Jacques Lacan: Revolução na Psicanálise
Jacques Lacan: Revolução na Psicanálise
SUMÁRIO
5 BIOGRAFIA DE LACAN............................................................................ 35
6 BIBLIOGRAFIA ......................................................................................... 63
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1 JACQUES LACAN, O PSICANALISTA QUE REPENSOU FREUD E CRIOU SUA
PRÓPRIA ESCOLA
Fonte: [Link]
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e pela ruptura marcou toda a sua vida. Casado e pai de três filhos, em 1938 Lacan se
apaixonou pela esposa do filósofo Georges Bataille, Sylvia, que estava separada do
marido. Resolveu abandonar a família e casar-se com ela, tendo uma filha que
escondeu dos demais filhos. Mesmo sendo um pai ausente, elaborou uma teoria sobre
a paternidade.
Apesar de não terem se frequentado, é Lacan quem promoverá nos anos 50 o
famoso movimento de retorno a Freud, trazendo os textos freudianos para o foco de
interesse não só de psicanalistas, como também de médicos, filósofos, linguistas,
antropólogos, matemáticos e do público em geral, que vinha assistir aos seus
concorridos seminários. Esse movimento continua até hoje: a conexão da psicanálise
com outras disciplinas chegou para ficar.
Convivendo no meio intelectual francês, Lacan, que foi médico pessoal de
Pablo Picasso e Dora Maar, já era um famoso psicanalista na década de 50.
Subversivo, fazia sessões de análise com duração variável de tempo, desrespeitando
os 45 minutos estabelecidos pela Sociedade Internacional de Psicanálise, que o
excluiu dos seus quadros. Permitia-se encerrar uma sessão em três minutos, sob a
justificativa de que é o tempo lógico para o inconsciente se pronunciar. Em 1964,
Lacan fundou a Escola Freudiana de Paris, que seria dissolvida em 1980, um ano
antes da sua morte, em 9 de setembro de 1981.
A grandeza teórica de Jacques Lacan, inicialmente inspirada no surrealismo,
aprofundou-se numa síntese original entre a psicanálise freudiana, a filosofia de
Heidegger, Nietzsche e Hegel, a antropologia de Lévi-Strauss e a linguística moderna
de Roman Jakobson, dando um estatuto filosófico à teoria de Freud. Publicou em vida
um único livro, “Escritos”, uma compilação de 34 artigos lançada em 1966. Todo seu
ensino foi oral, registrado pelos seus alunos, num total de 27 volumes, dos quais
apenas oito foram publicados. Lacan faleceu aos 80 anos, em Paris, após uma cirurgia
em decorrência de um câncer abdominal. O GLOBO noticiou sua morte em 11 de
setembro de 1981, informando que a França perdia um dos seus maiores intelectuais,
um estudioso de Freud controvertido e brilhante, cuja influência ultrapassa
amplamente o âmbito da psicanálise.1
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outros campos, inclusive a Educação, que também opera no terreno movediço da
linguagem e da interação.
No caso de Lacan, a teoria torna o entendimento das funções da linguagem
ainda mais complexo. Enquanto para Freud o inconsciente era, grosso modo, uma
instância individual, para Lacan ele sai do sujeito (indivíduo) para abarcar uma rede
de relações sociais. Ou seja, à noção do sujeito dividido, soma-se também o conceito
de Outro, podendo esse ser entendido como uma combinação dos sistemas
simbólicos e socioculturais.
No campo da Educação, Lacan procurou elucidar a dinâmica entre o Eu e as
instituições sociais, onde a escola se insere. "Ele constatou que certas mudanças na
cultura implicavam a redefinição das teorias freudianas de gênese da personalidade",
diz Leny Magalhães Mrech, professora da Faculdade de Educação da USP, referindo-
se principalmente ao complexo de Édipo. "Assim, Lacan identificou que não estamos
mais em uma sociedade orientada pela figura do pai."
Segundo a educadora, isso quer dizer, entre outras coisas, que as relações
sociais - antes hierarquizadas com grande rigidez, agora se distribuem de modo mais
horizontal. "O pai, o professor e as demais figuras de autoridade perderam o lugar
simbólico de poder e excelência", afirma. "E essa é uma das bases do modelo de
escola participativa, na qual o aluno assume um papel mais central." Leny Mrech
observa ainda que, antes da psicanálise, a Pedagogia não percebia a importância e o
significado da fala do professor e do aluno e pouco se preocupava em escutar as
crianças. Por isso, os conhecimentos provenientes daquela área do saber ajudaram a
perceber e explorar alguns fenômenos que acontecem na vida escolar, como a
resistência de alguns estudantes em aprender e de alguns professores em ensinar
certos conteúdos. "O ensino não é mais concebido de forma ingênua e, com base
nisso, tem-se a certeza de que não é possível haver a transmissão integral de
conhecimentos", diz Leny.
Na teoria lacaniana, também ocupa lugar fundamental a noção de gozo: "Ele é
uma mistura de prazer e insatisfação - ou também pode ser de dor e satisfação -, que
nos torna apegados a formas de relação conhecidas como sintomas, inibições ou
angústias", explica Dunker. Ele ressalta que, nesse sentido, a linguagem também se
constitui um lugar de gozo. O conceito é trabalhado por Leny Mrech em seu trabalho
teórico em Pedagogia. "Lacan nos revela que tendemos a funcionar por inércia e que
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não há um verdadeiro desejo de saber", diz. "Dificilmente o professor procura trabalhar
com novas possibilidades de gozo dos alunos. Por isso, não é de estranhar que um
dos sintomas da cultura atual seja o fracasso escolar provocado pelo desinteresse." 2
Fonte: [Link]
Lacan definiu o sintoma de várias maneiras: como uma metáfora, como “aquilo
que vem do real”, como “aquilo que não funciona”, e no final de seu ensino, como um
fato estrutural, cuja necessidade deve ser questionada. Em 1953 (2002a) Lacan
enfatizou que o sintoma analítico- um sintoma neurótico, perverso ou até mesmo
psicótico; um sonho; um lapso; e assim por diante era sustentado por uma estrutura
linguística, por significantes, e pelas letras que lhes servem de elemento material.
Em contraste com sintomas médicos, cujo significado é determinado em
relação a um referencial, o sintoma neurótico é discurso bloqueado querendo ser
ouvido e decifrado. Lacan viu o mecanismo de metáfora em funcionamento no
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neurótica, é também claramente marcado. O tratamento visa não tal normalização,
mas sim em aprender “o que fazer com o sintoma” em vez de apreciá-lo.3
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Pensamos que sua reformulação é muito profunda. Modifica-se o eixo de
referência da teoria e metapsicologia. A alienação lacaniana do sujeito é mais radical,
em um sentido, do que a de Freud e, também, diríamos, do que a de Marx. O homem,
para Freud, está em crise, como resultado da luta entre sua natureza e a lei da cultura.
Porém, mesmo quando enfrenta este conflito, há algo que lhe pertence ou que lhe é
próprio, tanto em sua natureza como em sua cultura, O homem de Lacan, alienado
entre o desejo que a identificação com o semelhante lhe impõe, e o desejo que a
cultura lhe impõe, através da linguagem, sofre uma alienação constitutiva mais
absoluta. Não há nada próprio dele, fica indefectivelmente preso entre o outro e o
grande. Outro. Lacan rechaça qualquer possibilidade de livre arbítrio. Nenhum ser
humano organiza seu destino e suas motivações, ambos nascem no exterior. A
problemática do sujeito, em Lacan, é um assunto muito mais amplo do que o genial,
mas de todo modo mais modesto, projeto freudiano: o homem, com sua sexualidade
e conflitos que esta lhe causa.
Torna-se difícil sintetizar as contribuições originais de Lacan. Mencionemos,
inicialmente, algumas. Ele pensa o narcisismo com um novo critério, etológico e
intersubjetivo. Toma de Hegel a dialética da relação com o semelhante; de Sartre
(1943), o tema do olhar; de Freud, o conceito de identificação e o de narcisismo. O
resultado final e de grande riqueza conceptual. Aplicado ao Edipo e ao vínculo com a
mãe, abandona todo desenvolvimentismo evolutivo e vai direto ao âmago: o desejo
da mãe. Vincula o narcisismo à agressividade, assim progredindo muito, em um duplo
caminho: deixa o meio da biologia e o reducionismo de uma pretensa pulsão de morte
e amplia o nível de explicações da clínica.
Os enfoques linguísticos de Lacan podem ser discutidos. Muitos não aceitam a
primazia do significante, apoiando a ideia de um equilíbrio entre este e o significado.
Também é acusado de um reducionismo, em sua conceitualização do inconsciente.
Mais adiante, ocupar-nos-emos deste problema. Porém, mesmo assim, não se pode
negar a originalidade das teses lacanianas, nem deixar de reconhecer os problemas
que resolve ou as vias que inaugura. A ideia de Lacan evita uma dificuldade,
apresentada na proposta freudiana de inconsciente, a qual, apesar de sua grande
utilidade clínica, complica-se teoricamente quando tem de harmonizar fenômenos
biológicos com outros que não o são (representações, linguagem e sentimentos). A
proposta de Lacan, por mais questionável, que possa ser, parece simples e harmônica
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com o que se procura estudar. E metáfora ou realidade que o inconsciente está
estruturado como linguagem? Deter-nos-emos nisto, algumas páginas mais adiante.
Indubitavelmente, e um acerto da teoria lacaniana pôr a prioridade fálica como
centro da sexualidade humana. Não se pode subestimar o interesse de um tema que
tinha ficado um tanto relegado, devido ao auge das teorias das relações objetais. Mas
faz algo mais: de uma maneira que não se tinha feito até então, relaciona a
significação do falo, em um sentido antropológico geral, com a conflitiva neurótica.
Continuam a sair, da inspiração lacaniana, teorias, observações, opiniões. Como fazer
justiça a tantas questões ao mesmo tempo? Fala-se da relação do sujeito com a
cultura, da que existe entre a linguagem com a psicanálise e o inconsciente; também
lembremos sua diferenciação entre desejo, necessidade e demanda, a criação dos
três registros (imaginário, simbólico e real), a concepção do desejo humano, a
proposta de um homem, alienado entre o desejo do Outro e do outro, a imbricação da
linguística com o sintoma, a importância dada, no homem, ao símbolo e à convenção
significante. Lacan ensinou a pensar a problemática da castração, tanto em relação à
ordem imaginária (ser o falo ou ter o falo, confundir a pessoa com a lei), quanto à
estrutura significante, porquanto a ausência, a falta, está presente, dentro de um
sistema de relações, como carência de ser do sujeito enquanto significante.
Depois de Freud, Lacan e Melanie Klein são os que foram mais longe na reformulação
global da teoria. Estes dois gigantes introduziram tal vastidão de mudanças nas
concepções psicanalíticas que, com acertos e erros, a psicanalise se modificou depois
deles. Assim como nos anos 60 houve a moda kleiniana, agora, em alguns lugares
como Buenos Aires, há a moda lacaniana. Mas, embora isto nos faça lamentar, devido
à fascinação e idealização do então e do agora, não devemos ser levados a não
valorizar tudo o que Lacan ensinou. Podem-se usar suas ideias, de maneira criativa,
para muitos problemas clínicos e teóricos. Deste modo, o profundo estudo de Dío de
Bleichmar, E. (1985) sobre a feminilidade, inclui perspectivas estruturalistas sobre o
narcisismo e a castração, que mostram a potencialidade destes conceitos em um
emprego nem simples, nem redutor.
Onde o pensamento deste autor nos parece como mais questionável é em seus
aspectos técnicos. Novamente, devemos fazer a diferença entre a teoria e os homens
que a aplicam. Não foi feito, por acaso, o uso mais banal e medíocre das ideias geniais
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de Melanie Klein? Lacan tem seguidores que distorcem, completamente, sua teoria,
utilizando-a para justificar a psicoterapia mais simples e até a intrusão psicopática.
Apesar disso, sua teoria tem algumas propostas técnicas que consideramos
inexatas, e erros verdadeiramente graves para a prática. Renega a capacidade
humana para pensar os problemas e sua potencialidade para aceder à verdade. A
palavra vazia do paciente é rompida mais com um ato do que com uma explicação.
Passa-se do imaginário ao simbólico, através de um corte no discurso feito pelo
analista; interrompe-se a sessão, o analista não fala, interpreta-se um significante.
Nesta teoria, o poder da letra e do código sobre o indivíduo é completo. A obra
de Lacan insiste em que o sujeito fica inscrito a partir de fora, sem liberdade de
escolha. O estruturalismo utilizado revive a paixão pela razão, colocada na estrutura,
como a racionalidade causal auto- regulada; desaparece o acaso, a casualidade,
exagerando-se o determinismo dos fatores externos ao sujeito. Atualmente, muitos
pensam a mente como um lugar em que se produzem sentidos infinitos. Freud, por
seu turno, propôs, com sua teoria das séries complementares, um equilíbrio entre o
interno e o externo.
A primazia do significante, entendida não só como fato linguístico, mas em um
sentido amplo e social, leva-nos a pensar que o símbolo determina o homem, toma-o
escravo de sua marca, do emblema e da tradição ou ritual, O discurso da ciência (fora
das paixões imaginarias) é discurso simbólico, mas, como aceitar seu
desenvolvimento, sua mudança, a criação, a intuição ou a especulação, quando se
entra em um beco sem saída, ao asseverar que a estrutura significante é inapelável
para o sujeito, tendendo a se repetir continuamente?
Lacan diz, algumas vezes, que o significado luta por se expressar, e, em outras,
que o significante tem atividade produtiva e não expressiva. Pode ser que se trate de
contradições internas do modelo, mas é também possível que se refira a ordens
diferentes. Em um sentido, a primazia do significante reivindica o peso da cultura na
determinação do sujeito. E através da linguagem e dos símbolos que o sujeito se
constitui, pois é determinado por eles. Primazia do significante quer dizer, então, que
a estruturação do sujeito deriva da convenção linguística e social, indubitavelmente,
há uma certa verdade nestas ideias. Nossa pergunta é: até que ponto este
apresamento não fecha a porta para outros fenômenos, igualmente humanos e da
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mesma validade clínica? Referimo-nos àqueles elementos da individualidade que
fazem do homem um ser original, entre todos os homens.
Berenstein, I. (1975) analisa a relação do ego com o desenvolvimento do
sujeito. Utiliza bibliografia de Merleau Ponty, Benveniste, Avenburg, Freud e algumas
obras sobre mitologia. Faz uma descrição genética da origem da diferenciação do
ego-não ego, recorrendo à hipótese do tipo de satisfação das pulsões, situação tópica
da libido (no id, no ego etc.). As vivências corporais dão origem ao ego-corpo que,
depois, deve passar ao ego sujeito. O sujeito é o espaço do ego, onde se experimenta
a origem da pulsão, ou um estado da mente indicado, inicialmente, pelo outro como
agente. O sujeito coincide com o agente, quando é ativo e sabe que o é, na busca de
um objeto (p. 210). Este enfoque combina noções clássicas de Freud com outras
atuais, proporcionando-nos ideias complementares às de considerar o sujeito apenas
em relação com o significante.
Para Lacan, o inconsciente se reduz à função simbólica. Em sua obra, o desejo
humano é causado pela estrutura, é estrutura em si mesmo, pois desliza, como faz o
significante.
Um de nós (Leiberman de Bleichmar, C., 1986. Cap. 22 deste livro) analisa a
controvérsia entre natureza e cultura, em psicanálise. Descreve as possíveis
variedades entre os extremos antitéticos que vão desde o interno, como único fator
constitutivo, até o ambiental, como critério radicalmente oposto. Lacan pode ser
situado nesta perspectiva, em uma postura ambientalista, entendendo o ambiente
como algo externo, a estrutura, que decide a constituição do sujeito. Outros autores
tomam do ambiente os aspectos emocionais do vínculo com a mãe. Bion, por
exemplo, insiste na capacidade emocional desta para cumprir sua função continente,
acalmando as angústias do filho.
A ideia de explicar o desejo, a partir de um deslizamento incessante do
significante, é muito atraente, pois ilustra, tanto o aspecto de isca que o objeto
desejado tem, como também porque o sujeito tem uma sequência infinita de objetos
desejados. Também separa o desejo da fonte biológica, dando prioridade ao aspecto
simbólico sobre o fisiológico ou material. De todo o modo, resta explicar a relação
entre o simbólico e os aspectos fisiológicos, temática que não escapa à inteligência
de Lacan, quando procura compreender a articulação das ordens simbólica e real.
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Em outros modelos, o kleiniano, por exemplo, procura-se explicar o
deslizamento do desejo por meio de conceitos como voracidade e inveja, elementos
que individualizam o sujeito a partir do interno ou constitucional.
Lacan nos propõe uma versão do desejo e sua relação com a linguagem, que é
bastante elaborada. Pensa-a de três maneiras diferentes: duas são estritamente
linguísticas e a terceira introduz um fator alheio à cadeia significante. Em um sentido
ontológico, o desejo surge porque há linguagem; em um enfoque mais moderado, a
linguagem é modelo para o desejo, trata-se de uma analogia ou de uma metáfora: o
significante desliza e supõe-se que acontece a mesma coisa com o desejo. A terceira
perspectiva inclui o objeto a, que é a causa do desejo e, ao mesmo tempo, seu
resultado. E o objeto que se liga à fantasia. Este terceiro modo de raciocinar possui
uma independência relativa dos outros dois.
A teoria lacaniana atrai por sua beleza expositiva e pela elegância das
propostas, mas deveria ser discutido se é mais coerente do que as outras.
As críticas desapiedadas que Lacan, e depois seus seguidores, fizeram à
Associação Psicanalítica Internacional (IPA) são totalmente exageradas e
tendenciosas. Todo movimento, e também o lacaniano, tem lutas internas pelo poder
que atentam contra o espírito científico da instituição. Foi assim que o próprio Lacan
teve de dissolver a Escola Freudiana de Paris, em 1980, alguns anos antes de sua
morte. Nos trabalhos lacanianos, a IPA aparece como uma espécie de conspiração
contra Freud, sem ser feita nenhuma distinção entre as ideias e as pessoas com suas
diferentes atitudes. A expulsão, de que Lacan foi objeto, é uma expressão dos
problemas políticos e de poder que se movem dentro das instituições psicanalíticas,
não refletindo, apenas, discordâncias científicas; tem-se sido tolerante com pessoas
que fizeram transgressões mais graves do que as suas, conhecidas de todos. O
mesmo acontece no movimento lacaniano e em qualquer grupo humano. Todos os
vícios que Lacan critica na IPA, também ocorrem com ele com seus seguidores: poder
dos mestres, mau uso da teoria, desvio das propostas freudianas e hierarquias de tipo
eclesiástico. Podem ser interessantes os trabalhos de Maci (1985), Perrier (1985),
Sedat (1981), entre muitos outros, para conhecer as situações de tirania interna,
existentes dentro do movimento lacaniano, inclusive as de que é acusado o próprio
Lacan.
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De qualquer maneira, estes problemas não nos interessam de forma especial;
já mencionamos o "fator humano", tanto na teoria como no movimento.
O que nos parece um erro, em Lacan, é sua pretensão de se converter na única versão
aceitável da teoria psicanalítica. E, ainda mais, um cânone pessoal (inquisitorial?)
Acerca do que é e do que não é freudiano. Ninguém fica de pé, todos os autores são
severamente questionados, não parecendo haver outra contribuição à teoria, senão
os três registros e o efeito do significante e da palavra. Desta maneira, caem de
Winnicott a Strachev. Rios, C. )1°84, p. 124) também protesta contra estes excessos
de Lacan, quando diz: " A teoria não é deficiente pelo que propõe, mas no que se
refere à sua pretensão de exclusividade sobre a psicanálise, quanto a lhe dar sua
identidade..."
Com Melanie Klein, e um pouco mais piedoso, pois a considera uma mulher de
génio, embora torpe ou tosca por não entender o registro simbólico, nem se tala de
sua opinião sobre os psicólogos do ego, que se constituíram o alvo preferido de suas
críticas. Muitas vezes, Lacan distorce as contribuições dos teóricos desta corrente, de
tal forma que sugere uma má intenção de sua parte. E simplista afirmar que há uma
conexão direta entre a psicologia do ego de Hartmann e o modo de vida americano.
A psicologia do ego utiliza modelos biológicos e um ponto de vista realista, que debilita
a conceptualização do desejo e dos conflitos psíquicos, mas o excesso lacaniano e
injustificado; nem reconhece as contribuições desse esquema teórico, nem aceita que
existam grandes analistas dentro dele. Os aspectos equivocados desta teoria não
justificam que se apague, completamente, tudo o que há nela de enriquecedor. Para
Lacan e para os lacanianos de hoje, parece que ser psicanalista e sinônimo de estar
filiado a seu movimento, de outro modo não se faz psicanálise e se atraiçoa o legado
freudiano.
Entre as críticas que Lacan faz à psicologia do ego figura sua oposição a
considerar que o ego tenha, como uma de suas funções, a de observar e se adequar
à realidade. E como criticar um professor por suas aulas, quando diz que, por um
ponto externo à reta, passa apenas uma paralela a esta reta. Na verdade, quem é
questionado é Euclides. Lacan deveria fazê-lo a Freud, que sempre falou de dois tipos
de ego: o da representação, ou narcisismo, e o ego função, cujo objetivo é estabelecer
a relação com a realidade: esta instância, assim formulada, interessou especialmente
aos psicanalistas norte-americanos.
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A psicologia do ego não procura adaptar o homem ao american way of life, nem
tampouco e, como diz Lacan, uma teoria da livre empresa. Em nossa opinião, trata-
se de outro fenômeno. Em um meio onde o positivismo e a tilosotia oficial, que
impregna a atividade científica, a psicologia do ego aparece como urna tentativa mais
forte de unir a psicanálise ao positivismo e à psicologia acadêmica. É verdade que,
como bem o diz Lacan, a psicanálise não pode ser uma psicologia geral, pois assume
temas próprios e deixa de lado outros, tradicionalmente analisados por esta disciplina.
Por exemplo, interessa-se pelo conflito e pela sexualidade, não se ocupando de
categorias tais como a inteligência, as percepções, a maturação ou o
desenvolvimento. Paradoxalmente, o projeto lacaniano, como o de Hartmann, procura
ser uma ponte entre nossa disciplina e outras, como a linguística, a antropologia e a
filosofia. Com esta perspectiva, realiza uma reflexão sobre o sujeito, o ser, o mundo e
a linguagem. Hartmann procurou falar com biólogos e sociólogos, Lacan o faz com
filósofos, linguistas e antropólogos. E nos mais atraente a ponte lançada por Lacan,
mas não desprezamos a outra, que tem seu próprio campo de aplicação.
O estilo expositivo de Lacan deixa na sombra muitas de suas ideias;
argumenta-se que se o inconsciente nunca se exprime diretamente (como demonstra
o discurso do paciente ou o texto do sonho), por que não esperar uma formulação
análoga por parte de Lacan? Erro crasso: o discurso do cientista deve ser claro e
didático, para que possa ser entendido, permitindo que se fixe uma posição diante
dele. A esta modalidade geral, utilizada por Lacan, soma-se a confusão que surge das
citações que ele faz de outros trabalhos. Por exemplo, em uma frase menciona que
"o leão só salta uma vez". Se alguém tiver a desgraça de não lembrar, nesse
momento, da 'Analise terminável e interminável", em que Freud fala do Homem dos
Lobos e, referindo-se ao momento em que decidiu pôr fim ao tratamento, utiliza esta
frase para expressar que depois de fazê-lo não poderia se retratar, fica difícil entender
o que Lacan quis dizer com esta citação.
Este problema não seria tão importante se não ocorresse um fato curioso: o
fenômeno coletivo transforma a psicopatologia em uma virtude quase inefável que,
como os bons vinhos, seriam apenas para paladares refinados. Fenômeno que Freud
estudou em "Psicologia das massas e análise do ego", em 1921, mostrando um
determinado grupo humano, unido em torno da idealização do líder, que passa a fazer
o papel de superego.
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Como é indubitável que Lacan, além de pôr armadilhas expositivas, agir
politicamente e utilizar, em alguns casos, a obra de alguns colegas de má fé, fez
contribuições importantes à psicanálise, surgiram muitos difusores de sua obra.
Podem ser citados, entre outros, por sua acessibilidade para o leitor de fala espanhola,
Clément (1981), Dor (1985), Fages (1971), Rifflet-Lemaire (1970), Milier (1980), Soury
(1986), Valiejo (1985), Masotta (1986).
O estilo de Lacan é gongórico (rebuscado, elíptico, acompanhando a Gôngora)
. Para o estudante que se inicia em psicanálise, Lacan encerra uma tentação e um
perigo. Quando se aceita, piamente, seu discurso, pode-se crer que conhecê-lo é igual
a tudo saber sobre a disciplina. Aparentemente, isto encurta o caminho a percorrer,
pois aproximar-nos-ia rapidamente da posição de conhecedores. O perigo consiste
em não nos darmos conta da distorção que Lacan faz dos outros autores. A única
forma de escapar do perigo é estudá-los, o que leva muito tempo e esforço, o que
muita gente omite. Para dar um exemplo, quando se lê o trabalho de Strachey, de
1934 do qual Lacan afirma que propõe a imposição do superego e a ideologização do
paciente, vê-se quão injusto é com o texto original. Concluindo: é fundamental ler
todos os autores, escutar seus seguidores, ver como entendem a psicanálise, para
depois formar o próprio critério.
Quando Lacan diz que os trabalhos canônicos sobre o inconsciente são as
obras produzidas por Freud, entre 1900 e 1905, (A interpretação dos sonhos,
Psicopatologia da vida quotidiana ou então O chiste e sua relação com o
inconsciente), mostra-nos sua adesão à primeira fase do pensamento freudiano.
Melanie Klein parece mais interessada por artigos, tais como "Luto e Melancolia"
(internalização de objetos, introjeções, sadismo) e pela temática de além do princípio
do prazer, com sua hipótese da pulsão de morte. Hartmann, por seu turno, está
vinculado ao Freud da segunda tópica, o da separação das instâncias psíquicas em
id, ego e superego. Cada modelo tem seu apoio em algum ponto da obra freudiana e,
por sua vez, a continua e desenvolve. O tipo de psicanálise que Lacan propõe recorda
mais o Freud da primeira fase: o chiste, o lapsus, o ato falho. Deixa de lado a análise
do ego: suas resistências, a força, a função de síntese e desenvolvimento (Freud,
1926). Já dissemos que há, pelo menos, duas concepções sobre esta instância
psíquica: é, simultaneamente, representação e função, O primeiro enfoque nos parece
mais interessante, pois estuda o narcisismo, as identificações e o conflito; o segundo
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leva em conta as funções do ego, suas defesas e as resistências que ergue contra a
pulsão. Lacan parcializa, quando diz que o ego de Freud é o da Verneinung, porque
mesmo que isso corresponda, em parte, à realidade, não é rigoroso quando se
considera o sistema global do pensamento freudiano. E como dizer que o aparelho
psíquico de Freud é o id ou o superego. Preud estuda o inconsciente e o recalcamento,
mas sempre propõe uma interação indissolúvel entre eles, a consciência e a realidade
externa. No que se refere à realidade externa, devemos admitir que a psicologia do
ego é mais freudiana do que Lacan. Freud sempre deu ao ser humano uma
capacidade para estudar o mundo, através das funções egóicas. Também pensou que
a realidade externa é um fenômeno alheio ao sujeito e objetivável. Em sua obra, a
realidade é muito mais do que a lei e a proibição do incesto. E também um lugar onde
o ego verifica se pode ou não alcançar a satisfação de necessidades e pulsões.
Melanie Klein estuda a relação da criança com sua mãe e as fantasias e
angústias que esse vínculo elementar suscita, Hartmann considera a do indivíduo com
a realidade e Lacan a do sujeito com o significante. Cada uma destas teorias soluciona
alguns problemas e deixa de lado outros.
Há certas semelhanças, em determinado sentido, entre os enfoques de Lacan
e Melanie Klein. O especular procura abordar uma problemática que preocupou esta
autora e da qual ela se aproximou, através de seus estudos sobre a inveja. Têm em
comum a comparação, a tensão agressiva com o objeto, a destruição do outro e o
aspecto parcial do processo imaginário. Vê-se apenas uma parte da representação
do outro, aquela que contrasta, identifica-se ou ataca. Estamos no campo das
vicissitudes dos processos didáticos: dois objetos, mãe e filho, sujeito e objeto,
temática, enfim, do narcisismo. Ambos os autores, acertadamente, isolam este
processo dos enfoques energéticos e económicos. Não há neles dialética de cargas,
mas de representações e emoções.
O inconsciente proposto por Lacan é mais estruturado do que o de Freud.
Posteriormente, veremos as discussões suscitadas pela proposta de que o
inconsciente esteja organizado como linguagem. Adiantemos algumas ideias: o
inconsciente freudiano funciona segundo o princípio do não- contraditório, enquanto a
linguagem tem um sistema de oposições binárias que é radical (ou este fonema ou
este outro). O inconsciente, em Freud, também é uma mistura de representações de
palavras e de coisas, constituindo uma ordem que é diferente da linguagem.
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Lacan tem razão ao tirar das pulsões os aspectos econômicos e genéticos, e
ao considerar os chamados estágios evolutivos como modelos de relação
intersubjetiva. Mas a crítica contra a teoria clássica da libido não deveria ser dirigida,
neste aspecto, contra Abraham, pois o próprio Freud propôs a sequência libidinal
como um sistema progressivo e regressivo, apoiado em fases biológicas. Se se quiser
fazer justiça a Abraham, deve-se reconhecer a contribuição que fez, ao descrever as
etapas libidinais como relações de objeto, cheias de fantasias inconscientes. Para
tanto, basta ler, sem preconceito, seu "Um breve estudo da evolução da libido,
considerada à luz dos transtornos mentais" (1924), para poder aproveitar o que nele
há de inovador para a teoria e a clínica.
E certo que os fundamentos mecânicos, biológicos e darwinianos, que dão
apoio à ideia de libido, são criticáveis, mas devemos admitir que o problema está tanto
em Freud como em seus continuadores.
Lacan se equivoca, a nosso critério, ao reduzir as transações entre a mãe e o
filho ao desejo materno de ter o falo. Tira tanto do meio! As emoções da mãe têm um
espectro muito mais amplo, como também as do filho. Por exemplo, a angústia da
mãe ou a capacidade de apoio, temas que interessaram Winnicott; podem-se conter
as emoções do bebê, como destaca Bion; a racionalidade de seu pensamento, o amor
ou o ódio que sente por seus objetos primários. Parece incrível que, com uma teoria
tão rica e complexa, Lacan não leve adiante coisas tão evidentes. A angústia de
separação não está relacionada apenas com o fato de que a criança representa um
falo para a mãe. Se esta tiver uma depressão pós-parto, se adoecer ou se enfrentar
uma contingência real, o bebê poderá sofrer danos importantes, até mesmo
irreparáveis, pela falta de contato com a mãe.
Às vezes, a teoria lacaniana parece fazer um gasto excessivo em teorização,
para encarar certos problemas, deixando outros sem tocar, Recordemos, com algum
humor, que uma vez tivemos a sorte de escutar um afamado lacaniano, talvez um dos
mais importantes do movimento. Falou quatro horas sobre o paradoxo de Russel, de
sua origem e sobre os tipos lógicos, para concluir a apresentação dizendo, nos dez
minutos finais, que a mulher está inserida em uma contradição essencial diante do
falo, semelhante à do barbeiro do povoado que Russel usa como exemplo: se ele deve
barbear todos os homens do povoado que foram proibidos de se barbearem sozinhos,
o que fará consigo? Em certas ocasiões, a teorização lacaniana mostra grande
20
capacidade criativa, mas, em outras, há um desperdício de informação e um prazer
pela elucubração que são desnecessários.
Indicamos que Lacan se propõe a teorizar sobre o sujeito. Em nossa opinião, a
linguagem e a psicanálise não resolvem todos os problemas que esta temática
implica. O sujeito é mais do que linguagem e inconsciente: é história, biologia, cultura,
e também motivações individuais. Com sua perspectiva, Lacan reduz não só o sujeito,
mas também o âmbito social, a um problema puramente linguístico. Estudar a noção
do sujeito, apenas a partir do significante, torna estreitos seus múltiplos sentidos e
determinações. Pensamos que, provavelmente, seja o contrário do que diz Lacan: a
aprendizagem da língua exige identificações com o objeto que ensina a falar, as quais,
por sua vez, são determinadas pelo êxito que possa ter o vínculo emocional (para este
tema, é recomendável o trabalho de Donald Meltzer, de 1975, sobre o autismo e a
linguagem). Laplanche e Leclaire (1966) questionaram, há muitos anos, a tese
lacaniana de que a linguagem é condição para o inconsciente, e sustentaram a ideia
oposta: o inconsciente é condição para que ocorra a linguagem.
O estruturalismo radical de Lacan não só se expressa na teoria linguística do
inconsciente, ou no papel que atribui ao registro simbólico e aos processos
constitutivos do ideal do ego. Fala-se, permanentemente, do lugar do sujeito: a
estrutura determina a posição a que este é levado inexoravelmente. Assim se
desvanecem as características e motivações individuais. Mesmo que acerte, ao
assinalar o peso do cultural sobre o ser humano, deixa uma margem nula para a
originalidade do sujeito. Em sua tese de que o inconsciente é o discurso do Outro,
estabelece, taxativamente, o papel determinante do externo.
21
é que a linguagem tenha um papel constitutivo no psiquismo, para o sujeito e para a
estrutura social. Haveria então uma perspectiva ontológ1ca. A linguagem dá origem
e, como consequência, explica os fenômenos que interessam à psicanálise.
Outra possibilidade é utilizar a linguagem como um modelo que ajuda a compreender
as leis de operação das estruturas psíquicas. Os modelos espaciais utilizados em
química, em que cada átomo é representado por uma esfera de madeira, servem
didaticamente para facilitar a compreensão das relações que mantêm dentro de uma
determinada molécula. Neste caso, está-se recorrendo ao isomorfismo de modelos:
um facilita a compreensão do outro. O risco consiste em transformar o modelo em
realidade. No exemplo anterior, poderia se acreditar que as esferas de madeira são
átomos, atribuindo-lhes suas propriedades. O modelo pode ser útil para fabricar uma
hipótese, que deverá esperar ser verificada no campo específico. Agir de outra
maneira é reduzir a realidade, por efeito de isomorfismo.
Na teorização lacaniana, parecem ser utilizadas estas duas alternativas:
considerar que a linguagem está na origem do sujeito e, também, aplicá-la como
modelo que ajuda a repensar o homem e seu desejo a partir de uma nova perspectiva.
Quando Lacan recorre à linguística para explicar sua função no sujeito, faz
contribuições originais e valiosas. Porém, ambos os planos, amiúde, se confundem
em sua obra.
Assim como outros autores, cujas críticas sintetizaremos mais adiante, cremos
que o homem e a cultura são muito mais do que uma estrutura significante. O desejo
humano tem raízes no simbolismo, mas também nos afetos, pulsões e motivações
individuais. Para Lacan (Les écri'ts techniques de Freud, 1975, p. 346), o simbólico
ordena o imaginário e o real; portanto, a palavra dá sentido à emoção. Em nossa
opinião, estas são teses um tanto exageradas. Do mesmo modo, recorrer às
categorias binárias, fundamentais à perspectiva estrutural, parece tirar a riqueza da
visão que se possui do psiquismo humano. Mesmo que a relação dialética com o outro
nos situe em um lugar mais ou menos determinado, há outras variáveis que influem,
para que aceitemos ou não esta relação. Acreditamos que, então, entram em jogo
elementos internos do sujeito, que o levam a se situar dentro de uma posição entre as
várias opções possíveis.
Em alguns casos, o estruturalismo permite uma conceptualização engenhosa
de funções que sempre foram polêmicas na psicanálise. No seminário sobre o conto
22
de Poe, "A carta roubada" (Ecrits, pp. 5-55), Lacan propõe uma solução para a
questão da memória. Esta é resultado da estrutura significante. Não há um
armazenamento biológico de dados, mas um retorno e uma acumulação de unidades
significantes, que fazem parte do tesouro que cada um compartilha com seus
semelhantes. Esta é uma ideia que tem relação com a fantasia inconsciente, no
sentido de que o que se procura não é o registro de um acontecimento, mas o libreto
que organiza todos os acontecimentos.
Em outro trabalho, "O tempo lógico e a afirmação da certeza antecipada. Um
novo sofisma" (Ecrits, pp. 187-203, Lacan afirma que os personagens da charada
encontram sua própria identidade a partir do que os outros dois sujeitos fazem. Isto
questiona a possibilidade de uma identidade, alcançada autonomamente pelo
indivíduo, que assim fica marcado, sem apelação, por um sistema posicional. Como
antes mostrávamos, esta perspectiva não incorpora nada que seja útil para explicar
ao paciente os fenômenos identificatórios com que ele opera. Funciona em um nível
muito geral e sempre a responsabilidade é de um terceiro, o outro ou o Outro. Cabe
perguntar se o sujeito a quem Lacan se refere, nestes escritos, é o sujeito da
psicanálise, ou antes um sujeito antropológico, sociológico e filosófico. Ainda assim,
tampouco compartilharíamos de seu ponto de vista.
Nesta mesma linha de pensamento, Lebovici e Diatkine, em sua intervenção
do Colóquio de Borineval sobre o inconsciente, comentam: "Substituir a angústia do
oitavo mês, a depressão desencadeada pela separação - fatos que nos parecem
essenciais para explicar a gênese da fantasia do objeto mau parcial - pela concepção
lacaniana da metáfora paterna, é voltar às concepções fiosóficas mais afastadas da
obra de Freud e da investigação psicanalítica. E imaginar que o ser humano é
determinado, por natureza, por uma estrutura que existe fora de si mesmo" (1°66, p.
89). Mais adiante, destacam a importância de elementos pulsionais pré-verbais como
organizadores do psiquismo: "Porém, não seguimos o Dr. Lacan, que não
compreende a transformação da necessidade em desejo, mais do que na 'abertura'
(béance) do objeto. O investimento do pré-objeto nos momentos de necessidade,
antes de que seja percebido, a organização narcisista dos limites do id, faz
compreender a dialética que se organiza dentro do limite de uma comunicação extra
e infra verbal, mediada pelo modo transitivo e transaciona]" çlbi'd., pp. 89-90).
23
A tese lacaniana, de que o inconsciente está estruturado como linguagem, foi uma
das que mais questionamentos e discussões suscitou, não apenas no campo
psicanalítico como também em disciplinas diferentes. Do ponto de vista da
comunicação, Anthony Wilden (1972) formula agudas críticas a este postulado
fundamental. Sublinha que a linguagem se distingue de todos os demais sistemas
expressivos, pelo fato de admitir, em seu seio, a negação e o tempo verbal. O
inconsciente, tal como foi descrito por Freud, tem como características essenciais a
ausência de contradição e de respeito aos prazos temporais. Haveria, assim, uma
oposição clara entre as características do inconsciente e as da linguagem. Porém, isto
não é tudo. Resta discutir o assunto relativo à qualidade binária ou analógica da
linguagem e do inconsciente.
Na opinião de Wilden, a linguagem se baseia em oposições de tipo binário: "a"-
"o", positivo-negativo, ausência-presença. Na linguagem verbal, cada coisa está
definida por sua oposição às demais. O processo secundário seguiria este padrão.
O inconsciente e, portanto, o processo primário, tem outro tipo de estruturação,
que, na opinião de Wilden, seria melhor descrita como de tipo analógico. O analógico
se define por semelhança morfológica, emocional, representacional. Um exemplo: o
locutor da televisão, que vemos na tela, e o homem real, que fala diante das câmaras.
Abre-se uma ampla gama de matizes possíveis para este tipo de funcionamento.
A descrição freudiana do processo primário, com suas minúcias de representações
de coisa e de palavra, com sua alusão a um fluxo contínuo de energia, é a descrição
de um processo analógico, em sua forma. A linguagem natural, à qual Lacan recorre
para exemplificar o funcionamento do inconsciente, é de tipo binário e, segundo
Wilden, assemelha-se mais ao processo secundário, descrito por Freud, situado no
nível consciente-pré-consciente.
Wilden crê que não há nenhum princípio no modelo de linguagem que explique
a intencionalidade analógica. "Dado que a linguagem começa pondo-se a serviço do
analógico, não possui nenhuma finalidade fora de suas limitações estruturais,
impostas pela clausura da frase, devendo ser introduzida, necessariamente, de fora
do modelo linguístico, algum constructo bioenergético que possa nos explicar a
intencionalidade humana" (1972, p. 333). Vemos como, em uma perspectiva
completamente diferente da psicanálise, também se destacam as insuficiências do
modelo linguístico para explicar os fenômenos humanos.
24
Este autor opina que Lacan abusa do modelo estruturalista ao aplicá- lo, sem
limites, a diversos conceitos psicanalíticos que não têm, essencial- mente, um nível
que o justifique. Destaca, por exemplo, que usar o modelo binário (é-se isto ou se é o
oposto) para conceitualizar o sujeito é altamente redutor. Lacan emprega este modelo
para a oposição entre si mesmo e o outro, oposição que na realidade está mais em
um nível semântico pragmático do que em um nível digital (IBID.). Igual ressalva é
feita em relação à "oposição" entre Eros e Tánatos, à qual Lacan aplica também o
modelo binário. Wilden pensa que a concepção freudiana destas categorias era
fundada em uma perspectiva bioenergética e não de oposição de fonemas.
O modelo saussuriano, em que Lacan baseia sua construção teórica, é
questionado no próprio campo da linguística. Fuchs e Le Goffic, em sua obra “ Initiation
au problémes des linguistiques contemporaines (1975)”, apontam sua discordância
com algumas das teses de Saussure. Estas críticas tornam-se aplicáveis à
conceptualização lacaniana.
Em primeiro lugar, destacam que a oposição proposta por Saussure, entre
língua e fala, embora permita delimitar a matéria em estudo, transforma a linguagem
em um ente virtual, ideal e neutro, de difícil relação com a realidade. Por outro lado, a
categoria de fala supõe que o vínculo que cada sujeito estabelece com o código
universal, a linguagem, é inteiramente próprio o que, do outro extremo, também e
altamente discutível. A distinção entre língua e fala alude à "oposição entre um código
universal, dentro de uma comunidade linguística e independente dos usuários, e o ato
livre de utilização deste código pelos sujeitos" (pp. 9-13).
O que aqui está em discussão é o que já assinaláramos em relação ao sujeito
lacaniano. Qual é o papel do indivíduo? Quanto é determinado pela convenção
significante e quanto há nele de inato ou proveniente da experiência pessoal? Esta
polêmica é, provavelmente, uma das que mais atualidade possui na discussão dos
modelos psicanalíticos pós-freudianos.
Outro aspecto da teoria saussuriana, discutido por Fuchs e Le Goffic, é a
natureza binária do signo linguístico. Se cada signo for definido pelo que não é, em
oposição a outros, então a linguagem e um sistema definido, em sua totalidade, de
maneira negativa, somente a forma dos fenômenos pode ser objeto de estudo (ibid.,
p. 19).
25
Por outro lado, a única maneira de distinguir um signo de outro, continuam
dizendo nossos autores, é recorrer ao sentido. Por exemplo, o vocábulo "força" tem
um sentido diferente em "a força do vento", do que em "ele me força a falar". Este tipo
de problemas foi considerado por outra corrente do estudo linguístico: os
[Link]õem que a elaboração de Saussure, que define a língua como
objeto, supõe uru duplo rechaço: o da historia e o da realidade objetiva. Esta corrente
cujo teórico mais destacado foi Martinet), que. produziu interessantes avanços em
fonologia e gramatica. interessa-se em articular a linguística com outras disciplinas,
como, por exemplo, a história e a sociologia (ihid., p. 20).
Por último, em relação às contribuições da fonologia, que e uma parte da
linguística altamente influenciada pelo estruturalismo, Puchs e Le Goffic demonstram
que a proposta desta corrente, de que cada fonema se situe em relação de oposição
aos demais fonemas do sistema, é discutível, pois, como alguns teóricos destacam,
os sons de determinada língua são percebidos no próprio sistema fonológico com que
o indivíduo conta. A dificuldade para pronunciar ou entender um sistema fonológico
diferente ao próprio é de índole psicológica, pois nosso próprio sistema funciona como
uma barreira. Mesmo dentro da corrente fonológica há, hoje em dia, algumas
discussões. Uma delas centra-se no binarismo. A pergunta é: deve-se considerar que
cada traço é, necessariamente, oposto a outro, ou cabe descrever matizes e
variações? Isto nos leva a uma segunda pergunta: existem traços distintivos,
presentes em todas as línguas? Há aqueles que afirmam que sim, enquanto outros
pensam que não é assim que se deve encarar o problema. Na opinião destes últimos,
apenas depois de ter estudado cada língua, poder-se-ão fazer generalizações. A
última questão volta ao assunto da oposição entre língua e fala, pois, encara a
definição dos diferentes fonemas. Como cada indivíduo tem uma forma peculiar de
falar, então nem todos os u ' pronunciados serão idênticos. Ter-se-ia de diferenciar os
fonemas do sistema fonético (correspondente à fala) dos do sistema fonológico
(correspondente à língua).
A exposição que acabamos de fazer tem como objeto demonstrar ao leitor os
problemas que atualmente parecem ocupar aqueles que se dedicam ao estudo da
linguagem. Algumas destas questões estão muito associadas a dificuldades que, em
nossa opinião, a teoria lacaniana apresenta: reducionismo linguístico e problemas no
esclarecimento de níveis, como, por exemplo, a relação entre inato e adquirido.
26
Vemos que a discussão em tomo da oposição fala língua estão intimamente
relacionadas com este aspecto. Também são questionados os modelos binários no
estudo da linguagem, sem haver consenso em tomo do tema.
Mencionaremos, nesta discussão do papel do significante na teoria lacaniana,
os trabalhos realizados por Laplanche (1981) e Bleichmar, H. ) 1982), que apareceram
na revista Trabajo dei psicoanalisis.
O primeiro, em seu artigo "O estruturalismo. Sim ou não?', diz que a fórmula
lacaniana, relativa ao inconsciente, pode ser discutida de vários pontos de vista. Em
primeiro lugar, afirma que a linguagem está estruturada em termos relativos. Assegura
que o sonho não é expressão do inconsciente, mas algo que se aproxima dele e que,
nesta formação, não há uma linguagem, no sentido de código social, mas uma neo-
linguagem, que combina elementos da linguística com outros de origem experiencial,
provenientes da realidade.
Hugo Bleichmar afirma que a tese de Lacan que estamos discutindo é relativa.
Em sua perspectiva, o inconsciente é heteróclito, contendo elementos linguísticos e
não linguísticos.
Merece especial menção, outra das propostas lacanianas relacionadas com a
linguística. Referimo-nos à postulação da primazia do significante. Tanto Jean
Laplanche como Hugo Bleichmar formulam caminhos críticos. Significado e
significante são - conforme os ensinamentos de Saussure - duas faces da mesma
moeda. Um recorta o outro e é impossível pensar que um tenha proeminência sobre
o outro, dentro da fórmula.
Hobson (1985) considera, criticamente, tanto as opiniões linguísticas de Lacan,
como seus modelos matemáticos ou topológicos. Diz, em seu trabalho "Can
Psychoanalysis be saved?": "Quando Lacan visitou os Estados Unidos, há alguns
anos, seus encontros em Cambridge com o linguista Noam Chomskv e vários outros
luminares locais foi um desastre intelectual sem atenuantes; ele dedicou seu tempo a
analisar, elaboradamente, a linguagem deles, indo algumas vezes ao quadro-negro e
desenhando diagramas pseudocientíficos, supostamente baseados na topologia
matemática, para ilustrar suas interpretações. Willard van Orman Quine, o destacado
filósofo e matemático de Harvard, não se impressionou com nada" Klimovsky (1984)
estuda as limitações e dificuldades dos postulados linguísticos de Lacan, dizendo o
seguinte: "Se o inconsciente tem a estrutura de uma linguagem, se é isomorfo a uma
27
linguagem, então tem uma das seguintes características. Ou é uma estrutura sintática,
um mero cálculo (quando o desejo, o falo e outros elementos não seriam mais do que
elementos de jogo de um algoritmo sem significação nem referência), ou há regras
semânticas, referenciais, designativas, coordenativas etc., o que implica, em alguma
etapa, o conhecimento objetivo de certos fatos, sem ajuda semiótica para captá-los
gnose logicamente" (p. 55).
A título de conclusão preliminar, diremos que, na teoria lacaniana, o homem
parece metido forçadamente em um modelo linguístico. Embora esta camisa de força
pareça dar coerência a teoria, em nossa opinião, subtrai-lhe riqueza e também
amplitude e potencialidade clínicas.
E precisamente na técnica psicanalítica proposta por Lacan que se podem ver,
com mais nitidez, as limitações a que leva sua conceptualização do sujeito. Queremos
destacar que este nos parece o ponto mais fraco de sua teoria.
Comentários sobre as propostas técnicas de Lacan
Quando se estudam as questões de técnica em Lacan, aparecem fatos que
necessitam reflexão. Muitas vezes, há concordância entre ideias teóricas e
consequências clínicas; em outras, não se vê uma relação. Se Lacan indica que há
um registro do imaginário, em que o sujeito se identifica com o desejo do semelhante,
é lógico concluir que o analista possa se converter, na transferência, em um objeto
imaginário. Aqui, há coerência entre a teoria e a técnica. Se a linguagem aliena o
sujeito no discurso do Outro e constrói seu inconsciente, é compreensível que se
privilegie o papel da palavra na psicanálise e que o analista deva funcionar como
garantia da verdade, remetendo ao lugar do Outro.
Mas, como explicar a escansão ou a interrupção da sessão, no momento em
que o psicanalista julgue conveniente? Com igual critério, poder-se-ia dizer que a
maneira de impedir o jogo de palavras vazio seria interpretar, para o paciente, aquilo
que está fazendo. Interromper uma sessão pode ser origem de uma fascinação
narcisista para determinado tipo de analisado, que idealize o analista. Ou seja, que
(para dizê-lo ao estilo lacaniano) sua prática não romperia nenhum imaginário, mas o
fortaleceria. Por que pensar na transferência como uma resposta ao preconceito
(contratransferência) do analista; ou por que o paciente sempre põe o analista, por
definição, no lugar daquele que sabe, do Sujeito Suposto Saber? Quiçá, estejamos
28
diante de uma falta de coerência, em que os fenômenos da teoria correm em direção
diferente dos da clínica.
É possível, em princípio, usar boa parte da teoria que Lacan propõe, sem
chegar ao que pareceriam arbitrariedades da técnica: interromper a sessão, confiar
mais no ato ou gesto do que na interpretação, preocupar-se excessivamente com o
jogo de signihcarites sem privilegiar as angústias do paciente na sessão, desprezando
o estudo da contra transferência, como instrumento técnico, ou do insight, como fator
terapê[Link] Lacan em muitas de suas ideias e reconhecemos a
hierarquia de sua produção, mas não podemos fazer o mesmo com os pontos que
propõe como modificações da técnica analítica.
Recordemos os problemas da teoria de Lacan que possuem vinculação com a
clínica.
1) Punção da palavra em psicanálise. Importância da análise do discurso do paciente,
do ponto de vista dos significantes; especial atenção à morfologia, pontuação etc.
2) Aparecimento da ordem imaginária, narcisista, entre analista e paciente. A
transferência do paciente converte o analista em Sujeito Suposto Saber, possuidor do
falo. Seu discurso se transforma em palavra vazia, ou "molinete" de palavras, onde se
oculta o desejo de reconhecimento, de amor, o desejo escondido na demanda.
3) Necessidade de restituir o paciente ao simbólico, superar sua alienação, resolver o
Edipo, restaurar a palavra plena. De sujeito alienado a sujeito de sua história.
Em um sentido, tudo isto seria inobjetável; acreditamos que Lacan o propõe com toda
a razão.
Apontaremos nossas divergências. Não há maneira de questionar o
imaginário, a não ser por meio da interpretação e do insight. Com efeito, se o paciente
não entende seu conflito, como acreditar que o superará? Para Lacan, a palavra plena
faz ato. Com isto se misturam dois níveis diferentes e se privilegia o ato, acima da
transformação do inconsciente em consciente. Sobrevém o ritual: escansão, silêncio,
pontuação ambígua; sem se dar conta, como dizíamos anteriormente, de que cada
um destes procedimentos, se não forem interpretados para dar sentido à experiência,
corre o perigo de se converter na mais terrível das fascinações. Propicia-se
justamente aquilo que se procura evitar: uma recaída no imaginário.
Certo analisado dizia, narcisisticamente: "Meu analista me encanta, porque
não me incomoda nem me interrompe; ele apenas me escuta". O paciente tinha
29
convertido a técnica lacaniana em uma sucursal de seu conflito, gostava de se escutar
e que ninguém o contradissesse. O analista, em lugar de fazê-lo saber, mediante uma
interpretação, fazia seu jogo, em nome de evitar ser o Sujeito Suposto Saber.
Outra paciente contou, ingenuamente, o seguinte: "Meu analista me
interrompe a sessão, quando falo algo importante, para que este tema não se esgote
e eu possa continuá-lo ria próxima vez" (!).
Estes exemplos demonstram que a única maneira de evitar um fenómeno
narcisista é intepretá- lo explicitamente; o ato puro sempre será entendi- do pelo
paciente, da perspectiva que lhe indica sua própria patologia.
Em 'Intervention sur le transfert", Lacan (1957) propõe que a transferência do
paciente, neste caso a de Dora a Freud, é uma resposta aos erros do analista. Se
Preud tivesse interpretado adequadamente, não se teria produzido o estancamento
do processo analítico e não teria aparecido, em Dora, o que sentia por seu pai.
Acreditamos o oposto, acompanhamos Freud, ao considerar a transferência como
algo interno que o paciente traz e que desdobra no vínculo com o analista. E seu
clichê, seu estereótipo (Freud, 1912, 1920). A vingança de Dora seria suscitada, ainda
que Freud tivesse interpretado sua homossexualidade latente. A transferência do
paciente é mexoravel, não depende da capacidade, habilidade ou conhecimento do
analista. Escutamos, há anos, Horacio Etchegoyen dizer, humoristicamente, em seu
Seminário sobre Técnica, que se um paciente lhe solicitava tratamento logo após
várias tentativas fracassadas com terapeutas não muito experientes, ele se
persignava, pois acreditava que tinha todas as possibilidades de que ocorresse com
ele exatamente o mesmo.
Tampouco acreditamos na eficácia do ritual para restituir à palavra seu valor
simbólico. Em um artigo muito conhecido, Lévi-Strauss (1958) comete, em nossa
opinião, um erro ao comparar a cura xamânica com a psicanalítica. Em ambas,
segundo este autor, propõe-se, em palavras, uma experiência caótica que não pode
ser pensada simbolicamente. O xamã inventa uma história, um mito; em
compensação, o analista revela algo que já está no inconsciente do paciente. No
primeiro caso, o que tranquiliza talvez seja, justamente, a transferência idealizada; no
segundo, a dissolução da transferência. Mencionamos sucintamente estas questões,
porque a técnica lacaniana parece fazer do efeito xamânico um recurso da técnica.
Outorga à simbolização um efeito terapêutico em si mesmo desbloqueador,
30
organizador. Isto pode ser assim ou não, dependendo das intenções do paciente e
das interpretações do analista.
O estilo de Lacan é sempre de um alto tom emocional, como se vê em
"Variantes da cura tipo" (Ecrits, pp. 311-353), trabalho cheio de qualificativos
grosseiros contra outros analistas.
A perspectiva teórica de Lacan produz algumas dificuldades técnicas. Por não
ter uma visão completa do ego e das motivações humanas, espera mais de um ato do
que da compreensão. O ego, para ele, é desconhecimento da realidade, negação,
fascinação narcisista. Acreditamos que é tudo isso e muito mais; porém, também lhe
atribuímos capacidade de observação, motivações não narcisistas, amor ao objeto,
desejo de conhecimento e de acesso à verdade. Se isso não existisse como
disponibilidade egóica, não poderia haver relação com o simbólico. A criança renuncia
ao Edipo, não só porque a Lei lhe é imposta à força, mas também por amor a seus
pais. Acreditamos que a teoria de Melanie Klein resolve melhor esta questão. Nem
sempre é percebido que as pulsões libidinais também guiam a criança a aceitar a Lei.
Lacan não confia que o ego busque a verdade, mas sem este ponto de partida,
como explicar o progresso científico ou a renúncia ao narcisismo, que implica
modificar nossas convicções e ideias? Com exemplos como os de Copernico, Galileu
ou o próprio Freud, não nos resta outro caminho senão admitir que o homem deseja
encontrar a verdade. A experiência analítica mostra que o desejo de cura não apenas
procura evitar a angústia. A verdade pode ser dolorosa e, no entanto, o paciente
deseja enfrentá-la.
Lacan exclui o insight, o desejo de conhecimento e de auto-observação. A
análise de Freud foi, essencialmente, um processo introspectivo, embora, na verdade,
fosse necessária a amizade com Fliess. Mas nosso autor não reconhece na
introspecção o menor dos méritos.
Do outro lado da dupla analítica, a mente do analista, Lacan tampouco aceita
que a contra- transferência possa se converter em um instrumento técnico. O
abandono do estudo da contra- transferência é um preço muito alto que este autor
paga, por subestimar os aspectos não narcisistas do ego e suas funções de
comprovação da realidade, observação e desejo de conhecimento. A partir dos
trabalhos de Racker (1948, 1960) e Paula Heimann (1950, 1960, aos quais, depois,
muitos analistas seguiram, a contra- transferência se converteu em um foco de
31
interesse para a compreensão da situação analítca e dos conflitos do paciente. Ignorá-
la implica descartar um instrumento excepcional, que amplia e enriquece a perspectiva
psicanalítica.
Porém, vamos mais longe ainda. Lacan deveria pensar que a escansão pode
ser resultado da contra- transferência do analista. Se o analisado aborrece, incomoda,
erotiza ou desperta emoções intensas, não poderíamos supor que o analista se sinta
tentado a interromper a sessão, como consequência destes sentimentos? Também
vimos fazer um uso psicopático da escansão da sessão, por algum personagem
inescrupuloso que, quando recorria a esta técnica com um paciente, já tinha o seguinte
esperando. Misteriosa capacidade preditiva do quanto ia durar a sessão!
O respeito ao enquadramento, que frequentemente é criticado como rigidez,
preserva tanto o analista como o paciente, abrindo o campo para a compreensão e a
interpretação dos conflitos de ambos. Aceitar a capacidade humana para aceder a
verdade é o único caminho que nos resta para evitar o solipsismo de cair em um
sistema fechado que nos isola do exterior. Em Lacan, a palavra plena tem efeito por
si mesma, alcança um engate dos significantes que resolve o problema, não há
compreensão sem efeito, ato, queda do imaginário.
Parece-nos uma teoria que, embora não se explicite, é tremendamente
pessimista a respeito da capacidade humana de aceder à razão. Sem nenhuma
dúvida, a interpretação do conflito do analisado se dá a partir dos significantes verbais
e oníricos. Mas também se devem levar em consideração outros elementos: o estado
emocional do paciente (que nem sempre se expressa verbalmente), o estado afetivo
do analista etc. A interrupção da sessão parece simplista, pois não explica as infinitas
variações existentes atrás da palavra vazia. O paciente pode estar em uma atitude de
rivalidade com o analista, ter medo ou sofrer uma falha psicótica. Utilizar a mesma
denominação palavra vazia' para todos estes fenómenos, dando a todos eles uma
mesma solução, é como pretender curar todo quadro febril com aspirina, sem
investigar, especificamente, o que existe por trás dele.
Green fez uma crítica valiosa à perspectiva que Lacan utiliza para
compreender os afetos. Subscrevemos sua opinião, quando diz que foi proibida a
presença do afeto (1073, p. 110) e que, mesmo que nas obras iniciais de Lacan, como
'Le stade du miroir comme formateur de la fonction du Je teile queile nous est revélee
dans l'experience psvchoanalvtique", tenha um lugar importante, logo o perde. Ele
32
está disposto a aceitar a primazia do significante, se também lhe for atribuída urna
organização heterogénea (ihid., pp. 110-112L A teoria do Sujeito Suposto Saber
explica, indubitavelmente, fenômenos reais do processo analítico. Apesar da
veracidade que encerra, não estamos completamente de acordo com ela. O pacto
analítico supõe que o paciente esteja angustiado ou em conflito, e que o analista
domine uma técnica que pode liberá-lo deste sofrimento. Neste sentido, o analista
Lacan diria que este saber do analista decorre de sua adesão a um método no qual
funciona como garantia da verdade, remetendo a palavra à Lei, ao Outro. Na sessão,
o analista interpreta, não apenas garante a verdade. Lacan pensa que é a própria
palavra do paciente que desvela a verdade, algo assim com se o analista
proporcionasse um referencial para que o paciente se curasse sozinho.
Diferentemente dele acreditamos que o terapeuta, ao descobrir conflitos e analisar a
transferência, vai muito além disso. A capacidade do analista para tolerar as emoções,
sustentar e modular a angústia do paciente com suas intervenções, também tem um
efeito terapêutico. Interpreta tudo o que acredita que seja útil e não à maneira de
solução de enigmas.
O analista saberá mais do que o paciente, não apenas do método e da Lei,
mas também do próprio paciente e de si mesmo. Nada melhor para o narcisismo do
que usar, como justificativa, a ideia de Lacan: quem me cura não é o analista, mas eu
mesmo: ele me fornece o referencial para que eu aceda à minha verdade. Na
realidade, está se produzindo a mais pura das transferências. A criança deseja
acreditar que os pais não são aqueles que o criam e educam, mas que tudo isto está
dentro dele. A relação analítica é simétrica, em um aspecto, e assimétrica, em outro.
O aspecto igualitário está no fato de que se trata de dois adultos que pactuam uma
tarefa. Porém, ali termina a simetria, pois a mente do analista permite entender muitos
problemas que o paciente desconhece: ele tem o dever de conduzir o processo e dar
lugar à transferência.
Devemos destacar que, embora frequentemente o paciente transfira para o
analista suas imagos idealizadas e pareça convencido de que aquele sabe tudo, nem
sempre e assim. A experiência clínica nos ensina que pode ocorrer exatamente o
contrário: o narcisismo do paciente faz com que ele sinta ser o Sujeito Suposto Saber,
pelo que converte o analista em seu empregado ou servidor. A criança, às vezes
33
percebe seus pais como súditos a seu serviço, encarregados de lhe resolver todos os
problemas, e esta situação infantil pode ser revivida pelo paciente com seu analista.
Na conceptualização do desejo de reconhecimento e do reconhecimento do
desejo, evidentemente há um grande acerto lacaniano. Na demanda do paciente
sempre se esconde seu desejo, em especial o desejo de ser reconhecido, de ser
tomado como objeto de fascinação, que se estabeleça com ele uma relação
especular. Este é um fenômeno de inquestionável observação clínica que, por outro
lado, é eminentemente transferencial, pois a criança busca isso dos pais.
O que se demanda do analista encerra um desejo que, como diria Lacan, é a
metonímia ou a metáfora deste e também do sintoma. Uma senhora, com problemas
matrimoniais, queixa-se de seu marido, a quem considera um perfeito inútil. Insiste
em que o analista não se ocupa suficientemente dela demanda-lhe que faça mais e
que não a frustre. Curiosa réplica, em que a demanda mostra, como consequência de
sua inveja fálica, o desejo de castrar o homem.
Muitas das categorias lacanianas podem ser incorporadas para a
compreensão de problemas teóricos e clínicos. Mencionaremos algumas delas, as
que julgamos mais relevantes: a linguística como modelo, a ideia de três registros, o
papel da palavra, sua bela descrição do narcisismo e do desejo humano. Mesmo as
ideias mais criticáveis encerram uma dose de verdade, enunciando problemas que
merecem nossa atenção. Não aceitamos os recursos de sua técnica, porque
acreditamos que reforçam os problemas que procuram eliminar.
Lacan tem seguidores e críticos, todos, na verdade, muito passionais. Nossa
atitude é situar seus conceitos na perspectiva global da psicanálise, não aceitar que
seja a única psicanálise possível, mostrar o que pode ter de reducionista em suas
formulações e, ao mesmo tempo, valorizar seus achados originais e reformulações.
Errou o caminho, na prática, apesar da intenção dever ser, sem dúvida,
compartilhada: análise do inconsciente, estudo da fantasia e do desejo, busca da
palavra plena e realização simbólica do sujeito. Paradoxo das circunstâncias e
destinos: se a teoria que Lacan sustentou descreve tão bem muitos problemas e abre
tantas perspectivas, a prática parece impor um desvio para a psicoterapia e nisto não
sabemos se pode obter maiores êxitos do que seus oponentes, tão criticados. 4
35
por um ideal cristão que contrastava com a religiosidade simples e provinciana da
família Dessaux.
Depois de quatro filhos, Émilie foi acometida de dores abdominais que a
obrigaram a uma operação e renunciar a ter outros filhos. Com o nascimento do
primeiro filho, Jacques Lacan, Émilie contratou os serviços de uma jovem governanta
Pauline, com preferência após o nascimento dos outros filhos, pelo pequeno Marc.
Jacques, que era chamado de Jacquot, ficou com ciúmes, embora fosse o preferido
da mãe.
Aparentemente a família vivia num lar unido pela devoção, mas logo
apareceram os conflitos. Émilie não se entendia com a sogra Marie Julie, que julgava
demasiada autoritária em relação à Alfred e não suportava as cunhadas.
O pai de Lacan sucedeu seu pai nos negócios e se tornou um fino conhecedor
das regras do comércio parisiense. Mas, dos anos de infância, no seio de uma família
normal e conformista, Jacques guardou uma lembrança terrível, educado num clima
de religiosidade sufocante e dos perpétuos conflitos domésticos (não gostava da
forma como os avós paternos tratavam seu pai), criticava o avô que desprezava e, de
quem fará publicamente um retrato de violência inusitada, um ano após a morte do
pai.
Lacan recebeu na sua vida escolar uma formação clássica, pouco aberta ao
espírito das luzes. Em filosofia, Descartes ocupava o lugar de honra. Fechado à
modernidade e centrado num cartesianismo cristão.
A partir de 1915 a guerra irrompe na vida monótona da família Lacan. Alfred
cuidava das provisões alimentares do exército e Émilie substituía suas funções na
firma Dessaux.
O pátio do colégio fora transformado em alojamento para feridos da guerra e
isso talvez tenha despertado o desejo de uma carreira médica do filho de Alfred
(Jacques Lacan).
Lacan era excelente aluno, intimidava até os professores, era o primeiro em
tudo, belos olhos, seriedade e malicia. Arrogância era o traço principal desse
adolescente que não se interessava pelas brincadeiras da infância.
36
O comentário dos professores é que ele tinha caprichos de imaginação, um
pouco vaidoso, às vezes inoportuno e, sobretudo incapaz de organizar seu tempo e
de se comportar como os outros. Seguidamente ausente por razões de saúde, fugia
diversas vezes das aulas e padecia de uma espécie de tédio que se misturavam langor
e deleitação melancólica.
Com o irmão casula mostrava-se paternal.
Aos 17anos teve sua primeira relação sexual com uma cliente de seu pai.
Numa crise de melancolia, na adolescência, rejeitou o universo familiar e os
valores cristãos e por volta de 1923 ouviu falar das teorias de Freud.
Alfred e Émilie começaram a inquietar-se com as atitudes do filho que
desprezava suas origens, vestia-se como um dânge e imaginava-se um rastignac
(herói de Balzac).
O abandono da religião e da fé se concretizaram ainda mais quando em 1925
começou a ler Nietzsche em alemão.
Os três filhos de Alfred romperam, cada um a sua maneira, os laços que os
uniam à família. Jacques por uma ruptura intelectual, a segunda filha por uma
permanência prolongada em um país distante e o terceiro pelo sacerdócio.
No momento em que Lacan iniciava a carreira medica, havia, de um lado, a via
médica e o grupo da evolução psiquiátrica, em 1925. Em 1926 iniciou a sociedade
psicanalítica de Paris. Do outro lado a via intelectual, a das vanguardas literárias e
filosóficas.
Do lado da via intelectual, buscava-se transformar o homem por meio da
onipotência do desejo, inventou-se a utopia de um inconsciente enfim aberto às
liberdades e admirou-se acima de tudo a coragem com que um austero cientista havia
ousado pôr-se a escuta das pulsões mais intimas do ser, desafiando o conformismo
burguês e correndo o risco do escândalo e da solidão.
Lacan fez um percurso clássico passando da neurologia para a psiquiatria e
levou mais ou menos oito anos até ser membro da sociedade de psicanálise.
Seus mestres em psiquiatria foram Georges Dumas (adversário da
psicanálise), Henri Claude (rival de Dumas) e Gaëtan Gatian de Clérambault.
Henri Claude rejeitava o antifreudismo, era o chefe indiscutível da clínica de
doenças mentais.
37
Clérambault defendia a síndrome do automatismo mental de origem orgânica
onde as perturbações se impunham ao sujeito de maneira externa e brutal, como um
automatismo. Compartilhava com Freud e os surrealistas a ideia de que a loucura era
vizinha da verdade, a razão da desrazão e a coerência do desregramento (se
suicidou).
Com os três mestres Lacan adotou atitudes diferentes. Com Henri Claude,
grande burguês sem talento, mas chefe que lhe poderia ser útil, conduziu-se como
aluno submisso, adulou seu narcisismo dando-lhe sempre razão do auto de uma
superioridade zombeteira.
Com Dumas mostrou-se muito respeitoso, admira- lhe o gênio clinico e
procurava seduzi-lo.
Com Clérambault, mantinha uma conflituosa relação de amor e ódio.
Clérambault acusou Lacan de plagio. Com incrível desplante Lacan voltou a acusação
sobre o mesmo. O caso deu muito que falar, pois Lacan tinha um notável senso de
publicidade.
Nos estudos sobre o surrealismo, Lacan tomou conhecimento do primeiro
número de surrealismo ao serviço da revolução em julho de 1930 um texto de Salvador
Dalí. É em seu quadro que dá a ideia de uma imagem dupla, ou seja, a representação
de um objeto que sem a menor modificação figurativa ou anatômica, fosse a
representação ao mesmo tempo de um outro objeto absolutamente diferente.
Para Dalí, a paranoia funcionava como uma alucinação, ou seja, como uma
interpretação delirante da realidade. Fenômeno pseudo- alucinatório, com imagens
duplas, assim um cavalo poderia representar também uma mulher. Paranoia como
erro de julgamento e delírio racional. Todo o delírio já é uma interpretação da realidade
e toda a paranoia uma atividade criadora lógica.
O ano de 1931 -1932 foi uma época de transição para Lacan. Ele começou a
efetuar uma síntese, a partir da paranoia, de três domínios do saber: a clínica
psiquiátrica, a doutrina freudiana e o surrealismo. Daí vai elaborar a tese de medicina
que será sua grande obra da juventude. “de la psychose paranoïque dans ses rapports
avec la personnalité” (Da psicose-paranoica em suas relações com a personalidade).
38
5.2 Vida Pessoal
Na vida amorosa, Lacan teve sua primeira experiência sexual aos 17 anos com
uma cliente de seu pai.
Em 1928 Lacan estava interno, como residente no hospital Sainte-Anne.
Habitava um quarto modesto, feio e escuro e, mantinha um relacionamento com
Marie-Thérèse Bergerat, que era uma viúva austera e, 15 anos mais velha. Com ela
descobriu as obras de Platão e fez várias viagens de estudo.
Em 1929 apaixona-se por Olesia Sienkiewkz, segunda mulher de seu amigo
Pierre, que era filha de banqueiro, educada de forma fina e refinada.
Nesse período, Lacan passa por momentos muito difíceis. Amava Olesia, mas
não conseguia separar-se de Marie-Thérèse e,quando separado dela, passa por
momentos de muita angústia e buscava exorcizar seu tédio.
Aos 27 anos, Lacan é despertado por um novo amor, Marie-Louise Blondin
(Malou), pintora da burguesia. Lacan era amigo de seu irmão Sylvain que admirava
como o duplo de si mesmo.
Fisicamente Lacan era extremamente sedutor, alto, magro, ágil, esperto,
gostava de gravatas borboletas e tinha cabeleira loira e ondulada, operava com a mão
esquerda. Durante toda a vida, não fez exame de motorista, usava limusines ou táxis.
Casou-se com Malou em 29 de janeiro de 1934. Na lua-de-mel enviou
telegrama para Olesia para reparar por tê-la abandonado. Lacan era incapaz de
abandonar uma mulher quanto de permanecer-lhe fiel. A ruptura com Olesia jamais
se consumou.
Em fevereiro de 1934, Lacan conheceu Sylvia Bataille, na volta de sua viagem
de núpcias. Se encontraram mais uma vez em novembro de 1938, cruzaram-se por
acaso e não mais se deixaram. Naquele dia, tiveram um pelo outro uma verdadeira
paixão súbita. Lacan era então amante de outra mulher.
Em 1936 Malou teve a primeira filha com Lacan, que se chamava Caroline e
Lacan acrescentou o segundo nome de Image (referencia ao estádio do Espelho).
Neste período a vida de Lacan com Malou era aparentemente tranquila e muito feliz
com sua função de pai e, assim a filha Caroline era segura e sua autoridade foi em
decorrência da felicidade de sua primeira infância, onde foi a preferida da mãe, do pai
e do tio Sylvain.
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Durante dezoito meses a experiência da paternidade deixou-o muito feliz, vindo
após três anos de casados, porem a filha não apagou nenhum mal-entendido do
casamento.
Ao apaixonar-se por Sylvia, Lacan afastava-se de um mundo que já não era
mais inteiramente o seu, o da alta burguesia médica parisiense, marcado pelo culto
da fortuna, os valores do dinheiro e o sentimento de ser a elite da nação.
Renunciara esta vida, por uma maneira de ser menos conformista, menos
rígida e mais boêmia.
Essas duas mulheres tão diferentes tiveram um ponto em comum, ambas
destruíram numerosas cartas que Lacan lhe escreveu e nas quais falava de sua
doutrina e de suas opiniões sobre as coisas e as pessoas.
O segundo filho de Lacan nasceu após dois anos e se chamava Thibaut,
quando os pais ainda se entendiam.
Em setembro de 1939 Lacan estava preocupado com seus amores, com Sylvia,
com suas dificuldades conjugais com Malou e com o estado de saúde de seu filho,
então com um mês de vida.
Malou não ignorava que Lacan lhe era infiel a muito tempo, mas parecia não
saber que o momento em que soubera de sua gravidez coincidira com a paixão súbita
entre Sylvia e Lacan.
O filho teve que se submeter a uma cirurgia (estenose no piloro) que o acometia
em vômitos, perda de peso que resultou numa operação bem-sucedida.
Ele dizia que o perigo que pesava sobre seu filho afastava todos os outros, mas
que a criança havia manifestado desejo de sobreviver, chamava o filho de o valente e
também elogiava Malou pelos cuidados com filho.
Em 1940 Malou ficou grávida novamente acreditando reatar os fios de uma
história que rumava ao desastre (período da segunda guerra mundial).
No final de 1940 Sylvia engravida de Lacan o qual conta a Malou, sem
preocupar-se com o fato de que esta, no oitavo mês de gravidez estava a ponto de
dar à luz. Já muito machucada pela existência dessa ligação, a qual tentara em vão,
por fim, ela não suportou a crueldade daquele a quem continuava a amar e
desmoronou sob o peso da humilhação tomada por uma depressão, Malou deu à luz
a uma menina chamada Sibylle.
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O homem que Malou havia escolhido, idealizando-o ao extremo, e com a
certeza de que teria dele filhos inteligentes, não estava à altura das aspirações dela.
Ele não apenas era sedutor, libertino, caprichoso e impossível de satisfazer, mas
também habitado pelo sentimento de ser um gênio portador de uma grande obra e por
um imenso desejo de ser reconhecido e tornar-se celebre. Assim, só pensava em si
mesmo e nos próprios trabalhos.
O fascínio que exercia a sua volta originava-se da extrema rapidez de sua
inteligência e da infinita lentidão de suas atitudes corporais. Sempre imerso em seus
pensamentos, Lacan era ao mesmo tempo tirânico e sedutor, inquisidor e angustiado,
obcecado pela verdade, coisas que o tornavam inapto àquela fidelidade conjugal que
Malou teria desejado.
O divórcio, pedido por Malou foi pronunciado em 15 de dezembro de 1941.
Em 03 de julho de 1941 Sylvia deu à luz a uma menina chamada Judith Sophie,
que não recebeu o nome de Lacan em função do primeiro casamento de Sylvia.
Não há dúvida de que sua teoria do nome do pai, que formara o pivô da doutrina
lacaniana encontrou um de seus fundamentos no drama dessa experiência vivida em
meio aos escombros e a guerra.
Ao morar no bairro da inteligência literária, em sua nova vida com Sylvia, ele
rompia com a tradição do meio psicanalítico parisiense.
Malou conseguiu que Lacan renunciasse sua autoridade de pai. Pensava em
puni-lo por tê-la abandonado, mas decidiu esconder dos filhos a verdade. Assim, toda
quinta feira ele almoçava com Malou e os filhos no modesto apartamento do VII
distrito.
A primeira filha de Lacan com Malou, Caroline passou a conviver com o tio
Sylvain onde conheceu seu enteado que virá a ser seu futuro marido (casam-se em
1958).
Caroline teve uma primeira infância feliz, era então segura, altiva e elegante,
segura de sua inteligência e de sua pertença à elite, fez carreira no ramo de imóveis,
porém não teve com seu pai um verdadeiro relacionamento intelectual, não lia o que
ele escrevia e não teve acesso a compreensão da obra e do ensino do pai.
Thibaut e Sybille sofreram mais com essa situação de clivagem, marcado
desde o início pela dor melancólica da mãe, e também pelos conflitos entre a realidade
imaginaria de um mundo paterno cuja existência lhe era ocultada e a realidade
41
concreta de um mundo cotidiano regido pela lei do fingimento. Com isso tiveram
dificuldades de integração em termos sociais e na própria identidade.
Assim como a conduta de Malou, também a família dos pais de Lacan fingia
não ver os relacionamentos na vida de Lacan.
Por volta dos preparativos do casamento da filha Caroline em 1958, Malou e
Lacan decidiram pôr fim ao reinado de fingimento entre as duas famílias, mas a
rivalidade não cessou de crescer.
Em 21 de novembro de 1948, a mãe de Lacan faleceu após uma cirurgia de
histerectomia por complicações pós-operatória.
Após um período em que Lacan e Sylvia moraram no mesmo apartamento, o
apartamento 03 ficou sendo o domicilio de Sylvia onde eram oferecidos jantares e
recepções e, o apartamento 05, o de Lacan, onde ele trabalhava, recebia as amantes
e conduzia as análises embora fizesse as refeições no apartamento 03 com Sylvia.
Em 1951 Lacan adquiriu uma encantadora casa de campo em Guitrancourt,
onde se refugiava aos domingos para trabalhar, mas também recebia pacientes ou
oferecia suntuosas recepções. Lacan adorava representar diante dos amigos,
dissimular-se, dançar, dar festas e usar roupas extravagantes. Ali construiu uma
imensa biblioteca e colecionou obras de arte. Lacan também sempre teve paixões por
viagens.
Lacan tinha verdadeira adoração pela filha Judith, pó isso era criticado pelos
colegas, pois agia de forma contraria a doutrina edipiana.
Com a oficialização da separação de Sylvia com seu primeiro marido, Bataille,
aos 45 anos de idade, Lacan buscou na justiça legalizar o nome de sua filha Judith.
Em 1962, move um processo que permitisse a Judith ser legitimada por seu pai. Essa
legislação se efetivou no dia em que Lacan fazia sua entrada na “Escola Normal
Superior” para pronunciar seu discurso sobre A Excomunhão, no momento em que foi
forçado a deixar a IPA.
Na sala Dussani onde falava, naquele 15 de janeiro diante de uma nova
audiência, achava-se presente seu futuro genro Jacques Alain Miller, que desposará
Judith em 12 de novembro de 1966. Portanto a filha só usou o nome do pai por dois
anos.
Em 15 de outubro de 1960, com 87 anos morre o pai de Lacan, Alfred, sem
sofrimento, em consequência de uma ruptura de aneurisma.
42
Graças às preciosas recordações do irmão de Lacan, Marc Françóis, sabe-se
muito bem hoje que o conceito do nome do pai reside no lugar ocupado por Émile
Lacan, no interior da genealogia familiar. Jacques execrou a vida toda esse “horrível
personagem” graças ao qual tivera acesso numa idade muito precoce a função
fundamental de maldizer a Deus. A esse avô de quem trazia o prenome em seu
registro civil, ele recriminava ter-se comportado como um tirano em relação a Alfred
que se tornou assim inapto para o exercício da paternidade. Educado por esse pai
temível, Alfred mostrara-se um pai afetuoso, devotado e cheio de boa vontade, mas
incapaz do menor interesse pelo gênio intelectual do filho mais velho, que ele
considerava um ser volúvel e irresponsável.
É nessa posição enfraquecida de seu pai que ele evocou o declínio inelutável
da imago paterna, revalorização da função simbólica do pai.
Em dezembro de 1969, o filho de Lacan Thibaut, casado pela segunda vez teve
seu primeiro filho homem, que recebeu o nome de Pierre, o qual receberia o nome de
Lacan. Jacques ficou felicíssimo, porém a criança morreu três dias após o nascimento.
Outro luto atroz ocorre em 30 de maio de 1973, sua filha Caroline morre num
acidente automobilístico.
Em 13 de novembro de 1980, Lacan ditou e depois assinou perante o tabelião
e duas testemunhas um testamento pelo qual instituía como herdeira universal a filha
Judith e em caso de falecimento anterior, os filhos dela. Nomeava Jacques-Alain
Muller executor testamentário de sua obra publicada e não publicada, sem nenhuma
instrução concernente a esta.
Lacan morre numa quarta-feira, 09 de setembro, as quinze para meia-noite.
Teve tempo de pronunciar estas palavras: “Sou obstinado… Eu desapareço”.
Morto sob falso nome, depois declarado morto, no registro civil, num domicilio
onde não havia morado e do qual era simplesmente o coo -locatário: tal foi o destino
último desse grande teórico da verdade.
Quarenta anos após a publicação de sua tese, o caso Aimée o havia levado a
psicanálise, embora ele tenha se apropriado da doutrina da psicanálise, ainda não
fazia parte dela. Em 1932 começou a frequentar o divã de Rudolph Loewenstein.
43
Sobre seu analista, dirá que jamais será seu mestre, quando muito será para
ele um didata decepcionante no mais puro estilo da IPA- anos 30.
Lacan não era um analisando comum, era um homem livre e essa liberdade
transbordava de todos os lados. Não conhecia entraves, nem limites e nem censura.
Se diz analisado não sobre um divã qualquer, mas um divã ortodoxo e regulamentar.
Lacan chegou na idade viril com apenas sofrimentos burgueses: insatisfação
perpétua, impaciência exacerbada, sofrimento de não saber ainda dominar o universo
(neuroses cotidianas). Ele não havia conhecido a privação, a fome, a miséria, a
ausência de liberdade, a perseguição (como os judeus).
Lacan era uma espécie de anti-herói, inapto a normalidade, prometido a
extravagância e incapaz de obedecer a multidão de comportamentos comuns.
Entre Lacan e seu analista, homens tão diferentes havia um ponto em comum:
ambos eram materialistas, ambos tinham aceitado a grande lição freudiana do
universalismo, da morte de Deus e da crítica as ilusões religiosas.
Lacan sempre guardara segredo de sua passagem pela supervisão, a ponto de
seu genro e seus familiares jamais terem ouvido falar do fato antes que nos fosse
revelado com certeza, em junho de 1982, por Germaine Guex. Não significa que a
supervisão não tenha ocorrido.
Sua análise durou seis anos, várias vezes por semana, de junho de 1932 a
dezembro de 1938.
Se Lacan concebia a liberdade sob o aspecto de um longo desdobramento do
desejo, Loewenstein via-a de maneira oposta. Para ele a conquista da liberdade não
era se não a aquisição de um direito, uma necessária vitória obtida sob a intolerância.
Loewenstein, puro técnico da grande pátria da IPA, submetia-se a fé comum
sem renunciar suas paixões. Amante de uma princesa da qual será a seguir o analista
(Marie Bonaparte), após ter sido o do seu filho, ele defendia as regras das quais se
dizia o defensor. E nisso se assemelhava a Lacan, seu mais poderoso rival, porém ao
contrario deste, acreditava que a submissão as regras serviam ao exercício da
psicanálise freudiana da qual a IPA tornara-se a Terra Prometida.
Lacan não se importava com isso, não sentia necessidade de obedecer a
menor regra. Para ele, a IPA só garantia a legitimidade freudiana.
Loewestein fez alusão apenas uma vez, por escrito, à análise de Lacan
“segundo ele o homem era inanalisável”.
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Lacan disse de Loewestein, que ele não era inteligente o bastante para analisá-
lo. “teve a impressão de fazer uma análise”.
Lacan tornou-se membro efetivo da SPP em 20 de dezembro de 1938, contra
a opinião de seu analista e com o apoio de Pichon, como também abandonou o divã
assim que pode, após ter prometido continuar. Enfim, tornou-se para França o mestre
do pensar que Loewestein não havia sido.
Durante a duração da analise Lacan permanecia um marginal (a margem), não
produziu nenhum texto importante, do mesmo modo, esse período vazio que se abre
a um sistema filosófico, que se tornou um período de latência.
Com o Fascismo, e a perseguição dos judeus, em 1938 apoiada por Jones, a
operação de salvamento levou à demissão forçada dos últimos membros judeus da
DPG, num encontro em 13 de março de 1938 onde Freud e seus companheiros se
reuniram para encerrar as atividades da sociedade e Lacan não foi convidado.
Fonte: [Link]
45
conhecimento humano não evolui, como se crê, no sentido da busca de um modelo
cada vez mais conforme a uma realidade cuja a existência bastaria descobrir para
provar que o espírito humano dele se aproxima por uma série de progressos
sucessivos.
A concepção de um universo infinito e autônomo derrubava as provas
tradicionais da existência de Deus ao desalojar o sujeito de seu lugar central no
mundo, no qual, ele era obrigado a buscar Deus em si mesmo.
A fundação do Cogito cartesiano numa tradução filosófica orientada em torno
da verdade e liberdade, onde o sujeito é livre, sem apoio exterior a si mesmo, ele é
forçado a experiência de uma verdade jamais limitada por uma autoridade pré-
existente qualquer. Minha existência como consciência do mundo.
Há um retorno às raízes originais do ser, seja no surgimento de um nada,
símbolo trágico de uma finitude moral da existência humana, despojada de toda a
transcendência. Recriminava-se por cultivar o nada do ser, e o nada do devir, para
chegar a certeza do nada da morte. Portanto, ele era visto como doutrina patológica
e até mesmo obscurantista.
Heidegger filósofo alemão, foi o primeiro a ousar, nessa época de pós-guerra
trazer a filosofia do céu para a terra, falar-nos de nós mesmos; falar-nos – como
filosofo – de coisas muito banais e muito simples: da existência e da morte; do ser e
do nada; ele soube recolocar, com um frescor e uma força incompatíveis, o duplo
problema eterno de toda a filosofia verdadeira, problema do eu e problema do ser:
quem sou eu? E o que quer dizer ser? O empreendimento de Heidegger consiste,
sobretudo no valor e importância do empreendimento de demolição. As análises de o
ser e o tempo são uma forma de catarse libertadora e destrutiva. Elas tomam o homem
em seu estado natural. Tem por objetivo sua percepção das coisas, as coisas
mesmas, a linguagem, o pensamento, o devir, e o tempo. Mostram-nos a obra do
agente. Guiam-nos para a fogueira final do nada, onde desaparecem todos os falsos
valores, todas as convenções, toda a mentira, e na qual o homem está inteiramente
só, na grandeza trágica de sua existência solitária: em verdade e frente à morte.
Esse empreendimento de destruição e de modificação ia em sentido oposto a
toda teologia, mesmo negativa, pois, como assinalava Koyré, o nada heideggeriano
não era nem Deus e nem o absoluto: apenas um nada que tornava trágica a grandeza
da finitude humana.
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Com seus estudos de filosofia Lacan participou pela primeira vez de um
congresso da IPA em Mariembad, cidade próxima à Áustria, no momento em que
Jones estava acabando de liquidar a psicanálise na Alemanha. O tema O estádio do
espelho, num período de oposição entre Melanie Klein e Anna Freud.
Por volta de 1936, o homem mais poderoso da Sociedade Psicanalítica, depois
de Jones, era Eduard Glover (grandes controvérsias londrinas dos anos de guerra).
Nesse período (1936) Klein buscava construir uma doutrina da estrutura do
sujeito, do seu imaginário, que respondia às interrogações de toda uma época. Lacan,
fazendo parte de uma segunda geração psiquiátrico-psicanalista francesa, havia
questionado a doutrina das constituições que separavam artificialmente o normal e o
patológico, buscava resolver o enigma da condição imaginaria do homem explorando
os elementos mais arcaicos da relação de objeto. Lacan se apoiava num saber exterior
ao freudismo: psiquiatria, surrealismo e filosofia.
A partir de 1933, Lacan fez uma segunda leitura de Freud, para no ano
seguinte, levar em conta os trabalhos de Klein e a perceber-se que a “grande dama”,
colocava as mesmas questões, do estatuto do sujeito, estruturação das relações de
objeto, papel arcaico da ligação edipiana, posição paranoica do conhecimento
humano, lugar do imaginário, etc.
Depois em 1966, por ocasião dos Escritos que ele diz: foi no congresso de
Mariembad em 31 de julho de 1936 que se colocou esse primeiro pivô da nossa
intervenção na teoria psicanalítica: buscou a noção de Wallon, de estádio do espelho
para transformá-la de cima a baixo.
Wallon aderia à ideia darwiniana segundo a qual a transformação de um
indivíduo em sujeito passa pelas desfiladeiras de uma dialética natural. No quadro
dessa transformação, que para a criança consiste em resolver seus conflitos, a
experiência dita do espelho é um rito de passagem que ocorrem entre 06 e 08 meses
de vida. Ela permite a criança reconhecer-se e unificar seu eu no espaço. A
experiência especifica assim a passagem do especular ao imaginário e
posteriormente do imaginário ao simbólico.
O Estádio do espelho torna-se uma operação psíquica numa identificação com
seu semelhante quando percebe, em criança sua própria imagem no espelho. O
estádio do espelho no sentido lacaniano seria assim a matriz, por antecipação, do de
vir imaginário do eu. É em 1937, num comentário de uma conferência de Marie
47
Bonaparte que Lacan oferece a melhor definição dessa noção um ano antes de incluí-
la no texto sobre os complexos familiares.
Em 03 de agosto de 1934 num clima de confronto entre os Anna freudianos e
os Kleinianos, Eduard Glover dissociava-se publicamente das teses de Klein apoiado
por Melita. Então Lacan, neste congresso tomou a palavra na segunda sessão
cientifica e dez minutos depois Jones interrompeu seu discurso no meio de uma frase.
Em 1966, nos Escritos, Lacan reescreve e, sua cólera ainda estava tão viva
que não deixou de anotar a hora e o dia onde ousaram cortar-lhe a palavra. Depois
de não ter sido reconhecido por Freud por ocasião do envio de sua tese.
O texto dos Complexos Familiares, onde constava o estádio do espelho foi
redigido aos 35 anos quando iria ser pai pela primeira vez com Malou.
A partir desse congresso de 1936 já estavam colocadas os prolegomenos de
uma teoria do sujeito que se enxertava na obra de Freud a partir de uma leitura
kojeviana de Heguel.
Outros colaboradores: Nietzsche; Kierkegaard; Masson (pintor); Acephale;
Bataille; Dalí.
Em 1938, com o empréstimo tomado de Uexküll, Lacan permitia pensar em
uma nova organização do fenômeno mental, não mais simples fato psíquico, mas
imago, isto é, conjunto de representações inconscientes que aparecem sob a forma
mental de um processo mais geral. Vindo do vocabulário Junguiano, o termo imago
servia não apenas para inscrever no inconsciente os dois polos de representação do
modelo familiar – pai e mãe/patriarcado e matriarcado, mas também para pensar a
organização da família na perspectiva das inovações trazidas por Uexküll fora da
pertença a um todo social orgânico. A isso justificava-se o princípio aristotélico de uma
essência humana definida, por, pelo menos, três elementos, um homem, uma mulher,
um escravo.
Lacan introduz a categoria do je (eu), pronome pessoal da primeira pessoa do
singular, para designar o sujeito, em oposição ao moi (eu) utilizado para traduzir i
Ich(eu) freudiano, comumente traduzido por ego.
Para Lacan o Complexo do Desmame fixa no psiquismo a relação de
amamentação sob o modo parasitário que a necessidade da primeira idade do homem
exige; ele representa a forma primordial da imagem materna. Portanto funda os
sentimentos mais arcaicos e mais estáveis que unem o indivíduo à família. Quando
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essa imago não era sublimada, para permitir o vínculo social, tornava-se mortífera,
tais como anorexia mental, toxicomania. Em seu abandono à morte, o sujeito busca
reencontrar a imago da mãe.
O Complexo da Intrusão fixava, pela identificação mental, a relação dual do
sujeito com seu semelhante.
O Complexo de Édipo introduzia uma triangulação.
Pichon partilhava com Lacan a ideia de que a família era um agente de tradição
e não da hereditariedade.
Na França, em 1953, acontecia uma tempestade idêntica à da Inglaterra,
durante as Grandes Controvérsias. O conflito incidia sobre a formação dos analistas
e punha em cena um autoritarismo médico e um liberalismo universitário. Lacan, neste
momento ainda não ocupava como Klein uma posição importante. Por seu
temperamento via-se a todo o momento contradito por sua figura e pelo conteúdo de
seu ensino. Para a juventude ele era o porta-voz de uma sólida aspiração
revolucionária e semeava a rebeldia entre os alunos.
Assim, Lacan demitiu-se da Sociedade Psicanalítica de Paris (SPP) e juntou-
se a Lagache e seus amigos para fundar a Sociedade Francesa de Psicanálise (SFP).
Não percebeu que com isso perdia a qualidade de membro da IPA.
Lacan não se curvava às regras técnicas da IPA. Segundo essas regras, as
análises deveriam durar pelo menos 04 anos, com 4 ou 5 sessões semanais e 50
minutos de duração.
Lacan dizia o quanto o adversário queria prejudicá-lo insinuando que ele fazia
sessões curtas e análises abreviadas.
Lacan também tinha o hábito de pagar o que devia com cheques, entregues
por clientes, mas com o nome ao portador em branco, a fim de que pudessem ser
descontados por outros.
Possuía uma clientela de alunos muito maior que os outros, sendo impossível
atender a todos no horário integral.
Lacan, consciente da importância de seu ensino e desejoso de ocupar o
primeiro lugar na nova sociedade fundada por Lagache, pôs-se a buscar o apoio do
Partido Comunista e da Igreja Católica. Buscando apoio de seu irmão Marc-Françóis
(da igreja), entregando seu discurso de 150 páginas (Discurso de Roma), sublinhava
que na segunda metade do século, tudo dependia da maneira como os homens
49
cuidariam de si mesmos, no domínio leigo. Em realidade Lacan não renunciava ao
ateísmo, mas sabia que sua maneira de ler Freud à luz da filosofia e numa ótica não
biológica, podia seduzir um bom número de católicos. Procurou, através do irmão uma
audiência com o Papa, mas não conseguiu.
Em outubro de 1953, ele se achava numa situação bastante estranha. Na vida
profissional encobria sua prática das sessões de duração variável e fingia respeitar a
norma; na vida privada, dissimulava aos filhos do primeiro casamento a existência do
segundo casamento e da nova família e, em suas orientações ideológicas, fazia crer
ao irmão que se tornara de novo cristão, ao mesmo tempo em que tentava estabelecer
um vínculo com o Partido Comunista. E foi, no centro disso tudo que ele começou a
elaborar um sistema de pensamentos que estava em contradição radical com sua
maneira de viver.
Lacan deu importância ao Curso de Linguística Geral de Ferdinande Sausurre
, que ajudou na elaboração de suas teorias.
A questão do Complexo de Édipo de Freud, sofreu muitas contestações.
Branislaw Malinowski (antropólogo), saiu a campo, nas Ilhas Trobriand, no Pacífico
Sul, para investigar o Complexo de Édipo e constatou que com o matriarcado não
ocorria da mesma forma. Em 1928 Geza Roheim decidiu pôr a prova às teses de
Malinowski, num projeto financiado por Marie Bonaparte. Descobriu que um homem
que ama a irmã e mantém com o tio uma relação de rivalidade assemelha-se muito
ao homem edipiano.
Outra influência de Lacan foi Lévi-Strauss, que em 1949 lançou na época, sobre
a questão da proibição do incesto uma nova luz, contornou essa bipolarização para
mostrar que a proibição efetuava a passagem da “natureza à cultura” que conduzia a
uma reavaliação do estudo das sociedades”.
Para passar a universalização da proibição do incesto, era preciso, ao mesmo
tempo, juntar a ela um sistema de parentesco coerente e estender a visão posta sobre
ela pela ciência. Daí a reatualização por Levi-Strauss, do termo antropologia como
modelo de uma compreensão sintética das instituições humanas.
Jacques Lacan conheceu Levi-Strauss em 1949, no grupo de filosofia de
Alexandre Koyré, num jantar. Rapidamente os dois estabeleceram laços de amizade
pela ligação com as obras de arte de ambos e também pela filosofia.
50
Levi-Strauss escreveu “Estruturas Elementares do Parentesco”. As hipóteses
do etnólogo não só faziam voar em pedaços a noção de família em favor da de
parentesco, como permitiam repensar o universalismo edipiano proposto por Freud,
fundamentando-o não mais no sentimento de um temos “natural” do incesto, mas na
existência de uma função Simbólica compreendida como a lei da organização
inconsciente das sociedades humanas.
Assim, Lacan encontrava a solução teórica para uma reelaboração de conjunto
da doutrina freudiana. O Inconsciente escapava da impregnação biológica (herança
darwinista) para ser designado como uma estrutura de linguagem. O Complexo de
édipo separava-se de um universal natural para entrar no quadro de um universal
Simbólico.
Tão logo se forma um sistema simbólico ele é, desde já, de direito universal.
Lacan designava o primeiro elemento à função simbólica, sublinhando que na família
moderna ela se identificava a uma função paterna, função exercida por um pai
humilhado, patogênico e discordante, dividido entre uma nomeação (o nome do pai)
e uma realidade biológica.
O segundo elemento Relação Narcísica, dividia-se em dois polos: o EU e o
Sujeito. O que é o EU senão algo que o sujeito experimenta primeiro como estranho
no interior dele? O Sujeito tem sempre, assim, uma relação antecipada à sua própria
realização (desejo dos pais).
Os três elementos do sistema: função paterna, EU e o sujeito. O quarto
elemento é a experiência da morte, (tirada da pulsão de morte de Freud – concepção
hegeliana- Kojeviana da luta até a morte e uma visão hideggeriana do ser para a
morte).
Aplicando a grade de Levi-Strauss, Lacan mostrava como se transmitia, de uma
geração para outra, sob a forma de especificação negativa, a impossibilidade de
contrair alianças análogas aquelas precedentemente contraídas. Há uma repetição de
uma estrutura significante presentes na vida de pai para filho, à custa de uma neurose,
o que Lacan chama de Mito Individual do Neurótico, uma estrutura complexa pela qual
cada sujeito se acha ligado a uma constelação original cujos elementos se permutam
e se repetem de geração em geração como o memorial de uma história genealógica.
Lacan levava em conta a inversão de perspectiva ao chamar a função simbólica
o princípio inconsciente cínico em torno do qual era possível organizar a multiplicidade
51
das situações particulares a cada sujeito. E não é de se surpreender que tenha feito
dessa estrutura um mito e desse sujeito um neurótico.
A esse estabelecimento de um sistema estrutural compreendia a instauração
de uma tópica composta pelos três termos: Simbólica, Imaginária e Real.
O Simbólico (Levi-Strauss), era o inconsciente freudiano repensado como um
lugar de uma mediação comparável à do significante no registro da língua. Sob a
categoria do Imaginário estão todos os fenômenos ligados à construção do eu:
captação, antecipação e ilusão. A categoria do Real era introduzida com o que Freud
chamava de realidade psíquica, o desejo inconsciente e as fantasias conexas.
Assume o valor de uma realidade mental tão consistente como a realidade externa, a
ponto de até mesmo tomar o lugar dela. Juntava-se ao real a ideia de morbidez, resto,
parte maldita, sombra negra ou fantasma que escapa a razão.
Lacan tentou argumentar seu tempo lógico, como o tempo para compreender
de cada sujeito – Sujeito Suposto Saber.
A pontuação (interromper, ou sinalizar), tem por objetivo fazer parir o sujeito de
uma fala verdadeira reduzindo o tempo para compreender ao momento de concluir.
Françoise Morrette Dolto, se tornou uma grande amiga de Lacan onde
conseguiu evocar longamente a relação carnal de Lacan com sua mãe e sublinhando
o papel principal do psicanalista, que era compreendê-lo. Lacan foi questionado por
Dolto porque ele jamais falava de seus pais, sua origem, porque era tão inquieto com
sua própria imagem e tão obcecado pela aparência externa, porque tinha tanta
necessidade de disfarçar-se, frequentar bailes de máscara, exibir roupas
extravagantes. Será que era para dissimular uma espécie de vazio; notara que Lacan
se parecia com uma criança narcísica e caprichosa a qual havia faltado, na primeira
infância algo de essencial. Assim, mantiveram por muitos anos uma amizade (quase
uma analista) que consultava, esperava apoio e que o mimasse.
Lacan buscou ligações com várias pessoas, muitas vezes difíceis, com Koyrée,
Kojeve, Corbin, Heidegger, Lévi-Strauss, Hippolite, Ricaeur e, mais tarde Althusser e
Derrida, mostrou que toda a valorização do freudismo deve passar por uma
interrogação filosófica, mas Lacan jamais abandonou o domínio da clínica psiquiátrica
e insistiu que seus alunos fizessem estudos médicos.
52
Em 1960 o movimento fundado por Freud assemelhava-se a uma multinacional
composta por corporações que formavam terapeutas honestos e competentes, mas
adaptados ao conformismo dominante nas sociedades democráticas.
Por mais que Lacan criticasse o funcionamento da IPA, isso não o impedia de
querer fazer parte dela.
A ruptura de Lacan com a IPA se deu em 1963-1964 que foi tão desastrosa
para IPA quanto para a evolução do lacanismo. Os da IPA passaram a ver os
lacanianos como jacobinos sectários ou teólogos místicos, mais aptos a semear a
rebelião nos espíritos do que a cuidar das neuroses cotidianas. Quanto a Lacan ele
perdia nesse exílio qualquer possibilidade de tornar legitima no mundo anglo-
americano sua retomada freudiana.
De 1953 a 1963 foi o período de um verdadeiro laboratório de pesquisas para
todos os que o frequentavam: filósofos, psicanalistas e escritores.
Num discurso de grande clareza de Lacan (entrevista no jornal do dia 31 de
maio de 1957), pela jornalista Madeleine, ele falou que Freud sabe havia metaforizado
sua obra ao mostrar que toda a investigação cientifica fazia o narcisismo humano
sofrer uma humilhação. Entre essas humilhações sucessivas ele reconhecia três
principais: a primeira, de ordem cosmológica, fora infringida pela revolução
copernicana, que havia derrubado a ilusão segundo a qual a terra estava no centro do
universo. A segunda de ordem biológica, que vinha do darwinismo e destruía a
pretensão do homem de afirmar-se diferente do animal. A terceira de ordem
psicológica, resultava na existência do inconsciente freudiano, ela contradizia a ideia
segundo a qual o eu é o senhor de sua casa.
Nos estudos do inconsciente, na leitura freudiana tratava-se de adaptar o
inconsciente as modalidades do pensamento consciente. Lacan contestava essa
tradução, dizia que a psicanálise não tem por tarefa desalojar o isso em proveito do
eu, ao contrário, deve permitir situar cada elemento em seu respectivo lugar.
O “eu” não é todo ich, o qual se subdivide em um eu imaginário e um Je
enunciativo.
Quanto ao estruturalismo lacaniano, ele repousava sobre a ideia de que a
verdadeira liberdade humana era resultante da consciência que o sujeito podia ter de
não ser livre, devido a determinação inconsciente. Para Lacan essa forma freudiana
de uma consciência de si dividida, cuja origem ele situava na dúvida cartesiana, era
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mais subversiva do que a crença sartriana, por exemplo, numa possível filosofia da
liberdade.
Para Lacan o objeto A é o objeto causa de desejo, objeto perdido para sempre,
cuja nomeação por Lacan permite a compreensão de uma série de achados
freudianos relativos à sexualidade humana.
Um significante é o que representa o sujeito para um outro significante. A noção
do significante de Ferdinando de Saussure dividia o signo linguístico em duas partes,
denominava significante a imagem acústica de um conceito e significado o conceito
propriamente dito. Lacan inverte e coloca o significante como função primordial e em
baixo o significado.
Toda significação remetia a outra significação, e através disso reduzia a ideia
de que o significante deveria ser isolado do significado, como uma letra ou palavra ou
símbolo, desprovida de significação, mas determinante para o destino inconsciente do
sujeito. Nesse sentido o sujeito não existe como plenitude, ele é representado pelo
significante para outro significante (o dos pais).
Lacan distinguia a foraclusão do recalque, ao sublinhar que no primeiro caso,
o significante foracluído ou os significantes que o representam, não são integrados ao
inconsciente do sujeito, mas retornam ao real por ocasião de uma alucinação ou de
um delírio que vem invadir a fala ou a percepção do sujeito.
A elaboração do conceito de foraclusão liga-se igualmente a teorização da
noção de nome do pai, já utilizado desde 1953, onde o inconsciente é o discurso do
outro. Quanto ao “pequeno a”, lugar de um eu imaginário, ele tornava-se a questão de
um resto, preso no real e não simbolizável: objeto como falta e objeto como causa de
desejo.
A partir do debate sobre o narcisismo entre Freud e Jung, Lacan diferenciava à
sua maneira o EU ideal do ideal do EU. Definia o eu ideal como formação narcísica
pertencente ao registro do imaginário e que tinha sua origem no estádio do espelho e
o ideal de eu, como uma função simbólica capaz de organizar o conjunto das relações
do sujeito com outrem. Assim o estabelecimento da dualidade A/a era consecutiva a
instauração do dualismo do ideal do eu e do eu ideal. Nesse sistema, Lacan
reintroduzia a clivagem Levi-Straussiana da universalidade do incesto como
passagem da natureza a cultura. Essa permitia pensar uma oposição entre a função
simbólica do pai, representante da cultura e a encarnação da lei, e a posição
54
imaginaria da mãe, dependente da ordem da natureza e condenada a fusionar-se com
o filho como objeto fálico de um pênis faltante.
Daí a ideia lacaniana da fase edipiana entendida como passagem da natureza
à cultura. Se a sociedade humana é dominada pelo primado da linguagem (o Outro, o
significante) isso quer dizer que o polo paterno ocupa na estruturação histórica de
cada sujeito, um lugar análogo. Função do pai – função do pai simbólico – metáfora
paterna – o nome do pai.
A elaboração desse conceito estabelecia também a teoria do significante e a
noção da foraclusão.
Assim, a passagem edipiana da natureza à cultura se dá pela encarnação do
significante por nomear o filho com seu nome, o pai intervém junto deste como
privador da mãe, dando origem a seu ideal do EU.
Num artigo escrito no L’Express, por Françoise Girond menciona o que Lacan
diz: “Não há diálogo, o diálogo é uma tolice” e a comentava assim: “A tolice que a
noção de diálogo encobre é que jamais existe troca entre dois indivíduos. Há
eventualmente troca de informações objetivas, comunicação de informações, que
resultam então numa decisão comum… Mas em qualquer outra situação o diálogo
não é senão a justaposição de monólogos. Do mesmo modo que não há relação
sexual, para mostrar que a relação sexual não é uma relação ou que, a mulher não
existe, para designar a ausência de uma natureza feminina”. E, diz também, da
mulher, que “a mulher é não-toda”.
“Se a topologia funcionava como uma busca do Graal da qual surgiam os
significantes da infância e os fantasmas da loucura, ela também teve por
consequência uma reelaboração da doutrina da sexualidade. Quatro proposições
eram estabelecidas. Na primeira, todos os homens têm o falo, na segunda, nenhuma
mulher tem o falo, a terceira, os homens constituem um conjunto universal de todos
os homens submetidos à castração. Só um homem se subtrai a ela: o pai da Horda,
isto é, o pai simbólico. Fabricando um halógrafo, Lacan chamava agaomminzin (ao
mais um) “ao menos um”, esse pai encarregado de instituir a fantasia de um gozo
absoluto a partir do qual se podia ordenar para todos os outros (homens) o lugar de
uma proibição: proibição do incesto, gozo inacessível”.
A quarta proposição: não existe nenhum x que constitua exceção à função
fálica. Lacan sublinhava assim o princípio, no inconsciente de uma dissimetria radical
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entre a identidade sexual masculina e a feminina. Para as mulheres, dizia, não existe
limite ao gozo. Em consequência, a mulher no sentido do universal ou da natureza
feminina não existe. Donde a formula: “a mulher não existe” ou ainda “a mulher é não
toda”. Quanto ao gozo feminino, ele se define por ser um gozo suplementar. A
ausência de complementaridade entre os dois modos da identidade sexual era
traduzida por Lacan da seguinte forma: “não há relação sexual”.
Tratava-se de revalorizar a função paterna rebaixada pela sociedade industrial
e de mostrar a que ponto a potência feminina era esmagadora em relação à fragilidade
fálica. Lacan tomava em sentido oposto as teses feministas clássicas que faziam da
mulher uma vítima da opressão masculina. Em vez de negar essa opressão Lacan
sublinhava que ela podia do ponto de vista do inconsciente, transformar-se em seu
contrário, já que a relação entre os sexos era comandada pelo princípio de uma radical
dissimetria. É verdade que ele conservava, com Freud e contra Jones, a ideia de um
falicismo original e de uma libido única, mas corrigia-a pela tese do suplemento, que
lhe fora inspirada por Bataille, pelos surrealistas e por seu convívio com a loucura
feminina.
Desse modo, ele continuava a experimentar no final da vida, o mesmo ódio em
relação às mães e a mesma fascinação pelas mulheres loucas e místicas. Tudo se
passava como se seu próprio romance familiar continuasse a invadir sua doutrina,
ainda que ele tentasse dotá-la de um fundamento e de uma formalização capazes de
separá-la de qualquer ancoragem afetiva.
Nesse romance familiar, a dominação das mães era sempre apresentada como
servindo para abolir ou rebaixar a função do pai. Quanto ao sexo da mulher, Lacan o
teorizava como um lugar de horror, um buraco hiante, uma coisa dotada de uma
oralidade extrema, de uma essência incognoscível: um real uma eterologia, o terror
que lhe inspiravam as mães e o fascínio que sentia pela metáfora animalista de uma
mística da oralidade (uma imensa vagina dentada).
Lacan acusava de haver transformado sua infância em pesadelo: Émilie, o avô
autoritário dominado pela mulher e Alfred o pai fraco esmagado pelo pai e igualmente
submetido a uma esposa devotado à igreja, são os heróis negativos de seu romance
familiar.
Lacan dava ao nome de Passe a um ritual de passagem que permitia a um
simples membro da escola que tivesse feito uma análise chegar ao posto de AE, até
56
então reservado aos que haviam sido titularizados oficialmente em 1964. O
procedimento era o seguinte: o candidato ao passe, que era chamado de passante,
devia testemunhar o que havia sido a sua análise, junto a dois outros analistas,
chamados passadores-que tinham a incumbência de transmitir o conteúdo desse
depoimento ao júri de aprovação.
Lacan denominava queda do Sujeito Suposto Saber a liquidação da
transferência pela qual o analista se via na posição de “resto” após ter sido investido
de um saber suposto, de uma onipotência.
Dizia que o analista só se autoriza a si mesmo. Com isso ele não destacava
que qualquer um pudesse tornar-se analista, mas que a passagem só podia derivar
de uma prova subjetiva ligada a transferência.
Fonte: [Link]
58
Casou-se com René Anzieu, filho de um padeiro. O desentendimento não
tardou a acontecer. A frigidez sexual de Marguerite chocava-se contra a agressividade
do marido e a degradação logo se instalou no coração desse casal.
A irmã Elise ficou viúva e como não tinha filhos foi morar com Marguerite e
passou a se ocupar das atividades domesticas junto ao cunhado, com isso M. afastou-
se ainda mais do marido.
Em 1921 ficou grávida e fez surgir em seu comportamento a mania de
perseguição acompanhada de melancolia. A filha nasce morta asfixiada pelo cordão.
A confusão acentuou-se, a perseguição diurna acrescentou-se a agitações
noturnas, de vez em quando sonhava com a Ataídes, às vezes levantava com intenção
de jogar um ferro no marido. Um dia furou a golpes de faca os pneus da bicicleta de
um colega. Imputou a morte da primeira filha aos inimigos, principalmente a “intrigante
refinada”, como responsável por sua infelicidade. Se fechou em si mesma, mergulhou
num mutismo e rompeu com seus hábitos religiosos.
Com a segunda gravidez nasceu seu filho Didier com uma gravidez também
depressiva. Após o nascimento não deixava que ninguém se aproximasse do filho o
qual amamentou até os 14 meses. Com esses cuidados com o filho a mania-de-
perseguição, ficou dividida, de um lado a vida profissional nos correios e do outro uma
existência imaginaria, tecida de sonhos e delírios, com artistas e escritores.
Tentou escrever dois livros os quais não foram aceitos. Os livros eram
dedicados ao príncipe de Gales. O primeiro livro chamava-se o Detrator e o segundo
romance Com o Devido Respeito.
Em seu romance a vida do campo era idealizada em detrimento da existência
urbana, fonte de corrupção e decadência. O herói de nome David era apaixonado por
uma certa Aimée, que é assim descrita, ela mesma, como uma verdadeira colona.
O segundo romance também era dedicado ao príncipe de Gales e contava a
mesma história invertida. O príncipe devolveu dizendo que não recebia presentes de
quem não conhecia.
O filho vai dizer de Marguerite “não é por acaso que minha mãe, ao levar o
nome da irmã morta, passou sua vida a multiplicar os meios de escapar do fogo do
inferno… padecer sem destino, um destino trágico”.
O filho descreveu seu nascimento também, depois da filha morta e se
descreveu como “sufocado como um miolo de cebola sob inúmeras peles”.
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Para Lacan Marguerite era como um duplo dele mesmo, menos rica e mais
ligada a terra, originava-se, no entanto da mesma França profunda.
A partir do caso Aimée, Lacan passava da psiquiatria para a psicanálise. Era a
Freud e seus discípulos que ele buscava conceitos clínicos e a filosofia que se referia
para a base teórica.
Lacan juntava-se a posições adotadas pelos surrealistas e sua apreensão da
doutrina vienense. Assim ele era o primeiro pensador da segunda geração psiquiátrico
– psicanalista francês.
Na época de Marguerite, Lacan ainda não era formado em psicanálise e não
empreendeu em sua doente um trabalho psicoterápico, que Marguerite teria recusado
conforme o filho. “M. achava Lacan demasiado sedutor e bufão para confiar nele”.
O caso final de Marguerite Aimée, é que ela foi trabalhar como cozinheira na
casa de Alfred Lacan.
Depois de ter sido internada e classificada como “desequilibrada
constitucional”, em 1943 teve a liberdade, mas continuava a acreditar em
perseguições. Foi contratada como governanta e cozinheira onde permaneceu até
1951.
Tendo recuperado a liberdade, tornara-se outra mulher. Para quem ela
trabalhou, eles ignoravam seu passado e jamais perceberam o menor sinal de loucura.
Em 1947, o filho de Marguerite, após ter pensado em se tornar ator, escritor e
filósofo, mas a lembrança da mãe levou-o a interessar-se pela psicologia e em 1949
fez uma análise com Lacan, sem saber que a mãe tinha sido o caso Aimée. Foi a
esposa que o fez reencontrar sua mãe. Nessa época a mãe trabalhava na casa de
Alfred Lacan como cozinheira, onde teve a oportunidade de rever seu antigo psiquiatra
ao qual reclamou a devolução de seus manuscritos, o qual nunca devolveu.
Didier, filho de Marguerite, questionando Lacan sobre a história de sua mãe,
este lhe confessou que reconstruíra a sua história durante o desenrolar da análise.
Quanto a Marguerite, quando a aventura do caso, do mito e da loucura acabou,
ela conheceu o destino anônimo dos pensionistas do hospício. Ela, que fora
observado, pilhada, fabricada, travestida e mistificada em função das necessidades
do discurso psiquiátrico, viu-se então obrigada a sobreviver e a reencontrar uma
identidade. O retorno à vida normal foi ainda mais estranho pelo fato de ao acaso, tê-
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la colocado de novo em presença daquele que ela tanto detestava, Jacques Lacan
havia roubado sua história, para construir sua tese.
Em 1950 com o nascimento da neta Cristina Anzieu, teve um relacionamento
intenso e caloroso.
Fonte: [Link]
Lacan, no início de 1933, se interessou pelo famoso crime das irmãs Papin.
Cristine e Lea Pappin, duas domésticas originarias do campesinato pobre e
educadas no orfanato de Bom Pastor, massacraram selvagemente suas patroas, a
senhora Lancelin e sua filha Geneviève, inundando a casa de sangue e miolos.
O pai das duas havia sido amante da filha mais velha, o avô morrera epilético,
um primo louco e um tio fora encontrado em sua granja enforcado.
Antes do assassinato as duas empregadas haviam se queixado a polícia de
estarem sendo perseguidas. Três psiquiatras as declararam sã de corpo e espírito e
foram incriminadas de assassinato sem premeditação. Uma com prisão perpétua e a
outra com pena de morte.
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Para Lacan, se Aimée tinha agredido a atriz que encarnava seu ideal de eu, as
empregadas Pappin haviam massacrado a senhora Lancelin por um motivo
equivalente. O verdadeiro móbil do crime não era o ódio de classe, mas a estrutura
paranoica por intermédio do qual o assassino atacava. O ideal do senhor que trazia
dentro de si. Paranoia de alta punição era o diagnóstico.5
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QUINET, Antonio. A estranheza da Psicanálise: a escola de Lacan e seus
analistas. Rio de Janeiro: Zahar, 2009.
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