A “vocação atual” da sociologia rural

Para uma abordagem das questões atuais que se colocam à sociologia rural - o verdadeiro objetivo deste texto1[1] -, é indispensável introduzir um quadro geral que esclareça a respeito da possibilidade de formulação dessas questões e mostre o sentido que é preciso trabalhar a fim de respondê-las. Este texto está organizado em torno de três eixos: um posicionamento da sociologia rural em relação à sociologia geral, que é o seu pressuposto absoluto; um posicionamento da sociologia rural diante das outras ciências sociais que estudam o mundo ou o espaço rural, o que se justifica pelas trocas importantes que ela tem com as mesmas - e, inversamente, as relações que as ciências sociais mantêm com a disciplina -; e uma reflexão sobre a curta história da sociologia rural, um preâmbulo indispensável para uma reflexão sobre sua presente situação e sobre o modo de perceber suas tarefas atuais e futuras. Três referências básicas A sociologia rural: aplicação da sociologia geral2[2] A sociologia rural - antes de tudo, trata-se aqui da sociologia rural francesa, podendo, contudo, o que será dito ser generalizável - jamais reivindicou o estatuto (absurdo) de disciplina única, à parte.3[3] Uma tal afirmação pareceria evidente. Em compensação, as conseqüências que necessariamente devem ser tiradas disto, são menos freqüentemente (para não dizer jamais) mencionadas e não são objeto da atenção que se impõe, se se pretende ver a sociologia rural como sociologia: se a sociologia rural, antes de tudo, é sociologia, ela pura e simplesmente se integra nas evoluções gerais - temáticas, metodológicas, teóricas - da sociologia. Isto, aliás, é patente, se se considera a sua própria história: é assim que ela, cada vez mais - ou simultaneamente - foi durkheimiana, funcionalista, culturalista, marxista, estruturalista, weberiana etc. Não existe, portanto, “escola” de sociologia rural, mas, através da sociologia rural, há análises de inspirações teóricas diversas que propõem diferentes maneiras de integrar as dimensões sociológicas da atividade agrícola e do mundo rural em uma análise de conjunto da sociedade francesa e, mais largamente, das “sociedades industriais”. (Henri Mendras propôs inclusive uma teoria geral válida para todas as sociedades). Desta proposição - que também é uma constatação - decorre toda uma série de indagações: como a sociologia rural seguiu estas evoluções? Ela simplesmente as seguiu ou, a seu modo, contribuiu para provocá-las? Uma resposta suporia uma análise mais detalhada, o que não será feita aqui, porque isto exigiria uma pesquisa específica.

1[1] O leitor já deve ter percebido a referência implícita ao título da obra de Georges Gurvitch (1950).
Contudo, devemos esclarecer aqui que ela não é propriamente uma obra de sociologia rural.

2[2] Precisemos bem: dizer que a sociologia rural é uma “aplicação” da sociologia geral não quer
dizer que a sociologia rural seja uma “ciência aplicada” (como foi algumas vezes afirmado). Quer-se dizer que a sociologia rural é um “ramo” da sociologia geral, tão fundamental quanto esta.

3[3] É interessante a este propósito consultar os primeiros escritos referentes à sociologia rural do
pós-guerra. Uma rápida pesquisa neste sentido conduz a resultados um pouco surpreendentes: o primeiro indício que encontrei de um curso de “sociologia rural” faz pensar que foi o Instituto de Estudos Políticos de Paris quem teve o papel pioneiro na matéria! Outras surpresas: este curso foi inicialmente confiado a dois geógrafos (em 1948-1949), em seguida a Jean Stoetzel (1951-1952), antes de ser atribuído a Henri Mendras. As apostilas dos cursos de Jean Stoetzel e Henri Mendras (cf. particularmente a apostila de 1963-1964), assim como a do curso dado por Henri Mendras no IHEDREA (s/d), começam sempre por uma precisão muito fundamentada referente à vinculação da sociologia rural à sociologia geral: Jean Stoetzel, Sociologie rurale, 1951-52 (curso ministrado no Instituto de Estudos Políticos de Paris, 304 p. datil.; Henri Mendras, Sociologie rurale, Paris. Os cursos de Direito, 1956-1957, 3 fascículos, 282 p. mimeo.; Henri Mendras, Sociologie rurale, Paris, Institut d’Études Politiques de Paris, Amicale des Éleves, 1963-1964, 216 p. mimeo.; Henri Mendras, Sociologie rurale, Paris, IEP de Paris, Amicale des Éleves, 1967-1968, 3 fascículos, 295 p. mimeo.; Henri Mendras, Sociologie de la campagne française, Que sais-je? n. 842, Paris, Presses universitaires de France, 1959 (reedição 1965), 128 p.; Henri Mendras, Sociologie rurale: notions générales et sociologie du changement, Institut des hautes études de droit rural et d’économie agricole (IHEDREA), s/d, 59p, mimeo.

Sociologia rural e ciências sociais da ruralidade: uma escola ruralista? Uma vez feitas as referências aos fundadores, pode-se continuar discutindo este tema que parece ser realmente central para a sociologia rural. Eis, por exemplo, o que escreveu Henri Mendras em 1958: “O ‘meio’ rural é um campo de investigação para todas as ciências sociais e seu estudo não poderia constituir uma disciplina autônoma. Os geógrafos que analisam as relações entre o homem e o meio natural e a distribuição espacial dos fenômenos humanos começaram naturalmente a se debruçar sobre o campo. A economia rural é um ramo (um dos mais antigos) da economia política. Ligando-se a um passado em que a agricultura era a atividade exercida pela maioria dos homens, a história social dá um grande destaque à descrição da vida camponesa. Os etnólogos estudam as estruturas ditas ‘arcaicas’ nas quais a busca ou a produção de alimentos ocupam todos os homens. Enfim, citadinos e rurais interessam igualmente ao psicólogo, ao demógrafo, etc. Enquanto homens iguais aos outros, os rurais também dizem respeito a cada ciência social. Entretanto, eles vivem em um meio particular que requer uma certa especialização do pesquisador e, às vezes, uma problemática diferente. Como o etnógrafo, o sociólogo rural deve, portanto, conhecer os métodos e as técnicas de todas as outras ciências sociais, a não ser que conte com a colaboração de uma equipe de diversos especialistas.” Encontra-se aqui uma profissão de fé que remete ao que se chama a interdisciplinaridade dos “ruralistas”.4[4] A démarche do “ruralista” ambiciona integrar todas as dimensões do social, o tempo, o espaço, o local e o global. Trata-se de uma démarche que se qualificaria hoje de holística (ou holista). Do ponto de vista sociológico stricto sensu, esta démarche se caracteriza também pela sua “transversalidade”. Isto aparece, por exemplo, particularmente nos planos das obras gerais de sociologia rural: por um desvio de alguma forma paradoxal, a sociologia rural, em princípio “especialidade” da sociologia, aparece de fato como uma sociologia “generalista” em si. O sociólogo rural se interessa por todo um conjunto de aspectos da vida social que é dividido, por sua vez, em várias “especialidades” da sociologia - sociologia política, sociologia da família, sociologia das religiões etc. Portanto, é pelo seu “objeto” - seria melhor falar de “campo de aplicação” - e não por uma “teoria” ou uma “escola de pensamento” particular, que a sociologia rural se define. Deste ponto de vista, podese bem seguir Michel Robert (1986: 5-6) quando ele escreve: “Com suas duas correntes bem nítidas, a sociologia rural se definirá, portanto, mais pelo seu campo de ação do que por uma coloração teórica original. Nisto, pode-se compará-la à sociologia urbana na qual se pensa imediatamente, embora a sociologia rural não seja sua antítese. Estas duas disciplinas não são construídas uma em relação à outra, nem a fortiori, uma contra a outra. Tendo dividido entre si o espaço e seus habitantes, elas seguem cada uma a sua rota teórica sem mesmo ter sempre relações elementares que seriam desejáveis”. É o que diz também Henri Mendras, escrevendo no Traité de Sociologie de Georges Gurvitch: “Se não se limita a uma sociologia agrícola especializada, a sociologia rural se define, portanto, pelo seu campo de estudo, as sociedades rurais” (Mendras, 1958: 316). É desta proposição que decorre uma interdisciplinaridade que “exige (pois) o concurso de todas as ciências sociais para chegar a uma integração dos diversos aspectos da vida rural. Nesta perspectiva, o sociólogo rural atribui a si mesmo uma dupla tarefa, por um lado, estudar os aspectos da sociedade que dizem respeito a sua ou a suas especialidades, e, por outro lado, reinterpretar e integrar, desde seu ponto de vista, os materiais que os pesquisadores de outras disciplinas lhe oferecem” (Mendras, 1958). Henri Mendras imediatamente acrescenta uma precisão que muda uma leitura à primeira vista estritamente “objetiva” da afirmação (no sentido de constitutiva de um “objeto” de uma certa forma “físico”): “Esta definição compreensiva parece-nos impor-se nos países de campesinato tradicional, notadamente na França. A sociedade rural conserva aí uma certa autonomia diante da sociedade global e é impossível reduzi-la a um grupo profissional, a um setor econômico ou a uma classe social, entre outros” (Mendras, 1958). Segundo ele, a justificativa da sociologia rural repousa, assim, no postulado - que poderia também ser tratado como uma hipótese - da existência, “nos países que têm um campesinato tradicional”, de uma “sociedade rural” (?) que “conserva uma certa autonomia face à sociedade global”. Assim definido esta é a definição de Henri Mendras, mas que pesou fortemente na sociologia rural durante pelo

4[4] Esta interdisciplinaridade está, por exemplo, na própria base da filosofia e da ação da Associação
dos Ruralistas Franceses.

menos 20 anos - o objetivo da sociologia rural é, de uma certa forma, demonstrar a validade desta proposição (desta hipótese, poderíamos dizer). Daí, a ênfase posta progressivamente na “mudança social” que deslocará as “sociedades rurais” de seu estatuto de “autonomia relativa” - o das sociedades camponesas - à sua integração total à sociedade global - através da passagem dos “camponeses” à condição de “agricultores”, estes últimos cada vez mais vistos como “um grupo profissional... um setor econômico ou... uma classe social, entre outros”. Uma hipótese forte cimenta as análises especificamente sociológicas de temas precisos do mundo rural: a de que existem laços estreitos entre os diferentes aspectos da vida social que leva a que estes aspectos sejam do domínio de diferentes áreas da sociologia ou de outras ciências sociais - a economia, a geografia, a etnologia, e a história, evidentemente - e a se reconhecer que é preciso, portanto, tratar de considerar todos estes aspectos conjuntamente como condição para compreender as evoluções do mundo rural e lhes dar uma interpretação verdadeiramente sociológica. Daí a busca constante da transversalidade no seio da sociologia e da interdisciplinaridade com as outras ciências sociais dedicadas ao tema. Daí, também o risco que os sociólogos rurais correm de parecerem fechados - juntamente com os outros “ruralistas” - limitados ao estudo do mundo rural “específico” e “fechado”. De fato, uma análise detalhada dos trabalhos dos sociólogos rurais mostraria que não se trata disto e que a preocupação de situar as evoluções do mundo rural no interior das evoluções da sociedade global é constante e sistemática. Deve-se sublinhar que esta dupla preocupação já é uma característica forte da sociologia rural, mantendo ao mesmo tempo suas preocupações com uma coerência de uma certa forma “interna” ao “mundo rural” (a expressão assume aqui todo o seu sentido) e com a integração deste conjunto a uma lógica global (uma coerência, de uma certa forma “externa”) de uma sociedade dita “englobante” para marcar esta “exterioridade atuante”. Pode-se dizer que esta é uma proposição e uma “postura” sociológicas de caráter geral e básico (que exigiria, diga-se de passagem, um exame aprofundado): ao mesmo tempo um exercício difícil de se fazer, uma espécie de desafio difícil de se manter. Mas, afinal de contas, não é o que torna interessante e mesmo justifica uma démarche de sociologia aplicada a qualquer uma das malhas, elementos ou aspectos da vida social? Em suma, não é essa uma das exigências fundamentais da análise sociológica e, portanto, do próprio trabalho do sociólogo? Sociologia rural e sociedade: dentro e fora Uma análise mais atenta da história da sociologia rural mostraria sem dificuldade o quanto esta história está ligada, através de suas temáticas - e talvez precisamente através da própria orientação de suas análises - às questões que são colocadas (às vezes, inclusive nos termos em que são postas) a respeito do mundo rural, da agricultura e dos agricultores na própria sociedade francesa. Não me parece esquematizar excessivamente se disséssemos que cinco e principais temas organizaram ao longo do tempo o questionamento que sociólogos rurais constantemente se têm feito através de ponderações variáveis e de enunciados igualmente diversos, se comparados os momentos em que são apresentados. O primeiro deles diz respeito às relações - e mais precisamente, na linguagem da época, à oposição cidade-campo. Este velho tema, que reaparece com mais força desde o final da guerra, tem um lado “acadêmico”: ele remete a antigas reflexões dos geógrafos e dos historiadores. Mas a forma como é retomada no pós-guerra corresponde muito diretamente a preocupações sociopolíticas maiores. Tratava-se então de lançar a França a uma política de reconstrução, industrialização e modernização e a questão que se punha era a de saber se esta componente essencial da sociedade que são os campos - entendamos “agrícolas” - na França dos anos 1950 será capaz de se adaptar às mudanças indispensáveis. Para a cidade, “civilização de conquista”, como Braudel a caracterizará mais tarde, a questão não se coloca: apenas se põe a questão de saber o que vai acontecer com elas em uma fase de crescimento rápido - o que será a questão central e “organizadora” da sociologia urbana. Está-se, assim, em um campo sócio-político e a sociologia rural vai tomar para si, sob diferentes formas, as questões decorrentes. Estas questões ressurgem periodicamente durante todo este meio século, com as formulações que evoluem em função das mutações sociais, econômicas, demográficas, etc. Algumas noções servem de referência nesta interrogação permanente da sociedade francesa sobre si mesma: desertificação (dos campos), rurbanização, terras não cultivadas, uniformização (dos modos de vida), morte (ou renascimento) do rural, etc. A sociologia rural - mas as outras ciências sociais igualmente o são - é constantemente interpelada pelo que se poderia chamar o “discurso social” sobre o rural. Ela também tenta dar as suas respostas.

Se nos fixarmos na cronologia, parece-me que o segundo tema a evocar é o das transformações da agricultura, não só do estabelecimento agrícola, e do trabalho do agricultor, mas também - tendo em vista o estreito laço entre o estabelecimento e a família - a transformação da família agrícola. Trata-se aqui do domínio da política agrícola que ocupa um lugar crescente na vida política a partir dos anos 50 até hoje. Tendo experimentado uma considerável “modernização”, sob o impacto de um movimento social poderoso e dinâmico na Quinta República - já em curso na Quarta, mas uma das grandes construções daquela - a agricultura ocupa um lugar de destaque na vida social - e sobretudo política - nesse período. Uma tal voragem sociológica era, evidentemente, um estímulo para os sociólogos rurais, a tal ponto de a sociologia rural ser considerada, com justiça, como tendo sido largamente infiel a sua vocação para se reduzir a uma sociologia dos agricultores (Robert, 1986). O terceiro tema, que já aparece no primeiro e prossegue no segundo, é o do lugar que os camponeses, e depois, os agricultores, ocupam na sociedade francesa e, mais particularmente, na estrutura e na vida política do país. Esta questão não é apenas o pano de fundo das transformações em curso, tanto nas relações entre a agricultura e a economia nacional, quanto nas relações entre cidade e campo: ela é claramente colocada pelos líderes do movimento social dos “jovens agricultores” (Debatisse, 1963; Lambert: 1970) e por aqueles que se poderia chamar de seus “intelectuais orgânicos” (Faure: 1966). Esse tema constitui, como já se viu, um dos capítulos inevitáveis - e, por assim dizer, até mesmo, uma forma de conclusão - em qualquer apresentação de conjunto da sociologia rural. O quarto tema, embora tenha surgido bem depois e mais como uma resposta a ele, poderia ser incluído no primeiro como um dos seus itens. Trata-se do tema do desenvolvimento local, inicialmente com o movimento das localidades (“pays”), o slogan “viver em sua própria localidade” (vivre au pays); depois, com as políticas de desenvolvimento rural, seus múltiplos recortes espaciais e procedimentos às vezes bastante inovadores na ação da administração (com a introdução dos planos de desenvolvimento rural, por exemplo). E hoje com os debates sobre o futuro do mundo rural no quadro de uma política de organização do território. Um último tema deve, enfim, ser evocado (embora este texto não pretenda exauri-lo): o do meio ambiente. É a questão mais nova, mesmo que sejam muitos os seus antecedentes que podem ser encontrados na sociologia rural (Mathieu & Jollivet, 1989). Como “discurso social”, ele é incontestavelmente um tema recente. Nele pode-se incluir a referência, tão atual quanto florescente, às paisagens. E, de forma mais geral, o problema das relações com a “natureza”, que constitui o pano de fundo - para não dizer o próprio fundamento - da questão do meio ambiente. Se não foi a partir da agricultura e do campo que as preocupações ambientais tomaram corpo (as primeiras vieram com a indústria e suas “poluições”), a agricultura, os recursos naturais renováveis (a água em particular, mas também os solos, as florestas, etc), a qualidade dos produtos agrícolas e do espaço rural não tardaram a entrar em cena, e mesmo a ocupar um lugar especial no tema do meio ambiente. Os “ruralistas” - e em particular os sociólogos - no campo das ciências sociais, foram os primeiros a se interessar por estas questões, a ponto de Bernard Kalaora dizer que seria necessário que as pesquisas em ciências sociais sobre o meio ambiente se liberassem da influência daquelas, influência julgada excessiva e tendente a se fechar. Até aqui, esta lista de temas recobre o essencial e ilustra suficientemente o nosso propósito, de apenas chamar a atenção para a estreita correspondência entre as grandes temáticas da sociologia rural e o que se poderia chamar as “questões da sociedade”. Em função da ótica considerada, três observações podem ser formuladas. Primeiro, foi sem razão que se acusou a sociologia rural de se fechar em sua “torre de marfim”; ao contrário, ela tentou trazer suas respostas às interrogações da sociedade que eram de seu domínio. Segundo, teria ela, ao fazer isto, pecado por um excesso de oportunismo? Foi ela, afinal, “teleguiada” de alguma forma pela “demanda social?” Observemos, desde logo, que parece lógico que as ciências sociais tratem dos problemas que se colocam na sociedade e para os quais elas são competentes. Sobre este ponto, notar-se-á que todos os temas evocados fazem parte da matriz inicial da sociologia rural. De fato, estes temas são mais recorrentes que sucessivos; apenas, ao “gosto do dia”, suas formulações sucessivas lhes dão uma aparência de novidade irredutível. Ao contrário, o que devem fazer as ciências sociais é precisamente mostrar que se trata de avatares, de desenvolvimentos circunstanciais de questões de fundo. Para isto, o que elas devem fazer é igualmente abandonar o discurso comum, na medida em que este é susceptível de ocultar os problemas reais. Emprega-se aqui uma fórmula da qual a prudência esconde mal a pretensão, para não dizer a imprudência: cada ator social tem sua concepção do que sejam os problemas reais - são aqueles que eles enfrentam em sua ação ou em seus interesses imediatos.

A primeira consiste em afirmar que a sociologia rural nunca teve pertinência e sempre foi um artefato ideológico. a característica da sua “postura” durante este meio século de sua história. os pontos de vista e as avaliações são evidentemente diferentes. tem ainda pertinência? Se sim. por exemplo. de “sociedades rurais . tal como foi herdada das últimas quatro ou cinco últimas décadas. Deve-se precisar ainda que. um novo relevo e ao “modelo de desenvolvimento” operado pela política agrícola a partir dos anos 60 (agora questionado). com a renovação das questões sobre as “tecnologias”. elaborar um instrumental intelectual à altura de suas ambições. no curso deste período. até mesmo. uma visão essencialista e idealista. Ao contrário. a uma epistemologia da sociologia. Considerada no primeiro aspecto.as “sociedades rurais” . ao movimento “neo-ruralista”. a sociologia rural opôs sua formulação própria dos problemas à dos atores profissionais e do Estado? Por sua “distância crítica” em relação ao real. A segunda maneira de negar a pertinência da sociologia rural é indagar se o “objeto” que ela reivindica como seu . querer responder com precisão a tal questão seria uma pesada tarefa. enquanto tais. as suas razões.que assume hoje. Se a sociologia rural foi acusada de permanecer em sua “torre de marfim”. o “rural” não existe mais. seria muito instrutiva. mais tarde. A crítica que ela fez ao discurso da “rotina camponesa” ou. o que se pode dizer é que essas questões têm importância e mereceriam hoje um exame atento para que possamos. abordar as tarefas futuras. no domínio das pesquisas sobre a inovação. dar conta. que em nada corresponde. e inclusive estruturas.e em vigor especialmente na Holanda. e ainda menos lhes fornecer. aquelas que escapam à consciência dos atores. Considerada do ponto de vista da estrutura interna da sociologia. mesmo neste caso. qual seria essa pertinência? qual a base das suas problemáticas e “objetos”? No que se refere às justificativas da sociologia rural há duas maneiras possíveis de ver as coisas. herdadas das sociedades agrárias de onde elas procedem. entre outras. nem às exigências da especialização dos conhecimentos pela divisão do trabalho científico.e que conserva o seu modo próprio de ver: eis aí. Além disso. algumas pistas para realizar aquele balanço. e cujos discursos não podem. nem ao caráter basicamente empírico da sociologia. seria preciso sociólogos competentes no estudo dos aspectos da realidade social em questão para realizar de maneira rigorosa e informada as pesquisas necessárias. Em outras palavras. não teria sido porque ela nunca aceitou responder às questões tal qual estas lhe foram colocadas . ela suporia a existência de um esquema de referência teórico aceito por todos os sociólogos.Mas esta “pretensão” é a mesma da sociologia. uma sociologia rural muito sensível aos avatares do questionamento social sobre o rural . Estes são elementos gerais básicos para um “enquadramento” da sociologia rural. tanto da sociedade quanto da sociologia. à recusa da idéia de que as sociedades industriais possam conservar traços. o mais preparados possível. pelo menos. mas não se justifica mais atualmente. ter-se-ia. uma análise comparada das duas démarches. e que parecem indispensáveis para a discussão presente.e. Sobre este balanço. que é a de evidenciar as “lógicas sociais” implícitas ou. Portanto. Esse tipo de atitude pode ser vista sob dois ângulos: um remete à história. A identificação de um ramo da sociologia que se dedica a sua análise pôde se justificar. A propósito.continuam existindo (se é que existiram em algum momento). Deste ponto de vista. quase próxima do seu “objeto” . o outro.e isso talvez faça uma grande diferença em relação à economia (ou pelo menos a uma certa economia) e à geografia (ou pelo menos uma certa geografia). digamos. A terceira questão que pode ser colocada consiste em saber se a sociologia rural conseguiu. ao que parece. são. aquela atitude equivaleria a uma negação da história social que vai da sociedade feudal à sociedade industrial ou. esta atitude é uma das grandes características da sociologia rural francesa e um dos pontos sobre os quais ela mais se diferenciou da “sociologia agrícola” de inspiração americana . Devese notar que uma tal afirmação é coerente com a definição de Henri Mendras. a sua análise crítica do processo de inovação . Questões atuais Duas questões definem o essencial: a sociologia rural. neste caso. Segundo esta maneira de ver. que formularia questões-chave estruturantes da disciplina em torno das quais o trabalho da comunidade dos sociólogos se organizaria. configurando os dois grandes esquemas analíticos que ela propõe para compreender as evoluções contemporâneas da agricultura e das sociedades rurais nas sociedades ditas “industriais”.

em crise . distinguindo os dois contextos em relação aos quais as evoluções da sociologia rural parecem estar referidas .por exemplo. Trata-se. E isto. as “sociedades rurais”. ainda segundo Henri Mendras. através dos conflitos. clarificar o discurso por sua análise interna .camponesas”. o que implica em evidenciar suas dimensões propriamente sociológicas e/ou dos objetos referidos. desaparecem quando os camponeses se transformam em agricultores.que ela vem adotando há um terço de século. antes de mais nada. através de uma . mas seria necessário. O questionamento social e a sociologia rural Quatro séries de questões podem ser colocadas. “pluriatividade”. dar uma imagem “objetiva” das evoluções e situações reais e proceder ao que se poderia chamar uma “crítica externa” do discurso.a saber: o questionamento social. assim procedendo. através da necessidade de se conceber os sistemas de produção agrícolas “respeitadores do meio ambiente”. o sociólogo tem uma sêxtupla tarefa a cumprir. os dois planos sobre os quais elas devem ser examinadas . O último debate a ser feito refere-se ao meio ambiente. trata-se de repensar o desenvolvimento. ao mesmo tempo. como. em outras palavras. poder-se-ia acrescentar com maior razão. “extensificação”. aprofundar a análise para sermos mais precisos neste ponto. como este autor afirma. quer as reivindicações das populações locais relativas a sua situação de vida. Se. por um lado e. Um primeiro bloco de questões gira em torno da diminuição da população ativa agrícola e suas conseqüências: há um debate particularmente aberto sobre o tema do número de estabelecimentos agrícolas (inclusive sobre o número que se deve ter como meta) que haverão de subsistir nos futuros dez ou vinte anos. antes de mais nada. interrogando-se sobre as problemáticas atuais com as quais ela poderia se ocupar. apoiando-se em um corpus de textos ad hoc. ou ainda através das tensões produzidas pela intervenção da regulamentação européia sobre a matéria etc. Após o enunciado da questão. em seguida. quanto dos discursos que elas suscitam.com o necessário abandono à referência às “2 UTH” (unidade de trabalho utilizada como referência nas análises sobre a moderna agricultura familiar).e. “produtividade”. ele precisa evidenciar o que se poderia chamar os “silêncios significativos”.e inversamente.tanto das mudanças em curso. é igualmente indispensável recolocar tais evoluções e as interpretações que o sociólogo pode fazer sobre o passado no médio e longo prazos. de sua amplitude real. os movimentos de mundialização das relações de troca entre os grandes produtos básicos e o desenvolvimento dos circuitos curtos dos produtos mais especializados etc. que trata da evolução da população dita rural. enfim. a sociologia rural não tem mais razão de ser em uma sociedade sem camponeses . os termos que aparecem aqui são “diversificação”. portanto. de definir sistemas técnicos de produção que levem em conta. como as que se presume existir nas sociedades industriais. levar em conta. acima lembradas. etc. se tais “sociedades rurais” são habitadas cada vez menos por populações de agricultores e cada vez mais por trânsfugas da cidade ou por assalariados das zonas rurais industrializadas ou terciarizadas. as evoluções contraditórias nos domínios técnicos (com as biotecnologias e as técnicas “extensivas”). Esta primeira discussão se prolonga em outra. É preciso ainda analisar as conseqüências do modelo de desenvolvimento . simultaneamente. Para caracterizá-la. é o caso da França. as trocas e os mercados (e não mais os temas centrados apenas na intensificação da produção) e. Um outro debate refere-se mais diretamente à agricultura e ao modelo de desenvolvimento . na qual os camponeses se tornaram agricultores. o sociólogo também deve demonstrar que as suas análises enriquecem o conhecimento da sociedade francesa. Pode-se acrescentar uma terceira dimensão que remete a um movimento de conjunto que diz respeito ao questionamento científico considerado globalmente. de um lado. através do grupo dos agricultores em dificuldade . Que problemáticas e que objetos? Esta reflexão se inscreve no prolongamento da análise acima desenvolvida.ou. catastrofista das coisas . de outro.própria sociologia. as questões reais que não são objeto de nenhum discurso. Ele deve. basta remeter às reflexões sobre o “renascimento” rural. estabelecer os fatos para se ter uma distância em relação aos discursos e. quer a emergência de políticas relacionadas com as novas funções do espaço rural. que seria possível justificar a pertinência ainda hoje da sociologia rural. ainda. é necessário. considerando. É.isto é. ele enriquece o seu aparelho analítico e oferece os meios para escapar dos desvios da interpretação de curto tempo e sem recuo freqüentemente associada a uma visão dramática. convém redefinir o estabelecimento agrícola e a atividade profissional dos agricultores em seus próprios fundamentos . por outro. Em uma palavra. isto é. deve passar à sua formulação sociológica. Diante desta avalanche de questões e de argumentos contraditórios. É claro que estamos aqui no cerne do problema.quem os emite? com que coerência? no quadro de que estratégias e com que objetivos? . em termos sociais e ideológicos. Estas reflexões desembocam em todo o debate sobre o futuro do espaço e do mundo rurais e sobre quais deveriam ser as políticas que lhes dizem respeito. as interrogações vindas da ou referentes à .

mas ela não é válida para todos os períodos históricos. de fato. a diversificação produtiva voltam a ser temas da ordem do dia que precisam ser considerados para caracterizar sociologicamente a situação atual dos agricultores. enfim. aberto e complexo. é também um domínio no qual a sociologia rural investiu particularmente. mas ainda indispensável. de alguma forma espacial do que podemos chamar de uma “sociedade local”. é ocultar toda uma diversidade de situações que corresponde a uma multiplicidade de vias experimentadas num processo de adaptação . serem confrontadas com observações empíricas realizadas em trabalho de campo? Admitir a afirmação segundo a qual os camponeses tornaram-se agricultores (empresários. este procedimento deve se situar no quadro de uma análise das transformações da sociedade global e.uma tal proposição leva a sublinhar seus limites. minuciosas e circunstanciadas capazes de perceberem as continuidades e as transformações nos processos de reprodução da sociabilidade e o sentido do ser-conjuntamente. não somente certo. que representam o futuro do espaço rural. porém. em particular.que é requerida e isto supõe análises finas. é a de um retorno maciço e metódico às pesquisas de campo. etc. imagens e estatísticas que constroem o “senso comum” nesse nosso tema. “agro-managers”.. da relação social. Tais análises devem ser retomadas atualmente por duas razões: primeiro. dar uma contribuição em todos os capítulos da sociologia.melhor compreensão dos processos sociológicos e da sua adaptação às transformações gerais nas quais o país está inserido.o campesinato . Toda tentativa de generalizar ao conjunto da Europa . as formas associativas. está longe de ter um peso insignificante no conjunto do sistema político. tal contribuição. As transformações sociais internas radicais que os municípios conhecem. precisamente. dos seus processos de reestruturação sociopolítica. “molecultores”. isto é. nos 36. Tanto em um caso como no outro. um . considerado enquanto “sociedade” (local). ele tem de mostrar que as suas análises robustecem o corpus teórico da sociologia. antes de mais nada. porque a situação dos agricultores evolui rapidamente. A sociologia rural foi pioneira nas análises sociológicas do trabalho não-assalariado.) é ir um pouco depressa demais. se as duas razões de ser da sociologia rural desapareceram? Duas observações podem ser feitas em relação a esta maneira de colocar o problema. assim. depois. enquanto tais. as recomposições espaciais às quais são levados. Sobre este ponto poder-se-ia comparar o seu procedimento com o da sociologia das organizações. é uma sociologia da “transição” . das relações entre o pequeno produtor independente e os setores industriais a montante e a jusante.entre a análise de um longo período de transformações estruturais do campesinato e a análise.é arbitrário: existem outras “sociedades locais”. Não há apenas o campesinato. É possível indagar sobre a equivalência estabelecida por Henri Mendras entre “sociedades rurais” e “sociedades camponesas”. da inovação nos setores produtivos não-industriais. . entre tantos outros e se as “sociedades rurais”. um poder local que.devem ser tomadas como verdades estabelecidas? Não poderiam ser tratadas como hipóteses. cujo lugar na estrutura e na vida política se vincula ao poder local. a das transformações de uma “sociedade local” de base agrária em direção a uma “sociedade local”. Que se possa fazer um cruzamento entre as duas análises é. Primeira observação: aquelas duas assertivas . portanto. A análise do que se poderia chamar um “sistema social localizado”.para não dizer uma contradição fundamental . O mesmo pode ser dito a respeito das “sociedades rurais”. porque o contexto que a sociedade global constitui está. qual seria. em suma. então.as quais.a “sociedade local” .esta também podendo assumir uma variedade de formas . além das “sociedades camponesas”.sem falar do conjunto do mundo . A pluriatividade.e também as novas problemáticas e os novos conflitos. porque faltam as observações concretas para fazer um contrapeso à crescente invasão de discursos.000 municípios. No entanto. também já perderam toda a sua “autonomia relativa”. ele próprio. A hora. as novas funções que deles se espera. e uma abordagem atualizada das “sociedades rurais” deve ser precisamente.os novos “territórios rurais” .a um contexto incerto. se se estima que os agricultores já se tornaram um “grupo profissional”. em conseqüência. seja para uma outra já sem fundamentos agrários. Reduzir. Além disso. todas são razões para se repensar a teoria sobre a profissão e para se criar um novo quadro de análise que permita caracterizar sociologicamente os “villages” enquanto “sistema social” e. seja esta transição para uma formação de base não-agrária.ao outro . são apenas uma só . pura e simplesmente. O mínimo que se pode dizer é que ela coloca um problema histórica e geograficamente. Ela pode.ou da mudança social . e. a emergência de novas solidariedades territoriais . por esta mesma razão.. serem submetidas a exame e. em processo de rápidas mutações. O questionamento sociológico e a sociologia rural A sociologia rural trata de todos os aspectos da vida social no campo. nem para todos os campos. analisar o papel que eles representam no processo de integração social através das suas funções tanto institucionais quanto simbólicas e notadamente identitárias. Existe um verdadeiro hiato .

das múltiplas pressões que recebe e das expectativas as mais contraditórias que se tem sobre ele. a questão se coloca em dar sentido a esta necessidade de continuidade . não é porque estes problemas não ocupam o primeiro plano na mídia que não devem mais ser estudados.o seu passado “rural” para se adaptar ao presente. confrontá-los aos fatos e evidenciar a forma como a sociedade .e neste caso. Dedicarse a esta análise seria tanto mais judicioso quanto o termo volta hoje à ordem do dia. isto é. a fisionomia e as funções sociais e territoriais dos segundos continuarão a evoluir. Outras já estão bem exploradas . tanto das políticas de cooperação intermunicipal. aqui. em que haveria uma forma de “banalização” tal que pudesse retirar todo o interesse à análise sociológica de uns e de outros? Aqui há uma atitude que se parece àquela segundo a qual nós teríamos chegado a uma espécie de “fim da história”. o território ”rural” que representa uma problemática particular em razão da importância de seu lugar no conjunto do território nacional. ao mesmo tempo. por uma comodidade pelo menos provisória. Também seria interessante ver em que medida o seu sentido não está. as questões que parecem dever ser consideradas como as questões centrais de hoje? Em todo caso. as competências. . os fundamentos. ao mesmo tempo. e tudo isto continuará a fazer parte da sociedade global. Deste ponto de vista. a segunda observação: mesmo supondo que os camponeses tenham se tornado agricultores e que as “sociedades rurais” tenham deixado de ser “sociedades camponesas”. isso é uma ilusão de ótica: os “agricultores”. Tal extensão à Europa da “construção rural” representa uma ocasião excepcional de renovação das problemáticas. justamente. Questões. propor uma série de questões importantes para uma sociologia especializada na análise do atual mundo rural. a profissão. ela deve particularmente ser aplicada ao conjunto dos países europeus. Por fim. em seguida. esta mutação também não estaria exprimindo a necessidade de uma continuidade tanto simbólica quanto prática . pode-se. Porém. e ainda em que medida. um começo de reconhecimento desta ruptura. em um setor produtivo sobre o qual se pode dizer que faz parte das “indústrias pesadas” mas não está baseado no modelo da grande empresa com salariado. exigem que os seus aspectos referentes à “ruralidade” sejam analisados como facetas incontornáveis das evoluções da sociedade (no caso. da fraca densidade relativa de seu povoamento. para serem tratadas. interrogações sobre as formas sociais de mobilização do trabalho agrícola: seria a contribuição de tal sociologia para uma sociologia do trabalho. a título de exemplo. Esta é uma outra vertente de uma sociologia do político. A questão que se coloca é a do interesse de uma análise sociológica destes fenômenos. os contextos.Agora. Inicialmente. Evidentemente.utiliza . portanto. Em suma. a condição social. de uma forma geral. especial e quantitativamente importante do poder “territorial”. uma das bases da pirâmide dos poderes. a francesa . de outro. Estas análises de sociologia política permitiriam evidenciar e compreender as atuais mudanças em curso no controle de uma parte. os “municípios rurais” e outros vilarejos e pequenas cidades continuarão a existir. a ser associado a suas evoluções e a pesar também sobre elas. poder-se-ia chamar as sociedades “de villages” ou “de fraca dimensão”. precisamente. Esta proposição é generalizável a todas as formações sociais nacionais. a sociedade civil e o território . os saberes e os conhecimentos adquiridos de um lado e. as formas e o conteúdo da sociabilidade naquilo que. Evocá-las aqui. em vias de se emancipar do seu conteúdo agrícola tradicional. relativas aos processos de socialização.ocultação de uma ruptura e. uma contribuição para uma sociologia da relação social. a cidadania dos primeiros. no quadro de uma análise dos processos de “integração” européia. é uma necessidade. ainda. questionamentos sobre as evoluções das solidariedades territoriais sob a influência. referentes aos fundamentos das reestruturações sociais locais e às transformações das relações locais de poder subseqüentes às evoluções das estruturas agrárias. os quais constituem novos modos de socialização do espaço e de regulação dos conflitos. A abertura a uma abordagem comparativa internacional. Cabe ainda aos sociólogos decifrar os discursos e as políticas. da integração e da exclusão em “contextos” sociológicos bem definidos e diferentes dos subúrbios e dos bairros urbanos.no caso. em um momento em que ele adquire cada vez mais relevo. percebida aqui sob o ângulo das relações entre o Estado. tem por objetivo apenas mostrar que numerosos são os temas de pesquisa de dimensão geral que se pode abordar através das evoluções do mundo rural . ao mesmo tempo que é uma exigência que se poderia qualificar de histórica. uma vez que ela remete a uma história em curso. Ter-se-ia. da economia agrícola e da composição social da população rural. quanto dos novos tipos de pressão ou de dependência de ordem espacial. francesa) tomada em seu conjunto.e quanto muito. por exemplo. Estas são apenas algumas pistas.como a análise da evolução do lugar dos agricultores na sociedade e a de seus comportamentos profissionais e políticos. levando em conta.no caso. interrogações sobre a noção de rural como categoria simbólica da representação que a sociedade constrói sobre si mesma. Isto se traduz naquilo que se poderia chamar “dispositivos locais de ação”.ou não . como prejulgar este interesse? Tudo o que se pode fazer não é formular hipóteses sobre o que poderia ser. Questões.

Reencontra-se. entre as diferentes ciências e.de um lado. que atingem proporções crescentes da população na maioria dos países. Essa vantagem aparece com seus próprios problemas. que se utiliza dos recursos naturais renováveis . mas também entre o social. tais como “complexidade”.uma sociedade? . A sociologia rural também está implicada nos seus próprios procedimentos. triar o que é pertinente para cada pesquisador em sua própria disciplina e separar o resto. E em conseqüência. O movimento científico e a sociologia rural Desde o começo dos anos 1970 . um dos grupos sociais mais ricos em ensinamentos para o estudo das relações entre o social e o técnico. de outro. o tema das desigualdades sociais crescentes. os solos. problemas de qualidade da produção e do meio ambiente. cada vez com mais insistência.a água. da mesma forma que entre o social e o técnico. e dos agricultores. São várias evoluções. modelado pelas práticas e pelas técnicas.a água. Para tratar destas questões.e os meios naturais. a concepção da pesquisa científica que se situa a montante da técnica. “análise sistêmica”. assim. Procura-se uma ciência mais preocupada com suas próprias conseqüências. e que haveria de alguma forma uma mutação a fazer: seria necessário acreditar em uma ruptura radical que. no qual o ambiente natural predomina sobre o construído. o regional. que esta condição não leve a pensar que a “sociologia rural” não tenha sido precisamente senão uma “sociologia do rural”. a atmosfera. ligadas umas às outras. Ela o está por alguns dos seus temas e pelos elementos da vida social que estuda: a agricultura. A agricultura enquanto setor de atividade aplicada ao ser vivo (animal e vegetal).há quase um quarto de século. o do desemprego e a questão do lugar e o papel do trabalho na socialização e integração social e.assiste-se a uma evolução muito nítida da concepção das relações entre ciência e sociedade. “interdisciplinaridade”. embora seja socialmente apropriado. os recursos genéticos. a extensificação e a agrobiologia . Todas elas procedem de interrogações em curso há vinte anos.. O mesmo acontece com o rural. entre as ciências sociais e as ciências que podem ser globalmente qualificadas de “ciências da natureza”. que revêem. de fato. não somente em seu âmbito. ainda mais claramente nestes últimos anos . as biotecnologias e a informática.. criado.superprodução. O que a sociologia rural .e também controversa . os fenômenos de marginalização. não tem razão de ser e criar um contra-senso sobre o próprio “rural” e sua inserção na sociedade global. A sociologia rural está diretamente implicada nestas evoluções. seria melhor falar de uma “sociologia do rural” (Lagrave. “modelização”. os ecossistemas. contraditória . mais particularmente..donde o êxodo agrícola que alimenta o desemprego e provoca a migração rural. . Essas interrogações põem em questão um certo “credo” no “progresso técnico”. a interdisciplinaridade entre ciências sociais constitui um trunfo: é na interdisciplinaridade que existe entre os ruralistas que reside a oportunidade para reforça-la ou reanimá-la. Tudo isto faz dela um dos domínios privilegiados.quadro da vida imediato e base de vida a longo prazo. O caminho que assim se abre é balizado por palavras-chave. se isto clarifica as coisas? Mas. social e economicamente utilizado e vivido. Isto quer dizer que são descobertas múltiplas relações entre fenômenos de ordens muito diferentes. em cujo estudo a ciência tem o hábito de estabelecer cortes. o nacional e o europeu. o procedimento holístico na medida em que a análise sistêmica pode ser considerada como uma de suas versões. enfim. tanto sobre a sociedade quanto sobre o meio ambiente . enquanto atividade de rápida inovação tecnológica . de fato. a questão do meio ambiente. as populações animais e vegetais . Seria preciso também que os sociólogos que se lancem a este gênero de pesquisas tenham uma cultura em ciências sociais suficiente para abordar o rural e notadamente para situar as suas evoluções presentes na história de suas relações com a sociedade global.Para caracterizar este conjunto de pesquisas a realizar. e transforma os meios . Esse rural oferece campos os mais variados para uma análise das relações sociais organizadas entre uma coletividade humana . 1991) ao invés de uma “sociologia rural”? Por que não. o técnico e a natureza em relação a todos os tipos de sociedades. com a necessidade de se situar em diferentes dimensões simultaneamente que vão do nível do village a do planeta.mas isto também é válido para as outras ciências sociais do rural tem a aprender é a estender o seu projeto interdisciplinar às ciências da natureza que analisam os “sistemas naturais” envolvidos com os “sistemas sociais” que ela estuda. passando pelo microregional. um rural herdado da história e constantemente remanejado. os solos. e de múltiplas formas.

Quinta e última observação: em todo caso. que o rural só existiu em um contexto e em um período bem determinado e passado. Ora. é preciso que eles o façam efetivamente. levada mais em consideração. cujo estudo é necessário para compreender as transformações gerais e as vias pelas quais estas se produzem. os agricultores e o rural. eles tendem a ignorá-lo e a se abster de considerá-lo em suas problemáticas. pelos sociólogos que se ocupam destas questões. O que é preciso fazer. cada vez mais. ou fora dele.e vão paralelas com . Seria preciso chamar os sociólogos que fazem esta escolha e se submetem a tal preparação. seja por falta de interesse. é saber dar conta de maneira precisa dos processos. Se se tiver que mencionar uma tarefa prioritária para a sociologia rural.e que são privilegiadas . distinguindo-a . com base nas suas pesquisas deste último meio século. a partir de agora. realizar uma avaliação crítica do que foi escrito e que esta exigência metodológica fundamental seja.teria se banalizado e dissolvido na sociedade global.isto é tão evidente? .aquelas que interessam . as quais. Ou ainda: não é porque a população agrícola não é mais dominante na população rural que a “ruralidade” não existe mais etc. este deveria ser o ponto central. Se a pesquisa de questões “transversais” é a que deve prevalecer e se a idéia de comparação deve ser um princípio de método privilegiado. incluindo os camponeses. Se se pode dizer. Se um balanço da sociologia rural viesse a ser feito. o ponto de partida pode se situar no rural. curiosidade. a sociologia rural pode. Ora. constitui um contra-senso não dizer que a sociologia rural teria perdido o seu sentido porque o rural . ao mesmo tempo especializada e geral. Sem dúvida. constituem puros artefatos do método adotado. No que ele se tornará? Que formas tomará em uma sociedade “industrial” em mudança rápida? Esta é a questão.que ela não é mais “familiar” (Lamarche. enquanto que.que eles não constituem um “grupo profissional”. em outras palavras.ou. é que as mesmas análises sejam feitas apoiando-se em procedimentos e questionamentos maiores da sociologia. Quarta observação: o que conta. A história.. ele assume formas constantemente novas que correspondem a . e até mesmo leva a erros de interpretação principalmente em termos de “especificidades” do objeto estudado. tentando compreender de onde procedem suas formas específicas.que a sociologia rural destes últimos cinqüenta anos pecou por carência neste ponto (o que sucedeu em vários casos). este é um ponto sobre o qual a reflexão não avançou suficientemente nem se tem atualizado muito.de sua forma “camponesa” anterior.se isto se justifica . e esta é uma outra faceta da observação precedente. tem-se a sensação de que. então. dar uma contribuição original aos grandes debates da sociologia. pode-se dizer.termo que precisaria ser bem definido . Referências bibliográficas . que importância tem isto? Terceira observação: o importante é que as análises sociológicas que se façam situem os aspectos particulares da vida social no contexto da sociedade global . Poder-se-ia “declinar” este modo de ver de múltiplas maneiras. ela seria a de empreender tal reflexão teórica. igualmente. A segunda questão refere-se ao fato de saber se para realizar essas tarefas há necessidade de sociólogos que se qualifiquem como “rurais” e de uma sociologia dita “rural”. interesse. Seria enganar-se acerca do estatuto histórico do rural. Mas. Tenhamos cuidado para.as evoluções das sociedades globais. não acaba de acabar. um bom conhecimento do “objeto” do meio rural e uma cultura científica apoiada em bibliografia. não têm nenhum monopólio a reivindicar nos domínios que são hoje de sua predileção. que ocupa um lugar bem determinado na estrutura social das sociedades capitalistas. isto exige competência específica. Em resposta a esta questão. por gosto. condições que valem para qualquer domínio ou tema. é preciso voltar a duas questões essenciais. com efeito. não o vendo mais. isto suporia fazer um balanço preciso . E tanto mais indispensável quanto o peso destes componentes geralmente é subestimado. Seria acreditar. Uma segunda observação decorre da primeira: é preciso que os sociólogos invistam neste domínio. de “sociólogos rurais”? Por que não? Mas. de fato.incluindo a agricultura e os agricultores . senão negligenciado. Uma abordagem setorial fecha e limita a compreensão.. seja porque se trata de um universo que lhes é estranho ou o rejeitam. evidentemente. das evoluções e das características sociológicas daquilo que se estuda. torna-se necessário. Há todo interesse em que os sociólogos não rurais invistam no campo rural a partir de suas questões e de seus procedimentos. E importa que tudo isto seja feito porque são componentes da sociedade global.centrem sua atenção sobre a agricultura. 1991-94). É cada vez mais pertinente querer analisar em termos sociológicos as evoluções do mundo rural? Hugues Lamarche explica que não é porque a unidade de produção agrícola não é mais “camponesa” . Por exemplo: não é porque os agricultores não são mais camponeses .Para concluir. uma observação vem logo à mente: os sociólogos rurais. não cairmos na cegueira do olhar centrado no presente e nos discursos próprios da sociedade sobre si mesma. que as “entradas” específicas no funcionamento da sociedade . É preciso assegurar os meios que caracterizam sociologicamente esta forma particular de organização produtiva e de mobilização do trabalho que é a atual unidade de produção agrícola. pode-se dizer também. hoje. na verdade.

Sendo um ramo da Sociologia. Notas Sociologia rural 2 Sociologia RURAL 2. 1963. a "Sociologia Rural é uma das subdivisões da Sociologia Especial "que estuda o modo de vida rural e a natureza das diferenças rurais e urbanas" LAKATOS & MARCONI (1999:29-30). forçoso . como também com as demais "ciências sociais que estudam o mundo ou o espaço rural. Que-sais-je? n. Há muitas relações sociais que se desenvolvem no campo que não dizem respeito à agricultura. Le combat des paysans. 1998:1). Presses universitaires de France. 2. la question de la nature aujourd’hui. Librairie Armand Colin. a grilagem. pelo qual a Sociologia Especial consiste no estudo de categorias específicas de fatos sociais. Presses Universitaires de France. A tendência natural. In: George Gurvitch (dir). 1989. como sendo a mesma coisa. Gurvitch. Du rural à l’environnement. Presses Universitaires de France. não somente entre si. Tome II: Dy mythe à la réalité. Bernard. Editions L’Harmattan. Calmann-Lévy. Nicole e Jollivet. 1970. L’agriculture familiale. entre outras. a reforma agrária. "o bóia fria". Marcel. 1998:2). Les paysans dans la société française. 2 volumes. que é o modo de cultivar a terra.1. Les paysans dans la lutte des classes. Michel. Lamarche. no contexto desse trabalho seria ligar a Sociologia Agrícola com a Rural. Paris. Paris. ou apenas "o estudo das sociedades rurais" (MENDRAS. Tome I: Une réalité polymorphe. certamente não se está pensando apenas na agricultura. 1958:316 apud JOLLIVET. La révolution silencieuse. igualmente. as relações que as ciências sociais mantém com a disciplina" (JOLLIVET. Paris. Mathieu. Marcel (dir). ARF éditions/L’Harmattan. Todavia. 1991. o que se justifica pelas trocas importantes que ela tem com as mesmas e. Ainda considerando que a Sociologia Rural é uma subdivisão da Sociologia Geral. Mendras. Paris. Hugues. 1991-1994. 1986.297. Paris. Henri “Sociologie du milieu rural”. La vocation actuelle de la sociologie: vers une sociologie différentielle. Perspectivas teóricas. p. os métodos que essa Ciência utiliza para concretizar as suas investigações. Michel. 1958. Faure. Lagrave. Paris. Comparaison internationale. 1950. 5261. a industrialização do campo.Debatisse. Sociologie rurale. mar. “Discours communs. Paris. Éditions du Seuil. usará. Lambert. Georges. inversamente. De acordo com o esquema proposto por Fernando de Azevedo. Paris. mas quando se pensa no Rural. Cahiers de l‘IMPSA. Traité de sociologie. desnecessário se faz dizer sobre o inter-relacionamento que as duas disciplinas possuem. Rose-Marie. como por exemplo as lutas pela posse da terra. discours savants sur le rural”. Robert. 1966.

entre outras. Enquanto homens iguais aos outros. e dela herda igualmente as origens históricas e as perspectivas teóricas traçadas pelas diversas escolas e pensadores sociológicos. Esse é um dos aspectos pouco considerados pelos estudiosos. Ligando-se a um passado em que a agricultura era a atividade exercida pela maioria dos homens. bem como a mesma interdisciplinaridade com as demais ciências sociais. em 1958: "O ‘meio’ rural é um campo de investigação para todas as ciências sociais e seu estudo não poderia constituir uma disciplina autônoma. Vale dizer ainda que não se deve compreender o rural com o oposto do urbano. global. aliás. mas nenhum fenômeno social pode ser perfeitamente compreendido se dissociado do contexto geral em que se encontra e do qual recebe influência. A economia rural é um ramo (um dos mais antigos) da economia política. fazem questão de destacar logo ao início dos cursos que ministraram no Instituto de Estudos Políticos de Paris. a história social dá um grande destaque à descrição da vida camponesa. eles vivem em um meio particular que requer uma certa especialização do pesquisador e. citadinos e rurais interessam igualmente ao psicólogo. Enfim. perde também o seu caráter de disciplina específica. A Sociologia Urbana. tanto interna quanto externamente. tal qual a Rural. o sociólogo rural deve. na medida em que sua análise pode ser dividida em áreas como a da família. o mais apropriado é referir-se ao seu campo de atuação: as sociedades rurais. seus precursores. às vezes. 1998). "A realidade de nossos dias tem gerado uma sociedade que se urbaniza velozmente. dessa forma. antes de ser Rural ou Especial. é a matriz que direciona o epistemológico. O seu objeto de estudo é. promover a integração das análises feitas pelo rural. Assim. portanto. As divisões têm implicações meramente didáticas. Assim se posiciona Mendras. Como o etnógrafo. senão que a síntese de todas elas. Destaca-se. que estudam as particularidades dos fatos sociais. uma problemática diferente. ao invés de se falar em objeto. Os etnólogos estudam as estruturas ditas ‘arcaicas’ nas quais a busca ou a produção de alimentos ocupam todos os homens. etc. produzindo um único conhecimento que. O conhecimento é uno. por conseguinte. essa disciplina é também Sociologia Geral. mais do que uma das especificidades da Sociologia Especial. conhecer os métodos e as técnicas de todas as outras ciências sociais." (MENDRAS apud JOLLIVET. a não ser que conte com a colaboração de uma equipe de diversos especialistas. mas que Jean Stoetzel (1951-1952) e Henri Mendras (1963-1964). por exemplo. os rurais também dizem respeito a cada ciência social. Nesse sentido. inclusive que. ao demógrafo. É dessa forma que deve ser feito o estudo da Sociologia Rural. Essa . Uma das pretensões do ruralista é. da religião. Entretanto.então nos é admitir que. acaba assumindo ares de disciplina geral. a Sociologia Rural que deveria ser uma das especificidades em que se divide a Sociologia Especial. grande parte da problemática rural atual é decorrente do entendimento errôneo de que aquilo que não é urbano é rural e vice-versa ou daquele que trata tudo como sendo a mesma coisa. Os geógrafos que analisam as relações entre o homem e o meio natural e a distribuição espacial dos fenômenos humanos começaram naturalmente a se debruçar sobre o campo. pois o Urbano também é analisado por vários ângulos e planos diferentes e o que vai interessar à Sociologia Urbana não é uma dessas análises em particular.

os brasileiros também vivem o mesmo drama. Quando ao estudo particular da sociologia rural. Essa postura parece dar ao trabalho do grupo um caráter fechado e isolado do restante do conhecimento. e. – O Objetivo da Sociologia Rural. quando o mundo destruído envidava um esforço generalizado para a reconstrução. segundo Mendras (1958). todavia o faz. Não se trata de "agricultores" ou "pecuaristas". As relações cidade-campo. JOLLIVET (1998). com relação ao grupo dos agricultores e dos pecuaristas. Essa temática começou a ser tratada com mais intensidade após a segunda grande guerra. a análise ruralista se fundamentará na hipótese de "existência nos países que têm um campesinato tradicional. a industrialização e a modernização. e. Esse seria um dos motivos para o trabalho integrado dessas ciências. "o bloco do rural".2. A tarefa do Sociólogo Rural. A sociedade rural goza apenas de uma certa autonomia diante da sociedade global. Nesse sentido. incontestável. a ênfase do trabalho será na mudança social que se caracterizará com a transformação do camponês em agricultor ou pecuarista. reinterpretar. de uma sociedade rural. mas isso é apenas aparência. criou rapidamente um forte contingente de trabalhadores rurais-urbanos. Para alcançar esses resultados propostos. 2002:8). a posição dos camponeses na sociedade.2. as transformações da agricultura. entende que eles estão interligados. comandada pelo processo de industrialização que o campo está conhecendo.urbanização. tem feito com que vários colegas autores tratem o campo como se trata a cidade/indústria. de forma a poder integrar-se à sociedade global. por exemplo. demonstrar a validade dessa proposição. Esse fato. o estudo da sociedade rural se baseia no entendimento de que existem elos de ligação muito finos entre os diversos tratamentos dados ao seu "objeto material" por cada uma das ciências sociais que abordam essa temática. 2. levado a efeito pelos seus pesquisadores ao longo da história.1. ou seja. sintetizar e integrar sob o seu ponto de vista. que conserva uma certa autonomia em face da sociedade global" (MENDRAS. Esses temas não foram exclusividades do povo francês. ou qualquer outro grupo reconhecido. certamente várias nações do mundo. os estudos das demais ciências sociais rurais. a fim de se obter a compreensão global da sociedade rural. O que deve ser vislumbrado é o fato de que o trabalho do sociólogo rural tem uma duplicidade de objetivos: compreender o social rural e integrá-lo no social global. sendo impossível reduzi-la a um grupo econômico profissional. sem maiores dificuldades. 2. 1958). o meio ambiente. A questão . Isso ocorre porque se está implantando no campo o modo industrial de produzir. esquecendo que as especificidades de cada um não foram ainda eliminadas" (OLIVEIRA. sendo o objetivo da Sociologia Rural. podendo ser sintetizados em cinco temas principais: as relações cidade-campo. Dessa forma. tomando como ponto de partido a questão francesa. o desenvolvimento local. tem uma dupla orientação: estudar as especificidades próprias de sua área de estudos. haja vista que esta não reconhece a sociedade rural como um de seus grupos sociais. o trabalho deve ter coerência interna e externa para que seja realmente um conhecimento científico válido. como se esse formasse um bloco independente.

aqueles que não podem continuam passando e morrendo de fome) criou o empresário rural. considera-se uma região desértica quando sua precipitação média anual é inferior a 250 mm" (BARSA. como: a desertificação. absorvendo as lições da guerra. Segundo a Enciclopédia Britânica. não é autárquica. a conceituar a desertificação. várias partes do mundo. vieram a passar pela mesma situação. com tendência à criação de zonas desérticas. vem ocasionando na paisagem brasileira. que não vive no campo. cuja única preocupação é produzir e ganhar dinheiro. a rurbanização. Atender essa demanda vai implicar em muitas mudanças. Mas a própria Britânica. pode-se perceber as mudanças que esse tipo de empreendedor (que não é do campo. E que lições! Quanta diferença houve entre o corpo-a-corpo dos soldados na primeira grande guerra e o corpo-a-máquina da segunda! A modernidade trouxera a tecnologia. Agora ela deveria ser utilizada para a reconstrução e a implantação do novo mundo. Viajando pelo país afora. Alguns ainda estão vivendo esses dramas rurais. como a caatinga. Em geral. Partir do nada destruído e retomar o ritmo da vida. 2001). o Brasil tem "regiões semi-áridas. No início da década de 1990. apenas soja. principalmente de muito alimento. milho. plantação e plantação. onde não se vê uma árvore sequer. em princípio. Para a cidade. Por conta dessa situação. pouco se incomodando com as conseqüências dos atos que pratica para assegurar essa produção. Esse ritmo de devastação. a qual fora usada para matar e destruir. antes coberto por uma vegetação natural. no . como o desmatamento" (BARSA. em especial na bacia amazônica. Essa riqueza vegetal foi encarada. posteriormente. onde normalmente acontecem as novidades. A preocupação em produzir para atender a demanda mundial de alimentos (principalmente do mundo que pode pagar por eles. a uniformização dos modos de vida. algodão. E. pode-se destacar o fato de que várias áreas do Brasil vêm se desertificando. A título de ilustração. como obstáculo para o desenvolvimento do país. Seria apenas uma questão de acomodação a um estilo de desenvolvimento mais acelerado. ou derivadas da ação humana.que se discutia era a de saber se os campos seriam capazes de suportar as mudanças. como as mudanças climáticas. Produzida por causas naturais. Fotografias de satélite tiradas em 1988 revelaram que o desmatamento realizado em pouco mais de dez anos na Amazônia atingia 12% da região . De que forma a sociedade rural enfrentará os problemas modernos? A cidade não é capaz de bastar-se. problemas com terras não cultivadas. a morte ou o renascimento do rural. esse esforço seria normal. mas que apenas explora o campo). "Trinta por cento das áreas de floresta tropical do planeta estão concentradas no Brasil. Os maiores danos são causados na região dos cerrados. igualmente. 2001:132b). arroz.uma área maior do que a França. a sociedade rural européia. é dependente da matéria-prima e. em conseqüência do desmatamento desenfreado para aumentar a produção. Mas e o campo? O progresso sempre demorou um pouco mais a chegar lá. mas nenhum deserto. plantação. pois essas são questões mais pertinentemente urbanas do que rurais. no entanto. declara que ela "é a degradação do meio natural. hoje coberto por extensas plantações. levaria ao desaparecimento da floresta até o final do século XX. principalmente a partir da década de 1970. veio a enfrentar situações as mais complicadas. segundo os ambientalistas.

A Sociologia Rural depende da análise realizada por cada uma das diversas ciências sociais que analisam os fenômenos rurais. 2004). esta exige novas e constantes transformações para atender a demanda dos demais grupos sociais que a completam e que implicam na adoção de um modo de vida totalmente diferente. construção de estradas e hidrelétricas. O processo de degradação afeta diretamente 250 milhões de pessoas e pode chegar a prejudicar um bilhão. As pequenas fazendas precisam se adequar às grandes. impedir que o processo de desmatamento indiscriminado tenha continuidade e desenvolver projetos que. As ações desenvolvidas pelos homens do campo que conduzem às transformações da agricultura e que levam a propriedade rural a tornar-se uma propriedade agrícola. "O desmatamento é uma das principais causas da seca. As principais causas do desmatamento na região eram a criação de gado. a desertificação causa prejuízos de 42 bilhões de dólares ao ano. uma vez transformado em agricultor e feito membro ativo da sociedade global. onde as pequenas propriedades plantam cana e criam frangos .entanto. Exemplo óbvio é o da Etiópia. com 74% de terras áridas ou semiáridas. o que já foi degradado. A América do Norte. Esse fenômeno é bastante comum na região centro-sul de Mato Grosso. a II Cúpula Mundial sobre desertificação. nos municípios de Jaciara e Campo Verde. é a meta maior da Sociologia Rural. em particular. com 73%. portanto. Mas. 1998).2. Muitas vezes elas apenas complementam a produção daquelas. em todas as regiões da Terra. exploração de madeira. cujo estudo é a meta da Sociologia Agrícola. capital do Senegal. Segundo dados das Nações Unidas. um fator intensificador da pobreza em países da América Latina. planta-se o que é requerido. O grande desafio ambiental do mundo contemporâneo consiste em recuperar. representantes de 150 países iniciaram em Dacar. mais atribuída à recessão econômica do que à consciência ecológica. por meio de programas de reflorestamento. 2001:137). As transformações atingem "não só o estabelecimento agrícola e o trabalho do agricultor. mineração. e a África. favoreçam sua recuperação gradual. eram as regiões mais preocupantes (PANORAMA. mas cujas conclusões interessam à Sociologia Rural para complementar a sua análise da sociedade rural. São toleradas. onde a devastação da vegetação natural reduziu a capacidade de armazenamento de umidade da terra e agravou os efeitos da estiagem sobre a agricultura. agricultura em pequenas propriedades e crescimento urbano". Ásia e África. com a reposição garantida do que for retirado e respeito aos ciclos biológicos das diversas espécies" (BARSA.2 – As transformações da agricultura. 2. porque a derrubada de árvores destrói as bacias hidrográficas e empobrece o solo. as taxas de desmatamento apresentaram uma redução. Já não se trata de produzir apenas para a subsistência da família. e os camponeses a ser agricultores – um grupo reconhecido pela sociedade –. para que possa fazer a sua síntese integradora que assegure a explicação unitária e global da sociedade rural. mas também – tendo em vista o estreito laço entre o estabelecimento e a família – a transformação da família agrícola" (JOLLIVET. mesmo ao incluírem a exploração econômica da floresta. O que plantar também deixa de ser uma decisão particular. É. Em novembro de 1998.

através do INCRA. A indústria destina uma percentagem do preço final. Este processo tem sido possível em função. alguns pequenos proprietários aderiram ao projeto. entregue ao granjeiro os pintinhos e a ração que comerão até o abate. o costume é assentar "sem-terras". Este processo tem sido objeto de muitos estudos. os frangos são entregues para o abate. que foi modificado e transformado em apenas um projeto de produção. do estabelecimento de novas relações com a indústria. de Minas Gerais e em 2001.500 empregos diretos. não obtendo sucesso. desejam voltar ao campo. As indústrias consumidoras de produtos de origem agrícola ou pecuária chamam estas relações de produção integrada. Depois de atingirem um peso médio de 1. que pode variar em torno de 15%. através do assentamento fundiário de 200 profissionais agrícolas. é uma proposta de geração de emprego e renda. cujas metas são a geração de 7. para superar a recessão que passou a vivenciar desde o início desta década. Para começar a vender a idéia. "A implantação do "TecnoFrutas . do acesso tecnológico colocado à disposição da agricultura capitalista. Em 1997 o Município fez acordos com a Maguari. beneficiando um total estimado de 30 mil pessoas" (SOUSA. diferente das formas convencionais tradicionalmente utilizadas pelo INCRA. de um lado. de outro. por exemplo. abandonando-se a idéia original do assentamento de profissionais rurais. em decorrência do esgotamento das jazidas diamantíferas que sustentara o seu desenvolvimento desde 1924. Barra do Bugres e região. A mesma situação acontece em Nova Olímpia. a ser cultivada com frutas tropicais.5 kg. a indústria de ração que também industrializa e comercializa o frango. Em todas as propostas de assentamento fundiário postas em prática no Brasil. Isso significa que. por exemplo. O Tecnofrutas visava produzir alimentos de forma orientada para atender à demanda das indústrias. e. como alternativa para a mudança de atividade econômica. mas não . ao granjeiro" (OLIVEIRA. "Trata-se de algo inédito. Normalmente os assentados são pessoas que trabalhavam como arrendatários e foram desagregados. no caso da avicultura. ou então eram sertanejos que saíram do campo e se mudaram para as cidades acreditando que sua sorte mudaria e que. desde 1997 a Administração Municipal vem incentivando o plantio do maracujá para fins industriais. Tangará da Serra. Na expectativa de garantia de venda da produção. a própria Prefeitura implantou dos "Casulos" com o apoio do INCRA. com a Superbom. "O processo de desenvolvimento recente no campo brasileiro tem criado condições para que uma fração do campesinato amplie a produtividade no trabalho familiar. por gerenciamento inadequado. enquanto tentava viabilizar os recursos que viabilizariam o projeto.para atender à demanda das indústria de açúcar e do frango. os acordos com as industrias acabaram sendo cancelados e o projeto está temporariamente desativado.400 hectares. respectivamente. foi a forma encontrada pelo Governo do Município. em uma área de 6. Todavia. O "TecnoFrutas" — como foi batizado o projeto —. do garimpo para a fruticultura. 2002:71). Na região de Poxoréo. ainda não houve o envolvimento esperado e.o processo de produção e industrialização de Poxoréo – MT". 1999:6). mesmo com essa mudança. onde se planta cana para a Itamarati.

ao mesmo tempo que o subordina mais. mas não possuem espaço territorial para fazê-lo. os quais vão se tornando médios e futuros grandes proprietários. não fica com quem produziu. Uma das idéias que está implícita no Tecnofrutas é que se deve trabalhar as novas gerações para uma nova forma de trabalho que não seja o garimpo. em virtude da enorme variação de preço do hectare nessa região em comparação com o sul do país. Para eles. "Dessa forma. No registro de Ariovaldo de Oliveira. é o caso dos camponeses do sul produtores de soja. Onde conseguem comprar grandes áreas de terras. As propriedades são pequenas e limitam a sua capacidade de produção. possuem apenas a experiência rural. mas que não dominam as modernas tecnologias e conhecimentos. Uma experiência diferente e que se relaciona com Primavera do Leste. Assim. "A origem da civilização. importância capital na história . abrindo espaço no Sul para a continuidade e possibilidade da concentração de terras para uma fração de camponeses que têm acumulado riqueza neste processo. acumularam condições para produzirem mais.145 mil em 1980. o momento em que se deu a transição da pré-história para o período neolítico. A renda da terra. o processo de industrialização da agricultura que. com o esgotamento das jazidas. camponês. antes que eles sigam os exemplos de seus pais. 2002:72). a mudança cultural é praticamente inviável. promove o seu deslocamento territorial. e. pois. pois. 10). utilizando o conhecimento e a tecnologia disponível" (SOUSA. Tem ele. mas sim no seio de um processo contraditório. 1999. o Município de Poxoréo se propõe a realizar o assentamento de "profissionais da terra". Além das situações particularizadas de Mato Grosso. mas se realiza parte na indústria e parte no sistema financeiro" (OLIVEIRA.264 mil em 1970 para 1. São pessoas que. os quais devem ser deixados como representantes históricos de uma classe de garimpeiros que está fadada ao desaparecimento na região. 2002:72). a produção integrada campo/indústria atingiu também o sul do país no que tange à suinocultura – os granjeiros produzem milho e engordam suínos para as indústrias de carne – e à produção de fumo – que atende aos oligopólios das indústrias de cigarros. Dessa forma eles estão vendendo as suas propriedades e vindo para o Centro-Oeste e Rondônia.3. A posição dos camponeses na sociedade. A questão em Poxoréo é cultural e cultura é algo arraigado na personalidade das pessoas. As pequenas propriedades do sul estão no limite máximo de sua capacidade produtiva. conseqüentemente. ao longo dos anos.o número de propriedades rurais na região sul caiu de 1. Normalmente vendem suas propriedades para os vizinhos.2.possuem mais os campos para voltar. nada foi senão o surgimento do primeiro campesinato. Os camponeses. produzida pelo trabalho familiar. vêm abrindo no espaço distante a possibilidade de acumulação" (OLIVEIRA. em sua grande maioria. sujeita a renda da terra aos interesses do capital. "O que estamos assistindo de fato é. ou seja. MT. Contrariando essa linha. não estão diante da expropriação inevitável pelo avanço das relações capitalistas de produção no campo. sem necessariamente expropriar a terra do camponês. Não se muda de um dia para o outro. pessoas formadas e qualificadas para trabalhar a terra de forma adequada. 2.

preconizado pelo francês Marc Bloch. A classe dos senhores se originou da existência de diferenças de recursos e de prestígio entre os próprios camponeses: o membro do grupo que se destacava por suas qualidades ou riquezas rodeava-se de seguidores. sendo . o campesinato francês desenvolveu-se. congregando várias gerações e famílias colaterais estabelecidas na mesma vizinhança. em oposição ao senhoriato. os lavradores ricos. braçais.2. possuidores de animais de lavoura e de transporte e que eventualmente contratam assalariados. O desaparecimento dessa subordinação ao senhoriato não logrou alçar a camada camponesa a uma posição elevada. "O campesinato está longe de ser homogêneo. podendo ser vendido ou não o excedente da colheita. coexistiam em propriedades gaulesas o escravo e o colono. denominados parceiros. como é o caso dos "bóias-frias" brasileiros. que se empregam como assalariados. Surgiram. segundo Bloch. reservando pequena parcela para o sustento do proprietário. no início do século XVIII. a dos camponeses remediados. o que caracteriza a sociedade camponesa da França é sua relação com a instituição senhorial. subordinada e explorada pelo senhoriato. Nele se identificam essencialmente três camadas: a dos camponeses ricos. 2. sem a qual não seria possível compreender nem uma nem outra. "As principais características desse tipo de campesinato perduram até hoje. constitui sempre a unidade social de exploração da propriedade. deduzida a parte do aluguel da terra. no início. "Campesinato é o grupo social formado pela massa de trabalhadores da terra e pequenos proprietários rurais. Teoria histórica. Com a revolução agrícola. O campesinato caracterizava-se por ser uma camada inferior. O desaparecimento da escravatura possibilitou o aumento das parcelas arrendadas a colonos. uma vez que dos primeiros núcleos camponeses derivariam as posteriores culturas urbanas. Essa tendência foi diminuindo à medida que se desenvolvia a sociedade e aumentava o empobrecimento dos senhores. às vezes por temporada. quando esta não é própria. No entanto. então. usando instrumentos e técnicas rudimentares e mão-de-obra familiar.1. O campesinato cultiva extensões limitadas.3. que utilizam os membros da família como força de trabalho. Cada família-membro cultivava sua parcela para subsistência e o excedente era vendido ou trocado. e o socioantropológico. em coexistência no entanto com as unidades agrárias camponesas remanescentes. Outro tipo de senhoriato foi herdado de Roma. "O fenômeno do campesinato tem sido estudado sob dois aspectos: o histórico. e ela permaneceu subordinada a um conjunto de camadas sociais nas quais se inseria como inferior. trabalhadores sem terra. existiam na França grandes conjuntos familiares. O produto de seu trabalho destina-se primordialmente ao sustento da própria família. difundiram-se as empresas agrícolas em moldes capitalistas cujo objetivo era a produção e a venda da colheita. Assim. homem livre que pagava o aluguel da terra ao senhor com parte da colheita. florestas e rios um sistema de direitos coletivos que eram respeitados e defendidos por todos os camponeses. A família. "As comunidades passaram a desenvolver sobre os pastos. "Segundo essa corrente. chefiada pelo pai. e a dos jornaleiros. defendido pelo antropólogo americano Robert Redfield.humana.

Teoria antropológica. orientadas primariamente para a subsistência da família. Essa complementaridade deriva da dominação política que a cidade. Permaneceram. vendendo o excedente da produção nas cidades e passando a ser comandados por citadinos.que. consagra uma porção significativa da colheita à subsistência e utiliza mão-de-obra familiar.2. (2) parceiros. ao mesmo tempo em que se multiplicavam os pequenos proprietários camponeses. O camponês constitui uma camada social inferior. "Além de camponeses proprietários. No decorrer do século XIX. "Com a revolução francesa. Durante a revolução. possui tecnologia pré-industrial. onde se instalavam. "O camponês latino-americano pratica a policultura e a criação em pequena escala. em regra. Apesar de sua feição autoritária. terça).2. e noções básicas de ética derivadas da importância atribuída ao trabalho. a desapropriação dos bens da nobreza e do clero possibilitou a venda de terras a burgueses citadinos. praticamente monopolizavam a comercialização dos produtos agrícolas. o regime de pagamento do aluguel da terra com parte da colheita (meia. contudo. e continuou após a abolição da escravatura. uma preocupação com a segurança. elevado apreço à procriação e à progênie. considerado como um mandamento divino a ser cumprido. é iletrado. exerce sobre o campo. América Latina. Os camponeses surgem nas sociedades em que a cidade e o meio rural coexistem em situação mais ou menos equilibrada. "No Brasil. sempre existiram: (1) posseiros. submetida à camada urbana. A família é a unidade econômica de base e se insere em um grupo de vizinhança. Entre esses. desejo de enriquecer. acentuou-se a subordinação do campesinato à sociedade urbana em desenvolvimento. os mais abastados. em segundo plano diante dos fazendeiros monocultores e grandes criadores de gado. e suas características são: atitudes práticas e utilitárias com relação à natureza. A relação entre o campesinato e a cidade é de complementaridade econômica. localizados em terras devolutas ou sem autorização do proprietário. coexistiu com a escravidão uma camada camponesa semelhante à descrita por Marc Bloch na Europa feudal. Nas fazendas monocultoras ou de criação de gado havia. valorização positiva do trabalho. seu trabalho satisfaz as necessidades essenciais da vida. a comunidade permite que seus membros se desliguem para criar situações socioeconômicas distintas. uma vez que cabe ao camponês abastecer a cidade. um campesinato livre. 2. que pagam o aluguel da terra com uma percentagem da colheita.3. ao lado dos escravos.2. os lavradores abastados passaram a se utilizar dos métodos capitalistas.3. Sitiantes independentes formavam parte da comunidade camponesa. "Essa segunda orientação relaciona o campesinato com diferentes tipos de sociedades. que passaram a alugar ou arrendar suas terras aos camponeses. como poder central. ou o equivalente em . possuidores de animais. com os quais não tinham condições de competir. encarregado da produção de alimentos para essas fazendas e para os povoados. Esse tipo de campesinato é formado por unidades domésticas de produção. Os camponeses tornaram-se policultores. 2. Era freqüente. cultiva pequenas áreas. Os instrumentos de trabalho são rudimentares e o excedente de produção é vendido ou trocado em mercados locais.3.

no norte da colônia. que habitam as propriedades monocultoras. tem sido o maior entrave à justiça social no campo. A área média das pequenas propriedades não ultrapassa os vinte hectares e a numerosa população rural vive em péssimas condições de higiene e alimentação. localizaram-se no sul e deram início ali ao processo de formação da pequena propriedade agrária. quando o príncipe regente D. João sancionou decreto que permitia a concessão de sesmarias a estrangeiros. "A má distribuição da terra no Brasil data do início da colonização. que concedia autonomia legislativa aos estados da federação. apropriavam-se de terras incultas. adquirindo-as pelo chamado direito de fogo morto. para os quais o aluguel da terra é fixo. os estados. "Reforma agrária é o termo empregado para designar o conjunto de medidas jurídicoeconômicas que visam a desconcentrar a propriedade das terras cultiváveis a fim de torná-las produtivas.1. cultivando nelas certos gêneros. Questão agrária no Brasil. Sua implantação tem como resultados o aumento da produção agrícola. cultivassem e tornassem rentáveis. "A primeira modificação importante na legislação agrária do Brasil data da vinda da corte portuguesa em 1808. "O Brasil apresenta uma estrutura agrária em que convivem extensos latifúndios improdutivos.3. Há regiões no país nas quais os processos de irrigação.2. quando a coroa portuguesa simplesmente transplantou o sistema feudal inoperante da metrópole para as terras da colônia.4. Interessada na produção do açúcar. exceto por compra. o colono podia conservar legalmente as terras que seu trabalho e dinheiro recuperassem. Inauguraram também o regime de posse. a formação da família patriarcal e a delimitação da propriedade privada.Reforma agrária. 2001:339) 2.dinheiro. em conseqüência da falta de um projeto global de política agrária que solucione seus problemas estruturais". "Observa-se hoje no campesinato brasileiro um movimento de migração para as cidades. sistema de propriedade rural que se denomina latifúndio. medidas que refletem os privilégios dos proprietários mais próximos da metrópole. com permissão do proprietário. Os colonos. (5) camponeses sem terra. fertilização e recuperação do solo são desconhecidos. e apenas três no sul. o analfabetismo prevalece e inexistem as escolas técnico-agrícolas. procedentes de vários países da Europa.4 . No tocante às leis agrárias. (3) arrendatários. "A concentração de terras em mãos de poucos grandes fazendeiros. a quem pagam com dias de serviço. 2. o que resulta em elevados índices de mortalidade. numa tentativa de coibir o regime de posse. independentemente da quantidade colhida. Por esse direito. A lei vigorou até a promulgação da constituição republicana de 1891. (4) moradores ou agregados. estimulou a instalação de engenhos e concedeu vastas sesmarias a indivíduos que estivessem em condições de investir na lavoura canavieira. grandes monoculturas de exportação e milhões de trabalhadores rurais sem terra.2.3. Algumas sesmarias chegaram a atingir uma extensão de cinqüenta léguas. Sua problemática confunde-se com os primórdios da agricultura. a ampliação do mercado interno de um país e a melhora do nível de vida das populações rurais. porém. que alugam seu trabalho. "A primeira Lei de Terras do Brasil data de 1850 e proibia a aquisição de terras devolutas. . (BARSA. pois os que não possuíam recursos suficientes para receber e cultivar sesmarias.

"O governo do presidente João Goulart propôs. regeu a ocupação do Centro-Oeste e da Amazônia. no interesse da economia rural. Estatuto da Terra. sobrevivendo assim à industrialização e às mudanças sociais ocorridas nos meios urbanos. assassinato de líderes dos trabalhadores rurais e toda sorte de violência. que dispôs sobre o Estatuto da Terra. Depois da constituição das organizações internacionais de direitos humanos. doação. conseguiu manter incólume o regime de propriedade e os privilégios de que desfrutava. Aqueles que não tivessem regularizado suas posses até o início da vigência do código só poderiam fazê-lo com base no instituto do usucapião.1. Reza. proibiu a legitimação das posses e a revalidação de sesmarias. Multiplicaram-se as propriedades de dez mil. Sobreveio então o golpe militar de 1964. O código civil brasileiro. o estatuto define a reforma agrária como "o conjunto de medidas que visam a promover melhor distribuição da terra. as atividades agropecuárias. seja no de harmonizá-las com o processo de industrialização do país". Em seu artigo primeiro.2. que interrompeu a ampla mobilização nacional em favor da reforma agrária. O parágrafo segundo do mesmo artigo esclarece que "o objetivo dessa política é amparar e orientar. Na base da pirâmide social.1.504. sucederam-se os decretos que regulamentaram aspectos da propriedade da terra. modificando o regime de sua posse e uso. na segunda metade do século XX. reversão à posse do poder público de . ainda. pela execução das seguintes medidas: desapropriação por interesse social mediante prévia indenização em títulos da dívida pública. cem mil e até um milhão de hectares. a aprovação de um princípio constitucional segundo o qual a terra não poderia ser mantida improdutiva por força do direito de propriedade. Problemas sociais e ação política. se pretendia distribuir pequenos lotes a dez milhões de famílias. Por meio de seus representantes nos órgãos de governo locais e federais. seja no sentido de garantir o pleno emprego. mas nenhum modificou fundamentalmente a má distribuição da propriedade fundiária no país.4. que exigia aprovação do Senado para qualquer concessão superior a dez mil hectares. 2. o latifúndio exerceu sempre poderosa influência sobre as decisões oficiais. proliferaram as denúncias de exploração do trabalho escravo.4.exceto por alterações muito superficiais. em 1963.2.3. promulgado em 1916. arrecadação dos bens vagos. uma vasta classe de despossuídos foi relegada à mais extrema miséria e teve suas reivindicações reprimidas sistematicamente com violência. a fim de atender aos princípios de justiça social e ao aumento da produtividade". que o acesso à propriedade territorial será efetivado mediante a distribuição ou a redistribuição de terras. grilagem de terras. "O princípio segundo o qual a posse não garante a propriedade vedou ao trabalhador rural o acesso à terra e propiciou a formação de uma casta de latifundiários que se apossou das áreas rurais brasileiras. em flagrante desobediência à constituição de 1946. As diferenças sociais se agravaram e estenderam. 2. Por essa via. endossaram os princípios e normas da Lei de Terras. já arcaica e ineficaz no início da colonização. compra e venda. "Em 30 de novembro de 1964 o Congresso Nacional aprovou a lei número 4.1. "A mesma legislação.3. "Tradicionalmente identificado com o setor mais conservador da cena política brasileira.22. "A partir da proclamação da república.

um profundo equilíbrio." . A base da indenização aprovada foi o valor declarado para efeito de pagamento do imposto territorial rural. o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA).4. "A constituição de 1967 endossou o estatuto ao permitir a desapropriação da propriedade rural com o objetivo de promover a justiça social. nas biocenoses. . a qualquer título. solo. nem os organismos financeiros internacionais estão querendo financiar projetos que não apresentam um retorno concreto.2. água. a água. o solo. o bem-estar futuro da humanidade depende fundamentalmente de uma atitude positiva voltada para a conservação da natureza. em 1970. regulou o processo especial de desapropriação dos imóveis rurais situados em áreas declaradas prioritárias. Durante muitos anos trabalhou-se com a idéia de fundo perdido. no ecossistema. 2. O decreto-lei nº 554. para executar o Estatuto da Terra. de 25 de abril de 1969. O meio ambiente. O mais importante deles foi o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST). um grau de risco pequeno. "O ar.ar. e com o meio ambiente . as plantas e os animais são essenciais à vida do homem. A partir do fim da década de 1980 intensificaram-se os conflitos no campo e surgiram novos grupos em defesa da reforma agrária. "Em julho de 1985 o governo instituiu o Ministério da Reforma e do Desenvolvimento Agrário.terras de sua propriedade indevidamente ocupadas e exploradas. proposto pelo novo ministério." "Em sentido amplo.5. os minerais. ou seja. por terceiros. que absorveu as atribuições dos órgãos anteriores. em zonas críticas ou de tensão social. o Congresso aprovou duas medidas para facilitar a reforma agrária: o aumento dos percentuais do imposto territorial rural (ITR) para as propriedades improdutivas e o rito sumário. que é a essência que determina e regula. constituindo comunidades bióticas. Nem o governo. Como esses recursos não são inesgotáveis. O Plano Nacional de Reforma Agrária. Com o DLIS surge uma nova situação em que faz-se necessário comprovar a viabilidade do projeto. Tais comunidades mantêm entre si. composta de centenas de milhares de espécies e variedades de animais e plantas. herança ou legado. mas enfrentou forte resistência no campo para sua implementação. O desenvolvimento local.2. se distribui no planeta segundo uma ordem naturalmente harmoniosa. energia solar etc. Os princípios básicos de conservação da natureza foram enunciados pelos ecologistas. Financiava-se a pequena propriedade e não se avaliava os resultados do investimento. segundo os quais a matéria viva. o governo federal criou. 2. Em 1996. que permite a desapropriação imediata das terras. Esse desenvolvimento vem sendo controlado por empresas contratadas pelo governo especialmente para auxiliar e orientar os pequenos proprietários na montagem dos projetos. relevo. A fim de promover e coordenar a implementação do estatuto e decretos complementares. cuja ação se baseia na ocupação de terras para pressionar o governo a fazer a reforma agrária. entende-se por conservação da natureza ou conservacionismo o esforço centrado em políticas e técnicas que têm por fim preservar na Terra condições propícias à vida e a uma integração maior entre as espécies. tinha como principal instrumento a desapropriação e previa o assentamento de sete milhões de trabalhadores. sua existência em comum. Hoje trabalha-se com a idéia do desenvolvimento local integrado e sustentável (DLIS). ou seja.

estudados pormenorizadamente cada um dos componentes dos ecossistemas. variável em cada região natural." "Basta que seja alterado um dos elementos do ecossistema. em qualquer tipo de topografia. Em determinadas . A rápida transformação do ambiente provocada pelo homem não obedeceu." "Já a água de escoamento superficial aumenta de volume e desce incontrolada pelas vertentes. que podem ser lateríticas ou calcárias. ditos antropogenéticos (as "paisagens culturais" dos geógrafos). o homem tornouse cada vez mais capaz de criar ambientes artificiais. da flora. mas apenas no de "condições ambientais". A carga sólida dos cursos fluviais também sofre considerável aumento. poluição." "Os incêndios nas matas."Assim. eliminando-se a cobertura florestal numa vasta superfície de relevo acidentado. erosão ou lixiviação (lavagem de sais do solo) aceleradas. se desaparece." "Aspectos da degradação. o papel de uma verdadeira esponja. segundo o clima reinante na região. formando sulcos profundos nas encostas." "Em trechos de encostas íngremes. podem provocar a lixiviação. quando as primeiras dessas leis são transgredidas. Nessas circunstâncias. razão pela qual ficam obstruídos muitos rios outrora navegáveis. Desde o surgimento da sociedade humana. capazes de arrastar ladeira abaixo árvores. por exemplo. São essas as principais causas da erosão acelerada. arrastando húmus e minerais solúveis. blocos de pedra e eventuais construções. A mata exerce. chamadas voçorocas no sul do Brasil. significando riqueza potencial. o conservacionista não toma o vocábulo "recursos" no mesmo sentido que o economista. com a extinção de seus refúgios. em zonas de vegetação aberta. Ao procurar defender os "recursos naturais". por onde as águas se infiltrarão. Os rios que percorrem regiões florestais devastadas alteram em pouco tempo sua descarga e tendem a um regime torrencial. bem como partículas finas em suspensão. formando enxurradas. aumentam muito o número de fissuras do solo. que não ocorria antes devido aos obstáculos impostos pela capa de húmus do solo. O calor do fogo dilata as partículas minerais que. desencadeiamse processos como degradação ou devastação da flora. para que todo o conjunto venha a se modificar profundamente. extermínio da fauna. a formação de crostas no solo. em que se alternam inundações e secas. alteração do regime de águas ou do clima. fontes alimentares e locais de procriação. mas sobretudo em áreas planas. isto é. Essa erosão pode ocorrer sem leito definido. Não sendo absorvida pelas raízes. a leis de conservação da natureza. empobrecimento ou esgotamento dos solos. e diferenciados em escala crescente à medida que os meios técnicos evoluíam. É comum que esse processo de ravinamento tenha início num corte de estrada ou de caminho carroçável. os troncos das árvores e as raízes expostas. são freqüentes os deslizamentos de terra. todo o regime de águas é logo perturbado. da fauna. após chuvas prolongadas. após seu esfriamento. foram determinados os princípios da conservação dos solos. acarretando profundas alterações na distribuição das populações animais. porém. e sim a leis econômicas. no caso. além de um determinado ponto crítico. ou então em ravinas." "A derrubada de matas ou sua destruição pelo fogo causam danos imediatos à fauna. a maior parte da água que se infiltra penetra diretamente no solo até o lençol freático. Assim. Assim se explica. torna-se muito menor a evaporação da água das chuvas. das águas continentais e marinhas.

da Índia. ante a evidência de que. alguns governos. Assim. Os macacos Rhesus. e na China. Há milhares de anos existem nessa região áreas destinadas a proteger animais. O movimento protecionista. que. desde 1910 até sua morte em 1929. difundiram a teoria e a prática da arquitetura paisagística." "Graças ao estudo dos morcegos. Em 1895 foi criada uma Comissão Internacional para a Proteção das Aves Úteis à Agricultura. instituiu-se em 1898 o parque El Chico. todos têm um papel a desempenhar. Bruxelas. já ampliou em muito a noção de sua utilidade para os seres humanos. 1948) e finalmente se estabilizou como International Union for Conservation of Nature and Natural Resources (União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos . ressurgiu como The International Union for Protection of Nature (União Internacional para a Proteção da Natureza. como em Sarnath. Relevante foi o empenho do naturalista suíço Paul Sarasin." "O antigo conceito simplista de animais úteis e nocivos teve de ser abandonado. feita com isenção de julgamentos prévios. Daí aos sensores remotos foi um passo. que permite a orientação na neblina ou na escuridão. O Extremo Oriente teve a primazia da mentalidade conservacionista." "Impondo-se a mentalidade conservacionista e o conceito da essencialidade de manutenção do equilíbrio. na Índia.circunstâncias. levaram a uma visão bem diversa das relações entre o homem e as diferentes espécies que com ele compartilham a existência na Terra. a etologia. por exemplo. Os japoneses. onde o Buda se inspirava. onde os mandarins mantinham espécies de particular interesse em pequenos parques". justificando-se sua conservação e proteção cuidadosa pelas próprias razões que esses papéis indicam. na organicidade de cada ecossistema. que criou condições para que sejam poupadas centenas de milhares de vidas infantis. nos Estados Unidos preservou-se em 1864 o vale do Yosemite e em 1872 foi criado o primeiro parque nacional do país. Amanohasidate e Miyajima. 1928). de seus recursos instintivos e de seus modos de vida. no México. os enfoques de uma nova ciência." "Evolução da mentalidade ecológica. Fontainebleau. simples fungos que infestavam lâminas de microscópio conduziram à invenção da penicilina e à produção de toda uma gama de antibióticos . aves corredoras e rapaces começam a predominar. com sua longa tradição de respeito pelas coisas da terra. "Desde o início do século XX. Certas iniciativas pioneiras já datavam de fins do século XIX. os zoólogos abriram caminho para a descoberta do radar. o de Yellowstone. possibilitaram a descoberta do fator sanguíneo Rh. Da mesma forma." "Em 1900 realizou-se em Londres a Conferência Internacional de Proteção aos Animais da África. após organizar-se como Office International pour la Protection de la Nature (Organização Internacional para a Proteção da Natureza. lutou pelo estabelecimento de uma Comissão Internacional de Proteção à Natureza. passaram a reconhecer que a proteção da natureza é assunto de alcance internacional. sobre espécies arborícolas e voadoras que se alimentam de plantas.fato tomado como exemplo dos benefícios que paralelamente procedem da observação da vida das plantas. no Japão implantaram-se em 1868 as áreas verdes de Matsushima. cuja influência se estenderia a todo o mundo entre as duas guerras mundiais. evitando acidentes. bem como entidades privadas. A observação científica dos animais. voltada para o estudo do comportamento animal.

São Paulo: Abril. O primeiro documento a referir-se expressamente à conservação da natureza. 2001:361) BIBLIOGRAFIA ABRIL. Edimburgo. "Conservacionismo no Brasil. em 1940. mobilizando-se em campanhas ao sentir o impacto da degradação de seus ambientes. Grupos e entidades ecológicas tornaram-se cada vez mais comuns." "Na década de 1860. "Malgrado a criação. a consciência da necessidade de proteger a natureza só começou a difundir-se entre a população brasileira após as décadas de 1960 e 1970. no Rio de Janeiro". "A própria sociedade." "Objetivando o intercâmbio técnico-científico e a difusão dos conhecimentos conservacionistas.5. como ficou conhecida. Almanaque. começou a agir de forma organizada pela conservação da natureza. Silvestre e Tijuca. a partir das décadas de 1920 e 1930. Na Eco-92. foram aprovados documentos de fundamental importância para a conservação da natureza. como a Convenção da Biodiversidade. José Bonifácio de Andrada e Silva propôs que "em todas as vendas de terras que se fizessem e sesmarias que se dessem. em vista dos problemas de poluição e degradação ambiental que se acumulavam no final do século XX. como a Convenção para a Proteção da América. teve a adesão de 178 países e contou com a presença de mais de cem chefes de estado. 2. em 1968." "O evento de maior amplitude e de repercussão mais profunda. ratificada pelo Brasil em 1965. 1997. em 1937. (BARSA. foi a carta régia de 13 de março de 1797. se pusessem a condição de que a sexta parte do terreno nunca haveria de ser derrubada e queimada. sob os auspícios da União Pan-Americana. . sem que se fizessem novas plantações de bosques". em sintonia com o que então ocorria no restante do mundo". promoveram-se diversos congressos. passando a figurar com destaque entre as plataformas partidárias e as metas de novos governantes". no Brasil. não raro exercendo pressão sobre as autoridades públicas por decisões mais enérgicas. sugeriu em seu livro Memória sobre a fundação e custeio de uma fazenda que os fazendeiros evitassem reduzir a cinza as preciosidades vegetais e que o governo tornasse obrigatório o plantio de "paus de lei" à beira das estradas. A luta pela defesa da natureza.2.Naturais. Em 1821. em Washington.1. nas florestas das Paineiras. 1956). tomou feição crescentemente política. a Declaração de Princípios das Florestas. que advertia contra o perigo de destruição das matas. Francisco Peixoto de Lacerda Werneck. foi a Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento. Em 1861 fez-se a primeira experiência brasileira de reflorestamento tropical. o barão de Pati do Alferes. em junho de 1992. ao mesmo tempo. em Paris. com a presença de representantes de 62 países e observadores de numerosas entidades. dos primeiros parques nacionais e. Realizada no Rio de Janeiro. a Convenção do Clima e a Agenda 21". e a Conferência Intergovernamental de Especialistas sobre as Bases Científicas para o Uso Racional e Conservação dos Recursos da Biosfera. de diversos órgãos governamentais que se sucederam no tempo com específicas atribuições conservacionistas.

Brasil: para compreender a história. Disponível na Internet via WWW. 11.ed. Carlos Benedito. A terceira onda. REALE. São Paulo: Record.com. Renato.biomania. MARCELIB. 1992.. Arquivo consultado em 02 de maio de 2004. Ariovaldo Umbelino de. São Paulo: Brasiliense. Arquivo consultado em 02 de maio de 2004. Eric R. URL: http://www. O que é sociologia. 2. 7. SOUSA.quatrocantos. 2003. Gevilacio Aguiar Coêlho de. Tecnofrutas: o processo de produção e industrialização de Poxoréo. São Paulo: Barsa. 1. TOFFLER. 1999. 2002.ed. A "vocação atual" da sociologia rural in Estudos Sociedade e Agricultura. URL: http://www. São Paulo: Editora do Brasil. pela influência de referenciais marxistas. São Paulo: Contexto. INTRODUÇÃO A produção teórica sobre o “mundo rural” no Brasil dos últimos trinta anos poderia ser caracterizada.ed.. (Coleção Primeiros Passos. novembro 1998: 5-25. Busca-se compreender de que forma essas influências teóricas determinam a forma em que os cientistas sociais têm interpretado o “mundo rural” brasileiro.net Arquivo consultado em 02 de maio de 2004. pelo número significativo das pesquisas empíricas realizadas que possibilitaram a coleta de abundantes informações e dados sobre a realidade agrária. URL: http://www. [online]. 7ª série. por um lado.BARSA. São Paulo: Saraiva. Izaias Resplandes de. MT.. Cuiabá: UFMT. 2001. MARTINS. Pesquisa educacional.com Última atualização em 01 de janeiro de 2001. Teoria tridimensional do Direito.. 1997. Sociedades camponesas. 22. 5. 1999. LAKATOS. 57).cjb.poxoreo. Sample. Marina de Andrade. e pelo outro. Vol. PRETI. 11. São Paulo: Atlas. [online]. Disponível na Internet via WWW. Oreste. Disponível na Internet via WWW. SOLUÇÕES. Porém é . A geografia das lutas no campo.. JOLLIVET.br/biografias. A CRISE DA SOCIOLOGIA RURAL NO BRASIL E SUAS TRADIÇÕES TEÓRICAS William Héctor Gómez Soto1 RESUMO Este artigo faz uma avaliação da crise da sociologia rural no Brasil a partir da análise das tradições teóricas que a influenciam principalmente a vertente sociológica americana e o marxismo clássico. ed. Alvin. Nova Enciclopédia. 1997. Disponível na Internet via WWW. Citações e referências a documentos eletrônicos. MOURA. Eva Maria & MARCONI. Marcel. pela variedade de temas tratados. Cuiabá: UFMT. Biografia de Thomas Robert Malthus. OLIVEIRA. [online]. [online]..ed. 1994. URL: http://www. Sociologia geral. Miguel. Rio de Janeiro: Zahar. 1976. WOLFO.

seu contexto histórico e as principais visões. em menor grau. Em seguida. existe uma relativa incapacidade da “sociologia rural” brasileira de explicar as mudanças no “mundo rural”. Alguns autores brasileiros parecem ter dificuldade em deixar de lado “velhas idéias” como a “diferenciação social na agricultura e a polarização de classes” oriunda da “tradição marxista clássica”. ao mesmo tempo contemple as mudanças da realidade e as discussões a nível internacional. às tradições teórico-metodológicas funcionalistas. Na quarta 1 Doutor em Sociologia (UFRGS) e Prof. tendo como ponto de partida a compreensão da evolução da sociologia rural americana. Na primeira parte. Atualmente. parece ter reduzido as possibilidades de inovações teóricometodológicas que. tentamos apreender o processo de mudanças dentro da sociologia rural americana. . predominantes na sociologia americana da década de 60. Apesar disso. do Instituto de Sociologia e Política (UFPEL). iniciado a meados da década de 70 e caracterizado pela recuperação crítica das tradições teóricas de Marx e de Weber e pela emergência de novas questões de pesquisas. Este artigo está estruturado em cinco partes. alguns autores começam a chamar a atenção sobre a necessidade de repensar o “mundo rural” a partir das transformações que estão ocorrendo em escala mundial.necessário assinalar que uma parte importante dessa produção teórica está vinculada. trata sobre a produção teórica brasileira sobre o “mundo rural”. A ausência de um debate científico e livre de conotações “ideológicas” sobre a problemática agrária. enquanto que a nível internacional existe uma outra dinâmica que incorpora novas questões e novas perspectivas teórico-metodológicas para entender velhos problemas. discutimos as tradições teóricas da sociologia rural. A terceira parte.

Alguns autores (Gans e Pahl apud Newby. portanto totalmente incapaz de abrigar o caráter explicativo que se lhe atribuia. A segunda época. Essa situação de “esgotamento” está dando lugar a novas concepções teóricas-metodológicas que alguns autores chamam de “nova sociologia rural” (Newby) ou “sociologia da agricultura” (Buttel). O continuum rural-urbano perdeu utilidade na medida em que a população rural diferenciava-se cada vez menos da população rural. queremos chamar a atenção sobre as transformações econômicas e sociais que estão fazendo emergir um novo “mundo rural” . A meados dos anos 60. A sociologia do “mundo rural” e suas tradições teóricas A sociologia do “mundo rural” tem estado influenciada principalmente por duas tradições clássicas. é conhecida como a época do enfoque do comportamento psico-social. refere-se à “nova sociologia da agricultura”. na sociologia rural americana pode-se identificar três etapas: a primeira vai do início deste século até os primeiros anos da década de 50. Durante esse período a sociologia rural americana foi dominada por uma perspectiva que definia os produtores como atores que podiam responder a estímulos e a novas tecnologias. e que separam a sociedade rural da urbana. desde a metade da década de 70. 1982) mostraram que os conceitos de “urbano” e “rural” não eram nem variáveis explicativas nem categorias sociológicas.2 parte. Missouri. 1. Kentucky e Iowa. onde o estudo sobre a agricultura foi construído como um dos muitos elementos necessários para compreender a estrutura social da vida comunitária rural. O aspecto mais importante dessa nova sociologia rural refere-se ao conceito de “estrutura da agricultura”. A sociologia rural anterior a 1950 teve uma orientação teórica baseada no continuum rural-urbano (Toennies. um conceito que foi deixado de lado na pesquisa social anterior aos anos 70. Essas diferenças são apresentadas . Ambas as tradições parecem insuficientes para dar conta das mudanças que estão ocorrendo no mundo rural brasileiro. a perspectiva teórica que dominava a sociologia rural (o continuum rural-urbano) entrou em crise. devido a razões teóricas e empíricas. Uma que pode ser chamada de “funcionalista” e a outra de “marxista clássica”. De acordo com Buttel et al (1990). A noção de continuum rural-urbano estabelece uma série de traços da sociedade urbana e a sociedade rural que se supõem funcional e causalmente conectados. constituem uma “nova sociologia rural”. Sorokin e Zimmerman)2. A inícios da década de 50 essa tradição foi questionada por um novo grupo de sociólogos rurais influenciados pela Psicologia Social e formados principalmente na Cornell University e nas universidades de Wisconsin. A terceira época. Esses autores mostraram que o conceito de “rural” era essencialmente descritivo e empírico e. cuja manifestação mais conhecida foi a difusãoadoção de inovações. Minnesota. início da década de 50 até início da década de 70. Newby (1982) tem argumentado que os trabalhos inovadores sobre a agricultura.

existem inúmeros escalões intermediários que vão criando uma transição insensível entre o meio rural propriamente dito e o meio urbano. Entre o meio rural e o meio urbano existe uma gradação infinita. existe um contínuo.por Sorokin e Zimmerman como extremos de uma escala polar de muitas gradações. 1973:12) 2 . “Desde a habitação rural isolada e até a grande cidade. Em outras palavras.” (Solari.

O mesmo pode se dizer em relação ao método históricocomparativo de Weber. E. revolucionou a pesquisa e deu coerência à sociologia americana e definiu um modelo de pesquisa sociológico que em muitos aspectos. Para Buttel et alii (1990) a síntese parsoniana e a elaboração de Merton. dentro da tradição da psicologia social consideravam que os agricultores eram atores sociais capazes de responder ao estímulo de novas tecnologias agrícolas. 1950.A. apenas guardam uma superficial semelhança com as obras de Durkheim e Weber. as quais estão muito afastadas das espécies particulares de . “A teoria de médio alcance é usada principalmente na sociologia para servir de guia às pesquisas empíricas. 1952. Isto era uma premissa para compreender a expansão de novas tecnologias e significava uma postura a favor das mudanças tecnológicas. a noção de que a adoção de novas tecnologias poderia contribuir para uma mudança social positiva). onde se combinava o raciocínio da psicologia social com um tipo de análise funcional (ou seja. Nesse período a sociologia rural foi mais quantitativa que durante a tradição dos estudos da comunidade rural (1900-1950). Por exemplo. mas hipóteses necessárias de trabalho que surgem em abudância durante a rotina das pesquisas diárias e os amplos esforços sistemáticos para desenvolver uma teoria unificada capaz de explicar todas as uniformidades observadas de comportamento. De acordo com Buttel et alii (1990) os primeiros estudos dentro dessa tradição foram. Teorias de médio alcance. a sintonia do funcionalismo com a análise causal a nível micro era estranha às noções centrais de Durkheim na sua análise da sociedade. Wilkening (1949. A teoria de adoção-difusão de inovações foi o protótipo da “Theory os Middle-Range”. Na tradição de pesquisa dentro da linha da difusão/adoção o agricultor era visto como um ator que respondia a diversos estímulos para melhorar a produção agrícola. Essa orientação teórico-metodológica reflete-se na sociologia rural até inícios da década de 70. A noção de Merton tinha como objetivo permitir que os sociólogos transformassem certas proposições abstratas do funcionalismo parsoniano em hipóteses testáveis com dados a nível micro (individuais. 1954)6 da Universidade de Chicago Merton denomina. organização e mudanças sociais. familiares e organizacionais) e relacionados com determinadas unidades de análise. Weber criticou amplamente as metodologias que implicavam a imposição da proposta hipotético-dedutiva das ciências naturais sobre as ciências sociais. a agenda mertoniana das Teorias de alcance médio (Middle-Range Theory). elaborados por Hoffer (1942)4 e Ryan e Gross (1943)5 em Michigan e Iowa respectivamente. mantém sua influência até hoje. Emile Durkheim e Max Weber eram considerados os modelos clássicos de pesquisa dentro da tradição da psicologia social da sociologia rural.3 Os sociólogos rurais. Ocupa uma situaçào intermediária entre as teorias gerais de sistemas sociais. as teorias intermediárias entre as pequenas. a partir da síntese parsoniana e de uma incipiente Teoria da Ação enquanto que a noção da Theories of the middle range3 de Merton era a noção central na pesquisa sociológica e na sociologia rural das décadas de 50 e 60. assim como dos meios de comunicação e do sistema educacional. como a teoria da difusão e adoção de inovações. Apesar dessas críticas.

Acceptance of approved Farming Practices Among Farmers of Dutch Descent.”Merton (1970:55) 4 Hoffer. “The diffusion of hybrid seed corn in two Iowa communities”. Charles M. Neal C. East Lansing: Michigan Agricultural Experiment Station. Eugene A. “A sociopsychological study of the adoption of improved farming practices”. Bryce e Gross. Special Bulletin No. Rural Sociology 8 (March): 15-24 6 Wilkening. Rural Sociology 14 (March). 1949: 68-69 3 . 316.comportamento. 5 Ryan. organização e mudanças sociais para explicar o que é observado e as minuciosas ordenadas descrições de pormenores que não estão de modo algum generalizados.

“A multiple correlation analysis of factors associated with adoption of farm practices. Frederick. Também foram notáveis as contribuições de Fliegel (1956)7. 1956: 284-292. particularnente das obras de Marx. ____________________ “A sociopsychological approach to the study of the acceptance of innovations in farming. essa tecnologia tinha como efeitos a marginalização da agricultura familiar e dos trabalhadores. A reavaliação da perspectiva teórica dominante na sociologia rural nas décadas de 50 e 60 pode levar a uma nova sociologia rural. . Wright Mill criticou a teoria parsoniana e chamava a atenção de que as Teorias de Médio Alcance de Merton conduziam a um empiricismo abstrato que sufocava a imaginação sociológica.” Amercican Sociological Review 19 (February). George e Bohlen.” Rural Sociology 15 (December). Beal e Bohlen (1957)8. Lenin. na sua Imaginação Sociológica. Alguns sociólogos rurais analisaram a estrutura da pesquisa agrícola e o papel da sociologia rural no desenvolvimento e difusão de novas tecnologias. ____________________ “An introductory note on the social aspects of practice adoption. Muitas das preocupações da sociologia rural traduziam-se em crítica da revolução verde. As críticas de Mill receberam pouca atenção dos sociólogos rurais. por acreditar que os pequenos produtores agrícolas não tinham acesso às novas tecnologias além de serem ecologicamente destrutivas. do campesinato. Beal. 1958:97-102 7 Fliegel. Kautsky e Chayanov. and family integration. lento. Em 1959. 1954: 29-37.”Rural Sociology 23 (June). ____________________”Change in farm technology as related to familism. caracteriza-se pela busca de teorias adequadas para compreender as estruturas agrárias modernas. Para Kautsky. Essa busca significou a redescoberta de um conjunto de propostas clássicas para a compreensão do desenvolvimento agrário. 1950: 352-364. Essas perspectivas teóricas sobre a agricultura eram principalmente dedutivistas na medida em que buscavam identificar a lógica particular do desenvolvimento agrário.4 exerceu uma grande influência nas primeiras pesquisas de difusão e adoção de tecnologias agrícolas. A segunda tradição (19751985).” Rural Sociology 21 (September/December). a lógica básica do desenvolvimento agrário era a vinculação entre a estrutura de classes e a diferenciação social na agricultura e a formação de um mercado interno no capitalismo. family decision-making. mas inevitável. Gouldner e outros. Para Lenin. Coughenour (1960)10 e Rogers (1962)11. baseada no marxismo. Joe. ____________________ “Informal leaders and innovators in farm practices” Rural Sociology 17 (September). a dinâmica central era a penetração do capital urbano-industrial na agricultura e o desaparecimento. por exemplo. Igualmente. Lionberger (1960)9. Na década de 70 uma nova geração de sociólogos rurais foram influenciados pelas críticas de Mill. 1952: 272-275. Outros analisaram os impactos ecológicos da modernização da agricultura e argumentaram que os pesquisadores deviam considerar as variáveis ecológicas se eles queriam compreender a organização social e as mudanças tecnológicas na agricultura.

Ames: Iowa Agricultural Extension Service 9 Lionberger. Everett M. Milton. 8 . Diffusion of innovations.” Rural sociology 25 (September). C. Herbert F. 1960: 283-297 11 Rogers. Special Report 18. Adoption of New Ideas and Practices. “The functioning of farmers charecteristcs in relation to contact with media and practice of adoption. 1960 10 Coughenour.The Diffusion Process. 1962. Ames: Iowa State University Press. New York: Free Press.

. ou para racionalizar a produção agrícola. situa-se no plano de uma fenomenologia das formas sociais. Esses argumentos enfatizam que existe uma lógica última do desenvolvimento que se explica pela necessidade de sua própria dinâmica. ao mesmo tempo. mas voltada. Porém. somente pode satisfazer suas necessidades através do mercado e é ali onde se manifesta a contradição entre o caráter social do trabalho e a apropriação privada de seu resultado.” Abramovay (1992:33) No capitalismo. A burguesia e o proletariado expressam essa contradição. essas teorias dedutivas tendem a estar baseadas em argumentos teleológicos.. Portanto os esforços dos socialdemocratas russos deveriam centrar-se na organização naqueles camponeses que mesmo sendo proprietários vendiam sua força de trabalho. Para Lenin se o campesinato em seu conjunto apoiaria a revolução democrática. onde o ponto de partida contém o destino final da trajetória: a mercadoria resulta de atividade particular. ele se torna um capitalista. o campesinato está fatalmente condenado a desaparecer. De acordo com Abramovay (1992:36). Dessa forma surge uma nova relação social baseada na cooperação. esses argumentos dedutivos abstratos tendem a perder força explicativa diante variações espaciais e temporais..5 Essas teorias dedutivas da estrutura agrária foram úteis no seu tempo e ainda podem fornecer elementos importantes para a pesquisa. Segundo Abramovay (1992). o produtor de mercadorias. Além disso. Se receber salário tratase de um trabalhador assalariado. Cabe salientar que Marx não trata sobre as tendências e funções da agricultura familiar no desenvolvimento capitalista. Isto se explica pela própria lógica de sua obra. Portanto é na produção de mercadorias que se encontra a base da diferenciação social que provoca o surgimento das classes sociais. privada. um operário e não um camponês. Quando os trabalhadores exerçam a cooperação e a propriedade comum da terra e dos meios de produção será superada a contradição entre o trabalho social e a apropriação privada. Sendo a burguesia e o proletariado as classes fundamentais da sociedade capitalista. Esses caráter transitório do campesinato (e de todos os pequenos proprietários) explica a ausência de um conceito de camponês na obra de Marx. a “impossibilidade de definir claramente seus rendimentos demonstra que o conceito de camponês n’O Capital é logicamente impossível”. Se o camponês obtém lucro. as duas obras clássicas sobre a problemática agrária dentro da tradição marxista devem ser analisadas de acordo com o contexto de debate político em que seus autores estavam inseridos. por exemplo para garantir a acumulação do capital urbano-industrial. A ênfase de Lenin na diferenciação social do campesinato deve ser entendida na sua tentativa de demonstrar a impossibilidade de estabelecer uma ampla aliança de classes para realizar a Revolução na Rússia. para a satisfação de necessidades gerais. O Capital de Marx: “. Referimos-nos a Questão Agrária de Kautsky e a Desenvolvimento do capitalismo na Rússia de Lenin. sociais. Os debates da socialdemocracia alemã e Russa e os trabalhos de Kautsky e Lenin não se apoiavam nas conclusões de O Capital nem nas partes das Teorias da Mais-Valia em que Marx analisa a questão agrária. somente os camponeses pobres apoiariam a revolução socialista.

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os . mostrou ser falsa. O desaparecimento desse objeto de estudo subverteu a confiança dos sociólogos rurais dedicados a analisar as diferenças entre o “rural” e o “urbano”. 2.6 É sobre essa idéia da diferenciação social do campesinato que se formou o mais importante paradigma marxista sobre a questão agrária. Para Engels. se insere nesse dilema e denuncia a falsidade dos socialdemocratas que fomentavam a ilusão da permanência dos camponeses no capitalismo e no socialismo. Contudo. por exemplo). O desenvolvimento do capitalismo no campo não resultou na proletarização dos pequenos produtores. Pelo outro. Por um lado. No passado esse problema permaneceu oculto devido a que na maior parte das zonas rurais dos países capitalistas industrializados coincidiam as localidades de residência e de trabalho. Igualmente Kautsky rejeita qualquer possibilidade de incluir no programa do partido qualquer tipo de reivindicação camponesa. Enquanto as populações rurais ficavam menos homogêneas. Por sua vez. os camponeses poderiam se unir aos proletários na construção da sociedade socialista. as previsões de Lenin e Kautsky não se realizaram. a tarefa o partido deveria organizar os trabalhadores assalariados agrícolas e explicar aos camponeses a inevitabilidade de seu desaparecimento. a contradição entre progresso técnico e agricultura familiar enfatizada por Kautsky. Os marxistas estudiosos da problemática agrária dedicaram-se a encontrar a tendência da diferenciação social. mais do que “.propriedades objetivas e universais do desenvolvimento do capitalismo no campo”. Os anos de mudança: 1975 . Argumentavam também que a pequena produção era tecnicamente superior à grande exploração capitalista. Kautsky tentou demonstrar a inutilidade de dedicar esforços na organização do campesinato em processo de desaparecimento devido principalmente à superioridade técnica da grande exploração agrícola. No interior do partido havia duas tendências. Para Abramovay (1992:42) a idéia da diferenciação social de Lenin deve ser entendida no contexto do debate entre bolcheviques e mencheviques. aqueles que buscavam levantar algumas reivindicações específicas para o campesinato (crédito.. aqueles que consideravam o campesinato em processo de rápido desaparecimento. a não ser exigir as mesmas condições de trabalho no campo e na cidade.. tornado esta idéia o ponto de partida e de chegada de suas análises. Além disso. Para eles. Para os primeiros. Portanto o partido não deveria incluir nenhuma reivindicação camponesa (enquanto proprietários) no seu programa. Na Questão Agrária. Na base dessa argumentação encontra-se a idéia de que os socialdemocratas não poderiam levantar reivindicações de qualquer setor social proprietário de meios de produção.1995 Os problemas de definição da sociologia rural partem do fato de que o “rural” não constitui uma categoria sociológica. O trabalho de Engels A questão camponesa na França e na Alemanha. A sociologia rural podia definir-se como o estudo dos que moravam numa localidade rural e se dedicavam à produção de alimentos. os camponeses se tornariam capitalistas ou proletários. ou estavam estreitamente vinculados a ela. a obra de Kautsky deve ser compreendida no contexto do debate da socialdemocracia alemã na busca do apoio da população rural para ampliar sua representação parlamentar.

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a sua pertinência teórica. A sociologia rural parece enfrentar um conjunto de problemas relativos ao seu objeto de estudo. Contudo. Novos problemas sociais e sociológicos emergentes estariam provocando nos sociólogos rurais o sentimento de que eles não estavam suficientemente preparados para responder a essa nova situação. Apesar disso. A sociologia rural se define melhor como a sociologia das localidades geográficas que têm uma população escassa e de pouca densidade em termos relativos. Segundo Newby (1982) a sociologia rural tem-se caracterizado por sua natureza a-teórica e inclusive anti-teórica e até pela sua tentativa de elaborar. Na falta de uma definição do “rural” aceitável do ponto de vista sociológico. A história desta disciplina tem sido obstaculizada pela busca fútil de uma definição sociológica do “rural” e pela resistência a desconhecer que esse termo é uma categoria empírica mais que sociológica. a sua responsabilidade pública e inclusive a sua competência para fazer pesquisa. indutivo.7 sociólogos também perdiam a clareza em relação ao que era o “rural”. não pode existir uma teoria da sociedade rural sem uma teoria da sociedade geral. Além disso. Sem dúvida trata-se de redefinir os velhos problemas a partir de novas abordagens. ou seja. Esta tarefa seguirá exigindo um conhecimento empírico muito responsável da estrutura e as relações sociais. de forma indutiva. esse termo é apenas um “referente empírico”. as críticas à sociologia rural ainda não permitiram uma mudança importante nos programas de pesquisa nesse campo. Esta confusão é sintomática de uma dificuldade conceitual mais profunda. isto simplesmente desloca a questão central de se a “sociedade rural” pode definir-se sociologicamente. Do anterior derivam-se duas consequências: Em primeiro lugar. constitui uma mera “expressão geográfica”. combinado com uma teoria que explique essa estrutura e essas relações. De acordo com Newby (1982) as características do estilo “científico” da sociologia rural são as seguintes: positivista. A perda de confiança na orientação que segue a sociologia rural tem sido maior nos Estados Unidos. A formulação desta “nova sociologia rural” é um desafio para os sociólogos rurais na atualidade. As origens da crise Existe certa confusão sobre a possibilidade de uma definição significativa do ponto de vista sociológico do “rural”. mas há populações específicas que por razões diversas estão localizadas em zonas rurais. Para alguns autores como Newby (1982). resulta irônico que a influência da sociologia rural americana tenha se estendido com maior rapidez e amplitude que antes. Mas isto poderia ser compreensível se levamos em conta que os autores clássicos têm descuidado a sociologia rural no seu esforço por criar teorias da sociedade industrial . Ainda que a definição mais comum da sociologia rural consiste em considerá-la “o estudo científico da sociedade rural”. uma teoria sociológica especificamente rural. Muitos sociólogos têm negado a possibilidade de estudar a sociedade rural como uma parte da sociedade em seu conjunto. não existe uma população rural. na década de 70 a sociologia rural parecia ter perdido o rumo. sem referência às teorias “gerais” da sociedade. quantitativo e “aplicado”. que requer uma análise mais cuidadosa.

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urbana, além de que frequentemente têm ignorado a natureza da sociedade rural. O rural tem sido considerado como um resíduo e, portanto tem recebido pouca atenção na teoria sociológica geral.

Em segundo lugar, dado que o “rural” é uma categoria espacial é necessário uma teoria que vincule o espacial com o social. Além de que, uma teoria sociológica deverá enfatizar o social. A sociologia rural americana tornou-se sinônimo de um empirismo superficial, rejeição da teoria e banalização de temas importantes. A sociologia rural buscou a legitimidade científica nas instituições de ensino superior através da utilização de instrumentos estatísticos e a quantificação e manejo de dados, tentando compensar a negligência teórica com a competência metodológica. Porém, essas técnicas de coleta e análise de dados não significaram uma melhora no conhecimento produzido. A lentidão para entender esses fatos tem contribuído para o aprofundamento da crise da sociologia rural. Nos últimos anos acreditou-se que as falhas na compreensão do funcionamento da sociedade rural deviam-se unicamente à falta de dados e ao caráter rudimentar dos instrumentos disponíveis para medição e elaboração de modelos. O irônico é que na medida em que se aperfeiçoavam as técnicas de coleta e análise de dados ficava mais longe a possibilidade de entender a sociedade rural (Newby, 1982). Recentemente há indícios que as fraquezas teóricas da sociologia rural estão sendo questionadas, sobretudo nos Estados Unidos, mesmo que ainda não foi substituída a teoria do continuum rural-urbano por um novo corpo conceitual ou por um conjunto de problemas teóricos que poderia possibilitar novos temas de pesquisas para a sociologia rural. Não se trata de propor uma teorização abstrata, mas de reconhecer que a elaboração teórica e a pesquisa empírica não são exercícios separados. Como mencionado anteriormente, a sociologia rural requer de uma teoria da sociedade, dentro da qual pode ser localizado o “rural”. O que implica que os sociólogos rurais devem conhecer melhor as teorias sociológicas gerais, ainda que, não há uma teoria geral da sociedade aceita pelos sociólogos. Os sociólogos rurais devem adotar uma visão mais totalizadora para estudar a sociedade rural. É importante que os sociólogos rurais se considerem a si mesmos como sociólogos que tem como objetivo estudar certos aspectos das zonas rurais. Para Newby (1982) uma nova sociologia rural deve partir de um enfoque totalizador no estudo da sociedade rural. O debate internacional: a “nova sociologia rural” A nova sociologia rural procura entender a estrutura interna e a dinâmica da agricultura a partir de teorias neo-weberianas e neo-marxistas. Dentre os temas tratados por esta nova perspectiva estão: o papel da etnicidade na persistência da agricultura familiar; a indústria agrícola; a força de trabalho assalariado agrícola; pequenos produtores e a agricultura em tempo parcial e, gênero e agricultura. Ultimamente, o “meio ambiente da agricultura”, tanto no sentido literal como metafórico, também ocupa as preocupações desta nova perspectiva. No sentido literal, explora temas relacionados com os fatores naturais e

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ecológicos e os impactos da agricultura sobre o meio ambiente. A nova sociologia rural também trata sobre temas relacionados ao ambiente sócio-econômico da agricultura como as mudanças tecnológicas na agricultura, a sociologia das ciências agrárias e a crise agrícola (principalmente sua origem no ambiente das políticas públicas). De acordo com Buttel et alii (1990), um dos traços da nova sociologia que emergiu entre a metade e fins da década de 70 foi a diversidade de seus enfoques teóricos. Por exemplo, Rodefeld e Heffernan revisaram teorias tradicionais e demonstraram que a tendência aparentemente “natural” da diferenciação na agricultura tinha implicações negativas para os agricultores familiares e as comunidades rurais. Mais tarde foi desenvolvida uma tradição teórica baseada na economia política marxista e, especialmente, na abordagem clássica da economia política agrícola de Marx, Kautsky e Lenin. Nesse mesmo período, foram publicados um conjunto de artículos escritos por Mann e Dickinson (1987), Friedmann, e Newby que abriram novas visões na análise sociológica da agricultura, através da aplicação da teoria marxista. Esta tendência foi consolidada com a antologia editada por Buttel e Newby (1980), a publicação de um livro de Friedland et al (1981) e uma antologia por Havens et al (1986)12. Recentemente a economia política da agricultura tem tomado uma orientação neo-weberiana, estimulada por Newby e Mooney. Finalmente, a partir de 1980, a nova sociologia da agricultura tem sido influenciada por uma postura ecológica. A nova sociologia da agricultura tem sido teoricamente diversa, porém existem características comuns desta reorientação da pesquisa sociológica rural. Primeiro, a nova sociologia da agricultura tem sido teoricamente mais ambiciosa que as pesquisas tradicionais dominantes antes do início da década de 70, tentando combinar, a teorização macrosocial com a elaboração de formulações teóricas falsificáveis e hipóteses testáveis. Segundo, na nova sociologia da agricultura, os métodos qualitativo e histórico da pesquisa, têm uma maior importância, do que tiveram na pesquisa sociológica rural durante a década de 60. Da mesma forma que a perspectiva behaviorista, que era dominante nos anos 50 e 60, não substituiu a perspectiva dos estudos da comunidade rural, assim, também, a nova sociologia da agricultura não tem significado a substituição, da perspectiva behaviorista, em particular, da difusão-adoção de inovações. Certamente, a perspectiva da difusão-adoção, precisa ser revisada para manter-se viável e contribuir para a compreensão da agricultura. O maior aspecto distintivo - e sem precedentes - da nova sociologia da agricultura nos Estados Unidos tem sido a importância que tem concedido às perspectivas marxistas e neo-marxistas. Tal vez o trabalho de Steeves (1972)13 na Rural Sociology, foi o primeiro exemplo de um artigo publicado numa revista oficial, baseado amplamente na teoria marxista. Porém foi só até finais da década de 70 que começaram a ser elaboradas sistematicamente explicações marxistas, nas universidades, sobre a dinâmica da agricultura nos Estados Unidos.

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Havens, Eugene. Studies in the Transformation of U.S. Agriculture. Boulder, CO: Westiew Press, 1986 apud Buttel, F. et al. (1990) 13 Trata-se do artigo de Allan D. Steeves, “Proletarianization and class identification” Rural sociology 37 (march), 1972: 5-26 apud Buttel, F. et alii (1990)

Seu estudo sobre a Questão Agrária de Kautsky. Em termos marxistas. uma revista britânica que tem sido vanguarda na revitalização de uma economia política de estudos camponeses e da história agrária da Europa. especialmente de seu Tratado de Economia Marxista. O artigo de Mann e Dickinson. negado pela persistência da agricultura familiar Mann e Dickinson (1987) identificaram as fraquezas dos argumentos subjetivistas dominantes (Chayanov) sobre a persistência da agricultura familiar nas sociedades capitalistas avançadas. está baseado principalmente no O Capital e os Gundrisse de Marx e secundariamente no trabalho de Lenin. A razão chave para entender o descaso da obra de Marx nos estudos sobre a agricultura tem sido tal vez o modelo marxista da polarização do processo econômico (de acordo com as leis da centralização e concentração do capital e a proletarização) entre capital e trabalho. o “trabalho vivo” contribui modestamente no processo de produção. Mann e Dickinson sugeriram que a realização das mercadorias agrícolas implica um maior tempo (tempo de produção mais tempo de circulação [tempo requerido para a venda das mercadorias]) do que a indústria. Newby16 sugere que uma sociologia da agricultura proveitosa deveria basear-se na integração das perspectivas de Marx. 1978b)14 e Newby (1978). Eles enfatizaram que por causa da sazonalidade na agricultura existe uma tendência à separação entre o “tempo de produção” e o “tempo de trabalho”. Kautsky e Weber. Friedmann baseou-se na obra de Ernest Mandel. O artigo de MannDickinson e um de Friedmann (1978b) foram publicados no Journal of Peasant Studies. Por tal razão. Marx foi quase totalmente ignorado nas análises das mudanças estruturais na agricultura dos sociólogos rurais norteamericanos até finais da década de 70. E como já foi mencionado anteriormente. os artigos pioneiros nesta tradição foram preparados por Mann e Dickinson (1987). por exemplo. foi relevante para compreender a dinâmica estrutural da agricultura americana. Portanto a agricultura torna-se não-lucrativa e por isso relegada aos agricultores familiares. o “trabalho vivo” é o único que cria mais-valia. um dos mais influentes “neo-weberianos” na Inglaterra. No seu artigo de 1983. Friedmann (1978a. Newby (1978) centrou seus esforços na obra de Kautsky. o que dificulta a “calendarização” do processo de trabalho tornando a agricultura menos lucrativa que a indústria. A terceira grande contribuição para o desenvolvimento da economia política da agricultura foi o trabalho de Newby (1978)15. Eles sugeriram que na obra de Marx encontram-se elementos de uma explicação não-voluntarista e não-subjetivista de porque o desenvolvimento capitalista é entendido em termos de proletarização e o estabelecimento da relação capital-trabalho é um processo mais lento na agricultura que na indústria.10 Como já foi dito. O que é extraordinário dessa primeira fase do desenvolvimento da economia política marxista da agricultura é que essas primeiras contribuições basearam-se nos clássicos da economia política. dessa forma se produz a não identidade entre “tempo de produção” e “tempo de trabalho”. O valor não é criado nessas interrupções. Apesar dessas inovações. reforçando com isto a idéia de que as atividades .

Chichester. 15 ”The rural sociology of advanced capitalist societies. and family farm: social bases of household production in an era of wage labor”. state.” In: Newby H. England: Wiley. International Perspectives in Rural Sociology.”Annual Review of Sociology 9: 67-81.” Journal Peasant Studies 6. Comparative Studies in Society and History 20: 545-586. 1: 71-99. 1978a e “Simple commodity production and wage labour in the American plains. (org). 1983 14 . 1978 16 ”A sociology of agricultura: toward a new rural sociology. 1978b.Trata-se dos artigos de Harriet Friedmann: “World market.

Friedmann indica o alto grau de risco e a demanda cíclica de trabalho da maioria dos sistemas de produção agrícola. Porém. portanto resulta menos atraente para os capitalistas. os produtores capitalistas da Inglaterra. Os produtores simples de mercadorias necessitam apenas de sua “reprodução simples”. não obtém excedente para sua reprodução. da Prusia e dos Estados Unidos não conseguiram competir com os produtores familiares dos Estados Unidos. ao contrário enfatizam porque o capital não está interessado em investir na produção agrícola. Friedmann reconhece que existem condições que podem levar para sua transformação em formas capitalistas de produção. na visão de De Janvry. Mann e Dickinson.mudança tecnológica.11 agrícolas estariam nas mãos de produtores agrícolas não-capitalistas. Por outro lado. diferentemente dos capitalistas. aumentam o risco de produção e. os capitalistas são obrigados pela lógica da concorrência a competir para obter a taxa média de lucro para que suas empresas não fiquem fora do mercado. Mesmo enfatizando as particularidades da agricultura que leva à persistência da agricultura familiar. seguindo as obras de Kautsky e Lenin. Então. minimizando a perecibilidade das mercadorias agrícolas e reduzindo o tempo “biológico” das plantas. eles não chegam a afirmar que o desenvolvimento na agricultura não tem um caráter capitalista. De Janvry argumentou que o desenvolvimento capitalista na agricultura é mais lento que na indústria e que torna bastante provável que as forças da proletarização e a acumulação capitalista na agricultura destruam lentamente a agricultura familiar. porém a sua explicação da persistência da agricultura familiar (que ela denomina de produção simples de mercadorias) descansa amplamente em como a agricultura familiar pode enfrentar a concorrência das empresas capitalistas no contexto hostil de mercados competitivos de meios de produção e mercadoria agrícolas. provocando a sua diferenciação em classes sociais antagônicas. refirindo-se a América Latina. De Janvry (1980). as relações capitalistas devem penetrar irreversível e . Mann e Dickinson observaram que dado que os produtos agrícolas são perecíveis. Friedmann testou empiricamente essa proposição com dados históricos que mostraram que durante a crise do preço do trigo no fim do século passado.fazem improvável a sobrevivência da agricultura familiar. As análises de Friedmann estão baseadas na tradição teórica marxista. considera que o desenvolvimento do capitalismo tardio tem significado a destruição da agricultura familiar e que as forças que afetam a produção agrícola . Simultaneamente com os trabalhos de Mann-Dickinson e Friedmann. um dos representantes dessa tradição. Friedmann considera que os produtores simples de mercadorias agrícolas têm um maior grau de flexibilidade que os capitalistas reduzindo seu consumo ao nível de subsistência para sobreviver nos períodos de crise. Ela argumentou que a produção agrícola familiar. Os capitalistas agrícolas tendem a liquidar seus negócios quando estes não são capazes de gerar a taxa média de lucro. Porém. subsídios estatais para pesquisa e investimento de capital . emergiu uma tradição neo-marxista diferente. o produtores independentes são uma classe transicional no capitalismo avançado. Finalmente. Eles enfatizaram que a pesquisa agrícola pode reduzir ou eliminar a distância entre tempo de produção e tempo de trabalho.

Kautsky argumentou . É útil notar que A questão agrária de Kautsky contém um conjunto de argumentos sofisticados sobre a lenta penetração do capitalismo na agricultura.inevitavelmente na agricultura familiar levando assim a seu desaparecimento como tem acontecido na indústria nas sociedades capitalistas avançadas.

a agricultura em tempo parcial servia de reserva de trabalhadores das indústrias localizadas nas áreas rurais. A agricultura familiar resulta importante nas políticas dos Estados que buscam a descentralização do sistema industrial. apesar de sua lentidão resultaria na descomposição do campesinato alemão. que analisou o papel do estado no estímulo às pequenas propriedades como uma estratégia para mediar os conflitos de classes nas sociedades avançadas. baseado na agricultura da Califórnia. os trabalhadores desempregados com pequenas propriedades poderiam temporariamente retornar à produção de subsistência até melhorar as condições na indústria. Esta integração das esferas de produção agrícola e não-agrícola tem sido elaborada por Bonanno (1985. Os trabalhos de Friedland representam também uma notável contribuição dentro da tradição de Kautsky e Lenin. mas as causas que permitem a emergência de formas organizacionais da produção agrícola. variam de acordo com o sistema de produção. mas que as relações capitalistas igual que na indústria. Manufacturing Green Gold. vários programas estatais que tentam resolver os problemas da agricultura. Na indústria de algodão. Ele analisou particularmente a produção de alface. está em constante crescimento. ele tomou uma postura similar a de De Janvry. tornando-se desta forma uma força de trabalho de reserva. O argumento central era que enquanto mais a produção agrícola organizava-se sob formas capitalistas. Outro impulso na literatura de economia política neo-marxista. Neste contexto. principalmente na Itália e nos Estados Unidos. Esta proposta foi mais desenvolvida por Mottura e Pugliesi (1980). além disso. Friedland afirma que o ritmo e a amplitude da penetração do capitalismo na agricultura. Em períodos de contração industrial e desemprego. Dentro desta concepção as empresas industriais deslocam-se para as áreas rurais onde os trabalhadores não são sindicalizados e os salários são mais baixos porque muitos trabalhadores potenciais têm suas pequenas propriedades produzindo ineficientemente e. acerca da lenta penetração do capitalismo na agricultura. O trabalho está também aumentando sua informalidade. a agricultura familiar aparece como tendo a . tem sido o argumento de que a diferenciação dos agricultores no capitalismo pode ser incompleta no futuro previsível quando a produção agrícola e não-agrícola venha a ser integrada dentro de um sistema particular que incorpore diferentes formas de organização da produção. Nesse sentido. Ele argumentou que a questão central para compreender a evolução da agricultura nas sociedades industriais avançadas não era simplesmente o tipo dominante de posse das empresas agrícolas.12 que o capitalismo. Apesar disso. torna-se comum o trabalho por peça. 198717). No seu livro. uvas-passas e tomates. podem ter a função de permitir a continuidade da agricultura familiar. numa análise histórica da pequena agricultura familiar de tempo-parcial no sul da Itália e das funções da agricultura familiar no desenvolvimento econômico contemporâneo. há poucas oportunidades alternativas. enfatizando o predomínio das análises sobre a emergência das relações capital-trabalho na agricultura e a separação dos produtores independentes de seus meios de produção. Um primeiro passo dentro desta linha de pensamento foi a do teórico marxista Kautsky.

“The persistence of small farms in marginal areas of advanced Western societies: the case of Italy. . (1990). F. Et alii. CO: Westview Press. 1985 e “Small Farms.17 Bonanno. Departamento de Sociologia.” Tese de Doutorado. Boulder. 1987 apud Buttel. Universidade de Kentucky. Alessandro.

pelos capitalistas não-agrícolas e no endividamento. o trabalho não-pago dos agricultores familiares reduz o salário dos trabalhadores empregados na indústria e os preços dos produtos agrícolas requeridos pelos agricultores. pelos latifundiários. seguindo essa linha de pensamento e principalmente a partir dos primeiros trabalhos de Andre Gunder Frank (1967)19. Em cada um desses “desvios” não existe a relação capitaltrabalho na produção agrícola e onde os agricultores são explorados por uma fração de capital não-agrícola (no arrendamento. Wenger e Buck (1988)18. Esta super-exploração permite a transferência de valor da esfera domestica da produção para a esfera capitalista. Por exemplo. agricultura em tempo-parcial e endividamento. Mooney argumentou que a exploração dos trabalhadores assalariados agrícolas é somente uma forma que a penetração capitalista na agricultura pode tomar. pelo outro. diametralmente opostas. Mooney desenvolveu um modelo da estrutura de classes na agricultura incluindo as “localizações contraditórias de classes” que podem ser encontradas na agricultura familiar (unidade de capital e trabalho na agricultura familiar): o capitalista agrícola e o trabalhador assalariado agrícola. direta ou indiretamente. O salário que os membros da família obtêm fora da sua propriedade. uma fonte de trabalho de baixo custo e de segurança para os membros da família com pequenas propriedades. através de vários mecanismos. Seguindo Wright (1985). analisaram a exploração e a super-exploração (extraindo maior valor daquele permitido para a reprodução da força de trabalho) dos membros da agricultura familiar. pelo capital financeiro). Mooney observa que há alguns “desvios” que podem ser tomados pelos agricultores para evitar a proletarização. Friedland e outros na tradição de Lenin (e em menor medida de Kautsky). Particularmente. contribui a pagar os custos da produção agrícola. Esses “desvios” implicam arrendamento. A esfera domestica torna-se uma reserva de trabalho que subsidia a esfera capitalista. A explicação de Mooney de porque essas “localizações contraditórias de classes” têm um componente subjetivista e está baseada na distinção weberiana de racionalidade substantiva e formal. Uma vez que as perspectivas de Mann-Dickinson e Friedmann por um lado e de De Janvry. A principal contribuição de Mooney tem sido lançar dúvidas se a existência convencional das relações capital-trabalho é uma adequada referência para avaliar a existência da penetração capitalista na agricultura. são. o desejo por autonomia no seu trabalho) que pela racionalidade capitalista formal. fornecendo ao mesmo tempo. na agricultura. Mooney considera que esses “desvios” podem ser mais significativos. Mooney observa que muitos agricultores são motivados mais pelas formas de racionalidade substantiva (por exemplo.13 função de “keeper of surplus labor”. que as relações capital-trabalho. Por conseguinte. Sendo esta idéia um aspecto central para a compreensão das sociedades desenvolvidas e em desenvolvimento. esses . nos contratos agrícolas. muitos dos trabalhos mais provocativos na tradição marxista dentro da “nova sociologia da agricultura” representam uma tentativa explicita ou implicitamente de realizar uma síntese. na agricultura de tempo-parcial. contratos agrícolas. Além disso. Então. num certo sentido. pela agroindústria.

apud Buttel. families. et alii. Andre Gunder. “Farms. 1988. Capitalism and Underdevelopment in Latin America.. e Buck. (1990) 19 `Frank. Morton G. and superexplotation: an integrative reappraisal. Pem Davison. F. 18 .” Rural Sociology 53 (Winter). et alii (1990). apud Buttel. F. 1967. New York: Monthly Review.agricultores tendem a ser tenazes na participação dentro das empresas e freqüentemente tendem a tomar Wenger.

O processo de industrialização ficou num impasse: ou expandir o mercado interno ou reequipar o parque industrial através . Foi nesse contexto que emergiu um amplo debate de idéias sobre os problemas sociais e econômicos dos países do ‘terceiro mundo”. a crise capitalista da década de 30 estimulou um crescimento industrial considerável para suprir o mercado interno de bens industriais. Por outro lado. reorganização político-administrativa. queda da taxa de acumulação da indústria. empréstimos e cooperação técnica. de permanecer na Mann e Dickinson (1987) replicaram vigorosamente aos argumentos de Mooney e também criticaram seu projeto de sintetizar a proposta marxista e weberiana dado que algumas dessas teses são incompatíveis. etc. No Brasil. expansão do crédito. Com esse incipiente processo de industrialização também se iniciou o ciclo de intervenção do Estado em vários setores da economia: investimento na siderurgia. Essas condições desfavoráveis marcam um novo período que pode caracterizar-se da seguinte maneira: O fortalecimento do capitalismo americano e suas novas formas de intervenção: investimentos diretos na indústria. a menos de que se adotasse uma perspectiva marxista ou leninista mecânica. o alinhamento dos países da América Latina à política da “guerra fria” significou a subordinação à estratégia de reconstrução do capitalismo sob hegemonia dos estados Unidos. inflação dos preços. A produção teórica brasileira sobre o “mundo rural”: a influência do marxismo clássico A segunda guerra mundial (1939-1945) alterou profundamente as condições do comércio internacional e impactou de forma significativa nos países exportadores de alimentos e de matérias primas. a industrialização brasileira não implicou oposições e divisões entre a burguesia comercial/aristocracia agrária e classes industriais. que possibilitou a implementação de uma política estatal de industrialização no governo Vargas. A tendência a aumentar a concentração de renda. abastecimento. Foi nesse contexto que se desenvolveu o debate no Brasil sobre a situação de atraso e as formas de superá-lo. organização sindical. Mooney argumentou que sua proposta superava as incompatibilidades das teorias marxistas e weberianas. Por sua vez. deterioração dos termos de intercâmbio comercial e em conseqüência. 3. A politização do debate resultou das condições desfavoráveis que impediam a continuidade do processo de industrialização iniciado na década de 30. Esse debate deve ser compreendido no contexto político da “guerra fria”. compras de empresas nacionais já instaladas. O êxodo rural e a existência de uma massa de desempregados nas cidades contribuíram para a aliança de classes de caráter populista.14 um dos quatro “desvios” do desenvolvimento capitalista a fim agricultura. queda do salário real. da polarização de blocos (soviético e americano) e da descolonização. a escassez de divisas. obras de infraestrutura. A diferença da Revolução industrial inglesa. ajuda militar.

da introdução de capitais estrangeiros. A primeira opção implicava um amplo movimento de apoio político para impulsionar mudanças estruturais onde a .

Dessa forma. Acioli Borges e outros. De acordo com Palmeira (1983) nos trabalhos da Comissão Nacional de Política Agrária. O debate desses anos enfocava duas questões centrais: em primeiro lugar. a transformação da agricultura era indispensável para o desenvolvimento capitalista. Desde essa nova perspectiva. a modernização das forças produtivas e as relações de produção possibilitariam a expansão do capitalismo no Brasil. Portanto. que as relações de produção por não serem capitalistas retardavam a expansão do consumo de produtos industriais.15 agricultura teria que desempenhar um papel-chave. De acordo com os ideólogos do desenvolvimento. posicionando-se ao qualificar alguns aspectos da estrutura agrária como feudais. Essa idéia era decorrente de uma visão feudalista da sociedade brasileira. A reforma agrária seria a forma proposta para superar esse obstáculo e romper a aliança de poder dominante. o interesse de estudo desses historiadores limitava-se às instituições. esse debate adquire um novo conteúdo. capitalistas ou escravistas. Por sua vez. A produção teórica brasileira sobre o “mundo rural” A produção teórica dos anos 60 sobre o “mundo rural” esteve fortemente marcada pelo debate em torno da natureza das relações de produção no campo. Um debate que já existia entre os juristas brasileiros do século XIX. autores como Nestor Duarte. Entretanto foi a polarização entre nacionalismo e entreguismo que colocou os termos do debate sobre o desenvolvimento capitalista nas décadas de 50 e 60. Nas décadas de 20 e 30 com a constituição de um campo intelectual independente e separado do Estado. existia uma clara 20 . Roberto Simonsen salienta que está preocupado com os “fatos econômicos” e não com as intenções dos legisladores. Para os ideólogos do desenvolvimento o processo de transformação estrutural20 seria conduzido pela burguesia nacional em aliança com o proletariado urbano e onde a agricultura teria o papel de produzir alimentos e matérias primas e consumir bens industriais. tentaram mostrar a existência do feudalismo no Brasil a partir dos “fatos econômicos” e da legislação. a polarização internacional existente na “guerra fria” traduziou-se a nível interno na polarização entre nacionalismo e entreguismo ou entre comunismo e democracia. a segunda opção demandaria uma rearticulação das classes e grupos sociais e econômicos vinculados aos interesses da “desnacionalização”. Em conseqüência. A estrutura agrária baseada no latifúndio-minifúndio explicava o atraso das forças produtivas e sua incapacidade de produzir alimentos a baixo custo para suprir o mercado interno e em segundo lugar. Na sua História Econômica. nos textos de Clóvis Caldeira. especificamente sobre o caráter do latifúndio. tiveram que conhecer o debate que existia entre historiadores espanhóis e portugueses acerca do feudalismo na Península Ibérica. que o atraso da agricultura era um obstáculo para o desenvolvimento capitalista. que para entender as “instituições feudais” no Brasil. Entre os anos 30 e 50 o debate entre os autores que tratavam sobre a agricultura referiam-se obrigatoriamente a esse debate. durante o segundo governo de Getúlio Vargas. o principal obstáculo estaria localizado no reduzido mercado interno. Cabe mencionar que.

.Esse processo de transformações estruturais é conhecido na literatura como “Revolução Brasileira”.

Entre seus aspectos negativos estavam: a fixação do homem no latifúndio. Para os defensores dessa interpretação a modificação da estrutura fundiária não era fundamental ao desenvolvimento do capitalismo no Brasil. a sociedade brasileira (e dos países com passado colonial) estaria dividida em dois setores: um “aberto e moderno”. ou seja. ao mesmo tempo em que ampliaria o consumo de bens industriais. E também eram a favor da participação do capital estrangeiro. Tratava-se principalmente de aumentar a produtividade agrícola através da modernização tecnológica e a reorganização da produção em grandes empresas capitalistas. sobretudo reconhecendo que a mentalidade dos capitalistas brasileiros impedia a poupança e o investimento produtivos. Segundo Palmeira (1983). no início da década de 60 o debate feudalismo x capitalismo ultrapassa o campo intelectual e torna-se uma questão política por duas razões principais. E isto passava necessariamente pela caracterização das relações dominantes na agricultura brasileira. constituindo unidades auto-suficientes separadas entre si) e resistente às mudanças. No caso do Brasil. . a agricultura e indústria progressista de São Paulo (o setor moderno) teria que vencer a resistência do outro Brasil (o setor arcaico). Assim. A visão dualista A visão dualista da sociedade brasileira deriva-se das idéias de dois sociólogos franceses (professores de universidades brasileiras): Jaques Lambert e Roger Bastide. O “moderno” em oposição ao “arcaico” era resultado da importação da “civilização industrial”. Uma visão diferente tinha Furtado quando afirmava que a estruturas arcaicas só poderiam ser rompidas por indução. criando uma população rural inútil.16 preocupação em caracterizar as relações entre proprietários e agregados ou determinadas formas de arrendamento. Segundo essa concepção dualista. o latifúndio e os capitais estrangeiros. a reforma agrária passava a ser uma condição necessária para superar a produção insuficiente de alimentos e baixar os preços dos produtos agrícolas. portanto a reforma agrária não era necessária. através de ações impostas pelo setor moderno urbano e industrial. A primeira: a emergência de um movimento camponês e as lutas pela reforma agrária. O camponês converte-se num protagonista político através da sua participação nos sindicatos rurais e nas ligas camponesas. A concepção dualista partia da premissa que a colonização gerou o latifúndio de caráter feudal (socialmente hierarquizado. Cada grupo tinha sua versão da “revolução brasileira”. O “arcaico” explicava-se pelo passado colonial assim como por resíduos de formas atrasadas de produção. a monocultura e o atraso técnico. o outro “fechado e arcaico”. Essa posição aproximava Furtado de outras correntes dualistas intituladas “marxistas” que defendiam a “revolução democráticoburguesa” para eliminar os “restos feudais” (relações de trabalho no campo). levando-lhe tecnologias e capital. A segunda: o surgimento de novos partidos e grupos de esquerda que questionaram o “monopólio” exercido pelo Partido Comunista. a definição do estágio dessa “revolução”. desempregada e pobre. O primeiro refere-se ao setor urbano e o segundo ao campo.

1963) e difundida nas publicações soviéticas. Da mesma forma. 1972:30)21 Dessa forma rejeita a visão linear da evolução dos modos de produção preconizada por Alberto Passos Guimarães (Quatro Séculos de Latifúndio. ao negar o caráter nacional da industrialização do período Kubitscheik e caracterizar como capitalistas as relações de trabalho no campo. é evidentemente falso. Uma idéia que se aproximava da visão dualista mais conservadora. O fortalecimento dessa “burguesia nacional” estaria sendo obstaculizada pela limitação do mercado interno (pobreza do campesinato). Caio Prado Júnior rejeita a idéia dos autores que viam na parceria (remuneração do trabalho e serviços prestados com participação no produto) a representação do caráter feudal da agricultura brasileira. Caio. A revolução brasileira. Tanto mais que no próprio caso da cultura algodoeira. os grupos comerciais em aliança com o imperialismo e ainda os camponeses representavam o obstáculo para o desenvolvimento capitalista. Essa visão determinista nem leva em conta os processos históricos nem aceita modificações na sucessão dos modos de produção no tempo. 1972 . foi na Revolução Brasileira (1966) que criticou profundamente o modelo desenvolvimentista. Porém caberia aos camponeses participar da aliança popular na “revolução democráticoburguesa”.Editora Brasiliense: São Paulo. “Falar assim da parceria como forma institucional de relações de trabalho e de produção que sobrevive anacronicamente de um passado feudal. Caio Prado Júnior e André Gunder Frank foram os primeiros a criticar a visão feudal da sociedade brasileira. criticaram a idéia “marxista” da coexistência de dois modos de produção: o feudal e o capitalista. De acordo com as teses “marxistas” o setor moderno estaria composto pela “burguesia nacional” em oposição às empresas estrangeiras instaladas no país (o imperialismo). Mas. Os “feudais latifundiários”. às classes médias urbanas e ao proletariado. única instância de grande expressão em que a parceria se apresenta em proporções apreciáveis ela se acha ligada não a reminiscência ou anacronismo feudais ou outros quaisquer. nem muito menos 21 Prado Júnior.17 As teses marxistas “tradicionais” e o nacional-desenvolvimentismo Segundo as teses “marxistas” das décadas de 50 e 60 as estruturas econômicas e sociais do Brasil caracterizavam-se pela coexistência de dois modos de produção: o feudal e o capitalista. na sua Formação do Brasil Contemporâneo. No início da década de 40.” (Prado Júnior. Caio Prado Júnior enfatizava as origens capitalistas do Brasil. vinculadas à empresa colonial portuguesa e à expansão do capital mercantil. e sim a circunstâncias peculiares da cotonicultura e conveniências técnicas e financeiras que lhe dizem respeito.

por que reformá-la? A teoria do capitalismo colonial não é assim um achado histórico tão inocente quanto parece. se encaixa perfeitamente nos esquemas políticos mais retrógrados”. Então uma série de formulações que estavam dispersas naquele momento foram sistematizadas em um grande debate. o que se transplantou para o Brasil foi o “feudalismo colonial”. Nesse caso é o próprio capitalismo e não o feudalismo que tem que ser abolido” (Gunder Frank apud Palmeira. defensores da tese feudal. (Guimarães). dandolhe uma densidade ideológica até então inexistente e fazendo-o. Baran) rejeita a possibilidade de coexistirem numa mesma sociedade setores independentes uns de outros. enquanto que para os defensores da tese capitalista. ou mesmo indicações concretas que fundamentassem suas idéias. reacionária. No início dos anos 60. de um certo modo.23 Os defensores da tese feudalista consideravam que. transformado-as e a seus protagonistas em elementos de um só e mesmo debate. que aproximava no tempo autores como Alberto Passos e Nestor Duarte.. 1983) As argumentações dos dois autores refletem as divergências e as lutas políticas da esquerda brasileira. que. De acordo com Palmeira (1983)22 o caráter político do debate fica evidente no confronto entre o texto de Alberto Passos Guimarães e André Gunder Frank. (. para sustentar suas posições. ia buscar em autores do passado argumentos de autoridade. cada um dos autores que defendia a tese feudal ou a tese capitalista. e Roberto Simonsen e Gunder Frank.18 poderia reconhecer a existência de outros sistemas de produção além dos definidos previamente. “Se a estrutura agrária brasileira sempre teve uma configuração capitalista por que revolucioná-la. eles dificilmente podem ser eliminados pela extensão do capitalismo ainda mais longe. 22 Citado em “Revisão crítica da produção sociológica voltada para a agricultura” ASEP-CEBRAP (1983) .. apesar de que a burguesia comercial era um elemento hegemônico do Estado português. 1983: 16). bem arrumada. aparecer como um obstáculo à prática política e à própria prática científica”. como os países mais desenvolvidos. partidários da tese capitalista e assim por diante” (Palmeira. “A questão política vivida como questão intelectual iria atribuir um sentido político às querelas intelectuais do passado.) Se o desenvolvimento atual e os males da agricultura são devidos ao capitalismo. É uma teoria conservadora. na verdade abolir o feudalismo e seguir o mesmo caminho geral de desenvolvimento. Gunder Frank influenciado pelas análises teóricas do grupo “marxista”americano da Monthly Review (Sweezy. Como disse Palmeira (1983: 16) “A necessidade de demarcar posições é que irá mover o debate. derivada logicamente desta análise é. Gunder Frank responde da seguinte forma: “A conclusão política.

23 . a menos que se indique o contrário.Todas as referências de Palmeira provêm do documento do ASEP-CEBRAP.

André Gunder Frank descobre dois terços de proletários e semiproletários. O corpo das idéias organizadas em torno desse projeto político passou a ser conhecido como “ideologia nacional-desenvolvimentista”. o latifúndio. os pesquisadores abandonaram a visão dualista capitalismo/feudalismo e passaram a ter uma postura crítica em relação aos esquemas evolutivos dos modos de produção. Diegues Júnior e o CIDA (Comité Interamericano de Desenvolvimento Agrícola). a pequena produção mercantil ou a economia camponesa vista desde a perspectiva de Chayanov. o que se transplantou foi o capitalismo. utilizando os mesmos dados chegam à conclusão que uma metade da população rural eram camponeses e a outra. O debate sobre o caráter do latifúndio levou os sociólogos rurais a discutir à problemática das classes sociais. nas suas teses de doutorado realizadas em Paris. Essas propostas representavam uma mudança importante no debate sobre as estruturas sócio-econômicas do Brasil.19 mesmo que a colonização tenha sido uma empresa feudal. que se opunha a uma classe latifundiária numa luta pela propriedade da terra. ou o escravismo colonial. onde a questão chave era determinar a existência ou não de uma classe camponesa no Brasil. baseando-se em dados do Censo Demográfico e Agrícola de 1950. É por isso que. Tanto os defensores da tese feudalista como os defensores da tese capitalista identificavam o camponês com o pequeno produtor. Para Palmeira (1983) alguns autores manipulavam as estatísticas com o objetivo de defender suas posições. Sociólogos como Moacir Palmeira e historiadores como Ciro F. Por exemplo. No início da década de 70. mas um jogo de relações políticas em que os autores estavam imersos. proprietários dos meios de produção. submetida ao mesmo tipo de exploração econômica que os trabalhadores urbanos. Dentro desse projeto a estrutura brasileira era concebida como uma “fase de transformação” orientada para o desenvolvimento nacional. S. propunham a existência de sistemas de produção específicos. que ao mesmo tempo diferenciavam do proletário. Como conseqüência. a estruturação do projeto político da “revolução democráticoburguesa” caberia a um grupo de intelectuais liderados por Hélio Jaguaribe e organizados no ISEB (Instituto Superior de Estudos Brasileiro) criado no Governo de Jucelino Kubitschek. conclui que a população rural estava constituída em quase dois terços por camponeses. Esses empresários rurais formariam parte da burguesia. Mas. os partidários da tese capitalista consideravam que não existia nada no Brasil que se assemelhasse a uma classe camponesa e que o que existia era uma classe de empresários rurais possuidores e na maior parte dos casos. a luta pela terra seria secundária. além da dualidade capitalista/feudalista: a plantation. mas não sua propriedade jurídica. Por sua vez. Por sua vez. enquanto os defensores da tese feudal afirmavam que no Brasil existia uma classe camponesa que tinha a posse efetiva dos meios de produção. E quem se opunha aos empresários rurais seria uma massa de trabalhadores agrícolas (proletários). para os defensores da tese capitalista. Maria Isaura Pereira de Queiroz. proletários. Cardoso. Como resultado do debate. Palmeira afirma que essa manipulação de dados evidencia que o que estava em jogo não era uma questão de demonstração científica. para .

com .Jaguaribe. a ideologia mais representativa desse período era o nacionalismo que permitiria articular os diversos setores sociais.

numa visão ecumênica das classes sociais. portanto. Ana Célia et al. 24 . Brasília. ausência de uma consciência nacional da burguesia brasileira que tendia a privilegiar sua essência burguesa antes que seus traços nacionais. Castro.” (Castro. sob um objetivo comum: a expansão das forças produtivas. o único capaz de promover o desenvolvimento. 1979. Essas críticas referem-se à visão da agricultura brasileira como “ineficiente” e incapaz de reagir aos estímulos da dinâmica da demanda da indústria nacional (por matérias primas e alimentos) e por produtos exportáveis. Kubitschek. Deveriam reduzir-se rapidamente as desigualdades sociais e o desequilíbrio entre o campo e a cidade. Em conseqüência. dentro do sistema de iniciativa privada e tendo no Estado a instância de planejamento coordenação e suplementação. era o nacional-capitalismo. o qual.24 O modelo nacional-capitalista entra em crise no final de 1963 devido ao reconhecimento da heterogeneidade da sociedade brasileira o que significava por um lado desigualdades regionais e por outro.20 exceção dos latifundiários comprometidos com o statu quo. as forças sociais semifeudais remanescentes. “Tal ideologia implicava na adoção de determinado modelo para a então ‘atual fase da vida nacional’. sob a direção dos ‘empreendedores nacionais’. A implementação do novo modelo possibilitaria a aliança entre a burguesia nacional e o proletariado porque o desenvolvimento capitalista levaria à criação de mais emprego. assim como ao aumento do salário e do consumo. em fazendas cooperativas médias e grandes fazendas estatais. estas tinham em comum o esforço pelo desenvolvimento. Evolução recente e situação atual da agricultura brasileira. Além de que a agricultura era incapaz de incorporar inovações tecnológicas em proporções significativas o que limitava a constituição de um mercado interno para os produtos industriais. Binagri Edições. surgiram diversas tentativas críticas da análise dualista que buscavam outra interpretação das transformações que de fato estavam acontecendo na sociedade e em especial na agricultura. em propriedades familiares médias. Compreendia Jaguaribe como nacional-capitalismo o conjunto de políticas adotadas por Vargas. autônomo e endógeno. O novo modelo nacional-trabalhista propunha uma drástica intervenção na agricultura para extinguir o seu caráter semifeudal e. 1979: 38). A necessidade de reajustar o modelo nacional-capitalista dava passo a um novo modelo o nacional-trabalhismo. A prática política dos anos seguintes mostrou a fragilidade dos postulados teóricos do nacional-desenvolvimentismo. Quadros e (até meados de 1963) Goulart. no dizer de Jaguaribe. As propriedades tradicionais seriam transformadas em modernas fazendas capitalistas. Mas para isto era necessário o concurso de todos os setores “progressistas” em torno do “desenvolvimentismo” encarnado inicialmente no Plano de Metas do Governo Kubitschek.

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reduzindo a influência de posturas ideológicas e sem fundamentação empírica. manifestava a preocupação por buscar a compreensão da realidade efetiva. libera mãode-obra e eleva o nível de rendimento dos que ficaram no campo. No entanto. através de uma transferência de mão-de-obra do setor agrícola para os outros setores. o que elimina algumas questões como. fundamentalmente. Pereira de Carvalho e Ruy Miller Paiva) aos modelos aceitos na década de 50 e 60. numa melhoria da produtividade do setor agrícola. na crítica conservadora a tese que afirma que a agricultura é um obstáculo para o desenvolvimento. b) liberar mão-deobra para a indústria.. por exemplo.” De acordo com esta concepção a agricultura financiaria o desenvolvimento industrial.. d) abrir mercado consumidor para produtos industriais. a industrialização baseada na exportação de produtos agrícolas levou a uma especialização em torno de produtos como café. Por outro lado. Affonso Celso Pastore. é refutada empiricamente. buscando responder afirmativamente à questão de se a agricultura poderia cumprir as cinco “funções” definidas por Johnston e Mellor: a) produzir alimentos a baixo preço para as cidades. a diferença entre o Nordeste “tradicional” e o Centro-Sul “moderno”. estava na forma de encarar o objeto de estudo. a situação do pequeno produtor e as particularidades da pequena produção. baseou-se na proposta teórica-metodológica de T. A análise centrase na posição de equilíbrio e as políticas propostas têm como objetivo a maximização dos recursos disponíveis. Nessa visão a agricultura tem um lugar central no desenvolvimento econômico. a um só tempo. A pesquisa em nível universitário. o que. por sua aparente “despolitização” e por estarem construídas a partir de levantamento de dados nas pesquisas de campo para sustentar os postulados teóricos. sem gerar uma crise de abastecimento ou de fornecimento de matérias-primas. Schultz. Nesta perspectiva neoclássica a empresa agrícola é considerada uma empresa capitalista comum. a diferença fundamental entre essa e outras concepções em relação às funções que deveria cumprir a agricultura. aumentando a taxa de remuneração dos capitais investidos. A visão modernizante Por sua vez a crítica conservadora (Delfim Netto. Para Delfim Neto apud Castro (1979:50) “. c) fornecer recursos para a formação de capital.21 As análises da nova fase distinguem-se das interpretações anteriores.W. Yufiro Hayami e Vernon Ruttan. Segundo Delfim Neto essa política a favor da agricultura de exportação manteve no mercado produtores . e) produzir gêneros exportáveis para possibilitar a capacidade de importação. Por exemplo. dependeria do tipo de insumos utilizados e disponíveis (intensidade do fator capital no Centro-Sul e intensidade do fator Trabalho no Nordeste) e não de fatores estruturais. Enquanto na visão dualista o “obstáculo” ao desenvolvimento poderia ser eliminado através da reforma agrária e reformas estruturais. a diversidade das relações de produção. a chave do processo de desenvolvimento econômico reside. cacau e açúcar.

os autores divergem quando se trata das relações sociais no campo. considera que a agricultura longe de cumprir um papel passivo. Para alguns (Francisco de Oliveira. USP. Alguns pontos devem ser salientados dessa crítica radical: a) O Brasil foi construído historicamente a partir da expansão do capitalismo europeu e seu desenvolvimento capitalista pode ser caracterizado como “dependente” ou “periférico”. diferentes relações de produção nas formações econômico-sociais e “subsunção formal do trabalho ao capital”. porque a decisão de um grande número de produtores afetaria os preços dos fatores de produção e essas modificações no preços reduziriam as vantagens da nova tecnologia. Francisco de Oliveira e Maria de Conceição de d’Íncao. O problema do café no Brasil. Para outros (Maria Isaura Delfin Neto. No seu estudo sobre o café. a adoção de uma nova tecnologia depende da avaliação que faça o agricultor do custo-benéficio. os trabalhadores assalariados em lugar de lutar pela terra deveriam organizarse nos sindicatos e lutar pelas suas reivindicações de classe. Miller Paiva situa-se numa das correntes mais importantes conhecidas como “modernizadoras” da agricultura. E segundo. Para ele. desconsiderando outras variáveis econômicas importantes como informação. b) O desenvolvimento do capitalismo necessitava recriar formas não capitalistas de produção para seu próprio funcionamento e portanto não se constituem em “obstáculo” de seu próprio desenvolvimento. Outros autores como. a questão da mudança tecnológica implicava dois aspectos. 25 . 1979. Nas suas análises incorpora variáveis não econômicas como a demografia. Rio de Janeiro: Editora da Fundação Getúlio Vargas. imprime suas próprias características no desenvolvimento urbanoindustrial. Maria Rita Loureiro. Por sua vez.22 ineficientes. disponibilidade de capital. Octávio Guilherme Velho. Delfim Neto25 considerava que o livre mercado liberaria fatores de produção para serem utilizados em outras atividades mais lucrativas (criação de gado e de aves). Tese de Doutorado. A crítica radical A crítica radical (uma visão modificada da tese capitalista) às posições dualistas baseia-se na capacidade que tem o desenvolvimento capitalista de refuncionalizar as formas existentes e de criar outras relações não-capitalistas de produção. Ruy Miller Paiva centrava sua análise nos preços para explicar a mudança tecnológica na agricultura. Em consequência. Essa crítica é sustentada por autores como José de Souza Martins. Maria de Conceição d’Incao) as relações sociais no campo são predominantemente capitalistas e portanto se faria desnecessário a reforma agrária. A. a disseminação de novas tecnologias tinha um significado macroeconômico. Primeiro. Porém. Esses autores na busca de elaborar uma análise mais flexível introduziram noções como: articulação de diferentes modos de produção. Antônio Barros de Castro afirmavam que a agricultura desempenhou seu papel requerido pela industrialização. A diferença de outros autores “modernizantes” . a estrutura social e o processo histórico.

culturais e sociais. sociais e culturais que estão acontecendo em escala mundial e que estão mudando o caráter dos empregos e a organização das economias. a existência de um campesinato brasileiro estaria evidenciado não só pela posse jurídica da terra. os hábitos de produção e de consumo. a saturação dos mercados internos da Europa e do Japão. o que Ford fez foi racionalizar velhas tecnologias e uma divisão do trabalho que já existia. No entanto. A crise do regime fordista está associada à perda da hegemonia política e financeira dos Estados Unidos. já em 1914. Taylor. em 1911 tinha sido publicados Os Princípios de Administração Científica de F. Porém. Mesmo assim. W. Com o fordismo emergia uma nova sociedade baseada no controle racional do trabalho. Antes. As transformações do capitalismo mundial neste fim de século estão mudando radicalmente os processos de produção. que vigoraram desde o fim da Segunda Guerra Mundial até inícios dos anos 70. como resultado da racionalização fordista.23 Pereira de Queirós. Essas contribuições se expressam na incorporação de novos temas como a questão do meio ambiente. de novas contribuições teóricas e metodológicas. na gerência da produção e no consumo de massa. milhares de trabalhadores estavam sendo deslocados da manufatura. do regime de acumulação fordista para outro. Autores como Graziano da Silva (1996) percebem a emergência de um novo rural brasileiro produto da urbanização do meio rural brasileiro e da industrialização da agricultura e que formam parte de profundas transformações econômicas. Na segunda metade da década de 60. as noções do que é rural e do que é urbano. José de Sousa Martins. Henry Ford com o objetivo de aumentar a produtividade. o desenvolvimento sustentável (José Elí da Veiga) e a emergência de um “novo mundo rural” (Graziano da Silva). desde finais do século passado. Estamos vivendo numa era de incerteza. 1992)26. o perfil dos trabalhadores. que descrevia como uma melhor organização do trabalho (que implicava uma racionalização do tempo e de cada movimento do trabalhador) poderia aumentar a produtividade. caracterizada por um processo de transição. tecnologias. ainda que lentamente. o significado do espaço e do tempo e as práticas do Estado. Nos Estados Unidos . O regime fordista pode ser definido como um conjunto de práticas de controle do trabalho. O objetivo da jornada de oito horas e os cinco dólares não era só aumentar a produtividade mas permitir que os trabalhadores tivessem as condições de tornar-se consumidores em massa. observa-se uma absorção. introduzia a jornada de 8 horas e 5 dólares de recompensa para os trabalhadores de sua fábrica de automóveis em Michigan. 4. que alguns autores denominam de “acumulação flexível” (Harvey. Octávio Guilherme Velho). exigia a exportação dos excedentes. A produção teórica brasileira sobre o “mundo rural” Apesar de que a nível geral existe uma espécie de estancamento e até refluxo da produção teórica sobre o “mundo rural”. hábitos de consumo e configurações de poder político e econômico. mas pelas práticas e representações ideológicas.

David.esse declínio da demanda efetiva foi compensado pela produção de armas para a guerra de Vietnã e pelo combate à pobreza. Condição Pós-moderna. a partir de 26 Harvey.Edições Loyola: São Paulo. 1992 . Porém.

Nesse mesmo período. como o setor serviços. a mudança mais importante têm sido a queda do emprego regular e o crescimento do trabalho em tempo-parcial. com o crescimento de outros setores da economia. A flexibilização do mercado de trabalho se dá. Apesar de que a flexibilização do mercado de trabalho não tem criado uma forte insatisfação trabalhista porque às vezes pode ser mutuamente benéfica. O regime de “acumulação flexível” rompe com a “rigidez” do fordismo e caracteriza-se pela emergência de mercados de trabalho e processos de produção mais flexíveis. A subcontratação organizada possibilita o surgimento de pequenos negócios. quando as empresas obrigam os trabalhadores regulares a trabalhar mais nas épocas pico de demanda. (Harvey. Porém. temporário ou subcontratado. enquanto a intensidade de trabalho se reduz com a queda da demanda. O mercado de trabalho no regime de acumulação “flexível” caracteriza-se pela redução dos trabalhadores em tempo integral e pelo grau de adaptação às novas condições. As novas formas de organização da produção colocaram em xeque a organização tradicional. os “trabalhadores “flexíveis” aumentaram 16% enquanto os empregos permanentes caíram em 6%. comerciais e organizacionais. por exemplo. cerca de um terço dos novos empregos criados estavam na categoria de “temporários”. Na Inglaterra. O excedente de força de trabalho e a redução do poder dos sindicatos têm permitido aos patrões impor contratos de trabalho mais flexíveis. marca o início dos graves problemas fiscais dos Estados Unidos que seria resolvido a custas da aceleração da inflação. novas formas de financiamento e inovações tecnológicas. ser flexível e geograficamente móvel. nos Estados Unidos. a longo prazo. assim como por rápidas mudanças das práticas de consumo e do surgimento de novos setores de produção. Em 1983. a queda da produtividade e da lucratividade das empresas. (Harvey. a redução do emprego e destruição do poder sindical. Esse novo regime de acumulação cria as condições para o crescimento do emprego no chamado “setor serviço” e uma alta mobilidade geográfica ou uma compressão do espaço tempo. ou seja. As economias de escalas foram substituídas pela produção de pequenas quantidades de bens a preços baixos. Porém. 1992: 148) A subcontratação e a . entre 1984 e 1985. Como contraponto. a falta de segurança do emprego e dos direitos de pensão afetará negativamente aos trabalhadores. Essas possibilidades de comunicação e a redução do espaço têm aumentado a capacidade dos empregadores para o controle da força de trabalho e em conseqüência. Os “trabalhadores flexíveis” são contratados facilmente e são demitidos sem custos quando a empresa está em crise. provocando o fechamento de numerosas fábricas e estimulando um processo de desindustrialização. a revista Fortune publicou que setenta e cinco por cento das peças de máquina eram produzidas em lotes de cinquenta ou menos. produto da redução dos custos de transporte e da comunicação via satélite. Também se observa o crescimento de economias “informais” nos países capitalistas avançados e a reformulação do papel das mulheres no mercado de trabalho.24 1966. 1992: 144) Mudanças importantes aconteceram também na organização industrial. cresce o número dos trabalhadores temporários e subcontratados sem nenhuma garantia de emprego.

A flexibilização .produção de pequenos lotes permitiram superar a rigidez do sistema fordista e atender a um mercado mais diversificado e dinâmico.

também foi reduzido o tempo de giro no consumo. como a assistência técnica e a extensão rural. saúde. O lazer. Nesse contexto. conservação da natureza. elemento central para a lucratividade das empresas. mas um trabalhador autônomo que combina diversas formas de ocupação (assalariadas ou não). e às mudanças nos gostos dos consumidores. Em consequência. os funcionalistas americanos continuaram a identificar o campo com o atraso para justificar as ações de fora. A agricultura deixou de ser um setor relativamente autárquico. robôs) e novas formas organizacionais reduziram o tempo de giro na produção. “Em resumo. máquinas e equipamentos que permitissem a superação da pobreza dos agricultores (Graziano da Silva. o controle da informação assim como a rapidez na análise de dados. 1996). Por sua vez. o parttime não é mais um fazendeiro especializado. As novas tecnologias ( automação. moradia e prestação de serviços pessoais. imóveis e finanças) em detrimento do emprego industrial. com seu próprio mercado de trabalho. No processo de flexibilização e de mobilidade geográfica. De que forma essas transformações estão afetando o “mundo rural”? Para alguns autores como Graziano da Silva (1996)27. Com as transformações na produção e no consumo também emergiu uma nova estrutura de emprego que privilegia o emprego no setor de serviços (educação. o turismo. ou seja caiu a média da vida útil dos bens produzidos. e se integrou ao resto da economia. Essa é a sua característica nova: uma . duas realidades em confronto.25 também provocou a aceleração das inovações e as conquistas de novos mercados. conservação do meio ambiente são novas atividades em crescimento no campo. adubos químicos. são essenciais para a tomada de decisões. a informação e a ciência tornaram-se uma mercadoria. O rápido acesso às informações assim como ao conhecimento científico pode significar altas margens de lucro. Agora a agricultura não pode ser entendida sem sua vinculação com os setores que lhes fornecem os insumos industriais e lhes compram seus produtos. turismo. A idéia que identifica o “rural” exclusivamente com a agricultura não corresponde com a realidade. moradia. No “mundo rural” estão emergindo novas formas sociais e de organização econômica na medida em que a sociedade transita para um novo regime de acumulação. dos preços das matérias primas. O “mundo rural” nos países desenvolvidos tem um novo ator social: o agricultor em tempo parcial (part-time farmer) e que se caracteriza por combinar atividades agropecuárias com outras atividades não-agrícolas seja dentro da propriedade ou fora dela. a diferença entre o urbano e o rural é cada vez menos importante. Para sobreviver. seguros. tanto em atividades urbano-industrial ou nas atividades emergentes de lazer. A idéia de que as cidades representam o “novo” e o “progresso” e que o campo o “atraso” e o “velho” baseia-se na concepção de autores clássicos como Marx e Weber que identificavam as cidades com o capitalismo e o campo com o feudalismo. a prestação de serviços. as empresas devem ter a capacidade de responder às variações da taxa de câmbio. As cidades não podem continuar a ser sinônimos de produção industrial nem o campo de produção agrícola e pecuária. A modernização da agricultura era entendida como a introdução de sementes geneticamente melhoradas.

1996:4). 27 Graziano da silva.” (Graziano da Silva. O novo rural. José.pluriatividade que combina atividades agrícolas e não-agrícolas. 1996 (mimeo) .

de animais jovens. Muitas indústrias deslocam-se para o campo buscando uma maior proximidade de matérias-primas e de mão-de-obra barata e desindicalizada. Kautsky) consideravam que esse processo de proletarização implicava o desaparecimento do campesinato. algumas características próprias do mundo rural como as formas flexíveis de contratação e o emprego sazonal e temporário. Primeiro. O surgimento do part-time nos países capitalistas desenvolvidos é resultado da redução do tempo de trabalho necessário dos agricultores devido ao aumento da mecanização das atividades agrícolas e da automação das atividades de criação. assistência técnica. . vidro. Ainda Graziano da Silva (1996:6-7) enfatiza outros fenômenos relacionados com a pluriatividade nos países desenvolvidos: “a) O ‘desmonte’ das unidades produtivas em função da possibilidade de externalização de várias atividades que antes tinham que ser realizadas na própria fazenda através de contratação de serviços externos (aluguel de máquinas.26 É precisamente essa combinação de atividades não-agrícolas fora de seu estabelecimento que diferencia o part-time da visão marxista clássica da proletarização do campesinato. e o trabalho a domicílio. Além disso. b) especialização produtiva crescente permitindo o aparecimento de novos produtos e de mercados secundários. individualizou-se a gestão produtiva das propriedades agrícolas e com isso os membros da família foram liberados para realizar outras atividades nãoagrícolas fora da propriedade. Em consequência. através da combinação de atividades tipicamente urbanas com a gerência especificamente agropecuária (Graziano da Silva. etc. segundo. constituem a nova fisonomia da indústria do final do século XX. O novo “mundo rural” caracteriza-se pelo crescimento das atividades rurais nãoagrícolas e pela transferência de atividades urbanas e industrias para o campo. com o objetivo de diminuir os custos. Igualmente. 1996). mudas e insumo. etc. têxtil. bebidas. A combinação de atividades agrícolas com não-agrícolas faz parte de um processo de “desespecialização” da divisão social do trabalho e que se origina nas mudanças recentes no processo de trabalho tanto na indústria fordista como na agricultura moderna. A pluriatividade manifesta-se de duas formas. como por exemplo. os clássicos (Marx. através de um mercado de trabalho relativamente indiferenciado.).) e. que combina desde a prestação de serviços manuais até o emprego temporário nas indústrias tradicionais (agroindústrias. Ironicamente. muitas empresas têm migrado para o campo na busca de uma melhor qualidade de vida para seus funcionários e também por que no campo existe menor controle da poluição. forma característica de transição da manufatura à indústria mecanizada. assim como pela redução de áreas cultivadas e/ou a extensificação das atividades agropecuárias.

o “mundo rural” ganhou novas funções e novos tipos de ocupações (Graziano da Silva.. peixes e outros animais. lazer e outros serviços) e com a preservação do meio ambiente. Muitas vezes os proprietários dessas pequenas áreas combinan o lazer com o desenvolvimento de alguma atividade produtiva (criação de abelha. mecânicos. 1996). Considerações finais Conclui-se que o “mundo rural” não pode continuar a ser considerado apenas como o espaço onde se realiza a produção agropecuária e fornecedor de mão-de-obra. especialmente de profissões técnicas e administrativas de conteúdo tipicamente urbano. exigem um marco conceitual distinto que possibilite entender essas mudanças. frutas e hortaliças.. O meio rural está criando um outro tipo de riqueza. Em algumas regiões do Rio Grande do Sul. que se assalariam nas fábricas de calçados. e) melhoria na infraestrutura social e de lazer. atividades de recreação e turismo). têm crescido as atividades não agrícolas. produção de flores e plantas ornamentais. saneamento básico. assim como também cabe salientar a multiplicação de sítios de recreio (pequenas áreas de lazer de famílias de classe média urbana). Os conceitos de “urbano” e “rural” resultam obsoletos e não há elementos teóricos que nos expliquem as complexas relações entre eles. d) crescimento do emprego qualificado no meio rural. constituída de bens e serviços não materiais. “. emboram permaneçam residindo e vivendo no espaço rural-agrário. prestadores de serviços. aves.27 c) formação de redes vinculando fornecedores de insumos. no Brasil e na América Latina nas últimas décadas. a desarticulação do sistema agrícola colonial dá lugar à emergência da ‘part-time farming’ e da ‘pluriactivite’ da força de trabalho dos colonos. agroindústrias e empresas de distribuição comercial. ou seja. nos países subdesenvolvidos também pode-se observar a emergência da pluriatividade e do “part-farmer”.” (Schneider. 1996: 310) No campo brasileiro. além de uma melhora substancial na qualidade de vida para os que moram nas zonas rurais. agricultores. como motoristas. assistência médica e educação. As transformações da agricultura. turismo. além de maiores facilidades de transporte e meios de comunicação. . possibilitando maiores facilidades de acesso aos bens públicos como previdência.” Apesar das diferenças. principalmente aquelas relacionadas com a proliferação das agroindústrias e as relacionadas com a urbanização do meio rural (moradia. digitadores e profissionais liberais vinculados a atividades rurais nãoagrícolas.

. deriva-se daí a necessidade de estudar. determinarem novas questões a serem analisadas e esboçar tendências e definir as características. De acordo com Tavares dos Santos (1991). o campo deve continuar (ou não) a ser objeto de estudo da Teoria Sociológica. Como nos desafia Cavalcanti (1993:62). como descobrir facetas diferentes de fenômenos já estudados. os resultados desses estudos parecem requerer novos questionamentos e instrumentos teóricos-metodológicos que possibilitem “.. A produção teórica sobre o “mundo rural” produzida nos últimos quarenta anos merece ser objeto de avaliação profunda e de reflexão crítica que permita encontrar seus obstáculos epistemológicos frente às transformações da sociedade contemporânea. pois sua estrutura interna baseia-se na propriedade e no uso da terra como fator produtivo e simbólico. desde uma perspectiva sociológica. em uma formação social determinada”. uma “extrema ideologização”. dos clássicos aos contemporâneos. Tavares dos Santos (1991: 15). Grossi Porto. torna-se mais dependente da sociedade global.. foram estudados fenômenos relativos à estrutura da posse da terra. 1993). os fenômenos que ocorrem no espaço agrário (Tavares dos Santos. mas não necessariamente objetos científicos. de acordo com as quais. que dificultam a construção de uma nova abordagem teórica sobre os processos agrários. 1993) que explore novas perspectivas teórico-metodológicas e defina novos temas de pesquisa. resultado da crescente exclusão social e onde a perspectiva política “. apesar das semelhanças que esta tem com outros setores. (Gómez. assentamentos. até a atualidade. 1991). na medida em que perde sua importância relativa. um novo enfoque sobre a agricultura”. Na mesma linha de Gómez (1994). Entendendo o espaço agrário “como um locus de relações sociais de produção específicas. além do que. inovações tecnológicas na agricultura e estímulos para exportação) e seus impactos na organização da produção e nas relações de trabalho. Ainda. a distinção entre cidade e campo”. No entanto. 1993.a explicação dos múltiplos entrelaçamentos existentes entre esses diferentes fenômenos e a sociedade em termos amplos. como por exemplo. Nesse período. o valor das agroindústrias supera o valor da terra. chamam a atenção sobre a necessidade de “revisitar o campo” e de construir um outro “olhar sociológico” (Tavares dos Santos. enfatiza que a produção teórica brasileira sobre o “rural” tem sofrido. alguns sociólogos brasileiros (Cavalcanti.parece sobre determinar a visão analítica”. às políticas de intervenção do Estado para a modernização da agricultura (novas áreas de colonização. 1991).28 A utilização de critérios espaciais e ocupacionais é insuficiente para explicar as especificidades da sociedade rural. nas últimas décadas os estudos sobre o “campo” representam parte substancial da produção sociológica brasileira. (Tavares dos Santos 1991: 15). O “rural” representa um conjunto de objetos empíricos. mais especialmente. Para formar esses objetos científicos é necessário fazer uso de conceitos e teorias disponíveis no conhecimento sociológico.. A definição de um novo campo de estudos da . (D’incao et al. A “tarefa” de revisitar o campo se traduz na definição de fenômenos antes não considerados na análise. “trata-se de reconhecer que tais processos sociais agrários constituem expressões do processo histórico da divisão social do trabalho. A partir de uma perspectiva teórica. 1994).

o desenvolvimento da sociologia está vinculado à mudança social e a uma situação de crise. Como afirma Solari (1972).sociologia sobre a agricultura implica algumas limitações e impasses científicos. .

Como foi mencionado anteriormente. Kautsky e Chayanov. das ocupações agrícolas em sentido amplo. Lenin. (Tavares dos Santos. A partir da leitura dos estudos agrários recentes. em alguns países de capitalismo avançado como Estados Unidos. no que se referem aos processos sociais que aí se desenvolvem. O debate destas perspectivas teórico-metodológicas poderiam contribuir na definição de novos problemas ou questões. porque pouco se afasta dos antigos conceitos dos estudos da comunidade e pela sua incapacidade de criticar o sistema no qual se insere (Friedland apud Cavalcanti. busca-se um . seja pela significância e abrangência dos temas selecionados. Como afirma (Grossi. (que em certa medida é produto da crise do marxismo estruturalista e da análise funcionalista da “sociologia rural”). Inglaterra. Tavares dos Santos (1993). seja pelo pouco rigor científico no tratamento dos mesmos. As críticas têm levado teóricos americanos. foram emitidos pareceres contra ou a favor da continuidade dessas análises. provoca efeitos negativos na expansão da análise sociológica do campo brasileiro. a partir das quais. Nesse caminho. predominantes na Sociologia Rural Americana dos anos 60 ou pela tendência a se utilizar esquemas classificatórios rígidos para enquadrar grupos e classes sociais. Espanha e Alemanha. A Sociologia Rural nos Estados Unidos está sendo questionada pela sua fragilidade. Esta situação agrava-se pelo fato de que na sociologia rural há uma certa inércia explicativa. . é uma condição necessária para novas abordagens. produto de obstáculos epistemológicos como. 1993). Esse movimento crítico é denominado “nova sociologia rural” ou “sociologia da agricultura”. na década de 80 foram feitas algumas avaliações sobre a produção sociológica que teve o campo como objeto e. é dentro dessa preocupação epistemológica que tem emergido. questiona em que medida a denominada “crise dos paradigmas”. Canadá. sua vinculação às tradições teóricometodológicas funcionalistas. 1993). “economia política da agricultura” ou “sociologia dos processos agrários”. “sociologia da agricultura”. Esses problemas têm uma relação direta com a chamada crise dos paradigmas. para converter-se num ramo das sociologias das ocupações. para facilitar comparações com outros países (Cavalcanti. quando a agricultura nesse país atravessa uma crise profunda. Avaliar essa produção. dado o processo de urbanização da sociedade brasileira. 1993: 57). França. além de ser uma obrigação de ofício. desde meados da década de 70.28 Nos Estados Unidos essa corrente intelectual surge em meados da década de 70. por exemplo. a sociologia rural mostra-se como expressão da dominação do campo pela cidade e. os estudos realizados até agora requerem uma análise crítica sobre as possibilidades. uma nova tendência intelectual denominada “nova sociologia rural”. ao menos em seu conteúdo tradicional. pode-se propor alguns elementos que possibilitem a superação a denominada “crise dos paradigmas” e construir um outro olhar sobre o campo. a sociologia rural teria que desaparecer.29 Dessa forma. Segundo Cavalcanti (1993). completado esse processo. baseado em tendências neomarxistas e neo-weberianas que resgatam as constribuições de Marx. obstáculos e tendências da agricultura brasileira. a propor novas questões de estudos. Apesar de algumas revisões na produção teórica sobre os processos sociais agrários. 1991).

..retorno que possibilite ir ao encontro do novo. Trata-se de “. percorrer os mesmos 28 Os teóricos que formam parte da “sociologia da agricultura” publicam a revista International Journal of Sociology and Food .

Um terceiro obstáculo refere-se às análises sobre as classes sociais e os grupos sociais. quanto questões emergentes que carecem de reflexões sociológicas pertinentes. quase sempre.” A avaliação da produção teórica sobre o “mundo rural” possibilitará o delineamento de perspectivas de análise que abordem tanto temáticas já tratadas. O primeiro. Dentro desta visão. Com o olhar atento ao invisível. as práticas sociais dos grupos dominados são entendidas dentro do processo de modernização. Tavares dos Santos (1991) identifica alguns obstáculos epistemológicos da Sociologia “Rural” brasileira. horizontes mais abrangentes. E ao não existente em visitas anteriores. ao enterrado. para retornar. no âmbito da construção teórica. buscou-se a análise das classes a partir da sua posição no processo produtivo. (Grossi. Nelas. Finalmente se pode afirmar que a influência e predominância do “marxismo clássico” na sociologia rural brasileira têm impedido um desenvolvimento mais amplo das análises acerca da nova dinâmica do “mundo rural”. O segundo. Visões que alcancem. assumindo uma postura dualista: o “tradicional” e o “moderno” ou “rural” e o “urbano”. para enfocá-las sob novas dimensões. ao dissimulado.30 caminhos. com novos olhos. visão esta que está presente especialmente nos estudos sobre a difusão de inovações. é a vinculação da Sociologia “Rural” a uma perspectiva evolucionista do pensamento histórico. é a sua vinculação com a orientação funcionalista.. as mesmas trilhas e veredas. Essa visão é criticada por Marx quando reconhece uma nãolinearidade do processo histórico. Contudo é possível observar que há. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS . 1993). mesmo com lentidão. a emergência de uma nova forma de pensar o “mundo rural” no Brasil seguindo a vertente internacional que incorpora de forma criativa as contribuições teóricas de Weber e Marx.

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e Newby. Ciências Sociais Hoje. grupos e instituições.. 1993. Entretanto. Os resultados da pesquisa sociológica não são de interesse apenas de sociólogos. 1. A revolução brasileira. o maior interessado na produção e sistematização do conhecimento sociológico atualmente é o Estado. 347-356. em diferentes graus de intensidade. São Paulo. 1996. Sérgio. Enquanto o indivíduo na sua singularidade é estudado pela psicologia. 1991 WRIGHT. A construção de um outro olhar sociológico sobre o campo. Erick Olin. Porto Alegre. Howard (org. analisando os homens em suas relações de interdependência. Montclair. tentando explicá-los. a diversas outras áreas do saber. 1972. Howard. “Capitalism in agriculture and capitalism agriculture: the Italian case. Enrico. Boulder. p. São Paulo: Brasileinse. estuda o comportamento humano em função do meio e os processos que interligam os indivíduos em associações. Osmund & Co. José Vicente.. Ensaios FEE. São Paulo: ANPOCS/Vértice. O Objeto da sociologia rural. PRADO JR. Vida Rural e mudança social. Tamás e Queda Oriowaldo. tempo de produção e desenvolvimento capitalista na agricultura: uma reconsideração da tese de Mann-Dickinson. 1987.” In: Buttel. Patrick H. 1980 NEWBY. Compreender as diferentes sociedades e culturas é um dos objetivos da sociologia. ano 17-n. Associação dos sociólogos de São Paulo (ASEP)Centro Brasileiro de Análise e Planejamento. São Paulo: Companhia Editora Nacional. vol. normalmente o principal financiador da pesquisa desta disciplina científica. a Sociologia tem uma base teórico-metodológica. London: Verso Editions. o papel da política na sociedade ou o comportamento religioso —.32 MOONEY. CO: Westview Press. 1988 MOTTURA.Número Especial. Patrick H. . 1973. Os colonos da indústria calçadista e as transformações da agricultura familiar. NJ: Allanheld. Giovanni e Pugliese. SOLARI. TAVARES DOS SANTOS. MOONEY. José Vicente. Caio. Literatura Econômica. 1985 O que é Sociologia A Sociologia é uma das ciências humanas que estuda as unidades que formam a sociedade. 9(1): 7-26. 32. Cadernos de Sociologia. RS. Crítica da Sociologia Rural e a construção de uma outra Sociologia dos processos agrários. Classes. ou seja. Comércio Exterior. REVISÃO CRÍTICA DA PRODUÇÃO SOCIOLÓGICA VOLTADA PARA A AGRICULTURA. 4. n. (UFRGS). a Sociologia pode vir a interessar. Frederick H. 24-25 de março de 1983 SCHNEIDER. abril de 1982. In: Szmrecsányi. México. Porto Alegre: Programa de PósGraduação em Sociologia. que serve para estudar os fenômenos sociais. My Own Boss. Cobrindo todas as áreas do convívio humano — desde as relações na família até a organização das grandes empresas. TAVARES DOS SANTOS. Tempo de trabalho.) The Rural Sociology of the Advanced Societies. Aldo. El desafio de la sociologia rural en la actualidad.

o surgimento do capitalismo ou a gênese do Estado Moderno). Em alguns campos de estudo da Sociologia. o conhecimento sociológico. E pesquisam os microprocessos como relações interpessoais. processos sociais que representam divergência. A Sociologia ocupa-se. de si mesmas como seres inevitavelmente sociais. teorias e métodos.Assim como toda ciência. Isto ajuda a desenvolver modelos que possam entender mudanças sociais e como os indivíduos responderão a essas mudanças. Entretanto. mas também desenvolver um "antídoto" para a desintegração social. Sociólogos fazem uso frequente de técnicas quantitativas de pesquisa social (como a estatística) para descrever padrões generalizados nas relações sociais. além de instituições como a família. às pesquisas micro-sociológicas. Os cursos de técnicas quantitativas/qualitativas servem. ao mesmo tempo. inclusive crime e divórcio. a experiência de pessoas do mundo é crescentemente atomizada e dispersada. A Sociologia surgiu como uma disciplina no século XVIII. o uso de ambas as técnicas de coleta de dados pode ser complementar. normalmente. Ainda que esta tarefa não seja objetivamente alcançável. consequentemente. discussões em grupo e métodos etnográficos — permitem um melhor entendimento dos processos sociais de acordo com o objetivo explicativo. uma vez que os estudos micro-sociológicos podem estar associados ou ajudarem no melhor entendimento de problemas macrosociológicos. ou desarranjos. as técnicas qualitativas — como entrevistas dirigidas. das suas múltiplas relações sociais e. História |[pic] |[pic] |[pic] |[pic] | . a objetivos explicativos distintos ou dependem da natureza do objeto explicado por certa pesquisa sociológica: o uso das técnicas quantitativas é associado às pesquisas macro-sociológicas. procurando explicá-los no seu significado e importância singulares. é tarefa da Sociologia transformar as malhas da rede com a qual a ela capta a realidade social cada vez mais estreitas. Hoje os sociólogos pesquisam macroestruturas inerentes à organização da sociedade. Por essa razão. a Sociologia pretende explicar a totalidade do seu universo de pesquisa. na forma de resposta acadêmica para um desafio de modernidade: se o mundo está ficando mais integrado. Sociólogos não só esperavam entender o que unia os grupos sociais. nestas estruturas. e também se interessa por eventos únicos sujeitos à inferência sociológica (como. das observações do que é repetitivo nas relações sociais para daí formular generalizações teóricas. como raça ou etnicidade. classe e gênero. por exemplo. através dos seus conceitos. as qualitativas. pode constituir para as pessoas um excelente instrumento de compreensão das situações com que se defrontam na vida cotidiana.

políticas e culturais ocorridas no século XVIII. No entanto. Assim é que a Revolução Industrial significou. que esperava unificar todos os estudos relativos ao homem — inclusive a História. Ela representou a racionalização da produção da materialidade da vida social. Neste momento.talvez como o último pensador clássico ou o primeiro pensador moderno. da Ciência Política e da Antropologia. e ele acreditava que toda a vida humana tinha atravessado as mesmas fases históricas distintas e que. algo mais do que a introdução da máquina a vapor. como as Revoluções Industrial e Francesa. (corrente que teve grande força no século XIX). seu esquema sociológico era tipicamente positivista. Montesquieu também pode ser encarado como um dos fundadores da Sociologia . as terras e as ferramentas sob o controle de um grupo social. a Psicologia e a Economia. baseadas principalmente nas tradições. se a pessoa pudesse compreender este progresso.| | | |Gilberto Freyre | |Karl Marx | |Vilfredo Pareto | |Émile Durkheim |[pic] | | |[pic] | |[pic] | | |Georg Simmel |Ferdinand Tönnies |Max Weber | A Sociologia é uma área de interesse muito recente. colocaram em destaque mudanças significativas da vida em sociedade com relação a suas formas passadas. Em Comte. desvinculando-se das preocupações especulativas e metafísicas e diferenciandose progressivamente enquanto forma racional e sistemática de compreensão da mesma. Antes. A Sociologia surge no século XIX como forma de entender essas mudanças e explicá-las. portanto. O triunfo da indústria capitalista foi pouco a pouco concentrando as máquinas. se consolida . que a Sociologia é datada historicamente e que o seu surgimento está vinculado à consolidação do capitalismo moderno. de forma muito clara. Esta disciplina marca uma mudança na maneira de se pensar a realidade social. poderia prescrever os "remédios" para os problemas de ordem social. As transformações econômicas. mas foi a primeira ciência social a se institucionalizar. é necessário frisar. 2 Em que pese o termo Sociologie tenha sido criado por Auguste Comte (em 1838). para o pensamento social. convertendo grandes massas camponesas em trabalhadores industriais.

Mas uma outra circunstância concorreria também para a sua formação. Há paralelamente um aumento do funcionalismo do Estado que representa um aumento da burocratização de suas funções e que está ligado majoritariamente aos estratos médios da população. como por seu novo protagonismo político já que junto a estas transformações de ordem econômica pôde-se perceber o papel ativo da sociedade e seus diversos componentes na produção e reprodução da vida social. Trata-se das modificações que vinham ocorrendo nas formas de pensamento. formação de sindicatos e movimentos revolucionários.. das quais podem se citar. Não demorou para que as manifestações de revolta dos trabalhadores se iniciassem. de matriz teórico-metodológica hermenêutico-compreensiva. fundadas pelos seus autores clássicos. pode-se claramente observar que a Sociologia tem ao menos três linhas mestras explicativas. O desaparecimento dos proprietários rurais. a Sociologia não é uma ciência de apenas uma orientação teóricometodológica dominante. e (3) a linha de explicação sociológica dialética. Este fato é importante para o surgimento da Sociologia. atos de sabotagem e exploração de algumas oficinas. tiveram um efeito traumático sobre milhões de seres humanos ao modificar radicalmente suas formas tradicionais de vida. evoluindo para a criação de associações livres. que divide de modo central a sociedade entre burgueses (donos dos meios de produção) e proletários (possuidores apenas de sua força de trabalho).a sociedade capitalista. (2) a sociologia compreensiva iniciada por Max Weber. a imposição de prolongadas horas de trabalho. originada pelo Iluminismo. As transformações econômicas. não necessariamente em ordem de importância: (1) a positivista-funcionalista. pois colocava a sociedade num plano de análise relevante. que se achavam em curso no ocidente europeu desde o século XVI. o que se distingue da percepção de que este papel seja privilégio de um Estado que se sobrepõe ao seu povo. não poderiam deixar de provocar modificações na forma de conhecer a natureza e a cultura. Ela traz diferentes estudos e diferentes caminhos para a explicação da realidade social. Assim. iniciada por Karl Marx. de fundamentação analítica. Correntes sociológicas Porém. tendo como fundador Auguste Comte e seu principal expoente clássico em Émile Durkheim. que mesmo não sendo um sociólogo e sequer se pretendendo a tal. dos artesãos independentes. roubos e crimes. Máquinas foram destruídas. e etc. . O surgimento da Sociologia prende-se em parte aos desenvolvimentos oriundos da Revolução Industrial. como objeto que deveria ser investigado tanto por seus novos problemas intrínsecos. deu início a uma profícua linha de explicação sociológica. pelas novas condições de existência por ela criada.

Nos EUA a Sociologia esteve de certo modo "engajada" na resolução dos "problemas sociais". ela estuda organizações humanas. A Sociologia. . Desde o funcionamento de estruturas macro-sociológicas como o Estado. Martin Bulmer e Roscoe C. assim. hoje ela é mais uma entre as ciências. lhe será uma "jaula" que o transcenderá e lhe determinará a identidade. educacionais. Park. originadas pelos seus três principais autores clássicos. inevitavelmente. Atualmente. nesse contexto histórico social. Thomas. em grande medida. Entre os principais nomes do estágio inicial da sociologia norte-americana. levando à sua consolidação como disciplina acadêmica já no início do século XX. Esta disciplina tem se concentrado particularmente em organizações complexas de sociedades industriais. originaram quase todos os posteriores desenvolvimentos da Sociologia.Estas três matrizes explicativas. é importante perceber que. vai debruçar-se sobre todos os aspectos da vida social. É interessante notar que a Sociologia não se desenvolve apenas no contexto europeu. Hinkle. a classe social ou longos processos históricos de transformação social ao comportamento dos indivíduo num nível micro-sociológico. Robert E. contribuindo com os lucros e resultados da organização. ele se dá. especialmente pela sociologia britânica e positivista de Herbert Spencer). por motivações diferentes que as da velha Europa (mas certamente influenciada pelos europeus. Ainda que seja relativamente mais tardio seu aparecimento nos Estados Unidos. sem jamais esquecerse que o homem só pode existir na sociedade e que esta. com enfoque científico. instituições sociais e suas interações sociais. políticas. 3 especialmente a teuto-francesa. XVIII e XIX inspiraram os pensadores a analisar as questões sociais. algo bem diverso da perspectiva acadêmica europeia. Para compreender o surgimento da sociologia como ciência do século XIX. A sociologia como ciência da sociedade Ainda que a Sociologia tenha emergido em grande parte da convicção de Comte de que ela eventualmente suprimiria todas as outras áreas do conhecimento científico. O sociólogo dentro da organização intervem diretamente sobre os resultados da empresa. aplicando mormente o método comparativo. as ciências teóricas e experimentais desenvolvidas nos séculos XVII. psicológicas. econômicas. quando a organização é observada e estudada podem se verificar as falhas assim alterar seu sistema de funcionamento e gerar lucro. podem ser citados: William I.

na ação geral. estética e históricas. ora afastando-as e. a Filosofia social intenta criar uma teoria ou "teorias" da sociedade. as explicações da Sociologia não partem simplesmente da especulação de gabinete. a diferença entre Sociologia e Antropologia tem mais a ver com os problemas teóricos colocados e os métodos de pesquisa do que com os objetos de estudo. Comparação com outras ciências sociais No começo do século XX. e um ceticismo metodológico a fim de extirpar os elementos "incontroláveis" e "dóxicos" recorrentes numa ciência ainda muito nova e dada a grandes elucubrações. Por fim. Tais peculiaridades. apesar das peculiaridades dos fenômenos sociais quando comparados com os fenômenos de natureza e. consequentemente. a Sociologia tem de obedecer aos mesmos princípios gerais válidos para todos os ramos de conhecimento científico. baseada. objetivando explicar as variâncias no comportamento social em suas ordens moral. Uma das primeiras e grandes preocupações para com a sociologia foi eliminar juízos de valor feitos em seu nome. a ciência se presta à explicação e à compreensão dos fenômenos. a observação empírica. a pesquisa em Economia é frequentemente influenciada por teorias sociológicas. até mesmo. Como ciência. ora tentando aproximar as ciências. sejam estes naturais ou sociais. da abordagem científica da sociedade. Quanto a Psicologia social. entretanto. considerados por muitos. negando às humanas tal estatuto com base na inviabilidade de qualquer controle dos dados tipicamente humanos. Diferentemente da ética. Nesse aspecto. que mesmo a Antropologia faz pesquisa em sociedades industrializadas. além de se interessar mais pelos comportamentos do que pelas estruturas sociais. aquele que se refere a produção e troca de mercadorias. na observação casual de alguns fatos. foram e continuam sendo o foco de muitas discussões. que visa discernir entre bem e mal. Esforços nesse sentido são visíveis nas obras de modernos teóricos sociais. buscaram nas ciências naturais as bases de sua metodologia já mais avançada. Dessa forma foram empregados métodos estatísticos. ela se preocupa também com as motivações exteriores que levam o indivíduo a agir de uma forma ou de outra. sociólogos e antropólogos que conduziam estudos sobre sociedades não-industrializadas ofereceram contribuições à Antropologia. como mostrado por Karl Marx e outros. reunindo um arcabouço de conhecimento que . Muitos dos teóricos que almejavam conferir à sociologia o estatuto de ciência. Já a Economia diferencia-se da Sociologia por estudar apenas um aspecto das relações sociais. quando muito. imprevisíveis e impassíveis de uma análise objetiva.Ao contrário das explicações filosóficas das relações sociais. Já o enfoque da Sociologia é na ação dos grupos. e as discussões epistemológicas mais desenvolvidas. no entanto. Deve ser notado.

a Sociologia pode ser orientada como uma 'ciência da ordem'. seus resultados podem ser utilizados com vistas à melhoria dos mecanismos de dominação por parte do Estado ou de grupos minoritários. Nesse sentido. entre outros. Max Weber. ao mesmo tempo. à revelia dos interesses e valores da comunidade democrática com vistas a manter o status quo. seja complexo apreender tal abordagem. Há. A evolução da Sociologia como disciplina . À primeira vista. representam uma das mais profícuas vertentes da filosofia social. para alcançarem maiores patamares de liberdades políticas e de bem-estar social. Ela pode partir desde a perspectiva do sociólogo individual. como na orientação de políticas públicas promovidas nem sempre de acordo com o interesse das maiorias ou no respeito às minorias. Entretanto. em vista do tipo de conhecimento que produz. as obras de Max Horkheimer. kantiana. talvez. As formas como a Sociologia pode ser uma 'ciência da ordem' são diversas. como principal ente financiador de pesquisas nas áreas da sociologia escolhe financiar aquelas pesquisas que lhe renderam algum tipo de resultado ou orientação estratégicas claras: pode ser tanto como melhor controlar o fluxo de pessoas dentro de um território. Por outro lado. mas aos seus interesses materiais imediatos. isto é. podendo mesmo servir à finalidades antidemocráticas. porém. representada por aquilo que ficou conhecido como Teoria Crítica ou. como mais popularmente se diz. o uso do conhecimento sociológico é potencialmente perigoso. o meio indireto. Escola de Frankfurt. sejam eles empresas privadas ou Centrais de Inteligência. Theodor Adorno. autoritárias e arbitrárias. Ela pode ser um tipo de conhecimento orientado no sentido de promover um melhor entendimento dos homens acerca de si mesmos. submetendo a produção do conhecimento não ao progresso da ciência por si ou da sociedade. Sociologia da Ordem e Sociologia da Crítica da Ordem A Sociologia. utilizando-se de os valores morais e políticos do iluminismo liberal mesclados com os ideais socialistas. a teoria social de Marx e. Jürgen Habermas. 4 A produção sociológica pode estar voltada para engendrar uma forma de conhecimento comprometida com emancipação humana. pode servir a diferentes tipos de interesses. no qual o Estado.entrelaça a filosofia hegeliana.

aos conflitos entre as classes sociais. e outros assuntos culminantes. ao trabalhador rural. a sociologia sofreu influencias americanas e europeias. êxodos.. a maior potência do mundo à época. Desde o início a sociologia vem-se preocupando com a sociedade no seu interior. desde lá cada vez mais foi de fundamental participação para a sociedade mundial e também brasileira. e estudos sobre índios e negros Nas décadas seguintes de 40 e 50 a sociologia voltou para as classes trabalhistas tais como salários e jornadas de trabalho. ou seja. No Brasil nas décadas de 20 e 30 a sociologia estava num estudo sobre a formação da sociedade brasileira. voltam também em relação ao estudo da mulher. Na década de 80 a sociologia finalmente volta a ser disciplina no ensino médio. que serão mais tarde chamados de “burgueses”. fundadores de burgos. final da Idade Média. fogem dos feudos (a que eram “presas” por laços de honra) e passam a roubar ou com parcos recursos comprar bens baratos a grandes distâncias vendendo-os mais caro onde eram desejados – ressaltem-se as famosas “especiarias” -.. na Europa. . iria engordar ainda mais os cofres da Nobreza. As pessoas começam a se rebelar. Mas para os fugitivos dos feudos. por exemplo.A sociologia no mundo foi-se mostrando presente em várias datas importantes desde as grandes revoluções. Naquele caso. não restava alternativa exceto a atividade comercial voltada ao lucro. se diz que o Modo de Produção entrou em contradição com os interesses das Forças Produtivas. ela vai sofrer influências das teorias marxistas. tida como “desonesta” por praticamente todas as culturas e civilizações do mundo a partir de todos os pontos de vista éticos. A prática do lucro era condenada pela Igreja Católica. Na América Latina. embora a densidade demográfica crescesse assustadoramente.e também ocorreu a profissionalização da sociologia. O surgimento da Sociologia e o Socialismo Europa. na medida em que as suas preocupações passam a ser o subdesenvolvimento. crise do Modo de Produção Feudal. Além da preocupação com a economia política e mudanças sociais apropriadas com a instalação da nova república. e também comunidades rurais. isto diz respeito. Classicamente. de nada adiantava produzir mais porque o excedente não iria para aqueles deles necessitados. e analisando temas como abolição da escravatura. por exemplo. nas questões de reforma agrária e movimentos sociais na cidade e no campo e a partir de 1964 o trabalho dos sociólogos se voltou para os problemas sócio políticos e econômicos originados pela tensão de se viver em um país cuja forma de poder é o regime militar. Na década de 60 a sociologia se preocupou com o processo de industrialização do país.

nisso você verá um sinal de estar sendo por ele abençoado”. reiterando serem pecaminosos aqueles que praticavam a cobrança de juros. muito mais interessante e lucrativo para a burguesia. “king” e “marquesa” passam a ser nomes de animais domésticos da burguesia! O passo seguinte foi agradecer e condecorar trabalhadores. à medida que se conscientizavam de que foram usados para uma troca de poder que em absolutamente nada lhes beneficiou começam a organizar-se em sindicatos e outras agremiações classistas. maçônicas mesmo.. para uma aliança contra a nobreza ou “antigo regime” e. em contradição com a sua prática) ou o do pastor? Assim cresceram as seitas protestantes pelo mundo afora. ambos intoleráveis hereges dentro do fundamentalismo de mercado. após muitos percalços. a seus desempregos e a seu desespero. por vezes aberta mas sempre e imediatamente proclamadas ilegais ou heréticas e perseguidas por todo o aparato estatal e religioso que a burguesia podia colocar em marcha! . Se você tivesse enriquecido à beça na base do comércio lucrativo. preferiria o discurso do padre (vale repetir. “duque”. Foi crescendo. Politicamente a burguesia endinheirada sentia-se lesada tendo de pagar tributos à antiga nobreza. superiores em número. por vezes secretas. no limite. eram todos enfileirados 5 no caminho que conduz ao fogo do inferno. saem-se vitoriosos. como ocorreu no Chile de Salvador Allende e.. Aquelas sociedades que buscam a cura para este mal são “reconvertidas” ao satanismo pagão de holocaustos ao deus-mercado através de diversas formas de pressão e. ou do empréstimo a juros.. lucros. a burguesia e seus interesses comerciais se sobrepõem ao ser humano numa infecção que contamina todo o planeta. Os burgueses convocaram seus empregados.. a “república”. “Usurários”. outro com proposta islâmica. no Afeganistão – um com proposta socialista. Surge uma nova religião para reforçar uma ética mais consentânea com os tempos cambiantes: surge o protestantismo. Estes. agora pastores que passam a informar: “se a mão de Deus estiver sobre a sua cabeça.O capitalismo era como um pequenino câncer que surgiu no final da sociedade feudal. agora praticamente falida... você prosperará imensamente nesta terra. crescendo e hoje. Agora. Era fundamental reorganizar a sociedade de maneira a que os novos donos da riqueza fossem também os donos do poder. mais recentemente. desempregados e desesperados e mandá-los de volta a seus trabalhos. uso da força física. Por outro lado começam a surgir expadres. desempregados e desesperados. Os padres diziam nas missas – embora sua prática fosse bem outra. enfim. No início compravam títulos de nobres aos de antiga linhagem – que os discriminavam! – a seguir passaram a pensar em alternativas mais radicais (ser radical é ir à raiz e a burguesia foi radical no período de suas glórias revolucionárias!) como convocar os trabalhadores a uma aliança contra a nobreza e implantar um novo tipo de regime político. – ser “mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus”.

da mera aparência fenomênica de alguma coisa.Karl Marx Originário da Renânia. Adotando o ponto de vista dos trabalhadores criou um ferramental intelectual inédito e até hoje embatido para a compreensão do Real. olha novamente.. enquanto houver opressores e oprimidos a espécie humana inteira estará refém da insânia. um pedaço da enorme colcha de retalhos que mais tarde constituiria a Nação Alemã. filho de burgueses e educados no mais rigoroso protestantismo. A essência é mais significativa que a aparência: Este postulado fez com que a Dialética ficasse conhecida como “Filosofia Negativa”.. Movimento: Tudo está em movimento. Augusto Comte e a “Física Social” Evidentemente era necessário que a burguesia também produzisse uma teoria em defesa de seus pontos de vista e poucos foram tão brilhantes – e influenciaram tanto a nossa combalida Nação – quanto o positivismo. Com base no socialismo chamado “utópico” dos franceses. Chegou à conclusão de que somente a partir do ponto de vista de quem não tem absolutamente nada a perder se pode almejar a vislumbrar a verdade. Era necessário esquecer a “filosofia negativa” e. mas à libertação de toda a espécie humana de toda a classe de opressão e exploração. incrivelmente perspicaz. cedo percebeu que enquanto houver neste mundo gente que se alimenta e gente que passa fome. Dialética Há muito que dizer e em que refletir sobre a Dialética. da filosofia clássica alemã (em particular o materialismo de Feuerbach e a dialética de Hegel) e a economia clássica inglesa construiu o MATERIALISMO DIALÉTICO. do “Positivo”. pois buscava a compreensão do que está para além da superfície. a configuração já mudou completamente. tudo se transforma freqüentemente em seu contrário. filosofia voltada não apenas à ascensão da classe trabalhadora ao poder. voltando ao reino das aparências criar uma filosofia capaz de .. É como as nuvens no céu: você olha. menciono apenas dois pontos. está de um jeito.. Era necessário olvidar a essência e trabalhar com o que é perceptível aos sentidos físicos mais grosseiros e imediatos.

. Émile Durkheim sistematizou algumas de suas idéias e foi o primeiro a usar efetivamente a expressão “Sociologia” para referirse ao estudo em pauta. Weber – a jaula de ferro do capitalismo. através deles os pobres sejam menos pobres”. suas mesmas motivações – “conciliar Capital e Trabalho”. Como se a própria colocação da questão – seja ela qual for – não traga nela embutidos os juízos ou as pré-noções. Olvidando totalmente a existência concreta de interesses antagônicos na Sociedade Burguesa. qualquer ciência que se volte a compreender o homem “afastando a ingerência filosófica” tende mais a falsear a compreensão do ser humano do que a compreendê-lo. Durkheim e “As Regras. Falando claramente: para que uma ciência humana mereça ser chamada de “científica”.. Durkheim tem contudo enorme valor para a Sociologia contemporânea. Como compreender o fato social? Primeiro passo: “Afastar sistematicamente as pré-noções”. a Luta de Classes. 6 acerca da sociedade e do ser do homem.... em linhas gerais.. Comte pregava a necessidade de “libertar o conhecimento social de toda a ingerência filosófica”. “que os ricos sejam mais ricos para que.. crescendo por etapas ou degraus seria possível chegar-se a uma precisão “científica”..... tem esta raiz. aquelas mesmas que pavimentam todas as estradas do inferno.” Discípulo genial de Comte. Mas Comte e seus discípulos criaram um sistema “científico” voltado a conciliar o inconciliável: a Luta de Classes.. Os positivistas contemporâneos. O que é fato social? Tudo o que é coletivo. Eivado de motivos nobres. que seu mestre ainda chamava de “Física Social”.. busca integrar a todos em torno do ideal ou meta burguesa – “integralismo”.. Posição hoje indefensável.. e “juízos de valor”.. Mas.compreender o social com tanta precisão quanto a matemática ou a física – que hoje sabemos também serem imprecisas. que já percebem as falhas do positivismo clássico.. mantêm suas mesmas raízes. tem de ser filosófica! O oposto disso é simplesmente fechar os olhos ao que constitui o SER do homem. como se isso fosse possível. Como se fosse possível ao ser humano estar acima de todos os sentimentos. por sinal. emoções. . e outras idiotices só críveis porque repetidas em altos brados e ad nauseam. Se o fosse? Seria desejável? Se a filosofia responde a muitas questões que dizem respeito ao ser do homem no mundo. impregnado de boas intenções. não filosófica.. exterior ao indivíduo e coercitivo. –...

um dos maiores gênios do século XX. O Clássico “História e Consciência de Classe” é um leitura obrigatória a todo aquele que queira compreender o ser humano vivendo em sociedade. filho de pastor evangélico. “Zerstorung der Vernunft”). O peso de sua erudição não tira o interesse do trabalho. o gênio adormecido desperta para o espanto de todos e compõe uma das mais geniais obras sociológicas do século XX – “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”. militar e evangélico talvez explique os motivos do “acidente de trabalho” que o conduziu a uma profundíssima crise depressiva que durou quatro longos anos em que até a alimentação era levada à sua boca pela esposa. não pronunciou uma única palavra. Freischwebend Intelligenz). separar o “lugar da teoria” do “lugar da prática” em ciência política. Escola de Frankfurt É fundamental citar o lugar dos teóricos de Frankfurt. Teologia da Libertação . lutou na Primeira Guerra Mundial como capitão do exército prussiano chegou à conclusão de que é necessário não tomar partido. mas do quanto você tem em bens materiais. ao contrário. a que se alinha com muito maior conforto. liberal. a inteligência deve ser livre de vínculos (em alemão. Georg Lukács Húngaro. Sua grande obra ainda é “Razão e Revolução”.Max Weber. Segundo o capitão evangélico. não escreveu uma única linha. Foi um dos últimos brilhos a ir mais longe que Marx dentro do pensamento marxista. Isso é a Destruição da Razão (em alemão. Você vale o quanto é capaz de produzir e é avaliado não pela grandeza de sua alma e de seus valores humanos. Sua posição de professor conservador. Quatro anos em que. O Capital é irracional: desiguala os semelhantes e equaliza os dessemelhantes. o mais notável discípulo de Weber. De repente. percebe-lhe as limitações e conduz os avanços sociológicos que esta corrente positivista havia logrado atingir ao marxismo. particularmente Herbert Marcuse. É nela que se defende que o grande critério a submeter o Real é a Razão Humanista. que resgata a Dialética Materialista com grande ênfase à Dialética. consta.

acabado. • As conseqüências da rápida industrialização foram trágicas: aumento da violência. do alcoolismo. No início como um pequenino carcinoma que hoje tomou conta do planeta todo. da criminalidade. o que fazer? Como o saudoso Capitão Luís Carlos Prestes. proclamando-lhe extinto. Mas o poder regenerativo do Humano surpreende mesmo aos 7 médicos e. morto e era aterrorizado pelo fantasma de seu cadáver insepulto o Capital proclama reiterado e repetidas vezes a “morte do comunismo”. como se a Vontade humana não houvesse sido capaz de proezas memoráveis como a transformação do Império Romano num Império Cristão. Assim como o Império Romano negou o cristianismo por quase 400 anos. da prostituição. caso o próprio nome “comunismo” tenha se tornado pouco palatável do ponto de vista do marketing político. seguramente capitalista não será! Origens e Definições da Sociologia • Surge após revoluções Burguesas (Inglesa/ industrial e Francesa: Por volta de 1830. econômicas e culturais levam ao surgimento da Sociologia (Ciência Social ou Ciência da Sociedade). como Che Guevara ou o padre Camilo Torres é equiparado aos primeiros cristãos.Segundo os grandes filósofos europeus contemporâneos. os exemplos se multiplicam. “Sempre foi e sempre será assim” – preenchendo o futuro como se houvesse uma linha invisível a ligar todos os tempos. esta é a grande contribuição da América Latina em geral e do Brasil em particular ao Saber Universal. O escravismo antigo não foi eterno (durou alguns milhares de anos). • O século XVIII constituiu um marco importante para a história do pensamento ocidental e para o surgimento da sociologia: As profundas transformações políticas. O comunismo nascente comparado ao cristianismo também em processo de parturição no Império Romano. O capitalismo existe no mundo aí há uns quinhentos anos. E agora. a travessia do “Mar Tenebroso” que todos “sabiam” intransponível e a chegada ao Novo Mundo. O que Weber chamava de “jaula de ferro” os Teólogos da Libertação chamam de “pessimismo defensivo” da burguesia. eles dizem: “não tem jeito”. morrerei convicto do Futuro Comunista da Humanidade! Não é possível saber como vamos suplantar esta situação amarga em que “o homem é o lobo do homem”. Em síntese. tampouco o foi o feudalismo (que durou cerca de um milênio). O revolucionário em busca de um mundo melhor. mesmo sem saber como será a Sociedade do Futuro. Além da conflituosa . Não é crível que a espécie humana tenha de ser condenada ao inferno capitalista pelo resto da eternidade.

pelas novas condições de existência por ela criadas e também devido as modificações que vinham ocorrendo nas formas de pensamento: na forma de buscar conhecer a natureza e a cultura. • Neste momento (que se iniciou com o renascimento) há uma renuncia da visão sobrenatural. vai pensar a ordem social enfatizando a importância das instituições burguesas: a autoridade. • Assim sendo. • Conteúdo estabilizador – reforma conservadora – leis imutáveis da vida social. • Pós revoluções burguesas. • Busca estado de equilíbrio numa sociedade dividida pelos conflitos de classe. . a hierarquia social. a interpretação crítica e negadora da realidade. • Não é por mero acaso que a sociologia – enquanto instrumento de análise – inexistia nas sociedades pré-capitalistas. • Não maistransformar a realidade masorganizar através de regras a sociedade: Ordem e Progresso. o surgimento da sociologia prende-se em parte aos abalos provocados pela revolução industrial. hierarquia e harmonia social. uma vez que o ritmo e o nível das mudanças que aí se verificam não chegavam a colocar a sociedade como “um problema” a ser investigado. Sociologia: Ciência da Sociedade • É a formação de uma estrutura social muito específica – a sociedade capitalista – que impulsiona uma reflexão sobre a sociedade. a se constituir em problema. porém. marca dos ideais iluministas que orientou o projeto revolucionário da burguesia deveria ser superado em nome da organização da sociedade e manutenção do status quo. a ênfase continuará sendo no pensamento e explicação racional. • Surge com um interesse prático: resposta a crise social da época(XIX). já no século XIX. religiosa para explicar a realidade. a família. em objeto que deveria ser investigado. Qual a importância desses acontecimentos para a Sociologia? • Essas transformações colocavam a sociedade num plano de análise. • Passa a prevalecer a busca por uma indagaçãoracional: método da observação e da experimentação – método científico. suas crises e seus antagonismos de classe. sobre suas transformações.relação Capital x Trabalho. mítica. Diante desta nova realidade e das transformações sociais surge a sociologia: 1) Positivista 2) Dialética Sociologia Positivista • Ênfase na ordem.

tanto no que se refere a manter a ordem social vigente como para contestá-la. • Relação intrínseca entre teoria e prática. Sociologia Crítica/Dialética • Fenômenos sociais não são independentes dos fatores econômicos. • Realidade entendida como totalidade histórica: conhecimento crítico e negador da sociedade capitalista. bem como as explicações sociológicas. Exercícios 1. • Compreensão dialética da realidade: (tese – antítese – síntese – tese) oposição sistemática: umatese gera dentro de si umaantítese. “Ordem e Progresso”. por sua vez.(UEL) O lema da bandeira do Brasil. entre o pensamento dialético e o pensamento positivista/conservador.• Procura criar um objeto autônomo “o social” independente dos fenômenos econômicos. Teoria Social visa a manutenção da ordem social. se divide entre aqueles que olhando a realidade querem mantê-la e aqueles que querem transformá-la. mudá-la. políticos. • Luta de opostos: luta de classes como motor da história. como tese novamente. • O mundo. Teoria Social voltada à transformação da realidade. Importante Considerar: • As explicações sociológicas sempre tiveram e têm intenções práticas: desejo de interferir nos rumos da sociedade. 8 • A falta de um entendimento comum na sociologia (no estudo dos fenômenos sociais) tem haver com o fato de vivermos numa sociedade dividida. marcada pelos antagonismos e conflitos de classe. evidencia as contradições e antagonismos de classe desta sociedade. • O caráter antagônico e contraditório da sociedade capitalista impediu um entendimento comum por parte da sociologia em torno ao objeto e aos métodos de investigação da nova ciência social. que se instala. indica a forte influência do positivismo na formação política do Estado brasileiro. do choque dialético entre esses dois pólos sobrevém uma nova situação histórica (síntese) que ainda carrega em si elementos do velho (tese) e do novo (antítese). . culturais. políticos e culturais.

O fato social caracteriza-se por exercer um poder de coerção sobre as consciências individuais. d) Apenas as afirmativas I. provocando risos. cochichos com comentários maldosos. d) Ideal de superação da sociedade burguesa através da revolução das classes populares. I. O fato social expressa o predomínio do ser individual sobre o ser social. O calouro não estava vestido de acordo com o grupo e sentiu as represálias sobre o seu comportamento. c) Apenas as afirmativas II e III são corretas. II. . 2. III. No convite distribuído pelos veteranos não havia informação sobre o traje apropriado para a festa. Ao entrar na festa. c) Denúncia dos laços de funcionalidade que unem as instituições sociais e garantem os privilégios dos ricos. III e IV são corretas. compareceu vestido com traje social. O fato social é exterior ao indivíduo e apresenta-se generalizado na coletividade. b) Ideais de movimentos juvenis. e) Negação da instituição estatal e da harmonia coletiva baseada na hierarquia social.Assinale a alternativa que apresenta idéias contidas nesse lema. Assinale a alternativa correta. O fato social é todo fenômeno que ocorre ocasionalmente na sociedade. a) Apenas as afirmativas I e II são corretas.(UEL) Um jovem que havia ingressado recentemente na universidade foi convidado para uma festa de recepção de calouros. O calouro. que visam superar os valores das gerações adultas. causou estranheza. em que todos estavam trajando roupas esportivas. segundo Émile Durkheim (1858-1917). As regras que regem o comportamento e as maneiras de se conduzir em sociedade podem ser denominadas. imaginando que a festa seria formal. b) Apenas as afirmativas I e IV são corretas. a) Crença na resolução dos conflitos sociais por meio do estímulo à coesão social e à evolução natural da nação. como fato social. Considere as afirmativas abaixo sobre as características do fato social para Émile Durkheim. olhares de espanto e de admiração. IV.

as motivações que se repetem nos votos dos eleitores. 3. 161. pois são eles que determinam os comportamentos individuais. acompanham as conversas de grupos de pessoas comuns de diferentes classes que. d) estudar a psique humana que revela a autonomia do indivíduo em relação à sociedade. os relatos. Nessa técnica de pesquisa qualitativa. c) analisar os aparelhos repressores do Estado.(UEL) O pensamento científico. Marilena. Por exemplo. as razões gerais que poderiam fazê-los mudar de opção. além de auto definir-se.e) Apenas as afirmativas I. A utilização dessa teoria indica que os pesquisadores pretendem: a) investigar as funções sociais das instituições. até compor um mito geral. escola e família. 2000. há uma base minuciosa de informações. . p. descobrem-se. Perto das eleições. é possível encontrar a definição de pensamento mítico como aquele que “vai 09 reunindo as experiências. (CHAUÍ.) Assinale a alternativa que apresenta a afirmação que está de acordo com a definição de pensamento mítico dada acima. suas funções e suas finalidades. escondidos atrás de vidros espelhados. b) pesquisar o proletariado como a classe social mais importante na estruturação da vida social. em troca de um sanduíche e um refrigerante. comentam e debatem as campanhas políticas. planilhas e tabelas de preferências de voto. Pesquisadores. II e IV são corretas. e) pesquisar os sentidos e os significados recíprocos que orientam os indivíduos na maioria de suas ações e que configuram as relações sociais. os concorrentes debruçam-se sobre gráficos. as narrativas. 4. A aplicação do modelo de pesquisa que aparece descrito no texto baseia-se. principalmente. também classifica e conceitua outras formas de pensamento. para entender o comportamento dos grupos sociais. tais como igreja. os poderes divinos sobre a natureza e sobre os humanos”. além da convergência das intenções.(UEL) Por trás das disputas que os candidatos travam pela preferência do eleitorado. São Paulo: Ática. Com esses materiais heterogêneos produz a explicação sobre a origem e a forma das coisas. buscando descobrir quais as tendências dos eleitores. na teoria sociológica de Max Weber (1864-1920). como eles propõem e ouvem argumentos sobre o tema. Convite à filosofia.

por que Alugar mãos? Elas têm de fazer coisas maiores no banco da fábrica Do que alimentar seu dono e os seus. além do trabalho infantil.” (explicação dada por líder guarani diante do questionamento sobre a instalação de grupos indígenas em áreas de mata atlântica protegidas por lei) e) “As principais causas da exclusão educacional apontadas pelo censo do IBGE [Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística]. são a pobreza. para amolecer o deus do lucro. e não é também vendida Porque o salário dos produtores é muito baixo – quando é aumentado Já não vale mais a pena mandar produzir a mercadoria –. minas e moinhos: Tudo quebrado e. tudo pode. Para mim. mas prefiro me precaver com patuás e incensos”. a fim de aquentar o deus do lucro! Montanhas de maquinaria. tudo junto É sacrificado ao fogo. O pão ainda é destinado a alimentar: ele tem de dar lucro.” (divulgação na imprensa de dados do IBGE sobre educação) 5.(UEL) “A casa não é destinada a morar. “Foi lá que conquistamos nosso primeiro título”. café e frutas e peixes e porcos. o tecido não é disposto a vestir. a distância entre a escola e a residência.a) “Acredito em coincidência e essa [a transferência do local do jogo] é uma vantagem a mais para nós nesta final. se é que se quer que haja Lucro! Apenas: para onde com a mercadoria? A boa lógica diz: Lã e trigo. (declaração da capitã do time de vôlei do Vasco da Gama ao comemorar a transferência da partida contra o Flamengo para um ginásio de sua preferência) b) “Considero a sexta-feira 13 um dia ‘nebuloso’. (estudante. ferramentas de exércitos em trabalho. quem com Deus está. Mas se a produção apenas é consumida. lanifícios. altos-fornos.” (depoimento de um candidato a emprego de gari no Rio de Janeiro. sacrificado! . disputando vaga com outros 40 mil candidatos) d) “Viemos em busca da ‘Terra sem males’. o poder da mente é forte e aquelas pessoas que pensam negativamente podem atrair má sorte. a distorção idade série e até o tráfico de drogas. Estaleiros. Estamos atrás do ‘paraíso’ sonhado por nossos ancestrais e ele se encontra por essas regiões. 24 anos) c) “Não temo o desemprego. Não “creio que ocorram coisas ruins para mim. atrás do ‘Éden’.

Bertolt. n. [. é correto afirmar que. 16.” (BRECHT.. exércitos gigantes.. a pobreza e a fome são: 10 a) Oriundos da inveja que sentem os miseráveis por aqueles que conseguiram enriquecer. p. Começam a entender que o mundo burguês tem seus dias contados Por se mostrar pequeno demais para comportar a riqueza que ele próprio criou. d) Frutos do egoísmo próprio ao homem e que poderiam ser resolvidos com políticas emergenciais.] As leis da economia se revelam Como a lei da gravidade. seu deus do lucro está tomado pela cegueira. e) Fenômenos característicos das sociedades humanas desde as suas origens. b) Frutos da má gestão das políticas públicas. Em pânico. Atirando-os a saunas e depois de volta a estradas geladas. quando a casa cai em estrondos Sobre as nossas cabeças. As vítimas Ele não vê. a concentração da renda. 2003. planejadamente. c) Inerentes a esse modo de produção e a essa formação social. as crises econômicas e políticas. O manifesto. na sociedade burguesa. De acordo com o poema e com os conhecimentos da teoria de Marx sobre o capitalismo.) Os versos anteriores fazem parte de um poema inacabado de Brecht (1898-1956) numa tentativa de versificar O manifesto do partido comunista de Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895). Mas os miseráveis.De fato. Que ela. (E pensando evitar a peste alguém apenas a carrega consigo.116. a burguesia atormentada Despedaça os próprios bens e desvaira com seus restos Pelo mundo afora em busca de novos e maiores mercados. empestando Também os recantos onde se refugia!) Em novas e maiores crises A burguesia volta atônita a si. mas sem planos. Crítica marxista. São Paulo. arrasta consigo. mar. .

Estão corretas apenas as afirmativas: a) I e III. a desigualdade social e a concentração populacional nos centros urbanos..(UEL . reconstruí-lo com a ajuda de conceitos. por refletir sobre a transformação de formas tradicionais de existência social e as mudanças decorrentes da urbanização e da industrialização. 1969. tais como a pobreza. implica uma seleção.) Com base no texto e nos conhecimentos sobre o tema.2005) Leia o texto a seguir. 33.6. A emergência da Sociologia só pode ser compreendida se for observada sua correspondência com o cientificismo europeu e com a crença no poder da razão e da observação. que reflete sobre a relação entre ciência social e verdade: “[. enquanto recursos de produção do conhecimento. reflete suas principais transformações e procura desvendar os dilemas sociais por ele produzidos. nenhum conceito e nem também a totalidade dos conceitos são perfeitamente adequados ao objeto ou ao mundo que eles se esforçam em explicar e compreender. 7. A Sociologia surge como uma tentativa de romper com as técnicas e métodos das ciências naturais. escrito por Max Weber (1864-1920). d) I. ao invés de buscar compreendê-lo. Max Weber. porque ele pode somente transpô-lo. é correto afirmar que. por tratar de um objeto cujas causas são infinitas. para Weber: a) A ciência social. na análise dos problemas sociais decorrentes das reminiscências do modo de produção feudal. A Sociologia tem como principal referência a explicação teológica sobre os problemas sociais decorrentes da industrialização. e) I.] nos é também impossível abraçar inteiramente a seqüência de todos os eventos físicos e mentais no espaço e no tempo. nosso conhecimento não é uma reprodução do real. deve limitar-se a descrever sua aparência. p. .. Julien. (Traduzido de: FREUND. II. seguindo a orientação de nossa curiosidade e a significação que damos a isto que tentamos apreender”. Entre conceito e realidade existe um hiato intransponível. II e IV. de outra parte. Sobre a emergência da sociologia. IV. Disso resulta que todo conhecimento.(UEL) A Sociologia é uma ciência moderna que surge e se desenvolve juntamente com o avanço do capitalismo. considere as afirmativas a seguir: I. III. De um lado. III e IV. Nesse sentido. c) II e IV. b) II e III. assim como esgotar integralmente o mínimo elemento do real. sendo chamada de “ciência da crise”. Paris: PUF. inclusive a ciência. A Sociologia é produto da Revolução Industrial.

II e III. II – Com o desenvolvimento do industrialismo. que tratam dos eventos físicos e mentais. II – O homem passou a ser visto. propiciou o fortalecimento da servidão e da família patriarcal. podemos afirmar que: I – A consolidação do sistema capitalista na Europa no século XIX forneceu os elementos que serviram de base 11 para o surgimento da Sociologia enquanto ciência particular.b) A ciência social revela que a infinitude das variáveis envolvidas na geração dos fatos sociais permite a elaboração teórica totalizante a seu respeito. portanto. 8 – (UFUB) Selecione as afirmativas que indicam o contexto histórico. que se industrializava e se urbanizava em ritmo crescente. do ponto de vista sociológico. a partir de sua inserção na sociedade e nos grupos sociais que a constituem. D) I e II. I – A Sociologia é um produto das revoluções francesa e industrial e foi uma resposta às novas situações colocadas por estas revoluções. B) I. . e) O obstáculo para a ciência social estabelecer um conhecimento totalizante do objeto é o fato de desconsiderar contribuições de áreas como a biologia e a psicologia. C) II. E) Todas as 9 – (UFUB) Sobre o surgimento da Sociologia. c) O conhecimento nas ciências sociais pode estabelecer parcialmente as conexões internas de um objeto. III – Aquilo que a Sociologia estuda constitui-se historicamente como o conjunto de relacionamentos que os homens estabelecem entre si na vida em sociedade. é limitado para abordá-lo em sua plenitude. o sistema social passou da produção de guerra para a produção das coisas úteis. social e filosófico que possibilitou a gênese da Sociologia. Assinale a alternativa correta: A) III e IV. através da organização da ciência e das artes. sendo a Teologia a forma norteadora desse pensamento. III – O pensamento filosófico dos séculos XVII e XVIII contribuiu para popularizar os avanços científicos. IV – A formação de uma sociedade. d) Alguns fenômenos sociais podem ser analisados cientificamente na sua totalidade porque são menos complexos do que outros nas conexões internas de suas causas. alternativas estão corretas. III e IV.

a Sociologia tinha uma importante tarefa a cumprir na visão de seus fundadores. Assinale a alternativa correta quanto a essa tarefa. como a escola. sem maiores preocupações de natureza prática. através da razão. deixando a solução dos problemas sociais por conta dos homens de ação. mas inter-relacionados com os diferentes grupos sociais dos quais fazem parte. B) Todas as afirmativas estão corretas. A) Desenvolver o puro espírito científico e investigativo. E) Observar. a agir e pensar conforme os ensinamentos transmitidos pelos deuses. D) Considerar os fenômenos sociais como propriedade exclusiva de forças transcendentais.IV – Interessa para a Sociologia. III e IV estão corretas. prever os fenômenos sociais. dessa forma. C) Contribuir para a solução dos problemas sociais decorrentes da Revolução Industrial. III e IV estão corretas. A) II e III estão corretas. C) Condicionar o indivíduo. medir e comprovar as regras que tornassem possível. . tendo em vista a necessária estabilização da ordem social burguesa. 11 – (UFUB) Surgida no momento de consolidação da sociedade capitalista. as classes sociais e etc. C) I e IV estão corretas. não indivíduos isolados. colaborar para transformar radicalmente a ordem capitalista responsável pela exploração dos trabalhadores. dentre os quais se destaca Auguste Comte. a família. 10 – (UFUB) Assinale a alternativa correta: O surgimento da Sociologia foi propiciado pela necessidade de: A) Manter a interpretação mágica da realidade como patrimônio de um restrito círculo sacerdotal. B) Incentivar o espírito crítico na sociedade e. D) I. através dos rituais. B) Manter uma estrutura de pensamento mítica para a explicação do mundo. E) II.

C) O objetivo da Sociologia é estabelecer leis gerais explicativas da realidade social. IV – Nele. nascido principalmente de correntes filosóficas da Ilustração. II e III estão corretas. estabelecer conceitos e definir uma metodologia. segundo um modelo físico ou mecânico. B) A sociologia de Weber é um esforço de explicação da sociedade enquanto totalidade social. II – Derivou-se da crença no poder absoluto e exclusivo da razão humana em conhecer a realidade e traduzi-la sob a forma de leis naturais. III – Foi um pensamento predominante na Alemanha no século XIX. C) I. podemos afirmar que: I – É a primeira corrente teórica do pensamento sociológico preocupada em definir o objeto. D) A Sociologia compreensiva busca apreender o sentido da ação social e de seus nexos causais. III e IV estão corretas. como uma das formas de pensamento social. 13 – (UFUB) De acordo com o pensamento weberiano. 12 – (UFUB) Sobre o positivismo. A) II. a sociedade foi concebida como organismo constituído de partes integradas e coisas que funcionam harmoniosamente. visto como única alternativa para a superação das lutas de classe em que a sociedade capitalista estava mergulhada. 12 . E) Nenhuma das anteriores. B) I. E) Nenhuma das anteriores. II e IV estão corretas. é correto afirmar que: A) Os juízos de valor do pesquisador não interferem em nenhuma fase do processo de investigação científica. E) Todas as afirmativas estão corretas. D) I e III estão corretas.D) Tornar realidade o chamado “socialismo utópico”.

o crescimento das cidades foi acompanhado pela progressiva transformação do espaço urbano em mercadoria.14 – (UEM – Inverno 2008) “Todos nós sabemos da existência de um certo tipo de ‘organização social’ entre animais não humanos. o avanço da urbanização faz predominar o padrão de relação societário. p. assinale o que for correto. é caracterizado pela formalidade e pela impessoalidade. . Sobre esse assunto. que. não apenas entre mamíferos superiores. por isso. Introdução à Sociologia. (.) Quando comparamos as ‘sociedades’ animais não humanas.. 02) De acordo com o texto. assinale o que for correto. Considerando o que diz o texto acima. se não fosse a descoberta das leis de padronização das sociedades de animais.. a introdução de novas tecnologias no campo foi um dos fatores que produziu o êxodo rural e contribuiu decisivamente para o crescimento populacional das cidades. homens e animais são padronizados devido ao peso da herança genética em todos os tipos de sociedades. mas também insetos: formigas. 04) No modo de produção capitalista. por exemplo. cupins e abelhas. 08) Os fluxos migratórios indicam como as atividades econômicas estão distribuídas no território e. podem retratar também as desigualdades regionais existentes. 02) Nas sociedades industriais. produzindo modos particulares de convívio social. 29). 01) Segundo o autor. 01) Para alguns sociólogos. o fazemos porque constatamos que o comportamento de tais animais apresenta certas padronizações parecidas com algumas padronizações verificadas entre os seres humanos” (VILA NOVA. 04) Podemos concluir do texto que são os fatores do meio ambiente que levam à padronização dos comportamentos dos animais e dos seres humanos. os sociólogos não teriam se interessado pelas leis de padronização existentes nas sociedades humanas. Sebastião. 08) Segundo o autor. ao contrário do comunitário. tais como os macacos. particularmente a sociedade daqueles insetos. 15. não há diferença essencial alguma entre o estudo das sociedades humanas feito pela sociologia e o das sociedades de insetos feito pela entomologia. notadamente. 1985. São Paulo: Atlas. 16) Podemos deduzir do texto que tanto os pesquisadores dos animais quanto os sociólogos se preocupam com as ações regulares produzidas pela vida em sociedade.(UEM – Verão 2008) A urbanização tornou-se o processo padrão de transformação do meio ambiente nas sociedades industriais.

16. Com base nos conhecimentos sobre o tema. ocorre a perda da identidade coletiva dos trabalhadores. é correto afirmar: a) Pelo fato de ser destituído de significado social. Quando a ciência traça seus próprios limites. Desde então. A desordem: elogio do movimento.(UEL – 2006) “No início a ciência quis a morte do mito. dando início assim a uma guerra interminável contra o pensamento mítico. d) Na modernidade. muitos dos conceitos que haviam norteado o campo da análise social desde o século XIX perderam relevância. . é um mito. Na sociedade pós-industrial. Alain Touraine e André Gorz permitiram ampliar a compreensão do processo de passagem da sociedade industrial para a pósindustrial. considere as afirmativas a seguir. 17. 1997. a ciência atual busca menos sua erradicação que seu confinamento. c) A morte e o extermínio do mito no ocidente decorrem da supervalorização e conseqüente predomínio da razão. Georges.” (BALANDIER. está presente em todos os espaços. como a razão quis a supressão do irracional. Do mesmo modo. para se ver os mitos morrerem’. por ser pouco preciso.16) A forte influência dos padrões de convívio tipicamente urbanos sobre a vida no campo e o acesso massivo e indiferenciado a bens e a serviços produzem uma notável homogeneização da realidade social. além da concentração do capital. ela reserva ao mito – e ao sonho – o lugar que lhe é próprio. Valéry glorificou esta luta destruidora contra as ‘coisas vagas’: ‘Aquilo que deixa de ser.(UEL – 2006) Nas três últimas décadas. basta o rigor do olhar e os golpes múltiplos e convergentes das questões e interrogações categóricas. b) A delimitação da área de atuação do saber científico implica na constituição de um lugar próprio para o mito. e) O pensamento mítico se disseminou porque se pauta em conceitos e categorias.) Com base no texto. Daniel Bell. por meio de suas metamorfoses.17. o pensamento mítico é crucial para a compreensão científica do mundo. o mito está ausente dos espaços sociais contemporâneos.p. armas do espírito ativo. I. os trabalhos publicados por Ralph Dahrendorf. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. visto como obstáculo a uma verdadeira compreensão do mundo. que se tornam cada vez mais individualistas. O mito por sua vez trabalha duro para se manter e.

d) I. Mesmo na cotidianidade. Uma tentativa de síntese. como lago. tento ser eu mesmo. nos dias partilhados em intimidade. O estranho se revela a mim. Não tentarei ser comportado. não li tudo o que devia(?) ter lido. assim como eu a ele. num instante de lapso. Vim cheio de preconceitos. num conceito. Como diria Sartre: “O inferno são os outros”. IV. O uso de sistemas técnicos oriundos das descobertas científicas é o que distingue a sociedade pós-industrial da sociedade industrial. sempre tropeçando. estranho. que confirmam ou negam a primeira impressão. Admito. e cada novo encontro vai deixando indícios. desde o início. não fiz resenhas de capítulos. se eles foram . dada a mobilidade 13 socioeconômica desde o advento da sociedade industrial. O retorno aos conceitos elaborados à luz da análise social do século XIX impõese. cristalizando minha existência num olhar. Partirei de minhas impressões gerais. O estranho é o que melhor e mais apto está para me julgar de forma incondicional. sempre fingindo uma segurança ou uma meninice que não tenho verdadeiramente. Não vim com muitas esperanças e tinha medo do previsível. de forma corajosa ou suicida.II. sempre serei um pouco desconhecido – para ele e para mim mesmo – e cada nova revelação será um choque. não consigo deixar de ser eu mesmo. Diante do outro. num adjetivo. de um momento passageiro. Estão corretas apenas as afirmativas: a) I e II. e não sei. na experiência que dele tenho a partir dos encontros travados anteriormente. c) III e IV. Com o advento da sociedade pós-industrial. na parcialidade de um ângulo. como eu a ele. é defrontar-me com a sensação de fragilidade. aprisionando meu presente. III. o campo da investigação sociológica amplia-se para além dos estudos dos movimentos de classe. diante do outro. agora. numa crença concebida na superfície que demonstro ser. em minha dança encenada de papéis. Diante do outro. Diante do outro conhecido tento ser o que para mim e mais fácil ser. após finalizado o percurso de um semestre. Comecei o disciplina descrente na possibilidade de eu vir a “aceitar” uma perspectiva sociológica do humano. Sempre me será um estranho. Luiz Fernando Calaça de Sá Júnior Estar diante do outro. conhecido. e) II. sempre gaguejando. que não segui os passos indicados. um estranho. Mas caio na dúvida se o que sou ou creio ser realmente condiz com a imagem que faço de minha figura. sem pestanejar. quando creio minimamente conhece-lo. O outro me aprisiona com o olhar. b) I e III. Não fui sistemático e rigoroso. III e IV. II e IV. Mesmo assim o olhar do outro me congela em meu movimento em direção ao próximo segundo. admito. sinais.

dos escândalos que se tornam espetáculo de contemplação e êxtase. em que se finge santidade e competência. Nessa abertura para o mundo. numa massa que corre em busca da própria sobrevivência. Associações entre o burguês e o proletário. lembrei-me de minha viagem a São Paulo no início do ano e do meu desagrado narcísico diante do que não era meu próprio espelho. da moda sempre em mutação. Criamos ficção de um mundo improvável. o receio de expressá-la. Há algo ainda em suspensão. Somos nossa casa. cada qual se apropriando do que lhe é bem pra uso e abuso. como fantoches ou ventrílocos. As aulas consistiram para mim como exposições de teses para as quais eu já vinha com todas as minhas antíteses. E as cidades? Haverão realmente espaços para negociações – o grande mercado mundial de homens especialistas -. bastando apenas parecer o que não se é. na perda do . Todos emitindo seus pontos de vista. Não sei. negociáveis na pólis. evitando o olhar constrangedor. a pé e de ônibus. E todos escondem algo por traz do sorriso. tango. Ninguém é o que realmente aparenta ser. Lembro-me das minhas andanças pela cidade. em que manipulamos o mundo em que somos manipuláveis. Os trabalhadores em equipes que surgem e se desfazem após a realização de uma tarefa. numa relação mutualista. O exercício da teatralidade de papéis assumidos e dissolvidos a cada momento. Indivíduo e sociedade? Indivíduo ou sociedade? Indivíduo-sociedade? Papéis. ou os papéis estão dados e legitimados por nós mesmos. somos como os ratos. os colegas – até hoje desconhecidos – que emitiam suas opiniões.desfeitos. perdemos a condição de pessoa. sem que se conheça sequer algo do outro. para uma questão que acho sem solução. herança. o qual fui expositor. desconhecidos que sentam-se um ao lado dos outro ou se esbarram. conto de Franz Kafka. melodramas mexicanos. de corpo fechado. como diria Andy Warhol. Desde este princípio me coloquei como estrangeiro. no “mundo real” da polis. utopias e “ismos” para remediar o mal estar que a civilização instaura na impossibilidade de saciedade do desejo. As palavras agora são pronunciadas de forma encenada. sem que se espere mais nada. como em Josefina. em contraposição à vida errante e democrática. nos dissolvemos. as falas que surgiam das leituras. nos tornamos anônimos e invisíveis. De resto. criamos crenças e dogmas em que possamos nos segurar. Apenas 15 minutos. as identidades múltiplas. Quinze minutos de fama. fluidas. uma tentativa de formular um opinião. nossa família. As outras aulas mantive um posição de ouvinte (des)interessado. 14 E nas relações em grupo repetimos esses mesmos falseamentos de realidade. nossa cultura local e provinciana? Ou somos a polis. O único movimento que tive foi o inicial estranhamento manifestado na leitura do primeiro texto. na política midiatizada. da sociabilidade e dos jogos de papéis vivido nas cidade. do clareamento dental. a cada devis. Tentei prestar atenção no que emergia. que questionava a relação de intimidade típica da organização familiar. identidade. O tempo das cirurgias plásticas.

É o mundo das caixas registradoras. Isso até parece uma provocação ou uma pirraça.verdadeiro desejo. e precisamos conquistar o pão com o suor do próprio rosto. transformandonos em porcentagens e estatísticas. só consigo ver a arte como salvação. sublimado ou transformado em sintoma e compulsão. e o previsível seja o que se espera. na minha crença herética de que minha voz solitária me basta. nossas verdades. Todos nós temos nossas ideologias. Senti . construímos vidas e vias. tantos sinais de fumaça sinalizando conceitos. digitalizando-nos. Posso omitir meus sentimentos e acreditar que tudo transcorreu conforme o previsível. Unindo forças por uma coletividade que é tão abstrata quanto a geometria das formas platônicas. e se reproduz. ou é uma grande confusão? Não sei. também. Discorrendo livremente. planejamos e nos projetamos existencialmente. Também eu tenho meus vieses. traçamos rumos que desejamos trilhar. fazendo comentários e perguntas incômodas. Tantos pontos de vista. vivemos em agrupamentos. Algo que destoa do resto do grupo. Despertar para a visão disso tudo é necessário. Tolerar ou não tolerar? Será que esse meu falatório tem sentido. Estou apenas sumariando. nossa forma “melhor” de ver o mundo. para ser um outro em alteridade? Será que há essa alteridade ou nos suportamos? A diferença ideológica às vezes é tão mais marcante e conflitiva que as aparentes. maquinaria pesada ou tecnologia digital. para ser eu mesmo. Nada tenho a perder. E me pergunto. Nesse ponto. mas será que realmente saímos do estado de cegueira e entorpecimento? Ou cairemos novamente numa outra cegueira de luminosidade ofuscante onde os contornos das formas são as mesmas sombras projetadas? Quando digo isso tento pensar no que lemos e discutimos. Mas esse mundo não é o mundo dos poetas. Situação atípica. O que mais me resta? Posso tentar fazer mais algumas correlações com o que eu já trazia como idéia. Às vezes ingênua. caminhando movida por uma mão abstrata. Ainda assim somos humanos. Uma presença. o desconforto. aparentemente sem nenhuma conexão com o que ela trabalhado. Mentira! Trago incômodos. Desde o início apontei para minha descompostura intencional. Estou tentando me arriscar. A sociedade formada de homens. ou simplesmente nos deixamos levar pela correnteza. de que serve tantas discussões teóricas? De que serve a universidade que nos prende nas utopias de um mundo possível de salvação. um ensaio de intelectualismo que vai do nada ao nada. trabalhamos e funcionamos. na liberdade que acredito ter nesse espaço aberto à reflexão. Mas todo um discurso de contrariedade e tudo isso é. Entre nós há. O mundo inteligível das idéias. Citando. e. irrealidade e virtualidade. Posso emitir opinião sobre a vivência do grupo. situações. ou incorporar novas formas. Uma saída ensaiada da caverna. e defendemos como se fossem reais. outras vezes confrontando a figura central de facilitadora. Mas bem posso estar enganado. e será que realmente preciso lapidá-los. E a tentativa de síntese é falsa. todos eles defendendo vieses. Ela estava lá.

Jogo na lata de lixo de minha cachola. que não foram ainda assimiladas. e sofista. realizadas em sala e entregue ao professor): . Algo se moveu. É motivo de risos e desconforto. à sociologia. quando não censurado e reprimido. para depois ruminar. preocupações e costumes. teimar na minha ignorância e resistir à psicanálise. Nada se fala. Senti-me contente. ao marxismo. mas não mudei meus pontos de vista. gostos. A sociedade é o objeto de estudo das ciências sociais especialmente da Sociologia. posto que dissociada da vivência real com o outro. Sinto muito. pois mostrou o quanto estamos conformados com os papéis dados. Já estou um tanto cansado das discussões que não levam a lugar nenhum. Momentos inesquecíveis nesse período. E também temos aquela que na risada de deboche abre espaço para as opiniões bem fundamentadas. 15 Indivíduo X sociedade Conceitos = a palavra indivíduo habitualmente descreve qualquer coisa. é importante. Como saio afinal? Não sei. pois tentei ser poeta. mas eis que emerge e se cristaliza o “bode expiratório”. o relativismo dos valores como verdade afirmada. Nada me pereceu tão novo que não seja velho. Já não estou mais no início do percurso. Fazemos um aqui um parâmetro com conceitos próprios (respostas pessoais de alunos nas questões abaixo. às fenomenologias do outro homem. e que interagem entre si constituindo uma comunidade. Acho que é tudo o que posso emitir enquanto registro de minhas idéias e síntese de minha participação desse círculo de pessoas. Mas sei-me em mutação. Não sei se isso é o bastante. e domesticados. Se exercitei meu papel nas arenas da polis acadêmica. para as referências à filosofia alemã. foi por minha escolha pela omissão consentida. à antropologia. Eu guardei coisas em mim.prazer em ver essa situação se instaurar. Como exercitar a própria existência é o que me pergunto. fica a situação velada. contra a ciência dos conceitos e da busca pela verdade. O que é uma sociedade? Conceitos = Em Sociologia uma sociedade é o conjunto de pessoas que compartilham propósitos. o mais forte que submete o outro por prazer de gozar. defendendo o absurdo. e que o imprevisível é desconcertante. Janelas se abrem para que articulações possam ser feitas no futuro. O espaço. Saio de uma turma de desconhecidos. Não sei se tenho mais nada a falar. o discurso sobre o desejo. Acho que é o lugar da loucura no mundo. eu sei. Quero sedimentá-los um pouco.

Quando esta ação visa a ação de uma pluralidade de indivíduos totalmente desconhecidos.A explicação sociológica busca compreender e interpretar o sentido. A influência social sobre o indivíduo é admitida.A determinação social é admitida em Weber. já que não têm um sentido pensado.Não existe acaso. move a construção da sociedade. é toda conduta humana dotada de significado subjetivo dado por seu executor. . na contemporaneidade. estudará o homem em relação de interdependência com o outro.Objeto de investigação da sociologia weberiana: a ação social. interpretando-a para explicá-la em seu desenvolvimento e efeitos. .Ações reativas não interessam à sociologia. mas sua interdependência. mas não é central. trabalhar de forma polarizada a relação entre indivíduo e sociedade.O indivíduo tem. mas caráter de reflexo. .Recusa. . não havendo como existir uma imersão passiva do indivíduo em uma sociedade que o põe a mercê dos acasos. mas considerada uma fase posterior à criação do mundo por ele. . como em Marx e Durkheim.Sociologia como a ciência que.Ação: para Weber. compartilhando sentidos e significados.a) Sua vida esta vinculada a sociedade? (Você faz o que bem quer?) b) Quais foram as experiência e influências que vocês receberam da família? * Dos amigos * Dos vizinhos c) Como vocês apreender a ler e a escrever? d) Onde aprenderam normas sociais? e) O que vocês aprenderam na rua? f) Vocês vão algum culto religioso? Max Weber . . entendida como a ação realizada pelo indivíduo tendo como orientação a ação do outro indivíduo. . . já que. a ação passa a ser social. em sua teoria. a natureza e seu meio social. para ele. . o sentido é o definidor da ação social. . . o lugar de criador de seu mundo.Portanto. o desenvolvimento e os efeitos da conduta de um ou mais indivíduos em relação a . já que todos agem de acordo com o significado atribuídos às ações.Sociologia para Weber: a ciência que busca entender a ação social.Nega a polarização indivíduo X sociedade.

. que haja conteúdo de sentido em si.Relação social: diz respeito a uma ação de reciprocidade orientada. o alvo da sociologia de Weber é “a especificidade dos fenômenos e seus significados” (…) “Por isso.Tipologias da sociologia weberiana: a da ação social e da tipologia da dominação. através destes fatores. tem-se o aperto de mãos: seu conteúdo de sentido é de amizade e cortesia.Os tipos ideais permitem a relação entre objetividade do conceito puro e a própria compreensão histórica. . compreensão da qual consiste em captar e interpretar sua conexão de sentido.Aspecto fundamental da sociologia de Weber: busca pela conexão de sentidos presentes no contexto das ações praticadas por indivíduos e grupos no processo de interação social. sendo necessário. que busca trabalhar com elementos da realidade. ou seja.Segundo Quintaneiro. . Os tipos ideais permitem essa relação. que pode ser entendido como compartilhado pela maioria dos membros de uma sociedade. se busca compreender a natureza particular das conexões que se estabelecem empiricamente. segundo Weber.outros (ação social). o cientista pode isolar. que consistem em conceitos selecionados que permitem a tradução adequada de aspectos da realidade. mas o resultado de um esforço cognitivo 16 que discrimina. da imensidade absoluta. ao contrário da capacidade humana de compreensão. ou seja. que poderá ser mais ou menos evidente par ao sociólogo. tem um forte componente subjetivo. contextualizada à realidade social vivenciada por indivíduos e grupos.A objetividade weberiana. . . pelo qual busca o nexo causal dos sentidos compartilhados entre indivíduos e grupos em seu existir socialmente. organiza e. para tanto. Por exemplo. fica clara a impossibilidade de análise humana de toda a realidade. um fragmento ínfimo que considera relevante” (…) Pode-se dizer. obtendo-se resultados válidos não apenas para si. já que. uma vez que o tipo ideal é construídos por critérios que dizem respeito à cada pesquisador. . enfim.Metodologia de Weber: Método Compreensivo. que cause a conduta dos indivíduos. Barbosa e Oliveira. . Assim. então. .O referido método utiliza-se de um recurso teórico chamado tipo ideal.Método Compreensivo: resgate interpretativo do passado para a compreensão do presente. . nas estruturas conceituais disponíveis e nas normas de pensamento vigentes. abstrai certos aspectos da realidade na tentativa de explicar as causas associadas à produção de determinados fenômenos”. que o particular ou específico não é aquilo que vem dado pela experiência. . O método utilizado baseia-se no estágio de desenvolvimento dos conhecimentos. que é infinita. nem muito menos pelo ponto de partida do conhecimento.

vista como a única maneira de organizar um grande número de pessoas efetivamente.Tipologia da ação social é subdividida em: 1) ação social tradicional. que consiste na organização da vida sócio-econômica de acordo com os princípios de eficiência e baseada no conhecimento técnico. tipicamente ocidentais e marcos distintivos deste lado do planeta. expande-se com o crescimento econômico e político. . É por meio da socialização que vamos adquirindo o nosso Eu. consideradas forças motrizes do agir social dos indivíduos e de suas interações. Por meio da socialização adquirimos o “direito” de atuarmos no grupo social em questão. o ser humano tem de ser socializado. 3) Dominação de caráter carismático.Ao contrário de Marx. o que é o certo e o que é errado. onde a ação social é determinada por elementos fortes das personalidades individuais que propiciam a alguns ascenderem sobre os demais. isto é. 2)afetiva. . a sociedade e o Eu são o verso e o reverso de uma mesma realidade. 2) Dominação tradicional. e.Weber. tecnologia e burocracia como racionalização. nossa identidade. como nossos pais. entretanto. já que Weber concentra sua análise nos atores sociais e suas ações. Socialização é o processo pelo qual a sociedade ou comunidade ou grupo social ensina a seus membros seus costumes e regras. Weber não vê o capitalismo como dominado pelo conflito de classes. 4) conforme fins.A legitimação da dominação é a crença de que determinado indivíduo é capaz de governá-lo. . . mas aspira às honras sociais derivados dele. A burocracia.Tipologia da dominação: o homem não busca o poder apenas para enriquecer economicamente. por meio de todas as interações que travamos durante a vida.Weber descreve o desenvolvimento da ciência. por meio da família e da escola. que são todas as pessoas muito importantes em nossa vida e dos quais dependemos. Na medida em que os outros significativos vão dizendo para as crianças como elas devem agir. o que devem pensar. que poderia esmagar o espírito humano justamente por tentar regulares todas as esferas da vida social. 3)racional conforme valores e. na qual a tradição determina de indivíduos e grupos. ou seja. É interessante notarmos que a criança descobre quem ela é quando descobre o que a sociedade é. . O processo de socialização Compreender a perspectiva sociológica acerca do ser humano é compreender também como o ser humano é socializado. É o que podemos chamar de socialização primária. temia a excessiva regulamentação da sociedade moderna. ela vai aprendendo a agir em sua sociedade porque . Ela ocorre por meio dos outros significativos. A socialização secundária se dá num âmbito maior. na qual se encontra vinculação com elementos da lei no contexto das sociedades completas. . irmãos mais velhos e amigos íntimos.A tipologia da dominação é subdividida em: 1) Dominação racional-legal. mas pela ascensão da ciência e da burocracia. Para que a sociedade funcione sem graves conflitos. A principal socialização se dá na primeira infância..

Durkheim (1987) ressalta a importância da socialização ao mostrar que a sociedade só pode existir porque penetra no interior do ser humano. passando por um processo de socialização. “em estado de isolamento social. urbana e industrializada: para a socialização ser completa teríamos que aprender tudo. o indivíduo não é capaz de desenvolver um comportamento humano. Tais valores vão se consolidando e determinando suas escolhas. reforçada e atualizada pelos outros de nosso grupo social. O processo de socialização nunca é completo e perfeito. A socialização faz com que a pessoa adquira as normas definidoras dos critérios morais e éticos. Por meio do processo de socialização as estruturas da sociedade tornam-se as estruturas de nossa mente. Se assim o fosse seríamos robôs. Os outros significativos vão se tornando o que. pois este deve ser aprendido ao longo de suas interações com os grupos sociais”. conforme os padrões da sociedade em que está inserido. construindo padrões de comportamento próprios para interação em cada grupo. criando sua consciência. verdadeiros autômatos. em sociologia. uma psiquê humana e outros fatores de influência tratados por outras ciências. moldando sua vida. Ao longo do processo de desenvolvimento humano. o indivíduo vai internalizando crenças e valores. Este mesmo processo revela-se crucial no contexto de uma organização. a sociedade. podemos perder nossa identidade se ela não for. vivenciar tudo. dentre elas. Nessa constante interação com o meio. aprendendo a usar os símbolos (linguagem) e aprendendo os seus papéis sociais. que lhes permitirá articular-se com os processos de comunicação e de integração que permeiam o fazer coletivo. nesse momento se inicia um novo processo de socialização onde aprendemos os códigos para bem atuarmos 17 nesse grupo social. isto é. conforme a idéia de reciprocidade. Mas. Imaginem em nossa sociedade complexa. Estamos sempre sendo socializados. Para Levy (1973. O processo de socialização de novos membros. a socialização é um processo contínuo no qual o indivíduo ao longo da vida aprende. Ao mesmo tempo a socialização nunca termina. Os homens adquirem uma “natureza” ou uma identidade por meio de suas associações e podem perdê-la (ou ela declina) quando se encontram isolados. normas e práticas da organização. criando uma identidade. o indivíduo participa de inúmeros grupos sociais. identifica hábitos e valores característicos que o ajudam no desenvolvimento de sua personalidade e na integração de seu grupo. segundo autores de diversas correntes teóricas. ao mesmo tempo. Podemos afirmar que a “natureza” humana não surge no momento do nascimento. o principal fator de formação da identidade e personalidade de um indivíduo é sua socialização. É por meio das estratégias de integração do indivíduo à . crenças. os funcionários precisam ser apresentados aos valores. denominamos de Outros Generalizados. Segundo Levy (1973). E ninguém é capaz de ser socializado em todos os aspectos de sua sociedade. Ou seja. existem algumas determinações genéticas. 60). A cada vez que ingressamos em um novo grupo social. tornando-o sociável. E as crianças vão. as escolhas profissionais. hábitos estes que não são inatos. Ao ingressarem em um novo grupo. suas idéias e valores. é crucial para a reprodução do universo simbólico. participar de tudo. para o pensamento sociológico. Obviamente.vai descobrindo como é sua sociedade. Impossível. p.

os empregados principiantes tendem a internalizar altos padrões de desempenho e expectativas positivas a respeito de recompensas resultantes do desempenho excelente. A integração do novo funcionário deve ser atribuída a um grupo de trabalho que possa provocar nele um impacto positivo e duradouro. educação. 5. Supervisor como tutor: O novo funcionário pode ligar-se a um tutor capaz de cuidar de sua integração na organização. Programa de integração: É um programa formal e intensivo de treinamento inicial destinado aos novos membros da organização para familiarizá-los com a linguagem usual da organização. O supervisor deve cuidar dos novos funcionários como um verdadeiro tutor. para depois receber tarefas gradativamente mais complicadas e crescentemente desafiadoras. os desafios e recompensas em vista. as atividades desenvolvidas. por meio de exemplos e pressões sociais. o processo seletivo permite que ele obtenha informações e veja com seus próprios olhos como funciona a organização e como se comportam as pessoas que nela convivem. Os novos empregados que recebem tarefas relativamente solicitadoras estão mais preparados para desempenhar as tarefas posteriores com mais sucesso. Para os novos empregados. Além disso. Se o supervisor realiza um bom trabalho neste sentido. com os usos e costumes internos (cultura . Os métodos de socialização organizacionais mais utilizados são os seguintes: 1. até mesmo. Antes mesmo do candidato ser aprovado. os grupos de trabalho têm uma forte influência sobre as crenças a atitudes dos indivíduos a respeito da organização e de como eles devem se comportar. que os acompanha e orienta durante o período inicial na organização. o supervisor representa o ponto de ligação com a organização e a imagem da empresa. Grupo de trabalho: O grupo de trabalho pode desempenhar um papel importante na socialização dos novos empregados. manipulação e. além de reforço positivo sobre comportamentos adequados ou. a organização tende a ser vista de forma positiva. Quando os principiantes são colocados em tarefas inicialmente fáceis. A aceitação grupal é fonte crucial de satisfação das necessidades sociais. lavagem cerebral. Conteúdo do cargo: O novo funcionário deve receber tarefas suficientemente solicitadoras e capazes de proporcionar-lhe sucesso no início de sua carreira na organização. Leavitt (1991) apresenta alguns termos. o gerente e o estilo da administração existente etc. Com isso. Processo seletivo: A socialização tem início na entrevista de seleção através da qual o candidato fica conhecendo o seu futuro ambiente de trabalho. 3. os colegas de trabalho. 4. como: aculturação. a cultura predominante na organização. 2. não têm chance de experimentar o sucesso e nem a motivação dele decorrente. reforço negativo sobre comportamentos impróprios. treinamento. A idéia principal é a persuasão das pessoas para adotarem determinadas atitudes e crenças. até mesmo.organização que os valores e comportamentos vão sendo transmitidos e incorporados pelos novos membros. Definindo a palavra socialização.

enquanto em outras são coordenados pelo órgão de treinamento e executados por gerentes de linha nos diversos assuntos abordados. normas de comportamentos esperados. . em uma situação real ou de laboratório. Na realidade. Maanen (1989) apresenta uma definição mais completa para socialização organizacional: é o processo pelo qual o indivíduo aprende valores. que não são mutuamente exclusivas e que. Quase sempre. normas e padrões de comportamento que a organização considera imprescindíveis e relevante para um bom desempenho em seus quadros. Este é um processo que ocorre durante toda a carreira do indivíduo dentro da organização.organizacional). a cultura da organização e se comporte daí para frente como um membro 18 que veste definitivamente a camisa da organização. o programa de integração pode durar meses. A socialização organizacional implica também na renúncia de certas atitudes. estão combinadas de diversas formas. na prática. os principais produtos e serviços. Em uma atmosfera informal. que permitem a ele participar como membro de uma organização. os programas de integração são totalmente desenvolvidos pelo órgão de treinamento. O programa de integração procura fazer com que o novo participante assimile de maneira intensiva e rápida. do novo participante pelo gerente ou supervisor que funcionam como seus tutores e que se responsabilizam pela avaliação de seu desempenho. A socialização organizacional constitui o esquema de recepção e de boas-vindas aos novos participantes. Nos casos em que o novo membro ocupa posição de destaque. o novo funcionário recebe um manual com informações básicas para sua integração na organização. valores e comportamentos. não existe forma de . Mais: ela funciona como elemento de fixação e manutenção da cultura organizacional. São programas que duram de um a cinco dias. a estrutura de organização (as áreas ou departamentos existentes).Estratégias formais e informais de socialização: o processo formal de socialização age na preparação do novato para ocupar um cargo específico na organização. em médio prazo. Em algumas organizações. Quanto mais formal for o processo. a socialização representa uma etapa de iniciação particularmente importante para moldar um bom relacionamento em longo prazo entre o indivíduo e a organização. Sua finalidade é fazer com que o novo participante aprenda e incorpore os valores. as quais serão descritas a seguir. e maior a tensão. dependendo da intensidade de socialização que a organização pretende imprimir. com uma agenda que programa sua permanência nas diversas áreas ou departamentos da organização com um tutor permanente (seu gerente ou diretor) e um tutor específico para cada área ou departamento envolvido na agenda. a missão da organização e os objetivos organizacionais etc. mais o papel de novato é segregado e especificado. O autor apresenta sete estratégias de socialização organizacional empregadas pelas empresas. mas que depois contam com um acompanhamento. em níveis de gerência ou direção. o que influencia as atitudes e valores dos novatos.

ou seja. de acordo com as habilidades e ambições dos indivíduos. os novatos são agrupados em conjunto para o início e processados por um conjunto de experiências idênticas.Estratégias de socialização por competição ou por concurso: as estratégias de socialização por competição caracterizam-se pela separação dos novos integrantes em grupos ou diferentes programas de socialização. o tempo de transição é padronizado. devendo aprender informalmente as práticas reais em seu setor. Nas estratégias de socialização variáveis. Por outro lado. da relação estabelecida entre o agente socializador e o novato. poderá também estimular a criatividade e a iniciativa dos novos integrantes. Essa estratégia apresenta um elevado risco. ele desenvolve quase sempre uma consciência coletiva. é necessário que exista um programa seqüencial para que o processo de aprendizagem seja facilitado.Estratégias seqüenciais e não seqüenciais de socialização: a socialização seqüencial caracteriza-se por processos transitórios marcados por uma série de estratégias discretas e identificáveis. Quando um grupo é introduzido em um programa de socialização. o que pode gerar certa incompatibilidade entre os objetivos organizacionais e os do grupo. As estratégias individuais também geram mudanças mas. A segunda etapa ocorre quando o novato é colocado em sua posição organizacional designada. As mudanças são isoladas e dependem. . . 19 . o processo formal de socialização é apenas a primeira etapa da socialização. em grande parte. o indivíduo é socializado com base em sua iniciativa e não por qualquer padrão a ser seguido.Estratégias fixas e variáveis de socialização: os processos de socialização fixa proporcionam a um novato um conhecimento preciso do tempo que necessitará para completar determinado estágio. cada um atua por conta própria e dificilmente procura apoio do grupo para as ações de sintonia. . Assim. . com resultados relativamente similares. perdem em termos de homogeneidade de resultados. quando comparadas às coletivas.Estratégias de socialização em série e isoladas: a estratégia de socialização em série é aquela que prepara os novos integrantes para assumir diversos papéis organizacionais similares.Estratégias individuais e coletivas de socialização: na socialização coletiva.diferenciação e grande parte da aprendizagem do novato necessariamente ocorre no interior das redes sociais e das tarefas relacionadas que envolvem sua posição. pois o novo integrante poderá ficar confuso e se perder durante o processo de socialização. Entretanto. Contudo. Os processos não seqüenciais são realizados em um estágio transitório e sem uma relação com outras etapas anteriormente realizadas. Dessa forma. sendo uma garantia de que a organização não sofrerá qualquer mudança ao longo do tempo. os indivíduos desconhecem a dimensão tempo do período de transição. por meio dos quais um indivíduo deve passar a ocupar uma posição e exercer um papel na organização. contra ou a favor da organização. Nas estratégias isoladas de socialização. . as estratégias por concurso possibilitam uma certa participação e uma cooperação entre os indivíduos.

As estratégias descritas acima são utilizadas pelas organizações para controlar e dirigir o comportamento de seus membros. a organização procura criar condições para que os novos integrantes passem a questionar seus comportamentos. a organização procura reduzir a autocomplacência do indivíduo. ou designar trabalhos que exigem pouca qualificação a indivíduos mais qualificados. Essas . Os candidatos que são recrutados passam por uma bateria de testes e entrevistas para que sejam selecionados somente aqueles indivíduos predispostos a aceitar as crenças e valores da organização. “a seleção é bastante rígida (…) aquele que for escolhido terá tendência a considerar-se como entrando numa elite. crenças e valores. Por meio de “experiências indutoras de humildade”. Ele é. Outros estudos também têm considerado o processo de seleção como a oportunidade inicial de atrair indivíduos que se identifiquem com os valores organizacionais e que reforcem a cultura da organização (CHATMAN. Maanen (1989) enfatiza. 1991. p. geralmente. Ele é bem-vindo da forma como ele é. (1987. tais como atribuir metas difíceis de serem cumpridas.Treinamento na linha de fogo: os esforços de treinamento específico para o trabalho voltam-se para o domínio das disciplinas básicas da organização. de modo a promover uma maior abertura para as normas e valores da organização. procura confirmar e estabelecer a viabilidade e utilidade dos valores pessoais dos novatos. 114). selecionando-se assim. ainda.Experiências indutoras de humildade: particularmente nos primeiros meses. Já no processo de despojamento procura-se destruir e despojar certos valores e crenças dos novatos. Outro autor importante e que vem complementar a teoria de Maanen (1989) é Pascale (1985) que também destaca sete passos inter-relacionados. Essa fase procura evocar uma auto-análise que facilite a aceitação dos valores da organização e assemelha-se às estratégias de despojamento relatadas por Maanen (1989). HOLLAND.A seleção: esta fase é dirigida a atrair candidatos “certos” e predispostos a aceitar as crenças e valores da organização. candidatos que identifiquem com os valores organizacionais e que reforcem a cultura da organização. 1985). Exceto a satisfação narcísica que isso provocou. RYNES & BOUDREAU. . . que estruturam o processo de socialização dos indivíduos na cultura organizacional: . 60) ressalta que “as estratégias de despojamento. 1986. Outro aspecto que merece destaque no processo de seleção é o reforço do sentimento de ultrapassar barreiras e de forte identificação do indivíduo com a organização na qual ele está ingressando. Para os autores. Ou seja. como mostram Pagés et al.. na investidura.Estratégias de socialização por meio de investidura e despojamento: estas estratégias objetivam confirmar ou destruir a identidade do novato na organização. que grande parte do controle sobre o comportamento do indivíduo nas organizações é resultado direto da maneira pela qual a pessoa é socializada. Maanen (1989. isso cria uma ligação tão sólida que não se consegue abandonar o que foi conseguido com tanta dificuldade”. submetido a uma série de “testes” rigorosos para obter acesso privilegiado na organização. no lugar das estratégias de investiduras. provavelmente produzem resultados similares entre os novatos”. p.

a fim de serem reconhecidos e recompensados. gestos e risos (FOUCAULT.Folclore do reforço: as histórias. . por meio de um poder disciplinar presente nas suas práticas sociais cotidianas. além do repasse do conhecimento técnico necessário à realização do trabalho. por meio do comprometimento contínuo com os valores compartilhados. Visa. o processo de socialização organizacional pode ser considerado como uma estratégia de poder e influência utilizada pela empresa para formar corpos dóceis e produtivos. “ …quaisquer que sejam as modalidades e a intensidade do poder disciplinar. 8). O treinamento é uma espécie de materialização da cultura. Motta (1981. a organização comunica as maneiras . que influenciam a maneira como as pessoas vêem a organização. a construção da subjetividade dos indivíduos que estão a ele submetidos. rituais e símbolos da organização oferecem imagens fortes da empresa. ele tem sempre o mesmo objetivo: formar corpos dóceis e produtivos”. Esse poder de restrição e de opressão controla corpo. 41) complementa com a seguinte afirmação. Dessa forma. O enfoque se dá particularmente nos aspectos relacionados ao sucesso competitivo e aos valores da organização. Nas organizações. Nesse sentido é também importante tratar da questão do poder nas organizações. 1989) e até mesmo a memória. os indivíduos podem ser aprisionados pelas estruturas de poder nas organizações e também pela sua própria conduta.Aderência aos valores centrais da organização: a identificação com as crenças e valores comuns capacita os indivíduos a reconciliarem os sacrifícios pessoais.Uso de sistemas de recompensa e controle: a organização dedica um extremo cuidado à criação de sistemas abrangentes e consistentes. Neste sentido. o folclore reforça o código de conduta sobre “como realizamos as coisas por aqui”. que mantêm a organização em sintonia com a sociedade. Essa fase essencial cria uma base de confiança entre a organização e o indivíduo. devem dar prova de coerência e persistência de seus pensamentos”. as organizações exercem um controle muito forte sobre os indivíduos. freqüentemente necessários para o sucesso da organização. Nesse ínterim. Particularmente. Eles devem dar provas constantes de sua competência. . . porém. com o propósito de medir os resultados operacionais e recompensar o desempenho individual. para os novos integrantes.experiências extensivas e cuidadosas têm por objetivo inculcar no novo integrante os valores da organização. p. Para Motta (1991. os indivíduos “nunca podem ou devem perder a sua pose.Modelos consistentes de papéis: os processos de socialização organizacional abrangentes oferecem modelos consistentes de papéis a desempenhar. mitos. p. 20 .

sendo que este pode abranger tanto o trabalho a ser feito quanto a organização. Para esse autor. etc. para Marx. que favoreça a cooperação. acarretando algumas mudanças. É nesta etapa que o novo empregado terá o primeiro contato com a empresa. Finalmente. Pascale (1985) advoga que essas fases. para que conheça melhor a cultura organizacional da empresa e desempenhe com maior sucesso sua nova função. Exercícios . 04) As classes sociais. a integridade e a comunicação. atos e valores. Processos O estágio da pré-chegada: reconhece explicitamente que cada pessoa chega a uma empresa com um conjunto de valores. 01) Sua utilização visa explicar as formas pelas quais as desigualdades se estruturam e se reproduzem nas sociedades.Indivíduo. O estágio da metamorfose: é a etapa onde o novo funcionário irá superar alguns problemas descobertos durante o estágio de encontro. A socialização é um processo de adaptação que ocorre quando uma pessoa passa de fora para dentro da empresa. pelas relações de cooperação que se desenvolvem entre os diversos grupos envolvidos no sistema produtivo. quando as expectativas e a realidade são diferentes. . 02) De acordo com Karl Marx. assinale o que for correto sobre o conceito de classes sociais. as relações entre as classes sociais transformamse ao longo da história conforme a dinâmica dos modos de produção. proporcionam uma forte identidade organizacional. Identidade e Socialização 01. que carregam de maneira bem forte os traços e atributos que a organização valoriza. palestras. sobretudo. substituindoos pelos padrões fundamentais. quando bem gerenciadas. Entretanto. o objetivo da socialização é estabelecer uma base de atitudes. O estágio do encontro: é a etapa onde o novo funcionário se vê diante da diferente posição entre suas expectativas e a realidade. o novo funcionário é submetido a treinamentos.(UEM – Inverno 2008) Em termos sociológicos. Ele terá absorvido as normas da organização e de seus colegas de trabalho. o estágio de encontro irá confundir as percepções geradas antes. atitudes e expectativas. cursos. definem-se. Ou seja. Se as expectativas forem mais ou menos de encontro com a realidade. os novos empregados devem passar por uma socialização que vai desligá-los de suas pressuposições anteriores.como reconhece formal ou informalmente seus “vencedores”. sentindo-se assim aceito pelos colegas como pessoas de valor e digna de confiança.

como a fome. 28. José de Souza. são influenciados pelos valores e pelos costumes que caracterizam sua sociedade. 1977. Alain. 08) as experiências individuais. 04) o fenômeno tratado pelo autor corresponde ao conceito de socialização.” (BERGER. mas também com outros seres humanos. das regras e dos valores sociais. 2001 p. e MARTINS. contêm dimensões sociais. a complementaridade e a troca: a divisão do trabalho social cria diferenças com base na complementaridade. mas apenas da sociologia.2006) “Três grandes dimensões fundamentam o vínculo social. 02) a relação que a criança estabelece com o seu corpo não deveria ser do interesse das ciências biológicas. o frio e a dor. Por fim. 2. o sentimento de pertença à humanidade que nos leva a reforçar nossos vínculos com os outros seres humanos: força da linhagem. até mesmo aquelas que parecem mais relacionadas às nossas necessidades físicas. desde o nascimento. p. dependendo da sociedade na qual eles estão inseridos. é correto afirmar: . como os proletários. Brigitte. desde o nascimento. no caso do exemplo. pela experiência social. In FORACCHI. e BERGER. 16) o desconforto físico que uma criança sente. afirmação de um destino comum da humanidade por grandes sistemas religiosos e metafísicos. a proximidade surge então como produtora do vínculo social e o camponês sedentário como o ser social por excelência. Rio de Janeiro: DP&A. pelos indivíduos. é a história de suas relações com outras pessoas. A questão local. do vínculo sexual e familiar. a burguesia. Peter L. os componentes não sociais das experiências da criança estão entremeados e são modificados por outros componentes. Sociologia e Sociedade. Podemos concluir do texto que 01) os indivíduos.) Com base no texto e nos conhecimentos sobre o tema.(UEM – Verão 2008) Leia o texto a seguir: “Desde o início a criança desenvolve uma interação não apenas com o próprio corpo e o ambiente físico. Em segundo lugar. 3. A biografia do indivíduo. 200). ou seja. o fato de viver junto. só se realiza na sua relação com a classe opositora. que designa o aprendizado.(UEL. Marialice M. 16) A afirmação “a história da humanidade é a história das lutas de classes” expressa a idéia de que as transformações sociais estão profundamente associadas às contradições existentes entre as classes.” (BOURDIN. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos.08) A formação de uma classe social. Além disso. pode receber dos adultos distintas respostas de satisfação. Primeiro. o que permite aumentar as 21 trocas. “Socialização: como ser um membro da sociedade”. de partilhar uma mesma cotidianidade.

d) Apenas as afirmativas I. em que todos estavam trajando roupas esportivas. Ao entrar na festa. d) Pela ausência da cotidianidade. como fato social. e) O forte sentimento de pertencer à humanidade desmantela a noção de comunidade e minimiza o papel da afetividade nas relações sociais. e) Apenas as afirmativas I.(UEL . 4. I. olhares de espanto e de admiração. cochichos com comentários maldosos.(UEL – 2004) O texto a seguir refere-se à situação dos apátridas na 2ª Guerra Mundial: . II. causou estranheza. O calouro. IV. O fato social é todo fenômeno que ocorre ocasionalmente na sociedade. O fato social é exterior ao indivíduo e apresenta-se generalizado na coletividade. provocando risos. O fato social expressa o predomínio do ser individual sobre o ser social. II e IV são corretas. No convite distribuído pelos veteranos não havia informação sobre o traje apropriado para a festa. As regras que regem o comportamento e as maneiras de se conduzir em sociedade podem ser denominadas. O calouro não estava vestido de acordo com o grupo e sentiu as represálias sobre o seu comportamento.a) A divisão do trabalho social na sociedade contemporânea desagrega os vínculos sociais. c) Apenas as afirmativas II e III são corretas. segundo Émile Durkheim (1858-1917). O fato social caracteriza-se por exercer um poder de coerção sobre as consciências individuais.2003) Um jovem que havia ingressado recentemente na universidade foi convidado para uma festa de recepção de calouros. Considere as afirmativas abaixo sobre as características do fato social para Émile Durkheim. III. 5. imaginando que a festa seria formal. compareceu vestido com traje social. as grandes metrópoles deixaram de ser lugares de complementaridade e de trocas. por resultarem de criações subjetivas dos indivíduos. c) O cotidiano das pequenas cidades e do mundo campesino favorece a criação de vínculos sociais. Assinale a alternativa correta. b) Apenas as afirmativas I e IV são corretas. b) Os sistemas religiosos e metafísicos são fatores de isolamento social. III e IV são corretas. a) Apenas as afirmativas I e II são corretas.

No Brasil. portanto. Sociologia da Educação. primeiro e acima de tudo. . d) Ao apátrida é garantida ressonância às suas opiniões mais significativas. totalitarismo. Rio de Janeiro: DP&A. é correto afirmar: a) Obter o reconhecimento por uma comunidade é condição básica para o gozo de direitos. na privação de um lugar no mundo que torne a opinião significativa e a ação eficaz. não há vida social. Pois sem consenso não há cooperação entre os indivíduos e. p. por exemplo.) Considere as afirmativas a seguir.. Desse modo. p. 229..“O que era sem precedentes não era a perda do lar. Este consenso é garantido pelo meio moral que compartilhamos. nem da igualdade perante a lei ou da liberdade de opinião – fórmulas que se destinavam a resolver problemas dentro de certas comunidades – mas do fato de já não pertencerem a qualquer comunidade [. imperialismo. (Adaptado de: RODRIGUES. 2000. 6. 230.] A privação fundamental dos direitos humanos manifesta-se.. b) A condição em que se encontra o apátrida é igual à condição de escravo. é produzido pela cooperação entre os indivíduos através de um processo de interação que Durkheim chamou de divisão do trabalho social. Durkheim destaca dois tipos de solidariedade: a mecânica e a orgânica. Origens do totalitarismo: anti-semitismo. 1989. 227. que apresentam artigos e parágrafos da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT. da liberdade ou da procura da felicidade. que são os direitos do cidadão. por sua vez.) Com base no texto. conforme o tipo de divisão do trabalho social que predomina na vida coletiva numa determinada época tem-se um tipo diferente de solidariedade entre os indivíduos..] A calamidade dos que não têm direitos não decorre do fato de terem sido privados da vida.(UEL – 2005) Emile Durkheim observa que uma condição fundamental para que a sociedade possa existir é a presença de um consenso social. c) Ser privado da vida é menos importante que ser privado da liberdade. está em jogo quando deixa de ser natural que um homem pertença à comunidade em que nasceu.Edição de 1988) e da Constituição de 1988.27-28. o qual. e) Ser um apátrida é ser reconhecido como um indivíduo com direitos fora de seu país de origem. mas a impossibilidade de encontrar um novo lar.” (ARENDT. Algo mais fundamental do que a liberdade e a justiça. nenhum país ao qual pudessem ser assimilados. São Paulo: Companhia das Letras. nenhum território em que pudessem fundar uma nova comunidade própria [. nota-se a influência das idéias 22 positivistas em boa parte de sua legislação. Hannah. Alberto T. De súbito revelou-se não existir lugar algum na terra aonde os emigrantes pudessem se dirigir sem as mais severas restrições.

leis. [onde] a eficácia das normas está em perigo”. p. “[Da Organização Sindical:] A solidariedade de interesses econômicos dos que empreendem atividades idênticas. 7. No Brasil. similares ou conexas constitui o vínculo social básico que se denomina aqui categoria econômica”. Pelo número de concepções..]. tratados. trabalho escravo. No plano da efetivação dos direitos. aí estão assassínios praticados por graúdos mandantes que se servem de pistoleiros profissionais. de número. etc. como órgãos técnicos e consultivos.) Assinale a alternativa que indica o conceito utilizado por Emile Durkheim (18581917) para definir uma “condição social” do tipo descrito no texto. menores para prostituição. b) Fato social. c) II e III. III. 30 ago... b) I e IV. a deplorável guerra do tráfico de drogas e as chacinas em grandes cidades brasileiras. “[São prerrogativas dos Sindicatos:] colaborar com o Estado. A 3.. de personalidade etc. no estudo e solução dos problemas que se relacionam com a respectiva categoria ou profissão liberal”. c) Coerção social. são aquelas que os filósofos chamam de categorias do entendimento: noções de tempo. tráfico de mulheres. e) Conflito social. as condições sub-humanas a que são submetidas centenas de milhões de pessoas [. 8. d) I.] Mas.. III e IV. Remetem ao conceito de solidariedade orgânica. II e IV.(UEL – 2006) “Na raiz de nossos julgamentos existe um certo número de noções essenciais que dominam toda a vida intelectual. sendo vedada a interferência estatal em seu funcionamento”. de gênero. de causa.].. IV. para utilizar a expressão de Lipovetsky [.. na forma da lei... se.]. d) Consciência coletiva.(UEL – 2005) “A despeito de se viver na era dos direitos. as categorias são representações essencialmente coletivas. 2004. “[Dos direitos e deveres individuais e coletivos:] a criação de associações e. [. a de cooperativas independem de autorização. e) II.]”. apenas as afirmativas: a) I e III. São Paulo. de espaço. (Folha de São Paulo. de substância.. não se estaria na era do vazio [de direitos]?” [Situações sociais desse tipo são analisadas por alguns sociólogos a partir da consideração de que nos encontramos em] “uma condição social em que as normas reguladoras do comportamento perderam a sua validade. em pleno século XXI [. são significativos os homicídios no mundo inteiro. . está-se na era dos direitos.I.. II. “[São condições para o funcionamento do Sindicato:] a proibição de qualquer propaganda de doutrinas incompatíveis com as instituições e os interesses da Nação [. a) Anomia. como pensamos.

a) Priorizar o combate ao narcotráfico. hoje. morais. São Paulo: Ática. aos esquadrões da morte e a unificação das polícias. insistindo que a moral é o mínimo indispensável. A moral traça as orientações da conduta ideal para as pessoas. a moral (conjunto de valores e juízos direcionados à vida em comum) é o amálgama que une os indivíduos à vida em grupo. reforçar o papel socializador da escola com ênfase na educação para a paz e 23 para a cidadania e melhorar o funcionamento do sistema legal. c) Promover a instituição familiar. p. d) A tradução de estados mentais dos indivíduos portadores de distintas visões de mundo. 1981. morais e econômicas. algumas possíveis propostas de ação para enfrentar esse problema. Assinale a alternativa que está em conformidade imediata com os pressupostos sociológicos mostrados no texto. . e) As noções incomuns à vida intelectual de uma sociedade que deturpa os julgamentos dos sujeitos. b) Estimular a produção econômica para a geração de empregos. a seguir. de sua morfologia.) Com base no texto e nos conhecimentos sobre o tema. b) Aquelas representações cuja formação é exterior às instituições religiosas. Sociologia. 9. sem o qual as sociedades não podem viver em harmonia. é correto afirmar que a noção de categorias do entendimento compreende: a) Os estados emocionais fugazes dos indivíduos de distintas sociedades. e parte do seu conteúdo se materializa em normas e regras. Durkheim afirma o papel do regulamento moral para a integração social.” (DURKHEIM.(UEL – 2004) O sociólogo francês Émile Durkheim (1858-1917) considera a “comunhão de valores morais” a condição fundamental e primeira para a construção da coesão social. Esses pressupostos. c) O modo como a sociedade vê a si mesma nos modos de agir e pensar coletivos. ao crime organizado. Indicam-se. econômicas etc. Para ele. permitem a formulação de uma avaliação específica sobre o problema da criminalidade violenta praticada por jovens no Brasil. enfatizando aqueles voltados à população de 15 a 24 anos. Émile. 154-157. de suas instituições religiosas.traduzem antes de tudo estados da coletividade: elas dependem da maneira pela qual esta é constituída e organizada. a respeito das condições para o bom convívio dos indivíduos numa coletividade.

minha religião. c) III e IV. da minha cabeça. IV. O ato de presentear instaura e reforça as alianças e os vínculos sociais. o que penso veio da minha família. mas é difícil! Às vezes faço o que quero. • Sou um ser social. a escola.d) Detectar antecipadamente os jovens portadores de personalidade irritável. II. I. Não sigo o que me obrigam e pronto! Acredito que com a força dos meus pensamentos poderei realizar todos os meus sonhos. autônomo. e o meu esforço ajuda a sociedade a progredir. sei lá.. O presentear como prática social originou-se quando da consolidação do modo capitalista de produção. independente. dos meus amigos e parentes. sou único. temos certa obrigação em convidá-lo para o casamento do nosso filho. reduzindo o número de nascimentos a médias compatíveis com os índices de desenvolvimento econômico previstos 10. III.(UEL – 2006) Ao receber um convite para uma festa de aniversário. este indivíduo espera receber presentes de seus convidados. Estão corretas apenas as afirmativas: a) I e II. A troca de presentes cria e alimenta um circuito de comunicação nas sociedades. esta obrigatoriedade de dar. meus amigos. O lucro obtido a partir dos bens trocados é o que fundamenta as relações de troca de presentes. trocamos presentes. d) I. nos casamentos. e) II. na festa de seu aniversário.(UEL . 11. a prática de “presentear” é algo fundamental a todas as sociedades: segundo ele. Com base no texto e nos conhecimentos sobre o tema. b) I e III. (Jovem estudante e trabalhadora em uma loja de shopping)..2008) Leia os depoimentos a seguir: • Sou um ser livre. minha família. III e IV. gostaria de fazer o que desejo. nas festas de amigo-secreto e em muitas outras ocasiões. de receber e de retribuir é mais importante que o bem trocado. Reciprocamente. impulsiva e impaciente e providenciar o tratamento terapêutico como política pública. e) Investir no controle da natalidade. Sinto que dependo disso tudo e gostaria muito de ser . Do mesmo modo. é comum que o convidado leve um presente. II e IV. se o vizinho nos convida para o casamento de seu filho. penso apenas com minhas idéias. mas na maioria das vezes sigo meu grupo. Segundo o sociólogo francês Marcel Mauss. faço só o que desejo. considere as afirmativas a seguir. a relação da troca. Nos aniversários.

b) O fato social. fundada no conceito de ação social e suas tipologias de M. fundado no liberalismo de vários autores dos séculos XVIII a XX. 1967. fundada em K.2008 ) De acordo com Florestan Fernandes: A concepção fundamental de ciência. Durkheim. como ir a raves. funcionalismo. de Emile Durkheim (1858-1917). sinto que sou livre. as explicações sociológicas sobre a relação entre indivíduo e sociedade presentes nas falas. a) Solidariedade mecânica. 12. fundada em K. Nas raves existem regras. fundada em K. d) Sociologia compreensiva. Weber. fundado no conceito dos três estados de Augusto Comte. • Sinto que às vezes consigo fazer as coisas que desejo. Então. e) Corporativismo positivista. . (FERNANDES. b) Teoria da consciência de classe. exterior e coercitivo em relação à vontade dos indivíduos. sociologia compreensiva. sociologia compreensiva.livre. fundada no conceito de ação social e suas tipologias de M. (Jovem estudante e Office boy). é realista. mesmo que minha mãe não permita ou concorde. fundado em Augusto Comte. fundado no conceito de consciência coletiva de E. Assinale a alternativa que descreve o objeto próprio da Sociologia.(UEL . Marx. fundada no conceito de ação social e suas tipologias de M. mas não sou! (Jovem estudante em uma escola pública que trabalha em empregos temporários). no sentido de defender o princípio segundo o qual nenhuma ciência é possível sem definição de um objeto próprio e independente. teoria da consciência de classe. fundado na teoria política liberal. individualismo metodológico. teoria organicista de Spencer. Fundamentos empíricos da explicação sociológica. fundada no funcionalismo de E. muita gente não percebe. funcionalismo. teoria da consciência de classe. mas há toda uma estrutura. Weber. seguranças. Rio de Janeiro: Cia Editora Nacional. base da divisão social e transformação do modo de produção. fundada em K. fundado no liberalismo de vários autores dos séculos XVIII a XX. teoria da consciência de classe. F. mas com alguns limites. Marx. É legal a gente viver segundo as regras e ao mesmo tempo poder mudá-las. respectivamente. Assinale a alternativa que expressa. individualismo. Em outros momentos faço o que me mandam e acho que deve ser assim mesmo. Durkheim. c) Individualismo. segundo Emile Durkheim (1858-1917). taxas. Marx. p. 73). a) O conflito de classe. etc. Marx. posso escolher coisas. Weber.

a estrutura corretíssima das organizações atléticas. A. empregados ou dependentes. São Paulo: Livraria Duas Cidades. se refere ao comportamento dos outros. p. o fazendeiro que manda nos seus agregados. “Não há assim por que considerar que as formas anacrônicas e remanescentes do escravismo. 2000.) IV. Brasília: Editora UnB. E. ainda presentes nas relações de trabalho rural brasileiro. como se diz sempre. nem vem dar louvado (pedir a benção). revela o contrário. Falta-lhe a plástica impecável.c) A ação social que define as inter-relações compartilhadas de sentido entre os indivíduos. [.) III. ao primeiro lance de vista. p. sitiante perto de Tatuí.(UEL . o desempeno. se o pai morria. dando com isso origem a relações semi-feudais que implicariam uma situação de ‘latifúndios de tipo senhorial a explorarem camponeses ainda envolvidos em restrições da servidão da gleba’. lhe disse que era tempo de irem buscar a novilha dada pelo padrinho. p. Economia e sociedade. 106. funcionava o sistema de obrigações recíprocas. I. C. 1987. antes de ser um líder político.” (CANDIDO. 3) Com base no texto. resultado das relações de produção e da divisão social do trabalho. o padrinho ajudar a comadre até ‘arranjar a vida’. A Revolução Brasileira. M. considere as afirmativas a seguir: I. A sua aparência. Diz que era costume. O vínculo não obedece a linhas tão simples. “Mesmo entre gente humilde. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral. não necessariamente... São Paulo : Brasiliense. entretanto.” (CUNHA... 24 e) A cultura. d) A sociedade. vol. São Paulo : Círculo do Livro.] Ocorre que o coronel não manda porque tem riqueza. diz Nhô Roque. produto da vontade e da ação de indivíduos que agem independentes uns dos outros. antes de tudo. “O sertanejo é.. quando o afilhado cresce. Traduzido por Regis Barbosa e Karen Elsabe Barbosa. 247. 1989. 1982..” Por ação social entendem-se as ações que: “quanto ao seu sentido visado pelo agente. 95. que se traduziriam no mero prolongamento do poder privado na ordem na ordem pública [. mas . O nonagenário Nhô Samuel lembrava com saudade o dia em que o pai. a gente paga o batismo e. porém. Os Parceiros do Rio Bonito. orientando-se por este em seu curso. um forte. “O coronel.. Hoje. é um líder econômico. a Sociologia significa: “uma ciência que pretende compreender interpretativamente a ação social e assim explicá-la casualmente em seu curso e em seus efeitos.]. Isso tudo não tem sentido na estrutura social brasileira.2008) De acordo com Max Weber. 13.) II. p. Os Sertões.” (PRADO Jr.” (WEBER.

se manifestam tratamentos discriminatórios em relação à mulher e às crianças do sexo feminino. R. 25 . A introdução ao estudo deste tópico pode ser realizada com a apresentação de um filme que propicie o debate sobre o tema (caso a escola tenha os recursos necessários). 2. oralmente. claramente. Os donos do poder. situações vividas ou observadas em que.) Correspondem ao conceito de ação social citado anteriormente somente as afirmativas a) I e IV. e que propicie o debate em torno das questões relacionadas às desigualdades de gênero.manda porque se lhe reconhece esse poder. é manifesta a desigualdade no tratamento ou na posição socialmente ocupada por homens e mulheres. 1973. entre pais e filhos e. d) I. o professor pode lançar mão da narração de um conto ou da exposição de um caso real. O principal propósito dessa atividade inicial é provocar o reconhecimento por parte dos alunos da existência de tratamento desigual entre homens e mulheres nos vários aspectos e dimensões da vida social. nos grupos de convivência. e) II. utilizando os conceitos e idéias centrais referentes ao tópico. Porto Alegre: Editora Globo. p. II e III. na escola. Outra maneira de iniciar o estudo desse tópico é através de um convite aos estudantes para que apresentem. os aspectos culturais e sociais envolvidos nas desigualdades e os preconceitos referentes ao gênero e à sexualidade. III e IV b) II e III c) II e IV. analisar e debater os problemas envolvidos nas situações apresentadas em cada trabalho proposto. 622. É também possível identificar tratamentos desiguais entre meninos e meninas não só na família como nas escolas. criando oportunidade para o professor provocar questões iniciais que permitirão o desenvolvimento do assunto. do conhecimento público. As meninas e as jovens também são capazes de expressar situações em que a discriminação e o preconceito contra o gênero feminino aparecem nos relacionamentos cotidianos na família. entre irmãos de diferentes gêneros . relacionado a preconceitos e discriminações de vários tipos. v. num pacto não escrito. Filmes sugeridos: Na falta de condições para a apresentação de um filme. por exemplo.” (FAORO. mesmo. Como. como a diferença entre os termos “sexo” e “gênero”. tanto por parte da direção como dos professores e funcionários. divulgado em jornal e/ou televisão. Gênero como fator de desigualdade: Gênero e desigualdade As atividades sugeridas devem propiciar aos alunos desenvolver as capacidades de identificar. os casos em que nos relacionamentos familiares .entre mulher e marido.

por exemplo. Pelo contato com vários organismos sociais. contos de fadas. 2005) “Um caminho dentro da Sociologia para se analisar “as origens das diferenças de gênero é estudar a socialização do gênero. “ Estudos sobre as interações entre pais e filhos.”.. Os personagens masculinos tendem a representar papéis mais ativos e aventurosos. Além disso. enquanto os femininos são retratados passivos. mostram diferenças distintas no tratamento de meninos e meninas. muitos estudos mostram que. “As influências sociais na identidade de gênero fluem por meio de diversos canais. Essa abordagem faz distinção entre sexo biológico e gênero social – uma criança nasce com o primeiro e desenvolve o segundo. Por exemplo. os livros ilustrados e os programas de televisão experienciados por crianças tendem a enfatizar diferenças entre os atributos masculinos e femininos. programas de televisão e filmes. ou ser alvo de sanções negativas (“Meninos não brincam com bonecas”).. as escolas e outros núcleos de agrupamento talvez estejam em divergência com outros.” Essa interpretação dos papéis sexuais e da socialização foi criticada e muitos escritores argumentam que “a socialização de gênero não é por si mesma um processo tranqüilo: diferentes organismos como a família. Pesquisadoras feministas demonstraram como produtos culturais e de mídia.A.. os alunos poderão ler e discutir o seguinte trecho do capítulo sobre “Gênero e Sexualidade”. mesmo quando os pais acreditam que suas reações para ambos sejam iguais.”. esperançosos e voltados à vida doméstica. comercializados para audiências jovens. Estudo dirigido do texto abaixo e discussão sobre o tema:Após terem sidos expostos a uma introdução geral sobre o tema da sexualidade e do gênero. Embora a situação. como a família e a mídia. As diferenças de gênero não são biológicamente determinadas. as desigualdades de gênero surgem porque homens e mulheres são socializados em papéis diferentes. um menino poderia ser sancionado positivamente em seu comportamento (“Que menino valente você é!”). encarnam atitudes tradicionais . forças socialmente aplicadas que recompensam ou restringem o comportamento. em certa medida. a aprendizagem de papéis do gênero com o auxílio de organismos sociais. Os brinquedos. Essas afirmações positivas e negativas ajudam meninos e meninas a aprender os papéis sociais esperados e a adequar-se a eles. do livro Sociologia.2. esteja mudando.. de alguma forma. De acordo com essa visão. as teorias de socialização ignoram a capacidade dos indivíduos de rejeitar ou modificar as expectativas sociais acerca dos papéis sexuais. os personagens masculinos em geral superam em número os femininos na maior parte dos livros infantis. Artmed Editora S. as crianças internalizam gradualmente as normas e as expectativas sociais que são percebidas como correspondentes ao seu sexo..” Na socialização do gênero “meninos e meninas são guiados por “sanções” positivas e negativas. tanto primários como secundários. 105-6. são culturalmente produzidas. as identidades de gênero são resultados de influências sociais”. “Embora convenha nutrir certo ceticismo com relação a qualquer adoção indiscriminada da abordagem que postula os papéis dos sexos. de Anthony Giddens (pp.

de esposa. tão competitivos.em que claramente está manifesto um preconceito contra mulheres ou homossexuais. Dá medo viver numa sociedade que. nem saem da barriga da mãe sedentos de poder. violência e poder: dá para mudar esta equação? Fernando Seffner1 Homens não nascem prontos. de professor. tão fortes.) GÊNERO. se atribui aos termos “sexo” e “gênero”? Por que é importante para a análise sociológica fazer tal distinção? .atribuição de natureza social relacionada a alguma função e/ou desempenho esperado. nem dispostos a "comer todas" usando o sexo como arma contra as mulheres. Antes que alguém comece a sentir pena dos homens. etc. dia a dia. socialmente. competitivo e agressor. não custam lembrar que este "sacrifício" todo não é feito . No caso do texto o sentido do termo está diretamente associado às formas de aprovação ou reprovação dos comportamentos. para cada gênero. em Sociologia.” Algumas questões para orientar o estudo e o debate em sala: . VIOLÊNCIA E PODER Homens = sexo.Explique com suas palavras o que se quer dizer com a afirmação “homens e mulheres são socializados em papéis diferentes”. Os homens são ensinados. não nascem violentos. de acordo com o que é esperado. Glossário: sanção – pena ou recompensa (reforço positivo ou negativo) com que se tenta garantir a execução de uma norma ou lei social. tendo que se mostrar tão duros. SEXUALIDADE. cotidianamente. coloca em ação estratégias que exigem do homem desempenhos que o produzem enquanto um guerreiro: indivíduo violento. condenados a tantos sacrifícios. O que o termo “papéis” significa para a análise sociológica? (recordar o estudo sobre o tema da socialização em sua relação com a desigualdade de gênero) . em programa de televisão ou em propaganda . enfim. de estudante. papel .apresentada em filme.Qual o sentido que. Os papéis sociais são expectativas socialmente definidas que uma pessoa segue numa dada posição social. pois nos indica uma sociedade 26 com mecanismos bastante violentos de produção de indivíduos. influenciando comportamentos diferenciais entre meninos e meninas? . de pai.para com o gênero e os tipos de objetivos e ambições esperados em meninos e meninas. Por um lado. (Por exemplo: assumir o papel de médico. tão "homens".Cite exemplos de “sanções” negativas ou positivas ( outros que os apresentados no texto) e que fazem parte do processo de socialização de gênero.Indique alguma situação . em nossa sociedade. coitados. esta constatação é preocupante. a serem assim. em revista.

em vão. No interior do campo masculino. porque não estamos apenas tratando de processos educativos. as coisas não são tão simples como podem parecer. E os processos educativos devem abranger também as mulheres. O nível de escolaridade estratifica as oportunidades também. a equação que colocamos no título. que na maior parte dos casos convivem de modo a permitir que os homens tenham estes comportamentos violentos. e partilhar desse poder conjuntamente. se forem educados de outro modo poderemos ter homens com outras características. Homens negros têm menos possibilidades de sucesso do que homens brancos. bem além do x e do y tradicionais. Os modos de constituir agregados familiares podem gerar situações de maior equidade de gênero. no mínimo. É necessário mudar elementos centrais de nossa estrutura social e. a distribuição de poder é muito desigual. são os homens que estudam mais (embora as mulheres tenham conseguido avanços espetaculares nesta área. o jovem negro tem muito mais chances de estar na mira da agressão policial. com muitas variáveis. no interior de . Mas as dificuldades são muitas. mas de uma redistribuição de poder. de carreira política. Não vamos seguir exemplificando. x e y têm muito a ver com a discussão dos regimes de gênero. o que está diretamente relacionado a este esforço em galgar postos elevados e neles se manter). Por outro lado. para "provar" sua masculinidade continuamente). ou não. na estrutura econômica. é sempre possível localizar. São os homens que acessam as melhores oportunidades de emprego. e bem antes das mulheres. essa mesma constatação – os homens são assim porque foram educados para serem assim – nos permite pensar em modos de mexer na equação. mas o princípio é esse mesmo: investir na educação de homens e mulheres. é coisa de homem. Enfim. e embora muitos homens confessem que o período escolar foi de grande tensão. Entre um jovem negro e pobre e um jovem branco e pobre. Homens jovens e negros são alvo de um verdadeiro genocídio no Brasil. de salários. Ou construir uma nova conceituação de poder. diariamente atestado pelas manchetes dos grandes jornais. e que implica retirar poder dos homens e distribuir numa relação igualitária com as mulheres. porque a questão não se resume aos pólos homem e mulher. buscando um regime de equidade de gênero. Só que a mudança não virá apenas por conta de projetos de educação dos homens. em alguns grupos populacionais. São os homens que gozam da maior mobilidade na sociedade (carro. também. vale lembrar que as coisas são mais complicadas. são os homens que galgam os mais elevados postos na vida política e na esfera das empresas privadas (mas vale lembrar que os homens morrem primeiro. uma equação de segundo grau. E antes que alguém comece a invejar os homens por causa desses benefícios. uma situação em que homens e mulheres possam conviver com distribuição igualitária de poder. tendo como objetivo um regime de equidade de gênero. inclusive. A situação é mais complicada. não? De fato. mas fica o alerta: a situação é complexa. EDUCAÇÃO PARA A IGUALDADE DE GÊNERO é. por exemplo. e são também eles que morrem mais em acidentes automobilísticos). O quesito raça atua promovendo um desequilíbrio na masculinidade. de cargos de mando e de benefícios em nossa sociedade. Aliás. Simples. por exemplo. Se os homens são assim porque foram educados para serem assim. mesmo quando deles discordam.

Fala-se muito hoje em crise das masculinidades. Mas não podemos deixar de reconhecer que a perda de poder dos homens tem gerado. Ela é também um ótimo conteúdo para ser estudado em sala de aula. aprendeu técnicas de prazer amoroso para melhor desempenho sexual. o que em boa parte já foi conseguido. Penso que a melhor expressão para designar o que está acontecendo não é essa. escolhe roupas com apuro e aceita dividir a conta 27 do restaurante com a parceira. não precisamos de escola. auxiliando-os a compreender e atuar no contexto social em que vivem. um conjunto de características que configura um modo hegemônico de masculinidade. pois essa designação tem permitido que uma parte da "saída" da crise seja produzida pelo mercado. embora ainda esteja longe do estado de equilíbrio. Aceder a mais benefícios do que outros. e a balança tem pendido para as mulheres. atuante desde o século XIX. Diversos motivos. via consumo de produtos e serviços. e a Lei Maria da Penha é um bom exemplo disso. Homens negros têm lutado por uma justa distribuição de oportunidades quando . Se este é o caminho para superar a crise da masculinidade. em algumas situações. Outra frente de luta é para garantir o pleno acesso das mulheres à escola. mais violência. é claro. Outro aspecto é que determinados grupos de homens têm questionado o privilégio de outros grupos de homens. Tome uma revista semanal. Uma parte da luta feminista se dá no sentido de conter a violência masculina sobre as mulheres. até mesmo em crise do macho se fala. Em determinados contextos. e isto tem gerado boa parte do que a imprensa descreve como sendo a crise dos homens. sua trajetória de aprovação e os casos em que ela já foi aplicada. basicamente nas relações entre homem e mulher. Para quem pode. e você verá que o "novo homem" que busca "superar a crise" é um homem que vai a salão de beleza. posicionaram as mulheres com possibilidades de disputar em regimes de quase igualdade com os homens o acesso a oportunidades na sociedade. ao acaso. dentre eles em especial o movimento feminista. o que causa preocupação.uma determinada ordem de gênero. tudo se resume ao mercado e ao consumo. não faltando materiais em sítios da internet e em organizações não governamentais feministas sobre a lei. folheie suas páginas. Este modo hegemônico designa homens que conseguem EDUCAÇÃO PARA A IGUALDADE DE GÊNERO. Conseguem mandar nas mulheres e em muitos homens. o homem em crise. faz curso de gastronomia. Aparecem na imprensa numerosas matérias sobre a crise do homem. podemos ter homens e mulheres como aliados na luta pela democratização do poder concentrado em mãos de determinados grupos de homens. Mas ainda falta muito para que os aprendizados escolares façam diferença na vida dos alunos. Mas não é por acaso que a imprensa escolhe chamar isso de crise dos homens. EDUCAÇÃO PARA A IGUALDADE DE GÊNERO. A crise nas relações de gênero é uma crise em torno da distribuição do poder. O que ocorre é uma crise nas relações de gênero.

com evidentes prejuízos em termos emocionais e de saúde. Da mesma forma como o movimento negro conseguiu tornar as atitudes racistas crime. Nota: Professor da Faculdade de Educação / UFRGS. Exemplo disso são os casos de adoção de filhos por casais homossexuais masculinos. incentivando os alunos a uma participação cidadã na vida em sociedade. Para isso. nem para professoras. o da escola inclusiva. Mas a escola pode ser um ambiente onde os meninos e as meninas passem por uma experiência de estudo e discussão destes temas. até porque as pedagogias de construção da masculinidade estão presentes em propagandas da mídia. Mas valerá a pena como construção de um futuro mais justo. que valoriza a diversidade. em sistemas de recrutamento de recursos humanos.Todos estes movimentos sociais podem ser objetos de estudo e discussão na sala de aula. Docente e orientador junto ao Programa de Pós-Graduação em Educação na linha de pesquisa Educação. professores e professoras têm que perceber que meninas podem ser boas em Matemática. e os meninos podem aprender a fazer poemas na aula de Língua Portuguesa e a tirarem boas notas em Educação Artística. EDUCAÇÃO PARA A IGUALDADE DE GÊNERO. Dagmar Estermann Meyer2 . nos discursos sobre segurança e família. como no caso da discussão dos regimes de cotas. em muitos discursos religiosos que asseguram para o homem a posição de mando sobre a mulher e justificam isso de modo "divino". brasileiros. Os homens não são "culpados" pela distribuição injusta de poder nas relações de gênero. que temos uma história em que os momentos de ditaduras e do domínio de oligarquias superam amplamente os momentos de exercício da democracia. nem para alunos. e até mental. e de vivência num contexto onde a equidade de gênero é a regra. Mas os homens podem ser educados para perceber estas situações e para lutar por um mundo onde a equidade de gênero seja a regra. O estudo desses temas se conjuga com um dos principais objetivos em educação hoje em dia. A escola não tem como "resolver" sozinha esta questão. única chave para assegurar a manutenção do regime democrático entre nós. Aliás. lutam para ter acesso a oportunidades de trabalho em pé de igualdade com os demais homens. juntamente com as mulheres negras. Não vai ser fácil. Também não se pode dizer que sejam simplesmente "vítimas" dos chamados "papéis de gênero". Ou para ingresso no ensino superior público. Homens homossexuais têm lutado para que sua orientação sexual não lhes impeça o exercício de direitos reservados até agora aos homens heterossexuais. lutar por isso é dar mesmo um salto para o futuro. Sexualidade e Relações de Gênero. que os "obrigam" a manter uma atitude guerreira. ou o direito de pensão por morte do companheiro. E em Educação Física. nem para alunas. por exemplo. Homens homossexuais têm lutado para que a homofobia seja crime.concorrem com homens brancos por uma vaga no mercado de trabalho. Homens portadores de alguma modalidade de deficiência física. nem para professores.

uma vez que esta é central nesse contexto. as quais se têm revelado como processos educativos potentes quando se trata de instituir relações entre corpo. é preciso que estejamos expostos. ainda hoje. também. uma vez que a produção dessas identidades e. visibilizados e problematizados. 2006a). contidas em (ou derivadas de) artefatos culturais contemporâneos da mídia. refinadas e naturalizadas. em outras teorizações. hoje. a não ser em alguns campos específicos que se ocupam. de pedagogias que envolvem estratégias sutis. O propósito neste texto é. ser desdobrados em formais e não formais. bons cidadãos e estes termos não significavam exatamente as mesmas coisas quando essa educação escolar era dirigida para homens ou mulheres ou era desenvolvida em tempos e espaços diversos. também. voltar o olhar para o espaço escolar propriamente dito. grosso modo. 2006b. na maioria das vezes. incluindo aqueles que são chamados. ser divididos em intencionais e não intencionais. na perspectiva que aqui nos interessa. 28 por exemplo. sendo que quase tudo o que aprendemos a definir como educação nos cursos de formação de professores/as e. ainda. bons trabalhadores. envolvida com projetos de formação de determinados tipos de pessoas ou de identidades sociais: bons cristãos. das diferenciações e desigualdades sociais delas decorrentes resulta. gênero e sexualidade e outros programas trataram desse tema de forma mais específica. Os processos educativos não intencionais têm sido muito pouco re-conhecidos. Para que nos tornemos sujeitos de uma cultura. de ‘socialização’ (MEYER e COLS. então. uma infinidade de “lugares pedagógicos” além da família.A discussão proposta por esta série de Programas nos encaminha na direção de nos ocuparmos um pouco mais explicitamente da noção de educação. Esta função “formativa” da escola parece ter sido bem mais importante do que a mera transmissão de determinados conhecimentos em sentido estrito. Encontram-se as chamadas pedagogias culturais. de questões vinculadas a gênero. de processos de aprendizagem e de instituições nem sempre convergentes e harmoniosas do ponto de vista de suas prioridades e objetivos políticos. da igreja e da escola e engloba uma ampla e variada gama de processos educativos. Nesses campos eles assumem uma grande importância. o que se privilegia discutir como objeto específico desse campo se inclui nessa categoria de processos educativos intencionais – que poderiam. . a um conjunto amplo de forças. no prelo). educação envolve o conjunto dos processos pelos quais aprendemos a nos tornar e a nos reconhecer como sujeitos de uma cultura. esse conjunto inclui. Dentre esses processos educativos EDUCAÇÃO PARA A IGUALDADE DE GÊNERO. ao longo do tempo e nas diferentes sociedades e culturas ocidentais modernas. exaustivamente repetidas e atualizadas na cultura. e é esse seu envolvimento com a produção de identidades sociais que faz com ela continue sendo. que quase não percebemos como sendo educativas (MEYER. Tais processos educativos podem. raça e sexualidade. de forma continuada. uma vez que a instituição escola que conhecemos (e na qual muitos/as de nós trabalhamos) esteve. Tomada em sentido amplo e.

E é nesse embate entre uma heterogeneidade que se quer visível e representada e uma homogeneização que se busca implementar – tomando como referência determinados padrões de normalidade instituídos a priori e que nos são apresentados como ‘igualdade’ – que a escola se torna um espaço social de disputas e enfrentamentos. ainda.]. ou talvez em função delas. em nossas escolas e salas de aula: Flavio. negro. Para descrever a sutileza do funcionamento de alguns dos mecanismos envolvidos com a produção de diferenças e de desigualdades sociais e culturais de gênero e de sexualidade. política. palco de disputas e de conflitos importantes.] foi o ano em que virei chacota. Apesar dessas características. morador da Zona Sul de São Paulo. hoje. atualizam e modificam algumas dessas identidades. e todos estes grupos se fazem representar. por . é que a escola contemporânea é. classe social. entre professores/as e estudantes. muitas vezes. os movimentos étnicoraciais. hoje cursando o 2º ano do Ensino Médio. os movimentos gays e lésbicos. é que a escola (como muitas outras instituições sociais) investe muito de seu esforço na elaboração e na implementação de mecanismos e de estratégias que objetivam uniformizar os indivíduos que a compõem. de rivalidades e associações entre grupos e pessoas. também. ou desejam se fazer representar no espaço escolar e nos currículos que nele se desenvolvem. era chato.um espaço institucional constantemente disputado pelas mais diferentes vertentes políticas e por distintos movimentos sociais. diferentes grupos e identidades sociais. Nesse sentido. sexo. que ele assim resume: [. as relações entre professores/as. raça/etnia. lembra com nitidez de fatos ocorridos quando tinha 12 anos e estava na 6ª série. os movimentos de libertação nacional. destes com os/as funcionários/as e entre os/as próprios/as estudantes. religião. eu não suportava ir para a escola [. de 16 anos... Dentre os fatores internos implicados com a complexidade e a heterogeneidade do espaço escolar podemos citar suas formas específicas de organização do tempo e do espaço. o que precisa ser compreendido e valorizado. as interações pedagógicas. um tempo de emergência e de visibilização de uma multiplicidade de identidades sociais. com o impacto dos meios de comunicação nas culturas que a atravessam bem como decorrem do contexto social particular em que cada escola se situa. Por isso a escola é um espaço social complexo e plural na qual interagem fatores internos e externos à instituição. EDUCAÇÃO PARA A IGUALDADE DE GÊNERO. suas regras disciplinares.. relato três exemplos ‘banais’ que se repetem. os movimentos ecológicos (para ficar nos exemplos mais conhecidos e nomeados). no âmbito da escola e do currículo que nela é implementado. a escola é tanto uma instituição na qual convivem. Os fatores externos decorrem exatamente do fato de que nela convivem pessoas que são social (idade. interesses).. definidas e disputadas por diferentes movimentos como os feministas. de forma nem sempre harmoniosa. entre professores/as e gestores/as. Economicamente diferentes e estão relacionados. quanto é uma instância em que se disputam significados que produzem. E exatamente porque vivemos.

que [...] Era briga todo dia. A diretora me chamava pra conversar, então era desagradável, eu chegava na escola e virava o pivô, entendeu? [...] Eu pensei em mudar de escola, de tanto que era horrível, fiquei assim, querendo muito sair de lá e não voltar mais. EDUCAÇÃO PARA A IGUALDADE DE GÊNERO. [...] Os professores não falavam nada. Eu tava sentado, fazendo minha lição, nem sentava no fundo, eu nunca sentei no fundo porque eu não gosto, eu sentava na frente [...] E era aquela atacação de papel. Eu abria o papel e tava escrito“seu viado” e não sei o que lá. Era horrível, era muita humilhação. [Entrevistador: E os professores viam isso?] Viam e não faziam nada3. O segundo exemplo está relatado na mesma dissertação4. Conta Fabiano: 29 [...] foi na sétima série, no primeiro dia de aula. A professora chegou e falou para nos apresentarmos para todo mundo. Não sei se foi uma brincadeira que ela fez, mas eu guardo até hoje essa coisa dela. Eu estava me apresentando e ela disse: – ‘qual é mesmo o teu nome?’ Eu falei: – ‘Fabiano’. – ‘Como é mesmo, Fabiana?’ Nisso eu fui motivo de gozação o ano inteiro e até terminar a oitava série. Foram dois anos agüentando ser chamado de viado! Fabiana! O terceiro exemplo desloca nosso olhar da relação professora-aluno-aluno para a relação entre alunos/as e multiplica mais ainda as diferenciações e os seus impactos na vida dos/as estudantes. A pessoa que nos ofende e nos maltrata e faz todas as outras coisas se acha melhor que todos. Só porque usam roupas caras, são altos e magros, bonitos e até mais inteligentes, quando na verdade não são grande coisa. Existe muito preconceito com negros, gordos, baixinhos e burros e isso nos faz sentir as piores pessoas no mundo. As pessoas inventam coisas sobre você e você é obrigado a ouvir comentários desagradáveis. Isso nos deixa péssimos e preocupados com o que pensam de você, ou o que será a próxima pegadinha (menina de 8ª série, 14 anos) 5. O que nós, educadores e educadoras, podemos aprender com esses depoimentos, tendo em vista as temáticas que estamos discutindo nesta série de programas? Como já enfatizei, aqui, os processos de homogeneização implementados pela escola e que pretendem definir o que – ou quem – é igual, estão estreitamente vinculados a referências daquilo ou daquele que são definidos como diferentes e, quase que por extensão, desiguais; e essa discussão tem sido EDUCAÇÃO PARA A IGUALDADE DE GÊNERO. Feita, com novos enfoques e com redobrado vigor, no contexto das teorizações educacionais agrupadas sob o termo pós-críticas. Tomando como referência a educação escolar, estas teorizações trabalham com uma importante ressignificação do conceito de currículo, considerando-o como sendo o núcleo que corporifica o conjunto de todas as experiências cognitivas e afetivas vividas pelos estudantes no decorrer do processo de educação escolar, o que significa

entendê-lo como sendo um espaço conflituoso e ativo de produção cultural (SILVA, 1995). No currículo confrontam-se diferentes culturas e linguagens, produzidas na escola e, sobretudo, em outras instâncias do social. Nesse sentido, a escola proporciona um espaço narrativo privilegiado para alguns enquanto produz ou reforça a desigualdade e a subordinação de outros. Uma afirmação que sugere a necessidade de se investir em discussões que nos permitam, exatamente, exercitar outros olhares sobre as práticas pedagógicas e sobre as relações sociais que se desenvolvem ou que desenvolvemos no contexto escolar. E fornecer os instrumentos para favorecer este tipo de reflexão acerca da própria prática é, do meu ponto de vista, uma grande contribuição dessas teorizações. Nesse sentido e considerando-se os depoimentos que apresentei neste texto, de que forma escola e currículo, com os diferentes atravessamentos externos que os afetam, podem estar implicados com a produção de diferenças e desigualdades de gênero e sexualidade? Como cultura e poder se combinam, nas práticas pedagógicas escolares em sentido amplo, para construir fronteiras entre grupos e populações, para instituir posições sociais de menino e de menina, de mulher e de homem, de heterossexual e homossexual, por exemplo, e para possibilitar o exercício de práticas sexistas, racistas e homofônicas no espaço escolar? Essa é uma questão que foi (e continua sendo) exaustivamente discutida na interface que se estabelece entre estudos que procuram articular educação, gênero e sexualidade. O conceito de gênero passa a ser utilizado no campo dos Estudos Feministas, por estudiosas anglo-saxãs, a partir da década de setenta. De forma sintética gênero pode ser definido como construção e organização social das diferenças entre os sexos, que se realiza em múltiplas instâncias, em diferentes práticas e instituições sociais e através de muitas linguagens. O que isso significa? EDUCAÇÃO PARA A IGUALDADE DE GÊNERO. Até então, o movimento feminista vinha se debatendo com a dificuldade de desvincular a discussão que se fazia para entender a subordinação das mulheres aos homens e também a sua flagrante desvantagem social e econômica, de um fato biológico que era (é) a diferença anatômica e fisiológica entre os sexos. Enquanto se buscava entender esse processo tomando como base a via biológica, ficava muito difícil sustentar projetos políticos de transformação dessas relações de desigualdade, porque, afinal de contas, a biologia é imutável, é o que se pensava há 30 ou 40 anos. Hoje, já sabemos que até a biologia é histórica, ou seja, ela também está sujeita a (enormes!) transformações, mas isso já é ir bem mais adiante nessa história. O conceito de gênero indica o seguinte: nós aprendemos a ser homens e mulheres desde o momento em que nascemos até o dia em que morremos e essa aprendizagem se processa em diversas instituições sociais, a começar pela família, passando pela escola, pela mídia, pelo grupo de amigos, pelo trabalho, etc. Mas significa mais ainda: como nós nascemos e vivemos em tempos e lugares específicos, gênero reforça a necessidade de se pensar que há muitas formas de sermos mulheres e homens, ao longo do tempo, ou no mesmo tempo histórico, nos diferentes grupos e segmentos sociais. O conceito de gênero também não se refere mais ao estudo da mulher, ele é um conceito que procura enfatizar a construção relacional e a organização social das diferenças entre os sexos, desestabilizando desta forma o determinismo biológico e

30 econômico vigente, até então, em algumas das teorizações anteriores. Esse conceito nos leva, pois, a procurar entender as construções de feminino, de forma articulada com o masculino, uma vez que ambos estão implicados nas mesmas relações. E tem mais: o que é apresentado como feminino, nas sociedades ocidentais, toma o masculino como referência. A mulher é apresentada como o oposto do homem, só que esta não é uma simples oposição: ela é, como todas as oposições binárias que estruturam o pensamento moderno, uma oposição hierarquizada, em que um dos termos da equação é socialmente menos valorizado que o outro. As oposições binárias são, também, relações de poder (LOURO, 2001; MEYER, 2005). EDUCAÇÃO PARA A IGUALDADE DE GÊNERO. Gênero, então, enfatiza a construção relacional do sexo e a organização social desta construção, entendendo que ela é uma construção que é histórica e que precisa ser entendida a partir de sua articulação com outras categorias sociais como classe social, raça/etnia, geração, sexualidade, para citar algumas das mais importantes. A noção de poder que está presente nessa relação introduz aí a dimensão de conflito, uma vez que as mulheres e os homens não são apenas mulheres ou apenas homens, mas são muitas outras coisas ao mesmo tempo. Isso significa dizer que não existe uma essência de mulher ou de homem nem a possibilidade de uma solidariedade dada a priori, a partir de uma única posição, neste caso, a partir da posição de gênero. Uma outra questão a ser reforçada, aqui, é que o conceito de gênero introduz uma virada importante nos estudos feministas. Ainda que esse campo continue priorizando análises sobre as mulheres, não se está falando mais de mulher no singular, mas entendendo que muitas outras formas de diferença e desigualdade se imbricam com o gênero e que elas precisam ser problematizadas de forma articulada. Uma dessas diferenças que se conecta de forma importante ao gênero é, exatamente, a de sexualidade. Sexualidade é um conceito que, muito freqüentemente, se confunde com gênero e, embora precisemos reconhecer que eles estão estreitamente ligados, cada um deles guarda suas especificidades e inscreve os sujeitos em sistemas de diferenciação diversos. Enquanto que gênero aponta para as formas pelas quais sociedades e culturas produzem homens e mulheres e organizam/dividem o mundo em torno de noções de masculinidade e feminilidade, a sexualidade tem a ver com as formas pelas quais os diferentes sujeitos, homens e mulheres, vivem seus desejos e prazeres corporais, em sentido amplo. Com isso, o que se quer dizer, nesta perspectiva teórica, é que os nossos desejos corporais e os focos de nossos desejos são produzidos e legitimados pela cultura e não são decorrências naturais da “posse” de um determinado aparelho genital ou do funcionamento de determinados hormônios. Homens e mulheres vivem de muitas formas e com diferentes tipos de parceiros os seus desejos e prazeres corporais: com parceiros de sexos diferentes, com parceiros do mesmo sexo, com parceiros de ambos os sexos e, crescentemente, com parceiros virtuais “descorporificados”. E

sexo é um termo usado, aqui, então, para fazer referência àquelas diferenças anatômicas. EDUCAÇÃO PARA A IGUALDADE DE GÊNERO. Fenotípicas, inscritas no e sobre o corpo, que cada cultura institui para marcar e diferenciar fisicamente mulheres de homens (LOURO, 1999; WEEKS, 1999). Tendo estes conceitos presentes, volto à questão antes colocada: o que nós, educadores e educadoras, podemos aprender com isto? Penso que, num primeiro momento, eles nos instigam a analisar os processos, as estratégias e as práticas sociais que nos constroem como sujeitos de gênero e sexuais. A pergunta norteadora, aqui, é: como vimos a nos tornar o que somos? E como funcionam os mecanismos de diferenciação e de hierarquização que, nesse processo de tornarse, desigualam sujeitos em função de seu gênero e de suas práticas sexuais? Essas são duas perguntas importantes para quem pretende investir em intervenções que permitam modificar, minimamente, as relações de gênero e sexuais que se desenvolvem na sociedade em que vivemos. Outra questão que precisamos colocar-nos, como educadores e educadoras comprometidos/as com mudanças nessas relações, é: como as diferentes linguagens que constituem os currículos escolares que planejamos e implementamos constroem, ajudam a manter ou re-definem posições sociais de gênero e de sexualidade? Uma das primeiras implicações dessa pergunta é considerar que, provavelmente, não existem disciplinas formais em que se objetiva ensinar como transformar crianças em meninos e meninas e estes e estas em homens e mulheres, a exemplo do que se faz em matemática quando aprendemos a adicionar, multiplicar ou dividir; ou, ainda, de como se pretende fazer, com relação ao sexo, no contexto de determinadas propostas de educação sexual escolar. Precisamos, então, reconhecer como aprendemos essas coisas que fazemos e em que espaços e em que lugares aprendemos a fazê-las de uma determinada maneira e não de outras. Vamos perceber que essas aprendizagens estão incorporadas em práticas quotidianas formais e informais que nem questionamos mais. Que elas atravessam os conteúdos das disciplinas que compõem o currículo oficial ou estão imbricadas na literatura que selecionamos, nas revistas que colocamos à disposição das estudantes para pesquisa e colagem, nos filmes que passamos, no material escolar que indicamos para consumo, no vestuário que permitimos e naquele que é proibido, nas normas disciplinares que organizam o espaço e o tempo escolares, nas piadas

31 EDUCAÇÃO PARA A IGUALDADE DE GÊNERO.Que fazemos ou que ouvimos sem nos manifestar, nas dinâmicas em sala de aula e em outros espaços escolares que não vemos ou decidimos ignorar, nos castigos e nas premiações, nos processos de avaliação... E pensar dessa forma, a partir desses conceitos e do que eles nos sugerem considerar, colocamos a necessidade de questionar não só

por exemplo.os conhecimentos e saberes com que lidamos mas. o racismo e a discriminação que estes saberes veiculam. menos capacidades como cientistas. profissionais da educação. Desigualdade de Gênero 1 . De repente. à identidade associada ao sexo masculino ou feminino. frequentemente designando mulheres a uma posição subalterna. à identidade associada ao sexo masculino ou feminino. políticos e morais que atribuem valores a essas ralações.O conceito de gênero Gênero não se refere exatamente aos homens e mulheres mas a relações entre os dois sexos. Se fatores biológicos produzem ou não diferenças no cérebro ou no corpo de mulheres e homens. constroem e ajudam a manter. 2 . o meio social age fortemente nos dois sexos. Entendemos melhor quem tem autoridade para dizer o que. e não propriamente. ao mesmo tempo. a desenvolver a sensibilidade para perceber o sexismo. Desigualdade de Gênero . isso aponta para a dimensão política que reside na problematização de práticas aparentemente banais. de quem e em que condições. também. inscritas nesses processos de nomeação em que a diferença é hierarquizada e transformada em desigualdade. nós mesmas. e o caráter público desse comentário. Esse conceito chama a atenção para os processos culturais. políticos e morais que atribuem valores a essas ralações. periodicamente dominam os títulos dos jornais. O gênero refere-se a essa ação e às relações que ela gera entre homens e mulheres. sociais. O gênero refere-se a essa ação e às relações que ela gera entre homens e mulheres. estávamos mais uma vez as voltas com questões básicas que marcaram as lutas . A autoridade que acompanha este posto. E isso nos ajuda a reconhecer como estamos.Conceito de Gênero Gênero não se refere exatamente aos homens e mulheres mas a relações entre os dois sexos. fez com que gênero voltasse a ocupar um lugar de destaque em várias discussões nos media.Desigualdade de Gênero Introdução: Gênero & Diferenças Nos últimos 100 anos assuntos relativos a gênero. o meio social age fortemente nos dois sexos. Recentemente. E. sociais. como essas que foram relatadas nos depoimentos que aqui apresentei. o Presidente da prestigiosa Harvard University fez alguns comentários sobre as mulheres terem. frequentemente designando mulheres a uma posição subalterna. e não propriamente. de nascença. Se fatores biológicos produzem ou não diferenças no cérebro ou no corpo de mulheres e homens. Esse conceito chama a atenção para os processos culturais.

a igualdade de tratamento tem que estar de acordo com as respectivas necessidades de homens e mulheres. identidade sexual. muito se investigou. geografia. como era de se esperar. 2 -Desigualdade de Gênero . Isso pode significar um tratamento diferente. benefícios. etnia. mas no que se refere aos direitos. no estado e na sociedade em geral . para reconhecimento da igualdade entre mulheres e homens. marcados por muitos ganhos a favor da igualdade entre os gêneros. raça. Em resumo. algumas pessoas continuam a formular perguntas: 4 .Desigualdade de Gênero * Existem diferenças? * Se existem. será que refletem atitudes ou interesses? * Ou será que as diferenças refletem os diferentes processos de socialização e expectativas? * É possível determinar reações. mais adequado. geração e habilidade.que mantêm uma posição desigual entre grupos diferentes de homens e mulheres. Portanto. políticos e morais associados a essas diferenças. entre outras. na comunidade. comportamentos ou funcionamento baseado no sexo da pessoa? Enquanto essa discussão continua. obrigações e oportunidades a igualdade prevalece. questionou ou qualificou. 32 1 . continuaria a ser necessário evidenciar que isso é distinto dos valores sociais. Pode-se concluir que tanto os homens como as mulheres podem ser portadores dos relevantes genes. o enfoque de gênero requer o exame de fatores estruturais na sociedade – isto é.Desigualdade de Gênero Várias diferenças de classe social.feministas do começo do século XX.Desigualdade de Gênero Durante todos esses anos. uma coisa é absolutamente certa: mesmo que existissem provas concretas e definitivas de que os sexos são claramente diferentes. 3 . Mas não existe nenhuma evidência final que prove a existência da capacidade científica ou de qualquer outra capacidade inteiramente genética.Desigualdade de Gênero Seja qual for a situação. em interação com gênero constituem e são também reproduzidas em relações sociais determinando injustiças e exclusões. no trabalho. 1 . as regras e práticas dentro de casa e com a família.

os direitos das mulheres têm ainda velhos e novos desafios por conquistar. que representam a maior parte da população mundial. a prostituição forçada * o casamento forçado O que nos leva a afirmar que em matéria de direitos humanos. alterada pela Declaração 7/2006. responsáveis por cerca de 76 milhões de gestações não desejadas nos países em vias de desenvolvimento e por cerca de 19 milhões de abortos praticados em condições perigosas. o risco de fortalecer a influência da pobreza nas gerações futuras aumentará" * Fim da discriminação de gênero é a chave para o desenvolvimento. de 21 de Agosto.000 mulheres morrem por problemas relacionados com a gravidez e pela falta de acesso aos anticoncepcionais.A discriminação não afeta só a população portuguesa. de 4 de Outubro 2006) vem estabelecer que as listas .º 3/2006. * a violação. entre outras: * a mutilação genital feminina. * o tráfico de mulheres. e não podemos deixar de fora outras faces da realidade igualmente assentes em discriminações de gênero como sejam.A . Por outro lado. * Em 2006 a Lei da Paridade (Lei Orgânica n.Fim da discriminação de gênero é a chave para o desenvolvimento O Fundo de População das Nações Unidas (UNPFA) defende a igualdade entre os sexos e acrescenta que: "Investir nas mulheres e nos jovens. Nesta matéria. A Constituição Portuguesa consigna o direito de todos os cidadãos a “tomar parte na vida política e na direção dos assuntos públicos do país”. cerca de 530. são fracos os progressos registrados ao longo de 30 anos de democracia. Anualmente. permitirá acelerar o desenvolvimento a longo prazo. * Acesso das mulheres à tomada de decisão É na área da tomada de decisão que o crescimento da presença das mulheres se tem produzido a um ritmo mais lento. A discriminação é um dos principais responsáveis pelo aumento dos índices de mortalidade das mulheres entre os 15 e os 44 anos. Desigualdade de Gênero B . estabelece que “A participação direta e ativa dos homens e das mulheres na vida política constitui condição e instrumento fundamental de consolidação do sistema democrático. Se tal medida não for tomada. devendo a lei promover a igualdade no exercício dos direitos cívicos e políticos e a não discriminação em função do sexo no acesso a cargos políticos”.

D) É aquela que se orienta pela ação dos outros. sem nenhuma correspondência com a realidade histórica. prescindindo de significação. que traduz o quanto ainda há para fazer em relação à descriminação. para o Parlamento Europeu e para as autarquias locais são compostas de modo a assegurar a representação mínima de 33% de cada um dos sexos. Conclusão Segundo os dados do Eurostat. Outras Instâncias CARREIRA DIPLOMÁTICA Fonte: Ministério dos Negócios Estrangeiros 2. assinale a alternativa correta. “Se a nível de licenciaturas há mais mulheres a entrarem nas faculdades e se são também elas a terem mais sucesso. sendo. porque será que não ocupam mais lugares de topo?” 33 Exercícios 1 .2%). reciprocamente referida. C) É um conceito de análise típico-ideal. Esta Lei significa uma enorme vitória para a Democracia Portuguesa e para os Direitos das Mulheres. de forma a estabelecer uma relação social. INE *TOMADA DE DECISÃ ECONÓMICA Fonte: BDAP (data de referência de 31 de Dezembro de 2005) *DIRIGENTES E CHEFIAS NA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA (2005) FORÇAS ARMADAS 1. as mulheres consolidaram nos últimos anos a sua maioria entre os estudantes universitários em todos os países da UE.para a Assembleia da República. Acesso das mulheres à tomada de decisão *TOMADA DE DECISÃO POLÍTICA Fontes: Womenandmenindecision-making (Base de Dados Europeia)Dossier de Gênero. apresentando Portugal um número muito próximo da média europeia (55. portanto. Vamos concluir este trabalho com uma questão.Sobre a definição de ação social para Weber. ao reconhecer que a democracia só estará completa se for representada por homens e mulheres. exceto na Alemanha. QUESTÃO 59 (Abril 2006) . B) Implica necessariamente uma relação social. A) Está fundada na coletividade.

D) Os tipos puros de dominação . em sua obra Economia e Sociedade. de acordo com o sentido ou orientação dos atores. II – o empresário estabelece uma gratificação para os empregados mais produtivos. B) as diferenças que correspondem às classes ou aos estacamentos geram. C) os estamentos são grupos de status fechados. Considere os exemplos de ação social citados abaixo: I – o consumidor adquire um relógio motivado pela emoção que este lhe causa. C) Faz parte de uma relação de dominação estatal o uso da força física para assegurar a obediência. convenções e rituais.Acerca das formulações de Weber sobre poder e dominação. III – o católico caminha noventa quilômetros para demonstrar sua fé. Marque a alternativa correta. os partidos. cujos privilégios estão desigualmente definidos por leis. QUESTÃO 53 (Dezembro 2004) Sobre a teoria weberiana acerca das várias formas de estratificação social. QUESTÃO 53 (Fevereiro 2003) Max Weber. B) O poder está fundamentado na desigualdade de oportunidades que afeta cada indivíduo em dado contexto social.constituem uma tipologia construída por Weber a partir da realidade histórica. é correto afirmar que: A) as classes sociais se organizam segundo seus princípios de consumo de bens nas diversas formas especificas de vida. assinale a alternativa INCORRETA. na esfera do poder social e dentro das respectivas ordens sociais. D) as castas se organizam segundo as relações de produção e aquisição de bens.tradicional. . legal e carismático . IV – o(a) estudante escolhe o colégio X só porque ali estudaram seus pais e avós. propõe uma classificação típicoideal da ação social. A) A dominação exercida pelos dominantes somente é legítima quando assume um caráter do tipo burocrático-legal.

pois tanto um quanto outro são relações sociais às quais os indivíduos atribuem sentido. D) não são equivalentes. respectivamente. QUESTÃO 54 (Fevereiro 2007) Sobre os tipos de ação social em Max Weber. a ação racional com relação a fins e a ação tradicional. portanto. tal como elaborados por Max Weber. respectivamente. respectivamente. B) Os exemplos I e III ilustram.A) Os exemplos III e IV ilustram. B) são equivalentes. que acontecem sucessivamente em determinadas realidades histórico-culturais. já que a força sem uma base de legitimação não pode ser exercida. respectivamente. tradicional e carismática a partir de uma construção típico-ideal que é estabelecida apenas no plano conceitual. marque a alternativa correta. tradicional e carismática pensados por Weber são construções históricas. D) A ação racional implica uma adequação entre meios e fins. tradicional e carismática pensadas por Weber constituem uma construção intelectual pautada na história e visam explicar uma dada realidade histórica. pois a dominação supõe a presença do consentimento na relação entre “X” e “Y”. a ação afetiva e a ação racional com relação a valores. C) toda relação de poder implica uma relação de dominação. a ação racional com relação a fins e a ação racional com relação a valores. uma vez que a ação . B) Weber define as ações sociais burocrática. motivações. necessariamente. o que. uma vez que os indivíduos que se submetem a uma ordem de dominação não levam em conta os recursos que possuem aqueles que exercem a dominação. C) Os exemplos II e IV ilustram. compartilhando. a ação tradicional funda-se no costume ou em um hábito já arraigado. é correto afirmar que: A) a dominação prescinde do poder. 34 C) Os tipos de ação burocrática. D) Os exemplos II e III ilustram. A) Os conceitos de ação burocrática. a ação afetiva e a ação racional com relação a fins. não se dá com o poder. QUESTÃO 56 (Fevereiro 2003) Sobre os conceitos de poder e dominação.

uma construção do pensamento que permite conceituar fenômenos e formações sociais. Esse instrumento pode ser definido como: I. ideológico e político são. II. em uma crença através dos tempos.um modelo perfeito a ser buscado pelas formações sociais históricas e qualquer realidade observável. B) o poder é a probabilidade de alguém determinar o comportamento do outro. QUESTÃO 49 (Janeiro 2001) Para explicar os fenômenos sociais. D) os fundamentos dos poderes econômico. o saber e a força. é correto afirmar que: A) os juízos de valor do pesquisador não interferem em nenhuma fase do processo de investigação científica. III. QUESTÃO 57 (Fevereiro 2007) A respeito das definições de Max Weber para poder e dominação.uma construção do pensamento que permite identificar na realidade observada as manifestações dos fenômenos e compará-las. D) a sociologia compreensiva busca apreender o sentido da ação social e de seus nexos causais. a riqueza. fundamentalmente. C) a dominação implica. respectivamente. em alguma medida. . que prescinde da dimensão de dominação. é INCORRETO afirmar que: A) o Estado é uma relação estritamente de poder. Weber propôs um instrumento de análise que chamou de tipo ideal.carismática ou afetiva se estabelece. QUESTÃO 42 (Janeiro 2000) De acordo com o pensamento weberiana. o consentimento da parte do dominado para a ordem dada pelo dominante. B) a sociologia de Weber é um esforço de explicação da sociedade enquanto totalidade social. C) o objetivo da sociologia é estabelecer leis gerais explicativas da realidade social.

estes em relação às conseqüências implicadas e os diferentes fins possíveis. que apresentam sentidos. B) O procedimento científico pode ser considerado um modelo típico ideal de ação tradicional com relação a valores.IV. C) A ação afetiva típica ideal é a causada pelos sentimentos de ódio. C) II. pois considera um conjunto de necessidades sob uma quantidade escassa de meios para chegar ao objetivo pretendido. D) II. Assinale a alternativa correta sobre a articulação dos tipos de ação social propostas por Weber. que buscam captar realidades totalmente autônomas. Assinale a alternativa correta. cuja conexão cabe aos cientistas sociais captar para compreender a realidade social.uma construção teórica abstrata a partir de casos particulares analisados.um modelo que tem a ver com as espécies sociais de Durkheim. QUESTÃO 57 (Janeiro 2004) Assinale a alternativa correta. Max Weber propõe quatro tipos puros ideais de ação social. como se pode ver na Física e na Química. D) A articulação de dois ou mais tipos de ação social não oferecem sentidos compreensíveis aos cientistas sociais. amor. paixão. raiva. como Max Weber demonstrou no estudo da conexão entre a ética protestante e o espírito do capitalismo nos EUA. até mesmo com certa irracionalidade. quanto à teoria weberiana sobre poder e dominação. . Isso ocorre porque os tipos ideais são conceitos limites. A) O procedimento econômico corresponde ao modelo típico de ação racional com relação a fins. II e V estão corretas. na medida em que os cientistas operam pela lógica da crença na emancipação do homem das mazelas sociais. III e V estão corretas. guarda bastante racionalidade combinada com a tradição. exemplos de sociedades observadas em diferentes graus de complexidade. por isso. QUESTÃO 54 (Janeiro 2004) Em sua teoria sociológica. A) I. III e IV estão corretas. avalia os meios relativamente aos fins. B) I. II e III estão corretas. como se observa na competição individualista das sociedades capitalistas e. ciúme. V.

. Após definir seu nicho de mercado. 148) Max Weber define uma tipologia da ação social que é apresentada nas afirmativas abaixo. D) Ação social racional com relação a valores. C) A dominação fundada no carisma do líder nunca pode integrar o padrão de dominação capitalista. passou a vender apartamentos semipadronizados com preços até 25% mais baixos. p. C) a ação que se orienta por valores não é uma ação social racional. QUESTÃO 43 (Julho 2000) "300 milhões .. Assinale a alternativa que corresponde ao tipo de ação social descrita no texto. Primeiro.". respectivamente. B) a decisão empresarial de inovação tecnológica para enfrentar a concorrência no mercado é uma ação racional com relação a fins. em que a crença na validade da norma 35 impessoal se estabelece.. D) O poder sempre exige o consentimento por parte daquele que se comporta de acordo com a determinação do outro.. QUESTÃO 44 (Julho 1999) A respeito do conceito weberiano de ação social. B) Ação social afetiva. B) O poder econômico e o poder ideológico definem-se. Como o senhor da foto virou milionário. pelas posses do saber e da riqueza. construiu pequenas casas em bairros populares de Belo Horizonte. Percebendo que ali podia estar sua galinha-dos-ovos-de-ouro. C) Ação social tradicional. Menin resolveu projetar um negócio para atender aquela clientela. Depois. . é correto afirmar que: A) o exercício religioso da fé é uma ação afetiva.. A) Ação social racional com referência a fins.A) A dominação racional-legal é típica da sociedade capitalista.. O mérito de Menin foi ter vislumbrado uma oportunidade e apostado suas fichas nela. 15. D) uma ação que se caracteriza pela livre escolha é tradicional. . (VEJA N. 12/04/2000. Menin elaborou uma cartilha que a empresa segue à risca até hoje.

.. E ainda menos tem toda dominação fins econômicos. C) Max Weber define ação social como uma conduta dotada de um significado subjetivo dado por um sujeito . o poder depende de coerções objetivas. a partir da conexão natural de sentidos entre a ética protestante e as imposições do capitalismo de Estado. Não consiste. a interioridade. Dias. Edmundo Fernandes. o conceito de ação social tem sido fundamental em inúmeros estudos importantes sobre as sociedades modernas.. III) O poder emerge de mandatos extra-econômicos. Anna Maria. (. Rio de Janeiro: Eldorado Tijuca. B) Para Max Weber. a particularidade e a generalização dos fatos sociais.. analise as afirmativas: I) O poder decorrente de qualquer tipo ideal de dominação tem sempre um conteúdo que lhe atribui legitimidade. físicas e materiais.QUESTÃO 47 (Julho 2001) “Deve-se entender por ‘dominação’. In: Castro. que são obtidos com ou sem legitimidade. C) I e IV estão corretas. A) O conceito de ação social em Max Weber pretende comprovar a coerção. QUESTÃO 51 (Julho 2003) Na sociologia de Max Weber. A) I e II estão corretas. seus efeitos e suas regularidades. Max. Com base no texto acima. em toda espécie de probabilidade de exercer ‘poder’ ou ‘influência’ sobre outros homens. II) O poder decorre da posse básica e exclusiva de meios econômicos. 1976. D) Apenas I está correta. a Sociologia é a ciência que pretende interpretar os sentidos prováveis da ação social. (. Considere as alternativas teóricas abaixo e assinale a alternativa INCORRETA. apenas por agentes do Estado nas sociedades capitalistas. costumeira ou afetiva. B) I e III estão corretas. sem a qual não há poder nas sociedades capitalistas. Assinalar a alternativa correta. como se vê nos EUA.) Nem toda dominação se serve do meio econômico. embora dispense coerções morais para operar com legitimidade. suas causas.” WEBER. seja esta jurídica.) a probabilidade de encontrar obediência dentro de um grupo determinado para mandatos específicos (ou para toda sorte de mandatos). costumes e situações de interesse produzidos por diversos sujeitos. IV) Para ser exercido. portanto. Introdução ao Pensamento Sociológico. que se expressam na forma de usos.

por suas esperanças em curas extraordinárias. QUESTÃO 60 (Julho 2003) Assinale a alternativa que corresponde à formulação de Max Weber acerca dos chamados tipos puros de dominação legítima. o famoso médium Chico Xavier. de acordo com a teoria de Max Weber e. ou seja. o desenvolvimento e os efeitos da conduta de um ou mais indivíduos em relação a outros. Texto adaptado da Revista IstoÉ. naturalmente. no Triângulo Mineiro. aparentemente incompatível com um acontecimento fúnebre. movidas. e. . predominando reações surdas a estímulos habituais. a morte de Chico Xavier não deveria ser lamentada. não se propondo a julgar a validez da ação dos sujeitos. a explicação sociológica busca compreender os sentidos. Por isso.morria em Uberaba. O motivo era simples: para o espiritismo kardecista não existe luto. B) está mais próximo das ações racionais. deram ao velório um clima de festa. independentemente de fins conscientes. QUESTÃO 56 (Julho 2003) No dia 30 de junho de 2002 – mesmo dia em que a seleção brasileira de futebol conquistou o tetra . por suas crenças na reencarnação e na comunicação com os espíritos. como a caridade. implicando. independentemente de fins conscientes. uma orientação consciente dos agentes quanto aos meios e fins. Músicas e roupas alegres. independentemente dos seus resultados. por seus laços afetivos com o grande líder religioso. orientando seu próprio comportamento. sendo a morte vista apenas como mais uma etapa cumprida num longo processo de aperfeiçoamento do espírito. a maioria delas. por seus valores éticos. pode-se afirmar que esse sentido: A) está mais próximo das ações irracionais. Analisando os acontecimentos descritos. sempre e unicamente. considerando tais acontecimentos dotados de sentido.36 que o executa. predominando uma orientação consciente dos agentes. de 10 de julho de 2002. implicando reações desenfreadas a estímulos não-cotidianos. tendo em vista a ação de outros sujeitos conhecidos ou desconhecidos. coloridas. apesar de sentida. D) vincula-se a ações racionais. seu caráter social. Seu velório atraiu nada menos que 100 mil pessoas. A) A dominação legal-racional fundamenta-se na crença dos indivíduos acerca da validade de um dado instrumento normativo. C) vincula-se a ações totalmente irracionais. D) Para Max Weber.

orientando-se pela própria ação e estabelecendo relações sociais significativas. as relações sociais. D) É o produto de processos sociais coercitivos e externos aos indivíduos. assinale a alternativa correta. QUESTÃO 57 (Julho 2005) Quanto à definição weberiana de Estado. que a estes se impõe também pela educação. cuja função é a de preservar a sociedade de crises em que a coesão esteja ameaçada. D) a vida social é resultado de um conjunto de ações coletivas.B) A dominação carismática articula-se à motivação que os indivíduos têm com vistas à obtenção de determinados fins para suas ações sociais. C) A dominação tradicional é a mais apropriada à sociedade capitalista e está presente nas empresas e nos órgãos governamentais. A) Define-se pelo meio que lhe é próprio. C) toda ação social está condicionada por idéias de valores que são fenômenos histórico-material. C) É a expressão político-institucional dos antagonismos entre as classes sociais. o espírito do capitalismo. B) Corresponde a uma autoridade moral. estabelecendo-se. o monopólio considerado legítimo do recurso à força. em patamar superior. é INCORRETO afirmar que: . QUESTÃO 53 (Julho 2005) Segundo Weber é correto afirmar que: A) a ação social é qualquer ação que o grupo social pratica. assim. ou seja. reciprocamente referidas de forma a estabelecer relações sociais. D) A dominação carismática realiza. B) a vida social é resultado de um conjunto de ações individuais orientadas a um determinado fim e reciprocamente referidas. uma vez que assegura aos investimentos privados um ambiente mais propício ao lucro desejado. 37 QUESTÃO 54 (Julho 2006) Quanto às análises weberianas sobre o desencantamento do mundo e o processo de secularização.

as forças mágicas e religiosas... 6 ed. com base na ética religiosa católica. a partir do século XVI. QUESTÃO 54 (Julho 2007) Considere a citação. e o espírito do capitalismo. A respeito das relações de causalidade que o sociólogo Max Weber propõe entre as origens do capitalismo moderno. embora dependa parcialmente da técnica e do direito racional. A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. A) Coube às éticas religiosas do confucionismo (China) e hinduísmo (Índia) redefinirem o padrão das relações econômicas que.] Ora.A) a secularização diz respeito tanto à expropriação dos bens eclesiásticos quanto ao desencantamento do mundo. que possibilitou o desenvolvimento deste último no Ocidente. por exemplo) quanto à ciência e à tecnologia. fundada na contemplação.. é correto afirmar que A) o estilo de vida normativo..” WEBER. C) a decadência do poder hierocrático seria um sentido forte da secularização.. D) o desencantamento do mundo refere-se tanto à desmagificação via religião ética (os profetas. [“.1989. C) há uma relação causal entre a ética racional protestante. é ao mesmo tempo determinado pela capacidade e disposição dos homens em adotar certos tipos de conduta racional. p. assinale a alternativa correta. e os ideais éticos de dever deles decorrentes. o processo de racionalização do mundo e as religiões de salvação. QUESTÃO 57 (Julho 2006) Sobre a ética do trabalho. fundada no trabalho. Max. levando ao desenvolvimento deste último no Ocidente. culminaria no capitalismo de tipo moderno. . e o espírito do capitalismo. possibilitou o desenvolvimento da mentalidade econômica burguesa no Ocidente. sempre estiveram no passado entre os mais importantes elementos formativos da conduta. “[. 11. São Paulo: Livraria Pioneira Editora. D) há uma relação causal entre o desenvolvimento da ética religiosa protestante. B) há uma relação impositiva entre a ética protestante e o espírito do capitalismo no sentido do desenvolvimento da moderna economia burguesa.] o racionalismo econômico. B) a perspectiva de Max Weber é evolucionista e prevê o fim da religião em uma sociedade moderna. conforme a sociologia de Max Weber.

66. a carismática (típica das sociedades tradicionais) e a legal-racional (típica das sociedades modernas). são responsáveis pela prematura posição de destaque do Japão. o calvinismo foi responsável pela introdução de um padrão ético que. considerada legítima. a partir do século XVI. . Carlos B. China e Índia no cenário econômico internacional que se seguiu à Revolução Industrial. contribuiu de maneira inédita para o desenvolvimento das relações capitalistas modernas.” MARTINS. quais sejam. mesmo contra resistências. a música. a religião. C) A partir de sua doutrina da predestinação. p. 28 ed. D) O processo de encantamento do mundo (irracionalização do conhecimento e das relações cotidianas) encontra-se na base da ética protestante. de modo destacado. A) Ao passo que poder é toda probabilidade de impor a própria vontade numa relação social.. B) Há. para Weber. não mais que dois tipos puros de dominação. A respeito das contribuições de Weber acerca dos conceitos de poder e dominação. O Que é Sociologia? São Paulo: Editora Brasiliense. assinale a alternativa correta. a arte. 1991. Seus trabalhos sobre a burocracia tornaram-no um dos grandes analistas deste fenômeno. cujas prescrições de conduta se revelaram condição imprescindível para o desenvolvimento e consolidação das relações capitalistas modernas. a história. dominação é a probabilidade de encontrar obediência a uma ordem de determinado conteúdo.B) As seitas protestantes que floresceram nas sociedades orientais. ao estimular a racionalização da conduta cotidiana de seus fiéis. em 38 detrimento de estatutos impessoalmente estabelecidos. a economia. abrangendo os mais variados temas. QUESTÃO 57 (Julho 2007) Sobre o legado do pensamento científico de Max Weber. como o direito. Carlos B. D) A dominação legal-racional dá-se por meio da obediência do quadro administrativo à pessoa do senhor. a política. Martins afirma que: “A obra de Weber representou uma inegável contribuição à pesquisa sociológica. C) A transição de uma ordem política patrimonial-tradicional para uma ordem burocrático-legal é acompanhada por uma consolidação do tipo de dominação carismática.

de acordo com as motivações e escolhas que possui e faz. C) O gênero humano é. mas sempre a partir de uma situação dada. duração: 90 min gênero: Drama status: Inéditos Sinopse Elling (Per Christian Ellefsen). sendo.” “ Gattaca . esperava que "Elling" fosse um daqueles dramalhões que a Academia tanto adora. Sugestões de Filmes Parte superior do formulário Parte inferior do formulário Elling 2010-05-22 Francisco título original: (Elling) lançamento: 2001 (Noruega) direção:Petter Nass atores:Per Christian Ellefsen. Confesso que. A dupla protagonista brilha em cena. na verdade. A) O indivíduo age socialmente. que arranca boas gargalhadas do público. ainda. um ser social. como força exterior a eles. B) A sociedade se opõe aos indivíduos. a uma racionalidade. passou os últimos dois anos em um hospital psiquiátrico. condição expressa pelo fato dos homens e mulheres fazerem a história. Jorgen Langhelle. Marit Pia Jacobsen. razão pela qual os indivíduos refletem as normas sociais vigentes. de Andrew Niccol (1997) . assinale a alternativa correta. ou a uma devoção afetiva ou. Um programa de socialização faz com que ele surpreendente.QUESTÃO 42 (Março 2002) Segundo as concepções de indivíduo e de sociedade na sociologia de Max Weber. principalmente o ator que interpreta Elling. “Uns filmes gostosos de assistir.A Experiência Genética” (Gattaca). pela sinopse. Sven Nordin. irremediavelmente. onde foi internado após a morte da mãe. um homem de 40 anos com problemas mentais. daqueles que levantam seu astral após a sessão. podendo estar relacionadas ou a uma tradição. fazendo com que o público acabe torcendo por eles. Ledo engano. O filme possui um ritmo ágil e divertido. D) O Estado capitalista nada tem a ver com as escolhas que os indivíduos fazem a partir das motivações que possuem. a expressão das classes sociais em luta.

ecossistema social e contradições do capital. nas condições de uma sociedade de classes. dos Irmãos Wachowski. O que poderia significar essa intertextualidade do gênero Science Fiction? Ela é característica peculiar de um gênero fílmico (o de ficção-científica) que constitui sua trama narrativa a partir de uma determinada racionalidade (a racionalidade tecnológica). que é a própria racionalidade da sociedade moderna. o Policial. O que acontece é que. como a tecnologia perpassa os mais diversos aspectos da vida cotidiana moderna. de Fritz Lang. estruturando-o. principalmente em se tratando de um filme SF. tal avanço da| |ciência genética se traduz em possibilidades concretas de incremento do controle social estranhado. | Análise do Filme Annette Kuhn. identidade e memória | |social. 1990). ela não poderia deixar de estar no centro estruturante da trama filmica. Temas-chave: técnica e tecnologia. capital e processo civilizatório. Neste caso. observa que uma das características do cinema de ficção-científica é a sua intertextualidade. “Matrix”. Ou seja. a técnica e a tecnologia pulam adiante do argumento dramático. | |de Stanley Kubrick. “Metropólis”. como. Estamos diante de uma visceral contradição entre as imensas | |potencilaidades de desenvolvimento humano-genérico e da plena socialização da sociedade humana. e a aguda vigência de determinações de controle social | |estranhado e de exploração de classe. onde predomina a divisão hierárquica do trabalho e a propriedade privada. a trama filmica se constitui em função de uma determinada racionalidade tecnológica. Na verdade. o capital tende a se apropriar do | |desenvolvimento das forças produtivas sociais para aprofundar seu controle de classe. “Eu. o gênero Science Fiction (SF) tende a se confundir com outros gêneros fílmicos. por exemplo. “IA .Inteligência Artificial”. a Comédia ou Horror. “2001-Uma Odisséia no Espaço”. . Nesse caso. de Alex Proyas. de Ridley Scott. subsiste velhos valores estranhados e sociabilidades corrompidas pela lógica do | |capital. sem dissolver sua linha argumentativa (que incorpora outras textualidades). É claro que.Filmes relacionados: “Blade Runner”. no caso do filme SF. de Steven Spielberg. Ao lado do admirável mundo novo. Robô”. em seu livro Alien Zone: Cultural Theory and Contemporary Science Fiction Cinema (Verso.|Eixo Temático | | O desenvolvimento das técnicas de manipulação genética decorrem do desenvolvimento das forças produtivas do trabalho social e da redução das barreiras | |naturais.

de Gattaca (representado pelo escritor Gore Vidal. os “filhos da Ciência”. no estilo de East of Eden. os “filhos de Deus”. assistimos a um jogo de ambição e fraude. a transfiguração de uma rivalidade de classe. Sua ambição é driblar as restrições de classe e se integrar na elite intelectual e moral de Gattaca e realizar seu maior sonho: ir para o planeta Titã. literalmente. um Inválido condenado 39 pelo seu código genético a tarefas degradantes (Freeman significa. de Elia Kazan (com James Dean).O filme Gattaca – A Experiência Genética. Ao lado dos mais sofisticados recursos de manipulação genética. clandestinas. a espécie humana continua a mesma: dividida em classes sociais e se utilizando de subterfúgios escusos e clandestinos para atingir seus interesses egoístas. um Válido que. satélite de Júpiter (seria uma alegoria de fuga do sistema do capital. outro. “homem livre”). que almeja ir além do seu destino genético e decide assumir a personalidade de Jerome Morrow. num papel especial). de agudo cariz regressivo. submetidos ao acaso da Natureza e às impurezas genéticas. como a atitude . que hoje estão se tornando realidade pelos avanços da engenharia genética e da biologia molecular. Gattaca parece se tornar um filme policial ou de suspense quando a trama narrativa se desloca para a busca do assassino de um dos diretores da corporação Gattaca. Utilizando os serviços clandestinos de um “pirata genético”. Vincent clona os registros genéticos de Jerome. cabe salientar): um. que descobre a verdadeira personalidade de Jerome e ameaça denuncia-lo. ficou paralítico. No desenrolar da trama. de Andrew Niccol (1997) é um caso exemplar. a trama de Gattaca sugere um drama familiar. quando Vincent encontra em Gattaca. A sociedade de Gattaca está dividida em duas “classes sociais”. como forma de resistência individual ao totalitarismo do destino genético. os Válidos. e os Inválidos. Apesar do mais alto controle social garantido pelo registro genético. mais uma vez. Torna-se claro. no filme. Gattaca retrata uma sociedade de classe cuja técnica de manipulação do código genético tornou-se prática cotidiana de controle social. nascido do acaso da Natureza. que assassina outro diretor num jogo de poder. seu irmão Anton. a rivalidade entre irmãos (que é. produtos da engenharia genética e da eugenia social. tal como um "retorno ao útero materno"?). os “de baixo” apelam para fraudes sutis. O que se observa é que o tema da técnica de manipulação genética perpassa todo o drama policial (e familiar) de Gattaca. pode-se perceber certa solidariedade entre os “de baixo”. todo o suspense se concentra no personagem Vincent Freeman. Vincent é um jovem ambicioso. Nesse ambiente de resistência individual. produto de um planejamento genético quase perfeito. em virtude de um acidente. Apesar de ser um filme de ficção-científica deixa claro sua intertextualidade. No final. “filho de Deus”. A partir de um certo momento. seja a de Vincent para ter acesso à corporação Gattaca e realizar seu sonho de tornar-se astronauta. Numa sociedade de controle social quase-absoluto. ou do diretor Josef.

tende a incorporar novas determinações de poder e de controle cada vez mais rígidas e com um lastro natural (pode-se. antes de tudo. Pode-se apreender no filme.condescendente do faxineiro Caesar (representado por Ernest Borgnine) ou pelo médico Lamar. os Condenados da Terra. que aparentam certa simpatia pelos ideais transgressores de Vincent/Jerome. agora representado pelos imperativos categóricos da eugenia social. É um destino genético produzido pelo homem. A sociedade do capital. não deixa de ser um protesto contra a sociedade de Gattaca. que . certa nostalgia de um passado distante em que um fio de cabelo era apenas um fio de cabelo (ou uma mera lembrança afetiva). contra seus fluidos e restos corporais capazes de denúncia-lo como Inválido. na verdade. atingindo o próprio ser orgânico do homem. com o desenvolvimento da técnica. graças ao avanço da técnica. dividida em classe. mas que. A perspectiva do filme Gattaca é tipicamente americana. mesmo entre os Válidos existe uma certa hierarquia de classe . uma divisão em casta ou de acordo com o sangue. e não um registro genético capaz de denunciar a identidade de classe das pessoas. de uma “grade”. os proletários seriam os Inválidos. conteúdo de classe. tende a tornar-se uma “segunda natureza”. pelo estigma do destino genético. Em Gattaca. A ambição individualista de Vincent é que conduz a trama.que comete suicido se incinerando num auto-forno no exato momento em que Vincent parte para Titã. considerar mesmo uma divisão de classe. as saídas são individuais. o filme expõe as falhas irremediáveis de Gattaca e do seu sistema de controle. O destino trágico do verdadeiro Jerome. mas o final não é propriamente um final feliz. guardiães da Ordem genético-fascista da sociedade de Gattaca. É contra essa “segunda natureza”. objeto de uma rede controlativa.em sua luta contra o sistema.agora demarcado. a atitude arrogante do verdadeiro Jerome diante de um policial que o interroga. A sua luta é contra o destino de classe – ou casta? . apesar do drama possuir. A luta de Vincent não é apenas contra o Sistema de Gattaca. sugere que. mas poderia se passar num Campo de Concentração ou numa sociedade totalitária qualquer. bem ao estilo das sociedades tradicionais?). baseada na divisão hierárquica do trabalho. O filme se passa na corporação Gattaca. Na ótica do Cinema de Hollywood. mas a forma social que a desenvolve e se apropria dela. na medida em que é produto de um afastamento das barreiras naturais – o domínio do código da vida . numa certa passagem do filme. capaz de aprofundar o controle social do capital. ou sim. produzida pela manipulação técnica. sejam da classe dos Inválidos. através de exame de DNA. nesse caso. que Vincent se revolta e busca uma saída individual. talvez uma nova forma de ciberespaço. Apesar disso. mas contra si mesmo. Gattaca sugere o dualismo Acaso (ligado a “primeira natureza”) versus Planejamento (imperativo da “segunda natureza”).numa sociedade de classe. Mas apesar do clima totalitário. no sentido clássico. E Vincent representa o herói americano – um anti-herói ao estilo de Charles Chaplin? . Não podemos culpar a técnica em si. Contra a técnica que supostamente desumaniza o homem. já desumanizado pelo capital. o diretor e roteirista Andrew Niccol sugere uma “natureza humana” recalcitrante às imposições sistêmicas.a não ser que os policiais. É o estranhamento assumindo proporções abismais.

os objetivos. É como se o único herói do filme busca-se lá fora o sentido da vida. sejam eles de nascimento. onde o tentam reconduzir a uma existência o mais normal possível para quem viveu os horrores do Holocausto. uma sociedade de classe em que só restaria. não deixa de ser singelo e desesperador. inovações tecnológicas e desempenho produtivo No capítulo introdutório foram realizadas as primeiras observações sobre o tema a ser desenvolvido no trabalho. E o sonho de Vincent (ir a lua Titã). Foram levantados ainda o problema de pesquisa. ou seja. no sentido weberiano. as limitações e as delimitações do trabalho. sejam eles por incapacidade adquirida. é claro. A sua mente ficou afetada e agora está internado num hospital psiquiátrico. . agora num sentido amplo. se auto-incinerar ou então viajar para Titã (se conseguir. adaptar-se. uma alegoria da sociedade (pós)-moderna. apresentar-se como um Válido) ? Giovanni Alves (2003) 40 Filme Adam: Memórias de Uma Guerra Gênero: Drama Ano de Lançamento: 2010 Formato: Avi Qualidade: DVDRip Idioma: Português | Inglês Legenda: S/L Tamanho: 814 MB Sinopse: Em Adam: Memórias de Uma Guerra a estranha história de Adam Stein. Capitulo II Agropecuária brasileira. um homem que viveu o drama de ser judeu na Alemanha nazi e sobreviveu aos traumas dos campos de concentração. para as pessoas. Seria a sociedade de Gattaca uma “gaiola de ferro”.exclui como lixo humano todos os Inválidos. O Seu cérebro é demasiado inteligente para confundir os seus médicos e perceber o que está para além da realidade fundir os seus médicos e perceber o que está para além da realidade. Mas Adam não é um homem vulgar nem um doente comum.

Ainda são apresentados. . o setor de serviços e o setor industrial têm maior participação na geração da renda interna (cerca de 88 %). pode-se afirmar que ela foi e ainda continua sendo de fundamental importância para a economia brasileira.Este capítulo apresenta a evolução histórica da agropecuária brasileira desde a colonização até os dias atuais. quase todos os outros bens de consumo que não eram produzidos internamente dependiam da renda gerada pela exportação dos produtos agropecuários para serem adquiridos3.1. o fumo. sendo que ela foi e ainda continua sendo de fundamental importância para a geração de riquezas e o aumento do bem-estar social. a partir da década de 70. 1997). no segundo capítulo. este fato não significa que a agropecuária diminuiu sua importância para o desenvolvimento do país. Figura 2. esteve voltada para o desenvolvimento da indústria. com relação aos outros setores (indústria e serviços). bem como o processo de modernização pelo qual ela passou.2 Gráfico da participação percentual dos setores no PIB6 Atualmente. o algodão. o complexo agro-industrial corresponde cerca de 40% do PIB e. a agropecuária sempre teve um papel de destaque na economia brasileira. pelo fornecimento de insumos às agro-industrias e pela produção de alimentos às pessoas que vivem nas cidades. a industrialização e a distribuição da produção do setor agropecuário. em detrimento da agropecuária. os estudos relacionados ao tema produtividade e agropecuária brasileira. Como pode ser observado no gráfico da figura 2. e principalmente após a década de 30.25. Nesta fase. não diminui a sua importância como setor alavancador da economia. Mesmo assim. O setor agropecuário continua sendo a base para o bom desempenho do complexo agro-industrial que envolve toda a produção agrícola e pecuária.1 Evolução histórica da agropecuária brasileira Desde o início da colonização. como pode ser visto no gráfico da Figura 2.1 Gráfico dos produtos de maior importância econômica para o Brasil. A maior parte dos incentivos e políticas governamentais. através da geração de divisas pelas exportações de produtos agropecuários. em 1960 a renda gerada pelo setor agropecuário já é menor que a produzida pelo setor industrial. até os dias atuais. 2. a indústria brasileira começa a desenvolver-se com maior intensidade. a cana-de-açúcar. Também é destacada a importância da agropecuária para a economia brasileira. Entretanto. caracterizada como modelo econômico primário-exportador. cabendo apenas 12 % ao setor agropecuário (Mueller. Figura 2. De acordo com Lima apud Rossi (1995). O financiamento desse crescimento é baseado na riqueza gerada pela agropecuária. de lá para cá. a borracha e o cacau foram os principais geradores de renda para o país no período de 1500 a 1930. Ao contrário. O fato da agropecuária ter uma menor participação na formação do PIB. produção de insumos e máquinas. passando este último a ganhar cada vez mais destaque na economia brasileira. no período observado4 A partir de 1920. o café. Pode-se dizer que produtos agrícolas como o pau-Brasil (extrativismo). a riqueza interna gerada pela indústria só se distancia da riqueza interna gerada pelo setor agropecuário no final da década de 50 ( Brum 1991).

tem-se uma elevação da demanda por produtos agropecuários. Daí surge a necessidade de expansão da produção agropecuária para atender às necessidades emergentes. No caso da segunda forma de expansão da produção.1 Necessidade de crescimento da produção e modelo de geração de tecnologias A partir da década de 40. produtos químicos e sementes melhoradas). fertilizantes. o caminho a ser seguido requer a utilização de um maior nível tecnológico na produção. ou seja. existem basicamente dois modelos ou processos para a geração de tecnologias. Esse processo de modernização é apresentado a seguir. neste tipo de atividade. o modelo de produção agropecuária baseado no senso comum passa a ter dificuldades em atender às necessidades emergentes. Esta expansão pode ser realizada basicamente de duas formas: em um caso pode-se optar pela expansão da fronteira agropecuária. Este crescimento é reflexo do aumento do setor industrial e do setor de serviços. Diante de tal questão. a partir dos anos 70. ocorre em sua maioria no interior do país.3 apresenta uma simplificação das inter-relações do complexo agro-industrial. deixa de produzir alimentos e passa a requerer que a população restante no campo a alimente nas cidades. pois esta mudança estrutural na economia do país acarreta o deslocamento das pessoas do campo para a cidade. se dá. onde se desenvolvem com grande rapidez os setores industrial e de serviços. 2.aproximadamente. O primeiro processo ou modelo A não tem ligação . Em função destes fatos.3 Representação simplificada das relações do complexo agro-industrial Como pode-se notar. defensivos. funcionando como descentralizadora dos investimentos nos grandes centros e promovedora do progresso no interior. exigindo investimentos em infra-estrutura. serão expostos a seguir. As possibilidades para a modernização. segundo Alves e Contini (1988). o setor urbano brasileiro intensifica o seu processo de expansão7. bem como o caminho seguido. dentre outros. no outro. que surgiu em correspondência com a transformação de uma economia puramente voltada à atividade primária para uma economia mais industrializada. O fluxograma da Figura 2. 40% das exportações brasileiras. basicamente. a utilização de insumos modernos e práticas adequadas ao cultivo. Esta parte da população. estas áreas se encontram longe dos grandes mercados consumidores. 2. que migra para as cidades. Uma característica importante do complexo agro-industrial é a de que o processo de industrialização. no caso brasileiro.2.2 Processo de modernização do setor agropecuário brasileiro Com a intensificação do crescimento dos setores industrial e de serviços. e com maior intensidade nas décadas seguintes. surge a necessidade de novas opções para a modernização da produção agropecuária. Figura 2. o setor agropecuário é a base para todo o complexo agro-industrial. Na área agropecuária. A expansão da produção agropecuária brasileira. Entretanto. A primeira forma de expansão da produção pode ser viável no Brasil pela disponibilidade de áreas. como máquinas. através do aumento da utilização de insumos modernos (máquinas. O desenvolvimento de pólos regionais proporcionado pelo agronegócio foi destacado por Neto e Edward (1999). seria necessário a disponibilização de insumos modernos. a partir dos anos 40.

O outro processo ou modelo B é o que está baseado na pesquisa científica. adubos capazes de corrigirem deficiências nutricionais dos solos. a provável forma de transformação do modelo tradicional para o modelo de base científica seria através de insuficiência de atendimento das necessidades do país pelo modelo clássico. onde uma exploração agropecuária adequada deve suceder em moldes diferentes daqueles trazidos pelos imigrantes. Outra limitação desse modelo. neste modelo. visando o aumento da produção. a busca de novas fronteiras. Eles adaptavam experiências trazidas de suas regiões de origem às regiões similares. como o cerrado brasileiro. Como se pode notar. Como se pode observar. é necessária uma profunda transformação na infra-estrutura de base do setor agropecuário brasileiro. Como conseqüência. sempre existirá. Como o país vinha há séculos utilizando o modelo tradicional e este atendendo às necessidades.estrita com a pesquisa organizada. devido ao processo de industrialização. que geram e difundem as inovações ou novos processos produtivos. mal ou intensamente utilizados. como descrito há pouco. quanto por entidades públicas9. por parte dos agropecuaristas. com o decorrer do tempo. Desta forma. A necessidade da manutenção e ampliação das exportações agropecuárias era indispensável para a manutenção do equilíbrio no Balanço de Pagamentos. para mudar do modelo A para o modelo B. Dentre eles estão os defensivos capazes de controlar os desequilíbrios provocados na flora. principalmente. Esse fato se dá devido a pouca ou nenhuma utilização de insumos modernos ou das práticas adequadas de manejo integrado dos solos. A capacidade do aumento progressivo da produtividade. a partir dos anos 50. não conseguindo recuperar o desgaste de solos. O conhecimento é desenvolvido pelos próprios agropecuáristas. pelo cultivo específico de uma ou de poucas culturas. neste caso. É o caso de fronteiras agropecuárias como o Cerrado. da geração de conhecimentos específicos àquele meio ambiente a ser explorado. tanto pode ser feita pela iniciativa privada8. para a geração de conhecimentos. máquinas adequadas às culturas. ocorre quando o ambiente de atuação agropecuária não permite a plena aplicação dos conhecimentos dos agropecuaristas. A partir da década de 50 ele começa a entrar em crise. o processo de geração do conhecimento científico é baseado na existência de instituições especializadas. por exemplo. apesar de gerarem outros desequilíbrios. 25% do território brasileiro. necessitando. os imigrantes europeus e japoneses tiveram papel fundamental na geração e difusão do conhecimento. . aumentou intensamente e causou uma maior pressão na demanda por alimentos. No caso brasileiro. com o aprofundamento das crises como a de abastecimento. O problema de abastecimento. práticas adequadas de uso do solos e formas de controle biológico10. O modelo baseado no senso comum foi predominante na agropecuária brasileira. é praticamente inexistente. em Estados localizados no sul do Brasil. Estas inovações são o que freqüentemente chamam-se de insumos modernos. Todos esses recursos facilitam o atendimento das necessidades emergentes. Esta pesquisa. e a Amazônia. como. o que acarretaria em pesados investimentos. na base da tentativa e erro. sementes geneticamente melhoradas. resistentes a doenças e com capacidade de adaptação a condições ambientais adversas à sua origem. do início da colonização (1500) até os anos 50 deste século. que passar-se-á a expor. e os conhecimentos são repassados através das gerações. Este fato aconteceu. que anteriormente eram tecnicamente inviáveis para o cultivo e ainda contribuem para o melhor aproveitamento das atualmente exploradas. de exportação e de doenças. foi gerado em função do crescimento da população urbana que. pois possibilitam a conquista de novas fronteiras. abrindo espaço para a expansão da outra forma de geração de tecnologia.

de acordo com os autores. A segunda sugeria a inadequada estrutura de distribuição de terra como fator limitante à modernização. Eles também reconhecem que a disponibilização destes insumos exigiria uma política de incentivos e investimentos pesados. Estes autores. a exploração agropecuária ocorreu de modo praticamente artesanal. A primeira sugere que o problema estava relacionado à falta de políticas adequadas ao setor. por outro lado. com pouca aplicação de tecnologia. insumos modernos. de latifúndios despreocupados com a maximização dos lucros e por minifúndios. Estes fatores mencionados pressionavam a implementação de mudanças estruturais na agropecuária. ou por minifúndios que "não estavam interessados no mercado".2 Políticas para a modernização da agropecuária brasileira Como enfatizado anteriormente. Teóricos neoclássicos como Schuh e Nicholls apud Santos (1988) atribuem a baixa produtividade da agropecuária ao reduzido nível de tecnificação utilizado pelos agropecuaristas. era composta. 2. o processo de modernização só foi consolidado com maior intensidade a partir de 1970. ou por extensos latifúndios desinteressados em inovações. A sua estrutura agrária ainda continuava constituída. Conforme apresentado. 1988). que. que levassem ao progresso técnico. em função das crises. pois. não existia uma classe dinâmica na agropecuária que ansiasse por inovações. que apenas se aproveitavam da disponibilidade de mão-de-obra e terra. 1988).Algumas doenças passaram a ameaçar a produção de culturas importantes como o cacau. destinando sua produção quase que exclusivamente ao atendimento das próprias necessidades (Santos. cria-se espaço para a modernização. Do início da colonização até a década de 50 deste século. . segundo esta corrente. quando muitas políticas foram realmente direcionadas para o aumento do nível tecnológico do setor. as inovações foram retardadas por fatores como a estrutura agrária. nos anos 50 e 60. Apesar dessa oportunidade. como destaca Santos (1988). onde os agropecuaristas estavam muito mais preocupados com o atendimento de suas necessidades do que com o mercado. Essas questões estavam relacionadas à própria estrutura agrária brasileira. Devido a isto. em sua maioria. não consideravam fundamental a criação de uma estrutura agrária adequada à absorção destas novas tecnologias. da agropecuária brasileira: a neoclássica e a estruturalista. disponibilização de mão-deobra e terra. faltavam mecanismos que facilitassem o acesso dos agropecuaristas aos meios. em grande parte. a agropecuária sempre teve papel de destaque na economia brasileira. como a de preços mínimos e subsídios para a disponibilização de insumos modernos. ou de modernização. Pois. Por outro lado. a agropecuária brasileira até meados dos anos 60 não apresentava sinais significativos de utilização de insumos industriais ou de processos produtivos adequados às suas condições edafo-climáticas. por parte do governo. A partir dos anos 50. Esse processo é que será discutido no próximo item do capítulo. na criação da infra-estrutura. que poderiam impedir o desenvolvimento e a implementação de novos processos produtivos na agropecuária.2. exigindo que a pesquisa apresentasse resposta a elas (Alves e Contini. Essa corrente também dava ênfase à grande disponibilidade de terra e mão-de-obra como fator inibidor das inovações. existiam outros fatores. Pode-se considerar que existiam duas correntes teóricas tentando explicar esta falta de crescimento da produtividade. que possibilitassem o aumento da produção por espaço de terra e ainda a conquista de fronteiras antes tecnologicamente inacessíveis.

1988) A partir de 1965. na estrutura de distribuição da terra. Esta corrente se baseia no processo de formação da estrutura agrária brasileira. Apenas os grandes e médios produtores é que poderiam se beneficiar destas políticas. e que. a necessidade de investimentos elevados para a utilização de novos processos produtivos que possibilitassem a expansão da produção agropecuária. Surgia. até 1975. Em decorrência deste modo de exploração agropecuária. Por outro lado. a infra-estrutura rural. na maioria dos Estados brasileiros. Assim sendo. A disponibilização destes fatores era corroborada pela expansão de fronteiras férteis. A partir destas condições descritas. então. dentro das propriedades agropecuárias. E viabiliza-se o cultivo de culturas . Deste modo. como a do Paraná. Deste modo. por outro lado. os autores consideram útil. estas políticas que facilitavam a disponibilização dos insumos tradicionais. fator escasso. em termos de distribuição de terras. para explicar a falta de modernização da agropecuária brasileira. Em decorrência deste fator. terra e trabalho uma saída inteligente. crédito e assistência técnica. Por outro lado. o modelo de inovação induzida de Hayami e Ruttan apud Santos (1988). Essa corrente considerava a não utilização do capital. que seriam os únicos em condições de se adequarem ao processo de inovação. à agropecuária eram consideradas racionais pelos autores neoclássicos. existiam. como a melhoria da estrutura agrária. o progresso tecnológico nos meios de transporte evitava aumentos expressivos dos preços devido à fronteira agropecuária estar se tornando cada vez mais distante dos centros de consumo. Nota-se que as políticas sugeridas eram de curto prazo. de adubos. Diante disto. os caminhos da modernização não visavam o longo prazo. (Santos. do Mato Grosso do Sul e Goiás. terras férteis disponíveis e ainda não utilizadas. que privilegiou as políticas de disponibilização de terras e mão-de-obra11 a grandes empresas agropecuárias. e a utilização de fatores abundantes. pode-se afirmar com bastante precisão que. E os que existiam apresentavam um nível de desenvolvimento muito primitivo. o processo de modernização da agropecuária brasileira ocorrido a partir dos anos 60 foi moldado segundo a estrutura agrária. Já o preço da mão-de-obra era mantido estável tendo em vista o deslocamento das populações marginais do Rio Grande do Sul e do Nordeste para estas regiões. via utilização de fortes subsídios. Apesar de não contribuírem para o progresso técnico. como preço mínimo. encontram. torna-se possível a utilização de áreas de grandes dimensões em uma mesma propriedade. como Furtado apud Santos (1988). inicia-se a ampliação do uso da mecanização. não existia uma classe dinâmica de pequenos produtores capaz de absorver inovações tecnológicas. o fator limitante à expansão de tecnologias modernas que proporcionassem o aumento de produtividade da agropecuária. as políticas que visavam o aumento da produtividade rural ficaram atreladas aos grandes e médios produtores. parece ficar evidente a necessidade de aumentar os índices de produtividade da agropecuária. não foi desenvolvida. Deste modo. já que a adoção de inovações técnicas era economicamente inviável. de defensivos agrícolas e de outros insumos. dificultou o acesso de terras a pequenos colonos à não modernização da agropecuária brasileira. Como foi apresentado.O atraso técnico e a falta de infra-estrutura moderna de apoio ao setor agropecuário eram explicados pela abundância de terra e mão-de-obra verificadas até meados dos anos 60. E isso não seria possível utilizando-se apenas os instrumentos já existentes. autores estruturalistas. terra e trabalho.

e ainda incentivaria a expansão industrial interna.45612 unidades. com maior intensidade. existe uma queda no consumo de defensivos no período14. pois passava a demandar insumos industriais em escala. Quando se iniciou o processo de modernização. o trigo. e fruto da disponibilidade de pacotes tecnológicos do exterior e do apoio ao desenvolvimento do setor rural. fungicidas e herbicidas). o processo de modernização pode ter sido absorvido.664 unidades. 45. salta para 1. onde a agropecuária teria um papel importante. No caso da venda doméstica de tratores agrícolas. Neste caso. apresentaram uma expansão até meados da década de 70. O número de HP disponíveis em 1970 era de 7. segundo os autores. De forma agregada. e em 1994 passa a ser de 5. aliadas à ação de grupos de interesses.910. para um mercado internacional exponencialmente crescente. pode-se verificar que houve uma intensificação no uso de insumos modernos.080. em 1974. o milho. para entrar em uma era de incentivos às exportações. a cana-de-açúcar. o desenvolvimento da agropecuária foi atrapalhado. Pode-se citar.636. como o soja. econômicas. o caso do consumo aparente de fertilizantes. devido ao incentivo à produção interna. pelo governo.que são comercializadas em larga escala. esse foi exógeno à agropecuária. porém é interessante observar que a potência média dos tratores aumentou. como exemplo. Estes fatores estavam relacionados à disponibilização da mão-de-obra e com a viabilização da utilização de terras por grandes empresas. dentre outras. Esse período ficou conhecido como "revolução verde". em que os processos produtivos da agropecuária eram voltados ao uso intensivo de insumos industriais. influenciam a geração e a utilização dos novos processos produtivos. Um estudo sobre a utilização dos insumos modernos na agropecuária. A partir daí.97513. a agropecuária participaria com a exportação de produtos. Como pôde-se notar. o consumo aparente de inseticidas e de fungicidas diminui entre 1974 e 1991 e o consumo de herbicidas aumenta. 5 anos depois. principalmente. Na realidade.959. sociais e edafo-climáticas entre seus Estados e regiões. Estas diferenças. que era de 630. poupadores de terra e trabalho. Em outras palavras.1974/1979). por Estados e regiões que possuíam as condições mais adequadas de assimilação das inovações . Deste modo. O consumo interno de tratores agrícolas em 1994 foi de 46. ocorre uma estabilidade no consumo. por fatores relacionados às políticas dirigidas ao setor.208. e mais intensivamente a partir da década de 70.380 toneladas de ingrediente ativo em 1969. auxiliando o crescimento do setor industrial. de acordo com eles. como observado por Monteiro (1985). que se deu intensivamente até os anos 60. Entretanto é importante observar que o Brasil é muito grande e possui diferenças estruturais. ou até inferir que a agropecuária brasileira intensificou o processo de modernização a partir da década de 70.995 e 9. A modernização da agropecuária brasileira foi simultânea ao desenvolvimento de uma tendência mundial. Outro fator que influenciou a modernização da agropecuária brasileira foi a saída gradativa de um período de substituição de importações. Os defensivos (inseticidas. realizado por Barros e Manoel (1988). sendo alguns deles proporcionados pelo II PND (Plano Nacional de Desenvolvimento.824. no mesmo período. desde a colonização do país até meados dos anos 60. a partir do final dos anos 60.775 e em 1995 salta para 52. demonstra que estes se expandiram. respectivamente. observa-se que em 1974 eram consumidos internamente 5 vezes mais tratores do que em 1969. um pouco superior a 1994.

2. Em seu estudo. a partir da década de 70. pois eles utilizaram o rendimento por hectare como indicador de produtividade.vindas do exterior e das desenvolvidas internamente. Também fica destacado que o processo de modernização. Entretanto. Trevisam (1984) desenvolveu um estudo que trata sobre o relacionamento entre a estrutura fundiária e a produtividade alcançada pela cultura do cacau no Estado da Bahia. alguns trabalhos correlatos ao tema foram desenvolvidos. Frente a este fato. Este problema persiste em todos os estudos que contemplam indicadores parciais em suas análises. Recentemente. Já em uma análise que leva em consideração indicadores globais. podem ter participado com menor intensidade deste processo.3 Estudos relacionados à produtividade e à agropecuária brasileira Como se pôde observar. Os trabalhos que serão apresentados a seguir apontam deficiências similares. que trataram das relações entre o preço da cana-de-açúcar e a produtividade desta cultura no Estado do Rio de Janeiro. É bom enfatizar que a maioria dos estudos. é fruto das crises que se iniciam nos anos 40 e 50. que provavelmente acarretariam modificações na produção e na produtividade da agropecuária brasileira. alguns pesquisadores vêm desenvolvendo trabalhos visando a melhoria do dimensionamento das reais alterações de produtividade. surge a necessidade de verificação das conseqüências no desempenho produtivo da agropecuária. a agropecuária brasileira sofreu grandes mudanças. Destacar-se-á.3. No próximo item serão apresentados os trabalhos relacionados ao tema. . o autor utilizou a produtividade da terra como indicador. apesar das dificuldades estruturais. foram desenvolvidos alguns estudos visando identificar alterações na produtividade da agropecuária brasileira. estava aumentando e que extratos muito grandes de terra apresentavam um menor rendimento. não trata a produtividade em um sentido global.1 Estudos regionais relacionados à produtividade que utilizaram indicadores parciais Dentre os estudos regionais relacionados à produtividade. 2. Os autores concluíram que a produtividade da cana-de-açúcar era sensível ao aumento de preço da cultura. Diante desta questão. o que os autores verificaram realmente foi que a produção por hectare estava crescendo em função do aumento do preço da cana-de-açúcar. considerando apenas a produtividade parcial dos fatores. não devendo ter sido distribuído de modo uniforme no país. principalmente. sofre um processo de modernização. alguns destes trabalhos que abordam a questão da mensuração da produtividade da agropecuária brasileira. Esses estudos consideraram a produtividade total dos fatores. a agropecuária brasileira. Assim sendo. Como se pode observar. em geral. É importante salientar que alguns dos trabalhos não trataram diretamente sobre a questão de inovações e reflexos na produtividade. Entretanto. os Estados e regiões que não se moldavam às inovações. estes utilizaram-se do tema produtividade e agropecuária. Estas alterações estavam relacionadas à expansão da utilização de insumos modernos. Frente às mudanças ocorridas no setor. sendo que o aumento da produção por hectare poderia ser fruto do crescimento da utilização de outros insumos. que se intensifica nos anos 70. a produtividade poderia não estar aumentando. além de analisar somente casos regionais. pode-se destacar trabalhos como o de Pinazza e Noronha (1980). a seguir. e concluiu que a produtividade do cacau.

3. pode-se citar o de Kageyma e Silva (1983). frente ao processo de modernização. É ressaltado na análise que grande parte do crescimento ocorreu em função do aumento de produtividade. como soja e laranja. Albuquerque e Nicol (1987) desenvolvem um trabalho fazendo comparações da produtividade da agricultura brasileira em relação à de outros países. O objetivo dos autores era de conhecer os efeitos das condições climáticas adversas sobre a produtividade agrícola. Silva (1983) baseia-se em indicadores parciais para explicar o comportamento dos diferentes extratos de produtores que compõem esta estrutura. Os efeitos das políticas institucionais. eles desenvolveram um modelo de análise baseado no índice da evolução da produtividade da terra de 1956 a 1983. se apoiam no aumento de produtividade para discutir a transformação do emprego na agricultura.2 Estudos em âmbito nacional relacionados à produtividade e indicadores parciais Dentre os estudos voltados à análise da produtividade da agropecuária brasileira. Os autores discutem o efeito do progresso técnico no crescimento da produtividade. 2. Avaliando a agricultura brasileira frente à sua estrutura de produção. Eles usam conceitos parciais de produtividade do trabalho e da terra para analisar o aumento do progresso tecnológico e o aumento da produtividade agrícola. O autor destaca o crescimento mais acentuado dos produtos destinados ao mercado externo. e o aumento das possibilidades da exploração do trabalho. Hoffamann e Jamas (1990) se fundamentaram em indicadores parciais de produtividade da . pode-se estar incidindo no erro de superestimar ou subestimar os aumentos de produtividade. que. As diferenças de produtividade da terra e do trabalho entre microregiões homogêneas da agropecuária paranaense. todos estes autores empregaram indicadores parciais de produtividade em suas análises. como arroz e feijão. foi analisada por Guerreiro (1996).Silva et al (1985) estudaram os efeitos das condições do tempo sobre a produtividade agrícola no Estado de São Paulo. no período de 1975 a 1970. Foi verificado. apesar de destacarem os limites desses indicadores. Caso isto ocorra. O autor considera como indicador de produtividade a produção por área. em relação aos produtos destinados ao mercado interno. Mello (1990) investiga o crescimento não desprezível da agricultura brasileira na década de 80 frente a fatores adversos. Para analisar o desempenho produtivo agropecuário de 332 microregiões do Brasil. Para alcançar tal objetivo. no desempenho e na composição da produção agrícola paranaense. Como já mencionado anteriormente. com uma visão marxista. Como se pode observar. neste trabalho. Os autores utilizaram a produtividade da terra no auxílio à análise de desempenho. A seguir serão expostos estudos de âmbito nacional que são baseados em indicadores parciais. os indicadores parciais de produtividade não devem ser confundidos com a produtividade da agropecuária. que existiam grandes variações de produtividade entre as microregiões. foi estudado por Pereira e Lugnani (1991) e Pereira (1992). como o desempenho insatisfatório da economia e cortes de incentivos ao setor. O autor usa indicadores parciais para comparar as diferentes regiões do Estado. Os autores utilizam indicadores parciais de produtividade para realizar a análise.

o qual. . como é o caso do objeto de estudo. apresentam resultados mais próximos da realidade. ainda é preciso ser mais produtivo. vacinas e medicamentos. área utilizada para produção. como a Fundação Getúlio Vargas (FGV). Recentemente. Os resultados. conhecendo os limites dos indicadores parciais de produtividade. ele conclui que o desempenho produtivo dos anos 80 foi um pouco superior do que o verificado no início da década seguinte. Dentre estes. Os insumos utilizados eram: força de trabalho.45%. como mencionado. alguns estudos nesse sentido vêm sendo desenvolvidos visando a análise das alterações da produtividade da agropecuária brasileira. que tinha como objetivo analisar as mudanças da produtividade na agropecuária brasileira durante o período de 1970 a 1985. Os preços dos produtos e dos insumos foram coletados dos Censos e de outras fontes secundárias.3. requer. a utilização do preço de insumos e produtos como fator homogeneizador. Os autores desses trabalhos. O estudo de Valente (1994) trata do desempenho da agricultura brasileira no período compreendido entre 1975 a 1993. 2. principalmente a desenvolvida pelo sistema EMBRAPA15. defensivos agrícolas. apontaram aumento de produtividade. para encarar desafios da competição internacional. e com o valor agregado por hectare cultivado. os autores relacionam o crescimento da produtividade com a pesquisa agropecuária. Os índices de produtividade (PTF) foram construídos com base no índice de Tornqvist. face à análise de ambientes complexos. significativa. fertilizantes. Os resultados demonstram que a pesquisa contribuiu para o crescimento da PTF. O autor ainda destaca que. rações. pretendia-se averiguar se os aumentos de produtividade poderiam ser explicados pelo desenvolvimento das pesquisas. tratores. pode-se destacar o trabalho de Ávila e Evensom (1994). Desta forma. Os dados utilizados para a construção dos índices de produtividade foram extraídos dos censos agropecuários do IBGE. Diante da relevância do problema e da importância de uma análise mais acurada sobre a produtividade da agropecuária brasileira. tentam apresentar um tratamento mais adequado à questão de mensuração da produtividade. Estes trabalhos serão analisados no próximo item. da produtividade da agricultura em relação a década de 70. A taxa anual de crescimento da PTF encontrada foi de 2. principalmente a gerada pelo sistema EMBRAPA. A produção considerada na análise foi composta pelos principais produtos da agropecuária brasileira. no terceiro capítulo. A característica comum destes trabalhos apresentados é que em todos foram utilizados indicadores parciais de produtividade em suas análises para explicar alguma situação ocorrida na agropecuária brasileira. em seu cálculo. Na tentativa de minimizar a deficiência das medidas parciais. Os autores também pretendiam avaliar o papel da pesquisa agropecuária. Como já evidenciado anteriormente. no geral. os autores trabalharam com o valor agregado do trabalho na produção agropecuária. para o período de 1970 a 1985. apesar da melhoria. nas alterações de produtividade.3 Abordagens nacionais sobre a produtividade considerando indicadores PTF Os estudos relacionados à produtividade. Baseando-se em indicadores parciais.terra e do trabalho. que consideram a PTF. A partir desta taxa. foram desenvolvidos alguns estudos que trataram a questão em um sentido mais amplo. os indicadores parciais de produtividade podem levar a resultados distorcidos. considerando indicadores de PTF.

como a necessidade de utilização de preços dos produtos e insumos e o não detalhamento das causas das mudanças de produtividade. Desta forma. Nesse caso. Tendo que um fato econômico. a produtividade é uma relação produto/insumo. Entretanto. Este fato não pode ser corrigido por uma simples correção de preços. Como foi definido. O indicador de produtividade utilizado não apresentava a possibilidade de desmembramento das mudanças de produtividade em mudanças tecnológica e alterações no indicador de eficiência. sem que. fato este que poderia repercutir em aumento de produtividade sem que exista um real crescimento da relação produto/insumo. uma relação física. Neste trabalho também foram desenvolvidos os indicadores parciais da terra e do trabalho. eles criticam os indicadores parciais de produtividade e ressaltam o objetivo de avaliar a evolução da produtividade total dos fatores da agropecuária brasileira. ( Kageyama e Hoffmann. as elevadas taxas de inflação deixam os resultados extremamente sensíveis à escolha de um deflator. utilizado pelos autores. foi o de Gasques e Conceição (1997). No caso da utilização dos preços como fator do cálculo do índice de produtividade.0%. é importante observar que o índice de PTF. Os autores o iniciam destacando a importância do tema e a pequena quantidade de trabalhos direcionados à questão. como se está considerando o valor produção pelo valor dos insumos utilizados. no período de 1976 – 1994. Outro problema relacionado à utilização de preços está ligado a fatores conjunturais da economia. também apresenta certas limitações. se adotarmos os dados dos Censos deflacionados pelo Índice de Preços Recebidos pelos Agricultores (da FGV). em primeira instância. a pesquisa agropecuária vem a contribuir. representaria um aumento do valor total da produção em moeda nacional e. pode interferir no resultado da análise. a análise pode ser prejudicada de algumas formas. para as alterações de tecnologia de produção. eles poderiam detalhar mais a análise. considerando a produtividade total dos fatores. haveria um crescimento do índice de produtividade. uma desvalorização cambial poderia representar um aumento do valor dos produtos relacionados ao mercado externo. Por exemplo. poderíamos concluir alternativamente que o valor agregado da agricultura brasileira entre 1975 e 1980 decresceu 3. . ao invés da produtividade parcial. Deste modo. 242. se nos reportamos aos dados das Contas Nacionais. 1984)". ou seja.9%. tenhamos razões objetivas e fortes para rejeitar um ou outro resultado. passou por sérios problemas inflacionários no período da análise. a simples mudança da fonte de preço. ou cresceu 25. por exemplo. ceteris paribus. como comentam Kageyama e Hoffmann (1984). no caso. ou dos deflatores utilizados. principalmente. relacionando o papel das pesquisas nas mudanças de tecnologia.Como destacado por Gasques e Conceição (1997) os trabalhos que consideram a produtividade total dos fatores. Tendo os autores do trabalho estas informações à disposição. conseqüentemente. desvalorização cambial. é influenciada por fatores como a evolução tecnológica e as mudanças no indicador de eficiência. a análise de produtividade pode sofrer a influência de fatores econômicos. Outra limitação dos indicadores de PTF utilizados pelos autores reside no fato de que a produtividade. No caso da utilização dos preços dos insumos e produtos. Os autores fazem a seguinte colocação: " Assim. a agropecuária brasileira. como salientado no terceiro capítulo. Outro trabalho que analisou a evolução da produtividade da agropecuária brasileira. tendem a apresentar resultados muito mais próximos da realidade. p. Na seqüência. Uma acontece quando está se estudando uma série temporal e o objeto de estudo.

a. apesar dos indicadores de PTF. As informações relativas ao preço das máquinas também apresentaram dificuldades de quantificação. Os índices médios de crescimento da PTF. obtidas na mesma fonte. Fato que pode levar a sérias distorções nos resultados. ou seja. O não conhecimento das causas das mudanças de produtividade também se faz presente neste trabalho. Os insumos fertilizantes e defensivos têm seus preços facilmente encontrados no mercado. As terras utilizadas pela pecuária não foram consideradas devido à pequena quantidade de informações disponíveis. No caso da mão-de-obra.11% a.5% a. segundo os autores. e dos produtos de origem animal.a. pois.. Os dados foram conseguidos junto às publicações Produção Agrícola Municipal (PAM) e Produção Pecuária Municipal (PPM) do IBGE. é evidente a dificuldade de obtenção dos preços de insumos importantes para a análise. A alternativa encontrada pelos autores foi utilizar as informações sobre o faturamento líquido definido pela Associação Nacional de Veículos Automotores (ANFAVEA) como sendo a soma das vendas de máquinas e peças de reposição.a. entre 1976 e 1985. o que é preocupante devido a mesma ainda não se encontrar em um patamar elevado de utilização de tecnologias. Os autores. e de 3. segundo eles. na análise do trabalho anterior. "mesmo sem saber se este existe". A quantidade de máquinas.88% a. foram de 4. ao progresso técnico.O produto utilizado na análise foi obtido através da agregação das lavouras. A agregação dos insumos e produtos. e os insumos intermediários: fertilizantes e defensivos. o custo ou preço foi obtido pela multiplicação do ponto médio de cada classe de rendimento pelo número de pessoas ocupadas na classe de rendimentos. Essa. O período de 1976 a 1994 apresentou a taxa média de 3. já que os pesos das variáveis que são obtidos através dos preços podem não estar sendo representados da melhor . Como se observou. Como destacado há pouco. conforme os autores. E como se mencionou. sendo as informações encontradas na PAM. A obtenção do preço da terra se deu pela utilização do preço médio dos arrendamentos de terra para a lavoura. que foi apresentada pela agropecuária brasileira. ocorre por intermédio dos preços das variáveis. Os insumos considerados na análise foram mão-de-obra. essa queda pode ocorrer em função da redução do crescimento do progresso tecnológico na agropecuária. A metodologia utilizada para o cálculo dos indicadores de produtividade total dos fatores foi a mesma utilizada por Ávila e Evenson (1994). ainda persistem os problemas relacionados à utilização de preços dos produtos e insumos. pura e exclusivamente. Os problemas relacionados ao estabelecimento de preços de certas variáveis da análise também ficam evidentes. a mudança no indicador de eficiência também pode interferir no crescimento da produtividade.. demonstram certo grau de preocupação com a tendência de crescimento a taxas decrescentes. publicado pela FGV. diante dos resultados. entre 1986 e 1994.. foi a forma mais viável de cálculo do preço da mão-de-obra. por sua vez. temporária e permanente. O fator terra foi composto pela área de lavouras temporária e permanente. os autores basearam seus indicadores no índice de Tornqvist. sendo que os preços dos produtos foram obtidos junto ao IBGE e à FGV. máquinas e terra. sendo que os autores atribuem as causas do aumento de produtividade. exibidos pela análise. apresentarem resultados mais consistentes que os indicadores de PPF. utilizados pelos autores. Todos os dados foram obtidos com periodicidade anual. refere-se ao número de unidades vendidas. frente à dificuldade de obtenção de informações.

4 Considerações finais Neste capítulo foi apresentada uma síntese da evolução histórica da agropecuária brasileira.forma. não possui renda suficiente para um bom padrão alimentar) e pela produção de matérias-primas para vários setores industriais e energéticos. bem como a sua importância para a economia brasileira. A Agropecuária no Brasil A atividade da agropecuária pertence ao setor primário da economia. Enfrentamos problemas de geadas no Sul e Sudeste durante o inverno. Mas. trabalhando com um agregado de produtos e um agregado de insumos. auxiliando as políticas para sanar as possíveis distorções regionais existentes. 2. infelizmente. A análise também perde em qualidade quando insumos importantes. tendo o fator preço como homogeneizador. No próximo capítulo serão apresentadas as considerações teóricas sobre produtividade e evolução tecnológica e ainda as formas de quantificação destas questões. Pereira et al (1998a) e Pereira et al (1998b) iniciaram um trabalho visando minimizar estes problemas. consequentemente. não temos grandes problemas climáticos que nos impeça a prática agrícola. de uma maneira geral. É interessante salientar que os trabalhos apresentados utilizaram indicadores de PTF. não podem ser considerados devido à falta de informações. inundações de verão em algumas porções do território nacional e secas prolongadas especialmente no Sertão. Encontramos vários tipos de solos no país. Desta forma. pelo emprego de aproximadamente 1/5 da PEA. que nos permite o cultivo de quase todos os produtos em larga escala. como a área destinada à pastagem. Entretanto. predominantemente quentes. pela produção de alimentos para uma população numerosa (com uma parcela que. alguns de grande fertilidade como a terra-roxa. Destacou-se ainda o seu processo de modernização. A produtividade da agropecuária brasileira foi analisada somente no âmbito nacional. Fato este que poderia melhorar os resultados da análise. era impossível usar mais de um insumo ou mais de um agregado de insumos. O Brasil possui um extenso território com relativa variedade de climas. pois poderiam ser utilizados agregados de produtos ou insumos similares. Apesar de não ser mais a atividade de maior importância na economia brasileira continua se destacando pela significativa participação em nosso comércio exterior. ou ainda utilizar mais de um produto ou mais de um agregado de produtos. mesmo tendo os preços como ponderador. o . Seria interessante que existissem resultados desagregados relativos aos Estados e regiões. Posteriormente. seria possível verificar se houveram diferenças de crescimento da produtividade entre Estados e regiões. Há dificuldades em se obter uma grande produção de gêneros de climas de temperaturas moderadas com custos aceitáveis. foram exibidos os estudos relacionados à produtividade e ao setor agropecuário e as limitações apresentadas por estes.

na África). Muitos solos do país. cultivo seguindo a mesma linha do declive do terreno (sem a aplicação das curvas de nível e/ou terraceamento). excesso de animais sobre o solo e excesso de peso sobre o mesmo. entre caboclos e indígenas). Em algumas áreas o processo de desertificação avança sobre áreas que antes produziam alimentos (ex: sahel. *erosão e esgotamento do solo – provoca a destruição física do solo e a perda de sua qualidade.massapé e o solo de várzea ou aluvial. quando então o solo se esgota e parte-se para outra área. retirando-se as partículas que formam o solo. Nele podemos incluir uma simples roça (como na Amazônia. Os solos constituem um importante recurso natural que deve ser preservado através de técnicas conservacionistas. os solos possuem baixa fertilidade ou problemas como acidez elevada. misturam-se as cinzas ao solo e se realiza uma monocultura sem maiores cuidados por um breve período de dois a três anos. pela retirada da vegetação. grandes parcelas de solo são sistematicamente destruídas em todo o mundo. realizando-se o mesmo procedimento. Infelizmente. *laterização – constitui na formação de uma crosta ferruginosa endurecida próxima à superfície do solo pela concentração de óxidos de ferro e alumínio. Quando em estágio avançado provoca a formação de sulcos profundos denominados voçorocas. Quando desprotegido. acentua-se esse processo. corretivos químicos e fertilizantes. predatórias e prejudiciais ao solo: desmatamento (especialmente junto às margens dos rios). Ocorre em áreas de clima tropical em que se alternam uma estação chuvosa (dissolução desses óxidos) e seca (quando esse material se acumula próximo à superfície e forma a crosta). necessitam da aplicação de adubos. . para produzirem satisfatoriamente. realiza-se uma queimada para limpeza do terreno. monocultura sem os cuidados necessários (reposição do material fértil ao solo). com procedimentos muito simples e de caráter itinerante: retira-se uma porção da mata. É causado pela ação do clima. Mas. A recuperação de um solo pode ser demorada e muito cara. Alguns problemas específicos também afetam os solos do Brasil: *lixiviação – constitui no empobrecimento dos solos em regiões de climas muito úmidos com chuvas freqüentes que através do escoamento superficial retiram o material fértil do solo. em áreas com chuvas intensas. Mas é agravado pelo uso de técnicas agropecuárias incorretas. Sistemas de produção na agricultura A agricultura pode ser praticada de diversas formas com um conjunto de características que passamos a apresentar a seguir: Sistema extensivo técnicas simples mão-de-obra desqualificada abundância de terras baixa produtividade rápido esgotamento dos solos Esse sistema é característico de regiões com grandes extensões de terras vazias e de menor grau de desenvolvimento. seus constituintes minerais e orgânicos. em muitas áreas do território brasileiro.

Está principalmente voltada para o mercado externo. . Mesmo assim utiliza muita mão-de-obra (trabalha com propriedades. com milhares de hectares de extensão). Os pecuaristas têm se preocupado em acompanhar as tendências desse mercado muito competitivo. Sistemas de produção na pecuária Podemos também pensar nas características dos sistemas de criação de animais que lembram muito as características acima citadas. especialmente produzindo para abastecimento do mercado interno.Sistema intensivo técnicas modernas mão-de-obra qualificada terras exíguas alta produtividade conservação dos solos É um sistema característico de regiões de maior desenvolvimento. por vezes. principalmente temporária (o bóia-fria ou trabalhador volante). observa-se uma rápida evolução qualitativa nas técnicas de criação. Plantation grandes áreas técnicas modernas muita mão-de-obra elevada produtividade monocultura agroindústria/exportação Esse sistema passou a ocupar grandes áreas em países subdesenvolvidos ocupando seus melhores solos. Aplica a mecanização quando possível (lembre-se que não é todo cultivo que permite mecanização). São comuns a prática da policultura e pecuária leiteira através desse sistema. mas na prática é muito comum que se combinem características dos dois sistemas e. geralmente com maior ocupação humana e com o uso de pequenas e médias propriedades. Sistema Extensivo grandes propriedades gado criado a solta sem cuidados veterinários raças simples uso de pastagens naturais baixa qualidade e produtividade destinado ao corte Sistema Intensivo Pequenas e médias propriedades Criação confinada em estábulos ou currais Cuidados veterinários Raças selecionadas e aprimoradas Uso de pastagens cultivadas Rações balanceadas Alta qualidade e produtividade Destinado à produção de leite Evidentemente essa classificação e características são de natureza bem didática. bem como o serviço de técnicos agrícolas e agrônomos. com a modernização progressiva e exigências cada vez maiores do mercado.

Ocupa terras que não são suas.Formas de exploração da terra As propriedades agropecuárias podem ser exploradas diretamente pelo proprietário ou indiretamente pelo: *parceiro ou meeiro – aquele que utiliza as terras do proprietário e divide com este a produção obtida. adubos. combustível.). equipamentos de irrigação. no Brasil. para fazer frente aos gastos tanto no plantio (sementes. mão-de-obra) como na colheita (máquinas. estocagem e transporte). com juros reduzidos. desde que não se concentre apenas em uma prática de subsídios que onerem o Estado e dificulte a capacidade de evolução da competitividade da agropecuária brasileira (como ocorre em países europeus). *arrendatário – aquele que paga um aluguel ao proprietário pelo uso da terra. *crédito rural e preços mínimos – para que o agricultor possa produzir ele precisa de uma linha de financiamentos. Parte do crescimento de nossas safras agrícolas tem dependido da incorporação de novos espaços a esse setor produtivo mas ainda podemos ampliar e muito o espaço agrícola do país. A sua aplicação indiscriminada. fertilizantes. *nível de mecanização – o avanço da mecanização na agricultura vem ocorrendo especialmente no Centro-Sul do país. o volume de recursos à disposição para o agricultor não tem conseguido atender a todos e muitas vezes foi mal distribuído e desviado de suas reais finalidades (construção de hotéis-fazenda. ou são mesmo analfabetos. *baixo nível de instrução e cultura do agricultor – grande parte dos que trabalham na terra tem um nível de instrução muito baixo. .. mão-de-obra. traz segurança e tranqüilidade ao produtor. Historicamente. ferramentas. no caso do agricultor é necessário que ele possa evoluir também em seus conhecimentos técnicos para que deixe de utilizar técnicas antiquadas que contribuem para a baixa produtividade e desgaste do solo. justa. é o ocupante.. *posseiro – aquele que utiliza terras que encontra vazias para uma produção de subsistência. A adoção de uma política de preços mínimos. traz problemas como um desemprego acelerado no campo e até mesmo intensificação da erosão do solo. Melhorar o padrão de cultura da população é importante e. Na última década o Brasil conseguiu evoluir nessa questão e além disso tem aumentado o percentual de agricultores capitalizados o suficiente para bancar seu próprio empreendimento. Deve ser introduzida de maneira planejada e deve ser estimulada como uma forma de permitir ao produtor a competitividade para sobreviver no mercado. irracional. embalagens. A mecanização e o uso de técnicas modernas permite um aumento da produtividade. piscinas em mansões rurais. *grileiro – falsifica títulos de propriedade e vende terras que também não são suas Problemas enfrentados pela agropecuária no Brasil: *reduzido aproveitamento dos espaços disponíveis – muitas terras no Brasil não apresentam qualquer forma de utilização.

nem sempre os recursos suficientes para uma intensificação desse processo. Ao mesmo tempo em que avança a execução do PNRA (ainda que não seja a Reforma Agrária desejada por alguns setores da sociedade) avança a moderna produção agroindustrial. consolidando-se no Centro-Sul do país e estendendo-se pelo Nordeste e Amazônia. de responsabilidade do Estado. Assim. conflitos e mortes nas áreas rurais. A atuação do INCRA durante os governos militares preocupou-se mais com a colonização agrícola de áreas vazias do território nacional (como a Amazônia) do que com a redistribuição de terras. o governo de José Sarney cria o Ministério da Reforma Agrária e a Constituição promulgada em 1988 contempla um Plano Nacional de Reforma Agrária. Caso ele tivesse acesso a uma capacidade maior de armazenagem. a necessidade pela execução de uma reforma agrária no país foi se tornando urgente e inadiável. enquanto se incentivava também a ocupação do cerrado por grandes propriedades exportadoras (como a produção de soja. é importante frisar que uma Reforma Agrária não pode parar simplesmente no ato de redistribuição de terras. A formação de grupos armados por fazendeiros para proteção de suas terras (legais ou griladas) e a expansão das fronteiras agrícolas brasileiras contribuíram para definir um quadro de violência e ilegalidade nas áreas rurais. Preocupada com o aumento da produtividade. transporte e comercialização da produção. muitas vezes inapropriados para guardar a safra) e no transporte inadequado. A grilagem de terras contribuiu para agravar a revolta social no campo brasileiro. com a melhoria da qualidade na . não precisaria escoar toda a sua produção imediatamente para o mercado e poderia conseguir um melhor preço posteriormente. Mas ainda permanecem problemas na armazenagem (deficiente e/ou insuficiente. O ritmo dessa reforma é contestado por alguns que a julgam lenta e tímida. assim como a redistribuição de terras. assim como a presença de posseiros preocupados com sua sobrevivência e de sua família.a safra agrícola tem conseguido recordes de produção. treinamento e qualificação de mão-de-obra. multiplicando-se casos de invasões de propriedades. Juntam-se a todos esses atores alguns setores progressistas da Igreja e grupos políticos ideologicamente de uma esquerda mais radical (revolucionários) que também defendem seus pontos de vista e interferem na questão. Além disso. organizados ou não. muitas vezes massacrados na luta com os brancos. Os que permaneceram no campo engrossaram movimentos sociais. Em 1985. no início de redemocratização do país. por exemplo). com falta de silos e armazéns.*armazenamento e transporte . mas deve garantir condições mínimas para que o camponês pobre possa produzir: linhas especiais e subsidiadas de financiamento. A desapropriação de terras improdutivas que não estejam cumprindo sua função social está sendo feita. Vale lembrar que existem interesses conflitantes nessa questão e. o que leva a perdas significativas da colheita e a prejuízos ao agricultor. incluindo-se aí a invasão de terras indígenas. estímulo à formação de cooperativas e criação de centros de apoio para armazenagem. *distribuição de terras – historicamente o modelo econômico adotado pelo Brasil e as legislações criadas favoreceram a formação de grandes propriedades através de um processo de concentração de terras. Nas últimas décadas a continuidade desse processo associado à modernização agrícola (expansão da mecanização) e à pressão por uma agricultura cada vez mais capitalizada expulsou muitos trabalhadores do campo que se dirigiram para as cidades no movimento migratório do êxodo rural.

Estamos apresentando aumento no total colhido. na região de Ilhéus e Itabuna.produção agropecuária e com ganhos de competitividade busca expandir seus mercados externos e enfrenta a prática protecionista de muitos mercados como o europeu e o norteamericano. Novas áreas de produção em climas mais quentes permitem um aumento da colheita do trigo no país. Minas Gerais é o maior produtor nacional. As áreas mais recentes de produção estão no Centro-Oeste e Amazônia. não só pelas pessoas mas também utilizado como ração animal. a grande expansão da cana a partir de meados da década de 1970 se deveu a criação do Pró-álcool que levou a cana a ocupar grandes extensões no Estado de São Paulo. bem como melhoria de . Principais produtos agrícolas O Brasil apresenta atualmente uma produção agrícola muito diversificada. *laranja – o Brasil disputa com os EUA a liderança mundial e é grande exportador. É grande produtor mundial de vários produtos. muitas vezes com produção insuficiente para abastecê-lo. *uva – destaca-se a área de produção das Serras Gaúchas. *trigo – talvez o maior problema em nossa produção agrícola porque 2/3 do mercado interno continuam sendo abastecidos com o trigo importado da Argentina e EUA. invadindo o Centro-Oeste e até a Amazônia. São Paulo é o líder da produção nacional. Essa moderna agropecuária tem se preocupado com o uso progressivo de sementes selecionadas. controle rigoroso do rebanho e até mesmo o polêmico cultivo de trasngênicos. Observe o mapa com a produção agrícola e veja alguns destaques: *milho – é o principal produto de nossa agricultura. especialmente para o próprio mercado norte-americano. mas com uma produtividade menor e a um custo mais elevado. pesquisas agropecuárias. de amplo consumo interno. Cultura afetada pela praga da vassoura-de-bruxa que levou produtores do cacau a partirem para outros empreendimentos. especialmente na indústria têxtil. informatização no campo. *algodão – a produção é crescente para um mercado interno também em expansão. Foi o cultivo de maior expansão nas últimas décadas do século XX. a principal área de produção é o sul da Bahia. *arroz – importante alimento para abastecer o mercado interno. O Centro-Oeste tem se tornado a principal área de cultivo. O problema de geadas em terras paulistas e paranaenses deslocou esse cultivo mais para o norte. *cana – o Brasil também costuma aparecer como o maior produtor mundial e um grande exportador de açúcar. *cacau – com dificuldades para manter posição de destaque no mercado externo. com destaque para o Mato Grosso. No entanto. *soja – o maior produto agrícola de exportação do país. O Brasil é um dos maiores produtores mundiais. o maior produtor nacional. rebanhos melhorados. É cultivado em simples roçados e também em grandes propriedades mecanizadas. pode ser encontrado do sul ao norte do país. com maior produção no Centro-Sul do país. com destino para a produção de vinho. Grande parte da produção é exportada no momento de entressafra para os países do hemisfério norte. O Brasil chega a ser o maior produtor ocidental desse gênero agrícola. *café – o Brasil continua sendo o maior produtor e exportador mundial e procura atualmente melhorar a imagem de qualidade do café que produz e exporta para conquistar novos mercados mais seletivos.

qualidade, indispensável para vendas externas de vinho. Além desses produtos podemos lembrar do feijão (MG-SP), importante alimento para o mercado interno, a mandioca, a banana (Vale do Ribeira) além da maior produção de frutas tropicais. Principais rebanhos brasileiros A pecuária brasileira começa a ser reconhecida como de boa qualidade. Os investimentos que estão sendo progressivamente realizados para livrar o rebanho de doenças como a febre aftosa e o comprometimento de rebanhos na Europa (como o mal da vaca-louca) têm levado a ampliação de alguns e a conquista de novos mercados de exportação (analistas indicam que o Brasil deve se tornar o maior fornecedor internacional nos próximos dez a quinze anos). Os principais rebanhos brasileiros são os de bovinos, suínos, ovinos e caprinos. Observe o mapa com a distribuição geográfica dos principais rebanhos no Brasil: *bovinos – na pecuária de corte destacam-se as regiões dos Pampas Gaúchos, oeste paulista e Triângulo Mineiro. Pecuaristas de outras áreas de criação preocupam-se em melhorar a qualidade de seu rebanho. Na pecuária leiteira podemos destacar Minas Gerais (várias áreas de criação, especialmente o sul do Estado), São Paulo (Vale do Paraíba, São João da Boa Vista, Araras, Mococa) e Rio de Janeiro (Vale do Paraíba e norte do Estado); *suínos – apresenta significativos ganhos de qualidade e especialização (mais carne e menos gordura, melhor higienização nos locais de criação, cuidados veterinários, selecionamento dos animais) o que tem permitido a busca de um aumento nas exportações dessa carne; *ovinos – o Brasil não tem destaque mundial. A maior parte do rebanho é encontrada no Rio Grande do Sul; *caprinos – também sem grande destaque mundial é uma criação que está evoluindo qualitativamente. Boa parte do rebanho, rústico, pode ser encontrada na Região Nordeste. Podemos também destacar o rebanho de eqüinos, especialmente em Minas Gerais e bubalinos (Ilha de Marajó, Pantanal e Vale do Ribeira). O Brasil parece apresentar condições favoráveis para a criação de búfalos e pode se tornar um grande criador mundial. O Brasil tem um dos maiores rebanhos de asininos e muares e é um dos maiores criadores de aves no mundo.

Estrutura Fundiária e os Conflitos de Terra
Alimentar com seus frutos é o que a agricultura brasileira vem fazendo há mais de quatro séculos, infelizmente sem a harmonia sugerida pela letra da bela canção transcrita ao lado. Como vimos, a agricultura brasileira sempre esteve entre as principais atividades econômicas do país. Mas o Brasil não se tornou uma potência agrícola, pois alguns dos maiores problemas sociais brasileiros estão centralizados no campo, como a estrutura fundiária marcada pela concentração de terras, os conflitos pela posse da terra e as relações desiguais de trabalho. Uma distribuição Irregular de terras

À forma como as propriedades rurais estão distribuídas, segundo suas dimensões, denominamos estrutura fundiária. A principal característica da estrutura fundiária brasileira é o predomínio de grandes propriedades. As origens dessa distribuição desigual de terras em nosso país estão em seu passado colonial. As capitanias hereditárias, que inseriram o Brasil no sistema colonial mercantilista, foram os primeiros latifúndios brasileiros: a colônia foi dividida em quinze grandes lotes entre doze donatários. A expansão da lavoura açucareira no litoral manteve o latifúndio como uma de suas características, ao lado da monocultura e da escravidão da mâo-de-obra africana no sistema de plantation voltado para a exportação. Portanto, a ocupação das terras brasileiras aponta para uma acentuada concentração de terras. Foi a Lei de Terras, promulgada em 18 de agosto de 1850, que praticamente instituiu a propriedade privada da terra no Brasil, Ao determinar que as terras públicas ou devolutas (ociosas) só poderiam ser adquiridas por meio de compra, essa lei limitou o acesso à posse de terras a quem tivesse recursos para satisfazer essa condição. Dessa forma, imigrantes europeus recém-chegados, negros libertos e pessoas sem recursos ficaram sem direito às terras livres, que foram compradas por abastados proprietários rurais. Com o passar do tempo, essa desigual distribuição de terras acabou gerando conflitos cada vez mais violentos e generalizados entre proprietários e não proprietários. As décadas de 1950e 1960 marcaram o surgimento de organizações que lutavam pêlos direitos dos trabalhadores rurais. Entre elas, podemos citar as ligas camponesas e a Confederação Nacional dos Trabalhadores do Campo (Contag). Membros do regime militar (1964-1985), preocupados com o descontentamento social no campo, elaboraram um conjunto de leis para tentar controlar os trabalhadores rurais e acalmar os proprietários de terras. Essa tentativa deu-se através de um projeto de reforma agrária para promover uma distribuição mais igualitária da terra, que resultou no Estatuto da Terra, cujos pontos principais veremos a seguir. Em 1993, durante o governo do presidente Itamar Franco, a Lei n" 8 629 reafirmou que a terra tem de cumprir uma função social. Foram definidos novos conceitos referentes às dimensões e classificações dos imóveis rurais. Com base no conceito de módulo rural foi utilizado o conceito de módulo fiscal. Segundo o Incra, Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, vinculado ao Ministério do Desenvolvimento Agrário, entende-se por módulo fiscal a unidade de medida expressa em hectares, fixada para cada região, considerando os seguintes fatores: - Tipo de exploração predominante no município. - Renda obtida com a exploração predominante. - Outras explorações existentes no município que, embora não sejam predominantes, são significativas em função da renda e da área utilizada. - Conceito de propriedade familiar, O tamanho do módulo fiscal varia de região para região, pois depende de alguns fatores, como as características do clima de cada área ou região. Ainda, segundo a Lei n° 8 629, ficou assim a classificação dos imóveis rurais quanto ao tamanho: - Minifúndio. O imóvel rural com área inferior a um módulo fiscal. - Pequena propriedade. O imóvel rural de área compreendida entre um e quatro módulos fiscais. - Média propriedade. O imóvel rural de área superior a quatro e até quinze módulos fiscais. - Grande propriedade. O imóvel rural de área superior a quinze módulos fiscais. Características da estrutura fundiária brasileira

A análise dos dados expressos nos gráficos abaixo nos mostra as principais características da estrutura fundiária no Brasil. Existe uma absurda concentração de terras em nosso país, onde poucos latifúndios ocupam a maior parte da área total brasileira e o grande número de minifúndios não chega a ocupar 2% dessa área. Como consequência temos um grave quadro socioeconômico: - Poucas propriedades rurais (43 956) com 1000 hectares ou mais concentram mais de 50% da área total do país. Geralmente, uma grande concentração fundiária pode gerar terras ociosas e improdutivas porque seus donos aguardam melhores preços para arrendá-las ou vendê-las (estão concentradas nas regiões Norte e Centro-Oeste). - Muitas propriedades rurais (947 408) não chegam a possuir 2% da área total, inviabilizando, muitas vezes, o plantio de algum produto. A despesa com sementes pode ser maior que o montante obtido com a colheita. - Êxodo rural como consequência da mecanização em algumas grandes propriedades rurais no Centro-Sul e entre os pequenos proprietários, porque produzem pouco, ficam endividados e não têm capital para investir. - Aumento do número de desempregados e subempregados que migram para as periferias das cidades e acabam ocupando áreas de mananciais. E o fato mais grave: o aumento dos conflitos sociais no campo. Mais de 50% dos conflitos de terra no Brasil ocorrem, respectivamente, nas regiões Nordeste e Norte. São regiões de grande concentração de propriedades rurais e de imóveis improdutivos, onde muitas vezes a polícia é mal preparada e mal equipada e os latifundiários impõem sua vontade às leis. Porcentagem da área improdutiva por região Outro triste exemplo da violência no campo são os assassinatos ocorridos entre 1986 e 1996, segundo a Comissão Pastoral da Terra (CPT), o Incra e o Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST). Soma-se a esse quadro brutal e desumano o uso improdutivo de muitas propriedades rurais que geram o ciclo: êxodo rural – desemprego -violência. A porcentagem dos imóveis improdutivos no Brasil mostra a necessidade urgente de uma política agrícola e de uma reforma agrária que contemple os trabalhadores rurais excluídos. As relações de trabalho no campo Geralmente encontramos entre os trabalhadores rurais brasileiros baixos indicadores socioecon&micos, como elevada natalidade, elevado analfabetismo, pequena qualificação profissional e baixa remuneração. Além disso, eles sofrem com a falta de cumprimento da legislação trabalhista por parte de alguns patrões e o elevado número de acidentes com ferramentas, como facões. Quanto mais distantes das principais cidades e capitais, mais tensas são as relações sociais no campo. O trabalho assalariado temporário é a forma predominante no Brasil. O predomínio do trabalho assalariado é consequência do processo capitalista (capitalização da atividade agrícola) que, por um lado, aumenta a produtividade rural (máquinas, irrigação, sementes selecionadas) e, por outro, dispensa o trabalhador residente ou permanente (aumento do número de assalariados). Tivemos no Brasil uma grande redução das modalidades tradicionais de trabalhadores rurais (permanentes, residentes, colonos e parceiros) e o

aumento de trabalhadores temporários sem vínculo empregatício. Geralmente, eles recebem no fim do dia pelo serviço prestado, trabalhando no plantio ou na colheita de canade-açúcar, laranja ou café. Moram na periferia das cidades onde os aluguéis são menores. Recebem a denominação de peões na região Norte, corumbás, nas regiões Centro-Oeste e Nordeste e bóias - frias nas regiões Sul e Sudeste. Outras formas de trabalho no campo Trabalho familiar. Realizado geralmente nas pequenas e médias propriedades rurais de subsistência. A falta de capital para investir na lavoura e as secas periódicas têm aumentado o número de trabalhadores familiares que abandonam o campo e migram para as periferias das cidades, onde se tornam trabalhadores temporários. Uma exceção entre os trabalhadores familiares é encontrada nas áreas vizinhas dos grandes centros urbanos (cinturões verdes) porque conseguem vender sua produção para os centros de abastecimento, redes de supermercados, feiras livres e até em carros ou caminhões que percorrem as ruas dessas cidades. Arrendamento. Forma de utilização da terra destinada ao cultivo ou à pastagem, que o proprietário arrenda (aluga) a quem tem capital para explorá-la. E comum no interior de São Paulo um grande proprietário arrendar propriedades menores vizinhas para o cultivo da cana-de-açúcar. Parceria. Forma de utilização da terra em que o proprietário dispõe de sua terra para um terceiro (o parceiro) que a cultiva. Em troca, o parceiro entrega ao proprietário parte de sua colheita. A forma de obter a propriedade da terra fez surgir duas figuras que estão frequentemente envolvidas nos conflitos pela terra: o posseiro e o grileiro. Posseiro. Indivíduo que tem a posse da terra e nela trabalha sem, porém, possuir o título de propriedade. Grileiro. Pessoa que toma posse da terra de outros, usando para isso falsas escrituras de propriedade. O peão, trabalhador volante mais recente que o bóia fria, é muito utilizado nas regiões de fronteiras agrícolas, sobretudo em projetos agropecuários da Amazônia. É "contratado" por um intermediário (gato) para trabalhar em regiões distantes, com promessas de salários, alojamento e alimentação. Quando recebe o pagamento, aparecem os "descontos": custos de transporte, alimentação, hospedagem, etc., quase nada restando do seu salário, chegando, às vezes, a ficar devendo. Muitas vezes jagunços e pistoleiros são contratados para evitar a fuga de trabalhadores, reproduzindo uma situação de escravidão (peonagem).

EVOLUÇÃO DO AGRONEGÓCIO BRASILEIRO, DESAFIOS E PERSPECTIVAS

Joaquim César Emanoel carlosadm2006@gmail.com

Carlos Barbosa

de

Lourenço Lima

(MAPA. Palavras-Chave: Agronegócio. 2005). chuvas regulares. 2009. since it presents many advantages of the natural and economic point of view. being able the country to explore its potentialities better. suas restrições e desafios. Economic growth. passando pelo ponto onde houve um maior impulso ate chegar à posição de destaque que é o de ser uma das maiores potências mundiais do Agronegócio. . identifying its situation in the world-wide scene. Key Words: Agribusiness. For this. it was used of bibliographical boardings that the historical evolution demonstrates. como celeiro mundial em termos de agronegócio. Texto completo en http://www. O agronegócio é hoje a principal locomotiva da economia brasileira e responde por um em cada três reais gerados no país. identificando a sua situação no cenário mundial. dos quais 90 milhões ainda não foram explorados.net/cursecon/ecolat/br/ Introdução O cenário atual aponta que o Brasil será o maior país agrícola do mundo em dez anos. (BORGES. Esses fatores fazem do país um lugar de vocação natural para a agropecuária e todos os negócios relacionados à suas cadeias produtivas. utilizou-se de abordagens bibliográficas que demonstra a evolução histórica. 2007). Número 118. Crescimento econômico. Para isso. por meio de uma pesquisa bibliográfica. Contudo as perceptivas do Agronegócio são bastante promissoras. Apesar dos números positivos. energia solar abundante e quase 13% de toda a água doce disponível no planeta. Abstract This study it had for objective sample as if it gave the evolution of the Brazilian agribusiness. Today one of the biggest impediments for the deslanchamento of the sector is the logistic one of infrastructure of the country. no contexto mundial atual.eumed. e como objetivos específicos mostrar a sua evolução. Hoje um dos maiores entraves para o deslanchamento do setor é a logística de infraestrutura do país. o Brasil tem 388 milhões de hectares de terras agricultáveis férteis e de alta produtividade. desafios e perspectivas" en Observatorio de la Economía Latinoamericana. O Brasil situa-se. Restrição logística. podendo o país explorar melhor suas potencialidades. Com um clima diversificado. Although the positive numbers. faz-se mister ressaltar seus antecedentes históricos até o cenário atual. However the percipient ones of the agribusiness are sufficiently promising. Para citar este artículo puede utilizar el siguiente formato: Carlos Lourenço y Barbosa de Lima: "Evolução do agronegócio brasileiro. O artigo tem como objetivo geral identificar o cenário atual do agronegócio brasileiro. o setor apresenta restrições e desafios que ameaçam sua permanência entre os maiores na atividade. o país possui 22% das terras agricultáveis do mundo. the sector presents restrictions and challenges that threaten its permanence enter the greaters in the activity. passing for the point where it had a bigger impulse ties to arrive at the prominence position that is of being one of the biggest world-wide powers of the agribusiness. já que ele apresenta muitas vantagens do ponto de vista natural e econômico. além de elevada tecnologia utilizada no campo. Com isso.Resumo Este estudo teve por objetivo mostra como se deu a evolução do Agronegócio brasileiro. Logistic restriction. eficiente e competitivo no cenário internacional. Todo esse cenário brasileiro atual do agronegócio enquadra-se em uma evolução que remonta ao século XVI. Segundo Rodrigues (2006). segura e rentável. dados estes que fazem do agronegócio brasileiro um setor moderno. O agronegócio brasileiro é uma atividade próspera.

o agronegócio é um conjunto de empresas que produzem insumos agrícolas. Este conceito procura abarcar todos os vínculos intersetoriais do setor agrícola. mesmo a familiar. inclusive o agricultor. No Brasil o termo é usado quando se refere a um tipo especial de produção agrícola. se fundamentam na propriedade latifundiária bem como na prática de arrendamentos. onde estão a compra. o Agronegócio é toda relação comercial envolvendo produtos agrícolas. dois pesquisadores americanos reconheceram que não seria mais adequado analisar a economia nos moldes tradicionais. os negócios à montante (ou "da pré-porteira") aos da agropecuária. as indústrias têxteis e calçadistas. representados pela indústrias e comércios que fornecem insumos para a produção rural. Wedekin e Pinazza (1990). as empresas de processamento e toda a distribuição. substituindo a análise parcial dos estudos sobre economia agrícola pela análise sistêmica da agricultura. (JUNIOR PADILHA. sejam eles pequenos. defensivos químicos. do armazenamento. segundo Batalha (2002). 2004). Foi à exploração de uma madeira. com seus elos entrelaçados e sua interdependência. o transporte da produção e as atividades voltadas à distribuição. que deu nome definitivo ao nosso País. o pau Brasil. na terceira parte. ( WIKIPÉDIA. os abatedouros. Davis e Goldberg (1957) definem. das operações de produção na fazenda. o que correspondia ao equivalente a 32% do PIB brasileiro em 1980. processavam os produtos e os comercializavam. ou de "pós-porteira". O conceito de agronegócio implica na idéia de cadeia produtiva. com suas implicações sociais. em uma permanente negociação de quantidades e preços. Enquadram-se nesta definição os frigoríficos. E. os fabricantes de fertilizantes. supermercados e distribuidores de alimentos. baseada no plantio ou na criação de rebanhos e em grandes extensões de terra. têm fortes raízes junto ao agronegócio. é o conjunto de negócios relacionados à agricultura dentro do ponto de vista econômico. Já para Callado (2006).Agronegócio Agronegócio também chamado de agribusiness. quanto e de que como produzir. 2009). as indústrias agrícolas. transporte. deslocando o centro de análise de dentro para fora da fazenda. Estes negócios. como comércio de sementes e de máquinas e equipamentos. equipamentos. extrapolou os limites físicos da propriedade. A agricultura moderna. Por exemplo. políticas e culturais. constituídos na forma de pessoas físicas (fazendeiros ou camponeses) ou de pessoas jurídicas (empresas). caracterizada pela agricultura em grande escala. Em 1957. via de regra. essa abordagem sistêmica foi utilizada explicitamente por Araújo. empacotadores. A definição correta de agronegócio é muito mais antiga do que se imagina e incorpora qualquer tipo de empresa rural. processamento e distribuição dos produtos agrícolas e itens produzidos a partir deles'. Na segunda parte. A primeira parte trata dos negócios agropecuários propriamente ditos (ou de "dentro da porteira") que representam os produtores rurais. A ocupação do território brasileiro iniciada durante o século XVI e apoiada na doação de . Há diferentes agentes no processo produtivo. O termo inclui todos os setores relacionados às plantações e às criações de animais. está fortemente relacionada ao mercado consumidor. estão os negócios à jusante dos negócios agropecuários. Histórico e Evolução do Agronegócio Brasileiro A história econômica brasileira. Depende cada vez mais de insumos adquiridos fora da fazenda e sua decisão de o que. as propriedades rurais. com a finalidade de levantar as dimensões básicas do agribusiness brasileiro. Este tipo de produção agrícola também é chamada de agribusiness ou agrobusiness. Assim. No Brasil. até chegar ao consumidor final. com setores isolados que fabricavam insumos. etc. o agronegócio como sendo 'a soma total das operações de produção e distribuição de suprimentos agrícolas. Costuma-se dividir o estudo do agronegócio em três partes. médios ou grandes produtores. beneficiamento e venda dos produtos agropecuários. Estes autores concluíram que o agribusiness brasileiro representava 46% dos gastos relativos ao consumo das famílias.

a borracha dá exuberância à região amazônica. proporcionando o domínio de regiões antes consideradas “inóspitas” para a agropecuária. conquistando metade do mercado internacional. logo depois o café torna-se a mais importante fonte de poupança interna e o principal financiador do processo de industrialização. o país é visto por muitos especialistas como principal candidato ao posto de grande fornecedor alimentício global. cereais e derivados e a borracha natural são itens importantes da pauta de exportação brasileira (VILARINHO. café. a participação nacional no mercado internacional de soja deve crescer dos atuais 36% para 46%. já havia se instalado no país como primeira atividade econômica a extração do pau-brasil. processamento e distribuição final constituem o vetor de maior propulsão no valor da produção vendida ao consumidor. como farto espaço territorial. hortaliças. como a do vinho e dos móveis. envolvido quase exclusivamente com as operações de cultivo e criação de animais. ainda mais a indústria de base agrícola. tabaco. No caso do frango. mão-de-obra acessível e diversas questões ligadas à conjuntura internacional. as perspectivas são promissoras. fica evidente que. "Num futuro próximo. chamando a atenção de todos os nossos parceiros e competidores em nível mundial. Nas áreas em que o país ainda tem uma fatia pequena do comércio mundial. produtos oriundos do complexo de soja. mais recentemente. o produtor rural passou. o Brasil deve quadruplicar sua participação. Na suinocultura. fumo. transformando Manaus numa metrópole mundial. a soja ganha destaque como principal commodity brasileira de exportação. açúcar e álcool. consolidado na forte rede de interligação entre a agricultura e a indústria. 2006). O agronegócio brasileiro passou por um grande impulso entre as décadas de 1970 e 1990. como são os cerrados com uma reserva de 80 milhões de hectares. planas e baratas. a exploração da madeira nas serras e a agricultura se desenvolvem com a participação das várias etnias que compõem o mosaico populacional da região. Por conta de condições extremamente favoráveis para a contínua expansão deste mercado. por exemplo. 2007). Em síntese. madeira (papel. as evoluções devem ser muito maiores. Isso fez surgir à oferta de um grande número de produtos. algodão e fibras têxteis vegetais. que durante esse período serviu de base e sustentação para a economia. celulose e outros). carnes e derivados de animais. com grande desenvolvimento no Nordeste. processar e distribuir produtos agropecuários. Até 2015. O processo de colonização e crescimento está ligado a vários ciclos agroindustriais. no início do século. a ser um especialista. por sua vez. Por qualquer ângulo que se analise o mercado. O país passou então a ser considerado como aquele que dominou a “agricultura tropical”. (RENAI. O Brasil detém terras abundantes. da carne bovina. O progresso do Sul do Brasil também está ligado ao agronegócio. foram transferidas para organizações produtivas e de serviços nacionais e/ou internacionais fora da fazenda. bem como as de suprir insumos e fatores de produção. transformadoras de recursos em produtos. A pecuária domina os pampas. Perspectivas Para o Agronegócio Brasileiro Para Contini (2001). instalam-se agroindústrias. monocultura da cana-de-açúcar e no regime escravocrata foi responsável pela expansão do latifúndio. a suinocultura . a partir da década de 1930. com maior intensidade na de 1960 até a de 1980. as funções de armazenar. chá. 2006). (VILARINHO. o salto será de 58% para 66%. de acordo com previsões dos especialistas da área. Antes da expansão deste sistema monocultor. como a cana-de-açúcar. gradativamente. com isso. A extinção do pau-brasil coincidiu com o início da implantação da lavoura canavieira. Atualmente. de suínos e aves. impulsionando. o tamanho que o Brasil adquiriu no campo do agronegócio é impressionante. dispõe de produtores rurais experimentes e capazes de transformar essas potencialidades em produtos comercializáveis e detém um estoque de conhecimentos e tecnologias agropecuárias.terras por intermédio de sesmarias. Da poupança da agricultura. A evolução da composição do Complexo do Agronegócio confirma que as cadeias do agronegócio adicionam valor às matérias-primas agrícolas onde o setor de armazenamento. frutas e derivados. com o desenvolvimento da Ciência e Tecnologia.

Enquanto as exportações renderam US$ 24. No contexto da recente crise cambial.180 US$ 49. no Brasil.791 US$ 4. No mundo.863 US$ 24. Principalmente em regiões menos desenvolvidas. (CONTINI. as importações chegaram a US$ 4.847 US$ 4. 2009) A Tabela mostra o superávit do agronegócio brasileiro. que somados a 10 milhões dos demais componentes do agronegócio. Mesmo reconhecendo-se os benefícios da transformação de uma sociedade agrária para uma industrial-urbana. de janeiro a maio deste ano.49% menor do que o registrado no mesmo período de 2008.016 US$ 20. É o setor que ocupa mais mão-de-obra em relação ao valor de produção: para cada R$ 1 milhão. a balança comercial do agronegócio teve uma queda de 0. o agronegócio tem sido um fator que minimizou os desequilíbrios das contas externas do Brasil. (STEFANELO.103 bilhões. (CNA.610 US$ 23.CNA).700 US$ 58.848 US$ 34. abrangendo o suprimento de insumos.366 bilhões.811 US$ 19. ou 26% do PIB (29%. era de 182 para a agropecuária.881 US$ 5.839 US$ 30.86 US$ 8. a agricultura é o setor econômico que ainda mais ocupa mão-de-obra. o resultado é 12. Estes são pontos que reforçam a importância do agronegócio no Brasil. 2009). Tabela 1 – Balança comercial do agronegócio brasileiro (US$ bilhões) Período 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 Exportações US$ 20. (Ver Tabela1). No aspecto social. 38 para a construção civil.18 bilhões de dólares em 2006 e de 49.040 US$ 58. os setores da agricultura. 2007).639 US$ 39. em torno de R$ 350 bilhões.799 US$ 4. O agronegócio como um todo envolve mais de 1/3 do PIB brasileiro. não se pode esquecer que esta tem capacidade limitada de absorver mão-de-obra.015 US$ 42. (RENAI.53% do Produto Interno Bruto (PIB) do agronegócio no primeiro trimestre de 2009. Apesar do saldo. 25 para a extração mineral. De acordo com os números.737 bilhões. 2001). 2007 apud SEIBEL.7 bilhões em 2007. em 1995. segundo a Confederação Nacional da Agricultura . representa 27 milhões de pessoas.200 Saldo US$ 14. além de sua grande competitividade. no total. já sentindo os efeitos da crise.492 US$ 4.347 US$ 25. o beneficiamento/processamento das matérias-primas e a distribuição dos produtos.000 US$ 40.134 US$ 37.700 US$ 11. .5 trilhões/ano e. da agroindustrialização e de áreas correlatas serão importantes para o crescimento da renda e do emprego. 2007). O agronegócio é o maior negócio mundial e brasileiro. Importância Econômico-Social do Agronegócio Brasileiro O agronegócio é também importante na geração de renda e riqueza do País. representa a geração de U$ 6.400 Importações US$ 5. A agricultura contribuiu decisivamente para as exportações com saldo comercial setorial positivo da ordem de US$ 40.000 US$ 11.200 Fonte: Mapa (Ministério da Agricultura. evidenciando que o setor tem participação importante para o equilíbrio de nossas contas. No entanto. um crescimento espetacular do setor. Pecuária e Abastecimento. A maior parte deste montante refere-se a negócios fora das porteiras. o crescimento do superávit do ano 2000 até 2007 foi de 235% no período. saldo acumulado é de US$ 19. 2002).será tão importante para a balança comercial do país quanto são hoje o frango e a carne bovina” (NETO.000 US$ 52.400 US$ 69. utilização de alta tecnologia e gerador de empregos e riquezas para o país. o número de ocupados. ao redor de 17 milhões de pessoas.

a ampliação em 2007 foi de cerca de US$ 58. Enquanto o índice internacional de movimentação é de 40 contêineres/hora.o maior obstáculo para o desenvolvimento do agronegócio do Brasil. elaborada pela CNT Confederação Nacional do Transporte (2007). suco de laranja e soja. o excesso de mão-de-obra (que chega a ser de três a nove vezes superiores aos portos europeus e sul-americanos) ainda mantém os padrões de produtividade baixos. que pretende investir R$ 13. É um dos motivos pelos quais todos os anos caminhões formam filas de até 150 quilômetros de extensão para descarregar suas cargas no porto de Paranaguá (PR). Ao mesmo tempo. portos e canais de irrigação nos próximos anos. o Brasil será o maior país agrícola do mundo em dez anos.4 mil quilômetros e que consumiu US$ 2 bilhões em investimentos públicos em vários governos. nos portos brasileiros essa média é de 27. deixamos de fazer uso de canais de transporte de grande potencial. Esse montante coloca o Brasil entre os líderes mundiais na produção de soja. assim como as expectativas futuras. (BORGES. Embora a privatização tenha contribuído para a modernização dos portos.832 quilômetros avaliados. Como resultado. (PAC. Consciente de que sozinho não conseguirá reverter esse quadro.68 bilhões em 23 projetos de reformas em rodovias. As ferrovias. sistemas como o do Tietê-Paraná. 2009). O objetivo do programa é aumentar o investimento em infra-estrutura para: eliminar os principais gargalos que podem restringir o crescimento da economia. Com os trens e bitolas atuais. embora tenham recebido investimentos com a privatização. em que apenas 10 mil quilômetros são efetivamente utilizados. depois de ultrapassar tradicionais concorrentes. como o Nordeste. regiões com potencial no agronegócio. não será suficiente para dotar o país de bom infra-estrutura.Quando os efeitos da crise passar. 2007). correm sérios riscos de sofrer um pesado revés se os problemas relacionados à infra-estrutura logística . café. como Estados Unidos e Austrália. dos 84. em particular a precariedade da malha rodoviária do país. O país é líder mundial de exportação de açúcar. com 2. o Governo Federal criou o (PAC) Programa de Aceleração do Crescimento lançado no começo de 2007. Assumiu também a dianteira nos segmentos de carne bovina e frango.04 bilhões de 2006. açúcar. Além da ampliação da malha de 30 mil quilômetros de extensão (praticamente igual a do Japão. foi concebido para eliminar esse descompasso e afastar o risco de gargalos nos próximos anos. O gargalo logístico envolve praticamente toda a infra-estrutura de transporte do país. caso dos 42 mil quilômetros de hidrovias. Na certeza que só as Parcerias Público-Privada.4 bilhões. milho. (BORGES. café. país 22 vezes menor que o Brasil) é urgente a modernização do maquinário. No transporte marítimo de cabotagem (outro canal com grande potencial no Brasil) assistimos a uma situação semelhante. de que o agronegócio pode sair dessa melhor do que entrou. Um dos grandes entraves é a infra-estrutura. Por meio do plano de Parceria Público-Privada. não forem solucionados. ferrovias.29% em relação a 2005. reduzir custos e aumentar a produtividade . Ainda de acordo com a mesma fonte. cujas deficiências são responsáveis por prejuízo correspondente a 16% do PIB.8% acima dos US$ 52. a velocidade média das composições não ultrapassa lentos 25 km/h. em termos de saldo. Em 2006 as exportações cresceram 19. a Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento. Essas boas posições devem consolidar-se ainda mais nos próximos anos. escoa apenas 2 milhões de toneladas de carga/ano. um aumento de 10. segundo estudo do Centro de Estudos de Logística da Universidade do Rio de Janeiro. apenas 10% de sua capacidade total. as perspectivas acompanham as já anunciadas para o Brasil. o governo federal já busca o apoio da iniciativa privada. Desafios do Agronegócio no Brasil Segundo indicadores da (Unctad). O agronegócio é justamente o que mais sofre com a ineficiência dos canais de transporte. carne bovina e de frango. Mas todos esses bons resultados. ainda não conseguiram deslanchar. 2007). Em razão desse tipo de problema. 37% encontram-se em estado péssimo de conservação e outros 32% possuem alguma deficiência. De acordo com uma das pesquisas mais recentes sobre o assunto. ainda estão longe de suprir a demanda do setor de agronegócio e se consolidar como uma alternativa viável ao transporte rodoviário.

Um exemplo do potencial desses pólos é representado por um estudo do Geipot (Empresa Brasileira de Planejamento em Transportes. incentivando a criação de pólos intermodais de transporte (integração entre os sistemas rodoviário. Não há como o produtor rural e a agroindústria serem competitivos com governos vorazes em criar novos impostos. Com uma economia aberta ao exterior. Para ilustrar o que estamos falando. É preciso destacar também que. e resolva os problemas domésticos para que o pais se torne a potência do agronegócio do futuro. Como se vê. basta destacar que um único comboio na hidrovia Rio Madeira tem capacidade para 18 mil toneladas de grãos. mas as soluções também existem e precisam ser colocadas em prática. essencialmente. O potencial de prejuízos que isso pode acarretar aos produtores já foi demonstrado nos últimos anos. a iniciativa privada ainda tem muito a contribuir para o desenvolvimento da infra-estrutura do país. o que aumenta os custos de produção. O que esperamos. é indiscutível a importância do agronegócio à nossa economia. é que tanto o governo nas esferas federal. com diminuição da carga e simplificação dos procedimentos na tributação. mantenham a sua determinação em modernizar a infra-estrutura brasileira. e reduzir as desigualdades regionais. o mesmo encontra muitos problemas e desafios a serem superados que dependem. poderia ser ainda maior se houvesse políticas sérias agrárias e de infra-estrutura. Essa redução dos custos de transporte contribuiria diretamente para reduzir os custos de nossos produtos. aumentar os atuais e com mecanismos complexos de arrecadação. quanto a iniciativa privada. têm impostos baixos. mas podem ser superados. ligada ao Ministério dos Transportes). Por causa do surgimento de focos de febre aftosa em Mato Grosso do Sul e no Paraná. substituindo 600 carretas de 30 toneladas nos eixos Cuiabá (MT) / Santos (SP) e Cuiabá (MT) /Paranaguá (PR). isto é com possibilidade de exportar e importar qualquer produto do agronegócio. estadual e municipal. a empresa alertava que o melhor aproveitamento e a utilização racional dos canais de transporte seria capaz de economizar em cerca de US$ 75 milhões os custos anuais de escoamento de grãos. o SAI brasileiro ocupa lugar de destaque entre os países produtores de alimento no mundo. . Considerações Finais Como se observa. Como nossos concorrentes. o agronegócio brasileiro sofreu com o surto de gripe aviária. de investimentos tanto públicos como privados. Mesmo assim. O agronegócio se tornou o setor chave para que o Brasil se inclua no comercio mundial. fluvial e aéreo) para redução de custos e aumento do nível de serviços. ferroviário. Além das medidas de controle sanitário que também estão na relação de assuntos importantes que vêm sendo negligenciados pelo governo. inclusive no Mercosul. os obstáculos para o crescimento do agronegócio brasileiro são imensos. marítimo. Apesar das grandes vantagens encontradas no agronegócio brasileiro e das suas boas perspectivas futuras. além dos recursos. vezes há que perde o próprio mercado interno porque os produtos importados chegam mais baratos.das empresas. os obstáculos para o crescimento do agronegócio brasileiro são imensos. Os investimentos em Infra-Estrutura logística do PAC previstos até 2010 são de R$ 58 bilhões de reais. bem como de mudanças nas políticas econômicas internas. a carga tributária deve ser compatível com a dos nossos competidores. A reforma tributária é urgente. na redução do tráfego e desgaste das rodovias. Já em 2000. Como se vê. Além do embargo à carne bovina. Muito embora o potencial de comércio do agronegócio brasileiro seja muito grande. Outro obstáculo sério ao desenvolvimento pleno do agronegócio está relacionado ao sistema tributário. que estão entre os maiores produtores nacionais. segundo Seibel (2007) mais de 50 países impuseram embargo à carne bovina desses estados. estimular o aumento do investimento privado. tornando-os mais competitivos no mercado internacional. fica difícil ao produtor brasileiro competir nos mercados externos. Isso sem falar da economia de combustível e de fretes. que prejudicou as exportações mesmo de países que não registraram casos da doença (como o Brasil).

Se faz necessário ainda. Acesso em: 09 jan. y Mauch Palmeira. L. Número 71. se faz necessário a criação de políticas públicas urgentes voltadas à infra-estrutura do país. Boston: Harvard University. fazendo do agronegócio o nosso maior negócio. ed. Elisio. São Paulo: Atlas.2008.com.2009. 2. N. Acesso em: 06 fev. CONTINI. Wedekin. Disponível em: < BRASIL .gov. por exemplo. Acesso em: 09 jan. A. Alardear o potencial do agronegócio brasileiro é o que tem sido feito pelo poder público.2009. E. Cunha.org. incremental e aplicação de políticas mais flexíveis e ágeis de crédito ao setor agrário. restringindo a inserção de novas tecnologias e/ou tecnologias de ponta à agricultura de determinadas regiões. Altamiro. DAVIS.br>.Ministério da Agricultura. Brasil. ao longo dos anos. 135 p. 2001. deve-se calcar na viabilidade produtiva. apesar desses obstáculos. com que os investimentos se tornarem lucros financeiros e socialmente. climas favoráveis. 1990.2009. BATALHA. as políticas econômicas impedem que o rendimento seja maior e os problemas de logística geram custos elevados.br>. São Paulo: Atlas. http://www. Pecuária e Abastecimento (MAPA). Acesso em: 09 jul. O grande desafio do agronegócio no http://www. São Paulo: Agroceres.net/cursecon/ecolat/br/>. Logo. que discute com a iniciativa privada a reconstrução da malha logística do Brasil em todos os segmentos modais. A.. Agronegócio. 1957. Contudo. ainda. Nas contingências atuais. A concept of agribusiness. pois somos competitivos em algumas cadeias produtivas e em outras não. 238p.: "Desafios de logística nas exportações brasileiras do complexo agronegocial da soja" en Observatorio de la Economia Latino americana. de fato. imensa disponibilidade de água doce e energia renovável e sua capacidade empresarial.empreendedorrural. Gestão agroindustrial. Disponível em: < http://www. 1. através. 2006. 2006.br/artigos/artigo>. Pinazza. CARDOZO. Acesso em: 16 dez. Mário Otávio. Complexo agroindustrial: o agribusiness brasileiro. o agronegócio brasileiro é persistente e.com.. cresce sua participação no mercado internacional. buscar soluções práticas e definitivas.eumed.agronline. B. ao Estado brasileiro promover a modernização de máquinas e equipamentos que dá suporte ao desenvolvimento da boa performance do campo. Isto implica dizer que as nossas vantagens como terras abundantes. Disponível em: < http://www. entretanto.Cabe ainda lembrar que para o Brasil se tornar a grande potência mundial do agronegócio.CNA.agricultura. I.cna. H. Munoz. Disponível em: < CONFEDERAÇÃO DA AGRICULTURA E PECUÁRIA DO BRASIL . Cabe. C. R. Antonio A. CALLADO. Os juros bem como as altas taxas de importação de aparatos agrícolas vêm.br/site/agencia/>. . já passou da fase de discussão. Disponível em: <http://www.2009. ed. contigencialmente não tem passado de engodo da velha política brasileira. Dinamismo do Agronegócio Brasileiro. Referências ARAÚJO. Além do mais. o país precisa resolver problemas estruturais. BORGES. a articulação. potencial de produção. estrategicamente suplanta qualquer problema. Goldberg. que dê sustentabilidade continuada ao setor. como o NE brasileiro. do PPP. J. nas diretrizes corretas fomentadas pelo Estado e na vertiginosa capacidade privada de produzir de racionalizar e de fazer.

Acesso em: 09 jan. Nov.60. O novo salto do agronegócio. O céu é o limite para o agronegócio brasileiro.agricultura. Agronegócio Brasileiro: Uma Oportunidade de Investimentos. Acesso em: 29 jan. Disponível em: <http://www. SEIBEL. Agronegócio brasileiro: propostas e tendências. Dissertação (Doutorado em Ciências Florestais).com. Acesso em: 09 jan. MAPA. A Rede Nacional de Informações sobre o Investimento.br/portal/>.br/intern>. Disponível em: < http://www. O Impacto da Reserva Legal Florestal sobre a Agropecuária Paranaense. Conjuntura Econômica. Questões sanitárias e o agronegócio brasileiro.abril.gov.11. B. Revista FAE Business. 2002. Programa de Aceleração do Crescimento. em um Ambiente de Risco.2006. WIKIPEDIA. Ministério da Agricultura.br/berto/anuarioagrone>.gov. Disponível em: < http://www. Roberto. Maria Regina. Disponível http://www. Exame.com. Disponível em: <www.2009. Universidade Federal do Paraná. PAC. Acesso em: 29 jan.doc . Felipe.wikipedia. Disponível em: < http://investimentos. RENAI.pac. n. Entre o tutorial e o participativo. em: < STEFANELO. O Setor de Agronegócio no Brasil: Histórico e Evolução do Agronegócio Brasileiro.portalexame. set.desenvolvimento. p.br/embrapa/ >.2009. Acesso em: 29 jan.2009.gov. Eugênio L. Pecuária e Abastecimento. V. Curitiba.2009.2009.2009.br>.JUNIOR PADILHA. Acesso em: 09 jan. RODRIGUES.br>.embrapa.14-15. 2004. Rio de Janeiro. n 3.Tecnologia Google DocsOrkut Gmail Agenda Docs Fotos Web mais ▼Reader Sites Grupos YouTube Imagens . João. VILARINHO.

doc Salvar no Google DocsEditar ArquivoVisualizar Visualizar Salvar no Google Docs Download Imprimir (PDF)ENTRE O TUTORIAL E O PARTICIPATIVO: A ABORDAGEM DE INTERVENÇÃO NA ESTRATÉGIA DE AÇÃO DO BANCO DO NORDESTE1 .Vídeos Mapas Notícias Livros Tradutor Acadêmico Blogs Em tempo real e muito mais » Configurações .Docs | Fazer login Entre o tutorial e o participativo.

Maria Odete Alves2 Lucimar Leão Silveira3

RESUMO

Analisam-se os aspectos da abordagem de intervenção utilizada pelo Banco do Nordeste do Brasil S.A, ao implementar uma estratégia de apoio ao pequeno produtor rural nordestino, além dos efeitos de um programa específico de capacitação inserido na mesma estratégia (Projeto Banco do Nordeste/PNUD), no nível de participação de associados na gestão e nos processos decisórios das organizações associativas. Verifica-se a existência de um processo em que há delineamentos de duas abordagens distintas: a) uma primeira etapa, com base no estímulo ao associativismo, cuja ação é tipicamente tutorial b) uma segunda etapa, através de um programa de capacitação inserido na mesma estratégia, ocorrendo de forma simultânea e dirigido ao mesmo público, contemplando uma ação ativa dos grupos para os quais se dirige, com características da intervenção participativa. Há um avanço na consciência dos sócios submetidos ao processo de capacitação, quando assumem que a participação não se refere apenas à qualidade de membro do grupo, mas significa tomar parte ativa nas decisões, planejar e executar determinada ação. Apesar dos avanços, a participação ainda se apresenta em nível micro, pois não se percebe uma intervenção dos indivíduos no sentido de modificar a sociedade.

Termos para indexação - estratégias de intervenção, intervenção pública, desenvolvimento rural,

participação.

Artigo apresentado no XXXVI Congresso da Sociedade Brasileira de Economia e Sociologia Rural, Poços de Caldas, 1998. Enga Agrônoma, pesquisadora do BNB/ETENE e mestranda em Administração Rural e Desenvolvimento pela Universidade Federal de Lavras (UFLA), CP 37, CEP 37.200-000 - Lavras - MG. 3 MS pela UFMG, professor do Departamento Educação da Universidade Federal de Lavras (UFLA), CP 37, CEP 37.200-000 - Lavras - MG.

1

1. A PARTICIPAÇÃO POPULAR NOS PROJETOS GOVERNAMENTAIS

As propostas de participação do povo em projetos governamentais surgiram após a Segunda Guerra

Mundial, inseridas numa proposta de Desenvolvimento de Comunidade (DC), cujo objetivo

institucionalizado pela Organização das Nações Unidas (ONU) seria solucionar problemas de integração de

esforços da população a planos regionais e nacionais de desenvolvimento econômico e social.

Estudo realizado por Ammann (1987) acerca do DC dá conta de que sua proposta, na prática,

consistia na implementação de programa de assistência técnica e social nos países subdesenvolvidos,

sobretudo da América Latina.

As primeiras propostas de DC no Brasil surgem no final dos anos 40. O apoio oficial se dá no

sentido de incrementar a produção de alimentos e a educação rural e industrial, reproduzindo o modelo

americano de extensão rural. Apesar de proclamar a participação popular como ingrediente necessário ao

processo de desenvolvimento nacional, o DC apresenta o conceito de participação de forma muito vaga e,

na prática, se afirma como instrumento do Estado para favorecer o consentimento espontâneo das classes

subordinadas às estratégias por ele definidas (Ammann, 1987).

Este método de intervenção passou a sofrer severas críticas, principalmente a partir da década de 70,

devido aos fracassos acumulados em termos de resposta aos problemas de exclusão social. Nesse período

surgiram abordagens alternativas, tendo como fundamento a participação consciente do povo no seu próprio

desenvolvimento e a prática da educação (Alencar, 1990). Esta outra visão de desenvolvimento sugere

mudanças no eixo do planejamento, desde as altas esferas de decisão até a localidade onde os agentes do

meio podem envolver-se plenamente nas decisões de sua comunidade.

Nos últimos anos, embora de forma tímida, algumas agências estatais têm caminhando no sentido dessa outra visão de desenvolvimento, a exemplo do Banco do Nordeste, que desde o início dos anos 90 vem promovendo algumas mudanças no processo de intervenção. A proposta deste trabalho surge, então, do interesse em fazer uma análise desse novo processo de intervenção, bem como verificar alguns dos seus efeitos na prática. A análise realizada apóia-se nos trabalhos de Oakley (1980) e Alencar (1990), que tratam das abordagens de intervenção convencional e educação participativa, e naqueles desenvolvidos por Ammann (1987), Bordenave (1987) e Demo (1993),

que fundamentam o conceito de participação.

2. A INTERVENÇÃO DO BANCO DO NORDESTE DO BRASIL (BNB)

O BNB é um órgão auxiliar para gestão e execução de políticas de crédito do Governo Federal.

Criado em 1952, tem a missão de contribuir para o desenvolvimento sustentável do Nordeste do Brasil,

promover a integração econômica regional com a economia brasileira e internacional e redução das

desigualdades regionais (Banco do Nordeste, 1993). A partir de 1967 torna-se o principal repassador de

recursos do Banco Central (BC) para a região Nordeste (Gondim et al., 1991).

Em 1991 Gondim et al. propõem ao Banco do Nordeste uma estratégia de apoio ao pequeno produtor

é formado pela alocação de 1.rural da Região. Assim. O documento reconhece que os resultados da ação do Banco junto aos pequenos produtores rurais têm sido frustrantes. alegando a falta de uma estratégia adequada para apoiar essa categoria de produtores. o desenvolvimento de um programa de capacitação técnica para os pequenos produtores rurais. o documento sugere algumas medidas. É atualmente a principal fonte de que dispõe a Instituição para financiar as atividades produtivas da Região (Banco do Nordeste. os recursos do FNE4. em particular. nesse ano constata-se uma grande concentração do crédito em mãos de grandes produtores. dentre as quais. 1993). FNE: Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste. em complemento ao suprimento creditício. acentuada a partir de 1990 com o início da operacionalização do referido Fundo.8% do total arrecadado do Imposto de Renda e do Imposto sobre Produtos Industrializados. Implícita no documento se observa a preocupação principal em dar maior capilaridade ao crédito fornecido pela Instituição. Criado pela Constituição de 1988. em que o associativismo é o instrumento para implementação. .

Na abordagem “ educação participativa” o agente externo passa a ter um papel de educador: . As duas abordagens apresentam diferenças metodológicas fundamentais no que diz respeito à unidade social para a qual se dirige a ação.2 3. Alencar (1990) estabelece um paralelo entre duas abordagens de intervenção no meio rural: aquela normalmente utilizada nas políticas tradicionais. bem como aos papéis atribuídos aos agentes externos e ao público alvo. enquanto os membros do grupo exercem um papel passivo. as estratégias de intervenção são lineares. Na abordagem “tutorial” o agente externo é o responsável pelo diagnóstico da realidade e pelo estabelecimento de meios para solucionar os problemas detectados. por ele denominada de convencional ou “tutorial” e a abordagem “educação participativa”. A comunidade é vista como um sistema social homogêneo. ou seja. A INTERVENÇÃO NO MEIO RURAL: O CONFRONTO ENTRE DUAS ABORDAGENS Com base em estudos publicados a partir da década de 70.

promove a organização inicial dos grupos identificados e orienta a identificação dos problemas. O processo de educação utilizado na abordagem “educação participativa” é fundamentado na conscientização. A partir dos resultados da avaliação o próprio grupo assume a responsabilidade de buscar novas ações.26). Os membros do grupo responsabilizam-se pelo diagnóstico da realidade. p. . sendo vista então como um grupo internamente diferenciado. fundamentada em Paulo Freire. que requer tratamento diferenciado. 1980. pois “Implica que os homens assumem o papel de sujeitos que fazem e refazem o mundo” e só existe quando há o ato “ação-reflexão-ação” (Freire. pelo estabelecimento de meios para solucioná-los e pela avaliação das ações executadas. Nessa abordagem a comunidade deixa de ter estrutura homogênea.identifica os grupos com interesses comuns. para quem a conscientização não significa simplesmente a tomada de consciência da realidade ou “estar frente à realidade”.

Oakley (1980) identificou no processo de “educação participativa” cinco subprocessos fundamentais e interrelacionados: 1) faculdade crítica . planejamento e execução de ações para solucioná-los. 3) organização . à capacidade dos indivíduos para analisá- los. de curso de ações para lidar com os problemas com os quais se defrontam. identificando as possíveis causas e propondo soluções. e conduz à identificação de problemas. 2) participação envolvimento ativo dos indivíduos na identificação dos problemas e de suas causas. 4. PARTICIPAR É CONTRIBUIR PARA A CONSTRUÇÃO DA SOCIEDADE . 5) articulação - estabelecimento. 4) solidariedade predisposição dos indivíduos em cooperar dentro do grupo. por parte dos membros do grupo. o que contribui para o aumento do seu poder de barganha.estruturação do grupo e controle que os membros do grupo possuem sobre sua organização ou estrutura. desenvolvendo ações que visem à solução dos problemas. na tomada de decisões.desenvolvimento da consciência da realidade por parte dos 3 indivíduos e dos grupos.

É através dela que uma comunidade é estimulada a buscar seu próprio espaço. A pessoa. . ocorre quando há a intervenção das pessoas nos processos dinâmicos que constituem ou modificam a sociedade. no entanto. A participação é concebida como uma necessidade básica.O entendimento da intervenção na perspectiva de educação participativa requer algumas considerações sobre a natureza e o conteúdo do processo participativo. as diversas forças e operações que constituem a dinâmica da participação devem ser apreendidas e dominadas pelas pessoas. 1987). Em cada nível e em cada caso. A participação é uma habilidade que se aprende e se aperfeiçoa. não nasce sabendo participar. O que quer dizer que existe uma diferença entre as dinâmicas da microparticipação em grupos primários e associativos e da macroparticipação na luta social e política de grandes massas (Bordenave. A macroparticipação ou participação social. no entender de Ammann (1978) e Bordenave (1987). Isto é. a fazer valer seus direitos e a lutar pela transformação da estrutura social. a dinâmica da participação será diferente.

nem acabada. na comunidade etc. sempre se 4 fazendo. participação imposta (quando o indivíduo é obrigado a fazer parte do grupo e exercer certas atividades consideradas .18): é um processo de conquista.. em constante vir-a-ser. um processo no sentido legítimo do termo: “.A participação social não é algo acabado... na busca do próprio espaço de participação. Bordenave (1987) classifica a participação em cinco tipos: participação de fato (é o primeiro tipo de participação do indivíduo).) a participação é em essência autopromoção e existe enquanto conquista processual. nisto mesmo começa a regredir”. como coloca Demo (1993.. Participação que se imagina completa. (. participação espontânea (no grupo de amigos. p.. Não existe participação suficiente. na escola. na tentativa de defender interesses individuais ou coletivos mais imediatos. infindável. o processo de construção de uma sociedade participativa se inicia na aprendizagem do dia-a-dia na família. Neste sentido. de vizinhos etc).

mesmo o planejamento participativo tem seu lado positivo. da capacidade de tomar decisões e de adquirir poder. encerra em si mesma uma contradição e um potencial de conhecimento da realidade. embora concedida. que decidem sobre a organização. participação voluntária (o grupo é criado pelos próprios participantes. objetivos e métodos de trabalho) e participação concedida (a parte de poder ou de influência exercida pelos subordinados e considerada legítima por eles mesmos e seus superiores). Este faz parte da ideologia necessária para o exercício do projeto de direção-dominação. Na medida em que . de crescimento da consciência crítica. Contudo. de modo a criar uma “ilusão de participação” política e social. pois a participação. a vizinhança. como o local de trabalho. as cooperativas. Este autor cita como um exemplo típico de participação concedida o “planejamento participativo” implantado por alguns organismos oficiais. as associações profissionais etc. as paróquias.indispensáveis). que objetiva manter a participação do indivíduo e dos grupos restrito a relações sociais primárias.

recorreu-se a publicações e documentos do Banco do Nordeste que orientam o FNE. qualquer oportunidade de participação constitui um avanço e não retrocesso.1. Daí. para a análise do item 6. a estratégia de apoio ao pequeno produtor e o Projeto Banco do Nordeste/PNUD5. Entretanto. não se deve perder de vista que a participação terá a constante oposição das classes dirigentes. a forçar os mandantes a servirem à comunidade.. e não para o aumento da dependência. a dados de uma . e assim por diante (Demo. 5. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS A coleta de informações foi dividida em duas partes distintas: para a análise realizada no item 6. poder-se considerar a participação como o exercício da democracia. cujo fenômeno básico é o controle do poder. pois através dela aprende-se a 5 eleger. a desburocratizar.2. a estabelecer rodízio no poder. a deseleger. a exigir prestação de contas. pois coloca em julgamento seu poder e privilégios. 1993).se aproveitem as oportunidades de participação para tal crescimento.

Nesta etapa utilizou-se o Experimento: tomaram-se os dados da pesquisa Survey e procedeu-se a um corte entre o grupo .pesquisa do tipo Survey6. correspondiam a 9 cooperativas e 2 associações. Os produtores vinculados a tais organizações e atendidos pelo mesmo Programa perfaziam um total de 158. 59 organizações (26 cooperativas e 33 associações) e 687 produtores não haviam recebido o apoio do Projeto até o momento da pesquisa. cooperativas de eletrificação/telefonia rural. cooperativas de irrigação. cooperativas de crédito e associações atendidas no âmbito do PROGER7. junto a 70 entidades (35 cooperativas e 35 associações) e 910 produtores rurais nordestinos associados dessas organizações. Utilizou-se nessa pesquisa uma população selecionada através de amostragem probabilística estratificada. do total de entrevistados. realizada entre dez/94 e nov/95. Portanto. além dos atributos: organizações atendidas pelo Projeto Banco do Nordeste/PNUD. As organizações atendidas pelo Projeto Banco do Nordeste/PNUD. quando foram utilizados questionários estruturados específicos para cada categoria.

2) participação na PNUD: Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento 6 gestão administrativa. Em seguida foram segregados. tomando-se por base os valores absolutos para posterior comparação. Foram então selecionadas todas as variáveis relacionadas com a participação dos associados na gestão e no processo decisório da organização: 1) participação na organização social. A INTERVENÇÃO: DA ABORDAGEM AOS EFEITOS . (capacitados e não-capacitados). formado pelos não expostos ao processo (denominado de DEMAIS ou não-capacitados). tabulados e analisados os dados dos grupos 6.experimental. 4) participação no uso de bens e prestação de serviços. 3) participação na gestão econômico-financeira. representado pelas organizações e associados expostos ao processo de capacitação através do Projeto (aqui denominado de PNUD ou capacitados) e o grupo de controle ou testemunha.

receberam no período apenas 38. Enquanto isso.6%.1%. ao passar a vigorar essa política. a partir do ano de 1992. dos recursos do FNE (Valente Junior et al.5% e 96. a partir da necessidade da própria Instituição de promover uma melhor distribuição do crédito do FNE. para uma pequena participação no número de beneficiários (3.6%.8%.6. os pequenos produtores apesar de constituírem a maioria nos anos de 1990/92 (86. A abordagem de intervenção na estratégia de ação do Banco do Nordeste A estratégia de apoio ao pequeno produtor foi elaborada pelo Banco do Nordeste. A estratégia elaborada elegia o associativismo como o instrumento para dar maior capilaridade ao crédito fornecido pela Instituição.1%.3% e 64. respectivamente. 68. 94. do crédito do FNE.7%. que receberam nos anos de 1990/92. 20. o crédito associativo passou a desfrutar de algumas vantagens comparativamente ao crédito direto8.4%: 2. Assim. respectivamente.3%. 1995). .7% e 22. até então concentrado na categoria dos grandes produtores.0% e 2. respectivamente). respectivamente).1. 45.

A nível de aparato administrativo foi criada. além de criarem condições de acesso ao crédito por parte dos pequenos produtores nordestinos.Escritório Técnico de Estudos Econômicos do Nordeste. favoreceram sobremaneira o surgimento de novas cooperativas e associações de pequenos produtores rurais na Região. 66% das organizações pesquisadas existiam antes de 1992. 7 mostra que. Relatório de pesquisa realizada entre 1995/96 para avaliação da Estratégia Banco de dados existente no ETENE .As modificações promovidas nos programas do FNE. uma Divisão de Cooperativismo (Divisão de apoio ao pequeno produtor e ao associativismo-COOPE). 8 Foi introduzida nos programas do FNE a concessão de subsídios adicionais a pequenos produtores que buscassem crédito via organização associativa e a cooperativas/associações que apresentassem planos integrados de desenvolvimento. para servir de ponto de apoio para as ações daquela Instituição (Banco do Nordeste. 1993). pela data de constituição. no Departamento de Desenvolvimento Rural. bem como o crescimento do número de associados por organização. 7 Programa de Fomento à Geração de Emprego e Renda. Órgão do Banco do Nordeste do Brasil responsável pelos estudos e pesquisas que dão suporte à formulação de políticas regionais. e 34% se .

3% e 69. A implementação de ações de capacitação se deu a partir de 1993. tendo absorvido 55. A metodologia GESPAR. 1997). resultaram como condição prévia de acesso ao crédito (Giovenardi.6% e 98.. busca desenvolver o caráter empresarial das . o projeto busca treiná-los para o planejamento. Constatou-se que as associações.6%. a organização. respectivamente). em sua grande maioria. Os pequenos produtores continuaram sendo a maioria em 1993/94 (94. 1994). segundo Zapata10.. “. 1995).4% dos recursos do Fundo (Valente Junior et al. bem como aos dirigentes de tais organizações (Banco do Nordeste. Observou-se também que a partir de 1993 ocorreu uma reversão no processo de concentração do crédito.. 1993a). quando foi criado o Projeto Banco do Nordeste/PNUD. sendo direcionado a pequenos produtores rurais nordestinos organizados em associações ou cooperativas.constituíram após aquele ano. a gerência e o controle dos seus empreendimentos (Banco do Nordeste. através de convênio com o PNUD. O Projeto adota a Metodologia GESPAR9. sistemática de capacitação junto a tais organizações.

Organizações e o sentido de ‘pertencer’ dos sócios. p. Através de ação integrada e não capacita. In: GONI (1995. sua priorização e sistematização”. preparada pela reflexão e pelo diálogo. Tânia. Apresentação. p.05). treinamentos e monitoração (Goni. a instrumentalização do grupo: “É papel do capacitador facilitar o desabrochar das idéias. mas facilita o Metodologia GESPAR: Gestão Participativa para o Desenvolvimento Empresarial. produção e comercialização. são realizadas oficinas de apoio à gestão. 1995).27). cuja conseqüência é o conhecimento que o indivíduo passa a ter da realidade e o comprometimento com as ações desenvolvidas. cursos. . ZAPATA. na metodologia GESPAR o capacitador processo. seminários. Para tal. Para Goni (1995. instrumentalizando-os através do planejamento estratégico e da gestão participativa para que suas organizações tenham sustentabilidade no ambiente e assim contribuam para a melhoria da qualidade de vida das famílias”. Fundamenta-se na sensibilização.

.7). 1995. a metodologia postula que o envolvimento dos produtores nas atividades tem por base o entendimento da participação como sendo o ato de “fazer parte.. são realizados diagnósticos dos empreendimentos e. nos quais estão inseridos projetos gerenciais e propostas de crédito (Banco do Nordeste. a partir deles. no controle”(Goni.8 No processo em que se busca envolver os produtores em todas as atividades. ter parte. na organização. tornando-se responsáveis pelo diagnóstico da realidade e pela busca de soluções para os problemas detectados: o próprio indivíduo vai “identificar e analisar os elementos relevantes no Sistema para estabelecer um Diagnóstico e abrir perspectivas de intervenção e mudança”. na direção.2. A participação dos associados nas organizações associativas: efeitos do Projeto Banco do Nordeste/PNUD . Ser Parte no planejamento. tomar parte. 1993a). 6. desenvolvidos planos integrados.16) os produtores exercem um papel ativo. Ainda. Segundo Goni (1993. p. p.

Esse crescimento pode significar maior peso dos associados nas decisões a partir do voto. em nível de igualdade (Valadares.6. Freqüência dos sócios às atividades da organização associativa ATIVIDADE Assembléias Gerais Ordinárias Assembléias Gerais Extraordinárias Reuniões de Núcleos de Base Reuniões Seccionais FONTE: Banco de Dados BNB/ETENE 1990 . Embora a freqüência do grupo PNUD seja maior em todas as atividades no ano de 1994. no grupo DEMAIS.2. um crescimento bem mais expressivo no mesmo período (TABELA 1). Participação do associado na organização social da Entidade A freqüência dos associados às atividades de sua Organização cresceu em ambos os grupos no ano de 1994. se verifica. em relação a 1990.1. A Assembléia Geral constitui-se na instância em que é exercido o poder dos associados na Organização. TABELA 1. 1995).

Absoluto 245 181 40 35 % 36 26 6 5 DEMAIS 1994 Vr.Vr. Absoluto 535 403 76 88 94/ 90 % .

% Vr. % Absoluto 99 63 76 48 23 15 10 6 78 59 11 13 118 123 90 151 PNUD 1990 .

Absoluto 33 104 36 13 1994 94/ 90 % % 84 66 23 8 34 37 57 30 9 Os associados do grupo PNUD utilizam-se em maior proporção que os DEMAIS. de todos os .Vr.

Em ambos os grupos a pesquisa revelou que é alto o número de associados que se preocupa em estar a par dos acontecimentos de sua Organização (TABELA 2). TABELA 2.veículos de comunicação disponíveis. Veículos de comunicação utilizados pelo associado para se informar sobre as ocorrências relativas à sua organização associativa TIPOS Conversas informais Meios de comunicação social Meios de comunicação empresarial Visitas à Entidade Reuniões Outros Nenhum FONTE: Banco de Dados BNB/ETENE DEMAIS Vr. Absoluto 334 86 17 315 430 .

Absoluto 88 27 19 86 95 19 8 % 49 13 2 46 63 1.5 3.12 24 PNUD Vr.5 % 56 17 12 54 60 12 .

Participação pressupõe abertura de oportunidades de conhecimento da realidade. do percentual de associados sem opinião formada ou que não responderam sobre a forma pela qual os dirigentes procuram envolvê-los nas decisões. na medida em que revelam o aumento da percepção que estes têm da realidade em que vivem.quanto a envolver os membros nas decisões. pela queda de 22% para 16.segundo a percepção dos associados . os dados correspondentes ao grupo PNUD são ilustrativos do desenvolvimento da “faculdade crítica” dos associados. em relação ao grupo DEMAIS. Mesmo assim. o que significa uma ameaça ao poder estabelecido dentro da organização (Bordenave.5 Na tabela a seguir (TABELA 3). 1987). de crescimento da consciência crítica. é importante observar que o próprio título pressupõe a existência da participação “concedida” conforme prevista por Bordenave (1987). Daí a resistência por parte dos dirigentes . o que justifica o fato do alto percentual de membros (45% dos “não capacitados” .5%. que pode refletir a ideologia necessária para o exercício do projeto de direção-dominação.

Absoluto 225 312 150 687 % 33 45 . 10 TABELA 3. Conceito do associado sobre os dirigentes de sua organização associativa quanto ao envolvimento dos associados nas decisões CONCEITO Ótimo/Bom Regular/Ruim Não possui opinião formada/ Não responderam TOTAL FONTE: Banco de Dados BNB/ETENE DEMAIS Vr.e 47% dos “capacitados”) atribuírem a tais dirigentes o conceito de regular a ruim.

5 100 6. Participação do associado na gestão administrativa da Entidade Observando-se a TABELA 4 é possível identificar alguns traços do que Oakley (1980) denominou de subprocessos da Educação Participativa. quando 18% destes tomam parte do planejamento das áreas de capacitação e . Absoluto 57 74 27 158 % 36. É perceptível a diferença entre ambos.22 100 PNUD Vr. quando se comparam os dados dos dois grupos.2. quanto à análise da realidade e identificação das possíveis causas dos problemas.5 47 16.2. a favor do grupo PNUD.

que despertam o interesse de 24%. 11 TABELA 4.5% de membros do grupo DEMAIS. é insignificante a participação destes no planejamento de suas organizações associativas. No grupo PNUD é significativamente maior o número de associados que se preocupa com a forma como está sendo conduzido o planejamento dos diversos segmentos de sua Entidade. aquisição de insumos e máquinas e implementos (47% cada) e comercialização (42%). 18% e 17% dos associados. Com exceção das áreas de produção.assistência técnica da Organização. Quanto ao envolvimento no planejamento das atividades como um todo. respectivamente. o interesse é bem maior no que diz respeito à produção (49%). comercialização e aquisição de insumos. ao se verificar que grande número de associados pertencentes ao grupo DEMAIS (64%). Aí. contra apenas 3. também é perceptível a vantagem do grupo “capacitados”. Áreas de planejamento das organizações associativas em que ocorre participação do associado . não participa do planejamento da Entidade.

Absoluto 164 124 118 91 58 44 25 1 5 33 . Humanos e materiais Definição de preços de revenda Não participa do planejamento FONTE: Banco de Dados BNB/ETENE DEMAIS Vr. técnica Propaganda e marketing Rec.ÁREAS Produção Comercialização Aquisição de insumos Máquinas e implementos Armazenamento Benefic/industrialização Capacitação/assist.

5 3.7 5 64 .439 PNUD Vr.1 0. Absoluto 78 67 74 74 26 11 29 1 8 31 1 % 24 18 17 13 8 6.5 0.

grande número de associados não participa das atividades de controle (78% entre os DEMAIS e 76% entre PNUD). no que diz . pois ao mesmo tempo que existe uma grande preocupação com o planejamento das atividades da organização . Em ambos os grupos. ainda é maior a participação dos associados do grupo PNUD.demonstração de consciência dessa necessidade .% 49 42 47 47 16 7 18 0. comparativamente à questão do planejamento (TABELA 4).5 Ocorre um retrocesso na questão do controle das atividades (TABELA 5).uma situação inversa é visível quando o assunto é controle. Porém.5 5 20 0. embora com índices aquém do esperado.

os dirigentes). pode-se sugerir que existam resistências por parte dos dirigentes no sentido de envolver os sócios nas atividades de controle da Organização.respeito às atividades de controle realizadas pelas organizações associativas (TABELA 5). apesar de tomar parte do planejamento das atividades da Organização. Por outro lado. levando-se em conta os dados constantes da TABELA 3 (47% dos componentes do grupo PNUD consideram os dirigentes de suas organizações de Regulares a Ruins quanto à preocupação em envolvê-los nas atividades). na opinião de Oakley (1980) são propícias ao surgimento de 12 . os membros não assumem o seu controle de forma efetiva. patronagem. indicativo de que existe certa dependência do grupo com relação aos líderes (no caso. clientelismo ou outros traços comuns na intervenção tutorial. Situações desta ordem. partindo-se do pressuposto de que as atividades de controle dão certo nível de poder aos associados e. Assim.

TABELA 5. Participação do associado nas atividades de controle da sua organização associativa TIPOS Custos Estoques Preços Qualidade dos produtos Qualidade dos serviços Não participa das atividades FONTE: Banco de Dados BNB/ETENE DEMAIS Vr. Absoluto 75 63 87 36 35 533 % 11 9 13 5 5 .

2% (TABELA 6).78 PNUD Vr. Absoluto 33 3 34 15 10 120 % 21 2 21 9 6 76 6. no grupo DEMAIS esse percentual chega a 45.2.3. Participação do associado na gestão econômico-financeira da Entidade Verifica-se que enquanto no grupo PNUD 16. Isso é uma demonstração de que é bem maior no primeiro grupo o nível de .5% dos associados não possui opinião formada sobre o nível de transparência das informações contábeis de sua Entidade.

com relação aos DEMAIS (21. Conceito do associado a respeito de seus dirigentes/organização associativa quanto ao nível de transparência nas informações contábeis CONCEITO Ótimo/Bom Regular/Ruim Não possui opinião formada Não respondeu Total FONTE: Banco de Dados BNB/ETENE GRUPOS DE ASSOCIADOS DEMAIS PNUD . o percentual dos que atribuem um conceito de Regular a Ruim ao nível de transparência das informações contábeis fornecidas pelos dirigentes de suas organizações associativas.6%). Verifica-se também que é quase o dobro no grupo PNUD (44%). TABELA 6.envolvimento dos sócios nesse tipo de atividade da Organização. demonstrando maior nível de consciência crítica desenvolvido no primeiro grupo em relação ao segundo.

Absoluto 206 30 63 148 21.6 69 311 45.Vr. em ambos os grupos .5 44 16. Absoluto % Vr.2 687 100 158 % 39.5 100 Apesar de ser elevado o nível de freqüência dos sócios nas assembléias.2 26 22 3.

5%). e apenas 13% se mostrou desinformado sobre a matéria. além dos 3% que se recusou a tratar do assunto. Estes dados. No grupo PNUD todos os associados entrevistados responderam quando questionados. 13 Os dados da TABELA 7 revelam que é bem maior no grupo DEMAIS o percentual dos associados que sequer possui opinião formada sobre a ocorrência de prestação de contas/balanço de sua organização associativa (39. percebe-se que há um percentual bem maior de associados no grupo PNUD que efetivamente está a par do que acontece na Entidade e se preocupa com o controle do seu destino. além de demonstrarem uma maior percepção da realidade por parte dos componentes do grupo .(TABELA 1). No grupo PNUD 44% dos associados atribuiu aos dirigentes de suas organizações conceito de Regular a Ruim quanto ao nível de transparência nas informações contábeis.9%). o que corresponde ao dobro do percentual daqueles pertencentes ao grupo DEMAIS que atribuíram o mesmo conceito (22.

Conceito do associado a respeito de seus dirigentes/organização associativa quanto à prestação de contas/balanço CONCEITO Ótimo/Bom Regular/Ruim Não possui opinião formada Não respondeu Total FONTE: Banco de Dados BNB/ETENE GRUPOS DE ASSOCIADOS DEMAIS Vr. Absoluto 238 157 271 21 687 . TABELA 7.PNUD. significa também um reforço do que vem sendo identificado nos dados das tabelas analisadas anteriormente. de que há uma resistência dos dirigentes quanto a colocar os sócios a par dos acontecimentos da organização.

4.PNUD Vr.6 22.2. Participação do associado no uso de bens e prestação de serviços da Entidade A TABELA 8 apresenta o resultado da pesquisa quanto ao número de entidades que disponibiliza . Absoluto 68 69 21 158 % 34.5 3 100 % 43 44 13 100 6.9 39.

Este dado é estranho. Os dados deixam transparecer traços do que sugere Bordenave (1987) a respeito do jogo do poder: capacitar os membros do grupo . conforme revelam os dados da TABELA 4. aos seus associados. os associados do grupo PNUD demonstram certo interesse em participar do planejamento das áreas de capacitação e assistência técnica da Entidade. Verifica-se que é maior o percentual de entidades do grupo PNUD que oferece os serviços mencionados. cujo percentual (9%).serviços aos associados nas áreas de assistência técnica gerencial e agronômica. é inferior ao do grupo DEMAIS (12%). deveria haver uma preocupação por parte de tais dirigentes em ofertar os mesmos serviços aos seus associados. exceto no que diz respeito à capacitação técnica gerencial. bem como de capacitação técnica gerencial e tecnológica. Ademais. 14 considerando-se que a prioridade do Projeto Banco do Nordeste/PNUD está na capacitação técnica gerencial dos dirigentes das organizações associativas. No mínimo.

significa abrir para questionamentos destes sobre as decisões para dentro e para fora da organização. técnica agronômica Capacitação técnica gerencial Capacitação tecnológica FONTE: Banco de Dados BNB/ETENE SERVIÇOS DEMAIS Vr. TABELA 8. Absoluto 3 16 7 5 PNUD Vr. Alguns serviços prestados pelas organizações aos seus associados Assist. que por sua vez geram conflito e fragilização do poder estabelecido. técnica gerencial Assist. Absoluto 2 7 1 2 .

que se apresenta inserido na mesma estratégia. e dirigido ao mesmo público.. .% 5 27 12 8 % 18 64 9 18 CONSIDERAÇÕES FINAIS Percebe-se de forma clara a existência de um processo em que aparecem na estratégia de intervenção da instituição em questão. pelo menos no discurso contempla uma ação ativa dos grupos para os quais se dirige. com características da intervenção participativa. 2) o programa de capacitação. delineamentos das duas abordagens descritas por Alencar (1990): 1) o estímulo ao associativismo. cuja ação se dá de forma tipicamente tutorial.

Tais resultados. exercendo um papel passivo num processo cuja tendência é de reforço dos traços de dependência. porém. mas também do número de associados por organização. além de ter contribuído para o aumento da freqüência às assembléias realizadas em tais organizações. não são suficientes para responder a questões do tipo: os associados estariam exercendo o controle democrático da organização? Estariam as assembléias funcionando como instância do exercício do poder do associado. encontra um grupo de indivíduos vivenciando uma experiência que se poderia denominar de “deseducação”. iniciado em fase posterior ao estímulo do associativismo. A primeira constatação é que a intervenção tutorial de estímulo ao associativismo via concessão de crédito associativo provocou não apenas o crescimento do número de organizações associativas no Nordeste. . 15 A análise tentou aprofundar esta questão.O processo de capacitação. buscando descobrir até que ponto a estratégia atinge os objetivos propostos.

com o objetivo principal de acesso ao crédito. Deve-se admitir que o voto. da “solidariedade” e da “articulação”. Não é percebido claramente o desenvolvimento nos membros do grupo PNUD da “faculdade crítica”. aprovação de relatórios. porém. da “organização”. identificados por Oakley (1980). pois nada impede que seja passivo. conforme revelam os dados. . limitado. planejar e executar uma ação. principalmente quando se sabe. como alertado por Demo (1993) tem controle relativo.ou como meros instrumentos formais para a obtenção de financiamento. Os dados revelam. em grande parte. da “participação”. Percebe-se algum avanço na consciência dos sócios submetidos ao processo de capacitação. balanços etc? Maior número de votos em assembléias pode não significar necessariamente maior peso dos associados nas decisões. que o crescimento se deu. quando assumem que a participação não se refere apenas à qualidade de membro do grupo. Participar significa tomar parte ativa nas decisões. pois o processo não ocorre de forma integral.

ou controle por parte destes sobre a Organização. porém. pois à medida que estes adquirem o conhecimento da realidade e a consciência crítica. . pois não se percebe uma intervenção dos indivíduos no sentido de modificar a sociedade. em alguns momentos se percebe a existência de envolvimento ativo dos sócios nas tomadas de decisão dentro da sua organização associativa e na cobrança de ações por parte dos dirigentes. o que deveria ocorrer para que se efetivasse a participação no sentido macro .como sugerem Ammann (1987) e Bordenave (1987).a participação social . as atitudes deixam transparecer que ainda não há uma estruturação do grupo. transparece a resistência dos dirigentes de tais organizações quanto ao envolvimento dos sócios nas atividades.um avanço neste sentido. Entretanto. nas decisões. há uma ameaça ao poder estabelecido dentro da Organização. ou seja. Por outro lado. Em outros momentos. conforme 16 A participação ainda se apresenta em nível micro.

v. p. Fortaleza.23-43. Lavras-MG. pois se verifica que os sócios das organizações buscam agora um espaço nas decisões.Fundo constitucional de financiamento do Nordeste. Impactos das aplicações. Administração Rural. . pode-se considerar que o processo de capacitação contribuiu no sentido dessa construção. S. n. 1990. E. São Paulo: Cortez. Informações Básicas sobre o FNE. AMMANN.tendo-se em mente o que coloca Demo (1993) que a participação é um processo de conquista. ____________________. BANCO DO NORDESTE. ____________________. FNE ./jun. 1993a. 1994. BIBLIOGRAFIA ALENCAR. Fortaleza. Fortaleza.2. Exercício de 1993. Projeto BNB/PNUD. 1987. Jan. que vai sendo construído e nunca se completa. a partir de uma consciência crítica da realidade. B. Ideologia do desenvolvimento de comunidade no Brasil.1. 1993. na tentativa de defesa dos assuntos que lhes interessam.

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