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Eugenia, princesa von der Leyen

Conversando comas Almas do Purgatorio

Prólogo de Arnold Guillet Prefácio do editor Dr. Peter Gehring Tradução de Alphons Gilbert

JM

edições

São Paulo

1994

Conversando com as Almas do Purgatorio

C A PA : A s pobres almas, que após a m orte perm anecem no

Purgatorio,

sofrem e pedem orações para que sua libertação se abrevie, e sua expiação se acabe. D o Purgatorio sairão rumo à luz do Paraíso celeste, com o a fo rte e p o d erosa águia, que p a rece ir de encontro a o Sol.

<(? 1979 by Christiana-Verlag

ISBN : 3-7171-0748-8

Em língua portuguesa:

©

Rua Martim Francisco, 656 01226-000 São P a u lo-S P

Brasil

1994 by A M edições

ISBN : 85-276-0305-5

Printed in Brazil - Impresso no Brasil Iaedição - 1994 2a edição - 1996

(Tradução da 4a edição alemã - 1985) Título original: M eine G esprüche m it Armen Seelen Tradução: Alphons Gilbert

Créditos da1-lotos

A 1» fni»sd.Li páginas 1 5 9 ,160c 161 foram IVi lux sobeiu.oineiidj d. i editora.

PlIo fotografo Alfrcd Hoffmann, D-8911 Unlcrdicvscn: dneilo autoral sobre o texto. bem com o sobie as fotos das páginas 18U, lh? c 1X3

r e sm

am-se à. editora, A^ dem ais fotos provém do arquivo da princesa

í.udovica von der Leven, castelo de Unterdicssen, [.andsberg, Baycrn.

A obra foi publicada em italiano soh

anime, pela editora de Silvio Dcllandrea.

o título: l m it i collm jiti t on le p o vere

FOTO/PORG.

Eugênia, princesa von der Leyen, pintura a óleo (50 x 57 cm) do pintor ameri- cano-irlandês John Rieger, Teufen (V. a nota na p. 180). A s pinturas a óleo e seus direitos autorais pertencem ao CHRISTIANA-VERLAG.

Brasão da dinastia dos von der Leyen

Selo de Nossa Senhora, usado por Simon von der Leyen (f ¡512), abade de Maria Laach, Arquivo Waal U34, muito ampliado. Desenho de R. Menges.

Oh! Como as Almas do Purgatório sofrem tanto por causa de sua negligência, de sua piedade comodista, de sua falta de zelo por Deus e pela salvação do próximo. Podemos ajudá-las por meio de nossa caridade reparadora que, por elas, oferece atos daquelas virtudes que elas negligenciaram em vida.

Ana Catarina Emmerich

A leitura deste livro produz uma fascinação interior que não se pode expressar por palavras.

Um leitor da cidade de Lucerna, Suíça

A princesa Eugênia, da dinastia germânica dos von der Leyen, do lado materno, da estirpe dos Thum e Taxis, possuía um carisma

todo particular; graças a uma especial disposição da Divina Providên­ cia, teve, de 1921 a 1929, contato com Almas do Purgatório. O pároco Sebastião Wieser, seu diretor espiritual, testemunhou:

“Conheci a vidente nos últimos doze anos de sua vida e todos os dias eu ficava ciente dos acontecimentos que se davam com ela e das

A vidente levava uma vida santa; sua

caridade não conhecia limite?; era prestativa e sempre solícita em ajudar a quem quer que fosse. Era querida por Deus e pelos homens. É verdade que levei a princesa a anotar os fatos que com ela aconteciam; declaro, porém, sob palavra de honra, que nunca, em ocasião alguma, lhe sugeri qualquer opinião minha. Responsabilizo- me, pela veracidade de seu diário, que é totalmente digno de fé ” Na opinião dos especialistas, seu diário é, em comparação com outras obras congéneres, o que há de melhor. Além disso, pela primeira vez, esse seu diário é editado com extensas informações e fotos de sua família, que nos fazem compreender o mundo em que vivia. A doutrina católica nos ensina que existe não só a Igreja militante na terra e a triunfante no céu, mas também a padecente no purgatório. Segundo os planos salvíficos da Divina Providência, esta precisa de nossa ajuda. No diário, este mundo sofredor da Igreja padecente aparece-nos representado por figuras inesquecíveis, que nos imploram com palavras comovedoras e gestos que nos cortam o coração. O abalo emocional que o diário provoca em nosso íntimo voltará a sensibilizar-nos por nossa Igreja, no seu cerne católico, e nos abrirá os olhos para o sofrimento indizível das Almas do Purgatório, destinadas, por Deus, a ser nossas poderosas auxiliadoras, contanto que façamos algo por elas.

aparições que lhe surgiam

O castelo de Waal, com o parque senhorial. À esquerda, embaixo: torre da Igreja da aldeia de Waal.

Quando um editor apresenta aos leitores um novo autor, dirige- lhe uma das mais humanas perguntas, como o fizeram os primeiros discípulos que se aproximaram de Jesus: “Mestre, onde moras?” {João 1,38). Só chegaremos aconhecer alguém afundo se soubermos qual o país, a região, o ambiente e aépoca que o marcaram, onde estão as raízes de sua força. Meu projeto de apresentar em nova edição o célebre diário da princesa Eugênia von der Leyen, oriunda da Suábia, começou a tomar vulto com a visita à nossa editora do pároco Dr. Peter Gehring, de Lindau, no ano de 1978. Por acaso chegamos a falar de Eugênia von der Leyen e viemos a saber que o Dr. Gehring é natural da mesma região e que se criou em Blonhofen, distante uns poucos quilómetros do castelo de Waal. Sentimo-nos felizes porque o Dr. Gehring, familiarizado com o genius loci, se prontificou a comentar a obra e a acrescentar-lhe anotações, pois só um profundo conhecedor do caso e da localidade estaria em condições de fazê-lo a contento.

O alto poder explosivo, contido neste diário extraordinário e

perigoso, entrou repentinamente no campo visual de dois grandes expoentes da época: Hitler, que chegou a proibir a sua publicação (não o teria feito, se o livro fosse inofensivo); e Pio XII, amigo íntimo dos von der Leyen e que, como núncio apostólico, ficara diversas vezes no castelo de Waal e Unterdiessen, foi presenteado pela família

com o original do diário.

Eugênia, oriunda de uma velha dinastia germânica

A autora de nosso diário, a princesa Eugênia von der Leyen und

zu Hohengeroldseck, nasceu em 15 de maio de 1867, em Munique. No livro Genealogischen Handbuch desAdels, Fuerstliche Haeuser

Band X,C) encontramos a seguinte informação:

“De religião católica. Dinastia antiquíssima de Trier. Sua ori­ gem deriva do castelo de Gondorf sobre a Mosela, município de Mayen. Os documentos mais antigos a apresentam como represen­

tante da estirpe Engelbertus de Cunthereve, no ano de 1158; desde

Foi presenteada com

o título de Hohengeroldseck, município de Offenburg, no ano de

1705. Aceitou o título de príncipes por serem seus descendentes

1300 a família adotou o nome von der Leyen

membros soberanos da Aliança do Reno desde 12 de julho de 1806. Os descendentes fazem jus ao título de príncipes, princesas von der ”

Eugênia von der Leyen era filha do terceiro príncipe da estirpe dos von der Leyen. Chamava-se ele Philipp II Franz Erwein, nascido em 14 de junho de 1819, em Waal, onde morreu em 24 de julho de

1882. A mãe de Eugênia era Adelheid von Thum und Taxis, falecida

em 1888. Pela linha materna, Eugênia descendia, pois, da célebre família aristocrática dos Thurn und Taxis, que durante séculos dirigiu os serviços postais no império alemão. O irmão de Eugênia era Erwein II Theodor, quarto príncipe dos von der Leyen, morto aos 75 anos, em 1938. A esposa dele, cunhada pois de Eugênia, era Marie Charlotte de Salm-Reifferscheidt-Dijk (f 1944). O sobrinho de Eugênia, príncipe Erwein III Otto Philipp, foi o seguinte na dinastia (Vejafoto na página 119)-, casou-se com Maria Nives Ruffo delia Scaletta, da estirpe dos Borghese, em Roma (Veja foto na página 120). Foi ela quem, firmemente, acreditou no carisma de Eugênia, em contraste com os outros membros da família, de idéias liberais, e foi ela quem entregou ao papa Pio XII os originais do diário de Eugênia. Para que esta aceitasse o seu carisma, a influência da família dos Borghese foi decisiva. Eles eram, por assim dizer, os mecenas espirituais de Eugênia. Para acentuar essa influência, apresentamos uma foto da princesa Ludovica Borghese. (Vejafoto na página 181.) Vivendo de 1859 até 1928, influiu grandemente, através de sua filha e de sua neta, na missão de Eugênia. Sua filha, Maria Nives, que

Leyen und zu Hohengeroldseck

1. Editora C.A. Starke, Limburg, Alemanha.

casou-se com um membro do castelo de Waal, protegia Eugênia von der Leyen de modo extraordinário, pois estava convencida de seu carisma. A princesa Ludovica, que nos convidara e que com muita delicadeza nos mostrou os dois castelos, recebera seu nome de batismo de sua famosa avó, de Roma, a princesa Ludovica Borghese. Existe também, na esfera da graça, um sistema de coordenadas cujo alcance, na maioria das vezes, aparece só mais tarde. Depois de nova divisão dos domínios pelo Congresso de Viena, o príncipe comprou os dois senhorios de Unterdiessen e de Waal. Em 1924, o interior do castelo de Unterdiessen passou por uma reforma e, em 26 de junho de 1925, o príncipe herdeiro mudou-se para lá. Acompanhou-o Eugênia, que lá permaneceu até sua morte, em 9 de janeiro de 1929. Os trabalhos de reforma continuaram. Em 1923 foram descobertas pedras do tempo dos romanos; tem, pois, funda­ mento a presunção de que os romanos construíram lá uma fortaleza.

Visita ao castelo de Unterdiessen

Eugênia von der Leyen passou paite de sua vida no castelo de Waal e, desde 1925, no castelo de Unterdiessen, distante apenas poucos quilómetros do de Waal. Em 31 de janeiro de 1979, o Dr. Gehring e o editor deste livro foram convidados, pela princesa Ludovica von der Leyen, a visitar os castelos, que ficam na parte da Suábia pertencente à Baviera. Estão situados entre Augsburg e Garmisch-Partenkirchen, 10 km ao sul de Landsberg, no vale superior do rio Lech, 12 km a leste de Bad Wõrishofen, 8 km de Buchloe (atualmente estação da estrada de ferro para aquela região) e a 25 km de Kaufbeuren. Landsberg é uma velha cidade bávara, acima do conhecido Lechfeld, onde o rei Otão I, em 955, derrotou os húngaros numa vitória que passou para a História. A cidade é célebre pela igreja barroca dos jesuítas e pelo paço municipal renascentista. Na cadeia

de Landsberg, Hitieresteve preso em 1924, e amesma cadeia abrigou, desde 1945, os condenados no processo de Nurembergue, cinco dos

quais foram executados. À nossa chegada ao castelo de Unterdiessen, havia muita neve no parque senhorial, mas a rua de acesso e o parque de estacionamento estavam perfeitamente limpos. Latidos fortes do canil indicavam que

o castelo estava sendo bem guardado. No amplo vão da escada, há

muitas gravuras antigas e quadros a óleo, de proprietários dos tempos passados. A princesa Ludovica cumprimentou-nos cordialmente e nos levou ao salão pegado ao grande refeitório. Havia muitas perguntas a fazer, e assim viemos a conhecer novos episódios sobre

a vida de Eugênia. Aqui em família, mas também na aldeia, chama­

vam-na de “Eschi” (pronuncie-se “exe”, forma adaptada ao alemão do nome “Eugenie”). A princesa Ludovica contou-nos que ouvira muitas vezes a mãe dizer: “Eschi era a bondade em pessoa”. Estávamos admirando os muitos tesouros de arte, imagens e lembranças, quando um objeto de forma semelhante a um ostensorio nos prendeu a atenção. O Dr. Gehring o identificou como sendo o invólucro de uma partícula da Santa Cruz, mencionada algumas vezes no diário. Descobrimos, ao abrir a cápsula, resíduos de um selo romano. Tratava-se de um trabalho de ourivesaria barroca, ornado de gemas na frente. Era costume, naqueles tempos, guarnecer objetos preciosos de devoção dessa forma; talvez, esse relicário tenha perten­ cido aos tesouros de uma igreja secularizada. No centro da custódia há uma cruzinha branca, à qual está presa uma partícula da Santa Cruz. Conforme informações do Dr. Gehring, trata-se, geralmente, de partículas de madeira, que haviam sido tocadas na autêntica cruz de Nosso Senhor e que haviam sido bentas pelo Santo Padre; passam tais objetos por relíquias de muito valor. (Ver afoto da relíquia em questão, na página 159.) No refeitório admiramos um quadro autêntico de um antigo pintor holandês, e uma grande pintura representando a condessa Maria von Schõnbom, em tamanho natural; também ela é mencio­ nada no diário. Durante o almoço, na grande sala de jantar, nossos

pensamentos giravam em tomo de Eugênia von der Leyen, que passou os últimos anos de vida— três e meio — , nestes recintos e que, há 50 anos, em 9 de janeiro de 1929 aqui morreu. Mais alguns lembretes históricos: em 1647 nascera, em Unterdiessen, Philipp Konstantin von Thum und Taxis. Durante a Segunda Guerra Mundial, foi guardada em custódia, no parque do castelo Unterdiessen, a escultura, de fama mundial, do grande artista francês, Augusto Rodin, Os cidadãos de Calais, trazida de Colónia; em 1946, os franceses levaram-na de volta a Calais, e dela se pode ver uma cópia, em bronze, no museu de arte, em Basiléia.

Pio XII, amigo íntimo da família von der Leyen

Na biblioteca do salão, em Unterdiessen, há 24 volumes impo­

nentes: as obras completas do papa Pio XII, autografadas pelo próprio Sumo Pontífice e por ele oferecidas à família dos von der Leyen. A mãe da princesa Ludovica, Maria Nives Ruffo delia Scaletta, nascida em 16 de agosto de 1898, aprendera, em sua mocidade, a estimar, como professor de religião, Eugênio Pacelli, que, mais tarde, gover­ naria a Igreja como o papa Pio XII.

A primeira família por ele recebida, como Sumo Pontífice,

foi essa de sua antiga aluna Maria Nives, e, desde então, todos os anos, ele a recebia em audiência particular. Maria Nives descendia da célebre estirpe romana dos Borghese, que dera à Igreja o papa

Paulo V.

A vila Borghese é conhecida por todos os que visitam a Cidade

Eterna. Como já mencionamos, foi Maria Nives, mãe da princesa Ludovica, quem entregou ao papa, pessoalmente, o diário da princesa Eugênia, quando, depois da Segunda Guerra Mundial, foi recebida em audiência particular.

Ela morreu em 6 de agosto de 1971, em Roma, e foi sepultada no mausoléu familiar de Waal. Também o príncipe Otto Philipp Erwein Dl von der Leyen, nascido em 31 de agosto de 1884, seu

esposo, sobrinho de Eugênia, morreu em Roma em 13 de fevereiro de 1970 e foi sepultado no mesmo mausoléu.

Hitler proíbe a publicação do diário

Já dissemos que Adolf Hitler esteve preso, em 1924, na forta­ leza de Landsberg e que, em dezembro do mesmo ano, foi anistiado e posto em liberdade. Em Landsberg, visões apocalípticas de ódio o atormentavam e fizeram com que, mais tarde, fossem sacrificados seis milhões de judeus e que tombassem nos campos de batalha milhões de soldados. Enquanto o cabo Hitler escrevia na fortaleza Landsberg seu livro-programaMe/rt kampf, Eugênia von der Leyen, distante dele 10 km, levava uma vida contemplada misticamente em Deus e escrevia seu diário. Mais tarde, Hitler chegou a ser seu vizinho, por ocasião das visitas no seu “Ninho de Águia”, em Berchtesgaden. Proibiu que se editassem ou que se lessem o diário. Depois de doze anos, o reino milenar de Hitler se esfumou. Sua luta terminou quando se suicidou no abrigo antiaéreo da chancelaria em Berlim. O diário de Eugênia, porém, oferece-nos novas esperanças pelo Reino de Deus, quejamais perecerá.

A igreja da aldeia de Waal

Acompanhados da princesa Ludovica, pudemos visitar, no decorrer da tarde, o castelo de Waal, onde Eugênia passou a maior parte de sua vida e onde escreveu seu diário. Foi aqui, pois, que se deram as aparições das Almas do Purgatório. O castelo de Waal, situado na freguesia que dele recebera o nome, ergue-se numa pequena colina, poucos quilómetros distante do castelo de Unterdiessen. Estacionamos os carros em frente à chancelaria, onde fica a administração do castelo, ao qual pertencem muitas proprieda-

des em terras e florestas. Numa construção comprida ficam as moradias para funcionários e empregados.

As terras do castelo confinam com a igreja de Waal, cuja torre

impressiona pela altura. Aliás, aquela igrejinha destaca-se entre as mais belas que há no estilo neogótico, devido, sobretudo, ao seu interior equilibrado e aos trabalhos artísticos de um mestre marcenei­

ro, oriundo daquela região. Eugênia costumava entrar naquela igreja quando vinha do castelo, e nós tomamos o mesmo caminho. Por um pequeno corredor, chegamos ao oratório da família, mencionado, amiúde, no diário. O oratório é um recinto sossegado de oração. Pelas janelas pode-se ver o altar-mor. Protegida de olhares curiosos, a família podia, ali, rezar sem ser perturbada. Por sobre o altar-mor há uma grande imagem de Nossa Senhora. Interessou-nos, de modo particular, o altar lateral à direita, atrás do qual fica o mausoléu da família dos von der Leyen. Encontram-se também, ali, os restos mortais da princesa Eugênia. Após cada inumação, o mausoléu volta a ser fechado. Eugênia rezava muito nessa igreja, onde vira algumas aparições, entre as quais um velho cavaleiro, mencionado, amiúde, no diário.

Visita ao castelo de Waal

Subindo uma rampa, encontramo-nos, em seguida, no castelo de Waal. A direita, há uma cervejaria que ainda, na segunda década do século, produzia cerveja. O castelo, notável sob muitos aspectos, especialmente por sua larga escadaria, era visitado depois da Segunda Guerra Mundial por muitos americanos. Ali também se encontra o primeiro elevador da Baviera para o transporte de pessoas. Seu contrapeso fica num estreito poço quadrado e é movimentado a manivela.

O interior do castelo impressiona por seus objetos e peças

históricas, destacando-se, entre outros aposentos, o grande e o pequeno refeitórios, a sala de fumar e o escritório. Comoveu-me, de

modo especial, a grande pintura a óleo do príncipe eleitor Johann VI von der Leyen, arcebispo de Trier (1556-1567). O quarto de Eugênia ficava a oeste e tinha 5 m2. Não se encontra mais no estado original, como afirmou a princesa Ludovica. Só a estufa de ladrilhos e a posição da cama continuam como naquele tempo. Quem leu o diário, sabe que Eugênia sofreu muito nesse quarto

e que, frequentemente, viu e sentiu coisas terríveis, que a levavam,

repetidas vezes, ao desmaio. No entanto, Deus dava-lhe sempre novas forças para aceitar o sofrimento reparador em prol das Almas do Purgatório. Pode-se afirmar sem receio de exagerar: no castelo de Waal e no de Unterdiessen, ela foi amadurecendo até tornar-se santa. Ao deixarmos seu quarto, deu-se um estrondo ensurdecedor, que fez tremer o castelo todo. A princesa Ludovica disse-nos que, bem perto da residência, ficava um campo de aviação da NATO e que

a casa sofria muito com o ruído dos aviões, sobretudo quando rompiam a barreira do som.

A família dos von der Leyen

A estirpe dos von der Leyen deu à Igreja muitos homens e mulheres que representaram na vida eclesiástica relevante papel, entre os quais mencionamos:

• Georg II, bispo de Trier, 1 1533;

• Simon, abade de Maria Laach, t 1512;

• Bartholomáus II, decano de Trier, 1 1587;

• Margarethe, abadessa, t depois de 1553;

• Cari Gaspar II, arcebispo e príncipe eleitor de Trier, f 1676;

• Damian Hartard, arcebispo e príncipe eleitor de Mainz, t 1678;

• Lothar Friedrich, cónego de Trier e Worms, t 1640;

• Anna Eleonore, prioresa de Engelpforten, t 1698;

• Marie Agnes, abadessa de Marienberg, Boppard, t 1731;

• Damian Friedrich, cónego de Kõln, Mainz, Würzburg, 1 1817;

• Franz Erwein Sylvester, cónego de Würzburg, Bamberg, 1 1809.(2)

Urna bem pesada vida entre dois mundos

Eugênia von der Leyen teve de levar urna vida opressiva entre

dois mundos, tão pesada que lhe comprimia o coração. Unicamente

o pequeno príncipe herdeiro Wolfram (Veja asfotos ñas páginas 79

e 118.) e os animais domésticos viram algumas de suas aparições,

e mais ninguém. E com ninguém podia conversar sobre esses as-

suntos, a não ser com seu diretor espiritual. Deve ter sido para essa mulher algo de obscuro e confuso: uma invasão do sobrenatural que só foi possível por especial permissão de Deus. Algo tão espantoso, que não se compara com banalidades, como, por exemplo, um pro­ grama de televisão, que também pode informar sobre mundos estra­ nhos. Tudo que se passa no ámbito terrestre fica mais ou menos na superficie. O contato com o Além é incomparavelmente mais profun­ do, pois fica ligado, por assim dizer, a uma corrente de alta tensão, impossível de ser suportado, até físicamente, por qualquer criatura. Só graças especiais de Deus podem sustentar urna tal sobrecarga do Além, sem consequências letais para o ente que a recebe.

Memorias de uma velha aldeã

Para terminar nossa visita, que nos ocupou o dia inteiro, a princesa Ludovica levou-nos a uma velha aldeã, viúva do professor Josef Feistle, que ainda se lembrava bem de Eugênia. A senhora Feistle contou-nos o seguinte:

“A princesa Eschi — todos a conheciam por esse nome — era alta e imponente, muito piedosa e caritativa. Contrastando com os

(2) Wolfgang Kramer foi agregado na historia da casa dos von der Leyen no século XVI.

homens da casa dos von der Leyen, de atitudes liberais, era ela uma cristã fervorosa. De uma simplicidade espontânea e cativante, ajuda­ va até os camponeses a recolher o feno quando ameaçava uma tempestade. Possuía o dom de acertar sempre com o presente que

dava. Para cada um tinha um sorriso. Trabalhava muito pelas Missões, bordava paramentos e organizava coletas. Todos sentiam muita simpatia e profundo respeito pela irmã celibatária do príncipe.” A sra. Feistle lembrou-se também da hora da morte de Eugênia, fato esse que nos interessava de modo especial. Eugênia von der Leyen morreu em 9 de janeiro de 1929, às quatro da madrugada. Perguntei à sra. Feistle se Eugênia empreendera viagens mais longas. Respondeu-me lembrar de que ela viajava para visitar suas irmãs: a baronesa Aretin(2a), em Adeldorf, e abaronesa JulieFrankenstein, em Ulstatt, Franken. Contou-nos, ainda, pormenorizadamente, que em Waal, de dez em dez anos, era representado um mistério da Paixão de Nosso Senhor, como o fazem em Oberammergau, que dista apenas 80 km de Waal, e que o diretor espiritual de Eugênia, o pároco Sebastião Wieser, montou diversas peças desse género: um mistério sobre São Francisco, um outro sobre José do Egito e outros mais. E terminou dizendo: “Os waalenses são bons atores”. Em carta de 7 de fevereiro de 1979, a sra. Feistle nos comunicou ainda os detalhes seguintes:

“A princesa Eugênia quis tornar-se religiosa mas, devido à sua fraca saúde, não foi aceita. Antes de viajar para o convento que a

rejeitara, despediu-se de cada membro da família

me em Waal, segundo o qual, cada princesa, antes de morrer, deveria doar seu vestido de noiva à matriz. A mãe da princesa Ludovica Maria Nives Ruffo delia Scaletta, da família dos Borghese, de Roma, doou à matriz um paramento de missa magnífico, azul-claro, bordado de flores e de debruns prateados. O padre conselheiro Pfersich o vestia

Havia um costu­

(2a) Um filho desta baronesa, Erwein Freiherr von Aretin, é o autor do livro FritzMichael Gerlicli. Ein Martyrer unserer Tage, Verlag Schnell & Steiner, Munique. Gerlich escreveu a grande obra em três volumes sobre Therese von Konnersreuth.

só em festas de Nossa Senhora. Parece que atualmente tais peças já ”

não combinam com a mentalidade moderna

A crença em aparições e em Almas do Purgatório

A região do castelo Unterdiessen é chamada de Fuchstal, vale da raposa. Dois fatos na história local daquele vale merecem menção especial a respeito do diário de Eugênia. Dizem que em tempos passados reinava entre o povo uma forte crença em aparições de

espíritos. Pois bem, tal crença, antigamente, era geral em toda parte

e entre todos os povos. A parapsicologia tem demonstrado, por meio

de provas, que tal crença tem razão de ser; baseia-se em fatos reais. No entanto, parece que os moradores daquela região possuíam uma antena especial para o Além. Em 1694 foi fundada a Irmandade em Socorro das Almas do Purgatório^3), acontecimento que condiz com

o que acabamos de dizer. Enquanto vivermos neste mundo, podemos

contar com a Misericórdia Divina; no purgatório, porém, prevalece

a Justiça de Deus. Num velho restaurante em Oberdiessen, que era considerado a “Casa da Justiça do Povo”, está gravada a frase:

“Olá, juiz, pronuncie sentença justa, Deus é juiz, tu és seu servo. Se tu me condenares embora eu seja inocente, Deus te julgará.” Sem dúvida, os moradores no vale da raposapossuíamum senso bem desenvolvido de justiça e verdade.

Lorelei e von der Ley

Qual a origem do nome von der Leyen? Segundo a princesa Ludovica, sua família se chamava antigamente “De Petra” (“da

(3) B. Hartenberger, Nossa terra em Fuchstal, 1973.

Rocha”). Ley era uma palavra do alemão antigo e significa Fels (= rocha). A palavra germânica “ley” ainda permanece na designação “Loreley”. A lenda diz que “Lore” era o nome de urna das ninfas do Reno. Lorelei significa, pois, a rocha da ninfa Lore.

A rocha da Lorelei se ergue entre St. Goarshausen e Oberwesel,

numa altura de 132 m, à margem do Reno, e produz um eco extre­ mamente forte. O poeta Clemens Brentano introduziu o nome Lorelei

na poesia; também Eichendorff e Heine celebraram a Lorelei. Quan­

do a ninfa estava sentada naquela rocha e penteava seus cabelos dourados, os canoeiros ficavam enfeitiçados por seu canto, de tal modo que não mais ligavam a recifes e pedras, e seu barco se

despedaçava de encontro às rochas. Eugênia, unida à ninfa do Reno pelo mesmo semantema, “ley”, também tem atraído pessoas, as almas de falecidos, não porém de modo mágico e mortífero, mas como mãe compassiva das Almas do Purgatório, com o coração aberto e dando-se a todas elas. Eugênia perguntava, às vezes, por que vinham justamente a ela, e sempre recebia a resposta: “O caminho que leva a ti está livre!”

Santa Catarina de Génova

Não há nada de especial no fato de, justamente, a filha de um príncipe ter contato com as Almas do Purgatório. Nem é novidade na

história da Igreja. Santa Catarina de Génova (t 1510), da estirpe aristocrática dos Fieschi, da qual descenderam os papas Inocencio IV

e Adriano V, sofrera muitas aparições das Almas do Purgatório. Também ela nos deixou um escrito, intitulado Tratado sobre o purgatório. Catarina de Génova é considerada como “um gênio espiritual de primeira grandeza”.

O advogado genovês Ettore Vemazza descreveu sua situação

do modo seguinte:

“Essa santa alma (Catarina de Génova) encontrava-se, enquan­ to vivia ainda neste mundo, no purgatório do amor flamejante de

Deus. Esse amor a devorava totalmente e a purificava de tudo que nela ainda fosse suscetível de purificação. Isso acontecia, para que, quando saísse deste mundo, pudesse apresentar-se aos olhos de Deus, que era seu doce amor. Devido a esse fogo de amor que ardia em sua própria alma, compreendia em que estado se encon­ travam os falecidos que estão no purgatório. Devem purificar-se de toda ferrugem e de toda mancha de pecado de que, em sua vida terrestre, não se livraram. Assim como ela estava unida ao Amor divino — e por isso feliz — aceitando tudo o que esse Amor lhe propiciava, assim também as Almas do Purgatório estão contentes no purgatório^4).” Santa Catarina é considerada a ‘Teóloga do Purgatório”, e São Francisco de Sales não se cansava de recomendar o livro dela:

Tratado sobre o purgatório.

Três irmãs espirituais

Eugênia von der Leyen tinha naquela região onde vivia duas irmãs espirituais que, em 1721, se haviam encontrado em M uni­ que, para um colóquio sobre as coisas de Deus: a bem-aventurada Crescência de Kaufbeuren e Maria Ana Lindmayr (1657-1726). Como o fez Eugênia von der Leyen, assim também Maria Ana Lindmayr escreveu um diário sobre as aparições que viu das Almas do Purgatório^5). Também Crescência tinha visões das almas e contatos com elas, embora seu apostolado não se limitas­ se a ajudar essas pobrezinhas. Leia-se a esse respeito o livro de

(4) Citado conforme o prof. Holbõck, Fegfeuer, p. 85, Christiana-Verlag, Stein am Rhein. É deste autor também o livro: Die Theologin cies Fegfeuers, editado também pela Christiana-Verlag, Alemanha.

(5) Sob o título Minhas comunicações com as Almas do Purgatório, o livro foi editado em 1978, 2a edição, pela Editora Christiana, Stein, Alemanha.

Arthur Maximilian Miller, Crescência de Kaufbeuren, Das Leben einer schwabischen Mystikerin® . O parentesco espiritual entre essas três mulheres nos surpreen­ de. Eugênia von der Leyen, Crescência de Kaufbeuren e María Ana Lindmayr formam uma tríade que constituem uma unidade não apenas geográfica, mas também mental e espiritual. Pertence ainda a essa paisagem espiritual de Waal um poeta:

Petèr Dõrfler, nascido em 1878. Seus romances e históriasAis Mutter noch lebte e Der Sohn des Malefizschenk se passam naquela região. É interessante que, em três de seus romances, descreva a sorte de três mulheres celibatárias que se tomaram, como Eugênia, uma bênção para todauma comunidade: “JudithFinsterwalderin(1916),Apolônia, filha de um moleiro e, nos companheiros da Jungfer Michline, descreveu três vultos incomparáveis de mulher que, por sacrificarem sua própria vida, se tomaram uma bênção para todos”/ 7)

O mestre do lago de Constança

Para chegar à residência de Eugênia von der Leyen, tive de viajar ao longo do lago de Constança e por um mecanismo de associações mnemónicas, veio-me à lembrança a figura do místico Henrique Seuse (ou Suso), de Constança. Não sei se Eugênia leu os livros de Henrique Seuse (1295-1366). Sabendo-o ou não, foi ele seu grande mestre, pois o tema do purgatório e de suas Almas do Purgatório é longamente tratado em seus escritos, e seus ensinamentos tomaram- se património comum da Igreja. Assim é que lemos no sexto capítulo de sua Vita:

“Naquela mesma época, ele ficou sabendo, em visões, muitas coisas futuras e secretas. Deus permitiu que ele sentisse e, enquanto

(6) 2‘ edição, 1976, Editora Christiana, Stein, Alemanha.

(7) O Grande Herder, 1953.

fosse possível, compreendesse certas verdades relacionadas com o céu, com o inferno e com o purgatório. Acontecia-lhe freqüentemente que muitas almas de falecidos lhe apareciam e lhe diziam o que lhes havia sucedido, por que sofriam no Além, como podiam ser socorri­ das ou como eram suas vidas perante Deus. Entre outros, apareceram- lhe também o bem-aventurado mestre Eckhart e João, da família Futerer, de Estrasburgo. O mestre comunicou-lhe que vivia numa glória transbordante e que sua alma submergira totalmente em Deus.

Pediu-lhe então o servo que lhe explicasse duas coisas: primeiro, de que maneira se encontravam em Deus os homens que se haviam esforçado para agradar à Verdade Infinita, querendo, em tudo, cumprir a vontade divina? Recebeu a resposta dé que ninguém era capaz de expressar, com palavras humanas, algo a respeito da submersão dessas pessoas no abismo inconcebível de Deus. E continuou a perguntar: o que o homem devia fazer para chegar a tal união com Deus? Veio-lhe a resposta: Que se renunciasse totalmente

a si mesmo, aceitasse todas as coisas e todos os acontecimentos como

vindos de Deus e não das criaturas e que tivesse perfeita paciência para com homens cruéis. O outro irmão, João, mostrou-lhe, em visão, a beleza transbor­ dante de gozo de sua alma gloriosa. Seuse pediu-lhe também que respondesse à seguinte pergunta: O que seria mais doloroso e mais útil aos homens? O irmão João respondeu que não havia nada de mais doloroso e de mais útil, e que todos deveriam, com toda a paciência diante de Deus, renunciar à própria vontade e entregar-se plenamente

à vontade de Deus. O próprio pai, que havia levado uma vida mundana, apareceu- lhe depois da morte e, de face dolorosa, mostrou-lhe o castigo inimaginável que sofria no purgatório e que constituía o motivo principal de seus sofrimentos. Disse-lhe, então, como poderia aliviá- lo desses sofrimentos, e Seuse foi imediatamente socorrer o pai. Este mostrou-se-lhe novamente, dizendo-lhe que, devido à sua ajuda, já não sofria mais. Sua piedosa mãe, de quem, enquanto ainda viva, Deus se servia para fazer milagres, apareceu-lhe, mostrando-lhe,

numa visão, a grande recompensa que recebera. Algo de parecido lhe tem acontecido com muitíssimas outras almas, fato esse que lhe dava grande consolo e o animava a continuar na sua maneira de servir a Deus.”® Essas quatro aparições, mencionadas expressamente pelo bem-aventurado Seuse, não foram as únicas que lhe foram conce­ didas. Aconteceram-lhe por ocasião de sua resoluta conversão a Deus, quando evitava qualquer encontro inútil, preferindo dedi- car-se à oração e a exercícios de penitência extremamente seve­ ros. As aparições fortaleciam seus bons propósitos e o consola­ vam quando tentado por desânimo ou tristeza. Enchia-se-lhe o coração de alegria e júbilo quando via entrar uma alma no céu. Despertavam em sua mente delicada compaixão e vontade de ajudar quando via no purgatório a alma de pessoa conhecida. Animado pela convivência familiar com as Almas do Purgatório, Seuse fazia muitas meditações sobre o purgatório, que lhe servi­ am não apenas para rezar e penitenciar-se pelas Almas, como também para extrair, de suas reflexões, as diretrizes norteadoras de sua vida. No Livrinho da sabedoria eterna, cap. 24, canta ele também as loas do purgatório e de suas Pobres Almas:

“Senhor, continuo me dirigindo a Vós. Se eu tivesse de morrer agora, e se fosse para eu ficar ardendo no purgatório 50 anos, eu me sujeitaria à Vossa Glória. Louvado seja o fogo que me fará cantar o Vosso louvor.” “Meu suave Senhor, que suba a Vossos olhos grande louvor, semelhante àquele rico e gozoso louvamento que os Anjos Vos deram depois de terem passado pela prova e se terem alegrado com sua aceitação no céu, depois de terem assistido à reprovação dos Anjos revoltosos. Que o meu louvor suba a Vós semelhante aos hinos de louvor que Vos prestam alegres as Almas quando saem do terrível

(8) Heinrich Seuse, Publicações místicas alemãs, do médio alto-alemão, traduzido por Georg Hofmann, 1966, Editora Patmos, Diisseldorf, Alemanha.

cárcere e aparecem diante de Vós e, pela primeira vez, contemplam Vossa Face amável, a Fonte de Eterna Alegria^9).”

Podem as Almas do Purgatório aparecer sob a forma de animais?

Muitos leitores do diário de Eugênia não conseguem familiari­ zar-se com a idéia de que certas Almas se mostrem sob forma de animais repelentes e nojentos; assim, por exemplo, quando Egolf se mostra em forma de umgrande macaco “de olhos em brasa”, e Maria R. como serpente, pois “ela foi o símbolo de minha vida, juramentos quebrados, tudo mentira e fingimento”.

A isso pode-se dizer: Também outros videntes, homens e

mulheres, têm visto as Almas do Purgatório sob a forma de animais. Certa vez, Jesus disse a Santa Brígida da Suécia, numa visão: “O que é espiritual não te aparece tal qual é, mas em forma corpórea; para que tua mente possa compreender as verdades, elas são apresentadas em símbolos e comparações”.

O médico-chefe Dr. Kemer, de religião luterana, escreveu em

seu livro Die Seherin von Prevorst, que um espírito disse à vidente de Prevorst(in); ‘T u nos vês como é o nosso caráter”.

O Dr. Kemer fala também de outra mulher, à qual aparecia

muitas vezes um espírito sob forma de animais nojentos, com a aparência de coruja, de gato, de feio cavalo etc.

José de Gõrres, o grande especialista em mística, da Universi­ dade de Munique, escreve em sua obra Mística cristã( ' de cinco volumes, sobre a Irma Francisca do SSmo. Sacramento, da Ordem das Carmelitas, que “apareciam, às vezes, a essa Irmã, pessoas

(9) Heinrich Suso, Livreto da Gegenbauer, Alemanha.

eterna sabedoria, traduzido por Oda Schncider, 1966,

(10) Editora J. F. Steinkopf, Stuttgart, 3a edição, 1973.

(11) Joseph von Gõrres, Mística cristã, v. III, p. 476. Editora Manz, Regensburg, 1840.

falecidas sob formas terríveis, mais parecendo um animal do que gente. E como, em tais casos, Francisca ficasse tão aterrorizada, a ponto de desmaiar, essas almas, no seu primeiro aparecimento, não

se mostravam sob essas formas mas qual sombras flutuantes, até que ela se acostumasse ao seu aspecto animalesco”. Os fenómenos aqui descritos ocorreram, também, em todos os detalhes, com Eugênia von der Leyen.

Não só castigo, mas purificação sucessiva

Será que no purgatório a alma sofrerá só castigo? Terá ela que suportar dores, quantitativamente medidas, durante um período rigorosamente tabelado? Não seria isso um castigo totalmente mecâ­ nico? O Dr. Miguel Schmaus, conhecido professor de Dogmática, da Universidade de Munique, propiciou-nos a verificação desse proble­ ma de modo muito mais diferenciado e muito mais profundo. Na sua Katholische Dogmatik, ele escreve:

“A doutrina da Escritura (Mateus 13,22), dos Padres da Igreja, da maioria dos teólogos medievais, a oração litúrgica, a Santidade de Deus e a dignidade da pessoa humana parecem harmonizar-se melhor com a hipótese de se dar no purgatório também uma transformação do homem, uma remissão dos pecados e um acrisolamento da alma,

e não apenas um suportar do castigo decretado por Deus. A Igreja

pede em suas orações que Deus perdoe aos mortos os seus pecados.

A palavra “peccata” significa não apenas os castigos pelos pecados,

mas também, e principalmente, pecados. Parece corresponder mais ao poder da Santidade Divina que Deus exerça sua influência na vida

do homem, transformando-o, melhorando-o, do que proibir-lhe, por castigo, a entrada no céu, embora esteja totalmente purificado. A

imagem de Deus, apresentada pela Sagrada Escritura, nos mostra que Ele une a Santidade, a Justiça e o Amor. Parece-me pois ser mais acertado aceitar a hipótese que Ele não só castiga mas também purifica o homem, agraciado e querido por Ele. Condiz também com

a dignidade da pessoa humana, elevada ao estado espiritual, que os

mortos, enquanto não ressurgirem na visão e no amor da Verdade e da Perfeição infinita, e dessa graça não estiverem totalmente penetra­ dos, sejam purificados na entrega amorosa a Deus, de todos os resíduos e escórias terrenos. Essa transformação se relaciona com o pecado e com as inclinações más dele nascidas”.

O irresistível fascínio da doutrina sobre o purgatório

A verdade sobre a existência do purgatório começa a atrair irresistivelmente também os não-católicos. O historiador Golo Mann escreveu em longa recensão do livro de Peter Berglar A hora de Thomas Morus:

“Morus, tão bom conhecedor da Escritura quanto Lutero, tem defendido tudo aquilo que ajudara a Igreja no seu crescimento; o historiador o segue sem enrubescer. Quem apenas conhece minha recensão, poderá estranhar que o autor se identifique enérgica e extensamente com seu herói, quando Morus sustenta e defende a doutrina do purgatório e, com isso, as orações e missas pelas Pobres Almas e até as indulgências para socorrê-las. Ora, ninguém, dotado de senso comum e que saiba raciocinar, pode ignorar a existência de uma comunidade e de uma comunhão entre os que vivem, com os que faleceram. Tampouco se pode ignorar também a necessidade de uma purificação da alma antes ou depois da morte. E o leitor talvez se pergunte: Como pode estar errado o que é tão razoável, tão sensato, tão conforme os nossos sentimentos mais íntimos? Ou, ainda, consul­ tando a história, propor-se a seguinte asserção: Quando, sob escár- nios e zombarias se deu a desagregação e a destruição dessas profundas verdades vitais, quão terrível deve ter sido o sofrimento da gente boa!”('2)

Desde o martírio de Thomas Morus, até o dia do falecimento de Eugênia von der Leyen, decorreram 450 anos.

(12) Diário Regional “O mundo”, de 23/12/78.

Observações a respeito deste livro

Durante o nazismo, o diário de Eugênia passou, em cópias hectografadas, de mão em mão, como se fazia também com as poesias

de Reinhold Schneider.Um desses exemplares se encontra ainda com

a viúva do professor Josef Feistle. Depois da Segunda Guerra

Mundial, apareceu a obra sob o título Erlõste Seelen (Almas Remidas), em doze edições no Schacke-Verlag, Wiesbaden. Há anos, essa editora deixou de existir. O editor belga Markus Schrõder, de Eupen, publicou também quatro edições sob o título Zwischen Himmel und Hõlle (= entre o céu e a terra). Markus Schrõder faleceu em 24 de

março de 1976. Em consideração aos parentes vivos foram omitidos ou menci­ onados pelas iniciais os nomes das pessoas citadas no diário. Agora, porém, transcorrido meio século depois da morte de Eugênia, não existe mais razão para se ocultar ou omitir nomes das pessoas às quais se faz menção. Por isso, sempre que possível, e ajudados por testemunhas oculares e por parentes de personagens, que o diário arrolou, temos dado os nomes por extenso. A obra ganha, com isso, mais autenticidade, podendo, assim, ser confirmada a veracidade—

e exatidão ■— das informações. O homem por cuja iniciativa o diário foi escrito e publicado é Sebastião Wieser, confessor e diretor espiritual da princesa. A nosso pedido, respondeu o Ordinariato de Augsburg que ele morreu em 11 de outubro de 1937, em Augsburg-Oberhausen. Pelo elenco do clero daquela diocese, sabemos que foi pároco em Waal, de 1916 a Io de junho de 1926(12a).

Uma prova da autenticidade

Geralmente, o Bom Deus não é pródigo com testemunhos de autenticidade pelo simples motivo de não nos eximir da prova de

(12a) Outros estágios de sua prática: pároco em Dezenacker, 1908, pároco em Kreuzthal, 1911, pároco em Steinheim, 1931, pároco em Seehausen, 1934.

nossa fé. Todavia, em casos de agraciamento místico, há um ou outro sinal que nos faz reconhecer a autenticidade da atuação divina.

Na sexta-feira santa de 1949, morria em Gerlachsheim, Baden, após 68 anos de sofrimentos expiatórios pelas Almas do Purgatório, com a idade de 86 anos, Margarete Scháffner. Como escreve o professor Georg Siegmund, ela pedira ‘‘a Deus um sinal de que ela não era vítima de um engano^13), de sua própria fantasia ou de um logro diabólico. Apareceram-lhe então, duas vezes, Almas do Purgatório, que deixaram gravada num pano a marca dos dedos da mão, que parece ter estado em fogo, fornecendo, pois, um sinal visível que ela havia pedido. O Ordinariato de Freiburg exigiu e recebeu para exame aqueles panos ”

Outra prova interessante de autenticidade carismática devemos

a Ana Caterina Emmerich. Com base em suas visões, foram feitas

importantes escavações e descobriu-se a última morada da Mãe de Deus, em Éfeso.

A prova da autenticidade do carisma de Eugênia consiste no

fato de ter recebido a predição do dia de sua morte que, embora tivesse sido feita de forma enigmática, foi bem clara. Confirma-

o o professor da Universidade de Munique, Dr. Antón Seitz, que

analisou pormenorizadamente o fato no estudo: Prinzipielle wissenschaftliche Beurteilung des Tagebuchs von Eugenie von der Leyen(14) (= Apreciação conforme os princípios científicos do

Diário de Eugênia von der Leyen). Num dia de Finados, Eugênia perguntou a um padre dominicano: “Sabes quando eu hei de morrer?” Respondeu-lhe ele: “Três vezes nove”. Ela disse: “Não te entendo”. Retrucou a alma: “Também não é para ser entendido por ti!” Eugênia veio a falecer em 9 de janeiro de 1929, data em que ocorre três vezes o número nove.

(13) A respeito de nossos mortos, Mensageiro bendito, fevereiro de 1979, Wels, Áustria.

(14) BrunoGrabinski, Almas salvas, 1958, Editora Max Schacke,Wiesbaden, Alemanha.

A opinião do cardeal Luciano

João Paulo I, quando era ainda patriarca de Veneza e se chamava Albino Luciano, concelebrou, em 10 dejulho de 1977, a santa missa, com Dom J. Venancio de Leiria-Fátima. No dia seguinte visitou-o, no Convento de Leiria, Irmã Lúcia, a vidente de Fátima. Naquela ocasião deu uma brilhante resposta a todos aqueles que desdenhosa­ mente desprezam aparições marianas ou encontros com Almas do Purgatório, por serem revelações particulares. Comentando sua entrevista com a Irmã Lúcia, ele escreveu:

“Alguém poderia perguntar-me: Mas terá um cardeal interesse em revelações particulares? Não sabe ele que o Evangelhojá contém tudo? E que nem as aparições aprovadas são artigos de fé? Certamen­ te, bem o sei. Existe, porém, um artigo de fé na Sagrada Escritura (Marcos 16, 17): ‘aqueles que crêem serão acompanhados por milagres!’ Hoje está na moda investigar ‘os sinais do tempo’. Há uma verdadeira inflação e uma praga de sinais. Por isso, eu acho ser conveniente ligar às coisas que são postas em evidência por um determinado sinaK15).”

Até o Concílio Vaticano II advertiu que não se devem desprezar tais carismas:

“Esses dons devem ser aceitos com gratidão e alívio porque se adaptam de modo especial às aflições e necessidades da Igreja, tanto faz, se esses dons são de extraordinária intensidade ou se têm um

Quem julga sobre a autenticidade e as

caráter simples e comum

conseqiiências práticas deles são os que governam a Igreja e que têm o dever de não apagar o Espírito e de examinar tudo e ficar com o que ébom (16).”

(15) Citado conforme à revista ¡I Cuore delia madre, janeiro de 1978.

(16) Vaticano II, Constituição sobre a Igreja, 13.

O livro tem uma tarefa e missão a cumprir

O diário de Eugênia é uma provocação para o nosso tempo, é um livro que tem causado horas insones a muitas pessoas, e a inúmeras outras, conforto e alívio, pois nos mostra que até mães assassinas de seus filhos e outros grandes pecadores podem ser salvos pela mise­ ricórdia divina. Não se trata de histórias baratas de horror, fabricadas para mexer com os nervos de leitores enfadados; trata-se de fatos, de relatos de aparecimentos de pessoas falecidas, que causaram verda­ deiro sofrimento existencial a Eugênia von der Leyen. O leitor pode assim lançar um olhar ao mundo do Além, que, algum dia, será o nosso também. Hoje em dia, muitos católicos já não possuem mais a verdade toda. Há paróquias em que certas verdades não são mais assunto de catequese e pregação, como, por exemplo, mandamentos, pecado grave, purgatório, inferno, anjos, demónios, Maria Santíssima, e, deste modo, verdades importantes da nossa Fé são relegadas ao esquecimento. Na Igreja formou-se um grande vácuo; apresentam- nos apenas a Igreja terrestre, o povo de Deus em marcha, mas da Igreja triunfante, dos santos no céu, e da Igreja padecente, das Pobres Almas no Purgatório, não ouvimos quase nada. Parece-me que, por isso, este diário tem uma tarefa e missão providenciais: com a força de um autêntico carisma pode sensibilizar-nos novamente para o mundo do Além e abrir-nos os olhos para os novíssimos, que atualmente são relegados por gente tola. Se nos faltasse a convicção de estarmos unidos a nossos irmãos poderosos no céu, união essa que nos faz tão felizes, unidos a nossos companheiros de dor no purgatório, que tanto precisam de nossa ajuda, se nos faltasse essa convicção, sentir-nos- íamos extremamente pobres na nossa religião e nos nossos sentimen­ tos mais elementares. As Almas do Purgatório não podem rezar por si mesmas, podem, porém, conseguir tudo em nosso favor junto a Deus, se fizermos algo por elas. E este um dos mistérios mais admiráveis da economia de salvação do nosso Deus.

A admirável economía de salvação

O conhecido jesuíta Comelius Lápide van Steen (1567-1637), professor de exegese em Louvaina e em Roma, explica-nos a economia de salvação de modo muito claro, ao tratar da passagem do segundo livro dos Macabeus, cap. 12, versículo 43:

“O sacrificio pelos falecidos é sagrado porque está sendo oferecido ao Deus Santo, em santa atitude espiritual. É santo e piedoso também quanto às Almas do Purgatório que, por meio dele, são libertadas dos tormentos terríveis e das chamas do purgatório. Santo é o sacrifício em relação aos Santos e Bem-aventurados, cujo número e cuja alegria e glória aumentam principalmente em relação à Igreja, a qual nos concede advogados e intercessores junto a Deus e, também, em relação ao celebrante, a quem, as almas, salvas por intermédio dele, mostram-se gratas, implorando ele graças para a sua própria salvação^17).” No diário procuram-se em vão conselhos leves; é a aflição, é o sofrimento indizível das Almas do Purgatório, que gritam por socorro. Escreve Ana Catarina Emmerich, uma das maiores místicas da Igreja:

“Oh! E triste que tão pouco se faz para ajudar as Almas do Purgatório! Toda obra que se oferece a elas, esmolas ou sacrifícios, alivia-lhes imediatamente as dores, ficam, por isso, alegres e felizes quais homens morrendo de sede, que recebem as gotas salvadoras de água cristalina.” Advirta-se sobre o advérbio “imediatamente”. Dizemos que os moinhos de Deus moem morosamente, mas por que, então, tanta pressa em aplicar às Almas do Purgatório nossas boas obras? Quem pensa com o coração acerta a resposta: É que Deus, para usarmos linguagem humana, anseia, com infinito amor, para que as almas, feitas conforme sua imagem e semelhança, fiquem totalmente

(17) Comentários ao Segundo Livro dos Macabeus, Antuérpia, 1693, p. 302, em Símbolos da Eucaristia no Antigo Testamento, de Severin Grill, Klosterneuburg, Alemanha, 1960.

puras, para que Ele as possa estreitar em seus braços e apertá-las ao Seu Coração. Essa é a explicação do grande poder das Almas do Purgatorio. Se nós lhes prestarmos ajuda, alcançam mais depressa a purificação. Deus não hesita, falando em termos humanos, de pagar um alto preço por esse nosso interesse. Compreendemos, pois, que as Almas do Purgatório não podem ajudar-se a si mesmas, no entanto, podem alcançar junto a Deus grandes graças por nós. Merece menção o que disse a já mencionada bem-aventurada Crescência Hõss de Kaufbeuren: “Se quero receber de Deus uma graça bem importante, invoco as Almas do Purgatório e sempre sou atendida.” Seremos tolos se não nos convencermos destas verdades. Se os nossos pregadores, em vez de se dedicarem tanto à psicologia e a obras sociais, dissessem aos homens as verdades sobre as Almas do Purgatório e sobre as outras grandes realidades da religião, em breve, as nossas igrejas vazias se encheriam de fiéis, ávidos de ouvirem e meditarem sobre essas verdades, ao invés de reduzidas, como se encontram hoje, a uma existência meramente museulógica. E tu, alma querida, que estás lendo estas frases, se tu não acreditas nessas verdades expressas porcada linha deste diário, faze um teste: Se precisas de uma grande graça, oferece um sacrifício a valer pelas Almas. Reze para que se cumpra a vontade de Deus e verás que a ajuda vem. As Almas do Purgatório não deixarão de te ajudar. São as mais amigas, as mais fiéis de todas as pessoas que Deus te deu neste mundo.

Arnold Guillet

editor

[

PREFACIO

Asfontes onde nascem os misterios nunca se encontram lá, onde instituições e poder reivindicam direitos sobre a posse desses misté­ rios; elas irrompem em algum lugar onde ninguém o espera. Pessoas agraciadas artistas, santos, músicos surgem em tempos e lugares qual presente do Espirito Santo, e seu aparecimento nosfaz. rezar: “Nós Vos agradecemos por todas essas magnificencias que provêm da Vossa Fonte de Luz e Amor epelos homens se revelam ”. Nós, quepormuito tempo esperávamos a salvação pela ciência, e que estamos agora diante de grandes bibliotecas que nos torturam qual um coro loquaz de dissonâncias selvagens, temos percebido, tarde demais, que esses professoresfuncionários eram teólogos do Estado, e que Gõrres, sob a deijicação do Estadopor Napoleão e pela Prússia, clamava por um novo Atanásio. Pois este, enfrentando a oposição dos poderosos bispos da corte e do Estado no século IV, restabeleceu os direitos de Deus por não permitir, a nenhum poder do mundo e a pessoa nenhuma, de se erguer por cima clo Altíssimo. Toda a luz que há no mundo éLuz. de Deus. Toda a verdade brota de uma sófonte. Tudo e todos devem dobrar osjoelhos diante do Senhor Jesus Cristo. Nem as instituições eclesiásticas podem dispor, a seu talante, desse único SenhoreDeus, poisnão sãofonte, mas agraciadaspelafonte.

Quem nos ajuda contra a montanha de areia movediça?

Depois de, no século XIII, ter alcançado o apogeu, a academia teológica deu ensejo a queixas ininterruptas. Henrique Seuse, o grande místico, lamenta que ela nãofosse capaz, de lhe dar verdadei­ ra satisfação e paz da alma, e que deixasse sua mente inteiramente desconcentrada. A arrogante confiança na capacidade científica do homem tem se desmascarado justamente nos tempos atuais, qual esforço para assimilar a tnontanha de areia movediça de conceitos académicos. Cristo e a Sabedoria Eternajá não são aceitosplenamente.

Quem nos conseguirásabedoria concentrada ?Lemosno capítulo setedo EvangelhodeSãoJoão: "No último dia, ornais importante dafesta, Jesus veio a público e exclamou: Se alguém tiver sede, venha a mim e beba. Quem crê em mim, do seu interior correrão rios de água viva”. Possuir espírito quer dizerpreocupar-se, com infinita inquieta­ ção, para com a eternidade. Ofilósofo Sõren Kierkegaard censura os que acreditam possa o espírito meramente terreno, que governa

a técnica e a política, solucionar asprofundas preocupações existen­

ciais do homem. Impulsionados pelo mesmo pensamento do filósofo dinamar­ quês, apresentamos, aos espíritos investigadores, a mais importante obra sobre apariçõesdepessoasfalecidas, reconhecidapelosmaiores especialistas da mística religiosa como a mais pura e a mais autêntica documentação desta doutrina. Trata-se dos apontamentos que anotava em seu diário, entre 1921 a 1929, a princesa Eugênia von der Leyen. No transcurso daquele período, sofreu ela as mais extraordinárias aparições de pessoas falecidas. Nós, que vivemos entre duas épocas, e assistimos ao definhar do reinado de uma teologia racionalista e mumificada, assistimos, igualmente, à decadência dos hábitos burgueses e de uma época em que boa parte dos cristãos perdeu a fé na vida eterna. Que ninguém seja tão simplista a ponto de pensar em um

ressurgimento da velha Fé, só porque a teologia racionalista está em agonia; tampouco cantem vitória osfiéis, sópor se sentirem tentados

a proclamar que estavam com a razão. Poisjá entramos na segunda

época há pouco referida. Agora se levantam forças poderosas que, apesar de estaremfora da religião católica, tratam da preocupação mais íntima do homem, efazem declarações a respeito dos mistérios escondidos no findar da vida e na morte.

Associações de parapsicologia na Europa e nas Américas,

médiuns de talento indiscutível, sociedades místicas secretas em toda

a parte buscam, com avidez, desvendar os mistérios do Além. E

fazem-no valendo-se de recursos científicos e experiências clínicas.

Todavia, essa curiosidade do homem moderno ela própria— nos

adverte que não estamos em condições de solucionarfacilmente, e sem perigo de errar, o problema da morte. O príncipe deste mundo, do qualfala o Salvador, não é apenas político mas quer ser também “diretor espiritual Ele pretende tomar inofensivas as perguntas, e justamente as mais íntimas, aquelas que, depois do malogro do racionalismo, intentamfazer. Ele as teme, e não as podendo respon­ der, joga-as no remoinho da confusão. Não se sente incomodado pelos teólogos católicos, entre os quais muitos estão ocupados em expor o Corpo Místico da Igreja católica a bacilos perigosos, devido às monstruosas experiências que com elefazem.

Temos que esperarpelos poetas?

São ospoetas que devem avivar nossa consciência ? Temos que esperarpor eles para alguém nos dizer que devemos preocupar-nos, apaixonadamente, com a sorte das almas dos nossos falecidos? Escutemos aspalavras suplicantesdo grandepoeta alemão Friedrich

Hebbel(I8l3-J863):(W

“Alma, não os esqueças, alma, não os esqueças, osfalecidos! Vê, eles esvoaçam em torno de ti, tiritando defrio, abandonados, e se também tu, arrefecendo perante eles, fechares tua alma, então seu íntimo mais profundo gela-se e agarra-os o turbilhão da noite ao qual, em espasmos se torcendo resistiam no seio do Amor e, qual implacável caçador, os persegue com violento furor por sobre a mortalha do deserto sem Jim que cobriu a vida;

(18) Hans Urs von Ballhasar: Prometeu, Estudos sobre a história do idealismo alemao, 1947, 2a edição inalterada, Editora F.H. Kehrle Heidelberg, Alemanha.

lá ruge o combate de forças soltas em procura de uma renovação de seu modo de [ existir,

de seu modo de existir- de seu modo de existir Alma, não os esqueças, alma, não os esqueças

,

osfalecidos.

Temos que rejeitar qual monstruoso erro a sentença: “Nada sabemos de urna vida depois da morte, pois ninguém voltou de um mundo no além”; ou aquela outra sentença: “Crer significa não saber nada”. Há muito que homens da têmpera de um Ludwig Klages se opuseram a essa visão do mundo, divulgada entre opovo simplespor marxistas, liberais ejovens, estes por aqueles doutrinados que defende a existência de uma alma racionalista e mecânica. Klages sentiu que a mente cometera urna separação catastrófica, distanci­ ando-se do resto do corpo. Mas, reconhecer um erro não significa, necessariamente, conhecer a verdade e, por isso, esses pensadores desiludidos não encontraram o caminho ci sabedoria dos génios religiosos, istoé, dos santos. E, em sua cegueira, enveredaram, pela antroposofia, pelo espiritismo oupelas drogas, pretendendo alcançar regiões mais vastas, já que haviam sentido a irremediável limitação de seus conhecimentos. Nesse sentido, o escritor Aldous Huxleyfez experiências com a mescalina e via vultos heróicos, seresfabulosos, fantasmas, regiõesfantásticas, e constatou que a produtividade do cérebro “perturbador ” é amortecida pelos entorpecentes, que con­ seguem passar pela parede que, antes, era protetora e indevassáivel. As drogas foram desmitijicadas e mostradas, na realidade, como forças que destroem o homem, não se podendo, em sã consciência, delas esperar nenhuma revelação do Além.

Claudel nosfornece a explicação

Desprezando as cavernas diabólicas das drogas e as sessões ameaçadas por influências igualmente demoníacas, procuramos o

poetafrancês Paul Claudel, para lhe perguntarpor que é tão estéril o nosso espírito. Claudel era um alto funcionário do Ministério do Exterior. Podia colher experiências em todas aspartes do globo. Num esforço dramático lutava para se santificar. A história que ele nos conta do “animas "eda “anima ”(= cabeça e alma) nos mostra as dificuldades de sua caminhada. O leitor não acostumado a símbolos é o que comumente ocorre com o homem da nossa época atenta para o trágico fato de estar o nosso íntimo dividido, e, por isso, despojado de conteúdo humano. Claudel quer demonstrar o desenvolvimento errado do nosso espírito e explicarpor que, contentando-nos com os conhecimentos superficiais da cultura moderna, temos fechado as fontes da ciência do divino amor. Escutemos a história de Claudel:

“Não está dando certo o casamento de Animus com a Anima, do espírito com a alma. A lua-de-melfoi de curta duração. Naqueles dias, Anima podia à vontade dirigir-se a Animus que, encantado, a escutava. Mas há muito tempo que isso se dava. Aliás, fo i ela quem trouxe o dote que mantinha a casa. No entanto, Animus não agiientou sua posição de subalterno e, em breve, mostrou seu verdadeiro caráter: injlado, pedante e tirânico. Ele acha que Anima é uma bobinha que nunca frequentou escola, enquanto ele é sabido, pois

tem lido tanta coisa nos livros e Iodos os seus amigos dizem não haver ninguém quejale melhor que ele. Anima nem pode mais abrira boca ele sabe melhor que ela o que ela quer dizer. Animus não éjiel, o que, porém, não o impede de ser ciumento. Pois no fundo ele sabe (desculpem, ele, enfim, o esqueceu) que todos os bens da casa são dela e que ele é um mendigo e só vive daquilo que Anima lhe dá. Por isso, ele constantemente a explora e a tortura para extorquir-lhe dinheiro. Ela continua em casa, calada cuida da cozinha e faz a

Outro dia, porém, algo de

Certa noite, Animus voltou para casa

limpeza do lar, do melhor modo possível

estranho aconteceu

inesperadamente e ouviu que Anima,

cantava, sozinha, de si para si, uma canção esquisita, algo que desconhecia. E não houve meio de encontraras notas ou aspalavras ou a chave. Era uma canção rara e maravilhosa. Desde então ele tem

lá dentro, de porta fechada,

tentado, perfidamente, conseguir que ela a repetisse; Anima, porém, fa z de conta que não o compreende. Basta que ele olhe para ela, ejá se cala. A alma cala-se. Enfim, Animus ideou um truque: ele consegue arranjar as coisas de tal modo, que ela chega a supor não

Aos poucos, Anima se acalma: ela olha para o

alto, escuta atentamente, respira, julga estar só e, baixinho, vai ci porta e abre a seu amado divino”. E, pois, devido à nossa condição mundana quejá não compre­ endemos a intimidade da nossa vida com Deus; seu Amor para conosco tomou-se algo de estranho. O que fo i que nos iludiu e nos imbuiu da vã suposição de que seríamos capazes de decifrar os enigmas da vida pela nossa esperteza? a cobiça de possuir? a sofreguidão pelo poder? a cupidez de satisfazer o sexo? Seja o que for, ofato é que nos separamos da humanidade inteira. Sabe-se, no entanto, que os mortos continuam a viver no Além. A experiência dá testemunho de que os falecidos continuam vivos. Nunca se ignorou que os seres humanos têm uma vida eterna e pode-se dizer que as relações com os mortos não se trata de uma crença, mas de um saber, de conhecimentos de todos os povos e de todas as comunidades tribais. Osm'istériosdoEgitogiravamsomente,numapreocupaçãoinjinita, em tomo da sobrevivência eterna do Homem. Ele sentia sua grandeza e sabia ter recebido um destino, uma vocação especial. E este seu saber produziu todas as culturas. Mas a situação particular em que se achava, trazia consigo preocupações, inquietação e melancolia, pois sentia que não era deus e que ele, no Além, estaria sujeito a umjulgamento, e que seria julgado conforme o objeto de seu amor. Mas o amor é sempre participação no amordivino. E um caminho áspero que deve ser tomado por aqueles que procuram conhecer a verdade: o duro caminho dos mortos que recebem a graça de aparecer a santos deste mundo.

estar ele em casa

Para Eugênia não havia muro

Foi uma cruzpesada que a princesa Eugênia von der Leyen teve de carregar, padecendo os sofrimentos das almas que, em sua vida terrestre, muito fracassaram na prática do amor a Deus. Para

Eugênia, na muralha entre a Igreja padecente e militante, havia muitas brechas. Seus sentidos percebiam a horrenda realidade do pecado e, com isso, sofria terrivelmente sua alma amorosa. Foi documentado que ela via mortos, pois estes chegavam a dizer-lhe como se chamavam, e isto ocorria até com pessoas desconhecidas,

cuja vida terrestre podia ser averiguada. A pessoa da vidente é, hoje, muito conhecida, e, para o leitor desta obra extraordinária, será gratificante conhecer melhor a personalidade de quem a escreveu. A princesa (por seu caráter humilde e amoroso preferiríamos chamá-la simplesmente “essa cristã”) nuncafalou a ninguém sobre

o que se passava com elci, nem a seus familiares. A única pessoa a

quem se dirigia a respeito dos casos por ela vividos, era o pároco,

homem inteligente e culto, que lhe recomendou escrever um diário. Antes de morrer, em 9 de janeiro de 1929, com a idade de 62 anos, ela entregou o diário ao seu diretor espiritual; este, ao deixar a paróquia, levou-o consigo, e, por sua vez„ confiou-o, antes de sua morte, ao escritorBruno Grabinski, pessoa muito versada em mística

e parapsicologia, a quem devemos a publicação do diário. O diretor espiritual de Eugênia era bastante crítico. Ele, que

também faz.jus

¿i nossa gratidão, declarou sob juramento:

“Eu conheci a vidente durante seus últimos doze anos de vida; todos os dias tinha conhecimento de seus encontros com almas. A

meu conselho, ela anotava o que via num diário. Nem ela e, no início,

A vidente levava uma vida

santa. Era de uma piedade autêntica, humilde como São Francisco, zelosa na prática do bem e desmedidamente generosa: sempre

prestativa e pronta a renunciar à própria vontade, disposta aos maiores sacrifícios, querida por Deus e por todos que a cercavam. Quem a conhecia, venerava-a. Jamais desejou atrair a atenção de quem quer quefosse. Tinha um talento especial para prestarfavores

e proporcionar surpresas agradáveis aos outros. O caráter da

princesa é a mais sólida garantia de que merece crédito. Declaro, sob

juramento, que a aconselhei a anotar, clara e integralmente, suas experiências reais, mas nunca, e em parte alguma, lhe sugeri quaisquer opiniões minhas. Sob qualquer ponto de vista, respondo

nem eu, tivemos a intenção de publicá-lo

pela credibilidade do diário e peço ao leitor lembrar-se da princesa que, certamente, está agora fruindo a visão de Deus; ela merece nosso respeito e nossa gratidão. ” Um seu primo, o príncipe C. L., confirma a declaração do pároco Sebastião Wieser:

“Subscrevo plenamente a apreciação de sua personalidade, feita pelo pároco Wieser. E totalmente exata. Ela vivia sacrificando-se pelos outros, efazia-o gostosa e alegremente, semfazer caso disso. Era de uma simplicidade total, sem afetação, e sem quaisquer pretensões pessoais.

Tinhamuito senso de humore comicidade, pois era inteligente, muito viva

e alegre. Era querida em toda parte, e muito procurada para fazer

companhia. As crianças eram loucas por ela. ” Uma empregada escreveu a Bruno Grabinski:

“A princesa era amiga de todos, alegre e desprendida de si mesma. Todo o mundo gostava muito dela. Desconhecia totalmente caprichos; continuava sempre amiga e carinhosa. Acho que a idéia do sacrifício e da reparação pelos pecados já, a conduzia naquele tempo em que a conheci. ”

Arrasta-me umafelicidade nunca imaginada

As experiências da princesa não foram de natureza parapsicológica; provam-no asfrases que lançou no seu diário, em 4 de maio de 1924 e em 18 de março de 1925. São comovedoras, pois demonstram que ela experimentou a tomada de posse do Espírito Santo totalmente perplexa e sem entender a felicidade íntima que gozava. Com toda humildade pede, em seu abandono, explicação

daquilo que se passa em sua alma. Não se trata de visões, de êxtases,

é a vivência íntima da união com Deus, do mais alto grau daquela que

ama, daquela que carrega a cruz. “Tenho de adorar e amar— não sei como descrevê-lo: é como um desfazer-se em algo de divino. Eu lhe peçoeu. Eu não o quero, mas aquilo vem e se apodera de mim numafelicidade inconcebível. ” Essa experiência, como Amor Divino, sem qualquer colaboração daparte delci, e sem que ela consigafòrmular qualquerpalavra, não tem

explicação natural. A anima (= alma) está sendo agarrada, impregnada de calor e de claridade de Deus. O amor de Deus arde no imo da alma, depois de ela terfeito cruz sua vivência e suaforma de pensar. Dos escritos da doutora eclesiástica, Teresa de Avila, e de outros místicos, podemos depreender essa felicidade, constatando, ao mesmo tempo, com tristeza e pavor, o quanto os teólogos hodiernos, neste ramo da teologia, nos têm defraudado. “Como acreditarão Naquele do qual nada ouviram?” (Romanos 10, 14). Muitos leitoresdo diário, homens que queriam conhecero realismo eaveracidadeda religião, descobrem,justamente nisso, revelações cujos frutos são fé, amor e humildade e que fazem que a alma se volva a si mesma. Num mundo como o nosso, torturadopor todos os amargores do mal, rebaixado até o animalesco, roído pela lepra do pecado, ainda bruxuleia a esperança. “Chego a ti, qual um enfermo ao médico da vida, qual cego à Luz da Eterna Claridade ”, reza S. Tomás de Aquino. Não existe editor que consiga descobrir um autor capaz de escrever uma tal obra. Inúmeras vez.es o mundo em que vivemosfo i pesquisado. Mas é esse o mundo verdadeiro em que vivemos? E só isso que nos cerca? Estamos rodeados por pessoas falecidas que, indizivelmente tristes, querem comunicar-se conosco enquanto olha­ mos unicamentepara o mundo terreno. Oh! que miserável escravidão em que nos metem os sentidos!

Em harmonia com o ensino da Igreja

Para que o leitordo diário entenda um pouco o mistério da alma e a escravidão do nosso espírito às coisas do mundo, mencionare­ mos, na abundância dos mistérios, duas noções que derivam das aparições: música e beleza. Eugênia escutava sons surgindo de algum lugar indefinido. Embora não possamos confiar no espiritismo, sabemos, porém, que um médium dificilmente pode concentrar-se sem música religiosa. Até um povo que sofre catástrofes ou pranteia mortos queridos, deve mudar de programa de rádio e televisão, pois é impossível guardar o amor e a dignidade ao som de música selvagem, que apela para os

músculos. Dizem que Elvis Presley, aofim de sua vida, tinha reconhecido que boa parte da música moderna estragara a alma da mocidade. Por isso, a liturgiaprecisademúsicasublime,poisem lugarsagrado, a música dos músculos é com razão considerada blasfema. A alma, “anima ”, anseiapela melodia que ¡heabre osolhospelo “celeste esposo ”, e que lhe dá umafelicidade que não é deste mundo. Ela vê também, aterrada, a feiúra do homem em pecado, e, na subida da alma à Luz, a beleza readquirida da imagem de Deus. Os sábios gregos viam três possibilidades para participar da Divindade: pela bondaile, pela beleza e pela verdade. O que nos apresentam como cultura nos tempos atuais é aquilo que éfeio, grotesco, estúpido, perverso e imoral. O que aconteceu conosco? Tomaram- se nossos guias osfilhos das trevas? O estupro da beleza da criação deve apenas horrorizar-nos e advertir-nos para não considerarmos afeiúra da arte como algo que nos possa elevar espiritualmente. O diário está em harmonia com a doutrina da Igreja. Mesmo a teologia conservou, até hápouco, tudo quanto a princesa experimen­ tou. Só que tudo isso seria como que umferro em brasa, no qual não se toca. Mas agora chegamos a reconhecerpor que as universidades não compreenderam a alma humana, por que Kierkegaard com toda a razão protestava contra a renúncia ci sabedoria viva, e por que Henrique Seuse se sentia totalmente “desconcentrado ”, incapaz, de se recolher. Quem no-lo ensina, por meios audiovisuais, é a mocidade e até alguns adultos, que se contaminaram com o mundo desorganizado das seitas, das “religiões da juventude" e até do marxismo, e que abandonaram o Salvador Crucificado eprocuraram refúgio no mundo selvagem e cruel. Nietzsche via nisso o arroubo faminto das profundezas do ser contra o Crucificado. Pilatos perguntava: “O que é verdade ? ”As realidades vividas pela princesa e confiadas ao diário são verdades que nos tomam capazes de solucionar as secretas preocupações pela nossa sorte na eternidade, e compreender a virtude da esperança qual presente divino.

Dr. Peter Gehring

DIARIO DA PRINCESA

EUGENIA VON

A freira

DER LEYEN

• 9 de agosto de 1921 — Cinco horas da tarde. Vi nojardim, entre duas árvores, uma freira. Parecia estar me esperando. Pensei tratar-se de uma velha conhecida e apressei-me a ir ao seu encontro. De repente, ela desapareceu sem deixar vestígios. Retomei o caminho para ver se uma sombra de árvore me ocultara a visão. Mas não descobri nada de especial.

• 13 de agosto — Dirigindo-me à igreja, a freira veio ao meu

encontro.

• 19 de agosto — Ela passou ao meu lado; vi, claramente, pelo hábito que vestia, pertencer às Irmãs de Mallersdorf/1)

• 25 de agosto — Encontrei-a na escada que leva à capela.

• 30 de agosto — Ela me esperava à porta.

• 11 de setembro — Avistei-a no jardim.

• 14 de setembro — Dei com ela na capela. Antes da missa, vi

algo refletir-se na vidraça dajanela à minha frente. Pensei que ajanela atrás de mim não estivesse bem fechada. Virei-me, e lá estava ela. Examinei-a detalhadamente. Ela tinha os olhos grandes, escuros e muito tristes. Nãoestava pálida, e tinha ojeito de qualquer pessoa com quem topamos todos os dias, mas era-me totalmente desconhecida. Parecia não ter braços, e causou-me uma sensação horrível porque estava pertinho de mim.

• 17 de setembro— No jardim, ela deslizou rápida ao meu lado.

• 19 de setembro — Eu brincava de bola com urna criança,

I.

congregação feminina muito espalhada na Baviera; a casa-mãe está cm Mallersdorf (Baviera).

As Irmãs de Mallersdorf (As Pobres Franciscanas da Sagrada Família) são uma

quando, de repente, a freira passou entre nós duas. Devo ter feito uma cara muito assustada, pois a criança perguntou-me o que eu estava vendo.

• 22 de setembro— A freira estava sentada na escada da capela.

• 2 de outubro — Eu estava colhendo flores. Lá estava ela na

minha frente, de tamanho sobre-humano. Faltou-me ainda coragem

para dirigir-lhe a palavra, e quando me havia resolvido a falar-lhe, ela desapareceu.

• 7 de outubro — Infelizmente, entrou também no meu quarto.

Com uma sensação desagradável, acordei. Acendi a luz; ali estava ela junto à minha cama. Transida de medo, faltaram-me forças para lhe

falar. Defendi-me contra ela com água benta. Passou por cima de mim e entrou na parede. Que susto, meu Deus! • 11 de outubro— Fui deitar-me por volta de dez horas da noite.

A

conversa com os hóspedes fora muito boa; era a época da caçai la)

e,

nem de longe, pensava nela. Acendi a luz; ali estava ela, junto à

minha cama. Passei rente a ela, fui à pia de água benta, dei-lhe algumas gotas elhe perguntei: “O que queres que eu faça?” Com olhar penetrante, fixou-me e disse, sem mexer os lábios: “Deixei de enviar vinte marcos às Missões^1b)”. Não me lembro se lhe prometi mandar aquela soma às Missões ou se apenas lho dei a entender por um gesto afirmativo de cabeça. Naquele momento, eu estava impressionada

demais. Em todo caso, ela estava satisfeita, pois se aproximou muito

de mim, como se quisesse dizer-me alguma coisa. Causou-me tanto

medo, que a borrifei depressa com água benta, e ela desapareceu janela afora. Embora tudo tenha sido tão excitante, dormi muito bem.

(1 a) As caças, para as quais se convidavam parentes e amigos, eram sobretudo aconteci­ mentos sociais.

(1b) Ao ler estas linhas, muitos ficam surpresos e comovidos anteo fato de alguém, por causa de vinte marcos, tivesse que sofrer tanto. Parece que tais leitores se enganam, pois não se esclarece qual a razão do sofrimento da freira nem sc mencionam os pecados que a levaram àquela situação. Em todo caso, aqueles 20 marcos são sinal de sua maneira errada de viver.

Os vinte marcos foram enviados às Missões e pela pobre alma foram rezadas santas missas. Tive sossego até o dia 3 de novembro, data em que me foi concedida uma grande alegria. Quando, pelas onze da noite, fui deitar-me, vi o meu quarto iluminado. Pensei que havia deixado a luz acesa, e entrei. A freira estava no mesmo lugar em que ficara na vez anterior. Mas, que diferença! Saiu dela como que uma luz radiante. Seu hábito escuro estava como que envolto em brilho. Mas o mais reluzente era a expressão de seu rosto. Acho que seus olhos já haviam visto o Bom Deus. Ela me olhou, sorrindo feliz. Pela pri­ meira vez, vi suas mãos; estavam cruzadas sobre o peito. Seu rosto só era comparável a uma opala; não encontro outra comparação; tive uma surpresa e um susto muito grande, e tão alegre e estarrecida me senti, que não me lembrei de perguntai' outra coisa a não ser:

“Como te chamas?” Muito solene, ela fez o sinal-da-cruz; o quarto ficou escuro e ela desapareceu. Por conseguinte, não fora a luz elé- trica que o havia iluminado. Estou certa de que não me enganei. E impossível sentir o que eu senti se tais coisas não tivessem aconte­ cido realmente. A aparição me parecera bem mais alta que nas outras ocasiões e, pela primeira vez, seus pés não tocavam o chão. Foi a última aparição da freira e que, por assim dizer, me abriu, talvez, os sentidos do corpo e da alma para novos encontros.

A condessa Maria Schonborn(2)

• 4 de fevereiro de 1922 — As nove horas da manhã, encontrei-

me com uma senhora de vestido marrom, gola branca de rendas e touquinha do mesmo feitio, bastante alta e esbelta, à moda da segunda metade do século passado. Não a conhecia.

(2) Como já mostramos na apresentação deste livro, a princesa Eugênia von der Leyen escreveu em seu diário todos os nomes por extenso, motivo pelo qual o livro alcançou grande veracidade.

• 17 de fevereiro — Vi-a na escada.

• Io de março — Outra vez na escada.

Estive ausente até 20 de maio. No dia de minha volta, eu a vi entrar na biblioteca do segundo andar. Outra vez, em 26 de maio. Quando, em 28 de maio, domingo, voltei da primeira missa, ela subia a escada à minha frente e entrou novamente na biblioteca. Já que eu havia tomado a comunhão, tive coragem de segui-la. Quando fui abrir a porta, estava ela voltada para mim, como se me esperasse. Perguntei-lhe: “Quem és tu?” — “Maria Schonborn”. Era, pois, a irmã de uma tiaminha que eu não chegara a conhecer. Perguntei-lhe: “O que queres de mim? Por que não encontras paz?” — “Aqui pequei!”, respondeu-me, e desapareceu. Rezamos por ela, muito; e nunca mais a encontrei. Já mencionei que estive fora em março e abril. Em O., fiquei no quarto de uma querida parenta minha, que falecera. Naquele quarto, não a vi. Certo dia, num passeio, em meio a um prado, ela veio ao meu encontro, de ancinho no ombro, muito suada, e ria para mim. Quase que não acreditei no que meus olhos me mostravam. Ela me aparecera como sempre o fora, e se eu não me encontrasse em companhia de outros, teria gritado de alegria. Infelizmente, pouco depois, ela desapareceu. Nada falei do acontecido em casa. Contei apenas aonde tinha ido. Disseram-me: “Oh! lá em cima! a Hortense costumava ajudar uma pobre mulher a fazer feno.” Tive a impressão de que ela não precisava de minhas preces. Antes, vi nesse encontro um sinal, pois nós éramos muito amigas e eu lhe contara ahistória da freira e deixado a seu critério aceitá-la ou não. Ela me respondeu não poder acreditá-la sem falar comigo a esse respeito. No entanto, antes de trocarmos idéias, faleceu.

Os “onze” e o pároco Schmuttermeier

Em 4 de julho de 1922, vi, pela primeira vez, as onze sombras que me aparecem constantemente. São colunas de neblina clara, de

tamanhos diferentes. Vejo-as sempre no terraço da frente e no morro

que desce atrás da cervejaria. De quando em quando, chegam bem perto de mim. Não se reconhece que se trata de vultos humanos, antes se parecem com aspargos gigantescos, envoltos em neblina. Vejo-as tantas vezes que já não ligo, nem anoto a data em que se mostram. Na festa do Natal, depois da primeira missa, chegaram perto de mim; disse-lhes: “Se sois Almas do Purgatório, adorai o Menino Jesus”. No mesmo instante, curvaram-se como que atingidas por um raio, e desapareceram. Estranho, aquilo!Pois até agora nunca haviam reagido a qualquer palavra minha.

• 27 de dezembro de 1922 — Vi o pároco Schmuttermcicr®

aproximar-se de mim quando me achava no jardim. Foi por um instante apenas, mas estou certa de que não me enganei/4) •9dejaneirode 1922— Ele me esperava próximo à capela. Seu aspecto não era nada bom. Perguntei-lhe: “Sr. vigário, posso ajudá- lo?” Ele pediu que eu mandasse rezar uma santa missa; o que foi leito na primeira oportunidade. Apareceu-me à noite daquele mesmo dia.

• 25 de janeiro — Foi pela quarta e última vez que o vi. À noite,

fui à igreja. Vi no confessionário a branca manga de uma sobrepeliz. Achei estranha a presença do vigário no confessionário, pois não havia gente na igreja; pensei comigo, porém, que não demoraria e chegariam pessoas para se confessar. Veio-me a idéia de eu também aproveitar a ocasião, e me confessar. Passados uns cinco minutos, ouço abrir-se a porta do confessionário — e sai o pároco Schmutter- meier; passa perto de mim, sorri-me cordialmente, caminha pelo corredor do meio e ajoelha-se no degrau debaixo da lamparina. Pouco depois, vem o sacristão para tocar as ave-marias. Acho que vai tropeçar no pároco. Naquele instante, acendeu-se a luz elétricae pude

(3) O pároco Schmuttermeicr, o antigo diretor espiritual da princesa, morreu cm 1899.

(4) Depois de ter saído a primeira edição desta obra, Maria Feistle, de Waal, nos escreveu:

“O pároco Schmuttcrmeier foi vigário de Waal, de 1926a 1935;por isso não pode ter sido o professor de religião da princesa Eugênia. E possível que se trate do vigário Mathias Sollweck, falecido em 1899 ou 1900 (?).”

ver tudo bem direitinho. Foi muito esquisito o que aconteceu. O sacristão continuou andando e passou através do vigário, como se fosse apenas uma sombra. Vi claramente os dois. Pouco depois, o pároco sumiu e nunca mais o vi.

Bárbara e Tomás

Vi a alma de nosso velho empregado dezessete vezes, mas somente no hospital. Nunca falei com ele. • 31 de janeiro de 1923 — Passei alguns dias num quarto do terceiro andar. Ao olhar no espelho, de dia, vi nele refletida a cabeça de uma senhora. Virei-me, lá estava ela, uma dama vestida de rosa; desapareceu, porém, no mesmo instante. Trajava à moda do século XVI; percebi, porém, que o jeito do penteado não combinava com o traje. Fui dormir com uma sensação desagradável, pois ouvi, do quarto vizinho, que não tinha ocupante, uma voz de timbre muito especial, que a gente nunca mais esquece. Dormi razoavelmente bem até às três da madaigada. Então, despertei com uma sensação ruim. Eu sabia que ela estava perto. Acendi a luz e, pronto!ela e um homem em trajes de cavaleiro estavam à porta. Recorri à água benta e perguntei: “Quem és tu?” — “Bárbara.” — “O que queres?” Não obtive resposta. Ela pôs o dedo nos lábios e me convidou, com um gesto, para sair com ela. Tudo era tão natural, que senti vergonha de pular da cama na presença daquele cavaleiro que a acompanhava. Partiram, pois, e notei uma ferida na cabeça de Bárbara, no occipício. Era esse o motivo de ela ter o penteado tão estranho. Não tive coragem de os acompanhar, mas depois de terem saído, fui ver aonde iam. Entraram na alcova. Eu nem podia ter entrado lá, pois a porta estava trancada à chave. • 5 de fevereiro — Estive ocupada no corredor de cima. Lá chegou ela, Bárbara, e entrou na alcova. Desci correndo, busquei a chave e corri atrás dela. Entrei na alcova. Lá estava ela, encostada à parede, esperando por mim. (Havíamos pesquisado nas crónicas e encontrado duas pessoas de nome Bárbara). Perguntei pois: “És a

Bárbara de L.?” — “Sou.” — “Queres rezar comigo?” De olhos duros, fixou-me e acenou um sim. Rezei “Alma de Cristo” etc. Ao

dizer a frase: “Água do lado de Cristo, lavai-me”, ela começou a chorar e a soluçar terrivelmente, com as mãos diante do rosto. Depois, ainda de olhos duros, saiu torre afora. Durante algum tempo, não mais subi àquele andar. E ela tampouco apareceu.Em seguida, urna pintora se instalou num quarto lá em cima. Subíamos, então, muitas vezes, para ver seus trabalhos, e Bárbara não reapareceu.

• 21 de fevereiro — Uma hora da noite. Acordo com aquela

sensação que sempre experimento quando as Almas do Purgatório vêm procurar-me. De fato, Bárbara e seu companheiro haviam chegado. Fiquei aborrecida, e bastante, porque julgava estar protegi­ da contra suas visitas. Exclamei: “Por que não ficam vocês lá em cima?” — “Porque eles não nos podem ver.” Perguntei ao homem:

— “Como te chamas?” — “Tomás”, respondeu Bárbara em lugar dele. — “O que queres que eu faça?” — “Uma santa missa”,

respondeu Bárbara. Rezo cómeles e digo: “Não venham mais; eu lhes prometo que será rezada uma missa por vocês.” Eles se foram e não mais os vi. Estranho! Sai tanta força das almas! Sua simples presença desperta-me. É uma sensação esquisita quando, ao acordar, a gente sabe perfeitamente o que nos espera. No escuro, nada enxergamos. Quando Bárbara ainda v in h a l, fechei uma vez os olhos para verificar se minha vista estava normal; mas, então, não vi mais nada.

Nossa velha cozinheira Crescência e a mãe assassina

Naqueles dias em que Bárbara vinha, deu-se outra aparição. Em Iode fevereiro de 1923, estava eu com a cozinheira na despensa. De repente, entre nós duas, se interpuseram duas almas, uma, aCrescência, que esteve conosco 42 anos e que havia falecido em 1888; e, a seu

(4a) Ela temia, talvez, ser vítima de uma alucinação. Por isso examinou a capacidade de sua vista.

lado, uma desconhecida, de aspecto desagradável. Crescência pare­ cia a mesma que fora em vida: bastante simpática. Dois dias depois,

eu a encontrei embaixo, no corredor.

alguém e não me foi possível falar com ela. • 24 de fevereiro — Às quatro da manhã acordo e acendo a luz. Junto à minha cama está Crescência e, a seu lado, aquela desconhe­ cida. Perguntei: “Crescência, querida, donde vens?” — “Do espaço intermediário.” — “Como me encontraste?” Ela fez um gesto como para dizer que veio pelo ar. Digo-lhe: “Não venhas mais me procurar. Prometo que será rezada uma missa para ti. Louvado seja Nosso

Senhor Jesus Cristo!” Ela se foi e, com ela, a desconhecida. • 28 de fevereiro— Às 4:30 vem a desconhecida®. Que horror! Ela fica mais de dez minutos. Dou-lhe água benta. Rezo. Ela nem se mexe; apenas me olha como que zangada comigo. Tenho muito medo, nem sei por quê. Não dá resposta nenhuma. Por fim, ela sai.

Parece ter sido pessoa muito desleixada. Na cabeça, um pano; seu avental parece indicar que é operária. Não gosto dela. Ela me lembra

disso falarei mais tarde. Tenho medo

porque tem os traços de uma pessoa viciada; não encontro outra explicação. • 3 de março — Acordo às duas da madrugada. Sensação esquisita, a minha. Sei o que me espera. Sou covarde e demoro para acender a luz. Lembro-me, porém, que o Bom Deus me ajuda, e aperto o botão elétrico. E já está curvada sobre mim essa figura detestável. Depois, se afasta um pouco. Digo: “Em nome de Jesus, ordeno-te que me respondas: ‘Por que estás vagueando por aqui em vez de encontrar paz?”’— “Matei meu filho.”— “Como te chamas?”

— ‘’Margarida”. — “Será rezada por ti uma santa missa. Não me

certa mulher que vi em A

.'stava em companhia de

Eu.

;

esquecerei de ti. Não precisas vir nunca mais.” Rezo com ela. De repente, desaparece. Foi duro suportá-la, mas seja tudo como dispõe

(5) Perceberá o leitor ao meditar sobre as páginas deste diário, desde a primeira até à última, quão realistas são as declarações religiosas: “O pecado é feio, a virtude c bela.” A máscara da feiúra do pecador transparece em todas as aparições. Vale a pena refletirmos sobre as ofertas da vida moderna: a pecaminosidade planejada da vida e a fealdade planejada da música e da pintura modernas condicionam-se mutuamente.

o Bom Deus! No entanto, se as almas têm que visitar-me, preferiria que fosse durante o dia claro.

Miguel, o marceneiro

, outro, urna senhoracujo rosto manifestava urna tristeza inexprimível. Quando a interroguei, respondeu apenas: “Ninguém reza por mim”. A outras perguntas minhas, não deu resposta. Naquela época, eu ainda não sabia que tinha de rezar com as Almas do Purgatório. Desse modo, a visita delas se torna mais breve e a reza com elas, um alívio para mim; por isso, já não sinto tanto medo.

• 11 de março de 1923 — Onze da noite. Apenas me havia

deitado quando alguém entrou no quarto. Pensei ser minha irmã, e demorei em acender a luz; mas logo senti que se tratava de uma alma. Na porta estava o Miguel, nosso velho marceneiro e antigo sacristão. Não sei quando tinha falecido. Perguntei-lhe: “Então, Miguel, o que queres?” Ele deu um grito e desapareceu. Preocupo-me com ele, pois agora vem todas as noites, e é horripilante, já que nada se consegue com ele. Ficou comigo meia hora, das quatro às 4:30. Gemendo em voz alta, anda agitado pelo quaito. Não é bonito o aspecto dele, mas

o Bom Deus há de ajudar-me.

• 15 de março — 11:30 da noite. Ele voltou. Digo-lhe: “No

sábado será rezada por ti uma santa missa. Deixa-me em paz! O que

é que tens feito? Responde, por favor.” — “Sacrilégio!”, grita ele. — “Posso ajudar-te?”, pergunto. Ele faz que sim com a cabeça e some.

vi, por três vezes, andar de um lado para o

No verão, em A

Muitas mulheres e muitos homens

procurar-me. Muito triste, me

olhou. Não respondeu às minhas perguntas e desapareceu.

• 22 de março — A uma hora da noite, acordei. Alguém me

perguntou: “Queres ajudar a esses como ajudaste a mim”? Acendi a

•21 de março — Veio ViktorB

não o posso dizer com toda

a certeza, pois mal havia ele formulado a pergunta, ejá desaparecera. Só então eu vi quanta gente enchia meu quarto, homens e mulheres

— e o Viktor também estava. Foi muito pesado para mim; no entanto, não demoraram muito; fora impossível contar quantos eram.

• 23 de março — De noite. Outra vez aquela gente. Dezesseis

pessoas. Demoraram longo tempo. Cinco deles eu conheço: Viktor,

aquele sapateiro que vivia dizendo: “Ai,

perguntei-lhes: “O que querem vocês?”

Nenhuma resposta. Então eu disse: “Vamos rezar por vocês. Não precisam voltar mais.” Aí, diz o Viktor: ‘Temos de vir!” “Quem o quer?”, perguntei. Não responderam. Ficaram mais um pouco; todos cravaram os olhos em mim, e se foram. Aparecem noite após noite, mas não posso fazer nada; rezo e depois de pouco tempo, todos eles

se retiram.

Maria M

, meu Deus!” , Baptista B

luz e vi junto à minha cama o pároco S

;

Perpétua R

,

;

• 26 de março — Vieram apenas nove. Todos, desconhecidos.

Indago: “Onde estão os outros?” Não respondem®. Esses nove vêm agora todas as noites. Não sofro muito com eles. Faço aprece e depois de algum tempo se retiram.

• 29 de março — Voltaram todos os dezesseis. Uma alma

daquele grupo — não a conheço — se aproxima de mim e diz: “Nós te agradecemos.” Falta-me coragem para apertar-lhe a mão, mas ela estende ambas paia mim. Pergunto-lhes: “Podes ir pela Páscoa ao céu?” Ela responde claramente, e não se podia entender outra coisa:

“A Luz!” Em seguida, todos eles se achegam a mim, o que não é muito agradável. Dou-lhes água benta e logo se retiram. Achei estranho que os dezesseis precisassem de tão reduzido espaço. À minha frente, pareciam um montículo de gente, mas na realidade havia entre eles vultos pequenos e outros bem grandes. Aquela que falou comigo era muito jovem, de expressão cordial; vestia saia preta e avental branco; todos traziam roupa de operário.

(6) As perguntas que visavam apenas à indiscrição e ao sensacionalismo não foram respondidas. Esses fatos levam sempre o leitor a averiguar novamente.

Nicolau, o criado particular

Nos últimos tempos, vejo Nicolau, que havia sido criado particular de meu avô. Encontrava-me com ele apenas no primeiro andar do castelo, onde passeava pelos quartos. Parecia procurar alguma coisa. Mas não consegui falar com ele porque nunca aconte­ cia de estar sozinha quando se dava o encontro. De noite, porém, sofro terrivelmente. É sempre o mesmo horror, todas as noites desde a Páscoa. Tenho a sensação de que há muitas almas junto a mim, mas nada vejo; ouço, porém, passos e respiração arquejante pertinho de mim; em seguida, um barulho estranho, como se alguém batesse na parede. Apenas ouço e percebo esses ruídos, o que, para mim, é pior do que ver e assistir seja ao que for. Certa noite, essa situação começou por volta das onze horas e só terminou lá pelas cinco da manhã. Levantei-me e fui sentar-me no corredor. Mas vieram atrás de mim. Perguntei: “Vocês não podem comunicar-se comigo?” Algo tocou-me no ombro e senti muito medo.

Babette

•21 de abril de 1923 — Pela segunda vez vi hoje, na igreja, duas senhoras. Ficaram ajoelhadas enquanto rezávamos o terço. Desapa­ receram e voltaram. Mais tarde, ao entrar na igreja com o vigário, desejava, no meu íntimo, que também ele visse as duas almas. Elas lá estavam, mas quando quis abordá-las, desapareceram. • Quatro vezes encontrei o Nicolau. Mas passou ao meu lado, sem me ligar. Durante alguns dias, sempre à noite, tive febre. Não conseguia conciliar o sono. Nessas ocasiões, nada via e nada escutava. Agora que estou boa, parece que voltam. • 26 de abril— A uma hora da madrugada apareceu a governanta. Faz um ano que ela faleceu. Não me lembro de seu nome. Ela parece estar muito triste. Mas não demorou muito comigo. Andava constan­ temente de um lado para o outro.

• 27 de abril — Hoje, ela ficou comigo bastante tempo.

Insistentemente cravava os olhos em mim, mas não respondia às

perguntas.

• Duas vezes vi o Nicolau; ele está sempre à procura de alguma

coisa.

• 29 de abril — A governanta ficou comigo das três às 4:30.

Estava muito triste. Ela queria falar, mas não foi capaz. Não aprecio

sua companhia porque me olha com muita fixidez.

• Vi também as onze “colunas de neblina”.

• 1°de maio— Ao entrar no quarto para deitar-me, vi novamente

a

governanta. Apresentei-lhe um pano para que ela nele imprimisse

o

sinal de sua mão. Ela chegou pertinho de mim, mas nada fez.

• 4 de maio — Eu estava nesta noite deitada em meu leito e ela veio duas vezes e se curvou sobre mim. Não gosto disso.

• Vi também o Nicolau.

• Perguntei à governanta® como ela se chama. Já lho havia

perguntado muitas vezes sem ter recebido resposta. Emitiu, agora,

e. Ela mostra uma grande

tristeza. Gosta muito de receber água benta; fica agitada, quando não

a ganha.

• 5 de maio — Ela veio outra vez. Agora sei que se chama

Babette. Ela me cansa muito porque fica demasiado comigo. Anda de

roupas rasgadas. E sofre da boca, mas não sei o que é, pois não o observei distintamente.

um som abominável, parecido a Ba

• 9 de maio — Duas vezes nessa noite ela voltou.

• Tornei a ver os “onze”.

• 12 de maio— Encontrei-me no corredor com o Nicolau; estava de cara bastante cordial.

• 13 de maio — Voltou a governanta. Sua fisionomia é muito

desagradável. Ela curvou-se sobre mim. Sua boca abominável é como uma grande úlcera; o lábio inferior, totalmente preto; os olhos,

(7) O pároco Sebastião Wieser conhecia bem a falecida (Bárbara Z.) quando viva. Disse ele que ela fora uma mulher solteira, aparentemente piedosa, mas muito histérica e sensual, que escrevia longas cartas aos padres e caluniara um deles do modo mais maroto e astuto possível. Por fim, ela morreu ao dar à luz.

sumamente antipáticos. Eu ficaria contente se a fizesse falar, mas

não consigo. Ela gostaria de expressar-se por palavras, mas também não consegue.

• 14 de maio — Ela voltou e abriu a porta que eu, de propósito, havia fechado para ver a sua reação.

• 15 de maio — Avistei o Nicolau.

• 18 de maio — Da uma às 3:30 da madrugada, a governanta

esteve comigo, correndo pelo quarto. E terrível, pois não sei como ajudá-la. Tenho rezado, sim, mas não posso rezar desse jeito o tempo todo. Sua boca é um horror.

• 19 de maio — Outra vez, mas apenas por pouco tempo.

• 21 de maio — Ela veio no lusco-liisco da madrugada, às 4:30.

Despertou-me fazendo muito barulho. Haviam-me falado da partícu­ la da Santa Cruz; apresentei-lha e perguntei: “Es uma condenada?”

Fez que não meneando a cabeça. Continuei: “Eu te conjuro, dize- me o que queres! Não te quero mais ver.” Saíram dela, então,

sempre mentido a ele.”

alguns sons quase ininteligíveis: “Vigário

Pedi-lhe que repetisse a frase, pois não entendia o sentido; ela, porém, abriu a porta e saiu.

• 22 de maio — Ela veio como que fugindo de qualquer coisa.

Estava muito perturbada e de fisionomia horrenda. Disse-lhe: “Eu te ordeno: dize-me, por que tomas a procurar-me?” Achegou-se a mim e apontou para sua boca. Senti grande pavor; em seguida, ela sumiu. •23 de maio— Mal haviacaído no sono, e ela reapareceu.Disse-lhe:

“Se não me disseres o que queres, não mais rezarei por ti.” Durante longos minutos,nenhumaresposta. Depois,ummurmúrioininteligível.Exclamei:

“Dize-me outra vez o que disseste a respeito de mentiras!” Ela chega pertinho de mim e diz em voz bem clara: ‘Tenho de sofrer. Tenho caluniado, tenho mentido muito; dize isso ao vigário.” Retruco: “Por que não vais tu mesma?” Nenhuma resposta.

• 24 de maio — Ela voltou com um outro vulto, que não pude

identificar. Fiquei apavorada. Estendi-lhesapartículadaSantaCruz,elhes disse: “Por favor, não voltem mais. Será rezada por vocês uma santa missa.”

• Tomei a ver na igreja aquelas duas mulheres.

A mulher no cercado das galinhas

• 28 de maio de 1923 — Ao passar pelo cercado das galinhas,

vi uma pessoa procurando algo num monte de lenha. Pensando que

aquela mulher era uma mendiga, aproximei-me dela. Ela deu alguns passos em minha direção, mas de repente se desfez no ar. À tarde, junto ao Açude do Rosário^73), veio ao meu encontro um homem trazendo uma trouxa, como esses mendigos à procura de mantimentos. Uns poucos passos à minha frente, dissolveu-se em nada. Outro dia vi, na igreja, ajoelhadas, aquelas duas mulheres. Veio então uma senhora, de carne e osso, e sentou-se naquele mesmo banco em que estavam as duas almas. Havia pouco lugar naquele banco e percebi, então, claramente, que aquelas duas almas eram como neblina que não ocupa lugar.

• 29 de maio — Por poucos instantes, vi a mulher no cercado das galinhas.

Aproxima-se a redenção

• 30 de maio — Eu estava ajudando as Irmãs do Hospital no

arranjo de flores. (Era véspera da festa do Coipo de Deus.) Por algum tempo, fiquei sozinha, quando veio Benedito e se pôs ao meu lado.

Perguntei-lhe: “Benedito®, sofres muito?” Ele fez que não com a cabeça. Continuei: “Em pouco tempo estarás no céu?” Meneou a cabeça afirmativamente. — “Costumas andar por aqui?” Outra vez

o gesto afirmativo com a cabeça. Parecia estar muito à vontade, tal como em vida, de avental azul e de mangas arregaçadas. Ficou olhando algum tempo, saiu porta afora, até a casa, e sumiu.

(7a) Na vizinhança do castelo de Waal há dois açudes, um é chamado Açude do Rosário; o outro, em honra às Chagas de Jesus, Açude das Cinco Chagas.

(8) Em vida, Benedito pertencia ao grupo dos criados; era factótum no castelo.

Graças a Deus que a governanta não vem mais; posso dormir sossegada.

• 31 de m aio— Durante a procissão do Corpo de Deus, quando

estávamos ajoelhados junto ao altar do marceneiro Fischerhaus, saiu da casa o marceneiro Miguel. Mas que transformação que se dera com ele desde à última vez que o vira! Nele, tudo era claridade

e que olhos alegres! Parecia estar envolto em pano branco. Durante

o evangelho ficou na minha frente. Não entendo por que os outros não o perceberam.

• 4 dejunho— Outra vez aquela mulher no cercado de galinhas.

Parece estar muito triste. Agora, durante a noite, há bastante barulho

— no entanto, não vejo nada. E o ruído de pés que, pesadamente, se arrastam pelo quarto; estala o chão, estalam os móveis. Francamente, preferiria ver tudo isso em vez de ficar apenas escutando.

• 7 de junho — Novamente a mulher do cercado de galinhas.

Ela crava em mim uns olhos ardentes. Até agora nunca a tinha visto tão nitidamente. Mas não consigo falar com ela.

• Continua o barulho noturno, mas não é um ruído contínuo, há intermitencias.

Fritz, o pastor assassinado

• 11 de junho de 1923 — Quando despertei, curvou-se sobre mim um vulto comprido, cinzento, totalmente envolvido por neblina. Não posso dizer se era homem ou mulher, mas em todo caso foi antipático. Fiquei muito assustada.

• Cessou o barulho.

• 14 de junho— Aquele fantasmajá se achava no quarto quando

quis deitar-me. Em voz alta rezei a oração da noite, enquanto “Aquilo” veio achegando-se a mim. “Aquilo” possuía braços — se não fosse isso, diria que se assemelhava a um tronco de árvore ambulante. Ficou comigo uns vinte minutos, mas pelas quatro horas voltou.

• 16 de junho — Foi duro, muito duro. Sacudiu-me os ombros.

Que horrenda situação! Dei-lhe um soco e disse: “Tu não me deves

tocar!” “Aquilo” retirou-se a um canto. Ao lhe dar o soco, não senti a resistência de um corpo, mas algo como se fosse um pano quente e úmido. Acho que, dificilmente, suportaria mais vezes tal pavor.

• 18 de junho — “Aquilo” é simplesmente “o” horror. Ele

procurou estrangular-me. Transida de medo, rezei e agarrei a partí­ cula da Santa Cruz. Com todo o seu tamanho plantou-se diante de mim. Longamente, assim ficou, sem dar resposta às minhas pergun­ tas. Por fim saiu, deixando a porta aberta.

• 19 de junho— Posso ver agora que se trata de um homem. Fi­

cou só pouco tempo.

• Na igreja tornei a ver aquelas mulheres. Parecem ser de um

século passado. Não respondem. Perguntei-lhes se furtaram velas.

• 21 de junho — Por mais de uma hora, aquele homem terrível

ficou comigo esta noite. Sem parar, corre pelo quarto. Tem cabelo preto, desgrenhado, e olhos abomináveis.

• Vi sentada no cercado de galinhas aquela mulher. Seu jeito é

sempre amável. Mas ela não responde. Tendo ido ao galinheiro, pude observá-la bem. Um gato veio andando em direção a ela. Ao enxer­

gá-la, deu um pulo, assustado, para o lado. Senti-me feliz por cons­ tatai’que, ao menos, o gato vê o que eu vejo/9)

• 22 de junho — Desde à uma hora da noite até depois das cin­

co, esteve “ele” no meu quarto. Foi medonho. Curvou-se sobre mim diversas vezes e sentava-se junto ao meu leito. Chorei de tanto pavor. Para não ter que olhá-lo, rezei as Horas do Ofício divino. De quando em quando, levantava-se e corria pelo quarto, gemendo de modo abominável. Parece-me que conheço esse homem, mas não consigo lembrar-me de quem se trata. Estou ficando bastante covar­ de, pois custa-me, às vezes, ao anoitecer, entrai' no meu quarto. Mas consigo pegai' no sono depressa.

(9) É fato que animais demonstram medo de lugares onde foram constatadas aparições de pessoas mortas. E célebre a aparição, documentada numa casa paroquial, onde um cão não passava pelos últimos degraus de uma escada porque, ali, por diversas vezes, houvera uma aparição. O cão acompanhava o dono a qualquer lugar, menos ao da aparição.

• 24 de junho — “Ele” voltou. Agarrou-me os ombros. Excla­

mei: “Por favor, dize-me o que queres, e não voltes mais!” Nenhuma resposta. Correu algumas vezes pelo quarto e sumiu. Não consegui acalmar-me. Voltou pelas seis da manhã. De dia claro, seu aspecto é ainda pior; é repugnante. E da categoria das almas mais “relaxadas” quejá vieram ver-me. Disse-lhe: “Não me perturbes; quero preparar­ me para a santa comunhão.” Achegou-se a mim, levantando, supli­

cante, as mãos. Fiquei com tanta pena dele que lhe prometi toda a ajuda possível, e lhe perguntei: “Não consegues falar?” Fez que não com a cabeça.— “Sofres muito?” Saíram dele gemidos pavorosos. Dei-lhe muita água benta e ele se foi.

• 27 dej unho— Ele voltou durante a noite.Devo conhecê-lo mas não consigo lembrar quem poderia ser. E muito antipático.

• 28 de junho — Voltou.

• Tornei a ver aquelas duas mulheres na igreja.

• 29 de junho — Outra vez estava ele no meu quarto quando

fui deitar-me. Poderia ser, talvez, aquele pastor Fritz que fora assas­ sinado. Perguntei-lhe se era o Fritz que havia sido morto. Mas ele não reagiu. Rezei com ele, mas meu sinistro visitante mantinha os olhos cravados em mim, com tanta maldade, que fiquei apavorada. Pedi- lhe que me deixasse só e, realmente, ele se foi.

• 30 de junho — Seus gemidos pungentes me despertaram,

mas logo foi embora.

• Io de julho — Estou convencida de que ele é o pastor Fritz.

Seu rosto está tão escuro que mal o reconheço, contudo, a estatura, o

nariz e os olhos são dele, do velho pastor, com quem tantas vezes me encontrara enquanto vivia.

• 2 de julho — Ele voltou. Seu aspecto é um pouco mais

“civilizado”; ficou só pouco tempo. Chamei-o pelo nome: “Pastor Fritz!” E ele reagiu com toda naturalidade.

• 3 de julho — Voltou por poucos instantes. Perguntei-lhe: “És o

pastor Fritz, que foi assassinado?” Respondeu-me claramente: “Sou.”

• 4 de julho— Veio ver-me pela manhã. De olhos tristes, ele me fitava. Nada respondeu a minhas perguntas e logo saiu.

• 5 de julho — Percebo que nele tudo se torna mais claro. Fez o sinal-da-cruz ao rezarmos nossa prece.

• 6 de julho — Estou muito feliz porque, agora, ele consegue

falar. Perguntei-lhe: “Por que procuras justamente a mim?” — “Porque sempre rezaste por mim.” (É verdade, pois sempre senti compaixão por esse pobre de Cristo. Já na infância, ele tinha um jeito esquisito.) — “O que te salvou?” — “Compreensão mais clara dos meus pecados e arrependimento.” — “Não tiveste morte instantânea quando foste assassinado?” “Não.” — “Sairás do purgatório em

breve?” — “Falta muito, muito!” Permiti-lhe viesse ver-me se isso lhe desse algum alívio. E interessante que alguém, bruto em vida, fale dessa maneira quando separado de seu corpo^10). Já não me inspira medo. Gostaria de ajudá-lo o mais possível. Quão misericordioso é o Bom Deus!

• 8 de julho — Veio por alguns instantes apenas.

• 9 de julho — Despertou-me com um forte empurrão nos ombros. Eu teria perdido a missa, se ele não me tivesse acordado.

(10) O pároco S. W. observa: “O comportamento dessa pobre alma é qual eco da vida terrestre. Eu o conhecia bem, o pastor Fritz. Era como um bode entre as ovelhas. Não adianta estender-me sobre a vida dele. Digo apenas que as palavras da Escritura nele se realizaram: “A árvore, caindo para o sul ou para o norte, no lugar onde caiu, lá fica.” (Eclesiasies 11,3); mas também causa admiração a misericórdia infinita de Deus. Fritz freqiientava raras vezes a igreja. Tinha um único filho que na escola era conhecido como patife e mentiroso. Causava muito desgosto a seus superiores. Quando era necessário castigá-lo na escola, o pai ficava revoltadíssimo contra professores e contra o vigário. Eu lhe dizia que, algum dia, ele receberia uma surra de seu próprio filho. Aos 16 anos, esse seu filho era um rapagão de muita força física. Numa desavença, pela meia-noite, o velho foi derrubado e morto pelo próprio fil ho, que, depois, foi condenado à morte. O pastor Fritz entrou na eternidade, vítima de uma tragédia familiar. Não se soube se ele teve morte instantânea ou se teve tempo de arrepender-se, mas, provavelmente, antes de expirar, deve ter recuperado os sentidos, pois o assassino, depois de o ter abatido, deixou-o entregue à sua sorte, naquele rancho. Dia claro, foi descoberto o cadáver. Agora ele volta como Alma do Purgatório, mas do jeito como estava em vida: de cabelo preto, desgrenhado e de olhos abomináveis, irreconhecível até o dia 27 de junho. Desde então, sua aparência se torna, sempre, mais clara e, em 6 de julho, ele diz que não teve morte instantânea e que a compreensão e o arrependimento o preservaram da condenação. Em 12 de julho ele confirma: “Estou ardendo” e imprime um dedo na mão da princesa, deixando uma marca vermelha, de mão em brasa, sinal que vi com meus próprios olhos.

Perguntei-lhe: “Tens tanto interesse em que eu tome parte na santa missa?” — “Pela missa podes ajudar-me bastante”, disse ele.

• 11 de julho — Veio apenas por poucos instantes.

• 12 de julho — Rezamos juntos e depois perguntei-lhe: “Em

que consiste teu sofrimento?” — “Estou ardendo.” Aproximou-se de mim, e antes que o pudesse impedir, o dedo dele tocou na minha mão. Fiquei tão assustada, e aquilo me doeu tanto que gritei de dor. Ficou na minha mão uma mancha vermelha e faço votos para que ela desapareça quanto antes. É uma sensação esquisita ter no corpo um sinal visível feito por alguém do outro m undo/1•)

No abandono

• 15 de julho de 1923 — Eu estava para me deitar. Ao entrar no

meu quarto, ele lá estava. Tive a impressão de que se achava com ele

mais alguém. Todavia, não posso afirmar com certeza.

• 18 de julho — Nesse dia encontrei-o já no quarto, na hora em

que ia dormir. Pareceu-me, quando estava ao lado dele, que era

apenas um vulto, embora não possa dizer exatamente. Ele rezou comigo, isto é, murmurou ao meu lado. As minhas perguntas, não me deu nenhuma resposta.

• 21 de julho — Chegam agora os dois juntos. Não posso

imaginar quem seja esse novo; é abominável e sujo, tem os cabelos desgrenhados e não fala. Vi na igreja aquelas duas mulheres. Ajoelhei

ao seu lado. Não teria havido espaço para mim ao lado delas se fossem de carne e osso. Não pararam de me fixar. Não pude falar com elas porque havia reza do rosário com o povo.

• Vi também a mulher do cercado de galinhas. Enfim, ela

(II) Há di versos 1¡vros cm que as Almas do Purgatório deixaram impressos sinais visíveis

de fogo. E conhecido o livro de orações em que a mão de uma pobre alma deixou seus contornos eseu moldeem muitas páginas daquele manual. O editor deste livro teve aquele manual de orações em mãos.

consegue falar. Chama-se Adelgunde. Agora tem boa aparência e me olha com cordialidade. Veste aqueles trajes característicos da Suábia, de tempos passados. Parece uma velhinha de antigamente. Perguntei- lhe por que veio procurar-me. — “Rezar”, ela disse.

• 24 dej ulho —■Fritz e aquele outro vieram esta noite duas vezes. Não falaram mas, assim mesmo, a situação era desagradável.

• 29 de julho— Nada de especial. Aqueles dois aparecem todas

as noites. Acho esse novo detestável. Fritz irradia claridade, sempre mais viva.

• Perguntei a Adelgunde de quanto tempojá sofre no purgatório. — “Três vezes oitenta”, respondeu.

/12) que

morreu de varíola há poucos anos. Quando perguntei a respeito dele

ao Fritz, este me respondeu: “Olha tu mesma!” Ele achegou-se a mim

e eu escondi depressa as mãos.

• 4 de agosto — Ambos ficaram comigo bastante tempo.

Perguntei a Fritz por que G. também vem. Respondeu:— “Ele esteve

à tua procura.”

• 9 de agosto — Não tive sossego durante a noite toda.

• Io de agosto — Agora sei quem é o outro, é o G

Reapareciam a cada instante. G. me causa medo. Pedi-lhes para me deixar sossegada. Fritz respondeu: “Faça por nós alguns sacrifícios.”

Sinto vergonha por ter sido tão dura de coração.

• 10 de agosto— Fritz aproximou-se de mim. Tinha a fisionomia

cordial e atraente; por isso lhe perguntei: “Não precisas mais sofrer

tanto?” — “Não.” — “Já podes rezar por mim?” — “Ainda não.” — “Onde te encontras?” — “No abandono.” — “Virás visitar-me ainda muitas vezes?” — “Não.” — “E por que não?” — “Não mais receberei permissão.” — “Tens recebido alguma ajuda de mim?” — ‘Tenho.” E sumiu. G. ficou. Foi uma sensação sinistra. Ele geme, geme e sua fisionomia exala maldade. No entanto, sentir-me-ei feliz se puder ajudá-lo.

(12) G. recebeu os sacramentos dos agonizantes do pároco Sebastian Wieser e foi este mesmo vigário quem encomendou seu corpo.

• Esqueci de anotar que vi no hospital, pela segunda vez, urna antiga superiora. Parece estar muito triste.

• 11 de agosto— G. veio quatro vezes esta noite. Não responde

nada. Não fica quieto nenhum instante. Está sempre correndo pelo quarto. No fundo, estou triste porque Fritz não vem mais. Ultimamen­

te era como um protetor para mim. G. causa-me um certo pavor; no entanto, quero de bom grado ajudá-lo. Em geral, meus nervos estão em estado melhor do que antes. Acostumei-me plenamente a esses visitantes intrusos e depois de terem sumido, pego logo no sono.

• 12 de agosto — Ele veio só por poucos instantes.

Sou feliz

• 13 de agosto de 1923 — Sentí urna grande alegria. Ao colher

groselhas, apareceu, de repente, ao meu lado, a velha lenhadora que sempre havia catado lenha para o castelo. Exclamei: “Oh, minha querida lenhadora! Tu não te esqueceste de mim?! Como estás?” — “Sou feliz!”, respondeu, e desapareceu. Como foi boa essa aparição! Nós duas havíamos frequentemente colhido groselhas e, certa vez, ela me havia dito: “Acho que depois de minha morte terei que passar meu purgatorio na horta.” Rimos bastante e eu Ihe havia dito: “Tu virás ver-me, não é?” E agora, de fato, ela v eio /13)

Um cavaleiro em sua armadura de gala

• 14 de agosto — Vi, na igreja, ajoelhado diante do altar, um

cavaleiro metido em sua armadura. Pensei que se tratasse de um

(13) O vigário Sebastian Wieser disse que ela esteve doente durante muitos anos e se purificara através dos mais diversos padecimentos. Há nisso um grande consolo para muitas pessoas simples, que, além de suas preocupações por causa de sua humilde condição de vida, ainda são provados por muitas doenças. Mas o amor de Deus os envolve.

engano meu. Para ver melhor, aproximei-me mais e cheguei pertinho dele. Examinei-o durante algum tempo; depois, ele sumiu.

• G. ficou um bom tempo comigo. Anda terrivelmente inquieto.

• 17 de agosto — G. voltou. Já presta atenção quando rezo.

• 19 de agosto — Ele veio duas vezes esta noite. Quando estou

na capela, batem à porta. Quando vou ver quem é, não há ninguém.

• 20 de agosto — Vi aquele cavaleiro na igreja junto ao altar. E um gigante de estatura. Talvez seja a alma daquele homem cujo

sepulcro fica no coro da igreja, quando foi feito o novo pavimento. Foram encontrados ossos de tamanho descomunal.

• 23 de agosto — Passei uma noite desagradável. Senti a

presença de G., mas não havia energia elétrica; eu estava no escuro

e ouvia e sentia a presença dele. Não poder vê-lo, aumentava meu

pavor. Não tive a coragem de levantar-me e buscar fósforos. Depois

de uma hora, eu sabia que ele não estava mais. Não foi o ouvido que me deu essa certeza, mas uma espécie de sexto sentido — uma sensação nova para mim.

• 24 de agosto — Batem à porta da capela com mais força.

Quando vou atender, não vejo ninguém, mas apenas retorno ao meu

lugar, as batidas recomeçam. Isso me incomoda muito, pois gostaria de ter sossego.

• 26 de agosto — G. ficou comigo por muito tempo. Rezei a

ladainhalauretanae ele me acompanhou. Sua aparência melhora. Seu

rosto já não está tão escuro.

• 30 de agosto— E sempre a mesma coisa. Às vezes, o barulho

à porta da igreja é insuportável. Chamam-me e batem à porta. O cavaleiro mostra-se quase diariamente.

• Na capela do hospital vi a Irmã H edw ig/14)

• 2 de setembro— Ao voltar do jardim, vi G. parado àjanela do

meu quarto, me olhando. Senti uma sensação estranha e hesitei em entrar; estava com medo. Mas quando entrei, não havia ninguém. Que alívio!

• 6 de setembro— G. tem enfim permissão de falar. Perguntei:

(14) Waal tem um pequeno hospital, onde a irmã Hedwig Ostertag exercera o cargo de superiora.

“Por favor, o que tu queres?” — “Ajuda!” — “Por que tu sofres?” — “Porque não fiz bastante penitência dos meus pecados.” — “E por que vens justamente a mim?” — “Porque a passagem por ti está desimpedida.” — “Como desimpedida?” Não obtive resposta, infe­ lizmente, senão eu poderia, talvez, ter fechado essa tal passagem.

• 7 de setembro— Vi G. em frente de sua casa. Já não me inspira

tanto horror; torna-se mais e mais cordial. E para mim um mistério essa transformação. Minha ajuda é mínima. Retiro o que escrevi ontem. Mesmo se fosse possível, eu não trancaria a passagem pela qual as almas chegam a mim. Seria uma atitude extremamente egoísta da minha parte. Devo dar graças a Deus em poder ajudar um pouco.

Duas irmãs que deram escândalo

• 8 de setembro de 1923— Foi um dia de muita excitação. Após

longo tempo, tornei a ver aqueles “onze” que recebem mais e mais

formas humanas. • Na igreja vi o cavaleiro e aquelas duas mulheres que, final­ mente me deram resposta. Perguntei-lhes: “Por que estais sempre aqui?” — “Porque demos escândalos”.— “Quem éreis em vida?” — “Éramos irmãs.” Sumiram. Têm má fisionomia. Seus olhos pare­ cem penetrar como punhais.

• Vejo Adelgunde no cercado de galinhas. As galinhas perce­

beram-na e, assustadas, fugiram. De perto, o rosto dela não parece velho como eu sempre o supunha. Segurou algo na mão, talvez um

punhal, mas não posso afirmá-lo com certeza. Quando vejo tantas almas, tão diferentes entre si, num só dia, convivo com elas mais do que com as pessoas vivas ao meu redor. A gente não esquece facilmente o que vê. E, para mim, esses fatos parecem-me, por vezes, uma carga tão pesada de suportar, que me cansa, à exaustão, disfarçar o que se passa comigo. • 9 de setembro — Encostado na cerca que fechava a praça

de armas(14a), estava o velho Henrique. Fiquei assustada porque

estava muito perto de mim. Apresentava um aspecto horripilante. Faço votos para que fique longe de mim.

• G. esteve longamente comigo durante a noite. Ficou bem

manso. Começamos a rezar e em seguida conversamos. Perguntei-

‘Tom ar parte na

missa.” — “Já viste o Bom Deus?” — “Vi.” — “Estás vendo-O ainda?” — “Não.” — “Por que não?” — “Estou sujo.” — “Em que

consiste teu sofrimento?” — “Estou ardendo.” (Talvez fosse outra palavra, pois não a entendi bem; foi uma fala balbuciante.) — “Sabes onde está Fritz, o pastor?” — “Não.” E sumiu.

lhe: “O que te aproveita mais da minha ajuda?” —

• 13 de setembro — Ele veio só por poucos instantes.

• Vi na igreja o cavaleiro.

• 15 de setembro— Por longo tempo, os ‘‘onze’’andaram ao meu

lado. Tenho a impressão de que se trata de almas de mulheres, mas estão ainda totalmente envolvidas em neblina.

Tia Maria Sch

• 16 de setembro de 1923 — Ao buscar à noite um livro na

rindo

alegremente. Dirijo-lhe a palavra: “Tudo bem?” Responde-me: — “Eu te agradeço.” Acenou-me um adeus e desapareceu. Fiquei feliz com a sua visita. Acho estranho que agora voltem os velhos conhe­

cidos. Nestes últimos dias, exigiram muito de mim quanto às obriga­ ções sociais e eu fora tão expansiva que, nem de longe, pensava naquilo que se passara na biblioteca.

• Muito barulho na capela e constantes chamadas: “Tu! Tu!” mas nada se via.

biblioteca, vi, de repente, ao meu lado, tia Maria Sch

(14a) Pedimos à princesa Ludovica que nos mostrasse a praça de armas que servira para exercícios de tiro. Ela fica ao lado dos prédios da horticultura do castelo de Waal. Agora está toda plantada de árvores frutíferas.

está todo transparente. Ficou longo

tempo comigo. Indago-lhe: “Dize-me, por favor, por que está livre o

caminho justamente a mim?” — “Tu nos atrais.” — “Por meio de qué?” — “Por meio de tua alma.” — “Podes vê-la?” — “Sim.” — “Mas não gosto de que venhas. Vai a pessoas melhores que eu!” — “Eu não volto mais, porque outros estão esperando sua vez.” — “Estás melhor?” — “Sim.” Fitou-me meio sorrindo e desapareceu. O que virá agora? Confesso que tenho medo. Leva sempre algum tempo até que uma Alma do Purgatório não assuste mais, devido ao seu aspecto horroroso. Mas parece que tem de ser assim.

• 19 de setembro — G

Adelgunde, a mãe assassina

• 21 de setembro — Adelgunde esteve comigo. Ela tem

realmente uma faca na mão. Rezou comigo. Pergunto-lhe: “Por que tens essa faca?” — “Matei!” — “A quem?” — “Meu filho.” —

“Como posso ajudar-te?” — “Dá-me tua mão.” Eu estava tão apavorada que não fui capaz de fazê-lo. Sou muito covarde e agora me arrependo de não tê-lo feito. Ela foi logo embora. Quero superar­ me quando ela voltar; no entanto, para mim, isso é terrível, pois sei que aquilo faz arder minha mão.

• Vi os “onze” e o cavaleiro. O encontro com eles até acalma

meus nervos. Na capela há, de vez em quando, uma neblina cerrada diante da porta e nos degraus, mesmo quando não descubro nevoeiro

em qualquer outro lugar. Ignoro se existe alguma ligação com o

barulho, que continua sempre com a mesma intensidade. É pena que outras pessoas não o percebam.

• Vi o Nicolau andar pelos quartos, quando me encontrava em

companhia de pessoas vivas. Ele parecia estar bastante alegre.

• 23 de setembro — Adelgunde voltou. Cresce em mim a

repugnância por ela. Mesmo, não estando perto de mim, seus olhos me perseguem.

• 27 de setembro — Ela voltou. Procura agarrar minha mão.

Não posso estendê-la a essa alma. Tudo dentro de mim se revolta contra isso.

• 30 de setembro — Esteve comigo quase duas horas. Foi mui­ to pesado para mim.

• Durante a missa solene na igreja, vi o cavaleiro ajoelhado junto ao altar, no meio dos coroinhas.

• 2 de outubro — Adelgunde continua me torturando. Como

uma mulher furiosa, corre pelo quarto e crava em mim seus olhos ardentes, procurando agarrai- minha mão. Sou muito covarde; não consigo superá-la.

• 4 de outubro — Perguntei-lhe o que quer de mim. Respondeu:

“Tua mão.” No entanto, não fui capaz de estendê-la a essa mulher.

Rezei com ela, mas ela nem ligou. Perguntei-lhe, entre outras coisas, onde foi enterrado seu filhinho e se ela antes de morrer conseguira confessar os pecados. Mas não respondeu coisa alguma.

• 5 de outubro — Quando acordei, ela estava sentada na minha cama, mas ficou só por poucos instantes.

• 6 e 7 de outubro — Não passei bem essas noites porque me

senti bastante mal. Ela não veio; no entanto, eu havia contado com sua visita. • 8 de outubro — Graças a Deus! Consegui superar aquele sentimento. Ela veio e eu lhe perguntei: “Como posso ajudar-te?” — “Dá-me tua mão!” Estendi-lhe ambas as mãos. Não é possível descrever a luta que se travava no meu interior. Desta vez, não fui queimada. Sentia, porém, os ossos da mão dela. Ela não soltou suas mãos imediatamente. Tive a impressão de que esses momentos duravam muito tempo. Finalmente ela disse: — “Agora não volto mais.” E desapareceu. As aparições de almas de mulheres impressionam-me e me parecem muito mais repugnantes que as de homens. Achei algo de estranho em Adelgunde. Nela tudo parecia um conjunto de trapos, mas assim mesmo parecia ser um vestido de sua alma. Nunca havia visto ou imaginado algo semelhante. Agora gostaria de ter um pouco de sossego, pois muitas vezes

me sinto tão cansada que poderia dormir de pé. Diminuiu o barulho na capela. Acontece ainda um pouco, porém só de quando em quando.

Eu tinha ideias muito mundanas

• 12 de outubro — Estava sentada à minha secretária quando,

de repente, uma neblina espessa, ou algo como uma fumaça inodora, me envolveu. Apesar de ser dia claro, não conseguia mais distin­ guir nem imagens na parede. Perguntei se eram os “onze”, mas não recebi resposta. Aspergi o quarto com água benta, e tudo voltou a ficar claro. • Na igreja, vi o cavaleiro. Desci da capela e lhe perguntei:

“Posso fazer alguma coisa por ti?” Continuou a rezar sem olhar uma só vez para mim. De perto, ele dá a impressão de ser muito bondoso. Sua armadura é bonita. A figura toda parece sair de um museu. Não tenho conhecimentos suficientes para situá-lo num determinado século. Estou com medo de que tornem a acontecer coisas graves. Minhas anotações devem corresponder à verdade. Por isso, devo di­ zer também que eu não suportaria tudo isso sem a santa comunhão.

• 13 de outubro— Tive uma noite extremamente agitada. Havia

muito barulho naquela neblina. No hospital, vi a Irmã Hedwig. Falei com ela na escada: “Por que voltas constantemente?” — “Tenho alimentado pensamentos demasiado mundanos.” Ela entrou na despensa. Já não tem a aparência tristonha que costumava ter.

• 15 de outubro — Os “onze” estão como que pairando à minha

frente. Não respondem às perguntas que lhes faço. De noite, ouço

um estrondo terrível. Aparecem três vultos, difíceis de reconhecer.

• 17 de outubro — Outra vez, essa neblina ao meu redor e a

sensação de que há almas abandonadas que me procuram. • 19 de outubro — Um grito estridente, pertinho de mim, despertou-me; em seguida, ruídos, estrondos e uma confusão de sons indescritíveis, e, outra vez, aquela neblina.

• 20 de outubro — Um vulto indefinível.

• 21 de outubro — Vultos nevoentos estão se agitando no meu

quarto. Não posso comunicar-me com eles. Correm pelo aposento; mexem-se e agitam-se enquanto estou rezando. É impossível des­ crever essa confusão de vultos e de formas vaporosas e nevoentas. Não sinto pavor, mas tudo é tão estranho e irreal. Essas formas em movimento se parecem com os “onze”; no entanto, são diferentes, mais densas, mais espessas. • Tomei a ver aquele cavaleiro. Ele

pertence a uma outra categoria de almas e é bem diferente de todas as que tenho visto. Parece estar feliz e reza sem parar.

• 24 de outubro — Uma daquelas formas está ficando mais

nítida. Tenho a impressão de que se trata de uma mulher. Os três vultos nevoentos não se mostram mais.

• 25 de outubro — Muito ruído e muita confusão. A situação começa a tomar-se desagradável.

Catarina

• 27 de outubro — Posso ver distintamente que se trata de uma mulher. Está muito inquieta e seu vulto um tanto velado.

• 28 de outubro— Essa mulher é abominável. É, sobretudo, sua

boca que é horrorosa; está muito inchada e é simplesmente nojenta.

Está furiosa; seu vestido é um farrapo cinzento.

• 29 de outubro — Ao anoitecer, encontrei-a no meu quarto.

Seus olhos me perseguem; ela não consegue falar-me.

• 30 de outubro— Apenas me havia levantado, e elajá chegara.

Eu disse-lhe: “Vai-te embora, tu me incomodas.” Mas ela nem ligou. Rezei com ela a oração da manhã e, em seguida, ela se foi. Tenho medo dela. Ela me enoja. Eu poderia ser dura para com ela. Onde está minha caridade? Esta situação me oprime mais e mais. O dia todo tenho de ficar em meio às pessoas que me cercam e nem posso pensar naquilo que me interessa. Sinto-me como que dividida. M i­ nha alma está no outro mundo, isto é, estou ocupada com ele, e a outra parte do meu “eu” deve fingir um interesse que realmente

não existe. Esta dissidência, esta fissão no meu interior me cansa, me enerva.

• 31 de outubro — Passei uma noite medonha. Ela veio duas

vezes, e por muito tempo. Encostou-se à parede e me fixou um olhar insolente. A expressão de seu rosto é execrável. Não reage a nada, mas quando rezo, mantém-se tranqiiila. Suaboca é medonha; é apenas um

inchaço vermelho e purulento. Tem o cabelo preto, desgrenhado. Todo o seu aspecto é sempre inominavelmente sinistro.

• Io de novembro — Passei metade da noite me defendendo

dela. Não quero que se aproxime de mim. Mas nada a impede.

Ameacei-a de não mais rezar por ela se continuar me maltratando; então, ela se foi.

• 2 de novembro — Esta foi a noite mais terrível. Ela parecia

estar possessa; agitava-se e corria como louca pelo quarto. Tenho de sofrer sozinha, pois não quero acordar ninguém. Saí e ela veio correndo atrás de mim; voltei ao quarto, já que não havia outra so­ lução. Tentei rezai', mas fi-lo mal; o pavor me esmaga. A cada ins­ tante, ela chega pertinho de mim; quase não consigo suportá-la. Há nela algo que me provoca tão grande nojo e pavor que não encon­ tro palavras para descrevê-lo, por mais que o tente. Ela ficou comigo das onze da noite às cinco da manhã. Fui muito covarde.

• 3 de novembro — Ela só veio pelas cinco da manhã; por isso

passei a noite bem melhor. Rezei com ela sem olhá-la. De repente, sua cabeça estava encostada à minha. Sussurrou-me algo ao ouvido, mas não consegui entendê-lo. Disse-lhe: “Se tu queres que reze por ti, fica longe de mim. Não suporto a tua presença.” Ela deu um grito alto e desapareceu. Agora estou muito triste por causa de minha falta de compreensão, pois não duvido que a fiz sofrer. •4de novembro— Estou tãocontente! Ela voltou em e perdoou. Mexeu sua boca horrorosa para falar, mas não entendi nada. Disse- lhe: “Se posso realmente ajudar-te, dá-me um sinal e desperta-me pelas cinco horas. Farei por ti o que puder.” Dormi muito bem. Às cinco horas em ponto acordou-me um grito. Ela estava ao meu lado. Fiquei muito contente com isso. Quero, novamente, suportar tudo

quanto Deus me enviar. • Os onze vultos nevoentos, meus velhos conhecidos, estavam outra vez na encosta do morro; já não tenho medo deles.

• Na igreja, aquele cavaleiro se mostra quase continuamente.

• 5 de novembro — Noite sinistra; aquela alma de mulher vem

a cada instante, e sempre muito agitada. Fiz-lhe diversas perguntas, mas não obtive resposta. De repente, ela achegou-se a mim e sus­

surrou-me algo ao ouvido. Disse-lhe que eu nada entendia do que me falava, e ela prorrompeu em soluços, tão fortes que quase me partiam o coração. Prometi fazer tudo por ela, e ela se foi.

• 6 de novembro — Ao cair da noite, ao toque das ave-marias,

ela veio ver-me. Ficou junto à pia de água benta, onde me esperou. Dei-lhe água benta, e ela desapareceu. Voltou durante a noite. Parece tornar-se mais clara e mais pura. Cresce minha coragem. Quanto mais sacrifícios faço por ela, tanto mais alívio ela sente e tanto mais se torna minha amiga.

Até agora tenho evitado entrai-em detalhes, mas já que o diretor espiritual o deseja, tenho de fazê-lo. Por isso, há mais um assunto que tenho de mencionar. Peço que me digam meus diretores se há algo de errado em minha atitude e conduta. Nos últimos tempos, em meio ao meu trabalho, e mesmo estando com outros, algo se apodera de mim que não sei explicar. E uma sensação de profunda felicidade, é como que mergulhar em algo totalmente diferente daquilo que costumamos experimentar; é uma presença de Deus, impossível de descrever. As vezes, essa sensação me surpreende até nos momentos em que nem penso em Deus. Sempre reagi contra tudo que possa ser extravagante, mas agora tenho de suportar o que supera toda a imaginação e experiência humana, pois aquilo simplesmente se apodera de mim. Mudou também minha vida de oração; nem sei se ficou melhor ou se piorou. Estou como que me precipitando no infinito sem que possa formular orações. Estou totalmente penetrada do meu nada perante Deus.

• 7 de novembro — A desconhecida achegou-se a mim sussur-

rando-me algo ao ouvido, mas não entendi nada. No entanto, posso,

agora, vê-la, claramente, nos seus trajes de cavaleira de fím do sé- culo XVI. Perdi o pavor perante ela. Sinto a presença de uma alma mesmo que eu não ouça nem veja nada. Até no escuro sinto a pre­ sença de alguém, quando se trata de uma visita do outro mundo.

• 8 de novembro — Ela esteve comigo quase a noite toda, mas

conservou-se calma. Formulei uma oração que lhe agradou muito.

Seu olhar ficou mais suave, mas ainda não tenho coragem de dormir quando ela está comigo.

• 10 de novembro— Outra vez murmurou-me coisas ao ouvido.

Se entendi bem, foram as palavras “sem paz”. Perguntei-lhe, mas

apenas meneou tristemente a cabeça.

• 11 de novembro — Durante a missa cantada, do começo até

o fim, estava presente o cavaleiro, velho conhecido meu. Já é a segunda vez que vem em dia de domingo. Será que há alguma ligação

com a relíquia da Santa Cruz, que se expõe à veneração nestes domingos? • E ela também, a Catarina, apareceu.

• 12 de novembro— Finalmente, ela está em condições de falar.

Recomeçou a andai-pelo quarto, agitada, muito inquieta, quase como louca repetindo sem parar: “sem paz, sem paz!” • Vi também de novo

os onze vultos nevoentos. • 13 de novembro -— Catarina esteve comigo durante longo tempo. Comecei diversas orações para ver qual delas lhe agradava mais. Ela fez com a cabeça que não gostava, até que comecei aquela que já lhe agradara outro dia. Ela ajoelhou-se ao meu lado. Foi a primeira vez que uma Alma do Purgatório fez isso. Senti uma sensa­

ção muito especial. Em seguida, perguntei-lhe: “Viveste neste caste­ lo?” -— “Vivi.” — “Seu coipo foi enterrado aqui?” — “Não.” Fiz-lhe outras perguntas, mas não obtive resposta.

• 14 de novembro — Algo de estranho me aconteceu. Eu havia

resolvido a faltar, na manhã seguinte, à missa diária, porque me sen­ tia muito cansada e achava que deveria dormir mais um pouco até despertar-me por completo. Sonhei então com uma pobre senhora que me pedia e implorava lhe desse alguma coisa. Acordei assus­ tada. Catarina estava ao lado de minha cama, de mãos suplicantes.

Eugenia von der Leyen, no N atal de 1912, aos 45 anos. É característico o je ito de seu penteado. Todas asfo to s m ostram o cabelo enroladoform ando com o que uma coroa na cabeça.

Eugenia, com a sobrinha Adelheid von der Leyen, falecida em 17 de julho de 1975, no castelo de Waal.

Eugenia, no castelo de Unterdiessen, com o pequeno príncipe Wolfrani e com o cão de guarda Tobanno, em 1926, três anos antes de sua morte. Como ela diz nos apontamentos, só o pequeno e alguns anim ais dom ésticos viram, algum as vezes, as A lm as do Purgatório.

Disse-lhe: “Obrigada que me acordaste. Como soubeste dos meus pensamentos?” — “Estou unidaati.”— “Através de quê?” Nenhuma resposta. Em vez disso, a pergunta dela: “Queres sacrificar-te ainda por mim?” — “Quero; o que mais posso fazer para te ajudar?” — “Dar-me a paz!” — “Como posso te dá-la?” — “Pelo amor!” Pobre da Catarina! Agora cuidarei bem de minha amiga. Infelizmente, ainda me ocupo demais com meu próprio conforto. Se não fosse o ambiente confortável que me cerca, poderia fazer muito mais sacri­ fícios. Tudo seria bem mais fácil, se pudesse viver apenas pelas Almas do Purgatório. Mas estou rodeada de pessoas de carne e osso. Sinto-me bastante frágil para lidar constantemente com gente que pertence a mundos diferentes. Sinto alívio em lançá-lo no papel, pois ainda não estou em condições de dispensar consolo humano — e a sensação de que alguém não me perde de vista, me dá segurança. Preferiria calar tudo o que se refere a mim mesma, mas se um quadro quer expressar a realidade, não se podem omitir detalhes e matizes. Quero viver em obediência a meus diretores. Enquanto lanço no papel estas notas, surgem no meu íntimo pensamentos egoístas. Pergunto-me por que só eu tenho que passar por tudo isso e por que não percebem também outras pessoas o que se passa comigo? Mas quero esforçar-me para rejeitar essas idéias, pois devo refletir mais sobre a minha vocação peculiar; assim encontrarei o contrapeso necessário.

• 15 de novembro — Ela ficou longamente comigo sem falar.

Se a sua boca não fosse tão repelente, não causaria impressão desagradável. Acho que ficará mais comunicativa ainda. • Vi os “onze” e o cavaleiro. • Na horta vi o velho Henrique com sua aparência hedionda. Como posso ajudar a todas essas almas? • Eu estava com meus familiares quando, repentinamente, Catarina se mostrou à minha frente. Fez-me um sinal com a mão para ir com ela. Mas eu não podia abandonar meus familiares; eles não enxergavam o que eu via. Ver tantas almas naquele dia foi uma grande alegria para mim, pois na santa missa eu pedira ao Bom Deus que me mandasse hoje

diversas almas, se minha solicitude para com elas fosse do agrado dele. Agora estou em paz. Foi um belo presente que ele me deu para o meu onomástico.

Eu sempre desunia os homens

• 16 de novembro— Catarina veio à uma da noite. Longamente,

rezamos juntas. Perguntei-lhe: “Podes dizer-me o que tens na boca?”

— “Vês isso?” — “Sim. Dize-me por que tua boca sofre dessejeito.”

— “Eu sempre desuni os homens.” E começou a soluçar terrivel­ mente. Disse-lhe: “Tenho muita compaixão de ti. Ainda tens que sofrer por muito tempo?” — “Tenho!” — “Encontras alívio quando me procuras?” — “Encontro.” — “De que modo?” — “Paz!” — “Não entendo, explica-me melhor.” — ‘T u me dás paz.” — “Mas de que modo?” Ela achegou-se muito a mim e sussurrou-me algo ao ouvido. E sumiu. Interessante como o tempo passa tão rápido, quando a gente

está com as Almas do Purgatório. Ela chegou à uma e pouco e me deixou às 4:30. E eu tive a impressão de que se passara meia hora no máximo. Ela está bem vestida e traz uma corrente comprida de ouro. Pena que eu não saiba desenhar. Não tem muita idade. Parece ter uns 40 anos. Faço votos para que volte; quase que começo a gostar dela.

• 17 de novembro — Ela começa a procurar-me também em

outros quartos. Até agora, veio nove vezes. • 19 de novembro — Dois dias de descanso completo. Que

bom!

• 20 de novembro — Catarina passou comigo quase a noite

toda. Estava muito calma. Ficou simplesmente de pé. • Henrique veio também. Aparência terrível. Tudo se vê nitidamente. Ele está

muito inquieto e geme de modo horroroso. Perguntei a Catarina:

“Vês a pobre alma que está ao teu lado?” — “Não.” — “E por que

”. Ela disse ainda algo

não?” — “E que estou ligada somente a ti

que eu não entendi. — “Voltarás ainda muitas vezes?” — “Se

receber permissão.” — “Quem pode dá-la?” — “A misericórdia.”

E se foi.

• À tarde vi o cavaleiro na igreja. Aproximei-me dele para

interrogá-lo. Ele não se mexeu e continuou rezando. Apalpei-lhe a armadura. É dura qual armadura real. Não tem muita idade o corpo que a aceitou. Tem os cabelos longos e louros.

• 21 de novembro— Henrique ficou comigo longamente. Mui­

to inquieto, tem a aparência de um homem mau. Está ganindo e gemendo sem parar. A reza o toma mais inquieto ainda, ou, por as­ sim dizer, mais malvado. • Ao nascer do dia veio Catarina. Fiquei aliviada por não precisar permanecer sozinha com Henrique. Sem esperar por mim, ela começou aquela oração de que mais gosta, por

si mesma. Fiquei tão comovida que chorei.Arrependi-me bastante de

ainda pensar tanto em mim mesma. Henrique ficou de pé assistindo

a tudo. A diferença entre as duas almas é grande, como entre luz e sombra, entre ira e meiguice. Com Catarina deu-se uma grande

mudança. Perguntei-lhe: “Estás melhor?” — “Vejo a claridade”, me respondeu. Continuei: “Posso então dedicar-me agora somente às outras almas?” — “Não me abandones ainda!” E ambas as almas me deixaram. Oh, se eu pudesse fazer mais para socorrê-las! E verdade que eu poderia jejuar mais, mas então não conseguiria ajudar devida­

mente a todos os outros, já que não me é possível esconder, durante

o dia, as conseqiiências dos sofrimentos da noite.

Catarina morreu em 1680

• 22 de novembro — Sinto muita vontade de riscar o que anotei

ontem. Deixo de fazê-lo para que se saiba quão grande é a minha

falta de amor e a minha covardia. Como poderia eu duvidar que o Bom Deus me daria toda a força de que preciso para seguir suas

inspirações?

Voltaram ambas as almas; vê-se no rosto de Henrique quanto

detesta a oração. Não ligo para essa sua atitude e continuo, como sempre, com a minha reza de costume. Notei certa mudança na boca de Catarina. Às vezes, ela até sorri. Pedi-lhe: “Dize-me, por favor, quando morreste.” — “No mês de fevereiro de 1680.” “Onde está enterrado teu corpo?” — “Em Kempten.”(14b) — “Por que está tua

alma aqui?” — “Trouxe desunião para cá.” — “Conheces a Bárba­ ra?” — “Conheço.” — “Fala, por favor, mais um pouco.” Então, ela sumiu. • Henrique deve tê-la visto, pois enquanto ela falava, foi-se aproximando cada vez mais.

• 24 de novembro — As duas almas estiveram comigo durante

longo tempo. Mas não reagiram a perguntas e convites para rezar

comigo. Fico contente quando Catarina também aparece; é terrível ficar sozinha com Henrique.

• 25 de novembro— Foi só Henrique que se mostrou. Compor-

tou-se de modo tão arrebatado que receei acabasse por cair na banheira. Perguntei-lhe: — “Tens algo a me dizer?” Aí ficou muito furioso. Saiu correndo, voltou e gemia de maneira abominável. Não foi nada agradável.

• 26 de novembro— Vieram Henrique e Catarina. Disse a esta:

“Pensei que tua padroeira te fosse remir, pois ontem não me vieste ver.” — “Minha padroeira é Catarina de Sena”, disse ela de um jeito tão explosivo que quase dei uma gargalhada.

• 27 de novembro — Não me sentia bem e não consegui adormecer, pois eu contava com a visita de minhas amigas. Mas não veio ninguém, o que, aliás, costuma ocorrer quando sofro muito. E interessante essa delicadeza das Almas.

• 28 de novembro — Sofro; as Almas não vêm.

• 29 de novembro — Veio apenas Henrique. Mostra-se aborre­

cido com minhas rezas e perguntas.

• 30 de novembro — Quando entrei no meu quarto, Catarina já

estava me esperando. Rezamos juntas. Terminada a oração da noite,

(14b) Kempten é a capital do Allgaeu bávaro, famosa pela basílica de São Lourenço e pelo castelo residencial, ambos construídos pelo conhecido mestre da arquitetura barroca, Michael Beer.

perguntei-lhe: “Por que não vieste este tempo todo?” — “Eu estava contigo.” — “Por que não te vi?” ■— “Tu me deste muito. Olha!” Ela apontou para sua boca. Desaparecera tudo quanto de abominável a desfigurara. Não sou capaz de descrever a alegria que senti. Pergun­ tei: — “Já não sofres tanto?” — “Não.” — “Dize-me de que modo posso ajudar-te ainda mais?” — “Se não pecares nunca.” — “Infeliz­ mente, isso ainda não consigo.” Aí ela me sussurrou algo ao ouvido. Mas não o entendi. Parece que foi “união” ou “boa intenção”.E se foi. Viver sem pecado algum. Oh, se o conseguisse! De vez em quando está tudo fervilhando dentro de mim. Sou também fingida porque não mostro aos outros o que sinto dentro de mim.

Henrique torna-se brutal

• Io de dezembro — O velho Henrique ficou longamente

comigo e comportou-se de modo abominável. Perguntei-lhe se havia sido ele quem atirara em meu avô(|4c). Aí ficou fulo de raiva. Atirou- se contra mim e me apertou a garganta com tanta força que pensei morrer estrangulada. O gesto não levou mais de um segundo, no entanto, foi terrível e me perturbou tremendamente^15). Jamais esque­ cerei aquele seu olhar furioso. Fui agredida pelas Almas três vezes até agora. Quando isso acontece, não é tanto a dor que sinto, mas um noj o indizível— é como

Faltam-me palavras para

se eu tivesse que pegar em sapos ou cobras descrever tal sensação.

(14c) Seu avô chamava-se Cari Eugen Damian Erwin I (1798-1879). Fora casado com Sophie Therese von Schõnborn-Buchheim (t 1876). O retrato dele está no salão.

(15) Essa atitude violenta é um mistério da malícia que a alma leva consigo ao estado purificador. Em vida, ela queria praticar o mal; no estado de purificação, arrasta consigo esse mal sem que o queira, reconhecendo toda a feiúra abominável de seus atos. Compreendemos, assim, melhor, a atitude de muitos pagãos que sentiam um pavor indizível dos defuntos e que procuravam expulsá-los, por meio de barulho e de máscaras, do lugar onde haviam vivido e morrido. Daí a explicação da palavra “barulho infernal”, em alemão: barulho dos pagãos.

• 2 de dezembro— Henrique esteve no meu quarto, das duas até às seis. Mostrou-se tão agressivo que só a custo consegui defender­ me. Apresentei-lhe a partícula da Santa Cruz. Aí se recolheu a um canto, onde ficou rosnando como um cachorro bravo. Foi terrível. Tive saudades de Catarina. Durante a missa toda, o cavaleiro esteve presente. Vi também os onze vultos nuviosos; não sei o que pensar a respeito deles.

• 3 de dezembro — Primeiro veio Henrique; em seguida,

Catarina. Perguntei-lhe: — “Ainda não enxergas a alma que está comigo?” — “Não.” — “E por que não” — “Não estou mais na fase dele.” — “Por favor, dize-me se é uma Alma do Purgatório ou se é um espírito do inferno.” — “Salva-a!” Durante longo tempo

rezei com ela. Henrique estava calmo, mas sua figura continua abominável.

• 4 de dezembro — Ao subir a escada, uma sombra acompa­

nhou-me à frente até dentro do meu quarto; em seguida, desapare­ ceu. À noite, Henrique retornou. Rezei com ele, mas ele nem ligou. Quando uma alma me aparece, seu rosto, nos primeiros tem­

pos, está totalmente escuro; começa a clarear aos poucos e só então passo a distinguir contornos e detalhes até tornar-se reconhecível. Isso sempre me impressionou. O rosto começa a clarear, quando as almas recebem permissão para falar.

• 5 de dezembro — Veio só Catarina. Perguntei-lhe: “Podes

rezar por mim?” — “Posso.” — “Não queres pedir para que eu não mais receba visitas de Almas do Purgatório, pois gostaria tanto de ter novamente sossego.” — “Não!” — “Mas por que não queres rezar por essa minha intenção?” — “Deus não quer que eu peça isso.” Fiquei profundamente emocionada ao ouvi-la, pois então tratava-se de uma ordem do próprio Deus para que eu recebesse visitas das almas. De hoje em diante devem acabar as perguntas tolas e os “por­ quês”; deve terminar qualquer consideração pessoal e pensamentos egoístas. Mostrei uma relíquia da Santa Cruz à minha amiga Catarina, e perguntei-lhe: “Conheces isso?” — “Conheço.” — “O que é?” — “É coisa santa.”

• 6 de dezembro — Aquela sombra, aparentemente uma Alma

do Purgatório, ainda impossibilitada de se manifestar claramente, continua mostrando-se na escada. Tem certa semelhança com os onze vultos nevoentos. Será que ela faz parte do grupo? • Henrique esteve comigo a noite toda; a relíquia da Santa Cruz é a minha proteção. Agora ele já não se aproxima tanto de mim.

Salva por dar esmolas

• 7 de dezembro— Durante muito tempo esteve comigo minha

querida Catarina. Perguntei-lhe: “Por que sofres no purgatório já há tanto tempo? Fizeste muito pecado por tua fala?” — “Fazia, e não me arrependia e não me confessava.” — “Como foi que te salvaste?”

— “Eu costumava dar esmolas.” — “Por que morreste sem ter recebido os sacramentos?” — “Morri afogada.” — “O que posso fazer por ti?” Ela murmurou-me algo ao ouvido. Entendi apenas:

“participação” e “de Cristo”. Talvez tenha dito: “Participação no corpo de Cristo” (= oferecer por ela a santa comunhão). E desapare­ ceu. • Logo em seguida veio Henrique. Ele não mudou quanto ao

comportamento. Faço bem pouco por ele, é a verdade. Estou como que dividida entre as coisas do mundo e o meu dever de ajudar as almas. O pouco que consigo fazer por elas não basta, evidentemente, para ambas, para Catarina e Henrique. Estou percebendo quej á não fico assustada quando vem alguém do outro mundo. Enxergo as almas até no escuro, mas prefiro que me apareçam na claridade do dia.

• 8 de dezembro — Henrique reapareceu furioso; parecia um

demente. Jogou-se no chão. Rezei à Mãe de Deus; aí se acalmou um pouco. No entanto, minhas orações não são bem boas; rezo como que maquinalmente, pois todo o meu pensamento está ocupado com a Pobre Alma que está comigo e que me dá tanto medo. Ele se foi às três da madrugada, mas voltou pelas cinco. Disse-lhe: “Vai embora. Quero ir à igreja. Lá posso rezar melhor por ti.” Em vez de me res­ ponder, gritou de modo abominável, e, comovida, voltei a rezar com

ele. Soluçou tanto que tentei dizer-lhe algo que o alegrasse. Lem- brei-me que, quando eu era ainda criança, me passara ele, algumas vezes, por cima da cerca, muitas ameixas. Disse-lhe, então: “Agrade­ ço-te, pois muitas vezes me proporcionaste favor e alegria. Não te esqueci. Dize-me de que modo posso ajudar-te, eu o farei de boa vontade.” Saiu então de sua garganta um som trémulo, balbuciante. Ele me estendeu a mão. Apertei-a; estava quente. Seu rosto ficou mais humano; havia nele algo de amável, por assim dizer, embora seu aspecto continuasse bastante repelente. Disse-lhe: “Agora deves ir. Tenho que ir à igreja.” Parece-me que fizemos amizade, pois sem­ pre que venço o medo pelo amor, sinto-me melhor, e a própria situa­ ção muda para melhor. Na encosta do morro esperavam-me aqueles onze vultos ne­ bulosos. Diante do fundo de neve, pareciam de um cinzento muito escuro.

Não me podes contar nada do Além?

• 9 de dezembro — Veio Catarina. Eu estava acordada. No

momento em que me aparece uma Alma do Purgatório, tudo quanto está em meu cérebro fica totalmente concentrado naquela aparição. Todos os outros pensamentos se apagam. O efeito é um tanto semelhante ao de um comutador. Interrompendo a força, desaparece para a vista tudo quanto se via à luz elétrica. O que vem do Além tem uma força irresistível. Já não sentia eu dor alguma; Catarina veio encostar-se a mim e passou a mão na minha fronte como se quisesse fazer um carinho. Perguntei-lhe: “Por que estás hoje tão amável para comigo?” — E porque está tudo claro.” — “Onde está essa clarida­ de?” — “Dentro de mim e dentro de ti.” — “O que mais estás vendo dentro de mim?” — “Anseio de Deus.” — Dito isto, desapareceu. É verdade que eu estava esperando ansiosa a santa comunhão. Tenho medo, porém, de qualquer atitude extravagante. Escrevo estas coisas a contragosto, pois parecem um tanto extravagantes. • E veio Henrique. Nada de especial.

• 10 de dezembro — Tudo como ontem.

• 11 de dezembro — Aquela sombra que eu vira na escada,

estava, agora, de dia claro, em meu quarto. Durante a noite, retomou Catarina. Estava muito amável. Perguntei-lhe: “Não podes contar­ me nada do Além?” — “Não.” — “Não tens permissão de falar?” —

“Deves crer.” — “O Além é assim como o aprendeste no catecis­ mo?’^16)— “Sim.” — “Por que não te vejo quando estou sofrendo?” — “Porque então não tens força para agüentar minha presença.”

• 12 de dezembro — De dia claro, aquela sombra ficou ao meu

lado. Ninguém o percebeu. • Veio Henrique. Ficou bastante tempo comigo. Mudou um pouco para melhor. Parece que já não hostiliza a oração. Junto com ele havia mais um vulto. Ficaram quase a noite toda. Estava tão cansada que lhes pedi que me deixassem só. Responderam ao meu pedido com um horroroso gemer e choramin­

gar. Retirei, pois, a minha súplica e recomecei a oração. Veio-me um pensamento abominável: invejei as pessoas que podem dormir sem serem procuradas pelas Almas do Purgatório.

• 14 de dezembro— Apareceram todos: os onze vultos nevoen­

tos, o cavaleiro, Catarina e Henrique, mas nenhum deles me falou.

• 15 de dezembro — Tive uma noite horrífica: parecia-me que

um grande pássaro estava batendo sem parar contra a janela. Levan­ tei-me para ver o que havia. Mas estava tudo em ordem, nem ventava. Contudo, apareceu uma grande sombra negra, ou um vulto, que me encheu de pavor; parecia mais bicho que gente. Fiquei com um medo inominável e afastei-me às pressas da janela. Que alívio! Quando Catarina apareceu, interpelei-a: “Viste aquele horror?” — “Não, mas

(16) A princesa era muito abnegada e procurava evitar qualquer pecado por mais “leve” que fosse. No entanto, às vezes lhe acontecia não saber distinguir claramente entre perguntas inspiradas pelo anseio de se santificar e aquelas que procediam de uma certa curiosidade religiosa. A resposta da alma: “Crê!” — acentua a ordem rigorosa para o mundo que sofre as conseqiicncias do pecado original. Se a fé se transformasse em um saber científico, já não haveria liberdade humana. É só pela fé que gozamos da liberdade de aceitar ou de rejeitar as verdades religiosas. Deus quer que o homem se decida livremente entre o bem e o mal e que, com essa sua decisão, arque com as conseqiiências que dela resultarem.

vi

teu medo.” — “Estás sempre comigo?” — “Estou.” — “Por

que não te vejo?” Não me respondeu e foi embora. Deus há de me proteger daquele horror que me ameaça.

• 16 de dezembro — Outra vez aquele estrondo à janela, mas

só ruído; não vi nada. Veio Catarina e ficou comigo bastante tempo.

Ao rezarmos aquela oração de que mais gosta, ela ficou de joelhos. Depois me disse: “Agradeço-te muito.” — “Tua aparência mudou totalmente. Não precisas mais sofrer?” — “Começa para mim a alegria.” — “Não me visitas mais?” — “Não.” E achegou-se a mim

e me disse algo que não entendi; pareceu-me palavra em língua

estrangeira. E desapareceu. Estou um pouco triste por não mais po­ der vê-la. Ela se havia tomado um verdadeiro refúgio para mim. Agora estou com medo daquilo que se anuncia à janela, pois é totalmente diferente de tudo quanto já vi.

Eu havia feito diversas perguntas a Catarina, mas tenho anota­

do apenas aquelas a que me respondeu. • Vi o cavaleiro, os “onze” e

a “sombra” qual neblina cinzenta; ela ficou comigo uns dez minutos.

• 17 de dezembro — Vieram Henrique, o cavaleiro e a “som­

bra”. Aquele pavor àjanela estava como que misturado à tempestade

que se abateu sobre a nossa região. Por isso, não posso dizer nada

de preciso a respeito daquilo que se aproxima.

• 18 de dezembro — Na capela do Hospital, vi a Irmã Edviges,

que parecia estar bem feliz. • No meu quarto, Henrique. Disse-lhe:

“Acabo de rezar bastante por ti. Por favor, o que queres mais?” — “O perdão.” — “Foste tu que atiraste em meu avô?” — “Eu fui o instigador e o caluniei.” — “De bom grado te perdoo. Ainda tens que sofrer muito?” — “Sim.” — ‘Tenho ordem de te perguntar se

estiveste doente ou possesso.” — “Possesso.” — “De quem?” — “Do espírito da mentira.” — Ele falou tudo isso choramingando o tempo todo. Seu aspecto era comovente. Estou satisfeita por ele ter começado a falar. (Tenho a impressão de que não está muito certo descobrir as faltas que as Almas do Purgatório cometeram em vida.

E como se eu faltasse à confiança que têm para comigo. A obediên­

cia a meu diretor e a caridade para com o próximo dificilmente se conciliam dentro de mim.) (|7) As almas que me procuram mostram seu sofrimento, sobretudo

pela posição e gestos de suas mãos. Infelizmente, não sou capaz de

o descrever nem de o desenhar.

O Monstro

• 19 de dezembro — Chegou o Monstro. Posso vê-lo distinta­

mente. É mais alto que os homens comuns. Tem cabelos hirsutos, negros; resfolega de um modo asqueroso. Protegi-me com a relíquia da Santa Cruz e aspergi água benta na aparição. JFixou-me o olhar algum tempo e depois foi embora pela janela. Nunca em minha vida

tinha visto algo tão nauseabundo, a não ser em jardins zoológicos.

E esse Monstro, nojento e asqueroso, esteve no meu aposento!

• Ao amanhecer, veio Henrique. Perguntei-lhe: “Queres rezar

comigo?” — “Quero.” — “Sentes alívio pela oração?” — “Sinto.” — “Mas, então, por que outro dia vieste sufocar-me?” — “Meu tormen­

to éhorrível.” — “Não o farás mais?” — “Não.” — “Por que não vais

a teus parentes?” — “Não há caminho que leve a eles.” Quando rezo,

agora, Henrique se comporta de modo bem diferente de como o fazia antes.

• 20 de dezembro — O Monstro esteve no meu quarto quase a

noite toda. Eu estava acordada e a luz, acesa. De repente, com gran­

de estrondo, irrompeu pela janela adentro. Foi horrendo. Por sorte, ficou distante de mim. Mas aqueles olhos com que me fixava! Meu Deus, que olhos! Parece-me que não mais agiientaria outra noite

(17) Escreve o pároco Sebastian Wieser: “Eu conhecia bem o velho Henrique (como também Fritz Schaefer e outros). Ocupava a casa em frente à minha. Eu o visitei diversas vezes nos dias de sua demência. Faz uns 50 anos que morreu. Ainda hoje se mostra o buraco pelo qual passara a arma. Agora, sua alma confessa ter sido ele o autor do tiro fatídico e responde à pergunta que eu lhe dirigira, por intermédio da princesa, afirmando ter sido possuído pelo espírito da mentira. Mandei fazer-lhe essa pergunta porque sou de opinião que boa parte de pessoas loucas são possessas por espíritos malignos.

semelhante a esta. Sentia-me como que totalmente abandonada de Deus. • Henrique veio duas vezes. Parece-me que enxergava o Monstro, pois virou-se para olhar para ele. Não respondeu a minhas perguntas.

• 21 de dezembro — Vi a alma que se mostra qual sombra em

meu quarto. • Henrique ficou comigo longamente. Perguntei-lhe:

“Viste o Monstro que esteve aqui ontem?” — “Vi.” — “Ele é mais

infeliz que tu?” — “Sim.” — “Sabes quem é?” — “Não.” — “O que posso fazer por ti que mais te ajude?” — “Receber os sacramentos.”

— “Depois de eu ter recebido os sacramentos, percebes alguma coisa?” — “Percebo.” — “De que modo?” — “Tu atrais.”

• Veio o Monstro e Henrique se foi. Tentei rezar também com

ele, e o Monstro achegou-se a mim. Na minha covardia, parei de

rezar. Ele se parece com um grande macaco.

• 23 de dezembro — Aconteceu o pior que já tive de enfrentar.

O Monstro veio fazendo muito barulho e se acocorou num canto,

fixando-me o olhar sem parar. Ontem, eu fui muito covarde ao parar

de rezar quando o Monstro veio se aproximar de mim. Hoje, recobrei

coragem e comecei a rezar. Mal havia pronunciado as primeiras palavras, agarrou-me o Monstro com toda força. Não senti dor física, mas algo tão asqueroso que perdi os sentidos. Não sei o que acon­ teceu, mas aquilo não durou muito. Quando recobrei os sentidos, a luz estava acesa, mas o Monstro não estava mais. Senti-me mal. Consegui dormir um pouco. • Veio Henrique, ficou, porém, pouco tempo comigo. • Vi o cavaleiro e os onze vultos. • Aquela alma em forma de sombra seguiu-me ao subir a escada e ficou comigo enquanto eu enfeitava a árvore de Natal. E difícil minha situação, muito difícil. Tenho que esconder todas as impressões que me causam as visitas do outro mundo, e comportar-me como pessoa comum enquanto convivo com as Almas do Purgatório.

• 24 de dezembro— Henrique esteve muito tempo comigo. Seu

aspecto está melhorando. Perguntei-lhe: “Estás passando melhor?”

— “Estou.” — “Serás libertado e remido em breve?” — “18x7”. —

“Dize-me se há mais algumas almas comigo que não posso v e r- “Há.” — “Por que não as posso ver?” — “Elas não têm permissão de

se mostrar.” E desapareceu.

• Na hora do jantar veio a “sombra”. • Os onze vultos acompa-

nharam-me para a missa da meia-noite. • De volta ao meu quarto, antes de me deitar, veio o Monstro. Ele tem duas vezes meu tama­

nho. Senti tanto pavor que quis sair para o corredor. O Monstro colo­ cou-se à minha frente, tornando impossível minha saída. Disse-lhe:

“Não me podes fazer mal; é noite de Natal ” O Monstro urrou e foi correndo pelo quarto. Ajoelhei-me diante de meu presépio, sem poder rezar nem pensar, já que um pavor inominável me penetrava.

O que aconteceria ainda?! Ao meu lado, aquele resfolegar sinistro.

Enfim falei: “Se não podes falar, dá-me um sinal se posso ajudar-te.” Ele jogou-se no chão, uivando como um animal. Dei-lhe água benta. Por ser Natal, superei o meu medo e o acariciei. Mas como foi duro

esse gesto para mim! Rezei em voz alta. Ele estava quieto. Seu aspec­

to era terrível. Não tinha roupa, apenas couro, como os animais. E

esses seus olhos! Contudo, veio-me um pensamento consolador. Se

fosse um espírito mau, não se comportaria assim como está fazendo,

já que mostrou, por sua atitude, que posso ajudá-lo.

• Henrique me despertou para ir à primeira missa. Perguntei:

“Quem está aí?” — “Gebhard.”(18) E foi Henrique quem respondeu.

Vim, assim, a saber que ele tinha mais um nome de batismo. Eu me convenço mais e mais de que são as almas que me despertam e assim já o fizeram no passado.

• A “sombra” mostrou-se de novo na sala de jantar e se

comportou de tal modo que quase me foi impossível levar o alimento à boca. Os que estavam comigo à mesa perguntaram-me o que me faltava, já que não comia. Procurei disfarçar a penosa situação do melhor modo possível, pois ninguém me compreenderia.

(18) Ele tinha dois nomes: Gebhard Heinz.

Nós todos caminhamos no escuro

• 26 de dezembro — Chamei o Monstro de “Miserável”. Só

pouco tempo ficou comigo. Os “onze” nãó mudam de atitude. Não posso abordá-los, mas têm comigo um comportamento amigável. A “sombra” permaneceu longamente comigo.

• 27 de dezembro — O “Miserável” ficou no meu quarto

bastante tempo. Eu quis rezar, e logo ficou comigo. Emudeci, pois

vi que estava totalmente coberto de bolhas, tumores e inchações

sangrentas. A vista de seu corpo, sinto um asco medonho. Queira Deus que o meu “Miserável” não me toque.

• Como é fraco meu amorpara comesse pobrezinho. Sinto tanta

repugnância diante dele. Eis que, no instante em que quis ceder ao impulso de me retrair, Catarina aparece à minha frente. Ela apontou para a sua boca que ainda há pouco se assemelhava ao corpo do

“Miserável”. E ela mudara tanto! Estava linda, mas tão linda! e sor­ ria para mim. Alegrei-me com ela e perguntei-lhe: “Ainda ficas comigo?” — “Não.” — “E por que vieste agora?” — “Porque ficas­

Mas tenha dó! Olha para

ele! Vê como está! Tenho que ter medo dele. Não o vês?” — “Não. Essa fase de minha existência passou.” Com isso desapareceu.

Que visão linda que ela oferece! Sou grata quando as Almas

do Purgatório me ajudam para mudar para melhor.

Pouco depois, o “Miserável” foi embora. Venci-me a mim mesma e disse: “Volta logo!” Mas é triste constatar que, apesar de minha idade, ainda não aprendi a fazer sacrifícios— em teoria, sim!, mas na prática, não!

• 28 de dezembro — Veio Henrique. Estava muito triste.

Perguntei-lhe a razão. Respondeu-me: “Não me deste.” — “Descul­ pe-me, eu o sei. Negligenciei-te porque tenho pena também dos outros. Doravante quero cuidar primeiro de ti. Sabes quem me procura além de ti?” — “Nós todos caminhamos no escuro.” Mais tarde veio o “Miserável”. Examinei-o bem. O couro dele é marrom; seu corpo apresenta tumores, chagas, empolas, feridas abertas. Pensei

te fraca.” — “Sim, sempre enfraqueço

que o chão ficaria salpicado de sangue; seu aspecto é medonho. E esse Monstro ficava ao meu lado e me fixava. Disse-lhe pesarosa: — “Ainda não estou em condições de ajudar-te muito, já que um outro precisa de mim.” Ele uivou, correu pelo quarto e veio de braço erguido me agredir. Peguei depressa a relíquia da Santa Cruz e segurei-a como se fosse uma arma para me proteger. Rosnou qual cachorro bravo, mas ficou comigo. Sua presença faz meu coração bater violenta­ mente porque ele me olha de modo atrevido e me dá nojo; impres­ siona não por sua desgraça mas por sua maldade. Aproxima-se uma luta que tenho travado já tantas vezes: devo amar esse pobre coitado e não o consigo. Só quando chegar a amar essa alma embrulhada em execração serei capaz de fazer sacrifícios. • A “sombra” esteve comigo três vezes. Estou interessada em ver o que acontecerá com ela; não me causa impressão sinistra; parece serum pedaço de parede ambulante. Há situações, coisas ou pessoas de que tenho verdadeiro pavor. Às vezes, algo de pouca importância me atinge mais que horrores, por assim dizer,justificados: estrondos dentro da sala, visitas do Além que passam pela janela, resfolegar perto de mim, ruídos dentro de uma parede, tudo isso me impressiona muito.

• 29 de dezembro — Veio Henrique. Fiz-lhe muitas perguntas,

mas não recebi resposta. Ele aprecia arezae quando lhe dei água benta ficou quietinho. • Depois veio o “Miserável”. Acocorou-se num canto. Disse-lhe: “Chega-te a mim! Por que te mostras sob forma de animal?” Ele deu um salto ejá estava ao lado de minha cama. Quando

comecei a rezar, gritou de modo execrável. Contorceu-se no chão em convulsões terríficas. A relíquia da Santa Cruz não estava ao meu alcance. Dei-lhe água benta. Aos poucos, as contorções foram ces­ sando e, finalmente, ele se deitou no chão. Pude ver bem seu tamanho descomunal, tumores, inchações, bolhas e feridas abertas. Seu corpo está todo coberto dessas ascosidades. O rosto é apenas uma massa informe munida de olhos. Ao ver tanta deformidade, fiquei tomada de profunda compaixão. Levantei-me, ajoelhei ao lado dele e lhe disse: “Por que não me deixas rezar? Só quero ajudar-te. Rezemos

juntos! Verás que a oração ajuda.” Rezei o pai-nosso. Ele escutou calmamente, mas depois enlaçou-me com seus braços detestáveis. Disse-lhe: “Prefiro que não me toques, embora eu tenha muita von­ tade de ajudar-te.” Continuei a rezar com ele e como soluçasse mui­

to, rezei com ele o ato de contrição. Ao pensar em sua imensa miséria, tive de chorar de comoção. E aconteceu algo de singular. Soltou- me, ajoelhou-se ao meu lado e contei-lhe um pouco do Natal. Coi­ tado dele! Quanto não deve sofrer! Perguntei-lhe: “Ainda não con­ segues falar?” Fez que não com a cabeça. “Entendes o que te digo?” Acenou que sim. Parece-me que nos tornamos amigos. Pouco depois

saiu

No entanto, estou bem feliz. Tornar felizes as Almas do Purga­ tório é ainda muito mais belo, neste mundo, do que tornar felizes as pessoas vivas. Que bom que é o Senhor! Senti sua presença com

muitíssima intensidade. E só pode ser assim, pois, por mim mesma, não sou capaz de nada. Infelizmente, devo admitir que, agora, em mim mesma, trabalho bem pouco; continuo sempre no mesmo grau

de perfeição e não progrido. Meditando à noite, não encontro nada de bom dentro de mim. • Durante o jantar, a “sombra” apareceu e, depois, me acompa­ nhou no corredor. • Encontrei também os “onze”.

• 30 de dezembro — Henrique esteve comigo longamente.

Comecei diversas orações, uma após outra, mas não foi possível contentá-lo; estava agitado, inquieto, e não parava de gemer. Quando, finalmente, comecei o “Lembrai-vos”, serenou. Veio-me a idéia de que ele se salvou pela intercessão de Nossa Senhora. Perguntei-lhe:

“Como foi que te salvaste?” Não obtive resposta. Insisti: — “Quero

ia.” Não entendi a última palavra;

provavelmente foi “misericórdia.” — ‘T u a procuraste sempre?” — “Procurava.” Tais comunicações aquecem o coração da gente e o fazem muito feliz. Mas já fiz muitas perguntas similares sem obter

Aquilo foi duro para mim.

sabê-lo.” — “Foi a Mãe da

respostas.

• 31 de dezembro'— Veio o “Miserável”. Mostrou-se bem

agitado. • Estávamos à mesa, e veio a “sombra”. Parei no meio da

conversa, e todo o mundo exclamou: “Que cara boba estás fazendo!” Acho que minha cara ficou mais boba ainda com essa constatação. E

tão difícil manter a atitude natural quando nos procura o sobrenatural.

“Miserável”.

Nada que fosse importante. Tomo a dizer que, com as Almas do Purgatório, se constata a tristeza pela posição das mãos. As pessoas vivas não possuem essa faculdade de expressar a tristeza pela postura

das mãos. Pode-se pensar, talvez, numa flor cuja haste se quebrou. Há tanta tristeza nesses braços caídos, e tanta aflição, que é totalmente impossível expressá-lo por palavras.

• 2 de janeiro — O “Miserável” comportou-se de maneira bem

desagradável. Chegava repetidas vezes bem perto de mim, gemendo; era impossível rezar. Tive um medo terrível que me agarrasse. É isso que mais me amedronta. Toda a minha natureza se revolta contra tais

atitudes. • Fiquei aliviada com a chegada de Henrique. Rezei com ele. O “Miserável” se foi. Estava tão cansada que falei: “Por favor, deixa- me dormir. Rezarei por ti.” — “O que me prometeste?” E me deixou. Senti-me pequena por causa de minha preguiça.

• 3 de janeiro — Acordei, transida de terror. O “Miserável”

estava me segurando. Foi horroroso! Pedi-lhe que me deixasse em paz. Rezei com ele. Mas sua agitação continuou. Foi ao quarto anexo ao meu, onde, por muito tempo, fez barulho. • Henrique entrou chorando. Perguntei-lhe: “Por que estás tão aflito?” — “Existe algo entre mim e ti.” — “Sei, sim. Mas devo rezar também pelos outros.” — “Não deves, não!”— “Mas tenho tanto medo de que o “Miserável”

me torture se eu não o ajudar.” — “Agiienta!” e foi embora. A situa­ ção me parece sinistra. Pois o que farei com o “Miserável”?

• 4 de janeiro — E o “Miserável” veio. Disse-lhe que eu não

poderia ajudá-lo enquanto a outra alma precisasse de mim. Ele deu

um grito e me agrediu. Foi pavoroso. • Mais tarde, veio Henrique. Perguntei-lhe: “Estás contente comigo?” — “Estou.” — “Tenho de fazer tudo só para ti, e nada pelas outras almas?” — “Dá mais!” Realmente, ele vê o meu íntimo. Eu poderia doar ainda mais, se eu não fosse “Eu”.

• Io de janeiro de 1924 — Vieram Henrique e o

• 5 de janeiro— O “Miserável” veio durante o dia claro. Via-se

distintamente sua feiúra. Não encontro explicação para o “invólucro”

que envolve seu corpo. Talvez não seja couro ou pele, mas, em todo

caso, está cheio de tumores e inchações.Calculei seu tamanho porque

o comparei mentalmente com o tamanho do fogão que está no meu

quarto. O “Miserável” aproximou-se de mim de braços abertos. Refugiei-me na torre. Ele não me perseguiu. Desapareceu. • 6 de janeiro — Tive muitas dores durante a noite. Nada aconteceu. Interessante, isso! Mas agradável. Na igreja, o cavaleiro. Em certos domingos, não falta.

O tormento diminui, continua o castigo

• 7 de janeiro —

O “Miserável” voltou, adentrando pela janela.

O barulho que fez ao chegar, me despeitou. Perguntei-lhe: “Se não estás em condições de falar, responde por sinais. Es uma Alma do Purgatório?” Ele fez que sim com a cabeça. — “Posso realmente ajudar-te?” Outro aceno afirmativo. “Conheces aquela alma que precisa de minha ajuda e que veio antes de eu me dedicar a ti?” Ele fez que não com a cabeça e quis a minha mão. Não fui capaz de estendê-la. É horrível demais o aspecto de sua mão. “Por que fazes essas tentativas constantes de agarrar minha mão?” Ele apontou

para seus tumores e feridas abertas e gritou de modo aterrador. Rezei com ele; acalmou-se e colocou a mão no meu leito. • Veio Henrique. Tive a impressão de que um não enxergava o outro. Perguntei: “Sabes que está comigo outra alma?” — “Sei.” — “Podes vê-la?” — “Não posso.” — “E como o sabes?” — “Tu já a socorreste.” — “Como eu

a socorri?” — “Deste luz.” — “Que queres dizer com isso?” —

“Mostraste o caminho.” — “Estou ajudando também ati?” — “Sim.” O “Miserável” foi embora. Henrique continuou comigo ainda longo tempo. Rezamos bastante. Fiz-lhe muitas perguntas, sem, todavia, receber respostas. Para mim tudo isso é incompreensível, pois como posso proporcionar luz às almas?! De uma coisa, porém,

estou certa: o “Miserável” precisará muito de luz. • 9 de janeiro — O “Miserável” ficou comigo das 10:30 até às quatro da madrugada. Não reagiu a nada, mas não me perdeu de vista um instante sequer. Fiquei muito cansada com essa situação. Parece que seu rosto está ficando um pouco mais humano. Uma vez levantou-se de supetão, querendo agredir-me. Gritei: “Não deves fa­ zer isso!” Ficou furioso, mas voltou ao seu cantinho. Tive muito medo. Depois deeleter ido, escutei, de repente, umamúsicaque vinha

de muito longe. Foi algo de totalmente novo para mim. Abri a janela, mas a música não vinha de fora

• 10 de janeiro — De dia claro, veio Henrique. Parecia estar

alegre e satisfeito. Disse-lhe: “Parece que estás contente. Estás me­ lhor?” — “Estou, sim.” — “Dize-me por favor, por que tens que so­ frer tanto tempo? Tenho oferecido por ti já tantas vezes uma indul­ gência plenária!” — “Sim.” — “Então o percebeste?” — “Percebi. Deus é a Justiça; por isso, o tormento diminui mas o castigo continua.” E desapareceu. • Depois, encontrei-me com a “sombra”. Ela toma os contornos de uma mulher, mas apenas vagamente. • O “Miserável” entrou aos gritos. Eu estava ainda de pé e rezei com ele. Ele pousou a mão na minha cabeça. Não agíientei e afastei-a. Ele pediu: “Por favor!” — “O que queres que eu faça?” — “Sacrifícios.” — “Que sacrifícios?” — “Tua vontade.” Logo entendi o que ele queria: eu não suportava que me tocasse, e não queria tocar nele. Eu deveria, pois,

sacrificar minha suscetibilidade e meus melindres. E ele me esten­ deu os braços. Dei-lhe a mão direita, mas a contragosto. Ele pegou também a mão esquerda. E eu sentia suas mãos moles como papinha. Estive a ponto de prorromper em lágrimas. Perguntei-lhe: “Por que seguras minhas mãos?” — “Trazem alívio refrescante.” Fiquei quieta, mas sentia-me mal até que soltou minhas mãos. Ficou ainda algum tempo comigo. Que suplício!

• 11 de janeiro — Henrique esteve comigo quase a noite toda.

Tem aspecto de alma bem contente. Disse-lhe: “Por favor, conta-me

por que ficaste possesso pelo demónio?” — “Dei escândalo.” — “Onde estás agora?” — “Na sombra.” — “Ainda longe de Deus?” —

“Sim.” — “Será que voltarás a me visitar algumas vezes?” — “Não.” — E por que não?”— “Já não me poderás dar coisa alguma.”— “Mas

de bom grado te ajudarei!” — “Eu estarei distante de ti.” — “Em que consistirá o teu sofrimento?” — “Em estar distante de Deus.” E

Como é tudo tão singular! Anoto só o que entendo

claramente, pois muitas vezes tenho de perguntar, porque freqíien- temente as almas apenas sussurram.

desapareceu

O “Miserável” se dá a conhecer

12 de janeiro — Vieram o “Miserável”, a “sombra” e os onze

vultos.

13 de janeiro — Acordei com a pressão que se exercia sobre

omeu braço direito.Foio“Miserável” queseinclinou sobre mim. Sua cabeça estava tão próxima à minha que pensei esvair-me em pavor. Não posso descrever quanto sofri com isso. Todavia, não quero lamentar-me. O Bom Deus não me enviará cruz superior às minhas forças. • O rosto do “Miserável” está cheio de tumores e feridas, e

como que coberto de uma massa pegajosa. Finalmente, colocou-se ao meu lado. Comecei a rezar; depois, retirou-se. • Na igreja vi também o cavaleiro.

• 14 de janeiro— Eu estava muito contente com a volta de meus

ficou comigo até à noite. Ela estava sentada

comigo à mesa quando, de repente, o “Miserável” apareceu atrás dela e fixou-me, como de costume, seu olhar de onça morta. Faço um esforço tremendo para que minha companheira não perceba que está conosco, e de modo visível para mim, uma visita do outro mundo. No entanto, agiientar, durante muito tempo, essa tensão terrível, vai além de minhas forças. Disse, pois, à minha amiga que fosse deitar- se. No momento em que eu ia abraçá-la, o “Miserável” se pôs à frente dela, mas eu a vejo através dele. Ela está como que encostada no “Miserável”, mas não o percebe, apenas estranha muito que eu a esteja despachando sem formalidade e me considera quase como sem modos nem educação.

parentes de Roma, e a L

Mal minha amiga se foi, o “Miserável” avança contra mim. Agüento calmamente. Não quero desmaiar, embora aquela situação

quase me subjugue. Nem me lembro se rezei naquele transe horrendo. Eu agia maquinalmente pois o “Miserável” me apertava tanto que só com muito esforço conseguia respirar. Finalmente me largou. Exclamei: “Por que me torturas desse jeito?” — “É que tu me livras

de meu tormento!” — “Mas quem és, afinal?” — “Alguém que está

à procura.” — “À procura de quê?” — “De paz e descanso.” —

“Quero saber como te chamas.” — “Henrique.” E desapareceu. Des­

ta vez, eu me senti realmente esmagada; no entanto, fiquei contente

por ouvi-lo falar e saber que o coitado se chama Henrique^9). • Tor­

nei a ouvir aquela música estranha. Ou será que foi ilusão minha e que aqueles sons vieram dos fios de telefone que passam sob a minhajanela?

• 15 de janeiro — Henrique, é este o nome do ex-“Miserável”,

voltou. Já começa a apreciar a oração, e seu rosto se transforma. Tenho a impressão de já ter visto esses olhos, mas não sei dizer nem quando nem onde. • A “sombra” esteve no meu quarto; não sei se é homem ou mulher.

• 16 de janeiro — Henrique me despertou com um grito e

começou a gemer atrozmente. Rezei com ele, mas como continuas­

se a se lamentar, tomei a garrafa de água benta e a esvaziei sobre a cabeça dele. Ficou quietinho e acompanhou a oração em voz baixa.

E se foi. No chão, não se via gota de água alguma, embora tivesse

eu despejado sobre ele o conteúdo inteiro da garrafa.

• 17 de janeiro — Estranho! Tive muitas dores a noite toda, e

não apareceu nada. Pelas quatro da madrugada caí no sono e dormi

(19) O pároco Wieser comenta: Henrique v. M. é um personagem histórico. Assim como encontrei os nomes de Egolf e Bárbara, também achei o dele. Parece que levou uma vida violenta. Durante um ano inteiro continuou em evidência. Fez doações para missas que, porém, pela inflação, já não têm valor. Mandei, por isso, perguntar se ele sentia que as missas, outrora rezadas pela alma dele, agora não mais se rezavam. Ele respondeu: “O sangue de Jesus está sendo derramado por todos nós.” No dia 11 de fevereiro, também Henrique terminou sua purificação.

bem até às seis. Aí veio Henrique. Perguntei-lhe: “Por que vieste tão tarde?” — “Não te encontrei.” — “Por que não? Estive sempre no meu quarto.” — “É que não espalhaste claridade.” — “Dize-me

por que tens esse terrível aspecto?” — “E devido aos meus pecados.”

— “Cheguei a conhecer-te em vida?” — “Não.” — “Viveste neste

castelo?” — “Sim.” — “Quando?” Sumiu, sem dar resposta. • A “sombra” subiu a escada adiante de mim. • Na igreja, vi o cavaleiro.

• 18 de janeiro — Novamente, a visita do pobre Henrique.

Jogou-se em mim. Pedi-lhe que me deixasse em paz. Tudo em vão. Enfim colocou-se ao meu lado. Senti tão grande asco que estive a

ponto de prorromper em lágrimas. “Por que voltaste a fazer isso?”

— “Para me libertar.” — “Libertar de quê?”— “Não o estás vendo?”

— “Não!” — “Olha para mim!” E sumiu. Será que devo ajudá-lo a se libertar de seus eczemas e tumores? Não entendo isso. Como

pode ser proveitoso um sacrifício que devo fazer forçada?! Pois de livre vontade jamais o tocaria.

• 19 de janeiro— Confesso que, agora, cada noite me amedron­

ta. No entanto, consigo adormecer. À uma hora, Henrique, dando um grito, entrou. Perguntei-lhe: “De que modo poderei ajudar-te melhor?” — “Vence-te a ti mesma!” — E novamente me enlaçou. Foi pavoroso. Esforcei-me para oferecer minha agonia por ele. Por fim, me largou. A sensação que experimento com tais ataques, é de

ter ficado toda coberta de sangue e lama, mas nunca se vê nada. Perguntei-lhe: “Deves torturar-me desse modo?” — “Devo.” — “Quem o quer?” — “Eu.” — “Mas tens ainda tua livre vontade?” — “Não.” — “Por que dizes então que és tu que o queres?” — “Algo ”

Não consegui entender o resto. E

sumiu. Mais tarde, aqueles sons misteriosos me acordaram; não entendo o que seja; é como se cantassem dentro da parede. • 20 de janeiro — Ele irrompeu qual vendaval em meu quarto; eu estava ainda acordada e exclamei: “Por favor, não te aproximes hoje de mim.” — “Por que não?” — “Não suporto teus modos.” — “Não queres ajudar-me?” Achegou-se a mim. Eu não disse nada e

me obriga a isso pois apenas tu

fechei os olhos. Ele colocou suas terríveis mãos nos meus ombros e deitou a cabeça na minha. Não me lembro de mais nada, foi demais. Recobrei a consciência pouco depois. O pensamento na santa comunhão

me faz esquecer todas essas coisas; tanto me alegra a vinda de Jesus.

• 21 de janeiro — Os mesmos horrores, apenas sem que eu

perdesse a consciência. Fiquei covarde, pois só com pavor penso na

chegada de Henrique.

• 22 de janeiro — Um pouco melhor. Não o posso levar a me

responder, mas consegui rezar com ele. • A “sombra” esteve longa­ mente comigo. • Na igreja, vi o cavaleiro.

• 23 de janeiro — Henrique mudou bastante. Nem sei dizer

como ou em que, mas já não me inspira tanto nojo. Estou feliz por­ que não me tocou. Perguntei-lhe: “Dize-me, és tu o Henrique M.?” — “Sou.” — “Por que deves sofrer tanto tempo?” — “Tenho feito

o pecado mais pesado.” — “Tens sofrido todo esse tempo neste

castelo?” — “Tenho.” — “Por que não te vi antes?” — “A Justiça Divina não o permitiu.” — “Meu diretor quer saber se percebes que

as missas fundadas não existem mais?” — “O sangue de Cristo jorra

por todos nós.”(2°) E começou a chorar. “Por que choras?” — “Por­

que não posso aproveitar-me do sangue de Cristo.” — “E por que não?” — “É nisso que está meu castigo.” — “Eu te ajudo?” — “Estás me ajudando, sim.” Rezei com ele. Por algum tempo ficou ainda comigo, mas não respondia a minhas perguntas.

• A noite, na igreja, o cavaleiro estava ajoelhado no banco dos

ajudantes da missa. Seu rosto, belo e cheio de paz, estava voltado para mim. Não tive coragem de falar com ele. Talvez, nem deva dirigir-me a essa classe de almas, totalmente diferente daquelas que me procuraram. •24 dejaneiro— Já que tenho confiado tudo de importante a este

diário, digo também que meu estado de saúde é péssimo e, para ter

(20) “O sangue de Jesus está sendo derramado por todos nós.” Os que opinam de maneira diferente a respeito do santo sacrifício da missa, e não mais aceitam a transformação das espécies no corpo e sangue de Jesus, não sabem o que fazem.

as forças físicas necessárias, deveria sacrificar-me espiritualmente, sem ir à santa missa devido a meu extremo cansaço. Mas isto seria

um tratamento de saúde totalmente errado, pois então me faltaria tudo e sairia de dentro de mim até o que não deveria existir: tanta impaciência, tanta rudeza na convivência com o próximo.

• Na noite passada, Henrique veio três vezes. Ele está ficando

mais humano e já não tem aparência de macaco. Até os eczemas desapareceram. Rezei longamente com ele; parece gostar do salmo

Deprofundis (Das profundezas, salmo 129). De repente, achegou-se

a mim, sem me tocar (Graças a Deus!), e me perguntou: “Já o

percebeste?” — “Sim; tens o aspecto totalmente diferente. Qual a

razão?” — “E que te flagelaste por mim.” E sumiu. Eu o havia feito porque seguira um impulso pensando que isso ajudaria, talvez, às almas. Faço tão pouco por elas. • Outra vez, a “sombra” na escada.

• Ouvi a música. E um entremear-se muito estranho de tons

• 25 de janeiro — Henrique ficou longamente comigo. Estava

muito triste e não descobri o motivo de sua tristeza. Desapareceram tumores, pústulas e tudo o que provocava asco. Em vez de couro animal traz agora um casaco marrom. O modo como tem os braços expressa uma tristeza indizível.

• 26 de janeiro — Ele veio de dia. O aspecto é pior do que de

noite. E como se fosse um mosaico formado de quadros de nuvens de diversos matizes; a cabeça parecia ser transparente, e impressio­ nava de modo estranho. Perguntei-lhe: “Por que estiveste ontem tão triste?” — “Não me foi possível procurar-te.” — “Por que não? Tu estiveste comigo!” — “Havia tantas almas ao teu redor.” — “Não

vi nada. Quem esteve comigo?” — “Almas!” — “Mas eu rezei con­

tigo.” — “Tu estavas dividida!” — “E hoje chegaste tão cedo por causa disso?” — “Foi.” É verdade que tive uma noite sossegada,

e foi bem agradável. Mas o pensamento nas almas que por mim

esperam, me oprime um pouco. Será que agüentarei a situação por muito tempo? Onde está minha confiança em Deus? Onde está meu espírito de sacrifício? Estranho! • A “sombra” me seguiu durante

o dia todo. Trata-se de uma mulher, mas não se reconhece a pessoa.

• Henrique me fez uma curta visita. Novamente, aquela música! No fundo, não me faz feliz. Ela é tão imprecisa! Será que é imaginação minha? Será que é real? Não sei; vou simplesmente anotar tudo. No entanto, não mais farei menção daquilo que dou às Almas do Purgatório, pois é a coisa mais naturaldomundoqueeufaçaalgoporelas;épouco;devofazermuito mais. • 28 e 29 de janeiro — Dores e mais dores. Por isso, as almas, como de costume, me deixaram em paz. Durante a noite, fiz a experiência: chamei por Henrique, mas não veio. • 30dejaneiro— Sentia uma sensação esquisita. Veio Henrique

e me fez um sinal. Queria que eu o acompanhasse. Quis ignorá-lo,

mas ele achegou-se a mim e disse: — “Vem comigo.” O convite não me agradou, e não reagi. Aí ficou tão agitado que juntei todos os restos de coragem contidos dentro de mim e o acompanhei. Deram

justamente três horas. Ele foi à minha frente e descemos até à porta da cozinha pela qual se chega à adega. Fui abri-la e descemos a es­ cada. Foi duro. Lá embaixo, ele apontou para um canto escuro e de­ sapareceu. Eu me achava em frente da parede. Não se via nada. Graças a Deus, eu podia em toda parte acender a luz elétrica, pois no escuro a situação teria sido pior. Não há palavra para descrever o medo que sentia. Mas, paciência! A gente suporta também isso. Infelizmente, continuo sendo sempre “Eu mesma”, com todas as minhas misérias. Iode fevereiro— Durante a noite, a presença de Henrique. Fez- se de surdo para todas as minhas perguntas. Longamente rezei com ele. • A alma-sombra se dá a conhecer. É a velha camareira Janete, que há 40 anos esteve a serviço de minha avó. Ela passou bem perto de mim. Ao voltar da santa missa, e ao tentar abrir a porta de meu quarto,

o trinco se mexeu quando nele coloquei a mão; e quem estava ali? Henrique! Assustei-me deveras. — “Acabo de rezar por ti! Notaste-

o por acaso?”— “Notei, sim.” — “Escuta!Há alguma coisa enterrada na adega?” — “Não!” — “Por que me levaste para lá?” — “Foi lá

que pequei.” — “Mataste alguém?” — “N ão!Mas continua pergun­ tando!” — “Posso ajudar-te se pergunto?” — “Pode.” — “Foi um

pecado contra o 6o mandamento?” — “Foi.” — “Mais não quero saber desse assunto. Dize-me como posso ajudar-te?” — “Reza hoje por mim!” — “Por que justamente hoje?” — “Porque estás bem pura.” — “É porque me confessei e tomei a santa comunhão?” — “E por isso.” — E sumiu. (Escrevo isso obrigada pela obediência a meus superiores. Não quero nem pensar no que me disse. Que não me venha algum pensamento presunçoso ou de vaidade; caso con­ trário, a pureza já se vai.)

• 2 de fevereiro — Outra vez, aquela música que me despertou.

Mais tarde, Henrique. Perguntei-lhe: “Qual a razão de teu sofrimento tão prolongado? Não tiveste tempo paia te confessar antes de morrer?” — “Tive, sim. Fui perdoado, mas não fiz a devida penitên­ cia pelos meus pecados.” — “Podes dizer-me por que tua cunhada tinha aquela chaga na cabeça?” — “Não.” — “Vês também outras almas no castelo?” — “Vejo apenas as almas que se encontram na mesma esfera em que estou.” — “Por algum tempo, não me encontrarás aqui. Tenho de viajai', mas rezarei por ti.” — “Para nós não existe espaço.” — “Não estás ligado a este lugar?” — “Estou confinado a ti.” — “Por quem?” — “Pela misericórdia de Deus.” E desapareceu.

Realmente, o Bom Deus o quer! Subiu-me ao peito uma onda de calor ao pensar que posso fazer algo por ele. Tem sido tão mise­ rável minha atitude! Sempre pensando só em mim mesma. O Bom Deus me encarrega de uma tarefa. Este pensamento dá à alma um empurrão que, no meio da tortura e do medo, me enche de júbilo. Encontro-me hoje num estado esquisito, totalmente dividida em mim mesma. O que há de espiritual dentro de mim, mal permite ao meu corpo mexer-se. Mas eu me comporto de um modo tão artificioso! Ninguém pode suspeitar o que se está passando comigo. Mas o que se agita no meu íntimo, tem de irromper; por isso fico contente que alguém saiba o que está se passando comigo, embora, às vezes, eu não aprecie muito esse fato, já que minha alma é propriedade privada

minha. • Durante a reza do terço, vi, na igreja, aquele cavaleiro. • Encontrei-me com os ‘‘onze’’na encosta do morro. Talvez, Henrique possa informar-me a respeito deles. Vou interrogá-lo. 3 de fevereiro — O cavaleiro esteve presente no culto quase o tempo todo; cheguei a pensar que os coroinhas da missa iriam nele tropeçar. • Henrique apareceu apenas por instantes.

• 4 de fevereiro— Henrique ficou a noite quase toda. Disse-lhe

que eu partiria e que ele não conseguiria encontrar-me, segundo minha opinião. — “O caminho é luminoso !”(21) disse ele.

Quando morrerei?

• 7 de fevereiro — Sch

De fato, Henrique veio. Não falou na­

da. Mas ainda deve haver outras almas dentro do meu quarto, pois há um sussurro constante ao meu redor, que torna o ambiente pouco acolhedor. 8 de fevereiro Henrique ficou longamente comigo. O aspecto dele é bom. Indaguei-lhe: “Virás ainda muitas vezes?” — “Ainda preciso de tua ajuda.” — “Como posso ajudar-te?” — “Pela mortificação.” Devo confessá-lo: Nos últimos tempos diminuiu meu fervor em socorrê-lo porque pensava que ele estivesse se recu­

perando bem. • Depois da saída dele, vi uma sombra indo de um lado para o outro; ouvi também bastante ruído.

• 9 de fevereiro — Durante o dia, Henrique esteve duas vezes

comigo; durante a noite, permaneceu por mais tempo. Quis saber:

“Podes informar-me quando morrerei?” — “Deves estar preparada!” — “Será então em breve?” — “Será quando estiveres madura.” — “Podes indicar-me as minhas faltas?” — “Não posso.” Enquanto ele conversava comigo, houve, de repente, um sus­ surro e um cochichar no quarto, como nunca o havia escutado.

(21) O diretor espiritual, Sebastião Wieser, comenta: “A viagem foi feita entre 4 e 7 de

fevereiro. O que se segue, deu-se em Sch de quilómetros.”

distante de seu domicílio algumas centenas

,

Repentinamente, tudo sumiu. Mesmo de dia, ouvi em tomo de mim, ruídos esquisitos. Em que vai dar isto?!

• 11 de fevereiro— Eu estava fazendo minha oração da manhã,

quando, subitamente, Henrique apareceu. Disse-lhe: “Vem cá; vou dar-te água benta. Ela te faz bem?” — “Faz.” — “Que mais queres?” —■“Tua mão.” Satisfiz-lhe o pedido. Ele pegou também minha outra mão. Tive a sensação que saía de mim uma força ou até toda a minha energia, como se extinguisse a minha própria vontade. Pedi-lhe:

“Larga-me, por favor.” Mas ele implorou: “Se agíientares mais um pouco, ficarei livre”, e apertou-me ainda mais. Ficamos assim alguns momentos, segurando-me ele com tanta força, que sua mão parecia ser uma verdadeira prensa. Disse-lhe: “Larga-me; do contrário, não poderei receber a santa comunhão, já é tarde.” Soltou-me. Vi, pela primeira vez, um sorriso em seu rosto. Disse-me: “Agradecido! Estou na Luz.” E partiu.

Reinaldo

• 16 de fevereiro — Encontrei-me, no corredor, com a alma de

um homem idoso que entrou em meu quarto e desapareceu. Os ruídos no quarto são sempre os mesmos.

• 18 de fevereiro— Vi uma senhora no jardim, acompanhando-

me sempre. A expressão de seu rosto era de muita tristeza. Quando me dirigi a ela, sumiu.

• 19 de fevereiro — Outra vez, no corredor, aquele velho. Não inspira medo.

• 21 de fevereiro — O homem veio de noite; parecia estar bem

satisfeito. Comecei a rezar, e ele ficou bastante tempo comigo; depois

abriu a gaveta de uma cómoda, como se procurasse alguma coisa.

• 22 e 23 de fevereiro— Tive dores; não ouvi nada, nem música nem ruídos.

• 24 de fevereiro — Voltou aquele velho. Eu fora aconselhada

a não reagir de modo algum, para ver o que aconteceria. Deu-se algo

estranho. O homem ficou à minha frente, imóvel, e me fixando; tive

a sensação de que estavam me tirando toda a minha força; senti-me enfraquecer. Ele se inclinou sobre mim e seu bafo abominável bateu em cheio no meu rosto. Eu quis levar a experiência até o fim, e não reagi. Então, gritou com tanta força que pensei que todo mundo ali acorreria. E sumiu. Sentia-me tão miserável como se tivesse tirado algo de mim mesma, mas o quê? Ou foi tudo apenas o resultado do esforço de resistir-lhe? Seja como for, terei mais uma vez a mesma atitude. • O grito havia sido ouvido por minha sobrinha que pensara ter eu gritado em sonho.

• 25 de fevereiro— Ao entrar no meu quarto para deitar-me, ele

lá já estava. Fiz como se não ligasse à sua presença. Rezei a oração da noite e, aí, ele me deu um empurrão como se estivesse desconten­ te comigo. Esforcei-me para não reagir. Apaguei a luz e me deitei.

Sentia a presença dele. Começou um grande barulho dentro do

quarto. Achei melhor levantar-me e acender a luz. Ele corria agitado pelo quarto. Finalmente, aproximou-se de mim e me perguntou: “Por que me resistes?” Não respondi. Ele me agarrou e me apertou a garganta como se quisesse estrangular-me; deu um grito medonho e

desapareceu

antiga, dialogar com as almas e procurar ajudá-las. • De novo, aquela

estranha música.

Minha consciência me diz que devo retomar a atitude

• 26 de fevereiro— Ele entrou aos gritos. Perguntei-lhe: “O que

queres? Estou pronta a ajudar-te?” — “Por que não me aceitaste?” — “Porque não quis. Procura outras pessoas que se interessam em

ajudar as almas.” — “Só tenho permissão de me dirigir a ti.” — “Quem és?” — “Reinaldo.” — “Por que não encontras paz?” —

“Enganei gente.” — “Por que abriste a gaveta?” — “Por causa do dinheiro.” — “Como posso ajudar-te?” — “Furtei. Manda rezar uma missa.” — E se foi.

• 27 de fevereiro — Ele demorou apenas poucos instantes; não

falou nada.

• 28 de fevereiro— Realmente, não há motivo para ter medo de

Reinaldo. Perguntei-lhe:— “Viveste aqui, neste castelo?” — “Não.”

— “Onde foste enterrado?” — “Em Heidelberg.” — “E por que sofres aqui?” — “Aqui furtei o dinheiro.” — “Podes estar sossega­

do, mandarei rezar a santa missa.” E desapareceu. Ninguém sabe algo de um homem chamado Reinaldo. Acho que talvez tenha sido aqui servente.

• Iode março— Muito barulho. No corredor vi também a alma de uma mulher. Outra vez, aquela música misteriosa.

• 2 de março— Durante o dia, diversas sombras em meu quarto, e bastante barulho.

• 3 a 5 de março — Estive doente. Nada de importante.

• 6 de março— À noite, veio uma mulher, bastante inquieta; os contornos dela são muito imprecisos.

• 7 de março — Encontrei a mulher no corredor. Durante a

noite, um barulho insuportável no quarto, no baú, debaixo da cama.

Tive muito medo. Essas coisas mexem com os nervos da gente mais que quaisquer outras ocorridas durante o dia.

• 8 de março — Uma barulheira tremenda. De permeio, aquela mulher; o rosto dela está, ainda, totalmente na neblina.

• 9 de março — Eu estava lendo no meu quarto. De repente,

envolveram-me um vendaval e uma cerrada fumaça. Mas janelas e portas estavam fechadas. Foi uma situação sinistra. A idéia de que minha situação se torna mais e mais dolorosa, me oprime. Todavia, sou feliz. Pois a consciência da presença de Deus me arrebata, muitas vezes com tanta força que gostaria de fugir de tudo e apenas permanecer nessa presença. Essas coisas só se podem experimentar e não descrever. Talvez haja de minha parte uma certa exaltação, mas não faço nada artificialmente. No meio de situações alegres, sinto, repentinamente, a presença de Deus, e só é possível adorar! Mesmo que sejam curtos tais momentos, eles me tra­ zem felicidade para muitos dias. E a contragosto que escrevo isto, pois tudo soa como se aquilo surgisse de minha imaginação; anoto-o, porém, para que me possa sentir mais segura, pois meu diretor espiritual me avisaria se houvesse algo de errado na minha conduta.^22)

(22) Da mesma opinião é seu confessor pároco Sebastian Wieser.

• 11 de março — A mulher veio três vezes durante a noite. Sua

figura é bem reconhecível. Também com ela, o sofrimento se exprime pelos braços. A boca está inchada. Interessante que minha sobrinha ouvira sua entrada no meu quarto. Pelo relógio se compro­

vou o momento exato. • 12 de março — Hoje, eu a vi cinco vezes, mas sempre furtivamente.

• 14 de março— Ela entrou no meu quarto como em fogo. Dis­

se-lhe: “Dize-me quem és.” — “Hermengarda Montfort.” Jogou-se ao chão, chorando muito. Tive grande compaixão dela. Ajoelhei-me

ao seu lado e disse: “Farei por ti o que me for possível. Tens um desejo especial?” — “Penitência!” — “Penitência em quê?” — “Nesse teu corpo.” E desapareceu. Se eu fosse diferente, poderia ajudar tanto às pobres almas. Graças a Deus que elas se encarregam agora de minha educação!

• 15 de março — Durante muito tempo, ela ficou comigo. Não

pertence essa alma àquela classe que amedronta; por ela sinto apenas comiseração. Deve ter sido muito bela, só aboca está torta. Não falou, mas de bom grado rezou comigo.

• 16 de março -— Alguns religiosos passaram a noite no castelo.

Quando Hermengarda veio, disse-lhe: “Vai aos padres que podem rezar por ti melhor do que eu.” — “Estive com eles, mas não enxergam.” — “Então é preciso enxergar-te para te ajudar?” — “Ofereces algo aos pobres se eles não te estendem a mão?” — “Passaste a vida aqui?” — “Não. Mas aqui eu pequei.” Ela traz

consigo tamanha tristeza como jamais observei em outras almas. • Após longo tempo, tenho novamente ouvido aquela música.

• 17 de março— Hermengarda veio chorando. Estendi-lhe meu

crucifixo mortuário; ela o beijou. Não houve jeito de mitigar-lhe a dor. Perguntei-lhe: “Sofres tanto assim?” — “Olha para mim.” Naquele instante, ela estava como que envolvida em fogo, mas logo desapareceu. Pela madrugada, ela voltou. “Por que deves sofrer

tanto?” — “Por causa dos pecados com a língua. Eu tenho

dia.” (Não entendi uma palavra.)— “Posso realmente ajudar-te?” —

discór­

“Podes, sim.” — “Escuta, não há também outras pessoas que te possam ajudar?” — “Elas passam adiante.” — “Como encontraste

a mim?” — “Vi outras almas indo a ti.” — Ela achegou-se a mim e me implorou com olhos sedentos. E eu sentindo toda a minha pobreza! Ela se foi. Não sei o que eu poderia fazer por ela, pois também os vivos estão a exigir muito de mim, e só posso dar bem pouco.

19 de março — Quatro vezes, Hermengarda me apareceu.

20 a 27 de março — Estive gripada. Nada vi, nada escutei.

Férias.

28 de março — Senti que algo havia no meu quarto, mas eu

não vi nada. Perguntei: “Hermengarda, estás aí?” — “Estou.” — “Onde estiveste o tempo todo?” — “Contigo.” — “Por que não pude

ver-te?” — “Não estavas em condições de me ajudar.” — “Tenho

pensado demais em mim mesma?” — “Foi.” E nesse momento tor­ nei a vê-la. É tudo tão estranho, mas é a verdade. Eu me sentia tão mal que não pensava em nada a não ser: quero ter sossego.

• 29 de março — Ela sentou-se no meu leito. Não me assusta.

Rezamos muito. • 30 de março— Ela ficou comigo muito tempo. Não respondeu nada às minhas perguntas.

• 31 de março — Veio chorando. Perguntei-lhe: “De que modo

posso ajudar-te?” — “Pelo amor.” — “Mas tenho amor para conti­ go.” — “Não o suficiente.” Rezei longamente corneia. Não sei de que modo eu poderia amá-la ainda mais. Ajudo quanto posso. Nos três primeiros dias do mês estive doente. Nada de especial.

• 4 de abril — Durante quase todo o dia, eu a vi nos quartos, no corredor e na escada.

• 5 de abril — Chegou ao meu leito de braços estendidos. Dei-

lhe as mãos e disse: — “Quantas vezes ainda virás?” — “Doa mais!”

— “O quê?” — “A santa comunhão.” E sumiu. Interessante! E verdade que eu oferecia sempre a santa comunhão por minha sobrinha enferma.

• 7 de abril— Ela me perseguiu o dia todo. Aparecia repentina­ mente e a cada instante.

• 8 de abril — Ela veio de noite. Jogou-se no meu leito e me

abraçou. Não sinto para com ela o pavor que costumo ter com outras almas; contudo, tenho a impressão de perder toda a minha força

íntima, e isso de um modo bem mais acentuado do que, em outras

Talvez porque me sinta muito

ocasiões, em relação a certas almas

cansada devido ao meu serviço recente de enfermeira da casa.

• 9 de abril — Ela ficou comigo durante três horas. Disse-lhe:

“Agora recebes a santa comunhão que pediste?” — “Sim.” — “Sentes alguma melhora?” — Um clarão de alegria alumiou seu rosto quando fez que sim com a cabeça. — “Escuta, és tu, porventura, dos meus ascendentes?” (Perguntei isso, porque o nome dos Montfort aparece na minha árvore genealógica.) — “Sim, provéns também de mim.” — “Foi por isso que me procuraste?” — “Não, não foi.” —

“Como vieste a saber que descendo de ti?” — “O sangue”, foi abreve resposta. Que coisa interessante! As perguntas me vieram sem eu ter refletido nelas; talvez porque ela seja diferente de todas as almas que me têm procurado. • 11 de abril — De dia, ela veio repetidas vezes; de noite, descanso.

• 12 de abril — Entrou no meu quarto como se estivesse pai­

rando. Perguntei-lhe: — “Queres rezar comigo?” — “Quero.” De­

pois de ter rezado longamente com ela, sussurrou-me algumas

palavras que, infelizmente, não entendi. Parecia ser latim. Acho que

disse: “Ex usuris

rando, talvez tenha sido o versículo de um salmo/23)

• 13 de abril— Ela veio, quando eu, na capela, estava arranj ando os ramos e as palmas para o dia seguinte. Dei-lhe uma palma. Recebeu-a com um sorriso.

”,

mas não o garanto. Como continuasse murmu­

Hermengarda ajuda-me a rezar

• 15 de abril— Minha sobrinha estava muito mal. Chamaram-

me durante a noite. Levantei-me e fui. Hermengarda me seguiu.

(23) O versículo 14 do salmo 71 diz: “Ele redime suas almas da usura e da injustiça.”

Perguntei-lhe: “Podes ajudar-me na oração?” — “Posso.” — “Sabes

se a criança vai recuperar a saúde?” — “Não sei.” — “Então reza pa­ ra que ela possa receber o batismo.” Ela fez que sim com a cabeça.

• 16 de abril — No quarto da doente, Hermengarda ficou

constantemente comigo. A criança foi batizada; quando ela morreu, Hermengarda ficou contente.

E tão difícil em tais situações aceitar a companhia de gente.

Tenho que fazer um esforço muito grande para que ninguém perceba minha convivência com o Além. Mas não quero vangloriar-me, já que Deus me dá a força.

• 17 de abril — Quando preparei a criança para o enterro,

Hermengarda chegou e me observou com toda a naturalidade, como qualquer outra pessoa viva. Perguntei-lhe: — “Quando estarás lá onde está a alma desta criança?” Ela nada respondeu mas achegou-

se a mim, encostou o rosto ao meu, e me deixou.

• 19 de abril — Ela ficou comigo a noite toda. Posso ver as al­

mas na escuridão, mas, quando aparecem, prefiro acender a luz.

• 21 de abril — Quatro vezes ela se mostrou.

• 22 de abril — Passou longo tempo comigo. Rezou comigo o

pai-nosso.

• 23 de abril — Esteve comigo quase a noite toda. Perguntei-

lhe: “Onde está teu corpo enterrado?” — “Em Tettnang.”^24) — “Quando viveste em teu corpo?” — “No passado.”

• 25 de abril — Tive a impressão de haver mais alguém no

quarto. Interroguei Hermengarda a esse respeito, mas ela não me

respondeu.

• 26 de abril — Ela parece estar mais alegre. — Não há dúvida

de que há mais alguém no meu quarto. Poderia ser a alma de um homem.

• 27 de abril —■Hermengarda está muito contente. Ela disse

bem claramente: — “Usque ad domum Dei.”(25) Perguntei-lhe:

(24) O velho castelo èm Tettnang, hoje Câmara Municipal, pertencia aos condes de Montfort; o último conde morreu sem deixar filhos, em 1780. Tettnang fica ao nordeste do lago de Constança.

‘‘Estás agora remida?” Ela me sorriu e de braços abertos se aproximou

de mim, e desapareceu.

• 29 de abril — Aquele vulto esteve comigo demoradamente.

É um homem de barba loura; só a cabeça aparece nitidamente. Está

muito agitado, mas por enquanto não me amedronta.

• 30 de abril — Acordei com uma sensação de medo, mas não

vi nada. Todavia, ao meu redor, um ambiente de tempestade. Pensei

que portas e janelas estivessem abertas, mas nada disso! Finalmente

vi aquele vulto correr de um lado a outro. Quando comecei a rezar,

aproximou-se ele de meu leito.

• 3 de maio — Após longo tempo, revi os “onze”. • O homem

que vi em Sch

• 4 de maio — Novamente, a música dentro da parede junto à

minha cama. Para descobrir a origem ou a causa dos sons, levantei-

me e saí do quarto. Os sons vibram em torno de mim. Tudo isso é lindo, mas não o sei explicar.

Já por diversas vezes mencionei a sensação da presença de Deus, que me penetra de modo irresistível, e cuj a força aumenta mais e mais. Acho meu dever expor minha atual situação. E muito difícil descrevê-la, pois é tudo diferente daquilo que se passava antes comigo, em relação ao que ocorre agora. Ao redor de meu espírito aumenta a claridade, como se eu me achasse diante de uma grande fogueira. Algo se apodera, inteiramente, do meu pensar. Tudo quanto é humano fica desligado, e minha alma goza o que é indescritível. Quando volto à vida normal — ao terreno — , é como

se eu acordasse de um belo sonho; todavia, há uma diferença, pois

algo continua dentro de mim: a possibilidade de poder viver e sentir aquilo que é impossível exprimir em pensamentos ou palavras. Tenho a impressão de que algo dentro de mim está crescendo. Antigamente, isso se dava apenas por poucos instantes e depois voltava à situação normal. Agora, porém, continua o contato espiri­

,

talvez tenha ficado lá.

(25) A citação latina “Usque ad domum Dei” significa: “Até à casa de Deus”.

tual, ou um anseio permanente pelo indefinível. Às vezes me pergunto: como é possível que tenha essa vivência? Surge também,

de quando em quando, a preocupação de que tudo possa ser produto de uma fantasia, talvez louca. Passadas tais reflexões fugidias, e examinando-me bem, esquadrinhando cuidadosamente meu íntimo, tenho de admitir que tudo isso é real e verdadeiro. E parece-me impossível imaginar o que a gente nunca é capaz de vislumbrar.

• Vi o cavaleiro diante do cruzeiro na igreja.

Aparece o conselheiro Fridolino Weiss^26)

5 de maio — (No dia 7 de fevereiro, a princesa Eugênia viajara

a Schr

Lá, o vulto de um homem lhe aparecera, sem se dar a

conhecer. Agora ele a procura.) Veio o homem de Schr

vai haver coisa. E muito inquieto e bruto.

• 6 de maio — O homem ficou quase durante a noite toda; é

bem nojento e desleixado, e indiferente à oração.

• 7 de maio — Quando, ao anoitecer, entrei no meu quarto,

estava ele deitado no chão. A situação me parecia tão sinistra, que deixei o quarto. Mas isso nada adiantou. Criei coragem e voltei. Encontrei-o na mesma posição. Dei-lhe água benta, ajoelhei-me ao lado dele; gemia terrivelmente. Devo conhecê-lo, mas não tenho certeza.

• 8 de maio — E dura a situação. O homem fica a noite quase

toda, e é muito inquieto. Mas eu sou boba, pois sei que nada me pode acontecer, e assim mesmo tenho um medo tremendo. • 9 de maio — Ele entrou adiante de mim no meu quarto. Comecei a rezar. Ele chegou bem perto de mim. — Tenho quase certeza de que ele é o conselheiro Fridolino Weiss. Seu aspecto é horroroso, já que está todo revestido de uma pegajosa massa. Não reage de modo algum. • Escutei aquela música

Parece que

(26) Fr. Weiss foi, durante muitos anos, feitor no castelo de Waal.

• 10 de maio — O homem é bastante desagradável. Está ganin­

do constantemente. Veio quatro vezes, esta noite. • Vi os “onze”.

• 11 de maio — Quando, ao cair da noite, debrucei-me à janela,

olhando as estrelas, veio o homem voando pelo ar. Experimentei uma sensação abominável. Faz muito tempo que tive um choque se­ melhante a este. Nem consegui ficar no quarto. Sentei-me no cor­ redor. Não me seguiu. Uma vez refeita do susto, voltei e o encontrei esperando por mim. Rezei com ele a devoção do mês de maio, en­ quanto ele ficava atrás de mim. Durante algum tempo desapareceu, para voltar feito louco. Foi medonho. É de fato o conselheiro Fri- dolino Weiss.

• 12 de maio — Encontrei os “onze” e, na escada, a camareira

de minha avó. • O conselheiro veio duas vezes; inclinou-se sobre

mim. Ele é horrorífico: o rosto todo furado, só buracos; não tem olhos, a barba é vermelha qual fogo. Nunca vi alma que tivesse caveira tão impressionante como a cabeça dele.

• 13 de maio — Vi novamente a camareira. • O conselheiro

Fridolino Weiss ficou bastante tempo; está um pouco mais calmo.

Parece gostar da água benta. • Escutei aqueles sons.

• 14 de maio — A atitude de Weiss não muda; é muito bruto e

repelente. • Tenho escutado aquela música misteriosa. Pena que não

possa descrevê-la, pois não entendo de música. Mas é linda e me alegra.

• 15 de maio — Vi muitas almas: três vezes o Weiss, cinco ve­

zes a camareira e duas vezes os “onze”; mas nada de abominável.

• 16 de maio — Weiss veio de dia, gemebundo. A luz, ame­

dronta-me mais que de noite. Percebo quanto ele gostaria de falar. Durante a oração acalmou-se.

• 17 de maio — Weiss na escada e também na sala de estar,

enquanto estavam presentes T. e a criança. Foi muito desagradável. Ele veio também durante a noite.

• 18 de maio — Agrediu-me violentamente, apertando-me o

pescoço. Reagi com força, e ele caiu no chão. Ficou deitado bastante tempo. Tive muito medo, pois suas órbitas eram qual carvões em

brasa. Finalmente, levantou-se de um salto querendo agredir-me outra vez. Apresentei-lhe a reliquia da Santa Cruz. Ai ele desapare­ ceu. • Escutei aquela música; na igreja vi o cavaleiro.

• 19 de maio — Foi medonho. Tive um indizível pavor. Ele

agrediu-me do jeito como o havia feito Henrique. Não desmaiei, embora, talvez, tivesse sido melhorpara mim. E impossível descrevê- lo. Não gostaria de passar por tais transes outra vez. (Se o Bom Deus o quisesse, aí sim.) Weiss ficou comigo longamente; rezei muito, mas parece que ele não escutou.

• 20 de maio — Que beleza! Weiss não veio. Linda música e bom descanso.

Vem o Dr. G

• 21 de maio— Noite muito intranquila. Weiss está quase sem­

pre comigo. Quer falar, mas não consegue. No entanto, parece que entende o que lhe digo.

No século

passado, pelos anos 80, ele fora caçar e, quando se achava na estação da estrada de ferro, teve morte instantânea. Agora, no caminho do

castelo, ele se aproximou de mim. Eu o reconheci imediatamente. Ele me estendeu a mão e tinha aparência totalmente humana. Mas eu não podia fazer nada, porque estava acompanhada. Assim mesmo,

durante muito tempo, andou ao meu lado. Como é difícil a gente se comportar com natural idade, quando anda em companhia de pessoas de mundos diferentes! Eu esperava revê-lo na volta e por isso fiquei sozinha, distanciando-me dos outros. Pena que não viesse. • Em compensação, ao voltar a casa, receberam-me os “onze”.

• 22 de maio— A música. Em seguida, Weiss. Ojeito de sempre,

mas comedido.

• 23 de maio— Enfim, Weiss consegue falar. Perguntei-lhe: “És

tu Fridolino Weiss?” — “Sou.” — “Sofres muito?” — “Sofro.” — “Como posso ajudar-te?” — “Fazendo sacrifícios.” — “Já os faço.”

• Indo ao castelo, apareceu-me a alma do Dr. G

O prín cipe Erwein III Otto vo n d er Leyen, nascido em 1894, era capitão de cavalaria refomiado, vice-presidentedaVereinigungderdeutschenStandesherren,

senhor de U nterdiesen e Waal. Em 10 de

jan eiro de ¡924 contraiu nupcias com M aría N ives,filh a de Antonio Ruffo e de

conde da O rdem bcivara de São Jorge,

Ludovica, princesa Borghese.

M aria Nives Ruffo delia Scaletta, filha da princesa Ludovica Borghese, de Roma, esposado príncipe E rw ein lll Otto, m ãe do príncipe W olframe da princesa Ludovica, atual proprietária do castelo de U nterdiesen e Waal.

Príncipe Wolfram, nascido em / 924, morto na guerra contra a Rússia, em 6 de fevereiro de 1945, em Deutsch-Krone.

— “Mas não o bastante.” — “O que tenho de fazer?” — “Deves

desembaraçar-te de ti mesma.” — “Não exijas demais, pois ainda sou muito imperfeita. Vai a pessoas melhores que eu!” Aí ele veio a

mim, pôs a mão no meu braço e sumiu. Sim, estou apegada a muitos. Terei força para renunciar a tudo? Quero ser sincera, essa força, por enquanto, me falta. Acho graça ao ver o conselheiro Weiss tão dife­ rente do modo que aparentava em vida: sempre a cortesia em pessoa. Agora ele tem modos bem diferentes e até me faz sofrer e me ma­ chuca. Sem que eu o queira, a imagem dele e o seu jeito em vida ainda continuam presentes em minha memória. • 24 de maio — Ele veio duas vezes, mas não falou. • 25 de maio — Houve uma barulheira horrorosa em meu quarto, estrondo e gemidos, embora eu não visse nada. Perguntei:

“Quem está aí?” — “Muitos.” — “É Fridolino quem fala?” — “Sim, sou eu.” — “Por que não te posso ver?” — “Porque estás doente.” (Ele disse a verdade.) E continuei: “Quem trazes contigo?” — “Não os conheço.” — “Escuta, por que não te vejo quando estou doente?”

— “As tuas faculdades sofrem também.” — “Poderias ajudar-me?”

— “Não!” — “Como percebes que estou enferma?” — “Tu não tens

poder de nos atrair.” — “Mas então, por que ainda estás aí?” — “O caminho que devemos tomar nos é prescrito.” O barulho continuou, mas não mais responderam. Por muito tempo tive a sensação de não estar só; é bastante desagradável tal situação. Estou muito descon­ tente comigo mesma; penso demais em minha própria pessoa; estou desanimada e muito cansada. Arre!

Vivi à toa

• 27 de maio — A situação começa a se tornar insuportável.

Além de Weiss, havia no meu quarto neblina e gemidos de cortar o coração. Exclamei: “Suportai o vosso castigo; por que me atormentais? Não quero mais escutar-vos.” — Weiss exclamou: “Onde está tua compaixão?”, e ele desapareceu; os gemidos, porém, continuaram.

Agora minha consciência me acusa de que fui dura com as almas.

• 28 e 29 de maio — Não vieram. Talvez a minha maldade as

tenha afastado.

• 30 de m aio— Weiss está triste, o que me levou a dizer-lhe que

continuarei a ajudá-lo. Aí ele veio e apertou-me o pescoço, de tal modo que pensei morrer sufocada. Ele foi abominável. Perguntei-

lhe: “Por que fazes isso se eu quero ajudar-te?” — “Quero forçar-te.”

— “Não permito que me forcem, sobretudo quando me tratam desse

jeito.” Aí, aproximou-se de mim com expressão tão maldosa que

perdi aconsciência. Quando recobrei os sentidos, ele não estavamais. Escutei a música.

• 31 de maio — Vi o cavaleiro. • Weiss voltou, de dia. Sinto

medo dele. Há algo mais no quarto que, por ora, não posso ver. Será que essa situação vai continuai-desse jeito?

• Io de junho — Weiss voltou. Perguntei-lhe: “Dize-me, é por

vontade de Deus que tu vens a mim?” — “E-nos permitido por ele.”

— “E por que tu me fazes sofrer tanto? Não basta o tormento de te

ver?” — “Dentro de mim está a inveja.” — “Por que me invejas? Já

não podes perder-te eternamente, mas eu ainda posso ser condenada.”

— “Nunca controlei minha mente; tenho vivido em vão.” — “E como

te salvaste?” — “Pelo sacerdote.” — “Como podes ter inveja? Pois

não podes mais pecai'.” — “O mal ainda está dentro de mim.” Ao mesmo tempo, ele se tornou feio e abominável como nunca o havia visto. Voltou ainda quatro vezes. • 2, 3, 4, 5 de junho — Cada noite ele voltou, mostrándo­ se sempre num estado de hediondez abominável. Ouvi ainda, de dentro da neblina, muitos outros sons e um gemido longínquo. Encontrei-me na escada com a velha camareira.

• 6 dejunho— Vi naigrejao cavaleiro, numa postura de piedade

constante e fixidez. Weiss apareceu e ficou longamente comigo. Não me respondia o tempo todo. Foi muito duro suportá-lo, pois chegava bem perto de mim. Sinto algum consolo quando penso que Deus me envia essas almas para reparar a minha falta de caridade ativa para com o próximo. Lamento quej á não estej a fisicamente em condições,

como antigamente, para locomover-me. E assim perco muito do meu rendimento no serviço de Deus e do próximo, devido ao meu grande cansaço na parte da manhã. • 9 de junho— Nada de novo. Weiss volta todas as noites mas não diz nada. Tomou-se bastante agitado. O barulho aumenta.

A velha trapeira

(Observação: Havia, em tempos passados, pessoas que catavam nas ruas trapos e coisas velhas, para vendê-los às fábricas. Geralmente vinham em carroças de tração animal)

•11 de junho — Além de Weiss, veio também uma alma em forma de mulherhedionda,um verdadeiro monstro. Estou commedo.

• 14 de junho — Vi dois homens no primeiro banco diante do

altar da cripta. Pareciam gente de carne e osso, por isso entrei no banco atrás deles para ver quem eram. Só então percebi que traziam longas vestes negras, usadas em séculos passados. Dei-lhes água benta da grande bacia em frente a eles. Aí desapareceram. • Ouvi a música. • Weiss ficou pouco tempo comigo.

• 16 de junho — Novamente apareceu aquela mulher hedionda.

Devo conhecê-la, mas não posso dizer nada de definitivo, a não ser que ela me é extremamente antipática. • Tenho visto o cavaleiro na

igreja.

17 de junho — Aquela mulher ficou comigo durante muito

tempo. Eu a reconheci. É uma velha trapeira, chamada Nanete Blochem. Foi o terror de minha infância e era temida por todo mundo. Acho que morreu pelo ano de 1893.

• 18 de junho — Parece que Weiss não vem mais. A Nanete

comportou-se muito mal. Outra vez, aquela música.

• 19 de junho — Festa do corpo de Deus. Vi algo muito lindo.

Eu ia subindo o morro quando foi dada a bênção, com o Santíssimo em frente do hospital. • Vi os “onze” lançarem-se por terra, como já

os vira fazer no Natal. Foi tão comovedor que tive de chorar. Oh! se os incrédulos tivessem visto essa cena! (26a)Não entendo por que os “onze” aparecem sempre como paus de neblina. De dia claro, aquilo dá um aspecto esquisito.

• 20 de junho — Estando eu para me flagelar por Weiss, apa­

receu ele, ao meu lado, com uma expressão feliz e disse: “Tu me remiste.” — “Não fui eu, foi a misericordia de Deus.” — “Servindo- se de ti!” — “Aonde vais agora?” — “A urna esfera superior.” — “Escuta, o que posso fazer para que as Almas do Purgatorio não venham mais?” — “Sê generosa!” Foi, e me deixou como dentro de uma clara neblina. • Pouco depois veio Nanete, mas eu estava tão feliz que desta vez nem liguei à sua aparência. • Escutei aquela música.

• 21 de junho — Na igreja, vi o cavaleiro. • Nanete é simples­ mente repugnante; é nojenta.

• 22 de junho — Tanto barulho no quarto, que tive um acesso de covardia.

• 23 de junho— Quatro vezes neste dia vi a Nanete. Seus olhos hediondos me prendem; a situação ameaça piorar outra vez.

• De 23 de junho até 14 de julho — Sempre o mesmo; senti-lo

é muito penoso; anotá-lo, bem maçante. Nanete conseguiu falar. Perguntei-lhe: “Como posso ajudar-te?” — “Olha, e vê o que me falta.” Chegou bem perto de mim, e vi no seu rosto uma expressão de tão profunda tristeza como jamais notara em quaisquer outras almas. Interroguei-a: “Tens anseio por Deus?”— “Tenho.” — “Não podes vê-lo ainda?” — “Ainda não estou pura.” — “Posso ajudar-te para ficares pura?” — “Dá-me o Santíssimo Sacramento!” — “Queres que eu ofereça a santa comunhão em tua intenção?” — “Quero, sim!” — “Quantas vezes?” — “Sete.” — “E por que justamente sete vezes?” — “Foram tantas as minhas comunhões

(26a) Se a princesa ainda vivesse nos tempos atuais, quanto não sofreria ao saber que o mistério da fé se apagou até nos corações de muitos sacerdotes e pessoas religiosas. Ela que vivia totalmente com e pela santa missa e comunhão, por isso muito se alegrou com a adoração prestada pelos onze vultos do Além.

indignas.” E chorou com tanta intensidade como ninguém neste mundo é capaz de chorar; foi um verdadeiro desmancho em lágrimas. Tive de abraçá-la, não havia outro jeito. Aí ela me olhou e, naquele

instante, sua hediondez se foi — para voltar nos dias seguintes com força redobrada. Nem L. nos seus piores tempos apresentara aspecto tão hediondo. Na imaginação humana tal sordidez é inconcebível e, por isso, faltam-me palavras para descrevê-la. Até agora, eu tinha sossego em dias de doença, mas essa indulgência para comigo se acabou. Para usar de franqueza, quase que não posso mais, tão frágil se tomou minha confiança em Deus.

• 18 de julho — Hoje, o dia foi muito pesado. Perguntei-lhe:

“Por que me torturas? Sabes que quero fazer tudo quanto me pedes.”

Ao dizer isso, deu-me um empurrão tão

violento que quase morri de medo. E verdade que ela tinha razão,

pois me sentia tão fraca que não conseguia vencer o cansaço.

• 19 de julho — Quando entrei no quarto para me deitar, ela

estava sentada no meu leito. De todos os lados sentia-me cercada de almas que procuravam pôr a mão em mim; contudo, eu nada podia ver. Isso levou alguns minutos. Só pela madrugada pude deitar-me. • 20 de julho — Havia tanto barulho que não podia nem pensar em dormir. Nanete voltou a emudecer. Seus olhos são bem esquisitos; é como se deles saísse uma força que obriga a gente a fitá-los. Tenho a sensação de que me retiram energia. Nunca sentira algo semelhan­ te em outras aparições. Desde 27 dejulho, Nanete não veio mais. Sinto um certo alívio. Há muitas almas que me importunam. Sete vultos tomaram forma, mas nenhum deles me é conhecido. Aproximam-se de mim; sinto mãos hediondas me apalparem, o que para mim é o pior. Enquanto eu anotava isso, um vulto de mulher achegava-se a mim por detrás. Parece que nunca estou só. Causa-me tristeza descuidar-me de minha alma; não me esforço para adquirir virtudes; não chego a trabalhar devidamente na santificação de mim mesma como costumava fazê- lo, embora nunca com o devido afinco. • 4 de agosto — Noite de extremo horror. Nada vi, mas senti e ouvi. Repetidas vezes me bateram e não sabia o que fazer. Fui muito

— ‘T u preferes dormir.”

covarde. Será que não serão espíritos maus que procedem desse

modo?

• 6 de agosto— Algo ou alguém segurava dentro do meu quarto

o trinco da porta. Consegui, enfim, entrar. Uma neblina cerrada en­ chia meu quarto e ouviam-se gemidos. Derramei muita água benta,

e a situação melhorou. Quatro vultos formaram-se na neblina e depois diluíram-se na cerração. Ultimamente vi quatro vezes Bárbara no 3o andar; parecia estar bem contente e sorria. Eu estava acompanhada

e, por isso, não pude falar com ela.

• 7 de agosto — Viam-se claramente os sete vultos; ficaram

comigo das dez até à uma da madrugada. Não me maltrataram;

contudo, por serem muitos, senti medo. Em compensação, ouvi aquela música misteriosa. Muito estranho foi o que observei durante uma tempestade. Via os raios coruscarem através dos vultos. O aspecto foi tão sinistro que preferi acender a luz.

• 9 de agosto — Passei por algo pavoroso. Um estrondo me

despertou. Acendi a luz e algo de horripilante se inclinava sobre mim.

Constantemente meus pensamentos voltam àquilo: uma cabeça gigantesca com olhos tão apunhalantes que não parecem existir, ou antes: o rosto todo era um só olho que me fixava. “Vai-te!— exclamei — o que procuras comigo?” — “A paz.” — “Não sou eu quem pode dá-la.” — “Mas tu deves!” — “O que me pode obrigar a isso?” — “Amarás o teu próximo como a ti mesmo.” — “E se me falta a força?” — “Então reza!” E sumiu. Como alguém tão abominável pode pronunciar tais palavras! Que seja! Estou de acordo. Como sabem educar-me, essas almas! Agora vou contar algo que me parecia qual saudação do Bom Deus. Talvez fosse ridículo, contudo, tornou-me feliz. Eu estava bastante deprimida. Tudo me angustiava. A cada passo voltava a pensar se era a vontade de Deus o que se passava comigo. Pedi ao Bom Deus me desse um sinalzinho como já o fizera tantas vezes antes. Eu andava pelo jardim; aí caiu de súbito uma andorinha no chão diante de mim. Levantei-a e a acariciei. E ela foi embora, cortando o ar. Para mim, era o sinal que eu pedira; agora basta de lamúrias.

• 10 de agosto— Voltou a cabeça; desta vez com o corpo todo,

e logo indaguei:— “Quem és?” — “Wolfgang.”— “Como se explica

que já podes falar?” — “Faz tempo que estou contigo.” — “Por que não te vi?” — “Tua força se dirigiu aos outros.” — “Queres tu ajudar também a mim?” — “Quero.” — “Dize-me o que está errado dentro de mim.” — ‘T u estás dividida.” — “O que entendes com isso?” — “Corpo e alma não combinam.” — “Sei, é só a alma que deve dominar. Mas não o consigo ainda. O que mais vês em mim de errado?” — “Teu orgulho.” E sumiu. Que bom poder receber tais ensinamentos! Vou tomar aulas particulares com as Almas do Pur­ gatório. • Ouvi aquelas músicas. Vio cavaleiro. Na igreja, sacudiram- me pelos ombros. Desde o dia 16 de agosto, seguindo os conselhos recebidos, ignorei as visitas do Além. Quanto sofri por causa disso não quero descrever. Basta dizer que Wolfgang e os sete vultos vieram todas as noites. Sofro menos quando aceito as visitas das pobres almas, pois então os nervos não ficam tão tensos e não se percebe tanto quanta força nos subtraem.

Ele cumpriu a promessa

(27) me procurou de dia, sorrindo

e me estendendo as mãos: “Alfred, és tu?” — “Vim cumprir minha

promessa.” — “Onde estás?” — “Na visão de Deus.” — Com um aceno, se despediu. Essa visita foi para mim uma grande alegria e ao mesmo tempo impressionou-me profundamente. No ano passado, mais ou menos nessa mesma época, quando conversávamos sobre as coisas que comigo acontecem, rindo prometera visitar-me, se fos­ se possível. Apareceu-me agora tal qual em vida. Às palavras dele tive que redargiiir, mas com outros nunca mais tenho falado até hoje.

• 24 de agosto — Alfred S

(27) Escreve o pároco Sebastian Wieser: “Alfred S. foi uma pessoa altamente posicionada na sociedade. Eu o conhecia bem. Essa aparição é uma justificativa perante aqueles que dizem: Não é possível que mortos voltem”.

Quando Wolfgang veio, disse-lhe: “Por que continuas vindo? Pois nem mais liguei a ti para que me deixasses sossegada.” — ‘T u não tiveste misericórdia.” — “O que queres?”— “Uma santa missa.” — “Onde teu coipo está enterrado?” — “Em Augsburg.” — “Como me encontraste?” — “Basta que rezes.” E desapareceu. Os sete vultos estão ainda num estado cinzento-escuro. Ape­ nas seus gemidos impressionam desagradavelmente. • A noite vi na igreja o cavaleiro. Já que eu estava só, fui perguntar-lhe se ele tinha alguma ligação com a partícula da Santa Cruz. Não respondeu. Continuou rezando sem ligar a qualquer outra coisa. Seu olhar é de uma bondade encantadora. Ele é totalmente diferente das demais almas que me procuram.

• 17 de setembro — Foi uma noite horrenda. Primeiro vieram

os sete, em seguida Wolfgang e, depois, algo que nem entendo. Era

qual nuvem descendo sobre mim, que estava deitada na cama. Em seguida, uma sensação horrífera, no sentido mais realista da palavra, um tremendo pesadelo. A cerração ao meu redor tomou-se tão densa que nem vi mais a luz elétrica do meu quarto. A seguir ouvi as pala­

, Espalhei muita água-benta e a neblina se foi, e com ela desapareceu toda uma situação sinistra. Nos últimos quinze dias nada acontecera de novo. Aquela nuvem desagradável transformou-se em alguém. Parece ser mulher, mas não apavora, pois quando rezo, está bem quieta e contente.

• Tomo a ouvir, freqiientes vezes, uma música que vem de dentro da parede.

vi a alma de uma senhora

vras: tormentum malit (28)

o resto da palavra não o entendi.

• 9 de outubro — No castelo de D

idosa. Por longo tempo ficou ao meu lado.

• 11 de outubro — Tenho visto coisas muito estranhas. Eu

andava pelojardim e veio ao meu encontro algo de muito lindó: cores

e luzes que não posso explicar. Eu me achava como numa roda de luz

(28) Parece que o texto é tormentum malitiae = tortura por causa da malícia.

e ouvia música. Para os olhos, foi de uma beleza indescritível; para

a alma, algo que jamais experimentei. Posso examinar-me e pers­

crutar o meu ser: não tenho palavras para descrever o que aquilo significou; no entanto, gostaria de experimentá-lo de novo. É como se eu fosse inundada de força, o que me fez muito feliz.

• 14 de outubro — Uma forte barulheira me despertou. Minha

cama estava sendo empurrada para todos os lados; foi uma sensação desagradável, mas eu não enxergava nada. Durou cerca de meia hora; em seguida, tudo terminou. Minha cama estava ao viés. Mais tarde

veio aquela mulher.

• 17 de outubro - Experimentei outra vez aquela situação

inefável, porém dentro do meu quarto; não pode provir, por conse­ guinte, de um fenómeno natural da estação do ano. Era como se me encontrasse dentro de um grande globo de luz, de um deslumbra­ mento de cores indizível, imersa num gozo maravilhoso para os olhos e numa alegria inefável para a alma — um submergir dentro de algo celestial. Enquanto anoto isto, faço para mim mesma o papel de uma pessoa exaltada, mas, ainda assim, devo escrevê-lo porque faz parte do inexplicável que eu posso vivenciar.

• 19 de outubro — Aquela mulher ficou comigo por muito

tempo. Ela tem um rosto juvenil como jamais o vira. Tentei algo de novo: querendo rezar o terço, dei-lhe também um rosário na mão.

Ela o segurou durante a reza. Depois que ela se foi, notei o rosário no chão. Algo me surpreende nela: muda de estatura. Quando vem, é de tamanho pequeno, ao sair, da altura da porta. Ela pertence a uma espécie de almas que ainda não cheguei a conhecer; não amedronta de modo algum; gosto dela.

• 20 de outubro — Novamente, os empurrões em minha cama; em seguida, veio aquela mulher.

• 21 de outubro — Ela começa a falar. Chama-se Eva. Mais

não entendi. Por longos minutos continuou mexendo os lábios, mas foi impossível entender alguma coisa.

• 29 de outubro — Ela ficou muito tempo comigo. Perguntei-

lhe: “ Por que vens a mim? Posso ajudar-te?” — “Já me ajudaste.” — “De que modo? Ainda não fiz nada por ti.” — “Sou aquela alma

(O resto não entendi.) — “És tu a alma

pela qual rezei já na minha infância?” — “Sou.” — “Por que não te mostraste mais cedo?” — “Não me foi possível.” — “O que fizeste

de mal?” Ela sussurrou-me algo ao ouvido, mas não foi possível entendê-lo, sorriu para mim e desapareceu.

• 30 de outubro — Depois da missa de aniversário da morte de

nosso avô, eu o vi em nossa capela, tal qual em vida; foi para mim uma grande alegria poder revê-lo. Parecia estar muito satisfeito. Seus cabelos brancos brilhavam. Foi pena não poder falar com elejá que eu não estava só. O encontro me fez muito feliz. É uma sensação toda particular encontrar-se com alguém a quem a gente amara em vida. Parece que me quis dar a conhecer que foi liberto pelas santas missas rezadas por sua alma.

• Iode novembro — Vi muitas almas: os “onze”, o cavaleiro e

os dois homens no banco em frente ao altar da cripta. No dia de finados não vi nada. Também os dias anteriores estavam calmos. A respeito da aparição de Hermengarda em Sch. posso acrescentar que ela realmente existia: foi irmã de uma condes­ sa de Geroldseck, descendente dos Montfort, e viveu em 1642. Seu castelo ficava na região de Spremberg; está enterrada no convento de Wittich • 11de novembro — Continua o costumeiro barulho em tomo de mim. Eva não veio mais. Vultos me cercam gemendo e até gri­ tando. Mas, por enquanto, ninguém se dá a conhecer.

abandonada, pela qual

Nem em Munique encontrei sossego

• 16 de dezembro— Fiquei três semanas em Munique, (29a) mas

nem lá encontrei sossego. Já no segundo dia, a alma de uma mulher

(29) O convento Wittichen pertencia antigamente às Clarissas e havia sido fundado por Santa Luitgardes.

(29a) A família von der Leyen possuía até à Primeira Guerra Mundial uma casa em Munique, perto do Karolinenplatz.

me procurou, de mãos torcidas, feições descompostas. Voltou todas as noites e me fazia sofrer de modo insuportável. Deve ter sido criada, pois vinha de avental e pobremente vestida. Custou-lhe poder falar. Chama-se Ana e pecou muito por calúnias. À minha pergunta, quan­ do seria remida, respondeu: “Três vezes Advento.” Em Munique vi algo de estranho. Eu me achava com pessoas conhecidas em casa do célebre pintor Franz von Lenbach. (29b) D e

repente, durante o almoço, ele apareceu diante de mim, hediondo, como animal, mas claramente reconhecível, pois eu o conhecera bem em vida. Fiquei tão assustada que os outros perceberam e me perguntaram se eu não me sentia bem. Por isso, não mais olhei para ele, embora sentisse o tempo todo a sua presença. Terminado o almo­ ço, ainda o via, mas ele não me seguiu e não o encontrei nas demais dependências da casa. • Ana me procurou também no castelo de Waal. Perguntei-lhe: “De que jeito vens para cá?” — “Estou sempre contigo.” — “Mas não te vejo sempre!”— “É porque não o suportas.” — “Por que não?” — ‘T ua alma ainda não está livre.” • 22 de dezembro - Ela ficou comigo quase a noite toda; ela e mais algumas outras almas. Disse-lhe: “O Advento está para termi­ nar; não voltarás mais quando ele está no fim?” — ‘T u pensas à maneira humana.” — “Mas não é possível pensar de outro modo enquanto vivo.” — “Podes desprender-te.” E desapareceu. • 24 de dezembro — “Dize-me, como posso desprender-me.” — “Se seguires aquilo que te atrai.” Fui covarde. Não o quero saber, não dela. Acho, porém, que suas palavras se ligam com aquela sensação maravilhosa que agora está crescendo, pois quando a sinto, tenho a impressão de estar livre de mim mesma e viver num mundo diferente. Observei que meu corpo perde a faculdade de se locomover quando me sobrevêm aquele estado, pois ao sentir chegar essa sensação, quis trancar a porta, mas já não o conseguia; veio a luz e tudo ficou indife­ rente para mim, que queria apenas gozar aquele inefável estado.

(29b) Franz von Lenbach foi o mais festejado pintor retratista de sua época, amigo de Bõcklin e de Bismarck, de quem pintou cerca de 80 retratos. Ele morreu em 1904.

Aparece o padre O

, o meu antigo professor de religião

num

estado lamentável. Durante muito tempo foi meu professor de religião. Ainda não está em condições de falar. A tristeza que demonstra me dói, pois eu gostava muito dele. • Ao descer o morro, vejo quase sempre os “onze”. Tomaram-se mais pequenos, tendo já quase o tamanho de crianças.

• 30 de dezembro — A noite foi terrível, terrível. Meu quarto

estava cheio de vultos, todos eles desconhecidos. Pela primeira vez me cercava um fedor abominável. Eles jogavam-se no meu leito —

eram sete, mas havia mais almas comigo. Uns vinham, outros saíam. Eu fiquei um pouco desanimada, pois se isto continuar assim, não agiientarei mais o cansaço.

• 27 de dezembro — Vem agora a alma do padre O

Estou em estado de purificação

chegou. Ela impressiona por

sua profunda tristeza. Quando rezo, achega-se a mim mostrando sua satisfação e me acariciando. (O que não me agrada.)

• 7 de janeiro — Ela já pode falar. Pergunto-lhe: “O que queres

que eu te faça?” — “Uma santa missa.” — “Sofres muito?” — “Estou

na purificação.” — “É o que nós chamamos de purgatório?” — “É, sim.” — “Mas o que estás sofrendo?” — “O anseio, anseio de Deus me devora.” — “Por que tens de sofrer?” — “Praguejava.” — “De bom grado te ajudo. Sentes algum alívio quando rezo por ti?” —

“Sinto, sim.” — “No estado em que te encontras não podes rezar?” — “Posso adorar, mas não posso pedir.” — “E agora?” — “Agora tu pedes por mim.”(3°)

• 8 dejaneiro— Ela ficou tanto tempo comigo que não agiientei

mais de tanto cansaço. Disse-lhe: “Por favor, deixa-me agora porque

• 5 de janeiro de 1925 — A Z

e a visitei muitas vezes durante sua

doença. Era muito pobre. Suas respostas impressionam porque em vida tais conceitos lhe foram totalmente estranhos.

(30) Anota o pároco Sebastian Wieser: Conheci a Z

estou com muito sono.” — “Por obséquio, tem compaixão de mim.”

— “Mas uma reza que apenas sai de minha boca não pode te ajudar;

nem consigo mais rezar direito.” — “Tua presença me dá refrigério.”

— “E por quê?” — “Porque alivias nosso sofrimento.” ■— “Se eu te

ajudo, ajuda-me a mim também. Vês, certamente, o que há em mim de mau, de pecado.” — “Não és mortificada.” — “Sei; tens razão. E que mais?” — “Quanto mais te privares e te despojares de tudo, tanto

mais poderás dar.” Tenho a impressão de que houve algo ou alguém com ela, mas não consegui distinguir claramente o que era.

• 9 dejaneiro— Estranho! Enquanto eu conversava com afilha

de Z., esta veio ao nosso encontro. Z. acenou para mim e lançou um olhar penetrante à filha. Quase perdi a fala. Depois de a filha ter ido embora, ela ficou comigo. Perguntei-lhe: “Por que não te deste a conhecer à filha?” — “Ela não está livre.” — “Nem eu estou livre e por que eu te posso ver?” — “Tu te libertaste.” As palavras dela provam que até as Almas do Purgatório não sabem tudo. Eu, estar livre e totalmente libertada?! Estou em meio a todo mundo e tanta coisa fica grudada a mim, que meu corpo enfermo faz com que não dê o cuidado necessário à minha alma. E isso me apavora muito. Às vezes, fico muito oprimida, mas depois volto a ser leviana. E então vem, de quando em quando, aquela felicidade única, maravilhosa e consoladora que me faz esquecer tudo, tudo.

O orgulho espiritual fez em mim um solitário

• 15 dej aneiro— Não fiz anotações porque nada houve de novo,

apenas noites repletas de inquietação. • O padre O

até diversas vezes durante o dia. A noite passada foi tão insuportável, que devo anotá-lo. Algo me puxava para todos os lados dentro de minha cama. Meu pavor é inominável. Deve haver muitas almas dentro do meu quarto. Não sabia o que fazer. Havia neblina ao meu redor, e tão cerrada que a lâmpada do aposento me parecera muito distante daqui. Refugiei-me

continua vindo,

num outro quarto. Lá, tive sossego, apenas ouvia o barulho. Pelas cinco horas consegui deitar-me de novo.

encontrei aquela mulher quejá havia

visto.

• 23 dejaneiro— Quase toda noite, a situação é horrorosa. Estou

tremendamente apavorada por haver tantas almas no meu quarto.

Quando vem o padre O

muito covarde, e sei por quê. Minha alma já não consegue arranjar a força de que precisa. O corpo, por estar enfermo, arrulhou-a em indolência.

, o resto sossega e dele não tenho medo. Fui

• 17dejaneiro— E m D

• 25 dejaneiro— Vieram cinco vultos. Torturaram-me terrivel­

mente, pois tentaram sempre tocar-me, o que, para mim, é o pior que me podem fazer.

consegue falar. Perguntei-lhe:

• 29 de janeiro — O padre O

“Como posso ajudar-te?” — “Continua rezando.” — “Não consigo

entender por que aindanão estás nocéu.”— “O orgulho espiritual tem feito de mim um solitário.” — “Mas, e o bem que tanto fizeste?” — “Isso me salvou.” — “Vais também a outros dos teus alunos?” — “Não; que rezem por mim.”

para que

me livrasse das almas que tanto me fazem sofrer. No entanto, só veio pela manhã. “Não me ouviste, quando os outros estavam comigo?”

— ”Sim, estive presente.” — “Por que não pude ver-te?” — “Tu estavas com medo e não tinhas amor.” — “Mas quero ajudar também aqueles.” — “Só conseguirás ajudar quando te esqueceres de ti mesma.” — “Ainda não consigo controlar-me quando me surpreen­ dem agressões martirizantes.”

esteve comigo a manhã toda.

Até quando outras pessoas entraram no meu quarto, ficava ele comigo. Ele parece realmente vivo qual outra pessoa. Durante a noite, as outras almas têm-me torturado terrivelmente.

• 4 de fevereiro— Aqueles cinco vultos podem serreconhecidos

agora, são cinco mulheres, mas em relação a elas nada consigo quanto a rezas ou colóquios. O padre ficou longamente comigo.

• 30 de janeiro — Sofri muito. Chamei pelo padre O

• Iode fevereiro — O padre O

Tenho de falar agora dum assunto que nada tem a ver com as Almas do Purgatório. No entanto, prefiro comunicá-lo ao meu diretor espiritual porque acho melhor cientificá-lo de tudo quanto se passa comigo: aquela sensação de um bem-estar indizível cresce de tal modo que isso me assusta. Hoje, durante meia hora, estive fora de mim. Não sei onde estive; tenho a certeza de que estive fora de mim mesma. Quando isso se dá, algo se apodera de mim, devagarinho, que me torna impossível qualquer ocupação; uma presença invisível me atrai. Uma grande claridade me envolve e em seguida não sei mais nada de mim mesma. Estou imersa em felicidade. Tudo quanto é humano está desligado; gozo e não posso expressar o que estou

gozando. Acho isso tão estranho que não sei classificá-lo, descrevê- lo ou falai-a esse respeito, pois é anormal perder a consciência de si mesma. Alguém como eu não pode cair em êxtase. E vem o escrúpulo: imagino ou sonho tais coisas? Minto? Mas isso é totalmen­ te impossível. Deponho, pois, as minhas preocupações nas mãos do meu diretor espiritual; ele me dirá se há em mim qualquer coisa de errado.

11 de fevereiro — Aconteceu muita coisa. Por longo tempo

esteve

comigo o padre O

;

perguntei-lhe: “Virás ainda muitas

vezes?” — “Não.” — “Estás remido? — “Ainda não, mas vejo com maior claridade e vou para lá, donde não poderei voltar.” — “Podes dizer-me se tudo é assim como o aprendi contigo?” — “É, sim. No entanto, a língua humana é incapaz de expressar o que há de mais

santo.” • Vieram as cinco mulheres; duas delas têm rostos hediondos; uma sussurrou-me algo ao ouvido, mas não entendi.

• 15 de fevereiro — Quando estive lá em cima com Wolfram,

veio aquele homem que eu vira duas vezes em companhia de Bárbara. Ele ficou imóvel ao meu lado; parece ser muito infeliz. • Que noite cheia de agressões abomináveis; as cinco mulheres me torturam de maneira terrível.

• 17 de fevereiro — O padre apareceu por um instante apenas,

sorriu para mim e desapareceu. Parece-me que não volta mais.

• 19 de fevereiro — Enquanto eu estava com Wolfram nos

braços, aquele homem inclinou-se sobre nós e gemia: “Tu me esqueceste.” Ele tem razão. Fui diminuindo as orações por ele porque não se mostrava mais.

Um assassino visto também por uma criança

• 25 de fevereiro — No terceiro andar vi, outra vez, aquele homem que vinha há tempos com Bárbara. Ele me estendeu as mãos, nas quais vi sangue. Perguntei-lhe: “Es tu um assassino?” — “Sou.” — “Machucaste Bárbara na cabeça?” — “Não.” — “A quem mataste?” — “O filho dela.” — “Por quê?” — “Por causa da herança.” — “Era teu filho?” — “Não.” E ele se foi. Ele traz o uniforme de cavaleiro do século XVI. E jovem; não me amedronta. Fico triste quando vejo seus olhos que imploram ajuda. • As cinco mulheres continuam me procurando de noite. Todas elas são de um século passado; uma, de rara beleza. • Iade março — Estive com Wolfram. Veio aquele homem. O pequeno também deve tê-lo visto, pois, medroso, cravou nele os grandes olhos. E pena que tenha como testemunhas, das aparições,

apenas criancinhas, gatos e galinhas (30a). Perguntei ao homem: “Por que assustas a criança? Não o admito!” — “Ela vê mais que tu.” Em

seguida foi ao quarto de N

Ele ficou em frente dela, mas ela nada percebeu. Em tais momentos posso comparar a pessoa viva com uma pobre alma. Penso logo nos olhos que, em pessoas vivas, nunca são semelhantes aos de uma pobre Alma do Purgatório: seus olhos são a imagem da dor. Também a boca é diferente da de uma pessoa viva, pois ninguém é capaz de expressar de modo tão intenso a inominável acridez de sua dor. De dia posso fazer ainda observações de outro género: as roupas são impecáveis, as franjas, as rendas, tudo aliás, é

; eu o segui para ver se ela o perceberia.

(30a) Esse suspiro “testemunhas minhas são apenas criancinhas, galinhas e gatos” manifesta sua dor por não poder expressar aos outros o que se passa com ela. Interessante que o principezinho Wolfram foi sua única testemunha. (Foto na p. 79, em que ela se inclina maternalmente para o pequeno príncipe.)

de execução impecável. As esporas e as correntinhas tilintam ao caminhar; os que estão comigo em tais ocasiões nada vêem e nada escutam.

• 7 de março — As cinco voltam constantemente, mas não se

pode fazer nada por elas. Tomei a ver, enfim, meus velhos queridos

“onze”. É de estranhar: seu tamanho se foi reduzindo mais e mais; eram bem mais altos do que eu, agora ficaram qual crianças.

• 9 de março — No terceiro andar tomei a ver o cavaleiro.

Perguntei-lhe: “Por favor, dize-me como te chamas.” — “O pobre.”