P. 1
Marxismo&Ciências Humanas-2011

Marxismo&Ciências Humanas-2011

5.0

|Views: 3.078|Likes:
Publicado porSérgio Braga

More info:

Categories:Types, Research
Published by: Sérgio Braga on Jul 17, 2012
Direitos Autorais:Public Domain

Availability:

Read on Scribd mobile: iPhone, iPad and Android.
download as PDF, TXT or read online from Scribd
See more
See less

07/11/2013

pdf

text

original

UFPR/SCHLA

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE
Ensaios em comemoração aos 15 anos de Crítica Marxista

Org. Sérgio Braga, Pedro Leão da Costa Neto, Marcos Vinícius Pansardi e Adriano Codato.

1ª Edição Curitiba-PR

Coletânea de textos apresentados no evento realizado em Curitiba em Homenagem aos 15 anos da revista CRÍTICA MARXISTA.

Capa

Gustav Diaz
gustaveaux@gmail.com

Diagramação
Marti Pansardi martiguerreiro@yahoo.com.br

UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ SISTEMA DE BIBLIOTECAS BIBLIOTECA CENTRAL COORDENAÇÃO DE PROCESSOS TÉCNICOS Ficha catalográfica Universidade Federal do Paraná. Setor de Ciências Humanas, U58 Letras e Artes. Marxismo & Ciências Humanas : leituras sobre o Capitalismo num contexto de crise: ensaios em comemoração aos 15 anos de Crítica Marxista / Org. Sérgio Braga... [et al.]. -- Curitiba, 2011. 161p. Vários autores Coletânea de textos apresentados no evento realizado em Curitiba em homenagem aos 15 anos da revista Crítica Marxista. Inclui referências e notas ISBN - 978-85-99229-08-8 1.Capitalismo. 2. Ciências Sociais – Coletânea. 3. Marxismo – Discursos, ensaios, conferências. 4. 15 anos de Crítica Marxista. I. Braga, Sérgio. II. Título. CDD 22.ed. 335.4 Samira Elias Simões CRB-9/ 755

SCHLA/UFPR,2011

Sumário

Pág.
Apresentação (Os organizadores) _______________________________ Caio Navarro de Toledo: Desafios e problemas de uma publicação marxista no Brasil: Crítica Marxista faz 15 anos._________________ Armando Boito & Luiz Eduardo Motta: Karl Marx no Brasil.________ João Quartim de Moraes: O marxismo e os impasses do capitalismo contemporâneo. ___________________________________________ Isabel Loureiro: A recepção de Rosa Luxemburgo no Brasil._______ Robespierre de Oliveira: A teoria crítica como teoria da mudança social: o marxismo de Marcuse. ______________________________ Anita Helena Schlesener: Gramsci e a cultura de seu tempo: observações sobre arte e literatura.____________________________ Marcos Vinícius Pansardi: Gramsci e as Relações Internacionais: hegemonia, dependência e imperialismo. ______________________ Francisco Paulo Cipolla: A evolução da teoria da crise em Marx. ____ Claus Germer: As tendências de longo prazo da economia capitalista e a transição para o socialismo. ______________________________ Sérgio Braga: Nicos Poulantzas, as elites e a sociologia política norte-americana. __________________________________________ Adriano Codato: Política, ciência e ideologia: sobre o "teoricismo" de Nicos Poulantzas. ______________________________________ Pedro Leão da Costa Neto: Notas introdutórias sobre o desenvolvimento do marxismo no Leste Europeu.______________ Ligia Regina Klein: A luta pelas leis fabris do século XIX e a definição das idades do trabalho: um estudo sobre a constituição das noções de infância e adolescência. ________________________ 5 7 17 27 43 59 71 85 101 117 139 165 175 185

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

Apresentação
(Os organizadores) Os textos que constam desta publicação resultaram de trabalhos que foram apresentados no evento Marxismo e Ciências Humanas: leituras sobre o capitalismo num contexto de crise, realizado em Curitiba em novembro de 2009 e destinado a comemorar os 15 anos de lançamento da revista CRÍTICA MARXISTA. Mais do que uma efeméride, o evento destinava-se a debater com um público mais amplo do que aquele estritamente universitário algumas questões teóricas importantes abordadas por esta revista ─ e podemos dizer pelo marxismo de uma maneira geral ─ ao longo de sua existência. Além disso, buscava-se ao mesmo tempo ilustrar a vocação interdisciplinar e pluridimensional desta perspectiva de análise, que desde suas origens transitou por diversas disciplinas tais como a filosofia, a economia, a sociologia política, e mesmo a crítica literária e cultural, dentre outras formas de produção teórica no campo das ciências humanas. Tudo isso explica algumas das características dos artigos contidos na presente coletânea: a) em primeiro lugar, seu tom didático e não-academicista, na medida em que resultaram de debates e intervenções dos quais tomaram parte não apenas pesquisadores universitários, mas também uma audiência externa aos muros acadêmicos e interessada em tomar contato com algumas das contribuições gerais da problemática teórica marxista; b) em segundo lugar, sua natureza interdisciplinar, abrangendo desde testemunhos e tentativas de auto-análise dos editores da revista sobre a trajetória da publicação ao longo dos anos, até ensaios nos campos da história do pensamento político, filosofia, economia, teoria política, relações internacionais e sociologia da educação; c) por fim, sua perspectiva crítica já que praticamente todos os artigos reunidos nesta publicação trazem embutidos dentro de si uma dimensão “normativa” que busca refletir sobre

5

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

horizontes históricos situados para além dos sistemas sociais capitalistas realmente existentes no mundo contemporâneo. Tendo em vista esses fatores, a expectativa dos organizadores é a de que a presente coletânea cumpra de maneira satisfatória os objetivos não apenas de prestar uma homenagem ao esforço militante dos editores de CRÍTICA MARXISTA por terem mantido regularmente uma publicação do gênero ao longo de todos estes anos e em condições muitas vezes adversas, mas também o de ilustrar para um público não estritamente especializado o vigor de um tipo específico de leitura teórico-política da realidade social moderna cujas potencialidades e desdobramentos teóricos e empíricos estão longe de terem se esgotado.

Sérgio Braga Pedro Leão da Costa Neto Marcus Vinícius Pansardi Adriano Codato

6

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

Desafios e problemas de uma publicação marxista no Brasil: Crítica Marxista faz 15 anos 1
F

Caio Navarro de Toledo (Unicamp)2 ORIGENS: BREVE HISTÓRICO Dezessete anos atrás alguns professores e pesquisadores, na sua maioria da Unicamp, reuniram-se para discutir a possibilidade de criação de uma revista marxista. Nessa conjuntura histórica, a celebração do fim do socialismo e a hegemonia da doutrina neoliberal tornavam este projeto um enorme desafio intelectual e político. Duas formulações – amplamente difundidas pela mídia em todo o mundo – sintetizavam o contexto ideológico do período: 1) o triunfo da democracia liberal teria decretado o “fim da história” e das ideologias (Francis Fukuyama) e 2) “não existiria mais alternativa ao capitalismo” [tal como a expressão inglesa “There is no alternative” (Tina) buscava exemplificar]. Os tempos, pois, se configuravam difíceis para os socialistas e marxistas. Desde 1992, diversos encontros se sucederam visando definir o projeto editorial da publicação (seus objetivos, conteúdo, periodicidade etc.) bem como a busca de uma editora comercial que aceitasse publicar uma revista... de esquerda e marxista. Faço uma breve uma digressão de natureza “sociológica”: o que explicava a presença majoritária de acadêmicos da Unicamp na discussão desse projeto editorial? Como explicar a presença de apenas um professor da USP nestes encontros?
O texto que se segue orientou a intervenção do autor na abertura do Congresso “Marxismo e Ciências Humanas”. Como foi esclarecido no início da sessão, as formulações aqui desenvolvidas são da estrita responsabilidade do autor; ou seja, não expressam elas, necessariamente, o pensamento do conjunto do comitê editorial da revista Crítica Marxista.
1 2

Caio Navarro de Toledo é professor colaborador do IFCH/Unicamp.

7

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

Descartando a hipótese do sectarismo por parte dos docentes da Unicamp, a razão parece ser simples: nos anos 1980 e 1990 a teoria marxista deixou de ser uma referência relevante para a reflexão e a pesquisa dos professores da USP, ao contrário do que tinha ocorrido nos anos 1960 e 1970. Embora nestes anos a teoria marxista nunca tivesse sido dominante no interior dos Departamentos de Filosofia, Ciências Sociais e História da USP, era inegável que seus docentes não eram indiferentes ao marxismo. O contexto político e ideológico dos dois períodos – governo Jango e a resistência à ditadura – certamente foi decisivo para explicar o interesse pela teoria marxista. Como também observou Roberto Schwartz, embora a direita tenha sido politicamente vitoriosa em 1964, durante a ditadura, a hegemonia no plano cultural e no debate das idéias não deixava ser de esquerda. Assim, se a obra de Marx não era regularmente ministrada nas disciplinas de graduação da USP, não era, porém, ignorada por seus docentes. Ignoradas eram, sim, as obras de Engels, Lênin, Rosa bem como as de outros clássicos do marxismo. Sabe-se que a obra decisiva de Marx, O capital, foi objeto de um famoso grupo de estudos na USP; segundo alguns, este Seminário teve duas edições. Na primeira, de fins dos anos 1950 até início dos anos 1960, estavam professores que alcançariam notoriedade nas décadas seguintes: FHC, José Arthur Giannotti, Paul Singer, Fernando Novais, Octavio Ianni, Francisco Weffort e outros; na sua 2ª. edição – segundo um artigo de E. Sader –, estavam presentes jovens assistentes e pesquisadores; entre eles, João Quartim, Roberto Schwartz, Ruy Fausto, Emília Viotti, Sérgio Ferro, Michel Löwy, Emir Sader, Lourdes Sola e outros. Se, de fato, ocorreram as duas edições do grupo sobre O Capital, verifica-se que a 1ª. edição teve um caráter eminentemente acadêmico (em uma palavra, a obra de Marx interessava basicamente pelo seu caráter metodológico), enquanto a segunda edição estava mais interessada pela dimensão política do marxismo. Isto se evidenciaria pelo título da revista criada em fins dos anos 1960: Teoria e Prática, editada por Rui Fausto, Roberto Schwartz, M. Löwy e S. Ferro. Nos anos 1980 e 1990, contudo, a teoria marxista deixaria de estar presente nas cogitações dos filósofos e cientistas sociais da USP. A rigor, hoje na USP, é possível contar na palma da mão o número de professores que se reivindica marxista. Nos anos 1990, na Unicamp, particularmente no IFCH, o marxismo era uma referência importante e obrigatória nas aulas, na reflexão e nos trabalhos de vários de seus docentes. Isto explicaria que, nos meios acadêmicos

8

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

dos anos 1990, uma publicação de orientação marxista apenas poderia surgir das iniciativas de alguns docentes da Unicamp. Assim, com a colaboração de dois colegas de universidades federais e um da USP, alguns professores da Unicamp formularam um projeto editorial que navegaria na contracorrente de duas intensas celebrações: a de mais uma morte do marxismo e a do avanço do capitalismo neoliberal em todo o mundo. Um projeto editorial – consubstanciado num Manifesto de fundação – foi formulado e amplamente difundido nos meios acadêmicos de todo o país. A enorme receptividade e o entusiasmo provocados pelo documento convenceram-nos definitivamente do acerto de nossa iniciativa intelectual e política. Impunha-se, pois, criar uma revista que reafirmasse a relevância e a atualidade da teoria marxista. Citemos as palavras iniciais do texto fundador da revista pois elas esclareciam o contexto intelectual e ideológico em que surgia a revista e seus principais objetivos:
“Nenhuma teoria teve a sua morte tantas vezes anunciada como o marxismo. O último desses anúncios fúnebres afirma que o marxismo teria sido superado na medida em que os trabalhadores repudiaram seus livros, suas teorias e seus símbolos. No Leste da Europa e na antiga URSS, não restariam hoje senão os escombros do socialismo e do marxismo (...) Contra essa velha impostura reativada com a virulência que as atuais circunstâncias propiciam à reação internacional, é sempre tempo de relembrar que o marxismo continua sendo o instrumento teórico decisivo e insubstituível para a análise e transformação da realidade social contemporânea”.

CRIAÇÃO E OBJETIVOS DA REVISTA Em 1994, foi lançado o primeiro no. de CRÍTICA MARXISTA. A expressão crítica no nome não foi uma decisão arbitrária, pois buscava identificar o projeto intelectual da revista. Por meio desta noção, desejávamos afirmar que a teoria marxista é uma obra de natureza eminentemente crítica; crítica da economia política,

9

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

crítica da filosofia idealista, crítica da ideologia burguesa, crítica do Estado burguês e da ordem capitalista. Ressalve-se, contudo, que esta abrangente crítica não estaria fundada em bases idealistas ou voluntaristas; para os editores da revista, o materialismo histórico é o fundamento teórico decisivo e insubstituível para a análise, o conhecimento e a transformação da realidade social contemporânea. Para nós, a teoria marxista – que não se confunde com um receituário para a superação de todas as mazelas e contradições do capitalismo – dispõe de recursos analíticos que contribuem para o enfrentamento dos difíceis e complexos desafios intelectuais e políticos de nosso tempo; seus recursos autocríticos igualmente são decisivos para a sua própria renovação conceitual e teórica. Para nós, as teses e os conceitos desenvolvidos nas diferentes vertentes e tradições do marxismo têm sido fecundos instrumentos de pesquisa nos diferentes campos da reflexão teórica – na economia política, nas ciências sociais, na filosofia e na cultura. Desde o inicio, nosso projeto editorial definiu, pois, como seu objetivo central o desenvolvimento e o aprofundamento da teoria marxista. Embora a revista publique artigos e debates sobre questões de ordem conjuntural, nossa “vocação” ou prioridade maior é a de buscar contribuir para a discussão teórica do marxismo no país. Afirmar a importância da dimensão teórica não significa, no entanto, refugiar-se no terreno da pura abstração conceitual ou no do mero teoricismo. Embora reconheçamos que o trabalho teórico tenha uma relativa autonomia, também concebemos que, freqüentemente, na prática social, teoria e política estão indissociadas. Esta dimensão do marxismo clássico – ignorada pelo chamado marxismo ocidental – ocupa um lugar importante no conjunto de nossas convicções básicas. Neste sentido, o parágrafo final de nosso Manifesto deve ser lembrado pois, em certa medida, sintetiza o projeto editorial e político da revista:
“Propugnar a validade teórica do marxismo nunca será um ato gratuito e sem conseqüências. Significa reafirmar (...) a possibilidade histórica da revolução, do fim da exploração capitalista e da emancipação dos trabalhadores”.

10

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

Ao contrário daqueles que se orientam por outras teorias sociais, os marxistas afirmam que estão inteiramente envolvidos com os conflitos sociais e políticos fundamentais de seu tempo. Não havendo espaço para a neutralidade axiológica, cabe aos marxistas identificar quais as opções políticas que, no presente, melhor contribuem para o aprofundamento da luta anticapitalista na direção do socialismo. Como publicação de esquerda e marxista, CM não se posiciona ou se identifica com as correntes existentes dentro do espectro partidário no Brasil e no plano internacional. Pela natureza de nosso trabalho intelectual, a revista não se posiciona sobre questões conjunturais. Nosso engajamento se expressa concretamente pelas questões discutidas e assuntos examinados nas edições da revista. Neste sentido, o posicionamento da revista se revela pelo fato de que nela colaboram e escrevem apenas autores que se orientam pela teoria marxista e têm o socialismo como horizonte político. O ecletismo teórico não tem espaço em CM. Embora a revista não se posicione sobre questões conjunturais, no entanto, em determinadas circunstâncias muito particulares, poderemos tomar determinadas iniciativas editoriais na luta político-ideológica em curso no plano nacional ou internacional. A este respeito, podemos citar duas iniciativas da revista neste ano de 2009: a denúncia do massacre contra o povo palestino (janeiro) e a defesa da liberdade para Cesare Battisti (outubro).

O TRABALHO EDITORIAL: ESPECIFICIDADE, LIMITAÇÕES E DESAFIOS De forma sintética, pode-se afirmar que CM é uma revista que privilegia a pesquisa e o debate teórico pois partimos do pressuposto de que a obra marxista tem lacunas, dificuldades e problemas internos que exigem desenvolvimentos e aprofundamentos conceituais. Por outro lado, reconhecendo que, na atualidade, são várias as correntes teóricas que se reivindicam marxistas, entendemos que, na medida do possível, esta realidade deveria se refletir na composição do comitê e no trabalho editorial da revista.

11

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

Dispensável dizer que o caráter plural da revista impõe que a democracia interna seja uma efetiva realidade no modo de funcionamento do comitê de redação e na produção editorial da revista. Tais características distinguem CM das demais publicações marxistas. Ou seja, o caráter teórico de sua produção, o pluralismo, a democracia interna e a autonomia político-partidária são virtudes do trabalho editorial da revista; tais características a singularizam no conjunto das publicações marxistas e de esquerda, ontem e hoje no Brasil. Quando examinamos os projetos editoriais das demais publicações marxistas existentes no país, evidencia-se a especificidade da intervenção intelectual de CM. Valendo-se da memória – não de uma pesquisa sistemática sobre o assunto –, diria que poucas publicações, no passado e no presente, privilegiaram, de forma sistemática, a obra teórica de Marx, os distintos aspectos da teoria marxista, o debate teórico em torno da luta pelo socialismo bem como as diferentes concepções ou vertentes do marxismo contemporâneo. ESTUDOS SOCIAIS, vinculada ao PCB e publicada do final dos anos 1950 até o golpe de 1964, talvez tivesse, pelo seu caráter inovador e crítico, alguma semelhança com nosso projeto; mas, certamente seus vínculos partidários não deixavam de limitar sua independência política e restringir o debate teórico interno. TEORIA E PRÁTICA, citada anteriormente, na sua curta trajetória (apenas 3 nos. publicados), esteve voltada para a questão teórica, mas seus fortes vínculos com a tendência de esquerda Política Operária certamente comprometiam sua independência política. TEMAS DE CIÊNCIAS HUMANAS, nos anos 1970, também privilegiou a reflexão teórica, mas a orientação fortemente lukacsiana restringia o debate dentro do marxismo. O mesmo poderia ser dito da revista ENSAIO dirigida por José Chasin nos anos 1980 e 1990 e, mais recentemente, editada por seus disciplinados discípulos: a obra de Lukács da maturidade (a Ontologia do ser social) e os trabalhos de Istvan Meszaros são referências obrigatórias dos textos que ali foram publicados. Igualmente de forma esquemática, mas sem que isso implique uma análise arbitrária, tomemos as publicações que hoje, entre nós, se reivindicam marxistas. Começando com a mais antiga: editada há 23 anos, NOVOS RUMOS é uma publicação do Instituto Astrojildo Pereira; originalmente vinculada a intelectuais do antigo PCB, a revista, a rigor, não deixa de manter vínculos com esta linhagem política e intelectual. Embora publique ensaios sobre o marxismo têm eles, contudo, um caráter de divulgação teórica.

12

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

MARGEM ESQUERDA é uma verdadeira sucedânea da revista Praga. Embora publique ensaios marxistas, como informa seu subtítulo, ME não tem como eixo o debate sistemático sobre a teoria marxista e as suas diferentes vertentes teóricas. Tal como seu extenso Conselho editorial, constituído de acadêmicos que têm distantes vínculos com o marxismo, ME publica, com freqüência, textos de autores de esquerda, mas que não assumem o marxismo como orientação teórica central. O estilo ensaístico, como a própria revista reconhece, predomina na produção editorial de ME. Por sua vez, OUTUBRO é uma publicação cuja produção e conselho editoriais estão comprometidos com o pensamento socialista; nas palavras de seus editores: “Outubro é uma ferramenta de discussão e de formação teórico-política daqueles sujeitos sociais comprometidos com a atualização do pensamento socialista”. Ainda na autodefinição da revista, “suas principais características são a ênfase na reflexão crítica e inovadora acerca de problemáticas atuais, o pluralismo no campo da pesquisa e uma abertura às diferentes vertentes do marxismo”. Criada em 1998, verifica-se que, nos últimos anos, amplia-se a participação na revista de autores que não se vinculam aos quadros da IV Internacional; mas, em contrapartida, sua reduzida Secretaria de Redação não deixa de revelar a presença majoritária de acadêmicos que se orientam por esta vertente do socialismo. Lutas Sociais, publicação oficial de um programa de pós-graduação da PUC-SP, é reconhecidamente uma atuante publicação de esquerda e na qual colaboram acadêmicos marxistas; no entanto, em virtude de seu vínculo institucional, não se define como uma revista marxista. Longe desta avaliação está um juízo de valor sobre as revistas aqui nomeadas. O que buscamos ressaltar é a especificidade ou particularidade do projeto editorial de CM quando comparado com o das demais publicações marxistas, ontem e hoje, existentes no país. Acredito que todas estas publicações – desde que se empenhem com rigor e seriedade intelectual na discussão e pesquisa sobre o materialismo histórico – podem desempenhar um papel importante na elaboração e no desenvolvimento do pensamento crítico e transformador no Brasil. Que floresçam mais publicações de esquerda e marxistas de qualidade nos meios acadêmicos e – principalmente – fora deles! Por outro lado, é de se desejar que os editores de revistas marxistas e de esquerda saibam criar formas de cooperação e de relações que permitam difundir ainda mais o pensamento marxista e socialista no Brasil.

13

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

CM completa 15 anos. Isso não deixa de ser uma conquista tendo em vista o caráter efêmero das publicações de esquerda e marxistas no Brasil e em todo o mundo. Para chegar até aqui dificuldades internas e externas foram superadas. Em alguns momentos, divergências e conflitos no interior da editoria dificultaram o funcionamento da revista. Igualmente dificuldades externas existiram: por exemplo, até o presente, cinco foram as editoras que abrigaram nosso projeto editorial. De forma humorada, diria que nossos editores respeitam-nos intelectualmente, mas nem sempre nos tratam bem... Nesta avaliação de nossa trajetória não podemos também deixar de reconhecer importantes limitações. Uma importante limitação de nosso trabalho editorial é a de que atuamos privilegiadamente nos meios acadêmicos pois aqui estão nossos leitores, apoiadores e colaboradores. As tiragens da revista – como das demais publicações universitárias – não ultrapassam 1.500 exemplares. Certamente raros são os dirigentes e militantes dos movimentos sociais e das forças políticas de esquerda que leem a revista. Daí nosso desafio: o de buscar permanentemente responder, de forma criativa, às necessidades políticas e intelectuais dos militantes dos movimentos sociais e políticos transformadores, hoje atuantes no Brasil. O risco do teoricismo se espreita quando não levamos devidamente a sério este desafio político e intelectual. Quando afirmei acima que nossos editores nem sempre nos “tratam bem” pretendia dizer o seguinte: a produção de cada no. da revista praticamente depende apenas dos membros do comitê editorial; as editoras comerciais não colocam seus recursos técnicos e seu pessoal à nossa disposição pois não assumem a revista como parte de seu projeto editorial. Não divulgam nem distribuem a revista de forma ampla e eficiente. Por sua vez, os membros do comitê produzem CM paralelamente às suas atividades docentes e de pesquisa; isso significa que não podemos dedicar tempo integral à revista. Do ponto de vista editorial, um problema recorrente é o de manter a qualidade da revista; se temos condições de publicar traduções de textos de bom nível de revistas estrangeiras, são reduzidos os trabalhos qualificados e originais que chegam à editoria. Em certa medida é o domínio da cultura produtivista e o “império” do curriculum Lattes, hoje presentes na universidade brasileira, que explicam a produção de textos pouco qualificados e, por vezes, de natureza quase escolar.

14

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

Por outro lado, forçoso é reconhecer que nos meios acadêmicos o marxismo cada vez mais deixa de conferir prestígio e notoriedade àqueles que se orientam teoricamente por ele. Pesquisas orientadas pelo marxismo não gozam de maior simpatia e acolhimento por parte de agências financiadoras; centros de estudos marxistas são mantidos sem maiores recursos em algumas universidades; nas reuniões da Anpocs a presença de trabalhos que discutem a teoria marxista é amplamente minoritária. Os marxistas têm dificuldades para publicar seus textos – ou seja, livros e ensaios em periódicos especializados. Quando têm seus livros editados, raramente são eles resenhados; dispensável dizer que os autores marxistas e socialistas não são convidados pela mídia burguesa a divulgar e debater seus trabalhos etc. Tome-se o exemplo de nossa revista: apesar de seus 15 anos de existência, CM é, praticamente, uma ficção para a mídia burguesa. Não obstante as limitações, as dificuldades e as adversidades, creio que temos motivos para comemorar estes 15 anos de existência. Não apenas resistimos num contexto ideológico e político adverso à existência de publicações marxistas e de esquerda; por seu trabalho editorial efetivo – artigos, ensaios, produção de dossiês e debates, entrevistas etc. –, CM conquistou um lugar privilegiado na cultura política da esquerda brasileira. Nossa revista é, hoje, uma importante referência para todos acadêmicos e intelectuais que, no Brasil, se reconhecem no campo do marxismo crítico e revolucionário. Por último, um Congresso como o que aqui se realiza na UFPr – possível em virtude da iniciativa colaboradores da revista – é uma prova efetiva da relevância, vitalidade e pertinência do trabalho editorial desenvolvido por CRÍTICA MARXISTA.

15

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

Karl Marx no Brasil
Armando Boito (Unicamp)3 & Luiz Eduardo Motta (UFRJ)4 É crescente o interesse pela obra de Karl Marx no Brasil atual. Essa tendência está perfeitamente integrada à nova vaga de interesse pela obra do fundador do materialismo histórico em escala internacional. Porém, a recepção da obra de Marx no Brasil está marcada, evidentemente, pelas características da formação social brasileira, pelas suas tradições intelectuais e pela conjuntura teórica e ideológica do Brasil das décadas de 1990 e 2000. A nova vaga internacional de interesse pela obra de Karl Marx teve início na segunda metade da década de 1990, quando o modelo capitalista neoliberal começou a apresentar fortes sinais de desgaste. Alguns acontecimentos representativos desse desgaste foram, na Europa, a greve geral que paralisou a França durante os meses de novembro e dezembro de 1995, dando início a uma nova fase da luta social na França que redundaria na vitória do Partido Socialista nas eleições gerais de 1997, e, na América Latina, a posse de Hugo Chávez na Presidência da Venezuela em 1999. No meio-tempo, em 1998, foram realizados, em diversos países, encontros em comemoração aos 150 anos da publicação do Manifesto do Partido Comunista de Marx e Engels. Numa época em que se tinha proclamado, mais uma vez, a morte do marxismo, a presença massiva de ativistas políticos e de intelectuais nesses encontros surpreendeu os seus próprios organizadores. ENCONTROS, CENTROS E ASSOCIAÇÕES No Brasil, além dos diversos encontros comemorativos dos 150 anos do Manifesto Comunista, tivemos, em 2001, grandes

3

Professor de Ciência Política da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e Editor da revista Crítica Marxista.
4

Professor de Ciência Política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

17

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

eventos, em diversas cidades do país, em comemoração aos 130 anos da Comuna de Paris de 1871. Esses encontros já exibiam uma das características da atual fase de interesse pela obra de Marx no Brasil: de um lado, a aproximação entre ativistas políticos e intelectuais no trabalho de recuperação do marxismo, porém, de outro lado, a clara predominância do grupo intelectual e a dependência desse trabalho de recuperação frente às instituições culturais do Estado capitalista, principalmente as universidades. Essa característica de origem estará presente na formação de inúmeros centros de pesquisa marxista que foram organizados em diversas universidades do país, nas revistas e nas demais publicações que surgiram a partir da década de 1990, nos diversos encontros científicos e culturais regulares que contam com a participação majoritária de marxistas e na intervenção institucional e organizada dos sociólogos, cientistas políticos, filósofos, economistas e historiadores marxistas nas principais associações científicas brasileiras. Em 1996, foi criado o Centro de Estudos Marxistas (Cemarx) na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Depois dessa iniciativa pioneira, vários centros semelhantes foram criados em diversas universidades públicas do Brasil. Hoje, existem centros semelhantes na Universidade Federal Fluminense, na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, em universidades do Rio grande do Sul e outras. O Cemarx realizou em 1999 na Unicamp o I Colóquio Internacional Marx e Engels. Desde então, esse colóquio bienal tem sido realizado regularmente, reunindo em cada uma de suas edições centenas de pesquisadores de todo o Brasil. Na década de 2000, foram surgindo encontros marxistas nacionais ou regionais regulares, anuais ou bienais, e especializados tematicamente, como, por exemplo, o encontro dos pesquisadores marxistas em educação, o encontro dos pesquisadores de movimentos sociais na América Latina da Universidade Estadual de Londrina, Paraná, o encontro dos pesquisadores do trabalho na Universidade Estadual Paulista de Marília, o colóquio Marx e Engels da Universidade de São Paulo e outros. Esses e outros encontros reúnem, se somados, milhares de pesquisadores anualmente ou bienalmente. Outro fato a ser destacado nessa nova vaga de recuperação dos estudos marxistas é a intervenção dos pesquisadores marxistas nas grandes associações nacionais de sociólogos, de historiadores, de filósofos e de economistas ─ Anpocs, Anpuh, Anpof, SEP. Essas associações passaram a contar na sua estrutura organizativa com grupos de trabalho formados por pesquisadores marxistas dedicados a estudar o marxismo em suas respectivas áreas.

18

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

AS REVISTAS DE ONTEM E DE HOJE No que respeita às publicações, façamos, inicialmente, para efeito de comparação, uma remissão às gerações de revistas e periódicos marxistas que precederam a geração atual. Tivemos no Brasil algumas revistas ligadas ao Partido Comunista Brasileiro que foram publicadas antes do golpe de Estado de 1964, como a revista Problemas, Brasiliense e Estudos Sociais. Como marco inicial da divulgação do marxismo não oficial, em geral de autores identificados na corrente denominada de marxismo ocidental, tivemos a Revista Civilização Brasileira criada por Enio Silveira (dono da editora Civilização Brasileira e membro do Partido Comunista Brasileiro) e Moacir Félix publicada entre os anos 1965 e 1968. Nela foram divulgados os trabalhos de Lukács, Adam Schaff, Jean Paul Sartre, Herbert Marcuse, Antonio Gramsci, Louis Althusser, além de intelectuais brasileiros identificados com a teoria marxista ou próximos desse campo como Nelson Werneck Sodré, José Arthur Giannotti, Fernando Henrique Cardoso e Theotônio dos Santos. A revista apesar de sua grande tiragem (10000 exemplares) não sobreviveu ao fechamento do regime militar, que ampliou seus poderes discricionários a partir de 1969. Outras revistas posteriores, como as revistas Princípios e Novos Rumos, essas vinculadas organicamente a partidos marxistas como o Partido Comunista do Brasil (PC do B) e o Partido Comunista Brasileiro (PCB), respectivamente, continuam sendo publicadas. Já a revista Teoria & Política, lançada em 1980 por intelectuais de tendência marxistaleninista, deixou de ser publicada nos anos 1990, assim como a Presença, esta criada por intelectuais oriundos do PCB e afinados com a perspectiva eurocomunista. Essas revistas de origem partidária são publicações que, embora contem com a participação ativa de intelectuais ligados às universidades, se mantêm, principalmente, graças ao apoio da organização ou do grupo político a que pertencem. Com a nova geração de revistas marxistas, dos anos 1990 e 2000, passa-se algo distinto: elas são vinculadas a grupos de intelectuais que trabalham e atuam, fundamentalmente, nas universidades públicas do país. A publicação pioneira dessa nova geração foi criada pelo mesmo grupo de intelectuais marxistas que fundara o Cemarx da Unicamp ─ trata-se da publicação semestral Crítica Marxista cujo primeiro número foi lançado em 1994. Os

19

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

intelectuais que a criaram eram, na sua maioria, professores da Unicamp e não se encontravam organizados em partidos políticos. Ao longo dos anos que se sucederam, foram surgindo outras publicações: Outubro, Margem Esquerda, História e Luta de Classes, Marxismo Vivo, Novos Temas e outras 45. Pode ser de interesse arrolar os nomes dos intelectuais fundadores de algumas dessas publicações, pois eles são alguns dos intelectuais marxistas que participam ativamente dessa fase de recuperação do marxismo no Brasil. O Comitê Editorial que fundou a revista Crítica Marxista em 1994 era integrado por Armando Boito, Caio Navarro de Toledo, Celso Frederico, Décio Saes, João Quartim de Moraes, João Roberto Martins Filho, Juarez Guimarães, Marcio Naves, Ricardo Antunes e Sérgio Lessa. A revista Outubro, publicação também semestral, foi lançada em 1998 e a sua Comissão de Redação era formada por Álvaro Bianchi, Conrobert Costa Neto, Edmundo Fernandes Dias, Elisa Guimarães, Flavio Lyra, Hector Benoit e Marcio Naves. Margem Esquerda foi lançada em 2003 com o seu Comitê de Redação integrado por: Afrânio Cattani, Conrobert Costa Neto, Celso Frederico, Jesus Ranieri, Marcelo Ridenti, Marcio Naves, Maria Lúcia Barroco, Maria Quartim de Moraes, Maria Orlanda Pinassi, Ricardo Antunes, Ricardo Musse, Sedi Hirano. Essas três revistas, além de serem vinculadas, fundamentalmente, ao meio universitário, têm o seu núcleo dirigente localizado na cidade de São Paulo. Já História e Luta de Classes é uma publicação marxista de jovens historiadores animada, principalmente, por um grupo do Estado do Rio de Janeiro. Foi criada em 2004 e tinha a sua Comissão Editorial formada por Carla Silva, Enrique Padros, Florence Carboni, Francisco Domingues, Gilberto Calil, Marcelo Badaró, Mario Maestri, Theo Piñeiro e Virgínia Fontes. A revista Praga, que como já afirmamos deixou de ser publicada, trazia na sua Comissão Executiva Carlos Machado, Cilaine Cunha, Fernando Haddad, Francisco Alambert, Isabel Maria Loureiro, Leda Paulani, Ricardo Musse e Rubens Machado Jr. Essas revistas agregam intelectuais marxistas filiados a correntes marxistas, ou próximas do marxismo, bastante diversas, correntes cujas obras de referência pertencem a Antonio Gramsci, George Lukács, Louis Althusser, Escola de Frankfurt, E. P. Thompson e outros. As revistas apresentam algumas características particulares
5

Duas outras revistas marxistas importantes, a revista Práxis, editada por um coletivo de intelectuais nacionalmente organizado, e Praga, próxima ao grupo de marxistas oriundos da FFLCH da Universidade de São Paulo, surgiram na década de 1990, mas já deixaram de ser publicadas.

20

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

─ umas privilegiam os textos teóricos ou de análise estrutural da economia e da sociedade capitalista, como é o caso de Crítica Marxista, enquanto outras são mais abertas a temas da conjuntura, como são os casos de Margem Esquerda e Outubro. Em todas elas, contudo, podemos destacar duas características importantes. Primeiro, como já afirmamos, a dependência frente ao aparelho universitário do Estado brasileiro. Os intelectuais que organizam essas revistas são, na sua quase totalidade, professores universitários e o público leitor dessas publicações é, também, fundamentalmente, o público universitário. Isso é verdadeiro mesmo para revistas como Outubro, que tem vínculos com o Partido Socialista dos Trabalhadores Unificados (PSTU), e a Novos Temas, que é vinculada indiretamente ao Partido Comunista Brasileiro (PCB). Em segundo lugar, essas publicações trazem pouca coisa sobre a obra de Marx. Predominam a análise da sociedade capitalista, da conjuntura e, quando se trata de teoria, predominam análises da obra de teóricos marxistas, como Gramsci e Lukács, e de temas e polêmicas referentes aos diferentes marxismos do século XX e dos debates que dividiram essas correntes. Essas duas características marcam a nova vaga de estudos marxistas no Brasil: dependência frente ao aparelho universitário e foco do trabalho teórico, não na obra de Marx, mas sim nas correntes marxistas do século XX. Pelas razões apontadas, essa nova fase de valorização do marxismo difere da fase anterior de estudos marxistas no Brasil. De fato, nas décadas de 1930, 1940 e seguintes, quando a divulgação da obra de Marx ganhou força no Brasil e quando a produção dos marxistas brasileiros se tornou mais significativa, boa parte dessa produção dava-se nos aparelhos culturais vinculados ao Partido Comunista Brasileiro, não nas universidades. Podemos afirmar que o marxismo só chegou à universidade quando, no final da década de 1950, passou a se reunir o conhecido grupo de estudos de O Capital, coordenado por José Arthur Giannotti na USP. Além de correr em grande medida fora da universidade, a produção teórica marxista era focada na obra do próprio Marx. No que tange às análises históricas, econômicas e sociais, essa foi a fase em que os marxistas brasileiros, também diferentemente daquilo que predomina nas pesquisas marxistas atuais, dedicaram-se à análise da natureza da sociedade brasileira – escravista? feudal? capitalista? – e do processo de revolução burguesa no Brasil. Destacaram-se nessa época os trabalhos de Caio Prado Jr., Nelson Werneck Sodré, Florestan Fernandes, Luiz Pereira, Jacob Gorender, Roberto Schwartz, José Arthur Giannotti, Ruy Fausto e muitos outros.

21

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

PUBLICAÇÃO DE OBRAS DE MARX E SOBRE MARX Voltemos ao período atual. A edição de obras de Marx também ganhou um novo alento no Brasil. Esse ponto merece um pequeno retrospecto histórico para informar o leitor. A edição das obras de Marx e de Engels no Brasil é deficiente, tanto no que respeita à quantidade de obras publicadas quanto no que respeita à qualidade das traduções. Obras importantes desses autores ainda não foram traduzidas ou só o foram muito recentemente e muitas dessas edições se valeram de outras traduções e não das obras originais. Consideremos, como exemplos, a história das edições brasileiras de O Capital, a obra magna de Marx, e a história das edições de O Manifesto do Partido Comunista, texto de formação de gerações de militantes comunistas em todo o mundo. Apenas em 1944, O Capital apareceu no mercado editorial brasileiro na forma de uma edição resumida, acompanhada de um estudo de Gabriel Deville – Edições Cultura, São Paulo. A primeira edição completa de O Capital e traduzida diretamente do alemão veio à luz apenas no ano de 1960 graças à iniciativa da editora Civilização Brasileira do Rio de Janeiro. Em 1986, a editora Abril lançou uma nova tradução da obra maior de Karl Marx. Quanto ao Manifesto do Partido Comunista, a sua primeira edição surgiu, salvo engano, apenas em 1945, pela Editora Horizonte da cidade do Rio de Janeiro. Esse texto teve, no mesmo ano, uma edição publicada pelas Edições Populares com introdução histórica de D. Riazanov e numerosos documentos apendiculares, inéditos, inclusive os Estatutos da Liga dos Comunistas e um estudo crítico comparativo das I, II e III Internacionais. Depois disso, o Manifesto voltou a aparecer nas Obras Escolhidas de Karl Marx e de F. Engels, publicadas pela Editora Vitória, do Rio de Janeiro (José Nilo Tavares 1983: pp. 121123). A partir da década de 1970 e, principalmente nas décadas de 1990 e 2000, o Manifesto teve inúmeras novas edições. Hoje, duas editoras que têm dado destaque para publicação de textos de Marx nos seus catálogos são as editoras Boitempo e Expressão Popular. A Boitempo tem privilegiado a obra de juventude de Marx (Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, A Questão Judaica, A Sagrada Família, Manuscritos EconômicosFilosóficos), ou de seus escritos da segunda metade dos anos 1840(Ideologia Alemã, Miséria da Filosofia, Manifesto Comunista). A

22

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

Expressão Popular não se detém em nenhuma fase específica da obra de Marx, publicando desde a Questão Judaica e o Manifesto Comunista (numa edição popular) até As Lutas de Classe na França, O 18 Brumário de Luís Bonaparte, Trabalho assalariado e capital, Salário, preço e lucro, Contribuição à crítica da economia política. Nesses últimos 15 anos de revitalização do marxismo no Brasil, foram publicados aproximadamente trinta livros que trataram diretamente da obra de Marx, em grande parte resultados de pesquisas universitárias, e, em destaque, oriundos das faculdades de filosofia. Destacam-se dentre essas publicações os livros de Francisco Teixeira, Pensando com Marx: uma leitura críticocomentada de O Capital (1995), Carlos Henrique Escobar, Marx, filósofo da potência (1996), Jorge Grespan, O negativo do Capital. O conceito de crise na crítica de Marx à economia política (1998), Marcio Bilharinho Naves, Marx – ciência e revolução(2000), Jesus Raniere, A câmara escura. Alienação e estranhamento em Marx (2001), Ruy Fausto, Marx: Lógica &Política - Tomo III (Investigação para uma reenstituição do sentido da dialética(2002), Celso Frederico,O jovem Marx:1843-1844 - As origens da ontologia do ser social(2009), Jose Chasin, Marx:estatuto ontológico e resolução metodológica (2009), Hector Benoit/Jadir Antunes, Crise: o movimento dialético do conceito de crise em O capital de Marx (2009), e a coletânea organizada por Armando Boito, Caio Navarro de Toledo, Jesus Raniere e Patrícia Tropia A obra teórica de Marx – atualidade, problemas e interpretações (2000), que publicou os trabalhos apresentados no I Colóquio Marx-Engels de 1999. Apesar de não tratar principalmente da obra de Marx, mas do marxismo no Brasil, merece destaque a obra coletiva História do Marxismo no Brasil. Esse trabalho, publicado em seis volumes, reuniu dezenas de autores sob a coordenação de João Quartim de Moraes, Daniel Aarão Reis, Marcos Del Roio e Marcelo Ridenti. Também a republicação das obras de autores marxistas como Caio Prado Jr., Nelson Werneck Sodré e Florestan Fernandes tem sido uma marca no campo editorial nesse contexto de revitalização do marxismo. UMA QUESTÃO PARA ENCERRAR O crescimento do marxismo no interior do aparelho universitário pode ser explicado pela situação atual e recente da sociedade brasileira. O Brasil possui um aparelho universitário

23

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

grande, com centenas de cursos de pós-graduação financiados pelo Estado e que reúne dezenas de milhares de professores, pesquisadores e estudantes. Muitos desses universitários são de origem popular. Mas, o Brasil não possui uma forte tradição de organização partidária de massa da classe operária. O PCB aproximou-se dessa característica nas décadas de 1940 e 1950, mas, logo, foi jogado na clandestinidade. O Partido dos Trabalhadores (PT) também se aproximou do perfil de um partido operário de massa, mas, desde seu nascimento, sua tendência majoritária foi indiferente ou mesmo hostil ao marxismo. Um tema importante a ser analisado seria verificar o quanto a inserção universitária influi nas características da fase atual de recuperação do marxismo no Brasil. Alguns títulos publicados no Brasil nos últimos quinze anos sobre a obra de Karl Marx:

BENOIT, Alcides Hector e ANTUNES, Jader. Crise: o movimento dialético do conceito de crise em O capital de Marx. São Paulo: Tykhe, 2009. BOITO, Armando; TOLEDO Caio Navarro de; RANIERE Jesus; TROPIA, Patrícia (orgs.), A obra teórica de Marx – atualidade, problemas e interpretações.São Paulo, Editora Xamã, 2000. CHASIN Jose. Marx: estatuto ontológico e resolução metodológica. São Paulo, Boitempo, 2009. COUTINHO, Mauricio Chalfin. Marx: Notas sobre a Teoria do Capital. São Paulo: Hucitec, 1997. ESCOBAR, Carlos Henrique, Marx trágico: o marxismo de Marx. Rio de Janeiro Ed. Taurus, 1993. ________________________, Marx, filósofo da potência. Rio de Janeiro, Editora Taurus, 1996. FAUSTO, Ruy, Marx: Lógica &Política - Tomo III (Investigação para uma reconstituição do sentido da dialética). São Paulo: Editora 34, 2002. FREDERICO, Celso, O jovem Marx: 1843-1844 – as origens da ontologia do ser social. São Paulo, Ed. Expressão Popular, 2009.

24

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

________________ e TEIXEIRA, Francisco José Soares. Marx no século XXI. São Paulo: Cortez, 2008. GIANNOTTI, José Arthur, Certa herança marxista. São Paulo, Cia. das Letras, 2002. GRESPAN, Jorge, O negativo do capital. O conceito de crise na crítica de Marx à economia política. São Paulo: HUCITEC, 1998. MELO, Fernando Jader de Magalhães, 10 Lições Sobre Marx. Rio de Janeiro, Vozes, 2009. MELLO, Alex Fiúza de. Marx e a globalização. São Paulo, Boitempo, 1999. MORAES, João Quartim; DEL ROIO, Marcos; REIS, Daniel Aarão; RIDENTI, Marcelo. História do Marxismo no Brasil. Campinas, Editora da Unicamp, 2007, 3a edição. NAVES, Marcio Bilharinho. Marx – ciência e revolução. São Paulo/Campinas, Ed. Moderna/Editora da Unicamp, 2000. PAULA, João Antonio de Paula, O ensaio geral – Marx e a crítica da economia política (1857-1858). Belo Horizonte, Ed. Autêntica, 2010. POGREBINSCHI, Thamy. O enigma do político. Marx contra a política moderna. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009. RANIERI, Jose. A câmara escura. Alienação e estranhamento em Marx. São Paulo: Boitempo editorial, 2001. ROMERO, Daniel, Marx e a técnica: um estudo dos manuscritos de 1861-1863. São Paulo, Ed. Expressão Popular, 2005. SADER, Emir. Estado e política em Marx. São Paulo: Cortez, 1993. SAMPAIO, Benedicto Arthur/ FREDERICO, Celso, Dialética e materialismo - Marx entre Hegel e Feurbach. Rio de Janeiro: Editora: UFRJ, 2006. TAVARES, José Nilo, Marx, o socialismo e o Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1983. TEIXEIRA, Francisco José Soares. Pensando com Marx: uma leitura crítico-comentada de O Capital. São Paulo: Ensaio, 1995.

25

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

O marxismo e os impasses do capitalismo contemporâneo
João Quartim Moraes6

Explicito liminarmente a hipótese em que se apóia a presente intervenção: sem a atualização teórica empreendida por Lênin a partir de 1916, o marxismo não explicaria o curso histórico do século XX. Corremos o risco de perturbar os leitores talmúdicos do Capital e de outros textos fundadores. Mas dirigimo-nos a quem está interessado em analisar e pensar e não em repetir liturgias. Que entender por impasses do capitalismo contemporâneo? À esquerda, não faltam os que, embora reconhecendo os aspectos perversos da nova ordem liberalimperial, aceitam caracterizá-la como "globalização". Imaginam com isso estar sendo lúcidos e modernos. Talvez a mais séria tentativa, entre nós, de conferir ao termo globalização um estatuto teórico foi a empreendida em Poder e dinheiro, obra coletiva publicada em 1997 (FIORI; TAVARES, M, 1997). Já na Apresentação, não assinada, deparamo-nos com o argumento de que a despeito de “sua visível imprecisão conceitual[...] poucas palavras possuem tamanha força política neste final de século XX” (FIORI; TAVARES, M, 1997: 7).Sem dúvida, é preciso levar em conta o valor de troca das palavras, tal como elas circulam no senso-comum. Mas para analisá-las em vez de adotá-las sem crítica. Globalização, por sua intrínseca ambigüidade e suas conotações falaciosamente “positivas”, engana muitos. Para ficarmos em nosso país, a economia colonial brasileira surgiu sob domínio português, cultivando uma planta asiática (a cana de açúcar) com escravos trazidos em escala crescente da África, sob controle do capital

6

João Quartim de Moraes é professor titular aposentado do departamento de Filosofia da Unicamp e membro do Conselho Editorial da revista Crítica Marxista.

27

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

mercantil europeu. É possível maior globalização do que essa, que remonta ao século XVI? O argumento de que também o termo imperialismo, quando surgiu, em meados do século XIX, pertencia ao “jargão jornalístico”, tornando-se, porém, “depois da obra clássica de John Hobson”, “peça teórica essencial da economia política do século XX” (FIORI; TAVARES, M, 1997: 7), esquece uma diferença, que não é pequena,entre os dois termos. Imperialismo não engana ninguém. É domínio baseado na força. Claro que seus partidários assumidos, como o célebre Disraeli, atribuíam-lhe missão civilizatória (Bush e a OTAN não inventaram nada). Assim como os europeus aniquilaram as sociedades autóctones do Novo Mundo para catequizá-las (“a good indian is a dead indian”, diria mais tarde o general Custer), o Pentágono e a OTAN, ditando o argumento da força no mundo “globalizado”, arrasam países rebeldes por motivos “humanitários”, para “libertar o Kuait”, impedir “uma limpeza étnica no Kosovo”, “combater o terrorismo internacional”, implantar o que eles chamam “democracy”7 etc. Que não basta invocar a força de uma idéia para levar a sério, ainda que parcialmente, sua pretensão de objetividade, comprova-o o apoio maciço que recebeu na Alemanha "civilizada" a idéia hitleriana da superioridade racial dos povos "arianos".A idéia de "globalização", até por não se apoiar em doutrinas intrinsecamente odiosas como o nazismo, difundiu-se com mais facilidade. O termo serve para ocultar não somente a permanência, mas também a furibunda exacerbação da opressão imperialista numa situação internacional caracterizada não mais pelo predomínio do confronto entre o bloco soviético e o "Ocidente" e sim pelo predomínio do bloco das grandes potências capitalistas sob hegemonia estadunidense, cujo braço militar é a OTAN. É essa a maior mistificação da ideologia da "globalização": sugerir que o imperialismo foi ultrapassado e que, com a derrubada do muro de Berlim, hoje viveríamos num mundo sem muros nem fronteiras. Com aquele muro, porém caíram apenas as barreiras estatais que separavam o bloco da OTAN do bloco soviético. Dois outros muros, muito mais cruéis e mortíferos do que o
Na periferia do imperialismo, quando o povo ouve um gringo do Pentágono cacarejar “democracy, democracy”, vai logo correndo se entocar, porque os mísseis costumam vir logo atrás. Em torno de 500 mil crianças morreram de fome no Iraque, antes da invasão e ocupação por tropas do império norteamericano, por conta do embargo econômico contra aquele país. Madeleine Albright, secretária de Estado do governo de Clinton, quando perguntada sobre o fato respondeu “que é um preço que pagamos pela democracia”.
7

28

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

de Berlim, foram respectivamente construídos pelos imperialistas estadunidenses e por seus sócios facho-sionistas. A construção do muro do México foi decidida pelo então presidente Clinton, em julho 1994, no âmbito do plano intitulado "prevention through deterrence", que colocou a fronteira entre os dois países, do Pacífico ao Atlântico, sob forte e implacável vigilância policial. Alguns meses antes, em 4 de janeiro de 1994, o presidente mexicano Carlos Salinas, saqueador contumaz dos fundos públicos, tinha assinado com Clinton o tratado que instituía o “Acordo de livre comércio da América do Norte” (NAFTA em inglês), cuja lógica consistia na colaboração entre os tubarões e as sardinhas. Ironia patética, mas funcional: para os capitalistas, total liberdade de investir onde os lucros são maiores, mas para os trabalhadores mexicanos, que ganhavam menos de 5 dólares numa jornada de trabalho de 9 horas, um grande muro para impedi-los de trabalhar nos Estados-Unidos, onde poderiam ganhar 5 dólares por hora. Naquele momento, cerca de 8 milhões de "chicanos", dos quais uns 3 milhões em situação ilegal, tinham conseguidochegar ao outro lado da fronteira, indo somar-se aos 12 milhões de mexicanos de origem nascidos nos Estados-Unidos. “Latinos" demais, querendo ganhar salários de «primeiro mundo». O muro da Palestina, cuja edificação começou em 2002, por ordem do então primeiro ministro israelense, Ariel Sharon (um dos mais consumados genocidas de nossa época) foi condenado pelo Tribunal Internacional de Justiça de Haia, em 2004, porque corta terras ocupadas ilegalmente e isola cerca de 450.000 palestinos. Infelizmente, graças ao apoio irrestrito da Casa Branca e do Pentágono, Israel ignora cinicamente as condenações que o atingem e continua a recorrer impunemente ao terrorismo de Estado. Há quem, diante da evidente proliferação de muros e de fronteiras que discriminam sobretudo os pobres da periferia, fale em globalização imperialista ou em imperialismo globalizado8. Mas isso só serve para confundir ainda mais a terminologia. Tampouco ajuda a esclarecer a especificidade do capitalismo contemporâneo constatar, como fez J. L. Fiori em Poder e dinheiro, que “a idéia de globalização reina inconteste no discurso das elites mundiais” e que, portanto, não é provável que sua força “se deva apenas à capacidade de falsificação e de convencimento dos
8

Noções superficiais ou totalmente abstratas como estas prestam-se aos mais diversos usos ideológicos. Muitos franceses, com cosmético patriotismo léxico, preferemdizer “mondialisation”, para não usar o “globalization” made in USA. Mas a diferença semântica entre um mundo globalizado e um globo mundializado é a mesma que entre seis e meia dúzia.

29

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

meios de comunicação”. Segundo ele, com efeito, o termo opera uma “inversão ideológica” que, “como tal realiza uma inversão da própria realidade, desvelando e ocultando ao mesmo tempo aspectos do mundo contemporâneo que são parcialmente reais” 9. Para não dispersar o argumento, deixemos de lado essa curiosa categoria de realidade parcial e admitamos que a expressão “elites mundiais” equivale àquilo que o marxista estadunidense James O’Connor, menos nebulosamente, designa por “classe dominante internacional”10. Mas de qual realidade a “globalization” seria a expressão invertida? O que ela desvela e o que ela oculta e mistifica? Já tínhamos adiantado acima que ela camufla o imperialismo de nosso tempo: sustentar que os interesses nacionais estariam ultrapassados, é excelente maneira de servir os interesses nacionais dos Estados Unidos. O que ela desvela é muito pouco: inflexões no capitalismo internacional que resultam, no essencial, de decisões impostas pelo imperialismo estadunidense ao sabor de seus próprios interesses nacionais. Assim, em 1979, Paul Volcker, que acabara de assumir o comando do Federal Reserve, não tendo obtido apoio de seus sócios do FMI para fortalecer o dólar (cuja taxa de inflação se aproximava de 15% ao ano), tomou unilateralmente a decisão de elevar brusca e brutalmente a taxa de juros, para atrair os dólares que estavam “flutuando” nas mãos dos especuladores do mundo inteiro. Esta medida desencadeou tremendo efeito recessivo, que se propagou por todo o sistema capitalista internacional e, ainda mais duramente pela periferia, provocando na América Latina, com a chamada “crise da dívida externa”, duas décadas de retrocesso econômico. Ao influxo do estímulo cumulativo da hiperbólica elevação da taxa de juros estadunidenses e da “desregulamentação” neoliberal 11 do mercado de capitais, massas crescentes de capital-dinheiro, guiadas pela rentabilidade das aplicações ponderada pela “taxa de risco”, autonomizaram-se em “mercados financeiros” a cujas oscilações ficariam subordinadas a riqueza e, sobretudo a miséria da grande maioria da humanidade. Tal é a origem da impropriamente chamada globalização financeira.
9

J. L. Fiori, “Globalização, hegemonia, império”, (FIORI; TAVARES, M, 1997: 88). Analisamos mais adiante as teses de O’Connor sobre a teoria do imperialismo.

10 11

O prefixo neo justifica-se plenamente para designar esse liberalismo reacionário, que contrariamente ao velho liberalismo do século XIX, que se opôs também aos privilégios aristocráticos e ao obscurantismo eclesiástico, combate numa só frente contra as conquistas democráticas da classe operária e dos trabalhadores assalariados em geral.

30

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

Impropriamente: desde que, no final do século XIX, a concentração da produção encontrou sua forma jurídica adequada nas sociedades por ações, consolidou-se a separação entre a propriedade do capital e o comando do processo produtivo, transformado em administração de capital alheio. A possibilidade de negociar ações nas Bolsas, ao lado dos demais papéis em circulação (obrigações, títulos do Estado etc.) aprofundou essa separação, que no início do século XX já havia assumido as dimensões assinaladas por Lênin, que compreendendo a importância das análises do inglês Hobson e do marxista alemão Hilferding (mais tarde assassinado pelos nazistas), já discernira a lógica objetiva que conduzia à ditadura planetária do capital financeiro:
“O imperialismo é uma imensa acumulação de capital-dinheiro num pequeno número de países[...]. Daí o extraordinário desenvolvimento da classe ou, mais exatamente, da camada dos que vivem de rendas financeiras (rentiers)[...], totalmente alheios à participação numa empresa qualquer e cuja profissão é a ociosidade. A exportação de capitais, uma das bases econômicas essenciais do imperialismo[...] confere uma chancela de parasitismo ao conjunto do país vivendo da exploração do trabalho de alguns países e colônias d’além-mar”12.

A expansão do parasitismo financeiro foi contida, por um longo período, pela correlação internacional de forças instaurada pela revolução socialista de outubro 1917 e mais ainda pelo equilíbrio político-estratégico resultante da vitória soviética sobre o nazismo, que permitiu à classe operária dos Estados capitalistas conquistar os direitos sociais consubstanciados no chamado “Welfare State”. Mas em 1979, mesmo ano em que Paul Volcker chamou os dólares de volta para Wall Street oferecendo juros altíssimos, a política econômica preconizada por Hayek e consortes da “escola de Chicago” (já aplicada experimentalmente no Chile, sob a bota de Pinochet, pelos "Chicago-boys"), foi posta em aplicação na Inglaterra pela ultra-reacionária Margaret Thatcher, que assumiu fria e explicitamente a “obra” de destruição do
(LÉNINE, 1960: 290). No capítulo VIII de Imperialismo, estágio superior do capitalismo: “O parasitismo e a putrefação do capitalismo”.
12

31

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

“Welfare State”, promovendo o retrocesso à situação social da “Belle Époque”. Logo em seguida, em 1980, quando o macartista R. Reagan chegou à presidência do Império estadunidense, a "nova economia" se impôs no centro hegemônico do capitalismo internacional (Nos Estados Unidos, é verdade, havia menos a demolir: o “sonho americano” de ficar mais rico que o vizinho nunca abrira espaço para amplas conquistas sociais dos trabalhadores). A derrocada soviética de 1989-1991 facilitou novos ataques ao “Welfare State” e a “desregulamentação” generalizada dos movimentos do capital especulativo abriu caminho para a proliferação (aliás “alavancagem”) de títulos cada vez mais fictícios nas mãos dos sedentos morcegos da especulação financeira, sugando seu quinhão de juros na massa da mais-valia13. Entrementes, tendo domado a inflação e reanimado o dólar, o Federal Reserve foi gradualmente baixando os juros, de modo a reanimar a carcomida economia estadunidense: ao longo dos anos 1990, amparado pelo êxito da contra-revolução capitalista em curso, ocorreu um novo ciclo de expansão dos negócios, interrompido no início de 2001, mas retomado em 2002. Da fórmula desse novo surto faziam parte (a) o crescimento econômico acelerado de países da Ásia oriental, sobretudo da China, mas também da Índia e do Vietnã; (b) a acumulação de um colossal déficit externo estadunidense, “financiado” pelo poder de imprimir dólares; (c) o endividamento dos consumidores estadunidenses, alimentado pela especulação no mercado de ações e dos negócios imobiliários. O baile dos vampiros durou até 2008, quando a desmesurada “bolha” dos “créditos podres” conduziu Wall Street à bancarrota. O apelo aos fundos públicos para atenuar os efeitos dessa grande bancarrota nos põe diante das questões decisivas sobre o novo curso do capitalismo internacional. Sem dúvida, Bush e consortes só violaram seu fundamentalismo mercadológico porque foram forçados pelos fatos. Mas ao violarem as leis do mercado para salvar o mercado, eles demonstraram na prática que, contrariamente ao credo do catecismo neoliberal, o
Vale notar que a primeira grande “desregulamentação” remonta à ruptura dos acordos de Bretton Woods, no início dos anos 1970, que levou os países capitalistas dominantes a adotar o regime de câmbio flutuante. A principal conseqüência foi a busca de instrumentos financeiros suscetíveis de contrabalançar mudanças na taxa de câmbio e em outras variáveis afetando o cálculo de rentabilidade do “big business”. Daí o surgimento dos “derivativos financeiros”: instrumentos de negociação para liquidação futura cujos preços são determinados em relação a ativos financeiros (geralmente negociados no mercado à vista), ditos ativos subjacentes, dos quais eles "derivam".
13

32

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

movimento do capital não tende à auto-regulação e sim à crise e ao bloqueio das forças produtivas. Sintomaticamente, o termo globalization, a despeito de sua “tamanha força política”, foi engavetado pelos ideólogos do “paradigma neoliberal”, que em sua estulta e míope euforia os ideólogos tinham erigido em “fim da história”. Quanto aos que na esquerda levaram o termo a sério, seria bom que oferecessem argumentos mais consistentes do que os de J. L. Fiori. Até que o façam, fica a pergunta: como uma tão grotesca impostura ideológica logrou obter tanto êxito? O marxismo oferece o princípio de explicação: as idéias dominantes são, normalmente e sobretudo em períodos de refluxo das esperanças revolucionárias, como ainda é o atual, as idéias das classes dominantes. Nossa tese fundamental sobre o capitalismo contemporâneo se desdobra, pois em três proposições: (a) ele só pode ser compreendido a partir da teoria do imperialismo; (b) esta deve ser atualizada; (c) o termo globalization é um contrabando ideológico neoliberal que apenas mistifica a questão. A proposição (c) terá ficado clara. As duas primeiras exigem um comentário. (a) A determinação básica principal dessa fórmula está expressa no título da obra célebre de Lênin, Imperialismo,estágio superior do capitalismo. Lembremos rapidamente as teses que a fundamentam. São cinco as principais transformações do modo capitalista de produção chegado à maturidade em escala internacional: (1) concentração do processo produtivo, gerando os monopólios; (2) predomínio do capital bancário sobre o industrial, formando a oligarquia financeira; (3) predomínio da exportação de capitais sobre a de mercadorias; (4) divisão econômica do planeta entre os trustes; (5) conclusão da divisão territorial do planeta entre as grandes potências imperialistas. Há uma grande audácia teórica nesta síntese. Imperialismo é um termo ausente do vocabulário de Marx e de Engels: os processos que o configuraram só se tornaram plenamente claros no final do século XIX. Marx emprega o termo Império num sentido inteiramente diferente, próximo ao etimológico: o termo latino imperium designa o poder político oriundo da força das armas (o grande Bonaparte e o espertalhão que se dizia seu sobrinho). Também o termo colonialismo não figura no vocabulário dos dois grandes fundadores do materialismo histórico. James O’Connor notou a esse propósito que além do breve capítulo final do livro I, são muito raras as referências do Capital à economia do colonialismo (O’CONNOR, 1970: 107). Na verdade, o “breve capítulo” trinta e três não trata do colonialismo, mas como indica

33

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

seu título, da “teoria moderna da colonização”. Na nota que acompanha o título, Marx esclarece: “Tratamos aqui de colônias reais, solos virgens colonizados por imigrantes livres. Os Estados Unidos são ainda, falando economicamente, apenas uma colônia da Europa. Também pertencem a essa categoria velhas plantações como aquelas em que a abolição da escravidão alterou as condições anteriores. Acrescenta no corpo do texto que há colônia “quando a maior parte do solo é ainda propriedade pública, e cada um que nele se estabelece pode por causa disso tornar parte dele sua propriedade privada e seu meio individual de produção, sem impedir os que vêm depois nela se estabelece de efetuar a mesma operação”. Com efeito, nos Estados Unidos, cujo território não foi, como entre nós, monopolizado por donatárias e sesmarias, o acesso à terra estava aberto, em princípio, a todos os colonos. A abundância de terras tomadas aos índios favorecia a constituição de uma larga classe de camponeses independentes. As companhias de comércio e os grandes proprietários criaram toda sorte de dificuldades à expansão dessa classe nascente, sem lograr entretanto atrofiá-la. Daí a insistência de ideólogos como Edward Wakefield, em meados do século XIX, para que na Austrália e outras colônias de Sua Majestade britânica se cobrassem altos preços para as concessões de terra de maneira a delas excluir os colonos pobres, obrigando-os assim a trabalhar para os capitalistas. Comentando ironicamente em O Capital as desditas de um certo Mr. Peel (que levou consigo da Inglaterra para Swan River, na Nova Holanda, víveres e meios de produção no valor de 50.000 libras esterlinas), referidas "em tom patético" por Wakefield, Marx constata que o economista inglês "descobriu nas colônias que a posse de dinheiro, de meios de subsistência, de máquinas e de outros meios de produção não torna um homem de modo algum um capitalista, salvo se dispuser de um complemento preciso, o assalariado, um outro homem, enfim, forçado a se vender voluntariamente" e portanto que "em vez de ser uma coisa, o capital é uma relação social entre pessoas da classe operária". Com efeito, os 3.000 indivíduos dessa classe, que Mr. Peel também transportara para o Novo Mundo , desapareceram sem se despedir, deixando-o "sem sequer um doméstico para fazer-lhe a cama ou buscar água no riacho". O meticuloso empreendedor

34

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

colonial esquecera-se apenas de levar em suas bagagens "as relações de produção inglesas"14. (b) Num estudo publicado em 1970, James O’Connor ponderou que as objeções dirigidas à teoria do imperialismo, tal como desenvolvida por Lênin, bem como a Hobson (em quem o grande marxista russo se apoiou criticamente), assim como as visões alternativas que foram propostas, “constituem menos uma nova teoria do que um catálogo de fatos históricos não inteiramente consistentes com as teorias anteriores” (O’CONNOR, 1970: 111). O que, evidentemente, não excluía a necessidade de atualizá-la. Para tanto, cumpria identificar, dentre os fatos históricos posteriores à síntese de Lênin, aqueles que configuravam novas características a serem integradas na teoria do imperialismo, distinguindo-os dos fatos novos que afetaram as características enunciadas em Imperialismo, estágio superior do capitalismo, sem, contudo modificar-lhes o conteúdo essencial. Nesta perspectiva, O’Connor propôs uma síntese, também em cinco características, como fizera Lênin, do “imperialismo contemporâneo”: (a) prosseguimento da concentração e centralização do capital e a integração da economia capitalista mundial nas estruturas das gigantescas corporações multinacionais de base estadunidense [...] e a aceleração da mudança tecnológica sob os auspícios destas corporações; (b) abandono do “livre” mercado internacional [...]; (c) participação ativa do capital estatal no investimento internacional; subsídios e garantias ao investimento privado [...]; (d) consolidação de uma classe dominante internacional constituída na base da propriedade e controle das corporações multinacionais e o concomitante declínio das rivalidades nacionais promovido pelas elites nacionais nos países capitalistas avançados e internacionalização do mercado mundial de capitais pelo Banco Mundial e outras agências da classe dominante internacional; (e) intensificação de todas estas tendências provocada pela ameaça do sistema socialista mundial sobre o sistema capitalista mundial (O’CONNOR, 1970: 121).
14

O Capital, livro I, capítulo XXXIII, "A teoria moderna da colonização". Citamos a partir da primeira edição em inglês, de 1887, Capital Book One: The Process of Production of Capital Moscow. A tradução de Samuel Moore and Edward Aveling foi revista por Engels, o que lhe confere o status de texto original. A obra foi reeditada na USSR em 1954 (Moscou, Progress Publishers). Versão Online: Marx/Engels Internet Archive (marxists.org) 1995, 1999. Consultamos também a tradução de M. Rubel, Karl Marx, Oeuvres, I, Paris, Bibiothèque de la Pléiade, 1965, p.1226. Quanto ao fundo, não se pode desejar elucidação mais límpida do próprio conceito de relações de produção. O texto de Wakefield citado por Marx é England and America. A comparison of the social and political state of both nations, 2 volumes, Londres, 1833, vol.II, p.33.

35

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

Relativamente ao momento histórico da teoria de Lênin, a grande mudança concerne à hegemonia estadunidense. O’Connor apenas registrou o que se tornara evidente desde 1947, com o início da “guerra fria”: as potências imperialistas européias abrigaram-se sob a tutela estadunidense, adocicada pelos dólares do Plano Marshall. No plano interno as conquistas sindicais da classe operária contrabalançaram pela legislação trabalhista, pelo direito aos serviços públicos de qualidade na saúde, na educação, nos transportes coletivos,etc. os efeitos mais perversamente antisociais da lógica do lucro. Enquanto perdurou a “ameaça do sistema socialista mundial”, o capitalismo absorveu as terapias reformistas para corrigir as "falhas do mercado" pela regulamentação social. Teria a super-potência estadunidense confirmado a tendência ao “ultra-imperialismo” apontada por Kautski em Neue Zeitde 30-4-1915:
“Não poderia a política imperialista atual ser substituída por outra nova, ultra-imperialista, que em vez da luta entre os capitais financeiros nacionais entre si, estabelecesse a exploração comum do mundo todo pelo capital financeiro unido internacionalmente? Esta nova fase do capitalismo, de todo modo, é concebível. É realizável? Não existem ainda as premissas indispensáveis para decidir a questão” (Apud. LÉNINE, 1960: 316-7).

Lênin criticou Kautski longamente em Imperialismo, estágio superior do capitalismo, sustentando que as alianças interimperialistas são sempre tréguas, porque “para o imperialismo é substancial a rivalidade de grandes potências em sua aspiração à hegemonia” (LÉNINE, 1960: 290). Esta tese valeu até o final da II grande guerra imperialista. A partir de 1947, perante o poderio do comunismo soviético, o capitalismo europeu uniu-se num bloco imperialista sob hegemonia ianque. A síntese de O’Connor envelheceu. Em parte por causa de seus pontos fracos, em parte pelas conseqüências da ruptura, em favor do bloco capitalista, do equilíbrio estratégico EUA/URSS, que reforçou o cartel político-militar do bloco agrupado na OTAN. Sobre as funestas conseqüências da derrocada da URSS,

36

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

acrescentaremos apenas que não por acaso o sucesso do termo globalization remonta aos escombros do bloco soviético. Esse é seu sentido mais forte: o brado de vitória da contra-revolução capitalista. A tese mais discutível de O’Connor é a alegada “consolidação de uma classe dominante internacional”. Seu pressuposto implícito é a atrofia da função de articulação e de condensação da dominação de classe exercida pelos Estados nacionais. Como se Wall Street fosse possível sem o Pentágono... Quanto a sua síntese, o principal defeito é não ter levado em conta as revoluções de libertação nacional vitoriosas na Ásia e na África a partir de 1949, quando triunfou a grande revolução nacionalpopular chinesa, dirigida pelo Partido comunista. Essas vitórias dos povos coloniais permitiram a nacionalização das riquezas naturais até então pilhadas pelo imperialismo, repondo assim em questão a divisão econômica do planeta entre os trustes e a divisão territorial do planeta entre as grandes potências imperialistas, quarto e quinto traços constitutivos da síntese elaborada por Lênin. O desastre de 1989-1991 abriu a via para um novo surto de agressões coloniais, mas num contexto histórico em que a China se tinha tornado uma grande potência econômica. A grande diferença social no capitalismo contemporâneo está no nível dos salários. Nos países imperialistas dominantes, o salário mínimo mensal gira em torno de mil e duzentos dólares (Estados Unidos), de mil euros (Europa ocidental) e de valores equivalentes no Japão. Explica-se assim porque dezenas de milhões de proletários da periferia tenham sido induzidos a buscar trabalho nesses países onde se concentra a riqueza produzida no mundo todo. Durante o quarto de século que seguiu o da longa expansão do capitalismo estadunidense e oeste-europeu (este estimulado pelos dólares do Plano Marshall), as prósperas burguesias desses países dominantes sugaram o sangue e o suor dos trabalhadores imigrantes. O primeiro sinal evidente de que estavam vindo tempos mais difíceis foi a crise monetária internacional de 1971, provocada pela incapacidade dos Estados Unidos em garantir a convertibilidade do dólar, isto é, de trocá-lo por seu equivalente legal em ouro. Coube a R. Nixon, em 1973, reconhecer essa impossibilidade, “passando o calote” (para retomar expressão dos neoliberais, os quais evidentemente só a aplicam para os países escorchados pelo imperialismo) no resto do mundo. Desmantelavase assim o sistema dito do "padrão de troca-ouro" ("gold standard

37

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

exchange")15. Se fosse preciso desmentir a falácia da "globalização", bastaria considerar que a moeda "global" do capitalismo entrou em colapso naquele ano, que marcou o encerramento de um ciclo longo de mais de três décadas de expansão do capitalismo internacional16. Pouco tempo depois, concluía-se a gloriosa luta de libertação nacional do Vietnã. Os valentões do Pentágono abandonaram em debandada a terra em que tinham cometido abjetos e odiosos crimes de guerra. A hegemonia estadunidense descia a seu ponto mais baixo, no plano econômico como no militar e, conseqüentemente, no político. Durante o retrocesso econômico que se estendeu até o início dos anos 90, as burguesias do mundo inteiro, seguindo o exemplo anglo-estadunidense, assumiram o "programa máximo" da reação neoliberal, notadamente: (a) resolver a "crise fiscal" dos Estados capitalistas reduzindo os gastos públicos, as prestações sociais, os serviços de interesse coletivo e as funções estatais que os asseguravam; (b) suprimir tanto quanto possível, os direitos sociais dos trabalhadores, para poder reduzir os impostos pagos pelos capitalistas, aumentando-lhes os lucros; (c) privatizar empresas estatais, arrecadando fundos para o Tesouro e propiciando belos negócios aos investidores privados; (d) "enxugar" empregos em todos os setores de atividade. Essa frenética campanha neoliberal foi responsável pelo desemprego crônico de dezenas de milhões de trabalhadores, que atingiu prioritariamente os mais fracos e vulneráveis (turcos na Alemanha, maghrebinos e negros na França etc.). A mão de obra estrangeira foi empurrada para fora, como laranjas já espremidas. O muro do México é apenas o exemplo mais sórdido e detestável das novas barreiras policiais que foram sendo erguidas, à medida que o "enxugamento" neoliberal reduzia drasticamente a oferta de empregos, mesmo os mais penosos e insalubres. Essa é a causa do
15

Adotado no final da I Grande Guerra e desativado a partir de 1929, pela longa e catastrófica depressão que seguiu o estouro da Bolsa de Nova Iorque, o "gold standard exchange" foi reativado em 1944, na famosa conferência de Bretton Woods. Nesta segunda versão, o dólar, dinheiro do Estado capitalista tornado incontrastavelmente hegemônico, foi erigido em moeda mundial, mais exatamente, em moeda-padrão das trocas internacionais, mediante sua equivalência fixa com o ouro. A base do sistema de Bretton Woods, com efeito, era a paridade legal do dólar com o ouro, a saber, 35 dólares= 1 onça troy= 31,1 gramas de ouro fino. O valor de um dólar correspondia, pois a de ouro fino.
16

31,1 35

0,888 gramas

O ciclo ascendente do capitalismo estadunidense, após a grande depressão dos anos 30, iniciou-se, com efeito, em 1940-1941: as guerras engendram o pleno emprego e a produção maciça de meios de destruição (Na lógica da valorização do capital, não faz diferença produzir coca-cola ou bomba atômica).

38

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

surto virulento de xenofobia e racismo na Europa ocidental, que contaminou aqueles setores do sindicalismo que, para defender o emprego (o deles), trocaram a luta de classes pela caça ao imigrante. Outra não é a origem da proliferação tentacular do neofascismo, do racismo e do neonazismo em toda a Europa. Enquanto se alternavam, sem alternativa de fundo, políticas neoliberais agressivas da direita e frustradas tentativas socialdemocratas para executar moderadamente a mesma política de redução dos “custos sociais” da valorização do capital em escala mundial, aventureiros truculentos, de ambições sombrias, prosperavam nos meios burgueses e plebeus mais afetados pelo desemprego e pela deterioração social. Na Itália, a direita democrata-cristã, corroída por dentro, tratou de compensar seu desgaste político aderindo à “Forza Italia”, nome futebolístico de um improvisado “bloco histórico” reacionário juntando, sob o comando de Berlusconi, vulgar aventureiro e milionário corrupto, diversos agrupamentos de extrema-direita, inclusive o neofascismo explícito. Aprimorar Marx é difícil. Não nos parece que a noção de super-exploração, lançada por doutrinários da “dependência” e do “sub-imperialismo”, ofereça uma explicação consistente para a grande diferença entre o nível dos salários dos países dominantes e o dos países dominados. Os argumentos em que eles se apóiam simplesmente passam por cima da diferença entre preço e valor. A queda do preço da força de trabalho abaixo de seu valor é fenômeno geral no capitalismo, principalmente através do aumento da intensidade do trabalho ou da complexidade das aptidões exigidas do trabalhador (quadros técnicos, engenheiros etc.), sem aumento correspondente do salário. É só consultar publicações sindicais ou de partidos marxistas europeus para constatar constantes denúncias da intensificação do ritmo do trabalho nas fábricas. Na França, a denúncia das “cadences infernales” nas linhas de montagem é recorrente. O nervo dessa questão está na determinação dos bens que integram o valor dos meios de consumo considerados necessários. Essa necessidade é cultural e historicamente determinada: como lembrava Marx, o operário inglês bebe cerveja, o francês vinho. No auge do "capitalismo de bem-estar", ao longo do terceiro quarto do século XX, a maioria dos trabalhadores da Europa mais próspera tinha pleno acesso à medicina e escola pública, a uma boa rede de transportes coletivos, além das férias e dos apetrechos domésticos produzidos em larga escala, da geladeira à TV. Tudo isso integra o valor da força de trabalho.

39

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

Quando a derrocada do bloco soviético, debelando o "perigo comunista", deixou à vontade a burguesia dos países imperialistas para ampliar a ofensiva neoliberal contra as conquistas sociais da classe operária, o nível dos salários nos países dominantes sofreu certa erosão, mas permaneceu no patamar que indicamos acima, muitas vezes superior ao dos países periféricos. Essa diferença, com certeza, não se explica por oscilações conjunturais. Expressa a desigualdade de desenvolvimento entre centro e periferia do sistema imperialista, que por sua vez resulta de toda a história da colonização, da pilhagem voraz das riquezas vegetais e minerais dos continentes agredidos, da escravidão, da indizível pobreza das massas rurais, do intercâmbio desigual etc. Sem dúvida, nada impede falar em super-exploração para descrever as situações em que aumenta a taxa de mais-valia. Mas não é preciso um novo conceito para marcar a queda do preço (salário) relativamente ao valor da força de trabalho. Ambos, evidentemente, têm limites inferiores objetivos: a mera sobrevivência. Entretanto, segundo alguns expositores da doutrina da super-exploração, os mecanismos que a produzem, “ao retirarem do trabalhador as condições necessárias para que reponha o desgaste de sua força de trabalho [...]configuram um modo de produção fundado na maior exploração da classe trabalhadora”. Difícil acompanhar esse argumento. O peculiar “modo de produção fundado na maior exploração da classe trabalhadora”, no qual o operário não consegue repor o desgaste de sua força de trabalho é, antes, um modo de extermínio, como nos campos de concentração hitlerianos17. O fato de que as mulheres costumem ganhar (salvo no setor público) menos do que os homens para executar as mesmas tarefas com a mesma qualificação corresponde à mais generalizada forma de super-exploração do trabalho. Ele nos põe diante de uma questão que remonta à aldeia neolítica e que
17

Na mesma exposição encontramos outras afirmações do mesmo gabarito: a super-exploração (ou “maior exploração da classe trabalhadora“??), alienaria do trabalhador “o consumo estritamente necessário para conservar sua força de trabalho”; o consumo do operário seria reduzido “além de seu limite normal” (??); “a utilização desses mecanismos (isto é, aqueles definidos por R.M.Marini, principal pensador dessa corrente) acaba fazendo com que o trabalho “seja remunerado por baixo de seu valor” e acarretaria “o dispêndio da força de trabalho em uma proporção maior que o normal”(??). Notemos enfim que falar em valor do trabalho (que este “seja remunerado por baixo de seu valor“) é uma aberração do ponto de vista do marxismo e, na mais otimista das hipóteses, um retorno ao ponto de vista da teoria burguesa do valor-trabalho (Petty, Smith, Ricardo). Cf. Pedro Henrique Evangelista Duarte e Edílson José Graciolli,“Da relação entre a superexploração do trabalho e a política sindical no Brasil: notas para uma discussão” (Disponível em http://www.ifch.unicamp.br/cemarx/coloquio/Docs/gt5/Mesa2/da-relacao-entre-a-superexploracao-dotrabalho-e-a-politica-.pdf)

40

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

Engels foi o primeiro a analisar em profundidade, a opressão da mulher pelo homem. Para explicar a persistência dessa opressão, a despeito dos inegáveis progressos conquistados pelos movimentos feministas da segunda metade do século XX, a noção de superexploração poderá ser útil, mais além das modas intelectuais.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS DUARTE, Pedro Henrique Evangelista; GRACIOLLI, Edílson José.“Da relação entre a superexploração do trabalho e a política sindical no Brasil: notas para uma discussão”.6° Colóquio Internacional Marx e Engels. Disponível emhttp://www.ifch.unicamp.br/cemarx/coloquio/Docs/gt5/ Mesa2/da-relacao-entre-a-superexploracao-do-trabalho-ea-politica-.pdf FIORI, José Luis; TAVARES, Maria Conceição. Poder e dinheiro, Petrópolis, Vozes, 1997. MARX, Karl. Karl Marx, Oeuvres, I, (M. RUBEL, M. org.) Paris, Bibliothèque de la Pléiade, 1965. MARX, Karl. Capital Book One: The Process of Production of Capital. Moscow. Marx/Engels Internet Archive (marxists.org) 1995, 1999. LÉNINE, V., Oeuvres, Tomo 22. Paris-Moscou: Editions SocialesEditions du Progrès, 1960. O’CONNOR, James. “The meaning of economic imperialism”, in RHODES, Robert I (org.) Imperialism and underdevelopment, Londres e Nova Iorque, Monthly Review Press, 1970.

41

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

A recepção de Rosa Luxemburgo no Brasil
18

Isabel Loureiro19 Embora os estudos marxistas tenham pouco espaço no Brasil (como aliás no mundo todo), eles ainda podem ser encontrados em algumas universidades públicas,20 sendo que a maior parte das pesquisas gira em torno de autores como Marx, Lênin, Gramsci, Lukács e os filósofos da Escola de Frankfurt. Em compensação, há poucas pesquisas acadêmicas sobre Rosa Luxemburgo o que talvez seja consequência de que a maioria de suas obras ainda não foi traduzida em português. Por conseguinte, a recepção de Rosa Luxemburgo no Brasil não foi acadêmica, mas política. Em 1995, Michael Löwy resumiu bem o que ocorreu entre nós: “Sempre existiu na cultura da esquerda brasileira uma corrente ‘luxemburguista’, mas até há poucos anos ela era relativamente marginal. Isso começa a mudar com a fundação do Partido dos Trabalhadores, cujo primeiro aderente, simbolicamente, foi Mário Pedrosa, o mais conhecido representante dessa corrente desde os anos 1940. Muitos dos intelectuais e dirigentes do novo movimento se dizem herdeiros de Rosa Luxemburgo,enquanto se observa de alguns aspectos essenciais dessa herança – a democracia socialista, o élan antiburocrático e libertário, a busca de uma alternativa à social-democracia e às formas autoritárias do comunismo – na nova cultura socialista do Brasil” (LÖWY, 2004).

18

Tradução do artigo publicado em Nahiriko Ito, Annelies Laschitza, Ottokar Luban (ed.), Rosa Luxemburg. Ökonomische und historisch-politische Aspekte ihres Werkes, Berlim, Dietz Verlag, 2010.
19

Professora colaboradora do Programa de Pós-Gradução em Ciência Política, UNICAMP, e membro do Comitê Editorial de Crítica Marxista.
20

Na UNICAMP a cada dois anos é realizado o Colóquio Marx/Engels em que cerca de 400 trabalhos são apresentados.

43

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

Este artigo tem duas partes. A primeira visa a esclarecer esta citação que resume de maneira particularmente feliz a Weltanschauung socialista e democrática de Rosa Luxemburgo a qual foi desde o início da sua recepção entre nós como uma espécie de corrente subterrânea na cultura de esquerda no Brasil, com alguma influência nas origens do PT, embora não houvesse referência explícita a ela. Na segunda parte gostaria de mostrar que, ao lado desta dimensão bastante conhecida do pensamento político de Rosa Luxemburgo, segundo a qual o socialismo democrático só pode ser realizado pela ação autônoma das massas populares, há outra dimensão menos conhecida em A Acumulação do Capital e na Introdução à Economia Política que também pode contribuir para a renovação do pensamento marxista. SOCIALISMO DEMOCRÁTICO, REVOLUÇÃO E FORMAÇÃO POLÍTICA Desde o início de sua recepção no Brasil Rosa Luxemburgo foi vista como o símbolo do socialismo democrático. Mário Pedrosa,21 nosso mais importante pensador socialista e nosso mais importante crítico de arte, foi o pai do “trotskismo” e mais tarde do “luxemburguismo” brasileiro. Durante sua estada em Berlim e Paris no fim dos anos 1920, ele teve contato pela primeira vez com as idéias econômicas de Rosa Luxemburgo, conquanto ainda não tivesse lido suas obras nessa época. Numa carta de 14 de maio de 1928 ao amigo Lívio Xavier, escreve: “A tese de Rosa Luxemburgo sobre a acumulação do capital explica hoje melhor a situação do
21

Mário Pedrosa (25.04.1900-05.11.1981) entra no PCB em 1926. Em 1927 é enviado à escola do partido em Moscou, mas tendo ficado doente, precisa interromper a viagem em Berlim, onde conhece a oposição trotskista. Com isso, deixa o PCB e toma parte na fundação do movimento trotskista na Alemanha e na França, do qual assume a direção no Brasil em 1929. Em 1933 começa seu trabalho de crítico de arte com um artigo sobre Käthe Kollwitz. Em 1934 m participe de uma frente de esquerda contra o fascismo brasileiro (“integralismo”) e em outubro é ferido num combate de rua na Praça da Sé, em São Paulo. Durante a ditadura de Getúlio Vargas (1937-1945) parte para o exílio em Paris e Nova York. Em 1941 é preso ao voltar ao Brasil e forçado a exilar-se. Em maio de 1940 ele se afasta da IV Internacional por não concordar com a caracterização da URSS por Trotsky como “Estado operário degenerado” nem com a idéia da “defesa incondicional da URSS”. Em 1945 volta ao Brasil e funda o jornal Vanguarda Socialista onde adota uma posição muito crítica em relação PCB, influenciada por Rosa Luxemburgo. Em 1947 entra no Partido Socialista (PSB) de onde é excluído em 1956. Durante a ditadura militar (1964-1984), Pedrosa parte para o exílio, primeiro no Chile (onde Salvador Allende lhe pede para organizar o Museu da Solidariedade), depois em Paris. Em 1977 volta novamente ao Brasil. A partir de 1980 Mário Pedrosa se engaja na criação do PT, tendo sido o primeiro a assinar o manifesto de fundação em 10 de fevereiro de 1980.

44

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

capitalismo mundial do que a de Hilferding, Lênin, Bukharin – que a deformou como sempre. Etc. A questão do imperialismo. A questão colonial. Etc. O bolchevismo enfim está em crise”. 22 Mário Pedrosa, que conhecia muito bem a história da Revolução Russa, foi desde o fim dos anos 1920 um crítico ácido da degeneração burocrática do partido, dos sindicatos e dos sovietes na URSS. A partir de 1945 ele passa a divulgar as idéias políticas de Rosa Luxemburgo em seu jornal Vanguarda Socialista (1945-1948), o que acabou tendo uma certa influência num pequeno círculo de esquerda fora do Partido Comunista. Num país provinciano e afastado do debate no interior da esquerda, esse semanário cumpriu seu papel publicando textos desconhecidos dos clássicos do marxismo (Marx, Engels, Trotsky, Kautsky, Rosa Luxemburgo) e também de autores contemporâneos que discutiam os problemas do socialismo (Anton Ciliga, Andrés Nin, Karl Korsch). Vanguarda Socialista se distinguia de outros pequenos jornais de esquerda pelo seu alto nível intelectual e a amplitude dos temas que iam da economia à cultura. Num país periférico como o Brasil onde a tradução sistemática das obras marxistas só começou nos anos 1960, o jornal de Mário Pedrosa apostava no futuro. Um dos textos publicados em 1946 foi justamente A Revolução Russa de Rosa Luxemburgo23, verdadeira heresia numa época em que a URSS estava no auge da sua glória e a maioria da esquerda brasileira vivia sob a hegemonia do PCB 24. Não é preciso dizer que Vanguarda Socialista foi posto no índex dos comunistas brasileiros.
22

Ver, José Castilho Marques Neto. Solidão revolucionária. Mário Pedrosa e as origens do trotskismo no Brasil (MARQUES NETO, 1993: 295, 296). Foi provavelmente Lucien Laurat (pseudônimo de Otto Maschl), que Pedrosa conheceu em Paris, que lhe apresentou as idéias econômicas de Rosa Luxemburgo. Em 1930 Laurat publicou um livro sobre o tema: L’accumulation du capital d’après Rosa Luxemburg. Muito mais tarde Pedrosa também escreveu um livro sobre o mesmo assunto, mas em relação com a América Latina: A crise mundial do imperialismo e Rosa Luxemburgo (PEDROSA, 1979).
23

Esse texto, traduzido por Miguel Macedo, foi publicado em duas partes, em abril e maio de 1946. No Prefácio à tradução brasileira do livro de Jörn Schütrumpf, Rosa Luxemburg ou o preço da liberdade, Michael Löwy escreve a esse respeito: “Lembro-me ainda do entusiasmo, do fervor mesmo com que líamos esse precioso escrito, quando participei, por volta de 1956, em São Paulo, da fundação de um pequeno grupo ‘luxemburguista’, junto com amigos e companheiros de grande valor como Paul Singer, os irmãos Eder e Emir Sader, Mauricio Tragtenberg, Herminio Sachetta, os advogados Renato Caldas e Luis Carvalho Pinto (…) Estou convencido de que esa brochura de 1918 é um dos textos indispensáveis não só para entender o passado, mas também e sobretudo para uma refundação do socialismo (ou do comunismo) no século XXI.” (LÖWY, 2006: 10) Uma das ironias da história é que esse texto só veio a público na RDA em 1975, acompanhado das habituais observações a respeito dos “erros” de Luxemburgo, e na URSS em 1990.
24

Ver Paul Singer, Mário Pedrosa e o Vanguarda Socialista (SINGER, 2001) Paul Singer, judeu austríaco, emigrou em 1939 com a mãe para São Paulo. Na juventude começou a ler a obra de Rosa

45

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

Em 1946 Mário Pedrosa estava convencido de que Rosa Luxemburgo era a única socialista no mundo ocidental que, embora entusiasta da tomada do poder pelos bolcheviques, podia enfrentá-los de maneira independente: “Sobrava-lhe, para isto, em valor moral e intelectual, em autoridade e em espírito revolucionário”25. Segundo ele, a voz da revolucionária polonesa, com sua defesa das liberdades democráticas, da ação espontânea e da experiência das massas era novamente ouvida por todos aqueles que queriam reconstruir o movimento socialista internacional sobre novas bases que superassem, tanto o reformismo social-democrata “carregado de crimes e de senilidade”, quanto o bolchevismo, “não menos carregado de crimes e degenerado até a horrenda caricatura do que, hoje, sob a forma stalinista, não é mais do que a máscara totalitária de um neobarbarismo.” (PEDROSA, 1979: 129). Contra uma concepção autoritária da política segundo a qual a consciência é introduzida “de fora” na classe operária por um partido de vanguarda “esclarecido”, os socialistas brasileiros – cujo precursor foi Mário Pedrosa – pensavam que o socialismo pode ser somente uma criação autônoma das massas organizadas, seja em um (ou vários) partido democrático, seja nos movimentos sociais, nos conselhos e nas mais diferentes formas de organização pela base. Afastados de todo dogmatismo organizativo eles pensavam, assim como Rosa Luxemburgo, que “A hora histórica exige a cada momento as formas correspondentes de movimento popular e ela cria ela mesma meios de combate novos e improvisados, desconhecidos anteriormente, ela escolhe e enriquece o arsenal do povo, indiferente a todas as prescrições dos partidos” (LUXEMBURGO, 1987: 149)Além disso, o partido político idealizado pelos socialistas brasileiros logo após a Segunda Guerra Mundial não era uma organização centralizada e hierarquizada de revolucionários profissionais, mas a expressão das experiências históricas das camadas subalternas da sociedade. Quanto a esse ponto eles também estavam de acordo com a concepção de Rosa Luxemburgo segundo a qual o partido abarca “o conjunto

Luxemburgo, não só mas também no jornal Vanguarda Socialista. Foi militante do PSB (1950-1965) até que a ditadura militar proibiu o multipartidarismo, permitindo apenas dois partidos. Paul Singer foi co-fundador do PT e no momento é coordenador da Secretaria de Economia Solidária do governo Lula. Para mais informações sobre ele e sobre a influência que Rosa Luxemburgo exerceu sobre suas idéias, ver Uma discípula de Marx que ousava criticar Marx, (SINGER, 2008). David Muhlmann, Réconcilier marxisme et démocratie, (MUHLMANN, 2010).
25

Nota explicativa, A revolução russa (PEDROSA, 1979: 119-20).

46

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

dos interesses progressistas da sociedade e de todas as vítimas oprimidas pela ordem social burguesa” (LUXEMBURGO, 1979: 441). Em outras palavras, tratava-se de pôr em prática a declaração da Associação Internacional dos Trabalhadores: “A emancipação dos trabalhadores é obra dos próprios trabalhadores”. Assim sendo, era preciso que todos os grupo subalternos da sociedade se organizassem (não só os operários da indústria) para defender seus direitos: os negros, os empregados, os trabalhadores agrícolas, os estudantes, as empregadas domésticas, as mães, “todos os que trabalham e não exploram o trabalho alheio”.26 Esta idéia dos movimentos sociais e da luta para criar embriões de socialismo já na sociedade capitalista – o que hoje se chama de contra-hegemonia – era algo espantosamente original na esquerda brasileira daquela época. Para Mário Pedrosa o poder não era um lugar determinado a ser conquistado (para ser reformado como queria a social-democracia, ou para ser destruído como queriam os bolcheviques) mas uma dimensão que era preciso construir. Nesse sentido, ele escreve em Vanguarda Socialista: “O socialismo não consiste somente na conquista do poder pelo proletariado e na realização das reformas de estrutura com a socialização dos meios de produção. O socialismo é a ação consciente, quotidiana e constante das massas, mas por elas mesmas e não por meio de uma ‘procuração’ a um partido de vanguarda mais consciente”27. Mário Pedrosa, assim como Rosa Luxemburgo, estava convencido de que a tomada do poder de Estado, embora fosse importante, não bastava para mudar a sociedade. Essa idéia é claramente exposta por ela em seu discurso à assembléia de fundação do Partido Comunista Alemão (KPD) falando da revolução socialista: “a história não nos faz a tarefa tão fácil como nas revoluções burguesas em que bastava derrubar o poder oficial no centro e substituí-lo por alguns homens, ou por algumas dúzias de homens novos. Precisamos trabalhar de baixo para cima, o que corresponde precisamente ao caráter de massa de nossa revolução (...) devemos conquistar o poder político não por cima, mas por baixo” (LUXEMBURGO, 1987: 510) Em outras palavras, Luxemburgo está se referindo à formação de uma hegemonia das classes subalternas já na sociedade capitalista, o que Oskar Negt chama de “espaço público proletário” (NEGT, 1974: 190) Uma experiência nesse sentido, apesar de sua curta duração, foram os
26 27

Mário Pedrosa (1946b) Vanguardas, partido e socialismo. Mário Pedrosa (1946a), A luta quotidiana das massas e o Partido Comunista.

47

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

conselhos de operários e soldados na Revolução de novembro de 1918 na Alemanha. A tradição dos conselhos como exemplo de democracia participativa permanece um ponto de referência importante para Mário Pedrosa para quem o conceito de democracia representativa deve “ser arquivado num museu de antiguidades” (PEDROSA, 1966: 438). A vitória de uma revolução socialistademocrática, tanto na metrópole quanto na periferia, exige que ela seja feita e controlada pelo poder popular. É preciso construir “novos centros democráticos de poder” (empresas, escolas, municípios, regiões, etc.) o que significa descentralização do poder de decidir, limitação dos poderes do Estado e do capital, “uma extensão do poder popular, quer dizer, uma vitória da democracia sobre a ditadura do lucro” (PEDROSA, 1966: 324). Mário Pedrosa pensava, já em 1946, que o controle dos trabalhadores sobre toda a vida social é o caminho para o socialismo democrático e que este começa imediatamente, “antes da tomada do poder” (PEDROSA, 1946b) Dito de outro modo, não se trata de esperar a “martelada da revolução” (LUXEMBURGO, 1970: 400), mas de tentar construir, aqui e agora, o poder popular, uma idéia aplicada hoje pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) no Brasil e pelos zapatistas no México (LOUREIRO, 2006; LÓPEZ Y RIVA, 2006) Desse ponto de vista a revolução é um longo processo, é a construção de uma contra-hegemonia inseparável da auto-organização e da autogestão. Ou seja, para os socialistas brasileiros depois da Segunda Guerra Mundial, e nisso eles estavam absolutamente de acordo com Rosa Luxemburgo, uma sociedade socialista e democrática começa pelo controle da vida pública pelas massas populares, que devem exercer a autogestão em todos os níveis, começando pela produção (LUXEMBURGO, 1987: 442s). Mário Pedrosa se considerava sobretudo um revolucionário. Numa entrevista pouco antes de morrer declarou: “Os homens da minha idade que não se empolgaram pela Revolução Russa … alguma coisa lhes falta. E ainda acho que uma Nação que não passa por uma revolução não é ainda uma Nação formada. Sempre sonhei uma revolução para o Brasil” (PEDROSA, 1981). Mas como recusava toda concepção doutrinária de revolução e se inspirava na crítica de Rosa Luxemburgo aos bolcheviques (contra a imitação servil da Revolução Russa pela esquerda ortodoxa) nunca abandonou a idéia de que cada país deve seguir seu próprio caminho revolucionário, o qual depende das condições

48

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

objetivas do desenvolvimento local e não pode ser determinado de antemão por nenhum partido-vanguarda.28 Pode-se traçar um paralelo entre a recusa do partidovanguarda pelos socialistas brasileiros e a herança de Rosa Luxemburgo no KPD depois de seu assassinato. É o que faz a historiadora Angela Mendes de Almeida quando lembra que as idéias de Luxemburgo não estiveram na ordem do dia a não ser durante o breve período em que a Internacional Comunista (IC), de maneira tortuosa, adotou a tática de “frente única operária” sem no entanto reconhecer a paternidade alemã da idéia.29 Angela Mendes de Almeida considera esse comportamento da IC “uma espécie de oportunismo, que iria pesar muito fortemente em seguida” sobre a esquerda do mundo inteiro. “Uma sucessão de camadas de mentiras que, na era stalinista, foram conformando uma política inexplicável, com ares de falsidade maquiavélica.” Referindo-se à célebre frase de Rosa Luxemburgo sobre “a liberdade de quem pensa de maneira diferente”, a historiadora acredita que embora o stalinismo seja “uma enorme degenerescência do leninismo, alguns elementos, sobretudo essa intolerância com aquele que pensa diferente, já estavam presentes no bolchevismo, ou no leninismo.” (MENDES DE ALMEIDA, 2008: 55). Após esta curta exposição podemos resumir as idéias que os socialistas brasileiros herdaram de Rosa Luxemburgo: 1. a defesa de uma concepção democrática de partido de massas contra a concepção leninista do partido-vanguarda que, segundo eles, implica a separação antidemocrática entre vanguarda e massas e, como mostrou o desenvolvimento dos partidos comunistas no século XX, a separação entre a direção do partido e a base; 2. a defesa do socialismo democrático como criação autônoma das massas populares que se organizam das mais diferentes maneiras e se politizam na luta diária com a finalidade de transformar o mundo capitalista dos interesses privados numa sociedade justa e igualitária; 3. a idéia de que não há modelo para a revolução, de que a esquerda de cada país deve encontrar seu próprio caminho a partir de sua própria experiência e de sua situação concreta; 4. a

“... revolução não se aprende a fazer em livros ou mesmo em textos escritos, por mais sagrados que sejam de Marx ou Lênin. Ela é o ditado das coisas da terra, da qualificação dos homens que a fazem, das classes em movimento, da realidade histórica de onde provém ou onde atua. Interpretar textos sagrados não substitui a experiência vivida nem a prática, mas foi quase o que se limitaram a fazer tantos dos nossos melhores dissidentes.” (PEDROSA, 1982).
28 29

Essa era uma antiga palavra de ordem do spartakista Paul Levi (nesse momento já expulso do KPD) contra a política golpista e aventureira da Internacional Comunista na Alemanha.

49

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

crítica da democracia representativa e a defesa da autogestão e da auto-organização. Como dissemos no início, essa posição socialistademocrática era manifesta nas origens do PT. Mas com o passar do tempo foi sendo abandonada e substituída pela Realpolitik sem mais, com o intuito de ganhar as eleições e de fortalecer a máquina partidária. Além disso, muitos acreditam que durante o governo Lula o PT se transformou num partido da ordem, burocrático e corrompido.30 A perspectiva socialista-democráticarevolucionária de Rosa Luxemburgo deixou de fazer sentido para a esquerda governamental no Brasil. Os herdeiros de Rosa Luxemburgo estão hoje no MST e entre os zapatistas, movimentos que ao querer ir além da democracia representativa e dos limites que o capital lhe impõe, lutam por uma democracia centrada na autonomia das massas populares. Esses movimentos sociais opõem à esquerda eleitoral, institucionalizada e burocrática, a construção do poder a partir de baixo e insistem na participação das massas populares nos assuntos que lhes dizem respeito como uma condição indispensável à sua formação política. Mas no Brasil ocorre precisamente o contrário. É o que pensa Gilmar Mauro, um dos líderes mais importantes do MST, constatando que no governo Lula (2003-2010) os movimentos sociais se enfraqueceram. Segundo ele a formação política é a única possibilidade de impedir, ou pelo menos de tornar mais difícil a burocratização interna das organizações e a cooptação dos ativistas pelo Estado (MAURO, 2008) . Penso que a observação de Rosa Luxemburgo sobre Marx e Lassalle resume bem o dilema em que se encontram o MST e seus líderes: “(...) quando em vez da crise e da revolução começou a triste saison morte [época morta] da reação política, Lassalle e Marx voltam a compartilhar a mesma idéia – a resignação momentânea e os planos de um trabalho de toupeira de esclarecimento revolucionário, temporário e silencioso.” (LUXEMBURGO, 1979: 151). É neste lento e paciente trabalho de toupeira de formação política, tendo como finalidade a transformação estrutural da ordem capitalista, que o MST aposta todas as suas fichas, especialmente numa época em que a possibilidade de uma reforma agrária em termos clássicos é cada vez mais improvável. Gilmar Mauro acredita que se a esquerda no Brasil quiser estar à altura do desafio que lhe é imposto – em outras palavras, se quiser construir o ciclo “pós-PT” – tem à sua frente a imensa tarefa
30

Ver Francisco de Oliveira, O momento Lênin, (OLIVEIRA, 2006).

50

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

de organizar os trabalhadores em geral (e não só os trabalhadores da indústria). Segundo ele, neste momento é preciso “um movimento político de um tipo novo que parta da idéia de construção de espaços de poder popular, de conselhos, buscando as experiências históricas da Liga Spartakus, a experiência da Comuna de Paris, a experiência dos conselhos de Turim (que eram conselhos de fábrica), buscando a própria experiência latinoamericana; no México tem várias experiências das comunidades indígenas” (MAURO, 2008: 100). Dito de outro modo, trata-se de organizar os trabalhadores a partir das comunidades locais, em diálogo permanente com seus problemas (p. ex., utilizando a cultura como canal de participação) com a esperança de construir uma ampla rede de organizações em todo o país tendo como finalidade formar “uma poderosa contra-hegemonia”: “(...) estou convencido de que este é o caminho: ou a gente constrói este processo dos conselhos populares, organizações populares, com um projeto político claro de substituição da sociedade capitalista e construção de uma sociabilidade diferente – o socialismo – ou efetivamente a esquerda amargará muitos anos.” (MAURO, 2008: 101). Em resumo, no que se refere à questão do socialismo democrático construído a partir de baixo Rosa Luxemburgo é uma referência teórica fundamental para os militantes dos movimentos sociais. A ACUMULAÇÃO DO CAPITAL E A CRÍTICA DA CRENÇA NO PROGRESSO Em sua recepção no Brasil, Rosa Luxemburgo é além disso considerada como uma marxista “terceiro-mundista” avant la lettre por suas obras de economia política, A acumulação do capital e a Introdução à Economia Política 131Fi.31 Do ponto de vista de Rosa Luxemburgo o capital precisa de regiões não capitalistas – “algo fora de si mesmo” – para acumular. Esta idéia foi retomada e atualizada por David Harvey que chama a esse processo de “accumulation through dispossession” [acumulação por espoliação], (HARVEY, 2004: 121-26) uma esclarecedora explicação teórica para a exploração do Terceiro Mundo. Como mostra Harvey, hoje em dia a expansão capitalista não é mais geográfica mas econômica, baseando-se a estratégia
31

Ver (PEDROSA, 1979; SINGER, 1991; 1988; 2008 ; LÖWY, 2008).

51

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

do capital na transformação de antigos direitos em mercadorias (serviços públicos, cultura, saúde, educação, agricultura, água, etc.). Rosa Luxemburgo dá vários exemplos de como a expansão capitalista provoca a destruição das formas de vida tradicionais, ou seja, das comunidades indígenas e camponesas (o que ela chamava de comunismo primitivo). Hoje em dia podemos constatar esse processo na América Latina, provocado pela chamada “modernização” da vida rural, introduzida à força pelo agronegócio e por todas as políticas de integração do espaço na América do Sul financiadas pelo BID.32 A atualidade de A acumulação do capital de uma perspectiva latino-americana também é corroborada pelo economista Paul Singer. Para ele a grande contribuição dessa obra é “mostrar que nunca houve um modo de produção único no mundo. Sempre houve diferentes modos de produção que interagem” ou no passado ou no presente. “Na realidade, o campesinato, o artesanato – a pequena produção de mercadorias precede o capitalismo e convive com o capitalismo até hoje. Isto eu percebi graças à Rosa. Então todo o meu trabalho teórico a partir daí pressupõe múltiplos modos de produção. Isso tem a ver com a economia solidária, obviamente. Quer dizer, eu entendo a economia solidária como um modo de produção, entre outros, que existe dentro do capitalismo, já há duzentos anos, com maior ou menor força, mas que pode, diante das contradições que o capitalismo apresenta, ter um desenvolvimento.” (SINGER, 2001: 18). A crítica dirigida por Rosa Luxemburgo ao aniquilamento dos povos primitivos pelo capitalismo europeu é extraordinariamente próxima de nós, sobretudo se comparada aos comentários de Kautsky nos quais não figuram nem o Terceiro Mundo nem os povos não-brancos. Rosa Luxemburgo destaca insistentemente que o capitalismo, no seu processo de acumulação, precisa desses povos para explorar regiões onde os brancos não podem ou não querem trabalhar, para o quê também Mário Pedrosa chamava a atenção.33 Não podemos esquecer que em Introdução à Economia Política Rosa Luxemburgo fica do lado das vítimas da modernização capitalista: “Para todos os povos primitivos nos países coloniais, a passagem de seu estado comunista primitivo ao capitalismo moderno ocorreu
32

Um exemplo notável é a IIRSA (Iniciativa de Integração da Infra-Estrutura Regional SulAmericana).
33

Ver Rosa Luxemburgo, Die Akkumulation des Kapitals [1912], (LUXEMBURGO, 1985: 311). Ver também: (PEDROSA, 1979: 58-59).

52

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

como uma catástrofe súbita, como um desastre indizível acompanhado dos mais atrozes sofrimentos.” (LUXEMBURGO, 1985: 717). E ela vê na resistência desses povos contra as metrópoles imperialistas uma luta digna de admiração. Michael Löwy foi o primeiro (que eu saiba) a fazer uma interpretação muito original e fecunda desse livro (LÖWY, 1986) quase ignorado pelos comentadores,34 talvez por ser um livro inacabado. Mas é mais provável que a exposição feita por Rosa Luxemburgo, não convencional de um ponto de vista marxista, seja a razão. Os capítulos sobre o comunismo primitivo e sua destruição ocupam mais espaço do que aqueles sobre a produção de mercadorias e o modo de produção capitalista. A era capitalista da história da humanidade aparece aí como uma época breve, condenada a desaparecer. Descrevendo as comunidades camponesas, Rosa Luxemburgo mostra que essas velhas formas sociais “comunistas” eram dotadas de qualidades que as sociedades modernas perderam, podendo assim servir de inspiração para propostas alternativas. Dito de outro modo, os povos originários podem ensinar aos “civilizados” uma maneira de viver em que os interesses da comunidade determinam de maneira harmoniosa e democrática a vida de seus membros. Segundo esta perspectiva, Rosa Luxemburgo recusaria uma concepção teleológica da história, segundo a qual já haveria no passado “bárbaro” da humanidade tendências inelutáveis rumo à civilização capitalista. Sua admiração pelo passado não capitalista da humanidade daria elementos para uma concepção aberta da história, que se oporia criticamente à idéia de progresso linear da social-democracia alemã. Michael Löwy escreve: “Ao confrontar a civilização capitalista industrial com o passado comunitário da humanidade, Rosa Luxemburgo rompe com o evolucionismo linear, com o ‘progressismo’ positivista, o darwinismo social e todas as interpretações do marxismo que o reduzem a uma versão mais avançada da filosofia do senhor Homais. O que está em jogo nesses textos, em última análise, é o próprio significado da concepção marxista de história.” (LÖWY, 1986: 72).
34

Paul Frölich é uma exceção, ainda que não se possa concordar com sua interpretação economicista da obra de Rosa Luxemburgo. Ver: Rosa Luxemburg, sa vie et son œuvre, (FRÖLICH, 1965: 189-191). Ver também J. P. Nettl, La vie et l'oeuvre de Rosa Luxemburg (NETTL, 1972: 818-822). De qualquer maneira nenhuma dessas obras faz referência à perspectiva “terceiro-mundista” de Rosa Luxemburgo. Annelies Laschitza em contrapartida na sua biografia de Rosa Luxemburgo: Im Lebensrausch trotz alledem, (LASCHITZA, 1996: 326) observa: “As explanações de Rosa Luxemburgo abarcam o Próximo Oriente, a Ásia do sul, a África do norte, a América do sul, a Austrália, o que é um dos méritos da sua pesquisa. Essa perspectiva externa à Europa encontrou um interesse cada vez maior no século XX.”

53

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

Hoje em dia pode-se ver claramente que a civilização capitalista ocidental com seu gigantesco desenvolvimento das forças produtivas e a destruição do equilíbrio ecológico do planeta não é modelo para o resto do mundo. Esse progresso é ao mesmo tempo um retrocesso, como constatam Rosa Luxemburgo em várias passagens de sua obra35 e os filósofos da Escola de Frankfurt. Um dos grandes desafios da esquerda marxista hoje é fazer a revisão crítica do conceito de forças produtivas36 e romper com a “ideologia do progresso e o paradigma tecnológico e econômico da sociedade industrial moderna.” (LÖWY, 2000: 64). Em nossos dias, um projeto socialista precisa ter uma dimensão ecológica e mostrar que o desenvolvimento das forças produtivas não é um bem em si mesmo e que a “modernização” do Terceiro Mundo (que, entre outras coisas, reduz a diversidade cultural e ecológica) serve apenas para valorizar o capital.37 Já nos anos 1970 Mário Pedrosa defendia a idéia de que cada país deve seguir seu próprio caminho e recusava vivamente a imitação dos países centrais: “A civilização burguesa imperialista está num beco sem saída. Deste beco não temos que participar – os bugres das baixas latitudes e adjacências” (PEDROSA, 1995: 335). Os herdeiros desta crítica da modernização, e pode-se ver em Rosa Luxemburgo um de seus precursores, são hoje os movimentos sociais formados por aqueles que não encontram lugar no mundo capitalista. Os índios, os quilombolas, os povos da floresta, os trabalhadores sem terra – todos aqueles que devem aniquilados pelo processo de modernização porque supostamente personificam o atraso – fazem enormes esforços para resistir e construir uma nova cultura política, aliados a pequenos grupos da esquerda radical, com o objetivo de erigir uma sociedade mais humana, sem desperdício dos recursos naturais, baseada na autonomia das forças sociais. Mas é preciso reconhecer que, apesar da atualidade de Rosa Luxemburgo, ela não pode responder a todas as perguntas postas pelo presente. É evidente que a esquerda precisa, particularmente no Brasil, de uma nova teoria crítica que leve em
“Para os economistas e políticos burgueses liberais, ferrovias, fósforos suecos, esgotos e lojas significam ‘progresso’ e ‘civilização’. Essas obras em si, enxertadas nas condições primitivas, não significam civilização nem progresso, porque são compradas ao preço da rápida ruína econômica e cultural dos povos, os quais sofrem de uma só vez todas as calamidades e todos os horrores de duas épocas: a das relações de dominação da economia natural tradicional e a da exploração capitalista mais moderna e refinada”(LUXEMBURGO, 1987: 160-161).
35 36 37

É melhor falar de forças destrutivas como propõe Michael Löwy (2005: 54). Ver International Ecosocialist Manifesto de Joel Kovel et Michael Löwy.

54

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

conta as mudanças do capitalismo durante as últimas décadas e seus efeitos nos países do Sul. Essa nova teoria crítica, pelo menos é o que pensa Paulo Arantes, só virá – se vier – de um novo tipo de intelectual de esquerda, com boa formação universitária, tendo assimilado a tradição radical brasileira, com vínculos com os movimentos sociais, desempregado ou subempregado, ou seja, relativamente marginal em relação à sociedade de consumo. Esse novo tipo de intelectual conhece a miséria brasileira dos dois lados, o do Estado e o dos movimentos sociais, e não alimenta ilusões em relação a nenhum dos dois. Mas Paulo Arantes reconhece que, apesar de todos os problemas dos movimentos sociais é neles e a partir deles que “algo politicamente revelador e contundente” pode nascer (ARANTES, 2008: 124). Pode ser que essa nova geração de intelectuais de esquerda produza finalmente o que Rosa Luxemburgo caracterizava como o núcleo do marxismo: o vínculo indissolúvel entre a teoria e a prática.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ARANTES, Paulo. Precisamos de algo politicamente revelador e contundente. In: LOUREIRO, Isabel (org.), Socialismo ou barbárie, Rosa Luxemburgo no Brasil. São Paulo: Instituto Rosa-Luxemburg-Stiftung, 2008. FRÖLICH, Paul. Rosa Luxemburg, sa vie et son œuvre, Paris, Maspero, 1965. HARVEY, David. O novo imperialismo, São Paulo, Loyola, 2004. LASCHITZA, Annelies. Im Lebensrausch trotz alledem, Berlim, Aufbau Taschenbuch Verlag, 1996. LÓPEZ Y RIVAS, Gilberto. Democracia tutelada versus democracia autonomista, Rebelión, 28.03.2006. LOUREIRO, Isabel. Rosa Luxemburg und die Bewegung der Landlosen in Brasilien. Utopiekreativ 185, März 2006. LÖWY, Michael. Le communisme primitif dans les écrits économiques de Rosa Luxemburg, in: WEILL, C., BADIA, G (org.): Rosa Luxemburg aujourd’hui. Paris, Presses Universitaires de Vincennes, 1986.

55

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

LÖWY, Michael. Por um marxismo crítico. In: LÖWY, Michael; BENSAÏD, Daniel, Marxismo, modernidade e utopia. São Paulo: Xamã, 2000. LÖWY, Michael. Apresentação a LOUREIRO Isabel, Rosa Luxemburg – os dilemas da ação revolucionária [1995]. São Paulo: Editora UNESP/Editora Fundação Perseu Abramo/RLS, 2004. LÖWY, Michael. Ecologia e socialismo. São Paulo: Cortez, 2005. LÖWY, Michael. Prefácio à tradução brasileira de SCHÜTRUMPF, Jörn. Rosa Luxemburg ou o preço da liberdade, São Paulo, Expressão Popular, 2006. LÖWY, Michael. A atualidade latino-americana de Rosa Luxemburgo. In: LOUREIRO, Isabel (org.), Socialismo ou barbárie, Rosa Luxemburgo no Brasil. São Paulo: Instituto Rosa-Luxemburg-Stiftung, 2008. [1899],

LUXEMBURGO, Rosa. Sozialreform oder Revolution Gesammelte Werke 1/1. Berlim, Dietz Verlag, 1970.

LUXEMBURGO, Rosa. Organisationsfragen der russischen Sozialdemokratie, In. Gesammelte Werke 1/2, Berlim, Dietz Verlag, 1979. LUXEMBURGO, Rosa. Aus dem Nachlass unserer Meister [1901]. In. Gesammelte Werke 1/2, Berlim, Dietz Verlag, 1979. LUXEMBURGO, Rosa. Die Krise der Sozialdemokratie, In. Gesammelte Werke 4, Berlim, Dietz Verlag, 1987. LUXEMBURGO, Rosa. Gründungsparteitag der Kommunistischen Partei Deutschlands vom 30. Dezember 1918 bis 1. Januar 1919 In. Gesammelte Werke 4. Berlim, Dietz Verlag, 1987. LUXEMBURGO, Rosa. Was will der Spartakusbund? [1918], In. Gesammelte Werke 4. Berlim, Dietz Verlag, 1987. LUXEMBURGO, Rosa. Die Akkumulation des Kapitals [1912], In. Gesammelte Werke 5, Berlim, Dietz Verlag, 1985. LUXEMBURGO, Rosa. Einführung in die Nationalökonomie, In. Gesammelte Werke 5, Berlim, Dietz Verlag, 1985. MARQUES NETO, José Castilho. Solidão revolucionária. Mário Pedrosa e as origens do trotskismo no Brasil, São Paulo, Paz e Terra, 1993.

56

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

MAURO, Gilmar É preciso investir no processo de formação. In: LOUREIRO, Isabel (Org.): Socialismo ou Barbárie – Rosa Luxemburgo no Brasil, São Paulo, Instituto Rosa Luxemburg Stiftung, 2008. MENDES DE ALMEIDA, Angela Falar em Rosa Luxemburgo era quase que uma heresia. In: LOUREIRO, Isabel (Org.): Socialismo ou Barbárie – Rosa Luxemburgo no Brasil, São Paulo, Instituto Rosa Luxemburg Stiftung, 2008. MUHLMANN, David. Réconcilier marxisme et démocratie, Paris, Seuil, 2010. NEGT, Oskar: Rosa Luxemburg. Zur materialistischen Dialetktik von Spontaneität und Organisation; in: POZZOLI, Claudio (Ed.): Rosa Luxemburg oder Die Bestimmung des Sozialismus, Suhrkamp, Frankfurt, 1974 (Existe tradução brasileira: NEGT, Oskar: Rosa Luxemburgo e a renovação do marxismo. In: Hobsbawm, E (Org.). História do marxismo. v.3, Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1984.). NETTL, J. P. La vie et l'oeuvre de Rosa Luxemburg, Paris, Maspero, 1972. OLIVEIRA Francisco de, O momento Lênin, Novos Estudos, São Paulo, 75, julho 2006. PEDROSA, Mário. A luta quotidiana das massas e o Partido Comunista. Vanguarda Socialista, 14.06.1946, Rio de Janeiro, 1946a. PEDROSA, Mário. Vanguardas, partido e socialismo, Vanguarda Socialista, 9.08.1946, Rio de Janeiro, 1946b. PEDROSA, Mário. A opção imperialista, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1966. PEDROSA, Mário. A crise mundial do imperialismo e Rosa Luxemburgo, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1979. PEDROSA, Mário. Pasquim, 18.11.1981; Rio de Janeiro, 1981. PEDROSA, Mário. Mário Pedrosa, Folha de S. Paulo, 21.11.1982, São Paulo, 1982. PEDROSA, Mário. Discurso aos tupiniquins ou nambás (1975). In: ARANTES, Otília (Org.), Política das artes,São Paulo, Edusp, 1995.

57

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

SINGER, Paul. Apresentação à LUXEMBURGO, Rosa. A acumulação do capital, São Paulo, Abril, 1988. SINGER, Paul. A teoria da acumulação do capital em Rosa Luxemburg. In: Isabel Loureiro, Tullo Vigevani (ed.), Rosa Luxemburg, a recusa da alienação, São Paulo, Editora UNESP, 1991. SINGER, Paul. Mário Pedrosa e o Vanguarda Socialista. In: MARQUES NETO, José Castilho (Ed.), Mário Pedrosa e o Brasil, São Paulo, Editora Fundação Perseu Abramo, 2001. SINGER, Paul. Uma discípula de Marx que ousava criticar Marx, In: LOUREIRO, Isabel (org.), Socialismo ou barbárie, Rosa Luxemburgo no Brasil. São Paulo: Instituto Rosa-LuxemburgStiftung, 2008.

58

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

A teoria crítica como teoria da mudança social: o marxismo de Marcuse
Robespierre de Oliveira (UEM)

“Há, sobretudo, dois momentos que vinculam o materialismo à correta teoria da sociedade: a preocupação com a felicidade dos homens, e a convicção de que esta felicidade seja conseguida somente mediante uma transformação das relações materiais de existência. O caminho da transformação e as medidas fundamentais para a organização racional da sociedade são traçados mediante a respectiva análise das relações políticas e econômicas. O aperfeiçoamento ulterior da nova sociedade não pode mais ser o objeto de qualquer teoria: deve ser, como obra livre, o resultado dos indivíduos liberados.” (Marcuse, Filosofia e Teoria Crítica, 1937) “Up to now, it has been one of the principal tenets of the critical theory of society (and particularly Marxian theory) to refrain from what might be reasonably called utopian speculation. Social theory is supposed to analyze existing societies in the light of their own functions and capabilities and to identify demonstrable tendencies (if any) which might lead beyond the existing state of affairs.”(Marcuse, An Essay on Liberation, 1967)

CONSIDERAÇÕES PRELIMINARES Gostaria de alertar para questões polêmicas, as quais não tratarei aqui, por fugirem do recorte necessário. A teoria crítica, discute-se, é entendida como equivalente a marxismo ou como 59

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

algo independente, apesar de ter referências na teoria de Marx. Os autores principais da teoria crítica, como Theodor W. Adorno, Max Horkheimer e Herbert Marcuse, fariam parte do chamado marxismo ocidental, cujo conceito seria de dificilmente determinação. As principais características, segundo Perry Anderson, seriam o déficit dessa geração em relação à anterior, marcada pelo êxito revolucionário. Assim, o marxismo ocidental seria composto por intelectuais mais afeitos à teoria do que à prática revolucionária, mais ainda: seu desenvolvimento teórico voltar-se-ia para questões não tratados por Marx e Engels, como a ênfase sobre a cultura, faltando-lhe o enfoque econômico e político. Para tal desenvolvimento teórico, o marxismo ocidental introduziu outros elementos teóricos “alheios” ao marxismo, como a psicanálise e a sociologia weberiana. Marcuse, em particular nos anos 1960, foi muito criticado pela direita e pela esquerda, seja como perigoso revolucionário, seja como ludibriador do movimento operário. Sem entrar na discussão sobre o mérito de tais questões, lembraria que em sua fase inicial a teoria crítica constituiu-se a partir do debate entre marxismo e filosofia elaborado sobre a crise do movimento operário no início do século XX. A preocupação com o problema da consciência surgiu com grande relevância nesse período em vista da vitória, que já se desenhava, de sistemas autoritários, como o fascismo e o estalinismo, com apoio dos próprios operários. Neste sentido, pode-se compreender a teoria crítica como uma contribuição ao desenvolvimento da teoria marxista, a qual nunca teve uma elaboração absoluta e universal, não sendo, portanto, dogmática. O apoio de outras teorias, como a psicanálise e a sociologia de Max Webber, significava preencher lacunas da própria teoria marxista. Não seria descabido afirmar que Marx também se apropriou, a seu modo, da teoria burguesa de seu tempo. Assim, considera-se que não há um corpo teórico fechado do marxismo, mas sim interpretações, por vezes apaixonadas, as quais chegam a digladiar-se visando sua preponderância sobre as demais. Tais interpretações muitas vezes censuram Marcuse equivocadamente, a partir de uma crítica exterior ao próprio pensamento dele.38

38

Sobre o marxismo ocidental, veja-se Anderson, Perry. Considerações sobre o marxismo ocidental. Considerações sobre o marxismo ocidental. Trad. M. Levy. Revisão técnica. E. Sader. 2ª ed. São Paulo, Brasiliense, 1989. Sobre a crítica ao marxismo de Marcuse, ver entre outros, Kellner, Douglas. Herbert Marcuse and the crisis of marxism. Berkeley, Los Angeles, University of California Press, 1984.

60

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

A “PERSISTÊNCIA DA UTOPIA” No presente texto, mostrarei alguns aspectos da compreensão do marxismo por Marcuse, relevando sua contribuição para o debate revolucionário, apontando sua originalidade e limitações. A grande característica do marxismo de Marcuse é o que Gunzelin Schmid Noerr chamou de “persistência da utopia”. A perspectiva da felicidade, da liberdade, a preocupação com o papel do indivíduo, a abolição do trabalho alienado, a necessidade da ética da revolução estão no horizonte da perspectiva utópica de Marcuse. Tais parâmetros podem ser utilizados pela imaginação ou fantasia para vislumbrar uma outra sociedade racionalmente organizada. Esta realidade possível, embora não existente, é a utopia. Para Marcuse, o socialismo é a transformação da sociedade existente numa qualitativamente diferente, cujos parâmetros podem ser delineados a sua préexistência. A utopia não é só o objetivo a ser alcançado, como orientadora do processo, na medida em que uma sociedade melhor depende da consciência dos homens desse objetivo para sua realização. Uma sociedade qualitativamente diferente e melhor do que é esta é possível, porém não decorre do acaso das necessidades. O conceito de utopia recebeu uma conotação pejorativa, principalmente, a partir de Marx e Engels em seu “Manifesto do Partido Comunista”. Para eles, tratava-se de combater as visões anteriores de socialismo como equivocadas, para afirmarem a validade de sua nova proposição. A nova conotação de utopia aparece com Ernst Bloch, como “utopia positiva”. Trata-se de elaborar uma nova realidade a partir da crítica à realidade existente, elemento comum a diversas utopias (desde Thomas More), mas a diferença estaria na insistência do caráter material da crítica, tal como Marx fez em O Capital. Em “Filosofia e Teoria Crítica” (1937), Marcuse afirma o conceito de utopia em contraposição à antropologia filosófica, a qual seria apenas descritiva da situação humana tal como é, enquanto a utopia visaria afirmar os homens como podem ser. Para Marcuse, os homens podem ser mais do que efetivamente são. Essa perspectiva utópica aparece no jovem Marcuse, o qual participou da revolução fracassada da Alemanha em 1918, e acompanha seu amadurecimento teórico ao longo de sua obra, como um fator normativo. O jovem Marcuse abandonou um conselho de soldados quando viu os oficiais serem eleitos para

61

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

cargos de direção. Tal rebeldia, embora acompanhada da falta de experiência política, retratava a perspectiva libertária de Marcuse, que desde jovem esteve mais próximo da linha política de Rosa Luxemburg do que do bolchevismo de Lênin. Apesar de Marcuse não ter mais se interessado pela participação partidária, ele se manteve sintonizado com o movimento operário. Isto pode ser considerado como uma limitação do marxismo de Marcuse, o fato de não ter uma experiência partidária e ter elaborado um programa político claro, como as discussões de Luxemburg e Lênin. Entretanto, deve-se considerar as limitações históricas da época, como o estalinismo, o nazismo, a Segunda Guerra Mundial, a Guerra Fria. Mas, também se deve lembrar o papel de Marcuse na New Left e suas proposições políticas (como as 33 teses publicadas em Tecnologia, guerra e fascismo, 1998), nas quais ele reafirma sua perspectiva libertária inclusive para aqueles que desejam uma futura sociedade livre. Segundo Marcuse, em “Filosofia e Teoria Crítica” (1937), a “utopia é o elemento mais progressivo na história da filosofia”. A perspectiva utópica aparece em Marcuse mediante a articulação entre ontologia e antropologia, desenvolvendo-se desde uma ontologia concreta até uma antropologia negativa (abstrata). Assim, não só sua preocupação com o papel do indivíduo, subsumido sob várias categorias (como a classe, o povo, o partido), como a preocupação com um fundamentação ontológica do marxismo o atraíram para a filosofia de Ser e Tempo (1927), de Heidegger. Na minha interpretação, corroborada por Douglas Kellner, Marcuse foi desde o início fundamentalmente marxista. A filosofia heideggeriana, para ele, visava preencher “lacunas” na teoria marxista. Assim, formulou o projeto da “filosofia concreta”, no qual a perspectiva ontológica aparecia com mais ênfase do que a antropológica. Mais ainda: a perspectiva ontológica era posta como concreta tendo em vista sua apreensão da historicidade humana.39 Deste modo, para ele, torna-se possível determinar o papel do indivíduo no processo revolucionário. Contrário, a Lukács, para quem só os possuidores da “correta consciência de classe” seriam revolucionários, Marcuse insiste na “ação radical” dos descontentes com o sistema, aqueles que reconhecem sua opressão diária, apesar de não saberem
“Apenas com a unificação de ambos métodos — um fenomenologia dialética que representa um método de extrema e constante concreção — é possível fazer justiça à historicidade do Dasein humano.” Marcuse, “Contribuições para uma fenomenologia do materialismo histórico” (1928) In: Marcuse, Herbert. Heideggerian Marxism. Richard Wolin and John Abromeit (Eds) University of Nebraska Press, 2005, p. 21.
39

62

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

como se livrarem dela. O conceito de ação radical visa incluir também o conceito de “revolução total”, isto é, que a revolução não ocorra apenas no plano econômico e político, mas sim no plano da própria existência vital dos homens. A filosofia preocupa-se com os homens na medida em que é produção humana. Neste sentido, a filosofia elaborou verdades sobre as relações, verdades que não foram efetivadas na realidade. A consciência dos homens pode ser obscurecida e oprimida não só pelas condições materiais existentes como também pelas promessas não cumpridas da filosofia. A dimensão filosófica, do mesmo modo que para Korsch e Lukács, tem uma contribuição crítica para a teoria marxista. Daí a necessidade de justificação filosófica do marxismo para o jovem Marcuse, que via na ontologia da historicidade humana a chave para a crítica imanente do processo social dos homens. Apesar da linguagem heideggeriana, Marcuse insiste na visão marxiana d’A Ideologia alemã de Marx e Engels, em que ambos autores afirmam a superioridade das condições materiais frente a elaboração idealista das mesmas condições. Ao avançar nessa direção, Marcuse encontra insuficiências na fenomenologia heideggeriana, cujos conceitos soam muito abstratos e vazios. Bastou a publicação dos Manuscritos econômico-filosóficos de 1844 de Marx, para tornar Heidegger desnecessário. Marcuse encontrara no próprio Marx a fundamentação que buscara na fenomenologia. Nem é preciso mencionar o “namoro” de Heidegger com o nacional-socialismo para mostrar o rompimento entre ele e Marcuse e o abandono do projeto da filosofia concreta. No jovem Marx, Marcuse encontra um conceito de essência humana determinado tanto pela história quanto pelo trabalho e pela sociedade humana, porém num sentido negativo e com um caráter antropológico também negativo: os homens não são como podem ser. Um conceito fundamental de Marx é a essência genérica (Gattungswesen) do homem: “o homem é o mundo dos homens”. Assim, no texto “Sobre o conceito de essência” (1936), Marcuse faz um de ajuste contas com a fenomenologia, que tinha pretensões de um conceito material de essência. Marcuse mostra que o conceito de essência da fenomenologia e de outras filosofias próximas são abstratos justamente por se aterem à descrição do que o homem é, sendo condescendentes com a realidade tal como está. O conceito de essência para Marcuse resulta de características humanas universais abstraídas de seu conteúdo real, tais como: a linguagem, o trabalho, a racionalidade, a sociabilidade, a liberdade e a felicidade, entre outros. Tais

63

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

características são abstratas (e dadas negativamente) na medida em que não são efetivadas na realidade, sendo postas então como potencialidades. A não efetivação delas resulta da máfacticidade humana e das relações sociais existentes. Neste sentido, a crítica da economia política é entendida como crítica das relações sociais. As potencialidades humanas não são cumpridas devido à opressão dos homens pelos próprios homens. O conceito de essência humana aparece como necessário por ser medida da crítica à realidade existente, pois se não houvesse tal medida a crítica seria infundada. O capitalismo é considerado como “catástrofe da essência humana” e por isso uma má-facticidade. Desde o início, o principal método da crítica é a imanência a seu objeto. O pressuposto da sociedade humana é a realização plena das potencialidades humanas, entretanto, as relações econômicas desiguais entre os homens, a divisão social, privilegiaram uma camada da sociedade em detrimento das demais, impedindo a realização dos homens como tais. Para Marx, o comunismo é “humanismo social”, isto é a realização da sociedade como humanidade, sendo para isso superação da divisão e da opressão social existentes. A realização das potencialidades humanas aparecem como utópicas face ao existente, não como impossibilidade, mas como guia para sua realização.40 Da mesma forma que se mede criticamente o que é com o que pode ser, mede-se o conceito com sua existência. Assim, Marcuse recorre à história da filosofia para avaliar determinados conceitos em relação ao que é dado empiricamente, como o conceito de liberdade, indivíduo, felicidade, razão, entre outros. Neste sentido, afirma em O homem unidimensional (1964) a importância dos universais, cuja realização particular aparece em geral como deficiência. O indivíduo existente não é como o liberalismo clássico proclamou: um indivíduo isolado que devesse somente a sua razão e vontade os objetivos a serem alcançados. O indivíduo seria autônomo face às autoridades instituídas pela
“The theoretical status of Marcuse’s utopian construction — especially in his later work — has nothing to do with the possibility of its realization. It serves as a theoretical medium of critique.!” Bundschuh, Stephan, “The Theoretical Place of Utopia – Some remarks on Herbert Marcuse’s Dual Anthropology”, In Herbert Marcuse – A critical reader, John Abromeit and W. Mark Cobb (eds), New York and London, Routledge, 2004, p. 158. Bundschuh afirma que Marcuse desenvolve uma antropologia que é normative do seu projeto de transformação social. “In Marcuse’s work the utopian dimension is a precondition of theoretical critique. But does this imply that a transformation of the essence of man must also be a real possibility? On this point there is a difference between Marcuse’s understanding of his own theory and the real theoretical position of his utopia. Marcuse thinks that his new anthropology is not only a theoretical project but also a real form of existence.” (Idem, p. 160.)
40

64

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

sociedade, de fato seria constituído contra a sociedade. O diagnóstico de Marcuse, em “Algumas implicações sociais da tecnologia moderna” (1941), e de Horkheimer, em O eclipse da razão (1947), aponta para o declínio do indivíduo no interior da sociedade capitalista avançada. O indivíduo perdeu sua autonomia, sendo subsumido sob categorias gerais: como massa, povo, classe, etc. Daí o interesse de Marcuse pelo papel do indivíduo no processo revolucionário. Os marxistas de sua época tratavam o indivíduo subsumido sob o coletivo, de tal modo que os indivíduos desapareciam. Muitos autores chegaram a afirmar isto como verdade da teoria marxista, que não teria lugar para o indivíduo. Marcuse buscou, então, em Heidegger a afirmação existencial do indivíduo. Mas os Manuscritos... de Marx mostraram não só a não necessidade da filosofia de Heidegger como também a afirmação concreta do indivíduo. Por isso, Marcuse escreve em Razão e revolução (1941) que o comunismo é a realização do indivíduo. Entretanto, não o indivíduo do liberalismo, o indivíduo isolado, mas sim um indivíduo socialmente inserido. Mas a inserção do indivíduo na sociedade capitalista ocorre em meio à divisão social de classes. Os mecanismos ideológicos de dominação, a integração da classe trabalhadora ao mercado consumidor, a difusão cultural, são aspectos que corroboram para a perda de autonomia dos indivíduos. Os regimes autoritários demonstraram a manipulação dos indivíduos, ao fornecerem para eles meios de satisfação. Deste modo, não são motivados para a revolução, a qual, segundo Lênin, não é obra só dos comunistas. Os trabalhadores e os indivíduos, em geral, participam da revolução na medida em que a sociedade não atende a seus interesses e não há perspectivas reais para isso, poucos são os que têm uma alternativa social, como o socialismo, como objetivo final. Os homens se formam pelo trabalho, modelam suas habilidades pelo trabalho. Marx, porém, afirma que além de formar o trabalho deforma. Mais ainda: a condição de trabalhador nega a existência do homem, inclusive até à morte. O capitalismo é a desrealização da essência humana, na medida em que os homens não desenvolvem suas potencialidades. O caráter alienado do trabalho e da própria sociedade humana contribui para tal desrealização. Marcuse recorre a Freud para quem o trabalho é o principal agente repressor das pulsões humanas. Há repressões necessárias para a organização social, como a moral, há outras, porém, que aumentam a carga opressiva dos homens. O princípio de realidade pode ser considerado como a adaptação necessária dos homens à ordem social, controlando as pulsões primárias. Mas

65

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

a sociedade humana erigiu-se em sua história de modo mais repressivo do que o necessário. Marcuse utiliza o termo “princípio de desempenho” para descrever o princípio de realidade na sociedade capitalista competitiva. O termo “mais repressão” designa uma repressão adicional. Os trabalhadores não se emancipam devido apenas à oposição da burguesia, mas também devido a si mesmos. A dificuldade pela integração e adaptação social leva os trabalhadores a terem dificuldade de romperem com a continuidade histórica e social. O trabalho alienado ocupa o tempo dos homens de tal maneira que sobra muito pouco tempo para pensarem sobre si mesmos e viverem suas próprias vidas. O tempo fora do trabalho também é um tempo administrado. Segundo Marcuse, a racionalidade vigente é a racionalidade tecnológica (ou instrumental). Trata-se da racionalidade organizada no interior da fábrica expandida para o todo da sociedade, visando produtividade, eficiência e lucro. Deste modo é possível entender métodos altamente racionais, coordenados e organizados, para uma finalidade irracional. Auschwitz é exemplo disso. A tecnologia não se refere apenas a aparelhos e instrumentos, mas também a procedimentos. Os indivíduos são cada vez mais coordenados por instâncias superiores da sociedade, como a mídia. Eles se guiam pela lógica do cálculo custo-benefício e pela ideologia dominante do capitalismo: a compra e venda de mercadorias. O desenvolvimento da tecnologia aumentou a produção de mercadorias e mudou o comportamento dos indivíduos, afetando até sua biologia, como por exemplo a ingestão de fast-food. A moda oferece variedades do que vestir e de se comportar; o plug-in das rádios, o que ouvir; a “opinião pública” da mídia, o que pensar sobre certos acontecimentos; e assim por diante. A própria razão dos homens está ceifada do poder crítico e de discernir sobre os processos a que estão submetidos. Na medida em que seu objetivo o lucro a lógica do capitalismo é estruturalmente “ilógica”, ela passa por cima de outros objetivos, como o bem-estar da humanidade e a ecologia. O desperdício de recursos naturais e de vidas humanas insere-se na lógica de desenvolvimento do capitalismo. Marcuse foi um dos primeiros a apontar a ecologia como um problema real para a sociedade humana. A frase “socialismo ou barbárie” de Rosa Luxemburg torna-se cada vez mais real na época da sociedade

66

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

industrial avançada.41 Segundo Marcuse, “(...) Marxismo como uma teoria é uma análise — política, sociológica e econômica — do capitalismo, que chega à conclusão de que o sistema capitalista só pode preservar-se através de conflitos crescentes, desperdício de recursos, destruição de recursos, guerras, e assim por diante, e que a transição para o socialismo é a única solução para esta filosofia.”42 A sociedade unidimensional eliminou a dimensão da liberdade. O processo de contenção é organizado em todos os níveis, onde a indústria cultural não alcança a força bélica é utilizada. Porém, não se trata de uma repressão declarada, a liberdade converteu-se em instrumento de dominação. O processo de dominação se faz por meio da exigência de liberdade, dentro da ordem estabelecida. A sociedade democrática é autoritária na medida em que a eleição se torna plebiscitária e é livre apenas para a escolha dos senhores. A oportunidade de alternativa está em extrapolar os limites estabelecidos pela ordem vigente, os quais não são aceitos pela própria ordem. Assim, a exigência de emprego para todos é impossível de ser cumprida pelo sistema capitalista que necessita de um exército industrial de reserva para regular o valor dos salários. Nos anos 1960 e 1970, Marcuse “apostou” em grupos marginais, não como substitutos da classe operária, mas como catalisadores de um possível processo revolucionário. As chamadas “minorias”, como negros, mulheres, homossexuais, entre outros, poderiam colocar em xeque a estrutura social vigente conservadora, porém com o tempo tanto elas quanto a sociedade se adaptaram uma à outra. As minorias queriam direitos reconhecidos e foram “aceitas” pela sociedade que descobriu elas serem também consumidoras de mercadorias. O processo de contenção visa a adaptação ao mecanismo social, reduzindo focos de contestação. Neste sentido, a New Left 43
Marcuse, “The classical alternative “socialism or barbarism” is more urgent today than ever before.”, “The failure of the New Left?” In: Marcuse, Herbert. The New Left and the 1960s. Douglas Kellner (eds) London and New York, Routledge, 2005, p.191 (Collected Papers of Herbert Marcuse, vol. III)
41 42 43

Marcuse, H. “Mr. Harold Keen: Interview with Dr. Herbert Marcuse”, op. cit., pp. 128-9.

Marcuse, “The New Left consists of political groups that are situated to the left of the traditional communist parties; they do not yet possess any new organizational forms, are without a mass base and are isolated from the working class, especially in the United States. The strong libertarian, antiauthoritarian movements that originally defined the New Left have vanished in the meantime or yielded to a new “group-authoritarianism.” Nevertheless, that which distinguishes and essentially characterizes this movement is the fact that it has redefined the concept of revolution, bringing to it those new possibilities for freedom and new potentials for socialist development that were created (and immediately arrested) by advanced capitalism. As a result of these developments, new dimensions of social change have emerged. Change is no longer defined simply as economic and political upheaval, as the establishment of a different mode of production and new institutions, but also and above all as a

67

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

apareceu como uma alternativa à esquerda ortodoxa, que só compreendia o desenvolvimento histórico social seguindo dogmas oficiais. A nova realidade histórica surgida após a Segunda Guerra não permitia um processo revolucionário como foi com a Revolução Russa de 1917. A revolução chinesa e a revolução cubana apareceram como novas alternativas fora do bloco soviético. Muitos ficaram impressionados e se deixaram levar, como Jean-Paul Sartre que apoiou o maoísmo. Mas a New Left pretendia estabelecer uma organização muito mais livre e democrática do que as organizações tradicionais, visando métodos ação menos dogmáticos, incorporando debates não registrados pela esquerda tradicional, como o movimento ecológico, o feminismo, entre outros. O problema da revolução tornou-se a dimensão total da existência. Os jovens militantes sabem ou sentem que o que está em jogo é simplesmente suas vidas, a vida de seres humanos que se tornaram um brinquedo nas mãos dos políticos e gerentes e generais. Os rebeldes querem retirá-la destas mãos e fazer valer a pena vivê-la; eles percebem que isto ainda é possível hoje, e que o alcance desta meta necessita de uma luta que já não pode ser contida pelas regras e regulamentos de uma pseudo-democracia em um Mundo Livre Orwelliano.44 À GUISA DE CONCLUSÃO Se em Um ensaio sobre a libertação (1967), Marcuse desenha uma utopia crítica, pensando o socialismo como uma necessidade biológica e defendendo uma nova sensibilidade, em Contrarevolução e revolta (1971), embora mantenha muitas de suas posições, ele percebe claramente o processo de contrarevolução instaurado e a prática petrificada da esquerda institucionalizada e da fraqueza da oposição real. Para ele, a luta de classes não deixou de existir, age inclusive com mais força por meios mais sutis, como a indústria cultural, embora a força das armas continue imperando nos rincões do mundo. O capitalismo é visto tanto em sua face de abundância quanto de miséria. A estrutura conjuntural mundial estava mudando. O mundo estava
revolution in the prevailing structure of needs and the possibilities for their fulfillment.” (“The Failure of the New Left”, op. cit., p.183)
44

Marcuse, Um ensaio sobre a libertação (1967), Preface, p. X.

68

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

sofrendo um processo de repressão violento, em todos os níveis: econômico, político, social, cultural, sexual, etc. Marcuse vislumbrara parte do que estava por vir. Certamente, o fim da Guerra Fria, o fim da URSS e dos países socialistas do leste europeu, a transformação em potências da China (com características capitalistas e poder político vinculado ao partido comunista) e da Índia, a integração cada vez maior das minorias nos países capitalistas avançados, o aparecimento de novas doenças, como a AIDS, o desenvolvimento da engenharia genética, entre diversos outros fatores, não estavam no horizonte de Marcuse. Mesmo assim, muitos destes fatores e até a nova ordem mundial após o 11 de setembro de 2001, corroboram análises desenvolvidas por ele em seus últimos textos.45 Pode-se notar como características do marxismo de Marcuse, a busca incessante pela utopia como guia ético do processo de transformação social e a crítica sem concessões ao existente. A crítica da economia política como crítica das relações sociais implica em novas formas de sociabilidade, em novas formas de relação com a natureza (não mais como mercadoria). A atitude ética poderia ser pensada como um sistema da vida ética, visando, porém, a liberdade e a felicidade de todos. Como guia do processo, não se pode pensar a liberdade e a felicidade como “presente de natal”, como promessa a ser adiada. A abolição do trabalho alienado é parte essencial do processo de transformação social, na medida em que o trabalho alienado além de gerar riqueza também gera desconforto, miséria e sofrimento. Não, porém, em Marcuse, uma ética do trabalho, nem uma sobrevalorização do trabalho. Os trabalhadores não são melhores por serem trabalhadores. Eles têm destaque no processo revolucionário devido à sua posição na produção social. Há que se combater o machismo, sexismo, racismo, autoritarismo e outras formas nocivas a um processo de mudança social. Deve-se respeitar o outro e a natureza. A mudança social não pode ser efetuada de “cima para baixo”, mas deve ser um processo que afete o todo da sociedade e que os indivíduos devam sentir sua necessidade. Marcuse entende as dificuldades deste processo e afirma que a revolução não é para amanhã, não há ilusão nisso. A contrarrevolução ainda é forte. A paralisia (ou fraqueza) da oposição tem garantido tal força. Mesmo assim, não se deve deixar cair a bandeira do socialismo, cuja propaganda necessita ser
45

Cumpre observar que Marcuse contribui para o marxismo, não pretende dar a última palavra ou ser dogmático.

69

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

mantida e debatida para ser compreendida. Trata-se, talvez, de um trabalho de “formiguinha”, um trabalho muito arriscado, e, para Marcuse, o risco vale a pena.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANDERSON, Perry. Considerações sobre o marxismo ocidental. Considerações sobre o marxismo ocidental. Trad. M. Levy. Revisão técnica. E. Sader. 2ª ed. São Paulo, Brasiliense, 1989. ABROMEIT, John and COBB, W. Mark (eds) Herbert Marcuse – A critical reader, New York and London, Routledge, 2004. KELLNER, Douglas. Herbert Marcuse and the crisis of marxism. Berkeley, Los Angeles, University of California Press, 1984. MARCUSE, Herbert. The New Left and the 1960s. Douglas Kellner (eds) London and New York, Routledge, 2005, p.191 (Collected Papers of Herbert Marcuse, vol. III). __________. Heideggerian Marxism. Richard Wolin and Abromeit (Eds) University of Nebraska Press, 2005. John

__________. Cultura e sociedade. Wolfgang Leo Maar (org.) São Paulo, Paz e Terra, 1997, 1998 (2 vol.). __________. Contra-revolução e Revolta. Trad. A. Cabral. Rio de Janeiro, Zahar, 1981. __________. Razão e revolução. Hegel e o advento da teoria social. Trad. M. Barroso. 4 ed. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1988. __________. Tecnologia, guerra e fascismo. Douglas Kellner (ed). Trad. Maria Cristina Vidal Borba. São Paulo, Unesp, 1999.

70

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

Gramsci e a cultura de seu tempo: observações sobre arte e literatura
Anita Helena Schlesener (UTP)46 O presente trabalho pretende retomar algumas reflexões sobre o conceito de hegemonia e sua relação com a cultura a partir das observações de Gramsci sobre arte e literatura. O tema se insere numa perspectiva recente de leitura dos escritos desse autor, a partir da publicação da nova edição crítica iniciada em 2007, como parte da Edição Nacional das obras de Gramsci, acompanhada de um estudo crítico que redefine o contexto de produção da obra. Os temas sobre a literatura aparecem nas intenções de pesquisa esboçadas nas primeiras cartas do cárcere e em alguns projetos de pesquisa, alem da explicitação do desejo de estudar varias línguas a partir da tradução de textos de determinados autores alemães e russos, entre eles Goethe, Marx, Dostoievski, Tchecov, Gogol e Pushkin.47 Gianni Francioni, organizador da nova Edição Crítica, acentua que a escolha dos autores e dos textos a traduzir evidenciam tanto interesses precedentes ao confinamento quanto problemas centrais a desenvolver nos Cadernos do Cárcere, fato que se pode constatar principalmente na escolha dos textos de Marx. De qualquer modo, as idéias de Gramsci sobre a literatura de seu tempo precisam ser examinadas na sua relação com sua teoria política, na qual se pode inserir a sua preocupação com uma historia da cultura e os

46

Professora de filosofia política (aposentada) da UFPR; professora do Mestrado e Doutorado em educação da UTP.
47

Esse último nos traz a lembrança da influência do romantismo nas primeiras leituras de Gramsci no período universitário, tanto na vertente russa quanto na francesa (estudada por GERVASONI,1998). Para Gramsci, a questão do romantismo italiano precisa ser entendida no contexto da relação ou ligação particular entre os intelectuais e o povo; isto é, trata-se de um problema que envolve, também aqui, o aprofundamento das raízes históricas e sociais a partir das quais se construíram as relações políticas na Itália. Em linhas gerais, é sempre o significado político que Gramsci busca na literatura. O que o preocupa é elaborar uma história da cultura e não uma história da literatura.

71

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

seus objetivos em relação a uma nova organização social e política. Evidenciar a relação entre política e cultura no contexto do conceito de hegemonia permite salientar as novas dimensões da luta de classes; esta assume cada vez mais a forma de formação de hábitos, costumes, modo de pensar que se torna homogêneo e possibilita que as formas de vida dos dominantes sirvam de modelo e exemplo para as classes dominadas, que perdem assim a sua capacidade de agir e decidir autonomamente. Nesse contexto, a abordagem gramsciana da literatura assume nova configuração no âmbito da teoria política, sempre tendo como pressuposto a relação intrínseca entre política, historia e filosofia. Atribui-se para a literatura uma função ampliada, enquanto enunciadora de conceitos na forma assimilável no senso comum e enquanto forma de explicitar relações históricas que constituem a sociabilidade e as relações de forças que mantém ou renovam uma determinada estrutura política. A função mistificadora de um pensamento homogêneo que anuncia a promessa de participação e de liberdade para todos no contexto da ordem burguesa, basta que se trabalhe e se consuma, é abordada por Gramsci por meio da metáfora do carrossel: 48 a sociedade burguesa é um grande parque de diversões que tem no seu centro um carrossel; a felicidade se traduz em andar nos cavalinhos, fato que demonstra que se conseguiu o acesso à propriedade. Acontece que existem milhares de pessoas que tentam andar nos cavalinhos, mas somente algumas conseguem; as outras sofrem todos os constrangimentos sem resistência, porque esperam, um dia, conseguir ascender socialmente e usufruir as benesses da propriedade. O que se ressalta nessa metáfora é que a riqueza não se apresenta como um fim em si, mas como um meio para conseguir a liberdade, isto é, a busca de riqueza não se circunscreve ao material, mas envolve uma finalidade maior que é a liberdade e a continuidade do bem-estar gerado; essa concepção disseminada no senso comum retira da exploração do trabalho e do conjunto do processo de dominação seu caráter moral negativo e acresce-a de um elemento meritório vinculado à preservação da família e à transmissão de valores. A consolidação da hegemonia de um grupo social acontece quando se alcança uma homogeneidade de
48

O artigo no qual Gramsci apresenta esta metáfora foi escrito em 1918, publicado em Gramsci (1975) e se encontra traduzido no livro Antologia de textos filosóficos, publicado pela Secretaria de Educação do Paraná em 2009, como material didático para o ensino médio.

72

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

pensamento, ou seja, quando o domínio de uma classe determina o modo de ser, de pensar, de competir e de conceber a própria individualidade. A questão da cultura, portanto, reveste-se da ideologia como pratica de poder, o que pode ser compreendido somente quando as classes dominadas esclarecerem para si as varias formas que assume a dominação no contexto do modo de produção capitalista. Para as classes trabalhadoras a questão cultural reveste-se das características da luta de classes, que implica em compreender que, ao assimilar o pensamento dominante, compartilham um horizonte subjetivo que jamais poderá ser usufruído verdadeiramente. A ideologia como prática de poder produz e realimenta o imaginário social criando no indivíduo expectativas de ascensão social que nunca serão realizadas, mas que produzem, no senso comum, uma apatia, uma indiferença política difícil de abalar. No campo da democracia burguesa, as eleições, o debate parlamentar (o parlamento é o lugar onde "se parla"), a proclamação da igualdade de acesso aos direitos individuais e outras práticas, ocultam a verdadeira situação política, que se produz para manter e consolidar a relação efetiva entre a estrutura econômica e o aparato estatal; a pratica e se reforça na medida em que, no imaginário social se mantém a crença de participação igualitária e do exercício de uma política democrática no âmbito do Estado. Nisso consiste a relação entre política e cultura: esclarecer como se constrói a sociabilidade como hegemonia dos dominantes, que desarma e imobiliza qualquer possibilidade de organização política de massas. A leitura que sustenta essa exposição tem como base os Cadernos do Cárcere que, entre os vários temas que abordou e que possuem relevância no contexto da formação das relações de hegemonia, está a cultura popular, considerada na sua relação com a arte e a literatura de seu tempo, com as quais Gramsci tentou estabelecer um diálogo. Dentro dessa perspectiva, a pergunta que se faz é sobre o que é efetivamente popular, ou seja, o que é produzido pelas classes populares e o que é apresentado e veiculado para elas. No contexto do pensamento de Gramsci a cultura popular assume um significado próprio, na medida em que pressupõe a luta de classes e a correlação de forças expressa nas relações de hegemonia: a cultura se expressa no senso comum por meio de um modo de pensar; o senso comum se compõe de um conjunto fragmentado e incoerente de conhecimentos evidenciados por Gramsci no chamado “folclore” e por elementos coerentes e mais

73

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

sistematizados a partir dos referenciais hegemônicos, denominados pelo autor como “filosofia”. A característica fragmentária e assistemática do senso comum se constitui na grande fraqueza desse modo de pensar, visto que a ausência de uma coerência não permite evidenciar as contradições que permeiam o cotidiano e se traduzem no antagonismo entre o pensamento e a ação. Somente a elaboração de um pensamento crítico e coerente, a partir da organização política, pode permitir aos trabalhadores identificar na sua prática social e política os germens de um novo pensamento e renovar a cultura. Enquanto isso não acontece, a cultura popular se constitui de elementos do pensamento dominante e dos valores e idéias que provém tanto do passado mais remoto quanto do ideário das classes que detém o poder. A organização política, possibilitando uma compreensão do conjunto de relações econômicas, sociais e políticas, evidenciaria as formas culturais de dominação presentes na divulgação e consolidação de um pensamento homogêneo e permitiria a elaboração de um pensamento rico e peculiar da realidade, que consistiria, então, na cultura popular. Gramsci evidencia esta situação no contexto da realidade italiana de sua época, na análise de situações diversas ocorridas no curso da história, desde a Revolução Francesa, passando pela Revolução burguesa italiana, que teve início no renascimento e se consolidou como revolução passiva no Risorgimento, até a ascensão do fascismo na Itália. A leitura da história traz implícita a discussão sobre os intelectuais enquanto funcionários da hegemonia, ou seja, enquanto responsáveis por uma constante “direção intelectual e moral” que sedimenta e mantém a hegemonia de determinados grupos sociais. Da retomada e reinterpretação da história moderna se elaboram os elementos centrais do conceito de hegemonia: um grupo social é dominante tanto pelo exercício da força, que lhe permite submeter os grupos resistentes, quanto pela direção intelectual e moral, que lhe permite alcançar o consentimento pela formação de um modo de pensar homogêneo. El qualquer caso è mais interessante, para os grupos que desejam conquistar a hegemonia, tornar-se dirigentes antes de dominantes e, ao conquistarem o poder, manter a direção intelectual e moral. Na organização política se criam os mecanismos de direção e de participação efetiva e consciente, fato que implica em formar seus próprios intelectuais, cujo compromisso refletir e criticar as contradições que perpassam seu cotidiano, para “buscar os elos com o povo, com a nação”, para gerar “uma unidade não servil,

74

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

devida a obediência passiva, mas uma unidade ativa, vivente, qualquer que seja o conteúdo dessa vida” (GRAMSCI, 1977, Q. 9: 1740). A valorização da cultura popular como mecanismo de luta política permite compreender as idéias de Gramsci sobre a arte e a literatura de seu tempo, visto que essas encontram seu significado no contexto da organização social e política e dos conflitos que permeiam a sociedade italiana dão inicio do século XX; no curso de sua organização política os trabalhadores podem tomar consciência das contradições que permeiam seu modo de existência e elaborar uma nova concepção de mundo a partir da qual se pode redefinir toda a cultura historicamente produzida, elemento indispensável para a proposição de uma nova hegemonia. Essa leitura ressalta do significado peculiar de “popular” presente nos escritos de Gramsci: ao mesmo tempo em que acentua que os intelectuais devem mergulhar nas práticas e tradições das classes populares para construir a coerência interna desse material, levanta a pergunta sobre qual literatura pode ser considerada popular, e responde que os grandes clássicos como Dostoievski, Goldoni, entre outros, são autores populares porque abordaram assuntos que apresentam um valor universal e, ao divulgá-los em sua literatura, contribuíram para torná-los de amplo conhecimento. Se a arte e a literatura se inserem no conjunto de relações de hegemonia, trata-se de evidenciar sua importância na edificação dos princípios necessários para a elaboração de uma nova concepção de mundo. Se levarmos em conta que o conhecimento é dinâmico, fruto da constante interlocução dos homens entre si e com o pensamento historicamente produzido, arte e literatura cumprem a sua função política renovadora na medida em que se tornam populares, ou seja, enquanto sejam restituídas em sua integridade a toda a sociedade. Nas condições de capitalismo avançado essa formação tem fundamental importância na luta hegemônica, ou seja, a cultura tornou-se um dos mecanismos das relações de poder e da luta de classes que se consolida enquanto exploração do trabalho firmando-se como dominação das consciências individuais pela formação das subjetividades. A exploração do trabalho assume novas proporções na medida em que se consolidam os padrões de comportamento constantemente reafirmados pelos meios de comunicação de massa. Dessa perspectiva a leitura de Gramsci assume sua atualidade, na medida em que seus conceitos nos permitem refletir sobre questões que se renovam. O problema da atualidade de um pensamento político de um pensador agora

75

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

entendido como um clássico é sempre uma questão polêmica. 49 Gramsci falava de um contexto e de uma realidade que se alterou significativamente nas últimas quatro décadas, tanto no que se refere a relações de trabalho quanto ao significado da cultura no contexto da política. Para Accardo,
“a questão a colocar é se, depois das grandes mudanças da política italiana e internacional a partir de 1989, Gramsci pode ser ainda um ponto de referencia para a esquerda saída da experiência do partido comunista. Não se trata de avaliar a atualidade de um autor com base na possibilidade de encontrar na sua reflexão a resposta para questões precisas e determinadas, mas de avaliar o quanto pode ser fecundo, na realidade atual, o patrimônio moral, político e cultural de sua obra” (ACCARDO, 2009: 11).

Entendemos que existem conceitos que continuam sendo fundamentais para pensar a realidade contemporânea, principalmente se tomarmos a relação intrínseca estabelecida por Gramsci entre filosofia, política e história. Apesar de todas as mudanças, a noção de hegemonia e a importância da cultura na formação de um consenso apresentam-se como referenciais importantes para pensar as novas formas de alienação geradas a partir da sedimentação da ideologia neoliberal e sua difusão pelos meios de comunicação. Seguindo a senda inicialmente aberta, salienta-se que o conceito de hegemonia e os elos entre política e cultura permitem a Gramsci redimensionar a arte e a literatura no contexto da história italiana, por meio de temas como a importância de uma língua nacional unificadora, a ausência de vínculos consistentes entre os intelectuais italianos e as classes populares, fruto de um processo histórico no qual as forças conservadoras prevaleceram; o caráter progressivo e regressivo do Humanismo e do Renascimento, a necessidade de mergulhar na cultura das massas para nela encontrar os elementos universais a serem expressos na linguagem literária. A literatura, para ser popular, precisa ser expressão
Conforme Anglani (2007: 5), as “razões que fazem de Gramsci um ‘clássico’, ou seja, um autor que não se tornou ‘obsoleto’ com as mudanças dos tempos e das condições históricas” se apresentam precisamente na valorização do ético-estético juntamente ao teórico-político.
49

76

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

elaborada das aspirações e sentimentos mais profundos das classes populares em determinado momento histórico e, ao mesmo tempo, obra de arte. Esse elemento não era alcançado pela literatura italiana de sua época, fato que se evidenciava no distanciamento dos intelectuais em relação as classes populares, tanto que estas conheciam e apreciavam romances de folhetim franceses e desconheciam completamente os autores italianos.
“O erro do intelectual consiste em crer que se possa saber sem compreender e, especialmente sem sentir e estar apaixonado (não só pelo saber em si, mas pelo objeto do saber), isto é, em acreditar que o intelectual possa ser tal (e não um puro pedante) quando distinto e separado do povo-nação, isto é, sem sentir as paixões elementares do povo, compreendendo-as e, assim, explicando-as e justificando-as em determinada situação histórica, vinculando-as dialeticamente às leis da história, a uma concepção de mundo superior, científica e coerentemente elaborada, o ‘saber’; não se faz política-história sem esta paixão, isto é, sem este elo sentimental entre intelectuais e povo-nação. Na ausência desse elo, as relações do intelectual com o povo-nação são ou se reduzem a relações de ordem puramente burocrática e formal” (GRAMSCI, 1977, Q. 9: 1505).

A ausência de elos e até um certo desprezo de alguns intelectuais pela cultura popular, a falta de interesse em conhecer e expressar as aspirações populares, constatada por Gramsci na literatura italiana, evidencia o compromisso político desses intelectuais com o movimento conservador que caracterizou a revolução burguesa italiana; se houvessem esses elos, os intelectuais poderiam ter contribuído para o caráter mais progressivo da revolução, fato que poderia fortalecer a própria burguesia da época. O aspecto político apresenta-se no fato de a literatura apresentar um conteúdo ideológico que tem uma grande importância, visto que o leitor se identifica com o conteúdo e as escolhas morais dos personagens; porém o critério político de formação não se sobrepõe ao critério estético: o conteúdo da arte não pode ser pensado abstratamente, separado da forma. As questões estéticas como a relação entre conteúdo e forma, por 77

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

exemplo, possuem um alcance histórico e político. E é dessa perspectiva que Gramsci as aborda: no contexto das relações de hegemonia, interessado em produzir uma história dos intelectuais italianos enquanto aqueles que contribuem para manter determinadas relações de poder. Tomamos como exemplo a leitura de Pirandello: embora revelando-se um crítico severo da obra pirandelliana, Gramsci acentua a importância desse autor para a cultura italiana, porque seu trabalho apresenta um conteúdo cultural mais do que artístico e, ao apresentar dessa forma seu teatro, Pirandello contribuiu para renovar o senso comum, separando o “folclore” do “bom senso”. “Em Pirandello temos um escritor ‘siciliano’ que consegue conceber a vida camponesa em termos ‘dialetais’, folclóricos (...),, que ao mesmo tempo é um escritor ‘italiano’ e um escritor ‘europeu’”. Entretanto, a consciência de ser tudo isso transparece na sua “debilidade artística, ao lado do seu grande significado ‘cultural’. Essa ‘contradição’” expressou-se explicitamente em alguns de seus trabalhos narrativos (GRAMSCI, 1977, Q. 9: 1671-2). Nesse contexto, nas palavras de Stipcevic, a crítica gramsciana ao teatro de Pirandello traz uma forte influência de Croce e de sua posição em relação ao escritor de Mattia Pascal, Sei personaggi in cerca d’autore e outros belos trabalhos; por motivos ligados a seus próprios objetivos, Gramsci “isolou o elemento cultural da criatividade de Pirandello, para poder examinar a medida de sua influência sobre a transformação do clima cultural da época” (STIPCEVIC, 1981: 114) Apesar desses limites que orientam sua leitura, Stipcevic acentua que se deve “reconhecer que Gramsci expôs, muito antes de tantos outros, uma das funções principais sustentadas pela obra pirandelliana no interior da literatura e da cultura italianas”, ou seja, ressaltou o aspecto cultural da obra, na sua relação com o contexto ideológico e político (STIPCEVIC, 1981: 115-6). No ponto de vista gramsciano, a questão principal apresenta-se na capacidade de uma literatura contribuir para a formação de uma nova concepção de mundo, para renovar a ética e os costumes, ou seja, na sua forca renovadora do social, para além de suas qualidades artísticas. Ainda no contexto da literatura italiana, algumas considerações sobre as reflexões de Gramsci sobre Dante Alighieri, que supõe a sua leitura do livro de Croce sobre a Divina Comedia e também dos debates gerados por ocasião de sua publicação. As polêmicas em torno da poesia dantesca se acentuam a partir de 1921, ano de comemoração dos seiscentos anos da morte do

78

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

autor, debate que teve como figuras centrais Benedetto Croce e Luigi Russo sobre a interpretação da principal obra de Dante na relação entre estrutura e poesia (STIPCEVIC, 1981: 150-1). Gramsci insere-se nesse debate já a partir de 1918, quando publica no Avanti! o artigo Il cieco Tiresia, comparando o texto de Dante com alguns fenômenos populares a respeito de previsões do final da Primeira guerra. Já nesse artigo a leitura gramsciana do Canto X do Inferno visa a contrapor a chamada alta cultura (burguesa e católica) com a cultura popular na perspectiva da oposição entre teoria e prática na compreensão da temporalidade (GRAMSCI, 1982: 833-4). O elo entre tradição literária e cultura popular se esclarece na motivação do artigo, que é a notícia publicada por um jornal da época sobre uma menina do interior da Itália que, depois de prever o final da guerra em 1918, fica cega. O dom de prever faz parte do folclore e o “vidente, embora veja o futuro, não vê o presente imediato porque tomado de cegueira”. A descrença dos que ouvem as previsões pode ligar-se ao fato de não se dever alterar a ordem natural das coisas, como aconteceu com Cassandra, na qual ninguém acredita; “chora e fala, mas encontra somente céticos, homens indiferentes que não se preocupam, que não se contrapõe ao destino. Cassandra vive um drama mais individual, é criação de poesia culta, literariamente refinada”. Já Tirésias é fruto da expressão popular e a piedade por ele é imediata. “Parece pouca coisa: em vez disso, é uma enorme experiência que só a tradição popular poderia conseguir tentar e concretizar. O décimo Canto do Inferno dantesco, o sucesso que teve na crítica e na difusão, dependem desta experiência” (GRAMSCI, 1977, Q. 4: 527)50 Em 1918 Gramsci escrevia:
“Farinata e Cavalcante são punidos por haverem desejado muito ver no além, saindo fora da disciplina católica: são punidos com o desconhecimento do presente. Mas o drama desta punição escapa a crítica. Farinata é admirado como modelo pela sua atitude orgulhosa, pela sua distinção no horror infernal. Cavalcante é negligenciado, ainda que seja golpeado de morte por uma palavra: ele era, que o faz acreditar que seu filho está morto. Ele não conhece o presente: vê o futuro e nele o seu filho
50

Esse fragmento foi retomado por Gramsci de um comentário feito com um colega de curso universitário a respeito da monografia, apresentado como nota no artigo Il cieco di Tirésias.

79

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

está morto. Dúvida torturante, punição tremenda nesta dúvida, drama altíssimo que se consuma em poucas palavras. Mas drama difícil, complicado, que necessita de reflexão e raciocínio para ser compreendido; (...) Cavalcante não vê, mas não é cego, não tem uma prova corporal evidente de sua desventura. Dante, neste caso, é um peta culto. A tradição popular quer (...) uma poesia mais ingênua e imediata” (GRAMSCI, 1977, Q. 9: 1187)

Essas posições são retomadas, defendidas e ampliadas nos Cadernos do Cárcere, colocando Gramsci em oposição a todos os críticos de seu tempo, como se pode deduzir da carta do Prof. Umberto Cosmo, comentada por Gramsci.51 Concentrando-se no Canto X do Inferno, que se conhece, em geral, como o Drama de Farinata, a leitura encaminha-se a salientar os elementos da história de Cavalcante. Para Gramsci, a figura central desse Canto não era Farinata, mas sim Cavalcante; dessa perspectiva, contrapõe-se tanto a De Sanctis quanto a Croce e, na senda aberta por Foscolo, consegue dar uma interpretação unitária do poema dantesco no seu aspecto histórico e político. Esta questão é abordada a partir da escolha desse Canto para análise, visto que nele se apresenta, com toda a sua força, a paixão política de Dante. Gramsci acentua que “o décimo canto é político assim como é política toda a Divina Comedia, mas não é político por excelência”, (GRAMSCI, 1977, Q. 4: 522) visto que a posição política de Dante não pode ser determinada apenas por essa obra, mas por toda a sua produção bibliográfica considerada nos limites da história e das divisões políticas de seu tempo (GRAMSCI, 1977, Q. 4: 525) A beleza do texto de Dante transparece no modo de sugerir as condições do drama: Cavalcante, porque desejou ver o futuro, representa a alma punida com a impossibilidade de conhecer o presente. “Quando Dante se aproxima das duas sombras, estas vêem Guido Cavalcanti, amigo de Dante, filho de Cavalcante e genro de Farinata, vivo no passado e morto no futuro, mas não sabem, no momento em que conversam, se ele está vivo ou morto” (STIPCEVIC, 1981: 154). Dante não representa os fatos, apenas oferece ao leitor os elementos (angústia, abatimento, ternura paterna, postura
A carta, datada de 1932, diz: “Ao que parece, o amigo acertou no alvo; (...) realizaria uma ótima obra se o iluminasse (o drama de Cavalcante). Mas para iluminá-lo seria necessário entrar um pouco mais na alma medieval” (GRAMSCI, 1977, Q. 9: 528).
51

80

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

corporal) para reconstruir o drama a partir da estrutura do poema. Gramsci procura mostrar que o núcleo poético se encontra na segunda parte, na reação de Cavalcante lançado na dúvida, expressão da faculdade dos danados de conhecer o passado e antever o futuro, estando cegos para o presente. Nas figuras dos dois personagens, as diferenças evidenciadas entre alta cultura (heroísmo e altivez de Farinata) e cultura popular (sofrimento e abatimento de Cavalcante) valorizam tanto os elementos estruturais quando ressaltam o aspecto político da poesia. Conforme Stipcevic, Gramsci”abriu a possibilidade teórica de dar uma interpretação desse gênero a toda a Comédia. Valorizando um detalhe deste grandioso afresco poético, demonstrou como o resgate da poesia pode acontecer num plano mais vasto”, além de contestar frontalmente a interpretação de Croce (STIPCEVIC, 1981: 157-8). Salientamos ainda a defesa de Goethe e de sua importância cultural, pela sua genialidade, acrescida da singularidade de sua figura. Gramsci lembra que se afirma que a função dos grandes intelectuais é “ensinar como filósofos, aquilo em que devemos crer, como poetas aquilo que devemos intuir (sentir), como homens, aquilo que devemos fazer” (GRAMSCI, 1977, Q. 9: 1187) Em seguida se pergunta quais os autores que poderiam entrar nessa definição e completa:
“Não Dante, por sua distância no tempo e pelo período que exprime, a passagem do Medieval para a Idade Moderna. Somente Goethe é sempre de uma certa atualidade, porque exprime de modo sereno e clássico (...) a confiança na atividade criadora do homem, em uma natureza vista não como inimiga e antagonista, mas como uma força a conhecer e a dominar, com o abandono sem o lamento e a desesperação das ‘fabulas antigas’” (GRAMSCI, 1977, Q. 9: 1187).

Goethe expressa a mentalidade própria do mundo moderno, cuja confiança na capacidade e criatividade do homem se traduz na figura de Fausto, aquele capaz de empenhar sua vida para alcançar seus objetivos. Para Gramsci esses são os elementos a serem assimilados pela cultura popular, a fim de realizar os objetivos de uma nova sociedade. O conceito de cultura, capaz de transformar a concepção de mundo de uma 81

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

época, pressupõe a compreensão de como o modo de pensar atua nas relações de hegemonia e como, nesse contexto, as classes trabalhadoras precisam, no processo de organização política, reformular suas próprias concepções da realidade, a fim de avançar na luta de classes. A abordagem gramsciana da literatura insere-se no contexto da produção de uma “nova literatura enquanto expressão de uma renovação intelectual e moral” (GRAMSCI, 1977, Q. 9: 1820) que, por sua vez, pode acontecer somente num movimento consistente de organização política para construir uma nova ordem social. A “premissa de uma nova literatura não pode deixar de ser histórica, política, popular” lançando suas raízes na cultura popular (GRAMSCI, 1977, Q. 9: 1821). Para concluir, as considerações de Gramsci sobre a arte e a literatura inserem-se no objetivo mais amplo da formação de uma concepção de mundo coerente e unitária para as classes trabalhadoras. As ambigüidades do movimento futurista, por exemplo, expressas na contradição entre rebelião-recusa no âmbito da produção artística e restauração nas posições políticas, ligam-se não só às raízes pequeno-burguesas e às incertezas que marcaram o início do século eclodindo na Primeira Guerra, mas principalmente à história da intelectualidade italiana que, desde o Duecento distanciou-se do povo e abandonou as posições mais radicais por atitudes mais conservadoras, analisadas por Gramsci no fenômeno do transformismo. REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS ACCARDO, Aldo. Introduzione. In: GRAMSCI, Antonio. Quaderni del Carcere (Edizione anastatica dei manoscritti), Cagliari : B.Treccani|L’Unione Sarda, 2009. ANGLANI, Bartolo. Solitudine di Gramsci – Política e poetica del carcere. Roma : Donzelli, 2007. FROSINI, Fabio e LIGUORI, Guido. Le parole di Gramsci: per un lessico dei Quaderni del Carcere. Roma : Carocci, 2004. FROSINI, Fabio. Da Gramsci a Marx – Ideologia, verità e política. Roma : Derive Approdi, 2009. GERVASONI, Marco. Antonio Gramsci e la Francia – dal mito della modernità alla “scienza della politica”. Milano : Unicopli, 1998. 82

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

GRAMSCI, Antonio. Quaderni del Carcere (Edizione Critica diretta da Gianni Francioni). Roma : Fondazione Istituto Gramsci\Istituto della Enciclopedia Italiana. V. I Quaderni di Traduzioni, 2007 ______. Quaderni del Carcere. Torino : Einaudi, 1977. GRAMSCI, A. La citta futura (1917-1918). Torino : Einaudi, 1982. GRAMSCI, A. Scritti Giovanili (1914-1918) Torino: Einaudi, 1975. PRESTIPINO, Giuseppe. Tre voce nel deserto: Vico, Leopardi, Gramsci – per una nuova lógica storica. Roma : Carocci, 2006. STIPCEVIC, Niksa. Gramsci e i problemi letterari. Milano: Mursia, 1981

83

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

Gramsci e Relações Internacionais: hegemonia, dependência e imperialismo
Marcos Vinícius Pansardi (UTP)52

INTRODUÇÃO A influência do marxismo em todas as áreas das ciências humanas foi imenso ao longo do século XX. Da economia à historia, da sociologia à teoria literária, o marxismo não pode ser ignorado, mesmo por aqueles que se opunham a ele. No campo teórico das relações internacionais isso, no entanto, não ocorreu. Durante boa parte do século XX o marxismo e as relações internacionais permaneceram de costas um para o outro53. O marxismo não teve nenhuma influência nas correntes predominantes das relações internacionais até o final dos anos 70. Para Halliday (1999), isso pode ser explicado por dois fatores. Primeiro o fato de que as relações internacionais se desenvolveram inicialmente nas universidades britânicas e norte-americanas, locais onde o marxismo teve pouca influência. Segundo, pelo papel da teoria do imperialismo, que nunca teve boa recepção nas relações internacionais, por que era vista como uma teoria que pouco tinha a dizer sobre a política internacional, centrando-se nos aspectos econômicos da arena internacional.

Doutor em Ciências Sociais – UNICAMP. Prof. do PPGED – Mestrado em Educação da Universidade Tuiuti do Paraná. Email: mvcps@hotmail.com
52

Hans Morgenthau, considerado o “fundador” dos estudos científicos contemporâneos das relações internacionais, usa apenas duas páginas, no seu livro clássico - Política entre as nações. A luta pelo poder e pela paz (MORGENTHAU, 2003) -, para analisar o marxismo e o imperialismo, afirmando que todas as suas conclusões são errôneas. Não há nenhuma citação ou referência a Marx.
53

85

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

Por outro lado, o marxismo também não estabeleceu diálogo com aquelas teorias. Não que o marxismo não se interessasse pelas questões internacionais, ao contrário, o maior exemplo seriam a própria teoria do imperialismo, que foi objeto de amplo debate nas primeiras décadas do século XX. Assim poderíamos afirmar que a relação entre o marxismo e as relações internacionais foi historicamente um diálogo de surdos. Sabemos que o próprio Marx nunca chegou a desenvolver estudos específicos e aprofundados sobre a questão internacional, apesar de ter acompanhado por anos a política internacional como correspondente de um jornal norte-americano. Durante 11 anos Marx colaborou, como analista internacional, para o influente jornal norte-americano New York Daily Tribune. É verdade também que Marx e Engels revelaram grande interesse pelas questões internacionais, particularmente sobre o fenômeno do colonialismo54. Suas análises sobre o tema, contudo, além de pouco sistematizadas e fortemente conjunturais, muitas vezes revelavam doses de eurocentrismo e desconhecimento sobre a complexa realidade para além das fronteiras européias. Assim, se explica porque estes autores não chegaram a desenvolver uma teoria coerente sobre as relações internacionais55. Portanto, foi Lênin a grande referência para o estudo das relações internacionais no campo do marxismo 56, sua utilização do conceito de “imperialismo” passou a ser a grande, senão a única referência teórica de peso no marxismo sobre a questão internacional. No pós-guerra, no entanto, as teorias do imperialismo perderam força e ao longo dos anos 70 o tema praticamente tinha desaparecido das análises dos teóricos que reivindicavam o marxismo. Por outro lado, no campo acadêmico dos estudos sobre as relações internacionais, o marxismo foi amplamente marginalizado. Sendo o campo teórico das relações internacionais essencialmente anglo-americano (mais americano do que britânico) e, sendo o
54

Textos reunidos na coletânea, em dois volumes, sob o título: Sobre o colonialismo (MARX; ENGELS, 1989).
55

Veja-se, por exemplo: M. FERREIRA (2002), Europa, Afeganistão e África do Norte: uma introdução às análises de Marx e Engels sobre os conflitos internacionais.
56

Não estamos aqui negando a contribuição fundamental de outros autores marxistas sobre o imperialismo. Rosa de Luxemburgo, Bukharin, Kautsky, tiveram contribuições importantes, mas historicamente seus estudos tiveram menos impacto sobre os futuros estudos sobre as relações internacionais do que o de Lênin, que continua até hoje ser a grande referência quando se aborda a teoria do imperialismo.

86

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

marxismo uma teoria reconhecidamente marginal nas universidades e centros de pesquisa norte-americanos, não seria de estranhar que assim o fosse. Quando não ignorado, o marxismo era educadamente descartado como uma teoria simplista e mecânica (COX, 1981). É assim que um dos principais teóricos contemporâneos das relações internacionais, considerado o “pai” da corrente modernizante do conservadorismo neste campo de estudos, fundador do chamado “neorealista” (também chamado de realismo estrutural), Kenneth Waltz, ao buscar classificar os vários tipos de teorias das relações internacionais, vai dividi-las em dois grandes grupos: as teorias “reducionistas” e as teorias “sistêmicas”. Sendo a teoria neorealista sistêmica, o que significa compreender que o fenômeno internacional é fruto de causas essencialmente estruturais, externas aos Estados, e não fruto de suas características internas (nacionais) (WALTZ, 2002). Consequentemente, as teorias reducionistas seriam aquelas em que as análises sobre o fenômeno internacional, ou da ordem internacional, seriam derivadas de alguma característica interna dos Estados nacionais. Para este autor, o exemplo mais acabado de reducionismo seria a teoria leninista do imperialismo, pois esta, ao determinar as características do sistema através de um determinado estágio de evolução das economias nacionais (capitalismo monopolista) estaria eclipsando as determinações sistêmicas que moldariam o sistema internacional. Para Waltz, a teoria leninista pecava por ser incapaz de compreender as causas sistêmicas (estruturais) que moldavam a ordem internacional. GRAMSCI E A QUESTÃO INTERNACIONAL Nosso objeto de estudo aqui não é a teoria leninista do imperialismo, e por mais que pudéssemos questionar a leitura de Waltz sobre ela, vamos partir de suas críticas para analisar as contribuições de Gramsci ao estudo das relações internacionais. Para isso nos propomos a fazer uma análise das leituras de Gramsci desenvolvidas nos Cadernos do Cárcere57 sobre a questão internacional.
57

Utilizaremos neste estudo a versão brasileira do Cadernos, compostos pelos livros: Maquiavel, a política e o Estado Moderno. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1984; Os intelectuais e a organização da cultura. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1988; Concepção dialética da história. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1986;Literatura e vidanacional. Rio de Janeiro, Civilização

87

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

Na crítica de Waltz a Lênin colocava-se a questão central de explicar as causas da guerra, o reducionismo leninista estaria em compreender este fenômeno a partir de uma forma especifica de Estado (monopolista). Quando buscamos a explicação de Gramsci sobre a origem das guerras observamos que a sua leitura em nada se diferencia da explicação dada por Lênin, pois para ele, as guerras entre os estados se originam da luta interna entre os grupos em cada país. O grupo dirigente tenderá a manter o equilíbrio melhor não só para sua permanência, mas para sua permanência em condições determinadas de prosperidade e de incremento destas condições. Mas, como a área social de cada país é limitada, será levado a estendê-la às zonas colônias e de influencia, entrando em conflito com outros grupos dirigentes que aspiram ao mesmo fim, ou em cujo prejuízo a sua expansão deveria necessariamente se verificar, já que também o globo terrestre é limitado. Cada grupo dirigente tende em abstrato a ampliar a base da sociedade trabalhadora da qual extrai a mais-valia, mas a tendência de abstrata torna-se concreta e imediata quando a extração da maisvalia na sua base histórica ficou mais difícil ou perigosa, além de certos limites que, todavia, são insuficientes (GRAMSCI, 1984: 194). Segundo Buci-Glucksmann (1980: 183) foi a partir de seus escritos de 1919 que Gramsci incorporou em suas análises a questão leninista do imperialismo. Estas leituras propiciaram a ele a compreensão da nova conformação do Estado e de seus aparelhos a partir das transformações estruturais do capitalismo e da expansão da política do imperialismo (BUCI-GLUCKSMANN, 1980: 192). Partindo do princípio de que as leituras gramscianas sobre as relações internacionais se fundamentam nas concepções leninistas não seria difícil concluir, como afirma categoricamente Carnevalli (2005: 42), que a resposta à questão colocada seria positiva, pois, ao enfatizar a proeminência do elemento nacional sobre o internacional, Gramsci estaria subordinando o segundo elemento ao primeiro. Isso estaria claramente caracterizado na famosa e sempre citada observação dos Cadernos, na qual ele se perguntava se na abordagem teórica da política as relações internacionais determinam ou são determinadas pelas estruturas sociais (nacionais):

Brasileira, 1986; a edição espanhola do Pasado y presente. Barcelona: Granica, 1977; além do livro A questão meridional. Rio de Janeiro: Paz & Terra, 1987.

88

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

As relações internacionais precedem ou seguem (logicamente) as relações sociais fundamentais? Seguem, é indubitável. Toda inovação orgânica na estrutura modifica organicamente as relações absolutas e relativas no campo internacional, através das suas expressões técnico-militares. Inclusive a posição geográfica de um Estado não precede, mas segue (logicamente) as inovações estruturais, mesmo reagindo sobre elas numa certa medida (exatamente na medida em que as superestruturas reagem sobre a estrutura, a política sobre a economia, etc.). Além do mais, as relações internacionais reagem positiva e ativamente sobre as relações políticas (de hegemonia dos partidos) (GRAMSCI, 1984: 44). É possível ainda, observar outros momentos em que Gramsci reforça este argumento, procurando reconhecer que esta sua visão estaria alinhada com o pensamento já desenvolvido anteriormente por Marx e por Lênin. Assim “segundo a filosofia da práxis (na sua manifestação política), seja na formulação do seu fundador, mas especificamente na definição do seu mais recente grande teórico, a situação internacional deve ser considerada no seu aspecto nacional” (GRAMSCI, 1984: 129). No entanto, é possível encontrar nos escritos de Gramsci vários trechos onde ele inverte a argumentação, ou seja, mostrando que a questão internacional tem primazia sobre o elemento nacional. Em uma passagem dos Cadernos ele afirma que “as relações internacionais estabelecem um equilíbrio de forças sobre o qual cada elemento estatal pode influir muito debilmente” (GRAMSCI, 1984: 93); em outro trecho diz que “só se pode julgar a atividade econômica de um país em relação ao mercado internacional, ela ‘existe’ e é avaliada quando inserida numa unidade internacional” (GRAMSCI, 1984: 217); também afirma que “não se compreende que o mundo é uma unidade, se se quer ou não, e que todos os países, que atravessam certas condições de estrutura, passarão também por certas ‘crises’” (GRAMSCI, 1984: 215). Por fim, em mais outra citação, diria que “quando em um Estado a moeda varia (inflação ou deflação), sucede uma nova estratificação de classes em um mesmo país, mas quando varia uma moeda internacional, sucede uma nova hierarquia entre os Estados (...)” (GRAMSCI, 1977: 116). Assim, é possível então, observar que há uma leitura sistêmica ou estrutural, mesmo que não seja certamente aquela defendida por Waltz. Também é verdade que, uma leitura atenta dos mesmos Cadernos do Cárcere nos mostra que Gramsci usou raras vezes a

89

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

palavra “imperialismo” e quando o fez foi para caracterizar a época que vivia: “na época atual do imperialismo”, no sentido clássico do seu uso por Lênin, ou seja, no período da ascensão do capital monopolístico, do capitalismo monopolista de Estado. Acredita-se que Gramsci não se interessou particularmente sobre as questões da política internacional e foi mais um analista preocupado com a causa italiana; com a incapacidade da Itália de concluir sua revolução burguesa, da questão do surgimento do fascismo, dos caminhos da construção de uma revolução comunista autóctone. Certamente ele foi um autor profundamente enraizado nas questões nacionais, mas seria um erro grave pensar que ele não tinha interesse nas questões internacionais ou que estas eram secundárias em seu pensamento. Para Jessop, ao contrário, ele foi fortemente interessado em relações internacionais e foi um estudioso da “geopolítica e da demopolítica (que passaria a ser chamada bio-política) para compreender melhor as implicações políticas do equilíbrio de forças internacionais” (JESSOP, 2005, 434). Para ele a leitura gramsciana rompe com uma visão estado-cêntrica ou nacionalista dominante nas relações internacionais58 ao realizar uma interpretação profunda e complexa do fenômeno internacional. Para o autor o pensamento de Gramsci combina análises em diversos níveis (escalas) indo da análise nacional a internacional, das classes ao estudo das instituições internacionais, das relações entre o Estado, as organizações internacionais e as ordens mundiais. Em realidade ele rompeu com a dicotomia tradicional do realismo entre o mundo interno e o externo da política. Ao explorar a dimensão internacional das relações econômicas, políticas e socioculturais, Gramsci não assumiu que as unidades básicas das relações internacional eram as economias nacionais, os Estados nacionais, ou as sociedades civis constituídas a nível nacional. Em vez disso, ele explorou as mútuas implicações da organização política e econômica, os seus pressupostos sociais e culturais, e as conseqüências da dissociação das escalas de vida dominante econômica, política, intelectual e moral. Isso fez-lhe sensível às complexidades das relações interescalares e ele nunca assumiu que eles foram ordenados em simples aninhados hierárquicos (JESSOP, 2005, 433).

58

Para Jessop (2005, 434), apesar de uma defesa de uma concepção sistêmica no estudo da política internacional, Waltz seria o maior exemplo de uma leitura “nacionalista”, pois coloca o Estado nacional como o único ator relevante das relações internacionais, sem esquecer que sua leitura tem um viés claramente norte-americano.

90

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

Gramsci, procura nos mostrar que a política internacional tem sua origem na arena nacional, no conflito de classes, na conformação das forças sociais nacionais, na constituição e na capacidade de expansão político-econômico-cultural do Estado nacional para além de suas fronteiras, mas observa que estes processos não podem ser compreendidos sem a referencia aos influxos internacionais na ordem nacional. Para ele a própria construção da ordem mundial moderna esta associada à necessidade das classes dominantes nacionais de assegurar sua expansão internacional, ao mesmo tempo em que preservam o controle político nacional59. Para este autor, a simbiose nacional-internacional caracteriza os processos de dominância e não podem ser isolados ou hierarquizados para além de processos didáticos ou metodológicos iniciais. É nesse sentido que precisamos reavaliar a “primazia do nacional” para que não nos limitemos a uma visão “reducionista”. Como o próprio Gramsci nos alertaria é “necessário ter em conta o fato de que as relações internacionais entrelaçamse com as relações internas dos Estados-nação, criando novas e únicas combinações historicamente concretas” (GRAMSCI, 1984: 50), ou então, que “é certo que o desenvolvimento verifica-se no sentido do internacionalismo, mas o ponto de partida é ‘nacional’, e é deste ponto de partida que se devem adotar as diretivas. Mas a perspectiva é internacional e não pode deixar de sê-lo” (GRAMSCI, 1984: 130). Sua concepção dialética das relações nacionalinternacional não se resume ao espaço estatal, como bem sabemos o papel da sociedade civil, assim como dos intelectuais, é fundamental nos processos de construção de uma hegemonia política. Também nesse caso o fenômeno não pode ser limitado às fronteiras nacionais: A religião, por exemplo, sempre foi uma fonte dessas combinações ideológico-políticas nacionais e internacionais; e com a religião, as outras formações internacionais: a maçonaria, o Rotary Clube, os judeus, a diplomacia de carreira, que sugerem expedientes políticos de origem histórica diferente e levam-nas a triunfar em determinados países, funcionando como partido político internacional que atua em cada nação com todas as suas forças internacionais concentradas. Uma religião, a maçonaria, os
Assim: “Toda a história, a partir de 1815, mostra o esforço das classes tradicionais para impedir a formação de uma vontade coletiva deste gênero, para manter o poder ‘econômico-corporativo’ num sistema internacional de equilíbrio passivo” (GRAMSCI, 1984: 8).
59

91

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

judeus, Rotary, etc., podem ser incluídos na categoria social dos “intelectuais”, cuja função, em escala internacional, é a de mediar os extremos, “socializar” as inovações técnicas que permitem o funcionamento de toda atividade de direção, de excogitar compromissos e saídas entre soluções extremas (GRAMSCI, 1984: 51). Sendo assim a teoria desenvolvida por Gramsci não é nem reducionista e nem sistêmica, sendo esta tipologia uma visão positivista de ciência bem ao gosto das análises de Waltz, ela é certamente dialética. O próprio Gramsci faz uma analogia das relações entre o nacional-internacional da mesma forma que observaríamos as relações entre o estrutural e o superestrutural, entre o econômico e o político. Não são relações mecânicas, mas relações dialéticas de determinação. Na história real estes momentos se confundem reciprocamente, por assim dizer horizontal e verticalmente, segundo as atividades econômicas sociais (horizontais) e segundo os territórios (verticais), combinando-se e dividindo-se alternadamente. Cada uma destas combinações pode ser representada por uma expressão orgânica própria, econômica e política. Também é necessário levar em conta que, com estas relações internas de um Estado-nação, entrelaçam-se as relações internacionais, criando novas combinações originais e historicamente concretas (GRAMSCI, 1984: 50). Gramsci coloca todas as questões em torno das quais se acende a luta política não num plano corporativo, mas num plano “universal”, pensando assim, a hegemonia de um grupo social fundamental sobre uma série de grupos subordinados. O Estado, para ele, é concebido como organismo próprio de um grupo, destinado a criar as condições favoráveis à expansão máxima deste grupo. O que caracteriza o processo de construção desta expansão é exatamente a capacidade destas classes (dominantes) em expandirem seu domínio para além das fronteiras nacionais. Mas este desenvolvimento e esta expansão são concebidos e apresentados como a força motriz de uma expansão universal, de um desenvolvimento de todas as energias “nacionais” (GRAMSCI, 1984: 50). Uma ideologia nascida num país desenvolvido difunde-se em países menos desenvolvidos, incidindo no jogo local de combinações. Estes países periféricos, exatamente por terem sido incapazes de realizar sua própria revolução burguesa acabam incorporando elementos ideológicos dos países dominantes, é o que Gramsci chamou de “revolução passiva”.

92

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

O modo através do qual se exprime o ser grande potência é dado pela possibilidade de imprimir à atividade estatal uma direção autônoma, que influa e repercuta sobre outros Estados: a grande potência é potência hegemônica, chefe e guia de um sistema de alianças e de acordos com maior ou menor extensão. A força militar sintetiza o valor da extensão territorial e do potencial econômico (GRAMSCI, 1984: 191). Pode-se observar que, na dialética nacional-internacional, o fato de que os elementos internos predominarem sobre os fatores externos ou ao contrário, também se relaciona com a diferença entre uma grande potência e os países periféricos, pois, os primeiros têm uma maior capacidade de ação independente e os segundos se colocam em relações de dependência. O exemplo sempre invocado é o da Itália entre 1500 e 1700, que permaneceu incapaz de construir seu estado nacional, limitada que foi pelo jogo internacional de equilíbrio passivo entre as grandes potências (GRAMSCI, 1984: 17). A centralidade esta na luta de classes e no papel de cada classe na estrutura sócio-econômica nacional. As relações entre centro e periferia e o papel de cada Estado-nação no sistema internacional não é apenas fruto desta própria estrutura. As relações de classes internas a cada Estado e a capacidade dirigente das classes dominantes exercem aí um papel fundamental. Uma classe dominante nacional tem que exercer plenamente a hegemonia sobre o conjunto das classes subalternas, a incapacidade de hegemonia interna afeta a sua capacidade de expansão externa. As grandes potências se caracterizam exatamente pelo grau de hegemonia das classes dominantes e sua capacidade de criar um consenso interno. Nos países periféricos suas classes dominantes foram incapazes historicamente de constituírem sua hegemonia a partir de um projeto “universalizante” que agregasse todas as classes nacionais. Foram incapazes de transformar seu projeto individual de poder em um projeto nacional de desenvolvimento. Assim é que: Deve-se considerar também a noção de grande potência o elemento “tranqüilidade interna”, isto é, o grau e a intensidade da função hegemônica do grupo social dirigente: este elemento deve ser situado na avaliação da potência de cada estado, mas adquire maior importância na consideração das grandes potências (...) Por isso pode-se dizer que quanto mais forte é o aparelho policial tanto mais fraco é o exército, e quanto mais fraca (isto é, relativamente inútil) a polícia, tanto mais forte é o exército (diante da perspectiva de uma luta internacional) (GRAMSCI, 1984: 193).

93

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

As classes dominantes não exercem a hegemonia apenas para si, mas para a “grandeza da nação”, assim como esta existe também para a grandeza de suas classes dominantes. Seu projeto deve ser confundido com o projeto da nação, sua legitimidade está nesta capacidade de ocultar seus interesses de classe. Nos países periféricos as classes dirigentes aliam seus destinos, não há um projeto de desenvolvimento autóctone, mas a um projeto estrangeiro, a um projeto de dependência. São sócios menores das classes dominantes internacionais. Portanto os destinos de um país, sua inserção na divisão internacional do trabalho, sua situação no sistema internacional, depende essencialmente dos projetos, das escolhas, das estratégias de hegemonia construídas pelas suas classes dominantes. Seu projeto deve incluir as classes subalternas, elas devem vir a reboque, devem ser aliadas, devem ser a base de sustentação desse projeto. O “nacionalismo” deve ser também um projeto “para” as classes populares, mas não um projeto “das” classes populares. No sucesso de uma ação reformista, das estratégias de conciliação de classe, esta a chave para um projeto de hegemonia interna e também externa. Na “qualidade” dirigente das classes dominantes deve-se encontrar as explicações fundamentais para o sucesso ou fracasso da construção nacional e internacional de um país. A riqueza nacional é condicionada pela divisão internacional do trabalho e por ter sabido escolher, entre as possibilidades que esta divisão oferece, a mais racional e rentável para cada país. Trata-se, assim, essencialmente, de “capacidade dirigente” da classe econômica dominante, do seu espírito de iniciativa e de organização. Se não existem estas qualidades, e a administração econômica baseia-se fundamentalmente na exploração brutal das classes trabalhadoras e produtoras, nenhum acordo internacional pode sanar a situação. Na História moderna não há exemplo de colônias de “povoamento”; elas jamais existiram (GRAMSCI, 1984: 233). Gramsci mostra que os destinos de uma nação estão tão dependentes da história de suas classes dominantes como a história dos estados periféricos esta entrelaçada com a história dos estados centrais (GRAMSCI, 1977: 117). Gramsci antecipa em várias décadas o debate que movimentou as sociedades nos anos 60. A questão italiana, sua incapacidade de construir um projeto nacional, autônomo, de desenvolvimento, aproxima profundamente a abordagem gramsciana das interpretações dependentistas latino-americanas.

94

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

Os argumentos levantados acima mostram uma aproximação teórica entre as duas abordagens em vários aspectos cruciais. Seria Gramsci um teórico da dependência “avant la lettre”? Ou poderíamos especular se Gramsci chegou a ser um autor de referência para os autores dependentistas? O conceito de Revolução Passiva envolve elementos de dependência econômica e política que poderia certamente ter saído dos escritos de Rui Mauro Marini, Theotônio dos Santos, etc. Não é o objetivo deste trabalho fazer um estudo sobre a relação entre Gramsci e a “teoria da dependência”, ficando este tema para ser desenvolvido em futuros trabalhos. HEGEMONIA E IMPERIALISMO NA LEITURA NEOGRAMSCIANA. A aplicação das teorias de Gramsci às relações internacionais foi centrado no conceito de hegemonia, é a partir dele que a chamada “escola italiana”, que paradoxalmente tem em dois autores canadenses, Robert W. Cox e Stephen Gill, seus maiores expoentes, desenvolveu uma rica e original contribuição a este campo de estudos. Para Arrighi, autor em geral identificado com esta escola, a definição do conceito em uma perspectiva de relações internacionais, assim seria definido: “O conceito de “hegemonia mundial”, adotado aqui, se refere ao poder que um Estado tem de exercer funções governamentais sobre um sistema de Estados soberanos. Em principio, esse poder não envolve só a administração usual desse sistema tal como foi instruída numa determinada época. No entanto, como veremos, o governo de um sistema de Estado soberanos sempre envolve, na prática, algum tipo de ação transformadora que altera o modo de operação do sistema de maneira fundamental.Esse poder é algo mais do que “dominação” pura e simples. É o poder associado ao domínio ampliado pelo exercício da “liderança intelectual e moral”. Como enfatizado por Gramsci a respeito da hegemonia no plano nacional (...) a hegemonia é o poder adicional que resulta da capacidade de um grupo dominante apresentar, num plano universal todas as questões em torno das quais gira o conflito (ARRIGHI, 2007: 227228)”.

95

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

Esta escola centrou sua análise no conceito de hegemonia, mas seria este um conceito passível de ser traduzido para o estudo das relações internacionais? Esta pergunta foi feita pelo próprio Gramsci, ao refletir sobre as condições políticas de sua época: Será ainda possível, no mundo moderno, a hegemonia cultural de uma nação sobre as outras? Ou então o mundo já está de tal modo unificado na sua estrutura econômico social que um país, mesmo podendo ter “cronologicamente” a iniciativa de uma inovação, não pode, porém, conservar o “monopólio político” e, portanto, servir-se dele como base da hegemonia? Logo, que significado pode ter hoje o nacionalismo? Não será ele possível apenas como “imperialismo” econômico-financeiro, e não mais como “primado” civil ou hegemonia político-intelectual? (GRAMSCI, 1984: 192). Parece claro que Gramsci coloca sérias dúvidas na possibilidade de que algum país construa um projeto de hegemonia mundial. No período em que ele escreve (entre as duas guerras mundiais) as relações políticas internacionais seriam caracterizadas pelo imperialismo e não pela hegemonia. Pela coerção e não pelo consenso. Esta citação transcrita acima apontaria que para Gramsci há uma diferenciação entre hegemonia (primado civil, momento político-ideológico) e imperialismo (momento econômicofinanceiro). Assim como o período anterior, a Primeira Guerra Mundial, que Lênin analisou, o período entre guerras, período dos escritos de Gramsci, se caracterizaria pelo primado da coerção, da dominação, do imperialismo. Assim também Cox se pergunta: Seria o conceito de hegemonia em Gramsci aplicável no nível internacional ou mundial? (COX, 1981). A hegemonia para ele deve ser compreendida no contexto da criação de ordens hegemônicas. Estas construções não são naturais, ao contrário, são sempre o resultado final de um projeto de expansão de um Estado hegemônico. Assim estas ordens podem se caracterizar por terem o caráter hegemônico ou não hegemônico, ou seja, de serem dominantes. Para Cox (COX, 2007) a partir de 1845, existiram quatro períodos distintos: 1845-1875, 1875-1945, 1945-1965 e de 1965 até os dias atuais. O primeiro período se caracterizou pela constituição de uma ordem hegemônica, foi a era da pax britannica, do predomínio da Grã Bretanha. Seu inconteste domínio econômico e militar se traduziu na construção de princípios e instituições que

96

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

universalizaram seu domínio: a teoria das vantagens comparativas, o comércio livre e o padrão de ouro. No segundo período, ao contrário, se caracterizou pela desconstrução da ordem anterior, foi um período nãohegemônico. O equilíbrio de poder se rompe e um período de instabilidade se abre com vários países lutando pela supremacia. No terceiro período, estruturou-se a partir do predomínio dos Estados Unidos, que construíram uma ordem hegemônica a partir da construção de um amplo leque de instituições econômicas e políticas internacionais (FMI, Banco Mundial, OMC, ONU etc.). E finalmente, no quarto período, abre-se um período em que o grande debate entre os especialistas era sobre a crise da hegemonia norte-americana60. Assim, para Cox, fica claro que o período em que escreveu Gramsci era realmente um período não-hegemônico, ou seja, podemos reconhecer com ele a impossibilidade de usar o conceito para aqueles anos, mas a questão seria apenas conjuntural e não teórica. Na leitura de Cox, a distinção entre hegemonia e dominação nos remete à questão do imperialismo. Qual a relação entre imperialismo e hegemonia? São os conceitos similares, homônimos ou contrastantes? Para Cox, o imperialismo é uma dimensão das ordens mundiais explicitando o caráter vertical das relações de poder para além das relações horizontais de rivalidade e conflituosidade inter-imperialistas, as relações de dominação político-econômicos são relações imperialistas. Isso significa que as relações hegemônicas não se figuram como relações de subordinação imperialistas, pois estas se caracterizariam como momentos de força militares, de guerra de movimento e não de posição? (COX, 1981). Em outro momento, no entanto Cox se refere aos três primeiros períodos citados acima com outra terminologia o período de 1845-1875 seria caracterizado pelo “imperialismo liberal”, o segundo de 1945-1965 de “novo imperialismo”, e o período posterior a 1965 de “imperialismo neoliberal”. Mas mesmo ele reconhece que usar o termo imperial ou imperialismo obscurece as diferenças entre as ordens hegemônicas e não-hegemônicas (COX, 2007).
60

Segundo Arrighi o possível declínio do poder mundial dos Estados Unidos nas décadas de 1970 e 1980 levou a uma “onda de estudos sobre a ascensão e queda das ‘hegemonias’ (Hopkins e Wallerstein, 1979; Bousquet, 1979; 1980; Wallerstein, 1984b), ‘potências mundiais’ (Modelski, 1978; 1981, 1987), ‘núcleos’ (Gilpin, 1975) e ‘grandes potências’ (Kennedy 1987-1988)” (Op. Cit., P.227).

97

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

Na releitura da obra de Gramsci, Cox propõe uma outra abordagem das relações entre imperialismo e hegemonia das relações internacionais. Nas suas análises não se observa nenhum questionamento do uso alternado do conceito de imperialismo e de hegemonia. Assim sendo, minha leitura aponta que, para este autor, hegemonia caracteriza um tipo de processo político que coloca a primazia dos momentos de consenso sobre a coerção, quando o contrário acontece poderíamos chamar este processo de dominação. O imperialismo abrangeria ambos os conceitos, em ordens hegemônicas ou não-hegemônicas, isto é dominantes. As ordens mundiais, por seu turno caracterizariam as construções políticas geradas pela expansão de uma grande potência. CONCLUSÃO Partindo das análises de Cox, poderíamos concluir que em Gramsci imperialismo e hegemonia são dois momentos, não excludentes, nem contraditórios, mas dialéticos dos processos de formação dos sistemas internacionais. Tanto ele como Lênin viveram e analisaram a política internacional em sua conjuntura história específica: a era do capitalismo monopolista. Contudo, Gramsci nos fornece ferramentas para compreender os sistemas internacionais para além do período histórico do imperialismo e da ascensão do fascismo. Assim, poderia ser explicado o fato de Gramsci usar com pouca freqüência o conceito de imperialismo: ele não abandonou este conceito, ao contrário, este estaria sempre presente em suas obras, a partir da sua preocupação com os processos de construção de projetos hegemônicos mundiais.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ARRIGHI, G. As três hegemonias do capitalismo histórico. In: Gill, S (org.) Gramsci, materialismo histórico e relações internacionais. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 2007. BUCI-GLUCKSMANN, C. Gramsci e o Estado. Rio de Janeiro: Paz & Terra, 1980.

98

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

CARNEVALLI, G. A teoria da política internacional em Gramsci. In: Mazzaroba, O (org.) Gramsci, Estado e Relações Internacionais. Florianópolis: Fund. Boiteaux, 2005. COX, R. W. Gramsci, Hegemonia e Relações Internacionais: um Ensaio Sobre o Método. In: Gill, S (org.) Gramsci, materialismo histórico e relações internacionais. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 2007. COX, R. W. Social forces, states and world orders: beyond international relations theory. In: Keohane, R. O (ed.). Neorealism and its critics. New York: ColumbiaUniversity Press. 1981. FERREIRA, M. Europa, Afeganistão e África do Norte: uma introdução às análises de Marx e Engels sobre os conflitos internacionais.Crítica Marxista, n.15, Outubro 2002. GRAMSCI, A. Maquiavel, a política e o Estado moderno. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1984. GRAMSCI, A. Os intelectuais e a organização da cultura. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1988. GRAMSCI, A. Concepção dialética da história. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1986. GRAMSCI, A. A questão meridional. Rio de Janeiro: Paz & Terra, 1987. GRAMSCI, A. Literatura e vidanacional. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1986 GRAMSCI, A. Pasado y Presente. Barcelona: Granica, 1977. HALLIDAY, F. Repensando as relações internacionais. Porto Alegre: Ed. Da Universidade/UFRGS, 1999. JESSOP, B. Gramsci as a Spatial Theorist.Critical Review of International Social and Political Philosophy.Vol. 8, No. 4, 421–437, December 2005. MARX, K., ENGELS, F. Sobre o colonialismo. S. Paulo: Ed. Mandacaru, 1989. MORGENTHAU, H. Política entre as nações. A luta pelo poder e pela paz. Brasília: Ed. UnB; S. Paulo: IOESP, 2003. WALTZ, K. Teoria das Relações Internacionais. Lisboa: Gradiva, 2002.

99

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

A evolução da teoria da crise em Marx
Francisco Paulo Cipolla (UFPR)61

INTRODUÇÃO O desenvolvimento da teoria da crise nos escritos de Marx inicia com suas observações gerais quanto ao seu caráter cíclico; passa pela análise de eventos concretos na Inglaterra e no continente europeu; segue o curso necessário da crítica à economia política clássica, até culminar em seu estado teórico mais maduro n’O Capital. Suas primeiras observações sobre a crise se dão no contexto da concepção materialista da história e, portanto, como um elemento necessário da dissolução do capitalismo. No Manifesto Comunista e no Trabalho Assalariado e Capital a crise se apresenta na forma de esboço genérico quanto ao seu caráter cíclico, reaparece nas suas reflexões sobre a revolução de 48 na forma de uma reafirmação das visões já sedimentadas na fase de desenvolvimento do materialismo histórico; ganha material factual e empírico durante o período de atividade jornalística junto ao New York Daily Tribune. À partir do final da década de 50, principalmente sob o estimulo da crise de 57, começa a se estruturar uma concepção mais explícita da crise nos trabalhos de preparação d’O Capital, os Grundrisse. A Contribuição à Critica da Economia Política apresenta uma discussão detalhada sobre o dinheiro e a crise no sistema monetário. As Teorias da Mais Valia retomam a crítica aos clássicos e procuram explicitar as condições nas quais a crise geral de superprodução é possível. Finalmente n’O Capital Marx reúne todos os elementos até ali estudados e apresenta com base nos

61

Francisco Paulo Cipolla é professor titular do Departamento de Economia da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

101

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

resultados sobre o sistema de crédito uma teoria da crise que retoma a concepção cíclica apresentada 20 anos antes. CRISE NO CONTEXTO DA TEORIA DA HISTÓRIA DE MARX Grande parte do esforço teórico de Marx, após a ruptura com Feuerbach em 1845, se dirige ao desenvolvimento da concepção materialista da história cujos primeiros elementos aparecem com a publicação d’A Sagrada Família (1844-45). Não são as idéias que movem a história, mas as suas contradições. Não é o que este ou aquele proletário pense que seja sua missão, mas o que a classe como um todo será compelida a fazer devido à sua situação material. A divisão de classe fundada na propriedade privada forçará o proletariado a transcendê-la e a superar a própria alienação assim como a alienação da classe proprietária (McLellan 1971, p. 33). Curiosamente, A Ideologia Alemã (1846), a mais completa apresentação do materialismo histórico, apresenta poucas referências ao tema da crise. Mandel (1971) observa que nessa obra Marx e Engels “analisam brevemente as razões pelas quais crises monetárias podem ocorrer” e que “a crise de superprodução não é causada pela superprodução física, mas por distúrbios no valor de troca” (p.69). Com a Pobreza da Filosofia (1847) vem a público pela primeira vez a concepção materialista da história (McLellan 1971, p. 37) uma vez que A Ideologia Alemã escrita em 1846 não pode ser publicada e foi abandonada à “crítica roedora dos ratos” (Marx 1976, p.22). Na Pobreza da Filosofia Marx critica a idéia de Proudhon de que a substituição do dinheiro pelo tempo de trabalho como medida de valor garantiria a proporcionalidade entre os vários produtos da sociedade. Marx argumenta que a proporcionalidade entre oferta e demanda foi superada pelo advento da produção em larga escala baseada na indústria moderna e que o restabelecimento da proporcionalidade é uma visão reacionária, pois implica a adoção de forças produtivas pretéritas menos desenvolvidas, no interior das quais a demanda determinava a oferta. Com a grande indústria “a produção é inevitavelmente forçada a passar pelas fases sucessivas de prosperidade, depressão, crise, estagnação, renovação da prosperidade, e assim por diante” (CW 1976, v.6, p.137) 62. Com a
62

CW se refere aos Collected Works de Marx e Engels cuja publicação pela International Publishers iniciou-se no ano de 1975 e em 2004 ainda se encontrava no volume 50.

102

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

mecanização e o crescimento contínuo da escala industrial a “produção precede o consumo, a oferta força a demanda” (idem, p.137). No Manifesto do Partido Comunista (1848) Marx e Engels argumentam que assim como na fase de ascensão do capitalismo o desenvolvimento dos meios de produção entraram em contradição com as relações feudais de propriedade e tiveram que suplantá-las, o mesmo estaria ocorrendo já em sua época com o próprio capitalismo. O desenvolvimento das forças produtivas teria ultrapassado os limites compatíveis com as relações de propriedade burguesas. As forças produtivas são limitadas pelas relações de propriedade burguesas e assim que ultrapassam esses limites geram uma crise. Daí a ocorrência de crises comerciais que para eles são a manifestação do choque entre forças produtivas e relações de propriedade sobre as quais se assenta a classe capitalista. Essas crises destroem parte da produção e das forças produtivas acumuladas anteriormente (p.489). São as crises de superprodução que resultam do excesso de indústria, excesso de produção, excesso de comércio. “As condições da sociedade burguesa são muito estreitas para abarcar a riqueza criada por ela mesma” (p.490). A superação das crises se dá pela destruição massiva de forças produtivas e pela conquista de novos mercados, processo que prepara as condições para crises mais abrangentes e mais severas e ao mesmo tempo diminui os meios para superá-las. No Trabalho Assalariado e Capital (1849), escrito na mesma época, a exposição é muito similar. A batalha entre os capitalistas se dá através do aumento do emprego de maquinaria. O aumento da escala e da produtividade obtidos com o auxílio do crédito leva a crises de magnitude cada vez mais amplas (p.47-48). As crises passam a ser mais freqüentes e mais violentas já que o aumento do mercado exigido pelo aumento da produtividade encontra limites uma vez que a cada crise mais mercados são incorporados e menos mercados restam para serem incorporados (p.48). Aqui Marx sugere um processo de progressivo esgotamento do capitalismo na medida em que seu desenvolvimento levaria à exaustão dos mercados ao mesmo tempo em que provocaria crises recorrentes cada vez mais violentas. “E NÃO HAVERÁ REVOLUÇÃO SEM CRISE”

103

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

Marx se instala em Londres em 1849 e à partir de 1850 retoma seus estudos econômicos. Estes últimos, no entanto, são prejudicados pelo tempo que Marx necessita dedicar à atividade jornalística. Antes, porém, a necessidade de fazer as contas com a revolução de 1848 o leva a escrever A Luta de Classes na França na qual procura entender as razões da derrota da revolução. No plano da atividade política Marx combate a ala da Associação Internacional dos Comunistas Revolucionários que pregava a luta pela conquista imediata do poder. Marx argumentava que, com a descoberta do ouro na Califórnia e o clima de prosperidade no início dos anos 50, uma nova revolução era impossível no plano imediato. Em carta a Ferdinand Freligrath, datada de 27 de dezembro de 1851, Marx finaliza escrevendo em francês: “après les derniers événements je suis plus convaincu que jamais, qu’il n’y aura pas de révolution sérieuse sans crise commerciale” (CW 1982, v.38, p. 521). Marx inicia em 1850 a atividade de correspondente europeu do New York Daily Tribune, para o qual escreve inúmeros artigos, vários deles analisando as condições de maturação da próxima crise econômica. É exatamente em relação a essa crise iminente que ele diz que “os desastres econômicos e as convulsões sociais que estão a caminho serão as sementes da revolução européia”(v.12, p.308). E acrescenta: “Desde 1849 a prosperidade comercial e industrial foi a base segura na qual dormiu em segurança a contra-revolução”. No artigo sobre “Pauperismo e livre comércio – a crise comercial iminente”63 Marx prevê o início da crise para o ano de 1853. Essa previsão se baseia na concepção já apresentada tanto na Pobreza da Filosofia quanto no Manifesto Comunista de que ao período de prosperidade se segue a fase de excitação na qual começam a pulular as bolhas especulativas. Segundo Marx o ano de 1852 havia sido um ano de prosperidade sem igual na Inglaterra. De acordo com os dados econômicos á sua disposição, entre eles a abundância de capital de empréstimo e a baixa taxa de juros, era de se esperar que essa fase de prosperidade fosse rapidamente sucedida pela fase de excitação precursora da crise. “A excitação é o cume da prosperidade; ela não produz a crise mas provoca o seu início” (v.11, p.362) A teoria que emerge dos escritos de Marx, até aqui, é uma teoria de superprodução cíclica que se realiza através do excesso de capital, excesso de comércio, excesso de mercadorias. Quando
63

“Pauperism and Free Trade – The Approaching Commercial Crisis” (CW 1979, v.11)

104

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

Marx passa a se concentrar no trabalho teórico de crítica da economia política se depara imediatamente com a visão clássica dominante, por oposição a Malthus, de que as crises de superprodução são impossíveis. Suas explorações sobre o tema ganham um novo foco, qual seja, a explicação teórica de porque as crises de superprodução são possíveis.

A LUTA PELA TEORIA ANTES DO DILÚVIO

No inverno londrino de 57-58 Marx empreende uma frenética atividade de pesquisa no museu de Londres. Em carta a Engels, de 8 de dezembro de 1857, Marx dirá: “Estou trabalhando como louco todas as noites durante a noite toda na organização dos meus estudos econômicos para que finalmente eu possa ter o esboço claro antes do dilúvio” (CW 1983, v.40, p. 217). Como vimos Marx apresenta ao longo de sua obra préeconômica a idéia de que as crises capitalistas são crises de superprodução. Ao defrontar-se com a crítica aos clássicos deverá necessariamente fazer as contas com a noção de que não podem haver crises gerais de superprodução. Marx se depara com a visão clássica que reduzia as relações capitalistas de produção ao intercâmbio de mercadorias (M1 – D – M2) e o intercâmbio de mercadorias, por sua vez, ao escambo (M 1 – M2). Desaparecia assim qualquer possibilidade de superprodução generalizada uma vez que a produção de M1 constituia um ato de demanda de M2. Como a crise é a manifestação do fundamento contraditório do modo de produção capitalista, a análise deve tomar como ponto de partida um conceito que contenha a contradição fundamental sobra a qual a crise se assenta, conceito esse ao mesmo tempo forma mais abstrata da crise e aspecto concreto de qualquer crise particular. A mercadoria como ponto de partida é a solução metodológica. Antecipando de 8 anos a apresentação d’O Capital, Marx argumenta na Contribuição à Crítica da Economia Política que o dinheiro é a forma com que o comércio resolve a contradição da mercadoria entre valor de uso e valor: a mercadoria M1 não precisa encontrar a mercadoria M 2 na qual possa expressar o seu valor e que seja ao mesmo tempo valor de uso para o produtor 1; tampouco é necessário que M 1 represente valor de uso para o produtor 2. Todas as mercadorias

105

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

agora expressam seus valores numa única mercadoria, a mercadoria-dinheiro. Essa solução, porém, gera outra contradição, precisamente a contradição ignorada pelos clássicos: a separação da metamorfose da mercadoria entre uma fase de venda e uma fase de compra, o fundamento da possibilidade de crise. A contradição entre “mercadoria e dinheiro é a forma geral e abstrata de todas as contradições inerentes ao modo de produção capitalista” (Marx 1976, p.96). A metamorfose da mercadoria é composta de duas fases independentes: a primeira fase é a venda, M – D; a segunda fase é a compra, D – M. O mesmo dinheiro obtido na venda efetua uma compra. Porém, essa compra não é necessariamente imediata. Após a fase de venda a mercadoria assume uma forma durável no dinheiro; uma forma que pode ser trocada a qualquer momento; uma fase independente na qual pode permanecer por um período mais ou menos longo (Marx 1976, p.91). Se a permanência do dinheiro nessa fase torna a separação entre venda e compra muito longa, a unidade da metamorfose da mercadoria se afirma através de uma crise (Marx 1975, I, p.114) na qual mercadorias de todos os gêneros jazem inertes à espera de um comprador, ao contrário do que pensavam Ricardo e Say de que somente superproduções parciais eram possíveis. Nas suas visões as crises gerais de superprodução eram impossíveis, pois ao reduzirem o intercâmbio ao escambo, quaisquer mercadorias produzidas encontrariam outras pelas quais se pudessem trocar até que exaurindo-se as possibilidades de troca pudessem eventualmente sobrar um ou outro gênero, mas nunca um excesso geral de mercadorias. A possibilidade de crise se desenvolve ainda mais à medida que se desenvolve a função do dinheiro como meio de pagamento. A função de meio de pagamento implica uma contradição: enquanto os pagamentos se compensam o dinheiro funciona apenas idealmente como dinheiro de conta e medida de valor. Quando os pagamentos devem ser efetivamente realizados o dinheiro não entra como figura transiente da circulação, mas como encarnação material do trabalho social (Marx , 1985 p.116). Com a evolução da circulação de mercadorias a venda se transforma numa necessidade social independente das necessidades individuais de quem vende já que com a generalização da função de meio de pagamento é preciso vender para pagar (Marx 1976, p. 141). Como comprador a crédito todo vendedor de mercadoria é obrigado a vender para obter os meios de pagamento necessários para saldar suas dívidas (idem 141). A conversão M – D se torna uma função da necessidade de pagar

106

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

(142) e não meramente uma fase da metamorfose da mercadoria. Daí que qualquer interrupção na cadeia de intercâmbio cause uma crise monetária: a busca por dinheiro na sua forma absoluta. Essa crise monetária é parte de qualquer crise. A crise monetária nesse contexto nada mais é do que a corrida por meios de pagamento quando a circulação se estanca e todos precisam pagar. Na Contribuição à Crítica da Economia Política Marx distingue entre moeda em suspensão e entesouramento (Marx 1976, p.137). Moeda em suspensão é também referido por Marx simplesmente como dinheiro por oposição a moeda ativa na circulação. Esta última, moeda, designa o dinheiro no processo ativo de circulação. Essa mesma moeda passa de moeda a dinheiro quando sai da circulação temporariamente não em virtude do entesouramento, mas devido ao fato de que o dinheiro obtido com a venda da mercadoria é gasto paulatinamente numa série de aquisições de modo que uma parte dele jaz dormente como dinheiro enquanto a outra circula como moeda. É apenas uma distinção entre dinheiro ativo na circulação imediata e dinheiro temporariamente inativo. Essa distinção é importante, pois no capitalismo a acumulação de capital dinheiro latente, capital na forma dinheiro, mas inativo enquanto capital, é a contrapartida, na circulação do capital, da moeda em suspensão e não do entesouramento. No capitalismo o entesouramento é antitético ao conceito de capital uma vez que implica a esterilização do processo de valorização na forma de um dinheiro dormente. A suspensão do dinheiro no interior do circuito do capital é fenômeno fundamental para a explicação da função do sistema de crédito assim como sua influência sobre o processo de reprodução do capital e da crise. Todo o dinheiro que emerge do circuito do capital e não pode ser imediatamente transformado em capital produtivo encontra os canais do sistema bancário através dos quais retorna ao circuito do capital na forma de crédito de capital, impulsionando assim a reprodução até seus limites máximos. Esse processo constitui parte fundamental da teoria da crise de superprodução de Marx, como veremos a seguir. A CRISE REAL REQUER A CONCORRÊNCIA E O CRÉDITO64

“A crise real só pode ser derivada do movimento real da produção capitalista, da concorrência e do crédito” (Marx, 1968, p.512).
64

107

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

O Capital retoma a idéia inicial já expressa no Manifesto Comunista de 1848 de que as crises são parte do comportamento cíclico da acumulação de capital. A análise da possibilidade da crise implícita na metamorfose da mercadoria não é abandonada quando Marx passa à análise do capital. Ao contrário, nas Teorias da Mais Valia, Marx afirma que as formas abstratas da crise tal como se depreendem da metamorfose da mercadoria aparecem na crise como produto de causas relacionadas às propriedades do capital.65 A análise do crédito e da concorrência efetuada no volume III d’O Capital permite a Marx retomar as concepções fundamentais acerca da crise, agora num plano mais concreto da análise, plano esse que incorpora a concorrência e o crédito no processo cíclico de expansão e colapso da reprodução. Dinheiro de crédito e crédito de capital O prosseguimento da apresentação requer uma breve digressão sobre as categorias de dinheiro de crédito e crédito de capital. O dinheiro de crédito é um título de crédito que funciona como meio de circulação. No processo de circulação do capital esse mecanismo era realizado pelas Letras de Câmbio até a data do seu vencimento. Nessa data o dinheiro deveria atuar como meio de pagamento, isto é, dinheiro de fato, quer seja na forma de dinheiro-mercadoria, quer seja na forma de notas bancárias que representavam depósitos em dinheiro-mercadoria. Uma determinada quantidade de dinheiro deveria, portanto, estar constantemente disponível para realizar a função de meio de pagamento. À medida que a função de dinheiro de crédito passa das Letras de Câmbio para os próprios depósitos bancários a massa de dinheiro necessário para a função de meio de pagamento se reduz a uma fração mínima uma vez que os créditos e débitos são compensados no interior do sistema bancário. Desse modo uma fração crescente dos depósitos é disponibilizada para o crédito de capital. O mesmo ocorre com os fundos monetários de capital circulante, de depreciação e de acumulação que se formam ao longo de cada circuito do capital. Sua concentração nos bancos
65

Para um aprofundamento dessa questão ver Aquino (2007).

108

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

permite com que apenas uma pequena fração do seu volume tenha que permanecer disponível na forma dinheiro, fato que libera a maior parte do capital dinheiro latente da classe capitalista coletiva para a reinserção no circuito do capital produtivo na forma de empréstimos bancários.66 A massa de capital monetário à disposição para empréstimo aumenta também devido ao fato de que a acumulação monetária contém elementos que não representam acumulação real. De fato, a acumulação monetária avança mais rapidamente do que a acumulação de capital produtivo, pois com a extensão e desenvolvimento do sistema bancário toda massa de dinheiro temporariamente inutilizada se concentra nos bancos e se transforma em capital monetário de empréstimo. Como o lucro bancário depende do comércio do dinheiro depositado nos seus cofres pode-se dizer que os bancos pressionam ao máximo o processo de reprodução através de uma oferta de crédito que excede as necessidades do processo normal de reprodução. É nisso que consiste o excesso de crédito ou super-crédito apontado por Marx como elemento importante para a compreensão das crises (Marx 1968, p.515). A contradição implícita na função do dinheiro como meio de pagamento é assim exacerbada no sistema de crédito desenvolvido com a dupla função dos depósitos como dinheiro de crédito e crédito de capital: como grande parte dos depósitos é emprestada as reservas são suficientes apenas para o volume normal de saques. No auge da prosperidade a demanda de crédito pressiona as reservas ao máximo. Por isso, assim que os bancos percebem um desequilíbrio entre depósitos e saques tratam de aumentar imediatamente a taxa de juros fato que se configura como um dos elementos que explicam o início da crise. Vejamos agora como se apresentam as coisas do ponto de vista da demanda de crédito. Concorrência e taxa de lucro de empresário A tendência do capital de crescer o mais rapidamente possível faz com que em cada ramo da economia se desenrole, entre os vários capitais daquele ramo, uma luta encarniçada pelo
66

Para uma análise sistemática do processo de formação de reservas bancárias à partir do circuito do capital produtivo ver Germer (1998).

109

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

aumento da parcela de mercado, única forma de crescer além do crescimento médio do mercado. Para conseguir aumentar a parcela de mercado os capitais individuais procuram introduzir métodos de produção novos, capazes de diminuir o valor de suas mercadorias abaixo do valor de mercado. Como essa compulsão move todos os capitais para adiante, o resultado é uma superprodução ao valor de mercado vigente. Isso significa que a taxa de lucro ao novo valor de mercado pode estar caindo, mas não se manifesta enquanto tal pois a expansão impede a queda dos preços. A concorrência entre capitais com o intuito de aumentar a parcela de mercado se utiliza do crédito para alavancar a competitividade individual. À medida que a atividade econômica se recupera, a taxa de lucro começa a aumentar, aumentando em conseqüência a diferença entre taxa de lucro e taxa de juros. O aumento dessa diferença implica que quanto mais crédito o capitalista utilizar maior será a taxa de lucro de empresário calculada sobre o capital próprio (Hilferding, 1981, p.93) O aumento da taxa de lucro de empresário instiga a busca pelo crédito de capital. Aqui se faz necessária uma digressão sobre a relação entre taxa de juros e taxa média de lucro. A economia neoclássica supõe que essas duas taxas se igualam através da concorrência entre capital produtivo e capital monetário. Se a lucratividade do capital aplicado na indústria é maior do que a taxa de juros então capital monetário se transforma em capital produtivo e vice versa.67 Não há nada disso em Marx. O capital fixo impede essa perfeita mobilidade entre capital produtivo e capital monetário. Apenas a fração do capital produtivo que necessariamente se monetiza no processo de rotação do capital é que encontra a forma monetária própria para servir de capital emprestável pelos bancos.68 Desse modo, não existe nenhum mecanismo de equalização das taxas de lucro e de juros. O juro é uma fração da mais valia. Não pode ser maior do que a matéria da qual provém que é o trabalho não pago. Desse modo a taxa de juros é
67

A terminologia da teoria marginalista é diferente: na verdade a equalização se dá entre a produtividade marginal do capital e a taxa de juros. A taxa de juros é dada pela relação entre consumo futuro que se ganha com base na abstinência do consumo no presente. Desde que a produtividade marginal do capital seja maior do que a taxa intertemporal de consumo vale a pena sacrificar consumo presente, até que, com o decréscimo da produtividade marginal esta última se iguale à taxa intertemporal de consumo. Que mundo harmonioso esse no qual o capitalismo se reduz a satisfazer o consumo e todo o sistema se move de modo a maximizar a utilidade intertemporal!
68

Ver a esse respeito Itoh (1988).

110

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

necessariamente, em geral, menor do que a taxa de lucro. O limite máximo da taxa de juros é a taxa de lucro. Uma taxa de juros maior do que a taxa de lucro é um dos sintomas da crise econômica quando a corrida por meios de pagamento faz a taxa de juros atingir os níveis mais altos de sua trajetória cíclica. A diferença entre o lucro médio e o juro é o lucro do empresário. Se todo o capital produtivo fosse financiado por crédito bancário então a taxa média de lucro menos a taxa de juros seria a taxa de lucro de empresário. Assim, na fase de retomada do crescimento a taxa de lucro de empresário é alta e os capitais aumentam o uso de crédito. Os capitais que adotam métodos mais avançados de produção gozam de lucros extras e, portanto, de taxas de lucro ainda maiores em virtude do fato de que o preço de mercado sustentado pela expansão retarda em expressar a estrutura produtiva mais eficiente. Esse processo coincide com o aumento das escalas de produção e com a expansão da massa de produtos levada ao mercado. Obviamente os cálculos são realizados ao valor de mercado vigente, mas a expansão da produção se dá com base nas condições técnicas mais avançadas que se encontram disponíveis e cujo valor de mercado implícito é mais baixo. Esse processo coincide com a redução das reservas bancárias até seus limites mínimos enquanto, por outro lado, a relação Ce/Cp, capital emprestado/capital próprio vai subindo. Na verdade a relação Ce/Cpc, capital emprestado/capital próprio circulante aumenta ainda mais já que o crédito de capital é crédito de curto prazo refletindo a natureza das reservas capitalistas. O aumento da relação Ce/Cpc implica num aumento da fragilidade sistêmica da reprodução na medida em que o juro se paga à partir do refluxo do capital circulante aumentado pelo lucro médio e como sabemos os valores de mercado implícitos na mais alta produtividade comportam margens de lucro menores que os preços vigentes. O processo de aumento da razão Ce/Cpc é ao mesmo tempo o processo de diminuição das reservas a um mínimo compatível com a conversibilidade dos depósitos. O sistema como um todo se estira até os limites de suas possibilidades tanto na direção do aumento do endividamento das empresas, quanto no aumento da produção, quanto na direção da redução das reservas bancárias. Esse é o sentido, agora substanciado numa análise concreta do processo cíclico, da idéia de excesso de capital, excesso de produção, excesso de comércio. Isso significa que o aumento da produção não pode se realizar indefinidamente

111

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

ao valor de mercado no qual foram calculados o aumento da escala e os empréstimos tomados para realizá-la. Temos, assim, um processo no qual simultaneamente e reciprocamente os bancos reduzem as reservas a um mínimo e os capitalistas aumentam o endividamento ao máximo. Essa dupla circunstância se assenta no período de expansão que precede a fase de super-excitação na qual entra em cena a demanda de crédito para fins especulativos. Ademais, a expansão da circulação da renda faz com que diminua a quantidade de dinheiro que reflui para os bancos precisamente quando a demanda por crédito de capital se expande ao máximo. A taxa de juros sofre uma alta significativa. Vejamos agora o comportamento do ciclo numa visão de conjunto da concorrência e do crédito. Crise industrial e crise monetária: o movimento cíclico no seu conjunto A acumulação de material monetário de empréstimo sofre os percalços do comportamento cíclico da acumulação capitalista. Após a crise a acumulação monetária nos bancos reflete um fator contrário à acumulação de capital, sua completa estagnação. À estagnação da acumulação corresponde um fluxo unilateral de depósitos sem as correspondentes retiradas associadas às compras de meios de produção e força de trabalho. Após a crise a taxa de juros é baixa porque o capital monetário se acumula nos bancos e a demanda de crédito bancário é praticamente nula. A taxa de juro se mantém baixa nessa fase porque parte substancial do crédito é realizada diretamente entre os próprios capitalistas. O movimento cíclico se inicia à partir da fase que sucede a crise, fase essa caracterizada pela pletora de capital dinheiro de empréstimo e baixa taxa de juro. Com a recuperação econômica a taxa média de lucro aumenta fazendo crescer a taxa de lucro de empresário. À medida que a expansão ganha fôlego os empréstimos bancários ultrapassam – pois economizam reservas de meios de pagamento e concentram dinheiro que não representa capital – os limites da reprodução material que é a contrapartida em meios de produção e meios de consumo do dinheiro que representa capital e, por isso começam a elevar-se os preços. Entra em cena a demanda de capital dinheiro para especulação, fato que força um aumento na taxa de juros. É precisamente esse período que

112

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

antecede a crise que apresenta a aparência de reprodução saudável. A dupla função dos depósitos como dinheiro de crédito e crédito de capital faz com que sua função de dinheiro de crédito se exerça sem a sua presença material já que o depósito de A é emprestado a B. Isso significa que o depósito bancário como dinheiro de crédito não pode funcionar como meio de pagamento no montante de sua magnitude nominal, pois o sistema bancário empresta o dinheiro o que significa que a conversão em dinheiro de fato é impossível. As condições de convertibilidade dos depósitos só funcionam dentro dos estritos limites das reservas baseadas no funcionamento normal de saques e depósitos. 69 Ao reduzir as reservas ao mínimo qualquer sinal de retiradas maiores do que os depósitos produz um aumento da taxa de juros por parte dos bancos como forma de proteger as reservas. No sistema de crédito básico com crédito comercial e crédito de capital circulante o fenômeno que dá origem ao aumento da taxa de juros é o aumento da demanda de desconto de Letras de Câmbio relativamente ao fluxo de depósitos. No sistema moderno no qual os depósitos bancários substituem as Letras de Câmbio como dinheiro de crédito o problema emerge quando o fluxo das reservas começa a desacelerar como reflexo de dificuldades de realização na fase M’– D’. Portanto, seja no sistema simples seja no sistema à base de depósito como dinheiro de crédito, o fundamento da crise cíclica é necessariamente resultado da elasticidade que o sistema de crédito imprime à reprodução do capital, elasticidade essa que leva o sistema a ultrapassar as suas possibilidades de reprodução. A partir do momento em que começam a se apresentar problemas de refluxo de reservas, os bancos aumentam as taxas de juros. As empresas menos sólidas começam a apresentar problemas financeiros relacionados ao serviço de suas dívidas. Com as primeiras falências a taxa de juro sobe ainda mais. Nesse momento todos tentam assegurar-se dinheiro na perspectiva de que as taxas de juros continuarão subindo. Taxas de juros elevadas começam a fazer estrago na estrutura fragilizada da reprodução. As primeiras falências dão o sinal para uma corrida ao dinheiro com o que a função de meio de pagamento do dinheiro não pode se realizar levando a uma crise generalizada na qual todos

Marx se refere a esse problema tendo em mente depósitos em ouro no capitulo 32 do vol III d’O Capital.
69

113

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

vendem para pagar depreciando assim o preço dos seus ativos e mercadorias. Neste momento entra em cena a crise monetária: a busca desenfreada por meios de pagamento que como vimos não pode ser suprida, pois simplesmente não existe nos cofres bancários. Daí que a crise monetária, fase de qualquer crise geral, é necessariamente uma crise bancária. Os bancos não podem converter depósitos em meio de pagamento e cerram as portas. O crédito estagna e a crise se aprofunda. Desse modo a crise bancária é um fator de agravamento da crise. Num sistema em que tudo depende do crédito a paralisação da atividade bancária produz uma paralisia na reprodução do capital. A crise monetária tal como analisada na circulação simples de mercadorias agora aparece como crise bancária porque os meios de pagamento estão concentrados no sistema bancário. A existência contábil dos depósitos em contraste com a sua inexistência real face à procura desenfreada por meios de pagamento é a crise bancária. Assim que a crise se manifesta a desova de quantidades aumentadas de produção no mercado revela o verdadeiro valor das mercadorias, fruto das condições mais avançadas de produção. O preço de mercado cai. A lucratividade se contrai ainda mais em virtude da liquidação de preços. Empresas se tornam inadimplentes. A massiva destruição de valor-capital prepara as condições para o início de um novo ciclo. CONCLUSÕES Os 20 anos que separam a Pobreza da Filosofia da publicação do primeiro volume d’O Capital foram, ao mesmo tempo, anos de intensa pesquisa e sofrimento material. No final da década dos anos 50 Marx dirá – munido da ironia em meio às dificuldades financeiras – que “nunca ninguém escreveu tanto sobre o dinheiro tendo tão pouco dele”. É precisamente sua elaboração sobre o dinheiro e suas funções, apresentada pela primeira vez na Contribuição à Crítica da Economia Política, que pavimentou o caminho para o desenvolvimento da análise do crédito, elemento que junto com a análise da concorrência são fundamentais para o entendimento das crises capitalistas.

114

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AQUINO, D. C. “Os desdobramentos das contradições do processo de reprodução do capital: elementos para o entendimento das crises”. Dissertação apresentada para obtenção do título de mestre. Universidade Federal do Paraná, Programa de pós-graduação em Desenvolvimento Econômico, 2007. GERMER, C. M. “Endogeneidade produtiva: um enfoque alternativo da hipótese da endogeneidade da oferta monetária”. Anais do XXVI Encontro Nacional de Economia da ANPEC. Vitória – ES, dezembro de 1998, v.1. HILFERDING, R. Finance Capital. A Study of the Latest Phase of Capitalist Development. Londres: Routledge & Kegan Paul, 1981. ITOH, M. The basic theory of capitalism. The forms and substance of the capitalist economy. New Jersey: Barnes & Noble Books, 1988. MANDEL, E. The formation of the economic thought of Karl Marx. New York: Monthly Review Press, 1971 MARX, K. Grundrisse. Foundations of the critique of political economy. Inglaterra: Penguin Books e New Left Review, 1973. MARX, K. e Engels, F. Collected Works, v.6, 1845-1848. New York: International Publishers, 1976. Marx, K. e Engels, F. Collected Works, v.40, 1856-59. New York: International Publishers, 1976. Carta a Engels, 8 de dezembro de 1857, p.217. MARX, K. O Capital. Crítica da Economia Política. São Paulo: Nova Cultural, 1985. MARX, K. Theories of Surplus-Value. Moscou: Progress Publishers, 1968. MARX, K. Wage Labour and Capital. New York: International Publishers, 1976. MCLELLAN, D. The Thought of Karl Marx. New York: Harper & Row Publishers, 1971.

115

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

As tendências de longo prazo da economia capitalista e a transição para o socialismo
Claus M. Germer (UFPR)70

INTRODUÇÃO A análise deste tema é oportuna em um momento em que o capitalismo se considera triunfante e os críticos do capitalismo, mesmo no campo do marxismo, vacilam na afirmação do caráter historicamente passageiro do presente modo de produção ou jogam para um futuro remoto e incerto a possibilidade da transição para o novo modo de produção, o comunismo. Uma das principais críticas feitas por Marx à teoria econômica burguesa (a Economia Política clássica, na sua época, cujo caráter científico reconhecia) foi o seu caráter a-histórico, isto é, o fato de não reconhecer a natureza passageira do capitalismo. Atualmente, no campo do marxismo, isto é geralmente reconhecido, mas, ao contrário de Marx, parece ser aplicado, na análise teórica, praticamente apenas ao passado, principalmente como análise do processo de gênese do capitalismo no interior do feudalismo. Raramente é aplicado à tentativa de identificar o processo corrente de gestação dos elementos que emergem no interior do capitalismo e que apontam para a sua superação, na forma de elementos constitutivos de um novo modo de produção. Um esforço neste sentido não se confunde com a tentativa de prever o futuro ou elaborar receitas sobre a forma concreta que deveria assumir o novo modo de produção. O de que se trata é de procurar identificar os elementos emergentes deste no interior do capitalismo.
70

Professor do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Econômico da Universidade Federal do Paraná.

117

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

Uma tentativa deste tipo não é uma empresa fácil, uma vez que a evolução social está sendo tecida cotidianamente, por intermédio da atividade de milhões de indivíduos e grupos de indivíduos agindo sem coordenação consciente, portanto sem um objetivo comum conhecido. As mudanças meramente incrementais podem ser previstas até certo ponto, mas apenas para o futuro próximo, uma vez que são mera extrapolação da situação vigente, que é conhecida. Mas as mudanças que implicam saltos qualitativos dificilmente podem sê-lo. O desenvolvimento da manufatura, a partir de meados do século 16, é um exemplo deste tipo. No início daquele século, quando a produção artesanal era a forma vigente da produção industrial, nada permitia prever o surgimento e a difusão da produção manufatureira, algumas décadas depois, cujas condições de emergência estavam, porém, sendo gestadas a partir de diferentes pontos da sociedade, mas cuja combinação em um processo de convergência para o que viria a ser a manufatura era imperceptível a qualquer observador. Do mesmo modo, durante o domínio da produção manufatureira, nada permitia antever o desenvolvimento da indústria mecanizada a partir dela. Sendo assim, como é possível antecipar uma mudança qualitativa tão significativa quanto a natureza do modo de produção que tomará o lugar do capitalismo? Ou seja, como é possível identificar o comunismo como o novo modo de produção? O objetivo desta exposição é retomar os fundamentos teóricos que tornam isto possível. Uma correlação de forças de classes extremamente desfavorável ao socialismo, principalmente nas últimas três décadas, parece ter produzido uma forte desmotivação para o estudo do processo de transição em curso e até mesmo uma certa descrença de que isto esteja ocorrendo. Como consequência, são escassas as análises que sintetizam os abundantes dados e informações que identificam o curso deste processo. O objetivo deste artigo não pode, portanto, ir além da retomada dos fundamentos teóricos da existência deste processo e da indicação de algumas evidências mais gritantes da sua realização. A TEORIA DOS MODOS DE PRODUÇÃO Não há dúvida de que Marx e Engels consideravam possível antever pelo menos as características fundamentais do modo de

118

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

produção – o comunismo – que sucederia o capitalismo. Marx não só referiu-se ao novo modo de produção em numerosas passagens da sua obra, como pretendia dedicar um volume do O Capital a este tema, intenção que, lamentavelmente, não pode realizar. Rosdolsky, citando os Grundisse, esclarece que, “segundo o plano original de Marx, o último volume da sua obra deveria encerrar-se com o exame dos momentos que apontam ‘para além do que está pressuposto’ e que ‘pressionam pela emergência de uma nova forma histórica’ da sociedade. Este volume deveria ocuparse, portanto, com a análise da ‘dissolução do modo de produção e da forma de sociedade baseados no valor de troca’ e da sua transição para o socialismo” (Rosdolsky, p. 486). Prossegue o mesmo autor: como resultado da análise de Marx “o socialismo já não aparecia como um mero ideal, mas como uma fase necessária do desenvolvimento da humanidade, para a qual tende a história decorrida até hoje, de modo que só se poderia falar da futura forma socialista da sociedade, na medida que embriões visíveis desta futura sociedade pudessem ser descobertos na história decorrida e suas tendências de desenvolvimento” (Ibidem, p. 487). Isto significa que a transição para um novo modo de produção inicia-se quando elementos do mesmo começam a desenvolver-se no interior do modo de produção vigente. Um pouco de reflexão é suficiente para indicar que esta é uma condição indispensável à possibilidade da passagem a um novo modo de produção71. Sendo assim, os elementos emergentes e constitutivos do modo de produção que se seguirá ao capitalismo devem poder ser observados no interior da sociedade capitalista atual. Deve-se notar que, para que embriões visíveis da sociedade futura possam ser encontrados no interior do capitalismo atual, são necessários critérios capazes de indicar quais seriam os fenômenos que constituem embriões da sociedade futura. Tais critérios só podem ser derivados das leis que presidem a evolução do capitalismo. É preciso, portanto, identificar estas leis, função que cabe à ciência. O que se necessita, por conseguinte, é que a sociedade capitalista seja analisada segundo o método científico usual, isto é, procurando identificar as leis que presidem o seu funcionamento e sua evolução, a partir dos fatores materiais que objetivamente a condicionam, e sem a intervenção da
Segundo Marx, “...relações de produção novas e superiores nunca se instalam antes que as condições de existência materiais das mesmas tenham sido geradas no próprio seio da velha sociedade” ( Marx, 1980, p. 101).
71

119

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

intencionalidade humana. Como Marx esclareceu no prefácio ao primeiro volume do O Capital, tratava-se nesta obra de identificar as “leis naturais da produção capitalista (...) [as] tendências que atuam e se impõem com necessidade férrea”, ou seja, “descobrir a lei econômica do movimento da sociedade moderna”, que é a sociedade capitalista (Marx, 1983, p. 12). O método desenvolvido por Marx e Engels para investigar o processo de desenvolvimento da sociedade humana, é o materialismo histórico, que consiste na aplicação do materialismo filosófico e da dialética à análise da sociedade humana. Ao contrário do que se possa crer, o materialismo é a filosofia na qual se baseia, consciente ou inconscientemente, a moderna pesquisa científica burguesa no campo das ciências naturais72. Sendo assim, se a ciência é materialista em todos os campos, segue-se que a análise científica da sociedade requer igualmente uma abordagem materialista. Mas a possibilidade de analisar o movimento da sociedade capitalista depende crucialmente de se ter identificado as leis que presidem a evolução da sociedade humana em geral, isto é, as leis que movem a ação do ser humano como tal e, mais especificamente, aquelas que presidem a transição de um modo de produção a outro. As tendências a serem observadas na evolução do capitalismo nada mais são do que manifestações da operação destas leis gerais. Sem elas seria impossível saber quais fenômenos deveriam ser observados como indicadores do processo de transição. O estabelecimento destas leis foi realizado por Marx e Engels nas suas obras iniciais, de cunho eminentemente metodológico, com destaque para a ‘A ideologia alemã’ e o prefácio da ‘Contribuição à crítica da economia política’. Marx e Engels pretenderam analisar a evolução da humanidade cientificamente, isto é, sem atribuí-la a entes fantásticos ou a inspirações geniais de grandes personagens. Nestas obras identifica-se o desenvolvimento das forças produtivas como o fator material responsável pelo desenvolvimento da sociedade humana em geral, e a contradição entre as forças produtivas e as relações sociais de produção como o fator responsável pelo desenvolvimento das lutas de classes que conduzem à transição de um modo de produção a outro. Deste modo, a identificação das tendências de evolução das forças produtivas e da contradição entre estas e as relações de produção, em determinado modo de
Na filosofia não marxista das ciências naturais atuais isto é amplamente reconhecido: “Materialism is now the dominant systematic ontology among philosophers and scientists, and there are currently no established alternative ontological views competing with it” (Moser and Trout, p. ix).
72

120

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

produção, permite antecipar as características fundamentais do modo de produção seguinte. Deve-se ter em mente que as relações de produção expressam-se na forma jurídica da propriedade ou da apropriação. Portanto, é necessário observar a emergência de novas formas materiais de apropriação, conflitantes com a forma vigente e sua expressão jurídica. Por outro lado, esta contradição desencadeia uma reação por parte da classe proprietária vigente, na tentativa de controlar e/ou deter o desenvolvimento das novas forças produtivas e da nova forma material de apropriação que lhe corresponde 73. A existência destas reações acrescenta-se ao observador como outro indicador da intensidade da contradição mencionada. Não se pode de imediato dizer se as mudanças mais facilmente observáveis são as que se dão nas relações de produção ou nas forças produtivas, embora estas sejam a causa daquelas. Os desenvolvimentos técnicos dos meios de produção ocorrem no interior das unidades produtivas, longe das vistas da maioria da população e mesmo de observadores atentos, enquanto as mudanças nas relações de produção, que se dão entre indivíduos que circulam na sociedade como portadores de uma nova relação social, tornam-se por este motivo mais fácil e rapidamente percebidas. Por outro lado, porém, importantes desenvolvimentos técnicos nos meios de transporte, que são também elementos das forças produtivas, e que desempenharam papel importantíssimo no impulso ao desenvolvimento das novas forças produtivas e relações de produção como um todo em diversas fases da evolução da humanidade, principalmente nas mais recentes, são mais fácil e extensamente percebidas. Finalmente, deve-se notar que não há leis que permitam antever as direções dos desenvolvimentos técnicos e a natureza dos saltos qualitativos que caracterizam a emergência de forças produtivas portadoras de mudanças cruciais. Sendo assim, parece que os melhores indicadores da emergência do novo modo de produção no capitalismo são as mudanças nas relações de produção e a explicitação do seu conflito com a forma jurídica vigente da propriedade. Se as relações de produção mudam, é porque as forças produtivas estão mudando. Deste modo torna-se possível a identificação do processo em curso de constituição de uma realidade social futura, antes que esta tenha se materializado. Esta possibilidade depende de se
73

Uma exposição detalhada da teoria da transição entre modos de produção, elaborada por Marx e Engels, encontra-se em Germer, 2009.

121

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

poder antever, pelo menos em suas linhas gerais, o formato da realidade futura, que depende, por sua vez, de ser possível extrair, da análise do processo evolutivo atualmente em curso, as tendências evolutivas essenciais e a sua convergência em direção a uma transição determinada. O resultado da análise de Marx está sintetizado na lei geral da acumulação capitalista (Marx, 1983, cap. 23), e pode ser assim enunciado: na sociedade capitalista os produtores são independentes e concorrem uns com os outros pela sobrevivência como produtores. A concorrência conduz à elevação contínua da composição orgânica do capital e à centralização crescente dos capitais, isto é, à absorção dos capitais menores pelos maiores e à proletarização dos menores capitalistas e demais produtores porventura existentes. Da centralização crescente decorrem duas tendências: a primeira é a polarização crescente da população em duas classes: a classe capitalista, cujo número diminui gradualmente, por um lado, e a classe dos trabalhadores assalariados, que tende a absorver o restante da população, ou seja, a maioria, por outro. A segunda tendência é o crescimento contínuo das escalas dos capitais individuais e a correspondente expansão do caráter social do trabalho, com contingentes cada vez maiores de trabalhadores trabalhando combinadamente em regime de cooperação técnica. Finalmente, com o advento e difusão da sociedade anônima, os capitalistas são substituídos por trabalhadores assalariados nas funções de direção nas esferas da produção e da distribuição dos produtos do trabalho. Todas estas tendências realizaram-se plenamente após a publicação do O Capital, mesmo aquelas que, à época, ainda não haviam se manifestado claramente, como é o caso da difusão da sistema de crédito, da sociedade anônima e da centralização geral dos capitais. Desta síntese decorrem as evidências a serem procuradas na evolução do capitalismo até este momento: por um lado, as evidências sobre o processo de polarização social entre capitalistas e assalariados; por outro lado, as evidências de uma tendência ainda inexistente quando da elaboração do O Capital, mas implícita no processo de centralização, que é a progressiva substituição do mercado pelo planejamento da atividade econômica, tanto ao nível dos capitais individuais quanto do capital global.

122

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

OS ELEMENTOS FUNDAMENTAIS INTERIOR DO CAPITALISMO

DO

COMUNISMO

NO

Entre as referências feitas por Marx ao comunismo, encontra-se frequentemente a expressão ‘sociedade de produtores associados’. O conceito de ‘produtores associados’, cuja base é a propriedade comum dos meios de produção, opõese ao de ‘produtores independentes em concorrência’, cuja base é a propriedade privada dos meios de produção. É clara nos textos de Marx a indicação de que o comunismo baseia-se na propriedade comum ou coletiva dos meios de produção. A propriedade comum implica, logicamente, que a gestão dos meios de produção é também comum e unificada, significando que o conjunto deles é gerido como uma totalidade, ou seja, há planejamento global unificado da produção e da distribuição. Pode-se dizer, por conseguinte, que os dois componentes fundamentais do comunismo são a propriedade comum dos meios de produção, por um lado, e o planejamento integrado ou global da produção e da distribuição, por outro. Ora, o novo modo de produção somente se torna possível na medida que os seus componentes fundamentais estejam desenvolvidos a um ponto que se possa considerar suficiente, uma vez que eles constituem o fundamento material do desenvolvimento da classe social portadora do projeto do novo modo de produção, projeto este que nada mais é que a expressão das exigências objetivas dos componentes já desenvolvidos do mesmo74. Ou seja, a transição para o comunismo requer que se desenvolva previamente, no interior do capitalismo, uma classe cujo destino depende desta transição, e uma tal classe só pode desenvolver-se caso a apropriação coletiva dos meios de produção se desenvolva também previamente, em estado embrionário, no interior do capitalismo. Isto lembra a máxima de Marx, segunda a qual a sociedade somente se propõe um problema quando as condições materiais para a sua solução já estão presentes. Sendo assim, pode-se dizer que as duas tendências de longo prazo fundamentais do capitalismo são a progressiva emergência da propriedade comum dos meios de produção, por um lado, e do planejamento global da produção e da distribuição, por outro. Conseqüentemente, estas duas
“A existência de idéias revolucionárias numa época determinada pressupõe já a existência de uma classe revolucionária” (Marx e Engels, 1975, p. 68). Ver também Germer (2009).
74

123

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

tendências devem poder ser observadas no processo objetivo de desenvolvimento do capitalismo. A EMERGÊNCIA DA PROPRIEDADE COLETIVA DOS MEIOS DE PRODUÇÃO A afirmação de que os componentes do comunismo devem desenvolver-se até um ponto significativo no interior do capitalismo não significa que se pretenda que estes se manifestem abertamente como tais, de modo explícito. Assim, a emergência da propriedade comum no interior do capitalismo não pode ser entendido como a difusão desta nova forma de propriedade explicitamente como propriedade comum, de todo o povo. Isto nem poderia ocorrer, uma vez que a forma jurídica geral da propriedade dos meios de produção é a propriedade privada. Sendo assim, dada a dominância desta, é óbvio que a propriedade coletiva não pode desenvolver-se a não ser como uma forma encoberta da propriedade privada. O mesmo deu-se na transição do feudalismo para o capitalismo, na qual o capitalista desenvolveu-se na forma de arrendatário do nobre feudal, ou seja, como uma espécie de vassalo de novo tipo, tanto da agricultura como na manufatura. Parece legítimo sugerir que a propriedade comum pode desenvolver-se de duas maneiras no capitalismo, por um lado de maneira positiva, isto é, como propriedade efetivamente existente, mas em forma encoberta pela propriedade privada; por outro lado de maneira negativa, isto é, como processo de progressiva redução do âmbito de existência da propriedade privada. A PROPRIEDADE COMUM DOS MEIOS DE PRODUÇÃO COMO FORMA ENCOBERTA PELA PROPRIEDADE PRIVADA Segundo Marx, a propriedade comum dos meios de produção desenvolve-se, no capitalismo, sob as formas da sociedade por ações ou sociedade anônima, e das fábricascooperativas75 (Marx, 1985, p. 332-5). É significativo que estas últimas, em contraste com a sociedade anônima, nunca se
75

Sobre o papel das fábricas-cooperativas na teoria de Marx, consultar Germer, 2006a.

124

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

tenham expandido, o que se explica pelo fato de constituírem uma forma explicitamente comum de propriedade dos meios de produção, por parte de não-proprietários convertidos diretamente em proprietários comuns, e não como forma socializada da propriedade privada, em âmbito limitado, como é caso da sociedade anônima. Segundo Marx, “As empresas capitalistas por ações tanto quanto as fábricas-cooperativas devem ser consideradas formas de transição do modo de produção capitalista ao modo associado, só que, num caso a antítese é abolida negativamente e, no outro, positivamente” (Marx, 1985, p. 335). A sociedade anônima representa, para Marx, a forma extrema da produção capitalista como forma embrionária da propriedade comum. Ou seja, é a propriedade comum sob a aparência da propriedade privada. Em carta a Engels, de 2 de abril de 1858, Marx define a sociedade anônima de modo radical, como “a forma mais perfeita (que desemboca no comunismo), com, ao mesmo tempo, todas as suas contradições” (Marx e Engels, 1974, p. 77). Coerentemente, quase dez anos depois, ao redigir o livro III do O Capital, a define como “a abolição do capital como propriedade privada, dentro dos limites do próprio modo de produção capitalista” (OC, 1985, p. 332). Assim, a sociedade anônima constitui uma socialização dos meios de produção, embora no âmbito limitado da própria classe capitalista. Deste modo, a propriedade comum desenvolve-se amplamente como derivação da propriedade privada, assim como a propriedade privada capitalista desenvolveu-se amplamente no interior do feudalismo, como forma derivada da propriedade feudal. Com efeito, atualmente a sociedade anônima apresenta-se como a forma típica e mais geral da empresa capitalista (Scott, 1986). Como consequência disto, como regra geral estas empresas deixam de ser geridas, em qualquer proporção, por capitalistas, para serem geridas por gerentes especializados assalariados. Na medida que a sociedade anônima se converte na forma geral da empresa capitalista, a classe capitalista está afastada da gestão direta da produção e da distribuição, sendo portanto dispensável do ponto de vista da reprodução social, apresentando-se crescentemente como uma classe parasitária, tal como se apresentava a nobreza feudal na fase terminal do feudalismo. Ao mesmo tempo, a gestão efetiva dos meios de produção passa às mãos de uma hierarquia de

125

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

gerentes e especialistas assalariados. Embora agentes diretos de capitalistas, são integrantes da classe dos não-proprietários de meios de produção, o que significa que, na medida que a sociedade anônima torna-se dominante, a gestão real dos meios de produção do capitalismo transfere-se das mãos da classe capitalista às mãos da classe oposta. O desenvolvimento da sociedade anônima constitui, portanto, um momento do processo histórico de transferência da gestão dos meios de produção para uma nova classe de proprietários coletivos dos meios de produção sociais. Ao longo do século 20 a emergência da propriedade comum deu mais alguns passos significativos. Por um lado, nos países capitalistas, ingressaram na cena econômica a propriedade e a gestão estatais diretas de meios de produção, principalmente a partir da grande depressão dos anos 30 e aprofundando-se após a II Guerra Mundial, de modo que o Estado assumiu importantes funções diretas no processo global de reprodução do capital. Embora o Estado represente a classe capitalista, a sua intervenção direta na economia amplia consideravelmente o processo de socialização em relação ao representado pela sociedade anônima, uma vez que o vínculo direto do Estado ao capital está oculto pela sua representação como poder acima das classes. Deve-se também ressaltar o fato de que a direção das sociedades anônimas é eleita pela sociedade dos acionistas, enquanto a direção do Estado é eleita pela sociedade dos eleitores. Por outro lado, o socialismo como forma de organização da sociedade fez sua aparição histórica, embora apenas na periferia do capitalismo, mas em dimensões geográfica e populacional significativas. A abolição da propriedade privada e sua substituição pela propriedade comum converteram-se em realidade, embora ainda caracterizando uma fase de transição e sendo interrompida como consequência de contradições internas e externas. A propriedade estatal, tanto nos países capitalistas quanto nos socialistas, vista em perspectiva histórica, constitui um passo decisivo no processo de desenvolvimento dos elementos do comunismo no interior do capitalismo como sistema mundial, e no processo histórico de transição do capitalismo ao comunismo. Nos países capitalistas, a propriedade comum, que até então se apresentava apenas na forma da sociedade anônima, encoberta sob a aparência da propriedade privada, e representando uma socialização limitada à classe capitalista, converte-se explicitamente, embora apenas formalmente, em propriedade comum de todo o povo. Na empresa estatal a forma de sociedade

126

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

anônima é inicialmente apenas uma ficção jurídica, uma vez que o Estado detém a quase totalidade das ações. Posteriormente, como reação burguesa à atuação do Estado como produtor direto, a venda pública de ações e o controle de empresas estatais por acionistas privados procuram encobrir o caráter público das empresas estatais que escaparam da onda de privatizações do período iniciado nos anos 1980. A diluição da participação acionária do Estado nas empresas estatais toma ainda a forma de uma associação de capitalistas, que, no entanto, mal encobre a realidade da socialização capitalista de parte dos meios de produção nos países capitalistas mais avançados. Independentemente das vicissitudes das experiências socialistas ao longo do século 20, constituem elas momentos do processo histórico de gestação do comunismo, experiências de gestão unificada da produção e da distribuição, baseada na propriedade comum dos meios de produção por toda a sociedade, abolidas a propriedade e a gestão privadas 76. Pode-se dizer ‘independentemente das vicissitudes’, porque os processos objetivos, materiais, movem-se com a força irresistível das leis da natureza, como dizia Marx, mesmo que os indivíduos e as classes, que colocam tais processos em movimento, não compreendam o sentido histórico do que fazem, oculto sob o manto muitas vezes espesso das suas contradições. A POLARIZAÇÃO CRESCENTE ENTRE PROPRIETÁRIOS E NÃOPROPRIETÁRIOS DE MEIOS DE PRODUÇÃO: A EXTINÇÃO DA PROPRIEDADE PRIVADA A propriedade comum dos meios de produção também se desenvolve pelo seu negativo, isto é, pela expropriação de uma proporção crescente da população de qualquer propriedade. A expropriação de um proprietário implica a sua conversão em nãoproprietário e, de modo geral, em trabalhador assalariado. Deste modo, a progressiva extinção da propriedade privada pode ser

76

É interessante notar que os críticos de esquerda das experiências socialistas do século 20 concentram-se na acusação de que a socialização dos meios de produção teria se reduzido à mera estatização, em contraste com a esperada e verdadeira socialização. Concentram-se em um aspecto, mesmo que relevante, mas, na medida que esquecem a contradição presente em todos os processos sociais, vulgarizam a sua crítica ao ignorarem o significado histórico destas experiências.

127

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

avaliada pelo crescimento da proporção dos não-proprietários, isto é, dos assalariados na população77. Este processo tem se realizado consistentemente, indiferente às contestações tendenciosas dos críticos do marxismo. Com efeito, a proporção da classe dos trabalhadores assalariados na população total tem crescido sistematicamente nos países capitalistas. Nos mais adiantados, como por exemplo os EUA, os assalariados já ultrapassam os 90% da população (Schneider, 1976, p. 317; OIT, para dados atuais). No Brasil, segundo o censo demográfico de 2000, os assalariados somam cerca de 75% da população total, e entre eles o proletariado propriamente dito (industrial e comercial/bancário) constitui cerca de 52% da população total (IBGE). Em todo o mundo, segundo estimativa de Bensaïd, a proporção da classe de trabalhadores assalariados aumentou de cerca de 5% no início do século 20, a cerca de 33% no início do século 21 (Bensaïd, 2001). A classe capitalista, em contrapartida, nunca representou uma proporção significativa da população, o que é comum a todos os modos de produção baseados na propriedade privada. No Brasil, ainda segundo o censo demográfico de 2000, a classe capitalista (empregadores, segundo o Censo) conta menos de 3% da população. Segundo estimativa de Labini, nos anos 1970, referente a alguns dos países capitalistas mais desenvolvidos, em nenhum deles a classe capitalista contava mais de 5% da população (Labini, 1983). É curioso constatar que mesmo autores que se dizem marxistas dispõem-se a admitir que a luta pelo socialismo perde a sua legitimidade porque o ‘proletariado’, definido tendenciosa e restritamente como proletariado fabril, representa supostamente uma proporção ‘decrescente’ da população, mesmo assim em torno dos 20%, com o que admite, impliciticamente, que uma classe – a burguesia –, que nunca ultrapassa os 5% da população, mantenha seu domínio absoluto
“Horrorizais-vos porque queremos abolir a propriedade privada. Mas em vossa sociedade a propriedade privada está abolida para nove décimos de seus membros. E é precisamente porque não existe para estes nove décimos que ela existe para vós. Acusais-nos, portanto, de querer abolir uma forma de propriedade que só pode existir com a condição de privar de toda propriedade a imensa maioria da sociedade” (Marx e Engels, s/d, p. 33). O número parece exagerado, talvez por terem os autores incluído os pequenos camponeses, maioria da população à época, entre os excluídos da propriedade, entendida provavelmente como a propriedade especificamente capitalista, utilizando trabalhadores assalariados. Em importante obra posterior, Marx afirma que “o ‘povo trabalhador’ compõe-se, na Alemanha, na sua maioria de camponeses e não de proletários” (Marx, 1875).
77

128

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

em um sistema baseado no monopólio dos meios de produção sociais e na exploração desenfreada da força de trabalho da imensa maioria da população. Note-se que, no caso das transições anteriores, entre modos de produção baseados na propriedade privada, o desenvolvimento das forças produtivas dava origem a uma nova forma privada de apropriação dos meios de produção, base de uma nova classe proprietária privada, que se tornaria dominante no novo modo de produção. Na transição do capitalismo ao comunismo, ao contrário, o desenvolvimento das forças produtivas não dá origem a uma nova forma de apropriação privada. O que cresce persistentemente, ao contrário, é a não-propriedade, ou seja, a privação da propriedade privada, forma negativa da propriedade comum em desenvolvimento. Como resultado das leis de movimento do próprio capitalismo, como se indicará adiante, expande-se o caráter social da produção, isto é, o seu caráter cooperativo geral; expande-se a interconexão técnica entre as unidades independentes de produção e distribuição; cresce a contradição entre este caráter social da produção e a manutenção da apropriação privada por uma minoria, de modo que o caráter privado da apropriação entra crescentemente em conflito com a destinação social da produção. A EMERGÊNCIA DO PLANEJAMENTO DA ECONOMIA À propriedade comum ou coletiva dos meios de produção corresponde a sua gestão comum ou coletiva, isto é, o planejamento integrado e global da produção e da distribuição dos produtos do trabalho social, substituindo o mercado. Sendo esta uma característica fundamental do comunismo, deve-se esperar que o planejamento da atividade econômica também se desenvolva, de modo perceptível e em escala crescente, no interior do próprio capitalismo. Quando se fala em planejamento econômico, isto geralmente se refere ao planejamento realizado pelo Estado. De fato, o desenvolvimento do planejamento da economia pelo Estado, em graus variáveis de abrangência, em todos os países capitalistas, é evidente ao longo do século 20. No entanto, o planejamento econômico não se restringe ao Estado. Embora o Estado seja uma instituição política da classe proprietária, e embora o planejamento estatal tenha sido e continue sendo relevante, do ponto de vista da transição para o comunismo, é

129

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

essencial que o planejamento se desenvolva, principalmente, como elemento do funcionamento corrente da economia, isto é, como elemento da dinâmica do capital, individual e coletivamente. No momento da revolução política, é necessário que a estrutura básica do planejamento já esteja constituída no próprio coração do movimento do capital. Juntamente com a abolição, na prática, da propriedade privada dos meios de produção para a maioria da população, à medida que o capitalismo se desenvolve, o planejamento da produção e da distribuição deve também desenvolver-se espontaneamente e deve estar constituído no momento da transição política. Com efeito, a observação mais rigorosa permite constatar que o planejamento da economia surge e se desenvolve sob duas formas e não apenas uma: por um lado o planejamento ao nível da economia como um todo, realizado pelo Estado e, por outro lado, e mais importante, o planejamento ao nível dos capitais individuais. Ambos emergem como emanação direta do crescente caráter monopolista do capitalismo, isto é, constituem uma característica do imperialismo, entendido como fase estrutural do capitalismo. Não é casualidade que a gradual substituição do mercado pelo planejamento, ao nível das empresas, tenha começado a desenvolver-se no último quarto do século 19, e que o planejamento estatal da economia tenha começado a desenvolver-se no século 20, a partir da grande depressão iniciada em 1929. Sendo assim, deve-se distinguir duas modalidades de planejamento econômico: o planejamento na esfera do capital privado, que se pode denominar planejamento econômico privado, e o planejamento econômico na esfera do Estado, que se pode denominar planejamento econômico estatal. O PLANEJAMENTO DISTRIBUIÇÃO GLOBAL DA PRODUÇÃO E DA

O planejamento econômico pelo Estado desenvolveu-se, no século 20, em dois aspectos: por um lado nos países capitalistas, como evolução das contradições do próprio capitalismo e, por outro lado, nos países socialistas, como momento da transição ao socialismo. Ambos os processos estão mergulhados em contradições específicas, mas o que sobressai é o seu significado no processo histórico do desenvolvimento social

130

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

A força irresistível dos processos sociais objetivos pode ser ilustrada pelo fato de que, durante o século 20, a própria burguesia foi autora de audaciosos experimentos de planejamento global sob condições capitalistas. A superação da assustadora crise econômica desencadeada pelo colapso da bolsa de Nova Iorque, em 1929, foi em grande parte obra da intervenção direta do Estado capitalista na gestão da economia. A ação planejada do Estado aprofundou-se durante a II Guerra Mundial: nos EUA, país hegemônico do capitalismo, a economia foi colocada sob o controle direto do Estado durante toda a guerra. A produção industrial foi convertida em produção militar. Como exemplo paradigmático pode-se citar a proibição da fabricação de automóveis de passeio pela indústria automobilística e a destinação total da sua atividade à produção de veículos militares de todos os tipos. O mesmo ocorreu na indústria da aviação e em todas as demais. Os investimentos, os preços, o crédito, etc., passaram a ser administrados diretamente pelo Estado. O mercado entrou temporariamente em recesso. A própria classe capitalista aboliu temporariamente as sagradas leis do mercado, não porque lhe agradasse, mas porque agia sob a compulsão de uma realidade objetiva irresistível. No processo de descolonização, que se seguiu ao fim da II GM, o planejamento do desenvolvimento, pelo Estado, e não o mercado, tornou-se o mecanismo central da promoção do crescimento econômico das ex-colônias. Mesmo nos países capitalistas mais atingidos pela guerra o planejamento econômico explícito tornou-se regra: a França e o Japão, por exemplo, elaboraram planos quinquenais de desenvolvimento até os anos 60 e 70, respectivamente. No entanto, o planejamento econômico estatal, no capitalismo, como não poderia deixar de ser, substituiu o mercado apenas parcial e temporariamente, e não substituiu a propriedade privada dos meios de produção. Mas constitui um sintoma da emergência da propriedade social no interior do sistema da propriedade privada capitalista. Constitui ainda um sintoma de que o mercado é incapaz de continuar assegurando a reprodução normal da economia, exigindo a intervenção de um poder regulador não mercantil, que é o Estado, que deve ser entendido como embrião de uma autoridade social como gestora global na economia no socialismo. Dado o seu caráter não mercantil, o planejamento econômico estatal reflete o crescimento da propriedade social e entra em choque com a propriedade

131

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

privada. Segundo a tese de Marx, de que a classe proprietária dominante reage aos desenvolvimentos das relações de produção que refletem uma nova forma objetiva de apropriação e se opõem, portanto, à propriedade privada, era de esperar que o planejamento econômico estatal, nos países capitalistas, entrasse em choque com os interesses da classe proprietária, a burguesia, e que esta tudo fizesse para bloquear e mesmo abolir o planejamento estatal. Efetivamente, o chamado neoliberalismo pode ser reduzido a uma grande ofensiva da burguesia mundial contra o planejamento econômico estatal, imposto pelas circunstâncias dramáticas da crise geral dos anos 1930 e pelos imperativos do pós-II Guerra Mundial. É oportuno notar que já é impossível impedir a interferência direta e ampla do Estado se não no planejamento, pelo menos no direcionamento da economia, por diversas vias. A receita pública absorve atualmente, nos países capitalistas avançados, em torno de 40% do PIB. Por um lado esta receita converte-se em despesas, que movem uma proporção importante da economia; por outro lado, a forma da arrecadação e os canais bancários e financeiros que esta volumosa receita percorre convertem-se em outros tantos meios através dos quais o Estado influencia o destino de empresas, ramos de atividade, regiões, etc. Adicionalmente, a centralização do sistema bancário sob a coordenação do banco central fornece ao Estado um poderoso meio de influenciar a economia por intermédio da regulação do crédito e do câmbio. Todas estas formas de intervenção do Estado não devem, porém, ser encaradas como se estivesse ao alcance do Estado determinar características essenciais da economia, sujeita que está esta, e o Estado por seu intermédio, às leis de movimento do capital. Mas a proporção da renda que passa pelo Estado, assim como os fluxos de dinheiro, de crédito e de transações internacionais, que se centralizam no banco central, fornecem ao Estado meios de intervir na realização destas leis dentro de certos limites. As iniciativas estatais no sentido de conter o processo de centralização do capital, por intermédio das chamadas leis antitruste e outras, podem ser interpretadas como uma reação da classe capitalista representada pelo Estado ao desenvolvimento das forças produtivas, na medida que a centralização acelera o aumento das escalas de produção e da produtividade do trabalho e reduz o âmbito da concorrência, ameaçando a supremacia do mercado. A relativa ineficácia destas leis apenas reflete a impossibilidade de bloquear definitivamente o avanço inexorável do desenvolvimento das forças produtivas. As leis sobre direitos

132

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

autorais atuam no mesmo sentido, na medida que procuram conter a velocidade de difusão do progresso técnico e a erosão da concorrência. O mesmo se pode dizer das leis que, nos países capitalistas mais avançados, bloqueiam o avanço do processo de centralização do capital na agricultura78. O PLANEJAMENTO AO NÍVEL DAS EMPRESAS Nas últimas décadas do século 19 o capitalismo experimenta um conjunto de transformações que o elevam a uma nova fase, o imperialismo (Lênin, 1979, p. 594). O imperialismo, segundo Lênin, não é uma política, mas uma fase estrutural do capitalismo, caracterizada pelo domínio do processo de centralização do capital e do monopólio gerado por este processo, motivo pelo qual Lênin também a denominou fase do capital monopolista. Nos três primeiros capítulos desta importante obra, Lênin expõe o processo de formação das grandes empresas que caracterizam a nova fase, e a elevação generalizada do grau de concentração em todos os setores da economia. Esta fase é, segundo Lênin, uma fase de transição “entre a absoluta liberdade de concorrência e a socialização completa”, e a caracteriza como um “novo regime social” (594), em que o âmbito do mercado se contrai, substituído pelo controle dos mercados pelas empresas monopolistas. Há uma certa complementaridade entre a ampla análise da evolução histórica da ‘grande empresa industrial moderna’ (big business), realizada por Alfred Chandler Jr, e a análise de Lênin, com exceção, obviamente, da base teórica totalmente divergente. A história da grande empresa de Chandler e do novo sistema social ao qual dá origem inicia-se também no final do século 19 e estabelece-se definitivamente no início do século 20. A grande empresa surge e cresce com base no salto tecnológico da segunda revolução industrial, ocorrido neste período, e alimenta-se da absorção contínua de empresas concorrentes e da integração
78

Em diversos países europeus ocidentais e em diversos Estados dos EUA, há leis que limitam o tamanho da propriedade da terra agrícola. Nos EUA há também uma proibição legal ao estabelecimento de sociedades anônimas na agricultura. Estas e outras leis de mesmo sentido constituem sem dúvida obstáculos opostos pelo Estado burguês ao desenvolvimento das forças produtivas. É interessante notar que a motivação, neste caso, é a manutenção de uma pequenaburguesia conservadora no meio rural, como uma barreira ao avanço da luta pelo socialismo na agricultura (Germer, 2006b, p. 53-55).

133

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

vertical, que Lênin também destaca sob o nome de ‘combinação’. Ou seja, a grande empresa moderna, de Chandler, que coincide com o grande capital monopolista, de Lênin, é a empresa típica da fase imperialista do capitalismo. Com a integração vertical, ou combinação, o comércio entre empresas independentes de uma cadeia produtiva é substituído pela conexão planejada, no interior da empresa integrada, entre as etapas sucessivas da cadeia de produção/distribuição, que vai da produção das matérias-primas até a distribuição do produto final. Segundo Chandler, “a moderna empresa tomou o lugar dos mecanismos de mercado na coordenação das atividades da economia e na alocação dos seus recursos. Em muitos setores, a mão visível da gerência substituiu o que Adam Smith denominou de mão invisível das forças de mercado (...) Antes do advento da moderna empresa, as atividades da pequena firma pessoal eram coordenadas pelos mecanismos de mercado e de preço. A moderna empresa, ao assumir o controle de muitas unidades, começou a operar em diferentes lugares, geralmente exercendo diferentes tipos de atividades econômicas e lidando com diferentes linhas de bens e serviços. As atividades dessas unidades e as transações entre elas foram portanto interiorizadas, passando a ser monitoradas e coordenadas por empregados assalariados e não pelos mecanismos de mercado” (Chandler, 1998, p. 248-9). A necessidade de planejamento cada vez mais detalhado cresce nas empresas, como resultado da centralização sempre maior do capital, que resulta em empresas de dimensões cada vez maiores, cuja produção atende uma proporção cada vez maior de cada mercado, não só no interior dos países, mas também no âmbito mundial. Como consequência, as empresas produtoras de cada produto, ao planejarem a sua produção, planejam concomitantemente o abastecimento de proporções crescentes das populações (Schneider, pp. 125ss). Ao combinarem, forçosamente, o planejamento da produção e da distribuição, tais empresas traçam, na realidade, planos sociais parciais de produção e distribuição. O surgimento da ‘grande empresa moderna’ tornou-se possível como resultado de um conjunto de transformações na 134

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

base material da sociedade. Na base de todas está o desenvolvimento das forças produtivas ou, mais restritamente, o desenvolvimento tecnológico. Nas palavras de Chandler, a grande empresa moderna
“surgiu pela primeira vez na história quando o volume das atividades econômicas atingiu um nível que tornou a coordenação administrativa mais eficiente e mais vantajosa do que a coordenação pelo mercado. Este maior volume de atividades foi possível graças à nova tecnologia e à expansão dos mercados (...) Assim, a moderna empresa comercial [big business – CMG] surgiu, cresceu e continuou a prosperar justamente nos setores e indústrias que tinham tecnologia avançada e mercados em expansão (Ibidem, p. 255)

Lênin traduz o mesmo fenômeno como um processo no qual “a concorrência transforma-se em monopólio”. A redução do âmbito de atuação do mercado e sua substituição pelo planejamento interno e externo das grandes empresas, que se caracteriza como uma situação de transição entre o mercado e o plano como reguladores da economia, representa, ao mesmo tempo, “um gigantesco progresso na socialização da produção. Socializa-se também, em particular, o processo dos inventos e aperfeiçoamentos técnicos” (Lênin, p. 593). CONSIDERAÇÕES FINAIS O objetivo desta exposição foi mostrar que a expectativa de que o capitalismo será sucedido pelo comunismo não é arbitrária, mas baseia-se em uma análise científica, representada pelo materialismo histórico, da evolução da sociedade humana. A pretensão de que o materialismo histórico constitui o método científico de análise da sociedade baseia-se na utilização, de que ele lança mão, do método de toda ciência, que é o materialismo, não necessariamente aos resultados da análise nele baseada. Assim, os resultados da análise de Marx e Engels podem ser contestados, mas só podem sê-lo consistentemente, com base, igualmente, no uso do método científico geral, que é, repita-se, o 135

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

materialismo. Marx e Engels denominaram socialismo científico a nova forma de sociedade para a qual o capitalismo converge, como resultado da sua análise, porque esta foi baseada no método geral da ciência e não em preferências ou motivações subjetivas. Procurou-se demonstrar que, na medida que seja possível identificar, metodicamente, as leis de movimento da sociedade humana em geral, e com base nestas as da sociedade capitalista, especificamente, partindo exclusivamente dos fatores materiais ou objetivos que as condicionam e determinam, como Marx e Engels pretenderam ter feito, deve ser possível identificar, por um lado, as tendências gerais de longo prazo que conduzem a sociedade capitalista à passagem para um novo modo de produção e, por outro lado, a natureza do novo modo de produção. Esta foi, em essência, a pretensão de Marx e Engels. Finalmente, procurou-se também apontar algumas evidências históricas sobre a realização das tendências fundamentais de longo prazo do capitalismo, a partir da elaboração do O Capital. Esta exposição tem um caráter exploratório inicial, devido à escassez de pesquisas extensas e aprofundadas sobre este tema.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BENSAÏD, D. Les irréductibles : théorèmes de la résistance à l’air du temps. Paris : Textuel, 2001. CHANDLER JR., A. Ensaios para uma teoria histórica da grande empresa. Rio de Janeiro : Editora Fundação Getúlio Vargas, 1998 CHANDLER JR., A. Scale and scope; the dynamics of industrial capitalism. Cambridge, Ma : Harvard Univ. Press, 1990. GERMER, C.M. A “economia solidária”: uma crítica marxista. In. Outubro, Revista do Instituto de Estudos Socialistas, São Paulo, n. 14, 2o sem 2006, pp. 193-214, 2006a.

136

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

GERMER, C.M. Anotações críticas sobre o papel da C&T na reforma agrária. In. Reforma agrária e meio ambiente, ano 1, n. 1, out. 2006, p. 42-57, 2006b. GERMER, C.M. Marx e o papel determinante das forças produtivas na evolução social. In.Crítica Marxista, IFCH, Unicamp, Campinas, n. 29, 2009, p. 75-95, 2009. IBGE. Censo Demográfico 2000. www.ibge.gov.br. LABINI, P.S. Ensaio sobre as Classes Sociais. Rio de Janeiro : Zahar, 1983. LENINE, V.I. Imperialismo, fase superior do capitalismo. In. Obras escolhidas em três tomos, T. 1. São Paulo : Alfa-Omega, 1979. MARX, K. Ökonomische Manuskripte und Schriften 1858/61. Text (Zur Kritik der Politischen Ökonomie). Berlin : Dietz Verlag. [Para a crítica da economia política], 1980. MARX, K. O Capital : crítica da economia política. v. I, tomo 1. São Paulo : Abril Cultural, 1983. MARX, K. O Capital : crítica da economia política. v. III, tomo 1. São Paulo : Abril Cultural, 1985. MARX, K. Kritik des Gothaer Programms [Crítica ao programa de Gotha]. http://www.mlwerke.de/me/me19/me19_013.htm, 1875. MARX, K. e ENGELS, F. Cartas sobre El Capital. 2a. ed. Barcelona : Editorial Laia, 1974. MARX, K. e ENGELS, F. Feuerbach : a oposição entre as concepções materialista e idealista (Cap. I de A ideologia Alemã). Lisboa : Estampa, 1975. MARX, K. e ENGELS, F. Manifesto do partido comunista. In: MARX, K. e ENGELS, F. Obras Escolhidas. v. 1. São Paulo : Alfa-Omega, p.13-47, s/d.

137

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

MOSER, P.K. and TROUT, J.D (Eds.) Contemporary materialism : a reader. London : Routledge, 1995. OIT (Organização Internacional do Trabalho). Labor statistics. www.laborsta.ilo.org. ROSDOLSKY, R. Zur Entstehungsgeschichte des Marxschen ‘Kapital’ : der Rohentwurf des Kapital 1857-1858. 2 vol. Frankfurt am Main : Europäische Verlagsanstalt. [Gênese de ‘O Capital’ de Marx], 1974. SCHNEIDER, E.V.Sociologia industrial : relações sociais entre a indústria e a comunidade. Rio de Janeiro : Zahar, 1976. SCOTT, J. Capitalist property and financial power; a comparative study of Britain, the United States and Japan. New York : New York University Press, 1986.

138

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

Nicos Poulantzas, as elites e a sociologia política norte-americana
Sérgio Braga (DECISO/UFPR)

“O empréstimo de um conceito isolado (do seu contexto) não compromete aquele que o fez frente ao contexto de onde o tomou (Assim, por exemplo, os empréstimos do Capital feitos a Smith, Ricardo ou Hegel). Mas o empréstimo de uma verdadeira problemática não pode ser acidental, e compromete o seu autor” (Louis Althusser, Pour Marx).

INTRODUÇÃO O objetivo deste texto é recuperar alguns dos principais momentos do diálogo crítico sobre alguns conceitos fundamentais de teoria política travado por Nicos Poulantzas em suas obras iniciais, especialmente em sua obra magna Poder Político e Classes Sociais (POULANTZAS, 1968), com analistas políticos representantes daquele paradigma de análise política que, numa definição ampla, podemos qualificar como pertencendo à “sociologia política norte-americana”79.
Definimos como “sociologia política norte-americana” (ou funcionalista) aquele paradigma de análise política bastante influente na ciência política anglo-saxã nos anos 60 e 70, cujos representantes produziram uma série de obras significativas sob a influência do funcionalismo sociológico de Talcott Parsons, e orientados pelo conjunto de questões gerais comuns (ou pela “problemática”) expostos mais
79

139

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

Dentre estes autores, destacamos neste texto alguns dos principais cientistas sociais e políticos do século passado tais como Talcott Parsons (PARSONS, 1951, 1969), Harold Lasswell (LASSWELL & KAPLAN, 1979), David Easton (EASTON, 1953, 1969), Robert Dahl (DAHL, 1963, 2005), Gabriel Almond (ALMOND et. Al., 1969, 1972, ) e Karl Deutsch (DEUTSCH, 1971; 1983), os quais foram interlocutores privilegiados de Poulantzas em sua primeira fase de elaboração teórica. Como se sabe, o próprio Poulantzas afirmou explicitamente em Poder Político e Classes Sociais que as obras clássicas do marxismo apresentavam uma série de deficiências e lacunas analíticas, que tornavam indispensável o recurso a outros tipos de “matérias-primas” para fundamentar a tentativa de (re) formulação da teoria política marxista que era o núcleo de seu próprio projeto teórico original (Poulantzas, 1968: p.: 18) 80 Assim, longe de propor um “retorno (exegético) a Marx”, da mesma maneira que seu inspirador mais imediato, Louis Althusser, o autor reconhecia e afirmava de forma explícita as deficiências e os limites do esquema analítico e do método de exposição elaborados pelos clássicos do marxismo (embora, naturalmente, estas referências se constituam em ponto de partida de qualquer reflexão que se propusesse a permanecer dentro do campo teórico marxista), assim como a necessidade de um diálogo teórico-metodológico franco e aberto com as diferentes correntes da análise política produzidas no ambiente acadêmico de então 81.

à frente. Alguns dos subgrupos desse campo intelectual mais geral são a análise sistêmica de David Easton, o pluralismo elitista de Robert Dahl e Seymour Martin Lipset, o modelo cibernético de Karl Deutsch, a teoria do “governo comparado” e do desenvolvimento político de Gabriel Almond. Esses autores, fortemente influentes no mainstream da produção acadêmica norte-americana até meados dos anos 80, foram sendo progressivamente substituídos ao longo dos anos 1990 por outros paradigmas tais como a teoria da escolha racional, a public choice e as diversas vertentes do neoinstitucionalismo que não demonstram a mesma preocupação em vincular o estudo dos processos políticos com processos que se dão em sistemas sociais mais abrangentes.
80

Relembre-se de passagem que esta era uma postura simetricamente oposta à de analistas como Ralph Miliband, que consideravam que os fundamentos de tal teoria já estariam contidos nas obras originais dos “clássicos” do marxismo, sendo a principal tarefa dos marxistas contemporâneos efetuar o “teste empírico” de tais princípios na análise das sociedades capitalistas visando a desmistificar a visão das democracias modernas presentes nas obras dos “pluralistas” (Cf. MILIBAND, POULANTZAS & LACLAU, 1988).
81

Já no início Poulantzas de seu livro afirma em relação às obras contemporâneas de Ciência Política que “o caráter ou a natureza marxista ou não marxista dessas obras de modo algum constitui ─ no estágio atual de investigação e no que diz respeito à sua tomada em consideração como matéria-prima de investigação ─ um critério pertinente de sua seriedade ou não seriedade”. Em seguida, enfatiza que “recorremos com freqüência a obras em língua inglesa ─ inglesas e americanas ─ ”, censurando ainda o “provincianismo característico da vida intelectual francesa, da qual uma das características ─ e não a menor ─ consiste muitas vezes em arrombar portas abertas, isto é, em acreditar serenamente na

140

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

Nesse sentido, um dos elementos constitutivos a nosso ver mais importantes de Poder Político e Classes Sociais é a tentativa do autor de renovar a teoria política marxista a partir do diálogo crítico com alguns dos principais paradigmas analíticos que compunham a corrente dominante da teoria política de então, menos do que através do recurso a um “retorno a Marx” ou a um simples trabalho de explicitação e extração teórica de elementos que já estariam contidos, de maneira aplicada (ou em “estado prático” segundo o jargão utilizado), nas obras clássicas do marxismo. Apenas à guisa de exemplo, podemos mencionar como resultados analíticos (ou seja, teóricos, históricos e empíricos) fecundos obtidos por Poulantzas a partir de seu diálogo com outras perspectivas de análise os seguintes: a) sua teoria do Estado Capitalista e o conceito de burocratismo, formulados a partir de um diálogo crítico com a teoria da dominação racional-legal e a sociologia da burocracia originalmente elaboradas e aplicadas em análises históricas por Max Weber, Reinhard Bendix, dentre outros autores; b) suas concepções de estratificação social, classes sociais e o esboço de uma sociologia dos grupos de intervenção política, elaboradas a partir do confronto explícito e sistemático com outras concepções não necessariamente de inspiração marxista, tais como a sociologia das elites, o funcionalismo conflitualista de Ralph Dahrendorf, dentre outros autores; c) suas concepções sobre forma de Estado, regime político e democracia, formuladas a partir de um confronto crítico com as idéias de Maurice Duverger, um dos principais expoentes do institucionalismo constitucionalista francês de então. Ou seja: qualquer leitura, por mais superficial que seja, dos textos da “primeira fase” da elaboração teórica poulantziana, perceberá facilmente que um dos principais elementos do processo de reflexão teórica e de exposição analítica do autor, era a tentativa de estabelecer um diálogo sistemático com outros paradigmas de análise política, dentro dos quais devemos destacar a “sociologia política norte-americana”. Esse papel destacado do diálogo com a sociologia política funcionalista nas obras iniciais de Poulantzas não é casual dado que, apesar das diferenças substanciais entre os projetos teóricos (ou seja, aquele que derivava do estrutural-marxismo “althusseriano", por um lado, e do funcionalismo sistêmico parsoniano, de outro), existem a nosso
originalidade de uma produção teórica, quando esta já se encontra mais elaborada em outros autores estrangeiros” (p. 18).

141

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

ver vários pontos de contato e de interseção teórica entre os sociólogos funcionalistas norte-americanos e o projeto teórico original de Poulantzas (tais como a tentativa de elaborar uma definição geral e “supra-modal” de poder e de política, concepção de estrutura como o sistema de valores, de motivações e de normas que orientam a conduta humana ou “as práticas” reprodutivas, acionalismo interacionista e perspectiva de análise estruturo-funcional, uso dos conceitos de sistema e de equilíbrio, dentre outros). Assim, apesar das declarações formais em contrário, e da tentativa freqüente de se demarcar desse campo teórico, existem pontos de contato entre estes dois paradigmas que a nosso ver, salvo raras exceções, ainda não foram devidamente explorados pelos comentadores da obra poulantziana82. O objetivo desse texto é recuperar sumariamente algumas das dimensões desse diálogo, que a nosso ver é de fundamental importância para a compreensão e, mais importante, para a restauração, em novas bases, no projeto estrutural-marxista poulantiziano original83. Para cumprir tal meta, organizaremos nossa exposição da seguinte forma: a) na primeira parte do texto, procuraremos reconstituir sumariamente a problemática teórica da “sociologia política norte-americana” a partir da análise das obras de alguns de seus autores mais representativos; b) na segunda parte do texto, buscaremos reconstituir sumariamente os termos do diálogo crítico empreendido por Poulantzas com estes autores, tomando por base os seguintes problemas fundamentais de análise política: (i) Concepção geral de poder e de política; (ii) Definições gerais de Estado e da interação entre os níveis da totalidade social
82

De nosso conhecimento, uma das poucas tentativas sistemáticas de cotejar as semelhanças e diferenças entre os modelos estruturo-funcionais elaborados por “parsonianos” e “althusserianos” é o manuscrito não publicado de Erik Olin Wright e Luca Perrone (1973) e o sugestivo opúsculo de Maurice Godelier (1972). Em seu conhecido texto destinado a criticar o projeto teórico de Nicos Poulanzas, David Easton aponta en passant algumas semelhanças entre estes paradigmas de análise, como se isso fosse, por si só, algum demérito para os estrutural-marxistas, mas não se aprofunda no tema (Easton, 1981: p. 137). Autores como Merton e Lipset tentaram explorar algumas semelhanças entre estes paradigmas, mas ao que parece com a intenção algo maquavélica de subsumir a teoria social e da história marxistas em alguma variante de funcionalismo, o que não é propriamente o escopo deste texto, esclareçamos desde já (cf. MERTON, 1979; LIPSET, 1992: p. 25-70). Devemos insistir uma vez mais para evitar ambiguidades: referimos-nos aqui a uma “restauração” de um projeto teórico porque, conforme fica claro para aqueles que tiverem a paciência de executar o tour de force que é o de percorrer todas as páginas de Poder Político e Classes Sociais, o projeto teórico de Poulantzas nessa obra vai muito além de elaborar uma teoria do Estado capitalista e de “trazer o Estado de volta para a teoria”, como é enfatizado por uma certa grade de leitura que consideramos bastante empobrecedora do projeto “poulantizano” original, para não dizer de seus desdobramentos e metamorfoses posteriores.
83

142

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

e do papel do desempenhado pelo nível político nesse processo; (iii) concepção de classe social e esboço de uma sociologia dos grupos de intervenção política; (iv) O conceito de “poliarquia” e o problema de uma teoria das “formas de governo”. A hipótese ou proposição básica subjacente a este esforço de reflexão é o de que, apesar da retórica pedregosa e do vernáculo pouco atrativo de alguns dos textos poulantzianos, há um “núcleo racional” das propostas analíticas do “primeiro Poulantzas” que, a nosso ver, ainda hoje pode ser recuperado de forma estimulante por aqueles que buscam trabalhar no campo teórico da análise política marxista “empiricamente orientada”, e não apenas no nível da análise macro-sociológica global ou da elaboração de um discurso crítico-“normativo” contra o que seus elaboradores julgam ser o “capitalismo”. Assim, o objetivo central desse texto não é o de efetuar (mais) uma exegese que replique o estilo algo confuso e as imprecisões e oscilações terminológicas existentes nas obras originais de N. Poulantzas. Ao invés disso, e seguindo em parte as lições dos próprios althuserianos iniciais, faremos uma leitura seletiva e instrumental das próprias formulações e hipóteses deste autor a fim de reter alguns elementos teóricos que consideramos mais produtivos para o desenvolvimento de uma sociologia política estrutural-marxista “empiricamente orientada”. A PROBLEMÁTICA TEÓRICA DA “SOCIOLOGIA POLÍTICA NORTE-AMERICANA”: PLURALISMO, SISTEMA POLÍTICO E A PLATAFORMA DE UMA “MICROSSOCIOLOGIA DO PODER” EMPIRICAMENTE ORIENTADA Para os fins da presente análise, podemos definir como elementos fundamentais da sociologia política norte-americana ou funcionalista (tanto em sua versão funcionalista original, formulada por Talcott Parsons, como em suas variantes sistêmico-cibernética e pluralista (formuladas respectivamente por David Easton e Karl Deutsch, por um lado, e Robert Dahl e S. Martins Lipset, de outro), as seguintes idéias e teses fundamentais que, a nosso ver, dão uma certa unidade a esse campo teórico, possibilitando falar de uma “problemática da sociologia política norte-americana” (ou funcionalista) propriamente dita84:
84

Segundo Althusser (desconheço citação de fonte precisa), o conceito de problemática foi criado por Jacques Martin para caracterizar o conjunto de questões mais gerais que dá unidade a um determinado

143

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

(1) Em primeiro lugar, podemos identificar como aspecto comum do projeto teórico destes autores a tentativa de empreender uma reflexão sistemática e “empiricamente orientada” (ou seja, vinculada a uma preocupação com a aplicação de modelos teóricos em análises e pesquisas empíricas, não necessariamente vinculado a um discurso prescritivo sobre a realidade social) de conceitos gerais que fazem parte de qualquer comunidade ou coletividade política, inclusive as sociedades tribais ou comunitárias primitivas, e não apenas das sociedades modernas, complexas ou com-Estado, que caracterizam a história humana escrita85. Assim, é um elemento comum subjacente à reflexão de todos estes autores a preocupação em definir de maneira consistentemente lógica e sistemática conceitos gerais tais como os de “poder”, “política”, “autoridade”, “integração”, “influência”, “recursos políticos”, “decisão”, “controle”, “dominação”, “interesse”, “elites”, “governo” etc., a fim de que o analista político orientado e inspirado por este paradigma pudesse concretamente identificar, seja ao nível da sociedade global, seja ao nível das micro-coletividades humanas, os atores, grupos e processos nos quais estes conceitos políticos gerais pudessem ser aplicados e utilizados na formulação e pesquisa de problemas de análise política. (2) O segundo elemento teórico a nosso ver comum à obra destes autores, e relacionada a essa preocupação em elaborar uma teoria geral da política que abarcasse vários tipos históricos de sociedade humana, é a incorporação sistemática do conceito de sistema político como um subsistema de um sistema social mais

paradigma de resolução de problemas teóricos. Diga-se de passagem que um desdobramento lógico não muito explorado do conceito de problemática é o de que ele permite instaurar um diálogo cooperativo e não somente uma relação de “soma-zero” entre os diversos paradigmas de análise política, como é o caso do próprio Poulantzas, que ao longo de todas as suas obras foi pródigo em elaborar tentativas de incorporações heterodoxas (embora não ecléticas) de elementos parciais de análise política de outras perspectivas para desenvolver aspectos parciais de seu próprio modelo teórico mais geral.

85

Salvo engano, esse projeto é particularmente claro nas obras de Parsons (1966) e Lasswell & Kaplan (1979), onde a preocupação em elaborar conceitos e modelo teóricos para análise de processos e comportamentos políticos que abrangessem também as sociedades tribais “sem-Estado” e instituições não-estatais é mais evidente. Como bem acentuam estes autores, a finalidade heurística deste procedimento não é necessariamente a de instaurar uma nova filosofia da história baseada nas noções de “progresso” ou “fim da história”, mas sim a de elaborar alguns parâmetros analíticos de alto grau de abstração que possibilitem uma análise comparativa sistemática do funcionamento dos sistemas políticos nos diferentes tipos históricos de sociedade (ALMOND, 1972).

144

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

amplo8611, com a correlata rejeição teórica do conceito de Estado como elemento central e mais abstrato para a elaboração de análises políticas sistemáticas. As razões (teóricas) aduzidas por cada um dos representantes deste paradigma para a rejeição do conceito de Estado são de natureza distinta: ora pela confusão e falta de precisão do conceito em si (EASTON, 1981), ora pelo fato dele não abarcar os processos políticos que se davam em coletividades humanas primitivas onde inexistia Estado, tais como as sociedades comunitárias tribais (PARSONS, 1966), ora pela sua pouca aplicabilidade em análises concretas de processos decisórios de “governo comparado” e de desenvolvimento político, que tornam necessárias a incorporação de outras variáveis de menor nível de abstração para o mapeamento mais detalhado das diferenças sincrônicas e diacrônicas do desempenho de várias funções pelos diferentes sistemas políticos (ALMOND et. al., 1972). Frise-se aqui que, não obstante ser forte a ênfase manifesta da maior parte desses autores na rejeição do uso do conceito de “Estado” como conceito mais abstrato e geral para a definição do objeto de uma ciência política, parece haver uma oscilação entre estes autores (e também entre comentadores-críticos ou aplicadores do modelo funcionalista) no tocante ao grau de compatibilidade teórica entre os conceitos de sistema político e de Estado: enquanto uns admitem a possibilidade de enfocar o Estado como um dos subsistemas institucionais integrantes do sistema político da sociedade global, instituições estas possuidoras de um atributo ou conjunto de atributos que justificam um tratamento próprio e diferenciado do conjunto de instituições que delem fazem parte (JAGUARIBE, 1973; MILIBAND, 1982), outros analistas postulam veementemente a incompatibilidade radical ou a mútua excludência entre estes dois conceitos (EASTON, 1981) 87.
86

Não entraremos aqui no espinhoso tema das interações (ou falta de) estabelecidas pelos sociólogos políticos funcionalistas entre o subsistema político e os outros subsistemas que formam os sistemas sociais mais amplos. Importa sublinhar aqui somente que esta interação é frequentemente postulada por esta corrente de análise política, pelo que o campo da ação política não é visto como um nível inteiramente autônomo de atividade social e desvinculado de outros níveis de uma totalidade social mais abrangente.
87

Essas duas posições podem inclusive coexistir num mesmo texto como, por exemplo, no texto de David Easton já citado. Embora num certo momento o autor admita a possibilidade de uma coexistência pacífica entre os dois conceitos, inclusive citando elogiosamente Ralph Miliband por tentar compatibilizar as duas abordagens através da formulação de seu conceito de “sistema estatal”, por outro lado declara uma espécie de guerra sem tréguas ao conceito (e às teorias) de Estado (EASTON, Op. Cit.: p. 143-145), exortando os marxistas e os demais analistas a “abandonarem o conceito de Estado” (sic., p. 144) em detrimento do conceito de sistema político. Sublinhe-se também que há diferenças significativas entre o conceito de sistema político, assim como da definição do próprio objeto da atividade política entre estes vários autores, mas será impossível explorar estes pontos nos limites deste artigo.

145

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

(3) Ao lado dessa dissolução do Estado como elemento nuclear e mais geral de uma teoria da política podemos detectar uma concepção “pluralista” do exercício do poder político nas várias sociedades, especialmente nas modernas democracias, onde o poder político seria exercido de maneira difusa e desconcentrada. O exercício do poder político não estaria referido assim a nenhum centro integrador (supostamente o Estado) que concentrasse maior parcela de poder ou que possuísse uma superioridade hierárquica normativa sobre as diferentes instituições ou níveis onde se exerce o poder político e o poder social, mas estaria “difuso” por diversas instituições. Teríamos no máximo o “governo” como um ente ou uma entidade neutra sendo disputado por vários atores, grupos e instituições sociais. Assim, ao invés de um Estado formado por um grupo de agentes autonomeados e não-eletivos, o que podemos observar nas sociedades modernas são diversos tipos de “governos”, uma instituição entre outras do sistema político mais amplo, e sujeito a uma multiplicidade de pressões conflitivas por parte de grupos e interesses organizados, não demonstrando nenhum tipo de viés invariante em relação a determinado estrato ou grupo enraizados em outras esferas da vida social (MILIBAND, 1982: 14). Outro elemento teórico relacionado a essa dissolução do Estado como ente institucional nuclear e mais geral de uma teoria da política, especialmente das sociedades contemporâneas, é a proposta de efetuar/elaborar uma micro-sociologia política do poder empiricamente orientada que sirva de base para análises e pesquisas concretas de relações de poder e de processos de tomada de decisão também no plano micro, e não apenas na sociedade global, na medida em que o exercício do poder político e a estruturação dos sistemas de dominação está pluralisticamente difusa e distribuída por vários níveis sociais (DAHL, 2005). (4) Por fim, podemos definir como último elemento comum e mais geral subjacente à obra destes autores, qual seja, a proposta de estabelecer critérios de comparação entre os diferentes sistemas políticos de acordo com o grau ou a intensidade da dispersão ou concentração dos recursos de exercício do poder político pela pluralidade de elites em diferentes tipos de sociedade. Haveria assim um continuum na distribuição do poder político pelas várias elites e grupos que o exercem e esta distribuição permitiria escalonar os diferentes sistemas políticos como mais ou menos democráticos, sem que essa diferenciação implicasse necessariamente uma ruptura institucional nas prerrogativas de exercício de poder de um ator específico que

146

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

detivesse determinadas prerrogativas decisórias e normativas em relação aos demais, supostamente o Estado. Assim, não haveria, nos diferentes sistemas políticos, algo como uma autoridade política central ou um “Estado” formado por um corpo burocrático autonomeado e hierarquicamente organizado, cuja ruptura no monopólio do processo decisório gerasse mecanismos de “representação política” ou de consulta popular para a constituição de organismo de deliberação paralelos ao sistema institucional burocrático, mas sim “governos” que se caracterizariam como mais ou menos “democráticos”, mais ou menos “autoritários”, conforme o grau de “pluralismo” vigente na distribuição de poder entre os diferentes atores que fazem parte de uma coletividade política qualquer 88. Resumindo, temos a nosso ver os seguintes elementos mais gerais da problemática da sociologia política funcionalista, apesar das divergências internas entre seus vários subgrupos: (i) tentativa de dar mais sistematicidade a conceitos gerais aplicáveis a uma grande amplitude de coletividades e processos políticos, tanto no nível macro como micro-social; (ii) uso do conceito de sistema político em detrimento do de Estado; (iii) concepção pluralista do poder e entendimento do “governo” como entidade neutra e pressionada por diferentes grupos de interesse e elites políticas (entendidas como a somatória de indivíduos que fazem parte das minorias politicamente ativas nas várias esferas da vida social onde se exerce o poder político) concorrentes entre si e em disputa pela definição dos rumos de uma dada comunidade política; (iv) os vários sistemas políticos podem ser classificados num gradiente contínuo de dispersão/concentração do poder por uma pluralidade de elites políticas, estando o caráter mais ou menos democrático de um determinado sistema político relacionado ao ponto em que cada sistema político se situa nesse gradiente de dispersão e concentração de poder político. POULANTZAS E A SOCIOLOGIA POLÍTICA FUNCIONALISTA

88

Há diferentes versões dessa teoria, desde a primeira versão proposta por Robert Dahl em Análise Política Moderna, de escalonar os diferentes sistemas políticos segundo o grau de legitimidade, o número de sub-sistemas e a distribuição de poder existente nos diferentes tipos de sociedade, até as versões mais recentes de distribuir os diversos sistemas políticos em dois eixos de “competição” (interelites) e “participação” (elites X massas) (DAHL, 1969, 2005).

147

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

Qual seria o posicionamento de Poulantzas em relação a cada um desses elementos da perspectiva de análise funcionalista em suas obras iniciais? Percorrendo as páginas de Poder político e Classes Sociais, podemos observar que Poulantzas abordou cada um desses aspectos, muitas vezes em diálogo direto com as idéias dos autores acima mencionados, outras vezes de forma indireta, através da incorporação de elementos de outras problemáticas teóricas. Assim, podemos verificar em Poulantzas os seguintes elementos fundamentais de sua argumentação teórica, de certa forma homólogos aos anteriormente indicados como fazendo parte da problemática teórica funcionalista: (i) uma tentativa de definir certos conceitos gerais, instrumentais à sua teorização sobre a estrutura jurídico-política do modo de produção capitalista (tais como os conceitos gerais de poder, política, Estado em geral etc.); (ii) justificação da importância do Estado como fator específico de integração ou de coesão das diferentes sociedades de classe, assim como de sua especificidade em relação a outras instituições políticas. O aparelho de Estado passa a ser analisado como um sistema específico de instituições (um “poder político institucionalizado”) na medida em que possui determinadas prerrogativas decisórias e normativas específicas em relação a outras instituições que fazem parte do sistema político; (iii) a tese da concentração e da interdependência entre a dominação política e a dominação econômica, na medida em que o exercício do poder social e do poder econômico dos proprietários é garantido pela aplicação de um direito público de propriedade que assegura a apropriação privada do valor agregado pelos trabalhadores nas unidades econômicas, as quais por sua vez garantem os recursos necessários à aquisição de status social pelos membros da burocracia. Os grupos sociais e de intervenção política se formam assim, nas sociedades de classe, a partir de uma desigualdade básica na distribuição de recursos econômicos e políticos juridicamente sancionados por uma autoridade política central, desigualdade essa que tem efeitos cumulativos (embora não irreversíveis) na competição entre os diversos grupos políticos pela influência na definição dos objetivos globais de uma determinada coletividade humana pelos detentores do poder de Estado89; (iv) As diferentes formas de Estado e de governo, assim
89

Dessa perspectiva, o ponto de partida para a organização dos grupos de intervenção política é formado por atores assimetricamente situados numa estrutura estratificada e juridicamente sancionada de papéis sociais, e não simplesmente pela agregação de vontades de indivíduos racionais atomizados que formam grupos de intervenção política ad hoc para influenciar o “governo” à revelia e

148

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

como os gradientes entre o grau de autoritarismo e democratismo dos diferentes sistemas políticos são definidos não a partir de um continuum na distribuição de poder político de uma pluralidade de grupos concorrentes entre si, mas a partir de uma descontinuidade básica definida a partir da perda do controle exclusivo sobre o processo decisório por determinado grupo de atores encarregados de definir os objetivos globais de uma determinada coletividade (ou seja, burocracia de carreira e suas cúpulas governantes), assim como pela existência de mecanismos de consulta política aos próprios agentes que são objeto de tais decisões. Nos itens abaixo avaliaremos brevemente a reinterpretação feita por Poulantzas de cada um dos itens que compõem a problemática teórica da sociologia política pluralista acima enumerados. Dada a exigüidade de espaço, teremos que enunciar rapidamente as principais teses que defenderemos durante a exposição, procurando responder às seguintes indagações mais gerais: é possível a incorporação parcial de conceitos oriundos da problemática teórica pluralista para o interior de uma reflexão “estrutural-marxista” empiricamente orientada ou a importação de tais conceitos provocaria desajustes “comprometedores” nessa própria problemática? Qual a agenda de reflexão teórica e empírica de pesquisa que se poderia derivar de um diálogo crítico entre ambas as correntes? a) Conceitos gerais de poder e de política No que se refere aos conceitos gerais de poder e política, devemos recordar que logo no início de PPCS, Poulantzas procura efetuar um duplo movimento analítico: (i) em primeiro lugar, elaborar conceitos gerais de poder e de política e uma reflexão geral sobre estas noções que servissem de suporte à sua própria proposta de definição dos elementos fundamentais da estrutura jurídico-política e do conceito de Estado capitalista, que a seu ver era um ponto cego na teoria marxista anterior; (ii) em segundo lugar, efetuar uma crítica a outras concepções vigentes em outras correntes de análise política, dentro dos quais se incluem os autores anteriormente citados.

independente de uma estrutura de dominação subjacente garantida por uma autoridade jurídico-política centralizada (= o Estado) .

149

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

Quais críticas que Poulantzas faz a estes autores? Quais as soluções oferecidas por ele próprio para os problemas acima formulados (ou seja: formulação de conceitos gerais de poder, política, dominação, autoridade etc.) e como podemos avaliar tais soluções? Inicialmente, deve-se enfatizar ainda que o próprio Poulantzas admite o caráter provisório e exploratório de suas definições, assim como a natureza estritamente instrumental de tais definições em relação a suas teorizações posteriores sobre a estrutura jurídico-capitalista e o aparelho de Estado burguês: “As análises referentes ao político em geral não aspiram senão a uma sistematicidade relativa e de modo algum poderiam ser consideradas exaustivas. [...] pareceu-me particularmente ilusório e perigoso avançar mais na sistematização do político na teoria geral, na medida em que atualmente há falta de suficientes teorias sistemáticas regionais do político nos diversos modos de produção, ou mesmo de suficientes teorias sistemáticas particulares dos diversos modos de produção” (POULANTZAS, 1986: p. 24). Tendo em vista estes esclarecimentos, seus alvos são tanto o “historicismo” gramsciano, por um lado 90, quanto (ponto que nos interessa mais especificamente neste texto) a concepção de político de Talcott Parsons. Como se sabe, a concepção de poder e de político deste autor foi expressa em várias obras e encontra-se sintetizada em seus textos de crítica à obra de Wright Mills, Elites no Poder (PARSONS, 1960). Para este autor a esfera política ─ e o objeto de uma ciência política autônoma, por conseguinte ─constitui-se num subsistema cuja função é integrar os elementos analíticos de um sistema social total, embora a ação política esteja simultaneamente presente em várias esferas de ação, sendo responsável pela definição dos objetivos coletivos e pela “integração” dos subsistemas em vários níveis da atividade social (PARSONS, 1970: p. 96). Sendo assim, o poder político não seria uma relação de “soma-zero” entre os diferentes atores (como querem os elitistas monistas), nem um nível de atividade relacionado à definição dos objetivos globais de uma coletividade territorial, mas um fenômeno que estaria “difuso” por toda sociedade onde houvesse definição de objetivos por determinadas associações estáveis.
Embora se refiram constantemente à problemática “historicista” em seus vários textos, não conseguimos encontrar uma definição precisa do termo entre os “althuserianos”. Podemos inferir, entretanto, que se trata de uma concepção que vê a história como um fluxo contínuo e evolutivo de mudanças sociais, não buscando construir modelos de estrutura que apreendam eventuais regularidades que imponham limites normativos às práticas ou ações sociais dos diferentes atores históricos.
90

150

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

Poulantzas encaminha sua crítica a essa concepção de Parsons efetuando a operação analítica de identificar a superestrutura política dos diferentes modos de produção e formação social ao poder institucionalizado do Estado, e a associar a atividade política apenas a ações sociais ou práticas que se relacionam ao Estado, enunciando a definição segundo a qual a política é a ação social ou a “prática que tem por objeto o momento atual, que produz as transformações ou a manutenção de uma formação na medida em que tempo por objetivo estratégico específico as estruturas políticas do Estado” (Op. Cit. p. 41). Ora, a solução dada por Poulantzas ao problema ─ ao restringir a atividade política em geral àquelas práticas que se relacionam a preservação ou manutenção de um determinado tipo de Estado, distancia-se de uma grande vertente da tradição marxista cujo núcleo é exatamente o de dissociar a atividade política do Estado sentido estrito do termo91. Mas qual o argumento dado por Poulantzas para restringir a política apenas àquelas atividades que se relacionam de alguma maneira com o poder institucionalizado de Estado? Para Poulantzas o Estado é o objeto privilegiado da política por possuir a função de manter a coesão de uma determinada formação social em uma sociedade dividida em classes ou, para usar a expressão de Poulantzas, como “fator regulador do equilíbrio global de uma formação social enquanto sistema” (Op. Cit. p. 16). A nosso ver, são bastante insatisfatórios os termos pelos quais Poulantzas equaciona o problema, pois ele sequer tangencia duas questões tradicionalmente abordadas pela teoria política marxista, de forma razoavelmente sistemática, mesmo em algumas obras clássicas de análise política marxista do século retrasado: a) A possibilidade de formas de exercício do poder político e de
91

Apenas a título de exemplo, um dos pontos altos do livro clássicos de Engels sobre as sociedades tribais é o da reconstituição da dinâmica de organização das instituições políticas e da relação entre elites dirigentes (chefes e conselheiros tribais) e os cidadãos comuns da tribo que configuravam os sistemas político-jurídicos das sociedades comunitárias primitivas (Engels, Origem da Família: p. 70s). Dentre estes elementos do exercício da atividade política nas sociedades sem Estado enumerados por Engels, podemos mencionar: a) todos os homens e mulheres que participam dos assuntos comunitários tribais têm direito de eleger o chefe; b) a gens pode depor à vontade o sachem e o chefe militar; c) cada gens tem uma “assembléia democrática de seus membros adultos, homens e mulheres, todos com o mesmo direito de voto”. Esta assembléia é o “poder soberano da gens” (p. 72); d) o conjunto das gens formava uma tribo, integrada por determinadas instituições (os conselhos de tribos) que se constituíam no fator de coesão de coordenação de várias gens territorialmente dispersas; e) essa sistema jurídico-político assegurava a participação da maior parte dos membros da coletividade nas decisões públicas e na seleção das elites governantes, configurando um sistema político caracterizado por Engels como uma “democracia gentílica” ou tribal.

151

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

existência de um ordenamento normativo (ou “sistema de direitos e deveres”, para usar a expressão de Engels) em situações em que inexiste “dominação de classe” no sentido marxista do termo, ou seja, situações de exploração e apropriação dos frutos do valor agregado pelo trabalho humano por terceiros que não aqueles que participam diretamente do esforço coletivo da execução das tarefas no processo de trabalho; b) a possibilidade de formas de exercício do poder ou influência política que não sejam necessariamente exercidos através da mediação do aparelho de Estado, ou que não sejam necessariamente referidas ao aparelho de Estado. Também em relação ao conceito geral de poder proposto por Poulantzas, o diálogo com os sociólogos políticos funcionalista desempenha um papel fundamental (POULANTZAS, 1986: p. 103): Poulantzas critica as definições de Laswell (poder como participação no processo decisório), de Weber (poder como “probabilidade” de imposição de vontade mesmo contra a resistência de terceiros) e de Parsons (poder como capacidade de executar funções em proveito de um dado sistema social). No cap. 3 de seu livro, Sobre o conceito de poder elencará vários “elementos do poder” e enunciará seu próprio conceito de poder como: “a capacidade de uma classe [ou grupo] social de realizar seus interesses objetivos” (p. 103) em vários níveis da prática social (pelo que o poder se desdobraria em poder econômico, social, político etc.). Também aqui, são a nosso ver insatisfatórios os termos pelos quais Poulantzas resolve o problema, ao não: a) diferenciar o poder de outros tipos de imposição de vontade ou de “capacidade de realizar interesses objetivos”, tais como as relações de influência, dominação e autoridade; b) elaborar uma reflexão sistemática sobre a especificidade do poder político em relação a outras modalidades de exercício do poder; c) definir o objeto do “político” e, por conseguinte, de sua sociologia política a partir de tal operação. b) Estado, sistema político e totalidade social As principais proposições da sociologia política de origem funcionalista sobre as relações entre os conceitos de sistema político e de Estado estão expostas de forma provocativa no conhecido ensaio de David Easton sobre “o sistema político sitiado pelo Estado”. Como é sabido, neste artigo Easton explicita as

152

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

motivações mais íntimas que o levaram a formular o conceito de sistema político em substituição ao conceito de Estado, e não como um complemento a este, e exorta os analistas políticos a abandonarem o conceito de Estado sob os seguintes argumentos: a) o Estado é um “instituição” ou, mais precisamente, um sistema hierarquicamente organizado de instituições, que não pode ser definido de forma rigorosa nem desempenha nenhuma função específica em outras esferas da vida social; b) o Estado não possui nenhum atributo ou conjunto de atributos que os diferencie das demais instituições do sistema político; c) a ênfase exclusiva no Estado como ator político relevante cria obstáculos metodológicos à uma análise política “empiricamente orientada” ao desconsiderar a importância de outros atores, instituições e comportamentos políticos que também participam da ou influenciam a busca de objetivos e a “alocação autoritária de recursos” por parte de uma coletividade territorial específica. No tocante ao primeiro argumento de Easton, podemos afirmar que ele não procede, já que o “primeiro Poulantzas” é razoavelmente claro em definir o conceito de Estado como o conjunto de atores, instituições e aparelhos hierarquizados (ou seja, responsáveis perante um superior funcional e não perante comitês eletivos organizados pela sociedade), responsáveis pela implementação de decisões e pela definição dos objetivos globais e pela manutenção da “coesão” de uma determinada coletividade humana cindida em “classes sociais”, e que dispõem (atores, instituições e aparelhos) de recursos administrativos e jurídicos para tornar tais comandos e decisões obrigatórias e imperativas para o conjunto da coletividade sob jurisdição daquele corpo de funcionários92. No caso do Estado Capitalista moderno, seriam o conjunto de instituições organizadas segundo o princípio do burocratismo, ou seja, sob princípios universalistas e submetidos à hierarquia burocrática que fariam parte do aparelho de Estado. Por motivos semelhantes, consideramos não ser pertinente a segunda crítica de Easton, na medida em que, para Poulantzas, o Estado possui um conjunto de atributos que o diferenciam das demais instituições políticas e estes atributos estão relacionados justamente à sua capacidade ou atributo de implementar normas e políticas de governo a imperativas a toda uma coletividade
92

Instituições e atores cujos comandos e ações não fossem devidamente autorizados por uma dada coletividade para aplicar normas gerais e implementar políticas de governo em nome de um ente público não fariam assim parte do aparelho de Estado (é o caso de Igrejas, escolas privadas, empresas privadas, partidos políticos, sindicados e outras associações do gênero, cujo caráter “público” não se impõe à maioria de uma coletividade).

153

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

territorial. Como indicado pelo próprio Easton, a definição de Poulantzas nesse aspecto específico talvez se assemelhe mais à do jurista austríaco Hans Kelsen, embora esteja ausente neste autor a preocupação em estabelecer uma relação invariante entre o exercício do poder estatal e um determinado tipo ou modalidade de dominação social, como o fazem Poulantzas e os marxistas de uma maneira geral. No tocante ao terceiro argumento de Easton, ele a nosso ver procede. Os modelos de análise centrados no Estado geralmente relegam a segundo plano, quando não a plano irrelevante, os processos e comportamento políticos não diretamente vinculados ao exercício do “poder de Estado” ou à alocação imperativa de recursos por um grupo administrativo nãoeletivo em escala global, configurando-se na prática como um obstáculo metodológico à dinamização da investigação sobre tais domínios por analistas que reconhecem o Estado como um fator importante mas não o único para a compreensão das estruturas de poder e de dominação nas diferentes sociedades. Sendo assim, faz-se mister integrar o conceito de Estado a outros conceitos que permitam apreender estas outras dimensões da atividade política dos diferentes agentes, e que transcendem o aparelho de Estado no sentido estrito do termo. c) Classes, grupos e elites: esboço de uma sociologia dos grupos de intervenção política Em relação a este tópico específico, o ponto de partida de Poulantzas também é o confronto/diálogo com diversas outras perspectivas de análise que abordam o problema, dentre os quais devemos destacar a teoria das elites. Compreenderemos melhor a crítica poulantziana à teoria das elites, a partir de uma afirmação efetuada pelo autor no famoso “debate” Miliband X Poulantzas. Como se sabe, um dos temas fundamentais aventados neste debate foi justamente o do emprego do termo “elite” e de elementos parciais desse paradigma para a constituição de uma sociologia política marxista e para a explicação dos nexos que se formam entre os detentores do poder político e os membros da classe dominante. Para Miliband, o recurso a elementos da teoria das elites era fundamental para se explicar a natureza de classe do Estado Capitalista, enquanto para Poulantzas as funções invariantes do

154

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

Estado Capitalista deveriam ser explicadas não a partir das características sociológicas dos indivíduos que dele fazem parte, mas a partir dos padrões prescritivos institucionalizados (de natureza análoga ao habitus de Bourdieu) que estruturam a organização dos vários ramos do aparelho de Estado, bem como organizam os vínculos de identidade simbólica que entre si mantém os altos burocratas e os gestores das empresas, ambos interessados na manutenção de um padrão “piramidal” e “autoritário” de gestão das organizações (seja este padrão escravocrata, tributário, patrimonial, feudal, gerencial ou burocrático-moderno). No tocante à posição de Poulanzas em relação ao elitismo pluralista é expressa com bastante clareza na seguinte passagem e em outras do famoso debate: “O que Miliband omite é a necessidade de uma crítica da noção ideológica de elite a luz dos conceitos da teoria marxista. Se esta crítica tivesse sido feita, resultaria evidente que a “realidade concreta” ocultada pela noção de “elites plurais” ─ a classe dominante, as frações de classe, a classe hegemônica, a classe governante, o aparelho de Estado ─ somente se pode compreender se rechaça a própria noção de elite. Já que os conceitos e noções nunca são inocentes e, se empregamos as noções do adversário para responder-lhe, legitimamos estas noções e permitimos sua persistência.” A nosso ver, o debate que se pode desenvolver a partir dessa posição de Poulantzas envolve pelo menos três níveis de análise que são frequentemente amalgamados pelos vários pesquisadores que abordam o tema: a) a questão dos determinantes das funções invariantes do aparelho de Estado, especialmente do Estado Capitalista, bem como dos vínculos de identidade e solidariedade simbólica e material que entre si mantém os burocratas e os gestores das organizações econômicas, segundo os “estruturais-marxistas”; b) a questão dos conceitos e modelos teóricos destinados a analisar os processos decisórios nas sociedades capitalistas bem como dos determinantes do campo de variação no conteúdo das decisões políticas contidos nos limites da reprodução de um determinado sistema social ou modo de produção específico; c) a questão do emprego puro e simples, dentro do campo teórico marxista, da expressão ou do conceito de “elite” desvinculado da problemática original formulada pelo “maquiavélicos” clássicos que deu origem aos conceitos de “elite” e “massa” (que, como se sabe, são: pessimismo sociológico, psicologia de massas, fetiche pelos ocupantes de cargos em detrimento do conteúdo das decisões substantivas por ele tomadas, estabelecimento de uma relação de manipulação

155

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

estratégica e não de “confiança” ou de “representação” entre elites dirigentes ou minoria politicamente ativas e as “massas” nas várias dimensões de seu comportamento político). No tocante ao primeiro problema, como já observamos para o caso específico do Estado Capitalista, Poulantzas elabora o conceito de burocratismo, que consiste num padrão regular de valores, comportamentos e de normas (ou seja, um “habitus”) que enquadra o funcionamento do aparelho de Estado burguês e que determina que os funcionários envolvidos nesse campo de atividade social adotem via de regra práticas homólogas àquelas adotadas pela gestão das organizações no sistema econômico capitalista: a) recrutamento e hierarquização pelo critério manifesto do mérito ou competência individual; b) tratamento formalmente igual aos desiguais; c) adoção de práticas e atitudes de ocultação do saber burocrático. Essas práticas homólogas dão origem a relações de identidade e solidariedade simbólica e material entre os proprietários de produção e os burocratas, independente das características sociográficas destes últimos, na medida em que os gestores das organizações (enquanto agentes desempenhantes de papéis, ou seja, “suportes” de estruturas, e não enquanto capitalistas individuais ─ cujo comportamento pode muito bem ser desviante em relação ao padrão imposto pelas representações coletivas) possuem interesse na manutenção do status dos burocratas estatais (na medida em que é dele que deriva a aplicação de um direito de propriedade responsável pela instauração de seu predomínio na hierarquia das organizações), enquanto estes via de regra são solidários aos padrões piramidais de gestão das organizações adotados pelas firmas capitalistas públicas ou privadas (na medida em que possuem a percepção de que um processo de apropriação coletiva dos recursos econômicos e de gestão transparente das unidades produtivas podem vir a desencadear um processo que ponha em cheque os valores da distinção burocrática). Ora, essa correspondência entre dois níveis de habitus ocorre independentemente das características do recrutamento da burocracia, sendo determinada pelos processos de ressocialização simbólica e de inserção nas carreiras profissionais por que passam os funcionários administrativos do Estado Capitalista em suas trajetórias profissionais, motivo pelo qual consideramos infudados os argumentos de Miliband nesse aspecto específico 93.
Havendo “hiperdeterminismo estrutural” apenas no caso de as relações de propriedade serem relações entre pessoa e coisa sempre sancionadas ex-post pela autoridade política central, e não relações sociais entre seres humanos desempenhantes de papéis sociais e sancionadas por um
93

156

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

No que se refere ao segundo ponto, Poulantzas se envolverá num hercúleo trabalho de elaboração terminológica, caracterizando os seguintes grupos de intervenção política para distingui-los dos atores amalgamados pela expressão “elites políticas”: frações de classe; categorias sociais; classe reinante; classe dominante; classe detentora; categoria social, camada etc. Ora, a nosso ver, a tipologia elaborada por Poulantzas não esgota todas as possibilidades de mapeamento dos atores relevantes que atuam em um determinado sistema político. Por exemplo, podem existir pequenos grupos específicos de vanguarda vinculados aos grupos sociais mais abrangentes enumerados por Poulantzas, ou mesmo determinados grupos focais de intervenção política (e. g., membros de um parlamento, elites dirigentes sindicais, cúpulas dirigentes de determinadas associações, minorias politicamente ativas de determinados estratos sociais e grupos de interesse etc.), aos quais se pode no nosso entender empregar a expressão “elites” para qualificá-los, sem necessariamente violentar a problemática teórica da dominação de classe dos estruturais-marxistas, nem trazer para dentro dessa problemática todo o pacote de proposições dos maquiavélicos originais. Trata-se de um preciosismo terminológico que desestimula a pesquisa empírica, e a reflexão mais sofisticada sobre as formas de intervenção e sobre as motivações dos diferentes atores que interagem num dado sistema político94. d) Formas de governo e “poliarquias” A esse respeito, e para sermos breves, deve-se observar que, embora alguns comentadores da teoria política marxista afirmem o contrário (BOBBIO, 1976, THERBORN, 1997), a preocupação com o problema das “formas de governo” e com os diferentes formatos institucionais e organizacionais através dos quais se concretiza a dominação política “de classe” sempre foi uma questão central da teoria política marxista. Esse também foi o caso de Nicos Poulantzas

ordenamento normativo imposto por um aparelho burocrático autorecrutado que os constituem em pessoas jurídicas. Além do mais, as regras do burocratismo e de outros padrões de organização de autoridade política central são normas de conduta que cabe a cada ator específico decidir seguir ou não, sabendo-se é claro das conseqüências advindas de sua não-obediência às mesmas.
94

Procuramos concretizar alguns aspectos da plataforma acima exposta, coqueteando com o conceito de elite ─ e não rejeitando-o liminarmente ─ a partir de uma perspectiva mais geral “estruturalmarxista” em BRAGA (2002).

157

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

que, em várias de suas obras abordou o assunto, o que nos autoriza mesmo a afirmar que este foi um dos elementos centrais de suas preocupações ao longo de sua trajetória (POULANTZAS, 1968; 1970; 1975). Em que consistem as principais contribuições do autor ao tema e qual o tipo de diálogo travado com a sociologia política funcionalista sobre o assunto? As principais contribuições poulantzianas à teoria da democracia derivam da proposição central de seu modelo teórico segundo o qual, nas sociedades fundadas na exploração do trabalho, o aparelho de Estado é uma instituição central de poder, pelo conjunto de motivos anteriormente enumerados (garantia de um direito de propriedade que sanciona juridicamente a relação de apropriação do sobretrabalho; concentração das prerrogativas de promoção de uma alocação “autoritária” de recursos que vincula toda uma formação social a partir da aplicação de normas gerais implantadas através de mecanismos “top down” de execução de decisões). Sendo assim, nos vários tipos de Estado existentes ao longo da história da humanidade (escravista, tributário, feudal-patrimonial, burocrático-moderno) o centro do poder político é constituído sempre por um corpo administrativo não-eletivo (i. e. a burocracia estatal de carreira, em suas várias modalidades) que concentra as prerrogativas de governo em uma determinada coletividade. A democracia passa a existir justamente quando um corpo eletivo com efetivo poder decisório (um parlamento, Executivos eleitos, corporações, parlamentos feudais, assembléias de cidadãos livres etc.) rompe esse monopólio de poder do quadro administrativo estatal (ou o reduz drasticamente no caso das sociedades dominadas por instituições públicas nãoestatais), partilhando com esse corpo administrativo, em níveis variáveis de intensidade, a prerrogativa de implementar políticas alocativas globais ou políticas de governo. Assim, o primeiro aspecto que devemos observar na crítica poulantziana à teoria da democracia dos pluralistas é a existência de uma ruptura institucional entre as formas de governo e de gestão das organizações “autoritárias” (fundadas basicamente no exercício do poder político por um grupo recrutado mediante outras mecanismos que não a consulta à opinião pública), e as formas de governo e de gestão das organizações “democráticas” (onde existem tais mecanismos de consulta àqueles que são objeto das normas e decisões implementadas por tais autoridades políticas), não havendo portanto uma mera “continuidade” entre os vários tipos de sistemas políticos como sugerem os sociólogos políticos funcionalistas e sistêmicos.

158

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

Sendo assim, para Poulantzas (assim como para outros paradigmas de análise política, como por exemplo a sociologia da dominação de Max Weber), o ponto de partida para a elaboração de uma teoria da democracia deriva de sua teoria do Estado, que é o centro de exercício do poder político nas sociedades fundadas na apropriação privada do valor agregado durante o processo de trabalho. Talvez seja legítimo inferir das considerações poulantzianas que o grau de intensidade em que os diferentes modelos de democracia se concretizam nos diferentes tipos de sociedade correlaciona-se com o grau de intensidade de ruptura do monopólio burocrático sobre os processos deliberativos e a magnitude da incorporação de diferentes atores no processo decisório global, podendo as diferentes democracias se diferenciarem entre si conforme o maior ou menor grau de incorporação de tais atores no sistema político global. Entretanto, devemos admitir que, em suas obras iniciais, Poulantzas não extraiu todas as implicações do modelo geral de tomada de decisões por ele esboçado. CONCLUSÕES: TRAZENDO O CONCEITO DE SISTEMA POLÍTICO PARA DENTRO DA SOCIOLOGIA POLÍTICA ESTRUTURAL-MARXISTA Podemos encerrar este texto fixando alguns pontos a serem posteriormente retomados com maior grau de profundidade. A nosso ver, o diálogo instaurado por Poulantzas entre os estruturaismarxistas e os sociólogos políticos funcionalistas permaneceu truncado em grande parte devido à divergências ideológicas e normativas, mas também teóricas, de fundo entre as diversas correntes. Embora o clima político-ideológico vigente no final dos anos 60 e na década de 1970 tenha contribuído ainda mais para truncar este debate, nada impede que ele seja restaurado 40 anos após a publicação de PPCS. Segundo nosso ponto de vista, esse diálogo pode ser restaurado pelas seguintes razões:
Ainda falta à teoria política marxista um estoque de conceitos gerais e claramente articulados entre si destinado à constituição de uma sociologia política marxista com o mesmo grau de abrangência da sociologia política funcionalista. Conceitos que abranjam não apenas as sociedades de classe, inclusive as

159

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

capitalistas, mas também sociedades sem Estado do passado95, e tipos ideais possíveis de sociedade sem Estado do futuro (na melhor das hipóteses), ou sociedades com uma burocracia regulada e controlada por instituições civis de trabalhadores, ou mesmo de “democracia participativa” exercida pela via não-estatal num futuro próximo previsível. As definições de “poder” e de “política” esboçadas em Poder político e classes sociais são a nosso ver insuficientes para fundamentar uma teoria marxista do político, que também aborde o problema analítico da dinâmica das sociedades sem Estado e da desestatização das sociedades complexas (na melhor das hipóteses) e/ou do controle da burocracia nas sociedades complexas com Estado (numa hipótese menos ambiciosa) por instituições políticas não-estatais. Uma reflexão sistemática sobre tais conceitos gerais é fundamental para a instauração de uma sociologia política estrutural-marxista que sirva também de “guia de ação” para a pesquisa empírica aplicada, e não apenas para a análise dos macroprocessos sociais que ocorrem nas sociedades globais.

Devemos agregar ainda, à guisa de conclusão, que a oposição irredutível entre os conceitos de “Estado” e “sistema político” é mais imaginária do que real, devendo-se a nosso ver mais a disputas por símbolos de status e espaços de micropoderes entre uma antiga geração de sociólogos políticos do que a razões teóricas substantivas. Assim o conceito de sistema político pode muito bem ser incorporado de maneira sistemática à análise política marxista, de molde a abranger outras instituições que participam do jogo político mas não fazem parte do sistema estatal no sentido estrito do termo. As alegações dos teóricos sistêmicos e marxistas (EASTON, 1982, BOITO JR., 2007) a respeito da incompatibilidade irredutível entre ambas as noções devem ser vistas com cautela, pois ao que parece são motivadas por outros objetivos que não os estritamente cognitivos. Entretanto, isso não implica “dissolver” o Estado em outras instituições políticas que fazem parte do sistema político, na medida em que o Estado constitui um somatório de instituições
95

Existem um amplo estoque de trabalhos de antropologia política sobre o assuntos que tendem a ser ignorados pela maior parte dos teóricos políticos marxistas. Nesse sentido, um bom ponto de partida pode ser a análise crítica das obras de Pierre Clastres (CLASTRES, 2002, 2006) e dos próprios antropólogos políticos funcionalistas (FORTES & EVANS-PITCHARD, 1950)).

160

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

específicas formadas por um corpo de funcionários autorizados a tomar decisões e a implementar normas globais em sociedades onde se aplica um direito de propriedade privada que distribui os seres humanos em classes dominadas e classes dominantes, explorados e exploradores. Por todos estes motivos, não deve ser excluído um retrabalhamento crítico, dentro do campo inclusive dos estruturaismarxistas, de conceitos advindos da sociologia política funcionalista, tais como os de elites dirigentes, grupos de interesses, sistema político, governo, dentre outros. Do ponto de vista estritamente “normativo” se, por um lado, a elaboração de paradigmas menos “estado-centrados” implica correr o risco de “desviar as classes populares da luta pela transformação da sociedade capitalista” (BOITO Jr., 2007: p. 30), a rejeição in limine dos conceitos operacionalizados dentro da sociologia política funcionalista-pluralista (tais como os de elites dirigentes, sistema político, governo etc.), pode colocar os trabalhadores organizados para a construção de uma nova sociedade socialista diante de um outro risco: o de não forjar instrumentos teóricos para o estudo sistemático dos processos de desestatização e de controle quotidianos sobre a burocracia estatal e sobre as elites dirigentes em sociedades complexas póscapitalistas, que restaurem em novas bases as formas primitivas de democracia comunitária e de exercício descentralizado do poder político esboçadas em sociedades tribais onde inexistia Estado (ENGELS, 1986; PUTNAM, 2003, 2008). Cabe a cada analista político avaliar por si mesmo os prós e os contras de cada um destas operações analíticas. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALMOND, G. A.; COLEMAN, J. S.A política das áreas em desenvolvimento. São Paulo: Freitas Bastos, 1969. ALMOND, G. A.; POWELL JR., G. B. Uma teoria de política comparada. Rio de Janeiro: Zahar, 1972 BRAGA, Sérgio. (2002). Elites políticas e alternativas de desenvolvimento na redemocratização de 1945-1946. História Econômica & História de Empresas, São Paulo: ABPHE/Hucitec, v. 2, p. 75-106, 2002.

161

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

BOITO JR., A. Estado, política e classes sociais. São Paulo: UNESP, 2007. CLASTRES, P.Arqueologia da violência. Ensaios de antropologia política. São Paulo: Cossak & Naif, 2004. CLASTRES, P. A sociedade contra o Estado. São Paulo: Cossak & Naif, 2003. DAHL, R. Poliarquia: participação e oposição. São Paulo: Edusp, 2005. DAHL, R.A moderna análise política. Rio de Janeiro: Lidador, 1966. DEUTSCH, K. Os nervos do governo: análise de modelos de comunicação e do controle político. Rio de Janeiro: Bloch, 1971. DEUTSCH, K. W. Política e governo. 2 ed. Brasília: UnB (Coleção Pensamento Político, 9.), 1983. EASTON, D.Uma teoria de análise política. Rio de Janeiro: Zahar, 1969. EASTON, D. O sistema político sitiado pelo Estado. In: LAMOUNIER, B (Org.). A ciência política nos anos 80. Brasília: UnB. p. 129155, 1982. EASTON, D. Modalidades de análise política. Rio de Janeiro: Zahar, 1970. EASTON, D. The Political System.Chicago: ChicagoUniversity Press, 1953. ENGELS, Friedrich. A origem da família, da propriedade privada e do Estado. Tradução de Leandro Konder. In: MARX, Karl, ENGELS, Friedrich. Obras escolhidas, Volume 3. São Paulo: Alfa-Omega, 1986, p. 7-143. FORTES, M.; EVANS-PRITCHARD.African political systems.Oxford: Oxford Universit Press, 1950. GODELIER, M.Estruturalismo, funcionalismo y marxismo. Barcelona: Anagrama, 1972. JAGUARIBE, H. Political development: a general theory and a latin american case study. New York: Harper & Row, 1973. LIPSET, S. M.Consenso e conflito: ensaios de sociologia política. Lisboa: Gradiva, 1992.

162

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

MERTON, R. K. A ambivalência sociológica e outros ensaios. Rio de Janeiro: Zahar, 1979. MILIBAND, R. O Estado na Sociedade Capitalista. Rio de Janeiro: Zahar, 1982. MILIBAND, R.; POULANTZAS, N.; LACLAU, E. Debates sobre el Estado Capitalista, vol. 1. Estado y clase dominante. Buenos Aires: Imago Mundi, 1982. PARSONS, T. Sociedades: perspectivas evolutivas e comparadas. São Paulo: Pioneira, 1969. PARSONS, T. El sistema social. Madrid: Ediciones de la Revista de Occidente, 1951. PARSONS, T. Politics and social structure. New York: The Free Press, 1969. POULANTZAS, N. Sobre el Estado Capitalista. Barcelona: Laia, 1974. POULANTZAS, N. Poder político e classes sociais no Estado Capitalista. 2 ed. São Paulo: Martins Fontes, 1986. PUTNAM, R. Comunidade e democracia: a experiência da Itália moderna.Rio de Janeiro: FGV. 5 ed., 2008. PUTNAM, R; FELDSTEIN, L. M. Better Together: restoring the American Community. New York: Simon & Schester, 2003. ROCHER, G. Talcott Parsons e a sociologia americana. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1976.

163

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

Política, ciência e ideologia: sobre o "teoricismo" de Nicos Poulantzas
Adriano Codato96

MARXISMO E CIÊNCIA SOCIAL Antes mesmo de apresentar o texto que eu preparei para este Congresso, penso que seja necessário, a fim de explicitar todos ou quase todos os meus pressupostos intelectuais, fazer algumas declarações de princípio. O que eu pretendo discutir aqui é exclusivamente o marxismo como ciência social. Evidentemente que o marxismo não é só isso, mas é também isso; e cada vez mais isso, visto que sua dimensão revolucionária está, ao menos por hora, aposentada. Nesse sentido, meu tema nesse colóquio é o processo de elaboração conceitual – ou, para ser mais preciso, o modo de produção teórico – de certa teoria marxista da política exemplificada, no caso, pela obra do cientista político grego Nicos Poulantzas. A obra de Poulantzas e, em especial, Poder político e classes sociais representou, quando o livro foi publicado em Paris em abril de 1968, o empreendimento intelectual mais ambicioso no domínio da teoria marxista da política desde pelo menos o desaparecimento de Lênin. Representou também o desafio mais incisivo aos pressupostos da ciência política convencional e a crítica mais explícita aos procedimentos metodológicos e aos princípios epistemológicos da “sociologia burguesa”. Penso, portanto, que um trabalho de revisão da crítica poulantziana à ciência política convencional – o tipo de crítica, o modo pelo qual

96

Adriano Codato é professor de Ciência Política no DECISO/UFPR e coordenador do Núcleo de Pesquisa em Sociologia Política (Nusp).

165

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

essa crítica foi feita e o conteúdo dessa crítica – permita fazer um balanço das relações entre o marxismo e a ciência social. Se o marxismo ambiciona ser muito mais do que apenas uma ciência positiva da sociedade e se nesse caminho ele pretende não só dizer a verdade sobre os princípios e pressupostos teóricos e metodológicos da ciência política e da sociologia política “burguesas”, mas colocar no seu lugar uma teoria mais eficiente e mais correta da política, do poder, da dominação social, então é preciso, antes mesmo de avaliar se isso foi cumprido como planejado e se efetivamente deu certo, tentar entender se a maneira de fazer isso foi a mais adequada ou não. Só procedendo assim, julgo eu, é possível fazer valer, na prática, alguns slogans publicitários que os marxistas anunciam a respeito de sua própria tradição, do tipo: ‘só a teoria marxista é uma teoria que pode criticar-se a si mesma’, etc.

TEORIA E FILOSOFIA Nesta comunicação, formulo um argumento sobre as razões explícitas e sobre as razões implícitas da proverbial complicação dos escritos de Poulantzas, insistindo, e esse é o problema central que desejo destacar, sobre a influência que os procedimentos e os pressupostos da filosofia impõem à prática teórica dos marxistas no âmbito das ciências sociais. O ponto aqui é antes sugerir que demonstrar que a forma de redação dos textos de Poulantzas é menos uma questão do “estilo” do autor (o vocabulário incomum, a fraseologia arrevesada, a falta de clareza de certos conceitos e a desorganização dos argumentos); ou mesmo uma questão do “nível” do discurso (um discurso necessariamente abstrato para tratar de problemas abstratos); e sim uma questão do “tipo”de “ciência social”defendida e praticada pelo estrutural-funcionalismo francês como um todo (Althusser, Balibar, Badiou, etc.). A hipótese é que a prosa filosofante característica desse gênero de marxismo encurrala e encerra o discurso e a prática sociológica em três mundos, que os dirigem e passam a defini-los: i) a política, ii) a teoria e iii) as lutas políticas no domínio exclusivo da teoria. Invertendo a formulação de Althusser (“a filosofia é luta de classes na teoria”), creio que se deveria dizer que essa teoria é, antes de qualquer coisa, um produto da luta teórica no domínio da filosofia (marxista). 166

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

Meu argumento central é o seguinte: esse gênero de “ciência social” que Poulantzas exemplifica tira proveito da fusão do discurso político com o discurso científico sob a proteção e a garantia do discurso filosófico. Essa é a razão do alegado teoricismo de Nicos Poulantzas, cujo efeito (e não a causa) é um dialeto abstrato. A causa fundamental dessa forma de conceber o trabalho teórico e a prática científica está, antes de qualquer coisa, na recusa dos procedimentos convencionais da ciência convencional. E isso por sua vez deriva do entendimento do que o marxismo deveria ser: nem uma “ciência da História” nem uma forma de sociologia empírica, mas uma cosmogonia. O GÊNERO, O NÍVEL E O TIPO DE DISCURSO W. G. Runciman, ao comentar a tradução inglesa de Les classes sociales dans le capitalisme aujourd’hui recordou e sintetizou a recepção chavão à obra de Poulantzas nos países de língua inglesa: “Mr. Poulantzas escreve conforme a tradição continental, onde a generalidade da abstração é muitíssimo mais estimada que a clareza de expressão”97. Essa tirada é bastante espirituosa, toca em dois problemas reais – o gênero do discurso e o nível do discurso – mas comete dois deslizes. Primeiro, mistura a (má) qualidade da prosa poulantziana com o plano (teórico) onde o autor situa seu trabalho. O próprio Poulantzas nunca negou que mesmo suas “análises concretas” estavam voltadas principalmente para a elaboração de conceitos. Fascisme et dictature é uma prova disso. Poulantzas sempre pretendeu que para elaborar o conceito de Estado fascista, a “generalidade da abstração” deveria suplantar a realidade empírica– isto é, as formas concretas de Estados capitalistas de exceção (Estado italiano, Estado alemão, etc.) (POULANTZAS, 1970: 325-338). O segundo deslize, e esse é meu argumento principal, é que esse tipo de crítica aos textos de Poulantzas, muito comum e muito obstinada até hoje, erra o alvo. Há uma questão mais importante e que deriva não do gênero (literário) ou do nível (abstrato) do

97

W. G. Runciman, resenha de Classes in Contemporary Capitalism e de Social Analysis publicada no Times Litterary Supplement (16 Jan. 1976). Apud Jean-René Tréanton, Réflexions sur Fascisme et dictature. Revue française de sociologie, (1976 : 533, nota 1).

167

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

discurso, mas do tipo de discurso adotado – e não somente por Poulantzas, mas por boa parte do marxismo “continental”. Para além dos problemas estilísticos evidentes (períodos muito longos, construções elípticas, interpolações constantes, formulações de duplo sentido, definições pouco claras, distinções em poucas palavras, explicações idem), a confluência, nesse discurso teórico, de três modos distintos de conhecimento – i) o filosófico, amparado na excelência e ampliado graças à grandiloquência do comentário de texto (dos textos clássicos dos clássicos do marxismo, bem entendido); ii) o político-teórico, implicado na sobreposição espontânea e obrigatória de duas problemáticas: a teoria da teoria marxista e, derivada dela, a teoria da prática revolucionária; e iii) o científico, exigido para construir e/ou conquistar os objetos de pesquisa das sociologias não marxistas ou antimarxistas (e.g., a noção poder, de Estado capitalista, etc.) –, teve consequências decisivas para esse gênero de “ciência social”. Não só contribuiu para congestionar o texto poulantziano de conceitos teóricos (às vezes muito úteis, como “hegemonia de fração”, “bloco no poder”, “burocracia versus burocratismo”, etc., às vezes não, como “autonomia relativa”), como de declarações categóricas com base em uma série de tomadas de posiçãopolíticas em cada um desses campos, o filosófico, o político e o científico (“poder é o poder político das classes sociais”, “O Estado é o fator de coesão de uma formação social”, “o funcionamento da burocracia corresponde, em última análise, ao interesse político da classe ou fração hegemônica” etc.) (POULANTZAS, 1971a: X; 1971b: 167). É verdade que a justaposição de problemas de naturezas diversas (o social e o sociológico; o político e o politológico; o teórico e o ideológico), e a obrigação autoimposta de enfrentá-los ao mesmo tempo e no mesmo lugar, até produziu, nos poucos leitores mais empenhados, e depois de passada a perplexidade inicial, aqueles fins que Poulantzas desejava: “romper”, através da linguagem empregada, “com o discurso descritivo ordinário” da sociografia política dominante (POULANTZAS, 1976: 68). Ocorre que, em boa parte dos casos, a intenção de ruptura se fez à custa da comprovação integral do sistema integral, gerando o incômodo e a incompreensão proveniente de duas reprovações padrão, simétricas e opostas, que sempre acompanharam a obra de Poulantzas: ou Poulantzas falava demais, ou Poulantzas falava de menos. Um exemplo do primeiro defeito vinha das cobranças diante das interpretações um tanto arbitrárias acrescentadas às

168

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

conhecidas fórmulas de Marx e Engels, deslocadas essas dos seus contextos originais e embaralhadas, conforme seus críticos, a esmo. O exemplo do outro defeito – de que Poulantzas falava de menos eram as solicitações frequentes de evidências concretas que comprovassem seus argumentos diante da carência explícita de análises empíricas. O MARXISMO ESTRUTURALISTA Voltando ao ponto central da crítica convencional: o que está de fato em jogo e vem encoberto por “problemas de estilo”? Tal qual Louis Althusser (ou em razão da influência deste), os textos dos marxistas estruturalistas – Poulantzas aí incluído – possuem uma dicção toda própria, marcada pelo impulso polêmico, pelo vezo contundente e pelas fórmulas definitivas, como observou Jacques Rancière, produto dessa “ambição totalizante” autorizada e imposta pelo culto da “grande teoria”98. Tanto na filosofia dos filósofos, quanto na (ciência) política de Poulantzas, os temas, as teses e os conceitos são expostos, como ele mesmo explicou, numa ordem que oculta propositalmente o caminho para se chegar a eles (a “ordem da pesquisa” dos elementos empíricos). Isso produz dois defeitos, ambos admitidos por Poulantzas, mas desclassificados também por ele como fruto da ilusão empirista e do engano “neopositivista” dos seus críticos99: i) o mundo social e os acontecimentos históricos só comparecem em seus escritos comoexemplos para confirmar princípios e conclusões já estabelecidas de antemão; ii) daí a aparência (falsa segundo o próprio autor) de um discurso onde conceitos geram conceitos, uma sorte de partenogênese teórica. Não encontro, porém, uma símile mais adequada – partenogênese teórica – para descrever esse tipo de ciência social. Explico. O que escapa à autocrítica poulantziana é que a “ordem de exposição” de um texto em ciência social não pode ser a mesma de um texto em Filosofia, mesmo para o marxismo, que não reconhece divisões departamentais nem se submete de boa vontade aos ritos escolares. A ausência da pesquisa (ao menos no texto) e da sua “ordem”, isto é, dos seus procedimentos – a
98

Para a constatação a respeito do tom que Althusser imprimia a sua escrita, ver Jacques Rancière (1993). Para as expressões “ambição totalizante” e “grande teoria”, ver Pierre Bourdieu, (2004: 32).
99

Para o “neopositivismo” da crítica endereçada a ele, ver Nicos Poulantzas (1976: 67).

169

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

explicitação dos modelos e dos métodos para selecionar, organizar e interpretar evidências, por exemplo – produz dois efeitos sobre esse discurso teórico. Primeiro, torna impossível avaliar a documentação mobilizada, daí o tom muitas vezes arbitrário das alegações; e segundo, transfere, para o domínio do comentário dos textos canônicos, o que deveria ser resultado da explicação das coisas. Daí a impressionante frequência nessa sociologia do recurso (retórico ou não, pouco importa) à formula Marx dixit. Sua teoria do Estado possui precisamente essas características e é um exemplo muito ilustrativo da propensão para transitar entre campos distintos (filosofia, economia, sociologia), ora em nome da autoridade de Marx, Engels, Lênin e Gramsci, ora em nome da utilidade dos princípios políticos daí derivados; ora em nome da conformidade pressuposta das análises teóricas com o mundo social, ora em nome da incapacidade das teorias rivais (marxistas e não marxistas) darem conta seja da interpretação mais correta dos textos clássicos, seja da compreensão mais concreta dos modos de funcionamento da sociedade capitalista100. A crítica à “ausência de qualquer problemática teórica nos escritos de Miliband” é uma evidência de como Poulantzas se serve da autoridade derivada dos procedimentos puros da interpretação pura dos clássicos do marxismo para explicitar qual seria a forma correta de ligação entre as análises concretas e os “conceitos abstratos”. Nenhuma palavra, todavia, sobre a pertinência efetiva daquelas análises em relação ao mundo social real. O ponto aqui, então, torna-se o seguinte: é preferível defender a atualidade e o poder explicativo dos conceitos abstratos, sejam eles corrigidos, completados, desenvolvidos ou não pelo processo de elaboração teórica, ao invés de considerar como mais legítimo ou como mais efetivo o procedimento usual que envolve dados, hipóteses, teste, proposições e assim sucessivamente. O MODO DE PRODUÇÃO DE TEORIA Mas de onde vem isso? Minha hipótese é que esse tipo de discurso pode ser explicado em razão de dois determinantes: i) a heteronomia dessa teoria da política em relação às lutas teóricas e às dissensões políticas no campo político comunista; e ii) a
Expus e procurei comprovar este ponto em Adriano Codato: “Poulantzas, o Estado e a Revolução” (2008: 65-85).
100

170

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

autonomia pretendida dessa teoria em relação à Sociologia e à Ciência Política “burguesas” como práticas científicas “puras”. Esse jogo duplo – condição de existência do marxismo, a propósito – é tão ou mais necessário quanto menos os marxistas podem prescindir, nesse momento de (re)fundação da doutrina do Estado e de contestação da ciência política norte-americana (sejam as vertentes comportamentalista, culturalista ou sistêmica), dos dividendos decorrentes de dois princípios de consagração desiguais, mas potencialmente complementares: a autoridade universitária, disputada contra a ciência social pela imposição da teoria marxista da política como a única teoria política legítima; e a autoridade política, transmitida pelo partido teórico e pelo projeto social no qual se está implicado101. O tipo do discurso então adotado – o filosófico –, que abusa da análise, do comentário e da interpretação de texto (dos textos clássicos dos clássicos do marxismo), resulta da (con)fusão inevitável pelo modo de produção dessa teoria entre três coisas: i) as controvérsias doutrinárias dos partidos comunistas europeus; ii) a reflexão abstrata dos intelectuais universitários comprometidos com o socialismo; e iii) a problemática política do materialismo histórico (a “Revolução”). A consequência de tudo isso é a subordinação inapelável dessamodalidade de “ciência social” à teoria teórica. CONCLUSÃO Vou então recapitular o que disse até aqui e esquematizar ao máximo meu argumento. Sustentei que a teoria política poulantziana – construída como uma crítica direta à ciência política convencional (“burguesa”) – pode ser definida como uma teoria que é, antes de qualquer coisa, um produto da luta teórica do marxismo teórico no domínio da Filosofia. Isso não tem nada a ver com Ciência Social (descrição, análise e interpretação; testes de hipóteses, explicitação de mecanismos, estabelecimento de relações, proposição de explicações) e não teria nenhum problema se não fosse pensada – essa teoria política – como uma crítica e uma correção à ciência social convencional.
Para a sugestão original dessa idéia, ver Pierre Bourdieu, “O discurso de importância. Algumas reflexões sociológicas sobre o texto ‘Algumas observações críticas a respeito de Ler O Capital’” (BOURDIEU, 1996: 168).
101

171

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

Esse “teoricismo” – reconhecido, aliás, pelo próprio Poulantzas no debate com Miliband no artigo de 1976 – vem fundido e confundido com um discurso complicado, uma prosa difícil. Essa, contudo, é a aparência do problema. A crítica que consiste em apontar um “defeito”, o estilo “confuso”, é a meu ver essa é uma crítica superficial. O próprio Poulantzas faz a defesa desse “discurso complicado” nos termos corretos: trata-se de um discurso abstrato para tratar de problemas abstratos (uma exigência óbvia do trabalho teórico). Minha tese é que não é um problema do estilo do discurso, ou do nível do discurso, mas do tipo do discurso: o discurso filosófico cujo núcleo é o comentário de texto (Marx dixit). A confluência no texto poulantziano de três modos distintos de conhecimento (o filosófico, o político-teórico e o científico), e a justaposição de três problemas de naturezas diversas (o social e o sociológico; o político e o politológico; o teórico e o ideológico), conduziu esse discurso ao culto da grande teoria e a declarações categóricas com base em tomadas de posição políticas. Como falta a esse discurso a “ordem da pesquisa”, isso torna impossível avaliar a verdade das proposições, o comentário do texto tomando o lugar da explicação das coisas. Daí o recurso frequente à autoridade dos textos clássicos dos clássicos. Ficamos então com um discurso que defende a atualidade e o poder explicativo dos conceitos abstratos produzidos pelo processo de elaboração teórica; isto é, um discurso que depende da capacidade de análise do que “Marx realmente disse” e não do procedimento mais usual: reunião de dados, elaboração de hipóteses, formulação de proposições científicas provisórias para serem depois testadas à luz de novas evidências etc. Tudo isso conduz à subordinação da Ciência Social à teoria teórica e tudo depende então de ser ou não ser marxista, o que repõe constantemente a tensão entre a heteronomia dessa teoria social em relação à política; e a sua pretendida autonomia em relação à ciência “pura”.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BOURDIEU, Pierre. A economia das trocas linguísticas: o que falar quer dizer. São Paulo: Edusp, 1996.

172

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

BOURDIEU, Pierre. “Fieldwork in Philosophy”. In: _____. Coisas ditas. São Paulo: Brasiliense, 2004. CODATO, Adriano. “Poulantzas, o Estado e a Revolução”. In. Crítica Marxista (São Paulo), v. 27, p. 65-85, 2008. POULANTZAS, Nicos. Fascisme et dictature : la Trosième Internationale face au fascisme. Paris : Maspero, 1970. POULANTZAS, Nicos. Pouvoir politique et classes sociales. Vol. I, Paris: Maspero, 1971a. POULANTZAS, Nicos. Pouvoir politique et classes sociales. Vol. II, Paris: Maspero, 1971b. POULANTZAS, Nicos. “The Capitalist State: A Reply to Miliband and Laclau”. New Left Review, London, n. 95 (Jan.-Feb.), 1976. RANCIÈRE, Jacques. “La scène du texte”. In: Sylvain Lazarus (dir.), Politique et philosophie dans l’oeuvre de Louis Althusser. Paris: PUF, 1993. TREANTON, Jean-René. Réflexions sur Fascisme et dictature. Revue française de sociologie, vol. 17, n. 3, 1976.

173

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

Notas introdutórias sobre o desenvolvimento do marxismo no Leste Europeu
Pedro Leão da Costa Neto102 Uma análise do desenvolvimento do marxismo no leste europeu deve ter como objeto, não só uma análise das importantes obras e correntes teóricas surgidas no período do “Socialismo Real”, mas também investigar outro aspecto, algumas vezes esquecido, do trabalho associado à organização e edição das obras de Marx e Engels, que criaram, em grande parte, a base e o fundamento dos estudos da obra de marxistas ao longo do século XX. Não seria exagero afirmar que toda história do marxismo no século XX teria sido distinta sem este trabalho; referimo-nos aqui a publicação, não só das obras completas, mas igualmente ao trabalho de organização e edição, dos diferentes manuscritos que se transformaram em escritos decisivos para as sucessivas interpretações do marxismo: Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, Manuscritos Econômico-Filosóficos de 1844, A Ideologia Alemã, Grundrisse e Dialética da Natureza. Desde o final do século XIX, em diferentes países da Europa Oriental, em particular na Rússia e na Polônia, desenvolveram-se importantes interpretações do pensamento marxista e que levaram a distintos debates. Na Rússia é importante destacar, ao lado das decisivas contribuições, de Georg Plekhanov e V. I. Lênin, para a elaboração de uma tradição teórica nacional103, os trabalhos de Alexander Bogdanov e Anatol Lunatcharski, entre outros. Na Polônia104 é importante lembrar as contribuições de, entre outros, Ludwik Krzywicki, Kazimierz Kelles-Kraus e Stanislaw Brzozowski, este
102

Professor do curso de História da Universidade Tuiuti do Paraná. Doutor em filosofia pela Universidade de Varsóvia – Polônia. A comunicação aqui reproduzida apresenta os resultados introdutórios de uma pesquisa em andamento, sobre os intelectuais da Europa Oriental no Período do Socialismo Real.
103

Para uma discussão sobre algumas especificidades do (ZANARDO,1974; VRANICKI, 1977a; KOŁAKOWSKI, 1988a).
104

marxismo

russo,

consultar:

Sobre o marxismo na Polônia, consultar: (WALICKI, 1984; KOŁAKOWSKI, 1988a).

175

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

último considerado por alguns interpretes como o criador do “marxismo ocidental” avant la lettre.105 Entretanto, será a Revolução de Outubro de 1917, que terá um efeito decisivo para a história do marxismo, e conduzirá a um verdadeiro deslocamento geográfico e político na história do marxismo.106 Entre as tarefas culturais e teóricas, com as quais se deparou o novo estado revolucionário, devemos destacar a publicação, a elaboração e a difusão massiva da teoria marxista. Um dos primeiros passos neste sentido foi a publicação em 1921 do conhecido manual de divulgação teórica de autoria de Nicolai Bukharin: Tratado de Materialismo Histórico: Ensaio popular de Sociologia marxista, que tinha justamente por objetivo suprir a lacuna de “uma exposição sistemática (...) da teoria marxista” ( BUKHARIN, 1970: 7) O pensador russo Boris Kagarlitsky (2006:75) observa que o período que vai de 1922 a 1928, “representou um fortalecimento da cultura e até mesmo um novo renascimento cultural”. Entre as grandes obras teóricas aparecidas no período, podemos destacar os trabalhos de Isaak Illich Rubin (1980): A Teoria Marxista do Valor e do teórico do direito Evgeny Pasukanis (1989): A Teoria Geral do Direito e o Marxismo. A década de 1920 na Russia, foi importante igualmente no campo da filosofia marxista, nestes anos se desenvolveu um intenso debate teórico, entre duas distintas correntes, os mecanicistas e os dialéticos, que travavam uma disputa pela hegemonia filosófica. 107 Os mecanicistas defendiam que a filosofia era uma forma de metafísica mística e escolástica se comparada as ciências particulares - ciências que permitiriam a resolução dos diferentes problemas teóricos; e os dialéticos - cujo principal representante era o destacado marxista Abram Deborin - que defendiam que o materialismo dialético representava uma concepção de mundo integral que englobaria a natureza e a sociedade. Este debate, se encerrou em 1929, com a vitória do grupo dos dialéticos, que assumirá a direção das principais instituições filosóficas. Entretanto, em 1930, aparece o artigo assinado por três jovens filósofos “Sobre
105

Sobre o marxismo de Stanislaw Brzozowski, consultar, ao lado dos escritos citados de WALICKI (1984) e KOŁAKOWSKI, (1988a), o artigo de GÁNGO (2009).
106

Sobre este deslocamento geográfico e político e suas conseqüências teóricas, consulte o livro de P. ANDERSON (1989), Considerações sobre o marxismo ocidenta, em particular o capítulo A tradição clássica. Cf., igualmente sobre as implicações da revolução de outubro para a publicação das obras de Marx e Engels: (HOBSBAWM, 1980.)
107

Para uma reconstrução deste debate consultar: entre outros a antologia de textos organizada por René ZAPATA (1983) e (VRANICKI, 1977b).

176

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

as novas tarefas da filosofia marxista-leninista”, no qual eram criticados tanto os mecanicistas como os dialéticos (estes últimos condenados como “idealistas mencheviques”). Os jovens filósofos defendiam o caráter partidário da filosofia e a necessidade de procurar a raiz política e de classe de todo fenômeno ideológico; este artigo vem seguido da resolução do CC do PCUS de janeiro de 1931, que reafirmará aquelas críticas. Será, portanto, uma decisão político-administrativa que tornará esta tendência, a filosofia oficial da URSS. O estudioso dos debates filosóficos dos anos 1920 na URSS René Zapata afirma que este acontecimento terá pesadas conseqüências, inclusive sobre o ensino do marxismo na URSS; a partir de 1931, o estudo de O Capital que, entre 1925 e 1930, ocupava um lugar importante no ensino do Instituto dos Professores Vermelhos, será substituído por textos políticos e a partir de 1934/1935, o papel central no ensino do marxismo passará a ser ocupado pelos diferentes manuais de materialismo dialético, materialismo histórico e economia política (ZAPATA, 1985: 39) Entretanto, o passo decisivo para a definitiva formalização da versão canônica do marxismo soviético foi a publicação do escrito de J. Stalin (s.d.): Materialismo Dialético e Materialismo Histórico. Seguindo a filósofa francesa Christine Buci-Glucksmann (1978, 257) poderíamos enumerar algumas característicasdo marxismo russo: 1. Desenvolvimento do aspecto filosófico do marxismo com a finalidade de criar um sistema global. 2. Afirmação de que o materialismo filosófico é a filosofia específica do marxismo e que há um nexo privilegiado entre o materialismo e as ciências da natureza. 3. Unidade das posições filosóficas e políticas que desemboca em uma “ingerência” do poder político nas questões filosóficas. Poderíamos acrescentar, ainda, como um importante desdobramento da primeira característica, a posição subalterna ocupada pelo Materialismo Histórico em relação ao Materialismo Dialético. Como já tínhamos destacado anteriormente, o outro importante elemento constitutivo da história do marxismo no leste europeu foram o trabalho dedicado as edições e aos estudos sobre a obra de Marx. A revolução de outubro promoveu uma profunda mudança geográfica e política na história da publicação das obras de Marx e Engels, que a partir de então poderá contar com o apoio de uma estrutura estatal.

177

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

O grande personagem desta curta e rica história será David Borisovitch Riazanov. Em 1921, é criada, em nível institucional, uma Comissão especial para a publicação e difusão das obras de Marx, neste mesmo ano será criado o Instituto Marx-Engels (IME) que terá Riazanov como seu primeiro diretor. A partir de 1923, ele fotocopiará grande parte do Arquivo Marx Engels de posse da Social-Democracia Alemã e no ano seguinte o IME com o apoio do Partido Social Democrata Alemão e com a participação do Instituto de Pesquisas Social de Frankfurt concretizam a idéia da publicação das Obras Completas de Marx e Engels: a Marx Engels Gesamtausgabe (MEGA).108 O plano de Riazanov previa a publicação de 42 volumes e estava dividida em 3 partes: a primeira parte em 17 volumes seria constituída do conjunto dos escritos de Marx e Engels; na segunda parte em um total de 13 volumes, planejava a publicação do conjunto dos manuscritos de Marx elaborados a partir de 1857 e relacionados ao projeto de Critica da Economia Política; e por fim, a terceira parte reuniria o conjunto da correspondência de Marx e Engels em um total 10 volumes. Riazanov dirigiria a publicação até ser vitima dos expurgos stalinistas, em fevereiro de 1931 foi preso, e substituído por Vladimir Adoratski na direção da MEGA. Da totalidade dos volumes previstos, foram publicados apenas sete volumes da primeira parte (o primeiro em dois tomos), que reuniam as obras escritas entre 1843 e 1848, entre as quais cabe destacar os importantes manuscritos da juventude de Marx (Introdução a Critica do Direito de Hegel e os Manuscritos Econômico-Filosóficos de 1844) e a Ideologia Alemã de Marx e Engels. Riazanov publicou apenas os volumes I e II e os restantes foram editados por Adoratski. Da terceira parte foram publicados apenas quatro volumes que reuniam a correspondência entre Marx e Engels (os três primeiros por Riazanov e o último por Adoratski). Por fim, em 1935, seria publicado um volume dedicado às obras filosóficas de Engels, reunindo o Anti-Dühring e os seus manuscritos científicos, agrupados sob o titulo Dialética da Natureza. Por fim 1939/1941, coincidindo, portanto com o início da II Guerra Mundial, foram publicados em Moscou, pelo Instituto Marx–Engels e Lênin (IMEL, resultante da fusão do IME e do Instituto Lênin, em 1931, após a expulsão de Riazanov)e sob a responsabilidade de Pavel Veler, os Grundrisse der Kritik der politischen Ökonomie. Rohentwurf, 1857-1858.

108

Sobre a publicação da MEGA consultar (LEFEBVRE, 1985; ZAPATA, R. La publication des oeuvres de Marx après sa mort, op.cit.

178

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

O maior esforço do IMEL nos anos 1935 - 1951 foi a publicação em língua russa (Sotchinenia) das Obras de Marx e Engels, sob a organização inicial do mesmo Riazanov (nos anos 1929-1930) e substituído posteriormente por V. Adoratski, tendo sido publicados 28 volumes. Após a conclusão da II Guerra Mundial terá lugar uma nova e importante ofensiva nos campos da literatura e da filosofia promovida por A. Zhdanov (1948), que acentuará ainda mais o caráter dogmático da cultura soviética. Será esta filosofia que, a partir da segunda metade dos anos 1940, será transplantada através de diferentes métodos burocráticos e coercitivos, nos diferentes países do leste europeu e em linhas gerais perdurará como filosofia de partido e estado, até o colapso do Socialismo Real.109 Partindo das indicações desenvolvidas por Leszek Kołakowski (1988b, 923)110 em seu livro Główne Nurty Marksizmu (Tendências Principais do Marxismo), podemos identificar as características mais gerais do marxismo no leste europeu eindividualizar quatro diferentes períodos: i) os anos 1945-1949 se caracterizam pela existência de elementos de um pluralismo político e cultural, no tocante ao pensamento filosófico e social, que se expressava na presença de diferentes professores estranhos a tradição marxista nas diferentes instituições universitárias. No decorrer do período este pluralismo se restringirá gradualmente. É nesta conjuntura intelectual que se desenvolverá a ofensiva teórica e política para implantar o marxismo, em sua versão sistematizada na União Soviética, na vida cultural e universitária, ofensiva esta acompanhada de uma série de medidas de caráter coercitivos e burocráticos. ii) 1949-1954, unificação do “campo socialista” nos aspectos políticos e ideológicos e stalinização da cultura. Transformação da “filosofia marxista-leninista”, ou “tendência extensional”, como a nomeia G. Markus,em filosofia oficial através de métodos

Vranicki observa sobre este processo de transplantação: “Com a finalidade de assegurar a hegemonia política sobre os países do campo socialista e sobre os partidos comunistas de todos os países, se proclama o estado soviético “modelo” de toda a humanidade progressista e declara que a cultura e os estados burgueses são apenas decadência e decrepitude” (VRANICKI, 1977b: 150). O marxista francês Georges Labica observou que esta síntese filosófica perdurou até o colapso do Socialismo Real, sem nunca sido objeto de uma crítica rigorosa (LABICA, 1991).
109

Nós utilizamos, alem do livro de Kołakowski, igualmente da classificação das diferentes tendências filosóficas existentes nos países da Europa Oriental desenvolvida membro da Escola de Budapeste György Markus, no capítulo Discussões e Tendências na Filosofia Marxista de seu livro Teoria do Conhecimento no Jovem Marx (MARKUS, 1974: 113-129).
110

179

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

administrativos, tais como o afastamento e a proibição do ensino dos antigos professores. iii) 1955-1968, sobre o efeito do processo de desestalinização surgem diferentes tendências anti-stalinistas e revisionistas, surgimento de correntes filosóficas próximas as existentes na Europa Ocidental, entre as quais o existencialismo e o neo-positivismo. Markus refere-se a existência das seguintes correntes: “ideologia crítica”, “cientificista”111 e “ontologia social”. É importante destacar o esforço critico desenvolvido por György Lukács (1982: 36-176) e Karel Kosik (1969) em superar as limitações, tanto da síntese filosófica oficial, como destas duas correntes então hegemônicas no ocidente.112 iv) A partir de 1969, período caracterizado pela derrota e expurgo das diferentes correntes criticas, com o afastamento da vida pública ou o exílio de seus principais representantes. 113 Apesar de uma tendência geral, nos anos 1970-1980, de gradual afastamento do marxismo, é importante destacar a existência em diferentes instituições, de um conjunto de pesquisadores marxistas pertencentes a uma nova geração, que realizaram uns importantes trabalhos de investigação sobre o pensamento de Marx e a tradição marxista. Uma segunda proposta de periodização poderia ser realizada, partindo de critérios geracionais114, que permitiria identificar três diferentes gerações que compartem experiências comuns e permite identificar as filiações existentes entre elas: i) Lukács e Bloch que se aproximaram do marxismo ainda no período entre as guerras; ii) geração formada nos anos sucessivos a II Guerra Mundial (entre os principais representantes estão Karel Kosik, Leszek Kolakowski, Zygmunt Bauman, Bronislaw Baczko, Istvan Mészáros, Agnes Heller e outros membros da Escola de Budapeste) e que

111

O filósofo polonês nomeou estas duas correntes como: scientific philosophers e antropological philosophers, a primeira próxima a tradição neo-positivista e a segunda ao existencialismo, fenomenologia e outras correntes tradicionais da filosofia ocidental (KRAJEWSKI, 1966: XIV-XIX).
112 113

Para uma análise da experiência do marxismo no leste europeu, consultar: (ARNASON, 1989).

A posição extremamente critica e parcial assumida por Kołakowski em seu livro anteriormente citado, o leva a desqualificar toda contribuição filosófica posterior a 1968; entretanto, a posição marcadamente ideológica, que transparece em diferentes passagens da sua obra, choca-se claramente com a necessidade de uma análise mais equilibrada e aprofundada.
114

A sugestão para a elaboração de uma periodização é resultado do desenvolvimento de algumas sugestões desenvolvidas pelo filósofo italiano Guido Neri na qual estabelece uma distinção geracional entre as obras de Lukács, Bloch, Kołakowski e Kosik (NERI, 1980).

180

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

desempenharam um importante papel nos debates teóricos a partir da segunda metade dos anos 1950; iii) um conjunto marxistas acadêmicos que passam a desempenhar um papel importante depois dos acontecimentos de 1968. O final da II Guerra Mundial e a expansão do socialismo para o conjunto de países do leste europeu, incluindo a República Democrática Alemã, trará igualmente mudanças no tocante a publicação das obras de Marx e Engels. Ao IMEL de Moscou, viria se juntar no referido trabalho, o Instituto Marxismo–Leninismo de Berlim. Em 1 956, os Institutos de Moscou e Berliminiciaram a publicação das obras reunidas de Marx e Engels, nas chamadas Marx Engels Werk (MEW), e Marx EngelsSotchinenia que, mesmo não reunindo a integralidade das obras e escritos dos dois autores, alguns textos foram omitidos por motivos ideológicos, e fortemente marcados por introduções e notas que espelhavam a concepção do marxismo–leninismo então em voga nos países do leste europeu. Entre 1956 e 1968, seriam publicados 39 volumes, mais apêndices e índices. Apesar dos aspectos deficientes, a MEW constituiu-se num instrumento de referência e trabalho indispensável para os estudos especializados, como serviu também de base para as futuras traduções das obras de Marx e Engels para diferentes línguas da Europa Oriental, e para as edições chinesa, italiana, inglesa e japonesa. Entretanto, talvez o mais importante empreendimento editorial do período e de toda história da publicação das obras de Marx e Engels, seria o grande projeto de uma nova publicação, iniciado na década de 1970, sob a responsabilidade dos Institutos de Marxismo Leninismo de Moscou e Berlim, da Marx Engels Gesamtausgabe,que passará a ser conhecida como MEGA 2.115 Esta nova edição previa a publicação inicial de mais de 160 volumes, em que cada volume viria acompanhado de um volume de aparelho critico. A Marx Engels Gesamtausgabe, MEGA 2, estava organizada e dividida da seguinte maneira: I Seção: Obras, incluindo as obras, artigos e manuscritos; II Seção: Obras econômicas relacionadas ao projeto de Crítica da Economia Política, a partir de 1857, reunindo as diferentes versões e manuscritos relacionados a O Capital; III Seção: Correspondência; IV Seção: Materiais diversos que incluiria, entre outros materiais, as notas de leitura dos dois autores.
115

Sobre a publicação da MEGA2,alem dos já citados: (LEFEBVRE, 1985).

181

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

Após a publicação, em 1972 de um Probeband, aparece, em 1975, o primeiro volume da nova MEGA, tendo sido publicados até 1990, dos 164 volumes previstos, apenas 36. Entretanto, novamente, acontecimentos políticos interferem na publicação das obras de Marx e Engels; a “queda do muro”, em 1989, seguida da anexação da RDA pela RFA e a posterior dissolução da URSS, levaram ao desaparecimento dos Institutos de Marxismo-Leninismo, em Moscou e Berlim e ao desaparecimento das grandes estruturas estatais que financiavam a publicação das obras de Marx e Engels.116 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANDERSON, Perry. Considerações sobre o marxismo ocidental. 2. Ed. São Paulo: Brasiliense, 1989. ARNASON, Johann P. Perspectivas e problemas do marxismo critico no Leste europeu. In: Hobsbawm, Eric J. História do Marxismo Vol. XI. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1989. BUKHARIN, N. Tratado de Materialismo Histórico. Rio de Janeiro: Laemmert, 1970. BUCI-GLUCKSMANN, Christine. Gramsci y el Estado. Hacia uma teoria materialista de La filosofia. 2 ed. Mexico: Siglo XXI, 1978. GÁNGO, Gabor. La controvérsia por lãs prioridades de Lukács/Brzozowski y sus conseqüências. In. GÁNGO, Gabor. Marxismo Cultura Comunicación.De Kant y Fichte a Lukács y Benjamin. Buenos Aires: Herramienta, 2009. HOBSBAWM, E. J.A fortuna das edições de Marx e Engels. In: HOBSBAWM, E. J. História do Marxismo. Vol. 1: O Marxismo no tempo de Marx. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980. KAGARLITSKY, Boris. Los intelectuales y El estado soviético de 1917 al presente. Buenos Aires: Prometeo Libros, 2006. KOŁAKOWSKI, Leszek. Główne Nurty Marksizmu. Vol. II. Rozwój. Varsóvia: Krąg – Pokolenie, 1988a.
116

Sobre a continuação da publicação do projeto da MEGA 2, apos a dissolução do antigo campo socialista, consultar: texto de apresentação do site da Academia de Ciências de Berlin Brandemburgo: O Projeto da MARX ENGELS GESAMTAUSGABE. Disponível em: http://www.bbaw.de/bbaw/Forschung/Forschungsprojekte/mega/en/Startseite (Acesso em: 18 de agosto de 2009.)

182

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

KOŁAKOWSKI, Leszek. Główne Nurty Marksizmu. Vol. III. Rozklad. Varsóvia: Krąg – Pokolenie, 1988b. KOSIK, Karel. Dialética do Concreto. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1969. KRAJEWSKI Wladyslaw. Introduction: Polish Philosophy os Sciences. In: KRAJEWSKI W (Org.). Polish essays in the philosophy of the Natural Sciences. Dordrecht: D. Reidel, 1966. LABICA, Georges. Dopo Il marxismo-leninismo (tra ieri e domani). Roma: Edizioni Associate, 1991. LEFEBVRE, J-P. Presentation du corpus, In: LABICA, G. 1883 – 1893 L’oeuvre de Marx. Paris: PUF, 1985. LUKÁCS, György. Wprowadzenie do Ontologia bytu społecznego (Ontologia do ser social). Vol. I. Warszawa: PWN, 1982. MARKUS, György no capítulo Discussões e Tendências na Filosofia Marxista de seu livro Teoria do Conhecimento no Jovem Marx, Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1974. NERI, Guido D. Aporie della realizzazione. Filosofia e Ideologia nel socialismo reale.Milão: Feltrinelli, 1980. PASUKANIS, E. B. A Teoria Geral do Direito e o Marxismo. Rio de Janeiro: Renovar, 1989. PROJETO MARX - ENGELS GESAMTAUSGABE. Disponível em: http://www.bbaw.de/bbaw/Forschung/Forschungsprojekte/ mega/en/Startseite (Acesso em: 18 de agosto de 2009.) RAINKO, Stanislaw. Marksizm Stalina. In: RAINKO, Stanislaw. Swiadomosc i Determinizm. Varsóvia: Czytelnik. 1981. RUBIN, Isaak Illich. A Teoria Marxista do Valor, São Paulo: Brasiliense, 1980. STALIN, Josef. Materialismo Dialético e Materialismo Histórico. São Paulo: Global, s.d. VRANICKI, Pedrag. História del Marxismo, Vol. 1. Salamanca: Sigueme, 1977a. VRANICKI, Pedrag. História del Marxismo, Vol. 2. Salamanca: Sigueme, 1977b. WALICKI, Andrzej. O marxismo polonês entre os séculos XIX e XX. In. HOBSBAWM, E. J. História do Marxismo. Vol. 3: O Marxismo na

183

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

época da Segunda Internacional. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1984. ZANARDO. Aldo. El “Manual” de Bujarin visto por los comunistas alemanes y por Gramsci. In. BUJARIN, Nicolai I. Teoria del Materialismo Histórico. 2 ed. Madri: Siglo XXI, 1974. ZAPATA, René. Luttes Philosophiques en U.R.S.S. 1922-1931. Paris: PUF, 1983. ZAPATA, René. La publication des oeuvres de Marx après sa mort, In: LABICA, G. 1883 – 1893 L’oeuvre de Marx. Paris: PUF, 1985. ZHDANOV, A. A. Literatura y Filosofia a la luz del Marxismo. Montevidéu: Pueblos Unidos, 1948.

184

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

A luta pelas leis fabris do século XIX e a definição das idades do trabalho: um estudo sobre a constituição das noções de infância e adolescência
Lígia Regina Klein117 A questão das “idades da vida” 118 perpassa a história humana. Tais “idades” são marcadas por distintas práticas de iniciação, ritos de passagem, modalidades de formação, as quais traduzem a inserção progressiva dos indivíduos em atividades essenciais da sociedade. Por trás de marcos etários, o determinante é a capacidade119 – física e psíquica - de desempenhar certas práticas e funções sociais ligadas à reprodução da espécie e à produção/reprodução das condições de existência – desde as formas mais primitivas como a coleta e a caça, até as formas mais complexas que se enquadram nas condições da indústria contemporânea. Considerando que tais funções e práticas se transformam de época para época, de sociedade para sociedade e, inclusive, no interior de uma mesma sociedade em relação a distintos grupos sociais, é compreensível que tais fases apresentem diferenças quanto à precisão de idade e, mesmo, quanto à relevância atribuída a certa fase em um ou outro contexto concreto. De modo geral, nas sociedades anteriores à emergência do capitalismo, essas fases não são tomadas como objeto de preocupação, em si mesmas. Tendo como referência a condição adulta, servem como meros indicativos para a atribuição de tarefas e funções.Nas sociedades primitivas verifica-se quase que uma indistinção das fases de desenvolvimento, conforme ensina Ponce (1985, p. 19) “as crianças se educavam tomando parte nas funções
117 118

Doutora em Educação. Professora da UFPR. Coordenadora do NUPE-MARX/UFPR.

Título do primeiro capítulo da obra referencial de Philippe Ariès, História Social da Criança e da Família.
119

Evidentemente, não se trata, aqui, de capacidade jurídica.

185

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

da coletividade. E, porque tomavam parte nas funções sociais, elas se mantinham, não obstante as diferenças naturais, no mesmo nível que os adultos”.Na Antiguidade e no Medievo, épocas já marcadas pela divisão da sociedade em classes distintas e antagônicas, embora os processos educativos se diferenciem consoante a classe a que pertencem os educandos, também pouca importância se dá às etapas de desenvolvimento. Não obstante, a idade de sete anos é referida como um marco distintivo entre maior ou menor grau de dependência (PONCE, 1985; MANACORDA, 2006; CAMBI, 1999). Porém, a emergência da sociedade moderna traz uma preocupação, até então inexistente, com uma rigorosa definição de faixas etárias que demarcariam as idades, cujas características distintivas passam a ser objeto de estudo de diferentes disciplinas. As transformações sociais fazem com que não só se estabeleça firmemente uma distinção entre infância e idade adulta, como também originam outras fases de desenvolvimento120. Aqui a adolescência toma assento na temática das “idades da vida”, com uma ênfase nunca antes vista (ARIÈS, 1981; BECKER, 1985; CÉSAR, 2008; SAVAGE, 2009).121 Os estudos deste fenômeno apresentam variados enfoques122, que vão do higienismo à história cultural, passando por abordagens antropológicas, psicológicas, sociológicas e pedadógicas. As investigações se distinguem pela ênfase que atribuem a um ou outro aspecto do tema. Porém, comungam sob certo aspecto: cada fase é explicada por características ou condições subjetivas próprias de certa faixa etária, e abandona-se, sem maior análise, o determinante comum em todas as sociedades anteriores ao capitalismo, qual seja a relação de dependência dos pais e a inserção concreta dos sujeitos nos processos de produção/reprodução da vida próprias de cada sociedade. No trato da adolescência, o traço comum é a idéia de crise, o que
“Durante o século XIX, a puberdade não era considerada uma fase distinta da vida. Embora os homens alcançassem a idade adulta ao entrar no mundo do trabalho, do exército ou do casamento, o tempo passado para alcançar essa meta variava.” (SAVAGE, 2009, p. 82).
120

Segundo Becker (1985, PP. 57-58), “O fenômeno da puberdade provavelmente nos acompanha desde os primórdios do ser humano. Já não se pode dizer o mesmo do fenômeno da adolescência, nem da importância que a sociedade lhe dá. O conceito de adolescência, como ele é hoje considerado, é bastante recente. Até o século XVIII, a adolescência foi confundida com a infância... A noção do limite da infância estava mais ligada à dependência do individuo do que à puberdade.”
121 122

Ver, a respeito, Sirota (2001); Becchi, E., Julia, D (1998); Mauss (1996); Boto (2001); Kulhmann JR (1998); Heywood, 2004, Warde (2007); Calligaris (2009) entre outros.

186

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

impõe à sociedade uma preocupação com as práticas rebeldes dos jovens, bem como os meios e dificuldades de seu controle. A interpretação da construção moderna dos conceitos de infância e adolescência sob os postulados da história cultural tem em Phillipe Ariès uma leitura inaugural e com expressiva influência sobre o trabalho de outros pesquisadores, inclusive entre os pesquisadores brasileiros do campo educacional que se ocupam do tema. A perspectiva culturalista, ao buscar determinações históricas para a constituição moderna dessas categorias, representa um avanço em relação às abordagens deterministas, de caráter biologicista-subjetivista. Entretanto, são limitados os recursos de interpretação, pois pautados em aspectos superestruturais123. Em síntese, as teorizações são ricas na descrição do fenômeno da construção moderna das categorias mas, tangenciando determinações sócio-econômicas, cedem espaço a explicações subjetivistas ou superestruturais, de cunho culturalista. Entretanto, o descrito pede explicação e esta tem raízes materiais. Savage (2009, p. 57) pondera que “o crime juvenil tornou-se uma questão nacional quando as crianças da classe operária urbana forçaram a passagem para a conscientização pública”. Entretanto, o que o autor não considera é que antes de poderem ser ouvidas como delinqüentes, as crianças proletárias da GrãBretanha, ecoaram, desde as florescentes e sombrias indústrias, pela voz dos pais, uma penosa luta pela limitação legal da jornada de trabalho. Ariès, por sua vez, anuncia o papel da escola na constituição das categorias em estudo, entretanto, desconsidera que antes de se constituírem sujeitos escolares, os jovens proletários teriam de desvencilhar-se da condição de trabalhadores124.As perspectivas acima apontadas são fecundas na indicação de mediações presentes na construção dessas categorias. Pretende-se acrescentar, ao tema, elementos do processo material da transformação das crianças e jovens medievais em crianças e
Ariès (1981, p. 115) funda a “invenção moderna” da infância na emergência de um “sentimento” amoroso dos pais pelos filhos. Segundo o autor, a diminuição do índice de mortalidade infantil estimularia os pais a um “investimento afetivo” na prole. A adolescência, por sua vez, como um período intermediário entre infância e idade adulta, teria sido determinada pela progressiva relação entre classe escolar e idade. Para o pesquisador francês, “sem o colégio e suas células vivas, a burguesia não dispensaria às diferenças mínimas de idade de suas crianças a atenção que lhes demonstra, e partilharia nesse ponto da relativa indiferença das sociedades populares”.
123 124

Destaque-se que, diferentemente do que propõe Ariès, é a massiva liberação da força de trabalho mirim – decorrente em grande parte das leis fabris – que criará o contingente de destinatários do sistema de instrução pública. A esse respeito, ver, entre todos, Alves, G, L. A produção da escola pública contemporânea.

187

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

adolescentes da sociedade capitalista, considerando o peso que teve, nessa transformação, a luta proletária pela criação das leis fabris. Conforme a lição de Marx (1983, p. 25), nas transformações sociais, é necessário distinguir a base material e as suas manifestações ideológicas - jurídicas, políticas, religiosas, artísticas ou filosóficas; considerar, enfim, o conflito que existe entre as forças produtivas e as relações de produção. Com efeito, a luta entre capital e trabalho na formulação de uma legislação que atente às condições de resistência física e mental dos trabalhadores é que vai pôr em questão com nova ênfase, e, nesse sentido, construir determinadas fases de desenvolvimento dos indivíduos. Assim, distinguir infância, adolescência e adultidade é uma necessidade que se impõe na modernidade, como fruto das contradições do capitalismo nascente. Uma vez estabelecidas essas fases, conformes à nova estrutura social, elas passam a ser consideradas em diferentes perspectivas da experiência humana: na educação, no direito, bem assim nas novas ciências como a psicologia e a sociologia. Parte-se da hipótese de que as lutas pelas leis fabris, ao longo do século XIX, exercem um papel fundamental na construção de uma nova distinção entre as fases de desenvolvimento. A compreensão desse papel abre novas perspectivas no trato do tema. Os embates pela constituição de leis fabris reguladoras de jornada e idade mínima para o trabalho na fábrica não podem ser ignorados nos estudos da construção das categorias em pauta, posto que inauguram o debate moderno sobre um período de transição entre a infância e a adultidade. Nesses embates, avulta pela primeira vez a necessidade do manejo da idade, como uma forma de proteção das crianças e adolescentes, dado que o ritmo de exploração punha em risco sua sobrevivência e a reprodução da própria classe trabalhadora. O processo de elaboração das leis fabris, ao deparar com a questão da proibição do trabalho infantil e do trabalho noturno, vai obrigar as classes interessadas, bem assim os segmentos de classe, à discussão de limites etários mais complexos que a mera oposição criança-adulto, até então suficiente e fundada exclusivamente na condição de dependência. Inicialmente, cabe lembrar que as leis fabris são criadas, ao longo do século XIX, em um cenário em que se opõem e se articulam forças distintas: a luta proletária contra a exploração; as manifestações de ordem moral dos segmentos “humanitários” das 188

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

classes médias; finalmente, os setores capitalistas preocupados com a dizimação do exército de reserva, que buscam frear a sanha destrutiva da indústria nascente por meio de legislação adequada à segurança jurídica para a continuidade do processo de exploração. A deflagração das lutas proletárias pela legislação fabril se dá no curso de mudanças sócio-econômicas em que se torna evidente o caráter devastador do novo processo produtivo. As novas relações laborais e as expressões ideológicas desse período histórico, por seu turno, impõem profundas alterações nas condições das crianças e jovens, por um lado, ao isolá-los no quadro de novas exigências laborais impostas ao conjunto da família; por outro, ao submetê-los a uma lógica marcada pelo individualismo e inseri-los em uma situação de isolamento e abandono que atinge cada um dos membros da família.É nessa configuração histórica, à sombra das chaminés das fábricas e ao desamparo do mais entranhado individualismo, que vai emergir nova distinção entre idades. Como destaca Vigário (2004, p. 8) “até o século XVII considerava-se que a família, por oposição ao indivíduo, era a unidade essencial da organização social. Nesta perspectiva, as crianças não eram diferentes dos membros adultos da família, uma vez que eram todos concebidos como partes componentes de uma unidade maior, a família alargada”. Na indústria artesanal, mulheres e crianças geralmente trabalhavam em casa, sem perceber remuneração própria, constituindo uma força de trabalho oculta, subordinada à figura do pai provedor. O trabalho infantil contribuía para o bem estar da família e a facultava a aprendizagem das habilidades laborais que lhe seriam requeridas no mundo adulto. “Deste modo, a criança era instruída, socializada, reprimida, sujeita a determinadas condições e protegida do contágio moral na sua própria casa” (VIGÁRIO, 2004, p. 10). Conforme historia Engels (2008), embora as condições de trabalho nessas unidades familiares de produção não fossem ideais, as crianças desfrutavam de ar puro e tinham uma alimentação, não abundante, mas suficiente. Se ajudavam os pais, faziam-no ocasionalmente, jamais numa jornada de trabalho de oito ou doze horas. Trabalhavam duramente, mas o ritmo era menos regular, pois eram donos de seu tempo e podiam dedicar o domingo a Deus e a segunda-feira ao descanso. Quando, entretanto, a expropriação das terras impôs a transferência para as fábricas, a pobreza a que as famílias foram 189

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

reduzidas obrigou que os filhos acompanhassem os pais também no trabalho fabril. Lá, foram submetidos ao ritmo e à jornada do trabalho adulto. A nova forma de engajamento da família no trabalho impõe a dispersão dos seus membros, na vida cotidiana. Seja porque pai e mãe passam a maior parte do tempo no trabalho, ficando os filhos ao abandono; seja porque os próprios filhos, desde tenra idade, são insertos no trabalho fabril e, mesmo quando laborando no mesmo local dos pais, não desfrutam de um convívio efetivamente familiar. Essas mudanças impõem uma notável inflexão nos fins da educação: antes orientada para criar na criança um sentimento de grupo, agora se orienta pela concorrência e o individualismo. Trata-se de uma guinada substancial, sobretudo em relação às sociedades primitivas, nas quais, segundo esclarecedora lição de Ponce (1985, PP. 20-21) esse ideal consistia em adquirir, a ponto de torná-lo imperativo como uma tendência orgânica, o sentimento profundo de que não havia nada, mas absolutamente nada, superior aos interesses e às necessidades da tribo.Antes de preparar os filhos para somar seus esforços aos esforços dos demais, se impõe à família moderna prepará-los para “enfrentar” a sociedade. Antes de ir ao encontro da sociedade, impõe-se ir de encontro a ela. Sob um regime de intensa e generalizada concorrência, inclusive entre os trabalhadores, o individualismo é, agora, a diretriz pedagógica por excelência. Os homens, atomizados, separados e mesmo contrapostos por interesses individuais, encontram-se no mercado. Ali estão os bens de que necessitam, as coisas que constituem o objeto de seu interesse e da sua satisfação. Tudo se vende, tudo se compra: é a nova ordem. Tudo, inclusive os encontros humanos, a partir daí, não mais ocorrem de forma gratuita. Dar-se-ão, doravante, em regra, sob o signo dessa mesma lógica mercantil. Todo o espectro de acontecimentos que ensejam o individualismo dissolve a antiga pedagogia fundada na educação pela convivência. A própria separação física entre crianças e adultos, a impossibilidade de os pais acompanharem de perto o dia-a-dia dos filhos retira da família as condições gerais de sua formação e altera toda a lógica da organização educacional. Urge criar, fora do lar, instituições que eduquem, seja quanto à

190

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

formação moral, seja quanto ao domínio de conhecimentos e técnicas laborais125. Outro aspecto de fundamental importância para a emergência da luta pelas leis fabris, diz respeito às profundas transformações nas condições tecnológicas do trabalho: o desenvolvimento já alcançado à época permite igualar a força e a habilidade laboral de diferentes sujeitos 126. Ao potencializarem e precisarem de forma inaudita os gestos humanos, os novos recursos tecnológicos – sob os auspícios da ciência - tendem a anular as diferenças naturais entre indivíduos adultos e entre indivíduos de distintas idades. Essa igualização cria as condições necessárias para uma nova forma de absorção da força de trabalho infantojuvenil. Entretanto, se esse arsenal tecnológico iguala força e habilidade, não logra superar os limites que se levantarão à intensificação do ritmo do trabalho, facultada por esses mesmos recursos. Aqui se evidencia a relação entre gênero, idade e a forma capitalista da divisão técnica do trabalho. A simplificação do trabalho e o emprego da maquinaria apagam as diferenças entre os gêneros e as idades, tornando todos – crianças, homens e mulheres - capazes de executar as mesmas funções laborais. Entretanto, a intensificação do ritmo do trabalho, demandada pelo aumento da produtividade no interior de uma jornada fixa, recoloca, de forma inafastável, essas mesmas diferenças, tanto demarcando os limites da resistência humana, como impondo a observância de diferentes etapas, idades, condições físicas e psíquicas para determinadas formas de inserção na jornada de trabalho. Assim, concomitantemente à possibilidade de indistinta absorção de força de trabalho dos homens, das mulheres, dos jovens e das crianças, nasce a gritante necessidade de proteger os indivíduos das condições insalubres e da deletéria intensificação do ritmo do trabalho. A revolta dos trabalhadores contra as condições deletérias e aviltantes de trabalho – devastadoras para as crianças
125

Se estas instituições não existirem ou não funcionarem adequadamente, ou forem insuficientes para acolher os filhos dos trabalhadores, estes serão relegados ao mais completo abandono. E aqui se impõe a exigência da modalidade escolar moderna, em oferta tanto quanto possível universal, visto que à família trabalhadora foi subtraída a possibilidade de assisti-los adequada e permanentemente.
126

Dados os limites deste texto, não será desenvolvida a vasta e significativa temática da profunda repercussão do desenvolvimento científico-tecnológico no sistema produtivo e nas relações de produção.

191

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

e jovens – é o solo sobre o qual florescem, no curso do século XIX, as lutas pela legislação protetiva. Na história dessa luta observamse, conforme lição de Marx (1982), duas tendências que se desenvolvem em momentos subsequentes: no primeiro, relativo aos estatutos de trabalho ingleses, a tendência é de extensão da jornada; no segundo, pertinente à promulgação das leis fabris, a tendência foi de sua redução compulsória. Marx (1982, p. 307) situa, nestes termos, ambas as tendências: Sem dúvida, as pretensões do capital no seu estado embrionário (quando começa a crescer e se assegura o direito de sugar uma quantidade suficiente de trabalho excedente não através da força das condições econômicas, mas através da ajuda do estado) se apresentam bastante modestas, comparadas com a jornada de trabalho resultante das concessões que, rosnando e resistindo tem de fazer na idade adulta. E, em seguida, esclarece: É por isso natural que a jornada de trabalho prolongada, que o capital procura impor aos trabalhadores adultos por meio da coação do Estado, da metade do século XIV ao fim do século XVII, coincida aproximadamente com o tempo limitado de trabalho, que, na segunda metade do século XIX, é imposto pelo Estado, com o fim de evitar a transformação do sangue das crianças em capital. No primeiro momento, o capital suga toda a força de trabalho disponível, não fazendo distinção entre homens, mulheres e crianças, em um quadro no qual, diz Marx (1982, p. 316) “todas as fronteiras estabelecidas pela moral e pela natureza, pela idade e pelo sexo, pelo dia e pela noite foram destruídas...”. As máquinas simplificaram o trabalho, suprimindo o domínio de técnicas custosas de difícil e lenta aquisição, e apagaram a distinção física entre os trabalhadores. Isso permitiu a absorção, pela fábrica, de mão de obra não especializada e a substituição da mão de obra masculina adulta pelo trabalho de mulheres e de jovens e crianças. Advinham daí duas grandes vantagens para o

192

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

capitalista: tratava-se de mão-de-obra disciplinável e de menor valor127:

mais

obediente

e

Tornando supérflua a fôrça muscular, a maquinaria permite o emprego de trabalhadores sem fôrça muscular ou com desenvolvimento físico incompleto, mas com membros mais flexíveis. Por isso, a primeira preocupação do capitalista ao empregar a maquinaria, foi a de utilizar o trabalho das mulheres e das crianças. Assim, de poderoso meio de substituir trabalho e trabalhadores, a maquinaria transformou-se imediatamente em meio de aumentar o número de assalariados, colocando todos os membros da família do trabalhador, sem distinção de sexo e de idade, sob o domínio direto do capital. O trabalho obrigatório para o capital tomou o lugar dos folguedos infantis e do trabalho livre realizado, em casa, para a própria família, dentro de limites estabelecidos pelos costumes (MARX, 1982, PP. 449-450). Para receber esse exército pueril, entretanto, nenhuma modificação se observa nas condições da jornada, do ritmo e do local de trabalho. Ao contrário, o trabalho das mulheres e crianças, nas fábricas, realiza-se nos mesmos ambientes e sob o mesmo ritmo e intensidade de exploração a que se submetem os homens, incluída, aí, a máxima extensão da jornada. Desnecessário lembrar que o emprego de mão-de-obra de crianças e adolescentes, naturalmente mais frágeis, ainda não completamente desenvolvidos nem física, nem psiquicamente, acarreta uma deterioração muito mais intensa, pondo em risco a própria reprodução do exército de reserva. Engels (2008, pp. 194-195) menciona o Relatório de Whilliam Sharp Jr., médico da fábrica de Wood, em Bradford, a melhor equipada da região, apresentando elementos que dão uma noção da situação dos pequenos trabalhadores, à época: 1) Pude observar, nas condições mais favoráveis, os efeitos do sistema fabril sobre a saúde das crianças; 2) tais efeitos, decisivamente e em larga escala, mesmo naquelas condições favoráveis, são os mais danosos; 3) em 1842, fui obrigado a tratar
A mão-de-obra infantil – referida como “meia força” – recebia ínfimo salário que, não raro, consistia em apenas um sexto do valor da força de trabalho adulta, quando não fosse pago apenas em troca de alimentação e moradia. Não é sem razão, portanto, que os proprietários das fábricas se mostraram, rapidamente, sequiosos por legiões de crianças e adolescentes, conforme patenteiam inúmeros registros da época. A exploração do trabalho infanto-juvenil, entretanto, não se limita àqueles tempos.
127

193

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

três quintos do total de crianças que trabalhavam na fábrica de Wood; 4) o efeito mais danoso é tornar os organismos, senão deformados, débeis e doentios; 5) em tudo isso, verificou-se uma sensível melhora quando a jornada de trabalho das crianças foi reduzida, em Wood, para dez horas. Sobre o grau de desumanidade a que são submetidas as crianças, Marx (1982, PP. 275-276) faz referência à declaração de um juiz do condado Broughton, que presidia uma reunião na prefeitura de Nottingham, em 14 de janeiro de 1860: (...) naquela parte da população, empregada nas fábricas de renda da cidade, reinavam sofrimentos e privações em grau desconhecido no resto do mundo civilizado... As 2, 3 e 4 horas da manhã, as crianças de 9 e 10 anos são arrancadas de camas imundas e obrigadas a trabalhar até às 10, 11 ou 12 horas da noite, para ganhar o indispensável à mera subsistência. Com isso, seus membros definham, sua estatura se atrofia, suas faces se tornam lívidas, seu ser mergulha num torpor pétreo, horripilante de se contemplar... Igualmente dantesco é o quadro traçado no relatório da Children’s Employment Commission, relativo ao ano de 1863, sobre a situação das crianças e jovens trabalhadores das fábricas de fósforos de atrito: A metade dos trabalhadores são meninos com menos de 13 anos e adolescentes com menos de 18. Essa indústria é tão insalubre, repugnante e mal afamada que somente a parte mais miserável da classe trabalhadora, viúvas famintas etc., cede-lhe seus filhos, “crianças esfarrapadas, subnutridas, sem nunca terem freqüentado a escola” (...) Dante acharia que foram ultrapassadas nessa indústria suas mais cruéis fantasias (MARX, 1982, p. 279). Nesse cenário eclodem os primeiros movimentos da luta operária, inicialmente voltados à redução da jornada de trabalho e à proteção das crianças e das mulheres. A identidade das condições de vida, sofrimentos e angústias dos trabalhadores, ao lado da abissal diferença em relação às condições de existência do patronato, põe em curso um sentimento de pertencimento que, com muita dificuldade, vai cimentando um interesse coletivo, uma vontade comum, uma consciência de classe, uma perspectiva unitária de luta.

194

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

Por outro lado, o próprio Estado vem em socorro do capital, estabelecendo o equilíbrio da concorrência, prejudicado pelo excesso de uns e outros capitalistas, dado que a livre competição “torna as leis imanentes da produção capitalista, leis externas, compulsórias para cada capitalista individualmente considerado” (MARX, 1982, p. 307). Esse socorro vem em forma de uma tentativa de uniformização mínima da jornada, reivindicada em alguns casos pelos próprios capitalistas, conforme registrado no Children’s Employment Comission, de 1863, citado por Marx: No começo de 1863, 26 firmas proprietárias de grandes cerâmicas em Staffordshire, entre elas Josiah Wedgwood & Sons, pediram num memorial “uma intervenção coativa do Estado”. Alegavam que a concorrência com outros capitalistas não lhes permitia limitar à sua vontade o tempo de trabalho das crianças, etc. “Por mais que lamentemos os abusos acima mencionados, seria impossível impedi-los por meio de qualquer acordo entre os fabricantes... considerando todos esses pontos, ficamos convencidos ser necessária uma lei coativa”. Assim, combinando resistência dos operários e apreensão dos capitalistas quanto a um desequilíbrio nas condições concorrenciais – seja pela desigualdade no trato da força de trabalho, seja pelo risco de elevação do seu custo em razão da destruição de um volume substancial do exército de reserva – e com o reforço de publicistas e profissionais liberais, representantes das classes médias, põe-se em curso a segunda tendência do trato da jornada: a sua redução compulsória, por meio da legislação. Por outro lado, os fabricantes, em particular os grandes industriais, evitavam confrontos desnecessários com os trabalhadores (ENGELS, 2008) e em face de iminente agitação, cediam naquilo que, sem maiores riscos, garantisse uma suspensão dos conflitos. Nesse quadro, as novas leis fabris eram gestadas sem que houvesse garantia de sua concreta efetivação. Com efeito, sob uma aparência filantrópica, edulcoradas por um discurso que propugnava por justiça e igualdade, essas medidas eram ineficazes do ponto de vista de seu cumprimento no interior das fábricas, ao mesmo tempo em que revelavam eficácia na outra ponta, ou seja, no apaziguamento dos confrontos. No embate que gesta o catálogo de leis fabris, avulta pela primeira vez a necessidade do manejo da idade, como uma forma de proteção das crianças e adolescentes, cujo ritmo de exploração punha em risco sua sobrevivência e a reprodução da 195

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

própria classe trabalhadora128. Nesse embate, se hão de distinguir crianças, adolescentes, jovens e adultos, como se pretende demonstrar no estudo das mais importantes leis do período 129. O primeiro diploma a ser lembrado é a Lei da Saúde e Moral dos Aprendizes - The Moral and Heralth Act - proposta por Robert Peel e aprovada em 22 de junho de 1802. À época, crianças de todos os rincões da Inglaterra – algumas com apenas seis ou sete anos de idade – eram encaminhadas na condição de aprendizes pelos Poor Law Guardians - para as fábricas, onde eram expostas a todo tipo de sofrimento decorrente do regime de exploração, então sem os limites de qualquer freio legal. A lei foi proposta para minimizar esse estado de coisas. Ela proibia o trabalho noturno dos menores, estabelecendo como limites de início e término da jornada as 6h e as 20h, respectivamente, bem como limitava a jornada a 12 horas. Ainda, determinava algumas melhorias nas condições de trabalho – pintura e melhoria da ventilação do local de trabalho – e de formação dos menores, queteriam de receber alguns rudimentos de educação, freqüentar a igreja mensalmente e não serem constrangidas a dividir a mesma cama com mais de duas outras crianças. O cumprimento dessa legislação dependia de um sistema pouco eficaz: os Juízes de Paz nomeariam, anualmente, dois voluntários para realizarem a inspeção das fábricas - os visitors. A negligência de alguns voluntários, somada à prévia comunicação das visitas – o que permitia o preparo de um cenário adequado para a aprovação do fiscal - bem como à coerção física e moral para que os próprios trabalhadores não denunciassem a situação real em que trabalhavam e viviam explica a ineficiência dessa lei. Uma brecha para o trabalho infantil residia na lei de aprendizagem, que não fazia restrição à idade. Essa brecha era comumente utilizada para burlar os fiscais. Ainda assim, a Lei de 1802, para além de ter sido a primeira legislação protetiva dos trabalhadores, teve o mérito também de lançar luzes sobre o problema dos aprendizes. Em 1815, em um cenário de intensa agitação dos trabalhadores, Robert Owen, defensor da reforma fabril e proprietário de tecelagens em New Larnak, divulga as condições de trabalho de suas fábricas e informa à Comissão de Inquérito que
128

Pela mesma razão - a maior fragilidade - a legislação alcançou a questão do gênero, incluindo à defesa das crianças e adolescentes, também a defesa das mulheres.
129

Na exposição sobre as leis fabris, tomou-se principalmente como referência: Marx (1982); Engels (2008); Vigário (2004).

196

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

não emprega nenhuma criança com menos de dez anos de idade, iniciando uma campanha para limitar a 10 horas diárias a jornada infantil. A campanha encontrou resistência de proprietários do ramo têxtil. Alegavam que o trabalho infantil era imprescindível e, por outro lado, aumentar a folga das crianças, diminuindo-lhes a jornada, propiciaria que elas, desocupadas, adotassem maus hábitos. A polêmica levou à formação de Comissões de investigação, cujos resultados levantados forçaram a promulgação, em 1819, de uma Lei – novamente de autoria de Robert Peel – que estipulava horário pré-determinado para as refeições das crianças, observando-se um intervalo de trinta minutos para o café da manhã e uma hora para o almoço. Também tornava ilegal o emprego de crianças com idade inferior a nove anos e estabelecia a jornada máxima de 12 horas diárias para aquelas com idade inferior a 16 anos. A jornada noturna, das nove horas da noite às cinco horas da manhã, foi proibida para trabalhadores com idade entre nove e dezesseis anos.Com esta lei, pela primeira vez estabeleceu-se um limite etário para o trabalho infantil nas fábricas. Em 1831, votou-se uma lei que proibiu o trabalho noturno para todos os trabalhadores com menos de vinte e um anos. Mas, dada a ineficácia da legislação protetiva já promulgada – em especial, a Lei de 1819 -, os trabalhadores, organizados em associações operárias, deflagraram inúmeros movimentos de agitação reivindicando uma lei que limitasse a dez horas a jornada dos jovens menores de 18 anos. Em setembro de 1830, Richard Oastler publica uma carta-denúncia no jornal de Leeds. Setores mais avançados dos tories, sob liderança de Michael Sadler, assumiram o apoio à Lei das Dez Horas – Ten Hours Bill. Com a perda do mandato, Sadler é substituído, na defesa da reforma fabril, por Lord Ashley, cujos esforços no Parlamento contribuem para a promulgação da Lei de 1833 que conjugava medidas regulamentadoras do trabalho infantil e medidas de inspeção. É importante destacar o ineditismo dessa lei no que se refere a uma diferenciação etária entre crianças e adolescentes. Conforme lembra Vigário (2004, p. 69), “a distinção entre crianças e jovens foi estabelecida, pela primeira vez, na Lei de 1833. Entre os nove e os treze anos de idade eram consideradas crianças e os que tinham idades compreendidas entre os treze e os dezoito eram conhecidos por jovens”. Por esta lei, declarou-se ilegal empregar crianças menores de 9 anos – sendo exigido do médico da fábrica um

197

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

atestado comprovando a idade do empregado. Para as crianças entre 9 e 13 anos, estabeleceu-se 9 horas como teto para a jornada diária e quarenta e oito horas para a jornada semanal 130. Além disso, a lei determinava que os trabalhadores entre nove e treze anos deviam freqüentar a escola por duas horas diárias e apresentar comprovante de freqüência escolar, assinado pelo professor (voucher). Os adolescentes poderiam submeter-se a jornadas de doze horas diárias e sessenta e nove horas semanais, mas era proibido o trabalho noturno (entre as 20h30 e as 5h30) para todos os menores de 18 anos. Essa lei inovou também ao estabelecer um intervalo mínimo de uma hora e meia para as refeições. Apesar da figura do fiscal nomeado – outra inovação da lei -, a fiscalização do cumprimento dos seus preceitos restou dificultada, pois os proprietários fabris estabeleceram o mecanismo do sistema de turnos. Assim, esclarece Vigário (2004, p. 71), “as crianças e os jovens eram obrigados a trabalhar em vários turnos, pelo que os inspetores não se poderiam certificar do seu horário laboral”. Por outro lado, muitos proprietários, insatisfeitos, reagiram demitindo em massa as crianças ou, simplesmente, recorrendo à fraude, que generalizou-se de inúmeras maneiras, facilitada pela ausência de obrigatoriedade de registros de nascimento131, o sistema de turnos, cooptação de médicos e fiscais e, inclusive, pelo valor irrelevante das multas que caberiam aos proprietários em caso de descumprimento da lei. Os parcos resultados concretos dos dispositivos legais forçavam os trabalhadores ao exercício permanente da agitação, na luta por melhores condições de trabalho. Em 1844, nova legislação reduz para oito anos a idade mínima para o trabalho fabril; limita a seis horas e meia ou sete horas a jornada diária das crianças com idade entre oito e treze anos; estabelece a proibição, para menores de treze anos, de jornadas com mais de sete horas sucessivas ou dez horas em dias alternados; e proíbe a ocupação de crianças na limpeza das máquinas em movimento. Entrementes, as associações operárias continuavam a agitação para a criação de uma Ten Hours Bill para todos os operários. Porém, diante da hostilidade dos proprietários fabris, os reformadores adotaram, no Parlamento, a tática de restringir suas exigências aos dispositivos que beneficiavam, além das mulheres,
130

A lei previa um período de transição de 2 anos e meio para a implantação deste dispositivo, de modo que, inicialmente, a restrição limitava-se às crianças de 9 a 11 anos.
131

Somente em 1837 passou a vigorar legislação pertinente ao registro de nascimento. Além do que, sua obrigatoriedade dar-se-á apenas nos idos de 1870.

198

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

os jovens com menos de 18 anos. Por esta razão, a Lei de 1847 – a Lei das Dez Horas – limitou para 10 horas diárias a jornada de trabalho das mulheres e dos jovens operários. Não obstante, o funcionamento das máquinas por 15 horas seguidas, bem como o sistema de turnos, tornava difícil a fiscalização e, logo, o cumprimento desse dispositivo legal. Em 1850 aprova-se nova lei, cuja relevância reside no fato de que, ao estipular as horas de início e término da jornada de trabalho das mulheres, crianças e jovens – das seis às dezoito horas, ou das sete às 19 horas – repercute, indiretamente, na jornada dos trabalhadores homens, adultos, uma vez que era oneroso para o proprietário fabril manter as máquinas em funcionamento nos demais horários somente com a mão-de-obra masculina. Assim, os homens acabaram se beneficiando de uma jornada de dez horas, que não encontrava, ainda, previsão legal para eles. Uma lei de 1874 elevou para dez anos a idade mínima para o trabalho. Em 1891, a idade foi ampliada para onze anos; em 1901 para doze anos e, finalmente, em 1920, para catorze anos. Ampliando as restrições ao emprego de crianças, a Lei de 1878 132 estabeleceu três condições para o ingresso no trabalho: idade adequada, educação suficiente e aptidão física. Essas condições deveriam ser comprovadas por atestados médico e escolar. A lei também ampliou a segurança em relação à limpeza das máquinas, proibindo agora que crianças limpassem também as partes fixas do maquinário em movimento. A pressão popular, com o eventual apoio de setores do capitalismo emergente, preocupados tanto com a reprodução do exército de reserva - com um contingente de trabalhadores suficiente para pressionar para baixo salários e garantir a substituição contínua de mão de obra - como com um possível adensamento das revoltas proletárias, logrou arrancar alguns dispositivos protetivos que obrigaram a sociedade a debruçar-se sobre a questão das diferenças entre crianças e jovens, em relação aos homens adultos. A exploração da força de trabalho, sob o ritmo e a intensidade da maquinaria impõe um debate cujo conteúdo é notadamente original: a relação entre as condições e
132

De 1850 a 1878, outras leis fabris foram promulgadas pelo Parlamento da Inglaterra: Leis de 1856, de 1864, de 1867, de 1871. Essas leis estipularam, entre outros dispositivos, condições de higiene e segurança do trabalho, extensão dos direitos para trabalhadores de outras indústrias, além das têxteis, e para as oficinas; regulamentação das funções de fiscalização, etc. Entretanto, para os objetivos deste trabalho, entendeu-se desnecessário comentá-las.

199

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

limites da intensificação da exploração da força de trabalho e “as idades da vida”. Incorporado à legislação, o marco etário com que se simbolizam aqueles limites passa a ser tomado pela coisa simbolizada. A partir daí, a legislação passa a definir crianças, adolescentes e adultos com referência em mero critério etário e desta forma, ao mesmo tempo em que naturalizam-se “idades da vida”, oculta-se que a definição dessas idades se impõe pelo caráter destrutivo que o trabalho assume sob as relações capitalistas de produção, aviltando mesmo as mínimas condições de preservação física e psíquica das crianças e jovens. A luta proletária pela legislação fabril constitui, assim, um componente fundamental da construção das categorias criança e adolescente nos marcos da modernidade, ao exigir que a sociedade, nos embates travados pela redução da jornada de trabalho, se obrigasse a definir limites para a imposição de condições excessivamente deletérias aos trabalhadores, de modo a garantir, ao menos, a recomposição do exército de reserva. Encontrou-se tal garantia preservando-se minimamente os brotos da vida. Quando adultos, e em condições de cumprir uma de suas funções sob o capital - gerar a prole para renovar a força de trabalho – serão novamente expostos a níveis sempre crescentes de intensificação do ritmo de exploração do trabalho, a menos que, para além de uma definição jurídica das fases da vida, se construa uma nova fase para a vida de toda a humanidade.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALVES, Gilberto Luiz. A Produção da Escola Pública Contemporânea. Campo Grande/MS : Ed. UFMS; Campinas/SERVIÇO PÚBLICO : Autores Associados, 2001.

ARIÈS, Philippe. História Social da Criança e da Família. Tradução de Dora Flaksman. 2 ed. Rio de Janeiro : LTC Editora, 1981. BECCHI, E., JULIA, D. Histoire de l´enfance em occident. Paris: Seuil, 1998. BECKER, Daniel. O que é adolescência? Coleção Primeiros Passos. Vol. 159. São Paulo: Brasiliense, 1985. 200

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

BOTO, Carlota. Crianças à prova da escola: impasses da hereditariedade e a nova pedagogia em Portugal da fronteira entre os séculos XIX e XX. Revista Brasileira de História, São Paulo, V. 21, nº 40, p. 237-264, 2001. CALLIGARIS, C. A adolescência. São Paulo: Publifolha, 2009. CAMBI, Franco. História da Pedagogia. Tradução de Álvaro Lorencini. São Paulo : Editora UNESP, 1999. CÉSAR, Maria Rita de Assis. A Invenção da Adolescência no Discurso Psicopedagógico. São Paulo: Editora UNESP, 2008. ENGELS, Friedrich. A situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra. Tradução de B. A. Schumann. São Paulo : Boitempo, 2008. FIGUEIREDO, Mário João. A Configuração Econômica do Estado na Sociedade Capitalista Contemporânea. Curitiba, 2003, 169 f, Tese (Doutorado em Economia) – Pós-Graduação em Economia, Universidade Federal do Paraná. HEYWOOD, C. Uma história da infância: da Idade Média à época contemporânea no ocidente. Porto alegre: Artmed, 2004. KUHLMANN JR, M. Infância e educação infantil: Uma abordagem histórica. Porto Alegre: Mediação, 1998. MANACORDA, Mário Alighiero. História da Educação: da Antiguidade a nossos dias. Tradução de Gaetano Lo Mônaco – 12 ed. São Paulo : Cortez, 2006. MAUSS, M. Trois observations sur la sociologie de l´enfance. Gradhiva, 20, 1996. MARX, Karl. O Capital (Crítica da Economia Política). Livro 1: O Processo de Produção do Capital. Vol. 1. Tradução de Reginaldo de Santana. São Paulo : Difel, 1982. ____O Capital (Crítica da Economia Política). Livro 1: O Processo de Produção do Capital. Vol. 2. Tradução de Reginaldo de Santana. São Paulo : Difel, 1982b.

201

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE

MARX, K. Introdução à crítica da economia política. São Paulo: Martins Fontes, 1983. PONCE, Aníbal. Educação e Luta de Classes. Tradução de José Severo de Camargo Pereira – 5 ed. São Paulo : Cortez : Autores Associados, 1985. SAES, Décio Azevedo Marques de. Direitos Sociais e Transição para o Capitalismo: o Caso da Primeira República Brasileira (18891930). In Estudos de Sociologia, Araraquara, vol 11, n. 20, p. 23-51, 2006. SAVAGE, Jon. A Criação da Juventude: como o conceito de teenage revolucionou o século XX. Tradução de Talita M. Rodrigues. Rio de Janeiro : Rocco, 2009. SIROTA, Régine. Emergência de uma sociologia da infância: evolução do objeto e do olhar. In Caderno de Pesquisa, no. 112, p. 7-31, março/2001. VIGÁRIO, Sílvia Manuela Pereira. Crianças sem Infância: o trabalho infantil na indústria têxtil e os limpa-chaminés. Minho, Portugal, 2004, 226 fls. Dissertação de Mestrado. Instituto de Letras e Ciências Humanas, Universidade do Minho. WARDE, M. J. Repensando os estudos sociais de história da infância no Brasil. PERSPECTIVA, Florianópolis, v. 25, n. 1, 21-39, jan./jun. 2007.

202

ESTA OBRA FOI IMPRESSA PELA IMPRENSA DA UFPR RUA BOM JESUS, 650 - JUVEVÊ CURITIBA - PARANÁ - BRASIL WWW.IMPRENSA.UFPR.BR IMPRENSA@UFPR.BR

Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Paraná

You're Reading a Free Preview

Descarregar
scribd
/*********** DO NOT ALTER ANYTHING BELOW THIS LINE ! ************/ var s_code=s.t();if(s_code)document.write(s_code)//-->