PROPEDÊUTICA
Introdução ao
Estudo do Direito
Prof. Biló
EFICÁCIA
Os doutrinadores costumam
analisar a eficácia sob dois prismas
bem distintos:
a) Eficácia Social, e
b) Eficácia Jurídica.
EFICÁCIA SOCIAL
Significa que a lei deverá atingir os
anseios de toda uma sociedade.
Com o decorrer dos anos uma lei
pode tornar-se obsoleta e não mais
refletir a realidade dos fatos.
A sociedade muda e o direito tem
que acompanhar estas mudanças.
A lei não mais atinge os valores
sociais de seu tempo.
Poderíamos citar como um exemplo
de uma norma que não mais atinge
a eficácia social o art. 234 do
Código Penal. Este artigo trata do
crime de escrito ou objeto obsceno.
Vejamos:
Art. 234 - Fazer, importar, exportar,
adquirir ou ter sob sua guarda, para
fim de comércio, de distribuição ou
de exposição pública, escrito,
desenho, pintura, estampa ou
qualquer objeto obsceno:
Pena - detenção, de seis meses a
dois anos, ou multa.
Parágrafo único - Incorre na mesma
pena quem:
I - vende, distribui ou expõe à venda ou
ao público qualquer dos objetos
referidos neste artigo;
II - realiza, em lugar público ou acessível
ao público, representação teatral, ou
exibição cinematográfica de caráter
obsceno, ou qualquer outro espetáculo,
que tenha o mesmo caráter;
III - realiza, em lugar público ou
acessível ao público, ou pelo rádio,
audição ou recitação de caráter
obsceno.
B) EFICÁCIA JURÍDICA: É a
possibilidade técnica que a norma
tem de produzir efeitos de forma
concreta, real.
A lei deve estar completa, apta para
produzir todos os efeitos no mundo
jurídico. Se a norma depende de
um complemento e este não existe,
tecnicamente ela é inaplicável.
Ex.: Entrou uma lei em vigor
aplicando isenção fiscal para a
importação de produtos
hospitalares durante o período da
pandemia. Esta lei também dispõe
que um decreto do Poder Executivo
especificará a relação de quais
produtos serão objeto desta
isenção fiscal.
Desta forma, a norma só terá total
eficácia jurídica quando o Poder
Executivo expedir o Decreto e
apontar quais são os produtos que
poderão ser importados com
isenção fiscal. Se este Decreto
nunca for expedido de nada valerá a
lei de isenção fiscal. Não possui
eficácia técnica jurídica.
REVOGAÇÃO
Uma lei é criada, em regra, para
vigorar por um período de tempo
indeterminado mantendo a sua
eficácia. A sua vigência cessará com
sua revogação por outra lei.
Exceções à regra seriam as leis
temporárias e excepcionais.
É o que dispõe o art. 2º da LINDB:
“Não se destinando à vigência
temporária, a lei terá vigor até que
outra a modifique ou revogue.”
Vimos que uma das características
da lei é ser ela permanente
(princípio da continuidade).
Também vimos que ela também
manterá a sua eficácia pelo tempo
que durar, criando direitos e
obrigações.
A revogação, portanto, seria a
supressão de uma lei do
ordenamento jurídico por outra lei
da mesma hierarquia ou de
hierarquia superior fazendo com
que ela perca a sua vigência e sua
respectiva eficácia. Afirma a
professora Maria Helena Diniz
que o ato de revogar consiste em
“tornar sem efeito uma norma,
retirando sua obrigatoriedade.
Revogação é um termo genérico,
que indica a ideia da cessação da
existência da norma obrigatória”
A revogação de uma lei, quanto à
sua extensão, comporta duas
espécies: total ou parcial.
A revogação total é também é
conhecida como ab-rogação.
Trata-se da na supressão integral da
lei anterior. Ex.: O atual Código Civil
através do art. 2.045 revogou
integralmente o C.C. de 1916.
A revogação parcial é também é
conhecida como derrogação.
Trata-se da supressão de apenas
uma parte da lei anterior.
Ex.: A Lei de Adoção (Lei 12.010 de
03/08/2009) revogou o parágrafo
único do art. 1.618 e os arts. 1.620
a 1.629 do atual Código Civil.
A perda da eficácia pode decorrer
não só pela revogação, mas,
também, pela decretação de sua
inconstitucionalidade pelo Supremo
Tribunal Federal, cabendo,
entretanto, ao Senado Federal
suspender-lhe a execução (CF,
art. 52, X), pois as leis são
emanadas do Poder Legislativo.
Uma lei somente pode ser revogada
por outra lei se esta emanar, no
mínimo, da mesma fonte que
aprovou o ato revogado.
Assim, se a norma for de natureza
constitucional, somente através do
de uma emenda constitucional a
Constituição poderá ser modificada
ou revogada (CF, art. 60).
Quanto à forma de sua execução, a
revogação da lei pode ser expressa
ou tácita.
Expressa, quando a lei nova
declara, de modo taxativo e
inequívoco, que a lei anterior, ou
parte dela, fica revogada (LINDB,
art. 2º, § 1º, primeira parte).
Tácita, quando não contém
declaração nesse sentido, mas
mostra-se incompatível com a lei
antiga ou regula inteiramente a
matéria de que tratava a lei anterior
(art. 2º, § 1º, última parte).
A revogação, neste caso, ocorre por
via oblíqua ou indireta.
§ 1º A lei posterior revoga a anterior
quando expressamente o declare,
quando seja com ela incompatível ou
quando regule inteiramente a
matéria de que tratava a lei anterior.
Vimos anteriormente que as leis
podem ser especiais, podendo
coexistir as normas de caráter geral
e as de caráter especial.
Havendo incompatibilidade entre
elas deverá prevalecer a norma
especial justamente por tratar de
uma matéria específica.
A § 2º A lei nova, que estabeleça
disposições gerais ou especiais a
par das já existentes, não revoga
nem modifica a lei anterior.
ANTINOMIAS
Por tudo que já expomos
anteriormente agora devemos
tratar do tema denominado
antinomia da norma jurídica.
De forma simplificada Carlos
Roberto Gonçalves (2023:27) define
a antinomia como sendo a presença
de duas normas conflitantes.
Isto significa que existem, no
mínimo, duas normas jurídicas
incompatíveis dentro do
ordenamento (sistema) jurídico.
As antinomias jurídicas são o
resultado de uma ausência de
homogeneidade na lei.
Essas contradições podem ocorrer
por diversas razões.
Pode ser que ocorra através de uma
falha na elaboração da lei; ou,
mudanças na sociedade que tornam
a norma obsoleta.
Tal fenômeno não poderá ocorrer,
pois somente uma norma deverá
ser aplicada para regular um fato
juridicamente relevante.
Assim, é mister que se busque
soluções (critérios) para a solução
de eventuais antinomias, pois o
ordenamento jurídico deverá ser
coerente para trazer segurança
jurídica e certeza de aplicação do
direito.
Portanto, a primeira coisa a se fazer
para a resolução do conflito de leis
é identificar qual norma tem
prioridade sobre a outra.
A doutrina apresenta três critérios
básicos para a solução dos conflitos.
Já tivemos a oportunidade de
mencioná-los ao longo das aulas.
São eles:
a) critério hierárquico (a norma
superior prevalecerá sobre a
inferior);
b) critério cronológico ou temporal
(a norma posterior prevalecerá
sobre a anterior);
c) critério da especialidade (a
norma especial prevalecerá sobre a
geral);
Havendo apenas um conflito com a
solução de um dos critérios chama-
se de antinomia de 1º grau.
Entretanto, se houver o
envolvimento de dois critérios
teremos a antinomia de 2º grau.
A doutrina costuma diferenciar as
antinomias em reais e aparentes.
Antinomia aparente é a situação
que pode ser resolvida com base
nos critérios acima mencionados.
Antinomia real é o conflito que não
pode ser resolvido mediante a
utilização dos aludidos critérios.
A solução deverá ser solucionada
pelo Judiciário, pois estaremos
diante de uma lacuna existente.
Na verdade, o que existe é um vazio
legislativo, uma ausência de uma
norma
Desta forma, o juiz aplicará a
analogia, os costumes, princípios
gerais do direito etc. para suprir a
lacuna.
Poderá, também, haver um conflito
entre os critérios (hierárquico,
Em primeiro lugar sempre
prevalecerá o critério hierárquico
quando houver o confronto deste
com o critério cronológico ou
especial.
Havendo um conflito entre o
critério cronológico e o de
especialidade este sempre
prevalecerá.
REPRISTINAÇÃO
Em regra o nosso direito não admite
o fenômeno da repristinação, que é
a restauração da lei revogada pelo
fato da lei revogadora ter perdido a
sua vigência.
Esta disposição está prevista no § 3º
da LINDB:
“salvo disposição em contrário, a lei
revogada não se restaura por ter a
lei revogadora perdido a vigência”.
Assim, para que haja o fenômeno
da repristinação deverá haver um
pronunciamento expresso do
legislador admitindo-a.
A Lei “A” revogou a Lei “B”. Vem a
Lei “C” e revoga a Lei “B”.
Isto não significa que a Lei “A” será
restaurada automaticamente
passando a ter validade, vigência e
eficácia.
Só entrará em vigor e terá eficácia
jurídica se a Lei “C” assim
determinar.
IGNORÂNCIA DA LEI
A ignorância da lei trata-se de um
fenômeno que ocorre quando um
indivíduo deixa de cumprir
determinada norma legal por
desconhecimento de sua existência
ou conteúdo.
Ainda que seja compreensível sua
ocorrência em casos isolados,
principalmente, quando se trata de
uma norma muito específica, a
ignorância não deve ser vista como
uma justificativa para o
descumprimento da lei.
Sobre o assunto trata o art. 3º da
LINDB:
“Ninguém se escusa de cumprir a
lei, alegando que não a conhece”.
Três teorias procuram justificar a
motivação de sua existência.
a) Presunção Legal: Uma vez que a
lei foi publicada presume-se o seu
conhecimento por todos.
b) Ficção Legal: Trata-se de uma
invenção para justificar a realidade.
c) Necessidade Social: É a mais
aceita. Sustenta que a lei é
obrigatória e deve ser cumprida por
todos em nome da convivência
social e jurídica, garantindo-se a
segurança do ordenamento jurídico.
LACUNAS E INTEGRAÇÃO
Vimos anteriormente que o direito
é um sistema de normas jurídicas
(ordenamento jurídico) que tem por
escopo regular as relações sociais,
mantendo-se, assim, a ordem
jurídica.
No entanto, existem situações que
não estão expressamente previstas
e que podem gerar dúvidas e
incertezas. Essas situações são
consideradas lacunas do direito,
onde não existem normas que
disciplinem determinados fatos,
pois o legislador não pode prever
todas as situações futuras.
É importante ressaltar que embora
existam as lacunas no direito não
quer dizer que haverá ausência de
regra jurídica para a solução de
eventuais conflitos, mas sim há
apenas a falta de uma norma
específica para determinada
situação.
Os motivos pelos quais existem as
lacunas do direito podem ter várias
origens, sendo que o principal é a
modificação dos valores sociais de
forma mais rápida que a produção
legislativa. Assim, surgem novas
situações fáticas não previstas em
lei em decorrência da falta de uma
atualização da legislação.
O artigo 5º, inciso XXXV, da
Constituição Federal vigente, que
dispõe que: “a lei não excluirá da
apreciação do Poder Judiciário lesão
ou ameaça a direito”.
Desta forma, ainda que exista uma
lacuna no ordenamento jurídico
para o caso concreto o juiz deverá
solucioná-lo.
Também dispõe o art. 140 do CPC
que “O juiz não se exime de decidir
sob a alegação de lacuna ou
obscuridade do ordenamento
jurídico”.
No mesmo sentido dispõe o art. 4º
da Lei de Introdução às Normas do
Direito Brasileiro.
Art. 4o Quando a lei for omissa, o
juiz decidirá o caso de acordo com a
analogia, os costumes e os
princípios gerais de direito.
A este fenômeno de preencher as
lacunas existentes denomina-se
INTEGRAÇÃO DA NORMA.
Desta forma, o sistema torna-se
pleno, íntegro, completo e dá-se
segurança e certeza de aplicação do
direito e o cidadão terá garantida a
aplicação da justiça.