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matéria de capa por Piero Vergílio Inovar para crescer Em busca de mais competitividade, empresas investem

por Piero Vergílio

Inovar para crescer

Em busca de mais competitividade, empresas investem em novas tecnologias e intensificam a exigência por mão-de-obra qualificada

Nas últimas décadas, a globalização desencadeou uma série de transformações no ambiente corporativo. Independente- mente de seu ramo de atuação e de seu porte, as empresas perceberam que um bom produto, por si só, não é mais o suficiente para garantir a sobrevivência da organização no mercado. Desde então, todas as ações e estratégias, de forma geral, são desenvolvidas a partir de uma mesma premissa: o fortalecimento da competitividade. Em outras palavras, isso significa que as companhias se vêem diante da

necessidade de aperfeiçoar seus processos

– com base na execução de melhorias na

produção e também na infraestrutura – na busca por resultados bastante atrativos, que possam se converter em vantagens sobre a concorrência e, ao mesmo tempo, atender aos desejos de consumidores cada vez mais exigentes. Neste cenário, especialistas apontam

a capacidade de inovação e o desenvol- vimento tecnológico – fenômenos cujos reflexos impactam diretamente sobre a

geração de emprego e renda, simulta- neamente aos avanços no campo social,

na produção e distribuição de riquezas

– como atributos-chave para atingir tal

objetivo. Porém, embora estas sejam condições decisivas para o crescimento econômico, o quebra-cabeça é mais com- plexo do que parece. Apesar de algumas conquistas signi-

ficativas, o país ainda tem pouca tradição no segmento, no sentido inverso de China

e Índia – nossos competidores diretos no

mercado internacional – que percorrem este caminho a passos cada vez mais lar- gos. Enquanto o Brasil destina em torno de 1% do PIB para pesquisa e desenvolvimen- to, a China ocupa, desde 2005, a terceira

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posição no ranking desse investimento (quando medido em PPP – paridade do poder de compra), com uma taxa de cres-

cimento de 18% ao ano no período de 2000

a 2005, segundo dados da Organização

para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (em inglês, OECD). Numa outra frente, convém ressaltar que a taxa de inovação da indústria, dos serviços selecionados (edição, teleco- municações e informática) e do setor de pesquisa e desenvolvimento (P&D) cresceu de 34,4% no período 2003-2005

para 38,6% entre 2006 e 2008, conforme a Pesquisa de Inovação Tecnológica (Pintec) 2008, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em parceria com a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). Foram investigadas, ao todo, 106,8 mil empresas, das quais aproximadamente 41,3 mil implementaram produto e/ou processo novo ou substancialmente aprimorado. Isso significa que, das 100,5 mil empre- sas industriais, 38,1% foram inovadoras, percentual inferior ao observado no setor de P&D, cujo índice chegou a 97,5%, e nos serviços selecionados, 46,2%. Esta é

a maior taxa de inovação do setor indus-

trial desde que a pesquisa começou a ser realizada em 2000, quando o percentual foi de 31,5%, subindo para 33,3% em 2003 e 33,4% em 2005. Buscando entender os principais de- safios do setor produtivo frente ao uso de novas tecnologias nos processos de produção, Indústria Regional convidou representantes de duas empresas da região, que aceitaram compartilhar conosco suas

experiências, ressaltando as principais con- quistas, ao mesmo tempo em que apontam alternativas para minimizar os obstáculos

à inovação.

Mais agilidade, Menos perdas “A presença da tecnologia no processo produtivo aumenta a confiabilidade dos da- dos e permite que eles sejam transmitidos praticamente em tempo real, possibilitando ao gestor tomar decisões precisas, mais rapidamente. Ganhamos em qualidade, tempo de produção e redução de perdas. Este conjunto nos torna mais ágeis”. As palavras do diretor industrial da Arjowi- ggins, Valdeque Luis Roveri, sintetizam alguns dos benefícios que a empresa obteve quando resolveu apostar no uso de tais recursos. Líder na produção de papéis especiais

e com aplicações técnicas, a Arjowiggins

Security diversificou suas atividades ao longo dos anos, para satisfazer seus clien- tes e necessidades do mercado, conforme ressalta Valdeque. Atualmente, se destaca na confecção de documentos biométricos (e-documents) e na proteção de produtos contra falsificação e comércio ilícito para

o setor público e privado. Para fabricar papel-moeda, documen- tos de segurança (passaporte eletrônico, documentos oficiais, meios de pagamento, tickets, outros) e papéis finos – dentre os vários produtos que fazem parte de seu portfólio – a organização, que possui unidade em Salto, dispõe de um sistema integrado com dados de composições do produto, rotinas de trabalho, materiais, cus- tos e produtividade, que gera um relatório unificado com todas as informações e seus respectivos parâmetros para uma gestão adequada da produção, evitando erros e alterações de procedimentos. De acordo com o diretor, a dinamiza- ção de processos é uma necessidade im- posta pelo rápido crescimento da economia brasileira e dos países considerados emer- gentes, em detrimento àqueles que foram

diretor industrial da arjowiggins, Valdeque luis roveri gerente industrial da sorocaba refrescos, cláudia Jarra abatidos

diretor industrial da arjowiggins, Valdeque luis roveri

diretor industrial da arjowiggins, Valdeque luis roveri gerente industrial da sorocaba refrescos, cláudia Jarra abatidos

gerente industrial da sorocaba refrescos, cláudia Jarra

abatidos pelas crises de 2008 e 2011-2012. “A globalização criou um padrão mundial de qualidade, de boa qualidade. AArjowi- ggins possui a maior capacidade produtiva de papéis de segurança e papéis finos por investir intensamente em equipamentos e recursos atualizados, implantando continuamente novas tecnologias – as mesmas utilizadas pelas nações conside- radas fortes – que atendem as exigências do mercado”, detalha. Na busca pela excelência, o Grupo Arjowiggins conta com nove unidades produtivas – localizadas na Europa e nas Américas, que, juntas, atendem a deman- da de 140 países – e mantém três centros de pesquisa e desenvolvimento no velho continente, que fornecem suporte para toda a companhia. “Tanto na Europa como no Brasil fazemos parcerias com algumas universidades para a implantação de alguns projetos especiais”, enfatiza. Em contrapartida, a opção por tal modelo de produção implica em algumas barreiras a serem vencidas. A primeira delas é o que Valdeque chama de “rejei- ção natural”. Segundo ele, são comuns os questionamentos sobre a necessidade de um novo sistema / processo / tecnolo- gia, uma vez que “sempre foi feito desta forma”. Para amenizar esta situação, a empresa realiza treinamentos para capa- citar todos os envolvidos no processo, a fim de esclarecer a todos sobre as vanta- gens da mudança.

Outra possibilidade que não deve ser des- cartada é a ocorrência de uma pane. Valdeque faz questão de ressaltar que a Arjowiggins investe, prioritariamente, em manutenção preventiva, mas se, mesmo assim, os equipa- mentos apresentarem defeitos, a companhia possui um plano de contingência ou um backup de alguns recursos considerados primordiais, além da parceria com os fabri- cantes, que prestam assistência de muitas maneiras, “até pela internet”, enfatiza. Questionado sobre o impacto que o uso da tecnologia traz para os colaborado- res, o executivo é enfático ao reafirmar a exigência de capacitação. Mas, ao mesmo tempo, esta é uma oportunidade para os trabalhadores crescerem com a empresa. “Recentemente, muitos funcionários participaram do curso de inclusão digital oferecido pela Arjowiggins. Eles sentiram a necessidade de se familiarizar mais com o computador, já pensando em novas oportunidades que poderão surgir”, entu- siasma-se. Em função da complexidade do processo produtivo, nenhuma das linhas de produção é totalmente automatizada. A ex- ceção cabe a alguns processos de seleção, para gerar maior confiabilidade no sistema qualitativo. “Mas sempre precisaremos de funcionários capacitados para operar o sistema de forma adequada”, finaliza.

ForMação especíFica A preocupação em qualificar os traba- lhadores também se estende à Sorocaba

Refrescos, eleita por três vezes conse- cutivas uma das 150 melhores empresas para se trabalhar no Brasil, segundo guia elaborado pelas revistas Você S/A e Exa- me. Com um portfólio composto por mais de 200 produtos, a fabricante do Sistema Coca-Cola atua em 60 municípios do Inte- rior paulista, incluindo-se aí Itu e Salto. “Nosso foco é treinar os colaboradores para o melhor uso da tecnologia, especial- mente nas áreas de manutenção industrial. Não basta somente conhecimento mecâ- nico ou elétrico: é necessária formação específica em automação, instrumentação e programação, entre outros setores. O perfil mudou e, se as empresas não se adequarem, o risco de avarias e perdas operacionais é relevante”, alerta a gerente industrial Cláudia Jarra. Assim como Valdeque, a gerente acre- dita que os novos recursos contribuem para agregar, somar, uma vez que a mão-de-obra nunca será totalmente dispensável: haverá, porém, uma diferenciação, tendo como premissa o maior envolvimento e respon- sabilidade. Na Sorocaba Refrescos, mesmo nas linhas de produção integralmente au- tomatizadas, a intervenção humana ainda se faz necessária para correção de falhas ou monitoramento de processos. Entre os vários benefícios propor- cionados, destaca-se, principalmente, a redução de custos, sem nenhum prejuízo ao produto final. Como exemplo, Cláudia cita o tratamento de açúcar por troca iô-

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nica, que, como o próprio nome sugere, consiste na remoção de íons – que confe-

rem gosto, odor e cor – do açúcar cristal, possibilitando a obtenção de um Xarope Simples Clarificado isento de impurezas.

O processo traz agilidade e segurança, ao

mesmo tempo em que obedece aos parâ- metros de qualidade para a fabricação do refrigerante. Outra mudança vantajosa foi a adoção

do sistema de refrigeração indireta, que eli- minou o uso de amônia – componente-base

no antigo método – dentro da sala de envase, minimizando riscos de vazamentos ou aci- dentes. O novo modelo também permite que

a sanitização e limpeza sejam realizadas em todos os equipamentos, garantindo assim assepsia total das linhas de envase. Numa outra frente, a Sorocaba Refres- cos também se destaca por compartilhar inovação com os seus clientes. A empresa distribui uma linha de geladeiras com o dispositivo EMS-55 – inovação patente- ada pela The Coca-Cola Company – que possibilita uma economia média de 35% de energia. O sensor estabelece um perfil de funcionamento, baseado no fluxo de pessoas e na abertura de portas. Quando o estabelecimento está fechado,

a geladeira passa a funcionar com as luzes apagadas e temperatura no modo standby

– sem afetar a integridade do produto, uma

vez que a porta não será aberta – voltando ao modo operacional (de 0ºC a 5ºC) duas horas antes da abertura do ponto de venda. No controlador, há um painel que indica a temperatura interna e emite mensagens de alerta em caso de falhas, além de evitar o superaquecimento do compressor. “A tecnologia sempre será a principal aliada das empresas que possuem grande diversidade de produtos e precisam oti- mizar e flexibilizar processos, garantindo qualidade e produtividade sem desperdí- cios. A cada dia produtos e embalagens são elaborados, restrições são exigidas. Para apoiar e sustentar tantas inovações, este é um recurso essencial”, finaliza Cláudia, que aproveita para lembrar que a Sorocaba Refrescos disponibiliza canais de informações aos mais diversos públicos, inclusive instituições de ensino e pesquisa, sendo uma delas a Visita à Fábrica para acadêmicos e técnicos.

para fabricar papel- moeda, documentos de segurança (passaporte eletrônico, documentos oficiais, meios de pagamento,

para fabricar papel- moeda, documentos de segurança (passaporte

eletrônico, documentos oficiais, meios de pagamento, tickets, outros) e papéis finos

– dentre os vários

produtos que fazem

parte de seu portfólio

– a arjowiggins

dispõe de um sistema integrado com dados de composições do produto, rotinas de trabalho, materiais, custos e produtividade

Tecnologia x emprego

Com base no depoimento de nossos entrevistados, não é difícil perceber que o impacto do uso da tecnologia sobre o nível de emprego é alvo de muitas discussões. A esse respeito, sobressaem-se duas correntes de pensamentos bastante distintas: para o primeiro grupo, assim como na antológica cena do filme “Tempos Modernos” (1936) – escrito, produzido, dirigido, escrito e estrelado por Charles Chaplin – o homem é “engolido pela máquina”. Partindo desse pressuposto, a respon- sabilidade pelo desaparecimento de várias categorias de ocupação na indústria – e, consequentemente, dos respectivos postos de trabalho – é atribuída às novas tecno- logias. Como o setor de serviços vive um processo semelhante, é incapaz de absor- ver essa mão-de-obra, impedindo que o índice de desemprego seja estancado. A explicação para este fenômeno é simples:

em busca de maior competitividade, houve uma reestruturação no setor produtivo, tendo como alicerce novos mecanismos de racionalização do trabalho, que também garante mais produtividade e aumento nos lucros.

Na contramão, os defensores da inova- ção defendem que, embora tal estratégia economize mão-de-obra humana – mais acentuadamente no caso de trabalhadores não qualificados – também abre novas oportunidades às empresas, que estão di- retamente atreladas à conquista de outros mercados, fazendo com que o nível de emprego nessas firmas volte a crescer, com remunerações maiores ao que era registrado anteriormente. A teoria é ratificada por pesquisas. Se- gundo o estudo “Tecnologia, Exportação e Emprego”, divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em 2006, as empresas mais inovadoras do país tiveram um crescimento no número de em- pregos formais da ordem de 29% no período de 2000 a 2004, contra uma média de 19% em toda a economia brasileira. Destaca-se também o fato de que, nas inovadoras, a remuneração supera em 12% os valores pagos pela indústria e são 23,4% mais altos do que os salários das empresas que não investem em inovação. Em documento publicado no site do Departamento Intersindical de Estatística

e Estudos Socioeconômicos (Dieese) – que

é um órgão unitário do Movimento Sin- dical Brasileiro – as entidades reafirmam seu “apoio firme” ao avanço científico e tecnológico, no tocante ao setor produtivo. “O posicionamento se dá em função dos benefícios que tais avanços podem trazer

para as condições de vida da população – no caso da introdução de inovações que dêem respostas ao enfrentamento de problemas crônicos que a afligem, como doenças, po- luição, baixa mobilidade nos centros urba- nos, dentre outros, elevando sua qualidade de vida – ou em função das possibilidades de elevação da riqueza, propiciadas também pela introdução das inovações”. Ainda de acordo com a nota técnica, o progresso técnico não conduz, automati- camente, ao desenvolvimento econômico

e social. “Este ponto de chegada pode ser

alcançado, mas dependerá profundamente da trajetória que se percorrerá. E esta, por sua vez, tem a ver com as escolhas que se- rão feitas, escolhas estas que deveriam ser pautadas pelas possibilidades de difusão dos potenciais efeitos benéficos dos esforços nas áreas de ciência, tecnologia e inovação”.

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