Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro
PJe - Processo Judicial Eletrônico
16/06/2025
Número: 0912711-04.2023.8.19.0001
Classe: PROCEDIMENTO COMUM CÍVEL
Órgão julgador: 10ª Vara Cível da Comarca da Capital
Última distribuição : 23/08/2023
Valor da causa: R$ 332.710,20
Assuntos: Classificação e/ou Preterição
Segredo de justiça? NÃO
Justiça gratuita? SIM
Pedido de liminar ou antecipação de tutela? SIM
Partes Procurador/Terceiro vinculado
MARCEL DA COSTA FONTES (AUTOR) LUIG ALMEIDA MOTA (ADVOGADO)
JOSE HEMERSON ALBUQUERQUE LIMA (AUTOR) LUIG ALMEIDA MOTA (ADVOGADO)
PETROBRAS TRANSPORTE S A TRANSPETRO (RÉU) NAYANA CRUZ RIBEIRO (ADVOGADO)
JORGE DONIZETI SANCHEZ registrado(a) civilmente como
JORGE DONIZETI SANCHEZ (ADVOGADO)
MARIA DE FATIMA CHAVES GAY (ADVOGADO)
Documentos
Id. Data da Documento Tipo
Assinatura
20122 16/06/2025 18:09 Sentença Sentença
3514
Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro
Comarca da Capital
10ª Vara Cível da Comarca da Capital
Palácio da Justiça, Avenida Erasmo Braga 115, Centro, RIO DE JANEIRO - RJ - CEP:
SENTENÇA
Processo: 0912711-04.2023.8.19.0001
Classe: PROCEDIMENTO COMUM CÍVEL (7)
AUTOR: MARCEL DA COSTA FONTES, JOSE HEMERSON ALBUQUERQUE LIMA
RÉU: PETROBRAS TRANSPORTE S A TRANSPETRO
Marcel da Costa Fontes e José Hemerson Albuquerque Lima ajuizaram ação contra a
Petrobras Transporte S.A. (Transpetro) requerendo sua nomeação para o cargo de Engenheiro
Eletricista, alegando preterição no concurso público cujo cadastro de reserva em que foram
aprovados ainda estava vigente até 03/07/2020. Sustentam que a empresa, durante a validade do
certame, contratou terceirizados para exercer as mesmas funções, violando seu direito à
nomeação.
A Transpetro apresentou contestação em index 112808598, argumentando que
candidatos em cadastro de reserva têm apenas expectativa de nomeação, que só se torna direito
subjetivo diante de preterição comprovada, e que não houve tal preterição, pois as contratações
terceirizadas não configuram substituição direta nem implicam existência de vagas formais.
Alegou ainda que o concurso estava encerrado e que os contratos apresentados pelos autores
não demonstram irregularidade, seja por já estarem vencidos, serem anteriores ao concurso,
envolverem locais ou funções diferentes.
Réplica apresentada em index 184729665, ratificando os fatos e as teses constantes
da exordial.
Não foram produzidas outras provas, estando o feito maduro para julgamento, na
forma do artigo 355, I, do NCPC.
Relatado, decido.
Assinado eletronicamente por: RICARDO CYFER - 16/06/2025 18:09:23 Num. 201223514 - Pág. 1
https://tjrj.pje.jus.br:443/1g/Processo/ConsultaDocumento/listView.seam?x=25061618092343300000191186601
Número do documento: 25061618092343300000191186601
Cuida-se de ação proposta por candidatos aprovados em concurso público para
formação de cadastro de reserva, referente ao cargo de Engenheiro Júnior –
Elétrica/Pernambuco, com base no Edital nº 01 - TRANSPETRO/PSP-RH-2018. Os autores
alegam que foram aprovados em 3º e 7º lugar, respectivamente, e que, durante a validade do
certame, a empresa ré contratou engenheiros terceirizados para exercer as mesmas funções do
cargo para o qual foram classificados, o que configuraria preterição indevida.
A controvérsia central está em verificar se houve a preterição dos autores pela
contratação de terceiros durante a vigência do concurso, o que poderia converter a expectativa de
direito à nomeação em direito subjetivo.
A jurisprudência consolidada do Supremo Tribunal Federal (Tema 784 da Repercussão
Geral – RE 837.311/PI) firmou o entendimento de que:
“O candidato aprovado em concurso público dentro do número de vagas tem
direito subjetivo à nomeação. O candidato aprovado fora do número de
vagas possui mera expectativa de direito, salvo se demonstrada preterição
decorrente da contratação de terceiros, sem justificativa plausível.”
Portanto, o cadastro de reserva não enseja o direito à nomeação, mas a contratação
de terceirizados para a mesma função para a qual o candidato aprovado aguarda para ser
chamado, viola a boa-fé e configura desvio de finalidade pela Administração Pública.
Com efeito, caberia à parte ré desincumbir-se do ônus probatório relativo à contratação
de terceirizados para funções que não foram objeto do certame, notadamente quando há
candidatos que integram o cadastro de reserva, o que não fez (artigo 373, II, CPC).
A Transpetro reconhece que firmou contratos de prestação de serviços com empresas
terceirizadas, por meio dos quais foram contratados engenheiros para funções presumidamente
equivalentes àquelas previstas para o cargo de Engenheiro Júnior, inclusive no polo geográfico
de Pernambuco, tendo os contratos sido executados e, em alguns casos, sucessivamente
renovados durante a vigência do concurso, cuja validade se estendeu até 03/07/2020.
Pelos documentos juntados aos autos, houve a contratação de ao menos 36
engenheiros terceirizados, durante a vigência do concurso, para funções idênticas àquelas
Assinado eletronicamente por: RICARDO CYFER - 16/06/2025 18:09:23 Num. 201223514 - Pág. 2
https://tjrj.pje.jus.br:443/1g/Processo/ConsultaDocumento/listView.seam?x=25061618092343300000191186601
Número do documento: 25061618092343300000191186601
disputadas pelos autores. Vale reiterar que a parte ré deveria demonstrar de forma inequívoca
que as atividades eram diversas daquelas para as quais foram realizado o certame, ou mesmo
temporárias, o que não logrou fazer.
Não há dúvida de a ré, embora se submeta a regime de direito privado (art. 173 da
CF/88), está vinculada às normas constitucionais próprias da Administração Pública indireta,
como o dever de realização de concurso público (art. 37, II da CF). Trata-se de entidade com
regime jurídico híbrido, não podendo se esquivar de regras básicas do direito público, sobretudo
quando há preterição de candidatos aprovados em certame público.
A contratação de terceirizados para suprir necessidade permanente de mão de obra —
especialmente para cargo de natureza técnica como o de engenheiro — viola o princípio do
concurso público e, no caso concreto, configura preterição direta aos autores, cuja classificação
dentro do cadastro de reserva foi ultrapassada de forma ilegítima.
Vale destacar que os cidadãos que decidem se inscrever e participar do certame
público depositam sua confiança no administrador do concurso, que deve atuar de forma
responsável quanto às normas do edital e observar o princípio da segurança jurídica como guia
de comportamento.
Isso quer dizer, em outros termos, que o comportamento do gestor do concurso deve
se pautar pela boa-fé, tanto no sentido objetivo quanto no aspecto subjetivo de respeito à
confiança nele depositada pelos cidadãos concorrentes.
Isso porque, ao tornar pública a existência de cargos vagos e o interesse em provê-los,
o gestor do certame passa a ter o poder-dever de convocar os candidatos aprovados, dentro do
limite de vagas constante do edital, até que esteja expirado o prazo de validade do certame,
gerando, por conseguinte, não uma mera expectativa de direito, mas verdadeiro direito subjetivo à
nomeação.
Portanto, há direito subjetivo à nomeação, devendo a Transpetro convocar os autores,
respeitada a ordem de classificação, para nomeação no cargo de Engenheiro Júnior –
Elétrica/Pernambuco, desde que preencham os demais requisitos legais e editalícios à época da
convocação.
No que tange aos pagamentos retroativos, em julgamento de recurso extraordinário
Assinado eletronicamente por: RICARDO CYFER - 16/06/2025 18:09:23 Num. 201223514 - Pág. 3
https://tjrj.pje.jus.br:443/1g/Processo/ConsultaDocumento/listView.seam?x=25061618092343300000191186601
Número do documento: 25061618092343300000191186601
sob o rito da repercussão geral, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que não cabe
indenização ao candidato cuja nomeação tardia decorra de decisão judicial, uma vez que o atraso
não configura preterição nem ato ilícito por parte da administração pública que justifique
compensação indenizatória.
Embora a Corte tenha ressaltado que, caso haja prova de arbitrariedade manifesta da
administração — como descumprimento de ordens judiciais, litigância procrastinatória ou má-fé
—, poderá ser reconhecido o dever de indenizar. No caso específico, contudo, ainda que tenha
havido preterição, não há elementos probatórios que permitam concluir ato deliberadamente
lesivo pela parte ré, data venia. (EREsp nº 1205936/DF (2011/0312242-0).
Ante o exposto, JULGO PROCEDENTE em parte o pedido para confirmar a tutela de
urgência deferida e determinar que a parte ré convoque e nomeie os autores para assunção do
cargo de Engenheiro Júnior – Elétrica/Pernambuco, respeitada a ordem de classificação e o
cumprimento das exigências editalícias, no prazo de 30 (trinta) dias, sob pena de multa diária de
R$ 1.000,00 (mil reais) por autor, limitada a R$ 30.000,00, podendo ser prorrogada, sem prejuízo
de outras medidas de coerção. Condeno a ré ao pagamento de honorários sucumbenciais,
fixados em 10% sobre o valor da causa (art. 85, §2º, do CPC). Despesas processuais pela parte
ré.
Publique-se.
Intimem-se.
RIO DE JANEIRO, 16 de junho de 2025.
RICARDO CYFER
Juiz Titular
Assinado eletronicamente por: RICARDO CYFER - 16/06/2025 18:09:23 Num. 201223514 - Pág. 4
https://tjrj.pje.jus.br:443/1g/Processo/ConsultaDocumento/listView.seam?x=25061618092343300000191186601
Número do documento: 25061618092343300000191186601