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Ponciá Vicêncio – Conceição Evaristo

Ponciá Vicêncio é o primeiro romance publicado de Conceição Evaristo e vem sendo tema de
artigos e discussões no meio acadêmico desde sua publicação em 2003. Além da indicação a
vários vestibulares, como o da UFMG em 2008, o livro foi publicado em inglês.

Exemplo de romance afro-brasileiro, falando da identidade negra, Ponciá Vicêncio vai ao encontro
da tese segundo a qual a escrita dos descendentes de escravos estaria restrita ao conto e à
poesia. Além de estabelecer um saudável contraponto com o abolicionismo branco do século 19 e
com o negrismo modernista de um Jorge Amado, um José Lins do Rego ou Josué
Montello, Ponciá Vicêncio remete ao Isaías Caminha, de Lima Barreto; em menor escala, ao Brás
Cubas, de Machado de Assis; e, com certeza, ao memorialismo de Carolina Maria de Jesus e
ao Ai de vós, de Francisca Souza da Silva, entre outros.

O texto de Ponciá Vicêncio destaca-se também pelo território feminino de onde emana um olhar
diferenciado e uma discursividade específica. É desse lugar marcado pela etnicidade que provém
a voz e as vozes-ecos das correntes arrastadas. Vê-se que no romance fala um sujeito étnico,
com as marcas da exclusão inscritas na pele, a percorrer nosso passado em contraponto com a
história dos vencedores e seus mitos de cordialidade e democracia racial. Mas, também, fala um
sujeito tocado pela condição de ser mulher e negra num país que faz dela vítima de olhares e
ofensas nascidas do preconceito. Esse ser construído pelas relações de gênero se inscreve de
forma indelével no romance de Conceição Evaristo, que, sem descartar a necessidade histórica
do testemunho, supera-o para torná-lo perene na ficção.

Descendente de escravos africanos, Ponciá surge já de início despojada do nome de família, pois
o "Vicêncio", que todos os seus usam como sobrenome, provém do antigo dono da terra e era
como lâmina afiada a torturar-lhe o corpo. Essa marca de subalternidade, que denuncia a
ausência entre os remanescentes de escravos dos mínimos requisitos de cidadania, estende-se
pelo penoso circuito de vazios e derrotas, no qual tanto a menina quanto a mulher vão sendo
alijadas dos entes queridos e de tudo o que possa significar enraizamento identitário. E depois de
perder também os sete filhos que gerou, Ponciá cai na letargia que a faz perder-se de si mesma.

Ponciá vai em busca de dias melhores na cidade, mas acaba desterritorializada numa favela,
vegetando ao lado de um marido que não a compreende. Sua descendência escrava vai se
confirmando na vida difícil que leva, nos sonhos apagados pela discriminação e pela
marginalização que tanto ela, quanto os outros de sua família sofrem. Sua condição social e
cultural continua, portanto, sendo regida pelo passado africano. Sua trajetória do espaço rural
para o urbano representa sua condição diáspora. A passagem em que a menina faz a viagem de
trem para a cidade confirma isso.

O romance destaca as dores, as angústias, as violências que as mulheres sofrem, a solidão que
elas enfrentam, mas ao mesmo tempo mostra essas mulheres em busca da vida, exibe o eterno
ato de se reconstruir que elas executam no dia-a-dia.
Atividades

QUESTÃO 01
Sobre as personagens no romance Ponciá Vicêncio, não se pode afirmar que:
A) em sua maioria apresentam mais de uma faceta.
B) na construção de cada uma, são observados os vieses sociais e históricos.
C) muitas delas possuem, como forma de redenção, a ternura.
D) quase sempre são compostas de uma simplicidade dualística.

QUESTÃO 02
Leia o trecho a seguir, extraído de Ponciá Vicêncio.

“Lá fora, no céu cor íris, um enorme angorô multicolorido se diluía lentamente, enquanto Ponciá
Vicêncio, elo e herança de uma memória reencontrada pelos seus, não se perderia jamais, se
guardaria nas águas do rio.”

Sobre a passagem acima, pode-se afirmar que:


A) conscientiza o leitor da importância da via sobrenatural que é desenvolvida no romance.
B) garante um final feliz à história, já que esclarece todos os questionamentos apresentados ao
longo da narrativa.
C) liga o fim ao começo, preenchendo um espaço lacunar que perpassa toda a construção
textual.
D) fragmenta o corpo textual, pois afirma que “um enorme angorô multicolorido” estava se
diluindo, ou seja, se fazendo em pedaços no céu,

QUESTÃO 03
A memória faz-se presente em todo o romance. Sobre ela pode-se afirmar, exceto:
A) forma-se de maneira linear e representa a recuperação de aspetos políticos e sociais vividos
pelos afrodescendentes no Brasil.
B) coloca o leitor em contato com as histórias e a crenças dos antepassados da personagem
Ponciá Vicêncio.
C) é o fio condutor da narrativa, pois, através dela, o narrador tece as encenações que
materializam as vivências das personagens.
D) está encenada, também, na arte da cerâmica, pois a personagem recupera, através das
imagens do barro, seu corpo feito de ausências.

QUESTÃO 04
Em relação ao narrador, pode-se afirmar, exceto:
A) ao acompanhar a trajetória da personagem Ponciá, o narrador não obedece a uma ordem
cronológica, entremeando, ao longo da narrativa, os acontecimentos do passado e do presente
das personagens.
B) ao usar as notícias de jornal que Ponciá decorava, o narrador aproveita-se delas para mostrar
a diferença entre as preocupações diárias da população e as dos políticos brasileiros.
C) a partir de um pacto narrativo, o narrador de terceira pessoa resgata as questões ligadas ao
cotidiano dos afrodescendentes brasileiros.
D) por se tratar de um romance narrado em terceira pessoa, o narrador é levado a produzir um
texto objetivo, em muita poesia.

QUESTÃO 05
Leia os textos a seguir:

[...] a nossa escrevivência [escrita das mulheres negras] não pode ser lida como histórias para
“ninar os da casa-grande” e sim para incomodá-los em seus sonos injustos.
(EVARISTO, C. Da grafia-desenho de minha mãe, um dos lugares de nascimento de minha
escrita. In ALEXANDRE, M. A. (Org.)

Descobria também que não bastava saber ler e assinar o nome. Da leitura era preciso tirar outra
sabedoria. Era preciso autorizar o texto da própria vida, assim como era preciso ajudar a construir
a história dos seus. E que era preciso continuar decifrando nos vestígios do tempo os sentidos de
tudo que ficara para trás. E perceber que, por baixo da assinatura do próprio punho, outras letras
e marcas havia.
(EVARISTO, C. Ponciá Vicêncio. Belo Horizonte: Maza Edições, 2003. p. 127.)

A partir das considerações dos dois textos, é correto afirmar:


A) Enquanto a escritora valoriza a dimensão política da narrativa, a personagem preocupa-se
com a escrita de sua biografia.
B) Ao referir-se aos “da casa-grande”, a autora limita a oposição negros versus brancos a uma
dimensão espacial.
C) A escrita é uma forma de resgatar a memória e reescrever a história dos negros, agora não
mais da perspectiva dos dominantes.
D) A “assinatura do próprio punho” não constitui a escrevivência dos negros, mas é suficiente
para o registro histórico da escravidão e autoriza a escrita de biografias.
E) É importante ao negro saber ler e assinar o nome para ter acesso à história oficial e contestar
os sonos injustos dos brancos. Leia o texto a seguir e responda às questões de 5 a 7.

Indicações de vídeos:

Ponciá Vicêncio - Narrativa Digital: https://www.youtube.com/watch?v=pcVb6_eKgcY

Mês da Consciência Negra - Imagem da Palavra com Conceição Evaristo - Parte 1 e parte 2

https://www.youtube.com/watch?v=pwQ4Bxc87PE

https://www.youtube.com/watch?v=igx1BE_0IF8
Respostas

01. Resposta: D – O perfil da maioria das personagens é complexo e não se pode considerá-
las simplesmente boas ou ruins. Mesmo as personagens periféricas são colocadas dentro
de um contexto histórico, social ou emocional que impede ao leitor de enxerga-las de uma
forma maniqueísta.
02. Resposta: C – A circularidade do romance se completa quando, ao final da leitura, o leitor
percebe que a personagem-menina que aparece no início da narrativa com medo do arco-
íris, pois “diziam que a menina que passasse debaixo do arco-íris virava menino” (p.9),
transformou-se, assistida por “um enorme angorô multicolorido”, em “elo e herança de uma
memória reencontrada pelos seus”. (p.132)
03. Resposta: A – A memória é fiada na narrativa não de maneira linear e, sim, fragmentada,
propiciando a intercalação dos tempos passado e presente como num quebra-cabeça.
04. Resposta: D – O romance, narrado em terceira pessoa, traz como marca uma narrativa
entremeada de poesia por onde escorrem as emoções e os sentimentos das personagens.
O narrador, através do uso de poucos adjetivos e de frases curtas, desenha imagens e
explorações sinestésicas que se interagem na construção de sua prosa poética.
05. Resposta: C

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