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Curso: Direito Horário: Matutino, Vespertino

e Noturno
Disciplina: Lógica e Argumentação Semestre: 2011/1º
Jurídica
Horas/aula: 60 - Créditos: 4 Turma: 2º Período
Prof. Luiz Antonio de Oliveira e Araújo, e-mail:
Ph.D. em Psiquiatria e Saúde Mental professor.luiz@folha.com.br

LÓGICA, ARGUMENTAÇÃO, FALÁCIAS E SOFISMAS.

Lógica é uma parte da filosofia que estuda o fundamento, a estrutura e as expressões


humanas do conhecimento. A lógica foi criada por Aristóteles no século IV a.C. para estudar
o pensamento humano e, assim, distinguir interferências de argumentos certos e errados.

O raciocínio é a terceira operação do espírito. Podemos defini-lo como ato pelo qual o
espírito, por meio do que já conhece, adquire um conhecimento novo. Quando raciocina, o
espírito está movido por duas proposições percebidas como verdadeiras, colocando a
verdade numa terceira proposição. Chamamos argumentação o organismo lógico
formado pelo antecedente e pelo conseqüente, ou seja, um agrupamento de proposições
das quais uma é significada como inferida pelas outras.

Vejamos um exemplo típico de raciocínio:

1ª premissa – O ser humano é racional

2ª premissa – Você é ser humano

Conclusão – Logo, você é racional.

O enunciado de um raciocínio através da linguagem é chamado argumento.

As falácias que são falhas na argumentação possíveis de serem percebidas são bastante
usadas no estudo da lógica, pois auxilia na detecção de verdades e falsidades.

As falácias construídas de má-fé, com a intenção de enganar, costumam ser chamadas de


sofismas.

1. Introdução.
DIÁLOGO (logos). Duas origens:
(1) SOFISTAS: discurso, lógica, argumento, aplicação da Lei.
(2) FILÓSOFOS PRÉ-SOCRÁTICOS: explicar tudo o que acontece na natureza pela
própria natureza = NATURALISMO.
a. Oposição ao Mythos e
b. Nasce dos debates e confrontos de opiniões características do regime
democrático.

A veracidade da palavra DIÁLOGO está condicionada pela clareza dos argumentos, pelo
encadeamento lógico que o raciocínio apresenta, pela capacidade de persuadir que o
emissor possui. Porta-voz de verdade são, assim, os cidadãos, os homens comuns que
adquirem agora o direito de pedir a palavra e discursar na Polis (cidade democrática).

MITO: é uma narrativa sobre a origem de alguma coisa, p.ex., origem da terra, dos homens,
do bem e do mal, (para os Gregos): MITO é um discurso pronunciado para ouvintes que
recebem como verdadeira a narrativa, porque confiam em quem narra.
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QUEM NARRA O MITO? O poeta-rapsodo. (iniciante). O poeta é um escolhido dos deuses,
que lhe mostram os acontecimentos passados e permitem que ele veja a origem de todos os
seres e de todas as coisas que possam transmitir aos ouvintes. Sua palavra – o mito – é
sagrada porque vem de uma revelação divina.

LAICIZAÇÃO: (secularização) = despreender-se do mundo religioso; a palavra perde o


vínculo com os valores religiosos, com o sagrado, com o divino.

SOFISTAS: são pessoas habilidosas em suas funções (médicos, engenheiros, marceneiros).


Aos poucos, este termo passou a se referir àqueles que eram habilidosos na arte de
argumentar em público, na arte da retórica. Eram seres errantes que iam de cidade em
cidade participar de debates democráticos, e acabaram sendo considerados os primeiros
professores de argumentação.

- questionavam a questão da existência, e de quaisquer regras;


- não são considerados filósofos;
- eram individualistas (tomavam cada indivíduo como um ser único e singular, que
deve ser senhor de suas próprias crenças e valores).

2. ARISTÓTELES e o Funcionalismo.

Aristóteles (384 - 322 a.C.), é considerado o criador do pensamento lógico. O nome do pai
de Aristóteles era Nicômaco, um médico. Seus livros fundamentais são: Retórica, Ética a
Nicômaco, Primeiros Analíticos, Segundos Analíticos, Física, Metafísica, Sobre o Céu,
Crescimento e Decadência, Sobre a Alma, A Política, entre outros.

Aristóteles achava que a Idéia não constituía realidade separada. A realidade para ele é de
indivíduos concretos, e só neles existe a idéia, a quem chama de forma. Argumenta que é a
razão que controla nossos atos e nela há o raciocínio a partir dos dados dos sentidos. A
forma seria aquilo que a matéria faz. O mundo é dividido entre orgânico e inorgânico, sendo
o orgânico o que encerra em si uma capacidade de transformação.

Em uma obra madura, Ética a Nicômaco, temos um exemplo do impasse que se dava na
alma do Estagirita,( de, pertencente ou relativo a Estagira (Macedônia antiga), pátria de
Aristóteles.) entre defender suas próprias idéias e respeitar a amizade a Platão e aos
platônicos. Diz Aristóteles em I, 6, 15: "Seria melhor, talvez, considerar o bem universal e
discutir a fundo o que se entende por isso, embora tal investigação nos seja dificultada pela
amizade que nos une àqueles que introduziram as Idéias. No entanto, os mais ajuizados
dirão que é preferível e que é mesmo nosso dever destruir o que mais de perto nos toca a
fim de salvaguardar a verdade, especialmente por sermos filósofos ou amantes da
sabedoria; porque embora ambos nos sejam caros, a piedade exige que honremos a
verdade acima de nossos amigos".

Aristóteles criou a lógica, com o seu silogismo. O silogismo de Aristóteles pode ser
definido assim: é um trio de termos, no qual o último, que é a conclusão, contém uma
verdade que se chega através das outras duas.

A lógica não faz parte do esquema que Aristóteles dividiu e sistematizou as ciências. A
lógica considera a forma que deve ter qualquer tipo de discurso que pretenda demonstrar
algo, e em geral queira ser probatório. A lógica pretende mostrar como o pensamento
procede quando pensa, qual é a estrutura do raciocínio, como são feitas demonstrações. A
lógica é preliminar às ciências, necessária para o modo como estas são desenvolvidas.
Mas não tem em vista a produção de algo, nem a ação moral e não tem um conteúdo
determinado, nem teorético. Ela é mais um instrumento necessário à produção mental que
origina as ciências.
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LÓGICA: é um método de desenvolvimento racional, criado por Aristóteles para se
chegar à verdade. Usada para desenvolver um método alternativo à dialética para se obter
certezas absolutas. É um conjunto de regras que leva o indivíduo a obter determinadas
certezas.

- trata dos argumentos, isto é, das conclusões a que chegamos através da


apresentação de evidências que a sustentam;
- não constitui em si uma ciência, mas funciona como o instrumento que auxilia o
desenvolvimento das ciências em geral.

DIALÉTICA: é um diálogo em que os interlocutores possuem opiniões opostas sobre alguma


coisa e devem discutir ou argumentar de modo a passar das opiniões contrárias à mesma
idéia ou ao mesmo pensamento sobre aquilo que conversam.

SÓCRÁTES: MAIÊUTICA.
PLATÃO: DIALÉTICA.
ARISTÓTELES: LÓGICA.

Três princípios básicos da Lógica Aristotélica:

(1) Princípio de Identidade: um ser é sempre idêntico a si mesmo.


(2) Princípio de não-contradição: é impossível que um ser seja e não seja ao mesmo
tempo alguma coisa.
(3) Princípio do 3º excluído: das 2 preposições contrárias sobre o mesmo ser, uma
delas é necessariamente verdadeira e a outra necessariamente falsa; não havendo
uma 3ª opção.

3. SILOGISMO.
(1) RACIOCÍNIO INDUTIVO. Trabalha com probabilidade. Particular Geral. Parte
de estudos particulares, específicos e generaliza para outros casos.
(2) RACIOCÍNIO DEDUTIVO. Trabalha com certezas. Geral Particular. Parte das
leis gerais e se aplicam no particular, obtém-se conclusões certas, objetivas.

Silogismo (Aristóteles) é a unidade básica do raciocínio dedutivo. Possui 3 características:


(1) IMEDIATO. Exige um percurso de pensamento e de linguagem para que se possa
chegar a uma conclusão.
(2) DEDUTIVO. É um movimento de pensamento e de linguagem que parte de certas
afirmações verdadeiras para se chegar a outras também verdadeiras e que
dependem necessariamente das primeiras.
(3) NECESSÁRIO. Porque é dedutivo. As conseqüências a que se chegam na conclusão
resultam necessariamente da verdade do ponto de partida.

SILOGISMO é constituído de 3 preposições:


(1) ELEMENTOS.
(2) TERMOS (maior, médio, menor).
(3) PREMISSAS (maior, menor, conclusão).

Classificação das PREMISSAS (segundo Aristóteles elas têm força).


(1) QUANTIDADE (universais, particulares e singulares).
(2) QUALIDADE (afirmativas – são sempre fortes e negativas – são sempre fracas).

No SILOGISMO, vale sempre a regra da mais fraca. P.ex.:


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universal afirmativa universal negativa premissa maior


particular afirmativa singular afirmativa premissa menor
particular afirmativa singular negativa conclusão

Todo homem é mortal. universal afirmativa premissa maior


termo médio termo maior
Sócrates é homem. singular afirmativa premissa menor
termo menor
Logo, Sócrates é mortal. singular afirmativa conclusão

Nenhum carioca é tímido. universal negativa premissa maior


termo médio termo maior
Flavio é carioca. singular afirmativa premissa menor
termo menor
Logo, Flavio não é tímido. singular negativa conclusão

Algumas mulheres são elegantes. particular afirmativa premissa maior


termo médio termo maior
Maria é mulher. singular afirmativa premissa menor
termo menor
Logo, Maria é elegante. singular afirmativa conclusão

As oito regras básicas dos silogismos. A construção do raciocínio silogístico obedece a oito
regras básicas invioláveis. São elas:

1. todo silogismo contém somente 3 termos: maior, menor e médio;


2. o termo médio não pode nunca estar na conclusão;
3. nunca, na conclusão, os termos podem ter extensão maior do que nas premissas;
4. o termo médio deve ser universal ao menos uma vez;
5. de duas premissas negativas, nada se conclui;
6. de duas premissas afirmativas, não pode haver conclusão negativa;
7. a conclusão segue sempre a parte mais fraca do silogismo;
8. de duas premissas particulares nada se conclui.

4. FALÁCIAS: o paralogismo e o sofisma.

Cuidado com as palavras! Cuidado com o que você ouve, lê ou escreve. Você não deve
acreditar em tudo o que ouve ou lê. Você deve ter habilidade para lidar com discursos, com
textos, com o que lhe dizem, com argumentos que lhe apresentam nos debates do dia-a-dia.
Deve distinguir o que o vulgo confunde. Deve ter critérios para aceitar ou rejeitar
enunciados, argumentos, declarações feitas. Muitas carecem de fundamentação.

São ardilosas. Enganadoras. Fraudulentas. Falsas. Falaciosas.

Como você reagiria, por exemplo, aos enunciados abaixo? Quais você aceitaria? Como você
argumentaria para rejeitar os que devem ser rejeitados? Tente.
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1. Se eu abrir uma exceção para você, deveria abrir também para João. Se abrir para
João, devo abrir para Adriano. E para Felipe também. Depois para Ana, Rita, Joana,
Iracema e Carolina, etc.

2. Você deve votar de acordo com o partido! Ou será expulso!

3. A professora chamou a atenção de Joãozinho na semana passada (duas vezes) e


nesta (segunda, quarta e sexta). Não adianta mais chamar a atenção dele. Vamos
suspendê-lo.

4. Os brasileiros gostam de praia, café, carnaval e futebol.

5. A lei que reduz o porte de armas de fogo deve ser abolida, pois, desde que entrou em
vigor, a criminalidade aumentou.

6. Os empregados são como pregos: temos que bater para que cumpram suas funções.

7. Deve-se coibir usos como estes: "Me dá um cigarro", "eu vi ele", "tu foi", etc., porque,
com essa permissividade, vamos reduzir a língua de Camões a uma falação de
brutos, a uma língua pobre, de poucas palavras e alguns grunhidos.

8. Sabia que o casal X está se separando? Mas cuidado: em briga de marido e mulher
ninguém põe a colher.

9. Aqui se faz, aqui se paga.

10. Você confia num dentista que foi aprovado com média cinco no vestibular?

11. É perigoso viajar em carro dirigido por mulher.

12. Crentes, muçulmanos, são todos uns fanáticos.

13. Os padres são pedófilos, os padres são mulherengos, os padres só pensam em


dinheiro, os advogados são uns enroladores, os políticos são corruptos, os médicos
uns açougueiros, os alunos são uns deitados, etc.

14. O elo perdido entre o homem e o macaco não foi encontrado: por isso a teoria da
evolução está errada e a Bíblia está certa.

15. A ingestão de vinho faz bem.

16. O vinho é uma bebida saudável, que faz bem ao coração. É estimulante. Assim foi
reconhecido por todos os povos antigos. Inclusive o Apóstolo São Paulo
recomendava vinho em suas epístolas.

17. Tratava-se de discutir e eleger o perfil do professor ideal: ele seria autoritário ou
deveria dar plena liberdade aos alunos?

18. A egiptóloga Fulana de Tal é uma principiante, obteve o doutorado há pouco tempo,
tem limitada experiência: não pode julgar um descobrimento tão importante.

19. Não vou votar nele para presidente: ele bebe.

20. Todo nordestino é hábil, L. é nordestino, L. é hábil - Toda pessoa hábil é bom político.
Ele é hábil. Ele é bom político, - Todo bom político é bom administrador. Ele é bom
político. Ele é bom administrador. - Todo bom administrador merece ser eleito. Ele é
bom administrador. Ele merece ser eleito.
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21. Dez milhões de pessoas não podem estar erradas. Junte-se a nossa igreja você
também.

22. Isso é uma verdade tão sublime que um milhão de pessoas já a aceitaram como regra
de fé.

23. A Astrologia é uma arte adivinhatória praticada há milhares de anos no Oriente.


Conta-se que os antigos reis da Babilônia teriam feito uso dela para saberem os dias
mais propícios para as batalhas. Até os antigos imperadores chineses recorriam aos
astros para guiarem seus passos no governo. É inadmissível que ainda hoje não a
considerem uma ciência.

24. Essas práticas remontam aos primeiros séculos de nossa igreja. Como você pode
questioná-las?

25. Milhares de pessoas acreditam no poder das pirâmides. Sem dúvida, elas devem ter
algo especial.

26. Os índices de analfabetismo têm aumentado muito depois do advento da televisão.


Obviamente ela compromete a aprendizagem.

27. A grande maioria das pessoas deste país são favoráveis à pena de morte como meio
de reduzir a violência. Ser contra a pena de morte é, pois, ridículo.

28. Não acredite nos lingüistas: eles estão a serviço de uma ideologia de esquerda; são
liberais, revolucionários e populistas.

29. Não é preciso conhecer matemática para vencer na vida. Meus conhecimentos dessa
matéria não vão além das quatro operações e das frações ordinárias; no entanto
tenho um salário maior do que o de muitos engenheiros.

30. O senhor não tem autoridade para criticar nossa política educacional, pois nunca
concluiu uma faculdade.

31. Espero que o senhor aceite o portfólio e dê uma ótima nota, pois passei cinco noites
sem dormir e ainda por cima cuidando de minha avó, que está muito doente.

32. Professor, eu preciso tirar boa nota. Se eu aparecer em casa com nota tão baixa,
minha mãe pode sofrer um ataque cardíaco.

33. Eu não votei em Lula: afinal ele nem sabe falar direito.

34. Por que deveria eu ouvir uma ignorante como você?

Todos os enunciados acima devem ser rejeitados. São falácias. São enunciados ou
tentativas de persuadir o leitor mediante em raciocínio errôneo, mediante um argumento
fraudulento, enganoso.

Essas falácias, como você pode constatar, estão em todos os discursos: na publicidade, na
política, nas religiões, na economia, no comércio, etc.

Falácia é, pois, todo o raciocínio aparentemente válido, mas, na realidade incorreto, que
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faz cair em erro ou engano. Tradicionalmente, distinguem-se dois tipos de falácias: o
paralogismo e o sofisma. O paralogismo é uma falácia cometida involuntariamente, sem
má-fé; o sofisma, uma falácia cometida com plena consciência, com a intenção de
enganar.

Essa distinção não é, no entanto, aceitável, pois introduz um critério exterior à lógica - a
ética. Dito de outro modo, não compete à lógica apreciar as intenções de quem argumenta.
Por isso, tornam-se como sinônimos os termos falácia e sofisma.

A seguir, apresentam-se os principais tipos de falácias.

5. TIPOS DE FALÁCIAS.

5.1 Apelo à Força (argumentum ad baculum)

Definição:
Consiste em ameaçar com conseqüências desagradáveis se não for aceita ou acatada a
proposição apresentada.

Exemplo:
- Você deve se enquadrar nas novas normas do setor. Ou quer perder o emprego?
- É melhor exterminar os bandidos: você poderá ser a próxima vítima.
- Cala essa tua boca, ou não te dou o dinheiro para o show.
- Ou nós, ou a desgraça, o caos.

Contra-argumentação:
Argumente que apelar à força não é racional, não é argumento, que a emoção não tem
relação com a verdade ou a falsidade da proposição.

5.2 Apelo à Misericórdia, à Piedade (argumentum ad misericordiam, ignorância de


questão, fuga do assunto)

Definição:
Consiste em apelar à piedade, à misericórdia, ao estado ou virtudes do autor.

Exemplo:
Ele não pode ser condenado: é bom pai de família, contribuiu com a escola, com a igreja,
etc.

Contra-argumentação:
Argumente que se trata de questões diferentes, que o que é invocado nada tem a ver com a
proposição. Quem argumenta assim ignora a questão, foge do assunto.

5.3 Apelo ao Povo (argumentum ad populum)

Definição:
Consiste em sustentar uma proposição por ser defendida pela população ou parte dela.
Sugere que quanto mais pessoas defendem uma idéia mais verdadeira ou correta ela é.
Incluem-se aqui os boatos, o "ouvi falar", o "dizem", o "sabe-se que".

Exemplo:
Dizem que um disco voador caiu em Minas Gerais, e os corpos dos alienígenas estão com
as Forças Armadas.
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Contra-argumentação:
Os educadores, os professores, as mães têm o argumento: se todos querem se atirar em
alto mar, você também quer? O fato de a maioria acreditar em algo não o torna verdadeiro.
5.4 Apelo à Autoridade

Definição:
Consiste em citar uma autoridade (muitas vezes não - qualificada) para sustentar uma
opinião.

Exemplo:
Segundo Schopearhauer, filósofo alemão do séc. XIX, "toda verdade passa por três
estágios: primeiro, ela é ridicularizada; segundo, sofre violenta oposição; terceiro, ela é
aceita como auto-evidente". (De fato, riram-se de Copérnico, Galileu e outros. Mas nem
todas as verdades passam por esses três estágios: muitas são aceitas sem o ridículo e a
oposição. Por exemplo: Einstein).

Contra-argumentação:
Mostre que a pessoa citada não é autoridade qualificada. Ou que muitas vezes é perigoso
aceitar uma opinião porque simplesmente é defendida por uma autoridade. Isso pode nos
levar a erro.

5.5 Apelo à Novidade (argumentum ad novitatem)

Definição:
Consiste no erro de afirmar que algo é melhor ou mais correto porque é novo, ou mais novo.

Exemplo:
Saiu a nova geladeira Pólo Sul. Com design moderno, arrojado, ela é perfeita para sua
família, sintonizada com o futuro.

Contra-argumentação:
Mostre que o progresso ou a inovação tecnológica não implica necessariamente que algo
seja melhor.

5.6 Apelo à Antigüidade (argumentum ad antiquitatem)

Definição:
É o erro de afirmar que algo é bom, correto apenas porque é antigo, mais tradicional.

Exemplo:
Essas práticas remontam aos princípios da Era Cristã. Como podem ser questionadas?

Contra-argumentação:
Argumenta que o fato de um grande número de pessoas durante muito tempo ter acreditado
que algo é verdadeiro não é motivo para se continuar acreditando.

5.7 Falso Dilema

Definição:
Consiste em apresentar apenas duas opções, quando, na verdade, existem mais.

Exemplos:
- Brasil: ame-o ou deixe-o.
- Você prefere uma mulher cheirando a alho, cebola e frituras ou uma mulher sempre
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arrumadinha?
- Você não suporta seu marido? Separe-se!
- Quem não está a favor de mim está contra mim.

Contra-argumentação:
Simples. Mostre que há outras opções.

5.8 Falso Axioma

Definição:
Um axioma é uma verdade auto-evidente sobre a qual outros conhecimentos devem se
apoiar. Por exemplo: duas quantidades iguais a uma terceira são iguais entre si. Outro
exemplo: a educação é a base do progresso. Muitas vezes atribuímos, no entanto, "status"
de axioma a muitas sentenças ou máximas que são, na realidade, verdades relativas,
verdades aparentes.

Exemplo:
Quem cedo madruga Deus ajuda.

Contra-argumentação:
Mostre que muitas frases de efeito, impactantes, bombásticas, retóricas, muito respeitadas
podem ser meras estratégias mediantes as quais alguém tenta convencer, persuadir o
ouvinte/leitor em direção a um argumento. No caso dos provérbios, mostre que se
contradizem:
- Ruim com ele, pior sem ele X Antes só do que mal acompanhado.
- Depois da tempestade vem a bonança X Uma desgraça nunca vem sozinha.
- Longe dos olhos, perto do coração X O que os olhos não vêem o coração não sente.

5.9 Generalização Não - Qualificada (dicto simpliciter)

Definição:
É uma afirmação ou proposição de caráter geral, radical e que, por isso, encerra um juízo
falso em face da experiência.
Exemplo:
A prática de esportes é prejudicial à saúde.

Contra-argumentação:
Mostre que é necessário especificar os enunciados. Othon Garcia (Comunicação em Prosa
Moderna, FGV, 1986, p. 169) ilustra como se pode especificar a falácia acima, dada como
exemplo: A prática indiscriminada de certos esportes violentos é prejudicial à saúde dos
jovens subnutridos.

5.10 Generalização Apressada (erro de acidente)

Definição:
Trata-se de tirar uma conclusão com base em dados ou em evidências insuficientes. Dito de
outro modo, trata-se de julgar todo um universo com base numa amostragem reduzida.

Exemplos:
- Todo político é corrupto.
- Os padres são pedófilos.
- Os mulçumanos são todos uns fanáticos.
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Contra-argumentação:
Argumente que dois professores ruins não significam uma escola ruim; que em ciência é
preciso o maior número de dados antes de tirar uma conclusão; que não se pode usar
alguns membros do grupo para julgar todo o grupo. Faça ver que se trata, na maioria das
vezes, de estereótipo: imagem preconcebida de alguém ou de um grupo. Faça ver também
que são fonte de inspiração de muitas piadas racistas, como as piadas de judeus (visto
como avarento), de negro (vista como malandro ou pertencente a uma classe inferior), de
português (visto no Brasil como sem inteligência), etc. É por isso que essa falácia está
intimamente relacionada ao preconceito.

5.11 Ataque à Pessoa (argumentum ad homimem)

Definição:
Consiste em atacar, em desmoralizar a pessoa e não seus argumentos. Pensa-se que, ao
se atacar a pessoa, pode-se enfraquecer ou anular sua argumentação.

Exemplo:
- Não dêem ouvidos ao que ele diz: ele é um beberrão, bate na mulher e tem amantes.
Observação: Uma variação de "argumentum ad homimem" é o "tu quoque" (tu também):
Consiste em atribuir o fato a quem faz a acusação. Por exemplo: se alguém lhe acusa de
alguma coisa, diga-lhe "tu também"! Isso, evidentemente, não prova nada.

Contra-argumentação:
Mostre que o caráter da pessoa não tem relação com a proposição defendida por ela.
Chamar alguém de corrupto, nazista, comunista, ateu, pedófilo, etc. não prova que suas
idéias estejam erradas.

5.12 Bola de Neve (derrapagem, redução ao absurdo: reductio ad absurdum)

Definição:
Consiste em tirar de uma proposição uma série de fatos ou conseqüências que podem ou
não ocorrer. É um raciocínio levado indevidamente ao extremo, às últimas conseqüências.

Exemplos:
- Mãe, cuidado com o Joãozinho. Hoje, na escolinha, ele deu um beijo na testa de
Mariazinha. Amanhã, estará beijando o rosto. Depois.... Quando crescer, vai estar agarrando
todas as meninas.
- O álcool e uma dieta pobre também são grandes assassinos. Deve o governo regular o que
vai à nossa mesa? A perseguição à indústria de fumo pode parecer justa, mas também pode
ser o começo do fim da liberdade. (Veja, agosto 2000, p.36)

Contra-argumentação:
Argumente dizendo que as conseqüências, os fatos, os eventos podem não ocorrer.

5.13 Depois Disso, logo, por Causa Disso (post hoc engo propter hoc)

Definição:
É o erro de acreditar que em dois eventos em seqüência um seja a causa do outro. No
extremo, é uma forma de superstição: eu estava com gravata azul e meu time ganhou;
portanto, vou usá-la de novo.

Exemplo:
- O chá de quebra-pedra é bom para cálculos renais. Tomei e dois dias depois expeli a
pedra.
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Observação: uma variação deste sofisma é o chamado "non sequitur" (não se segue,
"nada a ver") em que uma conclusão nada tem a ver com a premissa: Venceremos, pois
Deus é bom. (Deus é bom, mas não está necessariamente a seu lado; os inimigos podem
dizer a mesma coisa).

Contra-argumentação:
Mostre que correlação não é causação: o fato de que dois eventos aconteçam em seqüência
não significa que um seja a causa do outro. Diga que pode ter sido apenas uma
coincidência.

5.14 Falsa Analogia

Definição:
Consiste em comparar objetos ou situações que não são comparáveis entre si, ou transferir
um resultado de uma situação para outra.

Exemplos:
- Minhas provas são sempre com consulta a todo tipo de material. Os advogados não
consultam os códigos? Os médicos não consultam seus colegas e livros? Não levam as
radiografias para as cirurgias? Os engenheiros, os pedreiros não consultam as plantas?
Então?
- Os empregados são como pregos: temos que martelar a cabeça para que cumpram suas
funções.
- Tomei mata-cura e fiquei bom. Tome você também.

Contra-argumentação:
Argumente que os dois objetos ou situações diferem de tal modo que a analogia se torna
insustentável. Mostre que o que vale para uma situação não vale para outra.

5.15 Mudança do Ônus da Prova

Definição:
Consiste em transferir ao ouvinte o ônus de provar um enunciado, uma afirmação.
Exemplo:
Se você não acredita em Deus, como pode explicar a ordem que há no universo?

Contra-argumentação:
Mostre que o ônus da prova, isto é, a responsabilidade de provar um enunciado cabe a
quem faz a afirmação.

5.16 Falácia da Ignorância (argumentum ad ignorantiam)

Definição:
Consiste em concluir que algo é verdadeiro por não ter sido provado que é falso, ou que algo
é falso por não ter sido provado que é verdadeiro.

Exemplos:
- Ninguém provou que Deus existe. Logo, Deus não existe.
- Não há evidências de que os discos voadores não estejam visitando a Terra; portanto, eles
existem.

Contra-argumentação:
Argumente que algo pode ser verdadeiro ou falso, mesmo que não haja provas.
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5.17 Exigência de Perfeição

Definição:
É o erro de reivindicar apenas a solução perfeita para qualquer plano.

Exemplo:
A automação cada vez maior dos elevadores desemprega muitas pessoas. Isso, portanto, é
ruim, economicamente desaconselhável.

Contra-argumentação:
Argumente que planos, medidas ou soluções não devem ser vistos como integralmente
perfeitos ou prejudiciais. Mostre que podem existir objeções para qualquer medida. Que as
desvantagens de um plano são suplantadas pelas vantagens.

5.18 Questão Complexa (pergunta capciosa, falácia da interrogação, da


pressuposição)

Definição:
Consiste em apresentar duas proposições conectadas como se fossem uma única
proposição, pressupondo-se que já se tenha dado uma resposta a uma pergunta anterior.

Exemplos:
- Você já abandonou seus maus hábitos?
- Você já deixou de roubar no mercado onde trabalha?

Contra-argumentação:
Mostre que existem duas proposições e que uma pode ser aceita e outra não.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CHAUÍ, Marilena. Convite a Filosofia. Rio de Janeiro: Ática, 2001.

COELHO, Fábio Uchoa. Roteiro de lógica jurídica. São Paulo: Saraiva, 2001.

COPI, Irving M. Introdução à lógica. 3ª ed. São Paulo: Mestre Jou, 1981.

PERELMAN, Chaim. Lógica Jurídica. São Paulo: Martins Fontes, 1999.