Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 1981, pp.

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Introdução 1. LITERATURA COMO SISTEMA
Este livro procura estudar a formação da literatura brasileira como síntese de tendências universalistas e particularistas. Embora elas não ocorram isoladas, mas se combinem de modo vário a cada passo desde as primeiras manifestações, aquelas parecem dominar nas concepções neoclássicas, estas nas românticas, - o que convida, além de motivos expostos abaixo, a dar realce aos respectivos períodos. Muitos leitores acharão que o processo formativo, assim considerado, acaba tarde demais, em desacordo com o que ensinam os livros de história literária. Sem querer contestálos, - pois nessa matéria, tudo depende do ponto de vista, - espero mostrar a viabilidade do meu. Para compreender em que sentido é tomada a palavra formação, e porque se qualificam de decisivos os momentos estudados, convém principiar distinguindo manifestações literárias,de literatura propriamente dita, considerada aqui um sistema de obras ligadas por denominadores comuns, que permitem rconhecer as notas dominantes duma fase. Estes denominadores são, além das características internas, (língua, temas, imagens), certos elementos de natureza social e psíquica, embora literariamente organizados, que se manifestam historicamente e fazem da literatura aspecto orgânico da civilização. Entre eles se distinguem: a existência de um conjunto de produtores literários, mais ou menos conscientes do seu papel; um conjunto de receptores, formando os diferentes tipos de público, sem os quais a obra não vive; um mecanismo transmissor, (de modo geral, uma linguagem, traduzida em estilos), que liga uns a outros. O conjunto dos três elementos dá lugar a um tipo de comunicação inter-humana, a literatura, que aparece, sob este ângulo como sistema simbólico, por meio do qual as veleidades mais profundas do indivíduo se transformam em elementos de contacto entre os homens, e de interpretação das diferentes esferas da realidade. Quando a atividade dos escritores de um dado período se integra em tal sistema, ocorre outro elemento decisivo: a formação da continuidade literária, - espécie de transmissão da tocha entre corredores, que assegura no tempo o movimento conjunto, definindo os lineamentos de um todo. É uma tradição, no sentido completo do termo, isto é, transmissão de algo entre os homens, e o conjunto de elementos transmitidos, formando padrões que se impõem ao pensamento ou ao comportamento, e aos quais somos obrigados a nos referir, para aceitar ou rejeitar. Sem esta tradição não há literatura, como fenômeno de civilização. Em um livro de crítica, mas escrito do ponto de vista histórico, como este, as obras não podem aparecer em si, na autonomia que manifestam, quando abstraímos as circunstâncias enumeradas; aparecem, por força da perspectiva escolhida, integrando em dado momento um sistema articulado e, ao influir sobre a elaboração de outras, formando, no tempo, uma tradição. Em fases iniciais, é freqüente não encontrarmos esta organização, dada a imaturidade do meio, que dificulta a formação dos grupos, a elaboração de uma linguagem própria e o interesse pelas obras. Isto não impede que surjam obras de valor, - seja por força da inspiração individual, seja pela influência de outras literaturas. Mas elas não são representativas de um sistema, significando quando muito o seu esboço. São manifestações literárias, como as que encontramos, no Brasil, em graus variáveis de isolamento e articulação, no período formativo inicial que vai das origens, no século XVI, com os autos e cantos de

aliás. tomei como ponto de partida as Academias dos Seletos e dos Renascidos e os primeiros trabalhos de Cláudio Manuel da Costa. Sob este aspecto. os que mais viveram lá. não influiu. elemento positivo na construção nacional.Anchieta. não contribuiu para formar o nosso sistema literário. onde se prendem as raízes da nossa vida literária e surgem.que poderá. sobretudo nos momentos estudados. embora registre quanto João de Brito e Lima pôde alcançar. Basílio ou Caldas Barbosa. mas de modo algum importa no exclusivismo de afirmar que só assim é possível estudá-las. segundo os moldes universalistas do momento. ou simplesmente no seu exemplo. em sentido amplo. isto ocorre a partir dos meados do século XVIII. sobretudo graças a Varnhagen. sensível às articulações e à dinâmica das obras no tempo. graças à manifestação de temas. para facilitar. Sem desconhecer grupos ou linhas temáticas anteriores. . sem falar dos cronistas. notadamente o Indianismo. Antes disso. é quase imposto pelo caráter da nossa literatura. Período importante e do maior interesse. que dominarão a produção oitocentista. . que Barbosa Machado. justamente. sendo que os mais voltados para temas e sentimentos nossos foram. veremos que poucas têm sido tão conscientes da sua função histórica. ao mesmo tempo. mais os que se vão enquadrando como herdeiros nas suas diretrizes. é com os chamados árcades mineiros. de averiguar quando e como se definiu uma continuidade ininterrupta de obras e autores. Esses críticos conceberam a literatura do Brasil como expressão da realidade local e. É expressivo o fato de que mesmo os residentes em Portugal. e tão obscuro permaneceu sob os seus manuscritos. timbravam em qualificar-se como brasileiros. e só depois de 1882 e da edição Vale Cabral pôde ser devidamente avaliado. Tais homens foram considerados fundadores pelos que os sucederam. formas ou preocupações. Já que é preciso um começo. Trata-se. que. ignora-o completamente. o minucioso erudito da Biblioteca Lusitana (1741-1758). temas. as últimas academias e certos intelectuais ilustrados. arredondando. sempre provável em tais casos. às Academias do século XVIII. aliás. incorporados à sua vida. antes deles. servir de exemplo do que pretendo dizer. então. O leitor perceberá que me coloquei deliberadamente no ângulo dos nossos primeiros românticos e dos críticos estrangeiros. (para dar realce às linhas). que forma o ponto de partida de toda a nossa crítica. ele não existiu literariamente (em perspectiva histórica) até o Romantismo. localizaram na fase arcádica o início da nossa verdadeira literatura. cientes quase sempre de integrarem um processo de formação literária. Achei interessante estudar o sentido e a validade histórica dessa velha concepção cheia de equívocos. estabelecendo-se deste modo uma tradição contínua de estilos. homens do porte de Antônio Vieira e Gregório de Matos. revendo-a na perspectiva atual. na verdade puramente convencional. mesmo quando procuram exprimir uma realidade puramente individual. embora tenha permanecido na tradição local da Bahia. Com efeito. Os escritores neoclássicos são quase todos animados do desejo de construir uma literatura como prova de que os brasileiros eram tão capazes quanto os europeus. 2. é preferível nos limitarmos aos seus artífices imediatos. Salvo melhor juízo. que surgem homens de letras formando conjuntos orgânicos e manifestando em graus variáveis a vontade de fazer literatura brasileira. É um critério válido para quem adota orientação histórica. estão visando este aspecto. quando foi redescoberto. Se desejarmos focalizar os momentos em que se discerne a formação de um sistema. como Durão. nem influências como as de Rocha Pita e Itaparica. a data de 1750. poder-se-ia dizer que o presente livro constitui (adaptando o título do conhecido estudo de Benda) uma "história dos brasileiros no seu desejo de ter uma literatura". se atentarmos bem. UMA LITERATURA EMPENHADA Este ponto de vista. adquirindo plena nitidez na primeira metade do século XIX.

a fase neoclássica está indissoluvelmente ligada à Ilustração. prejudicados no exercício da fantasia pelo peso do sentimento de missão. que a plasmaram como permanente mistura da tradição européia e das descobertas do Brasil. Esta disposição de espírito. sem a qual a arte não passa de experimentação dos recursos técnicos. redundando muitas vezes nos escritores em prejuízo e desnorteio. bem cedo estabelecido. Aparece no mundo contemporâneo como elemento de autoconsciência. Como não há literatura sem fuga ao real. eram tão nativistas quanto o Caramuru. ou exprimir determinados sentimentos de alcance geral. que visava a diferenciação e particularização dos temas e modos de exprimi-los. a coragem ou espontaneidade do gratuito é prova de amadurecimento. universal e nacional. que vincula à experiência bruta. . tornando-a língua geral duma sociedade à busca de autoconhecimento. sob tal aspecto. esta imaturidade. no indivíduo e na civilização. Por outro lado favoreceu a expressão de um conteúdo humano. a expressividade que estabelece comunicação entre autores e leitores. Doutro lado. adquiriu. que revitaliza a expressão. documento e devaneio. o nacionalismo artístico não pode ser condenado ou louvado em abstrato. Este nacionalismo infuso contribuiu para certa renúncia à imaginação ou certa incapacidade de aplicá-la devidamente à representação do real. foi auspicioso que o processo de sistematização literária se acentuasse na fase neoclássica. cortando baixo as flores mais espigadas da imaginação. os refinados madrigais de Silva Alvarenga. Neste livro. para acompanhar até o limite as suas manifestações. uma bateria de fogo rasante. por vezes verdadeiros delegados da realidade junto à literatura. além de querê-la. duma arte de clareza e discernimento a uma "metafísica da confusão". deu à literatura sentido histórico e excepcional poder comunicativo. resolvendo-se por vezes na coexistência de realismo e fantasia. capaz de servir aos padrões do grupo. neste livro. Ao mesmo tempo. e tentativas de transcendê-lo pela imaginação. os escritores se sentiram freqüentemente tolhidos no vôo. tentar-se-á mostrar o jogo dessas forças. Graças a isto.Depois da Independência o pendor se acentuou. no pressuposto que. Isto explica a importância atribuída. persistiu mais consciência estética do que seria de esperar do atraso do meio e da indisciplina romântica. sob o aspecto estético. ou nos que penetram de repente no ciclo da civilização ocidental. Aliás. como manifestação afetiva e descrição local. e. contensão emocional que a caracterizam. ao filosofismo do século XVIII. Para nós. É este um dos fios condutores escolhidos. à "tomada de consciência" dos autores quanto ao seu papel. . pois é fruto de condições históricas. mas incaracterísticas. para nós. compromete a universalidade da obra. empenhada. esposando as suas formas de organização política. Não espanta que os autores brasileiros tenham pouco da gratuidade que dá asas à obra de arte. nos povos velhos ou novos que adquirem ambas. Aliás. fixando-a no pitoresco e no material bruto da experiência. aos povos jovens e aos moços. historicamente do maior proveito. exprime certa encarnação literária do espírito nacional. e à intenção mais ou menos declarada de escrever para a sua terra. na obra de um mesmo autor. Ela continha realmente um elemento ambíguo de pragmatismo. beneficiando da concepção universal. ou os sonetos camonianos de Cláudio. por vezes provinciana. como a fase joanina e os primeiros tempos da Independência. e isto contribuiu para incutir a acentuar a vocação aplicada dos nossos escritores. que não raro confunde as letras com o padrão jornalístico. bem significativo dos estados de espírito duma sociedade que se estruturava em bases modernas. em cumprimento a um programa. que se foi acentuando até alcançar o máximo em certos momentos. dando lastro e significado a formas polidas. a abandonar o terreno específico das belasletras. mesmo quando não a descreviam. decorreu certo imediatismo. Mistura do artesão neoclássico ao bardo romântico. muito da fidelidade documentária ou sentimental. como vimos. levando a considerar a atividade literária como parte do esforço de construção do país livre. parece traição e fraqueza. técnica e emocional.quase imposição nos momentos em que o Estado se forma e adquire fisionomia nos povos antes desprovidos de autonomia ou unidade. para dizer como um filósofo francês. que acarretava a obrigação tácita de descrever a realidade imediata. Se não decorreu daí realismo no alto sentido. como José de Alencar. rigor de forma. Ao mesmo tempo. Sempre que se particularizou. ao contrário. Este processo leva a requerer em todos os setores da vida mental e artística um esforço de glorificação dos valores locais. a ponto de sermos por vezes obrigados.

herdado dos românticos. segundo a perspectiva adotada. quando se tratou de reforçar por todos os modos o perfil da jovem pátria e. negar validade a esta proposição. psíquica e social. deve-se à confusão entre formalismo e estética. Acho por isso legítimo que os historiadores e críticos da mãe-pátria incorporem Cláudio ou Sousa Caldas. A nossa literatura é ramo da portuguesa. que utilizo em mais de um passo. a definição do momento e motivos que a distinguem da portuguesa. que não interessou especialmente aqui. estudar nas obras apenas o aspecto empenhado. pressupunha também. é atualmente inviável como critério. Por outro lado. este procura apreender o fenômeno literário da maneira mais significativa e completa possível. superiores a Cláudio e Gonzaga. não só averiguando o sentido de um contexto cultural. No presente livro. a literatura brasileira começava propriamente. em relação a Portugal. nós agíamos. de modo a se poder discernir uma certa determinação na maneira por que são produzidas e incorporadas ao patrimônio de uma civilização. nos momentos estudados. com Durão e Basílio. pressupondo que as obras se articulam no tempo.A idéia de que a literatura brasileira deve ser interessada (no sentido exposto) foi expressa por toda a nossa crítica tradicional. Para os românticos. não algo necessariamente diverso da portuguesa. é evidente que o conteúdo brasileiro foi algo positivo. em virtude do tema indianista. que reduziu a literatura a episódio da investigação sobre a sociedade. reduzir a obra aos fatores elementares. Dum ponto de vista histórico. em todo o caso. 3. O problema da autonomia. . para indicar este fato. pois. Nem um ponto de vista histórico desejaria. até meados do século XIX. desde Ferdinand Denis e Almeida Garrett. sintomas da realidade social. Elas se unem tão intimamente. porém mais daqui do que de lá. por este motivo. em nossos dias. pode-se considerá-la independente desde Gregório de Matos ou só após Gonçalves Dias e José de Alencar. que negam a dívida aos pais e chegam a mudar de sobrenome. e acho legítimo incluí-los aqui. isto é. ao mesmo tempo.o que em parte se explica como réplica aos exageros do velho método histórico. Um esteticismo mal compreendido procurou. acho que o portuense Gonzaga é de ambos os lados. Tudo depende do papel dos escritores na formação do sistema. enquanto aquele se fecha na visão dos elementos de fatura como universo autônomo e suficiente. sendo um livro de história. a atenção se volta para o início de uma literatura propriamente dita. lembrando que. como ficou dito. dando pontos de apoio à imaginação e músculos à forma. Justificava-se no século passado. mas procurando estudar cada autor na sua . após ter sido recurso ideológico. que o valor da obra dependia do seu caráter representativo. como esses adolescentes mal seguros. Elas só podem ser compreendidas e explicadas na sua integridade artística. é algo superado. portanto. PRESSUPOSTOS O fato de ser este um livro de história literária implica a convicção de que o ponto de vista histórico é um dos modos legítimos de estudar literatura. que anima as obras e recebe do escritor a forma adequada. ao tomar indevidamente as obras como meros documentos. Mas o nacionalismo crítico. Deve-se. esta não prescinde o conhecimento da realidade humana. a expressão "literatura comum" (brasileira e portuguesa). nos últimos decênios. e acho que o paulista Matias Aires é só de lá. como fenômeno de civilização. O presente livro tentou evitá-lo. numa fase de construção e autodefinição. a presença de elementos descritivos locais. a partir dos quais tomou-se a brasilidade. considerá-lo subsídio de avaliação. reputados. Deste modo. constituindo neste sentido um calamitoso erro de visão. mesmo como fator de eficácia estética. mas sobretudo de literatura. evitando. como traço diferencial e critério de valor. em função da qual é permitido ressaltar este ou aquele aspecto.

sendo duas coisas opostas simultaneamente. como o nosso. O TERRENO E AS ATITUDES CRÍTICAS Toda crítica viva . segundo uma frase justa. à dominante. Acho igualmente valiosas as elucubrações gratuitas. ele "é o próprio nervo da vida". todavia. através da qual se manifesta o conteúdo. aceitar estas falsas incompatibilidades. leva. num tempo. resolvendo-se na coerência transitória de uma unidade. em que a coexistência e rápida emergência dos mais variados critérios de valor e experimentos técnicos. em todos os tempos e lugares. não se visa um pólo nem outro.parte de uma impressão para chegar a um juízo. forma e conteúdo. Acho valiosos e necessários os trabalhos de pura investigação. que um autor e uma obra podem ser e não ser alguma coisa. informação. indispensável em toda investigação intelectual. inevitáveis quando se atenta. aliás. tentando demonstrar que o contraditório é harmônico. a eles se abre no Brasil um campo vasto. Uma crítica equilibrada não pode. Por isso. em que o desejo de compreender todos os produtos do espírito. Isto não significa. para o significado histórico do conjunto e o caráter singular dos autores. seja a da ciência. então. Mas. à interpretação do nosso passado literário. e o aspecto informativo apenas serve de plataforma às operações do gosto. todavia. procurando. dando validade ao seu esforço e seriedade ao seu propósito: o trabalho construtivo de pesquisa. a erudição e o gosto. mas um lugar eqüidistante e. A tentativa de focalizar simultaneamente a obra como realidade própria. vendo na realidade um universo de fatos que se propõem e logo se contradizem. reduções ao elementar. seja a da crítica. temos de renunciar à ordem. . ver simples onde é complexo. exegese. erudição e gosto. perfazendo com ele a expressão. sem querer mutilar a impressão vigorosa que deixa.isto é. em equilíbrio instável. porque. sem a qual não vive uma literatura. porém. 4. para traduzir a multiplicidade do real. embora nunca atingido em virtude das limitações individuais e metodológicas. que manifestam essa paixão de leitor. impressionismo nem dogmatismo. aos dados da realidade. é uma tentativa mais ou menos feliz e duradoura de equilíbrio entre estes contrastes. que é o ideal do crítico. quem quiser ver em profundidade. por vezes. dada a força com que se arraigou o preconceito do divórcio entre história e estética. Para chegar o mais perto possível do desígnio exposto. e a história não foge a esta contingência. E se quisermos reter o máximo de vida com o máximo de ordem mental. fatalmente. que sublima as duas etapas. ao mesmo tempo. É necessário um pendor para integrar contradições. em certos casos. parecerá ambiciosa a alguns. a considerar o papel da obra no contexto histórico. Procurando sobretudo interpretar. Esta só se efetua por meio de simplificações. tem de aceitar o contraditório. no presente momento. A forma. de base intuitiva. objetividade e apreciação. mostrar que são partes de uma explicação tanto quanto possível total. utilizando este conhecimento como elemento de interpretação e. Por outro lado. Aqui. pois entre as duas pontas se interpõe algo que constitui a seara própria do crítico. se aceitarmos a realidade na minúcia completa das suas discordâncias e singularidades. deixa vislumbrar a contradição e revela a fragilidade do equilíbrio. em prejuízo da riqueza infinita dos pormenores. a síntese e a análise. nos períodos e nos autores.porque as obras vivas constituem uma tensão incessante entre os contrastes do espírito e da sensibilidade. que empenha a personalidade do crítico e intervém na sensibilidade do leitor . É o que fazem. este não é um livro de erudição. à diversidade das obras. avaliação. a meu ver. ao contrário. O espírito de esquema intervém. como forma. e o contexto como sistema de obras. é necessário um movimento amplo e constante entre o geral e o particular. sem qualquer propósito estético. É preciso. . os críticos mais conscientes. só resta a visão acima referida. mesmo quando relativamente perfeita. seja a forma da arte aplicada às inspirações da vida. mais favorável.integridade estética. É preciso sentir.

do significado profundo da forma. que a libertaram dos gramáticos e retores. como leitor insubstituível. O imperialismo formalista significaria. a crítica viva usa largamente a intuição. mas aquelas etapas se integram no seu roteiro. subdividindo. serenidade. Não há. para interpretar e explicar. reprovação. As orientações formalistas não passam. perigo de regresso acorrentando-a de novo a preocupações superadas. sob este aspecto. ao que os outros vêem. desligada dos interesses fundamentais do homem. dos recursos e pontos de vista utilizados. Houve tempo. e o juízo resulte aceitável pelos leitores. que a tornariam especialidade restrita. Hoje. seja no estrito sentido da língua. sociais e psíquicos. Mas erigi-lo em critério básico é sintoma da incapacidade de ver o homem e as suas obras de maneira una e total. . do ponto de vista duma crítica compreensiva. filiando. um elemento intelectual médio. e isto foi possível graças à intervenção da filosofia e da história. a que outros poderiam ter chegado. surgem no nosso espírito certos estados de prazer. O leitor será tanto mais crítico. As teorias e atitudes críticas se distinguem segundo a natureza deste trabalho analítico. e o orgulho inicial do crítico. em perspectiva ampla. num escritor. comparando. é erro que compromete a sua autonomia e tende. Por isso. embora nem sempre conscientemente. que presenciamos. Se esta operação de salvamento teve aspectos excessivos e acabou por lhe comprometer a autonomia. Nos nossos dias. constatação. A impressão. reconhecimento e definição de valor. como timbre individual. conforme o objeto em foco. tristeza. quando completo.Em face do texto. constituí-las em método explicativo é perigoso e desvirtua os serviços que prestam. de técnicas parciais de investigação. parece transposto o perigo de submissão ao estudo dos fatores básicos. um elemento perceptivo inicial. porém. julgar. quando limitadas ao seu âmbito. que busca na obra uma fonte de emoção e termina avaliando o seu significado. que importam. Delas sairá afinal o juízo. Nada melhor que o aprofundamento. a destruí-la em benefício de disciplinas afins. mas vários caminhos. ou qualquer outra. nos casos extremos. quanto mais for capaz de ver. Entre impressão e juízo. como uma espécie de moinho. todavia. analisando. tritura a impressão. Nesse livro. do estudo da metáfora. pois os dois outros momentos são de natureza estética e ocorrem necessariamente. foi ela que a erigiu em disciplina viva. A crítica propriamente dita consiste nesse trabalho analítico intermediário. permanece essencialmente. Estas impressões são preliminares importantes. a fim de que o arbítrio se reduza em benefício da objetividade. em reduzir a obra a problemas de linguagem. aceitando e procurando exprimir as sugestões trazidas pela leitura. um elemento voluntário final. em qualquer leitura. transferindo-se ao leitor pela elaboração que lhe deu generalidade. com efeito. o político. termina pela humildade de uma verificação objetiva. ora com atenção mais aturada aos fatores. o seu escritor. o psicanalista. e o irmana aos lugares-comuns do seu tempo. Querer reduzi-la ao estudo de uma destas componentes. com mais ou menos discrepância. em que o crítico cedeu lugar ao sociólogo. que vê como ninguém mais e opõe. o médico. o perigo vem do lado oposto. que pressupõe. A crítica dos séculos XIX e XX constitui uma grande aventura do espírito. uma crítica única. que define a sua visão pessoal. seja no sentido amplo da comunicação simbólica. Perceber. que não é julgamento puro e simples. o trabalho paciente da elaboração. O crítico é feito pelo esforço de compreender. das pretensões excessivas do formalismo. das constantes estilísticas. o aparelho analítico da investigação é posto em movimento a serviço da receptividade individual. compreender. o crítico tem de experimentá-las e deve manifestá-las. ora com maior recurso à análise formal. simples interesse. pois elas representam a dose necessária de arbítrio. no limite. mas avaliação.

porém. Se lermos todavia os poemas resultantes. o poema do primeiro é nulo. É que. num livro de história literária que não quiser ser parcial nem fragmentário. No limite. finalmente. arriscamos fazer tarefa menos de crítico.5. fontes. Consiste nisso e mais em analisar a visão que a obra exprime do homem. biógrafo. não de fatores nem de autores. é elemento essencial apenas como ponto de partida. e utilizando tudo mais como auxílio de interpretação. só é movida pela eficácia da expressão. Os três pais são igualmente dignos de piedade. o elemento decisivo é o que permite compreendê-la e apreciá-la. da eloqüência do sentimento. ou uma sucessão de obras. desenvolvimento e atuação dos processos literários. não documentos biográficos. o sofrimento do primeiro foi o mais duradouro. influências. ao transfigurálos. específicos. veremos que. Entende-se agora porque. o texto é integração de elementos sociais e psíquicos. penetração analítica. contendo os elementos anteriores e outros. ficaremos insensíveis e mesmo aborrecidos com "Os Túmulos". OS ELEMENTOS DE COMPREENSÃO Quando nos colocamos ante uma obra. segundo vimos. Se resistirmos ao fascínio da moda e adotarmos uma posição de bom senso. o do terceiro. em segundo lugar o fator individual. deixando longe os pontos de partida não-literários. mas à maneira por que o faz. ao mesmo tempo. isto é: a literatura é um conjunto de obras. temos vários níveis possíveis de compreensão. sempre que pretendemos superar o impressionismo. e esta. na medida em que contribuem para o seu escopo. admirável pela solução formal. o homem que a intentou e realizou. que são a matéria-prima do ato criador. que os transcendem e não se deixam reduzir a eles. recorrem ao verso para exprimir a sua dor: Borges de Barros. Este exemplo serve para esclarecer o critério adotado no presente livro. Como. neles. seleção e invenção das imagens. o ponto de chegada é a reação do leitor. mediano no seu patético algo declamatório. a compreensão da obra não prescinde a consideração dos elementos inicialmente não-literários. nestes casos. que é o estudo da formação. enquanto o "Cântico do Calvário" nos faz estremecer a cada leitura. tratando-se de leitor culto. ou a estrutura interna. fatos. o crítico precisa referir-se a estas três ordens de realidade. não penso que esta se limite a indicar a ordenação das partes. ou as biografias. segundo o ângulo em que nos situamos. ao contrário do que pressupõem os formalistas. o ritmo da composição. lacerados pela morte dum filho pequeno. Esta autonomia depende. paixões. É lícito estudar apenas as condições sociais. que a vinculam ao tempo e se podem resumir na designação de sociais. as imagens. cujo valor está na fórmula que obteve para plasmar elementos não-literários: impressões. as constantes do estilo. por quem foi escrita.Com efeito. essencialmente de análise. este resultado. A crítica se interessa atualmente pela carga extra-literária. ou pelo idioma. porém. embora concentrando o trabalho na leitura do texto. O texto não os anula. do que de sociólogo. idéias. acontecimentos. disposição das palavras. o texto. psicólogo. esteta. a emoção. os fatores externos. Uma obra é uma realidade autônoma. isto é. Um . a posição em face dos temas. medianamente comovidos com o "Pequenino morto". admitamos que fossem iguais os três. Por isso. do ponto de vista afetivo. separadamente. sendo obras literárias. do jogo de elementos expressivos. mesmo que não soubéssemos onde. força de observação. sem o seu estudo não há crítica. e sendo um resultado. antes de tudo. só pode ganhar pelo conhecimento da realidade que serviu de base à sua realidade própria. lingüista. Pelo que sabemos. quando. estes devem ser levados em conta para interpretá-lo. Em primeiro lugar. através dos quais se manifestam o espírito ou a sociedade. literariamente. o do segundo. Vicente de Carvalho. se o entendimento dos fatores é desnecessário para a emoção estética. cuja síntese constitui a sua fisionomia. Fagundes Varela. operação. arrastados pela sua força mágica. o autor. Tomemos o exemplo de três pais que. o que apenas na aparência contesta o que acaba de ser dito. social ou individual. e está presente no resultado. A sua importância quase nunca é devida à circunstância de exprimir um aspecto da realidade.

tanto quanto possível. utilizei-a aqui incidentemente e atendendo à evidência estética e histórica. e todos os caminhos são bons para alcançá-lo. com mais amplitude e menos concentração. delicado e suave. por que recorrer obrigatoriamente a ela? 6. comunicados pelos meios expressivos. fase. ao se integrarem na atmosfera própria do texto. nem por criar uma expressão sem conteúdo. ou no naturismo de Bernardo Guimarães. também no limite. Já se vê que. consistente em distinguir o elemento humano anterior à obra e o que. ao utilizá-las. que se desilude muitas vezes ao descobrir que um escritor avarento celebrou a caridade. ao mesmo título que a coragem de Peri ou as astúcias do Sargento de Milícias. não pensemos na matéria-prima. a idéia de movimento. . grupo. escola. que certo poema exaltadamente erótico provém dum homem casto. são usadas aqui livremente as técnicas de interpretação social e psicológica. teoria. Há casos. não importam a veracidade e a sinceridade. segundo os padrões usuais. desde que existam literariamente. Em suma. fonte. por exemplo. um crítico não-literário. de conceitos como: período. para o nosso caso. dispomos. no limite. não queremos. não por copiar a vida. que a imaginação imprime ao seu objeto. em princípio. na obra. Embora reconheça a importância da noção de período. pois isso importa secundariamente. como pensaria. dizer que o homem Casimiro foi terno. geração. por vezes uma gloriosa mentira. influência. porque o intuito foi sugerir. Interessando definir. este é o alvo. experiências. revelando-se a capacidade do crítico na maneira por que os utiliza. e que poderão ou não corresponder a sentimentos individuais. Como disse Proust. quando julgadas necessárias ao entendimento da obra. um formalista radical. Queremos dizer que na obra deles há uma ternura e um naturismo construídos a partir da experiência e da imaginação. importa no estudo da literatura o que o texto exprime. idéias. CONCEITOS No arsenal da história literária. ao contrário do que pensa o leitor desprevenido. Se quisermos ver na obra o reflexo dos fatores iniciais. tanto quanto possível nova. momento. do que para ver se nas condições do meio e na biografia há elementos que esclareçam a realidade superior do texto. transfigurado pela técnica. passagem. que podem ser mais ou menos parecidos com os da vida. contanto que. representa nela o conteúdo. objetos de natureza diferente. que avaliam no drama da sua consciência a terrível realidade do bem e do mal. sem preocupar-me com distinções rigorosas. Isso. em que a informação biográfica ajuda a compreender o texto. que determinado poeta. portanto. mas em todo caso foram redefinidos a partir deles. no sentido comum. Para o crítico. são forjados. estribado em preconceito metodológico ou falsa pudicícia formalista? Há casos em que ela nada auxilia. Na tarefa crítica há. corrente. espancava a mãe. é ridículo despojar o vocabulário crítico das expressões indicativas da vida emocional ou social. O que interessa é averiguar até que ponto interferiram na elaboração do conteúdo humano da obra. ao lado das considerações formais. mas em sentimentos. ou amante da natureza o homem Bernardo. A pesquisa da vida e do momento vale menos para estabelecer uma verdade documentária. um romance revela isto mesmo. freqüentemente inútil. os elementos humanos formalmente elaborados. uma delicada operação. Quando falamos na ternura de Casimiro de Abreu. Valem porque inventam uma vida nova. achando que ela vale na medida em que os representa. idéias. Um e outro valem. propriamente dito. todavia. tema. Dada esta complexidade de tipo especial. estaremos errados. no momento exato e na medida suficiente. o problema ético se coloca melhor nas naturezas depravadas. dotado da realidade própria que acabamos de apontar. por que rejeitá-la. segundo a organização formal. como pensaria.poema revela sentimentos.

por exemplo. ser de tal modo incorporada à estrutura. temas. vida. com base na intuição e na investigação. se as suas condições forem superadas pela organização formal. então. políticas. conduzindo a um dos conceitos básicos do presente livro: que o eixo do trabalho interpretativo é descobrir a coerência das produções literárias. seja a interna. pois uma obra pode ser contraditória sem ser incoerente. que a separação evidente.sociais. A coerência é em parte descoberta pelos processos analíticos. nunca se sabe se as influências apontadas são significativas ou principais. entre as fases neoclássicas e romântica. procuro somar a idéia da sua continuidade. influência e plágio. Todos sabem que cada geração descobre e inventa o seu Gongora. falível e perigoso de toda a crítica. o seu Dostoievski. pode facilmente levar a uma visão mecânica. Além disso. Por coerência. requerendo tratamento igualmente diverso. Um. seja a externa. e são realidades de ordem literária. Pode. pois há sempre as que não se manifestam visivelmente. intelectuais e morais que decorrem da análise da obra. obtida pela elaboração do escritor. das obras. e mais verdadeiro. originando o estilo do tempo. de uma fase. imagens. se a obra é rica. ao lograr.como se viu há pouco ao mencionar a ternura de Casimiro. . sobrepus ao conceito de geração o de tema. etc. Ainda mais sério é o caso da influência poder assumir sentidos variáveis. . de elemento próprio de um conjunto orgânico. que não é necessariamente o perfil psicológico. pois pode haver vários.mas apenas sugerir o que poderíamos chamar de situação temporal ou seja. doutro lado. sugerir uma certa labilidade que permitisse ao leitor sentir. mas não se confunde com a simplicidade. formando uma diretriz.entre fases. bem como a impossibilidade de averiguar a parte da deliberação e do inconsciente. Estas considerações exprimem um escrúpulo e uma atitude. ela se manifesta através da personalidade literária. um tom. embora os escritores se disponham quase naturalmente por gerações. um conjunto. como técnica auxiliar. a síntese das condições de interdependência. através do tempo. no sentido da tomada de consciência literária e tentativa de construir uma literatura. pela dificuldade em distinguir coincidência. É a adesão recíproca dos elementos e fatores. (meio. . como influência. ela se manifesta pela afinidade. Por isso. . pela sua unidade profunda. importa em prejuízo do seu caráter atual. Do mesmo modo. do ponto de vista estético. No nível do momento. idéias. ou caráter complementar entre as obras. mas em parte inventada pelo crítico. mas o sistema de traços afetivos. sem contar as possíveis fontes ignoradas (autores desconhecidos. mas a sua retomada pelas gerações sucessivas. permanecendo na obra ao modo de um corpo estranho de interesse crítico secundário. tomá-la. . Apesar de fecundo. grupos e obras. dando lugar a uma unidade superior. contribuindo para formar a continuidade no tempo e definir a fisionomia própria de cada momento. por exemplo. entende-se aqui a integração orgânica dos diferentes elementos e fatores. ou fase. que por vezes sobrelevam as mais evidentes. do ponto de vista histórico. que vinculam os escritores uns dos outros. econômicas.). Isso conduz ao problema das influências. corrente ou grupo. e correspondem ou não à vida. Pode. cuja descoberta explica a obra como fórmula.comunicação. que permite as generalizações críticas. Embora a tenha utilizado largamente e sem dogmatismo. o seu Stendhal. é preciso reconhecer que talvez seja o instrumento mais delicado. conseqüência da relativa articulação entre elas. Por isso. não o traçado. aparecer como transposição direta mal assimilada. No nível do autor. nas quais se absorvem e sublimam os fatores do meio. À diferença entre estas fases. é contrabalançada. que estabelecem a fisionomia comum das obras. procurando apontar não apenas a sua ocorrência. não interessou aqui utilizar este conceito com rigor nem exclusividade. num dado momento. sugestões fugazes). um traçado explicativo. que adquire um significado orgânico e perde o caráter de empréstimo. impondo cortes transversais numa realidade que se quer apreender em sentido sobretudo longitudinal. não interessou aqui determinar rigorosamente as condições históricas.

é definir o que se escolheu. entre outros. a crítica é um ato arbitrário. imagens. as obras que melhor se ajustam ao seu modo de ver. São Paulo.Por isso. embora sabendo que pode haver outros. Num período. os temas. em grande parte. . _______________ "Introdução" in: Formação da literatura brasileira (momentos decisivos). as idéias e imagens que exprimem a sua visão. Sob este aspecto. a despeito do esforço de objetividade. Interpretar é. nas obras. Neste processo vai muito da sua coerência. Martins. 2 vols. há forçosamente na busca da coerência um elemento de escolha e risco. não apenas registradora. quando o crítico decide adotar os traços que isolou. usar a capacidade de arbítrio. começa por escolher os autores que lhe parecem representativos. recobrindo com elas o esqueleto do conhecimento objetivamente estabelecido. traços fugidios que o justificam. se deseja ser criadora. A este arbítrio o crítico junta a sua linguagem própria. nos autores. 1959. sendo o texto uma pluralidade de significados virtuais.

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