Ministério da Educação

Secretaria de Educação Especial
Altas Habilidades / Superdotação
Encorajando Potenciais
Angela M. R. Virgolim
Brasília, DF
2007
Secretaria de Educação Especial
Claudia Pereira Dutra
Departamento de Políticas de Educação
Especial
Cláudia Maffini Griboski
Coordenação Geral de Desenvolvimento
da Educação Especial
Kátia Aparecida Marangon Barbosa
Autora
Angela Mágda Rodrigues Virgolim
Revisão Técnica
Renata Rodrigues Maia-Pinto
Tiragem
5 mil exemplares
FICHA TÉCNICA
Projeto Gráfico
Michelle Virgolim
Ilustrações
Isis Marques
Lucas B. Souza
Fotos
Vini Goulart
João Campello
Banco de imagens:
Stock Xchng
Capa
Rubens Fontes
FICHA CATALOGRÁFICA
Dados Interncaionais de Catalogação na Publicação (CIP)
Virgolim, Angela M. R.
Altas habilidade/superdotação: encorajando potenciais / Angela
M. R. Virgolim - Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de
Educação Especial, 2007.
70 p.: il. color.
ISBN 978-85-60331-13-0
1. Superdotação. 2. Identificação de talentos. 3. Educação
dos superdotados. I. Brasil. Secretaria de Educação Especial. II.
Título.
CDU 376.54
4
A proposta de atendimento educacional especializado para os alunos com altas habilidades/
superdotação tem fundamento nos princípios filosóficos que embasam a educação inclusiva e como
objetivo formar professores e profissionais da educação para a identificação dos alunos com altas
habilidades/superdotação, oportunizando a construção do processo de aprendizagem e ampliando o
atendimento, com vistas ao pleno desenvolvimento das potencialidades desses alunos.
Para subsidiar as ações voltadas para essa área e contribuir para a implantação, a Secretaria de
Educação Especial do Ministério da Educação – SEESP, convidou especialistas para elaborar esse
conjunto de quatro volumes de livros didático-pedagógicos contendo informações que auxiliam as práticas
de atendimento ao aluno com altas habilidades/superdotação, orientações para o professor e à família.
São idéias e procedimentos que serão construídos de acordo com a realidade de cada Estado contribuindo
efetivamente para a organização do sistema educacional, no sentido de atender às necessidades e interesses
de todos os alunos, garantindo que tenham acesso a espaços destinados ao atendimento e desenvolvimento
de sua aprendizagem.
A atuação do MEC/SEESP na implantação da política de educação especial tem se baseado
na identificação de oportunidades, no estímulo às iniciativas, na geração de alternativas e no apoio
aos sistemas de ensino que encaminham para o melhor atendimento educacional do aluno com altas
habilidades/superdotação. Nesse sentido, a Secretaria de Educação Especial, implantou, em parceria com
as Secretarias de Educação, em todas as Unidades da Federação, os Núcleos de Atividades de Altas
Habilidades/Superdotação – NAAH/S. Com essa ação, disponibiliza recursos didáticos e pedagógicos
e promove a formação de professores para atender os desafios acadêmicos, sócio-emocionais dos alunos
com altas habilidades/superdotação.
Estes Núcleos são organizados para atendimento às necessidades educacionais especiais dos
alunos, oportunizando o aprendizado específico e estimulando suas potencialidades criativas e seu senso
crítico, com espaço para apoio pedagógico aos professores e orientação às famílias de alunos com altas
habilidades/superdotação.
Os professores formados com o auxílio desse material poderão promover o atendimento e o
desenvolvimento dos alunos com altas habilidades/superdotação das escolas públicas de educação básica
e disseminando conhecimentos sobre o tema nos sistemas educacionais, comunidades escolares e famílias
nos Estados e no Distrito Federal.
Claudia Pereira Dutra
Secretária de Educação Especial
APRESENTAÇÃO
6
SUMÁRIO
Introdução 09
Capítulo 1: Por que investir na educação de alunos com Altas habilidades/superdotação? 13
O papel da família, da escola e da sociedade no desenvolvimento dos talentos
Capítulo 2: O que as palavras querem dizer? 21
As diferentes terminologias e definições na área
Capítulo 3: Como reconhecer uma criança superdotada? 41
As características cognitivas, afetivas e sociais do superdotado
Capítulo 4: Encorajando potencialidades 51
Desenvolvendo a superdotação na teoria e na prática
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INTRODUÇÃO
Sempre que falamos em superdotação, o
que nos vem à mente é a figura dos grandes gênios
e visionários da humanidade. Albert Einstein,
William Shakespeare, Wolfgang Amadeus
Mozart, Isaac Newton, Charles Darwin,
Leonardo da Vinci, Marie Curie, Mahatma
Ghandi e Pablo Picasso estão entre os relati-
vamente poucos que ousaram inventar idéias
inteiramente novas e quebrar os paradigmas
vigentes em suas áreas. Todos eles se destacaram
em virtude de suas realizações criativas, deram
contribuições positivas para a humanidade e
elevaram o conhecimento humano, as ciências,
a tecnologia, a cultura e as artes a patamares
inusitados.
No entanto, chama-se a atenção, nos dias
atuais, para o fato de que essas mentes extra-
ordinárias, a despeito de suas potencialidades
genéticas, não nasceram inteiramente prontas.
Não há uma separação absoluta entre tais
pessoas e os seres humanos “comuns” como eu
e você. Pesquisadores chamam a atenção para
o fato de que todos temos aspectos comuns no
nosso desenvolvimento e, embora nem todos nós
sejamos um dia reconhecidos por nossos talentos,
torna-se reconfortante pensar que podemos
encorajá-los e desenvolvê-los pelo menos para
levarmos vidas mais produtivas e satisfatórias.
A criança entra na vida escolar, em geral,
sem consciência de seus talentos. Muitas crianças
não têm a oportunidade de explorar suas poten-
cialidades em seus anos iniciais de vida e seus
talentos podem ficar escondidos ainda durante
os anos escolares e, às vezes, por toda a sua vida.
É vital para a criança, já nas primeiras
séries, sentir que é aceita pelos professores e
colegas de classe. No entanto, se o professor
não valida ou aceita as habilidades avançadas e
interesses intelectuais da criança, incorporando-
os ao currículo, esta pode deixar de vivenciar
sentimentos de aceitação. Da mesma forma, se a
criança cedo descobre que é diferente dos colegas
e que a comunicação é difícil devido à diferença
de vocabulário e modo de se expressar, pode vir
a não ser aceita pelos amigos. Assim é que os
primeiros anos escolares, que deveriam fomentar
o ímpeto para o entusiasmo e aprendizagem
nos anos vindouros, pode ser um sinal, para o
aluno brilhante, de fracasso e insucesso. Muito
freqüentemente a criança aprende a esconder
ou negar suas habilidades, passando a desen-
volver problemas comportamentais ou psicoló-
gicos, a fim de melhor se adaptar às demandas
do ambiente escolar. Além disso, a maioria
dessas crianças demonstra um padrão desigual
de desenvolvimento cognitivo, expresso em
diferenças entre o desenvolvimento intelectual e
o emocional ou psicomotor, por exemplo.
Torna-se nossa tarefa, enquanto educa-
dores, conhecer os pontos fortes e os interesses
do aluno, suas necessidades cognitivas, sociais e
afetivas peculiares, a fim de dar-lhes oportunidades
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de construir seu próprio conhecimento no seu
próprio ritmo. Talvez assim possamos trans-
formar suas potencialidades e promessas, visua-
lizadas em seus primeiros anos, em certezas
e realizações.
Muitos são os desafios que nossas escolas
têm que enfrentar para poderem fornecer uma
educação de qualidade e atender às demandas
cognitivas de todo o seu alunado de forma
inclusiva. A par destes desafios, a criação
dos Núcleos de Apoio às Altas Habilidades/
Superdotação – NAAH/S apresenta-se como
uma resposta adequada aos problemas propostos
pela área. Além de atender ao alunado identi-
ficado como superdotados, os Núcleos objetivam
a promoção da formação e capacitação dos
professores para que possam identificar e atender
a esses alunos, aplicando técnicas e estratégias
de ensino para a suplementação, a diferenciação
e o enriquecimento curricular. Além disso,
propõem-se a oferecer acompanhamento aos pais
dessas crianças e à comunidade escolar em geral,
e colaborar para a construção de uma educação
inclusiva e de qualidade, assegurando o cumpri-
mento da legislação brasileira e o princípio da
igualdade de oportunidades para todos.
O propósito deste livro é o de esclarecer,
principalmente os educadores que atuam nos
NAAH/S, sobre o desenvolvimento de poten-
ciais. Sabemos que o tema das altas habilidades/
superdotação é ainda pouco discutido em nossas
universidades, o que produz uma lacuna na
formação dos professores. Muitos saem de seus
cursos sem terem a oportunidade de conhecer
esta área tão importante do desenvolvimento
da criança. Para os pais, o desconhecimento é
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ainda maior, uma vez que nossa sociedade ainda
trata este tema como tabu. A mídia, muitas
vezes, nos dá uma idéia estereotipada sobre a
superdotação, vista principalmente sob a ótica
da pessoa academicamente precoce e capaz de
feitos maravilhosos. O termo “superdotado”,
além de ser apresentado de forma deturpada,
gera confusões até mesmo entre as pessoas com
habilidades superiores, que não se percebem
como superdotadas. Isto provavelmente se dá
porque a palavra as remete aos super-heróis das
estórias em quadrinhos que, com seus poderes
sobrenaturais, as fazem se sentir diferentes
dos demais.
As pessoas com altas habilidades formam
um grupo heterogêneo, com características
diferentes e habilidades diversificadas; diferem
uns dos outros também por seus interesses,
estilos de aprendizagem, níveis de motivação
e de autoconceito, características de perso-
nalidade e principalmente por suas necessi-
dades educacionais. Entendemos que é tarefa
dos educadores, sejam eles professores ou pais,
compreender a superdotação em seus aspectos
mais básicos e assim se tornarem agentes na
promoção do desenvolvimento dos poten-
ciais, de forma a poder atender as necessidades
especiais desta população.
O primeiro capítulo deste livro foi delineado
em forma de uma instigante pergunta: Por que
investir na educação de alunos com altas habili-
dades/ superdotação? Neste capítulo são discu-
tidos o papel da família, da escola e da sociedade
no desenvolvimento dos talentos. As habilidades
mentais essenciais em uma sociedade que prima
pela mudança e transformação contínuas são
pontuadas, tendo como foco o papel da pessoa
com altas habilidades nestas transformações. A
criatividade, o pensamento crítico e habilidades
analíticas devem ser combinadas para aumentar
as chances de sucesso na sociedade atual. Assim,
torna-se necessário entender como os educadores
podem contribuir para desenvolver o talento e o
potencial dos filhos desde tenra idade, tendo em
mente que o ambiente é o principal promotor
das capacidades superiores que um dia vão
desabrochar de forma plena.
O segundo capítulo vem esclarecer o
significado de tantas palavras diferentes – super-
dotado, precoce, prodígio, gênio, entre outras.
A superdotação será assim focalizada inicial-
mente pelo olhar da mídia e pelo que ela tem
a contribuir com a divulgação da área, por meio
de casos que se tornaram conhecidos no cenário
mundial. Em contraponto, a visão da ciência e
informações advindas de evidências empíricas
serão apresentadas, focalizando questões como
heterogeneidade da população, multipotenciali-
dades, níveis diferentes de habilidades e pontos de
vista diferentes sobre a importância da genética e
do ambiente no fenômeno da superdotação.
Como reconhecer uma criança super-
dotada? As características cognitivas e afetivas do
superdotado, assim como suas necessidades sócio-
emocionais são debatidas no terceiro capítulo.
Torna-se importante entender alguns traços
de personalidade típicas do grupo – como por
exemplo, o perfeccionismo, a grande necessidade
de entender o mundo à sua volta, de ter a neces-
sária estimulação mental, a intensidade dos senti-
mentos, o senso de humor, a não conformidade,
a introversão. Pais e professores necessitam saber
destas características peculiares para se colocarem
em uma posição privilegiada para entender e
guiar a criança em seu processo de desenvolvi-
mento, de forma a ajudá-la a se tornar um adulto
equilibrado e saudável.
E finalmente, o quarto e último capítulo
focaliza o encorajamento das potencialidades,
mostrando a relação da superdotação com a
inteligência e como ela é vista pelos teóricos
nos dias atuais. Atividades práticas a serem
desenvolvidas pelas crianças de acordo com
as inteligências demonstradas em sala de aula
e como os professores podem aconselhar os
pais a desenvolver o talento e a criatividade
no contexto familiar são também debatidos. E
finalmente, o capítulo termina mostrando como
a superdotação pode ser identificada e desen-
volvida na prática, assinalando os métodos de
identificação mais comuns aos diversos modelos
existentes, as formas mais comuns utili-
zadas na escola regular e nos programas para
superdotados, e exemplificados por meio do
Modelo de Enriquecimento Escolar de Joseph
Renzulli e do Modelo do Aprendiz Autônomo
de George Betts.
Esperamos que este livro venha a suprir
as necessidades na área apontadas por pais
e professores, preocupados em fornecer uma
educação de excelência aos seus filhos e alunos,
dirimindo noções estereotipadas e assinalando
práticas que favorecem o desenvolvimento de
potenciais.
A todos uma boa leitura.
Por que investir na educação
de alunos com Altas
habilidades/ superdotação?
Capítulo 1
O papel da família, da escola e da
sociedade no desenvolvimento dos talentos
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O desenvolvimento dos talentos e
o papel dos educadores
O século XXI nasce como o prenúncio de
uma nova era, em que cada vez mais as nações
percebem que os talentos humanos são seus bens
mais preciosos. Os desafios do futuro exigem,
sem dúvida, que nossos jovens desenvolvam
habilidades intelectuais fundamentais, como
a capacidade de recordar rapidamente infor-
mações, de desenvolver o pensamento lógico, de
buscar soluções eficientes para problemas e tomar
decisões efetivas. No entanto, a velocidade com
que o conhecimento passou a ser transmitido por
meios eletrônicos de uma região do mundo à outra
introduziu a necessidade de constante inovação,
que compreende o domínio e a conquista de
novas habilidades, o desenvolvimento e aperfei-
çoamento de talentos e a urgência de se agir e
pensar com maior criatividade. O mundo de
hoje clama por boas idéias, por mudanças em
nossas noções pré-concebidas, principalmente
quando os velhos hábitos já não resolvem novos
problemas. Essa postura exige uma combinação
de inteligências para resolvermos problemas e
criarmos novos produtos necessários ao desen-
volvimento de nossa cultura. Exige também a
integração de ações que devem se iniciar no lar
e progredir com a ajuda da escola, a fim de que
possamos preparar nossos jovens para enfrentar
os desafios de uma sociedade onde as transfor-
mações constantes são a única certeza.
A inteligência, a criatividade, o entusiasmo
e a habilidade das crianças constituem-se não
só no bem maior de uma nação, como também
são uma fonte revigorante, duradoura e infin-
dável. Neste sentido, o psicólogo e neurofi-
siólogo David Lewis, em seu livro “Mentes
Abertas” (Lewis, 1987) alerta para o papel dos
pais e educadores na aprendizagem inicial da
criança, a fim de ajudá-la a dominar as habili-
dades mentais essenciais para o sucesso futuro.
Segundo ele, o bom êxito da aprendizagem
depende de três fatores fundamentais: infor-
mação, motivação e segurança. Assim sendo,
os educadores devem colocar tais fatores em
prática, da seguinte maneira: (a) agindo como
uma fonte de informação; (b) desenvolvendo
o desejo natural da criança de aprender; e (c)
proporcionando-lhe um ambiente seguro onde
ela possa exercitar e aperfeiçoar suas habilidades
mentais. E, em adição a tudo isso, estimular as
crianças a manterem uma mente aberta.
A IMPORTÂNCIA DODESENVOLVIMENTO
DE TALENTOS NA SOCIEDADE
Os educadores que querem ajudar os
jovens a obterem êxito no mundo atual devem
estimular certos aspectos de sua personalidade
que os permitam expandir seus talentos e
aplicá-los em algum campo do conhecimento
e da cultura. Sendo assim, em adição a estas
habilidades mentais essenciais já citadas – reter
e recordar informações, pensamento lógico,
resolução criativa de problemas e tomada efetiva
de decisões –, o jovem do mundo de hoje deve
desenvolver outras habilidades mentais que,
embora fundamentais para o êxito do pensa-
mento, raramente são reconhecidas como
tendo um papel essencial no talento intelectual
adquirido. Para perceber sua importância, Lewis
recomenda aos educadores que considerem três
papéis que a criança terá que representar, com
perfeição, a fim de que seja bem sucedida no
mundo do futuro: o papel do aventureiro; do
artista e do atleta.
O papel de aventureiro refere-se a uma
disposição interior para explorar e se aventurar
por novos caminhos, descobrir novos padrões
e levantar diversos tipos de informações para
construir uma idéia. O aventureiro é aquela
pessoa curiosa, que busca estratégias para
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descobrir, de forma eficiente, as informações
que estão no mundo à sua volta; é perseverante e
confia em sua percepção e intuição; tem espírito
independente e mente flexível, que o levam ao
desejo de conquistar, de estabelecer metas e lutar
para alcançá-las. Pessoas com o espírito aventu-
reiro são as que buscam o conhecimento, usando
seu pensamento lógico para acumular infor-
mações essenciais, mas também usam suas habili-
dades de pensamento criativo para fugir da rotina
e dos velhos hábitos. Assim como o aventureiro,
precisamos treinar nossos jovens para se tornarem
aptos a conquistar as experiências do mundo em
primeira mão, não apenas lendo sobre elas, mas
manipulando, experimentando e elaborando suas
próprias hipóteses. Os responsáveis pela educação
da criança devem cultivar a sua curiosidade,
motivá-la a buscar novas estratégias e construir
seus próprios caminhos em busca do saber.
O sucesso no mundo que o jovem irá
enfrentar no futuro depende cada vez mais da
habilidade de lidar com o desconhecido, trans-
formando, adaptando, imaginado outros usos
e agindo sob perspectivas únicas e originais.
Assim, torna-se também essencial agregar ao
papel de aventureiro outro traço importante
de nossa personalidade: o de artista. Este seria
nosso personagem interior que transforma as
informações obtidas pelo aventureiro em novas
idéias, que enxerga o mundo por novas perspec-
tivas, conceitos e idéias. O artista dentro de
nós não se prende à rotina do que é familiar e
está sempre transformando, invertendo, modifi-
cando, imaginando como pode fazer diferente
para se tornarem produtivas em seu campo de
ação. Lewis recomenda aos educadores que
estimulem nas crianças a imaginação, a intuição
e a habilidade de ver além dos limites do que é,
para discernir o que poderia ser.
No entanto, em um mundo essencialmente
tecnológico como o de hoje, onde as questões
da prioridade e da rapidez se traduzem como
vantagens competitivas no mundo do trabalho, as
habilidades apresentadas pelos atletas se tornam
também necessárias. Neste sentido, o jovem
do nosso século deve possuir o entusiasmo, a
energia criativa e a determinação dos campeões
esportivos para comunicar suas novas idéias ao
mundo. Necessitará ainda do poder de persuasão
e de clareza de expressão, mostrando ao mesmo
tempo sua paixão, entusiasmo e motivação pelo
seu projeto. Pais e professores estão em uma
posição chave para estimular nas crianças a auto-
confiança e a determinação necessárias para
vencer em um mundo onde a força do raciocínio
e da criatividade substituíram a força física como
um passaporte essencial para o sucesso.
A IMPORTÂNCIA DODESENVOLVIMENTO
DE TALENTOS NA FAMÍLIA
Pais afetuosos e preparados, assim como
um professor motivador, enamorado pela disci-
plina que ensina, podem aumentar a probabi-
lidade da criança e do jovem a desenvolverem
as habilidades necessárias para dar, no futuro,
contribuições expressivas à humanidade e, ainda,
ter uma qualidade de vida mais satisfatória.
Apesar de a inteligência geral apresentar uma
grande predisposição genética, outras habili-
dades cognitivas relacionadas à superdotação
podem desenvolver-se ou declinar-se em função
das experiências vivenciadas. Neste ponto, a
família aprece em posição de destaque.
Benjamin Bloom (1985) e seus colabo-
radores no final da década de 50 desenvol-
veram uma pesquisa que se tornou clássica e
bastante conhecida na área, envolvendo famílias
de renomados nadadores, jogadores de tênis,
pianistas, escultores, matemáticos e neurolo-
gistas. Este autor relata que os pais de crianças
que mais tarde se tornaram adultos com habili-
dades superiores acreditavam na importância
do trabalho árduo e ativo, com ênfase na
autodisciplina e em dar o melhor de si para se
alcançar o objetivo proposto; demonstravam
estar orgulhosos das habilidades dos filhos e de
suas realizações, inclusive mostrando interesses
similares aos deles (como passatempos ou
profissões), ajudando-os a organizar o tempo, a
estabelecer prioridades e a manter altos padrões
para que uma tarefa fosse completada.
Bloom forneceu evidências de que pais que
têm maiores chances de influenciar positivamente
no desenvolvimento da inteligência e do potencial
de seus filhos são os que: (a) combinam apoio e
altas expectativas para com o desempenho dos
filhos; (b) encorajam a criança nos seus esforços
para aprender novas habilidades; (c) providenciam
recursos e oportunidades de aprendizagem além
daquelas fornecidas pelo ambiente escolar; e (d)
estimulam seus filhos a se engajarem na área
de interesse o mais cedo possível, escolhendo o
primeiro instrutor com cuidado.
Os seres humanos nascem com um
enorme potencial. No entanto, o estudo de
Bloom confirma que o desempenho superior
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aparece depois que as crianças são estimuladas
e encorajadas pelos pais, e não antes, como se
poderia supor. O autor parte do princípio de que,
não importando quais sejam as características
inatas apresentadas pela criança, a menos que
haja um longo e intensivo processo de encora-
jamento, afetividade, educação e treinamento,
os indivíduos não atingirão níveis extremos de
capacidade nos campos pesquisados.
Bloom enfatiza que o encorajamento e
afetividade são essenciais no caso dos primeiros
instrutores ou professores dos anos iniciais da
criança pré-escolar. Mais do que a disciplina
e a habilidade em si, estes devem, fundamen-
talmente: (a) ensinar com carinho e respeito à
velocidade e estilo de aprendizagem da criança;
(b) transformar as lições em atividades lúdicas;
(c) utilizar mais o ensino individual do que o
coletivo; e (d) desenvolver atividades em que os
pais possam participar e demonstrar interesse no
que a criança aprendeu. À medida que a criança
se desenvolve, progride em seu aprendizado e
domina uma técnica ou habilidade, o papel do
educador também se modifica, tornando-se
eventualmente mais centrado nas habilidades,
na autodisciplina e no ensino individualizado.
O trabalho de Bloom fez importante
contribuição à prática educacional, no sentido
de acentuar a importância dos anos iniciais e,
consequentemente, do ensino pré-escolar no
desenvolvimento precoce das altas habilidades.
A IMPORTÂNCIA DODESENVOLVIMENTO
DE TALENTOS NA ESCOLA
No prefácio da primeira edição de seu
livro “Psicologia e educação do superdotado”¹
de 1986, a professora Drª. Eunice Soriano de
Alencar, pioneira na implementação do estudo
das altas habilidades/ superdotação no país, já
chamava a ateção para a importância do desen-
volvimento dos talentos e para a implementação
de programas educacionais direcionados a esta
população. Dizia ela:
“... o futuro de qualquer nação depende da
qualidade e competência de seus profissionais,
da extensão em que a excelência for cultivada
e do grau em que condições favoráveis ao de-
senvolvimento do talento, sobretudo do talento
intelectual, estiverem presentes desde os primei-
ros anos da infância”. (...) “O fato de que uma
boa educação para todos não signif ica uma edu-
cação idêntica para todos tem levado a um inte-
resse crescente pelos alunos mais competentes
e capazes, a par de uma consciência de que um
sistema educacional voltado apenas para o estu-
dante médio e abaixo da média pode significar
o não-reconhecimento e estímulo do talento e,
consequentemente, o seu não-aproveitamento”
(p. 11).
Desta forma, a eqüidade na educação
seria obtida não por meio do fornecimento de
experiências de aprendizagem idênticas para
todos os alunos, mas sim por uma ampla gama
de experiências cuidadosamente planejadas
e diferenciadas que levam em conta as habili-
dades, interesses e estilos de aprendizagem de
cada estudante (Virgolim,1998).
Nesta mesma linha de pensamento, e
preocupada com o desperdício e o desvio dos
talentos humanos, a Drª. Zenita Guenther
reflete que o nosso papel, enquanto educadores, é
o de “encaminhar o desenvolvimento de pessoas
e encontrar a melhor e mais apropriada forma
de prover a cada um aquilo de que ele necessita
para se tornar o melhor ser humano que pode
vir a ser” (Guenther, 2000, p. 20). Reconhecer,
estimular e aproveitar talentos humanos em
desenvolvimento ou em potencial nas diversas
áreas do saber humano é, afinal, responsabi-
lidade de todos: família, escola e sociedade.
Nesta perspectiva, torna-se necessário que
nossas escolas encarem o desafio de guiar nossos
alunos para o desenvolvimento de traços de
personalidade e atitudes favoráveis ao desenvol-
vimento do talento; e que este possa ser correta-
mente identificado, estimulado e potencializado
ao máximo.
Mudanças são necessárias na estrutura
escolar atual, a fim de que se promova condições
apropriadas para a realização criativa e produtiva
dos alunos; engajá-los em experiências de
aprendizagem que satisfaçam seus interesses
e estimulem sua imaginação (Alencar, 1995),
assim como prepará-los para se tornarem produ-
tores, e não só consumidores, do conhecimento
(Renzulli & Reis, 1997a).
Neste sentido, a missão das escolas deveria
ser a de encorajar a produtividade criativa e
intensificar a qualidade de experiências de
aprendizagem para todos os estudantes e não
só para os que se destacam por suas capacidades
intelectuais superiores. Assim sendo, a sua meta
não seria, a priori, identificar e separar o grupo
dos superdotados daqueles que não o são, mas
1Este livro foi reeditado por Alencar e Fleith, em 2001, sob o título:
“Superdotados: Determinantes, educação e ajustamento”, ed. EPU.
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sim prover a cada aluno com as oportunidades,
recursos e encorajamento necessários para atingir
o seu potencial máximo, de forma inclusiva.
DESAFIOS PARA AS ESCOLAS BRASILEIRAS:
PROBLEMAS E SOLUÇÕES
Embora o perfil do atendimento ao
aluno superdotado tenha expressivamente se
modificado nos últimos cinco anos, vários são
os problemas que a área da superdotação ainda
enfrenta na realidade educacional brasileira
(ver Quadro 1). Para Virgolim (1998), a área
se caracteriza pela falta de: (a) treinamento
especializado dos profissionais; (b) materiais
adequados à necessidade do grupo; (c) currí-
culos e programas adequados aos diferentes
níveis em escolas públicas e particulares; (d)
cursos de graduação e pós-graduação nas
universidades brasileiras específicos para a área;
(e) técnicas mais modernas de identificação; (g)
maior número de pesquisas realizadas com esta
população para a realidade brasileira; e (h) mais
literatura especializada em nosso idioma.
Vários pesquisadores brasileiros (por
exemplo, Alencar & Fleith, 2001; Fleith &
Virgolim, 1999; Guenther, 2000; Sabatella,
2005; Virgolim, 1997, 2005) assinalam a neces-
sidade de ampliação de serviços específicos para
se conhecer melhor as características deste grupo
em nosso país; de atender, no contexto escolar e
familiar, suas necessidades afetivas e cognitivas
especiais; de se fazer mais pesquisas na área; e
de influenciar o desenvolvimento de políticas
públicas, no contexto brasileiro, que favoreçam o
reconhecimento, o estímulo e o aproveitamento
de nossos potenciais humanos.
Algumas pesquisas realizadas no Brasil
(Fleith & Virgolim, 1999; Maia-Pinto, 2002;
Virgolim, 2005) apontam para alguns desafios a
serem enfrentados na área, como a necessidade
de integração do ensino regular com o especia-
lizado. Estes autores destacam a importância do
professor do ensino regular estimular a partici-
pação do aluno identificado em sala de recursos
e de que haja uma coordenação efetiva que se
responsabilize pelo desenvolvimento destes
alunos tanto no contexto da sala regular quanto
na de recursos.
Também Reis (1986) discute a questão da
“responsabilidade” do programa, apontando para
o fato, tão comum nas escolas americanas quanto
nas brasileiras, da escola regular não assumir a
responsabilidade pela educação total da criança
ou do jovem, quando isso implica o exercício
de atividades fora da classe regular. Há uma
tendência para se criar uma separação entre os
dois programas, como se a criança pudesse “ser
superdotada” apenas no atendimento especia-
lizado. Esta separação é também percebida
quando o professor do ensino regular não tem
conhecimento de que o aluno está participando
de um programa para as altas habilidades, ou
quando atribui a responsabilidade pelo desen-
volvimento do potencial deste aluno apenas ao
professor da sala de recursos. Conseqüentemente,
o programa passa a ser visto como um apêndice
QUADRO 1: OS DESAFIOS DA ÁREA
` Disseminar a área da superdotação, aprofundando o conhecimento da sociedade sobre o tema;
` Ressaltar as necessidades cognitivas, sociais e emocionais especiais desta população;
` Combater mitos e falácias, como o de que o superdotado não necessita de mais recursos, podendo se
desenvolver sozinho;
` Proporcionar treinamento especializado aos profissionais envolvidos;
` Proporcionar materiais adequados à necessidade do grupo;
` Desenvolver e utilizar técnicas modernas de identificação;
` Adaptar e diferenciar currículos e programas aos diferentes níveis em escolas públicas e particulares;
` Implantar cursos de graduação e pós-graduação específicos para a área nas universidades brasileiras;
` Realizar mais pesquisas com esta população para a nossa realidade;
` Publicar e implementar a literatura especializada em nosso idioma.
Fonte: Virgolim, 1998
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do sistema escolar, ao invés de um serviço neces-
sário ou mesmo essencial (Fleith & Virgolim,
1999).
Para ilustrar este ponto de vista, tomemos
o exemplo de dois alunos superdotados na área
artística, que participam de programas especiais
em seus respectivos países: Evgeny Sviridov,
russo, talentoso no violino, e Neilson Moreira
da Costa, brasileiro, aluno talentoso na área
do desenho.
Em maio de 2004, os principais jornais
brasileiros noticiaram a apresentação, no Brasil,
do jovem violinista Evgeny Sviridov, então com
15 anos de idade. Nascido em São Petersburgo,
Sviridov começou os estudos de violino em 1994,
quando tinha apenas seis anos de idade. Dois
anos depois, foi convidado a integrar o elenco
da Escola Especial de Música para Crianças
Talentosas do Conservatório Rimsky-Korsakov.
Em 1998, aos 10 anos de idade, fazia o primeiro
recital solo. Em 1999, conquistou o III Concurso
Internacional “Virtuosi do Século XXI” em
Moscou. No ano seguinte, foi o grande vencedor
do II Concurso para Violinistas e Violoncelistas
de Toda a Rússia, em Novosibirski e em
2001, recebeu o prêmio máximo do Concurso
Internacional de Televisão “Bravo-Bravissimo”
em Milão. Estreando em Paris em 2004, foi
aclamado de pé durante 10 minutos ao término
de seu recital no auditório do Louvre.
Segundo Alencar e Fleith (2001), no
decorrer desta última década houve um retro-
cesso nas oportunidades oferecidas na Rússia,
em comparação ao que este país tradicional-
mente oferecia aos seus jovens talentos. Mesmo
assim, é interessante ressaltar que Evgeny teve a
oportunidade de participar de um atendimento
especializado, em São Petesburgo, e contar com
uma flexibilidade curricular que permite que as
crianças talentosas aprendam apenas o básico das
disciplinas tradicionais para ter mais tempo livre
para se dedicar às práticas artísticas. Evgeny toca
seu violino pelo menos seis horas todo dia. Sua
professora e técnica, Elena Zaitseva, é a respon-
sável pela escolha do repertório e o acompanha
onde quer que ele se apresente, afim de avaliar
suas falhas e corrigir sua performance.
Contrapondo a esta realidade, que se pode
observar em alguns países mais desenvolvidos,
muitos dos talentos brasileiros passam desper-
cebido durante seus anos escolares. Nem sempre
são incentivados a desenvolver suas habilidades
específicas, o que ocorre por razões diversas. Este
foi o caso de Neilson, que apenas aos 17 anos foi
indicado para participar do Programa para Altas
Habilidades da Secretaria de Estado de Educação
do Distrito Federal, embora suas habilidades para
o desenho fossem já excepcionais desde criança.
Dinâmico e comunicativo, Neilson trabalhava
como caixa e empacotador de supermercado,
onde também era estagiário na área de compu-
tação. Estudava à noite para concluir o 3º ano
do Ensino Fundamental. Neilson freqüentava
o programa 2 vezes por semana, à tarde, mas só
ia quando tinha oportunidade e tempo. Em seus
trabalhos, Neilson gostava de usar lápis de cor,
spray e grafite. Perguntado sobre suas pretensões
futuras, o jovem revelou que não pretendia cursar
a universidade: precisava trabalhar para garantir
seu sustento e de sua família.
O caso desses dois talentos artísticos
mencionados revela os desafios que ainda
teremos de enf rentar se quisermos elevar o nível
da educação e das oportunidades oferecidas aos
jovens talentosos no nosso país. Como tantos
outros jovens brasileiros carentes, Neilson
não teve a chance de ser incluído no atendi-
mento especial quando era mais jovem; não
teve oportunidades, com o seu colega russo, de
desenvolver ao máximo suas habilidades artís-
ticas desde tenra idade. No Ensino Fundamental
e no Ensino Médio, Neilson não usuf ruiu de
um currículo adaptado às suas necessidades
especiais, o que poderia ter-lhe proporcionando
tempo para o estudo e o refinamento de sua
arte. Além disso, seus professores no ensino
regular não se envolveram com o programa
desenvolvido na sala de recursos, refletindo o
problema do gerenciamento da responsabilidade
pelo desenvolvimento integral do aluno. E por
fim, observa-se que o jovem optou por sacrificar
sua arte em função da sua subsistência imediata
e da família. Suas habilidades artísticas, insufi-
cientemente valorizadas em seu contexto sócio-
cultural mais imediato, não foram encorajadas
fora da sala de recursos.
Guenther (2006) nos lembra que “a
capacidade e talento humano se desenvolvem,
e se expressam em produção superior, desde
que o potencial seja identificado, estimulado,
acompanhado e orientado” (p.31). Sem estes
fatores, sem dúvida, os talentos mais promis-
sores em nossa sociedade serão desperdiçados.
Este é um dos grandes desafios que teremos
que enf rentar.
O que as palavras
querem dizer?
Capítulo 2
As diferentes terminologias e definições na área
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A superdotação pelo olhar do
senso comum
Os indivíduos que se destacam em virtude de
suas altas habilidades ou feitos prodigiosos sempre
foram foco da curiosidade popular. Desta forma, os
meios de comunicação atuais estão sempre buscando
exemplos de crianças e jovens que se destacam por seu
potencial superior. Assim, em 2001, uma das crianças
em destaque era Igor, um simpático garotinho de
três anos, morador de uma região administrativa do
Distrito Federal. Igor tornou-se notícia de jornal por
ostentar uma habilidade precoce para uma criança de
sua idade. Ainda trocando o “r” pelo “l”, Igor surpre-
endeu sua professora do Maternal II, quando esta
perguntou, mostrando um livrinho de estórias: “Quem
sabe o que está escrito aqui?” “Eu sei! – respondeu
Igor: “A menina Dorminhoca!” e leu todas as outras
informações contidas na capa do livrinho. Chamada
na escola, a mãe informou que Igor, com um ano e
meio, já lia anúncios na rua e se exibia para pequenas
platéias. Os pais, de origem humilde e pouca instrução
formal, explicaram que não ensinaram a criança
a ler, embora tenham dado a ela oportunidade de
manipular livros, oferecidos como distração enquanto
ambos estudavam. Embora orgulhosos do filho, os
pais revelavam uma preocupação típica de quem tem
em casa uma criança precoce: não querem que o filho
se sinta diferente ou excluído pelos colegas.
Acontece que Igor está longe de ser um caso
único, ou mesmo raro. A habilidade superior, a
superdotação, a precocidade, o prodígio e a genia-
lidade são gradações de um mesmo fenômeno,
que vem sendo estudado há séculos em diversos
países, como China, Alemanha e Estados Unidos.
No entanto, concepções teóricas divergentes, assim
como percepções estereotipadas sobre a super-
dotação, em geral propagadas na sociedade, têm
permeado o campo (Ziegler & Heller, 2000). Nota-
se, por exemplo, na notícia de jornal sobre o caso de
Igor, uma confusão entre “prodígio” e “precoce”, já
no título da reportagem, onde se lê: “Criança prodígio
– Igor é um pequeno craque. Com um livro nas mãos”, o
que acaba por trazer mais desinformação ao campo
e confundir também a população. Além disso, ao
focalizar sua atenção em demasiado na divulgação
de casos raros, a mídia colabora na propagação da
superdotação como uma competência extremamente
elevada em todas as áreas, gerando uma expectativa
de desempenho e de produção que não se observa
neste grupo de forma homogênea (Alencar, 2001).
Neste capítulo vamos abordar as diferentes
terminologias na área mostrando, por meio de
exemplos e estudos de caso veiculados pela mídia e
que fazem parte do senso comum, a diferenças entre
este grupo tão heterogêneo. Exemplos de crianças
precoces e prodígios serão discutidos. A fim de ilustrar
os diferentes tipos de talentos focalizados na definição
brasileira de superdotação, mostraremos as caracterís-
ticas apresentadas por pessoas que são reconhecidas
como gênios. E, por fim, faremos o contraponto
com as definições oferecidas pelos pesquisadores da
área, analisando a superdotação por sua perspectiva
científica.
Antes de passarmos para a próxima seção,
vamos esclarecer as diversas denominações para o
termo “superdotado”.
ACRIANÇA PRECOCE
São chamadas de precoce as crianças que
apresentam alguma habilidade específica prematu-
ramente desenvolvida em qualquer área do conhe-
cimento, como na música, na matemática, nas artes,
na linguagem, nos esportes ou na leitura. Sem
dúvida, Igor é uma criança precoce, mas não se deve
rotulá-la como superdotada, prodígio ou gênio, sem
antes acompanhar seu desenvolvimento. Mesmo a
superdotação precoce, em seu grau extremo, não é
garantia de sucesso futuro, ou de que esta pessoa se
tornará um adulto eminente.
Crianças superdotadas, para Winner (1998)
são precoces. Elas progridem mais rápido do que as
outras crianças por demonstrarem maior facilidade
em uma área do conhecimento. No entanto, Freeman
e Guenther (2000) alertam para o fato de que nem
todos os adultos que se tornaram eminentes foram
crianças precoces. Há múltiplos fatores que inter-
ferem na trajetória de vida de uma criança precoce
além do nível de habilidade, como os atributos de
personalidade, a motivação em buscar a excelência,
o ambiente familiar propício para o desenvolvi-
mento das habilidades e as oportunidades que
aparecerão no decurso de sua vida. Além disso, a
motivação intrínseca, a curiosidade e a vontade
de aprender, fatores essenciais para um desem-
penho superior, dependem de um ambiente
educacional enriquecido para se desenvolverem.
Tão precoce quanto Igor foi Léo Romano,
que foi notícia em 2004 em uma revista semanal
de informação
2
. De família modesta da zona
norte de São Paulo, filho de um bancário e uma
dona de casa, Léo nunca freqüentou escolas
nem recebeu nenhuma orientação. No entanto,
com 2 anos e meio já conhecia as letras do alfabeto,
2 Revista Época, nº 343, 13 de dezembro de 2004
24
lia sílabas e palavras simples e demonstrava uma
impressionante memória: sabia identificar as
bandeiras dos Estados brasileiros e de uma centena
de países. Além disso, memorizou fatos geográ-
ficos e históricos - por exemplo, sabia que a capital
do Afeganistão é Kabul, que Nelson Mandela foi
presidente da África do Sul e que Nero mandou
atear fogo em Roma.
Divulga-se em destaque a precocidade no
xadrez, chamando a atenção para dois irmãos,
Giovani e Giuliano Vescovi. Giovani mal havia
completado dois anos quando, de tanto observar
o pai, aprendeu sozinho a montar as peças em
um tabuleiro de xadrez. Esta criança precoce, no
entanto, recebeu toda a atenção da família, que
se mudou do Rio Grande do Sul para São Paulo
quando Giovani tinha seis anos, para que pudesse
receber orientações específicas relativas à sua área de
talento. Aos sete anos obteve em Porto Rico a taça
de vice-campeão do torneio mundial na categoria
infantil, após seis horas de jogo. Seu irmão menor,
Giuliano, que também treinava xadrez diariamente
desde os 4 anos, foi campeão paulista na categoria
dente-de-leite. Os irmãos só paravam o treino na
hora de brincar – que para eles muitas vezes signi-
ficava resolver problemas de matemática em livros
de séries mais avançadas.
ACRIANÇA PRODÍGIO
Já o termo “prodígio” é utilizado para
designar a criança precoce que apresenta um alto
desempenho, ao nível de um profissional adulto, em
algum campo cognitivo específico (Feldman, 1991;
Morelock e Feldman, 2000). Um clássico exemplo
de uma criança prodígio, com uma habilidade
excepcional, foi o de Wolfgang Amadeus Mozart,
que começou a tocar cravo aos três anos de idade.
Aos quatro anos, sem orientação formal, já aprendia
peças com rapidez, e aos sete já compunha regular-
mente e se apresentava nos principais salões da
Europa. Além disso, ao ouvir apenas uma vez o
Miserere de Gregório Allegri, foi capaz de trans-
crever a peça inteira de memória, quase sem cometer
erros (Gardner, 1999). Nesta sessão vamos falar de
alguns prodígios da atualidade que têm encantado
muita gente e desafiado nosso entendimento sobre
o desenvolvimento humano típico.
Feldman (1991) acredita que a existência dos
prodígios é de suma importância para entendermos
o fenômeno da mente humana. Este autor reflete
que, mais do que nos ensinar sobre a expressão e o
desenvolvimento do potencial humano, o prodígio
também nos ensina como a humanidade chegou
onde está e talvez como deva melhor coreografar
essa nossa dança única na espécie. No passado, os
prodígios eram vistos como “uma monstruosidade,
algo fora do curso usual da natureza, como um
cometa ou meteoro” (p. 4), explorados para propó-
sitos financeiros e isolados dos amigos; no entanto,
ainda hoje surpreende-nos por violar nossas expec-
tativas sobre como o mundo deveria funcionar.
Feldman propõe uma interessante distinção
entre o indivíduo superdotado que se destaca por
seu alto QI, medido por testes psicométricos, e o
prodígio. O prodígio é único no sentido de exibir
uma habilidade extremamente especializada,
somente expressa sob condições bastante específicas
do ambiente sócio-cultural. De forma contrastante,
o indivíduo superdotado com alto QI possui habili-
dades intelectuais generalizadas que permite altos
níveis de funcionamento em uma grande amplitude
de ambientes. Tanto o especialista quanto o genera-
lista podem apresentar realizações impressionantes
que refletem habilidades radicalmente diferentes,
como se deu no caso de Mozart e Leonardo da
Vinci. Mozart é o exemplo do especialista: múltiplas
e profundas habilidades musicais, mas em outros
aspectos uma pessoa simples e intelectualmente
normal. Já Leonardo da Vinci representa o perfil
do generalista: erudita, curioso, uma mente vigorosa
que dominou e contribuiu significativamente em
uma variedade de diferentes domínios.
Os prodígios são, como um todo, especialistas
extremos, especialmente bem sintonizados a um
campo particular do conhecimento, demonstrando
um domínio rápido e aparentemente sem esforço.
Embora os prodígios possam ser ou não talentosos
no sentido de uma perícia intelectual mais genera-
lizada, não demonstram desempenho extraordinário
por várias áreas. Sendo precoce, o prodígio revela
uma tenacidade no seu envolvimento com sua área
de talento, sendo este aspecto absolutamente neces-
sário para sua satisfação, expressão e bem-estar.
Desta forma, o prodígio é relativamente
raro e necessita da convergência de um número de
circunstâncias únicas para permitir uma completa e
especializada expressão de um poderoso potencial. O
prodígio emerge em um ambiente onde convergem
a tendência altamente específica do indivíduo de se
engajar profundamente na área em que apresenta
precocidade com uma específica receptividade
ambiental, sendo por isso mesmo infreqüente
e improvável.
Ao estudá-los, estaremos numa posição de
melhor compreender o processo mais geral envolvido
no desenvolvimento do potencial. Vejamos alguns
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casos divulgados pela mídia brasileira e internacional.
PRODÍGIO NA MÚSICA
Um típico caso de criança prodígio é o
pianista catarinense Pablo Rossi que, com apenas
11 anos de idade, gravou um CD com obras
de Chopin, Bartók, Schumann, Tchaikovsky,
Rachmaninov, Shostakovich e Nepomuceno, tendo
sido também notícia na mídia impressa.
3
Pablo toca
com a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo
e treina cinco a seis horas por dia. Considerado hoje
o melhor pianista jovem do Brasil, este catarinense
de 17 anos foi vencedor do 1º Concurso Nacional
Nelson Freire de Novos Talentos Brasileiros e
acumula premiações no Brasil e no exterior.
Pablo Rossi nasceu em Florianópolis em 1989
e iniciou os estudos musicais aos seis anos. Aos sete
ganhou o concurso para piano Jovens Intérpretes,
de Lages, e passou a ter aulas em Curitiba com
Olga Kiun, pianista russa naturalizada brasileira, ela
própria uma criança prodígio que fez seu primeiro
recital solo aos nove anos e aos doze realizou seu
primeiro concerto como solista de orquestra.
Pablo acumula diversos prêmios em sua curta
carreira de pianista: já aos oito anos recebia o prêmio
revelação no XXXII Festival de Inverno de Campos
do Jordão e logo em seguida recebia o primeiro
lugar nos seguintes concursos: Concurso de Piano
Artlivre em 1997 e em 2000; no VII Concurso
Nacional Magda Tagliaferro; no IX Concurso
Nacional de Piano em Governador Valadares;
no XIII Concurso Internacional na cidade de
Córdoba, Argentina; no XI Concurso Internacional
de Piano ‘Perfecto García Chornet’, na Espanha; e
no I Concurso Nacional Nelson Freire para Novos
Talentos Brasileiros. Com o apoio do Governo do
Estado do Paraná, Pablo conseguiu uma bolsa de
estudos para cursar o Conservatório Tchaikovsky
de Moscou, a convite da Sociedade Rachmaninov,
em novembro de 1999, quando tinha 10 anos, tendo
então a oportunidade de participar das masterclasses
de Alexander Mndoyants e Viktor Merdjanoff.
O aclamado prodígio já se apresentou com a
Orquestra de Câmara Solistas de Londrina, a Orquestra
Sinfônica do Paraná, a Camerata Florianópolis, a
Sinfônica de Santa Catarina, a Sinfônica de Ribeirão
Preto, a Orquestra Sinfônica Brasileira, além de ter
realizado recitais em cidades como São Paulo, São
José dos Campos, Macaé e Curitiba.
PRODÍGIO ACADÊMICO
O americano Gregory Robert Smith tem
feitos notáveis em sua biografia de apenas 17 anos
4
.
Destacamos aqui algumas de suas realizações:
` Aos 13 anos recebeu seu diploma de graduação
suma cum laude em Matemática na Randolph-
Macon College, em Ashland, Virginia.
` Em maio de 2006, aos 16 anos de idade,
recebeu o título de Mestre em Matemática
pela Universidade de Virginia, EUA.
Recentemente revelou que pretende obter seu
PhD em quatro diferentes áreas: matemática,
engenharia aeroespacial, ciência política e
engenharia biomédica.
` É fundador da International Youth Advocates,
dedicada à defesa de jovens e crianças carentes
e à paz mundial. Em suas viagens ao exterior
(já visitou nove países em quatro continentes,
incluindo o Brasil) e dentro de seu próprio
país, Gregory dá palestras sobre o fim do
ciclo da violência e sobre a manutenção da
paz. Já se encontrou com a rainha Noor, da
Jordânia, com presidentes, como Bill Clinton
e Mikhail Gorbachev, líderes religiosos como
o Arcebispo Desmond Tutu da África do Sul,
e educadores para discutir suas idéias para a
educação e para a paz.
` Foi indicado ao Prêmio Nobel da Paz em
2002 (quando tinha 12 anos), continuando a
concorrer nos anos posteriores (2003 a 2006).
` Quando terminou o Ensino Fundamental
e o Médio em apenas cinco anos – em vez
dos treze esperados de uma criança comum
–, virou estrela de programas populares nos
Estados Unidos.
Gregory foi precoce em muitas áreas e de uma
forma qualitativamente diferente da grande maioria
das crianças. Começou a falar muito mais cedo que
o esperado para um bebê, aos 2 meses de idade.
Com um ano e dois meses era capaz de nomear
todos os tipos de dinossauros que já existiram e de
resolver problemas simples de álgebra. Aos 2 anos
já lia e corrigia a gramática de adultos. Nesta idade
ele também decidiu abandonar os sanduíches do
McDonald’s e tornou-se vegetariano por conta
própria. Aos 5 anos era capaz de recitar trechos
de livros de memória – tinha na cabeça a coleção
inteira de Júlio Verne e era capaz de discorrer
sobre uma enorme gama de assuntos. Seus pais
comentam que, nesta idade, sua capacidade mental,
medida por testes de QI, ultrapassava os limites
dos próprios testes. Gregory foi acelerado nos
estudos e o currículo compactado para atender suas 3 Revista Época, nº 343, 13 de dezembro de 2004 4 http://www.gregoryrsmith.com/
26
necessidades especiais únicas; assim, no período de
um ano o menino cumpriu sete séries escolares (da
segunda à oitava), pulando toda a terceira série e
cumprindo um curso de Álgebra em 10 semanas.
Ele tinha sete anos quando entrou para o Ensino
Médio no Orange Park High School, na Florida.
Em entrevista ao jornal Washington Post, em
1999, quando se formava com honras no Ensino
Médio, dois dias antes do seu 10º aniversário, Gregory
comentou: “Acredito que recebi um dom especial, mas
não sei como ou porque ele me foi dado; apenas sei
que quero usar o máximo de minhas habilidades para
ajudar a humanidade.” Entre as suas metas, anunciou,
está a de se tornar Presidente dos Estados Unidos.
PRODÍGIO NA PINTURA
Marla Olmstead
5
, atualmente com 6 anos de
idade, começou a pintar pouco antes de completar
2 anos, com o incentivo de seu pai, também artista
plástico. Usando pincéis, espátulas, seus próprios
dedos e até tubos de ketchup, a menina cria telas
de aproximadamente um metro e meio, que já lhe
renderam mais de US$ 300 mil, tendo cerca de 200
compradores na lista de espera.
Nascida no estado de Nova York, em Fevereiro
de 2000, Marla começou a pintar antes de 2 anos.
Seu pai, gerente de uma fábrica e pintor amador, no
início achava que a pintura era apenas uma distração
para a filha, mantendo-a ocupada enquanto ele
próprio pintava. No entanto, logo passou a comprar
telas e tintas quando observou o senso de equilíbrio,
forma e composição presentes nos quadros abstra-
cionistas da filha. A mãe, recepcionista em tempo
parcial, conseguiu com um amigo que os trabalhos
da criança fossem expostos em uma lanchonete local.
O primeiro quadro, vendido por 250 dólares, foi logo
sucedido por outros. Em Agosto de 2004 a galeria
de artes Anthony Brunelli, de Nova York, atraiu
mais de 2.000 pessoas com a primeira exposição
de Marla, cujos quadros foram vendidos por cerca
de 6 mil dólares cada. Marla gosta de usar tintas
acrílicas coloridas e, diferentemente das crianças
de sua idade, constrói suas pinturas em camadas
e cobre toda a tela de tinta, não deixando espaços
vazios. Inicialmente trabalha com largas pinceladas
de tinta e com os dedos, e progressivamente outras
ferramentas são incorporadas ao trabalho, como
garrafas de plástico. O pai, atuando agora como seu
assistente, incentiva a filha a produzir com regula-
ridade e rapidez, pintando vários quadros por mês.
Segundo o pai, Marla pinta regularmente, três vezes
por semana, e em geral termina seu trabalho após
três horas de grande concentração.
Atraindo a atenção da mídia, e tornando-
se notícia no Te New York Times, Time, CBS News
e BBC News e em outras revistas, TV e jornais da
França, Alemanha, Canadá, Inglaterra, Espanha,
África do Sul, Austrália, Brasil e Itália, Marla tem
sido comparada a grandes gênios do expressionismo
abstrato, como Wassily Kandinsky e Jackson Pollock.
Em seu livro Crianças superdotadas: Mitos e
realidades, Winner (1998) chama a atenção para a
necessidade de se prover um ambiente enriquecido
com estimulação constante e variada. Pesquisas
relatam que a maioria dos adultos talentosos vêm
de famílias unidas que valorizam altas realizações
e de pais que revelam uma crença inabalável no
talento do filho. Embora a exigência parental e
altas expectativas estejam tipicamente associadas
com alto desempenho na vida adulta, há evidências
que crianças superdotadas param de se esforçar em
resposta ao excesso de pressão parental e podem
terminar desengajadas, deprimidas e ressentidas.
A conseqüência de um pai que faz exigências
constantes, manipula a vida dos filhos e vive intei-
ramente através de suas conquistas são relatadas em
inúmeras biografias de pessoas famosas que tiveram
sua infância roubada e o amor dos pais inteiramente
condicionados ao sucesso profissional. No entanto,
como acrescenta Winner, “alto desempenho em
qualquer domínio está sempre associado a altos
padrões estabelecidos por um adulto e que também
modela alto desempenho. O que leva algumas
crianças superdotadas a desengajar-se de seu talento
jamais são as altas expectativas, mas antes, superexi-
gência, dominação, exploração e privação emocional
extremas” (Winner, 1998, p.161).
PRODÍGIO NA LITERATURA
Descrita como “uma pequena gigante
literária” pela jornalista Diane Sawyer no programa
de entrevistas Good Morning America, Adora Svitak,
americana, filha de mãe chinesa e pai checo, de apenas
8 anos, surpreende por sua facilidade em escrever.
No programa de televisão, Adora demonstrou sua
capacidade de digitar setenta palavras por minuto
em seu laptop, escrevendo textos com uma estrutura
sofisticada para sua idade, respondendo perguntas e
demonstrando seu processo de escrita ao vivo, com a
ajuda de um projetor. Seu primeiro livro
6
, escrito aos
7 anos de idade, inclui nove histórias, poemas, e sua
opinião sobre política, religião, mídia e educação.
Sua mãe, Joyce Svitak, contribui no livro com dicas
5 http://www.marlaolmstead.com./
6 “Flying Fingers: Master the Tools of Learning Trough the Joy
of Learning”. Adora Svitak, Joyce Svitak. Copyrighted material.
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27
e estratégias de ensino para ajudar pais e professores
em como ensinar a criança a escrever, ilustrando cada
técnica ou exercício com as histórias escritas por
Adora. Apaixonada por história medieval e contem-
porânea, filosofia e mitologia, seus contos traduzem
sua paixão pela leitura e escrita. Adora entende que
sua missão engloba ensinar outras crianças a ler e
escrever, visitar escolas e repassar para os jovens o
prazer que a leitura e a escrita podem proporcionar.
Adora começou a ler com 3 anos de idade. Seus
pais, adeptos do home scooling ou ensino domiciliar, se
tornaram tutores das duas filhas, ensinando as disci-
plinas escolares em casa. Os pais acreditam que esta
forma de ensino é mais eficiente, na medida em que
o nível de atenção que podem proporcionar aos filhos
não pode ser replicado no ambiente escolar, sendo
que o resultado desta atenção se torna bem eviden-
ciado na leitura e escrita. A mãe de Adora relata que
ensinar a menina a escrever, aos 4 anos de idade,
foi um processo de tentativa-e-erro, o qual muito
ensinou a ambas. Adora progrediu rapidamente
em seu próprio ritmo, ultrapassando as expectativas
da mãe. Joyce Svitak assim explica este processo de
aguçar a imaginação da criança através da escrita:
“Peça a seu filho para completar uma sentença
simples tal como: “A casa era......” Se ele/ela não
consegue elaborar, comece fazendo uma série de
perguntas. A casa é feita de gelatina? A casa pode
voar? Uma vez que a criança comece a contemplar
as possibilidades divertidas, as palavras começarão
a jorrar. Se seu filho fica animado e começa a dar
muitas idéias, peça a ele/ela para escrever a primeira
idéia antes de partir para a próxima. Claro que esta é
apenas uma das atividades, mas eu geralmente sigo
os mesmos princípios com a maioria dos exercícios
educacionais. Eu faço perguntas, mantenho uma
atitude de brincadeira, e sempre me asseguro de
que meus filhos saibam que estou verdadeiramente
interessada no que eles têm para compartilhar
7
”.
Feldman (1991) argumenta que a expressão
do talento em nível excepcional envolve numerosos
elementos, os quais podem ser percebidos no caso
dos prodígios aqui citados, e que compreendem:
um ambiente cultural favorável; a presença de um
domínio ou área já em considerável estágio de
desenvolvimento e reconhecimento na sociedade,
no qual a pessoa se destaca (por exemplo, as áreas
de música, artes visuais e plásticas, literatura); a
presença de professores que dominam o conheci-
mento específico desta área; o reconhecimento da
família de que se trata de um talento extremo e estão
determinadas a dar total apoio e suporte à criança;
grandes doses de encorajamento e entendimento da
extensão do talento expresso pelo indivíduo.
OS GÊNIOS DA HUMANIDADE
Em nossa sociedade, é também comum que
as pessoas se refiram a uma criança como um gênio,
devido à sua precocidade em uma área específica,
como na música ou na matemática, ou por sua
facilidade em memorizar fatos, nomes e aconteci-
mentos. Freqüentemente o superdotado é associado
ao gênio, às habilidades inatas e ao desempenho
excelente em todas as áreas (Fleith & Alencar,
2001), numa clara demonstração da desinformação
sobre o tema em nossa sociedade.
O termo foi popularizado por Lewis Terman
que, em seu livro Genetic Studies of Genius, de 1926,
definia como gênio qualquer criança com um
QI superior a 140, conforme medido pelo teste
Stanford-Binet (Ehrlich, 1989). No entanto, os
pesquisadores da atualidade (por exemplo, Alencar,
2001; Feldhusen, 1985; Feldman, 1991) sugerem
que o termo “gênio” deva ser reservado para
descrever apenas aquelas pessoas que deram contri-
buições originais e de grande valor à humanidade
em algum momento do tempo. Os gênios são os
grandes realizadores da humanidade, cujo conheci-
mento e capacidades nos parecem sem limite, incri-
velmente excepcionais e únicas. São raras as pessoas
que atingem patamares excepcionais. Leonardo
da Vinci, Gandhi, Heitor Villa-Lobos, Stephen
Hawkins e Edson Arantes do Nascimento, o Pelé,
estão entre os grandes gênios da humanidade, em
seus campos específicos.
Em contrapartida, os termos “pessoa com altas
habilidades” e “superdotado” são mais apropriados
para designar aquela criança ou adolescente que
demonstra sinais ou indicações de habilidade
superior em alguma área do conhecimento, quando
comparado a seus pares. Não há necessidade de ser
uma habilidade excepcional para que este aluno seja
identificado. Essa distinção se torna importante,
uma vez que a palavra “superdotado”, como já foi
pontuado neste texto, vem carregada de conotações
que nos remetem erroneamente ao super-herói, ao
indivíduo com capacidades excepcionais e, portanto,
às habilidades raras inexistentes no ser humano
comum. É por esta razão que muitos pesquisadores
preferem o uso de termos alternativos, como “talento”
ou “altas habilidades”.
Além disso, é bom ter em mente que identifi-
camos as pessoas com altas habilidades/ superdotação
ou talentos não pelo mero prazer de rotulá-las, mas 7 http://ezinearticles.com/?expert=Joyce_Svitak
28
por entendermos que os educadores têm a obrigação
de oferecer experiências educacionais apropriadas e
diferenciadas aos seus alunos, a fim de desenvolver
de forma adequada e igualitária suas habilidades e
necessidades especiais.
Voltaremos aos gênios na próxima sessão,
enfocando a superdotação sob o prisma da gradação
de intensidade.
A superdotação pelo olhar da
ciência
As habilidades apresentadas por todas as
pessoas aqui citadas, sejam elas precoces, prodígios
ou gênios, e outros com habilidades e potenciais
menos aparentes, podem ser enquadradas em
um termo mais amplo, que é altas habilidades/
superdotação. Alencar e Fleith (2001) ressaltam
que a superdotação pode se dar em diversas áreas
do conhecimento humano (intelectual, social,
artística etc.), num continuum de habilidades, em
pessoas com diferentes graus de talento, motivação
e conhecimento. Assim, enquanto algumas pessoas
demonstram um talento significativamente
superior à população geral em algum campo, outras
demonstram um talento menor, neste mesmo
continuum de habilidades, mas o suficiente para
destacá-las ao serem comparadas com a população
geral (Virgolim, 1997).
DEFINIÇÃO BRASILEIRA
A definição brasileira atual considera os
educandos com altas habilidades/superdotação
aqueles que apresentam grande facilidade de
aprendizagem que os leve a dominar rapidamente
conceitos, procedimentos e atitudes (Brasil, 2001,
Art. 5º, III). Essa definição ressalta duas carac-
terísticas marcantes da superdotação, que são
a rapidez de aprendizagem e a facilidade com
que estes indivíduos se engajam em sua área de
interesse.Também, completa a apresentada pelas
Diretrizes gerais para o atendimento educacional
aos alunos portadores de altas habilidades/superdo-
tação e talentos (Brasil, 1995), que foi construída
a partir do referencial teórico apresentada por
Sidney Marland no relatório oficial da Comissão
de Educação ao congresso americano em 1971 e
posteriormente integrado na definição brasileira.
Permitiu, asim, que a superdotação ultrapassasse a
tradicional visão acadêmica para ser entendida em
uma perspectiva mais plural. Essa definição postula
que as pessoas com altas habilidades/superdotação
são os educandos que apresentam notável desem-
penho e/ou elevada potencialidade em qualquer dos
seguintes aspectos, isolados ou combinados:
a) Capacidade Intelectual Geral - Envolve
rapidez de pensamento, compreensão e
memória elevadas, capacidade de pensa-
mento abstrato, curiosidade intelectual,
poder excepcional de observação;
b) Aptidão Acadêmica Específica – Envolve
atenção, concentração, motivação por
disciplinas acadêmicas do seu interesse,
capacidade de produção acadêmica, alta
pontuação em testes acadêmicos e desem-
penho excepcional na escola;
c) Pensamento Criativo ou Produtivo
– Refere-se à originalidade de pensa-
mento, imaginação, capacidade de resolver
problemas de forma diferente e inovadora,
capacidade de perceber um tópico de muitas
formas diferentes;
d) Capacidade de Liderança – Refere-se à
sensibilidade interpessoal, atitude coope-
rativa, capacidade de resolver situações
sociais complexas, poder de persuasão e de
influência no grupo, habilidade de desen-
volver uma interação produtiva com os
demais;
e) Talento Especial para Artes – Envolve alto
desempenho em artes plásticas, musicais,
dramáticas, literárias ou cênicas (por
exemplo, facilidade para expressar idéias
visualmente; sensibilidade ao ritmo musical;
facilidade em usar gestos e expressão facial
para comunicar sentimentos); e
f ) Capacidade Psicomotora – Refere-se
ao desempenho superior em esportes e
atividades físicas, velocidade, agilidade de
movimentos, força, resistência, controle e
coordenação motora fina e grossa.
Esta definição é vantajosa, uma vez que
chama a atenção para importantes aspectos, como:
(a) a pluralidade de áreas do conhecimento
humano em que uma pessoa possa se
destacar, não se limitando à tradicional
visão acadêmica da superdotação;
(b) o entendimento de que as altas habilidades
se relacionam tanto com o desempenho
demonstrado quanto com a potencialidade
em vir a demonstrar um notável desem-
penho; e
(c) a percepção de que a superdotação se
modifica no decurso do desenvolvimento
do indivíduo.
Vejamos então como estas capacidades em
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distintas áreas podem ser observadas em pessoas
que se destacaram, no cenário mundial, pelo uso
superior destas habilidades. A nossa intenção aqui
é justamente mostrar como características únicas
de personalidade, a curiosidade, a criatividade, a
persistência e motivação intrínseca para se atingir
um objetivo, aliadas às oportunidades oferecidas por
um ambiente suportivo, foram fundamentais para
que o indivíduo chegasse a um patamar superior de
realizações. Embora focalizando nossa atenção em
pessoas extraordinárias, é nosso dever enquanto pais
e educadores favorecer a expressão das potenciali-
dades únicas de nossos filhos e alunos, por meio de
um ambiente de suporte e estimulação.
HABILIDADE INTELECTUAL GERAL:
STEPHEN HAWKING
O físico inglês Stephen William Hawking
(1942 - atual) é doutor em Cosmologia e um
dos mais consagrados físicos teóricos do mundo.
Conhecido pela ousadia de suas idéias e pelo humor
e clareza com que as expressa, Hawking utiliza como
principais campos de pesquisa a cosmologia teórica
e a gravidade quântica. Seu livro, O Universo em
uma casca de noz (Hawking, 2001), mostra seu poder
excepcional de abstração, a grandeza de seu pensa-
mento lógico-matemático e sua capacidade única de
ver problemas sob ângulos inusitados. Seu trabalho
com relação à singularidade no espaço-tempo e
com a relatividade geral reformulam as idéias de
Newton e de Einstein, o que lhe rendeu numerosos
prêmios e medalhas honrosas. Seus trabalhos com
Buracos Negros, como a quarta Lei da mecânica de
buraco negro, ocuparam grande parte de sua vida
adulta. Hawking fez descobertas importantes que
levaram o seu nome, como a radiação Hawking,
em que faz uma analogia dos buracos negros com a
termodinâmica. O asteróide 7672 Hawking é assim
chamado em sua homenagem.
Apesar de sofrer, desde os 21 anos, de esclerose
amiotrófica lateral, uma rara doença degenerativa
que paralisa, um a um, os músculos do corpo,
inclusive a musculatura voluntária, Hawking não
parou de trabalhar. Depois de sofrer uma traqueo-
tomia, passou a utilizar um sintetizador de voz para
se comunicar e, com seu auxílio (e muita perseve-
rança), publicou mais de 180 trabalhos, entre artigos,
livros e ensaios científicos
8
. Hawking demonstra
uma grande coragem, persistência em atingir seus
objetivos e uma enorme força para ultrapassar as
vicissitudes de sua vida. Nascido exatamente 300
anos depois da morte de Galileu, Hawking ocupa
hoje o posto que foi de sir Isaac Newton, atuando
como professor lucasiano de Matemática na
Universidade de Cambridge na Inglaterra.
Pela definição de superdotação apresentada,
Hawking se encaixa perfeitamente no perfil de
uma pessoa com habilidade intelectual geral.
Ressaltamos aqui sua capacidade de pensamento
abstrato, sua curiosidade intelectual e o poder
excepcional de observação dentro de usa área.
Aliados a estas características ressaltam-se aspectos
de personalidade, como persistência em atingir seus
objetivos, coragem e resilência. A resilência se refere
à capacidade interior de reagir aos sofrimentos e
tragédias da vida, tornando-se mais forte, criando
uma couraça de proteção e fazendo do sofri-
mento assumido uma alavanca para prosseguir a
luta da vida. Talvez a resilência tenha impulsionado
o jovem Stephen a ultrapassar os obstáculos da
doença e persistir nos caminhos que sua grande
potencialidade já apontava.
HABILIDADE DE PENSAMENTO CRIATIVO:
LEONARDO DA VINCI
Leonardo da Vinci (1452-1519) escreveu,
desenhou e fez estudos em inúmeras áreas:
geometria, anatomia, geologia, botânica, astro-
nomia, óptica, mecânica, arquitetura, projetos
bélicos, etc. Leonardo ficou conhecido pela forma
diferente e inovadora com que resolvia os mais
diversos problemas em áreas diferentes, assim como
por sua capacidade de perceber de muitas formas
diferentes um determinado assunto. Por exemplo,
Leonardo via a pintura como uma ciência e
desenhava com uma precisão matemática. Para ele,
o pintor deveria explorar ao máximo a capacidade
que os olhos, principal via do conhecimento, têm de
perceber a luz e as sombras, a posição e a distância,
o movimento e o repouso das coisas. Criou normas 8 http://www.hawking.org.uk/home/hindex.html
30
rigorosas de perspectiva a partir de suas observações
sobre os efeitos da atmosfera sobre uma paisagem.
Foi um observador atento dos movimentos do
mundo - da água, das nuvens, das folhas, dos
animais e da anatomia humana. Seus desenhos
anatômicos, produto de suas observações e disse-
cações de cadáveres, são considerados superiores
aos do célebre Andreas Vesalius, o grande anatomista
do Renascimento
9
. No entanto, Leonardo sempre
teve dificuldades para iniciar e acabar uma obra,
demonstrando não apenas um enorme desejo de
perfeição, quanto ao temor de se exibir uma obra
frente ao público, de ser julgado a partir do que fez,
de entregar sua obra a mãos alheias.
Alguns biógrafos de Leonardo conjecturam
que o próprio Leonardo desvalorizava seu destino
artístico diante do seu destino científico (Civita,
1977). É como engenheiro e arquiteto que ele se
apresenta à nobreza italiana, projetando edifícios
públicos, pontes, canais, fortalezas, armas, carros
de combate, embarcações, turbinas, teares. Talvez
pelo descompasso entre a mente do criador e a
capacidade tecnológica da Renascença, vários de
seus desenhos e criações só virariam realidade nos
séculos XIX e XX - máquinas voadoras, pára-
quedas, escafandros, submarinos – mostrando que
sua capacidade de aprender com a observação do
mundo, assim como sua poderosa imaginação e
pensamento original o colocavam a pelo menos 4
ou 5 séculos à frente de seu tempo. Por outro lado,
a grande parte de seus escritos não se destinavam à
publicação, mas pode-se especular que, se tivessem
sido publicados, poderiam ter mudado o rumo da
história das ciências.
O pensamento criativo e produtivo de
Leonardo, aliado à algumas de suas caracterís-
ticas pessoais, como percepção estética, agudeza
de observação e desejo de perfeição, assim como
um ambiente cultural propício às ciências e às
artes, provavelmente foram fatores essenciais que
o levaram a uma produção de mais alto nível em
sua vida adulta. Além disso, como pontua Gruber
(1986), as realizações criativas mais importantes da
humanidade foram o resultado direto de trabalho
prolongado, persistência e muitos anos dedicados à
tarefa que o criador tinha em mente.
HABILIDADES DE LIDERANÇA: GANDHI
Mohandas Karamchand Gandhi (1869 -
1948), mais conhecido popularmente por Mahatma
Gandhi (Mahatma, do sânscrito “grande alma”), foi
um dos idealizadores e fundadores do moderno
estado indiano e um influente defensor do Satyagraha
(princípio da não-agressão, forma não-violenta de
protesto) como um meio de revolução. Gandhi
ajudou a libertar a Índia do governo britânico,
inspirando outros povos coloniais a trabalhar pelas
suas próprias independências, para o desmante-
lamento do Império Britânico e sua substituição
pela Comunidade Britânica (Commonwealth). O
princípio do satyagraha, freqüentemente traduzido
como “o caminho da verdade” ou “a busca da verdade”,
também inspirou gerações de ativistas democráticos
e anti-racistas, incluindo Martin Luther King e
Nelson Mandela. Frequentemente Gandhi afirmava
a simplicidade de seus valores, derivados da crença
tradicional hindu: verdade (satya) e não-violência
(ahimsa).
Gandhi pregava a resistência pacífica, mas
ativa e provocativa, de forma a não se submeter ao
mal e estar disposto a dar até a vida se necessário
for, para provar que está do lado do que é justo, bom
e correto. Foi assim que, de demonstração maciça
em demonstração maciça, e com seu grande poder
de persuasão e de influência levou o povo indiano,
oprimido e dominado, a demonstrar ao Império
Britânico a sua superioridade moral. Gandhi
demonstra sua grande capacidade de resolver
situações sociais complexas quando sugere que a
Índia pode ganhar sua independência por meios
não violentos e por via da ego-confiança. Ele rejeita
a força bruta e sua opressão e declara que a força da
alma ou amor mantém a unidade das pessoas em
paz e harmonia.
Gandhi, embora se destacasse por sua
capacidade verbal e de linguagem, era tímido,
embora não tivesse receio em desafiar a autoridade
estabelecida; assim, com sua sensibilidade inter-
pessoal e atitude cooperativa empenhou-se em 9 Revista Super Interessante, Edição 226 - 05/2006
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descobrir as forças, medos e desejos legítimos de
ambas as partes, Índia e Grã-Bretanha, assim como
a compreender os estereótipos negativos que ambos
os lados mantinham uns pelos outros. Gandhi
vivia estritamente de acordo com uma norma que
estabeleceu para si mesmo: a de que agiria sempre
de acordo com a verdade. Perseverando na verdade e
na não-violência, opondo-se ativamente à injustiça,
desenvolveu uma imensa força interior, o que atraiu
muitos seguidores. Gandhi conseguiu convencer
pessoas no mundo inteiro a não julgar os outros pela
cor da pele ou pela história dos antepassados, e a
perceber a todos como seres humanos iguais; que era
possível haver discordância de forma não-violenta;
e que todos podem ser fortalecidos se comportarem
com dignidade. No entanto, demonstrando sua
habilidade de desenvolver uma interação produtiva
com o povo, pedia que as pessoas o seguissem
apenas se estivessem convictas do certo e do justo.
Não tinha nenhuma propriedade: sua riqueza era o
que dava ao povo e o que dele recebia; por muito
tempo pregou os ditames da honestidade e da
correção. Ganhou a simpatia de inúmeras pessoas
pelos esforços que empreendia em seu benefício, e
exercia tamanha atração sobre as massas, que muitos
indianos o consideravam o verdadeiro símbolo da
India (Nicholson, 1987). Suas frustrações pelo
erro ou fracasso eram elaboradas e transformadas
em oportunidades para aprender, refletir e planejar
outras formas de seguir em frente. Assim, a nobreza
do seu esforço e a convicção de que deixaria alguma
marca duradoura nas vidas futuras serviram de
estímulo e energia a este poderoso influenciador de
pessoas (Gardner, 1999).
O que tornou Gandhi um grande líder foi
sua capacidade de descobrir e ressaltar o que há de
melhor nas pessoas, estimulando-as a atingir aquilo
que elas pensavam ser impossível. É neste sentido
que Gandhi também se enquadra na definição
de liderança criativa que, segundo Sisk (1993), se
expressa por quatro aspectos ou atributos: (a) visão,
que permite ver as coisas como são e ainda vê-las da
perspectiva do que podem se tornar. Inclui-se aqui
também a idéia de ajudar os outros a construir e a
compartilhar uma visão comum; (b) coragem para
correr riscos calculados a fim de por em prática uma
idéia criativa; (c) absorção ou habilidade de se tornar
inteiramente envolvido no ato criativo; e (d) talento
e apreciação do próprio talento para se tornar um
líder cirativo em algum campo do conhecimento.
Estes fatores interagem com o tempo, história e
cultura em que a pessoa vive, dando forma ao tipo
de liderança que ela irá desenvolver em seu contexto.
Gardner (1999) também se refere ao líder como um
grande influenciador, que para ter sucesso necessita
ter um grande conhecimento na área pessoal, tanto
no sentido de entender os outros indivíduos (o que
os motiva, como trabalhar em cooperação com
eles e, se preciso for, como manipulá-los) quanto
entender a si próprio (uma arguta percepção de si
mesmo, principalmente seus objetivos instáveis, suas
fraquezas e necessidades). Desafiar autoridades, não
ter medo de se impor quando a situação assim o
exige e ser determinado e assertivo (sem necessaria-
mente ser agressivo), são fatores que se destacam na
paersonalidade de um líder.
É de extrema importância, no contexto atual,
que nossas escolas se empenhem em valorizar e
desenvolver as habilidades de liderança de seus
alunos. Como líderes do futuro, os alunos talentosos
precisam de estímulo para desenvolver os fatores
de personalidade favoráveis ao sucesso, para que
possam ser coroados de êxito em suas realizações
e trazer uma efetiva colaboração ao seu ambiente
sócio-cultural.
HABILIDADES ARTÍSTICAS (MÚSICA):
HEITOR VILLA-LOBOS
Heitor Villa-Lobos (1887- 1959) recebeu sua
primeira instrução musical aos seis anos, vinda do
pai, que adaptou uma viola para que o filho pudesse
estudar violoncelo. Sua formação musical foi muito
influenciada pela convivência, em sua casa, de
grandes nomes da época que apareciam para cantar
e tocar até de madrugada.
Além da cidade do Rio de Janeiro, onde
nasceu, Villa-Lobos residiu com a família em
cidades do interior do Estado e também de Minas
Gerais. Nessas viagens, entrou em contato com uma
música diferente da que estava acostumado a ouvir:
modas caipiras, tocadores de viola, enfim, uma parte
32
do folclore musical brasileiro que, mais tarde, viria a
universalizar-se através de suas obras. As Bachianas
Brasileiras surgiram quando constatou a semelhança
de modulações e contracantos do nosso folclore com
a música de Bach. Também seu ciclo inovador de
quatorze obras, intitulado “Choros”, para as mais
diversas formações, nasceu de uma mescla da música
urbana, aprendida em rodas de choro cariocas, com
modernas técnicas de composição.
Após viagens pelo Norte, Nordeste e
Centro-Oeste do Brasil, no final da década de
1910, ingressou no Instituto Nacional de Música,
no Rio, mas não chegou a concluir o curso, devido
à sua desadaptação - e descontentamento - com o
ensino acadêmico.
Suas primeiras peças tiveram a influência
decisiva de Stravinsky. Apesar de suas obras terem
aspectos da escrita européia, Villa-Lobos sempre
fundia suas obras com aspectos da música realizada
no Brasil, utilizando sons da mata, de eventos
indígenas, africanos, cantigas, choros, sambas e
outros gêneros muito utilizados no país. Embora
não tivesse um estilo definido, demonstrava prefe-
rências por alguns recursos estilísticos, como
combinações inusitadas de instrumentos, arcadas
bem puxadas nas cordas, uso de percussão popular
e imitação de cantos de pássaros
10.
Entre os títulos mais importantes que
recebeu, está o de Doutor Honoris Causa pela
Universidade de Nova Iorque. Foi o primeiro presi-
dente da Academia Brasileira de Música e regeu
onze orquestras brasileiras e quase 70 em diversos
países. Villa-Lobos caracterizou-se como um dos
maiores músicos do nosso tempo e sua genialidade
hoje se incorpora ao patrimônio artístico-cultural
do Brasil.
O talento artístico especial – aqui exempli-
ficado em Villa-Lobos, na área de música –
aparece frequentemente como um ímpeto criativo
que impele o indivíduo na direção da sua área de
interesse, seja compondo, pintando, desenhando,
dançando, escrevendo ou em outra expressão
artística. Gardner (1999) reflete que, muitas vezes,
a veia da composição criativa tem vida própria,
sendo talvez impossível desalojar esta veia dos
próprios ritmos de funcionamento do indivíduo. É
o que também Winner (1998) chama de “fúria por
dominar
11
”: uma interesse intenso e obsessivo em
um domínio no qual a pessoa demonstra facilidade
de aprender e de se expressar.
HABILIDADESPSICOMOTORAS: EDSON ARANTES
DO NASCIMENTO – PELÉ
Edson Arantes do Nascimento (1940
– atual), mais conhecido como Pelé, é considerado
o maior jogador da história do futebol e o mais
famoso. Recebeu o título de Atleta do Século de
todos os esportes em 1981, eleito pelo jornal francês
L’Equipe, superando outras lendas do esporte como
Juan Manuel Fangio e Mohammed Ali. No final de
1999, o Comité Olímpico Internacional – COI, por
meio de uma votação internacional entre todos os
Comitês Olímpicos Nacionais associados, também
elegeu Pelé o Atleta do Século.
Ainda criança, Edson manifestou a vontade
de ser jogador de futebol. A alcunha “Pelé”, que
o identificava como o maior goleador de todos os
tempos, teve origem num goleiro de nome “Bilé”,
a quem o menino admirava. As pessoas próximas
começaram a chamá-lo de “Bilé”. Muitas crianças,
colegas do garoto Edson, tinham dificuldade em
pronunciar “Bilé” e com o tempo o apelido virou
“Pelé”. Com dez anos ingressou no time infanto-
juvenil, o Canto do Rio, cuja idade mínima para parti-
cipar era de 13 anos elogo depois, estimulado pelo
pai, montou o seu próprio time: Sete de Setembro.
Sua percepção total do jogo sempre o carac-
terizou e permitiu saber o que fazer com a bola em
qualquer instante. Pelé apresentava força, resistência,
flexibilidade corporal, coragem e o controle total do
toque na bola. “Pensa, decide e executa” foi o lema
que aprendeu com seu pai, Dondinho.
Em qualquer parte do planeta suas qualidades
como esportista e ser humano são reconhecidas por 10 http://pt.wikipedia.org/wiki/Heitor_Villa-Lobos 11 (em inglês, rage to master)
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aficionados do futebol, entre eles reis, príncipes,
chefes de estado e até o Papa. Em 1994 – 36 anos
depois de conquistar pelo Brasil a primeira de suas
três Copas do Mundo, na Suécia em 1958 –, o “Rei”
foi ratificado por todo o continente europeu como
o melhor jogador da história do futebol. Dele, disse
o escritor Nelson Rodrigues: “Dir-se-ia um rei (...)
sua majestade dinástica há de ofuscar toda a corte
em derredor”, numa crônica profética publicada
na revista Manchete Esportiva, em 8 de março de
1958. Na Copa da Suécia, Pelé deslumbrou o mundo
com apenas 17 anos e passou a ser chamado de o
Rei do Futebol. Pelé levou o Brasil a ser conhecido
e respeitado – pelo menos no futebol. A Era Pelé se
traduziu em um tricampeonato mundial de futebol e
na posse definitiva da Taça Jules Rimet. O “Rei” jogou
114 partidas e marcou 95 gols com a camisa amarela.
Nas quatro Copas do Mundo que disputou, nas
inúmeras excursões do Santos e na sua temporada
pelo Cosmos, de Nova York, Pelé granjeou um
número incontável de admiradores. De gente simples
e anônima a artistas como Robert Redford e William
Hurt, chefes-de-estado como Mikhail Gorbatchóv
e Bill Clinton, papas, reis e rainhas. Todos eles
prestaram suas homenagens ao Rei Pelé.
12
São muitas as qualidades de Pelé que o
elevam à categoria de superdotado por suas habili-
dades psicomotoras especiais. Ressaltamos aqui sua
habilidade de perceber o campo em sua totalidade,
assim como de perceber a exata colocação de cada
jogador em um determinado momento da partida, o
que lhe possibilitava estar freqüentemente no lugar
certo no momento certo. Sua rapidez de raciocínio
em campo, a invenção de dribles que até então não
eram comuns, jogadas inesperadas e espetaculares
que surpreendiam o adversário e passes corretos e
calculados para seus colegas em campo o permitiram
marcar mais de 1200 gols em 50 anos de carreira.
Além disso, em uma época em que a técnica estava
ainda em seus primórdios, Pelé já se destacava pela
sua disciplina, preparação física e ética em campo,
direcionando seu comportamento para os objetivos
que estipulou para si enquanto jogador.
Neste sentido, tanto na área dos esportes,
quanto na acadêmica, na artística ou em qualquer
área da expressão do saber humano, somam-se
qualidades importantíssimas para que o indivíduo
atinja a excelência. Destacamos aqui alguns destes
traços, como a persistência, a dedicação, a motivação
intrínseca, a busca disciplinada para atingir os
objetivos propostos, a obsessão em dominar perfei-
tamente uma determinada área e contribuir para ela,
a criatividade na busca de solução de problemas e a
paixão pelo que se faz. Mesmo não esperando irrea-
listicamente que seu filho ou aluno seja um gênio ou
prodígio em determinada esfera do conhecimento, é
nosso papel enquanto educadores fornecer experi-
ências variadas e oportunidades para que a expressão
peculiar do talento de cada um encontre um campo
fértil e possa germinar. Este aspecto será lembrado
na próxima sessão.
ELEMENTOS IMPORTANTES NA SUPERDO-
TAÇÃO
`Heterogeneidade, multipotencialidades e
níveis de habilidades
Em geral, as pessoas superdotadas não
apresentam, de forma simultânea ou mesmo em
graus semelhantes, as habilidades descritas neste
capítulo, conforme citadas na definição brasileira de
1994. Um dos aspectos mais marcantes da superdo-
tação relaciona-se ao seu traço de heterogeneidade.
Assim, algumas pessoas podem se destacar em
uma área, ou podem combinar várias, como no caso
já citado de Leonardo da Vinci. Podemos também
tomar como exemplo o humorista brasileiro Jô
Soares que, além de exibir um pensamento criador
e original, bem como um perfil bem-humorado,
também se revela na área musical, tocando múltiplos
instrumentos; no campo da linguagem, falando
vários idiomas, escrevendo livros e crônicas e se
revelando um perspicaz entrevistador; no desem-
penho artístico, interpretando e incorporando
personagens; e ainda no setor da liderança, por seu
carisma e capacidade de coordenar grupos. A essa
confluência de habilidades chamamos de multipo-
tencialidades, que representa mais uma exceção do
que uma regra entre os indivíduos superdotados.
No entanto, o que se observa com maior
freqüência são pessoas que se desenvolvem mais em 12 http://www.geocities.com/augusta/2076/pele.html
34
apenas uma área específica – como poesia, ciências,
artes, música, dança, xadrez, ou mesmo nos esportes
– do que em várias áreas de uma só vez.
Desta forma, Pelé e Ronaldinho, no futebol,
Gustavo Kuerten, no tênis, Carlos Drummond de
Andrade e Olavo Bilac, na poesia, Ana Botafogo,
na dança, Chiquinha Gonzaga e Tom Jobim, na
música, Portinari e Tarsila do Amaral, nas artes
plásticas, ou Padre Marcelo Rossi e Silvio Santos na
capacidade de liderança, são exemplos de brasileiros
que se destacaram em seus campos por demons-
trarem habilidades específicas a um nível superior
aos seus pares, em um dado momento cultural.
Alunos superdotados diferem uns dos outros
também por seus interesses, estilos de aprendizagem,
níveis de motivação e de autoconceito, características
de personalidade, e principalmente por suas neces-
sidades educacionais. De acordo com pesquisadores
(Davis & Rimm, 1994; Gallagher & Gallagher, 1994),
sejam quais forem as afirmações que se possam fazer
a respeito das pessoas com altas habilidades, sempre
haverá alguma exceção, impedindo que generalizações
sejam feitas. Além disso, as características apresen-
tadas por esta população não envolvem causa-e-efeito.
Neste sentido, quando se fala que alunos superdotados
são mais sociáveis, não se pode concluir que um alto
QI leva necessariamente a uma maior popularidade
social. Outros fatores devem ser levados em conta
nesta equação. Por exemplo, pesquisas revelam que
não devemos esperar que duas características como
desajuste emocional e superdotação apareçam juntos;
e se isso acontece, é um sinal de que algo está errado.
Torna-se necessária uma cuidadosa avaliação para se
observar o que pode causar o desajuste emocional da
criança, ao invés de se assumir que a superdotação
fatalmente leva ao desajustamento e que nada pode
ser feito quanto a isso.
`Influências da genética e do ambiente
Falamos anteriormente que o superdotado é
aquele indivíduo que, quando comparado à população
geral, apresenta uma habilidade significativamente
superior em alguma área da atividade e do conheci-
mento humanos (Alencar, 2001). Veremos agora como
outros teóricos da área percebem a superdotação.
Um dos grandes pesquisadores da área de
superdotação no cenário mundial é Jonh Feldhusen,
professor emérito e diretor do Gifted Education
Resource Institute da Universidade de Purdue em
Indiana, Estados Unidos. Este autor tem uma visão
interacionista da superdotação, percebida como uma
interação entre a genética e o ambiente. Para ele, os
talentos de uma pessoa surgem, por um lado, de uma
habilidade geral que nos é dada por nossa disposição
genética. Assim, uma pessoa com alta capacidade
em uma área provavelmente herdou uma dispo-
sição genética dos pais ou parentes próximos. Por
outro lado, a superdotação também dependeria das
experiências no lar e na escola, dos estilos de apren-
dizagem e dos interesses e motivações únicas de cada
aluno. Pensando nesta perspectiva, a predisposição
genética nos dá a extensão em que uma determinada
habilidade poderia se desenvolver. Exatamente por
ser uma predisposição, isto não significa que seja um
fator determinante; significa apenas que, dadas as
condições propícias do ambiente, aquela disposição
pode se concretizar (Feldhusen, 1992).
Plomin (1997), um dos maiores estudiosos
deste campo na atualidade, considera que tanto a
genética quanto o ambiente seriam igualmente
responsáveis pelas variações na inteligência da
criança; no entanto, ambos devem ser vistos como
propensões genéticas, e não como fatores pré-deter-
minados e imutáveis. Isto significa que, em termos
práticos, não temos como prever toda a extensão em
que as potencialidades de uma criança poderão ser
desenvolvidas. Não termos ainda, no atual estágio
das pesquisas sobre o genoma humano, conheci-
mento dos genes responsáveis pela inteligência. O
que sabemos é que, se fornecermos oportunidades
adequadas para uma criança satisfazer sua curio-
sidade sobre o ambiente que a cerca, seu potencial
genético poderá levá-la a se desenvolver de acordo
com suas capacidades. Portanto, o que está em
nossas mãos é o fornecimento de um ambiente
enriquecido e estimulador.
O que é um ambiente enriquecido? Segundo
a pesquisadora da Universidade da Califórnia,
Marian Diamond, é aquele que:
(...) inclui uma fonte constante de apoio
emocional positivo; fornece uma dieta nutritiva
com proteínas, vitaminas, minerais e calorias sufi-
cientes; estimula todos os sentidos (mas não ne-
cessariamente todos ao mesmo tempo); tem uma
atmosfera sem estresse exagerado e repleta de pra-
zer intenso; apresenta uma série de novos desafios,
nem tão difíceis, nem tão fáceis, para o estágio ade-
quado de desenvolvimento da criança; permite uma
interação social em uma porcentagem significativa
de atividades; promove o desenvolvimento de uma
série de habilidades e interesses mentais, físicos,
estéticos, sociais e emocionais; fornece a oportuni-
dade de a criança escolher suas próprias atividades;
dá chance à criança de ver os resultados do seu es-
forço e modificá-los; tem uma atmosfera agradável
que promove a exploração e o prazer de aprender; e,
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acima de tudo, os ambientes enriquecidos permitem
que a criança seja um participante ativo e não um
observador passivo do seu próprio desenvolvimento
(Diamond & Hopson, 2000, p. 103-105).
Estas autoras acreditam que a estimulação
variada, a riqueza de oportunidades em áreas diversas,
o estímulo à leitura e à criatividade, e fundamental-
mente, amor, carinho e atenção são elementos que
constituem a resposta adequada para os pais que
querem ajudar seus filhos a atingirem sua plena
auto-realização conforme suas potencialidades e a
crescerem como indivíduos sadios e integrados.
Vejamos o exemplo de Heitor Villa-Lobos.
O menino cresceu em um ambiente interessante
e estimulador, onde a música era tocada e o alto
desempenho reforçado. Os pais, músicos, prova-
velmente influenciaram Heitor de duas maneiras:
uma, pela predisposição genética para a sensibi-
lidade quanto à estrutura musical, como a distinção
de tonalidades, harmonia e ritmo; e por outra, pelo
reforço e estímulo ao desempenho musical de alto
nível. Segundo Winner (1998), a superdotação
musical pode aparecer precocemente, antes talvez de
outras habilidades em outros domínios. Isto pode se
dar, talvez, por ser um domínio formalmente estru-
turado e altamente regido por regras, e por estimular
o prazer e o interesse da criança por sons musicais
desde tenra idade. Desta forma, o prazer de ouvir
música e, posteriormente de tocar e compor, foram
altamente reforçados na infância de Villa-Lobos e,
somados à sua herança genética peculiar, tornando-
se parte essencial da pessoa com talentos extraordi-
nários que ele viria a se tornar.
`Experiências cristalizadoras
Um outro elemento importante a se considerar
com relação à influência do ambiente da criança na
sua produção superior quando adulta, se refere ao
que Gardner e Feldman chamam de “experiências
cristalizadoras” (Walters & Gardner, 1986). Para
exemplificar este conceito, os autores citam um
evento crucial na vida do pintor impressionista
francês Pierre-August Renoir (1841-1919), quando
este tinha 12 anos de idade.
Naquela época, Renoir era um aprendiz
talentoso na área de pintura em porcelana, cuja
habilidade com os pincéis e a delicadeza das cores
que utilizava já lhe rendia um salário de adulto. A
despeito de sua proficiência técnica, Renoir ainda
demonstrava pouco interesse e sensibilidade para as
qualidades estéticas das artes visuais, embora tivesse
um bom contato com os trabalhos dos grandes
mestres da pintura. Em uma de suas visitas ao
Louvre, aonde ia freqüentemente para fazer esboços
de obras que poderia usar em porcelana, Renoir
teve uma experiência diferente, ao descobrir a Fonte
dos Inocentes, trabalho do escultor do século XVI,
Jean Goujon. As ninfas, retratadas nesta escultura,
são levemente esguias, as vestes sutilizadas, trans-
mitindo a volúpia serena das simpáticas figuras da
mitologia, que ali deitam água na fonte. A beleza
do trabalho o deixou desnorteado, e esquecendo
tudo, até mesmo o almoço, passou horas obser-
vando o grupo de estátuas de vários ângulos. Neste
momento, relata o artista que teve uma afinidade
especial com o trabalho do escultor; percebia neste
trabalho tudo aquilo que ele mais prezava em uma
obra: graça, solidez, elegância, realismo. A forma
com que o escultor fazia a roupagem se moldar
nas figuras de forma realista o impressionou. Até o
momento ele não havia percebido como a roupagem
poderia ressaltar a forma e este insight o fez buscar
novas formas de expressão artística.
Assim, a experiência de Renoir na Fonte dos
Inocentes cristalizou a noção do poder da escultura
para transcender o mundo limitado da decoração
em porcelana. A experiência cristalizadora, por
não ser um ensinamento formal da escola, vem de
dentro, da percepção súbita de um aspecto que faz
toda a diferença para o artista, e que provavelmente
será lembrado retrospectivamente em momentos
futuros na vida desta pessoa.
O matemático inglês Godfrey Harold Hardy
(1877-1947), reconhecido mundialmente por sua
teoria dos números e análise matemática, relata uma
experiência cristalizadora interessante, ocorrida em
sua adolescência. Embora filho de pais professores,
ambos de reconhecido saber na área de matemática,
Hardy não tinha, aparentemente, uma grande paixão
pela Matemática. Em 1896, quando tinha 19 anos,
ganhou uma bolsa de estudo para o Trinity College,
em Cambridge, onde passou a estudar com o prof.
Love. Ele relata: “aprendi pela primeira vez o que a
matemática realmente significava. Desta época em
diante, eu já estava no caminho de me tornar um
matemático de verdade, com ambições matemá-
ticas sólidas e uma genuína paixão pela matemática”
(Walters & Gardner, 1986, p. 317). Em 1900, Hardy
foi eleito Fellow de Trinity e, no ano seguinte, recebeu
o prêmio Smith, ao qual se seguiram numerosos
prêmios e distinções honrosas.
Por sua natureza, as experiências cristali-
zadoras são pessoais e privadas; freqüentemente o
indivíduo as guarda apenas para si e, anos depois, em
retrospectiva, se torna consciente dela. Não podemos
prever, com antecedência, quais experiências
36
poderão se tornar cristalizadoras para uma criança.
No entanto, em termos de uma boa pedagogia,
recomenda-se a exposição da criança desde a mais
tenra idade a materiais que possam motivá-las a
explorar um determinado domínio.
Neste sentido, Renzulli e Reis (1986)
também recomendam atenção para a importância
de se enriquecer a vida dos alunos através de experi-
ências que usualmente não fazem parte do currículo
da escola regular; e estimular novos interesses que
possam levar o aluno a aprofundá-los em atividades
criativas e produtivas posteriores.
Feldhusen e Jarwan (2000) consideram que
os superdotados e talentosos são os maiores recursos
de uma nação. Mas somente se obtiverem apoio e
afeto familiares, assim como serviços educacionais
adequados, desafiadores e de alto nível, é que
poderão desenvolver seu potencial humano, levar
vidas enriquecidas e satisfatórias, e se tornar os
profissionais, artistas, educadores e líderes que farão
diferença em nossa nação e no mundo.
`Habilidades superiores, criatividade e
motivação
O que produz a habilidade superior? Joseph
Renzulli, renomado pesquisador do Centro Nacional
de Pesquisa sobre o Superdotado e Talentoso da
Universidade de Connecticut, nos Estados Unidos,
considera que as pessoas que, no desenrolar da
história, foram reconhecidas por suas contribuições
únicas, originais e criativas demonstraram possuir um
conjunto bem definido de traços, a saber: habilidade
acima da média em alguma área do conheci-
mento; envolvimento com a tarefa; e criatividade
(Renzulli, 1986). A realização criativa/produtiva,
que resulta dos comportamentos de superdotação,
seria obtida, segundo Renzulli, apenas quando estes
três conjuntos de traços estivessem dinamicamente
em interação (ver quadro 2), como representado
pela porção interna do Diagrama de Venn. Em seu
Modelo dos Três Anéis, Renzulli pontua que nem
sempre a criança apresenta este conjunto de traços
desenvolvidos igualmente, mas, se lhe forem dadas
oportunidades, poderá desenvolver amplamente
todo o seu potencial.
Habilidade acima da média engloba a
habilidade geral e a específica. A habilidade geral
consiste na capacidade de utilizar o pensamento
abstrato ao processar informação e de integrar
experiências que resultem em respostas apropriadas
Quadro 2 - Diagrama da Teoria dos Três Anéis
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e adaptáveis a novas situações. Em geral, essas habili-
dades são medidas em testes de aptidão e de inteli-
gência, como raciocínio verbal e numérico, relações
espaciais, memória e fluência verbal. Habilidades
específicas consistem na habilidade de aplicar várias
combinações das habilidades gerais a uma ou mais
áreas especializadas do conhecimento ou do desem-
penho humano, como dança, fotografia, liderança,
matemática, composição musical, etc.
Envolvimento com a tarefa se refere à energia
que o indivíduo investe em uma área específica de
desempenho e que pode ser traduzido em termos
como perseverança, paciência, autoconfiança
e crença na própria habilidade de desenvolver
um trabalho. Trata-se de um ingrediente muito
presente naqueles indivíduos que se destacam por
sua produção criativa.
A criatividade tem sido apontada como um
dos determinantes na personalidade dos indivíduos
que se destacam em alguma área do saber humano.
No entanto, como é difícil de se medir a criati-
vidade por meio de testes fidedignos e válidos, tem
sido proposta a utilização de métodos alternativos
em adição aos testes, como a análise dos produtos
criativos e auto-relatos dos estudantes (Hocevar &
Bachelor, 1989; Reis, 1981). No entanto, torna-se
um desafio determinar os fatores que levariam o
indivíduo a usar seus recursos intelectuais, motiva-
cionais e criativos de forma em produtos de nível
superior ou em comportamentos de superdotação.
Renzulli utiliza o termo “superdotado” como
um adjetivo, em uma perspectiva desenvolvimental.
Desta forma, prefere falar e escrever sobre o desen-
volvimento de comportamentos de superdotação em
áreas específicas da aprendizagem e expressão
humanas, ao invés de “superdotado” como uma forma
de ser. Segundo ele, esta orientação tem permitido
a muitos alunos oportunidades para desenvolverem
altos níveis de realização criativa e produtiva que,
de outra forma, teriam sido negadas pelos modelos
tradicionais dos programas especiais (Renzulli &
Reis, 1997b).
É tarefa da escola estimular o desenvolvi-
mento do talento criador e da inteligência em todos
os seus alunos e não só naqueles que possuem um
alto QI ou que tiram as melhores notas; desenvol-
ver comportamentos superdotados em todos aque-
les que têm potencial; nutrir o potencial da criança,
rotulando o serviço e não o aluno; e desenvolver
uma grande variedade de alternativas ou opções
para atender as necessidades de todos os estudantes
(Treffinger & Renzulli, 1986).
Há várias considerações práticas que podem
ser feitas com relação ao Modelo dos Três Anéis.
Uma delas e a de que nenhum dos traços mencio-
nados – habilidade acima da média, envolvimento
com a tarefa e criatividade – é mais importante que
o outro e nem todos necessitam estar presentes ao
mesmo tempo, ou na mesma quantidade, para que os
comportamentos de superdotação se manifestem. Isto
implica em que, no processo de identificar uma criança
para fazer parte de um programa de enriquecimento,
pelo menos um destes traços deve estar presente, em
um nível mais acentuado, enquanto os outros poderão
ser desenvolvidos no desenrolar do programa.
Tomemos como exemplo o caso de Neil,
relatado por Baum e cols. (1991). Neil era um adoles-
cente com dificuldades de aprendizagem, expressas
tanto por dificuldades na organização escrita
quanto para realizar tarefas seqüenciais de álgebra
e matemática. Com baixa motivação no ambiente
escolar, Neil era descrito por seus professores como
preguiçoso e desajeitado e visto como o palhaço da
classe pelos seus colegas. Suas dificuldades na escola
começaram a ser percebidas por volta da 4
a
série,
quando também começou a ter depressão e outros
problemas psicológicos. No mais, Neil era um
adolescente bastante sensível, perceptivo e criativo,
com alta inteligência. Os professores reconheciam
que suas preocupações e interesses eram de natureza
mais global, e que transcendiam os interesses de seus
colegas. No entanto, o rapaz demonstrava grande
entusiasmo concentração e alto interesse quando,
munido de sua câmara fotográfica, fotografava
pessoas, tentando captar suas diversas disposições
de humor. Os pais começaram então a incentivá-
lo, e Neil passou a se oferecer para fotografar
festas e ocasiões. Seus ensaios fotográficos lhe
valeram prêmios em competições de fotógrafos
amadores. Aprendeu sozinho a tocar piano e violão,
passando horas tocando para seu próprio diverti-
mento. Na escola, fez um criativo ensaio fotográfico
mostrando a profundidade dos seus sentimentos
sobre o tema “Como eu me sinto a respeito da
escola”, uma vez que se sentia incapaz de realizar
tal tarefa através da escrita. Com estímulos como
este, Neil eventualmente se tornou mais interessado
pelo ambiente escolar e suas notas se tornaram
progressivamente melhores.
Se Neil fosse indicado para um programa de
enriquecimento, suas habilidades na área artística,
como sensibilidade estética e percepção de detalhes
poderiam ser mais estimulados e suas técnicas de
fotografia aperfeiçoadas. Embora ele não tivesse
habilidades na área acadêmica no nível esperado
38
por seus professores, a motivação em fazer deter-
minadas tarefas ligadas aos seus interesses e a criati-
vidade de suas produções artísticas seriam, por si só,
fatores impulsionadores para que níveis mais altos
de produtividade pudessem ser atingidos. Renzulli
(2004a) observa que a criatividade e o envolvimento
com a tarefa são traços variáveis, que podem estar
presentes em maior ou menor grau, dependendo
da atividade; o aparecimento de um pode estimular
o aparecimento do outro, principalmente quando
a pessoa se sente reforçada por si mesma e pelos
outros. No caso exemplificado por Neil, observou-
se que, ao colocar sua idéia criativa em ação, seu
envolvimento com a tarefa começava a emergir.
Da mesma forma, um grande envolvimento para
se resolver uma situação-problema pode ativar o
processo de resolução criativa de problemas.
O caso de Neil também demonstra que a
criatividade e o envolvimento com a tarefa podem
ser modificados e influenciados positivamente
por experiências educacionais bem planejadas
(Gubbins, 1982; Renzulli, 1985), como fizeram seus
professores. Se o aluno oferece uma única porta de
entrada para o reconhecimento de seu potencial, é
tarefa do professor aproveitá-la e transformá-la em
uma experiência enriquecedora e estimuladora para
o aluno.
Sabemos que, além dos fatores genéticos, a
superdotação é influenciada também por fatores
do indivíduo (como auto-estima elevada, coragem,
persistência, energia, alta motivação) e por fatores
ambientais (oportunidades variadas, persona-
lidade e nível educacional dos pais, estimulação
dos interesses infantis, entre outros). Sendo assim,
conforme acredita Renzulli, a superdotação emerge
ou “se esvai” em diferentes épocas e sob diferentes
circunstâncias da vida de uma pessoa. Assim sendo,
os comportamentos de superdotação podem ser
exibidos em certas crianças (mas não em todas elas)
em alguns momentos (não em todos os momentos) e
sob certas circunstâncias (e não em todas as circuns-
tâncias de sua vida) (Renzulli, 1985; Renzulli e Reis,
1997a; Renzulli, Reis & Smith, 1981). Esta posição
é bastante polêmica, pois vai contra a tradicional
postura de se compreender a inteligência como um
Figura 1 - Estágios do desenvolvimento dos
talentos (Gubbins, 2005) .
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traço imutável e único, e que se traduz no mito de
“uma vez superdotado, sempre superdotado”.
`Potencialidade: estágios do desenvolvi-
mento do talento
A Teoria dos Três Anéis, revolucionária
mesmo entre os teóricos da área, nos remete à
questão da potencialidade. Segundo Renzulli, uma
criança com alta motivação a realizar um trabalho,
ou a aprofundar um determinado tópico, técnica
ou atividade, poderá se esforçar e vir a dominar,
em algum momento, o conhecimento associado a
esta área de interesse, mesmo que anteriormente
não tenha demonstrado uma capacidade intelectual
superior. Neste sentido, a persistência em atingir um
determinado resultado, a autoconfiança e a determi-
nação podem colaborar para fazer desta criança um
adulto produtivo (Renzulli, 1986b).
É interessante notar que alguns adultos
descobrem, às vezes mais tarde na vida, que possuem
habilidades superiores em alguma área, como
aconteceu com Charles Darwin e com o compo-
sitor Igor Stravinsky, que tiveram um desabrochar
tardio (Winner, 1998). Neste mesma linha de
pensamento, Gubbins (2005) lembra que o desen-
volvimento do talento se dá em estágios, como
pode ser visto na Figura 1. Para algumas pessoas
estes talentos aparecem de maneira óbvia. É o caso
da criança pré-escolar que já lê e entende textos
de maior complexidade, ou que manifesta grandes
habilidades para resolver problemas em matemática
ou para criar músicas originais. No entanto, outras
crianças podem apresentar habilidades ou talentos
em estágios iniciais de emergência, precisando
então de atenção especial e encorajamento para que
possa atingir plenamente os requisitos necessários
para a emergência destas capacidades. E ainda
há aqueles talentos e capacidades que podem
estar em estágio latente devido aos níveis de
desenvolvimento ou pela falta de experiências e
da devida exposição aos domínios.
Por outro lado, a falta de incentivo,
de experiências de aprendizagem ou de vida
enriquecedoras, a falta de reconhecimento das
capacidades e potencialidades de uma criança,
poderão, por sua vez, concorrer para o desuso
destas habilidades e sua conseqüente estagnação
(Galbraith & Delisle, 1996).
Renzulli acredita que, para serem produ-
tores de conhecimento (e não meramente consu-
midores de conhecimento), nossos alunos devem
ter a oportunidade de desenvolver materiais
e produtos originais, como aprendizes em
primeira-mão. Neste sentido, os alunos devem
ter a oportunidade de trabalhar em problemas
que têm alguma relevância para eles e que são
considerados desafiadores e interessantes, e de
poderem pensar, sentir e agir como o profis-
sional da área em que seu interesse se manifestou
(Renzulli, 1986a, 1986c). Além disso, lembra
este autor que:
As pessoas que marcaram a história por
suas contribuições ao conhecimento e à cultura
não são lembradas pelas notas que obtiveram na
escola ou pela quantidade de informações que
conseguiam memorizar, mas sim pela qualidade
de suas produções criativas, expressas em con-
certos, ensaios, filmes, descobertas científicas,
etc. (Renzulli & Reis, 1985, p. 5).
O Quadro 4 ilustra bem esta concepção
(Galbraith & Delisle, 1996, p. 12):
QUADRO 3: O QUE NOS MOSTRA A HISTÓRIA?
` O professor de música de Beethoven uma
vez disse que, como compositor, ele era “sem
esperança”.
` Isaac Newton - que descobriu o cálculo,
desenvolveu a teoria da gravitação universal,
originou as três leis do movimento - tirava notas
baixas na escola.
` Albert Einstein tinha dificuldades de ler e
soletrar e foi reprovado em matemática.
` John Kennedy
recebia em seus
boletins constan-
tes observações
de “baixo rendi-
mento” e tinha
dificuldades em
soletrar.
` Walt Disney
foi despedido pelo
editor de um jornal
porque ele “não
tinha boas idéias e
rabiscava demais”
` Dr. Robert Jarvick foi rejeitado por 15
escolas americanas de medicina. Ele inventou o
coração artificial.
` Thomas Edison, que além da lâmpada elé-
trica inventou a locomotiva elétrica, o fonógrafo
(que virou o gravador), o telégrafo e o projetor
de cinema, foi um mau aluno, pouco assíduo e
desinteressado. Saiu da escola e foi alfabeti-
zado pela mãe.
Como reconhecer uma
criança superdotada?
As características cognitivas, afetivas e sociais
do superdotado
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Características cognitivas e
afetivas do superdotado
A literatura na área é abundante nas
listagens de características das crianças superdo-
tadas. Embora os autores difiram na forma com
que abordam as altas habilidades/superdotação,
algumas características são comuns a todos eles.
Renzulli (2004b), por exemplo, chama a atenção
para duas categorias amplas e distintas de habili-
dades superiores: a superdotação escolar e a
superdotação criativo-produtiva.
A superdotação escolar pode também ser
chamada de “habilidade do teste ou da apren-
dizagem da lição”, pois é o tipo mais facilmente
identificado pelos testes de QI para a entrada
nos programas especiais. Como as habilidades
medidas nos testes de QI são as mesmas exigidas
nas situações de aprendizagem escolar, o aluno
com alto QI também tira boas notas na escola.
A ênfase neste tipo de habilidade recai sobre
os processos de aprendizagem dedutiva, treina-
mento estruturado nos processos de pensamento,
e aquisição, estoque e recuperação da infor-
mação. As crianças que apresentam a superdo-
tação escolar tendem a apresentar as seguintes
características (Renzulli & Reis, 1997a):
Tira notas boas na escola
Apresenta grande
vocabulário
Gosta de fazer perguntas
Necessita pouca repetição
do conteúdo escolar
Aprende com rapidez
Apresenta longos períodos
de concentração
Tem boa memória É perseverante
Apresenta excelente
raciocínio verbal e/ou
numérico
É um consumidor de
conhecimento
Lê por prazer
Tende a agradar aos
professores
Gosta de livros técnicos/
profissionais
Tendência a gostar do
ambiente escolar
Dentre suas características afetivo-emocio-
nais deste grupo, Renzulli e Reis (1997a) destacam:
O superdotado do tipo
“escolar” tem neces-
sidade de saber sempre
mais e busca ativa-
mente por novas apren-
dizagens. No entanto,
pode estabelecer metas
irrealisticamente altas
para si mesmo (às vezes
reforçadas pelos pais) e
sofrer por medo de não
atingir tais metas.
Demonstra perseverança
nas atividades
motivadoras a ele
Apresenta grande
necessidade de
estimulação mental
Apresenta grande
intensidade emocional
Tem paixão em aprender
Revela intenso
perfeccionismo.
Já a superdotação criativo-produtiva implica o
desenvolvimento de materiais e produtos originais;
aqui, a ênfase é colocada no uso e aplicação da
informação – conteúdo – e processos de pensa-
mento de forma integrada, indutiva, e orientada
para os problemas reais. O aluno, nesta abordagem,
é visto como um “aprendiz em primeira-mão”, no
sentido de que ele trabalha nos problemas que têm
relevância para ele e são considerados desafiadores.
As crianças que apresentam a superdotação do tipo
criativo-produtiva tendem a apresentar as seguintes
características (Renzulli & Reis, 1997a):
Não necessariamente
apresenta QI superior
Pensa por analogias
É criativo e original Usa o humor
Demonstra diversidade
de interesses
Gosta de fantasiar
Gosta de brincar com as
idéias
Não liga para as
convenções
É inventivo, constrói
novas estruturas
É sensível a detalhes
Procura novas formas de
fazer as coisas
É produtor de
conhecimento
Não gosta da rotina Encontra ordem no caos
Renzulli e Reis (1997a) destacam neste grupo
as seguintes características afetivas e emocionais:
Investem uma
quantidade significativa
de energia emocional
naquilo que fazem.
Apresentam preocupação
moral em idades
precoces
Necessitam de
professores sensíveis
aos seus intensos
sentimentos de
frustração, paixão,
entusiasmo, raiva e
desespero.
Precisam do apoio dos
adultos para persistir
em suas tarefas ou para
canalizar suas energias de
forma mais eficiente.
Frequentemente
questionam regras/
autoridade
Demonstram
sensibilidade / empatia
Demonstram auto-
consciência
Demonstram
perceptividade (insight)
Demonstram capacidade
de reflexão
Apresentam senso agudo
de justiça
Apresentam imaginação
vívida
44
Galbraith e Delisle (1996) apresentam uma
lista de comportamentos para ajudar os professores
a desenvolverem um olhar sensível para a identifi-
cação dos talentos e das altas habilidades em sala
de aula. Lembram os autores que, para ser consi-
derado superdotado, o aluno não precisa exibir
todas estas características. Contudo, se o professor
observa que alguns alunos exibem consistente-
mente muitos destes comportamentos, a possi-
bilidades que eles apresentam altas habilidades
é bastante forte. O Quadro 5 apresenta algumas
características.
Um maior detalhamento das características
sociais, emocionais e cognitivas dos alunos com
altas habilidades/superdotação será apresentado na
próxima sessão.
Necessidades sócio-emocionais
Vários autores concordam que, em se tratando
de crianças superdotadas, altos níveis de desenvolvi-
mento cognitivo não necessariamente implicam em
altos níveis de desenvolvimento afetivo (Clark, 1992;
Neihart, Reis, Robinson & Moon, 2002; Silverman,
1993). Essas crianças são caracterizadas afetivamente
por uma grande sensibilidade, proveniente da acumu-
lação de uma quantidade maior de informações
e emoções, captadas pela criança, do que ela pode
absorver e processar. A informação emocional vem
tanto de fora quanto de dentro da própria criança,
a qual precisará aprender a aplicar suas capacidades
cognitivas a este material, para que possa compre-
ender seu mundo emocional. Um programa adequado
deve dar oportunidades para que a criança tenha
consciência dos seus aspectos emocionais, ajudando-
a a aplicar suas habilidades verbais e de compre-
ensão avançadas às suas experiências emocionais.
A consciência social, que frequentemente aparece
cedo no desenvolvimento destas crianças, torna-se
uma oportunidade para se desenvolver nelas uma
adequada estrutura de valores e de transformar valores
em ações sociais.
Galbraith e Delisle (2002, p.53) reconhecem
que algumas características apresentadas por estes
meninos e meninas podem dificultar o reconheci-
mento das características e a identificação da superdo-
tação, e chamam a atenção para os seguintes perfis:
Quadro 5 - Formulário para a identificação da superdotação
Reserve alguns minutos para listar os nomes dos alunos que venham primeiramente à sua mente quando você lê as
descrições abaixo. Utilize esta lista como uma “associação livre” e de forma rápida. Não é necessário preencher todas
as linhas. É provável que você encontre mais do que um aluno em cada descrição.
01 Aprende fácil e rapidamente
02 Original, imaginativo, criativo, não-convencional
03 Amplamente informado; informado em áreas não comuns
04 Pensa de forma incomum para resolver problemas
05 Persistente, independente, auto-direcionado (faz coisa sem que seja mandado)
06 Persuasivo, capaz de influenciar os outros
07 Mostra senso comum; pode não tolerar tolices
08 Inquisitivo, cético, curioso sobre o como e porque das coisas
09 Adapta-se a uma variedade de situações e novos ambientes
10 Esperto ao fazer coisas com materiais comuns
11 Habilidades nas artes (música, dança, desenho etc.)
12 Entende a importância da natureza (tempo, lua, sol, estrelas, solo, etc.)
13 Vocabulário excepcional, verbalmente fluente
14 Aprende facilmente novas línguas
15 Trabalhador independente, mostra iniciativa
16 Bom julgamento, lógico
17 Flexível, aberto
18 Versátil, muitos interesses, interesses além da idade cronológica
19 Mostra insights e percepções incomuns
20 Demonstra alto nível de sensibilidade, empatia com relação aos outros
21 Apresenta excelente senso de humor
22 Resiste à rotina e repetição
23 Expressa idéias e reações, freqüentemente de forma argumentativa
24 Sensível à verdade e à honra
Fonte: Galbraith e Delisle (1996, p. 14)
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(a) Alunos que ficam facilmente cansados e
entediados com o trabalho rotineiro da sala
de aula. Alguns podem reclamar freqüente-
mente em alto e bom som. Outros podem
se conformar e nada dizer.
(b) Alunos que podem trabalhar intensamente
em uma área ou matéria, negligenciando o
dever de casa e trabalho de sala de aula em
outras áreas ou matérias.
(c) Alunos que podem usar seu vocabulário
avançado como retaliação contra aqueles
não são tão bem-dotados verbalmente.
(d) Alunos que podem ficar tão entusiasmado
com uma área ou tópico de discussão que
monopolizam a conversação, ou começam a
ensinar o tópico, até mesmo para os profes-
sores.
(e) Alunos que podem ficar inicialmente
entusiasmados com uma área ou tópico
de discussão, mas uma vez que o interesse
é satisfeito, resistem em fazer trabalhos
adicionais relacionados ao tópico ou a
concluí-los.
(f ) Alunos que podem não gostar ou se
ressentir de ter que trabalhar com colegas
que não apresentam habilidades igualmente
superiores, podendo verbalizar ou apresentar
sua insatisfação por meio de altos suspiros.
(g) Alunos que possuem vasto conhecimento
de muitos tópicos, e podem corrigir colegas
e adultos quando percebem que estão dando
informações incorretas.
(h) Alunos que podem usar seu senso de humor
avançado e sagacidade para intimidar,
manipular e humilhar os outros.
(i) Alunos que podem ser auto-confidentes e
passionais sobre assuntos de cunho político,
social ou moral e apresentar abertamente
suas convicções, se distanciando dos colegas
que não compartilham ou não ligam para
esses assuntos.
(j) Alunos que podem preferir trabalhar
independentemente e se ressentir dos
adultos que querem “colocá-los na linha”,
fazendo-os seguir determinados procedi-
mentos com os quais eles não concordam.
Galbraith e Delisle (2002) argumentam
ainda que alguns destes comportamentos negativos
podem ser devidos às necessidades intelectuais e
emocionais do superdotado que talvez não estejam
sendo devidamente atendidas em casa ou na escola.
Embora o comportamento arrogante não deva ser
tolerado, e o desinteresse acadêmico não deva ser
ignorado, é bom saber que a fonte destes problemas
pode ser uma frustração intelectual, e não uma
desordem emocional.
Como trabalhar em sala de aula com
as características típicas do
superdotado
Algumas características de personalidade
são típicas de um grande número de crianças com
altas habilidades na área acadêmica e são discutidas
a seguir, conforme o ponto de vista de Silverman
(1993), Galbraith e Delisle (2002) e Neihart, Reis,
Robinson e Moon (2002) que também indicam
formas de serem trabalhadas em dinâmicas de
cunho terapêutico. Isto significa que, na falta de um
psicólogo no atendimento, podem ser trabalhadas
em sala de aula por professores e, talvez, até com
a ajuda de estagiários de psicologia, observando o
devido cuidado com o mundo interno da pessoa.
Um professor sensível às características peculiares
do superdotado pode reservar um momento em
suas aulas para que a criança ou o jovem possam
se expressar com mais liberdade, falar sobre suas
dificuldades, temores e dúvidas. Muitas vezes, ao
compartilhar suas emoções, o jovem percebe que
elas são comuns aos outros colegas, e que cada um
tem uma forma diferente de lidar com estas carac-
terísticas e emoções.
Falaremos nesta sessão de treze caracterís-
ticas principais, presentes em diferentes gradações
no mundo emocional da pessoa superdotada, a
saber: o perfeccionismo; a perceptividade; a neces-
sidade de entender; a necessidade de estimulação
mental; a necessidade de precisão e exatidão; o
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senso de humor; a sensibilidade e empatia; a inten-
sidade; a perseverança; a autoconsciência; a não-
conformidade; o questionamento da autoridade; e
a introversão
13
.
1. PERFECCIONISMO
Um fator de origem emocional que aparece
bem descrito na literatura, ligado aos fatores
sócio-emocionais da pessoa com altas habilidades,
diz respeito ao comportamento perfeccionista.
Diferindo da busca da excelência, que é um compor-
tamento fundamentalmente positivo, o perfeccio-
nismo (em geral descrito como neurótico) tende a
enfatizar que o aluno não pode jamais falhar, seus
atos têm sempre que obter aprovação, e que ele nunca
pode chegar em segundo lugar. Todos estes adjetivos
demonstram a força do pensamento do perfeccio-
nista, que termina por ser prejudicial para sua auto-
estima, para os seus relacionamentos, criatividade,
saúde e capacidade de gozar a vida. O perfeccionismo
vem de um ideal abstrato que o indivíduo coloca
para si mesmo, em função da sua facilidade em lidar
com abstrações. A mente coloca altos padrões – às
vezes impossíveis de serem alcançados – baseados
em sua consciência e capacidade mental avançados,
muitas vezes em descompasso com sua idade crono-
lógica. Os pesquisadores mostram a necessidade de
acompanhamento psicológico quando o indivíduo
estabelece padrões absurdamente irrealistas para si
mesmo, que em geral vem acompanhado de muita
energia e carga extra de frustrações. É necessário
que essa característica seja respeitada, ao mesmo
tempo em que o indivíduo aprende a usá-la de
forma produtiva em sua vida.
2. PERCEPTIVIDADE
Uma habilidade de raciocínio excepcional faz
com que o indivíduo seja mais perceptivo e tenha
mais insigths (este termo é usualmente utilizado
para evidenciar a perspicácia e discernimento do
indivíduo, o que o permite encontrar novas respostas).
São alunos que encontram novas formas de abordar
um problema e chegam a diferentes soluções. É
importante que o professor ressalte para os alunos
com estas características que os insights e respostas
encontradas de forma original devem ser colocados
em prática, e não permanecerem meramente no
terreno das idéias. Assim, a capacidade de insight
do aluno deve ser utilizada também para o enten-
dimento de si próprio, para a resolução de dificul-
dades e problemas que ele possa encontrar em suas
atividades diárias, assim como em seu grupo.
3. NECESSIDADE DE ENTENDER
A curiosidade intelectual do aluno é também
um traço de personalidade que o leva à necessidade
de entendimento e busca de conhecimento. A curio-
sidade é, em geral, observada pelos pais na criança
desde tenra idade, que também relatam que o filho/
a apresenta um comportamento investigativo, faz
perguntas perspicazes e penetrantes, e demonstra
um comportamento persistente. A energia que se
origina desta sede de saber vem, em seu componente
psicológico, da necessidade premente de compre-
ender o sentido do mundo e das coisas, de entender
o mundo em que vive, de criar seu próprio mundo.
Há uma necessidade de domínio em vários sentidos
– domínio do mundo no sentido físico, intelectual
e criativo. Essa natural curiosidade da criança
ou jovem pode ser satisfeita em dinâmicas que
levem o aluno a se perceber como sujeitos experi-
mentais em uma pesquisa que ele próprio construiu.
Assim, podem aprender a observar suas reações em
diversas situações; tomar notas, manter um diário,
fazer tabelas e estimar numericamente seus estados
afetivos. Questões do tipo “O que aconteceria se...”
também pode ajudá-los a perceber melhor suas
ações e suas potenciais conseqüências, assim como
outras atividades preparadas por ele próprio como
intervenções auto-escolhidas.
4. NECESSIDADE DE ESTIMULAÇÃOMENTAL
Características como aprendizagem rápida,
memória prodigiosa e níveis avançados de desen-
volvimento são observáveis desde tenra idade. Os
pais costumam também relatar em seus filhos a
rápida perda de interesse por estímulos familiares
e preferência por novidade, além de grande neces-
sidade de manter a estimulação mental. No
entanto, a criança logo aprende que seu rápido
ritmo de aprendizagem não é estimulado na escola,
mantendo grande distância do ritmo apresentado
13 Conforme Silverman (1993), Galbraith e Delisle (2002) e
Neihart, Reis, Robinson e Moon (2002).
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por seus colegas com desenvolvimento moderado.
O professor deve diferenciar o currículo para que
estes alunos não percam o gosto pela escola; pode
utilizar recursos como aceleração de série, projetos
independentes, cursos avançados, oportunidades de
enriquecimento escolar, compactação de currículo e
outras formas de acompanhamento para manter a
criança estimulada e desafiada em sala de aula. A
memória prodigiosa destes alunos também implica
em intensa memória afetiva. Isto implica que o aluno
superdotado mantém uma vívida lembrança de cada
fracasso e humilhação, revivendo estas experiências
mesmo anos depois de terem ocorrido. Torna-se um
desafio quebrar este ciclo que perpetua sentimentos
de desamparo e ressentimento. Uma dinâmica útil
envolve a dramatização em sala de aula, permitindo
ao aluno experienciar a situação não como vítima,
mas como alguém em controle dos próprios senti-
mentos, de posse de novas habilidades que poderão
ser úteis em ocasiões similares no futuro. Alunos que
necessitam de estimulação mental podem também
se beneficiar de leituras na área, que o permitam
compreender o seu próprio processo psicológico.
5. NECESSIDADE DE PRECISÃOE EXATIDÃO
Processos complexos de pensamento imputam
na criança imperativos lógicos; elas esperam que o
mundo faça sentido e reagem fortemente quando
isso não acontece. A habilidade de perceber múltiplas
relações entre idéias, objetos e percepções, assim
como a capacidade para argumentação tornam difícil
o processo de tomada de decisão. O aluno sente-se
compelido a corrigir erros (dele e dos outros), de
chamar a atenção para os casos que refutam deter-
minados argumentos. Contudo, a necessidade de
precisão e exatidão não estimula as relações sociais,
e em muitos casos o professor se vê corrigido em
frente aos outros alunos. Acontece também do aluno
muitas vezes não perceber a extensão de suas próprias
críticas. Nestes casos, torna-se útil que ele participe
de atividades para o desenvolvimento de habilidades
sociais, e para a busca de saídas alternativas para este
tipo de comportamento. É também fundamental para
o aluno aprender a distinguir o material relevante do
irrelevante dentre a massiva quantidade de infor-
mação que ele tem tendência de estocar, de forma a
facilitar a tomada de decisões e partir para a ação.
6. SENSO DE HUMOR
Tem sido observado por muitos pesquisa-
dores que o aluno com altas habilidades responde
e compreende várias formas de humor verbal a um
nível mais sofisticado que seus colegas de mesma
idade. Muitas vezes os alunos que possuem um
bom senso de humor também percebem absurdos
e incongruências nas situações, e por sua imagi-
nação vívida, muitas vezes exageram os aspectos
cômicos dos eventos. Entender a incongruência
envolve também um processo mental semelhante
ao utilizado para a resolução de problemas, sendo
também um reflexo do nível de desenvolvimento
da pessoa. O humor tem aspectos terapêuticos
que devem ser utilizados sempre que possível para
promover o relaxamento e a liberação de tensões,
para a facilitação social, na liberação da ansiedade,
na auto-expressão, para facilitar o desenvolvimento
de insights e no auto-desenvolvimento na direção da
auto-realização.
7. SENSIBILIDADE/ EMPATIA
Quando as preocupações morais se fundem
com a empatia, elas se transformam em compro-
misso moral, aspecto que tem sido observado em
crianças superdotadas bem pequenas. Preocupação
com outras formas de vida, tendência a se tornarem
vegetarianas por crenças filosóficas, entendimento
de assuntos morais desde tenra idade têm sido
observados por pais. Algumas vezes os sentimentos
de empatia e a sensibilidade aparecem de forma
independente; por exemplo, uma criança extrema-
mente sensível à crítica, que se sente magoada com
facilidade, muitas vezes não tem consciência dos
sentimentos dos outros. Ou ela pode demonstrar
sentimentos de proteção com relação a crianças
mais novas ou aos idosos e ainda demonstrar falta
de preocupação com os sentimentos dos irmãos
ou outras crianças de sua idade. Algumas crianças
demonstram, contudo, desde muito cedo, enorme
empatia com relação aos outros, a um grau que
ultrapassa mesmo as preocupações do adulto, e são
consideradas como “emocionalmente superdotadas”
(Piechowski, 1997).
48
8. INTENSIDADE
A paixão por aprender, por sua força
emocional, é considerada uma poderosa força de
propulsão para a superdotação. Uma característica
da paixão por aprender é a maneira intensa com que
a criança/jovem vai ao encalço de seus interesses.
Há momentos em que a criança quer saber tudo
sobre um determinado tópico e se torna totalmente
voltada para ele, fazendo perguntas intermináveis,
apreendendo uma grande quantidade de material,
incapaz de pensar em nada mais, até que toda a sua
energia seja gasta. Apenas quando ela finalmente
satisfaz sua curiosidade é capaz de passar para outro
tópico de interesse. Contudo, a escola tradicional
não permite que a criança busque e esgote todos
os seus interesses particulares sobre uma deter-
minada matéria ou tópico; a estes alunos o material
é apresentado em um ritmo tão vagaroso que ela
tem dificuldade de permanecer atenta. Vários
pesquisadores concordam que os projetos indepen-
dentes deveriam fazer parte do ensino regular, de
forma a nutrir e saciar a vontade destes alunos de
aprender em maior profundidade. É necessário que
o ambiente de aprendizagem possa ser revisto e
reformulado, de forma a se tornar mais responsivo
para o aluno.
9. PERSEVERANÇA
Um traço bastante comentado na literatura
sobre o superdotado relaciona-se com seu
grande poder de concentração nas atividades
que realmente prendam seu interesse. Longos
períodos de atenção podem ser observados em
idades precoces. A perseverança está relacionada
ao período de atenção e à habilidade de se
concentrar, assim como à tenacidade e força de
vontade da criança, o que, em geral, aumenta com
a maturidade. Algumas crianças são, por natureza,
mais dirigidas a um propósito, enquanto outras
perdem interesse no processo quando a meta se
torna sem sentido. Em dinâmicas em sala de aula,
é necessário que o professor dê apoio aos alunos
para que mantenham suas metas, encorajando-
os quando se sentem frustrados ou chegam a
um impasse no seu progresso. É também válido
torná-los conscientes de cada passo em relação
ao sucesso, e do trabalho árduo que é, às vezes,
requerido.
10. AUTOCONSCIÊNCIA
Crianças com altas habilidades são, muitas
vezes, pensadores analíticos (Sternberg, 1996), e
com freqüência estão avaliando suas experiências,
assim como pessoas, alimentos, música, experiência
e assim por diante. Eles são capazes de separar as
coisas na mente e ver todas as formas intrincadas
pelas quais elas poderiam ser melhoradas, incluindo
a si mesmas. A autoconsciência surge quando este
intelecto incisivo e analítico é focalizado para o
seu próprio interior. Há que se ter muito cuidado
com estas características, uma vez que o indivíduo
com uma aguda auto-consciência pode brutalizar
ou violentar a si mesmo. O professor deve ajudar
os alunos a apreciarem-se a si mesmos e a se
conscientizarem de que, muitas vezes, as escolhas
que fazemos em determinadas ocasiões podem ser
a única escolha viável para aquela situação. Alunos
que são pensadores analíticos às vezes se culpam
por situações em que as conseqüências não foram
preditas, e se auto-flagelam por isso. Uma técnica
interessante é fazê-los visualizar as piores conse-
qüências possíveis para uma determinada situação
causadora de ansiedade (por exemplo, a fantasia
da catástrofe), depois visualizar as melhores
conseqüências possíveis, e finalmente ajuntar as
duas imagens em uma situação mais realística
e provável de acontecer. Esta é uma boa técnica
para ajudá-los a ver que a realidade nem sempre
é tão ruim quanto tememos, nem tão boa quanto
freqüentemente desejamos.
11. NÃO-CONFORMIDADE
A criatividade é um traço freqüentemente
notado entre as pessoas superdotadas, embora não
se tenha estabelecido a complexa relação entre elas.
Como os adultos, as crianças e jovens superdotados
precisam de oportunidades para a expressão criativa;
quando estas avenidas de oportunidade são bloqueadas,
percebe-se um desvio para canais auto-destrutivos. A
não-conformidade, com freqüência, aparece em
conjunção com traços de pensamento divergente,
o que causa problemas para professores e para os
colegas. Uma dinâmica interessante constitui-se
em descobrir se a fonte da não aquiescência às
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normas se encontra apoiada em padrões morais
(e então a não conformidade deve ser enaltecida)
ou baseada na insegurança e no desejo de
provar alguma coisa para o grupo – neste caso,
torna-se um fator para ser trabalhado em maior
profundidade.
12. QUESTIONAMENTO DA AUTORIDADE
Pais relatam que seus filhos aprendem muito
cedo o significado da frase “isso não é justo”, e
rapidamente percebem injustiças contra ele e os
outros. Um agudo senso de justiça invariavelmente
leva ao questionamento das regras e de figuras de
autoridade. Quando a criança ou jovem percebe
que a fonte da autoridade é ilógica, irracional,
errônea ou injusta, termina por desenvolver um
negativismo em relação à autoridade. O questio-
namento e a argüição são formas de exercício
mental para os superdotados acadêmicos, que se
engajam nisso por puro prazer, como um método
de aprendizagem e para provar um ponto de vista
– e muitas vezes saem ganhando. Muitos jovens
com altas habilidades gostam de desempenhar o
papel do “advogado do diabo” apenas pelo prazer
de argumentar e de ouvir os argumentos da outra
pessoa. É claro que, para refinar suas habilidades
sociais, é necessário ter consciência de que este
aspecto pode ser intimidador para outras pessoas,
assim como ter uma melhor compreensão dos
sentimentos dos outros e de suas reações às suas
habilidades de argumentação. Também é interes-
sante que o indivíduo raciocine sobre o conteúdo
de sua argumentação, levando em conta o ponto
de vista do bem para a maioria, e não apenas
para a si mesmo. Indivíduos que precisam estar
certos todo o tempo e ganhar em suas argumen-
tações têm, em geral, baixa auto-estima, o que
precisa ser trabalhado em conjunção com a
família e a escola.
13. INTROVERSÃO
A capacidade para reflexão é um traço
freqüentemente observado em pessoas introver-
tidas. Em geral, nossa sociedade tende a dar menos
suporte para as pessoas introvertidas e que precisam
de tempo para refletir, do que para os extrover-
tidos. Há estudos indicando que, quanto maior
o QI medido por testes psicométricos, maior é o
grau de introversão (Silverman, 1993). Enquanto
os extrovertidos retiram sua energia das pessoas e
objetos fora de si próprios, o contrário acontece
com os introvertidos, os quais buscam energia
de dentro de si mesmos. Além disso, os introver-
tidos freqüentemente aprendem por observação;
sentem-se inconfortáveis com mudanças; são leais
a um pequeno grupo de amigos mais chegados;
são capazes de intensa concentração; detestam
ser o centro das atenções; necessitam privacidade;
e sentem que suas energias são drenadas pelas
pessoas. É também freqüente encontrar entre os
introvertidos o uso de uma “máscara” para uso em
situações públicas e sociais; a conseqüência disso
é a necessidade de manter um comportamento
perfeito na escola, guardando os sentimentos
negativos para si mesmo, e depois despejando
tudo na pessoa que eles mais confiam e se sentem
protegidos – em geral a própria mãe. Mais do que
tudo, os introvertidos precisam ser respeitados
pelo que são. Pais e professores precisam aceitar a
introversão como algo normal, ao invés de tentar
fazer a criança se transformar em um extrovertido.
As pessoas introvertidas raramente precisam de
espaço para falar de si próprias e, ao contrário dos
extrovertidos, não resolvem seus problemas através
da verbalização. Ao buscar ajuda, os introvertidos
se sentem melhor ouvindo conselhos e opiniões
do outro, para assim, em um momento posterior,
trabalhar consigo mesmo o que ouviu e processar
esse conteúdo em suas divagações mentais.
Estas várias características, quando tomadas
juntas em suas interações, ajudam a indicar
quando as crianças com altas habilidades precisam
de aconselhamento psicológico, e como podem
se beneficiar de dinâmicas em sala de aula. É
necessário entender bem as características sócio-
emocionais deste grupo se quisermos ajudar as
crianças e jovens superdotados a superarem suas
dificuldades e se tornarem mais funcionais no
contexto sócio-cultural em que vivem.
Encorajando potencialidades
Desenvolvendo a superdotação na teoria e na prática
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53
As altas habilidades/superdotação e
a inteligência na teoria
Nos primeiros anos do século XX a questão da
inteligência como um traço único ou multifacetado
foi bastante debatida. Nesta época, a inteligência era
vista como um traço inato, global, que pouco mudava
no decorrer do desenvolvimento. Entendia-se então
que todos os indivíduos possuíam uma “inteligência
geral”, conhecida como “fator g”, e que estaria presente
em todas as tarefas intelectuais. Esta inteligência
geral seria a grande responsável pela capacidade do
indivíduo de perceber e aplicar relações lógicas nos
mais diversos campos do conhecimento. O racio-
cínio que se seguiu, e que passou a ser observado e
pesquisado no decorrer do século, seria de que, se a
inteligência fosse geral e única, então uma criança
inteligente deveria ter um bom desempenho em
todas as tarefas intelectuais de um teste; por exemplo,
na escola, ela deveria sair-se tão bem nos testes de
matemática quanto no de português ou de ciências.
Mas os estudiosos argumentaram que se, por outro
lado, a inteligência fosse composta de vários fatores
e habilidades independentes, a criança poderia ter
um bom desempenho em algumas tarefas, mas não
necessariamente em todas. Pesquisas deram apoio à
segunda hipótese (Hetherington & Parke, 1999).
Observa-se hoje que a inteligência é composta
de muitos fatores e habilidades, o que faz com que
uma criança possa ter um excelente desempenho
em uma área e quase nenhum rendimento em outra.
Esta conclusão é importante, pois, em geral, pais e
professores têm grandes expectativas de que a criança
se saia bem em todas as áreas e tenha boas notas
em todas as matérias escolares, o que nem sempre
acontece. Percebendo a inteligência como multifa-
cetada e composta por vários fatores, podemos então
entender que uma pessoa possa demonstrar domínio
e conhecimento em uma área, a que chamamos de
“área forte”, e ter suas dificuldades em outras áreas,
denominadas de “áreas fracas”.
Em conseqüência, vários pesquisadores se
preocuparam com a questão da validade dos tradi-
cionais testes de QI para medir a inteligência, quando
se leva em consideração as habilidades de resolução
de problemas, criatividade, competência social, ajusta-
mento geral e sucesso no ambiente de trabalho. Robert
Sternberg e Howard Gardner respondem diferencial-
mente a estas questões, que passaremos a examinar
com um pouco mais de detalhe na sessão seguinte.
Vamos também examinar o papel que a inteligência e
a criatividade desempenham na superdotação.
A TEORIATRIÁDICA DE INTELIGÊNCIA
Preocupado com as questões mais gerais sobre
o comportamento inteligente, o renomado pesqui-
sador da Universidade de Yale, Robert Sternberg
(1996a, 1996b, 1996c) desenvolveu a Teoria Triádica
da Inteligência. Segundo este pesquisador, os testes
de QI não são válidos para medir o tipo de inteli-
gência exigida para o sucesso no mundo real, como
por exemplo, para a carreira profissional de uma
pessoa. Para Sternberg, o comportamento inteli-
gente é muito amplo, não sendo passível de ser
medido da forma tradicional. Ele argumenta que a
pessoa pode ser inteligente de três formas: pelo uso
de uma inteligência analítica; ou pelo uso de uma
inteligência criativa; ou ainda pelo uso de uma inteli-
gência prática. Vamos considerar cada uma dessas
inteligências em relação à criança em seu percurso
de desenvolvimento.
A criança que se destaca por sua inteli-
gência analítica é aquela que, em geral, o professor
gosta de ter em sala de aula: academicamente
brilhante, tira boas notas nos testes, aprende com
facilidade e com pouca repetição, tem facilidade
em analisar as idéias, pensamentos e teorias. Gosta
de livros e muitas vezes aprende a ler sozinha ou
com pouca instrução. A escola tradicionalmente
reforça as habilidades analíticas de seus alunos, ao
acentuar a memorização e reprodução dos conhe-
cimentos, muitas vezes em detrimento da aplicação
e do ensino de técnicas para o desenvolvimento do
pensamento criador. Assim é que a pessoa essencial-
mente analítica muitas vezes carece de idéias novas
e originais e pode ter dificuldade em um ambiente
que exija respostas diferentes e incomuns.
Já a criança que se destaca por suas habili-
dades de pensamento criativo apresenta, em geral,
talentos e dificuldades opostos. A pessoa com
inteligência criativa nem sempre tem as melhores
notas e nem sempre se destaca na escola por suas
habilidades acadêmicas. No entanto, demonstra
grande imaginação e habilidade em gerar idéias
interessantes e criatividade na forma de escrever
ou falar e de demonstrar suas aptidões e compe-
tências. Essa criança tende a ter independência de
pensamento e de idéias, a ver humor em situações
que nem sempre os outros percebem como tal e são
muitas vezes consideradas o “palhaço da turma”,
A terceira forma de ser inteligente, conforme
Sternberg, leva em consideração a facilidade da
criança em se adaptar ao ambiente e desempenhar
atividades que são adequadas para o desenvolvi-
mento de uma tarefa. A criança demonstra inteli-
gência prática e senso-comum, sendo capaz de
54
chegar em qualquer ambiente, fazer um levan-
tamento do que é necessário para atingir algum
objetivo prático, e executar sua tarefa com precisão.
À medida que ganha experiência de vida, a pessoa
prática demonstra esta inteligência com mais
intensidade, o que a permite lidar com as pessoas
e conseguir que um determinado trabalho seja
executado, percebendo o que funciona e o que não
funciona. É a inteligência prática ou conhecimento
tácito que, no contexto de vida prática, é respon-
sável pela melhor adaptação da pessoa ao ambiente
e para o sucesso no mundo real, principalmente no
desempenho profissional.
Desta forma, Sternberg ressalta que
diferentes situações exigem diferentes tipos de
inteligência. No mundo atual, conforme colocado
no início deste livro, as habilidades que se exigem
do aluno que ingressa no mundo de trabalho são
o resultado dessas três formas de inteligência.
Tomemos o exemplo de um professor. É desejável
que, para o sucesso de sua profissão, o professor
tenha bem memorizado os conhecimentos relacio-
nados à disciplina que ensina; é também desejável
que aplique técnicas instrucionais com criatividade
e imaginação; além disso, a forma com que utiliza o
currículo deve ser adaptada ao contexto da sua sala
de aula, às necessidades individuais de seus alunos e
às demandas sociais da sua população estudantil.
Conclui Sternberg que os tradicionais testes
de inteligência poderão ser bons preditores de
sucesso do aluno na sua vida acadêmica, mas terão
pouco impacto na predição do sucesso na vida
prática e no ambiente de trabalho, que exigirão
outras formas de inteligência não abarcadas pelos
testes. Para serem justos para com a inteligência a
ser medida, há necessidade do uso de outros tipos
de testes, que não só os de lápis-e-papel, e que
sejam mais amplos e flexíveis. Esta é uma das idéias
tratadas na Teoria de Howard Gardner, que exami-
naremos a seguir.
A TEORIA DAS INTELIGÊNCIAS MÚLTIPLAS
Gardner (1994; 1995; 1999; Ramos-Ford
& Gardner, 1997), assim como Sternberg, entende
que há múltiplos fatores na composição da inteli-
gência. A Teoria das Inteligências Múltiplas propõe
a inteligência como habilidades que permitem ao
indivíduo resolver problemas ou criar produtos
que são importantes num determinado ambiente
cultural ou comunidade. Assim, ele ressalta dois
importantes fatores: (a) a inteligência envolve
criatividade, na medida em que ela é de funda-
mental importância para o desenvolvimento de
produtos em uma sociedade ou para solucionar
problemas que aparecem em um contexto; e (b)
algumas inteligências são mais valorizadas em uma
cultura do que em outra e, portanto, o indivíduo só
pode ser considerado inteligente se o seu contexto
for levado em consideração.
Gardner procurou identificar quais as
competências humanas seriam “candidatas” a serem
denominadas de inteligência. Para isso, estudou
as evidências de uma série de campos, incluindo
o estudo da inteligência nos savants, autistas e
crianças prodígios, em pessoas com lesões cerebrais
e em culturas diferentes (Krechevsky, 2001). Como
resultado desta investigação, Gardner propõe oito
inteligências diferentes: a lingüística; a lógico-
matemática; a espacial; a corpo-cinestésica; a
musical; a naturalista; a interpessoal; a intra-
pessoal; e, recentemente (Gardner, 1999) anunciou
seus estudos para incluir a inteligência espiritual,
entendida como a preocupação com certos
conteúdos cósmicos, a obtenção de certos estados
de consciência e os profundos efeitos que certas
pessoas, possuidoras destas capacidades, exercem
sobre outros indivíduos (como o fizeram Buda,
Madre Tereza de Calcutá, o Papa João XXIII,
Confúcio e mesmo Cristo).
Gardner acredita que as inteligências
dependem de variáveis do contexto, da cultura,
da genética e das oportunidades de aprendizagem
de uma pessoa, o que faz com que os indivíduos
manifestem suas competências em diferentes
graus. Além disso, as habilidades e inteligências
se combinam para que o indivíduo possa desem-
penhar os diversos papéis exigidos na sua cultura ou
para desenvolver produtos culturais. Normalmente
uma criança não apresenta apenas um tipo de
inteligência; ela pode combinar muitas delas para
desempenhar um determinado papel ou desen-
volver algum produto.
Pensando nos diversos estilos de aprendi-
zagem que as crianças apresentam quando tendem
a uma determinada inteligência de forma mais
expressiva, Armstrong (2001) descreve as necessi-
dades cognitivas específicas do aluno para o melhor
desenvolvimento em sala de aula (ver Quadro 6).
Este conhecimento é importante para subsidiar a
instrução em sala de aula, de forma que a maior
parte da aprendizagem na escola possa ocorrer
através dos tipos de inteligências preferidas por eles.
Além disso, lembra Armstrong que a maioria dos
alunos apresenta áreas fortes em vários domínios,
de modo que o professor deve evitar categorizar a
criança em apenas uma inteligência.
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QUADRO 6: AS MÚLTIPLAS INTELIGÊNCIAS NA PRÁTICA ESCOLAR
INTELIGÊNCIA LINGÜÍSTICA: capacidade para pensar com palavras; usar a linguagem para expressar e avaliar significados complexos, quer oralmente (como o faz o contador de
histórias, o orador ou o político), quer por escrito (como o poeta, o dramaturgo, o editor e o jornalista). Inclui a manipulação da sintaxe ou estrutura da linguagem, a semântica
ou os significados da linguagem, e os usos práticos da linguagem, como a retórica – usar a linguagem para convencer os outros; a meneumônica – usar a linguagem para lembrar
informações; a explicação – usar a linguagem para informar; e a metalinguagem – usar a linguagem para falar sobre ela mesma.
CRIANÇAS QUE SÃO EXTREMAMENTE
Lingüísticas
PENSAM
em palavras
ADORAM
Ler, escrever, contar histórias, fazer jogos de
palavras
PRECISAMDE
Livros, fitas, materiais para escrever, papéis, diários, diálogos, discussões,
debates, histórias
INTELIGÊNCIA LÓGICO-MATEMÁTICA: possibilita usar e avaliar relações abstratas, calcular, quantificar, considerar proposições e hipóteses e realizar operações matemáticas
complexas (como o fazem os matemáticos, os analistas financeiros, contadores, engenheiros), para raciocinar bem (como os programadores de computador e cientistas).
Inclui a sensibilidade a padrões de relacionamentos lógicos, funções, afirmações e proposições (causa-e-efeito; se... então), entre outras abstrações. Inclui processos como a
categorização, classificação, inferência, generalização, cálculo e testagem de hipóteses.
CRIANÇAS QUE SÃO EXTREMAMENTE
Lógico-matemáticas
PENSAM
raciocinando
ADORAM
Experimentar, questionar, resolver problemas
lógicos, calcular
PRECISAMDE
Coisas para explorar e pensar, materiais científicos, manipulativos, visitas
ao planetário e ao museu de ciências
INTELIGÊNCIA ESPACIAL: capacidade de perceber informações visuais ou espaciais (como o caçador e o guia), pensar de maneiras tridimensionais levando em consideração a
relação entre cor, forma, linha, configuração e espaço (como o faz os pintores, arquitetos e escultores), transformar e modificar essas informações, e recriar imagens mesmo sem
referência a um estímulo físico original (como os navegadores e jogadores de xadrez). Não depende da sensação visual (cegos a utilizam).
CRIANÇAS QUE SÃO EXTREMAMENTE
Espaciais
PENSAM
por imagens
e figuras
ADORAM
Planejar, desenhar, visualizar, rabiscar
PRECISAMDE
Arte, LEGOs, vídeos, filmes, slides, jogos de imaginação, labirintos,
quebra-cabeças, livros ilustrados, visitas a museus de arte
INTELIGÊNCIA CORPORAL-CINESTÉSICA: envolve o uso de todo o corpo ou partes do corpo para resolver problemas, criar produtos, expressar idéias e sentimentos (por
exemplo, como o faz o ator, o mímico, o atleta e o dançarino). Inclui a coordenação entre sistemas neurais, musculares e perceptuais, permitindo a manipulação de objetos
e sintonia de habilidades Iisicas especifcas (como se vê nos artesãos, nos escultores, nos malabaristas, alpinistas, mecânicos e cirurgiões), podendo envolver coordenacão,
equilibrio, destreza, Iorca, fexibilidades, velocidades, capacidades proprioceptivas, taticas e hapticas.
CRIANÇAS QUE SÃO EXTREMAMENTE
Corporal cinestésicas
PENSAM
por sensações
somáticas
ADORAM
Dançar, correr, pular, construir, tocar,
gesticular
PRECISAMDE
Dramatização, teatro, movimento, coisas para construir, esportes e
jogos de movimento, experiências táteis, aprendizagem prática
56
QUADRO 7: AS MÚLTIPLAS INTELIGÊNCIAS NA PRÁTICA ESCOLAR
INTELIGÊNCIA MUSICAL: permite às pessoas criar, comunicar e compreender significados compostos por sons. Inclui: capacidade para o canto, melodia, tom, ritmo e timbre.
Inclui a capacidade de perceber (como os aficionados por música e ouvintes sensíveis), discriminar (como os críticos musicais, os peritos em acústica, engenheiros de áudio, os
fabricantes de instrumentos), transformar (como os compositores) e expressar (como os musicistas, instrumentistas e maestros)
CRIANÇAS QUE SÃO
EXTREMAMENTE
Musicais
PENSAM
por ritmos e melodias
ADORAM
Cantar, assobiar, cantarolar, batucar com
as mãos e os pé, escutar
PRECISAMDE
Tempo para cantar, idas a concertos, tocar música em casa e na
escola, instrumentos
INTELIGÊNCIA INTERPESSOAL: é a capacidade de compreender as outras pessoas e interagir efetivamente com elas. Emprega capacidades centrais para reconhecer,
compreender e fazer distinções entre sentimentos, crenças e intenções dos outros, agir em função delas e moldá-las para seus objetivos. Presente em terapeutas, pais e
professores bem-sucedidos, doadores, atores e políticos.
CRIANÇAS QUE SÃO
EXTREMAMENTE
Interpessoais
PENSAM
percebendo o que os outros
pensam
ADORAM
Liderar, organizar, relacionar-se,
manipular, mediar, fazer festa
PRECISAMDE
Amigos, jogos de grupo, reuniões sociais, eventos comunitários,
clubes, mentores/aprendizados
INTELIGÊNCIA INTRAPESSOAL: depende de processos centrais que permitem as pessoas diIerenciar os proprios sentimentos, intencões e motivacões, construir uma
percepcão acurada de si mesmo e usar este conhecimento no planeiamento e direcionamento da sua vida, e para tomar boas decisões. Pode se apresentar nas pessoas mais
velhas (sabedoria), romancistas em relatos introspectivos, teologos, psicologos e flosoIos.
CRIANÇAS QUE SÃO
EXTREMAMENTE
Intrapessoais
PENSAM
em relação às suas necessidades,
sentimentos e objetivos
ADORAM
Estabelecer objetivos, meditar, sonhar,
planejar, refletir
PRECISAMDE
Lugares secretos, tempo sozinhas, projetos e escolhas no seu ritmo
pessoal
INTELIGÊNCIA NATURALÍSTICA: capacidade de reconhecer e classificar os sistemas naturais, como a flora e fauna, assim como os sistemas criados pelo homem,
reconhecendo padrões em um estímulo. Por exemplo, reconhecer problemas de mecânica em um carro pelo seu barulho, detectar um novo padrão em um experimento
científico, o discernimento de um estilo artístico, a distinção de membros entre espécies etc. Alguns indivíduos com forte inteligência naturalista são fazendeiros, botânicos,
caçadores, ecologista e paisagistas.
CRIANÇAS QUE SÃO
EXTREMAMENTE
Naturalistas
PENSAM
por meio da natureza e das formas
naturais
ADORAM
Brincar com animais de estimação,
cuidar do jardim, investigar a natureza,
criar animais, cuidar do planeta Terra
PRECISAMDE
Acesso à natureza, oportunidade para interagir com animais,
instrumentos para investigar a natureza (como lupas e binóculos)
Fonte: Armstrong (2001), p. 38
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14 Uma descrição mais completa deste modelo foi descrita
em Virgolim, A. M. R. (1998, outubro). Uma proposta para o
desenvolvimento da criatividade na escola, segundo o modelo
de Joseph Renzulli. Cadernos de Psicologia, 4, (1), 97-111.
tipos de informação, de forma a não se correr o
risco de excluir alunos que teriam o potencial para
se beneficiar do programa – por exemplo, alunos
membros de grupos minoritários, alunos de baixa
renda, de outras culturas, com problemas de apren-
dizagem e as meninas. O processo de identifi-
cação pressupõe também uma avaliação periódica,
a fim de se verificar se os critérios para admissão
ao programa foram adequados para se atingir os
objetivos planejados.
Um ponto importante a considerar é que
a identificação deve ser vista como um processo
contínuo, permitindo o ingresso da criança ao
programa à medida que suas habilidades emergem
e se desenvolvem; e deve preferencialmente apontar
os pontos fortes, aptidões e talentos de cada uma,
em detrimento de suas fraquezas e incapacidades,
como tradicionalmente se tem feito nas escolas.
No movimento atual de uma educação
inclusiva, torna-se essencial entendermos que
todo aluno tem direito a um ambiente educacional
flexível e responsivo, adaptado ao seu nível e ritmo de
aprendizagem, que permita certo nível de escolha de
tópicos do seu interesse e que promova a excelência
no estudo. Neste sentido, esforços devem ser feitos
para permitir mudanças no currículo oferecido para
estes alunos ainda na escola regular. Dutra (2004)
afirma que:
As políticas dos sistemas de ensino devem
prever a eliminação das barreiras à educação dos
alunos com necessidades educacionais especiais,
promovendo a participação a partir de novas rela-
ções entre os alunos, fundamentais para uma socia-
lização humanizadora; de novas relações pedagógi-
cas centradas nos modos de aprender das diferentes
crianças e jovens; e de relações sociais, que valori-
zam a diversidade em todas as atividades, espaços e
formas de convivência e trabalho. (p.9)
Um dos programas bem sucedidos no exterior
que contempla esta possibilidade é o Modelo
de Enriquecimento Escolar (Te Schoolwide
Enrichment Model – SEM), resultante do trabalho
pioneiro do Dr. Joseph Renzulli, em meados da
década de 70, validado por mais de vinte anos
de pesquisas empíricas (Renzulli & Reis, 2000).
Renzulli acredita que é tarefa da escola estimular
o desenvolvimento do talento criador e da inteli-
gência em todos os seus alunos, e não só naqueles
que possuem um alto QI ou que tiram as melhores
notas; desenvolver comportamentos superdotados
em todos aqueles que têm potencial; e desenvolver
uma grande variedade de alternativas ou opções para
atender as necessidades de todos os estudantes.
Assumindo que experiências de enriqueci-
mento escolar poderão acontecer tanto na sala de
recursos quanto na sala de aula regular, este Modelo
considera que, potencialmente, todos os alunos do
Pool de Talentos são considerados membros do
programa, mesmo nos momentos em que não estão
tendo experiências de enriquecimento em nível
mais avançado na sala de recursos (Renzulli, Reis &
Smith, 1981)
14
.
Se um aluno selecionado para fazer parte do
Pool de Talentos exibe comportamentos de super-
dotação (ou seja, habilidade superior em alguma
área, envolvimento com a tarefa e criatividade) em
Superdotação na prática: identificação
do aluno
A principal meta na identificação de alunos
superdotados, conforme já discutido neste volume,
é a localização de potenciais que não estão sendo
suficientemente desenvolvidos ou desafiados pelo
ensino regular. Hany (1993) ressalta que os indica-
dores e instrumentos de medidas usados para a
identificação devem refletir o conceito de superdo-
tação adotado, os tipos de talentos ou habilidades a
serem identificados, e ainda os conteúdos e objetivos
propostos pelo programa.
Uma vez que os objetivos do programa estejam
definidos, passa-se à cuidadosa seleção e identifi-
cação dos alunos que comporão o “Pool de Talentos”
(Renzulli & Reis, 1997a), ou seja, o grupo de alunos
que poderão participar do programa proposto. Para
isso, é necessária uma cuidadosa seleção dos instru-
mentos de identificação, que devem estar de acordo
com os tipos de habilidades que serão atendidas. Por
exemplo, se o programa utiliza a definição brasileira
de 1994, e pretende atender a todas as áreas citadas,
deverá então oferecer instrumentos adequados para
a identificação do talento em artes visuais, cênicas,
música, esportes, criatividade e liderança, além do
talento acadêmico.
A identificação deve iniciar de forma que
inclua tantos alunos quanto for possível, garan-
tindo o direito dos que se qualificam para o serviço
especial. É importante que a admissão ao programa
seja supervisionada por um grupo multidisciplinar
de especialistas, que possam discutir os casos indivi-
dualmente à luz dos dados coletados sobre cada
aluno. Para isso, se torna essencial utilizar diferentes
58
relação a uma área particular ou tópico de estudo,
ele poderá, por algum tempo, desenvolver este
interesse ou tópico com maior profundidade sob
a supervisão de um professor na sala de recursos.
O aluno continua a freqüentar a sala de recursos
até que seu projeto seja completado; depois deste
tempo ele pode ou não continuar no atendimento,
dependendo basicamente de duas condições: (a)
de continuar demonstrando alto nível de envolvi-
mento e criatividade para continuar a desenvolver
pesquisas mais avançadas na área de interesse; (b)
da avaliação da equipe diagnóstica e dos profes-
sores envolvidos, que deve apontar para a conti-
nuidade dos ganhos para o aluno de sua perma-
nência na sala de recursos. No entanto, os autores
do modelo deixam claro que este é um processo
flexível, que busca a dar acesso a mais alunos ao
programa, e que deve estar em consonância com as
necessidades percebidas pelos professores na sala
de aula regular.
RECOMENDAÇÕES
Yewchuk e Lupart (1993) recomendam
que a identificação dos alunos para o atendi-
mento especializado seja feita em dois estágios.
No primeiro estágio devem ser feitas entrevistas
e testes para identificar o grau de inteligência,
criatividade, nível de desempenho acadêmico e
autoconceito do aluno, e entrevistados o professor
e os pais a respeito das características e áreas de
interesse do aluno. Em um segundo estágio, o
aluno é convidado para uma entrevista de longa
duração, durante a qual ele realiza algumas ativi-
dades acadêmicas e todo o material escolar signi-
ficativo é também examinado. Procura-se observar
ainda como ele organiza, desenvolve ou lida com
tarefas acadêmicas, identificando também seu estilo
cognitivo pessoal de aprender e sua auto-percepção
como aprendiz. Com base nos dois estágios, deve-
se delinear um programa específico para o aluno,
onde suas áreas fortes serão reforçadas e as fracas
trabalhadas, com o auxílio dos pais e professores.
Seja como for procedida a identificação dos
alunos com altas habilidades, é de especial impor-
tância compreender que o fracasso em identificar
corretamente e atender as necessidades especiais
desta população pode colocar o aluno em risco de
fracasso escolar e comprometer seriamente seu
desenvolvimento sócio-emocional, impedindo-o
de realizar plenamente o seu potencial (Neihart,
Reis, Robinson & Moon, 2002).
Há muitas estratégias para se identificar
o aluno com altas habilidades/superdotação. A
atitude mais recomendável entre os especialistas
é a inclusão de múltiplas formas de avaliação,
buscando dados sobre os talentos e capacidades de
alunos tanto em testes formais quanto em proce-
dimentos informais e de observação.
Até recentemente, os testes de inteligência
exerceram grande influência na cultura ocidental
com relação à inteligência e superdotação. Embora
tenham sido, durante da evolução da história
contemporânea, alvo de várias críticas importantes,
sua importância não pode ser desconsiderada. Um
destes aspectos a ser ressaltado é o estabeleci-
mento de métodos científicos para o estudo das
diferenças intelectuais, notadamente no estudo das
habilidades superiores.
As modernas teorias da inteligência não
percebem que a habilidade superior possa ser medida
apenas por testes psicométricos, como veremos logo
a seguir. Assim, quando incluímos outros aspectos
à avaliação de superdotados, como por exemplo,
liderança, criatividade, competências psicomotoras
e artísticas, as estatísticas sobre altas habilidades
aumentam significativamente, chegando a abarcar
uma porcentagem de 15 a 30% da população
(Renzulli, 2004b). Torna-se aqui crítico lembrar a
necessidade de se usar técnicas mais apuradas de
identificação, instrumentos mais amplos e precisos
de diagnóstico e bons programas de desenvolvi-
mento e estimulação do potencial destas crianças,
para que possamos estabelecer políticas de aprovei-
tamento de talentos e competências em nosso país
(Virgolim, 1998). É o que se propõe ao utilizar
formas alternativas de identificação, ressaltadas nos
itens a seguir.
(1) Nomeação por professores
Professores encontram-se em uma posição
mais confortável para recomendar aqueles alunos
que demonstram outras características que não
aquelas tradicionalmente acessadas por testes de
inteligência – por exemplo, criatividade, liderança,
aptidão para esportes, para artes cênicas, visuais
e música. Segundo Davis e Rimm (1994), essa
nomeação pode ser uma indicação informal dos
alunos que o professor acha que poderia se beneficiar
do programa; ou pode ser formal, constante de
escalas, questionários e listas de características.
Uma dessas escalas, que fornece uma fonte
sistemática de informação sobre o estudante
15
é a Escala para Avaliação das Características
Comportamentais dos Alunos com Habilidades
15 Neste sentido, indica-se também os Indicadores para
Observação (Guenther, Z. C. (2000). Desenvolver capacidades
e talentos: Um conceito de inclusão. Petrópolis, RJ: Vozes.
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Superiores – SCRBSS, publicada originalmente
por Renzulli, Smith, White, Callahan e Hartman
(1976). O propósito desta escala é o de ajudar o
professor em sala de aula a avaliar as caracterís-
ticas comportamentais de seus alunos nas áreas de
criatividade, liderança, motivação, aprendizagem,
artes cênicas e plásticas, música, planejamento e
comunicação (expressão e precisão). Os itens dessa
escala permitem levantar informações sobre as áreas
fortes ou de destaque do estudante, possibilitando o
desenvolvimento de atividades mais adequadas para
o estímulo do seu potencial (Renzulli, Hartman &
Callahan, 1971).
Feldhusen e Jarwan (2000) salientam que a
precisão dos julgamentos de professores na identi-
ficação de alunos superdotados pode ser aumentada
através de treinamento apropriado, incluindo
esclarecimentos sobre o processo de identificação,
discussão dos objetivos dos programas especiais e
procedimentos utilizados.
(2) Indicadores de criatividade
Os indicadores do pensamento criativo do
aluno, assim como testes formais de criatividade
podem ser úteis para ajudar o professor a identificar
tanto aqueles alunos cuja criatividade é aparente,
quanto aqueles cujos talentos únicos e originais
podem não estar visíveis na sala de aula. Estudiosos
do assunto, como Guilford (1950), que já nos meados
do século XX chamava a atenção para a importância
da criatividade em realizações notáveis, destacam
que a criatividade é uma habilidade universal que
precisa ser reconhecida e desenvolvida. Resultados
de pesquisas atuais (Virgolim, 2005), apontam para
o fato de que nem sempre a pessoa mais inteligente
é aquela que apresenta as respostas mais originais;
da mesma forma, nem sempre a pessoa mais criativa
é a mais inteligente entre seus pares. Sabemos
também que as habilidades necessárias para se
resolver problemas de forma lógica e analítica nem
sempre são as mesmas para se resolver problemas de
forma criativa, o que faz com que a criatividade seja
tão desejável e importante de ser desenvolvida no
ambiente escolar quanto a inteligência. No entanto,
nota-se que, em sala de aula os professores tendem
a tratar diferencialmente os alunos inteligentes e
os criativos, muitas vezes colocando o grupo mais
criativo em desvantagem com relação ao grupo mais
inteligente, mesmo quando ambos tiram boas notas
(Starko, 1995).
Embora seja curioso e imaginativo, com
inclinação para brincar com idéias e dar respostas
bem humoradas e diferentes do usual, o estudante
criativo muitas vezes é percebido como o palhaço da
turma, crítico de si mesmo e dos colegas, sarcástico,
bagunceiro, não-conformista, desrespeitoso para
com as figuras de autoridade e para com as tradições
(Clark, 1992). Muita atenção deve ser dada à
identificação do aluno altamente criativo. Segundo
Butler-Por (1993), este aluno encontra-se em risco
de fracasso escolar, pois pode encontrar relutância
em seu ambiente para aceitar seu pensamento diver-
gente e inconformismo, geralmente fonte de tensão
e conflito com seus pais e professores.
Segundo Davis e Rimm (1994), as pessoas
criativas: (a) usam o conhecimento existente
como base para novas idéias; (b) evitam formas
rígidas de pensar; (c) constroem novas estruturas
ao invés de usar as estruturas existentes; (d) estão
alertas para a novidade e lacunas no conheci-
mento; (e) encontram ordem no caos; (f ) preferem
comunicação não-verbal; e (g) são flexíveis e
habilidosas na tomada de decisões. Estes autores
apresentam uma interessante lista de habilidades
que contribuem para o potencial criativo, e que
podem ser reconhecidas na sala de aula. Algumas
delas estão reproduzidas no quadro a seguir:
Conforme lembra Treffinger (1986), o grande
potencial dos testes de criatividade e das obser-
vações sistemáticas sobre o comportamento criativo
do estudante é o de se ter um amplo conhecimento
do perfil do aluno, de forma a guiar a aplicação de
planos instrucionais mais adequados às suas carac-
terísticas e necessidades individuais.
(3) Nomeação por pais
Ninguém conhece melhor os filhos do que
seus pais. Os pais estão em posição vantajosa para
oferecer uma visão ampla sobre o desenvolvimento
peculiar dos filhos, incluindo interesses e habilidades
precocemente desenvolvidas. Davis e Rimm (1994)
sugerem que os professores façam um formulário
simples para que os pais possam informar: (a) os
interesses especiais e passatempos dos filhos; (b)
livros que a criança leu ou se interessou recen-
temente; (c) realizações incomuns, tanto atuais
quanto de anos anteriores; (d) talentos especiais;
(e) oportunidades especiais apresentadas à criança;
(f ) atividades preferidas quando está sozinha; (g)
relacionamento com os outros; e (h) problemas ou
necessidades especiais.
Cautela, no entanto, é aconselhável, no sentido
de que nem todos os pais acompanham adequada-
mente o desenvolvimento dos filhos, ou percebem os
aspectos peculiares da criança precoce ou talentosa.
Além disso, alguns pais superestimam as habilidades
60
inventor (inventa, descobre, faz as coisas ficarem
melhores), juiz (ajuda a selecionar argumentos) ou
o que melhor entretém os outros (diverte, faz piadas,
canta). Uma variação é pedir á criança para imaginar
que um extraterrestre veio à Terra para visitar
sua sala de aula. Pergunta-se aos alunos: “Quem
provavelmente fará as perguntas mais incomuns
e diferentes aos extraterrestres?” “Quem provavel-
mente se lembrará da maioria dos detalhes sobre a
visita dos extraterrestres?”
O terceiro tipo de abordagem tem o formato
de jogos. Nesta abordagem, o professor pode propor
o seguinte jogo: “Estou pensando em um aluno
desta sala que tem uma ótima memória. Quem
você acha que é?” “Estou pensando em um dos seus
colegas que sempre aparece com idéias diferentes.
Quem você acha que deve ser?”
Para evitar que os alunos indiquem apenas
seus amigos, instruções diretas podem ser dadas:
“Escolha alguém que você acha que é melhor
opção, e não apenas aqueles que são seus amigos”.
Eles também devem saber que podem indicar
a mesma pessoa tantas vezes quanto desejar, em
diversas categorias, e que suas respostas serão
mantidas confidenciais.
(5) Auto-nomeação
No ambiente escolar pode acontecer de um
aluno apresentar fortes características em uma área –
artística, criativa, científica – e não ser indicado para
fazer parte do programa para as altas habilidades.
O professor pode não ter notado seus talentos ou
sua grande motivação em um determinado aspecto.
A auto-nomeação pode ser um instrumento útil
para facilitar essa indicação. Uma forma simples é
a de pedir aos alunos que “indiquem a(s) área(s) nas
quais você tenha habilidades ou talentos especiais,
e diga porque você acha que tem habilidades ou
talentos especiais nestas áreas”. As áreas a serem
indicadas podem ser disciplinas escolares específicas
(português, matemática, ciências, história, geografia,
artes plásticas, teatro, música, línguas etc.), além
de criatividade, liderança, esportes e habilidade
intelectual geral.
(6) Nomeações especiais
O Pool de Talentos deve permitir também
a entrada de alunos que tenham se destacado em
anos anteriores, mas que por problemas emocionais,
pessoais, ou motivacionais possam estar, no
momento, desenvolvendo um padrão de baixo rendi-
mento escolar. Esta forma de nomeação é interes-
sante, pois às vezes um professor consegue obter,
em algum momento da vida escolar do aluno, um
alto desempenho em matérias escolares específicas;
no entanto, se tais oportunidades não se repetirem
em anos posteriores, o aluno pode não vir a ter
outra chance de demonstrar as suas habilidades ou
interesses, perdendo uma valiosa oportunidade de
trabalhar com mais profundidade suas áreas fortes.
Assim, é recomendável que a equipe responsável
pela seleção de alunos busque informações sobre
o aluno com seus professores de anos anteriores,
sempre que isso for possível.
(7) Avaliação de produtos
Uma excelente forma de avaliar talentos
nas áreas artística, criativa e científica é simples-
mente observando a qualidade da produção dos
alunos nestas áreas específicas. Professores especia-
lizados em cada área estão em posição privilegiada
para avaliar produções específicas como poesias,
projetos de ciências, eletrônica ou de computação,
dos filhos, enquanto outros as subestimam.
(4) Nomeação por colegas
A composição de um Pool de Talentos é
também favorecida quando se utilizam indicações
feitas pelos colegas. Os colegas conhecem bem uns
aos outros e são especialmente úteis na indicação
de talentos entre alunos culturalmente diferentes,
que possuem alguma deficiência ou provenientes de
grupos minoritários. Davis e Rimm (1994) sugerem
três tipos de abordagens que podem ser utilizadas
pelos professores em pequenos questionários:
Pela abordagem direta, o professor faz
pergunta diretas aos alunos sobre as habilidades
dos colegas – por exemplo “Quem é o aluno mais
esperto na classe?” “Quem tem a melhor memória?”
“Quem tem as idéias mais criativas e diferentes?”
Na abordagem disfarçada, o professor pode
pedir aos alunos que se imaginem numa ilha isolada
e indiquem quem entre eles, é o melhor organizador
(líder, consegue que os outros façam as coisas),
artista (faz coisas bonitas ou inventa boas histórias),
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Síntese: Habilidade de ver relações, e combinar
partes em um todo a ser trabalhado, talvez de for-
ma criativama criativa.
Transformação: Inclui a habilidade de dar novo
uso a algo, “ver” novos significados, implicações e
aplicações, ou mudar criativamente um objeto ou
idéia.
Extensão dos limites: Habilidade de ir além do que
é usual, de ver os objetos de novas maneiras.
Intuição: Habilidade de ter percepções “intuiti-
vas”, ou ver relações com base em pouca ou insu-
ficiente informação; habilidade de “ler nas entre-
linhas”.
Predizer resultados: Habilidade de antecipar os re-
sultados de diferentes alternativas ou soluções.
Resistência ao fechamento prematuro: Outra im-
portante habilidade, percebida como adiamento
do julgamento e não pular na primeira idéia que
aparece.
Concentração: Habilidade de focalizar um proble-
ma, e não se deixar levar por distrações.
Pensamento lógico: Habilidade de separar o rele-
vante do irrelevante, de deduzir e chegar a conclu-
sões razoáveis.
QUADRO 5: HABILIDADES CRIATIVAS
Fluência: Habilidade de produzir muitas idéias em
resposta a um problema, seja de forma verbal ou
não-verbal (por exemplo, matemática, musical,
etc.)
Flexibilidade: Habilidade de abordar um problema
sob diferentes abordagens, pensar as idéias sob di-
ferentes categorias, ou ver uma situação sob dife-
rentes perspectivas.
Originalidade: Raridade estatística de uma respos-
ta, unicidade, não-conformidade em pensamento e
ação.
Elaboração: Importante habilidade de adicionar
detalhes a uma idéia, o que inclui o desenvolvimen-
to, o embelezamento e a implementação de uma
idéia.
Definição do problema: Importante capacidade
que inclui as habilidades de: (a) identificar o “ver-
dadeiro” problema; (b) isolar os importantes as-
pectos de um problema; (c) clarificar e simplificar
um problema; (d) identificar sub-problemas; (e)
propor definições alternativas ao problema; e (f)
definir amplamente o problema.
Visualização: Habilidade de fantasiar e imaginar,
ver o mundo com “os olhos da mente” e manipular
imagens e idéias mentalmente.
Pensamento analógico: Habilidade de pegar em-
prestadas idéias de um contexto e usá-las em outro
contexto. Ou a habilidade de pegar emprestada a
solução para um problema e transferi-la para ou-
tro problema.
Avaliação: Importante habilidade de separar con-
siderações relevantes das irrelevantes; de pensar
criticamente; de avaliar a adequação de uma idéia,
produto ou solução de problema.
Análise: Habilidade de analisar detalhes, e anali-
sar o todo a partir das suas partes.
passatempos diferentes, talento para o teatro,
fotografia, e assim por diante. Os produtos devem
refletir alta criatividade, habilidades de pensamento
científico ou criador, habilidades na escrita, talento
para análise e síntese ou outros aspectos que podem
se aplicar ao produto em questão.
O Departamento de Educação do Estado
de Michigan (descrito em Davis e Rimm, 1994,
p. 97) utiliza uma escala de 5-pontos, variando de
“em uma grande extensão” para “em uma extensão
limitada” para avaliar, de forma um pouco mais
formal, um produto específico do aluno. A Escala
propõe as seguintes questões ao professor: (a) Em
que extensão este produto representa um manejo
aprofundado ou em nível superior do assunto? (b)
Em que extensão este produto tem um nível de
qualidade além do que se pode esperar de um aluno
desta idade? (c) Em que extensão o produto indica
uma grande preocupação com detalhes? (d) Em
que extensão a idéia central/concepção do produto
está além do que um aluno desta idade geralmente
propõe? (e) Em que extensão é um produto de
excelência? (f ) Liste alguns dos critérios que você
utilizou para avaliar a excelência deste produto.
(8) Escalas de características e listas de
observação
As escalas e listas de características são
amplamente utilizadas em conjunção com as
indicações de professores, colegas, pais, do próprio
aluno e avaliação do produto. Já comentamos
sobre a Escala de Características proposta por
Renzulli e colaboradores na sessão sobre nomeações
dos professores.
Guenther (2006) propõe uma lista de indica-
dores para auxiliar o professor na identificação dos
alunos com maior capacidade e talento em quatro
domínios: inteligência, criatividade, capacidade
socio-afetiva e habilidades sensório-motoras. No
domínio da inteligência a autora propõe duas vias
de expressão: vivacidade mental e pensamento linear
(engloba produção superior em linguagem, comuni-
cação e expressão; curiosidade e interesses amplos e
variados, perspicácia, senso de humor, entre outros);
e profundidade e pensamento não linear abstrato
(engloba produção superior em matemática e
ciências, memória, pensamento analítico, entre
outros). A folha de observação contém 25 itens
onde se pede que o professor indique, por exemplo:
62
os melhores da turma nas áreas de matemática e
ciências; os melhores nas áreas de arte e educação
artística; os melhores em atividade extra-classe e
extracurriculares; os mais verbais e conversadores;
os mais curiosos; os mais participantes; os mais
críticos; os mais criativos; os mais preocupados com
o bem-estar dos outros; os mais desinteressados e
entediados, sem serem atrasados; com o melhor
desempenho em esportes e exercícios físicos etc.
(9) Nomeações pela motivação do aluno
Se o processo de formação do Pool de Talentos
for dinâmico, a nomeação de alunos pode ocorrer
a qualquer momento do ano escolar. Sendo assim,
o professor pode também designar para o atendi-
mento algum aluno que tenha demonstrado um
interesse incomum por alguma matéria, disciplina ou
tópico que esteja sendo estudado naquele momento.
Renzulli e Reis criaram um instrumento informal, em
formato de uma lâmpada, cunhado de “Mensagem de
Informação da Ação” (Action Information Message),
onde o professor anota as ações e atitudes do aluno
frente ao tópico de interesse, ressaltando as atividades
em que tenha demonstrado criatividade, alta motivação
ou envolvimento com a tarefa realizada na sala de
aula (Renzulli & Reis, 1997a). O professor anota
também idéias e sugestões para futuras intervenções
na área que poderiam ajudar o aluno a desenvolver e
aprofundar seu interesse específico, e as compartilha
com o coordenador da área de superdotação da sua
escola. Este, por sua vez, utiliza o instrumento e as
informações obtidas com o professor como uma fonte
suplementar de dados sobre o aluno, e os analisa à luz
dos seus interesses e áreas fortes, incluindo-o como
possível candidato ao Pool de Talentos.
Alunos motivados geralmente demonstram
interesse através de uma série de comportamentos,
tais como: faz grande número de perguntas; se
engaja em profundas discussões sobre um deter-
minado tópico; busca adultos com conhecimento na
área para satisfazer seus interesses ou curiosidade;
dedica grande parte do tempo livre no estudo ou
no desempenho de atividades relacionadas a este
interesse, por sua própria vontade, e às vezes até
compulsivamente; busca atividades extracurri-
culares relacionadas à área, nas quais demonstra
mais interesse do que em suas atividades escolares
regulares; demonstra alto interesse em explorar e
criar dentro de um determinado tópico (Davis, 1997;
Renzulli & Reis, 1997a). Assim, o professor atento
aos interesses dos alunos pode detectar mais pronta-
mente o maior envolvimento do estudante com uma
determinada tarefa, o que pode ser o aspecto que vai
levá-lo a desenvolver sua criatividade e habilidades
específicas na área de interesse.
Serviços especiais
COMPACTAÇÃO DO CURRÍCULO
Vários serviços poderão ser oferecidos aos
alunos identificados para o Pool de Talentos ainda
dentro do ensino regular. Dentre os mais indicados
está a compactação do currículo, que permite aos alunos
com habilidades intelectuais superiores prosseguir
de forma mais rápida com o conteúdo que já foi
dominado, eliminando a rotina de passar por exercícios
repetitivos desnecessariamente. O recurso da compac-
tação do currículo torna mais desafiador o ambiente
de aprendizagem, dando ao aluno oportunidade de
aproveitar melhor seu tempo para o desenvolvimento
de atividades de enriquecimento e abrindo espaço
para a aceleração escolar (Reis, Burns & Renzulli,
1992; Starko, 1986)
16
.
Dois procedimentos são essenciais para
a compactação do currículo: (1) um cuidadoso
diagnóstico da situação; e (2) completo conhe-
cimento do conteúdo e dos objetivos da unidade
de instrução. O professor deve identificar a área
do currículo que o aluno já dominou e suas áreas
fortes, geralmente observadas quando o aluno
termina rapidamente uma tarefa com pouco ou com
nenhum erro, e quando demonstra insatisfação,
tédio ou desânimo com o ensino, desperdiçando
o seu tempo em sala de aula para sonhar acordado
ou fazer bagunça. Em seguida, o professor deve
aplicar atividades ou pré-testes para assegurar se o
aluno tem completo domínio do tema ou conteúdo,
e se atende aos objetivos daquela unidade. Na
maioria dos casos, as provas e avaliações utili-
zadas ao término do bimestre ou semestre servem
como pré-teste. Uma vez documentada a área em
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que o aluno já domina, o professor indica as ativi-
dades que podem ser eliminadas do currículo ou
aceleradas para se adaptar ao ritmo próprio do
aluno. E, por fim, o professor explora as diversas
formas de aceleração ou enriquecimento que ele
poderia providenciar ainda na sala de aula regular.
Por exemplo, se várias unidades curriculares de
matemática foram compactadas, o professor deve
decidir se o aluno pode ser acelerado para outra
série ou se poderá ser beneficiado por um aprofun-
damento do conteúdo na matéria, ou mesmo se deve
dedicar o tempo extra a outra disciplina ou tópico
de interesse. A filosofia do programa, os recursos
viabilizados, e considerações práticas, tais como
restrições da escola à aceleração, e a maturidade
do aluno para assumir tarefas específicas de outra
série devem subsidiar tais decisões.
É importante notar que os alunos devem
participar destas decisões e entender que, ao dar
o melhor de si em uma disciplina, poderá ter
mais tempo para trabalhar em outro tópico do
seu interesse. Neste sentido, alunos que tradi-
cionalmente demonstram desinteresse com o
ensino, tiram notas ruins ou deixam de assistir as
aulas, passam a ter maior interesse em dominar o
conteúdo e a demonstrar o que sabem.
ACELERAÇÃO
A aceleração é um dos serviços que a escola
pode oferecer para alunos academicamente adian-
tados, permitindo-os avançar e cumprir em menor
tempo as séries escolares. Acelerar implica em
decidir que a competência, e não a idade, será o
critério determinante para que o indivíduo obtenha
acesso a um currículo e experiências acadêmicas
mais adiantadas. Este critério é utilizado sem
questionamentos em várias áreas, como as artís-
ticas e atléticas. Um aluno com alta competência
no piano ou na dança pode ser colocado em
classes onde múltiplas habilidades são percebidas
e estimuladas; no entanto, tradicionalmente isto
não acontece com relação à sala de aula regular.
Essa atitude se iguala a forçar todas as crianças
a usar o mesmo número de sapato, partindo da
concepção de que o tamanho único é ideal para
todos. Precisamos reconhecer que as pessoas variam
enormemente em seu desenvolvimento físico,
intelectual e emocional. Argumenta VanTassel-
Baska (1998) que, se a educação quer ser efetiva,
os educadores devem responder a estas diferenças
com um currículo mais flexível. A aceleração pode
incluir a entrada precoce na escola, quando capaci-
dades superiores ou avançadas podem ser perce-
bidas cedo no desenvolvimento infantil, como
por exemplo, a leitura precoce ou a habilidade
de lidar com números em nível adiantado para a
idade. Pode incluir também pular séries quando
o aluno está adiantado em todas as matérias
escolares e não terá dificuldades em acompanhar
séries mais avançadas. Desta forma, há possibi-
lidade de entrada precoce na universidade, o que
também possibilita a entrada mais cedo do aluno
no mercado de trabalho.
ENRIQUECIMENTO
O enriquecimento é a opção mais encorajada
entre os serviços educacionais oferecidos pelos
programas especializados em vários países, inclusive
no Brasil. Vários modelos são apresentados na
literatura mundial sobre o tema. Destacamos aqui
o Modelo de Enriquecimento Escolar proposto
por Renzulli e Reis (1997a; 2000) e o Modelo do
Aprendiz Autônomo, de Betts (1986; 1991).
(1) Modelo de Enriquecimento Escolar
O Modelo de Enriquecimento Escolar
(Renzulli & Reis, 1997ª; 2000) é provavelmente
o mais amplo e extensivo modelo apresentado
na literatura atual, abarcando a identificação,
a administração, o treinamento de pessoal e
os serviços oferecidos ao aluno. Para estimular
os alunos a desenvolverem habilidades que os
permitam ser produtores de conhecimento, mais
do que simplesmente consumidores, três tipos de
enriquecimento foram planejados para os contextos
tanto do ensino regular quanto do especializado,
denominados Tipo I, II e III. É decisão da escola
optar ou não pela sua implementação no ensino
regular.
Enriquecimento do Tipo I - Este tipo de
Enriquecimento se inicia na sala de aula regular e
implica em atividades destinadas a todos os alunos
da escola. Esta abordagem tem três importantes
objetivos: (1) Dar oportunidade a todos os alunos
64
de participar de alguma experiência de enrique-
cimento curricular que seja de seu real interesse,
expondo os alunos a uma ampla variedade de
procedimentos, tais como palestrantes convidados,
excursões, demonstrações, desenvolvimento de
centros de interesse e uso de diferentes e variados
materiais audiovisuais; (2) enriquecer a vida dos
alunos através de experiências que usualmente
não fazem parte do currículo da escola regular; e
(3) estimular novos interesses que possam levar
o aluno a aprofundá-los em atividades criativas e
produtivas posteriores (Tipo III). É importante
que o aluno tome conhecimento do modo como
determinadas áreas são desenvolvidas, exploradas
ou pesquisadas na vida real, o grau de envolvi-
mento que se demanda do profissional no campo,
as questões, problemas e particularidades da área
etc. algumas das vantagens desta abordagem são:
(a) Permitir que os alunos se engajem em níveis
mais avançados de interesse em tópicos ou áreas
de estudo que podem ser usados para atividades
que envolvam maior criatividade, investigação
e pesquisa; (b) Permitir a participação de pais,
professores, professores-itinerantes, diretores
e mesmo outros alunos de outras salas ou séries
nestas atividades; (c) Diminuir a noção de elitismo
que se agrega aos programas especiais para alunos
com altas habilidades por meio da aplicação de
certas atividades para todos os alunos, e não só
para aqueles identificados como superdotados; (c)
Possibilita-se a maior integração entre o programa
regular e o programa de enriquecimento, com a
participação de toda a Equipe de Enriquecimento;
e como resultado, a escola se torna potencialmente
um lugar inclusivo e mais estimulante e para
todos.
O Enriquecimento Escolar do Tipo II,
que também pode ser aplicado nos contextos
de sala de aula regular e de recursos, consiste de
técnicas, materiais instrucionais e métodos desig-
nados a três grandes áreas, têm como objetivo:
(1) desenvolver nos alunos as habilidades gerais
de pensamento crítico, resolução de problemas e
pensamento criativo; (2) desenvolver os processos
afetivos, sociais e morais, tais como sentir, apreciar,
valorizar, respeitar; (3) desenvolver uma grande
variedade de aprendizagens específicas de “como
fazer”, tais como tomar notas, entrevistar, classificar
e analisar dados, tirar conclusões etc., necessárias
ao processo científico; (4) desenvolver habilidades
avançadas para a aprendizagem de materiais de
referência, tais como resumos, catálogos, registros,
guias, programas de computador, Internet, etc.;
e (5) desenvolver habilidades de comunicação
escrita, oral e visual, a fim de que a produção do
aluno tenha maior impacto sobre determinadas
audiências. O estudante é encorajado a, primeiro,
dominar as ferramentas de que vai precisar para
desenvolver atividades de Enriquecimento do
Tipo III, dependendo do tipo de projeto do seu
interesse; e segundo, a utilizar seus conhecimentos
para desenvolver com aproveitamento e produti-
vidade as atividades de seu real interesse. Assim, o
estudante que se interessou por plantas, após uma
atividade de Tipo I, pode se engajar em leituras
mais avançadas ou aprofundadas sobre Botânica;
compilar, planejar e executar atividades como
um cientista desta área; e aprender mais sobre os
métodos de pesquisa característicos deste campo
do conhecimento. Este processo é resultante dos
interesses específicos do aluno com o tópico a
ser pesquisado e, portanto, deve ser ensinado em
conexão com a atividade de Tipo III escolhida.
As atividades de Enriquecimento do Tipo
III são planejadas para o aluno que demonstra um
grande interesse em estudar com maior profun-
didade uma área do conhecimento; que esteja
pronto para dedicar grande parte do seu tempo
para a aquisição de um conteúdo mais avançado;
e que queira participar de um processo de treina-
mento mais complexo, no qual assume o papel
de aprendiz em primeira-mão. Entre as metas
das atividades de Enriquecimento de Tipo III,
destacam-se a oportunidade para que o aluno
possa: (a) aplicar seus interesses, conhecimentos,
idéias criativas e motivação em um problema ou
área de estudo de sua escolha; (b) adquirir um
16 Sobre programas de atendimento ao superdotado e métodos
utilizados, recomenda-se o capítulo 5 do livro: “Alencar, E. M. L.
S., & Fleith, D. S. (2001). Superdotados: Determinantes, educação
e ajustamento. 2ª. Edição revista e ampliada. São Paulo: EPU.
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conhecimento avançado a respeito do conteúdo
e metodologia próprios a uma disciplina, área de
expressão artística ou estudos interdisciplinares
em particular; (c) desenvolver produtos autênticos,
com o objetivo de produzir determinado impacto
em uma audiência pré-selecionada; (d) desen-
volver habilidades de planejamento, organização,
utilização de recursos, gerenciamento de tempo,
tomada de decisões e auto-avaliação; e (e) desen-
volver motivação/ envolvimento com a tarefa,
autoconfiança e sentimentos de realização criativa,
e habilidade de interagir efetivamente com outros
alunos, professores e pessoas com níveis avançados
de interesse e conhecimento em uma área comum
de envolvimento.
É importante ressaltar que a ênfase dada às
experiências de tipo III muda da aprendizagem
sobre determinado tópico para a aprendizagem
do como se obtém, categoriza, analisa e avalia a
informação em determinados campos; e envolve
o uso de métodos autênticos de pesquisa em um
determinado campo de estudo. Desta forma, o
estudante pode ultrapassar o tradicional papel de
reprodutor do conhecimento para assumir o papel
de investigador em primeira-mão, absorvendo
paulatinamente o papel de agentes de mudança,
com impacto no mundo que os rodeia.
(2) O Modelo do Aprendiz Autônomo
O Modelo do Aprendiz Autônomo, desen-
volvido por George Betts, diretor do Centro
de Educação e Estudos sobre o Superdotado
da Universidade do Nordeste do Colorado, foi
concebido para satisfazer as necessidades cognitivas,
sociais e emocionais do aluno superdotado (Betts,
1986, 1991). O modelo parte do entendimento
de que, à medida que tais necessidades são satis-
feitas, os alunos se desenvolverão como aprendizes
autônomos, com a capacidade de serem responsáveis
pelo desenvolvimento, implementação e avaliação
da própria aprendizagem. Há cinco dimensões
principais: orientação, desenvolvimento individual,
atividades de enriquecimento, seminários e estudos
em profundidade.
A dimensão de Orientação é a parte do
programa que focaliza as informações básicas
que os alunos, professores, pais e administra-
dores precisam saber a respeito das altas habili-
dades. Assim, a ênfase é colocada na concepção
de superdotação, criatividade e desenvolvimento
do potencial. Por meio de atividades de grupo
e dinâmicas, os alunos aprendem a respeito da
superdotação enquanto conceito e deles próprios,
suas habilidades, interesses e áreas fortes; e sobre
o que o programa tem a oferecer, suas oportuni-
dades e responsabilidades. Os professores passam
por treinamento específico com relação à super-
dotação, e orientações são dadas a pais, adminis-
tradores e pessoas da comunidade envolvidas no
programa.
A segunda dimensão do Modelo do
Aprendiz Autônomo é a do Desenvolvimento
Individual, que fornece oportunidades ao aluno
de desenvolver habilidades, conceitos e atitudes
necessárias para sair do papel passivo de estudante
para um, mais ativo, de aprendiz. Estas ativi-
dades estão relacionadas às necessidades cogni-
tivas, afetivas e emocionais do indivíduo e são
dirigidas pelo seu processo de desenvolvimento,
envolvendo: (a) habilidades de aprendizagem (que
envolvem habilidades de resolução de problemas,
criatividade, habilidades de organização, de escrita,
de tomada de decisões, de pesquisas, de estudo e
comportamento direcionado a metas, entre outras
habilidades de aprendizagem importantes); (b)
entendimento pessoal (por exemplo, atividades de
aceitação de sim mesmo, autoconceito positivo,
responsabilidade pessoal e psicologia da perso-
nalidade saudável, entre outros); (c) habilidades
interpessoais (comunicação com o outro, entre-
vistas, processos de grupo); (d) envolvimento com
as profissões e carreiras que gostariam de seguir.
A Dimensão de Atividades de
Enriquecimento inicia-se com o entendimento
do aluno sobre as diversas áreas do conhecimento,
ajudando-o a selecionar as áreas que domina ou
tem maior motivação (ou paixão) e estudá-las
com maior envolvimento. Atividades de explo-
ração ajudam o aluno a selecionar um tópico, a
explorá-lo em profundidade e a apresentar suas
descobertas aos colegas. O aluno é encorajado a
propor um tópico de investigação, a descrever seus
66
objetivos, as atividades específicas para atingir tais
objetivos, o tempo necessário para sua consecução,
recursos materiais e humanos necessários, tipo de
audiência mais apropriado ao seu tema e avaliação.
Atividades culturais também são incentivadas,
como visitas a museus, peças, concertos, debates,
exposições e viagens de aventuras. E finalmente,
nesta dimensão, atividades são também planejadas
para ajudar o aluno a entender o humanitarismo
e a desenvolver projetos em que possam ajudar
outras pessoas ou grupos em suas comunidades.
A quarta dimensão do Modelo, Seminários,
é o momento em que o aluno começa a mostrar
suas características enquanto aprendiz indepen-
dente e autônomo. Um Seminário é um projeto
de curta duração a ser desenvolvido em pequenos
grupos, e compreende a preparação de um tópico,
selecionado entre as categorias de Futurístico
(tópicos e técnicas necessários para o mundo
futuro), Controverso (tópicos que não são
consenso e mostram uma natureza controvertida),
Problemático (problemas que os alunos enfrentam
em sua própria comunidade até problemas
mundiais), Interesse Geral (não precisando se
encaixar necessariamente em uma categoria) e
Conhecimento Avançado (investigação na área
que talvez seja de interesse apenas de um pequeno
grupo de alunos).
E finalmente, a última dimensão do
Modelo do Aprendiz Autônomo, Estudo em
Profundidade, permite que o aluno defina uma
“área de paixão” a ser estudada em profundidade.
Os aprendizes são responsáveis em definir o que
querem estudar, desenvolver um plano de ação,
participar efetivamente do estudo e avaliá-lo ao
ser completado. Ao atingir esta fase, o aluno está
pronto para aprender, desenvolver novas idéias e
projetos com o mínimo de instrução e orientação.
Também poderá desenvolver meios de avaliar seu
próprio projeto, compartilhando seus critérios com
os professores e mentores. Terá assim atingido, em
vários anos de um trabalho seqüencial e ordenado,
o seu papel de aprendiz autônomo, altamente
motivado e auto-direcionado a seus próprios
objetivos. Em perfeita sintonia com o Modelo de
Enriquecimento Escolar de Renzulli, o Modelo
do Aprendiz Autônomo de Betts oferece oportu-
nidades e direcionamento para o indivíduo desen-
volver todas as suas potencialidades e inclinações,
colaborando de forma produtiva e independente
para um mundo melhor.
Uma palavrinha final
Os alunos com altas habilidades necessitam
de serviços educacionais diferenciados que possam
promover seu desenvolvimento acadêmico,
artístico, psicomotor e social, o que inclui métodos
de ensino adaptados às suas necessidades especiais.
No contexto brasileiro atual, torna-se necessário
que o país abra suas portas às modernas evidências
de pesquisa sobre o indivíduo portador de altas
habilidades, e que considere seu potencial como
promotor do desenvolvimento tecnológico, cultural
e educacional da nossa nação. Não podemos desper-
diçar nossas inteligências; há por toda parte um
rico manancial de jovens esperando por melhores
oportunidades e desafios às suas capacidades. O
Brasil iniciou várias mudanças, em nível do governo
e de sociedade, voltadas para uma ampla abertura
na política educacional para a área de superdotação.
Na área acadêmica, pesquisas têm demonstrado
a necessidade de se dar mais atenção a uma área
que ainda se mostra tabu em nossa cultura. Vencer
medos e preconceitos é o desafio que nos espera.
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Elsevier Science.
SOBRE A AUTORA
Angela Mágda Rodrigues Virgolim
é psicóloga, mestre em Psicologia e Ph.D.
em Psicologia Educacional pela University
of Connecticut. Foi presidente do Conselho
Brasileiro para Superdotação – ConBraSD (biênio
2005/2006) e é professora adjunta do Instituto de
Psicologia da Universidade de Brasília.
Ministério da Educação
Secretaria de Educação Especial
Esplanada dos Ministérios - Bloco “L” 6º andar CEP: 70.047-900
seesp@mec.gov.br - naahs.seesp@mec.gov.br - www.mec.gov.br

FICHA TÉCNICA

Secretaria de Educação Especial
Claudia Pereira Dutra

Projeto Gráfico
Michelle Virgolim

Departamento de Políticas de Educação Especial
Cláudia Maffini Griboski

Ilustrações
Isis Marques Lucas B. Souza

Coordenação Geral de Desenvolvimento da Educação Especial
Kátia Aparecida Marangon Barbosa

Fotos
Vini Goulart João Campello Banco de imagens: Stock Xchng

FICHA CATALOGRÁFICA
Dados Interncaionais de Catalogação na Publicação (CIP) Virgolim, Angela M. R. Altas habilidade/superdotação: encorajando potenciais / Angela M. R. Virgolim - Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Especial, 2007. 70 p.: il. color. ISBN 978-85-60331-13-0 1. Superdotação. 2. Identificação de talentos. 3. Educação dos superdotados. I. Brasil. Secretaria de Educação Especial. II. Título. CDU 376.54

Autora
Angela Mágda Rodrigues Virgolim

Capa Revisão Técnica
Renata Rodrigues Maia-Pinto Rubens Fontes

Tiragem
5 mil exemplares

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Nesse sentido. Claudia Pereira Dutra Secretária de Educação Especial . São idéias e procedimentos que serão construídos de acordo com a realidade de cada Estado contribuindo efetivamente para a organização do sistema educacional. Para subsidiar as ações voltadas para essa área e contribuir para a implantação. com espaço para apoio pedagógico aos professores e orientação às famílias de alunos com altas habilidades/superdotação. em parceria com as Secretarias de Educação. orientações para o professor e à família. disponibiliza recursos didáticos e pedagógicos e promove a formação de professores para atender os desafios acadêmicos.APRESENTAÇÃO A proposta de atendimento educacional especializado para os alunos com altas habilidades/ superdotação tem fundamento nos princípios filosóficos que embasam a educação inclusiva e como objetivo formar professores e profissionais da educação para a identificação dos alunos com altas habilidades/superdotação. Os professores formados com o auxílio desse material poderão promover o atendimento e o desenvolvimento dos alunos com altas habilidades/superdotação das escolas públicas de educação básica e disseminando conhecimentos sobre o tema nos sistemas educacionais. A atuação do MEC/SEESP na implantação da política de educação especial tem se baseado na identificação de oportunidades. Estes Núcleos são organizados para atendimento às necessidades educacionais especiais dos alunos. garantindo que tenham acesso a espaços destinados ao atendimento e desenvolvimento de sua aprendizagem. sócio-emocionais dos alunos com altas habilidades/superdotação. comunidades escolares e famílias nos Estados e no Distrito Federal. os Núcleos de Atividades de Altas Habilidades/Superdotação – NAAH/S. a Secretaria de Educação Especial. implantou. a Secretaria de Educação Especial do Ministério da Educação – SEESP. com vistas ao pleno desenvolvimento das potencialidades desses alunos. Com essa ação. no sentido de atender às necessidades e interesses de todos os alunos. no estímulo às iniciativas. convidou especialistas para elaborar esse conjunto de quatro volumes de livros didático-pedagógicos contendo informações que auxiliam as práticas de atendimento ao aluno com altas habilidades/superdotação. na geração de alternativas e no apoio aos sistemas de ensino que encaminham para o melhor atendimento educacional do aluno com altas habilidades/superdotação. em todas as Unidades da Federação. oportunizando a construção do processo de aprendizagem e ampliando o atendimento. oportunizando o aprendizado específico e estimulando suas potencialidades criativas e seu senso crítico.

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SUMÁRIO Introdução 09 Capítulo 1: Por que investir na educação de alunos com Altas habilidades/superdotação? 13 O papel da família. afetivas e sociais do superdotado 41 Capítulo 4: Encorajando potencialidades Desenvolvendo a superdotação na teoria e na prática 51 . da escola e da sociedade no desenvolvimento dos talentos Capítulo 2: O que as palavras querem dizer? As diferentes terminologias e definições na área 21 Capítulo 3: Como reconhecer uma criança superdotada? As características cognitivas.

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No entanto. para o fato de que essas mentes extraordinárias. torna-se reconfortante pensar que podemos encorajá-los e desenvolvê-los pelo menos para levarmos vidas mais produtivas e satisfatórias. sociais e afetivas peculiares. No entanto. Muitas crianças não têm a oportunidade de explorar suas poten- cialidades em seus anos iniciais de vida e seus talentos podem ficar escondidos ainda durante os anos escolares e. por exemplo. se o professor não valida ou aceita as habilidades avançadas e interesses intelectuais da criança. chama-se a atenção. às vezes. nos dias atuais. William Shakespeare. embora nem todos nós sejamos um dia reconhecidos por nossos talentos. não nasceram inteiramente prontas. se a criança cedo descobre que é diferente dos colegas e que a comunicação é difícil devido à diferença de vocabulário e modo de se expressar. sentir que é aceita pelos professores e colegas de classe. a fim de dar-lhes oportunidades . Pesquisadores chamam a atenção para o fato de que todos temos aspectos comuns no nosso desenvolvimento e. a tecnologia. que deveriam fomentar o ímpeto para o entusiasmo e aprendizagem nos anos vindouros. Leonardo da Vinci. a cultura e as artes a patamares inusitados. Da mesma forma. já nas primeiras séries. em geral. Todos eles se destacaram em virtude de suas realizações criativas. o que nos vem à mente é a figura dos grandes gênios e visionários da humanidade. pode vir a não ser aceita pelos amigos. Assim é que os primeiros anos escolares. de fracasso e insucesso. Muito freqüentemente a criança aprende a esconder ou negar suas habilidades. Marie Curie. Além disso. suas necessidades cognitivas. esta pode deixar de vivenciar sentimentos de aceitação. pode ser um sinal. A criança entra na vida escolar. conhecer os pontos fortes e os interesses do aluno. Charles Darwin. para o aluno brilhante. Albert Einstein. a fim de melhor se adaptar às demandas do ambiente escolar. Não há uma separação absoluta entre tais pessoas e os seres humanos “comuns” como eu e você. passando a desenvolver problemas comportamentais ou psicológicos. Wolfgang Amadeus Mozart. sem consciência de seus talentos. Isaac Newton. enquanto educadores.9 INTRODUÇÃO Atas Habilidades / Superdotação: Encorajando de Alunos Introdução Volume 02: Atividades de Estimulação Potencias Sempre que falamos em superdotação. por toda a sua vida. a despeito de suas potencialidades genéticas. as ciências. incorporandoos ao currículo. expresso em diferenças entre o desenvolvimento intelectual e o emocional ou psicomotor. deram contribuições positivas para a humanidade e elevaram o conhecimento humano. Torna-se nossa tarefa. É vital para a criança. a maioria dessas crianças demonstra um padrão desigual de desenvolvimento cognitivo. Mahatma Ghandi e Pablo Picasso estão entre os relativamente poucos que ousaram inventar idéias inteiramente novas e quebrar os paradigmas vigentes em suas áreas.

assegurando o cumpri- mento da legislação brasileira e o princípio da igualdade de oportunidades para todos. o desconhecimento é . Além disso. Muitos saem de seus cursos sem terem a oportunidade de conhecer esta área tão importante do desenvolvimento da criança.10 de construir seu próprio conhecimento no seu próprio ritmo. a diferenciação e o enriquecimento curricular. Talvez assim possamos transformar suas potencialidades e promessas. Sabemos que o tema das altas habilidades/ superdotação é ainda pouco discutido em nossas universidades. A par destes desafios. Além de atender ao alunado identificado como superdotados. sobre o desenvolvimento de potenciais. e colaborar para a construção de uma educação inclusiva e de qualidade. propõem-se a oferecer acompanhamento aos pais dessas crianças e à comunidade escolar em geral. Muitos são os desafios que nossas escolas têm que enfrentar para poderem fornecer uma educação de qualidade e atender às demandas cognitivas de todo o seu alunado de forma inclusiva. O propósito deste livro é o de esclarecer. principalmente os educadores que atuam nos NAAH/S. a criação dos Núcleos de Apoio às Altas Habilidades/ Superdotação – NAAH/S apresenta-se como uma resposta adequada aos problemas propostos pela área. os Núcleos objetivam a promoção da formação e capacitação dos professores para que possam identificar e atender a esses alunos. aplicando técnicas e estratégias de ensino para a suplementação. Para os pais. em certezas e realizações. o que produz uma lacuna na formação dos professores. visualizadas em seus primeiros anos.

A superdotação será assim focalizada inicialmente pelo olhar da mídia e pelo que ela tem a contribuir com a divulgação da área. E finalmente. Pais e professores necessitam saber destas características peculiares para se colocarem em uma posição privilegiada para entender e guiar a criança em seu processo de desenvolvimento. A todos uma boa leitura. O segundo capítulo vem esclarecer o significado de tantas palavras diferentes – superdotado. tendo como foco o papel da pessoa com altas habilidades nestas transformações. o capítulo termina mostrando como a superdotação pode ser identificada e desenvolvida na prática. com características diferentes e habilidades diversificadas. da escola e da sociedade no desenvolvimento dos talentos. Atividades práticas a serem desenvolvidas pelas crianças de acordo com as inteligências demonstradas em sala de aula e como os professores podem aconselhar os pais a desenvolver o talento e a criatividade no contexto familiar são também debatidos. prodígio. de forma a poder atender as necessidades especiais desta população. a visão da ciência e informações advindas de evidências empíricas serão apresentadas. que não se percebem como superdotadas. as fazem se sentir diferentes dos demais. nos dá uma idéia estereotipada sobre a superdotação. estilos de aprendizagem. dirimindo noções estereotipadas e assinalando práticas que favorecem o desenvolvimento de potenciais. As habilidades mentais essenciais em uma sociedade que prima pela mudança e transformação contínuas são pontuadas. tendo em mente que o ambiente é o principal promotor das capacidades superiores que um dia vão desabrochar de forma plena. muitas vezes. níveis de motivação e de autoconceito. O termo “superdotado”. Em contraponto. compreender a superdotação em seus aspectos mais básicos e assim se tornarem agentes na promoção do desenvolvimento dos potenciais. de forma a ajudá-la a se tornar um adulto equilibrado e saudável. preocupados em fornecer uma educação de excelência aos seus filhos e alunos. Esperamos que este livro venha a suprir as necessidades na área apontadas por pais e professores. assim como suas necessidades sócioemocionais são debatidas no terceiro capítulo. características de personalidade e principalmente por suas necessidades educacionais. Como reconhecer uma criança superdotada? As características cognitivas e afetivas do superdotado. O primeiro capítulo deste livro foi delineado em forma de uma instigante pergunta: Por que investir na educação de alunos com altas habilidades/ superdotação? Neste capítulo são discutidos o papel da família. sejam eles professores ou pais. A criatividade. níveis diferentes de habilidades e pontos de vista diferentes sobre a importância da genética e do ambiente no fenômeno da superdotação. mostrando a relação da superdotação com a inteligência e como ela é vista pelos teóricos nos dias atuais. Isto provavelmente se dá porque a palavra as remete aos super-heróis das estórias em quadrinhos que. As pessoas com altas habilidades formam um grupo heterogêneo. Assim. o quarto e último capítulo focaliza o encorajamento das potencialidades. a introversão. A mídia.11 ainda maior. precoce. de ter a necessária estimulação mental. Entendemos que é tarefa dos educadores. E finalmente. o senso de humor. gera confusões até mesmo entre as pessoas com habilidades superiores. Torna-se importante entender alguns traços de personalidade típicas do grupo – como por exemplo. focalizando questões como heterogeneidade da população. e exemplificados por meio do Modelo de Enriquecimento Escolar de Joseph Renzulli e do Modelo do Aprendiz Autônomo de George Betts. uma vez que nossa sociedade ainda trata este tema como tabu. Introdução Volume 02: Atividades de Estimulação de Alunos . por meio de casos que se tornaram conhecidos no cenário mundial. entre outras. a intensidade dos sentimentos. assinalando os métodos de identificação mais comuns aos diversos modelos existentes. além de ser apresentado de forma deturpada. diferem uns dos outros também por seus interesses. a grande necessidade de entender o mundo à sua volta. com seus poderes sobrenaturais. multipotencialidades. o pensamento crítico e habilidades analíticas devem ser combinadas para aumentar as chances de sucesso na sociedade atual. vista principalmente sob a ótica da pessoa academicamente precoce e capaz de feitos maravilhosos. gênio. as formas mais comuns utilizadas na escola regular e nos programas para superdotados. o perfeccionismo. torna-se necessário entender como os educadores podem contribuir para desenvolver o talento e o potencial dos filhos desde tenra idade. a não conformidade.

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Capítulo 1 Por que investir na educação de alunos com Altas habilidades/ superdotação? O papel da família. da escola e da sociedade no desenvolvimento dos talentos .

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Para perceber sua importância. que nossos jovens desenvolvam habilidades intelectuais fundamentais. O papel de aventureiro refere-se a uma disposição interior para explorar e se aventurar por novos caminhos. resolução criativa de problemas e tomada efetiva de decisões –. em seu livro “Mentes Abertas” (Lewis. como a capacidade de recordar rapidamente informações. principalmente quando os velhos hábitos já não resolvem novos problemas. como também são uma fonte revigorante. Assim sendo. de buscar soluções eficientes para problemas e tomar decisões efetivas. sem dúvida. os educadores devem colocar tais fatores em prática. Essa postura exige uma combinação de inteligências para resolvermos problemas e criarmos novos produtos necessários ao desenvolvimento de nossa cultura. O mundo de hoje clama por boas idéias. 1987) alerta para o papel dos pais e educadores na aprendizagem inicial da criança. o jovem do mundo de hoje deve desenvolver outras habilidades mentais que. em que cada vez mais as nações percebem que os talentos humanos são seus bens mais preciosos.15 Capítulo 1: Por que investir na educação de alunos com Altas habilidades/ superdotação? O desenvolvimento dos talentos e o papel dos educadores O século XXI nasce como o prenúncio de uma nova era. recomenda aos educadores que considerem três papéis que a criança terá que representar. do artista e do atleta. No entanto. o entusiasmo e a habilidade das crianças constituem-se não só no bem maior de uma nação. a velocidade com que o conhecimento passou a ser transmitido por meios eletrônicos de uma região do mundo à outra introduziu a necessidade de constante inovação. que compreende o domínio e a conquista de novas habilidades. Lewis . Exige também a integração de ações que devem se iniciar no lar e progredir com a ajuda da escola. o psicólogo e neurofisiólogo David Lewis. em adição a estas habilidades mentais essenciais já citadas – reter e recordar informações. O aventureiro é aquela pessoa curiosa. de desenvolver o pensamento lógico. motivação e segurança. em adição a tudo isso. o bom êxito da aprendizagem depende de três fatores fundamentais: informação. (b) desenvolvendo o desejo natural da criança de aprender. E. descobrir novos padrões e levantar diversos tipos de informações para construir uma idéia. a fim de que seja bem sucedida no mundo do futuro: o papel do aventureiro. a fim de ajudá-la a dominar as habilidades mentais essenciais para o sucesso futuro. e (c) proporcionando-lhe um ambiente seguro onde ela possa exercitar e aperfeiçoar suas habilidades mentais. pensamento lógico. da seguinte maneira: (a) agindo como uma fonte de informação. embora fundamentais para o êxito do pensamento. que busca estratégias para A IMPORTÂNCIA DO DESENVOLVIMENTO DE TALENTOS NA SOCIEDADE Os educadores que querem ajudar os jovens a obterem êxito no mundo atual devem estimular certos aspectos de sua personalidade que os permitam expandir seus talentos e aplicá-los em algum campo do conhecimento e da cultura. duradoura e infindável. A inteligência. raramente são reconhecidas como tendo um papel essencial no talento intelectual adquirido. o desenvolvimento e aperfeiçoamento de talentos e a urgência de se agir e pensar com maior criatividade. Neste sentido. estimular as crianças a manterem uma mente aberta. Segundo ele. por mudanças em nossas noções pré-concebidas. Sendo assim. Os desafios do futuro exigem. com perfeição. a fim de que possamos preparar nossos jovens para enfrentar os desafios de uma sociedade onde as transformações constantes são a única certeza. a criatividade.

ainda. demonstravam estar orgulhosos das habilidades dos filhos e de suas realizações. imaginando como pode fazer diferente para se tornarem produtivas em seu campo de ação. Este autor relata que os pais de crianças que mais tarde se tornaram adultos com habilidades superiores acreditavam na importância do trabalho árduo e ativo. o jovem do nosso século deve possuir o entusiasmo. que enxerga o mundo por novas perspectivas. não apenas lendo sobre elas. (c) providenciam recursos e oportunidades de aprendizagem além daquelas fornecidas pelo ambiente escolar. mas também usam suas habilidades de pensamento criativo para fugir da rotina e dos velhos hábitos. escolhendo o primeiro instrutor com cuidado. o estudo de Bloom confirma que o desempenho superior A IMPORTÂNCIA DO DESENVOLVIMENTO DE TALENTOS NA FAMÍLIA Pais afetuosos e preparados. a intuição e a habilidade de ver além dos limites do que é. a estabelecer prioridades e a manter altos padrões para que uma tarefa fosse completada. é perseverante e confia em sua percepção e intuição. que o levam ao desejo de conquistar. Benjamin Bloom (1985) e seus colaboradores no final da década de 50 desenvolveram uma pesquisa que se tornou clássica e bastante conhecida na área. no futuro. Pais e professores estão em uma posição chave para estimular nas crianças a autoconfiança e a determinação necessárias para vencer em um mundo onde a força do raciocínio e da criatividade substituíram a força física como um passaporte essencial para o sucesso. (b) encorajam a criança nos seus esforços para aprender novas habilidades. torna-se também essencial agregar ao papel de aventureiro outro traço importante de nossa personalidade: o de artista. transformando. das experiências vivenciadas. tem espírito independente e mente flexível. de estabelecer metas e lutar para alcançá-las. em um mundo essencialmente tecnológico como o de hoje. e (d) estimulam seus filhos a se engajarem na área de interesse o mais cedo possível. as informações que estão no mundo à sua volta. assim como um professor motivador. Assim como o aventureiro. adaptando. Os seres humanos nascem com um enorme potencial. precisamos treinar nossos jovens para se tornarem aptos a conquistar as experiências do mundo em primeira mão. com ênfase na autodisciplina e em dar o melhor de si para se alcançar o objetivo proposto. enamorado pela disciplina que ensina. conceitos e idéias. O artista dentro de nós não se prende à rotina do que é familiar e está sempre transformando. Pessoas com o espírito aventureiro são as que buscam o conhecimento. as habilidades apresentadas pelos atletas se tornam também necessárias. Lewis recomenda aos educadores que estimulem nas crianças a imaginação. Assim. envolvendo famílias de renomados nadadores. jogadores de tênis. a energia criativa e a determinação dos campeões esportivos para comunicar suas novas idéias ao mundo. a família aprece em posição de destaque. inclusive mostrando interesses similares aos deles (como passatempos ou profissões). usando seu pensamento lógico para acumular informações essenciais. Neste sentido. Os responsáveis pela educação da criança devem cultivar a sua curiosidade. outras habilidades cognitivas relacionadas à superdotação podem desenvolver-se ou declinar-se em função . invertendo. contribuições expressivas à humanidade e. podem aumentar a probabilidade da criança e do jovem a desenvolverem as habilidades necessárias para dar. mas manipulando. Este seria nosso personagem interior que transforma as informações obtidas pelo aventureiro em novas idéias. Necessitará ainda do poder de persuasão e de clareza de expressão. mostrando ao mesmo tempo sua paixão. No entanto. entusiasmo e motivação pelo seu projeto. matemáticos e neurologistas. No entanto. para discernir o que poderia ser.16 descobrir. ter uma qualidade de vida mais satisfatória. Bloom forneceu evidências de que pais que têm maiores chances de influenciar positivamente no desenvolvimento da inteligência e do potencial de seus filhos são os que: (a) combinam apoio e altas expectativas para com o desempenho dos filhos. Neste ponto. motivá-la a buscar novas estratégias e construir seus próprios caminhos em busca do saber. experimentando e elaborando suas próprias hipóteses. onde as questões da prioridade e da rapidez se traduzem como vantagens competitivas no mundo do trabalho. de forma eficiente. imaginado outros usos e agindo sob perspectivas únicas e originais. escultores. modificando. pianistas. Apesar de a inteligência geral apresentar uma grande predisposição genética. ajudando-os a organizar o tempo. O sucesso no mundo que o jovem irá enfrentar no futuro depende cada vez mais da habilidade de lidar com o desconhecido.

Mais do que a disciplina e a habilidade em si. mas sim por uma ampla gama de experiências cuidadosamente planejadas e diferenciadas que levam em conta as habilidades. 1995). a missão das escolas deveria ser a de encorajar a produtividade criativa e intensificar a qualidade de experiências de aprendizagem para todos os estudantes e não só para os que se destacam por suas capacidades intelectuais superiores. o papel do educador também se modifica. a menos que haja um longo e intensivo processo de encorajamento. 1997a). os indivíduos não atingirão níveis extremos de capacidade nos campos pesquisados. Desta forma. educação e ajustamento”. identificar e separar o grupo dos superdotados daqueles que não o são. tornando-se eventualmente mais centrado nas habilidades. de 1986.. sobretudo do talento intelectual. do ensino pré-escolar no desenvolvimento precoce das altas habilidades. educação e treinamento. na autodisciplina e no ensino individualizado. consequentemente. engajá-los em experiências de aprendizagem que satisfaçam seus interesses e estimulem sua imaginação (Alencar. a priori. consequentemente. progride em seu aprendizado e domina uma técnica ou habilidade. Eunice Soriano de Alencar. Mudanças são necessárias na estrutura escolar atual. EPU. O trabalho de Bloom fez importante contribuição à prática educacional. afetividade. sob o título: “Superdotados: Determinantes.17 aparece depois que as crianças são estimuladas e encorajadas pelos pais. O autor parte do princípio de que.1998). o seu não-aproveitamento” (p. estimulado e potencializado ao máximo. A IMPORTÂNCIA DO DESENVOLVIMENTO DE TALENTOS NA ESCOLA No prefácio da primeira edição de seu livro “Psicologia e educação do superdotado”¹ talentos humanos. da extensão em que a excelência for cultivada e do grau em que condições favoráveis ao desenvolvimento do talento. a fim de que se promova condições apropriadas para a realização criativa e produtiva dos alunos. mas Capítulo 1: Por que investir na educação de alunos com Altas habilidades/ superdotação? . a eqüidade na educação seria obtida não por meio do fornecimento de experiências de aprendizagem idênticas para todos os alunos. afinal. estiverem presentes desde os primeiros anos da infância”. a par de uma consciência de que um sistema educacional voltado apenas para o estudante médio e abaixo da média pode significar o não-reconhecimento e estímulo do talento e. (c) utilizar mais o ensino individual do que o coletivo. como se poderia supor. Neste sentido. e preocupada com o desperdício e o desvio dos 1 Este livro foi reeditado por Alencar e Fleith. a professora Drª. estimular e aproveitar talentos humanos em desenvolvimento ou em potencial nas diversas áreas do saber humano é. 11). estes devem. Assim sendo. Nesta perspectiva.. não importando quais sejam as características inatas apresentadas pela criança. responsabilidade de todos: família. (b) transformar as lições em atividades lúdicas. ed. já chamava a ateção para a importância do desenvolvimento dos talentos e para a implementação de programas educacionais direcionados a esta população. Reconhecer. em 2001. À medida que a criança se desenvolve. enquanto educadores. (. Zenita Guenther reflete que o nosso papel. Bloom enfatiza que o encorajamento e afetividade são essenciais no caso dos primeiros instrutores ou professores dos anos iniciais da criança pré-escolar. é o de “encaminhar o desenvolvimento de pessoas e encontrar a melhor e mais apropriada forma de prover a cada um aquilo de que ele necessita para se tornar o melhor ser humano que pode vir a ser” (Guenther.) “O fato de que uma boa educação para todos não signif ica uma educação idêntica para todos tem levado a um interesse crescente pelos alunos mais competentes e capazes... fundamentalmente: (a) ensinar com carinho e respeito à velocidade e estilo de aprendizagem da criança. pioneira na implementação do estudo das altas habilidades/ superdotação no país. p. 2000. Dizia ela: “. e (d) desenvolver atividades em que os pais possam participar e demonstrar interesse no que a criança aprendeu. e não antes. a sua meta não seria. interesses e estilos de aprendizagem de cada estudante (Virgolim. e que este possa ser corretamente identificado. torna-se necessário que nossas escolas encarem o desafio de guiar nossos alunos para o desenvolvimento de traços de personalidade e atitudes favoráveis ao desenvolvimento do talento. do conhecimento (Renzulli & Reis. no sentido de acentuar a importância dos anos iniciais e. 20). escola e sociedade. Nesta mesma linha de pensamento. assim como prepará-los para se tornarem produtores. e não só consumidores. a Drª. o futuro de qualquer nação depende da qualidade e competência de seus profissionais.

como o de que o superdotado não necessita de mais recursos. de forma inclusiva. (b) materiais adequados à necessidade do grupo. Algumas pesquisas realizadas no Brasil (Fleith & Virgolim. podendo se desenvolver sozinho. Conseqüentemente. Publicar e implementar a literatura especializada em nosso idioma. como a necessidade de integração do ensino regular com o especializado. 2000. de atender.18 sim prover a cada aluno com as oportunidades. Há uma tendência para se criar uma separação entre os dois programas. Adaptar e diferenciar currículos e programas aos diferentes níveis em escolas públicas e particulares. Combater mitos e falácias. tão comum nas escolas americanas quanto nas brasileiras. aprofundando o conhecimento da sociedade sobre o tema. Esta separação é também percebida quando o professor do ensino regular não tem conhecimento de que o aluno está participando de um programa para as altas habilidades. 2005. a área se caracteriza pela falta de: (a) treinamento especializado dos profissionais. 1997. Fonte: Virgolim. da escola regular não assumir a responsabilidade pela educação total da criança ou do jovem. níveis em escolas públicas e particulares. (g) maior número de pesquisas realizadas com esta população para a realidade brasileira. 1999. suas necessidades afetivas e cognitivas especiais. quando isso implica o exercício de atividades fora da classe regular. vários são os problemas que a área da superdotação ainda enfrenta na realidade educacional brasileira (ver Quadro 1). (e) técnicas mais modernas de identificação. Ressaltar as necessidades cognitivas. Desenvolver e utilizar técnicas modernas de identificação. Guenther. Também Reis (1986) discute a questão da “responsabilidade” do programa. de se fazer mais pesquisas na área. como se a criança pudesse “ser superdotada” apenas no atendimento especializado. Vários pesquisadores brasileiros (por exemplo. Fleith & Virgolim. e de influenciar o desenvolvimento de políticas públicas. recursos e encorajamento necessários para atingir o seu potencial máximo. 2005) apontam para alguns desafios a serem enfrentados na área. Proporcionar treinamento especializado aos profissionais envolvidos. ou quando atribui a responsabilidade pelo desenvolvimento do potencial deste aluno apenas ao professor da sala de recursos. Para Virgolim (1998). Maia-Pinto. Proporcionar materiais adequados à necessidade do grupo. Virgolim. sociais e emocionais especiais desta população. o programa passa a ser visto como um apêndice DESAFIOS PARA AS ESCOLAS BRASILEIRAS : PROBLEMAS E SOLUÇÕES Embora o perfil do atendimento ao aluno superdotado tenha expressivamente se modificado nos últimos cinco anos. (d) cursos de graduação e pós-graduação nas universidades brasileiras específicos para a área. 2005) assinalam a necessidade de ampliação de serviços específicos para se conhecer melhor as características deste grupo em nosso país. apontando para o fato. 1999. 1998 . Virgolim. (c) currículos e programas adequados aos diferentes QUADRO 1: OS DESAFIOS DA ÁREA Disseminar a área da superdotação. Sabatella. no contexto escolar e familiar. Implantar cursos de graduação e pós-graduação específicos para a área nas universidades brasileiras. no contexto brasileiro. Estes autores destacam a importância do professor do ensino regular estimular a participação do aluno identificado em sala de recursos e de que haja uma coordenação efetiva que se responsabilize pelo desenvolvimento destes alunos tanto no contexto da sala regular quanto na de recursos. que favoreçam o reconhecimento. e (h) mais literatura especializada em nosso idioma. 2002. Realizar mais pesquisas com esta população para a nossa realidade. o estímulo e o aproveitamento de nossos potenciais humanos. 2001. Alencar & Fleith.

Neilson trabalhava como caixa e empacotador de supermercado. conquistou o III Concurso Internacional “Virtuosi do Século XXI” em Moscou. Neilson freqüentava o programa 2 vezes por semana. que se pode observar em alguns países mais desenvolvidos. Dinâmico e comunicativo. Em 1998. aluno talentoso na área do desenho. seus professores no ensino regular não se envolveram com o programa desenvolvido na sala de recursos. talentoso no violino. desde que o potencial seja identificado. sem dúvida. Em 1999. Guenther (2006) nos lembra que “a capacidade e talento humano se desenvolvem. russo. os principais jornais brasileiros noticiaram a apresentação. Para ilustrar este ponto de vista. aos 10 anos de idade. brasileiro. Sviridov começou os estudos de violino em 1994. de desenvolver ao máximo suas habilidades artísticas desde tenra idade. que apenas aos 17 anos foi indicado para participar do Programa para Altas Habilidades da Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal. do jovem violinista Evgeny Sviridov. Este foi o caso de Neilson. muitos dos talentos brasileiros passam despercebido durante seus anos escolares. Estudava à noite para concluir o 3º ano do Ensino Fundamental. Como tantos outros jovens brasileiros carentes. estimulado. em Novosibirski e em 2001. tomemos o exemplo de dois alunos superdotados na área artística. à tarde. Mesmo assim. não teve oportunidades. Contrapondo a esta realidade. foi convidado a integrar o elenco da Escola Especial de Música para Crianças Talentosas do Conservatório Rimsky-Korsakov. e se expressam em produção superior. Segundo Alencar e Fleith (2001). os talentos mais promissores em nossa sociedade serão desperdiçados. refletindo o problema do gerenciamento da responsabilidade pelo desenvolvimento integral do aluno. ao invés de um serviço necessário ou mesmo essencial (Fleith & Virgolim. Suas habilidades artísticas. não foram encorajadas fora da sala de recursos. fazia o primeiro recital solo. que participam de programas especiais em seus respectivos países: Evgeny Sviridov. Sua professora e técnica. E por fim. O caso desses dois talentos artísticos mencionados revela os desafios que ainda teremos de enfrentar se quisermos elevar o nível da educação e das oportunidades oferecidas aos jovens talentosos no nosso país. Evgeny toca seu violino pelo menos seis horas todo dia. então com 15 anos de idade. afim de avaliar suas falhas e corrigir sua performance. Sem estes fatores. recebeu o prêmio máximo do Concurso Internacional de Televisão “Bravo-Bravissimo” em Milão. 1999). insuficientemente valorizadas em seu contexto sóciocultural mais imediato. Dois anos depois. Elena Zaitseva. onde também era estagiário na área de computação. o que poderia ter-lhe proporcionando tempo para o estudo e o refinamento de sua arte.31). com o seu colega russo. é a responsável pela escolha do repertório e o acompanha onde quer que ele se apresente. no Brasil. é interessante ressaltar que Evgeny teve a oportunidade de participar de um atendimento especializado. e contar com uma flexibilidade curricular que permite que as crianças talentosas aprendam apenas o básico das disciplinas tradicionais para ter mais tempo livre para se dedicar às práticas artísticas. No Ensino Fundamental e no Ensino Médio. Nascido em São Petersburgo. No ano seguinte. e Neilson Moreira da Costa. mas só ia quando tinha oportunidade e tempo. em São Petesburgo. quando tinha apenas seis anos de idade. Em maio de 2004. em comparação ao que este país tradicionalmente oferecia aos seus jovens talentos. Perguntado sobre suas pretensões futuras. foi o grande vencedor do II Concurso para Violinistas e Violoncelistas de Toda a Rússia. Em seus trabalhos. Estreando em Paris em 2004. o jovem revelou que não pretendia cursar a universidade: precisava trabalhar para garantir seu sustento e de sua família. observa-se que o jovem optou por sacrificar sua arte em função da sua subsistência imediata e da família.19 do sistema escolar. acompanhado e orientado” (p. Este é um dos grandes desafios que teremos que enfrentar. spray e grafite. o que ocorre por razões diversas. Neilson gostava de usar lápis de cor. Neilson não usufruiu de um currículo adaptado às suas necessidades especiais. foi aclamado de pé durante 10 minutos ao término de seu recital no auditório do Louvre. no decorrer desta última década houve um retrocesso nas oportunidades oferecidas na Rússia. Nem sempre são incentivados a desenvolver suas habilidades específicas. Além disso. Capítulo 1: Por que investir na educação de alunos com Altas habilidades/ superdotação? . embora suas habilidades para o desenho fossem já excepcionais desde criança. Neilson não teve a chance de ser incluído no atendimento especial quando era mais jovem.

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Capítulo 2 O que as palavras querem dizer? As diferentes terminologias e definições na área .

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Capítulo 2: O que as palavras querem dizer?

A superdotação pelo olhar do senso comum
Os indivíduos que se destacam em virtude de suas altas habilidades ou feitos prodigiosos sempre foram foco da curiosidade popular. Desta forma, os meios de comunicação atuais estão sempre buscando exemplos de crianças e jovens que se destacam por seu potencial superior. Assim, em 2001, uma das crianças em destaque era Igor, um simpático garotinho de três anos, morador de uma região administrativa do Distrito Federal. Igor tornou-se notícia de jornal por ostentar uma habilidade precoce para uma criança de sua idade. Ainda trocando o “r” pelo “l”, Igor surpreendeu sua professora do Maternal II, quando esta perguntou, mostrando um livrinho de estórias: “Quem sabe o que está escrito aqui?” “Eu sei! – respondeu Igor: “A menina Dorminhoca!” e leu todas as outras informações contidas na capa do livrinho. Chamada na escola, a mãe informou que Igor, com um ano e meio, já lia anúncios na rua e se exibia para pequenas platéias. Os pais, de origem humilde e pouca instrução formal, explicaram que não ensinaram a criança a ler, embora tenham dado a ela oportunidade de manipular livros, oferecidos como distração enquanto ambos estudavam. Embora orgulhosos do filho, os pais revelavam uma preocupação típica de quem tem em casa uma criança precoce: não querem que o filho se sinta diferente ou excluído pelos colegas. Acontece que Igor está longe de ser um caso único, ou mesmo raro. A habilidade superior, a superdotação, a precocidade, o prodígio e a genialidade são gradações de um mesmo fenômeno, que vem sendo estudado há séculos em diversos países, como China, Alemanha e Estados Unidos.

No entanto, concepções teóricas divergentes, assim como percepções estereotipadas sobre a superdotação, em geral propagadas na sociedade, têm permeado o campo (Ziegler & Heller, 2000). Notase, por exemplo, na notícia de jornal sobre o caso de Igor, uma confusão entre “prodígio” e “precoce”, já no título da reportagem, onde se lê: “Criança prodígio – Igor é um pequeno craque. Com um livro nas mãos”, o que acaba por trazer mais desinformação ao campo e confundir também a população. Além disso, ao focalizar sua atenção em demasiado na divulgação de casos raros, a mídia colabora na propagação da superdotação como uma competência extremamente elevada em todas as áreas, gerando uma expectativa de desempenho e de produção que não se observa neste grupo de forma homogênea (Alencar, 2001). Neste capítulo vamos abordar as diferentes terminologias na área mostrando, por meio de exemplos e estudos de caso veiculados pela mídia e que fazem parte do senso comum, a diferenças entre este grupo tão heterogêneo. Exemplos de crianças precoces e prodígios serão discutidos. A fim de ilustrar os diferentes tipos de talentos focalizados na definição brasileira de superdotação, mostraremos as características apresentadas por pessoas que são reconhecidas como gênios. E, por fim, faremos o contraponto com as definições oferecidas pelos pesquisadores da área, analisando a superdotação por sua perspectiva científica. Antes de passarmos para a próxima seção, vamos esclarecer as diversas denominações para o termo “superdotado”.

A CRIANÇA PRECOCE
São chamadas de precoce as crianças que apresentam alguma habilidade específica prematu-

ramente desenvolvida em qualquer área do conhecimento, como na música, na matemática, nas artes, na linguagem, nos esportes ou na leitura. Sem dúvida, Igor é uma criança precoce, mas não se deve rotulá-la como superdotada, prodígio ou gênio, sem antes acompanhar seu desenvolvimento. Mesmo a superdotação precoce, em seu grau extremo, não é garantia de sucesso futuro, ou de que esta pessoa se tornará um adulto eminente. Crianças superdotadas, para Winner (1998) são precoces. Elas progridem mais rápido do que as outras crianças por demonstrarem maior facilidade em uma área do conhecimento. No entanto, Freeman e Guenther (2000) alertam para o fato de que nem todos os adultos que se tornaram eminentes foram crianças precoces. Há múltiplos fatores que interferem na trajetória de vida de uma criança precoce além do nível de habilidade, como os atributos de personalidade, a motivação em buscar a excelência, o ambiente familiar propício para o desenvolvimento das habilidades e as oportunidades que aparecerão no decurso de sua vida. Além disso, a motivação intrínseca, a curiosidade e a vontade de aprender, fatores essenciais para um desempenho superior, dependem de um ambiente educacional enriquecido para se desenvolverem. Tão precoce quanto Igor foi Léo Romano, que foi notícia em 2004 em uma revista semanal de informação 2. De família modesta da zona norte de São Paulo, filho de um bancário e uma dona de casa, Léo nunca freqüentou escolas nem recebeu nenhuma orientação. No entanto, com 2 anos e meio já conhecia as letras do alfabeto,
2 Revista Época, nº 343, 13 de dezembro de 2004

24 lia sílabas e palavras simples e demonstrava uma impressionante memória: sabia identificar as bandeiras dos Estados brasileiros e de uma centena de países. Além disso, memorizou fatos geográficos e históricos - por exemplo, sabia que a capital do Afeganistão é Kabul, que Nelson Mandela foi presidente da África do Sul e que Nero mandou atear fogo em Roma. Divulga-se em destaque a precocidade no xadrez, chamando a atenção para dois irmãos, Giovani e Giuliano Vescovi. Giovani mal havia completado dois anos quando, de tanto observar o pai, aprendeu sozinho a montar as peças em um tabuleiro de xadrez. Esta criança precoce, no entanto, recebeu toda a atenção da família, que se mudou do Rio Grande do Sul para São Paulo quando Giovani tinha seis anos, para que pudesse receber orientações específicas relativas à sua área de talento. Aos sete anos obteve em Porto Rico a taça de vice-campeão do torneio mundial na categoria infantil, após seis horas de jogo. Seu irmão menor, Giuliano, que também treinava xadrez diariamente desde os 4 anos, foi campeão paulista na categoria dente-de-leite. Os irmãos só paravam o treino na hora de brincar – que para eles muitas vezes significava resolver problemas de matemática em livros de séries mais avançadas. que começou a tocar cravo aos três anos de idade. Aos quatro anos, sem orientação formal, já aprendia peças com rapidez, e aos sete já compunha regularmente e se apresentava nos principais salões da Europa. Além disso, ao ouvir apenas uma vez o Miserere de Gregório Allegri, foi capaz de transcrever a peça inteira de memória, quase sem cometer erros (Gardner, 1999). Nesta sessão vamos falar de alguns prodígios da atualidade que têm encantado muita gente e desafiado nosso entendimento sobre o desenvolvimento humano típico. Feldman (1991) acredita que a existência dos prodígios é de suma importância para entendermos o fenômeno da mente humana. Este autor reflete que, mais do que nos ensinar sobre a expressão e o desenvolvimento do potencial humano, o prodígio também nos ensina como a humanidade chegou onde está e talvez como deva melhor coreografar essa nossa dança única na espécie. No passado, os prodígios eram vistos como “uma monstruosidade, algo fora do curso usual da natureza, como um cometa ou meteoro” (p. 4), explorados para propósitos financeiros e isolados dos amigos; no entanto, ainda hoje surpreende-nos por violar nossas expectativas sobre como o mundo deveria funcionar. Feldman propõe uma interessante distinção entre o indivíduo superdotado que se destaca por seu alto QI, medido por testes psicométricos, e o prodígio. O prodígio é único no sentido de exibir uma habilidade extremamente especializada, somente expressa sob condições bastante específicas do ambiente sócio-cultural. De forma contrastante, o indivíduo superdotado com alto QI possui habilidades intelectuais generalizadas que permite altos níveis de funcionamento em uma grande amplitude de ambientes. Tanto o especialista quanto o generalista podem apresentar realizações impressionantes que refletem habilidades radicalmente diferentes, como se deu no caso de Mozart e Leonardo da Vinci. Mozart é o exemplo do especialista: múltiplas e profundas habilidades musicais, mas em outros aspectos uma pessoa simples e intelectualmente normal. Já Leonardo da Vinci representa o perfil do generalista: erudita, curioso, uma mente vigorosa que dominou e contribuiu significativamente em uma variedade de diferentes domínios. Os prodígios são, como um todo, especialistas extremos, especialmente bem sintonizados a um campo particular do conhecimento, demonstrando um domínio rápido e aparentemente sem esforço. Embora os prodígios possam ser ou não talentosos no sentido de uma perícia intelectual mais generalizada, não demonstram desempenho extraordinário por várias áreas. Sendo precoce, o prodígio revela uma tenacidade no seu envolvimento com sua área de talento, sendo este aspecto absolutamente necessário para sua satisfação, expressão e bem-estar. Desta forma, o prodígio é relativamente raro e necessita da convergência de um número de circunstâncias únicas para permitir uma completa e especializada expressão de um poderoso potencial. O prodígio emerge em um ambiente onde convergem a tendência altamente específica do indivíduo de se engajar profundamente na área em que apresenta precocidade com uma específica receptividade ambiental, sendo por isso mesmo infreqüente e improvável. Ao estudá-los, estaremos numa posição de melhor compreender o processo mais geral envolvido no desenvolvimento do potencial. Vejamos alguns

A CRIANÇA PRODÍGIO
Já o termo “prodígio” é utilizado para designar a criança precoce que apresenta um alto desempenho, ao nível de um profissional adulto, em algum campo cognitivo específico (Feldman, 1991; Morelock e Feldman, 2000). Um clássico exemplo de uma criança prodígio, com uma habilidade excepcional, foi o de Wolfgang Amadeus Mozart,

25 casos divulgados pela mídia brasileira e internacional.
Capítulo 2: O que as palavras querem dizer?

PRODÍGIO NA MÚSICA
Um típico caso de criança prodígio é o pianista catarinense Pablo Rossi que, com apenas 11 anos de idade, gravou um CD com obras de Chopin, Bartók, Schumann, Tchaikovsky, Rachmaninov, Shostakovich e Nepomuceno, tendo sido também notícia na mídia impressa.3 Pablo toca com a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo e treina cinco a seis horas por dia. Considerado hoje o melhor pianista jovem do Brasil, este catarinense de 17 anos foi vencedor do 1º Concurso Nacional Nelson Freire de Novos Talentos Brasileiros e acumula premiações no Brasil e no exterior. Pablo Rossi nasceu em Florianópolis em 1989 e iniciou os estudos musicais aos seis anos. Aos sete ganhou o concurso para piano Jovens Intérpretes, de Lages, e passou a ter aulas em Curitiba com Olga Kiun, pianista russa naturalizada brasileira, ela própria uma criança prodígio que fez seu primeiro recital solo aos nove anos e aos doze realizou seu primeiro concerto como solista de orquestra. Pablo acumula diversos prêmios em sua curta carreira de pianista: já aos oito anos recebia o prêmio revelação no XXXII Festival de Inverno de Campos do Jordão e logo em seguida recebia o primeiro lugar nos seguintes concursos: Concurso de Piano Artlivre em 1997 e em 2000; no VII Concurso Nacional Magda Tagliaferro; no IX Concurso Nacional de Piano em Governador Valadares; no XIII Concurso Internacional na cidade de Córdoba, Argentina; no XI Concurso Internacional de Piano ‘Perfecto García Chornet’, na Espanha; e
3 Revista Época, nº 343, 13 de dezembro de 2004

no I Concurso Nacional Nelson Freire para Novos Talentos Brasileiros. Com o apoio do Governo do Estado do Paraná, Pablo conseguiu uma bolsa de estudos para cursar o Conservatório Tchaikovsky de Moscou, a convite da Sociedade Rachmaninov, em novembro de 1999, quando tinha 10 anos, tendo então a oportunidade de participar das masterclasses de Alexander Mndoyants e Viktor Merdjanoff. O aclamado prodígio já se apresentou com a Orquestra de Câmara Solistas de Londrina,a Orquestra Sinfônica do Paraná, a Camerata Florianópolis, a Sinfônica de Santa Catarina, a Sinfônica de Ribeirão Preto, a Orquestra Sinfônica Brasileira, além de ter realizado recitais em cidades como São Paulo, São José dos Campos, Macaé e Curitiba.

PRODÍGIO ACADÊMICO
O americano Gregory Robert Smith tem feitos notáveis em sua biografia de apenas 17 anos4. Destacamos aqui algumas de suas realizações: Aos 13 anos recebeu seu diploma de graduação suma cum laude em Matemática na RandolphMacon College, em Ashland, Virginia. Em maio de 2006, aos 16 anos de idade, recebeu o título de Mestre em Matemática pela Universidade de Virginia, EUA. Recentemente revelou que pretende obter seu PhD em quatro diferentes áreas: matemática, engenharia aeroespacial, ciência política e engenharia biomédica. É fundador da International Youth Advocates, dedicada à defesa de jovens e crianças carentes e à paz mundial. Em suas viagens ao exterior (já visitou nove países em quatro continentes,
4 http://www.gregoryrsmith.com/

incluindo o Brasil) e dentro de seu próprio país, Gregory dá palestras sobre o fim do ciclo da violência e sobre a manutenção da paz. Já se encontrou com a rainha Noor, da Jordânia, com presidentes, como Bill Clinton e Mikhail Gorbachev, líderes religiosos como o Arcebispo Desmond Tutu da África do Sul, e educadores para discutir suas idéias para a educação e para a paz. Foi indicado ao Prêmio Nobel da Paz em 2002 (quando tinha 12 anos), continuando a concorrer nos anos posteriores (2003 a 2006). Quando terminou o Ensino Fundamental e o Médio em apenas cinco anos – em vez dos treze esperados de uma criança comum –, virou estrela de programas populares nos Estados Unidos. Gregory foi precoce em muitas áreas e de uma forma qualitativamente diferente da grande maioria das crianças. Começou a falar muito mais cedo que o esperado para um bebê, aos 2 meses de idade. Com um ano e dois meses era capaz de nomear todos os tipos de dinossauros que já existiram e de resolver problemas simples de álgebra. Aos 2 anos já lia e corrigia a gramática de adultos. Nesta idade ele também decidiu abandonar os sanduíches do McDonald’s e tornou-se vegetariano por conta própria. Aos 5 anos era capaz de recitar trechos de livros de memória – tinha na cabeça a coleção inteira de Júlio Verne e era capaz de discorrer sobre uma enorme gama de assuntos. Seus pais comentam que, nesta idade, sua capacidade mental, medida por testes de QI, ultrapassava os limites dos próprios testes. Gregory foi acelerado nos estudos e o currículo compactado para atender suas

Espanha. Joyce Svitak. superexigência. escrito aos 7 anos de idade. na Florida. Sua mãe. no período de um ano o menino cumpriu sete séries escolares (da segunda à oitava). em Fevereiro de 2000. religião. O pai. Canadá. foi logo sucedido por outros. escrevendo textos com uma estrutura sofisticada para sua idade.26 necessidades especiais únicas. espátulas. com a ajuda de um projetor. pintando vários quadros por mês. em 1999. no início achava que a pintura era apenas uma distração para a filha. A conseqüência de um pai que faz exigências constantes. com o incentivo de seu pai. e tornandose notícia no The New York Times. três vezes por semana. incentiva a filha a produzir com regularidade e rapidez. manipula a vida dos filhos e vive inteiramente através de suas conquistas são relatadas em inúmeras biografias de pessoas famosas que tiveram sua infância roubada e o amor dos pais inteiramente condicionados ao sucesso profissional. No entanto. seus próprios dedos e até tubos de ketchup. Marla tem sido comparada a grandes gênios do expressionismo abstrato. da criança fossem expostos em uma lanchonete local. Alemanha. americana. não deixando espaços vazios. recepcionista em tempo parcial. mídia e educação. inclui nove histórias. Pesquisas relatam que a maioria dos adultos talentosos vêm de famílias unidas que valorizam altas realizações e de pais que revelam uma crença inabalável no talento do filho. cujos quadros foram vendidos por cerca de 6 mil dólares cada. contribui no livro com dicas 6 “Flying Fingers: Master the Tools of Learning Through the Joy of Learning”. Em seu livro Crianças superdotadas: Mitos e realidades. e progressivamente outras ferramentas são incorporadas ao trabalho. e sua opinião sobre política. começou a pintar pouco antes de completar 2 anos. apenas sei que quero usar o máximo de minhas habilidades para ajudar a humanidade. está a de se tornar Presidente dos Estados Unidos. dois dias antes do seu 10º aniversário. conseguiu com um amigo que os trabalhos 5 http://www. e em geral termina seu trabalho após três horas de grande concentração. Embora a exigência parental e altas expectativas estejam tipicamente associadas com alto desempenho na vida adulta. como acrescenta Winner. No programa de televisão. Winner (1998) chama a atenção para a necessidade de se prover um ambiente enriquecido com estimulação constante e variada. Inglaterra. poemas. Atraindo a atenção da mídia. de apenas 8 anos. O que leva algumas crianças superdotadas a desengajar-se de seu talento jamais são as altas expectativas. 1998. atraiu mais de 2. respondendo perguntas e demonstrando seu processo de escrita ao vivo. Adora Svitak. anunciou. gerente de uma fábrica e pintor amador. constrói suas pinturas em camadas e cobre toda a tela de tinta. mas não sei como ou porque ele me foi dado. há evidências que crianças superdotadas param de se esforçar em resposta ao excesso de pressão parental e podem terminar desengajadas. diferentemente das crianças de sua idade. mas antes. Copyrighted material. Austrália. deprimidas e ressentidas. surpreende por sua facilidade em escrever. Marla pinta regularmente.161). logo passou a comprar telas e tintas quando observou o senso de equilíbrio. Brasil e Itália. Em Agosto de 2004 a galeria de artes Anthony Brunelli. Nascida no estado de Nova York. PRODÍGIO NA PINTURA Marla Olmstead5./ PRODÍGIO NA LITERATURA Descrita como “uma pequena gigante literária” pela jornalista Diane Sawyer no programa de entrevistas Good Morning America. pulando toda a terceira série e cumprindo um curso de Álgebra em 10 semanas. atualmente com 6 anos de idade. Time. A mãe. Segundo o pai. Usando pincéis. p. assim. filha de mãe chinesa e pai checo. Seu primeiro livro6. de Nova York. tendo cerca de 200 compradores na lista de espera. Seu pai. atuando agora como seu assistente. quando se formava com honras no Ensino Médio. Ele tinha sete anos quando entrou para o Ensino Médio no Orange Park High School. Marla gosta de usar tintas acrílicas coloridas e. dominação. que já lhe renderam mais de US$ 300 mil. Joyce Svitak. forma e composição presentes nos quadros abstracionistas da filha.com.000 pessoas com a primeira exposição de Marla.marlaolmstead. O primeiro quadro. Adora Svitak. vendido por 250 dólares. também artista plástico. a menina cria telas de aproximadamente um metro e meio. CBS News e BBC News e em outras revistas. mantendo-a ocupada enquanto ele próprio pintava.” Entre as suas metas. como garrafas de plástico. TV e jornais da França. Inicialmente trabalha com largas pinceladas de tinta e com os dedos. Adora demonstrou sua capacidade de digitar setenta palavras por minuto em seu laptop. Em entrevista ao jornal Washington Post. exploração e privação emocional extremas” (Winner. África do Sul. “alto desempenho em qualquer domínio está sempre associado a altos padrões estabelecidos por um adulto e que também modela alto desempenho. Marla começou a pintar antes de 2 anos. No entanto. Gregory comentou: “Acredito que recebi um dom especial. . como Wassily Kandinsky e Jackson Pollock.

a presença de professores que dominam o conhecimento específico desta área. Claro que esta é 7 http://ezinearticles. Se seu filho fica animado e começa a dar muitas idéias. visitar escolas e repassar para os jovens o prazer que a leitura e a escrita podem proporcionar. em seu livro Genetic Studies of Genius. Gandhi. portanto. o qual muito ensinou a ambas. os quais podem ser percebidos no caso dos prodígios aqui citados. uma vez que a palavra “superdotado”. às habilidades inatas e ao desempenho excelente em todas as áreas (Fleith & Alencar. Apaixonada por história medieval e contemporânea. Além disso. Adora progrediu rapidamente em seu próprio ritmo. São raras as pessoas que atingem patamares excepcionais. OS GÊNIOS DA HUMANIDADE Em nossa sociedade. se tornaram tutores das duas filhas. grandes doses de encorajamento e entendimento da extensão do talento expresso pelo indivíduo.. o Pelé. sendo que o resultado desta atenção se torna bem evidenciado na leitura e escrita. adeptos do home scooling ou ensino domiciliar. quando comparado a seus pares. no qual a pessoa se destaca (por exemplo. cujo conhecimento e capacidades nos parecem sem limite. é também comum que as pessoas se refiram a uma criança como um gênio. mas eu geralmente sigo os mesmos princípios com a maioria dos exercícios educacionais. ultrapassando as expectativas da mãe. vem carregada de conotações que nos remetem erroneamente ao super-herói. as palavras começarão a jorrar. O termo foi popularizado por Lewis Terman que. Alencar. 2001). 2001. ilustrando cada técnica ou exercício com as histórias escritas por Adora. A casa é feita de gelatina? A casa pode voar? Uma vez que a criança comece a contemplar as possibilidades divertidas. como “talento” ou “altas habilidades”. os pesquisadores da atualidade (por exemplo. na medida em que o nível de atenção que podem proporcionar aos filhos não pode ser replicado no ambiente escolar. Seus pais.27 e estratégias de ensino para ajudar pais e professores em como ensinar a criança a escrever. os termos “pessoa com altas habilidades” e “superdotado” são mais apropriados para designar aquela criança ou adolescente que demonstra sinais ou indicações de habilidade superior em alguma área do conhecimento. 1985. Stephen Hawkins e Edson Arantes do Nascimento. Adora entende que sua missão engloba ensinar outras crianças a ler e escrever. às habilidades raras inexistentes no ser humano comum. conforme medido pelo teste Stanford-Binet (Ehrlich. seus contos traduzem sua paixão pela leitura e escrita. incrivelmente excepcionais e únicas.. Os pais acreditam que esta forma de ensino é mais eficiente. como já foi pontuado neste texto. nomes e acontecimentos. Freqüentemente o superdotado é associado ao gênio. a presença de um domínio ou área já em considerável estágio de desenvolvimento e reconhecimento na sociedade. mantenho uma atitude de brincadeira.com/?expert=Joyce_Svitak apenas uma das atividades. definia como gênio qualquer criança com um QI superior a 140. aos 4 anos de idade. e sempre me asseguro de que meus filhos saibam que estou verdadeiramente interessada no que eles têm para compartilhar7”. No entanto. Joyce Svitak assim explica este processo de aguçar a imaginação da criança através da escrita: “Peça a seu filho para completar uma sentença simples tal como: “A casa era. como na música ou na matemática. Leonardo da Vinci. Feldman (1991) argumenta que a expressão do talento em nível excepcional envolve numerosos elementos. ao indivíduo com capacidades excepcionais e. é bom ter em mente que identificamos as pessoas com altas habilidades/ superdotação ou talentos não pelo mero prazer de rotulá-las. comece fazendo uma série de perguntas. Os gênios são os grandes realizadores da humanidade. Adora começou a ler com 3 anos de idade.. É por esta razão que muitos pesquisadores preferem o uso de termos alternativos. Heitor Villa-Lobos. Essa distinção se torna importante. mas Capítulo 2: O que as palavras querem dizer? . em seus campos específicos. estão entre os grandes gênios da humanidade.. Eu faço perguntas. foi um processo de tentativa-e-erro. peça a ele/ela para escrever a primeira idéia antes de partir para a próxima. Feldman. o reconhecimento da família de que se trata de um talento extremo e estão determinadas a dar total apoio e suporte à criança. devido à sua precocidade em uma área específica. Não há necessidade de ser uma habilidade excepcional para que este aluno seja identificado.” Se ele/ela não consegue elaborar.. numa clara demonstração da desinformação sobre o tema em nossa sociedade. as áreas de música. Feldhusen. e que compreendem: um ambiente cultural favorável. 1991) sugerem que o termo “gênio” deva ser reservado para descrever apenas aquelas pessoas que deram contribuições originais e de grande valor à humanidade em algum momento do tempo. ou por sua facilidade em memorizar fatos. A mãe de Adora relata que ensinar a menina a escrever. literatura). ensinando as disciplinas escolares em casa. filosofia e mitologia. 1989). artes visuais e plásticas. Em contrapartida. de 1926.

musicais. literárias ou cênicas (por exemplo. isolados ou combinados: a) Capacidade Intelectual Geral . Voltaremos aos gênios na próxima sessão. III). concentração. a fim de desenvolver de forma adequada e igualitária suas habilidades e necessidades especiais. neste mesmo continuum de habilidades. força. completa a apresentada pelas Diretrizes gerais para o atendimento educacional aos alunos portadores de altas habilidades/superdotação e talentos (Brasil. motivação e conhecimento. DEFINIÇÃO BRASILEIRA A definição brasileira atual considera os educandos com altas habilidades/superdotação aqueles que apresentam grande facilidade de aprendizagem que os leve a dominar rapidamente conceitos. prodígios ou gênios. capacidade de perceber um tópico de muitas formas diferentes. enfocando a superdotação sob o prisma da gradação de intensidade. como: (a) a pluralidade de áreas do conhecimento humano em que uma pessoa possa se destacar. 1997). c) Pensamento Criativo ou Produtivo – Refere-se à originalidade de pensamento. controle e coordenação motora fina e grossa. poder excepcional de observação.). que é altas habilidades/ superdotação. Permitiu. Assim. facilidade em usar gestos e expressão facial para comunicar sentimentos). compreensão e memória elevadas. procedimentos e atitudes (Brasil. sejam elas precoces. que são a rapidez de aprendizagem e a facilidade com que estes indivíduos se engajam em sua área de interesse. facilidade para expressar idéias visualmente. e f ) Capacidade Psicomotora – Refere-se ao desempenho superior em esportes e atividades físicas. capacidade de resolver situações sociais complexas. dramáticas. e (c) a percepção de que a superdotação se modifica no decurso do desenvolvimento do indivíduo. atitude cooperativa. imaginação. sensibilidade ao ritmo musical. (b) o entendimento de que as altas habilidades se relacionam tanto com o desempenho demonstrado quanto com a potencialidade em vir a demonstrar um notável desempenho.Também. uma vez que chama a atenção para importantes aspectos. e) Talento Especial para Artes – Envolve alto desempenho em artes plásticas. Essa definição postula que as pessoas com altas habilidades/superdotação são os educandos que apresentam notável desempenho e/ou elevada potencialidade em qualquer dos seguintes aspectos. podem ser enquadradas em um termo mais amplo. 5º. velocidade. Alencar e Fleith (2001) ressaltam que a superdotação pode se dar em diversas áreas do conhecimento humano (intelectual.Envolve rapidez de pensamento. outras demonstram um talento menor. alta pontuação em testes acadêmicos e desempenho excepcional na escola. capacidade de resolver problemas de forma diferente e inovadora. mas o suficiente para destacá-las ao serem comparadas com a população geral (Virgolim. que foi construída a partir do referencial teórico apresentada por Sidney Marland no relatório oficial da Comissão de Educação ao congresso americano em 1971 e posteriormente integrado na definição brasileira. em pessoas com diferentes graus de talento. asim. enquanto algumas pessoas demonstram um talento significativamente superior à população geral em algum campo. 2001. e outros com habilidades e potenciais menos aparentes. resistência. Essa definição ressalta duas características marcantes da superdotação. agilidade de movimentos. num continuum de habilidades. . capacidade de produção acadêmica. habilidade de desenvolver uma interação produtiva com os demais. Art. poder de persuasão e de influência no grupo. d) Capacidade de Liderança – Refere-se à sensibilidade interpessoal. que a superdotação ultrapassasse a tradicional visão acadêmica para ser entendida em uma perspectiva mais plural. não se limitando à tradicional visão acadêmica da superdotação.28 por entendermos que os educadores têm a obrigação de oferecer experiências educacionais apropriadas e diferenciadas aos seus alunos. capacidade de pensamento abstrato. artística etc. Vejamos então como estas capacidades em A superdotação pelo olhar da ciência As habilidades apresentadas por todas as pessoas aqui citadas. social. 1995). b) Aptidão Acadêmica Específica – Envolve atenção. motivação por disciplinas acadêmicas do seu interesse. curiosidade intelectual. Esta definição é vantajosa.

criando uma couraça de proteção e fazendo do sofrimento assumido uma alavanca para prosseguir a luta da vida. livros e ensaios científicos8. desde os 21 anos.org. pelo uso superior destas habilidades. etc. Hawking utiliza como principais campos de pesquisa a cosmologia teórica e a gravidade quântica. Por exemplo. sua curiosidade intelectual e o poder excepcional de observação dentro de usa área. entre artigos. mostra seu poder excepcional de abstração. 2001). tornando-se mais forte.hawking. a curiosidade. anatomia. Para ele. Leonardo via a pintura como uma ciência e desenhava com uma precisão matemática. desenhou e fez estudos em inúmeras áreas: geometria. Hawking não parou de trabalhar. a persistência e motivação intrínseca para se atingir um objetivo. os músculos do corpo. têm de perceber a luz e as sombras. Hawking ocupa hoje o posto que foi de sir Isaac Newton. Embora focalizando nossa atenção em pessoas extraordinárias. Aliados a estas características ressaltam-se aspectos de personalidade. HABILIDADE DE LEONARDO DA V INCI PENSAMENTO CRIATIVO: Leonardo da Vinci (1452-1519) escreveu. O Universo em uma casca de noz (Hawking. a grandeza de seu pensamento lógico-matemático e sua capacidade única de ver problemas sob ângulos inusitados. principal via do conhecimento. botânica. Ressaltamos aqui sua capacidade de pensamento abstrato. Seus trabalhos com Buracos Negros. persistência em atingir seus objetivos e uma enorme força para ultrapassar as vicissitudes de sua vida. uma rara doença degenerativa que paralisa. Hawking demonstra uma grande coragem.uk/home/hindex. a posição e a distância. arquitetura. Talvez a resilência tenha impulsionado o jovem Stephen a ultrapassar os obstáculos da doença e persistir nos caminhos que sua grande potencialidade já apontava. como persistência em atingir seus objetivos. Seu trabalho com relação à singularidade no espaço-tempo e com a relatividade geral reformulam as idéias de Newton e de Einstein. Conhecido pela ousadia de suas idéias e pelo humor e clareza com que as expressa. A nossa intenção aqui é justamente mostrar como características únicas de personalidade. Leonardo ficou conhecido pela forma diferente e inovadora com que resolvia os mais diversos problemas em áreas diferentes. Hawking se encaixa perfeitamente no perfil de uma pessoa com habilidade intelectual geral. passou a utilizar um sintetizador de voz para se comunicar e. foram fundamentais para que o indivíduo chegasse a um patamar superior de realizações. publicou mais de 180 trabalhos. Apesar de sofrer. em que faz uma analogia dos buracos negros com a termodinâmica. Criou normas .html Universidade de Cambridge na Inglaterra. Nascido exatamente 300 anos depois da morte de Galileu. por meio de um ambiente de suporte e estimulação. de esclerose amiotrófica lateral. Pela definição de superdotação apresentada. o que lhe rendeu numerosos prêmios e medalhas honrosas. como a radiação Hawking. mecânica. O asteróide 7672 Hawking é assim chamado em sua homenagem. Depois de sofrer uma traqueotomia. com seu auxílio (e muita perseverança). Hawking fez descobertas importantes que levaram o seu nome. no cenário mundial. inclusive a musculatura voluntária. HABILIDADE INTELECTUAL STEPHEN HAWKING GERAL: O físico inglês Stephen William Hawking (1942 . o movimento e o repouso das coisas. é nosso dever enquanto pais e educadores favorecer a expressão das potencialidades únicas de nossos filhos e alunos.atual) é doutor em Cosmologia e um dos mais consagrados físicos teóricos do mundo. aliadas às oportunidades oferecidas por um ambiente suportivo. coragem e resilência. atuando como professor lucasiano de Matemática na 8 http://www. A resilência se refere à capacidade interior de reagir aos sofrimentos e tragédias da vida. como a quarta Lei da mecânica de buraco negro. geologia. assim como por sua capacidade de perceber de muitas formas diferentes um determinado assunto. projetos bélicos. a criatividade. o pintor deveria explorar ao máximo a capacidade que os olhos. óptica. ocuparam grande parte de sua vida adulta. astronomia. Seu livro.29 Capítulo 2: O que as palavras querem dizer? distintas áreas podem ser observadas em pessoas que se destacaram. um a um.

quanto ao temor de se exibir uma obra frente ao público. Alguns biógrafos de Leonardo conjecturam que o próprio Leonardo desvalorizava seu destino artístico diante do seu destino científico (Civita. Ele rejeita a força bruta e sua opressão e declara que a força da alma ou amor mantém a unidade das pessoas em paz e harmonia. páraquedas. derivados da crença tradicional hindu: verdade (satya) e não-violência (ahimsa). projetando edifícios públicos. se tivessem sido publicados. também inspirou gerações de ativistas democráticos e anti-racistas. de entregar sua obra a mãos alheias.30 apresenta à nobreza italiana. Gandhi ajudou a libertar a Índia do governo britânico. protesto) como um meio de revolução. mas pode-se especular que. Foi assim que. mas ativa e provocativa. Gandhi demonstra sua grande capacidade de resolver situações sociais complexas quando sugere que a Índia pode ganhar sua independência por meios não violentos e por via da ego-confiança. provavelmente foram fatores essenciais que o levaram a uma produção de mais alto nível em sua vida adulta. de demonstração maciça em demonstração maciça. Talvez pelo descompasso entre a mente do criador e a capacidade tecnológica da Renascença. No entanto. mais conhecido popularmente por Mahatma Gandhi (Mahatma. com sua sensibilidade interpessoal e atitude cooperativa empenhou-se em rigorosas de perspectiva a partir de suas observações sobre os efeitos da atmosfera sobre uma paisagem. para o desmantelamento do Império Britânico e sua substituição pela Comunidade Britânica (Commonwealth). incluindo Martin Luther King e Nelson Mandela. armas. 1977). teares. Por outro lado. Seus desenhos anatômicos. dos animais e da anatomia humana. aliado à algumas de suas características pessoais. produto de suas observações e dissecações de cadáveres. Edição 226 . do sânscrito “grande alma”). É como engenheiro e arquiteto que ele se 9 Revista Super Interessante. a demonstrar ao Império Britânico a sua superioridade moral. forma não-violenta de . O pensamento criativo e produtivo de Leonardo. embarcações. são considerados superiores aos do célebre Andreas Vesalius. escafandros. de ser julgado a partir do que fez. embora não tivesse receio em desafiar a autoridade estabelecida. como percepção estética. Gandhi. Frequentemente Gandhi afirmava a simplicidade de seus valores. turbinas. O princípio do satyagraha. assim como um ambiente cultural propício às ciências e às artes. freqüentemente traduzido como “o caminho da verdade”ou “a busca da verdade”. Além disso. para provar que está do lado do que é justo. como pontua Gruber (1986). demonstrando não apenas um enorme desejo de perfeição. a grande parte de seus escritos não se destinavam à publicação. das nuvens.05/2006 HABILIDADES DE LIDERANÇA: GANDHI Mohandas Karamchand Gandhi (1869 1948). inspirando outros povos coloniais a trabalhar pelas suas próprias independências. fortalezas. persistência e muitos anos dedicados à tarefa que o criador tinha em mente.da água. embora se destacasse por sua capacidade verbal e de linguagem. foi um dos idealizadores e fundadores do moderno estado indiano e um influente defensor do Satyagraha (princípio da não-agressão. oprimido e dominado. das folhas. Leonardo sempre teve dificuldades para iniciar e acabar uma obra. canais. de forma a não se submeter ao mal e estar disposto a dar até a vida se necessário for. Foi um observador atento dos movimentos do mundo . era tímido. bom e correto. poderiam ter mudado o rumo da história das ciências. vários de seus desenhos e criações só virariam realidade nos séculos XIX e XX . submarinos – mostrando que sua capacidade de aprender com a observação do mundo.máquinas voadoras. o grande anatomista do Renascimento9. carros de combate. agudeza de observação e desejo de perfeição. pontes. assim como sua poderosa imaginação e pensamento original o colocavam a pelo menos 4 ou 5 séculos à frente de seu tempo. as realizações criativas mais importantes da humanidade foram o resultado direto de trabalho prolongado. Gandhi pregava a resistência pacífica. assim. e com seu grande poder de persuasão e de influência levou o povo indiano.

Além da cidade do Rio de Janeiro. os alunos talentosos Capítulo 2: O que as palavras querem dizer? precisam de estímulo para desenvolver os fatores de personalidade favoráveis ao sucesso. demonstrando sua habilidade de desenvolver uma interação produtiva com o povo. onde nasceu. Villa-Lobos residiu com a família em cidades do interior do Estado e também de Minas Gerais. e (d) talento e apreciação do próprio talento para se tornar um líder cirativo em algum campo do conhecimento. segundo Sisk (1993). Nessas viagens. pedia que as pessoas o seguissem apenas se estivessem convictas do certo e do justo. como trabalhar em cooperação com eles e. são fatores que se destacam na paersonalidade de um líder. e a perceber a todos como seres humanos iguais. medos e desejos legítimos de ambas as partes. Gardner (1999) também se refere ao líder como um grande influenciador. O que tornou Gandhi um grande líder foi sua capacidade de descobrir e ressaltar o que há de melhor nas pessoas. enfim. uma parte . se expressa por quatro aspectos ou atributos: (a) visão. Perseverando na verdade e na não-violência. tanto no sentido de entender os outros indivíduos (o que os motiva. que para ter sucesso necessita ter um grande conhecimento na área pessoal. em sua casa. Como líderes do futuro. HABILIDADES ARTÍSTICAS HEITOR V ILLA-LOBOS (MÚSICA): Heitor Villa-Lobos (1887. estimulando-as a atingir aquilo que elas pensavam ser impossível.31 descobrir as forças. se preciso for. Estes fatores interagem com o tempo. história e cultura em que a pessoa vive. Assim. como manipulá-los) quanto entender a si próprio (uma arguta percepção de si mesmo. não ter medo de se impor quando a situação assim o exige e ser determinado e assertivo (sem necessariamente ser agressivo). desenvolveu uma imensa força interior. Índia e Grã-Bretanha. (c) absorção ou habilidade de se tornar inteiramente envolvido no ato criativo. que adaptou uma viola para que o filho pudesse estudar violoncelo. a nobreza do seu esforço e a convicção de que deixaria alguma marca duradoura nas vidas futuras serviram de estímulo e energia a este poderoso influenciador de pessoas (Gardner. no contexto atual. o que atraiu muitos seguidores. entrou em contato com uma música diferente da que estava acostumado a ouvir: modas caipiras. assim como a compreender os estereótipos negativos que ambos os lados mantinham uns pelos outros. e que todos podem ser fortalecidos se comportarem com dignidade. Não tinha nenhuma propriedade: sua riqueza era o que dava ao povo e o que dele recebia. vinda do pai. É neste sentido que Gandhi também se enquadra na definição de liderança criativa que. opondo-se ativamente à injustiça. suas fraquezas e necessidades). Ganhou a simpatia de inúmeras pessoas pelos esforços que empreendia em seu benefício. No entanto. que permite ver as coisas como são e ainda vê-las da perspectiva do que podem se tornar. Desafiar autoridades. dando forma ao tipo de liderança que ela irá desenvolver em seu contexto. que nossas escolas se empenhem em valorizar e desenvolver as habilidades de liderança de seus alunos. Sua formação musical foi muito influenciada pela convivência. de grandes nomes da época que apareciam para cantar e tocar até de madrugada. e exercia tamanha atração sobre as massas. refletir e planejar outras formas de seguir em frente. Gandhi conseguiu convencer pessoas no mundo inteiro a não julgar os outros pela cor da pele ou pela história dos antepassados. Inclui-se aqui também a idéia de ajudar os outros a construir e a compartilhar uma visão comum. que muitos indianos o consideravam o verdadeiro símbolo da India (Nicholson. que era possível haver discordância de forma não-violenta.1959) recebeu sua primeira instrução musical aos seis anos. principalmente seus objetivos instáveis. É de extrema importância. Gandhi vivia estritamente de acordo com uma norma que estabeleceu para si mesmo: a de que agiria sempre de acordo com a verdade. (b) coragem para correr riscos calculados a fim de por em prática uma idéia criativa. por muito tempo pregou os ditames da honestidade e da correção. 1987). tocadores de viola. Suas frustrações pelo erro ou fracasso eram elaboradas e transformadas em oportunidades para aprender. 1999). para que possam ser coroados de êxito em suas realizações e trazer uma efetiva colaboração ao seu ambiente sócio-cultural.

Embora não tivesse um estilo definido. No final de 1999. arcadas bem puxadas nas cordas. Em qualquer parte do planeta suas qualidades como esportista e ser humano são reconhecidas por do folclore musical brasileiro que. Pelé apresentava força. Gardner (1999) reflete que. cantigas.e descontentamento . flexibilidade corporal. o Canto do Rio. no final da década de 1910. muitas vezes. o Comité Olímpico Internacional – COI. sambas e outros gêneros muito utilizados no país. mais tarde. Entre os títulos mais importantes que recebeu. teve origem num goleiro de nome “Bilé”. montou o seu próprio time: Sete de Setembro. como combinações inusitadas de instrumentos. viria a universalizar-se através de suas obras. nasceu de uma mescla da música urbana. demonstrava preferências por alguns recursos estilísticos. dançando. A alcunha “Pelé”. também elegeu Pelé o Atleta do Século.org/wiki/Heitor_Villa-Lobos . Sua percepção total do jogo sempre o caracterizou e permitiu saber o que fazer com a bola em qualquer instante. Recebeu o título de Atleta do Século de todos os esportes em 1981. superando outras lendas do esporte como Juan Manuel Fangio e Mohammed Ali. 10 http://pt.32 Suas primeiras peças tiveram a influência decisiva de Stravinsky. choros. intitulado “Choros”. Também seu ciclo inovador de quatorze obras. decide e executa” foi o lema que aprendeu com seu pai. Após viagens pelo Norte. a quem o menino admirava. O talento artístico especial – aqui exemplificado em Villa-Lobos. rage to master) um domínio no qual a pessoa demonstra facilidade de aprender e de se expressar. pintando. “Pensa. Apesar de suas obras terem aspectos da escrita européia. aprendida em rodas de choro cariocas. resistência. ingressou no Instituto Nacional de Música. Com dez anos ingressou no time infantojuvenil. eleito pelo jornal francês L’Equipe. utilizando sons da mata. é considerado o maior jogador da história do futebol e o mais famoso. Nordeste e Centro-Oeste do Brasil. HABILIDADES PSICOMOTORAS: EDSON ARANTES DO NASCIMENTO – PELÉ Edson Arantes do Nascimento (1940 – atual). tinham dificuldade em pronunciar “Bilé” e com o tempo o apelido virou “Pelé”. mas não chegou a concluir o curso. escrevendo ou em outra expressão artística. colegas do garoto Edson. desenhando. que o identificava como o maior goleador de todos os tempos. Edson manifestou a vontade de ser jogador de futebol. com modernas técnicas de composição. de eventos indígenas. As Bachianas Brasileiras surgiram quando constatou a semelhança de modulações e contracantos do nosso folclore com a música de Bach.com o ensino acadêmico. devido à sua desadaptação . uso de percussão popular e imitação de cantos de pássaros10. africanos. Villa-Lobos caracterizou-se como um dos maiores músicos do nosso tempo e sua genialidade hoje se incorpora ao patrimônio artístico-cultural do Brasil. para as mais diversas formações. seja compondo. por meio de uma votação internacional entre todos os Comitês Olímpicos Nacionais associados. Muitas crianças. na área de música – aparece frequentemente como um ímpeto criativo que impele o indivíduo na direção da sua área de interesse. a veia da composição criativa tem vida própria. É o que também Winner (1998) chama de “fúria por dominar11”: uma interesse intenso e obsessivo em 11 (em inglês. no Rio. Ainda criança. sendo talvez impossível desalojar esta veia dos próprios ritmos de funcionamento do indivíduo. cuja idade mínima para participar era de 13 anos elogo depois.wikipedia. estimulado pelo pai. As pessoas próximas começaram a chamá-lo de “Bilé”. Dondinho. Foi o primeiro presidente da Academia Brasileira de Música e regeu onze orquestras brasileiras e quase 70 em diversos países. está o de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Nova Iorque. mais conhecido como Pelé. coragem e o controle total do toque na bola. Villa-Lobos sempre fundia suas obras com aspectos da música realizada no Brasil.

a motivação intrínseca. De gente simples e anônima a artistas como Robert Redford e William Hurt. as habilidades descritas neste capítulo. Este aspecto será lembrado na próxima sessão. a criatividade na busca de solução de problemas e a paixão pelo que se faz. numa crônica profética publicada na revista Manchete Esportiva. Podemos também tomar como exemplo o humorista brasileiro Jô Soares que. somam-se qualidades importantíssimas para que o indivíduo atinja a excelência. direcionando seu comportamento para os objetivos que estipulou para si enquanto jogador. reis e rainhas. Um dos aspectos mais marcantes da superdotação relaciona-se ao seu traço de heterogeneidade. as pessoas superdotadas não apresentam. é nosso papel enquanto educadores fornecer experiências variadas e oportunidades para que a expressão peculiar do talento de cada um encontre um campo fértil e possa germinar. multipotencialidades e níveis de habilidades Em geral.com/augusta/2076/pele. ELEMENTOS TAÇÃO IMPORTANTES NA SUPERDO- Heterogeneidade. o “Rei” foi ratificado por todo o continente europeu como o melhor jogador da história do futebol. em uma época em que a técnica estava ainda em seus primórdios.. de forma simultânea ou mesmo em graus semelhantes. a busca disciplinada para atingir os objetivos propostos.html em campo.geocities.12 São muitas as qualidades de Pelé que o elevam à categoria de superdotado por suas habilidades psicomotoras especiais. interpretando e incorporando personagens.) sua majestade dinástica há de ofuscar toda a corte em derredor”. A essa confluência de habilidades chamamos de multipotencialidades. Além disso. falando vários idiomas. tocando múltiplos instrumentos. No entanto. nas inúmeras excursões do Santos e na sua temporada pelo Cosmos. Neste sentido. disse o escritor Nelson Rodrigues: “Dir-se-ia um rei (. de Nova York. também se revela na área musical. Dele. em 8 de março de 1958. no desempenho artístico. quanto na acadêmica. a invenção de dribles que até então não eram comuns.. chefes de estado e até o Papa. tanto na área dos esportes. a obsessão em dominar perfeitamente uma determinada área e contribuir para ela. algumas pessoas podem se destacar em uma área. assim como de perceber a exata colocação de cada jogador em um determinado momento da partida. entre eles reis. escrevendo livros e crônicas e se revelando um perspicaz entrevistador. conforme citadas na definição brasileira de 1994. Pelé deslumbrou o mundo com apenas 17 anos e passou a ser chamado de o Rei do Futebol. além de exibir um pensamento criador e original.33 aficionados do futebol. príncipes. Sua rapidez de raciocínio 12 http://www. Assim. na Suécia em 1958 –. Pelé levou o Brasil a ser conhecido e respeitado – pelo menos no futebol. que representa mais uma exceção do que uma regra entre os indivíduos superdotados. O “Rei” jogou 114 partidas e marcou 95 gols com a camisa amarela. como no caso já citado de Leonardo da Vinci. por seu carisma e capacidade de coordenar grupos. Nas quatro Copas do Mundo que disputou. como a persistência. Destacamos aqui alguns destes traços. Pelé granjeou um número incontável de admiradores. Todos eles prestaram suas homenagens ao Rei Pelé. o que lhe possibilitava estar freqüentemente no lugar certo no momento certo. preparação física e ética em campo. na artística ou em qualquer área da expressão do saber humano. chefes-de-estado como Mikhail Gorbatchóv e Bill Clinton. o que se observa com maior freqüência são pessoas que se desenvolvem mais em Capítulo 2: O que as palavras querem dizer? . ou podem combinar várias. e ainda no setor da liderança. Em 1994 – 36 anos depois de conquistar pelo Brasil a primeira de suas três Copas do Mundo. Pelé já se destacava pela sua disciplina. Na Copa da Suécia. Ressaltamos aqui sua habilidade de perceber o campo em sua totalidade. jogadas inesperadas e espetaculares que surpreendiam o adversário e passes corretos e calculados para seus colegas em campo o permitiram marcar mais de 1200 gols em 50 anos de carreira. no campo da linguagem. Mesmo não esperando irrealisticamente que seu filho ou aluno seja um gênio ou prodígio em determinada esfera do conhecimento. A Era Pelé se traduziu em um tricampeonato mundial de futebol e na posse definitiva da Taça Jules Rimet. a dedicação. papas. bem como um perfil bem-humorado.

é aquele que: (. os talentos de uma pessoa surgem. O que é um ambiente enriquecido? Segundo a pesquisadora da Universidade da Califórnia. percebida como uma interação entre a genética e o ambiente. considera que tanto a genética quanto o ambiente seriam igualmente responsáveis pelas variações na inteligência da criança. dança. para o estágio adequado de desenvolvimento da criança. nas artes plásticas. é um sinal de que algo está errado. música. Um dos grandes pesquisadores da área de superdotação no cenário mundial é Jonh Feldhusen. a superdotação também dependeria das experiências no lar e na escola. seu potencial genético poderá levá-la a se desenvolver de acordo com suas capacidades. Alunos superdotados diferem uns dos outros também por seus interesses. no futebol. quando comparado à população geral. pesquisas revelam que não devemos esperar que duas características como desajuste emocional e superdotação apareçam juntos. o que está em nossas mãos é o fornecimento de um ambiente enriquecido e estimulador. estéticos. ciências. e se isso acontece. tem uma atmosfera agradável que promove a exploração e o prazer de aprender. na dança. 1994. em um dado momento cultural. Influências da genética e do ambiente Falamos anteriormente que o superdotado é aquele indivíduo que. significa apenas que. conhecimento dos genes responsáveis pela inteligência. sociais e emocionais. um dos maiores estudiosos deste campo na atualidade. xadrez. minerais e calorias suficientes.. Por exemplo. Neste sentido. Chiquinha Gonzaga e Tom Jobim. . De acordo com pesquisadores (Davis & Rimm. fornece a oportunidade de a criança escolher suas próprias atividades. estimula todos os sentidos (mas não necessariamente todos ao mesmo tempo). físicos. nem tão difíceis. as características apresentadas por esta população não envolvem causa-e-efeito. dá chance à criança de ver os resultados do seu esforço e modificá-los. Plomin (1997). Torna-se necessária uma cuidadosa avaliação para se observar o que pode causar o desajuste emocional da criança. e principalmente por suas necessidades educacionais. e. aquela disposição pode se concretizar (Feldhusen. 1992). 1994). artes. Pensando nesta perspectiva. 2001). ambos devem ser vistos como propensões genéticas. Assim. sempre haverá alguma exceção. vitaminas. não temos como prever toda a extensão em que as potencialidades de uma criança poderão ser desenvolvidas. ou Padre Marcelo Rossi e Silvio Santos na capacidade de liderança. por um lado. ou mesmo nos esportes – do que em várias áreas de uma só vez. isto não significa que seja um fator determinante. características de personalidade. Estados Unidos. uma pessoa com alta capacidade em uma área provavelmente herdou uma disposição genética dos pais ou parentes próximos. tem uma atmosfera sem estresse exagerado e repleta de prazer intenso. são exemplos de brasileiros que se destacaram em seus campos por demonstrarem habilidades específicas a um nível superior aos seus pares. no atual estágio das pesquisas sobre o genoma humano. fornece uma dieta nutritiva com proteínas. Veremos agora como outros teóricos da área percebem a superdotação. quando se fala que alunos superdotados são mais sociáveis. Por outro lado. apresenta uma série de novos desafios. impedindo que generalizações sejam feitas. Desta forma.. Ana Botafogo. apresenta uma habilidade significativamente superior em alguma área da atividade e do conhecimento humanos (Alencar. O que sabemos é que.) inclui uma fonte constante de apoio emocional positivo. dos estilos de aprendizagem e dos interesses e motivações únicas de cada aluno. e não como fatores pré-determinados e imutáveis. Portanto. Isto significa que. Carlos Drummond de Andrade e Olavo Bilac. Marian Diamond. sejam quais forem as afirmações que se possam fazer a respeito das pessoas com altas habilidades. Gustavo Kuerten. no entanto. de uma habilidade geral que nos é dada por nossa disposição genética. promove o desenvolvimento de uma série de habilidades e interesses mentais. dadas as condições propícias do ambiente. níveis de motivação e de autoconceito. Além disso.34 apenas uma área específica – como poesia. não se pode concluir que um alto QI leva necessariamente a uma maior popularidade social. em termos práticos. Gallagher & Gallagher. Não termos ainda. permite uma interação social em uma porcentagem significativa de atividades. professor emérito e diretor do Gifted Education Resource Institute da Universidade de Purdue em Indiana. Para ele. no tênis. Pelé e Ronaldinho. na poesia. estilos de aprendizagem. nem tão fáceis. a predisposição genética nos dá a extensão em que uma determinada habilidade poderia se desenvolver. Outros fatores devem ser levados em conta nesta equação. ao invés de se assumir que a superdotação fatalmente leva ao desajustamento e que nada pode ser feito quanto a isso. Portinari e Tarsila do Amaral. Exatamente por ser uma predisposição. Este autor tem uma visão interacionista da superdotação. na música. se fornecermos oportunidades adequadas para uma criança satisfazer sua curiosidade sobre o ambiente que a cerca.

da percepção súbita de um aspecto que faz toda a diferença para o artista. por não ser um ensinamento formal da escola. Love. vem de dentro. quando este tinha 12 anos de idade. Não podemos prever. ambos de reconhecido saber na área de matemática. onde a música era tocada e o alto desempenho reforçado. Desta forma. Renoir era um aprendiz talentoso na área de pintura em porcelana. Em 1896. os autores citam um evento crucial na vida do pintor impressionista francês Pierre-August Renoir (1841-1919). recebeu o prêmio Smith. O menino cresceu em um ambiente interessante e estimulador. Naquela época. aonde ia freqüentemente para fazer esboços de obras que poderia usar em porcelana. pela predisposição genética para a sensibilidade quanto à estrutura musical. anos depois. como a distinção de tonalidades. A experiência cristalizadora. com ambições matemáticas sólidas e uma genuína paixão pela matemática” (Walters & Gardner. 2000. e fundamentalmente. Assim. foram altamente reforçados na infância de Villa-Lobos e. solidez. tornandose parte essencial da pessoa com talentos extraordinários que ele viria a se tornar. os ambientes enriquecidos permitem que a criança seja um participante ativo e não um observador passivo do seu próprio desenvolvimento (Diamond & Hopson. elegância. A beleza do trabalho o deixou desnorteado. a riqueza de oportunidades em áreas diversas. em retrospectiva. A despeito de sua proficiência técnica. Ele relata: “aprendi pela primeira vez o que a matemática realmente significava. Desta época em diante. até mesmo o almoço. p. ganhou uma bolsa de estudo para o Trinity College. reconhecido mundialmente por sua teoria dos números e análise matemática. e por estimular o prazer e o interesse da criança por sons musicais desde tenra idade. Jean Goujon. aparentemente. 1986. eu já estava no caminho de me tornar um matemático de verdade. relata o artista que teve uma afinidade especial com o trabalho do escultor. retratadas nesta escultura. as vestes sutilizadas. e por outra. Renoir teve uma experiência diferente. carinho e atenção são elementos que constituem a resposta adequada para os pais que querem ajudar seus filhos a atingirem sua plena auto-realização conforme suas potencialidades e a crescerem como indivíduos sadios e integrados. Isto pode se dar. ao qual se seguiram numerosos prêmios e distinções honrosas. se refere ao que Gardner e Feldman chamam de “experiências cristalizadoras” (Walters & Gardner. freqüentemente o indivíduo as guarda apenas para si e. As ninfas. quais experiências Capítulo 2: O que as palavras querem dizer? . uma grande paixão pela Matemática. por ser um domínio formalmente estruturado e altamente regido por regras. e esquecendo tudo. 103-105). Os pais. músicos. percebia neste trabalho tudo aquilo que ele mais prezava em uma obra: graça. Por sua natureza. posteriormente de tocar e compor. ao descobrir a Fonte dos Inocentes. antes talvez de outras habilidades em outros domínios. Hardy não tinha. Para exemplificar este conceito. Em 1900. e que provavelmente será lembrado retrospectivamente em momentos futuros na vida desta pessoa. 317). somados à sua herança genética peculiar. com antecedência. passou horas observando o grupo de estátuas de vários ângulos. harmonia e ritmo. a experiência de Renoir na Fonte dos Inocentes cristalizou a noção do poder da escultura para transcender o mundo limitado da decoração em porcelana. no ano seguinte. o estímulo à leitura e à criatividade. provavelmente influenciaram Heitor de duas maneiras: uma. Experiências cristalizadoras Um outro elemento importante a se considerar com relação à influência do ambiente da criança na sua produção superior quando adulta. a superdotação musical pode aparecer precocemente. transmitindo a volúpia serena das simpáticas figuras da mitologia. 1986). A forma com que o escultor fazia a roupagem se moldar nas figuras de forma realista o impressionou. trabalho do escultor do século XVI.35 acima de tudo. pelo reforço e estímulo ao desempenho musical de alto nível. se torna consciente dela. O matemático inglês Godfrey Harold Hardy (1877-1947). cuja habilidade com os pincéis e a delicadeza das cores que utilizava já lhe rendia um salário de adulto. em Cambridge. Renoir ainda demonstrava pouco interesse e sensibilidade para as qualidades estéticas das artes visuais. onde passou a estudar com o prof. Até o momento ele não havia percebido como a roupagem poderia ressaltar a forma e este insight o fez buscar novas formas de expressão artística. Hardy foi eleito Fellow de Trinity e. Estas autoras acreditam que a estimulação variada. quando tinha 19 anos. embora tivesse um bom contato com os trabalhos dos grandes mestres da pintura. ocorrida em sua adolescência. Segundo Winner (1998). talvez. relata uma experiência cristalizadora interessante. Neste momento. amor. realismo. Embora filho de pais professores. Em uma de suas visitas ao Louvre. que ali deitam água na fonte. o prazer de ouvir música e. são levemente esguias. p. Vejamos o exemplo de Heitor Villa-Lobos. as experiências cristalizadoras são pessoais e privadas.

originais e criativas demonstraram possuir um conjunto bem definido de traços.36 poderão se tornar cristalizadoras para uma criança. Mas somente se obtiverem apoio e afeto familiares. Habilidade acima da média engloba a habilidade geral e a específica. renomado pesquisador do Centro Nacional de Pesquisa sobre o Superdotado e Talentoso da Universidade de Connecticut. levar vidas enriquecidas e satisfatórias. e se tornar os profissionais. recomenda-se a exposição da criança desde a mais tenra idade a materiais que possam motivá-las a explorar um determinado domínio. 1986). mas. foram reconhecidas por suas contribuições únicas. e estimular novos interesses que possam levar o aluno a aprofundá-los em atividades criativas e produtivas posteriores.Diagrama da Teoria dos Três Anéis . no desenrolar da história. Renzulli pontua que nem sempre a criança apresenta este conjunto de traços desenvolvidos igualmente. criatividade e motivação O que produz a habilidade superior? Joseph Renzulli. artistas. A realização criativa/produtiva. No entanto. assim como serviços educacionais adequados. A habilidade geral consiste na capacidade de utilizar o pensamento abstrato ao processar informação e de integrar experiências que resultem em respostas apropriadas Quadro 2 . a saber: habilidade acima da média em alguma área do conhecimento. é que poderão desenvolver seu potencial humano. nos Estados Unidos. educadores e líderes que farão diferença em nossa nação e no mundo. segundo Renzulli. envolvimento com a tarefa. em termos de uma boa pedagogia. se lhe forem dadas oportunidades. e criatividade (Renzulli. Neste sentido. poderá desenvolver amplamente todo o seu potencial. seria obtida. desafiadores e de alto nível. considera que as pessoas que. Feldhusen e Jarwan (2000) consideram que os superdotados e talentosos são os maiores recursos de uma nação. Em seu Modelo dos Três Anéis. apenas quando estes três conjuntos de traços estivessem dinamicamente em interação (ver quadro 2). Habilidades superiores. como representado pela porção interna do Diagrama de Venn. que resulta dos comportamentos de superdotação. Renzulli e Reis (1986) também recomendam atenção para a importância de se enriquecer a vida dos alunos através de experiências que usualmente não fazem parte do currículo da escola regular.

No mais. Com estímulos como este. em uma perspectiva desenvolvimental. e que transcendiam os interesses de seus colegas. torna-se um desafio determinar os fatores que levariam o indivíduo a usar seus recursos intelectuais. esta orientação tem permitido a muitos alunos oportunidades para desenvolverem altos níveis de realização criativa e produtiva que. e Neil passou a se oferecer para fotografar festas e ocasiões. como raciocínio verbal e numérico. como dança. Aprendeu sozinho a tocar piano e violão. em um nível mais acentuado. motivacionais e criativos de forma em produtos de nível superior ou em comportamentos de superdotação. Habilidades específicas consistem na habilidade de aplicar várias combinações das habilidades gerais a uma ou mais áreas especializadas do conhecimento ou do desempenho humano. Envolvimento com a tarefa se refere à energia que o indivíduo investe em uma área específica de desempenho e que pode ser traduzido em termos como perseverança. Há várias considerações práticas que podem ser feitas com relação ao Modelo dos Três Anéis. rotulando o serviço e não o aluno. No entanto. Com baixa motivação no ambiente escolar. passando horas tocando para seu próprio divertimento. Seus ensaios fotográficos lhe valeram prêmios em competições de fotógrafos amadores. Se Neil fosse indicado para um programa de enriquecimento. pelo menos um destes traços deve estar presente. Neil eventualmente se tornou mais interessado pelo ambiente escolar e suas notas se tornaram progressivamente melhores. no processo de identificar uma criança para fazer parte de um programa de enriquecimento. quando também começou a ter depressão e outros problemas psicológicos. munido de sua câmara fotográfica. fotografava pessoas. 1997b). suas habilidades na área artística. fez um criativo ensaio fotográfico mostrando a profundidade dos seus sentimentos sobre o tema “Como eu me sinto a respeito da escola”. fotografia. como a análise dos produtos criativos e auto-relatos dos estudantes (Hocevar & Bachelor. Isto implica em que. etc. para que os comportamentos de superdotação se manifestem. (1991). Os pais começaram então a incentiválo. o rapaz demonstrava grande entusiasmo concentração e alto interesse quando. envolvimento com a tarefa e criatividade – é mais importante que o outro e nem todos necessitam estar presentes ao mesmo tempo. relações espaciais. matemática. Renzulli utiliza o termo “superdotado” como um adjetivo. 1989. autoconfiança e crença na própria habilidade de desenvolver um trabalho. Neil era descrito por seus professores como preguiçoso e desajeitado e visto como o palhaço da classe pelos seus colegas. de outra forma. essas habilidades são medidas em testes de aptidão e de inteligência. expressas tanto por dificuldades na organização escrita quanto para realizar tarefas seqüenciais de álgebra e matemática. Embora ele não tivesse habilidades na área acadêmica no nível esperado Capítulo 2: O que as palavras querem dizer? . teriam sido negadas pelos modelos tradicionais dos programas especiais (Renzulli & Reis. ou na mesma quantidade. Desta forma. No entanto. memória e fluência verbal. composição musical. e desenvolver uma grande variedade de alternativas ou opções para atender as necessidades de todos os estudantes (Treffinger & Renzulli. tem sido proposta a utilização de métodos alternativos em adição aos testes. tentando captar suas diversas disposições de humor. Os professores reconheciam que suas preocupações e interesses eram de natureza mais global. Tomemos como exemplo o caso de Neil. desenvolver comportamentos superdotados em todos aqueles que têm potencial. Trata-se de um ingrediente muito presente naqueles indivíduos que se destacam por sua produção criativa. como sensibilidade estética e percepção de detalhes poderiam ser mais estimulados e suas técnicas de fotografia aperfeiçoadas. Em geral. Neil era um adolescente com dificuldades de aprendizagem. Segundo ele. perceptivo e criativo. No entanto. A criatividade tem sido apontada como um dos determinantes na personalidade dos indivíduos que se destacam em alguma área do saber humano. relatado por Baum e cols. Na escola. Reis. 1986). 1981). nutrir o potencial da criança. paciência. com alta inteligência.37 e adaptáveis a novas situações. Uma delas e a de que nenhum dos traços mencionados – habilidade acima da média. prefere falar e escrever sobre o desenvolvimento de comportamentos de superdotação em áreas específicas da aprendizagem e expressão humanas. Suas dificuldades na escola começaram a ser percebidas por volta da 4a série. como é difícil de se medir a criatividade por meio de testes fidedignos e válidos. Neil era um adolescente bastante sensível. uma vez que se sentia incapaz de realizar tal tarefa através da escrita. enquanto os outros poderão ser desenvolvidos no desenrolar do programa. liderança. ao invés de “superdotado” como uma forma de ser. É tarefa da escola estimular o desenvolvimento do talento criador e da inteligência em todos os seus alunos e não só naqueles que possuem um alto QI ou que tiram as melhores notas.

é tarefa do professor aproveitá-la e transformá-la em uma experiência enriquecedora e estimuladora para o aluno. personalidade e nível educacional dos pais. . a superdotação emerge ou “se esvai” em diferentes épocas e sob diferentes circunstâncias da vida de uma pessoa. a motivação em fazer determinadas tarefas ligadas aos seus interesses e a criatividade de suas produções artísticas seriam. os comportamentos de superdotação podem ser exibidos em certas crianças (mas não em todas elas) em alguns momentos (não em todos os momentos) e sob certas circunstâncias (e não em todas as circunstâncias de sua vida) (Renzulli. Sendo assim. pois vai contra a tradicional postura de se compreender a inteligência como um Figura 1 . coragem. além dos fatores genéticos. 1985). No caso exemplificado por Neil. Assim sendo. por si só. alta motivação) e por fatores ambientais (oportunidades variadas. Renzulli (2004a) observa que a criatividade e o envolvimento com a tarefa são traços variáveis. Da mesma forma. 1997a. observouse que. Esta posição é bastante polêmica. 1982.Estágios do desenvolvimento dos talentos (Gubbins. Reis & Smith. 1981). conforme acredita Renzulli. que podem estar presentes em maior ou menor grau. como fizeram seus professores. estimulação dos interesses infantis. entre outros). Sabemos que. ao colocar sua idéia criativa em ação. um grande envolvimento para se resolver uma situação-problema pode ativar o processo de resolução criativa de problemas. principalmente quando a pessoa se sente reforçada por si mesma e pelos outros. 1985. a superdotação é influenciada também por fatores do indivíduo (como auto-estima elevada. Renzulli. O caso de Neil também demonstra que a criatividade e o envolvimento com a tarefa podem ser modificados e influenciados positivamente por experiências educacionais bem planejadas (Gubbins.38 por seus professores. Renzulli. fatores impulsionadores para que níveis mais altos de produtividade pudessem ser atingidos. energia. dependendo da atividade. 2005) . persistência. Se o aluno oferece uma única porta de entrada para o reconhecimento de seu potencial. seu envolvimento com a tarefa começava a emergir. Renzulli e Reis. o aparecimento de um pode estimular o aparecimento do outro.

o conhecimento associado a esta área de interesse. expressas em concertos. uma criança com alta motivação a realizar um trabalho. Neste mesma linha de pensamento. às vezes mais tarde na vida. descobertas científicas. sentir e agir como o profissional da área em que seu interesse se manifestou (Renzulli. e de poderem pensar. (Renzulli & Reis. pouco assíduo e desinteressado. Gubbins (2005) lembra que o desenvolvimento do talento se dá em estágios. a falta de incentivo. o fonógrafo (que virou o gravador). 5). Neste sentido. Potencialidade: estágios do desenvolvimento do talento A Teoria dos Três Anéis. Por outro lado. mas sim pela qualidade de suas produções criativas. em algum momento.que descobriu o cálculo. nossos alunos devem ter a oportunidade de desenvolver materiais e produtos originais. o telégrafo e o projetor de cinema. E ainda há aqueles talentos e capacidades que podem estar em estágio latente devido aos níveis de desenvolvimento ou pela falta de experiências e da devida exposição aos domínios. p. que tiveram um desabrochar tardio (Winner. e que se traduz no mito de “uma vez superdotado. a falta de reconhecimento das capacidades e potencialidades de uma criança. ele era “sem esperança”. 1986c). 1985. ou a aprofundar um determinado tópico. sempre superdotado”. 1986b). desenvolveu a teoria da gravitação universal. 1986a. etc. ou que manifesta grandes habilidades para resolver problemas em matemática ou para criar músicas originais. mesmo que anteriormente não tenha demonstrado uma capacidade intelectual superior. como aconteceu com Charles Darwin e com o compositor Igor Stravinsky. Além disso. 1996). foi um mau aluno. Segundo Renzulli. que além da lâmpada elétrica inventou a locomotiva elétrica. Neste sentido. concorrer para o desuso destas habilidades e sua conseqüente estagnação (Galbraith & Delisle. nos remete à questão da potencialidade. 1998). como compositor.tirava notas baixas na escola. Albert Einstein tinha dificuldades de ler e soletrar e foi reprovado em matemática. lembra este autor que: As pessoas que marcaram a história por suas contribuições ao conhecimento e à cultura não são lembradas pelas notas que obtiveram na escola ou pela quantidade de informações que conseguiam memorizar. para serem produtores de conhecimento (e não meramente consumidores de conhecimento). Renzulli acredita que. a autoconfiança e a determinação podem colaborar para fazer desta criança um adulto produtivo (Renzulli. a persistência em atingir um determinado resultado. Robert Jarvick foi rejeitado por 15 escolas americanas de medicina. como aprendizes em primeira-mão. p. Ele inventou o coração artificial. É interessante notar que alguns adultos descobrem. por sua vez. No entanto. poderão. filmes. Isaac Newton . 1996. É o caso da criança pré-escolar que já lê e entende textos de maior complexidade.QUADRO 3: O QUE NOS MOSTRA A HISTÓRIA? traço imutável e único. Thomas Edison. poderá se esforçar e vir a dominar. O Quadro 4 ilustra bem esta concepção (Galbraith & Delisle. John Kennedy recebia em seus boletins constantes observações de “baixo rendimento” e tinha dificuldades em soletrar. outras crianças podem apresentar habilidades ou talentos em estágios iniciais de emergência. que possuem habilidades superiores em alguma área. os alunos devem ter a oportunidade de trabalhar em problemas que têm alguma relevância para eles e que são considerados desafiadores e interessantes. precisando então de atenção especial e encorajamento para que possa atingir plenamente os requisitos necessários para a emergência destas capacidades. de experiências de aprendizagem ou de vida enriquecedoras. como pode ser visto na Figura 1. originou as três leis do movimento . 39 Capítulo 2: O que as palavras querem dizer? . 12): O professor de música de Beethoven uma vez disse que. Walt Disney foi despedido pelo editor de um jornal porque ele “não tinha boas idéias e rabiscava demais” Dr. técnica ou atividade. Para algumas pessoas estes talentos aparecem de maneira óbvia. Saiu da escola e foi alfabetizado pela mãe. ensaios. revolucionária mesmo entre os teóricos da área.

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Como reconhecer uma criança superdotada? As características cognitivas. afetivas e sociais do superdotado .

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e orientada para os problemas reais. entusiasmo. pois é o tipo mais facilmente identificado pelos testes de QI para a entrada nos programas especiais. A ênfase neste tipo de habilidade recai sobre os processos de aprendizagem dedutiva.43 Capítulo 3: Como reconhecer uma criança superdotada? Características cognitivas e afetivas do superdotado A literatura na área é abundante nas listagens de características das crianças superdotadas. Apresenta grande necessidade de estimulação mental Tem paixão em aprender Demonstra perseverança nas atividades motivadoras a ele Não gosta da rotina Renzulli e Reis (1997a) destacam neste grupo as seguintes características afetivas e emocionais: Investem uma quantidade significativa de energia emocional naquilo que fazem. paixão. aqui. estoque e recuperação da informação. por exemplo. Como as habilidades medidas nos testes de QI são as mesmas exigidas nas situações de aprendizagem escolar. nesta abordagem. constrói novas estruturas Procura novas formas de fazer as coisas Pensa por analogias Usa o humor Gosta de fantasiar Não liga para as convenções É sensível a detalhes É produtor de conhecimento Encontra ordem no caos Dentre suas características afetivo-emocionais deste grupo. As crianças que apresentam a superdotação escolar tendem a apresentar as seguintes características (Renzulli & Reis. algumas características são comuns a todos eles. indutiva. Renzulli e Reis (1997a) destacam: O superdotado do tipo “escolar” tem necessidade de saber sempre mais e busca ativamente por novas aprendizagens. raiva e desespero. 1997a): Não necessariamente apresenta QI superior É criativo e original Demonstra diversidade de interesses Gosta de brincar com as idéias É inventivo. e aquisição. 1997a): Tira notas boas na escola Gosta de fazer perguntas Aprende com rapidez Tem boa memória Apresenta grande vocabulário Necessita pouca repetição do conteúdo escolar Apresenta longos períodos de concentração É perseverante Apresenta excelente raciocínio verbal e/ou numérico Lê por prazer Gosta de livros técnicos/ profissionais É um consumidor de conhecimento Tende a agradar aos professores Tendência a gostar do ambiente escolar criativo-produtiva tendem a apresentar as seguintes características (Renzulli & Reis. Renzulli (2004b). As crianças que apresentam a superdotação do tipo . Embora os autores difiram na forma com que abordam as altas habilidades/superdotação. no sentido de que ele trabalha nos problemas que têm relevância para ele e são considerados desafiadores. Necessitam de professores sensíveis aos seus intensos sentimentos de frustração. pode estabelecer metas irrealisticamente altas para si mesmo (às vezes reforçadas pelos pais) e sofrer por medo de não atingir tais metas. é visto como um “aprendiz em primeira-mão”. chama a atenção para duas categorias amplas e distintas de habilidades superiores: a superdotação escolar e a superdotação criativo-produtiva. Frequentemente questionam regras/ autoridade Demonstram autoconsciência Demonstram capacidade de reflexão Apresentam imaginação vívida Apresentam preocupação moral em idades precoces Precisam do apoio dos adultos para persistir em suas tarefas ou para canalizar suas energias de forma mais eficiente. Já a superdotação criativo-produtiva implica o desenvolvimento de materiais e produtos originais. a ênfase é colocada no uso e aplicação da informação – conteúdo – e processos de pensamento de forma integrada. treinamento estruturado nos processos de pensamento. o aluno com alto QI também tira boas notas na escola. A superdotação escolar pode também ser chamada de “habilidade do teste ou da aprendizagem da lição”. O aluno. Demonstram sensibilidade / empatia Demonstram perceptividade (insight) Apresentam senso agudo de justiça Apresenta grande intensidade emocional Revela intenso perfeccionismo. No entanto.

Reis. Galbraith e Delisle (2002. imaginativo.) 12 Entende a importância da natureza (tempo. informado em áreas não comuns 04 Pensa de forma incomum para resolver problemas 05 Persistente. sol. 1992.Formulário para a identificação da superdotação Reserve alguns minutos para listar os nomes dos alunos que venham primeiramente à sua mente quando você lê as descrições abaixo. curioso sobre o como e porque das coisas 09 Adapta-se a uma variedade de situações e novos ambientes 10 Esperto ao fazer coisas com materiais comuns 11 Habilidades nas artes (música. a possibilidades que eles apresentam altas habilidades é bastante forte. captadas pela criança. dança. Silverman. A informação emocional vem tanto de fora quanto de dentro da própria criança. Contudo. empatia com relação aos outros 21 Apresenta excelente senso de humor 22 Resiste à rotina e repetição 23 Expressa idéias e reações. É provável que você encontre mais do que um aluno em cada descrição. criativo. cético. Essas crianças são caracterizadas afetivamente por uma grande sensibilidade. Necessidades sócio-emocionais Vários autores concordam que. 01 Aprende fácil e rapidamente 02 Original. Lembram os autores que. verbalmente fluente 14 Aprende facilmente novas línguas 15 Trabalhador independente. auto-direcionado (faz coisa sem que seja mandado) 06 Persuasivo. lógico 17 Flexível. p. em se tratando de crianças superdotadas.53) reconhecem que algumas características apresentadas por estes meninos e meninas podem dificultar o reconhecimento das características e a identificação da superdotação. 1993). que frequentemente aparece cedo no desenvolvimento destas crianças.44 Galbraith e Delisle (1996) apresentam uma lista de comportamentos para ajudar os professores a desenvolverem um olhar sensível para a identificação dos talentos e das altas habilidades em sala de aula. mostra iniciativa 16 Bom julgamento. p. o aluno não precisa exibir todas estas características. independente. altos níveis de desenvolvimento cognitivo não necessariamente implicam em altos níveis de desenvolvimento afetivo (Clark. Um maior detalhamento das características sociais. etc. O Quadro 5 apresenta algumas características. Utilize esta lista como uma “associação livre” e de forma rápida. interesses além da idade cronológica 19 Mostra insights e percepções incomuns 20 Demonstra alto nível de sensibilidade. emocionais e cognitivas dos alunos com altas habilidades/superdotação será apresentado na próxima sessão. do que ela pode absorver e processar. ajudandoa a aplicar suas habilidades verbais e de compreensão avançadas às suas experiências emocionais. a qual precisará aprender a aplicar suas capacidades cognitivas a este material. proveniente da acumulação de uma quantidade maior de informações e emoções. pode não tolerar tolices 08 Inquisitivo. freqüentemente de forma argumentativa 24 Sensível à verdade e à honra Fonte: Galbraith e Delisle (1996. capaz de influenciar os outros 07 Mostra senso comum. Robinson & Moon. lua. aberto 18 Versátil. para ser considerado superdotado. para que possa compreender seu mundo emocional. estrelas. muitos interesses. não-convencional 03 Amplamente informado. A consciência social. 2002. e chamam a atenção para os seguintes perfis: Quadro 5 . torna-se uma oportunidade para se desenvolver nelas uma adequada estrutura de valores e de transformar valores em ações sociais. Neihart.) 13 Vocabulário excepcional. se o professor observa que alguns alunos exibem consistentemente muitos destes comportamentos. Um programa adequado deve dar oportunidades para que a criança tenha consciência dos seus aspectos emocionais. 14) . desenho etc. solo. Não é necessário preencher todas as linhas.

Outros podem se conformar e nada dizer. na falta de um psicólogo no atendimento. Isto significa que. Alunos que podem ser auto-confidentes e passionais sobre assuntos de cunho político. manipular e humilhar os outros. Robinson e Moon (2002) que também indicam formas de serem trabalhadas em dinâmicas de cunho terapêutico. e o desinteresse acadêmico não deva ser ignorado. ou começam a ensinar o tópico. mas uma vez que o interesse é satisfeito. social ou moral e apresentar abertamente suas convicções. Alunos que podem usar seu vocabulário avançado como retaliação contra aqueles não são tão bem-dotados verbalmente. talvez. Alunos que podem não gostar ou se ressentir de ter que trabalhar com colegas que não apresentam habilidades igualmente superiores. se distanciando dos colegas que não compartilham ou não ligam para esses assuntos. conforme o ponto de vista de Silverman (1993). Falaremos nesta sessão de treze características principais. ao compartilhar suas emoções. Reis. Galbraith e Delisle (2002) e Neihart. até com a ajuda de estagiários de psicologia. Alunos que podem usar seu senso de humor avançado e sagacidade para intimidar. Muitas vezes. e podem corrigir colegas e adultos quando percebem que estão dando informações incorretas. Alguns podem reclamar freqüentemente em alto e bom som. Embora o comportamento arrogante não deva ser tolerado. negligenciando o dever de casa e trabalho de sala de aula em outras áreas ou matérias. falar sobre suas dificuldades. resistem em fazer trabalhos adicionais relacionados ao tópico ou a concluí-los. o jovem percebe que elas são comuns aos outros colegas. fazendo-os seguir determinados procedimentos com os quais eles não concordam. e não uma desordem emocional. a saber: o perfeccionismo. observando o devido cuidado com o mundo interno da pessoa. (i) em sala de aula por professores e. Alunos que possuem vasto conhecimento de muitos tópicos. Galbraith e Delisle (2002) argumentam ainda que alguns destes comportamentos negativos podem ser devidos às necessidades intelectuais e emocionais do superdotado que talvez não estejam sendo devidamente atendidas em casa ou na escola. é bom saber que a fonte destes problemas pode ser uma frustração intelectual. a necessidade de entender. podendo verbalizar ou apresentar sua insatisfação por meio de altos suspiros. Alunos que podem ficar tão entusiasmado com uma área ou tópico de discussão que monopolizam a conversação. podem ser trabalhadas (g) (h) . a necessidade de estimulação mental. Alunos que podem ficar inicialmente entusiasmados com uma área ou tópico de discussão. presentes em diferentes gradações no mundo emocional da pessoa superdotada. a perceptividade.45 (a) Alunos que ficam facilmente cansados e entediados com o trabalho rotineiro da sala de aula. (j) Alunos que podem preferir trabalhar independentemente e se ressentir dos adultos que querem “colocá-los na linha”. Um professor sensível às características peculiares do superdotado pode reservar um momento em suas aulas para que a criança ou o jovem possam se expressar com mais liberdade. Alunos que podem trabalhar intensamente em uma área ou matéria. até mesmo para os professores. a necessidade de precisão e exatidão. o Capítulo 3: Como reconhecer uma criança superdotada? (b) (c) (d) (e) (f ) Como trabalhar em sala de aula com as características típicas do superdotado Algumas características de personalidade são típicas de um grande número de crianças com altas habilidades na área acadêmica e são discutidas a seguir. temores e dúvidas. e que cada um tem uma forma diferente de lidar com estas características e emoções.

muitas vezes em descompasso com sua idade cronológica. PERCEPTIVIDADE Uma habilidade de raciocínio excepcional faz com que o indivíduo seja mais perceptivo e tenha mais insigths (este termo é usualmente utilizado para evidenciar a perspicácia e discernimento do indivíduo. a autoconsciência. A energia que se origina desta sede de saber vem. assim como em seu grupo.” também pode ajudá-los a perceber melhor suas ações e suas potenciais conseqüências. a intensidade. de entender o mundo em que vive. Assim. NECESSIDADE DE ENTENDER A curiosidade intelectual do aluno é também um traço de personalidade que o leva à necessidade . podem aprender a observar suas reações em diversas situações. 1. seus atos têm sempre que obter aprovação. São alunos que encontram novas formas de abordar um problema e chegam a diferentes soluções. Todos estes adjetivos demonstram a força do pensamento do perfeccionista. observada pelos pais na criança desde tenra idade. 13 Conforme Silverman (1993). que em geral vem acompanhado de muita energia e carga extra de frustrações. O perfeccionismo vem de um ideal abstrato que o indivíduo coloca para si mesmo. fazer tabelas e estimar numericamente seus estados afetivos. diz respeito ao comportamento perfeccionista. Os pais costumam também relatar em seus filhos a rápida perda de interesse por estímulos familiares e preferência por novidade. a criança logo aprende que seu rápido ritmo de aprendizagem não é estimulado na escola. e demonstra um comportamento persistente. Reis.46 saúde e capacidade de gozar a vida. a sensibilidade e empatia. No entanto. criatividade. assim como outras atividades preparadas por ele próprio como intervenções auto-escolhidas.. para a resolução de dificuldades e problemas que ele possa encontrar em suas atividades diárias. A mente coloca altos padrões – às vezes impossíveis de serem alcançados – baseados em sua consciência e capacidade mental avançados. de criar seu próprio mundo. intelectual e criativo. o perfeccionismo (em geral descrito como neurótico) tende a enfatizar que o aluno não pode jamais falhar. faz perguntas perspicazes e penetrantes. ligado aos fatores sócio-emocionais da pessoa com altas habilidades. 2. PERFECCIONISMO Um fator de origem emocional que aparece bem descrito na literatura. e a introversão13. de entendimento e busca de conhecimento. a perseverança. que é um comportamento fundamentalmente positivo. tomar notas.. Há uma necessidade de domínio em vários sentidos – domínio do mundo no sentido físico. da necessidade premente de compreender o sentido do mundo e das coisas. Diferindo da busca da excelência. mantendo grande distância do ritmo apresentado 3. É necessário que essa característica seja respeitada. memória prodigiosa e níveis avançados de desenvolvimento são observáveis desde tenra idade. 4. a capacidade de insight do aluno deve ser utilizada também para o entendimento de si próprio. ao mesmo tempo em que o indivíduo aprende a usá-la de forma produtiva em sua vida. e não permanecerem meramente no terreno das idéias. Questões do tipo “O que aconteceria se. senso de humor. É importante que o professor ressalte para os alunos com estas características que os insights e respostas encontradas de forma original devem ser colocados em prática. além de grande necessidade de manter a estimulação mental. para os seus relacionamentos. manter um diário. que termina por ser prejudicial para sua autoestima. Os pesquisadores mostram a necessidade de acompanhamento psicológico quando o indivíduo estabelece padrões absurdamente irrealistas para si mesmo. o que o permite encontrar novas respostas). Essa natural curiosidade da criança ou jovem pode ser satisfeita em dinâmicas que levem o aluno a se perceber como sujeitos experimentais em uma pesquisa que ele próprio construiu. o questionamento da autoridade. em geral. NECESSIDADE DE ESTIMULAÇÃO MENTAL Características como aprendizagem rápida. Robinson e Moon (2002). A curiosidade é. Assim. que também relatam que o filho/ a apresenta um comportamento investigativo. a nãoconformidade. em seu componente psicológico. Galbraith e Delisle (2002) e Neihart. em função da sua facilidade em lidar com abstrações. e que ele nunca pode chegar em segundo lugar.

permitindo ao aluno experienciar a situação não como vítima. na liberação da ansiedade. assim como a capacidade para argumentação tornam difícil o processo de tomada de decisão. e para a busca de saídas alternativas para este tipo de comportamento. desde muito cedo. entendimento de assuntos morais desde tenra idade têm sido observados por pais. O humor tem aspectos terapêuticos que devem ser utilizados sempre que possível para promover o relaxamento e a liberação de tensões. 7. de chamar a atenção para os casos que refutam determinados argumentos. Preocupação com outras formas de vida. e são consideradas como “emocionalmente superdotadas” (Piechowski. oportunidades de enriquecimento escolar. NECESSIDADE DE PRECISÃO E EXATIDÃO Processos complexos de pensamento imputam na criança imperativos lógicos. Algumas crianças demonstram. pode utilizar recursos como aceleração de série. revivendo estas experiências mesmo anos depois de terem ocorrido. de forma a facilitar a tomada de decisões e partir para a ação. que se sente magoada com facilidade. O aluno sente-se compelido a corrigir erros (dele e dos outros). A habilidade de perceber múltiplas relações entre idéias. enorme empatia com relação aos outros. Algumas vezes os sentimentos de empatia e a sensibilidade aparecem de forma independente. Entender a incongruência envolve também um processo mental semelhante ao utilizado para a resolução de problemas.47 por seus colegas com desenvolvimento moderado. 1997). muitas vezes não tem consciência dos sentimentos dos outros. muitas vezes exageram os aspectos cômicos dos eventos. É também fundamental para o aluno aprender a distinguir o material relevante do irrelevante dentre a massiva quantidade de informação que ele tem tendência de estocar. O professor deve diferenciar o currículo para que estes alunos não percam o gosto pela escola. projetos independentes. contudo. torna-se útil que ele participe de atividades para o desenvolvimento de habilidades sociais. compactação de currículo e outras formas de acompanhamento para manter a criança estimulada e desafiada em sala de aula. 5. Muitas vezes os alunos que possuem um bom senso de humor também percebem absurdos e incongruências nas situações. Torna-se um desafio quebrar este ciclo que perpetua sentimentos de desamparo e ressentimento. a um grau que ultrapassa mesmo as preocupações do adulto. aspecto que tem sido observado em . 6. A memória prodigiosa destes alunos também implica em intensa memória afetiva. cursos avançados. tendência a se tornarem vegetarianas por crenças filosóficas. que o permitam compreender o seu próprio processo psicológico. SENSIBILIDADE/ EMPATIA Quando as preocupações morais se fundem com a empatia. Capítulo 3: Como reconhecer uma criança superdotada? e em muitos casos o professor se vê corrigido em frente aos outros alunos. Nestes casos. objetos e percepções. para a facilitação social. na auto-expressão. Uma dinâmica útil envolve a dramatização em sala de aula. SENSO DE HUMOR Tem sido observado por muitos pesquisadores que o aluno com altas habilidades responde e compreende várias formas de humor verbal a um nível mais sofisticado que seus colegas de mesma idade. Acontece também do aluno muitas vezes não perceber a extensão de suas próprias críticas. crianças superdotadas bem pequenas. Contudo. de posse de novas habilidades que poderão ser úteis em ocasiões similares no futuro. elas esperam que o mundo faça sentido e reagem fortemente quando isso não acontece. por exemplo. mas como alguém em controle dos próprios sentimentos. Ou ela pode demonstrar sentimentos de proteção com relação a crianças mais novas ou aos idosos e ainda demonstrar falta de preocupação com os sentimentos dos irmãos ou outras crianças de sua idade. e por sua imaginação vívida. para facilitar o desenvolvimento de insights e no auto-desenvolvimento na direção da auto-realização. a necessidade de precisão e exatidão não estimula as relações sociais. elas se transformam em compromisso moral. Isto implica que o aluno superdotado mantém uma vívida lembrança de cada fracasso e humilhação. uma criança extremamente sensível à crítica. sendo também um reflexo do nível de desenvolvimento da pessoa. Alunos que necessitam de estimulação mental podem também se beneficiar de leituras na área.

em geral. 11. encorajandoos quando se sentem frustrados ou chegam a um impasse no seu progresso. embora não se tenha estabelecido a complexa relação entre elas. mais dirigidas a um propósito. música. Há que se ter muito cuidado com estas características. É necessário que o ambiente de aprendizagem possa ser revisto e reformulado. Há momentos em que a criança quer saber tudo sobre um determinado tópico e se torna totalmente voltada para ele. enquanto outras perdem interesse no processo quando a meta se torna sem sentido. e com freqüência estão avaliando suas experiências. É também válido torná-los conscientes de cada passo em relação ao sucesso. e se auto-flagelam por isso. Uma dinâmica interessante constitui-se em descobrir se a fonte da não aquiescência às 10. Esta é uma boa técnica para ajudá-los a ver que a realidade nem sempre é tão ruim quanto tememos. 1996). a estes alunos o material é apresentado em um ritmo tão vagaroso que ela tem dificuldade de permanecer atenta. PERSEVERANÇA Um traço bastante comentado na literatura sobre o superdotado relaciona-se com seu grande poder de concentração nas atividades que realmente prendam seu interesse. A autoconsciência surge quando este . assim como à tenacidade e força de vontade da criança. as escolhas que fazemos em determinadas ocasiões podem ser a única escolha viável para aquela situação. AUTOCONSCIÊNCIA Crianças com altas habilidades são. pensadores analíticos (Sternberg. uma vez que o indivíduo com uma aguda auto-consciência pode brutalizar ou violentar a si mesmo. Apenas quando ela finalmente satisfaz sua curiosidade é capaz de passar para outro tópico de interesse. Vários pesquisadores concordam que os projetos independentes deveriam fazer parte do ensino regular. muitas vezes. o que causa problemas para professores e para os colegas. e finalmente ajuntar as duas imagens em uma situação mais realística e provável de acontecer. até que toda a sua energia seja gasta. assim como pessoas. de forma a nutrir e saciar a vontade destes alunos de aprender em maior profundidade. Uma característica da paixão por aprender é a maneira intensa com que a criança/jovem vai ao encalço de seus interesses. por natureza. O professor deve ajudar os alunos a apreciarem-se a si mesmos e a se conscientizarem de que. requerido. por sua força emocional. as crianças e jovens superdotados precisam de oportunidades para a expressão criativa. Algumas crianças são. A não-conformidade. às vezes. a fantasia da catástrofe). Uma técnica interessante é fazê-los visualizar as piores conseqüências possíveis para uma determinada situação causadora de ansiedade (por exemplo. percebe-se um desvio para canais auto-destrutivos. experiência e assim por diante. alimentos. e do trabalho árduo que é. o que. incapaz de pensar em nada mais. incluindo a si mesmas. fazendo perguntas intermináveis. Contudo. Eles são capazes de separar as coisas na mente e ver todas as formas intrincadas pelas quais elas poderiam ser melhoradas. INTENSIDADE A paixão por aprender. a escola tradicional não permite que a criança busque e esgote todos os seus interesses particulares sobre uma determinada matéria ou tópico. com freqüência. muitas vezes. 9. de forma a se tornar mais responsivo para o aluno.48 8. é necessário que o professor dê apoio aos alunos para que mantenham suas metas. depois visualizar as melhores conseqüências possíveis. Alunos que são pensadores analíticos às vezes se culpam por situações em que as conseqüências não foram preditas. nem tão boa quanto freqüentemente desejamos. A perseverança está relacionada ao período de atenção e à habilidade de se concentrar. intelecto incisivo e analítico é focalizado para o seu próprio interior. Longos períodos de atenção podem ser observados em idades precoces. é considerada uma poderosa força de propulsão para a superdotação. Em dinâmicas em sala de aula. aparece em conjunção com traços de pensamento divergente. Como os adultos. NÃO-CONFORMIDADE A criatividade é um traço freqüentemente notado entre as pessoas superdotadas. aumenta com a maturidade. quando estas avenidas de oportunidade são bloqueadas. apreendendo uma grande quantidade de material.

INTROVERSÃO A capacidade para reflexão é um traço freqüentemente observado em pessoas introvertidas. 1993). os introvertidos se sentem melhor ouvindo conselhos e opiniões do outro. os introvertidos precisam ser respeitados pelo que são. Indivíduos que precisam estar certos todo o tempo e ganhar em suas argumen- espaço para falar de si próprias e. É também freqüente encontrar entre os introvertidos o uso de uma “máscara” para uso em situações públicas e sociais. para assim. irracional. são capazes de intensa concentração. Ao buscar ajuda. quanto maior o QI medido por testes psicométricos. É claro que. torna-se um fator para ser trabalhado em maior profundidade. É necessário entender bem as características sócioemocionais deste grupo se quisermos ajudar as crianças e jovens superdotados a superarem suas dificuldades e se tornarem mais funcionais no contexto sócio-cultural em que vivem. nossa sociedade tende a dar menos suporte para as pessoas introvertidas e que precisam de tempo para refletir. é necessário ter consciência de que este aspecto pode ser intimidador para outras pessoas. Um agudo senso de justiça invariavelmente leva ao questionamento das regras e de figuras de autoridade. Mais do que tudo. necessitam privacidade. Além disso. Em geral. e sentem que suas energias são drenadas pelas pessoas. 13. os quais buscam energia de dentro de si mesmos. e não apenas para a si mesmo. As pessoas introvertidas raramente precisam de 12. . o contrário acontece com os introvertidos. e rapidamente percebem injustiças contra ele e os outros. e como podem se beneficiar de dinâmicas em sala de aula. o que precisa ser trabalhado em conjunção com a família e a escola. trabalhar consigo mesmo o que ouviu e processar esse conteúdo em suas divagações mentais. tações têm. detestam ser o centro das atenções. os introvertidos freqüentemente aprendem por observação. assim como ter uma melhor compreensão dos sentimentos dos outros e de suas reações às suas habilidades de argumentação. não resolvem seus problemas através da verbalização. a conseqüência disso é a necessidade de manter um comportamento perfeito na escola. Estas várias características. em geral. guardando os sentimentos negativos para si mesmo. Q UESTIONAMENTO DA AUTORIDADE Pais relatam que seus filhos aprendem muito cedo o significado da frase “isso não é justo”. e depois despejando tudo na pessoa que eles mais confiam e se sentem protegidos – em geral a própria mãe. sentem-se inconfortáveis com mudanças. termina por desenvolver um negativismo em relação à autoridade. Muitos jovens com altas habilidades gostam de desempenhar o papel do “advogado do diabo” apenas pelo prazer de argumentar e de ouvir os argumentos da outra pessoa. Também é interessante que o indivíduo raciocine sobre o conteúdo de sua argumentação.49 Capítulo 3: Como reconhecer uma criança superdotada? normas se encontra apoiada em padrões morais (e então a não conformidade deve ser enaltecida) ou baseada na insegurança e no desejo de provar alguma coisa para o grupo – neste caso. como um método de aprendizagem e para provar um ponto de vista – e muitas vezes saem ganhando. O questionamento e a argüição são formas de exercício mental para os superdotados acadêmicos. em um momento posterior. Pais e professores precisam aceitar a introversão como algo normal. baixa auto-estima. para refinar suas habilidades sociais. Há estudos indicando que. são leais a um pequeno grupo de amigos mais chegados. Enquanto os extrovertidos retiram sua energia das pessoas e objetos fora de si próprios. Quando a criança ou jovem percebe que a fonte da autoridade é ilógica. maior é o grau de introversão (Silverman. levando em conta o ponto de vista do bem para a maioria. ajudam a indicar quando as crianças com altas habilidades precisam de aconselhamento psicológico. quando tomadas juntas em suas interações. do que para os extrovertidos. ao contrário dos extrovertidos. errônea ou injusta. ao invés de tentar fazer a criança se transformar em um extrovertido. que se engajam nisso por puro prazer.

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Encorajando potencialidades Desenvolvendo a superdotação na teoria e na prática .

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leva em consideração a facilidade da criança em se adaptar ao ambiente e desempenhar atividades que são adequadas para o desenvolvimento de uma tarefa. que pouco mudava no decorrer do desenvolvimento. pois. criatividade. A terceira forma de ser inteligente. A criança que se destaca por sua inteligência analítica é aquela que. Essa criança tende a ter independência de pensamento e de idéias. 1996b. conforme Sternberg. os testes de QI não são válidos para medir o tipo de inteligência exigida para o sucesso no mundo real. talentos e dificuldades opostos. A escola tradicionalmente reforça as habilidades analíticas de seus alunos.53 Capítulo 4: Encorajando Potenciais As altas habilidades/superdotação e a inteligência na teoria Nos primeiros anos do século XX a questão da inteligência como um traço único ou multifacetado foi bastante debatida. Nesta época. na escola. Em conseqüência. denominadas de “áreas fracas”. a ver humor em situações que nem sempre os outros percebem como tal e são muitas vezes consideradas o “palhaço da turma”. aprende com facilidade e com pouca repetição. não sendo passível de ser medido da forma tradicional. Vamos também examinar o papel que a inteligência e a criatividade desempenham na superdotação. o que nem sempre acontece. em geral. tem facilidade em analisar as idéias. 1996c) desenvolveu a Teoria Triádica da Inteligência. Segundo este pesquisador. pais e professores têm grandes expectativas de que a criança se saia bem em todas as áreas e tenha boas notas em todas as matérias escolares. para a carreira profissional de uma pessoa. se a inteligência fosse geral e única. por exemplo. Pesquisas deram apoio à segunda hipótese (Hetherington & Parke. Para Sternberg. então uma criança inteligente deveria ter um bom desempenho em todas as tarefas intelectuais de um teste. 1999). quando se leva em consideração as habilidades de resolução de problemas. Esta inteligência geral seria a grande responsável pela capacidade do indivíduo de perceber e aplicar relações lógicas nos mais diversos campos do conhecimento. e que passou a ser observado e pesquisado no decorrer do século. Observa-se hoje que a inteligência é composta de muitos fatores e habilidades. e ter suas dificuldades em outras áreas. ou pelo uso de uma inteligência criativa. como por exemplo. seria de que. mas não necessariamente em todas. ajustamento geral e sucesso no ambiente de trabalho. Ele argumenta que a pessoa pode ser inteligente de três formas: pelo uso de uma inteligência analítica. pensamentos e teorias. ou ainda pelo uso de uma inteligência prática. Gosta de livros e muitas vezes aprende a ler sozinha ou com pouca instrução. a inteligência fosse composta de vários fatores e habilidades independentes. que passaremos a examinar com um pouco mais de detalhe na sessão seguinte. Entendia-se então que todos os indivíduos possuíam uma “inteligência geral”. Robert Sternberg (1996a. Vamos considerar cada uma dessas inteligências em relação à criança em seu percurso de desenvolvimento. por outro lado. a que chamamos de “área forte”. Esta conclusão é importante. A pessoa com inteligência criativa nem sempre tem as melhores notas e nem sempre se destaca na escola por suas habilidades acadêmicas. em geral. demonstra grande imaginação e habilidade em gerar idéias interessantes e criatividade na forma de escrever ou falar e de demonstrar suas aptidões e competências. Já a criança que se destaca por suas habilidades de pensamento criativo apresenta. Robert Sternberg e Howard Gardner respondem diferencialmente a estas questões. A criança demonstra inteligência prática e senso-comum. ao acentuar a memorização e reprodução dos conhecimentos. O raciocínio que se seguiu. Mas os estudiosos argumentaram que se. tira boas notas nos testes. o professor gosta de ter em sala de aula: academicamente brilhante. o renomado pesquisador da Universidade de Yale. competência social. global. Percebendo a inteligência como multifacetada e composta por vários fatores. ela deveria sair-se tão bem nos testes de matemática quanto no de português ou de ciências. e que estaria presente em todas as tarefas intelectuais. sendo capaz de . vários pesquisadores se preocuparam com a questão da validade dos tradicionais testes de QI para medir a inteligência. a inteligência era vista como um traço inato. No entanto. Assim é que a pessoa essencialmente analítica muitas vezes carece de idéias novas e originais e pode ter dificuldade em um ambiente que exija respostas diferentes e incomuns. o comportamento inteligente é muito amplo. em geral. podemos então entender que uma pessoa possa demonstrar domínio e conhecimento em uma área. muitas vezes em detrimento da aplicação e do ensino de técnicas para o desenvolvimento do pensamento criador. o que faz com que uma criança possa ter um excelente desempenho em uma área e quase nenhum rendimento em outra. a criança poderia ter um bom desempenho em algumas tarefas. A TEORIA TRIÁDICA DE INTELIGÊNCIA Preocupado com as questões mais gerais sobre o comportamento inteligente. conhecida como “fator g”.

Além disso. para o sucesso de sua profissão. Gardner acredita que as inteligências dependem de variáveis do contexto. a forma com que utiliza o currículo deve ser adaptada ao contexto da sua sala de aula. 1999. Este conhecimento é importante para subsidiar a instrução em sala de aula. No mundo atual. É desejável que. da genética e das oportunidades de aprendizagem de uma pessoa. Armstrong (2001) descreve as necessidades cognitivas específicas do aluno para o melhor desenvolvimento em sala de aula (ver Quadro 6). Para isso. além disso. Para serem justos para com a inteligência a ser medida. A Teoria das Inteligências Múltiplas propõe a inteligência como habilidades que permitem ao indivíduo resolver problemas ou criar produtos que são importantes num determinado ambiente cultural ou comunidade. de forma que a maior parte da aprendizagem na escola possa ocorrer através dos tipos de inteligências preferidas por eles. da cultura. incluindo o estudo da inteligência nos savants. que não só os de lápis-e-papel. Esta é uma das idéias tratadas na Teoria de Howard Gardner. assim como Sternberg. estudou as evidências de uma série de campos. entende que há múltiplos fatores na composição da inteligência. o indivíduo só pode ser considerado inteligente se o seu contexto for levado em consideração. À medida que ganha experiência de vida. no contexto de vida prática. e executar sua tarefa com precisão. a musical. as habilidades que se exigem do aluno que ingressa no mundo de trabalho são o resultado dessas três formas de inteligência. 1999) anunciou . Conclui Sternberg que os tradicionais testes de inteligência poderão ser bons preditores de sucesso do aluno na sua vida acadêmica. e. conforme colocado no início deste livro. a naturalista. exercem sobre outros indivíduos (como o fizeram Buda. mas terão pouco impacto na predição do sucesso na vida prática e no ambiente de trabalho. na medida em que ela é de fundamental importância para o desenvolvimento de produtos em uma sociedade ou para solucionar problemas que aparecem em um contexto. recentemente (Gardner. o que faz com que os indivíduos manifestem suas competências em diferentes graus. fazer um levantamento do que é necessário para atingir algum objetivo prático. a interpessoal. lembra Armstrong que a maioria dos alunos apresenta áreas fortes em vários domínios. É a inteligência prática ou conhecimento tácito que. 1997). as habilidades e inteligências se combinam para que o indivíduo possa desempenhar os diversos papéis exigidos na sua cultura ou para desenvolver produtos culturais. Sternberg ressalta que diferentes situações exigem diferentes tipos de inteligência. a espacial. principalmente no desempenho profissional. seus estudos para incluir a inteligência espiritual. 1995. que examinaremos a seguir. a pessoa prática demonstra esta inteligência com mais intensidade. autistas e crianças prodígios. Além disso. Pensando nos diversos estilos de aprendizagem que as crianças apresentam quando tendem a uma determinada inteligência de forma mais expressiva. o que a permite lidar com as pessoas e conseguir que um determinado trabalho seja executado. entendida como a preocupação com certos conteúdos cósmicos. Gardner procurou identificar quais as competências humanas seriam “candidatas” a serem denominadas de inteligência. Tomemos o exemplo de um professor. 2001). a corpo-cinestésica. percebendo o que funciona e o que não funciona. o professor tenha bem memorizado os conhecimentos relacionados à disciplina que ensina. portanto. Normalmente uma criança não apresenta apenas um tipo de inteligência. Assim. possuidoras destas capacidades. é responsável pela melhor adaptação da pessoa ao ambiente e para o sucesso no mundo real. a obtenção de certos estados de consciência e os profundos efeitos que certas pessoas. Confúcio e mesmo Cristo). Desta forma. ela pode combinar muitas delas para desempenhar um determinado papel ou desenvolver algum produto. a intrapessoal. de modo que o professor deve evitar categorizar a criança em apenas uma inteligência. e que sejam mais amplos e flexíveis. Ramos-Ford & Gardner. em pessoas com lesões cerebrais e em culturas diferentes (Krechevsky. Como resultado desta investigação. o Papa João XXIII. que exigirão outras formas de inteligência não abarcadas pelos testes.54 chegar em qualquer ambiente. é também desejável que aplique técnicas instrucionais com criatividade e imaginação. há necessidade do uso de outros tipos de testes. Madre Tereza de Calcutá. a lógicomatemática. A TEORIA DAS INTELIGÊNCIAS MÚLTIPLAS Gardner (1994. e (b) algumas inteligências são mais valorizadas em uma cultura do que em outra e. às necessidades individuais de seus alunos e às demandas sociais da sua população estudantil. ele ressalta dois importantes fatores: (a) a inteligência envolve criatividade. Gardner propõe oito inteligências diferentes: a lingüística.

movimento. filmes. rabiscar PRECISAM DE Arte. LEGOs. CRIANÇAS QUE SÃO EXTREMAMENTE Lingüísticas 55 Capítulo 4: Encorajando Potenciais PENSAM em palavras ADORAM Ler. escrever. discussões. quer oralmente (como o faz o contador de histórias. e a metalinguagem – usar a linguagem para falar sobre ela mesma. manipulativos. usar a linguagem para expressar e avaliar significados complexos. transformar e modificar essas informações. papéis. afirmações e proposições (causa-e-efeito. resolver problemas lógicos. entre outras abstrações. classificação. materiais para escrever. Inclui processos como a categorização. o dramaturgo. histórias INTELIGÊNCIA LÓGICO-MATEMÁTICA: possibilita usar e avaliar relações abstratas. permitindo a manipulação de objetos CRIANÇAS QUE SÃO EXTREMAMENTE Corporal cinestésicas PENSAM por sensações somáticas ADORAM Dançar. o mímico. para raciocinar bem (como os programadores de computador e cientistas). e recriar imagens mesmo sem referência a um estímulo físico original (como os navegadores e jogadores de xadrez). esportes e jogos de movimento. fitas. forma. o editor e o jornalista). como a retórica – usar a linguagem para convencer os outros. aprendizagem prática . materiais científicos. então). construir. arquitetos e escultores). experiências táteis. considerar proposições e hipóteses e realizar operações matemáticas complexas (como o fazem os matemáticos. pular. tocar. desenhar. diálogos. Não depende da sensação visual (cegos a utilizam).QUADRO 6: AS MÚLTIPLAS INTELIGÊNCIAS NA PRÁTICA ESCOLAR INTELIGÊNCIA LINGÜÍSTICA: capacidade para pensar com palavras. labirintos. fazer jogos de palavras PRECISAM DE Livros. CRIANÇAS QUE SÃO EXTREMAMENTE Espaciais PENSAM por imagens e figuras ADORAM Planejar. e os usos práticos da linguagem. jogos de imaginação. a meneumônica – usar a linguagem para lembrar informações. teatro. como o faz o ator. os analistas financeiros. CRIANÇAS QUE SÃO EXTREMAMENTE Lógico-matemáticas PENSAM raciocinando ADORAM Experimentar. vídeos. a explicação – usar a linguagem para informar. quebra-cabeças. o orador ou o político). visitas ao planetário e ao museu de ciências INTELIGÊNCIA ESPACIAL: capacidade de perceber informações visuais ou espaciais (como o caçador e o guia). contar histórias. slides. correr.. linha. configuração e espaço (como o faz os pintores. calcular PRECISAM DE Coisas para explorar e pensar. generalização. musculares e perceptuais. a semântica ou os significados da linguagem. Inclui a manipulação da sintaxe ou estrutura da linguagem. diários. criar produtos. questionar. livros ilustrados. Inclui a sensibilidade a padrões de relacionamentos lógicos. visitas a museus de arte INTELIGÊNCIA CORPORAL-CINESTÉSICA: envolve o uso de todo o corpo ou partes do corpo para resolver problemas. expressar idéias e sentimentos (por exemplo. cálculo e testagem de hipóteses. Inclui a coordenação entre sistemas neurais. coisas para construir. debates. quantificar. pensar de maneiras tridimensionais levando em consideração a relação entre cor. calcular.. funções. contadores. quer por escrito (como o poeta. PRECISAM DE Dramatização. se. o atleta e o dançarino). inferência. visualizar. engenheiros).

tom. cuidar do jardim. projetos e escolhas no seu ritmo pessoal Intrapessoais INTELIGÊNCIA NATURALÍSTICA: capacidade de reconhecer e classificar os sistemas naturais. ecologista e paisagistas. a distinção de membros entre espécies etc. discriminar (como os críticos musicais. refletir PRECISAM DE Lugares secretos. instrumentos Musicais INTELIGÊNCIA INTERPESSOAL: é a capacidade de compreender as outras pessoas e interagir efetivamente com elas. doadores. transformar (como os compositores) e expressar (como os musicistas. reconhecer problemas de mecânica em um carro pelo seu barulho. investigar a natureza. planejar. eventos comunitários. melodia. detectar um novo padrão em um experimento científico. assim como os sistemas criados pelo homem. oportunidade para interagir com animais. sentimentos e objetivos ADORAM Estabelecer objetivos. ritmo e timbre. fazer festa PRECISAM DE Amigos. mentores/aprendizados Interpessoais INTELIGÊNCIA INTRAPESSOAL: CRIANÇAS QUE SÃO EXTREMAMENTE PENSAM em relação às suas necessidades. idas a concertos. CRIANÇAS QUE SÃO EXTREMAMENTE PENSAM por meio da natureza e das formas naturais ADORAM Brincar com animais de estimação. reconhecendo padrões em um estímulo. os peritos em acústica. instrumentos para investigar a natureza (como lupas e binóculos) Naturalistas Fonte: Armstrong (2001). meditar. cantarolar. jogos de grupo. instrumentistas e maestros) CRIANÇAS QUE SÃO EXTREMAMENTE PENSAM por ritmos e melodias ADORAM Cantar. criar animais. Emprega capacidades centrais para reconhecer. comunicar e compreender significados compostos por sons. p. organizar.56 QUADRO 7: AS MÚLTIPLAS INTELIGÊNCIAS NA PRÁTICA ESCOLAR INTELIGÊNCIA MUSICAL: permite às pessoas criar. relacionar-se. como a flora e fauna. caçadores. Alguns indivíduos com forte inteligência naturalista são fazendeiros. Por exemplo. Presente em terapeutas. crenças e intenções dos outros. atores e políticos. engenheiros de áudio. escutar PRECISAM DE Tempo para cantar. cuidar do planeta Terra PRECISAM DE Acesso à natureza. assobiar. o discernimento de um estilo artístico. os fabricantes de instrumentos). pais e professores bem-sucedidos. Inclui a capacidade de perceber (como os aficionados por música e ouvintes sensíveis). botânicos. 38 . Inclui: capacidade para o canto. CRIANÇAS QUE SÃO EXTREMAMENTE PENSAM percebendo o que os outros pensam ADORAM Liderar. compreender e fazer distinções entre sentimentos. agir em função delas e moldá-las para seus objetivos. reuniões sociais. tempo sozinhas. clubes. tocar música em casa e na escola. manipular. sonhar. batucar com as mãos e os pé. mediar.

e deve preferencialmente apontar os pontos fortes. M. 4. de novas relações pedagógicas centradas nos modos de aprender das diferentes crianças e jovens.57 Capítulo 4: Encorajando Potenciais Superdotação na prática: identificação do aluno A principal meta na identificação de alunos superdotados. potencialmente. habilidade superior em alguma área. Neste sentido. e pretende atender a todas as áreas citadas. em meados da década de 70. ou seja. aptidões e talentos de cada uma. criatividade e liderança. como tradicionalmente se tem feito nas escolas. passa-se à cuidadosa seleção e identificação dos alunos que comporão o “Pool de Talentos” (Renzulli & Reis. alunos de baixa renda. é necessária uma cuidadosa seleção dos instrumentos de identificação. Dutra (2004) afirma que: As políticas dos sistemas de ensino devem prever a eliminação das barreiras à educação dos alunos com necessidades educacionais especiais. que devem estar de acordo com os tipos de habilidades que serão atendidas. Reis & Smith. No movimento atual de uma educação inclusiva. que valorizam a diversidade em todas as atividades. de outras culturas. (1). os tipos de talentos ou habilidades a serem identificados. música. Cadernos de Psicologia. 97-111. (1998. desenvolver comportamentos superdotados em todos aqueles que têm potencial. e de relações sociais. com problemas de aprendizagem e as meninas. resultante do trabalho pioneiro do Dr. garantindo o direito dos que se qualificam para o serviço especial. validado por mais de vinte anos de pesquisas empíricas (Renzulli & Reis. cênicas. todos os alunos do Pool de Talentos são considerados membros do programa. e desenvolver uma grande variedade de alternativas ou opções para atender as necessidades de todos os estudantes. O processo de identificação pressupõe também uma avaliação periódica. 1981)14. Por exemplo. . esforços devem ser feitos para permitir mudanças no currículo oferecido para estes alunos ainda na escola regular. outubro). envolvimento com a tarefa e criatividade) em 14 Uma descrição mais completa deste modelo foi descrita em Virgolim. É importante que a admissão ao programa seja supervisionada por um grupo multidisciplinar de especialistas. e não só naqueles que possuem um alto QI ou que tiram as melhores notas. 1997a). em detrimento de suas fraquezas e incapacidades. segundo o modelo de Joseph Renzulli. Um ponto importante a considerar é que a identificação deve ser vista como um processo contínuo.9) Um dos programas bem sucedidos no exterior que contempla esta possibilidade é o Modelo de Enriquecimento Escolar (The Schoolwide Enrichment Model – SEM). fundamentais para uma socialização humanizadora. alunos membros de grupos minoritários. se torna essencial utilizar diferentes tipos de informação. este Modelo considera que. a fim de se verificar se os critérios para admissão ao programa foram adequados para se atingir os objetivos planejados. 2000). deverá então oferecer instrumentos adequados para a identificação do talento em artes visuais. mesmo nos momentos em que não estão tendo experiências de enriquecimento em nível mais avançado na sala de recursos (Renzulli. além do talento acadêmico. R. de forma a não se correr o risco de excluir alunos que teriam o potencial para se beneficiar do programa – por exemplo. Se um aluno selecionado para fazer parte do Pool de Talentos exibe comportamentos de superdotação (ou seja. (p. Para isso. se o programa utiliza a definição brasileira de 1994. promovendo a participação a partir de novas relações entre os alunos. Uma vez que os objetivos do programa estejam definidos. torna-se essencial entendermos que todo aluno tem direito a um ambiente educacional flexível e responsivo. Para isso. adaptado ao seu nível e ritmo de aprendizagem. esportes. que possam discutir os casos individualmente à luz dos dados coletados sobre cada aluno. Renzulli acredita que é tarefa da escola estimular o desenvolvimento do talento criador e da inteligência em todos os seus alunos. A identificação deve iniciar de forma que inclua tantos alunos quanto for possível. que permita certo nível de escolha de tópicos do seu interesse e que promova a excelência no estudo. Uma proposta para o desenvolvimento da criatividade na escola. Hany (1993) ressalta que os indicadores e instrumentos de medidas usados para a identificação devem refletir o conceito de superdotação adotado. A. o grupo de alunos que poderão participar do programa proposto. espaços e formas de convivência e trabalho. Joseph Renzulli. conforme já discutido neste volume. permitindo o ingresso da criança ao programa à medida que suas habilidades emergem e se desenvolvem. e ainda os conteúdos e objetivos propostos pelo programa. Assumindo que experiências de enriquecimento escolar poderão acontecer tanto na sala de recursos quanto na sala de aula regular. é a localização de potenciais que não estão sendo suficientemente desenvolvidos ou desafiados pelo ensino regular.

2002). questionários e listas de características. criatividade. Robinson & Moon. que busca a dar acesso a mais alunos ao programa. sua importância não pode ser desconsiderada. essa nomeação pode ser uma indicação informal dos alunos que o professor acha que poderia se beneficiar do programa. quando incluímos outros aspectos à avaliação de superdotados. A atitude mais recomendável entre os especialistas é a inclusão de múltiplas formas de avaliação. RJ: Vozes. É o que se propõe ao utilizar formas alternativas de identificação. ressaltadas nos itens a seguir. durante a qual ele realiza algumas atividades acadêmicas e todo o material escolar significativo é também examinado. os testes de inteligência exerceram grande influência na cultura ocidental com relação à inteligência e superdotação. impedindo-o de realizar plenamente o seu potencial (Neihart. nível de desempenho acadêmico e autoconceito do aluno. Procura-se observar ainda como ele organiza. é de especial importância compreender que o fracasso em identificar corretamente e atender as necessidades especiais desta população pode colocar o aluno em risco de fracasso escolar e comprometer seriamente seu desenvolvimento sócio-emocional. aptidão para esportes. indica-se também os Indicadores para Observação (Guenther. alvo de várias críticas importantes. como por exemplo. Seja como for procedida a identificação dos alunos com altas habilidades. depois deste tempo ele pode ou não continuar no atendimento. Há muitas estratégias para se identificar o aluno com altas habilidades/superdotação. 2004b). visuais e música. Com base nos dois estágios. e que deve estar em consonância com as necessidades percebidas pelos professores na sala de aula regular. Uma dessas escalas. que fornece uma fonte sistemática de informação sobre o estudante15 é a Escala para Avaliação das Características Comportamentais dos Alunos com Habilidades 15 Neste sentido. (b) da avaliação da equipe diagnóstica e dos professores envolvidos. 1998). os autores do modelo deixam claro que este é um processo flexível. Embora tenham sido. criatividade. Até recentemente. competências psicomotoras e artísticas. chegando a abarcar uma porcentagem de 15 a 30% da população (Renzulli. RECOMENDAÇÕES Yewchuk e Lupart (1993) recomendam que a identificação dos alunos para o atendimento especializado seja feita em dois estágios. como veremos logo a seguir. liderança. instrumentos mais amplos e precisos de diagnóstico e bons programas de desenvolvimento e estimulação do potencial destas crianças. para que possamos estabelecer políticas de aproveitamento de talentos e competências em nosso país (Virgolim. com o auxílio dos pais e professores. O aluno continua a freqüentar a sala de recursos até que seu projeto seja completado. As modernas teorias da inteligência não percebem que a habilidade superior possa ser medida apenas por testes psicométricos. Petrópolis. desenvolve ou lida com . Reis. buscando dados sobre os talentos e capacidades de alunos tanto em testes formais quanto em procedimentos informais e de observação. o aluno é convidado para uma entrevista de longa duração. e entrevistados o professor e os pais a respeito das características e áreas de interesse do aluno. Segundo Davis e Rimm (1994). Em um segundo estágio. Um destes aspectos a ser ressaltado é o estabelecimento de métodos científicos para o estudo das diferenças intelectuais. notadamente no estudo das habilidades superiores. No entanto. No primeiro estágio devem ser feitas entrevistas e testes para identificar o grau de inteligência. por algum tempo. dependendo basicamente de duas condições: (a) de continuar demonstrando alto nível de envolvimento e criatividade para continuar a desenvolver pesquisas mais avançadas na área de interesse. ele poderá. as estatísticas sobre altas habilidades aumentam significativamente. onde suas áreas fortes serão reforçadas e as fracas trabalhadas. que deve apontar para a continuidade dos ganhos para o aluno de sua permanência na sala de recursos. ou pode ser formal. Z. durante da evolução da história contemporânea. tarefas acadêmicas. desenvolver este interesse ou tópico com maior profundidade sob a supervisão de um professor na sala de recursos. identificando também seu estilo cognitivo pessoal de aprender e sua auto-percepção como aprendiz. devese delinear um programa específico para o aluno.58 relação a uma área particular ou tópico de estudo. para artes cênicas. C. constante de escalas. Desenvolver capacidades e talentos: Um conceito de inclusão. Assim. liderança. criatividade. Torna-se aqui crítico lembrar a necessidade de se usar técnicas mais apuradas de identificação. (2000). (1) Nomeação por professores Professores encontram-se em uma posição mais confortável para recomendar aqueles alunos que demonstram outras características que não aquelas tradicionalmente acessadas por testes de inteligência – por exemplo.

Hartman & Callahan. nem sempre a pessoa mais criativa é a mais inteligente entre seus pares. liderança. assim como testes formais de criatividade podem ser úteis para ajudar o professor a identificar tanto aqueles alunos cuja criatividade é aparente. e que podem ser reconhecidas na sala de aula. Davis e Rimm (1994) sugerem que os professores façam um formulário simples para que os pais possam informar: (a) os interesses especiais e passatempos dos filhos. Cautela. no sentido de que nem todos os pais acompanham adequadamente o desenvolvimento dos filhos. este aluno encontra-se em risco de fracasso escolar. (d) estão alertas para a novidade e lacunas no conhecimento. Segundo Davis e Rimm (1994). nota-se que. no entanto. O propósito desta escala é o de ajudar o professor em sala de aula a avaliar as características comportamentais de seus alunos nas áreas de criatividade. (2) Indicadores de criatividade Os indicadores do pensamento criativo do aluno. Muita atenção deve ser dada à identificação do aluno altamente criativo. Resultados de pesquisas atuais (Virgolim. White. geralmente fonte de tensão e conflito com seus pais e professores. que já nos meados do século XX chamava a atenção para a importância da criatividade em realizações notáveis. Smith. possibilitando o desenvolvimento de atividades mais adequadas para o estímulo do seu potencial (Renzulli. (3) Nomeação por pais Ninguém conhece melhor os filhos do que seus pais. ou percebem os aspectos peculiares da criança precoce ou talentosa. (e) oportunidades especiais apresentadas à criança. incluindo esclarecimentos sobre o processo de identificação. de forma a guiar a aplicação de planos instrucionais mais adequados às suas características e necessidades individuais. não-conformista. (f ) atividades preferidas quando está sozinha. como Guilford (1950). mesmo quando ambos tiram boas notas (Starko. tanto atuais quanto de anos anteriores. as pessoas criativas: (a) usam o conhecimento existente como base para novas idéias. crítico de si mesmo e dos colegas. e (h) problemas ou necessidades especiais. aprendizagem. Os itens dessa escala permitem levantar informações sobre as áreas fortes ou de destaque do estudante. quanto aqueles cujos talentos únicos e originais podem não estar visíveis na sala de aula. é aconselhável. o estudante criativo muitas vezes é percebido como o palhaço da turma. motivação. (b) evitam formas rígidas de pensar. o grande potencial dos testes de criatividade e das observações sistemáticas sobre o comportamento criativo do estudante é o de se ter um amplo conhecimento do perfil do aluno. (g) relacionamento com os outros. discussão dos objetivos dos programas especiais e procedimentos utilizados. Sabemos também que as habilidades necessárias para se resolver problemas de forma lógica e analítica nem sempre são as mesmas para se resolver problemas de forma criativa. apontam para o fato de que nem sempre a pessoa mais inteligente é aquela que apresenta as respostas mais originais. 1971). Além disso. 1995). Algumas delas estão reproduzidas no quadro a seguir: Conforme lembra Treffinger (1986). e (g) são flexíveis e habilidosas na tomada de decisões. pois pode encontrar relutância em seu ambiente para aceitar seu pensamento divergente e inconformismo. No entanto. 2005). Callahan e Hartman (1976). (e) encontram ordem no caos. Embora seja curioso e imaginativo. (c) constroem novas estruturas ao invés de usar as estruturas existentes. publicada originalmente por Renzulli. sarcástico. Estudiosos do assunto. muitas vezes colocando o grupo mais criativo em desvantagem com relação ao grupo mais inteligente. (c) realizações incomuns. em sala de aula os professores tendem a tratar diferencialmente os alunos inteligentes e os criativos. bagunceiro. o que faz com que a criatividade seja tão desejável e importante de ser desenvolvida no ambiente escolar quanto a inteligência. da mesma forma. Os pais estão em posição vantajosa para oferecer uma visão ampla sobre o desenvolvimento peculiar dos filhos. planejamento e comunicação (expressão e precisão). Segundo Butler-Por (1993). destacam que a criatividade é uma habilidade universal que precisa ser reconhecida e desenvolvida. com inclinação para brincar com idéias e dar respostas bem humoradas e diferentes do usual. artes cênicas e plásticas. alguns pais superestimam as habilidades . música. (f ) preferem Capítulo 4: Encorajando Potenciais comunicação não-verbal. Feldhusen e Jarwan (2000) salientam que a precisão dos julgamentos de professores na identificação de alunos superdotados pode ser aumentada através de treinamento apropriado. incluindo interesses e habilidades precocemente desenvolvidas. 1992). (d) talentos especiais.59 Superiores – SCRBSS. Estes autores apresentam uma interessante lista de habilidades que contribuem para o potencial criativo. desrespeitoso para com as figuras de autoridade e para com as tradições (Clark. (b) livros que a criança leu ou se interessou recentemente.

que possuem alguma deficiência ou provenientes de grupos minoritários.60 inventor (inventa. Assim. no entanto. Pergunta-se aos alunos: “Quem provavelmente fará as perguntas mais incomuns e diferentes aos extraterrestres?” “Quem provavelmente se lembrará da maioria dos detalhes sobre a visita dos extraterrestres?” O terceiro tipo de abordagem tem o formato de jogos. descobre. (5) Auto-nomeação No ambiente escolar pode acontecer de um aluno apresentar fortes características em uma área – artística. (4) Nomeação por colegas A composição de um Pool de Talentos é também favorecida quando se utilizam indicações feitas pelos colegas. mas que por problemas emocionais. . Davis e Rimm (1994) sugerem três tipos de abordagens que podem ser utilizadas pelos professores em pequenos questionários: Pela abordagem direta. e que suas respostas serão mantidas confidenciais. música. liderança. e diga porque você acha que tem habilidades ou talentos especiais nestas áreas”. canta). Os colegas conhecem bem uns aos outros e são especialmente úteis na indicação de talentos entre alunos culturalmente diferentes. ciências. Professores especializados em cada área estão em posição privilegiada para avaliar produções específicas como poesias. Eles também devem saber que podem indicar a mesma pessoa tantas vezes quanto desejar. dos filhos. o aluno pode não vir a ter outra chance de demonstrar as suas habilidades ou interesses. científica – e não ser indicado para fazer parte do programa para as altas habilidades. é o melhor organizador (líder.). projetos de ciências. além de criatividade. é recomendável que a equipe responsável pela seleção de alunos busque informações sobre o aluno com seus professores de anos anteriores. e não apenas aqueles que são seus amigos”. Quem você acha que deve ser?” Para evitar que os alunos indiquem apenas seus amigos. o professor pode pedir aos alunos que se imaginem numa ilha isolada e indiquem quem entre eles. Uma variação é pedir á criança para imaginar que um extraterrestre veio à Terra para visitar sua sala de aula. artista (faz coisas bonitas ou inventa boas histórias). ou motivacionais possam estar. teatro. As áreas a serem indicadas podem ser disciplinas escolares específicas (português. instruções diretas podem ser dadas: “Escolha alguém que você acha que é melhor opção. Nesta abordagem. matemática. geografia. consegue que os outros façam as coisas). o professor faz pergunta diretas aos alunos sobre as habilidades dos colegas – por exemplo “Quem é o aluno mais esperto na classe?” “Quem tem a melhor memória?” “Quem tem as idéias mais criativas e diferentes?” Na abordagem disfarçada. (7) Avaliação de produtos Uma excelente forma de avaliar talentos nas áreas artística. artes plásticas. enquanto outros as subestimam. desenvolvendo um padrão de baixo rendimento escolar. Uma forma simples é a de pedir aos alunos que “indiquem a(s) área(s) nas quais você tenha habilidades ou talentos especiais. sempre que isso for possível. faz piadas. eletrônica ou de computação. se tais oportunidades não se repetirem em anos posteriores. em algum momento da vida escolar do aluno. Esta forma de nomeação é interessante. história. no momento. em diversas categorias. criativa e científica é simplesmente observando a qualidade da produção dos alunos nestas áreas específicas. perdendo uma valiosa oportunidade de trabalhar com mais profundidade suas áreas fortes. criativa. pois às vezes um professor consegue obter. línguas etc. um alto desempenho em matérias escolares específicas. A auto-nomeação pode ser um instrumento útil para facilitar essa indicação. faz as coisas ficarem melhores). o professor pode propor o seguinte jogo: “Estou pensando em um aluno desta sala que tem uma ótima memória. Quem você acha que é?” “Estou pensando em um dos seus colegas que sempre aparece com idéias diferentes. O professor pode não ter notado seus talentos ou sua grande motivação em um determinado aspecto. pessoais. esportes e habilidade intelectual geral. juiz (ajuda a selecionar argumentos) ou o que melhor entretém os outros (diverte. (6) Nomeações especiais O Pool de Talentos deve permitir também a entrada de alunos que tenham se destacado em anos anteriores.

criatividade. fotografia. habilidades na escrita. curiosidade e interesses amplos e variados. de forma um pouco mais formal. pais. ou ver uma situação sob diferentes perspectivas. por exemplo: Capítulo 4: Encorajando Potenciais . memória. talvez de forma criativama criativa. de pensar criticamente. Originalidade: Raridade estatística de uma resposta. Visualização: Habilidade de fantasiar e imaginar. p. perspicácia. seja de forma verbal ou não-verbal (por exemplo. Síntese: Habilidade de ver relações. habilidades de pensamento científico ou criador. de avaliar a adequação de uma idéia. passatempos diferentes. senso de humor. capacidade socio-afetiva e habilidades sensório-motoras. Já comentamos sobre a Escala de Características proposta por Renzulli e colaboradores na sessão sobre nomeações dos professores. talento para análise e síntese ou outros aspectos que podem se aplicar ao produto em questão. A folha de observação contém 25 itens onde se pede que o professor indique. e (f) definir amplamente o problema. comunicação e expressão. um produto específico do aluno. e combinar partes em um todo a ser trabalhado. Resistência ao fechamento prematuro: Outra importante habilidade. (c) clarificar e simplificar um problema.) Flexibilidade: Habilidade de abordar um problema sob diferentes abordagens. de deduzir e chegar a conclusões razoáveis. Pensamento lógico: Habilidade de separar o relevante do irrelevante. ver o mundo com “os olhos da mente” e manipular imagens e idéias mentalmente. e assim por diante. Concentração: Habilidade de focalizar um problema.61 QUADRO 5: HABILIDADES CRIATIVAS Fluência: Habilidade de produzir muitas idéias em resposta a um problema. Definição do problema: Importante capacidade que inclui as habilidades de: (a) identificar o “verdadeiro” problema. colegas. (8) Escalas de características e listas de observação As escalas e listas de características são amplamente utilizadas em conjunção com as indicações de professores. o embelezamento e a implementação de uma idéia. Os produtos devem refletir alta criatividade. Extensão dos limites: Habilidade de ir além do que é usual. talento para o teatro. etc. e não se deixar levar por distrações. e analisar o todo a partir das suas partes. Predizer resultados: Habilidade de antecipar os resultados de diferentes alternativas ou soluções. Ou a habilidade de pegar emprestada a solução para um problema e transferi-la para outro problema. pensar as idéias sob diferentes categorias. Avaliação: Importante habilidade de separar considerações relevantes das irrelevantes. unicidade. do próprio aluno e avaliação do produto. ou ver relações com base em pouca ou insuficiente informação. e profundidade e pensamento não linear abstrato (engloba produção superior em matemática e ciências. Análise: Habilidade de analisar detalhes. habilidade de “ler nas entrelinhas”. Guenther (2006) propõe uma lista de indicadores para auxiliar o professor na identificação dos alunos com maior capacidade e talento em quatro domínios: inteligência. pensamento analítico. variando de “em uma grande extensão” para “em uma extensão limitada” para avaliar. musical. (b) isolar os importantes aspectos de um problema. A Escala propõe as seguintes questões ao professor: (a) Em que extensão este produto representa um manejo aprofundado ou em nível superior do assunto? (b) Em que extensão este produto tem um nível de qualidade além do que se pode esperar de um aluno desta idade? (c) Em que extensão o produto indica uma grande preocupação com detalhes? (d) Em que extensão a idéia central/concepção do produto está além do que um aluno desta idade geralmente propõe? (e) Em que extensão é um produto de excelência? (f ) Liste alguns dos critérios que você utilizou para avaliar a excelência deste produto. 1994. No domínio da inteligência a autora propõe duas vias de expressão: vivacidade mental e pensamento linear (engloba produção superior em linguagem. ou mudar criativamente um objeto ou idéia. de ver os objetos de novas maneiras. produto ou solução de problema. O Departamento de Educação do Estado de Michigan (descrito em Davis e Rimm. matemática. Pensamento analógico: Habilidade de pegar emprestadas idéias de um contexto e usá-las em outro contexto. entre outros). implicações e aplicações. 97) utiliza uma escala de 5-pontos. não-conformidade em pensamento e ação. entre outros). percebida como adiamento do julgamento e não pular na primeira idéia que aparece. “ver” novos significados. (e) propor definições alternativas ao problema. Transformação: Inclui a habilidade de dar novo uso a algo. Intuição: Habilidade de ter percepções “intuitivas”. Elaboração: Importante habilidade de adicionar detalhes a uma idéia. o que inclui o desenvolvimento. (d) identificar sub-problemas.

ressaltando as atividades em que tenha demonstrado criatividade. Dentre os mais indicados está a compactação do currículo. a nomeação de alunos pode ocorrer a qualquer momento do ano escolar. os melhores nas áreas de arte e educação artística. os mais preocupados com o bem-estar dos outros. Renzulli & Reis. disciplina ou tópico que esteja sendo estudado naquele momento. por sua vez. o professor pode também designar para o atendimento algum aluno que tenha demonstrado um interesse incomum por alguma matéria. por sua própria vontade. desperdiçando o seu tempo em sala de aula para sonhar acordado ou fazer bagunça. Renzulli e Reis criaram um instrumento informal. 1992.62 os melhores da turma nas áreas de matemática e ciências. se engaja em profundas discussões sobre um determinado tópico. Em seguida. Burns & Renzulli. e quando demonstra insatisfação.alta motivação ou envolvimento com a tarefa realizada na sala de aula (Renzulli & Reis. Na maioria dos casos. Sendo assim. os mais participantes. as provas e avaliações utilizadas ao término do bimestre ou semestre servem como pré-teste. incluindo-o como possível candidato ao Pool de Talentos. os melhores em atividade extra-classe e extracurriculares. (9) Nomeações pela motivação do aluno Se o processo de formação do Pool de Talentos for dinâmico. o professor deve aplicar atividades ou pré-testes para assegurar se o aluno tem completo domínio do tema ou conteúdo. o professor atento aos interesses dos alunos pode detectar mais prontamente o maior envolvimento do estudante com uma determinada tarefa. os mais curiosos. com o melhor desempenho em esportes e exercícios físicos etc. tédio ou desânimo com o ensino. 1986)16. Este. os mais verbais e conversadores. os mais criativos. geralmente observadas quando o aluno termina rapidamente uma tarefa com pouco ou com nenhum erro. que permite aos alunos com habilidades intelectuais superiores prosseguir de forma mais rápida com o conteúdo que já foi dominado. cunhado de “Mensagem de Informação da Ação” (Action Information Message). e os analisa à luz dos seus interesses e áreas fortes. busca atividades extracurriculares relacionadas à área. o que pode ser o aspecto que vai levá-lo a desenvolver sua criatividade e habilidades específicas na área de interesse. dedica grande parte do tempo livre no estudo ou no desempenho de atividades relacionadas a este interesse. O recurso da compactação do currículo torna mais desafiador o ambiente de aprendizagem. Uma vez documentada a área em . 1997a). Dois procedimentos são essenciais para a compactação do currículo: (1) um cuidadoso diagnóstico da situação. 1997a). O professor anota também idéias e sugestões para futuras intervenções na área que poderiam ajudar o aluno a desenvolver e aprofundar seu interesse específico. 1997. em formato de uma lâmpada. demonstra alto interesse em explorar e criar dentro de um determinado tópico (Davis. e se atende aos objetivos daquela unidade. eliminando a rotina de passar por exercícios repetitivos desnecessariamente. os mais críticos. nas quais demonstra mais interesse do que em suas atividades escolares regulares. O professor deve identificar a área do currículo que o aluno já dominou e suas áreas fortes. e as compartilha com o coordenador da área de superdotação da sua escola. e (2) completo conhecimento do conteúdo e dos objetivos da unidade de instrução. dando ao aluno oportunidade de aproveitar melhor seu tempo para o desenvolvimento de atividades de enriquecimento e abrindo espaço para a aceleração escolar (Reis. os mais desinteressados e entediados. Serviços especiais COMPACTAÇÃO DO CURRÍCULO Vários serviços poderão ser oferecidos aos alunos identificados para o Pool de Talentos ainda dentro do ensino regular. Alunos motivados geralmente demonstram interesse através de uma série de comportamentos. Starko. e às vezes até compulsivamente. sem serem atrasados. utiliza o instrumento e as informações obtidas com o professor como uma fonte suplementar de dados sobre o aluno. Assim. busca adultos com conhecimento na área para satisfazer seus interesses ou curiosidade. tais como: faz grande número de perguntas. onde o professor anota as ações e atitudes do aluno frente ao tópico de interesse.

Desta forma. E. o que também possibilita a entrada mais cedo do aluno no mercado de trabalho. II e III. abarcando a identificação. Por exemplo. questionamentos em várias áreas. intelectual e emocional. 1991). 2000) é provavelmente o mais amplo e extensivo modelo apresentado na literatura atual. denominados Tipo I. Neste sentido. Essa atitude se iguala a forçar todas as crianças a usar o mesmo número de sapato. Argumenta VanTasselBaska (1998) que. três tipos de enriquecimento foram planejados para os contextos tanto do ensino regular quanto do especializado. Acelerar implica em decidir que a competência. A aceleração pode incluir a entrada precoce na escola. como as artísticas e atléticas. Esta abordagem tem três importantes objetivos: (1) Dar oportunidade a todos os alunos . Este critério é utilizado sem ENRIQUECIMENTO O enriquecimento é a opção mais encorajada entre os serviços educacionais oferecidos pelos programas especializados em vários países. no entanto. a leitura precoce ou a habilidade de lidar com números em nível adiantado para a idade. Pode incluir também pular séries quando o aluno está adiantado em todas as matérias escolares e não terá dificuldades em acompanhar séries mais avançadas. A filosofia do programa. mais do que simplesmente consumidores. tiram notas ruins ou deixam de assistir as aulas. e não a idade. os recursos viabilizados.63 que o aluno já domina. como por exemplo. de Betts (1986. tradicionalmente isto não acontece com relação à sala de aula regular. Um aluno com alta competência no piano ou na dança pode ser colocado em classes onde múltiplas habilidades são percebidas e estimuladas. (1) Modelo de Enriquecimento Escolar O Modelo de Enriquecimento Escolar (Renzulli & Reis. Precisamos reconhecer que as pessoas variam enormemente em seu desenvolvimento físico. o professor explora as diversas formas de aceleração ou enriquecimento que ele poderia providenciar ainda na sala de aula regular. por fim. tais como restrições da escola à aceleração. o professor indica as atividades que podem ser eliminadas do currículo ou aceleradas para se adaptar ao ritmo próprio do aluno. partindo da concepção de que o tamanho único é ideal para todos. inclusive no Brasil. e a maturidade do aluno para assumir tarefas específicas de outra série devem subsidiar tais decisões. É importante notar que os alunos devem participar destas decisões e entender que. 1997ª. passam a ter maior interesse em dominar o conteúdo e a demonstrar o que sabem. ao dar o melhor de si em uma disciplina. ou mesmo se deve dedicar o tempo extra a outra disciplina ou tópico de interesse. Capítulo 4: Encorajando Potenciais ACELERAÇÃO A aceleração é um dos serviços que a escola pode oferecer para alunos academicamente adiantados. se várias unidades curriculares de matemática foram compactadas. a administração. se a educação quer ser efetiva. quando capacidades superiores ou avançadas podem ser percebidas cedo no desenvolvimento infantil. Vários modelos são apresentados na literatura mundial sobre o tema. e considerações práticas. Para estimular os alunos a desenvolverem habilidades que os permitam ser produtores de conhecimento. Destacamos aqui o Modelo de Enriquecimento Escolar proposto por Renzulli e Reis (1997a. Enriquecimento do Tipo I .Este tipo de Enriquecimento se inicia na sala de aula regular e implica em atividades destinadas a todos os alunos da escola. o treinamento de pessoal e os serviços oferecidos ao aluno. alunos que tradicionalmente demonstram desinteresse com o ensino. É decisão da escola optar ou não pela sua implementação no ensino regular. será o critério determinante para que o indivíduo obtenha acesso a um currículo e experiências acadêmicas mais adiantadas. o professor deve decidir se o aluno pode ser acelerado para outra série ou se poderá ser beneficiado por um aprofundamento do conteúdo na matéria. permitindo-os avançar e cumprir em menor tempo as séries escolares. os educadores devem responder a estas diferenças com um currículo mais flexível. há possibilidade de entrada precoce na universidade. 2000) e o Modelo do Aprendiz Autônomo. poderá ter mais tempo para trabalhar em outro tópico do seu interesse.

tirar conclusões etc. e que queira participar de um processo de treinamento mais complexo. valorizar. destacam-se a oportunidade para que o aluno possa: (a) aplicar seus interesses. idéias criativas e motivação em um problema ou área de estudo de sua escolha. entrevistar. necessárias ao processo científico. dependendo do tipo de projeto do seu interesse. programas de computador. S. e como resultado. Edição revista e ampliada. catálogos. o grau de envolvimento que se demanda do profissional no campo. professores-itinerantes. expondo os alunos a uma ampla variedade de procedimentos. materiais instrucionais e métodos designados a três grandes áreas. excursões. Este processo é resultante dos interesses específicos do aluno com o tópico a ser pesquisado e. no qual assume o papel de aprendiz em primeira-mão. dominar as ferramentas de que vai precisar para desenvolver atividades de Enriquecimento do Tipo III. problemas e particularidades da área 16 Sobre programas de atendimento ao superdotado e métodos utilizados. educação e ajustamento. tais como palestrantes convidados. a escola se torna potencialmente um lugar inclusivo e mais estimulante e para todos. Entre as metas das atividades de Enriquecimento de Tipo III. deve ser ensinado em conexão com a atividade de Tipo III escolhida. Assim.. tais como tomar notas. (c) Diminuir a noção de elitismo que se agrega aos programas especiais para alunos com altas habilidades por meio da aplicação de certas atividades para todos os alunos. registros. diretores e mesmo outros alunos de outras salas ou séries nestas atividades. tais como resumos. (4) desenvolver habilidades avançadas para a aprendizagem de materiais de referência. tais como sentir. resolução de problemas e pensamento criativo. . e (5) desenvolver habilidades de comunicação escrita. professores.64 etc. (3) desenvolver uma grande variedade de aprendizagens específicas de “como fazer”. primeiro. (2001). respeitar. oral e visual. classificar e analisar dados. consiste de técnicas. com a participação de toda a Equipe de Enriquecimento. apreciar. e segundo. e aprender mais sobre os métodos de pesquisa característicos deste campo do conhecimento. M. Superdotados: Determinantes. (2) enriquecer a vida dos alunos através de experiências que usualmente não fazem parte do currículo da escola regular. e não só para aqueles identificados como superdotados. conhecimentos. O estudante é encorajado a. após uma atividade de Tipo I. (c) Possibilita-se a maior integração entre o programa regular e o programa de enriquecimento. São Paulo: EPU. E. desenvolvimento de centros de interesse e uso de diferentes e variados materiais audiovisuais. investigação e pesquisa. (2) desenvolver os processos afetivos. recomenda-se o capítulo 5 do livro: “Alencar. a fim de que a produção do aluno tenha maior impacto sobre determinadas audiências. guias. sociais e morais. pode se engajar em leituras mais avançadas ou aprofundadas sobre Botânica. & Fleith. (b) Permitir a participação de pais. o estudante que se interessou por plantas. É importante que o aluno tome conhecimento do modo como determinadas áreas são desenvolvidas. As atividades de Enriquecimento do Tipo III são planejadas para o aluno que demonstra um grande interesse em estudar com maior profundidade uma área do conhecimento. têm como objetivo: (1) desenvolver nos alunos as habilidades gerais de pensamento crítico. O Enriquecimento Escolar do Tipo II. Internet. que esteja pronto para dedicar grande parte do seu tempo para a aquisição de um conteúdo mais avançado. que também pode ser aplicado nos contextos de sala de aula regular e de recursos. demonstrações. e (3) estimular novos interesses que possam levar o aluno a aprofundá-los em atividades criativas e produtivas posteriores (Tipo III). (b) adquirir um de participar de alguma experiência de enriquecimento curricular que seja de seu real interesse. planejar e executar atividades como um cientista desta área. compilar. exploradas ou pesquisadas na vida real. 2ª. D. algumas das vantagens desta abordagem são: (a) Permitir que os alunos se engajem em níveis mais avançados de interesse em tópicos ou áreas de estudo que podem ser usados para atividades que envolvam maior criatividade.. S. etc. portanto. a utilizar seus conhecimentos para desenvolver com aproveitamento e produtividade as atividades de seu real interesse.. as questões. L.

(c) desenvolver produtos autênticos. analisa e avalia a informação em determinados campos. a descrever seus Capítulo 4: Encorajando Potenciais . desenvolvido por George Betts. conceitos e atitudes necessárias para sair do papel passivo de estudante para um. sociais e emocionais do aluno superdotado (Betts. a ênfase é colocada na concepção de superdotação. mais ativo. área de expressão artística ou estudos interdisciplinares em particular. administradores e pessoas da comunidade envolvidas no programa. utilização de recursos. criatividade e desenvolvimento do potencial. suas oportunidades e responsabilidades. os alunos se desenvolverão como aprendizes autônomos. com impacto no mundo que os rodeia. seminários e estudos em profundidade. e (e) desenvolver motivação/ envolvimento com a tarefa. à medida que tais necessidades são satisfeitas. Desta forma. organização. processos de grupo). atividades de aceitação de sim mesmo. desenvolvimento individual. com a capacidade de serem responsáveis pelo desenvolvimento. diretor do Centro de Educação e Estudos sobre o Superdotado da Universidade do Nordeste do Colorado. entre outros). autoconceito positivo. a explorá-lo em profundidade e a apresentar suas descobertas aos colegas. 1991). e envolve o uso de métodos autênticos de pesquisa em um determinado campo de estudo. Por meio de atividades de grupo e dinâmicas. Há cinco dimensões principais: orientação. absorvendo paulatinamente o papel de agentes de mudança. Os professores passam por treinamento específico com relação à superdotação. Atividades de exploração ajudam o aluno a selecionar um tópico. (d) envolvimento com as profissões e carreiras que gostariam de seguir. gerenciamento de tempo. com o objetivo de produzir determinado impacto em uma audiência pré-selecionada. de estudo e comportamento direcionado a metas. tomada de decisões e auto-avaliação. e orientações são dadas a pais. (b) entendimento pessoal (por exemplo. (2) O Modelo do Aprendiz Autônomo O Modelo do Aprendiz Autônomo. criatividade. pais e administradores precisam saber a respeito das altas habilidades. 1986. de tomada de decisões. A dimensão de Orientação é a parte do programa que focaliza as informações básicas que os alunos. foi concebido para satisfazer as necessidades cognitivas. que fornece oportunidades ao aluno de desenvolver habilidades. categoriza. de escrita. A segunda dimensão do Modelo do Aprendiz Autônomo é a do Desenvolvimento Individual. envolvendo: (a) habilidades de aprendizagem (que envolvem habilidades de resolução de problemas. o estudante pode ultrapassar o tradicional papel de reprodutor do conhecimento para assumir o papel de investigador em primeira-mão. de pesquisas. habilidades de organização.65 conhecimento avançado a respeito do conteúdo e metodologia próprios a uma disciplina. ajudando-o a selecionar as áreas que domina ou tem maior motivação (ou paixão) e estudá-las com maior envolvimento. A Dimensão de Atividades de Enriquecimento inicia-se com o entendimento do aluno sobre as diversas áreas do conhecimento. implementação e avaliação da própria aprendizagem. suas habilidades. Assim. os alunos aprendem a respeito da superdotação enquanto conceito e deles próprios. entrevistas. e sobre o que o programa tem a oferecer. professores. responsabilidade pessoal e psicologia da personalidade saudável. O aluno é encorajado a propor um tópico de investigação. Estas atividades estão relacionadas às necessidades cognitivas. (d) desenvolver habilidades de planejamento. e habilidade de interagir efetivamente com outros alunos. interesses e áreas fortes. entre outras habilidades de aprendizagem importantes). de aprendiz. É importante ressaltar que a ênfase dada às experiências de tipo III muda da aprendizagem sobre determinado tópico para a aprendizagem do como se obtém. O modelo parte do entendimento de que. afetivas e emocionais do indivíduo e são dirigidas pelo seu processo de desenvolvimento. autoconfiança e sentimentos de realização criativa. professores e pessoas com níveis avançados de interesse e conhecimento em uma área comum de envolvimento. atividades de enriquecimento. (c) habilidades interpessoais (comunicação com o outro.

e que considere seu potencial como promotor do desenvolvimento tecnológico. artístico. torna-se necessário que o país abra suas portas às modernas evidências de pesquisa sobre o indivíduo portador de altas habilidades. Também poderá desenvolver meios de avaliar seu próprio projeto. o tempo necessário para sua consecução. e compreende a preparação de um tópico. exposições e viagens de aventuras. Em perfeita sintonia com o Modelo de Enriquecimento Escolar de Renzulli. O Brasil iniciou várias mudanças. nesta dimensão. debates. há por toda parte um rico manancial de jovens esperando por melhores oportunidades e desafios às suas capacidades. voltadas para uma ampla abertura na política educacional para a área de superdotação. a última dimensão do Modelo do Aprendiz Autônomo. E finalmente. como visitas a museus. colaborando de forma produtiva e independente para um mundo melhor. atividades são também planejadas para ajudar o aluno a entender o humanitarismo e a desenvolver projetos em que possam ajudar outras pessoas ou grupos em suas comunidades. Seminários. permite que o aluno defina uma “área de paixão” a ser estudada em profundidade. Controverso (tópicos que não são Uma palavrinha final Os alunos com altas habilidades necessitam . recursos materiais e humanos necessários. tipo de audiência mais apropriado ao seu tema e avaliação. No contexto brasileiro atual. o seu papel de aprendiz autônomo. as atividades específicas para atingir tais objetivos. Os aprendizes são responsáveis em definir o que querem estudar. de serviços educacionais diferenciados que possam promover seu desenvolvimento acadêmico. participar efetivamente do estudo e avaliá-lo ao ser completado. Problemático (problemas que os alunos enfrentam em sua própria comunidade até problemas mundiais). Ao atingir esta fase. objetivos. Na área acadêmica. desenvolver um plano de ação. E finalmente. é o momento em que o aluno começa a mostrar suas características enquanto aprendiz independente e autônomo. A quarta dimensão do Modelo.66 consenso e mostram uma natureza controvertida). o que inclui métodos de ensino adaptados às suas necessidades especiais. Estudo em Profundidade. selecionado entre as categorias de Futurístico (tópicos e técnicas necessários para o mundo futuro). desenvolver novas idéias e projetos com o mínimo de instrução e orientação. Não podemos desperdiçar nossas inteligências. o aluno está pronto para aprender. Interesse Geral (não precisando se encaixar necessariamente em uma categoria) e Conhecimento Avançado (investigação na área que talvez seja de interesse apenas de um pequeno grupo de alunos). pesquisas têm demonstrado a necessidade de se dar mais atenção a uma área que ainda se mostra tabu em nossa cultura. em vários anos de um trabalho seqüencial e ordenado. o Modelo do Aprendiz Autônomo de Betts oferece oportunidades e direcionamento para o indivíduo desenvolver todas as suas potencialidades e inclinações. Terá assim atingido. Um Seminário é um projeto de curta duração a ser desenvolvido em pequenos grupos. em nível do governo e de sociedade. concertos. altamente motivado e auto-direcionado a seus próprios objetivos. compartilhando seus critérios com os professores e mentores. Vencer medos e preconceitos é o desafio que nos espera. Atividades culturais também são incentivadas. peças. psicomotor e social. cultural e educacional da nossa nação.

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Foi presidente do Conselho Brasileiro para Superdotação – ConBraSD (biênio 2005/2006) e é professora adjunta do Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília. em Psicologia Educacional pela University of Connecticut.D. mestre em Psicologia e Ph. .SOBRE A AUTORA Angela Mágda Rodrigues Virgolim é psicóloga.

br .gov.naahs.gov.br .www.seesp@mec.Ministério da Educação Secretaria de Educação Especial Esplanada dos Ministérios .047-900 seesp@mec.Bloco “L” 6º andar CEP: 70.mec.gov.br .

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