A “vocação atual” da sociologia rural

Para uma abordagem das questões atuais que se colocam à sociologia rural - o verdadeiro objetivo deste texto1[1] -, é indispensável introduzir um quadro geral que esclareça a respeito da possibilidade de formulação dessas questões e mostre o sentido que é preciso trabalhar a fim de respondê-las. Este texto está organizado em torno de três eixos: um posicionamento da sociologia rural em relação à sociologia geral, que é o seu pressuposto absoluto; um posicionamento da sociologia rural diante das outras ciências sociais que estudam o mundo ou o espaço rural, o que se justifica pelas trocas importantes que ela tem com as mesmas - e, inversamente, as relações que as ciências sociais mantêm com a disciplina -; e uma reflexão sobre a curta história da sociologia rural, um preâmbulo indispensável para uma reflexão sobre sua presente situação e sobre o modo de perceber suas tarefas atuais e futuras. Três referências básicas A sociologia rural: aplicação da sociologia geral2[2] A sociologia rural - antes de tudo, trata-se aqui da sociologia rural francesa, podendo, contudo, o que será dito ser generalizável - jamais reivindicou o estatuto (absurdo) de disciplina única, à parte.3[3] Uma tal afirmação pareceria evidente. Em compensação, as conseqüências que necessariamente devem ser tiradas disto, são menos freqüentemente (para não dizer jamais) mencionadas e não são objeto da atenção que se impõe, se se pretende ver a sociologia rural como sociologia: se a sociologia rural, antes de tudo, é sociologia, ela pura e simplesmente se integra nas evoluções gerais - temáticas, metodológicas, teóricas - da sociologia. Isto, aliás, é patente, se se considera a sua própria história: é assim que ela, cada vez mais - ou simultaneamente - foi durkheimiana, funcionalista, culturalista, marxista, estruturalista, weberiana etc. Não existe, portanto, “escola” de sociologia rural, mas, através da sociologia rural, há análises de inspirações teóricas diversas que propõem diferentes maneiras de integrar as dimensões sociológicas da atividade agrícola e do mundo rural em uma análise de conjunto da sociedade francesa e, mais largamente, das “sociedades industriais”. (Henri Mendras propôs inclusive uma teoria geral válida para todas as sociedades). Desta proposição - que também é uma constatação - decorre toda uma série de indagações: como a sociologia rural seguiu estas evoluções? Ela simplesmente as seguiu ou, a seu modo, contribuiu para provocá-las? Uma resposta suporia uma análise mais detalhada, o que não será feita aqui, porque isto exigiria uma pesquisa específica.

1[1] O leitor já deve ter percebido a referência implícita ao título da obra de Georges Gurvitch (1950).
Contudo, devemos esclarecer aqui que ela não é propriamente uma obra de sociologia rural.

2[2] Precisemos bem: dizer que a sociologia rural é uma “aplicação” da sociologia geral não quer
dizer que a sociologia rural seja uma “ciência aplicada” (como foi algumas vezes afirmado). Quer-se dizer que a sociologia rural é um “ramo” da sociologia geral, tão fundamental quanto esta.

3[3] É interessante a este propósito consultar os primeiros escritos referentes à sociologia rural do
pós-guerra. Uma rápida pesquisa neste sentido conduz a resultados um pouco surpreendentes: o primeiro indício que encontrei de um curso de “sociologia rural” faz pensar que foi o Instituto de Estudos Políticos de Paris quem teve o papel pioneiro na matéria! Outras surpresas: este curso foi inicialmente confiado a dois geógrafos (em 1948-1949), em seguida a Jean Stoetzel (1951-1952), antes de ser atribuído a Henri Mendras. As apostilas dos cursos de Jean Stoetzel e Henri Mendras (cf. particularmente a apostila de 1963-1964), assim como a do curso dado por Henri Mendras no IHEDREA (s/d), começam sempre por uma precisão muito fundamentada referente à vinculação da sociologia rural à sociologia geral: Jean Stoetzel, Sociologie rurale, 1951-52 (curso ministrado no Instituto de Estudos Políticos de Paris, 304 p. datil.; Henri Mendras, Sociologie rurale, Paris. Os cursos de Direito, 1956-1957, 3 fascículos, 282 p. mimeo.; Henri Mendras, Sociologie rurale, Paris, Institut d’Études Politiques de Paris, Amicale des Éleves, 1963-1964, 216 p. mimeo.; Henri Mendras, Sociologie rurale, Paris, IEP de Paris, Amicale des Éleves, 1967-1968, 3 fascículos, 295 p. mimeo.; Henri Mendras, Sociologie de la campagne française, Que sais-je? n. 842, Paris, Presses universitaires de France, 1959 (reedição 1965), 128 p.; Henri Mendras, Sociologie rurale: notions générales et sociologie du changement, Institut des hautes études de droit rural et d’économie agricole (IHEDREA), s/d, 59p, mimeo.

Sociologia rural e ciências sociais da ruralidade: uma escola ruralista? Uma vez feitas as referências aos fundadores, pode-se continuar discutindo este tema que parece ser realmente central para a sociologia rural. Eis, por exemplo, o que escreveu Henri Mendras em 1958: “O ‘meio’ rural é um campo de investigação para todas as ciências sociais e seu estudo não poderia constituir uma disciplina autônoma. Os geógrafos que analisam as relações entre o homem e o meio natural e a distribuição espacial dos fenômenos humanos começaram naturalmente a se debruçar sobre o campo. A economia rural é um ramo (um dos mais antigos) da economia política. Ligando-se a um passado em que a agricultura era a atividade exercida pela maioria dos homens, a história social dá um grande destaque à descrição da vida camponesa. Os etnólogos estudam as estruturas ditas ‘arcaicas’ nas quais a busca ou a produção de alimentos ocupam todos os homens. Enfim, citadinos e rurais interessam igualmente ao psicólogo, ao demógrafo, etc. Enquanto homens iguais aos outros, os rurais também dizem respeito a cada ciência social. Entretanto, eles vivem em um meio particular que requer uma certa especialização do pesquisador e, às vezes, uma problemática diferente. Como o etnógrafo, o sociólogo rural deve, portanto, conhecer os métodos e as técnicas de todas as outras ciências sociais, a não ser que conte com a colaboração de uma equipe de diversos especialistas.” Encontra-se aqui uma profissão de fé que remete ao que se chama a interdisciplinaridade dos “ruralistas”.4[4] A démarche do “ruralista” ambiciona integrar todas as dimensões do social, o tempo, o espaço, o local e o global. Trata-se de uma démarche que se qualificaria hoje de holística (ou holista). Do ponto de vista sociológico stricto sensu, esta démarche se caracteriza também pela sua “transversalidade”. Isto aparece, por exemplo, particularmente nos planos das obras gerais de sociologia rural: por um desvio de alguma forma paradoxal, a sociologia rural, em princípio “especialidade” da sociologia, aparece de fato como uma sociologia “generalista” em si. O sociólogo rural se interessa por todo um conjunto de aspectos da vida social que é dividido, por sua vez, em várias “especialidades” da sociologia - sociologia política, sociologia da família, sociologia das religiões etc. Portanto, é pelo seu “objeto” - seria melhor falar de “campo de aplicação” - e não por uma “teoria” ou uma “escola de pensamento” particular, que a sociologia rural se define. Deste ponto de vista, podese bem seguir Michel Robert (1986: 5-6) quando ele escreve: “Com suas duas correntes bem nítidas, a sociologia rural se definirá, portanto, mais pelo seu campo de ação do que por uma coloração teórica original. Nisto, pode-se compará-la à sociologia urbana na qual se pensa imediatamente, embora a sociologia rural não seja sua antítese. Estas duas disciplinas não são construídas uma em relação à outra, nem a fortiori, uma contra a outra. Tendo dividido entre si o espaço e seus habitantes, elas seguem cada uma a sua rota teórica sem mesmo ter sempre relações elementares que seriam desejáveis”. É o que diz também Henri Mendras, escrevendo no Traité de Sociologie de Georges Gurvitch: “Se não se limita a uma sociologia agrícola especializada, a sociologia rural se define, portanto, pelo seu campo de estudo, as sociedades rurais” (Mendras, 1958: 316). É desta proposição que decorre uma interdisciplinaridade que “exige (pois) o concurso de todas as ciências sociais para chegar a uma integração dos diversos aspectos da vida rural. Nesta perspectiva, o sociólogo rural atribui a si mesmo uma dupla tarefa, por um lado, estudar os aspectos da sociedade que dizem respeito a sua ou a suas especialidades, e, por outro lado, reinterpretar e integrar, desde seu ponto de vista, os materiais que os pesquisadores de outras disciplinas lhe oferecem” (Mendras, 1958). Henri Mendras imediatamente acrescenta uma precisão que muda uma leitura à primeira vista estritamente “objetiva” da afirmação (no sentido de constitutiva de um “objeto” de uma certa forma “físico”): “Esta definição compreensiva parece-nos impor-se nos países de campesinato tradicional, notadamente na França. A sociedade rural conserva aí uma certa autonomia diante da sociedade global e é impossível reduzi-la a um grupo profissional, a um setor econômico ou a uma classe social, entre outros” (Mendras, 1958). Segundo ele, a justificativa da sociologia rural repousa, assim, no postulado - que poderia também ser tratado como uma hipótese - da existência, “nos países que têm um campesinato tradicional”, de uma “sociedade rural” (?) que “conserva uma certa autonomia face à sociedade global”. Assim definido esta é a definição de Henri Mendras, mas que pesou fortemente na sociologia rural durante pelo

4[4] Esta interdisciplinaridade está, por exemplo, na própria base da filosofia e da ação da Associação
dos Ruralistas Franceses.

menos 20 anos - o objetivo da sociologia rural é, de uma certa forma, demonstrar a validade desta proposição (desta hipótese, poderíamos dizer). Daí, a ênfase posta progressivamente na “mudança social” que deslocará as “sociedades rurais” de seu estatuto de “autonomia relativa” - o das sociedades camponesas - à sua integração total à sociedade global - através da passagem dos “camponeses” à condição de “agricultores”, estes últimos cada vez mais vistos como “um grupo profissional... um setor econômico ou... uma classe social, entre outros”. Uma hipótese forte cimenta as análises especificamente sociológicas de temas precisos do mundo rural: a de que existem laços estreitos entre os diferentes aspectos da vida social que leva a que estes aspectos sejam do domínio de diferentes áreas da sociologia ou de outras ciências sociais - a economia, a geografia, a etnologia, e a história, evidentemente - e a se reconhecer que é preciso, portanto, tratar de considerar todos estes aspectos conjuntamente como condição para compreender as evoluções do mundo rural e lhes dar uma interpretação verdadeiramente sociológica. Daí a busca constante da transversalidade no seio da sociologia e da interdisciplinaridade com as outras ciências sociais dedicadas ao tema. Daí, também o risco que os sociólogos rurais correm de parecerem fechados - juntamente com os outros “ruralistas” - limitados ao estudo do mundo rural “específico” e “fechado”. De fato, uma análise detalhada dos trabalhos dos sociólogos rurais mostraria que não se trata disto e que a preocupação de situar as evoluções do mundo rural no interior das evoluções da sociedade global é constante e sistemática. Deve-se sublinhar que esta dupla preocupação já é uma característica forte da sociologia rural, mantendo ao mesmo tempo suas preocupações com uma coerência de uma certa forma “interna” ao “mundo rural” (a expressão assume aqui todo o seu sentido) e com a integração deste conjunto a uma lógica global (uma coerência, de uma certa forma “externa”) de uma sociedade dita “englobante” para marcar esta “exterioridade atuante”. Pode-se dizer que esta é uma proposição e uma “postura” sociológicas de caráter geral e básico (que exigiria, diga-se de passagem, um exame aprofundado): ao mesmo tempo um exercício difícil de se fazer, uma espécie de desafio difícil de se manter. Mas, afinal de contas, não é o que torna interessante e mesmo justifica uma démarche de sociologia aplicada a qualquer uma das malhas, elementos ou aspectos da vida social? Em suma, não é essa uma das exigências fundamentais da análise sociológica e, portanto, do próprio trabalho do sociólogo? Sociologia rural e sociedade: dentro e fora Uma análise mais atenta da história da sociologia rural mostraria sem dificuldade o quanto esta história está ligada, através de suas temáticas - e talvez precisamente através da própria orientação de suas análises - às questões que são colocadas (às vezes, inclusive nos termos em que são postas) a respeito do mundo rural, da agricultura e dos agricultores na própria sociedade francesa. Não me parece esquematizar excessivamente se disséssemos que cinco e principais temas organizaram ao longo do tempo o questionamento que sociólogos rurais constantemente se têm feito através de ponderações variáveis e de enunciados igualmente diversos, se comparados os momentos em que são apresentados. O primeiro deles diz respeito às relações - e mais precisamente, na linguagem da época, à oposição cidade-campo. Este velho tema, que reaparece com mais força desde o final da guerra, tem um lado “acadêmico”: ele remete a antigas reflexões dos geógrafos e dos historiadores. Mas a forma como é retomada no pós-guerra corresponde muito diretamente a preocupações sociopolíticas maiores. Tratava-se então de lançar a França a uma política de reconstrução, industrialização e modernização e a questão que se punha era a de saber se esta componente essencial da sociedade que são os campos - entendamos “agrícolas” - na França dos anos 1950 será capaz de se adaptar às mudanças indispensáveis. Para a cidade, “civilização de conquista”, como Braudel a caracterizará mais tarde, a questão não se coloca: apenas se põe a questão de saber o que vai acontecer com elas em uma fase de crescimento rápido - o que será a questão central e “organizadora” da sociologia urbana. Está-se, assim, em um campo sócio-político e a sociologia rural vai tomar para si, sob diferentes formas, as questões decorrentes. Estas questões ressurgem periodicamente durante todo este meio século, com as formulações que evoluem em função das mutações sociais, econômicas, demográficas, etc. Algumas noções servem de referência nesta interrogação permanente da sociedade francesa sobre si mesma: desertificação (dos campos), rurbanização, terras não cultivadas, uniformização (dos modos de vida), morte (ou renascimento) do rural, etc. A sociologia rural - mas as outras ciências sociais igualmente o são - é constantemente interpelada pelo que se poderia chamar o “discurso social” sobre o rural. Ela também tenta dar as suas respostas.

Se nos fixarmos na cronologia, parece-me que o segundo tema a evocar é o das transformações da agricultura, não só do estabelecimento agrícola, e do trabalho do agricultor, mas também - tendo em vista o estreito laço entre o estabelecimento e a família - a transformação da família agrícola. Trata-se aqui do domínio da política agrícola que ocupa um lugar crescente na vida política a partir dos anos 50 até hoje. Tendo experimentado uma considerável “modernização”, sob o impacto de um movimento social poderoso e dinâmico na Quinta República - já em curso na Quarta, mas uma das grandes construções daquela - a agricultura ocupa um lugar de destaque na vida social - e sobretudo política - nesse período. Uma tal voragem sociológica era, evidentemente, um estímulo para os sociólogos rurais, a tal ponto de a sociologia rural ser considerada, com justiça, como tendo sido largamente infiel a sua vocação para se reduzir a uma sociologia dos agricultores (Robert, 1986). O terceiro tema, que já aparece no primeiro e prossegue no segundo, é o do lugar que os camponeses, e depois, os agricultores, ocupam na sociedade francesa e, mais particularmente, na estrutura e na vida política do país. Esta questão não é apenas o pano de fundo das transformações em curso, tanto nas relações entre a agricultura e a economia nacional, quanto nas relações entre cidade e campo: ela é claramente colocada pelos líderes do movimento social dos “jovens agricultores” (Debatisse, 1963; Lambert: 1970) e por aqueles que se poderia chamar de seus “intelectuais orgânicos” (Faure: 1966). Esse tema constitui, como já se viu, um dos capítulos inevitáveis - e, por assim dizer, até mesmo, uma forma de conclusão - em qualquer apresentação de conjunto da sociologia rural. O quarto tema, embora tenha surgido bem depois e mais como uma resposta a ele, poderia ser incluído no primeiro como um dos seus itens. Trata-se do tema do desenvolvimento local, inicialmente com o movimento das localidades (“pays”), o slogan “viver em sua própria localidade” (vivre au pays); depois, com as políticas de desenvolvimento rural, seus múltiplos recortes espaciais e procedimentos às vezes bastante inovadores na ação da administração (com a introdução dos planos de desenvolvimento rural, por exemplo). E hoje com os debates sobre o futuro do mundo rural no quadro de uma política de organização do território. Um último tema deve, enfim, ser evocado (embora este texto não pretenda exauri-lo): o do meio ambiente. É a questão mais nova, mesmo que sejam muitos os seus antecedentes que podem ser encontrados na sociologia rural (Mathieu & Jollivet, 1989). Como “discurso social”, ele é incontestavelmente um tema recente. Nele pode-se incluir a referência, tão atual quanto florescente, às paisagens. E, de forma mais geral, o problema das relações com a “natureza”, que constitui o pano de fundo - para não dizer o próprio fundamento - da questão do meio ambiente. Se não foi a partir da agricultura e do campo que as preocupações ambientais tomaram corpo (as primeiras vieram com a indústria e suas “poluições”), a agricultura, os recursos naturais renováveis (a água em particular, mas também os solos, as florestas, etc), a qualidade dos produtos agrícolas e do espaço rural não tardaram a entrar em cena, e mesmo a ocupar um lugar especial no tema do meio ambiente. Os “ruralistas” - e em particular os sociólogos - no campo das ciências sociais, foram os primeiros a se interessar por estas questões, a ponto de Bernard Kalaora dizer que seria necessário que as pesquisas em ciências sociais sobre o meio ambiente se liberassem da influência daquelas, influência julgada excessiva e tendente a se fechar. Até aqui, esta lista de temas recobre o essencial e ilustra suficientemente o nosso propósito, de apenas chamar a atenção para a estreita correspondência entre as grandes temáticas da sociologia rural e o que se poderia chamar as “questões da sociedade”. Em função da ótica considerada, três observações podem ser formuladas. Primeiro, foi sem razão que se acusou a sociologia rural de se fechar em sua “torre de marfim”; ao contrário, ela tentou trazer suas respostas às interrogações da sociedade que eram de seu domínio. Segundo, teria ela, ao fazer isto, pecado por um excesso de oportunismo? Foi ela, afinal, “teleguiada” de alguma forma pela “demanda social?” Observemos, desde logo, que parece lógico que as ciências sociais tratem dos problemas que se colocam na sociedade e para os quais elas são competentes. Sobre este ponto, notar-se-á que todos os temas evocados fazem parte da matriz inicial da sociologia rural. De fato, estes temas são mais recorrentes que sucessivos; apenas, ao “gosto do dia”, suas formulações sucessivas lhes dão uma aparência de novidade irredutível. Ao contrário, o que devem fazer as ciências sociais é precisamente mostrar que se trata de avatares, de desenvolvimentos circunstanciais de questões de fundo. Para isto, o que elas devem fazer é igualmente abandonar o discurso comum, na medida em que este é susceptível de ocultar os problemas reais. Emprega-se aqui uma fórmula da qual a prudência esconde mal a pretensão, para não dizer a imprudência: cada ator social tem sua concepção do que sejam os problemas reais - são aqueles que eles enfrentam em sua ação ou em seus interesses imediatos.

entre outras. no curso deste período. querer responder com precisão a tal questão seria uma pesada tarefa. tal como foi herdada das últimas quatro ou cinco últimas décadas. dar conta. Segundo esta maneira de ver. Se a sociologia rural foi acusada de permanecer em sua “torre de marfim”. os pontos de vista e as avaliações são evidentemente diferentes. uma sociologia rural muito sensível aos avatares do questionamento social sobre o rural .que assume hoje. e inclusive estruturas.e. Considerada do ponto de vista da estrutura interna da sociologia.as “sociedades rurais” . uma visão essencialista e idealista. quase próxima do seu “objeto” . aquela atitude equivaleria a uma negação da história social que vai da sociedade feudal à sociedade industrial ou. Questões atuais Duas questões definem o essencial: a sociologia rural. seria preciso sociólogos competentes no estudo dos aspectos da realidade social em questão para realizar de maneira rigorosa e informada as pesquisas necessárias. Deste ponto de vista. com a renovação das questões sobre as “tecnologias”. aquelas que escapam à consciência dos atores. Ao contrário. A primeira consiste em afirmar que a sociologia rural nunca teve pertinência e sempre foi um artefato ideológico. seria muito instrutiva. neste caso. Devese notar que uma tal afirmação é coerente com a definição de Henri Mendras. abordar as tarefas futuras. uma análise comparada das duas démarches. não teria sido porque ela nunca aceitou responder às questões tal qual estas lhe foram colocadas . e ainda menos lhes fornecer. que em nada corresponde. as suas razões. Em outras palavras. A identificação de um ramo da sociologia que se dedica a sua análise pôde se justificar. configurando os dois grandes esquemas analíticos que ela propõe para compreender as evoluções contemporâneas da agricultura e das sociedades rurais nas sociedades ditas “industriais”. A propósito. A terceira questão que pode ser colocada consiste em saber se a sociologia rural conseguiu. Portanto. o outro. a característica da sua “postura” durante este meio século de sua história. Esse tipo de atitude pode ser vista sob dois ângulos: um remete à história. e cujos discursos não podem. tem ainda pertinência? Se sim. nem às exigências da especialização dos conhecimentos pela divisão do trabalho científico. um novo relevo e ao “modelo de desenvolvimento” operado pela política agrícola a partir dos anos 60 (agora questionado).e que conserva o seu modo próprio de ver: eis aí. qual seria essa pertinência? qual a base das suas problemáticas e “objetos”? No que se refere às justificativas da sociologia rural há duas maneiras possíveis de ver as coisas. algumas pistas para realizar aquele balanço. por exemplo. e que parecem indispensáveis para a discussão presente. herdadas das sociedades agrárias de onde elas procedem. Além disso. pelo menos. à recusa da idéia de que as sociedades industriais possam conservar traços. A crítica que ela fez ao discurso da “rotina camponesa” ou. enquanto tais. no domínio das pesquisas sobre a inovação. A segunda maneira de negar a pertinência da sociologia rural é indagar se o “objeto” que ela reivindica como seu . mas não se justifica mais atualmente. Sobre este balanço. o mais preparados possível. nem ao caráter basicamente empírico da sociologia. mais tarde.continuam existindo (se é que existiram em algum momento). esta atitude é uma das grandes características da sociologia rural francesa e um dos pontos sobre os quais ela mais se diferenciou da “sociologia agrícola” de inspiração americana . que formularia questões-chave estruturantes da disciplina em torno das quais o trabalho da comunidade dos sociólogos se organizaria.e em vigor especialmente na Holanda. a sua análise crítica do processo de inovação . são.Mas esta “pretensão” é a mesma da sociologia.e isso talvez faça uma grande diferença em relação à economia (ou pelo menos a uma certa economia) e à geografia (ou pelo menos uma certa geografia). de “sociedades rurais . a uma epistemologia da sociologia. ao que parece. até mesmo. tanto da sociedade quanto da sociologia. ao movimento “neo-ruralista”. o que se pode dizer é que essas questões têm importância e mereceriam hoje um exame atento para que possamos. digamos. elaborar um instrumental intelectual à altura de suas ambições. que é a de evidenciar as “lógicas sociais” implícitas ou. Deve-se precisar ainda que. ela suporia a existência de um esquema de referência teórico aceito por todos os sociólogos. ter-se-ia. o “rural” não existe mais. Estes são elementos gerais básicos para um “enquadramento” da sociologia rural. a sociologia rural opôs sua formulação própria dos problemas à dos atores profissionais e do Estado? Por sua “distância crítica” em relação ao real. mesmo neste caso. Considerada no primeiro aspecto.

antes de mais nada. os dois planos sobre os quais elas devem ser examinadas . E isto. O questionamento social e a sociologia rural Quatro séries de questões podem ser colocadas. que trata da evolução da população dita rural. basta remeter às reflexões sobre o “renascimento” rural.por exemplo. através dos conflitos. ainda segundo Henri Mendras. é igualmente indispensável recolocar tais evoluções e as interpretações que o sociólogo pode fazer sobre o passado no médio e longo prazos. simultaneamente. “pluriatividade”. dar uma imagem “objetiva” das evoluções e situações reais e proceder ao que se poderia chamar uma “crítica externa” do discurso. de definir sistemas técnicos de produção que levem em conta. aprofundar a análise para sermos mais precisos neste ponto. em outras palavras. antes de mais nada. Que problemáticas e que objetos? Esta reflexão se inscreve no prolongamento da análise acima desenvolvida. Após o enunciado da questão. assim procedendo. portanto. “produtividade”. interrogando-se sobre as problemáticas atuais com as quais ela poderia se ocupar. o sociólogo também deve demonstrar que as suas análises enriquecem o conhecimento da sociedade francesa. enfim. Um primeiro bloco de questões gira em torno da diminuição da população ativa agrícola e suas conseqüências: há um debate particularmente aberto sobre o tema do número de estabelecimentos agrícolas (inclusive sobre o número que se deve ter como meta) que haverão de subsistir nos futuros dez ou vinte anos. catastrofista das coisas .e. as “sociedades rurais”. desaparecem quando os camponeses se transformam em agricultores. como as que se presume existir nas sociedades industriais. as evoluções contraditórias nos domínios técnicos (com as biotecnologias e as técnicas “extensivas”). é necessário.tanto das mudanças em curso. Estas reflexões desembocam em todo o debate sobre o futuro do espaço e do mundo rurais e sobre quais deveriam ser as políticas que lhes dizem respeito. por um lado e. estabelecer os fatos para se ter uma distância em relação aos discursos e. ao mesmo tempo. por outro. em seguida.isto é. Esta primeira discussão se prolonga em outra. isto é.camponesas”. clarificar o discurso por sua análise interna . quer a emergência de políticas relacionadas com as novas funções do espaço rural. deve passar à sua formulação sociológica. de sua amplitude real.em crise . É preciso ainda analisar as conseqüências do modelo de desenvolvimento . através de uma .e inversamente. as trocas e os mercados (e não mais os temas centrados apenas na intensificação da produção) e. as questões reais que não são objeto de nenhum discurso. considerando. Pode-se acrescentar uma terceira dimensão que remete a um movimento de conjunto que diz respeito ao questionamento científico considerado globalmente. a sociologia rural não tem mais razão de ser em uma sociedade sem camponeses . “extensificação”. o que implica em evidenciar suas dimensões propriamente sociológicas e/ou dos objetos referidos. Se. convém redefinir o estabelecimento agrícola e a atividade profissional dos agricultores em seus próprios fundamentos . através do grupo dos agricultores em dificuldade . Trata-se. levar em conta. ainda. que seria possível justificar a pertinência ainda hoje da sociologia rural. as interrogações vindas da ou referentes à . Para caracterizá-la. etc. apoiando-se em um corpus de textos ad hoc. ou ainda através das tensões produzidas pela intervenção da regulamentação européia sobre a matéria etc. se tais “sociedades rurais” são habitadas cada vez menos por populações de agricultores e cada vez mais por trânsfugas da cidade ou por assalariados das zonas rurais industrializadas ou terciarizadas.que ela vem adotando há um terço de século. quanto dos discursos que elas suscitam. é o caso da França. os termos que aparecem aqui são “diversificação”. em termos sociais e ideológicos. O último debate a ser feito refere-se ao meio ambiente. ele enriquece o seu aparelho analítico e oferece os meios para escapar dos desvios da interpretação de curto tempo e sem recuo freqüentemente associada a uma visão dramática. através da necessidade de se conceber os sistemas de produção agrícolas “respeitadores do meio ambiente”.própria sociologia. de outro. Em uma palavra. como. poder-se-ia acrescentar com maior razão. como este autor afirma.a saber: o questionamento social. quer as reivindicações das populações locais relativas a sua situação de vida.ou. o sociólogo tem uma sêxtupla tarefa a cumprir. os movimentos de mundialização das relações de troca entre os grandes produtos básicos e o desenvolvimento dos circuitos curtos dos produtos mais especializados etc. ele precisa evidenciar o que se poderia chamar os “silêncios significativos”. Um outro debate refere-se mais diretamente à agricultura e ao modelo de desenvolvimento . acima lembradas. É. Diante desta avalanche de questões e de argumentos contraditórios. distinguindo os dois contextos em relação aos quais as evoluções da sociologia rural parecem estar referidas .quem os emite? com que coerência? no quadro de que estratégias e com que objetivos? . É claro que estamos aqui no cerne do problema. na qual os camponeses se tornaram agricultores. de um lado. Ele deve. mas seria necessário. trata-se de repensar o desenvolvimento.com o necessário abandono à referência às “2 UTH” (unidade de trabalho utilizada como referência nas análises sobre a moderna agricultura familiar).

devem ser tomadas como verdades estabelecidas? Não poderiam ser tratadas como hipóteses. este procedimento deve se situar no quadro de uma análise das transformações da sociedade global e.. cujo lugar na estrutura e na vida política se vincula ao poder local.. é ocultar toda uma diversidade de situações que corresponde a uma multiplicidade de vias experimentadas num processo de adaptação . A sociologia rural foi pioneira nas análises sociológicas do trabalho não-assalariado. mas ela não é válida para todos os períodos históricos. a emergência de novas solidariedades territoriais . depois. O questionamento sociológico e a sociologia rural A sociologia rural trata de todos os aspectos da vida social no campo. um . É possível indagar sobre a equivalência estabelecida por Henri Mendras entre “sociedades rurais” e “sociedades camponesas”. porém. porque a situação dos agricultores evolui rapidamente. tal contribuição. O mesmo pode ser dito a respeito das “sociedades rurais”. se se estima que os agricultores já se tornaram um “grupo profissional”. um poder local que. em processo de rápidas mutações. todas são razões para se repensar a teoria sobre a profissão e para se criar um novo quadro de análise que permita caracterizar sociologicamente os “villages” enquanto “sistema social” e. nos 36. de fato. antes de mais nada. A hora. as formas associativas.a “sociedade local” . da relação social. No entanto. não somente certo. Primeira observação: aquelas duas assertivas . . são apenas uma só . Tais análises devem ser retomadas atualmente por duas razões: primeiro. dar uma contribuição em todos os capítulos da sociologia. serem confrontadas com observações empíricas realizadas em trabalho de campo? Admitir a afirmação segundo a qual os camponeses tornaram-se agricultores (empresários. analisar o papel que eles representam no processo de integração social através das suas funções tanto institucionais quanto simbólicas e notadamente identitárias. A pluriatividade. Não há apenas o campesinato. ele tem de mostrar que as suas análises robustecem o corpus teórico da sociologia. em conseqüência. Que se possa fazer um cruzamento entre as duas análises é. aberto e complexo.entre a análise de um longo período de transformações estruturais do campesinato e a análise.melhor compreensão dos processos sociológicos e da sua adaptação às transformações gerais nas quais o país está inserido. que representam o futuro do espaço rural. porque faltam as observações concretas para fazer um contrapeso à crescente invasão de discursos. assim. isto é.e também as novas problemáticas e os novos conflitos. Reduzir.é arbitrário: existem outras “sociedades locais”. A análise do que se poderia chamar um “sistema social localizado”.ou da mudança social . considerado enquanto “sociedade” (local). Toda tentativa de generalizar ao conjunto da Europa . também já perderam toda a sua “autonomia relativa”. seja esta transição para uma formação de base não-agrária.as quais.que é requerida e isto supõe análises finas. entre tantos outros e se as “sociedades rurais”. as recomposições espaciais às quais são levados. Tanto em um caso como no outro. “molecultores”.a um contexto incerto. é uma sociologia da “transição” . a diversificação produtiva voltam a ser temas da ordem do dia que precisam ser considerados para caracterizar sociologicamente a situação atual dos agricultores. precisamente.o campesinato .ao outro . imagens e estatísticas que constroem o “senso comum” nesse nosso tema.) é ir um pouco depressa demais. enquanto tais. em particular. por esta mesma razão. etc. e uma abordagem atualizada das “sociedades rurais” deve ser precisamente. em suma. enfim. “agro-managers”. dos seus processos de reestruturação sociopolítica. de alguma forma espacial do que podemos chamar de uma “sociedade local”. da inovação nos setores produtivos não-industriais. está longe de ter um peso insignificante no conjunto do sistema político.esta também podendo assumir uma variedade de formas . ele próprio. as novas funções que deles se espera. das relações entre o pequeno produtor independente e os setores industriais a montante e a jusante. é a de um retorno maciço e metódico às pesquisas de campo.uma tal proposição leva a sublinhar seus limites. é também um domínio no qual a sociologia rural investiu particularmente. portanto.sem falar do conjunto do mundo . minuciosas e circunstanciadas capazes de perceberem as continuidades e as transformações nos processos de reprodução da sociabilidade e o sentido do ser-conjuntamente. Além disso. serem submetidas a exame e. e. a das transformações de uma “sociedade local” de base agrária em direção a uma “sociedade local”.para não dizer uma contradição fundamental . nem para todos os campos. pura e simplesmente.os novos “territórios rurais” . Sobre este ponto poder-se-ia comparar o seu procedimento com o da sociologia das organizações. além das “sociedades camponesas”. seja para uma outra já sem fundamentos agrários.000 municípios. O mínimo que se pode dizer é que ela coloca um problema histórica e geograficamente. qual seria. se as duas razões de ser da sociologia rural desapareceram? Duas observações podem ser feitas em relação a esta maneira de colocar o problema. Existe um verdadeiro hiato . mas ainda indispensável. Ela pode. então. porque o contexto que a sociedade global constitui está. As transformações sociais internas radicais que os municípios conhecem.

a profissão.Agora.e quanto muito. A abertura a uma abordagem comparativa internacional. aqui. a ser associado a suas evoluções e a pesar também sobre elas. em que haveria uma forma de “banalização” tal que pudesse retirar todo o interesse à análise sociológica de uns e de outros? Aqui há uma atitude que se parece àquela segundo a qual nós teríamos chegado a uma espécie de “fim da história”. Em suma. as questões que parecem dever ser consideradas como as questões centrais de hoje? Em todo caso. em seguida. em um momento em que ele adquire cada vez mais relevo.o seu passado “rural” para se adaptar ao presente.utiliza .no caso. Evidentemente. a condição social.no caso. os fundamentos. por exemplo. Isto se traduz naquilo que se poderia chamar “dispositivos locais de ação”. Estas análises de sociologia política permitiriam evidenciar e compreender as atuais mudanças em curso no controle de uma parte. a segunda observação: mesmo supondo que os camponeses tenham se tornado agricultores e que as “sociedades rurais” tenham deixado de ser “sociedades camponesas”. referentes aos fundamentos das reestruturações sociais locais e às transformações das relações locais de poder subseqüentes às evoluções das estruturas agrárias. questionamentos sobre as evoluções das solidariedades territoriais sob a influência. não é porque estes problemas não ocupam o primeiro plano na mídia que não devem mais ser estudados. uma das bases da pirâmide dos poderes. da fraca densidade relativa de seu povoamento. Dedicarse a esta análise seria tanto mais judicioso quanto o termo volta hoje à ordem do dia. exigem que os seus aspectos referentes à “ruralidade” sejam analisados como facetas incontornáveis das evoluções da sociedade (no caso. os “municípios rurais” e outros vilarejos e pequenas cidades continuarão a existir. percebida aqui sob o ângulo das relações entre o Estado. confrontá-los aos fatos e evidenciar a forma como a sociedade . quanto dos novos tipos de pressão ou de dependência de ordem espacial. uma vez que ela remete a uma história em curso. no quadro de uma análise dos processos de “integração” européia. e ainda em que medida. especial e quantitativamente importante do poder “territorial”. é uma necessidade. Deste ponto de vista. ainda. em um setor produtivo sobre o qual se pode dizer que faz parte das “indústrias pesadas” mas não está baseado no modelo da grande empresa com salariado. como prejulgar este interesse? Tudo o que se pode fazer não é formular hipóteses sobre o que poderia ser. Esta é uma outra vertente de uma sociologia do político. pode-se. a questão se coloca em dar sentido a esta necessidade de continuidade . relativas aos processos de socialização. da economia agrícola e da composição social da população rural. Inicialmente. propor uma série de questões importantes para uma sociologia especializada na análise do atual mundo rural. as competências. de uma forma geral. os quais constituem novos modos de socialização do espaço e de regulação dos conflitos.ocultação de uma ruptura e. ela deve particularmente ser aplicada ao conjunto dos países europeus. ao mesmo tempo. Esta proposição é generalizável a todas as formações sociais nacionais. Por fim. Tal extensão à Europa da “construção rural” representa uma ocasião excepcional de renovação das problemáticas.ou não . a fisionomia e as funções sociais e territoriais dos segundos continuarão a evoluir. de outro. Questões. Outras já estão bem exploradas . um começo de reconhecimento desta ruptura. a francesa . e tudo isto continuará a fazer parte da sociedade global. por uma comodidade pelo menos provisória. tem por objetivo apenas mostrar que numerosos são os temas de pesquisa de dimensão geral que se pode abordar através das evoluções do mundo rural . para serem tratadas. ao mesmo tempo.e neste caso. uma contribuição para uma sociologia da relação social. ao mesmo tempo que é uma exigência que se poderia qualificar de histórica. da integração e da exclusão em “contextos” sociológicos bem definidos e diferentes dos subúrbios e dos bairros urbanos. a título de exemplo.como a análise da evolução do lugar dos agricultores na sociedade e a de seus comportamentos profissionais e políticos. Cabe ainda aos sociólogos decifrar os discursos e as políticas. levando em conta. . Estas são apenas algumas pistas. tanto das políticas de cooperação intermunicipal. das múltiplas pressões que recebe e das expectativas as mais contraditórias que se tem sobre ele. poder-se-ia chamar as sociedades “de villages” ou “de fraca dimensão”. Porém. A questão que se coloca é a do interesse de uma análise sociológica destes fenômenos. a sociedade civil e o território . os contextos. esta mutação também não estaria exprimindo a necessidade de uma continuidade tanto simbólica quanto prática . interrogações sobre as formas sociais de mobilização do trabalho agrícola: seria a contribuição de tal sociologia para uma sociologia do trabalho. em vias de se emancipar do seu conteúdo agrícola tradicional. os saberes e os conhecimentos adquiridos de um lado e. a cidadania dos primeiros. francesa) tomada em seu conjunto. as formas e o conteúdo da sociabilidade naquilo que. portanto. Evocá-las aqui. Questões. isto é. interrogações sobre a noção de rural como categoria simbólica da representação que a sociedade constrói sobre si mesma. Também seria interessante ver em que medida o seu sentido não está. justamente. precisamente. o território ”rural” que representa uma problemática particular em razão da importância de seu lugar no conjunto do território nacional. isso é uma ilusão de ótica: os “agricultores”. Ter-se-ia.

não somente em seu âmbito. ainda mais claramente nestes últimos anos . passando pelo microregional.a água. E em conseqüência. o técnico e a natureza em relação a todos os tipos de sociedades. os solos. que se utiliza dos recursos naturais renováveis . o procedimento holístico na medida em que a análise sistêmica pode ser considerada como uma de suas versões. embora seja socialmente apropriado. o regional. São várias evoluções. “interdisciplinaridade”. “modelização”. O mesmo acontece com o rural. os solos. Esse rural oferece campos os mais variados para uma análise das relações sociais organizadas entre uma coletividade humana .e também controversa . seria melhor falar de uma “sociologia do rural” (Lagrave.superprodução. um dos grupos sociais mais ricos em ensinamentos para o estudo das relações entre o social e o técnico. Para tratar destas questões. que atingem proporções crescentes da população na maioria dos países.. mais particularmente. Seria preciso também que os sociólogos que se lancem a este gênero de pesquisas tenham uma cultura em ciências sociais suficiente para abordar o rural e notadamente para situar as suas evoluções presentes na história de suas relações com a sociedade global.. entre as ciências sociais e as ciências que podem ser globalmente qualificadas de “ciências da natureza”.uma sociedade? . enfim. de outro. Essa vantagem aparece com seus próprios problemas.mas isto também é válido para as outras ciências sociais do rural tem a aprender é a estender o seu projeto interdisciplinar às ciências da natureza que analisam os “sistemas naturais” envolvidos com os “sistemas sociais” que ela estuda. O que a sociologia rural . tanto sobre a sociedade quanto sobre o meio ambiente . que esta condição não leve a pensar que a “sociologia rural” não tenha sido precisamente senão uma “sociologia do rural”. problemas de qualidade da produção e do meio ambiente. modelado pelas práticas e pelas técnicas. ligadas umas às outras. as populações animais e vegetais . cada vez com mais insistência. de fato. A sociologia rural também está implicada nos seus próprios procedimentos. os recursos genéticos. a concepção da pesquisa científica que se situa a montante da técnica.assiste-se a uma evolução muito nítida da concepção das relações entre ciência e sociedade. a extensificação e a agrobiologia . um rural herdado da história e constantemente remanejado. e transforma os meios . “análise sistêmica”. o tema das desigualdades sociais crescentes. social e economicamente utilizado e vivido. Essas interrogações põem em questão um certo “credo” no “progresso técnico”. contraditória . tais como “complexidade”.donde o êxodo agrícola que alimenta o desemprego e provoca a migração rural.Para caracterizar este conjunto de pesquisas a realizar. O caminho que assim se abre é balizado por palavras-chave. enquanto atividade de rápida inovação tecnológica .e os meios naturais. o do desemprego e a questão do lugar e o papel do trabalho na socialização e integração social e. criado. com a necessidade de se situar em diferentes dimensões simultaneamente que vão do nível do village a do planeta. triar o que é pertinente para cada pesquisador em sua própria disciplina e separar o resto. Isto quer dizer que são descobertas múltiplas relações entre fenômenos de ordens muito diferentes. Tudo isto faz dela um dos domínios privilegiados. a atmosfera. . as biotecnologias e a informática. e de múltiplas formas. não tem razão de ser e criar um contra-senso sobre o próprio “rural” e sua inserção na sociedade global. os ecossistemas. o nacional e o europeu. 1991) ao invés de uma “sociologia rural”? Por que não. a questão do meio ambiente. se isto clarifica as coisas? Mas. que revêem. A sociologia rural está diretamente implicada nestas evoluções. no qual o ambiente natural predomina sobre o construído.de um lado. Procura-se uma ciência mais preocupada com suas próprias conseqüências. A agricultura enquanto setor de atividade aplicada ao ser vivo (animal e vegetal). Reencontra-se.quadro da vida imediato e base de vida a longo prazo. Ela o está por alguns dos seus temas e pelos elementos da vida social que estuda: a agricultura. Todas elas procedem de interrogações em curso há vinte anos.. O movimento científico e a sociologia rural Desde o começo dos anos 1970 . e que haveria de alguma forma uma mutação a fazer: seria necessário acreditar em uma ruptura radical que. assim. da mesma forma que entre o social e o técnico. mas também entre o social. a interdisciplinaridade entre ciências sociais constitui um trunfo: é na interdisciplinaridade que existe entre os ruralistas que reside a oportunidade para reforça-la ou reanimá-la. de fato. e dos agricultores.a água. os fenômenos de marginalização.há quase um quarto de século. entre as diferentes ciências e. em cujo estudo a ciência tem o hábito de estabelecer cortes.

então. constitui um contra-senso não dizer que a sociologia rural teria perdido o seu sentido porque o rural . Há todo interesse em que os sociólogos não rurais invistam no campo rural a partir de suas questões e de seus procedimentos. cujo estudo é necessário para compreender as transformações gerais e as vias pelas quais estas se produzem. A segunda questão refere-se ao fato de saber se para realizar essas tarefas há necessidade de sociólogos que se qualifiquem como “rurais” e de uma sociologia dita “rural”.incluindo a agricultura e os agricultores . A história. O que é preciso fazer. Sem dúvida. incluindo os camponeses. este deveria ser o ponto central. Mas. evidentemente. é que as mesmas análises sejam feitas apoiando-se em procedimentos e questionamentos maiores da sociologia. cada vez mais. seja porque se trata de um universo que lhes é estranho ou o rejeitam. ou fora dele. Uma abordagem setorial fecha e limita a compreensão. não acaba de acabar. pode-se dizer. e até mesmo leva a erros de interpretação principalmente em termos de “especificidades” do objeto estudado. isto suporia fazer um balanço preciso .de sua forma “camponesa” anterior.centrem sua atenção sobre a agricultura. que as “entradas” específicas no funcionamento da sociedade . levada mais em consideração. Ou ainda: não é porque a população agrícola não é mais dominante na população rural que a “ruralidade” não existe mais etc. E importa que tudo isto seja feito porque são componentes da sociedade global. seja por falta de interesse. é preciso voltar a duas questões essenciais.ou. Seria acreditar. as quais. Se a pesquisa de questões “transversais” é a que deve prevalecer e se a idéia de comparação deve ser um princípio de método privilegiado. não o vendo mais. Se um balanço da sociologia rural viesse a ser feito. Se se tiver que mencionar uma tarefa prioritária para a sociologia rural. Referências bibliográficas .e que são privilegiadas . um bom conhecimento do “objeto” do meio rural e uma cultura científica apoiada em bibliografia. torna-se necessário.Para concluir.que ela não é mais “familiar” (Lamarche.e vão paralelas com . ao mesmo tempo especializada e geral. É preciso assegurar os meios que caracterizam sociologicamente esta forma particular de organização produtiva e de mobilização do trabalho que é a atual unidade de produção agrícola. na verdade. a partir de agora. ela seria a de empreender tal reflexão teórica. com efeito. o ponto de partida pode se situar no rural.teria se banalizado e dissolvido na sociedade global. é saber dar conta de maneira precisa dos processos. de fato. eles tendem a ignorá-lo e a se abster de considerá-lo em suas problemáticas. 1991-94). Seria enganar-se acerca do estatuto histórico do rural. não cairmos na cegueira do olhar centrado no presente e nos discursos próprios da sociedade sobre si mesma. enquanto que. hoje.termo que precisaria ser bem definido . distinguindo-a . interesse. senão negligenciado. que importância tem isto? Terceira observação: o importante é que as análises sociológicas que se façam situem os aspectos particulares da vida social no contexto da sociedade global . E tanto mais indispensável quanto o peso destes componentes geralmente é subestimado. realizar uma avaliação crítica do que foi escrito e que esta exigência metodológica fundamental seja.aquelas que interessam . com base nas suas pesquisas deste último meio século. em outras palavras. Quarta observação: o que conta. Poder-se-ia “declinar” este modo de ver de múltiplas maneiras. este é um ponto sobre o qual a reflexão não avançou suficientemente nem se tem atualizado muito. Ora. uma observação vem logo à mente: os sociólogos rurais. tentando compreender de onde procedem suas formas específicas.isto é tão evidente? . tem-se a sensação de que. por gosto. Em resposta a esta questão. condições que valem para qualquer domínio ou tema. ele assume formas constantemente novas que correspondem a . Seria preciso chamar os sociólogos que fazem esta escolha e se submetem a tal preparação. igualmente.que a sociologia rural destes últimos cinqüenta anos pecou por carência neste ponto (o que sucedeu em vários casos). que o rural só existiu em um contexto e em um período bem determinado e passado. não têm nenhum monopólio a reivindicar nos domínios que são hoje de sua predileção. curiosidade.. Se se pode dizer. Quinta e última observação: em todo caso. das evoluções e das características sociológicas daquilo que se estuda. os agricultores e o rural.as evoluções das sociedades globais. É cada vez mais pertinente querer analisar em termos sociológicos as evoluções do mundo rural? Hugues Lamarche explica que não é porque a unidade de produção agrícola não é mais “camponesa” . pelos sociólogos que se ocupam destas questões. No que ele se tornará? Que formas tomará em uma sociedade “industrial” em mudança rápida? Esta é a questão. dar uma contribuição original aos grandes debates da sociologia. que ocupa um lugar bem determinado na estrutura social das sociedades capitalistas. constituem puros artefatos do método adotado. pode-se dizer também.se isto se justifica .que eles não constituem um “grupo profissional”. Uma segunda observação decorre da primeira: é preciso que os sociólogos invistam neste domínio. isto exige competência específica. a sociologia rural pode.. Ora. e esta é uma outra faceta da observação precedente. de “sociólogos rurais”? Por que não? Mas. é preciso que eles o façam efetivamente. Por exemplo: não é porque os agricultores não são mais camponeses . Tenhamos cuidado para.

inversamente. La vocation actuelle de la sociologie: vers une sociologie différentielle. "o bóia fria". 1958:316 apud JOLLIVET. Mendras. a industrialização do campo. 2. Éditions du Seuil. Notas Sociologia rural 2 Sociologia RURAL 2. Paris. Michel. 1991-1994. não somente entre si. usará. Que-sais-je? n. 1991. a "Sociologia Rural é uma das subdivisões da Sociologia Especial "que estuda o modo de vida rural e a natureza das diferenças rurais e urbanas" LAKATOS & MARCONI (1999:29-30). Les paysans dans la lutte des classes. 1998:2). Há muitas relações sociais que se desenvolvem no campo que não dizem respeito à agricultura. a reforma agrária. mas quando se pensa no Rural. igualmente. como também com as demais "ciências sociais que estudam o mundo ou o espaço rural. La révolution silencieuse. Cahiers de l‘IMPSA. Mathieu. Paris. 5261. Ainda considerando que a Sociologia Rural é uma subdivisão da Sociologia Geral.Debatisse. 1963. Robert. A tendência natural. Paris. Presses Universitaires de France. Todavia. Le combat des paysans. la question de la nature aujourd’hui. 1958. 1966. 1989. Sendo um ramo da Sociologia. os métodos que essa Ciência utiliza para concretizar as suas investigações. a grilagem. Perspectivas teóricas. pelo qual a Sociologia Especial consiste no estudo de categorias específicas de fatos sociais. In: George Gurvitch (dir). Lagrave.297. Lamarche. que é o modo de cultivar a terra. Lambert. Paris. 2 volumes. entre outras. Rose-Marie. mar. Bernard. discours savants sur le rural”. Faure. Sociologie rurale. Hugues. desnecessário se faz dizer sobre o inter-relacionamento que as duas disciplinas possuem. ARF éditions/L’Harmattan. 1970. Librairie Armand Colin. Presses universitaires de France. Presses Universitaires de France. p. Tome I: Une réalité polymorphe. Paris. Traité de sociologie. Editions L’Harmattan. Marcel. o que se justifica pelas trocas importantes que ela tem com as mesmas e. ou apenas "o estudo das sociedades rurais" (MENDRAS. Paris. L’agriculture familiale. 1986. como sendo a mesma coisa. 1998:1). certamente não se está pensando apenas na agricultura. Paris. Nicole e Jollivet. as relações que as ciências sociais mantém com a disciplina" (JOLLIVET. Michel. Georges. Gurvitch. Tome II: Dy mythe à la réalité. “Discours communs. Henri “Sociologie du milieu rural”. De acordo com o esquema proposto por Fernando de Azevedo. Du rural à l’environnement.1. Paris. forçoso . como por exemplo as lutas pela posse da terra. Marcel (dir). Comparaison internationale. Calmann-Lévy. 1950. no contexto desse trabalho seria ligar a Sociologia Agrícola com a Rural. Les paysans dans la société française.

mas nenhum fenômeno social pode ser perfeitamente compreendido se dissociado do contexto geral em que se encontra e do qual recebe influência. por conseguinte. ao invés de se falar em objeto. eles vivem em um meio particular que requer uma certa especialização do pesquisador e. na medida em que sua análise pode ser dividida em áreas como a da família. Uma das pretensões do ruralista é." (MENDRAS apud JOLLIVET. mas que Jean Stoetzel (1951-1952) e Henri Mendras (1963-1964). A Sociologia Urbana. 1998). fazem questão de destacar logo ao início dos cursos que ministraram no Instituto de Estudos Políticos de Paris. A economia rural é um ramo (um dos mais antigos) da economia política. por exemplo. o sociólogo rural deve. Enquanto homens iguais aos outros. antes de ser Rural ou Especial. mais do que uma das especificidades da Sociologia Especial. da religião. Esse é um dos aspectos pouco considerados pelos estudiosos. pois o Urbano também é analisado por vários ângulos e planos diferentes e o que vai interessar à Sociologia Urbana não é uma dessas análises em particular. É dessa forma que deve ser feito o estudo da Sociologia Rural. a história social dá um grande destaque à descrição da vida camponesa. Ligando-se a um passado em que a agricultura era a atividade exercida pela maioria dos homens. aliás. inclusive que. Assim. seus precursores. em 1958: "O ‘meio’ rural é um campo de investigação para todas as ciências sociais e seu estudo não poderia constituir uma disciplina autônoma. uma problemática diferente. promover a integração das análises feitas pelo rural. Como o etnógrafo. citadinos e rurais interessam igualmente ao psicólogo. Essa . tanto interna quanto externamente. Assim se posiciona Mendras. às vezes. essa disciplina é também Sociologia Geral. Entretanto. O seu objeto de estudo é. os rurais também dizem respeito a cada ciência social. que estudam as particularidades dos fatos sociais. e dela herda igualmente as origens históricas e as perspectivas teóricas traçadas pelas diversas escolas e pensadores sociológicos. dessa forma. ao demógrafo. senão que a síntese de todas elas. perde também o seu caráter de disciplina específica. Enfim. entre outras. Os geógrafos que analisam as relações entre o homem e o meio natural e a distribuição espacial dos fenômenos humanos começaram naturalmente a se debruçar sobre o campo. "A realidade de nossos dias tem gerado uma sociedade que se urbaniza velozmente. a Sociologia Rural que deveria ser uma das especificidades em que se divide a Sociologia Especial. produzindo um único conhecimento que. grande parte da problemática rural atual é decorrente do entendimento errôneo de que aquilo que não é urbano é rural e vice-versa ou daquele que trata tudo como sendo a mesma coisa. a não ser que conte com a colaboração de uma equipe de diversos especialistas. Os etnólogos estudam as estruturas ditas ‘arcaicas’ nas quais a busca ou a produção de alimentos ocupam todos os homens. acaba assumindo ares de disciplina geral. etc. tal qual a Rural. bem como a mesma interdisciplinaridade com as demais ciências sociais. O conhecimento é uno. Destaca-se. conhecer os métodos e as técnicas de todas as outras ciências sociais. o mais apropriado é referir-se ao seu campo de atuação: as sociedades rurais. portanto. é a matriz que direciona o epistemológico.então nos é admitir que. As divisões têm implicações meramente didáticas. Vale dizer ainda que não se deve compreender o rural com o oposto do urbano. Nesse sentido. global.

sintetizar e integrar sob o seu ponto de vista.1. Esses temas não foram exclusividades do povo francês. sendo o objetivo da Sociologia Rural. criou rapidamente um forte contingente de trabalhadores rurais-urbanos. as transformações da agricultura. 2. As relações cidade-campo. tomando como ponto de partido a questão francesa. entende que eles estão interligados. todavia o faz. com relação ao grupo dos agricultores e dos pecuaristas. os estudos das demais ciências sociais rurais. tem uma dupla orientação: estudar as especificidades próprias de sua área de estudos. haja vista que esta não reconhece a sociedade rural como um de seus grupos sociais. Isso ocorre porque se está implantando no campo o modo industrial de produzir. JOLLIVET (1998). demonstrar a validade dessa proposição. podendo ser sintetizados em cinco temas principais: as relações cidade-campo. 1958). Essa temática começou a ser tratada com mais intensidade após a segunda grande guerra. levado a efeito pelos seus pesquisadores ao longo da história. "o bloco do rural". Nesse sentido. Quando ao estudo particular da sociologia rural. que conserva uma certa autonomia em face da sociedade global" (MENDRAS. A questão . 2.2. o trabalho deve ter coerência interna e externa para que seja realmente um conhecimento científico válido. a ênfase do trabalho será na mudança social que se caracterizará com a transformação do camponês em agricultor ou pecuarista. Dessa forma. certamente várias nações do mundo. Essa postura parece dar ao trabalho do grupo um caráter fechado e isolado do restante do conhecimento. sendo impossível reduzi-la a um grupo econômico profissional. ou seja. a industrialização e a modernização. quando o mundo destruído envidava um esforço generalizado para a reconstrução. Não se trata de "agricultores" ou "pecuaristas". Esse fato. a análise ruralista se fundamentará na hipótese de "existência nos países que têm um campesinato tradicional. tem feito com que vários colegas autores tratem o campo como se trata a cidade/indústria. esquecendo que as especificidades de cada um não foram ainda eliminadas" (OLIVEIRA. O que deve ser vislumbrado é o fato de que o trabalho do sociólogo rural tem uma duplicidade de objetivos: compreender o social rural e integrá-lo no social global. de forma a poder integrar-se à sociedade global. como se esse formasse um bloco independente. Para alcançar esses resultados propostos. os brasileiros também vivem o mesmo drama. A sociedade rural goza apenas de uma certa autonomia diante da sociedade global. e. mas isso é apenas aparência. a fim de se obter a compreensão global da sociedade rural.urbanização. o desenvolvimento local. reinterpretar. a posição dos camponeses na sociedade. incontestável. A tarefa do Sociólogo Rural. ou qualquer outro grupo reconhecido. comandada pelo processo de industrialização que o campo está conhecendo. e.2. o meio ambiente. – O Objetivo da Sociologia Rural. de uma sociedade rural. Esse seria um dos motivos para o trabalho integrado dessas ciências. por exemplo. segundo Mendras (1958). 2002:8). o estudo da sociedade rural se baseia no entendimento de que existem elos de ligação muito finos entre os diversos tratamentos dados ao seu "objeto material" por cada uma das ciências sociais que abordam essa temática. sem maiores dificuldades.

não é autárquica. Esse ritmo de devastação. como as mudanças climáticas. no . em especial na bacia amazônica. veio a enfrentar situações as mais complicadas.que se discutia era a de saber se os campos seriam capazes de suportar as mudanças. é dependente da matéria-prima e. mas nenhum deserto. plantação. Por conta dessa situação. como obstáculo para o desenvolvimento do país. a morte ou o renascimento do rural. Essa riqueza vegetal foi encarada. a sociedade rural européia. No início da década de 1990. Viajando pelo país afora. aqueles que não podem continuam passando e morrendo de fome) criou o empresário rural. E que lições! Quanta diferença houve entre o corpo-a-corpo dos soldados na primeira grande guerra e o corpo-a-máquina da segunda! A modernidade trouxera a tecnologia. De que forma a sociedade rural enfrentará os problemas modernos? A cidade não é capaz de bastar-se. Agora ela deveria ser utilizada para a reconstrução e a implantação do novo mundo. ou derivadas da ação humana. Partir do nada destruído e retomar o ritmo da vida. Alguns ainda estão vivendo esses dramas rurais. problemas com terras não cultivadas. com tendência à criação de zonas desérticas. Atender essa demanda vai implicar em muitas mudanças. pois essas são questões mais pertinentemente urbanas do que rurais. Seria apenas uma questão de acomodação a um estilo de desenvolvimento mais acelerado. cuja única preocupação é produzir e ganhar dinheiro. principalmente a partir da década de 1970. pouco se incomodando com as conseqüências dos atos que pratica para assegurar essa produção. como a caatinga. posteriormente. que não vive no campo. pode-se destacar o fato de que várias áreas do Brasil vêm se desertificando. antes coberto por uma vegetação natural. apenas soja. Mas e o campo? O progresso sempre demorou um pouco mais a chegar lá. 2001:132b). como o desmatamento" (BARSA. milho. Fotografias de satélite tiradas em 1988 revelaram que o desmatamento realizado em pouco mais de dez anos na Amazônia atingia 12% da região . hoje coberto por extensas plantações. plantação e plantação. mas que apenas explora o campo). Em geral. a conceituar a desertificação. em conseqüência do desmatamento desenfreado para aumentar a produção. no entanto. pode-se perceber as mudanças que esse tipo de empreendedor (que não é do campo. vem ocasionando na paisagem brasileira. esse esforço seria normal. arroz. a qual fora usada para matar e destruir. segundo os ambientalistas. Segundo a Enciclopédia Britânica. A título de ilustração. o Brasil tem "regiões semi-áridas. 2001). várias partes do mundo. Para a cidade. a uniformização dos modos de vida. E. igualmente. declara que ela "é a degradação do meio natural. principalmente de muito alimento. levaria ao desaparecimento da floresta até o final do século XX. considera-se uma região desértica quando sua precipitação média anual é inferior a 250 mm" (BARSA. a rurbanização. Os maiores danos são causados na região dos cerrados. Produzida por causas naturais. absorvendo as lições da guerra. em princípio. "Trinta por cento das áreas de floresta tropical do planeta estão concentradas no Brasil. vieram a passar pela mesma situação. onde não se vê uma árvore sequer. como: a desertificação. onde normalmente acontecem as novidades. Mas a própria Britânica. algodão.uma área maior do que a França. A preocupação em produzir para atender a demanda mundial de alimentos (principalmente do mundo que pode pagar por eles.

esta exige novas e constantes transformações para atender a demanda dos demais grupos sociais que a completam e que implicam na adoção de um modo de vida totalmente diferente. com a reposição garantida do que for retirado e respeito aos ciclos biológicos das diversas espécies" (BARSA. onde as pequenas propriedades plantam cana e criam frangos . favoreçam sua recuperação gradual. o que já foi degradado. onde a devastação da vegetação natural reduziu a capacidade de armazenamento de umidade da terra e agravou os efeitos da estiagem sobre a agricultura. Já não se trata de produzir apenas para a subsistência da família. a desertificação causa prejuízos de 42 bilhões de dólares ao ano. O processo de degradação afeta diretamente 250 milhões de pessoas e pode chegar a prejudicar um bilhão. impedir que o processo de desmatamento indiscriminado tenha continuidade e desenvolver projetos que. é a meta maior da Sociologia Rural. "O desmatamento é uma das principais causas da seca. O que plantar também deixa de ser uma decisão particular. Esse fenômeno é bastante comum na região centro-sul de Mato Grosso. um fator intensificador da pobreza em países da América Latina. É. As transformações atingem "não só o estabelecimento agrícola e o trabalho do agricultor. portanto. em particular. representantes de 150 países iniciaram em Dacar. As ações desenvolvidas pelos homens do campo que conduzem às transformações da agricultura e que levam a propriedade rural a tornar-se uma propriedade agrícola. 2004). mais atribuída à recessão econômica do que à consciência ecológica. cujo estudo é a meta da Sociologia Agrícola. 2. A América do Norte. construção de estradas e hidrelétricas. Muitas vezes elas apenas complementam a produção daquelas. mas cujas conclusões interessam à Sociologia Rural para complementar a sua análise da sociedade rural. em todas as regiões da Terra. e os camponeses a ser agricultores – um grupo reconhecido pela sociedade –. O grande desafio ambiental do mundo contemporâneo consiste em recuperar. planta-se o que é requerido. por meio de programas de reflorestamento. 2001:137). Mas. as taxas de desmatamento apresentaram uma redução. São toleradas. mas também – tendo em vista o estreito laço entre o estabelecimento e a família – a transformação da família agrícola" (JOLLIVET. com 73%. com 74% de terras áridas ou semiáridas. capital do Senegal. nos municípios de Jaciara e Campo Verde. Em novembro de 1998.2 – As transformações da agricultura. 1998). e a África. agricultura em pequenas propriedades e crescimento urbano". Segundo dados das Nações Unidas. a II Cúpula Mundial sobre desertificação. As principais causas do desmatamento na região eram a criação de gado.2.entanto. para que possa fazer a sua síntese integradora que assegure a explicação unitária e global da sociedade rural. As pequenas fazendas precisam se adequar às grandes. Ásia e África. exploração de madeira. mineração. porque a derrubada de árvores destrói as bacias hidrográficas e empobrece o solo. uma vez transformado em agricultor e feito membro ativo da sociedade global. eram as regiões mais preocupantes (PANORAMA. A Sociologia Rural depende da análise realizada por cada uma das diversas ciências sociais que analisam os fenômenos rurais. Exemplo óbvio é o da Etiópia. mesmo ao incluírem a exploração econômica da floresta.

do acesso tecnológico colocado à disposição da agricultura capitalista. A indústria destina uma percentagem do preço final. Todavia. por exemplo. Depois de atingirem um peso médio de 1. Este processo tem sido objeto de muitos estudos. As indústrias consumidoras de produtos de origem agrícola ou pecuária chamam estas relações de produção integrada. foi a forma encontrada pelo Governo do Município. Em todas as propostas de assentamento fundiário postas em prática no Brasil. que pode variar em torno de 15%. diferente das formas convencionais tradicionalmente utilizadas pelo INCRA. por gerenciamento inadequado. Na expectativa de garantia de venda da produção. beneficiando um total estimado de 30 mil pessoas" (SOUSA. Barra do Bugres e região. ainda não houve o envolvimento esperado e. e. ou então eram sertanejos que saíram do campo e se mudaram para as cidades acreditando que sua sorte mudaria e que.o processo de produção e industrialização de Poxoréo – MT". Em 1997 o Município fez acordos com a Maguari. Isso significa que. cujas metas são a geração de 7. do garimpo para a fruticultura. mas não . desejam voltar ao campo. enquanto tentava viabilizar os recursos que viabilizariam o projeto. Na região de Poxoréo. O "TecnoFrutas" — como foi batizado o projeto —. Tangará da Serra. entregue ao granjeiro os pintinhos e a ração que comerão até o abate. desde 1997 a Administração Municipal vem incentivando o plantio do maracujá para fins industriais. através do INCRA. não obtendo sucesso. de outro. O Tecnofrutas visava produzir alimentos de forma orientada para atender à demanda das indústrias. os acordos com as industrias acabaram sendo cancelados e o projeto está temporariamente desativado. alguns pequenos proprietários aderiram ao projeto. Este processo tem sido possível em função. através do assentamento fundiário de 200 profissionais agrícolas. "Trata-se de algo inédito. no caso da avicultura. Normalmente os assentados são pessoas que trabalhavam como arrendatários e foram desagregados. onde se planta cana para a Itamarati. 2002:71).para atender à demanda das indústria de açúcar e do frango. com a Superbom. A mesma situação acontece em Nova Olímpia. como alternativa para a mudança de atividade econômica. "O processo de desenvolvimento recente no campo brasileiro tem criado condições para que uma fração do campesinato amplie a produtividade no trabalho familiar. em uma área de 6. "A implantação do "TecnoFrutas . a indústria de ração que também industrializa e comercializa o frango. o costume é assentar "sem-terras". ao granjeiro" (OLIVEIRA. abandonando-se a idéia original do assentamento de profissionais rurais.5 kg.400 hectares. por exemplo. do estabelecimento de novas relações com a indústria. a própria Prefeitura implantou dos "Casulos" com o apoio do INCRA. os frangos são entregues para o abate. 1999:6). a ser cultivada com frutas tropicais.500 empregos diretos. em decorrência do esgotamento das jazidas diamantíferas que sustentara o seu desenvolvimento desde 1924. mesmo com essa mudança. de Minas Gerais e em 2001. que foi modificado e transformado em apenas um projeto de produção. é uma proposta de geração de emprego e renda. respectivamente. de um lado. Para começar a vender a idéia. para superar a recessão que passou a vivenciar desde o início desta década.

Além das situações particularizadas de Mato Grosso. os quais devem ser deixados como representantes históricos de uma classe de garimpeiros que está fadada ao desaparecimento na região. Os camponeses. os quais vão se tornando médios e futuros grandes proprietários.o número de propriedades rurais na região sul caiu de 1. acumularam condições para produzirem mais. "A origem da civilização. conseqüentemente.3. pois. ao longo dos anos. Normalmente vendem suas propriedades para os vizinhos. 2002:72). Não se muda de um dia para o outro. Tem ele. com o esgotamento das jazidas. A renda da terra. As propriedades são pequenas e limitam a sua capacidade de produção. o processo de industrialização da agricultura que. 2. em sua grande maioria. o Município de Poxoréo se propõe a realizar o assentamento de "profissionais da terra". No registro de Ariovaldo de Oliveira. 1999. A posição dos camponeses na sociedade. sem necessariamente expropriar a terra do camponês. antes que eles sigam os exemplos de seus pais. camponês. não estão diante da expropriação inevitável pelo avanço das relações capitalistas de produção no campo. abrindo espaço no Sul para a continuidade e possibilidade da concentração de terras para uma fração de camponeses que têm acumulado riqueza neste processo. produzida pelo trabalho familiar. sujeita a renda da terra aos interesses do capital. mas que não dominam as modernas tecnologias e conhecimentos. 2002:72). mas se realiza parte na indústria e parte no sistema financeiro" (OLIVEIRA. Para eles. possuem apenas a experiência rural. "Dessa forma.264 mil em 1970 para 1. mas sim no seio de um processo contraditório. utilizando o conhecimento e a tecnologia disponível" (SOUSA. nada foi senão o surgimento do primeiro campesinato. MT. mas não possuem espaço territorial para fazê-lo. o momento em que se deu a transição da pré-história para o período neolítico. 10). é o caso dos camponeses do sul produtores de soja. Onde conseguem comprar grandes áreas de terras. Assim. São pessoas que. "O que estamos assistindo de fato é. Contrariando essa linha. Dessa forma eles estão vendendo as suas propriedades e vindo para o Centro-Oeste e Rondônia.2. a mudança cultural é praticamente inviável. As pequenas propriedades do sul estão no limite máximo de sua capacidade produtiva. A questão em Poxoréo é cultural e cultura é algo arraigado na personalidade das pessoas. não fica com quem produziu. e. pessoas formadas e qualificadas para trabalhar a terra de forma adequada. importância capital na história . Uma das idéias que está implícita no Tecnofrutas é que se deve trabalhar as novas gerações para uma nova forma de trabalho que não seja o garimpo. promove o seu deslocamento territorial. ou seja. pois. em virtude da enorme variação de preço do hectare nessa região em comparação com o sul do país.possuem mais os campos para voltar. vêm abrindo no espaço distante a possibilidade de acumulação" (OLIVEIRA.145 mil em 1980. a produção integrada campo/indústria atingiu também o sul do país no que tange à suinocultura – os granjeiros produzem milho e engordam suínos para as indústrias de carne – e à produção de fumo – que atende aos oligopólios das indústrias de cigarros. Uma experiência diferente e que se relaciona com Primavera do Leste. ao mesmo tempo que o subordina mais.

A classe dos senhores se originou da existência de diferenças de recursos e de prestígio entre os próprios camponeses: o membro do grupo que se destacava por suas qualidades ou riquezas rodeava-se de seguidores.3. congregando várias gerações e famílias colaterais estabelecidas na mesma vizinhança. Teoria histórica. constitui sempre a unidade social de exploração da propriedade. O campesinato caracterizava-se por ser uma camada inferior. a dos camponeses remediados. então. "As comunidades passaram a desenvolver sobre os pastos. subordinada e explorada pelo senhoriato. denominados parceiros. que utilizam os membros da família como força de trabalho. Com a revolução agrícola. em coexistência no entanto com as unidades agrárias camponesas remanescentes. o campesinato francês desenvolveu-se. em oposição ao senhoriato. sem a qual não seria possível compreender nem uma nem outra. "Segundo essa corrente. possuidores de animais de lavoura e de transporte e que eventualmente contratam assalariados. quando esta não é própria.2. às vezes por temporada. florestas e rios um sistema de direitos coletivos que eram respeitados e defendidos por todos os camponeses. segundo Bloch. Surgiram. "Campesinato é o grupo social formado pela massa de trabalhadores da terra e pequenos proprietários rurais. 2. Essa tendência foi diminuindo à medida que se desenvolvia a sociedade e aumentava o empobrecimento dos senhores. uma vez que dos primeiros núcleos camponeses derivariam as posteriores culturas urbanas. O campesinato cultiva extensões limitadas. A família. No entanto.humana. que se empregam como assalariados. sendo . difundiram-se as empresas agrícolas em moldes capitalistas cujo objetivo era a produção e a venda da colheita. preconizado pelo francês Marc Bloch. Outro tipo de senhoriato foi herdado de Roma. no início do século XVIII. e a dos jornaleiros. podendo ser vendido ou não o excedente da colheita. usando instrumentos e técnicas rudimentares e mão-de-obra familiar. "O campesinato está longe de ser homogêneo. O desaparecimento dessa subordinação ao senhoriato não logrou alçar a camada camponesa a uma posição elevada. reservando pequena parcela para o sustento do proprietário. no início. homem livre que pagava o aluguel da terra ao senhor com parte da colheita. Assim. o que caracteriza a sociedade camponesa da França é sua relação com a instituição senhorial. Nele se identificam essencialmente três camadas: a dos camponeses ricos. existiam na França grandes conjuntos familiares. chefiada pelo pai. como é o caso dos "bóias-frias" brasileiros. O produto de seu trabalho destina-se primordialmente ao sustento da própria família. "As principais características desse tipo de campesinato perduram até hoje.1. "O fenômeno do campesinato tem sido estudado sob dois aspectos: o histórico. trabalhadores sem terra. braçais. coexistiam em propriedades gaulesas o escravo e o colono. O desaparecimento da escravatura possibilitou o aumento das parcelas arrendadas a colonos. deduzida a parte do aluguel da terra. Cada família-membro cultivava sua parcela para subsistência e o excedente era vendido ou trocado. e ela permaneceu subordinada a um conjunto de camadas sociais nas quais se inseria como inferior. e o socioantropológico. os lavradores ricos. defendido pelo antropólogo americano Robert Redfield.

2. 2. 2. cultiva pequenas áreas. desejo de enriquecer. acentuou-se a subordinação do campesinato à sociedade urbana em desenvolvimento. a desapropriação dos bens da nobreza e do clero possibilitou a venda de terras a burgueses citadinos. em regra. como poder central.que. América Latina.2. e suas características são: atitudes práticas e utilitárias com relação à natureza. consagra uma porção significativa da colheita à subsistência e utiliza mão-de-obra familiar. Permaneceram. seu trabalho satisfaz as necessidades essenciais da vida. A família é a unidade econômica de base e se insere em um grupo de vizinhança. contudo. Era freqüente. e noções básicas de ética derivadas da importância atribuída ao trabalho. Sitiantes independentes formavam parte da comunidade camponesa. e continuou após a abolição da escravatura. a comunidade permite que seus membros se desliguem para criar situações socioeconômicas distintas. com os quais não tinham condições de competir. praticamente monopolizavam a comercialização dos produtos agrícolas. localizados em terras devolutas ou sem autorização do proprietário. "No Brasil. A relação entre o campesinato e a cidade é de complementaridade econômica. Entre esses. Os camponeses surgem nas sociedades em que a cidade e o meio rural coexistem em situação mais ou menos equilibrada. orientadas primariamente para a subsistência da família.3. Nas fazendas monocultoras ou de criação de gado havia. No decorrer do século XIX. ao lado dos escravos. é iletrado. que pagam o aluguel da terra com uma percentagem da colheita.3. onde se instalavam. "Com a revolução francesa. "O camponês latino-americano pratica a policultura e a criação em pequena escala. os lavradores abastados passaram a se utilizar dos métodos capitalistas. terça). encarregado da produção de alimentos para essas fazendas e para os povoados. os mais abastados. Essa complementaridade deriva da dominação política que a cidade. possuidores de animais. O camponês constitui uma camada social inferior. (2) parceiros. elevado apreço à procriação e à progênie.3. em segundo plano diante dos fazendeiros monocultores e grandes criadores de gado. o regime de pagamento do aluguel da terra com parte da colheita (meia. uma vez que cabe ao camponês abastecer a cidade. submetida à camada urbana. que passaram a alugar ou arrendar suas terras aos camponeses. um campesinato livre. vendendo o excedente da produção nas cidades e passando a ser comandados por citadinos. Os camponeses tornaram-se policultores. sempre existiram: (1) posseiros. possui tecnologia pré-industrial. "Essa segunda orientação relaciona o campesinato com diferentes tipos de sociedades. ao mesmo tempo em que se multiplicavam os pequenos proprietários camponeses. Teoria antropológica. valorização positiva do trabalho. Os instrumentos de trabalho são rudimentares e o excedente de produção é vendido ou trocado em mercados locais. uma preocupação com a segurança. considerado como um mandamento divino a ser cumprido.2. exerce sobre o campo. "Além de camponeses proprietários. ou o equivalente em . coexistiu com a escravidão uma camada camponesa semelhante à descrita por Marc Bloch na Europa feudal. Apesar de sua feição autoritária. Esse tipo de campesinato é formado por unidades domésticas de produção. Durante a revolução.

quando o príncipe regente D. independentemente da quantidade colhida.1. a formação da família patriarcal e a delimitação da propriedade privada. (4) moradores ou agregados. a quem pagam com dias de serviço. 2001:339) 2. "A primeira Lei de Terras do Brasil data de 1850 e proibia a aquisição de terras devolutas. com permissão do proprietário. Sua problemática confunde-se com os primórdios da agricultura. (BARSA. Inauguraram também o regime de posse. sistema de propriedade rural que se denomina latifúndio. no norte da colônia. medidas que refletem os privilégios dos proprietários mais próximos da metrópole. Há regiões no país nas quais os processos de irrigação.2. os estados.3. adquirindo-as pelo chamado direito de fogo morto. cultivassem e tornassem rentáveis. "Reforma agrária é o termo empregado para designar o conjunto de medidas jurídicoeconômicas que visam a desconcentrar a propriedade das terras cultiváveis a fim de torná-las produtivas. localizaram-se no sul e deram início ali ao processo de formação da pequena propriedade agrária. No tocante às leis agrárias. "A concentração de terras em mãos de poucos grandes fazendeiros. apropriavam-se de terras incultas. Questão agrária no Brasil. o colono podia conservar legalmente as terras que seu trabalho e dinheiro recuperassem.Reforma agrária. .3. João sancionou decreto que permitia a concessão de sesmarias a estrangeiros. fertilização e recuperação do solo são desconhecidos. estimulou a instalação de engenhos e concedeu vastas sesmarias a indivíduos que estivessem em condições de investir na lavoura canavieira. o analfabetismo prevalece e inexistem as escolas técnico-agrícolas. procedentes de vários países da Europa. "A má distribuição da terra no Brasil data do início da colonização. que concedia autonomia legislativa aos estados da federação. (3) arrendatários.dinheiro. "Observa-se hoje no campesinato brasileiro um movimento de migração para as cidades. Interessada na produção do açúcar. porém. "O Brasil apresenta uma estrutura agrária em que convivem extensos latifúndios improdutivos. a ampliação do mercado interno de um país e a melhora do nível de vida das populações rurais. exceto por compra. A lei vigorou até a promulgação da constituição republicana de 1891. "A primeira modificação importante na legislação agrária do Brasil data da vinda da corte portuguesa em 1808. A área média das pequenas propriedades não ultrapassa os vinte hectares e a numerosa população rural vive em péssimas condições de higiene e alimentação. Por esse direito. numa tentativa de coibir o regime de posse.2. pois os que não possuíam recursos suficientes para receber e cultivar sesmarias. quando a coroa portuguesa simplesmente transplantou o sistema feudal inoperante da metrópole para as terras da colônia. que alugam seu trabalho. Algumas sesmarias chegaram a atingir uma extensão de cinqüenta léguas. (5) camponeses sem terra. o que resulta em elevados índices de mortalidade. e apenas três no sul. tem sido o maior entrave à justiça social no campo. cultivando nelas certos gêneros. para os quais o aluguel da terra é fixo. que habitam as propriedades monocultoras. 2. grandes monoculturas de exportação e milhões de trabalhadores rurais sem terra.4.4 . Sua implantação tem como resultados o aumento da produção agrícola. em conseqüência da falta de um projeto global de política agrária que solucione seus problemas estruturais". Os colonos.

promulgado em 1916. "Em 30 de novembro de 1964 o Congresso Nacional aprovou a lei número 4. "Tradicionalmente identificado com o setor mais conservador da cena política brasileira. proibiu a legitimação das posses e a revalidação de sesmarias. Sobreveio então o golpe militar de 1964. que exigia aprovação do Senado para qualquer concessão superior a dez mil hectares. a aprovação de um princípio constitucional segundo o qual a terra não poderia ser mantida improdutiva por força do direito de propriedade. Aqueles que não tivessem regularizado suas posses até o início da vigência do código só poderiam fazê-lo com base no instituto do usucapião. grilagem de terras. sobrevivendo assim à industrialização e às mudanças sociais ocorridas nos meios urbanos. modificando o regime de sua posse e uso. sucederam-se os decretos que regulamentaram aspectos da propriedade da terra. Estatuto da Terra. Por meio de seus representantes nos órgãos de governo locais e federais.4. em 1963.4.1. endossaram os princípios e normas da Lei de Terras. na segunda metade do século XX. Problemas sociais e ação política. doação. "A partir da proclamação da república. regeu a ocupação do Centro-Oeste e da Amazônia. Reza. seja no de harmonizá-las com o processo de industrialização do país". "A mesma legislação. As diferenças sociais se agravaram e estenderam. 2.22. que o acesso à propriedade territorial será efetivado mediante a distribuição ou a redistribuição de terras. o latifúndio exerceu sempre poderosa influência sobre as decisões oficiais. "O princípio segundo o qual a posse não garante a propriedade vedou ao trabalhador rural o acesso à terra e propiciou a formação de uma casta de latifundiários que se apossou das áreas rurais brasileiras. cem mil e até um milhão de hectares. 2.3. se pretendia distribuir pequenos lotes a dez milhões de famílias. compra e venda.1. "O governo do presidente João Goulart propôs. O parágrafo segundo do mesmo artigo esclarece que "o objetivo dessa política é amparar e orientar. que dispôs sobre o Estatuto da Terra. uma vasta classe de despossuídos foi relegada à mais extrema miséria e teve suas reivindicações reprimidas sistematicamente com violência. ainda. reversão à posse do poder público de . O código civil brasileiro.1. já arcaica e ineficaz no início da colonização.504. pela execução das seguintes medidas: desapropriação por interesse social mediante prévia indenização em títulos da dívida pública. seja no sentido de garantir o pleno emprego.exceto por alterações muito superficiais.2. mas nenhum modificou fundamentalmente a má distribuição da propriedade fundiária no país. Em seu artigo primeiro. proliferaram as denúncias de exploração do trabalho escravo. as atividades agropecuárias. que interrompeu a ampla mobilização nacional em favor da reforma agrária. assassinato de líderes dos trabalhadores rurais e toda sorte de violência. no interesse da economia rural. em flagrante desobediência à constituição de 1946. Na base da pirâmide social. Multiplicaram-se as propriedades de dez mil. conseguiu manter incólume o regime de propriedade e os privilégios de que desfrutava. Depois da constituição das organizações internacionais de direitos humanos. Por essa via. o estatuto define a reforma agrária como "o conjunto de medidas que visam a promover melhor distribuição da terra.2. a fim de atender aos princípios de justiça social e ao aumento da produtividade".3. arrecadação dos bens vagos.

as plantas e os animais são essenciais à vida do homem. ou seja. Financiava-se a pequena propriedade e não se avaliava os resultados do investimento. relevo. 2. A partir do fim da década de 1980 intensificaram-se os conflitos no campo e surgiram novos grupos em defesa da reforma agrária. mas enfrentou forte resistência no campo para sua implementação. água. Como esses recursos não são inesgotáveis. Hoje trabalha-se com a idéia do desenvolvimento local integrado e sustentável (DLIS). que é a essência que determina e regula. em 1970. "Em julho de 1985 o governo instituiu o Ministério da Reforma e do Desenvolvimento Agrário. sua existência em comum. entende-se por conservação da natureza ou conservacionismo o esforço centrado em políticas e técnicas que têm por fim preservar na Terra condições propícias à vida e a uma integração maior entre as espécies. nas biocenoses. Esse desenvolvimento vem sendo controlado por empresas contratadas pelo governo especialmente para auxiliar e orientar os pequenos proprietários na montagem dos projetos. ou seja. energia solar etc. O desenvolvimento local. Tais comunidades mantêm entre si. cuja ação se baseia na ocupação de terras para pressionar o governo a fazer a reforma agrária. o bem-estar futuro da humanidade depende fundamentalmente de uma atitude positiva voltada para a conservação da natureza. tinha como principal instrumento a desapropriação e previa o assentamento de sete milhões de trabalhadores. "O ar. Em 1996. e com o meio ambiente . em zonas críticas ou de tensão social. se distribui no planeta segundo uma ordem naturalmente harmoniosa. que permite a desapropriação imediata das terras. O meio ambiente.ar." "Em sentido amplo. 2. o solo. um grau de risco pequeno. o Congresso aprovou duas medidas para facilitar a reforma agrária: o aumento dos percentuais do imposto territorial rural (ITR) para as propriedades improdutivas e o rito sumário. segundo os quais a matéria viva. constituindo comunidades bióticas. .um profundo equilíbrio. "A constituição de 1967 endossou o estatuto ao permitir a desapropriação da propriedade rural com o objetivo de promover a justiça social. proposto pelo novo ministério. de 25 de abril de 1969. a qualquer título. para executar o Estatuto da Terra. o governo federal criou. A fim de promover e coordenar a implementação do estatuto e decretos complementares. Com o DLIS surge uma nova situação em que faz-se necessário comprovar a viabilidade do projeto. no ecossistema." . regulou o processo especial de desapropriação dos imóveis rurais situados em áreas declaradas prioritárias. nem os organismos financeiros internacionais estão querendo financiar projetos que não apresentam um retorno concreto. herança ou legado. composta de centenas de milhares de espécies e variedades de animais e plantas. o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA). Nem o governo.2. O Plano Nacional de Reforma Agrária. que absorveu as atribuições dos órgãos anteriores. por terceiros. Durante muitos anos trabalhou-se com a idéia de fundo perdido.5.2.terras de sua propriedade indevidamente ocupadas e exploradas. O mais importante deles foi o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST). os minerais. a água. Os princípios básicos de conservação da natureza foram enunciados pelos ecologistas. O decreto-lei nº 554. solo.4. A base da indenização aprovada foi o valor declarado para efeito de pagamento do imposto territorial rural.

além de um determinado ponto crítico. torna-se muito menor a evaporação da água das chuvas. o homem tornouse cada vez mais capaz de criar ambientes artificiais. aumentam muito o número de fissuras do solo. alteração do regime de águas ou do clima. Assim se explica. que não ocorria antes devido aos obstáculos impostos pela capa de húmus do solo. arrastando húmus e minerais solúveis." "A derrubada de matas ou sua destruição pelo fogo causam danos imediatos à fauna. blocos de pedra e eventuais construções. foram determinados os princípios da conservação dos solos. A carga sólida dos cursos fluviais também sofre considerável aumento. da fauna. das águas continentais e marinhas. extermínio da fauna. por onde as águas se infiltrarão. o papel de uma verdadeira esponja. acarretando profundas alterações na distribuição das populações animais." "Os incêndios nas matas. podem provocar a lixiviação. empobrecimento ou esgotamento dos solos. Essa erosão pode ocorrer sem leito definido." "Em trechos de encostas íngremes. quando as primeiras dessas leis são transgredidas. por exemplo. após chuvas prolongadas. capazes de arrastar ladeira abaixo árvores. O calor do fogo dilata as partículas minerais que. segundo o clima reinante na região. em zonas de vegetação aberta. no caso. A mata exerce. todo o regime de águas é logo perturbado. Não sendo absorvida pelas raízes. ditos antropogenéticos (as "paisagens culturais" dos geógrafos). a leis de conservação da natureza. estudados pormenorizadamente cada um dos componentes dos ecossistemas. Assim. da flora. mas apenas no de "condições ambientais". ou então em ravinas. mas sobretudo em áreas planas. chamadas voçorocas no sul do Brasil. em que se alternam inundações e secas. e diferenciados em escala crescente à medida que os meios técnicos evoluíam. Em determinadas . os troncos das árvores e as raízes expostas. significando riqueza potencial. poluição."Assim. Nessas circunstâncias. Desde o surgimento da sociedade humana. e sim a leis econômicas." "Já a água de escoamento superficial aumenta de volume e desce incontrolada pelas vertentes." "Basta que seja alterado um dos elementos do ecossistema. São essas as principais causas da erosão acelerada. Ao procurar defender os "recursos naturais". em qualquer tipo de topografia." "Aspectos da degradação. que podem ser lateríticas ou calcárias. o conservacionista não toma o vocábulo "recursos" no mesmo sentido que o economista. porém. eliminando-se a cobertura florestal numa vasta superfície de relevo acidentado. razão pela qual ficam obstruídos muitos rios outrora navegáveis. É comum que esse processo de ravinamento tenha início num corte de estrada ou de caminho carroçável. erosão ou lixiviação (lavagem de sais do solo) aceleradas. a formação de crostas no solo. desencadeiamse processos como degradação ou devastação da flora. após seu esfriamento. para que todo o conjunto venha a se modificar profundamente. formando enxurradas. isto é. variável em cada região natural. fontes alimentares e locais de procriação. Os rios que percorrem regiões florestais devastadas alteram em pouco tempo sua descarga e tendem a um regime torrencial. A rápida transformação do ambiente provocada pelo homem não obedeceu. formando sulcos profundos nas encostas. a maior parte da água que se infiltra penetra diretamente no solo até o lençol freático. são freqüentes os deslizamentos de terra. bem como partículas finas em suspensão. se desaparece. com a extinção de seus refúgios.

e na China. O Extremo Oriente teve a primazia da mentalidade conservacionista. na organicidade de cada ecossistema. Amanohasidate e Miyajima. com sua longa tradição de respeito pelas coisas da terra. feita com isenção de julgamentos prévios. onde o Buda se inspirava. no Japão implantaram-se em 1868 as áreas verdes de Matsushima. como em Sarnath. de seus recursos instintivos e de seus modos de vida. que. instituiu-se em 1898 o parque El Chico. difundiram a teoria e a prática da arquitetura paisagística. todos têm um papel a desempenhar. Daí aos sensores remotos foi um passo. no México. a etologia. já ampliou em muito a noção de sua utilidade para os seres humanos." "Impondo-se a mentalidade conservacionista e o conceito da essencialidade de manutenção do equilíbrio. que criou condições para que sejam poupadas centenas de milhares de vidas infantis. após organizar-se como Office International pour la Protection de la Nature (Organização Internacional para a Proteção da Natureza. os zoólogos abriram caminho para a descoberta do radar." "Evolução da mentalidade ecológica. alguns governos. na Índia. levaram a uma visão bem diversa das relações entre o homem e as diferentes espécies que com ele compartilham a existência na Terra. aves corredoras e rapaces começam a predominar. Da mesma forma. bem como entidades privadas.circunstâncias. Os macacos Rhesus. evitando acidentes. possibilitaram a descoberta do fator sanguíneo Rh. Em 1895 foi criada uma Comissão Internacional para a Proteção das Aves Úteis à Agricultura. os enfoques de uma nova ciência. passaram a reconhecer que a proteção da natureza é assunto de alcance internacional." "O antigo conceito simplista de animais úteis e nocivos teve de ser abandonado." "Graças ao estudo dos morcegos. voltada para o estudo do comportamento animal." "Em 1900 realizou-se em Londres a Conferência Internacional de Proteção aos Animais da África. desde 1910 até sua morte em 1929. Os japoneses. Certas iniciativas pioneiras já datavam de fins do século XIX. que permite a orientação na neblina ou na escuridão. justificando-se sua conservação e proteção cuidadosa pelas próprias razões que esses papéis indicam. Há milhares de anos existem nessa região áreas destinadas a proteger animais. nos Estados Unidos preservou-se em 1864 o vale do Yosemite e em 1872 foi criado o primeiro parque nacional do país. ressurgiu como The International Union for Protection of Nature (União Internacional para a Proteção da Natureza. Bruxelas. A observação científica dos animais. da Índia. cuja influência se estenderia a todo o mundo entre as duas guerras mundiais.fato tomado como exemplo dos benefícios que paralelamente procedem da observação da vida das plantas. 1928). lutou pelo estabelecimento de uma Comissão Internacional de Proteção à Natureza. "Desde o início do século XX. simples fungos que infestavam lâminas de microscópio conduziram à invenção da penicilina e à produção de toda uma gama de antibióticos . ante a evidência de que. O movimento protecionista. por exemplo. onde os mandarins mantinham espécies de particular interesse em pequenos parques". o de Yellowstone. 1948) e finalmente se estabilizou como International Union for Conservation of Nature and Natural Resources (União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos . sobre espécies arborícolas e voadoras que se alimentam de plantas. Fontainebleau. Relevante foi o empenho do naturalista suíço Paul Sarasin. Assim.

promoveram-se diversos congressos. passando a figurar com destaque entre as plataformas partidárias e as metas de novos governantes". José Bonifácio de Andrada e Silva propôs que "em todas as vendas de terras que se fizessem e sesmarias que se dessem. ao mesmo tempo. em Paris. com a presença de representantes de 62 países e observadores de numerosas entidades. "Malgrado a criação. em vista dos problemas de poluição e degradação ambiental que se acumulavam no final do século XX. o barão de Pati do Alferes. em Washington. ratificada pelo Brasil em 1965. tomou feição crescentemente política." "O evento de maior amplitude e de repercussão mais profunda. em junho de 1992. e a Conferência Intergovernamental de Especialistas sobre as Bases Científicas para o Uso Racional e Conservação dos Recursos da Biosfera.1. se pusessem a condição de que a sexta parte do terreno nunca haveria de ser derrubada e queimada. a Declaração de Princípios das Florestas. Grupos e entidades ecológicas tornaram-se cada vez mais comuns. Em 1861 fez-se a primeira experiência brasileira de reflorestamento tropical. nas florestas das Paineiras. Em 1821." "Na década de 1860. Almanaque. em 1940. (BARSA. foram aprovados documentos de fundamental importância para a conservação da natureza. começou a agir de forma organizada pela conservação da natureza. A luta pela defesa da natureza. dos primeiros parques nacionais e." "Objetivando o intercâmbio técnico-científico e a difusão dos conhecimentos conservacionistas.Naturais. 2001:361) BIBLIOGRAFIA ABRIL. como ficou conhecida.2. "A própria sociedade. 1997. . como a Convenção da Biodiversidade. como a Convenção para a Proteção da América. de diversos órgãos governamentais que se sucederam no tempo com específicas atribuições conservacionistas. no Brasil. não raro exercendo pressão sobre as autoridades públicas por decisões mais enérgicas. em 1937. Realizada no Rio de Janeiro. Edimburgo. São Paulo: Abril. sob os auspícios da União Pan-Americana. sem que se fizessem novas plantações de bosques". 2. foi a carta régia de 13 de março de 1797. em sintonia com o que então ocorria no restante do mundo". que advertia contra o perigo de destruição das matas. Na Eco-92. O primeiro documento a referir-se expressamente à conservação da natureza. a Convenção do Clima e a Agenda 21". a consciência da necessidade de proteger a natureza só começou a difundir-se entre a população brasileira após as décadas de 1960 e 1970. no Rio de Janeiro".5. foi a Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento. teve a adesão de 178 países e contou com a presença de mais de cem chefes de estado. sugeriu em seu livro Memória sobre a fundação e custeio de uma fazenda que os fazendeiros evitassem reduzir a cinza as preciosidades vegetais e que o governo tornasse obrigatório o plantio de "paus de lei" à beira das estradas. "Conservacionismo no Brasil. mobilizando-se em campanhas ao sentir o impacto da degradação de seus ambientes. Silvestre e Tijuca. Francisco Peixoto de Lacerda Werneck. a partir das décadas de 1920 e 1930. em 1968. 1956).

Oreste. 11. A terceira onda. [online]. Vol. São Paulo: Record.. 1997. Cuiabá: UFMT.ed. LAKATOS. [online]. JOLLIVET. 57). Arquivo consultado em 02 de maio de 2004. 2002.ed. São Paulo: Brasiliense. 7ª série. 2001. Rio de Janeiro: Zahar. São Paulo: Barsa. SOUSA. novembro 1998: 5-25. OLIVEIRA. Gevilacio Aguiar Coêlho de.net Arquivo consultado em 02 de maio de 2004. MT. Citações e referências a documentos eletrônicos. Arquivo consultado em 02 de maio de 2004. [online]. Disponível na Internet via WWW. Disponível na Internet via WWW.. Disponível na Internet via WWW. pelo número significativo das pesquisas empíricas realizadas que possibilitaram a coleta de abundantes informações e dados sobre a realidade agrária. pela variedade de temas tratados.. Ariovaldo Umbelino de. A "vocação atual" da sociologia rural in Estudos Sociedade e Agricultura. Disponível na Internet via WWW. 11.ed. Tecnofrutas: o processo de produção e industrialização de Poxoréo. A geografia das lutas no campo. PRETI. 1976. 7. Sociologia geral.com Última atualização em 01 de janeiro de 2001. (Coleção Primeiros Passos. Carlos Benedito. Pesquisa educacional. Izaias Resplandes de. Miguel. Sample. Biografia de Thomas Robert Malthus.BARSA. 1999. 1999.quatrocantos.ed.com.cjb. São Paulo: Atlas. 22. por um lado. São Paulo: Saraiva. pela influência de referenciais marxistas. Alvin. URL: http://www. 2003. Cuiabá: UFMT. URL: http://www. TOFFLER. REALE. MARCELIB. São Paulo: Contexto. e pelo outro. URL: http://www. Nova Enciclopédia. ed.. Eric R. Marcel. Teoria tridimensional do Direito. Brasil: para compreender a história. WOLFO. INTRODUÇÃO A produção teórica sobre o “mundo rural” no Brasil dos últimos trinta anos poderia ser caracterizada. [online]. Renato. 5. A CRISE DA SOCIOLOGIA RURAL NO BRASIL E SUAS TRADIÇÕES TEÓRICAS William Héctor Gómez Soto1 RESUMO Este artigo faz uma avaliação da crise da sociologia rural no Brasil a partir da análise das tradições teóricas que a influenciam principalmente a vertente sociológica americana e o marxismo clássico. 1992. URL: http://www. Sociedades camponesas.poxoreo. São Paulo: Editora do Brasil. O que é sociologia. MARTINS. SOLUÇÕES. 1997. 1. 2. Busca-se compreender de que forma essas influências teóricas determinam a forma em que os cientistas sociais têm interpretado o “mundo rural” brasileiro.biomania. Eva Maria & MARCONI. MOURA... 1994. Porém é .br/biografias. Marina de Andrade.

A ausência de um debate científico e livre de conotações “ideológicas” sobre a problemática agrária. . Este artigo está estruturado em cinco partes. alguns autores começam a chamar a atenção sobre a necessidade de repensar o “mundo rural” a partir das transformações que estão ocorrendo em escala mundial. A terceira parte. predominantes na sociologia americana da década de 60. em menor grau. parece ter reduzido as possibilidades de inovações teóricometodológicas que. às tradições teórico-metodológicas funcionalistas. do Instituto de Sociologia e Política (UFPEL). seu contexto histórico e as principais visões. Em seguida.necessário assinalar que uma parte importante dessa produção teórica está vinculada. Alguns autores brasileiros parecem ter dificuldade em deixar de lado “velhas idéias” como a “diferenciação social na agricultura e a polarização de classes” oriunda da “tradição marxista clássica”. trata sobre a produção teórica brasileira sobre o “mundo rural”. discutimos as tradições teóricas da sociologia rural. Na quarta 1 Doutor em Sociologia (UFRGS) e Prof. Apesar disso. tentamos apreender o processo de mudanças dentro da sociologia rural americana. ao mesmo tempo contemple as mudanças da realidade e as discussões a nível internacional. iniciado a meados da década de 70 e caracterizado pela recuperação crítica das tradições teóricas de Marx e de Weber e pela emergência de novas questões de pesquisas. existe uma relativa incapacidade da “sociologia rural” brasileira de explicar as mudanças no “mundo rural”. tendo como ponto de partida a compreensão da evolução da sociologia rural americana. Atualmente. Na primeira parte. enquanto que a nível internacional existe uma outra dinâmica que incorpora novas questões e novas perspectivas teórico-metodológicas para entender velhos problemas.

cuja manifestação mais conhecida foi a difusãoadoção de inovações. A inícios da década de 50 essa tradição foi questionada por um novo grupo de sociólogos rurais influenciados pela Psicologia Social e formados principalmente na Cornell University e nas universidades de Wisconsin. Minnesota. a perspectiva teórica que dominava a sociologia rural (o continuum rural-urbano) entrou em crise. 1. O aspecto mais importante dessa nova sociologia rural refere-se ao conceito de “estrutura da agricultura”. Alguns autores (Gans e Pahl apud Newby. Esses autores mostraram que o conceito de “rural” era essencialmente descritivo e empírico e. A terceira época. um conceito que foi deixado de lado na pesquisa social anterior aos anos 70. Ambas as tradições parecem insuficientes para dar conta das mudanças que estão ocorrendo no mundo rural brasileiro.2 parte. refere-se à “nova sociologia da agricultura”. A noção de continuum rural-urbano estabelece uma série de traços da sociedade urbana e a sociedade rural que se supõem funcional e causalmente conectados. 1982) mostraram que os conceitos de “urbano” e “rural” não eram nem variáveis explicativas nem categorias sociológicas. devido a razões teóricas e empíricas. Durante esse período a sociologia rural americana foi dominada por uma perspectiva que definia os produtores como atores que podiam responder a estímulos e a novas tecnologias. O continuum rural-urbano perdeu utilidade na medida em que a população rural diferenciava-se cada vez menos da população rural. Essas diferenças são apresentadas . Sorokin e Zimmerman)2. Uma que pode ser chamada de “funcionalista” e a outra de “marxista clássica”. De acordo com Buttel et al (1990). início da década de 50 até início da década de 70. Kentucky e Iowa. onde o estudo sobre a agricultura foi construído como um dos muitos elementos necessários para compreender a estrutura social da vida comunitária rural. A sociologia rural anterior a 1950 teve uma orientação teórica baseada no continuum rural-urbano (Toennies. na sociologia rural americana pode-se identificar três etapas: a primeira vai do início deste século até os primeiros anos da década de 50. Missouri. A segunda época. e que separam a sociedade rural da urbana. constituem uma “nova sociologia rural”. Newby (1982) tem argumentado que os trabalhos inovadores sobre a agricultura. A meados dos anos 60. portanto totalmente incapaz de abrigar o caráter explicativo que se lhe atribuia. queremos chamar a atenção sobre as transformações econômicas e sociais que estão fazendo emergir um novo “mundo rural” . Essa situação de “esgotamento” está dando lugar a novas concepções teóricas-metodológicas que alguns autores chamam de “nova sociologia rural” (Newby) ou “sociologia da agricultura” (Buttel). é conhecida como a época do enfoque do comportamento psico-social. A sociologia do “mundo rural” e suas tradições teóricas A sociologia do “mundo rural” tem estado influenciada principalmente por duas tradições clássicas. desde a metade da década de 70.

por Sorokin e Zimmerman como extremos de uma escala polar de muitas gradações. existe um contínuo. “Desde a habitação rural isolada e até a grande cidade. 1973:12) 2 . Entre o meio rural e o meio urbano existe uma gradação infinita.” (Solari. Em outras palavras. existem inúmeros escalões intermediários que vão criando uma transição insensível entre o meio rural propriamente dito e o meio urbano.

revolucionou a pesquisa e deu coerência à sociologia americana e definiu um modelo de pesquisa sociológico que em muitos aspectos. Nesse período a sociologia rural foi mais quantitativa que durante a tradição dos estudos da comunidade rural (1900-1950). 1950. “A teoria de médio alcance é usada principalmente na sociologia para servir de guia às pesquisas empíricas. assim como dos meios de comunicação e do sistema educacional. Emile Durkheim e Max Weber eram considerados os modelos clássicos de pesquisa dentro da tradição da psicologia social da sociologia rural. De acordo com Buttel et alii (1990) os primeiros estudos dentro dessa tradição foram. Por exemplo. Wilkening (1949. como a teoria da difusão e adoção de inovações. 1954)6 da Universidade de Chicago Merton denomina. elaborados por Hoffer (1942)4 e Ryan e Gross (1943)5 em Michigan e Iowa respectivamente. dentro da tradição da psicologia social consideravam que os agricultores eram atores sociais capazes de responder ao estímulo de novas tecnologias agrícolas. A noção de Merton tinha como objetivo permitir que os sociólogos transformassem certas proposições abstratas do funcionalismo parsoniano em hipóteses testáveis com dados a nível micro (individuais. Weber criticou amplamente as metodologias que implicavam a imposição da proposta hipotético-dedutiva das ciências naturais sobre as ciências sociais. a noção de que a adoção de novas tecnologias poderia contribuir para uma mudança social positiva). mantém sua influência até hoje. Essa orientação teórico-metodológica reflete-se na sociologia rural até inícios da década de 70. Ocupa uma situaçào intermediária entre as teorias gerais de sistemas sociais. organização e mudanças sociais. apenas guardam uma superficial semelhança com as obras de Durkheim e Weber. Para Buttel et alii (1990) a síntese parsoniana e a elaboração de Merton. a partir da síntese parsoniana e de uma incipiente Teoria da Ação enquanto que a noção da Theories of the middle range3 de Merton era a noção central na pesquisa sociológica e na sociologia rural das décadas de 50 e 60. a agenda mertoniana das Teorias de alcance médio (Middle-Range Theory). Isto era uma premissa para compreender a expansão de novas tecnologias e significava uma postura a favor das mudanças tecnológicas. as quais estão muito afastadas das espécies particulares de . A teoria de adoção-difusão de inovações foi o protótipo da “Theory os Middle-Range”.3 Os sociólogos rurais. mas hipóteses necessárias de trabalho que surgem em abudância durante a rotina das pesquisas diárias e os amplos esforços sistemáticos para desenvolver uma teoria unificada capaz de explicar todas as uniformidades observadas de comportamento. E. familiares e organizacionais) e relacionados com determinadas unidades de análise. O mesmo pode se dizer em relação ao método históricocomparativo de Weber. as teorias intermediárias entre as pequenas.A. Teorias de médio alcance. Na tradição de pesquisa dentro da linha da difusão/adoção o agricultor era visto como um ator que respondia a diversos estímulos para melhorar a produção agrícola. a sintonia do funcionalismo com a análise causal a nível micro era estranha às noções centrais de Durkheim na sua análise da sociedade. Apesar dessas críticas. onde se combinava o raciocínio da psicologia social com um tipo de análise funcional (ou seja. 1952.

Acceptance of approved Farming Practices Among Farmers of Dutch Descent.”Merton (1970:55) 4 Hoffer. 1949: 68-69 3 . Special Bulletin No. “The diffusion of hybrid seed corn in two Iowa communities”. Charles M. 5 Ryan. Bryce e Gross. “A sociopsychological study of the adoption of improved farming practices”. East Lansing: Michigan Agricultural Experiment Station. 316. Rural Sociology 8 (March): 15-24 6 Wilkening. Rural Sociology 14 (March). Eugene A.comportamento. organização e mudanças sociais para explicar o que é observado e as minuciosas ordenadas descrições de pormenores que não estão de modo algum generalizados. Neal C.

” Amercican Sociological Review 19 (February). 1954: 29-37. Coughenour (1960)10 e Rogers (1962)11. do campesinato. particularnente das obras de Marx. Frederick. Igualmente. caracteriza-se pela busca de teorias adequadas para compreender as estruturas agrárias modernas. Lionberger (1960)9. por exemplo. 1950: 352-364.4 exerceu uma grande influência nas primeiras pesquisas de difusão e adoção de tecnologias agrícolas. Em 1959. Lenin. Gouldner e outros. Para Lenin. Para Kautsky. baseada no marxismo. ____________________ “An introductory note on the social aspects of practice adoption. a lógica básica do desenvolvimento agrário era a vinculação entre a estrutura de classes e a diferenciação social na agricultura e a formação de um mercado interno no capitalismo.” Rural Sociology 21 (September/December). . Beal e Bohlen (1957)8. lento. na sua Imaginação Sociológica. 1952: 272-275. and family integration. Essa busca significou a redescoberta de um conjunto de propostas clássicas para a compreensão do desenvolvimento agrário. Kautsky e Chayanov. Wright Mill criticou a teoria parsoniana e chamava a atenção de que as Teorias de Médio Alcance de Merton conduziam a um empiricismo abstrato que sufocava a imaginação sociológica. Beal. George e Bohlen. por acreditar que os pequenos produtores agrícolas não tinham acesso às novas tecnologias além de serem ecologicamente destrutivas. As críticas de Mill receberam pouca atenção dos sociólogos rurais. ____________________”Change in farm technology as related to familism. ____________________ “Informal leaders and innovators in farm practices” Rural Sociology 17 (September). Joe. a dinâmica central era a penetração do capital urbano-industrial na agricultura e o desaparecimento. family decision-making. Alguns sociólogos rurais analisaram a estrutura da pesquisa agrícola e o papel da sociologia rural no desenvolvimento e difusão de novas tecnologias. 1958:97-102 7 Fliegel. A reavaliação da perspectiva teórica dominante na sociologia rural nas décadas de 50 e 60 pode levar a uma nova sociologia rural. A segunda tradição (19751985). Também foram notáveis as contribuições de Fliegel (1956)7. 1956: 284-292. Na década de 70 uma nova geração de sociólogos rurais foram influenciados pelas críticas de Mill. ____________________ “A sociopsychological approach to the study of the acceptance of innovations in farming.”Rural Sociology 23 (June). “A multiple correlation analysis of factors associated with adoption of farm practices.” Rural Sociology 15 (December). mas inevitável. Muitas das preocupações da sociologia rural traduziam-se em crítica da revolução verde. essa tecnologia tinha como efeitos a marginalização da agricultura familiar e dos trabalhadores. Essas perspectivas teóricas sobre a agricultura eram principalmente dedutivistas na medida em que buscavam identificar a lógica particular do desenvolvimento agrário. Outros analisaram os impactos ecológicos da modernização da agricultura e argumentaram que os pesquisadores deviam considerar as variáveis ecológicas se eles queriam compreender a organização social e as mudanças tecnológicas na agricultura.

Ames: Iowa Agricultural Extension Service 9 Lionberger. 1960 10 Coughenour. Milton. Ames: Iowa State University Press. Diffusion of innovations. 1962. Everett M. 1960: 283-297 11 Rogers. C. Special Report 18.” Rural sociology 25 (September). New York: Free Press. Herbert F. 8 .The Diffusion Process. “The functioning of farmers charecteristcs in relation to contact with media and practice of adoption. Adoption of New Ideas and Practices.

Além disso. Esses argumentos enfatizam que existe uma lógica última do desenvolvimento que se explica pela necessidade de sua própria dinâmica. por exemplo para garantir a acumulação do capital urbano-industrial. Os debates da socialdemocracia alemã e Russa e os trabalhos de Kautsky e Lenin não se apoiavam nas conclusões de O Capital nem nas partes das Teorias da Mais-Valia em que Marx analisa a questão agrária. as duas obras clássicas sobre a problemática agrária dentro da tradição marxista devem ser analisadas de acordo com o contexto de debate político em que seus autores estavam inseridos. onde o ponto de partida contém o destino final da trajetória: a mercadoria resulta de atividade particular. ao mesmo tempo. A burguesia e o proletariado expressam essa contradição.. De acordo com Abramovay (1992:36). ele se torna um capitalista. sociais. para a satisfação de necessidades gerais. essas teorias dedutivas tendem a estar baseadas em argumentos teleológicos. a “impossibilidade de definir claramente seus rendimentos demonstra que o conceito de camponês n’O Capital é logicamente impossível”. Quando os trabalhadores exerçam a cooperação e a propriedade comum da terra e dos meios de produção será superada a contradição entre o trabalho social e a apropriação privada. Se receber salário tratase de um trabalhador assalariado. Referimos-nos a Questão Agrária de Kautsky e a Desenvolvimento do capitalismo na Rússia de Lenin. situa-se no plano de uma fenomenologia das formas sociais. Se o camponês obtém lucro. Porém. Sendo a burguesia e o proletariado as classes fundamentais da sociedade capitalista.5 Essas teorias dedutivas da estrutura agrária foram úteis no seu tempo e ainda podem fornecer elementos importantes para a pesquisa. O Capital de Marx: “. Dessa forma surge uma nova relação social baseada na cooperação. o produtor de mercadorias. Cabe salientar que Marx não trata sobre as tendências e funções da agricultura familiar no desenvolvimento capitalista. Esses caráter transitório do campesinato (e de todos os pequenos proprietários) explica a ausência de um conceito de camponês na obra de Marx. um operário e não um camponês. Portanto é na produção de mercadorias que se encontra a base da diferenciação social que provoca o surgimento das classes sociais. Segundo Abramovay (1992). mas voltada. o campesinato está fatalmente condenado a desaparecer. . somente pode satisfazer suas necessidades através do mercado e é ali onde se manifesta a contradição entre o caráter social do trabalho e a apropriação privada de seu resultado.. Isto se explica pela própria lógica de sua obra. ou para racionalizar a produção agrícola. A ênfase de Lenin na diferenciação social do campesinato deve ser entendida na sua tentativa de demonstrar a impossibilidade de estabelecer uma ampla aliança de classes para realizar a Revolução na Rússia. privada. esses argumentos dedutivos abstratos tendem a perder força explicativa diante variações espaciais e temporais. Para Lenin se o campesinato em seu conjunto apoiaria a revolução democrática.” Abramovay (1992:33) No capitalismo. Portanto os esforços dos socialdemocratas russos deveriam centrar-se na organização naqueles camponeses que mesmo sendo proprietários vendiam sua força de trabalho. somente os camponeses pobres apoiariam a revolução socialista.

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Igualmente Kautsky rejeita qualquer possibilidade de incluir no programa do partido qualquer tipo de reivindicação camponesa.. se insere nesse dilema e denuncia a falsidade dos socialdemocratas que fomentavam a ilusão da permanência dos camponeses no capitalismo e no socialismo. Por um lado. Enquanto as populações rurais ficavam menos homogêneas.. aqueles que buscavam levantar algumas reivindicações específicas para o campesinato (crédito. Para Engels. aqueles que consideravam o campesinato em processo de rápido desaparecimento. mostrou ser falsa. No interior do partido havia duas tendências. Argumentavam também que a pequena produção era tecnicamente superior à grande exploração capitalista. Na base dessa argumentação encontra-se a idéia de que os socialdemocratas não poderiam levantar reivindicações de qualquer setor social proprietário de meios de produção. No passado esse problema permaneceu oculto devido a que na maior parte das zonas rurais dos países capitalistas industrializados coincidiam as localidades de residência e de trabalho. tornado esta idéia o ponto de partida e de chegada de suas análises. Por sua vez.6 É sobre essa idéia da diferenciação social do campesinato que se formou o mais importante paradigma marxista sobre a questão agrária.1995 Os problemas de definição da sociologia rural partem do fato de que o “rural” não constitui uma categoria sociológica. Portanto o partido não deveria incluir nenhuma reivindicação camponesa (enquanto proprietários) no seu programa. Para os primeiros. a obra de Kautsky deve ser compreendida no contexto do debate da socialdemocracia alemã na busca do apoio da população rural para ampliar sua representação parlamentar. ou estavam estreitamente vinculados a ela. Os marxistas estudiosos da problemática agrária dedicaram-se a encontrar a tendência da diferenciação social. os camponeses se tornariam capitalistas ou proletários.propriedades objetivas e universais do desenvolvimento do capitalismo no campo”. 2. Para Abramovay (1992:42) a idéia da diferenciação social de Lenin deve ser entendida no contexto do debate entre bolcheviques e mencheviques. Contudo. Pelo outro. Kautsky tentou demonstrar a inutilidade de dedicar esforços na organização do campesinato em processo de desaparecimento devido principalmente à superioridade técnica da grande exploração agrícola. a tarefa o partido deveria organizar os trabalhadores assalariados agrícolas e explicar aos camponeses a inevitabilidade de seu desaparecimento. Os anos de mudança: 1975 . por exemplo). Para eles. as previsões de Lenin e Kautsky não se realizaram. os camponeses poderiam se unir aos proletários na construção da sociedade socialista. a contradição entre progresso técnico e agricultura familiar enfatizada por Kautsky. a não ser exigir as mesmas condições de trabalho no campo e na cidade. O desenvolvimento do capitalismo no campo não resultou na proletarização dos pequenos produtores. mais do que “. Na Questão Agrária. Além disso. os . A sociologia rural podia definir-se como o estudo dos que moravam numa localidade rural e se dedicavam à produção de alimentos. O desaparecimento desse objeto de estudo subverteu a confiança dos sociólogos rurais dedicados a analisar as diferenças entre o “rural” e o “urbano”. O trabalho de Engels A questão camponesa na França e na Alemanha.

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as críticas à sociologia rural ainda não permitiram uma mudança importante nos programas de pesquisa nesse campo. a sua responsabilidade pública e inclusive a sua competência para fazer pesquisa. Contudo. Apesar disso. sem referência às teorias “gerais” da sociedade. a sua pertinência teórica. que requer uma análise mais cuidadosa. Para alguns autores como Newby (1982). na década de 70 a sociologia rural parecia ter perdido o rumo. De acordo com Newby (1982) as características do estilo “científico” da sociologia rural são as seguintes: positivista. quantitativo e “aplicado”. esse termo é apenas um “referente empírico”. de forma indutiva. constitui uma mera “expressão geográfica”. não pode existir uma teoria da sociedade rural sem uma teoria da sociedade geral. Do anterior derivam-se duas consequências: Em primeiro lugar. não existe uma população rural. mas há populações específicas que por razões diversas estão localizadas em zonas rurais. isto simplesmente desloca a questão central de se a “sociedade rural” pode definir-se sociologicamente. A sociologia rural se define melhor como a sociologia das localidades geográficas que têm uma população escassa e de pouca densidade em termos relativos. Muitos sociólogos têm negado a possibilidade de estudar a sociedade rural como uma parte da sociedade em seu conjunto. A sociologia rural parece enfrentar um conjunto de problemas relativos ao seu objeto de estudo. Esta confusão é sintomática de uma dificuldade conceitual mais profunda. ou seja. resulta irônico que a influência da sociologia rural americana tenha se estendido com maior rapidez e amplitude que antes. Esta tarefa seguirá exigindo um conhecimento empírico muito responsável da estrutura e as relações sociais. Além disso. A história desta disciplina tem sido obstaculizada pela busca fútil de uma definição sociológica do “rural” e pela resistência a desconhecer que esse termo é uma categoria empírica mais que sociológica. A perda de confiança na orientação que segue a sociologia rural tem sido maior nos Estados Unidos. Segundo Newby (1982) a sociologia rural tem-se caracterizado por sua natureza a-teórica e inclusive anti-teórica e até pela sua tentativa de elaborar. Sem dúvida trata-se de redefinir os velhos problemas a partir de novas abordagens. Na falta de uma definição do “rural” aceitável do ponto de vista sociológico. indutivo. Novos problemas sociais e sociológicos emergentes estariam provocando nos sociólogos rurais o sentimento de que eles não estavam suficientemente preparados para responder a essa nova situação. Mas isto poderia ser compreensível se levamos em conta que os autores clássicos têm descuidado a sociologia rural no seu esforço por criar teorias da sociedade industrial . uma teoria sociológica especificamente rural. As origens da crise Existe certa confusão sobre a possibilidade de uma definição significativa do ponto de vista sociológico do “rural”.7 sociólogos também perdiam a clareza em relação ao que era o “rural”. combinado com uma teoria que explique essa estrutura e essas relações. Ainda que a definição mais comum da sociologia rural consiste em considerá-la “o estudo científico da sociedade rural”. A formulação desta “nova sociologia rural” é um desafio para os sociólogos rurais na atualidade.

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urbana, além de que frequentemente têm ignorado a natureza da sociedade rural. O rural tem sido considerado como um resíduo e, portanto tem recebido pouca atenção na teoria sociológica geral.

Em segundo lugar, dado que o “rural” é uma categoria espacial é necessário uma teoria que vincule o espacial com o social. Além de que, uma teoria sociológica deverá enfatizar o social. A sociologia rural americana tornou-se sinônimo de um empirismo superficial, rejeição da teoria e banalização de temas importantes. A sociologia rural buscou a legitimidade científica nas instituições de ensino superior através da utilização de instrumentos estatísticos e a quantificação e manejo de dados, tentando compensar a negligência teórica com a competência metodológica. Porém, essas técnicas de coleta e análise de dados não significaram uma melhora no conhecimento produzido. A lentidão para entender esses fatos tem contribuído para o aprofundamento da crise da sociologia rural. Nos últimos anos acreditou-se que as falhas na compreensão do funcionamento da sociedade rural deviam-se unicamente à falta de dados e ao caráter rudimentar dos instrumentos disponíveis para medição e elaboração de modelos. O irônico é que na medida em que se aperfeiçoavam as técnicas de coleta e análise de dados ficava mais longe a possibilidade de entender a sociedade rural (Newby, 1982). Recentemente há indícios que as fraquezas teóricas da sociologia rural estão sendo questionadas, sobretudo nos Estados Unidos, mesmo que ainda não foi substituída a teoria do continuum rural-urbano por um novo corpo conceitual ou por um conjunto de problemas teóricos que poderia possibilitar novos temas de pesquisas para a sociologia rural. Não se trata de propor uma teorização abstrata, mas de reconhecer que a elaboração teórica e a pesquisa empírica não são exercícios separados. Como mencionado anteriormente, a sociologia rural requer de uma teoria da sociedade, dentro da qual pode ser localizado o “rural”. O que implica que os sociólogos rurais devem conhecer melhor as teorias sociológicas gerais, ainda que, não há uma teoria geral da sociedade aceita pelos sociólogos. Os sociólogos rurais devem adotar uma visão mais totalizadora para estudar a sociedade rural. É importante que os sociólogos rurais se considerem a si mesmos como sociólogos que tem como objetivo estudar certos aspectos das zonas rurais. Para Newby (1982) uma nova sociologia rural deve partir de um enfoque totalizador no estudo da sociedade rural. O debate internacional: a “nova sociologia rural” A nova sociologia rural procura entender a estrutura interna e a dinâmica da agricultura a partir de teorias neo-weberianas e neo-marxistas. Dentre os temas tratados por esta nova perspectiva estão: o papel da etnicidade na persistência da agricultura familiar; a indústria agrícola; a força de trabalho assalariado agrícola; pequenos produtores e a agricultura em tempo parcial e, gênero e agricultura. Ultimamente, o “meio ambiente da agricultura”, tanto no sentido literal como metafórico, também ocupa as preocupações desta nova perspectiva. No sentido literal, explora temas relacionados com os fatores naturais e

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ecológicos e os impactos da agricultura sobre o meio ambiente. A nova sociologia rural também trata sobre temas relacionados ao ambiente sócio-econômico da agricultura como as mudanças tecnológicas na agricultura, a sociologia das ciências agrárias e a crise agrícola (principalmente sua origem no ambiente das políticas públicas). De acordo com Buttel et alii (1990), um dos traços da nova sociologia que emergiu entre a metade e fins da década de 70 foi a diversidade de seus enfoques teóricos. Por exemplo, Rodefeld e Heffernan revisaram teorias tradicionais e demonstraram que a tendência aparentemente “natural” da diferenciação na agricultura tinha implicações negativas para os agricultores familiares e as comunidades rurais. Mais tarde foi desenvolvida uma tradição teórica baseada na economia política marxista e, especialmente, na abordagem clássica da economia política agrícola de Marx, Kautsky e Lenin. Nesse mesmo período, foram publicados um conjunto de artículos escritos por Mann e Dickinson (1987), Friedmann, e Newby que abriram novas visões na análise sociológica da agricultura, através da aplicação da teoria marxista. Esta tendência foi consolidada com a antologia editada por Buttel e Newby (1980), a publicação de um livro de Friedland et al (1981) e uma antologia por Havens et al (1986)12. Recentemente a economia política da agricultura tem tomado uma orientação neo-weberiana, estimulada por Newby e Mooney. Finalmente, a partir de 1980, a nova sociologia da agricultura tem sido influenciada por uma postura ecológica. A nova sociologia da agricultura tem sido teoricamente diversa, porém existem características comuns desta reorientação da pesquisa sociológica rural. Primeiro, a nova sociologia da agricultura tem sido teoricamente mais ambiciosa que as pesquisas tradicionais dominantes antes do início da década de 70, tentando combinar, a teorização macrosocial com a elaboração de formulações teóricas falsificáveis e hipóteses testáveis. Segundo, na nova sociologia da agricultura, os métodos qualitativo e histórico da pesquisa, têm uma maior importância, do que tiveram na pesquisa sociológica rural durante a década de 60. Da mesma forma que a perspectiva behaviorista, que era dominante nos anos 50 e 60, não substituiu a perspectiva dos estudos da comunidade rural, assim, também, a nova sociologia da agricultura não tem significado a substituição, da perspectiva behaviorista, em particular, da difusão-adoção de inovações. Certamente, a perspectiva da difusão-adoção, precisa ser revisada para manter-se viável e contribuir para a compreensão da agricultura. O maior aspecto distintivo - e sem precedentes - da nova sociologia da agricultura nos Estados Unidos tem sido a importância que tem concedido às perspectivas marxistas e neo-marxistas. Tal vez o trabalho de Steeves (1972)13 na Rural Sociology, foi o primeiro exemplo de um artigo publicado numa revista oficial, baseado amplamente na teoria marxista. Porém foi só até finais da década de 70 que começaram a ser elaboradas sistematicamente explicações marxistas, nas universidades, sobre a dinâmica da agricultura nos Estados Unidos.

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Havens, Eugene. Studies in the Transformation of U.S. Agriculture. Boulder, CO: Westiew Press, 1986 apud Buttel, F. et al. (1990) 13 Trata-se do artigo de Allan D. Steeves, “Proletarianization and class identification” Rural sociology 37 (march), 1972: 5-26 apud Buttel, F. et alii (1990)

Newby16 sugere que uma sociologia da agricultura proveitosa deveria basear-se na integração das perspectivas de Marx. Kautsky e Weber. os artigos pioneiros nesta tradição foram preparados por Mann e Dickinson (1987). O artigo de Mann e Dickinson. Em termos marxistas. dessa forma se produz a não identidade entre “tempo de produção” e “tempo de trabalho”. negado pela persistência da agricultura familiar Mann e Dickinson (1987) identificaram as fraquezas dos argumentos subjetivistas dominantes (Chayanov) sobre a persistência da agricultura familiar nas sociedades capitalistas avançadas. um dos mais influentes “neo-weberianos” na Inglaterra. O que é extraordinário dessa primeira fase do desenvolvimento da economia política marxista da agricultura é que essas primeiras contribuições basearam-se nos clássicos da economia política. Por tal razão. uma revista britânica que tem sido vanguarda na revitalização de uma economia política de estudos camponeses e da história agrária da Europa. Eles enfatizaram que por causa da sazonalidade na agricultura existe uma tendência à separação entre o “tempo de produção” e o “tempo de trabalho”. foi relevante para compreender a dinâmica estrutural da agricultura americana. 1978b)14 e Newby (1978). Friedmann baseou-se na obra de Ernest Mandel. Apesar dessas inovações. E como já foi mencionado anteriormente. reforçando com isto a idéia de que as atividades . No seu artigo de 1983. Mann e Dickinson sugeriram que a realização das mercadorias agrícolas implica um maior tempo (tempo de produção mais tempo de circulação [tempo requerido para a venda das mercadorias]) do que a indústria. A terceira grande contribuição para o desenvolvimento da economia política da agricultura foi o trabalho de Newby (1978)15. especialmente de seu Tratado de Economia Marxista. está baseado principalmente no O Capital e os Gundrisse de Marx e secundariamente no trabalho de Lenin. o “trabalho vivo” é o único que cria mais-valia. o “trabalho vivo” contribui modestamente no processo de produção. Marx foi quase totalmente ignorado nas análises das mudanças estruturais na agricultura dos sociólogos rurais norteamericanos até finais da década de 70. Seu estudo sobre a Questão Agrária de Kautsky. O valor não é criado nessas interrupções. Friedmann (1978a. Eles sugeriram que na obra de Marx encontram-se elementos de uma explicação não-voluntarista e não-subjetivista de porque o desenvolvimento capitalista é entendido em termos de proletarização e o estabelecimento da relação capital-trabalho é um processo mais lento na agricultura que na indústria. o que dificulta a “calendarização” do processo de trabalho tornando a agricultura menos lucrativa que a indústria. Newby (1978) centrou seus esforços na obra de Kautsky.10 Como já foi dito. Portanto a agricultura torna-se não-lucrativa e por isso relegada aos agricultores familiares. O artigo de MannDickinson e um de Friedmann (1978b) foram publicados no Journal of Peasant Studies. por exemplo. A razão chave para entender o descaso da obra de Marx nos estudos sobre a agricultura tem sido tal vez o modelo marxista da polarização do processo econômico (de acordo com as leis da centralização e concentração do capital e a proletarização) entre capital e trabalho.

15 ”The rural sociology of advanced capitalist societies. Chichester. state. 1983 14 . 1978b. 1978a e “Simple commodity production and wage labour in the American plains. England: Wiley. Comparative Studies in Society and History 20: 545-586. International Perspectives in Rural Sociology.” In: Newby H.Trata-se dos artigos de Harriet Friedmann: “World market. (org). 1: 71-99.” Journal Peasant Studies 6.”Annual Review of Sociology 9: 67-81. and family farm: social bases of household production in an era of wage labor”. 1978 16 ”A sociology of agricultura: toward a new rural sociology.

Mann e Dickinson. Então. seguindo as obras de Kautsky e Lenin. Friedmann testou empiricamente essa proposição com dados históricos que mostraram que durante a crise do preço do trigo no fim do século passado. os capitalistas são obrigados pela lógica da concorrência a competir para obter a taxa média de lucro para que suas empresas não fiquem fora do mercado. na visão de De Janvry. Friedmann considera que os produtores simples de mercadorias agrícolas têm um maior grau de flexibilidade que os capitalistas reduzindo seu consumo ao nível de subsistência para sobreviver nos períodos de crise. emergiu uma tradição neo-marxista diferente. Simultaneamente com os trabalhos de Mann-Dickinson e Friedmann. aumentam o risco de produção e. Mesmo enfatizando as particularidades da agricultura que leva à persistência da agricultura familiar.mudança tecnológica. não obtém excedente para sua reprodução. De Janvry (1980). Friedmann reconhece que existem condições que podem levar para sua transformação em formas capitalistas de produção. Os capitalistas agrícolas tendem a liquidar seus negócios quando estes não são capazes de gerar a taxa média de lucro. considera que o desenvolvimento do capitalismo tardio tem significado a destruição da agricultura familiar e que as forças que afetam a produção agrícola . portanto resulta menos atraente para os capitalistas. Finalmente. os produtores capitalistas da Inglaterra.fazem improvável a sobrevivência da agricultura familiar. minimizando a perecibilidade das mercadorias agrícolas e reduzindo o tempo “biológico” das plantas. um dos representantes dessa tradição. o produtores independentes são uma classe transicional no capitalismo avançado. Mann e Dickinson observaram que dado que os produtos agrícolas são perecíveis. Ela argumentou que a produção agrícola familiar. As análises de Friedmann estão baseadas na tradição teórica marxista.11 agrícolas estariam nas mãos de produtores agrícolas não-capitalistas. provocando a sua diferenciação em classes sociais antagônicas. Porém. ao contrário enfatizam porque o capital não está interessado em investir na produção agrícola. diferentemente dos capitalistas. refirindo-se a América Latina. De Janvry argumentou que o desenvolvimento capitalista na agricultura é mais lento que na indústria e que torna bastante provável que as forças da proletarização e a acumulação capitalista na agricultura destruam lentamente a agricultura familiar. porém a sua explicação da persistência da agricultura familiar (que ela denomina de produção simples de mercadorias) descansa amplamente em como a agricultura familiar pode enfrentar a concorrência das empresas capitalistas no contexto hostil de mercados competitivos de meios de produção e mercadoria agrícolas. as relações capitalistas devem penetrar irreversível e . Por outro lado. Porém. Os produtores simples de mercadorias necessitam apenas de sua “reprodução simples”. eles não chegam a afirmar que o desenvolvimento na agricultura não tem um caráter capitalista. subsídios estatais para pesquisa e investimento de capital . da Prusia e dos Estados Unidos não conseguiram competir com os produtores familiares dos Estados Unidos. Eles enfatizaram que a pesquisa agrícola pode reduzir ou eliminar a distância entre tempo de produção e tempo de trabalho. Friedmann indica o alto grau de risco e a demanda cíclica de trabalho da maioria dos sistemas de produção agrícola.

inevitavelmente na agricultura familiar levando assim a seu desaparecimento como tem acontecido na indústria nas sociedades capitalistas avançadas. É útil notar que A questão agrária de Kautsky contém um conjunto de argumentos sofisticados sobre a lenta penetração do capitalismo na agricultura. Kautsky argumentou .

mas as causas que permitem a emergência de formas organizacionais da produção agrícola. Os trabalhos de Friedland representam também uma notável contribuição dentro da tradição de Kautsky e Lenin. uvas-passas e tomates. Ele argumentou que a questão central para compreender a evolução da agricultura nas sociedades industriais avançadas não era simplesmente o tipo dominante de posse das empresas agrícolas. mas que as relações capitalistas igual que na indústria. Nesse sentido. ele tomou uma postura similar a de De Janvry. 198717). Em períodos de contração industrial e desemprego. O argumento central era que enquanto mais a produção agrícola organizava-se sob formas capitalistas. baseado na agricultura da Califórnia. há poucas oportunidades alternativas. variam de acordo com o sistema de produção. além disso. Na indústria de algodão. vários programas estatais que tentam resolver os problemas da agricultura.12 que o capitalismo. os trabalhadores desempregados com pequenas propriedades poderiam temporariamente retornar à produção de subsistência até melhorar as condições na indústria. torna-se comum o trabalho por peça. enfatizando o predomínio das análises sobre a emergência das relações capital-trabalho na agricultura e a separação dos produtores independentes de seus meios de produção. Um primeiro passo dentro desta linha de pensamento foi a do teórico marxista Kautsky. Esta proposta foi mais desenvolvida por Mottura e Pugliesi (1980). apesar de sua lentidão resultaria na descomposição do campesinato alemão. Dentro desta concepção as empresas industriais deslocam-se para as áreas rurais onde os trabalhadores não são sindicalizados e os salários são mais baixos porque muitos trabalhadores potenciais têm suas pequenas propriedades produzindo ineficientemente e. a agricultura familiar aparece como tendo a . Friedland afirma que o ritmo e a amplitude da penetração do capitalismo na agricultura. A agricultura familiar resulta importante nas políticas dos Estados que buscam a descentralização do sistema industrial. numa análise histórica da pequena agricultura familiar de tempo-parcial no sul da Itália e das funções da agricultura familiar no desenvolvimento econômico contemporâneo. principalmente na Itália e nos Estados Unidos. que analisou o papel do estado no estímulo às pequenas propriedades como uma estratégia para mediar os conflitos de classes nas sociedades avançadas. Esta integração das esferas de produção agrícola e não-agrícola tem sido elaborada por Bonanno (1985. acerca da lenta penetração do capitalismo na agricultura. tem sido o argumento de que a diferenciação dos agricultores no capitalismo pode ser incompleta no futuro previsível quando a produção agrícola e não-agrícola venha a ser integrada dentro de um sistema particular que incorpore diferentes formas de organização da produção. Outro impulso na literatura de economia política neo-marxista. No seu livro. Ele analisou particularmente a produção de alface. está em constante crescimento. a agricultura em tempo parcial servia de reserva de trabalhadores das indústrias localizadas nas áreas rurais. Manufacturing Green Gold. tornando-se desta forma uma força de trabalho de reserva. podem ter a função de permitir a continuidade da agricultura familiar. Apesar disso. O trabalho está também aumentando sua informalidade. Neste contexto.

. F. “The persistence of small farms in marginal areas of advanced Western societies: the case of Italy.17 Bonanno. Boulder. 1987 apud Buttel. Universidade de Kentucky. CO: Westview Press. (1990). 1985 e “Small Farms. Departamento de Sociologia.” Tese de Doutorado. Alessandro. Et alii.

Mooney observa que há alguns “desvios” que podem ser tomados pelos agricultores para evitar a proletarização. agricultura em tempo-parcial e endividamento. Seguindo Wright (1985). esses . nos contratos agrícolas. Além disso. o trabalho não-pago dos agricultores familiares reduz o salário dos trabalhadores empregados na indústria e os preços dos produtos agrícolas requeridos pelos agricultores. muitos dos trabalhos mais provocativos na tradição marxista dentro da “nova sociologia da agricultura” representam uma tentativa explicita ou implicitamente de realizar uma síntese. através de vários mecanismos. o desejo por autonomia no seu trabalho) que pela racionalidade capitalista formal. O salário que os membros da família obtêm fora da sua propriedade. pelo outro. Mooney observa que muitos agricultores são motivados mais pelas formas de racionalidade substantiva (por exemplo. que as relações capital-trabalho. diametralmente opostas. seguindo essa linha de pensamento e principalmente a partir dos primeiros trabalhos de Andre Gunder Frank (1967)19. Por conseguinte. Esta super-exploração permite a transferência de valor da esfera domestica da produção para a esfera capitalista. Mooney argumentou que a exploração dos trabalhadores assalariados agrícolas é somente uma forma que a penetração capitalista na agricultura pode tomar. contribui a pagar os custos da produção agrícola. A explicação de Mooney de porque essas “localizações contraditórias de classes” têm um componente subjetivista e está baseada na distinção weberiana de racionalidade substantiva e formal.13 função de “keeper of surplus labor”. na agricultura. Mooney desenvolveu um modelo da estrutura de classes na agricultura incluindo as “localizações contraditórias de classes” que podem ser encontradas na agricultura familiar (unidade de capital e trabalho na agricultura familiar): o capitalista agrícola e o trabalhador assalariado agrícola. pelo capital financeiro). na agricultura de tempo-parcial. pela agroindústria. Por exemplo. contratos agrícolas. Wenger e Buck (1988)18. A principal contribuição de Mooney tem sido lançar dúvidas se a existência convencional das relações capital-trabalho é uma adequada referência para avaliar a existência da penetração capitalista na agricultura. num certo sentido. Friedland e outros na tradição de Lenin (e em menor medida de Kautsky). analisaram a exploração e a super-exploração (extraindo maior valor daquele permitido para a reprodução da força de trabalho) dos membros da agricultura familiar. direta ou indiretamente. pelos capitalistas não-agrícolas e no endividamento. Sendo esta idéia um aspecto central para a compreensão das sociedades desenvolvidas e em desenvolvimento. Então. uma fonte de trabalho de baixo custo e de segurança para os membros da família com pequenas propriedades. A esfera domestica torna-se uma reserva de trabalho que subsidia a esfera capitalista. pelos latifundiários. Mooney considera que esses “desvios” podem ser mais significativos. Uma vez que as perspectivas de Mann-Dickinson e Friedmann por um lado e de De Janvry. Particularmente. fornecendo ao mesmo tempo. Em cada um desses “desvios” não existe a relação capitaltrabalho na produção agrícola e onde os agricultores são explorados por uma fração de capital não-agrícola (no arrendamento. são. Esses “desvios” implicam arrendamento.

families. “Farms. 1967. Andre Gunder. and superexplotation: an integrative reappraisal. (1990) 19 `Frank.. Capitalism and Underdevelopment in Latin America.agricultores tendem a ser tenazes na participação dentro das empresas e freqüentemente tendem a tomar Wenger. Morton G. et alii. Pem Davison. apud Buttel. New York: Monthly Review. 18 . 1988. et alii (1990). apud Buttel. F.” Rural Sociology 53 (Winter). F. e Buck.

A produção teórica brasileira sobre o “mundo rural”: a influência do marxismo clássico A segunda guerra mundial (1939-1945) alterou profundamente as condições do comércio internacional e impactou de forma significativa nos países exportadores de alimentos e de matérias primas. Foi nesse contexto que se desenvolveu o debate no Brasil sobre a situação de atraso e as formas de superá-lo. abastecimento. queda da taxa de acumulação da indústria. Foi nesse contexto que emergiu um amplo debate de idéias sobre os problemas sociais e econômicos dos países do ‘terceiro mundo”. de permanecer na Mann e Dickinson (1987) replicaram vigorosamente aos argumentos de Mooney e também criticaram seu projeto de sintetizar a proposta marxista e weberiana dado que algumas dessas teses são incompatíveis. A politização do debate resultou das condições desfavoráveis que impediam a continuidade do processo de industrialização iniciado na década de 30. a industrialização brasileira não implicou oposições e divisões entre a burguesia comercial/aristocracia agrária e classes industriais. reorganização político-administrativa. empréstimos e cooperação técnica. queda do salário real. que possibilitou a implementação de uma política estatal de industrialização no governo Vargas. inflação dos preços. expansão do crédito. organização sindical. o alinhamento dos países da América Latina à política da “guerra fria” significou a subordinação à estratégia de reconstrução do capitalismo sob hegemonia dos estados Unidos. a menos de que se adotasse uma perspectiva marxista ou leninista mecânica. O êxodo rural e a existência de uma massa de desempregados nas cidades contribuíram para a aliança de classes de caráter populista. Por outro lado. da polarização de blocos (soviético e americano) e da descolonização. O processo de industrialização ficou num impasse: ou expandir o mercado interno ou reequipar o parque industrial através . No Brasil. 3. Essas condições desfavoráveis marcam um novo período que pode caracterizar-se da seguinte maneira: O fortalecimento do capitalismo americano e suas novas formas de intervenção: investimentos diretos na indústria. a escassez de divisas. ajuda militar. Com esse incipiente processo de industrialização também se iniciou o ciclo de intervenção do Estado em vários setores da economia: investimento na siderurgia. Esse debate deve ser compreendido no contexto político da “guerra fria”. A tendência a aumentar a concentração de renda. compras de empresas nacionais já instaladas. A diferença da Revolução industrial inglesa.14 um dos quatro “desvios” do desenvolvimento capitalista a fim agricultura. Por sua vez. obras de infraestrutura. a crise capitalista da década de 30 estimulou um crescimento industrial considerável para suprir o mercado interno de bens industriais. Mooney argumentou que sua proposta superava as incompatibilidades das teorias marxistas e weberianas. etc. deterioração dos termos de intercâmbio comercial e em conseqüência.

da introdução de capitais estrangeiros. A primeira opção implicava um amplo movimento de apoio político para impulsionar mudanças estruturais onde a .

a transformação da agricultura era indispensável para o desenvolvimento capitalista. Por sua vez. que para entender as “instituições feudais” no Brasil. posicionando-se ao qualificar alguns aspectos da estrutura agrária como feudais. De acordo com os ideólogos do desenvolvimento. nos textos de Clóvis Caldeira. Entretanto foi a polarização entre nacionalismo e entreguismo que colocou os termos do debate sobre o desenvolvimento capitalista nas décadas de 50 e 60. Na sua História Econômica. que as relações de produção por não serem capitalistas retardavam a expansão do consumo de produtos industriais. A produção teórica brasileira sobre o “mundo rural” A produção teórica dos anos 60 sobre o “mundo rural” esteve fortemente marcada pelo debate em torno da natureza das relações de produção no campo. que o atraso da agricultura era um obstáculo para o desenvolvimento capitalista. Em conseqüência. A estrutura agrária baseada no latifúndio-minifúndio explicava o atraso das forças produtivas e sua incapacidade de produzir alimentos a baixo custo para suprir o mercado interno e em segundo lugar. durante o segundo governo de Getúlio Vargas. De acordo com Palmeira (1983) nos trabalhos da Comissão Nacional de Política Agrária. tentaram mostrar a existência do feudalismo no Brasil a partir dos “fatos econômicos” e da legislação. a segunda opção demandaria uma rearticulação das classes e grupos sociais e econômicos vinculados aos interesses da “desnacionalização”. autores como Nestor Duarte. existia uma clara 20 . especificamente sobre o caráter do latifúndio. O debate desses anos enfocava duas questões centrais: em primeiro lugar. esse debate adquire um novo conteúdo. Roberto Simonsen salienta que está preocupado com os “fatos econômicos” e não com as intenções dos legisladores. Desde essa nova perspectiva. Nas décadas de 20 e 30 com a constituição de um campo intelectual independente e separado do Estado. Portanto. Dessa forma. Um debate que já existia entre os juristas brasileiros do século XIX. a modernização das forças produtivas e as relações de produção possibilitariam a expansão do capitalismo no Brasil. o principal obstáculo estaria localizado no reduzido mercado interno. Para os ideólogos do desenvolvimento o processo de transformação estrutural20 seria conduzido pela burguesia nacional em aliança com o proletariado urbano e onde a agricultura teria o papel de produzir alimentos e matérias primas e consumir bens industriais. a polarização internacional existente na “guerra fria” traduziou-se a nível interno na polarização entre nacionalismo e entreguismo ou entre comunismo e democracia. Acioli Borges e outros. Entre os anos 30 e 50 o debate entre os autores que tratavam sobre a agricultura referiam-se obrigatoriamente a esse debate. A reforma agrária seria a forma proposta para superar esse obstáculo e romper a aliança de poder dominante. Cabe mencionar que. Essa idéia era decorrente de uma visão feudalista da sociedade brasileira. o interesse de estudo desses historiadores limitava-se às instituições.15 agricultura teria que desempenhar um papel-chave. tiveram que conhecer o debate que existia entre historiadores espanhóis e portugueses acerca do feudalismo na Península Ibérica. capitalistas ou escravistas.

.Esse processo de transformações estruturais é conhecido na literatura como “Revolução Brasileira”.

portanto a reforma agrária não era necessária. . O camponês converte-se num protagonista político através da sua participação nos sindicatos rurais e nas ligas camponesas. a reforma agrária passava a ser uma condição necessária para superar a produção insuficiente de alimentos e baixar os preços dos produtos agrícolas. Segundo Palmeira (1983). a sociedade brasileira (e dos países com passado colonial) estaria dividida em dois setores: um “aberto e moderno”. O primeiro refere-se ao setor urbano e o segundo ao campo. no início da década de 60 o debate feudalismo x capitalismo ultrapassa o campo intelectual e torna-se uma questão política por duas razões principais. Para os defensores dessa interpretação a modificação da estrutura fundiária não era fundamental ao desenvolvimento do capitalismo no Brasil. A segunda: o surgimento de novos partidos e grupos de esquerda que questionaram o “monopólio” exercido pelo Partido Comunista. criando uma população rural inútil. desempregada e pobre. a monocultura e o atraso técnico. levando-lhe tecnologias e capital. Segundo essa concepção dualista. sobretudo reconhecendo que a mentalidade dos capitalistas brasileiros impedia a poupança e o investimento produtivos. Essa posição aproximava Furtado de outras correntes dualistas intituladas “marxistas” que defendiam a “revolução democráticoburguesa” para eliminar os “restos feudais” (relações de trabalho no campo). Tratava-se principalmente de aumentar a produtividade agrícola através da modernização tecnológica e a reorganização da produção em grandes empresas capitalistas. Entre seus aspectos negativos estavam: a fixação do homem no latifúndio. o latifúndio e os capitais estrangeiros. o outro “fechado e arcaico”. ou seja. Assim. a agricultura e indústria progressista de São Paulo (o setor moderno) teria que vencer a resistência do outro Brasil (o setor arcaico). A visão dualista A visão dualista da sociedade brasileira deriva-se das idéias de dois sociólogos franceses (professores de universidades brasileiras): Jaques Lambert e Roger Bastide. Cada grupo tinha sua versão da “revolução brasileira”.16 preocupação em caracterizar as relações entre proprietários e agregados ou determinadas formas de arrendamento. E também eram a favor da participação do capital estrangeiro. A primeira: a emergência de um movimento camponês e as lutas pela reforma agrária. A concepção dualista partia da premissa que a colonização gerou o latifúndio de caráter feudal (socialmente hierarquizado. a definição do estágio dessa “revolução”. constituindo unidades auto-suficientes separadas entre si) e resistente às mudanças. ao mesmo tempo em que ampliaria o consumo de bens industriais. através de ações impostas pelo setor moderno urbano e industrial. O “moderno” em oposição ao “arcaico” era resultado da importação da “civilização industrial”. E isto passava necessariamente pela caracterização das relações dominantes na agricultura brasileira. O “arcaico” explicava-se pelo passado colonial assim como por resíduos de formas atrasadas de produção. No caso do Brasil. Uma visão diferente tinha Furtado quando afirmava que a estruturas arcaicas só poderiam ser rompidas por indução.

1972 . criticaram a idéia “marxista” da coexistência de dois modos de produção: o feudal e o capitalista. Tanto mais que no próprio caso da cultura algodoeira. 1963) e difundida nas publicações soviéticas. nem muito menos 21 Prado Júnior. Caio Prado Júnior e André Gunder Frank foram os primeiros a criticar a visão feudal da sociedade brasileira. vinculadas à empresa colonial portuguesa e à expansão do capital mercantil.” (Prado Júnior. “Falar assim da parceria como forma institucional de relações de trabalho e de produção que sobrevive anacronicamente de um passado feudal. única instância de grande expressão em que a parceria se apresenta em proporções apreciáveis ela se acha ligada não a reminiscência ou anacronismo feudais ou outros quaisquer. Mas. na sua Formação do Brasil Contemporâneo.17 As teses marxistas “tradicionais” e o nacional-desenvolvimentismo Segundo as teses “marxistas” das décadas de 50 e 60 as estruturas econômicas e sociais do Brasil caracterizavam-se pela coexistência de dois modos de produção: o feudal e o capitalista. A revolução brasileira. ao negar o caráter nacional da industrialização do período Kubitscheik e caracterizar como capitalistas as relações de trabalho no campo. Da mesma forma. às classes médias urbanas e ao proletariado. Porém caberia aos camponeses participar da aliança popular na “revolução democráticoburguesa”. foi na Revolução Brasileira (1966) que criticou profundamente o modelo desenvolvimentista. é evidentemente falso. Caio Prado Júnior rejeita a idéia dos autores que viam na parceria (remuneração do trabalho e serviços prestados com participação no produto) a representação do caráter feudal da agricultura brasileira. No início da década de 40. Uma idéia que se aproximava da visão dualista mais conservadora. Caio Prado Júnior enfatizava as origens capitalistas do Brasil. Caio. O fortalecimento dessa “burguesia nacional” estaria sendo obstaculizada pela limitação do mercado interno (pobreza do campesinato). Os “feudais latifundiários”.Editora Brasiliense: São Paulo. 1972:30)21 Dessa forma rejeita a visão linear da evolução dos modos de produção preconizada por Alberto Passos Guimarães (Quatro Séculos de Latifúndio. De acordo com as teses “marxistas” o setor moderno estaria composto pela “burguesia nacional” em oposição às empresas estrangeiras instaladas no país (o imperialismo). Essa visão determinista nem leva em conta os processos históricos nem aceita modificações na sucessão dos modos de produção no tempo. os grupos comerciais em aliança com o imperialismo e ainda os camponeses representavam o obstáculo para o desenvolvimento capitalista. e sim a circunstâncias peculiares da cotonicultura e conveniências técnicas e financeiras que lhe dizem respeito.

como os países mais desenvolvidos. para sustentar suas posições. transformado-as e a seus protagonistas em elementos de um só e mesmo debate. na verdade abolir o feudalismo e seguir o mesmo caminho geral de desenvolvimento. de um certo modo. Nesse caso é o próprio capitalismo e não o feudalismo que tem que ser abolido” (Gunder Frank apud Palmeira. que. Então uma série de formulações que estavam dispersas naquele momento foram sistematizadas em um grande debate. “A questão política vivida como questão intelectual iria atribuir um sentido político às querelas intelectuais do passado. “Se a estrutura agrária brasileira sempre teve uma configuração capitalista por que revolucioná-la. por que reformá-la? A teoria do capitalismo colonial não é assim um achado histórico tão inocente quanto parece. que aproximava no tempo autores como Alberto Passos e Nestor Duarte. (Guimarães). No início dos anos 60. bem arrumada. enquanto que para os defensores da tese capitalista.18 poderia reconhecer a existência de outros sistemas de produção além dos definidos previamente. Gunder Frank responde da seguinte forma: “A conclusão política. Baran) rejeita a possibilidade de coexistirem numa mesma sociedade setores independentes uns de outros. defensores da tese feudal. o que se transplantou para o Brasil foi o “feudalismo colonial”.. ou mesmo indicações concretas que fundamentassem suas idéias.23 Os defensores da tese feudalista consideravam que. Como disse Palmeira (1983: 16) “A necessidade de demarcar posições é que irá mover o debate. ia buscar em autores do passado argumentos de autoridade. reacionária. (. É uma teoria conservadora. partidários da tese capitalista e assim por diante” (Palmeira. 22 Citado em “Revisão crítica da produção sociológica voltada para a agricultura” ASEP-CEBRAP (1983) . derivada logicamente desta análise é. cada um dos autores que defendia a tese feudal ou a tese capitalista. 1983) As argumentações dos dois autores refletem as divergências e as lutas políticas da esquerda brasileira. eles dificilmente podem ser eliminados pela extensão do capitalismo ainda mais longe. 1983: 16). De acordo com Palmeira (1983)22 o caráter político do debate fica evidente no confronto entre o texto de Alberto Passos Guimarães e André Gunder Frank.) Se o desenvolvimento atual e os males da agricultura são devidos ao capitalismo. apesar de que a burguesia comercial era um elemento hegemônico do Estado português.. e Roberto Simonsen e Gunder Frank. dandolhe uma densidade ideológica até então inexistente e fazendo-o. aparecer como um obstáculo à prática política e à própria prática científica”. Gunder Frank influenciado pelas análises teóricas do grupo “marxista”americano da Monthly Review (Sweezy. se encaixa perfeitamente nos esquemas políticos mais retrógrados”.

a menos que se indique o contrário.Todas as referências de Palmeira provêm do documento do ASEP-CEBRAP. 23 .

Maria Isaura Pereira de Queiroz. Cardoso. ou o escravismo colonial. conclui que a população rural estava constituída em quase dois terços por camponeses.19 mesmo que a colonização tenha sido uma empresa feudal. Por exemplo. enquanto os defensores da tese feudal afirmavam que no Brasil existia uma classe camponesa que tinha a posse efetiva dos meios de produção. Para Palmeira (1983) alguns autores manipulavam as estatísticas com o objetivo de defender suas posições. E quem se opunha aos empresários rurais seria uma massa de trabalhadores agrícolas (proletários). O debate sobre o caráter do latifúndio levou os sociólogos rurais a discutir à problemática das classes sociais. proletários. mas um jogo de relações políticas em que os autores estavam imersos. É por isso que. Mas. Por sua vez. O corpo das idéias organizadas em torno desse projeto político passou a ser conhecido como “ideologia nacional-desenvolvimentista”. Tanto os defensores da tese feudalista como os defensores da tese capitalista identificavam o camponês com o pequeno produtor. proprietários dos meios de produção. baseando-se em dados do Censo Demográfico e Agrícola de 1950. o latifúndio. para . os partidários da tese capitalista consideravam que não existia nada no Brasil que se assemelhasse a uma classe camponesa e que o que existia era uma classe de empresários rurais possuidores e na maior parte dos casos. o que se transplantou foi o capitalismo. para os defensores da tese capitalista. que se opunha a uma classe latifundiária numa luta pela propriedade da terra. nas suas teses de doutorado realizadas em Paris. propunham a existência de sistemas de produção específicos. Como conseqüência. Dentro desse projeto a estrutura brasileira era concebida como uma “fase de transformação” orientada para o desenvolvimento nacional. Esses empresários rurais formariam parte da burguesia. submetida ao mesmo tipo de exploração econômica que os trabalhadores urbanos. Essas propostas representavam uma mudança importante no debate sobre as estruturas sócio-econômicas do Brasil. mas não sua propriedade jurídica. a luta pela terra seria secundária. André Gunder Frank descobre dois terços de proletários e semiproletários. S. No início da década de 70. Como resultado do debate. Por sua vez. a estruturação do projeto político da “revolução democráticoburguesa” caberia a um grupo de intelectuais liderados por Hélio Jaguaribe e organizados no ISEB (Instituto Superior de Estudos Brasileiro) criado no Governo de Jucelino Kubitschek. utilizando os mesmos dados chegam à conclusão que uma metade da população rural eram camponeses e a outra. os pesquisadores abandonaram a visão dualista capitalismo/feudalismo e passaram a ter uma postura crítica em relação aos esquemas evolutivos dos modos de produção. que ao mesmo tempo diferenciavam do proletário. Palmeira afirma que essa manipulação de dados evidencia que o que estava em jogo não era uma questão de demonstração científica. Diegues Júnior e o CIDA (Comité Interamericano de Desenvolvimento Agrícola). além da dualidade capitalista/feudalista: a plantation. onde a questão chave era determinar a existência ou não de uma classe camponesa no Brasil. Sociólogos como Moacir Palmeira e historiadores como Ciro F. a pequena produção mercantil ou a economia camponesa vista desde a perspectiva de Chayanov.

com .Jaguaribe. a ideologia mais representativa desse período era o nacionalismo que permitiria articular os diversos setores sociais.

no dizer de Jaguaribe. assim como ao aumento do salário e do consumo. Evolução recente e situação atual da agricultura brasileira. estas tinham em comum o esforço pelo desenvolvimento. em fazendas cooperativas médias e grandes fazendas estatais. o qual. em propriedades familiares médias. Ana Célia et al. ausência de uma consciência nacional da burguesia brasileira que tendia a privilegiar sua essência burguesa antes que seus traços nacionais. O novo modelo nacional-trabalhista propunha uma drástica intervenção na agricultura para extinguir o seu caráter semifeudal e. surgiram diversas tentativas críticas da análise dualista que buscavam outra interpretação das transformações que de fato estavam acontecendo na sociedade e em especial na agricultura. Compreendia Jaguaribe como nacional-capitalismo o conjunto de políticas adotadas por Vargas. “Tal ideologia implicava na adoção de determinado modelo para a então ‘atual fase da vida nacional’. A necessidade de reajustar o modelo nacional-capitalista dava passo a um novo modelo o nacional-trabalhismo. numa visão ecumênica das classes sociais. Além de que a agricultura era incapaz de incorporar inovações tecnológicas em proporções significativas o que limitava a constituição de um mercado interno para os produtos industriais. sob um objetivo comum: a expansão das forças produtivas. Quadros e (até meados de 1963) Goulart. A prática política dos anos seguintes mostrou a fragilidade dos postulados teóricos do nacional-desenvolvimentismo.” (Castro. Kubitschek. Em conseqüência. autônomo e endógeno. as forças sociais semifeudais remanescentes. Mas para isto era necessário o concurso de todos os setores “progressistas” em torno do “desenvolvimentismo” encarnado inicialmente no Plano de Metas do Governo Kubitschek. 24 . portanto.20 exceção dos latifundiários comprometidos com o statu quo. 1979: 38). Binagri Edições. A implementação do novo modelo possibilitaria a aliança entre a burguesia nacional e o proletariado porque o desenvolvimento capitalista levaria à criação de mais emprego. dentro do sistema de iniciativa privada e tendo no Estado a instância de planejamento coordenação e suplementação. Essas críticas referem-se à visão da agricultura brasileira como “ineficiente” e incapaz de reagir aos estímulos da dinâmica da demanda da indústria nacional (por matérias primas e alimentos) e por produtos exportáveis. Brasília. era o nacional-capitalismo. Castro. 1979. sob a direção dos ‘empreendedores nacionais’. o único capaz de promover o desenvolvimento. As propriedades tradicionais seriam transformadas em modernas fazendas capitalistas. Deveriam reduzir-se rapidamente as desigualdades sociais e o desequilíbrio entre o campo e a cidade.24 O modelo nacional-capitalista entra em crise no final de 1963 devido ao reconhecimento da heterogeneidade da sociedade brasileira o que significava por um lado desigualdades regionais e por outro.

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Nessa visão a agricultura tem um lugar central no desenvolvimento econômico. Para Delfim Neto apud Castro (1979:50) “. Affonso Celso Pastore. aumentando a taxa de remuneração dos capitais investidos. Pereira de Carvalho e Ruy Miller Paiva) aos modelos aceitos na década de 50 e 60. sem gerar uma crise de abastecimento ou de fornecimento de matérias-primas. a chave do processo de desenvolvimento econômico reside. Yufiro Hayami e Vernon Ruttan. por exemplo. e) produzir gêneros exportáveis para possibilitar a capacidade de importação. baseou-se na proposta teórica-metodológica de T.21 As análises da nova fase distinguem-se das interpretações anteriores. por sua aparente “despolitização” e por estarem construídas a partir de levantamento de dados nas pesquisas de campo para sustentar os postulados teóricos. Schultz. A pesquisa em nível universitário. na crítica conservadora a tese que afirma que a agricultura é um obstáculo para o desenvolvimento. o que elimina algumas questões como. é refutada empiricamente. dependeria do tipo de insumos utilizados e disponíveis (intensidade do fator capital no Centro-Sul e intensidade do fator Trabalho no Nordeste) e não de fatores estruturais.W. estava na forma de encarar o objeto de estudo. A análise centrase na posição de equilíbrio e as políticas propostas têm como objetivo a maximização dos recursos disponíveis. No entanto. Por exemplo. a diferença entre o Nordeste “tradicional” e o Centro-Sul “moderno”. a um só tempo. Nesta perspectiva neoclássica a empresa agrícola é considerada uma empresa capitalista comum. reduzindo a influência de posturas ideológicas e sem fundamentação empírica. libera mãode-obra e eleva o nível de rendimento dos que ficaram no campo. o que.. Por outro lado. d) abrir mercado consumidor para produtos industriais. a industrialização baseada na exportação de produtos agrícolas levou a uma especialização em torno de produtos como café. b) liberar mão-deobra para a indústria. A visão modernizante Por sua vez a crítica conservadora (Delfim Netto. numa melhoria da produtividade do setor agrícola. buscando responder afirmativamente à questão de se a agricultura poderia cumprir as cinco “funções” definidas por Johnston e Mellor: a) produzir alimentos a baixo preço para as cidades. Enquanto na visão dualista o “obstáculo” ao desenvolvimento poderia ser eliminado através da reforma agrária e reformas estruturais. a situação do pequeno produtor e as particularidades da pequena produção. a diversidade das relações de produção. através de uma transferência de mão-de-obra do setor agrícola para os outros setores. Segundo Delfim Neto essa política a favor da agricultura de exportação manteve no mercado produtores . manifestava a preocupação por buscar a compreensão da realidade efetiva.. a diferença fundamental entre essa e outras concepções em relação às funções que deveria cumprir a agricultura. cacau e açúcar.” De acordo com esta concepção a agricultura financiaria o desenvolvimento industrial. c) fornecer recursos para a formação de capital. fundamentalmente.

Francisco de Oliveira e Maria de Conceição de d’Íncao. Para ele. porque a decisão de um grande número de produtores afetaria os preços dos fatores de produção e essas modificações no preços reduziriam as vantagens da nova tecnologia. imprime suas próprias características no desenvolvimento urbanoindustrial. Maria de Conceição d’Incao) as relações sociais no campo são predominantemente capitalistas e portanto se faria desnecessário a reforma agrária. Tese de Doutorado. Outros autores como. Alguns pontos devem ser salientados dessa crítica radical: a) O Brasil foi construído historicamente a partir da expansão do capitalismo europeu e seu desenvolvimento capitalista pode ser caracterizado como “dependente” ou “periférico”. os autores divergem quando se trata das relações sociais no campo. Antônio Barros de Castro afirmavam que a agricultura desempenhou seu papel requerido pela industrialização. Para alguns (Francisco de Oliveira. Ruy Miller Paiva centrava sua análise nos preços para explicar a mudança tecnológica na agricultura. a estrutura social e o processo histórico. Por sua vez. No seu estudo sobre o café. O problema do café no Brasil. considera que a agricultura longe de cumprir um papel passivo. b) O desenvolvimento do capitalismo necessitava recriar formas não capitalistas de produção para seu próprio funcionamento e portanto não se constituem em “obstáculo” de seu próprio desenvolvimento. a disseminação de novas tecnologias tinha um significado macroeconômico. diferentes relações de produção nas formações econômico-sociais e “subsunção formal do trabalho ao capital”. A. A diferença de outros autores “modernizantes” . E segundo. 1979. Rio de Janeiro: Editora da Fundação Getúlio Vargas. Em consequência. Para outros (Maria Isaura Delfin Neto. os trabalhadores assalariados em lugar de lutar pela terra deveriam organizarse nos sindicatos e lutar pelas suas reivindicações de classe. Porém. 25 . Esses autores na busca de elaborar uma análise mais flexível introduziram noções como: articulação de diferentes modos de produção. Primeiro.22 ineficientes. desconsiderando outras variáveis econômicas importantes como informação. a questão da mudança tecnológica implicava dois aspectos. disponibilidade de capital. Octávio Guilherme Velho. Miller Paiva situa-se numa das correntes mais importantes conhecidas como “modernizadoras” da agricultura. Delfim Neto25 considerava que o livre mercado liberaria fatores de produção para serem utilizados em outras atividades mais lucrativas (criação de gado e de aves). Maria Rita Loureiro. Nas suas análises incorpora variáveis não econômicas como a demografia. USP. A crítica radical A crítica radical (uma visão modificada da tese capitalista) às posições dualistas baseia-se na capacidade que tem o desenvolvimento capitalista de refuncionalizar as formas existentes e de criar outras relações não-capitalistas de produção. Essa crítica é sustentada por autores como José de Souza Martins. a adoção de uma nova tecnologia depende da avaliação que faça o agricultor do custo-benéficio.

os hábitos de produção e de consumo. que vigoraram desde o fim da Segunda Guerra Mundial até inícios dos anos 70. de novas contribuições teóricas e metodológicas. como resultado da racionalização fordista. 4. W. as noções do que é rural e do que é urbano. o perfil dos trabalhadores. na gerência da produção e no consumo de massa. exigia a exportação dos excedentes. A crise do regime fordista está associada à perda da hegemonia política e financeira dos Estados Unidos. Porém. desde finais do século passado. o que Ford fez foi racionalizar velhas tecnologias e uma divisão do trabalho que já existia. que alguns autores denominam de “acumulação flexível” (Harvey. ainda que lentamente. que descrevia como uma melhor organização do trabalho (que implicava uma racionalização do tempo e de cada movimento do trabalhador) poderia aumentar a produtividade. O objetivo da jornada de oito horas e os cinco dólares não era só aumentar a produtividade mas permitir que os trabalhadores tivessem as condições de tornar-se consumidores em massa. Henry Ford com o objetivo de aumentar a produtividade. hábitos de consumo e configurações de poder político e econômico. Essas contribuições se expressam na incorporação de novos temas como a questão do meio ambiente. Octávio Guilherme Velho). em 1911 tinha sido publicados Os Princípios de Administração Científica de F. A produção teórica brasileira sobre o “mundo rural” Apesar de que a nível geral existe uma espécie de estancamento e até refluxo da produção teórica sobre o “mundo rural”. Antes. No entanto. Taylor. Nos Estados Unidos . Com o fordismo emergia uma nova sociedade baseada no controle racional do trabalho. a existência de um campesinato brasileiro estaria evidenciado não só pela posse jurídica da terra. caracterizada por um processo de transição. milhares de trabalhadores estavam sendo deslocados da manufatura. sociais e culturais que estão acontecendo em escala mundial e que estão mudando o caráter dos empregos e a organização das economias. O regime fordista pode ser definido como um conjunto de práticas de controle do trabalho. já em 1914. As transformações do capitalismo mundial neste fim de século estão mudando radicalmente os processos de produção. Mesmo assim. o desenvolvimento sustentável (José Elí da Veiga) e a emergência de um “novo mundo rural” (Graziano da Silva). tecnologias. José de Sousa Martins.23 Pereira de Queirós. introduzia a jornada de 8 horas e 5 dólares de recompensa para os trabalhadores de sua fábrica de automóveis em Michigan. culturais e sociais. Na segunda metade da década de 60. 1992)26. observa-se uma absorção. do regime de acumulação fordista para outro. Autores como Graziano da Silva (1996) percebem a emergência de um novo rural brasileiro produto da urbanização do meio rural brasileiro e da industrialização da agricultura e que formam parte de profundas transformações econômicas. Estamos vivendo numa era de incerteza. a saturação dos mercados internos da Europa e do Japão. o significado do espaço e do tempo e as práticas do Estado. mas pelas práticas e representações ideológicas.

a partir de 26 Harvey.Edições Loyola: São Paulo. 1992 . Condição Pós-moderna. David. Porém.esse declínio da demanda efetiva foi compensado pela produção de armas para a guerra de Vietnã e pelo combate à pobreza.

Em 1983. (Harvey. quando as empresas obrigam os trabalhadores regulares a trabalhar mais nas épocas pico de demanda. a queda da produtividade e da lucratividade das empresas. a redução do emprego e destruição do poder sindical. As economias de escalas foram substituídas pela produção de pequenas quantidades de bens a preços baixos. Nesse mesmo período. Como contraponto. A subcontratação organizada possibilita o surgimento de pequenos negócios. Porém. nos Estados Unidos. ser flexível e geograficamente móvel. Esse novo regime de acumulação cria as condições para o crescimento do emprego no chamado “setor serviço” e uma alta mobilidade geográfica ou uma compressão do espaço tempo. enquanto a intensidade de trabalho se reduz com a queda da demanda. a longo prazo. cerca de um terço dos novos empregos criados estavam na categoria de “temporários”. Apesar de que a flexibilização do mercado de trabalho não tem criado uma forte insatisfação trabalhista porque às vezes pode ser mutuamente benéfica. O regime de “acumulação flexível” rompe com a “rigidez” do fordismo e caracteriza-se pela emergência de mercados de trabalho e processos de produção mais flexíveis.24 1966. a falta de segurança do emprego e dos direitos de pensão afetará negativamente aos trabalhadores. com o crescimento de outros setores da economia. Os “trabalhadores flexíveis” são contratados facilmente e são demitidos sem custos quando a empresa está em crise. O excedente de força de trabalho e a redução do poder dos sindicatos têm permitido aos patrões impor contratos de trabalho mais flexíveis. a revista Fortune publicou que setenta e cinco por cento das peças de máquina eram produzidas em lotes de cinquenta ou menos. Essas possibilidades de comunicação e a redução do espaço têm aumentado a capacidade dos empregadores para o controle da força de trabalho e em conseqüência. marca o início dos graves problemas fiscais dos Estados Unidos que seria resolvido a custas da aceleração da inflação. os “trabalhadores “flexíveis” aumentaram 16% enquanto os empregos permanentes caíram em 6%. Também se observa o crescimento de economias “informais” nos países capitalistas avançados e a reformulação do papel das mulheres no mercado de trabalho. entre 1984 e 1985. por exemplo. As novas formas de organização da produção colocaram em xeque a organização tradicional. provocando o fechamento de numerosas fábricas e estimulando um processo de desindustrialização. 1992: 148) A subcontratação e a . novas formas de financiamento e inovações tecnológicas. Na Inglaterra. assim como por rápidas mudanças das práticas de consumo e do surgimento de novos setores de produção. cresce o número dos trabalhadores temporários e subcontratados sem nenhuma garantia de emprego. O mercado de trabalho no regime de acumulação “flexível” caracteriza-se pela redução dos trabalhadores em tempo integral e pelo grau de adaptação às novas condições. como o setor serviços. Porém. ou seja. (Harvey. A flexibilização do mercado de trabalho se dá. 1992: 144) Mudanças importantes aconteceram também na organização industrial. comerciais e organizacionais. produto da redução dos custos de transporte e da comunicação via satélite. a mudança mais importante têm sido a queda do emprego regular e o crescimento do trabalho em tempo-parcial. temporário ou subcontratado.

produção de pequenos lotes permitiram superar a rigidez do sistema fordista e atender a um mercado mais diversificado e dinâmico. A flexibilização .

dos preços das matérias primas. Nesse contexto. O “mundo rural” nos países desenvolvidos tem um novo ator social: o agricultor em tempo parcial (part-time farmer) e que se caracteriza por combinar atividades agropecuárias com outras atividades não-agrícolas seja dentro da propriedade ou fora dela. os funcionalistas americanos continuaram a identificar o campo com o atraso para justificar as ações de fora. e se integrou ao resto da economia. ou seja caiu a média da vida útil dos bens produzidos. robôs) e novas formas organizacionais reduziram o tempo de giro na produção. são essenciais para a tomada de decisões. a prestação de serviços. a informação e a ciência tornaram-se uma mercadoria. mas um trabalhador autônomo que combina diversas formas de ocupação (assalariadas ou não). moradia. a diferença entre o urbano e o rural é cada vez menos importante. também foi reduzido o tempo de giro no consumo. e às mudanças nos gostos dos consumidores. No “mundo rural” estão emergindo novas formas sociais e de organização econômica na medida em que a sociedade transita para um novo regime de acumulação. Por sua vez. Para sobreviver. Essa é a sua característica nova: uma . “Em resumo. saúde. conservação do meio ambiente são novas atividades em crescimento no campo. o turismo. A modernização da agricultura era entendida como a introdução de sementes geneticamente melhoradas. O rápido acesso às informações assim como ao conhecimento científico pode significar altas margens de lucro. As novas tecnologias ( automação. seguros. tanto em atividades urbano-industrial ou nas atividades emergentes de lazer. O lazer. 1996). turismo. conservação da natureza. A idéia de que as cidades representam o “novo” e o “progresso” e que o campo o “atraso” e o “velho” baseia-se na concepção de autores clássicos como Marx e Weber que identificavam as cidades com o capitalismo e o campo com o feudalismo. o controle da informação assim como a rapidez na análise de dados. moradia e prestação de serviços pessoais. com seu próprio mercado de trabalho. Em consequência.25 também provocou a aceleração das inovações e as conquistas de novos mercados. Com as transformações na produção e no consumo também emergiu uma nova estrutura de emprego que privilegia o emprego no setor de serviços (educação. máquinas e equipamentos que permitissem a superação da pobreza dos agricultores (Graziano da Silva. No processo de flexibilização e de mobilidade geográfica. duas realidades em confronto. adubos químicos. elemento central para a lucratividade das empresas. como a assistência técnica e a extensão rural. as empresas devem ter a capacidade de responder às variações da taxa de câmbio. A idéia que identifica o “rural” exclusivamente com a agricultura não corresponde com a realidade. Agora a agricultura não pode ser entendida sem sua vinculação com os setores que lhes fornecem os insumos industriais e lhes compram seus produtos. De que forma essas transformações estão afetando o “mundo rural”? Para alguns autores como Graziano da Silva (1996)27. o parttime não é mais um fazendeiro especializado. imóveis e finanças) em detrimento do emprego industrial. As cidades não podem continuar a ser sinônimos de produção industrial nem o campo de produção agrícola e pecuária. A agricultura deixou de ser um setor relativamente autárquico.

” (Graziano da Silva. 1996 (mimeo) . O novo rural.pluriatividade que combina atividades agrícolas e não-agrícolas. 1996:4). 27 Graziano da silva. José.

têxtil. Ainda Graziano da Silva (1996:6-7) enfatiza outros fenômenos relacionados com a pluriatividade nos países desenvolvidos: “a) O ‘desmonte’ das unidades produtivas em função da possibilidade de externalização de várias atividades que antes tinham que ser realizadas na própria fazenda através de contratação de serviços externos (aluguel de máquinas. Muitas indústrias deslocam-se para o campo buscando uma maior proximidade de matérias-primas e de mão-de-obra barata e desindicalizada. assim como pela redução de áreas cultivadas e/ou a extensificação das atividades agropecuárias. etc. bebidas. assistência técnica. através de um mercado de trabalho relativamente indiferenciado. forma característica de transição da manufatura à indústria mecanizada.). muitas empresas têm migrado para o campo na busca de uma melhor qualidade de vida para seus funcionários e também por que no campo existe menor controle da poluição. Ironicamente. Igualmente. etc. A pluriatividade manifesta-se de duas formas. de animais jovens. os clássicos (Marx. Kautsky) consideravam que esse processo de proletarização implicava o desaparecimento do campesinato. que combina desde a prestação de serviços manuais até o emprego temporário nas indústrias tradicionais (agroindústrias. Em consequência. constituem a nova fisonomia da indústria do final do século XX. segundo. A combinação de atividades agrícolas com não-agrícolas faz parte de um processo de “desespecialização” da divisão social do trabalho e que se origina nas mudanças recentes no processo de trabalho tanto na indústria fordista como na agricultura moderna. como por exemplo. 1996). O novo “mundo rural” caracteriza-se pelo crescimento das atividades rurais nãoagrícolas e pela transferência de atividades urbanas e industrias para o campo. com o objetivo de diminuir os custos.) e. através da combinação de atividades tipicamente urbanas com a gerência especificamente agropecuária (Graziano da Silva. Primeiro. algumas características próprias do mundo rural como as formas flexíveis de contratação e o emprego sazonal e temporário. b) especialização produtiva crescente permitindo o aparecimento de novos produtos e de mercados secundários.26 É precisamente essa combinação de atividades não-agrícolas fora de seu estabelecimento que diferencia o part-time da visão marxista clássica da proletarização do campesinato. O surgimento do part-time nos países capitalistas desenvolvidos é resultado da redução do tempo de trabalho necessário dos agricultores devido ao aumento da mecanização das atividades agrícolas e da automação das atividades de criação. vidro. individualizou-se a gestão produtiva das propriedades agrícolas e com isso os membros da família foram liberados para realizar outras atividades nãoagrícolas fora da propriedade. Além disso. e o trabalho a domicílio. . mudas e insumo.

como motoristas. Muitas vezes os proprietários dessas pequenas áreas combinan o lazer com o desenvolvimento de alguma atividade produtiva (criação de abelha.” Apesar das diferenças. constituída de bens e serviços não materiais. produção de flores e plantas ornamentais. o “mundo rural” ganhou novas funções e novos tipos de ocupações (Graziano da Silva. atividades de recreação e turismo). especialmente de profissões técnicas e administrativas de conteúdo tipicamente urbano. nos países subdesenvolvidos também pode-se observar a emergência da pluriatividade e do “part-farmer”. além de maiores facilidades de transporte e meios de comunicação. saneamento básico. agroindústrias e empresas de distribuição comercial. a desarticulação do sistema agrícola colonial dá lugar à emergência da ‘part-time farming’ e da ‘pluriactivite’ da força de trabalho dos colonos. digitadores e profissionais liberais vinculados a atividades rurais nãoagrícolas. lazer e outros serviços) e com a preservação do meio ambiente. aves. peixes e outros animais.27 c) formação de redes vinculando fornecedores de insumos. principalmente aquelas relacionadas com a proliferação das agroindústrias e as relacionadas com a urbanização do meio rural (moradia. 1996). prestadores de serviços.” (Schneider. turismo. no Brasil e na América Latina nas últimas décadas. mecânicos. e) melhoria na infraestrutura social e de lazer. agricultores. . ou seja. além de uma melhora substancial na qualidade de vida para os que moram nas zonas rurais. emboram permaneçam residindo e vivendo no espaço rural-agrário.. Considerações finais Conclui-se que o “mundo rural” não pode continuar a ser considerado apenas como o espaço onde se realiza a produção agropecuária e fornecedor de mão-de-obra. assistência médica e educação. que se assalariam nas fábricas de calçados. d) crescimento do emprego qualificado no meio rural. As transformações da agricultura. assim como também cabe salientar a multiplicação de sítios de recreio (pequenas áreas de lazer de famílias de classe média urbana). possibilitando maiores facilidades de acesso aos bens públicos como previdência. exigem um marco conceitual distinto que possibilite entender essas mudanças. Em algumas regiões do Rio Grande do Sul.. Os conceitos de “urbano” e “rural” resultam obsoletos e não há elementos teóricos que nos expliquem as complexas relações entre eles. “. frutas e hortaliças. têm crescido as atividades não agrícolas. 1996: 310) No campo brasileiro. O meio rural está criando um outro tipo de riqueza.

às políticas de intervenção do Estado para a modernização da agricultura (novas áreas de colonização. chamam a atenção sobre a necessidade de “revisitar o campo” e de construir um outro “olhar sociológico” (Tavares dos Santos.parece sobre determinar a visão analítica”. (Gómez. O “rural” representa um conjunto de objetos empíricos. A definição de um novo campo de estudos da . na medida em que perde sua importância relativa. A “tarefa” de revisitar o campo se traduz na definição de fenômenos antes não considerados na análise. o campo deve continuar (ou não) a ser objeto de estudo da Teoria Sociológica. uma “extrema ideologização”. 1993.. Como nos desafia Cavalcanti (1993:62). resultado da crescente exclusão social e onde a perspectiva política “. 1993) que explore novas perspectivas teórico-metodológicas e defina novos temas de pesquisa.28 A utilização de critérios espaciais e ocupacionais é insuficiente para explicar as especificidades da sociedade rural. 1994). A partir de uma perspectiva teórica. como por exemplo. torna-se mais dependente da sociedade global. (D’incao et al. Tavares dos Santos (1991: 15). “trata-se de reconhecer que tais processos sociais agrários constituem expressões do processo histórico da divisão social do trabalho. apesar das semelhanças que esta tem com outros setores.. nas últimas décadas os estudos sobre o “campo” representam parte substancial da produção sociológica brasileira. deriva-se daí a necessidade de estudar. Ainda. 1993). (Tavares dos Santos 1991: 15). assentamentos. mas não necessariamente objetos científicos. um novo enfoque sobre a agricultura”. o valor das agroindústrias supera o valor da terra. Na mesma linha de Gómez (1994). Grossi Porto. em uma formação social determinada”. 1991). como descobrir facetas diferentes de fenômenos já estudados. 1991). No entanto. Para formar esses objetos científicos é necessário fazer uso de conceitos e teorias disponíveis no conhecimento sociológico. foram estudados fenômenos relativos à estrutura da posse da terra. De acordo com Tavares dos Santos (1991). dos clássicos aos contemporâneos. enfatiza que a produção teórica brasileira sobre o “rural” tem sofrido. A produção teórica sobre o “mundo rural” produzida nos últimos quarenta anos merece ser objeto de avaliação profunda e de reflexão crítica que permita encontrar seus obstáculos epistemológicos frente às transformações da sociedade contemporânea. os resultados desses estudos parecem requerer novos questionamentos e instrumentos teóricos-metodológicos que possibilitem “. além do que. determinarem novas questões a serem analisadas e esboçar tendências e definir as características. de acordo com as quais. mais especialmente. inovações tecnológicas na agricultura e estímulos para exportação) e seus impactos na organização da produção e nas relações de trabalho. a distinção entre cidade e campo”. até a atualidade. Entendendo o espaço agrário “como um locus de relações sociais de produção específicas. alguns sociólogos brasileiros (Cavalcanti.. que dificultam a construção de uma nova abordagem teórica sobre os processos agrários.. desde uma perspectiva sociológica.a explicação dos múltiplos entrelaçamentos existentes entre esses diferentes fenômenos e a sociedade em termos amplos. pois sua estrutura interna baseia-se na propriedade e no uso da terra como fator produtivo e simbólico. Nesse período. os fenômenos que ocorrem no espaço agrário (Tavares dos Santos.

.sociologia sobre a agricultura implica algumas limitações e impasses científicos. Como afirma Solari (1972). o desenvolvimento da sociologia está vinculado à mudança social e a uma situação de crise.

produto de obstáculos epistemológicos como. Avaliar essa produção. por exemplo. completado esse processo. dado o processo de urbanização da sociedade brasileira. a sociologia rural mostra-se como expressão da dominação do campo pela cidade e. em alguns países de capitalismo avançado como Estados Unidos. 1993: 57). a propor novas questões de estudos. uma nova tendência intelectual denominada “nova sociologia rural”. Esses problemas têm uma relação direta com a chamada crise dos paradigmas. para facilitar comparações com outros países (Cavalcanti. A partir da leitura dos estudos agrários recentes. “economia política da agricultura” ou “sociologia dos processos agrários”. ao menos em seu conteúdo tradicional. Apesar de algumas revisões na produção teórica sobre os processos sociais agrários. (que em certa medida é produto da crise do marxismo estruturalista e da análise funcionalista da “sociologia rural”). 1991). Inglaterra. a partir das quais. foram emitidos pareceres contra ou a favor da continuidade dessas análises. pode-se propor alguns elementos que possibilitem a superação a denominada “crise dos paradigmas” e construir um outro olhar sobre o campo. no que se referem aos processos sociais que aí se desenvolvem. quando a agricultura nesse país atravessa uma crise profunda. Canadá. Kautsky e Chayanov. Esse movimento crítico é denominado “nova sociologia rural” ou “sociologia da agricultura”. Como afirma (Grossi. provoca efeitos negativos na expansão da análise sociológica do campo brasileiro. 1993). sua vinculação às tradições teóricometodológicas funcionalistas. O debate destas perspectivas teórico-metodológicas poderiam contribuir na definição de novos problemas ou questões. Tavares dos Santos (1993). França. é uma condição necessária para novas abordagens. na década de 80 foram feitas algumas avaliações sobre a produção sociológica que teve o campo como objeto e. obstáculos e tendências da agricultura brasileira. é dentro dessa preocupação epistemológica que tem emergido. desde meados da década de 70. seja pelo pouco rigor científico no tratamento dos mesmos. além de ser uma obrigação de ofício. das ocupações agrícolas em sentido amplo. a sociologia rural teria que desaparecer. questiona em que medida a denominada “crise dos paradigmas”. porque pouco se afasta dos antigos conceitos dos estudos da comunidade e pela sua incapacidade de criticar o sistema no qual se insere (Friedland apud Cavalcanti. seja pela significância e abrangência dos temas selecionados. baseado em tendências neomarxistas e neo-weberianas que resgatam as constribuições de Marx. busca-se um . As críticas têm levado teóricos americanos. Esta situação agrava-se pelo fato de que na sociologia rural há uma certa inércia explicativa. (Tavares dos Santos.29 Dessa forma. Espanha e Alemanha. Como foi mencionado anteriormente. os estudos realizados até agora requerem uma análise crítica sobre as possibilidades. “sociologia da agricultura”.28 Nos Estados Unidos essa corrente intelectual surge em meados da década de 70. Lenin. . A Sociologia Rural nos Estados Unidos está sendo questionada pela sua fragilidade. para converter-se num ramo das sociologias das ocupações. Segundo Cavalcanti (1993). predominantes na Sociologia Rural Americana dos anos 60 ou pela tendência a se utilizar esquemas classificatórios rígidos para enquadrar grupos e classes sociais. 1993). Nesse caminho.

retorno que possibilite ir ao encontro do novo. Trata-se de “. percorrer os mesmos 28 Os teóricos que formam parte da “sociologia da agricultura” publicam a revista International Journal of Sociology and Food ...

assumindo uma postura dualista: o “tradicional” e o “moderno” ou “rural” e o “urbano”. Finalmente se pode afirmar que a influência e predominância do “marxismo clássico” na sociologia rural brasileira têm impedido um desenvolvimento mais amplo das análises acerca da nova dinâmica do “mundo rural”. E ao não existente em visitas anteriores. (Grossi. as mesmas trilhas e veredas. Um terceiro obstáculo refere-se às análises sobre as classes sociais e os grupos sociais. as práticas sociais dos grupos dominados são entendidas dentro do processo de modernização. para enfocá-las sob novas dimensões. Visões que alcancem. com novos olhos.. é a sua vinculação com a orientação funcionalista. mesmo com lentidão. quanto questões emergentes que carecem de reflexões sociológicas pertinentes. Nelas. O segundo. buscou-se a análise das classes a partir da sua posição no processo produtivo. a emergência de uma nova forma de pensar o “mundo rural” no Brasil seguindo a vertente internacional que incorpora de forma criativa as contribuições teóricas de Weber e Marx.30 caminhos. visão esta que está presente especialmente nos estudos sobre a difusão de inovações. para retornar. Essa visão é criticada por Marx quando reconhece uma nãolinearidade do processo histórico.” A avaliação da produção teórica sobre o “mundo rural” possibilitará o delineamento de perspectivas de análise que abordem tanto temáticas já tratadas. O primeiro. no âmbito da construção teórica. ao dissimulado. Tavares dos Santos (1991) identifica alguns obstáculos epistemológicos da Sociologia “Rural” brasileira. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS . quase sempre. Dentro desta visão. Contudo é possível observar que há. Com o olhar atento ao invisível. horizontes mais abrangentes. ao enterrado. 1993). é a vinculação da Sociologia “Rural” a uma perspectiva evolucionista do pensamento histórico.

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discussões em grupo e métodos etnográficos — permitem um melhor entendimento dos processos sociais de acordo com o objetivo explicativo. procurando explicá-los no seu significado e importância singulares. das suas múltiplas relações sociais e. inclusive crime e divórcio. A Sociologia surgiu como uma disciplina no século XVIII. A Sociologia ocupa-se. a objetivos explicativos distintos ou dependem da natureza do objeto explicado por certa pesquisa sociológica: o uso das técnicas quantitativas é associado às pesquisas macro-sociológicas. Sociólogos fazem uso frequente de técnicas quantitativas de pesquisa social (como a estatística) para descrever padrões generalizados nas relações sociais. Por essa razão. Sociólogos não só esperavam entender o que unia os grupos sociais. consequentemente. a experiência de pessoas do mundo é crescentemente atomizada e dispersada. Em alguns campos de estudo da Sociologia. as técnicas qualitativas — como entrevistas dirigidas. as qualitativas. ao mesmo tempo. às pesquisas micro-sociológicas. de si mesmas como seres inevitavelmente sociais. classe e gênero. além de instituições como a família. o surgimento do capitalismo ou a gênese do Estado Moderno). na forma de resposta acadêmica para um desafio de modernidade: se o mundo está ficando mais integrado. ou desarranjos. o conhecimento sociológico. das observações do que é repetitivo nas relações sociais para daí formular generalizações teóricas. Os cursos de técnicas quantitativas/qualitativas servem. é tarefa da Sociologia transformar as malhas da rede com a qual a ela capta a realidade social cada vez mais estreitas. processos sociais que representam divergência. teorias e métodos. como raça ou etnicidade. História |[pic] |[pic] |[pic] |[pic] | . através dos seus conceitos. E pesquisam os microprocessos como relações interpessoais. uma vez que os estudos micro-sociológicos podem estar associados ou ajudarem no melhor entendimento de problemas macrosociológicos. mas também desenvolver um "antídoto" para a desintegração social. nestas estruturas. Hoje os sociólogos pesquisam macroestruturas inerentes à organização da sociedade. e também se interessa por eventos únicos sujeitos à inferência sociológica (como. pode constituir para as pessoas um excelente instrumento de compreensão das situações com que se defrontam na vida cotidiana. normalmente. por exemplo. Entretanto. o uso de ambas as técnicas de coleta de dados pode ser complementar.Assim como toda ciência. Isto ajuda a desenvolver modelos que possam entender mudanças sociais e como os indivíduos responderão a essas mudanças. a Sociologia pretende explicar a totalidade do seu universo de pesquisa. Ainda que esta tarefa não seja objetivamente alcançável.

convertendo grandes massas camponesas em trabalhadores industriais. Em Comte. que a Sociologia é datada historicamente e que o seu surgimento está vinculado à consolidação do capitalismo moderno. portanto. Antes. para o pensamento social. algo mais do que a introdução da máquina a vapor. de forma muito clara.talvez como o último pensador clássico ou o primeiro pensador moderno.| | | |Gilberto Freyre | |Karl Marx | |Vilfredo Pareto | |Émile Durkheim |[pic] | | |[pic] | |[pic] | | |Georg Simmel |Ferdinand Tönnies |Max Weber | A Sociologia é uma área de interesse muito recente. (corrente que teve grande força no século XIX). seu esquema sociológico era tipicamente positivista. A Sociologia surge no século XIX como forma de entender essas mudanças e explicá-las. Neste momento. As transformações econômicas. colocaram em destaque mudanças significativas da vida em sociedade com relação a suas formas passadas. as terras e as ferramentas sob o controle de um grupo social. se a pessoa pudesse compreender este progresso. e ele acreditava que toda a vida humana tinha atravessado as mesmas fases históricas distintas e que. mas foi a primeira ciência social a se institucionalizar. poderia prescrever os "remédios" para os problemas de ordem social. que esperava unificar todos os estudos relativos ao homem — inclusive a História. Montesquieu também pode ser encarado como um dos fundadores da Sociologia . Esta disciplina marca uma mudança na maneira de se pensar a realidade social. é necessário frisar. se consolida . a Psicologia e a Economia. Ela representou a racionalização da produção da materialidade da vida social. baseadas principalmente nas tradições. Assim é que a Revolução Industrial significou. O triunfo da indústria capitalista foi pouco a pouco concentrando as máquinas. como as Revoluções Industrial e Francesa. políticas e culturais ocorridas no século XVIII. da Ciência Política e da Antropologia. No entanto. desvinculando-se das preocupações especulativas e metafísicas e diferenciandose progressivamente enquanto forma racional e sistemática de compreensão da mesma. 2 Em que pese o termo Sociologie tenha sido criado por Auguste Comte (em 1838).

(2) a sociologia compreensiva iniciada por Max Weber. o que se distingue da percepção de que este papel seja privilégio de um Estado que se sobrepõe ao seu povo. Assim. O surgimento da Sociologia prende-se em parte aos desenvolvimentos oriundos da Revolução Industrial. deu início a uma profícua linha de explicação sociológica. Não demorou para que as manifestações de revolta dos trabalhadores se iniciassem. a Sociologia não é uma ciência de apenas uma orientação teóricometodológica dominante. pois colocava a sociedade num plano de análise relevante. evoluindo para a criação de associações livres. pode-se claramente observar que a Sociologia tem ao menos três linhas mestras explicativas. O desaparecimento dos proprietários rurais. que mesmo não sendo um sociólogo e sequer se pretendendo a tal. como objeto que deveria ser investigado tanto por seus novos problemas intrínsecos. Trata-se das modificações que vinham ocorrendo nas formas de pensamento. das quais podem se citar. formação de sindicatos e movimentos revolucionários. . não poderiam deixar de provocar modificações na forma de conhecer a natureza e a cultura. a imposição de prolongadas horas de trabalho. dos artesãos independentes.a sociedade capitalista. e (3) a linha de explicação sociológica dialética. iniciada por Karl Marx. As transformações econômicas. Ela traz diferentes estudos e diferentes caminhos para a explicação da realidade social. que se achavam em curso no ocidente europeu desde o século XVI. atos de sabotagem e exploração de algumas oficinas. Mas uma outra circunstância concorreria também para a sua formação. tendo como fundador Auguste Comte e seu principal expoente clássico em Émile Durkheim. Máquinas foram destruídas. pelas novas condições de existência por ela criada. roubos e crimes. tiveram um efeito traumático sobre milhões de seres humanos ao modificar radicalmente suas formas tradicionais de vida. de fundamentação analítica. de matriz teórico-metodológica hermenêutico-compreensiva. Há paralelamente um aumento do funcionalismo do Estado que representa um aumento da burocratização de suas funções e que está ligado majoritariamente aos estratos médios da população. originada pelo Iluminismo. como por seu novo protagonismo político já que junto a estas transformações de ordem econômica pôde-se perceber o papel ativo da sociedade e seus diversos componentes na produção e reprodução da vida social. não necessariamente em ordem de importância: (1) a positivista-funcionalista. que divide de modo central a sociedade entre burgueses (donos dos meios de produção) e proletários (possuidores apenas de sua força de trabalho). Correntes sociológicas Porém. fundadas pelos seus autores clássicos. Este fato é importante para o surgimento da Sociologia. e etc..

inevitavelmente. quando a organização é observada e estudada podem se verificar as falhas assim alterar seu sistema de funcionamento e gerar lucro. hoje ela é mais uma entre as ciências. Desde o funcionamento de estruturas macro-sociológicas como o Estado. políticas. Nos EUA a Sociologia esteve de certo modo "engajada" na resolução dos "problemas sociais". por motivações diferentes que as da velha Europa (mas certamente influenciada pelos europeus. Martin Bulmer e Roscoe C. Atualmente. O sociólogo dentro da organização intervem diretamente sobre os resultados da empresa. Robert E. ele se dá. em grande medida. vai debruçar-se sobre todos os aspectos da vida social. 3 especialmente a teuto-francesa. Entre os principais nomes do estágio inicial da sociologia norte-americana. ela estuda organizações humanas. podem ser citados: William I. sem jamais esquecerse que o homem só pode existir na sociedade e que esta. educacionais. originaram quase todos os posteriores desenvolvimentos da Sociologia. aplicando mormente o método comparativo. A sociologia como ciência da sociedade Ainda que a Sociologia tenha emergido em grande parte da convicção de Comte de que ela eventualmente suprimiria todas as outras áreas do conhecimento científico. originadas pelos seus três principais autores clássicos. especialmente pela sociologia britânica e positivista de Herbert Spencer). as ciências teóricas e experimentais desenvolvidas nos séculos XVII. lhe será uma "jaula" que o transcenderá e lhe determinará a identidade. nesse contexto histórico social. econômicas.Estas três matrizes explicativas. A Sociologia. Para compreender o surgimento da sociologia como ciência do século XIX. Thomas. Esta disciplina tem se concentrado particularmente em organizações complexas de sociedades industriais. contribuindo com os lucros e resultados da organização. é importante perceber que. . Hinkle. levando à sua consolidação como disciplina acadêmica já no início do século XX. Park. Ainda que seja relativamente mais tardio seu aparecimento nos Estados Unidos. assim. psicológicas. com enfoque científico. XVIII e XIX inspiraram os pensadores a analisar as questões sociais. a classe social ou longos processos históricos de transformação social ao comportamento dos indivíduo num nível micro-sociológico. É interessante notar que a Sociologia não se desenvolve apenas no contexto europeu. instituições sociais e suas interações sociais. algo bem diverso da perspectiva acadêmica europeia.

Ao contrário das explicações filosóficas das relações sociais. Dessa forma foram empregados métodos estatísticos. Muitos dos teóricos que almejavam conferir à sociologia o estatuto de ciência. Esforços nesse sentido são visíveis nas obras de modernos teóricos sociais. as explicações da Sociologia não partem simplesmente da especulação de gabinete. que mesmo a Antropologia faz pesquisa em sociedades industrializadas. Já o enfoque da Sociologia é na ação dos grupos. Comparação com outras ciências sociais No começo do século XX. ela se preocupa também com as motivações exteriores que levam o indivíduo a agir de uma forma ou de outra. negando às humanas tal estatuto com base na inviabilidade de qualquer controle dos dados tipicamente humanos. no entanto. ora afastando-as e. Por fim. a diferença entre Sociologia e Antropologia tem mais a ver com os problemas teóricos colocados e os métodos de pesquisa do que com os objetos de estudo. foram e continuam sendo o foco de muitas discussões. Diferentemente da ética. apesar das peculiaridades dos fenômenos sociais quando comparados com os fenômenos de natureza e. da abordagem científica da sociedade. objetivando explicar as variâncias no comportamento social em suas ordens moral. imprevisíveis e impassíveis de uma análise objetiva. que visa discernir entre bem e mal. consequentemente. Como ciência. aquele que se refere a produção e troca de mercadorias. Já a Economia diferencia-se da Sociologia por estudar apenas um aspecto das relações sociais. buscaram nas ciências naturais as bases de sua metodologia já mais avançada. a ciência se presta à explicação e à compreensão dos fenômenos. Quanto a Psicologia social. entretanto. na ação geral. e as discussões epistemológicas mais desenvolvidas. considerados por muitos. como mostrado por Karl Marx e outros. Deve ser notado. sejam estes naturais ou sociais. a Filosofia social intenta criar uma teoria ou "teorias" da sociedade. estética e históricas. Uma das primeiras e grandes preocupações para com a sociologia foi eliminar juízos de valor feitos em seu nome. Nesse aspecto. na observação casual de alguns fatos. além de se interessar mais pelos comportamentos do que pelas estruturas sociais. e um ceticismo metodológico a fim de extirpar os elementos "incontroláveis" e "dóxicos" recorrentes numa ciência ainda muito nova e dada a grandes elucubrações. ora tentando aproximar as ciências. sociólogos e antropólogos que conduziam estudos sobre sociedades não-industrializadas ofereceram contribuições à Antropologia. até mesmo. a observação empírica. reunindo um arcabouço de conhecimento que . quando muito. a pesquisa em Economia é frequentemente influenciada por teorias sociológicas. baseada. a Sociologia tem de obedecer aos mesmos princípios gerais válidos para todos os ramos de conhecimento científico. Tais peculiaridades.

ao mesmo tempo. Theodor Adorno. A evolução da Sociologia como disciplina . Escola de Frankfurt. seja complexo apreender tal abordagem. sejam eles empresas privadas ou Centrais de Inteligência. à revelia dos interesses e valores da comunidade democrática com vistas a manter o status quo. Nesse sentido. representam uma das mais profícuas vertentes da filosofia social. Sociologia da Ordem e Sociologia da Crítica da Ordem A Sociologia. Ela pode partir desde a perspectiva do sociólogo individual. utilizando-se de os valores morais e políticos do iluminismo liberal mesclados com os ideais socialistas. As formas como a Sociologia pode ser uma 'ciência da ordem' são diversas. Max Weber.entrelaça a filosofia hegeliana. representada por aquilo que ficou conhecido como Teoria Crítica ou. seus resultados podem ser utilizados com vistas à melhoria dos mecanismos de dominação por parte do Estado ou de grupos minoritários. 4 A produção sociológica pode estar voltada para engendrar uma forma de conhecimento comprometida com emancipação humana. o uso do conhecimento sociológico é potencialmente perigoso. podendo mesmo servir à finalidades antidemocráticas. Entretanto. pode servir a diferentes tipos de interesses. em vista do tipo de conhecimento que produz. a teoria social de Marx e. À primeira vista. as obras de Max Horkheimer. entre outros. Jürgen Habermas. como principal ente financiador de pesquisas nas áreas da sociologia escolhe financiar aquelas pesquisas que lhe renderam algum tipo de resultado ou orientação estratégicas claras: pode ser tanto como melhor controlar o fluxo de pessoas dentro de um território. submetendo a produção do conhecimento não ao progresso da ciência por si ou da sociedade. no qual o Estado. Por outro lado. a Sociologia pode ser orientada como uma 'ciência da ordem'. isto é. talvez. porém. mas aos seus interesses materiais imediatos. como na orientação de políticas públicas promovidas nem sempre de acordo com o interesse das maiorias ou no respeito às minorias. Há. como mais popularmente se diz. autoritárias e arbitrárias. para alcançarem maiores patamares de liberdades políticas e de bem-estar social. Ela pode ser um tipo de conhecimento orientado no sentido de promover um melhor entendimento dos homens acerca de si mesmos. o meio indireto. kantiana.

tida como “desonesta” por praticamente todas as culturas e civilizações do mundo a partir de todos os pontos de vista éticos.e também ocorreu a profissionalização da sociologia. ela vai sofrer influências das teorias marxistas. Além da preocupação com a economia política e mudanças sociais apropriadas com a instalação da nova república. a sociologia sofreu influencias americanas e europeias. aos conflitos entre as classes sociais. Desde o início a sociologia vem-se preocupando com a sociedade no seu interior. que serão mais tarde chamados de “burgueses”. Classicamente. Naquele caso. êxodos. Mas para os fugitivos dos feudos. de nada adiantava produzir mais porque o excedente não iria para aqueles deles necessitados. . isto diz respeito. No Brasil nas décadas de 20 e 30 a sociologia estava num estudo sobre a formação da sociedade brasileira. ao trabalhador rural. por exemplo. As pessoas começam a se rebelar. Na década de 60 a sociologia se preocupou com o processo de industrialização do país.. se diz que o Modo de Produção entrou em contradição com os interesses das Forças Produtivas. Na década de 80 a sociologia finalmente volta a ser disciplina no ensino médio.A sociologia no mundo foi-se mostrando presente em várias datas importantes desde as grandes revoluções. crise do Modo de Produção Feudal. voltam também em relação ao estudo da mulher. final da Idade Média. na medida em que as suas preocupações passam a ser o subdesenvolvimento. embora a densidade demográfica crescesse assustadoramente. na Europa. nas questões de reforma agrária e movimentos sociais na cidade e no campo e a partir de 1964 o trabalho dos sociólogos se voltou para os problemas sócio políticos e econômicos originados pela tensão de se viver em um país cuja forma de poder é o regime militar. por exemplo. não restava alternativa exceto a atividade comercial voltada ao lucro. fogem dos feudos (a que eram “presas” por laços de honra) e passam a roubar ou com parcos recursos comprar bens baratos a grandes distâncias vendendo-os mais caro onde eram desejados – ressaltem-se as famosas “especiarias” -. Na América Latina.. iria engordar ainda mais os cofres da Nobreza. e também comunidades rurais. e outros assuntos culminantes. ou seja. A prática do lucro era condenada pela Igreja Católica. fundadores de burgos. desde lá cada vez mais foi de fundamental participação para a sociedade mundial e também brasileira. a maior potência do mundo à época. e estudos sobre índios e negros Nas décadas seguintes de 40 e 50 a sociologia voltou para as classes trabalhistas tais como salários e jornadas de trabalho. e analisando temas como abolição da escravatura. O surgimento da Sociologia e o Socialismo Europa.

crescendo e hoje. “duque”.. a seus desempregos e a seu desespero. lucros. enfim. Se você tivesse enriquecido à beça na base do comércio lucrativo. em contradição com a sua prática) ou o do pastor? Assim cresceram as seitas protestantes pelo mundo afora. muito mais interessante e lucrativo para a burguesia. Foi crescendo. outro com proposta islâmica. superiores em número. Os padres diziam nas missas – embora sua prática fosse bem outra. Politicamente a burguesia endinheirada sentia-se lesada tendo de pagar tributos à antiga nobreza. No início compravam títulos de nobres aos de antiga linhagem – que os discriminavam! – a seguir passaram a pensar em alternativas mais radicais (ser radical é ir à raiz e a burguesia foi radical no período de suas glórias revolucionárias!) como convocar os trabalhadores a uma aliança contra a nobreza e implantar um novo tipo de regime político. ou do empréstimo a juros. Era fundamental reorganizar a sociedade de maneira a que os novos donos da riqueza fossem também os donos do poder.. para uma aliança contra a nobreza ou “antigo regime” e. maçônicas mesmo.. uso da força física... mais recentemente. no Afeganistão – um com proposta socialista. Os burgueses convocaram seus empregados. – ser “mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus”. por vezes secretas. após muitos percalços. desempregados e desesperados e mandá-los de volta a seus trabalhos. ambos intoleráveis hereges dentro do fundamentalismo de mercado. por vezes aberta mas sempre e imediatamente proclamadas ilegais ou heréticas e perseguidas por todo o aparato estatal e religioso que a burguesia podia colocar em marcha! . saem-se vitoriosos. à medida que se conscientizavam de que foram usados para uma troca de poder que em absolutamente nada lhes beneficiou começam a organizar-se em sindicatos e outras agremiações classistas. desempregados e desesperados.O capitalismo era como um pequenino câncer que surgiu no final da sociedade feudal. reiterando serem pecaminosos aqueles que praticavam a cobrança de juros. “Usurários”. “king” e “marquesa” passam a ser nomes de animais domésticos da burguesia! O passo seguinte foi agradecer e condecorar trabalhadores. Por outro lado começam a surgir expadres. no limite. eram todos enfileirados 5 no caminho que conduz ao fogo do inferno. como ocorreu no Chile de Salvador Allende e. nisso você verá um sinal de estar sendo por ele abençoado”. a burguesia e seus interesses comerciais se sobrepõem ao ser humano numa infecção que contamina todo o planeta. agora praticamente falida. você prosperará imensamente nesta terra. Agora. Surge uma nova religião para reforçar uma ética mais consentânea com os tempos cambiantes: surge o protestantismo. Aquelas sociedades que buscam a cura para este mal são “reconvertidas” ao satanismo pagão de holocaustos ao deus-mercado através de diversas formas de pressão e. preferiria o discurso do padre (vale repetir. a “república”. Estes.. agora pastores que passam a informar: “se a mão de Deus estiver sobre a sua cabeça.

da filosofia clássica alemã (em particular o materialismo de Feuerbach e a dialética de Hegel) e a economia clássica inglesa construiu o MATERIALISMO DIALÉTICO. mas à libertação de toda a espécie humana de toda a classe de opressão e exploração.. um pedaço da enorme colcha de retalhos que mais tarde constituiria a Nação Alemã. cedo percebeu que enquanto houver neste mundo gente que se alimenta e gente que passa fome. filosofia voltada não apenas à ascensão da classe trabalhadora ao poder. tudo se transforma freqüentemente em seu contrário. filho de burgueses e educados no mais rigoroso protestantismo. Adotando o ponto de vista dos trabalhadores criou um ferramental intelectual inédito e até hoje embatido para a compreensão do Real. enquanto houver opressores e oprimidos a espécie humana inteira estará refém da insânia.. olha novamente. Dialética Há muito que dizer e em que refletir sobre a Dialética.. da mera aparência fenomênica de alguma coisa. Augusto Comte e a “Física Social” Evidentemente era necessário que a burguesia também produzisse uma teoria em defesa de seus pontos de vista e poucos foram tão brilhantes – e influenciaram tanto a nossa combalida Nação – quanto o positivismo.. a configuração já mudou completamente. está de um jeito. É como as nuvens no céu: você olha. Chegou à conclusão de que somente a partir do ponto de vista de quem não tem absolutamente nada a perder se pode almejar a vislumbrar a verdade. pois buscava a compreensão do que está para além da superfície.Karl Marx Originário da Renânia. menciono apenas dois pontos. do “Positivo”. A essência é mais significativa que a aparência: Este postulado fez com que a Dialética ficasse conhecida como “Filosofia Negativa”. Era necessário olvidar a essência e trabalhar com o que é perceptível aos sentidos físicos mais grosseiros e imediatos. Movimento: Tudo está em movimento. Com base no socialismo chamado “utópico” dos franceses. incrivelmente perspicaz. Era necessário esquecer a “filosofia negativa” e. voltando ao reino das aparências criar uma filosofia capaz de .

compreender o social com tanta precisão quanto a matemática ou a física – que hoje sabemos também serem imprecisas. emoções.. Mas Comte e seus discípulos criaram um sistema “científico” voltado a conciliar o inconciliável: a Luta de Classes... Émile Durkheim sistematizou algumas de suas idéias e foi o primeiro a usar efetivamente a expressão “Sociologia” para referirse ao estudo em pauta.. 6 acerca da sociedade e do ser do homem. tem esta raiz. Os positivistas contemporâneos.. através deles os pobres sejam menos pobres”. Mas. Comte pregava a necessidade de “libertar o conhecimento social de toda a ingerência filosófica”. Durkheim tem contudo enorme valor para a Sociologia contemporânea.. Se o fosse? Seria desejável? Se a filosofia responde a muitas questões que dizem respeito ao ser do homem no mundo.. a Luta de Classes.” Discípulo genial de Comte. Weber – a jaula de ferro do capitalismo. Eivado de motivos nobres.. que seu mestre ainda chamava de “Física Social”. aquelas mesmas que pavimentam todas as estradas do inferno. que já percebem as falhas do positivismo clássico. Durkheim e “As Regras. tem de ser filosófica! O oposto disso é simplesmente fechar os olhos ao que constitui o SER do homem. busca integrar a todos em torno do ideal ou meta burguesa – “integralismo”. Falando claramente: para que uma ciência humana mereça ser chamada de “científica”... exterior ao indivíduo e coercitivo. não filosófica. em linhas gerais.. –.. qualquer ciência que se volte a compreender o homem “afastando a ingerência filosófica” tende mais a falsear a compreensão do ser humano do que a compreendê-lo. impregnado de boas intenções. O que é fato social? Tudo o que é coletivo.. Como se fosse possível ao ser humano estar acima de todos os sentimentos. “que os ricos sejam mais ricos para que. . e “juízos de valor”. como se isso fosse possível.. Olvidando totalmente a existência concreta de interesses antagônicos na Sociedade Burguesa. Como se a própria colocação da questão – seja ela qual for – não traga nela embutidos os juízos ou as pré-noções.. Posição hoje indefensável. crescendo por etapas ou degraus seria possível chegar-se a uma precisão “científica”... e outras idiotices só críveis porque repetidas em altos brados e ad nauseam.. por sinal... mantêm suas mesmas raízes. Como compreender o fato social? Primeiro passo: “Afastar sistematicamente as pré-noções”. suas mesmas motivações – “conciliar Capital e Trabalho”.

militar e evangélico talvez explique os motivos do “acidente de trabalho” que o conduziu a uma profundíssima crise depressiva que durou quatro longos anos em que até a alimentação era levada à sua boca pela esposa. Sua posição de professor conservador. Escola de Frankfurt É fundamental citar o lugar dos teóricos de Frankfurt. Segundo o capitão evangélico. o mais notável discípulo de Weber. Foi um dos últimos brilhos a ir mais longe que Marx dentro do pensamento marxista. O peso de sua erudição não tira o interesse do trabalho. Quatro anos em que. Sua grande obra ainda é “Razão e Revolução”. ao contrário. Georg Lukács Húngaro. um dos maiores gênios do século XX. liberal. não pronunciou uma única palavra. particularmente Herbert Marcuse. Freischwebend Intelligenz). O Capital é irracional: desiguala os semelhantes e equaliza os dessemelhantes.Max Weber. De repente. É nela que se defende que o grande critério a submeter o Real é a Razão Humanista. filho de pastor evangélico. consta. lutou na Primeira Guerra Mundial como capitão do exército prussiano chegou à conclusão de que é necessário não tomar partido. o gênio adormecido desperta para o espanto de todos e compõe uma das mais geniais obras sociológicas do século XX – “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”. “Zerstorung der Vernunft”). a inteligência deve ser livre de vínculos (em alemão. mas do quanto você tem em bens materiais. a que se alinha com muito maior conforto. Teologia da Libertação . Você vale o quanto é capaz de produzir e é avaliado não pela grandeza de sua alma e de seus valores humanos. separar o “lugar da teoria” do “lugar da prática” em ciência política. Isso é a Destruição da Razão (em alemão. O Clássico “História e Consciência de Classe” é um leitura obrigatória a todo aquele que queira compreender o ser humano vivendo em sociedade. que resgata a Dialética Materialista com grande ênfase à Dialética. percebe-lhe as limitações e conduz os avanços sociológicos que esta corrente positivista havia logrado atingir ao marxismo. não escreveu uma única linha.

da criminalidade. eles dizem: “não tem jeito”. como se a Vontade humana não houvesse sido capaz de proezas memoráveis como a transformação do Império Romano num Império Cristão. morrerei convicto do Futuro Comunista da Humanidade! Não é possível saber como vamos suplantar esta situação amarga em que “o homem é o lobo do homem”.Segundo os grandes filósofos europeus contemporâneos. proclamando-lhe extinto. o que fazer? Como o saudoso Capitão Luís Carlos Prestes. • O século XVIII constituiu um marco importante para a história do pensamento ocidental e para o surgimento da sociologia: As profundas transformações políticas. Além da conflituosa . “Sempre foi e sempre será assim” – preenchendo o futuro como se houvesse uma linha invisível a ligar todos os tempos. mesmo sem saber como será a Sociedade do Futuro. do alcoolismo. O escravismo antigo não foi eterno (durou alguns milhares de anos). os exemplos se multiplicam. • As conseqüências da rápida industrialização foram trágicas: aumento da violência. O revolucionário em busca de um mundo melhor. econômicas e culturais levam ao surgimento da Sociologia (Ciência Social ou Ciência da Sociedade). No início como um pequenino carcinoma que hoje tomou conta do planeta todo. tampouco o foi o feudalismo (que durou cerca de um milênio). Em síntese. acabado. O capitalismo existe no mundo aí há uns quinhentos anos. O comunismo nascente comparado ao cristianismo também em processo de parturição no Império Romano. caso o próprio nome “comunismo” tenha se tornado pouco palatável do ponto de vista do marketing político. morto e era aterrorizado pelo fantasma de seu cadáver insepulto o Capital proclama reiterado e repetidas vezes a “morte do comunismo”. esta é a grande contribuição da América Latina em geral e do Brasil em particular ao Saber Universal. Não é crível que a espécie humana tenha de ser condenada ao inferno capitalista pelo resto da eternidade. Assim como o Império Romano negou o cristianismo por quase 400 anos. a travessia do “Mar Tenebroso” que todos “sabiam” intransponível e a chegada ao Novo Mundo. seguramente capitalista não será! Origens e Definições da Sociologia • Surge após revoluções Burguesas (Inglesa/ industrial e Francesa: Por volta de 1830. como Che Guevara ou o padre Camilo Torres é equiparado aos primeiros cristãos. da prostituição. Mas o poder regenerativo do Humano surpreende mesmo aos 7 médicos e. E agora. O que Weber chamava de “jaula de ferro” os Teólogos da Libertação chamam de “pessimismo defensivo” da burguesia.

• Neste momento (que se iniciou com o renascimento) há uma renuncia da visão sobrenatural. marca dos ideais iluministas que orientou o projeto revolucionário da burguesia deveria ser superado em nome da organização da sociedade e manutenção do status quo. • Passa a prevalecer a busca por uma indagaçãoracional: método da observação e da experimentação – método científico. a interpretação crítica e negadora da realidade. sobre suas transformações. Sociologia: Ciência da Sociedade • É a formação de uma estrutura social muito específica – a sociedade capitalista – que impulsiona uma reflexão sobre a sociedade. uma vez que o ritmo e o nível das mudanças que aí se verificam não chegavam a colocar a sociedade como “um problema” a ser investigado. • Não é por mero acaso que a sociologia – enquanto instrumento de análise – inexistia nas sociedades pré-capitalistas. vai pensar a ordem social enfatizando a importância das instituições burguesas: a autoridade. já no século XIX. • Não maistransformar a realidade masorganizar através de regras a sociedade: Ordem e Progresso. a ênfase continuará sendo no pensamento e explicação racional. a família. Qual a importância desses acontecimentos para a Sociologia? • Essas transformações colocavam a sociedade num plano de análise. • Assim sendo. • Pós revoluções burguesas. • Busca estado de equilíbrio numa sociedade dividida pelos conflitos de classe. pelas novas condições de existência por ela criadas e também devido as modificações que vinham ocorrendo nas formas de pensamento: na forma de buscar conhecer a natureza e a cultura. porém. hierarquia e harmonia social. mítica. • Surge com um interesse prático: resposta a crise social da época(XIX). em objeto que deveria ser investigado. • Conteúdo estabilizador – reforma conservadora – leis imutáveis da vida social. Diante desta nova realidade e das transformações sociais surge a sociologia: 1) Positivista 2) Dialética Sociologia Positivista • Ênfase na ordem. a hierarquia social. religiosa para explicar a realidade. a se constituir em problema.relação Capital x Trabalho. o surgimento da sociologia prende-se em parte aos abalos provocados pela revolução industrial. suas crises e seus antagonismos de classe. .

culturais. políticos. bem como as explicações sociológicas. do choque dialético entre esses dois pólos sobrevém uma nova situação histórica (síntese) que ainda carrega em si elementos do velho (tese) e do novo (antítese). 8 • A falta de um entendimento comum na sociologia (no estudo dos fenômenos sociais) tem haver com o fato de vivermos numa sociedade dividida. . Exercícios 1. se divide entre aqueles que olhando a realidade querem mantê-la e aqueles que querem transformá-la. Teoria Social visa a manutenção da ordem social. entre o pensamento dialético e o pensamento positivista/conservador. • Relação intrínseca entre teoria e prática. Teoria Social voltada à transformação da realidade. indica a forte influência do positivismo na formação política do Estado brasileiro. Sociologia Crítica/Dialética • Fenômenos sociais não são independentes dos fatores econômicos. políticos e culturais. marcada pelos antagonismos e conflitos de classe. • O caráter antagônico e contraditório da sociedade capitalista impediu um entendimento comum por parte da sociologia em torno ao objeto e aos métodos de investigação da nova ciência social. evidencia as contradições e antagonismos de classe desta sociedade. • Luta de opostos: luta de classes como motor da história.(UEL) O lema da bandeira do Brasil. tanto no que se refere a manter a ordem social vigente como para contestá-la. como tese novamente. Importante Considerar: • As explicações sociológicas sempre tiveram e têm intenções práticas: desejo de interferir nos rumos da sociedade. por sua vez. “Ordem e Progresso”. • Compreensão dialética da realidade: (tese – antítese – síntese – tese) oposição sistemática: umatese gera dentro de si umaantítese.• Procura criar um objeto autônomo “o social” independente dos fenômenos econômicos. • Realidade entendida como totalidade histórica: conhecimento crítico e negador da sociedade capitalista. mudá-la. que se instala. • O mundo.

causou estranheza. e) Negação da instituição estatal e da harmonia coletiva baseada na hierarquia social. As regras que regem o comportamento e as maneiras de se conduzir em sociedade podem ser denominadas. III e IV são corretas. como fato social. c) Denúncia dos laços de funcionalidade que unem as instituições sociais e garantem os privilégios dos ricos. O fato social é exterior ao indivíduo e apresenta-se generalizado na coletividade. olhares de espanto e de admiração. Considere as afirmativas abaixo sobre as características do fato social para Émile Durkheim. cochichos com comentários maldosos. provocando risos. I. O fato social caracteriza-se por exercer um poder de coerção sobre as consciências individuais. a) Apenas as afirmativas I e II são corretas. b) Ideais de movimentos juvenis.(UEL) Um jovem que havia ingressado recentemente na universidade foi convidado para uma festa de recepção de calouros. b) Apenas as afirmativas I e IV são corretas. compareceu vestido com traje social. O fato social é todo fenômeno que ocorre ocasionalmente na sociedade. III. 2. d) Apenas as afirmativas I. O calouro.Assinale a alternativa que apresenta idéias contidas nesse lema. Ao entrar na festa. em que todos estavam trajando roupas esportivas. que visam superar os valores das gerações adultas. d) Ideal de superação da sociedade burguesa através da revolução das classes populares. IV. No convite distribuído pelos veteranos não havia informação sobre o traje apropriado para a festa. a) Crença na resolução dos conflitos sociais por meio do estímulo à coesão social e à evolução natural da nação. II. segundo Émile Durkheim (1858-1917). . imaginando que a festa seria formal. O fato social expressa o predomínio do ser individual sobre o ser social. Assinale a alternativa correta. c) Apenas as afirmativas II e III são corretas. O calouro não estava vestido de acordo com o grupo e sentiu as represálias sobre o seu comportamento.

principalmente. há uma base minuciosa de informações. os poderes divinos sobre a natureza e sobre os humanos”. A utilização dessa teoria indica que os pesquisadores pretendem: a) investigar as funções sociais das instituições. acompanham as conversas de grupos de pessoas comuns de diferentes classes que.) Assinale a alternativa que apresenta a afirmação que está de acordo com a definição de pensamento mítico dada acima. como eles propõem e ouvem argumentos sobre o tema. b) pesquisar o proletariado como a classe social mais importante na estruturação da vida social. suas funções e suas finalidades. buscando descobrir quais as tendências dos eleitores. escondidos atrás de vidros espelhados. São Paulo: Ática. os relatos. descobrem-se.(UEL) Por trás das disputas que os candidatos travam pela preferência do eleitorado. 2000. as razões gerais que poderiam fazê-los mudar de opção. as narrativas.(UEL) O pensamento científico. Perto das eleições. II e IV são corretas. na teoria sociológica de Max Weber (1864-1920). além da convergência das intenções. planilhas e tabelas de preferências de voto. Por exemplo. Com esses materiais heterogêneos produz a explicação sobre a origem e a forma das coisas. (CHAUÍ. 4. . Pesquisadores. escola e família. além de auto definir-se. p.e) Apenas as afirmativas I. A aplicação do modelo de pesquisa que aparece descrito no texto baseia-se. Convite à filosofia. comentam e debatem as campanhas políticas. para entender o comportamento dos grupos sociais. até compor um mito geral. d) estudar a psique humana que revela a autonomia do indivíduo em relação à sociedade. pois são eles que determinam os comportamentos individuais. os concorrentes debruçam-se sobre gráficos. é possível encontrar a definição de pensamento mítico como aquele que “vai 09 reunindo as experiências. as motivações que se repetem nos votos dos eleitores. 3. Marilena. também classifica e conceitua outras formas de pensamento. e) pesquisar os sentidos e os significados recíprocos que orientam os indivíduos na maioria de suas ações e que configuram as relações sociais. tais como igreja. c) analisar os aparelhos repressores do Estado. Nessa técnica de pesquisa qualitativa. 161. em troca de um sanduíche e um refrigerante.

(estudante.” (explicação dada por líder guarani diante do questionamento sobre a instalação de grupos indígenas em áreas de mata atlântica protegidas por lei) e) “As principais causas da exclusão educacional apontadas pelo censo do IBGE [Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística]. o poder da mente é forte e aquelas pessoas que pensam negativamente podem atrair má sorte. sacrificado! . mas prefiro me precaver com patuás e incensos”. além do trabalho infantil. 24 anos) c) “Não temo o desemprego. tudo pode. lanifícios. “Foi lá que conquistamos nosso primeiro título”. Não “creio que ocorram coisas ruins para mim. e não é também vendida Porque o salário dos produtores é muito baixo – quando é aumentado Já não vale mais a pena mandar produzir a mercadoria –. atrás do ‘Éden’. Para mim. Estaleiros. para amolecer o deus do lucro. O pão ainda é destinado a alimentar: ele tem de dar lucro. quem com Deus está. (declaração da capitã do time de vôlei do Vasco da Gama ao comemorar a transferência da partida contra o Flamengo para um ginásio de sua preferência) b) “Considero a sexta-feira 13 um dia ‘nebuloso’. altos-fornos. tudo junto É sacrificado ao fogo.a) “Acredito em coincidência e essa [a transferência do local do jogo] é uma vantagem a mais para nós nesta final. ferramentas de exércitos em trabalho. Mas se a produção apenas é consumida.(UEL) “A casa não é destinada a morar. a fim de aquentar o deus do lucro! Montanhas de maquinaria. são a pobreza.” (depoimento de um candidato a emprego de gari no Rio de Janeiro. por que Alugar mãos? Elas têm de fazer coisas maiores no banco da fábrica Do que alimentar seu dono e os seus. café e frutas e peixes e porcos. a distorção idade série e até o tráfico de drogas. disputando vaga com outros 40 mil candidatos) d) “Viemos em busca da ‘Terra sem males’. a distância entre a escola e a residência. minas e moinhos: Tudo quebrado e. o tecido não é disposto a vestir. Estamos atrás do ‘paraíso’ sonhado por nossos ancestrais e ele se encontra por essas regiões. se é que se quer que haja Lucro! Apenas: para onde com a mercadoria? A boa lógica diz: Lã e trigo.” (divulgação na imprensa de dados do IBGE sobre educação) 5.

As vítimas Ele não vê. O manifesto. a pobreza e a fome são: 10 a) Oriundos da inveja que sentem os miseráveis por aqueles que conseguiram enriquecer. c) Inerentes a esse modo de produção e a essa formação social.) Os versos anteriores fazem parte de um poema inacabado de Brecht (1898-1956) numa tentativa de versificar O manifesto do partido comunista de Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895).. seu deus do lucro está tomado pela cegueira. mar. Mas os miseráveis.116. São Paulo. arrasta consigo. Que ela. quando a casa cai em estrondos Sobre as nossas cabeças. b) Frutos da má gestão das políticas públicas. De acordo com o poema e com os conhecimentos da teoria de Marx sobre o capitalismo. n.] As leis da economia se revelam Como a lei da gravidade. Começam a entender que o mundo burguês tem seus dias contados Por se mostrar pequeno demais para comportar a riqueza que ele próprio criou. 2003. e) Fenômenos característicos das sociedades humanas desde as suas origens. Atirando-os a saunas e depois de volta a estradas geladas. a concentração da renda. Em pânico. d) Frutos do egoísmo próprio ao homem e que poderiam ser resolvidos com políticas emergenciais. [. a burguesia atormentada Despedaça os próprios bens e desvaira com seus restos Pelo mundo afora em busca de novos e maiores mercados. p. . planejadamente. 16. Crítica marxista. Bertolt..De fato. na sociedade burguesa.” (BRECHT. as crises econômicas e políticas. é correto afirmar que. empestando Também os recantos onde se refugia!) Em novas e maiores crises A burguesia volta atônita a si. exércitos gigantes. (E pensando evitar a peste alguém apenas a carrega consigo. mas sem planos.

deve limitar-se a descrever sua aparência. c) II e IV. e) I. seguindo a orientação de nossa curiosidade e a significação que damos a isto que tentamos apreender”. (Traduzido de: FREUND. na análise dos problemas sociais decorrentes das reminiscências do modo de produção feudal. III e IV. inclusive a ciência. Nesse sentido.2005) Leia o texto a seguir.. . é correto afirmar que. reconstruí-lo com a ajuda de conceitos. Entre conceito e realidade existe um hiato intransponível. por tratar de um objeto cujas causas são infinitas. escrito por Max Weber (1864-1920).) Com base no texto e nos conhecimentos sobre o tema. 33. sendo chamada de “ciência da crise”. nenhum conceito e nem também a totalidade dos conceitos são perfeitamente adequados ao objeto ou ao mundo que eles se esforçam em explicar e compreender. assim como esgotar integralmente o mínimo elemento do real. de outra parte. a desigualdade social e a concentração populacional nos centros urbanos. A emergência da Sociologia só pode ser compreendida se for observada sua correspondência com o cientificismo europeu e com a crença no poder da razão e da observação. que reflete sobre a relação entre ciência social e verdade: “[. d) I. Julien. Paris: PUF. De um lado. III..(UEL) A Sociologia é uma ciência moderna que surge e se desenvolve juntamente com o avanço do capitalismo. reflete suas principais transformações e procura desvendar os dilemas sociais por ele produzidos. para Weber: a) A ciência social. II e IV. Estão corretas apenas as afirmativas: a) I e III. ao invés de buscar compreendê-lo. A Sociologia surge como uma tentativa de romper com as técnicas e métodos das ciências naturais.(UEL . Disso resulta que todo conhecimento. 1969. enquanto recursos de produção do conhecimento. A Sociologia é produto da Revolução Industrial. II. p.6. IV. considere as afirmativas a seguir: I. implica uma seleção. b) II e III. 7. porque ele pode somente transpô-lo. por refletir sobre a transformação de formas tradicionais de existência social e as mudanças decorrentes da urbanização e da industrialização.] nos é também impossível abraçar inteiramente a seqüência de todos os eventos físicos e mentais no espaço e no tempo. Max Weber. tais como a pobreza. nosso conhecimento não é uma reprodução do real. Sobre a emergência da sociologia. A Sociologia tem como principal referência a explicação teológica sobre os problemas sociais decorrentes da industrialização.

II – Com o desenvolvimento do industrialismo. social e filosófico que possibilitou a gênese da Sociologia. Assinale a alternativa correta: A) III e IV. . através da organização da ciência e das artes. II e III.b) A ciência social revela que a infinitude das variáveis envolvidas na geração dos fatos sociais permite a elaboração teórica totalizante a seu respeito. e) O obstáculo para a ciência social estabelecer um conhecimento totalizante do objeto é o fato de desconsiderar contribuições de áreas como a biologia e a psicologia. d) Alguns fenômenos sociais podem ser analisados cientificamente na sua totalidade porque são menos complexos do que outros nas conexões internas de suas causas. que se industrializava e se urbanizava em ritmo crescente. III e IV. c) O conhecimento nas ciências sociais pode estabelecer parcialmente as conexões internas de um objeto. I – A Sociologia é um produto das revoluções francesa e industrial e foi uma resposta às novas situações colocadas por estas revoluções. a partir de sua inserção na sociedade e nos grupos sociais que a constituem. alternativas estão corretas. B) I. o sistema social passou da produção de guerra para a produção das coisas úteis. III – O pensamento filosófico dos séculos XVII e XVIII contribuiu para popularizar os avanços científicos. II – O homem passou a ser visto. do ponto de vista sociológico. sendo a Teologia a forma norteadora desse pensamento. E) Todas as 9 – (UFUB) Sobre o surgimento da Sociologia. III – Aquilo que a Sociologia estuda constitui-se historicamente como o conjunto de relacionamentos que os homens estabelecem entre si na vida em sociedade. podemos afirmar que: I – A consolidação do sistema capitalista na Europa no século XIX forneceu os elementos que serviram de base 11 para o surgimento da Sociologia enquanto ciência particular. D) I e II. portanto. é limitado para abordá-lo em sua plenitude. C) II. 8 – (UFUB) Selecione as afirmativas que indicam o contexto histórico. IV – A formação de uma sociedade. que tratam dos eventos físicos e mentais. propiciou o fortalecimento da servidão e da família patriarcal.

D) I. a família. A) II e III estão corretas. E) Observar. III e IV estão corretas. mas inter-relacionados com os diferentes grupos sociais dos quais fazem parte. a Sociologia tinha uma importante tarefa a cumprir na visão de seus fundadores. tendo em vista a necessária estabilização da ordem social burguesa. através dos rituais. medir e comprovar as regras que tornassem possível. através da razão. deixando a solução dos problemas sociais por conta dos homens de ação. não indivíduos isolados.IV – Interessa para a Sociologia. E) II. B) Manter uma estrutura de pensamento mítica para a explicação do mundo. sem maiores preocupações de natureza prática. dentre os quais se destaca Auguste Comte. a agir e pensar conforme os ensinamentos transmitidos pelos deuses. 10 – (UFUB) Assinale a alternativa correta: O surgimento da Sociologia foi propiciado pela necessidade de: A) Manter a interpretação mágica da realidade como patrimônio de um restrito círculo sacerdotal. dessa forma. . como a escola. B) Incentivar o espírito crítico na sociedade e. Assinale a alternativa correta quanto a essa tarefa. as classes sociais e etc. 11 – (UFUB) Surgida no momento de consolidação da sociedade capitalista. colaborar para transformar radicalmente a ordem capitalista responsável pela exploração dos trabalhadores. C) Contribuir para a solução dos problemas sociais decorrentes da Revolução Industrial. B) Todas as afirmativas estão corretas. C) Condicionar o indivíduo. D) Considerar os fenômenos sociais como propriedade exclusiva de forças transcendentais. C) I e IV estão corretas. III e IV estão corretas. prever os fenômenos sociais. A) Desenvolver o puro espírito científico e investigativo.

visto como única alternativa para a superação das lutas de classe em que a sociedade capitalista estava mergulhada. III e IV estão corretas. segundo um modelo físico ou mecânico. II e IV estão corretas. D) A Sociologia compreensiva busca apreender o sentido da ação social e de seus nexos causais. III – Foi um pensamento predominante na Alemanha no século XIX. B) I. é correto afirmar que: A) Os juízos de valor do pesquisador não interferem em nenhuma fase do processo de investigação científica. 12 – (UFUB) Sobre o positivismo. II – Derivou-se da crença no poder absoluto e exclusivo da razão humana em conhecer a realidade e traduzi-la sob a forma de leis naturais. E) Nenhuma das anteriores. II e III estão corretas. IV – Nele.D) Tornar realidade o chamado “socialismo utópico”. C) I. A) II. C) O objetivo da Sociologia é estabelecer leis gerais explicativas da realidade social. como uma das formas de pensamento social. nascido principalmente de correntes filosóficas da Ilustração. podemos afirmar que: I – É a primeira corrente teórica do pensamento sociológico preocupada em definir o objeto. E) Todas as afirmativas estão corretas. E) Nenhuma das anteriores. 13 – (UFUB) De acordo com o pensamento weberiano. B) A sociologia de Weber é um esforço de explicação da sociedade enquanto totalidade social. a sociedade foi concebida como organismo constituído de partes integradas e coisas que funcionam harmoniosamente. estabelecer conceitos e definir uma metodologia. 12 . D) I e III estão corretas.

14 – (UEM – Inverno 2008) “Todos nós sabemos da existência de um certo tipo de ‘organização social’ entre animais não humanos. 04) Podemos concluir do texto que são os fatores do meio ambiente que levam à padronização dos comportamentos dos animais e dos seres humanos. se não fosse a descoberta das leis de padronização das sociedades de animais. podem retratar também as desigualdades regionais existentes. 08) Os fluxos migratórios indicam como as atividades econômicas estão distribuídas no território e. 16) Podemos deduzir do texto que tanto os pesquisadores dos animais quanto os sociólogos se preocupam com as ações regulares produzidas pela vida em sociedade.. assinale o que for correto. 1985. 01) Segundo o autor. 02) Nas sociedades industriais. o fazemos porque constatamos que o comportamento de tais animais apresenta certas padronizações parecidas com algumas padronizações verificadas entre os seres humanos” (VILA NOVA. não apenas entre mamíferos superiores.. Sebastião. mas também insetos: formigas. (. 15. o avanço da urbanização faz predominar o padrão de relação societário. por isso. tais como os macacos. cupins e abelhas. 04) No modo de produção capitalista. é caracterizado pela formalidade e pela impessoalidade. o crescimento das cidades foi acompanhado pela progressiva transformação do espaço urbano em mercadoria. ao contrário do comunitário. São Paulo: Atlas. Sobre esse assunto. notadamente. Introdução à Sociologia. produzindo modos particulares de convívio social. p. 08) Segundo o autor. os sociólogos não teriam se interessado pelas leis de padronização existentes nas sociedades humanas. particularmente a sociedade daqueles insetos. por exemplo. assinale o que for correto.(UEM – Verão 2008) A urbanização tornou-se o processo padrão de transformação do meio ambiente nas sociedades industriais. que. não há diferença essencial alguma entre o estudo das sociedades humanas feito pela sociologia e o das sociedades de insetos feito pela entomologia. a introdução de novas tecnologias no campo foi um dos fatores que produziu o êxodo rural e contribuiu decisivamente para o crescimento populacional das cidades. 29). . 02) De acordo com o texto. Considerando o que diz o texto acima. homens e animais são padronizados devido ao peso da herança genética em todos os tipos de sociedades. 01) Para alguns sociólogos.) Quando comparamos as ‘sociedades’ animais não humanas.

. I. Na sociedade pós-industrial. O mito por sua vez trabalha duro para se manter e. para se ver os mitos morrerem’.16) A forte influência dos padrões de convívio tipicamente urbanos sobre a vida no campo e o acesso massivo e indiferenciado a bens e a serviços produzem uma notável homogeneização da realidade social. que se tornam cada vez mais individualistas.” (BALANDIER. e) O pensamento mítico se disseminou porque se pauta em conceitos e categorias. está presente em todos os espaços. A desordem: elogio do movimento. Georges.) Com base no texto. Com base nos conhecimentos sobre o tema.(UEL – 2006) “No início a ciência quis a morte do mito. armas do espírito ativo. como a razão quis a supressão do irracional. o pensamento mítico é crucial para a compreensão científica do mundo. ela reserva ao mito – e ao sonho – o lugar que lhe é próprio. Desde então. 16.(UEL – 2006) Nas três últimas décadas. considere as afirmativas a seguir. o mito está ausente dos espaços sociais contemporâneos. b) A delimitação da área de atuação do saber científico implica na constituição de um lugar próprio para o mito. Quando a ciência traça seus próprios limites. os trabalhos publicados por Ralph Dahrendorf.17. Daniel Bell. d) Na modernidade. muitos dos conceitos que haviam norteado o campo da análise social desde o século XIX perderam relevância. é correto afirmar: a) Pelo fato de ser destituído de significado social. por ser pouco preciso. Valéry glorificou esta luta destruidora contra as ‘coisas vagas’: ‘Aquilo que deixa de ser. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. é um mito. ocorre a perda da identidade coletiva dos trabalhadores. dando início assim a uma guerra interminável contra o pensamento mítico. Do mesmo modo. 17. 1997. Alain Touraine e André Gorz permitiram ampliar a compreensão do processo de passagem da sociedade industrial para a pósindustrial.p. basta o rigor do olhar e os golpes múltiplos e convergentes das questões e interrogações categóricas. c) A morte e o extermínio do mito no ocidente decorrem da supervalorização e conseqüente predomínio da razão. por meio de suas metamorfoses. visto como obstáculo a uma verdadeira compreensão do mundo. além da concentração do capital. a ciência atual busca menos sua erradicação que seu confinamento.

numa crença concebida na superfície que demonstro ser. cristalizando minha existência num olhar. d) I. é defrontar-me com a sensação de fragilidade. Comecei o disciplina descrente na possibilidade de eu vir a “aceitar” uma perspectiva sociológica do humano. e) II. Mas caio na dúvida se o que sou ou creio ser realmente condiz com a imagem que faço de minha figura. diante do outro. na experiência que dele tenho a partir dos encontros travados anteriormente. agora. Mesmo na cotidianidade. b) I e III. após finalizado o percurso de um semestre. em minha dança encenada de papéis. sempre tropeçando. de um momento passageiro. Estão corretas apenas as afirmativas: a) I e II. Luiz Fernando Calaça de Sá Júnior Estar diante do outro. que confirmam ou negam a primeira impressão. sem pestanejar. sempre gaguejando. Com o advento da sociedade pós-industrial. não consigo deixar de ser eu mesmo. IV. Não vim com muitas esperanças e tinha medo do previsível. dada a mobilidade 13 socioeconômica desde o advento da sociedade industrial. Admito. c) III e IV. num adjetivo. III. tento ser eu mesmo. II e IV. Diante do outro. estranho. como eu a ele. sinais. quando creio minimamente conhece-lo. o campo da investigação sociológica amplia-se para além dos estudos dos movimentos de classe. um estranho. na parcialidade de um ângulo. nos dias partilhados em intimidade. Como diria Sartre: “O inferno são os outros”. e cada novo encontro vai deixando indícios. O retorno aos conceitos elaborados à luz da análise social do século XIX impõese. Partirei de minhas impressões gerais. que não segui os passos indicados. não fiz resenhas de capítulos. desde o início. Diante do outro. O uso de sistemas técnicos oriundos das descobertas científicas é o que distingue a sociedade pós-industrial da sociedade industrial. Vim cheio de preconceitos. como lago. Não tentarei ser comportado. III e IV. Mesmo assim o olhar do outro me congela em meu movimento em direção ao próximo segundo. O estranho é o que melhor e mais apto está para me julgar de forma incondicional. O outro me aprisiona com o olhar. e não sei. de forma corajosa ou suicida. não li tudo o que devia(?) ter lido. aprisionando meu presente. admito. sempre fingindo uma segurança ou uma meninice que não tenho verdadeiramente. Sempre me será um estranho. assim como eu a ele. sempre serei um pouco desconhecido – para ele e para mim mesmo – e cada nova revelação será um choque. Não fui sistemático e rigoroso. Uma tentativa de síntese. se eles foram . num instante de lapso. conhecido.II. O estranho se revela a mim. Diante do outro conhecido tento ser o que para mim e mais fácil ser. num conceito.

O exercício da teatralidade de papéis assumidos e dissolvidos a cada momento. para uma questão que acho sem solução. como fantoches ou ventrílocos. em que manipulamos o mundo em que somos manipuláveis. da moda sempre em mutação. perdemos a condição de pessoa. identidade. E as cidades? Haverão realmente espaços para negociações – o grande mercado mundial de homens especialistas -. Desde este princípio me coloquei como estrangeiro. dos escândalos que se tornam espetáculo de contemplação e êxtase. nos tornamos anônimos e invisíveis. Ninguém é o que realmente aparenta ser. sem que se conheça sequer algo do outro. que questionava a relação de intimidade típica da organização familiar. Há algo ainda em suspensão.desfeitos. os colegas – até hoje desconhecidos – que emitiam suas opiniões. Indivíduo e sociedade? Indivíduo ou sociedade? Indivíduo-sociedade? Papéis. negociáveis na pólis. desconhecidos que sentam-se um ao lado dos outro ou se esbarram. Quinze minutos de fama. as falas que surgiam das leituras. tango. Os trabalhadores em equipes que surgem e se desfazem após a realização de uma tarefa. como diria Andy Warhol. As palavras agora são pronunciadas de forma encenada. bastando apenas parecer o que não se é. nos dissolvemos. na política midiatizada. E todos escondem algo por traz do sorriso. lembrei-me de minha viagem a São Paulo no início do ano e do meu desagrado narcísico diante do que não era meu próprio espelho. O único movimento que tive foi o inicial estranhamento manifestado na leitura do primeiro texto. como em Josefina. herança. nossa família. sem que se espere mais nada. Lembro-me das minhas andanças pela cidade. Somos nossa casa. As outras aulas mantive um posição de ouvinte (des)interessado. Nessa abertura para o mundo. Todos emitindo seus pontos de vista. Apenas 15 minutos. Tentei prestar atenção no que emergia. De resto. As aulas consistiram para mim como exposições de teses para as quais eu já vinha com todas as minhas antíteses. do clareamento dental. de corpo fechado. as identidades múltiplas. em que se finge santidade e competência. melodramas mexicanos. conto de Franz Kafka. numa massa que corre em busca da própria sobrevivência. cada qual se apropriando do que lhe é bem pra uso e abuso. a cada devis. O tempo das cirurgias plásticas. Associações entre o burguês e o proletário. criamos crenças e dogmas em que possamos nos segurar. evitando o olhar constrangedor. utopias e “ismos” para remediar o mal estar que a civilização instaura na impossibilidade de saciedade do desejo. o qual fui expositor. numa relação mutualista. Criamos ficção de um mundo improvável. o receio de expressá-la. uma tentativa de formular um opinião. 14 E nas relações em grupo repetimos esses mesmos falseamentos de realidade. ou os papéis estão dados e legitimados por nós mesmos. no “mundo real” da polis. em contraposição à vida errante e democrática. fluidas. Não sei. a pé e de ônibus. somos como os ratos. nossa cultura local e provinciana? Ou somos a polis. da sociabilidade e dos jogos de papéis vivido nas cidade. na perda do .

Citando. tantos sinais de fumaça sinalizando conceitos. na liberdade que acredito ter nesse espaço aberto à reflexão. para ser um outro em alteridade? Será que há essa alteridade ou nos suportamos? A diferença ideológica às vezes é tão mais marcante e conflitiva que as aparentes. ou simplesmente nos deixamos levar pela correnteza. Também eu tenho meus vieses. Entre nós há. Mas todo um discurso de contrariedade e tudo isso é. aparentemente sem nenhuma conexão com o que ela trabalhado. Tolerar ou não tolerar? Será que esse meu falatório tem sentido. Mas bem posso estar enganado. digitalizando-nos.verdadeiro desejo. A sociedade formada de homens. Senti . Nada tenho a perder. Uma saída ensaiada da caverna. e se reproduz. Ela estava lá. nossas verdades. e o previsível seja o que se espera. transformandonos em porcentagens e estatísticas. na minha crença herética de que minha voz solitária me basta. planejamos e nos projetamos existencialmente. Ainda assim somos humanos. mas será que realmente saímos do estado de cegueira e entorpecimento? Ou cairemos novamente numa outra cegueira de luminosidade ofuscante onde os contornos das formas são as mesmas sombras projetadas? Quando digo isso tento pensar no que lemos e discutimos. Às vezes ingênua. só consigo ver a arte como salvação. todos eles defendendo vieses. e defendemos como se fossem reais. trabalhamos e funcionamos. Posso omitir meus sentimentos e acreditar que tudo transcorreu conforme o previsível. Algo que destoa do resto do grupo. Tantos pontos de vista. Estou apenas sumariando. e. para ser eu mesmo. Desde o início apontei para minha descompostura intencional. ou incorporar novas formas. caminhando movida por uma mão abstrata. Isso até parece uma provocação ou uma pirraça. o desconforto. Discorrendo livremente. É o mundo das caixas registradoras. E a tentativa de síntese é falsa. fazendo comentários e perguntas incômodas. vivemos em agrupamentos. Unindo forças por uma coletividade que é tão abstrata quanto a geometria das formas platônicas. Despertar para a visão disso tudo é necessário. E me pergunto. construímos vidas e vias. sublimado ou transformado em sintoma e compulsão. Situação atípica. Uma presença. Mentira! Trago incômodos. outras vezes confrontando a figura central de facilitadora. O que mais me resta? Posso tentar fazer mais algumas correlações com o que eu já trazia como idéia. maquinaria pesada ou tecnologia digital. traçamos rumos que desejamos trilhar. Posso emitir opinião sobre a vivência do grupo. um ensaio de intelectualismo que vai do nada ao nada. irrealidade e virtualidade. também. de que serve tantas discussões teóricas? De que serve a universidade que nos prende nas utopias de um mundo possível de salvação. Estou tentando me arriscar. Mas esse mundo não é o mundo dos poetas. ou é uma grande confusão? Não sei. e precisamos conquistar o pão com o suor do próprio rosto. Nesse ponto. O mundo inteligível das idéias. Todos nós temos nossas ideologias. nossa forma “melhor” de ver o mundo. situações. e será que realmente preciso lapidá-los.

para as referências à filosofia alemã. E também temos aquela que na risada de deboche abre espaço para as opiniões bem fundamentadas. à sociologia. O espaço. Acho que é tudo o que posso emitir enquanto registro de minhas idéias e síntese de minha participação desse círculo de pessoas. foi por minha escolha pela omissão consentida. O que é uma sociedade? Conceitos = Em Sociologia uma sociedade é o conjunto de pessoas que compartilham propósitos. Nada me pereceu tão novo que não seja velho. às fenomenologias do outro homem. pois tentei ser poeta. defendendo o absurdo. eu sei. É motivo de risos e desconforto. Algo se moveu. ao marxismo. para depois ruminar. Sinto muito. Como exercitar a própria existência é o que me pergunto. preocupações e costumes. e que o imprevisível é desconcertante. Se exercitei meu papel nas arenas da polis acadêmica. Como saio afinal? Não sei. à antropologia. o relativismo dos valores como verdade afirmada. contra a ciência dos conceitos e da busca pela verdade. gostos. Janelas se abrem para que articulações possam ser feitas no futuro. Quero sedimentá-los um pouco. mas não mudei meus pontos de vista. Fazemos um aqui um parâmetro com conceitos próprios (respostas pessoais de alunos nas questões abaixo. teimar na minha ignorância e resistir à psicanálise. Mas sei-me em mutação. Já não estou mais no início do percurso. Momentos inesquecíveis nesse período. fica a situação velada. é importante. que não foram ainda assimiladas. Jogo na lata de lixo de minha cachola. Não sei se tenho mais nada a falar. Já estou um tanto cansado das discussões que não levam a lugar nenhum. quando não censurado e reprimido. Acho que é o lugar da loucura no mundo. o mais forte que submete o outro por prazer de gozar. e que interagem entre si constituindo uma comunidade. pois mostrou o quanto estamos conformados com os papéis dados. Eu guardei coisas em mim. Não sei se isso é o bastante. Senti-me contente. Saio de uma turma de desconhecidos. e domesticados. 15 Indivíduo X sociedade Conceitos = a palavra indivíduo habitualmente descreve qualquer coisa. realizadas em sala e entregue ao professor): . mas eis que emerge e se cristaliza o “bode expiratório”.prazer em ver essa situação se instaurar. Nada se fala. e sofista. posto que dissociada da vivência real com o outro. A sociedade é o objeto de estudo das ciências sociais especialmente da Sociologia. o discurso sobre o desejo.

para ele. . não havendo como existir uma imersão passiva do indivíduo em uma sociedade que o põe a mercê dos acasos. . move a construção da sociedade. o lugar de criador de seu mundo. . mas considerada uma fase posterior à criação do mundo por ele. trabalhar de forma polarizada a relação entre indivíduo e sociedade. já que todos agem de acordo com o significado atribuídos às ações. . Quando esta ação visa a ação de uma pluralidade de indivíduos totalmente desconhecidos. mas sua interdependência. a ação passa a ser social.a) Sua vida esta vinculada a sociedade? (Você faz o que bem quer?) b) Quais foram as experiência e influências que vocês receberam da família? * Dos amigos * Dos vizinhos c) Como vocês apreender a ler e a escrever? d) Onde aprenderam normas sociais? e) O que vocês aprenderam na rua? f) Vocês vão algum culto religioso? Max Weber . já que não têm um sentido pensado.Recusa. . na contemporaneidade.Sociologia como a ciência que. .Sociologia para Weber: a ciência que busca entender a ação social.Portanto. o desenvolvimento e os efeitos da conduta de um ou mais indivíduos em relação a . entendida como a ação realizada pelo indivíduo tendo como orientação a ação do outro indivíduo.A determinação social é admitida em Weber. estudará o homem em relação de interdependência com o outro.Objeto de investigação da sociologia weberiana: a ação social. o sentido é o definidor da ação social. .Nega a polarização indivíduo X sociedade. A influência social sobre o indivíduo é admitida.Ações reativas não interessam à sociologia. já que. . mas caráter de reflexo. como em Marx e Durkheim. . interpretando-a para explicá-la em seu desenvolvimento e efeitos.A explicação sociológica busca compreender e interpretar o sentido.Não existe acaso. em sua teoria. é toda conduta humana dotada de significado subjetivo dado por seu executor. a natureza e seu meio social. compartilhando sentidos e significados. .O indivíduo tem. .Ação: para Weber. mas não é central.

já que. então.Metodologia de Weber: Método Compreensivo. se busca compreender a natureza particular das conexões que se estabelecem empiricamente. fica clara a impossibilidade de análise humana de toda a realidade. . abstrai certos aspectos da realidade na tentativa de explicar as causas associadas à produção de determinados fenômenos”. Assim. que consistem em conceitos selecionados que permitem a tradução adequada de aspectos da realidade. que é infinita. uma vez que o tipo ideal é construídos por critérios que dizem respeito à cada pesquisador.O referido método utiliza-se de um recurso teórico chamado tipo ideal. um fragmento ínfimo que considera relevante” (…) Pode-se dizer. que pode ser entendido como compartilhado pela maioria dos membros de uma sociedade. .outros (ação social). . que o particular ou específico não é aquilo que vem dado pela experiência.Método Compreensivo: resgate interpretativo do passado para a compreensão do presente. . da imensidade absoluta. que cause a conduta dos indivíduos. o alvo da sociologia de Weber é “a especificidade dos fenômenos e seus significados” (…) “Por isso. nem muito menos pelo ponto de partida do conhecimento.Os tipos ideais permitem a relação entre objetividade do conceito puro e a própria compreensão histórica. através destes fatores. .Tipologias da sociologia weberiana: a da ação social e da tipologia da dominação. organiza e. para tanto. Barbosa e Oliveira.A objetividade weberiana. ou seja.Segundo Quintaneiro. . o cientista pode isolar. contextualizada à realidade social vivenciada por indivíduos e grupos. ao contrário da capacidade humana de compreensão. .Aspecto fundamental da sociologia de Weber: busca pela conexão de sentidos presentes no contexto das ações praticadas por indivíduos e grupos no processo de interação social. . Por exemplo. pelo qual busca o nexo causal dos sentidos compartilhados entre indivíduos e grupos em seu existir socialmente.Relação social: diz respeito a uma ação de reciprocidade orientada. que busca trabalhar com elementos da realidade. . obtendo-se resultados válidos não apenas para si. mas o resultado de um esforço cognitivo 16 que discrimina. enfim. que haja conteúdo de sentido em si. compreensão da qual consiste em captar e interpretar sua conexão de sentido. Os tipos ideais permitem essa relação. segundo Weber. sendo necessário. O método utilizado baseia-se no estágio de desenvolvimento dos conhecimentos. que poderá ser mais ou menos evidente par ao sociólogo. tem-se o aperto de mãos: seu conteúdo de sentido é de amizade e cortesia. nas estruturas conceituais disponíveis e nas normas de pensamento vigentes. . tem um forte componente subjetivo. ou seja.

. consideradas forças motrizes do agir social dos indivíduos e de suas interações. vista como a única maneira de organizar um grande número de pessoas efetivamente. o ser humano tem de ser socializado. que poderia esmagar o espírito humano justamente por tentar regulares todas as esferas da vida social. É por meio da socialização que vamos adquirindo o nosso Eu.A tipologia da dominação é subdividida em: 1) Dominação racional-legal. o que devem pensar. .. . Weber não vê o capitalismo como dominado pelo conflito de classes. ou seja. 3)racional conforme valores e. mas aspira às honras sociais derivados dele. entretanto. 2) Dominação tradicional. nossa identidade. . e. É o que podemos chamar de socialização primária. isto é. 2)afetiva. A principal socialização se dá na primeira infância. que consiste na organização da vida sócio-econômica de acordo com os princípios de eficiência e baseada no conhecimento técnico. Ela ocorre por meio dos outros significativos. já que Weber concentra sua análise nos atores sociais e suas ações. irmãos mais velhos e amigos íntimos.Ao contrário de Marx. Por meio da socialização adquirimos o “direito” de atuarmos no grupo social em questão.Tipologia da dominação: o homem não busca o poder apenas para enriquecer economicamente. Socialização é o processo pelo qual a sociedade ou comunidade ou grupo social ensina a seus membros seus costumes e regras.Weber. o que é o certo e o que é errado. Para que a sociedade funcione sem graves conflitos. A socialização secundária se dá num âmbito maior.Tipologia da ação social é subdividida em: 1) ação social tradicional. ela vai aprendendo a agir em sua sociedade porque . . por meio de todas as interações que travamos durante a vida. onde a ação social é determinada por elementos fortes das personalidades individuais que propiciam a alguns ascenderem sobre os demais. . O processo de socialização Compreender a perspectiva sociológica acerca do ser humano é compreender também como o ser humano é socializado. tipicamente ocidentais e marcos distintivos deste lado do planeta. que são todas as pessoas muito importantes em nossa vida e dos quais dependemos. a sociedade e o Eu são o verso e o reverso de uma mesma realidade. tecnologia e burocracia como racionalização. É interessante notarmos que a criança descobre quem ela é quando descobre o que a sociedade é. Na medida em que os outros significativos vão dizendo para as crianças como elas devem agir. 3) Dominação de caráter carismático. expande-se com o crescimento econômico e político.Weber descreve o desenvolvimento da ciência. na qual se encontra vinculação com elementos da lei no contexto das sociedades completas. na qual a tradição determina de indivíduos e grupos. mas pela ascensão da ciência e da burocracia. por meio da família e da escola. como nossos pais. A burocracia. temia a excessiva regulamentação da sociedade moderna. 4) conforme fins.A legitimação da dominação é a crença de que determinado indivíduo é capaz de governá-lo.

Podemos afirmar que a “natureza” humana não surge no momento do nascimento. nesse momento se inicia um novo processo de socialização onde aprendemos os códigos para bem atuarmos 17 nesse grupo social. conforme a idéia de reciprocidade. urbana e industrializada: para a socialização ser completa teríamos que aprender tudo. aprendendo a usar os símbolos (linguagem) e aprendendo os seus papéis sociais.vai descobrindo como é sua sociedade. identifica hábitos e valores característicos que o ajudam no desenvolvimento de sua personalidade e na integração de seu grupo. Ao longo do processo de desenvolvimento humano. A socialização faz com que a pessoa adquira as normas definidoras dos critérios morais e éticos. os funcionários precisam ser apresentados aos valores. denominamos de Outros Generalizados. o indivíduo participa de inúmeros grupos sociais. uma psiquê humana e outros fatores de influência tratados por outras ciências. a socialização é um processo contínuo no qual o indivíduo ao longo da vida aprende. tornando-o sociável. Segundo Levy (1973). E ninguém é capaz de ser socializado em todos os aspectos de sua sociedade. Nessa constante interação com o meio. p. Ou seja. Mas. suas idéias e valores. Os homens adquirem uma “natureza” ou uma identidade por meio de suas associações e podem perdê-la (ou ela declina) quando se encontram isolados. conforme os padrões da sociedade em que está inserido. reforçada e atualizada pelos outros de nosso grupo social. passando por um processo de socialização. vivenciar tudo. isto é. Obviamente. é crucial para a reprodução do universo simbólico. Impossível. Ao mesmo tempo a socialização nunca termina. “em estado de isolamento social. o indivíduo não é capaz de desenvolver um comportamento humano. Se assim o fosse seríamos robôs. normas e práticas da organização. criando uma identidade. Durkheim (1987) ressalta a importância da socialização ao mostrar que a sociedade só pode existir porque penetra no interior do ser humano. Os outros significativos vão se tornando o que. Por meio do processo de socialização as estruturas da sociedade tornam-se as estruturas de nossa mente. E as crianças vão. Estamos sempre sendo socializados. segundo autores de diversas correntes teóricas. 60). É por meio das estratégias de integração do indivíduo à . verdadeiros autômatos. existem algumas determinações genéticas. que lhes permitirá articular-se com os processos de comunicação e de integração que permeiam o fazer coletivo. dentre elas. moldando sua vida. participar de tudo. crenças. criando sua consciência. a sociedade. ao mesmo tempo. Para Levy (1973. Imaginem em nossa sociedade complexa. A cada vez que ingressamos em um novo grupo social. hábitos estes que não são inatos. O processo de socialização de novos membros. pois este deve ser aprendido ao longo de suas interações com os grupos sociais”. Tais valores vão se consolidando e determinando suas escolhas. Este mesmo processo revela-se crucial no contexto de uma organização. podemos perder nossa identidade se ela não for. O processo de socialização nunca é completo e perfeito. construindo padrões de comportamento próprios para interação em cada grupo. as escolhas profissionais. Ao ingressarem em um novo grupo. o indivíduo vai internalizando crenças e valores. o principal fator de formação da identidade e personalidade de um indivíduo é sua socialização. para o pensamento sociológico. em sociologia.

até mesmo. os desafios e recompensas em vista. Os métodos de socialização organizacionais mais utilizados são os seguintes: 1. A integração do novo funcionário deve ser atribuída a um grupo de trabalho que possa provocar nele um impacto positivo e duradouro.organização que os valores e comportamentos vão sendo transmitidos e incorporados pelos novos membros. A aceitação grupal é fonte crucial de satisfação das necessidades sociais. Definindo a palavra socialização. o gerente e o estilo da administração existente etc. Leavitt (1991) apresenta alguns termos. até mesmo. a cultura predominante na organização. a organização tende a ser vista de forma positiva. não têm chance de experimentar o sucesso e nem a motivação dele decorrente. por meio de exemplos e pressões sociais. educação. 3. O supervisor deve cuidar dos novos funcionários como um verdadeiro tutor. Conteúdo do cargo: O novo funcionário deve receber tarefas suficientemente solicitadoras e capazes de proporcionar-lhe sucesso no início de sua carreira na organização. 4. Processo seletivo: A socialização tem início na entrevista de seleção através da qual o candidato fica conhecendo o seu futuro ambiente de trabalho. Para os novos empregados. o processo seletivo permite que ele obtenha informações e veja com seus próprios olhos como funciona a organização e como se comportam as pessoas que nela convivem. que os acompanha e orienta durante o período inicial na organização. as atividades desenvolvidas. Com isso. Se o supervisor realiza um bom trabalho neste sentido. além de reforço positivo sobre comportamentos adequados ou. A idéia principal é a persuasão das pessoas para adotarem determinadas atitudes e crenças. os grupos de trabalho têm uma forte influência sobre as crenças a atitudes dos indivíduos a respeito da organização e de como eles devem se comportar. para depois receber tarefas gradativamente mais complicadas e crescentemente desafiadoras. os empregados principiantes tendem a internalizar altos padrões de desempenho e expectativas positivas a respeito de recompensas resultantes do desempenho excelente. 2. Além disso. Os novos empregados que recebem tarefas relativamente solicitadoras estão mais preparados para desempenhar as tarefas posteriores com mais sucesso. Quando os principiantes são colocados em tarefas inicialmente fáceis. Programa de integração: É um programa formal e intensivo de treinamento inicial destinado aos novos membros da organização para familiarizá-los com a linguagem usual da organização. os colegas de trabalho. com os usos e costumes internos (cultura . lavagem cerebral. o supervisor representa o ponto de ligação com a organização e a imagem da empresa. manipulação e. 5. Antes mesmo do candidato ser aprovado. Supervisor como tutor: O novo funcionário pode ligar-se a um tutor capaz de cuidar de sua integração na organização. como: aculturação. treinamento. reforço negativo sobre comportamentos impróprios. Grupo de trabalho: O grupo de trabalho pode desempenhar um papel importante na socialização dos novos empregados.

não existe forma de . Em uma atmosfera informal. Mais: ela funciona como elemento de fixação e manutenção da cultura organizacional. a missão da organização e os objetivos organizacionais etc.Estratégias formais e informais de socialização: o processo formal de socialização age na preparação do novato para ocupar um cargo específico na organização. a cultura da organização e se comporte daí para frente como um membro 18 que veste definitivamente a camisa da organização. O programa de integração procura fazer com que o novo participante assimile de maneira intensiva e rápida. mais o papel de novato é segregado e especificado. o programa de integração pode durar meses. na prática. os principais produtos e serviços. que permitem a ele participar como membro de uma organização. mas que depois contam com um acompanhamento. Quanto mais formal for o processo. enquanto em outras são coordenados pelo órgão de treinamento e executados por gerentes de linha nos diversos assuntos abordados. em níveis de gerência ou direção. o que influencia as atitudes e valores dos novatos. .organizacional). do novo participante pelo gerente ou supervisor que funcionam como seus tutores e que se responsabilizam pela avaliação de seu desempenho. a estrutura de organização (as áreas ou departamentos existentes). estão combinadas de diversas formas. A socialização organizacional implica também na renúncia de certas atitudes. em uma situação real ou de laboratório. Em algumas organizações. A socialização organizacional constitui o esquema de recepção e de boas-vindas aos novos participantes. Nos casos em que o novo membro ocupa posição de destaque. São programas que duram de um a cinco dias. com uma agenda que programa sua permanência nas diversas áreas ou departamentos da organização com um tutor permanente (seu gerente ou diretor) e um tutor específico para cada área ou departamento envolvido na agenda. valores e comportamentos. dependendo da intensidade de socialização que a organização pretende imprimir. e maior a tensão. as quais serão descritas a seguir. Na realidade. O autor apresenta sete estratégias de socialização organizacional empregadas pelas empresas. normas de comportamentos esperados. a socialização representa uma etapa de iniciação particularmente importante para moldar um bom relacionamento em longo prazo entre o indivíduo e a organização. Sua finalidade é fazer com que o novo participante aprenda e incorpore os valores. o novo funcionário recebe um manual com informações básicas para sua integração na organização. que não são mutuamente exclusivas e que. Maanen (1989) apresenta uma definição mais completa para socialização organizacional: é o processo pelo qual o indivíduo aprende valores. Quase sempre. normas e padrões de comportamento que a organização considera imprescindíveis e relevante para um bom desempenho em seus quadros. em médio prazo. os programas de integração são totalmente desenvolvidos pelo órgão de treinamento. Este é um processo que ocorre durante toda a carreira do indivíduo dentro da organização.

da relação estabelecida entre o agente socializador e o novato. 19 . contra ou a favor da organização. o processo formal de socialização é apenas a primeira etapa da socialização. Essa estratégia apresenta um elevado risco. o indivíduo é socializado com base em sua iniciativa e não por qualquer padrão a ser seguido.Estratégias individuais e coletivas de socialização: na socialização coletiva. de acordo com as habilidades e ambições dos indivíduos. as estratégias por concurso possibilitam uma certa participação e uma cooperação entre os indivíduos. com resultados relativamente similares. ele desenvolve quase sempre uma consciência coletiva. sendo uma garantia de que a organização não sofrerá qualquer mudança ao longo do tempo.Estratégias seqüenciais e não seqüenciais de socialização: a socialização seqüencial caracteriza-se por processos transitórios marcados por uma série de estratégias discretas e identificáveis. por meio dos quais um indivíduo deve passar a ocupar uma posição e exercer um papel na organização. . Dessa forma. As estratégias individuais também geram mudanças mas. Quando um grupo é introduzido em um programa de socialização. As mudanças são isoladas e dependem. Entretanto. . pois o novo integrante poderá ficar confuso e se perder durante o processo de socialização. . poderá também estimular a criatividade e a iniciativa dos novos integrantes. o que pode gerar certa incompatibilidade entre os objetivos organizacionais e os do grupo. devendo aprender informalmente as práticas reais em seu setor. os indivíduos desconhecem a dimensão tempo do período de transição. . é necessário que exista um programa seqüencial para que o processo de aprendizagem seja facilitado. quando comparadas às coletivas. Nas estratégias de socialização variáveis. . os novatos são agrupados em conjunto para o início e processados por um conjunto de experiências idênticas. o tempo de transição é padronizado.Estratégias fixas e variáveis de socialização: os processos de socialização fixa proporcionam a um novato um conhecimento preciso do tempo que necessitará para completar determinado estágio.Estratégias de socialização em série e isoladas: a estratégia de socialização em série é aquela que prepara os novos integrantes para assumir diversos papéis organizacionais similares. em grande parte.Estratégias de socialização por competição ou por concurso: as estratégias de socialização por competição caracterizam-se pela separação dos novos integrantes em grupos ou diferentes programas de socialização. A segunda etapa ocorre quando o novato é colocado em sua posição organizacional designada. Os processos não seqüenciais são realizados em um estágio transitório e sem uma relação com outras etapas anteriormente realizadas.diferenciação e grande parte da aprendizagem do novato necessariamente ocorre no interior das redes sociais e das tarefas relacionadas que envolvem sua posição. Por outro lado. perdem em termos de homogeneidade de resultados. Nas estratégias isoladas de socialização. cada um atua por conta própria e dificilmente procura apoio do grupo para as ações de sintonia. Contudo. Assim. ou seja.

As estratégias descritas acima são utilizadas pelas organizações para controlar e dirigir o comportamento de seus membros. Ele é. Exceto a satisfação narcísica que isso provocou. Outros estudos também têm considerado o processo de seleção como a oportunidade inicial de atrair indivíduos que se identifiquem com os valores organizacionais e que reforcem a cultura da organização (CHATMAN. . .. 1985). Para os autores. candidatos que identifiquem com os valores organizacionais e que reforcem a cultura da organização. Já no processo de despojamento procura-se destruir e despojar certos valores e crenças dos novatos. Ou seja. p. no lugar das estratégias de investiduras. 114). ou designar trabalhos que exigem pouca qualificação a indivíduos mais qualificados.Treinamento na linha de fogo: os esforços de treinamento específico para o trabalho voltam-se para o domínio das disciplinas básicas da organização. como mostram Pagés et al. 1991. 1986.Experiências indutoras de humildade: particularmente nos primeiros meses. isso cria uma ligação tão sólida que não se consegue abandonar o que foi conseguido com tanta dificuldade”. Ele é bem-vindo da forma como ele é. submetido a uma série de “testes” rigorosos para obter acesso privilegiado na organização. Essa fase procura evocar uma auto-análise que facilite a aceitação dos valores da organização e assemelha-se às estratégias de despojamento relatadas por Maanen (1989). tais como atribuir metas difíceis de serem cumpridas. provavelmente produzem resultados similares entre os novatos”.A seleção: esta fase é dirigida a atrair candidatos “certos” e predispostos a aceitar as crenças e valores da organização.Estratégias de socialização por meio de investidura e despojamento: estas estratégias objetivam confirmar ou destruir a identidade do novato na organização. ainda. Essas . a organização procura reduzir a autocomplacência do indivíduo. (1987. Os candidatos que são recrutados passam por uma bateria de testes e entrevistas para que sejam selecionados somente aqueles indivíduos predispostos a aceitar as crenças e valores da organização. 60) ressalta que “as estratégias de despojamento. “a seleção é bastante rígida (…) aquele que for escolhido terá tendência a considerar-se como entrando numa elite. RYNES & BOUDREAU. procura confirmar e estabelecer a viabilidade e utilidade dos valores pessoais dos novatos. Por meio de “experiências indutoras de humildade”. p. HOLLAND. Maanen (1989) enfatiza. selecionando-se assim. crenças e valores. a organização procura criar condições para que os novos integrantes passem a questionar seus comportamentos. Maanen (1989. Outro autor importante e que vem complementar a teoria de Maanen (1989) é Pascale (1985) que também destaca sete passos inter-relacionados. que grande parte do controle sobre o comportamento do indivíduo nas organizações é resultado direto da maneira pela qual a pessoa é socializada. Outro aspecto que merece destaque no processo de seleção é o reforço do sentimento de ultrapassar barreiras e de forte identificação do indivíduo com a organização na qual ele está ingressando. de modo a promover uma maior abertura para as normas e valores da organização. na investidura. geralmente. que estruturam o processo de socialização dos indivíduos na cultura organizacional: .

mitos. o folclore reforça o código de conduta sobre “como realizamos as coisas por aqui”. Para Motta (1991. . “ …quaisquer que sejam as modalidades e a intensidade do poder disciplinar. Dessa forma. O treinamento é uma espécie de materialização da cultura. Eles devem dar provas constantes de sua competência. Motta (1981. além do repasse do conhecimento técnico necessário à realização do trabalho. . freqüentemente necessários para o sucesso da organização. ele tem sempre o mesmo objetivo: formar corpos dóceis e produtivos”. que mantêm a organização em sintonia com a sociedade. o processo de socialização organizacional pode ser considerado como uma estratégia de poder e influência utilizada pela empresa para formar corpos dóceis e produtivos.Modelos consistentes de papéis: os processos de socialização organizacional abrangentes oferecem modelos consistentes de papéis a desempenhar. Nas organizações. por meio do comprometimento contínuo com os valores compartilhados. devem dar prova de coerência e persistência de seus pensamentos”. 8). para os novos integrantes. 1989) e até mesmo a memória. Nesse sentido é também importante tratar da questão do poder nas organizações.Uso de sistemas de recompensa e controle: a organização dedica um extremo cuidado à criação de sistemas abrangentes e consistentes. . p. O enfoque se dá particularmente nos aspectos relacionados ao sucesso competitivo e aos valores da organização. com o propósito de medir os resultados operacionais e recompensar o desempenho individual. os indivíduos podem ser aprisionados pelas estruturas de poder nas organizações e também pela sua própria conduta. a organização comunica as maneiras .Aderência aos valores centrais da organização: a identificação com as crenças e valores comuns capacita os indivíduos a reconciliarem os sacrifícios pessoais. rituais e símbolos da organização oferecem imagens fortes da empresa. que influenciam a maneira como as pessoas vêem a organização. 20 . a construção da subjetividade dos indivíduos que estão a ele submetidos. gestos e risos (FOUCAULT.Folclore do reforço: as histórias. Essa fase essencial cria uma base de confiança entre a organização e o indivíduo. Particularmente. porém. Neste sentido. 41) complementa com a seguinte afirmação. Esse poder de restrição e de opressão controla corpo. Visa. a fim de serem reconhecidos e recompensados. as organizações exercem um controle muito forte sobre os indivíduos. p. os indivíduos “nunca podem ou devem perder a sua pose. Nesse ínterim. por meio de um poder disciplinar presente nas suas práticas sociais cotidianas.experiências extensivas e cuidadosas têm por objetivo inculcar no novo integrante os valores da organização.

sendo que este pode abranger tanto o trabalho a ser feito quanto a organização. . acarretando algumas mudanças. para Marx. sentindo-se assim aceito pelos colegas como pessoas de valor e digna de confiança. atitudes e expectativas. quando as expectativas e a realidade são diferentes. É nesta etapa que o novo empregado terá o primeiro contato com a empresa. para que conheça melhor a cultura organizacional da empresa e desempenhe com maior sucesso sua nova função. assinale o que for correto sobre o conceito de classes sociais. Processos O estágio da pré-chegada: reconhece explicitamente que cada pessoa chega a uma empresa com um conjunto de valores. pelas relações de cooperação que se desenvolvem entre os diversos grupos envolvidos no sistema produtivo. que favoreça a cooperação. cursos.como reconhece formal ou informalmente seus “vencedores”. atos e valores. as relações entre as classes sociais transformamse ao longo da história conforme a dinâmica dos modos de produção. Ou seja. etc. proporcionam uma forte identidade organizacional. a integridade e a comunicação. 01) Sua utilização visa explicar as formas pelas quais as desigualdades se estruturam e se reproduzem nas sociedades. Finalmente. Se as expectativas forem mais ou menos de encontro com a realidade. O estágio da metamorfose: é a etapa onde o novo funcionário irá superar alguns problemas descobertos durante o estágio de encontro. Exercícios . o estágio de encontro irá confundir as percepções geradas antes. O estágio do encontro: é a etapa onde o novo funcionário se vê diante da diferente posição entre suas expectativas e a realidade. Identidade e Socialização 01. os novos empregados devem passar por uma socialização que vai desligá-los de suas pressuposições anteriores.Indivíduo. A socialização é um processo de adaptação que ocorre quando uma pessoa passa de fora para dentro da empresa. Entretanto. que carregam de maneira bem forte os traços e atributos que a organização valoriza.(UEM – Inverno 2008) Em termos sociológicos. palestras. o objetivo da socialização é estabelecer uma base de atitudes. o novo funcionário é submetido a treinamentos. definem-se. sobretudo. substituindoos pelos padrões fundamentais. Ele terá absorvido as normas da organização e de seus colegas de trabalho. Pascale (1985) advoga que essas fases. 04) As classes sociais. quando bem gerenciadas. 02) De acordo com Karl Marx. Para esse autor.

a proximidade surge então como produtora do vínculo social e o camponês sedentário como o ser social por excelência. os componentes não sociais das experiências da criança estão entremeados e são modificados por outros componentes.2006) “Três grandes dimensões fundamentam o vínculo social.08) A formação de uma classe social. 02) a relação que a criança estabelece com o seu corpo não deveria ser do interesse das ciências biológicas. só se realiza na sua relação com a classe opositora. 08) as experiências individuais. José de Souza. o que permite aumentar as 21 trocas. são influenciados pelos valores e pelos costumes que caracterizam sua sociedade. 2. mas apenas da sociologia. p. o sentimento de pertença à humanidade que nos leva a reforçar nossos vínculos com os outros seres humanos: força da linhagem. o fato de viver junto. Marialice M. Primeiro.” (BOURDIN. 16) A afirmação “a história da humanidade é a história das lutas de classes” expressa a idéia de que as transformações sociais estão profundamente associadas às contradições existentes entre as classes. A questão local. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos. até mesmo aquelas que parecem mais relacionadas às nossas necessidades físicas. desde o nascimento. Peter L. 200). mas também com outros seres humanos. desde o nascimento. que designa o aprendizado. pela experiência social. a complementaridade e a troca: a divisão do trabalho social cria diferenças com base na complementaridade. pode receber dos adultos distintas respostas de satisfação. a burguesia. é a história de suas relações com outras pessoas. A biografia do indivíduo. e MARTINS. Alain. Sociologia e Sociedade. In FORACCHI. Podemos concluir do texto que 01) os indivíduos.” (BERGER. Por fim. Em segundo lugar. e BERGER. 1977. no caso do exemplo. 04) o fenômeno tratado pelo autor corresponde ao conceito de socialização.(UEM – Verão 2008) Leia o texto a seguir: “Desde o início a criança desenvolve uma interação não apenas com o próprio corpo e o ambiente físico. Brigitte. 16) o desconforto físico que uma criança sente. como os proletários. pelos indivíduos. do vínculo sexual e familiar. dependendo da sociedade na qual eles estão inseridos. como a fome. 3. 28. é correto afirmar: .(UEL.) Com base no texto e nos conhecimentos sobre o tema. o frio e a dor. das regras e dos valores sociais. Além disso. Rio de Janeiro: DP&A. ou seja. afirmação de um destino comum da humanidade por grandes sistemas religiosos e metafísicos. contêm dimensões sociais. “Socialização: como ser um membro da sociedade”. 2001 p. de partilhar uma mesma cotidianidade.

No convite distribuído pelos veteranos não havia informação sobre o traje apropriado para a festa. Assinale a alternativa correta. IV. d) Pela ausência da cotidianidade. olhares de espanto e de admiração. O fato social é todo fenômeno que ocorre ocasionalmente na sociedade. O fato social é exterior ao indivíduo e apresenta-se generalizado na coletividade. como fato social. a) Apenas as afirmativas I e II são corretas. As regras que regem o comportamento e as maneiras de se conduzir em sociedade podem ser denominadas. e) Apenas as afirmativas I. segundo Émile Durkheim (1858-1917). compareceu vestido com traje social. Considere as afirmativas abaixo sobre as características do fato social para Émile Durkheim.(UEL – 2004) O texto a seguir refere-se à situação dos apátridas na 2ª Guerra Mundial: . b) Apenas as afirmativas I e IV são corretas. O fato social expressa o predomínio do ser individual sobre o ser social. cochichos com comentários maldosos. O calouro. I. por resultarem de criações subjetivas dos indivíduos. provocando risos. em que todos estavam trajando roupas esportivas. O fato social caracteriza-se por exercer um poder de coerção sobre as consciências individuais. 4. b) Os sistemas religiosos e metafísicos são fatores de isolamento social. III. III e IV são corretas. e) O forte sentimento de pertencer à humanidade desmantela a noção de comunidade e minimiza o papel da afetividade nas relações sociais.(UEL . 5. O calouro não estava vestido de acordo com o grupo e sentiu as represálias sobre o seu comportamento. imaginando que a festa seria formal. II e IV são corretas.2003) Um jovem que havia ingressado recentemente na universidade foi convidado para uma festa de recepção de calouros. d) Apenas as afirmativas I. II. causou estranheza. c) Apenas as afirmativas II e III são corretas.a) A divisão do trabalho social na sociedade contemporânea desagrega os vínculos sociais. Ao entrar na festa. as grandes metrópoles deixaram de ser lugares de complementaridade e de trocas. c) O cotidiano das pequenas cidades e do mundo campesino favorece a criação de vínculos sociais.

(Adaptado de: RODRIGUES.] A calamidade dos que não têm direitos não decorre do fato de terem sido privados da vida. Durkheim destaca dois tipos de solidariedade: a mecânica e a orgânica. mas a impossibilidade de encontrar um novo lar. conforme o tipo de divisão do trabalho social que predomina na vida coletiva numa determinada época tem-se um tipo diferente de solidariedade entre os indivíduos. Pois sem consenso não há cooperação entre os indivíduos e. Desse modo. 6. na privação de um lugar no mundo que torne a opinião significativa e a ação eficaz. Algo mais fundamental do que a liberdade e a justiça. imperialismo. é produzido pela cooperação entre os indivíduos através de um processo de interação que Durkheim chamou de divisão do trabalho social. d) Ao apátrida é garantida ressonância às suas opiniões mais significativas. p. por sua vez. No Brasil. por exemplo. é correto afirmar: a) Obter o reconhecimento por uma comunidade é condição básica para o gozo de direitos. está em jogo quando deixa de ser natural que um homem pertença à comunidade em que nasceu. nenhum território em que pudessem fundar uma nova comunidade própria [. 230. que são os direitos do cidadão. p. Hannah. 1989. Alberto T. .Edição de 1988) e da Constituição de 1988. Sociologia da Educação. São Paulo: Companhia das Letras.“O que era sem precedentes não era a perda do lar. nenhum país ao qual pudessem ser assimilados. b) A condição em que se encontra o apátrida é igual à condição de escravo. e) Ser um apátrida é ser reconhecido como um indivíduo com direitos fora de seu país de origem. não há vida social. 2000. Rio de Janeiro: DP&A..) Com base no texto. nem da igualdade perante a lei ou da liberdade de opinião – fórmulas que se destinavam a resolver problemas dentro de certas comunidades – mas do fato de já não pertencerem a qualquer comunidade [. portanto. 229.. da liberdade ou da procura da felicidade. que apresentam artigos e parágrafos da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT. nota-se a influência das idéias 22 positivistas em boa parte de sua legislação.] A privação fundamental dos direitos humanos manifesta-se.27-28. Este consenso é garantido pelo meio moral que compartilhamos.) Considere as afirmativas a seguir. primeiro e acima de tudo. o qual. c) Ser privado da vida é menos importante que ser privado da liberdade. totalitarismo. 227. Origens do totalitarismo: anti-semitismo.” (ARENDT.(UEL – 2005) Emile Durkheim observa que uma condição fundamental para que a sociedade possa existir é a presença de um consenso social. De súbito revelou-se não existir lugar algum na terra aonde os emigrantes pudessem se dirigir sem as mais severas restrições...

trabalho escravo. 30 ago.. as categorias são representações essencialmente coletivas. de espaço. 2004. III.. aí estão assassínios praticados por graúdos mandantes que se servem de pistoleiros profissionais. [. [onde] a eficácia das normas está em perigo”. II. São Paulo. d) Consciência coletiva. b) Fato social.. p. tratados. de personalidade etc.].]”.I. 7. são significativos os homicídios no mundo inteiro. menores para prostituição. No Brasil. são aquelas que os filósofos chamam de categorias do entendimento: noções de tempo.. Remetem ao conceito de solidariedade orgânica.. Pelo número de concepções. e) II. de número. apenas as afirmativas: a) I e III. “[Da Organização Sindical:] A solidariedade de interesses econômicos dos que empreendem atividades idênticas.. de causa. c) Coerção social. sendo vedada a interferência estatal em seu funcionamento”. no estudo e solução dos problemas que se relacionam com a respectiva categoria ou profissão liberal”. como órgãos técnicos e consultivos.. IV..) Assinale a alternativa que indica o conceito utilizado por Emile Durkheim (18581917) para definir uma “condição social” do tipo descrito no texto. b) I e IV. a) Anomia. A 3. No plano da efetivação dos direitos. está-se na era dos direitos.. . 8. para utilizar a expressão de Lipovetsky [. e) Conflito social. c) II e III. a deplorável guerra do tráfico de drogas e as chacinas em grandes cidades brasileiras. similares ou conexas constitui o vínculo social básico que se denomina aqui categoria econômica”. não se estaria na era do vazio [de direitos]?” [Situações sociais desse tipo são analisadas por alguns sociólogos a partir da consideração de que nos encontramos em] “uma condição social em que as normas reguladoras do comportamento perderam a sua validade. etc. as condições sub-humanas a que são submetidas centenas de milhões de pessoas [. tráfico de mulheres. (Folha de São Paulo. na forma da lei. “[São prerrogativas dos Sindicatos:] colaborar com o Estado. d) I.] Mas. de gênero... a de cooperativas independem de autorização. “[Dos direitos e deveres individuais e coletivos:] a criação de associações e. de substância. leis. II e IV. “[São condições para o funcionamento do Sindicato:] a proibição de qualquer propaganda de doutrinas incompatíveis com as instituições e os interesses da Nação [.]. III e IV.].(UEL – 2006) “Na raiz de nossos julgamentos existe um certo número de noções essenciais que dominam toda a vida intelectual. em pleno século XXI [. como pensamos.(UEL – 2005) “A despeito de se viver na era dos direitos. se.

a seguir. c) Promover a instituição familiar. de sua morfologia. b) Aquelas representações cuja formação é exterior às instituições religiosas. p. insistindo que a moral é o mínimo indispensável. d) A tradução de estados mentais dos indivíduos portadores de distintas visões de mundo. Esses pressupostos. ao crime organizado. . a respeito das condições para o bom convívio dos indivíduos numa coletividade. é correto afirmar que a noção de categorias do entendimento compreende: a) Os estados emocionais fugazes dos indivíduos de distintas sociedades. permitem a formulação de uma avaliação específica sobre o problema da criminalidade violenta praticada por jovens no Brasil. c) O modo como a sociedade vê a si mesma nos modos de agir e pensar coletivos. 1981. enfatizando aqueles voltados à população de 15 a 24 anos. a moral (conjunto de valores e juízos direcionados à vida em comum) é o amálgama que une os indivíduos à vida em grupo. reforçar o papel socializador da escola com ênfase na educação para a paz e 23 para a cidadania e melhorar o funcionamento do sistema legal. sem o qual as sociedades não podem viver em harmonia. econômicas etc.” (DURKHEIM. Sociologia. 9. Durkheim afirma o papel do regulamento moral para a integração social. de suas instituições religiosas.traduzem antes de tudo estados da coletividade: elas dependem da maneira pela qual esta é constituída e organizada. 154-157.(UEL – 2004) O sociólogo francês Émile Durkheim (1858-1917) considera a “comunhão de valores morais” a condição fundamental e primeira para a construção da coesão social. morais e econômicas. morais. algumas possíveis propostas de ação para enfrentar esse problema. e) As noções incomuns à vida intelectual de uma sociedade que deturpa os julgamentos dos sujeitos. Indicam-se. aos esquadrões da morte e a unificação das polícias. Para ele. e parte do seu conteúdo se materializa em normas e regras. b) Estimular a produção econômica para a geração de empregos.) Com base no texto e nos conhecimentos sobre o tema. São Paulo: Ática. hoje. Assinale a alternativa que está em conformidade imediata com os pressupostos sociológicos mostrados no texto. Émile. A moral traça as orientações da conduta ideal para as pessoas. a) Priorizar o combate ao narcotráfico.

e) II. Nos aniversários. penso apenas com minhas idéias. A troca de presentes cria e alimenta um circuito de comunicação nas sociedades. mas é difícil! Às vezes faço o que quero. meus amigos. a prática de “presentear” é algo fundamental a todas as sociedades: segundo ele. trocamos presentes. sei lá. II e IV. O lucro obtido a partir dos bens trocados é o que fundamenta as relações de troca de presentes. faço só o que desejo. IV. e) Investir no controle da natalidade. mas na maioria das vezes sigo meu grupo. é comum que o convidado leve um presente. III e IV. Segundo o sociólogo francês Marcel Mauss. e o meu esforço ajuda a sociedade a progredir.. reduzindo o número de nascimentos a médias compatíveis com os índices de desenvolvimento econômico previstos 10. (Jovem estudante e trabalhadora em uma loja de shopping). temos certa obrigação em convidá-lo para o casamento do nosso filho. a relação da troca. se o vizinho nos convida para o casamento de seu filho. O ato de presentear instaura e reforça as alianças e os vínculos sociais. c) III e IV. impulsiva e impaciente e providenciar o tratamento terapêutico como política pública. esta obrigatoriedade de dar. na festa de seu aniversário. • Sou um ser social. nas festas de amigo-secreto e em muitas outras ocasiões.d) Detectar antecipadamente os jovens portadores de personalidade irritável. b) I e III. Sinto que dependo disso tudo e gostaria muito de ser . autônomo. I..(UEL – 2006) Ao receber um convite para uma festa de aniversário. considere as afirmativas a seguir. a escola. Com base no texto e nos conhecimentos sobre o tema. Do mesmo modo. minha religião. gostaria de fazer o que desejo. Não sigo o que me obrigam e pronto! Acredito que com a força dos meus pensamentos poderei realizar todos os meus sonhos. d) I. o que penso veio da minha família. este indivíduo espera receber presentes de seus convidados.2008) Leia os depoimentos a seguir: • Sou um ser livre. sou único. da minha cabeça. 11. independente. O presentear como prática social originou-se quando da consolidação do modo capitalista de produção. III. Reciprocamente. de receber e de retribuir é mais importante que o bem trocado. Estão corretas apenas as afirmativas: a) I e II. minha família. dos meus amigos e parentes. II.(UEL . nos casamentos.

fundado no conceito dos três estados de Augusto Comte. Durkheim. Marx.livre. fundado no liberalismo de vários autores dos séculos XVIII a XX. e) Corporativismo positivista. posso escolher coisas. base da divisão social e transformação do modo de produção. a) Solidariedade mecânica. Fundamentos empíricos da explicação sociológica. Assinale a alternativa que descreve o objeto próprio da Sociologia. a) O conflito de classe. muita gente não percebe. as explicações sociológicas sobre a relação entre indivíduo e sociedade presentes nas falas. como ir a raves. teoria organicista de Spencer. Weber. . b) Teoria da consciência de classe. sociologia compreensiva. (Jovem estudante e Office boy). respectivamente. É legal a gente viver segundo as regras e ao mesmo tempo poder mudá-las. fundada em K. Rio de Janeiro: Cia Editora Nacional. seguranças. b) O fato social. individualismo. teoria da consciência de classe. segundo Emile Durkheim (1858-1917). fundado no liberalismo de vários autores dos séculos XVIII a XX. mas com alguns limites. Marx. Nas raves existem regras. sinto que sou livre. 12. fundada em K. c) Individualismo. Marx. taxas. funcionalismo. Então. fundada no conceito de ação social e suas tipologias de M. • Sinto que às vezes consigo fazer as coisas que desejo. fundada no conceito de ação social e suas tipologias de M. mas há toda uma estrutura. 73). fundada em K. funcionalismo. no sentido de defender o princípio segundo o qual nenhuma ciência é possível sem definição de um objeto próprio e independente. sociologia compreensiva. exterior e coercitivo em relação à vontade dos indivíduos. p. mesmo que minha mãe não permita ou concorde. Durkheim. fundado no conceito de consciência coletiva de E. fundado em Augusto Comte. Weber. (FERNANDES. fundado na teoria política liberal. Weber. 1967. Assinale a alternativa que expressa.2008 ) De acordo com Florestan Fernandes: A concepção fundamental de ciência. fundada em K. individualismo metodológico.(UEL . teoria da consciência de classe. teoria da consciência de classe. de Emile Durkheim (1858-1917). F. fundada no conceito de ação social e suas tipologias de M. d) Sociologia compreensiva. fundada no funcionalismo de E. Em outros momentos faço o que me mandam e acho que deve ser assim mesmo. mas não sou! (Jovem estudante em uma escola pública que trabalha em empregos temporários). é realista. Marx. etc.

p. A. 106. como se diz sempre.. d) A sociedade. funcionava o sistema de obrigações recíprocas. o padrinho ajudar a comadre até ‘arranjar a vida’.” (CUNHA. se o pai morria. [. dando com isso origem a relações semi-feudais que implicariam uma situação de ‘latifúndios de tipo senhorial a explorarem camponeses ainda envolvidos em restrições da servidão da gleba’. A sua aparência. 95.) IV.. p. Economia e sociedade. antes de ser um líder político. 247. Diz que era costume. M. entretanto.] Ocorre que o coronel não manda porque tem riqueza.c) A ação social que define as inter-relações compartilhadas de sentido entre os indivíduos. O vínculo não obedece a linhas tão simples. C. 1989. 1982. O nonagenário Nhô Samuel lembrava com saudade o dia em que o pai. mas . “Mesmo entre gente humilde. nem vem dar louvado (pedir a benção).]. não necessariamente. 3) Com base no texto. Falta-lhe a plástica impecável. sitiante perto de Tatuí. 2000. p..(UEL . a Sociologia significa: “uma ciência que pretende compreender interpretativamente a ação social e assim explicá-la casualmente em seu curso e em seus efeitos. São Paulo: Livraria Duas Cidades. ainda presentes nas relações de trabalho rural brasileiro.) III. quando o afilhado cresce. vol.” (PRADO Jr. o desempeno. 24 e) A cultura. Hoje.” (WEBER. revela o contrário.. Os Parceiros do Rio Bonito. orientando-se por este em seu curso. 13.” Por ação social entendem-se as ações que: “quanto ao seu sentido visado pelo agente.. Brasília: Editora UnB. ao primeiro lance de vista. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral. I. “O coronel. a gente paga o batismo e.2008) De acordo com Max Weber.. “Não há assim por que considerar que as formas anacrônicas e remanescentes do escravismo. diz Nhô Roque. considere as afirmativas a seguir: I. antes de tudo. que se traduziriam no mero prolongamento do poder privado na ordem na ordem pública [. um forte. São Paulo : Círculo do Livro. produto da vontade e da ação de indivíduos que agem independentes uns dos outros. resultado das relações de produção e da divisão social do trabalho. “O sertanejo é. empregados ou dependentes. a estrutura corretíssima das organizações atléticas.” (CANDIDO. E. é um líder econômico. o fazendeiro que manda nos seus agregados. lhe disse que era tempo de irem buscar a novilha dada pelo padrinho. A Revolução Brasileira. Os Sertões.) II. 1987. Traduzido por Regis Barbosa e Karen Elsabe Barbosa.. São Paulo : Brasiliense. se refere ao comportamento dos outros. Isso tudo não tem sentido na estrutura social brasileira. porém. p.

como a diferença entre os termos “sexo” e “gênero”. 25 . na escola. Porto Alegre: Editora Globo. II e III. e que propicie o debate em torno das questões relacionadas às desigualdades de gênero. A introdução ao estudo deste tópico pode ser realizada com a apresentação de um filme que propicie o debate sobre o tema (caso a escola tenha os recursos necessários). mesmo. analisar e debater os problemas envolvidos nas situações apresentadas em cada trabalho proposto.se manifestam tratamentos discriminatórios em relação à mulher e às crianças do sexo feminino. R. é manifesta a desigualdade no tratamento ou na posição socialmente ocupada por homens e mulheres. Gênero como fator de desigualdade: Gênero e desigualdade As atividades sugeridas devem propiciar aos alunos desenvolver as capacidades de identificar.) Correspondem ao conceito de ação social citado anteriormente somente as afirmativas a) I e IV. divulgado em jornal e/ou televisão. utilizando os conceitos e idéias centrais referentes ao tópico. d) I. 622.manda porque se lhe reconhece esse poder. 2. entre pais e filhos e. É também possível identificar tratamentos desiguais entre meninos e meninas não só na família como nas escolas. Como. 1973. claramente. O principal propósito dessa atividade inicial é provocar o reconhecimento por parte dos alunos da existência de tratamento desigual entre homens e mulheres nos vários aspectos e dimensões da vida social. tanto por parte da direção como dos professores e funcionários. v. criando oportunidade para o professor provocar questões iniciais que permitirão o desenvolvimento do assunto. Filmes sugeridos: Na falta de condições para a apresentação de um filme. III e IV b) II e III c) II e IV. os aspectos culturais e sociais envolvidos nas desigualdades e os preconceitos referentes ao gênero e à sexualidade. Outra maneira de iniciar o estudo desse tópico é através de um convite aos estudantes para que apresentem. relacionado a preconceitos e discriminações de vários tipos. o professor pode lançar mão da narração de um conto ou da exposição de um caso real. os casos em que nos relacionamentos familiares . do conhecimento público. situações vividas ou observadas em que. por exemplo. entre irmãos de diferentes gêneros . num pacto não escrito. Os donos do poder.” (FAORO. nos grupos de convivência. oralmente. As meninas e as jovens também são capazes de expressar situações em que a discriminação e o preconceito contra o gênero feminino aparecem nos relacionamentos cotidianos na família. p.entre mulher e marido. e) II.

. esperançosos e voltados à vida doméstica. um menino poderia ser sancionado positivamente em seu comportamento (“Que menino valente você é!”). as escolas e outros núcleos de agrupamento talvez estejam em divergência com outros. os alunos poderão ler e discutir o seguinte trecho do capítulo sobre “Gênero e Sexualidade”. Os brinquedos. do livro Sociologia. 2005) “Um caminho dentro da Sociologia para se analisar “as origens das diferenças de gênero é estudar a socialização do gênero. Os personagens masculinos tendem a representar papéis mais ativos e aventurosos. “Embora convenha nutrir certo ceticismo com relação a qualquer adoção indiscriminada da abordagem que postula os papéis dos sexos. as teorias de socialização ignoram a capacidade dos indivíduos de rejeitar ou modificar as expectativas sociais acerca dos papéis sexuais. De acordo com essa visão.. Por exemplo. Pelo contato com vários organismos sociais. enquanto os femininos são retratados passivos. os personagens masculinos em geral superam em número os femininos na maior parte dos livros infantis. comercializados para audiências jovens. ou ser alvo de sanções negativas (“Meninos não brincam com bonecas”).” Na socialização do gênero “meninos e meninas são guiados por “sanções” positivas e negativas. Essas afirmações positivas e negativas ajudam meninos e meninas a aprender os papéis sociais esperados e a adequar-se a eles. as identidades de gênero são resultados de influências sociais”. forças socialmente aplicadas que recompensam ou restringem o comportamento. As diferenças de gênero não são biológicamente determinadas. Essa abordagem faz distinção entre sexo biológico e gênero social – uma criança nasce com o primeiro e desenvolve o segundo. “As influências sociais na identidade de gênero fluem por meio de diversos canais. esteja mudando. mostram diferenças distintas no tratamento de meninos e meninas. Pesquisadoras feministas demonstraram como produtos culturais e de mídia.2. são culturalmente produzidas.”. as crianças internalizam gradualmente as normas e as expectativas sociais que são percebidas como correspondentes ao seu sexo. de Anthony Giddens (pp. de alguma forma.. os livros ilustrados e os programas de televisão experienciados por crianças tendem a enfatizar diferenças entre os atributos masculinos e femininos. encarnam atitudes tradicionais .” Essa interpretação dos papéis sexuais e da socialização foi criticada e muitos escritores argumentam que “a socialização de gênero não é por si mesma um processo tranqüilo: diferentes organismos como a família. muitos estudos mostram que. tanto primários como secundários. como a família e a mídia. em certa medida. por exemplo. programas de televisão e filmes. Embora a situação.. Além disso. “ Estudos sobre as interações entre pais e filhos. a aprendizagem de papéis do gênero com o auxílio de organismos sociais.”. Estudo dirigido do texto abaixo e discussão sobre o tema:Após terem sidos expostos a uma introdução geral sobre o tema da sexualidade e do gênero. as desigualdades de gênero surgem porque homens e mulheres são socializados em papéis diferentes. mesmo quando os pais acreditam que suas reações para ambos sejam iguais. 105-6..A. contos de fadas. Artmed Editora S.

de estudante. SEXUALIDADE. pois nos indica uma sociedade 26 com mecanismos bastante violentos de produção de indivíduos. não custam lembrar que este "sacrifício" todo não é feito . não nascem violentos.apresentada em filme. Os homens são ensinados. de professor. Antes que alguém comece a sentir pena dos homens. papel . tendo que se mostrar tão duros. Dá medo viver numa sociedade que.) GÊNERO. Por um lado.atribuição de natureza social relacionada a alguma função e/ou desempenho esperado. Glossário: sanção – pena ou recompensa (reforço positivo ou negativo) com que se tenta garantir a execução de uma norma ou lei social. socialmente. dia a dia. Os papéis sociais são expectativas socialmente definidas que uma pessoa segue numa dada posição social.para com o gênero e os tipos de objetivos e ambições esperados em meninos e meninas.Explique com suas palavras o que se quer dizer com a afirmação “homens e mulheres são socializados em papéis diferentes”.em que claramente está manifesto um preconceito contra mulheres ou homossexuais. coloca em ação estratégias que exigem do homem desempenhos que o produzem enquanto um guerreiro: indivíduo violento. O que o termo “papéis” significa para a análise sociológica? (recordar o estudo sobre o tema da socialização em sua relação com a desigualdade de gênero) . enfim. condenados a tantos sacrifícios. violência e poder: dá para mudar esta equação? Fernando Seffner1 Homens não nascem prontos. em revista. de pai. a serem assim. de acordo com o que é esperado. (Por exemplo: assumir o papel de médico. se atribui aos termos “sexo” e “gênero”? Por que é importante para a análise sociológica fazer tal distinção? . esta constatação é preocupante. tão "homens".Qual o sentido que. nem dispostos a "comer todas" usando o sexo como arma contra as mulheres. etc.Cite exemplos de “sanções” negativas ou positivas ( outros que os apresentados no texto) e que fazem parte do processo de socialização de gênero.” Algumas questões para orientar o estudo e o debate em sala: . em nossa sociedade. competitivo e agressor. cotidianamente. em programa de televisão ou em propaganda . coitados. para cada gênero.Indique alguma situação . em Sociologia. nem saem da barriga da mãe sedentos de poder. de esposa. No caso do texto o sentido do termo está diretamente associado às formas de aprovação ou reprovação dos comportamentos. tão competitivos. influenciando comportamentos diferenciais entre meninos e meninas? . VIOLÊNCIA E PODER Homens = sexo. tão fortes.

é sempre possível localizar. A situação é mais complicada. na estrutura econômica. vale lembrar que as coisas são mais complicadas. ou não. São os homens que gozam da maior mobilidade na sociedade (carro. No interior do campo masculino. a distribuição de poder é muito desigual. bem além do x e do y tradicionais. de salários. que na maior parte dos casos convivem de modo a permitir que os homens tenham estes comportamentos violentos. são os homens que estudam mais (embora as mulheres tenham conseguido avanços espetaculares nesta área. mas fica o alerta: a situação é complexa. Mas as dificuldades são muitas. e embora muitos homens confessem que o período escolar foi de grande tensão. Enfim. o jovem negro tem muito mais chances de estar na mira da agressão policial. E os processos educativos devem abranger também as mulheres. porque não estamos apenas tratando de processos educativos. as coisas não são tão simples como podem parecer. de carreira política. em alguns grupos populacionais. e que implica retirar poder dos homens e distribuir numa relação igualitária com as mulheres. Homens negros têm menos possibilidades de sucesso do que homens brancos. inclusive. Só que a mudança não virá apenas por conta de projetos de educação dos homens. Ou construir uma nova conceituação de poder. mesmo quando deles discordam. O quesito raça atua promovendo um desequilíbrio na masculinidade. Entre um jovem negro e pobre e um jovem branco e pobre. Os modos de constituir agregados familiares podem gerar situações de maior equidade de gênero. o que está diretamente relacionado a este esforço em galgar postos elevados e neles se manter). porque a questão não se resume aos pólos homem e mulher. por exemplo. são os homens que galgam os mais elevados postos na vida política e na esfera das empresas privadas (mas vale lembrar que os homens morrem primeiro. no mínimo. Simples. de cargos de mando e de benefícios em nossa sociedade. é coisa de homem. x e y têm muito a ver com a discussão dos regimes de gênero. essa mesma constatação – os homens são assim porque foram educados para serem assim – nos permite pensar em modos de mexer na equação. São os homens que acessam as melhores oportunidades de emprego. Por outro lado. a equação que colocamos no título. mas o princípio é esse mesmo: investir na educação de homens e mulheres. com muitas variáveis. diariamente atestado pelas manchetes dos grandes jornais.em vão. E antes que alguém comece a invejar os homens por causa desses benefícios. e são também eles que morrem mais em acidentes automobilísticos). Homens jovens e negros são alvo de um verdadeiro genocídio no Brasil. É necessário mudar elementos centrais de nossa estrutura social e. no interior de . uma equação de segundo grau. buscando um regime de equidade de gênero. uma situação em que homens e mulheres possam conviver com distribuição igualitária de poder. e bem antes das mulheres. mas de uma redistribuição de poder. não? De fato. também. por exemplo. Aliás. se forem educados de outro modo poderemos ter homens com outras características. Não vamos seguir exemplificando. O nível de escolaridade estratifica as oportunidades também. tendo como objetivo um regime de equidade de gênero. para "provar" sua masculinidade continuamente). e partilhar desse poder conjuntamente. EDUCAÇÃO PARA A IGUALDADE DE GÊNERO é. Se os homens são assim porque foram educados para serem assim.

EDUCAÇÃO PARA A IGUALDADE DE GÊNERO. não faltando materiais em sítios da internet e em organizações não governamentais feministas sobre a lei. e você verá que o "novo homem" que busca "superar a crise" é um homem que vai a salão de beleza. e isto tem gerado boa parte do que a imprensa descreve como sendo a crise dos homens. faz curso de gastronomia. e a balança tem pendido para as mulheres. Mas não podemos deixar de reconhecer que a perda de poder dos homens tem gerado. folheie suas páginas. via consumo de produtos e serviços. Conseguem mandar nas mulheres e em muitos homens. Para quem pode. e a Lei Maria da Penha é um bom exemplo disso. o que causa preocupação. escolhe roupas com apuro e aceita dividir a conta 27 do restaurante com a parceira. posicionaram as mulheres com possibilidades de disputar em regimes de quase igualdade com os homens o acesso a oportunidades na sociedade. ao acaso. até mesmo em crise do macho se fala. Tome uma revista semanal. Mas ainda falta muito para que os aprendizados escolares façam diferença na vida dos alunos. dentre eles em especial o movimento feminista. Outra frente de luta é para garantir o pleno acesso das mulheres à escola. tudo se resume ao mercado e ao consumo. é claro. auxiliando-os a compreender e atuar no contexto social em que vivem. em algumas situações. Penso que a melhor expressão para designar o que está acontecendo não é essa. Fala-se muito hoje em crise das masculinidades. podemos ter homens e mulheres como aliados na luta pela democratização do poder concentrado em mãos de determinados grupos de homens. um conjunto de características que configura um modo hegemônico de masculinidade. Este modo hegemônico designa homens que conseguem EDUCAÇÃO PARA A IGUALDADE DE GÊNERO. Em determinados contextos. Se este é o caminho para superar a crise da masculinidade. Uma parte da luta feminista se dá no sentido de conter a violência masculina sobre as mulheres. o homem em crise. aprendeu técnicas de prazer amoroso para melhor desempenho sexual. o que em boa parte já foi conseguido.uma determinada ordem de gênero. não precisamos de escola. pois essa designação tem permitido que uma parte da "saída" da crise seja produzida pelo mercado. atuante desde o século XIX. mais violência. Diversos motivos. Aceder a mais benefícios do que outros. embora ainda esteja longe do estado de equilíbrio. A crise nas relações de gênero é uma crise em torno da distribuição do poder. Aparecem na imprensa numerosas matérias sobre a crise do homem. Homens negros têm lutado por uma justa distribuição de oportunidades quando . Outro aspecto é que determinados grupos de homens têm questionado o privilégio de outros grupos de homens. sua trajetória de aprovação e os casos em que ela já foi aplicada. Mas não é por acaso que a imprensa escolhe chamar isso de crise dos homens. Ela é também um ótimo conteúdo para ser estudado em sala de aula. O que ocorre é uma crise nas relações de gênero. basicamente nas relações entre homem e mulher.

Da mesma forma como o movimento negro conseguiu tornar as atitudes racistas crime. E em Educação Física. Mas os homens podem ser educados para perceber estas situações e para lutar por um mundo onde a equidade de gênero seja a regra. Docente e orientador junto ao Programa de Pós-Graduação em Educação na linha de pesquisa Educação. Aliás. O estudo desses temas se conjuga com um dos principais objetivos em educação hoje em dia. Sexualidade e Relações de Gênero. professores e professoras têm que perceber que meninas podem ser boas em Matemática. lutar por isso é dar mesmo um salto para o futuro. nem para professores. e os meninos podem aprender a fazer poemas na aula de Língua Portuguesa e a tirarem boas notas em Educação Artística. nem para alunos. e até mental. que os "obrigam" a manter uma atitude guerreira. como no caso da discussão dos regimes de cotas. brasileiros. Não vai ser fácil. Homens portadores de alguma modalidade de deficiência física. Os homens não são "culpados" pela distribuição injusta de poder nas relações de gênero. o da escola inclusiva. EDUCAÇÃO PARA A IGUALDADE DE GÊNERO. Ou para ingresso no ensino superior público. lutam para ter acesso a oportunidades de trabalho em pé de igualdade com os demais homens. Mas a escola pode ser um ambiente onde os meninos e as meninas passem por uma experiência de estudo e discussão destes temas. Homens homossexuais têm lutado para que sua orientação sexual não lhes impeça o exercício de direitos reservados até agora aos homens heterossexuais. Também não se pode dizer que sejam simplesmente "vítimas" dos chamados "papéis de gênero". nem para professoras. Homens homossexuais têm lutado para que a homofobia seja crime. até porque as pedagogias de construção da masculinidade estão presentes em propagandas da mídia. Para isso. Mas valerá a pena como construção de um futuro mais justo. por exemplo. em muitos discursos religiosos que asseguram para o homem a posição de mando sobre a mulher e justificam isso de modo "divino". e de vivência num contexto onde a equidade de gênero é a regra. Dagmar Estermann Meyer2 . que temos uma história em que os momentos de ditaduras e do domínio de oligarquias superam amplamente os momentos de exercício da democracia.concorrem com homens brancos por uma vaga no mercado de trabalho. nem para alunas. com evidentes prejuízos em termos emocionais e de saúde. Nota: Professor da Faculdade de Educação / UFRGS. A escola não tem como "resolver" sozinha esta questão. única chave para assegurar a manutenção do regime democrático entre nós. que valoriza a diversidade. Exemplo disso são os casos de adoção de filhos por casais homossexuais masculinos. em sistemas de recrutamento de recursos humanos. incentivando os alunos a uma participação cidadã na vida em sociedade. nos discursos sobre segurança e família. juntamente com as mulheres negras.Todos estes movimentos sociais podem ser objetos de estudo e discussão na sala de aula. ou o direito de pensão por morte do companheiro.

de questões vinculadas a gênero. ser divididos em intencionais e não intencionais. Os processos educativos não intencionais têm sido muito pouco re-conhecidos. de ‘socialização’ (MEYER e COLS. grosso modo. bons trabalhadores. Dentre esses processos educativos EDUCAÇÃO PARA A IGUALDADE DE GÊNERO. e é esse seu envolvimento com a produção de identidades sociais que faz com ela continue sendo. da igreja e da escola e engloba uma ampla e variada gama de processos educativos. é preciso que estejamos expostos. O propósito neste texto é. a não ser em alguns campos específicos que se ocupam. uma infinidade de “lugares pedagógicos” além da família. ainda hoje. Nesses campos eles assumem uma grande importância. 28 por exemplo. o que se privilegia discutir como objeto específico desse campo se inclui nessa categoria de processos educativos intencionais – que poderiam. 2006a). as quais se têm revelado como processos educativos potentes quando se trata de instituir relações entre corpo. . Encontram-se as chamadas pedagogias culturais. envolvida com projetos de formação de determinados tipos de pessoas ou de identidades sociais: bons cristãos. também. refinadas e naturalizadas. das diferenciações e desigualdades sociais delas decorrentes resulta. na perspectiva que aqui nos interessa. em outras teorizações. então. de pedagogias que envolvem estratégias sutis.A discussão proposta por esta série de Programas nos encaminha na direção de nos ocuparmos um pouco mais explicitamente da noção de educação. voltar o olhar para o espaço escolar propriamente dito. Para que nos tornemos sujeitos de uma cultura. também. raça e sexualidade. uma vez que esta é central nesse contexto. que quase não percebemos como sendo educativas (MEYER. visibilizados e problematizados. Tomada em sentido amplo e. uma vez que a instituição escola que conhecemos (e na qual muitos/as de nós trabalhamos) esteve. ainda. educação envolve o conjunto dos processos pelos quais aprendemos a nos tornar e a nos reconhecer como sujeitos de uma cultura. hoje. gênero e sexualidade e outros programas trataram desse tema de forma mais específica. Tais processos educativos podem. sendo que quase tudo o que aprendemos a definir como educação nos cursos de formação de professores/as e. exaustivamente repetidas e atualizadas na cultura. no prelo). a um conjunto amplo de forças. ser desdobrados em formais e não formais. incluindo aqueles que são chamados. contidas em (ou derivadas de) artefatos culturais contemporâneos da mídia. Esta função “formativa” da escola parece ter sido bem mais importante do que a mera transmissão de determinados conhecimentos em sentido estrito. de forma continuada. uma vez que a produção dessas identidades e. esse conjunto inclui. 2006b. bons cidadãos e estes termos não significavam exatamente as mesmas coisas quando essa educação escolar era dirigida para homens ou mulheres ou era desenvolvida em tempos e espaços diversos. ao longo do tempo e nas diferentes sociedades e culturas ocidentais modernas. na maioria das vezes. de processos de aprendizagem e de instituições nem sempre convergentes e harmoniosas do ponto de vista de suas prioridades e objetivos políticos.

Para descrever a sutileza do funcionamento de alguns dos mecanismos envolvidos com a produção de diferenças e de desigualdades sociais e culturais de gênero e de sexualidade. raça/etnia. relato três exemplos ‘banais’ que se repetem.um espaço institucional constantemente disputado pelas mais diferentes vertentes políticas e por distintos movimentos sociais. era chato. Os fatores externos decorrem exatamente do fato de que nela convivem pessoas que são social (idade. em nossas escolas e salas de aula: Flavio. ainda. Por isso a escola é um espaço social complexo e plural na qual interagem fatores internos e externos à instituição. palco de disputas e de conflitos importantes. negro. E exatamente porque vivemos. os movimentos ecológicos (para ficar nos exemplos mais conhecidos e nomeados). também. definidas e disputadas por diferentes movimentos como os feministas. que ele assim resume: [.] foi o ano em que virei chacota. um tempo de emergência e de visibilização de uma multiplicidade de identidades sociais.. e todos estes grupos se fazem representar. hoje cursando o 2º ano do Ensino Médio. as relações entre professores/as. morador da Zona Sul de São Paulo. Apesar dessas características. lembra com nitidez de fatos ocorridos quando tinha 12 anos e estava na 6ª série. sexo. por . os movimentos étnicoraciais. suas regras disciplinares.. eu não suportava ir para a escola [. os movimentos de libertação nacional. destes com os/as funcionários/as e entre os/as próprios/as estudantes. diferentes grupos e identidades sociais.]. de forma nem sempre harmoniosa.. com o impacto dos meios de comunicação nas culturas que a atravessam bem como decorrem do contexto social particular em que cada escola se situa. entre professores/as e estudantes. Economicamente diferentes e estão relacionados. quanto é uma instância em que se disputam significados que produzem. hoje. Dentre os fatores internos implicados com a complexidade e a heterogeneidade do espaço escolar podemos citar suas formas específicas de organização do tempo e do espaço. entre professores/as e gestores/as.. as interações pedagógicas. o que precisa ser compreendido e valorizado. interesses). política. religião. E é nesse embate entre uma heterogeneidade que se quer visível e representada e uma homogeneização que se busca implementar – tomando como referência determinados padrões de normalidade instituídos a priori e que nos são apresentados como ‘igualdade’ – que a escola se torna um espaço social de disputas e enfrentamentos. de rivalidades e associações entre grupos e pessoas. EDUCAÇÃO PARA A IGUALDADE DE GÊNERO. no âmbito da escola e do currículo que nela é implementado. muitas vezes. de 16 anos. classe social. Nesse sentido. é que a escola contemporânea é. a escola é tanto uma instituição na qual convivem. ou talvez em função delas. atualizam e modificam algumas dessas identidades. ou desejam se fazer representar no espaço escolar e nos currículos que nele se desenvolvem. os movimentos gays e lésbicos. é que a escola (como muitas outras instituições sociais) investe muito de seu esforço na elaboração e na implementação de mecanismos e de estratégias que objetivam uniformizar os indivíduos que a compõem.

que [...] Era briga todo dia. A diretora me chamava pra conversar, então era desagradável, eu chegava na escola e virava o pivô, entendeu? [...] Eu pensei em mudar de escola, de tanto que era horrível, fiquei assim, querendo muito sair de lá e não voltar mais. EDUCAÇÃO PARA A IGUALDADE DE GÊNERO. [...] Os professores não falavam nada. Eu tava sentado, fazendo minha lição, nem sentava no fundo, eu nunca sentei no fundo porque eu não gosto, eu sentava na frente [...] E era aquela atacação de papel. Eu abria o papel e tava escrito“seu viado” e não sei o que lá. Era horrível, era muita humilhação. [Entrevistador: E os professores viam isso?] Viam e não faziam nada3. O segundo exemplo está relatado na mesma dissertação4. Conta Fabiano: 29 [...] foi na sétima série, no primeiro dia de aula. A professora chegou e falou para nos apresentarmos para todo mundo. Não sei se foi uma brincadeira que ela fez, mas eu guardo até hoje essa coisa dela. Eu estava me apresentando e ela disse: – ‘qual é mesmo o teu nome?’ Eu falei: – ‘Fabiano’. – ‘Como é mesmo, Fabiana?’ Nisso eu fui motivo de gozação o ano inteiro e até terminar a oitava série. Foram dois anos agüentando ser chamado de viado! Fabiana! O terceiro exemplo desloca nosso olhar da relação professora-aluno-aluno para a relação entre alunos/as e multiplica mais ainda as diferenciações e os seus impactos na vida dos/as estudantes. A pessoa que nos ofende e nos maltrata e faz todas as outras coisas se acha melhor que todos. Só porque usam roupas caras, são altos e magros, bonitos e até mais inteligentes, quando na verdade não são grande coisa. Existe muito preconceito com negros, gordos, baixinhos e burros e isso nos faz sentir as piores pessoas no mundo. As pessoas inventam coisas sobre você e você é obrigado a ouvir comentários desagradáveis. Isso nos deixa péssimos e preocupados com o que pensam de você, ou o que será a próxima pegadinha (menina de 8ª série, 14 anos) 5. O que nós, educadores e educadoras, podemos aprender com esses depoimentos, tendo em vista as temáticas que estamos discutindo nesta série de programas? Como já enfatizei, aqui, os processos de homogeneização implementados pela escola e que pretendem definir o que – ou quem – é igual, estão estreitamente vinculados a referências daquilo ou daquele que são definidos como diferentes e, quase que por extensão, desiguais; e essa discussão tem sido EDUCAÇÃO PARA A IGUALDADE DE GÊNERO. Feita, com novos enfoques e com redobrado vigor, no contexto das teorizações educacionais agrupadas sob o termo pós-críticas. Tomando como referência a educação escolar, estas teorizações trabalham com uma importante ressignificação do conceito de currículo, considerando-o como sendo o núcleo que corporifica o conjunto de todas as experiências cognitivas e afetivas vividas pelos estudantes no decorrer do processo de educação escolar, o que significa

entendê-lo como sendo um espaço conflituoso e ativo de produção cultural (SILVA, 1995). No currículo confrontam-se diferentes culturas e linguagens, produzidas na escola e, sobretudo, em outras instâncias do social. Nesse sentido, a escola proporciona um espaço narrativo privilegiado para alguns enquanto produz ou reforça a desigualdade e a subordinação de outros. Uma afirmação que sugere a necessidade de se investir em discussões que nos permitam, exatamente, exercitar outros olhares sobre as práticas pedagógicas e sobre as relações sociais que se desenvolvem ou que desenvolvemos no contexto escolar. E fornecer os instrumentos para favorecer este tipo de reflexão acerca da própria prática é, do meu ponto de vista, uma grande contribuição dessas teorizações. Nesse sentido e considerando-se os depoimentos que apresentei neste texto, de que forma escola e currículo, com os diferentes atravessamentos externos que os afetam, podem estar implicados com a produção de diferenças e desigualdades de gênero e sexualidade? Como cultura e poder se combinam, nas práticas pedagógicas escolares em sentido amplo, para construir fronteiras entre grupos e populações, para instituir posições sociais de menino e de menina, de mulher e de homem, de heterossexual e homossexual, por exemplo, e para possibilitar o exercício de práticas sexistas, racistas e homofônicas no espaço escolar? Essa é uma questão que foi (e continua sendo) exaustivamente discutida na interface que se estabelece entre estudos que procuram articular educação, gênero e sexualidade. O conceito de gênero passa a ser utilizado no campo dos Estudos Feministas, por estudiosas anglo-saxãs, a partir da década de setenta. De forma sintética gênero pode ser definido como construção e organização social das diferenças entre os sexos, que se realiza em múltiplas instâncias, em diferentes práticas e instituições sociais e através de muitas linguagens. O que isso significa? EDUCAÇÃO PARA A IGUALDADE DE GÊNERO. Até então, o movimento feminista vinha se debatendo com a dificuldade de desvincular a discussão que se fazia para entender a subordinação das mulheres aos homens e também a sua flagrante desvantagem social e econômica, de um fato biológico que era (é) a diferença anatômica e fisiológica entre os sexos. Enquanto se buscava entender esse processo tomando como base a via biológica, ficava muito difícil sustentar projetos políticos de transformação dessas relações de desigualdade, porque, afinal de contas, a biologia é imutável, é o que se pensava há 30 ou 40 anos. Hoje, já sabemos que até a biologia é histórica, ou seja, ela também está sujeita a (enormes!) transformações, mas isso já é ir bem mais adiante nessa história. O conceito de gênero indica o seguinte: nós aprendemos a ser homens e mulheres desde o momento em que nascemos até o dia em que morremos e essa aprendizagem se processa em diversas instituições sociais, a começar pela família, passando pela escola, pela mídia, pelo grupo de amigos, pelo trabalho, etc. Mas significa mais ainda: como nós nascemos e vivemos em tempos e lugares específicos, gênero reforça a necessidade de se pensar que há muitas formas de sermos mulheres e homens, ao longo do tempo, ou no mesmo tempo histórico, nos diferentes grupos e segmentos sociais. O conceito de gênero também não se refere mais ao estudo da mulher, ele é um conceito que procura enfatizar a construção relacional e a organização social das diferenças entre os sexos, desestabilizando desta forma o determinismo biológico e

30 econômico vigente, até então, em algumas das teorizações anteriores. Esse conceito nos leva, pois, a procurar entender as construções de feminino, de forma articulada com o masculino, uma vez que ambos estão implicados nas mesmas relações. E tem mais: o que é apresentado como feminino, nas sociedades ocidentais, toma o masculino como referência. A mulher é apresentada como o oposto do homem, só que esta não é uma simples oposição: ela é, como todas as oposições binárias que estruturam o pensamento moderno, uma oposição hierarquizada, em que um dos termos da equação é socialmente menos valorizado que o outro. As oposições binárias são, também, relações de poder (LOURO, 2001; MEYER, 2005). EDUCAÇÃO PARA A IGUALDADE DE GÊNERO. Gênero, então, enfatiza a construção relacional do sexo e a organização social desta construção, entendendo que ela é uma construção que é histórica e que precisa ser entendida a partir de sua articulação com outras categorias sociais como classe social, raça/etnia, geração, sexualidade, para citar algumas das mais importantes. A noção de poder que está presente nessa relação introduz aí a dimensão de conflito, uma vez que as mulheres e os homens não são apenas mulheres ou apenas homens, mas são muitas outras coisas ao mesmo tempo. Isso significa dizer que não existe uma essência de mulher ou de homem nem a possibilidade de uma solidariedade dada a priori, a partir de uma única posição, neste caso, a partir da posição de gênero. Uma outra questão a ser reforçada, aqui, é que o conceito de gênero introduz uma virada importante nos estudos feministas. Ainda que esse campo continue priorizando análises sobre as mulheres, não se está falando mais de mulher no singular, mas entendendo que muitas outras formas de diferença e desigualdade se imbricam com o gênero e que elas precisam ser problematizadas de forma articulada. Uma dessas diferenças que se conecta de forma importante ao gênero é, exatamente, a de sexualidade. Sexualidade é um conceito que, muito freqüentemente, se confunde com gênero e, embora precisemos reconhecer que eles estão estreitamente ligados, cada um deles guarda suas especificidades e inscreve os sujeitos em sistemas de diferenciação diversos. Enquanto que gênero aponta para as formas pelas quais sociedades e culturas produzem homens e mulheres e organizam/dividem o mundo em torno de noções de masculinidade e feminilidade, a sexualidade tem a ver com as formas pelas quais os diferentes sujeitos, homens e mulheres, vivem seus desejos e prazeres corporais, em sentido amplo. Com isso, o que se quer dizer, nesta perspectiva teórica, é que os nossos desejos corporais e os focos de nossos desejos são produzidos e legitimados pela cultura e não são decorrências naturais da “posse” de um determinado aparelho genital ou do funcionamento de determinados hormônios. Homens e mulheres vivem de muitas formas e com diferentes tipos de parceiros os seus desejos e prazeres corporais: com parceiros de sexos diferentes, com parceiros do mesmo sexo, com parceiros de ambos os sexos e, crescentemente, com parceiros virtuais “descorporificados”. E

sexo é um termo usado, aqui, então, para fazer referência àquelas diferenças anatômicas. EDUCAÇÃO PARA A IGUALDADE DE GÊNERO. Fenotípicas, inscritas no e sobre o corpo, que cada cultura institui para marcar e diferenciar fisicamente mulheres de homens (LOURO, 1999; WEEKS, 1999). Tendo estes conceitos presentes, volto à questão antes colocada: o que nós, educadores e educadoras, podemos aprender com isto? Penso que, num primeiro momento, eles nos instigam a analisar os processos, as estratégias e as práticas sociais que nos constroem como sujeitos de gênero e sexuais. A pergunta norteadora, aqui, é: como vimos a nos tornar o que somos? E como funcionam os mecanismos de diferenciação e de hierarquização que, nesse processo de tornarse, desigualam sujeitos em função de seu gênero e de suas práticas sexuais? Essas são duas perguntas importantes para quem pretende investir em intervenções que permitam modificar, minimamente, as relações de gênero e sexuais que se desenvolvem na sociedade em que vivemos. Outra questão que precisamos colocar-nos, como educadores e educadoras comprometidos/as com mudanças nessas relações, é: como as diferentes linguagens que constituem os currículos escolares que planejamos e implementamos constroem, ajudam a manter ou re-definem posições sociais de gênero e de sexualidade? Uma das primeiras implicações dessa pergunta é considerar que, provavelmente, não existem disciplinas formais em que se objetiva ensinar como transformar crianças em meninos e meninas e estes e estas em homens e mulheres, a exemplo do que se faz em matemática quando aprendemos a adicionar, multiplicar ou dividir; ou, ainda, de como se pretende fazer, com relação ao sexo, no contexto de determinadas propostas de educação sexual escolar. Precisamos, então, reconhecer como aprendemos essas coisas que fazemos e em que espaços e em que lugares aprendemos a fazê-las de uma determinada maneira e não de outras. Vamos perceber que essas aprendizagens estão incorporadas em práticas quotidianas formais e informais que nem questionamos mais. Que elas atravessam os conteúdos das disciplinas que compõem o currículo oficial ou estão imbricadas na literatura que selecionamos, nas revistas que colocamos à disposição das estudantes para pesquisa e colagem, nos filmes que passamos, no material escolar que indicamos para consumo, no vestuário que permitimos e naquele que é proibido, nas normas disciplinares que organizam o espaço e o tempo escolares, nas piadas

31 EDUCAÇÃO PARA A IGUALDADE DE GÊNERO.Que fazemos ou que ouvimos sem nos manifestar, nas dinâmicas em sala de aula e em outros espaços escolares que não vemos ou decidimos ignorar, nos castigos e nas premiações, nos processos de avaliação... E pensar dessa forma, a partir desses conceitos e do que eles nos sugerem considerar, colocamos a necessidade de questionar não só

Esse conceito chama a atenção para os processos culturais. estávamos mais uma vez as voltas com questões básicas que marcaram as lutas . Esse conceito chama a atenção para os processos culturais.Desigualdade de Gênero Introdução: Gênero & Diferenças Nos últimos 100 anos assuntos relativos a gênero. isso aponta para a dimensão política que reside na problematização de práticas aparentemente banais. sociais. à identidade associada ao sexo masculino ou feminino. o meio social age fortemente nos dois sexos. Se fatores biológicos produzem ou não diferenças no cérebro ou no corpo de mulheres e homens. o Presidente da prestigiosa Harvard University fez alguns comentários sobre as mulheres terem. como essas que foram relatadas nos depoimentos que aqui apresentei.os conhecimentos e saberes com que lidamos mas. o meio social age fortemente nos dois sexos. ao mesmo tempo. nós mesmas. de nascença. frequentemente designando mulheres a uma posição subalterna. a desenvolver a sensibilidade para perceber o sexismo. o racismo e a discriminação que estes saberes veiculam. por exemplo. e o caráter público desse comentário. Desigualdade de Gênero 1 . políticos e morais que atribuem valores a essas ralações. Desigualdade de Gênero . e não propriamente. sociais. frequentemente designando mulheres a uma posição subalterna. políticos e morais que atribuem valores a essas ralações. Entendemos melhor quem tem autoridade para dizer o que.O conceito de gênero Gênero não se refere exatamente aos homens e mulheres mas a relações entre os dois sexos. Se fatores biológicos produzem ou não diferenças no cérebro ou no corpo de mulheres e homens. e não propriamente. E. à identidade associada ao sexo masculino ou feminino. periodicamente dominam os títulos dos jornais. O gênero refere-se a essa ação e às relações que ela gera entre homens e mulheres. fez com que gênero voltasse a ocupar um lugar de destaque em várias discussões nos media. de quem e em que condições. menos capacidades como cientistas. também. O gênero refere-se a essa ação e às relações que ela gera entre homens e mulheres. constroem e ajudam a manter. De repente. Recentemente. 2 . profissionais da educação.Conceito de Gênero Gênero não se refere exatamente aos homens e mulheres mas a relações entre os dois sexos. inscritas nesses processos de nomeação em que a diferença é hierarquizada e transformada em desigualdade. A autoridade que acompanha este posto. E isso nos ajuda a reconhecer como estamos.

no trabalho. Em resumo. as regras e práticas dentro de casa e com a família. 1 . algumas pessoas continuam a formular perguntas: 4 .Desigualdade de Gênero Durante todos esses anos.feministas do começo do século XX. na comunidade. para reconhecimento da igualdade entre mulheres e homens. Mas não existe nenhuma evidência final que prove a existência da capacidade científica ou de qualquer outra capacidade inteiramente genética. uma coisa é absolutamente certa: mesmo que existissem provas concretas e definitivas de que os sexos são claramente diferentes. etnia. entre outras. como era de se esperar.Desigualdade de Gênero Seja qual for a situação.Desigualdade de Gênero * Existem diferenças? * Se existem. o enfoque de gênero requer o exame de fatores estruturais na sociedade – isto é. Isso pode significar um tratamento diferente. 3 .que mantêm uma posição desigual entre grupos diferentes de homens e mulheres. Pode-se concluir que tanto os homens como as mulheres podem ser portadores dos relevantes genes. mas no que se refere aos direitos. no estado e na sociedade em geral . muito se investigou. políticos e morais associados a essas diferenças. marcados por muitos ganhos a favor da igualdade entre os gêneros. identidade sexual. mais adequado. 2 -Desigualdade de Gênero . benefícios. em interação com gênero constituem e são também reproduzidas em relações sociais determinando injustiças e exclusões. geração e habilidade. Portanto. obrigações e oportunidades a igualdade prevalece. 32 1 . continuaria a ser necessário evidenciar que isso é distinto dos valores sociais. geografia. comportamentos ou funcionamento baseado no sexo da pessoa? Enquanto essa discussão continua. questionou ou qualificou. raça.Desigualdade de Gênero Várias diferenças de classe social. será que refletem atitudes ou interesses? * Ou será que as diferenças refletem os diferentes processos de socialização e expectativas? * É possível determinar reações. a igualdade de tratamento tem que estar de acordo com as respectivas necessidades de homens e mulheres.

e não podemos deixar de fora outras faces da realidade igualmente assentes em discriminações de gênero como sejam. * Acesso das mulheres à tomada de decisão É na área da tomada de decisão que o crescimento da presença das mulheres se tem produzido a um ritmo mais lento.000 mulheres morrem por problemas relacionados com a gravidez e pela falta de acesso aos anticoncepcionais.º 3/2006. são fracos os progressos registrados ao longo de 30 anos de democracia. de 4 de Outubro 2006) vem estabelecer que as listas . Desigualdade de Gênero B . alterada pela Declaração 7/2006. * a violação.A . A Constituição Portuguesa consigna o direito de todos os cidadãos a “tomar parte na vida política e na direção dos assuntos públicos do país”. Nesta matéria. Anualmente. devendo a lei promover a igualdade no exercício dos direitos cívicos e políticos e a não discriminação em função do sexo no acesso a cargos políticos”. a prostituição forçada * o casamento forçado O que nos leva a afirmar que em matéria de direitos humanos. o risco de fortalecer a influência da pobreza nas gerações futuras aumentará" * Fim da discriminação de gênero é a chave para o desenvolvimento.Fim da discriminação de gênero é a chave para o desenvolvimento O Fundo de População das Nações Unidas (UNPFA) defende a igualdade entre os sexos e acrescenta que: "Investir nas mulheres e nos jovens. cerca de 530. Se tal medida não for tomada. os direitos das mulheres têm ainda velhos e novos desafios por conquistar.A discriminação não afeta só a população portuguesa. A discriminação é um dos principais responsáveis pelo aumento dos índices de mortalidade das mulheres entre os 15 e os 44 anos. responsáveis por cerca de 76 milhões de gestações não desejadas nos países em vias de desenvolvimento e por cerca de 19 milhões de abortos praticados em condições perigosas. entre outras: * a mutilação genital feminina. que representam a maior parte da população mundial. estabelece que “A participação direta e ativa dos homens e das mulheres na vida política constitui condição e instrumento fundamental de consolidação do sistema democrático. * o tráfico de mulheres. permitirá acelerar o desenvolvimento a longo prazo. * Em 2006 a Lei da Paridade (Lei Orgânica n. Por outro lado. de 21 de Agosto.

QUESTÃO 59 (Abril 2006) . assinale a alternativa correta. sem nenhuma correspondência com a realidade histórica. exceto na Alemanha.Sobre a definição de ação social para Weber. Conclusão Segundo os dados do Eurostat. ao reconhecer que a democracia só estará completa se for representada por homens e mulheres. Vamos concluir este trabalho com uma questão. apresentando Portugal um número muito próximo da média europeia (55. C) É um conceito de análise típico-ideal. reciprocamente referida. sendo.2%). prescindindo de significação. “Se a nível de licenciaturas há mais mulheres a entrarem nas faculdades e se são também elas a terem mais sucesso. porque será que não ocupam mais lugares de topo?” 33 Exercícios 1 . as mulheres consolidaram nos últimos anos a sua maioria entre os estudantes universitários em todos os países da UE. de forma a estabelecer uma relação social. B) Implica necessariamente uma relação social. INE *TOMADA DE DECISÃ ECONÓMICA Fonte: BDAP (data de referência de 31 de Dezembro de 2005) *DIRIGENTES E CHEFIAS NA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA (2005) FORÇAS ARMADAS 1. para o Parlamento Europeu e para as autarquias locais são compostas de modo a assegurar a representação mínima de 33% de cada um dos sexos. A) Está fundada na coletividade. que traduz o quanto ainda há para fazer em relação à descriminação.para a Assembleia da República. Outras Instâncias CARREIRA DIPLOMÁTICA Fonte: Ministério dos Negócios Estrangeiros 2. portanto. Esta Lei significa uma enorme vitória para a Democracia Portuguesa e para os Direitos das Mulheres. D) É aquela que se orienta pela ação dos outros. Acesso das mulheres à tomada de decisão *TOMADA DE DECISÃO POLÍTICA Fontes: Womenandmenindecision-making (Base de Dados Europeia)Dossier de Gênero.

II – o empresário estabelece uma gratificação para os empregados mais produtivos. C) os estamentos são grupos de status fechados. legal e carismático . . em sua obra Economia e Sociedade. IV – o(a) estudante escolhe o colégio X só porque ali estudaram seus pais e avós. assinale a alternativa INCORRETA.tradicional. B) as diferenças que correspondem às classes ou aos estacamentos geram. B) O poder está fundamentado na desigualdade de oportunidades que afeta cada indivíduo em dado contexto social. os partidos. QUESTÃO 53 (Fevereiro 2003) Max Weber.Acerca das formulações de Weber sobre poder e dominação. Marque a alternativa correta. C) Faz parte de uma relação de dominação estatal o uso da força física para assegurar a obediência. de acordo com o sentido ou orientação dos atores. na esfera do poder social e dentro das respectivas ordens sociais. D) Os tipos puros de dominação .constituem uma tipologia construída por Weber a partir da realidade histórica. III – o católico caminha noventa quilômetros para demonstrar sua fé. A) A dominação exercida pelos dominantes somente é legítima quando assume um caráter do tipo burocrático-legal. propõe uma classificação típicoideal da ação social. convenções e rituais. cujos privilégios estão desigualmente definidos por leis. Considere os exemplos de ação social citados abaixo: I – o consumidor adquire um relógio motivado pela emoção que este lhe causa. QUESTÃO 53 (Dezembro 2004) Sobre a teoria weberiana acerca das várias formas de estratificação social. D) as castas se organizam segundo as relações de produção e aquisição de bens. é correto afirmar que: A) as classes sociais se organizam segundo seus princípios de consumo de bens nas diversas formas especificas de vida.

34 C) Os tipos de ação burocrática.A) Os exemplos III e IV ilustram. pois a dominação supõe a presença do consentimento na relação entre “X” e “Y”. necessariamente. uma vez que a ação . QUESTÃO 56 (Fevereiro 2003) Sobre os conceitos de poder e dominação. D) não são equivalentes. tal como elaborados por Max Weber. D) Os exemplos II e III ilustram. respectivamente. a ação tradicional funda-se no costume ou em um hábito já arraigado. tradicional e carismática pensados por Weber são construções históricas. motivações. QUESTÃO 54 (Fevereiro 2007) Sobre os tipos de ação social em Max Weber. A) Os conceitos de ação burocrática. respectivamente. respectivamente. a ação racional com relação a fins e a ação racional com relação a valores. tradicional e carismática pensadas por Weber constituem uma construção intelectual pautada na história e visam explicar uma dada realidade histórica. B) são equivalentes. a ação afetiva e a ação racional com relação a fins. marque a alternativa correta. não se dá com o poder. a ação racional com relação a fins e a ação tradicional. tradicional e carismática a partir de uma construção típico-ideal que é estabelecida apenas no plano conceitual. a ação afetiva e a ação racional com relação a valores. já que a força sem uma base de legitimação não pode ser exercida. C) toda relação de poder implica uma relação de dominação. C) Os exemplos II e IV ilustram. uma vez que os indivíduos que se submetem a uma ordem de dominação não levam em conta os recursos que possuem aqueles que exercem a dominação. o que. é correto afirmar que: A) a dominação prescinde do poder. pois tanto um quanto outro são relações sociais às quais os indivíduos atribuem sentido. portanto. respectivamente. B) Os exemplos I e III ilustram. que acontecem sucessivamente em determinadas realidades histórico-culturais. compartilhando. D) A ação racional implica uma adequação entre meios e fins. B) Weber define as ações sociais burocrática.

ideológico e político são. que prescinde da dimensão de dominação. Esse instrumento pode ser definido como: I. o saber e a força. D) a sociologia compreensiva busca apreender o sentido da ação social e de seus nexos causais. D) os fundamentos dos poderes econômico. fundamentalmente.um modelo perfeito a ser buscado pelas formações sociais históricas e qualquer realidade observável. em alguma medida. é INCORRETO afirmar que: A) o Estado é uma relação estritamente de poder.uma construção do pensamento que permite conceituar fenômenos e formações sociais. é correto afirmar que: A) os juízos de valor do pesquisador não interferem em nenhuma fase do processo de investigação científica.carismática ou afetiva se estabelece. C) o objetivo da sociologia é estabelecer leis gerais explicativas da realidade social. o consentimento da parte do dominado para a ordem dada pelo dominante. C) a dominação implica. QUESTÃO 49 (Janeiro 2001) Para explicar os fenômenos sociais. em uma crença através dos tempos. III. a riqueza.uma construção do pensamento que permite identificar na realidade observada as manifestações dos fenômenos e compará-las. Weber propôs um instrumento de análise que chamou de tipo ideal. B) o poder é a probabilidade de alguém determinar o comportamento do outro. respectivamente. . II. B) a sociologia de Weber é um esforço de explicação da sociedade enquanto totalidade social. QUESTÃO 57 (Fevereiro 2007) A respeito das definições de Max Weber para poder e dominação. QUESTÃO 42 (Janeiro 2000) De acordo com o pensamento weberiana.

A) I. QUESTÃO 54 (Janeiro 2004) Em sua teoria sociológica. Max Weber propõe quatro tipos puros ideais de ação social. como Max Weber demonstrou no estudo da conexão entre a ética protestante e o espírito do capitalismo nos EUA. na medida em que os cientistas operam pela lógica da crença na emancipação do homem das mazelas sociais. que buscam captar realidades totalmente autônomas. D) II. II e III estão corretas. amor. C) II. guarda bastante racionalidade combinada com a tradição. raiva. como se pode ver na Física e na Química. III e V estão corretas. por isso. . estes em relação às conseqüências implicadas e os diferentes fins possíveis. cuja conexão cabe aos cientistas sociais captar para compreender a realidade social. A) O procedimento econômico corresponde ao modelo típico de ação racional com relação a fins. Assinale a alternativa correta. II e V estão corretas.IV. D) A articulação de dois ou mais tipos de ação social não oferecem sentidos compreensíveis aos cientistas sociais. paixão. B) O procedimento científico pode ser considerado um modelo típico ideal de ação tradicional com relação a valores. Assinale a alternativa correta sobre a articulação dos tipos de ação social propostas por Weber. como se observa na competição individualista das sociedades capitalistas e. V. C) A ação afetiva típica ideal é a causada pelos sentimentos de ódio. QUESTÃO 57 (Janeiro 2004) Assinale a alternativa correta.um modelo que tem a ver com as espécies sociais de Durkheim. quanto à teoria weberiana sobre poder e dominação. Isso ocorre porque os tipos ideais são conceitos limites. avalia os meios relativamente aos fins. exemplos de sociedades observadas em diferentes graus de complexidade. que apresentam sentidos. ciúme.uma construção teórica abstrata a partir de casos particulares analisados. III e IV estão corretas. B) I. pois considera um conjunto de necessidades sob uma quantidade escassa de meios para chegar ao objetivo pretendido. até mesmo com certa irracionalidade.

. C) A dominação fundada no carisma do líder nunca pode integrar o padrão de dominação capitalista. D) Ação social racional com relação a valores. Menin elaborou uma cartilha que a empresa segue à risca até hoje. Assinale a alternativa que corresponde ao tipo de ação social descrita no texto. Após definir seu nicho de mercado. Como o senhor da foto virou milionário. B) O poder econômico e o poder ideológico definem-se. Percebendo que ali podia estar sua galinha-dos-ovos-de-ouro.A) A dominação racional-legal é típica da sociedade capitalista. 12/04/2000. (VEJA N. respectivamente... A) Ação social racional com referência a fins. QUESTÃO 43 (Julho 2000) "300 milhões . Primeiro. C) Ação social tradicional. pelas posses do saber e da riqueza.. construiu pequenas casas em bairros populares de Belo Horizonte.. D) O poder sempre exige o consentimento por parte daquele que se comporta de acordo com a determinação do outro. Depois. QUESTÃO 44 (Julho 1999) A respeito do conceito weberiano de ação social. C) a ação que se orienta por valores não é uma ação social racional. O mérito de Menin foi ter vislumbrado uma oportunidade e apostado suas fichas nela. p. é correto afirmar que: A) o exercício religioso da fé é uma ação afetiva. . B) a decisão empresarial de inovação tecnológica para enfrentar a concorrência no mercado é uma ação racional com relação a fins. .. 15. D) uma ação que se caracteriza pela livre escolha é tradicional. 148) Max Weber define uma tipologia da ação social que é apresentada nas afirmativas abaixo. Menin resolveu projetar um negócio para atender aquela clientela. em que a crença na validade da norma 35 impessoal se estabelece.". B) Ação social afetiva. passou a vender apartamentos semipadronizados com preços até 25% mais baixos.

sem a qual não há poder nas sociedades capitalistas.) Nem toda dominação se serve do meio econômico. E ainda menos tem toda dominação fins econômicos. (. Rio de Janeiro: Eldorado Tijuca. C) I e IV estão corretas. que são obtidos com ou sem legitimidade....” WEBER. Com base no texto acima. que se expressam na forma de usos. IV) Para ser exercido. Considere as alternativas teóricas abaixo e assinale a alternativa INCORRETA. III) O poder emerge de mandatos extra-econômicos. analise as afirmativas: I) O poder decorrente de qualquer tipo ideal de dominação tem sempre um conteúdo que lhe atribui legitimidade. a particularidade e a generalização dos fatos sociais. Dias. a partir da conexão natural de sentidos entre a ética protestante e as imposições do capitalismo de Estado. embora dispense coerções morais para operar com legitimidade. o poder depende de coerções objetivas. seus efeitos e suas regularidades.. A) I e II estão corretas. a interioridade. suas causas. II) O poder decorre da posse básica e exclusiva de meios econômicos. B) Para Max Weber. In: Castro. costumes e situações de interesse produzidos por diversos sujeitos. em toda espécie de probabilidade de exercer ‘poder’ ou ‘influência’ sobre outros homens. o conceito de ação social tem sido fundamental em inúmeros estudos importantes sobre as sociedades modernas. físicas e materiais. (. Introdução ao Pensamento Sociológico. como se vê nos EUA. a Sociologia é a ciência que pretende interpretar os sentidos prováveis da ação social. Edmundo Fernandes. portanto. C) Max Weber define ação social como uma conduta dotada de um significado subjetivo dado por um sujeito . seja esta jurídica. QUESTÃO 51 (Julho 2003) Na sociologia de Max Weber. 1976. Assinalar a alternativa correta. Max. B) I e III estão corretas. A) O conceito de ação social em Max Weber pretende comprovar a coerção. costumeira ou afetiva. apenas por agentes do Estado nas sociedades capitalistas.) a probabilidade de encontrar obediência dentro de um grupo determinado para mandatos específicos (ou para toda sorte de mandatos). Anna Maria. Não consiste. D) Apenas I está correta.QUESTÃO 47 (Julho 2001) “Deve-se entender por ‘dominação’.

o famoso médium Chico Xavier. por seus valores éticos. a morte de Chico Xavier não deveria ser lamentada. predominando uma orientação consciente dos agentes. . independentemente dos seus resultados. ou seja. de 10 de julho de 2002.morria em Uberaba. implicando. B) está mais próximo das ações racionais. considerando tais acontecimentos dotados de sentido. a maioria delas. Seu velório atraiu nada menos que 100 mil pessoas. coloridas. de acordo com a teoria de Max Weber e. implicando reações desenfreadas a estímulos não-cotidianos. e. deram ao velório um clima de festa. Músicas e roupas alegres. Analisando os acontecimentos descritos. aparentemente incompatível com um acontecimento fúnebre. como a caridade. C) vincula-se a ações totalmente irracionais. pode-se afirmar que esse sentido: A) está mais próximo das ações irracionais. a explicação sociológica busca compreender os sentidos. por suas crenças na reencarnação e na comunicação com os espíritos. independentemente de fins conscientes. por suas esperanças em curas extraordinárias. não se propondo a julgar a validez da ação dos sujeitos. QUESTÃO 60 (Julho 2003) Assinale a alternativa que corresponde à formulação de Max Weber acerca dos chamados tipos puros de dominação legítima. naturalmente. seu caráter social. Texto adaptado da Revista IstoÉ. D) vincula-se a ações racionais. independentemente de fins conscientes. A) A dominação legal-racional fundamenta-se na crença dos indivíduos acerca da validade de um dado instrumento normativo. O motivo era simples: para o espiritismo kardecista não existe luto. apesar de sentida. Por isso.36 que o executa. sempre e unicamente. sendo a morte vista apenas como mais uma etapa cumprida num longo processo de aperfeiçoamento do espírito. por seus laços afetivos com o grande líder religioso. orientando seu próprio comportamento. uma orientação consciente dos agentes quanto aos meios e fins. D) Para Max Weber. tendo em vista a ação de outros sujeitos conhecidos ou desconhecidos. movidas. QUESTÃO 56 (Julho 2003) No dia 30 de junho de 2002 – mesmo dia em que a seleção brasileira de futebol conquistou o tetra . predominando reações surdas a estímulos habituais. o desenvolvimento e os efeitos da conduta de um ou mais indivíduos em relação a outros. no Triângulo Mineiro.

C) toda ação social está condicionada por idéias de valores que são fenômenos histórico-material. assim. uma vez que assegura aos investimentos privados um ambiente mais propício ao lucro desejado. reciprocamente referidas de forma a estabelecer relações sociais. em patamar superior. o espírito do capitalismo. estabelecendo-se. orientando-se pela própria ação e estabelecendo relações sociais significativas. B) a vida social é resultado de um conjunto de ações individuais orientadas a um determinado fim e reciprocamente referidas.B) A dominação carismática articula-se à motivação que os indivíduos têm com vistas à obtenção de determinados fins para suas ações sociais. C) É a expressão político-institucional dos antagonismos entre as classes sociais. ou seja. assinale a alternativa correta. que a estes se impõe também pela educação. 37 QUESTÃO 54 (Julho 2006) Quanto às análises weberianas sobre o desencantamento do mundo e o processo de secularização. B) Corresponde a uma autoridade moral. A) Define-se pelo meio que lhe é próprio. QUESTÃO 53 (Julho 2005) Segundo Weber é correto afirmar que: A) a ação social é qualquer ação que o grupo social pratica. C) A dominação tradicional é a mais apropriada à sociedade capitalista e está presente nas empresas e nos órgãos governamentais. o monopólio considerado legítimo do recurso à força. cuja função é a de preservar a sociedade de crises em que a coesão esteja ameaçada. é INCORRETO afirmar que: . D) a vida social é resultado de um conjunto de ações coletivas. QUESTÃO 57 (Julho 2005) Quanto à definição weberiana de Estado. D) A dominação carismática realiza. D) É o produto de processos sociais coercitivos e externos aos indivíduos. as relações sociais.

possibilitou o desenvolvimento da mentalidade econômica burguesa no Ocidente. 11. São Paulo: Livraria Pioneira Editora. 6 ed. o processo de racionalização do mundo e as religiões de salvação. D) o desencantamento do mundo refere-se tanto à desmagificação via religião ética (os profetas. conforme a sociologia de Max Weber. fundada na contemplação. culminaria no capitalismo de tipo moderno. B) há uma relação impositiva entre a ética protestante e o espírito do capitalismo no sentido do desenvolvimento da moderna economia burguesa.] Ora. e os ideais éticos de dever deles decorrentes. p. A respeito das relações de causalidade que o sociólogo Max Weber propõe entre as origens do capitalismo moderno. e o espírito do capitalismo. C) a decadência do poder hierocrático seria um sentido forte da secularização. C) há uma relação causal entre a ética racional protestante. levando ao desenvolvimento deste último no Ocidente. “[. B) a perspectiva de Max Weber é evolucionista e prevê o fim da religião em uma sociedade moderna. Max. a partir do século XVI. QUESTÃO 57 (Julho 2006) Sobre a ética do trabalho. embora dependa parcialmente da técnica e do direito racional. as forças mágicas e religiosas.A) a secularização diz respeito tanto à expropriação dos bens eclesiásticos quanto ao desencantamento do mundo.. com base na ética religiosa católica. assinale a alternativa correta. é ao mesmo tempo determinado pela capacidade e disposição dos homens em adotar certos tipos de conduta racional. [“.” WEBER. é correto afirmar que A) o estilo de vida normativo. sempre estiveram no passado entre os mais importantes elementos formativos da conduta.1989. QUESTÃO 54 (Julho 2007) Considere a citação... A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. por exemplo) quanto à ciência e à tecnologia. e o espírito do capitalismo..] o racionalismo econômico. A) Coube às éticas religiosas do confucionismo (China) e hinduísmo (Índia) redefinirem o padrão das relações econômicas que. D) há uma relação causal entre o desenvolvimento da ética religiosa protestante. . fundada no trabalho. que possibilitou o desenvolvimento deste último no Ocidente..

a economia. China e Índia no cenário econômico internacional que se seguiu à Revolução Industrial. Carlos B. a arte. Seus trabalhos sobre a burocracia tornaram-no um dos grandes analistas deste fenômeno. a política. cujas prescrições de conduta se revelaram condição imprescindível para o desenvolvimento e consolidação das relações capitalistas modernas. Carlos B. 1991. A respeito das contribuições de Weber acerca dos conceitos de poder e dominação. a carismática (típica das sociedades tradicionais) e a legal-racional (típica das sociedades modernas). D) O processo de encantamento do mundo (irracionalização do conhecimento e das relações cotidianas) encontra-se na base da ética protestante. são responsáveis pela prematura posição de destaque do Japão. quais sejam.” MARTINS. . o calvinismo foi responsável pela introdução de um padrão ético que. a partir do século XVI. contribuiu de maneira inédita para o desenvolvimento das relações capitalistas modernas. p. 66. a música. ao estimular a racionalização da conduta cotidiana de seus fiéis. como o direito. assinale a alternativa correta. dominação é a probabilidade de encontrar obediência a uma ordem de determinado conteúdo. A) Ao passo que poder é toda probabilidade de impor a própria vontade numa relação social. D) A dominação legal-racional dá-se por meio da obediência do quadro administrativo à pessoa do senhor. para Weber. QUESTÃO 57 (Julho 2007) Sobre o legado do pensamento científico de Max Weber.B) As seitas protestantes que floresceram nas sociedades orientais.. não mais que dois tipos puros de dominação. B) Há. a religião. C) A partir de sua doutrina da predestinação. O Que é Sociologia? São Paulo: Editora Brasiliense. abrangendo os mais variados temas. Martins afirma que: “A obra de Weber representou uma inegável contribuição à pesquisa sociológica. C) A transição de uma ordem política patrimonial-tradicional para uma ordem burocrático-legal é acompanhada por uma consolidação do tipo de dominação carismática. considerada legítima. de modo destacado. mesmo contra resistências. 28 ed. em 38 detrimento de estatutos impessoalmente estabelecidos. a história.

sendo. onde foi internado após a morte da mãe. irremediavelmente. A dupla protagonista brilha em cena. C) O gênero humano é. duração: 90 min gênero: Drama status: Inéditos Sinopse Elling (Per Christian Ellefsen). Marit Pia Jacobsen. um ser social.A Experiência Genética” (Gattaca). principalmente o ator que interpreta Elling. ainda. passou os últimos dois anos em um hospital psiquiátrico. D) O Estado capitalista nada tem a ver com as escolhas que os indivíduos fazem a partir das motivações que possuem. daqueles que levantam seu astral após a sessão. O filme possui um ritmo ágil e divertido. Sugestões de Filmes Parte superior do formulário Parte inferior do formulário Elling 2010-05-22 Francisco título original: (Elling) lançamento: 2001 (Noruega) direção:Petter Nass atores:Per Christian Ellefsen. pela sinopse. B) A sociedade se opõe aos indivíduos. a uma racionalidade.QUESTÃO 42 (Março 2002) Segundo as concepções de indivíduo e de sociedade na sociologia de Max Weber. na verdade. Sven Nordin. a expressão das classes sociais em luta. Um programa de socialização faz com que ele surpreendente. um homem de 40 anos com problemas mentais. condição expressa pelo fato dos homens e mulheres fazerem a história.” “ Gattaca . Ledo engano. assinale a alternativa correta. Jorgen Langhelle. razão pela qual os indivíduos refletem as normas sociais vigentes. podendo estar relacionadas ou a uma tradição. esperava que "Elling" fosse um daqueles dramalhões que a Academia tanto adora. como força exterior a eles. A) O indivíduo age socialmente. que arranca boas gargalhadas do público. fazendo com que o público acabe torcendo por eles. “Uns filmes gostosos de assistir. de Andrew Niccol (1997) . mas sempre a partir de uma situação dada. ou a uma devoção afetiva ou. Confesso que. de acordo com as motivações e escolhas que possui e faz.

Neste caso. identidade e memória | |social. | |de Stanley Kubrick. a trama filmica se constitui em função de uma determinada racionalidade tecnológica. “Eu. “Metropólis”.Inteligência Artificial”. nas condições de uma sociedade de classes. Nesse caso. principalmente em se tratando de um filme SF. de Alex Proyas. . o capital tende a se apropriar do | |desenvolvimento das forças produtivas sociais para aprofundar seu controle de classe. 1990). | Análise do Filme Annette Kuhn. o Policial. “IA . estruturando-o. É claro que. subsiste velhos valores estranhados e sociabilidades corrompidas pela lógica do | |capital. onde predomina a divisão hierárquica do trabalho e a propriedade privada. como. ecossistema social e contradições do capital.Filmes relacionados: “Blade Runner”. de Ridley Scott. no caso do filme SF. de Steven Spielberg. Temas-chave: técnica e tecnologia. O que acontece é que. e a aguda vigência de determinações de controle social | |estranhado e de exploração de classe. a técnica e a tecnologia pulam adiante do argumento dramático. por exemplo. Ou seja. em seu livro Alien Zone: Cultural Theory and Contemporary Science Fiction Cinema (Verso. como a tecnologia perpassa os mais diversos aspectos da vida cotidiana moderna. ela não poderia deixar de estar no centro estruturante da trama filmica. sem dissolver sua linha argumentativa (que incorpora outras textualidades). observa que uma das características do cinema de ficção-científica é a sua intertextualidade. “Matrix”. O que poderia significar essa intertextualidade do gênero Science Fiction? Ela é característica peculiar de um gênero fílmico (o de ficção-científica) que constitui sua trama narrativa a partir de uma determinada racionalidade (a racionalidade tecnológica). Na verdade. a Comédia ou Horror. Robô”. dos Irmãos Wachowski. Ao lado do admirável mundo novo. que é a própria racionalidade da sociedade moderna. o gênero Science Fiction (SF) tende a se confundir com outros gêneros fílmicos. tal avanço da| |ciência genética se traduz em possibilidades concretas de incremento do controle social estranhado. de Fritz Lang.|Eixo Temático | | O desenvolvimento das técnicas de manipulação genética decorrem do desenvolvimento das forças produtivas do trabalho social e da redução das barreiras | |naturais. Estamos diante de uma visceral contradição entre as imensas | |potencilaidades de desenvolvimento humano-genérico e da plena socialização da sociedade humana. “2001-Uma Odisséia no Espaço”. capital e processo civilizatório.

Numa sociedade de controle social quase-absoluto. pode-se perceber certa solidariedade entre os “de baixo”. que assassina outro diretor num jogo de poder. de agudo cariz regressivo. Apesar de ser um filme de ficção-científica deixa claro sua intertextualidade. O que se observa é que o tema da técnica de manipulação genética perpassa todo o drama policial (e familiar) de Gattaca. a rivalidade entre irmãos (que é. Sua ambição é driblar as restrições de classe e se integrar na elite intelectual e moral de Gattaca e realizar seu maior sonho: ir para o planeta Titã. nascido do acaso da Natureza. de Andrew Niccol (1997) é um caso exemplar. num papel especial). Gattaca retrata uma sociedade de classe cuja técnica de manipulação do código genético tornou-se prática cotidiana de controle social. como a atitude . Vincent é um jovem ambicioso. assistimos a um jogo de ambição e fraude. de Elia Kazan (com James Dean). que almeja ir além do seu destino genético e decide assumir a personalidade de Jerome Morrow. de Gattaca (representado pelo escritor Gore Vidal. produto de um planejamento genético quase perfeito.O filme Gattaca – A Experiência Genética. produtos da engenharia genética e da eugenia social. A partir de um certo momento. cabe salientar): um. Vincent clona os registros genéticos de Jerome. tal como um "retorno ao útero materno"?). clandestinas. submetidos ao acaso da Natureza e às impurezas genéticas. “homem livre”). todo o suspense se concentra no personagem Vincent Freeman. no filme. Gattaca parece se tornar um filme policial ou de suspense quando a trama narrativa se desloca para a busca do assassino de um dos diretores da corporação Gattaca. quando Vincent encontra em Gattaca. como forma de resistência individual ao totalitarismo do destino genético. os Válidos. Ao lado dos mais sofisticados recursos de manipulação genética. Apesar do mais alto controle social garantido pelo registro genético. em virtude de um acidente. outro. a espécie humana continua a mesma: dividida em classes sociais e se utilizando de subterfúgios escusos e clandestinos para atingir seus interesses egoístas. No desenrolar da trama. seja a de Vincent para ter acesso à corporação Gattaca e realizar seu sonho de tornar-se astronauta. os “filhos de Deus”. que descobre a verdadeira personalidade de Jerome e ameaça denuncia-lo. “filho de Deus”. Utilizando os serviços clandestinos de um “pirata genético”. e os Inválidos. No final. mais uma vez. Torna-se claro. satélite de Júpiter (seria uma alegoria de fuga do sistema do capital. ou do diretor Josef. os “filhos da Ciência”. um Válido que. literalmente. no estilo de East of Eden. ficou paralítico. seu irmão Anton. A sociedade de Gattaca está dividida em duas “classes sociais”. a transfiguração de uma rivalidade de classe. que hoje estão se tornando realidade pelos avanços da engenharia genética e da biologia molecular. Nesse ambiente de resistência individual. a trama de Gattaca sugere um drama familiar. um Inválido condenado 39 pelo seu código genético a tarefas degradantes (Freeman significa. os “de baixo” apelam para fraudes sutis.

A luta de Vincent não é apenas contra o Sistema de Gattaca. com o desenvolvimento da técnica. mas a forma social que a desenvolve e se apropria dela. que aparentam certa simpatia pelos ideais transgressores de Vincent/Jerome. que Vincent se revolta e busca uma saída individual. os Condenados da Terra. a atitude arrogante do verdadeiro Jerome diante de um policial que o interroga.agora demarcado. É um destino genético produzido pelo homem.numa sociedade de classe. mas o final não é propriamente um final feliz. Mas apesar do clima totalitário. objeto de uma rede controlativa. A ambição individualista de Vincent é que conduz a trama. guardiães da Ordem genético-fascista da sociedade de Gattaca. já desumanizado pelo capital. baseada na divisão hierárquica do trabalho. não deixa de ser um protesto contra a sociedade de Gattaca. sejam da classe dos Inválidos. tende a incorporar novas determinações de poder e de controle cada vez mais rígidas e com um lastro natural (pode-se. que . no sentido clássico. A sua luta é contra o destino de classe – ou casta? . Em Gattaca. antes de tudo. E Vincent representa o herói americano – um anti-herói ao estilo de Charles Chaplin? . conteúdo de classe. certa nostalgia de um passado distante em que um fio de cabelo era apenas um fio de cabelo (ou uma mera lembrança afetiva). atingindo o próprio ser orgânico do homem. uma divisão em casta ou de acordo com o sangue. Na ótica do Cinema de Hollywood. graças ao avanço da técnica. agora representado pelos imperativos categóricos da eugenia social. mas contra si mesmo. O filme se passa na corporação Gattaca. Pode-se apreender no filme. apesar do drama possuir. considerar mesmo uma divisão de classe. bem ao estilo das sociedades tradicionais?). ou sim. A perspectiva do filme Gattaca é tipicamente americana. dividida em classe. produzida pela manipulação técnica. nesse caso.em sua luta contra o sistema. numa certa passagem do filme. É o estranhamento assumindo proporções abismais. as saídas são individuais. os proletários seriam os Inválidos. de uma “grade”.condescendente do faxineiro Caesar (representado por Ernest Borgnine) ou pelo médico Lamar. contra seus fluidos e restos corporais capazes de denúncia-lo como Inválido. talvez uma nova forma de ciberespaço. tende a tornar-se uma “segunda natureza”. Gattaca sugere o dualismo Acaso (ligado a “primeira natureza”) versus Planejamento (imperativo da “segunda natureza”). mesmo entre os Válidos existe uma certa hierarquia de classe . o diretor e roteirista Andrew Niccol sugere uma “natureza humana” recalcitrante às imposições sistêmicas. pelo estigma do destino genético. capaz de aprofundar o controle social do capital. O destino trágico do verdadeiro Jerome.que comete suicido se incinerando num auto-forno no exato momento em que Vincent parte para Titã. sugere que. Não podemos culpar a técnica em si. Contra a técnica que supostamente desumaniza o homem. na medida em que é produto de um afastamento das barreiras naturais – o domínio do código da vida . e não um registro genético capaz de denunciar a identidade de classe das pessoas. É contra essa “segunda natureza”. na verdade. Apesar disso. mas poderia se passar num Campo de Concentração ou numa sociedade totalitária qualquer. A sociedade do capital. mas que.a não ser que os policiais. através de exame de DNA. o filme expõe as falhas irremediáveis de Gattaca e do seu sistema de controle.

apresentar-se como um Válido) ? Giovanni Alves (2003) 40 Filme Adam: Memórias de Uma Guerra Gênero: Drama Ano de Lançamento: 2010 Formato: Avi Qualidade: DVDRip Idioma: Português | Inglês Legenda: S/L Tamanho: 814 MB Sinopse: Em Adam: Memórias de Uma Guerra a estranha história de Adam Stein. agora num sentido amplo. uma sociedade de classe em que só restaria. Foram levantados ainda o problema de pesquisa. A sua mente ficou afetada e agora está internado num hospital psiquiátrico. sejam eles de nascimento. é claro. E o sonho de Vincent (ir a lua Titã). onde o tentam reconduzir a uma existência o mais normal possível para quem viveu os horrores do Holocausto. as limitações e as delimitações do trabalho. Capitulo II Agropecuária brasileira.exclui como lixo humano todos os Inválidos. para as pessoas. uma alegoria da sociedade (pós)-moderna. no sentido weberiano. sejam eles por incapacidade adquirida. adaptar-se. Mas Adam não é um homem vulgar nem um doente comum. Seria a sociedade de Gattaca uma “gaiola de ferro”. não deixa de ser singelo e desesperador. É como se o único herói do filme busca-se lá fora o sentido da vida. . se auto-incinerar ou então viajar para Titã (se conseguir. O Seu cérebro é demasiado inteligente para confundir os seus médicos e perceber o que está para além da realidade fundir os seus médicos e perceber o que está para além da realidade. os objetivos. um homem que viveu o drama de ser judeu na Alemanha nazi e sobreviveu aos traumas dos campos de concentração. ou seja. inovações tecnológicas e desempenho produtivo No capítulo introdutório foram realizadas as primeiras observações sobre o tema a ser desenvolvido no trabalho.

Este capítulo apresenta a evolução histórica da agropecuária brasileira desde a colonização até os dias atuais. Como pode ser observado no gráfico da figura 2. através da geração de divisas pelas exportações de produtos agropecuários. a industrialização e a distribuição da produção do setor agropecuário. bem como o processo de modernização pelo qual ela passou. 1997). a borracha e o cacau foram os principais geradores de renda para o país no período de 1500 a 1930. Nesta fase. Entretanto. no segundo capítulo. De acordo com Lima apud Rossi (1995). O setor agropecuário continua sendo a base para o bom desempenho do complexo agro-industrial que envolve toda a produção agrícola e pecuária. o fumo. Ao contrário.1. Pode-se dizer que produtos agrícolas como o pau-Brasil (extrativismo). o algodão. este fato não significa que a agropecuária diminuiu sua importância para o desenvolvimento do país. em 1960 a renda gerada pelo setor agropecuário já é menor que a produzida pelo setor industrial. o setor de serviços e o setor industrial têm maior participação na geração da renda interna (cerca de 88 %). esteve voltada para o desenvolvimento da indústria. Ainda são apresentados. a agropecuária sempre teve um papel de destaque na economia brasileira. no período observado4 A partir de 1920. Mesmo assim. e principalmente após a década de 30.1 Evolução histórica da agropecuária brasileira Desde o início da colonização. Também é destacada a importância da agropecuária para a economia brasileira. cabendo apenas 12 % ao setor agropecuário (Mueller. O fato da agropecuária ter uma menor participação na formação do PIB. até os dias atuais. pode-se afirmar que ela foi e ainda continua sendo de fundamental importância para a economia brasileira. os estudos relacionados ao tema produtividade e agropecuária brasileira. A maior parte dos incentivos e políticas governamentais. Figura 2. a riqueza interna gerada pela indústria só se distancia da riqueza interna gerada pelo setor agropecuário no final da década de 50 ( Brum 1991). passando este último a ganhar cada vez mais destaque na economia brasileira. a cana-de-açúcar. de lá para cá. Figura 2. a indústria brasileira começa a desenvolver-se com maior intensidade. produção de insumos e máquinas.25. caracterizada como modelo econômico primário-exportador.2 Gráfico da participação percentual dos setores no PIB6 Atualmente. O financiamento desse crescimento é baseado na riqueza gerada pela agropecuária. com relação aos outros setores (indústria e serviços). . pelo fornecimento de insumos às agro-industrias e pela produção de alimentos às pessoas que vivem nas cidades. quase todos os outros bens de consumo que não eram produzidos internamente dependiam da renda gerada pela exportação dos produtos agropecuários para serem adquiridos3. sendo que ela foi e ainda continua sendo de fundamental importância para a geração de riquezas e o aumento do bem-estar social. não diminui a sua importância como setor alavancador da economia. como pode ser visto no gráfico da Figura 2.1 Gráfico dos produtos de maior importância econômica para o Brasil. a partir da década de 70. o complexo agro-industrial corresponde cerca de 40% do PIB e. o café. em detrimento da agropecuária. 2.

tem-se uma elevação da demanda por produtos agropecuários. basicamente. segundo Alves e Contini (1988).2. que migra para as cidades. que surgiu em correspondência com a transformação de uma economia puramente voltada à atividade primária para uma economia mais industrializada. Esta expansão pode ser realizada basicamente de duas formas: em um caso pode-se optar pela expansão da fronteira agropecuária. Na área agropecuária. serão expostos a seguir. ou seja. No caso da segunda forma de expansão da produção. A primeira forma de expansão da produção pode ser viável no Brasil pela disponibilidade de áreas. O primeiro processo ou modelo A não tem ligação . Em função destes fatos. no caso brasileiro. deixa de produzir alimentos e passa a requerer que a população restante no campo a alimente nas cidades. a utilização de insumos modernos e práticas adequadas ao cultivo. ocorre em sua maioria no interior do país. neste tipo de atividade. o caminho a ser seguido requer a utilização de um maior nível tecnológico na produção.3 apresenta uma simplificação das inter-relações do complexo agro-industrial. como máquinas. Daí surge a necessidade de expansão da produção agropecuária para atender às necessidades emergentes. seria necessário a disponibilização de insumos modernos.2 Processo de modernização do setor agropecuário brasileiro Com a intensificação do crescimento dos setores industrial e de serviços. através do aumento da utilização de insumos modernos (máquinas. defensivos. O fluxograma da Figura 2. exigindo investimentos em infra-estrutura. Diante de tal questão. Este crescimento é reflexo do aumento do setor industrial e do setor de serviços. 40% das exportações brasileiras. o modelo de produção agropecuária baseado no senso comum passa a ter dificuldades em atender às necessidades emergentes. pois esta mudança estrutural na economia do país acarreta o deslocamento das pessoas do campo para a cidade. Figura 2. bem como o caminho seguido. a partir dos anos 70.3 Representação simplificada das relações do complexo agro-industrial Como pode-se notar. o setor urbano brasileiro intensifica o seu processo de expansão7. no outro. se dá. Esta parte da população. surge a necessidade de novas opções para a modernização da produção agropecuária.aproximadamente. e com maior intensidade nas décadas seguintes. funcionando como descentralizadora dos investimentos nos grandes centros e promovedora do progresso no interior. Entretanto. fertilizantes. Uma característica importante do complexo agro-industrial é a de que o processo de industrialização. a partir dos anos 40. 2. onde se desenvolvem com grande rapidez os setores industrial e de serviços. A expansão da produção agropecuária brasileira. 2. produtos químicos e sementes melhoradas).1 Necessidade de crescimento da produção e modelo de geração de tecnologias A partir da década de 40. As possibilidades para a modernização. existem basicamente dois modelos ou processos para a geração de tecnologias. dentre outros. estas áreas se encontram longe dos grandes mercados consumidores. Esse processo de modernização é apresentado a seguir. O desenvolvimento de pólos regionais proporcionado pelo agronegócio foi destacado por Neto e Edward (1999). o setor agropecuário é a base para todo o complexo agro-industrial.

devido ao processo de industrialização. os imigrantes europeus e japoneses tiveram papel fundamental na geração e difusão do conhecimento. é necessária uma profunda transformação na infra-estrutura de base do setor agropecuário brasileiro. O modelo baseado no senso comum foi predominante na agropecuária brasileira. neste modelo. da geração de conhecimentos específicos àquele meio ambiente a ser explorado. o processo de geração do conhecimento científico é baseado na existência de instituições especializadas. na base da tentativa e erro. do início da colonização (1500) até os anos 50 deste século. práticas adequadas de uso do solos e formas de controle biológico10. mal ou intensamente utilizados. . o que acarretaria em pesados investimentos. Como se pode notar. Como o país vinha há séculos utilizando o modelo tradicional e este atendendo às necessidades. É o caso de fronteiras agropecuárias como o Cerrado. adubos capazes de corrigirem deficiências nutricionais dos solos. e os conhecimentos são repassados através das gerações. como. quanto por entidades públicas9. a provável forma de transformação do modelo tradicional para o modelo de base científica seria através de insuficiência de atendimento das necessidades do país pelo modelo clássico. necessitando. como descrito há pouco. abrindo espaço para a expansão da outra forma de geração de tecnologia. onde uma exploração agropecuária adequada deve suceder em moldes diferentes daqueles trazidos pelos imigrantes. de exportação e de doenças. por exemplo. com o aprofundamento das crises como a de abastecimento. principalmente. Todos esses recursos facilitam o atendimento das necessidades emergentes. Esse fato se dá devido a pouca ou nenhuma utilização de insumos modernos ou das práticas adequadas de manejo integrado dos solos. tanto pode ser feita pela iniciativa privada8. A capacidade do aumento progressivo da produtividade. Como conseqüência. por parte dos agropecuaristas. neste caso. em Estados localizados no sul do Brasil. não conseguindo recuperar o desgaste de solos. O conhecimento é desenvolvido pelos próprios agropecuáristas. visando o aumento da produção. aumentou intensamente e causou uma maior pressão na demanda por alimentos. apesar de gerarem outros desequilíbrios.estrita com a pesquisa organizada. como o cerrado brasileiro. Eles adaptavam experiências trazidas de suas regiões de origem às regiões similares. Estas inovações são o que freqüentemente chamam-se de insumos modernos. Como se pode observar. pelo cultivo específico de uma ou de poucas culturas. que geram e difundem as inovações ou novos processos produtivos. para a geração de conhecimentos. Este fato aconteceu. a partir dos anos 50. sementes geneticamente melhoradas. para mudar do modelo A para o modelo B. Outra limitação desse modelo. foi gerado em função do crescimento da população urbana que. A partir da década de 50 ele começa a entrar em crise. é praticamente inexistente. que passar-se-á a expor. que anteriormente eram tecnicamente inviáveis para o cultivo e ainda contribuem para o melhor aproveitamento das atualmente exploradas. ocorre quando o ambiente de atuação agropecuária não permite a plena aplicação dos conhecimentos dos agropecuaristas. resistentes a doenças e com capacidade de adaptação a condições ambientais adversas à sua origem. 25% do território brasileiro. a busca de novas fronteiras. com o decorrer do tempo. máquinas adequadas às culturas. O problema de abastecimento. e a Amazônia. pois possibilitam a conquista de novas fronteiras. O outro processo ou modelo B é o que está baseado na pesquisa científica. Desta forma. Dentre eles estão os defensivos capazes de controlar os desequilíbrios provocados na flora. sempre existirá. No caso brasileiro. Esta pesquisa. A necessidade da manutenção e ampliação das exportações agropecuárias era indispensável para a manutenção do equilíbrio no Balanço de Pagamentos.

Pois. 1988). A sua estrutura agrária ainda continuava constituída. segundo esta corrente. 1988). Estes autores. Eles também reconhecem que a disponibilização destes insumos exigiria uma política de incentivos e investimentos pesados. como a de preços mínimos e subsídios para a disponibilização de insumos modernos. Apesar dessa oportunidade. da agropecuária brasileira: a neoclássica e a estruturalista. em sua maioria. disponibilização de mão-deobra e terra.2. pois. o processo de modernização só foi consolidado com maior intensidade a partir de 1970. existiam outros fatores. que apenas se aproveitavam da disponibilidade de mão-de-obra e terra. exigindo que a pesquisa apresentasse resposta a elas (Alves e Contini. insumos modernos. as inovações foram retardadas por fatores como a estrutura agrária. faltavam mecanismos que facilitassem o acesso dos agropecuaristas aos meios. Esse processo é que será discutido no próximo item do capítulo. em função das crises. Essas questões estavam relacionadas à própria estrutura agrária brasileira. a exploração agropecuária ocorreu de modo praticamente artesanal. que levassem ao progresso técnico. ou por minifúndios que "não estavam interessados no mercado". que. onde os agropecuaristas estavam muito mais preocupados com o atendimento de suas necessidades do que com o mercado. Teóricos neoclássicos como Schuh e Nicholls apud Santos (1988) atribuem a baixa produtividade da agropecuária ao reduzido nível de tecnificação utilizado pelos agropecuaristas. Pode-se considerar que existiam duas correntes teóricas tentando explicar esta falta de crescimento da produtividade. a agropecuária sempre teve papel de destaque na economia brasileira. ou de modernização. Estes fatores mencionados pressionavam a implementação de mudanças estruturais na agropecuária. A primeira sugere que o problema estava relacionado à falta de políticas adequadas ao setor. cria-se espaço para a modernização. não existia uma classe dinâmica na agropecuária que ansiasse por inovações. a agropecuária brasileira até meados dos anos 60 não apresentava sinais significativos de utilização de insumos industriais ou de processos produtivos adequados às suas condições edafo-climáticas. de latifúndios despreocupados com a maximização dos lucros e por minifúndios. como destaca Santos (1988). 2. Essa corrente também dava ênfase à grande disponibilidade de terra e mão-de-obra como fator inibidor das inovações. nos anos 50 e 60. com pouca aplicação de tecnologia. por outro lado. destinando sua produção quase que exclusivamente ao atendimento das próprias necessidades (Santos. era composta.2 Políticas para a modernização da agropecuária brasileira Como enfatizado anteriormente. em grande parte.Algumas doenças passaram a ameaçar a produção de culturas importantes como o cacau. por parte do governo. ou por extensos latifúndios desinteressados em inovações. de acordo com os autores. . que possibilitassem o aumento da produção por espaço de terra e ainda a conquista de fronteiras antes tecnologicamente inacessíveis. quando muitas políticas foram realmente direcionadas para o aumento do nível tecnológico do setor. que poderiam impedir o desenvolvimento e a implementação de novos processos produtivos na agropecuária. Por outro lado. A partir dos anos 50. Conforme apresentado. A segunda sugeria a inadequada estrutura de distribuição de terra como fator limitante à modernização. Do início da colonização até a década de 50 deste século. na criação da infra-estrutura. Devido a isto. não consideravam fundamental a criação de uma estrutura agrária adequada à absorção destas novas tecnologias.

na estrutura de distribuição da terra. A partir destas condições descritas. como a melhoria da estrutura agrária. Assim sendo. encontram. a infra-estrutura rural. e a utilização de fatores abundantes. em termos de distribuição de terras. o progresso tecnológico nos meios de transporte evitava aumentos expressivos dos preços devido à fronteira agropecuária estar se tornando cada vez mais distante dos centros de consumo. E os que existiam apresentavam um nível de desenvolvimento muito primitivo. então. não existia uma classe dinâmica de pequenos produtores capaz de absorver inovações tecnológicas. Apesar de não contribuírem para o progresso técnico. Surgia. 1988) A partir de 1965. por outro lado. autores estruturalistas. parece ficar evidente a necessidade de aumentar os índices de produtividade da agropecuária. Por outro lado. o fator limitante à expansão de tecnologias modernas que proporcionassem o aumento de produtividade da agropecuária. estas políticas que facilitavam a disponibilização dos insumos tradicionais. E viabiliza-se o cultivo de culturas . pode-se afirmar com bastante precisão que. terra e trabalho. crédito e assistência técnica. que seriam os únicos em condições de se adequarem ao processo de inovação. os autores consideram útil. Já o preço da mão-de-obra era mantido estável tendo em vista o deslocamento das populações marginais do Rio Grande do Sul e do Nordeste para estas regiões. (Santos. Como foi apresentado. o processo de modernização da agropecuária brasileira ocorrido a partir dos anos 60 foi moldado segundo a estrutura agrária. até 1975. Essa corrente considerava a não utilização do capital. Diante disto. o modelo de inovação induzida de Hayami e Ruttan apud Santos (1988). terra e trabalho uma saída inteligente. não foi desenvolvida. Por outro lado. as políticas que visavam o aumento da produtividade rural ficaram atreladas aos grandes e médios produtores. dentro das propriedades agropecuárias. Deste modo. Apenas os grandes e médios produtores é que poderiam se beneficiar destas políticas. fator escasso. Em decorrência deste modo de exploração agropecuária. de defensivos agrícolas e de outros insumos. como Furtado apud Santos (1988). Esta corrente se baseia no processo de formação da estrutura agrária brasileira. Nota-se que as políticas sugeridas eram de curto prazo. à agropecuária eram consideradas racionais pelos autores neoclássicos. e que. para explicar a falta de modernização da agropecuária brasileira. terras férteis disponíveis e ainda não utilizadas. como a do Paraná. Em decorrência deste fator. na maioria dos Estados brasileiros. via utilização de fortes subsídios. do Mato Grosso do Sul e Goiás. Deste modo. torna-se possível a utilização de áreas de grandes dimensões em uma mesma propriedade. já que a adoção de inovações técnicas era economicamente inviável. A disponibilização destes fatores era corroborada pela expansão de fronteiras férteis.O atraso técnico e a falta de infra-estrutura moderna de apoio ao setor agropecuário eram explicados pela abundância de terra e mão-de-obra verificadas até meados dos anos 60. os caminhos da modernização não visavam o longo prazo. dificultou o acesso de terras a pequenos colonos à não modernização da agropecuária brasileira. como preço mínimo. E isso não seria possível utilizando-se apenas os instrumentos já existentes. a necessidade de investimentos elevados para a utilização de novos processos produtivos que possibilitassem a expansão da produção agropecuária. existiam. de adubos. Deste modo. que privilegiou as políticas de disponibilização de terras e mão-de-obra11 a grandes empresas agropecuárias. inicia-se a ampliação do uso da mecanização.

econômicas. O consumo interno de tratores agrícolas em 1994 foi de 46. de acordo com eles. por fatores relacionados às políticas dirigidas ao setor.910. Estes fatores estavam relacionados à disponibilização da mão-de-obra e com a viabilização da utilização de terras por grandes empresas. e mais intensivamente a partir da década de 70. sendo alguns deles proporcionados pelo II PND (Plano Nacional de Desenvolvimento. segundo os autores. observa-se que em 1974 eram consumidos internamente 5 vezes mais tratores do que em 1969. como exemplo. o milho.45612 unidades. demonstra que estes se expandiram. pois passava a demandar insumos industriais em escala. para um mercado internacional exponencialmente crescente. e fruto da disponibilidade de pacotes tecnológicos do exterior e do apoio ao desenvolvimento do setor rural. como o soja. o desenvolvimento da agropecuária foi atrapalhado.080. a partir do final dos anos 60. dentre outras. poupadores de terra e trabalho. esse foi exógeno à agropecuária. pode-se verificar que houve uma intensificação no uso de insumos modernos. que se deu intensivamente até os anos 60.1974/1979). o processo de modernização pode ter sido absorvido. principalmente.97513.775 e em 1995 salta para 52. porém é interessante observar que a potência média dos tratores aumentou. em 1974. De forma agregada.208. a cana-de-açúcar. realizado por Barros e Manoel (1988). ocorre uma estabilidade no consumo. salta para 1. apresentaram uma expansão até meados da década de 70.664 unidades. que era de 630. devido ao incentivo à produção interna. desde a colonização do país até meados dos anos 60. em que os processos produtivos da agropecuária eram voltados ao uso intensivo de insumos industriais. Pode-se citar. o caso do consumo aparente de fertilizantes. Os defensivos (inseticidas. onde a agropecuária teria um papel importante. A modernização da agropecuária brasileira foi simultânea ao desenvolvimento de uma tendência mundial. respectivamente. Como pôde-se notar. Quando se iniciou o processo de modernização. para entrar em uma era de incentivos às exportações. fungicidas e herbicidas). 45. e em 1994 passa a ser de 5. ou até inferir que a agropecuária brasileira intensificou o processo de modernização a partir da década de 70. um pouco superior a 1994. auxiliando o crescimento do setor industrial. com maior intensidade. pelo governo. sociais e edafo-climáticas entre seus Estados e regiões.636. 5 anos depois. existe uma queda no consumo de defensivos no período14. A partir daí. a agropecuária participaria com a exportação de produtos. No caso da venda doméstica de tratores agrícolas. influenciam a geração e a utilização dos novos processos produtivos.824. Deste modo.que são comercializadas em larga escala. aliadas à ação de grupos de interesses. o trigo. O número de HP disponíveis em 1970 era de 7. como observado por Monteiro (1985).959.995 e 9. Em outras palavras. Estas diferenças. Esse período ficou conhecido como "revolução verde". Neste caso. por Estados e regiões que possuíam as condições mais adequadas de assimilação das inovações .380 toneladas de ingrediente ativo em 1969. o consumo aparente de inseticidas e de fungicidas diminui entre 1974 e 1991 e o consumo de herbicidas aumenta. Um estudo sobre a utilização dos insumos modernos na agropecuária. Entretanto é importante observar que o Brasil é muito grande e possui diferenças estruturais. Outro fator que influenciou a modernização da agropecuária brasileira foi a saída gradativa de um período de substituição de importações. no mesmo período. e ainda incentivaria a expansão industrial interna. Na realidade.

que provavelmente acarretariam modificações na produção e na produtividade da agropecuária brasileira. Os trabalhos que serão apresentados a seguir apontam deficiências similares. sendo que o aumento da produção por hectare poderia ser fruto do crescimento da utilização de outros insumos. não devendo ter sido distribuído de modo uniforme no país. surge a necessidade de verificação das conseqüências no desempenho produtivo da agropecuária. principalmente. Estas alterações estavam relacionadas à expansão da utilização de insumos modernos. é fruto das crises que se iniciam nos anos 40 e 50. que se intensifica nos anos 70. Entretanto. pode-se destacar trabalhos como o de Pinazza e Noronha (1980). alguns pesquisadores vêm desenvolvendo trabalhos visando a melhoria do dimensionamento das reais alterações de produtividade. Trevisam (1984) desenvolveu um estudo que trata sobre o relacionamento entre a estrutura fundiária e a produtividade alcançada pela cultura do cacau no Estado da Bahia.3. Esses estudos consideraram a produtividade total dos fatores. Destacar-se-á. 2. 2. Entretanto. a agropecuária brasileira. os Estados e regiões que não se moldavam às inovações. alguns trabalhos correlatos ao tema foram desenvolvidos. Também fica destacado que o processo de modernização. considerando apenas a produtividade parcial dos fatores. foram desenvolvidos alguns estudos visando identificar alterações na produtividade da agropecuária brasileira. Frente a este fato.vindas do exterior e das desenvolvidas internamente. em geral. sofre um processo de modernização. É bom enfatizar que a maioria dos estudos. . Frente às mudanças ocorridas no setor. Os autores concluíram que a produtividade da cana-de-açúcar era sensível ao aumento de preço da cultura. a seguir. não trata a produtividade em um sentido global. Assim sendo. apesar das dificuldades estruturais. o que os autores verificaram realmente foi que a produção por hectare estava crescendo em função do aumento do preço da cana-de-açúcar. a agropecuária brasileira sofreu grandes mudanças. estes utilizaram-se do tema produtividade e agropecuária. É importante salientar que alguns dos trabalhos não trataram diretamente sobre a questão de inovações e reflexos na produtividade. podem ter participado com menor intensidade deste processo. estava aumentando e que extratos muito grandes de terra apresentavam um menor rendimento. Este problema persiste em todos os estudos que contemplam indicadores parciais em suas análises. a partir da década de 70. Já em uma análise que leva em consideração indicadores globais. Em seu estudo.1 Estudos regionais relacionados à produtividade que utilizaram indicadores parciais Dentre os estudos regionais relacionados à produtividade. Diante desta questão. e concluiu que a produtividade do cacau. Como se pode observar. No próximo item serão apresentados os trabalhos relacionados ao tema. alguns destes trabalhos que abordam a questão da mensuração da produtividade da agropecuária brasileira.3 Estudos relacionados à produtividade e à agropecuária brasileira Como se pôde observar. a produtividade poderia não estar aumentando. pois eles utilizaram o rendimento por hectare como indicador de produtividade. que trataram das relações entre o preço da cana-de-açúcar e a produtividade desta cultura no Estado do Rio de Janeiro. o autor utilizou a produtividade da terra como indicador. além de analisar somente casos regionais. Recentemente.

se apoiam no aumento de produtividade para discutir a transformação do emprego na agricultura. Como se pode observar. Para analisar o desempenho produtivo agropecuário de 332 microregiões do Brasil. que. Caso isto ocorra. Eles usam conceitos parciais de produtividade do trabalho e da terra para analisar o aumento do progresso tecnológico e o aumento da produtividade agrícola. neste trabalho. no período de 1975 a 1970. os indicadores parciais de produtividade não devem ser confundidos com a produtividade da agropecuária. pode-se estar incidindo no erro de superestimar ou subestimar os aumentos de produtividade. em relação aos produtos destinados ao mercado interno. com uma visão marxista. As diferenças de produtividade da terra e do trabalho entre microregiões homogêneas da agropecuária paranaense.2 Estudos em âmbito nacional relacionados à produtividade e indicadores parciais Dentre os estudos voltados à análise da produtividade da agropecuária brasileira. Para alcançar tal objetivo. foi analisada por Guerreiro (1996). Avaliando a agricultura brasileira frente à sua estrutura de produção. pode-se citar o de Kageyma e Silva (1983). no desempenho e na composição da produção agrícola paranaense. O autor considera como indicador de produtividade a produção por área. Os autores utilizam indicadores parciais de produtividade para realizar a análise. e o aumento das possibilidades da exploração do trabalho. Os autores discutem o efeito do progresso técnico no crescimento da produtividade. É ressaltado na análise que grande parte do crescimento ocorreu em função do aumento de produtividade. que existiam grandes variações de produtividade entre as microregiões. O objetivo dos autores era de conhecer os efeitos das condições climáticas adversas sobre a produtividade agrícola.Silva et al (1985) estudaram os efeitos das condições do tempo sobre a produtividade agrícola no Estado de São Paulo. Mello (1990) investiga o crescimento não desprezível da agricultura brasileira na década de 80 frente a fatores adversos. foi estudado por Pereira e Lugnani (1991) e Pereira (1992). Hoffamann e Jamas (1990) se fundamentaram em indicadores parciais de produtividade da . 2. Os efeitos das políticas institucionais. como soja e laranja. apesar de destacarem os limites desses indicadores. frente ao processo de modernização.3. Foi verificado. A seguir serão expostos estudos de âmbito nacional que são baseados em indicadores parciais. eles desenvolveram um modelo de análise baseado no índice da evolução da produtividade da terra de 1956 a 1983. Os autores utilizaram a produtividade da terra no auxílio à análise de desempenho. todos estes autores empregaram indicadores parciais de produtividade em suas análises. como o desempenho insatisfatório da economia e cortes de incentivos ao setor. Albuquerque e Nicol (1987) desenvolvem um trabalho fazendo comparações da produtividade da agricultura brasileira em relação à de outros países. O autor usa indicadores parciais para comparar as diferentes regiões do Estado. Como já mencionado anteriormente. Silva (1983) baseia-se em indicadores parciais para explicar o comportamento dos diferentes extratos de produtores que compõem esta estrutura. como arroz e feijão. O autor destaca o crescimento mais acentuado dos produtos destinados ao mercado externo.

que tinha como objetivo analisar as mudanças da produtividade na agropecuária brasileira durante o período de 1970 a 1985.3 Abordagens nacionais sobre a produtividade considerando indicadores PTF Os estudos relacionados à produtividade. Os resultados. alguns estudos nesse sentido vêm sendo desenvolvidos visando a análise das alterações da produtividade da agropecuária brasileira. principalmente a desenvolvida pelo sistema EMBRAPA15. área utilizada para produção. Diante da relevância do problema e da importância de uma análise mais acurada sobre a produtividade da agropecuária brasileira. Recentemente. como é o caso do objeto de estudo. pode-se destacar o trabalho de Ávila e Evensom (1994). Como já evidenciado anteriormente. Na tentativa de minimizar a deficiência das medidas parciais. A produção considerada na análise foi composta pelos principais produtos da agropecuária brasileira. apresentam resultados mais próximos da realidade. em seu cálculo. Os índices de produtividade (PTF) foram construídos com base no índice de Tornqvist. da produtividade da agricultura em relação a década de 70. significativa. nas alterações de produtividade. requer. como mencionado. principalmente a gerada pelo sistema EMBRAPA. fertilizantes. que consideram a PTF. como a Fundação Getúlio Vargas (FGV). O estudo de Valente (1994) trata do desempenho da agricultura brasileira no período compreendido entre 1975 a 1993. pretendia-se averiguar se os aumentos de produtividade poderiam ser explicados pelo desenvolvimento das pesquisas. para encarar desafios da competição internacional. face à análise de ambientes complexos. Os insumos utilizados eram: força de trabalho. apontaram aumento de produtividade. tentam apresentar um tratamento mais adequado à questão de mensuração da produtividade. o qual. . apesar da melhoria. Os dados utilizados para a construção dos índices de produtividade foram extraídos dos censos agropecuários do IBGE. O autor ainda destaca que. para o período de 1970 a 1985. a utilização do preço de insumos e produtos como fator homogeneizador. Estes trabalhos serão analisados no próximo item. e com o valor agregado por hectare cultivado. Os preços dos produtos e dos insumos foram coletados dos Censos e de outras fontes secundárias. A taxa anual de crescimento da PTF encontrada foi de 2. defensivos agrícolas. Os autores desses trabalhos. vacinas e medicamentos. Os autores também pretendiam avaliar o papel da pesquisa agropecuária. A partir desta taxa. no terceiro capítulo. rações. os indicadores parciais de produtividade podem levar a resultados distorcidos. Dentre estes. considerando indicadores de PTF. os autores trabalharam com o valor agregado do trabalho na produção agropecuária. A característica comum destes trabalhos apresentados é que em todos foram utilizados indicadores parciais de produtividade em suas análises para explicar alguma situação ocorrida na agropecuária brasileira. os autores relacionam o crescimento da produtividade com a pesquisa agropecuária. Baseando-se em indicadores parciais.3. tratores. conhecendo os limites dos indicadores parciais de produtividade. ele conclui que o desempenho produtivo dos anos 80 foi um pouco superior do que o verificado no início da década seguinte. foram desenvolvidos alguns estudos que trataram a questão em um sentido mais amplo. no geral.terra e do trabalho.45%. ainda é preciso ser mais produtivo. Desta forma. 2. Os resultados demonstram que a pesquisa contribuiu para o crescimento da PTF.

no caso. Tendo que um fato econômico. principalmente. Este fato não pode ser corrigido por uma simples correção de preços. O indicador de produtividade utilizado não apresentava a possibilidade de desmembramento das mudanças de produtividade em mudanças tecnológica e alterações no indicador de eficiência. para as alterações de tecnologia de produção. . a pesquisa agropecuária vem a contribuir. como salientado no terceiro capítulo. ( Kageyama e Hoffmann. também apresenta certas limitações. Nesse caso. fato este que poderia repercutir em aumento de produtividade sem que exista um real crescimento da relação produto/insumo. Os autores o iniciam destacando a importância do tema e a pequena quantidade de trabalhos direcionados à questão. como a necessidade de utilização de preços dos produtos e insumos e o não detalhamento das causas das mudanças de produtividade. ou seja. se adotarmos os dados dos Censos deflacionados pelo Índice de Preços Recebidos pelos Agricultores (da FGV). é influenciada por fatores como a evolução tecnológica e as mudanças no indicador de eficiência. Por exemplo. considerando a produtividade total dos fatores. Outro problema relacionado à utilização de preços está ligado a fatores conjunturais da economia. Como foi definido. foi o de Gasques e Conceição (1997). ou cresceu 25. pode interferir no resultado da análise. Tendo os autores do trabalho estas informações à disposição. 242. relacionando o papel das pesquisas nas mudanças de tecnologia. Neste trabalho também foram desenvolvidos os indicadores parciais da terra e do trabalho. poderíamos concluir alternativamente que o valor agregado da agricultura brasileira entre 1975 e 1980 decresceu 3. como se está considerando o valor produção pelo valor dos insumos utilizados. ao invés da produtividade parcial. a análise pode ser prejudicada de algumas formas. representaria um aumento do valor total da produção em moeda nacional e. desvalorização cambial. conseqüentemente. Outro trabalho que analisou a evolução da produtividade da agropecuária brasileira. haveria um crescimento do índice de produtividade. p. ou dos deflatores utilizados. utilizado pelos autores. a produtividade é uma relação produto/insumo.Como destacado por Gasques e Conceição (1997) os trabalhos que consideram a produtividade total dos fatores. por exemplo. Deste modo. tenhamos razões objetivas e fortes para rejeitar um ou outro resultado. a agropecuária brasileira. se nos reportamos aos dados das Contas Nacionais. eles criticam os indicadores parciais de produtividade e ressaltam o objetivo de avaliar a evolução da produtividade total dos fatores da agropecuária brasileira. passou por sérios problemas inflacionários no período da análise. Entretanto. as elevadas taxas de inflação deixam os resultados extremamente sensíveis à escolha de um deflator. a simples mudança da fonte de preço. no período de 1976 – 1994. Na seqüência. eles poderiam detalhar mais a análise. como comentam Kageyama e Hoffmann (1984). ceteris paribus. é importante observar que o índice de PTF. Desta forma. No caso da utilização dos preços dos insumos e produtos. Outra limitação dos indicadores de PTF utilizados pelos autores reside no fato de que a produtividade. No caso da utilização dos preços como fator do cálculo do índice de produtividade. 1984)". uma relação física. Os autores fazem a seguinte colocação: " Assim. uma desvalorização cambial poderia representar um aumento do valor dos produtos relacionados ao mercado externo. a análise de produtividade pode sofrer a influência de fatores econômicos. sem que. em primeira instância. Uma acontece quando está se estudando uma série temporal e o objeto de estudo. tendem a apresentar resultados muito mais próximos da realidade.0%.9%.

a mudança no indicador de eficiência também pode interferir no crescimento da produtividade. e de 3. e os insumos intermediários: fertilizantes e defensivos. foram de 4. Os insumos considerados na análise foram mão-de-obra. O período de 1976 a 1994 apresentou a taxa média de 3. apresentarem resultados mais consistentes que os indicadores de PPF. Os problemas relacionados ao estabelecimento de preços de certas variáveis da análise também ficam evidentes. apesar dos indicadores de PTF. O fator terra foi composto pela área de lavouras temporária e permanente. demonstram certo grau de preocupação com a tendência de crescimento a taxas decrescentes.. e dos produtos de origem animal.. Fato que pode levar a sérias distorções nos resultados. por sua vez. entre 1986 e 1994.. ainda persistem os problemas relacionados à utilização de preços dos produtos e insumos. As terras utilizadas pela pecuária não foram consideradas devido à pequena quantidade de informações disponíveis. essa queda pode ocorrer em função da redução do crescimento do progresso tecnológico na agropecuária.88% a. A alternativa encontrada pelos autores foi utilizar as informações sobre o faturamento líquido definido pela Associação Nacional de Veículos Automotores (ANFAVEA) como sendo a soma das vendas de máquinas e peças de reposição. Os dados foram conseguidos junto às publicações Produção Agrícola Municipal (PAM) e Produção Pecuária Municipal (PPM) do IBGE. refere-se ao número de unidades vendidas. ou seja. o custo ou preço foi obtido pela multiplicação do ponto médio de cada classe de rendimento pelo número de pessoas ocupadas na classe de rendimentos. é evidente a dificuldade de obtenção dos preços de insumos importantes para a análise. na análise do trabalho anterior. sendo que os autores atribuem as causas do aumento de produtividade. o que é preocupante devido a mesma ainda não se encontrar em um patamar elevado de utilização de tecnologias. Todos os dados foram obtidos com periodicidade anual. "mesmo sem saber se este existe". segundo eles. ao progresso técnico. Como se observou. diante dos resultados.a. utilizados pelos autores. frente à dificuldade de obtenção de informações.O produto utilizado na análise foi obtido através da agregação das lavouras. conforme os autores. ocorre por intermédio dos preços das variáveis. Como destacado há pouco. E como se mencionou. pura e exclusivamente. máquinas e terra. Os índices médios de crescimento da PTF.11% a. sendo que os preços dos produtos foram obtidos junto ao IBGE e à FGV. A metodologia utilizada para o cálculo dos indicadores de produtividade total dos fatores foi a mesma utilizada por Ávila e Evenson (1994). Essa. que foi apresentada pela agropecuária brasileira. sendo as informações encontradas na PAM. entre 1976 e 1985. As informações relativas ao preço das máquinas também apresentaram dificuldades de quantificação. No caso da mão-de-obra. A quantidade de máquinas. foi a forma mais viável de cálculo do preço da mão-de-obra. exibidos pela análise. temporária e permanente. pois.a.a. A agregação dos insumos e produtos. A obtenção do preço da terra se deu pela utilização do preço médio dos arrendamentos de terra para a lavoura.5% a. publicado pela FGV. Os insumos fertilizantes e defensivos têm seus preços facilmente encontrados no mercado. os autores basearam seus indicadores no índice de Tornqvist. O não conhecimento das causas das mudanças de produtividade também se faz presente neste trabalho. já que os pesos das variáveis que são obtidos através dos preços podem não estar sendo representados da melhor . segundo os autores. obtidas na mesma fonte. Os autores.

A produtividade da agropecuária brasileira foi analisada somente no âmbito nacional. Entretanto. Há dificuldades em se obter uma grande produção de gêneros de climas de temperaturas moderadas com custos aceitáveis. Enfrentamos problemas de geadas no Sul e Sudeste durante o inverno. não possui renda suficiente para um bom padrão alimentar) e pela produção de matérias-primas para vários setores industriais e energéticos. 2. Desta forma. mesmo tendo os preços como ponderador. bem como a sua importância para a economia brasileira. Posteriormente. alguns de grande fertilidade como a terra-roxa. foram exibidos os estudos relacionados à produtividade e ao setor agropecuário e as limitações apresentadas por estes. ou ainda utilizar mais de um produto ou mais de um agregado de produtos. No próximo capítulo serão apresentadas as considerações teóricas sobre produtividade e evolução tecnológica e ainda as formas de quantificação destas questões. de uma maneira geral.4 Considerações finais Neste capítulo foi apresentada uma síntese da evolução histórica da agropecuária brasileira. seria possível verificar se houveram diferenças de crescimento da produtividade entre Estados e regiões. O Brasil possui um extenso território com relativa variedade de climas. pois poderiam ser utilizados agregados de produtos ou insumos similares. predominantemente quentes. A análise também perde em qualidade quando insumos importantes. pela produção de alimentos para uma população numerosa (com uma parcela que. não temos grandes problemas climáticos que nos impeça a prática agrícola. É interessante salientar que os trabalhos apresentados utilizaram indicadores de PTF.forma. pelo emprego de aproximadamente 1/5 da PEA. inundações de verão em algumas porções do território nacional e secas prolongadas especialmente no Sertão. Fato este que poderia melhorar os resultados da análise. tendo o fator preço como homogeneizador. que nos permite o cultivo de quase todos os produtos em larga escala. infelizmente. Encontramos vários tipos de solos no país. Seria interessante que existissem resultados desagregados relativos aos Estados e regiões. consequentemente. Destacou-se ainda o seu processo de modernização. A Agropecuária no Brasil A atividade da agropecuária pertence ao setor primário da economia. o . trabalhando com um agregado de produtos e um agregado de insumos. Pereira et al (1998a) e Pereira et al (1998b) iniciaram um trabalho visando minimizar estes problemas. Apesar de não ser mais a atividade de maior importância na economia brasileira continua se destacando pela significativa participação em nosso comércio exterior. não podem ser considerados devido à falta de informações. auxiliando as políticas para sanar as possíveis distorções regionais existentes. era impossível usar mais de um insumo ou mais de um agregado de insumos. Mas. como a área destinada à pastagem.

Quando desprotegido. monocultura sem os cuidados necessários (reposição do material fértil ao solo). em áreas com chuvas intensas. excesso de animais sobre o solo e excesso de peso sobre o mesmo. Sistemas de produção na agricultura A agricultura pode ser praticada de diversas formas com um conjunto de características que passamos a apresentar a seguir: Sistema extensivo técnicas simples mão-de-obra desqualificada abundância de terras baixa produtividade rápido esgotamento dos solos Esse sistema é característico de regiões com grandes extensões de terras vazias e de menor grau de desenvolvimento. Alguns problemas específicos também afetam os solos do Brasil: *lixiviação – constitui no empobrecimento dos solos em regiões de climas muito úmidos com chuvas freqüentes que através do escoamento superficial retiram o material fértil do solo. Muitos solos do país. pela retirada da vegetação.massapé e o solo de várzea ou aluvial. corretivos químicos e fertilizantes. misturam-se as cinzas ao solo e se realiza uma monocultura sem maiores cuidados por um breve período de dois a três anos. predatórias e prejudiciais ao solo: desmatamento (especialmente junto às margens dos rios). *laterização – constitui na formação de uma crosta ferruginosa endurecida próxima à superfície do solo pela concentração de óxidos de ferro e alumínio. Quando em estágio avançado provoca a formação de sulcos profundos denominados voçorocas. entre caboclos e indígenas). Mas. quando então o solo se esgota e parte-se para outra área. com procedimentos muito simples e de caráter itinerante: retira-se uma porção da mata. Mas é agravado pelo uso de técnicas agropecuárias incorretas. Nele podemos incluir uma simples roça (como na Amazônia. A recuperação de um solo pode ser demorada e muito cara. É causado pela ação do clima. realizando-se o mesmo procedimento. acentua-se esse processo. *erosão e esgotamento do solo – provoca a destruição física do solo e a perda de sua qualidade. Em algumas áreas o processo de desertificação avança sobre áreas que antes produziam alimentos (ex: sahel. Infelizmente. em muitas áreas do território brasileiro. na África). grandes parcelas de solo são sistematicamente destruídas em todo o mundo. os solos possuem baixa fertilidade ou problemas como acidez elevada. para produzirem satisfatoriamente. Ocorre em áreas de clima tropical em que se alternam uma estação chuvosa (dissolução desses óxidos) e seca (quando esse material se acumula próximo à superfície e forma a crosta). necessitam da aplicação de adubos. cultivo seguindo a mesma linha do declive do terreno (sem a aplicação das curvas de nível e/ou terraceamento). . retirando-se as partículas que formam o solo. seus constituintes minerais e orgânicos. Os solos constituem um importante recurso natural que deve ser preservado através de técnicas conservacionistas. realiza-se uma queimada para limpeza do terreno.

. Sistema Extensivo grandes propriedades gado criado a solta sem cuidados veterinários raças simples uso de pastagens naturais baixa qualidade e produtividade destinado ao corte Sistema Intensivo Pequenas e médias propriedades Criação confinada em estábulos ou currais Cuidados veterinários Raças selecionadas e aprimoradas Uso de pastagens cultivadas Rações balanceadas Alta qualidade e produtividade Destinado à produção de leite Evidentemente essa classificação e características são de natureza bem didática. observa-se uma rápida evolução qualitativa nas técnicas de criação. com milhares de hectares de extensão). Mesmo assim utiliza muita mão-de-obra (trabalha com propriedades. Plantation grandes áreas técnicas modernas muita mão-de-obra elevada produtividade monocultura agroindústria/exportação Esse sistema passou a ocupar grandes áreas em países subdesenvolvidos ocupando seus melhores solos. com a modernização progressiva e exigências cada vez maiores do mercado. principalmente temporária (o bóia-fria ou trabalhador volante).Sistema intensivo técnicas modernas mão-de-obra qualificada terras exíguas alta produtividade conservação dos solos É um sistema característico de regiões de maior desenvolvimento. São comuns a prática da policultura e pecuária leiteira através desse sistema. Os pecuaristas têm se preocupado em acompanhar as tendências desse mercado muito competitivo. bem como o serviço de técnicos agrícolas e agrônomos. geralmente com maior ocupação humana e com o uso de pequenas e médias propriedades. Sistemas de produção na pecuária Podemos também pensar nas características dos sistemas de criação de animais que lembram muito as características acima citadas. Aplica a mecanização quando possível (lembre-se que não é todo cultivo que permite mecanização). mas na prática é muito comum que se combinem características dos dois sistemas e. Está principalmente voltada para o mercado externo. especialmente produzindo para abastecimento do mercado interno. por vezes.

justa. Ocupa terras que não são suas. é o ocupante. Melhorar o padrão de cultura da população é importante e.). Deve ser introduzida de maneira planejada e deve ser estimulada como uma forma de permitir ao produtor a competitividade para sobreviver no mercado. adubos. .. no Brasil. A adoção de uma política de preços mínimos. desde que não se concentre apenas em uma prática de subsídios que onerem o Estado e dificulte a capacidade de evolução da competitividade da agropecuária brasileira (como ocorre em países europeus). mão-de-obra. no caso do agricultor é necessário que ele possa evoluir também em seus conhecimentos técnicos para que deixe de utilizar técnicas antiquadas que contribuem para a baixa produtividade e desgaste do solo. A mecanização e o uso de técnicas modernas permite um aumento da produtividade. Historicamente. o volume de recursos à disposição para o agricultor não tem conseguido atender a todos e muitas vezes foi mal distribuído e desviado de suas reais finalidades (construção de hotéis-fazenda.. Na última década o Brasil conseguiu evoluir nessa questão e além disso tem aumentado o percentual de agricultores capitalizados o suficiente para bancar seu próprio empreendimento. *nível de mecanização – o avanço da mecanização na agricultura vem ocorrendo especialmente no Centro-Sul do país. traz problemas como um desemprego acelerado no campo e até mesmo intensificação da erosão do solo. *crédito rural e preços mínimos – para que o agricultor possa produzir ele precisa de uma linha de financiamentos. embalagens. *grileiro – falsifica títulos de propriedade e vende terras que também não são suas Problemas enfrentados pela agropecuária no Brasil: *reduzido aproveitamento dos espaços disponíveis – muitas terras no Brasil não apresentam qualquer forma de utilização. equipamentos de irrigação. *posseiro – aquele que utiliza terras que encontra vazias para uma produção de subsistência. *arrendatário – aquele que paga um aluguel ao proprietário pelo uso da terra. combustível. fertilizantes. para fazer frente aos gastos tanto no plantio (sementes. estocagem e transporte). ferramentas. *baixo nível de instrução e cultura do agricultor – grande parte dos que trabalham na terra tem um nível de instrução muito baixo. com juros reduzidos. irracional. ou são mesmo analfabetos. A sua aplicação indiscriminada. traz segurança e tranqüilidade ao produtor. Parte do crescimento de nossas safras agrícolas tem dependido da incorporação de novos espaços a esse setor produtivo mas ainda podemos ampliar e muito o espaço agrícola do país. piscinas em mansões rurais. mão-de-obra) como na colheita (máquinas.Formas de exploração da terra As propriedades agropecuárias podem ser exploradas diretamente pelo proprietário ou indiretamente pelo: *parceiro ou meeiro – aquele que utiliza as terras do proprietário e divide com este a produção obtida.

não precisaria escoar toda a sua produção imediatamente para o mercado e poderia conseguir um melhor preço posteriormente. multiplicando-se casos de invasões de propriedades. Juntam-se a todos esses atores alguns setores progressistas da Igreja e grupos políticos ideologicamente de uma esquerda mais radical (revolucionários) que também defendem seus pontos de vista e interferem na questão. Os que permaneceram no campo engrossaram movimentos sociais. conflitos e mortes nas áreas rurais. assim como a presença de posseiros preocupados com sua sobrevivência e de sua família. *distribuição de terras – historicamente o modelo econômico adotado pelo Brasil e as legislações criadas favoreceram a formação de grandes propriedades através de um processo de concentração de terras. Mas ainda permanecem problemas na armazenagem (deficiente e/ou insuficiente. é importante frisar que uma Reforma Agrária não pode parar simplesmente no ato de redistribuição de terras. assim como a redistribuição de terras. Caso ele tivesse acesso a uma capacidade maior de armazenagem. muitas vezes massacrados na luta com os brancos. mas deve garantir condições mínimas para que o camponês pobre possa produzir: linhas especiais e subsidiadas de financiamento. com falta de silos e armazéns. A desapropriação de terras improdutivas que não estejam cumprindo sua função social está sendo feita. por exemplo). o governo de José Sarney cria o Ministério da Reforma Agrária e a Constituição promulgada em 1988 contempla um Plano Nacional de Reforma Agrária. A grilagem de terras contribuiu para agravar a revolta social no campo brasileiro. no início de redemocratização do país. organizados ou não. Ao mesmo tempo em que avança a execução do PNRA (ainda que não seja a Reforma Agrária desejada por alguns setores da sociedade) avança a moderna produção agroindustrial. treinamento e qualificação de mão-de-obra. o que leva a perdas significativas da colheita e a prejuízos ao agricultor. estímulo à formação de cooperativas e criação de centros de apoio para armazenagem. O ritmo dessa reforma é contestado por alguns que a julgam lenta e tímida. Assim. Em 1985. Nas últimas décadas a continuidade desse processo associado à modernização agrícola (expansão da mecanização) e à pressão por uma agricultura cada vez mais capitalizada expulsou muitos trabalhadores do campo que se dirigiram para as cidades no movimento migratório do êxodo rural. incluindo-se aí a invasão de terras indígenas. com a melhoria da qualidade na . muitas vezes inapropriados para guardar a safra) e no transporte inadequado. A atuação do INCRA durante os governos militares preocupou-se mais com a colonização agrícola de áreas vazias do território nacional (como a Amazônia) do que com a redistribuição de terras. Preocupada com o aumento da produtividade. Vale lembrar que existem interesses conflitantes nessa questão e. a necessidade pela execução de uma reforma agrária no país foi se tornando urgente e inadiável. consolidando-se no Centro-Sul do país e estendendo-se pelo Nordeste e Amazônia.a safra agrícola tem conseguido recordes de produção. enquanto se incentivava também a ocupação do cerrado por grandes propriedades exportadoras (como a produção de soja. Além disso.*armazenamento e transporte . transporte e comercialização da produção. A formação de grupos armados por fazendeiros para proteção de suas terras (legais ou griladas) e a expansão das fronteiras agrícolas brasileiras contribuíram para definir um quadro de violência e ilegalidade nas áreas rurais. nem sempre os recursos suficientes para uma intensificação desse processo. de responsabilidade do Estado.

O Centro-Oeste tem se tornado a principal área de cultivo. *cana – o Brasil também costuma aparecer como o maior produtor mundial e um grande exportador de açúcar. na região de Ilhéus e Itabuna. Foi o cultivo de maior expansão nas últimas décadas do século XX. mas com uma produtividade menor e a um custo mais elevado. bem como melhoria de . As áreas mais recentes de produção estão no Centro-Oeste e Amazônia. O problema de geadas em terras paulistas e paranaenses deslocou esse cultivo mais para o norte. não só pelas pessoas mas também utilizado como ração animal. *cacau – com dificuldades para manter posição de destaque no mercado externo. com maior produção no Centro-Sul do país. a principal área de produção é o sul da Bahia. muitas vezes com produção insuficiente para abastecê-lo. especialmente para o próprio mercado norte-americano. *arroz – importante alimento para abastecer o mercado interno. informatização no campo. Principais produtos agrícolas O Brasil apresenta atualmente uma produção agrícola muito diversificada. invadindo o Centro-Oeste e até a Amazônia. *trigo – talvez o maior problema em nossa produção agrícola porque 2/3 do mercado interno continuam sendo abastecidos com o trigo importado da Argentina e EUA. Grande parte da produção é exportada no momento de entressafra para os países do hemisfério norte. rebanhos melhorados. É grande produtor mundial de vários produtos. O Brasil é um dos maiores produtores mundiais. *soja – o maior produto agrícola de exportação do país. com destaque para o Mato Grosso. o maior produtor nacional. Novas áreas de produção em climas mais quentes permitem um aumento da colheita do trigo no país. Cultura afetada pela praga da vassoura-de-bruxa que levou produtores do cacau a partirem para outros empreendimentos. de amplo consumo interno. a grande expansão da cana a partir de meados da década de 1970 se deveu a criação do Pró-álcool que levou a cana a ocupar grandes extensões no Estado de São Paulo. especialmente na indústria têxtil. *laranja – o Brasil disputa com os EUA a liderança mundial e é grande exportador. *algodão – a produção é crescente para um mercado interno também em expansão. São Paulo é o líder da produção nacional. pode ser encontrado do sul ao norte do país. Estamos apresentando aumento no total colhido. No entanto. Minas Gerais é o maior produtor nacional. Essa moderna agropecuária tem se preocupado com o uso progressivo de sementes selecionadas. O Brasil chega a ser o maior produtor ocidental desse gênero agrícola.produção agropecuária e com ganhos de competitividade busca expandir seus mercados externos e enfrenta a prática protecionista de muitos mercados como o europeu e o norteamericano. pesquisas agropecuárias. Observe o mapa com a produção agrícola e veja alguns destaques: *milho – é o principal produto de nossa agricultura. controle rigoroso do rebanho e até mesmo o polêmico cultivo de trasngênicos. *uva – destaca-se a área de produção das Serras Gaúchas. *café – o Brasil continua sendo o maior produtor e exportador mundial e procura atualmente melhorar a imagem de qualidade do café que produz e exporta para conquistar novos mercados mais seletivos. com destino para a produção de vinho. É cultivado em simples roçados e também em grandes propriedades mecanizadas.

qualidade, indispensável para vendas externas de vinho. Além desses produtos podemos lembrar do feijão (MG-SP), importante alimento para o mercado interno, a mandioca, a banana (Vale do Ribeira) além da maior produção de frutas tropicais. Principais rebanhos brasileiros A pecuária brasileira começa a ser reconhecida como de boa qualidade. Os investimentos que estão sendo progressivamente realizados para livrar o rebanho de doenças como a febre aftosa e o comprometimento de rebanhos na Europa (como o mal da vaca-louca) têm levado a ampliação de alguns e a conquista de novos mercados de exportação (analistas indicam que o Brasil deve se tornar o maior fornecedor internacional nos próximos dez a quinze anos). Os principais rebanhos brasileiros são os de bovinos, suínos, ovinos e caprinos. Observe o mapa com a distribuição geográfica dos principais rebanhos no Brasil: *bovinos – na pecuária de corte destacam-se as regiões dos Pampas Gaúchos, oeste paulista e Triângulo Mineiro. Pecuaristas de outras áreas de criação preocupam-se em melhorar a qualidade de seu rebanho. Na pecuária leiteira podemos destacar Minas Gerais (várias áreas de criação, especialmente o sul do Estado), São Paulo (Vale do Paraíba, São João da Boa Vista, Araras, Mococa) e Rio de Janeiro (Vale do Paraíba e norte do Estado); *suínos – apresenta significativos ganhos de qualidade e especialização (mais carne e menos gordura, melhor higienização nos locais de criação, cuidados veterinários, selecionamento dos animais) o que tem permitido a busca de um aumento nas exportações dessa carne; *ovinos – o Brasil não tem destaque mundial. A maior parte do rebanho é encontrada no Rio Grande do Sul; *caprinos – também sem grande destaque mundial é uma criação que está evoluindo qualitativamente. Boa parte do rebanho, rústico, pode ser encontrada na Região Nordeste. Podemos também destacar o rebanho de eqüinos, especialmente em Minas Gerais e bubalinos (Ilha de Marajó, Pantanal e Vale do Ribeira). O Brasil parece apresentar condições favoráveis para a criação de búfalos e pode se tornar um grande criador mundial. O Brasil tem um dos maiores rebanhos de asininos e muares e é um dos maiores criadores de aves no mundo.

Estrutura Fundiária e os Conflitos de Terra
Alimentar com seus frutos é o que a agricultura brasileira vem fazendo há mais de quatro séculos, infelizmente sem a harmonia sugerida pela letra da bela canção transcrita ao lado. Como vimos, a agricultura brasileira sempre esteve entre as principais atividades econômicas do país. Mas o Brasil não se tornou uma potência agrícola, pois alguns dos maiores problemas sociais brasileiros estão centralizados no campo, como a estrutura fundiária marcada pela concentração de terras, os conflitos pela posse da terra e as relações desiguais de trabalho. Uma distribuição Irregular de terras

À forma como as propriedades rurais estão distribuídas, segundo suas dimensões, denominamos estrutura fundiária. A principal característica da estrutura fundiária brasileira é o predomínio de grandes propriedades. As origens dessa distribuição desigual de terras em nosso país estão em seu passado colonial. As capitanias hereditárias, que inseriram o Brasil no sistema colonial mercantilista, foram os primeiros latifúndios brasileiros: a colônia foi dividida em quinze grandes lotes entre doze donatários. A expansão da lavoura açucareira no litoral manteve o latifúndio como uma de suas características, ao lado da monocultura e da escravidão da mâo-de-obra africana no sistema de plantation voltado para a exportação. Portanto, a ocupação das terras brasileiras aponta para uma acentuada concentração de terras. Foi a Lei de Terras, promulgada em 18 de agosto de 1850, que praticamente instituiu a propriedade privada da terra no Brasil, Ao determinar que as terras públicas ou devolutas (ociosas) só poderiam ser adquiridas por meio de compra, essa lei limitou o acesso à posse de terras a quem tivesse recursos para satisfazer essa condição. Dessa forma, imigrantes europeus recém-chegados, negros libertos e pessoas sem recursos ficaram sem direito às terras livres, que foram compradas por abastados proprietários rurais. Com o passar do tempo, essa desigual distribuição de terras acabou gerando conflitos cada vez mais violentos e generalizados entre proprietários e não proprietários. As décadas de 1950e 1960 marcaram o surgimento de organizações que lutavam pêlos direitos dos trabalhadores rurais. Entre elas, podemos citar as ligas camponesas e a Confederação Nacional dos Trabalhadores do Campo (Contag). Membros do regime militar (1964-1985), preocupados com o descontentamento social no campo, elaboraram um conjunto de leis para tentar controlar os trabalhadores rurais e acalmar os proprietários de terras. Essa tentativa deu-se através de um projeto de reforma agrária para promover uma distribuição mais igualitária da terra, que resultou no Estatuto da Terra, cujos pontos principais veremos a seguir. Em 1993, durante o governo do presidente Itamar Franco, a Lei n" 8 629 reafirmou que a terra tem de cumprir uma função social. Foram definidos novos conceitos referentes às dimensões e classificações dos imóveis rurais. Com base no conceito de módulo rural foi utilizado o conceito de módulo fiscal. Segundo o Incra, Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, vinculado ao Ministério do Desenvolvimento Agrário, entende-se por módulo fiscal a unidade de medida expressa em hectares, fixada para cada região, considerando os seguintes fatores: - Tipo de exploração predominante no município. - Renda obtida com a exploração predominante. - Outras explorações existentes no município que, embora não sejam predominantes, são significativas em função da renda e da área utilizada. - Conceito de propriedade familiar, O tamanho do módulo fiscal varia de região para região, pois depende de alguns fatores, como as características do clima de cada área ou região. Ainda, segundo a Lei n° 8 629, ficou assim a classificação dos imóveis rurais quanto ao tamanho: - Minifúndio. O imóvel rural com área inferior a um módulo fiscal. - Pequena propriedade. O imóvel rural de área compreendida entre um e quatro módulos fiscais. - Média propriedade. O imóvel rural de área superior a quatro e até quinze módulos fiscais. - Grande propriedade. O imóvel rural de área superior a quinze módulos fiscais. Características da estrutura fundiária brasileira

A análise dos dados expressos nos gráficos abaixo nos mostra as principais características da estrutura fundiária no Brasil. Existe uma absurda concentração de terras em nosso país, onde poucos latifúndios ocupam a maior parte da área total brasileira e o grande número de minifúndios não chega a ocupar 2% dessa área. Como consequência temos um grave quadro socioeconômico: - Poucas propriedades rurais (43 956) com 1000 hectares ou mais concentram mais de 50% da área total do país. Geralmente, uma grande concentração fundiária pode gerar terras ociosas e improdutivas porque seus donos aguardam melhores preços para arrendá-las ou vendê-las (estão concentradas nas regiões Norte e Centro-Oeste). - Muitas propriedades rurais (947 408) não chegam a possuir 2% da área total, inviabilizando, muitas vezes, o plantio de algum produto. A despesa com sementes pode ser maior que o montante obtido com a colheita. - Êxodo rural como consequência da mecanização em algumas grandes propriedades rurais no Centro-Sul e entre os pequenos proprietários, porque produzem pouco, ficam endividados e não têm capital para investir. - Aumento do número de desempregados e subempregados que migram para as periferias das cidades e acabam ocupando áreas de mananciais. E o fato mais grave: o aumento dos conflitos sociais no campo. Mais de 50% dos conflitos de terra no Brasil ocorrem, respectivamente, nas regiões Nordeste e Norte. São regiões de grande concentração de propriedades rurais e de imóveis improdutivos, onde muitas vezes a polícia é mal preparada e mal equipada e os latifundiários impõem sua vontade às leis. Porcentagem da área improdutiva por região Outro triste exemplo da violência no campo são os assassinatos ocorridos entre 1986 e 1996, segundo a Comissão Pastoral da Terra (CPT), o Incra e o Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST). Soma-se a esse quadro brutal e desumano o uso improdutivo de muitas propriedades rurais que geram o ciclo: êxodo rural – desemprego -violência. A porcentagem dos imóveis improdutivos no Brasil mostra a necessidade urgente de uma política agrícola e de uma reforma agrária que contemple os trabalhadores rurais excluídos. As relações de trabalho no campo Geralmente encontramos entre os trabalhadores rurais brasileiros baixos indicadores socioecon&micos, como elevada natalidade, elevado analfabetismo, pequena qualificação profissional e baixa remuneração. Além disso, eles sofrem com a falta de cumprimento da legislação trabalhista por parte de alguns patrões e o elevado número de acidentes com ferramentas, como facões. Quanto mais distantes das principais cidades e capitais, mais tensas são as relações sociais no campo. O trabalho assalariado temporário é a forma predominante no Brasil. O predomínio do trabalho assalariado é consequência do processo capitalista (capitalização da atividade agrícola) que, por um lado, aumenta a produtividade rural (máquinas, irrigação, sementes selecionadas) e, por outro, dispensa o trabalhador residente ou permanente (aumento do número de assalariados). Tivemos no Brasil uma grande redução das modalidades tradicionais de trabalhadores rurais (permanentes, residentes, colonos e parceiros) e o

aumento de trabalhadores temporários sem vínculo empregatício. Geralmente, eles recebem no fim do dia pelo serviço prestado, trabalhando no plantio ou na colheita de canade-açúcar, laranja ou café. Moram na periferia das cidades onde os aluguéis são menores. Recebem a denominação de peões na região Norte, corumbás, nas regiões Centro-Oeste e Nordeste e bóias - frias nas regiões Sul e Sudeste. Outras formas de trabalho no campo Trabalho familiar. Realizado geralmente nas pequenas e médias propriedades rurais de subsistência. A falta de capital para investir na lavoura e as secas periódicas têm aumentado o número de trabalhadores familiares que abandonam o campo e migram para as periferias das cidades, onde se tornam trabalhadores temporários. Uma exceção entre os trabalhadores familiares é encontrada nas áreas vizinhas dos grandes centros urbanos (cinturões verdes) porque conseguem vender sua produção para os centros de abastecimento, redes de supermercados, feiras livres e até em carros ou caminhões que percorrem as ruas dessas cidades. Arrendamento. Forma de utilização da terra destinada ao cultivo ou à pastagem, que o proprietário arrenda (aluga) a quem tem capital para explorá-la. E comum no interior de São Paulo um grande proprietário arrendar propriedades menores vizinhas para o cultivo da cana-de-açúcar. Parceria. Forma de utilização da terra em que o proprietário dispõe de sua terra para um terceiro (o parceiro) que a cultiva. Em troca, o parceiro entrega ao proprietário parte de sua colheita. A forma de obter a propriedade da terra fez surgir duas figuras que estão frequentemente envolvidas nos conflitos pela terra: o posseiro e o grileiro. Posseiro. Indivíduo que tem a posse da terra e nela trabalha sem, porém, possuir o título de propriedade. Grileiro. Pessoa que toma posse da terra de outros, usando para isso falsas escrituras de propriedade. O peão, trabalhador volante mais recente que o bóia fria, é muito utilizado nas regiões de fronteiras agrícolas, sobretudo em projetos agropecuários da Amazônia. É "contratado" por um intermediário (gato) para trabalhar em regiões distantes, com promessas de salários, alojamento e alimentação. Quando recebe o pagamento, aparecem os "descontos": custos de transporte, alimentação, hospedagem, etc., quase nada restando do seu salário, chegando, às vezes, a ficar devendo. Muitas vezes jagunços e pistoleiros são contratados para evitar a fuga de trabalhadores, reproduzindo uma situação de escravidão (peonagem).

EVOLUÇÃO DO AGRONEGÓCIO BRASILEIRO, DESAFIOS E PERSPECTIVAS

Joaquim César Emanoel carlosadm2006@gmail.com

Carlos Barbosa

de

Lourenço Lima

O agronegócio brasileiro é uma atividade próspera. segura e rentável. Número 118. por meio de uma pesquisa bibliográfica. Today one of the biggest impediments for the deslanchamento of the sector is the logistic one of infrastructure of the country. O Brasil situa-se. o setor apresenta restrições e desafios que ameaçam sua permanência entre os maiores na atividade.net/cursecon/ecolat/br/ Introdução O cenário atual aponta que o Brasil será o maior país agrícola do mundo em dez anos. since it presents many advantages of the natural and economic point of view. Apesar dos números positivos. Contudo as perceptivas do Agronegócio são bastante promissoras.Resumo Este estudo teve por objetivo mostra como se deu a evolução do Agronegócio brasileiro. identificando a sua situação no cenário mundial. eficiente e competitivo no cenário internacional. being able the country to explore its potentialities better. o Brasil tem 388 milhões de hectares de terras agricultáveis férteis e de alta produtividade. passando pelo ponto onde houve um maior impulso ate chegar à posição de destaque que é o de ser uma das maiores potências mundiais do Agronegócio. passing for the point where it had a bigger impulse ties to arrive at the prominence position that is of being one of the biggest world-wide powers of the agribusiness. Todo esse cenário brasileiro atual do agronegócio enquadra-se em uma evolução que remonta ao século XVI. O artigo tem como objetivo geral identificar o cenário atual do agronegócio brasileiro. O agronegócio é hoje a principal locomotiva da economia brasileira e responde por um em cada três reais gerados no país. 2009. 2007). Esses fatores fazem do país um lugar de vocação natural para a agropecuária e todos os negócios relacionados à suas cadeias produtivas. e como objetivos específicos mostrar a sua evolução. Para citar este artículo puede utilizar el siguiente formato: Carlos Lourenço y Barbosa de Lima: "Evolução do agronegócio brasileiro. Crescimento econômico. além de elevada tecnologia utilizada no campo. podendo o país explorar melhor suas potencialidades. Segundo Rodrigues (2006). (MAPA. Logistic restriction. Com isso. However the percipient ones of the agribusiness are sufficiently promising. o país possui 22% das terras agricultáveis do mundo. Although the positive numbers.eumed. já que ele apresenta muitas vantagens do ponto de vista natural e econômico. Com um clima diversificado. como celeiro mundial em termos de agronegócio. the sector presents restrictions and challenges that threaten its permanence enter the greaters in the activity. (BORGES. dados estes que fazem do agronegócio brasileiro um setor moderno. Economic growth. suas restrições e desafios. chuvas regulares. Para isso. desafios e perspectivas" en Observatorio de la Economía Latinoamericana. dos quais 90 milhões ainda não foram explorados. Palavras-Chave: Agronegócio. utilizou-se de abordagens bibliográficas que demonstra a evolução histórica. Key Words: Agribusiness. no contexto mundial atual. faz-se mister ressaltar seus antecedentes históricos até o cenário atual. it was used of bibliographical boardings that the historical evolution demonstrates. Restrição logística. Hoje um dos maiores entraves para o deslanchamento do setor é a logística de infraestrutura do país. . identifying its situation in the world-wide scene. For this. Texto completo en http://www. Abstract This study it had for objective sample as if it gave the evolution of the Brazilian agribusiness. energia solar abundante e quase 13% de toda a água doce disponível no planeta. 2005).

Depende cada vez mais de insumos adquiridos fora da fazenda e sua decisão de o que. ou de "pós-porteira". Assim. A ocupação do território brasileiro iniciada durante o século XVI e apoiada na doação de . políticas e culturais. estão os negócios à jusante dos negócios agropecuários. com seus elos entrelaçados e sua interdependência. etc. Há diferentes agentes no processo produtivo. como comércio de sementes e de máquinas e equipamentos. inclusive o agricultor. do armazenamento. Este conceito procura abarcar todos os vínculos intersetoriais do setor agrícola. E. representados pela indústrias e comércios que fornecem insumos para a produção rural. Enquadram-se nesta definição os frigoríficos. médios ou grandes produtores. constituídos na forma de pessoas físicas (fazendeiros ou camponeses) ou de pessoas jurídicas (empresas). os fabricantes de fertilizantes. Foi à exploração de uma madeira. Este tipo de produção agrícola também é chamada de agribusiness ou agrobusiness. o que correspondia ao equivalente a 32% do PIB brasileiro em 1980. via de regra. com setores isolados que fabricavam insumos. supermercados e distribuidores de alimentos. (JUNIOR PADILHA. até chegar ao consumidor final. as empresas de processamento e toda a distribuição. A primeira parte trata dos negócios agropecuários propriamente ditos (ou de "dentro da porteira") que representam os produtores rurais. Em 1957.Agronegócio Agronegócio também chamado de agribusiness. em uma permanente negociação de quantidades e preços. Histórico e Evolução do Agronegócio Brasileiro A história econômica brasileira. os negócios à montante (ou "da pré-porteira") aos da agropecuária. baseada no plantio ou na criação de rebanhos e em grandes extensões de terra. equipamentos. O conceito de agronegócio implica na idéia de cadeia produtiva. defensivos químicos. as indústrias agrícolas. processamento e distribuição dos produtos agrícolas e itens produzidos a partir deles'. têm fortes raízes junto ao agronegócio. está fortemente relacionada ao mercado consumidor. mesmo a familiar. o Agronegócio é toda relação comercial envolvendo produtos agrícolas. as propriedades rurais. na terceira parte. 2009). Na segunda parte. com a finalidade de levantar as dimensões básicas do agribusiness brasileiro. No Brasil. se fundamentam na propriedade latifundiária bem como na prática de arrendamentos. Davis e Goldberg (1957) definem. transporte. onde estão a compra. essa abordagem sistêmica foi utilizada explicitamente por Araújo. Wedekin e Pinazza (1990). Costuma-se dividir o estudo do agronegócio em três partes. empacotadores. os abatedouros. extrapolou os limites físicos da propriedade. A agricultura moderna. dois pesquisadores americanos reconheceram que não seria mais adequado analisar a economia nos moldes tradicionais. o transporte da produção e as atividades voltadas à distribuição. sejam eles pequenos. deslocando o centro de análise de dentro para fora da fazenda. o agronegócio é um conjunto de empresas que produzem insumos agrícolas. 2004). o pau Brasil. segundo Batalha (2002). o agronegócio como sendo 'a soma total das operações de produção e distribuição de suprimentos agrícolas. quanto e de que como produzir. processavam os produtos e os comercializavam. O termo inclui todos os setores relacionados às plantações e às criações de animais. A definição correta de agronegócio é muito mais antiga do que se imagina e incorpora qualquer tipo de empresa rural. caracterizada pela agricultura em grande escala. No Brasil o termo é usado quando se refere a um tipo especial de produção agrícola. com suas implicações sociais. substituindo a análise parcial dos estudos sobre economia agrícola pela análise sistêmica da agricultura. Já para Callado (2006). das operações de produção na fazenda. Estes negócios. que deu nome definitivo ao nosso País. Estes autores concluíram que o agribusiness brasileiro representava 46% dos gastos relativos ao consumo das famílias. beneficiamento e venda dos produtos agropecuários. é o conjunto de negócios relacionados à agricultura dentro do ponto de vista econômico. as indústrias têxteis e calçadistas. Por exemplo. ( WIKIPÉDIA.

Por qualquer ângulo que se analise o mercado. as evoluções devem ser muito maiores. fumo. no início do século. No caso do frango. que durante esse período serviu de base e sustentação para a economia. a exploração da madeira nas serras e a agricultura se desenvolvem com a participação das várias etnias que compõem o mosaico populacional da região. cereais e derivados e a borracha natural são itens importantes da pauta de exportação brasileira (VILARINHO. O agronegócio brasileiro passou por um grande impulso entre as décadas de 1970 e 1990. O processo de colonização e crescimento está ligado a vários ciclos agroindustriais. o produtor rural passou. as perspectivas são promissoras. ainda mais a indústria de base agrícola. a borracha dá exuberância à região amazônica. monocultura da cana-de-açúcar e no regime escravocrata foi responsável pela expansão do latifúndio. foram transferidas para organizações produtivas e de serviços nacionais e/ou internacionais fora da fazenda. a suinocultura . com grande desenvolvimento no Nordeste. hortaliças. como farto espaço territorial. o país é visto por muitos especialistas como principal candidato ao posto de grande fornecedor alimentício global. consolidado na forte rede de interligação entre a agricultura e a indústria. processar e distribuir produtos agropecuários. celulose e outros). produtos oriundos do complexo de soja. com isso. como a do vinho e dos móveis. de acordo com previsões dos especialistas da área. O país passou então a ser considerado como aquele que dominou a “agricultura tropical”. tabaco. a soja ganha destaque como principal commodity brasileira de exportação. carnes e derivados de animais. fica evidente que. o salto será de 58% para 66%. com o desenvolvimento da Ciência e Tecnologia. proporcionando o domínio de regiões antes consideradas “inóspitas” para a agropecuária. o Brasil deve quadruplicar sua participação. por exemplo. mais recentemente. A extinção do pau-brasil coincidiu com o início da implantação da lavoura canavieira. Em síntese. chamando a atenção de todos os nossos parceiros e competidores em nível mundial. logo depois o café torna-se a mais importante fonte de poupança interna e o principal financiador do processo de industrialização. "Num futuro próximo. Antes da expansão deste sistema monocultor. chá. mão-de-obra acessível e diversas questões ligadas à conjuntura internacional. como a cana-de-açúcar. Perspectivas Para o Agronegócio Brasileiro Para Contini (2001). impulsionando. A evolução da composição do Complexo do Agronegócio confirma que as cadeias do agronegócio adicionam valor às matérias-primas agrícolas onde o setor de armazenamento. como são os cerrados com uma reserva de 80 milhões de hectares. dispõe de produtores rurais experimentes e capazes de transformar essas potencialidades em produtos comercializáveis e detém um estoque de conhecimentos e tecnologias agropecuárias. a ser um especialista. gradativamente. Na suinocultura. processamento e distribuição final constituem o vetor de maior propulsão no valor da produção vendida ao consumidor. o tamanho que o Brasil adquiriu no campo do agronegócio é impressionante. frutas e derivados. (VILARINHO. com maior intensidade na de 1960 até a de 1980. planas e baratas. transformando Manaus numa metrópole mundial. 2007). Da poupança da agricultura. já havia se instalado no país como primeira atividade econômica a extração do pau-brasil. instalam-se agroindústrias. a partir da década de 1930. madeira (papel. da carne bovina. conquistando metade do mercado internacional. algodão e fibras têxteis vegetais. envolvido quase exclusivamente com as operações de cultivo e criação de animais. (RENAI. transformadoras de recursos em produtos. O Brasil detém terras abundantes. 2006). Por conta de condições extremamente favoráveis para a contínua expansão deste mercado. a participação nacional no mercado internacional de soja deve crescer dos atuais 36% para 46%. 2006). bem como as de suprir insumos e fatores de produção. açúcar e álcool. Até 2015. Isso fez surgir à oferta de um grande número de produtos. por sua vez.terras por intermédio de sesmarias. Nas áreas em que o país ainda tem uma fatia pequena do comércio mundial. as funções de armazenar. de suínos e aves. O progresso do Sul do Brasil também está ligado ao agronegócio. A pecuária domina os pampas. café. Atualmente.

(Ver Tabela1).040 US$ 58. em 1995. a agricultura é o setor econômico que ainda mais ocupa mão-de-obra. o resultado é 12. não se pode esquecer que esta tem capacidade limitada de absorver mão-de-obra. 38 para a construção civil. (RENAI. No entanto. as importações chegaram a US$ 4. A maior parte deste montante refere-se a negócios fora das porteiras. (CONTINI. Pecuária e Abastecimento.000 US$ 52. um crescimento espetacular do setor. utilização de alta tecnologia e gerador de empregos e riquezas para o país. De acordo com os números.200 Saldo US$ 14. era de 182 para a agropecuária. Importância Econômico-Social do Agronegócio Brasileiro O agronegócio é também importante na geração de renda e riqueza do País.016 US$ 20. segundo a Confederação Nacional da Agricultura .000 US$ 40.791 US$ 4.7 bilhões em 2007. no total. representa 27 milhões de pessoas. evidenciando que o setor tem participação importante para o equilíbrio de nossas contas.848 US$ 34. O agronegócio é o maior negócio mundial e brasileiro. Estes são pontos que reforçam a importância do agronegócio no Brasil. (CNA. o crescimento do superávit do ano 2000 até 2007 foi de 235% no período.49% menor do que o registrado no mesmo período de 2008. 2007).400 US$ 69. A agricultura contribuiu decisivamente para as exportações com saldo comercial setorial positivo da ordem de US$ 40. ou 26% do PIB (29%. 2002).492 US$ 4. o agronegócio tem sido um fator que minimizou os desequilíbrios das contas externas do Brasil. de janeiro a maio deste ano. que somados a 10 milhões dos demais componentes do agronegócio.847 US$ 4.103 bilhões.700 US$ 11. saldo acumulado é de US$ 19. em torno de R$ 350 bilhões.639 US$ 39. 2009). No aspecto social.18 bilhões de dólares em 2006 e de 49.5 trilhões/ano e. o beneficiamento/processamento das matérias-primas e a distribuição dos produtos.700 US$ 58.610 US$ 23. . abrangendo o suprimento de insumos. Tabela 1 – Balança comercial do agronegócio brasileiro (US$ bilhões) Período 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 Exportações US$ 20. 2007 apud SEIBEL. a balança comercial do agronegócio teve uma queda de 0.180 US$ 49. Enquanto as exportações renderam US$ 24.366 bilhões. os setores da agricultura.000 US$ 11. 2007). (STEFANELO.863 US$ 24. já sentindo os efeitos da crise.86 US$ 8. O agronegócio como um todo envolve mais de 1/3 do PIB brasileiro. É o setor que ocupa mais mão-de-obra em relação ao valor de produção: para cada R$ 1 milhão.799 US$ 4. da agroindustrialização e de áreas correlatas serão importantes para o crescimento da renda e do emprego.será tão importante para a balança comercial do país quanto são hoje o frango e a carne bovina” (NETO.881 US$ 5. 25 para a extração mineral. ao redor de 17 milhões de pessoas.400 Importações US$ 5. além de sua grande competitividade. No contexto da recente crise cambial.811 US$ 19.737 bilhões. o número de ocupados.53% do Produto Interno Bruto (PIB) do agronegócio no primeiro trimestre de 2009. 2009) A Tabela mostra o superávit do agronegócio brasileiro.015 US$ 42. representa a geração de U$ 6. Apesar do saldo. Principalmente em regiões menos desenvolvidas.CNA). 2001). No mundo.347 US$ 25.134 US$ 37. Mesmo reconhecendo-se os benefícios da transformação de uma sociedade agrária para uma industrial-urbana.839 US$ 30.200 Fonte: Mapa (Ministério da Agricultura. no Brasil.

com 2. o governo federal já busca o apoio da iniciativa privada.29% em relação a 2005. açúcar. É um dos motivos pelos quais todos os anos caminhões formam filas de até 150 quilômetros de extensão para descarregar suas cargas no porto de Paranaguá (PR). 2007). Ainda de acordo com a mesma fonte. em que apenas 10 mil quilômetros são efetivamente utilizados. Em 2006 as exportações cresceram 19. O objetivo do programa é aumentar o investimento em infra-estrutura para: eliminar os principais gargalos que podem restringir o crescimento da economia. foi concebido para eliminar esse descompasso e afastar o risco de gargalos nos próximos anos. Mas todos esses bons resultados.4 mil quilômetros e que consumiu US$ 2 bilhões em investimentos públicos em vários governos.68 bilhões em 23 projetos de reformas em rodovias. correm sérios riscos de sofrer um pesado revés se os problemas relacionados à infra-estrutura logística . (BORGES. (PAC. As ferrovias. suco de laranja e soja. Ao mesmo tempo. O país é líder mundial de exportação de açúcar. a velocidade média das composições não ultrapassa lentos 25 km/h. não forem solucionados. Essas boas posições devem consolidar-se ainda mais nos próximos anos. país 22 vezes menor que o Brasil) é urgente a modernização do maquinário.832 quilômetros avaliados. não será suficiente para dotar o país de bom infra-estrutura. Esse montante coloca o Brasil entre os líderes mundiais na produção de soja. dos 84. portos e canais de irrigação nos próximos anos. 37% encontram-se em estado péssimo de conservação e outros 32% possuem alguma deficiência. nos portos brasileiros essa média é de 27. como o Nordeste.Quando os efeitos da crise passar. elaborada pela CNT Confederação Nacional do Transporte (2007). 2007). De acordo com uma das pesquisas mais recentes sobre o assunto.o maior obstáculo para o desenvolvimento do agronegócio do Brasil. segundo estudo do Centro de Estudos de Logística da Universidade do Rio de Janeiro. O gargalo logístico envolve praticamente toda a infra-estrutura de transporte do país. Enquanto o índice internacional de movimentação é de 40 contêineres/hora. o Brasil será o maior país agrícola do mundo em dez anos. 2009). café. a ampliação em 2007 foi de cerca de US$ 58. depois de ultrapassar tradicionais concorrentes. apenas 10% de sua capacidade total. um aumento de 10.8% acima dos US$ 52. café. ferrovias. embora tenham recebido investimentos com a privatização. ainda estão longe de suprir a demanda do setor de agronegócio e se consolidar como uma alternativa viável ao transporte rodoviário. regiões com potencial no agronegócio. deixamos de fazer uso de canais de transporte de grande potencial. assim como as expectativas futuras. como Estados Unidos e Austrália. Embora a privatização tenha contribuído para a modernização dos portos. carne bovina e de frango. Um dos grandes entraves é a infra-estrutura. em particular a precariedade da malha rodoviária do país. ainda não conseguiram deslanchar. caso dos 42 mil quilômetros de hidrovias. milho. Com os trens e bitolas atuais. o excesso de mão-de-obra (que chega a ser de três a nove vezes superiores aos portos europeus e sul-americanos) ainda mantém os padrões de produtividade baixos. que pretende investir R$ 13. Por meio do plano de Parceria Público-Privada. (BORGES. o Governo Federal criou o (PAC) Programa de Aceleração do Crescimento lançado no começo de 2007. Consciente de que sozinho não conseguirá reverter esse quadro.4 bilhões. de que o agronegócio pode sair dessa melhor do que entrou. Desafios do Agronegócio no Brasil Segundo indicadores da (Unctad). a Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento. Como resultado.04 bilhões de 2006. sistemas como o do Tietê-Paraná. Em razão desse tipo de problema. escoa apenas 2 milhões de toneladas de carga/ano. Além da ampliação da malha de 30 mil quilômetros de extensão (praticamente igual a do Japão. Na certeza que só as Parcerias Público-Privada. as perspectivas acompanham as já anunciadas para o Brasil. Assumiu também a dianteira nos segmentos de carne bovina e frango. reduzir custos e aumentar a produtividade . em termos de saldo. cujas deficiências são responsáveis por prejuízo correspondente a 16% do PIB. No transporte marítimo de cabotagem (outro canal com grande potencial no Brasil) assistimos a uma situação semelhante. O agronegócio é justamente o que mais sofre com a ineficiência dos canais de transporte.

têm impostos baixos. e resolva os problemas domésticos para que o pais se torne a potência do agronegócio do futuro. É preciso destacar também que. e reduzir as desigualdades regionais. é que tanto o governo nas esferas federal. O agronegócio se tornou o setor chave para que o Brasil se inclua no comercio mundial. Como nossos concorrentes. marítimo. bem como de mudanças nas políticas econômicas internas. Além do embargo à carne bovina. fica difícil ao produtor brasileiro competir nos mercados externos. Como se vê. Essa redução dos custos de transporte contribuiria diretamente para reduzir os custos de nossos produtos. aumentar os atuais e com mecanismos complexos de arrecadação. poderia ser ainda maior se houvesse políticas sérias agrárias e de infra-estrutura. mas podem ser superados. O que esperamos. Como se vê. é indiscutível a importância do agronegócio à nossa economia. A reforma tributária é urgente. Além das medidas de controle sanitário que também estão na relação de assuntos importantes que vêm sendo negligenciados pelo governo. tornando-os mais competitivos no mercado internacional. a empresa alertava que o melhor aproveitamento e a utilização racional dos canais de transporte seria capaz de economizar em cerca de US$ 75 milhões os custos anuais de escoamento de grãos. Os investimentos em Infra-Estrutura logística do PAC previstos até 2010 são de R$ 58 bilhões de reais. a iniciativa privada ainda tem muito a contribuir para o desenvolvimento da infra-estrutura do país. basta destacar que um único comboio na hidrovia Rio Madeira tem capacidade para 18 mil toneladas de grãos. segundo Seibel (2007) mais de 50 países impuseram embargo à carne bovina desses estados. Muito embora o potencial de comércio do agronegócio brasileiro seja muito grande. que prejudicou as exportações mesmo de países que não registraram casos da doença (como o Brasil). a carga tributária deve ser compatível com a dos nossos competidores. o mesmo encontra muitos problemas e desafios a serem superados que dependem. estimular o aumento do investimento privado. ferroviário. Isso sem falar da economia de combustível e de fretes. O potencial de prejuízos que isso pode acarretar aos produtores já foi demonstrado nos últimos anos. estadual e municipal. mas as soluções também existem e precisam ser colocadas em prática. com diminuição da carga e simplificação dos procedimentos na tributação. o agronegócio brasileiro sofreu com o surto de gripe aviária. os obstáculos para o crescimento do agronegócio brasileiro são imensos. mantenham a sua determinação em modernizar a infra-estrutura brasileira. Outro obstáculo sério ao desenvolvimento pleno do agronegócio está relacionado ao sistema tributário. Já em 2000. Para ilustrar o que estamos falando. Com uma economia aberta ao exterior. ligada ao Ministério dos Transportes). o SAI brasileiro ocupa lugar de destaque entre os países produtores de alimento no mundo. fluvial e aéreo) para redução de custos e aumento do nível de serviços. os obstáculos para o crescimento do agronegócio brasileiro são imensos. Mesmo assim. o que aumenta os custos de produção. Considerações Finais Como se observa. incentivando a criação de pólos intermodais de transporte (integração entre os sistemas rodoviário. quanto a iniciativa privada. Um exemplo do potencial desses pólos é representado por um estudo do Geipot (Empresa Brasileira de Planejamento em Transportes.das empresas. substituindo 600 carretas de 30 toneladas nos eixos Cuiabá (MT) / Santos (SP) e Cuiabá (MT) /Paranaguá (PR). isto é com possibilidade de exportar e importar qualquer produto do agronegócio. Apesar das grandes vantagens encontradas no agronegócio brasileiro e das suas boas perspectivas futuras. na redução do tráfego e desgaste das rodovias. que estão entre os maiores produtores nacionais. Não há como o produtor rural e a agroindústria serem competitivos com governos vorazes em criar novos impostos. vezes há que perde o próprio mercado interno porque os produtos importados chegam mais baratos. essencialmente. . além dos recursos. inclusive no Mercosul. Por causa do surgimento de focos de febre aftosa em Mato Grosso do Sul e no Paraná. de investimentos tanto públicos como privados.

238p.br>. Logo. já passou da fase de discussão. Acesso em: 06 fev. São Paulo: Atlas. Contudo. através. 1957.: "Desafios de logística nas exportações brasileiras do complexo agronegocial da soja" en Observatorio de la Economia Latino americana. 1. Complexo agroindustrial: o agribusiness brasileiro. Isto implica dizer que as nossas vantagens como terras abundantes.gov. as políticas econômicas impedem que o rendimento seja maior e os problemas de logística geram custos elevados. a articulação. I. Número 71.eumed. Elisio. Os juros bem como as altas taxas de importação de aparatos agrícolas vêm. Acesso em: 09 jan. E. o país precisa resolver problemas estruturais. A concept of agribusiness.2008. pois somos competitivos em algumas cadeias produtivas e em outras não.br>. São Paulo: Atlas. o agronegócio brasileiro é persistente e. A.. Goldberg.com. que discute com a iniciativa privada a reconstrução da malha logística do Brasil em todos os segmentos modais. Acesso em: 09 jul. B. ed.com. 135 p. Pinazza. Acesso em: 09 jan. restringindo a inserção de novas tecnologias e/ou tecnologias de ponta à agricultura de determinadas regiões. Dinamismo do Agronegócio Brasileiro. CALLADO. Cabe. Gestão agroindustrial. Além do mais. H. Mário Otávio. Disponível em: < BRASIL . climas favoráveis. 2. J. BATALHA. ainda. Cunha.org. por exemplo. 2001.Cabe ainda lembrar que para o Brasil se tornar a grande potência mundial do agronegócio. que dê sustentabilidade continuada ao setor. com que os investimentos se tornarem lucros financeiros e socialmente. Brasil. y Mauch Palmeira.. Agronegócio. Referências ARAÚJO.2009.agronline.cna. Acesso em: 16 dez. se faz necessário a criação de políticas públicas urgentes voltadas à infra-estrutura do país. C. http://www. Disponível em: <http://www. Antonio A.2009. Wedekin. de fato. Disponível em: < CONFEDERAÇÃO DA AGRICULTURA E PECUÁRIA DO BRASIL . potencial de produção. entretanto.Ministério da Agricultura. incremental e aplicação de políticas mais flexíveis e ágeis de crédito ao setor agrário. 2006. Se faz necessário ainda. Pecuária e Abastecimento (MAPA).CNA. Boston: Harvard University. Munoz. como o NE brasileiro.net/cursecon/ecolat/br/>.agricultura. ed. contigencialmente não tem passado de engodo da velha política brasileira. 1990. Disponível em: < http://www. CARDOZO.empreendedorrural. buscar soluções práticas e definitivas. . 2006.2009. N. Disponível em: < http://www. apesar desses obstáculos. estrategicamente suplanta qualquer problema. A. São Paulo: Agroceres. ao longo dos anos. BORGES. R. Nas contingências atuais. Altamiro. DAVIS. O grande desafio do agronegócio no http://www. CONTINI. nas diretrizes corretas fomentadas pelo Estado e na vertiginosa capacidade privada de produzir de racionalizar e de fazer. deve-se calcar na viabilidade produtiva. cresce sua participação no mercado internacional.br/artigos/artigo>. imensa disponibilidade de água doce e energia renovável e sua capacidade empresarial. do PPP. L.2009. Alardear o potencial do agronegócio brasileiro é o que tem sido feito pelo poder público. fazendo do agronegócio o nosso maior negócio. ao Estado brasileiro promover a modernização de máquinas e equipamentos que dá suporte ao desenvolvimento da boa performance do campo.br/site/agencia/>.

br>.br/embrapa/ >.desenvolvimento. Universidade Federal do Paraná.gov. Disponível em: <www. WIKIPEDIA.2009.com. Agronegócio brasileiro: propostas e tendências.2009.br/portal/>.embrapa. Disponível em: <http://www. O Setor de Agronegócio no Brasil: Histórico e Evolução do Agronegócio Brasileiro. Acesso em: 09 jan. Curitiba.gov. Acesso em: 09 jan. Exame. Entre o tutorial e o participativo. 2002. Pecuária e Abastecimento. B. em: < STEFANELO. Disponível em: < http://www. O novo salto do agronegócio. Acesso em: 29 jan.2009. em um Ambiente de Risco. 2004.com. RENAI. Disponível http://www. João. Rio de Janeiro. n.11. p. Disponível em: < http://investimentos.wikipedia. O Impacto da Reserva Legal Florestal sobre a Agropecuária Paranaense. Ministério da Agricultura.br>.br/intern>. Roberto.JUNIOR PADILHA.14-15.br/berto/anuarioagrone>. Dissertação (Doutorado em Ciências Florestais).gov.agricultura. PAC. Programa de Aceleração do Crescimento. O céu é o limite para o agronegócio brasileiro. VILARINHO.60. Acesso em: 29 jan. Revista FAE Business. A Rede Nacional de Informações sobre o Investimento. RODRIGUES.2006. n 3. Acesso em: 29 jan.doc . Felipe.pac. V.2009. Nov.2009. Agronegócio Brasileiro: Uma Oportunidade de Investimentos. MAPA.abril.Tecnologia Google DocsOrkut Gmail Agenda Docs Fotos Web mais ▼Reader Sites Grupos YouTube Imagens . Maria Regina. SEIBEL. Disponível em: < http://www. Questões sanitárias e o agronegócio brasileiro. set.portalexame. Acesso em: 09 jan. Eugênio L. Conjuntura Econômica.2009.

Docs | Fazer login Entre o tutorial e o participativo.Vídeos Mapas Notícias Livros Tradutor Acadêmico Blogs Em tempo real e muito mais » Configurações .doc Salvar no Google DocsEditar ArquivoVisualizar Visualizar Salvar no Google Docs Download Imprimir (PDF)ENTRE O TUTORIAL E O PARTICIPATIVO: A ABORDAGEM DE INTERVENÇÃO NA ESTRATÉGIA DE AÇÃO DO BANCO DO NORDESTE1 .

Maria Odete Alves2 Lucimar Leão Silveira3

RESUMO

Analisam-se os aspectos da abordagem de intervenção utilizada pelo Banco do Nordeste do Brasil S.A, ao implementar uma estratégia de apoio ao pequeno produtor rural nordestino, além dos efeitos de um programa específico de capacitação inserido na mesma estratégia (Projeto Banco do Nordeste/PNUD), no nível de participação de associados na gestão e nos processos decisórios das organizações associativas. Verifica-se a existência de um processo em que há delineamentos de duas abordagens distintas: a) uma primeira etapa, com base no estímulo ao associativismo, cuja ação é tipicamente tutorial b) uma segunda etapa, através de um programa de capacitação inserido na mesma estratégia, ocorrendo de forma simultânea e dirigido ao mesmo público, contemplando uma ação ativa dos grupos para os quais se dirige, com características da intervenção participativa. Há um avanço na consciência dos sócios submetidos ao processo de capacitação, quando assumem que a participação não se refere apenas à qualidade de membro do grupo, mas significa tomar parte ativa nas decisões, planejar e executar determinada ação. Apesar dos avanços, a participação ainda se apresenta em nível micro, pois não se percebe uma intervenção dos indivíduos no sentido de modificar a sociedade.

Termos para indexação - estratégias de intervenção, intervenção pública, desenvolvimento rural,

participação.

Artigo apresentado no XXXVI Congresso da Sociedade Brasileira de Economia e Sociologia Rural, Poços de Caldas, 1998. Enga Agrônoma, pesquisadora do BNB/ETENE e mestranda em Administração Rural e Desenvolvimento pela Universidade Federal de Lavras (UFLA), CP 37, CEP 37.200-000 - Lavras - MG. 3 MS pela UFMG, professor do Departamento Educação da Universidade Federal de Lavras (UFLA), CP 37, CEP 37.200-000 - Lavras - MG.

1

1. A PARTICIPAÇÃO POPULAR NOS PROJETOS GOVERNAMENTAIS

As propostas de participação do povo em projetos governamentais surgiram após a Segunda Guerra

Mundial, inseridas numa proposta de Desenvolvimento de Comunidade (DC), cujo objetivo

institucionalizado pela Organização das Nações Unidas (ONU) seria solucionar problemas de integração de

esforços da população a planos regionais e nacionais de desenvolvimento econômico e social.

Estudo realizado por Ammann (1987) acerca do DC dá conta de que sua proposta, na prática,

consistia na implementação de programa de assistência técnica e social nos países subdesenvolvidos,

sobretudo da América Latina.

As primeiras propostas de DC no Brasil surgem no final dos anos 40. O apoio oficial se dá no

sentido de incrementar a produção de alimentos e a educação rural e industrial, reproduzindo o modelo

americano de extensão rural. Apesar de proclamar a participação popular como ingrediente necessário ao

processo de desenvolvimento nacional, o DC apresenta o conceito de participação de forma muito vaga e,

na prática, se afirma como instrumento do Estado para favorecer o consentimento espontâneo das classes

subordinadas às estratégias por ele definidas (Ammann, 1987).

Este método de intervenção passou a sofrer severas críticas, principalmente a partir da década de 70,

devido aos fracassos acumulados em termos de resposta aos problemas de exclusão social. Nesse período

surgiram abordagens alternativas, tendo como fundamento a participação consciente do povo no seu próprio

desenvolvimento e a prática da educação (Alencar, 1990). Esta outra visão de desenvolvimento sugere

mudanças no eixo do planejamento, desde as altas esferas de decisão até a localidade onde os agentes do

meio podem envolver-se plenamente nas decisões de sua comunidade.

Nos últimos anos, embora de forma tímida, algumas agências estatais têm caminhando no sentido dessa outra visão de desenvolvimento, a exemplo do Banco do Nordeste, que desde o início dos anos 90 vem promovendo algumas mudanças no processo de intervenção. A proposta deste trabalho surge, então, do interesse em fazer uma análise desse novo processo de intervenção, bem como verificar alguns dos seus efeitos na prática. A análise realizada apóia-se nos trabalhos de Oakley (1980) e Alencar (1990), que tratam das abordagens de intervenção convencional e educação participativa, e naqueles desenvolvidos por Ammann (1987), Bordenave (1987) e Demo (1993),

que fundamentam o conceito de participação.

2. A INTERVENÇÃO DO BANCO DO NORDESTE DO BRASIL (BNB)

O BNB é um órgão auxiliar para gestão e execução de políticas de crédito do Governo Federal.

Criado em 1952, tem a missão de contribuir para o desenvolvimento sustentável do Nordeste do Brasil,

promover a integração econômica regional com a economia brasileira e internacional e redução das

desigualdades regionais (Banco do Nordeste, 1993). A partir de 1967 torna-se o principal repassador de

recursos do Banco Central (BC) para a região Nordeste (Gondim et al., 1991).

Em 1991 Gondim et al. propõem ao Banco do Nordeste uma estratégia de apoio ao pequeno produtor

Assim. o documento sugere algumas medidas. Implícita no documento se observa a preocupação principal em dar maior capilaridade ao crédito fornecido pela Instituição. os recursos do FNE4. nesse ano constata-se uma grande concentração do crédito em mãos de grandes produtores.rural da Região. em particular. Criado pela Constituição de 1988. FNE: Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste. acentuada a partir de 1990 com o início da operacionalização do referido Fundo. É atualmente a principal fonte de que dispõe a Instituição para financiar as atividades produtivas da Região (Banco do Nordeste. O documento reconhece que os resultados da ação do Banco junto aos pequenos produtores rurais têm sido frustrantes.8% do total arrecadado do Imposto de Renda e do Imposto sobre Produtos Industrializados. dentre as quais. em complemento ao suprimento creditício. . 1993). o desenvolvimento de um programa de capacitação técnica para os pequenos produtores rurais. em que o associativismo é o instrumento para implementação. alegando a falta de uma estratégia adequada para apoiar essa categoria de produtores. é formado pela alocação de 1.

por ele denominada de convencional ou “tutorial” e a abordagem “educação participativa”. Alencar (1990) estabelece um paralelo entre duas abordagens de intervenção no meio rural: aquela normalmente utilizada nas políticas tradicionais. enquanto os membros do grupo exercem um papel passivo. ou seja. A INTERVENÇÃO NO MEIO RURAL: O CONFRONTO ENTRE DUAS ABORDAGENS Com base em estudos publicados a partir da década de 70. as estratégias de intervenção são lineares.2 3. Na abordagem “tutorial” o agente externo é o responsável pelo diagnóstico da realidade e pelo estabelecimento de meios para solucionar os problemas detectados. A comunidade é vista como um sistema social homogêneo. As duas abordagens apresentam diferenças metodológicas fundamentais no que diz respeito à unidade social para a qual se dirige a ação. bem como aos papéis atribuídos aos agentes externos e ao público alvo. Na abordagem “ educação participativa” o agente externo passa a ter um papel de educador: .

pois “Implica que os homens assumem o papel de sujeitos que fazem e refazem o mundo” e só existe quando há o ato “ação-reflexão-ação” (Freire. p. pelo estabelecimento de meios para solucioná-los e pela avaliação das ações executadas. . A partir dos resultados da avaliação o próprio grupo assume a responsabilidade de buscar novas ações. promove a organização inicial dos grupos identificados e orienta a identificação dos problemas.26). Nessa abordagem a comunidade deixa de ter estrutura homogênea. 1980.identifica os grupos com interesses comuns. fundamentada em Paulo Freire. para quem a conscientização não significa simplesmente a tomada de consciência da realidade ou “estar frente à realidade”. O processo de educação utilizado na abordagem “educação participativa” é fundamentado na conscientização. que requer tratamento diferenciado. Os membros do grupo responsabilizam-se pelo diagnóstico da realidade. sendo vista então como um grupo internamente diferenciado.

à capacidade dos indivíduos para analisá- los. 4) solidariedade predisposição dos indivíduos em cooperar dentro do grupo.desenvolvimento da consciência da realidade por parte dos 3 indivíduos e dos grupos. de curso de ações para lidar com os problemas com os quais se defrontam. 2) participação envolvimento ativo dos indivíduos na identificação dos problemas e de suas causas. planejamento e execução de ações para solucioná-los. 3) organização .estruturação do grupo e controle que os membros do grupo possuem sobre sua organização ou estrutura. PARTICIPAR É CONTRIBUIR PARA A CONSTRUÇÃO DA SOCIEDADE . 4. o que contribui para o aumento do seu poder de barganha. na tomada de decisões. e conduz à identificação de problemas.Oakley (1980) identificou no processo de “educação participativa” cinco subprocessos fundamentais e interrelacionados: 1) faculdade crítica . por parte dos membros do grupo. desenvolvendo ações que visem à solução dos problemas. identificando as possíveis causas e propondo soluções. 5) articulação - estabelecimento.

a dinâmica da participação será diferente. ocorre quando há a intervenção das pessoas nos processos dinâmicos que constituem ou modificam a sociedade. . A participação é uma habilidade que se aprende e se aperfeiçoa. as diversas forças e operações que constituem a dinâmica da participação devem ser apreendidas e dominadas pelas pessoas.O entendimento da intervenção na perspectiva de educação participativa requer algumas considerações sobre a natureza e o conteúdo do processo participativo. 1987). É através dela que uma comunidade é estimulada a buscar seu próprio espaço. O que quer dizer que existe uma diferença entre as dinâmicas da microparticipação em grupos primários e associativos e da macroparticipação na luta social e política de grandes massas (Bordenave. no entender de Ammann (1978) e Bordenave (1987). não nasce sabendo participar. Em cada nível e em cada caso. Isto é. A participação é concebida como uma necessidade básica. no entanto. A macroparticipação ou participação social. A pessoa. a fazer valer seus direitos e a lutar pela transformação da estrutura social.

p. participação imposta (quando o indivíduo é obrigado a fazer parte do grupo e exercer certas atividades consideradas . nisto mesmo começa a regredir”.. (.. nem acabada.) a participação é em essência autopromoção e existe enquanto conquista processual.. Bordenave (1987) classifica a participação em cinco tipos: participação de fato (é o primeiro tipo de participação do indivíduo). um processo no sentido legítimo do termo: “. Neste sentido. de vizinhos etc). na busca do próprio espaço de participação. Não existe participação suficiente. sempre se 4 fazendo.A participação social não é algo acabado. Participação que se imagina completa. em constante vir-a-ser. na tentativa de defender interesses individuais ou coletivos mais imediatos. como coloca Demo (1993. infindável.18): é um processo de conquista.. na comunidade etc.. o processo de construção de uma sociedade participativa se inicia na aprendizagem do dia-a-dia na família. participação espontânea (no grupo de amigos. na escola.

embora concedida. as associações profissionais etc. encerra em si mesma uma contradição e um potencial de conhecimento da realidade.indispensáveis). Na medida em que . de crescimento da consciência crítica. que decidem sobre a organização. objetivos e métodos de trabalho) e participação concedida (a parte de poder ou de influência exercida pelos subordinados e considerada legítima por eles mesmos e seus superiores). as paróquias. participação voluntária (o grupo é criado pelos próprios participantes. como o local de trabalho. mesmo o planejamento participativo tem seu lado positivo. a vizinhança. Este faz parte da ideologia necessária para o exercício do projeto de direção-dominação. de modo a criar uma “ilusão de participação” política e social. Este autor cita como um exemplo típico de participação concedida o “planejamento participativo” implantado por alguns organismos oficiais. da capacidade de tomar decisões e de adquirir poder. que objetiva manter a participação do indivíduo e dos grupos restrito a relações sociais primárias. as cooperativas. Contudo. pois a participação.

a estratégia de apoio ao pequeno produtor e o Projeto Banco do Nordeste/PNUD5. e assim por diante (Demo. recorreu-se a publicações e documentos do Banco do Nordeste que orientam o FNE. 1993). PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS A coleta de informações foi dividida em duas partes distintas: para a análise realizada no item 6. a dados de uma . a desburocratizar. a estabelecer rodízio no poder. pois através dela aprende-se a 5 eleger. Entretanto. cujo fenômeno básico é o controle do poder. Daí. e não para o aumento da dependência. pois coloca em julgamento seu poder e privilégios. a forçar os mandantes a servirem à comunidade.1.se aproveitem as oportunidades de participação para tal crescimento. a deseleger. 5.2. a exigir prestação de contas. qualquer oportunidade de participação constitui um avanço e não retrocesso. não se deve perder de vista que a participação terá a constante oposição das classes dirigentes. para a análise do item 6.. poder-se considerar a participação como o exercício da democracia.

junto a 70 entidades (35 cooperativas e 35 associações) e 910 produtores rurais nordestinos associados dessas organizações. 59 organizações (26 cooperativas e 33 associações) e 687 produtores não haviam recebido o apoio do Projeto até o momento da pesquisa.pesquisa do tipo Survey6. As organizações atendidas pelo Projeto Banco do Nordeste/PNUD. correspondiam a 9 cooperativas e 2 associações. cooperativas de irrigação. Utilizou-se nessa pesquisa uma população selecionada através de amostragem probabilística estratificada. quando foram utilizados questionários estruturados específicos para cada categoria. realizada entre dez/94 e nov/95. cooperativas de eletrificação/telefonia rural. Os produtores vinculados a tais organizações e atendidos pelo mesmo Programa perfaziam um total de 158. Nesta etapa utilizou-se o Experimento: tomaram-se os dados da pesquisa Survey e procedeu-se a um corte entre o grupo . além dos atributos: organizações atendidas pelo Projeto Banco do Nordeste/PNUD. do total de entrevistados. cooperativas de crédito e associações atendidas no âmbito do PROGER7. Portanto.

formado pelos não expostos ao processo (denominado de DEMAIS ou não-capacitados). Foram então selecionadas todas as variáveis relacionadas com a participação dos associados na gestão e no processo decisório da organização: 1) participação na organização social. 2) participação na PNUD: Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento 6 gestão administrativa. tomando-se por base os valores absolutos para posterior comparação. 3) participação na gestão econômico-financeira. (capacitados e não-capacitados). tabulados e analisados os dados dos grupos 6. representado pelas organizações e associados expostos ao processo de capacitação através do Projeto (aqui denominado de PNUD ou capacitados) e o grupo de controle ou testemunha. Em seguida foram segregados. A INTERVENÇÃO: DA ABORDAGEM AOS EFEITOS . 4) participação no uso de bens e prestação de serviços.experimental.

o crédito associativo passou a desfrutar de algumas vantagens comparativamente ao crédito direto8. 68. A abordagem de intervenção na estratégia de ação do Banco do Nordeste A estratégia de apoio ao pequeno produtor foi elaborada pelo Banco do Nordeste.1%. Assim.5% e 96.3%. a partir da necessidade da própria Instituição de promover uma melhor distribuição do crédito do FNE.3% e 64. os pequenos produtores apesar de constituírem a maioria nos anos de 1990/92 (86. dos recursos do FNE (Valente Junior et al.7%. . 45.1%. 20. ao passar a vigorar essa política. para uma pequena participação no número de beneficiários (3.6. A estratégia elaborada elegia o associativismo como o instrumento para dar maior capilaridade ao crédito fornecido pela Instituição.4%: 2. até então concentrado na categoria dos grandes produtores. receberam no período apenas 38. respectivamente). 94. respectivamente.7% e 22. a partir do ano de 1992.8%. respectivamente.6%. respectivamente).1. Enquanto isso.6%.0% e 2. 1995). do crédito do FNE. que receberam nos anos de 1990/92.

Relatório de pesquisa realizada entre 1995/96 para avaliação da Estratégia Banco de dados existente no ETENE .Escritório Técnico de Estudos Econômicos do Nordeste. 8 Foi introduzida nos programas do FNE a concessão de subsídios adicionais a pequenos produtores que buscassem crédito via organização associativa e a cooperativas/associações que apresentassem planos integrados de desenvolvimento. além de criarem condições de acesso ao crédito por parte dos pequenos produtores nordestinos. e 34% se . uma Divisão de Cooperativismo (Divisão de apoio ao pequeno produtor e ao associativismo-COOPE). no Departamento de Desenvolvimento Rural. pela data de constituição. 7 mostra que. bem como o crescimento do número de associados por organização. para servir de ponto de apoio para as ações daquela Instituição (Banco do Nordeste. 7 Programa de Fomento à Geração de Emprego e Renda. Órgão do Banco do Nordeste do Brasil responsável pelos estudos e pesquisas que dão suporte à formulação de políticas regionais. 66% das organizações pesquisadas existiam antes de 1992. favoreceram sobremaneira o surgimento de novas cooperativas e associações de pequenos produtores rurais na Região. A nível de aparato administrativo foi criada.As modificações promovidas nos programas do FNE. 1993).

constituíram após aquele ano.. Observou-se também que a partir de 1993 ocorreu uma reversão no processo de concentração do crédito.4% dos recursos do Fundo (Valente Junior et al. tendo absorvido 55. segundo Zapata10. 1997).6% e 98. Constatou-se que as associações. respectivamente). 1995). 1993a). 1994). O Projeto adota a Metodologia GESPAR9. resultaram como condição prévia de acesso ao crédito (Giovenardi. A metodologia GESPAR. a gerência e o controle dos seus empreendimentos (Banco do Nordeste.. busca desenvolver o caráter empresarial das . quando foi criado o Projeto Banco do Nordeste/PNUD. bem como aos dirigentes de tais organizações (Banco do Nordeste. o projeto busca treiná-los para o planejamento.6%. sendo direcionado a pequenos produtores rurais nordestinos organizados em associações ou cooperativas.3% e 69. Os pequenos produtores continuaram sendo a maioria em 1993/94 (94.. “. em sua grande maioria. A implementação de ações de capacitação se deu a partir de 1993. a organização. sistemática de capacitação junto a tais organizações. através de convênio com o PNUD.

cuja conseqüência é o conhecimento que o indivíduo passa a ter da realidade e o comprometimento com as ações desenvolvidas. a instrumentalização do grupo: “É papel do capacitador facilitar o desabrochar das idéias. Para tal. na metodologia GESPAR o capacitador processo. seminários. instrumentalizando-os através do planejamento estratégico e da gestão participativa para que suas organizações tenham sustentabilidade no ambiente e assim contribuam para a melhoria da qualidade de vida das famílias”. Fundamenta-se na sensibilização. sua priorização e sistematização”. p. produção e comercialização. Apresentação. In: GONI (1995.05). Para Goni (1995. Tânia. ZAPATA. mas facilita o Metodologia GESPAR: Gestão Participativa para o Desenvolvimento Empresarial. treinamentos e monitoração (Goni. são realizadas oficinas de apoio à gestão. preparada pela reflexão e pelo diálogo.27). p.Organizações e o sentido de ‘pertencer’ dos sócios. cursos. Através de ação integrada e não capacita. 1995). .

tomar parte. na organização. 1993a). no controle”(Goni. A participação dos associados nas organizações associativas: efeitos do Projeto Banco do Nordeste/PNUD . nos quais estão inseridos projetos gerenciais e propostas de crédito (Banco do Nordeste. a metodologia postula que o envolvimento dos produtores nas atividades tem por base o entendimento da participação como sendo o ato de “fazer parte.. 1995.16) os produtores exercem um papel ativo. Segundo Goni (1993. desenvolvidos planos integrados. p. Ser Parte no planejamento. p. são realizados diagnósticos dos empreendimentos e..7). ter parte. a partir deles. tornando-se responsáveis pelo diagnóstico da realidade e pela busca de soluções para os problemas detectados: o próprio indivíduo vai “identificar e analisar os elementos relevantes no Sistema para estabelecer um Diagnóstico e abrir perspectivas de intervenção e mudança”.2. 6. Ainda. na direção.8 No processo em que se busca envolver os produtores em todas as atividades.

Freqüência dos sócios às atividades da organização associativa ATIVIDADE Assembléias Gerais Ordinárias Assembléias Gerais Extraordinárias Reuniões de Núcleos de Base Reuniões Seccionais FONTE: Banco de Dados BNB/ETENE 1990 . Participação do associado na organização social da Entidade A freqüência dos associados às atividades de sua Organização cresceu em ambos os grupos no ano de 1994. A Assembléia Geral constitui-se na instância em que é exercido o poder dos associados na Organização.2. Esse crescimento pode significar maior peso dos associados nas decisões a partir do voto. 1995). no grupo DEMAIS. se verifica.1. em relação a 1990.6. em nível de igualdade (Valadares. Embora a freqüência do grupo PNUD seja maior em todas as atividades no ano de 1994. TABELA 1. um crescimento bem mais expressivo no mesmo período (TABELA 1).

Absoluto 245 181 40 35 % 36 26 6 5 DEMAIS 1994 Vr.Vr. Absoluto 535 403 76 88 94/ 90 % .

% Absoluto 99 63 76 48 23 15 10 6 78 59 11 13 118 123 90 151 PNUD 1990 .% Vr.

Vr. de todos os . Absoluto 33 104 36 13 1994 94/ 90 % % 84 66 23 8 34 37 57 30 9 Os associados do grupo PNUD utilizam-se em maior proporção que os DEMAIS.

TABELA 2.veículos de comunicação disponíveis. Em ambos os grupos a pesquisa revelou que é alto o número de associados que se preocupa em estar a par dos acontecimentos de sua Organização (TABELA 2). Veículos de comunicação utilizados pelo associado para se informar sobre as ocorrências relativas à sua organização associativa TIPOS Conversas informais Meios de comunicação social Meios de comunicação empresarial Visitas à Entidade Reuniões Outros Nenhum FONTE: Banco de Dados BNB/ETENE DEMAIS Vr. Absoluto 334 86 17 315 430 .

5 3. Absoluto 88 27 19 86 95 19 8 % 49 13 2 46 63 1.5 % 56 17 12 54 60 12 .12 24 PNUD Vr.

5 Na tabela a seguir (TABELA 3). Participação pressupõe abertura de oportunidades de conhecimento da realidade. é importante observar que o próprio título pressupõe a existência da participação “concedida” conforme prevista por Bordenave (1987). na medida em que revelam o aumento da percepção que estes têm da realidade em que vivem. 1987). o que justifica o fato do alto percentual de membros (45% dos “não capacitados” . que pode refletir a ideologia necessária para o exercício do projeto de direção-dominação.quanto a envolver os membros nas decisões. do percentual de associados sem opinião formada ou que não responderam sobre a forma pela qual os dirigentes procuram envolvê-los nas decisões. os dados correspondentes ao grupo PNUD são ilustrativos do desenvolvimento da “faculdade crítica” dos associados.5%.segundo a percepção dos associados . em relação ao grupo DEMAIS. pela queda de 22% para 16. Mesmo assim. Daí a resistência por parte dos dirigentes . de crescimento da consciência crítica. o que significa uma ameaça ao poder estabelecido dentro da organização (Bordenave.

Absoluto 225 312 150 687 % 33 45 . Conceito do associado sobre os dirigentes de sua organização associativa quanto ao envolvimento dos associados nas decisões CONCEITO Ótimo/Bom Regular/Ruim Não possui opinião formada/ Não responderam TOTAL FONTE: Banco de Dados BNB/ETENE DEMAIS Vr.e 47% dos “capacitados”) atribuírem a tais dirigentes o conceito de regular a ruim. 10 TABELA 3.

2. quanto à análise da realidade e identificação das possíveis causas dos problemas. Absoluto 57 74 27 158 % 36.2. a favor do grupo PNUD. quando se comparam os dados dos dois grupos. quando 18% destes tomam parte do planejamento das áreas de capacitação e . É perceptível a diferença entre ambos.22 100 PNUD Vr.5 47 16. Participação do associado na gestão administrativa da Entidade Observando-se a TABELA 4 é possível identificar alguns traços do que Oakley (1980) denominou de subprocessos da Educação Participativa.5 100 6.

o interesse é bem maior no que diz respeito à produção (49%). contra apenas 3. No grupo PNUD é significativamente maior o número de associados que se preocupa com a forma como está sendo conduzido o planejamento dos diversos segmentos de sua Entidade. ao se verificar que grande número de associados pertencentes ao grupo DEMAIS (64%). Áreas de planejamento das organizações associativas em que ocorre participação do associado . aquisição de insumos e máquinas e implementos (47% cada) e comercialização (42%). que despertam o interesse de 24%. Quanto ao envolvimento no planejamento das atividades como um todo. é insignificante a participação destes no planejamento de suas organizações associativas. Aí. não participa do planejamento da Entidade. 11 TABELA 4. também é perceptível a vantagem do grupo “capacitados”. 18% e 17% dos associados.assistência técnica da Organização. Com exceção das áreas de produção. comercialização e aquisição de insumos.5% de membros do grupo DEMAIS. respectivamente.

Humanos e materiais Definição de preços de revenda Não participa do planejamento FONTE: Banco de Dados BNB/ETENE DEMAIS Vr.ÁREAS Produção Comercialização Aquisição de insumos Máquinas e implementos Armazenamento Benefic/industrialização Capacitação/assist. técnica Propaganda e marketing Rec. Absoluto 164 124 118 91 58 44 25 1 5 33 .

Absoluto 78 67 74 74 26 11 29 1 8 31 1 % 24 18 17 13 8 6.1 0.7 5 64 .439 PNUD Vr.5 3.5 0.

5 5 20 0. Porém. grande número de associados não participa das atividades de controle (78% entre os DEMAIS e 76% entre PNUD).demonstração de consciência dessa necessidade . comparativamente à questão do planejamento (TABELA 4). no que diz . ainda é maior a participação dos associados do grupo PNUD. Em ambos os grupos.% 49 42 47 47 16 7 18 0.uma situação inversa é visível quando o assunto é controle. embora com índices aquém do esperado.5 Ocorre um retrocesso na questão do controle das atividades (TABELA 5). pois ao mesmo tempo que existe uma grande preocupação com o planejamento das atividades da organização .

os membros não assumem o seu controle de forma efetiva. clientelismo ou outros traços comuns na intervenção tutorial. Por outro lado. os dirigentes). Situações desta ordem. apesar de tomar parte do planejamento das atividades da Organização. patronagem. partindo-se do pressuposto de que as atividades de controle dão certo nível de poder aos associados e. na opinião de Oakley (1980) são propícias ao surgimento de 12 . Assim. levando-se em conta os dados constantes da TABELA 3 (47% dos componentes do grupo PNUD consideram os dirigentes de suas organizações de Regulares a Ruins quanto à preocupação em envolvê-los nas atividades).respeito às atividades de controle realizadas pelas organizações associativas (TABELA 5). pode-se sugerir que existam resistências por parte dos dirigentes no sentido de envolver os sócios nas atividades de controle da Organização. indicativo de que existe certa dependência do grupo com relação aos líderes (no caso.

TABELA 5. Absoluto 75 63 87 36 35 533 % 11 9 13 5 5 . Participação do associado nas atividades de controle da sua organização associativa TIPOS Custos Estoques Preços Qualidade dos produtos Qualidade dos serviços Não participa das atividades FONTE: Banco de Dados BNB/ETENE DEMAIS Vr.

5% dos associados não possui opinião formada sobre o nível de transparência das informações contábeis de sua Entidade.3. no grupo DEMAIS esse percentual chega a 45.78 PNUD Vr. Participação do associado na gestão econômico-financeira da Entidade Verifica-se que enquanto no grupo PNUD 16. Isso é uma demonstração de que é bem maior no primeiro grupo o nível de .2.2% (TABELA 6). Absoluto 33 3 34 15 10 120 % 21 2 21 9 6 76 6.

demonstrando maior nível de consciência crítica desenvolvido no primeiro grupo em relação ao segundo.6%). TABELA 6. Conceito do associado a respeito de seus dirigentes/organização associativa quanto ao nível de transparência nas informações contábeis CONCEITO Ótimo/Bom Regular/Ruim Não possui opinião formada Não respondeu Total FONTE: Banco de Dados BNB/ETENE GRUPOS DE ASSOCIADOS DEMAIS PNUD . Verifica-se também que é quase o dobro no grupo PNUD (44%). com relação aos DEMAIS (21.envolvimento dos sócios nesse tipo de atividade da Organização. o percentual dos que atribuem um conceito de Regular a Ruim ao nível de transparência das informações contábeis fornecidas pelos dirigentes de suas organizações associativas.

2 687 100 158 % 39. Absoluto % Vr. Absoluto 206 30 63 148 21.2 26 22 3.6 69 311 45.5 100 Apesar de ser elevado o nível de freqüência dos sócios nas assembléias.5 44 16. em ambos os grupos .Vr.

13 Os dados da TABELA 7 revelam que é bem maior no grupo DEMAIS o percentual dos associados que sequer possui opinião formada sobre a ocorrência de prestação de contas/balanço de sua organização associativa (39.(TABELA 1). percebe-se que há um percentual bem maior de associados no grupo PNUD que efetivamente está a par do que acontece na Entidade e se preocupa com o controle do seu destino. além dos 3% que se recusou a tratar do assunto. e apenas 13% se mostrou desinformado sobre a matéria. além de demonstrarem uma maior percepção da realidade por parte dos componentes do grupo . Estes dados.9%). No grupo PNUD todos os associados entrevistados responderam quando questionados. o que corresponde ao dobro do percentual daqueles pertencentes ao grupo DEMAIS que atribuíram o mesmo conceito (22. No grupo PNUD 44% dos associados atribuiu aos dirigentes de suas organizações conceito de Regular a Ruim quanto ao nível de transparência nas informações contábeis.5%).

TABELA 7. significa também um reforço do que vem sendo identificado nos dados das tabelas analisadas anteriormente. Absoluto 238 157 271 21 687 . Conceito do associado a respeito de seus dirigentes/organização associativa quanto à prestação de contas/balanço CONCEITO Ótimo/Bom Regular/Ruim Não possui opinião formada Não respondeu Total FONTE: Banco de Dados BNB/ETENE GRUPOS DE ASSOCIADOS DEMAIS Vr.PNUD. de que há uma resistência dos dirigentes quanto a colocar os sócios a par dos acontecimentos da organização.

PNUD Vr.5 3 100 % 43 44 13 100 6. Participação do associado no uso de bens e prestação de serviços da Entidade A TABELA 8 apresenta o resultado da pesquisa quanto ao número de entidades que disponibiliza .9 39.4.6 22. Absoluto 68 69 21 158 % 34.2.

aos seus associados. 14 considerando-se que a prioridade do Projeto Banco do Nordeste/PNUD está na capacitação técnica gerencial dos dirigentes das organizações associativas. Verifica-se que é maior o percentual de entidades do grupo PNUD que oferece os serviços mencionados. cujo percentual (9%). é inferior ao do grupo DEMAIS (12%). No mínimo. Os dados deixam transparecer traços do que sugere Bordenave (1987) a respeito do jogo do poder: capacitar os membros do grupo . Este dado é estranho. conforme revelam os dados da TABELA 4. os associados do grupo PNUD demonstram certo interesse em participar do planejamento das áreas de capacitação e assistência técnica da Entidade. exceto no que diz respeito à capacitação técnica gerencial. deveria haver uma preocupação por parte de tais dirigentes em ofertar os mesmos serviços aos seus associados. bem como de capacitação técnica gerencial e tecnológica. Ademais.serviços aos associados nas áreas de assistência técnica gerencial e agronômica.

Absoluto 2 7 1 2 . técnica gerencial Assist. Alguns serviços prestados pelas organizações aos seus associados Assist. Absoluto 3 16 7 5 PNUD Vr.significa abrir para questionamentos destes sobre as decisões para dentro e para fora da organização. que por sua vez geram conflito e fragilização do poder estabelecido. técnica agronômica Capacitação técnica gerencial Capacitação tecnológica FONTE: Banco de Dados BNB/ETENE SERVIÇOS DEMAIS Vr. TABELA 8.

pelo menos no discurso contempla uma ação ativa dos grupos para os quais se dirige. delineamentos das duas abordagens descritas por Alencar (1990): 1) o estímulo ao associativismo. que se apresenta inserido na mesma estratégia.. e dirigido ao mesmo público. 2) o programa de capacitação.% 5 27 12 8 % 18 64 9 18 CONSIDERAÇÕES FINAIS Percebe-se de forma clara a existência de um processo em que aparecem na estratégia de intervenção da instituição em questão. com características da intervenção participativa. cuja ação se dá de forma tipicamente tutorial. .

não são suficientes para responder a questões do tipo: os associados estariam exercendo o controle democrático da organização? Estariam as assembléias funcionando como instância do exercício do poder do associado. buscando descobrir até que ponto a estratégia atinge os objetivos propostos.O processo de capacitação. encontra um grupo de indivíduos vivenciando uma experiência que se poderia denominar de “deseducação”. A primeira constatação é que a intervenção tutorial de estímulo ao associativismo via concessão de crédito associativo provocou não apenas o crescimento do número de organizações associativas no Nordeste. porém. iniciado em fase posterior ao estímulo do associativismo. 15 A análise tentou aprofundar esta questão. exercendo um papel passivo num processo cuja tendência é de reforço dos traços de dependência. além de ter contribuído para o aumento da freqüência às assembléias realizadas em tais organizações. mas também do número de associados por organização. Tais resultados. .

limitado. conforme revelam os dados.ou como meros instrumentos formais para a obtenção de financiamento. pois o processo não ocorre de forma integral. identificados por Oakley (1980). balanços etc? Maior número de votos em assembléias pode não significar necessariamente maior peso dos associados nas decisões. pois nada impede que seja passivo. quando assumem que a participação não se refere apenas à qualidade de membro do grupo. principalmente quando se sabe. Não é percebido claramente o desenvolvimento nos membros do grupo PNUD da “faculdade crítica”. porém. da “solidariedade” e da “articulação”. que o crescimento se deu. . Deve-se admitir que o voto. da “organização”. aprovação de relatórios. em grande parte. Os dados revelam. com o objetivo principal de acesso ao crédito. Percebe-se algum avanço na consciência dos sócios submetidos ao processo de capacitação. da “participação”. planejar e executar uma ação. Participar significa tomar parte ativa nas decisões. como alertado por Demo (1993) tem controle relativo.

há uma ameaça ao poder estabelecido dentro da Organização. . Entretanto.a participação social . transparece a resistência dos dirigentes de tais organizações quanto ao envolvimento dos sócios nas atividades.um avanço neste sentido. porém. as atitudes deixam transparecer que ainda não há uma estruturação do grupo. em alguns momentos se percebe a existência de envolvimento ativo dos sócios nas tomadas de decisão dentro da sua organização associativa e na cobrança de ações por parte dos dirigentes. o que deveria ocorrer para que se efetivasse a participação no sentido macro . nas decisões. pois não se percebe uma intervenção dos indivíduos no sentido de modificar a sociedade. ou controle por parte destes sobre a Organização. Em outros momentos. Por outro lado. ou seja. pois à medida que estes adquirem o conhecimento da realidade e a consciência crítica.como sugerem Ammann (1987) e Bordenave (1987). conforme 16 A participação ainda se apresenta em nível micro.

na tentativa de defesa dos assuntos que lhes interessam. B. 1987. Projeto BNB/PNUD. Lavras-MG. pode-se considerar que o processo de capacitação contribuiu no sentido dessa construção. Ideologia do desenvolvimento de comunidade no Brasil.23-43.Fundo constitucional de financiamento do Nordeste.1. . S. FNE . E. Informações Básicas sobre o FNE. BIBLIOGRAFIA ALENCAR. que vai sendo construído e nunca se completa. ____________________. BANCO DO NORDESTE. Impactos das aplicações. a partir de uma consciência crítica da realidade. 1990. Jan. n./jun. Fortaleza. v. Fortaleza.2.tendo-se em mente o que coloca Demo (1993) que a participação é um processo de conquista. AMMANN. 1993. Administração Rural. p. Fortaleza. 1994. São Paulo: Cortez. 1993a. ____________________. pois se verifica que os sócios das organizações buscam agora um espaço nas decisões. Exercício de 1993.

Intervenção tutorial ou participativa: dois enfoques da extensão rural.). Brazil. GONI. de. GONDIM.. O que é a Metodologia GESPAR? PROJETO BNB/PNUD. Participação e poder: o comitê educativo na cooperativa agropecuária. 1997. n. J. 84p. (Coord. p. 1980. FREIRE. O que é participação. S. P. SOUZA. 1987. T. S. Community Development journal. GIOVENARDI. P.15. A. N. E. Uma estratégia de apoio aos pequenos produtores rurais do Nordeste. E. 1991 (mimeo). H. H. 1993. Participation in development in N. Participação é conquista. 1980. Lavras: . J. P. M. D. Cadernos de 17 OAKLEY.1. P.BORDENAVE. Recife: 1995. São Paulo: Brasiliense. Oxford. G. Fortaleza: BNB. VALADARES. São Paulo: Moraes. Conscientização. 102p. 188p. J. E. COSTA. Avaliação da estratégia de ação do Banco do Nordeste do Brasil em apoio ao pequeno produtor nordestino. DEMO. Fortaleza: Banco do Nordeste. 176p.10-22. São Paulo: Cortez. v. P.

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