Orpheu Nº 1 Luís de Montalvor, Mário de Sá-Carneiro, Ronald de Carvalho, Fernando Pessoa e José de Almada Negreiros

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Título: Orpheu Nº 1 Revista Trimestral de Literatura Autores: Luís de Montalvor Mário de Sá-Carneiro Ronald de Carvalho Fernando António Nogueira Pessoa José Sobral de Almada Negreiros PORTUGAL E BRAZIL Propriedade de: ORPHEU, L.da Editor: ANTONIO FERRO ANO I -1915 N.º 1 Janeiro-Fevereiro-Março

SUMÁRIO LUIZ DE MONTALVÔR “Introdução” MARIO DE SÁ-CARNEIRO “Para os “Indícios de Oiro”“ (poemas) RONALD DE CARVALHO “Poemas” FERNANDO PESSOA “O Marinheiro” (drama estático) ALFREDO PEDRO GUISADO “Treze sonetos” JOSÉ DE ALMADA-NEGREIROS “Frizos” (prosas) CÔRTES-RODRIGUES “Poemas” ÁLVARO DE CAMPOS “Opiário” e “Ode Triunfal” Capa desenhada por José Pacheco Oficinas: Tipografia do Comércio - 10, Rua da Oliveira, ao Carmo LISBOA CONDIÇÕES Toda a correspondência deve ser dirigida aos Directores. Convidamos todos os Artistas cuja simpatia esteja com a índole desta Revista a enviarem-nos colaboração. No caso de não ser inserta devolveremos os originais. São nossos depositários em Portugal os srs. Monteiro & C.a, Livraria Brazileira - 190 e 192, Rua Áurea, Lisboa. Orpheu publicará um numero incerto de paginas, nunca inferior a 72, ao preço invariável de 30 centavos o numero avulso, em Portugal, e 1$500 réis fracos no Brazil. ASSINATURAS (AO ANO - SÉRIE DE 4 NUMEROS) Portugal, Espanha e Colónias portuguesas 1 escudo Brazil 5$000 réis (moeda fraca) União Postal 6 francos Livraria Brazileira de MONTEIRO & C.a - Editores 190 e 192, RUA AUREA - LISBOA

RESURREIÇÃO 1 VOLUME DE 350 PÁGINAS CAPA DESENHADA POR JOSÉ PACHECO Preço 70 centavos .ASAS .MISTÉRIO O HOMEM DOS SONHOS . ANTENA O FIXADOR DE INSTANTES .EU-PRÓPRIO O OUTRO A ESTRANHA MORTE DO PROF.Á venda no fim de abril: CÉU EM FOGO NOVELAS POR MARIO DE SÁ-CARNEIRO A GRANDE SOMBRA .

poemas Em preparação ALFREDO PEDRO GUISADO . narrativa Edição do autor Preço: 60 centavos RONALD DE CARVALHO “Luz Gloriosa”. poemas Paris 1913. 12 poesias Edição do autor Esgotada “A Confissão de Lúcio”. peça em 3 actos (com colaboração de Tomás Cabreira Júnior) Edição da Livraria Bordalo Preço: 30 centavos “Principio”. Edição do autor FERNANDO PESSOA “As sete salas do palácio abandonado”. novelas Edição da Livraria Ferreira Preço: 70 centavos “Dispersão”.Obras dos colaboradores deste numero LUIZ DE MONTALVÔR “A Caminho”. uma plaquette de versos Edição da Livraria Brazileira Preço: 20 centavos MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO “Amizade”.

Lisboa.Alfredo Pedro Guisado: 112. Rocio. entre outras obras.“Rimas da Noite e da Tristeza”. novela de Mário de Sá-Carneiro e “Narcisso”. A fotogravura da capa foi executada nos ateliers da ILUSTRADORA . No nosso segundo número (a sair em junho) contamos publicar. poema de Luiz de Montalvôr. “Mundo Interior”. poemas Edição da Livraria Ferreira Preço: 30 centavos JOSÉ DE ALMADA-NEGREIROS “Frizos”. prosas ilustradas pelo autor A sair este ano ÁLVARO DE CAMPOS “Arco do Triunfo” Em preparação Qualquer destas obras pode ser requisitada directamente ao administrador de ORPHEU . as seguintes: “Poemas” de Fernando Pessoa. versos Edição da Livraria Clássica Editora Preço: 40 centavos “Distância”.

1915 .ORPHEU VOLUME I .

deixa de existir no texto preocupado de” ORPHEU”. concorrerão a dentro do mesmo nível de competências para o mesmo ritmo. .. raça ou meio. Bem representativos da sua estrutura. lhes der orgulho. deixa-o de ser” ORPHEU”. E assim. para melhor se engalanar do seu título e propor-se... temperamento e esplendor . certos que assinalamos como os primeiros que somos em nosso meio. com o seu mundo imediato de exibição a que frequentemente se chama literatura e é sumo do que para aí se intitula revista. Isto explica nossa ansiedade e nossa essência! Esta linha de que se quer acercar em” Beleza”. como raros e interiores que são.” ORPHEU”. E propondo-se. esperançados seremos em ir a direito de alguns desejos de bom gosto e refinados propósitos em arte que isoladamente vivem para aí. esperam ansiosos e sonham nalguma cousa que lhes falta. que sobre este principio aristocrático tenham em” ORPHEU “o seu ideal esotérico e bem nosso de nos sentirmos e conhecermo-nos. secção ou momentos) qualquer tentativa de arte . os que a formam em” ORPHEU”.Exílio! Bem propriamente. de onde dependerá a harmonia estética que será o tipo da sua especialidade.do que resulta uma procura estética de permutas: os que nos procuram e os que nós esperamos. como literárias que são essas duas formas de fazer revista ou jornal. em elevação. um numero escolhido de revelações em pensamento ou arte. é um exílio de temperamentos de arte que a querem como a um segredo ou tormento. em grupo ou ideia. maneiras de formas de realizar arte. alguma cousa de louvável e tentamos por esta .mas pelo contrario se unam em selecção e a dêem aos outros que. unidade e discrição. tendo por notável nosso volume de Beleza não ser incaracterístico ou fragmentado. com a variedade a inferiorizar pela igualdade de assumptos (artigo. da mesma espécie. Puras e raras suas intenções como seu destino de Beleza é o do: .” ORPHEU”. vincula o direito de em primeiro lugar se desassemelhar de outros meios.“INTRODUÇÃO” “O que é propriamente revista em sua essência de vida e quotidiano. e não é justo que se esterilize individual e isoladamente cada um que a sonhar nestas cousas de pensamento.. A fotografia de geração. Nossa pretensão é formar. necessita de vida e palpitação.

os esforços do seu contentamento e carinho para com a realização da obra literária de” ORPHEU”. esperando dos que formam o publico leitor de selecção.forma. já revelar um sinal de vida.” LUIS DE MONTALVÔR. .

PARA OS “INDÍCIOS DE OIRO” POEMAS DE MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO .

.. a pedras raras. Humilhações a lis.Agosto de 1914” . “Paris . Longas salas de trono a espessas densidades.embalde a tentarão descer. Ha exéquias de heróis na minha dor feudal E os meus remorsos são terraços sobre o Mar. ameias de inda-querer Manhãs de armas ainda em arraiais de olvido. troféus de jaspe e Outubro. E os divãs. Ouro sinistro em sons de bronzes medievais Jóia profunda a minha Alma a luzes caras..TACITURNO Há ouro marchetado em mim.. Sobre fossos de Vago. ânsias lassas. No meu mundo interior cerraram-se armaduras. Onde os panos de Arrás são esgarçadas saudades... A ponte levadiça e baça de Eu-ter-sido Enferrujou . Percorro-me em salões sem janelas nem portas.. Cibório triangular de ritos infernais.. Capacetes de ferro esmagaram Princesas. Toda uma estirpe real de heróis d’outras bravuras Em mim se despojou dos seus brasões e presas. desforços de brocado. absortas. Heráldicas-luar sobre ímpetos de rubro. Há roxos fins de Império em meu renunciar Caprichos de cetim do meu desdém Astral... Insígnias de Ilusão. em redor. arneses de crispado.. Basílicas de tédio..

SALOMÉ
Insónia roxa. A luz a virgular-se em medo, Luz morta de luar, mais Alma do que a lua... Ela dança, ela range. A carne, álcool de nua, Alastra-se pra mim num espasmo de segredo... Tudo é capricho ao seu redor, em sombras fátuas... O aroma endoideceu, upou-se em cor, quebrou... Tenho frio... Alabastro!... A minh’Alma parou... E o seu corpo resvala a projectar estátuas... Ela chama-me em Iris. Nimba-se a perder-me, Golfa-me os seios nus, ecoa-me em quebranto... Timbres, elmos, punhais... A doida quer morrer-me: Mordoura-se a chorar - há sexos no seu pranto... Ergo-me em som, oscilo, e parto, e vou arder-me Na boca imperial que humanizou um Santo... “Lisboa 1913 - Novembro 3”

CERTA VOZ NA NOITE, RUIVAMENTE...
Esquivo sortilégio o dessa voz, opiada Em sons cor de amaranto, às noites de incerteza, Que eu lembro não sei d’onde - a voz duma Princesa Bailando meia nua entre clarões de espada. Leonina, ela arremessa a carne arroxeada; E bêbada de Si, arfante de Beleza, Acera os seios nus, descobre o sexo... Reza O espasmo que a estrebucha em Alma copulada... Entanto nunca a vi, mesmo em visão. Somente A sua voz a fulcra ao meu lembrar-me. Assim Não lhe desejo a carne - a carne inexistente... É só de voz-em-cio a bailadeira astral E nessa voz-Estátua, ah! nessa voz-total, É que eu sonho esvair-me em vícios de marfim... “Lisboa 1914 - Janeiro 31”

NOSSA SENHORA DE PARIS
Listas de som avançam para mim a fustigar-me Em luz. Todo a vibrar, quero fugir... Onde acoitar-me?... Os braços duma cruz Anseiam-se-me, e eu fujo também ao luar... Um cheiro a maresia Vem-me refrescar, Longínqua melodia Toda saudosa a Mar... Mirtos e tamarindos Odoram a lonjura; Resvalam sonhos lindos... Mas o Oiro não perdura, E a noite cresce agora a desabar catedrais... Fico sepulto sob círios Escureço-me em delírios, Mas ressurjo de Ideais... - Os meus sentidos a escoarem-se... Altares e velas... Orgulho... Estrelas... Vitrais! Vitrais! Flores de lis... Manchas de cor a ogivarem-se... As grandes naves a sagrarem-se... - Nossa Senhora de Paris!... “Paris 1913 - Junho 15”

leões de fogo e pasmo domados a tirar A torre d’ouro que era o carro da minh’Alma. Soltas as rédeas. Há sempre um grande Arco ao fundo dos meus olhos....16 Esta inconstância de mim próprio em vibração É que me há de transpor às zonas intermédias........ Meus sonhos.... Não sei aonde vou. Olha. .. A cada passo a minha alma é outra cruz.. A retinir..... a ondular..). As mesas do Café endoideceram feitas ar......... ... “Lisboa . depois. a luz para mim é sempre meia-luz.Maio de 1914” . moribundos de Luar E eu só me lembrarei num baloiçar de palma.... E a minha ânsia é um trapézio escangalhado. nos salões do Vice-Rei........ nem vejo o que persigo... lá vai ele a valsar Vestido de casaca... E seguirei entre cristais de inquietação... Resvalo em pontes de gelatina e de bolores....... Já não é o meu rastro o rastro d’oiro que ainda sigo. E o meu coração gira: é uma roda de cores..... Caiu-me agora um braço.......... Transviarão pelo deserto. A atmosfera há de ser outra.. (Subo por mim acima como por uma escada de corda..... hão de se abismar gumes.. Nos oásis.. Hoje. noutros planos: As rãs hão de coaxar-me em roucos tons humanos Vomitando a minha carne que comeram entre estrumes...

Cortinados de Chinas mais marfim..anseios de Princesa nua... Balaústres de som. Então os meus sentidos eram cores. Áureos Templos de ritos de cetim. como éreis belas Sob terraços-lis de recordar-me!. Num sonho d’Iris... arcos de Amar. Idade acorde d’Inter sonho e Lua. Domínio inexprimível d’Ópio e lume Que nunca mais.. Havia na minh’alma Outras distancias Distancias que o segui-las era flores... hei de habitar... E a luz .. um tempo-Asa...DISTANTE MELODIA.. Nasciam num jardim as minhas ânsias.. morto a ouro e brasa.. Pontes de brilho. O luar batia sobre o meu alhear-me.. Zimbórios-panteões de nostalgias. Noites-lagoas. .. Onde as horas corriam sempre jade.. em cor. Caía Ouro se pensava Estrelas.. Tapetes doutras Pérsias mais Oriente.. Onde a neblina era uma saudade. mansamente.. ogivas de perfume. Vem-me lembranças doutro Tempo azul Que me oscilava entre véus de tule Um tempo esguio e leve... Fontes correndo sombra.

Irrealidade anil que em mim ondeia. escadas só..... Lembranças fluidas. outras Turquias....Catedrais de ser-Eu por sobre o mar.. . Escadas de honra.. Novas Bizâncios-alma. “Paris 1914 . ao ar. Vagabundo dum sonho de sereia....Ao meu redor eu sou Rei exilado. cinza de brocado..Junho 30” ..

. Outubro de 1914.. outonais Por magoados fins de dia A minha Alma é água fria Em ânforas d’Ouro..” .Quinta da Vitória.VISLUMBRE A horas flébeis. entre cristais. “Camarate ..

SUGESTÃO As companheiras que não tive.Agosto de 1914” . Sinto-as chorar por mim. pelos jardins.... “Paris .. veladas. Na sua mágoa azul revive A minha dor de mãos finadas Sobre cetins. Ao pôr do sol.

Sou qualquer coisa de intermédio: Pilar da ponte de tédio Que vai de mim para o Outro.7 Eu não sou eu nem sou o outro.Fevereiro de 1914” . “Lisboa .

transportes encantados. Quebraste-vos também ou...Ó nau de festa.. Cais fingido sem mar á sua beira... .Barcaças dos meus ímpetos tigrados.. só metade....... debruçado. todas as portas Que no dique julguei ter construído.. As bandeiras velaram-se. De embate...... Mas a ponte era falsa . .. orações... afinal..... ... O cais era abaulado.e derradeira... a que rochedo?.. Que oceano vos dormiram de Segredo? Partiste-vos. Regatas de luar não se correram. a minha ânsia ia.. em alma ao roxo..... .Por sobre o que Eu não sou há grandes pontes Que um outro..ÂNGULO Aonde irei neste sem-fim perdido....... ó ruiva de aventura Onde.... Detive-me na ponte.. Fundeaste a Ouro em portos d’alquimia?.. Neste mar oco de certezas mortas? Fingidas. por ventura.... quer passar .. ... em Champanhe.. Segui no cais....... Chegaram à baía os galeões Com as sete Princesas que morreram.

Em miragens de falsos horizontes Um outro que eu não posso acorrentar.Setembro de 1914” .. “Barcelona ..

.. “Lisboa 1915 . como eu te queria toda de violetas E flébil de cetim.... de marfim. Aconchegando-te em zibelinas Sonolenta... Luar que se desbarata. Ah! que as tuas nostalgias fossem guizos de prata Teus frenesis.. de seda... Teus dedos longos..... Ruiva de éteres e morfinas.....Fevereiro 16” ............ queria-os de tule....... Teus beijos.. E tão febril e delicada Que não pudesses dar um passo Sonhando estrelas.Água fria e clara numa noite azul.. lantejoulas.A INEGUALÁVEL Ai.... Que os sombreassem jóias pretas.. E os ócios em que estiolas..... Transparecendo carmim Os teus espasmos... devia ser o teu amor por mim. ..... Água.... transtornada.. Queria-te nua e friorenta... ..... . Com estampas de cor no regaço..

... Horas-platina........... . Orquídeas pranto. E em metade de mim hoje só moro... longemente.. Lajearam-se-me as ânsias brancamente Por claustros falsos onde nunca oro. Dobrei o manto d’Astro.Junho 28” Mário de Sá-Carneiro .... Olor-brocado.. .... Luz-perdão...... Findei.. mármores ao Poente..... São tristezas de bronze as que inda choro Pilastras mortas.. Luar-ânsia..jardim estagnado. Tudo se me igualou num sonho rente.. singro num mar d’Ouro Dormindo fogo. Talhei em sombra o Oiro do meu rastro..... Desci de mim..APOTEOSE Mastros quebrados..... “Paris 1914 ... Quebrei a taça de cristal e espanto.Ó pântanos de Mim . incerto..

POEMAS DE RONALD DE CARVALHO .

. e em tua sombra a ondear saudosa . tangendo ao poente em harpa silênciosa uma agonia de almas e de falas. acordo num jardim convalescente. ânsia. Sou transparência. e sinto no clarão da ultima gloria a sombra do que sou morrer em mim.. Sonho meu corpo como de um ausente... ultima nau que abandonou o cais. chama pálida. longes de ouro. II .Sentido Fujo de mim como um perfume antigo foge ondulante e vago de um missal e julgo uma alma estranha andar comigo. náufrago e exsurjo dentro da memória. dizendo adeus a uma aventura irreal. Vida que és sombra e sobre mim resvalas. Colho de tuas mãos a triste rosa.Legenda A Vida é uma princesa dolorosa no seu castelo de rubis e opalas. ideais. No alvor das minhas mãos chora a distancia proas rachadas. vago perdido em outros num jardim.A ALMA QUE PASSA I .. Passas..

. harpas. foi pedrouço a rolar pelo caminho. (Vozes perdidas. foi caule e espinho. tambores e metralha. sinos acordam madrugadas em mim mesmo.. órgãos. de tudo veio para chorar dentro em meu ser a amarga maldição de ser eterna e a dor de renascer quando eu morrer. bronze que a mão tocou. foi luz lunar e errante de lanterna. triste. pérola esquecida num bracelete real. E entre trompas. juramentos a esmo.) III . opala. .. topázio....vagam fantasmas de desertas salas.Génese Antes a alma que tenho andou perdida. tubas e violinos a Vida e a Dor começam a batalha.. passos que morrem sobre passos.. o olhar da Vida no corpo em sangue de um estranho vinho. fatal. áurea jazida por entre as ruínas de um país maninho. e reflectiu. Clave. Foi casco medieval. e depois de exsurgir. foi lança e escudo.

LÂMPADA NOCTURNA
Tonta de sono e de doçura no alto das garras de marfim perdida em sombra a luz procura. Alguém morreu dentro de mim... Pela janela triste e escura que abre os balcões para o jardim sobe um perfume de amargura. Alguém morreu dentro de mim... E vais rompendo silênciosa com o fino teu punhal de luxo no ultimo vaso a ultima rosa... E o caule nu reflecte agora no teu olhar como um repuxo que implora o azul e não demora...

TORRE IGNOTA
Da sombra se ergue e não demora nas mãos que a cingem desejosas o ar a fascina sempre e agora e as linhas lava luminosas O talhe inquieta a luz por fora sonham quimeras dolorosas e não floresce na haste da hora nem a volúpia de outras rosas Só de ser única levanta como um sorriso a pedraria que o som dos bronzes acalanta Da sombra se ergue para a gloria e a mão que a esflora é argila fria num voo branco de memória

O ELOGIO DOS REPUXOS
Dor dos repuxos ao Sol-pôr agonizando em plumas e marfins, em rosas de ouro e luz... Canto da água que desce em poeira, leve e brando, canto da água que sobe e onde o jardim transluz. Dormem sinos na bruma - a cinza tem afagos... Sombras de antigas naus, velas altas a arfar, passam em turbilhões pelo fundo dos lagos, (a aventura, a conquista, a ânsia eterna do mar!) Repuxos a morrer sobre si mesmos, lentos curvos leques a abrir e a fechar num adejo, - mão vencida que vem de vãos incitamentos, mão nervosa que vai mais cheia de desejo... Volúpia de fugir - ser longe e ser distancia, e tornar logo ao cais e de novo partir! Volúpia - desejar e não possuir, ser ânsia... Repuxos a descer, repuxos a subir... Não fixar emoções, volúpia de esquecê-las, andar dentro de si perdido na memória... (Caçadores ideais de mundos e de estrelas repuxos ao Sol-pôr cheios de magoa e glória...) Dor dos repuxos ao crepúsculo cantando! desespero, alegria - o lábio, a mão... e um beijo. Dor dos repuxos, dor sangrando, dor sonhando ir tocar a ilusão e morrer em desejo...

e a sua sombra é um cisne na água.. florida em rosas de magoa minha alma acorda o cais deserto.. Pelo canal rezam os barcos cheios de graça e de glória. Anda um perfume de além-morte na sua voz dolorida. á tua porta a tremer.. com as mãos varadas por abrolhos. anda um perfume de além-morte nas vestes pálidas da vida. a hora lilás desabotoa com um rumor sonâmbulo de asa. pelo canal rezam os barcos a triste história da memória. .REFLEXOS “(Poema da Alma enferma)” Minha alma treme como um lírio dentro da água dos teus olhos minha alma treme como um lírio.. Minha alma acorda o cais deserto. toda de linho de noivado minha alma vai amanhecer.. Toda de linho de noivado. A hora lilás desabotoa em flores de cinza e brasa....

.. Ronald de Carvalho .. Dentro da água dos teus olhos minha alma treme como um lírio... As torres cismam pelo espaço. e sobre as lâmpadas extintas morrem as ultimas falenas. No silêncio erram violinos as torres cismam pelo espaço.... Minha alma toda se enclausura no jardim que entardeceu. minha alma toda se enclausura num beijo irreal que não nasceu.E sobre as lâmpadas extintas tombam fúnebres antenas. na penumbra cogitam sinos...

“FERNANDO PESSOA” O MARINHEIRO Drama estático em um quadro .

minhas irmãs. tenho estado a olhar para a chama daquela vela. alta e estreita. Ás vezes treme. Um quarto que é sem duvida num castelo antigo.Talvez.Ainda não deu hora nenhuma. Do quarto vê-se que é circular. ainda assim. minha irmã.. . Segunda.Não. À direita. de costas contra a tocha de cima da direita. Primeira. . . de branco. Quatro tochas aos cantos.. Ao centro ergue-se. De resto. fomos nós alguma cousa? Primeira.Não desejais.a Carlos Franco. Mas. Eu não sei. não falemos disso. sempre é belo falar do passado. há uma única janela. um caixão com uma donzela.. Não há relógio aqui perto. . As horas têm caído e nós temos guardado silêncio. . Por mim. É noite e há como que um resto vago de luar. Eu não sei porque é que isso se dá. Do lado da janela velam três donzelas. . As outras duas estão sentadas uma de cada lado da janela. que nos entretenhamos contando o que fomos? É belo e é sempre falso.Não se podia ouvir. quase em frente a quem imagina o quarto. outras vezes empalidece. . porque se dá qualquer cousa?. sobre uma eça. dando para onde só se vê.. entre dois montes longínquos...Não: o horizonte é negro. Mas sabemos nós. outras torna-se mais amarela. Primeira veladora. Dentro em pouco deve ser dia. Segunda. um pequeno espaço de mar. A primeira está sentada em frente á janela. Terceira.

Aqui. Terceira....Falemos. O mar de outras terras é belo? Segunda. . . .. Ás vezes isso vai buscar sonhos. se quiserdes.(uma pausa) A mesma. não dizíamos. de um passado que não tivéssemos tido. . Ao entardecer eu fiava. Ali.Não.... daquela janela. Terceira. Segunda. . Terceira. que é a única de onde o mar se vê.Todo este país é muito triste.. Muitas vezes eu não fiava. Se passeássemos?.. (uma pausa) Primeira.. . . .. Não sei se era feliz.Só o mar das outras terras é que é belo. vê-se tão pouco!. É tão triste falar! É um modo tão falso de nos esquecermos!.Não dizeis senão palavras. .Não. Primeira.Fora de aqui. Porque o havia eu de saber? (uma pausa) Segunda. Primeira. . de um lado para o outro... .. . Já não tornarei a ser aquilo que talvez eu nunca fosse. .. sentada á minha janela...Onde? Primeira. porque é inútil e faz tanta pena.Falar do passado . Talvez o tivéssemos tido. olhava para o mar e esquecia-me de viver. .De quê? Primeira.Não dizíamos nós que íamos contar o nosso passado? Segunda.Não sei.isso deve ser belo. Aquele onde eu vivi outrora era menos triste. Aquele que nós vemos dá-nos sempre saudades daquele que não veremos nunca. nunca vi o mar.. A janela dava para o mar e às vezes havia uma ilha ao longe.

... falai...... mas isso não faz mal. Só viver é que faz mal.. Eu devia agora sentir mãos impossíveis passarem-me pelos cabelos... falemos todas juntas. Passo dezembros na alma. Foi longe daqui que isto pôde ser... Colhia flores todo o dia e antes de adormecer pedia que não mas tirassem. (uma pausa) Segunda. . não vos levanteis.Decidimos não o fazer... ao longe. Sinto-o envolver-me como uma névoa.. Eu era pequenina.. sempre.Minha irmã. Não. Quem sabe se nós poderíamos falar assim se soubéssemos a hora que é? Primeira. Se olho para o presente com muita atenção. mas é-me suave pensar que o podia estar tendo.. Com a luz os sonhos adormecem. ... Mas assim..... minhas irmãs... sem o relógio.. Breve raiará o dia e arrepender-nos-emos..Terceira..Que importa? Ele vem sempre da mesma maneira.. naquela parte que toca na alma. em mim tudo é triste. Neste momento eu não tinha sonho nenhum... Este ar quente é frio por dentro.. .é . Parece-me que entre nós se aumentaram abismos.... sempre. O silêncio começa a tomar corpo.. começa a ser cousa.....Contemos contos umas às outras. . Eu não sei contos nenhuns. Tenho que cansar a ideia de que vos posso ver para poder chegar a ver-vos.Para quê?.porque não falamos nós dele? Primeira. parece-me que ele já passou. Sei que de lá se vêem... falai!... . Não rocemos pela vida nem a orla das nossas vestes... . O que é qualquer cousa? Como é que ela passa? Como é por dentro o modo como ela passa?. Fito-vos a ambas e não vos vejo logo.Não sei.. falemos alto.. Ah... Ah. A noite pertence mais a si própria.... Estou procurando não olhar para a janela. tudo é mais afastado e misterioso. Não sei o que isto tem de irreparável que me dá vontade de chorar. falemos.. e cada gesto interrompe um sonho.. Terceira. O passado não é senão um sonho. De resto. Isso seria um gesto. montes...... sempre. Segunda..Porque não haverá relógio neste quarto? Segunda. Mas o passado ... Eu fui feliz para além de montes. .. outrora.... Quando virá o dia?. As mãos pelos cabelos ... nem sei o que não é sonho.

e olhai. .......Eu também devia ter estado a pensar no meu.o gesto com que falam das sereias. sobretudo o que se quer fazer..Por mim. quando criança. Segunda.. Não o faço porque não vale nunca a pena fazer nada.... Tudo ali era longo e feliz como o canto de duas aves. no passado de gente maravilhosa que nunca existiu.. . Devem ter um segredo de pedra que se recusam a saber que têm. Agora eu gostaria de andar.. ... Primeira. Não há vento que mova as chamas das velas..As vossas frases lembram-me a minha alma. quando o mar parece ter cruzado as mãos sobre o peito e ter adormecido como uma estatua de anjo para que nunca mais ninguém olhasse. costumávamos sentarmo-nos á sombra dos tamarindos e falar de ir ver outras terras.... Mas eu devo ter vivido realmente á beira-mar. . maré-baixa. Porque é que correria. São mistérios que habitam na nossa vida.... Terceira.. e porque é que não correria mais longe. Mal sei que as digo...... No passado dos outros talvez. Segunda. Talvez porque. Para onde se inclinam elas?... E os nossos sonhos eram de que as arvores projectassem .... Que pena se alguém pudesse responder!. Às vezes. elas movem-se..)” Ainda há pouco... eu amo-a.. Terceira... onde mora minha mãe.. Sempre que uma causa ondeia.. Ha alguma razão para qualquer cousa ser o que é? Há para isso qualquer razão verdadeira e real como as minhas mãos?. debruçar-se-ia um momento da minha alma alguém em quem eu me sentisse feliz... quando eu não pensava em nada.. amo os montes. Ha ondas na minha alma...É talvez por não serem verdadeiras... Do lado de cá de todos os montes é que a vida é sempre feia.. tenho medo de Deus...As mãos não são verdadeiras nem reais.. quando fito as minhas mãos. Primeira. Ao pé da casa de minha mãe corria um riacho.... uma de cada lado do caminho. É sempre longe na minha alma... Pausa. estava pensando no meu passado.... Levei a vida pela mão entre rochedos. eu pudesse deixar de ver montes. . Dos montes é que eu tenho medo. Se desta janela.. É impossível que eles sejam tão parados e grandes.. . debruçando-me. corri atrás das ondas á beira-mar..... A floresta não tinha outras clareiras senão os nossos pensamentos.. ou mais perto?. “(Cruza as mãos sobre os joelhos.Eu já não sei em que pensava. Do lado de lá........ Sinto-me desejosa de ouvir musicas barbaras que devem agora estar tocando em palácios de outros continentes. Repito-as seguindo uma voz que não ouço que mas está segredando. Quando ando embalo-me..

.. Primeira... Para que é que . não sei como. á beira dos lagos. O mar era grande demais para fazer pensar nelas.Custa tanto saber o que se sente quando reparamos em nós!. como por uma floresta escura... sem reparardes que existis.....Não falemos de nada... Ás vezes..no chão outra calma que não as suas sombras... Falo. Éreis feliz minha irmã?.... e as minhas palavras parecem-me gente.. Nunca ouvi falar delas a ninguém.. Hoje tenho medo de ter sido.Começo neste momento a tê-lo sido outrora... Segunda.. tudo aquilo se passou na sombra. eu e não sei se mais alguém. as pontas tranquilas dos meus dedos.. Eu era pequena e barbara... afinal.. Dizei-me que isto foi verdade para que eu não tenha de chorar.. mal eu as diga.Tenho horror a de aqui a pouco vos ter já dito o que vos vou dizer. Foi decerto assim que ali vivemos. para que eu sinta uma razão para recordar. Primeira. Na vida aquece ser pequeno. Pobre da feliz que eu fui!. a chave de uma porta desconhecida. .O que eu era outrora já não se lembra de quem sou.. do fim de tudo.. rígidas e fatais.... É por isto que me apavora ir... Nunca chegou quem eu mal esperava. independente do meu. . através do mistério de falar... os meus dentes eram misteriosos na agua. não sei onde. ficarão fora de mim. ..... Primeira. Passei a fuga dos meus dias ao lado de fontes.... mas porque é que está mais frio? Não há razão para estar mais frio.. De resto. Não nos íeis dizer quem éreis? Terceira. e tudo na minha alma é folhas que estremecem... As arvores viveram-o mais do que eu.... quando sonhava de viver. Tenho um medo maior do que eu. de nada. Sinto na minha mão. A orla da minha saia era fresca e salgada batendo nas minhas pernas nuas. Falai-me das fadas..Eu vivi entre rochedos e espreitava o mar... Quando ando ao sol a minha sombra é fresca. Quando eu sorria.. . debruçava-me e fitava-me. E toda eu sou um amuleto ou um sacrário que estivesse com consciência de si próprio. . Falai-me da morte.... As minhas palavras presentes.. Tinham um sorriso só deles. Eu vivi entre as sombras dos ramos. Não é bem mais frio que está.. quem sabe se eu sou assim e se é isto sem duvida que sinto?. Falai portanto. e penso nisto na minha garganta.. pertencerão logo ao passado. Era sempre sem razão que eu sorria. . E vós. onde eu molhava. Mesmo viver sabe a custar tanto quando se dá por isso.. porque não falais? Terceira. Está mais frio.. O presente parece me que durmo. irmã. E...

É melhor cantar. E depois todo o meu passado torna-se outro e eu choro uma vida morta que trago comigo e que não vivi nunca.. .. Quereis que vos conte o que eu sonhava á beira-mar? Primeira.. porque o que queremos ser queremo-lo sempre ter sido no passado.. Quando a onda se espalha e a espuma chia. Não é inteiramente falso... Porque é que não quereis que vo-la cante? Terceira... Lembrar-me dele é como não me poder lembrar de nada. Tenho que não poder recordar-me.. Quem sabe porque é que eu digo isto e se fui eu que vivi o que recordo?..... é uma pessoa alegre e sem medo que entra de repente no quarto e o aquece a consolar-nos. vi que já tinha esse meu sonho.. A espuma só parece ser fresca a quem a julga uma.. esticando para baixo os dedos.. eu não posso estar comigo.Podeis contá-lo.... mas parece-me deste lago que ele nunca existiu.. O canto... Eu ia lá e assentava-me á beira dele. A vida assim o quer. e que eu tinha esquecido que tinha pai e mãe e que houvera em mim infância e outros dias . sobre um tronco de arvore que caíra quase dentro de agua... a passagem vaga de uma vela.. Segunda...Não vale a pena.. E se não é belo.. E nunca tornei a ver outra vela.. Depois ela cessou.havemos de falar?. Quando reparei para mim.. esperai.. . mas não era para as ver... Sentava-me na ponta e molhava na agua os pés. É sempre tarde de mais para cantar.. . porque sem duvida nada é inteiramente falso. Tudo é muito e nós não sabemos nada..Á beira-mar somos tristes quando sonhamos. assim como é sempre tarde de mais para não cantar.nesse dia vi ao longe.... Não sei porquê. Segunda. Guardemos silêncio. parece que há mil vozes mínimas a falar. contai-o só depois de o alterardes.. minha irmã.. Quando alguém canta. como uma cousa que eu só pensasse em ver. ... tenho já pena de vir a tê-lo ouvido... minha irmã..Vou dizer vol-o.. Deve ter sido assim. Eu podia cantar-vos uma canção que cantávamos em casa de meu passado. Se é belo... Um dia que eu dei por mim recostada no cimo frio de um rochedo.. não sei porquê. Não sei onde ele teve principio. . mas nada em nós tem necessidade de que no-lo conteis. quando a gente canta de noite. .. Não podemos ser o que queremos ser. Depois olhava excessivamente para as pontas dos pés. (uma pausa) Primeira..Breve será dia. Ao pé da minha casa natal havia um lago..

.. dizei. Não a interrompais. Segunda... e com a alma recostada no murmúrio da agua que o navio abria.Não.Sonhava de um marinheiro que se houvesse perdido numa ilha longínqua.Nenhuma das velas dos navios que saem aqui de um porto se parece com aquela. noite alta.... pôs-se a sonhar uma pátria que nunca tivesse tido. .Não ter havido uma arvore que mosqueasse sobre as minhas mãos estendidas a sombra de um sonho como esse!. Primeira.. . Dizei. Como ele não tinha meio de voltar à pátria. e outro feitio de passarem pelas ruas e de se debruçarem das janelas. Primeira. Meu coração doe-me de não ter sido vós quando sonháveis á beira mar... e aves vagas passavam por elas.. pôs-se a fazer ter sido sua uma outra pátria... Sabia de que cor soíam ser os crepúsculos numa baía do norte.. Segunda. e ele nunca deixava de sonhar... Desde que. Terceira. de costas. orlada de bicos. das suas mocidades a suposta... no chão areento e quente.. Cada hora ele construía em sonho esta falsa pátria. Eu não vi navio nenhum pela janela. Segunda.. Breve ele ia tendo um país que já tantas vezes havia percorrido.Deixai-a falar.. Milhares de horas lembrava-se já de ter passado ao longo de suas costas.. . mesmo quando é lua e os navios passam longe devagar. dia a dia o marinheiro erguia num sonho contínuo a sua nova terra natal. naufragado...Vejo pela janela um navio ao longe..Durante anos e anos. Todos os dias punha uma pedra de sonho nesse edifício impossível... esse que vêdes busca sem duvida um porto qualquer. se salvara. . Não vi se alguma vez pousavam.. . Primeira. e cada vez que se lembrava dela sofria. Adormeço para a poder escutar. Desejava ver um e falei-vos dele para não ter pena... Nessa ilha havia palmeiras hirtas.. o marinheiro vivia ali.. feliz talvez. com outras espécies de paisagens.... estendido na praia.. . minha irmã. e não reparando nas estrelas. minha irmã. e como era suave entrar. num grande porto do sul onde ele pássara outrora. . Ela conhece palavras que as sereias lhe ensinaram. Contai-nos agora o que foi que sonhastes á beira mar.. uma outra espécie de país. de dia á sombra curta das grandes palmeiras.. poucas..Porque é que me respondestes?. .. e outra gente. É talvez aquele que vistes.. Não podia ser que aquele que eu vi buscasse qualquer porto. que se recortava... de noite... Pode ser..

À medida que o vou contando.uma a uma as ruas. até às muralhas dos cais donde ele criou depois os portos.. Voltai ao vosso sonho. Quando falo de mais começo a separar-me de mim e a ouvir-me falar.. bairro a bairro. os lugares onde passara a juventude... O dia não pode já tardar. .Não faleis assim.... Segunda “(mais baixo. Ia tendo tido os companheiros da infância e depois os amigos e inimigos da sua idade viril. olhando para o caixão. Nós nunca sabemos quantas cousas realmente vivem e vêem e escutam...... Passou a conhecer certa gente.. Breve tinha uma outra vida anterior.Contai sempre... ... falar-vos-ei mais dele. A vida espreita-nos sempre.. Não torçais as mãos...nem o país... cinzelando-as na matéria da sua alma . Vêde: o horizonte empalideceu.. nem repareis em que dias raiam. Isso faz um ruído como o de uma serpente furtiva. Mesmo eu preciso de Vo-lo contar... Será preciso que eu vos fale ainda mais do meu sonho? Primeira. nem o .. Terceira.. Só pensar em ouvir-vos me toca musica na alma...)” Três não. contai outra vez... numa voz muito lenta)”. O dia nunca raia para quem encosta a cabeça no seio das horas sonhadas. Uma a uma as ruas. Tenho então uma vontade lacrimosa de o ter nos braços para o poder embalar como a um filho.Ao princípio ele criou as paisagens. mas é preciso não o saber. Não pareis de contar. Tudo era diferente de como ele o tivera ... . um lugar onde nascera. uma a uma. depois criou as cidades. . Depois viajava. é a mim também que o conto. Tinha já..Minha irmã.. os portos onde embarcara...Sim. Não faleis em quantos podem ouvir.. através do país que criara..Não se deve falar demasiado. Falainos muito mais do vosso sonho... minha irmã.. e a gente que as percorria e que olhava sobre elas das janelas. E assim foi construindo o seu passado.... Isso faz com que me compadeça de mim própria e sinta demasiadamente o coração. O marinheiro. Não sei quantas.... como quem a reconhece apenas. Toda a hora é materna para os sonhos. .(uma pausa) Primeira. Segunda..... Não sei. nem a gente... São três a escutar. e tudo isto era como quem sonha apenas paisagens e as vai vendo. e estremecendo.. criou depois as ruas e as travessas.... nessa nova pátria. . contai sempre. Ia-lhes conhecendo as vidas passadas e as conversas. O que sonhava o marinheiro?. Ele é tão verdadeiro que não tem sentido nenhum.. Contai depressa. porque é que vos calais? Segunda. recordado...... “(De repente.

.. Nem sequer podia sonhar outro passado..Um dia. Primeira... adolescência que recordasse.....Continuai.. Quanto mais vos ouço. . Mas a qual? ... Exigis que eu continue?. qualquer cousa que explicaria isto tudo.. o marinheiro cansou-se de sonhar.. que vos não disse. minhas irmãs.. E ele viu que não podia ser que outra vida tivesse existido... Quis então recordar a sua pátria verdadeira.. para que eu saiba que estou aqui ante vós e que há cousas que são apenas sonhos...Sim. Meninice de que se lembrasse........ porque vos falo disto. gritai-me...... Ó minhas irmãs. que não sei o que é. mais me não pertenço. Terceira. Terceira..Talvez tivesse regressado á pátria. ..... Primeira “(numa voz muito baixa)”. que ela não existia para ele.. conceber que tivesse tido outro. . Esse sonho como continua?.. era a na sua pátria de sonho. O nosso mister é inútil como a Vida. Ha qualquer cousa. sim... ainda que não saibais porquê. . Causame tanta pena falar disto!. nem de um gesto materno se lembrava.. era aquela que se criara... . .... mas viu que não se lembrava de nada... A minha alma esfria-me.... . Mal sei se tenho estado a falar. Falai-me. Veio um dia um barco.. Velamos as horas que passam..E o que aconteceu depois? Segunda. só podia ter sido assim... Segunda...Veio um dia um barco.. como todos. que chovera muito.. aprazia-me mais estar-vos falando de outros sonhos. tudo era real e tinha sido..seu passado próprio se pareciam com o que haviam sido.Não sei como era o resto.. Se ele nem de uma rua.. Veio um dia um barco.. E da vida que lhe parecia ter sonhado..Depois? Depois de quê? Depois é alguma cousa?. Toda a sua vida tinha sido a sua vida que sonhara... .Será bom realmente que continueis? Deve qualquer historia ter fim? Em todo o caso falai. Não ouso olhar para as cousas... Segunda...Não sei que vos diga. podem crer. e não estava lá o marinheiro. nem de uma figura. Primeira. um momento.. Porque é que haverá mais?. e o horizonte estava mais incerto. Agora.. Mal sei como era o resto.. para que eu acorde.. . e passou por essa ilha.. ... Importa tão pouco o que dizemos ou não dizemos.

. se o sonhá-lo não é esta cousa vaga a que eu chamo a minha vida?. que não sei o que é. Segunda. Paremos.. os passos de um horror que desconheço.. Nenhum sonho acaba.. Bem sei que não valeu a pena. .Tudo deixa descontente. Tenho um medo disforme de que Deus tivesse proibido o meu sonho. . Não me faleis mais. mesmo dentro do vosso sonho. .. porque tudo muda. Os homens que passam provam-o.. Primeira. começa a ir ser dia. minha irmã. . Dizei-me ao menos que a noite vai passando.. . se o não sonho sem o saber.. Vêde: vai haver o dia real.. É humano e conveniente que tomemos. Terceira....Não acabou.... . nada é absolutamente necessário. cada qual a sua attitude de tristeza..... Vêde. em voz mais baixa)” Porque é que se morre? . Não falemos mais disto...Não sei...Foi-me tão belo escutar-vos. talvez só por ser musica. Quem sabe o que está no fim dela?..... Quem teria eu ido despertar com o sonho meu que vos contei?... Não sei.. É por isso que o achei belo. como acabou o sonho? Segunda. Primeira... Não pensemos mais.Ao menos....Será absolutamente necessário. “(olhando para o caixão...... De resto.Primeira. passou-se na noite.. que escutei ainda mais que as vossas palavras.. Tudo isto.. mas deixai que eu o diga. Ele é sem duvida mais real do que Deus permite. Não foi por isso. Sei eu ao certo se o não continuo sonhando... Os homens que pensam cansam-se de tudo.. Não tentemos seguir nesta aventura interior. embora eu o saiba...... que tenha havido esse marinheiro e essa ilha? Segunda. a qual? E o que teriam feito ao marinheiro? Sabê-lo-ia alguém? Segunda. .. descontente.Não. Princípio a estar certa de qualquer cousa. porque mudam com tudo. De eterno e belo há apenas o sonho. a musica da vossa voz. por uma noite que não é esta.... minhas irmãs. . Não digais que não. nem a nós próprias. minha irmã.... ..Porque é que mo perguntais? Ha resposta para alguma cousa? (uma pausa) Terceira.... deixa-me. Porque estamos nós falando ainda?. Não estejais silênciosas. Avançam para mim.Sim.

Dizei-me isto...Talvez nada disto seja verdade. Tudo o que acontece é inacreditável... Parece-vos que pertence á vida?. é já dia. é agora. Terceira..Talvez.... o céu é já verde. . Ah.. não faleis mais. é agora. O horizonte sorri ouro. Primeira.... e já sabe para que servem os sonhos. Primeira... e esta morta.Não sei. .... Dizei-me uma cousa ainda. .. .. Aquela que finge estar ali era bela.Segunda.. . Ela escuta-nos talvez. Primeira... Vêde. . Isso é tão estranho que deve ser verdade. . Porque não será a única cousa real nisto tudo o marinheiro.. a linha dos montes maravilha-se. para que a morte nos esquecesse?. Primeira.... Não importa. Ah.. Primeira.Minhas irmãs.. Segunda.. Não continueis...Chorastes...... Sinto que me ardem os olhos..Talvez por não se sonhar bastante.. Não valeria então a pena fecharmo-nos no sonho e esquecer a vida.... como vós estais parada! E os vossos olhos tão tristes. parece que o estão inutilmente.Não faleis mais.Falai mais baixo. .. .. . Não desejais que nos calemos? É tão estranho estar a viver. Não sei como se é da vida. Que frio é este?.. O que é isto?. Estou certa que o sonho dela era o mais belo de todos.. e este dia que começa não são talvez senão um sonho. Olhai bem para tudo isto..... Todo este silêncio.Não vale a pena estar triste de outra maneira.. e sonhava também.. Segunda... Vêde.. minha irmã: nada vale a pena.Não. Segunda. mas deve ser de mais para a .. O que íeis dizer não sei o que é. ...É possível. tanto na ilha do marinheiro como neste mundo. Ela de que sonharia?..... Porque não choramos nós?. de eu ter pensado em chorar... e nova como nós... (uma pausa) Segunda... com efeito.. minha irmã.. e nós e tudo isto aqui apenas um sonho dele?..

..Não sei... Vêde o dia.. .. Vem de uma espécie de longe..... depois do horror que nos dissestes.. Falai comigo... vêde.. (Não lhe respondem. Tenho menos medo á minha voz do que à ideia da minha voz.. toda esta conversa.. Ele brilha como ouro numa terra de prata. E ninguém olhara de nenhuma maneira... absolutamente cousa nenhuma?. Devíamos já ter acabado de falar... para que eu..) A mesma..... vêde-o. O que há entre nós que nos faz falar prolonga-se demasiadamente. Tenho medo de me poder lembrar do que foi. Tarda qualquer cousa.. Se nada existisse. Ha tempo já que a nossa conversa perdeu o sentido. mas para falar apenas. já não tenha tanto medo como dantes. minhas irmãs?.. como três criaturas que falam e andam... Vêde-o a vir. é dia já.. . e este medo .... ouvindo-o segunda vez.. Tenho medo do que não chegastes a dizer... falai comigo. Primeira.. o dia.. Não me lembreis isso. Vêde... Agora estranho-me viva com mais horror.. não me abandoneis. Eu devia estar falando com a voz aguda e tremida do medo.. e o sentido do que dizíeis eram três entes diferentes....... Não penseis. Não vos pergunto isto para que me respondais.. Tarda tudo.. e que me fez pensar que eu devia gritar de uma maneira nova para exprimir um horror de aqueles. dentro de mim. Ha mais presenças aqui do que as nossas almas.. Tudo isto. Não digais nada.. no dia real.. Mas já não sei como é que se fala. Contáveis e eu tanto me distraía que ouvia o sentido das vossas palavras e o seu som separadamente..alma o poder ouvir.... Começo a sentir que o esqueço. O dia devia ter já raiado.tudo isto devia ter acabado. Se tudo fosse. Deviam já ter acordado. E parecia-me que vós. devia ter acabado de repente...... O que é que se está dando nas cousas de acordo com o nosso horror?. não olheis para o que pensais..... Mas foi qualquer cousa de grande e pavoroso como o haver Deus.. ali fora.... Fazei tudo por reparardes só no dia. não. de qualquer modo. não nos devíeis ter contado essa historia. É de outra. a isso que dissestes. Terceira “(para a Segunda)”. . e esta noite... . Porque olhastes assim?.. para me não deixar pensar.. Senti-o tanto que mal vi o que era. As leves nuvens arredondam-se á medida que se coloram. Vêde-o... Entre mim e a minha voz abriu-se um abismo.... . Dizei-me o que foi.Minha irmã.. Ele consola.. Ah... Falai ao mesmo tempo do que eu para não deixardes sozinha a minha voz. Terceira. e a vossa voz.Que foi isso que dissestes e que me apavorou?.. se for reparar que estou falando.Que voz é essa com que falais?... Não...

Quis fingir que ouvia para que vós supusésseis que ouvíeis e eu pudesse crer que havia alguma cousa a ouvir..... Parte de mim adormeceu e ficou a ver. Parece ter sido já há tanto tempo!. com vida própriae real.São realmente três entes diferentes.Já não me lembro.. um pouco longas.. Não ouvi nada.. . . que sono absorve o meu modo de olhar para as cousas!. que horror.Não falemos mais. Sinto uma necessidade feroz de ter medo de que alguém possa agora bater àquela porta... Dói-me o intervalo que há entre o que pensais e o que dizeis.. que horror intimo nos desata a voz da alma.. Que sono... Não sentis tudo isto como uma aranha enorme que nos tece de alma a alma uma teia negra que nos prende? Segunda.Quem foi? Segunda. Primeira e Terceira.... Primeira.... Que estranha que me sinto!. que custem a dizer..... O que é que nós queremos fazer? o que é que nós temos ideia de fazer? .......Não sinto nada.. Não sei o que é isto. A minha consciência bóia á tona da sonolência apavorada dos meus sentidos pela minha pele. mas porque é que falamos? Quem é que nos faz continuar falando? Porque falo eu sem querer falar? Porque é que á não reparamos que é dia?... . Sinto as minhas sensações como uma cousa que se não sente. . Porque não bate alguém á porta? Seria impossível e eu tenho necessidade de ter medo disso.. mas já não sei o caminho da minha vontade para a minha garganta.. .Nada... e nos faz falar e sentir e pensar quando tudo em nós pede o silêncio e o dia e a inconsciência da vida... mas é o que sinto...... e as sensações dos pensamentos. Quem é a . Já não sei em que parte da alma é que se sente. ... Puseram ao meu sentimento do meu corpo uma mortalha de chumbo. Deus talvez saiba porquê. Ah. Para que foi que nos contastes a vossa historia? Segunda. . Quem é que eu estou sendo?. Parece-me já não ter a minha voz.. Preciso dizer frases confusas. Por mim. escutai.Quem pudesse gritar para despertarmos! Estou a ouvir-me a gritar dentro de mim. O meu pavor cresceu mas eu já não sei sentilo. Ah. cansa-me o esforço que fazeis para falar. Quem é que está falando com a minha voz?.já não sei se é falar ou não falar..Segunda. de saber de que é que tenho medo..... Primeira.. Oh... Já mal me lembro que a contei.

. Entra-me por todos os sentidos qualquer cousa que mos pega e mos vela.Porque é que mo perguntais? Porque eu o disse? Não.. Sim. É dia já. Vai acabar tudo. . Prende-se a língua a todos os meus sentimentos...Para quê tentar apavorar-me?... As três veladoras quedam-se silenciosas e sem olharem umas para as outras. Primeira. que só vós sois feliz. Um sono fundo cola uma às outras as ideias de todos os meus gestos. por uma estrada. aumenta. não acredito. é agora..... 1913. Afundei-me toda no lodo morno do que suponho que sinto.. Há gente que acorda. Um galo canta. Até lá façamos por crer que todo este horror foi um longo sono que fomos dormindo. Peso excessivamente ao colo de me sentir. Pesam as pálpebras a todas as minhas sensações.. Não cabe mais terror dentro de mim. Terceira “(numa voz muito lenta e apagada)”. E de tudo isto fica.. minha irmã. A luz..quinta pessoa neste quarto que estende o braço e nos interrompe sempre que vamos a sentir?. Não muito longe. é agora. como que subitamente. um vago carro geme e chia... porque acreditais no sonho. Porque foi que olhastes assim?. acordou alguém. Segunda. Quando entrar alguém tudo isto acabará........Ah. .” Fernando Pessoa ..... “11/12 Outubro. ..

TREZE SONETOS DE ALFREDO PEDRO GUISADO .

Bocas de Faraós rezam múmias cansadas. E de noite caiu Egipto em meu olhar.. Desceu-se em mim minha alma a procurar as bocas Que me rezaram Ser sobre o teu manto extenso. Que se esqueceram cor nas tuas mãos esguias. loucas. . a esvoaçar no ataque. E tu adormecida há tanto tempo. em pranto. Vagamente desceu sobre o silêncio.“ADORMECIDA” As tuas mãos dormiam na lagoa incenso. Tebas em mim fenece em bronze de toadas. Nos teus braços em cruz.. Os cisnes na lagoa embranqueceram tanto. Combatendo de luz.. E pelas alamedas destruídas. a arfar. Apagando-se em cinza em lâmpadas sombrias. sepulcros em Karnak..

. são lagos no jardim. ungindo divindades Cismam Íbis. os pavões são apenas dizê-los. Meus olhos para te ver. Adormeço-me oiro. Existem os pavões. Quando passei no parque. O meu sentir-me é vê-los.“SONHO EGÍPCIO” No palácio. E as tuas mãos. anéis nos dedos de Nitokris.. Meus sentidos... As asas cor do longe erguidas sobre mim. Vi-a. E o meu sonhar-te.. Rezas que nunca ouvi. Labirinto de sons. ao largo. Meus olhos foram naus em águas intranquilas.. Hálitos de saudades. sobre tapetes velhos. além.. Ânsia apagada. Deus desce minha alma em oiro. pagãos. eu encontrei Nitokris. arcadas nos espelhos. Fitei-lhe as mãos para poder senti-las. ..

Oiro de asas em Tule. o medo de perder-me. Cismo. O teu morrer é vêr-me. Lembro-me então de mim. O teu hálito é luz em candelabros velhos Aos cantos dos salões onde me vejo a orar... morres no meu olhar. E o lembrar-me de mim são os meus passos idos. ardendo antiguidade E o ter-te visto morta. Procuro-me em silêncio e oiço-me em teus passos. Abraço-me chorando.“PAGÃO” . Rezo-me longe. Arqueia-se em azul meu próprio misticismo E eu fico apenas cor sobre vitrais vencidos. Sobre altares pagãos ergo-me divindade E Isis dorme meu Ser em cortinados lassos! . E os teus passos de dor são um quebrar de espelhos. Quando te quero ver.

Num parque de oliveiras te sonhei Erguendo-te do oiro que queimei Nas ânforas do templo do meu Ser.. Afastei-me de mim para ser monge. Parece que te vejo e tu estás longe..“VER-TE” Estendi os meus braços p’ra abraçar-te E entre nós uma porta se cerrou. Sopro que permitiu poder sonhar-te..... em arvoredos. ao largo. Eram prolongamentos dos teus dedos. Um sopro de rubins em mim voou. Saía a tua sombra p’las janelas E perdia-se. Os meus dedos cismando caravelas. Meus olhos são a sombra de te ver! .

Lembram-me naus sempre chegando ao cais. Em seu olhar existo.. Princesa cujo Corpo é uma roca Em principados de faisões de seda. A sua sombra.“PRINCESA LOUCA” Vejo passar na curva da alameda Uma princesa há muitos anos louca. pregos que pregaram Cristo. Olha-me longe. Seus dedos.. . As suas mãos tecendo pinheirais. Arqueio-me a sonhar sobre marfim.. Sou arco com que brinca no jardim Essa princesa há tantos anos louca.. Águias sem asas num palácio. uma lagoa azul. em Tule. Passo nas rezas duma antiga boca.

Inda vejo nas salas do palácio. à noite. Sinto-as tanger ainda os violinos velhos. Teus dedos ao bater nas tuas mãos são remos.. Velhos leões sombrios. Te cegaram de som. As tuas mãos de dor entreabrindo as portas. Deles apenas resta o eco dos rugidos Que os arcos dos salões tornaram mais esguios. As rendas que fiaste adormeciam bocas E as rugas no teu rosto iam caindo... II Morreram os leões que guardavam perdidos A branca escadaria. Onde os dedos saltando em cordas de oiro. E em candelabros arde O teu antigo olhar emoldurando espelhos. à tarde... Teus olhos que esquecendo as orações da luz São claustros apagando os passos esquecidos De Deus ao regressar de amortalhar Jesus.“MÃOS DE CEGA” I Sinto que as tuas mãos são teus olhos vencidos. as águias moribundas . No fim do parque. Buscamo-nos em cor e quando nos perdemos Passam as tuas mãos em meus dedos.. arfando. cismando Estátuas de marfim sobre as arcadas. mortas. fundas.

Cega de mim. partiste.. os meus sentidos eram Palmeiras ladeando a estrada onde passaste! . E quando regressaste Manchada de Distância. Deixaste de os fiar e os teus olhos arderam Na cor das tuas mãos.Guardavam em silêncio as destroçadas rocas. na cruz de outros poentes.. Fiavas noutro tempo os teus olhos dormentes.

. Flautas ao longe foram teus sentidos.. frios.. rezando seda... Não sei quem és. dormir nos meus sentidos... afastadas.. E as tuas mãos ao desfiar vestidos Dormiram franjas em doiradas saias. Um gesto de meus dedos longos.. Sonham paisagens mortas. Essas paisagens foram tuas aias.“ESQUECENDO” Os lagos dormem cisnes na alameda E as portas do palácio estão fechadas... arcadas sobre rios.. . Meus olhos esquecidos Sentem-te em mim. Não sei se não serás um gesto meu. Meus sentidos. A tua Sombra o seu olhar perdeu. As folhas a cair.

“SALOMÉ” I Dançava Salomé sobre mistérios idos. Talvez boca pagã beijando as mãos de Deus. longe. entre vitrais bailando. a descerrar o hábito. Fita paisagens-ânsia em suas mãos cansadas. .. E o Corpo no bailado era uma curva apenas. é que era os seus sentidos....E os seus olhos ao vê-la. E os lábios percorrendo em lume os seus sentidos. a bailar. . Morena. Talvez no meu olhar Ausência dolorida.. Cerravam-se leões com medo de perdê-la. Arcadas-sensações transpondo o seu Sentir. E Ela quando se via era o seu próprio hálito.Tarde bronze a morrer. Não vejo Salomé. E o seu Corpo. Dançava Salomé nas suas mãos morenas Que eram salões de seda. Paisagens a sonhar castelos nunca erguidos. donde outras naus singrando Conduzem para o Longe o meu não existir. .. Poente em véus vermelhos Os seus sentidos.. eram bailados velhos. Dançava Salomé. II Deus.. longo cais em mim.Talvez adormecida. Leões bebendo luz na luz dos olhos seus. Salomé. .

Bailados-asas.Cismam príncipes-cor descendo das arcadas. Há entre Ela e Deus o corpo de João. E em seu olhar. É sombra do bailado um inclinar de palma. Gestos de Deus caindo entre molduras-Alma! . Baila seu Corpo ainda. em capiteis bordados. dormindo um bronze de oração. E Deus nos seus bailados. longe.

O palácio. era um olhar de Deus E as salas do palácio. Eram as suas mãos rainhas em impérios Onde passavam reis com séquitos mistérios. dormindo. Erguidos no seu Ser. pagãos. Seu Corpo. Taça vencida de Alma em pálios afastados. cinto de oiro ao seu redor. sentidos-mausoléus. E a sua própria Morte era um bailado ainda. Seu Corpo tinha sido algum dos seus bailados. no parque. taça caída em uma orgia infinda. Um hálito de Deus sobre missais caindo.“MORTE DE SALOMÉ” Apagaram-se bronze os círios que sonhara. os bailes que bailara. Cinza de Alma rezando outros Jesus. Adagas de marfim erguidas noutras mãos. Ela. .

E em minha Alma. . Cercam-se de oiro as salas que habitei. na qual inda sou rei Cismo tronos caindo lentamente. E a minha lenda em sonhos pergaminhos Vai escrevendo em silêncio o meu cismar. oiro dormente. terem medo E acolherem-se à sombra do teu luto. que em Toledo O Tejo adormeceu e ainda escuto. de noite.“RECORDANDO” Sinto as cores. Oiro-cinza esquecido. Eu fui um rei dos godos. São outros os domínios que vivi Todas as coisas que eu outrora vi Regressaram mistério ao meu olhar. Buscam-me pagens tristes nos caminhos.

Meu Corpo andou ao colo de Maria. Voei-me sobre pontes de marfim E uma das pontes. em meu olhar! Aureolei-me de oiro em sombra fria E meus voos caíram destruídos.“ANTE DEUS” Quando te vi eu fui o teu voar E desci Deus p’ra me encontrar em mim. Foram dedos de Deus os meus sentidos. Regresso ânsia p’ra alcançar os céus. Deus. Sou o perfil da dor. Sobre os ombros de Deus olho em redor E Deus não sabe qual de nós é Deus! Alfredo Pedro Guisado . Agora durmo Cristo em véus pagãos. Ergo-me mais. São tapetes de Deus as minhas mãos.

FRIZOS DO DESENHADOR JOSÉ DE ALMADA-NEGREIROS .

não no acordem ao beber. Rolaram-se na relva e uniram as bocas. ergueu-se sorrindo e de joelhos. e Colombina torceu o corpo numa dor calada e tomou-lhe as mãos. De repente viu-se cego . e fugiu de novo. Desceu-lhe os dedos aos lábios e trocou com beijos o aroma das palmas perfumadas. mas. E foram de enfiada as graças da ave toda paixão. de novo volta em zig-zags travessos e chilreios de troça. Pierrot já se adormecia. . Os cisnes junto dele passam sede. E chilreia de troça. E a andorinha perdia-se nos montes..CIÚMES Pierrot dorme sobre a relva junto ao lago. e já se esqueciam de que as tinham juntas. Havia na relva uma máscara branca de dor. porque ele se queda. De contente. Uma andorinha travessa. por cima dele.os dedos finíssimos da Colombina brincavam com ele. braços erguidos. Ele acorda e a andorinha. avôa brincando rente á relva e beija ao passar o nariz de Pierrot.. olha de medo atrás.. fugindo a muito. Pierrot contava entusiasmado.Sabes? Uma andorinha.. olhando os montes ainda em busca da andorinha. e a lua tinha nos olhos claros um olhar triste que dizia: Morreu Colombina! . Depois dependurou-lhe de cada orelha uma ginja. linda como todas. muito alto. não venha o Pierrot de zangado persegui-la pelos campos. tão longe como a andorinha fugida nos montes. seus olhos foram tão longe. á laia de brincos com jóias de carmim. e a andorinha em descida que faz calafrios pousou-lhe no peito duas ginjas bicadas.

e a caça era nenhuma! E ele a saudá-la ameaçou-lhe um beijo e ela fugiu-lhe. Adão já tinha vindo e trouxera as setas todas. . quer fazer surpresas com alguma corça branca lá da floresta. também chamou Adão. também chamou Adão. Adão não vem? Aonde iria Adão?! Talvez que fosse á caça.O ECO Tão tarde. e uma voz de mulher também. . e Eva já sentia cuidados por tantas demoras. Foi-se triste para a tenda. Era p’lo entardecer. Teve medo: Mas julgando fantasia chamou de novo: Adão? E uma voz de mulher também.Outra que não Ela chamara também por Ele. Foi chamar ao cimo dos rochedos.

. cipreste procurando vaga na margem do caminho. Calou-se a flauta. era ela quem largava às galgas a lebre cinzenta.. um cipreste distante gemia baixinho as dores da tatuagem que lhe iam abrindo no peito. e ninguém acredita mas era pastora de galgas. estendido o focinho no ventre dela. de focinhos pendidos . O pastor lembrava ali o nome do seu Bem. Nas manhãs de Outono. Pendia-lhe da cinta uma lebre cinzenta e a funda torcida. frias como os degraus do tanque. E as galgas já nem dormiam bem noutra almofada. na sombra arrendilhada das folhas amarelecidas dos plátanos onde os repuxos do tanque cuspiam lágrimas de vidro. a Amazona negra sonhava o seu Príncipe encantado e a galga do dia dormia quieta. Figura negra muito esguia. Uma manhã mais turva as galgas todas voltaram tristes.e nenhuma para dormir a sesta! Uma flauta triste vinha de viagem pelo caminho. As galgas como setas deixaram nu o caminho. e a que a filasse já sabia com quem dormia a sesta. E as guizalhadas. chorava de seguida imensas canções de choros e tinha acompanhamentos funéreos de guizalhadas surdas.SÈVRES PARTIDO A amazona negra era bela como o sol e triste como o luar. Sobre a relva..

Depois dependurou-se de um galho rijo. teria tido como Ele um sorriso de desejos. E tem graça que a sua morenês não era por via do sol. iria como Ele fingir a sesta por debaixo da linda amoreira. Encantara-o aquela feiticeira afiando as tranças nos lábios molhados da saliva. de saias arregaçadas. co’a saia erguida á laia de cabaz.MIMA FATAXA Ela marcara-lhe na véspera aquele rendez-vous no muro do cemitério. ficou enfeitiçado por aqueles dentes brancos ferindo lume no colar de pederneiras. e a dar um nó-cego num retorcido nastro branco muito negro á laia de liga muito acima do joelho. meio tonta. matracas tagarelas a cantar nas lajes. E estranhava o seu coração vencido pela monotonia dos berros das cantorias com acompanhamentos de urros de pandeiro. De feito Ele tornara escrava de uma cigana a sua alma apaixonada de uma rainha loira senhora de todas as ciganas. E escarranchada no tronco deixava-se escorregar lentamente. abriu as mãos e foi de vez chapar-se na relva. tinha um telintar jovial. . meio embriagada p’las amoras em demasia. Fora dela desde o dia em que. Quem a visse trepar nas amoreiras e despi-las das amoras que lhe ensanguentavam os lábios e as faces e os dedos sem cuidar no vento que lhe levanta as saias. como uma cabra a espojar-se. de gata que brinca nos telhados vermelhos com a lua branca. mais do que amoras colhiam. seguindo o ritmo acanalhado das ancas desconjuntadas. E de bruços. E mais bela do que nunca no chafariz real. Enfeitiçara-o aquela vagabunda de olhos ardidos compondo as tranças nos fundos dos caldeirões de cobre onde durante o sol um tisnado cigano consumia as horas em maçadoras marteladas. E os seus olhos de gata. começou de juntar os frutos espalhados. E na descida. vê-la-ia tão bela como em sonhos se desenha uma mulher para nós.. pois toda ela era queimada. E nas danças o tic-tac metálico das sandálias. vermelhas da cor das papoulas. a lavar as pernas da poeira das estradas e belamente descomposta a enfiar as meias muito grossas. mas teve subida forçada por via da haste que ficava em riba. e os pulsos cingidos de guizos eram um concerto de amarelos canários contentes da gaiola. Sentiu desejos de morder aqueles lábios ardendo vermelhos incêndios de beijos e as faces fumadas do lume daquela boca..

na margem sombria. Que ficava fazendo sozinha? Quem leva uma lança. e o seu mal de morte vem do mesmo dia. E todas as noites. O seu xaile negro tem um segredo. e as moças finaram-se velhas.A SOMBRA (Tradução de um poema de uma língua desconhecida) Foi ali que um dia sentiu desejos de partir também. como um braço murcho de cipreste a boiar ao de cima da corrente que o vai levando mansamente. Os anos correram sem novas algumas. uma silhueta franzina de trágica sonâmbula vai seguindo. . leva a mulher também. velhas de tanto esperar.

feitas as pazes. as vestes brancas do Pierrot gatinhando silêncios por entre o amarelo dos girassóis. mentindo o sono. E porque ele se vem chegando perto. ficou combinado que ela dormisse outra vez. acaricia-lhe a fronte num grande perdão. . e já se debruçava por sobre os joelhos. Depois os joelhos redondos e lisos. E. ela mente ainda mais o sono a malressonar. quando ela acordou cansada de tanto sono fingir. E ele ameaça fugida. a beijar-lhe o ventre descomposto. não teve mão em si e foi descer-lhe um beijo mudo na negra meia aberta arejando o pé pequenino. E ela não dorme. magoada dos remorsos de Pierrot. espreita também de olhos descidos. E ela.A SESTA Pierrot escondido por entre o amarelo dos girassóis espreita em cautela o sono dela dormindo na sombra da tangerineira. Junto dela. e ela furta-lhe a fuga nos braços nus estendidos.

dize se vives ou se já nasceste. Eu amo a lua do lado que eu nunca vi. Eu amo a minha irmã gémea que nasceu sem vida.as lajes são espessas vidraças transparentes. Eu amo um sorriso que julgo ter visto em luz do fim-do-dia por entre as gentes apressadas. Eu amo aquela mão branca dependurada da amurada da galé que partia em busca de outras galés perdidas em mares longuíssimos. Tu. meu amor. dize onde moras. porque na luz fugida as silhuetas indecisas das mulheres são como as silhuetas indecisas das mulheres que vivem em meus sonhos. .CANÇÃO DA SAUDADE Se eu fosse cego amava toda a gente. Se eu fosse cego amava toda a gente. e eu vejo deitadas em leitos floridos virgens nuas. mulheres belas rindo-se para mim. que nome é o teu? Dize onde vives. Eu amo a noite. Eu amo aquelas mulheres formosas que indiferentes passaram a meu lado e nunca mais os meus olhos pararam nelas. e amo-a a fantasia-la viva na minha idade. Não é por ti que dormes em meus braços que sinto amor. Eu amo os cemitérios .

. pára um instante . sem terço nem nada. Nas areias ficaram as pegadas de um par que se beija. Julietas as ameias. Aquelas ruínas são o túmulo sagrado de um beijo adormecido .galgos brancos e Amazonas negras. a contar. ao largo. Aquelas ameias cingiram uma noite pecados sem fim. e foram calça-lo nas furnas onde ninguém vê.tem medo do frio dos subterrâneos. Heras como Romeus.cartas lacradas com ligas azuis de fechos de oiro e armas reais e lises.. Pobres velhinhas da cor do luar. O sapato dela desatou-se nas areias. Uma gôndola.. E a lua. E a lua velhinha todas as noites reza a chorar: Era uma vez em tempo antigo um castelo de nobres naquele lugar. Cavaleiros vermelhos e trombetas de oiro no cimo dos outeiros em busca de dois que faltam. Ouvem-se na sala que já nem existe. Grande caçada na floresta .. Poeiras adormecidas. . e sempre a rezar.RUÍNAS Pandeiros rotos e coxas taças de cristal aos pés da muralha. em bandolins distantes. Archeiros amordaçados na noite em que o coche era de volta ao palácio pela tapada d’El-rei. netas fidalgas de minuetes de mãos esguias e de cabeleiras embranquecidas. E o vento toca. compassos de danças e vizinhos de sedas. Noites de insónia com as galés no mar e a alma nas galés. e ainda guardam os segredos dos mudos beijos de muitas noites. e um pagem nas areias de lanterna erguida dizendo pela brisa o aviso da noite. surdinas finas de princesas mortas.

E a torre morena canta. Ha mãos postas entre as flores.choros lá dentro. .Noticias da guerra . molenga. Ardem círios. serpentinas. e crepes no brasão. doze vezes a mesma dor.

PRIMAVERA O sol vai esmolando os campos com bodos de oiro. mas o boieiro desconfiado foi procurando sempre. Quer lembrar-se mais. trazia pecados consigo. topou com ela e lhe perguntou se vira por acaso uma borboleta branca a voar a muito. E agora o moleiro... foi ter ao moinho ainda a bailar com ela... Fechou os olhos a cegar-se do mau pensamento. Sentiu desejos de dar um beijo no filho do Senhor Morgado. e mãos alheias a desapertarem-lhe as ligas e o corpete. mas foi dar consigo na sacristia a deixar o Senhor Prior beijar-lhe a mão... Que leves arrepios ao refrescar-se nas aguas! Depois foi de vez. e os campos despovoados dão-lhe licença para ficar nua.. coitado. E lembra-se ainda . Ah! e o boieiro quando. Mas o vento que vinha de lá das Azenhas-do-Mar. Como desejava poder ir com todos! Não sabe o que sente dentro de si que a importuna de bem estar.. a guiar a junta. que seja pecado! quer mais recordações do moinho. Não devia ter fugido.. A pastorinha aquecida vai de corrida a mendigar a sombra do chorão corcunda. mas foi lembrar-se do próprio Senhor Morgado á meia noite ao entrar na adega. Espreita os campos. enquanto ouve a historia triste do moinho com cinquenta malfeitores. meteu-se no tanque e foi espojar-se na relva. e depois as faces e depois a boca e depois. lá no arraial. fugiu.. a secar-se ao sol.sentada na grande arca. Teria a borboleta branca fugido para dentro dela? . e depois a testa. uma borboleta muito bonita! Que não. que não tinha visto. bailando com ela e sem querer. poeta romântico que tem paixão p’la fonte. mas não encontra mais.. e até mesmo por debaixo dos vestidos.. Abanou a fronte para lhe fugir o pecado. porque Deus é bom e perdoa tudo. E lembrou-se logo do beijo da horta no dia da feira.

A brisa fez-se gritos de pavões perseguidos. Por entre os pinheiros esgalgados. e o prato enlutou-se. E os punhais não brilhavam: eram luzes distantes. E o vento segredava por entre os pinheiros os medos que nasciam. E vinha vindo a Noite por entre os pinheiros. E a brisa que vinha dava gestos de azas vencidas aos lençóis de linho. os pinheiros gigantes. Mas a cigarra em algazarra de além do monte vem dizer-me que tudo dorme em silêncio na escuridão. chocam-se nos ares os punhais acesos. havia surdinas de gritos distantes . havia gemidos da brisa dos túmulos... Mãos ladras de sombra levaram a laranja. Escondidas todas por detrás de todos os pinheiros. A lua é uma laranja d’oiro num prato azul do Egipto com pérolas desirmanadas. Doem-me os cabelos. As sombras ao vê-la esconderam os punhais nos peitos vazios. silenciosamente. Vêem mais bruxas. e vinha descalça com pés de surdina por mor do barulho. E as silhuetas negras dos pinheiros embaloiçados na brisa eram um bailado de estatuas de sonho em vitrais azuis. azas brancas de garças caídas por faunos caçadores. devagar. trazem alfanges e um caixão. Veio a manha e foi como de dia: não se via nada. nascendo dos pinheiros e morrendo neles. E as sombras em danças macabras fugiam fumo dos pinheirais p’lo meu respirar.e distantes os ouviam os pinheiros esgalgados. eram guias de lençóis de linho escorridos de ombros franzinos. fecham-se-me os olhos e quatro anjos levam-me a alma. de braços estendidos p’ra não topar com os troncos. Faz-se a fogueira e as bruxas em roda rezam a gritar ladainhas da Morte. . E vinha a sonhar. por entre os pinheiros entristecidos.TREVAS De dia não se via nada. e vinha vindo a noite ceguinha como a lanterna que lhe pendia da cinta. mas p’la tardinha já se apercebia gente que vinha de punhais na mão.

á noite era o luar. Morreu a pastorinha e levou as mãos compridas. E o rebanho sem guia é o enterro da pastorinha. a pastorinha morta é a Senhora dos Milagres. está sem guia o rebanho. Na outra margem do rio deu á praia uma santa que vinha das bandas do mar. Onde estão os seus amores? Há prendas para Lhe dar.CANÇÃO A pastorinha morreu. A pastorinha morreu. Morreu a pastorinha e os seus olhos a rirem. As suas mãos compridas já não acenam de além. . Ninguém sabe se é ele e há prendas para Lhe dar. todos estão a chorar. A pastorinha em vida era uma linda pastorinha. Os seus olhos a rirem já não troçam de ninguém. morreu de seus amores. Ninguém a conhecia e todos estão a chorar. À beira do rio nasceu uma arvore e os braços da arvore abriram-se em cruz. Morreu a pastorinha. Vestida de pastora p’ra se não fazer notar. De dia era uma santa.

E os seus olhos rasgados. porcelana transparente como a casca de um ovo da Íbis. confundiam-se cintilantes no luzidio das porcelanas. ergueu alto os braços a pedir o Céu para Ele. José de Alma-Negreiros . E ela. gemiam com ele a adivinharem-lhe o fim. num grito de garça. Em roda tombavam-se adormecidos os ídolos coloridos e os dragões alados. fechou-lhe os lábios co’as pontas dos dedos. pérolas de Nankim a desmaiar-se em agua. que todos os que passavam olharam para Ela. e a saltitar foi pelos jardins a sacudir as mãos. E a gueisha.A TAÇA DE CHÁ O luar desmaiava mais ainda uma máscara caída nas esteiras bordadas. Ele. num gesto ultimo. e disse a finar-se: . Pela manhã vinham os vizinhos em bicos dos pés espreitar por entre os bambus. A estampa do pires é igual. enrodilhou-se num labirinto que nem os dragões dos deuses em dias de lágrimas. E os bambus ao vento e os crisântemos nos jardins e as garças no tanque. Deitou a cabeça nas esteiras e ficou. só te peço que não me atraiçoes enquanto o meu corpo for quente.Chorar não é remédio. e todos viram acocorada a gueisha abanando o morto com um leque de marfim.

POEMAS DE CÔRTES-RODRIGUES .

. metafísicas raras. arcos de comoção.. Colunas de Além-Sonho. ressurreições. Quebrou-se minha lança de guerreiro No combate da Dor. Litanias litúrgicas de febre de paixão. Modelei a minha Obra com minhas mãos avaras. Crepúsculos de fogo ardendo em sentimento.. Transfigurações.eterna comunhão. De onde a nau da minha Alma Parte pela noite calma A caminho do Além. E eis a grande rota seguida em mim somente. em funda adoração. e a Natureza No fundo longo. sensitivo da emoção. Armei-me cavaleiro. Emanações d’Amor que a alma diviniza Em Alma de outra Alma . Bisantinos jardins onde a Tarde agoniza.. Arquitectónicas teorias de Beleza. Fluidicos aromas em mística ascensão. Castelo esguio Sobre o rio Do Amor.“ABERTURA DO “LIVRO DA VIDA”“ Transcendências nublóticas.. Praia tão desconhecida Do mar da vida vivida Onde o luar nunca vem. Claustros de Arqui-Tristeza aonde o Pensamento Vive longe do mundo.

” .1914. E onde Tu e Eu iremos lentamente Da Vida para Deus.P’ra que parta do mundo e chegue até aos céus. “Lisboa .

e a noite sem estrelas Apavora. Delírio roxo d’agonia. “Lisboa . Abismo d’Outro Ser. Meus olhos de Não-ver-me são janelas Dando sobre o abismo. mas eu de vê-las Erro de Ser-me. E a Hora chora Nostálgica de Si. Perturbo-me de mim em sensação E dentro em mim desfalece E anoitece A sombra do meu Ser na solidão Do dia que morreu E se perdeu E jamais amanhece. Poente feito noite.“POENTE” As minhas sensações . Ocaso roxo. Escuridão. Cismo.1914.barcos sem velas Erram de mim.” . Prece.

Silencio.1914. Sonho de luz que em Ti me diviniza. Nimbam de luz a longa escuridão Da Vida que vivi. Meus olhos espectrais de comoção. E já sem ver-me. Maceração crepuscular de mim. Agonizo de Ser-me... Alma ungida E perdida Na grandeza de Si.“AGONIA” Ergo meus olhos vagos na distancia Da sombra do meu Ser. e a minha ânsia Cansa de me viver. Pairam de mim Além. “Lisboa . Tortura do meu fim. Auréola de dor que finaliza Na noite do abismo do meu nada. prece. Olhos de Alma olhando-se a Si.” . comunhão sagrada.

Rasguei os meus pés pelo caminho ido. opas. Por sobre a ponte Marcha sinistra a procissão dos monges. É tudo água só! E o horizonte Funde-se no céu. Peregrino voltei sem ser ouvido. Sob o arco Singrou sereno um barco A caminho do mar. ladainha. “Lisboa . Velas acesas.1914. Cadáver dos meus sonhos a boiar. E o rio deslizando para o mar. a calma de tudo quanto jaz No frio esquecimento! Sobre a ponte A procissão caminha. Nossa Senhora da Paz. Ai.” .“SÓ” O mar da minha vida não tem longes.. E as raparigas vêm à tardinha Buscar á fonte a água sem cantar. Ermida branca sobre o monte. Ó perdida visão da minha ânsia! Vejo-me só na lúgubre distancia..

Sou Saudade do Longe donde vim. E sou ânsia do Longe em que por fim Serei transfigurado. sonâmbula esquecida. Fui Outro e. Outro sendo. Passa triste e sozinha olhando os céus No caminho da Vida. O meu Ser é Não-Ser em Outro-Ser. E. místico. E minh’Alma. sem o ver. Vivo de Deus. Espirito na dor purificado. Outro serei.” . Passo no mundo alheio. Sinto erguer-se minh’Alma do profundo Abismo do meu Ser.“OUTRO” Passo triste no mundo. Outro vivendo a mística beleza Por esta humana forma que encarnei. ideal e vagabundo. N’Ele fitando os tristes olhos seus. “Lisboa . alheio ao mundo. Por lagrimas de sangue que chorei Na terra de tristeza. Ser que passa no mundo sem o ver.1914. Em esta pobre terra de pecado Amor divino em Deus extasiado. em Deus e para Deus. Vivo de Mim em Mim e para Mim E para Deus em Mim ressuscitado.

Côrtes-Rodrigues .

OPIÁRIO E ODE TRIUNFAL DUAS COMPOSIÇÕES DE ÁLVARO DE CAMPOS PUBLICADAS POR FERNANDO PESSOA .

Onda onde o pundonor é uma descida E os próprios gozos gânglios do meu mal. É por um mecanismo de desastres. . Tenho os nervos na forca.“OPIÁRIO” Ao Senhor Mário de Sá-Carneiro É antes do ópio que a minh’alma é doente. Tenho a impressão de ter em casa a faca Com que foi degolado o Precursor. Esta vida de bordo ha-de matar-me. sem hastes. E caí no ópio como numa vala. São dias só de febre na cabeça E. vinte a vinte. Ando expiando um crime numa mala. Já não encontro a mola pra adaptar-me. Sentir a vida convalesce e estiola E eu vou buscar ao ópio que consola Um Oriente ao oriente do Oriente. Que passo entre visões de cadafalsos Num jardim onde há flores no ar. Uma engrenagem com volantes falsos. Em paradoxo e incompetência astral Eu vivo a vincos d’ouro a minha vida. Vou cambaleando através do lavor Duma vida-interior de renda e laca. por mais que procure até que adoeça. Que um avô meu cometeu por requinte.

Trabalhei para ter só o cansaço Que é hoje em mim uma espécie de braço Que ao meu pescoço me sufoca e ampara. Mas é impossível que esta vida dure. Se nesta viagem nem houve procelas! A vida a bordo é uma coisa triste Embora a gente se divirta às vezes. Gostava de ter poemas e novelas Publicados por Plon e no “Mercure”. A terra é semelhante e pequenina E há só uma maneira de viver. Nasci numa província portuguesa E tenho conhecido gente inglesa Que diz que eu sei inglês perfeitamente. . agora Não faço mais que ver o navio ir Pelo canal de Suez a conduzir A minha vida. Por isso eu tomo ópio. suecos e ingleses E a minha mágoa de viver persiste. cânfora na aurora. Perdi os dias que já aproveitara. E fui criança como toda a gente. É um remédio. que fui sempre um mau estudante.Ao toque adormecido da morfina Perco-me em transparências latejantes E numa noite cheia de brilhantes Ergue-se a lua como a minha Sina. Eu acho que não vale a pena ter Ido ao Oriente e visto a Índia e a China. Falo com alemães. Eu.

afinal. Moro no rés-do-chão do pensamento E ver passar a Vida faz-me tédio. Fumo. É mais notado que eu esse criado De bordo que tem um belo modo alçado . Num navio qualquer um passageiro. Passo os dias no smoking-room com o conde Um escroc francês. Muito a leste não fosse o oeste já! Pra que fui visitar a Índia que ha Se não há Índia senão a alma em mim? Sou desgraçado por meu morgadio. aqui. Visitei a Irlanda. não sou senão.Sou um convalescente do Momento. Volto á Europa descontente. conde de fim de enterro. nem eu sei para onde. enfim. Vivi na Escócia. Ser varia gente insípida que vi. Canso. Não tenho personalidade alguma. Hoje. Meu coração é uma avozinha que anda Pedindo esmola às portas da Alegria. Ah uma terra aonde. Não chegues a Port-Said. Eu sou monárquico mas não católico E gostava de ser as coisas fortes. e em sortes De vir a ser um poeta sonambólico. Eu fingi que estudei engenharia. Gostava de ter crenças e dinheiro. Os ciganos roubaram minha Sorte. Talvez nem mesmo encontre ao pé da morte Um lugar que me abrigue do meu frio. navio de ferro! Volta á direita.

. Viu-me co’a sueca. Enoja-me o Oriente. Tenho pensado nisto muitas vezes. Não há gente como esta pra estar feita Com a Tranquilidade. Parece impossível Que mesmo ao ter talento eu mal o sinta! O facto é que esta vida é uma quinta Onde se aborrece uma alma sensível. Leve o diabo a vida e a gente tê-la! Nem leio o livro á minha cabeceira.. A minha Pátria é onde não estou. O comissário de bordo é velhaco. Um dia faço escândalo cá a bordo. Os ingleses são feitos pra existir. e acho fatais As iras com que às vezes me debordo. A morte é certa. Só para dar que falar de mim aos mais. . Escrevo estas linhas. É uma esteira Que a gente enrola e deixa de ser bela. Sou doente e fraco. Drogas americanas que entontecem. E eu já tão bêbado sem nada! Dessem Melhor cérebro aos meus nervos como rosas. a beber coisas. Não posso estar em parte alguma. Não posso com a vida.De “laird” escocês há dias em jejum. Levo o dia a fumar. e o resto ele adivinha. Pertenço a um género de portugueses Que depois de estar a Índia descoberta Ficaram sem trabalho. A gente deita Um vintém e sai um deles a sorrir.

. Lá querer Que eu leve a limpo uma vida destas Não se pode exigir.. Ora! um rapaz. E quem me olhar. Não haver um navio que me transporte Para onde eu nada queira que o não veja! Ora! Eu cansava-me do mesmo modo. Qu’ria outro ópio mais forte pra ir de ali Para sonhos que dessem cabo de mim E pregassem comigo nalgum lodo. Porque estes nervos são a minha morte. ha-de me achar banal. e como eu mística! . que ande metida Assim como eu na Linha. amigos. pra vestir para o jantar. esta lebre. Ah quanta alma haverá. A mim e á minha vida. Está corrida. Febre! Se isto que tenho não é febre. Vida social por cima! Isso! E marchar Até que a gente saia pla coleira! Porque isto acaba mal e ha-de haver (Olá!) sangue e um revólver lá pró fim Deste desassossego que há em mim E não há forma de se resolver. Que um raio as parta! E isto afinal é inveja. O facto essencial é que estou doente. Não sei como é que se tem febre e sente. O meu próprio monóculo me faz Pertencer a um tipo universal. Veio a noite.. Almas honestas Com horas pra dormir e pra comer..Caio no ópio por força. Tocou já a primeira Corneta.

Ser herói. Ah que bom que era ir daqui de caída Prá cova por um alçapão de estouro! A vida sabe-me a tabaco louro. Até virem meter-me no caixão. O absurdo como uma flor da tal Índia Que não vim encontrar na Índia. ainda que co’os cotovelos rotos. nasce No meu cérebro farto de cansar-se. o chá e a esteira. Mas é tão justo sê-lo! Pudesse a gente desprezar os outros E. nesta cadeira. Deixe-me estar aqui.. é calma. E afinal o que quero é fé. Nasci pra mandarim de condição. Nunca fiz mais do que fumar a vida. Não fazer nada é a minha perdição.Quantos sob a casaca característica Não terão como eu o horror á vida? Se ao menos eu por fora fosse tão Interessante como sou por dentro! Vou no Maelstrom. cada vês mais pró centro. Deus que acabe com isto! Abra as eclusas E basta de comedias na minh’alma! . amaldiçoado ou belo! Tenho vontade de levar as mãos À boca e morder nelas fundo e a mal. doido. Um inútil. A minha vida mude-a Deus ou finde-a.. Era uma ocupação original E distraía os outros. os tais sãos. Mas faltam-me o sossego. E não ter estas sensações confusas.

” “No canal de Sués. Março.“1914. a bordo.” .

Fazendo-me um excesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma. Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos. E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso De expressão de todas as minhas sensações. fera para a beleza disto. ó engrenagens. Ah. Porque o presente é todo o passado e todo o futuro E há Platão e Vergílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas Só porque houve outrora e foram humanos Vergílio e Platão. De vos ouvir demasiadamente de perto. estrugindo. Por todos os meus nervos dissecados fora. E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinquenta. Rugindo. e também o passado e o futuro.“ODE TRIUNFAL” Á dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica Tenho febre e escrevo. rangendo. Escrevo rangendo os dentes. poder exprimir-me todo como um motor se exprime! Ser completo como uma máquina! Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo! . ferreando. ó máquinas! Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força Canto. “r-r-r-r-r-r-r” eterno! Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria! Em fúria fora e dentro de mim. ó grandes ruídos modernos. Ó rodas. Átomos que hão de ir ter febre para o cérebro do Ésquilo do século cem. Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto! Tenho os lábios secos. ciciando. Com um excesso contemporâneo de vós. Andam por estas correias de transmissão e por estes êmbolos e por estes volantes. e canto o presente.

Membros evidentes de clubs aristocráticos. artificial e insaciável! Fraternidade com todas as dinâmicas! Promíscua fúria de ser parte-agente Do rodar férreo e cosmopolita Dos comboios estrénuos. vadios. E do quase-silêncio ciciante e monótono das correias de transmissão! Horas europeias. Rasgar-me todo. E Piccadillies e Avenues de l’Opéra que entram Pela minh’alma dentro! Hé-la as ruas. tornar-me passento A todos os perfumes de óleos e calores e carvões Desta flora estupenda. escroques exageradamente bem-vestidos. hé-lá as praças. Ou a seco. Do tumulto disciplinado das fábricas. nos planos-inclinados dos portos! Actividade internacional. e as rodas-dentadas e as chumaceiras do Progressivo! Nova Minerva sem-alma dos cais e das gares! Novos entusiasmos de estatura do Momento! Quilhas de chapas de ferro sorrindo encostadas às docas. Do giro lúbrico e lento dos guindastes. produtoras. entaladas Entre maquinismos e afazeres úteis! Grandes cidades paradas nos cafés. transatlântica. tudo o que pára às montras! Comerciantes. nos hotéis. negra. Nos cafés .oásis de inutilidades ruidosas Onde se cristalizam e se precipitam Os rumores e os gestos do Útil E as rodas. abrir-me completamente.Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto. Esquálidas figuras dúbias. chefes de família vagamente felizes E paternais até na corrente de oiro que atravessa o colete . “Canadian-Pacific”! Luzes e febris perdas de tempo nos bares. Da faina transportadora-de-cargas dos navios. Nos Longchamps e nos Derbies e nos Ascots. hé-lá-hô “la foule”! Tudo o que passa. erguidas.

De algibeira a algibeira! Tudo o que passa. E toda a gente simplesmente elegante que passeia e se mostra E afinal tem alma lá dentro! (Ah. cavaleiros-andantes da Indústria. a todos. Artigos políticos insinceramente sinceros. A graça feminil e falsa dos pederastas que passam. Como eu vos amo de todas as maneiras. mãe e filha geralmente. tudo o que passa e nunca passa! Presença demasiadamente acentuada das cocottes. Dos caixeiros-viajantes. molhados! “Vients-de-paraître” amarelos com uma cinta branca! Como eu vos amo a todos. E de vez em quando o cometa dum regicídio Que ilumina de Prodígio e Fanfarra os céus Usuais e lúcidos da Civilização quotidiana! Notícias desmentidas dos jornais. como eu desejaria ser o “souteneur” disto tudo!) A maravilhosa beleza das corrupções políticas. Banalidade interessante (e quem sabe o quê por dentro?) Das burguezinhas. debulhadoras a vapor. como todos os meus sentidos têm cio de vós! Adubos. . lentos. Deliciosos escândalos financeiros e diplomáticos. Notícias “passez à-la-caisse”. progressos da agricultura! Química agrícola. Que andam na rua com um fim qualquer. Com os olhos e com os ouvidos e com o olfacto E com o tacto (o que palpar-vos representa para mim!) E com a inteligência como uma antena que fazeis vibrar! Ah. grandes crimes Duas colunas deles passando para a segunda página! O cheiro fresco a tinta de tipografia! Os cartazes postos há pouco. Agressões políticas nas ruas. e o comércio quase uma ciência! Ó mostruários dos caixeiros-viajantes. a todos.

Pervertidamente e enroscando a minha vista Em vós. relatores de orçamentos. betão de cimento. Eh lá o interesse por tudo na vida. canhões. ó “music-halls”. ó laboratórios. banais. Ó coisas todas modernas. metralhadoras. submarinos. ó pontes. aeroplanos! Amo-vos a todos. novos processos! Progressos dos armamentos gloriosamente mortíferos! Couraças. desde os brilhantes nas montras . a tudo. Orçamentos falsificados! (Um orçamento é tão natural como uma árvore E um parlamento tão belo como uma borboleta). Completamente vos possuo como a uma mulher bela que não se ama. com que hoje se é diferente de ontem! Eh. ó coisas grandes. Eh-lá-hô fachadas das grandes lojas! Eh-lá-hô elevadores dos grandes edifícios! Eh-lá-hô recomposições ministeriais! Parlamentos. Que se encontra casualmente e se acha interessantíssima.Prolongamentos humanos das fábricas e dos calmos escritórios! Ó fazendas nas montras! ó manequins! ó últimos figurinos! Ó artigos inúteis que toda a gente quer comprar! Olá grandes armazéns com várias secções! Olá anúncios eléctricos que vêm e estão e desaparecem! Olá tudo com que hoje se constrói. Ó minhas contemporâneas. cimento armado. Ó couraçados. Amo-vos carnivoramente. como uma fera. Porque tudo é a vida. úteis. políticas. inúteis. ó docas flutuantes Na minha mente turbulenta e encandescida Possuo-vos como a uma mulher bela. ó Luna-Parks. forma actual e próxima Do sistema imediato do Universo! Nova Revelação metálica e dinâmica de Deus! Ó fábricas.

as dificuldades de dinheiro. catedrais! Deixai-me partir a cabeça de encontro às vossas esquinas. As dissensões domésticas. os deboches que não se suspeitam. funiculares. metropolitanos. que vidas complexas. Rio multicolor anónimo e onde eu não me posso banhar como quereria! Ah. eh-lá. Ó automóveis apinhados de pândegos e de putas. E ser levantado da rua cheio de sangue Sem ninguém saber quem eu sou! Ó tramways. Roçai-vos por mim até ao espasmo! Hilla! hilla! hilla-hô! Dai-me gargalhadas em plena cara. que coisas lá pelas casas de tudo isto! Ah. olhar é em mim uma perversão sexual!) Eh-lá. E falava com Aristóteles. Os pensamentos que cada um tem a sós consigo no seu quarto .Até á noite ponte misteriosa entre os astros E o mar antigo e solene. Eu podia morrer triturado por um motor Com o sentimento de deliciosa entrega duma mulher possuída. que havia de não ser discípulo dele. saber-lhes as vidas a todos. Atirem-me para dentro das fornalhas! Metam-me debaixo dos comboios! Espanquem-me a bordo de navios! Masoquismo através de maquinismos! Sadismo de não sei quê moderno e eu e barulho! Up-lá hô jockey que ganhaste o Derby. lavando as costas E sendo misericordiosamente o mesmo Que era quando Platão era realmente Platão Na sua presença real e na sua carne com a alma dentro. Morder entre dentes o teu “cap” de duas cores! (Ser tão alto que não pudesse entrar por nenhuma porta! Ah. Ó multidões quotidianas nem alegres nem tristes das ruas. eh-lá.

Cujos filhos roubam às portas das mercearias E cujas filhas aos oito anos . anda à roda. que parece sempre a mesma. Para quem nenhuma religião foi feita. Nenhuma política destinada para eles! Como eu vos amo a todos. Que emprega palavrões como palavras usuais. Limpa o suor com o braço. trabalhador descontente. Ó raiva que como uma febre e um cio e uma fome Me põe a magro o rosto e me agita às vezes as mãos Em crispações absurdas em pleno meio das turbas Nas ruas cheias de encontrões! Ah. É o mistério do mundo é do tamanho disto.e eu acho isto belo e amo-o! Masturbam homens de aspecto decente nos vãos de escada..) Mas. E outra vez a fúria de estar indo ao mesmo tempo dentro de todos os comboios .. porque sois assim. Pinheirais onde a minha infância era outra coisa Do que eu sou hoje.E os gestos que faz quando ninguém o pode ver! Não saber tudo isto é ignorar tudo. Nem imorais de tão baixos que sois. Inatingíveis por todos os progressos. ah outra vez a raiva mecânica constante! Outra vez a obsessão movimentada dos ónibus. e a gente ordinária e suja. Fauna maravilhosa do fundo do mar da vida! (Na nora do quintal da minha casa O burro anda à roda. Que está abaixo de todos os sistemas morais. Maravilhosa gente humana que vive como os cães. Ó pinheirais sombrios ao crepúsculo. Nenhuma arte criada. A luz do sol abafa o silêncio das esferas E havemos todos de morrer. ó raiva. nem bons nem maus. A gentalha que anda pelos andaimes e que vai para casa Por vielas quase irreais de estreiteza e podridão.

salvo o Momento. ó chapas de ferro ondulado! Ó cais. O momento estridentemente ruidoso e mecânico. O Momento de tronco nu e quente como um fogueiro. Ruído. acolá. ó alumínio. invasões. Ao ruído cruel e delicioso da civilização de hoje? Tudo isso apaga tudo. Engenhos. ó rebocadores! Eh-lá grandes desastres de comboios! Eh-lá desabamentos de galerias de minas! Eh-lá naufrágios deliciosos dos grandes transatlânticos! Eh-lá-hô revoluções aqui. tratados. brutos. máquinas rotativas! Eia! eia! eia! Eia electricidade. aparelhos de triturar. ó aço. mínimos. Ó ferro. Alterações de constituições. ó guindastes. E outro Sol no novo Horizonte! Que importa tudo isto. ó portos. de cavar. mas que importa tudo isto Ao fúlgido e rubro ruído contemporâneo. eia hotéis à hora do jantar. Kiel. ó comboios. Suez! Eia todo o passado dentro do presente! Eia todo o futuro já dentro de nós! eia! Eia! eia! eia! Frutos de ferro e útil da árvore-fábrica cosmopolita! Eia! eia! eia! eia-hô-ô-ô! . Eia aparelhos de todas as espécies. Eia comboios. eia pontes. guerras. férreos. ali. violências. Instrumentos de precisão. Panamá. A grande invasão dos bárbaros amarelos pela Europa. brocas. eia canais. e talvez para breve o fim. O Momento dinâmico passagem de todas as bacantes Do ferro e do bronze e da bebedeira dos metais. simpatia metálica do Inconsciente! Eia túneis. Que a estas horas estão levantando ferro ou afastando-se das docas. De estar dizendo adeus de bordo de todos os navios. nervos doentes da Matéria! Eia telegrafia-sem-fios.De todas as partes do mundo. injustiças.

Eia! eia-hô! eia! Eia! sou o calor-mecânico e a electricidade! Eia! e os “rails” e as casas de máquinas e a Europa! Eia e hurrah por mim-tudo e tudo. Giro dentro das hélices de todos os navios. a publicar.Nem sei que existo para dentro. hup-lá-hô.Junho.” Álvaro de Campos Dum livro chamado “Arco de Triunfo”. hup-lá! Hé-há! Hé-hô! Ho-o-o-o-o! Z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z! Ah não ser eu toda a gente e toda a parte! “Londres. Giro. máquinas a trabalhar. hup-lá. engenho-me. Içam-me em todos os cais. 1914 . Engatam-me em todos os comboios. eia! Galgar com tudo por cima de tudo! Hup-lá! Hup-lá. rodeio. .

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