Cultura
Rola um D20!
RPG: o jogo onde você pode ser o que quiser
Rogério Barbato Filho
De longe, os vários dados com mais lados que o normal e as fichas cheias de
informações e números podem até assustar quem não os conhece, mas a verdade é
que os RPGs são fundamentados num conceito bem comum a nós: a imaginação.
Com sua primeira aparição em 1974, com o sistema Dungeons & Dragons, o
RPG (role-playing game) trouxe ao mundo uma experiência completamente nova
no que se diz respeito a jogos de estratégia. Isso porque, além dos fundamentos de
um jogo de tabuleiro, o RPG levou a jogatina para o “além mesa”. Imagine um jogo
onde as regras, o tabuleiro e as peças são levemente deixadas de lado e são
substituídos pela sua imaginação e por suas palavras. Foi isso que o RPG
proporcionou pela primeira vez: uma narrativa levada pelo conflito de decisões
entre os jogadores; uma mistura entre jogos de tabuleiro e toda a teatralidade de
uma peça. De forma mais simplória, os RPGs são quase que “histórias jogáveis”,
onde suas decisões de fato alteram o curso da jogatina, afinal, o narrador dessa
história também é um jogador.
Para Carlos Ximu, 47, jogador de RPG desde os 13 anos, esses tipos de jogos
tiveram um impacto enorme na infância, principalmente em sua criatividade. “Me
ajudou muito em minhas relações sociais, me deixou mais desinibido. E, de quebra,
comecei a aprender outra língua, pois os livros eram importados”, conta ele.
O JOGO
Para uma sessão de RPG, o mais importante são as pessoas. As regras vão
variar com o sistema escolhido e com a história que se quer seguir. Existem
sistemas apropriados para aventuras futuristas, como o Cyberpunk 2020, ou o
clássico D&D (Dungeons & Dragons), geralmente usado para narrativas medievais.
Além disso, você vai precisar de um grupo de jogadores e de um Narrador. Esse
narrador, usando as regras como fundamento, será o responsável por construir
toda a história, ambiente e situações que os jogadores serão inseridos.
Os jogadores, por sua vez, devem pensar nos seus personagens e
desenvolver fichas com as características, atributos e histórias. A imaginação vira
protagonista já na preparação do jogo. Cabe aos jogadores usarem da criatividade
para inserirem seus personagens criados no contexto apresentado pelo narrador e,
muito além disso, incorporarem esse personagem em suas decisões, ações ou
mesmo falas.
Uma vez iniciada, a sessão de RPG pode durar o tempo que os jogadores
estiverem dispostos a contar aquela história. Durante essa sessão, o jogo se
desenrola com o Narrador submetendo os jogadores a conflitos e situações e, ao
mesmo tempo, tendo que fluir a história a partir das decisões dos outros jogadores.
O último ponto crucial nessa experiência são os tão simbólicos dados. Desde
os com quatro faces até o famoso D20 (vinte lados), os dados são os responsáveis
por determinar o quão efetivas serão as ações e decisões dos jogadores. Rolar um
número baixo ao tentar realizar uma ação, como um ataque, pode resultar em um
ataque falho, bem como uma rolagem alta durante um teste de percepção pode
revelar detalhes que o Narrador tinha escolhido esconder.
O CENÁRIO BRASILEIRO
Os RPGs vem acumulando uma legião de fãs, inclusive no Brasil, que já conta
com vários sistemas próprios de jogatina. O maior nome do cenário nacional é o
sistema Tormenta 20. Criado em 1999, apenas como um universo para sessões de
RPG, o universo de Tormenta acabou se expandindo e hoje já tem livros-base de
regras e rendeu diversas obras de ficção.
No início de 2021, o site Jovem Nerd conseguiu emplacar o maior
financiamento coletivo da história do Brasil com a campanha Nerdcast RPG:
Coleção Cthulhu. A campanha tinha como base a expansão do universo criado
durante sessões de RPG do grupo, registradas em forma de podcasts e publicadas
nos últimos anos. Com quase vinte mil apoiadores, a campanha acumulou
R$8.519.827,00 e trará esse universo para outras mídias, bem como livros,
quadrinhos e audio-books.
Carlos Ximu se vê muito otimista para com o cenário brasileiro. “Apesar da
pandemia ter travado os eventos, onde as pessoas mais se conheciam e faziam
contato, muita gente voltou-se ao seu projeto guardado na gaveta e aproveitaram
bem o tempo em casa. Acho que temos um material humano excelente e agora
editoras competentes para absorver o material desses profissionais. A modalidade
de Financiamento Coletivo também deu muita viabilidade a estes projetos. A
profissionalização do RPG ainda é um sonho, mas está muito mais perto de
acontecer”, comentou ele.
Olho
“É a experiência de viver mil vidas diferentes, sejam super-
heróis, caveleiros e magos ou vampiros”
Carlos Ximu.
Diagramação:
Usar imagens dos Sistemas Dungeons & Dragons e Tormenta 20
Ilustrações de dados espalhados, como se a página fosse uma mesa de rpg
Ilustração de uma ficha de personagem apressentando a fonte Carlos Ximu.