A “vocação atual” da sociologia rural

Para uma abordagem das questões atuais que se colocam à sociologia rural - o verdadeiro objetivo deste texto1[1] -, é indispensável introduzir um quadro geral que esclareça a respeito da possibilidade de formulação dessas questões e mostre o sentido que é preciso trabalhar a fim de respondê-las. Este texto está organizado em torno de três eixos: um posicionamento da sociologia rural em relação à sociologia geral, que é o seu pressuposto absoluto; um posicionamento da sociologia rural diante das outras ciências sociais que estudam o mundo ou o espaço rural, o que se justifica pelas trocas importantes que ela tem com as mesmas - e, inversamente, as relações que as ciências sociais mantêm com a disciplina -; e uma reflexão sobre a curta história da sociologia rural, um preâmbulo indispensável para uma reflexão sobre sua presente situação e sobre o modo de perceber suas tarefas atuais e futuras. Três referências básicas A sociologia rural: aplicação da sociologia geral2[2] A sociologia rural - antes de tudo, trata-se aqui da sociologia rural francesa, podendo, contudo, o que será dito ser generalizável - jamais reivindicou o estatuto (absurdo) de disciplina única, à parte.3[3] Uma tal afirmação pareceria evidente. Em compensação, as conseqüências que necessariamente devem ser tiradas disto, são menos freqüentemente (para não dizer jamais) mencionadas e não são objeto da atenção que se impõe, se se pretende ver a sociologia rural como sociologia: se a sociologia rural, antes de tudo, é sociologia, ela pura e simplesmente se integra nas evoluções gerais - temáticas, metodológicas, teóricas - da sociologia. Isto, aliás, é patente, se se considera a sua própria história: é assim que ela, cada vez mais - ou simultaneamente - foi durkheimiana, funcionalista, culturalista, marxista, estruturalista, weberiana etc. Não existe, portanto, “escola” de sociologia rural, mas, através da sociologia rural, há análises de inspirações teóricas diversas que propõem diferentes maneiras de integrar as dimensões sociológicas da atividade agrícola e do mundo rural em uma análise de conjunto da sociedade francesa e, mais largamente, das “sociedades industriais”. (Henri Mendras propôs inclusive uma teoria geral válida para todas as sociedades). Desta proposição - que também é uma constatação - decorre toda uma série de indagações: como a sociologia rural seguiu estas evoluções? Ela simplesmente as seguiu ou, a seu modo, contribuiu para provocá-las? Uma resposta suporia uma análise mais detalhada, o que não será feita aqui, porque isto exigiria uma pesquisa específica.

1[1] O leitor já deve ter percebido a referência implícita ao título da obra de Georges Gurvitch (1950).
Contudo, devemos esclarecer aqui que ela não é propriamente uma obra de sociologia rural.

2[2] Precisemos bem: dizer que a sociologia rural é uma “aplicação” da sociologia geral não quer
dizer que a sociologia rural seja uma “ciência aplicada” (como foi algumas vezes afirmado). Quer-se dizer que a sociologia rural é um “ramo” da sociologia geral, tão fundamental quanto esta.

3[3] É interessante a este propósito consultar os primeiros escritos referentes à sociologia rural do
pós-guerra. Uma rápida pesquisa neste sentido conduz a resultados um pouco surpreendentes: o primeiro indício que encontrei de um curso de “sociologia rural” faz pensar que foi o Instituto de Estudos Políticos de Paris quem teve o papel pioneiro na matéria! Outras surpresas: este curso foi inicialmente confiado a dois geógrafos (em 1948-1949), em seguida a Jean Stoetzel (1951-1952), antes de ser atribuído a Henri Mendras. As apostilas dos cursos de Jean Stoetzel e Henri Mendras (cf. particularmente a apostila de 1963-1964), assim como a do curso dado por Henri Mendras no IHEDREA (s/d), começam sempre por uma precisão muito fundamentada referente à vinculação da sociologia rural à sociologia geral: Jean Stoetzel, Sociologie rurale, 1951-52 (curso ministrado no Instituto de Estudos Políticos de Paris, 304 p. datil.; Henri Mendras, Sociologie rurale, Paris. Os cursos de Direito, 1956-1957, 3 fascículos, 282 p. mimeo.; Henri Mendras, Sociologie rurale, Paris, Institut d’Études Politiques de Paris, Amicale des Éleves, 1963-1964, 216 p. mimeo.; Henri Mendras, Sociologie rurale, Paris, IEP de Paris, Amicale des Éleves, 1967-1968, 3 fascículos, 295 p. mimeo.; Henri Mendras, Sociologie de la campagne française, Que sais-je? n. 842, Paris, Presses universitaires de France, 1959 (reedição 1965), 128 p.; Henri Mendras, Sociologie rurale: notions générales et sociologie du changement, Institut des hautes études de droit rural et d’économie agricole (IHEDREA), s/d, 59p, mimeo.

Sociologia rural e ciências sociais da ruralidade: uma escola ruralista? Uma vez feitas as referências aos fundadores, pode-se continuar discutindo este tema que parece ser realmente central para a sociologia rural. Eis, por exemplo, o que escreveu Henri Mendras em 1958: “O ‘meio’ rural é um campo de investigação para todas as ciências sociais e seu estudo não poderia constituir uma disciplina autônoma. Os geógrafos que analisam as relações entre o homem e o meio natural e a distribuição espacial dos fenômenos humanos começaram naturalmente a se debruçar sobre o campo. A economia rural é um ramo (um dos mais antigos) da economia política. Ligando-se a um passado em que a agricultura era a atividade exercida pela maioria dos homens, a história social dá um grande destaque à descrição da vida camponesa. Os etnólogos estudam as estruturas ditas ‘arcaicas’ nas quais a busca ou a produção de alimentos ocupam todos os homens. Enfim, citadinos e rurais interessam igualmente ao psicólogo, ao demógrafo, etc. Enquanto homens iguais aos outros, os rurais também dizem respeito a cada ciência social. Entretanto, eles vivem em um meio particular que requer uma certa especialização do pesquisador e, às vezes, uma problemática diferente. Como o etnógrafo, o sociólogo rural deve, portanto, conhecer os métodos e as técnicas de todas as outras ciências sociais, a não ser que conte com a colaboração de uma equipe de diversos especialistas.” Encontra-se aqui uma profissão de fé que remete ao que se chama a interdisciplinaridade dos “ruralistas”.4[4] A démarche do “ruralista” ambiciona integrar todas as dimensões do social, o tempo, o espaço, o local e o global. Trata-se de uma démarche que se qualificaria hoje de holística (ou holista). Do ponto de vista sociológico stricto sensu, esta démarche se caracteriza também pela sua “transversalidade”. Isto aparece, por exemplo, particularmente nos planos das obras gerais de sociologia rural: por um desvio de alguma forma paradoxal, a sociologia rural, em princípio “especialidade” da sociologia, aparece de fato como uma sociologia “generalista” em si. O sociólogo rural se interessa por todo um conjunto de aspectos da vida social que é dividido, por sua vez, em várias “especialidades” da sociologia - sociologia política, sociologia da família, sociologia das religiões etc. Portanto, é pelo seu “objeto” - seria melhor falar de “campo de aplicação” - e não por uma “teoria” ou uma “escola de pensamento” particular, que a sociologia rural se define. Deste ponto de vista, podese bem seguir Michel Robert (1986: 5-6) quando ele escreve: “Com suas duas correntes bem nítidas, a sociologia rural se definirá, portanto, mais pelo seu campo de ação do que por uma coloração teórica original. Nisto, pode-se compará-la à sociologia urbana na qual se pensa imediatamente, embora a sociologia rural não seja sua antítese. Estas duas disciplinas não são construídas uma em relação à outra, nem a fortiori, uma contra a outra. Tendo dividido entre si o espaço e seus habitantes, elas seguem cada uma a sua rota teórica sem mesmo ter sempre relações elementares que seriam desejáveis”. É o que diz também Henri Mendras, escrevendo no Traité de Sociologie de Georges Gurvitch: “Se não se limita a uma sociologia agrícola especializada, a sociologia rural se define, portanto, pelo seu campo de estudo, as sociedades rurais” (Mendras, 1958: 316). É desta proposição que decorre uma interdisciplinaridade que “exige (pois) o concurso de todas as ciências sociais para chegar a uma integração dos diversos aspectos da vida rural. Nesta perspectiva, o sociólogo rural atribui a si mesmo uma dupla tarefa, por um lado, estudar os aspectos da sociedade que dizem respeito a sua ou a suas especialidades, e, por outro lado, reinterpretar e integrar, desde seu ponto de vista, os materiais que os pesquisadores de outras disciplinas lhe oferecem” (Mendras, 1958). Henri Mendras imediatamente acrescenta uma precisão que muda uma leitura à primeira vista estritamente “objetiva” da afirmação (no sentido de constitutiva de um “objeto” de uma certa forma “físico”): “Esta definição compreensiva parece-nos impor-se nos países de campesinato tradicional, notadamente na França. A sociedade rural conserva aí uma certa autonomia diante da sociedade global e é impossível reduzi-la a um grupo profissional, a um setor econômico ou a uma classe social, entre outros” (Mendras, 1958). Segundo ele, a justificativa da sociologia rural repousa, assim, no postulado - que poderia também ser tratado como uma hipótese - da existência, “nos países que têm um campesinato tradicional”, de uma “sociedade rural” (?) que “conserva uma certa autonomia face à sociedade global”. Assim definido esta é a definição de Henri Mendras, mas que pesou fortemente na sociologia rural durante pelo

4[4] Esta interdisciplinaridade está, por exemplo, na própria base da filosofia e da ação da Associação
dos Ruralistas Franceses.

menos 20 anos - o objetivo da sociologia rural é, de uma certa forma, demonstrar a validade desta proposição (desta hipótese, poderíamos dizer). Daí, a ênfase posta progressivamente na “mudança social” que deslocará as “sociedades rurais” de seu estatuto de “autonomia relativa” - o das sociedades camponesas - à sua integração total à sociedade global - através da passagem dos “camponeses” à condição de “agricultores”, estes últimos cada vez mais vistos como “um grupo profissional... um setor econômico ou... uma classe social, entre outros”. Uma hipótese forte cimenta as análises especificamente sociológicas de temas precisos do mundo rural: a de que existem laços estreitos entre os diferentes aspectos da vida social que leva a que estes aspectos sejam do domínio de diferentes áreas da sociologia ou de outras ciências sociais - a economia, a geografia, a etnologia, e a história, evidentemente - e a se reconhecer que é preciso, portanto, tratar de considerar todos estes aspectos conjuntamente como condição para compreender as evoluções do mundo rural e lhes dar uma interpretação verdadeiramente sociológica. Daí a busca constante da transversalidade no seio da sociologia e da interdisciplinaridade com as outras ciências sociais dedicadas ao tema. Daí, também o risco que os sociólogos rurais correm de parecerem fechados - juntamente com os outros “ruralistas” - limitados ao estudo do mundo rural “específico” e “fechado”. De fato, uma análise detalhada dos trabalhos dos sociólogos rurais mostraria que não se trata disto e que a preocupação de situar as evoluções do mundo rural no interior das evoluções da sociedade global é constante e sistemática. Deve-se sublinhar que esta dupla preocupação já é uma característica forte da sociologia rural, mantendo ao mesmo tempo suas preocupações com uma coerência de uma certa forma “interna” ao “mundo rural” (a expressão assume aqui todo o seu sentido) e com a integração deste conjunto a uma lógica global (uma coerência, de uma certa forma “externa”) de uma sociedade dita “englobante” para marcar esta “exterioridade atuante”. Pode-se dizer que esta é uma proposição e uma “postura” sociológicas de caráter geral e básico (que exigiria, diga-se de passagem, um exame aprofundado): ao mesmo tempo um exercício difícil de se fazer, uma espécie de desafio difícil de se manter. Mas, afinal de contas, não é o que torna interessante e mesmo justifica uma démarche de sociologia aplicada a qualquer uma das malhas, elementos ou aspectos da vida social? Em suma, não é essa uma das exigências fundamentais da análise sociológica e, portanto, do próprio trabalho do sociólogo? Sociologia rural e sociedade: dentro e fora Uma análise mais atenta da história da sociologia rural mostraria sem dificuldade o quanto esta história está ligada, através de suas temáticas - e talvez precisamente através da própria orientação de suas análises - às questões que são colocadas (às vezes, inclusive nos termos em que são postas) a respeito do mundo rural, da agricultura e dos agricultores na própria sociedade francesa. Não me parece esquematizar excessivamente se disséssemos que cinco e principais temas organizaram ao longo do tempo o questionamento que sociólogos rurais constantemente se têm feito através de ponderações variáveis e de enunciados igualmente diversos, se comparados os momentos em que são apresentados. O primeiro deles diz respeito às relações - e mais precisamente, na linguagem da época, à oposição cidade-campo. Este velho tema, que reaparece com mais força desde o final da guerra, tem um lado “acadêmico”: ele remete a antigas reflexões dos geógrafos e dos historiadores. Mas a forma como é retomada no pós-guerra corresponde muito diretamente a preocupações sociopolíticas maiores. Tratava-se então de lançar a França a uma política de reconstrução, industrialização e modernização e a questão que se punha era a de saber se esta componente essencial da sociedade que são os campos - entendamos “agrícolas” - na França dos anos 1950 será capaz de se adaptar às mudanças indispensáveis. Para a cidade, “civilização de conquista”, como Braudel a caracterizará mais tarde, a questão não se coloca: apenas se põe a questão de saber o que vai acontecer com elas em uma fase de crescimento rápido - o que será a questão central e “organizadora” da sociologia urbana. Está-se, assim, em um campo sócio-político e a sociologia rural vai tomar para si, sob diferentes formas, as questões decorrentes. Estas questões ressurgem periodicamente durante todo este meio século, com as formulações que evoluem em função das mutações sociais, econômicas, demográficas, etc. Algumas noções servem de referência nesta interrogação permanente da sociedade francesa sobre si mesma: desertificação (dos campos), rurbanização, terras não cultivadas, uniformização (dos modos de vida), morte (ou renascimento) do rural, etc. A sociologia rural - mas as outras ciências sociais igualmente o são - é constantemente interpelada pelo que se poderia chamar o “discurso social” sobre o rural. Ela também tenta dar as suas respostas.

Se nos fixarmos na cronologia, parece-me que o segundo tema a evocar é o das transformações da agricultura, não só do estabelecimento agrícola, e do trabalho do agricultor, mas também - tendo em vista o estreito laço entre o estabelecimento e a família - a transformação da família agrícola. Trata-se aqui do domínio da política agrícola que ocupa um lugar crescente na vida política a partir dos anos 50 até hoje. Tendo experimentado uma considerável “modernização”, sob o impacto de um movimento social poderoso e dinâmico na Quinta República - já em curso na Quarta, mas uma das grandes construções daquela - a agricultura ocupa um lugar de destaque na vida social - e sobretudo política - nesse período. Uma tal voragem sociológica era, evidentemente, um estímulo para os sociólogos rurais, a tal ponto de a sociologia rural ser considerada, com justiça, como tendo sido largamente infiel a sua vocação para se reduzir a uma sociologia dos agricultores (Robert, 1986). O terceiro tema, que já aparece no primeiro e prossegue no segundo, é o do lugar que os camponeses, e depois, os agricultores, ocupam na sociedade francesa e, mais particularmente, na estrutura e na vida política do país. Esta questão não é apenas o pano de fundo das transformações em curso, tanto nas relações entre a agricultura e a economia nacional, quanto nas relações entre cidade e campo: ela é claramente colocada pelos líderes do movimento social dos “jovens agricultores” (Debatisse, 1963; Lambert: 1970) e por aqueles que se poderia chamar de seus “intelectuais orgânicos” (Faure: 1966). Esse tema constitui, como já se viu, um dos capítulos inevitáveis - e, por assim dizer, até mesmo, uma forma de conclusão - em qualquer apresentação de conjunto da sociologia rural. O quarto tema, embora tenha surgido bem depois e mais como uma resposta a ele, poderia ser incluído no primeiro como um dos seus itens. Trata-se do tema do desenvolvimento local, inicialmente com o movimento das localidades (“pays”), o slogan “viver em sua própria localidade” (vivre au pays); depois, com as políticas de desenvolvimento rural, seus múltiplos recortes espaciais e procedimentos às vezes bastante inovadores na ação da administração (com a introdução dos planos de desenvolvimento rural, por exemplo). E hoje com os debates sobre o futuro do mundo rural no quadro de uma política de organização do território. Um último tema deve, enfim, ser evocado (embora este texto não pretenda exauri-lo): o do meio ambiente. É a questão mais nova, mesmo que sejam muitos os seus antecedentes que podem ser encontrados na sociologia rural (Mathieu & Jollivet, 1989). Como “discurso social”, ele é incontestavelmente um tema recente. Nele pode-se incluir a referência, tão atual quanto florescente, às paisagens. E, de forma mais geral, o problema das relações com a “natureza”, que constitui o pano de fundo - para não dizer o próprio fundamento - da questão do meio ambiente. Se não foi a partir da agricultura e do campo que as preocupações ambientais tomaram corpo (as primeiras vieram com a indústria e suas “poluições”), a agricultura, os recursos naturais renováveis (a água em particular, mas também os solos, as florestas, etc), a qualidade dos produtos agrícolas e do espaço rural não tardaram a entrar em cena, e mesmo a ocupar um lugar especial no tema do meio ambiente. Os “ruralistas” - e em particular os sociólogos - no campo das ciências sociais, foram os primeiros a se interessar por estas questões, a ponto de Bernard Kalaora dizer que seria necessário que as pesquisas em ciências sociais sobre o meio ambiente se liberassem da influência daquelas, influência julgada excessiva e tendente a se fechar. Até aqui, esta lista de temas recobre o essencial e ilustra suficientemente o nosso propósito, de apenas chamar a atenção para a estreita correspondência entre as grandes temáticas da sociologia rural e o que se poderia chamar as “questões da sociedade”. Em função da ótica considerada, três observações podem ser formuladas. Primeiro, foi sem razão que se acusou a sociologia rural de se fechar em sua “torre de marfim”; ao contrário, ela tentou trazer suas respostas às interrogações da sociedade que eram de seu domínio. Segundo, teria ela, ao fazer isto, pecado por um excesso de oportunismo? Foi ela, afinal, “teleguiada” de alguma forma pela “demanda social?” Observemos, desde logo, que parece lógico que as ciências sociais tratem dos problemas que se colocam na sociedade e para os quais elas são competentes. Sobre este ponto, notar-se-á que todos os temas evocados fazem parte da matriz inicial da sociologia rural. De fato, estes temas são mais recorrentes que sucessivos; apenas, ao “gosto do dia”, suas formulações sucessivas lhes dão uma aparência de novidade irredutível. Ao contrário, o que devem fazer as ciências sociais é precisamente mostrar que se trata de avatares, de desenvolvimentos circunstanciais de questões de fundo. Para isto, o que elas devem fazer é igualmente abandonar o discurso comum, na medida em que este é susceptível de ocultar os problemas reais. Emprega-se aqui uma fórmula da qual a prudência esconde mal a pretensão, para não dizer a imprudência: cada ator social tem sua concepção do que sejam os problemas reais - são aqueles que eles enfrentam em sua ação ou em seus interesses imediatos.

nem ao caráter basicamente empírico da sociologia. Em outras palavras. enquanto tais. por exemplo. a sociologia rural opôs sua formulação própria dos problemas à dos atores profissionais e do Estado? Por sua “distância crítica” em relação ao real. e que parecem indispensáveis para a discussão presente. tanto da sociedade quanto da sociologia.e que conserva o seu modo próprio de ver: eis aí. seria muito instrutiva. uma análise comparada das duas démarches. esta atitude é uma das grandes características da sociologia rural francesa e um dos pontos sobre os quais ela mais se diferenciou da “sociologia agrícola” de inspiração americana . o mais preparados possível. os pontos de vista e as avaliações são evidentemente diferentes. o outro. a uma epistemologia da sociologia. Questões atuais Duas questões definem o essencial: a sociologia rural. mas não se justifica mais atualmente. A identificação de um ramo da sociologia que se dedica a sua análise pôde se justificar. aquelas que escapam à consciência dos atores. A segunda maneira de negar a pertinência da sociologia rural é indagar se o “objeto” que ela reivindica como seu .e isso talvez faça uma grande diferença em relação à economia (ou pelo menos a uma certa economia) e à geografia (ou pelo menos uma certa geografia). querer responder com precisão a tal questão seria uma pesada tarefa.continuam existindo (se é que existiram em algum momento). e ainda menos lhes fornecer. configurando os dois grandes esquemas analíticos que ela propõe para compreender as evoluções contemporâneas da agricultura e das sociedades rurais nas sociedades ditas “industriais”. no curso deste período. pelo menos.e em vigor especialmente na Holanda. Ao contrário.que assume hoje. entre outras. até mesmo. o que se pode dizer é que essas questões têm importância e mereceriam hoje um exame atento para que possamos. mesmo neste caso. não teria sido porque ela nunca aceitou responder às questões tal qual estas lhe foram colocadas . Além disso. tal como foi herdada das últimas quatro ou cinco últimas décadas. que formularia questões-chave estruturantes da disciplina em torno das quais o trabalho da comunidade dos sociólogos se organizaria. as suas razões. de “sociedades rurais . Deste ponto de vista. neste caso.as “sociedades rurais” . dar conta. no domínio das pesquisas sobre a inovação. Portanto. Esse tipo de atitude pode ser vista sob dois ângulos: um remete à história. A primeira consiste em afirmar que a sociologia rural nunca teve pertinência e sempre foi um artefato ideológico. uma visão essencialista e idealista. com a renovação das questões sobre as “tecnologias”. digamos. Segundo esta maneira de ver. Considerada no primeiro aspecto. algumas pistas para realizar aquele balanço. herdadas das sociedades agrárias de onde elas procedem. tem ainda pertinência? Se sim. são. qual seria essa pertinência? qual a base das suas problemáticas e “objetos”? No que se refere às justificativas da sociologia rural há duas maneiras possíveis de ver as coisas. A propósito. Sobre este balanço. A crítica que ela fez ao discurso da “rotina camponesa” ou. e inclusive estruturas.e. que em nada corresponde. ela suporia a existência de um esquema de referência teórico aceito por todos os sociólogos. que é a de evidenciar as “lógicas sociais” implícitas ou. Devese notar que uma tal afirmação é coerente com a definição de Henri Mendras. A terceira questão que pode ser colocada consiste em saber se a sociologia rural conseguiu. e cujos discursos não podem. Considerada do ponto de vista da estrutura interna da sociologia. ter-se-ia. quase próxima do seu “objeto” . o “rural” não existe mais. à recusa da idéia de que as sociedades industriais possam conservar traços. ao que parece. nem às exigências da especialização dos conhecimentos pela divisão do trabalho científico.Mas esta “pretensão” é a mesma da sociologia. aquela atitude equivaleria a uma negação da história social que vai da sociedade feudal à sociedade industrial ou. a sua análise crítica do processo de inovação . Deve-se precisar ainda que. elaborar um instrumental intelectual à altura de suas ambições. um novo relevo e ao “modelo de desenvolvimento” operado pela política agrícola a partir dos anos 60 (agora questionado). Se a sociologia rural foi acusada de permanecer em sua “torre de marfim”. Estes são elementos gerais básicos para um “enquadramento” da sociologia rural. ao movimento “neo-ruralista”. uma sociologia rural muito sensível aos avatares do questionamento social sobre o rural . a característica da sua “postura” durante este meio século de sua história. mais tarde. seria preciso sociólogos competentes no estudo dos aspectos da realidade social em questão para realizar de maneira rigorosa e informada as pesquisas necessárias. abordar as tarefas futuras.

Diante desta avalanche de questões e de argumentos contraditórios. apoiando-se em um corpus de textos ad hoc. através da necessidade de se conceber os sistemas de produção agrícolas “respeitadores do meio ambiente”. os dois planos sobre os quais elas devem ser examinadas . como as que se presume existir nas sociedades industriais. É. isto é. Um primeiro bloco de questões gira em torno da diminuição da população ativa agrícola e suas conseqüências: há um debate particularmente aberto sobre o tema do número de estabelecimentos agrícolas (inclusive sobre o número que se deve ter como meta) que haverão de subsistir nos futuros dez ou vinte anos. assim procedendo. portanto. que trata da evolução da população dita rural.com o necessário abandono à referência às “2 UTH” (unidade de trabalho utilizada como referência nas análises sobre a moderna agricultura familiar). levar em conta. como. Esta primeira discussão se prolonga em outra. quer as reivindicações das populações locais relativas a sua situação de vida. Trata-se. que seria possível justificar a pertinência ainda hoje da sociologia rural. deve passar à sua formulação sociológica. Que problemáticas e que objetos? Esta reflexão se inscreve no prolongamento da análise acima desenvolvida. O questionamento social e a sociologia rural Quatro séries de questões podem ser colocadas.por exemplo. catastrofista das coisas . Após o enunciado da questão.e inversamente. quer a emergência de políticas relacionadas com as novas funções do espaço rural. Para caracterizá-la. antes de mais nada. através do grupo dos agricultores em dificuldade . através de uma . o que implica em evidenciar suas dimensões propriamente sociológicas e/ou dos objetos referidos.ou. dar uma imagem “objetiva” das evoluções e situações reais e proceder ao que se poderia chamar uma “crítica externa” do discurso. É claro que estamos aqui no cerne do problema. mas seria necessário.quem os emite? com que coerência? no quadro de que estratégias e com que objetivos? . poder-se-ia acrescentar com maior razão. acima lembradas. quanto dos discursos que elas suscitam. de outro. em termos sociais e ideológicos. ainda. ou ainda através das tensões produzidas pela intervenção da regulamentação européia sobre a matéria etc.tanto das mudanças em curso. E isto. etc. Um outro debate refere-se mais diretamente à agricultura e ao modelo de desenvolvimento .em crise . basta remeter às reflexões sobre o “renascimento” rural. distinguindo os dois contextos em relação aos quais as evoluções da sociologia rural parecem estar referidas . como este autor afirma. é necessário. Em uma palavra. por outro. aprofundar a análise para sermos mais precisos neste ponto. “pluriatividade”. as trocas e os mercados (e não mais os temas centrados apenas na intensificação da produção) e. as interrogações vindas da ou referentes à . desaparecem quando os camponeses se transformam em agricultores.isto é. é o caso da França.camponesas”. a sociologia rural não tem mais razão de ser em uma sociedade sem camponeses . as “sociedades rurais”. é igualmente indispensável recolocar tais evoluções e as interpretações que o sociólogo pode fazer sobre o passado no médio e longo prazos. É preciso ainda analisar as conseqüências do modelo de desenvolvimento . clarificar o discurso por sua análise interna .a saber: o questionamento social. as evoluções contraditórias nos domínios técnicos (com as biotecnologias e as técnicas “extensivas”). O último debate a ser feito refere-se ao meio ambiente. o sociólogo também deve demonstrar que as suas análises enriquecem o conhecimento da sociedade francesa. convém redefinir o estabelecimento agrícola e a atividade profissional dos agricultores em seus próprios fundamentos . o sociólogo tem uma sêxtupla tarefa a cumprir. de definir sistemas técnicos de produção que levem em conta. ele enriquece o seu aparelho analítico e oferece os meios para escapar dos desvios da interpretação de curto tempo e sem recuo freqüentemente associada a uma visão dramática. na qual os camponeses se tornaram agricultores.que ela vem adotando há um terço de século.e. Ele deve. os termos que aparecem aqui são “diversificação”. considerando. de um lado. as questões reais que não são objeto de nenhum discurso. Estas reflexões desembocam em todo o debate sobre o futuro do espaço e do mundo rurais e sobre quais deveriam ser as políticas que lhes dizem respeito. Se. antes de mais nada. trata-se de repensar o desenvolvimento. Pode-se acrescentar uma terceira dimensão que remete a um movimento de conjunto que diz respeito ao questionamento científico considerado globalmente. “extensificação”. os movimentos de mundialização das relações de troca entre os grandes produtos básicos e o desenvolvimento dos circuitos curtos dos produtos mais especializados etc. de sua amplitude real.própria sociologia. estabelecer os fatos para se ter uma distância em relação aos discursos e. ainda segundo Henri Mendras. ao mesmo tempo. em seguida. ele precisa evidenciar o que se poderia chamar os “silêncios significativos”. simultaneamente. “produtividade”. por um lado e. interrogando-se sobre as problemáticas atuais com as quais ela poderia se ocupar. em outras palavras. se tais “sociedades rurais” são habitadas cada vez menos por populações de agricultores e cada vez mais por trânsfugas da cidade ou por assalariados das zonas rurais industrializadas ou terciarizadas. enfim. através dos conflitos.

a das transformações de uma “sociedade local” de base agrária em direção a uma “sociedade local”.entre a análise de um longo período de transformações estruturais do campesinato e a análise. minuciosas e circunstanciadas capazes de perceberem as continuidades e as transformações nos processos de reprodução da sociabilidade e o sentido do ser-conjuntamente. Existe um verdadeiro hiato . seja para uma outra já sem fundamentos agrários. que representam o futuro do espaço rural. em suma. um poder local que. enquanto tais. Ela pode. enfim.sem falar do conjunto do mundo . cujo lugar na estrutura e na vida política se vincula ao poder local. é ocultar toda uma diversidade de situações que corresponde a uma multiplicidade de vias experimentadas num processo de adaptação . analisar o papel que eles representam no processo de integração social através das suas funções tanto institucionais quanto simbólicas e notadamente identitárias.a “sociedade local” .esta também podendo assumir uma variedade de formas . nos 36. se se estima que os agricultores já se tornaram um “grupo profissional”. das relações entre o pequeno produtor independente e os setores industriais a montante e a jusante.ou da mudança social . É possível indagar sobre a equivalência estabelecida por Henri Mendras entre “sociedades rurais” e “sociedades camponesas”. No entanto.e também as novas problemáticas e os novos conflitos. aberto e complexo. mas ela não é válida para todos os períodos históricos. as formas associativas. por esta mesma razão.. as novas funções que deles se espera. portanto. qual seria. A sociologia rural foi pioneira nas análises sociológicas do trabalho não-assalariado. imagens e estatísticas que constroem o “senso comum” nesse nosso tema. precisamente. porque faltam as observações concretas para fazer um contrapeso à crescente invasão de discursos. nem para todos os campos. se as duas razões de ser da sociologia rural desapareceram? Duas observações podem ser feitas em relação a esta maneira de colocar o problema. um . em processo de rápidas mutações. Além disso. Tais análises devem ser retomadas atualmente por duas razões: primeiro. Primeira observação: aquelas duas assertivas . está longe de ter um peso insignificante no conjunto do sistema político.ao outro . depois. é também um domínio no qual a sociologia rural investiu particularmente. “molecultores”. da relação social.as quais.para não dizer uma contradição fundamental . A análise do que se poderia chamar um “sistema social localizado”.devem ser tomadas como verdades estabelecidas? Não poderiam ser tratadas como hipóteses. pura e simplesmente. também já perderam toda a sua “autonomia relativa”.) é ir um pouco depressa demais. A pluriatividade. não somente certo. este procedimento deve se situar no quadro de uma análise das transformações da sociedade global e. em conseqüência. As transformações sociais internas radicais que os municípios conhecem. as recomposições espaciais às quais são levados. Sobre este ponto poder-se-ia comparar o seu procedimento com o da sociologia das organizações. assim. Não há apenas o campesinato. e. O questionamento sociológico e a sociologia rural A sociologia rural trata de todos os aspectos da vida social no campo. considerado enquanto “sociedade” (local). porque o contexto que a sociedade global constitui está. .melhor compreensão dos processos sociológicos e da sua adaptação às transformações gerais nas quais o país está inserido. são apenas uma só . então. a diversificação produtiva voltam a ser temas da ordem do dia que precisam ser considerados para caracterizar sociologicamente a situação atual dos agricultores. além das “sociedades camponesas”. da inovação nos setores produtivos não-industriais. e uma abordagem atualizada das “sociedades rurais” deve ser precisamente. serem confrontadas com observações empíricas realizadas em trabalho de campo? Admitir a afirmação segundo a qual os camponeses tornaram-se agricultores (empresários.o campesinato . dos seus processos de reestruturação sociopolítica. Que se possa fazer um cruzamento entre as duas análises é. O mesmo pode ser dito a respeito das “sociedades rurais”.000 municípios. porém.que é requerida e isto supõe análises finas. é a de um retorno maciço e metódico às pesquisas de campo. A hora. de fato. é uma sociologia da “transição” .a um contexto incerto. porque a situação dos agricultores evolui rapidamente. tal contribuição. ele próprio. a emergência de novas solidariedades territoriais . antes de mais nada. seja esta transição para uma formação de base não-agrária.. todas são razões para se repensar a teoria sobre a profissão e para se criar um novo quadro de análise que permita caracterizar sociologicamente os “villages” enquanto “sistema social” e. em particular.os novos “territórios rurais” .é arbitrário: existem outras “sociedades locais”. Toda tentativa de generalizar ao conjunto da Europa . ele tem de mostrar que as suas análises robustecem o corpus teórico da sociologia. entre tantos outros e se as “sociedades rurais”.uma tal proposição leva a sublinhar seus limites. de alguma forma espacial do que podemos chamar de uma “sociedade local”. serem submetidas a exame e. etc. Reduzir. dar uma contribuição em todos os capítulos da sociologia. O mínimo que se pode dizer é que ela coloca um problema histórica e geograficamente. “agro-managers”. isto é. mas ainda indispensável. Tanto em um caso como no outro.

em que haveria uma forma de “banalização” tal que pudesse retirar todo o interesse à análise sociológica de uns e de outros? Aqui há uma atitude que se parece àquela segundo a qual nós teríamos chegado a uma espécie de “fim da história”. esta mutação também não estaria exprimindo a necessidade de uma continuidade tanto simbólica quanto prática . Isto se traduz naquilo que se poderia chamar “dispositivos locais de ação”. em um setor produtivo sobre o qual se pode dizer que faz parte das “indústrias pesadas” mas não está baseado no modelo da grande empresa com salariado. e tudo isto continuará a fazer parte da sociedade global. em um momento em que ele adquire cada vez mais relevo.ocultação de uma ruptura e.ou não . ao mesmo tempo. especial e quantitativamente importante do poder “territorial”. a questão se coloca em dar sentido a esta necessidade de continuidade . isto é. interrogações sobre as formas sociais de mobilização do trabalho agrícola: seria a contribuição de tal sociologia para uma sociologia do trabalho. a profissão. portanto. Esta é uma outra vertente de uma sociologia do político. propor uma série de questões importantes para uma sociologia especializada na análise do atual mundo rural. a ser associado a suas evoluções e a pesar também sobre elas.e neste caso. Porém. de uma forma geral. Estas análises de sociologia política permitiriam evidenciar e compreender as atuais mudanças em curso no controle de uma parte. a fisionomia e as funções sociais e territoriais dos segundos continuarão a evoluir.no caso. os saberes e os conhecimentos adquiridos de um lado e. ela deve particularmente ser aplicada ao conjunto dos países europeus. ao mesmo tempo que é uma exigência que se poderia qualificar de histórica. Dedicarse a esta análise seria tanto mais judicioso quanto o termo volta hoje à ordem do dia. percebida aqui sob o ângulo das relações entre o Estado. de outro.Agora. os fundamentos. não é porque estes problemas não ocupam o primeiro plano na mídia que não devem mais ser estudados. da fraca densidade relativa de seu povoamento. por exemplo. da economia agrícola e da composição social da população rural. uma contribuição para uma sociologia da relação social. relativas aos processos de socialização. das múltiplas pressões que recebe e das expectativas as mais contraditórias que se tem sobre ele.como a análise da evolução do lugar dos agricultores na sociedade e a de seus comportamentos profissionais e políticos.no caso. Também seria interessante ver em que medida o seu sentido não está. Tal extensão à Europa da “construção rural” representa uma ocasião excepcional de renovação das problemáticas. poder-se-ia chamar as sociedades “de villages” ou “de fraca dimensão”. Deste ponto de vista. Estas são apenas algumas pistas.o seu passado “rural” para se adaptar ao presente. em vias de se emancipar do seu conteúdo agrícola tradicional. é uma necessidade. justamente. as competências.e quanto muito. ao mesmo tempo. precisamente. isso é uma ilusão de ótica: os “agricultores”. por uma comodidade pelo menos provisória. Por fim. Inicialmente. Em suma. a condição social. os contextos. pode-se. francesa) tomada em seu conjunto. Outras já estão bem exploradas . as formas e o conteúdo da sociabilidade naquilo que. os “municípios rurais” e outros vilarejos e pequenas cidades continuarão a existir. o território ”rural” que representa uma problemática particular em razão da importância de seu lugar no conjunto do território nacional. exigem que os seus aspectos referentes à “ruralidade” sejam analisados como facetas incontornáveis das evoluções da sociedade (no caso. aqui. uma vez que ela remete a uma história em curso. ainda. . em seguida. Questões. A questão que se coloca é a do interesse de uma análise sociológica destes fenômenos. tem por objetivo apenas mostrar que numerosos são os temas de pesquisa de dimensão geral que se pode abordar através das evoluções do mundo rural . Ter-se-ia. confrontá-los aos fatos e evidenciar a forma como a sociedade . Esta proposição é generalizável a todas as formações sociais nacionais. os quais constituem novos modos de socialização do espaço e de regulação dos conflitos. para serem tratadas. a segunda observação: mesmo supondo que os camponeses tenham se tornado agricultores e que as “sociedades rurais” tenham deixado de ser “sociedades camponesas”.utiliza . Evidentemente. e ainda em que medida. a cidadania dos primeiros. uma das bases da pirâmide dos poderes. a sociedade civil e o território . levando em conta. referentes aos fundamentos das reestruturações sociais locais e às transformações das relações locais de poder subseqüentes às evoluções das estruturas agrárias. A abertura a uma abordagem comparativa internacional. Evocá-las aqui. quanto dos novos tipos de pressão ou de dependência de ordem espacial. Questões. questionamentos sobre as evoluções das solidariedades territoriais sob a influência. Cabe ainda aos sociólogos decifrar os discursos e as políticas. tanto das políticas de cooperação intermunicipal. um começo de reconhecimento desta ruptura. interrogações sobre a noção de rural como categoria simbólica da representação que a sociedade constrói sobre si mesma. no quadro de uma análise dos processos de “integração” européia. a título de exemplo. como prejulgar este interesse? Tudo o que se pode fazer não é formular hipóteses sobre o que poderia ser. as questões que parecem dever ser consideradas como as questões centrais de hoje? Em todo caso. da integração e da exclusão em “contextos” sociológicos bem definidos e diferentes dos subúrbios e dos bairros urbanos. a francesa .

tais como “complexidade”. de fato. triar o que é pertinente para cada pesquisador em sua própria disciplina e separar o resto.. São várias evoluções. os fenômenos de marginalização. Esse rural oferece campos os mais variados para uma análise das relações sociais organizadas entre uma coletividade humana . se isto clarifica as coisas? Mas. que atingem proporções crescentes da população na maioria dos países.mas isto também é válido para as outras ciências sociais do rural tem a aprender é a estender o seu projeto interdisciplinar às ciências da natureza que analisam os “sistemas naturais” envolvidos com os “sistemas sociais” que ela estuda. O caminho que assim se abre é balizado por palavras-chave. Reencontra-se.. e de múltiplas formas.e os meios naturais.de um lado.donde o êxodo agrícola que alimenta o desemprego e provoca a migração rural. os solos. que se utiliza dos recursos naturais renováveis . ligadas umas às outras. em cujo estudo a ciência tem o hábito de estabelecer cortes. . Essa vantagem aparece com seus próprios problemas. de outro. problemas de qualidade da produção e do meio ambiente. O movimento científico e a sociologia rural Desde o começo dos anos 1970 .superprodução. embora seja socialmente apropriado. entre as ciências sociais e as ciências que podem ser globalmente qualificadas de “ciências da natureza”. Isto quer dizer que são descobertas múltiplas relações entre fenômenos de ordens muito diferentes. o tema das desigualdades sociais crescentes. enquanto atividade de rápida inovação tecnológica .Para caracterizar este conjunto de pesquisas a realizar. E em conseqüência. que revêem. mais particularmente. os ecossistemas. Essas interrogações põem em questão um certo “credo” no “progresso técnico”. o procedimento holístico na medida em que a análise sistêmica pode ser considerada como uma de suas versões. Seria preciso também que os sociólogos que se lancem a este gênero de pesquisas tenham uma cultura em ciências sociais suficiente para abordar o rural e notadamente para situar as suas evoluções presentes na história de suas relações com a sociedade global. A sociologia rural está diretamente implicada nestas evoluções. o do desemprego e a questão do lugar e o papel do trabalho na socialização e integração social e. e dos agricultores. os solos. um rural herdado da história e constantemente remanejado. enfim. passando pelo microregional.há quase um quarto de século. tanto sobre a sociedade quanto sobre o meio ambiente .quadro da vida imediato e base de vida a longo prazo. a questão do meio ambiente. Tudo isto faz dela um dos domínios privilegiados. o técnico e a natureza em relação a todos os tipos de sociedades. Procura-se uma ciência mais preocupada com suas próprias conseqüências. no qual o ambiente natural predomina sobre o construído. e transforma os meios . a interdisciplinaridade entre ciências sociais constitui um trunfo: é na interdisciplinaridade que existe entre os ruralistas que reside a oportunidade para reforça-la ou reanimá-la. cada vez com mais insistência. O mesmo acontece com o rural. entre as diferentes ciências e.e também controversa . as populações animais e vegetais . social e economicamente utilizado e vivido. não somente em seu âmbito. A agricultura enquanto setor de atividade aplicada ao ser vivo (animal e vegetal). Para tratar destas questões. A sociologia rural também está implicada nos seus próprios procedimentos.assiste-se a uma evolução muito nítida da concepção das relações entre ciência e sociedade. contraditória . ainda mais claramente nestes últimos anos . e que haveria de alguma forma uma mutação a fazer: seria necessário acreditar em uma ruptura radical que. que esta condição não leve a pensar que a “sociologia rural” não tenha sido precisamente senão uma “sociologia do rural”. a atmosfera. seria melhor falar de uma “sociologia do rural” (Lagrave. criado. a extensificação e a agrobiologia . “análise sistêmica”. o nacional e o europeu. da mesma forma que entre o social e o técnico. com a necessidade de se situar em diferentes dimensões simultaneamente que vão do nível do village a do planeta.a água. um dos grupos sociais mais ricos em ensinamentos para o estudo das relações entre o social e o técnico. 1991) ao invés de uma “sociologia rural”? Por que não. mas também entre o social. “modelização”. as biotecnologias e a informática. “interdisciplinaridade”. a concepção da pesquisa científica que se situa a montante da técnica. assim. Todas elas procedem de interrogações em curso há vinte anos. modelado pelas práticas e pelas técnicas.uma sociedade? . O que a sociologia rural . os recursos genéticos. Ela o está por alguns dos seus temas e pelos elementos da vida social que estuda: a agricultura.a água. de fato.. o regional. não tem razão de ser e criar um contra-senso sobre o próprio “rural” e sua inserção na sociedade global.

é preciso voltar a duas questões essenciais. Em resposta a esta questão. curiosidade. isto suporia fazer um balanço preciso . Sem dúvida. constituem puros artefatos do método adotado. Se um balanço da sociologia rural viesse a ser feito. que ocupa um lugar bem determinado na estrutura social das sociedades capitalistas.que a sociologia rural destes últimos cinqüenta anos pecou por carência neste ponto (o que sucedeu em vários casos). senão negligenciado. que o rural só existiu em um contexto e em um período bem determinado e passado. A segunda questão refere-se ao fato de saber se para realizar essas tarefas há necessidade de sociólogos que se qualifiquem como “rurais” e de uma sociologia dita “rural”. por gosto. e esta é uma outra faceta da observação precedente. É cada vez mais pertinente querer analisar em termos sociológicos as evoluções do mundo rural? Hugues Lamarche explica que não é porque a unidade de produção agrícola não é mais “camponesa” . pode-se dizer também. Quarta observação: o que conta.teria se banalizado e dissolvido na sociedade global. Mas. tentando compreender de onde procedem suas formas específicas. a partir de agora. dar uma contribuição original aos grandes debates da sociologia. levada mais em consideração. as quais. E importa que tudo isto seja feito porque são componentes da sociedade global. eles tendem a ignorá-lo e a se abster de considerá-lo em suas problemáticas. hoje. Quinta e última observação: em todo caso. é que as mesmas análises sejam feitas apoiando-se em procedimentos e questionamentos maiores da sociologia.termo que precisaria ser bem definido . Seria acreditar. Referências bibliográficas . realizar uma avaliação crítica do que foi escrito e que esta exigência metodológica fundamental seja.. ele assume formas constantemente novas que correspondem a . não acaba de acabar. pode-se dizer. Uma abordagem setorial fecha e limita a compreensão. Ora. tem-se a sensação de que. Seria preciso chamar os sociólogos que fazem esta escolha e se submetem a tal preparação. enquanto que. ou fora dele. que importância tem isto? Terceira observação: o importante é que as análises sociológicas que se façam situem os aspectos particulares da vida social no contexto da sociedade global .de sua forma “camponesa” anterior. não cairmos na cegueira do olhar centrado no presente e nos discursos próprios da sociedade sobre si mesma. ao mesmo tempo especializada e geral. é preciso que eles o façam efetivamente. Ou ainda: não é porque a população agrícola não é mais dominante na população rural que a “ruralidade” não existe mais etc. cada vez mais. em outras palavras.as evoluções das sociedades globais.incluindo a agricultura e os agricultores . este é um ponto sobre o qual a reflexão não avançou suficientemente nem se tem atualizado muito. ela seria a de empreender tal reflexão teórica.que eles não constituem um “grupo profissional”. este deveria ser o ponto central.centrem sua atenção sobre a agricultura. O que é preciso fazer. torna-se necessário.e que são privilegiadas . cujo estudo é necessário para compreender as transformações gerais e as vias pelas quais estas se produzem. É preciso assegurar os meios que caracterizam sociologicamente esta forma particular de organização produtiva e de mobilização do trabalho que é a atual unidade de produção agrícola. de fato. 1991-94).se isto se justifica . Seria enganar-se acerca do estatuto histórico do rural. pelos sociólogos que se ocupam destas questões. A história. condições que valem para qualquer domínio ou tema..isto é tão evidente? . Ora. de “sociólogos rurais”? Por que não? Mas.aquelas que interessam . evidentemente. não o vendo mais. na verdade. Uma segunda observação decorre da primeira: é preciso que os sociólogos invistam neste domínio. um bom conhecimento do “objeto” do meio rural e uma cultura científica apoiada em bibliografia. E tanto mais indispensável quanto o peso destes componentes geralmente é subestimado.e vão paralelas com . Tenhamos cuidado para. Se se pode dizer. incluindo os camponeses. seja porque se trata de um universo que lhes é estranho ou o rejeitam. isto exige competência específica. Se se tiver que mencionar uma tarefa prioritária para a sociologia rural. Há todo interesse em que os sociólogos não rurais invistam no campo rural a partir de suas questões e de seus procedimentos. com base nas suas pesquisas deste último meio século. Se a pesquisa de questões “transversais” é a que deve prevalecer e se a idéia de comparação deve ser um princípio de método privilegiado. igualmente. uma observação vem logo à mente: os sociólogos rurais.Para concluir.ou. constitui um contra-senso não dizer que a sociologia rural teria perdido o seu sentido porque o rural .que ela não é mais “familiar” (Lamarche. a sociologia rural pode. com efeito. não têm nenhum monopólio a reivindicar nos domínios que são hoje de sua predileção. Poder-se-ia “declinar” este modo de ver de múltiplas maneiras. que as “entradas” específicas no funcionamento da sociedade . seja por falta de interesse. interesse. é saber dar conta de maneira precisa dos processos. No que ele se tornará? Que formas tomará em uma sociedade “industrial” em mudança rápida? Esta é a questão. e até mesmo leva a erros de interpretação principalmente em termos de “especificidades” do objeto estudado. das evoluções e das características sociológicas daquilo que se estuda. distinguindo-a . o ponto de partida pode se situar no rural. Por exemplo: não é porque os agricultores não são mais camponeses . os agricultores e o rural. então.

ARF éditions/L’Harmattan. 1991-1994. Gurvitch. “Discours communs. 5261. mas quando se pensa no Rural. Georges. In: George Gurvitch (dir). 1958:316 apud JOLLIVET. igualmente. Robert.297. Cahiers de l‘IMPSA.1. 1986. usará. Bernard. discours savants sur le rural”. A tendência natural. que é o modo de cultivar a terra. Paris. 1989. Paris. no contexto desse trabalho seria ligar a Sociologia Agrícola com a Rural. como por exemplo as lutas pela posse da terra. Michel. Ainda considerando que a Sociologia Rural é uma subdivisão da Sociologia Geral. Todavia. L’agriculture familiale. Paris. Lambert. Mathieu. pelo qual a Sociologia Especial consiste no estudo de categorias específicas de fatos sociais. Calmann-Lévy. Paris. p. Comparaison internationale. Les paysans dans la lutte des classes. 1991. Paris. Henri “Sociologie du milieu rural”. Sendo um ramo da Sociologia. "o bóia fria". Há muitas relações sociais que se desenvolvem no campo que não dizem respeito à agricultura. desnecessário se faz dizer sobre o inter-relacionamento que as duas disciplinas possuem. Hugues. Presses Universitaires de France. Marcel (dir). Que-sais-je? n. Du rural à l’environnement. Sociologie rurale. a grilagem. 1998:1). Lagrave. 1998:2). Librairie Armand Colin. Paris. Éditions du Seuil. Lamarche. inversamente. 1966. Tome II: Dy mythe à la réalité. como sendo a mesma coisa. os métodos que essa Ciência utiliza para concretizar as suas investigações. Tome I: Une réalité polymorphe. Paris. entre outras. a "Sociologia Rural é uma das subdivisões da Sociologia Especial "que estuda o modo de vida rural e a natureza das diferenças rurais e urbanas" LAKATOS & MARCONI (1999:29-30). as relações que as ciências sociais mantém com a disciplina" (JOLLIVET. Paris. De acordo com o esquema proposto por Fernando de Azevedo. não somente entre si. a industrialização do campo. Traité de sociologie. Le combat des paysans. La révolution silencieuse.Debatisse. Les paysans dans la société française. 1970. Mendras. 2 volumes. Presses Universitaires de France. ou apenas "o estudo das sociedades rurais" (MENDRAS. 2. como também com as demais "ciências sociais que estudam o mundo ou o espaço rural. Rose-Marie. la question de la nature aujourd’hui. 1958. mar. forçoso . o que se justifica pelas trocas importantes que ela tem com as mesmas e. Nicole e Jollivet. Faure. La vocation actuelle de la sociologie: vers une sociologie différentielle. certamente não se está pensando apenas na agricultura. a reforma agrária. Notas Sociologia rural 2 Sociologia RURAL 2. Editions L’Harmattan. Perspectivas teóricas. 1950. Michel. Marcel. Presses universitaires de France. 1963.

"A realidade de nossos dias tem gerado uma sociedade que se urbaniza velozmente. É dessa forma que deve ser feito o estudo da Sociologia Rural. tanto interna quanto externamente. a não ser que conte com a colaboração de uma equipe de diversos especialistas. a história social dá um grande destaque à descrição da vida camponesa." (MENDRAS apud JOLLIVET. As divisões têm implicações meramente didáticas. por conseguinte. na medida em que sua análise pode ser dividida em áreas como a da família. Ligando-se a um passado em que a agricultura era a atividade exercida pela maioria dos homens. fazem questão de destacar logo ao início dos cursos que ministraram no Instituto de Estudos Políticos de Paris. dessa forma. Nesse sentido. Essa . uma problemática diferente. da religião. Destaca-se. 1998). os rurais também dizem respeito a cada ciência social. Os geógrafos que analisam as relações entre o homem e o meio natural e a distribuição espacial dos fenômenos humanos começaram naturalmente a se debruçar sobre o campo. eles vivem em um meio particular que requer uma certa especialização do pesquisador e. mas nenhum fenômeno social pode ser perfeitamente compreendido se dissociado do contexto geral em que se encontra e do qual recebe influência. bem como a mesma interdisciplinaridade com as demais ciências sociais. às vezes. é a matriz que direciona o epistemológico. etc. acaba assumindo ares de disciplina geral. seus precursores. a Sociologia Rural que deveria ser uma das especificidades em que se divide a Sociologia Especial. em 1958: "O ‘meio’ rural é um campo de investigação para todas as ciências sociais e seu estudo não poderia constituir uma disciplina autônoma. pois o Urbano também é analisado por vários ângulos e planos diferentes e o que vai interessar à Sociologia Urbana não é uma dessas análises em particular. mais do que uma das especificidades da Sociologia Especial. Uma das pretensões do ruralista é. o sociólogo rural deve. promover a integração das análises feitas pelo rural. A Sociologia Urbana. Assim se posiciona Mendras. tal qual a Rural. produzindo um único conhecimento que. Os etnólogos estudam as estruturas ditas ‘arcaicas’ nas quais a busca ou a produção de alimentos ocupam todos os homens. Enquanto homens iguais aos outros. ao invés de se falar em objeto. Esse é um dos aspectos pouco considerados pelos estudiosos. senão que a síntese de todas elas.então nos é admitir que. e dela herda igualmente as origens históricas e as perspectivas teóricas traçadas pelas diversas escolas e pensadores sociológicos. conhecer os métodos e as técnicas de todas as outras ciências sociais. Entretanto. aliás. grande parte da problemática rural atual é decorrente do entendimento errôneo de que aquilo que não é urbano é rural e vice-versa ou daquele que trata tudo como sendo a mesma coisa. perde também o seu caráter de disciplina específica. ao demógrafo. O seu objeto de estudo é. Assim. essa disciplina é também Sociologia Geral. global. Enfim. entre outras. antes de ser Rural ou Especial. Como o etnógrafo. A economia rural é um ramo (um dos mais antigos) da economia política. o mais apropriado é referir-se ao seu campo de atuação: as sociedades rurais. mas que Jean Stoetzel (1951-1952) e Henri Mendras (1963-1964). portanto. inclusive que. citadinos e rurais interessam igualmente ao psicólogo. Vale dizer ainda que não se deve compreender o rural com o oposto do urbano. O conhecimento é uno. por exemplo. que estudam as particularidades dos fatos sociais.

tomando como ponto de partido a questão francesa. de uma sociedade rural. JOLLIVET (1998). com relação ao grupo dos agricultores e dos pecuaristas. Quando ao estudo particular da sociologia rural. certamente várias nações do mundo. O que deve ser vislumbrado é o fato de que o trabalho do sociólogo rural tem uma duplicidade de objetivos: compreender o social rural e integrá-lo no social global. Essa temática começou a ser tratada com mais intensidade após a segunda grande guerra. A sociedade rural goza apenas de uma certa autonomia diante da sociedade global. a ênfase do trabalho será na mudança social que se caracterizará com a transformação do camponês em agricultor ou pecuarista.1. sendo o objetivo da Sociologia Rural. mas isso é apenas aparência. incontestável. 1958). o desenvolvimento local. os estudos das demais ciências sociais rurais. Esses temas não foram exclusividades do povo francês. "o bloco do rural". As relações cidade-campo. – O Objetivo da Sociologia Rural. demonstrar a validade dessa proposição. sendo impossível reduzi-la a um grupo econômico profissional. a posição dos camponeses na sociedade. os brasileiros também vivem o mesmo drama. por exemplo. podendo ser sintetizados em cinco temas principais: as relações cidade-campo. Dessa forma.urbanização. reinterpretar. Esse seria um dos motivos para o trabalho integrado dessas ciências. 2002:8). de forma a poder integrar-se à sociedade global. A tarefa do Sociólogo Rural. a análise ruralista se fundamentará na hipótese de "existência nos países que têm um campesinato tradicional. o trabalho deve ter coerência interna e externa para que seja realmente um conhecimento científico válido. A questão . 2. comandada pelo processo de industrialização que o campo está conhecendo. Para alcançar esses resultados propostos. Esse fato. todavia o faz. o estudo da sociedade rural se baseia no entendimento de que existem elos de ligação muito finos entre os diversos tratamentos dados ao seu "objeto material" por cada uma das ciências sociais que abordam essa temática. a fim de se obter a compreensão global da sociedade rural. o meio ambiente. ou seja. quando o mundo destruído envidava um esforço generalizado para a reconstrução. Essa postura parece dar ao trabalho do grupo um caráter fechado e isolado do restante do conhecimento. Nesse sentido. ou qualquer outro grupo reconhecido. e. tem feito com que vários colegas autores tratem o campo como se trata a cidade/indústria. Isso ocorre porque se está implantando no campo o modo industrial de produzir. e. sintetizar e integrar sob o seu ponto de vista. como se esse formasse um bloco independente. tem uma dupla orientação: estudar as especificidades próprias de sua área de estudos. as transformações da agricultura. criou rapidamente um forte contingente de trabalhadores rurais-urbanos. a industrialização e a modernização. levado a efeito pelos seus pesquisadores ao longo da história.2.2. Não se trata de "agricultores" ou "pecuaristas". segundo Mendras (1958). 2. entende que eles estão interligados. sem maiores dificuldades. haja vista que esta não reconhece a sociedade rural como um de seus grupos sociais. que conserva uma certa autonomia em face da sociedade global" (MENDRAS. esquecendo que as especificidades de cada um não foram ainda eliminadas" (OLIVEIRA.

cuja única preocupação é produzir e ganhar dinheiro. plantação. ou derivadas da ação humana. De que forma a sociedade rural enfrentará os problemas modernos? A cidade não é capaz de bastar-se. No início da década de 1990. pode-se destacar o fato de que várias áreas do Brasil vêm se desertificando. esse esforço seria normal. vieram a passar pela mesma situação. como as mudanças climáticas. milho. Mas e o campo? O progresso sempre demorou um pouco mais a chegar lá. a conceituar a desertificação. Seria apenas uma questão de acomodação a um estilo de desenvolvimento mais acelerado. em especial na bacia amazônica. Por conta dessa situação. Essa riqueza vegetal foi encarada. Em geral. não é autárquica. a uniformização dos modos de vida. 2001). hoje coberto por extensas plantações. o Brasil tem "regiões semi-áridas.uma área maior do que a França. antes coberto por uma vegetação natural. Produzida por causas naturais. A título de ilustração. Os maiores danos são causados na região dos cerrados.que se discutia era a de saber se os campos seriam capazes de suportar as mudanças. absorvendo as lições da guerra. no . que não vive no campo. como obstáculo para o desenvolvimento do país. pois essas são questões mais pertinentemente urbanas do que rurais. Para a cidade. A preocupação em produzir para atender a demanda mundial de alimentos (principalmente do mundo que pode pagar por eles. Partir do nada destruído e retomar o ritmo da vida. principalmente a partir da década de 1970. "Trinta por cento das áreas de floresta tropical do planeta estão concentradas no Brasil. segundo os ambientalistas. apenas soja. em princípio. veio a enfrentar situações as mais complicadas. arroz. Agora ela deveria ser utilizada para a reconstrução e a implantação do novo mundo. plantação e plantação. pode-se perceber as mudanças que esse tipo de empreendedor (que não é do campo. problemas com terras não cultivadas. vem ocasionando na paisagem brasileira. 2001:132b). Viajando pelo país afora. mas que apenas explora o campo). a morte ou o renascimento do rural. principalmente de muito alimento. como a caatinga. a rurbanização. Fotografias de satélite tiradas em 1988 revelaram que o desmatamento realizado em pouco mais de dez anos na Amazônia atingia 12% da região . no entanto. onde não se vê uma árvore sequer. a qual fora usada para matar e destruir. como: a desertificação. a sociedade rural européia. é dependente da matéria-prima e. E que lições! Quanta diferença houve entre o corpo-a-corpo dos soldados na primeira grande guerra e o corpo-a-máquina da segunda! A modernidade trouxera a tecnologia. com tendência à criação de zonas desérticas. posteriormente. em conseqüência do desmatamento desenfreado para aumentar a produção. igualmente. Alguns ainda estão vivendo esses dramas rurais. mas nenhum deserto. aqueles que não podem continuam passando e morrendo de fome) criou o empresário rural. declara que ela "é a degradação do meio natural. Esse ritmo de devastação. algodão. E. pouco se incomodando com as conseqüências dos atos que pratica para assegurar essa produção. Atender essa demanda vai implicar em muitas mudanças. levaria ao desaparecimento da floresta até o final do século XX. Mas a própria Britânica. várias partes do mundo. como o desmatamento" (BARSA. considera-se uma região desértica quando sua precipitação média anual é inferior a 250 mm" (BARSA. Segundo a Enciclopédia Britânica. onde normalmente acontecem as novidades.

exploração de madeira. mais atribuída à recessão econômica do que à consciência ecológica. capital do Senegal.entanto. 1998). "O desmatamento é uma das principais causas da seca. para que possa fazer a sua síntese integradora que assegure a explicação unitária e global da sociedade rural. portanto. porque a derrubada de árvores destrói as bacias hidrográficas e empobrece o solo. favoreçam sua recuperação gradual. Em novembro de 1998. é a meta maior da Sociologia Rural. a desertificação causa prejuízos de 42 bilhões de dólares ao ano. as taxas de desmatamento apresentaram uma redução. com 73%. representantes de 150 países iniciaram em Dacar. As ações desenvolvidas pelos homens do campo que conduzem às transformações da agricultura e que levam a propriedade rural a tornar-se uma propriedade agrícola. 2001:137). com 74% de terras áridas ou semiáridas. Mas. 2. esta exige novas e constantes transformações para atender a demanda dos demais grupos sociais que a completam e que implicam na adoção de um modo de vida totalmente diferente. agricultura em pequenas propriedades e crescimento urbano". construção de estradas e hidrelétricas. Já não se trata de produzir apenas para a subsistência da família. cujo estudo é a meta da Sociologia Agrícola. a II Cúpula Mundial sobre desertificação. Segundo dados das Nações Unidas. onde a devastação da vegetação natural reduziu a capacidade de armazenamento de umidade da terra e agravou os efeitos da estiagem sobre a agricultura. Esse fenômeno é bastante comum na região centro-sul de Mato Grosso. As transformações atingem "não só o estabelecimento agrícola e o trabalho do agricultor. O processo de degradação afeta diretamente 250 milhões de pessoas e pode chegar a prejudicar um bilhão. Muitas vezes elas apenas complementam a produção daquelas. impedir que o processo de desmatamento indiscriminado tenha continuidade e desenvolver projetos que. planta-se o que é requerido.2 – As transformações da agricultura. nos municípios de Jaciara e Campo Verde. mesmo ao incluírem a exploração econômica da floresta. A Sociologia Rural depende da análise realizada por cada uma das diversas ciências sociais que analisam os fenômenos rurais. e a África. As pequenas fazendas precisam se adequar às grandes. As principais causas do desmatamento na região eram a criação de gado. eram as regiões mais preocupantes (PANORAMA. mas cujas conclusões interessam à Sociologia Rural para complementar a sua análise da sociedade rural. O grande desafio ambiental do mundo contemporâneo consiste em recuperar. É. em particular. O que plantar também deixa de ser uma decisão particular. mineração. com a reposição garantida do que for retirado e respeito aos ciclos biológicos das diversas espécies" (BARSA. e os camponeses a ser agricultores – um grupo reconhecido pela sociedade –. uma vez transformado em agricultor e feito membro ativo da sociedade global. A América do Norte. um fator intensificador da pobreza em países da América Latina. o que já foi degradado. Ásia e África. São toleradas. em todas as regiões da Terra. 2004). Exemplo óbvio é o da Etiópia.2. onde as pequenas propriedades plantam cana e criam frangos . mas também – tendo em vista o estreito laço entre o estabelecimento e a família – a transformação da família agrícola" (JOLLIVET. por meio de programas de reflorestamento.

"O processo de desenvolvimento recente no campo brasileiro tem criado condições para que uma fração do campesinato amplie a produtividade no trabalho familiar. no caso da avicultura. enquanto tentava viabilizar os recursos que viabilizariam o projeto. por exemplo. desejam voltar ao campo. Depois de atingirem um peso médio de 1. desde 1997 a Administração Municipal vem incentivando o plantio do maracujá para fins industriais. As indústrias consumidoras de produtos de origem agrícola ou pecuária chamam estas relações de produção integrada. Este processo tem sido objeto de muitos estudos. Em 1997 o Município fez acordos com a Maguari. A mesma situação acontece em Nova Olímpia. Tangará da Serra. do estabelecimento de novas relações com a indústria. com a Superbom. através do assentamento fundiário de 200 profissionais agrícolas. Barra do Bugres e região. como alternativa para a mudança de atividade econômica. Na região de Poxoréo. a própria Prefeitura implantou dos "Casulos" com o apoio do INCRA. mas não . Para começar a vender a idéia. onde se planta cana para a Itamarati.400 hectares. Na expectativa de garantia de venda da produção. alguns pequenos proprietários aderiram ao projeto. abandonando-se a idéia original do assentamento de profissionais rurais. do garimpo para a fruticultura. os frangos são entregues para o abate.500 empregos diretos. ao granjeiro" (OLIVEIRA. A indústria destina uma percentagem do preço final. diferente das formas convencionais tradicionalmente utilizadas pelo INCRA. por exemplo. O "TecnoFrutas" — como foi batizado o projeto —. para superar a recessão que passou a vivenciar desde o início desta década. Normalmente os assentados são pessoas que trabalhavam como arrendatários e foram desagregados. "A implantação do "TecnoFrutas . não obtendo sucesso. respectivamente. ou então eram sertanejos que saíram do campo e se mudaram para as cidades acreditando que sua sorte mudaria e que.5 kg. em decorrência do esgotamento das jazidas diamantíferas que sustentara o seu desenvolvimento desde 1924. em uma área de 6. foi a forma encontrada pelo Governo do Município. mesmo com essa mudança. Todavia. por gerenciamento inadequado. que foi modificado e transformado em apenas um projeto de produção. do acesso tecnológico colocado à disposição da agricultura capitalista. e. beneficiando um total estimado de 30 mil pessoas" (SOUSA. através do INCRA. a ser cultivada com frutas tropicais. a indústria de ração que também industrializa e comercializa o frango. ainda não houve o envolvimento esperado e.o processo de produção e industrialização de Poxoréo – MT". de outro.para atender à demanda das indústria de açúcar e do frango. 2002:71). que pode variar em torno de 15%. de Minas Gerais e em 2001. o costume é assentar "sem-terras". cujas metas são a geração de 7. Este processo tem sido possível em função. Isso significa que. de um lado. Em todas as propostas de assentamento fundiário postas em prática no Brasil. é uma proposta de geração de emprego e renda. "Trata-se de algo inédito. entregue ao granjeiro os pintinhos e a ração que comerão até o abate. os acordos com as industrias acabaram sendo cancelados e o projeto está temporariamente desativado. O Tecnofrutas visava produzir alimentos de forma orientada para atender à demanda das indústrias. 1999:6).

a mudança cultural é praticamente inviável. e. mas se realiza parte na indústria e parte no sistema financeiro" (OLIVEIRA. Além das situações particularizadas de Mato Grosso.2. em virtude da enorme variação de preço do hectare nessa região em comparação com o sul do país. ao longo dos anos. sujeita a renda da terra aos interesses do capital. pois. não fica com quem produziu. "Dessa forma. Tem ele. camponês. ao mesmo tempo que o subordina mais. As pequenas propriedades do sul estão no limite máximo de sua capacidade produtiva.264 mil em 1970 para 1. As propriedades são pequenas e limitam a sua capacidade de produção. com o esgotamento das jazidas. produzida pelo trabalho familiar. o momento em que se deu a transição da pré-história para o período neolítico. Onde conseguem comprar grandes áreas de terras. nada foi senão o surgimento do primeiro campesinato. a produção integrada campo/indústria atingiu também o sul do país no que tange à suinocultura – os granjeiros produzem milho e engordam suínos para as indústrias de carne – e à produção de fumo – que atende aos oligopólios das indústrias de cigarros. ou seja. Os camponeses. A renda da terra. mas que não dominam as modernas tecnologias e conhecimentos. o Município de Poxoréo se propõe a realizar o assentamento de "profissionais da terra". Dessa forma eles estão vendendo as suas propriedades e vindo para o Centro-Oeste e Rondônia. promove o seu deslocamento territorial.possuem mais os campos para voltar. A questão em Poxoréo é cultural e cultura é algo arraigado na personalidade das pessoas. vêm abrindo no espaço distante a possibilidade de acumulação" (OLIVEIRA. Assim. No registro de Ariovaldo de Oliveira. MT. é o caso dos camponeses do sul produtores de soja. 2002:72). 2002:72). possuem apenas a experiência rural. Não se muda de um dia para o outro. os quais devem ser deixados como representantes históricos de uma classe de garimpeiros que está fadada ao desaparecimento na região.o número de propriedades rurais na região sul caiu de 1. em sua grande maioria. 2. Para eles. antes que eles sigam os exemplos de seus pais. não estão diante da expropriação inevitável pelo avanço das relações capitalistas de produção no campo. mas sim no seio de um processo contraditório. Uma das idéias que está implícita no Tecnofrutas é que se deve trabalhar as novas gerações para uma nova forma de trabalho que não seja o garimpo.145 mil em 1980. os quais vão se tornando médios e futuros grandes proprietários. 1999. conseqüentemente. pois. sem necessariamente expropriar a terra do camponês. A posição dos camponeses na sociedade. pessoas formadas e qualificadas para trabalhar a terra de forma adequada. abrindo espaço no Sul para a continuidade e possibilidade da concentração de terras para uma fração de camponeses que têm acumulado riqueza neste processo. 10). São pessoas que. "A origem da civilização. Uma experiência diferente e que se relaciona com Primavera do Leste. "O que estamos assistindo de fato é. mas não possuem espaço territorial para fazê-lo. Normalmente vendem suas propriedades para os vizinhos. utilizando o conhecimento e a tecnologia disponível" (SOUSA. Contrariando essa linha. o processo de industrialização da agricultura que. importância capital na história .3. acumularam condições para produzirem mais.

os lavradores ricos. "O campesinato está longe de ser homogêneo. preconizado pelo francês Marc Bloch. O desaparecimento da escravatura possibilitou o aumento das parcelas arrendadas a colonos. florestas e rios um sistema de direitos coletivos que eram respeitados e defendidos por todos os camponeses. e ela permaneceu subordinada a um conjunto de camadas sociais nas quais se inseria como inferior. em coexistência no entanto com as unidades agrárias camponesas remanescentes. Cada família-membro cultivava sua parcela para subsistência e o excedente era vendido ou trocado. em oposição ao senhoriato. "As principais características desse tipo de campesinato perduram até hoje. "Campesinato é o grupo social formado pela massa de trabalhadores da terra e pequenos proprietários rurais. uma vez que dos primeiros núcleos camponeses derivariam as posteriores culturas urbanas. e o socioantropológico. sendo .1. Essa tendência foi diminuindo à medida que se desenvolvia a sociedade e aumentava o empobrecimento dos senhores. chefiada pelo pai. Com a revolução agrícola. denominados parceiros. no início do século XVIII. "As comunidades passaram a desenvolver sobre os pastos.2. Teoria histórica. braçais. quando esta não é própria. no início. O campesinato cultiva extensões limitadas. às vezes por temporada. que se empregam como assalariados. homem livre que pagava o aluguel da terra ao senhor com parte da colheita. "Segundo essa corrente. a dos camponeses remediados. O campesinato caracterizava-se por ser uma camada inferior. 2. sem a qual não seria possível compreender nem uma nem outra. O produto de seu trabalho destina-se primordialmente ao sustento da própria família. então. A classe dos senhores se originou da existência de diferenças de recursos e de prestígio entre os próprios camponeses: o membro do grupo que se destacava por suas qualidades ou riquezas rodeava-se de seguidores. No entanto. usando instrumentos e técnicas rudimentares e mão-de-obra familiar. Nele se identificam essencialmente três camadas: a dos camponeses ricos. O desaparecimento dessa subordinação ao senhoriato não logrou alçar a camada camponesa a uma posição elevada. subordinada e explorada pelo senhoriato. o que caracteriza a sociedade camponesa da França é sua relação com a instituição senhorial.humana. que utilizam os membros da família como força de trabalho. podendo ser vendido ou não o excedente da colheita. Assim. deduzida a parte do aluguel da terra. segundo Bloch. como é o caso dos "bóias-frias" brasileiros. possuidores de animais de lavoura e de transporte e que eventualmente contratam assalariados. e a dos jornaleiros. defendido pelo antropólogo americano Robert Redfield. A família. existiam na França grandes conjuntos familiares. coexistiam em propriedades gaulesas o escravo e o colono. difundiram-se as empresas agrícolas em moldes capitalistas cujo objetivo era a produção e a venda da colheita. Surgiram. congregando várias gerações e famílias colaterais estabelecidas na mesma vizinhança. "O fenômeno do campesinato tem sido estudado sob dois aspectos: o histórico. constitui sempre a unidade social de exploração da propriedade.3. reservando pequena parcela para o sustento do proprietário. trabalhadores sem terra. o campesinato francês desenvolveu-se. Outro tipo de senhoriato foi herdado de Roma.

uma preocupação com a segurança. No decorrer do século XIX. considerado como um mandamento divino a ser cumprido. que passaram a alugar ou arrendar suas terras aos camponeses. possui tecnologia pré-industrial. Teoria antropológica. "Além de camponeses proprietários. uma vez que cabe ao camponês abastecer a cidade. (2) parceiros.2. o regime de pagamento do aluguel da terra com parte da colheita (meia. elevado apreço à procriação e à progênie. desejo de enriquecer. localizados em terras devolutas ou sem autorização do proprietário. coexistiu com a escravidão uma camada camponesa semelhante à descrita por Marc Bloch na Europa feudal. possuidores de animais. Apesar de sua feição autoritária. Era freqüente. onde se instalavam. A relação entre o campesinato e a cidade é de complementaridade econômica. submetida à camada urbana. com os quais não tinham condições de competir. a comunidade permite que seus membros se desliguem para criar situações socioeconômicas distintas. Essa complementaridade deriva da dominação política que a cidade. 2. um campesinato livre. 2. sempre existiram: (1) posseiros. Sitiantes independentes formavam parte da comunidade camponesa. ao mesmo tempo em que se multiplicavam os pequenos proprietários camponeses. "Com a revolução francesa. acentuou-se a subordinação do campesinato à sociedade urbana em desenvolvimento.3. orientadas primariamente para a subsistência da família. A família é a unidade econômica de base e se insere em um grupo de vizinhança. e noções básicas de ética derivadas da importância atribuída ao trabalho. Os camponeses surgem nas sociedades em que a cidade e o meio rural coexistem em situação mais ou menos equilibrada. a desapropriação dos bens da nobreza e do clero possibilitou a venda de terras a burgueses citadinos. os mais abastados. exerce sobre o campo. Os instrumentos de trabalho são rudimentares e o excedente de produção é vendido ou trocado em mercados locais.2. terça). "No Brasil. Durante a revolução. em segundo plano diante dos fazendeiros monocultores e grandes criadores de gado. consagra uma porção significativa da colheita à subsistência e utiliza mão-de-obra familiar. Nas fazendas monocultoras ou de criação de gado havia. América Latina. contudo. "Essa segunda orientação relaciona o campesinato com diferentes tipos de sociedades. Permaneceram. ou o equivalente em . e continuou após a abolição da escravatura. "O camponês latino-americano pratica a policultura e a criação em pequena escala.3. os lavradores abastados passaram a se utilizar dos métodos capitalistas. como poder central.que. ao lado dos escravos. valorização positiva do trabalho. é iletrado.2. em regra. cultiva pequenas áreas. encarregado da produção de alimentos para essas fazendas e para os povoados. Os camponeses tornaram-se policultores. seu trabalho satisfaz as necessidades essenciais da vida. que pagam o aluguel da terra com uma percentagem da colheita. e suas características são: atitudes práticas e utilitárias com relação à natureza. O camponês constitui uma camada social inferior. Entre esses. praticamente monopolizavam a comercialização dos produtos agrícolas.3. Esse tipo de campesinato é formado por unidades domésticas de produção. vendendo o excedente da produção nas cidades e passando a ser comandados por citadinos.

a formação da família patriarcal e a delimitação da propriedade privada. Sua implantação tem como resultados o aumento da produção agrícola. Algumas sesmarias chegaram a atingir uma extensão de cinqüenta léguas. grandes monoculturas de exportação e milhões de trabalhadores rurais sem terra. Questão agrária no Brasil. o que resulta em elevados índices de mortalidade. o analfabetismo prevalece e inexistem as escolas técnico-agrícolas.4. "Observa-se hoje no campesinato brasileiro um movimento de migração para as cidades. tem sido o maior entrave à justiça social no campo. que concedia autonomia legislativa aos estados da federação. (5) camponeses sem terra. Os colonos. estimulou a instalação de engenhos e concedeu vastas sesmarias a indivíduos que estivessem em condições de investir na lavoura canavieira. 2. A área média das pequenas propriedades não ultrapassa os vinte hectares e a numerosa população rural vive em péssimas condições de higiene e alimentação. sistema de propriedade rural que se denomina latifúndio. que alugam seu trabalho. medidas que refletem os privilégios dos proprietários mais próximos da metrópole. (3) arrendatários. porém. independentemente da quantidade colhida. (BARSA. a ampliação do mercado interno de um país e a melhora do nível de vida das populações rurais. fertilização e recuperação do solo são desconhecidos. e apenas três no sul. os estados. "A concentração de terras em mãos de poucos grandes fazendeiros.2. Interessada na produção do açúcar. quando a coroa portuguesa simplesmente transplantou o sistema feudal inoperante da metrópole para as terras da colônia.3. "O Brasil apresenta uma estrutura agrária em que convivem extensos latifúndios improdutivos. em conseqüência da falta de um projeto global de política agrária que solucione seus problemas estruturais". cultivando nelas certos gêneros. "A má distribuição da terra no Brasil data do início da colonização. Há regiões no país nas quais os processos de irrigação. localizaram-se no sul e deram início ali ao processo de formação da pequena propriedade agrária. João sancionou decreto que permitia a concessão de sesmarias a estrangeiros.3. cultivassem e tornassem rentáveis.2. adquirindo-as pelo chamado direito de fogo morto. a quem pagam com dias de serviço. que habitam as propriedades monocultoras. pois os que não possuíam recursos suficientes para receber e cultivar sesmarias. no norte da colônia. . o colono podia conservar legalmente as terras que seu trabalho e dinheiro recuperassem. Sua problemática confunde-se com os primórdios da agricultura. numa tentativa de coibir o regime de posse. No tocante às leis agrárias. A lei vigorou até a promulgação da constituição republicana de 1891.Reforma agrária. quando o príncipe regente D.4 . "Reforma agrária é o termo empregado para designar o conjunto de medidas jurídicoeconômicas que visam a desconcentrar a propriedade das terras cultiváveis a fim de torná-las produtivas. "A primeira Lei de Terras do Brasil data de 1850 e proibia a aquisição de terras devolutas. apropriavam-se de terras incultas. procedentes de vários países da Europa.1. para os quais o aluguel da terra é fixo. com permissão do proprietário. Inauguraram também o regime de posse. "A primeira modificação importante na legislação agrária do Brasil data da vinda da corte portuguesa em 1808. (4) moradores ou agregados. Por esse direito.dinheiro. exceto por compra. 2001:339) 2.

promulgado em 1916. mas nenhum modificou fundamentalmente a má distribuição da propriedade fundiária no país. assassinato de líderes dos trabalhadores rurais e toda sorte de violência.1. "O princípio segundo o qual a posse não garante a propriedade vedou ao trabalhador rural o acesso à terra e propiciou a formação de uma casta de latifundiários que se apossou das áreas rurais brasileiras. Estatuto da Terra. compra e venda. proliferaram as denúncias de exploração do trabalho escravo.1. O código civil brasileiro. O parágrafo segundo do mesmo artigo esclarece que "o objetivo dessa política é amparar e orientar. no interesse da economia rural.3. doação. que interrompeu a ampla mobilização nacional em favor da reforma agrária.4.2.4. Multiplicaram-se as propriedades de dez mil. seja no de harmonizá-las com o processo de industrialização do país". ainda. conseguiu manter incólume o regime de propriedade e os privilégios de que desfrutava. arrecadação dos bens vagos. pela execução das seguintes medidas: desapropriação por interesse social mediante prévia indenização em títulos da dívida pública. em 1963. o latifúndio exerceu sempre poderosa influência sobre as decisões oficiais. "A partir da proclamação da república. a aprovação de um princípio constitucional segundo o qual a terra não poderia ser mantida improdutiva por força do direito de propriedade. uma vasta classe de despossuídos foi relegada à mais extrema miséria e teve suas reivindicações reprimidas sistematicamente com violência. "O governo do presidente João Goulart propôs. na segunda metade do século XX. o estatuto define a reforma agrária como "o conjunto de medidas que visam a promover melhor distribuição da terra. sucederam-se os decretos que regulamentaram aspectos da propriedade da terra. sobrevivendo assim à industrialização e às mudanças sociais ocorridas nos meios urbanos. cem mil e até um milhão de hectares. "A mesma legislação. já arcaica e ineficaz no início da colonização. Problemas sociais e ação política.3.504. endossaram os princípios e normas da Lei de Terras. Reza. se pretendia distribuir pequenos lotes a dez milhões de famílias. Depois da constituição das organizações internacionais de direitos humanos.exceto por alterações muito superficiais.1. proibiu a legitimação das posses e a revalidação de sesmarias. seja no sentido de garantir o pleno emprego. que dispôs sobre o Estatuto da Terra. "Tradicionalmente identificado com o setor mais conservador da cena política brasileira. que o acesso à propriedade territorial será efetivado mediante a distribuição ou a redistribuição de terras. As diferenças sociais se agravaram e estenderam.22. a fim de atender aos princípios de justiça social e ao aumento da produtividade". modificando o regime de sua posse e uso. Em seu artigo primeiro. Por meio de seus representantes nos órgãos de governo locais e federais. regeu a ocupação do Centro-Oeste e da Amazônia. 2. Por essa via. em flagrante desobediência à constituição de 1946.2. reversão à posse do poder público de . as atividades agropecuárias. grilagem de terras. Aqueles que não tivessem regularizado suas posses até o início da vigência do código só poderiam fazê-lo com base no instituto do usucapião. que exigia aprovação do Senado para qualquer concessão superior a dez mil hectares. 2. "Em 30 de novembro de 1964 o Congresso Nacional aprovou a lei número 4. Sobreveio então o golpe militar de 1964. Na base da pirâmide social.

A partir do fim da década de 1980 intensificaram-se os conflitos no campo e surgiram novos grupos em defesa da reforma agrária.5. composta de centenas de milhares de espécies e variedades de animais e plantas.ar.2. no ecossistema. um grau de risco pequeno. a qualquer título. a água. O Plano Nacional de Reforma Agrária. o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA). Nem o governo. em zonas críticas ou de tensão social. Hoje trabalha-se com a idéia do desenvolvimento local integrado e sustentável (DLIS). . O decreto-lei nº 554. energia solar etc. Tais comunidades mantêm entre si. os minerais. "A constituição de 1967 endossou o estatuto ao permitir a desapropriação da propriedade rural com o objetivo de promover a justiça social.2." "Em sentido amplo. ou seja. de 25 de abril de 1969. entende-se por conservação da natureza ou conservacionismo o esforço centrado em políticas e técnicas que têm por fim preservar na Terra condições propícias à vida e a uma integração maior entre as espécies. Como esses recursos não são inesgotáveis. regulou o processo especial de desapropriação dos imóveis rurais situados em áreas declaradas prioritárias. nas biocenoses. segundo os quais a matéria viva. 2. que absorveu as atribuições dos órgãos anteriores. as plantas e os animais são essenciais à vida do homem. nem os organismos financeiros internacionais estão querendo financiar projetos que não apresentam um retorno concreto. A base da indenização aprovada foi o valor declarado para efeito de pagamento do imposto territorial rural. o solo. herança ou legado. Com o DLIS surge uma nova situação em que faz-se necessário comprovar a viabilidade do projeto. para executar o Estatuto da Terra. A fim de promover e coordenar a implementação do estatuto e decretos complementares. constituindo comunidades bióticas. O mais importante deles foi o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST). se distribui no planeta segundo uma ordem naturalmente harmoniosa. em 1970. "Em julho de 1985 o governo instituiu o Ministério da Reforma e do Desenvolvimento Agrário. que é a essência que determina e regula. água. "O ar. ou seja. o Congresso aprovou duas medidas para facilitar a reforma agrária: o aumento dos percentuais do imposto territorial rural (ITR) para as propriedades improdutivas e o rito sumário. por terceiros. O meio ambiente. Os princípios básicos de conservação da natureza foram enunciados pelos ecologistas. Em 1996. Esse desenvolvimento vem sendo controlado por empresas contratadas pelo governo especialmente para auxiliar e orientar os pequenos proprietários na montagem dos projetos.4. 2. o bem-estar futuro da humanidade depende fundamentalmente de uma atitude positiva voltada para a conservação da natureza.um profundo equilíbrio. cuja ação se baseia na ocupação de terras para pressionar o governo a fazer a reforma agrária. tinha como principal instrumento a desapropriação e previa o assentamento de sete milhões de trabalhadores. solo. proposto pelo novo ministério.terras de sua propriedade indevidamente ocupadas e exploradas. que permite a desapropriação imediata das terras. mas enfrentou forte resistência no campo para sua implementação. e com o meio ambiente . Financiava-se a pequena propriedade e não se avaliava os resultados do investimento. Durante muitos anos trabalhou-se com a idéia de fundo perdido. relevo. O desenvolvimento local. sua existência em comum. o governo federal criou." .

Assim se explica. empobrecimento ou esgotamento dos solos. poluição. São essas as principais causas da erosão acelerada. fontes alimentares e locais de procriação. capazes de arrastar ladeira abaixo árvores. com a extinção de seus refúgios. segundo o clima reinante na região. os troncos das árvores e as raízes expostas. Nessas circunstâncias. porém. após chuvas prolongadas. aumentam muito o número de fissuras do solo. a maior parte da água que se infiltra penetra diretamente no solo até o lençol freático. Não sendo absorvida pelas raízes. são freqüentes os deslizamentos de terra. alteração do regime de águas ou do clima. variável em cada região natural. para que todo o conjunto venha a se modificar profundamente. razão pela qual ficam obstruídos muitos rios outrora navegáveis." "Aspectos da degradação. podem provocar a lixiviação."Assim. que podem ser lateríticas ou calcárias. quando as primeiras dessas leis são transgredidas. Essa erosão pode ocorrer sem leito definido. o papel de uma verdadeira esponja. erosão ou lixiviação (lavagem de sais do solo) aceleradas. e diferenciados em escala crescente à medida que os meios técnicos evoluíam. A mata exerce. todo o regime de águas é logo perturbado. foram determinados os princípios da conservação dos solos. Assim. formando sulcos profundos nas encostas. e sim a leis econômicas. Desde o surgimento da sociedade humana. além de um determinado ponto crítico." "Em trechos de encostas íngremes. chamadas voçorocas no sul do Brasil. Os rios que percorrem regiões florestais devastadas alteram em pouco tempo sua descarga e tendem a um regime torrencial. bem como partículas finas em suspensão. em zonas de vegetação aberta. das águas continentais e marinhas. da fauna. por onde as águas se infiltrarão. no caso. ditos antropogenéticos (as "paisagens culturais" dos geógrafos). após seu esfriamento. Ao procurar defender os "recursos naturais". mas sobretudo em áreas planas. o homem tornouse cada vez mais capaz de criar ambientes artificiais. É comum que esse processo de ravinamento tenha início num corte de estrada ou de caminho carroçável. desencadeiamse processos como degradação ou devastação da flora. torna-se muito menor a evaporação da água das chuvas. em qualquer tipo de topografia." "A derrubada de matas ou sua destruição pelo fogo causam danos imediatos à fauna. da flora. a leis de conservação da natureza. O calor do fogo dilata as partículas minerais que. por exemplo. em que se alternam inundações e secas. ou então em ravinas. acarretando profundas alterações na distribuição das populações animais. formando enxurradas. a formação de crostas no solo. que não ocorria antes devido aos obstáculos impostos pela capa de húmus do solo. o conservacionista não toma o vocábulo "recursos" no mesmo sentido que o economista. isto é. arrastando húmus e minerais solúveis. significando riqueza potencial." "Já a água de escoamento superficial aumenta de volume e desce incontrolada pelas vertentes. se desaparece." "Basta que seja alterado um dos elementos do ecossistema. estudados pormenorizadamente cada um dos componentes dos ecossistemas. mas apenas no de "condições ambientais". eliminando-se a cobertura florestal numa vasta superfície de relevo acidentado. Em determinadas . extermínio da fauna. blocos de pedra e eventuais construções. A rápida transformação do ambiente provocada pelo homem não obedeceu. A carga sólida dos cursos fluviais também sofre considerável aumento." "Os incêndios nas matas.

Daí aos sensores remotos foi um passo." "O antigo conceito simplista de animais úteis e nocivos teve de ser abandonado. e na China. no Japão implantaram-se em 1868 as áreas verdes de Matsushima. Bruxelas. simples fungos que infestavam lâminas de microscópio conduziram à invenção da penicilina e à produção de toda uma gama de antibióticos ." "Graças ao estudo dos morcegos. onde o Buda se inspirava. desde 1910 até sua morte em 1929. de seus recursos instintivos e de seus modos de vida. onde os mandarins mantinham espécies de particular interesse em pequenos parques". nos Estados Unidos preservou-se em 1864 o vale do Yosemite e em 1872 foi criado o primeiro parque nacional do país. Da mesma forma. aves corredoras e rapaces começam a predominar. possibilitaram a descoberta do fator sanguíneo Rh. já ampliou em muito a noção de sua utilidade para os seres humanos. os zoólogos abriram caminho para a descoberta do radar." "Em 1900 realizou-se em Londres a Conferência Internacional de Proteção aos Animais da África." "Impondo-se a mentalidade conservacionista e o conceito da essencialidade de manutenção do equilíbrio. da Índia.fato tomado como exemplo dos benefícios que paralelamente procedem da observação da vida das plantas. cuja influência se estenderia a todo o mundo entre as duas guerras mundiais. sobre espécies arborícolas e voadoras que se alimentam de plantas. A observação científica dos animais. O Extremo Oriente teve a primazia da mentalidade conservacionista. na organicidade de cada ecossistema. instituiu-se em 1898 o parque El Chico. todos têm um papel a desempenhar. feita com isenção de julgamentos prévios. bem como entidades privadas. voltada para o estudo do comportamento animal. que permite a orientação na neblina ou na escuridão. Amanohasidate e Miyajima. Certas iniciativas pioneiras já datavam de fins do século XIX. que. alguns governos. 1948) e finalmente se estabilizou como International Union for Conservation of Nature and Natural Resources (União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos . como em Sarnath.circunstâncias. que criou condições para que sejam poupadas centenas de milhares de vidas infantis. Relevante foi o empenho do naturalista suíço Paul Sarasin. Os japoneses. difundiram a teoria e a prática da arquitetura paisagística. evitando acidentes." "Evolução da mentalidade ecológica. lutou pelo estabelecimento de uma Comissão Internacional de Proteção à Natureza. Em 1895 foi criada uma Comissão Internacional para a Proteção das Aves Úteis à Agricultura. justificando-se sua conservação e proteção cuidadosa pelas próprias razões que esses papéis indicam. o de Yellowstone. Os macacos Rhesus. 1928). passaram a reconhecer que a proteção da natureza é assunto de alcance internacional. no México. por exemplo. ressurgiu como The International Union for Protection of Nature (União Internacional para a Proteção da Natureza. Há milhares de anos existem nessa região áreas destinadas a proteger animais. O movimento protecionista. Assim. Fontainebleau. na Índia. ante a evidência de que. a etologia. "Desde o início do século XX. os enfoques de uma nova ciência. levaram a uma visão bem diversa das relações entre o homem e as diferentes espécies que com ele compartilham a existência na Terra. após organizar-se como Office International pour la Protection de la Nature (Organização Internacional para a Proteção da Natureza. com sua longa tradição de respeito pelas coisas da terra.

a partir das décadas de 1920 e 1930. Realizada no Rio de Janeiro.1. o barão de Pati do Alferes. em Washington. e a Conferência Intergovernamental de Especialistas sobre as Bases Científicas para o Uso Racional e Conservação dos Recursos da Biosfera. Em 1821. nas florestas das Paineiras. no Brasil. Francisco Peixoto de Lacerda Werneck. (BARSA.2. foi a carta régia de 13 de março de 1797. se pusessem a condição de que a sexta parte do terreno nunca haveria de ser derrubada e queimada. como ficou conhecida. de diversos órgãos governamentais que se sucederam no tempo com específicas atribuições conservacionistas." "Objetivando o intercâmbio técnico-científico e a difusão dos conhecimentos conservacionistas. em junho de 1992. em 1937. Em 1861 fez-se a primeira experiência brasileira de reflorestamento tropical. que advertia contra o perigo de destruição das matas. em vista dos problemas de poluição e degradação ambiental que se acumulavam no final do século XX. Na Eco-92. em 1940. em Paris. 1956). sob os auspícios da União Pan-Americana. promoveram-se diversos congressos. . A luta pela defesa da natureza." "O evento de maior amplitude e de repercussão mais profunda. a consciência da necessidade de proteger a natureza só começou a difundir-se entre a população brasileira após as décadas de 1960 e 1970.5. 2001:361) BIBLIOGRAFIA ABRIL. O primeiro documento a referir-se expressamente à conservação da natureza. Grupos e entidades ecológicas tornaram-se cada vez mais comuns. foi a Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento. como a Convenção para a Proteção da América. "Malgrado a criação. ratificada pelo Brasil em 1965. não raro exercendo pressão sobre as autoridades públicas por decisões mais enérgicas." "Na década de 1860. passando a figurar com destaque entre as plataformas partidárias e as metas de novos governantes". 1997. em sintonia com o que então ocorria no restante do mundo". em 1968. Edimburgo. foram aprovados documentos de fundamental importância para a conservação da natureza. a Convenção do Clima e a Agenda 21". sem que se fizessem novas plantações de bosques". ao mesmo tempo. com a presença de representantes de 62 países e observadores de numerosas entidades.Naturais. 2. no Rio de Janeiro". tomou feição crescentemente política. começou a agir de forma organizada pela conservação da natureza. José Bonifácio de Andrada e Silva propôs que "em todas as vendas de terras que se fizessem e sesmarias que se dessem. a Declaração de Princípios das Florestas. "Conservacionismo no Brasil. dos primeiros parques nacionais e. mobilizando-se em campanhas ao sentir o impacto da degradação de seus ambientes. "A própria sociedade. São Paulo: Abril. como a Convenção da Biodiversidade. Silvestre e Tijuca. Almanaque. sugeriu em seu livro Memória sobre a fundação e custeio de uma fazenda que os fazendeiros evitassem reduzir a cinza as preciosidades vegetais e que o governo tornasse obrigatório o plantio de "paus de lei" à beira das estradas. teve a adesão de 178 países e contou com a presença de mais de cem chefes de estado.

MARTINS.com Última atualização em 01 de janeiro de 2001. Citações e referências a documentos eletrônicos. Nova Enciclopédia. por um lado. São Paulo: Brasiliense. 1976. pelo número significativo das pesquisas empíricas realizadas que possibilitaram a coleta de abundantes informações e dados sobre a realidade agrária. SOUSA.ed. São Paulo: Saraiva. MARCELIB. 2001. Sociedades camponesas. Renato. Sample.biomania. 1. MOURA. 2. 11. OLIVEIRA. A terceira onda. Pesquisa educacional. [online]. WOLFO. INTRODUÇÃO A produção teórica sobre o “mundo rural” no Brasil dos últimos trinta anos poderia ser caracterizada. URL: http://www. Ariovaldo Umbelino de.. Arquivo consultado em 02 de maio de 2004. Carlos Benedito. 1999. URL: http://www. Disponível na Internet via WWW.. [online]. São Paulo: Contexto. 1994.quatrocantos. Izaias Resplandes de. Teoria tridimensional do Direito. Rio de Janeiro: Zahar. 57). 1992. Busca-se compreender de que forma essas influências teóricas determinam a forma em que os cientistas sociais têm interpretado o “mundo rural” brasileiro. Disponível na Internet via WWW. Sociologia geral. REALE.ed.net Arquivo consultado em 02 de maio de 2004. PRETI. 22. 7ª série. URL: http://www. Marina de Andrade.ed. Disponível na Internet via WWW. URL: http://www.ed. Cuiabá: UFMT. MT.poxoreo. JOLLIVET. Eric R. [online].. O que é sociologia.cjb. pela variedade de temas tratados. Alvin. 1997. Marcel. 7. Brasil: para compreender a história. Cuiabá: UFMT.br/biografias. LAKATOS. Biografia de Thomas Robert Malthus. ed. novembro 1998: 5-25. 2002. TOFFLER. 11. Vol. A CRISE DA SOCIOLOGIA RURAL NO BRASIL E SUAS TRADIÇÕES TEÓRICAS William Héctor Gómez Soto1 RESUMO Este artigo faz uma avaliação da crise da sociologia rural no Brasil a partir da análise das tradições teóricas que a influenciam principalmente a vertente sociológica americana e o marxismo clássico.. Eva Maria & MARCONI... São Paulo: Atlas. pela influência de referenciais marxistas. (Coleção Primeiros Passos. A geografia das lutas no campo. Porém é .BARSA. 1997. 1999. Miguel. e pelo outro. 5. São Paulo: Record. Tecnofrutas: o processo de produção e industrialização de Poxoréo. Oreste. São Paulo: Barsa. São Paulo: Editora do Brasil. [online]. 2003. Gevilacio Aguiar Coêlho de. SOLUÇÕES. A "vocação atual" da sociologia rural in Estudos Sociedade e Agricultura.com. Arquivo consultado em 02 de maio de 2004. Disponível na Internet via WWW.

Na quarta 1 Doutor em Sociologia (UFRGS) e Prof. Alguns autores brasileiros parecem ter dificuldade em deixar de lado “velhas idéias” como a “diferenciação social na agricultura e a polarização de classes” oriunda da “tradição marxista clássica”. iniciado a meados da década de 70 e caracterizado pela recuperação crítica das tradições teóricas de Marx e de Weber e pela emergência de novas questões de pesquisas. às tradições teórico-metodológicas funcionalistas. A terceira parte. Apesar disso. alguns autores começam a chamar a atenção sobre a necessidade de repensar o “mundo rural” a partir das transformações que estão ocorrendo em escala mundial. Atualmente. enquanto que a nível internacional existe uma outra dinâmica que incorpora novas questões e novas perspectivas teórico-metodológicas para entender velhos problemas. trata sobre a produção teórica brasileira sobre o “mundo rural”. discutimos as tradições teóricas da sociologia rural. Em seguida. A ausência de um debate científico e livre de conotações “ideológicas” sobre a problemática agrária. seu contexto histórico e as principais visões. Este artigo está estruturado em cinco partes. tentamos apreender o processo de mudanças dentro da sociologia rural americana. Na primeira parte.necessário assinalar que uma parte importante dessa produção teórica está vinculada. parece ter reduzido as possibilidades de inovações teóricometodológicas que. em menor grau. tendo como ponto de partida a compreensão da evolução da sociologia rural americana. predominantes na sociologia americana da década de 60. . do Instituto de Sociologia e Política (UFPEL). existe uma relativa incapacidade da “sociologia rural” brasileira de explicar as mudanças no “mundo rural”. ao mesmo tempo contemple as mudanças da realidade e as discussões a nível internacional.

na sociologia rural americana pode-se identificar três etapas: a primeira vai do início deste século até os primeiros anos da década de 50. A inícios da década de 50 essa tradição foi questionada por um novo grupo de sociólogos rurais influenciados pela Psicologia Social e formados principalmente na Cornell University e nas universidades de Wisconsin. um conceito que foi deixado de lado na pesquisa social anterior aos anos 70. 1. e que separam a sociedade rural da urbana. A meados dos anos 60. O continuum rural-urbano perdeu utilidade na medida em que a população rural diferenciava-se cada vez menos da população rural. Ambas as tradições parecem insuficientes para dar conta das mudanças que estão ocorrendo no mundo rural brasileiro. 1982) mostraram que os conceitos de “urbano” e “rural” não eram nem variáveis explicativas nem categorias sociológicas. Essa situação de “esgotamento” está dando lugar a novas concepções teóricas-metodológicas que alguns autores chamam de “nova sociologia rural” (Newby) ou “sociologia da agricultura” (Buttel). portanto totalmente incapaz de abrigar o caráter explicativo que se lhe atribuia. queremos chamar a atenção sobre as transformações econômicas e sociais que estão fazendo emergir um novo “mundo rural” . Alguns autores (Gans e Pahl apud Newby. Kentucky e Iowa. Durante esse período a sociologia rural americana foi dominada por uma perspectiva que definia os produtores como atores que podiam responder a estímulos e a novas tecnologias. devido a razões teóricas e empíricas. é conhecida como a época do enfoque do comportamento psico-social. A noção de continuum rural-urbano estabelece uma série de traços da sociedade urbana e a sociedade rural que se supõem funcional e causalmente conectados. constituem uma “nova sociologia rural”. início da década de 50 até início da década de 70. cuja manifestação mais conhecida foi a difusãoadoção de inovações.2 parte. Sorokin e Zimmerman)2. refere-se à “nova sociologia da agricultura”. O aspecto mais importante dessa nova sociologia rural refere-se ao conceito de “estrutura da agricultura”. a perspectiva teórica que dominava a sociologia rural (o continuum rural-urbano) entrou em crise. desde a metade da década de 70. Missouri. Newby (1982) tem argumentado que os trabalhos inovadores sobre a agricultura. Uma que pode ser chamada de “funcionalista” e a outra de “marxista clássica”. De acordo com Buttel et al (1990). Esses autores mostraram que o conceito de “rural” era essencialmente descritivo e empírico e. A sociologia do “mundo rural” e suas tradições teóricas A sociologia do “mundo rural” tem estado influenciada principalmente por duas tradições clássicas. Essas diferenças são apresentadas . Minnesota. onde o estudo sobre a agricultura foi construído como um dos muitos elementos necessários para compreender a estrutura social da vida comunitária rural. A sociologia rural anterior a 1950 teve uma orientação teórica baseada no continuum rural-urbano (Toennies. A terceira época. A segunda época.

“Desde a habitação rural isolada e até a grande cidade. existe um contínuo. Entre o meio rural e o meio urbano existe uma gradação infinita. 1973:12) 2 . Em outras palavras.” (Solari. existem inúmeros escalões intermediários que vão criando uma transição insensível entre o meio rural propriamente dito e o meio urbano.por Sorokin e Zimmerman como extremos de uma escala polar de muitas gradações.

A noção de Merton tinha como objetivo permitir que os sociólogos transformassem certas proposições abstratas do funcionalismo parsoniano em hipóteses testáveis com dados a nível micro (individuais. Na tradição de pesquisa dentro da linha da difusão/adoção o agricultor era visto como um ator que respondia a diversos estímulos para melhorar a produção agrícola.3 Os sociólogos rurais. 1952. 1950. De acordo com Buttel et alii (1990) os primeiros estudos dentro dessa tradição foram. a agenda mertoniana das Teorias de alcance médio (Middle-Range Theory). 1954)6 da Universidade de Chicago Merton denomina.A. as teorias intermediárias entre as pequenas. organização e mudanças sociais. apenas guardam uma superficial semelhança com as obras de Durkheim e Weber. familiares e organizacionais) e relacionados com determinadas unidades de análise. Emile Durkheim e Max Weber eram considerados os modelos clássicos de pesquisa dentro da tradição da psicologia social da sociologia rural. revolucionou a pesquisa e deu coerência à sociologia americana e definiu um modelo de pesquisa sociológico que em muitos aspectos. como a teoria da difusão e adoção de inovações. Isto era uma premissa para compreender a expansão de novas tecnologias e significava uma postura a favor das mudanças tecnológicas. A teoria de adoção-difusão de inovações foi o protótipo da “Theory os Middle-Range”. Por exemplo. mas hipóteses necessárias de trabalho que surgem em abudância durante a rotina das pesquisas diárias e os amplos esforços sistemáticos para desenvolver uma teoria unificada capaz de explicar todas as uniformidades observadas de comportamento. as quais estão muito afastadas das espécies particulares de . O mesmo pode se dizer em relação ao método históricocomparativo de Weber. Ocupa uma situaçào intermediária entre as teorias gerais de sistemas sociais. Essa orientação teórico-metodológica reflete-se na sociologia rural até inícios da década de 70. onde se combinava o raciocínio da psicologia social com um tipo de análise funcional (ou seja. a partir da síntese parsoniana e de uma incipiente Teoria da Ação enquanto que a noção da Theories of the middle range3 de Merton era a noção central na pesquisa sociológica e na sociologia rural das décadas de 50 e 60. mantém sua influência até hoje. E. dentro da tradição da psicologia social consideravam que os agricultores eram atores sociais capazes de responder ao estímulo de novas tecnologias agrícolas. Nesse período a sociologia rural foi mais quantitativa que durante a tradição dos estudos da comunidade rural (1900-1950). “A teoria de médio alcance é usada principalmente na sociologia para servir de guia às pesquisas empíricas. assim como dos meios de comunicação e do sistema educacional. Teorias de médio alcance. Para Buttel et alii (1990) a síntese parsoniana e a elaboração de Merton. a noção de que a adoção de novas tecnologias poderia contribuir para uma mudança social positiva). Apesar dessas críticas. Wilkening (1949. a sintonia do funcionalismo com a análise causal a nível micro era estranha às noções centrais de Durkheim na sua análise da sociedade. Weber criticou amplamente as metodologias que implicavam a imposição da proposta hipotético-dedutiva das ciências naturais sobre as ciências sociais. elaborados por Hoffer (1942)4 e Ryan e Gross (1943)5 em Michigan e Iowa respectivamente.

East Lansing: Michigan Agricultural Experiment Station. “A sociopsychological study of the adoption of improved farming practices”. 316. Bryce e Gross. Eugene A. Rural Sociology 8 (March): 15-24 6 Wilkening. “The diffusion of hybrid seed corn in two Iowa communities”. Neal C.comportamento. Acceptance of approved Farming Practices Among Farmers of Dutch Descent. Special Bulletin No. 1949: 68-69 3 . organização e mudanças sociais para explicar o que é observado e as minuciosas ordenadas descrições de pormenores que não estão de modo algum generalizados.”Merton (1970:55) 4 Hoffer. Charles M. Rural Sociology 14 (March). 5 Ryan.

1958:97-102 7 Fliegel. particularnente das obras de Marx. Na década de 70 uma nova geração de sociólogos rurais foram influenciados pelas críticas de Mill. . Para Kautsky. 1954: 29-37. ____________________ “Informal leaders and innovators in farm practices” Rural Sociology 17 (September).” Rural Sociology 15 (December). “A multiple correlation analysis of factors associated with adoption of farm practices. Joe. Essa busca significou a redescoberta de um conjunto de propostas clássicas para a compreensão do desenvolvimento agrário. ____________________ “An introductory note on the social aspects of practice adoption. Para Lenin. and family integration.” Rural Sociology 21 (September/December). Outros analisaram os impactos ecológicos da modernização da agricultura e argumentaram que os pesquisadores deviam considerar as variáveis ecológicas se eles queriam compreender a organização social e as mudanças tecnológicas na agricultura. 1952: 272-275. Também foram notáveis as contribuições de Fliegel (1956)7.4 exerceu uma grande influência nas primeiras pesquisas de difusão e adoção de tecnologias agrícolas. Gouldner e outros. caracteriza-se pela busca de teorias adequadas para compreender as estruturas agrárias modernas. a dinâmica central era a penetração do capital urbano-industrial na agricultura e o desaparecimento. do campesinato. Lionberger (1960)9. Lenin. George e Bohlen. A reavaliação da perspectiva teórica dominante na sociologia rural nas décadas de 50 e 60 pode levar a uma nova sociologia rural. a lógica básica do desenvolvimento agrário era a vinculação entre a estrutura de classes e a diferenciação social na agricultura e a formação de um mercado interno no capitalismo. 1956: 284-292. Kautsky e Chayanov. family decision-making. lento. Frederick. Em 1959. Wright Mill criticou a teoria parsoniana e chamava a atenção de que as Teorias de Médio Alcance de Merton conduziam a um empiricismo abstrato que sufocava a imaginação sociológica. baseada no marxismo. essa tecnologia tinha como efeitos a marginalização da agricultura familiar e dos trabalhadores. Coughenour (1960)10 e Rogers (1962)11. por exemplo.” Amercican Sociological Review 19 (February). na sua Imaginação Sociológica. ____________________”Change in farm technology as related to familism. Alguns sociólogos rurais analisaram a estrutura da pesquisa agrícola e o papel da sociologia rural no desenvolvimento e difusão de novas tecnologias. mas inevitável. As críticas de Mill receberam pouca atenção dos sociólogos rurais. Essas perspectivas teóricas sobre a agricultura eram principalmente dedutivistas na medida em que buscavam identificar a lógica particular do desenvolvimento agrário. Muitas das preocupações da sociologia rural traduziam-se em crítica da revolução verde.”Rural Sociology 23 (June). ____________________ “A sociopsychological approach to the study of the acceptance of innovations in farming. Beal. A segunda tradição (19751985). 1950: 352-364. Igualmente. por acreditar que os pequenos produtores agrícolas não tinham acesso às novas tecnologias além de serem ecologicamente destrutivas. Beal e Bohlen (1957)8.

Adoption of New Ideas and Practices. “The functioning of farmers charecteristcs in relation to contact with media and practice of adoption. 8 . Diffusion of innovations. Milton. C. Ames: Iowa Agricultural Extension Service 9 Lionberger. 1960: 283-297 11 Rogers. 1962. Special Report 18.” Rural sociology 25 (September).The Diffusion Process. Herbert F. New York: Free Press. Everett M. Ames: Iowa State University Press. 1960 10 Coughenour.

Além disso. O Capital de Marx: “.” Abramovay (1992:33) No capitalismo. as duas obras clássicas sobre a problemática agrária dentro da tradição marxista devem ser analisadas de acordo com o contexto de debate político em que seus autores estavam inseridos. Se o camponês obtém lucro.5 Essas teorias dedutivas da estrutura agrária foram úteis no seu tempo e ainda podem fornecer elementos importantes para a pesquisa. Portanto os esforços dos socialdemocratas russos deveriam centrar-se na organização naqueles camponeses que mesmo sendo proprietários vendiam sua força de trabalho. Para Lenin se o campesinato em seu conjunto apoiaria a revolução democrática. somente pode satisfazer suas necessidades através do mercado e é ali onde se manifesta a contradição entre o caráter social do trabalho e a apropriação privada de seu resultado. um operário e não um camponês. privada. Sendo a burguesia e o proletariado as classes fundamentais da sociedade capitalista. Dessa forma surge uma nova relação social baseada na cooperação. somente os camponeses pobres apoiariam a revolução socialista. Porém. essas teorias dedutivas tendem a estar baseadas em argumentos teleológicos. Esses argumentos enfatizam que existe uma lógica última do desenvolvimento que se explica pela necessidade de sua própria dinâmica. ou para racionalizar a produção agrícola. esses argumentos dedutivos abstratos tendem a perder força explicativa diante variações espaciais e temporais. Cabe salientar que Marx não trata sobre as tendências e funções da agricultura familiar no desenvolvimento capitalista. De acordo com Abramovay (1992:36). o produtor de mercadorias. a “impossibilidade de definir claramente seus rendimentos demonstra que o conceito de camponês n’O Capital é logicamente impossível”. Esses caráter transitório do campesinato (e de todos os pequenos proprietários) explica a ausência de um conceito de camponês na obra de Marx. ao mesmo tempo. Portanto é na produção de mercadorias que se encontra a base da diferenciação social que provoca o surgimento das classes sociais. Isto se explica pela própria lógica de sua obra. sociais.. Referimos-nos a Questão Agrária de Kautsky e a Desenvolvimento do capitalismo na Rússia de Lenin. Os debates da socialdemocracia alemã e Russa e os trabalhos de Kautsky e Lenin não se apoiavam nas conclusões de O Capital nem nas partes das Teorias da Mais-Valia em que Marx analisa a questão agrária. o campesinato está fatalmente condenado a desaparecer.. A burguesia e o proletariado expressam essa contradição. ele se torna um capitalista. . Quando os trabalhadores exerçam a cooperação e a propriedade comum da terra e dos meios de produção será superada a contradição entre o trabalho social e a apropriação privada. situa-se no plano de uma fenomenologia das formas sociais. para a satisfação de necessidades gerais. mas voltada. onde o ponto de partida contém o destino final da trajetória: a mercadoria resulta de atividade particular. por exemplo para garantir a acumulação do capital urbano-industrial. Segundo Abramovay (1992). Se receber salário tratase de um trabalhador assalariado. A ênfase de Lenin na diferenciação social do campesinato deve ser entendida na sua tentativa de demonstrar a impossibilidade de estabelecer uma ampla aliança de classes para realizar a Revolução na Rússia.

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Para Abramovay (1992:42) a idéia da diferenciação social de Lenin deve ser entendida no contexto do debate entre bolcheviques e mencheviques. Igualmente Kautsky rejeita qualquer possibilidade de incluir no programa do partido qualquer tipo de reivindicação camponesa. aqueles que buscavam levantar algumas reivindicações específicas para o campesinato (crédito. se insere nesse dilema e denuncia a falsidade dos socialdemocratas que fomentavam a ilusão da permanência dos camponeses no capitalismo e no socialismo. Pelo outro. ou estavam estreitamente vinculados a ela. tornado esta idéia o ponto de partida e de chegada de suas análises. os camponeses poderiam se unir aos proletários na construção da sociedade socialista.. Os anos de mudança: 1975 . Para os primeiros. a tarefa o partido deveria organizar os trabalhadores assalariados agrícolas e explicar aos camponeses a inevitabilidade de seu desaparecimento. aqueles que consideravam o campesinato em processo de rápido desaparecimento. Além disso. A sociologia rural podia definir-se como o estudo dos que moravam numa localidade rural e se dedicavam à produção de alimentos.. por exemplo). mais do que “. Argumentavam também que a pequena produção era tecnicamente superior à grande exploração capitalista. mostrou ser falsa. Portanto o partido não deveria incluir nenhuma reivindicação camponesa (enquanto proprietários) no seu programa. Na base dessa argumentação encontra-se a idéia de que os socialdemocratas não poderiam levantar reivindicações de qualquer setor social proprietário de meios de produção.1995 Os problemas de definição da sociologia rural partem do fato de que o “rural” não constitui uma categoria sociológica. Na Questão Agrária. Por um lado. Contudo. a não ser exigir as mesmas condições de trabalho no campo e na cidade. O trabalho de Engels A questão camponesa na França e na Alemanha. Para eles. os camponeses se tornariam capitalistas ou proletários. No interior do partido havia duas tendências. os . O desaparecimento desse objeto de estudo subverteu a confiança dos sociólogos rurais dedicados a analisar as diferenças entre o “rural” e o “urbano”. as previsões de Lenin e Kautsky não se realizaram. Para Engels.propriedades objetivas e universais do desenvolvimento do capitalismo no campo”. a contradição entre progresso técnico e agricultura familiar enfatizada por Kautsky. No passado esse problema permaneceu oculto devido a que na maior parte das zonas rurais dos países capitalistas industrializados coincidiam as localidades de residência e de trabalho.6 É sobre essa idéia da diferenciação social do campesinato que se formou o mais importante paradigma marxista sobre a questão agrária. a obra de Kautsky deve ser compreendida no contexto do debate da socialdemocracia alemã na busca do apoio da população rural para ampliar sua representação parlamentar. Kautsky tentou demonstrar a inutilidade de dedicar esforços na organização do campesinato em processo de desaparecimento devido principalmente à superioridade técnica da grande exploração agrícola. 2. Enquanto as populações rurais ficavam menos homogêneas. Por sua vez. Os marxistas estudiosos da problemática agrária dedicaram-se a encontrar a tendência da diferenciação social. O desenvolvimento do capitalismo no campo não resultou na proletarização dos pequenos produtores.

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Sem dúvida trata-se de redefinir os velhos problemas a partir de novas abordagens. Segundo Newby (1982) a sociologia rural tem-se caracterizado por sua natureza a-teórica e inclusive anti-teórica e até pela sua tentativa de elaborar. a sua responsabilidade pública e inclusive a sua competência para fazer pesquisa. Mas isto poderia ser compreensível se levamos em conta que os autores clássicos têm descuidado a sociologia rural no seu esforço por criar teorias da sociedade industrial . A formulação desta “nova sociologia rural” é um desafio para os sociólogos rurais na atualidade. Esta confusão é sintomática de uma dificuldade conceitual mais profunda. As origens da crise Existe certa confusão sobre a possibilidade de uma definição significativa do ponto de vista sociológico do “rural”. Ainda que a definição mais comum da sociologia rural consiste em considerá-la “o estudo científico da sociedade rural”. a sua pertinência teórica. A sociologia rural parece enfrentar um conjunto de problemas relativos ao seu objeto de estudo. resulta irônico que a influência da sociologia rural americana tenha se estendido com maior rapidez e amplitude que antes. mas há populações específicas que por razões diversas estão localizadas em zonas rurais. de forma indutiva. combinado com uma teoria que explique essa estrutura e essas relações. A história desta disciplina tem sido obstaculizada pela busca fútil de uma definição sociológica do “rural” e pela resistência a desconhecer que esse termo é uma categoria empírica mais que sociológica. Do anterior derivam-se duas consequências: Em primeiro lugar. quantitativo e “aplicado”.7 sociólogos também perdiam a clareza em relação ao que era o “rural”. as críticas à sociologia rural ainda não permitiram uma mudança importante nos programas de pesquisa nesse campo. constitui uma mera “expressão geográfica”. que requer uma análise mais cuidadosa. na década de 70 a sociologia rural parecia ter perdido o rumo. não existe uma população rural. esse termo é apenas um “referente empírico”. Novos problemas sociais e sociológicos emergentes estariam provocando nos sociólogos rurais o sentimento de que eles não estavam suficientemente preparados para responder a essa nova situação. uma teoria sociológica especificamente rural. Na falta de uma definição do “rural” aceitável do ponto de vista sociológico. A sociologia rural se define melhor como a sociologia das localidades geográficas que têm uma população escassa e de pouca densidade em termos relativos. Apesar disso. De acordo com Newby (1982) as características do estilo “científico” da sociologia rural são as seguintes: positivista. A perda de confiança na orientação que segue a sociologia rural tem sido maior nos Estados Unidos. sem referência às teorias “gerais” da sociedade. Para alguns autores como Newby (1982). Muitos sociólogos têm negado a possibilidade de estudar a sociedade rural como uma parte da sociedade em seu conjunto. indutivo. Contudo. não pode existir uma teoria da sociedade rural sem uma teoria da sociedade geral. Esta tarefa seguirá exigindo um conhecimento empírico muito responsável da estrutura e as relações sociais. ou seja. Além disso. isto simplesmente desloca a questão central de se a “sociedade rural” pode definir-se sociologicamente.

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urbana, além de que frequentemente têm ignorado a natureza da sociedade rural. O rural tem sido considerado como um resíduo e, portanto tem recebido pouca atenção na teoria sociológica geral.

Em segundo lugar, dado que o “rural” é uma categoria espacial é necessário uma teoria que vincule o espacial com o social. Além de que, uma teoria sociológica deverá enfatizar o social. A sociologia rural americana tornou-se sinônimo de um empirismo superficial, rejeição da teoria e banalização de temas importantes. A sociologia rural buscou a legitimidade científica nas instituições de ensino superior através da utilização de instrumentos estatísticos e a quantificação e manejo de dados, tentando compensar a negligência teórica com a competência metodológica. Porém, essas técnicas de coleta e análise de dados não significaram uma melhora no conhecimento produzido. A lentidão para entender esses fatos tem contribuído para o aprofundamento da crise da sociologia rural. Nos últimos anos acreditou-se que as falhas na compreensão do funcionamento da sociedade rural deviam-se unicamente à falta de dados e ao caráter rudimentar dos instrumentos disponíveis para medição e elaboração de modelos. O irônico é que na medida em que se aperfeiçoavam as técnicas de coleta e análise de dados ficava mais longe a possibilidade de entender a sociedade rural (Newby, 1982). Recentemente há indícios que as fraquezas teóricas da sociologia rural estão sendo questionadas, sobretudo nos Estados Unidos, mesmo que ainda não foi substituída a teoria do continuum rural-urbano por um novo corpo conceitual ou por um conjunto de problemas teóricos que poderia possibilitar novos temas de pesquisas para a sociologia rural. Não se trata de propor uma teorização abstrata, mas de reconhecer que a elaboração teórica e a pesquisa empírica não são exercícios separados. Como mencionado anteriormente, a sociologia rural requer de uma teoria da sociedade, dentro da qual pode ser localizado o “rural”. O que implica que os sociólogos rurais devem conhecer melhor as teorias sociológicas gerais, ainda que, não há uma teoria geral da sociedade aceita pelos sociólogos. Os sociólogos rurais devem adotar uma visão mais totalizadora para estudar a sociedade rural. É importante que os sociólogos rurais se considerem a si mesmos como sociólogos que tem como objetivo estudar certos aspectos das zonas rurais. Para Newby (1982) uma nova sociologia rural deve partir de um enfoque totalizador no estudo da sociedade rural. O debate internacional: a “nova sociologia rural” A nova sociologia rural procura entender a estrutura interna e a dinâmica da agricultura a partir de teorias neo-weberianas e neo-marxistas. Dentre os temas tratados por esta nova perspectiva estão: o papel da etnicidade na persistência da agricultura familiar; a indústria agrícola; a força de trabalho assalariado agrícola; pequenos produtores e a agricultura em tempo parcial e, gênero e agricultura. Ultimamente, o “meio ambiente da agricultura”, tanto no sentido literal como metafórico, também ocupa as preocupações desta nova perspectiva. No sentido literal, explora temas relacionados com os fatores naturais e

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ecológicos e os impactos da agricultura sobre o meio ambiente. A nova sociologia rural também trata sobre temas relacionados ao ambiente sócio-econômico da agricultura como as mudanças tecnológicas na agricultura, a sociologia das ciências agrárias e a crise agrícola (principalmente sua origem no ambiente das políticas públicas). De acordo com Buttel et alii (1990), um dos traços da nova sociologia que emergiu entre a metade e fins da década de 70 foi a diversidade de seus enfoques teóricos. Por exemplo, Rodefeld e Heffernan revisaram teorias tradicionais e demonstraram que a tendência aparentemente “natural” da diferenciação na agricultura tinha implicações negativas para os agricultores familiares e as comunidades rurais. Mais tarde foi desenvolvida uma tradição teórica baseada na economia política marxista e, especialmente, na abordagem clássica da economia política agrícola de Marx, Kautsky e Lenin. Nesse mesmo período, foram publicados um conjunto de artículos escritos por Mann e Dickinson (1987), Friedmann, e Newby que abriram novas visões na análise sociológica da agricultura, através da aplicação da teoria marxista. Esta tendência foi consolidada com a antologia editada por Buttel e Newby (1980), a publicação de um livro de Friedland et al (1981) e uma antologia por Havens et al (1986)12. Recentemente a economia política da agricultura tem tomado uma orientação neo-weberiana, estimulada por Newby e Mooney. Finalmente, a partir de 1980, a nova sociologia da agricultura tem sido influenciada por uma postura ecológica. A nova sociologia da agricultura tem sido teoricamente diversa, porém existem características comuns desta reorientação da pesquisa sociológica rural. Primeiro, a nova sociologia da agricultura tem sido teoricamente mais ambiciosa que as pesquisas tradicionais dominantes antes do início da década de 70, tentando combinar, a teorização macrosocial com a elaboração de formulações teóricas falsificáveis e hipóteses testáveis. Segundo, na nova sociologia da agricultura, os métodos qualitativo e histórico da pesquisa, têm uma maior importância, do que tiveram na pesquisa sociológica rural durante a década de 60. Da mesma forma que a perspectiva behaviorista, que era dominante nos anos 50 e 60, não substituiu a perspectiva dos estudos da comunidade rural, assim, também, a nova sociologia da agricultura não tem significado a substituição, da perspectiva behaviorista, em particular, da difusão-adoção de inovações. Certamente, a perspectiva da difusão-adoção, precisa ser revisada para manter-se viável e contribuir para a compreensão da agricultura. O maior aspecto distintivo - e sem precedentes - da nova sociologia da agricultura nos Estados Unidos tem sido a importância que tem concedido às perspectivas marxistas e neo-marxistas. Tal vez o trabalho de Steeves (1972)13 na Rural Sociology, foi o primeiro exemplo de um artigo publicado numa revista oficial, baseado amplamente na teoria marxista. Porém foi só até finais da década de 70 que começaram a ser elaboradas sistematicamente explicações marxistas, nas universidades, sobre a dinâmica da agricultura nos Estados Unidos.

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Havens, Eugene. Studies in the Transformation of U.S. Agriculture. Boulder, CO: Westiew Press, 1986 apud Buttel, F. et al. (1990) 13 Trata-se do artigo de Allan D. Steeves, “Proletarianization and class identification” Rural sociology 37 (march), 1972: 5-26 apud Buttel, F. et alii (1990)

os artigos pioneiros nesta tradição foram preparados por Mann e Dickinson (1987). Apesar dessas inovações. O artigo de Mann e Dickinson. Portanto a agricultura torna-se não-lucrativa e por isso relegada aos agricultores familiares. Mann e Dickinson sugeriram que a realização das mercadorias agrícolas implica um maior tempo (tempo de produção mais tempo de circulação [tempo requerido para a venda das mercadorias]) do que a indústria. Em termos marxistas. negado pela persistência da agricultura familiar Mann e Dickinson (1987) identificaram as fraquezas dos argumentos subjetivistas dominantes (Chayanov) sobre a persistência da agricultura familiar nas sociedades capitalistas avançadas. Friedmann baseou-se na obra de Ernest Mandel. dessa forma se produz a não identidade entre “tempo de produção” e “tempo de trabalho”. O artigo de MannDickinson e um de Friedmann (1978b) foram publicados no Journal of Peasant Studies. Friedmann (1978a. Por tal razão. A terceira grande contribuição para o desenvolvimento da economia política da agricultura foi o trabalho de Newby (1978)15. por exemplo. E como já foi mencionado anteriormente. Newby (1978) centrou seus esforços na obra de Kautsky. No seu artigo de 1983. o “trabalho vivo” é o único que cria mais-valia. Eles enfatizaram que por causa da sazonalidade na agricultura existe uma tendência à separação entre o “tempo de produção” e o “tempo de trabalho”. O valor não é criado nessas interrupções. o que dificulta a “calendarização” do processo de trabalho tornando a agricultura menos lucrativa que a indústria.10 Como já foi dito. Seu estudo sobre a Questão Agrária de Kautsky. um dos mais influentes “neo-weberianos” na Inglaterra. A razão chave para entender o descaso da obra de Marx nos estudos sobre a agricultura tem sido tal vez o modelo marxista da polarização do processo econômico (de acordo com as leis da centralização e concentração do capital e a proletarização) entre capital e trabalho. Eles sugeriram que na obra de Marx encontram-se elementos de uma explicação não-voluntarista e não-subjetivista de porque o desenvolvimento capitalista é entendido em termos de proletarização e o estabelecimento da relação capital-trabalho é um processo mais lento na agricultura que na indústria. Newby16 sugere que uma sociologia da agricultura proveitosa deveria basear-se na integração das perspectivas de Marx. foi relevante para compreender a dinâmica estrutural da agricultura americana. está baseado principalmente no O Capital e os Gundrisse de Marx e secundariamente no trabalho de Lenin. Marx foi quase totalmente ignorado nas análises das mudanças estruturais na agricultura dos sociólogos rurais norteamericanos até finais da década de 70. uma revista britânica que tem sido vanguarda na revitalização de uma economia política de estudos camponeses e da história agrária da Europa. especialmente de seu Tratado de Economia Marxista. 1978b)14 e Newby (1978). Kautsky e Weber. o “trabalho vivo” contribui modestamente no processo de produção. reforçando com isto a idéia de que as atividades . O que é extraordinário dessa primeira fase do desenvolvimento da economia política marxista da agricultura é que essas primeiras contribuições basearam-se nos clássicos da economia política.

and family farm: social bases of household production in an era of wage labor”. 1983 14 . 1: 71-99. 1978 16 ”A sociology of agricultura: toward a new rural sociology. International Perspectives in Rural Sociology. 1978b. Comparative Studies in Society and History 20: 545-586. England: Wiley. Chichester.Trata-se dos artigos de Harriet Friedmann: “World market. 1978a e “Simple commodity production and wage labour in the American plains. (org). 15 ”The rural sociology of advanced capitalist societies.” Journal Peasant Studies 6.”Annual Review of Sociology 9: 67-81. state.” In: Newby H.

De Janvry (1980). um dos representantes dessa tradição. Mann e Dickinson. ao contrário enfatizam porque o capital não está interessado em investir na produção agrícola.fazem improvável a sobrevivência da agricultura familiar. Mesmo enfatizando as particularidades da agricultura que leva à persistência da agricultura familiar.mudança tecnológica. Então. portanto resulta menos atraente para os capitalistas. Porém. emergiu uma tradição neo-marxista diferente. aumentam o risco de produção e.11 agrícolas estariam nas mãos de produtores agrícolas não-capitalistas. seguindo as obras de Kautsky e Lenin. refirindo-se a América Latina. Os produtores simples de mercadorias necessitam apenas de sua “reprodução simples”. as relações capitalistas devem penetrar irreversível e . Os capitalistas agrícolas tendem a liquidar seus negócios quando estes não são capazes de gerar a taxa média de lucro. os produtores capitalistas da Inglaterra. Friedmann indica o alto grau de risco e a demanda cíclica de trabalho da maioria dos sistemas de produção agrícola. Finalmente. provocando a sua diferenciação em classes sociais antagônicas. o produtores independentes são uma classe transicional no capitalismo avançado. Mann e Dickinson observaram que dado que os produtos agrícolas são perecíveis. da Prusia e dos Estados Unidos não conseguiram competir com os produtores familiares dos Estados Unidos. considera que o desenvolvimento do capitalismo tardio tem significado a destruição da agricultura familiar e que as forças que afetam a produção agrícola . Simultaneamente com os trabalhos de Mann-Dickinson e Friedmann. eles não chegam a afirmar que o desenvolvimento na agricultura não tem um caráter capitalista. porém a sua explicação da persistência da agricultura familiar (que ela denomina de produção simples de mercadorias) descansa amplamente em como a agricultura familiar pode enfrentar a concorrência das empresas capitalistas no contexto hostil de mercados competitivos de meios de produção e mercadoria agrícolas. Eles enfatizaram que a pesquisa agrícola pode reduzir ou eliminar a distância entre tempo de produção e tempo de trabalho. Porém. De Janvry argumentou que o desenvolvimento capitalista na agricultura é mais lento que na indústria e que torna bastante provável que as forças da proletarização e a acumulação capitalista na agricultura destruam lentamente a agricultura familiar. subsídios estatais para pesquisa e investimento de capital . Friedmann testou empiricamente essa proposição com dados históricos que mostraram que durante a crise do preço do trigo no fim do século passado. os capitalistas são obrigados pela lógica da concorrência a competir para obter a taxa média de lucro para que suas empresas não fiquem fora do mercado. As análises de Friedmann estão baseadas na tradição teórica marxista. diferentemente dos capitalistas. não obtém excedente para sua reprodução. Friedmann considera que os produtores simples de mercadorias agrícolas têm um maior grau de flexibilidade que os capitalistas reduzindo seu consumo ao nível de subsistência para sobreviver nos períodos de crise. minimizando a perecibilidade das mercadorias agrícolas e reduzindo o tempo “biológico” das plantas. Friedmann reconhece que existem condições que podem levar para sua transformação em formas capitalistas de produção. Ela argumentou que a produção agrícola familiar. na visão de De Janvry. Por outro lado.

inevitavelmente na agricultura familiar levando assim a seu desaparecimento como tem acontecido na indústria nas sociedades capitalistas avançadas. Kautsky argumentou . É útil notar que A questão agrária de Kautsky contém um conjunto de argumentos sofisticados sobre a lenta penetração do capitalismo na agricultura.

principalmente na Itália e nos Estados Unidos. Esta proposta foi mais desenvolvida por Mottura e Pugliesi (1980). há poucas oportunidades alternativas. Nesse sentido. Dentro desta concepção as empresas industriais deslocam-se para as áreas rurais onde os trabalhadores não são sindicalizados e os salários são mais baixos porque muitos trabalhadores potenciais têm suas pequenas propriedades produzindo ineficientemente e. O trabalho está também aumentando sua informalidade. Ele analisou particularmente a produção de alface. Esta integração das esferas de produção agrícola e não-agrícola tem sido elaborada por Bonanno (1985. Na indústria de algodão. uvas-passas e tomates. Friedland afirma que o ritmo e a amplitude da penetração do capitalismo na agricultura. além disso. a agricultura familiar aparece como tendo a . baseado na agricultura da Califórnia. No seu livro. vários programas estatais que tentam resolver os problemas da agricultura. mas as causas que permitem a emergência de formas organizacionais da produção agrícola. torna-se comum o trabalho por peça. mas que as relações capitalistas igual que na indústria. tem sido o argumento de que a diferenciação dos agricultores no capitalismo pode ser incompleta no futuro previsível quando a produção agrícola e não-agrícola venha a ser integrada dentro de um sistema particular que incorpore diferentes formas de organização da produção. os trabalhadores desempregados com pequenas propriedades poderiam temporariamente retornar à produção de subsistência até melhorar as condições na indústria. Apesar disso. podem ter a função de permitir a continuidade da agricultura familiar.12 que o capitalismo. Um primeiro passo dentro desta linha de pensamento foi a do teórico marxista Kautsky. Outro impulso na literatura de economia política neo-marxista. O argumento central era que enquanto mais a produção agrícola organizava-se sob formas capitalistas. A agricultura familiar resulta importante nas políticas dos Estados que buscam a descentralização do sistema industrial. ele tomou uma postura similar a de De Janvry. Neste contexto. que analisou o papel do estado no estímulo às pequenas propriedades como uma estratégia para mediar os conflitos de classes nas sociedades avançadas. enfatizando o predomínio das análises sobre a emergência das relações capital-trabalho na agricultura e a separação dos produtores independentes de seus meios de produção. a agricultura em tempo parcial servia de reserva de trabalhadores das indústrias localizadas nas áreas rurais. apesar de sua lentidão resultaria na descomposição do campesinato alemão. Manufacturing Green Gold. Em períodos de contração industrial e desemprego. está em constante crescimento. variam de acordo com o sistema de produção. Ele argumentou que a questão central para compreender a evolução da agricultura nas sociedades industriais avançadas não era simplesmente o tipo dominante de posse das empresas agrícolas. numa análise histórica da pequena agricultura familiar de tempo-parcial no sul da Itália e das funções da agricultura familiar no desenvolvimento econômico contemporâneo. acerca da lenta penetração do capitalismo na agricultura. 198717). tornando-se desta forma uma força de trabalho de reserva. Os trabalhos de Friedland representam também uma notável contribuição dentro da tradição de Kautsky e Lenin.

. (1990). F. Et alii. 1987 apud Buttel.” Tese de Doutorado. CO: Westview Press. “The persistence of small farms in marginal areas of advanced Western societies: the case of Italy. Boulder. Alessandro. Universidade de Kentucky.17 Bonanno. Departamento de Sociologia. 1985 e “Small Farms.

que as relações capital-trabalho. pelos capitalistas não-agrícolas e no endividamento. O salário que os membros da família obtêm fora da sua propriedade. Por exemplo. nos contratos agrícolas. diametralmente opostas.13 função de “keeper of surplus labor”. analisaram a exploração e a super-exploração (extraindo maior valor daquele permitido para a reprodução da força de trabalho) dos membros da agricultura familiar. contratos agrícolas. A esfera domestica torna-se uma reserva de trabalho que subsidia a esfera capitalista. Então. através de vários mecanismos. Friedland e outros na tradição de Lenin (e em menor medida de Kautsky). Em cada um desses “desvios” não existe a relação capitaltrabalho na produção agrícola e onde os agricultores são explorados por uma fração de capital não-agrícola (no arrendamento. A principal contribuição de Mooney tem sido lançar dúvidas se a existência convencional das relações capital-trabalho é uma adequada referência para avaliar a existência da penetração capitalista na agricultura. Esta super-exploração permite a transferência de valor da esfera domestica da produção para a esfera capitalista. pelo outro. Seguindo Wright (1985). seguindo essa linha de pensamento e principalmente a partir dos primeiros trabalhos de Andre Gunder Frank (1967)19. A explicação de Mooney de porque essas “localizações contraditórias de classes” têm um componente subjetivista e está baseada na distinção weberiana de racionalidade substantiva e formal. muitos dos trabalhos mais provocativos na tradição marxista dentro da “nova sociologia da agricultura” representam uma tentativa explicita ou implicitamente de realizar uma síntese. Mooney desenvolveu um modelo da estrutura de classes na agricultura incluindo as “localizações contraditórias de classes” que podem ser encontradas na agricultura familiar (unidade de capital e trabalho na agricultura familiar): o capitalista agrícola e o trabalhador assalariado agrícola. Mooney argumentou que a exploração dos trabalhadores assalariados agrícolas é somente uma forma que a penetração capitalista na agricultura pode tomar. Particularmente. uma fonte de trabalho de baixo custo e de segurança para os membros da família com pequenas propriedades. contribui a pagar os custos da produção agrícola. o desejo por autonomia no seu trabalho) que pela racionalidade capitalista formal. Mooney observa que muitos agricultores são motivados mais pelas formas de racionalidade substantiva (por exemplo. agricultura em tempo-parcial e endividamento. Uma vez que as perspectivas de Mann-Dickinson e Friedmann por um lado e de De Janvry. são. fornecendo ao mesmo tempo. esses . o trabalho não-pago dos agricultores familiares reduz o salário dos trabalhadores empregados na indústria e os preços dos produtos agrícolas requeridos pelos agricultores. Mooney observa que há alguns “desvios” que podem ser tomados pelos agricultores para evitar a proletarização. Esses “desvios” implicam arrendamento. na agricultura de tempo-parcial. pela agroindústria. Por conseguinte. Sendo esta idéia um aspecto central para a compreensão das sociedades desenvolvidas e em desenvolvimento. num certo sentido. pelos latifundiários. pelo capital financeiro). Além disso. Wenger e Buck (1988)18. Mooney considera que esses “desvios” podem ser mais significativos. direta ou indiretamente. na agricultura.

Andre Gunder. et alii. F. (1990) 19 `Frank. New York: Monthly Review. e Buck. and superexplotation: an integrative reappraisal. families. apud Buttel. 18 . et alii (1990).. 1967. apud Buttel. 1988. Capitalism and Underdevelopment in Latin America. Morton G. “Farms. Pem Davison.agricultores tendem a ser tenazes na participação dentro das empresas e freqüentemente tendem a tomar Wenger.” Rural Sociology 53 (Winter). F.

expansão do crédito. queda do salário real. de permanecer na Mann e Dickinson (1987) replicaram vigorosamente aos argumentos de Mooney e também criticaram seu projeto de sintetizar a proposta marxista e weberiana dado que algumas dessas teses são incompatíveis. inflação dos preços. A produção teórica brasileira sobre o “mundo rural”: a influência do marxismo clássico A segunda guerra mundial (1939-1945) alterou profundamente as condições do comércio internacional e impactou de forma significativa nos países exportadores de alimentos e de matérias primas. A diferença da Revolução industrial inglesa.14 um dos quatro “desvios” do desenvolvimento capitalista a fim agricultura. Foi nesse contexto que emergiu um amplo debate de idéias sobre os problemas sociais e econômicos dos países do ‘terceiro mundo”. queda da taxa de acumulação da indústria. O processo de industrialização ficou num impasse: ou expandir o mercado interno ou reequipar o parque industrial através . empréstimos e cooperação técnica. O êxodo rural e a existência de uma massa de desempregados nas cidades contribuíram para a aliança de classes de caráter populista. Por outro lado. ajuda militar. abastecimento. Foi nesse contexto que se desenvolveu o debate no Brasil sobre a situação de atraso e as formas de superá-lo. a escassez de divisas. Com esse incipiente processo de industrialização também se iniciou o ciclo de intervenção do Estado em vários setores da economia: investimento na siderurgia. que possibilitou a implementação de uma política estatal de industrialização no governo Vargas. deterioração dos termos de intercâmbio comercial e em conseqüência. a crise capitalista da década de 30 estimulou um crescimento industrial considerável para suprir o mercado interno de bens industriais. 3. etc. reorganização político-administrativa. Essas condições desfavoráveis marcam um novo período que pode caracterizar-se da seguinte maneira: O fortalecimento do capitalismo americano e suas novas formas de intervenção: investimentos diretos na indústria. da polarização de blocos (soviético e americano) e da descolonização. No Brasil. Por sua vez. A tendência a aumentar a concentração de renda. a industrialização brasileira não implicou oposições e divisões entre a burguesia comercial/aristocracia agrária e classes industriais. Mooney argumentou que sua proposta superava as incompatibilidades das teorias marxistas e weberianas. A politização do debate resultou das condições desfavoráveis que impediam a continuidade do processo de industrialização iniciado na década de 30. compras de empresas nacionais já instaladas. a menos de que se adotasse uma perspectiva marxista ou leninista mecânica. o alinhamento dos países da América Latina à política da “guerra fria” significou a subordinação à estratégia de reconstrução do capitalismo sob hegemonia dos estados Unidos. obras de infraestrutura. organização sindical. Esse debate deve ser compreendido no contexto político da “guerra fria”.

da introdução de capitais estrangeiros. A primeira opção implicava um amplo movimento de apoio político para impulsionar mudanças estruturais onde a .

Na sua História Econômica. o interesse de estudo desses historiadores limitava-se às instituições. De acordo com Palmeira (1983) nos trabalhos da Comissão Nacional de Política Agrária. Por sua vez. Entre os anos 30 e 50 o debate entre os autores que tratavam sobre a agricultura referiam-se obrigatoriamente a esse debate. Roberto Simonsen salienta que está preocupado com os “fatos econômicos” e não com as intenções dos legisladores. durante o segundo governo de Getúlio Vargas. posicionando-se ao qualificar alguns aspectos da estrutura agrária como feudais. a transformação da agricultura era indispensável para o desenvolvimento capitalista. que o atraso da agricultura era um obstáculo para o desenvolvimento capitalista. a polarização internacional existente na “guerra fria” traduziou-se a nível interno na polarização entre nacionalismo e entreguismo ou entre comunismo e democracia. que para entender as “instituições feudais” no Brasil. existia uma clara 20 . autores como Nestor Duarte. Em conseqüência. esse debate adquire um novo conteúdo. tiveram que conhecer o debate que existia entre historiadores espanhóis e portugueses acerca do feudalismo na Península Ibérica. a modernização das forças produtivas e as relações de produção possibilitariam a expansão do capitalismo no Brasil. Desde essa nova perspectiva. A estrutura agrária baseada no latifúndio-minifúndio explicava o atraso das forças produtivas e sua incapacidade de produzir alimentos a baixo custo para suprir o mercado interno e em segundo lugar. Essa idéia era decorrente de uma visão feudalista da sociedade brasileira. capitalistas ou escravistas. Dessa forma. nos textos de Clóvis Caldeira. tentaram mostrar a existência do feudalismo no Brasil a partir dos “fatos econômicos” e da legislação. De acordo com os ideólogos do desenvolvimento. Um debate que já existia entre os juristas brasileiros do século XIX. Nas décadas de 20 e 30 com a constituição de um campo intelectual independente e separado do Estado. Entretanto foi a polarização entre nacionalismo e entreguismo que colocou os termos do debate sobre o desenvolvimento capitalista nas décadas de 50 e 60. Portanto. especificamente sobre o caráter do latifúndio. A reforma agrária seria a forma proposta para superar esse obstáculo e romper a aliança de poder dominante. Cabe mencionar que. a segunda opção demandaria uma rearticulação das classes e grupos sociais e econômicos vinculados aos interesses da “desnacionalização”. A produção teórica brasileira sobre o “mundo rural” A produção teórica dos anos 60 sobre o “mundo rural” esteve fortemente marcada pelo debate em torno da natureza das relações de produção no campo. Para os ideólogos do desenvolvimento o processo de transformação estrutural20 seria conduzido pela burguesia nacional em aliança com o proletariado urbano e onde a agricultura teria o papel de produzir alimentos e matérias primas e consumir bens industriais. que as relações de produção por não serem capitalistas retardavam a expansão do consumo de produtos industriais. Acioli Borges e outros. o principal obstáculo estaria localizado no reduzido mercado interno. O debate desses anos enfocava duas questões centrais: em primeiro lugar.15 agricultura teria que desempenhar um papel-chave.

.Esse processo de transformações estruturais é conhecido na literatura como “Revolução Brasileira”.

Cada grupo tinha sua versão da “revolução brasileira”. levando-lhe tecnologias e capital. o latifúndio e os capitais estrangeiros. O camponês converte-se num protagonista político através da sua participação nos sindicatos rurais e nas ligas camponesas. Segundo essa concepção dualista. Assim. portanto a reforma agrária não era necessária. sobretudo reconhecendo que a mentalidade dos capitalistas brasileiros impedia a poupança e o investimento produtivos. No caso do Brasil. O “arcaico” explicava-se pelo passado colonial assim como por resíduos de formas atrasadas de produção. a agricultura e indústria progressista de São Paulo (o setor moderno) teria que vencer a resistência do outro Brasil (o setor arcaico). Essa posição aproximava Furtado de outras correntes dualistas intituladas “marxistas” que defendiam a “revolução democráticoburguesa” para eliminar os “restos feudais” (relações de trabalho no campo). a monocultura e o atraso técnico. Uma visão diferente tinha Furtado quando afirmava que a estruturas arcaicas só poderiam ser rompidas por indução. Entre seus aspectos negativos estavam: a fixação do homem no latifúndio. O “moderno” em oposição ao “arcaico” era resultado da importação da “civilização industrial”. E também eram a favor da participação do capital estrangeiro. a sociedade brasileira (e dos países com passado colonial) estaria dividida em dois setores: um “aberto e moderno”. . ou seja. através de ações impostas pelo setor moderno urbano e industrial. O primeiro refere-se ao setor urbano e o segundo ao campo. A segunda: o surgimento de novos partidos e grupos de esquerda que questionaram o “monopólio” exercido pelo Partido Comunista. A primeira: a emergência de um movimento camponês e as lutas pela reforma agrária. Tratava-se principalmente de aumentar a produtividade agrícola através da modernização tecnológica e a reorganização da produção em grandes empresas capitalistas. a definição do estágio dessa “revolução”. constituindo unidades auto-suficientes separadas entre si) e resistente às mudanças. o outro “fechado e arcaico”. ao mesmo tempo em que ampliaria o consumo de bens industriais. Para os defensores dessa interpretação a modificação da estrutura fundiária não era fundamental ao desenvolvimento do capitalismo no Brasil. A concepção dualista partia da premissa que a colonização gerou o latifúndio de caráter feudal (socialmente hierarquizado. a reforma agrária passava a ser uma condição necessária para superar a produção insuficiente de alimentos e baixar os preços dos produtos agrícolas. criando uma população rural inútil. desempregada e pobre. A visão dualista A visão dualista da sociedade brasileira deriva-se das idéias de dois sociólogos franceses (professores de universidades brasileiras): Jaques Lambert e Roger Bastide. Segundo Palmeira (1983). E isto passava necessariamente pela caracterização das relações dominantes na agricultura brasileira. no início da década de 60 o debate feudalismo x capitalismo ultrapassa o campo intelectual e torna-se uma questão política por duas razões principais.16 preocupação em caracterizar as relações entre proprietários e agregados ou determinadas formas de arrendamento.

De acordo com as teses “marxistas” o setor moderno estaria composto pela “burguesia nacional” em oposição às empresas estrangeiras instaladas no país (o imperialismo).17 As teses marxistas “tradicionais” e o nacional-desenvolvimentismo Segundo as teses “marxistas” das décadas de 50 e 60 as estruturas econômicas e sociais do Brasil caracterizavam-se pela coexistência de dois modos de produção: o feudal e o capitalista. 1972 . Caio Prado Júnior enfatizava as origens capitalistas do Brasil. Uma idéia que se aproximava da visão dualista mais conservadora. criticaram a idéia “marxista” da coexistência de dois modos de produção: o feudal e o capitalista. Tanto mais que no próprio caso da cultura algodoeira. O fortalecimento dessa “burguesia nacional” estaria sendo obstaculizada pela limitação do mercado interno (pobreza do campesinato). é evidentemente falso. Porém caberia aos camponeses participar da aliança popular na “revolução democráticoburguesa”. No início da década de 40. Caio. nem muito menos 21 Prado Júnior. na sua Formação do Brasil Contemporâneo. única instância de grande expressão em que a parceria se apresenta em proporções apreciáveis ela se acha ligada não a reminiscência ou anacronismo feudais ou outros quaisquer. e sim a circunstâncias peculiares da cotonicultura e conveniências técnicas e financeiras que lhe dizem respeito.” (Prado Júnior. 1963) e difundida nas publicações soviéticas. às classes médias urbanas e ao proletariado. Essa visão determinista nem leva em conta os processos históricos nem aceita modificações na sucessão dos modos de produção no tempo. Caio Prado Júnior rejeita a idéia dos autores que viam na parceria (remuneração do trabalho e serviços prestados com participação no produto) a representação do caráter feudal da agricultura brasileira. Da mesma forma.Editora Brasiliense: São Paulo. Mas. os grupos comerciais em aliança com o imperialismo e ainda os camponeses representavam o obstáculo para o desenvolvimento capitalista. Os “feudais latifundiários”. ao negar o caráter nacional da industrialização do período Kubitscheik e caracterizar como capitalistas as relações de trabalho no campo. A revolução brasileira. foi na Revolução Brasileira (1966) que criticou profundamente o modelo desenvolvimentista. Caio Prado Júnior e André Gunder Frank foram os primeiros a criticar a visão feudal da sociedade brasileira. 1972:30)21 Dessa forma rejeita a visão linear da evolução dos modos de produção preconizada por Alberto Passos Guimarães (Quatro Séculos de Latifúndio. vinculadas à empresa colonial portuguesa e à expansão do capital mercantil. “Falar assim da parceria como forma institucional de relações de trabalho e de produção que sobrevive anacronicamente de um passado feudal.

defensores da tese feudal. partidários da tese capitalista e assim por diante” (Palmeira. para sustentar suas posições. ia buscar em autores do passado argumentos de autoridade. derivada logicamente desta análise é. transformado-as e a seus protagonistas em elementos de um só e mesmo debate. e Roberto Simonsen e Gunder Frank. De acordo com Palmeira (1983)22 o caráter político do debate fica evidente no confronto entre o texto de Alberto Passos Guimarães e André Gunder Frank. 1983: 16). cada um dos autores que defendia a tese feudal ou a tese capitalista. dandolhe uma densidade ideológica até então inexistente e fazendo-o. “Se a estrutura agrária brasileira sempre teve uma configuração capitalista por que revolucioná-la. que. se encaixa perfeitamente nos esquemas políticos mais retrógrados”. apesar de que a burguesia comercial era um elemento hegemônico do Estado português. enquanto que para os defensores da tese capitalista. por que reformá-la? A teoria do capitalismo colonial não é assim um achado histórico tão inocente quanto parece. (. ou mesmo indicações concretas que fundamentassem suas idéias. na verdade abolir o feudalismo e seguir o mesmo caminho geral de desenvolvimento. 1983) As argumentações dos dois autores refletem as divergências e as lutas políticas da esquerda brasileira. No início dos anos 60. É uma teoria conservadora.) Se o desenvolvimento atual e os males da agricultura são devidos ao capitalismo. Então uma série de formulações que estavam dispersas naquele momento foram sistematizadas em um grande debate. bem arrumada. (Guimarães).23 Os defensores da tese feudalista consideravam que.. Baran) rejeita a possibilidade de coexistirem numa mesma sociedade setores independentes uns de outros. Nesse caso é o próprio capitalismo e não o feudalismo que tem que ser abolido” (Gunder Frank apud Palmeira. aparecer como um obstáculo à prática política e à própria prática científica”. Gunder Frank influenciado pelas análises teóricas do grupo “marxista”americano da Monthly Review (Sweezy. Como disse Palmeira (1983: 16) “A necessidade de demarcar posições é que irá mover o debate. Gunder Frank responde da seguinte forma: “A conclusão política. eles dificilmente podem ser eliminados pela extensão do capitalismo ainda mais longe.18 poderia reconhecer a existência de outros sistemas de produção além dos definidos previamente.. “A questão política vivida como questão intelectual iria atribuir um sentido político às querelas intelectuais do passado. como os países mais desenvolvidos. que aproximava no tempo autores como Alberto Passos e Nestor Duarte. 22 Citado em “Revisão crítica da produção sociológica voltada para a agricultura” ASEP-CEBRAP (1983) . o que se transplantou para o Brasil foi o “feudalismo colonial”. de um certo modo. reacionária.

Todas as referências de Palmeira provêm do documento do ASEP-CEBRAP. 23 . a menos que se indique o contrário.

os partidários da tese capitalista consideravam que não existia nada no Brasil que se assemelhasse a uma classe camponesa e que o que existia era uma classe de empresários rurais possuidores e na maior parte dos casos. Para Palmeira (1983) alguns autores manipulavam as estatísticas com o objetivo de defender suas posições. baseando-se em dados do Censo Demográfico e Agrícola de 1950. o que se transplantou foi o capitalismo. proletários. além da dualidade capitalista/feudalista: a plantation. André Gunder Frank descobre dois terços de proletários e semiproletários. Como conseqüência. propunham a existência de sistemas de produção específicos. Por exemplo. É por isso que. mas não sua propriedade jurídica. enquanto os defensores da tese feudal afirmavam que no Brasil existia uma classe camponesa que tinha a posse efetiva dos meios de produção. para . Por sua vez. E quem se opunha aos empresários rurais seria uma massa de trabalhadores agrícolas (proletários). proprietários dos meios de produção. Essas propostas representavam uma mudança importante no debate sobre as estruturas sócio-econômicas do Brasil. a luta pela terra seria secundária. ou o escravismo colonial. S. O corpo das idéias organizadas em torno desse projeto político passou a ser conhecido como “ideologia nacional-desenvolvimentista”. o latifúndio. a estruturação do projeto político da “revolução democráticoburguesa” caberia a um grupo de intelectuais liderados por Hélio Jaguaribe e organizados no ISEB (Instituto Superior de Estudos Brasileiro) criado no Governo de Jucelino Kubitschek. No início da década de 70. Maria Isaura Pereira de Queiroz. Como resultado do debate. onde a questão chave era determinar a existência ou não de uma classe camponesa no Brasil. mas um jogo de relações políticas em que os autores estavam imersos. nas suas teses de doutorado realizadas em Paris. Diegues Júnior e o CIDA (Comité Interamericano de Desenvolvimento Agrícola). Sociólogos como Moacir Palmeira e historiadores como Ciro F. que se opunha a uma classe latifundiária numa luta pela propriedade da terra. Tanto os defensores da tese feudalista como os defensores da tese capitalista identificavam o camponês com o pequeno produtor. os pesquisadores abandonaram a visão dualista capitalismo/feudalismo e passaram a ter uma postura crítica em relação aos esquemas evolutivos dos modos de produção. submetida ao mesmo tipo de exploração econômica que os trabalhadores urbanos.19 mesmo que a colonização tenha sido uma empresa feudal. Esses empresários rurais formariam parte da burguesia. que ao mesmo tempo diferenciavam do proletário. Dentro desse projeto a estrutura brasileira era concebida como uma “fase de transformação” orientada para o desenvolvimento nacional. Cardoso. conclui que a população rural estava constituída em quase dois terços por camponeses. para os defensores da tese capitalista. O debate sobre o caráter do latifúndio levou os sociólogos rurais a discutir à problemática das classes sociais. Mas. a pequena produção mercantil ou a economia camponesa vista desde a perspectiva de Chayanov. utilizando os mesmos dados chegam à conclusão que uma metade da população rural eram camponeses e a outra. Por sua vez. Palmeira afirma que essa manipulação de dados evidencia que o que estava em jogo não era uma questão de demonstração científica.

a ideologia mais representativa desse período era o nacionalismo que permitiria articular os diversos setores sociais.Jaguaribe. com .

autônomo e endógeno. 1979. sob um objetivo comum: a expansão das forças produtivas. o qual. Essas críticas referem-se à visão da agricultura brasileira como “ineficiente” e incapaz de reagir aos estímulos da dinâmica da demanda da indústria nacional (por matérias primas e alimentos) e por produtos exportáveis. assim como ao aumento do salário e do consumo. em propriedades familiares médias.20 exceção dos latifundiários comprometidos com o statu quo. Mas para isto era necessário o concurso de todos os setores “progressistas” em torno do “desenvolvimentismo” encarnado inicialmente no Plano de Metas do Governo Kubitschek. 24 . surgiram diversas tentativas críticas da análise dualista que buscavam outra interpretação das transformações que de fato estavam acontecendo na sociedade e em especial na agricultura.24 O modelo nacional-capitalista entra em crise no final de 1963 devido ao reconhecimento da heterogeneidade da sociedade brasileira o que significava por um lado desigualdades regionais e por outro. portanto. Evolução recente e situação atual da agricultura brasileira. Quadros e (até meados de 1963) Goulart. o único capaz de promover o desenvolvimento. Ana Célia et al. Brasília. A prática política dos anos seguintes mostrou a fragilidade dos postulados teóricos do nacional-desenvolvimentismo. sob a direção dos ‘empreendedores nacionais’. Castro. Além de que a agricultura era incapaz de incorporar inovações tecnológicas em proporções significativas o que limitava a constituição de um mercado interno para os produtos industriais. era o nacional-capitalismo. as forças sociais semifeudais remanescentes. Deveriam reduzir-se rapidamente as desigualdades sociais e o desequilíbrio entre o campo e a cidade.” (Castro. em fazendas cooperativas médias e grandes fazendas estatais. Em conseqüência. ausência de uma consciência nacional da burguesia brasileira que tendia a privilegiar sua essência burguesa antes que seus traços nacionais. estas tinham em comum o esforço pelo desenvolvimento. “Tal ideologia implicava na adoção de determinado modelo para a então ‘atual fase da vida nacional’. As propriedades tradicionais seriam transformadas em modernas fazendas capitalistas. 1979: 38). Binagri Edições. numa visão ecumênica das classes sociais. O novo modelo nacional-trabalhista propunha uma drástica intervenção na agricultura para extinguir o seu caráter semifeudal e. dentro do sistema de iniciativa privada e tendo no Estado a instância de planejamento coordenação e suplementação. Compreendia Jaguaribe como nacional-capitalismo o conjunto de políticas adotadas por Vargas. Kubitschek. A necessidade de reajustar o modelo nacional-capitalista dava passo a um novo modelo o nacional-trabalhismo. A implementação do novo modelo possibilitaria a aliança entre a burguesia nacional e o proletariado porque o desenvolvimento capitalista levaria à criação de mais emprego. no dizer de Jaguaribe.

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dependeria do tipo de insumos utilizados e disponíveis (intensidade do fator capital no Centro-Sul e intensidade do fator Trabalho no Nordeste) e não de fatores estruturais. Pereira de Carvalho e Ruy Miller Paiva) aos modelos aceitos na década de 50 e 60. Enquanto na visão dualista o “obstáculo” ao desenvolvimento poderia ser eliminado através da reforma agrária e reformas estruturais. Nessa visão a agricultura tem um lugar central no desenvolvimento econômico. reduzindo a influência de posturas ideológicas e sem fundamentação empírica. a diversidade das relações de produção.. é refutada empiricamente. No entanto. Affonso Celso Pastore. o que. através de uma transferência de mão-de-obra do setor agrícola para os outros setores. e) produzir gêneros exportáveis para possibilitar a capacidade de importação.” De acordo com esta concepção a agricultura financiaria o desenvolvimento industrial. o que elimina algumas questões como. Por outro lado. cacau e açúcar. a situação do pequeno produtor e as particularidades da pequena produção. por exemplo.W. a um só tempo. libera mãode-obra e eleva o nível de rendimento dos que ficaram no campo. aumentando a taxa de remuneração dos capitais investidos.21 As análises da nova fase distinguem-se das interpretações anteriores. Yufiro Hayami e Vernon Ruttan. manifestava a preocupação por buscar a compreensão da realidade efetiva. a diferença entre o Nordeste “tradicional” e o Centro-Sul “moderno”. a industrialização baseada na exportação de produtos agrícolas levou a uma especialização em torno de produtos como café. Nesta perspectiva neoclássica a empresa agrícola é considerada uma empresa capitalista comum. sem gerar uma crise de abastecimento ou de fornecimento de matérias-primas. por sua aparente “despolitização” e por estarem construídas a partir de levantamento de dados nas pesquisas de campo para sustentar os postulados teóricos. baseou-se na proposta teórica-metodológica de T. d) abrir mercado consumidor para produtos industriais. numa melhoria da produtividade do setor agrícola. a chave do processo de desenvolvimento econômico reside. fundamentalmente. A pesquisa em nível universitário. A visão modernizante Por sua vez a crítica conservadora (Delfim Netto.. b) liberar mão-deobra para a indústria. estava na forma de encarar o objeto de estudo. c) fornecer recursos para a formação de capital. buscando responder afirmativamente à questão de se a agricultura poderia cumprir as cinco “funções” definidas por Johnston e Mellor: a) produzir alimentos a baixo preço para as cidades. a diferença fundamental entre essa e outras concepções em relação às funções que deveria cumprir a agricultura. na crítica conservadora a tese que afirma que a agricultura é um obstáculo para o desenvolvimento. Por exemplo. Para Delfim Neto apud Castro (1979:50) “. A análise centrase na posição de equilíbrio e as políticas propostas têm como objetivo a maximização dos recursos disponíveis. Segundo Delfim Neto essa política a favor da agricultura de exportação manteve no mercado produtores . Schultz.

1979. Para ele. Antônio Barros de Castro afirmavam que a agricultura desempenhou seu papel requerido pela industrialização. imprime suas próprias características no desenvolvimento urbanoindustrial. Miller Paiva situa-se numa das correntes mais importantes conhecidas como “modernizadoras” da agricultura. Rio de Janeiro: Editora da Fundação Getúlio Vargas. Octávio Guilherme Velho. Alguns pontos devem ser salientados dessa crítica radical: a) O Brasil foi construído historicamente a partir da expansão do capitalismo europeu e seu desenvolvimento capitalista pode ser caracterizado como “dependente” ou “periférico”. A. a estrutura social e o processo histórico. Em consequência. a adoção de uma nova tecnologia depende da avaliação que faça o agricultor do custo-benéficio. disponibilidade de capital. Tese de Doutorado. porque a decisão de um grande número de produtores afetaria os preços dos fatores de produção e essas modificações no preços reduziriam as vantagens da nova tecnologia. diferentes relações de produção nas formações econômico-sociais e “subsunção formal do trabalho ao capital”. a disseminação de novas tecnologias tinha um significado macroeconômico. Delfim Neto25 considerava que o livre mercado liberaria fatores de produção para serem utilizados em outras atividades mais lucrativas (criação de gado e de aves). Esses autores na busca de elaborar uma análise mais flexível introduziram noções como: articulação de diferentes modos de produção. E segundo. Para alguns (Francisco de Oliveira. a questão da mudança tecnológica implicava dois aspectos. A crítica radical A crítica radical (uma visão modificada da tese capitalista) às posições dualistas baseia-se na capacidade que tem o desenvolvimento capitalista de refuncionalizar as formas existentes e de criar outras relações não-capitalistas de produção. Maria Rita Loureiro. os trabalhadores assalariados em lugar de lutar pela terra deveriam organizarse nos sindicatos e lutar pelas suas reivindicações de classe. Primeiro. Essa crítica é sustentada por autores como José de Souza Martins. Para outros (Maria Isaura Delfin Neto. Francisco de Oliveira e Maria de Conceição de d’Íncao. Outros autores como. A diferença de outros autores “modernizantes” . Porém. Maria de Conceição d’Incao) as relações sociais no campo são predominantemente capitalistas e portanto se faria desnecessário a reforma agrária.22 ineficientes. b) O desenvolvimento do capitalismo necessitava recriar formas não capitalistas de produção para seu próprio funcionamento e portanto não se constituem em “obstáculo” de seu próprio desenvolvimento. Ruy Miller Paiva centrava sua análise nos preços para explicar a mudança tecnológica na agricultura. O problema do café no Brasil. Por sua vez. No seu estudo sobre o café. 25 . desconsiderando outras variáveis econômicas importantes como informação. considera que a agricultura longe de cumprir um papel passivo. Nas suas análises incorpora variáveis não econômicas como a demografia. os autores divergem quando se trata das relações sociais no campo. USP.

o desenvolvimento sustentável (José Elí da Veiga) e a emergência de um “novo mundo rural” (Graziano da Silva). a existência de um campesinato brasileiro estaria evidenciado não só pela posse jurídica da terra. O regime fordista pode ser definido como um conjunto de práticas de controle do trabalho. No entanto. Estamos vivendo numa era de incerteza. culturais e sociais. que alguns autores denominam de “acumulação flexível” (Harvey. que vigoraram desde o fim da Segunda Guerra Mundial até inícios dos anos 70. Octávio Guilherme Velho). introduzia a jornada de 8 horas e 5 dólares de recompensa para os trabalhadores de sua fábrica de automóveis em Michigan. O objetivo da jornada de oito horas e os cinco dólares não era só aumentar a produtividade mas permitir que os trabalhadores tivessem as condições de tornar-se consumidores em massa. Nos Estados Unidos . Com o fordismo emergia uma nova sociedade baseada no controle racional do trabalho. Taylor. Essas contribuições se expressam na incorporação de novos temas como a questão do meio ambiente. desde finais do século passado. Mesmo assim. o perfil dos trabalhadores. tecnologias. José de Sousa Martins. milhares de trabalhadores estavam sendo deslocados da manufatura. caracterizada por um processo de transição. mas pelas práticas e representações ideológicas.23 Pereira de Queirós. já em 1914. As transformações do capitalismo mundial neste fim de século estão mudando radicalmente os processos de produção. do regime de acumulação fordista para outro. W. o significado do espaço e do tempo e as práticas do Estado. ainda que lentamente. Autores como Graziano da Silva (1996) percebem a emergência de um novo rural brasileiro produto da urbanização do meio rural brasileiro e da industrialização da agricultura e que formam parte de profundas transformações econômicas. os hábitos de produção e de consumo. observa-se uma absorção. de novas contribuições teóricas e metodológicas. exigia a exportação dos excedentes. as noções do que é rural e do que é urbano. hábitos de consumo e configurações de poder político e econômico. a saturação dos mercados internos da Europa e do Japão. em 1911 tinha sido publicados Os Princípios de Administração Científica de F. Antes. na gerência da produção e no consumo de massa. 4. o que Ford fez foi racionalizar velhas tecnologias e uma divisão do trabalho que já existia. que descrevia como uma melhor organização do trabalho (que implicava uma racionalização do tempo e de cada movimento do trabalhador) poderia aumentar a produtividade. A produção teórica brasileira sobre o “mundo rural” Apesar de que a nível geral existe uma espécie de estancamento e até refluxo da produção teórica sobre o “mundo rural”. Na segunda metade da década de 60. A crise do regime fordista está associada à perda da hegemonia política e financeira dos Estados Unidos. sociais e culturais que estão acontecendo em escala mundial e que estão mudando o caráter dos empregos e a organização das economias. Henry Ford com o objetivo de aumentar a produtividade. Porém. como resultado da racionalização fordista. 1992)26.

David. Porém. 1992 . Condição Pós-moderna. a partir de 26 Harvey.Edições Loyola: São Paulo.esse declínio da demanda efetiva foi compensado pela produção de armas para a guerra de Vietnã e pelo combate à pobreza.

cresce o número dos trabalhadores temporários e subcontratados sem nenhuma garantia de emprego. Essas possibilidades de comunicação e a redução do espaço têm aumentado a capacidade dos empregadores para o controle da força de trabalho e em conseqüência. a redução do emprego e destruição do poder sindical. Apesar de que a flexibilização do mercado de trabalho não tem criado uma forte insatisfação trabalhista porque às vezes pode ser mutuamente benéfica. O mercado de trabalho no regime de acumulação “flexível” caracteriza-se pela redução dos trabalhadores em tempo integral e pelo grau de adaptação às novas condições. 1992: 148) A subcontratação e a . a revista Fortune publicou que setenta e cinco por cento das peças de máquina eram produzidas em lotes de cinquenta ou menos. a falta de segurança do emprego e dos direitos de pensão afetará negativamente aos trabalhadores. ser flexível e geograficamente móvel. (Harvey. Os “trabalhadores flexíveis” são contratados facilmente e são demitidos sem custos quando a empresa está em crise. cerca de um terço dos novos empregos criados estavam na categoria de “temporários”. A flexibilização do mercado de trabalho se dá. novas formas de financiamento e inovações tecnológicas. As economias de escalas foram substituídas pela produção de pequenas quantidades de bens a preços baixos. provocando o fechamento de numerosas fábricas e estimulando um processo de desindustrialização. comerciais e organizacionais.24 1966. assim como por rápidas mudanças das práticas de consumo e do surgimento de novos setores de produção. produto da redução dos custos de transporte e da comunicação via satélite. a queda da produtividade e da lucratividade das empresas. Também se observa o crescimento de economias “informais” nos países capitalistas avançados e a reformulação do papel das mulheres no mercado de trabalho. entre 1984 e 1985. Nesse mesmo período. Porém. A subcontratação organizada possibilita o surgimento de pequenos negócios. a longo prazo. quando as empresas obrigam os trabalhadores regulares a trabalhar mais nas épocas pico de demanda. Como contraponto. a mudança mais importante têm sido a queda do emprego regular e o crescimento do trabalho em tempo-parcial. nos Estados Unidos. Na Inglaterra. O excedente de força de trabalho e a redução do poder dos sindicatos têm permitido aos patrões impor contratos de trabalho mais flexíveis. Porém. enquanto a intensidade de trabalho se reduz com a queda da demanda. O regime de “acumulação flexível” rompe com a “rigidez” do fordismo e caracteriza-se pela emergência de mercados de trabalho e processos de produção mais flexíveis. As novas formas de organização da produção colocaram em xeque a organização tradicional. como o setor serviços. Em 1983. os “trabalhadores “flexíveis” aumentaram 16% enquanto os empregos permanentes caíram em 6%. 1992: 144) Mudanças importantes aconteceram também na organização industrial. temporário ou subcontratado. Esse novo regime de acumulação cria as condições para o crescimento do emprego no chamado “setor serviço” e uma alta mobilidade geográfica ou uma compressão do espaço tempo. com o crescimento de outros setores da economia. por exemplo. (Harvey. marca o início dos graves problemas fiscais dos Estados Unidos que seria resolvido a custas da aceleração da inflação. ou seja.

A flexibilização .produção de pequenos lotes permitiram superar a rigidez do sistema fordista e atender a um mercado mais diversificado e dinâmico.

saúde. Nesse contexto. O “mundo rural” nos países desenvolvidos tem um novo ator social: o agricultor em tempo parcial (part-time farmer) e que se caracteriza por combinar atividades agropecuárias com outras atividades não-agrícolas seja dentro da propriedade ou fora dela. máquinas e equipamentos que permitissem a superação da pobreza dos agricultores (Graziano da Silva. conservação do meio ambiente são novas atividades em crescimento no campo. A modernização da agricultura era entendida como a introdução de sementes geneticamente melhoradas. as empresas devem ter a capacidade de responder às variações da taxa de câmbio. No “mundo rural” estão emergindo novas formas sociais e de organização econômica na medida em que a sociedade transita para um novo regime de acumulação. moradia e prestação de serviços pessoais. O lazer. duas realidades em confronto. o parttime não é mais um fazendeiro especializado. os funcionalistas americanos continuaram a identificar o campo com o atraso para justificar as ações de fora. “Em resumo. 1996). As novas tecnologias ( automação.25 também provocou a aceleração das inovações e as conquistas de novos mercados. As cidades não podem continuar a ser sinônimos de produção industrial nem o campo de produção agrícola e pecuária. elemento central para a lucratividade das empresas. Para sobreviver. robôs) e novas formas organizacionais reduziram o tempo de giro na produção. conservação da natureza. como a assistência técnica e a extensão rural. ou seja caiu a média da vida útil dos bens produzidos. a diferença entre o urbano e o rural é cada vez menos importante. A idéia que identifica o “rural” exclusivamente com a agricultura não corresponde com a realidade. moradia. turismo. imóveis e finanças) em detrimento do emprego industrial. são essenciais para a tomada de decisões. Com as transformações na produção e no consumo também emergiu uma nova estrutura de emprego que privilegia o emprego no setor de serviços (educação. De que forma essas transformações estão afetando o “mundo rural”? Para alguns autores como Graziano da Silva (1996)27. Em consequência. A agricultura deixou de ser um setor relativamente autárquico. A idéia de que as cidades representam o “novo” e o “progresso” e que o campo o “atraso” e o “velho” baseia-se na concepção de autores clássicos como Marx e Weber que identificavam as cidades com o capitalismo e o campo com o feudalismo. O rápido acesso às informações assim como ao conhecimento científico pode significar altas margens de lucro. mas um trabalhador autônomo que combina diversas formas de ocupação (assalariadas ou não). Agora a agricultura não pode ser entendida sem sua vinculação com os setores que lhes fornecem os insumos industriais e lhes compram seus produtos. Essa é a sua característica nova: uma . o controle da informação assim como a rapidez na análise de dados. o turismo. também foi reduzido o tempo de giro no consumo. a informação e a ciência tornaram-se uma mercadoria. tanto em atividades urbano-industrial ou nas atividades emergentes de lazer. com seu próprio mercado de trabalho. Por sua vez. seguros. e se integrou ao resto da economia. a prestação de serviços. e às mudanças nos gostos dos consumidores. adubos químicos. No processo de flexibilização e de mobilidade geográfica. dos preços das matérias primas.

27 Graziano da silva. 1996 (mimeo) . 1996:4). José. O novo rural.” (Graziano da Silva.pluriatividade que combina atividades agrícolas e não-agrícolas.

Igualmente. Ainda Graziano da Silva (1996:6-7) enfatiza outros fenômenos relacionados com a pluriatividade nos países desenvolvidos: “a) O ‘desmonte’ das unidades produtivas em função da possibilidade de externalização de várias atividades que antes tinham que ser realizadas na própria fazenda através de contratação de serviços externos (aluguel de máquinas. vidro. mudas e insumo. os clássicos (Marx. com o objetivo de diminuir os custos. 1996). como por exemplo. Kautsky) consideravam que esse processo de proletarização implicava o desaparecimento do campesinato. muitas empresas têm migrado para o campo na busca de uma melhor qualidade de vida para seus funcionários e também por que no campo existe menor controle da poluição. segundo.26 É precisamente essa combinação de atividades não-agrícolas fora de seu estabelecimento que diferencia o part-time da visão marxista clássica da proletarização do campesinato. O surgimento do part-time nos países capitalistas desenvolvidos é resultado da redução do tempo de trabalho necessário dos agricultores devido ao aumento da mecanização das atividades agrícolas e da automação das atividades de criação. . Primeiro. assim como pela redução de áreas cultivadas e/ou a extensificação das atividades agropecuárias. através da combinação de atividades tipicamente urbanas com a gerência especificamente agropecuária (Graziano da Silva. de animais jovens. Ironicamente. têxtil.) e. algumas características próprias do mundo rural como as formas flexíveis de contratação e o emprego sazonal e temporário. A combinação de atividades agrícolas com não-agrícolas faz parte de um processo de “desespecialização” da divisão social do trabalho e que se origina nas mudanças recentes no processo de trabalho tanto na indústria fordista como na agricultura moderna. assistência técnica. Além disso. através de um mercado de trabalho relativamente indiferenciado. constituem a nova fisonomia da indústria do final do século XX. etc. e o trabalho a domicílio. individualizou-se a gestão produtiva das propriedades agrícolas e com isso os membros da família foram liberados para realizar outras atividades nãoagrícolas fora da propriedade. Em consequência. bebidas. b) especialização produtiva crescente permitindo o aparecimento de novos produtos e de mercados secundários.). etc. forma característica de transição da manufatura à indústria mecanizada. A pluriatividade manifesta-se de duas formas. que combina desde a prestação de serviços manuais até o emprego temporário nas indústrias tradicionais (agroindústrias. O novo “mundo rural” caracteriza-se pelo crescimento das atividades rurais nãoagrícolas e pela transferência de atividades urbanas e industrias para o campo. Muitas indústrias deslocam-se para o campo buscando uma maior proximidade de matérias-primas e de mão-de-obra barata e desindicalizada.

peixes e outros animais. principalmente aquelas relacionadas com a proliferação das agroindústrias e as relacionadas com a urbanização do meio rural (moradia. têm crescido as atividades não agrícolas. o “mundo rural” ganhou novas funções e novos tipos de ocupações (Graziano da Silva. como motoristas. frutas e hortaliças.27 c) formação de redes vinculando fornecedores de insumos. produção de flores e plantas ornamentais. no Brasil e na América Latina nas últimas décadas. ou seja. turismo. especialmente de profissões técnicas e administrativas de conteúdo tipicamente urbano. prestadores de serviços. nos países subdesenvolvidos também pode-se observar a emergência da pluriatividade e do “part-farmer”. O meio rural está criando um outro tipo de riqueza. a desarticulação do sistema agrícola colonial dá lugar à emergência da ‘part-time farming’ e da ‘pluriactivite’ da força de trabalho dos colonos. Os conceitos de “urbano” e “rural” resultam obsoletos e não há elementos teóricos que nos expliquem as complexas relações entre eles. Considerações finais Conclui-se que o “mundo rural” não pode continuar a ser considerado apenas como o espaço onde se realiza a produção agropecuária e fornecedor de mão-de-obra. agroindústrias e empresas de distribuição comercial. que se assalariam nas fábricas de calçados. mecânicos. lazer e outros serviços) e com a preservação do meio ambiente. além de uma melhora substancial na qualidade de vida para os que moram nas zonas rurais. As transformações da agricultura. agricultores. e) melhoria na infraestrutura social e de lazer. Muitas vezes os proprietários dessas pequenas áreas combinan o lazer com o desenvolvimento de alguma atividade produtiva (criação de abelha. Em algumas regiões do Rio Grande do Sul. digitadores e profissionais liberais vinculados a atividades rurais nãoagrícolas. possibilitando maiores facilidades de acesso aos bens públicos como previdência. além de maiores facilidades de transporte e meios de comunicação.. 1996). aves. constituída de bens e serviços não materiais.. atividades de recreação e turismo). emboram permaneçam residindo e vivendo no espaço rural-agrário. “. 1996: 310) No campo brasileiro. exigem um marco conceitual distinto que possibilite entender essas mudanças.” (Schneider. . assistência médica e educação. assim como também cabe salientar a multiplicação de sítios de recreio (pequenas áreas de lazer de famílias de classe média urbana). d) crescimento do emprego qualificado no meio rural.” Apesar das diferenças. saneamento básico.

dos clássicos aos contemporâneos. a distinção entre cidade e campo”. assentamentos. que dificultam a construção de uma nova abordagem teórica sobre os processos agrários. enfatiza que a produção teórica brasileira sobre o “rural” tem sofrido. Nesse período.. determinarem novas questões a serem analisadas e esboçar tendências e definir as características. 1991). de acordo com as quais. um novo enfoque sobre a agricultura”.. deriva-se daí a necessidade de estudar.. Como nos desafia Cavalcanti (1993:62). A definição de um novo campo de estudos da . 1993). torna-se mais dependente da sociedade global. “trata-se de reconhecer que tais processos sociais agrários constituem expressões do processo histórico da divisão social do trabalho. como descobrir facetas diferentes de fenômenos já estudados. chamam a atenção sobre a necessidade de “revisitar o campo” e de construir um outro “olhar sociológico” (Tavares dos Santos. A “tarefa” de revisitar o campo se traduz na definição de fenômenos antes não considerados na análise. além do que. 1991). como por exemplo. Entendendo o espaço agrário “como um locus de relações sociais de produção específicas.. até a atualidade. A produção teórica sobre o “mundo rural” produzida nos últimos quarenta anos merece ser objeto de avaliação profunda e de reflexão crítica que permita encontrar seus obstáculos epistemológicos frente às transformações da sociedade contemporânea. De acordo com Tavares dos Santos (1991). em uma formação social determinada”. Ainda. os fenômenos que ocorrem no espaço agrário (Tavares dos Santos. inovações tecnológicas na agricultura e estímulos para exportação) e seus impactos na organização da produção e nas relações de trabalho.28 A utilização de critérios espaciais e ocupacionais é insuficiente para explicar as especificidades da sociedade rural. foram estudados fenômenos relativos à estrutura da posse da terra. 1993. Grossi Porto. alguns sociólogos brasileiros (Cavalcanti. uma “extrema ideologização”. 1993) que explore novas perspectivas teórico-metodológicas e defina novos temas de pesquisa. (Tavares dos Santos 1991: 15). o valor das agroindústrias supera o valor da terra. O “rural” representa um conjunto de objetos empíricos. (D’incao et al. No entanto. Para formar esses objetos científicos é necessário fazer uso de conceitos e teorias disponíveis no conhecimento sociológico. (Gómez. os resultados desses estudos parecem requerer novos questionamentos e instrumentos teóricos-metodológicos que possibilitem “. às políticas de intervenção do Estado para a modernização da agricultura (novas áreas de colonização. na medida em que perde sua importância relativa.parece sobre determinar a visão analítica”. 1994). desde uma perspectiva sociológica. A partir de uma perspectiva teórica. pois sua estrutura interna baseia-se na propriedade e no uso da terra como fator produtivo e simbólico. resultado da crescente exclusão social e onde a perspectiva política “. nas últimas décadas os estudos sobre o “campo” representam parte substancial da produção sociológica brasileira. apesar das semelhanças que esta tem com outros setores. o campo deve continuar (ou não) a ser objeto de estudo da Teoria Sociológica.a explicação dos múltiplos entrelaçamentos existentes entre esses diferentes fenômenos e a sociedade em termos amplos. Na mesma linha de Gómez (1994). Tavares dos Santos (1991: 15). mais especialmente. mas não necessariamente objetos científicos.

. Como afirma Solari (1972).sociologia sobre a agricultura implica algumas limitações e impasses científicos. o desenvolvimento da sociologia está vinculado à mudança social e a uma situação de crise.

no que se referem aos processos sociais que aí se desenvolvem. “economia política da agricultura” ou “sociologia dos processos agrários”. busca-se um . 1991). seja pela significância e abrangência dos temas selecionados. desde meados da década de 70.29 Dessa forma. Como foi mencionado anteriormente. sua vinculação às tradições teóricometodológicas funcionalistas. Nesse caminho. os estudos realizados até agora requerem uma análise crítica sobre as possibilidades. é dentro dessa preocupação epistemológica que tem emergido. Espanha e Alemanha. provoca efeitos negativos na expansão da análise sociológica do campo brasileiro. Kautsky e Chayanov. (que em certa medida é produto da crise do marxismo estruturalista e da análise funcionalista da “sociologia rural”). baseado em tendências neomarxistas e neo-weberianas que resgatam as constribuições de Marx. dado o processo de urbanização da sociedade brasileira. além de ser uma obrigação de ofício.28 Nos Estados Unidos essa corrente intelectual surge em meados da década de 70. a propor novas questões de estudos. para facilitar comparações com outros países (Cavalcanti. França. predominantes na Sociologia Rural Americana dos anos 60 ou pela tendência a se utilizar esquemas classificatórios rígidos para enquadrar grupos e classes sociais. produto de obstáculos epistemológicos como. Segundo Cavalcanti (1993). 1993). As críticas têm levado teóricos americanos. Esses problemas têm uma relação direta com a chamada crise dos paradigmas. quando a agricultura nesse país atravessa uma crise profunda. Apesar de algumas revisões na produção teórica sobre os processos sociais agrários. das ocupações agrícolas em sentido amplo. foram emitidos pareceres contra ou a favor da continuidade dessas análises. O debate destas perspectivas teórico-metodológicas poderiam contribuir na definição de novos problemas ou questões. Tavares dos Santos (1993). uma nova tendência intelectual denominada “nova sociologia rural”. Lenin. . Esta situação agrava-se pelo fato de que na sociologia rural há uma certa inércia explicativa. para converter-se num ramo das sociologias das ocupações. porque pouco se afasta dos antigos conceitos dos estudos da comunidade e pela sua incapacidade de criticar o sistema no qual se insere (Friedland apud Cavalcanti. em alguns países de capitalismo avançado como Estados Unidos. Avaliar essa produção. Canadá. Inglaterra. na década de 80 foram feitas algumas avaliações sobre a produção sociológica que teve o campo como objeto e. (Tavares dos Santos. Como afirma (Grossi. por exemplo. Esse movimento crítico é denominado “nova sociologia rural” ou “sociologia da agricultura”. completado esse processo. é uma condição necessária para novas abordagens. a sociologia rural mostra-se como expressão da dominação do campo pela cidade e. seja pelo pouco rigor científico no tratamento dos mesmos. 1993: 57). ao menos em seu conteúdo tradicional. A partir da leitura dos estudos agrários recentes. 1993). obstáculos e tendências da agricultura brasileira. questiona em que medida a denominada “crise dos paradigmas”. “sociologia da agricultura”. a partir das quais. A Sociologia Rural nos Estados Unidos está sendo questionada pela sua fragilidade. pode-se propor alguns elementos que possibilitem a superação a denominada “crise dos paradigmas” e construir um outro olhar sobre o campo. a sociologia rural teria que desaparecer.

. Trata-se de “.. percorrer os mesmos 28 Os teóricos que formam parte da “sociologia da agricultura” publicam a revista International Journal of Sociology and Food .retorno que possibilite ir ao encontro do novo.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS . 1993). buscou-se a análise das classes a partir da sua posição no processo produtivo. Nelas. as práticas sociais dos grupos dominados são entendidas dentro do processo de modernização. Essa visão é criticada por Marx quando reconhece uma nãolinearidade do processo histórico. Um terceiro obstáculo refere-se às análises sobre as classes sociais e os grupos sociais. as mesmas trilhas e veredas.. assumindo uma postura dualista: o “tradicional” e o “moderno” ou “rural” e o “urbano”. ao dissimulado. visão esta que está presente especialmente nos estudos sobre a difusão de inovações.” A avaliação da produção teórica sobre o “mundo rural” possibilitará o delineamento de perspectivas de análise que abordem tanto temáticas já tratadas. O segundo. Contudo é possível observar que há. Com o olhar atento ao invisível. Finalmente se pode afirmar que a influência e predominância do “marxismo clássico” na sociologia rural brasileira têm impedido um desenvolvimento mais amplo das análises acerca da nova dinâmica do “mundo rural”. para enfocá-las sob novas dimensões. E ao não existente em visitas anteriores. ao enterrado. é a vinculação da Sociologia “Rural” a uma perspectiva evolucionista do pensamento histórico. a emergência de uma nova forma de pensar o “mundo rural” no Brasil seguindo a vertente internacional que incorpora de forma criativa as contribuições teóricas de Weber e Marx. Tavares dos Santos (1991) identifica alguns obstáculos epistemológicos da Sociologia “Rural” brasileira. O primeiro. com novos olhos. quase sempre. (Grossi.30 caminhos. Visões que alcancem. no âmbito da construção teórica. mesmo com lentidão. Dentro desta visão. é a sua vinculação com a orientação funcionalista. para retornar. horizontes mais abrangentes. quanto questões emergentes que carecem de reflexões sociológicas pertinentes.

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Cobrindo todas as áreas do convívio humano — desde as relações na família até a organização das grandes empresas. In: Szmrecsányi. Porto Alegre: Programa de PósGraduação em Sociologia. São Paulo: Brasileinse. Enrico. 1972. normalmente o principal financiador da pesquisa desta disciplina científica. TAVARES DOS SANTOS. tempo de produção e desenvolvimento capitalista na agricultura: uma reconsideração da tese de Mann-Dickinson. estuda o comportamento humano em função do meio e os processos que interligam os indivíduos em associações. MOONEY. Compreender as diferentes sociedades e culturas é um dos objetivos da sociologia. 1980 NEWBY. Sérgio. O Objeto da sociologia rural. 1988 MOTTURA. vol. 1. Tamás e Queda Oriowaldo. Frederick H. Os colonos da indústria calçadista e as transformações da agricultura familiar. Patrick H.32 MOONEY. (UFRGS). Comércio Exterior. . Caio. My Own Boss. Vida Rural e mudança social. p. CO: Westview Press. Entretanto. 32. 1985 O que é Sociologia A Sociologia é uma das ciências humanas que estuda as unidades que formam a sociedade. o maior interessado na produção e sistematização do conhecimento sociológico atualmente é o Estado. Erick Olin. e Newby. 1973. Os resultados da pesquisa sociológica não são de interesse apenas de sociólogos. Patrick H. Ensaios FEE. Osmund & Co. REVISÃO CRÍTICA DA PRODUÇÃO SOCIOLÓGICA VOLTADA PARA A AGRICULTURA. analisando os homens em suas relações de interdependência. 24-25 de março de 1983 SCHNEIDER. TAVARES DOS SANTOS. 347-356. México. abril de 1982. São Paulo: Companhia Editora Nacional. 1996. 1991 WRIGHT. grupos e instituições. José Vicente. 1987. tentando explicá-los. ou seja. ano 17-n. A revolução brasileira.) The Rural Sociology of the Advanced Societies. 4. Boulder. 9(1): 7-26. Associação dos sociólogos de São Paulo (ASEP)Centro Brasileiro de Análise e Planejamento. RS. n. São Paulo. São Paulo: ANPOCS/Vértice. Porto Alegre. 1993. Howard. Aldo. Ciências Sociais Hoje. Tempo de trabalho. PRADO JR. Howard (org. a Sociologia tem uma base teórico-metodológica. A construção de um outro olhar sociológico sobre o campo. a diversas outras áreas do saber. Enquanto o indivíduo na sua singularidade é estudado pela psicologia.Número Especial. em diferentes graus de intensidade. que serve para estudar os fenômenos sociais. Classes. El desafio de la sociologia rural en la actualidad. Montclair. “Capitalism in agriculture and capitalism agriculture: the Italian case. London: Verso Editions. Giovanni e Pugliese. José Vicente. Crítica da Sociologia Rural e a construção de uma outra Sociologia dos processos agrários.” In: Buttel. NJ: Allanheld. a Sociologia pode vir a interessar.. Cadernos de Sociologia. SOLARI.. o papel da política na sociedade ou o comportamento religioso —. Literatura Econômica.

por exemplo. ou desarranjos. o conhecimento sociológico. Em alguns campos de estudo da Sociologia. A Sociologia ocupa-se. através dos seus conceitos. Os cursos de técnicas quantitativas/qualitativas servem. Isto ajuda a desenvolver modelos que possam entender mudanças sociais e como os indivíduos responderão a essas mudanças. classe e gênero. as qualitativas. é tarefa da Sociologia transformar as malhas da rede com a qual a ela capta a realidade social cada vez mais estreitas. a Sociologia pretende explicar a totalidade do seu universo de pesquisa. Por essa razão. de si mesmas como seres inevitavelmente sociais. o surgimento do capitalismo ou a gênese do Estado Moderno). na forma de resposta acadêmica para um desafio de modernidade: se o mundo está ficando mais integrado. Sociólogos não só esperavam entender o que unia os grupos sociais. processos sociais que representam divergência. Hoje os sociólogos pesquisam macroestruturas inerentes à organização da sociedade. História |[pic] |[pic] |[pic] |[pic] | . o uso de ambas as técnicas de coleta de dados pode ser complementar. E pesquisam os microprocessos como relações interpessoais. ao mesmo tempo. das suas múltiplas relações sociais e. mas também desenvolver um "antídoto" para a desintegração social. às pesquisas micro-sociológicas. e também se interessa por eventos únicos sujeitos à inferência sociológica (como. teorias e métodos. como raça ou etnicidade. normalmente. Sociólogos fazem uso frequente de técnicas quantitativas de pesquisa social (como a estatística) para descrever padrões generalizados nas relações sociais. discussões em grupo e métodos etnográficos — permitem um melhor entendimento dos processos sociais de acordo com o objetivo explicativo. a experiência de pessoas do mundo é crescentemente atomizada e dispersada. pode constituir para as pessoas um excelente instrumento de compreensão das situações com que se defrontam na vida cotidiana. nestas estruturas. Ainda que esta tarefa não seja objetivamente alcançável. inclusive crime e divórcio. as técnicas qualitativas — como entrevistas dirigidas. a objetivos explicativos distintos ou dependem da natureza do objeto explicado por certa pesquisa sociológica: o uso das técnicas quantitativas é associado às pesquisas macro-sociológicas. além de instituições como a família. A Sociologia surgiu como uma disciplina no século XVIII. das observações do que é repetitivo nas relações sociais para daí formular generalizações teóricas. Entretanto. uma vez que os estudos micro-sociológicos podem estar associados ou ajudarem no melhor entendimento de problemas macrosociológicos. consequentemente. procurando explicá-los no seu significado e importância singulares.Assim como toda ciência.

Em Comte. O triunfo da indústria capitalista foi pouco a pouco concentrando as máquinas. da Ciência Política e da Antropologia. convertendo grandes massas camponesas em trabalhadores industriais. políticas e culturais ocorridas no século XVIII. As transformações econômicas.| | | |Gilberto Freyre | |Karl Marx | |Vilfredo Pareto | |Émile Durkheim |[pic] | | |[pic] | |[pic] | | |Georg Simmel |Ferdinand Tönnies |Max Weber | A Sociologia é uma área de interesse muito recente. e ele acreditava que toda a vida humana tinha atravessado as mesmas fases históricas distintas e que. Assim é que a Revolução Industrial significou. Montesquieu também pode ser encarado como um dos fundadores da Sociologia . mas foi a primeira ciência social a se institucionalizar. é necessário frisar. algo mais do que a introdução da máquina a vapor. colocaram em destaque mudanças significativas da vida em sociedade com relação a suas formas passadas. poderia prescrever os "remédios" para os problemas de ordem social. como as Revoluções Industrial e Francesa. de forma muito clara. a Psicologia e a Economia. A Sociologia surge no século XIX como forma de entender essas mudanças e explicá-las.talvez como o último pensador clássico ou o primeiro pensador moderno. baseadas principalmente nas tradições. se consolida . Antes. seu esquema sociológico era tipicamente positivista. desvinculando-se das preocupações especulativas e metafísicas e diferenciandose progressivamente enquanto forma racional e sistemática de compreensão da mesma. portanto. No entanto. as terras e as ferramentas sob o controle de um grupo social. se a pessoa pudesse compreender este progresso. que a Sociologia é datada historicamente e que o seu surgimento está vinculado à consolidação do capitalismo moderno. Neste momento. Esta disciplina marca uma mudança na maneira de se pensar a realidade social. (corrente que teve grande força no século XIX). que esperava unificar todos os estudos relativos ao homem — inclusive a História. Ela representou a racionalização da produção da materialidade da vida social. para o pensamento social. 2 Em que pese o termo Sociologie tenha sido criado por Auguste Comte (em 1838).

o que se distingue da percepção de que este papel seja privilégio de um Estado que se sobrepõe ao seu povo. deu início a uma profícua linha de explicação sociológica. de matriz teórico-metodológica hermenêutico-compreensiva. como objeto que deveria ser investigado tanto por seus novos problemas intrínsecos. fundadas pelos seus autores clássicos. dos artesãos independentes. Trata-se das modificações que vinham ocorrendo nas formas de pensamento. Mas uma outra circunstância concorreria também para a sua formação. e etc. não necessariamente em ordem de importância: (1) a positivista-funcionalista. (2) a sociologia compreensiva iniciada por Max Weber. Assim. Ela traz diferentes estudos e diferentes caminhos para a explicação da realidade social. Correntes sociológicas Porém. tendo como fundador Auguste Comte e seu principal expoente clássico em Émile Durkheim. de fundamentação analítica. Não demorou para que as manifestações de revolta dos trabalhadores se iniciassem. O desaparecimento dos proprietários rurais. iniciada por Karl Marx. pois colocava a sociedade num plano de análise relevante. pelas novas condições de existência por ela criada. como por seu novo protagonismo político já que junto a estas transformações de ordem econômica pôde-se perceber o papel ativo da sociedade e seus diversos componentes na produção e reprodução da vida social. Máquinas foram destruídas. Este fato é importante para o surgimento da Sociologia. que divide de modo central a sociedade entre burgueses (donos dos meios de produção) e proletários (possuidores apenas de sua força de trabalho). que mesmo não sendo um sociólogo e sequer se pretendendo a tal. que se achavam em curso no ocidente europeu desde o século XVI. formação de sindicatos e movimentos revolucionários. pode-se claramente observar que a Sociologia tem ao menos três linhas mestras explicativas.. originada pelo Iluminismo. tiveram um efeito traumático sobre milhões de seres humanos ao modificar radicalmente suas formas tradicionais de vida.a sociedade capitalista. e (3) a linha de explicação sociológica dialética. roubos e crimes. Há paralelamente um aumento do funcionalismo do Estado que representa um aumento da burocratização de suas funções e que está ligado majoritariamente aos estratos médios da população. atos de sabotagem e exploração de algumas oficinas. a imposição de prolongadas horas de trabalho. das quais podem se citar. As transformações econômicas. O surgimento da Sociologia prende-se em parte aos desenvolvimentos oriundos da Revolução Industrial. não poderiam deixar de provocar modificações na forma de conhecer a natureza e a cultura. evoluindo para a criação de associações livres. . a Sociologia não é uma ciência de apenas uma orientação teóricometodológica dominante.

quando a organização é observada e estudada podem se verificar as falhas assim alterar seu sistema de funcionamento e gerar lucro. aplicando mormente o método comparativo. ele se dá. psicológicas. O sociólogo dentro da organização intervem diretamente sobre os resultados da empresa. assim. A Sociologia. por motivações diferentes que as da velha Europa (mas certamente influenciada pelos europeus. hoje ela é mais uma entre as ciências. contribuindo com os lucros e resultados da organização. políticas. as ciências teóricas e experimentais desenvolvidas nos séculos XVII. Entre os principais nomes do estágio inicial da sociologia norte-americana. Hinkle. podem ser citados: William I. ela estuda organizações humanas. Para compreender o surgimento da sociologia como ciência do século XIX. originadas pelos seus três principais autores clássicos. Martin Bulmer e Roscoe C. originaram quase todos os posteriores desenvolvimentos da Sociologia. vai debruçar-se sobre todos os aspectos da vida social. econômicas. XVIII e XIX inspiraram os pensadores a analisar as questões sociais. Park. lhe será uma "jaula" que o transcenderá e lhe determinará a identidade. levando à sua consolidação como disciplina acadêmica já no início do século XX. nesse contexto histórico social. Ainda que seja relativamente mais tardio seu aparecimento nos Estados Unidos. educacionais. A sociologia como ciência da sociedade Ainda que a Sociologia tenha emergido em grande parte da convicção de Comte de que ela eventualmente suprimiria todas as outras áreas do conhecimento científico.Estas três matrizes explicativas. Atualmente. Desde o funcionamento de estruturas macro-sociológicas como o Estado. especialmente pela sociologia britânica e positivista de Herbert Spencer). é importante perceber que. Thomas. É interessante notar que a Sociologia não se desenvolve apenas no contexto europeu. 3 especialmente a teuto-francesa. . Robert E. Esta disciplina tem se concentrado particularmente em organizações complexas de sociedades industriais. instituições sociais e suas interações sociais. Nos EUA a Sociologia esteve de certo modo "engajada" na resolução dos "problemas sociais". em grande medida. algo bem diverso da perspectiva acadêmica europeia. com enfoque científico. inevitavelmente. a classe social ou longos processos históricos de transformação social ao comportamento dos indivíduo num nível micro-sociológico. sem jamais esquecerse que o homem só pode existir na sociedade e que esta.

que mesmo a Antropologia faz pesquisa em sociedades industrializadas. Dessa forma foram empregados métodos estatísticos.Ao contrário das explicações filosóficas das relações sociais. Diferentemente da ética. ora afastando-as e. até mesmo. ela se preocupa também com as motivações exteriores que levam o indivíduo a agir de uma forma ou de outra. Comparação com outras ciências sociais No começo do século XX. Por fim. da abordagem científica da sociedade. como mostrado por Karl Marx e outros. Quanto a Psicologia social. na ação geral. negando às humanas tal estatuto com base na inviabilidade de qualquer controle dos dados tipicamente humanos. a ciência se presta à explicação e à compreensão dos fenômenos. quando muito. foram e continuam sendo o foco de muitas discussões. aquele que se refere a produção e troca de mercadorias. na observação casual de alguns fatos. sociólogos e antropólogos que conduziam estudos sobre sociedades não-industrializadas ofereceram contribuições à Antropologia. e um ceticismo metodológico a fim de extirpar os elementos "incontroláveis" e "dóxicos" recorrentes numa ciência ainda muito nova e dada a grandes elucubrações. além de se interessar mais pelos comportamentos do que pelas estruturas sociais. Tais peculiaridades. que visa discernir entre bem e mal. sejam estes naturais ou sociais. Muitos dos teóricos que almejavam conferir à sociologia o estatuto de ciência. e as discussões epistemológicas mais desenvolvidas. a Sociologia tem de obedecer aos mesmos princípios gerais válidos para todos os ramos de conhecimento científico. Nesse aspecto. a observação empírica. objetivando explicar as variâncias no comportamento social em suas ordens moral. ora tentando aproximar as ciências. Como ciência. imprevisíveis e impassíveis de uma análise objetiva. buscaram nas ciências naturais as bases de sua metodologia já mais avançada. Já a Economia diferencia-se da Sociologia por estudar apenas um aspecto das relações sociais. a Filosofia social intenta criar uma teoria ou "teorias" da sociedade. baseada. Esforços nesse sentido são visíveis nas obras de modernos teóricos sociais. considerados por muitos. a pesquisa em Economia é frequentemente influenciada por teorias sociológicas. entretanto. as explicações da Sociologia não partem simplesmente da especulação de gabinete. Uma das primeiras e grandes preocupações para com a sociologia foi eliminar juízos de valor feitos em seu nome. no entanto. consequentemente. Deve ser notado. Já o enfoque da Sociologia é na ação dos grupos. a diferença entre Sociologia e Antropologia tem mais a ver com os problemas teóricos colocados e os métodos de pesquisa do que com os objetos de estudo. estética e históricas. apesar das peculiaridades dos fenômenos sociais quando comparados com os fenômenos de natureza e. reunindo um arcabouço de conhecimento que .

As formas como a Sociologia pode ser uma 'ciência da ordem' são diversas. isto é. Nesse sentido. Por outro lado. no qual o Estado. mas aos seus interesses materiais imediatos. À primeira vista. o uso do conhecimento sociológico é potencialmente perigoso. pode servir a diferentes tipos de interesses.entrelaça a filosofia hegeliana. como mais popularmente se diz. como na orientação de políticas públicas promovidas nem sempre de acordo com o interesse das maiorias ou no respeito às minorias. autoritárias e arbitrárias. ao mesmo tempo. representada por aquilo que ficou conhecido como Teoria Crítica ou. em vista do tipo de conhecimento que produz. Ela pode ser um tipo de conhecimento orientado no sentido de promover um melhor entendimento dos homens acerca de si mesmos. o meio indireto. as obras de Max Horkheimer. Sociologia da Ordem e Sociologia da Crítica da Ordem A Sociologia. utilizando-se de os valores morais e políticos do iluminismo liberal mesclados com os ideais socialistas. sejam eles empresas privadas ou Centrais de Inteligência. Entretanto. Max Weber. Escola de Frankfurt. à revelia dos interesses e valores da comunidade democrática com vistas a manter o status quo. talvez. Ela pode partir desde a perspectiva do sociólogo individual. Theodor Adorno. representam uma das mais profícuas vertentes da filosofia social. seus resultados podem ser utilizados com vistas à melhoria dos mecanismos de dominação por parte do Estado ou de grupos minoritários. podendo mesmo servir à finalidades antidemocráticas. submetendo a produção do conhecimento não ao progresso da ciência por si ou da sociedade. para alcançarem maiores patamares de liberdades políticas e de bem-estar social. como principal ente financiador de pesquisas nas áreas da sociologia escolhe financiar aquelas pesquisas que lhe renderam algum tipo de resultado ou orientação estratégicas claras: pode ser tanto como melhor controlar o fluxo de pessoas dentro de um território. A evolução da Sociologia como disciplina . a Sociologia pode ser orientada como uma 'ciência da ordem'. a teoria social de Marx e. porém. Há. entre outros. Jürgen Habermas. seja complexo apreender tal abordagem. kantiana. 4 A produção sociológica pode estar voltada para engendrar uma forma de conhecimento comprometida com emancipação humana.

final da Idade Média. não restava alternativa exceto a atividade comercial voltada ao lucro. Além da preocupação com a economia política e mudanças sociais apropriadas com a instalação da nova república. voltam também em relação ao estudo da mulher.A sociologia no mundo foi-se mostrando presente em várias datas importantes desde as grandes revoluções. que serão mais tarde chamados de “burgueses”. As pessoas começam a se rebelar. No Brasil nas décadas de 20 e 30 a sociologia estava num estudo sobre a formação da sociedade brasileira. Na década de 80 a sociologia finalmente volta a ser disciplina no ensino médio. por exemplo. e estudos sobre índios e negros Nas décadas seguintes de 40 e 50 a sociologia voltou para as classes trabalhistas tais como salários e jornadas de trabalho. isto diz respeito. fogem dos feudos (a que eram “presas” por laços de honra) e passam a roubar ou com parcos recursos comprar bens baratos a grandes distâncias vendendo-os mais caro onde eram desejados – ressaltem-se as famosas “especiarias” -. iria engordar ainda mais os cofres da Nobreza. Naquele caso. se diz que o Modo de Produção entrou em contradição com os interesses das Forças Produtivas. Classicamente. . desde lá cada vez mais foi de fundamental participação para a sociedade mundial e também brasileira. ela vai sofrer influências das teorias marxistas. embora a densidade demográfica crescesse assustadoramente. fundadores de burgos. a maior potência do mundo à época. tida como “desonesta” por praticamente todas as culturas e civilizações do mundo a partir de todos os pontos de vista éticos. Mas para os fugitivos dos feudos. Desde o início a sociologia vem-se preocupando com a sociedade no seu interior. por exemplo. O surgimento da Sociologia e o Socialismo Europa. crise do Modo de Produção Feudal. e também comunidades rurais. ou seja. na medida em que as suas preocupações passam a ser o subdesenvolvimento. Na América Latina. aos conflitos entre as classes sociais. e analisando temas como abolição da escravatura. de nada adiantava produzir mais porque o excedente não iria para aqueles deles necessitados. e outros assuntos culminantes.. A prática do lucro era condenada pela Igreja Católica. ao trabalhador rural.e também ocorreu a profissionalização da sociologia. nas questões de reforma agrária e movimentos sociais na cidade e no campo e a partir de 1964 o trabalho dos sociólogos se voltou para os problemas sócio políticos e econômicos originados pela tensão de se viver em um país cuja forma de poder é o regime militar. êxodos.. na Europa. Na década de 60 a sociologia se preocupou com o processo de industrialização do país. a sociologia sofreu influencias americanas e europeias.

crescendo e hoje. Os burgueses convocaram seus empregados. como ocorreu no Chile de Salvador Allende e. muito mais interessante e lucrativo para a burguesia. uso da força física. outro com proposta islâmica. lucros. “Usurários”. Era fundamental reorganizar a sociedade de maneira a que os novos donos da riqueza fossem também os donos do poder. Agora. Os padres diziam nas missas – embora sua prática fosse bem outra. por vezes secretas. “king” e “marquesa” passam a ser nomes de animais domésticos da burguesia! O passo seguinte foi agradecer e condecorar trabalhadores.. você prosperará imensamente nesta terra.. agora praticamente falida. Politicamente a burguesia endinheirada sentia-se lesada tendo de pagar tributos à antiga nobreza. Foi crescendo. eram todos enfileirados 5 no caminho que conduz ao fogo do inferno. a burguesia e seus interesses comerciais se sobrepõem ao ser humano numa infecção que contamina todo o planeta. superiores em número. saem-se vitoriosos.. à medida que se conscientizavam de que foram usados para uma troca de poder que em absolutamente nada lhes beneficiou começam a organizar-se em sindicatos e outras agremiações classistas. por vezes aberta mas sempre e imediatamente proclamadas ilegais ou heréticas e perseguidas por todo o aparato estatal e religioso que a burguesia podia colocar em marcha! . agora pastores que passam a informar: “se a mão de Deus estiver sobre a sua cabeça.. – ser “mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus”. desempregados e desesperados. Surge uma nova religião para reforçar uma ética mais consentânea com os tempos cambiantes: surge o protestantismo. “duque”. enfim. Estes. Se você tivesse enriquecido à beça na base do comércio lucrativo.. Por outro lado começam a surgir expadres.O capitalismo era como um pequenino câncer que surgiu no final da sociedade feudal. no Afeganistão – um com proposta socialista. para uma aliança contra a nobreza ou “antigo regime” e. reiterando serem pecaminosos aqueles que praticavam a cobrança de juros. mais recentemente. após muitos percalços. em contradição com a sua prática) ou o do pastor? Assim cresceram as seitas protestantes pelo mundo afora. no limite. preferiria o discurso do padre (vale repetir. desempregados e desesperados e mandá-los de volta a seus trabalhos. a seus desempregos e a seu desespero. No início compravam títulos de nobres aos de antiga linhagem – que os discriminavam! – a seguir passaram a pensar em alternativas mais radicais (ser radical é ir à raiz e a burguesia foi radical no período de suas glórias revolucionárias!) como convocar os trabalhadores a uma aliança contra a nobreza e implantar um novo tipo de regime político.. ou do empréstimo a juros. a “república”. Aquelas sociedades que buscam a cura para este mal são “reconvertidas” ao satanismo pagão de holocaustos ao deus-mercado através de diversas formas de pressão e. maçônicas mesmo. ambos intoleráveis hereges dentro do fundamentalismo de mercado. nisso você verá um sinal de estar sendo por ele abençoado”.

. da filosofia clássica alemã (em particular o materialismo de Feuerbach e a dialética de Hegel) e a economia clássica inglesa construiu o MATERIALISMO DIALÉTICO. enquanto houver opressores e oprimidos a espécie humana inteira estará refém da insânia. um pedaço da enorme colcha de retalhos que mais tarde constituiria a Nação Alemã. tudo se transforma freqüentemente em seu contrário. Era necessário esquecer a “filosofia negativa” e. a configuração já mudou completamente. Dialética Há muito que dizer e em que refletir sobre a Dialética. mas à libertação de toda a espécie humana de toda a classe de opressão e exploração. menciono apenas dois pontos. do “Positivo”. Com base no socialismo chamado “utópico” dos franceses. Movimento: Tudo está em movimento. da mera aparência fenomênica de alguma coisa. cedo percebeu que enquanto houver neste mundo gente que se alimenta e gente que passa fome. voltando ao reino das aparências criar uma filosofia capaz de . Adotando o ponto de vista dos trabalhadores criou um ferramental intelectual inédito e até hoje embatido para a compreensão do Real. Era necessário olvidar a essência e trabalhar com o que é perceptível aos sentidos físicos mais grosseiros e imediatos. A essência é mais significativa que a aparência: Este postulado fez com que a Dialética ficasse conhecida como “Filosofia Negativa”. está de um jeito. filosofia voltada não apenas à ascensão da classe trabalhadora ao poder. filho de burgueses e educados no mais rigoroso protestantismo.. olha novamente. É como as nuvens no céu: você olha.. pois buscava a compreensão do que está para além da superfície. incrivelmente perspicaz.. Chegou à conclusão de que somente a partir do ponto de vista de quem não tem absolutamente nada a perder se pode almejar a vislumbrar a verdade.Karl Marx Originário da Renânia. Augusto Comte e a “Física Social” Evidentemente era necessário que a burguesia também produzisse uma teoria em defesa de seus pontos de vista e poucos foram tão brilhantes – e influenciaram tanto a nossa combalida Nação – quanto o positivismo.

. que seu mestre ainda chamava de “Física Social”. Weber – a jaula de ferro do capitalismo. Posição hoje indefensável. qualquer ciência que se volte a compreender o homem “afastando a ingerência filosófica” tende mais a falsear a compreensão do ser humano do que a compreendê-lo. através deles os pobres sejam menos pobres”.. tem esta raiz. –. aquelas mesmas que pavimentam todas as estradas do inferno... emoções. que já percebem as falhas do positivismo clássico... Falando claramente: para que uma ciência humana mereça ser chamada de “científica”.. .. 6 acerca da sociedade e do ser do homem.. “que os ricos sejam mais ricos para que.. Olvidando totalmente a existência concreta de interesses antagônicos na Sociedade Burguesa. busca integrar a todos em torno do ideal ou meta burguesa – “integralismo”.. crescendo por etapas ou degraus seria possível chegar-se a uma precisão “científica”. Durkheim tem contudo enorme valor para a Sociologia contemporânea. e “juízos de valor”.. como se isso fosse possível. em linhas gerais. Durkheim e “As Regras. Eivado de motivos nobres.” Discípulo genial de Comte. Como se fosse possível ao ser humano estar acima de todos os sentimentos. Comte pregava a necessidade de “libertar o conhecimento social de toda a ingerência filosófica”.. Como se a própria colocação da questão – seja ela qual for – não traga nela embutidos os juízos ou as pré-noções.. Os positivistas contemporâneos. não filosófica. suas mesmas motivações – “conciliar Capital e Trabalho”.. exterior ao indivíduo e coercitivo. Émile Durkheim sistematizou algumas de suas idéias e foi o primeiro a usar efetivamente a expressão “Sociologia” para referirse ao estudo em pauta. impregnado de boas intenções.. Se o fosse? Seria desejável? Se a filosofia responde a muitas questões que dizem respeito ao ser do homem no mundo....compreender o social com tanta precisão quanto a matemática ou a física – que hoje sabemos também serem imprecisas. tem de ser filosófica! O oposto disso é simplesmente fechar os olhos ao que constitui o SER do homem.. O que é fato social? Tudo o que é coletivo. mantêm suas mesmas raízes. e outras idiotices só críveis porque repetidas em altos brados e ad nauseam. Mas. por sinal. Mas Comte e seus discípulos criaram um sistema “científico” voltado a conciliar o inconciliável: a Luta de Classes. Como compreender o fato social? Primeiro passo: “Afastar sistematicamente as pré-noções”. a Luta de Classes.

não escreveu uma única linha. De repente. Quatro anos em que. Georg Lukács Húngaro. que resgata a Dialética Materialista com grande ênfase à Dialética. não pronunciou uma única palavra. Sua posição de professor conservador. Foi um dos últimos brilhos a ir mais longe que Marx dentro do pensamento marxista. “Zerstorung der Vernunft”). Você vale o quanto é capaz de produzir e é avaliado não pela grandeza de sua alma e de seus valores humanos. Segundo o capitão evangélico. particularmente Herbert Marcuse.Max Weber. separar o “lugar da teoria” do “lugar da prática” em ciência política. a que se alinha com muito maior conforto. a inteligência deve ser livre de vínculos (em alemão. militar e evangélico talvez explique os motivos do “acidente de trabalho” que o conduziu a uma profundíssima crise depressiva que durou quatro longos anos em que até a alimentação era levada à sua boca pela esposa. Sua grande obra ainda é “Razão e Revolução”. consta. ao contrário. lutou na Primeira Guerra Mundial como capitão do exército prussiano chegou à conclusão de que é necessário não tomar partido. o gênio adormecido desperta para o espanto de todos e compõe uma das mais geniais obras sociológicas do século XX – “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”. O Clássico “História e Consciência de Classe” é um leitura obrigatória a todo aquele que queira compreender o ser humano vivendo em sociedade. filho de pastor evangélico. o mais notável discípulo de Weber. Teologia da Libertação . Isso é a Destruição da Razão (em alemão. É nela que se defende que o grande critério a submeter o Real é a Razão Humanista. O Capital é irracional: desiguala os semelhantes e equaliza os dessemelhantes. Freischwebend Intelligenz). um dos maiores gênios do século XX. percebe-lhe as limitações e conduz os avanços sociológicos que esta corrente positivista havia logrado atingir ao marxismo. liberal. mas do quanto você tem em bens materiais. O peso de sua erudição não tira o interesse do trabalho. Escola de Frankfurt É fundamental citar o lugar dos teóricos de Frankfurt.

E agora. a travessia do “Mar Tenebroso” que todos “sabiam” intransponível e a chegada ao Novo Mundo. Em síntese. esta é a grande contribuição da América Latina em geral e do Brasil em particular ao Saber Universal. caso o próprio nome “comunismo” tenha se tornado pouco palatável do ponto de vista do marketing político. eles dizem: “não tem jeito”. o que fazer? Como o saudoso Capitão Luís Carlos Prestes. O capitalismo existe no mundo aí há uns quinhentos anos. • O século XVIII constituiu um marco importante para a história do pensamento ocidental e para o surgimento da sociologia: As profundas transformações políticas. Assim como o Império Romano negou o cristianismo por quase 400 anos. proclamando-lhe extinto. da criminalidade. O comunismo nascente comparado ao cristianismo também em processo de parturição no Império Romano. O revolucionário em busca de um mundo melhor. “Sempre foi e sempre será assim” – preenchendo o futuro como se houvesse uma linha invisível a ligar todos os tempos. como Che Guevara ou o padre Camilo Torres é equiparado aos primeiros cristãos. da prostituição. os exemplos se multiplicam. Não é crível que a espécie humana tenha de ser condenada ao inferno capitalista pelo resto da eternidade. • As conseqüências da rápida industrialização foram trágicas: aumento da violência. Além da conflituosa .Segundo os grandes filósofos europeus contemporâneos. O que Weber chamava de “jaula de ferro” os Teólogos da Libertação chamam de “pessimismo defensivo” da burguesia. do alcoolismo. seguramente capitalista não será! Origens e Definições da Sociologia • Surge após revoluções Burguesas (Inglesa/ industrial e Francesa: Por volta de 1830. morto e era aterrorizado pelo fantasma de seu cadáver insepulto o Capital proclama reiterado e repetidas vezes a “morte do comunismo”. tampouco o foi o feudalismo (que durou cerca de um milênio). como se a Vontade humana não houvesse sido capaz de proezas memoráveis como a transformação do Império Romano num Império Cristão. acabado. No início como um pequenino carcinoma que hoje tomou conta do planeta todo. econômicas e culturais levam ao surgimento da Sociologia (Ciência Social ou Ciência da Sociedade). morrerei convicto do Futuro Comunista da Humanidade! Não é possível saber como vamos suplantar esta situação amarga em que “o homem é o lobo do homem”. mesmo sem saber como será a Sociedade do Futuro. O escravismo antigo não foi eterno (durou alguns milhares de anos). Mas o poder regenerativo do Humano surpreende mesmo aos 7 médicos e.

vai pensar a ordem social enfatizando a importância das instituições burguesas: a autoridade. • Surge com um interesse prático: resposta a crise social da época(XIX). o surgimento da sociologia prende-se em parte aos abalos provocados pela revolução industrial. Sociologia: Ciência da Sociedade • É a formação de uma estrutura social muito específica – a sociedade capitalista – que impulsiona uma reflexão sobre a sociedade. a interpretação crítica e negadora da realidade. • Não é por mero acaso que a sociologia – enquanto instrumento de análise – inexistia nas sociedades pré-capitalistas. . • Conteúdo estabilizador – reforma conservadora – leis imutáveis da vida social. Qual a importância desses acontecimentos para a Sociologia? • Essas transformações colocavam a sociedade num plano de análise. • Passa a prevalecer a busca por uma indagaçãoracional: método da observação e da experimentação – método científico. a hierarquia social.relação Capital x Trabalho. • Busca estado de equilíbrio numa sociedade dividida pelos conflitos de classe. sobre suas transformações. a família. hierarquia e harmonia social. • Pós revoluções burguesas. suas crises e seus antagonismos de classe. a ênfase continuará sendo no pensamento e explicação racional. religiosa para explicar a realidade. • Assim sendo. porém. Diante desta nova realidade e das transformações sociais surge a sociologia: 1) Positivista 2) Dialética Sociologia Positivista • Ênfase na ordem. mítica. • Não maistransformar a realidade masorganizar através de regras a sociedade: Ordem e Progresso. já no século XIX. uma vez que o ritmo e o nível das mudanças que aí se verificam não chegavam a colocar a sociedade como “um problema” a ser investigado. marca dos ideais iluministas que orientou o projeto revolucionário da burguesia deveria ser superado em nome da organização da sociedade e manutenção do status quo. em objeto que deveria ser investigado. a se constituir em problema. pelas novas condições de existência por ela criadas e também devido as modificações que vinham ocorrendo nas formas de pensamento: na forma de buscar conhecer a natureza e a cultura. • Neste momento (que se iniciou com o renascimento) há uma renuncia da visão sobrenatural.

• Realidade entendida como totalidade histórica: conhecimento crítico e negador da sociedade capitalista. • Compreensão dialética da realidade: (tese – antítese – síntese – tese) oposição sistemática: umatese gera dentro de si umaantítese. Exercícios 1. • O mundo. políticos e culturais. mudá-la. indica a forte influência do positivismo na formação política do Estado brasileiro. tanto no que se refere a manter a ordem social vigente como para contestá-la. entre o pensamento dialético e o pensamento positivista/conservador. • O caráter antagônico e contraditório da sociedade capitalista impediu um entendimento comum por parte da sociologia em torno ao objeto e aos métodos de investigação da nova ciência social. que se instala. bem como as explicações sociológicas. se divide entre aqueles que olhando a realidade querem mantê-la e aqueles que querem transformá-la. Teoria Social voltada à transformação da realidade. Importante Considerar: • As explicações sociológicas sempre tiveram e têm intenções práticas: desejo de interferir nos rumos da sociedade. evidencia as contradições e antagonismos de classe desta sociedade. políticos.• Procura criar um objeto autônomo “o social” independente dos fenômenos econômicos. por sua vez. do choque dialético entre esses dois pólos sobrevém uma nova situação histórica (síntese) que ainda carrega em si elementos do velho (tese) e do novo (antítese). • Relação intrínseca entre teoria e prática. Sociologia Crítica/Dialética • Fenômenos sociais não são independentes dos fatores econômicos. . culturais. como tese novamente. “Ordem e Progresso”.(UEL) O lema da bandeira do Brasil. 8 • A falta de um entendimento comum na sociologia (no estudo dos fenômenos sociais) tem haver com o fato de vivermos numa sociedade dividida. • Luta de opostos: luta de classes como motor da história. marcada pelos antagonismos e conflitos de classe. Teoria Social visa a manutenção da ordem social.

b) Ideais de movimentos juvenis. III e IV são corretas. em que todos estavam trajando roupas esportivas. imaginando que a festa seria formal. O fato social expressa o predomínio do ser individual sobre o ser social. segundo Émile Durkheim (1858-1917). O fato social é todo fenômeno que ocorre ocasionalmente na sociedade. d) Ideal de superação da sociedade burguesa através da revolução das classes populares. II. O fato social é exterior ao indivíduo e apresenta-se generalizado na coletividade. causou estranheza. I.Assinale a alternativa que apresenta idéias contidas nesse lema. provocando risos. III. O calouro. c) Denúncia dos laços de funcionalidade que unem as instituições sociais e garantem os privilégios dos ricos. 2. cochichos com comentários maldosos. Ao entrar na festa. a) Crença na resolução dos conflitos sociais por meio do estímulo à coesão social e à evolução natural da nação. c) Apenas as afirmativas II e III são corretas. As regras que regem o comportamento e as maneiras de se conduzir em sociedade podem ser denominadas. a) Apenas as afirmativas I e II são corretas. O fato social caracteriza-se por exercer um poder de coerção sobre as consciências individuais. como fato social. Assinale a alternativa correta. que visam superar os valores das gerações adultas. b) Apenas as afirmativas I e IV são corretas.(UEL) Um jovem que havia ingressado recentemente na universidade foi convidado para uma festa de recepção de calouros. e) Negação da instituição estatal e da harmonia coletiva baseada na hierarquia social. O calouro não estava vestido de acordo com o grupo e sentiu as represálias sobre o seu comportamento. compareceu vestido com traje social. olhares de espanto e de admiração. d) Apenas as afirmativas I. Considere as afirmativas abaixo sobre as características do fato social para Émile Durkheim. IV. No convite distribuído pelos veteranos não havia informação sobre o traje apropriado para a festa. .

4. Marilena. as narrativas. A utilização dessa teoria indica que os pesquisadores pretendem: a) investigar as funções sociais das instituições. .) Assinale a alternativa que apresenta a afirmação que está de acordo com a definição de pensamento mítico dada acima. b) pesquisar o proletariado como a classe social mais importante na estruturação da vida social. São Paulo: Ática. 161.(UEL) O pensamento científico. é possível encontrar a definição de pensamento mítico como aquele que “vai 09 reunindo as experiências. buscando descobrir quais as tendências dos eleitores. A aplicação do modelo de pesquisa que aparece descrito no texto baseia-se. como eles propõem e ouvem argumentos sobre o tema. também classifica e conceitua outras formas de pensamento. comentam e debatem as campanhas políticas. Perto das eleições. além da convergência das intenções. tais como igreja. até compor um mito geral. há uma base minuciosa de informações. e) pesquisar os sentidos e os significados recíprocos que orientam os indivíduos na maioria de suas ações e que configuram as relações sociais. c) analisar os aparelhos repressores do Estado. para entender o comportamento dos grupos sociais. principalmente. Pesquisadores. os concorrentes debruçam-se sobre gráficos. escola e família. 2000. Por exemplo. d) estudar a psique humana que revela a autonomia do indivíduo em relação à sociedade. Convite à filosofia. além de auto definir-se. 3. suas funções e suas finalidades. descobrem-se. as razões gerais que poderiam fazê-los mudar de opção. Nessa técnica de pesquisa qualitativa. planilhas e tabelas de preferências de voto. em troca de um sanduíche e um refrigerante. Com esses materiais heterogêneos produz a explicação sobre a origem e a forma das coisas. os relatos. escondidos atrás de vidros espelhados. II e IV são corretas.e) Apenas as afirmativas I. p.(UEL) Por trás das disputas que os candidatos travam pela preferência do eleitorado. os poderes divinos sobre a natureza e sobre os humanos”. acompanham as conversas de grupos de pessoas comuns de diferentes classes que. na teoria sociológica de Max Weber (1864-1920). (CHAUÍ. pois são eles que determinam os comportamentos individuais. as motivações que se repetem nos votos dos eleitores.

se é que se quer que haja Lucro! Apenas: para onde com a mercadoria? A boa lógica diz: Lã e trigo. Não “creio que ocorram coisas ruins para mim. quem com Deus está. tudo junto É sacrificado ao fogo. O pão ainda é destinado a alimentar: ele tem de dar lucro. minas e moinhos: Tudo quebrado e. são a pobreza. o poder da mente é forte e aquelas pessoas que pensam negativamente podem atrair má sorte. Mas se a produção apenas é consumida. Estamos atrás do ‘paraíso’ sonhado por nossos ancestrais e ele se encontra por essas regiões. Estaleiros. a distância entre a escola e a residência.” (depoimento de um candidato a emprego de gari no Rio de Janeiro. (estudante. Para mim. ferramentas de exércitos em trabalho. lanifícios.(UEL) “A casa não é destinada a morar. altos-fornos. 24 anos) c) “Não temo o desemprego. (declaração da capitã do time de vôlei do Vasco da Gama ao comemorar a transferência da partida contra o Flamengo para um ginásio de sua preferência) b) “Considero a sexta-feira 13 um dia ‘nebuloso’. o tecido não é disposto a vestir. disputando vaga com outros 40 mil candidatos) d) “Viemos em busca da ‘Terra sem males’. para amolecer o deus do lucro. e não é também vendida Porque o salário dos produtores é muito baixo – quando é aumentado Já não vale mais a pena mandar produzir a mercadoria –. a fim de aquentar o deus do lucro! Montanhas de maquinaria. mas prefiro me precaver com patuás e incensos”. “Foi lá que conquistamos nosso primeiro título”. além do trabalho infantil. sacrificado! . atrás do ‘Éden’. tudo pode.” (explicação dada por líder guarani diante do questionamento sobre a instalação de grupos indígenas em áreas de mata atlântica protegidas por lei) e) “As principais causas da exclusão educacional apontadas pelo censo do IBGE [Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística].” (divulgação na imprensa de dados do IBGE sobre educação) 5. café e frutas e peixes e porcos. por que Alugar mãos? Elas têm de fazer coisas maiores no banco da fábrica Do que alimentar seu dono e os seus. a distorção idade série e até o tráfico de drogas.a) “Acredito em coincidência e essa [a transferência do local do jogo] é uma vantagem a mais para nós nesta final.

. planejadamente. e) Fenômenos característicos das sociedades humanas desde as suas origens. (E pensando evitar a peste alguém apenas a carrega consigo. . Atirando-os a saunas e depois de volta a estradas geladas. Que ela. quando a casa cai em estrondos Sobre as nossas cabeças. De acordo com o poema e com os conhecimentos da teoria de Marx sobre o capitalismo. a pobreza e a fome são: 10 a) Oriundos da inveja que sentem os miseráveis por aqueles que conseguiram enriquecer.De fato. empestando Também os recantos onde se refugia!) Em novas e maiores crises A burguesia volta atônita a si. 16. São Paulo. a burguesia atormentada Despedaça os próprios bens e desvaira com seus restos Pelo mundo afora em busca de novos e maiores mercados. d) Frutos do egoísmo próprio ao homem e que poderiam ser resolvidos com políticas emergenciais. arrasta consigo. Em pânico. mar. [.” (BRECHT.116. b) Frutos da má gestão das políticas públicas.. mas sem planos. na sociedade burguesa. exércitos gigantes. seu deus do lucro está tomado pela cegueira. Crítica marxista. As vítimas Ele não vê. Começam a entender que o mundo burguês tem seus dias contados Por se mostrar pequeno demais para comportar a riqueza que ele próprio criou.] As leis da economia se revelam Como a lei da gravidade. é correto afirmar que. as crises econômicas e políticas. c) Inerentes a esse modo de produção e a essa formação social.) Os versos anteriores fazem parte de um poema inacabado de Brecht (1898-1956) numa tentativa de versificar O manifesto do partido comunista de Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895). Mas os miseráveis. a concentração da renda. Bertolt. n. O manifesto. p. 2003.

ao invés de buscar compreendê-lo. . inclusive a ciência. p. nenhum conceito e nem também a totalidade dos conceitos são perfeitamente adequados ao objeto ou ao mundo que eles se esforçam em explicar e compreender. seguindo a orientação de nossa curiosidade e a significação que damos a isto que tentamos apreender”. d) I.2005) Leia o texto a seguir.) Com base no texto e nos conhecimentos sobre o tema. b) II e III. Paris: PUF. Disso resulta que todo conhecimento. A Sociologia surge como uma tentativa de romper com as técnicas e métodos das ciências naturais. (Traduzido de: FREUND..(UEL) A Sociologia é uma ciência moderna que surge e se desenvolve juntamente com o avanço do capitalismo. a desigualdade social e a concentração populacional nos centros urbanos. é correto afirmar que. A Sociologia é produto da Revolução Industrial. A emergência da Sociologia só pode ser compreendida se for observada sua correspondência com o cientificismo europeu e com a crença no poder da razão e da observação. 1969. enquanto recursos de produção do conhecimento. sendo chamada de “ciência da crise”. para Weber: a) A ciência social. II e IV. 7. III. deve limitar-se a descrever sua aparência. por refletir sobre a transformação de formas tradicionais de existência social e as mudanças decorrentes da urbanização e da industrialização.6. tais como a pobreza. Max Weber. Entre conceito e realidade existe um hiato intransponível. considere as afirmativas a seguir: I. Nesse sentido. De um lado. 33. por tratar de um objeto cujas causas são infinitas. na análise dos problemas sociais decorrentes das reminiscências do modo de produção feudal. c) II e IV. III e IV. reconstruí-lo com a ajuda de conceitos. escrito por Max Weber (1864-1920). II. que reflete sobre a relação entre ciência social e verdade: “[. A Sociologia tem como principal referência a explicação teológica sobre os problemas sociais decorrentes da industrialização. reflete suas principais transformações e procura desvendar os dilemas sociais por ele produzidos.(UEL . e) I. Estão corretas apenas as afirmativas: a) I e III.] nos é também impossível abraçar inteiramente a seqüência de todos os eventos físicos e mentais no espaço e no tempo. assim como esgotar integralmente o mínimo elemento do real. de outra parte.. porque ele pode somente transpô-lo. IV. nosso conhecimento não é uma reprodução do real. implica uma seleção. Julien. Sobre a emergência da sociologia.

propiciou o fortalecimento da servidão e da família patriarcal. através da organização da ciência e das artes. a partir de sua inserção na sociedade e nos grupos sociais que a constituem. D) I e II. do ponto de vista sociológico. . IV – A formação de uma sociedade. II e III. III – O pensamento filosófico dos séculos XVII e XVIII contribuiu para popularizar os avanços científicos. d) Alguns fenômenos sociais podem ser analisados cientificamente na sua totalidade porque são menos complexos do que outros nas conexões internas de suas causas. o sistema social passou da produção de guerra para a produção das coisas úteis. que tratam dos eventos físicos e mentais. II – Com o desenvolvimento do industrialismo. é limitado para abordá-lo em sua plenitude. e) O obstáculo para a ciência social estabelecer um conhecimento totalizante do objeto é o fato de desconsiderar contribuições de áreas como a biologia e a psicologia. social e filosófico que possibilitou a gênese da Sociologia. 8 – (UFUB) Selecione as afirmativas que indicam o contexto histórico. III e IV. III – Aquilo que a Sociologia estuda constitui-se historicamente como o conjunto de relacionamentos que os homens estabelecem entre si na vida em sociedade. que se industrializava e se urbanizava em ritmo crescente. C) II. portanto. Assinale a alternativa correta: A) III e IV.b) A ciência social revela que a infinitude das variáveis envolvidas na geração dos fatos sociais permite a elaboração teórica totalizante a seu respeito. podemos afirmar que: I – A consolidação do sistema capitalista na Europa no século XIX forneceu os elementos que serviram de base 11 para o surgimento da Sociologia enquanto ciência particular. c) O conhecimento nas ciências sociais pode estabelecer parcialmente as conexões internas de um objeto. E) Todas as 9 – (UFUB) Sobre o surgimento da Sociologia. sendo a Teologia a forma norteadora desse pensamento. B) I. II – O homem passou a ser visto. I – A Sociologia é um produto das revoluções francesa e industrial e foi uma resposta às novas situações colocadas por estas revoluções. alternativas estão corretas.

através da razão. B) Manter uma estrutura de pensamento mítica para a explicação do mundo. através dos rituais. C) I e IV estão corretas. tendo em vista a necessária estabilização da ordem social burguesa. D) I. B) Todas as afirmativas estão corretas. 10 – (UFUB) Assinale a alternativa correta: O surgimento da Sociologia foi propiciado pela necessidade de: A) Manter a interpretação mágica da realidade como patrimônio de um restrito círculo sacerdotal. B) Incentivar o espírito crítico na sociedade e. III e IV estão corretas. a família. C) Condicionar o indivíduo. 11 – (UFUB) Surgida no momento de consolidação da sociedade capitalista. A) Desenvolver o puro espírito científico e investigativo. . sem maiores preocupações de natureza prática. mas inter-relacionados com os diferentes grupos sociais dos quais fazem parte. como a escola. Assinale a alternativa correta quanto a essa tarefa. C) Contribuir para a solução dos problemas sociais decorrentes da Revolução Industrial. não indivíduos isolados. as classes sociais e etc. a Sociologia tinha uma importante tarefa a cumprir na visão de seus fundadores.IV – Interessa para a Sociologia. A) II e III estão corretas. III e IV estão corretas. dessa forma. deixando a solução dos problemas sociais por conta dos homens de ação. a agir e pensar conforme os ensinamentos transmitidos pelos deuses. prever os fenômenos sociais. E) Observar. D) Considerar os fenômenos sociais como propriedade exclusiva de forças transcendentais. medir e comprovar as regras que tornassem possível. colaborar para transformar radicalmente a ordem capitalista responsável pela exploração dos trabalhadores. E) II. dentre os quais se destaca Auguste Comte.

A) II. nascido principalmente de correntes filosóficas da Ilustração. III – Foi um pensamento predominante na Alemanha no século XIX. segundo um modelo físico ou mecânico. II e IV estão corretas. C) O objetivo da Sociologia é estabelecer leis gerais explicativas da realidade social. II – Derivou-se da crença no poder absoluto e exclusivo da razão humana em conhecer a realidade e traduzi-la sob a forma de leis naturais.D) Tornar realidade o chamado “socialismo utópico”. visto como única alternativa para a superação das lutas de classe em que a sociedade capitalista estava mergulhada. B) I. III e IV estão corretas. podemos afirmar que: I – É a primeira corrente teórica do pensamento sociológico preocupada em definir o objeto. 13 – (UFUB) De acordo com o pensamento weberiano. é correto afirmar que: A) Os juízos de valor do pesquisador não interferem em nenhuma fase do processo de investigação científica. a sociedade foi concebida como organismo constituído de partes integradas e coisas que funcionam harmoniosamente. estabelecer conceitos e definir uma metodologia. C) I. IV – Nele. E) Nenhuma das anteriores. II e III estão corretas. como uma das formas de pensamento social. E) Todas as afirmativas estão corretas. D) I e III estão corretas. 12 – (UFUB) Sobre o positivismo. B) A sociologia de Weber é um esforço de explicação da sociedade enquanto totalidade social. 12 . D) A Sociologia compreensiva busca apreender o sentido da ação social e de seus nexos causais. E) Nenhuma das anteriores.

é caracterizado pela formalidade e pela impessoalidade. homens e animais são padronizados devido ao peso da herança genética em todos os tipos de sociedades. Considerando o que diz o texto acima. ao contrário do comunitário. 29).14 – (UEM – Inverno 2008) “Todos nós sabemos da existência de um certo tipo de ‘organização social’ entre animais não humanos. Sebastião. 01) Segundo o autor. que. o fazemos porque constatamos que o comportamento de tais animais apresenta certas padronizações parecidas com algumas padronizações verificadas entre os seres humanos” (VILA NOVA..(UEM – Verão 2008) A urbanização tornou-se o processo padrão de transformação do meio ambiente nas sociedades industriais. o avanço da urbanização faz predominar o padrão de relação societário. 02) Nas sociedades industriais. 04) No modo de produção capitalista. 01) Para alguns sociólogos. o crescimento das cidades foi acompanhado pela progressiva transformação do espaço urbano em mercadoria. 16) Podemos deduzir do texto que tanto os pesquisadores dos animais quanto os sociólogos se preocupam com as ações regulares produzidas pela vida em sociedade. assinale o que for correto. (. 04) Podemos concluir do texto que são os fatores do meio ambiente que levam à padronização dos comportamentos dos animais e dos seres humanos. notadamente. tais como os macacos. não há diferença essencial alguma entre o estudo das sociedades humanas feito pela sociologia e o das sociedades de insetos feito pela entomologia.) Quando comparamos as ‘sociedades’ animais não humanas. mas também insetos: formigas.. não apenas entre mamíferos superiores. 15. 08) Segundo o autor. 08) Os fluxos migratórios indicam como as atividades econômicas estão distribuídas no território e. podem retratar também as desigualdades regionais existentes. p. particularmente a sociedade daqueles insetos. assinale o que for correto. Sobre esse assunto. . 02) De acordo com o texto. a introdução de novas tecnologias no campo foi um dos fatores que produziu o êxodo rural e contribuiu decisivamente para o crescimento populacional das cidades. por exemplo. São Paulo: Atlas. os sociólogos não teriam se interessado pelas leis de padronização existentes nas sociedades humanas. por isso. produzindo modos particulares de convívio social. Introdução à Sociologia. se não fosse a descoberta das leis de padronização das sociedades de animais. 1985. cupins e abelhas.

Valéry glorificou esta luta destruidora contra as ‘coisas vagas’: ‘Aquilo que deixa de ser. que se tornam cada vez mais individualistas. c) A morte e o extermínio do mito no ocidente decorrem da supervalorização e conseqüente predomínio da razão. Quando a ciência traça seus próprios limites.p. Desde então. 1997. b) A delimitação da área de atuação do saber científico implica na constituição de um lugar próprio para o mito. d) Na modernidade. além da concentração do capital. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.) Com base no texto. A desordem: elogio do movimento. visto como obstáculo a uma verdadeira compreensão do mundo. armas do espírito ativo. muitos dos conceitos que haviam norteado o campo da análise social desde o século XIX perderam relevância. Do mesmo modo. Na sociedade pós-industrial.(UEL – 2006) Nas três últimas décadas. O mito por sua vez trabalha duro para se manter e. Daniel Bell. os trabalhos publicados por Ralph Dahrendorf. basta o rigor do olhar e os golpes múltiplos e convergentes das questões e interrogações categóricas. a ciência atual busca menos sua erradicação que seu confinamento. Georges.(UEL – 2006) “No início a ciência quis a morte do mito.16) A forte influência dos padrões de convívio tipicamente urbanos sobre a vida no campo e o acesso massivo e indiferenciado a bens e a serviços produzem uma notável homogeneização da realidade social. por ser pouco preciso. e) O pensamento mítico se disseminou porque se pauta em conceitos e categorias. 16. o pensamento mítico é crucial para a compreensão científica do mundo. Com base nos conhecimentos sobre o tema. está presente em todos os espaços. ela reserva ao mito – e ao sonho – o lugar que lhe é próprio. para se ver os mitos morrerem’. . considere as afirmativas a seguir. é um mito. Alain Touraine e André Gorz permitiram ampliar a compreensão do processo de passagem da sociedade industrial para a pósindustrial. ocorre a perda da identidade coletiva dos trabalhadores. como a razão quis a supressão do irracional. o mito está ausente dos espaços sociais contemporâneos. dando início assim a uma guerra interminável contra o pensamento mítico.” (BALANDIER. 17. é correto afirmar: a) Pelo fato de ser destituído de significado social. I.17. por meio de suas metamorfoses.

dada a mobilidade 13 socioeconômica desde o advento da sociedade industrial. Estão corretas apenas as afirmativas: a) I e II. c) III e IV. III. O uso de sistemas técnicos oriundos das descobertas científicas é o que distingue a sociedade pós-industrial da sociedade industrial. em minha dança encenada de papéis. o campo da investigação sociológica amplia-se para além dos estudos dos movimentos de classe. um estranho. admito. Diante do outro conhecido tento ser o que para mim e mais fácil ser. b) I e III. sinais. cristalizando minha existência num olhar. não consigo deixar de ser eu mesmo. nos dias partilhados em intimidade. e) II. Não vim com muitas esperanças e tinha medo do previsível. Luiz Fernando Calaça de Sá Júnior Estar diante do outro. sempre serei um pouco desconhecido – para ele e para mim mesmo – e cada nova revelação será um choque. num adjetivo. que não segui os passos indicados. e cada novo encontro vai deixando indícios. agora. na experiência que dele tenho a partir dos encontros travados anteriormente. O retorno aos conceitos elaborados à luz da análise social do século XIX impõese. Uma tentativa de síntese. Não tentarei ser comportado. não fiz resenhas de capítulos. O estranho se revela a mim. como eu a ele. sempre tropeçando. num conceito. conhecido. Com o advento da sociedade pós-industrial. aprisionando meu presente. como lago. Partirei de minhas impressões gerais. Não fui sistemático e rigoroso. II e IV. sempre gaguejando. Mas caio na dúvida se o que sou ou creio ser realmente condiz com a imagem que faço de minha figura. numa crença concebida na superfície que demonstro ser. sem pestanejar. quando creio minimamente conhece-lo.II. é defrontar-me com a sensação de fragilidade. Mesmo assim o olhar do outro me congela em meu movimento em direção ao próximo segundo. O outro me aprisiona com o olhar. não li tudo o que devia(?) ter lido. na parcialidade de um ângulo. após finalizado o percurso de um semestre. sempre fingindo uma segurança ou uma meninice que não tenho verdadeiramente. assim como eu a ele. Mesmo na cotidianidade. III e IV. Diante do outro. Admito. diante do outro. Diante do outro. Sempre me será um estranho. num instante de lapso. Como diria Sartre: “O inferno são os outros”. tento ser eu mesmo. desde o início. IV. se eles foram . e não sei. de um momento passageiro. que confirmam ou negam a primeira impressão. O estranho é o que melhor e mais apto está para me julgar de forma incondicional. Vim cheio de preconceitos. Comecei o disciplina descrente na possibilidade de eu vir a “aceitar” uma perspectiva sociológica do humano. estranho. d) I. de forma corajosa ou suicida.

As aulas consistiram para mim como exposições de teses para as quais eu já vinha com todas as minhas antíteses. o receio de expressá-la. somos como os ratos. sem que se conheça sequer algo do outro. utopias e “ismos” para remediar o mal estar que a civilização instaura na impossibilidade de saciedade do desejo. dos escândalos que se tornam espetáculo de contemplação e êxtase. para uma questão que acho sem solução. Todos emitindo seus pontos de vista. como diria Andy Warhol. ou os papéis estão dados e legitimados por nós mesmos. uma tentativa de formular um opinião. nossa família. Somos nossa casa. E todos escondem algo por traz do sorriso. numa relação mutualista. criamos crenças e dogmas em que possamos nos segurar. conto de Franz Kafka. As outras aulas mantive um posição de ouvinte (des)interessado. em que se finge santidade e competência. no “mundo real” da polis. da moda sempre em mutação. bastando apenas parecer o que não se é. Associações entre o burguês e o proletário. Ninguém é o que realmente aparenta ser. as identidades múltiplas. Quinze minutos de fama. Nessa abertura para o mundo. Tentei prestar atenção no que emergia. Os trabalhadores em equipes que surgem e se desfazem após a realização de uma tarefa. lembrei-me de minha viagem a São Paulo no início do ano e do meu desagrado narcísico diante do que não era meu próprio espelho. de corpo fechado. O tempo das cirurgias plásticas. como em Josefina. as falas que surgiam das leituras. numa massa que corre em busca da própria sobrevivência. Desde este princípio me coloquei como estrangeiro. sem que se espere mais nada. As palavras agora são pronunciadas de forma encenada. a cada devis. perdemos a condição de pessoa. herança. negociáveis na pólis. em contraposição à vida errante e democrática. Apenas 15 minutos. em que manipulamos o mundo em que somos manipuláveis. evitando o olhar constrangedor. como fantoches ou ventrílocos. nos tornamos anônimos e invisíveis. que questionava a relação de intimidade típica da organização familiar. cada qual se apropriando do que lhe é bem pra uso e abuso. Não sei. Há algo ainda em suspensão. O exercício da teatralidade de papéis assumidos e dissolvidos a cada momento. Indivíduo e sociedade? Indivíduo ou sociedade? Indivíduo-sociedade? Papéis. na perda do . fluidas. tango. Criamos ficção de um mundo improvável. identidade. do clareamento dental. Lembro-me das minhas andanças pela cidade. na política midiatizada. melodramas mexicanos. nossa cultura local e provinciana? Ou somos a polis. De resto. desconhecidos que sentam-se um ao lado dos outro ou se esbarram. E as cidades? Haverão realmente espaços para negociações – o grande mercado mundial de homens especialistas -. a pé e de ônibus. 14 E nas relações em grupo repetimos esses mesmos falseamentos de realidade. nos dissolvemos. O único movimento que tive foi o inicial estranhamento manifestado na leitura do primeiro texto. da sociabilidade e dos jogos de papéis vivido nas cidade.desfeitos. o qual fui expositor. os colegas – até hoje desconhecidos – que emitiam suas opiniões.

nossa forma “melhor” de ver o mundo. ou simplesmente nos deixamos levar pela correnteza. mas será que realmente saímos do estado de cegueira e entorpecimento? Ou cairemos novamente numa outra cegueira de luminosidade ofuscante onde os contornos das formas são as mesmas sombras projetadas? Quando digo isso tento pensar no que lemos e discutimos. Posso emitir opinião sobre a vivência do grupo. ou é uma grande confusão? Não sei. Situação atípica. fazendo comentários e perguntas incômodas. e o previsível seja o que se espera. um ensaio de intelectualismo que vai do nada ao nada. aparentemente sem nenhuma conexão com o que ela trabalhado. Posso omitir meus sentimentos e acreditar que tudo transcorreu conforme o previsível. tantos sinais de fumaça sinalizando conceitos. todos eles defendendo vieses. irrealidade e virtualidade. E a tentativa de síntese é falsa. E me pergunto. Despertar para a visão disso tudo é necessário. trabalhamos e funcionamos. sublimado ou transformado em sintoma e compulsão. vivemos em agrupamentos. Nesse ponto. Mas bem posso estar enganado. Nada tenho a perder. caminhando movida por uma mão abstrata. Às vezes ingênua. transformandonos em porcentagens e estatísticas. também. só consigo ver a arte como salvação. Desde o início apontei para minha descompostura intencional. para ser um outro em alteridade? Será que há essa alteridade ou nos suportamos? A diferença ideológica às vezes é tão mais marcante e conflitiva que as aparentes. digitalizando-nos. e será que realmente preciso lapidá-los. Entre nós há. Tolerar ou não tolerar? Será que esse meu falatório tem sentido. traçamos rumos que desejamos trilhar. situações. A sociedade formada de homens. Estou tentando me arriscar. e defendemos como se fossem reais. Unindo forças por uma coletividade que é tão abstrata quanto a geometria das formas platônicas. ou incorporar novas formas. Todos nós temos nossas ideologias. Mentira! Trago incômodos. planejamos e nos projetamos existencialmente. Mas todo um discurso de contrariedade e tudo isso é. Discorrendo livremente. O que mais me resta? Posso tentar fazer mais algumas correlações com o que eu já trazia como idéia. Mas esse mundo não é o mundo dos poetas. e precisamos conquistar o pão com o suor do próprio rosto. o desconforto. Ela estava lá. Algo que destoa do resto do grupo. Ainda assim somos humanos. Tantos pontos de vista. Uma saída ensaiada da caverna. Citando. e se reproduz. Estou apenas sumariando. É o mundo das caixas registradoras. para ser eu mesmo. Isso até parece uma provocação ou uma pirraça.verdadeiro desejo. de que serve tantas discussões teóricas? De que serve a universidade que nos prende nas utopias de um mundo possível de salvação. Também eu tenho meus vieses. e. Senti . nossas verdades. construímos vidas e vias. Uma presença. na liberdade que acredito ter nesse espaço aberto à reflexão. na minha crença herética de que minha voz solitária me basta. outras vezes confrontando a figura central de facilitadora. O mundo inteligível das idéias. maquinaria pesada ou tecnologia digital.

Momentos inesquecíveis nesse período. Como saio afinal? Não sei. realizadas em sala e entregue ao professor): . foi por minha escolha pela omissão consentida. à antropologia. Como exercitar a própria existência é o que me pergunto. Algo se moveu. Mas sei-me em mutação. 15 Indivíduo X sociedade Conceitos = a palavra indivíduo habitualmente descreve qualquer coisa. para as referências à filosofia alemã. Não sei se isso é o bastante. Sinto muito. para depois ruminar. O que é uma sociedade? Conceitos = Em Sociologia uma sociedade é o conjunto de pessoas que compartilham propósitos. eu sei. Já não estou mais no início do percurso. Já estou um tanto cansado das discussões que não levam a lugar nenhum. Nada se fala. A sociedade é o objeto de estudo das ciências sociais especialmente da Sociologia. Não sei se tenho mais nada a falar. contra a ciência dos conceitos e da busca pela verdade. O espaço. pois tentei ser poeta. às fenomenologias do outro homem. o relativismo dos valores como verdade afirmada. Saio de uma turma de desconhecidos. e domesticados. Senti-me contente. Acho que é o lugar da loucura no mundo. Janelas se abrem para que articulações possam ser feitas no futuro. mas eis que emerge e se cristaliza o “bode expiratório”. posto que dissociada da vivência real com o outro. mas não mudei meus pontos de vista. preocupações e costumes. o discurso sobre o desejo. Quero sedimentá-los um pouco. é importante.prazer em ver essa situação se instaurar. e sofista. fica a situação velada. Nada me pereceu tão novo que não seja velho. Se exercitei meu papel nas arenas da polis acadêmica. à sociologia. É motivo de risos e desconforto. gostos. quando não censurado e reprimido. que não foram ainda assimiladas. ao marxismo. o mais forte que submete o outro por prazer de gozar. e que o imprevisível é desconcertante. e que interagem entre si constituindo uma comunidade. Eu guardei coisas em mim. pois mostrou o quanto estamos conformados com os papéis dados. Fazemos um aqui um parâmetro com conceitos próprios (respostas pessoais de alunos nas questões abaixo. teimar na minha ignorância e resistir à psicanálise. Acho que é tudo o que posso emitir enquanto registro de minhas idéias e síntese de minha participação desse círculo de pessoas. Jogo na lata de lixo de minha cachola. defendendo o absurdo. E também temos aquela que na risada de deboche abre espaço para as opiniões bem fundamentadas.

O indivíduo tem. a ação passa a ser social. . . .A determinação social é admitida em Weber.A explicação sociológica busca compreender e interpretar o sentido. na contemporaneidade. . . mas considerada uma fase posterior à criação do mundo por ele. mas não é central. move a construção da sociedade. a natureza e seu meio social. compartilhando sentidos e significados. .Ações reativas não interessam à sociologia. estudará o homem em relação de interdependência com o outro. A influência social sobre o indivíduo é admitida.Não existe acaso. . o desenvolvimento e os efeitos da conduta de um ou mais indivíduos em relação a . .Sociologia como a ciência que.Recusa. como em Marx e Durkheim. Quando esta ação visa a ação de uma pluralidade de indivíduos totalmente desconhecidos. interpretando-a para explicá-la em seu desenvolvimento e efeitos. trabalhar de forma polarizada a relação entre indivíduo e sociedade. o lugar de criador de seu mundo. mas sua interdependência. . entendida como a ação realizada pelo indivíduo tendo como orientação a ação do outro indivíduo.Objeto de investigação da sociologia weberiana: a ação social.Ação: para Weber. o sentido é o definidor da ação social. . já que todos agem de acordo com o significado atribuídos às ações. para ele. em sua teoria. é toda conduta humana dotada de significado subjetivo dado por seu executor.Portanto. não havendo como existir uma imersão passiva do indivíduo em uma sociedade que o põe a mercê dos acasos.Sociologia para Weber: a ciência que busca entender a ação social. . mas caráter de reflexo.Nega a polarização indivíduo X sociedade. já que. já que não têm um sentido pensado.a) Sua vida esta vinculada a sociedade? (Você faz o que bem quer?) b) Quais foram as experiência e influências que vocês receberam da família? * Dos amigos * Dos vizinhos c) Como vocês apreender a ler e a escrever? d) Onde aprenderam normas sociais? e) O que vocês aprenderam na rua? f) Vocês vão algum culto religioso? Max Weber .

que é infinita. que pode ser entendido como compartilhado pela maioria dos membros de uma sociedade. que consistem em conceitos selecionados que permitem a tradução adequada de aspectos da realidade. O método utilizado baseia-se no estágio de desenvolvimento dos conhecimentos. fica clara a impossibilidade de análise humana de toda a realidade.Relação social: diz respeito a uma ação de reciprocidade orientada.Tipologias da sociologia weberiana: a da ação social e da tipologia da dominação. . se busca compreender a natureza particular das conexões que se estabelecem empiricamente. . ao contrário da capacidade humana de compreensão. um fragmento ínfimo que considera relevante” (…) Pode-se dizer. tem-se o aperto de mãos: seu conteúdo de sentido é de amizade e cortesia. então. já que. pelo qual busca o nexo causal dos sentidos compartilhados entre indivíduos e grupos em seu existir socialmente.Método Compreensivo: resgate interpretativo do passado para a compreensão do presente. ou seja. que o particular ou específico não é aquilo que vem dado pela experiência. obtendo-se resultados válidos não apenas para si. segundo Weber. que cause a conduta dos indivíduos. ou seja. Os tipos ideais permitem essa relação. . que poderá ser mais ou menos evidente par ao sociólogo. que busca trabalhar com elementos da realidade. uma vez que o tipo ideal é construídos por critérios que dizem respeito à cada pesquisador.Metodologia de Weber: Método Compreensivo. nem muito menos pelo ponto de partida do conhecimento. Barbosa e Oliveira. para tanto. Por exemplo. mas o resultado de um esforço cognitivo 16 que discrimina. tem um forte componente subjetivo. nas estruturas conceituais disponíveis e nas normas de pensamento vigentes.Os tipos ideais permitem a relação entre objetividade do conceito puro e a própria compreensão histórica. compreensão da qual consiste em captar e interpretar sua conexão de sentido. da imensidade absoluta. .outros (ação social). abstrai certos aspectos da realidade na tentativa de explicar as causas associadas à produção de determinados fenômenos”.O referido método utiliza-se de um recurso teórico chamado tipo ideal. . . .Aspecto fundamental da sociologia de Weber: busca pela conexão de sentidos presentes no contexto das ações praticadas por indivíduos e grupos no processo de interação social. que haja conteúdo de sentido em si. .A objetividade weberiana. . enfim. . o cientista pode isolar. organiza e. contextualizada à realidade social vivenciada por indivíduos e grupos. sendo necessário. o alvo da sociologia de Weber é “a especificidade dos fenômenos e seus significados” (…) “Por isso. através destes fatores. Assim.Segundo Quintaneiro.

nossa identidade. 3) Dominação de caráter carismático.Ao contrário de Marx. . já que Weber concentra sua análise nos atores sociais e suas ações. Socialização é o processo pelo qual a sociedade ou comunidade ou grupo social ensina a seus membros seus costumes e regras. .Tipologia da dominação: o homem não busca o poder apenas para enriquecer economicamente. 2) Dominação tradicional. que poderia esmagar o espírito humano justamente por tentar regulares todas as esferas da vida social. expande-se com o crescimento econômico e político. 4) conforme fins. o que devem pensar.A tipologia da dominação é subdividida em: 1) Dominação racional-legal.Tipologia da ação social é subdividida em: 1) ação social tradicional. onde a ação social é determinada por elementos fortes das personalidades individuais que propiciam a alguns ascenderem sobre os demais. vista como a única maneira de organizar um grande número de pessoas efetivamente. 3)racional conforme valores e.Weber descreve o desenvolvimento da ciência. que consiste na organização da vida sócio-econômica de acordo com os princípios de eficiência e baseada no conhecimento técnico. na qual a tradição determina de indivíduos e grupos. . . Por meio da socialização adquirimos o “direito” de atuarmos no grupo social em questão. entretanto. que são todas as pessoas muito importantes em nossa vida e dos quais dependemos. 2)afetiva. tecnologia e burocracia como racionalização. como nossos pais. o que é o certo e o que é errado.. É o que podemos chamar de socialização primária.Weber. ela vai aprendendo a agir em sua sociedade porque . Para que a sociedade funcione sem graves conflitos. isto é. temia a excessiva regulamentação da sociedade moderna. A burocracia. mas pela ascensão da ciência e da burocracia. . por meio da família e da escola. É interessante notarmos que a criança descobre quem ela é quando descobre o que a sociedade é. Na medida em que os outros significativos vão dizendo para as crianças como elas devem agir. É por meio da socialização que vamos adquirindo o nosso Eu. ou seja. A principal socialização se dá na primeira infância. tipicamente ocidentais e marcos distintivos deste lado do planeta. A socialização secundária se dá num âmbito maior. consideradas forças motrizes do agir social dos indivíduos e de suas interações. na qual se encontra vinculação com elementos da lei no contexto das sociedades completas. por meio de todas as interações que travamos durante a vida. mas aspira às honras sociais derivados dele. a sociedade e o Eu são o verso e o reverso de uma mesma realidade. O processo de socialização Compreender a perspectiva sociológica acerca do ser humano é compreender também como o ser humano é socializado. irmãos mais velhos e amigos íntimos. .A legitimação da dominação é a crença de que determinado indivíduo é capaz de governá-lo. Ela ocorre por meio dos outros significativos. Weber não vê o capitalismo como dominado pelo conflito de classes. o ser humano tem de ser socializado. e.

Para Levy (1973. nesse momento se inicia um novo processo de socialização onde aprendemos os códigos para bem atuarmos 17 nesse grupo social. Obviamente. o indivíduo não é capaz de desenvolver um comportamento humano. as escolhas profissionais. crenças. dentre elas. aprendendo a usar os símbolos (linguagem) e aprendendo os seus papéis sociais. verdadeiros autômatos. Durkheim (1987) ressalta a importância da socialização ao mostrar que a sociedade só pode existir porque penetra no interior do ser humano. tornando-o sociável. hábitos estes que não são inatos. E ninguém é capaz de ser socializado em todos os aspectos de sua sociedade. Os outros significativos vão se tornando o que. vivenciar tudo. o indivíduo vai internalizando crenças e valores. conforme a idéia de reciprocidade. Tais valores vão se consolidando e determinando suas escolhas. Ao mesmo tempo a socialização nunca termina. pois este deve ser aprendido ao longo de suas interações com os grupos sociais”. é crucial para a reprodução do universo simbólico. em sociologia. criando uma identidade. que lhes permitirá articular-se com os processos de comunicação e de integração que permeiam o fazer coletivo. Os homens adquirem uma “natureza” ou uma identidade por meio de suas associações e podem perdê-la (ou ela declina) quando se encontram isolados. Estamos sempre sendo socializados. o principal fator de formação da identidade e personalidade de um indivíduo é sua socialização. segundo autores de diversas correntes teóricas. reforçada e atualizada pelos outros de nosso grupo social. Imaginem em nossa sociedade complexa. os funcionários precisam ser apresentados aos valores. Ou seja.vai descobrindo como é sua sociedade. Por meio do processo de socialização as estruturas da sociedade tornam-se as estruturas de nossa mente. É por meio das estratégias de integração do indivíduo à . urbana e industrializada: para a socialização ser completa teríamos que aprender tudo. conforme os padrões da sociedade em que está inserido. Podemos afirmar que a “natureza” humana não surge no momento do nascimento. Este mesmo processo revela-se crucial no contexto de uma organização. A cada vez que ingressamos em um novo grupo social. O processo de socialização de novos membros. moldando sua vida. Nessa constante interação com o meio. participar de tudo. passando por um processo de socialização. o indivíduo participa de inúmeros grupos sociais. existem algumas determinações genéticas. a socialização é um processo contínuo no qual o indivíduo ao longo da vida aprende. “em estado de isolamento social. suas idéias e valores. A socialização faz com que a pessoa adquira as normas definidoras dos critérios morais e éticos. Impossível. 60). criando sua consciência. a sociedade. Ao ingressarem em um novo grupo. Segundo Levy (1973). Ao longo do processo de desenvolvimento humano. construindo padrões de comportamento próprios para interação em cada grupo. podemos perder nossa identidade se ela não for. O processo de socialização nunca é completo e perfeito. uma psiquê humana e outros fatores de influência tratados por outras ciências. normas e práticas da organização. isto é. denominamos de Outros Generalizados. p. Mas. identifica hábitos e valores característicos que o ajudam no desenvolvimento de sua personalidade e na integração de seu grupo. ao mesmo tempo. para o pensamento sociológico. Se assim o fosse seríamos robôs. E as crianças vão.

os desafios e recompensas em vista. não têm chance de experimentar o sucesso e nem a motivação dele decorrente. Grupo de trabalho: O grupo de trabalho pode desempenhar um papel importante na socialização dos novos empregados. A idéia principal é a persuasão das pessoas para adotarem determinadas atitudes e crenças. por meio de exemplos e pressões sociais. até mesmo. Definindo a palavra socialização. o gerente e o estilo da administração existente etc. manipulação e. O supervisor deve cuidar dos novos funcionários como um verdadeiro tutor. para depois receber tarefas gradativamente mais complicadas e crescentemente desafiadoras. Os novos empregados que recebem tarefas relativamente solicitadoras estão mais preparados para desempenhar as tarefas posteriores com mais sucesso. os grupos de trabalho têm uma forte influência sobre as crenças a atitudes dos indivíduos a respeito da organização e de como eles devem se comportar. lavagem cerebral. Leavitt (1991) apresenta alguns termos. Processo seletivo: A socialização tem início na entrevista de seleção através da qual o candidato fica conhecendo o seu futuro ambiente de trabalho. até mesmo. o supervisor representa o ponto de ligação com a organização e a imagem da empresa. educação. 5. a cultura predominante na organização. Para os novos empregados. Conteúdo do cargo: O novo funcionário deve receber tarefas suficientemente solicitadoras e capazes de proporcionar-lhe sucesso no início de sua carreira na organização. reforço negativo sobre comportamentos impróprios. Antes mesmo do candidato ser aprovado. Programa de integração: É um programa formal e intensivo de treinamento inicial destinado aos novos membros da organização para familiarizá-los com a linguagem usual da organização. 2. Com isso.organização que os valores e comportamentos vão sendo transmitidos e incorporados pelos novos membros. Além disso. 4. a organização tende a ser vista de forma positiva. Se o supervisor realiza um bom trabalho neste sentido. Supervisor como tutor: O novo funcionário pode ligar-se a um tutor capaz de cuidar de sua integração na organização. A aceitação grupal é fonte crucial de satisfação das necessidades sociais. treinamento. Os métodos de socialização organizacionais mais utilizados são os seguintes: 1. 3. que os acompanha e orienta durante o período inicial na organização. Quando os principiantes são colocados em tarefas inicialmente fáceis. além de reforço positivo sobre comportamentos adequados ou. as atividades desenvolvidas. com os usos e costumes internos (cultura . os empregados principiantes tendem a internalizar altos padrões de desempenho e expectativas positivas a respeito de recompensas resultantes do desempenho excelente. A integração do novo funcionário deve ser atribuída a um grupo de trabalho que possa provocar nele um impacto positivo e duradouro. os colegas de trabalho. o processo seletivo permite que ele obtenha informações e veja com seus próprios olhos como funciona a organização e como se comportam as pessoas que nela convivem. como: aculturação.

em médio prazo. na prática. Maanen (1989) apresenta uma definição mais completa para socialização organizacional: é o processo pelo qual o indivíduo aprende valores. o programa de integração pode durar meses. valores e comportamentos. mas que depois contam com um acompanhamento. enquanto em outras são coordenados pelo órgão de treinamento e executados por gerentes de linha nos diversos assuntos abordados. São programas que duram de um a cinco dias. em uma situação real ou de laboratório. o que influencia as atitudes e valores dos novatos. o novo funcionário recebe um manual com informações básicas para sua integração na organização.organizacional). as quais serão descritas a seguir. O programa de integração procura fazer com que o novo participante assimile de maneira intensiva e rápida. O autor apresenta sete estratégias de socialização organizacional empregadas pelas empresas. os principais produtos e serviços. em níveis de gerência ou direção. do novo participante pelo gerente ou supervisor que funcionam como seus tutores e que se responsabilizam pela avaliação de seu desempenho. Em algumas organizações. Mais: ela funciona como elemento de fixação e manutenção da cultura organizacional. a socialização representa uma etapa de iniciação particularmente importante para moldar um bom relacionamento em longo prazo entre o indivíduo e a organização. mais o papel de novato é segregado e especificado. que não são mutuamente exclusivas e que. Quanto mais formal for o processo. dependendo da intensidade de socialização que a organização pretende imprimir. Na realidade. Quase sempre. Sua finalidade é fazer com que o novo participante aprenda e incorpore os valores. a cultura da organização e se comporte daí para frente como um membro 18 que veste definitivamente a camisa da organização. . não existe forma de . que permitem a ele participar como membro de uma organização. Em uma atmosfera informal. estão combinadas de diversas formas. e maior a tensão. os programas de integração são totalmente desenvolvidos pelo órgão de treinamento. A socialização organizacional implica também na renúncia de certas atitudes. A socialização organizacional constitui o esquema de recepção e de boas-vindas aos novos participantes. a missão da organização e os objetivos organizacionais etc. normas de comportamentos esperados.Estratégias formais e informais de socialização: o processo formal de socialização age na preparação do novato para ocupar um cargo específico na organização. Este é um processo que ocorre durante toda a carreira do indivíduo dentro da organização. com uma agenda que programa sua permanência nas diversas áreas ou departamentos da organização com um tutor permanente (seu gerente ou diretor) e um tutor específico para cada área ou departamento envolvido na agenda. a estrutura de organização (as áreas ou departamentos existentes). Nos casos em que o novo membro ocupa posição de destaque. normas e padrões de comportamento que a organização considera imprescindíveis e relevante para um bom desempenho em seus quadros.

As mudanças são isoladas e dependem. pois o novo integrante poderá ficar confuso e se perder durante o processo de socialização. Dessa forma. sendo uma garantia de que a organização não sofrerá qualquer mudança ao longo do tempo. . 19 . A segunda etapa ocorre quando o novato é colocado em sua posição organizacional designada. é necessário que exista um programa seqüencial para que o processo de aprendizagem seja facilitado.Estratégias seqüenciais e não seqüenciais de socialização: a socialização seqüencial caracteriza-se por processos transitórios marcados por uma série de estratégias discretas e identificáveis. ele desenvolve quase sempre uma consciência coletiva. os novatos são agrupados em conjunto para o início e processados por um conjunto de experiências idênticas. Essa estratégia apresenta um elevado risco. Nas estratégias de socialização variáveis. .Estratégias de socialização em série e isoladas: a estratégia de socialização em série é aquela que prepara os novos integrantes para assumir diversos papéis organizacionais similares. quando comparadas às coletivas. da relação estabelecida entre o agente socializador e o novato. com resultados relativamente similares. o que pode gerar certa incompatibilidade entre os objetivos organizacionais e os do grupo. . devendo aprender informalmente as práticas reais em seu setor. Contudo. o processo formal de socialização é apenas a primeira etapa da socialização. cada um atua por conta própria e dificilmente procura apoio do grupo para as ações de sintonia. Quando um grupo é introduzido em um programa de socialização.Estratégias de socialização por competição ou por concurso: as estratégias de socialização por competição caracterizam-se pela separação dos novos integrantes em grupos ou diferentes programas de socialização. o tempo de transição é padronizado. o indivíduo é socializado com base em sua iniciativa e não por qualquer padrão a ser seguido. poderá também estimular a criatividade e a iniciativa dos novos integrantes.diferenciação e grande parte da aprendizagem do novato necessariamente ocorre no interior das redes sociais e das tarefas relacionadas que envolvem sua posição. os indivíduos desconhecem a dimensão tempo do período de transição. ou seja. Por outro lado. Nas estratégias isoladas de socialização. contra ou a favor da organização. . .Estratégias fixas e variáveis de socialização: os processos de socialização fixa proporcionam a um novato um conhecimento preciso do tempo que necessitará para completar determinado estágio. Os processos não seqüenciais são realizados em um estágio transitório e sem uma relação com outras etapas anteriormente realizadas. de acordo com as habilidades e ambições dos indivíduos. Assim. As estratégias individuais também geram mudanças mas. em grande parte. Entretanto. as estratégias por concurso possibilitam uma certa participação e uma cooperação entre os indivíduos. por meio dos quais um indivíduo deve passar a ocupar uma posição e exercer um papel na organização.Estratégias individuais e coletivas de socialização: na socialização coletiva. perdem em termos de homogeneidade de resultados.

“a seleção é bastante rígida (…) aquele que for escolhido terá tendência a considerar-se como entrando numa elite. (1987. Ou seja. 114). Maanen (1989) enfatiza. procura confirmar e estabelecer a viabilidade e utilidade dos valores pessoais dos novatos. submetido a uma série de “testes” rigorosos para obter acesso privilegiado na organização. tais como atribuir metas difíceis de serem cumpridas. no lugar das estratégias de investiduras. selecionando-se assim. Por meio de “experiências indutoras de humildade”. 60) ressalta que “as estratégias de despojamento. Outros estudos também têm considerado o processo de seleção como a oportunidade inicial de atrair indivíduos que se identifiquem com os valores organizacionais e que reforcem a cultura da organização (CHATMAN. 1991. ou designar trabalhos que exigem pouca qualificação a indivíduos mais qualificados. na investidura.Experiências indutoras de humildade: particularmente nos primeiros meses. a organização procura criar condições para que os novos integrantes passem a questionar seus comportamentos. Ele é. ainda. 1986. p. que estruturam o processo de socialização dos indivíduos na cultura organizacional: . . HOLLAND.A seleção: esta fase é dirigida a atrair candidatos “certos” e predispostos a aceitar as crenças e valores da organização. isso cria uma ligação tão sólida que não se consegue abandonar o que foi conseguido com tanta dificuldade”. RYNES & BOUDREAU. de modo a promover uma maior abertura para as normas e valores da organização.Estratégias de socialização por meio de investidura e despojamento: estas estratégias objetivam confirmar ou destruir a identidade do novato na organização. crenças e valores. Ele é bem-vindo da forma como ele é. candidatos que identifiquem com os valores organizacionais e que reforcem a cultura da organização. Exceto a satisfação narcísica que isso provocou. . geralmente. Para os autores. Outro aspecto que merece destaque no processo de seleção é o reforço do sentimento de ultrapassar barreiras e de forte identificação do indivíduo com a organização na qual ele está ingressando. que grande parte do controle sobre o comportamento do indivíduo nas organizações é resultado direto da maneira pela qual a pessoa é socializada. a organização procura reduzir a autocomplacência do indivíduo. Maanen (1989.. Essas .Treinamento na linha de fogo: os esforços de treinamento específico para o trabalho voltam-se para o domínio das disciplinas básicas da organização. Já no processo de despojamento procura-se destruir e despojar certos valores e crenças dos novatos. provavelmente produzem resultados similares entre os novatos”. p. Outro autor importante e que vem complementar a teoria de Maanen (1989) é Pascale (1985) que também destaca sete passos inter-relacionados. Essa fase procura evocar uma auto-análise que facilite a aceitação dos valores da organização e assemelha-se às estratégias de despojamento relatadas por Maanen (1989). As estratégias descritas acima são utilizadas pelas organizações para controlar e dirigir o comportamento de seus membros. Os candidatos que são recrutados passam por uma bateria de testes e entrevistas para que sejam selecionados somente aqueles indivíduos predispostos a aceitar as crenças e valores da organização. como mostram Pagés et al. 1985).

Nesse sentido é também importante tratar da questão do poder nas organizações. 1989) e até mesmo a memória. mitos. rituais e símbolos da organização oferecem imagens fortes da empresa. Neste sentido. o folclore reforça o código de conduta sobre “como realizamos as coisas por aqui”. .Uso de sistemas de recompensa e controle: a organização dedica um extremo cuidado à criação de sistemas abrangentes e consistentes. a organização comunica as maneiras . Particularmente. para os novos integrantes. Nas organizações.Folclore do reforço: as histórias. O enfoque se dá particularmente nos aspectos relacionados ao sucesso competitivo e aos valores da organização. 41) complementa com a seguinte afirmação. Para Motta (1991. gestos e risos (FOUCAULT. ele tem sempre o mesmo objetivo: formar corpos dóceis e produtivos”. além do repasse do conhecimento técnico necessário à realização do trabalho. Dessa forma.Modelos consistentes de papéis: os processos de socialização organizacional abrangentes oferecem modelos consistentes de papéis a desempenhar. Esse poder de restrição e de opressão controla corpo. 20 . os indivíduos “nunca podem ou devem perder a sua pose. com o propósito de medir os resultados operacionais e recompensar o desempenho individual. a fim de serem reconhecidos e recompensados. os indivíduos podem ser aprisionados pelas estruturas de poder nas organizações e também pela sua própria conduta. p. por meio do comprometimento contínuo com os valores compartilhados. .Aderência aos valores centrais da organização: a identificação com as crenças e valores comuns capacita os indivíduos a reconciliarem os sacrifícios pessoais. Nesse ínterim. Motta (1981. freqüentemente necessários para o sucesso da organização. que mantêm a organização em sintonia com a sociedade. por meio de um poder disciplinar presente nas suas práticas sociais cotidianas. as organizações exercem um controle muito forte sobre os indivíduos. Visa. que influenciam a maneira como as pessoas vêem a organização. p. “ …quaisquer que sejam as modalidades e a intensidade do poder disciplinar. a construção da subjetividade dos indivíduos que estão a ele submetidos. Eles devem dar provas constantes de sua competência. devem dar prova de coerência e persistência de seus pensamentos”.experiências extensivas e cuidadosas têm por objetivo inculcar no novo integrante os valores da organização. . o processo de socialização organizacional pode ser considerado como uma estratégia de poder e influência utilizada pela empresa para formar corpos dóceis e produtivos. Essa fase essencial cria uma base de confiança entre a organização e o indivíduo. porém. 8). O treinamento é uma espécie de materialização da cultura.

as relações entre as classes sociais transformamse ao longo da história conforme a dinâmica dos modos de produção. a integridade e a comunicação. Ele terá absorvido as normas da organização e de seus colegas de trabalho.(UEM – Inverno 2008) Em termos sociológicos. sendo que este pode abranger tanto o trabalho a ser feito quanto a organização. . para Marx. 02) De acordo com Karl Marx. quando bem gerenciadas.Indivíduo. Ou seja.como reconhece formal ou informalmente seus “vencedores”. que carregam de maneira bem forte os traços e atributos que a organização valoriza. Identidade e Socialização 01. Pascale (1985) advoga que essas fases. palestras. substituindoos pelos padrões fundamentais. que favoreça a cooperação. atos e valores. A socialização é um processo de adaptação que ocorre quando uma pessoa passa de fora para dentro da empresa. etc. pelas relações de cooperação que se desenvolvem entre os diversos grupos envolvidos no sistema produtivo. definem-se. Se as expectativas forem mais ou menos de encontro com a realidade. Processos O estágio da pré-chegada: reconhece explicitamente que cada pessoa chega a uma empresa com um conjunto de valores. acarretando algumas mudanças. O estágio da metamorfose: é a etapa onde o novo funcionário irá superar alguns problemas descobertos durante o estágio de encontro. 04) As classes sociais. Entretanto. o estágio de encontro irá confundir as percepções geradas antes. o objetivo da socialização é estabelecer uma base de atitudes. sobretudo. para que conheça melhor a cultura organizacional da empresa e desempenhe com maior sucesso sua nova função. Exercícios . O estágio do encontro: é a etapa onde o novo funcionário se vê diante da diferente posição entre suas expectativas e a realidade. sentindo-se assim aceito pelos colegas como pessoas de valor e digna de confiança. os novos empregados devem passar por uma socialização que vai desligá-los de suas pressuposições anteriores. Para esse autor. assinale o que for correto sobre o conceito de classes sociais. o novo funcionário é submetido a treinamentos. 01) Sua utilização visa explicar as formas pelas quais as desigualdades se estruturam e se reproduzem nas sociedades. quando as expectativas e a realidade são diferentes. atitudes e expectativas. É nesta etapa que o novo empregado terá o primeiro contato com a empresa. proporcionam uma forte identidade organizacional. Finalmente. cursos.

2. desde o nascimento.) Com base no texto e nos conhecimentos sobre o tema. das regras e dos valores sociais. só se realiza na sua relação com a classe opositora. de partilhar uma mesma cotidianidade. que designa o aprendizado. Brigitte. A questão local. 16) A afirmação “a história da humanidade é a história das lutas de classes” expressa a idéia de que as transformações sociais estão profundamente associadas às contradições existentes entre as classes. 02) a relação que a criança estabelece com o seu corpo não deveria ser do interesse das ciências biológicas. desde o nascimento. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos. 16) o desconforto físico que uma criança sente. A biografia do indivíduo.08) A formação de uma classe social.2006) “Três grandes dimensões fundamentam o vínculo social. pode receber dos adultos distintas respostas de satisfação. Sociologia e Sociedade. mas também com outros seres humanos. José de Souza. dependendo da sociedade na qual eles estão inseridos. Além disso.(UEM – Verão 2008) Leia o texto a seguir: “Desde o início a criança desenvolve uma interação não apenas com o próprio corpo e o ambiente físico. e MARTINS. Alain. 3. os componentes não sociais das experiências da criança estão entremeados e são modificados por outros componentes. afirmação de um destino comum da humanidade por grandes sistemas religiosos e metafísicos. 28. 08) as experiências individuais. até mesmo aquelas que parecem mais relacionadas às nossas necessidades físicas. Podemos concluir do texto que 01) os indivíduos. são influenciados pelos valores e pelos costumes que caracterizam sua sociedade. do vínculo sexual e familiar. mas apenas da sociologia. Marialice M.” (BERGER. Primeiro. p. pela experiência social. “Socialização: como ser um membro da sociedade”. o fato de viver junto. é correto afirmar: . Rio de Janeiro: DP&A. 200). a proximidade surge então como produtora do vínculo social e o camponês sedentário como o ser social por excelência. a burguesia.” (BOURDIN. o sentimento de pertença à humanidade que nos leva a reforçar nossos vínculos com os outros seres humanos: força da linhagem. 2001 p. o que permite aumentar as 21 trocas. é a história de suas relações com outras pessoas.(UEL. 04) o fenômeno tratado pelo autor corresponde ao conceito de socialização. In FORACCHI. ou seja. como os proletários. e BERGER. Peter L. como a fome. pelos indivíduos. contêm dimensões sociais. Por fim. Em segundo lugar. o frio e a dor. no caso do exemplo. 1977. a complementaridade e a troca: a divisão do trabalho social cria diferenças com base na complementaridade.

(UEL . Considere as afirmativas abaixo sobre as características do fato social para Émile Durkheim. b) Apenas as afirmativas I e IV são corretas. IV. e) O forte sentimento de pertencer à humanidade desmantela a noção de comunidade e minimiza o papel da afetividade nas relações sociais. III e IV são corretas.a) A divisão do trabalho social na sociedade contemporânea desagrega os vínculos sociais. a) Apenas as afirmativas I e II são corretas. 5. d) Pela ausência da cotidianidade.(UEL – 2004) O texto a seguir refere-se à situação dos apátridas na 2ª Guerra Mundial: . causou estranheza. O fato social é exterior ao indivíduo e apresenta-se generalizado na coletividade. No convite distribuído pelos veteranos não havia informação sobre o traje apropriado para a festa. III. As regras que regem o comportamento e as maneiras de se conduzir em sociedade podem ser denominadas. c) O cotidiano das pequenas cidades e do mundo campesino favorece a criação de vínculos sociais. b) Os sistemas religiosos e metafísicos são fatores de isolamento social. II. d) Apenas as afirmativas I. O calouro não estava vestido de acordo com o grupo e sentiu as represálias sobre o seu comportamento. imaginando que a festa seria formal. segundo Émile Durkheim (1858-1917). como fato social. O fato social caracteriza-se por exercer um poder de coerção sobre as consciências individuais. I. O calouro. provocando risos. olhares de espanto e de admiração. as grandes metrópoles deixaram de ser lugares de complementaridade e de trocas. II e IV são corretas.2003) Um jovem que havia ingressado recentemente na universidade foi convidado para uma festa de recepção de calouros. c) Apenas as afirmativas II e III são corretas. 4. Ao entrar na festa. compareceu vestido com traje social. por resultarem de criações subjetivas dos indivíduos. Assinale a alternativa correta. cochichos com comentários maldosos. O fato social é todo fenômeno que ocorre ocasionalmente na sociedade. e) Apenas as afirmativas I. em que todos estavam trajando roupas esportivas. O fato social expressa o predomínio do ser individual sobre o ser social.

. Algo mais fundamental do que a liberdade e a justiça. por exemplo. que são os direitos do cidadão.27-28. nenhum território em que pudessem fundar uma nova comunidade própria [. por sua vez. na privação de um lugar no mundo que torne a opinião significativa e a ação eficaz. o qual. não há vida social. 229. São Paulo: Companhia das Letras. imperialismo. totalitarismo. b) A condição em que se encontra o apátrida é igual à condição de escravo. Este consenso é garantido pelo meio moral que compartilhamos. mas a impossibilidade de encontrar um novo lar. De súbito revelou-se não existir lugar algum na terra aonde os emigrantes pudessem se dirigir sem as mais severas restrições. e) Ser um apátrida é ser reconhecido como um indivíduo com direitos fora de seu país de origem. primeiro e acima de tudo. 230. Sociologia da Educação. nenhum país ao qual pudessem ser assimilados. Durkheim destaca dois tipos de solidariedade: a mecânica e a orgânica.) Com base no texto. p. c) Ser privado da vida é menos importante que ser privado da liberdade. Alberto T. p. 227. Desse modo. é correto afirmar: a) Obter o reconhecimento por uma comunidade é condição básica para o gozo de direitos.. No Brasil. d) Ao apátrida é garantida ressonância às suas opiniões mais significativas. Origens do totalitarismo: anti-semitismo. 2000. conforme o tipo de divisão do trabalho social que predomina na vida coletiva numa determinada época tem-se um tipo diferente de solidariedade entre os indivíduos. (Adaptado de: RODRIGUES. está em jogo quando deixa de ser natural que um homem pertença à comunidade em que nasceu. 1989. Hannah. portanto. 6..Edição de 1988) e da Constituição de 1988.“O que era sem precedentes não era a perda do lar. que apresentam artigos e parágrafos da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT.] A calamidade dos que não têm direitos não decorre do fato de terem sido privados da vida.(UEL – 2005) Emile Durkheim observa que uma condição fundamental para que a sociedade possa existir é a presença de um consenso social. nota-se a influência das idéias 22 positivistas em boa parte de sua legislação. Rio de Janeiro: DP&A.” (ARENDT.) Considere as afirmativas a seguir. é produzido pela cooperação entre os indivíduos através de um processo de interação que Durkheim chamou de divisão do trabalho social..] A privação fundamental dos direitos humanos manifesta-se. da liberdade ou da procura da felicidade. . Pois sem consenso não há cooperação entre os indivíduos e. nem da igualdade perante a lei ou da liberdade de opinião – fórmulas que se destinavam a resolver problemas dentro de certas comunidades – mas do fato de já não pertencerem a qualquer comunidade [.

tratados. sendo vedada a interferência estatal em seu funcionamento”. III e IV. não se estaria na era do vazio [de direitos]?” [Situações sociais desse tipo são analisadas por alguns sociólogos a partir da consideração de que nos encontramos em] “uma condição social em que as normas reguladoras do comportamento perderam a sua validade. de causa. são significativos os homicídios no mundo inteiro. são aquelas que os filósofos chamam de categorias do entendimento: noções de tempo. [onde] a eficácia das normas está em perigo”.. Pelo número de concepções. tráfico de mulheres. e) II. p. (Folha de São Paulo.. de gênero. II. e) Conflito social. 2004. está-se na era dos direitos. para utilizar a expressão de Lipovetsky [. etc. menores para prostituição. se. similares ou conexas constitui o vínculo social básico que se denomina aqui categoria econômica”. aí estão assassínios praticados por graúdos mandantes que se servem de pistoleiros profissionais. em pleno século XXI [. no estudo e solução dos problemas que se relacionam com a respectiva categoria ou profissão liberal”. No Brasil. d) I. IV.. 30 ago.. São Paulo. a) Anomia. trabalho escravo.. de personalidade etc. apenas as afirmativas: a) I e III. de substância.(UEL – 2006) “Na raiz de nossos julgamentos existe um certo número de noções essenciais que dominam toda a vida intelectual. A 3.]”. na forma da lei. d) Consciência coletiva..I. b) Fato social.(UEL – 2005) “A despeito de se viver na era dos direitos. de número. [.]. “[Da Organização Sindical:] A solidariedade de interesses econômicos dos que empreendem atividades idênticas. como pensamos. b) I e IV.]. III. leis.]. “[São prerrogativas dos Sindicatos:] colaborar com o Estado. a de cooperativas independem de autorização. a deplorável guerra do tráfico de drogas e as chacinas em grandes cidades brasileiras... as categorias são representações essencialmente coletivas. c) II e III.) Assinale a alternativa que indica o conceito utilizado por Emile Durkheim (18581917) para definir uma “condição social” do tipo descrito no texto. . 8.. Remetem ao conceito de solidariedade orgânica. “[São condições para o funcionamento do Sindicato:] a proibição de qualquer propaganda de doutrinas incompatíveis com as instituições e os interesses da Nação [. como órgãos técnicos e consultivos. II e IV.. 7. as condições sub-humanas a que são submetidas centenas de milhões de pessoas [. de espaço. No plano da efetivação dos direitos.] Mas. “[Dos direitos e deveres individuais e coletivos:] a criação de associações e. c) Coerção social..

enfatizando aqueles voltados à população de 15 a 24 anos. insistindo que a moral é o mínimo indispensável. 154-157.” (DURKHEIM. ao crime organizado.(UEL – 2004) O sociólogo francês Émile Durkheim (1858-1917) considera a “comunhão de valores morais” a condição fundamental e primeira para a construção da coesão social. São Paulo: Ática. sem o qual as sociedades não podem viver em harmonia. b) Aquelas representações cuja formação é exterior às instituições religiosas. b) Estimular a produção econômica para a geração de empregos. e parte do seu conteúdo se materializa em normas e regras. d) A tradução de estados mentais dos indivíduos portadores de distintas visões de mundo. a moral (conjunto de valores e juízos direcionados à vida em comum) é o amálgama que une os indivíduos à vida em grupo.) Com base no texto e nos conhecimentos sobre o tema. hoje. econômicas etc. Sociologia. morais e econômicas. Esses pressupostos. permitem a formulação de uma avaliação específica sobre o problema da criminalidade violenta praticada por jovens no Brasil. de sua morfologia. algumas possíveis propostas de ação para enfrentar esse problema. c) Promover a instituição familiar. é correto afirmar que a noção de categorias do entendimento compreende: a) Os estados emocionais fugazes dos indivíduos de distintas sociedades. aos esquadrões da morte e a unificação das polícias. a respeito das condições para o bom convívio dos indivíduos numa coletividade. A moral traça as orientações da conduta ideal para as pessoas. de suas instituições religiosas. e) As noções incomuns à vida intelectual de uma sociedade que deturpa os julgamentos dos sujeitos.traduzem antes de tudo estados da coletividade: elas dependem da maneira pela qual esta é constituída e organizada. Indicam-se. 1981. morais. a) Priorizar o combate ao narcotráfico. . p. Durkheim afirma o papel do regulamento moral para a integração social. a seguir. Émile. Assinale a alternativa que está em conformidade imediata com os pressupostos sociológicos mostrados no texto. c) O modo como a sociedade vê a si mesma nos modos de agir e pensar coletivos. Para ele. reforçar o papel socializador da escola com ênfase na educação para a paz e 23 para a cidadania e melhorar o funcionamento do sistema legal. 9.

mas é difícil! Às vezes faço o que quero. II. faço só o que desejo. se o vizinho nos convida para o casamento de seu filho. II e IV. O ato de presentear instaura e reforça as alianças e os vínculos sociais. é comum que o convidado leve um presente. III. impulsiva e impaciente e providenciar o tratamento terapêutico como política pública. autônomo. Do mesmo modo. III e IV. 11. independente. penso apenas com minhas idéias. a prática de “presentear” é algo fundamental a todas as sociedades: segundo ele. temos certa obrigação em convidá-lo para o casamento do nosso filho. IV. gostaria de fazer o que desejo. sei lá. Segundo o sociólogo francês Marcel Mauss. mas na maioria das vezes sigo meu grupo. a escola. considere as afirmativas a seguir.2008) Leia os depoimentos a seguir: • Sou um ser livre. Não sigo o que me obrigam e pronto! Acredito que com a força dos meus pensamentos poderei realizar todos os meus sonhos. e o meu esforço ajuda a sociedade a progredir.. • Sou um ser social. I. (Jovem estudante e trabalhadora em uma loja de shopping). d) I. Estão corretas apenas as afirmativas: a) I e II. de receber e de retribuir é mais importante que o bem trocado. o que penso veio da minha família. sou único. este indivíduo espera receber presentes de seus convidados. nas festas de amigo-secreto e em muitas outras ocasiões. O presentear como prática social originou-se quando da consolidação do modo capitalista de produção. meus amigos. na festa de seu aniversário. Sinto que dependo disso tudo e gostaria muito de ser . dos meus amigos e parentes. nos casamentos. b) I e III. O lucro obtido a partir dos bens trocados é o que fundamenta as relações de troca de presentes. c) III e IV. da minha cabeça. minha família. reduzindo o número de nascimentos a médias compatíveis com os índices de desenvolvimento econômico previstos 10. trocamos presentes.. Nos aniversários. e) Investir no controle da natalidade.(UEL . A troca de presentes cria e alimenta um circuito de comunicação nas sociedades. a relação da troca.d) Detectar antecipadamente os jovens portadores de personalidade irritável.(UEL – 2006) Ao receber um convite para uma festa de aniversário. minha religião. Com base no texto e nos conhecimentos sobre o tema. esta obrigatoriedade de dar. e) II. Reciprocamente.

mas não sou! (Jovem estudante em uma escola pública que trabalha em empregos temporários). funcionalismo. c) Individualismo. sinto que sou livre. individualismo. Weber. individualismo metodológico. (Jovem estudante e Office boy). fundada no conceito de ação social e suas tipologias de M. fundada em K. mas há toda uma estrutura. funcionalismo. sociologia compreensiva. fundado na teoria política liberal. Weber. . Marx. fundada em K. taxas. Assinale a alternativa que descreve o objeto próprio da Sociologia. (FERNANDES. sociologia compreensiva. seguranças. teoria da consciência de classe. de Emile Durkheim (1858-1917). fundada no funcionalismo de E. b) O fato social. fundado em Augusto Comte. é realista. teoria organicista de Spencer.(UEL . fundado no liberalismo de vários autores dos séculos XVIII a XX. mas com alguns limites. fundado no liberalismo de vários autores dos séculos XVIII a XX. teoria da consciência de classe. d) Sociologia compreensiva. Durkheim. fundada no conceito de ação social e suas tipologias de M. etc. e) Corporativismo positivista. fundado no conceito dos três estados de Augusto Comte.livre. posso escolher coisas. muita gente não percebe. Marx. teoria da consciência de classe. fundada no conceito de ação social e suas tipologias de M. 73). fundado no conceito de consciência coletiva de E. Em outros momentos faço o que me mandam e acho que deve ser assim mesmo.2008 ) De acordo com Florestan Fernandes: A concepção fundamental de ciência. • Sinto que às vezes consigo fazer as coisas que desejo. no sentido de defender o princípio segundo o qual nenhuma ciência é possível sem definição de um objeto próprio e independente. Marx. 12. F. Durkheim. as explicações sociológicas sobre a relação entre indivíduo e sociedade presentes nas falas. respectivamente. b) Teoria da consciência de classe. p. Assinale a alternativa que expressa. mesmo que minha mãe não permita ou concorde. Rio de Janeiro: Cia Editora Nacional. fundada em K. 1967. a) Solidariedade mecânica. Então. Fundamentos empíricos da explicação sociológica. É legal a gente viver segundo as regras e ao mesmo tempo poder mudá-las. a) O conflito de classe. Marx. Nas raves existem regras. segundo Emile Durkheim (1858-1917). como ir a raves. base da divisão social e transformação do modo de produção. fundada em K. Weber. exterior e coercitivo em relação à vontade dos indivíduos.

p. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral. São Paulo: Livraria Duas Cidades. 13. um forte. Economia e sociedade. E. A Revolução Brasileira. vol. antes de tudo.) IV. 24 e) A cultura. o fazendeiro que manda nos seus agregados. empregados ou dependentes. 2000. porém.] Ocorre que o coronel não manda porque tem riqueza. 106.. considere as afirmativas a seguir: I. a Sociologia significa: “uma ciência que pretende compreender interpretativamente a ação social e assim explicá-la casualmente em seu curso e em seus efeitos. p. C. lhe disse que era tempo de irem buscar a novilha dada pelo padrinho.” (CUNHA. “Não há assim por que considerar que as formas anacrônicas e remanescentes do escravismo.. nem vem dar louvado (pedir a benção). Traduzido por Regis Barbosa e Karen Elsabe Barbosa.” (PRADO Jr..c) A ação social que define as inter-relações compartilhadas de sentido entre os indivíduos. resultado das relações de produção e da divisão social do trabalho. ao primeiro lance de vista. a gente paga o batismo e. “O sertanejo é. I. São Paulo : Brasiliense. 1987.. 3) Com base no texto. o desempeno. se refere ao comportamento dos outros. sitiante perto de Tatuí.) II.” (WEBER. “O coronel.) III. Os Sertões. Diz que era costume.” Por ação social entendem-se as ações que: “quanto ao seu sentido visado pelo agente. orientando-se por este em seu curso. o padrinho ajudar a comadre até ‘arranjar a vida’. revela o contrário. p. Os Parceiros do Rio Bonito. quando o afilhado cresce. 95. 247. produto da vontade e da ação de indivíduos que agem independentes uns dos outros. mas .(UEL . Brasília: Editora UnB. M.” (CANDIDO. não necessariamente. São Paulo : Círculo do Livro. Falta-lhe a plástica impecável. entretanto. a estrutura corretíssima das organizações atléticas. A. Isso tudo não tem sentido na estrutura social brasileira. [. como se diz sempre. dando com isso origem a relações semi-feudais que implicariam uma situação de ‘latifúndios de tipo senhorial a explorarem camponeses ainda envolvidos em restrições da servidão da gleba’. O vínculo não obedece a linhas tão simples. 1989.2008) De acordo com Max Weber. diz Nhô Roque.]. O nonagenário Nhô Samuel lembrava com saudade o dia em que o pai. Hoje. que se traduziriam no mero prolongamento do poder privado na ordem na ordem pública [.. “Mesmo entre gente humilde. funcionava o sistema de obrigações recíprocas. é um líder econômico. 1982. ainda presentes nas relações de trabalho rural brasileiro.. p. antes de ser um líder político. A sua aparência. se o pai morria. d) A sociedade..

claramente.entre mulher e marido. criando oportunidade para o professor provocar questões iniciais que permitirão o desenvolvimento do assunto. os casos em que nos relacionamentos familiares . III e IV b) II e III c) II e IV. tanto por parte da direção como dos professores e funcionários.) Correspondem ao conceito de ação social citado anteriormente somente as afirmativas a) I e IV. 2. p. analisar e debater os problemas envolvidos nas situações apresentadas em cada trabalho proposto. oralmente. Filmes sugeridos: Na falta de condições para a apresentação de um filme. na escola. É também possível identificar tratamentos desiguais entre meninos e meninas não só na família como nas escolas. e) II. num pacto não escrito. Gênero como fator de desigualdade: Gênero e desigualdade As atividades sugeridas devem propiciar aos alunos desenvolver as capacidades de identificar. relacionado a preconceitos e discriminações de vários tipos. R. entre irmãos de diferentes gêneros . e que propicie o debate em torno das questões relacionadas às desigualdades de gênero. 622. utilizando os conceitos e idéias centrais referentes ao tópico. d) I. entre pais e filhos e. II e III. 1973. divulgado em jornal e/ou televisão. Como. por exemplo. v. é manifesta a desigualdade no tratamento ou na posição socialmente ocupada por homens e mulheres.manda porque se lhe reconhece esse poder. o professor pode lançar mão da narração de um conto ou da exposição de um caso real. mesmo. Outra maneira de iniciar o estudo desse tópico é através de um convite aos estudantes para que apresentem. nos grupos de convivência. As meninas e as jovens também são capazes de expressar situações em que a discriminação e o preconceito contra o gênero feminino aparecem nos relacionamentos cotidianos na família. 25 . do conhecimento público. situações vividas ou observadas em que. como a diferença entre os termos “sexo” e “gênero”. O principal propósito dessa atividade inicial é provocar o reconhecimento por parte dos alunos da existência de tratamento desigual entre homens e mulheres nos vários aspectos e dimensões da vida social.se manifestam tratamentos discriminatórios em relação à mulher e às crianças do sexo feminino. A introdução ao estudo deste tópico pode ser realizada com a apresentação de um filme que propicie o debate sobre o tema (caso a escola tenha os recursos necessários).” (FAORO. Porto Alegre: Editora Globo. Os donos do poder. os aspectos culturais e sociais envolvidos nas desigualdades e os preconceitos referentes ao gênero e à sexualidade.

”. comercializados para audiências jovens. ou ser alvo de sanções negativas (“Meninos não brincam com bonecas”). “As influências sociais na identidade de gênero fluem por meio de diversos canais. esperançosos e voltados à vida doméstica. Pelo contato com vários organismos sociais. Embora a situação. Estudo dirigido do texto abaixo e discussão sobre o tema:Após terem sidos expostos a uma introdução geral sobre o tema da sexualidade e do gênero. os alunos poderão ler e discutir o seguinte trecho do capítulo sobre “Gênero e Sexualidade”. Por exemplo. Essa abordagem faz distinção entre sexo biológico e gênero social – uma criança nasce com o primeiro e desenvolve o segundo.” Essa interpretação dos papéis sexuais e da socialização foi criticada e muitos escritores argumentam que “a socialização de gênero não é por si mesma um processo tranqüilo: diferentes organismos como a família. muitos estudos mostram que. as crianças internalizam gradualmente as normas e as expectativas sociais que são percebidas como correspondentes ao seu sexo. De acordo com essa visão. enquanto os femininos são retratados passivos. mesmo quando os pais acreditam que suas reações para ambos sejam iguais.2. Artmed Editora S. as identidades de gênero são resultados de influências sociais”.. encarnam atitudes tradicionais .” Na socialização do gênero “meninos e meninas são guiados por “sanções” positivas e negativas. As diferenças de gênero não são biológicamente determinadas. tanto primários como secundários... os livros ilustrados e os programas de televisão experienciados por crianças tendem a enfatizar diferenças entre os atributos masculinos e femininos.”. “ Estudos sobre as interações entre pais e filhos. esteja mudando. “Embora convenha nutrir certo ceticismo com relação a qualquer adoção indiscriminada da abordagem que postula os papéis dos sexos.. Os personagens masculinos tendem a representar papéis mais ativos e aventurosos. programas de televisão e filmes. como a família e a mídia. Os brinquedos. Além disso. de Anthony Giddens (pp. a aprendizagem de papéis do gênero com o auxílio de organismos sociais. as teorias de socialização ignoram a capacidade dos indivíduos de rejeitar ou modificar as expectativas sociais acerca dos papéis sexuais.A. um menino poderia ser sancionado positivamente em seu comportamento (“Que menino valente você é!”). por exemplo.. em certa medida. as desigualdades de gênero surgem porque homens e mulheres são socializados em papéis diferentes. 105-6. as escolas e outros núcleos de agrupamento talvez estejam em divergência com outros. mostram diferenças distintas no tratamento de meninos e meninas. forças socialmente aplicadas que recompensam ou restringem o comportamento. do livro Sociologia. contos de fadas. Pesquisadoras feministas demonstraram como produtos culturais e de mídia. são culturalmente produzidas. de alguma forma. os personagens masculinos em geral superam em número os femininos na maior parte dos livros infantis. 2005) “Um caminho dentro da Sociologia para se analisar “as origens das diferenças de gênero é estudar a socialização do gênero. Essas afirmações positivas e negativas ajudam meninos e meninas a aprender os papéis sociais esperados e a adequar-se a eles.

em programa de televisão ou em propaganda . coloca em ação estratégias que exigem do homem desempenhos que o produzem enquanto um guerreiro: indivíduo violento.Explique com suas palavras o que se quer dizer com a afirmação “homens e mulheres são socializados em papéis diferentes”. (Por exemplo: assumir o papel de médico. dia a dia. de esposa. em Sociologia. se atribui aos termos “sexo” e “gênero”? Por que é importante para a análise sociológica fazer tal distinção? . em nossa sociedade. papel . VIOLÊNCIA E PODER Homens = sexo. socialmente. Antes que alguém comece a sentir pena dos homens. coitados. de acordo com o que é esperado. em revista. Dá medo viver numa sociedade que. a serem assim. etc.Qual o sentido que. de pai. Glossário: sanção – pena ou recompensa (reforço positivo ou negativo) com que se tenta garantir a execução de uma norma ou lei social.Indique alguma situação .Cite exemplos de “sanções” negativas ou positivas ( outros que os apresentados no texto) e que fazem parte do processo de socialização de gênero. nem dispostos a "comer todas" usando o sexo como arma contra as mulheres. violência e poder: dá para mudar esta equação? Fernando Seffner1 Homens não nascem prontos. Os papéis sociais são expectativas socialmente definidas que uma pessoa segue numa dada posição social.para com o gênero e os tipos de objetivos e ambições esperados em meninos e meninas. de professor. não custam lembrar que este "sacrifício" todo não é feito . nem saem da barriga da mãe sedentos de poder. cotidianamente. não nascem violentos. tão "homens".apresentada em filme. Os homens são ensinados. influenciando comportamentos diferenciais entre meninos e meninas? . O que o termo “papéis” significa para a análise sociológica? (recordar o estudo sobre o tema da socialização em sua relação com a desigualdade de gênero) .” Algumas questões para orientar o estudo e o debate em sala: . Por um lado. No caso do texto o sentido do termo está diretamente associado às formas de aprovação ou reprovação dos comportamentos. para cada gênero. enfim. pois nos indica uma sociedade 26 com mecanismos bastante violentos de produção de indivíduos. tão competitivos. condenados a tantos sacrifícios. tendo que se mostrar tão duros. de estudante. competitivo e agressor.) GÊNERO.em que claramente está manifesto um preconceito contra mulheres ou homossexuais. tão fortes.atribuição de natureza social relacionada a alguma função e/ou desempenho esperado. SEXUALIDADE. esta constatação é preocupante.

mas fica o alerta: a situação é complexa. e partilhar desse poder conjuntamente. de salários. em alguns grupos populacionais. No interior do campo masculino. uma equação de segundo grau. de carreira política. no interior de . para "provar" sua masculinidade continuamente). Entre um jovem negro e pobre e um jovem branco e pobre. Mas as dificuldades são muitas. mesmo quando deles discordam. Ou construir uma nova conceituação de poder. que na maior parte dos casos convivem de modo a permitir que os homens tenham estes comportamentos violentos. porque a questão não se resume aos pólos homem e mulher. e embora muitos homens confessem que o período escolar foi de grande tensão. e que implica retirar poder dos homens e distribuir numa relação igualitária com as mulheres. é coisa de homem. de cargos de mando e de benefícios em nossa sociedade. Se os homens são assim porque foram educados para serem assim. o que está diretamente relacionado a este esforço em galgar postos elevados e neles se manter). a distribuição de poder é muito desigual. EDUCAÇÃO PARA A IGUALDADE DE GÊNERO é. é sempre possível localizar. Aliás.em vão. são os homens que galgam os mais elevados postos na vida política e na esfera das empresas privadas (mas vale lembrar que os homens morrem primeiro. essa mesma constatação – os homens são assim porque foram educados para serem assim – nos permite pensar em modos de mexer na equação. se forem educados de outro modo poderemos ter homens com outras características. Homens jovens e negros são alvo de um verdadeiro genocídio no Brasil. O quesito raça atua promovendo um desequilíbrio na masculinidade. são os homens que estudam mais (embora as mulheres tenham conseguido avanços espetaculares nesta área. no mínimo. Só que a mudança não virá apenas por conta de projetos de educação dos homens. também. a equação que colocamos no título. E antes que alguém comece a invejar os homens por causa desses benefícios. bem além do x e do y tradicionais. tendo como objetivo um regime de equidade de gênero. na estrutura econômica. Por outro lado. uma situação em que homens e mulheres possam conviver com distribuição igualitária de poder. mas o princípio é esse mesmo: investir na educação de homens e mulheres. buscando um regime de equidade de gênero. É necessário mudar elementos centrais de nossa estrutura social e. E os processos educativos devem abranger também as mulheres. vale lembrar que as coisas são mais complicadas. mas de uma redistribuição de poder. Os modos de constituir agregados familiares podem gerar situações de maior equidade de gênero. São os homens que acessam as melhores oportunidades de emprego. e bem antes das mulheres. porque não estamos apenas tratando de processos educativos. e são também eles que morrem mais em acidentes automobilísticos). A situação é mais complicada. Simples. com muitas variáveis. por exemplo. O nível de escolaridade estratifica as oportunidades também. as coisas não são tão simples como podem parecer. Enfim. não? De fato. diariamente atestado pelas manchetes dos grandes jornais. ou não. x e y têm muito a ver com a discussão dos regimes de gênero. o jovem negro tem muito mais chances de estar na mira da agressão policial. inclusive. Não vamos seguir exemplificando. São os homens que gozam da maior mobilidade na sociedade (carro. Homens negros têm menos possibilidades de sucesso do que homens brancos. por exemplo.

sua trajetória de aprovação e os casos em que ela já foi aplicada. aprendeu técnicas de prazer amoroso para melhor desempenho sexual. não precisamos de escola. A crise nas relações de gênero é uma crise em torno da distribuição do poder. Outro aspecto é que determinados grupos de homens têm questionado o privilégio de outros grupos de homens. Outra frente de luta é para garantir o pleno acesso das mulheres à escola. Uma parte da luta feminista se dá no sentido de conter a violência masculina sobre as mulheres. e a Lei Maria da Penha é um bom exemplo disso. Penso que a melhor expressão para designar o que está acontecendo não é essa. até mesmo em crise do macho se fala. pois essa designação tem permitido que uma parte da "saída" da crise seja produzida pelo mercado. faz curso de gastronomia. Homens negros têm lutado por uma justa distribuição de oportunidades quando . Fala-se muito hoje em crise das masculinidades. O que ocorre é uma crise nas relações de gênero. Aceder a mais benefícios do que outros. é claro. EDUCAÇÃO PARA A IGUALDADE DE GÊNERO. Se este é o caminho para superar a crise da masculinidade. e você verá que o "novo homem" que busca "superar a crise" é um homem que vai a salão de beleza. basicamente nas relações entre homem e mulher. Em determinados contextos. Diversos motivos. embora ainda esteja longe do estado de equilíbrio. Tome uma revista semanal. Mas ainda falta muito para que os aprendizados escolares façam diferença na vida dos alunos. Mas não é por acaso que a imprensa escolhe chamar isso de crise dos homens. podemos ter homens e mulheres como aliados na luta pela democratização do poder concentrado em mãos de determinados grupos de homens. escolhe roupas com apuro e aceita dividir a conta 27 do restaurante com a parceira. atuante desde o século XIX. Mas não podemos deixar de reconhecer que a perda de poder dos homens tem gerado. e a balança tem pendido para as mulheres. Para quem pode. via consumo de produtos e serviços. folheie suas páginas. e isto tem gerado boa parte do que a imprensa descreve como sendo a crise dos homens. o que em boa parte já foi conseguido. o que causa preocupação. auxiliando-os a compreender e atuar no contexto social em que vivem. o homem em crise. dentre eles em especial o movimento feminista. Este modo hegemônico designa homens que conseguem EDUCAÇÃO PARA A IGUALDADE DE GÊNERO. ao acaso. mais violência. um conjunto de características que configura um modo hegemônico de masculinidade. em algumas situações. Aparecem na imprensa numerosas matérias sobre a crise do homem.uma determinada ordem de gênero. Conseguem mandar nas mulheres e em muitos homens. posicionaram as mulheres com possibilidades de disputar em regimes de quase igualdade com os homens o acesso a oportunidades na sociedade. não faltando materiais em sítios da internet e em organizações não governamentais feministas sobre a lei. tudo se resume ao mercado e ao consumo. Ela é também um ótimo conteúdo para ser estudado em sala de aula.

Mas valerá a pena como construção de um futuro mais justo. Homens homossexuais têm lutado para que sua orientação sexual não lhes impeça o exercício de direitos reservados até agora aos homens heterossexuais. Sexualidade e Relações de Gênero. Homens portadores de alguma modalidade de deficiência física. lutar por isso é dar mesmo um salto para o futuro. A escola não tem como "resolver" sozinha esta questão. que os "obrigam" a manter uma atitude guerreira. e de vivência num contexto onde a equidade de gênero é a regra. o da escola inclusiva. Também não se pode dizer que sejam simplesmente "vítimas" dos chamados "papéis de gênero". por exemplo. Mas os homens podem ser educados para perceber estas situações e para lutar por um mundo onde a equidade de gênero seja a regra. nem para alunas. Não vai ser fácil. O estudo desses temas se conjuga com um dos principais objetivos em educação hoje em dia. com evidentes prejuízos em termos emocionais e de saúde. juntamente com as mulheres negras. incentivando os alunos a uma participação cidadã na vida em sociedade.concorrem com homens brancos por uma vaga no mercado de trabalho. e até mental. EDUCAÇÃO PARA A IGUALDADE DE GÊNERO. que temos uma história em que os momentos de ditaduras e do domínio de oligarquias superam amplamente os momentos de exercício da democracia. em muitos discursos religiosos que asseguram para o homem a posição de mando sobre a mulher e justificam isso de modo "divino". em sistemas de recrutamento de recursos humanos. até porque as pedagogias de construção da masculinidade estão presentes em propagandas da mídia. nos discursos sobre segurança e família. Mas a escola pode ser um ambiente onde os meninos e as meninas passem por uma experiência de estudo e discussão destes temas. Dagmar Estermann Meyer2 . Docente e orientador junto ao Programa de Pós-Graduação em Educação na linha de pesquisa Educação.Todos estes movimentos sociais podem ser objetos de estudo e discussão na sala de aula. única chave para assegurar a manutenção do regime democrático entre nós. Nota: Professor da Faculdade de Educação / UFRGS. nem para professores. professores e professoras têm que perceber que meninas podem ser boas em Matemática. E em Educação Física. que valoriza a diversidade. nem para professoras. Homens homossexuais têm lutado para que a homofobia seja crime. Aliás. Para isso. como no caso da discussão dos regimes de cotas. Ou para ingresso no ensino superior público. Exemplo disso são os casos de adoção de filhos por casais homossexuais masculinos. lutam para ter acesso a oportunidades de trabalho em pé de igualdade com os demais homens. e os meninos podem aprender a fazer poemas na aula de Língua Portuguesa e a tirarem boas notas em Educação Artística. ou o direito de pensão por morte do companheiro. brasileiros. Da mesma forma como o movimento negro conseguiu tornar as atitudes racistas crime. nem para alunos. Os homens não são "culpados" pela distribuição injusta de poder nas relações de gênero.

Tomada em sentido amplo e. das diferenciações e desigualdades sociais delas decorrentes resulta. de pedagogias que envolvem estratégias sutis. 2006b. de forma continuada. uma infinidade de “lugares pedagógicos” além da família. gênero e sexualidade e outros programas trataram desse tema de forma mais específica. refinadas e naturalizadas. uma vez que esta é central nesse contexto. então. 28 por exemplo. . raça e sexualidade. ao longo do tempo e nas diferentes sociedades e culturas ocidentais modernas. de questões vinculadas a gênero. 2006a). as quais se têm revelado como processos educativos potentes quando se trata de instituir relações entre corpo. de processos de aprendizagem e de instituições nem sempre convergentes e harmoniosas do ponto de vista de suas prioridades e objetivos políticos. O propósito neste texto é.A discussão proposta por esta série de Programas nos encaminha na direção de nos ocuparmos um pouco mais explicitamente da noção de educação. ainda. bons trabalhadores. grosso modo. que quase não percebemos como sendo educativas (MEYER. a não ser em alguns campos específicos que se ocupam. em outras teorizações. Dentre esses processos educativos EDUCAÇÃO PARA A IGUALDADE DE GÊNERO. esse conjunto inclui. incluindo aqueles que são chamados. hoje. ser desdobrados em formais e não formais. voltar o olhar para o espaço escolar propriamente dito. da igreja e da escola e engloba uma ampla e variada gama de processos educativos. o que se privilegia discutir como objeto específico desse campo se inclui nessa categoria de processos educativos intencionais – que poderiam. também. ser divididos em intencionais e não intencionais. educação envolve o conjunto dos processos pelos quais aprendemos a nos tornar e a nos reconhecer como sujeitos de uma cultura. Para que nos tornemos sujeitos de uma cultura. no prelo). é preciso que estejamos expostos. também. a um conjunto amplo de forças. visibilizados e problematizados. Tais processos educativos podem. Os processos educativos não intencionais têm sido muito pouco re-conhecidos. Esta função “formativa” da escola parece ter sido bem mais importante do que a mera transmissão de determinados conhecimentos em sentido estrito. exaustivamente repetidas e atualizadas na cultura. ainda hoje. na perspectiva que aqui nos interessa. e é esse seu envolvimento com a produção de identidades sociais que faz com ela continue sendo. na maioria das vezes. contidas em (ou derivadas de) artefatos culturais contemporâneos da mídia. envolvida com projetos de formação de determinados tipos de pessoas ou de identidades sociais: bons cristãos. Encontram-se as chamadas pedagogias culturais. bons cidadãos e estes termos não significavam exatamente as mesmas coisas quando essa educação escolar era dirigida para homens ou mulheres ou era desenvolvida em tempos e espaços diversos. de ‘socialização’ (MEYER e COLS. Nesses campos eles assumem uma grande importância. uma vez que a produção dessas identidades e. sendo que quase tudo o que aprendemos a definir como educação nos cursos de formação de professores/as e. uma vez que a instituição escola que conhecemos (e na qual muitos/as de nós trabalhamos) esteve.

classe social. política. as interações pedagógicas. suas regras disciplinares. sexo. em nossas escolas e salas de aula: Flavio. era chato. relato três exemplos ‘banais’ que se repetem. interesses). E é nesse embate entre uma heterogeneidade que se quer visível e representada e uma homogeneização que se busca implementar – tomando como referência determinados padrões de normalidade instituídos a priori e que nos são apresentados como ‘igualdade’ – que a escola se torna um espaço social de disputas e enfrentamentos. palco de disputas e de conflitos importantes.. ou talvez em função delas. ainda. Apesar dessas características. os movimentos gays e lésbicos. os movimentos ecológicos (para ficar nos exemplos mais conhecidos e nomeados). hoje cursando o 2º ano do Ensino Médio. quanto é uma instância em que se disputam significados que produzem. de rivalidades e associações entre grupos e pessoas. os movimentos étnicoraciais. E exatamente porque vivemos. entre professores/as e gestores/as. morador da Zona Sul de São Paulo. Os fatores externos decorrem exatamente do fato de que nela convivem pessoas que são social (idade. um tempo de emergência e de visibilização de uma multiplicidade de identidades sociais. e todos estes grupos se fazem representar. ou desejam se fazer representar no espaço escolar e nos currículos que nele se desenvolvem. eu não suportava ir para a escola [. com o impacto dos meios de comunicação nas culturas que a atravessam bem como decorrem do contexto social particular em que cada escola se situa.. Nesse sentido. as relações entre professores/as. a escola é tanto uma instituição na qual convivem. Por isso a escola é um espaço social complexo e plural na qual interagem fatores internos e externos à instituição. de 16 anos. diferentes grupos e identidades sociais. o que precisa ser compreendido e valorizado. definidas e disputadas por diferentes movimentos como os feministas. muitas vezes. no âmbito da escola e do currículo que nela é implementado. Economicamente diferentes e estão relacionados. hoje. entre professores/as e estudantes. EDUCAÇÃO PARA A IGUALDADE DE GÊNERO. é que a escola (como muitas outras instituições sociais) investe muito de seu esforço na elaboração e na implementação de mecanismos e de estratégias que objetivam uniformizar os indivíduos que a compõem. lembra com nitidez de fatos ocorridos quando tinha 12 anos e estava na 6ª série.um espaço institucional constantemente disputado pelas mais diferentes vertentes políticas e por distintos movimentos sociais. também. raça/etnia. por . atualizam e modificam algumas dessas identidades.. negro. é que a escola contemporânea é.. religião. que ele assim resume: [.]. os movimentos de libertação nacional. destes com os/as funcionários/as e entre os/as próprios/as estudantes. Dentre os fatores internos implicados com a complexidade e a heterogeneidade do espaço escolar podemos citar suas formas específicas de organização do tempo e do espaço.] foi o ano em que virei chacota. de forma nem sempre harmoniosa. Para descrever a sutileza do funcionamento de alguns dos mecanismos envolvidos com a produção de diferenças e de desigualdades sociais e culturais de gênero e de sexualidade.

que [...] Era briga todo dia. A diretora me chamava pra conversar, então era desagradável, eu chegava na escola e virava o pivô, entendeu? [...] Eu pensei em mudar de escola, de tanto que era horrível, fiquei assim, querendo muito sair de lá e não voltar mais. EDUCAÇÃO PARA A IGUALDADE DE GÊNERO. [...] Os professores não falavam nada. Eu tava sentado, fazendo minha lição, nem sentava no fundo, eu nunca sentei no fundo porque eu não gosto, eu sentava na frente [...] E era aquela atacação de papel. Eu abria o papel e tava escrito“seu viado” e não sei o que lá. Era horrível, era muita humilhação. [Entrevistador: E os professores viam isso?] Viam e não faziam nada3. O segundo exemplo está relatado na mesma dissertação4. Conta Fabiano: 29 [...] foi na sétima série, no primeiro dia de aula. A professora chegou e falou para nos apresentarmos para todo mundo. Não sei se foi uma brincadeira que ela fez, mas eu guardo até hoje essa coisa dela. Eu estava me apresentando e ela disse: – ‘qual é mesmo o teu nome?’ Eu falei: – ‘Fabiano’. – ‘Como é mesmo, Fabiana?’ Nisso eu fui motivo de gozação o ano inteiro e até terminar a oitava série. Foram dois anos agüentando ser chamado de viado! Fabiana! O terceiro exemplo desloca nosso olhar da relação professora-aluno-aluno para a relação entre alunos/as e multiplica mais ainda as diferenciações e os seus impactos na vida dos/as estudantes. A pessoa que nos ofende e nos maltrata e faz todas as outras coisas se acha melhor que todos. Só porque usam roupas caras, são altos e magros, bonitos e até mais inteligentes, quando na verdade não são grande coisa. Existe muito preconceito com negros, gordos, baixinhos e burros e isso nos faz sentir as piores pessoas no mundo. As pessoas inventam coisas sobre você e você é obrigado a ouvir comentários desagradáveis. Isso nos deixa péssimos e preocupados com o que pensam de você, ou o que será a próxima pegadinha (menina de 8ª série, 14 anos) 5. O que nós, educadores e educadoras, podemos aprender com esses depoimentos, tendo em vista as temáticas que estamos discutindo nesta série de programas? Como já enfatizei, aqui, os processos de homogeneização implementados pela escola e que pretendem definir o que – ou quem – é igual, estão estreitamente vinculados a referências daquilo ou daquele que são definidos como diferentes e, quase que por extensão, desiguais; e essa discussão tem sido EDUCAÇÃO PARA A IGUALDADE DE GÊNERO. Feita, com novos enfoques e com redobrado vigor, no contexto das teorizações educacionais agrupadas sob o termo pós-críticas. Tomando como referência a educação escolar, estas teorizações trabalham com uma importante ressignificação do conceito de currículo, considerando-o como sendo o núcleo que corporifica o conjunto de todas as experiências cognitivas e afetivas vividas pelos estudantes no decorrer do processo de educação escolar, o que significa

entendê-lo como sendo um espaço conflituoso e ativo de produção cultural (SILVA, 1995). No currículo confrontam-se diferentes culturas e linguagens, produzidas na escola e, sobretudo, em outras instâncias do social. Nesse sentido, a escola proporciona um espaço narrativo privilegiado para alguns enquanto produz ou reforça a desigualdade e a subordinação de outros. Uma afirmação que sugere a necessidade de se investir em discussões que nos permitam, exatamente, exercitar outros olhares sobre as práticas pedagógicas e sobre as relações sociais que se desenvolvem ou que desenvolvemos no contexto escolar. E fornecer os instrumentos para favorecer este tipo de reflexão acerca da própria prática é, do meu ponto de vista, uma grande contribuição dessas teorizações. Nesse sentido e considerando-se os depoimentos que apresentei neste texto, de que forma escola e currículo, com os diferentes atravessamentos externos que os afetam, podem estar implicados com a produção de diferenças e desigualdades de gênero e sexualidade? Como cultura e poder se combinam, nas práticas pedagógicas escolares em sentido amplo, para construir fronteiras entre grupos e populações, para instituir posições sociais de menino e de menina, de mulher e de homem, de heterossexual e homossexual, por exemplo, e para possibilitar o exercício de práticas sexistas, racistas e homofônicas no espaço escolar? Essa é uma questão que foi (e continua sendo) exaustivamente discutida na interface que se estabelece entre estudos que procuram articular educação, gênero e sexualidade. O conceito de gênero passa a ser utilizado no campo dos Estudos Feministas, por estudiosas anglo-saxãs, a partir da década de setenta. De forma sintética gênero pode ser definido como construção e organização social das diferenças entre os sexos, que se realiza em múltiplas instâncias, em diferentes práticas e instituições sociais e através de muitas linguagens. O que isso significa? EDUCAÇÃO PARA A IGUALDADE DE GÊNERO. Até então, o movimento feminista vinha se debatendo com a dificuldade de desvincular a discussão que se fazia para entender a subordinação das mulheres aos homens e também a sua flagrante desvantagem social e econômica, de um fato biológico que era (é) a diferença anatômica e fisiológica entre os sexos. Enquanto se buscava entender esse processo tomando como base a via biológica, ficava muito difícil sustentar projetos políticos de transformação dessas relações de desigualdade, porque, afinal de contas, a biologia é imutável, é o que se pensava há 30 ou 40 anos. Hoje, já sabemos que até a biologia é histórica, ou seja, ela também está sujeita a (enormes!) transformações, mas isso já é ir bem mais adiante nessa história. O conceito de gênero indica o seguinte: nós aprendemos a ser homens e mulheres desde o momento em que nascemos até o dia em que morremos e essa aprendizagem se processa em diversas instituições sociais, a começar pela família, passando pela escola, pela mídia, pelo grupo de amigos, pelo trabalho, etc. Mas significa mais ainda: como nós nascemos e vivemos em tempos e lugares específicos, gênero reforça a necessidade de se pensar que há muitas formas de sermos mulheres e homens, ao longo do tempo, ou no mesmo tempo histórico, nos diferentes grupos e segmentos sociais. O conceito de gênero também não se refere mais ao estudo da mulher, ele é um conceito que procura enfatizar a construção relacional e a organização social das diferenças entre os sexos, desestabilizando desta forma o determinismo biológico e

30 econômico vigente, até então, em algumas das teorizações anteriores. Esse conceito nos leva, pois, a procurar entender as construções de feminino, de forma articulada com o masculino, uma vez que ambos estão implicados nas mesmas relações. E tem mais: o que é apresentado como feminino, nas sociedades ocidentais, toma o masculino como referência. A mulher é apresentada como o oposto do homem, só que esta não é uma simples oposição: ela é, como todas as oposições binárias que estruturam o pensamento moderno, uma oposição hierarquizada, em que um dos termos da equação é socialmente menos valorizado que o outro. As oposições binárias são, também, relações de poder (LOURO, 2001; MEYER, 2005). EDUCAÇÃO PARA A IGUALDADE DE GÊNERO. Gênero, então, enfatiza a construção relacional do sexo e a organização social desta construção, entendendo que ela é uma construção que é histórica e que precisa ser entendida a partir de sua articulação com outras categorias sociais como classe social, raça/etnia, geração, sexualidade, para citar algumas das mais importantes. A noção de poder que está presente nessa relação introduz aí a dimensão de conflito, uma vez que as mulheres e os homens não são apenas mulheres ou apenas homens, mas são muitas outras coisas ao mesmo tempo. Isso significa dizer que não existe uma essência de mulher ou de homem nem a possibilidade de uma solidariedade dada a priori, a partir de uma única posição, neste caso, a partir da posição de gênero. Uma outra questão a ser reforçada, aqui, é que o conceito de gênero introduz uma virada importante nos estudos feministas. Ainda que esse campo continue priorizando análises sobre as mulheres, não se está falando mais de mulher no singular, mas entendendo que muitas outras formas de diferença e desigualdade se imbricam com o gênero e que elas precisam ser problematizadas de forma articulada. Uma dessas diferenças que se conecta de forma importante ao gênero é, exatamente, a de sexualidade. Sexualidade é um conceito que, muito freqüentemente, se confunde com gênero e, embora precisemos reconhecer que eles estão estreitamente ligados, cada um deles guarda suas especificidades e inscreve os sujeitos em sistemas de diferenciação diversos. Enquanto que gênero aponta para as formas pelas quais sociedades e culturas produzem homens e mulheres e organizam/dividem o mundo em torno de noções de masculinidade e feminilidade, a sexualidade tem a ver com as formas pelas quais os diferentes sujeitos, homens e mulheres, vivem seus desejos e prazeres corporais, em sentido amplo. Com isso, o que se quer dizer, nesta perspectiva teórica, é que os nossos desejos corporais e os focos de nossos desejos são produzidos e legitimados pela cultura e não são decorrências naturais da “posse” de um determinado aparelho genital ou do funcionamento de determinados hormônios. Homens e mulheres vivem de muitas formas e com diferentes tipos de parceiros os seus desejos e prazeres corporais: com parceiros de sexos diferentes, com parceiros do mesmo sexo, com parceiros de ambos os sexos e, crescentemente, com parceiros virtuais “descorporificados”. E

sexo é um termo usado, aqui, então, para fazer referência àquelas diferenças anatômicas. EDUCAÇÃO PARA A IGUALDADE DE GÊNERO. Fenotípicas, inscritas no e sobre o corpo, que cada cultura institui para marcar e diferenciar fisicamente mulheres de homens (LOURO, 1999; WEEKS, 1999). Tendo estes conceitos presentes, volto à questão antes colocada: o que nós, educadores e educadoras, podemos aprender com isto? Penso que, num primeiro momento, eles nos instigam a analisar os processos, as estratégias e as práticas sociais que nos constroem como sujeitos de gênero e sexuais. A pergunta norteadora, aqui, é: como vimos a nos tornar o que somos? E como funcionam os mecanismos de diferenciação e de hierarquização que, nesse processo de tornarse, desigualam sujeitos em função de seu gênero e de suas práticas sexuais? Essas são duas perguntas importantes para quem pretende investir em intervenções que permitam modificar, minimamente, as relações de gênero e sexuais que se desenvolvem na sociedade em que vivemos. Outra questão que precisamos colocar-nos, como educadores e educadoras comprometidos/as com mudanças nessas relações, é: como as diferentes linguagens que constituem os currículos escolares que planejamos e implementamos constroem, ajudam a manter ou re-definem posições sociais de gênero e de sexualidade? Uma das primeiras implicações dessa pergunta é considerar que, provavelmente, não existem disciplinas formais em que se objetiva ensinar como transformar crianças em meninos e meninas e estes e estas em homens e mulheres, a exemplo do que se faz em matemática quando aprendemos a adicionar, multiplicar ou dividir; ou, ainda, de como se pretende fazer, com relação ao sexo, no contexto de determinadas propostas de educação sexual escolar. Precisamos, então, reconhecer como aprendemos essas coisas que fazemos e em que espaços e em que lugares aprendemos a fazê-las de uma determinada maneira e não de outras. Vamos perceber que essas aprendizagens estão incorporadas em práticas quotidianas formais e informais que nem questionamos mais. Que elas atravessam os conteúdos das disciplinas que compõem o currículo oficial ou estão imbricadas na literatura que selecionamos, nas revistas que colocamos à disposição das estudantes para pesquisa e colagem, nos filmes que passamos, no material escolar que indicamos para consumo, no vestuário que permitimos e naquele que é proibido, nas normas disciplinares que organizam o espaço e o tempo escolares, nas piadas

31 EDUCAÇÃO PARA A IGUALDADE DE GÊNERO.Que fazemos ou que ouvimos sem nos manifestar, nas dinâmicas em sala de aula e em outros espaços escolares que não vemos ou decidimos ignorar, nos castigos e nas premiações, nos processos de avaliação... E pensar dessa forma, a partir desses conceitos e do que eles nos sugerem considerar, colocamos a necessidade de questionar não só

o meio social age fortemente nos dois sexos. políticos e morais que atribuem valores a essas ralações. o meio social age fortemente nos dois sexos. Recentemente.Conceito de Gênero Gênero não se refere exatamente aos homens e mulheres mas a relações entre os dois sexos. E. fez com que gênero voltasse a ocupar um lugar de destaque em várias discussões nos media. menos capacidades como cientistas.Desigualdade de Gênero Introdução: Gênero & Diferenças Nos últimos 100 anos assuntos relativos a gênero. O gênero refere-se a essa ação e às relações que ela gera entre homens e mulheres. ao mesmo tempo. A autoridade que acompanha este posto. 2 . frequentemente designando mulheres a uma posição subalterna. Esse conceito chama a atenção para os processos culturais. E isso nos ajuda a reconhecer como estamos. Esse conceito chama a atenção para os processos culturais.O conceito de gênero Gênero não se refere exatamente aos homens e mulheres mas a relações entre os dois sexos. como essas que foram relatadas nos depoimentos que aqui apresentei. e não propriamente. à identidade associada ao sexo masculino ou feminino. o Presidente da prestigiosa Harvard University fez alguns comentários sobre as mulheres terem. profissionais da educação. a desenvolver a sensibilidade para perceber o sexismo. sociais. o racismo e a discriminação que estes saberes veiculam. isso aponta para a dimensão política que reside na problematização de práticas aparentemente banais. também. à identidade associada ao sexo masculino ou feminino. estávamos mais uma vez as voltas com questões básicas que marcaram as lutas . De repente. nós mesmas. de nascença. e o caráter público desse comentário. Desigualdade de Gênero 1 . Se fatores biológicos produzem ou não diferenças no cérebro ou no corpo de mulheres e homens. por exemplo. frequentemente designando mulheres a uma posição subalterna.os conhecimentos e saberes com que lidamos mas. sociais. e não propriamente. Se fatores biológicos produzem ou não diferenças no cérebro ou no corpo de mulheres e homens. constroem e ajudam a manter. inscritas nesses processos de nomeação em que a diferença é hierarquizada e transformada em desigualdade. políticos e morais que atribuem valores a essas ralações. Desigualdade de Gênero . periodicamente dominam os títulos dos jornais. Entendemos melhor quem tem autoridade para dizer o que. O gênero refere-se a essa ação e às relações que ela gera entre homens e mulheres. de quem e em que condições.

geografia. continuaria a ser necessário evidenciar que isso é distinto dos valores sociais. será que refletem atitudes ou interesses? * Ou será que as diferenças refletem os diferentes processos de socialização e expectativas? * É possível determinar reações. as regras e práticas dentro de casa e com a família. na comunidade. identidade sexual. uma coisa é absolutamente certa: mesmo que existissem provas concretas e definitivas de que os sexos são claramente diferentes. 2 -Desigualdade de Gênero . 1 . Pode-se concluir que tanto os homens como as mulheres podem ser portadores dos relevantes genes. Isso pode significar um tratamento diferente. mais adequado. etnia. o enfoque de gênero requer o exame de fatores estruturais na sociedade – isto é. 32 1 . no estado e na sociedade em geral . geração e habilidade. questionou ou qualificou. raça. marcados por muitos ganhos a favor da igualdade entre os gêneros.Desigualdade de Gênero Várias diferenças de classe social. entre outras. muito se investigou. como era de se esperar. 3 .Desigualdade de Gênero * Existem diferenças? * Se existem. obrigações e oportunidades a igualdade prevalece. Em resumo. no trabalho.Desigualdade de Gênero Durante todos esses anos. Mas não existe nenhuma evidência final que prove a existência da capacidade científica ou de qualquer outra capacidade inteiramente genética. mas no que se refere aos direitos. Portanto. em interação com gênero constituem e são também reproduzidas em relações sociais determinando injustiças e exclusões.que mantêm uma posição desigual entre grupos diferentes de homens e mulheres.feministas do começo do século XX. políticos e morais associados a essas diferenças.Desigualdade de Gênero Seja qual for a situação. algumas pessoas continuam a formular perguntas: 4 . a igualdade de tratamento tem que estar de acordo com as respectivas necessidades de homens e mulheres. para reconhecimento da igualdade entre mulheres e homens. comportamentos ou funcionamento baseado no sexo da pessoa? Enquanto essa discussão continua. benefícios.

000 mulheres morrem por problemas relacionados com a gravidez e pela falta de acesso aos anticoncepcionais.º 3/2006. entre outras: * a mutilação genital feminina. permitirá acelerar o desenvolvimento a longo prazo. de 21 de Agosto. Se tal medida não for tomada. de 4 de Outubro 2006) vem estabelecer que as listas . os direitos das mulheres têm ainda velhos e novos desafios por conquistar. e não podemos deixar de fora outras faces da realidade igualmente assentes em discriminações de gênero como sejam. responsáveis por cerca de 76 milhões de gestações não desejadas nos países em vias de desenvolvimento e por cerca de 19 milhões de abortos praticados em condições perigosas. A discriminação é um dos principais responsáveis pelo aumento dos índices de mortalidade das mulheres entre os 15 e os 44 anos. * Acesso das mulheres à tomada de decisão É na área da tomada de decisão que o crescimento da presença das mulheres se tem produzido a um ritmo mais lento. a prostituição forçada * o casamento forçado O que nos leva a afirmar que em matéria de direitos humanos. * o tráfico de mulheres. A Constituição Portuguesa consigna o direito de todos os cidadãos a “tomar parte na vida política e na direção dos assuntos públicos do país”. * a violação. cerca de 530. devendo a lei promover a igualdade no exercício dos direitos cívicos e políticos e a não discriminação em função do sexo no acesso a cargos políticos”. Nesta matéria. Por outro lado. Anualmente.A discriminação não afeta só a população portuguesa. o risco de fortalecer a influência da pobreza nas gerações futuras aumentará" * Fim da discriminação de gênero é a chave para o desenvolvimento.Fim da discriminação de gênero é a chave para o desenvolvimento O Fundo de População das Nações Unidas (UNPFA) defende a igualdade entre os sexos e acrescenta que: "Investir nas mulheres e nos jovens. * Em 2006 a Lei da Paridade (Lei Orgânica n.A . são fracos os progressos registrados ao longo de 30 anos de democracia. que representam a maior parte da população mundial. alterada pela Declaração 7/2006. Desigualdade de Gênero B . estabelece que “A participação direta e ativa dos homens e das mulheres na vida política constitui condição e instrumento fundamental de consolidação do sistema democrático.

Vamos concluir este trabalho com uma questão. para o Parlamento Europeu e para as autarquias locais são compostas de modo a assegurar a representação mínima de 33% de cada um dos sexos. A) Está fundada na coletividade. C) É um conceito de análise típico-ideal. QUESTÃO 59 (Abril 2006) .Sobre a definição de ação social para Weber. apresentando Portugal um número muito próximo da média europeia (55. de forma a estabelecer uma relação social. “Se a nível de licenciaturas há mais mulheres a entrarem nas faculdades e se são também elas a terem mais sucesso. Outras Instâncias CARREIRA DIPLOMÁTICA Fonte: Ministério dos Negócios Estrangeiros 2. D) É aquela que se orienta pela ação dos outros. Conclusão Segundo os dados do Eurostat.para a Assembleia da República. sendo. sem nenhuma correspondência com a realidade histórica. porque será que não ocupam mais lugares de topo?” 33 Exercícios 1 . Acesso das mulheres à tomada de decisão *TOMADA DE DECISÃO POLÍTICA Fontes: Womenandmenindecision-making (Base de Dados Europeia)Dossier de Gênero. as mulheres consolidaram nos últimos anos a sua maioria entre os estudantes universitários em todos os países da UE. exceto na Alemanha. que traduz o quanto ainda há para fazer em relação à descriminação. portanto. INE *TOMADA DE DECISÃ ECONÓMICA Fonte: BDAP (data de referência de 31 de Dezembro de 2005) *DIRIGENTES E CHEFIAS NA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA (2005) FORÇAS ARMADAS 1. Esta Lei significa uma enorme vitória para a Democracia Portuguesa e para os Direitos das Mulheres. reciprocamente referida.2%). assinale a alternativa correta. B) Implica necessariamente uma relação social. prescindindo de significação. ao reconhecer que a democracia só estará completa se for representada por homens e mulheres.

legal e carismático . IV – o(a) estudante escolhe o colégio X só porque ali estudaram seus pais e avós. Marque a alternativa correta. é correto afirmar que: A) as classes sociais se organizam segundo seus princípios de consumo de bens nas diversas formas especificas de vida.constituem uma tipologia construída por Weber a partir da realidade histórica. QUESTÃO 53 (Dezembro 2004) Sobre a teoria weberiana acerca das várias formas de estratificação social.tradicional. propõe uma classificação típicoideal da ação social. de acordo com o sentido ou orientação dos atores. convenções e rituais. Considere os exemplos de ação social citados abaixo: I – o consumidor adquire um relógio motivado pela emoção que este lhe causa. em sua obra Economia e Sociedade. D) Os tipos puros de dominação . B) as diferenças que correspondem às classes ou aos estacamentos geram. na esfera do poder social e dentro das respectivas ordens sociais. assinale a alternativa INCORRETA. QUESTÃO 53 (Fevereiro 2003) Max Weber.Acerca das formulações de Weber sobre poder e dominação. A) A dominação exercida pelos dominantes somente é legítima quando assume um caráter do tipo burocrático-legal. B) O poder está fundamentado na desigualdade de oportunidades que afeta cada indivíduo em dado contexto social. D) as castas se organizam segundo as relações de produção e aquisição de bens. II – o empresário estabelece uma gratificação para os empregados mais produtivos. C) Faz parte de uma relação de dominação estatal o uso da força física para assegurar a obediência. cujos privilégios estão desigualmente definidos por leis. III – o católico caminha noventa quilômetros para demonstrar sua fé. . os partidos. C) os estamentos são grupos de status fechados.

a ação racional com relação a fins e a ação racional com relação a valores. tal como elaborados por Max Weber. compartilhando. D) não são equivalentes. QUESTÃO 54 (Fevereiro 2007) Sobre os tipos de ação social em Max Weber. a ação tradicional funda-se no costume ou em um hábito já arraigado. não se dá com o poder. respectivamente. que acontecem sucessivamente em determinadas realidades histórico-culturais. C) toda relação de poder implica uma relação de dominação. B) Weber define as ações sociais burocrática. já que a força sem uma base de legitimação não pode ser exercida. QUESTÃO 56 (Fevereiro 2003) Sobre os conceitos de poder e dominação. motivações. o que. uma vez que a ação . é correto afirmar que: A) a dominação prescinde do poder. respectivamente. C) Os exemplos II e IV ilustram. a ação afetiva e a ação racional com relação a fins. marque a alternativa correta. B) são equivalentes. uma vez que os indivíduos que se submetem a uma ordem de dominação não levam em conta os recursos que possuem aqueles que exercem a dominação. portanto. respectivamente. a ação afetiva e a ação racional com relação a valores. D) Os exemplos II e III ilustram. B) Os exemplos I e III ilustram. pois tanto um quanto outro são relações sociais às quais os indivíduos atribuem sentido. tradicional e carismática pensados por Weber são construções históricas. a ação racional com relação a fins e a ação tradicional. pois a dominação supõe a presença do consentimento na relação entre “X” e “Y”. D) A ação racional implica uma adequação entre meios e fins. tradicional e carismática a partir de uma construção típico-ideal que é estabelecida apenas no plano conceitual. A) Os conceitos de ação burocrática. 34 C) Os tipos de ação burocrática. respectivamente. tradicional e carismática pensadas por Weber constituem uma construção intelectual pautada na história e visam explicar uma dada realidade histórica.A) Os exemplos III e IV ilustram. necessariamente.

B) o poder é a probabilidade de alguém determinar o comportamento do outro. respectivamente. III.uma construção do pensamento que permite conceituar fenômenos e formações sociais.um modelo perfeito a ser buscado pelas formações sociais históricas e qualquer realidade observável. D) os fundamentos dos poderes econômico. QUESTÃO 49 (Janeiro 2001) Para explicar os fenômenos sociais. D) a sociologia compreensiva busca apreender o sentido da ação social e de seus nexos causais. ideológico e político são. B) a sociologia de Weber é um esforço de explicação da sociedade enquanto totalidade social. é INCORRETO afirmar que: A) o Estado é uma relação estritamente de poder. fundamentalmente. em uma crença através dos tempos. que prescinde da dimensão de dominação. Weber propôs um instrumento de análise que chamou de tipo ideal. o consentimento da parte do dominado para a ordem dada pelo dominante. QUESTÃO 57 (Fevereiro 2007) A respeito das definições de Max Weber para poder e dominação.uma construção do pensamento que permite identificar na realidade observada as manifestações dos fenômenos e compará-las. Esse instrumento pode ser definido como: I. em alguma medida. o saber e a força. C) o objetivo da sociologia é estabelecer leis gerais explicativas da realidade social. C) a dominação implica. II.carismática ou afetiva se estabelece. . é correto afirmar que: A) os juízos de valor do pesquisador não interferem em nenhuma fase do processo de investigação científica. QUESTÃO 42 (Janeiro 2000) De acordo com o pensamento weberiana. a riqueza.

como Max Weber demonstrou no estudo da conexão entre a ética protestante e o espírito do capitalismo nos EUA. Assinale a alternativa correta sobre a articulação dos tipos de ação social propostas por Weber. amor. Max Weber propõe quatro tipos puros ideais de ação social. QUESTÃO 57 (Janeiro 2004) Assinale a alternativa correta. III e IV estão corretas. . C) II. A) I.uma construção teórica abstrata a partir de casos particulares analisados.IV. paixão. QUESTÃO 54 (Janeiro 2004) Em sua teoria sociológica. estes em relação às conseqüências implicadas e os diferentes fins possíveis. B) I. avalia os meios relativamente aos fins. na medida em que os cientistas operam pela lógica da crença na emancipação do homem das mazelas sociais. quanto à teoria weberiana sobre poder e dominação. como se observa na competição individualista das sociedades capitalistas e. A) O procedimento econômico corresponde ao modelo típico de ação racional com relação a fins. C) A ação afetiva típica ideal é a causada pelos sentimentos de ódio. B) O procedimento científico pode ser considerado um modelo típico ideal de ação tradicional com relação a valores. D) A articulação de dois ou mais tipos de ação social não oferecem sentidos compreensíveis aos cientistas sociais. que apresentam sentidos. Assinale a alternativa correta. II e III estão corretas. III e V estão corretas.um modelo que tem a ver com as espécies sociais de Durkheim. II e V estão corretas. que buscam captar realidades totalmente autônomas. como se pode ver na Física e na Química. Isso ocorre porque os tipos ideais são conceitos limites. ciúme. V. D) II. pois considera um conjunto de necessidades sob uma quantidade escassa de meios para chegar ao objetivo pretendido. cuja conexão cabe aos cientistas sociais captar para compreender a realidade social. guarda bastante racionalidade combinada com a tradição. exemplos de sociedades observadas em diferentes graus de complexidade. raiva. até mesmo com certa irracionalidade. por isso.

QUESTÃO 43 (Julho 2000) "300 milhões . Primeiro. Assinale a alternativa que corresponde ao tipo de ação social descrita no texto. p. respectivamente.. em que a crença na validade da norma 35 impessoal se estabelece. D) O poder sempre exige o consentimento por parte daquele que se comporta de acordo com a determinação do outro. (VEJA N. B) Ação social afetiva. QUESTÃO 44 (Julho 1999) A respeito do conceito weberiano de ação social. C) a ação que se orienta por valores não é uma ação social racional. Percebendo que ali podia estar sua galinha-dos-ovos-de-ouro. . C) A dominação fundada no carisma do líder nunca pode integrar o padrão de dominação capitalista. Menin resolveu projetar um negócio para atender aquela clientela. O mérito de Menin foi ter vislumbrado uma oportunidade e apostado suas fichas nela. Após definir seu nicho de mercado. Depois. .. passou a vender apartamentos semipadronizados com preços até 25% mais baixos. A) Ação social racional com referência a fins. D) uma ação que se caracteriza pela livre escolha é tradicional. construiu pequenas casas em bairros populares de Belo Horizonte. B) O poder econômico e o poder ideológico definem-se..A) A dominação racional-legal é típica da sociedade capitalista. Menin elaborou uma cartilha que a empresa segue à risca até hoje. 148) Max Weber define uma tipologia da ação social que é apresentada nas afirmativas abaixo. é correto afirmar que: A) o exercício religioso da fé é uma ação afetiva. 15. D) Ação social racional com relação a valores. B) a decisão empresarial de inovação tecnológica para enfrentar a concorrência no mercado é uma ação racional com relação a fins. pelas posses do saber e da riqueza. 12/04/2000...".. Como o senhor da foto virou milionário. C) Ação social tradicional.

Rio de Janeiro: Eldorado Tijuca.. Assinalar a alternativa correta. Com base no texto acima. D) Apenas I está correta. (. a partir da conexão natural de sentidos entre a ética protestante e as imposições do capitalismo de Estado. Não consiste. seja esta jurídica.) Nem toda dominação se serve do meio econômico. IV) Para ser exercido. C) I e IV estão corretas.. 1976. Considere as alternativas teóricas abaixo e assinale a alternativa INCORRETA. II) O poder decorre da posse básica e exclusiva de meios econômicos. E ainda menos tem toda dominação fins econômicos. que são obtidos com ou sem legitimidade. a interioridade. A) O conceito de ação social em Max Weber pretende comprovar a coerção.) a probabilidade de encontrar obediência dentro de um grupo determinado para mandatos específicos (ou para toda sorte de mandatos).” WEBER. C) Max Weber define ação social como uma conduta dotada de um significado subjetivo dado por um sujeito . (. Introdução ao Pensamento Sociológico. B) I e III estão corretas. Anna Maria. apenas por agentes do Estado nas sociedades capitalistas. costumes e situações de interesse produzidos por diversos sujeitos. B) Para Max Weber. a Sociologia é a ciência que pretende interpretar os sentidos prováveis da ação social. o conceito de ação social tem sido fundamental em inúmeros estudos importantes sobre as sociedades modernas. A) I e II estão corretas. Dias.. In: Castro. seus efeitos e suas regularidades. físicas e materiais. suas causas. portanto. Max. sem a qual não há poder nas sociedades capitalistas.QUESTÃO 47 (Julho 2001) “Deve-se entender por ‘dominação’. o poder depende de coerções objetivas. costumeira ou afetiva. QUESTÃO 51 (Julho 2003) Na sociologia de Max Weber.. que se expressam na forma de usos. como se vê nos EUA. em toda espécie de probabilidade de exercer ‘poder’ ou ‘influência’ sobre outros homens. embora dispense coerções morais para operar com legitimidade. Edmundo Fernandes. III) O poder emerge de mandatos extra-econômicos. a particularidade e a generalização dos fatos sociais. analise as afirmativas: I) O poder decorrente de qualquer tipo ideal de dominação tem sempre um conteúdo que lhe atribui legitimidade.

36 que o executa. C) vincula-se a ações totalmente irracionais. uma orientação consciente dos agentes quanto aos meios e fins. O motivo era simples: para o espiritismo kardecista não existe luto. a explicação sociológica busca compreender os sentidos. Músicas e roupas alegres. a morte de Chico Xavier não deveria ser lamentada. B) está mais próximo das ações racionais. aparentemente incompatível com um acontecimento fúnebre. implicando. sendo a morte vista apenas como mais uma etapa cumprida num longo processo de aperfeiçoamento do espírito. naturalmente. Por isso. Texto adaptado da Revista IstoÉ. e. o famoso médium Chico Xavier. sempre e unicamente. seu caráter social. deram ao velório um clima de festa. . considerando tais acontecimentos dotados de sentido. por suas crenças na reencarnação e na comunicação com os espíritos. A) A dominação legal-racional fundamenta-se na crença dos indivíduos acerca da validade de um dado instrumento normativo. D) Para Max Weber. a maioria delas. independentemente dos seus resultados. por suas esperanças em curas extraordinárias. de 10 de julho de 2002. Seu velório atraiu nada menos que 100 mil pessoas. de acordo com a teoria de Max Weber e. o desenvolvimento e os efeitos da conduta de um ou mais indivíduos em relação a outros. implicando reações desenfreadas a estímulos não-cotidianos. predominando reações surdas a estímulos habituais. por seus valores éticos. independentemente de fins conscientes. não se propondo a julgar a validez da ação dos sujeitos. apesar de sentida. D) vincula-se a ações racionais. coloridas. QUESTÃO 60 (Julho 2003) Assinale a alternativa que corresponde à formulação de Max Weber acerca dos chamados tipos puros de dominação legítima. predominando uma orientação consciente dos agentes. orientando seu próprio comportamento. por seus laços afetivos com o grande líder religioso. QUESTÃO 56 (Julho 2003) No dia 30 de junho de 2002 – mesmo dia em que a seleção brasileira de futebol conquistou o tetra . movidas.morria em Uberaba. no Triângulo Mineiro. pode-se afirmar que esse sentido: A) está mais próximo das ações irracionais. ou seja. como a caridade. independentemente de fins conscientes. tendo em vista a ação de outros sujeitos conhecidos ou desconhecidos. Analisando os acontecimentos descritos.

estabelecendo-se. A) Define-se pelo meio que lhe é próprio. B) a vida social é resultado de um conjunto de ações individuais orientadas a um determinado fim e reciprocamente referidas. reciprocamente referidas de forma a estabelecer relações sociais. uma vez que assegura aos investimentos privados um ambiente mais propício ao lucro desejado. em patamar superior. D) a vida social é resultado de um conjunto de ações coletivas. assim. C) É a expressão político-institucional dos antagonismos entre as classes sociais. que a estes se impõe também pela educação. ou seja. D) É o produto de processos sociais coercitivos e externos aos indivíduos. é INCORRETO afirmar que: . D) A dominação carismática realiza.B) A dominação carismática articula-se à motivação que os indivíduos têm com vistas à obtenção de determinados fins para suas ações sociais. orientando-se pela própria ação e estabelecendo relações sociais significativas. assinale a alternativa correta. cuja função é a de preservar a sociedade de crises em que a coesão esteja ameaçada. QUESTÃO 57 (Julho 2005) Quanto à definição weberiana de Estado. B) Corresponde a uma autoridade moral. 37 QUESTÃO 54 (Julho 2006) Quanto às análises weberianas sobre o desencantamento do mundo e o processo de secularização. as relações sociais. QUESTÃO 53 (Julho 2005) Segundo Weber é correto afirmar que: A) a ação social é qualquer ação que o grupo social pratica. C) A dominação tradicional é a mais apropriada à sociedade capitalista e está presente nas empresas e nos órgãos governamentais. o espírito do capitalismo. o monopólio considerado legítimo do recurso à força. C) toda ação social está condicionada por idéias de valores que são fenômenos histórico-material.

QUESTÃO 57 (Julho 2006) Sobre a ética do trabalho. [“.1989. culminaria no capitalismo de tipo moderno.. São Paulo: Livraria Pioneira Editora. p. o processo de racionalização do mundo e as religiões de salvação. é correto afirmar que A) o estilo de vida normativo. embora dependa parcialmente da técnica e do direito racional. assinale a alternativa correta. 6 ed. e os ideais éticos de dever deles decorrentes.. sempre estiveram no passado entre os mais importantes elementos formativos da conduta. levando ao desenvolvimento deste último no Ocidente.. A) Coube às éticas religiosas do confucionismo (China) e hinduísmo (Índia) redefinirem o padrão das relações econômicas que. é ao mesmo tempo determinado pela capacidade e disposição dos homens em adotar certos tipos de conduta racional. A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo.. fundada no trabalho. que possibilitou o desenvolvimento deste último no Ocidente. C) há uma relação causal entre a ética racional protestante. fundada na contemplação. e o espírito do capitalismo.] Ora. por exemplo) quanto à ciência e à tecnologia. B) há uma relação impositiva entre a ética protestante e o espírito do capitalismo no sentido do desenvolvimento da moderna economia burguesa.] o racionalismo econômico. possibilitou o desenvolvimento da mentalidade econômica burguesa no Ocidente.. D) há uma relação causal entre o desenvolvimento da ética religiosa protestante. as forças mágicas e religiosas. Max. conforme a sociologia de Max Weber.A) a secularização diz respeito tanto à expropriação dos bens eclesiásticos quanto ao desencantamento do mundo. e o espírito do capitalismo. QUESTÃO 54 (Julho 2007) Considere a citação.” WEBER. A respeito das relações de causalidade que o sociólogo Max Weber propõe entre as origens do capitalismo moderno. B) a perspectiva de Max Weber é evolucionista e prevê o fim da religião em uma sociedade moderna. C) a decadência do poder hierocrático seria um sentido forte da secularização. D) o desencantamento do mundo refere-se tanto à desmagificação via religião ética (os profetas. 11. a partir do século XVI. “[. . com base na ética religiosa católica.

1991. 28 ed. cujas prescrições de conduta se revelaram condição imprescindível para o desenvolvimento e consolidação das relações capitalistas modernas. para Weber. 66. A respeito das contribuições de Weber acerca dos conceitos de poder e dominação.B) As seitas protestantes que floresceram nas sociedades orientais. C) A transição de uma ordem política patrimonial-tradicional para uma ordem burocrático-legal é acompanhada por uma consolidação do tipo de dominação carismática. . C) A partir de sua doutrina da predestinação. o calvinismo foi responsável pela introdução de um padrão ético que.. Martins afirma que: “A obra de Weber representou uma inegável contribuição à pesquisa sociológica. p. como o direito. a política. a música. D) O processo de encantamento do mundo (irracionalização do conhecimento e das relações cotidianas) encontra-se na base da ética protestante. dominação é a probabilidade de encontrar obediência a uma ordem de determinado conteúdo. a história. de modo destacado. a partir do século XVI. China e Índia no cenário econômico internacional que se seguiu à Revolução Industrial. a religião. O Que é Sociologia? São Paulo: Editora Brasiliense. contribuiu de maneira inédita para o desenvolvimento das relações capitalistas modernas. são responsáveis pela prematura posição de destaque do Japão. B) Há. a economia. em 38 detrimento de estatutos impessoalmente estabelecidos. ao estimular a racionalização da conduta cotidiana de seus fiéis. assinale a alternativa correta. Seus trabalhos sobre a burocracia tornaram-no um dos grandes analistas deste fenômeno.” MARTINS. abrangendo os mais variados temas. a arte. QUESTÃO 57 (Julho 2007) Sobre o legado do pensamento científico de Max Weber. a carismática (típica das sociedades tradicionais) e a legal-racional (típica das sociedades modernas). quais sejam. não mais que dois tipos puros de dominação. Carlos B. D) A dominação legal-racional dá-se por meio da obediência do quadro administrativo à pessoa do senhor. mesmo contra resistências. considerada legítima. A) Ao passo que poder é toda probabilidade de impor a própria vontade numa relação social. Carlos B.

A Experiência Genética” (Gattaca). irremediavelmente. Marit Pia Jacobsen. pela sinopse. fazendo com que o público acabe torcendo por eles. “Uns filmes gostosos de assistir. duração: 90 min gênero: Drama status: Inéditos Sinopse Elling (Per Christian Ellefsen). daqueles que levantam seu astral após a sessão. a expressão das classes sociais em luta. A) O indivíduo age socialmente.QUESTÃO 42 (Março 2002) Segundo as concepções de indivíduo e de sociedade na sociologia de Max Weber. sendo. podendo estar relacionadas ou a uma tradição. O filme possui um ritmo ágil e divertido. principalmente o ator que interpreta Elling. ainda. passou os últimos dois anos em um hospital psiquiátrico. mas sempre a partir de uma situação dada. Um programa de socialização faz com que ele surpreendente. Sugestões de Filmes Parte superior do formulário Parte inferior do formulário Elling 2010-05-22 Francisco título original: (Elling) lançamento: 2001 (Noruega) direção:Petter Nass atores:Per Christian Ellefsen. Jorgen Langhelle. C) O gênero humano é. onde foi internado após a morte da mãe. ou a uma devoção afetiva ou. a uma racionalidade. A dupla protagonista brilha em cena. na verdade. D) O Estado capitalista nada tem a ver com as escolhas que os indivíduos fazem a partir das motivações que possuem. que arranca boas gargalhadas do público. um ser social. um homem de 40 anos com problemas mentais. Sven Nordin. Confesso que. esperava que "Elling" fosse um daqueles dramalhões que a Academia tanto adora. condição expressa pelo fato dos homens e mulheres fazerem a história. Ledo engano. B) A sociedade se opõe aos indivíduos. assinale a alternativa correta.” “ Gattaca . como força exterior a eles. razão pela qual os indivíduos refletem as normas sociais vigentes. de acordo com as motivações e escolhas que possui e faz. de Andrew Niccol (1997) .

de Fritz Lang. que é a própria racionalidade da sociedade moderna. “IA . o gênero Science Fiction (SF) tende a se confundir com outros gêneros fílmicos. Temas-chave: técnica e tecnologia.Inteligência Artificial”. Na verdade. | Análise do Filme Annette Kuhn. a Comédia ou Horror. ecossistema social e contradições do capital. 1990). como a tecnologia perpassa os mais diversos aspectos da vida cotidiana moderna. principalmente em se tratando de um filme SF. onde predomina a divisão hierárquica do trabalho e a propriedade privada. “2001-Uma Odisséia no Espaço”. Robô”. “Matrix”. em seu livro Alien Zone: Cultural Theory and Contemporary Science Fiction Cinema (Verso. subsiste velhos valores estranhados e sociabilidades corrompidas pela lógica do | |capital.Filmes relacionados: “Blade Runner”. no caso do filme SF. É claro que. “Metropólis”. sem dissolver sua linha argumentativa (que incorpora outras textualidades). . como. O que acontece é que. tal avanço da| |ciência genética se traduz em possibilidades concretas de incremento do controle social estranhado. Ou seja. observa que uma das características do cinema de ficção-científica é a sua intertextualidade. de Steven Spielberg. o Policial. a trama filmica se constitui em função de uma determinada racionalidade tecnológica. dos Irmãos Wachowski. Estamos diante de uma visceral contradição entre as imensas | |potencilaidades de desenvolvimento humano-genérico e da plena socialização da sociedade humana. O que poderia significar essa intertextualidade do gênero Science Fiction? Ela é característica peculiar de um gênero fílmico (o de ficção-científica) que constitui sua trama narrativa a partir de uma determinada racionalidade (a racionalidade tecnológica). Nesse caso. o capital tende a se apropriar do | |desenvolvimento das forças produtivas sociais para aprofundar seu controle de classe. “Eu. estruturando-o. identidade e memória | |social. e a aguda vigência de determinações de controle social | |estranhado e de exploração de classe. capital e processo civilizatório. ela não poderia deixar de estar no centro estruturante da trama filmica. nas condições de uma sociedade de classes. de Alex Proyas. Neste caso. a técnica e a tecnologia pulam adiante do argumento dramático. por exemplo. de Ridley Scott. | |de Stanley Kubrick. Ao lado do admirável mundo novo.|Eixo Temático | | O desenvolvimento das técnicas de manipulação genética decorrem do desenvolvimento das forças produtivas do trabalho social e da redução das barreiras | |naturais.

Vincent é um jovem ambicioso. Apesar de ser um filme de ficção-científica deixa claro sua intertextualidade. os “de baixo” apelam para fraudes sutis. os “filhos de Deus”. No desenrolar da trama. a trama de Gattaca sugere um drama familiar. todo o suspense se concentra no personagem Vincent Freeman. mais uma vez. em virtude de um acidente. de Andrew Niccol (1997) é um caso exemplar. produto de um planejamento genético quase perfeito. literalmente. que descobre a verdadeira personalidade de Jerome e ameaça denuncia-lo. como a atitude . No final. que almeja ir além do seu destino genético e decide assumir a personalidade de Jerome Morrow. outro. de Gattaca (representado pelo escritor Gore Vidal. nascido do acaso da Natureza. “homem livre”). submetidos ao acaso da Natureza e às impurezas genéticas. de Elia Kazan (com James Dean). assistimos a um jogo de ambição e fraude. Utilizando os serviços clandestinos de um “pirata genético”. Vincent clona os registros genéticos de Jerome. seja a de Vincent para ter acesso à corporação Gattaca e realizar seu sonho de tornar-se astronauta. a rivalidade entre irmãos (que é. produtos da engenharia genética e da eugenia social. Sua ambição é driblar as restrições de classe e se integrar na elite intelectual e moral de Gattaca e realizar seu maior sonho: ir para o planeta Titã. que hoje estão se tornando realidade pelos avanços da engenharia genética e da biologia molecular. a espécie humana continua a mesma: dividida em classes sociais e se utilizando de subterfúgios escusos e clandestinos para atingir seus interesses egoístas. de agudo cariz regressivo. A partir de um certo momento. seu irmão Anton. satélite de Júpiter (seria uma alegoria de fuga do sistema do capital. Numa sociedade de controle social quase-absoluto. como forma de resistência individual ao totalitarismo do destino genético. Gattaca retrata uma sociedade de classe cuja técnica de manipulação do código genético tornou-se prática cotidiana de controle social. um Inválido condenado 39 pelo seu código genético a tarefas degradantes (Freeman significa. ou do diretor Josef. clandestinas. no estilo de East of Eden. O que se observa é que o tema da técnica de manipulação genética perpassa todo o drama policial (e familiar) de Gattaca. um Válido que. “filho de Deus”. Torna-se claro. que assassina outro diretor num jogo de poder. no filme. ficou paralítico. pode-se perceber certa solidariedade entre os “de baixo”. Nesse ambiente de resistência individual. os “filhos da Ciência”. Apesar do mais alto controle social garantido pelo registro genético. Ao lado dos mais sofisticados recursos de manipulação genética. tal como um "retorno ao útero materno"?). quando Vincent encontra em Gattaca.O filme Gattaca – A Experiência Genética. e os Inválidos. cabe salientar): um. A sociedade de Gattaca está dividida em duas “classes sociais”. num papel especial). os Válidos. a transfiguração de uma rivalidade de classe. Gattaca parece se tornar um filme policial ou de suspense quando a trama narrativa se desloca para a busca do assassino de um dos diretores da corporação Gattaca.

que . o diretor e roteirista Andrew Niccol sugere uma “natureza humana” recalcitrante às imposições sistêmicas. graças ao avanço da técnica. mas o final não é propriamente um final feliz. de uma “grade”. É um destino genético produzido pelo homem. mas a forma social que a desenvolve e se apropria dela. guardiães da Ordem genético-fascista da sociedade de Gattaca. Não podemos culpar a técnica em si. ou sim. A luta de Vincent não é apenas contra o Sistema de Gattaca. numa certa passagem do filme. que aparentam certa simpatia pelos ideais transgressores de Vincent/Jerome. contra seus fluidos e restos corporais capazes de denúncia-lo como Inválido. com o desenvolvimento da técnica. Contra a técnica que supostamente desumaniza o homem. atingindo o próprio ser orgânico do homem. mesmo entre os Válidos existe uma certa hierarquia de classe . tende a tornar-se uma “segunda natureza”. na medida em que é produto de um afastamento das barreiras naturais – o domínio do código da vida . e não um registro genético capaz de denunciar a identidade de classe das pessoas. no sentido clássico. tende a incorporar novas determinações de poder e de controle cada vez mais rígidas e com um lastro natural (pode-se. A sua luta é contra o destino de classe – ou casta? . o filme expõe as falhas irremediáveis de Gattaca e do seu sistema de controle. agora representado pelos imperativos categóricos da eugenia social. considerar mesmo uma divisão de classe. Gattaca sugere o dualismo Acaso (ligado a “primeira natureza”) versus Planejamento (imperativo da “segunda natureza”). já desumanizado pelo capital. a atitude arrogante do verdadeiro Jerome diante de um policial que o interroga. O filme se passa na corporação Gattaca. nesse caso. E Vincent representa o herói americano – um anti-herói ao estilo de Charles Chaplin? . produzida pela manipulação técnica. objeto de uma rede controlativa. certa nostalgia de um passado distante em que um fio de cabelo era apenas um fio de cabelo (ou uma mera lembrança afetiva). Apesar disso.numa sociedade de classe. A ambição individualista de Vincent é que conduz a trama. antes de tudo. talvez uma nova forma de ciberespaço. sejam da classe dos Inválidos. Mas apesar do clima totalitário. apesar do drama possuir.que comete suicido se incinerando num auto-forno no exato momento em que Vincent parte para Titã. A sociedade do capital.condescendente do faxineiro Caesar (representado por Ernest Borgnine) ou pelo médico Lamar. mas poderia se passar num Campo de Concentração ou numa sociedade totalitária qualquer. conteúdo de classe. mas contra si mesmo.em sua luta contra o sistema. pelo estigma do destino genético. bem ao estilo das sociedades tradicionais?). uma divisão em casta ou de acordo com o sangue. O destino trágico do verdadeiro Jerome. dividida em classe. na verdade. as saídas são individuais. A perspectiva do filme Gattaca é tipicamente americana.a não ser que os policiais. Na ótica do Cinema de Hollywood. Pode-se apreender no filme. não deixa de ser um protesto contra a sociedade de Gattaca. capaz de aprofundar o controle social do capital. Em Gattaca.agora demarcado. É contra essa “segunda natureza”. que Vincent se revolta e busca uma saída individual. sugere que. através de exame de DNA. baseada na divisão hierárquica do trabalho. mas que. os Condenados da Terra. É o estranhamento assumindo proporções abismais. os proletários seriam os Inválidos.

no sentido weberiano. uma alegoria da sociedade (pós)-moderna. E o sonho de Vincent (ir a lua Titã). Mas Adam não é um homem vulgar nem um doente comum. um homem que viveu o drama de ser judeu na Alemanha nazi e sobreviveu aos traumas dos campos de concentração. se auto-incinerar ou então viajar para Titã (se conseguir. A sua mente ficou afetada e agora está internado num hospital psiquiátrico. ou seja. para as pessoas.exclui como lixo humano todos os Inválidos. é claro. Seria a sociedade de Gattaca uma “gaiola de ferro”. sejam eles de nascimento. apresentar-se como um Válido) ? Giovanni Alves (2003) 40 Filme Adam: Memórias de Uma Guerra Gênero: Drama Ano de Lançamento: 2010 Formato: Avi Qualidade: DVDRip Idioma: Português | Inglês Legenda: S/L Tamanho: 814 MB Sinopse: Em Adam: Memórias de Uma Guerra a estranha história de Adam Stein. Foram levantados ainda o problema de pesquisa. as limitações e as delimitações do trabalho. inovações tecnológicas e desempenho produtivo No capítulo introdutório foram realizadas as primeiras observações sobre o tema a ser desenvolvido no trabalho. sejam eles por incapacidade adquirida. É como se o único herói do filme busca-se lá fora o sentido da vida. onde o tentam reconduzir a uma existência o mais normal possível para quem viveu os horrores do Holocausto. adaptar-se. uma sociedade de classe em que só restaria. . agora num sentido amplo. O Seu cérebro é demasiado inteligente para confundir os seus médicos e perceber o que está para além da realidade fundir os seus médicos e perceber o que está para além da realidade. os objetivos. Capitulo II Agropecuária brasileira. não deixa de ser singelo e desesperador.

pode-se afirmar que ela foi e ainda continua sendo de fundamental importância para a economia brasileira. A maior parte dos incentivos e políticas governamentais. a riqueza interna gerada pela indústria só se distancia da riqueza interna gerada pelo setor agropecuário no final da década de 50 ( Brum 1991). a borracha e o cacau foram os principais geradores de renda para o país no período de 1500 a 1930. este fato não significa que a agropecuária diminuiu sua importância para o desenvolvimento do país.2 Gráfico da participação percentual dos setores no PIB6 Atualmente. O financiamento desse crescimento é baseado na riqueza gerada pela agropecuária. através da geração de divisas pelas exportações de produtos agropecuários. a partir da década de 70. Figura 2. Ainda são apresentados. não diminui a sua importância como setor alavancador da economia.25. De acordo com Lima apud Rossi (1995). Como pode ser observado no gráfico da figura 2. caracterizada como modelo econômico primário-exportador. a indústria brasileira começa a desenvolver-se com maior intensidade. o setor de serviços e o setor industrial têm maior participação na geração da renda interna (cerca de 88 %). Também é destacada a importância da agropecuária para a economia brasileira. 2. a agropecuária sempre teve um papel de destaque na economia brasileira. O fato da agropecuária ter uma menor participação na formação do PIB. Pode-se dizer que produtos agrícolas como o pau-Brasil (extrativismo). o café. passando este último a ganhar cada vez mais destaque na economia brasileira. até os dias atuais. em detrimento da agropecuária. produção de insumos e máquinas. sendo que ela foi e ainda continua sendo de fundamental importância para a geração de riquezas e o aumento do bem-estar social. o fumo. com relação aos outros setores (indústria e serviços). bem como o processo de modernização pelo qual ela passou. Nesta fase. de lá para cá.1 Gráfico dos produtos de maior importância econômica para o Brasil. . 1997).1. os estudos relacionados ao tema produtividade e agropecuária brasileira. a industrialização e a distribuição da produção do setor agropecuário.Este capítulo apresenta a evolução histórica da agropecuária brasileira desde a colonização até os dias atuais. o algodão. Figura 2. a cana-de-açúcar. e principalmente após a década de 30. O setor agropecuário continua sendo a base para o bom desempenho do complexo agro-industrial que envolve toda a produção agrícola e pecuária. como pode ser visto no gráfico da Figura 2. cabendo apenas 12 % ao setor agropecuário (Mueller. no período observado4 A partir de 1920. esteve voltada para o desenvolvimento da indústria. o complexo agro-industrial corresponde cerca de 40% do PIB e. Entretanto. Ao contrário. quase todos os outros bens de consumo que não eram produzidos internamente dependiam da renda gerada pela exportação dos produtos agropecuários para serem adquiridos3.1 Evolução histórica da agropecuária brasileira Desde o início da colonização. pelo fornecimento de insumos às agro-industrias e pela produção de alimentos às pessoas que vivem nas cidades. Mesmo assim. no segundo capítulo. em 1960 a renda gerada pelo setor agropecuário já é menor que a produzida pelo setor industrial.

no outro. O desenvolvimento de pólos regionais proporcionado pelo agronegócio foi destacado por Neto e Edward (1999). A primeira forma de expansão da produção pode ser viável no Brasil pela disponibilidade de áreas. deixa de produzir alimentos e passa a requerer que a população restante no campo a alimente nas cidades. Este crescimento é reflexo do aumento do setor industrial e do setor de serviços. 2. funcionando como descentralizadora dos investimentos nos grandes centros e promovedora do progresso no interior. Uma característica importante do complexo agro-industrial é a de que o processo de industrialização.3 Representação simplificada das relações do complexo agro-industrial Como pode-se notar. defensivos. ou seja. Esta expansão pode ser realizada basicamente de duas formas: em um caso pode-se optar pela expansão da fronteira agropecuária. Entretanto. O primeiro processo ou modelo A não tem ligação . Esta parte da população. ocorre em sua maioria no interior do país. se dá. segundo Alves e Contini (1988). que migra para as cidades. Em função destes fatos. basicamente. dentre outros.1 Necessidade de crescimento da produção e modelo de geração de tecnologias A partir da década de 40. tem-se uma elevação da demanda por produtos agropecuários. a partir dos anos 40. estas áreas se encontram longe dos grandes mercados consumidores. o modelo de produção agropecuária baseado no senso comum passa a ter dificuldades em atender às necessidades emergentes. o caminho a ser seguido requer a utilização de um maior nível tecnológico na produção. a partir dos anos 70. O fluxograma da Figura 2. Daí surge a necessidade de expansão da produção agropecuária para atender às necessidades emergentes. existem basicamente dois modelos ou processos para a geração de tecnologias. fertilizantes. bem como o caminho seguido. pois esta mudança estrutural na economia do país acarreta o deslocamento das pessoas do campo para a cidade. 40% das exportações brasileiras. Diante de tal questão.2. como máquinas. Figura 2. 2. Na área agropecuária. serão expostos a seguir. no caso brasileiro. que surgiu em correspondência com a transformação de uma economia puramente voltada à atividade primária para uma economia mais industrializada. A expansão da produção agropecuária brasileira. produtos químicos e sementes melhoradas). a utilização de insumos modernos e práticas adequadas ao cultivo. No caso da segunda forma de expansão da produção. exigindo investimentos em infra-estrutura. neste tipo de atividade. seria necessário a disponibilização de insumos modernos. onde se desenvolvem com grande rapidez os setores industrial e de serviços.2 Processo de modernização do setor agropecuário brasileiro Com a intensificação do crescimento dos setores industrial e de serviços. o setor agropecuário é a base para todo o complexo agro-industrial. através do aumento da utilização de insumos modernos (máquinas. As possibilidades para a modernização. surge a necessidade de novas opções para a modernização da produção agropecuária.aproximadamente. e com maior intensidade nas décadas seguintes. o setor urbano brasileiro intensifica o seu processo de expansão7.3 apresenta uma simplificação das inter-relações do complexo agro-industrial. Esse processo de modernização é apresentado a seguir.

Outra limitação desse modelo. que geram e difundem as inovações ou novos processos produtivos. com o decorrer do tempo. sementes geneticamente melhoradas. Eles adaptavam experiências trazidas de suas regiões de origem às regiões similares. o que acarretaria em pesados investimentos. neste caso. foi gerado em função do crescimento da população urbana que. Como o país vinha há séculos utilizando o modelo tradicional e este atendendo às necessidades.estrita com a pesquisa organizada. do início da colonização (1500) até os anos 50 deste século. principalmente. de exportação e de doenças. que anteriormente eram tecnicamente inviáveis para o cultivo e ainda contribuem para o melhor aproveitamento das atualmente exploradas. Como conseqüência. como. visando o aumento da produção. tanto pode ser feita pela iniciativa privada8. mal ou intensamente utilizados. Estas inovações são o que freqüentemente chamam-se de insumos modernos. aumentou intensamente e causou uma maior pressão na demanda por alimentos. Este fato aconteceu. pelo cultivo específico de uma ou de poucas culturas. que passar-se-á a expor. apesar de gerarem outros desequilíbrios. necessitando. sempre existirá. por exemplo. resistentes a doenças e com capacidade de adaptação a condições ambientais adversas à sua origem. quanto por entidades públicas9. para a geração de conhecimentos. Esse fato se dá devido a pouca ou nenhuma utilização de insumos modernos ou das práticas adequadas de manejo integrado dos solos. a busca de novas fronteiras. A capacidade do aumento progressivo da produtividade. 25% do território brasileiro. No caso brasileiro. neste modelo. Dentre eles estão os defensivos capazes de controlar os desequilíbrios provocados na flora. por parte dos agropecuaristas. ocorre quando o ambiente de atuação agropecuária não permite a plena aplicação dos conhecimentos dos agropecuaristas. A partir da década de 50 ele começa a entrar em crise. É o caso de fronteiras agropecuárias como o Cerrado. . em Estados localizados no sul do Brasil. O conhecimento é desenvolvido pelos próprios agropecuáristas. Como se pode observar. a partir dos anos 50. O modelo baseado no senso comum foi predominante na agropecuária brasileira. da geração de conhecimentos específicos àquele meio ambiente a ser explorado. máquinas adequadas às culturas. para mudar do modelo A para o modelo B. A necessidade da manutenção e ampliação das exportações agropecuárias era indispensável para a manutenção do equilíbrio no Balanço de Pagamentos. os imigrantes europeus e japoneses tiveram papel fundamental na geração e difusão do conhecimento. O outro processo ou modelo B é o que está baseado na pesquisa científica. e os conhecimentos são repassados através das gerações. pois possibilitam a conquista de novas fronteiras. adubos capazes de corrigirem deficiências nutricionais dos solos. o processo de geração do conhecimento científico é baseado na existência de instituições especializadas. Esta pesquisa. Como se pode notar. abrindo espaço para a expansão da outra forma de geração de tecnologia. como o cerrado brasileiro. e a Amazônia. práticas adequadas de uso do solos e formas de controle biológico10. Todos esses recursos facilitam o atendimento das necessidades emergentes. a provável forma de transformação do modelo tradicional para o modelo de base científica seria através de insuficiência de atendimento das necessidades do país pelo modelo clássico. não conseguindo recuperar o desgaste de solos. é necessária uma profunda transformação na infra-estrutura de base do setor agropecuário brasileiro. na base da tentativa e erro. Desta forma. devido ao processo de industrialização. com o aprofundamento das crises como a de abastecimento. é praticamente inexistente. onde uma exploração agropecuária adequada deve suceder em moldes diferentes daqueles trazidos pelos imigrantes. O problema de abastecimento. como descrito há pouco.

existiam outros fatores. Essa corrente também dava ênfase à grande disponibilidade de terra e mão-de-obra como fator inibidor das inovações. as inovações foram retardadas por fatores como a estrutura agrária. não consideravam fundamental a criação de uma estrutura agrária adequada à absorção destas novas tecnologias. Teóricos neoclássicos como Schuh e Nicholls apud Santos (1988) atribuem a baixa produtividade da agropecuária ao reduzido nível de tecnificação utilizado pelos agropecuaristas. segundo esta corrente. . quando muitas políticas foram realmente direcionadas para o aumento do nível tecnológico do setor. insumos modernos. Do início da colonização até a década de 50 deste século. o processo de modernização só foi consolidado com maior intensidade a partir de 1970. destinando sua produção quase que exclusivamente ao atendimento das próprias necessidades (Santos. com pouca aplicação de tecnologia. 2. a exploração agropecuária ocorreu de modo praticamente artesanal. Pois. que poderiam impedir o desenvolvimento e a implementação de novos processos produtivos na agropecuária. ou por extensos latifúndios desinteressados em inovações. Por outro lado. Esse processo é que será discutido no próximo item do capítulo. Pode-se considerar que existiam duas correntes teóricas tentando explicar esta falta de crescimento da produtividade. de latifúndios despreocupados com a maximização dos lucros e por minifúndios. de acordo com os autores. da agropecuária brasileira: a neoclássica e a estruturalista. disponibilização de mão-deobra e terra. não existia uma classe dinâmica na agropecuária que ansiasse por inovações. que possibilitassem o aumento da produção por espaço de terra e ainda a conquista de fronteiras antes tecnologicamente inacessíveis.Algumas doenças passaram a ameaçar a produção de culturas importantes como o cacau. Essas questões estavam relacionadas à própria estrutura agrária brasileira. Conforme apresentado. por parte do governo. era composta. A segunda sugeria a inadequada estrutura de distribuição de terra como fator limitante à modernização. exigindo que a pesquisa apresentasse resposta a elas (Alves e Contini. Devido a isto. Eles também reconhecem que a disponibilização destes insumos exigiria uma política de incentivos e investimentos pesados. A sua estrutura agrária ainda continuava constituída. em sua maioria. Estes autores. como a de preços mínimos e subsídios para a disponibilização de insumos modernos. Apesar dessa oportunidade. 1988). nos anos 50 e 60. como destaca Santos (1988). que. a agropecuária sempre teve papel de destaque na economia brasileira. na criação da infra-estrutura. a agropecuária brasileira até meados dos anos 60 não apresentava sinais significativos de utilização de insumos industriais ou de processos produtivos adequados às suas condições edafo-climáticas.2. A primeira sugere que o problema estava relacionado à falta de políticas adequadas ao setor. A partir dos anos 50. 1988).2 Políticas para a modernização da agropecuária brasileira Como enfatizado anteriormente. por outro lado. que apenas se aproveitavam da disponibilidade de mão-de-obra e terra. cria-se espaço para a modernização. que levassem ao progresso técnico. Estes fatores mencionados pressionavam a implementação de mudanças estruturais na agropecuária. em grande parte. em função das crises. ou por minifúndios que "não estavam interessados no mercado". onde os agropecuaristas estavam muito mais preocupados com o atendimento de suas necessidades do que com o mercado. faltavam mecanismos que facilitassem o acesso dos agropecuaristas aos meios. pois. ou de modernização.

por outro lado. E os que existiam apresentavam um nível de desenvolvimento muito primitivo. o fator limitante à expansão de tecnologias modernas que proporcionassem o aumento de produtividade da agropecuária. do Mato Grosso do Sul e Goiás. Em decorrência deste modo de exploração agropecuária. Por outro lado. em termos de distribuição de terras. Apenas os grandes e médios produtores é que poderiam se beneficiar destas políticas. Assim sendo. E viabiliza-se o cultivo de culturas . Deste modo. que seriam os únicos em condições de se adequarem ao processo de inovação. a necessidade de investimentos elevados para a utilização de novos processos produtivos que possibilitassem a expansão da produção agropecuária. Apesar de não contribuírem para o progresso técnico. Em decorrência deste fator. Surgia. que privilegiou as políticas de disponibilização de terras e mão-de-obra11 a grandes empresas agropecuárias. o processo de modernização da agropecuária brasileira ocorrido a partir dos anos 60 foi moldado segundo a estrutura agrária. inicia-se a ampliação do uso da mecanização. Essa corrente considerava a não utilização do capital. o progresso tecnológico nos meios de transporte evitava aumentos expressivos dos preços devido à fronteira agropecuária estar se tornando cada vez mais distante dos centros de consumo. Diante disto. como a do Paraná. torna-se possível a utilização de áreas de grandes dimensões em uma mesma propriedade. terras férteis disponíveis e ainda não utilizadas. pode-se afirmar com bastante precisão que. então. 1988) A partir de 1965. não foi desenvolvida. Deste modo. terra e trabalho uma saída inteligente. e que. como Furtado apud Santos (1988). a infra-estrutura rural. E isso não seria possível utilizando-se apenas os instrumentos já existentes. dentro das propriedades agropecuárias. como a melhoria da estrutura agrária. Já o preço da mão-de-obra era mantido estável tendo em vista o deslocamento das populações marginais do Rio Grande do Sul e do Nordeste para estas regiões. Deste modo. de adubos. como preço mínimo. e a utilização de fatores abundantes. estas políticas que facilitavam a disponibilização dos insumos tradicionais. terra e trabalho. à agropecuária eram consideradas racionais pelos autores neoclássicos. A disponibilização destes fatores era corroborada pela expansão de fronteiras férteis. Por outro lado. Nota-se que as políticas sugeridas eram de curto prazo. para explicar a falta de modernização da agropecuária brasileira. na maioria dos Estados brasileiros. já que a adoção de inovações técnicas era economicamente inviável. o modelo de inovação induzida de Hayami e Ruttan apud Santos (1988). até 1975. fator escasso. as políticas que visavam o aumento da produtividade rural ficaram atreladas aos grandes e médios produtores. autores estruturalistas. Esta corrente se baseia no processo de formação da estrutura agrária brasileira. crédito e assistência técnica. A partir destas condições descritas. os caminhos da modernização não visavam o longo prazo. não existia uma classe dinâmica de pequenos produtores capaz de absorver inovações tecnológicas. Como foi apresentado. parece ficar evidente a necessidade de aumentar os índices de produtividade da agropecuária.O atraso técnico e a falta de infra-estrutura moderna de apoio ao setor agropecuário eram explicados pela abundância de terra e mão-de-obra verificadas até meados dos anos 60. via utilização de fortes subsídios. encontram. os autores consideram útil. existiam. (Santos. de defensivos agrícolas e de outros insumos. dificultou o acesso de terras a pequenos colonos à não modernização da agropecuária brasileira. na estrutura de distribuição da terra.

Neste caso. sendo alguns deles proporcionados pelo II PND (Plano Nacional de Desenvolvimento.664 unidades. realizado por Barros e Manoel (1988). como observado por Monteiro (1985). em que os processos produtivos da agropecuária eram voltados ao uso intensivo de insumos industriais. o desenvolvimento da agropecuária foi atrapalhado. a agropecuária participaria com a exportação de produtos.775 e em 1995 salta para 52. fungicidas e herbicidas). pois passava a demandar insumos industriais em escala. e mais intensivamente a partir da década de 70. segundo os autores. desde a colonização do país até meados dos anos 60. econômicas. Em outras palavras. Estes fatores estavam relacionados à disponibilização da mão-de-obra e com a viabilização da utilização de terras por grandes empresas. Deste modo. Quando se iniciou o processo de modernização. para entrar em uma era de incentivos às exportações. no mesmo período. devido ao incentivo à produção interna.995 e 9. que era de 630. Esse período ficou conhecido como "revolução verde". observa-se que em 1974 eram consumidos internamente 5 vezes mais tratores do que em 1969. pode-se verificar que houve uma intensificação no uso de insumos modernos. Outro fator que influenciou a modernização da agropecuária brasileira foi a saída gradativa de um período de substituição de importações. existe uma queda no consumo de defensivos no período14.080. o caso do consumo aparente de fertilizantes. esse foi exógeno à agropecuária. Entretanto é importante observar que o Brasil é muito grande e possui diferenças estruturais. Um estudo sobre a utilização dos insumos modernos na agropecuária. apresentaram uma expansão até meados da década de 70. ocorre uma estabilidade no consumo. Estas diferenças. Na realidade. em 1974. para um mercado internacional exponencialmente crescente. ou até inferir que a agropecuária brasileira intensificou o processo de modernização a partir da década de 70.97513. auxiliando o crescimento do setor industrial. porém é interessante observar que a potência média dos tratores aumentou. No caso da venda doméstica de tratores agrícolas. salta para 1. com maior intensidade. e ainda incentivaria a expansão industrial interna. por Estados e regiões que possuíam as condições mais adequadas de assimilação das inovações . o consumo aparente de inseticidas e de fungicidas diminui entre 1974 e 1991 e o consumo de herbicidas aumenta. pelo governo. que se deu intensivamente até os anos 60.208. 45. dentre outras. O número de HP disponíveis em 1970 era de 7. por fatores relacionados às políticas dirigidas ao setor. o trigo.910. A partir daí.380 toneladas de ingrediente ativo em 1969. A modernização da agropecuária brasileira foi simultânea ao desenvolvimento de uma tendência mundial. o processo de modernização pode ter sido absorvido. como exemplo.que são comercializadas em larga escala. onde a agropecuária teria um papel importante. Como pôde-se notar. Os defensivos (inseticidas. o milho.636. influenciam a geração e a utilização dos novos processos produtivos. aliadas à ação de grupos de interesses.45612 unidades. 5 anos depois. sociais e edafo-climáticas entre seus Estados e regiões. como o soja. demonstra que estes se expandiram. e fruto da disponibilidade de pacotes tecnológicos do exterior e do apoio ao desenvolvimento do setor rural. principalmente. De forma agregada. Pode-se citar. de acordo com eles. a cana-de-açúcar. O consumo interno de tratores agrícolas em 1994 foi de 46.1974/1979).824. e em 1994 passa a ser de 5. a partir do final dos anos 60. um pouco superior a 1994. poupadores de terra e trabalho.959. respectivamente.

É importante salientar que alguns dos trabalhos não trataram diretamente sobre a questão de inovações e reflexos na produtividade. Diante desta questão. Entretanto. É bom enfatizar que a maioria dos estudos. podem ter participado com menor intensidade deste processo. alguns destes trabalhos que abordam a questão da mensuração da produtividade da agropecuária brasileira. o autor utilizou a produtividade da terra como indicador. alguns pesquisadores vêm desenvolvendo trabalhos visando a melhoria do dimensionamento das reais alterações de produtividade. Entretanto. estes utilizaram-se do tema produtividade e agropecuária. não devendo ter sido distribuído de modo uniforme no país. que trataram das relações entre o preço da cana-de-açúcar e a produtividade desta cultura no Estado do Rio de Janeiro.vindas do exterior e das desenvolvidas internamente. 2. Este problema persiste em todos os estudos que contemplam indicadores parciais em suas análises.3 Estudos relacionados à produtividade e à agropecuária brasileira Como se pôde observar. apesar das dificuldades estruturais.1 Estudos regionais relacionados à produtividade que utilizaram indicadores parciais Dentre os estudos regionais relacionados à produtividade. que se intensifica nos anos 70. pois eles utilizaram o rendimento por hectare como indicador de produtividade. Em seu estudo. Destacar-se-á. sendo que o aumento da produção por hectare poderia ser fruto do crescimento da utilização de outros insumos. não trata a produtividade em um sentido global. estava aumentando e que extratos muito grandes de terra apresentavam um menor rendimento. Os trabalhos que serão apresentados a seguir apontam deficiências similares. é fruto das crises que se iniciam nos anos 40 e 50. Frente a este fato. Estas alterações estavam relacionadas à expansão da utilização de insumos modernos. principalmente. Assim sendo. No próximo item serão apresentados os trabalhos relacionados ao tema. a partir da década de 70. Os autores concluíram que a produtividade da cana-de-açúcar era sensível ao aumento de preço da cultura.3. a produtividade poderia não estar aumentando. surge a necessidade de verificação das conseqüências no desempenho produtivo da agropecuária. pode-se destacar trabalhos como o de Pinazza e Noronha (1980). 2. Como se pode observar. Esses estudos consideraram a produtividade total dos fatores. . a agropecuária brasileira sofreu grandes mudanças. considerando apenas a produtividade parcial dos fatores. além de analisar somente casos regionais. foram desenvolvidos alguns estudos visando identificar alterações na produtividade da agropecuária brasileira. e concluiu que a produtividade do cacau. que provavelmente acarretariam modificações na produção e na produtividade da agropecuária brasileira. os Estados e regiões que não se moldavam às inovações. Também fica destacado que o processo de modernização. Frente às mudanças ocorridas no setor. o que os autores verificaram realmente foi que a produção por hectare estava crescendo em função do aumento do preço da cana-de-açúcar. sofre um processo de modernização. a agropecuária brasileira. Trevisam (1984) desenvolveu um estudo que trata sobre o relacionamento entre a estrutura fundiária e a produtividade alcançada pela cultura do cacau no Estado da Bahia. em geral. Recentemente. alguns trabalhos correlatos ao tema foram desenvolvidos. a seguir. Já em uma análise que leva em consideração indicadores globais.

Os autores utilizaram a produtividade da terra no auxílio à análise de desempenho. frente ao processo de modernização. Albuquerque e Nicol (1987) desenvolvem um trabalho fazendo comparações da produtividade da agricultura brasileira em relação à de outros países. pode-se estar incidindo no erro de superestimar ou subestimar os aumentos de produtividade. Os efeitos das políticas institucionais. O autor destaca o crescimento mais acentuado dos produtos destinados ao mercado externo. todos estes autores empregaram indicadores parciais de produtividade em suas análises. pode-se citar o de Kageyma e Silva (1983). que existiam grandes variações de produtividade entre as microregiões.3. 2. O objetivo dos autores era de conhecer os efeitos das condições climáticas adversas sobre a produtividade agrícola. Silva (1983) baseia-se em indicadores parciais para explicar o comportamento dos diferentes extratos de produtores que compõem esta estrutura. em relação aos produtos destinados ao mercado interno. Mello (1990) investiga o crescimento não desprezível da agricultura brasileira na década de 80 frente a fatores adversos. Os autores utilizam indicadores parciais de produtividade para realizar a análise. e o aumento das possibilidades da exploração do trabalho. como soja e laranja. O autor considera como indicador de produtividade a produção por área. no desempenho e na composição da produção agrícola paranaense. eles desenvolveram um modelo de análise baseado no índice da evolução da produtividade da terra de 1956 a 1983. As diferenças de produtividade da terra e do trabalho entre microregiões homogêneas da agropecuária paranaense. no período de 1975 a 1970. Para analisar o desempenho produtivo agropecuário de 332 microregiões do Brasil. Como se pode observar. Avaliando a agricultura brasileira frente à sua estrutura de produção. Foi verificado. Como já mencionado anteriormente. A seguir serão expostos estudos de âmbito nacional que são baseados em indicadores parciais. O autor usa indicadores parciais para comparar as diferentes regiões do Estado. como arroz e feijão. como o desempenho insatisfatório da economia e cortes de incentivos ao setor. com uma visão marxista. Eles usam conceitos parciais de produtividade do trabalho e da terra para analisar o aumento do progresso tecnológico e o aumento da produtividade agrícola. Caso isto ocorra. os indicadores parciais de produtividade não devem ser confundidos com a produtividade da agropecuária. neste trabalho. que. foi analisada por Guerreiro (1996). É ressaltado na análise que grande parte do crescimento ocorreu em função do aumento de produtividade.2 Estudos em âmbito nacional relacionados à produtividade e indicadores parciais Dentre os estudos voltados à análise da produtividade da agropecuária brasileira. foi estudado por Pereira e Lugnani (1991) e Pereira (1992).Silva et al (1985) estudaram os efeitos das condições do tempo sobre a produtividade agrícola no Estado de São Paulo. Hoffamann e Jamas (1990) se fundamentaram em indicadores parciais de produtividade da . Para alcançar tal objetivo. apesar de destacarem os limites desses indicadores. Os autores discutem o efeito do progresso técnico no crescimento da produtividade. se apoiam no aumento de produtividade para discutir a transformação do emprego na agricultura.

pode-se destacar o trabalho de Ávila e Evensom (1994). o qual. A partir desta taxa. Os preços dos produtos e dos insumos foram coletados dos Censos e de outras fontes secundárias. Na tentativa de minimizar a deficiência das medidas parciais. rações. Estes trabalhos serão analisados no próximo item. tratores. foram desenvolvidos alguns estudos que trataram a questão em um sentido mais amplo. ele conclui que o desempenho produtivo dos anos 80 foi um pouco superior do que o verificado no início da década seguinte. vacinas e medicamentos. principalmente a gerada pelo sistema EMBRAPA. significativa. apesar da melhoria. defensivos agrícolas. Os autores também pretendiam avaliar o papel da pesquisa agropecuária. que tinha como objetivo analisar as mudanças da produtividade na agropecuária brasileira durante o período de 1970 a 1985. requer. no terceiro capítulo. Desta forma. área utilizada para produção. conhecendo os limites dos indicadores parciais de produtividade. tentam apresentar um tratamento mais adequado à questão de mensuração da produtividade.3. Baseando-se em indicadores parciais. O autor ainda destaca que. . no geral. A produção considerada na análise foi composta pelos principais produtos da agropecuária brasileira. Como já evidenciado anteriormente. A taxa anual de crescimento da PTF encontrada foi de 2. os autores trabalharam com o valor agregado do trabalho na produção agropecuária. pretendia-se averiguar se os aumentos de produtividade poderiam ser explicados pelo desenvolvimento das pesquisas. Recentemente. Os autores desses trabalhos. A característica comum destes trabalhos apresentados é que em todos foram utilizados indicadores parciais de produtividade em suas análises para explicar alguma situação ocorrida na agropecuária brasileira. em seu cálculo. para o período de 1970 a 1985. Os índices de produtividade (PTF) foram construídos com base no índice de Tornqvist.3 Abordagens nacionais sobre a produtividade considerando indicadores PTF Os estudos relacionados à produtividade. os autores relacionam o crescimento da produtividade com a pesquisa agropecuária.terra e do trabalho. para encarar desafios da competição internacional. como a Fundação Getúlio Vargas (FGV). apontaram aumento de produtividade. nas alterações de produtividade. O estudo de Valente (1994) trata do desempenho da agricultura brasileira no período compreendido entre 1975 a 1993. considerando indicadores de PTF. apresentam resultados mais próximos da realidade. face à análise de ambientes complexos. Dentre estes. Os resultados demonstram que a pesquisa contribuiu para o crescimento da PTF. como mencionado. ainda é preciso ser mais produtivo. a utilização do preço de insumos e produtos como fator homogeneizador. principalmente a desenvolvida pelo sistema EMBRAPA15.45%. Diante da relevância do problema e da importância de uma análise mais acurada sobre a produtividade da agropecuária brasileira. alguns estudos nesse sentido vêm sendo desenvolvidos visando a análise das alterações da produtividade da agropecuária brasileira. fertilizantes. Os insumos utilizados eram: força de trabalho. e com o valor agregado por hectare cultivado. Os dados utilizados para a construção dos índices de produtividade foram extraídos dos censos agropecuários do IBGE. da produtividade da agricultura em relação a década de 70. os indicadores parciais de produtividade podem levar a resultados distorcidos. que consideram a PTF. 2. Os resultados. como é o caso do objeto de estudo.

como salientado no terceiro capítulo. se adotarmos os dados dos Censos deflacionados pelo Índice de Preços Recebidos pelos Agricultores (da FGV). Os autores fazem a seguinte colocação: " Assim. principalmente. Outro problema relacionado à utilização de preços está ligado a fatores conjunturais da economia. 1984)". Por exemplo. como a necessidade de utilização de preços dos produtos e insumos e o não detalhamento das causas das mudanças de produtividade. Os autores o iniciam destacando a importância do tema e a pequena quantidade de trabalhos direcionados à questão.0%. . é influenciada por fatores como a evolução tecnológica e as mudanças no indicador de eficiência. Entretanto. considerando a produtividade total dos fatores. Na seqüência. Tendo os autores do trabalho estas informações à disposição. representaria um aumento do valor total da produção em moeda nacional e. uma desvalorização cambial poderia representar um aumento do valor dos produtos relacionados ao mercado externo. em primeira instância. ou cresceu 25. tenhamos razões objetivas e fortes para rejeitar um ou outro resultado. desvalorização cambial. a análise pode ser prejudicada de algumas formas. eles criticam os indicadores parciais de produtividade e ressaltam o objetivo de avaliar a evolução da produtividade total dos fatores da agropecuária brasileira. Nesse caso. ao invés da produtividade parcial. conseqüentemente. 242. a produtividade é uma relação produto/insumo. pode interferir no resultado da análise. é importante observar que o índice de PTF. haveria um crescimento do índice de produtividade. No caso da utilização dos preços dos insumos e produtos. O indicador de produtividade utilizado não apresentava a possibilidade de desmembramento das mudanças de produtividade em mudanças tecnológica e alterações no indicador de eficiência. Desta forma. Como foi definido. como comentam Kageyama e Hoffmann (1984). para as alterações de tecnologia de produção. a análise de produtividade pode sofrer a influência de fatores econômicos. se nos reportamos aos dados das Contas Nacionais. uma relação física. as elevadas taxas de inflação deixam os resultados extremamente sensíveis à escolha de um deflator. No caso da utilização dos preços como fator do cálculo do índice de produtividade. por exemplo. sem que. a simples mudança da fonte de preço. Tendo que um fato econômico. tendem a apresentar resultados muito mais próximos da realidade. no caso. eles poderiam detalhar mais a análise. foi o de Gasques e Conceição (1997). Deste modo. ceteris paribus. ou seja. poderíamos concluir alternativamente que o valor agregado da agricultura brasileira entre 1975 e 1980 decresceu 3. ( Kageyama e Hoffmann.9%. Uma acontece quando está se estudando uma série temporal e o objeto de estudo. no período de 1976 – 1994. Outro trabalho que analisou a evolução da produtividade da agropecuária brasileira. Outra limitação dos indicadores de PTF utilizados pelos autores reside no fato de que a produtividade. Este fato não pode ser corrigido por uma simples correção de preços. relacionando o papel das pesquisas nas mudanças de tecnologia. também apresenta certas limitações.Como destacado por Gasques e Conceição (1997) os trabalhos que consideram a produtividade total dos fatores. passou por sérios problemas inflacionários no período da análise. a agropecuária brasileira. utilizado pelos autores. Neste trabalho também foram desenvolvidos os indicadores parciais da terra e do trabalho. ou dos deflatores utilizados. a pesquisa agropecuária vem a contribuir. como se está considerando o valor produção pelo valor dos insumos utilizados. fato este que poderia repercutir em aumento de produtividade sem que exista um real crescimento da relação produto/insumo. p.

obtidas na mesma fonte. entre 1986 e 1994.. essa queda pode ocorrer em função da redução do crescimento do progresso tecnológico na agropecuária. O período de 1976 a 1994 apresentou a taxa média de 3. Os índices médios de crescimento da PTF. segundo os autores. Como se observou. Os problemas relacionados ao estabelecimento de preços de certas variáveis da análise também ficam evidentes. O não conhecimento das causas das mudanças de produtividade também se faz presente neste trabalho. As terras utilizadas pela pecuária não foram consideradas devido à pequena quantidade de informações disponíveis.. na análise do trabalho anterior. E como se mencionou. O fator terra foi composto pela área de lavouras temporária e permanente. apresentarem resultados mais consistentes que os indicadores de PPF. pura e exclusivamente. entre 1976 e 1985.a. A obtenção do preço da terra se deu pela utilização do preço médio dos arrendamentos de terra para a lavoura. foram de 4. Os dados foram conseguidos junto às publicações Produção Agrícola Municipal (PAM) e Produção Pecuária Municipal (PPM) do IBGE. A agregação dos insumos e produtos. e dos produtos de origem animal. segundo eles. temporária e permanente. é evidente a dificuldade de obtenção dos preços de insumos importantes para a análise. "mesmo sem saber se este existe". o custo ou preço foi obtido pela multiplicação do ponto médio de cada classe de rendimento pelo número de pessoas ocupadas na classe de rendimentos. a mudança no indicador de eficiência também pode interferir no crescimento da produtividade. exibidos pela análise. sendo que os preços dos produtos foram obtidos junto ao IBGE e à FGV. frente à dificuldade de obtenção de informações. e os insumos intermediários: fertilizantes e defensivos. demonstram certo grau de preocupação com a tendência de crescimento a taxas decrescentes. ou seja. foi a forma mais viável de cálculo do preço da mão-de-obra. ainda persistem os problemas relacionados à utilização de preços dos produtos e insumos.88% a.O produto utilizado na análise foi obtido através da agregação das lavouras. conforme os autores. o que é preocupante devido a mesma ainda não se encontrar em um patamar elevado de utilização de tecnologias. sendo que os autores atribuem as causas do aumento de produtividade. apesar dos indicadores de PTF. Os insumos considerados na análise foram mão-de-obra.a.a. e de 3. Os autores. utilizados pelos autores. No caso da mão-de-obra. Essa. Os insumos fertilizantes e defensivos têm seus preços facilmente encontrados no mercado. A quantidade de máquinas.11% a. refere-se ao número de unidades vendidas. Todos os dados foram obtidos com periodicidade anual. diante dos resultados. ao progresso técnico. já que os pesos das variáveis que são obtidos através dos preços podem não estar sendo representados da melhor . por sua vez. máquinas e terra. A metodologia utilizada para o cálculo dos indicadores de produtividade total dos fatores foi a mesma utilizada por Ávila e Evenson (1994). Como destacado há pouco. sendo as informações encontradas na PAM. que foi apresentada pela agropecuária brasileira. os autores basearam seus indicadores no índice de Tornqvist. Fato que pode levar a sérias distorções nos resultados. pois. A alternativa encontrada pelos autores foi utilizar as informações sobre o faturamento líquido definido pela Associação Nacional de Veículos Automotores (ANFAVEA) como sendo a soma das vendas de máquinas e peças de reposição. ocorre por intermédio dos preços das variáveis. publicado pela FGV.5% a. As informações relativas ao preço das máquinas também apresentaram dificuldades de quantificação..

era impossível usar mais de um insumo ou mais de um agregado de insumos. A Agropecuária no Brasil A atividade da agropecuária pertence ao setor primário da economia. Apesar de não ser mais a atividade de maior importância na economia brasileira continua se destacando pela significativa participação em nosso comércio exterior. bem como a sua importância para a economia brasileira. 2. trabalhando com um agregado de produtos e um agregado de insumos.4 Considerações finais Neste capítulo foi apresentada uma síntese da evolução histórica da agropecuária brasileira. É interessante salientar que os trabalhos apresentados utilizaram indicadores de PTF. pois poderiam ser utilizados agregados de produtos ou insumos similares. foram exibidos os estudos relacionados à produtividade e ao setor agropecuário e as limitações apresentadas por estes. Encontramos vários tipos de solos no país. Posteriormente. No próximo capítulo serão apresentadas as considerações teóricas sobre produtividade e evolução tecnológica e ainda as formas de quantificação destas questões. A produtividade da agropecuária brasileira foi analisada somente no âmbito nacional. como a área destinada à pastagem. mesmo tendo os preços como ponderador. tendo o fator preço como homogeneizador. Desta forma. Destacou-se ainda o seu processo de modernização. ou ainda utilizar mais de um produto ou mais de um agregado de produtos. auxiliando as políticas para sanar as possíveis distorções regionais existentes. pela produção de alimentos para uma população numerosa (com uma parcela que. pelo emprego de aproximadamente 1/5 da PEA. O Brasil possui um extenso território com relativa variedade de climas. o . Enfrentamos problemas de geadas no Sul e Sudeste durante o inverno. A análise também perde em qualidade quando insumos importantes. Fato este que poderia melhorar os resultados da análise.forma. de uma maneira geral. não podem ser considerados devido à falta de informações. infelizmente. Há dificuldades em se obter uma grande produção de gêneros de climas de temperaturas moderadas com custos aceitáveis. Pereira et al (1998a) e Pereira et al (1998b) iniciaram um trabalho visando minimizar estes problemas. inundações de verão em algumas porções do território nacional e secas prolongadas especialmente no Sertão. não possui renda suficiente para um bom padrão alimentar) e pela produção de matérias-primas para vários setores industriais e energéticos. Seria interessante que existissem resultados desagregados relativos aos Estados e regiões. consequentemente. alguns de grande fertilidade como a terra-roxa. seria possível verificar se houveram diferenças de crescimento da produtividade entre Estados e regiões. Mas. predominantemente quentes. Entretanto. que nos permite o cultivo de quase todos os produtos em larga escala. não temos grandes problemas climáticos que nos impeça a prática agrícola.

para produzirem satisfatoriamente. seus constituintes minerais e orgânicos. Ocorre em áreas de clima tropical em que se alternam uma estação chuvosa (dissolução desses óxidos) e seca (quando esse material se acumula próximo à superfície e forma a crosta). . É causado pela ação do clima. Sistemas de produção na agricultura A agricultura pode ser praticada de diversas formas com um conjunto de características que passamos a apresentar a seguir: Sistema extensivo técnicas simples mão-de-obra desqualificada abundância de terras baixa produtividade rápido esgotamento dos solos Esse sistema é característico de regiões com grandes extensões de terras vazias e de menor grau de desenvolvimento. Em algumas áreas o processo de desertificação avança sobre áreas que antes produziam alimentos (ex: sahel. cultivo seguindo a mesma linha do declive do terreno (sem a aplicação das curvas de nível e/ou terraceamento). na África). em áreas com chuvas intensas. *laterização – constitui na formação de uma crosta ferruginosa endurecida próxima à superfície do solo pela concentração de óxidos de ferro e alumínio. entre caboclos e indígenas). Mas é agravado pelo uso de técnicas agropecuárias incorretas. Alguns problemas específicos também afetam os solos do Brasil: *lixiviação – constitui no empobrecimento dos solos em regiões de climas muito úmidos com chuvas freqüentes que através do escoamento superficial retiram o material fértil do solo. grandes parcelas de solo são sistematicamente destruídas em todo o mundo. necessitam da aplicação de adubos. predatórias e prejudiciais ao solo: desmatamento (especialmente junto às margens dos rios). com procedimentos muito simples e de caráter itinerante: retira-se uma porção da mata. realiza-se uma queimada para limpeza do terreno. monocultura sem os cuidados necessários (reposição do material fértil ao solo). acentua-se esse processo. Os solos constituem um importante recurso natural que deve ser preservado através de técnicas conservacionistas. em muitas áreas do território brasileiro. *erosão e esgotamento do solo – provoca a destruição física do solo e a perda de sua qualidade. os solos possuem baixa fertilidade ou problemas como acidez elevada. Quando desprotegido. quando então o solo se esgota e parte-se para outra área. excesso de animais sobre o solo e excesso de peso sobre o mesmo. Muitos solos do país. Nele podemos incluir uma simples roça (como na Amazônia.massapé e o solo de várzea ou aluvial. realizando-se o mesmo procedimento. Mas. pela retirada da vegetação. A recuperação de um solo pode ser demorada e muito cara. retirando-se as partículas que formam o solo. Infelizmente. Quando em estágio avançado provoca a formação de sulcos profundos denominados voçorocas. corretivos químicos e fertilizantes. misturam-se as cinzas ao solo e se realiza uma monocultura sem maiores cuidados por um breve período de dois a três anos.

geralmente com maior ocupação humana e com o uso de pequenas e médias propriedades. por vezes. mas na prática é muito comum que se combinem características dos dois sistemas e. . bem como o serviço de técnicos agrícolas e agrônomos. principalmente temporária (o bóia-fria ou trabalhador volante). Mesmo assim utiliza muita mão-de-obra (trabalha com propriedades. São comuns a prática da policultura e pecuária leiteira através desse sistema. Sistema Extensivo grandes propriedades gado criado a solta sem cuidados veterinários raças simples uso de pastagens naturais baixa qualidade e produtividade destinado ao corte Sistema Intensivo Pequenas e médias propriedades Criação confinada em estábulos ou currais Cuidados veterinários Raças selecionadas e aprimoradas Uso de pastagens cultivadas Rações balanceadas Alta qualidade e produtividade Destinado à produção de leite Evidentemente essa classificação e características são de natureza bem didática. Os pecuaristas têm se preocupado em acompanhar as tendências desse mercado muito competitivo. especialmente produzindo para abastecimento do mercado interno. Aplica a mecanização quando possível (lembre-se que não é todo cultivo que permite mecanização). com a modernização progressiva e exigências cada vez maiores do mercado.Sistema intensivo técnicas modernas mão-de-obra qualificada terras exíguas alta produtividade conservação dos solos É um sistema característico de regiões de maior desenvolvimento. Está principalmente voltada para o mercado externo. observa-se uma rápida evolução qualitativa nas técnicas de criação. Sistemas de produção na pecuária Podemos também pensar nas características dos sistemas de criação de animais que lembram muito as características acima citadas. Plantation grandes áreas técnicas modernas muita mão-de-obra elevada produtividade monocultura agroindústria/exportação Esse sistema passou a ocupar grandes áreas em países subdesenvolvidos ocupando seus melhores solos. com milhares de hectares de extensão).

equipamentos de irrigação. com juros reduzidos. A sua aplicação indiscriminada. desde que não se concentre apenas em uma prática de subsídios que onerem o Estado e dificulte a capacidade de evolução da competitividade da agropecuária brasileira (como ocorre em países europeus). no caso do agricultor é necessário que ele possa evoluir também em seus conhecimentos técnicos para que deixe de utilizar técnicas antiquadas que contribuem para a baixa produtividade e desgaste do solo. mão-de-obra) como na colheita (máquinas. o volume de recursos à disposição para o agricultor não tem conseguido atender a todos e muitas vezes foi mal distribuído e desviado de suas reais finalidades (construção de hotéis-fazenda. *arrendatário – aquele que paga um aluguel ao proprietário pelo uso da terra. A mecanização e o uso de técnicas modernas permite um aumento da produtividade. Deve ser introduzida de maneira planejada e deve ser estimulada como uma forma de permitir ao produtor a competitividade para sobreviver no mercado. adubos. justa. *posseiro – aquele que utiliza terras que encontra vazias para uma produção de subsistência. ferramentas. *crédito rural e preços mínimos – para que o agricultor possa produzir ele precisa de uma linha de financiamentos.). Parte do crescimento de nossas safras agrícolas tem dependido da incorporação de novos espaços a esse setor produtivo mas ainda podemos ampliar e muito o espaço agrícola do país.. piscinas em mansões rurais. traz segurança e tranqüilidade ao produtor. fertilizantes. traz problemas como um desemprego acelerado no campo e até mesmo intensificação da erosão do solo. ou são mesmo analfabetos. *grileiro – falsifica títulos de propriedade e vende terras que também não são suas Problemas enfrentados pela agropecuária no Brasil: *reduzido aproveitamento dos espaços disponíveis – muitas terras no Brasil não apresentam qualquer forma de utilização. para fazer frente aos gastos tanto no plantio (sementes.. Melhorar o padrão de cultura da população é importante e. combustível. Ocupa terras que não são suas. A adoção de uma política de preços mínimos. embalagens.Formas de exploração da terra As propriedades agropecuárias podem ser exploradas diretamente pelo proprietário ou indiretamente pelo: *parceiro ou meeiro – aquele que utiliza as terras do proprietário e divide com este a produção obtida. Na última década o Brasil conseguiu evoluir nessa questão e além disso tem aumentado o percentual de agricultores capitalizados o suficiente para bancar seu próprio empreendimento. *nível de mecanização – o avanço da mecanização na agricultura vem ocorrendo especialmente no Centro-Sul do país. mão-de-obra. é o ocupante. Historicamente. no Brasil. estocagem e transporte). irracional. *baixo nível de instrução e cultura do agricultor – grande parte dos que trabalham na terra tem um nível de instrução muito baixo. .

enquanto se incentivava também a ocupação do cerrado por grandes propriedades exportadoras (como a produção de soja. A atuação do INCRA durante os governos militares preocupou-se mais com a colonização agrícola de áreas vazias do território nacional (como a Amazônia) do que com a redistribuição de terras. Em 1985. consolidando-se no Centro-Sul do país e estendendo-se pelo Nordeste e Amazônia. A formação de grupos armados por fazendeiros para proteção de suas terras (legais ou griladas) e a expansão das fronteiras agrícolas brasileiras contribuíram para definir um quadro de violência e ilegalidade nas áreas rurais. assim como a presença de posseiros preocupados com sua sobrevivência e de sua família. Os que permaneceram no campo engrossaram movimentos sociais. multiplicando-se casos de invasões de propriedades. estímulo à formação de cooperativas e criação de centros de apoio para armazenagem. assim como a redistribuição de terras. *distribuição de terras – historicamente o modelo econômico adotado pelo Brasil e as legislações criadas favoreceram a formação de grandes propriedades através de um processo de concentração de terras.a safra agrícola tem conseguido recordes de produção. Assim. no início de redemocratização do país. organizados ou não. de responsabilidade do Estado. transporte e comercialização da produção. Caso ele tivesse acesso a uma capacidade maior de armazenagem. com a melhoria da qualidade na . por exemplo). o que leva a perdas significativas da colheita e a prejuízos ao agricultor. muitas vezes inapropriados para guardar a safra) e no transporte inadequado. Além disso. o governo de José Sarney cria o Ministério da Reforma Agrária e a Constituição promulgada em 1988 contempla um Plano Nacional de Reforma Agrária. A desapropriação de terras improdutivas que não estejam cumprindo sua função social está sendo feita. nem sempre os recursos suficientes para uma intensificação desse processo. é importante frisar que uma Reforma Agrária não pode parar simplesmente no ato de redistribuição de terras. O ritmo dessa reforma é contestado por alguns que a julgam lenta e tímida. com falta de silos e armazéns. muitas vezes massacrados na luta com os brancos. Vale lembrar que existem interesses conflitantes nessa questão e.*armazenamento e transporte . conflitos e mortes nas áreas rurais. Preocupada com o aumento da produtividade. a necessidade pela execução de uma reforma agrária no país foi se tornando urgente e inadiável. Juntam-se a todos esses atores alguns setores progressistas da Igreja e grupos políticos ideologicamente de uma esquerda mais radical (revolucionários) que também defendem seus pontos de vista e interferem na questão. incluindo-se aí a invasão de terras indígenas. não precisaria escoar toda a sua produção imediatamente para o mercado e poderia conseguir um melhor preço posteriormente. Nas últimas décadas a continuidade desse processo associado à modernização agrícola (expansão da mecanização) e à pressão por uma agricultura cada vez mais capitalizada expulsou muitos trabalhadores do campo que se dirigiram para as cidades no movimento migratório do êxodo rural. Ao mesmo tempo em que avança a execução do PNRA (ainda que não seja a Reforma Agrária desejada por alguns setores da sociedade) avança a moderna produção agroindustrial. mas deve garantir condições mínimas para que o camponês pobre possa produzir: linhas especiais e subsidiadas de financiamento. treinamento e qualificação de mão-de-obra. A grilagem de terras contribuiu para agravar a revolta social no campo brasileiro. Mas ainda permanecem problemas na armazenagem (deficiente e/ou insuficiente.

com destaque para o Mato Grosso. Cultura afetada pela praga da vassoura-de-bruxa que levou produtores do cacau a partirem para outros empreendimentos. Observe o mapa com a produção agrícola e veja alguns destaques: *milho – é o principal produto de nossa agricultura. Estamos apresentando aumento no total colhido. a grande expansão da cana a partir de meados da década de 1970 se deveu a criação do Pró-álcool que levou a cana a ocupar grandes extensões no Estado de São Paulo. No entanto. pode ser encontrado do sul ao norte do país. não só pelas pessoas mas também utilizado como ração animal. informatização no campo. especialmente na indústria têxtil. *laranja – o Brasil disputa com os EUA a liderança mundial e é grande exportador. mas com uma produtividade menor e a um custo mais elevado. As áreas mais recentes de produção estão no Centro-Oeste e Amazônia. *algodão – a produção é crescente para um mercado interno também em expansão. *trigo – talvez o maior problema em nossa produção agrícola porque 2/3 do mercado interno continuam sendo abastecidos com o trigo importado da Argentina e EUA. Principais produtos agrícolas O Brasil apresenta atualmente uma produção agrícola muito diversificada. *arroz – importante alimento para abastecer o mercado interno. O Brasil é um dos maiores produtores mundiais. *cacau – com dificuldades para manter posição de destaque no mercado externo. Essa moderna agropecuária tem se preocupado com o uso progressivo de sementes selecionadas. *café – o Brasil continua sendo o maior produtor e exportador mundial e procura atualmente melhorar a imagem de qualidade do café que produz e exporta para conquistar novos mercados mais seletivos. O problema de geadas em terras paulistas e paranaenses deslocou esse cultivo mais para o norte. de amplo consumo interno. Novas áreas de produção em climas mais quentes permitem um aumento da colheita do trigo no país. Foi o cultivo de maior expansão nas últimas décadas do século XX. com maior produção no Centro-Sul do país. Grande parte da produção é exportada no momento de entressafra para os países do hemisfério norte. *soja – o maior produto agrícola de exportação do país. Minas Gerais é o maior produtor nacional. com destino para a produção de vinho. o maior produtor nacional. São Paulo é o líder da produção nacional.produção agropecuária e com ganhos de competitividade busca expandir seus mercados externos e enfrenta a prática protecionista de muitos mercados como o europeu e o norteamericano. rebanhos melhorados. *cana – o Brasil também costuma aparecer como o maior produtor mundial e um grande exportador de açúcar. na região de Ilhéus e Itabuna. invadindo o Centro-Oeste e até a Amazônia. bem como melhoria de . controle rigoroso do rebanho e até mesmo o polêmico cultivo de trasngênicos. É grande produtor mundial de vários produtos. pesquisas agropecuárias. a principal área de produção é o sul da Bahia. *uva – destaca-se a área de produção das Serras Gaúchas. O Brasil chega a ser o maior produtor ocidental desse gênero agrícola. O Centro-Oeste tem se tornado a principal área de cultivo. É cultivado em simples roçados e também em grandes propriedades mecanizadas. muitas vezes com produção insuficiente para abastecê-lo. especialmente para o próprio mercado norte-americano.

qualidade, indispensável para vendas externas de vinho. Além desses produtos podemos lembrar do feijão (MG-SP), importante alimento para o mercado interno, a mandioca, a banana (Vale do Ribeira) além da maior produção de frutas tropicais. Principais rebanhos brasileiros A pecuária brasileira começa a ser reconhecida como de boa qualidade. Os investimentos que estão sendo progressivamente realizados para livrar o rebanho de doenças como a febre aftosa e o comprometimento de rebanhos na Europa (como o mal da vaca-louca) têm levado a ampliação de alguns e a conquista de novos mercados de exportação (analistas indicam que o Brasil deve se tornar o maior fornecedor internacional nos próximos dez a quinze anos). Os principais rebanhos brasileiros são os de bovinos, suínos, ovinos e caprinos. Observe o mapa com a distribuição geográfica dos principais rebanhos no Brasil: *bovinos – na pecuária de corte destacam-se as regiões dos Pampas Gaúchos, oeste paulista e Triângulo Mineiro. Pecuaristas de outras áreas de criação preocupam-se em melhorar a qualidade de seu rebanho. Na pecuária leiteira podemos destacar Minas Gerais (várias áreas de criação, especialmente o sul do Estado), São Paulo (Vale do Paraíba, São João da Boa Vista, Araras, Mococa) e Rio de Janeiro (Vale do Paraíba e norte do Estado); *suínos – apresenta significativos ganhos de qualidade e especialização (mais carne e menos gordura, melhor higienização nos locais de criação, cuidados veterinários, selecionamento dos animais) o que tem permitido a busca de um aumento nas exportações dessa carne; *ovinos – o Brasil não tem destaque mundial. A maior parte do rebanho é encontrada no Rio Grande do Sul; *caprinos – também sem grande destaque mundial é uma criação que está evoluindo qualitativamente. Boa parte do rebanho, rústico, pode ser encontrada na Região Nordeste. Podemos também destacar o rebanho de eqüinos, especialmente em Minas Gerais e bubalinos (Ilha de Marajó, Pantanal e Vale do Ribeira). O Brasil parece apresentar condições favoráveis para a criação de búfalos e pode se tornar um grande criador mundial. O Brasil tem um dos maiores rebanhos de asininos e muares e é um dos maiores criadores de aves no mundo.

Estrutura Fundiária e os Conflitos de Terra
Alimentar com seus frutos é o que a agricultura brasileira vem fazendo há mais de quatro séculos, infelizmente sem a harmonia sugerida pela letra da bela canção transcrita ao lado. Como vimos, a agricultura brasileira sempre esteve entre as principais atividades econômicas do país. Mas o Brasil não se tornou uma potência agrícola, pois alguns dos maiores problemas sociais brasileiros estão centralizados no campo, como a estrutura fundiária marcada pela concentração de terras, os conflitos pela posse da terra e as relações desiguais de trabalho. Uma distribuição Irregular de terras

À forma como as propriedades rurais estão distribuídas, segundo suas dimensões, denominamos estrutura fundiária. A principal característica da estrutura fundiária brasileira é o predomínio de grandes propriedades. As origens dessa distribuição desigual de terras em nosso país estão em seu passado colonial. As capitanias hereditárias, que inseriram o Brasil no sistema colonial mercantilista, foram os primeiros latifúndios brasileiros: a colônia foi dividida em quinze grandes lotes entre doze donatários. A expansão da lavoura açucareira no litoral manteve o latifúndio como uma de suas características, ao lado da monocultura e da escravidão da mâo-de-obra africana no sistema de plantation voltado para a exportação. Portanto, a ocupação das terras brasileiras aponta para uma acentuada concentração de terras. Foi a Lei de Terras, promulgada em 18 de agosto de 1850, que praticamente instituiu a propriedade privada da terra no Brasil, Ao determinar que as terras públicas ou devolutas (ociosas) só poderiam ser adquiridas por meio de compra, essa lei limitou o acesso à posse de terras a quem tivesse recursos para satisfazer essa condição. Dessa forma, imigrantes europeus recém-chegados, negros libertos e pessoas sem recursos ficaram sem direito às terras livres, que foram compradas por abastados proprietários rurais. Com o passar do tempo, essa desigual distribuição de terras acabou gerando conflitos cada vez mais violentos e generalizados entre proprietários e não proprietários. As décadas de 1950e 1960 marcaram o surgimento de organizações que lutavam pêlos direitos dos trabalhadores rurais. Entre elas, podemos citar as ligas camponesas e a Confederação Nacional dos Trabalhadores do Campo (Contag). Membros do regime militar (1964-1985), preocupados com o descontentamento social no campo, elaboraram um conjunto de leis para tentar controlar os trabalhadores rurais e acalmar os proprietários de terras. Essa tentativa deu-se através de um projeto de reforma agrária para promover uma distribuição mais igualitária da terra, que resultou no Estatuto da Terra, cujos pontos principais veremos a seguir. Em 1993, durante o governo do presidente Itamar Franco, a Lei n" 8 629 reafirmou que a terra tem de cumprir uma função social. Foram definidos novos conceitos referentes às dimensões e classificações dos imóveis rurais. Com base no conceito de módulo rural foi utilizado o conceito de módulo fiscal. Segundo o Incra, Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, vinculado ao Ministério do Desenvolvimento Agrário, entende-se por módulo fiscal a unidade de medida expressa em hectares, fixada para cada região, considerando os seguintes fatores: - Tipo de exploração predominante no município. - Renda obtida com a exploração predominante. - Outras explorações existentes no município que, embora não sejam predominantes, são significativas em função da renda e da área utilizada. - Conceito de propriedade familiar, O tamanho do módulo fiscal varia de região para região, pois depende de alguns fatores, como as características do clima de cada área ou região. Ainda, segundo a Lei n° 8 629, ficou assim a classificação dos imóveis rurais quanto ao tamanho: - Minifúndio. O imóvel rural com área inferior a um módulo fiscal. - Pequena propriedade. O imóvel rural de área compreendida entre um e quatro módulos fiscais. - Média propriedade. O imóvel rural de área superior a quatro e até quinze módulos fiscais. - Grande propriedade. O imóvel rural de área superior a quinze módulos fiscais. Características da estrutura fundiária brasileira

A análise dos dados expressos nos gráficos abaixo nos mostra as principais características da estrutura fundiária no Brasil. Existe uma absurda concentração de terras em nosso país, onde poucos latifúndios ocupam a maior parte da área total brasileira e o grande número de minifúndios não chega a ocupar 2% dessa área. Como consequência temos um grave quadro socioeconômico: - Poucas propriedades rurais (43 956) com 1000 hectares ou mais concentram mais de 50% da área total do país. Geralmente, uma grande concentração fundiária pode gerar terras ociosas e improdutivas porque seus donos aguardam melhores preços para arrendá-las ou vendê-las (estão concentradas nas regiões Norte e Centro-Oeste). - Muitas propriedades rurais (947 408) não chegam a possuir 2% da área total, inviabilizando, muitas vezes, o plantio de algum produto. A despesa com sementes pode ser maior que o montante obtido com a colheita. - Êxodo rural como consequência da mecanização em algumas grandes propriedades rurais no Centro-Sul e entre os pequenos proprietários, porque produzem pouco, ficam endividados e não têm capital para investir. - Aumento do número de desempregados e subempregados que migram para as periferias das cidades e acabam ocupando áreas de mananciais. E o fato mais grave: o aumento dos conflitos sociais no campo. Mais de 50% dos conflitos de terra no Brasil ocorrem, respectivamente, nas regiões Nordeste e Norte. São regiões de grande concentração de propriedades rurais e de imóveis improdutivos, onde muitas vezes a polícia é mal preparada e mal equipada e os latifundiários impõem sua vontade às leis. Porcentagem da área improdutiva por região Outro triste exemplo da violência no campo são os assassinatos ocorridos entre 1986 e 1996, segundo a Comissão Pastoral da Terra (CPT), o Incra e o Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST). Soma-se a esse quadro brutal e desumano o uso improdutivo de muitas propriedades rurais que geram o ciclo: êxodo rural – desemprego -violência. A porcentagem dos imóveis improdutivos no Brasil mostra a necessidade urgente de uma política agrícola e de uma reforma agrária que contemple os trabalhadores rurais excluídos. As relações de trabalho no campo Geralmente encontramos entre os trabalhadores rurais brasileiros baixos indicadores socioecon&micos, como elevada natalidade, elevado analfabetismo, pequena qualificação profissional e baixa remuneração. Além disso, eles sofrem com a falta de cumprimento da legislação trabalhista por parte de alguns patrões e o elevado número de acidentes com ferramentas, como facões. Quanto mais distantes das principais cidades e capitais, mais tensas são as relações sociais no campo. O trabalho assalariado temporário é a forma predominante no Brasil. O predomínio do trabalho assalariado é consequência do processo capitalista (capitalização da atividade agrícola) que, por um lado, aumenta a produtividade rural (máquinas, irrigação, sementes selecionadas) e, por outro, dispensa o trabalhador residente ou permanente (aumento do número de assalariados). Tivemos no Brasil uma grande redução das modalidades tradicionais de trabalhadores rurais (permanentes, residentes, colonos e parceiros) e o

aumento de trabalhadores temporários sem vínculo empregatício. Geralmente, eles recebem no fim do dia pelo serviço prestado, trabalhando no plantio ou na colheita de canade-açúcar, laranja ou café. Moram na periferia das cidades onde os aluguéis são menores. Recebem a denominação de peões na região Norte, corumbás, nas regiões Centro-Oeste e Nordeste e bóias - frias nas regiões Sul e Sudeste. Outras formas de trabalho no campo Trabalho familiar. Realizado geralmente nas pequenas e médias propriedades rurais de subsistência. A falta de capital para investir na lavoura e as secas periódicas têm aumentado o número de trabalhadores familiares que abandonam o campo e migram para as periferias das cidades, onde se tornam trabalhadores temporários. Uma exceção entre os trabalhadores familiares é encontrada nas áreas vizinhas dos grandes centros urbanos (cinturões verdes) porque conseguem vender sua produção para os centros de abastecimento, redes de supermercados, feiras livres e até em carros ou caminhões que percorrem as ruas dessas cidades. Arrendamento. Forma de utilização da terra destinada ao cultivo ou à pastagem, que o proprietário arrenda (aluga) a quem tem capital para explorá-la. E comum no interior de São Paulo um grande proprietário arrendar propriedades menores vizinhas para o cultivo da cana-de-açúcar. Parceria. Forma de utilização da terra em que o proprietário dispõe de sua terra para um terceiro (o parceiro) que a cultiva. Em troca, o parceiro entrega ao proprietário parte de sua colheita. A forma de obter a propriedade da terra fez surgir duas figuras que estão frequentemente envolvidas nos conflitos pela terra: o posseiro e o grileiro. Posseiro. Indivíduo que tem a posse da terra e nela trabalha sem, porém, possuir o título de propriedade. Grileiro. Pessoa que toma posse da terra de outros, usando para isso falsas escrituras de propriedade. O peão, trabalhador volante mais recente que o bóia fria, é muito utilizado nas regiões de fronteiras agrícolas, sobretudo em projetos agropecuários da Amazônia. É "contratado" por um intermediário (gato) para trabalhar em regiões distantes, com promessas de salários, alojamento e alimentação. Quando recebe o pagamento, aparecem os "descontos": custos de transporte, alimentação, hospedagem, etc., quase nada restando do seu salário, chegando, às vezes, a ficar devendo. Muitas vezes jagunços e pistoleiros são contratados para evitar a fuga de trabalhadores, reproduzindo uma situação de escravidão (peonagem).

EVOLUÇÃO DO AGRONEGÓCIO BRASILEIRO, DESAFIOS E PERSPECTIVAS

Joaquim César Emanoel carlosadm2006@gmail.com

Carlos Barbosa

de

Lourenço Lima

2007). Restrição logística.Resumo Este estudo teve por objetivo mostra como se deu a evolução do Agronegócio brasileiro. since it presents many advantages of the natural and economic point of view. como celeiro mundial em termos de agronegócio. desafios e perspectivas" en Observatorio de la Economía Latinoamericana. . e como objetivos específicos mostrar a sua evolução. passing for the point where it had a bigger impulse ties to arrive at the prominence position that is of being one of the biggest world-wide powers of the agribusiness. Although the positive numbers. passando pelo ponto onde houve um maior impulso ate chegar à posição de destaque que é o de ser uma das maiores potências mundiais do Agronegócio. dados estes que fazem do agronegócio brasileiro um setor moderno. (MAPA. Com isso. O artigo tem como objetivo geral identificar o cenário atual do agronegócio brasileiro. Contudo as perceptivas do Agronegócio são bastante promissoras. Para citar este artículo puede utilizar el siguiente formato: Carlos Lourenço y Barbosa de Lima: "Evolução do agronegócio brasileiro. O agronegócio brasileiro é uma atividade próspera. chuvas regulares. Hoje um dos maiores entraves para o deslanchamento do setor é a logística de infraestrutura do país. Com um clima diversificado. identificando a sua situação no cenário mundial. Abstract This study it had for objective sample as if it gave the evolution of the Brazilian agribusiness. 2009. Key Words: Agribusiness. Economic growth. o Brasil tem 388 milhões de hectares de terras agricultáveis férteis e de alta produtividade. faz-se mister ressaltar seus antecedentes históricos até o cenário atual. Segundo Rodrigues (2006). O Brasil situa-se. Número 118. podendo o país explorar melhor suas potencialidades. no contexto mundial atual. (BORGES. o país possui 22% das terras agricultáveis do mundo. segura e rentável. já que ele apresenta muitas vantagens do ponto de vista natural e econômico. being able the country to explore its potentialities better. Todo esse cenário brasileiro atual do agronegócio enquadra-se em uma evolução que remonta ao século XVI. Apesar dos números positivos.eumed. Palavras-Chave: Agronegócio. Texto completo en http://www. Today one of the biggest impediments for the deslanchamento of the sector is the logistic one of infrastructure of the country. For this. it was used of bibliographical boardings that the historical evolution demonstrates. por meio de uma pesquisa bibliográfica. dos quais 90 milhões ainda não foram explorados. 2005). eficiente e competitivo no cenário internacional. O agronegócio é hoje a principal locomotiva da economia brasileira e responde por um em cada três reais gerados no país. além de elevada tecnologia utilizada no campo. Crescimento econômico. suas restrições e desafios. identifying its situation in the world-wide scene. utilizou-se de abordagens bibliográficas que demonstra a evolução histórica. energia solar abundante e quase 13% de toda a água doce disponível no planeta.net/cursecon/ecolat/br/ Introdução O cenário atual aponta que o Brasil será o maior país agrícola do mundo em dez anos. Para isso. However the percipient ones of the agribusiness are sufficiently promising. Logistic restriction. Esses fatores fazem do país um lugar de vocação natural para a agropecuária e todos os negócios relacionados à suas cadeias produtivas. o setor apresenta restrições e desafios que ameaçam sua permanência entre os maiores na atividade. the sector presents restrictions and challenges that threaten its permanence enter the greaters in the activity.

com a finalidade de levantar as dimensões básicas do agribusiness brasileiro. sejam eles pequenos. quanto e de que como produzir. o pau Brasil. os negócios à montante (ou "da pré-porteira") aos da agropecuária. das operações de produção na fazenda. 2009). supermercados e distribuidores de alimentos. com setores isolados que fabricavam insumos. é o conjunto de negócios relacionados à agricultura dentro do ponto de vista econômico. as propriedades rurais. Histórico e Evolução do Agronegócio Brasileiro A história econômica brasileira. Na segunda parte. se fundamentam na propriedade latifundiária bem como na prática de arrendamentos. A definição correta de agronegócio é muito mais antiga do que se imagina e incorpora qualquer tipo de empresa rural. deslocando o centro de análise de dentro para fora da fazenda. Estes negócios. as indústrias têxteis e calçadistas.Agronegócio Agronegócio também chamado de agribusiness. ou de "pós-porteira". políticas e culturais. o que correspondia ao equivalente a 32% do PIB brasileiro em 1980. os fabricantes de fertilizantes. está fortemente relacionada ao mercado consumidor. o transporte da produção e as atividades voltadas à distribuição. Estes autores concluíram que o agribusiness brasileiro representava 46% dos gastos relativos ao consumo das famílias. Depende cada vez mais de insumos adquiridos fora da fazenda e sua decisão de o que. Já para Callado (2006). o Agronegócio é toda relação comercial envolvendo produtos agrícolas. com seus elos entrelaçados e sua interdependência. segundo Batalha (2002). Costuma-se dividir o estudo do agronegócio em três partes. que deu nome definitivo ao nosso País. processavam os produtos e os comercializavam. do armazenamento. estão os negócios à jusante dos negócios agropecuários. caracterizada pela agricultura em grande escala. inclusive o agricultor. O conceito de agronegócio implica na idéia de cadeia produtiva. os abatedouros. defensivos químicos. Enquadram-se nesta definição os frigoríficos. o agronegócio é um conjunto de empresas que produzem insumos agrícolas. Foi à exploração de uma madeira. Assim. Wedekin e Pinazza (1990). 2004). A agricultura moderna. como comércio de sementes e de máquinas e equipamentos. A ocupação do território brasileiro iniciada durante o século XVI e apoiada na doação de . E. as indústrias agrícolas. Davis e Goldberg (1957) definem. mesmo a familiar. equipamentos. beneficiamento e venda dos produtos agropecuários. Em 1957. (JUNIOR PADILHA. essa abordagem sistêmica foi utilizada explicitamente por Araújo. etc. onde estão a compra. O termo inclui todos os setores relacionados às plantações e às criações de animais. ( WIKIPÉDIA. A primeira parte trata dos negócios agropecuários propriamente ditos (ou de "dentro da porteira") que representam os produtores rurais. em uma permanente negociação de quantidades e preços. representados pela indústrias e comércios que fornecem insumos para a produção rural. extrapolou os limites físicos da propriedade. as empresas de processamento e toda a distribuição. Este conceito procura abarcar todos os vínculos intersetoriais do setor agrícola. Há diferentes agentes no processo produtivo. têm fortes raízes junto ao agronegócio. baseada no plantio ou na criação de rebanhos e em grandes extensões de terra. substituindo a análise parcial dos estudos sobre economia agrícola pela análise sistêmica da agricultura. o agronegócio como sendo 'a soma total das operações de produção e distribuição de suprimentos agrícolas. com suas implicações sociais. na terceira parte. até chegar ao consumidor final. médios ou grandes produtores. processamento e distribuição dos produtos agrícolas e itens produzidos a partir deles'. No Brasil. transporte. constituídos na forma de pessoas físicas (fazendeiros ou camponeses) ou de pessoas jurídicas (empresas). No Brasil o termo é usado quando se refere a um tipo especial de produção agrícola. empacotadores. via de regra. Este tipo de produção agrícola também é chamada de agribusiness ou agrobusiness. dois pesquisadores americanos reconheceram que não seria mais adequado analisar a economia nos moldes tradicionais. Por exemplo.

O Brasil detém terras abundantes. a soja ganha destaque como principal commodity brasileira de exportação. Atualmente. 2006). Em síntese. Por conta de condições extremamente favoráveis para a contínua expansão deste mercado. Até 2015. O progresso do Sul do Brasil também está ligado ao agronegócio. ainda mais a indústria de base agrícola. mais recentemente. chamando a atenção de todos os nossos parceiros e competidores em nível mundial. celulose e outros). O país passou então a ser considerado como aquele que dominou a “agricultura tropical”. o tamanho que o Brasil adquiriu no campo do agronegócio é impressionante. por exemplo. 2006). frutas e derivados. transformando Manaus numa metrópole mundial. no início do século. algodão e fibras têxteis vegetais. transformadoras de recursos em produtos. Perspectivas Para o Agronegócio Brasileiro Para Contini (2001). cereais e derivados e a borracha natural são itens importantes da pauta de exportação brasileira (VILARINHO. produtos oriundos do complexo de soja. como farto espaço territorial. o país é visto por muitos especialistas como principal candidato ao posto de grande fornecedor alimentício global. mão-de-obra acessível e diversas questões ligadas à conjuntura internacional. a borracha dá exuberância à região amazônica. o salto será de 58% para 66%. as funções de armazenar. processar e distribuir produtos agropecuários. a ser um especialista. dispõe de produtores rurais experimentes e capazes de transformar essas potencialidades em produtos comercializáveis e detém um estoque de conhecimentos e tecnologias agropecuárias. conquistando metade do mercado internacional. envolvido quase exclusivamente com as operações de cultivo e criação de animais. monocultura da cana-de-açúcar e no regime escravocrata foi responsável pela expansão do latifúndio. a suinocultura . planas e baratas. que durante esse período serviu de base e sustentação para a economia. com isso. com o desenvolvimento da Ciência e Tecnologia. como são os cerrados com uma reserva de 80 milhões de hectares. as evoluções devem ser muito maiores. com maior intensidade na de 1960 até a de 1980.terras por intermédio de sesmarias. a partir da década de 1930. de suínos e aves. com grande desenvolvimento no Nordeste. 2007). A extinção do pau-brasil coincidiu com o início da implantação da lavoura canavieira. hortaliças. (RENAI. O agronegócio brasileiro passou por um grande impulso entre as décadas de 1970 e 1990. Por qualquer ângulo que se analise o mercado. o produtor rural passou. "Num futuro próximo. processamento e distribuição final constituem o vetor de maior propulsão no valor da produção vendida ao consumidor. Antes da expansão deste sistema monocultor. Isso fez surgir à oferta de um grande número de produtos. A pecuária domina os pampas. tabaco. açúcar e álcool. Na suinocultura. impulsionando. carnes e derivados de animais. as perspectivas são promissoras. bem como as de suprir insumos e fatores de produção. madeira (papel. proporcionando o domínio de regiões antes consideradas “inóspitas” para a agropecuária. fica evidente que. A evolução da composição do Complexo do Agronegócio confirma que as cadeias do agronegócio adicionam valor às matérias-primas agrícolas onde o setor de armazenamento. logo depois o café torna-se a mais importante fonte de poupança interna e o principal financiador do processo de industrialização. por sua vez. instalam-se agroindústrias. Da poupança da agricultura. No caso do frango. o Brasil deve quadruplicar sua participação. de acordo com previsões dos especialistas da área. como a do vinho e dos móveis. (VILARINHO. como a cana-de-açúcar. O processo de colonização e crescimento está ligado a vários ciclos agroindustriais. foram transferidas para organizações produtivas e de serviços nacionais e/ou internacionais fora da fazenda. fumo. café. gradativamente. da carne bovina. já havia se instalado no país como primeira atividade econômica a extração do pau-brasil. consolidado na forte rede de interligação entre a agricultura e a indústria. a exploração da madeira nas serras e a agricultura se desenvolvem com a participação das várias etnias que compõem o mosaico populacional da região. chá. Nas áreas em que o país ainda tem uma fatia pequena do comércio mundial. a participação nacional no mercado internacional de soja deve crescer dos atuais 36% para 46%.

134 US$ 37.015 US$ 42. as importações chegaram a US$ 4.000 US$ 40. 2002). 2007). que somados a 10 milhões dos demais componentes do agronegócio.49% menor do que o registrado no mesmo período de 2008.000 US$ 11. 2001).000 US$ 52. (RENAI. ou 26% do PIB (29%.347 US$ 25. (CNA. Apesar do saldo. o número de ocupados.180 US$ 49. . 2007).839 US$ 30. em torno de R$ 350 bilhões. a agricultura é o setor econômico que ainda mais ocupa mão-de-obra. um crescimento espetacular do setor. Principalmente em regiões menos desenvolvidas. De acordo com os números. O agronegócio como um todo envolve mais de 1/3 do PIB brasileiro. já sentindo os efeitos da crise. 2007 apud SEIBEL. (STEFANELO.791 US$ 4.492 US$ 4. era de 182 para a agropecuária. de janeiro a maio deste ano.799 US$ 4. A agricultura contribuiu decisivamente para as exportações com saldo comercial setorial positivo da ordem de US$ 40. Estes são pontos que reforçam a importância do agronegócio no Brasil. No contexto da recente crise cambial. É o setor que ocupa mais mão-de-obra em relação ao valor de produção: para cada R$ 1 milhão.700 US$ 58. Pecuária e Abastecimento.848 US$ 34.400 Importações US$ 5. segundo a Confederação Nacional da Agricultura .737 bilhões. 38 para a construção civil.5 trilhões/ano e.86 US$ 8.200 Saldo US$ 14.7 bilhões em 2007.881 US$ 5. saldo acumulado é de US$ 19. o agronegócio tem sido um fator que minimizou os desequilíbrios das contas externas do Brasil. a balança comercial do agronegócio teve uma queda de 0.200 Fonte: Mapa (Ministério da Agricultura. No entanto. No mundo.040 US$ 58.610 US$ 23. representa 27 milhões de pessoas.016 US$ 20. representa a geração de U$ 6. 2009).639 US$ 39. (Ver Tabela1). em 1995. no total. evidenciando que o setor tem participação importante para o equilíbrio de nossas contas. Importância Econômico-Social do Agronegócio Brasileiro O agronegócio é também importante na geração de renda e riqueza do País. 25 para a extração mineral. O agronegócio é o maior negócio mundial e brasileiro.18 bilhões de dólares em 2006 e de 49. o crescimento do superávit do ano 2000 até 2007 foi de 235% no período. Enquanto as exportações renderam US$ 24.400 US$ 69. (CONTINI. não se pode esquecer que esta tem capacidade limitada de absorver mão-de-obra.103 bilhões. Tabela 1 – Balança comercial do agronegócio brasileiro (US$ bilhões) Período 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 Exportações US$ 20.863 US$ 24. o beneficiamento/processamento das matérias-primas e a distribuição dos produtos. da agroindustrialização e de áreas correlatas serão importantes para o crescimento da renda e do emprego. o resultado é 12. ao redor de 17 milhões de pessoas. Mesmo reconhecendo-se os benefícios da transformação de uma sociedade agrária para uma industrial-urbana.53% do Produto Interno Bruto (PIB) do agronegócio no primeiro trimestre de 2009. abrangendo o suprimento de insumos. No aspecto social. os setores da agricultura. utilização de alta tecnologia e gerador de empregos e riquezas para o país. além de sua grande competitividade.811 US$ 19. 2009) A Tabela mostra o superávit do agronegócio brasileiro.CNA).847 US$ 4.366 bilhões. no Brasil. A maior parte deste montante refere-se a negócios fora das porteiras.será tão importante para a balança comercial do país quanto são hoje o frango e a carne bovina” (NETO.700 US$ 11.

Embora a privatização tenha contribuído para a modernização dos portos.Quando os efeitos da crise passar. açúcar. em que apenas 10 mil quilômetros são efetivamente utilizados. correm sérios riscos de sofrer um pesado revés se os problemas relacionados à infra-estrutura logística .04 bilhões de 2006. carne bovina e de frango. em termos de saldo. segundo estudo do Centro de Estudos de Logística da Universidade do Rio de Janeiro. regiões com potencial no agronegócio. cujas deficiências são responsáveis por prejuízo correspondente a 16% do PIB. apenas 10% de sua capacidade total. ainda não conseguiram deslanchar. É um dos motivos pelos quais todos os anos caminhões formam filas de até 150 quilômetros de extensão para descarregar suas cargas no porto de Paranaguá (PR). Por meio do plano de Parceria Público-Privada. As ferrovias. café. (BORGES. portos e canais de irrigação nos próximos anos. a velocidade média das composições não ultrapassa lentos 25 km/h. como o Nordeste. deixamos de fazer uso de canais de transporte de grande potencial. O objetivo do programa é aumentar o investimento em infra-estrutura para: eliminar os principais gargalos que podem restringir o crescimento da economia. O país é líder mundial de exportação de açúcar. a Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento. Mas todos esses bons resultados. o excesso de mão-de-obra (que chega a ser de três a nove vezes superiores aos portos europeus e sul-americanos) ainda mantém os padrões de produtividade baixos. de que o agronegócio pode sair dessa melhor do que entrou. Em razão desse tipo de problema. Com os trens e bitolas atuais. dos 84. que pretende investir R$ 13. com 2. ferrovias. as perspectivas acompanham as já anunciadas para o Brasil. De acordo com uma das pesquisas mais recentes sobre o assunto. (BORGES. caso dos 42 mil quilômetros de hidrovias. assim como as expectativas futuras. Um dos grandes entraves é a infra-estrutura. reduzir custos e aumentar a produtividade . Assumiu também a dianteira nos segmentos de carne bovina e frango. O agronegócio é justamente o que mais sofre com a ineficiência dos canais de transporte.4 mil quilômetros e que consumiu US$ 2 bilhões em investimentos públicos em vários governos.832 quilômetros avaliados. sistemas como o do Tietê-Paraná. Enquanto o índice internacional de movimentação é de 40 contêineres/hora. Na certeza que só as Parcerias Público-Privada. O gargalo logístico envolve praticamente toda a infra-estrutura de transporte do país. a ampliação em 2007 foi de cerca de US$ 58. como Estados Unidos e Austrália. escoa apenas 2 milhões de toneladas de carga/ano. nos portos brasileiros essa média é de 27. não será suficiente para dotar o país de bom infra-estrutura.29% em relação a 2005. milho. em particular a precariedade da malha rodoviária do país. não forem solucionados. 37% encontram-se em estado péssimo de conservação e outros 32% possuem alguma deficiência. Consciente de que sozinho não conseguirá reverter esse quadro. depois de ultrapassar tradicionais concorrentes.4 bilhões. (PAC. Desafios do Agronegócio no Brasil Segundo indicadores da (Unctad). elaborada pela CNT Confederação Nacional do Transporte (2007). 2007). embora tenham recebido investimentos com a privatização. Em 2006 as exportações cresceram 19. 2009). Como resultado. No transporte marítimo de cabotagem (outro canal com grande potencial no Brasil) assistimos a uma situação semelhante. ainda estão longe de suprir a demanda do setor de agronegócio e se consolidar como uma alternativa viável ao transporte rodoviário.o maior obstáculo para o desenvolvimento do agronegócio do Brasil. foi concebido para eliminar esse descompasso e afastar o risco de gargalos nos próximos anos. o Brasil será o maior país agrícola do mundo em dez anos. Esse montante coloca o Brasil entre os líderes mundiais na produção de soja. um aumento de 10. Essas boas posições devem consolidar-se ainda mais nos próximos anos. 2007).8% acima dos US$ 52. Ao mesmo tempo. suco de laranja e soja. Além da ampliação da malha de 30 mil quilômetros de extensão (praticamente igual a do Japão. Ainda de acordo com a mesma fonte. o governo federal já busca o apoio da iniciativa privada. o Governo Federal criou o (PAC) Programa de Aceleração do Crescimento lançado no começo de 2007.68 bilhões em 23 projetos de reformas em rodovias. país 22 vezes menor que o Brasil) é urgente a modernização do maquinário. café.

ferroviário. mantenham a sua determinação em modernizar a infra-estrutura brasileira. o que aumenta os custos de produção. Apesar das grandes vantagens encontradas no agronegócio brasileiro e das suas boas perspectivas futuras. Um exemplo do potencial desses pólos é representado por um estudo do Geipot (Empresa Brasileira de Planejamento em Transportes. mas as soluções também existem e precisam ser colocadas em prática. Já em 2000. além dos recursos. substituindo 600 carretas de 30 toneladas nos eixos Cuiabá (MT) / Santos (SP) e Cuiabá (MT) /Paranaguá (PR). Outro obstáculo sério ao desenvolvimento pleno do agronegócio está relacionado ao sistema tributário. Como nossos concorrentes. ligada ao Ministério dos Transportes). a empresa alertava que o melhor aproveitamento e a utilização racional dos canais de transporte seria capaz de economizar em cerca de US$ 75 milhões os custos anuais de escoamento de grãos. quanto a iniciativa privada. incentivando a criação de pólos intermodais de transporte (integração entre os sistemas rodoviário. e resolva os problemas domésticos para que o pais se torne a potência do agronegócio do futuro. e reduzir as desigualdades regionais. é que tanto o governo nas esferas federal. É preciso destacar também que. Além das medidas de controle sanitário que também estão na relação de assuntos importantes que vêm sendo negligenciados pelo governo. é indiscutível a importância do agronegócio à nossa economia. Como se vê. A reforma tributária é urgente. O potencial de prejuízos que isso pode acarretar aos produtores já foi demonstrado nos últimos anos. Além do embargo à carne bovina.das empresas. fica difícil ao produtor brasileiro competir nos mercados externos. Com uma economia aberta ao exterior. Para ilustrar o que estamos falando. estadual e municipal. tornando-os mais competitivos no mercado internacional. o mesmo encontra muitos problemas e desafios a serem superados que dependem. segundo Seibel (2007) mais de 50 países impuseram embargo à carne bovina desses estados. de investimentos tanto públicos como privados. poderia ser ainda maior se houvesse políticas sérias agrárias e de infra-estrutura. Mesmo assim. O agronegócio se tornou o setor chave para que o Brasil se inclua no comercio mundial. Não há como o produtor rural e a agroindústria serem competitivos com governos vorazes em criar novos impostos. Essa redução dos custos de transporte contribuiria diretamente para reduzir os custos de nossos produtos. . Os investimentos em Infra-Estrutura logística do PAC previstos até 2010 são de R$ 58 bilhões de reais. vezes há que perde o próprio mercado interno porque os produtos importados chegam mais baratos. que prejudicou as exportações mesmo de países que não registraram casos da doença (como o Brasil). O que esperamos. inclusive no Mercosul. bem como de mudanças nas políticas econômicas internas. os obstáculos para o crescimento do agronegócio brasileiro são imensos. mas podem ser superados. que estão entre os maiores produtores nacionais. isto é com possibilidade de exportar e importar qualquer produto do agronegócio. essencialmente. a carga tributária deve ser compatível com a dos nossos competidores. a iniciativa privada ainda tem muito a contribuir para o desenvolvimento da infra-estrutura do país. Por causa do surgimento de focos de febre aftosa em Mato Grosso do Sul e no Paraná. Muito embora o potencial de comércio do agronegócio brasileiro seja muito grande. aumentar os atuais e com mecanismos complexos de arrecadação. o agronegócio brasileiro sofreu com o surto de gripe aviária. Como se vê. o SAI brasileiro ocupa lugar de destaque entre os países produtores de alimento no mundo. estimular o aumento do investimento privado. os obstáculos para o crescimento do agronegócio brasileiro são imensos. Isso sem falar da economia de combustível e de fretes. Considerações Finais Como se observa. marítimo. têm impostos baixos. basta destacar que um único comboio na hidrovia Rio Madeira tem capacidade para 18 mil toneladas de grãos. com diminuição da carga e simplificação dos procedimentos na tributação. na redução do tráfego e desgaste das rodovias. fluvial e aéreo) para redução de custos e aumento do nível de serviços.

http://www. de fato. Disponível em: < BRASIL . DAVIS. A. se faz necessário a criação de políticas públicas urgentes voltadas à infra-estrutura do país. Antonio A.net/cursecon/ecolat/br/>. 135 p. ainda. Mário Otávio. 2001. Acesso em: 06 fev. Nas contingências atuais. J.br/site/agencia/>. Acesso em: 09 jul. São Paulo: Atlas. Disponível em: < CONFEDERAÇÃO DA AGRICULTURA E PECUÁRIA DO BRASIL .2009. 1990.. imensa disponibilidade de água doce e energia renovável e sua capacidade empresarial. que discute com a iniciativa privada a reconstrução da malha logística do Brasil em todos os segmentos modais. Cabe. por exemplo.: "Desafios de logística nas exportações brasileiras do complexo agronegocial da soja" en Observatorio de la Economia Latino americana. Contudo. N. CONTINI.agronline. Munoz. I.Cabe ainda lembrar que para o Brasil se tornar a grande potência mundial do agronegócio. Alardear o potencial do agronegócio brasileiro é o que tem sido feito pelo poder público. as políticas econômicas impedem que o rendimento seja maior e os problemas de logística geram custos elevados. como o NE brasileiro. H. B.2009. restringindo a inserção de novas tecnologias e/ou tecnologias de ponta à agricultura de determinadas regiões. 238p.Ministério da Agricultura. estrategicamente suplanta qualquer problema. Acesso em: 09 jan. 2006. . já passou da fase de discussão. Goldberg. Wedekin.com. Brasil. 1. y Mauch Palmeira. Os juros bem como as altas taxas de importação de aparatos agrícolas vêm.empreendedorrural. cresce sua participação no mercado internacional. o agronegócio brasileiro é persistente e. com que os investimentos se tornarem lucros financeiros e socialmente. Gestão agroindustrial. São Paulo: Atlas. Boston: Harvard University. A.org. apesar desses obstáculos. a articulação. Pinazza.2008.br>. BORGES. L.2009. Pecuária e Abastecimento (MAPA). ed. através. Disponível em: <http://www.CNA. Complexo agroindustrial: o agribusiness brasileiro. O grande desafio do agronegócio no http://www. deve-se calcar na viabilidade produtiva. Acesso em: 16 dez.2009. Disponível em: < http://www. CALLADO. Logo. Agronegócio. fazendo do agronegócio o nosso maior negócio. E. ed. ao Estado brasileiro promover a modernização de máquinas e equipamentos que dá suporte ao desenvolvimento da boa performance do campo. contigencialmente não tem passado de engodo da velha política brasileira. 2.agricultura. Isto implica dizer que as nossas vantagens como terras abundantes. nas diretrizes corretas fomentadas pelo Estado e na vertiginosa capacidade privada de produzir de racionalizar e de fazer. Referências ARAÚJO.br>. do PPP. São Paulo: Agroceres. pois somos competitivos em algumas cadeias produtivas e em outras não. Cunha. climas favoráveis. o país precisa resolver problemas estruturais. incremental e aplicação de políticas mais flexíveis e ágeis de crédito ao setor agrário. A concept of agribusiness. Se faz necessário ainda. buscar soluções práticas e definitivas. que dê sustentabilidade continuada ao setor. 1957. ao longo dos anos. BATALHA.gov.com. Além do mais. potencial de produção. Elisio.cna.. C. 2006. Disponível em: < http://www. Altamiro. Acesso em: 09 jan. entretanto. Número 71.eumed.br/artigos/artigo>. CARDOZO. Dinamismo do Agronegócio Brasileiro. R.

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Docs | Fazer login Entre o tutorial e o participativo.doc Salvar no Google DocsEditar ArquivoVisualizar Visualizar Salvar no Google Docs Download Imprimir (PDF)ENTRE O TUTORIAL E O PARTICIPATIVO: A ABORDAGEM DE INTERVENÇÃO NA ESTRATÉGIA DE AÇÃO DO BANCO DO NORDESTE1 .Vídeos Mapas Notícias Livros Tradutor Acadêmico Blogs Em tempo real e muito mais » Configurações .

Maria Odete Alves2 Lucimar Leão Silveira3

RESUMO

Analisam-se os aspectos da abordagem de intervenção utilizada pelo Banco do Nordeste do Brasil S.A, ao implementar uma estratégia de apoio ao pequeno produtor rural nordestino, além dos efeitos de um programa específico de capacitação inserido na mesma estratégia (Projeto Banco do Nordeste/PNUD), no nível de participação de associados na gestão e nos processos decisórios das organizações associativas. Verifica-se a existência de um processo em que há delineamentos de duas abordagens distintas: a) uma primeira etapa, com base no estímulo ao associativismo, cuja ação é tipicamente tutorial b) uma segunda etapa, através de um programa de capacitação inserido na mesma estratégia, ocorrendo de forma simultânea e dirigido ao mesmo público, contemplando uma ação ativa dos grupos para os quais se dirige, com características da intervenção participativa. Há um avanço na consciência dos sócios submetidos ao processo de capacitação, quando assumem que a participação não se refere apenas à qualidade de membro do grupo, mas significa tomar parte ativa nas decisões, planejar e executar determinada ação. Apesar dos avanços, a participação ainda se apresenta em nível micro, pois não se percebe uma intervenção dos indivíduos no sentido de modificar a sociedade.

Termos para indexação - estratégias de intervenção, intervenção pública, desenvolvimento rural,

participação.

Artigo apresentado no XXXVI Congresso da Sociedade Brasileira de Economia e Sociologia Rural, Poços de Caldas, 1998. Enga Agrônoma, pesquisadora do BNB/ETENE e mestranda em Administração Rural e Desenvolvimento pela Universidade Federal de Lavras (UFLA), CP 37, CEP 37.200-000 - Lavras - MG. 3 MS pela UFMG, professor do Departamento Educação da Universidade Federal de Lavras (UFLA), CP 37, CEP 37.200-000 - Lavras - MG.

1

1. A PARTICIPAÇÃO POPULAR NOS PROJETOS GOVERNAMENTAIS

As propostas de participação do povo em projetos governamentais surgiram após a Segunda Guerra

Mundial, inseridas numa proposta de Desenvolvimento de Comunidade (DC), cujo objetivo

institucionalizado pela Organização das Nações Unidas (ONU) seria solucionar problemas de integração de

esforços da população a planos regionais e nacionais de desenvolvimento econômico e social.

Estudo realizado por Ammann (1987) acerca do DC dá conta de que sua proposta, na prática,

consistia na implementação de programa de assistência técnica e social nos países subdesenvolvidos,

sobretudo da América Latina.

As primeiras propostas de DC no Brasil surgem no final dos anos 40. O apoio oficial se dá no

sentido de incrementar a produção de alimentos e a educação rural e industrial, reproduzindo o modelo

americano de extensão rural. Apesar de proclamar a participação popular como ingrediente necessário ao

processo de desenvolvimento nacional, o DC apresenta o conceito de participação de forma muito vaga e,

na prática, se afirma como instrumento do Estado para favorecer o consentimento espontâneo das classes

subordinadas às estratégias por ele definidas (Ammann, 1987).

Este método de intervenção passou a sofrer severas críticas, principalmente a partir da década de 70,

devido aos fracassos acumulados em termos de resposta aos problemas de exclusão social. Nesse período

surgiram abordagens alternativas, tendo como fundamento a participação consciente do povo no seu próprio

desenvolvimento e a prática da educação (Alencar, 1990). Esta outra visão de desenvolvimento sugere

mudanças no eixo do planejamento, desde as altas esferas de decisão até a localidade onde os agentes do

meio podem envolver-se plenamente nas decisões de sua comunidade.

Nos últimos anos, embora de forma tímida, algumas agências estatais têm caminhando no sentido dessa outra visão de desenvolvimento, a exemplo do Banco do Nordeste, que desde o início dos anos 90 vem promovendo algumas mudanças no processo de intervenção. A proposta deste trabalho surge, então, do interesse em fazer uma análise desse novo processo de intervenção, bem como verificar alguns dos seus efeitos na prática. A análise realizada apóia-se nos trabalhos de Oakley (1980) e Alencar (1990), que tratam das abordagens de intervenção convencional e educação participativa, e naqueles desenvolvidos por Ammann (1987), Bordenave (1987) e Demo (1993),

que fundamentam o conceito de participação.

2. A INTERVENÇÃO DO BANCO DO NORDESTE DO BRASIL (BNB)

O BNB é um órgão auxiliar para gestão e execução de políticas de crédito do Governo Federal.

Criado em 1952, tem a missão de contribuir para o desenvolvimento sustentável do Nordeste do Brasil,

promover a integração econômica regional com a economia brasileira e internacional e redução das

desigualdades regionais (Banco do Nordeste, 1993). A partir de 1967 torna-se o principal repassador de

recursos do Banco Central (BC) para a região Nordeste (Gondim et al., 1991).

Em 1991 Gondim et al. propõem ao Banco do Nordeste uma estratégia de apoio ao pequeno produtor

FNE: Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste.rural da Região. alegando a falta de uma estratégia adequada para apoiar essa categoria de produtores. em particular. o documento sugere algumas medidas. 1993). nesse ano constata-se uma grande concentração do crédito em mãos de grandes produtores. em que o associativismo é o instrumento para implementação. Assim. acentuada a partir de 1990 com o início da operacionalização do referido Fundo. os recursos do FNE4. . é formado pela alocação de 1. É atualmente a principal fonte de que dispõe a Instituição para financiar as atividades produtivas da Região (Banco do Nordeste. Implícita no documento se observa a preocupação principal em dar maior capilaridade ao crédito fornecido pela Instituição.8% do total arrecadado do Imposto de Renda e do Imposto sobre Produtos Industrializados. em complemento ao suprimento creditício. Criado pela Constituição de 1988. dentre as quais. o desenvolvimento de um programa de capacitação técnica para os pequenos produtores rurais. O documento reconhece que os resultados da ação do Banco junto aos pequenos produtores rurais têm sido frustrantes.

A comunidade é vista como um sistema social homogêneo. As duas abordagens apresentam diferenças metodológicas fundamentais no que diz respeito à unidade social para a qual se dirige a ação. por ele denominada de convencional ou “tutorial” e a abordagem “educação participativa”. as estratégias de intervenção são lineares. Na abordagem “ educação participativa” o agente externo passa a ter um papel de educador: . A INTERVENÇÃO NO MEIO RURAL: O CONFRONTO ENTRE DUAS ABORDAGENS Com base em estudos publicados a partir da década de 70. ou seja.2 3. Na abordagem “tutorial” o agente externo é o responsável pelo diagnóstico da realidade e pelo estabelecimento de meios para solucionar os problemas detectados. Alencar (1990) estabelece um paralelo entre duas abordagens de intervenção no meio rural: aquela normalmente utilizada nas políticas tradicionais. bem como aos papéis atribuídos aos agentes externos e ao público alvo. enquanto os membros do grupo exercem um papel passivo.

identifica os grupos com interesses comuns. pois “Implica que os homens assumem o papel de sujeitos que fazem e refazem o mundo” e só existe quando há o ato “ação-reflexão-ação” (Freire. pelo estabelecimento de meios para solucioná-los e pela avaliação das ações executadas. promove a organização inicial dos grupos identificados e orienta a identificação dos problemas.26). fundamentada em Paulo Freire. para quem a conscientização não significa simplesmente a tomada de consciência da realidade ou “estar frente à realidade”. . Nessa abordagem a comunidade deixa de ter estrutura homogênea. 1980. O processo de educação utilizado na abordagem “educação participativa” é fundamentado na conscientização. A partir dos resultados da avaliação o próprio grupo assume a responsabilidade de buscar novas ações. Os membros do grupo responsabilizam-se pelo diagnóstico da realidade. que requer tratamento diferenciado. p. sendo vista então como um grupo internamente diferenciado.

desenvolvimento da consciência da realidade por parte dos 3 indivíduos e dos grupos. por parte dos membros do grupo. na tomada de decisões. à capacidade dos indivíduos para analisá- los.estruturação do grupo e controle que os membros do grupo possuem sobre sua organização ou estrutura. de curso de ações para lidar com os problemas com os quais se defrontam. 4) solidariedade predisposição dos indivíduos em cooperar dentro do grupo. 3) organização . identificando as possíveis causas e propondo soluções. o que contribui para o aumento do seu poder de barganha. desenvolvendo ações que visem à solução dos problemas. 2) participação envolvimento ativo dos indivíduos na identificação dos problemas e de suas causas. 5) articulação - estabelecimento. planejamento e execução de ações para solucioná-los. PARTICIPAR É CONTRIBUIR PARA A CONSTRUÇÃO DA SOCIEDADE .Oakley (1980) identificou no processo de “educação participativa” cinco subprocessos fundamentais e interrelacionados: 1) faculdade crítica . 4. e conduz à identificação de problemas.

A participação é uma habilidade que se aprende e se aperfeiçoa. a fazer valer seus direitos e a lutar pela transformação da estrutura social. as diversas forças e operações que constituem a dinâmica da participação devem ser apreendidas e dominadas pelas pessoas. É através dela que uma comunidade é estimulada a buscar seu próprio espaço. A pessoa. 1987).O entendimento da intervenção na perspectiva de educação participativa requer algumas considerações sobre a natureza e o conteúdo do processo participativo. O que quer dizer que existe uma diferença entre as dinâmicas da microparticipação em grupos primários e associativos e da macroparticipação na luta social e política de grandes massas (Bordenave. . a dinâmica da participação será diferente. no entender de Ammann (1978) e Bordenave (1987). Isto é. A macroparticipação ou participação social. no entanto. não nasce sabendo participar. ocorre quando há a intervenção das pessoas nos processos dinâmicos que constituem ou modificam a sociedade. A participação é concebida como uma necessidade básica. Em cada nível e em cada caso.

. participação espontânea (no grupo de amigos. (. o processo de construção de uma sociedade participativa se inicia na aprendizagem do dia-a-dia na família. infindável. p. nem acabada. um processo no sentido legítimo do termo: “. na busca do próprio espaço de participação.. Não existe participação suficiente. de vizinhos etc).) a participação é em essência autopromoção e existe enquanto conquista processual. na tentativa de defender interesses individuais ou coletivos mais imediatos.A participação social não é algo acabado. como coloca Demo (1993. Neste sentido.18): é um processo de conquista. Participação que se imagina completa. participação imposta (quando o indivíduo é obrigado a fazer parte do grupo e exercer certas atividades consideradas . em constante vir-a-ser. nisto mesmo começa a regredir”. sempre se 4 fazendo. na escola. Bordenave (1987) classifica a participação em cinco tipos: participação de fato (é o primeiro tipo de participação do indivíduo).. na comunidade etc...

Na medida em que . Contudo. as associações profissionais etc. objetivos e métodos de trabalho) e participação concedida (a parte de poder ou de influência exercida pelos subordinados e considerada legítima por eles mesmos e seus superiores). de modo a criar uma “ilusão de participação” política e social. da capacidade de tomar decisões e de adquirir poder. encerra em si mesma uma contradição e um potencial de conhecimento da realidade. Este faz parte da ideologia necessária para o exercício do projeto de direção-dominação. participação voluntária (o grupo é criado pelos próprios participantes. mesmo o planejamento participativo tem seu lado positivo.indispensáveis). as paróquias. embora concedida. as cooperativas. pois a participação. que decidem sobre a organização. como o local de trabalho. a vizinhança. Este autor cita como um exemplo típico de participação concedida o “planejamento participativo” implantado por alguns organismos oficiais. de crescimento da consciência crítica. que objetiva manter a participação do indivíduo e dos grupos restrito a relações sociais primárias.

e assim por diante (Demo. não se deve perder de vista que a participação terá a constante oposição das classes dirigentes. a deseleger. 5. Daí. a desburocratizar.. pois coloca em julgamento seu poder e privilégios. para a análise do item 6.1. qualquer oportunidade de participação constitui um avanço e não retrocesso. a forçar os mandantes a servirem à comunidade. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS A coleta de informações foi dividida em duas partes distintas: para a análise realizada no item 6. e não para o aumento da dependência. cujo fenômeno básico é o controle do poder. 1993). recorreu-se a publicações e documentos do Banco do Nordeste que orientam o FNE.2. Entretanto. a estabelecer rodízio no poder. a dados de uma .se aproveitem as oportunidades de participação para tal crescimento. poder-se considerar a participação como o exercício da democracia. a estratégia de apoio ao pequeno produtor e o Projeto Banco do Nordeste/PNUD5. a exigir prestação de contas. pois através dela aprende-se a 5 eleger.

quando foram utilizados questionários estruturados específicos para cada categoria. junto a 70 entidades (35 cooperativas e 35 associações) e 910 produtores rurais nordestinos associados dessas organizações. correspondiam a 9 cooperativas e 2 associações. do total de entrevistados. As organizações atendidas pelo Projeto Banco do Nordeste/PNUD. além dos atributos: organizações atendidas pelo Projeto Banco do Nordeste/PNUD.pesquisa do tipo Survey6. Os produtores vinculados a tais organizações e atendidos pelo mesmo Programa perfaziam um total de 158. Portanto. 59 organizações (26 cooperativas e 33 associações) e 687 produtores não haviam recebido o apoio do Projeto até o momento da pesquisa. realizada entre dez/94 e nov/95. cooperativas de eletrificação/telefonia rural. cooperativas de irrigação. cooperativas de crédito e associações atendidas no âmbito do PROGER7. Utilizou-se nessa pesquisa uma população selecionada através de amostragem probabilística estratificada. Nesta etapa utilizou-se o Experimento: tomaram-se os dados da pesquisa Survey e procedeu-se a um corte entre o grupo .

Em seguida foram segregados. A INTERVENÇÃO: DA ABORDAGEM AOS EFEITOS . 3) participação na gestão econômico-financeira. tomando-se por base os valores absolutos para posterior comparação. tabulados e analisados os dados dos grupos 6.experimental. (capacitados e não-capacitados). 2) participação na PNUD: Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento 6 gestão administrativa. 4) participação no uso de bens e prestação de serviços. Foram então selecionadas todas as variáveis relacionadas com a participação dos associados na gestão e no processo decisório da organização: 1) participação na organização social. representado pelas organizações e associados expostos ao processo de capacitação através do Projeto (aqui denominado de PNUD ou capacitados) e o grupo de controle ou testemunha. formado pelos não expostos ao processo (denominado de DEMAIS ou não-capacitados).

que receberam nos anos de 1990/92. respectivamente).6%.8%. 1995). para uma pequena participação no número de beneficiários (3.3%. dos recursos do FNE (Valente Junior et al. A estratégia elaborada elegia o associativismo como o instrumento para dar maior capilaridade ao crédito fornecido pela Instituição.6%. A abordagem de intervenção na estratégia de ação do Banco do Nordeste A estratégia de apoio ao pequeno produtor foi elaborada pelo Banco do Nordeste.1%. a partir do ano de 1992.7% e 22.4%: 2. a partir da necessidade da própria Instituição de promover uma melhor distribuição do crédito do FNE. 94. 20. respectivamente.0% e 2. 68. do crédito do FNE. os pequenos produtores apesar de constituírem a maioria nos anos de 1990/92 (86.1.3% e 64. até então concentrado na categoria dos grandes produtores. ao passar a vigorar essa política.5% e 96. receberam no período apenas 38. respectivamente. 45. o crédito associativo passou a desfrutar de algumas vantagens comparativamente ao crédito direto8. .1%. Enquanto isso.7%. respectivamente).6. Assim.

As modificações promovidas nos programas do FNE. favoreceram sobremaneira o surgimento de novas cooperativas e associações de pequenos produtores rurais na Região. pela data de constituição. para servir de ponto de apoio para as ações daquela Instituição (Banco do Nordeste. uma Divisão de Cooperativismo (Divisão de apoio ao pequeno produtor e ao associativismo-COOPE). e 34% se . 7 Programa de Fomento à Geração de Emprego e Renda. 66% das organizações pesquisadas existiam antes de 1992. bem como o crescimento do número de associados por organização.Escritório Técnico de Estudos Econômicos do Nordeste. 7 mostra que. 1993). Órgão do Banco do Nordeste do Brasil responsável pelos estudos e pesquisas que dão suporte à formulação de políticas regionais. A nível de aparato administrativo foi criada. 8 Foi introduzida nos programas do FNE a concessão de subsídios adicionais a pequenos produtores que buscassem crédito via organização associativa e a cooperativas/associações que apresentassem planos integrados de desenvolvimento. além de criarem condições de acesso ao crédito por parte dos pequenos produtores nordestinos. Relatório de pesquisa realizada entre 1995/96 para avaliação da Estratégia Banco de dados existente no ETENE . no Departamento de Desenvolvimento Rural.

bem como aos dirigentes de tais organizações (Banco do Nordeste. em sua grande maioria. 1994).3% e 69. Observou-se também que a partir de 1993 ocorreu uma reversão no processo de concentração do crédito.4% dos recursos do Fundo (Valente Junior et al. quando foi criado o Projeto Banco do Nordeste/PNUD.6% e 98. A metodologia GESPAR. 1997). a gerência e o controle dos seus empreendimentos (Banco do Nordeste. A implementação de ações de capacitação se deu a partir de 1993. Os pequenos produtores continuaram sendo a maioria em 1993/94 (94.6%. através de convênio com o PNUD.. tendo absorvido 55. respectivamente).constituíram após aquele ano. Constatou-se que as associações. sendo direcionado a pequenos produtores rurais nordestinos organizados em associações ou cooperativas. 1995).. “. busca desenvolver o caráter empresarial das . o projeto busca treiná-los para o planejamento.. O Projeto adota a Metodologia GESPAR9. resultaram como condição prévia de acesso ao crédito (Giovenardi. 1993a). segundo Zapata10. sistemática de capacitação junto a tais organizações. a organização.

seminários. cuja conseqüência é o conhecimento que o indivíduo passa a ter da realidade e o comprometimento com as ações desenvolvidas.27). sua priorização e sistematização”. treinamentos e monitoração (Goni. In: GONI (1995.05). p. instrumentalizando-os através do planejamento estratégico e da gestão participativa para que suas organizações tenham sustentabilidade no ambiente e assim contribuam para a melhoria da qualidade de vida das famílias”. Tânia. p. . Através de ação integrada e não capacita. 1995). são realizadas oficinas de apoio à gestão.Organizações e o sentido de ‘pertencer’ dos sócios. cursos. preparada pela reflexão e pelo diálogo. Fundamenta-se na sensibilização. Para Goni (1995. Apresentação. produção e comercialização. a instrumentalização do grupo: “É papel do capacitador facilitar o desabrochar das idéias. mas facilita o Metodologia GESPAR: Gestão Participativa para o Desenvolvimento Empresarial. na metodologia GESPAR o capacitador processo. ZAPATA. Para tal.

6. a partir deles.. 1993a). na organização. p. são realizados diagnósticos dos empreendimentos e.8 No processo em que se busca envolver os produtores em todas as atividades. Ainda. 1995. a metodologia postula que o envolvimento dos produtores nas atividades tem por base o entendimento da participação como sendo o ato de “fazer parte. p.16) os produtores exercem um papel ativo. tomar parte. na direção. Segundo Goni (1993.. no controle”(Goni.2. ter parte. Ser Parte no planejamento.7). nos quais estão inseridos projetos gerenciais e propostas de crédito (Banco do Nordeste. desenvolvidos planos integrados. tornando-se responsáveis pelo diagnóstico da realidade e pela busca de soluções para os problemas detectados: o próprio indivíduo vai “identificar e analisar os elementos relevantes no Sistema para estabelecer um Diagnóstico e abrir perspectivas de intervenção e mudança”. A participação dos associados nas organizações associativas: efeitos do Projeto Banco do Nordeste/PNUD .

Freqüência dos sócios às atividades da organização associativa ATIVIDADE Assembléias Gerais Ordinárias Assembléias Gerais Extraordinárias Reuniões de Núcleos de Base Reuniões Seccionais FONTE: Banco de Dados BNB/ETENE 1990 .6. no grupo DEMAIS. Participação do associado na organização social da Entidade A freqüência dos associados às atividades de sua Organização cresceu em ambos os grupos no ano de 1994. 1995).2. em relação a 1990. Embora a freqüência do grupo PNUD seja maior em todas as atividades no ano de 1994. A Assembléia Geral constitui-se na instância em que é exercido o poder dos associados na Organização.1. TABELA 1. se verifica. um crescimento bem mais expressivo no mesmo período (TABELA 1). em nível de igualdade (Valadares. Esse crescimento pode significar maior peso dos associados nas decisões a partir do voto.

Absoluto 245 181 40 35 % 36 26 6 5 DEMAIS 1994 Vr. Absoluto 535 403 76 88 94/ 90 % .Vr.

% Absoluto 99 63 76 48 23 15 10 6 78 59 11 13 118 123 90 151 PNUD 1990 .% Vr.

Absoluto 33 104 36 13 1994 94/ 90 % % 84 66 23 8 34 37 57 30 9 Os associados do grupo PNUD utilizam-se em maior proporção que os DEMAIS. de todos os .Vr.

Veículos de comunicação utilizados pelo associado para se informar sobre as ocorrências relativas à sua organização associativa TIPOS Conversas informais Meios de comunicação social Meios de comunicação empresarial Visitas à Entidade Reuniões Outros Nenhum FONTE: Banco de Dados BNB/ETENE DEMAIS Vr. TABELA 2. Em ambos os grupos a pesquisa revelou que é alto o número de associados que se preocupa em estar a par dos acontecimentos de sua Organização (TABELA 2).veículos de comunicação disponíveis. Absoluto 334 86 17 315 430 .

12 24 PNUD Vr.5 3. Absoluto 88 27 19 86 95 19 8 % 49 13 2 46 63 1.5 % 56 17 12 54 60 12 .

em relação ao grupo DEMAIS. Daí a resistência por parte dos dirigentes .5 Na tabela a seguir (TABELA 3). Participação pressupõe abertura de oportunidades de conhecimento da realidade. de crescimento da consciência crítica. os dados correspondentes ao grupo PNUD são ilustrativos do desenvolvimento da “faculdade crítica” dos associados.5%. na medida em que revelam o aumento da percepção que estes têm da realidade em que vivem. Mesmo assim. pela queda de 22% para 16. o que significa uma ameaça ao poder estabelecido dentro da organização (Bordenave. 1987). do percentual de associados sem opinião formada ou que não responderam sobre a forma pela qual os dirigentes procuram envolvê-los nas decisões.segundo a percepção dos associados .quanto a envolver os membros nas decisões. é importante observar que o próprio título pressupõe a existência da participação “concedida” conforme prevista por Bordenave (1987). o que justifica o fato do alto percentual de membros (45% dos “não capacitados” . que pode refletir a ideologia necessária para o exercício do projeto de direção-dominação.

e 47% dos “capacitados”) atribuírem a tais dirigentes o conceito de regular a ruim. 10 TABELA 3. Absoluto 225 312 150 687 % 33 45 . Conceito do associado sobre os dirigentes de sua organização associativa quanto ao envolvimento dos associados nas decisões CONCEITO Ótimo/Bom Regular/Ruim Não possui opinião formada/ Não responderam TOTAL FONTE: Banco de Dados BNB/ETENE DEMAIS Vr.

Participação do associado na gestão administrativa da Entidade Observando-se a TABELA 4 é possível identificar alguns traços do que Oakley (1980) denominou de subprocessos da Educação Participativa.2.2. a favor do grupo PNUD.5 47 16. Absoluto 57 74 27 158 % 36.5 100 6. quando 18% destes tomam parte do planejamento das áreas de capacitação e . quando se comparam os dados dos dois grupos.22 100 PNUD Vr. quanto à análise da realidade e identificação das possíveis causas dos problemas. É perceptível a diferença entre ambos.

também é perceptível a vantagem do grupo “capacitados”. o interesse é bem maior no que diz respeito à produção (49%). contra apenas 3. comercialização e aquisição de insumos. não participa do planejamento da Entidade. Aí. No grupo PNUD é significativamente maior o número de associados que se preocupa com a forma como está sendo conduzido o planejamento dos diversos segmentos de sua Entidade. Áreas de planejamento das organizações associativas em que ocorre participação do associado . 11 TABELA 4. Quanto ao envolvimento no planejamento das atividades como um todo. Com exceção das áreas de produção. ao se verificar que grande número de associados pertencentes ao grupo DEMAIS (64%).5% de membros do grupo DEMAIS. que despertam o interesse de 24%. aquisição de insumos e máquinas e implementos (47% cada) e comercialização (42%). é insignificante a participação destes no planejamento de suas organizações associativas.assistência técnica da Organização. respectivamente. 18% e 17% dos associados.

Humanos e materiais Definição de preços de revenda Não participa do planejamento FONTE: Banco de Dados BNB/ETENE DEMAIS Vr. técnica Propaganda e marketing Rec.ÁREAS Produção Comercialização Aquisição de insumos Máquinas e implementos Armazenamento Benefic/industrialização Capacitação/assist. Absoluto 164 124 118 91 58 44 25 1 5 33 .

1 0. Absoluto 78 67 74 74 26 11 29 1 8 31 1 % 24 18 17 13 8 6.5 3.5 0.439 PNUD Vr.7 5 64 .

5 Ocorre um retrocesso na questão do controle das atividades (TABELA 5). pois ao mesmo tempo que existe uma grande preocupação com o planejamento das atividades da organização .demonstração de consciência dessa necessidade .5 5 20 0. embora com índices aquém do esperado. grande número de associados não participa das atividades de controle (78% entre os DEMAIS e 76% entre PNUD). no que diz . Porém. ainda é maior a participação dos associados do grupo PNUD. comparativamente à questão do planejamento (TABELA 4).uma situação inversa é visível quando o assunto é controle. Em ambos os grupos.% 49 42 47 47 16 7 18 0.

apesar de tomar parte do planejamento das atividades da Organização. na opinião de Oakley (1980) são propícias ao surgimento de 12 . pode-se sugerir que existam resistências por parte dos dirigentes no sentido de envolver os sócios nas atividades de controle da Organização. patronagem. Situações desta ordem. os dirigentes). clientelismo ou outros traços comuns na intervenção tutorial.respeito às atividades de controle realizadas pelas organizações associativas (TABELA 5). partindo-se do pressuposto de que as atividades de controle dão certo nível de poder aos associados e. levando-se em conta os dados constantes da TABELA 3 (47% dos componentes do grupo PNUD consideram os dirigentes de suas organizações de Regulares a Ruins quanto à preocupação em envolvê-los nas atividades). Assim. indicativo de que existe certa dependência do grupo com relação aos líderes (no caso. Por outro lado. os membros não assumem o seu controle de forma efetiva.

Absoluto 75 63 87 36 35 533 % 11 9 13 5 5 . Participação do associado nas atividades de controle da sua organização associativa TIPOS Custos Estoques Preços Qualidade dos produtos Qualidade dos serviços Não participa das atividades FONTE: Banco de Dados BNB/ETENE DEMAIS Vr.TABELA 5.

5% dos associados não possui opinião formada sobre o nível de transparência das informações contábeis de sua Entidade.2% (TABELA 6). Absoluto 33 3 34 15 10 120 % 21 2 21 9 6 76 6. no grupo DEMAIS esse percentual chega a 45. Participação do associado na gestão econômico-financeira da Entidade Verifica-se que enquanto no grupo PNUD 16.78 PNUD Vr.2.3. Isso é uma demonstração de que é bem maior no primeiro grupo o nível de .

envolvimento dos sócios nesse tipo de atividade da Organização. Verifica-se também que é quase o dobro no grupo PNUD (44%). Conceito do associado a respeito de seus dirigentes/organização associativa quanto ao nível de transparência nas informações contábeis CONCEITO Ótimo/Bom Regular/Ruim Não possui opinião formada Não respondeu Total FONTE: Banco de Dados BNB/ETENE GRUPOS DE ASSOCIADOS DEMAIS PNUD . com relação aos DEMAIS (21. TABELA 6. demonstrando maior nível de consciência crítica desenvolvido no primeiro grupo em relação ao segundo. o percentual dos que atribuem um conceito de Regular a Ruim ao nível de transparência das informações contábeis fornecidas pelos dirigentes de suas organizações associativas.6%).

5 44 16.Vr.2 687 100 158 % 39.2 26 22 3. Absoluto 206 30 63 148 21. em ambos os grupos .5 100 Apesar de ser elevado o nível de freqüência dos sócios nas assembléias.6 69 311 45. Absoluto % Vr.

percebe-se que há um percentual bem maior de associados no grupo PNUD que efetivamente está a par do que acontece na Entidade e se preocupa com o controle do seu destino. No grupo PNUD 44% dos associados atribuiu aos dirigentes de suas organizações conceito de Regular a Ruim quanto ao nível de transparência nas informações contábeis. além dos 3% que se recusou a tratar do assunto. 13 Os dados da TABELA 7 revelam que é bem maior no grupo DEMAIS o percentual dos associados que sequer possui opinião formada sobre a ocorrência de prestação de contas/balanço de sua organização associativa (39. e apenas 13% se mostrou desinformado sobre a matéria. o que corresponde ao dobro do percentual daqueles pertencentes ao grupo DEMAIS que atribuíram o mesmo conceito (22.9%). além de demonstrarem uma maior percepção da realidade por parte dos componentes do grupo . No grupo PNUD todos os associados entrevistados responderam quando questionados. Estes dados.(TABELA 1).5%).

significa também um reforço do que vem sendo identificado nos dados das tabelas analisadas anteriormente. TABELA 7. de que há uma resistência dos dirigentes quanto a colocar os sócios a par dos acontecimentos da organização. Absoluto 238 157 271 21 687 . Conceito do associado a respeito de seus dirigentes/organização associativa quanto à prestação de contas/balanço CONCEITO Ótimo/Bom Regular/Ruim Não possui opinião formada Não respondeu Total FONTE: Banco de Dados BNB/ETENE GRUPOS DE ASSOCIADOS DEMAIS Vr.PNUD.

4.2. Participação do associado no uso de bens e prestação de serviços da Entidade A TABELA 8 apresenta o resultado da pesquisa quanto ao número de entidades que disponibiliza .5 3 100 % 43 44 13 100 6.6 22.PNUD Vr. Absoluto 68 69 21 158 % 34.9 39.

14 considerando-se que a prioridade do Projeto Banco do Nordeste/PNUD está na capacitação técnica gerencial dos dirigentes das organizações associativas. Este dado é estranho.serviços aos associados nas áreas de assistência técnica gerencial e agronômica. Verifica-se que é maior o percentual de entidades do grupo PNUD que oferece os serviços mencionados. é inferior ao do grupo DEMAIS (12%). cujo percentual (9%). os associados do grupo PNUD demonstram certo interesse em participar do planejamento das áreas de capacitação e assistência técnica da Entidade. Os dados deixam transparecer traços do que sugere Bordenave (1987) a respeito do jogo do poder: capacitar os membros do grupo . No mínimo. bem como de capacitação técnica gerencial e tecnológica. exceto no que diz respeito à capacitação técnica gerencial. Ademais. conforme revelam os dados da TABELA 4. deveria haver uma preocupação por parte de tais dirigentes em ofertar os mesmos serviços aos seus associados. aos seus associados.

TABELA 8. Absoluto 3 16 7 5 PNUD Vr. Alguns serviços prestados pelas organizações aos seus associados Assist. técnica agronômica Capacitação técnica gerencial Capacitação tecnológica FONTE: Banco de Dados BNB/ETENE SERVIÇOS DEMAIS Vr. que por sua vez geram conflito e fragilização do poder estabelecido.significa abrir para questionamentos destes sobre as decisões para dentro e para fora da organização. Absoluto 2 7 1 2 . técnica gerencial Assist.

pelo menos no discurso contempla uma ação ativa dos grupos para os quais se dirige. 2) o programa de capacitação. cuja ação se dá de forma tipicamente tutorial. e dirigido ao mesmo público.. delineamentos das duas abordagens descritas por Alencar (1990): 1) o estímulo ao associativismo. com características da intervenção participativa. .% 5 27 12 8 % 18 64 9 18 CONSIDERAÇÕES FINAIS Percebe-se de forma clara a existência de um processo em que aparecem na estratégia de intervenção da instituição em questão. que se apresenta inserido na mesma estratégia.

15 A análise tentou aprofundar esta questão. porém. além de ter contribuído para o aumento da freqüência às assembléias realizadas em tais organizações. A primeira constatação é que a intervenção tutorial de estímulo ao associativismo via concessão de crédito associativo provocou não apenas o crescimento do número de organizações associativas no Nordeste. Tais resultados. encontra um grupo de indivíduos vivenciando uma experiência que se poderia denominar de “deseducação”.O processo de capacitação. exercendo um papel passivo num processo cuja tendência é de reforço dos traços de dependência. buscando descobrir até que ponto a estratégia atinge os objetivos propostos. . não são suficientes para responder a questões do tipo: os associados estariam exercendo o controle democrático da organização? Estariam as assembléias funcionando como instância do exercício do poder do associado. mas também do número de associados por organização. iniciado em fase posterior ao estímulo do associativismo.

conforme revelam os dados. da “organização”. . Os dados revelam. limitado. porém. que o crescimento se deu. da “participação”. com o objetivo principal de acesso ao crédito. planejar e executar uma ação. balanços etc? Maior número de votos em assembléias pode não significar necessariamente maior peso dos associados nas decisões. principalmente quando se sabe. aprovação de relatórios. quando assumem que a participação não se refere apenas à qualidade de membro do grupo.ou como meros instrumentos formais para a obtenção de financiamento. da “solidariedade” e da “articulação”. Não é percebido claramente o desenvolvimento nos membros do grupo PNUD da “faculdade crítica”. identificados por Oakley (1980). Deve-se admitir que o voto. Percebe-se algum avanço na consciência dos sócios submetidos ao processo de capacitação. em grande parte. pois nada impede que seja passivo. pois o processo não ocorre de forma integral. como alertado por Demo (1993) tem controle relativo. Participar significa tomar parte ativa nas decisões.

pois à medida que estes adquirem o conhecimento da realidade e a consciência crítica. em alguns momentos se percebe a existência de envolvimento ativo dos sócios nas tomadas de decisão dentro da sua organização associativa e na cobrança de ações por parte dos dirigentes. Entretanto. transparece a resistência dos dirigentes de tais organizações quanto ao envolvimento dos sócios nas atividades. o que deveria ocorrer para que se efetivasse a participação no sentido macro . . as atitudes deixam transparecer que ainda não há uma estruturação do grupo.um avanço neste sentido.como sugerem Ammann (1987) e Bordenave (1987). ou controle por parte destes sobre a Organização. conforme 16 A participação ainda se apresenta em nível micro.a participação social . pois não se percebe uma intervenção dos indivíduos no sentido de modificar a sociedade. Por outro lado. Em outros momentos. porém. há uma ameaça ao poder estabelecido dentro da Organização. nas decisões. ou seja.

Administração Rural. BIBLIOGRAFIA ALENCAR. Ideologia do desenvolvimento de comunidade no Brasil. v. Informações Básicas sobre o FNE. ____________________. na tentativa de defesa dos assuntos que lhes interessam. Fortaleza. E. 1994.1. S. São Paulo: Cortez.Fundo constitucional de financiamento do Nordeste. . pode-se considerar que o processo de capacitação contribuiu no sentido dessa construção.2. n. p. Projeto BNB/PNUD. Exercício de 1993. pois se verifica que os sócios das organizações buscam agora um espaço nas decisões. BANCO DO NORDESTE. Jan. 1987. 1990.23-43. que vai sendo construído e nunca se completa. B.tendo-se em mente o que coloca Demo (1993) que a participação é um processo de conquista. Lavras-MG. ____________________. 1993a. Fortaleza. Fortaleza. AMMANN. a partir de uma consciência crítica da realidade./jun. FNE . 1993. Impactos das aplicações.

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