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Revista Mosaico Cultural 02

A Revista Mosaico Cultural apresenta uma variedade de conteúdos literários, incluindo artigos sobre saúde mental, escrita terapêutica e xenofobia. A edição destaca a jornada de um escritor, abordando o desenvolvimento da criatividade e do senso de observação, além de discutir o mercado editorial e os diferentes tipos de publicação. Claudia Felix, como editora-chefe, convida os leitores a explorar a arte como um meio de expressão e reflexão.
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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Revista Mosaico Cultural 02

A Revista Mosaico Cultural apresenta uma variedade de conteúdos literários, incluindo artigos sobre saúde mental, escrita terapêutica e xenofobia. A edição destaca a jornada de um escritor, abordando o desenvolvimento da criatividade e do senso de observação, além de discutir o mercado editorial e os diferentes tipos de publicação. Claudia Felix, como editora-chefe, convida os leitores a explorar a arte como um meio de expressão e reflexão.
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REVISTA MOSAICO

CULTURAL
Ficha Técnica

Direção de criação:
Claudia Felix de Almeida

Produção:
Editora Mosaico Literário

Capa:
Claudia Felix

Colunista Fixo:
Claudia Felix

Colaboradores:
Antônio Sérgio S. Gutierrez, Vivian Martins, Renato Guenther,
Thalita Cristina, Ivone Ferreira do Nascimento, TecaMiranda, Luis
Ricardo Teiga Ramalho, ELISMAR Maria de Jesus, Fabíola Fabrícia,
Felipe Duarte de Paula, Alexandre Duim, Rui Ferrer Trindade,
Guilherme Queiroz, Giovanna Salles, Valéria Pisauro, Daniela
Demena Trindade, Paulo Henrique Guedes Pereira, Clarisse da
Costa, Leonardo de Oliveira, Luísa Olímpia Gomes Lacerda, Irene
Giglio, Silmara Retti Marques, Bruno Silva (Reallyme), Gelson
Lucas Pacheco Fassina da Silva, Jairo Viana Santiago (J. V.
Santiago), Felipe Duarte de Paula, Laura Targa, Juan Martínez
Reyes, Danilo Chaleaux, Pollyanna Sapori, Ivy Cassa, Isabela
Sifuentes, Luis Ricardo Teiga Ramalho, Queli Rodrigues, Silvana
Santos Rocha.

Revisão, Diagramação e Ilustrações: Claudia Felix

Uma Produção da Editora Mosaico Literário.

2
Índice
Índice .............................................................................................................. 03
Editorial........................................................................................................... 04
A Jornada de um Escritor ............................................................................ 05
A Autora da Vez:
Entrevista ............................................................................................................... 12
Releitura e adaptação de obra original .............................................. 15
Artigo Acadêmico ......................................................................................... 18
Escritores e Escritoras
Aniversariantes desta Edição ..................................................................... 28
Pintura ..................................................................................................... 33
Fotopoema ............................................................................................... 34
Frases Autorais ....................................................................................... 35
Para Ler e Refletir ................................................................................ 36
Curiosidades Literárias ............................................................................. 44
Artigos de Opinião ................................................................................... 45
Retrato .................................................................................................. 47
Indicação de Livro Infantil .................................................................. 48
Só Curtas ....................................................................................................... 49
Poetrix ............................................................................................................ 50
Pequenos Contos ......................................................................................... 50
O Poder da Escrita Terapêutica.................................................................... 51
Resenha ......................................................................................................... 58
Arte & Saúde ................................................................................................... 59
Indicação de Livros ............................................................................. 60
Escrita Intimista............................ ....................................................... 63
Contos ......................................................................................................... 65
De Olho na Tela ................................................................................... 78
Momento Quiz ..................................................................................... 80
Cantinho Poético .......................................................................................... 81
Resultado do Quiz ............................................................................... 89

3
REVISTA MOSAICO CULTURAL

EDITORIAL
AO LEITOR
Nesta edição da Revista Mosaico Além disso, continuamos com nossa
Cultural mostramos a Arte como seção de Artigo Acadêmico e Artigos
auxílio para muitos problemas de de Opinião, artes variadas,
saúde, principalmente os indicações de livros e de filmes para
psicológicos. os apreciadores de todas as Artes,
A Terapia Ocupacional sempre foi um afinal a leitura e o ato de assistir a
meio de tratamento auxiliar para um filme também são atos
muitos. Por isso, temos uma seção terapêuticos.
explicando a Escrita Terapêutica. E Nosso Cantinho Poético traz
De certa forma, muitos foram levados poemas variados, escritos com um
à escrita para colocar para fora seus carinho especial para nossos leitores
sentimentos, seu modo de ver o e leitoras.
mundo, um verdadeiro desabafo, seja Obrigada por embarcarem conosco
num diário, em textos escritos nu nessa viagem artística!
caderno ou num computador.
Na Jornada de Um Escritor Até a próxima edição.
continuamos o que já foi publicado
na Edição 01 da Revista. Claudia Felix
Outro tema de nossa Revista é a Editora Chefe
xenofobia e o preconceito
linguístico, algo que acontece em
todo o Mundo.
Por isso, deixamos nossos escritores
e escritoras livres para escreverem
no seu estilo, com suas palavras,
trazendo textos de várias regiões do
Brasil, assim como de outros países.
Nessa Edição, também damos uma
atenção especial ao Setembro
Amarelo, trazendo vários textos para
refletirmos.

4
Desenvolvimento do Senso
A JORNADA de Observação

DE UM Um escritor com um bom senso de


observação consegue captar
detalhes sutis do mundo ao seu

ESCRITOR redor e transformá-los


elementos ricos e vívidos em suas
em

histórias. Isso envolve prestar


por Claudia Felix atenção a:
· Detalhes Visuais: Cores, formas,
texturas, movimentos, expressões
faciais, a aparência de lugares e
pessoas.
· Sons: O barulho da cidade, o canto
Nesta edição, vamos avançar para a dos pássaros, o tom de voz das
segunda área da jornada de um pessoas, o som de objetos.
escritor: Desenvolvimento da · Odores: O cheiro de café fresco, o
Criatividade e da Imaginação. perfume de uma flor, o aroma da
Para estimular sua criatividade e chuva, o odor de um lugar
imaginação, podemos explorar os específico.
seguintes subtópicos de forma · Tato: A sensação de diferentes
prática: texturas na pele, a temperatura do
· Técnicas de Brainstorming e ambiente, o peso de um objeto.
Geração de Ideias: Aprenderemos · Emoções e Comportamentos: As
diversas técnicas para desbloquear reações das pessoas em diferentes
o pensamento criativo, gerar ideias situações, suas expressões não
originais e encontrar inspiração verbais, suas motivações implícitas.
para suas histórias.
· Desenvolvimento do Senso de Exploração de Diferentes
Observação: Exploraremos como
aguçar sua capacidade de observar
Mídias e Experiências
o mundo ao seu redor, captando
A criatividade muitas vezes se
detalhes que podem enriquecer
alimenta de novas experiências e da
suas narrativas.
exposição a diferentes formas de
· Exploração de Diferentes Mídias e
expressão artística e cultural.
Experiências: Investigaremos como
Explorar diversas mídias pode
a leitura, a música, o cinema, a arte
despertar novas ideias e
e outras vivências podem alimentar
perspectivas para a sua escrita.
sua imaginação e fornecer novas
Algumas sugestões incluem:
perspectivas.
· Superando o Bloqueio Criativo:
Discutiremos estratégias eficazes
para lidar com a temida "tela em
branco" e manter o fluxo da escrita.

5
· Leitura Diversificada: Ler livros de Mudança de Cenário: Trocar o
diferentes gêneros, estilos e autores, ambiente de escrita pode ajudar a
incluindo ficção, não ficção, poesia e destravar a mente e trazer novas
peças teatrais. perspectivas.
· Apreciação Musical: Ouvir diferentes Leitura Inspiradora: Ler trabalhos de
estilos musicais, prestando atenção outros autores que você admira
nas letras, melodias, ritmos e nas pode reacender sua paixão pela
emoções que a música evoca. escrita e fornecer novas ideias.
· Cinema e Séries: Assistir a filmes e Exercícios de Criatividade: Realizar
séries com diferentes narrativas, atividades específicas para estimular
estilos visuais e abordagens a imaginação, como responder a
temáticas. prompts de escrita ou criar histórias
· Artes Visuais: Visitar museus, galerias a partir de imagens.
de arte e exposições, observando Descanso e Relaxamento: Às vezes,
diferentes formas de expressão o bloqueio criativo é um sinal de que
artística como pintura, escultura, você precisa de uma pausa para
fotografia e instalações. recarregar as energias.
· Viagens e Novas Culturas: Explorar Conversar sobre suas Ideias:
novos lugares, conhecer diferentes Discutir seus projetos com outras
culturas e interagir com pessoas pessoas pode ajudar a clarear seus
diversas pode enriquecer sua visão de pensamentos e gerar novas
mundo e fornecer material para suas soluções.
histórias. Dividir o Trabalho: Se um projeto
· Outras Experiências: Participar de grande parece overwhelming, divida-
workshops, palestras, peças de teatro, o em tarefas menores e mais
dança e outras atividades culturais gerenciáveis
pode estimular sua criatividade de
maneiras inesperadas. Entendimento do Mercado
Editorial
Superando o Bloqueio
Criativo
Para construir uma carreira como
escritor, é importante compreender o
O bloqueio criativo é um desafio funcionamento do mercado editorial.
comum para muitos escritores. Saber Podemos explorar os seguintes
como lidar com ele é fundamental subtópicos de forma prática:
para manter a produtividade e a · Tipos de Publicação: Investigaremos as
motivação. Algumas estratégias diferentes formas de publicar um livro,
eficazes incluem: como editoras tradicionais, editoras
Escrita Livre: Escrever qualquer coisa independentes e publicação
que vier à mente, sem se preocupar autopublicada (independente).
com a qualidade ou a coerência,
apenas para colocar as ideias no
papel.
6
·O Processo de Publicação: geralmente, recebe uma porcentagem
Abordaremos as etapas envolvidas maior dos direitos autorais, embora o
na publicação de um livro, desde a alcance de distribuição e marketing
submissão do manuscrito até a sua possa ser menor.
chegada aos leitores. Publicação Autopublicada
Marketing e Divulgação: (Independente): Nessa modalidade,
Discutiremos estratégias eficazes o autor é o responsável por todas as
para promover o seu trabalho e etapas do processo de publicação:
alcançar o seu público-alvo. edição, design, formatação, capa,
Construção de Marca Pessoal como impressão (se desejar), distribuição
Escritor: Exploraremos como você e marketing. Plataformas online
pode se posicionar como autor e facilitam a autopublicação, dando
construir uma conexão com seus ao autor total controle sobre sua
leitores. obra e uma porcentagem maior dos
lucros por venda, mas exigindo um
investimento de tempo e/ou
Entendimento do Mercado
financeiro maior por parte do autor.
Editorial: Tipos de Publicação
O Processo de Publicação
Existem basicamente três caminhos
principais para publicar um livro: O processo de publicação pode variar
Editoras Tradicionais: São um pouco dependendo do tipo de
empresas estabelecidas que editora (tradicional ou independente)
cuidam de todo o processo de ou se você optar pela autopublicação,
publicação, desde a edição e design mas geralmente envolve as seguintes
da capa até a impressão, etapas principais:
distribuição e marketing do livro. Escrita e Revisão: Esta é a etapa
Geralmente, o autor recebe um inicial, onde você escreve e revisa
adiantamento sobre os direitos seu manuscrito até considerá-lo
autorais e uma porcentagem das pronto para ser apresentado.
vendas. A entrada nesse mercado Submissão (para editoras): Se você
costuma ser competitiva, exigindo a busca uma editora tradicional ou
submissão de um manuscrito que independente, precisará preparar
seja aceito pela editora. Você já uma proposta de livro (que inclui
pensou em tentar publicar por uma sinopse, amostra do texto, público-
editora tradicional? Quais são suas alvo, etc.) e submetê-la de acordo
expectativas em relação a isso? com as diretrizes de cada editora.
Editoras Independentes: São Essa etapa pode levar tempo e nem
editoras menores, com um sempre garante a aceitação.
processo de seleção menos Avaliação e Aceitação: A editora
rigoroso que as tradicionais. Elas avaliará seu manuscrito e decidirá
também oferecem serviços se tem interesse em publicá-lo. Em
editoriais, mas o autor pode ter um caso positivo, você receberá uma
papel mais ativo em algumas etapas proposta de contrato.
7
Edição: Se o seu livro for aceito, ele Após a aceitação do manuscrito:
passará por um processo de edição O tempo até o lançamento do
profissional, que pode envolver livro costuma ser de 9 a 18 meses.
aprimoramento do conteúdo, estilo
e gramática. Publicação por Editora
Design e Diagramação: A editora Independente:
cuidará do design da capa e da
diagramação interna do livro, ·Geralmente é mais rápido que a
buscando torná-lo atraente e publicação tradicional, mas o
agradável para leitura. tempo pode variar bastante
Produção e Impressão: O livro é dependendo da editora e dos
então produzido e impresso (ou serviços oferecidos. Pode levar de
formatado para e-book). alguns meses a um ano.
Distribuição: A editora se encarrega
de distribuir o livro para livrarias e
Autopublicação:
outros canais de venda. Na
autopublicação, você será o
É o caminho mais rápido. Se o seu
responsável por essa etapa.
livro já estiver escrito e revisado,
Marketing e Divulgação: A editora
você pode publicá-lo em questão
(ou você, na autopublicação)
de meses, ou até menos. Algumas
realizará ações de marketing para
plataformas permitem
promover o livro e alcançar os
lançamentos rápidos, em torno de
leitores.
45 a 60 dias, após a finalização do
manuscrito, design da capa e
formatação. O tempo total pode
A duração de todo o processo de
variar de 3 a 6 meses,
publicação pode variar
considerando edição, design,
significativamente dependendo do
formatação e marketing.
caminho que você escolher:
É importante lembrar que esses são
Publicação Tradicional: apenas prazos médios. Cada projeto é
único e pode ter suas próprias
Desde a submissão até a particularidades que influenciam o
publicação: Pode levar de 1 a 2 tempo de publicação.
anos, ou até mais. Isso inclui o
tempo de avaliação do manuscrito
Construção de Marca Pessoal
pela editora (que pode ser de
como Escritor.
alguns meses), o processo de
edição, design, produção,
Construir uma marca pessoal forte
distribuição e o planejamento de
como escritor é fundamental para se
marketing. Algumas editoras podem
conectar com os leitores, criar uma
levar de 3 a 6 meses apenas para
base de fãs leais e se destacar no
aprovar o livro.
mercado.

8
Sua marca pessoal é a forma como as Criação de um Cronograma de
pessoas percebem você como autor. Escrita: Discutiremos como
Alguns elementos importantes na integrar a escrita em sua rotina
construção da sua marca incluem: diária ou semanal, encontrando
Sua Voz e Estilo de Escrita: O que horários e locais adequados.
torna sua escrita única e Desenvolvimento de Disciplina e
reconhecível? Qual a sua Foco: Exploraremos técnicas para
assinatura literária? evitar distrações, manter o foco e
Seus Temas e Interesses: Quais superar a procrastinação.
assuntos você mais gosta de A Importância do Descanso e do
abordar em seus livros? Que Lazer: Abordaremos como
mensagens você deseja transmitir? equilibrar a escrita com outras
Sua Presença Online: Como você atividades importantes para
se apresenta nas redes sociais, em manter a saúde mental e a
seu site ou blog? Qual a sua forma criatividade.
de interagir com os leitores?
Seus Valores e Crenças: O que é Agora, vamos avançar para a quarta e
importante para você como última área do nosso plano inicial:
escritor e como pessoa? Como Construção de uma Rotina de Escrita.
você pode transmitir esses valores Estabelecer uma rotina de escrita
através do seu trabalho e da sua consistente é essencial para
comunicação? transformar o desejo de ser escritor
Sua História Pessoal: Compartilhar em realidade. Podemos explorar os
sua jornada como escritor, suas seguintes subtópicos de forma prática:
inspirações e seus desafios pode Definição de Metas de Escrita:
criar uma conexão mais profunda Aprenderemos a estabelecer metas
com os leitores. realistas e alcançáveis para manter
a motivação e acompanhar o
progresso.
Construção de uma Rotina de Criação de um Cronograma de
Escrita: Discutiremos como
Escrita
integrar a escrita em sua rotina
diária ou semanal, encontrando
Estabelecer uma rotina de escrita
horários e locais adequados.
consistente é essencial para
Desenvolvimento de Disciplina e
transformar o desejo de ser escritor
Foco: Exploraremos técnicas para
em realidade. Podemos explorar os
evitar distrações, manter o foco e
seguintes subtópicos de forma
superar a procrastinação.
prática:
A Importância do Descanso e do
Definição de Metas de Escrita:
Lazer: Abordaremos como
Aprenderemos a estabelecer
equilibrar a escrita com outras
metas realistas e alcançáveis para
atividades importantes para
manter a motivação e acompanhar
manter a saúde mental e a
o progresso.
criatividade.
9
Definição de Metas de Escrita:
Flexibilidade e Adaptação: É
importante que suas metas sejam
Estabelecer metas claras e alcançáveis é
flexíveis e possam ser ajustadas
fundamental para manter a motivação e
conforme você avança e novas
acompanhar seu progresso como
circunstâncias surgem. Não tenha
escritor. Metas bem definidas te ajudam
medo de revisar suas metas se
a direcionar seus esforços e a celebrar
necessário.
suas conquistas ao longo do caminho.
Podemos abordar alguns aspectos
Criação de um Cronograma de
importantes na definição de metas:
Escrita:
Metas SMART: Conhece este
acrônimo? Ele significa que suas
Integrar a escrita na sua rotina diária
metas devem ser Específicas (o que
ou semanal requer planejamento e a
exatamente você quer alcançar?),
identificação de momentos
Mensuráveis (como você saberá que
adequados para se dedicar a essa
alcançou sua meta?), Alcançáveis (a
atividade. Um cronograma de escrita
meta é realista considerando seu
pode te ajudar a criar um hábito
tempo e recursos?), Relevantes (a
consistente e a garantir que você
meta está alinhada com seu objetivo
reserve tempo para seus projetos
de se tornar escritor?) e com Prazos
literários. Podemos explorar algumas
Definidos (quando você pretende
estratégias para criar um cronograma
alcançar essa meta?).
eficaz:
Metas de Curto, Médio e Longo
Identificação de Horários
Prazo: É útil ter uma visão geral de
Disponíveis: Analise sua rotina
onde você quer chegar (longo
atual e identifique os momentos
prazo), mas também definir passos
em que você tem mais
menores e mais imediatos (curto e
disponibilidade e energia para
médio prazo) para te manter
escrever.
engajado. Por exemplo, uma meta de
Definição de Blocos de Tempo:
curto prazo poderia ser escrever
Determine quanto tempo você
500 palavras por dia, uma de médio
pode dedicar à escrita em cada
prazo seria terminar o primeiro
sessão. Mesmo pequenos blocos
rascunho de um conto em um mês, e
de tempo regulares (por exemplo,
uma de longo prazo seria publicar
30 minutos todos os dias) podem
um livro em dois anos.
fazer uma grande diferença a
Foco no Processo vs. no Resultado:
longo prazo.
Embora o objetivo final de publicar
Criação de um Espaço de Escrita:
um livro seja importante,
Ter um local dedicado à escrita,
concentrar-se em metas
mesmo que pequeno, pode te
relacionadas ao processo de escrita
ajudar a entrar no "modo escritor"
(como dedicar um certo tempo por
e minimizar distrações.
dia para escrever ou explorar novas
técnicas narrativas) pode ser mais
eficaz para construir uma rotina
consistente.
10
Integração com Outras Atividades: Criação de Rituais de Escrita:
Pense em como a escrita pode se Desenvolver pequenas rotinas que
encaixar em sua rotina existente, precedem suas sessões de escrita
como antes do trabalho, durante o (como preparar uma bebida, ouvir
almoço ou nos fins de semana. uma música específica ou reler a
Flexibilidade e Adaptação última frase escrita) pode sinalizar
(Novamente): Seu cronograma não para sua mente que é hora de
precisa ser rígido. Seja flexível e trabalhar
esteja preparado para ajustá-lo Autocompaixão: Haverá dias em
conforme necessário, que você não conseguirá escrever
especialmente em dias mais tanto quanto gostaria ou em que a
corridos. O importante é manter a qualidade do seu trabalho não será
consistência o máximo possível. a ideal. Seja gentil consigo mesmo e
evite a autocrítica excessiva. O
importante é manter a consistência
Desenvolvimento de
a longo prazo.
Disciplina e Foco.
A Importância do
Manter a disciplina e o foco é crucial
para seguir seu cronograma de escrita Descanso e do Lazer
e alcançar suas metas, especialmente
quando a inspiração não está presente Embora a disciplina e a consistência
ou surgem distrações. Podemos sejam fundamentais, é igualmente
explorar algumas técnicas para importante reconhecer que o
fortalecer sua disciplina e descanso e o lazer são essenciais para
concentração: manter a saúde mental, recarregar as
Estabelecimento de Intenções energias e estimular a criatividade. Um
Claras: Antes de cada sessão de escritor esgotado e sobrecarregado
escrita, defina claramente o que terá mais dificuldade em produzir um
você pretende realizar naquele bom trabalho a longo prazo. Vamos
tempo. Ter um objetivo específico explorar alguns pontos importantes:
pode te ajudar a manter o foco. Equilíbrio entre Trabalho e
Minimização de Distrações: Descanso: Assim como você
Identifique as principais fontes de agenda seus momentos de escrita,
distração (redes sociais, tente agendar também momentos
notificações do celular, conversas) de descanso e atividades que te
e tome medidas para reduzi-las tragam prazer.
durante seus momentos de escrita. Sono de Qualidade: Uma boa noite
Técnica Pomodoro: Trabalhar em de sono é crucial para a
blocos de tempo focados (por concentração, a memória e a
exemplo, 25 minutos de escrita criatividade. Tente estabelecer
intensa seguidos de 5 minutos de uma rotina de sono regular.
descanso) pode aumentar a
produtividade e evitar o
esgotamento.
11
Atividade Física: Exercícios Desconexão Digital: Desligar-se de
regulares não apenas beneficiam a dispositivos eletrônicos por alguns
saúde física, mas também podem períodos pode ajudar a reduzir a
melhorar o humor, reduzir o sobrecarga de informações e
estresse e aumentar a clareza permitir que sua mente descanse e
mental, o que pode impactar processe ideias de forma mais
positivamente sua escrita. livre.
Tempo para o Lazer: Dedicar
tempo a hobbies, atividades sociais
e momentos de diversão é
importante para evitar o
esgotamento e manter uma
perspectiva equilibrada sobre a
vida e a escrita.

A Autora da Vez
por Ivone Ferreira

É com imensa honra e alegria que 1. Olá, Lin! Seja muito bem-vinda à
apresento a talentosíssima e Edição da Revista Mosaico Cultural II.
maravilhosa Escritora e Poetisa Você poderia nos contar um
Lindonete Araújo, diretamente de pouquinho sobre sua trajetória
João Pessoa/Paraíba – Brasil. poético-literária? Como você
Escritora premiadíssima, Poetisa de descobriu-se (também sendo
uma sensibilidade ímpar...filha, mãe, descoberta), com tamanho talento a
esposa, tia, amiga, psicoterapeuta; um espalhar tanta beleza, em forma de
ser humano de tal luminosidade, que Arte e Poesia?
está a nos surpreender com tantos
laços de belezas, dentro do Universo R.: Primeiramente quero agradecer
Literário humano. pelo convite feito pela magnânima
Autora de três livros solo de Poesias, e escritora Ivone Ferreira para participar
diversos projetos de coautoria. desta entrevista. Sinto-me honrada.
12
A minha trajetória literária teve início na Porém, somente em 2020, eu resolvi
pré-adolescência, quando lia e juntar alguns poemas do meu acervo,
contemplava poesias e ao mesmo e publicá-los num livro solo:
tempo rabiscava os meus sentimentos e “Centelhas Poéticas”
emoções. Até então, apenas as escrevia A descoberta continuou acontecendo
em cadernos e agendas, e nem cogitava com as redes sociais, local onde
publicá-las. No entanto, a escrita passei a marcar presença através de
continuou de forma espontânea, e postagens com os meus poemas e
percorreu ardente em minha vida até os onde encontrei oportunidades de
dias atuais. participar de saraus online, e de várias
Acredito que me descobri quando levei outras coletâneas.
a sério o que escrevia. Quando senti
que deveria compartilhar o meu 2. Imagino o quão a Poesia faz uma
conteúdo com as outras pessoas. adjacência junto à sua
A partir daí, passei então a publicar no profissão...Além disso, quais as
Blog da Associação de Poetas e maiores fontes de inspiração você
Escritores de Santa Cruz – RN considera?
(APOESC), em minha cidade natal.
Dessa forma, fui “descoberta” (risos). R.: Sim, a psicologia veio somar com
Publiquei outros tipos de textos, além abrangência a esse dom da poesia que
das poesias, e houve uma boa amo.
receptividade pelo público. A inspiração está em tudo o que vejo,
Em 2017, participei da antologia sinto e observo...Está na subjetividade
APOESC em prosa e verso, a convite do da existência, na natureza, nas
organizador e amigo, o mestre em pessoas e nas coisas mais simples e
Literatura Gilberto Cardoso. tocantes. Eu vejo poesia em tudo.

3. Costumo dizer que suas obras


acabam por tornarem-se livros de
cabeceira, devido a sensibilidade, ao
otimismo e ao realismo convertidos
em uma paixão pelos sentidos, e pela
vida...
Você poderia descrever um pequeno
resumo dos objetivos principais de
cada uma delas?

R.: Quanta generosidade sua, em


chamar meus livros de cabeceira, fico
lisonjeada por tamanho carinho! Sim,
descreverei: “Centelhas Poéticas”, a
minha primeira obra, não teve um
objetivo específico, o rotulei de faíscas
de poemas, as quais apresentam um
13
pouco de minha alma e resiliência. Na 5. Uma frase?
verdade, eu quis trazer à tona, poemas R.: “Tu te tornas eternamente
que sobressaltavam livremente, uma responsável por aquilo que cativas.”
espécie de catarse. (risos) (Antoine de Saint- Exupéry)
“Psicoversos Inversos Sociais“, tem como
objetivo, despertar uma reflexão sobre a 6. Uma canção?
diversidade humana e a desigualdade R.: “Esperando na janela“ (Mariana
social, para que haja mais empatia na Aquino).
coletividade.
Em “Letras Luminosas”, trago versos com 7. Um momento?
otimismo e espiritualidade, com o desejo R.: O nascimento das minhas filhas.
de despertar transformações pessoais
num mundo que desanda na polaridade 8. Um lugar?
contrária. São poesias que incentivam a R.: Santa Cruz - RN.
positividade em meio ao caos.
9. Um filme?
R.: “Comer, Rezar e Amar “( 2010)

10. Um sonho a realizar?


R.: Prefiro falar de um sonho social:
Ver a sociedade transformada, livre
dos traumas individuais de seu povo.

11. Uma mensagem para a


humanidade em geral?
R.: Que a arma da humanidade seja
uma linda flor, repleta de paz e luz,
lançada para todos os lados.

Ivone: A sua mais recente obra: “Letras


Luminosas”, tem sido um sucesso genial,
do público e da crítica, acrescido de
lindas e merecidíssimas homenagens.
Nós, leitores, ficamos muito felizes,
agradecemos e parabenizamos a você e
aos céus, por fazer chegar até nós, tantas
mensagens divinas, através da Poesia.
Querida e talentosíssima Poetisa, antes
de encerrarmos, gostaria de convidar-
te para um “brincar” feito um bate-bola.

4. Um hobby?
R.: Ler e escrever

14
LINDONETE ARAÚJO, natural de Santa Tem participação em várias antologias
Cruz/RN, reside em João Pessoa, é literárias. Com a poesia: “Ébria
graduada em Serviço Social e nostalgia “foi classificada em primeiro
Psicologia Humanista e Abordagem lugar no Concurso Literário Prêmio
Centrada na Pessoa, e formação em Poesia Agora – Antologia Poesia Agora:
EMDR. É membro da APOESC – (Editora Trevo, SP, maio 2021). Foi
Associação de Poetas Escritores selecionada com o poema: “Monólogo
Simpatizantes e Colaboradores – Santa do Planeta Terra “para a antologia
Cruz/RN. Ocupante da Cadeira de 1001 Poetas pela Casa Brasileira de
Número 451 da AIAP – Academia Livros. Poemas publicados na Revista
Intercontinental de Artistas e Literária PRÀXIS, agosto/2022 e na III
Poetas/BR. Revista Acadêmica Nos Laços do Amor,
Autora dos livros: “Centelhas Poéticas” Terceira Edição, setembro/2022 da
(João Pessoa/2020), “Psicoversos Academia de Letras Guimarães Rosa.
inversos sociais” (EHS Edições, Recife,
2023 ) e “Letras Luminosas” (João ADQUIRA SUAS BELÍSSIMAS E
Pessoa, 2024). IMPERDÍVEIS OBRAS DIRETAMENTE
NO INSTAGRAM DA AUTORA :
@diversos_no_universo

O Encontro das Emoções e dos


Sentimentos
(Releitura e adaptação da obra original)
*por Antônio Sérgio S. Gutierrez

Em uma elevada colina havia um dade, esperanças e prosperidade,


castelo medieval, grandioso, robusto e cores com poderes de comunicação:
forte, rodeado de muralhas, torres, confiança, tranquilidade, energia,
fossos, ponte levadiça e calabouço. proteção, serenidade, paciência,
Nesse lugar fortificado, símbolo do renovação, alegria, amor, glamour...
feudalismo, viviam alguns sentimentos Nesse ambiente medieval havia seres
como a Tristeza, o Medo e a Raiva, que humanos representados por bebês,
constantemente dialogavam com a crianças, adolescentes, adultos e
Felicidade, que morava com eles anciões. Havia um sol amarelo e
também e imperava como um estado brilhante, árvores, flores, gramas,
de plena satisfação e prazer. nuvens, pequenas e médias rochas,
O castelo era todo pintado com cores animais domésticos e silvestres de
bonitas, cores claras e vivas, dando pequeno e mediano porte, um
uma noção de limpeza, luz solar, clari- esplendor de paisagem.
15
para nos sentirmos assim...
De repente, a Raiva, que era uma
menina muito levada, escutou por
detrás da porta toda a conversa da
Felicidade com a Tristeza e também
questionou se todo aquele
sentimento ruim era normal. Pois
sempre que alguém pegava suas
coisas, sempre que precisava ir
embora do parquinho ou se era
contrariada, um sentimento ruim
tomava conta dela.
Então a Felicidade, que era muito
sábia, respondeu à Raiva:
- Sabe, ficar com raiva não é ruim, só
não podemos machucar as pessoas.
Nós devemos aprender com cada
situação de nossas vidas.
Era nesse cenário que se davam os
encontros das emoções e dos
sentimentos, os conflitos, as
contradições, as gestões e soluções
dos conflitos inerentes aos quatro
personagens principais da obra
infantil.
Durante o desenrolar do enredo, os
personagens, de forma individual,
dialogam com a Felicidade, sempre
tendo um feedback positivo da
mesma.
“A Tristeza era uma menina quieta, que
vivia cabisbaixa, pois sentia saudade
dos amigos e das pessoas que ela
amava. Logo em seguida veio Medinho, muito
Um dia a Tristeza, cansada de ser tão tímido e quieto, pedindo conselhos à
triste, perguntou à Felicidade o que Felicidade:
poderia fazer para ser feliz. Então a - Felicidade, o que eu faço para não
Felicidade respondeu: sentir mais medo? Esse medo que me
- Eu não sei de onde vem, nem para assombra? Medo de bruxas, medo do
onde vai, mas de repente sinto meu lobo mau, medo de monstros, medo
coração disparar de alegria quando de altura e do escuro. Eu tenho medo
brinco com os meus amigos ou quando de tudo.
estou com a minha família. Não A Felicidade virou-se para o Medo e
precisamos de grandes acontecimentos respondeu:

16
- Medinho, todo mundo tem medo. a autora deixa claro que deve
Medo de alguma coisa ou de algo. permanecer a Felicidade,
Fique tranquilo! O que precisamos é resgatando a clássica frase do
pedir ajuda para encará-los e Chapeleiro Maluco da obra Alice no
coragem para enfrentá-los. Contar País das Maravilhas: “O segredo,
com a ajuda de alguém é muito querida Alice, é rodear-se de
importante para conseguirmos pessoas que te façam sorrir o
superar os nossos medos. coração. É então, só então, que
Depois de uma longa conversa, a estarás no país das maravilhas”.
Tristeza, o Medo e a Raiva O segredo da Felicidade é encontrar
descobriram que todos os alegria nas pequenas coisas da vida
sentimentos são importantes e que para um bem-estar e um estar bem
até mesmo a Felicidade tem dias de plenos. Ela exerce um papel de
tristeza, de raiva ou de medo. O que espécie de conselheira dos demais
muda os sentimentos são as atitudes personagens da sucessão de
que tomamos diante deles. acontecimentos da produção
Nós precisamos enfrentar os nossos literária. Essa capacidade de
medos, saber lidar com a tristeza e reconhecer, compreender e regular
controlar a raiva, assim a felicidade
nossas próprias emoções e
sempre prevalecerá”.
sentimentos, estabelecer
relacionamentos interpessoais
saudáveis, demonstrar empatia e
tomar decisões com base em
considerações emocionais e sociais
são habilidades necessárias à
humanização planetária.

Bibliografia:

ANTUNES, A. G. L. O encontro dos


sentimentos e das emoções. 1. ed.
São Paulo: Ciranda de Livro, 2023.
16 p.
Alice Gutierrez evidencia, através de
sua obra O Encontro dos *Antônio Sérgio S. Gutierrez é
Sentimentos e das Emoções, a jornalista, professor universitário,
importância da inteligência pedagogo e pesquisador. Currículo
socioemocional no cotidiano da
Lattes:
contemporaneidade. As emoções e
os sentimentos dos humanos são os https://lattes.cnpq.br/54319140884
protagonistas principais e os 19740. E-mail:
humanos são os protagonistas asergiosgutierrez@gmail.com.
secundários. Entre os protagonistas
da obra (Tristeza, Medo, Raiva e
Felicidade) que habitavam o castelo,

17
Artigo Acadêmico
QUIMERA OU COSMOCONSCIÊNCIA?
REFLEXÕES SOBRE A OFICINA EXPERIMENTAL DE CINEMA
DIGITAL
DO CENTRO DE CONVIVÊNCIA E CULTURA DE TABOÃO DA SERRA - SP

CHIMERA OR COSMOCONSCIOUSNESS?
REFLECTIONS ABOUT THE DIGITAL CINEMA EXPERIMENTAL
WORKSHOP
OF THE CENTER FOR COEXISTENCE AND CULTURE OF TABOÃO DA
SERRA - SP

RENATO GUENTHER
PSICÓLOGO

18
O presente artigo visa descrever parte da jornada da
Oficina Experimental de Cinema Digital do Centro de
Convivência e Cultura de Taboão da Serra - SP e
refletir sobre as peculiaridades e potencialidades
das experiências de arte e cultura em equipamentos
públicos de saúde mental como recursos para
expansão de consciência e ressignificação das
realidades.

PALAVRAS-CHAVE: CECCO. Saúde Mental. Cinema.


Consciência Cósmica.

This article aims to describe part of the journey of


the Digital Cinema Experimental Workshop Of the
Center for Coexistence and Culture of Taboão da
Serra – SP and to reflect about the peculiarities and
potentialities of art and culture experiences in public
mental health equipments as resources for the
expansion of awareness and resignification of the
realities.

KEYWORDS: CECCO. Mental Health. Cinema. Cosmic


Consciousness.

1. INTRODUÇÃO

O cinema é uma arte grupal em sua gênese (MASCARELO, 2006) e só se faz


possível numa prática coletiva, pois exige trabalho em equipe, onde todos os
componentes são de fundamental importância.
Atuação, cenografia, fotografia, música, edição, entre outros recursos, se mesclam
na obra final que se convencionou chamar de filme (ARONOVICH, 2014). O próprio
cinema, como arte e produção estética, se mostra uma quimera ao reunir
aspectos de diferentes artes antecessoras.
A Oficina Experimental de Cinema Digital do Centro de Convivência e Cultura de
Taboão da Serra (CECO Taboão) existiu entre 2009 e 2017 com a proposta de
familiarizar os participantes ao uso das técnicas e tecnologias que envolvem a
produção do cinema digital e permitir a expressão de seus anseios, sentimentos e
perspectivas através da confecção conjunta de filmes de curta-metragem em
vídeo digital, passando por todas as etapas que envolvem o processo. Em
paralelo, eram estudados e discutidos a história do cinema no Brasil e no mundo,
os vários tipos de cinema, e ainda exercitadas uma série de habilidades, desde
criatividade, foco, atenção, organização, até comunicação, expressão corporal e
principalmente convivência em grupo (FONSECA; GUENTHER, 2016).
19
2. METODOLOGIA

A cada ano, durante os primeiros encontros da oficina, eram discutidos temas


de relevância para os participantes, gêneros e estilos de linguagem.
Selecionávamos trechos de filmes, produções de audiovisual, livros e histórias
em quadrinhos para referências de arte, enquadramento, linguagem e estilo. Em
conjunto escrevíamos o roteiro, dividíamos a equipe entre atores, atrizes,
assistentes de direção e produção, equipe de som, arte e figurino. Eram feitos
ensaios e marcações no cenário que sempre partiam das possibilidades
oferecidas pela estrutura do CECO Taboão. Programávamos os últimos 4 ou 5
encontros para as gravações.
O equipamento e o trabalho de captação de sons e imagens ficava a cargo da
Escola de Cinema do então Latin American Film Institute (LATIN AMERICAN FILM
INSTITUTE, 2016). A partir da parceria voluntária com esta instituição
promovemos o intercâmbio de conhecimentos e perspectivas. Em troca,
oferecemos a certificação na experiência voluntária aos profissionais e
estudantes da instituição que se dispuseram a apoiar o projeto. Montagem e
edição ficavam a cargo do oficineiro. Em parceria com outros setores e
secretarias do município eram produzidas cópias da obra finalizada e
distribuídas entre todos os participantes.

3. RESULTADOS

Em 8 anos, nasceram 8 produções de curta-metragem em vídeo digital.


Veiculadas em concursos e festivais culturais e pela internet através do blog da
oficina, concorremos a premiações e divulgamos os trabalhos realizados em
diversos Estados e municípios (OFICINA DE CINEMA DO CECO TABOÃO, 2016).

Das conquistas:
- Projeto contemplado com o V Prêmio David Capistrano no XXIX Congresso de
Secretários Municipais de Saúde do Estado de SP em 2015
(http://cinececo.blogspot.com.br/2015/05/premio-david-capistrano.html)

- Filme “E o Quitandeiro Pirou!”, contemplado com o 2o lugar na categoria C


(usuário e equipe interprofissional com participação de psicólogo) do Prêmio
Inclusão Social do Conselho Federal de Psicologia em Brasília - DF em 2016
(http://site.cfp.org.br/premio-celebra-arte-cultura-e-trabalho-na-saude-ental/)

20
(https://www.flickr.com/photos/conselhofederaldepsicologia/sets/7215766827358
5721)
(http://cinececo.blogspot.com.br/2016/05/premio-inclusao-social.html)

- Filme “O Verdadeiro Encontro”, selecionado para o 5º Troféu Graça Aranha de


Cinema Amador do Colégio Civitatis em 2014. Selecionado para o CINEPICOS -
Festival Nacional de Cinema do Centro Sul do Piauí em 2014. Contemplado na
categoria vídeo do VII prêmio Arthur Bispo do Rosário celebrado pelo Conselho
Regional de Psicologia de SP em 2014
(http://cinececo.blogspot.com.br/2014/11/vii-edicao-do-premio-arthur-bispo-
do.html)
(http://www.taboaodaserra.sp.gov.br/noticias/2014/12/08/equipe-de-saude-
mental-conquista-premio-com-filme)

- Filme “Buscando a Felicidade”, contemplado com o 3o lugar na categoria vídeo


do VI prêmio Arthur Bispo do Rosário celebrado pelo Conselho Regional de
Psicologia de SP em 2011
(http://www.crpsp.org.br/portal/comunicacao/exposicoes/bispo6/fr_videos.aspx#
)

- Projeto selecionado para o 3o Fórum de Direitos Humanos e Saúde Mental em


Florianópolis - SC - 2017 (http://www.direitoshumanos2017.abrasme.org.br/)

- Projeto selecionado para o 5o Congresso Brasileiro de Saúde Mental - SP – 2016


(http://cinececo.blogspot.com.br/2016/06/5o-congresso-de-saude-mental.html)

- Artigo sobre o projeto publicado no Boletim do Instituto de Saúde vol. 16 - 2015


(http://www.saude.sp.gov.br/resources/instituto-de-
saude/homepage/bis/pdfs/bis16suplemento_web.pdf)

- Selecionado para o VI SIMPOSIO DE SAÚDE COLETIVA E SAÚDE MENTAL - MG -


2015

- Selecionado para o XII Encontro Catarinense de Saúde Mental - 2015


(http://cinececo.blogspot.com.br/2015/11/xi-encontro-catarinense-de-saude-
mental.html)

21
- Selecionado para o ABRASCÃO - Encontro Brasileiro de Saúde Coletiva - GO -
2015 (http://cinececo.blogspot.com.br/2015/08/abrascao-2015.html)

- Selecionado para a IV Mostra Nacional de Experiências em Atenção Básica e


Saúde da Família - Brasilia - DF - 2014
(http://cinececo.blogspot.com.br/2014/03/iv-mostra.html)

Ao longo da experiência, conquistaram-se aliados e admiradores através da


candura e do encanto inerentes ao projeto e ao passo que surgiram os resultados.
Porém, a maior realização se fez na franca constatação dos progressos cotidianos
dos participantes à medida que se demonstravam capazes de expressar e
materializar seus anseios. Ao se reconhecerem autores, capazes de criar algo
conjuntamente e perceber seu trabalho projetado e contemplado por diferentes
audiências, surgiram sentimentos de valor próprio, pertencimento e maior
integração social, o que colaborou para a promoção de saúde como um todo
(DIONISIO; YASUI, 2012).
Mas não só os usuários dos serviços de saúde mental do município se
beneficiaram. Percebemos também o processo de sensibilização que ocorreu com
os profissionais, técnicos e voluntários que se doaram ao projeto. Também as
diferentes audiências que tem oportunidade de conhecer esse trabalho tendem a
se comover com o tema da inclusão social do diferente através da arte (CANAL
SAÚDE NA ESTRADA, 2016). De fato percebemos um processo de questionamento
e conscientização a cerca das fronteiras que delimitam arte e saúde, público e
privado, o são e o insano.
Assim como o cinema, esta oficina nasceu marcada por hibridismos. Constituindo
um fenômeno que carregou em si características distintas de diferentes espécies.
Produto da arte e das linguagens estéticas, encubada por um equipamento de
saúde pública municipal, mas em parceria com uma instituição de ensino
particular. Mesclando formas, conteúdos, histórias e pessoas em prol do objetivo
comum de materializar sonhos.
Quimera, não como o monstro da mitologia grega, parte leão, parte cabra, parte
serpente, que cuspia fogo e aterrorizava aldeões (BRANDÃO, 1987). Uma anomalia,
produto incidental da necessidade de dar voz aos inoportunos e da carência de
recursos e condições.
Sonho que se sonha junto (SEIXAS, 1974), transpassou fronteiras, mostrando-se
forte como a realidade.
No CECO Taboão, cada filme produzido era uma gestação coletiva. Durante a
criação de roteiro, personagens e cenários, cada participante colaborava a seu mo-

22
do, respeitado em suas limitações e estimulado em suas habilidades, de modo que
ao final não se podia atribuir o filho a um único pai.
Quanto aos recursos utilizados, partíamos inicialmente das disposições do
equipamento público municipal. Mas cada participante acabava colaborando,
trazendo peças do próprio guarda-roupas para compor o figurino ou da própria
moradia para compor o cenário. Muitas vezes aproveitamos sucata ou objetos
desprezados por outros, fazendo o melhor uso possível do que tínhamos,
alinhando as possibilidades de cada indivíduo com o tempo, espaço e até as
condições climáticas disponíveis.
Inicialmente, quando Nise da Silveira fez uso da arte em asilos manicomiais,
também sua ousadia e inovação foram vistas com incredulidade (BERLINER,
2016). Diante de tanto ardor e dedicação, enfrentando tantas limitações das mais
diversas ordens, fica claro que não se tratou de algo fácil. Mas se fez
imprescindível perceber cada produção como algo lúdico, divertido: causa e
consequência da necessidade humana de convivência em grupo.
Assim, alguns eixos fundamentais se delinearam:
- Binômio Arte e Saúde
- Parcerias público/privadas
- Gestações grupais
- Eficiência : “fazemos o melhor com o que temos”
- Diversão : “se não for gostoso não vale a pena”
- Inclusão
Mas se esta oficina não se compôs de meros retalhos ao modo dum monstro como
fez o personagem de Mary Shelley no romance Frankenstein (ARAUJO, 2016), o
que fermentou seu trabalho?
Segundo Vieira, cosmoconsciência é a condição ou percepção interior da
consciência do Cosmos, quando a consciência sente a presença viva do Universo
e se torna una com ele (VIEIRA, 1999). O termo é um neologismo para uma
condição descrita anteriormente por outro ilustre acadêmico: Richard Maurice
Bucke.
Bucke foi, entre outras ocupações, psiquiatra e dirigente de asilos para insanos no
Canadá, nos idos de 1870. Reformista e inovador no tratamento de alienados,
nutria estreita admiração pelo poeta americano Walt Whitman, de quem foi amigo
e biógrafo (HARRISON, 1990).
Em 1901 teria publicado sua grande obra, “Consciência Cósmica” em que trata do
fenômeno impar que deu nome a seu livro.
Falando de maneira simplista, o fenômeno consistiria numa espécie de expansão
de percepção e entendimento, aliado a manifestações físicas bastante marcantes.

23
O estado máximo de consciência do ser humano em que ressignifica sua
experiência de existir, percebendo além das fronteiras aparentes. Algo a não ser
narrado, mas experimentado e que o próprio autor tentou descrever assim:

“Entre outras coisas em que não chegou a acreditar,


percebeu e compreendeu que o Cosmo não é
matéria morta e sim uma Presença viva; que a alma
do ser humano é imortal; que o universo é tão bem
estruturado e ordenado que, sem qualquer
possibilidade de erro, todas as coisas trabalham
juntas para o bem de cada uma delas; que o
princípio fundamental do mundo é o que
chamamos de amor e que a felicidade de cada um é
a longo prazo absolutamente certa.” (BUCKE, 1996,
pág. 43)

Tal fenômeno equivaleria ao que as mais diversas correntes místicas definiriam


como iluminação (WHITE, 1997). Estado de percepção de que estamos todos
ligados e funcionando em harmonia com uma vontade, que ao mesmo tempo é a
vontade de todos e uma vontade maior: transcendente.
Para além do misticismo, Bucke descreve a consciência cósmica como um estado
a que o ser humano evoluirá naturalmente assim como evoluiu um dia de uma
consciência simplista para a autoconsciência.
Porém não é interesse deste artigo navegar em águas turvas, mas traçar um
paralelo entre o fenômeno descrito por Bucke e a prática observada na Oficina
Experimental de Cinema Digital do CECO Taboão, pois os trabalhos relacionados
aos cuidados com os mentalmente transtornados vêm se valendo cada vez mais
de diferentes práticas e olhares, intersetoriais e multiprofissionais (AMARANTE,
2008).

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Segundo Lopes (2015), em um Centro de Convivência, o conceito de “nós” é


diferente do conceito de eu e o outro:
“(...) implica como um abraço probiótico que mistura perfumes dos corpos
distintos quando esse abraço se dá.” (LOPES, 2015, pág. 28)
Quando nos percebemos borrando fronteiras (TAMIS, 2016) entre arte e saúde,
publico e privado, são e insano, cidadania e exclusão, sonho e realidade, convém
questionar se as fronteiras realmente existem ou se são mera reação à
inconsciência de um sistema maior. De fato, como equipamentos e sistemas que
deveriam funcionar em rede, percebemo-nos como desbravadores deste estado
de consciência maior, não criando um monstro, mas trazendo luz para as possibili-
24
dades existentes, amadurecendo e evoluindo na prática de saúde mental:
expandindo consciências.

“No mito, Narciso se apaixona por sua imagem


refletida, apartando-se da verdadeira noção de si, a
ponto de desfalecer. A imagem é um recorte do
aspecto retratado. Seja às margens de um lago,
diante do espelho, em uma fotografia ou em vídeos
nas mídias sociais, a imagem é apenas uma fração,
incapaz de comportar a majestade do ser. Mas a
mente é limitada e seu funcionamento exige o
fracionamento. O Ego é essa parte da mente que
toma decisões a partir daquilo que consegue
perceber. Pautado pelos cinco sentidos e pelos
conceitos transmitidos socialmente, dirige nossa
percepção e nosso entendimento. A partir de
partes, deduz o todo, estabelecendo padrões que
preenchem com crenças as lacunas perceptivas.
Por não se perceber em plenitude, gera equívocos.”
(GUENTHER, 2024, págs. 62-63)

O narcisismo é natural em parte de nossa infância. Conforme crescemos, nem


todos amadurecem emocionalmente ou desenvolvem o senso de comunidade. O
ego é a fronteira invisível que nos separa do todo. Experiências em grupo e
gestações coletivas são oportunidades de permear essa fronteira, multiplicar
perspectivas e expandir consciências. Mais que se ver no outro, é possível ver
Deus em si através do outro. A combinação das subjetividades permite criar
multiversos de possibilidades:

“Deus é a abrangente Verdade incognoscível para a


mente humana. Como a taça que é incapaz de
abarcar toda água do oceano, para vislumbrá-lo há
que se transcender a mente.
Porém, seguindo o princípio da correspondência,
pela parte podemos deduzir o todo. Por analogias,
como nos ensina Hermes, permitindo-nos
surpreender com o desconhecido a partir da ciência
do que nos é conhecido, espiamos Deus pelo
buraco da fechadura em nosso próprio peito. Esta
abençoada percepção se evidencia na língua
portuguesa, quando abstraímos o pronome “EU” da
parte central da palavra “DEUS”. O “Eu” está em
D(EU)S. Se abstrairmos mais, percebemos Deus
como vetor ou força que leva o “Eu” ao infinito.”
(LOBO, 2021, pág. 77)

25
Quando percebemos mais de nós e dos outros, transformados ao longo do
projeto, concluímos que tal experiência proporcionou a abstração do EU como
manifestação espontânea do processo de transcendência da ilusão de separação
determinada pelo ego analítico humano, um prenúncio do fenômeno de
consciência cósmica. Afinal:

“Existimos mutuamente, somos membros uns dos


outros. A consciência é um vasto oceano e ninguém
é uma ilha. Nós nos encontramos e nos fundimos
uns nos outros. Não há fronteiras. Todas as
fronteiras são falsas.” (Tilopa em: OSHO, 2006, pág.
230)

REFERÊNCIAS

AMARANTE, P. Saúde mental e atenção psicossocial. Rio de Janeiro: Editora


Fiocruz, 2008.

ARAUJO, A. F. O monstro de Frankenstein: uma leitura a luz do imaginário


educacional. Revista temas em educação, v. 23, n. 1. João Pessoa: jan.-jun. 2014.
Disponível em:
http://periodicos.ufpb.br/index.php/rteo/article/viewFile/18790/11416 . Acesso
em: 27 out. 2016.

ARONOVICH, T. Fazendo Cinema, São Paulo: Editora Criativo, 2014.

BERLINER, Roberto. Nise: No Coração da Loucura. Filme. Imagem Filmes, Brasil,


2016.

BRANDÃO, J. S. Mitologia Grega vol. III. Rio de Janeiro: Vozes, 1987.

BUCKE, R. M., M.D. Consciência Cósmica. Paraná: AMORC, 1996.

CANAL SAÚDE NA ESTRADA, Fiocruz. SP: Taboão da Serra e Campinas, programa


exibido em 05/10/2015. Disponível em:
http://www.canal.fiocruz.br/video/index.php?v=SP-Taboao-da-Serra-e-Campinas-
SE-0080 . Acesso em: 27 out. 2016.

26
DIONISIO, G. H.; YASUI, S. Oficinas expressivas, estética e invenção. In:
AMARANTE, P.; NOCAM, F. (Org.). Saúde mental e arte: práticas, saberes e
debates. São Paulo: Zagodoni, 2012, p.53 – 65.

FONSECA, E.; GUENTHER, R. Oficina Experimental de Cinema Digital do Centro de


Convivência e Cultura de Taboão da Serra, In: V Prêmio David Capistrano de
Experiências Exitosas na Área da Saúde 2015. Boletim do Instituto de Saúde, Vol.
16, sup., novembro de 2015, p.37 - 40. Disponível em:
http://www.saude.sp.gov.br/resources/instituto-de-
saude/homepage/bis/pdfs/bis16suplemento_web.pdf . Acesso em: 27 out. 2016.

GUENTHER, R. Autoestima: seja responsável pela sua felicidade!, São Paulo:


Scortecci, 2024

HARRISON, Jonh Kent. Beautiful Dreamers. Filme, NFB, Canadá, 1990.

LATIN AMERICAN FILM INSTITUTE. Site institucional. Disponível em:


http://lafilm.com.br Acesso em: 27 out. 2016.

LOBO, I. Aos que buscam a verdade, Maringá: Viseu, 2021

LOPES, I. C. Os Centros de Convivência e a Intersetorialidade. In: Centros de


Convivência e Cooperativa, Cadernos Temáticos, São Paulo: CRP - SP, 2015, p.27 -
31.

MASCARELO, F. (org.). A história do cinema mundial, Campinas (SP): Papirus,


2006.

OFICINA DE CINEMA DO CECO TABOÃO. Blog da Oficina Experimental de Cinema


Digital do Centro de Convivência e Cultura de Taboão da Serra - SP. Disponível
em: http://cinececo.blogspot.com.br . Acesso em: 27 out. 2016.

OSHO. Tantra, a Suprema Compreensão, São Paulo: Cultrix, 2006.

SEIXAS, R. Prelúdio. Música, álbum: Gita, Lado B, Faixa 4. Gravadora: Philips, Brasil,
1974.

TAMIS, P. Rede dos Fazedores de Arte na Atenção Psicossocial, artigo apresentado

27
durante a mesa “Arte, Cultura e Saúde Mental”. In: 5º Congresso Brasileiro de
Saúde Mental. São Paulo: ABRASME, 2016.

VIEIRA, W., M.D. Projeciologia: Panorama das Experiências Fora do Corpo


Humano. 4ª edição. Rio de Janeiro: Instituto Internacional de Projeciologia e
Conscienciologia, 1999.

WHITE, J. (org.). O mais elevado estado da consciência. 10ª edição, São Paulo:
Editora Cultrix/Pensamento, 1997.

Escritores e Escritoras
Aniversariantes desta Edição

1 de Julho
Wilhelm Leibniz (1646), Georg
Lichtenberg (1742), George Sand
(1804), Juan Onetti (1909), Walter
Kaufmann (1921)

2 de Julho
Hermann Hesse (1877), Wislawa
Szymborska (1923)

3 de Julho
Franz Kafka (1883), Ramón Serna
(1888)

4 de Julho Mia Couto


António Dinis Cruz e Silva (1731),
Calvin Coolidge (1872), Adolfo Casais 7 de Julho
Monteiro (1908) Daniel Maia-Pinto Rodrigues (1960)

5 de Julho 8 de Julho
Jean Cocteau (1889), Marcel Achard
Jean de La Fontaine (1621), John
(1899), Mia Couto (1955)
Rockefeller (1839), Edgar Morin (1921)
6 de Julho
Niceto Zamora (1877), Tomaz 9 de Julho
Figueiredo (1902), Dalai Lama (1935), José Riço Direitinho (1965)
Bernhard Schlink (1944)

28
10 de Julho 20 de Julho
Marcel Proust (1871), Alice Munro Francesco Petrarca (1304), Cormac
(1931) McCarthy (1933)
11 de Julho
Lélia Coelho Frota (1938) 21 de Julho
Ernest Hemingway (1899)
12 de Julho
Henry Thoreau (1817), Max Jacob
22 de Julho
(1876), Pablo Neruda (1904)
Lara Lemos (1923)

24 de Julho
Alexandre Dumas (1802), Guilherme
Almeida (1890), Vitaliano Brancati
(1907), José Santiago Naud (1930)

25 de Julho
Eric Hoffer (1902), Elias Canetti (1905),
Miguel Esteves Cardoso (1955)

Pablo Neruda 26 de Julho


Bernard Shaw (1856), Antonio Machado
13 de Julho y Ruiz (1875), Carl Jung (1875), André
Wole Soyinka (1934)
Maurois (1885), Marcel Jouhandeau
14 de Julho (1888), Aldous Huxley (1894), Cassiano
Jules Mazarin (1602), William Paley Ricardo (1894), Francisco Bugalho
(1743) (1905)

15 de Julho
27 de Julho
Walter Benjamin (1892), Alfred
Montapert (1906) Alexandre Dumas (filho) (1824)

16 de Julho 28 de Julho
Mário Dionísio (1916), Luiz Coronel
Karl Popper (1902)
(1938)

17 de Julho
Shmuel Yosef Agnon (1888), João José
Cochofel (1919)

18 de Julho
Nelson Mandela (1918), Cândido Velha
(1933), Richard Branson (1950)

19 de Julho
Claude Aveline (1901), Francisco Sá
Carneiro (1934), Howard Schultz
(1953), Manuel Vilas (1962)
Lara Lemos

29
29 de Julho nargues (1715), Alfred Tennyson (1809),
Alexis Tocqueville (1805), Benito Paul Claudel (1866), Andy Warhol
Mussolini (1880), Eyvind Johnson (1926), Albano Martins (1930)
(1900)

30 de Julho 7 de Agosto
Henry Ford (1863), Ângelo Lima (1872), Francisco Pina e Melo (1695), Edmundo
António Oliveira (1879), Mário Bettencourt (1899), Carlos Lopes Pires
Quintana (1906), Robert Townsend
(1956)
(1920), Nicolau Breyner (1940), Patrick
Modiano (1945)
8 de Agosto
31 de Julho Jules Lagneau (1851), Políbio Gomes
Milton Friedman (1912) dos Santos (1911)
1 de Agosto
Sophie Ségur (1799), Hermann Melville 9 de Agosto
(1819), Stella Leonardos (1923), Mário Cesariny (1923), Eduardo Pitta
António Maria Lisboa (1928), António (1949)
Osório (1933)

2 de Agosto 10 de Agosto
James Baldwin (1924), Zeca Afonso Carlos Oliveira (1921), Rui Knopfli
(1929), Nauro Machado (1935), Isabel (1932)
Allende (1942)
11 de Agosto
Tomás António Gonzaga (1744), Robert
Ingersoll (1833)

Isabel Allende
Tomás Antônio Gonzaga
3 de Agosto
Walter Wriston (1919) 12 de Agosto
Jacinto Benavente y Martinez (1866),
4 de Agosto Miguel Torga (1907), George Soros
Percy Shelley (1792), John Pollard (1930)
(1871), Raul Bopp (1898)
13 de Agosto
5 de Agosto Carlos Malheiro Dias (1875), Fidel Castro
Guy Maupassant (1850) (1926), A. M. Pires Cabral (1941)

6 de Agosto 14 de Agosto
Nicolas Malebranche (1638), François John Galsworthy (1867)
Fénelon (1651), Luc de Clapiers Vauve-

30
15 de Agosto 25 de Agosto
Napoleão Bonaparte (1769), Walter Louis Saint-Just (1767), Martin Amis
Scott (1771), Thomas Quincey (1785), (1949)
José Agostinho Baptista (1948), Inês
Pedrosa (1962)
26 de Agosto
16 de Agosto Guillaume Apollinaire (1880), Madre
Jean de La Bruyère (1645), António Teresa de Calcutá (1910), Julio
Nobre (1867), Mauro Mota (1911),
Cortázar (1914)
Millôr Fernandes (1923)

27 de Agosto
Confúcio (-551), Georg Hegel (1770),
António Reis (1927)

28 de Agosto
Sá Miranda (1481), Johann Goethe
(1749), Jaime Balmes (1810)

29 de Agosto
John Locke (1632), Oliver Holmes
Millôr Fernandes (1809), Maurice Maeterlinck (1862)

17 de Agosto 30 de Agosto
António Botto (1897), V. S. Naipaul Jean-Baptiste Bellegarde (1648), Mary
(1932), Herta Muller (1953), Jonathan
Franzen (1959) Shelley (1797), Warren Buffet (1930)

19 de Agosto 31 de Agosto
John Dryden (1631), Joaquim Nabuco Théophile Gautier (1811)
(1849)

20 de Agosto
Louis Bourdaloue (1632), Manuel
Bernardes (1644), (Pd.) Manuel
Bernardes (1644), Paul Tillich (1886),
Salvatore Quasimodo (1901)

21 de Agosto
Thomas Monson (1927)

23 de Agosto
Arthur Adamov (1908), Nelson
Rodrigues (1912)

24 de Agosto
Max Beerbohm (1872), Jorge Borges
(1899), Paulo Coelho (1947)

Mary Shelley

31
1 de Setembro 11 de Setembro
António Lobo Antunes (1942) José Agostinho Macedo (1761),
Theodore Adorno (1903), Orlando
2 de Setembro
Neves (1935)
Giovanni Verga (1840), Paul Bourget
(1852), Andrew Grove (1936), Henry
Mintzberg (1939) 12 de Setembro
Henry Mencken (1880), Elsa Triolet
3 de Setembro
(1896)
Jean Jaurès (1859), Eduardo Galeano
(1940)
13 de Setembro
4 de Setembro Marie Eschenbach (1830), Pierre
François Chateaubriand (1768), Reverdy (1889), Natália Correia (1923)
Antonin Artaud (1896), Raul Carvalho
(1920), José Luís Peixoto (1974)
14 de Setembro
6 de Setembro Francisco Quevedo (1580)
Julien Green (1900), Pedro Homem de
Mello (1904)
15 de Setembro
7 de Setembro François La Rochefoucauld (1613),
George Buffon (1707), Samuel Johnson Manuel Bocage (1765), Abílio Guerra
(1709), Giuseppe Belli (1791), Tristan Junqueiro (1850), Agatha Christie
Bernard (1866), Camilo Pessanha (1890)
(1867), David Packard (1912), James
Allen (1914)

8 de Setembro
Ludovico Ariosto (1474), Isabel Sá
(1951)

9 de Setembro
Lev Tolstoi (1828), Cesare Pavese
(1908)

10 de Setembro
Nicolau Tolentino (1740), Charles
Peirce (1839), Ferreira Gullar (1930)

Agatha Christie

16 de Setembro
D. Pedro V (1837), Laurence Peter
(1919)

17 de Setembro
José Régio (1901)

18 de Setembro
Lev Tolstoi Maria Judite de Carvalho (1921)

32
19 de Setembro 26 de Setembro
Ricardo Reis (1887), William Golding Thomas Eliot (1888)
(1911)
27 de Setembro
20 de Setembro
Jean Retz (1613), Alberto Lacerda Jacques Bossuet (1627), Henri Amiel
(1928), Javier Marías (1951) (1821)

21 de Setembro
28 de Setembro
Johann Eckermann (1792), H. G. Wells
(1866), Leonard Cohen (1934), Mateo Alemán (1547), Georges
Stephen King (1947) Clemenceau (1841), D. Carlos I (1863)

22 de Setembro 29 de Setembro
Philip Chesterfield (1694)
Miguel Cervantes (1547), Miguel
23 de Setembro Unamuno (1864), Luís Miguel Nava
Jaroslav Seifert (1901) (1957)

24 de Setembro
30 de Setembro
Ramón Campoamor y Campoosorio
(1817), Scott Fitzgerald (1896), António Truman Capote (1924), Paulo Bomfim
Tabucchi (1943) (1926)

25 de Setembro Bibliografia:
William Faulkner (1897), Mário
https://www.citador.pt/index.php?
Carvalho (1944), Carlos Ruiz Zafón
(1964), valter hugo mãe (1971), Pedro op=40
Chagas Freitas (1979)

Pintura

Thalita Cristina é de São Paulo e


estudou artes visuais na FMU. Produz
ilustrações de livros que adora e pinta
quadros de tudo que a cerca. Seus
projetos podem ser vistos na sua conta
no Instagram @t_t_chris_art.

Pintura
Tema: Arte e Saúde, Meio ambiente

33
Fotopoema

Tereza Miranda Carvalho, conhecida artisticamente como TecaMiranda, iniciou sua


trajetória nas artes plásticas na década de 1980. Contudo, uma alergia a afastou dos
pincéis por mais de uma década. Recentemente, ao descobrir os lápis a óleo,
retomou sua paixão pela arte, explorando e criando obras com essa técnica. A
fotografia sempre desempenhou um papel inspirador em seu processo criativo e,
atualmente, a inteligência artificial emergiu como uma ferramenta fundamental na
materialização das imagens concebidas pela artista.
Instagram: @tecarte_guarapari

34
Frases Autorais

“A arte é a moldura do invisível, Luis Ricardo Teiga Ramalho nasceu


organiza o caos quando a alma perde em Ourinhos, interior de São Paulo.
sua bússola.” Desde a infância mergulha em mundos
fantásticos por meio dos livros, filmes
“Toda vez que zombamos do sotaque e videogames. Filho único, cresceu
de alguém, o que se cala é uma rodeado de histórias, o que despertou
história inteira, e o que morre é a o desejo de criar as suas próprias.
possibilidade do encontro.” Leitor voraz, começou a escrever
ainda jovem e desenvolveu um olhar
“A arte é a única linguagem capaz de sensível para o simbólico, o mítico e o
traduzir o grito que o silêncio da literário. Sua paixão por narrativas o
dor insiste em esconder, e é nesse acompanha até hoje, alimentando
gesto que ela salva.” projetos autorais e a construção de
universos próprios. Tem uma
Luis Ricardo Teiga Ramalho biblioteca em expansão e acredita que
cada história é uma chave para o
invisível. Vive atualmente em São
Paulo, onde se dedica à escrita com
intensidade quase sagrada.
Instagram: @lrtr87

*****

“A arte é o grito silencioso da alma que


ainda acredita na cura.”

ELISMAR Maria de Jesus

ELISMAR Maria de Jesus é escritor,


poeta e corretor de imóveis em Goiás.
Acadêmico de Gestão e Negócios
Imobiliários pela UNIP, é apaixonado
por temas sociais e humanos. Publica
seus textos em plataformas literárias e
participa de projetos culturais.

35
Para Ler e
Refletir
A busca pela felicidade
Fabíola Fabrícia

A felicidade é um sentimento de satisfação que nos proporciona um estado de bem-


estar e contentamento em prol da alegria. É uma sensação subjetiva, positiva de
realização pessoal que varia de pessoa para pessoa. Alguns encontram a felicidade
em grandes conquistas, enquanto outros sentem-se felizes com os momentos simples
do cotidiano.
Desfrutar da felicidade é poder contar com um conjunto de condições que nos
concede a viver plenamente bem em diversos aspectos: social, mental, material e
físico. É estar em equilíbrio e harmonia com as pessoas, se divertir, ter acesso a
serviços básicos de qualidade como saúde, educação, emprego, transporte e moradia
digna.
Afinal, podemos dizer que a felicidade tem a sua durabilidade e vivemos em uma
constante busca para encontrá-la, pois através dela o nosso sofrimento e a
inquietude são minimizados. O prazer que ela nos proporciona tem prazo, já que a
felicidade está relacionada a vários componentes que inclui: equilíbrio emocional,
bem-estar físico, bem-estar espiritual, gratidão, meditação, relaxamento, qualidade
de vida, entre outros elementos.
Portanto, a felicidade é verdadeiramente alcançada quando vivemos de forma a
prover nossas necessidades presentes, sem comprometer a nossa paz de espírito e
das gerações futuras, fazer o bem e ajudar o próximo são passos essenciais para
encontrarmos a felicidade. Essas atitudes nos permitem usufruirmos de uma vida
plena e satisfatória no presente e no futuro.

Fabíola Fabrícia é professora graduada em Letras Português/Inglês e Respectivas


Literaturas e Pós-graduada em docência do Ensino superior. É uma grande
apreciadora de literatura, cinema, música, artes Cênicas e plásticas. Tem seis livros
publicados, sendo cinco deles do gênero poesia e um infantil bilíngue
português/inglês. Fabíola verseja de uma maneira livre e atual. Nos seus escritos
podemos identificar uma poesia madura e vicejante de si mesma. A autora tem
participações em antologias nacionais e internacionais.
Instagram da autora: @fabi.poetry

36
SOTAQUEXXX
Danilo Chaleaux

Ah, a saúde! Não aquela que a gente mede com termômetro e pressão arterial, mas a
da alma, a do espírito. Porque, sejamos sinceros, o que adoece a gente, muitas vezes,
não é um vírus que se pega na fila do banco, mas sim a falta de ar que o preconceito
nos causa. Especialmente quando ele vem embalado em sotaques e sibilâncias.

O Sotaque e a Cirrose Linguística

Quem nunca teve a sorte (ou o azar, dependendo do ponto de vista) de ser “corrigido”
por um purista da língua? Aqueles que se autoproclamam os guardiões da gramática e
que, aparentemente, têm mais tempo livre do que juízo. “Ah, mas você fala ‘bolacha’?,
com um tom de quem acabou de descobrir que você cometeu um crime contra a
humanidade. Ou, pior ainda, “Você é do Nordeste? Nem parece! Fala tão bem!”. Como
se falar com um sotaque carregado de história, de sol e de mar fosse uma anomalia
genética.
E a gente, que respira arte e liberdade, fica pensando: qual a doença mais grave? A
gagueira nervosa de quem tenta anular o próprio jeito de falar para se encaixar, ou a
cirrose linguística de quem insiste em enxergar a diversidade como defeito? Porque,
vamos combinar, o preconceito linguístico é uma espécie de câncer da comunicação.
Ele atrofia as palavras, estrangula as ideias e, no fim das contas, nos impede de
apreciar a beleza de um “cabra da peste” ou de um “tchê” dito com a alma.

Xenofobia: O Mau Hálito Social

Mas se o sotaque já gera arrepios em alguns, imagine quando o “diferente” vem de


outro país. Aí, meu amigo, a coisa piora. A xenofobia é o mau hálito da sociedade,
aquele que a gente sente de longe e que insiste em ignorar no espelho. “Ah, veio pra
cá pra tirar nosso emprego!”, bradam alguns, esquecendo que o mundo é um
tabuleiro de xadrez e que as peças, por vezes, precisam se mover.
É irônico, não é? O brasileiro, que se gaba de ser um povo acolhedor, é também capaz
de levantar muros invisíveis para quem “não é daqui”. Como se a carteira de
identidade fosse um atestado de superioridade moral. E o mais engraçado é que,
muitas vezes, quem mais reclama da invasão estrangeira é o mesmo que consome a
pizza italiana, ouve o K-Pop coreano e veste a camiseta da marca americana. A
incoerência é uma arte em si, pena que não é das mais aplaudidas.
A arte, no entanto, tem um antídoto para essa patologia social. Ela nos convida a ouvir
as histórias do outro, a ver o mundo pelos olhos de quem chegou agora, a dançar ao
som de ritmos que jamais imaginamos. O teatro, o cinema, a música, a literatura – são
todos uma espécie de “terapia intensiva” para mentes fechadas. Eles abrem portas,
desfazem nós e nos lembram que a riqueza de um povo não está na homogeneidade,
mas na multiplicidade de vozes, de sotaques, de cores.
No final das contas, a saúde da nossa sociedade se mede pela nossa capacidade de
abraçar o diferente, de celebrar a diversidade e de entender que um “r” arrastado ou
um “e” aberto não diminuem ninguém. Pelo contrário, apenas enriquecem a sinfonia
da nossa existência. E se alguém reclamar do seu sotaque, sorria. Eles só não
entenderam que a vida, assim como a arte, é muito mais interessante com um toque
de imperfeição e uma boa dose de autenticidade.

37
Professor do Ensino Fundamental I na cidade de Taubaté/SP, Danilo Chaleaux é um
educador que inspira seus jovens alunos. Sua sólida formação acadêmica em
Pedagogia, História, Geografia e especialização em Gestão Escolar, oferece uma
perspectiva rica e multifacetada em sua abordagem pedagógica. Fora da sala de aula,
é um pai e marido dedicado. Sua paixão pela leitura nutre sua curiosidade e enriquece
sua visão de mundo, qualidades que ele busca transmitir em seu trabalho diário com
as crianças.
Rede social: @dan.chaleaux

Parece um repolho
Pollyanna Sapori

Buscar meu filho na escola era uma das poucas atividades sociais que restavam após
a maternidade. Com os filhos ainda pequenos, o tempo andava estreito demais para
prazeres além de colo, fraldas e a eterna tentativa de manter a casa aparentemente
limpa.
Naquela tarde, depois de mais uma noite sem dormir por conta do caçula, fui buscar
meu filho mais velho na escola. Ele tinha apenas cinco anos. Vesti uma roupa, ajeitei
os cabelos, passei um batom. Sair sem brincos e batom me fazia parecer nua. E, por
mais atrasada que estivesse, eu ainda não abria mão desses pequenos rituais, como
quem, teimosa, insistia em resgatar a mulher para além da mãe.
Cheguei à porta da sala do meu filho, cansada, mas animada em revê-lo. Foi quando o
vi e ouvi uma criança, da mesma idade, gritar pra ele:
- Sua mãe parece um repolho!
Meu filho, sem entender, perguntou:
- O que?
E ele, sem hesitar, repetiu com um riso debochado:
- Sua mãe parece um repolho!
Já havia doído na primeira vez que escutei. Na segunda, foi quase impossível conter
as lágrimas.
Minha autoestima, que já não existia, entrou imediatamente em extinção. Logo
repolho...que nem gosto. Redondo, sem graça.
Me senti como um desses, jogado, espedaçado na lixeira do mercado. Um lixo.
Entrei no carro chorando – pelo tempo dedicado à maternidade, pela crueldade das
crianças, pela falta de educação que muitas mães dão a filhos... e, sobretudo, pela
coragem daquele menino de dizer, sem pudor, o que ninguém havia tido coragem e eu
repetia silenciosamente para mim mesma, todos os dias:

Eu era uma gorda.

Pollyanna, mineira, publicitária, terapeuta, casada e mãe de dois meninos.


Apaixonada pela comunicação – especialmente pelas palavras – desde a primeira vez
que as usou. Encontra na escrita uma forma de expressão, encontro com as emoções
e de revelação ao mundo. Escrever é sua paixão, um espaço onde se reconhece,
reinventa e se conecta, para além do trabalho. É sua forma autêntica de viver.
Instagram: @eusoupollysapori

38
Todo dia é amarelo
Ivy Cassa

Todo dia é tempo pra discutir por quê tem gente que desiste de viver no mundo de cá.
☀️
Tão amarelo! Ou não? 🙄
Todo dia é amarelo pra gente rever cara feira, bico, mensagem torta.
Pra gente parar de inventar a vida dos outros e viver a nossa
Julgar menos sem entender os fatos do lado de lá.
Se incomodar menos com o sucesso ou fracasso alheios
Pra gente não tornar a vida dos outros cinzenta vomitando nossa mágoa. O outro
pode estar querendo ir pro lado de lá… já pensou?
❤️
Todo dia é amarelo pra gente distribuir mais e menos 😡
💐
Mais e menos 🤬
👏🏻
Mais e menos 🖕
Pra gente se aborrecer menos com o tamanho:
Do pé do outro
Do cabelo do outro
Do tamanho do vestido do outro
Todo dia é amarelo pra gente se preocupar:
Se os pés do outro estão presos
Se há pensamentos positivos embaixo do cabelo do outro
Se o corpo que o vestido rodeia está são.
Todo dia dá tempo de ser amarelo. ☀️☀️☀️
Então, ao invés de replicar na sua linha do tempo uma mensagem esdrúxula do tipo:
“Não repasse, “copie e cole (quem inventou essa bobagem? 😱). Antes de se matar
vem tomar um café aqui”…

Distribua 💋
Talvez, o seu conhecido – aquele pra quem você oferece cara feia
Que usa a roupa que tanto lhe aborrece a ponto de você xingar em público
Que terminou um casamento que doeu tanto na SUA pele
Esteja na sala de embarque para o lado de lá. Nada amarelo.
Tome cuidado pra não ser quem vai bipar o ticket. A gente não sabe tudo da vida do
outro
Qualquer um pode estar com o bilhete na mão.
“Não repasse, blá-blá-blá”? Repasse!
☺️
E espalhe . Ainda que amarelos.

Sobre a autora:

Ivy Cassa (1982) é escritora e autora de autoficções que misturam lirismo, humor e o
caos do cotidiano. Desde 2017, mantém o blog Portas Abertas (portasabertas.blog),
onde publica crônicas e poemas. Estreou com Confissões de uma Jovem Viúva (2019),
seguida por Devaneios de uma Pandemia (2020) e Bode Jurídico (2020) — livros que
transitam entre a dor e a ironia, entre o íntimo e o institucional. Com estilo direto e
olhar afiado, transforma experiências pessoais em literatura, sempre à margem das
categorias e com um toque inconfundível de sarcasmo.

39
“A Voz de Zé”

Na pequena cidade de Pedra Branca, vivia o Zé da Bica. Era um sujeito simples, desses
que falam cantado, puxando o “s”, com um “r” enrolado no céu da boca. Trabalhava
como zelador da escola estadual há mais de vinte anos. Era querido por quase todos.
Quase.
— Ôh, seu Zé, traz a chave da sala dos sexto ano! — gritou Dona Maristela, a professora
de português, da porta da sala dos professores.
— Já tô indo, fessora! — respondeu ele, apressado, segurando o molho de chaves que
fazia um tilintar danado no corredor.
— “Já estou indo”, seu Zé — corrigiu ela, rindo, mas com um certo desdém no olhar. —
Um dia o senhor ainda fala certinho…
Zé sorriu amarelo. Já tava acostumado com aquele tipo de comentário. Desde
menino, ouvira que falava “errado”. Na escola, na padaria, até na missa.
Mas Zé era mais do que suas palavras ditas de outro jeito. Sabia consertar tudo, de
trincas em paredes a corações partidos dos alunos que vinham chorar no pátio.
Escutava todo mundo com paciência. Até mesmo o Valentim, o menino mais travesso
da escola.
— Seu Zé, sabia que a senhora Maristela falou que eu escrevi “você” com “ç” e isso é
erro de português? — perguntou Valentim, sentando ao lado dele no banco do pátio.
— Uai, é mesmo, ué… mas e o que cê quis dizê?
— Eu só queria dizer que ela era legal, só isso…
— Então pronto. O mais importante é isso: que a mensagem chega. A língua é que nem
uma roupa: tem dia que a gente veste terno, tem dia que é chinelo e camiseta. Cada
ocasião pede uma coisa.
Valentim riu. Gostava quando o Zé falava assim, com jeito de poesia sem livro.
Um dia, a escola resolveu fazer um “Festival da Palavra”. Alunos, professores e até
pais poderiam apresentar textos, poesias ou histórias. Zé não ia participar, claro.
Achava que aquilo era coisa de gente “letrada”.
Mas foi Valentim quem insistiu:
— Seu Zé, o senhor tem que contar aquele “causo” da onça que cê enfrentou no mato!
— Ah, menino, isso não é pra palco não…
— Mas é bonito! O senhor fala bonito, do jeito do senhor.
Valentim e outros alunos fizeram até um abaixo-assinado. E Zé, vencido pelo carinho,
topou.
No dia do evento, subiu ao palco com as mãos tremendo. Limpou a garganta e
começou:
— Bom, eu num sou muito bom com as palavra bonita, não. Mas vou contá um causo
que aconteceu lá pras banda de onde eu vim...
E contou. Com seu sotaque arrastado, seus “nóis vai” e “eu vi ela indo”. O público riu,
se encantou, aplaudiu de pé. Até Dona Maristela ficou com os olhos meio marejados.
Depois disso, Zé virou atração. Passou a contar causos nas turmas mais novas,
ajudava nas aulas de história oral, virou exemplo de sabedoria da terra. E começou a
ser ouvido não só com os ouvidos, mas com o respeito que sempre mereceu.

Reflexão do autor

O preconceito linguístico é sorrateiro. Ele se esconde no riso da correção, na


“brincadeira” que diminui, no olhar de superioridade de quem acha que só existe uma
forma “certa” de falar. Mas a língua é viva, moldada por quem a usa. E toda fala
carrega uma história, uma origem, uma identidade.

Falar “errado” não é errar — é existir com sua voz.

40
Bruno Silva (Reallyme em obras literárias) é entusiasta da multidisciplinaridade,
atuando como consultor empresarial, educador financeiro e empreendedor. Gestor
de projetos, com foco em educação corporativa e inclusiva, escreve sobre finanças,
economia, poesia e ficção. Apaixonado por reflexões sociais, antropológicas e
filosóficas sobre a vida e o universo, possui formação em contabilidade, economia,
finanças internacionais, e outras áreas. Atua também em controladoria, recursos
humanos, estratégia empresarial, inovação, inclusão corporativa, educação inclusiva,
comunicação e posicionamento de marca. É doutorando em administração, na linha
de cultura e clima organizacional. Encontre-o também no Instagram:
@bruno.reallyme

Sobre a Maternidade
Obra Literária de Isabela Sifuentes

Daqui a alguns anos, você vai acordar — num dia como este, num Dia das Mães — e vai
me ligar ou mandar uma mensagem bonita. Quem sabe até comprar um presente para
mim. E, se eu tiver muita sorte, estaremos na mesma cidade, e poderemos almoçar
juntos.

Nesse momento, você vai ter certeza do meu lugar como mãe. E talvez até eu mesma
tenha. “Sou mãe, mesmo”, pensarei. Aliás, pensando bem, talvez eu nem pense nada
— tamanha mãe que já serei. Apenas direi: “Obrigada. Pelo MEU dia.”

Hoje, no entanto, seu pai bate à porta do quarto, um pouco mais tarde que o costume.
Vejo vocês dois. Sentamos à mesa, o café está posto. Me celebram. Ganho abraços,
ganho o título de melhor mãe. Me bajulam, me dizem que nada seria possível sem
mim. Que eu sou mãe.

Mas eu não sou mãe.


Como posso ser mãe?
Eu olho para você, filho.
Sou sua mãe? O que sou já é o bastante para me qualificar como mãe?

Porque às vezes eu olho pra você e sinto os olhos arregalarem, com a constatação de
que, se não eu, ninguém mais pode ser sua mãe. E quão estranho soa isso — EU ser
mãe.

Às vezes te pego no colo e te sinto quente.


Imediatamente chamo a minha mãe, ou qualquer mulher que já seja mãe, e pergunto:
— Tá quente?
— Não! Tá fresquinho! — me respondem, seguras, as mães.

Te acho meio amuado… o que será que você tem?


Qual a decisão que uma mãe tomaria nesse momento?
Será que dariam um banho? Um dipirona preventivo? Ou intuiríam que era caso de
levar ao médico?

Eu mesma não intuo nada.

41
Se eu pergunto às mães, recebo uma resposta imediata e homogênea, como se viesse
de um guia de conduta que nunca me foi entregue.

Sempre levo menos do que deveria pros passeios. Se peço, as mães me emprestam.
— Quer ficar com dois? Tenho vários.
E muitas vezes eu nem sei onde é que se compra aquilo que todo mundo parece já ter.

“Quando você for mãe, vai saber.”


“É tudo instinto materno.”
“Nasce o filho, nasce a mãe.”

Eu ainda estou me esperando nascer.

Tentando imaginar o que farei no dia em que, de fato, me tornar mãe.


E fazer igualzinho à minha mãe, quando ligo pra ela e recebo uma resposta certeira,
final — daquelas que só as mães conseguem dar.

....................................

Sirvo fruta, não quer. Eu como a fruta.


Sirvo ovo, não quer. Eu como o ovo.
Dou iogurte, não come. Eu odeio iogurte natural. Eu como.

O chão está limpo, brilhando.


Ele só fica assim na sexta feira de manhã.
Eu dou arroz, não come, joga no chão pra ver como que ele cai.
A carne vai pro chão, o feijão vai pro chão. Também não comeu.

Será que algum dia vai comer?


Será que tem algum adulto que só toma leite?
Será possível que ele será o primeiro?

Não tomou café hoje.


Amanhã também não toma.
Já está na hora de cortar a unha de novo e não tomou café da manhã nenhum dia.

Deve ser o dente.


Deve ser virose.
Puxou o pai, também não comia.
Deve ser fase.
Uma fase que dura 10 meses.

Chama nutricionista, o pai foi à missa.


Já levou pra benzer?
Será que comigo ele come?
Já tentou sentar no chão?

Não pode dar doce, se der doce não come nunca mais.
A minha filha só aceitou quando comprei orgânico.
Compro orgânico. Não come o orgânico.

Na cartilha do médico está claro:


Não insistir, não agradar, não chantagear.

42
Não insisto, não agrado, não chantageio. Não come.

Amamentar é um ato de amor- Não posso dizer sobre isso, pude amamentar tão
pouco.

Introdução alimentar, eu posso dizer: é uma declaração ostensiva de amor, que pra
ser incondicional, precisava de muito menos.

Isabela, professora, mãe do Miguel.


Instagram: @ingles_isabelasifuentes

Curiosidades Literárias

10 curiosidades literárias
1. Provavelmente, o primeiro poeta nascido em terras brasileiras foi Bento Teixeira.
Seu livro Prosopopeia foi publicado em Lisboa, no ano de 1601.

2. O escritor de ficção científica Julio Verne voou apenas uma vez. Ele subiu em um
balão em 1873.

3. A casa em que residia o escritor paulista João Antônio pegou fogo e o incêndio
queimou todos os originais. Teimoso, escreveu tudo de novo. Malagueta, Perus e
Bacanaço, o livro reescrito, publicado em 1963, virou clássico.

4. O paulista José Carlos Inoue entrou para o Guinness – Livro dos Recordes. Ele tem
o recorde de romances já publicados no mundo. Foram 1.086, sob 39 diferentes
pseudônimos.

5. O autor francês Georges Perec era maníaco por listas. Ele chegou até a escrever
uma com as coisas que gostaria de fazer antes de morrer.

6. Mencionar seu nome, o de seu melhor amigo ou de algum conhecido em suas obras
consistia em uma das brincadeiras favoritas do argentino Jorge Luís Borges.

7. Praticamente todos os romances de José Saramago têm um cachorro entre os


personagens.

8. Em 1975, Clarice Lispector participou de um congresso de bruxaria na Colômbia. Ela


começou seu discurso dizendo: “Eu tenho pouco a dizer sobre magia. Na verdade, eu
acho que nosso contato com o sobrenatural deve ser feito em silêncio e numa
profunda meditação solitária”.
43
9. O escritor catarinense Cristóvão Tezza sempre escreve a primeira versão de suas
obras a mão, apesar de saber mexer no computador.

10. Em 1934, Cecília Meirelles levou um chá de cadeira do poeta Fernando Pessoa. Ela
e o marido combinaram um encontro com o autor em um bar em Lisboa (Portugal),
mas ele nunca apareceu. O casal esperou por duas horas. Para compensar a ausência,
Pessoa mandou a Cecília uma edição do livro Mensagem com a dedicatória: “A Cecília
Meireles, alto poeta, e a Correia Dias, artista, velho amigo e até cúmplice, na
invocação da Apolo e Atena, Fernando Pessoa”.

Bibliografia:

https://www.guiadoscuriosos.com.br/literatura/10-curiosidades-literarias/

Artigos de Opinião
A “Miséria Intelectual” no Cenário Mundial, Um Olhar Crítico sobre
os
Líderes Mundiais
Nos dias que correm, é difícil não sentir uma sensação de desencanto, perante o
estado do mundo, especialmente quando observamos a conduta de muitos líderes,
que em vez de promoverem o progresso e a paz, parecem encarnar a própria “miséria
intelectual”. Este fenómeno, não se limita a uma região ou ideologia política, mas
alastra por todos os continentes, revela-se numa falta de visão crítica e numa
incapacidade, de saber articular quaisquer tipo de soluções, que sejam eficazes, para
os problemas que nos afligem.
A “miséria intelectual”, neste contexto, pode ser entendida como uma incapacidade
de se debater, de forma fundamentada e inovadora, as questões que são de grande
relevância, tais como a desigualdade social, as alterações climáticas e a saúde
pública. Em vez disso, muitos dos líderes, optam por discursos populistas, que
simplificam a complexidade das realidades sociais e políticas, apelando para as
emoções primárias e soluções fáceis, mas ilusórias, em que muitos caem.
Um exemplo claro desta problemática, pode ser observado na maneira, como
diversos governantes tratam a crise climática, ignorando os avisos científicos e
negando a necessidade de ações urgentes, com uma falta de compromisso, mas
também de uma alarmante ausência de compreensão, das possíveis consequências
das suas decisões. Assumem uma postura irresponsável, face ao futuro do planeta,
que é em última instância, uma forma de “miséria intelectual”, que compromete não
só a geração de hoje, mas também as gerações futuras. Além disso, a proliferação da
desinformação e das “fake news” tem fomentado um ambiente degradante, onde a
verdade é, com frequência, eclipsada pelo próprio sensacionalismo. Líderes que não
promovem a educação crítica e o pensamento independente, entre os seus cidadãos,
estão desta forma, que acaba por ser tácita, a perpetuar um ciclo vicioso, de
ignorância e apatia. A educação deveria ser também uma prioridade, um ponto de
partida, para uma cidadania ativa e esclarecida. Contudo, muitos optam por desviar a
atenção dos problemas reais, criando inimigos imaginários ou atacando os media, em
vez de se concentrar e fomentar um debate construtivo.
44
É crucial que, enquanto cidadãos do mundo, façamos soar as nossas vozes e exijamos
mais, dos nossos líderes. Precisamos de figuras, que não possuam somente um
conhecimento abrangente, mas que também estejam dispostas a escutar e a dialogar.
A verdadeira liderança, deve ser marcada por um compromisso com a verdade, a
integridade e um vislumbre para o futuro que todos desejamos construir.
Concluindo, a “miséria intelectual”, entre os líderes mundiais, não é uma questão que
podemos ignorar. A mudança começa com a exigência de uma liderança que valorize
o conhecimento, a empatia e a inovação. Somente assim podemos aspirar a um
mundo mais justo, sustentável e plenamente consciente do seu potencial.

Rui Ferrer Trindade

Só à Mocada

A violência doméstica é um fenómeno social, que apesar dos avanços na luta pelos
direitos humanos, continua a ser pintada nalgumas das paredes dos lares e a manchar
a própria sociedade em si. As estatísticas, que muitas vezes parecem frias e distantes,
falam por si, milhares de mulheres e homens, são vítimas de abusos físicos,
psicológicos e emocionais, numa batalha que vagueia pelo silêncio e dentro do medo,
que muitas vezes, termina em tragédia. É imperativo que a sociedade, como um todo,
se una, para combater o que se pode dizer, como uma “chaga”, dizendo um largo e
ativo “basta” à violência em todas as suas formas, porque a violência, não tem género.
A expressão “só à mocada” implica uma conotação de passividade ou indiferença,
perante os problemas que nos cercam, que deve ser repensada. A violência, não deve
ser tratada, como uma questão do espaço privado, mas como uma questão pública,
que exige a atenção e a intervenção de todos e do estado. A ideia de que a violência
doméstica, é um assunto que diz respeito apenas à vítima e ao agressor, é uma
autêntica ‘falácia’, que continua a permitir e a perpetuar o ciclo de abuso, e impede a
mudança necessária, sendo assim conivente com a própria atuação violenta.
Os estigmas sociais e as crenças enraizadas, que ainda persistem na sociedade,
dificultam bastante a atuação das autoridades, bem como muitas vezes, acabam por
não ajudar as próprias vítimas, o que faz com que não procurem ajuda. Muitos
homens, por exemplo, hesitam em denunciar abusos por medo ou receio, de serem
julgados ou menosprezados. Esta realidade, demonstra que a violência doméstica é
um problema, que afeta todos os géneros e merece uma abordagem mais inclusiva. É
necessário desmistificar a ideia, de que as vítimas são sempre mulheres e que os
agressores são sempre homens. Tanto homens como mulheres, podem ser vítimas, e
ambos merecem o devido apoio, mostrando que não devem conter-se no silêncio,
mas que devem deixar o medo de lado e denunciar.
Para erradicar a violência doméstica, é fundamental promover a educação e a
sensibilização, desde a tenra idade. As crianças devem aprender sobre respeito,
empatia e igualdade, nas relações interpessoais. Estas lições são essenciais, para se
poder moldar uma futura geração, que não tolere comportamentos abusivos e
violentos. Além disso, os programas de apoio e reintegração, para vítimas são cruciais,
não deixando de parte os agressores, que devem ser “formatados”, através de
formações obrigatórias, contínuas, para impedir a continuação de atos violentos. É
preciso que existam recursos disponíveis, que ajudem as vítimas, a reconstruir as suas
vidas, longe do ciclo de abuso.

45
O papel das autoridades é muito importante, são também um dos protagonistas neste
cenário complexo. A implementação de leis mais rigorosas, contra a violência
doméstica e o fortalecimento dos mecanismos de denúncia, são imprescindíveis para
a proteção das vítimas, mas a celeridade nos processos continua ainda a ser um
problema, que deve ser resolvido quanto antes. No entanto, é igualmente importante,
que haja uma mudança cultural, que deixe de estimular as agressões, mas que
promova novos comportamentos, saudáveis, nos relacionamentos, desde o namoro.
O apoio psicológico e a reabilitação dos agressores, como afirmei anteriormente, são
uma das partes fundamentais deste processo, pois só assim, se pode interromper o
ciclo de violência.
A luta contra a violência doméstica, é uma responsabilidade coletiva. Não podemos
fechar os olhos ou ficar indiferentes. O “só à mocada” não pode ser um lema da nossa
sociedade. Devemos assumir uma postura ativa e informar-nos, apoiar as vítimas e
exigir mudanças drásticas. A cada palavra, a cada ação, estamos a construir um
futuro, onde a violência não pode ter lugar. É tempo de dizer “basta” e de construir
lares seguros e que se respeitem entre si. Somente desta forma, conseguimos quebrar
o selo do silêncio e erradicar a violência doméstica, de uma vez por todas, que como
sabemos haverá sempre focos, mas que se irão reduzindo aos poucos.

Rui Ferrer Trindade


Escritor/Articulista

por Ivone Ferreira do Nascimento – Data da foto - 18/01/2025

Retrato de um céu... (a partir de uma tarde em meu quintal) encontrei Três Anjos do
lado direito da foto.
Desafio você a encontrá-los...

46
Indicação de Livro
Infantil
por Queli Rodrigues

O OLHAR DE HORNÉLIA, da autora Cláudia Sampaio.

Disponível na Amazon, gratuito pelo Kindle Unlimited, pelo link:


https://a.co/d/hs8nsZt
A versão impressa pode ser solicitada diretamente com a autora.
Instagram da autora: @sampaio_iridologia

A autora CLÁUDIA SAMPAIO é apaixonada pela expressão do conhecimento através


do olhar. Um caleidoscópio constante se forma a cada instante.

Queli Rodrigues, autora de Caos na delegacia, Causos da família Bala, Invisível


Maria e muitos contos e poemas publicados em uma centena de antologias. Seu
Instagram: @eu.quelinha

47
Só Curtas
POEMINHAS PARA BRINCAR Trabalha há vinte anos com a palavra,
seja escrita ou falada. Em 2024, lançou
seu primeiro livro “Esta leitura é
A Lua perguntou ao Sol: gratuita” e criou um perfil no Instagram
- Como enviar-te um recado (@guiesuaspoesias) com publicações
que entendi o teu recado? diárias de poesia, que já conta com mais
O Sol e sua sorrateira resposta: de 4 mil seguidores. Em menos de um
- Meu amor você não encontra ano, foi selecionado em três prêmios de
em qualquer mercado... poesia: Sarau Brasil 2024 - Seleção
Poesia Brasileira, Prêmio Poesia Agora
***** nº 20 e Prêmio Vip de Literatura Edição
2024. Atualmente, é colunista de poesia
Perguntando a uma Estrela Cigana: do jornal Notibras.
- Qual o número da sorte?
O Sol correu a responder:
- Independência... *****
ou corte...
A última semente
***** O céu era sempre cinza, o ar, um
[ veneno.
O capelão perguntou ao chapelão... Lia subia, todo dia, com uma semente
- Por que sumiste? [na mão e nenhuma esperança
A estrela trouxe de imediato a [no bolso.
resposta... Naquele dia, sentiu lama sob os dedos.
- Não tenho nenhuma proposta... Chuva.
E pela primeira vez em anos, a Terra
[respondeu.
por Ivone Ferreira do Nascimento

***** Giovanna Sales

Sobre a autora:
às vezes não quero curar
Giovanna Salles tem 24 anos reside em
o coração Porto Alegre - RS, escreve faz 2 anos.
porque a dor Gosta muito de ler e escrever sobre que
que nele resta sente.
é o que em mim Instagram: @poemas_por.ai
de ti resta

por Guilherme Queiroz *****

Sobre o autor: Arte que cura,


pinceladas de vida,
Nascido em 1986, Guilherme é carioca, dores se vão,
poeta, psicólogo e advogado.

48
cores animadas, tura e na música. Em 2022, aprovou dois
alma em harmonia. projetos junto ao ProAC-SP: publicação
do livro solo “Entre Linhas e Cordas” e a
por Rui Ferrer Trindade gravação do álbum “Travessia entre
Cordas & Rimas. Em 2024,
conquistou o Prêmio de
***** Reconhecimento Cultural - Campinas-
SP. Ainda em 2024, teve suas poesias
musicadas no álbum “Valerianas”, pelo
compositor Gui Silveiras. Em 2025,
Poetrix assumiu a presidência da AIP-Academia
Internacional Poetrix.
Instagram: @valeriapisauro

FERNANDA TORRES *****

Silêncio rompe as algemas


Memória encarcerada grita
Porões em salas de cinema.

***** Pequenos
SEIVA DA PAZ
Contos
Pluralidade de sotaques
Sorriso expressão singular
Gentileza, linguagem universal.

*****
Entre a dor e a alegria

RAP Num pequeno estúdio, as telas


dançavam com as suas cores vibrantes.
Voo de rimas, ritmos, poesias Miríade, a artista, deixava que a dor e ao
Breu das vielas resiste mesmo tempo a alegria, se
Voz da quebrada nas mídias. transformassem em pinceladas.
Todos os dias, recebia diversas pessoas,
***** que traziam cicatrizes e sorrisos, à
procura de uma cura. Num canto do
BRASAS DO PROGRESSO estúdio, Adão, um ex-músico a quem a
vida tinha retirado a melodia, este,
Madeiras ardem lenhas observava-a. Miríade ofereceu-lhe um
Cinzas suspiram por oxigênio pincel, para assim se poder expressar.
Faíscas do agronegócio flamejam. Hesitante, começou a traçar várias
formas e em cada gesto que soltava, o
peso da tristeza, se fazia ressoar em
notas, que somente se ouviam no seu
por Valéria Pisauro
próprio silêncio. No final, uma obra
tinha nascido, um lindo mosaico de
alma e de vida. “A arte,” disse Miríade,
Sobre a autora dos Poetrix: “é a terapia para quem se atreve a senti-
la.” E, ali, entre tintas e alguns leves
VALÉRIA PISAURO, natural de Campinas sorrisos, ambos descobriram que a
- SP, exerce intensa atividade na litera- cura, também se pinta.
49
A jovem violinista Sobre o escritor dos pequenos
contos:

Numa das ruas, de um bairro de Lisboa, Português, com ascendência


uma jovem violinista encantava os dinamarquesa, frequência universitária
transeuntes que passavam, com a sua em Ciências Sociais e Bacharelato em
música. As notas flutuavam no ar, Direito, Escritor, Poeta, Artista Plástico,
envolviam os seus ouvintes, numa Dramaturgo, Músico, Ator. Com livros
transe terapêutica. Entre aqueles que editados, peças de teatro e exposições
paravam, estava um senhor com um realizadas. É filho do grande Compositor
olhar triste, que tinha acordado naquele e Maestro Francisco Ferrer Trindade,
dia, com dores na própria alma. que sempre o influenciou e sempre
Assim, enquanto as cordas do violino prezou para que utilizasse os seus dons
vibravam, algo se transformava. As suas e interesse pelas artes, sendo
memórias começavam a surgir, conhecido a nível nacional e
momentos seus, de felicidade, perdidos internacional.
no tempo. As notas penetravam nas Email:ruiferrertrindade@gmail.com
suas feridas mais acesas, trazendo-lhe blog:
alívio e esperança. A violinista, ao https://filosoficatologiaderuiferrertrind
terminar a peça, viu que o homem lhe ade.blogspot.com/
sorriu, a carga que tinha nas suas costas
parecia mais leve, sentia-se confortável
consigo mesmo. A arte da música,
naquele instante, curou-o, mais do que
qualquer medicamento que o podia ter
curado. E ele, ficou tão grato, que
prometeu voltar. Afinal, na interseção
entre a música e a saúde, descobriu um
novo começo.

por Rui Ferrer Trindade

O Poder da Escrita Terapêutica:


Escrevendo para Se Conhecer Melhor

por Claudia Felix

A escrita terapêutica é um método muitas vezes subestimado, mas


extraordinariamente poderoso de se entender melhor e curar feridas emocionais. A
prática consiste na expressão escrita dos pensamentos e sentimentos mais íntimos,
possibilitando uma jornada de autoconhecimento e transformação pessoal. Ao
escrever sobre si mesmo, uma pessoa pode descobrir padrões de comportamento,
desejos escondidos e superar traumas, ansiedades e depressões.

50
Numa das ruas, de um bairro de Lisboa, uma jovem violinista encantava os
transeuntes que passavam, com a sua música. As notas flutuavam no ar, envolviam os
seus ouvintes, numa transe terapêutica. Entre aqueles que paravam, estava um
senhor com um olhar triste, que tinha acordado naquele dia, com dores na própria
alma.
Assim, enquanto as cordas do violino vibravam, algo se transformava. As suas
memórias começavam a surgir, momentos seus, de felicidade, perdidos no tempo. As
notas penetravam nas suas feridas mais acesas, trazendo-lhe alívio e esperança. A
violinista, ao terminar a peça, viu que o homem lhe sorriu, a carga que tinha nas suas
costas parecia mais leve, sentia-se confortável consigo mesmo. A arte da música,
naquele instante, curou-o, mais do que qualquer medicamento que o podia ter
curado. E ele, ficou tão grato, que prometeu voltar. Afinal, na interseção entre a
música e a saúde, descobriu um novo começo.
Desde tempos antigos, a escrita tem sido uma válvula de escape para as emoções
humanas. Diários pessoais, cartas e poesia sempre foram formas de registrar não
apenas os eventos da vida cotidiana, mas também as tumultuadas paisagens internas
das pessoas. Com a escrita terapêutica, o foco é voltado para a cura e o crescimento
pessoal.
Muitos podem questionar como simples palavras podem ter um impacto tão
significativo em nossa mente e alma. A verdade é que, ao dar forma ao abstrato, as
palavras nos permitem visualizar e enfrentar nossos problemas internos. O ato de
escrever torna-se um processo reflexivo que nos permite dialogar com nós mesmos
de maneira mais clara e organizada.
Neste artigo discutiremos os benefícios dessa prática, forneceremos estratégias para
começar e manter um diário pessoal, compartilharemos técnicas que podem ser
utilizadas para intensificar a experiência da escrita como terapia e inspiraremos com
histórias de mudança e crescimento pessoal.

Introdução à escrita terapêutica

A escrita terapêutica, também conhecida como “journaling”, é uma prática que


envolve o registro regular dos pensamentos e sentimentos mais íntimos. Esse
processo não visa a criação literária ou o rigor gramatical; o foco está na expressão
autêntica e livre do que ocorre no íntimo de cada um. O ato de escrever pode ajudar a
clarificar pensamentos confusos, a aliviar o estresse e até mesmo a promover uma
sensação de bem-estar.
O conceito de utilizar a escrita como uma forma de terapia pode ser atribuído ao
psicólogo americano Dr. James W. Pennebaker, que realizou diversos estudos sobre
os efeitos da escrita expressiva na saúde física e mental. Segundo ele, quando as
pessoas escrevem sobre experiências emocionalmente carregadas, elas
frequentemente experimentam uma melhora no bem-estar e uma redução nos níveis
de estresse.

Vantagens Descrição

Alívio emocional Escrever sobre sentimentos ajuda a liberar emoções


reprimidas.

Organização mental Transformar pensamentos em palavras pode trazer


clareza e ordem.

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Vantagens Descrição

Autoconhecimento Ao escrever, é possível compreender melhor as próprias


motivações e desejos.

Resolução de problemas A escrita permite analisar situações de diversos ângulos,


facilitando encontrar soluções.

É importante entender que a escrita terapêutica não é uma substituição para a


terapia convencional com um profissional de saúde mental, mas sim uma ferramenta
complementar acessível a todos.

Benefícios da escrita para a mente e a alma

A prática da escrita terapêutica oferece uma série de benefícios que podem melhorar
significativamente a qualidade de vida de quem a adota. Um dos principais benefícios
é o aumento do autoconhecimento. Ao se debruçar sobre suas próprias palavras,
você inicia um diálogo interno que pode revelar aspectos antes não percebidos sobre
si mesmo. A escrita funciona como um espelho da alma, refletindo não apenas quem
você é, mas quem você deseja se tornar.
Além disso, a escrita ajuda a gerenciar o estresse e a ansiedade, já que proporciona
um momento de introspecção e reflexão. Colocar em palavras seus medos e
preocupações os torna menos ameaçadores e mais fáceis de encarar. É um exercício
de externalização que pode ser extremamente catártico.

Consequência Efeito na Saúde Mental

Menos estresse A escrita ajuda a organizar os pensamentos, reduzindo a


ansiedade.

Clareza emocional Expressar-se por escrito pode ajudar a entender e


processar emoções.

Crescimento pessoal Ao reflexionar sobre experiências passadas, é possível


aprender e amadurecer.

A escrita terapêutica também pode ser um poderoso recurso na gestão da dor e


recuperação de traumas. Através dela, as pessoas podem estruturar e enfrentar suas
experiências, reduzindo o impacto psicológico negativo que esses eventos podem ter.

Como começar um diário pessoal

Iniciar um diário pessoal pode ser simples, mas requer alguns passos para garantir
que a prática seja eficaz. Primeiramente, escolha um caderno ou plataforma digital
que você se sinta confortável em usar. Não há uma regra específica sobre o melhor
meio de escrita; o importante é que ele seja acessível e acolhedor para você.
No início, você pode se sentir desorientado sobre o que escrever. Uma boa estratégia
é definir um tempo fixo diário para a escrita, o que pode ser logo pela manhã ou antes
de dormir. Isso ajuda a estabelecer o hábito. Além disso, não há necessidade de se

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preocupar com a estrutura ou perfeição do texto. Escreva livremente, deixando que
as palavras fluam sem censura.

Estratégias para Começar Descrição

Definir horário fixo Auxilia na criação do hábito.

Escrever livremente Não se preocupe com a qualidade literária ou erros


gramaticais.

Estabelecer um local de Criar um espaço confortável pode incentivá-lo a


escrita escrever regularmente.

Outro ponto importante é a segurança e privacidade do seu diário. Se for um caderno,


guarde-o em um lugar seguro; se for digital, certifique-se de que está protegido por
senhas.

Dicas para manter a consistência na escrita

Manter a consistência na escrita é tão importante quanto começar. Para isso,


estabelecer um ritual pode ser útil. Crie um ambiente propício, talvez com música
suave ou iluminação indireta, que sinalize para o seu cérebro que é hora de escrever.
Isso ajuda a entrar no clima e a manter o foco.
Além do ambiente, estabeleça metas realistas de escrita. Em vez de se obrigar a
escrever páginas e mais páginas todos os dias, talvez comece com cinco minutos
diários e aumente progressivamente. Reconheça também os dias em que a escrita
fluir mais, e não se culpe pelos dias menos produtivos.

Estratégias de Consistência Benefício

Estabelecer um ritual Cria um ambiente que induz à escrita.

Definir metas realistas Evita a frustração e promove progresso


gradual.

Acompanhar o progresso Permite visualizar o hábito sendo construído.

Além disso, mantenha um registro do seu progresso. Isso pode ser um simples
calendário onde você marca os dias em que escreveu. Ver esta evolução ao longo do
tempo pode ser um motivador poderoso.

Técnicas de escrita terapêutica

Existem várias técnicas que você pode utilizar para aprimorar sua experiência com a
escrita terapêutica. Uma delas é o “stream of consciousness” (fluxo de consciência),
que implica em escrever tudo o que vem à mente sem julgamentos ou edições. Essa
técnica ajuda a superar bloqueios mentais e a explorar pensamentos e emoções em
profundidade.
Outra técnica é a escrita reflexiva, onde você foca em uma situação específica e
escreve sobre suas reações e sentimentos em relação a ela. Isso pode ajudar a
resolver conflitos internos e compreender melhor suas reações emocionais.

53
Técnicas de Escrita Descrição

Stream of Consciousness Escrever livremente tudo o que vem à mente.

Escrita Reflexiva Analisar em detalhes uma experiência ou emoção.

Listas Criar listas de gratidão, ambições ou medos.

Listas também são uma ferramenta poderosa no âmbito terapêutico. Elas podem ser
de gratidão, onde você lista coisas pelas quais é grato, ou de ambições, onde você
enumera seus objetivos e sonhos. Esses exercícios ajudam a focar no positivo e a
estabelecer direções para o futuro.

Superando o medo e a vergonha de escrever sobre si mesmo

Escrever sobre si mesmo exige vulnerabilidade, e isso pode gerar medo e vergonha
em algumas pessoas. No entanto, é importante lembrar que o diário é um espaço
privado e seguro. Ninguém mais precisa ler o que você escreve, a menos que você
escolha compartilhar.
Uma técnica útil para superar o medo é começar com tópicos superficiais e
progressivamente se aventurar em áreas mais profundas conforme você se sente
mais confortável. Além disso, lembre-se de que não há nada “errado” ou “certo” na
escrita terapêutica; ela é um reflexo da sua verdade interior.

Estratégias para Superar o Medo Efeito

Começar com o superficial Facilita a adaptação ao processo de escrita.

Aos poucos se aprofundar Permite conforto emocional progressivo

Lembrar-se da privacidade Ninguém precisa ver o que você escreveu a


não ser que você queira.

Outro ponto importante é o non-judgement, ou seja, não se julgar enquanto escreve.


Permita-se explorar seus sentimentos e pensamentos sem autocensura. Isso pode ser
desafiador, mas é extremamente libertador e curativo.

Histórias inspiradoras de mudança através da escrita

Ao redor do mundo, muitas pessoas transformaram suas vidas por meio da escrita
terapêutica. Há relatos de indivíduos que, ao escreverem sobre suas experiências
traumáticas, conseguiram superar a depressão e a ansiedade. Outros descobriram
novas paixões e mudaram o rumo de suas carreiras por meio do autoconhecimento
adquirido em seu diário.
Um exemplo inspirador é o da escritora Anaïs Nin, que começou a escrever diários na
adolescência e continuou por toda a vida. Suas anotações íntimas não apenas a
ajudaram a processar seus relacionamentos e experiências pessoais, mas também se
tornaram a base de sua obra literária.
Outro caso é o do diarista Samuel Pepys, que viveu no século XVII e cujos diários
fornecem uma visão fascinante de sua vida e dos acontecimentos históricos da
época. Através de sua escrita, ele lidou com assuntos pessoais e momentos tensos da
história inglesa, como a Grande Praga e o Grande Incêndio de Londres. Essas experi-

54
ências, quando escritas, não só ajudaram a formar o registro de uma época, mas
também serviram como uma maneira de Pepys refletir e entender o seu mundo e a si
mesmo.

Indivíduo Impacto da Escrita Terapêutica

Anaïs Nin Transformou suas anotações íntimas em obra literária.

Samuel Pepys Usou os diários para compreender melhor o seu


contexto histórico e pessoal.

Esses exemplos mostram que, ao registrar nossas histórias, não só podemos


encontrar cura para nossas angústias, mas também possivelmente influenciar e
inspirar outras pessoas com nossas palavras, caso decidamos compartilhá-las.

Recursos e ferramentas para escrita terapêutica

Diversos recursos e ferramentas podem auxiliar na prática da escrita terapêutica.


Cadernos e diários físicos são os mais tradicionais e muitos ainda preferem a
sensação da caneta no papel. No entanto, se você está mais inclinado para o digital,
existem aplicativos e plataformas online que oferecem recursos como privacidade
reforçada, lembretes para escrever e a possibilidade de etiquetar e buscar entradas
passadas.

Recurso/Plataforma Descrição

Diários físicos Clássico e portátil, oferece uma experiência tátil.

Aplicativos de diário Permite backup na nuvem e recursos de busca


avançados.

Blogs privados Uma opção para quem deseja eventualmente


compartilhar suas reflexões.

Além disso, também há opções como workshops e grupos de escrita, que podem
proporcionar um sentimento de comunidade e apoio. Seja qual for a ferramenta
escolhida, o mais importante é garantir que ela atenda às suas necessidades e seja
conveniente e agradável de usar.

Como usar a escrita como método de autoajuda

A escrita terapêutica pode ser encarada como uma forma prática e eficaz de
autoajuda. Para maximizar seus benefícios, é recomendável adotar um enfoque
estruturado. Comece identificando áreas da sua vida que deseja explorar ou melhorar
e utilize a escrita para elaborar estratégias e refletir sobre suas ações.
Ao enfrentar problemas específicos, escreva sobre eles detalhadamente, explorando
causas e soluções potenciais. Isso pode ajudá-lo a ver o problema de novos ângulos e
a encontrar soluções criativas que talvez não surgissem em um simples pensamento
superficial.

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Aspectos Ações

Problemas Escrever detalhadamente sobre eles, buscando causas


e soluções.

Sonhos Usar a escrita para planejar e motivar a alcançá-los.

Crescimento pessoal Registrar sucessos e fracassos como uma forma de


aprendizado contínuo.

Use a escrita também para planejar e motivar-se a alcançar seus sonhos e objetivos.
Visualize através das palavras o que você deseja e reflita sobre os passos necessários
para chegar lá. E não se esqueça de celebrar seus sucessos no papel!

Conclusão

A escrita terapêutica é uma ferramenta poderosa de cura e autoconhecimento. Ela


oferece um espaço seguro para reflexão, esclarecimento de pensamentos e emoções,
e até mesmo para traçar metas e sonhos para o futuro. Independentemente da
técnica escolhida ou do recurso utilizado, o mais importante é começar a escrever e
se permitir ser verdadeiro em suas palavras.
Lembre-se de que a consistência é fundamental para o desenvolvimento do hábito da
escrita terapêutica. Com prática regular, é possível obter uma visão mais profunda de
si mesmo e das situações ao seu redor, o que pode levar a uma vida mais plena e
consciente.
A escrita terapêutica não é apenas uma forma de lidar com as adversidades, mas uma
poderosa ferramenta de crescimento pessoal. Ela ensina a ouvir a própria voz, a
reconhecer a própria verdade e a caminhar em direção a um futuro mais alinhado
com quem realmente somos.

Bibliografia:

https://bomdiario.com/o-poder-da-escrita-terapeutica-escrevendo-para-se-
conhecer-melhor/
6 de abril de 2024 - Por Jackson

56
Resenha

"O Buraco de uma Depressão"


(Obra literária de Rui Ferrer Trindade)
Resenha feita por Dany Trindade

É um livro que aborda com


sensibilidade e profundidade as
complexidades da depressão. Não se
trata apenas de descrever os sintomas e
os desafios enfrentados, por aqueles
que lidam com essa condição, mas
também de explorar as emoções, as
batalhas internas e os detalhes que
muitas vezes ficam ocultos.
O autor usa uma linguagem poética e
reflexiva, permitindo ao leitor uma
compreensão íntima do que é estar "no
buraco". Ele toca em temas como
solidão, estigma e a busca por
esperança, criando uma conexão
emocional que ressoa de forma intensa.
A sua narrativa é pessoal e ao mesmo
tempo universal, fazendo com que
muitos se identifiquem com as
experiências apresentadas.
A obra não é apenas uma reflexão sobre a dor, causada pela depressão; é também um
convite à empatia e à compreensão de quem não passa por isso diretamente. Com
uma prosa tocante e envolvente, "O Buraco de uma Depressão" se destaca como uma
leitura essencial para aqueles que desejam entender melhor essa condição e as suas
implicações na vida das pessoas.
Em resumo, o livro traz à tona um tema frequentemente negligenciado, tornando-se
uma leitura valiosa tanto para quem enfrenta a depressão quanto para quem busca se
informar e apoiar quem está nessa batalha.

Sobre a autora da Resenha:

Daniela Demena Trindade, pseudônimo Dany Trindade, nasceu a 03.04.1983 na


Venda do Pinheiro, Concelho de Mafra. Portuguesa, Estudante em Artes, Artista
Plástica, ilustradora e Poetisa, influenciada pelo seu pai, o conhecido, Artista Plástico,
Escritor e Poeta, a nível nacional e internacional, Rui Ferrer Trindade, tendo
participado em vários livros do seu pai, como ilustradora, desde os 5 anos de idade,
bem como exposições de pintura. Mora em Mafra - Portugal. Email:
ruiferrertrindade@gmail.com e Instagram: @ruiferrertrindade.
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Arte & Saúde

Uma Sinfonia de Bem-Estar

por Rui Ferrer Trindade

A interseção entre a arte e a saúde, têm sido um tema relevante, nas últimas décadas.
Esta relação não é nova, mas a sua valorização e estudo tem sido aprofundado e
mostrado, que a experiência estética, pode ser uma poderosa ferramenta para a
promoção da saúde e do bem-estar. Se olharmos para a história, a arte sempre foi e
teve um papel bastante importante na cura, desde as pinturas rupestres das
cavernas, até às manifestações atuais da arte-terapia.
Quando falamos em arte, não nos restringimos apenas à pintura, ou à escultura, mas
também à música, ao teatro, à dança e à literatura, que desempenham um papel vital
na nossa vida quotidiana. Cada uma destas formas de expressão artística, tem o seu
potencial para tocar nas nossas mais puras emoções, influenciando o nosso estado
mental e, por conseguinte, impactando positivamente a nossa saúde. A arte provoca
sensações, evoca memórias, cria conexões, tanto entre os indivíduos, como entre eles
e a própria sociedade.
Estudos têm demonstrado, que a prática regular de actividades artísticas, pode
reduzir os diversos níveis de ansiedade e depressão, promover a autoestima e até
melhorar as funções cognitivas. Em hospitais e centros de saúde, a inclusão dos
programas de arte, nos ambientes terapêuticos, têm revelado resultados muito
surpreendentes. Os pacientes que participam, nas oficinas de arte, ou que têm a
oportunidade de interagir com as peças artísticas, parecem sentir-se mais aliviados,
menos stress e mais ligados uns aos outros. A arte, neste contexto, torna-se uma
forma de terapia, um refúgio onde a dor pode ser expressa e, por vezes, até
transformada. Além disso, o uso da arte como instrumento de comunicação, também
é crucial, especialmente nos cuidados paliativos, ou em situações onde as palavras
falham. Através de um desenho, de uma canção, ou de uma atuação, é possível
transmitir sentimentos e emoções, que não encontram no seu espaço do discurso
verbal.
A arte transforma, a experiência do sofrimento em algo visível e, consequentemente,
mais fácil de se poder gerir e melhorar. Esta capacidade, de dar voz ao que parece
impossível, não só ajuda os pacientes, como também os próprios profissionais de
saúde, que muitas vezes se sentem sobrecarregados, pelo peso da dor que
testemunham no seu dia a dia. Por outro lado, a saúde dos artistas, também merece
ser discutida. A vida criativa, nem sempre é fácil, a luta contra a autoexigência, a
precariedade económica e os desafios emocionais, que lhes é comum.
Perceber a importância de cuidar da saúde mental dos artistas, proporcionando-lhes
espaços de apoio e formação, é essencial para que possam continuar a inspirar e a
influenciar no bom sentido, a própria sociedade. A saúde pública deve, adotar uma
abordagem holística, que inclua a arte como um pilar fundamental da saúde
comunitária. Criar programas que incentivem a expressão artística, em lares e centros
de saúde, como fazem nas escolas, que podem trazer benefícios inexplicáveis para a

58
qualidade de vida das pessoas. Promovendo eventos culturais, dar acesso à arte e
sensibilizar sobre a sua importância, são os primeiros passos que podem assim fazer a
sua efetiva diferença
A arte e a saúde, são duas faces da mesma moeda, que quando são combinadas,
criam um espaço onde a cura é possível, onde as emoções podem ser partilhadas e
onde a vida é sempre bem celebrada. Ao olharmos para o futuro, devemos continuar
a cultivar esta harmonia de bem-estar, onde a criatividade e a saúde, andam de mãos
dadas, fazendo ressaltar a mensagem de que a arte, não é apenas um luxo, mas uma
necessidade fundamental para a nossa própria existência.

Indicação de Livros

por Claudia Felix

Em um mundo em que questões como Este livro nos lembra que a reflexão
ansiedade, depressão e sobre as angústias e incertezas é
autoconhecimento estão cada vez essencial para promover a saúde
mais em evidência, a leitura é uma mental e encontrar esperança, mesmo
poderosa ferramenta de compreensão nos períodos mais sombrios.
e transformação. Onde encontrar: Amazon
Reuni algumas obras que exploram
uma ampla gama de temas
relacionados ao bem-estar emocional.
Desde a importância de reconhecer e
acolher a dor em momentos
desafiadores, passando por histórias
inspiradoras de superação da
depressão, até reflexões sobre a
necessidade de desacelerar diante da
pressão da vida moderna.
Mais do que simples leituras, essas
indicações são verdadeiras
ferramentas para compreender e
enfrentar os desafios emocionais do
cotidiano. Escolha aquela que mais
ressoa com você e embarque em uma
jornada de autodescoberta e cura.

As quatro estações da alma

Mario Sergio Cortella e Rossandro


Klinjey abordam a importância de
reconhecer e acolher a dor para
enfrentar momentos difíceis.
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Juntos na escuridão

Diana Gruver traz histórias


inspiradoras de pessoas que
enfrentaram a depressão, um tema
central para o mês. Este livro oferece
uma visão compassiva e informativa
sobre como lidar com as doenças
mentais, tanto para aqueles que
sofrem quanto para os que os apoiam,
promovendo compreensão e empatia.
Onde encontrar: Amazon Segundo o autor, o psiquiatra Nelio
Tombini, não é a vida que aflige a
pessoa e sim ela que desdenha da
própria existência. além de abordar a
autossabotagem, o objetivo da obra é
mostrar ao leitor o caminho para
alcançar a plenitude e a estabilidade
psicológica. Se a mente tem a
capacidade para maltratar o ser, por
que não teria também o poder de
alcançar um estado de felicidade?
Onde encontrar: Amazon

Entrevista com a solidão

A solidão, frequentemente ligada a


quadros de ansiedade e depressão, é
tema central desse livro, escrito pelo
psicólogo Marcos Lacerda. O
especialista propõe estratégias para
transformar o sentimento de
isolamento em solitude, uma
oportunidade para o
autoconhecimento e o bem-estar Liberte-se de crenças que aprisionam
emocional. Com dicas e exercícios
práticos, convida o leitor a redefinir a Pesquisador de temas extrafísicos,
relação com a própria companhia e a espiritualistas e filosóficos, o escritor
alcançar uma saúde mental duradoura. Silvio Ferrérie recorre a
Onde encontrar: Amazon conhecimentos históricos e práticos
para ajudar pessoas a conviverem com
Não deixe a vida te maltratar a dualidade interna. O autor convida
os leitores a confrontarem crenças
O título deste livro é um trocadilho limitantes e a buscarem o equilíbrio
com a capacidade do ser humano de entre as forças opostas que moldam
piorar toda e qualquer situação. suas vidas.

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Para isso, oferece estratégias de damentais para cultivar uma vida
enfrentamento dos desafios digital que promova oportunidades,
emocionais e promoção do saúde, felicidade e, acima de tudo, paz
desenvolvimento pessoal e espiritual, interior. O objetivo é claro: usar a
a fim de alcançar qualidade na saúde tecnologia de forma produtiva,
mental. mantendo uma conexão humana
Onde encontrar: Amazon autêntica e satisfatória.
Onde encontrar: Amazon

Vamos falar de impulsividade

Isso não é um chapéu Agir sem avaliar as consequências


costuma prejudicar a qualidade de
O psicólogo Clécio Branco trata da vida e a saúde, uma vez que se adotam
sociedade atual, essa que Byung-Chul padrões pouco cuidadosos. Isso gera
Han denominou de várias formas — frustrações e desgastes emocionais e
sociedade do cansaço, sociedade do físicos, com resultados até mesmo
desempenho, do desaparecimento dos perigosos. Neste livro-caixinha estão
ritos, sociedade em que Eros está em 100 perguntas para você questionar
agonia, a da infocracia, etc. O Pequeno atitudes, repensar seu modo de agir e,
Príncipe visita mundos em que os com isso, ajudar a manter o
indivíduos se encontram solitários, autocontrole emocional para tomar
isolados, infelizes. A obra propõe decisões mais assertivas e construir
reflexões sobre o excesso de eficiência relações mais saudáveis.
e positividade versus o isolamento Onde encontrar: Amazon
social.
Onde encontrar: Amazon

Bem-estar digital

O livro é um convite para transformar


radicalmente a sua relação com a
tecnologia, de forma equilibrada e
enriquecedora. Rafael Terra,
renomado especialista em tendências
digitais, compartilha 12 princípios fun-
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Ressignificando Escolhas do Caminho

Ao longo de sua vida, Cláudio Alves


Borges cometeu erros que levaram ao
abandono da própria saúde mental e,
depois de enfrentar sérias
consequências, decidiu transformar
sua experiência pessoal em
ensinamentos. Formado em Ciências
Sociais, ele encontrou na literatura um
meio de alertar sobre os riscos de
transtornos mentais como ansiedade,
depressão e síndrome do pânico. Entre
as páginas, explica aos leitores como
ressignificou a própria trajetória e os
benefícios que surgiram a partir de
novas escolhas.
Onde encontrar: Amazon

Escrita Intimista

por Dude Bromius

Texto 1

A Escrita é minha eterna parceira, já vivemos histórias de união verdadeira, criamos


mundos, fizemos filhos, e todos estavam presentes. Mas também houve tempos em
que me afastei dela, achando que não era suficiente, e mergulhei em outros caminhos
onde a alma ansiava por explorar e se encontrar. Quando tentei controlá-la, ela se
revoltou, e as boas novas se tornaram pragas, os grandes espetáculos perderam
direção, e ela era o trem que movia tudo; ora de dentro pra fora, ora de fora pra
dentro.
Não estava errado, a sabedoria do tempo não falha. Fizemos questão de esclarecer
cada palavra que pudesse ser mal entendida, mesmo assim, nem tudo saiu como o
esperado, e então o plano foi revisto e adaptado a novas formas. Ficamos por isso
mesmo. Continuamos sendo companheiros apaixonados. Às vezes, a Escrita se afasta
e encontra abrigo em novas ideias, cria novos universos e explora lugares que talvez
eu não buscasse sozinho, e é por isso que a compreendo. Guardo comigo o amor mais
puro por ela, e toda vez que nos reencontramos, é como se fosse a primeira vez. A
paixão reacende, e eu sinto mais vida, mais intensidade e mais inspiração.

62
Nem sempre a Escrita me leva ao ápice da criação, mas ela sempre desperta o
encanto. Dizem que quem não a entende se apressa demais, chega ao fim sem
perceber o caminho, e por isso não sabe como retornar. Fomos tão longe que
compreendi todos os seus sentidos, a ponto de quase me tornar um com ela. Agora,
perto ou longe, alcançamos o auge: o sentimento mais intenso, como todos os
sentidos do corpo se acendendo ao mesmo tempo.
Chamamos isso de êxtase. Se você sentir isso agora, talvez seja essa minha parceira
tocando suavemente o seu coração, e espero que isso te traga arrepios e inspiração.
Tenho certeza de que, no momento final, ela vai me presentear com a criação mais
plena. Vou agradecer pelas nossas sete últimas tentativas de reencontro, e enquanto
isso, vou seguir, pronto para que juntos possamos criar a maior obra que os deuses já
imaginaram.

Texto 2

Minha vida sempre foi assistida, por ser quase perdida e por pouco vencida. Meus
olhos já a viam como um palco encantado, onde cada passo era um ato aclamado.
A vida é teatro, o mundo um cenário, e eu o ator no roteiro imaginário. Cada gesto e
palavra, ensaio ou verdade, compõe minha peça, minha realidade.
Há uma plateia exigente e atenta, que observa em silêncio, no seu mundo interno,
buscando sentido, fugindo do inferno.
Mal sabem eles que a mente é farol, o medo é semente, e o caminho serpente. Abre
caminho pra quem quer sentir, quem busca o novo e se deixa expandir.
Se junte com a gente, provocando acidentes, incendiando a decência para renunciar à
decadência de miserar nas reticências.
Desse palco já tropecei sem temer, muitas vezes entrei só pra aprender. Algumas
cenas me fizeram chorar, outras tantas me ensinaram a amar.
Atuei com o fundo da alma acesa, e essa jornada é minha maior certeza. Do alto, vi o
público a sonhar, deuses, ideias e luzes a me guiar.
Descobri que dali nada me derruba, e sigo firme, alma livre. Cada peça é um novo
segmento, cabe a mim vivê-la com sentimento.
Preciso ser forte, ser consciente, pra não cair na armadilha presente. Esse papel é de
quem se reinventa, não de quem finge ou se ausenta.
Dizem que falha o ator que não ousa, que teme o palco, mas o que vem da alma não se
cala, nem tão pouco se abala.
Sete vezes desci, sete subi, quarenta e quatro cenas construí. Com o ciclo da Terra me
sintonizei, várias vezes renasci e me recriei.
Com o ciclo da Terra eu me sintonizei e várias vezes voltei. Esse palco eu dominei e o
roteiro eu queimei.

Sobre a autora:

Dude Bromius tem 28 anos e se denomina uma viajante de espaço, tempo e mente.
Em uma dessas viagens, escreveu seu primeiro livro, que conta a história do deus
grego Dioniso e suas encarnações, se ele fosse humano, depois de sua chegada no
planeta. Continuou escrevendo e, hoje, vê como uma reivindicação contra ou a favor
de suas próprias emoções e como se relaciona com o universo. Como cita “Somos
seres incríveis com capacidades infinitas.”, por isso quer espalhar esse pedaço de si,
alguém no mundo pode entender.
Instagram - @dude_bromius

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Contos

O Desmanche de um Bobo

No açoitar da carne, já dourada pelas diversas mansões do mundo externo, que


acariciam a pele com ferro quente, encontrava-me indistinto a tudo. Eu era tudo e
todos, e ao mesmo tempo, não era nada. Não era ao menos eu. As virtudes se
desmanchavam na face branca tão bem solidificada com o tempo, e, por esmera
dedicação, precisava constantemente salientar. Via em mim um conjunto de matéria
que se originou do nada, com feições e características criadas para a sua própria
vaidade. Não havia em meus traços nada que rememorasse a plenitude de minha
alma, pois em minha tez não me encontrava. Diante deste quadro, em largas bocas
que não me pertenciam, mas eram minhas, recitava:
— Meu avô, que nunca o conheci, mas as suas manchas eu herdei. E aqui, eu hei de
apagar, ou já apaguei. Sinta piedade de minha alma, que apenas ela reconhecerá;
ou eu devo sentir piedade da minha pele, que sua saudade já não há.
Em cada mancha que se estendia pela formosura das minhas delicadas nascenças,
dirigia-me ao pó branco, o qual eu, em plenitude, pertencia. O bom ser humano é feito
de barro, mas em minhas veias ele não poderia estar. Apenas a brandura do pó, que
escondi no peito, poderia me moldar. E nas diligências dos afazeres da vida, uma
chuva eu não poderia me banhar, vivendo na infelicidade integral e anterior que o
inferno poderia proporcionar.
Analisava as inocentes lágrimas, como as cristalinas pedras da água solidificada,
que escorriam pela minha face pontiaguda, em traços tão bem marcados, deixando
como rastro, para se ter a verdade, para se ter a vida.
E, com a carne maculada, me afugentei em inverdadeiras taças de álcool, tomadas
com goles secos e vazios. Não havia álcool, não havia taça, não havia eu. No entanto,
resplandecendo a minha imagem, que a ela não mais conhecia, em forma de
dissertações que corriam a atual carne, bravejei:
— Veja em mim, meu avô, o teu neto, o teu filho, que a ele não deve mais correr ou
se isolar, e que a sua imagem para sempre vai venerar. Como o tomar do amargo
álcool, não há mais a necessidade de afugentar, seja pelo sol ou pela chuva que
sempre vem elucidar. Suas marcas soam um clarão iminente, que em sociedade
nunca será bem quisto, mas em minha alma, lágrimas irão abraçar. E se um dia,
novamente, a brandura do pó eu usar, me enterro tão distante que sua aura não
poderá lastimosamente presenciar.
Gotas cristalinas esvaziavam-se do céu, repletas de sonoridade que resplandeciam
a verdade, e em ato de glória em contato com a oleosa derme, houve a limpeza. Os
toques líquidos eram luxuosos para a pele humana que evitava mostrar a sua
verdadeira feição para o mundo. Os passos ecoavam como aprendizes dançantes, que
caminham rumo a lugares incertos, mas com desejos definidos pelo clarão do mimoso
amor.
E, em verdes campinas, houve o desmanchar de um bobo e o surgimento de alguém
— que sempre estivera ali.

Paulo Henrique Guedes Pereira

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Sobre o autor:

Originário de Minas Gerais, é estudante de Direito do Largo de São Francisco, onde,


em sua natureza, se fincou a miserável sina da escrita, à qual pertence e para a qual
foi feito.

*****

Mundo paralelo abissal


É apenas uma cadeira. Uma cadeira no canto entre a janela e o sofá, entre o passado e
o presente. Como uma obra de arte que retrata a essência de tantas figuras,
sensações, sentimentos e atmosfera! Arte que traz tantos cenários. Não há ninguém
ali sentado. Somente o sol clareia e desbota a sua cor rosada. Na luminosidade da luz
noturna ela revela o tempo que se passou.
Hoje com o clima chuvoso esse tempo se renova. O escritor sem entender as
mudanças do clima se debulha numa escrita envolvente e pujante. Seus retratos
trazem um pouco do cenário da vida atual e de personagens únicos com suas
singularidades. Todos nos seus devidos lugares. São vivências, desafios, medos,
situações perturbadoras, momentos clichês, cotidianos, amores e tantas outras
possibilidades.
Seu Juvêncio é um desses personagens icônicos, vive num mundo paralelo abissal,
uma casa escura, que o simples gesto de abrir a janela mudaria tudo. Suas marcas de
expressão, refletido no espelho, revelam os anos que se passaram, preso ao passado.
A escuridão encobre os móveis empoeirados e as pinturas na parede da sala perdem
suas tonalidades. O seu cenário é como o reflexo de um filme de suspense da década
de 80. O que move esse homem é a figura feminina que ele retrata em velhos papéis.

Clarisse da Costa

Sobre a autora:

Clarisse da Costa, escritora, designer, colaboradora de revistas literárias, Imortal na


AMCL e organizadora de antologias.
Livros publicados: Hiper-grafia, Nagô das Negras e Poesia Viva e Frangalhos.
@clarisse_da_costa

******

O tamanduá
Numa meia noite agreste o Edgar Allan Poe lia, lento e triste, quase adormecendo,
quando ouviu batidas nos umbrais. - Uma visita - pensou - e eras isso. Divagou,
devaneou (Edgar se puxava a essa hora da noite), e tomou coragem para perguntar:
- Quem é que no frio de dezembro bate levemente nos meus umbrais?
- É um tamanduá.
- Tamanduá? - Edgar estava visivelmente intrigado.
- Que foi? - Perguntou o tamanduá, notando sua perplexidade. - Eu cheguei
numa hora ruim?
- Não, não é isso. Eu esperava outra visita. Você há de admitir que é inusitado,
quase nonsense. Um tamanduá por essas bandas. Nos meus umbrais...

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- Tudo bem, eu entendo. Meus pais eram imigrantes. Eu vim para um teste de cena,
você vai ou não vai poder me atender?
- É como se não encaixasse - Continuou Poe. - Como se a história fosse diferente.
- Ok.. eu já entendi. Não precisamos conversar. Mas eu vim de longe, se puder
conseguir um copo d'água e umas formigas.
- Terá significados sobrenaturais? Um sonho sonhado que ninguém os sonhou iguais?
Deveria meu coração pesquisar estes sinais? Com o solene decoro dos tamanduás? -
Poe Divagava sobre a visita.
- Certo.. Rimas… Muito legal e tal. Deveria participar dumas batalhas de rap. Mas
escute, me arrume um copo d'água e eu já vou partindo. Eu já estou ficando irritado,
não tenho tempo pra isso. Vou falar com meu agente.
- Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida, verá essa hoje perdida entre
hostes tamanduás?
- Que? Tu tá doidão? Olha eu vou embora já daqui. Nunca fui tão mal recebido. Não
ponho meus pés aqui nunca mais.
- No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais, seu olhar tem a medonha
cor de um demônio que sonha.
- Nunca mais!!! - Gritou o tamanduá já distante.
Edgar Alan Poe voltou à sua poltrona e seus pensamentos, onde permaneceu por uma
hora, até que viu a silhueta de um pássaro e bicadas na janela de seus umbrais.
Deveria ser a figura que sem saber aguardava.
- Quem ave é esta que haverá pousado nos meus umbrais?
- É o ornitorrinco - respondeu a voz. - E nada mais.

Leonardo de Oliveira

Sobre o autor:

Leonardo de Oliveira é poeta músico psicólogo doutorando no PPGPSI da UFRGS,


onde pesquisa arte e cultura periférica e luta por moradia. Participa de projetos de
música experimental, com os quais já lançou EPs e singles. Autor do livro de poesias
“O Ano do Elefante” publicado em 2022, e “Manifesto dos tardígrados”, de 2023, e
está em pré-venda do terceiro livro “A menor lua de júpiter”. Tem cartografado
pequenos animais e proposto infestações baseadas em amor, delírios, dissonâncias e
fricções científicas.
https://www.instagram.com/leonardodeoliveira.o2/

*******

Os caprichos do Sr. Délcio


Atendia os caprichos do Sr. Délcio com profundo desgosto. Ninguém gostava do Sr.
Délcio. Provavelmente, nem sua família. Só os amigos do Tennis Club, a quem tratava
com menos desdém. Esnobe. Nem os stakeholders da Moreira Sales Incorporações
suportavam aquele homem. Mas ele era o dono da porra toda, fazer o quê. Típico
empresário que fez fortuna nos anos 90. Atropelava quem atravessasse seu caminho
— sempre de maneira honesta. Encucou que o escritório que melhor o atendia era o
de Susana. Pleiteava pelos projetos dela. Como remuneravam um pouco acima da
média, ela atendia a empresa e os caprichos do Sr. Délcio. Com profundo desgosto.
Hoje, especificamente, o desgosto era um pouco maior por causa de uma dor
invisível. Dor no baixo ventre, sempre enfrentada em silêncio, sem nunca parar de
trabalhar. Lidar com gente pedante já é chato. Com cólica é uma merda. Por outro
lado, toda babaquice acumulada do Sr. Délcio nunca descambou para o assédio. Des-

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de os tempos de estagiária, a ideia de precisar da presença masculina como escudo já
era um absurdo. O medo de ir sozinha a visitas com clientes. A necessidade de ter um
homem por perto para evitar abordagens invasivas, convites, comentários
inapropriados. Shit! De lá pra cá, muita coisa aconteceu. Os desafios eram outros.
Com o avançar da idade, ela se impunha melhor. Experiência? Autoridade? Precisou
suportar os excessos, muitas vezes calada, para obter respeito. Pegou o celular. Viu
fotos do filho. Riu. Ele era um presente do Universo. A vontade era de chegar logo em
casa e agarrá-lo. Conciliar o sonho de ser mãe com o sonho de uma carreira sólida é
foda. Lembrou-se do conflito. Do malabarismo. De quando decidiu pausar o trabalho
e se dedicar à maternidade. Lembrou-se da dor que doeu muito mais que o
desconforto menstrual de hoje. Mais que o parto. A dor de ter que voltar a trabalhar
com o filho recém-nascido. Certa vez precisou levá-lo a um canteiro de obras. Chorou.
Lá pelas tantas, limpou-se, vestiu-se, saiu do banheiro e voltou para a reunião com Sr.
Délcio, a quem atendia os caprichos.

Alexandre Duim

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Calça de sarja
A porra do e-mail não chegava e ele dependia disso para tomar uma sequência de
decisões pouco importantes, mas vitais para que o projeto saísse de sua área em
direção à outra. Endereçar o trabalho — chamado de demanda — para que outras
áreas resolvam é super comum. Na prática, o trabalho é esse. Também é comum
pegar as ideias dos outros, sugerir um ajuste aqui e outro acolá, e encaminhá-las às
outras áreas. Repetem-se isso o dia todo, todo dia. Esse emprego é daqueles em que o
trabalho consiste em se fazer várias coisinhas durante o expediente. Microdecisões.
Grande parte delas é insignificante para o todo. E, no fundo, ninguém sabe direito o
que é feito ali. Difícil explicar pra quem é de fora. É analista de sei lá o quê. Ou
consultor de tanto faz. Mas, se boa parte da equipe fosse dispensada, ainda assim a
produtividade seria a mesma. Emprego bom. O carpete escuro contrastava com as
divisórias bege daquele escritório no Centro. O ar-condicionado ultragelado criava
um ambiente mais chique. E, teoricamente, mais eficiente, espantando o calorão lá da
rua, que dava pra ver por aquelas janelas imensas. Henrique dividia a workstation com
mais três apreciadores de café. Café bom. Sem restos de gravetos, sem pedregulhos,
sem bosta. Uns usavam a camisa por dentro da calça. Nem todos. Mas todos usavam
calça de sarja. Quando o esperado e-mail chega em sua caixa, ele se apressa: cola
tudo na planilha que já estava formatada, reproduz o código na página, sobe tudo
para o servidor na nuvem e cola os dados na apresentação. Fez tudo isso em menos
de dois minutos. Ao que parece, salvou a empresa. É o que acredita. Quem sabe, até
será promovido. É o que acredita. Com a apresentação pronta, ele pode confirmar a
reunião com sua chefe, que hoje está mais calma que trasanteontem. Trasanteontem
ela estava impossível. Isso, segundo eles. A entrega foi capenga e, como manda a
lógica corporativa, o peso recaiu sobre quem estava mais exposto. Nela. A diretoria
estava no seu pé e, naturalmente, ela descontou na equipe. Óbvio. O erro foi deles.
Henrique era inocente dessa vez. Mas também engoliu o sapo. Há tempos não
deglutia uma reprimenda desse comprimento e espessura. Não foi assédio, como
alguns cochichavam em surdina na copa. Tampouco comportamento inadequado,
desproporcional. Que nada. Ela disse o que precisava ser dito. Só. Foi muito
profissional. Mas responsabilizou com discurso espartano os causadores do
problema, que usavam a camisa por dentro da calça. Nem todos.

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Sobre o autor:

Alexandre Duim é brasiliense e tem dúvidas se é millennial ou X. Filósofo urbano por


natureza e comunicólogo por ganha-pão, no momento preferia estar comendo
dobradinha e tomando um rabo de galo. Também é professor de Comunicação Social,
está aprendendo a tocar zabumba e participou da antologia “Contos em Miniatura”,
lançada pela Editora Comala na FLIP 2025. De escrita marginal e intuitiva, possui um
olhar cáustico. Trama histórias galopantes, recheadas de sarcasmo, críticas sociais e
alguma psicodelia. Seus textos têm indicação medicinal e também recreativa.

*******

O Pintor e o Médico
Na pequena Aldeia das Dores, o sol nascia, como sempre, com o seu brilho
especialmente dourado, era como se o céu, tivesse decidido pintar a terra com as
suas mais vibrantes cores reluzentes. Naquela aldeia, vivia Miguel, um pintor
talentoso, que encontrava na arte a sua forma de se expressar e a sua libertação. As
suas telas, eram planos vastos, recheados de vida e muita cor, uma janela bem aberta,
da sua alma. Mas a vida, tal como uma tela vazia, tinha também os seus difíceis
desafios. Numa manhã bem tranquila, enquanto Miguel se preparava para mais um
dia, de criação no seu pequeno estúdio, recebeu uma visita inesperada. Ana, a médica
da aldeia, entrou com um olhar muito aceso e preocupado. Havia um caso novo, na
Aldeia das Dores e precisava urgentemente da ajuda do pintor e disse: - “Miguel, a
nossa comunidade está a passar por um momento difícil, alguns dos nossos jovens,
têm enfrentado problemas de saúde mental, devido à pressão e ao stress da vida
moderna. Queria saber se podias realizar uma exposição, para levantarmos alguns
deles, já profundos e, acima de tudo, para consciencializar-mos as pessoas, sobre a
importância da arte na cura espiritual.
Miguel, por uns momentos hesitou. Para ele, era fácil pintar sobre a beleza da
natureza, mas transformar as dores humanas em arte, parecia-lhe um desafio
monumental, foi algo que o petrificou. No entanto, ao olhar para os olhos da Ana, que
refletiam uma determinação e uma compaixão voraz de uma verdadeira profissional,
decidiu que não podia recusar.
Durante semanas, Miguel dedicou-se à sua criação, com uma nova série de quadros.
Em vez de se afastar da tristeza que o rodeava, mergulhou na própria tristeza. As telas
tornaram-se num reflexo das angústias e das esperanças dos jovens da aldeia.
Pinceladas de azul profundo, representavam a solidão, enquanto toques de amarelo
vibrante, simbolizavam a resistência e a força de vontade.
A exposição foi marcada para um sábado ensolarado, em que o ar parecia estar
carregado pela expetativa e, à medida que as pessoas se juntavam, Miguel sentia a
adrenalina, como uma torrente de sangue, vibrando nas suas veias. A sala estava
repleta de rostos curiosos e preocupados, mas também esperançosos. Ana fez as
honras de abertura, falando sobre a importância da saúde mental e como a arte,
podia servir de terapia.
- “A arte” - disse ela – “pode ser um refúgio. É uma forma de dialogar com a dor, uma
forma de a libertar ou de a transformar, em algo belo”.
À medida que os visitantes percorriam a exposição, Miguel observava cada reação,
cada murmúrio. Para os quais, os quadros em que as cores, pareciam vibrar, algumas
lágrimas de alívio e compreensão escorriam pelos seus rostos, de quem se sentia
identificado com as mesmas. E nas obras mais sombrias, a empatia tomava conta do
espaço, criava um elo silencioso, entre o artista e o espectador.

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No final do dia, ao ver o impacto que a sua arte tinha causado, Miguel sentiu-se
preenchido. Não tinha somente ajudado a comunidade a refletir, sobre uma questão
tão importante, como também tinha encontrado um novo propósito para a sua arte.
Ao lado de Ana, prometeu a si mesmo, que ia continuar a utilizar a pintura, como um
meio de comunicar com os outros para os curar.
A exposição foi um sucesso e com os fundos que foram arrecadados, Ana e a sua
equipa puderam assim iniciar um programa de apoio psicológico. Aquela aldeia, onde
a arte, agora tinha um papel fundamental na terapia mental. Miguel tornou-se um
parceiro essencial, realizava workshops, onde os jovens participavam e podiam
explorar as suas emoções através da pintura.

Na Aldeia das Dores, a arte e a saúde, uniram-se numa dança harmoniosa de cura e
expressão. O pintor, descobriu que a verdadeira beleza da arte, residia não só na
estética, mas também na capacidade de tocar as vidas de cada um, de dar voz ao que
muitos não conseguiam exprimir. E, acima de tudo, aprendeu que a arte, pode ser uma
ponte que nos liga, mesmo nas horas mais sombrias.

Rui Ferrer Trindade

Sobre o autor:

Português, com ascendência dinamarquesa, frequência universitária em Ciências


Sociais e Bacharelato em Direito, Escritor, Poeta, Artista Plástico, Dramaturgo,
Músico, Ator. Com livros editados, peças de teatro e exposições realizadas. É filho do
grande Compositor e Maestro Francisco Ferrer Trindade, que sempre o influenciou e
sempre prezou para que utilizasse os seus dons e interesse pelas artes, sendo
conhecido a nível nacional e internacional.
Email:ruiferrertrindade@gmail.com
blog: https://filosoficatologiaderuiferrertrindade.blogspot.com/

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A descoberta de Cila

O aroma doce do chocolate quente preenchia o quarto. A janela, já fechada,


proporcionava um ambiente aconchegante para uma noite de sono reparadora. O frio
recém-chegado do outono embaçava o vidro protegido apenas por uma fina cortina
de tecido que pendia do teto até o chão, fazendo o espaço parecer maior.
Toda enrolada em um cobertor rosa pastel, Cila lia cada palavra com uma energia
incomum para tal hora da noite. Talvez estivesse insegura com o que descobriria,
talvez com medo de continuar sua vida sem nunca saber. Se calhar, ambos.
Seus olhos percorreram ávidos o primeiro tópico e, de imediato, sua mente vagou
para um passado distante.

Era o primeiro dia de aula da pequena Cila na nova escola. Na verdade, era o
primeiro dia de toda a sua vida de três anos e meio em uma escola. Para ela, seria
apenas mais um dia normal brincando com suas bonecas: sua Barbie já estava pronta
para o passeio, junto com todos aqueles pequenos acessórios essenciais para uma
brincadeira completa.
Cila arrumava o minicarrinho de bebês com as mini gêmeas e suas mini mamadeiras,
enquanto sua mãe tentava explicar como seria o novo dia.
— Quando chegar, precisa cumprimentar a professora e os colegas.

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Cila assentiu sem tirar os olhos dos brinquedos.
Ao chegarem na escola, a mãe observou a filha entrar na sala de aula, andar até a
caixa de brinquedos, pegar alguns itens de casa de bonecas para sua Barbie e sentar
encostada na parede branca, ainda com o cheiro forte da tinta, para brincar.
A mãe ainda olhava quando outra pequena estudante se aproximou.
— Vamos brincar? — convidou a menina.
Plena e concentrada em sua brincadeira já estabelecida, Cila não escutou o convite
de quem, mais tarde, se tornaria sua primeira amiga.
Convencida de que era bem-vinda, a outra criança pegou a Barbie para brincar. Tão
logo percebeu, Cila olhou com fervor para a boneca e disse, firme:
— É minha.
A mãe de Cila sentiu um olhar sobre seu rosto. Quando olhou ao redor, percebeu
uma das outras mães fitando-a, indignada. “A menina só pode ser filha dela”, concluiu.
— Minha filha, sempre que alguém estiver falando com você, é importante olhar nos
olhos. — Cila escutou a mãe dizer, como se a vida das duas dependesse daquilo.
“Sim”, Cila respondeu para si mesma, com convicção, olhando para o computador.
“Este é verdade. Eu precisei aprender a olhar.”
Sentindo o frio tomar conta de sua barriga, foi, instintiva, adiante na leitura.
Depois das reflexões feitas sobre o primeiro tópico da lista, Cila percorreu as outras
características comuns apresentadas na infância com maior velocidade. Tinha sede de
entender sobre si mesma.
“Dificuldade em compreender gestos e expressões faciais... também tive”.
“Não sorrir em interações sociais divertidas”, leu Cila, precisando refletir. “Não sei
se não sorria, mas lembro de escutar bastante que eu era séria”. Resolvendo deixar
sua investigação para o futuro, continuou a leitura.
“Evitar interações sociais, incluindo emprestar objetos.” Ao terminar de ler, já estava
rindo, lembrando-se da Barbie na escola.
“Preferência por brincadeiras repetitivas. Isso me lembra da minha amiga Luna e a
‘Corrida do Piripipau’.” Outra vez, a mente de Cila foi transportada para o passado. Só
que, agora, um passado feliz.

Com oito ou nove anos de idade, não se lembrava ao certo, Cila costumava passar
várias tardes brincando junto com Luna depois da escola. Em dias normais, gostavam
de criar histórias para seus pôneis. Como seu personagem na brincadeira, sempre
escolhiam o mesmo pônei: Cila com o laranja e a amiga com o branco.
Num certo dia, as meninas não queriam brincar quietas sentadas no chão. Queriam
correr. Assim nasceu a amada “Corrida do Piripipau”, uma tentativa de homenagem ao
museu que visitaram juntas, embora a brincadeira não tivesse relação com o local.
— Agora, eu jogo a bola para você.
— E você para mim depois.
— Temos que jogar de leve. Não quero me machucar com a bola — ponderou Cila
— Com certeza. Já basta o medo durante as aulas de educação física — respondeu
Luna. Embora diferentes, as amigas entendiam-se uma à outra.
— Então, tudo bem. E chegamos à parte de quicar a bola até chegar à porta de vidro.
— Já sei! — Luna se orgulhava de sua ideia. — Agora, batemos a bola no ritmo de cor-
ri-da-do-pi-ri-pi-pau!
Com a brincadeira original criada, podiam se divertir num jogo onde ninguém se
machucava, ninguém ganhava ou perdia e ninguém, além delas, poderia participar. A
brincadeira acabaria somente quando e se as duas quisessem

Cila voltou a realidade perguntando-se como podia se lembrar de tantos detalhes


de seu passado. “Não importa agora, preciso continuar lendo.” E assim fez. Nada a faria
parar.

70
“Apego excessivo a determinados objetos. Será que minha pedrinha da sorte
conta? Ou então dormir com meus brinquedos mais amados?”
“Sensível à sons ou barulhos específicos.” Riu novamente, pensando que até hoje
escuta o som da lâmpada da entrada de casa. Aquele som estridente que mais parece
milhares de insetos batendo as asas misturado com o chiado agudo de telefone sem
fio que mais ninguém conseguia escutar, por mais que tentasse.
“Reações intensas a texturas, odores ou sabores.” Fez uma breve pausa antes de
concluir o raciocínio. “Esse é um grande sim. Horror às etiquetas das roupas e ao cheiro
do peixe na casa da vovó e do vovô; três potes com três colheres para tomar sorvete
napolitano. Acho que não tem mais o que pensar.”
“Rituais ou restrições alimentares”. Lembrou-se de quantas vezes fora chamada de
chata para comer por recusar-se a chegar perto de qualquer alimento verde ou cru. O
barulho que esses alimentos faziam ao serem mastigados eram de doer os ouvidos.
Sentia em todo o seu corpo aquilo que é chamado, em sua região, de gastura.
“Não gostar de falar ao telefone.” Admirou-se ao descobrir que seu medo era
justificado. Cila não suportava falar ao telefone. “Chegava a escrever minhas falas com
as possíveis respostas para me preparar para uma conversa ao telefone de tão nervosa
que ficava”, relembrou.
Este era o décimo tópico. Com isso, terminava a singela lista dos sinais mais comuns em
crianças autistas nível um de suporte. Ainda faltava ler e pensar a respeito dos sinais
presentes na adolescência e na vida adulta, outras duas listas com outros dez tópicos, porém
Cila não conseguia mais concentrar-se. Necessitava falar com alguém. Precisava discutir suas
descobertas.
Não era sobre querer um diagnóstico, mas sobre entender como sua mente
funcionava. “Será que encontro algum médico que possa identificar se estou mesmo
certa?”, era apenas a primeira das perguntas. “Será que estou vendo coisas onde não
há? Será que não pode ser possível?”, a mente não parava.

Luísa Olímpia

Sobre a autora:

Luísa Olímpia Gomes Lacerda é pós-graduanda em Storytelling pelo IADE (Universidade


Europeia) e Jornalista pela PUC Minas, onde formou-se com honras. Atualmente,
trabalha do setor de comunicação de uma empresa de transportes. Nasceu em 1999,
em Belo Horizonte, Minas Gerais, onde vive com os pais. Descobriu o TEA aos 24 anos
de idade e convive feliz com o diagnóstico. Para entrar em contato, acesse o Instagram
(@luisa_olimpia_) ou o LinkedIn (linkedin.com/in/luisa-olimpia/).

*******

O amor é forte como a morte


Adélia se esfregou em minhas pernas. Provavelmente mais pelos beges já haviam se
juntado aos outros na perna da calça. Eu tinha preguiça de lidar com isso.
— Vem, vamos comer.

Enquanto eu tomava café, ela comia a ração. Achava que era minha guardadora ou
coisa do gênero e que tinha que me acompanhar nas refeições e até ao banheiro.
O pão que se dizia integral era seco e sem gosto.
— Aliás, Adélia, eu não deveria estar comendo pão nem tomando leite. Sabia
que sou pré-diabética?
Ela me olhou curiosa e eu pensei que ia amar se respondesse:

71
— Não me diga, Julia! Então, que tal ovos cozidos pela manhã?
Se ela falasse, ia me ajudar naquelas horas.
Mas eu não me importava. Falava tudo com ela mesmo assim. E, às vezes, até
imitava sua voz nas respostas. Ela me olhava compreensiva. Gatos sabem perscrutar lá
nas entranhas da gente. E eu ainda não havia descartado a possibilidade de Adélia ser
algum tipo de anja.

***

— E aí? Como vão as coisas?


— Indo...
— E a faculdade?
— Até que tô conseguindo levar. Consegui colocar os fichamentos em dia.
— Ótimo! Você está de parabéns! — Por que os terapeutas acham que têm que
ficar nos estimulando toda hora?
— Obrigada. Pelo menos consegui continuar o curso.
— Sim! Você tem que focar em suas pequenas conquistas e não nos fracassos. —
Falar é fácil, queria ver se fosse ele.
Balancei a cabeça e tentei parecer empolgada.
— E a matrícula no pilates? — xiii ferrô!
— Vou fazer. Vou fazer...
— Já parou pra pensar o que está te impedindo? — Não, não pensei e não quero
pensar.
— Eu... falta de ânimo, acho...
— Você sabe que exercícios físicos são fundamentais, não é?
— Sim, claro. Vou fazer — garanti, pra ver se ele parava de falar.
Tentei mudar a cara e sorri sem graça, num pedido mudo de condescendência.
Ele entendeu e perguntou dos remédios. “Sim, tô tomando direitinho”. Não estava
sendo tão fiel assim. Tomava mais o de dormir.
Eu precisava parar com esse hábito de mentir na terapia.
Suspirei aliviada quando desliguei a câmera. Mirei o teto e o lustre de três lâmpadas
que tinha ficado pra mim. Ele piscou compreensivo.
— Você espionava a gente transando né, seu cretino? — Gritei e joguei a almofada
nas lâmpadas apagadas.

***

Carmem era a amiga de todas as horas, mas às vezes eu queria ficar sozinha comigo
mesma. A solidão me era uma espécie de amiga inseparável.
— Vou aí levar uns queijinhos e vinho pra gente hoje à noite.
— Vem não, Car. Tenho trabalho pra hoje à noite.
Meia-verdade (que também era meia-mentira). Tinha mesmo um trabalho sobre
abordagens clínicas, mas que eu não tencionava fazer naquela noite. Queria mesmo era
tomar remédio e dormir. Mas tinha preguiça de falar isso e ficar ouvindo sermão.
— Ah, sério mesmo?
— Pois é...
— Uma pena. Que dia então?
— Eu te ligo quando der — era a melhor saída pela tangente.
— Mas você tá bem, né?
— Tô sim. Fica tranquila.
Detestava mentir pra Car. Especialmente porque ela sempre estava ali pra mim.

***

72
— Você tem certeza que quer mesmo isso? — Ela tinha me perguntado na época.
— É melhor assim, entende?
Ela não entendia. Até porque era amiga dos dois. Achava que a gente podia
recomeçar.
— Não entendo como tudo chegou a esse ponto. Até porque sei que vocês se amam...
Você não tem medo de se arrepender?
— Depois de tudo isso, não consigo mais.

***

Nossa convivência tinha se tornado tão tóxica que era quase irrespirável ficarmos
juntos.
Tem um bicho que corrói os amores. Um bicho reque-reque que surge das paredes
de nós mesmos a partir do décimo quinto ano. Em alguns casos ele pode surgir até
antes. Depende de alguns fatores. Mas em nosso caso ele meio que seguiu o padrão.
Passamos três anos tentando lidar com o bicho reque-reque. Ele e eu.
— Mas nós não temos problemas sérios, Julia! — Ele dizia com as mãos crispadas, em
total estado de absurdo.
E eu dizia: — Mas não estamos conseguindo lidar.
Então vieram as terapias, os conselhos. Mas a crise só aumentava, como se
estivéssemos apenas seguindo os episódios programados de um romance fadado a
acabar. Não conseguimos mudar o roteiro por mais que fôssemos os atores principais e
diretores da coisa toda.
Eu tinha começado o curso de Psicologia dois anos antes de nos divorciarmos.

Sempre fui uma pessoa intensa em tudo. Ou amo ou odeio. Não há meio termo. É
obvio que a vida me ensinou a arte do meio termo para sobreviver. Mas é um exercício
difícil pra mim. E creio que sempre será. Sempre fui sensível demais, emotiva demais,
tola demais. Rodrigo não suportava tanta intensidade em uma pessoa só.
— Você é emocionalmente irresponsável. Está sempre disposta a meter fogo em
tudo.
— E você que faz tempestade em copo d'água?
— Julia, eu não tô mais aguentando ser o único bombeiro desse relacionamento — ele
reclamava.

Mas eu simplesmente não sabia o que fazer. Quando deprimida, ou me jogava na


cama e passava o dia todo nela, ou achava algo que me empolgasse e me dedicava
exclusivamente àquilo. Era meu modo de enfrentamento. Minha autorregulação.
Mas, olhando pra trás, acho que subestimei o poder do reque-reque. Achei que
nosso amor de quinze anos (e mais quatro de colégio interno) era forte pra superar.
Não foi.
Rodrigo, meu amor, não desista de mim!, meus olhos gritavam, mas eu já não
conseguia falar. O bicho já tinha corroído minhas palavras e as dele também. Seus
olhos sofriam e neles eu via o amor se esvaindo pelos cantos e voando pra longe de
mim. Eu queria me aproximar, mas minha garganta estava seca, tão seca, até que se
calou por completo.
Tudo tinha sido muito sofrido pra nós dois. Ele fez tudo que podia, até mais do
que eu. Em minha intensidade, me deixei vencer pela depressão. Passava os dias
deitada, atrasava os trabalhos de revisão e tradução. Não podia acreditar que um
amor tão lindo como o nosso tivesse chegado ao fim. Ele tentava me levantar, me
estimulava a fazer terapia, mas algo em mim já havia desistido. Era como se eu
mesma tivesse um tribunal interno e nele houvesse decidido que iria punir a nós
dois e, sobretudo, a mim.

73
E aí vieram os pensamentos. ‘Tudo começa com um pensamento’, o terapeuta havia
dito. Hoje sei que ele tinha razão. O pensamento é o gatilho. E o pensamento pode ser
qualquer demônio que leve a gente a pensar que acabou, que não há solução e que,
principalmente, você já não tem mais a opção de continuar. E foi assim que o anjo da
morte começou a me assombrar.
A ideia de que nosso amor estava acabando começou a me aterrorizar noite e dia.
Na intensidade de meu amor, não conseguia conceber minha vida sem Rodrigo. Havia
muita cumplicidade envolvida em todos aqueles anos. E, curiosamente, quanto mais
esses pensamentos me sobrevinham, mais eu me afastava dele, temendo que meus
medos começassem a aterrorizá-lo também.
Os dias se tornaram longos e melancólicos. Eu dormia durante o dia e enfrentava
o fantasma da insônia durante a noite. Minha mente achava que era luxo parar de
trabalhar. Ela se encarregava de me lembrar de tudo que eu deveria ter feito e não fiz
e até do que não deveria ter feito e fiz. As editoras começaram a cancelar os
contratos de trabalho. Eu já não tinha condições de cumprir os prazos.
À medida que a solidão e a depressão iam se tornando crônicas, mesmo com
amigos tentando ajudar, a culpa pela minha própria derrocada começou a me
castigar severamente. Comecei a ter desejos secretos de punição e pensamentos
masoquistas. Primeiro, comecei a me beliscar e enterrar as unhas na pele. Parecia
algo tolo e inconsequente, mas percebi que aquilo me trazia certo alívio, mesmo que
momentâneo. Era como se o sofrimento externo calasse meus monstros internos. Na
busca de um alívio maior, fui aumentado o nível da dor, passando a buscar sensações
cada vez mais intensas. De novo, era minha intensidade a me guiar.
Comecei a me cortar com giletes abaixo dos seios e nas coxas, em partes que
ficavam escondidas pela roupa.
Nossa vida sexual já não existia há quase oito meses e ele não veria os pequenos
cortes e cicatrizes em meu corpo. Aquele era um segredo só meu e até isso acabou se
tornando também uma forma de prazer.
Nas noites insones, com o pouco ânimo que me restava, passei a flertar com a
ideia de tirar minha própria vida. Fechava os olhos e me imaginava andando nos
beirais de prédios altos, ou pensando qual seria a sensação de atravessar a rua sem
me importar com os carros.
Assim como as dores com que eu me infligia, a ideia do suicídio (no início, eu
pensava a palavra bem baixinho) era como um acalento pra minha alma destroçada.
Funcionava como uma carícia, uma promessa sutil e escondida de solução para todo
meu tormento. Eu passava horas pesquisando métodos de (eu ainda não admitia
essa palavra). Vacilava entre as alternativas indolores e as que pudessem me causar
mais agonia e dor.
Às vezes, era tomada por vergonha e autorreprovação. Fechava o notebook num
baque e tinha uma crise de choro. Pedia perdão a Deus e rezava desesperadamente
que ele me mantivesse livre das tentações.
Mas manter esses pensamentos secretos ativaram os demônios da obsessão e eu
já não conseguia mais pensar em outra coisa que não providenciar de vez a válvula de
escape para meus sofrimentos.
Minha relação com as pessoas se tornou mínima, sendo que eu havia
deliberadamente trocado a noite pelo dia.
Minha mãe vinha me visitar, mas eu falava rapidamente com ela e dizia que estava
com muito sono porque não queria que ela percebesse o que eu andava pensando.
Ela me olhava fingindo confiança e tentava me animar, mas eu sabia que estava muito
preocupada.
Lá no fundo, o que antes era fonte de tristeza pra nós dois, a dificuldade de
engravidar, era agora fonte de alívio. Se tivéssemos filhos, ia ser mais difícil tomar
essa decisão. Eu não queria ferir ninguém além de mim mesma.

74
Foram meses de flerte até que eu e a morte nos tornamos amantes e ela passou a
me fazer promessas de paz, livramento e o paraíso do alívio de toda dor, mas eu ainda
tinha muitas dúvidas se deveria me fiar em suas promessas. Eu só me preocupava
com três pessoas a quem realmente amava: Rodrigo, a mãe e a Car. Meu pai já não se
importava comigo desde que havia nos abandonado quando eu tinha oito anos. Eu
não lhe devia nenhuma satisfação.
Precisava decidir se deixaria bilhetes ou não. Tinha que pesar os prós e os contras.
Pensava que talvez fosse bom deixar registrado que era uma decisão própria e que não
havia culpados. Outra coisa que me pesava, era que não queria infligir sofrimento a
nenhum deles, por outro lado, não queria ser impedida de tomar minha decisão com
base no não sofrimento deles. Eu tinha o hábito de pensar em todos os agravantes e
analisar por todos os ângulos. Decidi por escrever apenas um bilhete que abarcasse a
todos, garantindo que havia sido uma decisão de foro íntimo.

E o namoro se transformou em um compromisso mais sério. O anjo da morte me


convenceu a dar-lhe não apenas meu corpo, mas também minha alma. E assim foi.
Escolhi cuidadosamente o dia, a hora e o método.

***

Adélia brincava nos arbustos de azaleias. Estava de namorico com um gato amarelo
que apareceu por ali.
— Adélia, não dá na cara assim — falei rindo.
Era bom estar ao ar livre. Os óculos escuros me ajudavam a encarar as gentes do
parque e o mundo fora das quatro paredes.
Era bom sorrir de novo.

Tudo era uma névoa em minha mente. Só me lembrava da cara de terror de Rodrigo
quando me encontrou semiconsciente em nosso quarto. Depois, há apenas fragmentos
de sons de monitores e falas abafadas. Nada mais.
Não deu certo. Falhei por alguma razão. Esse foi o primeiro pensamento depois de
acordar. E a vergonha de ter que enfrentar um mundo do qual tentei escapar pela porta
dos fundos era insuportável. Eu sabia que conviveria com esse sentimento por muito
tempo, talvez pelo resto da vida. Quem sabe essa seria minha punição.
Rodrigo estava quase irreconhecível. Havia perdido muito peso e tinha deixado os
cabelos crescerem, como eu o conheci no colégio.
Aquilo me esmagou. Era certo que eu não havia tentado destruir apenas minha vida.
Talvez ele realmente tivesse razão, eu era emocionalmente irresponsável e incendiária.
Além de viver a vida toda apagando os incêndios de nosso casamento, ele teve que
apagar toda uma floresta que eu espontaneamente decidi incendiar. Conseguiu. Eu
estava salva, mutilada apenas pelas chamas, mas ainda viva. Não sabia se o amava ainda
mais ou o odiava por ter cometido o pecado de frustrar meus planos de morte.
Rodrigo estava agora tão deprimido quanto eu. Viver a seu lado vendo-o definhar a
cada dia seria o castigo que me caberia. Mas eu não podia lhe causar mais mal.
Rodrigo, meu amor, um dia você me perdoa? Eu queria gritar, mas as palavras não
saiam. Eu tinha morrido, voltado à vida e aquele demônio do reque-reque ainda estava
preso em minha garganta.
Fui embora. Ele não ofereceu resistência. Era hora de parar de ser irresponsável e
amá-lo de verdade — à distância — de onde não pudesse mais feri-lo nem incendiar nada
à sua volta.

***

75
— Vamos embora, Adélia. Hora de se despedir de seu amor.
Ela relutou e eu tive que me esforçar para pegá-la.
A tarde ia embora deixando uma melancolia no ar. O sol se esvaindo por entre as
árvores sempre causavam em mim a sensação de perda. E agora não podia ser diferente,
mas só o fato de encarar o lado de fora da porta me fazia ter esperança.
Estufei o peito e respirei o ar do parque mais uma vez, como se quisesse retê-lo.
Depois de quase um ano e meio, estava feliz por ter conseguido ir além da padaria e do
mercadinho da esquina. O terapeuta tinha razão: concentre-se em suas vitórias e não
nos fracassos. Eu precisava prestar mais atenção às terapias.
Animada, pensou em visitar a mãe no domingo e finalmente chamar a Car para
aquele programa de vinhos e queijos.
Sorriu e acariciou Adélia antes de colocá-la no carro. Não viu que um caro alto e
cabeludo a observava por entre as árvores.

Rodrigo, meu amor, não desista de mim!

Irene Giglio

Sobre a autora:

Irene Giglio é escritora, tradutora, revisora e artista plástica. Graduada em Letras,


pós-graduada em Teologia, atualmente cursa Psicologia. Escreveu e ilustrou com
suas próprias obras o primeiro livro em 2006. Volta à literatura somente em
meados de maio de 2024 e é participante em mais de 55 antologias e conquistou
dois prêmios literários, ao mesmo tempo em que se prepara para lançar seu livro de
poesia em 2025. Curte horta e jardim e adora aventurar-se em descobertas
gastronômicas. Deslumbrada pela psique humana, a marca de sua literatura é o
intimismo e a reflexão, e se utiliza da fantasia apenas para alcançar estes objetivos.

76
De Olho na Tela

Alguns filmes que falam sobre saúde


mental.: O LADO BOM DA VIDA (2012)

UMA MENTE BRILHANTE (2001) O aclamado filme ‘O Lado Bom da


Vida’, que garantiu a Jennifer
Lawrence o Oscar de Melhor Atriz, é
ambientado na Pensilvânia e conta a
O drama biográfico ‘Uma Mente
história de Pat (Bradley Cooper), um
Brilhante’, dirigido por Ron Howard, é
homem com transtorno de
baseado em fatos reais e gira em torno
bipolaridade que ganha alta do
do matemático estadunidense John
hospital psiquiátrico e volta a morar
Nash, que conquistou o prêmio Nobel
com os pais. Enquanto tenta se
em Economia. Estrelado por Russell
reconectar com a ex-mulher, ele
Crowe e por outros nomes incríveis, a
conhece Tiffany (Lawrence), uma viúva
história é centrada no período em que
que sofre de depressão que promete
Nash frequentou a Universidade de
ajudá-lo a reconquistar a esposa caso
Princeton e começou a desensolver
ele participe de uma competição de
esquizofrenia paranoica com episódios
dança.
de desilusão. A produção levou quatro
estatuetas do Oscar para casa,
incluindo Melhor Filme e Melhor
Diretor; Crowe também foi indicado na
categoria de Melhor Ator.

77
CAKE – UMA RAZÃO PARA VIVER cretizando-se como uma das melhores
(2014) produções do século por diversos
veículos de imprensa. Após seu
lançamento, a obra recebeu 15
A depressiva e traumatizada Claire
indicações de Melhor Filme, 21 de
Simmons fica obcecada pela história
Melhor Roteiro Original e 40 de Melhor
do suicídio de Nina, uma colega do
Animação por mais de cinquenta
grupo de autoajuda. Claire passa então
organizações e associações ao redor
a ter visões com Nina e decide
do mundo. A história é ambientada no
investigar sua vida. Aos poucos, Claire
cérebro da jovem Riley, explorando as
desenvolve uma relação inesperada
emoções de alguém passando por
com Roy, o ex-marido de Nina. O filme
mudanças profundas e analisando
trouxe Jennifer Aniston de volta para
temas como depressão e relações
o circuito dramático e lhe rendeu
interpessoais.
indicações ao Globo de Ouro e ao SAG
Awards.

PARA SEMPRE ALICE (2014)

Alice Howland é professora de Harvard


e especialista em linguística. Ela está
feliz pelo que conseguiu construir,
tanto a nível pessoal, quanto
profissional. No entanto, sua vida
muda inesperadamente quando ela é
diagnosticada com Alzheimer.
Trazendo Julianne Moore como a
protagonista, o longa rendeu à atriz
diversos prêmios por sua potente e
emocionante atuação, incluindo o
Oscar de Melhor Atriz.

DIVERTIDA MENTE (2015)

O impactante ‘Divertida Mente’ já se


mostra sagaz pelo ambíguo título, con-
78
Momento Quiz
*Respostas na última página

1 - Um dos mais famosos clássicos da ( ) Ucrânia


literatura mundial é o livro “Os ( ) Chile
Miseráveis”. Tem como autor e ( ) Alemanha
cenário, respectivamente:
5 - Quеm fоі о fundаdоr dа Асаdеmіа
( ) Victor Hugo e Itália Вrаѕіlеіrа dе Lеtrаѕ?
( ) Victor Hugo e França
( ) Alexandre Dumas e Inglaterra ( ) Еuсlіdеѕ dа Сunhа
( ) Machado de Assis e Brasil ( ) Јоѕé dе аlеnсаr
( ) Mark Twain e França ( ) Масhаdо dе Аѕѕіѕ
( ) Саrlоѕ Drummоnd dе Аndrаdе
2 - Оrіgіnаlmеntе, а hіѕtórіа dе ( ) Реdrо Bаndеіrа
Наmlеt, fоі реnѕаdа раrа ѕеr аtuаdа.
Соmо tаl, о еѕtіlо dе еѕсrіtа е 6 - Quem é a autora do livro ´´A Hora
соmроѕіçãо dо аutоr tіnhа umа da Estrela``
саrасtеríѕtіса muіtо ресulіаr. О tехtо
оrіgіnаl ѕе еnсаіха nо gênеrо: ( ) Rachel de Queiroz
( ) Lygia Fagundes Telles
( ) Dramático ( ) Cecília Meireles
( ) Rústico ( ) Clarice Lispector
( ) Lírico ( ) Adélia Prado
( ) Híbrido
( ) Lúdico 7 - Qual o livro principal de José de
Alencar?
3 - Qual dessas obras não é de
Machado de Assis? ( ) Os Sertões
( ) Quincas Borbas
( ) Dom Casmurro ( ) Helena
( ) Esaú e Jacó ( ) O Guarani
( ) Os Miseráveis ( ) Ressureição
( ) Quincas Borbas
( ) Memórias Póstumas de Braz Cubas 8 - Quаl é о аutоr dо lіvrо "Меmórіаѕ
Рóѕtumаѕ dе Вráѕ Сubаѕ"?
4 - Em que país nasceu Clarice
Lispector? ( ) Маnоеl dе Ваrrоѕ
( ) Саrlоѕ drummоnd dе Аndrаdе
( ) Brasil ( ) Јоѕé Guіmаrãеѕ Rоѕа
( ) Áustralia ( )Масhаdо dе Аѕѕіѕ
( ) Grеgórіо dе Маtоѕ
79
Cantinho Poético

A REUNIÃO DA BICHARADA NEM SEQUER PEDIU SOCORRO,


FICOU PASMO DE MEDO ...
QUANDO O DIA AMANHECEU ¨QUE HUMANIDADE ERA AQUELA
TODA A MATA ESTAVA EM FESTA QUE LHE MALTRATAVA EM SEGREDO?”
E SENHOR PAPAGAIO GRITAVA: QUE RESPEITEM A NOSSA CASA,
—TEM REUNIÃO NA FLORESTA! O PAU-BRASIL E O PALMITO
NÃO ADIANTA INVENTAR MODA, GARANTINDO PARA TODOS NÓS
É PROIBIDO FALTAR UM FUTURO MAIS BONITO!
DONA CORUJA VAI DAR UMA AULA
SOBRE *****
O NOSSO BEM ESTAR ...
SE A CAPIVARA TIVER COMPROMISSO Zé Vacilão... Quem, eu?!
QUE AGENDE PRA OUTRO DIA
NÃO VALE INVENTAR DESCULPAS Todo dia é mais um dia
NEM ALMOÇAR NA CASA DA TIA De bastante agitação
O MORCEGO NÃO GOSTA DE PROSA Duas horas no chuveiro
MAS TEM QUE OBEDECER Na maior “ensebação”!
PARA FICAR POR DENTRO DO ASSUNTO Que delícia de água quente
É PRECISO COMPARECER Só no ritmo da canção
ATÉ O MICO LEÃO DOURADO Som bem alto, se confundindo
QUE ESTÁ AMEAÇADO DE EXTINÇÃO Com o barulho da televisão.
VAI TER DIREITO A PALAVRA Não faz mal que tá fresquinho,
DURANTE A REUNIÃO. Ligo também o ventilador
SÓ NÃO PODE FICAR TRISTE; E se sentir um calafrio
AMUADO, SEM AÇÃO É só me enrolar no cobertor.
SOMOS PARTES DA NATUREZA Se bater aquela fominha
E EXIGIMOS PRESERVAÇÃO! Jogo tudo no liquidificador
ENTÃO A REUNIÃO COMEÇOU Aproveitando a velha tomada
NO REINO DA BICHARADA Que já está ligado o tostador
ENQUANTO A CORUJA FALAVA Sou um consumidor fanático
DONA ANTA FICOU CALADA. Na minha casa é sempre assim
TALVEZ PENSANDO NA VIDA Nunca pensei no futuro
NO FOGO DA MATA, QUE MATA Pois ele não depende de mim.
E NUMA EXPRESSÃO COMOVIDA Ligo tudo ao mesmo tempo
CHOROU DE SAUDADE DA PACA! Deste luxo eu não abro mão;
QUE PERDEU TUDO O QUE TINHA Só não ligo o “desconfiômetro”
SEM DÓ E NEM PIEDADE Quando me chamam de vacilão!
FICOU SEM RUMO NO MUNDO Que barato esta energia
E FOI LEVADA PARA A CIDADE. Que custa tão caro ao país
QUEM NÃO SE LEMBRA DO TUCANO Do meu bolso é que não sai
QUE ANIVERSÁRIOU A SEMANA Para azar do meu pai
PASSADA Eu não sou bobo, nem nada
FOI SEQUESTRADO, DE REPENTE Quero mesmo é consumir
NA FRENTE DA NAMORADA. Para o desespero dos meus amigos

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Que não cansam de repetir: No rosto distinto, no sotaque estranho,
— Economizar não é viver no escuro Há mundos inteiros que cabem num
Triste, sem brilho, isolado verso.
Nem ficar em cima do muro
Sem ação, alienado! A moça do leste dança diferente,
A energia é uma conquista O velho do sul fala com o vento,
De toda a humanidade O menino do norte canta em sua língua,
Um bem comum que retrata E o do oeste pinta o firmamento.
O progresso da sociedade.
Não quero ser mais chamado Cada um é um mundo, uma história, uma
De menino Vacilão estrada,
Agora eu tô ligado Com dores, com sonhos, com a alma
E tomei uma decisão: marcada.
Não desperdiço energia elétrica, Mas quando aportam em nova estação,
Numa atitude inteligente Recebem muralhas em vez de irmão.
De cuidar do nosso planeta
Respeitando o meio ambiente — Volta pra tua terra! — grita quem teme.
E você, meu amigo, Mas a terra é de todos, ninguém é refém.
Sei que também é capaz O chão que se pisa não tem dono certo,
Vem comigo, nesta parceria E o coração humano não conhece
Por compreender que é no dia a dia deserto.
Que iluminamos um mundo de paz.
A xenofobia é medo disfarçado
Silmara Retti Marques Do que é belo e novo, mas não ensinado.
É rejeição ao que não se domina,
Sobre a autora: É ausência de ponte onde nasce a
esquina.
Possui 20 livros publicados, 230
crônicas escritas para a abertura de um Se a pele é distinta, a dor é igual.
programa na rádio e 23 textos Se a fala é outra, o amor é tal.
classificados em concursos nacionais e Se o prato é estranho, o pão é o mesmo.
internacionais. É autora do projeto Se o nome é exótico, o abraço é honesto.
literário gratuito Flow das Letras que
tem Olha bem nos olhos de quem chega
como objetivo incentivar a literatura cansado,
através da leitura de seus textos em Trazendo nas malas um passado pesado.
escolas e comunidades. Projeto Será que não vês? Ele é como tu,
também disponibilizado com crônicas Com sede de vida, com medo do escuro.
de sua
autoria narradas para pessoas com Cada cultura é uma cor na aquarela.
deficiência visual. Foi escritora do Sem todas, a tela nunca será bela.
Projeto Não se apaga um povo, não se nega uma
Meio Ambiente de Furnas Centrais dança.
Elétricas em Ubatuba. A humanidade cresce quando se dá
@silmararettiescritora esperança.
flowdasletrassilmararettiescritora.blogs
pot.com E o respeito? Ah, o respeito é raiz.
É onde germina o que nos faz país.
***** É ouvir sem julgar, é acolher com calor,
É saber que o outro também sente dor.
Terras e Gentes
Então, que se celebrem os nomes
Por que tememos o que não é espelho, diferentes,
Se a beleza da vida está no diverso?
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As roupas, os deuses, os sons, os onde só a água-morte impõe a vingança
presentes. no pavor da dúvida refletida:
Que se aprendam palavras, comidas, o que boia calmo na água turva é plástico
canções, a parecer criança ou criança a parecer
E se abram as casas e os corações. plástico?

Porque o mundo é grande, e cabe mais


gente. Gelson Fassina
Porque viver é plural, e amar é urgente.
E quem fecha a porta por medo ou Sobre o autor:
rancor
Se tranca por dentro, e perde o sabor. Gelson Lucas Pacheco Fassina da Silva
(@gelsonfassinaadvcriminalista) tem 29
Viva o diverso, o estranho, o além. anos, é advogado criminalista e participa
Quem respeita o outro, se entende da Revista Mosaico Cultural com um
também. poema sobre meio ambiente.
A ponte do afeto não tem
nacionalidade — *****
Tem braços abertos e humanidade.
O convite da vida
Bruno Silva
A estrela que não veio
***** E não quis agora brilhar.
O segredo que se fechou
Porto Alegre, cidade-rio Na hora de se revelar.

um rio água-vida passa A manhã que não quis sair.


e dá generoso aos seus usuários A reflexão ao anoitecer:
margem, Este minuto foi para despertar.
com um amor cego materno. Agora ela vive o seu amanhecer.
todavia,
sufocado por reclamações contínuas de Brilhe agora, estrela pequena.
consumidores, Dê as mãos somente para o bem.
vem à superfície, Seus olhos só querem ser livres,
espia E o seu sorriso também.
e no seu olhar líquido vê
marginais Abra-se agora para a vida.
que, no rio-mesa, dele se servem fartos, O seu olhar está mais reluzente.
em rios-canos, nele se purificam, Há um propósito e um caminho:
e, apesar disso, em injusto escambo, Pode amar e sonhar lindamente.
a ele devolvem um mórbido regalo,
impondo fatal incerteza a outros que Pode dançar e pular de alegria.
dele tiram o alimento: O mundo é todo seu. O céu é todo seu.
o que veem é plástico a parecer comida Pode colher as estrelas, ao olhar para
ou comida a parecer plástico? cima.
como água-espelho, Bem-vinda à vida que você escolheu!
decide então que rio que passa não
mais daria ser. *****
obstinado, quis em rio cair do céu.
sendo celestial, lembrou-se Deus, Canção para o mundo
e exigiu o pão dado tantos anos à vista,
sentando à ceia mirada com fúria divina Peito aberto, o céu repleto de melodias.
até tornar bairro-terra em bairro-rio, Nenhum sonho sem cor.

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O mundo vai saborear e cantar Sobre a autora:
A alegria de dar e ajudar.
Vivian Martins é carioca, tem 41 anos e
Nossas vozes são uma só, mora na cidade de Petrópolis, no estado
Unidas no mesmo nó. do Rio de Janeiro. Servidora pública, é
Elas cantam e ecoam em harmonia, também mãe e filha dedicada. A família é
Anunciando o despertar de um novo um dos valores mais importantes de sua
dia. vida. Aos 41 anos encontrou na escrita
um meio de extravasar seus sentimentos.
Nos campos eternos cultivamos o amor, Seu Instagram é vivian.martins2.
Só precisamos cantar e ao mundo
ensinar: *****
Só o amor pode salvar. Todos podem AINDA
nadar
Nas águas cristalinas, se aprenderem a AINDA QUE TU NÃO ME RESPONDAS...
amar. EM TI EU PENSAREI
AINDA QUE TE DISTANCIES...
J V Santiago A SONHAR CONTIGO EU ESTAREI

Sobre o autor: AINDA QUE NUNCA MAIS TE REVEJA


A TI SEMPRE AGRADECEREI
Jairo Viana Santiago (pseudônimo J V PORQUE UM DIA VIESTES A SURGIR
Santiago) nasceu em Canoas, Rio Gran- AINDA QUE DE UMA FORMA...
de do Sul. Licenciado em Letras: Inglês QUE EU JAMAIS ENTENDEREI...
e Português. Trabalhou com tradução,
ensino de inglês e participou de *****
trabalho humanitário como voluntário
em várias regiões do Brasil. Escreve INTERNAUTAS
poemas e minicontos. Faz traduções.
Interno(a)...alto...alta...
***** vida...
De repente assim chegou
A minha criança interior dominando corações
alimentando as ilusões
A minha criança interior Reflexos de um espelho?
Precisa ser vista com amor. Ou será um pesadelo?
Já fora do seu velho ninho, Refutando uma realidade abstrata...
Contemplo-a com todo carinho. Retratos entre o tudo...
ou o nada...
Junto a ela vou repor Revelações...ou ocultações...
O que a vida me roubou. Pessoas robotizadas
Pois a alma, em desalinho, envolvidas por diferentes estradas...
Faz a gente ficar sozinho. Campos verdes...ou minados
Natureza desnaturalizada
Mas, se é por amor, Um suporte a suportar...
Eu hei de me recompor, invisível caminhada
Apesar do dissabor Onde os seres...
Que a experiência me impôs com rigor. em busca dos prazeres digitais...
banalizando os anormais...
Pois a satisfação é o destino Que lucram com sua indiferença
De quem abre o coração, devagarzinho, alimentando a cada decadência
Para abrigar os amores e amigos de uma tecnologia
Que o destino lhe deu no caminho. Que chegou para permanecer

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Investindo em cada ser na órbita de um só fastio.
As vantagens e desvantagens Pombos ou homens, não sei.
de um mundo feito de imagens
Reais...ou falsificadas Algo no centro da roda,
pouco importa o valor por elas atrás dos trapos e risos,
identificadas se esconde à vista daqueles
O abraço se desprendeu... que desfrutam de outra vida.
O olhar se perdeu...
E aos que sentem falta...assim como O calor promete a chuva,
eu... ameaça no meio das nuvens.
Foram enterrados em um certo Todos procuram refúgio,
isolamento salvo os vagabundos e eu.
porque sentem falta do discernimento
diante do mundo atual Quem persiste não sucumbe,
Que nos transporta por isso ouso perguntar:
para uma realidade que nos sufoca a que os senhores devotam
Para um mundo irreal que desemboca tão desmedido interesse?
em um rio seco de emoções
E aos que sentem falta dos clarões Vem o silêncio, arrastado
que hoje apenas ofuscam a humanidade pelas respostas, e inunda
Guardo em mim um rastro de saudade a rua repleta de ausência.
de um tempo que também sobrevivi O ar da espera fecha o céu.
diante de tantas ambiguidades
Portanto preservo diante do tempo Se torço o pescoço, então
reservado diante das memórias compreendo quem são meus pares.
Onde por mais que fosse efêmero Mas do outro lado dos nossos
Guardava um doce registro... ombros nada nos cativa.
um registro de histórias
Quando a chuva enfim atinge
Ivone Ferreira do Nascimento em cheio o coração do asfalto,
nossas asas não se sujam,
Sobre a autora: pois já saímos em revoada.

IVONE FERREIRA DO NASCIMENTO, *****


NASCEU E RESIDE EM SANTO ANDRÉ-
SP. AUTORA DE DOIS LIVROS SOLO DE Desgosto
POEMAS E UM LIVRO INFANTIL.
COAUTORA EM DIVERSAS ANTOLOGIAS Gestei o poema
NOS ANOS DE 2022/2023/2024/2025. como o abacaxi mal digerido de ontem
Membro imortal na AINTE ( Academia doce na língua
Interamericana de Escritores) , desde ácido na entranha
2023. APAIXONADA PELA MÚSICA, E impasse de sensações
DIVERSAS ARTES, ENCONTROU que atordoa antes de irromper.
TAMBÉM NA POESIA UM VERDADEIRO,
SENTIDO DIANTE DA VIDA. ( Instagram: Apreciei a espera
@nadvonny / @di_verso_quintal ) até o rascunho ser passado a limpo.
Novelo de possibilidades sem ponta para
***** puxar
denso emaranhado
Ali onde a esquina se dobra porém translúcido
que filtra a luz o som o vento
Vi vagabundos ao sol. vazados em suada trama.
Círculo de almas penadas

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Depois do parto A finitude é a fatalidade
quando apartado de mim enfim Quero ser tudo, entender tudo
o poema se exibe Não há como evitar explorar,
não diz nada. Desejar, o que poderia, ou seria
Recém-nascidos não sabem falar. Se vivesse tudo, em todo lugar.
Confronto a mudez que não é mudez
mas silêncio *****
porque quem nada diz pode dizer tudo.
Caminhada
Na boca vazia de voz
encontro só o gosto da palavra perdida Sou o que conheço, mas ninguém nunca
sentida ausência que me faz duvidar me entregou livros
da própria existência de algo oculto
em tão indevassável esconderijo. Nos muros há perguntas jamais
respondidas
Poderia inventar Caminhei por algumas cidades, e todas vi
chaves mapas sentidos. minha humanidade perdida
Mas persiste a lembrança Passaram-se meses, a cólera se tornou
de algum sabor desconhecido serenidade
que não consente escolher outra sina. Passaram-se meses, talvez não precise
trocar novamente de identidade
Resignado de volta à azia Passaram-se meses, acho que minha
descarto a coroa infelicidade não vem da cidade
a casca espinhosa Morrendo todos dias, se for necessário
e com as fatias da polpa amarela me mate de novo, meu cotidiano está
desmancho do jejum o hálito. morto
Para que eu possa renascer, e novamente
Felipe Duarte de Paula odiar meu passado
Me beijo hoje, me entrego flores amanhã
Sobre o autor: e queimo quem fui no passado (em outro
estado)
Felipe Duarte de Paula nasceu em 1987.
Formado pela Faculdade de Direito da A cada morte tenho uma nova filosofia
Universidade de São Paulo, é promotor A tatuo na testa, sempre estou sozinha
de justiça. Mora com a família em São Agora minhas flores um dia vermelhas, se
Paulo. Em 2024, lançou o livro de tornam roxas
poemas Vida selvagem, pela editora Caminhando em direção à casa no alto da
Patuá. montanha
Espero que ela responda minha
***** verdadeira dúvida
Que estive a caçando nos livros e nas
Tudo, em todo lugar perguntas vazias
Talvez a mãe natureza, a verdadeira, me
Há algo eterno a se explorar abraçará como filha digna
Minhas mãos tentam tocar o infinito Que jamais fui, não serei excluída do céu
Sonhando com a juventude eterna (enquanto nesta vida).
Mergulhando num passado distante
Laura Targa
Entro num salão cheio de escritores
O mundo se paralisa, observo Sobre a autora:
Conversas interrompidas, caminho
Aprecio a liberdade momentânea Laura Targa tem 21 anos. Escreve poesia
O meu corpo é o limite da alma há quase 10 anos, sobre todos os temas,

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É apaixonada por temas voltados à Direito, Escritor, Poeta, Artista Plástico,
sensibilidade e vulnerabilidade humana, Dramaturgo, Músico, Ator. Com livros
à paixão pela arte e vivências adversas. editados, peças de teatro e exposições
realizadas. É filho do grande Compositor
***** e Maestro Francisco Ferrer Trindade, que
sempre o influenciou e sempre prezou
A cura da arte para que utilizasse os seus dons e
interesse pelas artes, sendo conhecido a
No silêncio suave de um pincel a bailar, nível nacional e internacional.
ressalta a vida nas cores, começa-se a Email:ruiferrertrindade@gmail.com blog:
sonhar, https://filosoficatologiaderuiferrertrinda
a arte é um remédio, um bálsamo em de.blogspot.com/
flor,
cura a própria alma e acalma a dor.
*****
Nos tons vibrantes, de um quadro
exposto, Mora a Luz
refugiam-se as dores, num universo
bem composto, No silêncio que grita dentro,
num verso bem dito, uma nota a se Há um eco de vida esperando nascer.
soltar, Entre sombras e muros cinzentos,
transformando a tristeza, na vontade de Há sempre um sol pronto a florescer.
amar.
Setembro vem como abraço sereno,
A saúde é um sussurro, um canto Relembrando: você importa, sim.
sereno, Cada lágrima tem um terreno,
que dança com arte, num ritmo bem Onde brota o começo do fim.
ameno,
ao som do violino, o coração acelera, Falar é coragem, não fraqueza.
e a mente se liberta, como cresce a Pedir ajuda é ato de poder.
própria hera. Toda alma carrega beleza,
Mesmo quando não sabe dizer.
Cores e sons, embalam o nosso querer,
teimosia em mostrar, de que é possível A arte cura o que o grito não alcança,
crer, A poesia sustenta a esperança.
na tela da vida, com um pincel a brilhar, E a saúde da mente, frágil dança,
que faz da experiência, o melhor para Também precisa de quem a balança.
voltar.
Viva. Mesmo com medo.
Assim, caros amigos, cuidemos de nós, Viva. Mesmo chorando.
com a arte e saúde, seguir em tom Viva. Porque é cedo
veloz, Pra pensar em ir parando.
que a beleza nos toque e nos faça
sentir, Setembro é só um lembrete,
viver é uma obra, para pormos a fluir. Que a vida é poema incompleto
E cada novo verso, reescreve
Rui Ferrer Trindade O final que parecia certo.

Sobre o autor: ELISMAR Maria de Jesus

Português, com ascendência Sobre o autor:


dinamarquesa, frequência universitária
em Ciências Sociais e Bacharelato em ELISMAR Maria de Jesus é escritor, poe-

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ta e corretor de imóveis em Goiás. ra somente em meados de maio de 2024
Acadêmico de Gestão e Negócios e é participante em mais de 55 antologias
Imobiliários pela UNIP, é apaixonado e conquistou dois prêmios literários, ao
por temas sociais e humanos. Publica mesmo tempo em que se prepara para
seus textos em plataformas literárias e lançar seu livro de poesia em 2025. Curte
participa de projetos culturais. horta e jardim e adora aventurar-se em
descobertas gastronômicas.
***** Deslumbrada pela psique humana, a
marca de sua literatura é o intimismo e a
Quando setembro chegar reflexão, e se utiliza da fantasia apenas
para alcançar estes objetivos.
suturo os rasgos
largos
com fios de fel *****
pontos folgados
para deixar sair Fonética

a dor Das palavras, escolho a fonética


entalada lá dentro Sons graves do céu da boca
apertada Que se dissolvem em salivas nuas
enlatada Trafega em rima atrevida
escapulir pelas beiradas Letras que mancham o papel.
seguidas pelo coro
do choro Prefiro reticências e plurais
ritmo que as lágrimas impõem Que desnudam a aparência
Sem permanecer, sou literal
esperarei tempos sem aflições Brindo com os substantivos
nem tormentos Do coletivo ao individual.
de cicatrizes limpas
esvaídas de dor Permito a palavra que procura
Rimar sóis e luas com o sertão
ansiarei brotos Tinta em cores carregadas
já em princípio de agosto Rasga o silêncio da pausa
e setembro Tudo escapa, sem interrogação.
momentos de flores
delicadas avencas Alheio, leio, releio meu ser
perfeitos-amores Páginas abertas, métricas
cobrirão as marcas Anoto para não esquecer
de pontos fechados Sou rodapé do que escrevi
todos bem cicatrizados O que experimentei, não senti.
...
.Será primavera em mim! E assim, de folha em folha
Desfaço-me dos versos que não li
Irene Giglio Na vírgula afiada, sou traça
Que traça a obra por acabada
Sobre a autora: Página incompleta de mim.

Irene Giglio é escritora, tradutora, Valéria Pisauro


revisora e artista plástica. Graduada em
Letras, pós-graduada em Teologia, Sobre a autora:
atualmente cursa Psicologia. Escreveu e
ilustrou com suas próprias obras o Valéria Pisauro, natural de Campinas-SP,
primeiro livro em 2006. Volta à literatu- exerce intensa atividade na literatura e

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na música. Em 2022, aprovou dois Raízes queimadas
projetos junto ao ProAC-SP: publicação
do livro solo “Entre Linhas e Cordas” e a Era uma ímpar beleza mestiça
gravação do álbum “Travessia entre Bem Brasil, genética multifacetada
Cordas & Rimas. Em 2024, Ela era Ibéria e Sardenha de um lado
conquistou o Prêmio de Do outro Quênia e Nigéria
Reconhecimento Cultural - Campinas- E só um tiquinho de Amazônia
SP. Ainda em 2024, teve suas poesias Pardinha, cabelos bem secos e finos
musicadas no álbum “Valerianas”, pelo Frágeis, fora do padrão da tevê
compositor Gui Silveiras. Em 2025, A madrinha ia se casar
assumiu a presidência da AIP-Academia Seria a daminha...coitada!
Internacional Poetrix. Iria no colo
Instagram: @valeriapisauro Então buscaram o pente de ferro
Quente e maldito!
****** A cabecinha latejou
Suor e lágrimas em vão
Participação de um poeta latino- Silenciaram-lhe a África
americano, mais precisamente, do Peru, Demoraria muitas décadas
de nome Juan Martínez Reyes Para se aceitar ao espelho
Ainda lembra o trauma
EL ARTE DE CREAR Triste fechando os olhos
E também fecho os meus
Hay un poema perfecto O que vejo é o terror
que se esconde bajo las metáforas Oh não, meu Deus!
detrás de una imagen lánguida Ela só tinha nove meses
es un poema que empieza con un verbo Meu Deus, oh não!
pero que jamás termina Não era ela, era eu.

Hay un poema perfecto Silvana Santos Rocha


naciendo del vacío
se desdibuja entre los versos Sobre a autora:
se transforma en alma
vive aquí [entre las palabras] Silvana Santos Rocha é formada em
como una sonata de verano Letras ( Português/Inglês) pela UFMG,
a veces canta una certeza pós-graduada em psicopedagogia pelo
a veces canta una utopía CEPEMG, e funcionária do Poder
a veces se canta a sí mismo Judiciário. A palavra escrita está em seu
para no morir en el olvido labor diário e em seu lazer. Em 2017, o
despabila la aurora seu poema "Moonlight" foi classificado
embriaga la tarde pela Editora Vivara para publicação na
arde en las noches coletânea Poesia Livre de novos poetas
como una hoguera insomne nacionais.
Instagram: @siu2annah
Hay un poema perfecto
cantando al mundo desquebrajado
naciendo en la penumbra
que aún no está escrito.

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Respostas do Momento Quiz:

1 - Victor Hugo e França


2 - Dramático
3 - Os Miseráveis
4 - Ucrânia
5 - Machado de Assis
6 - Rachel de Queiroz
7 - O Guarani
8 - Machado de Assis

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