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FARGE - O Sabor Do Arquivoo

Farge arquivo

Enviado por

Rodrigues
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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o SABOR DO ARüUIVO

IT§]J UNIVERSJDADE
DE SÃO PAULO
A rl et te Farge
Reitora Suely Vilela
Vice-reitor Franco Maria Lajolo

led: EDITORA DA UN
IVERSlDADE DE SÃO PAULO
Tra d.u ção
Fá tim a M ur ad

Diretor-presidente Plinio Martins Filho

COMISSÃO EDITOR
IAL
Presidente José Mindlin
ViGe-presídente
Carlos Alberto Barbo
sa Dantas
Adolpho José Melfi
Benjamin Abdala Jún
ior
Ma ria Arminda do
Nascimento Arruda
Né lío Marco Vincen
zo Bizzo
Ricardo Toledo Sil
Diretora Editorial
Editoras-assistente
s
Silvana Biral
va
led:!.
Ma rile na Vizentin
Carla Fer nan da Fom
ana

ç
Copyright © Editions du Seuil, 1989
Collection "La Librairie du XX" Siec!e'; sous la direction de Maurice Olender

SUMÁRIO

_r

Ficha catalográJica elaborada pelo Departament o


Técnico do Sistema Integrado de Bibliotecas da USP
Farge, Arlette

O Sabor do Arquivo I Arlette Farge; tradução Fátima Murad.


São Paulo :Editora da Universidade de São Paulo, 2009.
120 p. j 21 em.

Título Original: Le gout de l'archive


ISBN 978-8S-314·ll67-o
Milhares de Vestígios ........ . . ........ . 9
1. Arquivos. 2. Arquivistica. I. Murad, Fátima. II. Título. Uma Manhã na Biblioteca do Arsenal. . ...... 16

CDDo26 Na Porta de Entrada . ....... . . . ..... 25

Percursos e Presenças ........ ..... . ........ 29


A Cidade Atenta . . . . . . . . . . . . . ...... 29
O Povo em Palavras . . . . . . . 31
Presença Dela . . . . . . . . . . 37
Direitos em língua portuguesa reservados à
O Conflito ...... . ....... 46
Edusp - Editora da Universidade de São Paulo
Av. Prof. Luciano Gualberto, Travessa;, 374
6° andar- Ed. da Antiga Reitoria- Cidade Universitária Ela Acaba de Chegar. ...... 51

1
ossoB-Olo - São Paulo - SP- Brasil
Divisão Comercial: Te!. (u) 3091-4008 I 3091-4150
SAC (u) 3091-2911- Fax (u) 3091-4151 Os Gestos da Coleta ........ ........ ........ .... 57
[Link].c [Link]- e-mail: edusp@[Link] "Despojar ". . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 59
Printed in Brazil 2009 ·1 Jogos de Aproximação e de Oposição . . . . . . . . . . . . . . 65
Recolher. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 66
Foi feito o depósito legal
Armadilhas e Tentações - . . . 70
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1
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1
-
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} ' '
'

-
Falas Captadas . . . . . . . . . . . . . . . . . . ...... ...... .. 79
Sobre o Acontec imento em História. . . . . . . . . . . . . . . 80
Fragmentos de Ética. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 85
MILHARES DE VESTÍ GIOS
O Acidental e o Singular, o Único e o Coletivo . . . . . . . . 89 ./
/,

Sentido e Veracidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 91
Pensar Certas Formas de Expressão Popular. 98

A Sala dos Inventários é Sepulcral.


...... ..... m
Escrever ...... ... .
. ...... .... 117

Verão ou inverno, é sempre gelado; os dedos se entorp e-


cem ao decifrá-lo ao mesmo tempo em que se tingem de
poeira fria no contat o com seu papel pergam inho ou chif-
fon. É pouco legível a olhos mal exercitados ainda que às
vezes venha revestido de uma escrita minuciosa e regu-
lar. Encontra-se sobre a mesa de leitura, geralmente em
pilha, amarrado ou cintado, em suma, em forma de fei-
xe, os cantos carcomidos pelo tempo ou pelos roedores;
precioso (infinitamente) e danificado, manipula-se com
toda delicadeza por medo de que um anódin o princíp io
de deterioração se torne definitivo. Ao primei ro olhar, é
possível saber se já foi ou não consultado, uma única vez
que seja, desde sua conservação. Uma pilha intacta é fácil
de reconhecer. Não por seu aspecto (pode ter-se manti-
do ao abrigo por longo tempo entre porões e inundações,
guerras ou debacles, geadas e incêndios), mas por esse
modo específico de estar unifor memen te recobe rta por
O SABOR DO ARQ Uiv o MILHARES DE VESTÍGIOS

recusa a dissipar-se ao pri- reunido em caixas de pape-


uma poe ira não volátil que se de pele (é mais raro), ou ser
ta depositada pel o tempo. ais classificados po r no me
meiro sopro, fria escama cinzen lão cinza contendo dossiês pen
aquele muito pálido da faixa o arquivista; um a mã o que
Sem out ro vestígio a não ser vergan, e po r ano. O arquivo sup õe
de tecido que a cir cunda e a ret ém em seu meio, bo ra o arquivo judiciário seja,
ent e. / coleciona e classifica, e em
do-a imperceptivelm as bibliotecas ou dep ósi tos
com tod a evidência, em tod as
fico. Aqui será examina- o mais "br uta lm ent e" con-
O arquivo judiciário é especí de arquivos departamentais,
século XVIII, reunido em sé- e guardado em est ado bru -
do som ent e (ou quase) o do servado (isto é, sim ple sm ent
Biblioteca do Arsenal e na a, apenas reu nid o e atado
ries no Arquivo Nacional, na to, sem encadernação, sem cap
nosso trabalho certo mo do está pre par ado
Bib eca
liottor Na cional. Sobre ele assentou-se com o um feixe de palha), de
de his iad or.
para um uso eventual.
a dos manuscritos me - o século XV III necessi-
Ne sse século, ele não tem nad Uso imediato, aquele de que
nuras; é simplesmente um polícia; uso diferido, talvez
dievais com admiráveis ilumi tava para, a alocação de sua
liza par a administrar ci- ela que decide tom ar o ar-
recursos que a mo nar qui a uti inesperado, para aquele ou aqu
reteve com o vestígio de is de dois séculos depois, e
Vil e penalmente, e qu e o tempo quivo como tes tem un ha ma
mas de maneira singular, ivamente em relação a fon-
seu escoamento. Co mo hoje, privilegiá-lo quase que exclus
he registros. Os comissá- ais e tam bém mais direta-
a polícia lavra autos e pre enc tes impressas mais tradicion
rem ete m aos seus superio-
rios e os inspetores de po líd a ;. me nte acessíveis.
delinquentes são submeti- com os textos, nem com
res anotações e relatórios; os O arquivo não se parece nem
tes tem unh as pre sta m seus com os "relatos"', nem com
dos a interrogatórios e as os documentos impressos, nem
ano tam sem pon tua r, con- os diários, e nem mesmo
dep oim ent os a escrivães qu e as correspondências, nem com
século. É disso qu e é feito o em sua materialidade. Por-
forme a ma nei ra fluente do ha com as autobiografias. É difícil
XVIII: da acumulação, fol o como as marés de equinó-
arquivo judiciário do século , inf or- quanto desmesurado, invasiv
sos, interrogatórios ções. A comparação com
sobre folha, de queixas, proces ,, cios, as avalanchas ou as inunda
<>us- a peq uen a e a gl-ande longe de ser fortuitaj
mações e sentel1&•[Link]<ep ,_,.1 fluxos naturais e imprevisíveis
po em qu e os incontáveis surpreende muitas vezes fa-
delinquéncia, ao me sm o tem . ·1 quem trabalha em arquivos se
iciais sob re um a pop ula ção s de mergulho, de imersão, e
relatórios e informações pol • lando dessa viagem em termo
iar e controlar. Tudo isso faz presente; aliás, repertoria-
qu e se busca ativamente vig até de afogamento... o ma r se
nologicamente, mê s após mite essas evocações mari-
for ma pilhas, classificadas cro , do em inventários, o arquivo per
istros com enc ade ma çao divide em fundos; é o no me
mês; po de for ma r tam bém reg nhas na medida em que se sub
entenda-se XVIII, que nar-
evitar o peso das repetições
inúteis, ond e se ler ressas, difundidas no século
1. Parauivo
"arq 2. Os "relatos" são folhas soltas imp
s, curiosidades diversas.
ram fatos do dia a dia, prodigio

&) 03
lO &> 11 03'

\-1 f
O SABOR DO ARQUIVO
MILHARES DE VESTÍGIO S

que se dá a esses colljuntos de doeum entos, ou homog ê-


neos pela naturez a das peças que compo rtam, ou reunidos em que os rejéitados, os miseráveis e os bandid os fazem
pelo simples fato de um dia terem sido doados ou legados a sua parte em uma socied ade vigoro sa e instáveL Sua lei-
por um Particu lar que detinha sua proprie dade. Fundo s de
7 tura provoc a de imedia to um efeito de real que nenhum
arquivos numero sos e amplos, arrima dos nos porões das
Jl I impresso, por mais original que seja, pode suscitar. O im-
bibliotecas, à imagem desses enorme s bancos de roched os \li presso é um texto dirigido intenci onalme nte ao público. É
chama dos de "baixios" no Atlântico, e que só se mostra m organizado para ser lido e compr eendid o por um grande
duas vezes por ano, nas grande s marés. Fundo s de arquivos número de pessoas; busca divulgar e criar um pensam en-
cuja deiinição cientifica felizmente não esgota nem seus to, modificar um estado de coisas a partir de uma históri a
mistéri os nem sua profun dez., "Conju nto de doeum entos, ou de uma reflexão. Sua ordem e sua estrutu ra obedec em a
quaisq uer que sejam suas formas ou seu suport e material, sistemas mais ou menos fáceis de decifrar e, indepe ndente -
cujo crescim ento se deu de maneira Orgânica, automática, mente da aparência que assuma, ele existe para conven cer e
no exercício das atividades de uma pessoa tlsica ou jurídica, transformar a ordem dos conhec imento s. Oficial, ficcional,
privada ou pública, e cuja conservação respeit a esse cresci- polêmico ?U clandestino, difund e-se a grande velocidade
mento sem jamais desmem brá-lo"3• no Século das Luzes, rompe ndo as barreiras sociais, muitas
Nas bibliotecas, os funcion ários (conse rvador es e ar- vezes perseg uido pelo poder real e seu serviço de livrariaS.
quivist as) não se perdem no mar; rekrem -se a ele em nú- Disfarçado ou não, ele é carrega do de intençõ es, sendo que
mero de quilôm etros de estante s que ocupa. É uma outra ·t•r a mais singela e mais eviden te é a de ser lido pelos outros.
fonna de giganti smo ou um jeito astucio so de domá- lo Nada a ver com o arquivo; vestígio bruto de vidas que
que já sinaliza a utopta presen te na vontad e de um dia não pediam absolu tament e para ser contad as dessa maneir a,
apossa r-se dele exaUstivamente. A metáfo ra do sistema e que foram coagidas a isso porque um dia se confro ntaram
métric o cria o parado xo, disposto ao longo das pratele i- cÕm as realidades da polícia e da rel'ressão. Fossem vítimas,
ras, medid o em metros de fita como nossas estradas, ele querelantes, suspeitos ou delinqu entes, nenhu m deles se
[Link].s:ituação de ter justifi-
parece iniinito , talvez até indeciií-ável. Seria possiv eller
uma estra-da, ainda que ela fosse de papel ?4 car-se diante de uma polícia pouco afável. Suas palavras são
Descon certant e e colossal, o arquivo atrai mesmo as- consignadas uma vez ocorrid o o fato, e ainda que, no mo-
mento, elas tenham uma estratégia, não obedec em amesma
sim. Abre-se brutalm ente para um mundo descon hecido _] operação intelectual que o impresso. Revela m o que jamais
téria sido exposto não fosse a ocorrên cia de um fato social
p. 29.·n, ''
[Link],
> 1986, =ht., T"""'•·" "· jm
Nos Arquivos da França, em 198o, observava-se um crescimento de 75
km ao
4.
ano. Cf.]. André, op. cit., p. 27. S· Nos Arquivos da Bastilha são conservados os incontáveis dossiês de impres-
terem
sores, vendedores ambulantes e empregados de livrarias presos por
fabricado e vendido panfletos e libelos.

ro 12 03'
13 03
'1.) f
O SABOR DO ARQ UIV MILHARES DE VESTÍG
O IOS

pe rtu rba do r. De certo mo polavras (falsificada ou nii


do, revelam um não dito. o, verídica ou na o- esse é
VIdade de um incidente qu Na bre- outro problema), cujos autor uro
e provocou a desordem, ela
s vê m
es, coagidos pelo fato, jamais
explicar, comentar, relata ;,nagUWaDl que pronu
r como "aquilo" pô de aco nciariam UD1 dia. É nesse sen
em suas vidas, entre viz ntecer { C\ue ele obriga a leitura," tido
inhança e trabalho, ru a cativa" o leitor, produz nele
Se qu ên cia cu rta em que, e esc adas. 'li sação de finalmente captar a sen-
a propósito de um a lesão,
de um
o reol. E nao mais de eXaminá
tum ult o ou de um roubo ' lo através do relato sobre, ·
, se erigem personagens, do discurso de.
ba rro ca s e claudicantes, silhuetas Na sce assim o sen tim
cujos hábitos e defeitos log en to ingênuo, po rém pro
co nh ec en do , e cujas boas o sefica do, de romper uro véu, de atr fun -
intenções e formas de vid avessar a opacidade do sab
são detalhados. a às vezes e de chegar, co mo de po er
is de urna lon ga viagem inc
O arquivo é um a bre ch essencial dos seres e da ert a, ao
a no tecido dos dias, a s coisas. O arquivo age
ret raí da de um fato inespe visão de sn ud am en to; en co lhi co rno urn
rado. Nele, tud o se focali do s ern algumas linhas, ap
alg un s ins tan tes de vid za em nã o apenas o inacessível are ce m
a de pe rso na ge ns co mu como tam bé m o vivo. Fr
me nte visitados pela his ns , rara- tos de ve rda de até en tão ag me n-
tória, a não ser qu e um retidos saltam à vista: ofu
da m se un ir em massa dia deci- de nit ide z e de credibilid sca nte s
e co ns tru ir aquilo qu e ma ade.
do arquivo é um !I1Jll)á que Sem dú vid a a de sco be rta
1
se ch am ará de história. is tar de
O arquivo nã o escreve pá se oferece, justifican do plena-
his tór ia. Descreve co m ginas de
as palavras do dia a dia, me nte seu no me : fonte.
mo tom , o irr isó rio e o e no me s- Di fer en te de qu alq ue r
trágico, on de o im po rta outra, a fonte de int err og
ad mi nis tra çã o é saber qu nte pa ra a rios e de testemunhos polic ató -
em são os responsáveis
e co mo iais parece realizar um milag
pu ni- los . Pe rgu nta s e res o de ligar o pa ssa do ao pre re,
postas se sucedem; ca da sente; ao de
scobri-la, tem -se a
ca da au to é um a cena na queixa, impressão de não estar ma
qual se diz aquilo qu e no is trabalhando com os mo
me nte nã o vale a pe na ser rm al- (a história, evidentemente rtos
dito. E me no s ainda esc , é antes de tudo um encontr
po br es não escrevem, ou rit o; os co m a mo rte ), e de qu o
mu ito po uc o, su a biogra e a matéria é tão sutil qu
arq uiv o judiciário, do mí fia (o me sm o tem po a afetivida e req ue r ao
nio do pe qu en o delito de e a inteligência. É um
ser o do gr an de an tes de ção estranha esse sú a sensa-
gu ard a mais inc ide nte s bito eneon>ro com exist ências desco-
de po uc a im po rtâ nc ia do nhecidas, ac ide nta da s e
qu e assassinatos graves, plenas, qu e misturam, co
a ca da pá gin a a vid a dos e exibe para complicar rnais, mo qu e
mais carentes). o pr6xiJJlO (muito próxiJJlO
Es se tip o de arquivo foi ) e o dis-
co mp ara do algumas ve tan te,
co m essas pe qu en as matérias zes Alo defunto.
guém dirá que a descoberta de
cadas po r me io de fios qu jor na lís tic as de sta- ou de um diário íntimO po uma wtobiografia
e inf orm am so bre asp ec de criar efeitos comparáve
litos da vid a das pessoas. tos insó- mas há ainda uma grande is,
O arquivo nã o é um a no diferença. O caderno mais
foi co mp os to pa ra su rpr ta;_,não timo, largado em um can ín-
ee na er, agradar ou inform to de só tão e en co ntr ad
pa ra ser vir a um a polícia ar, ma s séculos depois, su ge re que o alguns
qu e vigia e É a co let a de , apesar de tud o, qu em o
escre-
·Zi1

ro 14 úS 8'D 15 03
O SABO R DO ARQU IVO
MILHARES DE VEST ÍGIOS

rto e acreditava
veu pret end ia de algum mod o ser descobe Um dossiê levemente inflado: abri-lo com
cuidado;
am de ser redi-
que os acontecimentos de sua vida tinh pen dur ado com um alfinete no alto de
uma página, um
te esse caráter: a
gidos6. O arquivo não tem absolutamen saqu inho min úscu lo de pano grosseiro
, con tend o uma
or e o não
test emu §a, o vizilího, o ladrao, o traid J mat éria não identificável à prim eira vist
a. Aco mpa nha o
registro; outr as L I.
cam po relatando
suas -- ----vvn.<aut:S fizeram CO.Q! que con junt o uma cart a de um méd ico do
::.t:us atos e seus pensamentos fosseE: con- à Soc ieda de Real de Medicina que con
hec e uma moça,
Isso mud a tudo, não apenas o conteúdo sincera e virt uos a, de cujos seios bro tam todo s os me-
é escrito, mas tam bémreal a relacão com ele sobretudo a re- pen dura do é a
Ja ão com o efeito de ses golfadas de grãos. O peq uen o saco
não dizer mais invasivo. prov a disso.
dois séculos.
Abrir ou não o que jamais foi aberto em
sso que cavou
Abrir com precaução, retirar o alfinete espe
man chados de
Uma Manhã na Bi'bh"oteca do Arsenal dois grandes buracos na sarja, um pou co
fechar de novo
tual para mão s ferrugem: Mel hor assim, será mais fácil
Pan o sob os dedos: rud e suavidade não habi o saco exatamente como antes, ajustand
o o alfinete aos
Pano branco e
acostumadas até agora ao frio do arquivo. seus vestígios. Alguns grãos escapam, dou
rados como no
berto por uma le-
sólido infiltrado entre duas folhas, reco prim eiro dia; esparramam-se sobre o arqu
ivo amarelado.
e que se trata de
tra bon ita e .firme: é uma carta. Deduz-s Breve raio de sol. Talvez fosse realmente
um pouco dessa
há muito tempo.
um prisioneiro da Bastilha, encarcerado jovem em flor em que acreditava seu méd
ico. Jogo de me-
icante e afetuo-
Ele escreve à sua mul her uma missiva supl táforas, mas tam bém poder surp reen den
te desses grãos
à lavanderia para
sa. Aproveita o envio de suas roupas intactos, tão reais quanto imateriais, supo
stamente o fru-
ioso pelo resul-
intr odu zir entre elas essa mensagem. Ans to de um corp o e ao mesmo tem po uma
das explicações
osta, faça a genti-
tado, ped e à sua lavadeira que, em resp científicas da menstruação •
8

de suas meias
leza de bord ar uma cruzinha azul em uma Nad a mel herp ai'a Jesc:re..ver o efeito de
real que se
izador de que seu
límpas; esse será para ele o sinal tranquil sente do que esses dois objetos enc ontr
ado s acaso na
ao
por sua espo-
bilhete de tecido foi devidamente recebido consulta a dossiês. Sem falar das cartas
de baralho, cujo
pan o diz por si
sa. Enc ontr ado em arquivo, o pedaço de verso serve às vezes para rabiscar con
tas ou ano tar um
azul bord ada
só que evidentemente não houve cruzinha endereço. Nem mesmo os desenhos, ()U
garranchos, nas
na meia limpa do pris ione iro... 7

SRM 179, affaire Anne Barbaroux,


, Paris, Éditions du Seuil, 1975. 8. Bibli otheq ue de l'Académie de médecine,
6. Ph. Lejeune, Le pacte autobiographique e femmes et méde cins. Violences et singu
-
1785. Ct tamb ém J.-P. Peter, "Entr
Arquivos da Bastilha (adiante A. B.),
Biblioteca do Arsenal (adia nte B. A.), s les manu scrits médi caux de la fin du
7.
12057, 8 jul. 1759· larités dans le disco urs du corps d'apre
t 6, n. 3-4-, 1976.
XVIII ' siecle'; Ethnologie française,

ro 16 üS
&) 17 ú3'
t1"íi'f
O SABOR DO AR QU PERCURSOS E PRESEN
IVO
ÇAS

feita de mo do s de socia vin da s de cima nã o têm


bilidade que condizem po de r sobre se u tum ult
pe cto desgrenhado e seu co m seu as- o be m- hu -
s prédios se m segredo. mo ra do ou sarcástico.
O arquivo policial a de
In un da da de gente, ate calcitrante na ma ior pa snuda, re-
nta ao me no r fato, ela rte do tempo, su bm iss
did a mais do qu e o no é sacu- ma s se mp re mu da nd o, a às vezes,
rm al pe la on da de no qu an do o so nh o da po
mo re s qu e a inv ad em tíc ias e ru - lícia seria
to do s os dias. Qp an do l i.J:nobilizá-la defin
int em pé rie s ou acidente ati ngida po r iti va me nte
s, defende-se co m energ O arquivo, de algum .
as agressões. Na tu ra lm ia co ntr a modo, ca pta a cidade
en te sensível aos eventos grante delitoo a driblar a em fla-
qu e po nt ua m se u calen co letivos ordem, por exemplo, rejeit
dário, presta-se de bo a ut op ia dos policiais ou ando
ou co m indiferença, co a vo nta de decidindo, co nf or me os
nf or me o caso, à "aleg aclamar ou hostilizar seu eventos,
rada" das festas da rea ria delibe- s reis, e se su ble va nd o
leza e dos fogos de art se se nti r ameaçada. Ao no caso de
to da mi nú cia de seus reg ifício. Co m ler os registros policiai
se a qu e po nt o a rebelião s, co ns tat a-
ulamentos, os relatório , o desafio ou me sm o a
a de sc rev em or a inq uie s policiais rev olta são
ta, or a febril ou ain da fatos sociais corriqueir
mo str am -n a tam bé m suplicante; os qu e a cid ad e sabe co
impassível ou enfurec nistrar, corno provocar, rno admi-
co m ten ac ida de e vigor ida , reagindo assim corno rec on he ce
a tu do o qu e acontece. facilmente
A cid ad e nã o do rm e, es seus pr im eir os sinais.
tá se mp re à espreita: dis
to do s os me ios pa ra ma põ e de
nifestar su a opinião, bo
so br e o qu e a vi da lh e a ou ruim, O Povo em Palavras
impõe, po is ela dá me do
às pe sso as de be m, aos . Dá me do
viajantes, à polícia e me Eis agora o povo qu e
e gu ard a mi sté rio s sufic sm o ao rei, se apresenta co m seu
ientes pa ra pr od uz ir um rostos: eles são rec or tad s mú lti plo s
de de registros policiai a infinida- os da mu lti dã o, so mb
s ao lon go do século XV sas no s mu ro s da cidad ras ch ine -
tam nã o deixar escapa III qu e ten - e. O arquivo na sc e da
r na da de sua obscurida po r me no r qu e seja; arr de so rd em ,
esse ma ter ial im po ne nt de . Seja po r anca da ob sc ur ida de lon
e, seja po r crônicas de de seres ofegantes, desar ga s listas
ba sti en M erc ier ' ou rel Louis-Sé- ticulados, int im ad os a
atos de Nicolas Ré tif de se explicar
ne>, ela se mo str a esquiv La Breton- pe ra nt e a justiça.
a, ain da qu e es tri tam en Mendigos, desocupado
po r um a [Link]ção te vigiada s, dolentes, ladras ou se
qu e a deseja cristalina agressivos em erg em um du tor es
en tan to, ela é op ac a e e dó cil. No dia da multidão comp
inq uie ta, e é jus tam en dos pe lo po de r que os pe ac ta, fisga-
de m qu e se de sc ob re te su a de so r- rseguiu em me io à sua ag
pr im eir o po r trás da mo bitual, ou po rq ue estav itação ha -
reg ula me nto s inc an sa no to ni a de am onde nã o deviam, ou
ve lm en te reiterados, mê próprios decidiram transgre po rq ue eles
e rar am en te ob ed ec ido s ap ós mês, dir e chama< a atenção, ou
sj a cid ad e ouve mal, vez ser no me ad os , enfim tal-
e as or de ns , diante do poder-1. Os fra
gmentos
1. L.-S Mercier, Tableau 3·
de Paris, Amsterdam, 178 A. Farge, M. Foucault,
Le désordre des familles, les
2, 12 vol.
2. N. Ré tif de La Bretonne, lettres de cachet des Archive
Les nuits de Paris, 2 vol., s
Paris, 193 0. de l.a Bastille, Paris, Galllin
ard, 1982.

80 30 03 80 31 03

. ,r r
O SABOR DO ARQUIVO
PERCURSOS E PRESENÇAS

de vida que jazem ali são breves, mas mesmo ass:im :impres-
Evidentemente, pode-se considerar a possibilidade
sionam: espremidos entre as poucas palavras que os defi-
de trabalhar o arquivo em suas informações palpáveis e
nem e a violência que, de uma hora para outra, os faz existir
seguras, o que é mais comum. As listas de prisioneiros,
para nós, eles preenchem registros e documentos com sua
/ os registros de condenados às galés constituem uma po-
presença. Quando há processos e depois sentenças, estas
pulação à parte, que pode servir de base a uma pesqui-
procuram ser lacônicas: "galés um tempo'; "suspeito de se-
sa. É plenamente legítimo e relevante deter-se por muito
dição'; "enviado à prisão'\ elas revelam não o que está por
tempo em uma categoria particular de delinquentes -la-
trás da situação, mas cenas familiares da vida urbana em que
drões ou assassinos, contrabandistas ou infanticidas -,
a ordem e a desordem muitas vezes se confundem, antes
mesmo de se confrontarem. dado que essa investigação informa tanto a respeito de-
les quanto da sociedade que os condena. O desvio e a
Em geral, o arquivo não pinta os homens por inteiroi
marginalidade dizem muito sobre a norma e sobre o
ele os arrebata de sua vida cotidiana, cristaliza-os em al-
poder político, e cada tipo de delito reflete um aspecto
gumas queixas ou em denegações lamentáveis, espetados
da sociedade.
como borboletas de asas vibrantes, mesmo quando são
Contudo, essa maneira de ler os documentos pela
anuentes. Anuentes que reclamam, em palavras canhes-
confiabilidade de informações palpáveis destitui de sen-
tras e tímidas, e cuja aparente segurança oculta um pâni-
tido tudo o que não é devidamente "verdadeiro", verifi-
co infantil. A menos que sejam safados e respondões, ou,
cável, e que no entanto foi notificado: são essas poucas
pior ainda, gozadores e mentirosos desavergonhados.
frases transcritas, tiradas de interrogatórios e de teste-
O arquivo mexe de imediato com a verdade e com
munhosi aquelas que não se pode nem contabilizar nem
o real: ele impressiona também por essa posição ambí-
classificar, mas que foram ditas um dia e constituíram um
gua em que, ao se desvendar um drama, erigem-se ato-
discurso - por mais mirrado que seja -, no qual estava
res que caíram na rede, cujas palavras ali transcritas talvez
em jogo um destino. Esse discurso precariamente elabo-
encerrem mais intensidade do que verdade. A negativa, a
rado, verdadeiro ou falso, esse destino sus_penso produ-
confissão, a obstinação e o desespero se mesclam indis-
zem emoção, e com isso forçam a inteligência a decifrá-los
sociavelmente, mas nem por isso se pode preservar da in-
mais profundamente no coração daqueles que os autori-
tensidade que essa explosão de vida provoca. Esse traçado
zaram e produziram.
incerto do arquivo, tão prenhe de real apesar de suas pos-
síveis mentiras, induz a reflexão. No discurso, vidas são postas em jogo em algumas fra-
ses, e é por meio das palavras que se assume o risco da vi-
tória ou da derrota. O importante aqui não é mais saber
4. São as denominações das penas sofridas no século XVIII, às qnais se pode se os fatos relatados ocorreram exatamente dessa manei-
acrescentar a do pelourinho, assim como a do banimento, que obriga o de-
linquente a deixar sua província ra, mas entender como se articulou a narrativa entre um
poder que obriga a isso, um desejo de convencer e o uso

&> 32 03
8U 33 0.3
1;1

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O SABOR DO ARQUIVO PERCURSOS E PRESENÇAS h\lJ
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de palavras que se pode tentar descobrir se foram empres- preso, é uma que marca os destinos singula-
tadas ou não de modelos culturais locais5 • res. Assim, mesmo que o discurso feito seja confuso, mis-
A expressão que se retém está contida na essência do turando a verdade com a mentira, o ódio com a astúcia,
sistema político e policial do século XVIII que a governa e , a submissão com o desafio, isso não o compromete em
a produz: Ela mostra a consequência de sua origem, e só I sua "verdade". Talvez o arquivo não diga a verdade, mas
existe, evidentemente, porque uma prática específica de ele diz da verdade, tal como o enteridia Michel Foucault,
poder a engendrou. No enunciado das respostas ou nas isto é, dessa maneira única que ele tem de expor o Falar
explicações verbais apresentadas, esboça-se antes de tudo do outro, premido entre relações de poder e ele mesmo,
a maneira como comportamentos pessoais e coletivos se relações às quais ele se submete, mas que também con-
imbricam (bem ou mal) nas condições estabelecidas pelo cretiza ao verbalizá-las. O que vê aí, nessas palavras espar-
poder. Esses trajetos frágeis, relatados em poucas palavras sas, são elementos da realidade que, por sua aparição em
por mulheres e homens, e que oscilam entre mediocrida- um determinado momento histórico, produzem sentido.
de d genialidade, expõem o funcionamento dos ajustes É sobre sua aparição que é preciso trabalhar) é nisso que
necessários entre eles, o grupo social e o poder. Natural- se deve tentar decifrá-lo.
mente, há mil maneiras de responder quando se é interro- Por trás das palavras expostas nos autos, pode-se ler
gado: todas revelam que o abrigo precário, proporcionado a maneira como cada um procura se posicionar diante de
pelas palavras com as quais cada um constrói sua defesa, um poder coercivo, como cada um articula sua própria
se organiza necessariamente entre as estruturas de poder vida, com êxito ou não, em confronto com a do grupo
existentes e os hábitos contemporâneos de explicação e de social e em relação às autoridades. Para isso, apropria-se,
descrição de fatos. No momento necessário, com pavor ou de forma bem-sucedida ou não, do vocabulário dominan-
resignação, essas vidas nem grandes nem pequenas, que se te, e tenta ser ao mesmo tempo o eco inteligível daquilo
veem frente a frente com a história por meio do universo que pode permitir que o considerem inocente ou o menos
policial, inventam respostas enigmáticas ou incisivas, fru- culpado possível.
tos de sua improvável inserção no sistema social. No arquivo, o relevo se organiza, basta saber lê-loj e
Esses discursos inacabados, que o poder obriga a perceber que existe produção de sentido nesse lugar, mes-
formular, são um dos elementos da sociedade, um dos mo onde as vidas colidem com o poder sem que tenham
pontos que a caracterizam. Que seja preciso se exprimir, optado por isso. É preciso ordenar pacientemente essas
confessar-se ou não, em função de um poder com o qual situações trazidas à luz por esse choque súbito, demar-
se entra em choque, contra o qual se debate, para não ser car as descontinuidades e as distâncias. O real do arquivo
torna-se não apenas vestígio, mas também ordenação de
s. N. Z. Davis, Pour sauver sa vie. Les récits du pardon au XVI' siecle, Paris, Édi- figuras da realidadej e o arquivo sempre mantém infinitas
tions du Seuil, 1988. relações com o real.

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t
O SABOR DO ARQU NO PERCURSOS E PRESENÇAS

Nesse exercício complexo, em que apar legítima qua nto outr as e que pou cos con
ecem rostos - heci am: "Co n-
mes mo que seja m apen as esboços -, insi fesso que essas 'notícias' que surg em de
nua m-s e igual- repe nte rom pen -
men te a fábula e a fabulação, e talvez a do dois séculos e mei o de silêncio mex
capacidade de um eram mais com
ou de. outr o de tran sfor mar tudo em lend meu s nervos do que aquilo que se cost
a, de criar uma uma cham ar de
história ou de fazer de sua vida uma ficçã J
literatura [ ... ) se as utilizei foi sem dúvida
o. O arquivo tam- ;,
por causa dessa
bém informa sobr e essa transformação, vibração que sinto qua ndo me oco rre de
e os mod elos que enco ntra r essas
se adotam, uma vez identificados, acrescen vidas ínfimas que vira ram cinzas nas
tam mais senti- pou cas frases que
do. Narrativa e ficção se entrelaçamj a tram
a é densa e não as abateram" 7•
se deixa ler tão facilmente. Que m tem o sabo r do arquivo proc ura
arrancar um
Pode-se examiná-lo sem pressa e diss sentido adicional dos fragmentos de frase
ecá-lo met icu- s encontradas;
losamente: mas rest a aind a uma outr a cois a emoção é um inst rum ento a mais para
a, algo que não polir a pedra, a
tem nom e e que a exp eriê ncia científica do passado, a do silêncio.
não con segu e ex-
plicar. Aliás, nem acha que é seu pap el
explicá-la, emb ora
esteja diante dela. Trata-se, evid ente men
te, desse adicio-
nal de vida que inun da o arquivo e insti Pres ença Dela
ga o leito r no que
ele tem de mais íntim o. O arquivo é exce A cidade de Paris, o povo e depois rostos
sso de sent ido surgem do arqui-
qua ndo aquele que o lê sent e a beleza, vo; simultaneamente, no grafismo de pala
o asso mbr o e um vras, aparece com
cert o abalo emo cion al. Esse lugar é secr nitidez aquela de que m não se falava por
eto, diferente para se acreditar que
cada um, poré m, em todo itine rári o oco estava sempre subentendida: a mulher.
rrem enc ontr os A neutralidade do
que facilitam o acesso a ele e, sobr etud gênero se rompe e revela crua men te o jogo
o, à sua expressão. de diferencia-
Mic hel Fou caul t foi um desses enco ntro ções sexuais, ainda que isso não fosse uma
s, simples e ao preocupação.
mes mo tem po desc onc erta nte. Ele ama O arquivo fala" dela" e a faz falar. Motivada
va o man uscr ito pela urgê n-
e o arquivo, e che gou a descrever com cia, eis que se imp õe um prim eiro gesto:
o esses text os de recuperá-la com o
pou cos recursos o impressionavam: "Sem quem recolhe uma espécie extinta, uma
dúvida, uma flora desconheci-
dessas imp ress ões que cha mam de 'físic da, fazer seu retrato com o que m repara um
as', com o se pu- esquecimento,
desse haver outr as"6• Com ovid o, ele sabi denunciar seu vestígio com o que m exib
a que a análise e uma mor ta. Ges -
não pod ia dizer tudo , mas tam bém que to útil do colecionador, mas um gesto inco
a emo ção expres- mpleto; tom ar
sada não satisfazia os hist oria dore s, e visível a mul her qua ndo a hist ória se abst
mes mo assim não inha de vê-la im-
descartava essa form a de apre ensã o do põe um corolário: trabalhar sobr e a relaç
doc ume nto tão ão entre os sexos,
fazer dessa relação um objeto da história
.
6. M. Foucault, "La vie des homm es infâm
es", Cahiers du Chemin, n. 29, 15 jan.
1977, p.13.
7· M. Foucault, op. cit.

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O SABOR DO ARQUIVO OS GESTOS DA COLETA

contém1a fim de destacar melhor o que a priori não é per- última não basta1 pelo menos é o solo fértil necessário a
ceptível. A isso se pode retrucar que a impregnação não partir do qual se pode fundar o pensamento. A armadilha
é um método científico1 que a própria palavra é de uma limita-se simplesmente a isso: estar absorvido pelo arqui-
imprecisão bem ingênua1 e que nesse jogo quase infantil . vo a ponto de nem saber mais como interrogá-lo.
podem-se introduzir facilmente na pesquisa erros de in- / A qualquer projeto que se obedece1o trabalho em ar-
terpretação. É evidente. Mas a vontade é responder com quivos impõe necessariamente operações de triagem1 de
uma metáfora1sabendo que isso torna o caso mais grave: separação de documentos. A questão é saber o que triar e
o arquivo parece uma floresta sem clareiras i permanecen- o que abandonar. Acontece às vezes que1em razão de suas
do nele muito tempo1 os olhos se acostumam com a pe- hipóteses, o historiador já tenha escolhido o que iria cole-
numbra1 eles entreveem a orla. tar e separarj sem dúvida1 isso lhe retira disponibilidade1
ou seja1essa aptidão a granjear o que não lhe parece ime-
diatamente necessário e que1mais tarde - nunca se sabe -
Armadilhas e Tentações poderia se revelar indispensável.
Como decidir entre o essencial e o inútil1 o necessá-
Isto vem insensivelmente1 quase sem se dar contaj a pre- rio e o supérfluo1 o texto significativo e um outro que se
dileção pelo arquivo pode adquirir uma dimensão tal julgará repetitivo? Não há bom método para dizer a ver-
que não se desconfia1 não se percebe nem as armadilhas dade1 nem regras estritas a seguir quando se hesita sobre a
que ele lança nem os riscos que se corre ao não lhe impor escolha de um documento. O procedimento se assemelha
uma certa distância. na verdade ao do andarilho'0 1buscando no arquivo o que
Uma vida não seria suficiente para ler a totalidade dos está escondido como vestígio positivo de um ser ou de um
arquivos judiciários do século XVIIIj ao invés de desen- acontecimento1 estando atento simultaneamente ao que
corajar1 essa evidência estimula a vontade de consultá-lo1 foge1 ao que se subtrai e se faz1 ao que se percebe como
inclusive na desordem1 ou mesmo sem objetivo definido. ausência. Presença de arquivo e ausência dele são sinais
Pelo prazer de ser surpreendido1pela beleza dos textos e a pôr em dúvida1portanto em ordem. Por esse caminho
o excesso de vida ofertado em tantas linhas ordinárias. O pouco trilhado1é preciso desconfiar de uma identificação
desejo de não esquecer essas histórias de vida e de corou,. sempre possív:el com os personagens1 as situações ou as
nicá-las não é certamente um defeito grave. Há tanta fe- maneiras de ser e de pensamento que os textos põem em
licidade em acumularuma í[Link] de precisões sobre cena. "Identificação" significa esse modo insensível1 mas
milhares de anônimos desaparecidos há longo tempo que real1que tem o historiador de ser atraído apenas por
quase se esquece que escrever a história depende de um lo que pode reforçar suas hipóteses de trabalho decididas
exercício intelectual em que a restituição fascinada não
basta. Que nos entendamos bem1 apesar de tudo: se esta 10. C. Ginzzburg, C. Poni, "La micro-histoire", Le débat, n. 17, dez. 19811 p. 133.

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,.tt
O SABOR DO ARQUIVO
OS GESTOS DA COLETA

previamente. A menos que se trate desse estranho acaso


tos1 e o arquivo não declina mais tão facilmente os traços
que só se descobre o que se busca e que, milagrosamente, cheios e os finos de um cômodo "era assim porque está es-
parece ajustar-se ao desejo inicial e profundo do historia-
crito", o trabalho pode realmente começar. Buscando pri-
dor. Há mil maneiras dissimuladas de se identificar com
"meiro tudo o que esses textos guardam de improvável, de
um objeto de estudos. Isso pode chegar até o não reco- .f
' incoerente, mas também de irredutível às interpretaçõ es
nhecimento de diferenças, de exceções ou de contradi- cômodas demais. Quando o arquivo1 ao contrário, pare-
ções para destacar melhor a beleza da hipótese inicial que
ce dar acesso facilmente ao que se supõe nele, o trabalho
se sonha há muito tempo estabelecer solidamente. Essa
é ainda mais exigente. É preciso se livrar pacienteme nte
simbiose ofuscante com o objeto escolhido é, em cer-
da "simpatia" natural que se sente por ele, e considerá-lo
ta medida, inevitável, confortável e frequentem ente in-
como um adversário a ser combatido1 um pedaço de saber
discernível para aquele mesmo que a pratica. Inevitável,
que não se anexa, mas que perturba. Não é simples abrir
porque não existe nenhum historiador que possa dizer
mão da facilidade excessiva de encontrar um sentido para
razoavelmente que suas escolhas não foram orientadas,
elej para poder conhecê-lo1 é preciso desaprendê-lo, e não
pouco ou muito1 por uma dialética do reflexo ou do con-
imaginar reconhecê-lo logo na primeiro leitura.
traste com ele mesmo. Seria uma mentira. Confortável,
Acontece também de o arquivo ser muito loquaz1 e
porque identificar-se, de qualquer maneira que seja traz
1 que a propósito deste ou daquele tema ele exponha aos
alívio. Perigosa, todavia, porque esse jogo de espelhos
olhos do leitor uma infinidade de indicações novas, ju-
bloqueia a imaginação, imobiliza a inteligência e a curio-
diciosas e detalhadas. Quando o documento se anima a
sidade, permanecen do confinado em caminhos estritos
ponto de levar a crer que ele se basta a si mesmo, sobre-
e sufocantes. Identificar-se é anestesiar o documento e a
vém inevitavelmente a tentação de não se desgrudar dele
compreensã o que se pode ter dele.
e de fazer um comentário imediato a seu respeito, como
A vigilância deve estar pronta para que uma lucidez se a evidência de seu enunciado não devesse ser reinter-
sempre desperta aja como barreira contra a ausência de
rogada. Disso decorre uma escrita da história, descritiva e
distância. Que fique bem claro que essa "ascese" não ex-
plana, incapaz de produzir outra coisa que não o reflexo (e
clui a troca entre o arquivo e seu leitor, nem mesmo a em-
mesmo o decalque) do que foi escrito há duzentos anos.
patia. Atrocanão é fusã01 nemaheliçã o de distâncias mas
1 A narrativa da história toma-se uma glosa entediante, um
o necessário reconhecim ento da estranheza e da familia-
comentário positivista no {_lual os resultados obtidos não
ridade do outro sem o qual não há questionam ento inte-
passaram pelo crivo da crítica.
ligente e portanto eficaz. A troca exige o confronto. Aliás,
A citação vem muitas vezes socorrer a escritaj nisso
acontece com frequência de o material resistir, apresen-
também, é preciso refletir sobre seu uso para que não surja
tando ao leitor sua parte enigmática, e mesmo obscura.
nem como uma facilidade nem como o meio enganador de
Quando a pesquisa tropeça na opacidade dos documen-

ro 72 0.5
ro 73 0.5
....,.
O SABOR DO ARQUIVO
OS GESTOS DA COLETA

citação não pode jamais ser uma prova7e sabe-se bem que
é quase sempre possível fornecer uma citação contrária à modular a escrita da narrativa com explosões de imagens,
que acaba de ser escolhida. A citação tem tanto charme de salpicá-la de aparições de outro. Suspensa, a citação
que é muito difícil resistir a ela; o charme da estranheza o funciona como uma parada; como uma nota branca que
da exatidão e do exotismo misturados da língua de antiga- 7 , permite às palavras habitualmen te racionais do historia-
mente7 e ainda o da confissão. Quando se cita confessa-se r dor se moverem de outra forma em torno dela. Em fim de
7 frase, parágrafo ou capítulo1 ocorre de ela construir silên-
implicitame nte não ser capaz de encontrar palavras me-
lhores ou ajustes de frase mais pertinentes do que aqueles cio em tomo da instantaneid ade de sua irrupção. E é assim.
descobertos no arquivo. Ou então7 camufla-se uma espé- A história não é jamais a repetição do arquivo, mas desins-
cie de impotência de pensar mais adiante aproveitand o talação em relação a ele, e inquietação suficiente para in-
1
ao máximo do estatuto de verossimilh ança e mesmo de terrogar incessantem ente sobre o porquê e o como de seu
7 fracasso no manuscrito. Dar descanso ao arquivo por um
veracidade7que qualquer citação impõe.
De fato7a citação deveria corresponde r a um trabalho tempo a fim de refletir sobre seu mero enunciado; mais
de incrustação; aliás1 ela só adquire sentido e relevo quan- tarde7 enfeixar tudo: quem tem o gosto do arquivo sente a
do preenche uma função que nada poderia substituir. Po- necessidade desses gestos alterados de exclusão e de rein-
de-se ver para ela três funções principais. Ela é e:ficaz por tegração dos documentos em que a escrita1 com seu estilo,
7 se soma à emergência do pensamento .
exemplo1 quando põe em cena uma situação nova pela for-
ça abrupta de sua expressão; nesse caso serve de detona- Risco de devoração e de identificação1 de mimetismo
1
dor e faz avançar a narrativa. Pode também surgir como e de glosa sem sabor, eis algumas armadilhas lançadas pelo
uma surpresa tendo como tarefa de surpreender deslocar arquivo. Existe uma outra1 desta vez pelo entorno7seja ele
7 próximo ou longínquo. Indubitavel mente, o arquivo con-
o olhar e romper evidências: é a citação-rupt ura aquela
1
que permite ao historiador se desviar dele mesmo des- tém infinidades de histórias1 de anedotas, e todos gostam
fazer-se de suas manias científicas e acadêmicas que de-
1
que lhes sejam contadas. Aqui, milhares de destinos se
monstram sem dificuldade os êxitos e as derrotas de outro. cruzam ou se ignoram, pondo em relevo infinidades de
Aqui1 a citação quebra a narrativa; as falas entre aspas vêm personagen s com envergadura de heróis1 com perfil de
lembrar que às vezes não adianta nada sair do universo das Dom Quixote abandonado s. Se não são nem uma coisa
palavras de onde a experiência humana tira forma. Como nemoutra7suasa:ventu rastêmnoen tantoumtom deex<'>-
não lhe conceder ainda uma outra função menos altiva e tismo. Em todo caso, para muitos, o romance é possívet
7 enquanto que1 para alguns, é o meio ideal de liberar-se da
sem dúvida mais preguiçosa? À tensão de um textoJ a cita-
ção às vezes dá um descanso7propõe uma pausa uma praia restrição da disciplina, dandovida ao arquivo.
1
talvez. Não se trata de acrescentar texto ao texto nem de Frequentem ente equivocada1 essa possibilidad e não
mostrar como as coisas se diziam "bem" outrora mas de
1
é na verdade nem uma armadilha nem uma tentação. O
7 argumento segundo o qual o romance ressuscita o

ro 74 03'
ro 75 03'
O SlillOR DO ARQUIVO
OS GESTOS DA COLETA

vo e lhe dá vid a não se sustenta.


O romancista faz obra de ce, mas a um a narrativa capaz de
ficçãoj que o cenário seja "histó restituí-lo como sujeito da
rico" e os personagens saí- história, em uma sociedade que
dos do século passado não mu lhe emprestou palavras e
da mu ita coisa. Pode-se de frases. Se ele deve "ganhar vida",
fato animar, com talento ou não não é em um a fábula, mas
, hom ens e mu lhe res ào . em um a escrita que tor na per
XV III, pro duz ind o par a o
leitor a conivência e um ceptíveis as condições de sua
grande prazer, mas não se trata f irrupção e trabalha a obs
de "fazer história': Eviden- curidade de seus dias o mais pró
ximo possível do que o produz -
tem ent e, o con hec ime nto dos iu. Único e aut ôno mo (ape-
arquivos se revela indispen- sar dos efeitos do pod er) , o prisio
sável par a que se preserve a aut neiro da Bastilha1fugitivo
enticidade do drama, mas passando pelo arquivo, é um ser
a vid a insuflada pelo romancista de razão, colocado em dis-
em seus protagonistas é curso1 que a história deve usar
um a criação pessoal em que com o interlocutor.
o son ho e a imaginação se
aliam ao dom da escrita para Po r mais que se den unc iem as
captar o leitor e conduzi-lo armadilhas do arquivo e
em um a aventura bem específica as ten taç ões que ele encerra, não
. se deve ter ilusões. Paixão
Na história, as vidas não são rom por arquivos não evita as embos
ances, e par a aqueles cadas. Seria falta de mo -
que esc olh era m o arquivo com déstia se considerar ao abrigo
o lugar de ond e se pod e deles por tê-los descoberto.
ins cre ver o passado, a questã
o não está na ficção. Co mo
explicar, sem nen hum a afetaç
ão e sem desprezo pel o ro-
ma nce his tór ico que se há con
tas a pre sta r a tan tas vidas
esquecidas, esmagadas pelos
sistemas políticos e judiciá-
rios, isso passa pela escrita da
história. Qu and o o prisio-
nei ro da Bastilha, preso po r ter
ven did o panfletos na rua,
escreve à sua mu lhe r em um ped
aço de sua camisa rasgada
e suplica à lavadeira que não
despreze esse apelo de es-
per anç a, im põe ao escritor da
história não o faça aparece
com o um her ói de romance.
Seria um a traição de algum
mo do, no mín imo por que ele
seria ime dia tam ent e assimi-
lad o a tan tos out ros heróis, _do
s quais um des pri ndp aís
est atu tos é jus tam ent e o de ser
em colocados em ação e
ma nip ula dos pel o autor.
O prisioneiro da Bastilha, com
vestígios singulares
enc ont rad os no arquivo, é um
sujeito autônomo, que ne-
nhu ma imaginação forjou; sua
existência percebida, para
gan har relevo e sentido, deve
se integrar não a um roman-

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77 ü8
.
. '
""''[
--

O SABOR DO ARQUIVO FALAS CAPTADAS

tos. Fragmentos de vida, disputas em retalhos expostas ali fluência, mesmo sem avaliar plenamente o exato poder das
desordenadam ente, refletindo ao mesmo tempo o desafio palavras. Suas frasés também são "acontecimentos" porque
e a miséria humana. Compreende-s e que é impossível, ou elas estão lá para persuadir, e porque é impossível esque-
quase, estabelecer séries nesses magmas de denúncias de cer esse aspecto indispensável das relações sociais. Não
que exala uma cotidianidade banal. Ou se deixa isso de lápenas o conteúdo delas exibe um mundo organizado (ou
lado e se interessa por outra coisa, por exemplo, a história desmantelado) , como seu enunciado está lá para despertar
do procedimento judicial ou dos grandes processos em a convicção e obter o assentimento daqueles que ouvem
boa e devida forma; ou então se aprende a captar essas e que julgam. Nessa relação estreita entre a palavra dita e
explosões de vida, intensas e contraditórias, violentas e a vontade de criar o verossímil instaura o acontecimento.
sempre complexas, para delas tirar o máximo de sentido. Porém, nos interrogatórios, cada resposta, apesar de gra-
ças à personalidade do interrogado, oferece não somen-
te os esclarecimentos esperados, mas todo um horizonte
Sobre o Acontecimento em História
que é preciso querer captar. Pois as palavras são portadoras
Essa insistência em trabalhar sobre o minúsculo, o sin- do presente, elementos de reconheciment o e de distinção
gular e o quase imperceptível merece um esclarecimento do tempo do qual vieram. Quando se pergunta, por exem-
sobre os problemas encontrados e, antes de tudo, sobre a plo, a um vendedor ambulante suspeito de roubo em que
noção de acontecimento em história. ano nasceu e ele responde: "não sabe o ano, mas fará dezes-
As palavras ditas, os curtos relatos registrados pelos sete anos no dia da Saint-Charles", seria uma lástima que se
escrivães e os embriões de explicações balbuciadas são anotasse despreocupada mente na ficha: "dezessete
acontecimentos . Nesses discursos truncados, sustentados junto da rubrica idade, pois faltaria tudo o que mergulha
apesar do medo, da vergonha ou da mentira, há um acon- essa informação em um universo ao mesmo tempo pessoal
tecimento, porque, mesmo em rudimentos, essa linguagem e coletivo. Esse tipo de respostas não ocorre excepcional-
carrega tentativas de coerência pretendidas por aquela ou mente, faz parte do lote cotidiano de informações tiradas
aquele que proferiu essas respostas, tentativas que criam o de arquivo, o que determina o valor delas e também a di-
acontecimento ; nelas se demarcam identidades sociais ex- ficuldade de interpretá-las. Do mesmo modo, quando se
primindo-se por formas precisas de representação ue sí e interroga um homem sobre sua situação familiar, pergun-
dos outros, esboçam-se formas de sociabilidade e !Tianeiras tando-lhe se tem mulher e filhos e ele responde: "não, é vi-
de perceberofarru liar e o estranho, o tolerável e o insupor- úvo e seus filhos são falecidos'', percebe-se que dessa frase
tável. Pois aquele que responde ao comissário, com uma escapa todo um universo. Ou ainda (mas ns exemplos po-
imprecisão voluntária ou não, exprime-se forçosamente deriam ser alinhados indefinidament e), esse rapaz de dezes-
por meio de imagens que veicula dele mesmo, de sua famí- sete anos com 21 irmãos e irmãs que não sabe mais o nome
lia e de seus vizinhos. Mais do que isso, ele procura ter in- do irmão mais velho e que tampouco consegue identificar

&) 80 (êg &) 81 (êg

.
... J''í'
O SABOR DO ARQ UIVO
FALAS CAPTADAS

suas irm ãs peq uen as, exceto


l.,
a última. O "acontecimento" de bri nca dei ra, a cha ma m de
\ é tam bém essa expressão fra gorda, que ela não é gorda,
gmentada do ser, oferecida que mu itas vezes inclusive não
I com o vestígio, lem bra nça , am
seguido pel o eco de vibrações
nes iad o e ao me sm o tem po
por que esse não é seu nome'"•
.
res pon de a essa cha cot a,
1 do mu ndo à sua volta. Essa "m ane ira de falar" tota 2
Os det alh es dad os sob re a situ lme nte anó din a cria o
açã o pro fiss ion al en- acoAtecimento por que é um a
gen dra m o me sm o tip o de rela ling uag em em atos, um resu-
to, for nec end o sim ulta nea - mo de com por tam ent os que
me nte a inf orm açã o e o que tes tem unh am práticas regu-
dá acesso a ela, ou me lho r, o lares de interação entre pessoa
que a tor na coe ren te. Ess e fab s. Aqui, em pou cas palavras,
rica nte de alfinetes int err o- distingue-se um mo do de se
gad o sob re a dat a de sua vin com uni car ent re indivíduos
da par a Par is exp õe em um a do me sm o me io social, em que
frase o con tex to de sua mig aos háb itos gozadores de
raç ão: "disse que veio par a designar o out ro se acrescentam
Paris há trê s ano s acr edi tan estratégias costumeiras de
do que gan har ia a vid a ma is implicância, formas de iro nia
fac ilm ent e com o mu ito s out sob re a aparência física e a in-
ros e que, est and o em Paris, sistência de tod os de res pon der
ent rou um est ilha ço no seu a isso ape gan do- se ao seu
olh o do qua l não pôd e tra- pat rôn imo corréto, único cap az
t\ar, por iss o mu dou de profiss de nom eá- lo de verdade. A
ão". O aco nte cim ent o não é linguagem exprime, com des
que ele sej a um mig ran te há em bar aço ou ma u jeito, con-
ape nas trê s anos, mas res ide vicção ou tem or, a com ple xid
no que foi sub tra ído del e dur ade das relações sociais e as
ant e esse tem po (esp era n- maneiras de fazer boa figura, aqu
ça- saú de- pro fiss ão) , e tam bém ela imp ost a pelas est rut u-
nes sa vis ão de um a Par is rações sociais e políticas da cid
cid ade -m irag em , sub itam ent ade.
e me tam orf ose ada em Pa- Ac ont eci me nto por que rem ete
ris cidade-fracasSOj res ide ain (mais ou me nos desa-
da nes se fim de um son ho jeit ada me nte ) a formas de com
singular, que é tam bém um uni caç ão corriqueiras, nas
son ho col etiv o (qu ant os mi- quais a ling uag em cor res pon de
gra nte s vie ram par a as cid ade tam bém a culturas e sabe-
s e afu nda ram nelas). res int eir am ent e particulares e
Sob re o fútil e sob re o essenc pessoais. ''N ão sab e nem ler
ial, as res pos tas for ne- nem escrever, que foi pou co
cem ma is do que elas me sm à escola por que diz iam que
asj deí xam ent rev er as red es apr end eria ma is qua ndo fosse
sociais, ou for ma s específicas ma ior e que atu alm ent e vi-
de viver no me io dos out ros . nha um pro fes sor para lhe ens
Um exe mp lo anó din o aju dar ina r" j "que sab e ape nas sua

\
á a com pre end er me lho r isso- marca" j "como see scr eve seu nom
do que qua lqu er lon ga explica e? dis seq ue não sabe, por -
çãoj a um a jov em lavadeira, que não sabe escrever, sab e ler
acu sad a de ter par tici pad o de_ apenas em letr a de for ma e
um tum ult o, per gun tam se que nun ca fez outra coisa a não
ela não tem um apelido. Sua ser um a cru z nos papéis que
res pos ta frança é típica. Ap a- lhe ma nda ram assinar": eis-alg
ren tem ent e insígnificàrite, ela umas :respostas ent re ou tra s-
nân cia com mo dos trad icio nai
per mi te ent rar em res so- elas com pre end em for ma s esp
ecíficas de sab er que nad a
1
s de com uni caç ão pop ula r.
"Se não a cha ma m de gor da bex
igu ent a?, disse que 'nã o é
bex igu ent a, que é ver dad e que
de uns tem pos par a cá, e 1.
2-
A.N., x"" 13671 jun. 1750.
E. Goff man n, Façons de parler,
Pari s, Édit ions de Min uit,1 987.
\

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ro 83 05
O SABOR DO ARQ UIVO
FALAS CAPTADAS

tem a ver com as da'cultura dom


ina nte -, cada um a indi- · preciso "pegar" essas frases, por que
ca com precisão as mo dal ida de infi elas per mit em ao his-
nitas em que são apre- toriador captar mo me nto s ou ten
endidas a cultura e a informação sõe s extremas no inte-
. De fato, pode-se saber rior de um a me sma sociedade.
ler e não conseguir escrever, escrev
er apenas letra de for- Inútil pro cur ar no arquivo o que pod
ma, ficar confuso diante das mai eria reconciliar os
úsculas, conhecer algu- l contrários, pois o aco nte cim ent o hist
mas letras e só conseguir assinar com órico está tam bém na
um a cruz. Isso não é eclosão de singularidades tão contrad
nem analfabetismo nem domínio itórias quanto sutis e
do saber, é algo que não às vezes intempestivas. A história
pod e nem ser contabilizado nem não é o relato equilibra-
colocado em gráficosi do da resultante de mo vim ent os opo
no entanto essas configurações par stos, mas se encarrega
ticulares são os indícios das asperezas do real percebidas
preciosos de maneiras de det er disc por lógicas díspares em
retamente alguns ins- choque umas com as outras.
trum ent os de cultura. E se nad a
é mensurável, se não se
pod e inferir por um a cifra exata
taxas de alfabetização ou
níveis de instrução, pod em -se des Fragmentos de Ética
afiar as classificações tra-
dicionais e pen etra r no emaranha
do de infinitas ramifica- Aqui os conflitos são majoritário
ções do saber que os hom ens forj s. Peq uen os ou grandes,
am um a identidade e ao de ord em privada ou ameaçadores
me smo tem po um a opinião. à tranquilidade públi-
As palavras são janelas: um ou mai ca, eles jamais seg uem os me and
s contextos se dei- ros de perfeitas narrati-
xam aprisionar ali; ma s acontece vas lineares, mas geralmente são
tam bém de as palavras se arrancados do mu tism o
embaralhàrem e se contradizerem pru den te dos protagonistas. Ap esa
, enu nci and o incompa- r de tudo, eles relatam;
tibilidades de sen tido pou co clar imp ortu nad os e pro voc ado s por
o. Qu and o se acreditava um a polícia ansiosa por
enfim discernir um a tram a em que saber, por obt er confissões e enc ont
seres se moviam e que rar culpados.
se alojavam acontecimentos, eis que Rec ons titu ir os fatos a posteriori
se depara com opaci- nun ca é fácil, visto
dades, oposições, e se que a maioria dos dossiês oferec
espaços singulares que e in fine um a versão que
par ece m não ter nen hum a relação geralmente é a da ord em púb lica
com a paisagem vis- e das autoridades poli-
lum bra da previamente, alguns doc ciais. As per gun tas feitas têm a evi
um ent os antes. dência de certezas po-
Nessa obs cur ida de e nesses inte liciais: antes de tud o, o policial pro
rvalos, resi de ain da cur a nom ear culpados,
o aco nte cim ent o: deslocadas, inu pom :ofu eím por ta que o caso seja
suais, as palavras com- tota lme nte esclarecido.
põe mu m objeto-novo; cliferente Que ocorra, por exemplo, um a-ri
de outros. Com um cam xa em um me rca do ou
existências ou casos irredutíveis uma rebelião con tra soldados, a
a qua lqu er tipologia, a polícia ent ra em cen a e
qua lqu er esforço de síntese, e ei-la não deixa mu ita diívida qua nto
s lon ge de pod er ser às suas intenções. Log o
dissolvidas em um contexto hist óric se dirige aos líderes e aos cabeça
o fácil demais de dis- s-duras que acredita já
cernir. Quase incompreensíveis, saber que m são e ope ra sem vacilos
resistentes à an@se, é nos meios neb ulo sos
não lhe são

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O SABOR DO ARQUIVO FALAS CAPTADAS

lho detido "segurando-o pelamão"6 ••• Daria para continu- constitui seu próprio agenciamento com aquilo que his-
ar esboçando assim centenas de silhuetas. toricamente e socialmente é colocado à sua disposição.
O afloramento ininterrupto do singular convida a Assim questionados, os interrogatórios e os testemunhos
pensar "o único", a refletir sobre o conceito histórico de luz sobre os lugares onde o indivíduo trava rela-
indivíduo 7 e a tentar uma difícil articulação entre as pes- tÇões pacíficas ou tumultuadas com outros grupos sociais,
soas anonimamente mergulhadas na história e uma socie- preservando suas liberdades e defendendo suas autono-
dade que as contém. mias. Às vezes, uma história da pessoa vem abalar as cer-
O procedimento anedótico é urna ferramenta inútil, tezas adquiridas sobre o conjunto dos fenômenos ditos
não explica nadaj o gosto pelo estranho não tem maior coletivoSj ao mesmo tempo, ela só pode ser examinada
serventia, tanto ele deforma o olhar sobre os documen- em interação com grupos sociais.
tos. Falta, no plano das falas, a análise fina da raridade a Talvez se pressinta que a atenção ao singular requer
desprender ao mesmo tempo do habitual e do excepcio- a atenção ao ajustamento de cada um ao outro e sorve
ná!. Falta descobrir uma linguagem capaz de integrar as suas forças além até da disponibilidade do material de ar-
singularidades em uma narração apta a restituir suas ru- quivo para lhes permitir figurar. Ela se enraíza na vontade
gosidades, a assinalar suas irredutibilidades assim como de ler hoje como ontem a infinidade de desvios que cada
as afinidades com outras figuras. Apta a reconstruir e a constrói em relação à norma, e a complexidade dos
desconstruir, a lidar com o mesmo e com o diferente. "En- caminhos traçados no interior dela, para inventar e não
tremeando histórias que não são nem subordinadas nem se submeter, para se unir e se opor. Há nisso, sem dúvida,
homogêneas a ele"8, o ser humano captado pelo arquivo uma visão do mundo, uma ontologia do atual, a inquieta
deve ser evocado sem uma abordagem globalizante que o tenacidade em jamais imobilizar nada. Como se a fala de
reduziria à estatura de um indivíduo médio sobre o qual hoje assim como a de outrora abrigasse nela a esperança
não se teria nada a pensar, mas com o cuidado de fazer de sempre veicular uma possibilidade qualquer.
emergir o tabuleiro sutil de que todos dispõem para or-
denar seu espaço.
"Defender as histórias" 9 e fazer que sejam apreendi- Sentido e Veracidade
das pela história é se obrigar a mostrar como o indivíduo Enfim1 gão_ hist<)Iia_s!n!ple_s_, mesmo história
tranquila. Se o arquivo serve realmente de observatório
social:, é só por meio da desordem deinforrnações aos pe-
6. A. N. x" 1367, année 1750.
7· C. Ginzburg, Le fromage et les vers. L'univers d'un meunier au XV1' siecle, Paris,
daços, do quebra-cabeça imperfeitamente reconstituído
Flammarion, 198o, p.15. de acontecimentos obscuros. Trilha-se uma leitura em
8. M. Foucault, Les mots et les choses, Paris, Gallinlard, 1966, p. 380. meio a fraturas e dispersão, forjam-se perguntas a par-
9. F. Dosse, "Foucault face à l'histoire'; Espace-temps, n. 30, p. s. tir de silêncios e de balbucios. Mil vezes o caleidoscópio

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•.-J"!
O SABOR DO ARQUIVO
FALAS CAPTADAS

gira diante dos olhos: antes de se cristalizar em uma forma razões porque .sabe que podem contrapor-lhe outras. As-
precisa, figuras hipotéticas passam diante dos olhos, se es- sim, a primeira ilusão a combater é a da narrativa definiti-
tilhaçam em jatos de luz iriados antes de se imobilizarem va da verdade. A história, de fato, é uma maneira de fazer
sob outros ornam entos. O menor movim ento torna-as que não funda um discurso de verdade controlável ponto
então perecíveis fazendo com que delas nasçam outras. O ,,./ por pontoj ela enuncia uma narrativa que reúne a formu-
sentido do arquivo tem a força e o efêmero dessas imagens lação de uma exigência científica e uma argumentação na
convocadas uma· a uma pelo turbilhão do caleidoscópio. qual se introduzem critérios de veracidade e de plausibi-
Isso é sabidoj não há sentido unívoco para as coisas lidade. O poeta cria, o historiador argumenta e reelabora
do passado, e o arquivo contém em si essa lição. Frágil os sistemas de relação do passado por representações da
lembra nça, ele possib ilita ao histori ador isolar objeto s comunidade social que estuda, e ao mesmo tempo por seu
e testá-los. "O histori ador que reflete sobre um tema próprio sistema de valores e de normas. O objeto da his-
deve constr uir a históri a de que necessita e fazer isso tória é, sem dúvida nenhuma, a consciência de uma época
1com as outras disciplinas"'o, já que nenhu m docum ento e de um meio, assim como é necessariamente construção
faz emerg ir sentid o dele mesmo: "Nenh um docum en- plausível e·verossímil de continuidades e de descontinui-
to pode nos dizer mais do que aquilo que pensava seu dades do passado, a partir de exigências científicas. O his-
autor, que ele pensav a ter acontecido, que pensava que toriador não é um fabulista redigindo fábulas, e por isso
deveria aconte cer ou que aconteceria, ou talvez apenas pode afirmar, como fazia Michel Foucault: "Nunc a escrevi
aquilo que. queria que os outros pensas sem que ele pen- nada além de ficções e estou plenamente consciente dis-
sava, ou mesmo o que ele própri o pensava pensar. Tudo so", logo acrescentando: "Mas creio que é possível imple-
isso só adquir e um sentido quand o o escrito r se empe- mentar ficções no interior da verdade"u.
nha em decifrá-lo. Os fatos, proven ham ou não de do- Pode-se livrar da ilusão de uma universalidade, de
cumen tos, não podem ser usados pelo histori ador sem uma verdade total e definitiva a reconstituir globalmente.
antes tratá-los: e esse uso constitui, se posso dizer assim, Ao contrário, não se pode descartar a verdade ou mesmo
o própri o proces so do tratamento"n. desprezá-la, nem se deve jamais extraviá-la, e o espaço en-
A vontad e de compr eender é exigentei é por isso que tre esses dois polos geralmente é estreito. A relação com o
há tantas ilusões a comba ter quanto conàiç ées-am pr-ir. arquivo perrtúte ser mlii:fo sensível a esses doís impe:rati-_
De fato, se o histori ador é realmente um narrador, ele é vos e de çon..struç.ões teórkas_
també m quem e:Xplica e convence, expõe e abstratas, o arquivo opõe seu peso de existências e de
acontecimentos minúsculos incontornáveis, espicaçando
10. J. Revel, "Une oeuvre Espace-temps, Braudel dans tous ses états,
p.14. 12. Entrevista com L. Finas citada por M. Blanchot, Michel Foucault tel que
11. E. H. Carr, Qu'est-ce que l'histoire?, Paris, La Découverte, 19.&7,p,_6.2•. je

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.,.-.rr
O SABOR DO ARQUNO FALAS CAPTADAS

o saber tradicional com uma "realidade" trivial e flagran- a história como um processo de reinterpretação perma-
te. O arquivo oferece rostos e sofrimentos1 emoções e nente do passado tendo como parâmetro uma sociedade
poderes criados para controlá-losi seu conhecimento é atual e suas necessidadesi outra coisa é subverter os fa-
indispensável para tentar descrever depois a arquitetura tos do passado para favorecer ideologias perniciosas. Há
das sociedades do passado. No fundo1 o arquivo sempre /momentos em que é necessário dizer "verdades" (e não
agarra pela manga aquele ou aquela que resvalaria com a verdade) incontestáveis 1 isto é1 formas inteiras de rea-
extrema facilidade no estudo de formulações abstratas e lidade1 que de nada serve esconder ou subverter. Há mo-
de discursos sobre. Ele é dos lugares a partir do qual podem mentos em que a história deve demonstrar erros1recorrer
se reorganizar as construções simbólicas e intelectuais do a provas1para que "a memória não seja assassinada'''\ ''A
passadoi é uma matriz que não formula "a" verdade1 evi- história é uma lacuna perpétua [... ] mas não é sempre
dentemente1 mas que produz tento no reconhecimen- indispensável se agarrar a essa velharia1 'o real'1 ao que se
to como na expatriação elementos necessários sobre os passou autenticamente ?"'4
qu!üs fundar um discurso de veridição distante da men- "Não se deve jamais enfraquecer a incisividade do que
tira. Nem mais nem menos real que outras fontes1 ele su- ocorreu1 a incisividade do acontecimento" - dizia recen-
gere destinos de homens e mulheres com gesticulações temente Paul Ricreur durante uma jornada de encontro
surpreendentes e sombrias cruzando poderes com múlti- com historiadores'5 - 1 sobretudo quando ele ainda pro-
plos discursos. A emergência de vidas se entrechocando duz horror e traumatismos. Houve no passado aconteci-
com os dispositivos de poder estabelecidos conduz uma mentos abjetos cuja narrativa é necessária e que1por isso
narrativa histórica que busca estar à altura dessa irrupção mesmo1 impõem um estatuto específico à sua narração1
e desse peso1 ou seja1que leva em conta esses retalhos de particularmente quando ainda vivem na "memória cultu-
realidades exibidas1 que desvenda estratégias individuais ral': Auschwitz1 dizia ele1 é um "acontecimento fundador
e sociais para além dos não ditos e dos silêncios1coloca-os negativo" que é obrigatório manter na condição do me-
em ordem1 e depois propõe uma inteligibilidade própria morável1 e cujo enunciado não pode em hipótese nenhu-
sobre a qual é possível refletir. ma ser deformado. Evidentemente1 "a relação da história
Inicialmente1revela-se necessária a explicação racional com o real não se faz à maneira de uma transparência1mas
das grades de leitura impostas pelo material: o processo
de questionamento ao- arqmvo-deve sersuncienteme-nte 13. P. Vidal-Naquet, Les assassins de la mémoire, Pa:ris, La Découverte, 1987.
daro- para- -quê -os rêSultaàos -da -pesquis-a- -sejam convin" 14. P. Vid{ll-Naquet, "LeUre";M-ichel-de-€-erteau, -Centre-G:.Pompidou; 1987,

centes e não falaciosos. Pois- pressente-se isso -pode-se pp. 71-72.


15. É com a autorização pessoal de P. Ricceur que são citadas essas palavras pro-
fazer o arquivo dizer tudo1tudo e o contrário i uma das pri-
feridas no dia 22 de junho de 1988 na École des Hautes Études en Sciences
meiras exigências é esclarecer os procedimentos de inda- Sociales em uma intervenção oral durante uma jornada de trabalho "Em tor-
gação. Vamos direto ao ponto: uma coisa é compreender no de Paul Ricceur", organizada por R. Chartier e F. Hartog.

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O SABOR DO ARQUIVO
FALAS CAPTADAS

de relacion amento de dados"'61 operação que deve pos- não somente reuniu os fatos e as cifras1 como também
suir um estatuto incontes tável de verdade. Pertinen te para propôs uma interpret ação convince nte do desenrolar dos
o tratamen to de todos os aconteci mentos1essa relação da aconteci mentos a partir desse reexame indispensável.
história com o real toma-se crucial quando se trata de fa- '])"ata-se da obra de Jean-Clé ment Martin (La Vendée et
tos sobre os quais se forjou uma memória viva que atra- la France1 Le Seuil11987). O autor demonst ra a que ponto
vessa a sociedad e inteira. as primícias da insurreiç ão vendean a traumati zaram o go-
Assim1 não se pode admitir a história "revisionista" verno revoluci onário que viu nesse levante a negação de
e faurissoniana que assumiu novas formas infiltrando-se todos os seus esforços. A partir desse choque1uma impie-
quase por toda parte1 insinuan do que as câmaras de gás dosa repressão veio consolid ar uma região que não tinha
não existirami enunciad o mortífer o emitido "para desrea- na época nenhum a consciên cia de seu poder. Toda a com-
lizar o sofrimen to1 a morte"'7• preensão do autor vem mostrar1 com apoio de arquivos,
A Revolução Francesa também é um aconteci men- que os fatos não são nada se não forem reinseridos nas
to fu.ndador1 positivo desta vez1 que produz efeitos ain- represen tações que se tem deles, representações que os
da hoje. Por estar sempre ativo na memória coletiva esse realirnen tam em seguida ou que, ao contrário, podem re-
1
episódio mantém estranho s vínculos com seus historia- duzir sua progress ão e sua acuidade. A guerra da Vendeia
dores. Alguns1por exemplo1 procuram demonst rar que a ocorreu no cerne de um processo em espiral de impacto
Revoluç ão terrorista e sanguiná ria foi um dos episódios dos fatos sobre as consciên cias: se o governo revolucio-
mais vergonh osos de nossa história1 não hesitand o em nário não tivesse visto nesses aconteci mentos tamanha
emprega r a palavra "genocídio" para se referir à guerra ci- carga simbólica, a engrenag em da guerra civil certamen te
vil vendean a. Aqui1 é forçoso dizer que se estabelece um não teria sido tão violenta. Há nessa obra um belo equi-
jogo perverso e pernicio so com a verdade1uma utilização líbrio entre a abordage m do que se passou e o sentido a
falaciosa dos fatos 1 a fim de escrever uma história na qual dar a esses aconteci mentos que se alastraram em ecos1uns
a paixão se sobrepõe ao rigor. Quando sofre tais opera- amplificando os outros incessantemente.
ções1 o conhecim ento se quebra e morre1 assim como o Que se entenda bem: com raras exceções, o documen -
sentido de si1pois se recusou a "habitar o texto do outro" to1 o texto ou o arquivo não é a prova definitiva de uma
(Paul Ricceur).
verdade qualquer! mas morro"te stemunh o incontor nável
Tomemo s o exemplo a Vendeia entre 1793 e 1797. O
em por q_ues-
esse-ep:[Link]âlo foí aquele que tioname ntos específicos, e o historiad or sabe muito bem
que "a validade do conhecim ento depende da validade da
16. Citam-se aqui as palavras de R. Chartier durante sua intervenção de 22 de meta'''81ele navega exatame nte entre a consciência da gra-
junho de 1988.
17. P. Vidal-Naquet, op. cít.
R R Carr, op. dt., p. 75-

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.
••. ;:y
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vidade de suas escolhas e a teoria impossível segundo a há instantes privilegiados em que se entrevê o homem
qual a história seria urna compilação objetiva de fatos. da rua não se enganar nem sobre o que faz 1 nem sobre
Uma vez tomadas essas precauções1 o sentido não o que acredita1 nem mesmo sobre o que afirma. Essa é
jaz co:m a evidência de um tesouro encontrado. É preci- , a riqueza do arquivo: não se limitar à descrição do so-
so procurá-lo sob a desordem aparente dos relatos1 dos l cial1 compreender como uma população pensa sobre si
fatos e dos acontecimentos1 e quando se trata do estu- mesma e produz constant emente inteligência e inteligí-
do de comport amentos populares1 pode-se imaginá-lo vel em busca de um sentido que ela descobre e fabrica
persegui ndo1por exemplo1 o conjunto de sistemas de ra- simultaneamente às situações que vive. As elites não são
cionalidade que fazem agir ou falar os parceiros sociais decididamente as únicas a determin ar uma cultura e uma
presentes nos documentos. visão dilacerada de sua consciência'91ainda que sejam as
únicas a ter facilidade de se expressar1e a felicidade de se
Pensar Certas Formas de Expressã o Popular expressar por escrito.
J. As classes populares1menos hábeis no manejo da es-
Uma história dos comport amentos populares estabeleci- crita1 nem por isso viveram sem representar a si mesmas:
da a partir do arquivo corre sempre o risco de se reificar o arquivo possui recursos nesse campo1 é preciso se dis-
se não quiser reconhec er1por trás da acumulação de de- por. a procurá-los. Fácil demais de encontra r nelas ape-
talhes obtidos sobre práticas sociais1 afetivas e políticas nas uma soma cumulativa de atitudes quando não se tenta
1
modos de pensame nto1 condutas autônom as e sistemas descobrir por quais sistemas de racionalidade essas atitu-
de racionalidade. De fato1não basta descrever os gestos e des foram tomadas. Assim1 é preciso1por meio das pala-
as atitudes do corpo popular para estar quite com ele. A vras1 desvendar outra coisa que não a simples descrição de
vida da oficina1da rua ou do cabaré não se resume a con- condições de vida e evitar pensar que uma cultura popular
dições de trabalho1 modos de habitat e de alimentação; só se forja a partir de atitudes1 de condutas e de reações.
as práticas cotidianas são o produto de pensame ntos1de Definitivamente1seu espaço é outro.
estratégias1 assim como de culturas feitas de denegação1 O arquivo mostra a perspicácia das condutas1o julga-
de submissão1 de sonhos e de recusas1 de escolhas racio- mento dos indivíduos e o discernimento das coletivida-
nais e refletidas e1mais ainda1 de desejo de legitimidade. des: é um trabalho1então1de identificar modos depensa r1
Além do ma:teria.tbruto1que permite uma certa de descobrir suas regras e circunscrever condutas que in-
t\Ü:Çã.Q_da.paisagem..so_cial1 :hápossibilidade-deru€-ns-urar ventam simultan:e-a:níente -sua: própria stgnífieaçâb1 a -:fll:n
e de mostrar a distância que existe entre o homem da rua de compreender sobre quais sistemas de inteligência e de
e sua imagem; nas respostas dadas e nas palavras pronun- sentimentos se fundamenta o conjunto das coesões e das
ciadas1 há moment os singulares em que se identifica não
somente o cotidiano1 mas o pensame nto do cotidiano; 19. J. Ranóere, La nuit des prolétaires. Archives du rêve ouvríer, Paris, Fayard, 1981.

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