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Antonio Candido - Formação da literatura Brasileira

Antonio Candido - Formação da literatura Brasileira

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Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 1981, pp.

23-39

Introdução 1. LITERATURA COMO SISTEMA
Este livro procura estudar a formação da literatura brasileira como síntese de tendências universalistas e particularistas. Embora elas não ocorram isoladas, mas se combinem de modo vário a cada passo desde as primeiras manifestações, aquelas parecem dominar nas concepções neoclássicas, estas nas românticas, - o que convida, além de motivos expostos abaixo, a dar realce aos respectivos períodos. Muitos leitores acharão que o processo formativo, assim considerado, acaba tarde demais, em desacordo com o que ensinam os livros de história literária. Sem querer contestálos, - pois nessa matéria, tudo depende do ponto de vista, - espero mostrar a viabilidade do meu. Para compreender em que sentido é tomada a palavra formação, e porque se qualificam de decisivos os momentos estudados, convém principiar distinguindo manifestações literárias,de literatura propriamente dita, considerada aqui um sistema de obras ligadas por denominadores comuns, que permitem rconhecer as notas dominantes duma fase. Estes denominadores são, além das características internas, (língua, temas, imagens), certos elementos de natureza social e psíquica, embora literariamente organizados, que se manifestam historicamente e fazem da literatura aspecto orgânico da civilização. Entre eles se distinguem: a existência de um conjunto de produtores literários, mais ou menos conscientes do seu papel; um conjunto de receptores, formando os diferentes tipos de público, sem os quais a obra não vive; um mecanismo transmissor, (de modo geral, uma linguagem, traduzida em estilos), que liga uns a outros. O conjunto dos três elementos dá lugar a um tipo de comunicação inter-humana, a literatura, que aparece, sob este ângulo como sistema simbólico, por meio do qual as veleidades mais profundas do indivíduo se transformam em elementos de contacto entre os homens, e de interpretação das diferentes esferas da realidade. Quando a atividade dos escritores de um dado período se integra em tal sistema, ocorre outro elemento decisivo: a formação da continuidade literária, - espécie de transmissão da tocha entre corredores, que assegura no tempo o movimento conjunto, definindo os lineamentos de um todo. É uma tradição, no sentido completo do termo, isto é, transmissão de algo entre os homens, e o conjunto de elementos transmitidos, formando padrões que se impõem ao pensamento ou ao comportamento, e aos quais somos obrigados a nos referir, para aceitar ou rejeitar. Sem esta tradição não há literatura, como fenômeno de civilização. Em um livro de crítica, mas escrito do ponto de vista histórico, como este, as obras não podem aparecer em si, na autonomia que manifestam, quando abstraímos as circunstâncias enumeradas; aparecem, por força da perspectiva escolhida, integrando em dado momento um sistema articulado e, ao influir sobre a elaboração de outras, formando, no tempo, uma tradição. Em fases iniciais, é freqüente não encontrarmos esta organização, dada a imaturidade do meio, que dificulta a formação dos grupos, a elaboração de uma linguagem própria e o interesse pelas obras. Isto não impede que surjam obras de valor, - seja por força da inspiração individual, seja pela influência de outras literaturas. Mas elas não são representativas de um sistema, significando quando muito o seu esboço. São manifestações literárias, como as que encontramos, no Brasil, em graus variáveis de isolamento e articulação, no período formativo inicial que vai das origens, no século XVI, com os autos e cantos de

justamente. como Durão. graças à manifestação de temas. Período importante e do maior interesse. embora registre quanto João de Brito e Lima pôde alcançar. UMA LITERATURA EMPENHADA Este ponto de vista. Os escritores neoclássicos são quase todos animados do desejo de construir uma literatura como prova de que os brasileiros eram tão capazes quanto os europeus. incorporados à sua vida. embora tenha permanecido na tradição local da Bahia. Achei interessante estudar o sentido e a validade histórica dessa velha concepção cheia de equívocos. Salvo melhor juízo. Basílio ou Caldas Barbosa. então. sem falar dos cronistas. se atentarmos bem. mesmo quando procuram exprimir uma realidade puramente individual. quando foi redescoberto. 2. sendo que os mais voltados para temas e sentimentos nossos foram. revendo-a na perspectiva atual. homens do porte de Antônio Vieira e Gregório de Matos. o minucioso erudito da Biblioteca Lusitana (1741-1758). Trata-se. que dominarão a produção oitocentista. é com os chamados árcades mineiros. onde se prendem as raízes da nossa vida literária e surgem. poder-se-ia dizer que o presente livro constitui (adaptando o título do conhecido estudo de Benda) uma "história dos brasileiros no seu desejo de ter uma literatura". sobretudo graças a Varnhagen. que Barbosa Machado. veremos que poucas têm sido tão conscientes da sua função histórica. tomei como ponto de partida as Academias dos Seletos e dos Renascidos e os primeiros trabalhos de Cláudio Manuel da Costa. timbravam em qualificar-se como brasileiros. Tais homens foram considerados fundadores pelos que os sucederam. e tão obscuro permaneceu sob os seus manuscritos. arredondando. ao mesmo tempo. a data de 1750. Sem desconhecer grupos ou linhas temáticas anteriores. Se desejarmos focalizar os momentos em que se discerne a formação de um sistema. ele não existiu literariamente (em perspectiva histórica) até o Romantismo. sempre provável em tais casos. que surgem homens de letras formando conjuntos orgânicos e manifestando em graus variáveis a vontade de fazer literatura brasileira. . formas ou preocupações. estabelecendo-se deste modo uma tradição contínua de estilos. O leitor perceberá que me coloquei deliberadamente no ângulo dos nossos primeiros românticos e dos críticos estrangeiros. elemento positivo na construção nacional. os que mais viveram lá. Com efeito. segundo os moldes universalistas do momento. em sentido amplo. É um critério válido para quem adota orientação histórica. Sob este aspecto. mais os que se vão enquadrando como herdeiros nas suas diretrizes. que. localizaram na fase arcádica o início da nossa verdadeira literatura. ignora-o completamente. Já que é preciso um começo. não contribuiu para formar o nosso sistema literário. Antes disso. é preferível nos limitarmos aos seus artífices imediatos. isto ocorre a partir dos meados do século XVIII.que poderá. as últimas academias e certos intelectuais ilustrados. temas.Anchieta. é quase imposto pelo caráter da nossa literatura. sensível às articulações e à dinâmica das obras no tempo. antes deles. aliás. às Academias do século XVIII. na verdade puramente convencional. não influiu. estão visando este aspecto. de averiguar quando e como se definiu uma continuidade ininterrupta de obras e autores. servir de exemplo do que pretendo dizer. e só depois de 1882 e da edição Vale Cabral pôde ser devidamente avaliado. É expressivo o fato de que mesmo os residentes em Portugal. nem influências como as de Rocha Pita e Itaparica. cientes quase sempre de integrarem um processo de formação literária. sobretudo nos momentos estudados. Esses críticos conceberam a literatura do Brasil como expressão da realidade local e. para facilitar. . notadamente o Indianismo. mas de modo algum importa no exclusivismo de afirmar que só assim é possível estudá-las. ou simplesmente no seu exemplo. aliás. que forma o ponto de partida de toda a nossa crítica. (para dar realce às linhas). adquirindo plena nitidez na primeira metade do século XIX.

na obra de um mesmo autor. a ponto de sermos por vezes obrigados. Esta disposição de espírito. Este processo leva a requerer em todos os setores da vida mental e artística um esforço de glorificação dos valores locais. muito da fidelidade documentária ou sentimental. uma bateria de fogo rasante. Mistura do artesão neoclássico ao bardo romântico. mas incaracterísticas. como a fase joanina e os primeiros tempos da Independência. nos povos velhos ou novos que adquirem ambas. ou os sonetos camonianos de Cláudio. aos povos jovens e aos moços. universal e nacional. por vezes provinciana. os refinados madrigais de Silva Alvarenga. Este nacionalismo infuso contribuiu para certa renúncia à imaginação ou certa incapacidade de aplicá-la devidamente à representação do real. ou exprimir determinados sentimentos de alcance geral. É este um dos fios condutores escolhidos. decorreu certo imediatismo. empenhada. que visava a diferenciação e particularização dos temas e modos de exprimi-los. à "tomada de consciência" dos autores quanto ao seu papel. além de querê-la. deu à literatura sentido histórico e excepcional poder comunicativo. Para nós. o nacionalismo artístico não pode ser condenado ou louvado em abstrato. técnica e emocional. beneficiando da concepção universal. duma arte de clareza e discernimento a uma "metafísica da confusão". Não espanta que os autores brasileiros tenham pouco da gratuidade que dá asas à obra de arte. Aliás. a expressividade que estabelece comunicação entre autores e leitores. sob tal aspecto.quase imposição nos momentos em que o Estado se forma e adquire fisionomia nos povos antes desprovidos de autonomia ou unidade. para nós. fixando-a no pitoresco e no material bruto da experiência. ou nos que penetram de repente no ciclo da civilização ocidental. e. dando lastro e significado a formas polidas. exprime certa encarnação literária do espírito nacional. esposando as suas formas de organização política. prejudicados no exercício da fantasia pelo peso do sentimento de missão. contensão emocional que a caracterizam. cortando baixo as flores mais espigadas da imaginação. neste livro. Se não decorreu daí realismo no alto sentido. que não raro confunde as letras com o padrão jornalístico. . persistiu mais consciência estética do que seria de esperar do atraso do meio e da indisciplina romântica. e isto contribuiu para incutir a acentuar a vocação aplicada dos nossos escritores. compromete a universalidade da obra. Graças a isto. levando a considerar a atividade literária como parte do esforço de construção do país livre. e à intenção mais ou menos declarada de escrever para a sua terra. a coragem ou espontaneidade do gratuito é prova de amadurecimento. que se foi acentuando até alcançar o máximo em certos momentos. sob o aspecto estético. Neste livro. os escritores se sentiram freqüentemente tolhidos no vôo. mesmo quando não a descreviam. a abandonar o terreno específico das belasletras. que vincula à experiência bruta. bem significativo dos estados de espírito duma sociedade que se estruturava em bases modernas. bem cedo estabelecido. como vimos. ao filosofismo do século XVIII. Ao mesmo tempo. que acarretava a obrigação tácita de descrever a realidade imediata. Ao mesmo tempo. Isto explica a importância atribuída. redundando muitas vezes nos escritores em prejuízo e desnorteio. adquiriu. . para acompanhar até o limite as suas manifestações. Aliás. documento e devaneio. como manifestação afetiva e descrição local. pois é fruto de condições históricas. a fase neoclássica está indissoluvelmente ligada à Ilustração. rigor de forma.Depois da Independência o pendor se acentuou. no indivíduo e na civilização. tentar-se-á mostrar o jogo dessas forças. parece traição e fraqueza. em cumprimento a um programa. Doutro lado. que revitaliza a expressão. Como não há literatura sem fuga ao real. historicamente do maior proveito. por vezes verdadeiros delegados da realidade junto à literatura. e tentativas de transcendê-lo pela imaginação. tornando-a língua geral duma sociedade à busca de autoconhecimento. como José de Alencar. sem a qual a arte não passa de experimentação dos recursos técnicos. foi auspicioso que o processo de sistematização literária se acentuasse na fase neoclássica. ao contrário. eram tão nativistas quanto o Caramuru. Por outro lado favoreceu a expressão de um conteúdo humano. Aparece no mundo contemporâneo como elemento de autoconsciência. capaz de servir aos padrões do grupo. para dizer como um filósofo francês. Sempre que se particularizou. resolvendo-se por vezes na coexistência de realismo e fantasia. Ela continha realmente um elemento ambíguo de pragmatismo. que a plasmaram como permanente mistura da tradição européia e das descobertas do Brasil. no pressuposto que. esta imaturidade.

herdado dos românticos. mas sobretudo de literatura. este procura apreender o fenômeno literário da maneira mais significativa e completa possível. Deve-se. superiores a Cláudio e Gonzaga. que o valor da obra dependia do seu caráter representativo. . negar validade a esta proposição. nos momentos estudados. Deste modo. Por outro lado. enquanto aquele se fecha na visão dos elementos de fatura como universo autônomo e suficiente. a partir dos quais tomou-se a brasilidade. a atenção se volta para o início de uma literatura propriamente dita. Tudo depende do papel dos escritores na formação do sistema. O problema da autonomia. portanto. a literatura brasileira começava propriamente. nós agíamos. não só averiguando o sentido de um contexto cultural. como esses adolescentes mal seguros. pois. que reduziu a literatura a episódio da investigação sobre a sociedade. como traço diferencial e critério de valor. 3. ao mesmo tempo. reduzir a obra aos fatores elementares. A nossa literatura é ramo da portuguesa. que anima as obras e recebe do escritor a forma adequada. constituindo neste sentido um calamitoso erro de visão. sintomas da realidade social. a presença de elementos descritivos locais. a definição do momento e motivos que a distinguem da portuguesa. Dum ponto de vista histórico. Acho por isso legítimo que os historiadores e críticos da mãe-pátria incorporem Cláudio ou Sousa Caldas. pressupunha também. como ficou dito. que não interessou especialmente aqui. evitando. não algo necessariamente diverso da portuguesa. PRESSUPOSTOS O fato de ser este um livro de história literária implica a convicção de que o ponto de vista histórico é um dos modos legítimos de estudar literatura. é evidente que o conteúdo brasileiro foi algo positivo. em função da qual é permitido ressaltar este ou aquele aspecto. dando pontos de apoio à imaginação e músculos à forma. após ter sido recurso ideológico. considerá-lo subsídio de avaliação. pressupondo que as obras se articulam no tempo. Elas só podem ser compreendidas e explicadas na sua integridade artística. em virtude do tema indianista. Justificava-se no século passado.o que em parte se explica como réplica aos exageros do velho método histórico. Elas se unem tão intimamente. ao tomar indevidamente as obras como meros documentos. quando se tratou de reforçar por todos os modos o perfil da jovem pátria e. de modo a se poder discernir uma certa determinação na maneira por que são produzidas e incorporadas ao patrimônio de uma civilização. porém mais daqui do que de lá. psíquica e social. que negam a dívida aos pais e chegam a mudar de sobrenome. estudar nas obras apenas o aspecto empenhado. segundo a perspectiva adotada. a expressão "literatura comum" (brasileira e portuguesa). desde Ferdinand Denis e Almeida Garrett. em todo o caso. em relação a Portugal. O presente livro tentou evitá-lo. No presente livro. Nem um ponto de vista histórico desejaria. Mas o nacionalismo crítico. numa fase de construção e autodefinição. Para os românticos. pode-se considerá-la independente desde Gregório de Matos ou só após Gonçalves Dias e José de Alencar. mesmo como fator de eficácia estética. deve-se à confusão entre formalismo e estética. até meados do século XIX. com Durão e Basílio. lembrando que. e acho que o paulista Matias Aires é só de lá.A idéia de que a literatura brasileira deve ser interessada (no sentido exposto) foi expressa por toda a nossa crítica tradicional. e acho legítimo incluí-los aqui. sendo um livro de história. é atualmente inviável como critério. que utilizo em mais de um passo. reputados. esta não prescinde o conhecimento da realidade humana. por este motivo. como fenômeno de civilização. é algo superado. acho que o portuense Gonzaga é de ambos os lados. para indicar este fato. nos últimos decênios. isto é. Um esteticismo mal compreendido procurou. em nossos dias. mas procurando estudar cada autor na sua .

a meu ver. forma e conteúdo. aliás. quem quiser ver em profundidade. e o contexto como sistema de obras. para traduzir a multiplicidade do real. fatalmente. segundo uma frase justa. Uma crítica equilibrada não pode. tem de aceitar o contraditório. e o aspecto informativo apenas serve de plataforma às operações do gosto. Procurando sobretudo interpretar. num tempo. Por isso. a eles se abre no Brasil um campo vasto. em que o desejo de compreender todos os produtos do espírito. parecerá ambiciosa a alguns. informação. E se quisermos reter o máximo de vida com o máximo de ordem mental. Acho igualmente valiosas as elucubrações gratuitas. É necessário um pendor para integrar contradições. nos períodos e nos autores. sem a qual não vive uma literatura. embora nunca atingido em virtude das limitações individuais e metodológicas. dada a força com que se arraigou o preconceito do divórcio entre história e estética. perfazendo com ele a expressão. que empenha a personalidade do crítico e intervém na sensibilidade do leitor . todavia. que manifestam essa paixão de leitor.parte de uma impressão para chegar a um juízo. no presente momento. leva. por vezes. tentando demonstrar que o contraditório é harmônico. É preciso sentir. em equilíbrio instável. .integridade estética. sem querer mutilar a impressão vigorosa que deixa. de base intuitiva. ver simples onde é complexo. a síntese e a análise. porém. aceitar estas falsas incompatibilidades. Para chegar o mais perto possível do desígnio exposto. então. mesmo quando relativamente perfeita. Mas. mostrar que são partes de uma explicação tanto quanto possível total. em prejuízo da riqueza infinita dos pormenores. O TERRENO E AS ATITUDES CRÍTICAS Toda crítica viva . é necessário um movimento amplo e constante entre o geral e o particular. à interpretação do nosso passado literário. erudição e gosto.isto é. porque. mais favorável. este não é um livro de erudição. ele "é o próprio nervo da vida". É o que fazem. resolvendo-se na coerência transitória de uma unidade. ao mesmo tempo. objetividade e apreciação. O espírito de esquema intervém. Aqui. procurando. a erudição e o gosto. se aceitarmos a realidade na minúcia completa das suas discordâncias e singularidades. em todos os tempos e lugares. à dominante. temos de renunciar à ordem. Isto não significa.porque as obras vivas constituem uma tensão incessante entre os contrastes do espírito e da sensibilidade. Por outro lado. através da qual se manifesta o conteúdo. indispensável em toda investigação intelectual. 4. e a história não foge a esta contingência. . avaliação. pois entre as duas pontas se interpõe algo que constitui a seara própria do crítico. dando validade ao seu esforço e seriedade ao seu propósito: o trabalho construtivo de pesquisa. à diversidade das obras. deixa vislumbrar a contradição e revela a fragilidade do equilíbrio. ao contrário. sem qualquer propósito estético. é uma tentativa mais ou menos feliz e duradoura de equilíbrio entre estes contrastes. seja a da ciência. seja a forma da arte aplicada às inspirações da vida. em certos casos. impressionismo nem dogmatismo. A tentativa de focalizar simultaneamente a obra como realidade própria. mas um lugar eqüidistante e. para o significado histórico do conjunto e o caráter singular dos autores. que sublima as duas etapas. a considerar o papel da obra no contexto histórico. todavia. seja a da crítica. inevitáveis quando se atenta. os críticos mais conscientes. utilizando este conhecimento como elemento de interpretação e. exegese. reduções ao elementar. aos dados da realidade. vendo na realidade um universo de fatos que se propõem e logo se contradizem. só resta a visão acima referida. que um autor e uma obra podem ser e não ser alguma coisa. É preciso. sendo duas coisas opostas simultaneamente. como o nosso. Esta só se efetua por meio de simplificações. em que a coexistência e rápida emergência dos mais variados critérios de valor e experimentos técnicos. A forma. que é o ideal do crítico. como forma. Acho valiosos e necessários os trabalhos de pura investigação. não se visa um pólo nem outro.

constituí-las em método explicativo é perigoso e desvirtua os serviços que prestam. quando limitadas ao seu âmbito. a que outros poderiam ter chegado. uma crítica única. As orientações formalistas não passam. mas aquelas etapas se integram no seu roteiro.Em face do texto. em reduzir a obra a problemas de linguagem. o crítico tem de experimentá-las e deve manifestá-las. embora nem sempre conscientemente. aceitando e procurando exprimir as sugestões trazidas pela leitura. constatação. Nesse livro. o perigo vem do lado oposto. o médico. num escritor. que vê como ninguém mais e opõe. em perspectiva ampla. Delas sairá afinal o juízo. e o juízo resulte aceitável pelos leitores. um elemento intelectual médio. subdividindo. em qualquer leitura. Querer reduzi-la ao estudo de uma destas componentes. o psicanalista. de técnicas parciais de investigação. reprovação. filiando. do estudo da metáfora. ou qualquer outra. e o irmana aos lugares-comuns do seu tempo. transferindo-se ao leitor pela elaboração que lhe deu generalidade. que a tornariam especialidade restrita. para interpretar e explicar. que importam. conforme o objeto em foco. nos casos extremos. pois elas representam a dose necessária de arbítrio. a destruí-la em benefício de disciplinas afins. Estas impressões são preliminares importantes. Houve tempo. A crítica dos séculos XIX e XX constitui uma grande aventura do espírito. parece transposto o perigo de submissão ao estudo dos fatores básicos. quanto mais for capaz de ver. surgem no nosso espírito certos estados de prazer. a crítica viva usa largamente a intuição. desligada dos interesses fundamentais do homem. que pressupõe. A crítica propriamente dita consiste nesse trabalho analítico intermediário. com efeito. é erro que compromete a sua autonomia e tende. mas vários caminhos. As teorias e atitudes críticas se distinguem segundo a natureza deste trabalho analítico. como leitor insubstituível. do ponto de vista duma crítica compreensiva. no limite. tristeza. que define a sua visão pessoal. e isto foi possível graças à intervenção da filosofia e da história. Hoje. Se esta operação de salvamento teve aspectos excessivos e acabou por lhe comprometer a autonomia. simples interesse. todavia. o político. O leitor será tanto mais crítico. pois os dois outros momentos são de natureza estética e ocorrem necessariamente. das constantes estilísticas. do significado profundo da forma. que busca na obra uma fonte de emoção e termina avaliando o seu significado. julgar. O imperialismo formalista significaria. Nos nossos dias. mas avaliação. O crítico é feito pelo esforço de compreender. das pretensões excessivas do formalismo. tritura a impressão. o aparelho analítico da investigação é posto em movimento a serviço da receptividade individual. perigo de regresso acorrentando-a de novo a preocupações superadas. comparando. que a libertaram dos gramáticos e retores. com mais ou menos discrepância. sob este aspecto. em que o crítico cedeu lugar ao sociólogo. sociais e psíquicos. Nada melhor que o aprofundamento. A impressão. a fim de que o arbítrio se reduza em benefício da objetividade. . ora com maior recurso à análise formal. dos recursos e pontos de vista utilizados. ao que os outros vêem. termina pela humildade de uma verificação objetiva. Perceber. quando completo. um elemento voluntário final. e o orgulho inicial do crítico. permanece essencialmente. ora com atenção mais aturada aos fatores. Entre impressão e juízo. o seu escritor. o trabalho paciente da elaboração. analisando. que não é julgamento puro e simples. porém. seja no estrito sentido da língua. seja no sentido amplo da comunicação simbólica. como uma espécie de moinho. serenidade. Mas erigi-lo em critério básico é sintoma da incapacidade de ver o homem e as suas obras de maneira una e total. compreender. reconhecimento e definição de valor. foi ela que a erigiu em disciplina viva. Não há. como timbre individual. Por isso. que presenciamos. um elemento perceptivo inicial.

O texto não os anula. disposição das palavras. segundo o ângulo em que nos situamos. penetração analítica. Este exemplo serve para esclarecer o critério adotado no presente livro. do que de sociólogo. a posição em face dos temas. este resultado. e utilizando tudo mais como auxílio de interpretação. o sofrimento do primeiro foi o mais duradouro. o do terceiro. Se lermos todavia os poemas resultantes. acontecimentos. recorrem ao verso para exprimir a sua dor: Borges de Barros. ou as biografias. medianamente comovidos com o "Pequenino morto". enquanto o "Cântico do Calvário" nos faz estremecer a cada leitura. fontes. É que. o que apenas na aparência contesta o que acaba de ser dito.5. quando. idéias. e está presente no resultado. esteta. isto é. Esta autonomia depende. Vicente de Carvalho. cujo valor está na fórmula que obteve para plasmar elementos não-literários: impressões. veremos que. porém. lingüista. cuja síntese constitui a sua fisionomia. Se resistirmos ao fascínio da moda e adotarmos uma posição de bom senso. porém. antes de tudo. é elemento essencial apenas como ponto de partida. através dos quais se manifestam o espírito ou a sociedade. Entende-se agora porque. num livro de história literária que não quiser ser parcial nem fragmentário. Por isso. ficaremos insensíveis e mesmo aborrecidos com "Os Túmulos". ou pelo idioma. Em primeiro lugar. não documentos biográficos. mediano no seu patético algo declamatório. Pelo que sabemos. psicólogo. na medida em que contribuem para o seu escopo. o do segundo. o ritmo da composição. o homem que a intentou e realizou. operação. Os três pais são igualmente dignos de piedade. admitamos que fossem iguais os três. temos vários níveis possíveis de compreensão. da eloqüência do sentimento. força de observação. deixando longe os pontos de partida não-literários. do jogo de elementos expressivos. Um . No limite. que é o estudo da formação. por quem foi escrita. A crítica se interessa atualmente pela carga extra-literária.Com efeito. A sua importância quase nunca é devida à circunstância de exprimir um aspecto da realidade. sempre que pretendemos superar o impressionismo. Tomemos o exemplo de três pais que. e sendo um resultado. paixões. sem o seu estudo não há crítica. Fagundes Varela. arriscamos fazer tarefa menos de crítico. que a vinculam ao tempo e se podem resumir na designação de sociais. Consiste nisso e mais em analisar a visão que a obra exprime do homem. o elemento decisivo é o que permite compreendê-la e apreciá-la. os fatores externos. tratando-se de leitor culto. o autor. a emoção. mas à maneira por que o faz. separadamente. ao transfigurálos. lacerados pela morte dum filho pequeno. contendo os elementos anteriores e outros. influências. o texto. só é movida pela eficácia da expressão. seleção e invenção das imagens. não de fatores nem de autores. que os transcendem e não se deixam reduzir a eles. admirável pela solução formal. sendo obras literárias. embora concentrando o trabalho na leitura do texto. mesmo que não soubéssemos onde. isto é: a literatura é um conjunto de obras. neles. do ponto de vista afetivo. finalmente. ou uma sucessão de obras. só pode ganhar pelo conhecimento da realidade que serviu de base à sua realidade própria. nestes casos. desenvolvimento e atuação dos processos literários. não penso que esta se limite a indicar a ordenação das partes. fatos. o texto é integração de elementos sociais e psíquicos. arrastados pela sua força mágica. estes devem ser levados em conta para interpretá-lo. específicos. o poema do primeiro é nulo. as imagens. ao contrário do que pressupõem os formalistas. Uma obra é uma realidade autônoma. biógrafo. segundo vimos. que são a matéria-prima do ato criador. É lícito estudar apenas as condições sociais. e esta. se o entendimento dos fatores é desnecessário para a emoção estética. Como. em segundo lugar o fator individual. OS ELEMENTOS DE COMPREENSÃO Quando nos colocamos ante uma obra. ou a estrutura interna. as constantes do estilo. social ou individual. literariamente. o crítico precisa referir-se a estas três ordens de realidade. o ponto de chegada é a reação do leitor. ao mesmo tempo. a compreensão da obra não prescinde a consideração dos elementos inicialmente não-literários. essencialmente de análise.

por exemplo. Interessando definir. por que recorrer obrigatoriamente a ela? 6. fase. dotado da realidade própria que acabamos de apontar. experiências. uma delicada operação. que se desilude muitas vezes ao descobrir que um escritor avarento celebrou a caridade. Um e outro valem. por que rejeitá-la. que certo poema exaltadamente erótico provém dum homem casto. influência. revelando-se a capacidade do crítico na maneira por que os utiliza. escola. como pensaria. um formalista radical. são forjados. no momento exato e na medida suficiente. Queremos dizer que na obra deles há uma ternura e um naturismo construídos a partir da experiência e da imaginação. também no limite. os elementos humanos formalmente elaborados. A pesquisa da vida e do momento vale menos para estabelecer uma verdade documentária. Para o crítico. com mais amplitude e menos concentração. contanto que. idéias. para o nosso caso. ao mesmo título que a coragem de Peri ou as astúcias do Sargento de Milícias. freqüentemente inútil. mas em sentimentos. portanto. tema. este é o alvo. Quando falamos na ternura de Casimiro de Abreu. momento. Na tarefa crítica há. comunicados pelos meios expressivos. ao lado das considerações formais. na obra. objetos de natureza diferente. e que poderão ou não corresponder a sentimentos individuais. propriamente dito. Já se vê que. o problema ético se coloca melhor nas naturezas depravadas. Como disse Proust. quando julgadas necessárias ao entendimento da obra. O que interessa é averiguar até que ponto interferiram na elaboração do conteúdo humano da obra. um crítico não-literário. idéias. Se quisermos ver na obra o reflexo dos fatores iniciais. utilizei-a aqui incidentemente e atendendo à evidência estética e histórica. Valem porque inventam uma vida nova. corrente. que a imaginação imprime ao seu objeto. desde que existam literariamente. nem por criar uma expressão sem conteúdo. espancava a mãe. são usadas aqui livremente as técnicas de interpretação social e psicológica. em princípio. como pensaria. um romance revela isto mesmo. mas em todo caso foram redefinidos a partir deles. passagem. transfigurado pela técnica. fonte. ou no naturismo de Bernardo Guimarães. Há casos. segundo os padrões usuais. estaremos errados. e todos os caminhos são bons para alcançá-lo. dizer que o homem Casimiro foi terno. de conceitos como: período. estribado em preconceito metodológico ou falsa pudicícia formalista? Há casos em que ela nada auxilia. grupo. . ao se integrarem na atmosfera própria do texto. Embora reconheça a importância da noção de período. a idéia de movimento. ou amante da natureza o homem Bernardo. pois isso importa secundariamente. sem preocupar-me com distinções rigorosas. Em suma. segundo a organização formal. CONCEITOS No arsenal da história literária. porque o intuito foi sugerir. no limite. que podem ser mais ou menos parecidos com os da vida. do que para ver se nas condições do meio e na biografia há elementos que esclareçam a realidade superior do texto. não queremos. não por copiar a vida. é ridículo despojar o vocabulário crítico das expressões indicativas da vida emocional ou social. tanto quanto possível. geração. tanto quanto possível nova. importa no estudo da literatura o que o texto exprime. representa nela o conteúdo. não pensemos na matéria-prima. todavia. no sentido comum. ao utilizá-las. achando que ela vale na medida em que os representa. em que a informação biográfica ajuda a compreender o texto. por vezes uma gloriosa mentira. Dada esta complexidade de tipo especial. que avaliam no drama da sua consciência a terrível realidade do bem e do mal. que determinado poeta. ao contrário do que pensa o leitor desprevenido.poema revela sentimentos. delicado e suave. dispomos. não importam a veracidade e a sinceridade. teoria. consistente em distinguir o elemento humano anterior à obra e o que. Isso.

Além disso. pela dificuldade em distinguir coincidência. corrente ou grupo. . seja a externa. importa em prejuízo do seu caráter atual. não interessou aqui determinar rigorosamente as condições históricas. Por isso. Por isso. bem como a impossibilidade de averiguar a parte da deliberação e do inconsciente. procuro somar a idéia da sua continuidade. No nível do autor. pois pode haver vários. conduzindo a um dos conceitos básicos do presente livro: que o eixo do trabalho interpretativo é descobrir a coerência das produções literárias. permanecendo na obra ao modo de um corpo estranho de interesse crítico secundário. econômicas. não o traçado. políticas. temas. ou caráter complementar entre as obras. que não é necessariamente o perfil psicológico. ao lograr. . entende-se aqui a integração orgânica dos diferentes elementos e fatores. através do tempo. que a separação evidente. . dando lugar a uma unidade superior. ser de tal modo incorporada à estrutura. vida. das obras. Ainda mais sério é o caso da influência poder assumir sentidos variáveis. Pode. por exemplo.). sobrepus ao conceito de geração o de tema. num dado momento. contribuindo para formar a continuidade no tempo e definir a fisionomia própria de cada momento. que adquire um significado orgânico e perde o caráter de empréstimo. que estabelecem a fisionomia comum das obras.entre fases. pois uma obra pode ser contraditória sem ser incoerente. se a obra é rica. de uma fase. Por coerência.mas apenas sugerir o que poderíamos chamar de situação temporal ou seja. por exemplo. ou fase. Pode. idéias. como influência. originando o estilo do tempo. e mais verdadeiro. doutro lado. de elemento próprio de um conjunto orgânico. mas o sistema de traços afetivos. é contrabalançada. (meio. seja a interna. é preciso reconhecer que talvez seja o instrumento mais delicado. no sentido da tomada de consciência literária e tentativa de construir uma literatura. o seu Stendhal. cuja descoberta explica a obra como fórmula. ela se manifesta pela afinidade. mas não se confunde com a simplicidade. À diferença entre estas fases. um conjunto. etc. do ponto de vista estético. pela sua unidade profunda. sugerir uma certa labilidade que permitisse ao leitor sentir. a síntese das condições de interdependência. com base na intuição e na investigação. sem contar as possíveis fontes ignoradas (autores desconhecidos. que permite as generalizações críticas. aparecer como transposição direta mal assimilada. Um. nunca se sabe se as influências apontadas são significativas ou principais. nas quais se absorvem e sublimam os fatores do meio. e correspondem ou não à vida. imagens.sociais. impondo cortes transversais numa realidade que se quer apreender em sentido sobretudo longitudinal.comunicação. que vinculam os escritores uns dos outros. . e são realidades de ordem literária. requerendo tratamento igualmente diverso. Todos sabem que cada geração descobre e inventa o seu Gongora. um tom. se as suas condições forem superadas pela organização formal. que por vezes sobrelevam as mais evidentes. Apesar de fecundo. grupos e obras. Embora a tenha utilizado largamente e sem dogmatismo. formando uma diretriz. como técnica auxiliar. Isso conduz ao problema das influências. procurando apontar não apenas a sua ocorrência. um traçado explicativo. pode facilmente levar a uma visão mecânica. entre as fases neoclássicas e romântica. É a adesão recíproca dos elementos e fatores. o seu Dostoievski. No nível do momento. então. A coerência é em parte descoberta pelos processos analíticos.como se viu há pouco ao mencionar a ternura de Casimiro. não interessou aqui utilizar este conceito com rigor nem exclusividade. ela se manifesta através da personalidade literária. Estas considerações exprimem um escrúpulo e uma atitude. . sugestões fugazes). embora os escritores se disponham quase naturalmente por gerações. pois há sempre as que não se manifestam visivelmente. falível e perigoso de toda a crítica. do ponto de vista histórico. mas em parte inventada pelo crítico. obtida pela elaboração do escritor. intelectuais e morais que decorrem da análise da obra. conseqüência da relativa articulação entre elas. influência e plágio. Do mesmo modo. tomá-la. mas a sua retomada pelas gerações sucessivas.

recobrindo com elas o esqueleto do conhecimento objetivamente estabelecido. Interpretar é. a despeito do esforço de objetividade. usar a capacidade de arbítrio. começa por escolher os autores que lhe parecem representativos. se deseja ser criadora. imagens. Neste processo vai muito da sua coerência. Num período. 2 vols. há forçosamente na busca da coerência um elemento de escolha e risco. os temas. nas obras. 1959. Martins. em grande parte. é definir o que se escolheu. nos autores. não apenas registradora. . as idéias e imagens que exprimem a sua visão. embora sabendo que pode haver outros. São Paulo.Por isso. A este arbítrio o crítico junta a sua linguagem própria. a crítica é um ato arbitrário. quando o crítico decide adotar os traços que isolou. _______________ "Introdução" in: Formação da literatura brasileira (momentos decisivos). as obras que melhor se ajustam ao seu modo de ver. entre outros. traços fugidios que o justificam. Sob este aspecto. sendo o texto uma pluralidade de significados virtuais.

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