· Dissociação e incoerência do pensamento
Com o agravamento do processo patológico, o pensamento pode tornar-
se totalmente incoerente e incompreensível. Exemplo: “Ontem à tarde eu
vim à clínica porque estamos em ano de eleições e o padeiro abre somente
às oito horas.”
· Desagregação do pensamento
Nesse caso, há uma profunda e radical perda dos enlaces associativos, total
perda da coerência do pensamento. Sobram apenas “pedaços” de
pensamentos, conceitos e ideias fragmentados, muitas vezes
irreconhecíveis, sem qualquer articulação racional.
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SEMANA DA PSICOPATO 2024 E-BOOK EXCLUSIVO
Alterações do conteúdo do
pensamento
O conteúdo do pensamento é aquilo que preenche a estrutura do
processo de pensar. A principal alteração do conteúdo do
pensamento é o delírio.
A observação clínica indica que os principais conteúdos que
preenchem os sintomas psicopatológicos são:
1. Persecutórios
2. Depreciativos, de ataque à autoestima
3. De poder, riqueza, grandeza ou missão
4. Religiosos, místicos, mágicos
5. Eróticos, sexuais, de ciúmes
6. De culpa
7. Conteúdos hipocondríacos
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SEMANA DA PSICOPATO 2024 E-BOOK EXCLUSIVO
Outras alterações do pensamento
(incluindo juízo e raciocínio)
Pensamento mágico
O pensamento mágico (PM) pressupõe que uma relação puramente
subjetiva de ideias corresponde a uma associação objetiva de fatos.
Por exemplo: "porque vi um carro batido hoje cedo, concluo que meu
pai irá morrer atropelado nos próximos dias.
Pensamento inibido
Aqui, ocorre a inibição do raciocínio, com diminuição da velocidade
e do número de conceitos, juízos e representações utilizados no
processo de pensar; o pensamento torna-se lento, difícil, rarefeito,
pouco produtivo à medida que o tempo flui.
Pensamento prolixo
Aqui, o indivíduo não consegue chegar a qualquer conclusão sobre o
tema de que está tratando, a não ser após muito tempo e esforço. O
paciente dá longas voltas ao redor do tema e mescla, de forma
imprecisa, o essencial com o supérfluo.
Pensamento obsessivo
Aqui predominam ideias ou representações que, apesar de terem
conteúdo absurdo ou repulsivo para o indivíduo, se impõem à
consciência dele de modo persistente e incontrolável.
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SEMANA DA PSICOPATOLOGIA 2024 E-BOOK EXCLUSIVO
Ruminações ou pensamento ruminativo perseverativo
As ruminações são formas de pensamento repetitivo que implicam
preocupações e pensamentos negativos recorrentes, vivenciados
de forma passiva. O paciente se fixa em palavras ou informações
usadas anteriormente que, no contexto atual da conversa, não fazem
mais sentido.
Como avaliar o pensamento?
Existem algumas formas de avaliar o pensamento e uma delas é
conduzindo a entrevista com perguntas específicas.
Perguntas para verificar o desenvolvimento e a estrutura global do
pensamento:
· Que diferença há entre a mão e o pé? Entre o boi e o cavalo? Entre a
água e o gelo? E entre o cristal e a madeira?
· Entre 1 kg de chumbo e 1 kg de palha, o que pesa mais? Que diferença
há entre falar uma coisa errada e dizer uma mentira? E entre a
admiração e a inveja? E entre ser uma pessoa econômica e ser uma
pessoa mesquinha, um “pão-duro”?
· Que semelhanças há entre o carro, o trem e o avião?
55
SEMANA DA PSICOPATOLOGIA 2024 E-BOOK EXCLUSIVO
Ao longo da entrevista, verificar o curso do
pensamento:
Como flui o pensamento do paciente, seu curso (velocidade, ritmo),
forma e conteúdos? O pensamento é lento e difícil ou rápido e fácil?
O raciocínio alcança seu objetivo, chega a um ponto final, ou fica
“orbitando” em temas secundários?
Verificar as formas e os tipos de pensamentos:
O pensamento é coerente e bem compreensível? Ou é vago, com
trechos incompreensíveis? O pensamento é predominantemente
incompreensível, muito incoerente? Há associações por
assonância? Há fuga de ideias?
É concreto ou revela capacidade de abstração e uso de símbolos e
categorias de generalização? O pensamento respeita a realidade ou
segue os desígnios dos desejos e temores do paciente?
56
Os 3 eixos da
5 psicopatologia
A psicopatologia tem eixos e, com isso, diferentes formas
de ver os transtornos mentais. São 3 os eixos principais
Psicopatologia Fenomenológica
Não trabalha com a ideia de diagnóstico, estuda o “fenômeno”.
Seu principal divulgador e estudioso foi Karl Jaspers que seguia o
método fenomenológico de investigação e descrição dos fenômenos
tal como a consciência os percebe, excluindo toda teorização sobre
sua causa. A psicopatologia fenomenológica seria uma vertente
sem classificações.
57
SEMANA DA PSICOPATOLOGIA 2024 E-BOOK EXCLUSIVO
Psicopatologia Psicodinâmica
A Psicodinâmica é uma abordagem da psicologia que está
diretamente ligada às teorias trabalhadas pela Teoria Psicanalítica.
Essa abordagem trabalha os conflitos que estão no nosso
inconsciente.
Freud foi seu criador e principal divulgador. Atualmente a psicanálise
não é considerada ciência e a psicopatologia psicodinâmica tem sido
cada vez mais abandonada.
Para a psicopatologia psicodinâmica interessa o conteúdo das
vivências, os movimentos internos de afetos, desejos e temores do
indivíduo, sua experiência particular, pessoal, singular, não
necessariamente classificável em sintomas previamente descritos.
As causas para os transtornos mentais estariam no passado do
indivíduo, na sua história de vida, nos seus vínculos
parentais e traumas.
58
SEMANA DA PSICOPATOLOGIA 2024 E-BOOK EXCLUSIVO
Psicopatologia Descritiva
ou Ateórica
Modelo atual, aceito desde 1980 com a chegada do DSM 3, e tem
como precursor Kraepelin que se opunha às ideias de Freud.
Para a psicopatologia descritiva, interessa fundamentalmente a
descrição das formas de alterações psíquicas, as estruturas dos
sintomas, aquilo que caracteriza e descreve a vivência patológica
como sintoma mais ou menos típico.
Essa psicopatologia se baseia em um método de classificação
pautado na nosologia e entende que a causa de todos os
transtornos mentais é de origem multifatorial, possuindo
influência genética, biológica, ambiental, familiar e personalidade.
59
O que é um
6 transtorno mental?
Atualmente, o DSM-5-TR define transtorno mental como um
conjunto de sinais e sintomas caracterizado por perturbação
clinicamente significativa na cognição, regulação emocional ou
comportamento de um indivíduo que reflete uma disfunção nos
processos psicológicos, biológicos ou de desenvolvimento
subjacentes ao funcionamento mental.
Os transtornos mentais também são frequentemente associados a
sofrimento ou incapacidade significativos que afetam atividades
sociais, profissionais ou outras atividades importantes.
60
7 Qual a causa do
transtorno mental?
Encontrar a causa para um transtorno mental parece ser a busca
daqueles que recebem o diagnóstico de um. Será que foi o trauma
que passou na infância? Ou aquela experiência constrangedora na
adolescência?
Estamos sempre em busca de uma resposta
quantitativa para um problema que é qualitativo.
Hoje já é muito definido na literatura que a causa de todo transtorno
mental é multifatorial. Ou seja, é uma somatória de fatores que
contribuem para que o transtorno se manifeste na vida do indivíduo.
Não falamos em relação de causa e efeito quando se trata de
transtorno mental pois o processo não é tão simples assim.
Fica mais fácil entender a causa multifatorial de um transtorno mental
quando entendemos a diferença entre correlação e causalidade. A
correlação é um dado estatístico e não é um dado suficiente para
estabelecer causalidade. Correlação é o que o senso comum chama
de coincidência. Podemos dizer que ser assaltado tem correlação
com o diagnóstico de TEPT, mas não podemos dizer que é a causa
dele, pois se assim o fosse, todas as pessoas que fossem assaltadas
teriam o diagnóstico de TEPT e não é o que acontece, correto?
61
SEMANA DA PSICOPATOLOGIA 2024 E-BOOK EXCLUSIVO
Para provar a causalidade a gente precisa de muitos estudos
científicos, especialmente ensaios clínicos randomizados. Apenas
métodos científicos mais rigorosos podem atribuir causalidade.
Lembre-se: “achados extraordinários
requerem feitos extraordinários”.
O problema é que as relações causais unilaterais e unifatoriais são
raras na psiquiatria, por isso a multifatorialidade é a teoria mais aceita
dentro da Psicopatologia.
O que significa essa multifatorialidade
do transtorno mental?
Significa que muitos aspectos estão por trás da manifestação de
um transtorno mental. E um deles são os aspectos biológicos e
genéticos. Evidências crescentes mostram que nós herdamos uma
tendência a sermos tensos, irritados e ansiosos. Contudo, uma
vulnerabilidade genética não “causa” ansiedade ou pânico
diretamente. Ou seja, acontecimentos estressantes e outros fatores
no ambiente podem “ativar” esses genes e desencadear
vulnerabilidades psicológicas e biológicas para a ansiedade.
Para a psicopatologia ateórica a união de inúmeros fatores junto a
um ambiente desfavorável pode desencadear um transtorno
mental. Que é o que chamamos de causa multifatorial.
62
8 Modelo da tripla
vulnerabilidade
O modelo da tripla vulnerabilidade é a
teoria do desenvolvimento dos transtornos mentais
mais aceita e envolve
r i ca n o
o a m e
i có l o g
Genétic ps
e pro f e s s o r n a
d e
s i d a d e
Un iv e r
Vulnerabilidade psicológica - aspectos da personalidad Bo s to n
Componente psicológico específico - trauma, abandono, abuso
De acordo com a teoria criada por David H. Barlow, certas
predisposições podem influenciar na vulnerabilidade de uma
pessoa ao medo, por exemplo. Ainda segundo essa linha de
pensamento, a soma desses tipos de vulnerabilidade é um fator que
ajudaria a contribuir para o desenvolvimento do transtorno de pânico,
por exemplo. O modelo da tripla vulnerabilidade do pânico ficaria assim:
Vulnerabilidade biológica: quando a ansiedade e o afeto negativo
são herdados como características genéticas - pai ou mãe com
essas características.
Vulnerabilidade psicológica: quando alguma experiência
vivenciada durante o desenvolvimento da pessoa leva a sensações
que fogem ao seu controle, associado a fatores de personalidade
Vulnerabilidade ambiental: quando a pessoa possui sensações
derivadas de uma impressão constante de ameaça e perigo.
63
SEMANA DA PSICOPATOLOGIA 2024 E-BOOK EXCLUSIVO
Sendo assim, se uma pessoa está sob grande pressão,
particularmente de estressores interpessoais, determinado estressor
pode ativar suas tendências biológicas de ser ansioso e suas
tendências psicológicas de sentir que não é capaz de administrar a
situação e de controlar o estresse.
Então, sabemos que a causa dos transtornos mentais é uma causa de
múltiplos fatores - multifatorial. Mas em todos os transtornos todos os
fatores têm o mesmo peso? Genética, ambiente, história de vida e
personalidade determinam cada transtorno da mesma forma? Hoje
sabemos que não. Fatores diferentes têm pesos diferentes para
cada transtorno.
Por exemplo:
Nos transtornos alimentares temos uma influência genética, mas as
pressões do ambiente parecem ser bastante determinantes.
No transtorno de personalidade antissocial entende-se que os
fatores genéticos podem apresentar vulnerabilidade, porém, o
desenvolvimento da criminalidade pode requerer fatores ambientais,
como falta de contato de boa qualidade na infância com pais
biológicos ou substitutos - ou ambientes invalidantes como
chamamos hoje na psicologia.
Outro exemplo dos diferentes pesos da genética e ambiente é na
esquizofrenia. A esquizofrenia é um dos transtornos mais biológicos
que existem. Como sabemos disso? Com estudo de gêmeos
idênticos. Se o ambiente fosse exclusivamente responsável pela
esquizofrenia, esperaríamos pouca diferença entre gêmeos idênticos
e fraternos com relação a esse transtorno.
64
SEMANA DA PSICOPATOLOGIA 2024 E-BOOK EXCLUSIVO
Caso apenas os fatores genéticos fossem relevantes, ambos os
gêmeos idênticos sempre teriam esquizofrenia (seriam concordantes)
e os gêmeos fraternos apresentariam o transtorno 50% do tempo.
A pesquisa dos estudos sobre gêmeos indica que a verdade está em
algum lugar entre essas duas possibilidades.
Então, podemos seguramente fazer uma
generalização: os genes são responsáveis por
tornar alguns indivíduos vulneráveis à
esquizofrenia.
O TDAH é considerado altamente influenciado pela genética.
Influências ambientais desempenham um papel relativamente
pequeno no transtorno, quando comparadas a muitos outros -
como depressão e ansiedade que tem influência mais forte do
ambiente e de fatores psicológicos.
Na depressão, por exemplo, as melhores estimativas das
contribuições genéticas para a depressão alcançam
aproximadamente 40% para mulheres, mas parecem ser
significativamente menores para os homens (por volta de 20%).
Isso significa que 60% a 80% das causas de depressão podem
ser atribuídas a fatores ambientais.
65
Existe cura para o
9 transtorno mental?
Não falamos em cura de transtorno mental, pois não podemos
garantir que os sintomas não reaparecerão. Em saúde mental falamos
em remissão de sintomas e isso não significa que o transtorno sumiu,
significa que houve um retorno à funcionalidade.
Remissão significa retorno à funcionalidade.
Quando falamos em remissão total, estamos falando em torno de 70%
de melhora. Quando falamos em remissão parcial, em torno de 50%.
Quanto de remissão podemos esperar
nos principais transtornos?
Isso vai depender do tipo de transtorno, pois dependendo da sua
categoria o prognóstico é melhor ou pior.
Transtornos Episódicos, como transtornos depressivos e
transtornos de ansiedade, possuem o ambiente como o fator
desencadeante principal. Nos transtornos episódicos é mais fácil
falar em remissão total
Transtornos Crônicos, como a esquizofrenia e o transtorno
bipolar, possuem uma base genética significativa e nenhum
tratamento inibe essa questão genética e biológica. Podemos falar
em remissão desses transtornos, mas o tratamento
medicamentoso não será interrompido. Mesmo que a remissão
não seja total podemos falar em retorno a funcionalidade.
66
SEMANA DA PSICOPATOLOGIA 2024 E-BOOK EXCLUSIVO
Transtornos do Neurodesenvolvimento, como o TDAH e o TEA,
são os transtornos com os quais já se nasce com. A genética é
preponderante e o ambiente pode contribuir para uma
expressão fenotípica mais grave ou menos grave. A remissão
total é mais difícil nesses casos.
Transtornos Degenerativos, como o Alzheimer, uma vez
iniciado o processo degenerativo não regride.
Entender todos os aspectos apresentados nesta aula é fundamental
para que você seja capaz de avaliar o seu paciente corretamente e
oferecer a ele a melhor intervenção disponível para a sua demanda.
Psicopatologia não se resume a conjunto de sinais e sintomas,
como ficou claro. Por isso precisamos estudar e nos aprofundar nesta
área do conhecimento a fim de não reproduzirmos erros antigos ou
nos mantermos apegados a modelos obsoletos.
67
ESPECIAL 5 ANOS
AULA 3
Introdução ao Manual
Diagnóstico ATUAL
em Saúde Mental
(DSM-5-TR)
68
SEMANA DA PSICOPATOLOGIA 2024 E-BOOK EXCLUSIVO
O que você vai
encontrar nessa aula:
Qual a implicação do DSM-5-TR
1
na sua prática clínica?
2 Definição de transtorno mental
3 Divisão do DSM-5-TR
4 Categorias diagnósticas do DSM-5-TR
5 Estrutura de apresentação dos transtornos
6 Outras seções importantes do DSM
7 Diferença entre traço e transtorno
8 Principais mudanças trazidas pelo DSM-5-TR
9 Instrumentos de avaliação
69
1 Qual a implicação do
DSM-5-TR na sua
prática clínica?
No contexto da prática clínica em saúde mental, o Manual
Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM)
desempenha um papel crucial. A versão mais recente, o DSM-5-TR,
tornou-se o padrão de referência a partir de janeiro de 2023,
substituindo as versões anteriores. Para os profissionais que
desejam manter-se atualizados, é essencial dominar as mudanças e
atualizações dessa nova edição.
Lembre-se…
Após o lançamento do DSM-5-TR, as edições anteriores
tornaram-se obsoletas.
70
2 Definição de
transtorno mental
Retomando a definição de transtorno mental trazida pelo DSM:
Um transtorno mental é uma síndrome caracterizada por uma
perturbação clinicamente significativa na cognição, regulação
emocional ou comportamento de um indivíduo, refletindo uma
disfunção nos processos psicológicos, biológicos ou de
desenvolvimento subjacentes ao funcionamento mental.
Geralmente, esses transtornos estão associados a um sofrimento
significativo ou incapacidade em atividades sociais,
ocupacionais ou outras atividades importantes. No entanto, uma
resposta previsível ou culturalmente aprovada a um estressor
comum ou perda não é considerada um transtorno mental.
É fundamental destacar que comportamentos socialmente
desviantes ou conflitos entre o indivíduo e a sociedade não são
classificados como transtornos mentais, a menos que resultem de
uma disfunção no indivíduo, conforme descrito acima.
71
SEMANA DA PSICOPATOLOGIA 2024 E-BOOK EXCLUSIVO
Cada transtorno identificado no Manual deve atender a essa definição.
Embora nenhuma definição seja capaz de abranger todos os aspectos dos
transtornos contidos no DSM, alguns elementos são essenciais
a definição caracteriza um transtorno mental como causador de um
distúrbio clinicamente significativo em vários domínios, resultando em
sofrimento ou prejuízo. Por vezes, o prejuízo pode ser evidente,
mesmo que o sofrimento não seja percebido pelo indivíduo
afetado
a disfunção identificada é atribuída aos distúrbios subjacentes nos
processos psicológicos, biológicos ou do desenvolvimento
subjacentes ao funcionamento mental, requerendo uma avaliação
abrangente desses processos
a definição exclui disfunções esperadas ou culturalmente
aceitáveis, como tristeza temporária após a perda de um ente querido
a disfunção não é considerada um transtorno mental se decorrer
de um desentendimento entre o indivíduo e sua cultura mais
ampla.
Lembre-se: o diagnóstico não se resume apenas aos critérios do DSM.
72
3 Divisão do
DSM-5-TR
O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-
TR) é organizado em três seções principais:
Seção I: essa parte fornece informações introdutórias sobre o
DSM-5-TR, incluindo instruções sobre o uso do manual e
considerações importantes. Aqui, são apresentadas orientações
gerais, juntamente com advertências sobre o uso responsável do
DSM. Além disso, são fornecidos alertas específicos para questões
forenses, destacando que as informações diagnósticas do DSM
devem ser utilizadas com cautela nesses contextos, devido ao risco
de interpretações inadequadas.
Seção II: essa seção é dedicada à apresentação dos transtornos
mentais, organizados em grupos e capítulos com base em
semelhanças e estágios do ciclo de vida, começando na infância
com os transtornos do neurodesenvolvimento e terminando na
velhice com os transtornos neurodegenerativos. O DSM-5-TR inclui
mais de 300 diagnósticos distribuídos em 19 categorias
diagnósticas nessa seção.
Seção III: aqui são apresentados instrumentos de avaliação e
modelos emergentes, como o modelo alternativo para os
Transtornos de Personalidade, que é totalmente dimensional.
73
Categoria 1:
Transtornos do
Neurodesenvolvimento
Os Transtornos do Neurodesenvolvimento são condições
com início no período do desenvolvimento e podem afetar o
funcionamento pessoal, acadêmico ou profissional. Eles se
manifestam precocemente, em geral antes de a criança
ingressar na escola.
Esses transtornos podem variar desde dificuldades específicas
de aprendizado até déficits mais amplos em habilidades sociais e
intelectuais.
Nessa categoria, estão incluídos:
Transtorno do Desenvolvimento Intelectua
Transtornos da Comunicação
Transtorno do Espectro Autista (TEA
Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH
Transtorno Específico da Aprendizage
Transtornos Motores
74
Categoria 2:
Espectro da Esquizofrenia
e Outros Transtornos Psicóticos
Essa categoria engloba transtornos caracterizados por
anormalidades em um ou mais dos cinco domínios: (1) delírios, (2)
alucinações, (3) pensamento (discurso) desorganizado, (4)
comportamento motor grosseiramente desorganizado ou
anormal (incluindo catatonia) e (5) sintomas negativos.
Nessa categoria, estão incluídos:
Transtorno Delirant
Transtorno Psicótico Brev
Transtorno Esquizofreniform
Esquizofrenia
Transtorno Esquizoafetivo
Observação: é importante mencionar que o Espectro da
Esquizofrenia e Outros Transtornos Psicóticos inclui o Transtorno
da Personalidade Esquizotípica. Esse transtorno é incluído neste
capítulo do DSM porque é considerado parte do Espectro da
Esquizofrenia, mas sua descrição completa está no capítulo
"Transtornos da Personalidade”.
75
Categoria 3: Transtorno Bipolar e
Transtornos Relacionados
A posição dos transtornos dessa categoria representa uma ponte
(em termos de sintomatologia, história familiar e genética) entre o
Espectro da Esquizofrenia e Outros Transtornos Psicóticos e os
Transtornos Depressivos.
Nessa categoria, estão incluídos:
Transtorno Bipolar Tipo
Transtorno Bipolar Tipo
Transtorno Ciclotímic
Transtorno Bipolar Induzido por Substâncias
Categoria 4: Transtornos
Depressivos
A caraterística comum desses transtornos é a presença de
vazio, humor triste ou irritável, acompanhado de alterações
somáticas e cognitivas que afetam significativamente a
capacidade de funcionamento do indivíduo. O que difere entre
eles são os aspectos de duração, principalmente.
Nessa categoria, estão incluídos:
Transtorno Disruptivo da Desregulação do Humo
Transtorno Depressivo Maior
Transtorno Depressivo Persistent
Transtorno Disfórico Pré-menstrua
Transtorno Depressivo Induzido por Substância/Medicamento
76
Categoria 5:
Transtornos de Ansiedade
Os Transtornos de Ansiedade são marcados pela presença de
ansiedade excessiva ou persistente, afetando várias áreas da
vida do indivíduo. Além disso, estão associados a prejuízos sociais,
ocupacionais ou em outras áreas do funcionamento.
Nessa categoria, estão incluídos:
Transtorno de Ansiedade de Separaçã
Mutismo Seletiv
Fobia Específic
Transtorno de Ansiedade Social
Transtorno do Pânic
Agorafobi
Transtorno de Ansiedade Generalizada
Transtorno de Ansiedade Induzido por Substância ou
Medicamento
77
Categoria 6:
Transtorno Obsessivo-
Compulsivo e Relacionados
O Transtorno Obsessivo-Compulsivo e Transtornos Relacionados
compartilham comportamentos repetitivos e compulsivos e,
por isso, foram agrupados na mesma categoria. Eles estão
localizados logo após os Transtornos de Ansiedade devido ao
componente de ansiedade presente nos transtornos
dessa categoria.
Nessa categoria, estão incluídos:
Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC
Transtorno Dismórfico Corpora
Transtorno de Acumulaçã
Tricotilomania
Transtorno de Escoriação (skin-picking
Outro Transtorno Obsessivo-Compulsivo e Transtorno
Relacionado Especificado
Transtorno Obsessivo-Compulsivo e Transtorno Relacionado
Não Especificado
78
Categoria 7:
Transtornos Relacionados
a Trauma e a Estressores
Os Transtornos Relacionados a Trauma e a Estressores compartilham
uma característica: apresentam um evento estressante
desencadeante seguido por respostas emocionais intensas.
Nessa categoria, estão incluídos:
Transtorno de Apego Reativ
Transtorno da Interação Social Desinibid
Transtorno do Estresse Pós-traumátic
Transtorno de Estresse Agud
Transtornos de Adaptação
Transtorno do Luto Prolongado
Categoria 8:
Transtornos Dissociativos
Os Transtornos Dissociativos são caracterizados por
perturbação e/ou descontinuidade da integração normal
de consciência, memória, identidade, emoção, percepção,
representação corporal, controle motor e comportamento.
Nessa categoria, estão incluídos:
Transtorno Dissociativo de Identidad
Amnésia Dissociativ
Transtorno de Despersonalização/Desrealização
79
Categoria 9: Transtorno de
Sintomas Somáticos e Relacionados
Os transtornos dessa categoria compartilham um aspecto em
comum: a proeminência de sintomas somáticos associados a
sofrimento e prejuízo significativos.
Nessa categoria, estão incluídos:
Transtorno de Sintomas Somáticos
Transtorno de Ansiedade de Doença
Fatores Psicológicos que Afetam outras Condições Médicas
Transtorno de Sintomas Neurológicos Funcionais
Transtorno Factício
Categoria 10: Transtornos
Alimentares
Os Transtornos Alimentares são caracterizados por uma
perturbação persistente na alimentação ou no comportamento
alimentar, resultando em consumo ou absorção alterada de
alimentos, comprometendo significativamente a saúde física
ou o funcionamento psicossocial do indivíduo.
Nessa categoria, estão incluídos:
Pic
Transtorno de Ruminaçã
Transtorno Alimentar Restritivo/Evitativ
Anorexia Nervos
Bulimia Nervos
Transtorno de Compulsão Alimentar
80
Categoria 11:
Transtornos da Eliminação
Os Transtornos da Eliminação envolvem a eliminação inapropriada
de urina ou fezes e geralmente são diagnosticados pela primeira
vez na infância ou na adolescência.
Nessa categoria, estão incluídos:
Enures
Encoprese
Categoria 12:
Transtornos do Sono-Vigília
Os Transtornos do Sono-Vigília abrangem uma variedade de condições que
afetam o sono e a vigília. Geralmente, os indivíduos com esses tipos de
transtorno apresentam queixas de insatisfação envolvendo a qualidade, o
tempo e a quantidade de sono. O sofrimento e o prejuízo resultantes durante o
dia são características centrais compartilhadas por todos esses transtornos.
Nessa categoria, estão incluídos:
Transtorno de Insôni
Transtorno de Hipersonolênci
Narcolepsi
Transtornos do Sono Relacionados à Respiraçã
Transtorno do Sono-Vigília do Ritmo Circadian
Transtornos de Despertar do Sono Não REM (NREM
Transtorno do Pesadel
Transtorno Comportamental do Sono RE
Síndrome das Pernas Inquieta
Transtorno do Sono Induzido por Substância/Medicamento
81
Categoria 13: Disfunções Sexuais
As Disfunções Sexuais abrangem uma variedade de transtornos
nos quais os indivíduos enfrentam dificuldades em alcançar um
desempenho sexual.
Nessa categoria, estão incluídos:
Ejaculação Retardad
Transtorno Eréti
Transtorno do Orgasmo Feminin
Transtorno do Interesse/Excitação Sexual Feminin
Transtorno da Dor Gênito-Pélvica/Penetraçã
Transtorno do Desejo Sexual Masculino Hipoativ
Ejaculação Prematura
Disfunção Sexual Induzida por Substância/Medicament
Outra Disfunção Sexual Especificada e Não Especificada
Categoria 14: Disforia de Gênero
O termo Disforia de Gênero foi incluído no DSM-5 de 2013,
substituindo o termo “transtorno de identidade de gênero", usado
anteriormente no DSM-IV. A mudança da terminologia reflete um
foco na disforia como um problema clínico, em oposição a
identidade de gênero em si.
Nessa categoria, está incluída
Disforia de Gênero (em crianças e adolescentes e adultos)
82
Categoria 15: Transtornos
Disruptivos do Controle de
Impulsos e da Conduta
Os transtornos dessa categoria são caracterizados pela
falha repetida em resistir, pelo menos em curto prazo, a um
impulso, necessidade ou desejo de realizar um ato que seja
recompensador, apesar das consequências, que geralmente
causam sofrimento e prejuízos significativos no funcionamento.
Nessa categoria, estão incluídos:
Transtorno da Oposição Desafiant
Transtorno Explosivo Intermitent
Piromani
Cleptomania
83
Categoria 16: Transtornos
Relacionados a Substâncias e
Transtornos Aditivos
Os Transtornos Relacionados a Substâncias e Transtornos Aditivos
abrangem uma ampla variedade de condições associadas ao
abuso de drogas e outras substâncias, utilizadas pelas pessoas
para alterar seu modo de pensar, sentir e se comportar.
Além dos transtornos relacionados a substâncias, este capítulo
também inclui o Transtorno do Jogo, pois os comportamentos de
jogo ativam sistemas de recompensa semelhantes aos ativados por
drogas de abuso e produzem alguns sintomas comportamentais
que podem ser comparados aos produzidos pelos Transtornos por
Uso de Substância.
Nessa categoria, estão incluídos:
Álcoo
Cafeín
Cannabi
Alucinógeno
Inalante
Opioide
Ansiolítico
Estimulantes (anfetamina, cocaína
Tabaco e outras substâncias
84
Categoria 17: Transtornos
Neurocognitivos
Os Transtornos Neurocognitivos (TNCs) englobam uma variedade de
condições em que o déficit clínico primário está na função cognitiva,
sendo transtornos adquiridos em vez de transtornos do desenvolvimento.
Nessa categoria, estão incluídas duas classes de Transtornos Cognitivos:
Delirium: uma condição frequentemente temporária na qual se apresentam
a confusão e a desorientação;
Transtorno Neurocognitivo Maior ou Leve: uma condição progressiva
marcada pela deterioração gradual de uma série de capacidades
cognitivas.
Dentro da classe de Transtornos Neurocognitivos Maiores ou Leves, temos
os seguintes subtipos:
Transtorno Neurocognitivo Maiores ou Leve
Transtorno Neurocognitivo Maior ou Leve Devido a Doença de Alzheime
Transtorno Neurocognitivo Vascular Maior ou Lev
Transtorno Neurocognitivo Maior ou Leve Devido a Doença de Parkinson
Transtorno Neurocognitivo Maior ou Leve Devido a Doença de Huntingto
Transtorno Neurocognitivo Maior ou Leve Devido a Doença Corpos de Lev
Transtorno Neurocognitivo Maior ou Leve Devido a Doença Devido a
Infecção por HI
Transtorno Neurocognitivo Maior ou Leve Devido a Lesão Cerebral
Traumátic
Transtorno Neurocognitivo Maior ou Leve Devido a Doença de Príon.
85
Categoria 18:
Transtornos da Personalidade
Um Transtorno da Personalidade é um padrão persistente
de emoções, cognições e comportamentos, difuso e inflexível,
resultando em um sofrimento emocional duradouro
para a pessoa afetada e/ou para outros
e pode causar dificuldades no trabalho
A partir daqui o DSM sai da ordem do curso de ciclo
vital, pois não se tem um consenso exato de que fase da
e nos relacionamentos.
vida esses transtornos podem aparecer (adolescência
ou vida adulta). Assim, o DSM deixa Transtornos da
Personalidade e Parafílicos para o final
Nessa categoria, estão incluídos:
O grupo A, conhecido como o grupo dos esquisitos ou excêntricos, que inclui
Transtornos da Personalidade Paranoid
Transtornos da Personalidade Esquizoid
Transtornos da Personalidade Esquizotípica
O grupo B, conhecido como o grupo das pessoas que se mostram dramáticas,
emotivas ou imprevisíveis, que inclui
Transtornos da Personalidade Antissocia
Transtornos da Personalidade Borderlin
Transtornos da Personalidade Histriônic
Transtornos da Personalidade Narcisista
O grupo C, conhecido como o grupo dos ansiosos ou medrosos, que inclui
Transtornos da Personalidade Evitativ
Transtornos da Personalidade Dependent
Transtornos da Personalidade Obsessivo-Compulsiva
Observação: na Seção III do DSM, quase no final do manual, você vai encontrar o modelo
alternativo para os Transtornos de Personalidade. É um modelo de personalidade
totalmente dimensional baseado nos fatores de personalidade ou Big Five,
como costuma ser mais conhecido.
86
Categoria 19:
Transtornos Parafílicos
Os Transtornos Parafílicos estão associados a comportamentos
sexuais atípicos que podem ser prejudiciais para o indivíduo ou
para os outros.
Nessa categoria, estão incluídos:
Voyeurism
Exibicionism
Frotteurism
Masoquismo Sexua
Sadismo Sexua
Pedofili
Fetichism
Transtorno Transvéstico
87
6 Estrutura de
apresentação dos
transtornos
A seção II do DSM é a mais longa pois é nela
que todos os transtornos mentais, de todas as
categorias diagnósticas, são apresentados.
Em termos de estrutura para apresentação dos transtornos da
seção II, o DSM se divide em três componentes principais: a
classificação diagnóstica, os conjuntos de critérios diagnósticos
e o texto descritivo.
88
SEMANA DA PSICOPATOLOGIA 2024 E-BOOK EXCLUSIVO
1. Classificação
diagnóstica
Cada diagnóstico do DSM possui um código de diagnóstico
derivado do sistema de codificação usado por todos os
profissionais de saúde, conhecido como Classificação
Internacional de Doenças (CID).
89
SEMANA DA PSICOPATOLOGIA 2024 E-BOOK EXCLUSIVO
2. Conjuntos
de critérios diagnósticos
Para cada transtorno incluído no DSM, um conjunto de critérios
diagnósticos indica os sintomas que devem estar presentes (e por
quanto tempo).
Embora esses critérios ajudem a aumentar a confiabilidade
diagnóstica (ou seja, a probabilidade de dois profissionais
chegarem ao mesmo diagnóstico ao avaliar um paciente), é
importante lembrar que esses critérios devem ser usados por
profissionais treinados usando julgamento clínico; eles não devem
ser usados pelo público em geral.
Após a avaliação dos critérios diagnósticos, os clínicos devem
considerar a aplicação de subtipos de transtornos e/ou
especificadores, conforme apropriado.
Quando aplicáveis, critérios específicos para definir a gravidade do
transtorno (p. ex., leve, moderada, grave, extrema), características
descritivas (p. ex., com insight bom ou razoável; em ambiente
protegido) e curso (p. ex., em remissão parcial, em remissão
completa, recorrente) são fornecidos com cada diagnóstico.
90
SEMANA DA PSICOPATOLOGIA 2024 E-BOOK EXCLUSIVO
3. Texto descritivo
O texto descritivo fornece informações contextuais para auxiliar
na tomada de decisão diagnóstica e aparece imediatamente
após os critérios diagnósticos de cada transtorno, descrevendo o
transtorno sistematicamente.
Faz parte do texto descritivo: as características diagnósticas, a
prevalência, desenvolvimento e curso, comorbidades etc.
91
7 Outras seções
importantes do DSM
Uma seção importante que o DSM traz para a maioria dos transtornos
é a seção de subtipos e especificadores, que servem para
aumentar a especificidade do diagnóstico.
Os subtipos são indicados pela instrução "Determinar" no conjunto de
critérios (p. ex., em anorexia nervosa, determinar se tipo restritivo ou
tipo com compulsão alimentar purgativa).
Em contrapartida, especificadores não têm o propósito de ser
mutuamente excludentes ou coletivamente exaustivos, por isso mais de
um especificador pode ser aplicado a um determinado diagnóstico.
Os especificadores (diferentemente dos subtipos) são indicados pela
instrução "Especificar se" (p. ex., no transtorno de ansiedade social,
"Especificar se: somente desempenho") e também servem para indicar
gravidade.
Em resumo: podemos ter especificadores e subtipos tanto para
acrescentar alguma característica para aquele transtorno (exemplo:
com sintomas ansiosos - o que diminui um pouco as comorbidades)
como também para especificar a gravidade dos transtornos.
92
Outra seção é a de Transtornos Mentais
Especificados e Não Especificados, que costuma
levantar muita dúvida.
Essa seção serve para apresentações que não se encaixam
exatamente nos limites diagnósticos dos transtornos em cada
capítulo.
Utilizamos "Transtorno Mental Especificado" quando o clínico sabe
especificar o motivo pelo qual os critérios para tal transtorno não
foram satisfeitos e "Transtorno Mental Não Especificado" quando o
clínico não sabe especificar ou optou por não especificar o motivo
pelo qual os critérios para tal transtorno não foram satisfeitos.
93
8 Diferença entre
traço e transtorno
Fechar critérios para um transtorno mental não é simples, por
isso não é a maioria das pessoas que possui um transtorno. Contudo,
em contrapartida, um número maior de pessoas possui traços de
alguns transtornos que, mesmo não sendo suficientes para um
diagnóstico, costumam ser suficientes para causar sofrimento e
prejuízos, pois a lógica do transtorno se aplica ao traço.
Um exemplo são os traços de personalidade que são padrões
persistentes de percepção, de relacionamento e de pensamento
sobre o ambiente e si mesmo que são exibidos em uma ampla
variedade de contextos sociais e pessoais.
Os traços de personalidade constituem transtornos da
personalidade somente quando são inflexíveis e mal-adaptativos,
causando prejuízo funcional ou sofrimento subjetivo
significativos. Percebe a diferença entre traço e transtorno?
Você pode possuir traço da personalidade dependente e não ter
todos os critérios suficientes para um Transtorno da Personalidade
Dependente.
94
Essa ideia de traço vem do modelo dimensional que tem sido
estudado há muito tempo - desde 1999 - e se baseia na ideia de
que podemos descrever o ser humano a partir de um número
de dimensões nas quais as pessoas se distribuem numa curva
normal (em forma de sino).
Traços ou dimensões são encontrados em variados graus entre
as pessoas e descrevem a frequência de comportamentos que
expressam tais disposições ao longo do tempo na vida do
indivíduo, ou seja, operam em bases probabilísticas: as pessoas
variam de estatura baixa a alta, por exemplo, com a maior parte
situada no meio da curva.
95
9 Principais
mudanças trazidas
pelo DSM-5-TR
O DSM-5-TR é a primeira revisão publicada do DSM-5. Esse manual
revisado integra os critérios diagnósticos originalmente publicados do
DSM-5, com pequenas modificações para mais de 70 transtornos,
com atualização no texto descritivo que acompanha cada transtorno,
bem como com a inclusão de um novo diagnóstico, transtorno do luto
prolongado, e dos códigos dos sintomas para informe de
comportamento suicida e de autolesão não suicida.
Além disso, o DSM-5-TR inclui uma revisão abrangente do impacto do
racismo e da discriminação no diagnóstico e nas manifestações dos
transtornos mentais.
A maioria das alterações foram relativamente pequenas e servem
para corrigir erros, esclarecer ambiguidades ou resolver
inconsistências entre os critérios diagnósticos e o texto.
Vejamos cada uma delas na página seguinte:
96
Diagnósticos e códigos de
sintomas adicionados
Transtorno do Luto Prolongado
O DSM-5 já havia incluído uma categoria de Transtorno de Luto
Complexo Persistente como uma “condição para um estudo mais
aprofundado” na seção 3 do manual.
No DSM-5-TR, esse transtorno foi adicionado à seção 2, no capítulo de
Transtornos Relacionados a Traumas e Estressores, pois estima-se
que após a perda não violenta de um ente querido, 1 em cada 10
adultos enlutados apresenta o risco de desenvolver Transtorno do
Luto Prolongado.
Esse transtorno representa uma reação prolongada e mal-adaptativa
que só pode ser diagnosticada depois que tiverem passado pelo
menos 12 meses e no caso de crianças, pelo menos seis meses,
desde a morte de alguém com quem o enlutado tinha um
relacionamento próximo.
97
Transtorno de Humor Não Especificado
O transtorno de humor não especificado é uma categoria recém-
adicionada. Aplica-se a apresentações nas quais predominam
sintomas característicos de um transtorno do humor que causam
sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento
social, ocupacional ou em outras áreas importantes do
funcionamento.
No entanto, no momento da avaliação, eles não preenchem todos os
critérios para nenhum dos transtornos nas classes diagnósticas
de transtorno bipolar ou depressivo e é difícil escolher entre
transtorno bipolar não especificado e transtorno relacionado e
transtorno depressivo não especificado.
Transtorno Neurocognitivo Leve
Induzido por Estimulante
Esse transtorno foi adicionado aos tipos existentes de transtornos
neurocognitivos leves induzidos por substâncias (álcool, inalantes e
sedativos, hipnóticos ou substâncias ansiolíticas), em reconhecimento
ao fato de que sintomas neurocognitivos, como dificuldades de
aprendizado e memória e função executiva, podem estar associados ao
uso de estimulantes.
98
Códigos de sintomas
adicionados:
Os códigos da CID-10-CM para comportamento suicida
e autolesão não suicida foram adicionados ao capítulo "Outras
condições que podem ser foco de atenção clínica" que apresenta
condições e problemas que não são transtornos mentais em si, mas
para os quais é útil ter uma forma sistemática de registro.
Comportamento suicida: essa categoria pode ser usada para
indivíduos que tenham se envolvido em comportamento
potencialmente autolesivo com pelo menos alguma intenção de
morrer como resultado do ato.
Autolesão não suicida: essa categoria pode ser usada para
indivíduos que tenham se envolvido em danos autoinfligidos
intencionais ao seu corpo que provavelmente induziram
sangramento, contusões, ou dor (por exemplo, corte, queimadura,
esfaqueamento, pancada etc.) na ausência de intenção suicida.
99
Exemplos de mudanças
nos critérios diagnósticos ou
definição de especificadore
Transtorno do Espectro Autista
Como era no DSM-5:
A. Déficits persistentes na comunicação social e na interação social em
múltiplos contextos, conforme manifestado pelo que segue, atualmente
ou por história prévia.
Como ficou no DSM-5-TR:
A. Déficits persistentes na comunicação social e na interação social em
múltiplos contextos, conforme manifestado por todos os itens a seguir,
atualmente ou por história prévia.
Transtorno Bipolar Tipo I
Como era no DSM-5:
A. A ocorrência do(s) episódio(s) maníaco(s) e depressivo(s) maior(es) não é
mais bem explicada por transtorno esquizoafetivo, esquizofrenia,
transtorno esquizofreniforme, transtorno delirante ou transtorno do
espectro da esquizofrenia e outro transtorno psicótico com outras
especificações ou não especificado.
Como ficou no DSM-5-TR:
B. Pelo menos um episódio maníaco não é melhor explicado por
transtorno esquizoafetivo e não é sobreposto à esquizofrenia, transtorno
esquizofreniforme, transtorno delirante ou outro espectro de esquizofrenia
especificado ou não especificado e outro transtorno psicótico.
100
Todas as mudanças, como as apresentadas aqui,
são bem sutis, apenas ajustando o texto para que
fique mais compreensível ou menos redundante.
Os critérios diagnósticos foram revisados para vários transtornos,
principalmente para esclarecimento. Isso inclui mudanças nos
conjuntos de critérios para os seguintes diagnósticos:
Transtorno do Espectro Autista, Episódio maníaco, Transtorno Bipolar
I e Bipolar II, Transtorno Depressivo Maior, Transtorno Depressivo
Persistente, TEPT em crianças, Transtorno Alimentar restritivo/
evitativo, Delirium, Transtornos Mentais Induzidos por Substância/
Medicamento.
Além disso, há mudanças nas definições de especificadores para
vários transtornos. Esses incluem alterações nos especificadores de
gravidade para episódio maníaco, o especificador de humor
congruente/incongruente de humor para transtorno bipolar, o
especificador de características mistas para transtorno depressivo
maior e o especificador pós-transição para disforia de gênero.
101
Atualização da terminologia
O DSM-5-TR também inclui atualizações de terminologia e
nomenclatura.
O termo “neuroléptico”, aplicado a uma classe de medicamentos,
é um termo anacrônico que enfatiza os efeitos colaterais. Não
será mais usado, exceto no caso da amplamente utilizada
“síndrome neuroléptica maligna”.
A terminologia nos especificadores de disforia de gênero foi
atualizada para usar linguagem culturalmente sensível, por
exemplo, “gênero desejado” foi alterado para “gênero
experimentado”, “procedimento médico transexual” foi
atualizado para “procedimento médico de afirmação de gênero”,
“tratamento hormonal transexual” para “tratamento hormonal de
afirmação de gênero”, “homem de nascimento” para “indivíduo
designado homem no nascimento” e “mulher de nascimento”
para “indivíduo designado mulher ao nascimento”.
102
Transtornos renomeados
Dois transtornos foram renomeados para adotar o uso atual:
Deficiência Intelectual agora é Transtorno do Desenvolvimento
Intelectual e Transtorno de Conversão agora é Transtorno de
Sintomas Neurológicos Funcionais.
Além disso, o parêntese “(Fobia Social)” no Transtorno de Ansiedade
Social foi removido.
103
Cultura, Racismo e Discriminação
A mudança girou em torno da linguagem e da substituição de
termos. Por exemplo: o termo “racializado” é usado em vez de “raça/
racial” para destacar a natureza socialmente construída da raça.
Os termos “minoria” e “não-branca” são evitados porque descrevem
grupos sociais em relação a uma “maioria” racializada, prática que
tende a perpetuar hierarquias sociais; o termo emergente “Latinx” é
usado no lugar de Latino/Latina para promover terminologia inclusiva
de gênero e o termo caucasiano não é usado.
104
Transição na conceitualização de
transtornos da personalidade
Embora os benefícios de uma abordagem dimensional para os
Transtornos da Personalidade tenham sido identificados nas edições
anteriores, a transição de um sistema diagnóstico categórico de
transtornos individuais para outro baseado na distribuição relativa de
traços de personalidade não foi amplamente aceita.
No DSM-5-TR, os transtornos da personalidade categóricos
permanecem praticamente inalterados em relação à última
edição. Contudo, um modelo "híbrido" alternativo é proposto na
Seção III para guiar novas pesquisas, separando avaliações de
funcionamento interpessoal e a expressão de traços de personalidade
patológicos para seis transtornos específicos.
Em resumo, as alterações do DSM-5-TR consistem em pequenos
ajustes. Não se trata de um DSM-6, mas de uma revisão do DSM-5.
No entanto, é importante lembrar que: quando um novo
manual é lançado, o antigo fica desatualizado.
105
10 Instrumentos
de avaliação
Conhecer o DSM é importante, pois o levamos em consideração
durante o processo de avaliação diagnóstica. No entanto, um
diagnóstico em saúde mental não é feito apenas através de
checklist de critérios diagnósticos.
Outras etapas são muito importantes e a principal delas é a que
envolve a entrevista, que será apresentada na próxima aula.
Além disso, é possível utilizar fontes complementares como é o caso
dos instrumentos de avaliação que auxiliam na avaliação de sinais e
sintomas.
106
Escalas livres
Transtorno Bipolar
• Mood Disorder Questionnaire (MDQ) - rastreio da sintomatologia
• Young Mania Rating Scale (YMRS) - avalia a severidade dos sintomas
maníacos
• Bipolar Depression Rating Scale (BDRS) - avalia os sintomas
depressivos e estados mistos em pacientes com Transtorno Bipola
TOC
• Brown Assessment of Beliefs Scale (BABS) ou a Nepean Beliefs Scale
(NBS) - quantifica a capacidade de insight do paciente
• Inventário de obsessões e compulsões (OCIR)
• Y BOCS - Yale Brown Obsessive Compulsive Scal
Depressão
• Escala de Depressão de Hamilton (HAD) - avaliação da
severidade dos episódios depressivos.
Ansiedade social
• Escala de Ansiedade Social de Liebowitz (LSAS) - Avalia como a
ansiedade social desempenha um papel em uma variedade de
situações
• Escala de Ansiedade Social - Reduzida (SPS-6) - Mensura e rastreia o
Transtorno de Ansiedade Social
107
TAG
• Inventário fatorial de personalidade revisado Escala de Ansiedade de
Hamilton - Avalia a gravidade dos sintomas ansiosos
• Escala Beck (BAI) - Avalia sintomas como nervosismo, tontura,
incapacidade de relaxar etc. De uso exclusivo por psicólogos
• Escala Hospitalar de Ansiedade e Depressão (HADS) - Rastreia
ansiedade clinicamente significativa e sintomas depressivos em
pacientes internado
Testes específicos -
exclusivos do psicólogo
• WISC-IV e WAIS-III - avalia a função psíquica composta inteligência
• FDT – Five Digit Test - velocidade de processamento da atenção e
controle inibitório
• Teste de Trilhas Coloridas - avalia atenção
• Trail Making Test - avalia a atenção (Parte A) e a flexibilidade mental e
a capacidade de alternar entre categorias cognitivas
• RAVLT - detecta problemas de memória, em demência e em pré-
condições de demência
• BVMT - Memória episódica visuoespacial
108
Outras escalas úteis
• Inventário Fatorial de Personalidade revisado
- teste que avalia a personalidade a partir dos 5 grandes fatores
- Big Five.
• BFP- Bateria fatorial de personalidade
• Inventário de habilidades sociais
• Escala para avaliação de tendência a agressividade
• Escala de avaliação de impulsividade
• Escala de desregulação emocional
• Escala de desesperança BECK - BHS
• Escala de ideação suicida BECK - BSS
• Inventário de ansiedade BECK - BAI
• Inventário de depressão de BECK- BDI II
• Escala OQ-45 - serve para mensurar a evolução do paciente no
tratamento.
Atenção: nenhuma dessas escalas ou testes substitui
a entrevista clínica na avaliação do paciente.
109
Para considerar...
O DSM tem suas limitações e isso está escrito no manual,
inclusive. Ele não tem a proposta de ser perfeito, de abarcar
tudo e de resolver todas as questões.
Muitas das críticas que são feitas passam pela não
compreensão do que é o manual. Não é o ideal, mas é o
melhor que temos até o momento.
Ainda não encontramos uma forma melhor de agrupar os
transtornos mentais, então por enquanto seguimos com essa.
110
ESPECIAL 5 ANOS
AULA 4
Entrevista
Diagnóstica
NA PRÁTICA!
111
SEMANA DA PSICOPATO 2024 E-BOOK EXCLUSIVO
O que você vai
encontrar nessa aula:
1 Desafios do diagnóstico em saúde mental
2 A importância do relato do paciente
3 Tipos de entrevista clínica
4 Entrevista inicial x entrevista psicológica
5 As 10 etapas da entrevista diagnóstica
6 Requisitos para uma boa entrevista
112
1 Desafios do diagnóstico
em saúde mental
O objetivo do diagnóstico em saúde mental é o mesmo que em
qualquer outra área da saúde: servir de norte para a condução do
tratamento.
Porém, muitos desafios envolvem esse processo e alguns deles são
O diagnóstico é subjetivo e depende da
observação do profissional
Como não temos marcadores biológicos, a avaliação diagnóstica
depende da observação do profissional e do que o paciente relata
ou apresenta.
Ausência de sintomas patognomônicos
Em saúde mental não há sintomas exclusivos de cada transtorno
mental. Um mesmo sintoma pode fazer parte de vários diagnósticos.
Entre os transtornos mentais a sintomatologia é compartilhada.
Relato do paciente
Durante o processo de avaliação, dependemos do relato do paciente
e esse, por sua vez, depende do vínculo, do comprometimento e
engajamento, do tempo de investigação e do recorte feito pelo
paciente. Percebe como são muitas variáveis?
113
A importância do
2 relato do paciente
Em grande parte, o sucesso em uma entrevista vai depender do
relato do paciente e de familiares, em alguns casos. Algumas
variáveis costumam interferir na qualidade desse relato e são elas o
vínculo, alteração das funções psíquicas e o tempo.
O vínculo
O relato depende diretamente da qualidade do vínculo. O paciente
pode escolher recortes para compartilhar com o terapeuta a
depender de como ele se sinta nessa relação.
Porém, a qualidade do vínculo depende de alguns fatores, como:
A condução da entrevista
O modo como uma pergunta é formulada, o tom de voz utilizado, o
olhar, os gestos, tudo isso pode orientar o relato do paciente.
A motivação do paciente
Se o paciente procurou ajuda espontaneamente, pode-se esperar
que ele tenha uma certa preocupação com seu estado e
predisposição maior em colaborar. A situação é diferente quando o
paciente é trazido contra sua vontade.
114
Funções psíquicas que podem
afetar o relato
É muito importante que o entrevistador entenda de psicopatologia,
dos transtornos e seja capaz de verificar as funções psíquicas que
podem estar alteradas no paciente, já que isso interfere na qualidade
do seu relato e no seu processo de avaliação.
O relato estará comprometido se o paciente apresentar alterações no
juízo de realidade, no pensamento, consciência e linguagem, por
exemplo. Para isso, o profissional precisa avaliar
Eixo longitudinal: dados referentes à biografia do paciente
Eixo transversal: avaliação do estado mental, relacionado ao
estado mental no momento do exame psíquico do paciente.
115
Tipos de entrevista
3 clínica
A entrevista clínica reúne um conjunto de técnicas de investigação que
tem um objetivo definido: descartar ou confirmar um diagnóstico, por
exemplo.
O objetivo da entrevista é o que irá direcioná-la.
Existem alguns tipos de entrevista e cada um deles tem uma indicação,
bem como limitações. Os tipos de entrevista são: aberta, estruturada e
semi-estruturada.
Entrevista aberta
Na entrevista aberta, o entrevistador não segue um roteiro rígido e
predeterminado, possibilitando que o entrevistado fale o mais livremente
possível. Esse tipo de entrevista nos dá a oportunidade de observar a
organização do paciente, por meio da observação da ordem em que os
assuntos são comunicados, da associação entre eles, das interrupções,
das respostas emocionais etc.
Suas principais limitações são: a dificuldade para formulação de
diagnósticos consistentes, em razão da investigação não sistemática dos
sintomas; o tempo imprevisível e, muitas vezes, longo para a obtenção de
informações e o grau de organização ou desorganização do paciente,
que vai interferir muito nisso tudo.
116
Entrevista estruturada
Na entrevista estruturada, o modo como se obtêm as
informações, a sequência das perguntas e os registros dos
resultados são predeterminados.
São perguntas feitas previamente em uma ordem que não deve ser
modificada, sem muita abertura para novas perguntas.
A principal vantagem desse tipo de entrevista é aumentar a
confiabilidade. Em razão disso, as entrevistas estruturadas são um
importante instrumento para as atividades de pesquisa e estudos
epidemiológicos e são pouco usadas na prática clínica.
Entrevista semi-estruturada
A entrevista semi-estruturada tem um nível de estruturação
mais fluido, a critério do entrevistador e a depender da condição do
paciente. Esse tipo de entrevista possibilita certa flexibilidade na
sequência e/ou no modo de reformular as perguntas.
Ou seja: você tem um roteiro prévio, mas você é livre para adicionar
ou retirar perguntas conforme a necessidade que você for vendo ali
na hora.
117
Regra de ouro da
psicopatologia:
Quanto mais desorganizado estiver o paciente, mais
estruturada deve ser a entrevista.
Além disso, os primeiros contatos com pacientes muito tímidos,
ansiosos ou paranoides devem envolver perguntas mais neutras,
como nome, endereço, profissão, o que gosta de fazer etc. Perguntas
mais quentes e, por vezes mais constrangedoras para o indivíduo,
devem ser feitas gradativamente depois.
118
4 Entrevista inicial x
avaliação psicológica
Uma entrevista inicial é feita no contexto da clínica, do hospital, do
CAPS e o principal objetivo é coletar dados com foco no tratamento.
Ela também faz parte da avaliação diagnóstica, mas essa por sua vez
vai além disso.
A entrevista em psicopatologia faz parte da entrevista clínica e
tem como objetivo coletar dados para fazer uma formulação de caso
que guiará o tratamento do paciente.
Uma avaliação psicológica é um processo diferente, estruturado,
que não visa tratamento, mas visa a emissão de um documento
psicológico: laudo, relatório parecer etc. Para isso, instrumentos
padronizados podem ser utilizados.
De uma forma geral, a avaliação psicológica pode ser definida como
um conjunto de técnicas e procedimentos que tem o objetivo de
verificar determinadas características psicológicas de uma pessoa,
sendo o psicólogo o único profissional habilitado por lei para
exercer essa função, podendo usar testes psicológicos para isso.
119
5 As 10 etapas da
entrevista diagnóstica
A entrevista em psicopatologia possui 10 etapas que
precisam ser seguidas da forma que são apresentadas.
Porém, antes da etapa número um, temos a etapa que chamamos
aqui de etapa zero, pois ela precisa vir antes de todas as demais.
Conhecer essas etapas é muito importante, mas antes disso é
imprescindível saber o que devemos e o que não devemos fazer
durante essa entrevista.
120
O que fazer em uma
entrevista clínica:
DÊ ao paciente uma breve explicação do propósito da entrevista
antes de começar.
USE a visão geral para estabelecer a relação e dar o tom para a
entrevista. Esteja presente com o paciente, demonstrando uma
postura não julgadora, ao mesmo tempo que mostra profissionalismo
e limites adequados.
USE a visão geral para coletar informações sobre os sintomas e o
funcionamento do paciente.
OBTENHA uma visão geral suficiente do estado atual no começo da
entrevista para entender o contexto no qual a condição se
desenvolveu.
USE perguntas abertas para capturar as percepções que o paciente
tem do problema nas próprias palavras dele.
FAÇA perguntas com intuito de esclarecimento para extrair detalhes
nas palavras do próprio paciente. Por exemplo:
“Você pode me falar sobre isso?” ou “Você quer dizer que...?”.
121
O que não fazer em uma
entrevista clínica:
NÃO peça desculpas pelas perguntas que está fazendo ou pela
extensão da entrevista.
NÃO deixe que os pacientes desafiadores tomem o controle da
entrevista.
NÃO deixe os indivíduos serem desnecessariamente tangenciais.
Redirecione aqueles que fornecem informações desnecessárias para
a conclusão da entrevista diagnóstica.
NÃO seja defensivo com pacientes que são irritados ou hostis. Use
declarações reflexivas para demonstrar empatia.
NÃO ignore os relatos de sofrimento do paciente. Demonstre empatia
enquanto mantém uma postura objetiva.
NÃO faça perguntas detalhadas.
NÃO faça perguntas tendenciosas. Mantenha-se aberto para formular
hipóteses. Use perguntas fechadas de forma moderada.
NÃO use a entrevista como uma lista de verificação ou um teste de
falso ou verdadeiro.
NÃO chame uma crença religiosa subculturalmente aceita ou uma
ideia supervalorizada de delírio.
NÃO confunda ruminações ou obsessões com alucinações auditivas.
122
Com essas considerações em
mente, vamos às etapas de uma
entrevista em psicopatologia.
Etapa 0: Estabelecimento do Rapport
Acolhiment
Validação
Etapa 1: Dados Demográficos e História Pessoa
Nome, idade, sexo, estado civil, ocupação etc
História educacional e familiar
História médica e psiquiátrica pessoal, incluindo qualquer
diagnóstico prévio e tratamentos anteriores
História de desenvolvimento, eventos traumáticos ou estressantes
na vida do paciente.
Observação sobre essa etapa:
Essas informações normalmente são coletadas em um contato inicial
com o paciente. Algumas delas constam na ficha de inscrição do
paciente e as demais fazem parte da entrevista de anamnese.
123
Etapa 2: Queixa Principa
Uma descrição detalhada do motivo pelo qual o paciente está
buscando ajuda psicológica
Quando começaram os sintomas, sua gravidade e como têm
impactado a vida do paciente.
Observação sobre essa etapa:
É muito importante que as anotações realizadas durante a entrevista
sejam feitas utilizando as palavras do próprio paciente, mesmo que
pareçam sem sentido.
O mesmo vale para as informações coletadas com o acompanhante, no
caso de paciente psicótico ou desorganizado. Além disso, é válido
sempre fazer resumo do que o paciente relatou. Essa é uma forma de
ajudar o entrevistador a entender melhor o que foi dito e reforça o
vínculo, pois o paciente se sente ouvido e compreendido.
Etapa 3: História da Doença Atua
Detalhes sobre os sintomas atuais do paciente, incluindo sua
natureza, duração e padrão de ocorrência
Fatores desencadeantes e situacionais associados aos sintomas
Como os sintomas afetam as diferentes áreas da vida do paciente
(trabalho, relacionamentos, hobbies etc.).
Etapa 4: História Psiquiátric
História de transtornos psiquiátricos na família
História de doenças mentais anteriores do paciente
Uso de substâncias psicoativas (álcool, drogas, medicamentos).
124
Etapa 5: História do Desenvolviment
Marcos importantes do desenvolvimento infantil, como marcos
motores, linguísticos, sociais e emocionais
Eventos significativos durante a infância e adolescência que possam
ter impactado o desenvolvimento emocional do paciente.
Observação sobre essa etapa:
Se o paciente se mostrar resistente para trazer dados sobre sua história
de vida ou relatar não se lembrar de nada que mereça ser compartilhado,
não devemos insistir.
Isso pode acontecer porque o paciente não se lembra ou porque o
vínculo ainda não é suficiente. Assim, vamos investigar coisas básicas ao
invés de insistir e comprometer mais ainda o vínculo.
Etapa 6: Avaliação do Humor e do Afet
Exploração dos estados de humor atuais do paciente (tristeza,
ansiedade, irritabilidade etc.)
Avaliação do afeto, ou seja, a expressão emocional do paciente
durante a entrevista (apático, eufórico, deprimido etc.).
125
Etapa 7: Avaliação do Pensamento e Cogniçã
Exame da clareza do pensamento, coerência, lógica e organização
das ideias
Investigação de pensamentos intrusivos, obsessões, compulsões,
delírios ou alucinações.
Observação sobre essa etapa:
Aqui nessa etapa você pode investigar pontos que julgue necessários.
Alguns exemplos de perguntas que podem ser feitas a depender da
demanda são
Ansiedade psíquica: você está preocupado com alguma coisa?
Você tem se sentido tenso ou ansioso durante a maior parte do
tempo? (Quando se sente assim, você consegue saber por quê? De
que maneira as suas ansiedades ou preocupações afetam o seu dia a
dia? Existe algo que ajude a melhorar essa sensação?
Sentimentos de culpa: nos últimos dias, você tem se sentido um
peso para sua família ou colegas? Você tem se sentido culpado por
alguma coisa feita no passado? Você acha que o que você está
passando agora é um tipo de castigo? (Por que você acha isso?
Humor deprimido: como tem estado o seu humor (alegre, triste,
irritável)? Você acredita que pode melhorar? (Como esse sentimento
tem afetado o seu dia a dia?
Desconfiança: você está com a impressão de que as outras pessoas
estão falando ou rindo de você? (De que maneira você percebe isso?)
Você tem achado que tem alguém com más intenções contra você
ou se esforçando para lhe causar problemas? (Quem? Por quê?
Como você sabe disso?)
126
Autoestima exagerada (hostilidade): nos últimos dias, você tem se
sentido com algum talento ou habilidade que a maioria das pessoas
não tem? (Como você sabe disso?) Você acha que as pessoas têm
inveja de você? Você acredita que tenha alguma coisa importante
para fazer no mundo? Nos últimos dias, você anda impaciente ou
irritável com as outras pessoas? (Conseguiu manter o controle?
Tolerou as provocações? Chegou a agredir alguém ou a quebrar
objetos?
Conteúdo incomum do pensamento (preocupação somática):
você acredita que alguém ou alguma coisa fora de você esteja
controlando seus pensamentos ou suas ações contra sua vontade?
Você tem a impressão de que o rádio ou a televisão mandam
mensagens para você? Você sente que alguma coisa incomum
esteja acontecendo ou está para acontecer? Você sente que tem
alguma coisa incomum acontecendo no seu corpo ou cabeça?
Etapa 8: Avaliação do Comportamento e da Atitud
Observação do comportamento não verbal do paciente (postura,
gestos, expressão facial)
Avaliação da atitude do paciente em relação à entrevista (cooperação,
resistência, abertura)
É de crucial importância que o terapeuta faça sua própria avaliação
quanto ao paciente ser ou não psicótico.
Observação sobre essa etapa:
Essa etapa depende da observação do entrevistador e não de perguntas
feitas ao paciente.
127
Etapa 9: Avaliação do Risc
É fundamental que seja capaz de determinar rapidamente se o
paciente é um suicida
Exploração de qualquer risco imediato de suicídio, autolesão,
violência contra os outros ou comportamento de risco
Avaliação do sistema de apoio social do paciente.
Para isso:
Faça perguntas claras sobre o risco de suicídio. Não tenha medo de
perguntar
O paciente já teve ideação, plano, tentativas de suicídio? Qual
método? E comportamento autolesivo não suicida? Qual método
Caso o paciente apresente risco, é necessário realizar uma
avaliação completa do risco e encaminhar imediatamente para um
psiquiatra
É fundamental que o profissional seja capaz de determinar
rapidamente se o paciente é um paciente suicida ou não.
Nessa etapa também deve ser explorado qualquer risco imediato
de suicídio, autolesão, violência contra os outros ou
comportamento de risco
Aqui também deve-se avaliar o sistema de apoio social do paciente.
Observação sobre essa etapa:
Nessa etapa, é preciso ficar atento a discursos que são disfarçados,
como “eu queria dormir e não acordar”, ou “eu já passei as senhas do
banco para minha esposa” ou ainda “a vida não tem mais sentido, o
que eu estou fazendo aqui, queria que Deus me levasse". A avaliação
de risco suicida acontece na etapa 9, mas ela precisa ser revista
constantemente.
128
Etapa 10: Conclusão e Formulação Preliminar
Resumo dos principais pontos discutidos durante a entrevista.
O feedback recíproco é importante para estabelecer:
(a) se o terapeuta compreende o problema do paciente
(b) se o paciente compreende o que diz o terapeuta.
O terapeuta resume a narrativa do paciente ou detecta os
problemas principais. Por exemplo: transcorrido um terço da
entrevista inicial, sintetiza o problema do paciente e checa se
entendeu corretamente
Formulação preliminar dos diagnósticos diferenciais e
hipóteses de trabalho
Discussão sobre os próximos passos do tratamento, incluindo
possíveis intervenções e encaminhamentos necessários.
129
6 Requisitos para uma
boa entrevista
É importante destacar que os detalhes da entrevista podem variar
dependendo do contexto clínico, das preferências do terapeuta e
das necessidades específicas do paciente.
Além disso, um objetivo terapêutico primordial na primeira entrevista -
além de coletar dados - é a produção de pelo menos algum alívio de
sintomas ou redução do sofrimento.
Além de coletar dados, a entrevista precisa
proporcionar alívio do sofrimento.
Além disso, é preciso considerar a necessidade de fazer adaptações
com relação a forma de comunicação a depender do público
(criança, adolescente, adulto e idoso) e do contexto (clínica, CAPS,
hospital).
A estrutura da entrevista se mantém, ou seja, as informações que
precisam ser coletadas se mantêm, mas a forma de coletar, de se
comunicar, sofre alteração por adaptação ao contexto.
130
Assim, de forma resumida, esses são os 10 passos em
uma entrevista diagnóstica
Dados Demográficos e História Pessoa
Queixa Principa
História da Doença Atual (HDA
História Psiquiátric
História do Desenvolviment
Avaliação do Humor e do Afet
Avaliação do Pensamento e Cogniçã
Avaliação do Comportamento e da Atitud
Avaliação de Risc
Conclusão e Formulação Preliminar
Na prática, tenha em mente 4 pontos
Qual é o problema (queixa principal)? Qual o impacto disso na vida do paciente
Como e por que o paciente desenvolveu esse problema? E por que agora?
Como eu resolvo o problema?
Quais são os recursos necessários? Terapia? Qual é o padrão-ouro para essa
demanda? É necessário o uso de medicação psiquiátrica? Se sim, encaminhar.
Para isso, 5 habilidades são necessárias
Capacidade de coletar bem os dado
Saber sintetizar os tipos de informações coletada
Saber fazer o exame psíquic
Saber sintetizar e formular hipótese
Criar um plano de manejo/tratamento
Entrevista é treino, mas humanidade não se treina. Seu
paciente não é um dado a ser desvendado, é uma pessoa que
precisa ser acolhida e ter seu sofrimento amenizado.
131
ESPECIAL 5 ANOS
AULA 5
5 Passos para um
DIAGNÓSTICO
ASSERTIVO
em Psicopatologia
132
SEMANA DA PSICOPATO 2024 E-BOOK EXCLUSIVO
O que você vai
encontrar nessa aula:
1 O que é diagnóstico?
2 O que é um diagnóstico diferencial?
3 Comorbidade x especificador
Passos para realizar um bom
4
diagnóstico diferencial
5 Algoritmo para diagnóstico diferencial
6 Diagnóstico diferencial entre transtornos
133
1 O que é
diagnóstico?
O diagnóstico é a habilidade de distinguir ou decidir. Serve para
identificar condições mórbidas nos pacientes.
Quanto mais preciso, melhor; quanto mais amplo, mais impreciso. Na
elaboração, são considerados sinais observados e sintomas relatados
pelo paciente.
A formulação do diagnóstico envolve hipóteses testadas até a
decisão clínica ser concretizada.
No diagnóstico diferencial, o profissional não pode chutar; precisa
saber com segurança.
134
O que é um diagnóstico
2 diferencial?
O diagnóstico diferencial é uma prática crucial na identificação de
transtornos mentais. Consiste em uma avaliação minuciosa dos
sintomas compartilhados por diferentes condições, a fim de
determinar o diagnóstico mais provável. Isso é especialmente
desafiador na psicopatologia, onde muitos transtornos têm sintomas
sobrepostos.
Ao nos depararmos com um paciente e seus sintomas apresentados,
o trabalho inicial é selecionar os transtornos que poderiam estar
relacionados. Por exemplo, para sintomas como humor deprimido e
fadiga, a lista de possibilidades pode incluir Transtorno Depressivo
Maior, Transtorno Bipolar, entre outros.
Uma vez estabelecida uma lista de diagnósticos diferenciais, o
próximo passo é coletar informações adicionais, como histórico
pessoal, observações de terceiros, registros médicos e exames
laboratoriais. Esses dados ajudam a refinar a lista de diagnósticos
diferenciais até chegarmos ao diagnóstico mais provável.
É importante manter a mente aberta para a possibilidade de novas
informações alterarem o diagnóstico ao longo do tratamento. Por
exemplo, um diagnóstico inicial de Transtorno Depressivo Maior pode
evoluir para Transtorno Bipolar se novos dados revelarem episódios
maníacos anteriores não relatados.
135
3
Comorbidade x
especificador
A comorbidade refere-se à presença de dois ou mais transtornos
em um mesmo paciente. Isso significa que os transtornos
coexistem e podem exigir abordagens de tratamento específicas
para cada um.
Já o especificador é um elemento que descreve características
específicas de um transtorno. Pode ser usado para indicar a
gravidade, circunstâncias específicas de início ou sintomas
adicionais associados.
A diferença crucial entre especificador e comorbidade reside na
intensidade e gravidade dos sintomas. Comorbidade requer que os
critérios para cada transtorno sejam atendidos de forma significativa,
enquanto especificadores são usados para detalhar características
específicas do transtorno.
136
Passos para realizar
4 um bom diagnóstico
diferencial
O diagnóstico diferencial é uma etapa crucial na prática clínica,
por isso os clínicos precisam dominá-lo.
São 5 os passos para um bom diagnóstico diferencial. Esses passos
são amplamente reconhecidos na literatura científica e ajudam a
identificar com precisão os transtornos subjacentes.
Vejamos cada um deles a partir da página seguinte:
137
Passo 1: Excluir Transtorno Factício
O primeiro passo é descartar a possibilidade de que o paciente
esteja simulando sintomas para obter atenção ou vantagens
específicas.
Passo 2: Excluir Uso de Drogas e Substâncias
Em seguida, é essencial investigar se o paciente fez uso de drogas,
medicamentos ou outras substâncias que possam estar
influenciando seus sintomas.
Passo 3: Excluir um Transtorno Devido a
Condição Médica Geral
Devemos considerar se os sintomas podem ser atribuídos
a uma condição médica subjacente, como problemas de
tireóide ou infecções.
138
Passo 4: Determinar o Transtorno Primário
Específico
Após excluir essas possibilidades, o próximo passo é identificar o
transtorno primário que melhor explica a sintomatologia
apresentada pelo paciente. Isso é fundamental para fornecer um
tratamento adequado. Nesse passo também diferenciamos
Transtorno de Adaptação e Outras Condições Especificadas e não
Especificadas Residuais.
Passo 5: Estabelecer Limites com a Existência
de um Transtorno Mental
Por fim, é importante distinguir entre comportamentos considerados
normais e aqueles que indicam a presença de um transtorno mental.
Isso requer uma avaliação cuidadosa para determinar se os
sintomas estão causando sofrimento significativo ou prejudicando o
funcionamento do indivíduo.
139
5
Algoritmo para
diagnóstico diferencial
Problemas comportamentais
em adolescentes
Quando um adolescente apresenta comportamentos disruptivos como brigas,
confusões, xingamentos e violações da lei, a avaliação começa pelo uso de
substâncias, que é frequentemente considerado antes de transtornos de
comportamento como Transtorno de Conduta
Se o uso de substâncias é descartado, considera-se se os comportamentos
ocorrem no contexto de explosões de raiva desproporcionais, acompanhadas
de irritabilidade constante. Se sim, explore a possibilidade de Disruptivo da
Desregulação do Humor
Se não, questione se há sintomas persistentes de hiperatividade,
impulsividade e desatenção que começaram antes dos 12 anos e aparecem
em múltiplos ambientes. Se confirmado, investigue TDAH
Se não, analise se há um padrão de questionamento e desafio à autoridade.
Se sim, e se isso é persistente e incomum para o estágio de desenvolvimento,
considere Transtorno de Conduta ou Transtorno de Oposição Desafiante
Se comportamentos ocorrem com movimentos estereotipados e déficits
persistentes na comunicação e interação social, pense em Transtorno do
Espectro Autista (TEA).
140
Distratibilidade
Se um paciente apresenta queixas de falta de concentração e desatenção, o
algoritmo inicia pela consideração do uso de substâncias ou efeitos colaterais de
medicamentos como benzodiazepínicos
Se descartado uso de substâncias ou medicamentos, avalie se é
decorrente de condições médicas gerais com alterações da consciência. Em
idosos, pode indicar Delirium
Se o paciente é jovem e sem alteração de consciência, considere se há
incapacidade de filtrar estímulos e sintomas de humor elevado ou deprimido,
podendo indicar Transtorno Bipolar ou Depressivo Maior
Se não há sintomas de humor ou psicóticos, mas há persistência de
desatenção, impulsividade e/ou hiperatividade, TDAH torna-se uma hipótese
viável.
Alucinações auditivas
Ao enfrentar um caso de alucinações auditivas, comece verificando se pode ser
um comportamento factício ou decorrente do uso de substâncias ou
medicamentos
Se houver uso de substâncias e alteração da consciência, pense em
Delirium
Se houver uso de substâncias sem alteração da consciência e
alucinações graves, investigue transtorno psicótico induzido por substâncias
Se não há uso de substâncias, avalie condições médicas, especialmente em
idosos
Se não há outras condições médicas e as alucinações não são
culturalmente aceitas, analise a possibilidade de transtornos de humor ou
transtornos conversivos
Se as alucinações são acompanhadas de outros sintomas psicóticos
persistentes por mais de 1 mês, considere transtornos como
Esquizofreniforme ou, se mais duradouros, Esquizofrenia.
141
Ansiedade
A ansiedade é uma das queixas mais frequentes em contexto clínico.
Quando um paciente se apresenta com ansiedade, é fundamental não
assumir imediatamente um diagnóstico, como o Transtorno de Ansiedade
Generalizada (TAG), sem uma análise detalhada.
Ao se deparar com um paciente ansioso,
Muitos jovens, por exemplo, usam psicoestimulantes como Ritalina ou Venvanse
sem prescrição médica, buscando melhorar o desempenho nos estudos.
é importante investigar o uso de substâncias
Essas substâncias podem causar efeitos colaterais como taquicardia e tremores,
que são sintomas ansiosos. Além disso, o consumo excessivo de cafeína
também pode provocar ansiedade em indivíduos sensíveis.
ou medicamentos.
Verificar condições médicas, como disfunções na tireoide, também é essencial.
Tipos de Transtornos de Ansiedade:
Se após descartar fatores externos os sintomas persistirem, considere os
seguintes cenários
Ataques de Pânico: se a ansiedade surge abruptamente e atinge um
pico de intensidade rapidamente, pode ser um indicativo de Transtorno
de Pânico, especialmente se os ataques são frequentes e disruptivos
Agorafobia: se a ansiedade é desencadeada em situações onde é difícil
encontrar rotas de fuga, como em pontes ou lugares lotados
Transtorno de Ansiedade Social: se a preocupação central é o medo de
passar vergonha ou ser julgado em situações sociais
Fobia Específica: se o medo é ligado a objetos ou situações específicas,
como elevadores ou insetos
Transtorno de Ansiedade de Doença (anteriormente hipocondria): se há
uma preocupação persistente e irracional de estar doente, com
preservação do insight
Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC): se há pensamentos
recorrentes e intrusivos que são vivenciados como indesejáveis e causam
ansiedade significativa.
Depressão e ansiedade:
Caso a ansiedade esteja acompanhada de profunda tristeza, pode ser um
indicativo de Transtorno Depressivo Maior com Sintomas Ansiosos.
142
Autolesão Não Suicida
Frequentemente associada ao Transtorno da Personalidade Borderline, a
autolesão também deve ser considerada em outros contextos, como mania
no Transtorno Bipolar, especialmente se ocorrer em um estado de humor
elevado.
Avaliar sempre outras condições psicóticas ou de personalidade antissocial,
especialmente se há comportamentos agressivos contra terceiros.
143
6 Diagnóstico diferencial
entre transtornos
- Diagnóstico Diferencial entre Bipolar
e Esquizofrenia e Esquizoafetivo
A confusão entre Transtorno Bipolar Tipo 1 e Esquizofrenia muitas vezes
ocorre devido à presença de sintomas psicóticos em ambos.
No entanto, há características distintivas
Esquizofrenia: marcada por delírios persistentes, alucinações,
desorganização verbal e comportamental, e sintomas negativos, como
embotamento afetivo e dificuldade em compreender metáforas
Bipolar: os sintomas psicóticos ocorrem exclusivamente durante
episódios de alteração de humor e tendem a resolver com a
estabilização do humor.
Para distinguir, é crucial conhecer a história clínica do paciente
e observar a evolução dos sintomas com a melhora do
episódio de humor
Transtorno Esquizoafetivo
O Transtorno Esquizoafetivo apresenta sintomas de transtornos de humor
junto com características da Esquizofrenia, com sintomas psicóticos que
persistem mesmo após a resolução dos sintomas de humor.
144
- Diagnóstico Diferencial entre Bipolar
e Transtorno da Personalidade
Borderlin
Transtorno da Personalidade Borderline (TPB): esse transtorno da
personalidade é marcado por instabilidade nos relacionamentos, na
imagem de si mesmo e na afetividade. Uma característica central é o
medo intenso de abandono.
A principal diferença entre esses dois transtornos é que no TPB, a
instabilidade afetiva é mais reativa e ligada ao contexto interpessoal,
enquanto no Transtorno Bipolar, as alterações de humor podem
ocorrer sem um gatilho externo claro e são mais episódicas.
- Diagnóstico Diferencial entre
Esquizofrenia e TOC
Esquizofrenia e Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) podem parecer
similares devido à presença de pensamentos intrusivos no TOC, que
podem ser confundidos com delírios ou alucinações típicos da
Esquizofrenia.
Contudo, a principal diferença reside na capacidade de crítica dos
pacientes. No TOC, os pacientes geralmente reconhecem que seus
pensamentos obsessivos e compulsões são irracionais ou exagerados,
embora não consigam controlá-los. Já na Esquizofrenia, essa crítica está
frequentemente ausente, e os delírios ou alucinações são vivenciados
como reais.
145
- Diagnóstico diferencial entre
Transtorno Depressivo Maior e
Transtorno Depressivo Persistente
O Transtorno Depressivo Maior é caracterizado por episódios de
depressão severa que duram pelo menos duas semanas, incluindo humor
deprimido, perda de interesse ou prazer, e outros sintomas como
alterações significativas no peso, sono, e energia.
O Transtorno Depressivo Persistente é menos intenso porém mais crônico,
com sintomas persistentes de tristeza ou humor depressivo na maior parte
do dia, por um período mínimo de dois anos.
O Transtorno Depressivo Persistente é muitas vezes considerado uma
característica de personalidade devido à sua natureza persistente, com
pacientes frequentemente apresentando irritabilidade e pessimismo como
traços constantes.
146
Diagnóstico diferencial entre episódio
depressivo no Transtorno Bipolar e
Transtorno Depressivo Maior
A depressão vivenciada em ambos os contextos pode ser muito
similar, mas a diferenciação é feita pela história clínica do paciente. No
Transtorno Bipolar, episódios de mania ou hipomania são evidências-
chave, enquanto no Transtorno Depressivo Maior não existem tais
episódios.
Especificadores no Transtorno Depressivo Maior
Existem especificadores que ajudam a detalhar o diagnóstico do
Transtorno Depressivo Maior, como a presença de sintomas
ansiosos, características psicóticas, catatonia, início no periparto e
padrão sazonal.
Comorbidades da Depressão
A depressão pode coexistir com uma variedade de outros
transtornos, como ansiedade, uso de substâncias, pânico, TOC,
anorexia, bulimia e Transtorno da Personalidade Borderline. O
especificador ansioso na depressão é usado quando os sintomas
ansiosos são presentes mas não intensos ou frequentes o suficiente
para justificar um diagnóstico separado de Transtorno de Ansiedade.
147
Diagnóstico diferencial entre TAG x
TOC e TAG x Transtorno de Pânico
O TAG é caracterizado por ansiedade e preocupação excessivas,
com dificuldade em controlar a preocupação, acompanhadas de
sintomas como tensão muscular, inquietação e irritabilidade,
persistindo por pelo menos seis meses.
O TOC é diferenciado do TAG pelos pensamentos intrusivos
obsessivos, que são mais intensos e persistentes, comparados às
preocupações mais generalizadas do TAG. O TAG pode incluir
ataques de pânico, mas estes não são tão frequentes ou imotivados
como no Transtorno de Pânico.
Diagnóstico diferencial entre
TAG e TDAH
Embora o TAG e o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade
(TDAH) sejam diferentes em suas características principais, eles
podem interagir na medida em que a ansiedade e preocupação do
TAG afetam a concentração, podendo confundir-se com a
desatenção típica do TDAH.
No entanto, a desatenção no TDAH está mais relacionada à
dificuldade em manter o foco devido à atração por estímulos
externos ou novidades.
148
Diagnóstico diferencial entre
o Transtorno da Personalidade
Obsessivo-Compulsiva (TPOC)
e o TOC
O TPOC é marcado por uma preocupação persistente com ordem,
perfeccionismo e um controle excessivo sobre si mesmo e os outros.
Isso inclui uma dedicação intensa ao trabalho e produtividade,
dificuldade em delegar tarefas e uma abordagem avarenta com
gastos pessoais e alheios.
Os indivíduos com TPOC apresentam rigidez, teimosia e uma
expressão de afeto controlada, geralmente interagindo de forma
formal e séria.
Ao contrário do TOC, o TPOC não envolve obsessões ou
compulsões, como rituais ou pensamentos intrusivos
recorrentes. As semelhanças entre os dois se limitam à rigidez
comportamental, e ambos os diagnósticos podem coexistir no
mesmo indivíduo.
149
Diagnóstico diferencial entre
Transtorno do Espectro Autista (TEA)
e Transtorno de Déficit de Atenção e
Hiperatividade (TDAH)
O TEA caracteriza-se por déficits na comunicação social e na
interação social em diversos contextos, juntamente com padrões de
comportamento repetitivos e restritos.
O TDAH, por sua vez, manifesta-se através de sintomas de
desatenção, hiperatividade e impulsividade, que são inapropriados
para o nível de desenvolvimento do indivíduo e prejudicam seu
funcionamento diário. Embora ambos possam apresentar
dificuldades sociais, as causas são diferentes.
No TEA, o isolamento é devido a dificuldades na comunicação,
enquanto no TDAH é frequentemente resultado da impulsividade
e hiperatividade. Muitos indivíduos com TEA também podem
apresentar TDAH, o que pode causar confusão nos diagnósticos.
150
Diagnóstico diferencial entre
Transtorno da Personalidade
Antissocial e Transtorno de Conduta
O Transtorno da Personalidade Antissocial é aplicado a adultos (18
anos ou mais) e inclui um padrão de desrespeito e violação dos
direitos dos outros, com comportamentos como enganação,
impulsividade, irritabilidade, irresponsabilidade e falta de remorso.
O Transtorno de Conduta é diagnosticado em crianças e
adolescentes e é caracterizado por um padrão de comportamento
que viola as normas sociais e os direitos dos outros, incluindo
agressão a pessoas ou animais, destruição de propriedade e
desonestidade.
A principal diferença entre os dois é a idade dos indivíduos. A
idade é determinante para o diagnóstico; Transtorno de Conduta é
para menores de 18 anos, enquanto Transtorno da Personalidade
Antissocial é para maiores de 18 anos.
151
Diagnóstico diferencial entre
Transtorno Opositor Desafiante (TOD)
e Transtorno de Conduta
O TOD caracteriza-se por um humor irritável e comportamento
desafiante e vingativo. Os sintomas incluem explosões de raiva, baixa
tolerância à frustração e dificuldades de relacionamento.
O Transtorno de Conduta manifesta-se por comportamentos mais
extremos, como crueldade e violação das leis.
O TOD tende a ser menos severo que o Transtorno de Conduta e mais
focado em problemas de desregulação emocional, sem envolver
violações legais graves como as associadas ao Transtorno de
Conduta.
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Diagnóstico diferencial entre
Transtorno da Personalidade
Narcisista e Transtorno da
Personalidade Antissocial
A principal diferença entre esses dois transtornos é que o narcisista
tem menos problemas com a lei, já que se preocupa muito com a sua
imagem.
Os dois têm em comum a falta de empatia, o fato de não se
preocuparem com o sentimento dos outros.
O antissocial rouba e mata, por exemplo, para tirar proveito, por isso
costuma ter muitos problemas com a lei. O narcisista, por sua vez, é
manipulador, mas tem pouco ou nenhum problema com a lei.
Saber realizar um diagnóstico diferencial é imprescindível para
um diagnóstico assertivo, capaz de orientar o melhor tratamento
disponível para a demanda do paciente.
Como qualquer outra habilidade, essa exige treino e uma boa forma
de treinar é através da simulação de situações, como o que foi feito na
aula de hoje.
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FIM!
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