Apostila Sociologia Rural

A “vocação atual” da sociologia rural

Para uma abordagem das questões atuais que se colocam à sociologia rural - o verdadeiro objetivo deste texto1[1] -, é indispensável introduzir um quadro geral que esclareça a respeito da possibilidade de formulação dessas questões e mostre o sentido que é preciso trabalhar a fim de respondê-las. Este texto está organizado em torno de três eixos: um posicionamento da sociologia rural em relação à sociologia geral, que é o seu pressuposto absoluto; um posicionamento da sociologia rural diante das outras ciências sociais que estudam o mundo ou o espaço rural, o que se justifica pelas trocas importantes que ela tem com as mesmas - e, inversamente, as relações que as ciências sociais mantêm com a disciplina -; e uma reflexão sobre a curta história da sociologia rural, um preâmbulo indispensável para uma reflexão sobre sua presente situação e sobre o modo de perceber suas tarefas atuais e futuras. Três referências básicas A sociologia rural: aplicação da sociologia geral2[2] A sociologia rural - antes de tudo, trata-se aqui da sociologia rural francesa, podendo, contudo, o que será dito ser generalizável - jamais reivindicou o estatuto (absurdo) de disciplina única, à parte.3[3] Uma tal afirmação pareceria evidente. Em compensação, as conseqüências que necessariamente devem ser tiradas disto, são menos freqüentemente (para não dizer jamais) mencionadas e não são objeto da atenção que se impõe, se se pretende ver a sociologia rural como sociologia: se a sociologia rural, antes de tudo, é sociologia, ela pura e simplesmente se integra nas evoluções gerais - temáticas, metodológicas, teóricas - da sociologia. Isto, aliás, é patente, se se considera a sua própria história: é assim que ela, cada vez mais - ou simultaneamente - foi durkheimiana, funcionalista, culturalista, marxista, estruturalista, weberiana etc. Não existe, portanto, “escola” de sociologia rural, mas, através da sociologia rural, há análises de inspirações teóricas diversas que propõem diferentes maneiras de integrar as dimensões sociológicas da atividade agrícola e do mundo rural em uma análise de conjunto da sociedade francesa e, mais largamente, das “sociedades industriais”. (Henri Mendras propôs inclusive uma teoria geral válida para todas as sociedades). Desta proposição - que também é uma constatação - decorre toda uma série de indagações: como a sociologia rural seguiu estas evoluções? Ela simplesmente as seguiu ou, a seu modo, contribuiu para provocá-las? Uma resposta suporia uma análise mais detalhada, o que não será feita aqui, porque isto exigiria uma pesquisa específica.

1[1] O leitor já deve ter percebido a referência implícita ao título da obra de Georges Gurvitch (1950).
Contudo, devemos esclarecer aqui que ela não é propriamente uma obra de sociologia rural.

2[2] Precisemos bem: dizer que a sociologia rural é uma “aplicação” da sociologia geral não quer
dizer que a sociologia rural seja uma “ciência aplicada” (como foi algumas vezes afirmado). Quer-se dizer que a sociologia rural é um “ramo” da sociologia geral, tão fundamental quanto esta.

3[3] É interessante a este propósito consultar os primeiros escritos referentes à sociologia rural do
pós-guerra. Uma rápida pesquisa neste sentido conduz a resultados um pouco surpreendentes: o primeiro indício que encontrei de um curso de “sociologia rural” faz pensar que foi o Instituto de Estudos Políticos de Paris quem teve o papel pioneiro na matéria! Outras surpresas: este curso foi inicialmente confiado a dois geógrafos (em 1948-1949), em seguida a Jean Stoetzel (1951-1952), antes de ser atribuído a Henri Mendras. As apostilas dos cursos de Jean Stoetzel e Henri Mendras (cf. particularmente a apostila de 1963-1964), assim como a do curso dado por Henri Mendras no IHEDREA (s/d), começam sempre por uma precisão muito fundamentada referente à vinculação da sociologia rural à sociologia geral: Jean Stoetzel, Sociologie rurale, 1951-52 (curso ministrado no Instituto de Estudos Políticos de Paris, 304 p. datil.; Henri Mendras, Sociologie rurale, Paris. Os cursos de Direito, 1956-1957, 3 fascículos, 282 p. mimeo.; Henri Mendras, Sociologie rurale, Paris, Institut d’Études Politiques de Paris, Amicale des Éleves, 1963-1964, 216 p. mimeo.; Henri Mendras, Sociologie rurale, Paris, IEP de Paris, Amicale des Éleves, 1967-1968, 3 fascículos, 295 p. mimeo.; Henri Mendras, Sociologie de la campagne française, Que sais-je? n. 842, Paris, Presses universitaires de France, 1959 (reedição 1965), 128 p.; Henri Mendras, Sociologie rurale: notions générales et sociologie du changement, Institut des hautes études de droit rural et d’économie agricole (IHEDREA), s/d, 59p, mimeo.

Sociologia rural e ciências sociais da ruralidade: uma escola ruralista? Uma vez feitas as referências aos fundadores, pode-se continuar discutindo este tema que parece ser realmente central para a sociologia rural. Eis, por exemplo, o que escreveu Henri Mendras em 1958: “O ‘meio’ rural é um campo de investigação para todas as ciências sociais e seu estudo não poderia constituir uma disciplina autônoma. Os geógrafos que analisam as relações entre o homem e o meio natural e a distribuição espacial dos fenômenos humanos começaram naturalmente a se debruçar sobre o campo. A economia rural é um ramo (um dos mais antigos) da economia política. Ligando-se a um passado em que a agricultura era a atividade exercida pela maioria dos homens, a história social dá um grande destaque à descrição da vida camponesa. Os etnólogos estudam as estruturas ditas ‘arcaicas’ nas quais a busca ou a produção de alimentos ocupam todos os homens. Enfim, citadinos e rurais interessam igualmente ao psicólogo, ao demógrafo, etc. Enquanto homens iguais aos outros, os rurais também dizem respeito a cada ciência social. Entretanto, eles vivem em um meio particular que requer uma certa especialização do pesquisador e, às vezes, uma problemática diferente. Como o etnógrafo, o sociólogo rural deve, portanto, conhecer os métodos e as técnicas de todas as outras ciências sociais, a não ser que conte com a colaboração de uma equipe de diversos especialistas.” Encontra-se aqui uma profissão de fé que remete ao que se chama a interdisciplinaridade dos “ruralistas”.4[4] A démarche do “ruralista” ambiciona integrar todas as dimensões do social, o tempo, o espaço, o local e o global. Trata-se de uma démarche que se qualificaria hoje de holística (ou holista). Do ponto de vista sociológico stricto sensu, esta démarche se caracteriza também pela sua “transversalidade”. Isto aparece, por exemplo, particularmente nos planos das obras gerais de sociologia rural: por um desvio de alguma forma paradoxal, a sociologia rural, em princípio “especialidade” da sociologia, aparece de fato como uma sociologia “generalista” em si. O sociólogo rural se interessa por todo um conjunto de aspectos da vida social que é dividido, por sua vez, em várias “especialidades” da sociologia - sociologia política, sociologia da família, sociologia das religiões etc. Portanto, é pelo seu “objeto” - seria melhor falar de “campo de aplicação” - e não por uma “teoria” ou uma “escola de pensamento” particular, que a sociologia rural se define. Deste ponto de vista, podese bem seguir Michel Robert (1986: 5-6) quando ele escreve: “Com suas duas correntes bem nítidas, a sociologia rural se definirá, portanto, mais pelo seu campo de ação do que por uma coloração teórica original. Nisto, pode-se compará-la à sociologia urbana na qual se pensa imediatamente, embora a sociologia rural não seja sua antítese. Estas duas disciplinas não são construídas uma em relação à outra, nem a fortiori, uma contra a outra. Tendo dividido entre si o espaço e seus habitantes, elas seguem cada uma a sua rota teórica sem mesmo ter sempre relações elementares que seriam desejáveis”. É o que diz também Henri Mendras, escrevendo no Traité de Sociologie de Georges Gurvitch: “Se não se limita a uma sociologia agrícola especializada, a sociologia rural se define, portanto, pelo seu campo de estudo, as sociedades rurais” (Mendras, 1958: 316). É desta proposição que decorre uma interdisciplinaridade que “exige (pois) o concurso de todas as ciências sociais para chegar a uma integração dos diversos aspectos da vida rural. Nesta perspectiva, o sociólogo rural atribui a si mesmo uma dupla tarefa, por um lado, estudar os aspectos da sociedade que dizem respeito a sua ou a suas especialidades, e, por outro lado, reinterpretar e integrar, desde seu ponto de vista, os materiais que os pesquisadores de outras disciplinas lhe oferecem” (Mendras, 1958). Henri Mendras imediatamente acrescenta uma precisão que muda uma leitura à primeira vista estritamente “objetiva” da afirmação (no sentido de constitutiva de um “objeto” de uma certa forma “físico”): “Esta definição compreensiva parece-nos impor-se nos países de campesinato tradicional, notadamente na França. A sociedade rural conserva aí uma certa autonomia diante da sociedade global e é impossível reduzi-la a um grupo profissional, a um setor econômico ou a uma classe social, entre outros” (Mendras, 1958). Segundo ele, a justificativa da sociologia rural repousa, assim, no postulado - que poderia também ser tratado como uma hipótese - da existência, “nos países que têm um campesinato tradicional”, de uma “sociedade rural” (?) que “conserva uma certa autonomia face à sociedade global”. Assim definido esta é a definição de Henri Mendras, mas que pesou fortemente na sociologia rural durante pelo

4[4] Esta interdisciplinaridade está, por exemplo, na própria base da filosofia e da ação da Associação
dos Ruralistas Franceses.

menos 20 anos - o objetivo da sociologia rural é, de uma certa forma, demonstrar a validade desta proposição (desta hipótese, poderíamos dizer). Daí, a ênfase posta progressivamente na “mudança social” que deslocará as “sociedades rurais” de seu estatuto de “autonomia relativa” - o das sociedades camponesas - à sua integração total à sociedade global - através da passagem dos “camponeses” à condição de “agricultores”, estes últimos cada vez mais vistos como “um grupo profissional... um setor econômico ou... uma classe social, entre outros”. Uma hipótese forte cimenta as análises especificamente sociológicas de temas precisos do mundo rural: a de que existem laços estreitos entre os diferentes aspectos da vida social que leva a que estes aspectos sejam do domínio de diferentes áreas da sociologia ou de outras ciências sociais - a economia, a geografia, a etnologia, e a história, evidentemente - e a se reconhecer que é preciso, portanto, tratar de considerar todos estes aspectos conjuntamente como condição para compreender as evoluções do mundo rural e lhes dar uma interpretação verdadeiramente sociológica. Daí a busca constante da transversalidade no seio da sociologia e da interdisciplinaridade com as outras ciências sociais dedicadas ao tema. Daí, também o risco que os sociólogos rurais correm de parecerem fechados - juntamente com os outros “ruralistas” - limitados ao estudo do mundo rural “específico” e “fechado”. De fato, uma análise detalhada dos trabalhos dos sociólogos rurais mostraria que não se trata disto e que a preocupação de situar as evoluções do mundo rural no interior das evoluções da sociedade global é constante e sistemática. Deve-se sublinhar que esta dupla preocupação já é uma característica forte da sociologia rural, mantendo ao mesmo tempo suas preocupações com uma coerência de uma certa forma “interna” ao “mundo rural” (a expressão assume aqui todo o seu sentido) e com a integração deste conjunto a uma lógica global (uma coerência, de uma certa forma “externa”) de uma sociedade dita “englobante” para marcar esta “exterioridade atuante”. Pode-se dizer que esta é uma proposição e uma “postura” sociológicas de caráter geral e básico (que exigiria, diga-se de passagem, um exame aprofundado): ao mesmo tempo um exercício difícil de se fazer, uma espécie de desafio difícil de se manter. Mas, afinal de contas, não é o que torna interessante e mesmo justifica uma démarche de sociologia aplicada a qualquer uma das malhas, elementos ou aspectos da vida social? Em suma, não é essa uma das exigências fundamentais da análise sociológica e, portanto, do próprio trabalho do sociólogo? Sociologia rural e sociedade: dentro e fora Uma análise mais atenta da história da sociologia rural mostraria sem dificuldade o quanto esta história está ligada, através de suas temáticas - e talvez precisamente através da própria orientação de suas análises - às questões que são colocadas (às vezes, inclusive nos termos em que são postas) a respeito do mundo rural, da agricultura e dos agricultores na própria sociedade francesa. Não me parece esquematizar excessivamente se disséssemos que cinco e principais temas organizaram ao longo do tempo o questionamento que sociólogos rurais constantemente se têm feito através de ponderações variáveis e de enunciados igualmente diversos, se comparados os momentos em que são apresentados. O primeiro deles diz respeito às relações - e mais precisamente, na linguagem da época, à oposição cidade-campo. Este velho tema, que reaparece com mais força desde o final da guerra, tem um lado “acadêmico”: ele remete a antigas reflexões dos geógrafos e dos historiadores. Mas a forma como é retomada no pós-guerra corresponde muito diretamente a preocupações sociopolíticas maiores. Tratava-se então de lançar a França a uma política de reconstrução, industrialização e modernização e a questão que se punha era a de saber se esta componente essencial da sociedade que são os campos - entendamos “agrícolas” - na França dos anos 1950 será capaz de se adaptar às mudanças indispensáveis. Para a cidade, “civilização de conquista”, como Braudel a caracterizará mais tarde, a questão não se coloca: apenas se põe a questão de saber o que vai acontecer com elas em uma fase de crescimento rápido - o que será a questão central e “organizadora” da sociologia urbana. Está-se, assim, em um campo sócio-político e a sociologia rural vai tomar para si, sob diferentes formas, as questões decorrentes. Estas questões ressurgem periodicamente durante todo este meio século, com as formulações que evoluem em função das mutações sociais, econômicas, demográficas, etc. Algumas noções servem de referência nesta interrogação permanente da sociedade francesa sobre si mesma: desertificação (dos campos), rurbanização, terras não cultivadas, uniformização (dos modos de vida), morte (ou renascimento) do rural, etc. A sociologia rural - mas as outras ciências sociais igualmente o são - é constantemente interpelada pelo que se poderia chamar o “discurso social” sobre o rural. Ela também tenta dar as suas respostas.

Se nos fixarmos na cronologia, parece-me que o segundo tema a evocar é o das transformações da agricultura, não só do estabelecimento agrícola, e do trabalho do agricultor, mas também - tendo em vista o estreito laço entre o estabelecimento e a família - a transformação da família agrícola. Trata-se aqui do domínio da política agrícola que ocupa um lugar crescente na vida política a partir dos anos 50 até hoje. Tendo experimentado uma considerável “modernização”, sob o impacto de um movimento social poderoso e dinâmico na Quinta República - já em curso na Quarta, mas uma das grandes construções daquela - a agricultura ocupa um lugar de destaque na vida social - e sobretudo política - nesse período. Uma tal voragem sociológica era, evidentemente, um estímulo para os sociólogos rurais, a tal ponto de a sociologia rural ser considerada, com justiça, como tendo sido largamente infiel a sua vocação para se reduzir a uma sociologia dos agricultores (Robert, 1986). O terceiro tema, que já aparece no primeiro e prossegue no segundo, é o do lugar que os camponeses, e depois, os agricultores, ocupam na sociedade francesa e, mais particularmente, na estrutura e na vida política do país. Esta questão não é apenas o pano de fundo das transformações em curso, tanto nas relações entre a agricultura e a economia nacional, quanto nas relações entre cidade e campo: ela é claramente colocada pelos líderes do movimento social dos “jovens agricultores” (Debatisse, 1963; Lambert: 1970) e por aqueles que se poderia chamar de seus “intelectuais orgânicos” (Faure: 1966). Esse tema constitui, como já se viu, um dos capítulos inevitáveis - e, por assim dizer, até mesmo, uma forma de conclusão - em qualquer apresentação de conjunto da sociologia rural. O quarto tema, embora tenha surgido bem depois e mais como uma resposta a ele, poderia ser incluído no primeiro como um dos seus itens. Trata-se do tema do desenvolvimento local, inicialmente com o movimento das localidades (“pays”), o slogan “viver em sua própria localidade” (vivre au pays); depois, com as políticas de desenvolvimento rural, seus múltiplos recortes espaciais e procedimentos às vezes bastante inovadores na ação da administração (com a introdução dos planos de desenvolvimento rural, por exemplo). E hoje com os debates sobre o futuro do mundo rural no quadro de uma política de organização do território. Um último tema deve, enfim, ser evocado (embora este texto não pretenda exauri-lo): o do meio ambiente. É a questão mais nova, mesmo que sejam muitos os seus antecedentes que podem ser encontrados na sociologia rural (Mathieu & Jollivet, 1989). Como “discurso social”, ele é incontestavelmente um tema recente. Nele pode-se incluir a referência, tão atual quanto florescente, às paisagens. E, de forma mais geral, o problema das relações com a “natureza”, que constitui o pano de fundo - para não dizer o próprio fundamento - da questão do meio ambiente. Se não foi a partir da agricultura e do campo que as preocupações ambientais tomaram corpo (as primeiras vieram com a indústria e suas “poluições”), a agricultura, os recursos naturais renováveis (a água em particular, mas também os solos, as florestas, etc), a qualidade dos produtos agrícolas e do espaço rural não tardaram a entrar em cena, e mesmo a ocupar um lugar especial no tema do meio ambiente. Os “ruralistas” - e em particular os sociólogos - no campo das ciências sociais, foram os primeiros a se interessar por estas questões, a ponto de Bernard Kalaora dizer que seria necessário que as pesquisas em ciências sociais sobre o meio ambiente se liberassem da influência daquelas, influência julgada excessiva e tendente a se fechar. Até aqui, esta lista de temas recobre o essencial e ilustra suficientemente o nosso propósito, de apenas chamar a atenção para a estreita correspondência entre as grandes temáticas da sociologia rural e o que se poderia chamar as “questões da sociedade”. Em função da ótica considerada, três observações podem ser formuladas. Primeiro, foi sem razão que se acusou a sociologia rural de se fechar em sua “torre de marfim”; ao contrário, ela tentou trazer suas respostas às interrogações da sociedade que eram de seu domínio. Segundo, teria ela, ao fazer isto, pecado por um excesso de oportunismo? Foi ela, afinal, “teleguiada” de alguma forma pela “demanda social?” Observemos, desde logo, que parece lógico que as ciências sociais tratem dos problemas que se colocam na sociedade e para os quais elas são competentes. Sobre este ponto, notar-se-á que todos os temas evocados fazem parte da matriz inicial da sociologia rural. De fato, estes temas são mais recorrentes que sucessivos; apenas, ao “gosto do dia”, suas formulações sucessivas lhes dão uma aparência de novidade irredutível. Ao contrário, o que devem fazer as ciências sociais é precisamente mostrar que se trata de avatares, de desenvolvimentos circunstanciais de questões de fundo. Para isto, o que elas devem fazer é igualmente abandonar o discurso comum, na medida em que este é susceptível de ocultar os problemas reais. Emprega-se aqui uma fórmula da qual a prudência esconde mal a pretensão, para não dizer a imprudência: cada ator social tem sua concepção do que sejam os problemas reais - são aqueles que eles enfrentam em sua ação ou em seus interesses imediatos.

seria muito instrutiva. ela suporia a existência de um esquema de referência teórico aceito por todos os sociólogos. e ainda menos lhes fornecer. a sociologia rural opôs sua formulação própria dos problemas à dos atores profissionais e do Estado? Por sua “distância crítica” em relação ao real. A segunda maneira de negar a pertinência da sociologia rural é indagar se o “objeto” que ela reivindica como seu . a uma epistemologia da sociologia. ao movimento “neo-ruralista”. dar conta. são. que formularia questões-chave estruturantes da disciplina em torno das quais o trabalho da comunidade dos sociólogos se organizaria.e isso talvez faça uma grande diferença em relação à economia (ou pelo menos a uma certa economia) e à geografia (ou pelo menos uma certa geografia). Se a sociologia rural foi acusada de permanecer em sua “torre de marfim”. até mesmo. tal como foi herdada das últimas quatro ou cinco últimas décadas. Sobre este balanço. mesmo neste caso. aquela atitude equivaleria a uma negação da história social que vai da sociedade feudal à sociedade industrial ou. herdadas das sociedades agrárias de onde elas procedem. configurando os dois grandes esquemas analíticos que ela propõe para compreender as evoluções contemporâneas da agricultura e das sociedades rurais nas sociedades ditas “industriais”. enquanto tais. ter-se-ia. Segundo esta maneira de ver. digamos. querer responder com precisão a tal questão seria uma pesada tarefa. que em nada corresponde. a sua análise crítica do processo de inovação . o mais preparados possível. elaborar um instrumental intelectual à altura de suas ambições. A propósito. uma sociologia rural muito sensível aos avatares do questionamento social sobre o rural . nem ao caráter basicamente empírico da sociologia. com a renovação das questões sobre as “tecnologias”. Em outras palavras. por exemplo.e. os pontos de vista e as avaliações são evidentemente diferentes. não teria sido porque ela nunca aceitou responder às questões tal qual estas lhe foram colocadas . à recusa da idéia de que as sociedades industriais possam conservar traços.e que conserva o seu modo próprio de ver: eis aí.continuam existindo (se é que existiram em algum momento). uma análise comparada das duas démarches. Deste ponto de vista. ao que parece. abordar as tarefas futuras.Mas esta “pretensão” é a mesma da sociologia. um novo relevo e ao “modelo de desenvolvimento” operado pela política agrícola a partir dos anos 60 (agora questionado). o “rural” não existe mais. Além disso. A primeira consiste em afirmar que a sociologia rural nunca teve pertinência e sempre foi um artefato ideológico. o outro. Considerada no primeiro aspecto. e cujos discursos não podem. neste caso. esta atitude é uma das grandes características da sociologia rural francesa e um dos pontos sobre os quais ela mais se diferenciou da “sociologia agrícola” de inspiração americana . Estes são elementos gerais básicos para um “enquadramento” da sociologia rural. e inclusive estruturas. Considerada do ponto de vista da estrutura interna da sociologia.as “sociedades rurais” . pelo menos. mas não se justifica mais atualmente. uma visão essencialista e idealista. Deve-se precisar ainda que. Devese notar que uma tal afirmação é coerente com a definição de Henri Mendras. nem às exigências da especialização dos conhecimentos pela divisão do trabalho científico. A identificação de um ramo da sociologia que se dedica a sua análise pôde se justificar. e que parecem indispensáveis para a discussão presente. A terceira questão que pode ser colocada consiste em saber se a sociologia rural conseguiu. de “sociedades rurais . Ao contrário. quase próxima do seu “objeto” . no domínio das pesquisas sobre a inovação. Esse tipo de atitude pode ser vista sob dois ângulos: um remete à história. tanto da sociedade quanto da sociologia. qual seria essa pertinência? qual a base das suas problemáticas e “objetos”? No que se refere às justificativas da sociologia rural há duas maneiras possíveis de ver as coisas. o que se pode dizer é que essas questões têm importância e mereceriam hoje um exame atento para que possamos. Questões atuais Duas questões definem o essencial: a sociologia rural. as suas razões. tem ainda pertinência? Se sim. algumas pistas para realizar aquele balanço. seria preciso sociólogos competentes no estudo dos aspectos da realidade social em questão para realizar de maneira rigorosa e informada as pesquisas necessárias. Portanto. aquelas que escapam à consciência dos atores. mais tarde. A crítica que ela fez ao discurso da “rotina camponesa” ou. que é a de evidenciar as “lógicas sociais” implícitas ou.e em vigor especialmente na Holanda. a característica da sua “postura” durante este meio século de sua história. no curso deste período.que assume hoje. entre outras.

trata-se de repensar o desenvolvimento. de outro. é necessário. as interrogações vindas da ou referentes à . ele precisa evidenciar o que se poderia chamar os “silêncios significativos”. É claro que estamos aqui no cerne do problema. quer as reivindicações das populações locais relativas a sua situação de vida. Um outro debate refere-se mais diretamente à agricultura e ao modelo de desenvolvimento . distinguindo os dois contextos em relação aos quais as evoluções da sociologia rural parecem estar referidas . antes de mais nada. as questões reais que não são objeto de nenhum discurso. E isto. os dois planos sobre os quais elas devem ser examinadas . as “sociedades rurais”. ele enriquece o seu aparelho analítico e oferece os meios para escapar dos desvios da interpretação de curto tempo e sem recuo freqüentemente associada a uma visão dramática. através de uma .quem os emite? com que coerência? no quadro de que estratégias e com que objetivos? .ou. enfim. se tais “sociedades rurais” são habitadas cada vez menos por populações de agricultores e cada vez mais por trânsfugas da cidade ou por assalariados das zonas rurais industrializadas ou terciarizadas. Em uma palavra. poder-se-ia acrescentar com maior razão.e inversamente.por exemplo. portanto. levar em conta. os termos que aparecem aqui são “diversificação”. Ele deve. através do grupo dos agricultores em dificuldade . desaparecem quando os camponeses se transformam em agricultores. Se. aprofundar a análise para sermos mais precisos neste ponto. ainda. a sociologia rural não tem mais razão de ser em uma sociedade sem camponeses .tanto das mudanças em curso. “pluriatividade”. Diante desta avalanche de questões e de argumentos contraditórios. ou ainda através das tensões produzidas pela intervenção da regulamentação européia sobre a matéria etc. ao mesmo tempo. Um primeiro bloco de questões gira em torno da diminuição da população ativa agrícola e suas conseqüências: há um debate particularmente aberto sobre o tema do número de estabelecimentos agrícolas (inclusive sobre o número que se deve ter como meta) que haverão de subsistir nos futuros dez ou vinte anos. ainda segundo Henri Mendras. Para caracterizá-la. quer a emergência de políticas relacionadas com as novas funções do espaço rural. “extensificação”. mas seria necessário. as evoluções contraditórias nos domínios técnicos (com as biotecnologias e as técnicas “extensivas”). através dos conflitos. Pode-se acrescentar uma terceira dimensão que remete a um movimento de conjunto que diz respeito ao questionamento científico considerado globalmente.com o necessário abandono à referência às “2 UTH” (unidade de trabalho utilizada como referência nas análises sobre a moderna agricultura familiar). o sociólogo tem uma sêxtupla tarefa a cumprir. acima lembradas. por outro. apoiando-se em um corpus de textos ad hoc. na qual os camponeses se tornaram agricultores. catastrofista das coisas .que ela vem adotando há um terço de século. interrogando-se sobre as problemáticas atuais com as quais ela poderia se ocupar. por um lado e. que seria possível justificar a pertinência ainda hoje da sociologia rural. em seguida. Após o enunciado da questão. em termos sociais e ideológicos. o sociólogo também deve demonstrar que as suas análises enriquecem o conhecimento da sociedade francesa. de um lado. é o caso da França.e. os movimentos de mundialização das relações de troca entre os grandes produtos básicos e o desenvolvimento dos circuitos curtos dos produtos mais especializados etc. isto é. como. Estas reflexões desembocam em todo o debate sobre o futuro do espaço e do mundo rurais e sobre quais deveriam ser as políticas que lhes dizem respeito. antes de mais nada. como este autor afirma. estabelecer os fatos para se ter uma distância em relação aos discursos e. assim procedendo.própria sociologia. em outras palavras. quanto dos discursos que elas suscitam. dar uma imagem “objetiva” das evoluções e situações reais e proceder ao que se poderia chamar uma “crítica externa” do discurso. basta remeter às reflexões sobre o “renascimento” rural.camponesas”. É preciso ainda analisar as conseqüências do modelo de desenvolvimento . como as que se presume existir nas sociedades industriais. “produtividade”. Que problemáticas e que objetos? Esta reflexão se inscreve no prolongamento da análise acima desenvolvida.isto é. o que implica em evidenciar suas dimensões propriamente sociológicas e/ou dos objetos referidos. etc. de sua amplitude real. deve passar à sua formulação sociológica. O último debate a ser feito refere-se ao meio ambiente. Trata-se. através da necessidade de se conceber os sistemas de produção agrícolas “respeitadores do meio ambiente”.a saber: o questionamento social. é igualmente indispensável recolocar tais evoluções e as interpretações que o sociólogo pode fazer sobre o passado no médio e longo prazos. considerando. Esta primeira discussão se prolonga em outra. que trata da evolução da população dita rural. de definir sistemas técnicos de produção que levem em conta. O questionamento social e a sociologia rural Quatro séries de questões podem ser colocadas. clarificar o discurso por sua análise interna . as trocas e os mercados (e não mais os temas centrados apenas na intensificação da produção) e. É. convém redefinir o estabelecimento agrícola e a atividade profissional dos agricultores em seus próprios fundamentos .em crise . simultaneamente.

Toda tentativa de generalizar ao conjunto da Europa .a “sociedade local” . A pluriatividade. cujo lugar na estrutura e na vida política se vincula ao poder local. portanto. então.para não dizer uma contradição fundamental . Reduzir. nos 36. “agro-managers”. É possível indagar sobre a equivalência estabelecida por Henri Mendras entre “sociedades rurais” e “sociedades camponesas”. ele tem de mostrar que as suas análises robustecem o corpus teórico da sociologia. precisamente. pura e simplesmente. mas ainda indispensável. minuciosas e circunstanciadas capazes de perceberem as continuidades e as transformações nos processos de reprodução da sociabilidade e o sentido do ser-conjuntamente.. nem para todos os campos. aberto e complexo. O mínimo que se pode dizer é que ela coloca um problema histórica e geograficamente. além das “sociedades camponesas”. Tais análises devem ser retomadas atualmente por duas razões: primeiro.. de alguma forma espacial do que podemos chamar de uma “sociedade local”. No entanto. qual seria. porque a situação dos agricultores evolui rapidamente. é uma sociologia da “transição” .as quais. dar uma contribuição em todos os capítulos da sociologia. serem submetidas a exame e. assim. a emergência de novas solidariedades territoriais . porque o contexto que a sociedade global constitui está. Existe um verdadeiro hiato . dos seus processos de reestruturação sociopolítica. analisar o papel que eles representam no processo de integração social através das suas funções tanto institucionais quanto simbólicas e notadamente identitárias. As transformações sociais internas radicais que os municípios conhecem.é arbitrário: existem outras “sociedades locais”. todas são razões para se repensar a teoria sobre a profissão e para se criar um novo quadro de análise que permita caracterizar sociologicamente os “villages” enquanto “sistema social” e. um poder local que. . as recomposições espaciais às quais são levados. seja para uma outra já sem fundamentos agrários. de fato.ao outro . e uma abordagem atualizada das “sociedades rurais” deve ser precisamente. é ocultar toda uma diversidade de situações que corresponde a uma multiplicidade de vias experimentadas num processo de adaptação .melhor compreensão dos processos sociológicos e da sua adaptação às transformações gerais nas quais o país está inserido. das relações entre o pequeno produtor independente e os setores industriais a montante e a jusante. por esta mesma razão. são apenas uma só . serem confrontadas com observações empíricas realizadas em trabalho de campo? Admitir a afirmação segundo a qual os camponeses tornaram-se agricultores (empresários. Tanto em um caso como no outro.uma tal proposição leva a sublinhar seus limites. em conseqüência. considerado enquanto “sociedade” (local). O mesmo pode ser dito a respeito das “sociedades rurais”. A análise do que se poderia chamar um “sistema social localizado”. porém.esta também podendo assumir uma variedade de formas . Além disso. se as duas razões de ser da sociologia rural desapareceram? Duas observações podem ser feitas em relação a esta maneira de colocar o problema. enquanto tais. O questionamento sociológico e a sociologia rural A sociologia rural trata de todos os aspectos da vida social no campo. mas ela não é válida para todos os períodos históricos.) é ir um pouco depressa demais. isto é. que representam o futuro do espaço rural. Que se possa fazer um cruzamento entre as duas análises é. um . etc. em processo de rápidas mutações.entre a análise de um longo período de transformações estruturais do campesinato e a análise. A hora. não somente certo. enfim.ou da mudança social . entre tantos outros e se as “sociedades rurais”. a das transformações de uma “sociedade local” de base agrária em direção a uma “sociedade local”. seja esta transição para uma formação de base não-agrária. da relação social. imagens e estatísticas que constroem o “senso comum” nesse nosso tema. porque faltam as observações concretas para fazer um contrapeso à crescente invasão de discursos. este procedimento deve se situar no quadro de uma análise das transformações da sociedade global e. Primeira observação: aquelas duas assertivas . a diversificação produtiva voltam a ser temas da ordem do dia que precisam ser considerados para caracterizar sociologicamente a situação atual dos agricultores. tal contribuição.e também as novas problemáticas e os novos conflitos. é também um domínio no qual a sociologia rural investiu particularmente. e. também já perderam toda a sua “autonomia relativa”. é a de um retorno maciço e metódico às pesquisas de campo.000 municípios. depois. antes de mais nada.os novos “territórios rurais” . as formas associativas. “molecultores”. Ela pode. está longe de ter um peso insignificante no conjunto do sistema político.o campesinato . Sobre este ponto poder-se-ia comparar o seu procedimento com o da sociologia das organizações. se se estima que os agricultores já se tornaram um “grupo profissional”. da inovação nos setores produtivos não-industriais.que é requerida e isto supõe análises finas. as novas funções que deles se espera. em suma. Não há apenas o campesinato. A sociologia rural foi pioneira nas análises sociológicas do trabalho não-assalariado. em particular. ele próprio.sem falar do conjunto do mundo .a um contexto incerto.devem ser tomadas como verdades estabelecidas? Não poderiam ser tratadas como hipóteses.

Deste ponto de vista. ainda. isso é uma ilusão de ótica: os “agricultores”. a sociedade civil e o território . Esta é uma outra vertente de uma sociologia do político. Estas análises de sociologia política permitiriam evidenciar e compreender as atuais mudanças em curso no controle de uma parte. Questões. Isto se traduz naquilo que se poderia chamar “dispositivos locais de ação”. Dedicarse a esta análise seria tanto mais judicioso quanto o termo volta hoje à ordem do dia. Evidentemente. em um momento em que ele adquire cada vez mais relevo. poder-se-ia chamar as sociedades “de villages” ou “de fraca dimensão”. portanto. um começo de reconhecimento desta ruptura. ela deve particularmente ser aplicada ao conjunto dos países europeus. Em suma. uma das bases da pirâmide dos poderes. ao mesmo tempo. Também seria interessante ver em que medida o seu sentido não está. tem por objetivo apenas mostrar que numerosos são os temas de pesquisa de dimensão geral que se pode abordar através das evoluções do mundo rural . propor uma série de questões importantes para uma sociologia especializada na análise do atual mundo rural. tanto das políticas de cooperação intermunicipal. para serem tratadas. Por fim. esta mutação também não estaria exprimindo a necessidade de uma continuidade tanto simbólica quanto prática .no caso. uma vez que ela remete a uma história em curso. como prejulgar este interesse? Tudo o que se pode fazer não é formular hipóteses sobre o que poderia ser. os saberes e os conhecimentos adquiridos de um lado e. Porém.ocultação de uma ruptura e. em seguida. ao mesmo tempo que é uma exigência que se poderia qualificar de histórica.o seu passado “rural” para se adaptar ao presente. é uma necessidade. confrontá-los aos fatos e evidenciar a forma como a sociedade . e ainda em que medida. em vias de se emancipar do seu conteúdo agrícola tradicional.como a análise da evolução do lugar dos agricultores na sociedade e a de seus comportamentos profissionais e políticos. Cabe ainda aos sociólogos decifrar os discursos e as políticas. pode-se. . os “municípios rurais” e outros vilarejos e pequenas cidades continuarão a existir. isto é. quanto dos novos tipos de pressão ou de dependência de ordem espacial. a título de exemplo.e quanto muito. exigem que os seus aspectos referentes à “ruralidade” sejam analisados como facetas incontornáveis das evoluções da sociedade (no caso.Agora. em que haveria uma forma de “banalização” tal que pudesse retirar todo o interesse à análise sociológica de uns e de outros? Aqui há uma atitude que se parece àquela segundo a qual nós teríamos chegado a uma espécie de “fim da história”. das múltiplas pressões que recebe e das expectativas as mais contraditórias que se tem sobre ele. a segunda observação: mesmo supondo que os camponeses tenham se tornado agricultores e que as “sociedades rurais” tenham deixado de ser “sociedades camponesas”. relativas aos processos de socialização. aqui. por exemplo. a francesa . precisamente. no quadro de uma análise dos processos de “integração” européia. a profissão. especial e quantitativamente importante do poder “territorial”. referentes aos fundamentos das reestruturações sociais locais e às transformações das relações locais de poder subseqüentes às evoluções das estruturas agrárias. de outro. justamente. e tudo isto continuará a fazer parte da sociedade global. a condição social. os contextos. Inicialmente. Ter-se-ia. Esta proposição é generalizável a todas as formações sociais nacionais.no caso. Evocá-las aqui. da integração e da exclusão em “contextos” sociológicos bem definidos e diferentes dos subúrbios e dos bairros urbanos. os fundamentos.e neste caso. interrogações sobre a noção de rural como categoria simbólica da representação que a sociedade constrói sobre si mesma. por uma comodidade pelo menos provisória. Estas são apenas algumas pistas. ao mesmo tempo. a fisionomia e as funções sociais e territoriais dos segundos continuarão a evoluir. uma contribuição para uma sociologia da relação social. A questão que se coloca é a do interesse de uma análise sociológica destes fenômenos. da fraca densidade relativa de seu povoamento. da economia agrícola e da composição social da população rural. em um setor produtivo sobre o qual se pode dizer que faz parte das “indústrias pesadas” mas não está baseado no modelo da grande empresa com salariado. a cidadania dos primeiros. as questões que parecem dever ser consideradas como as questões centrais de hoje? Em todo caso. os quais constituem novos modos de socialização do espaço e de regulação dos conflitos.ou não . A abertura a uma abordagem comparativa internacional. percebida aqui sob o ângulo das relações entre o Estado. Outras já estão bem exploradas . de uma forma geral. as formas e o conteúdo da sociabilidade naquilo que. francesa) tomada em seu conjunto.utiliza . levando em conta. a ser associado a suas evoluções e a pesar também sobre elas. as competências. questionamentos sobre as evoluções das solidariedades territoriais sob a influência. interrogações sobre as formas sociais de mobilização do trabalho agrícola: seria a contribuição de tal sociologia para uma sociologia do trabalho. o território ”rural” que representa uma problemática particular em razão da importância de seu lugar no conjunto do território nacional. Questões. a questão se coloca em dar sentido a esta necessidade de continuidade . não é porque estes problemas não ocupam o primeiro plano na mídia que não devem mais ser estudados. Tal extensão à Europa da “construção rural” representa uma ocasião excepcional de renovação das problemáticas.

entre as ciências sociais e as ciências que podem ser globalmente qualificadas de “ciências da natureza”. com a necessidade de se situar em diferentes dimensões simultaneamente que vão do nível do village a do planeta. os solos. o regional. de outro. social e economicamente utilizado e vivido.há quase um quarto de século. Essa vantagem aparece com seus próprios problemas.Para caracterizar este conjunto de pesquisas a realizar. enfim. A sociologia rural está diretamente implicada nestas evoluções. de fato. os recursos genéticos. da mesma forma que entre o social e o técnico.superprodução. e dos agricultores. em cujo estudo a ciência tem o hábito de estabelecer cortes.uma sociedade? . Esse rural oferece campos os mais variados para uma análise das relações sociais organizadas entre uma coletividade humana . tais como “complexidade”. . não tem razão de ser e criar um contra-senso sobre o próprio “rural” e sua inserção na sociedade global. O caminho que assim se abre é balizado por palavras-chave.. que esta condição não leve a pensar que a “sociologia rural” não tenha sido precisamente senão uma “sociologia do rural”. Essas interrogações põem em questão um certo “credo” no “progresso técnico”. assim. Isto quer dizer que são descobertas múltiplas relações entre fenômenos de ordens muito diferentes. de fato. as populações animais e vegetais . cada vez com mais insistência. ainda mais claramente nestes últimos anos . “modelização”. Ela o está por alguns dos seus temas e pelos elementos da vida social que estuda: a agricultura. o nacional e o europeu. “análise sistêmica”. embora seja socialmente apropriado.de um lado. O que a sociologia rural . O mesmo acontece com o rural. e que haveria de alguma forma uma mutação a fazer: seria necessário acreditar em uma ruptura radical que. que atingem proporções crescentes da população na maioria dos países. o do desemprego e a questão do lugar e o papel do trabalho na socialização e integração social e. se isto clarifica as coisas? Mas. passando pelo microregional. o técnico e a natureza em relação a todos os tipos de sociedades. Tudo isto faz dela um dos domínios privilegiados. modelado pelas práticas e pelas técnicas. um dos grupos sociais mais ricos em ensinamentos para o estudo das relações entre o social e o técnico. enquanto atividade de rápida inovação tecnológica . a interdisciplinaridade entre ciências sociais constitui um trunfo: é na interdisciplinaridade que existe entre os ruralistas que reside a oportunidade para reforça-la ou reanimá-la. a questão do meio ambiente. um rural herdado da história e constantemente remanejado. a atmosfera. ligadas umas às outras.e também controversa . a concepção da pesquisa científica que se situa a montante da técnica. mas também entre o social. o tema das desigualdades sociais crescentes. “interdisciplinaridade”. A sociologia rural também está implicada nos seus próprios procedimentos. Todas elas procedem de interrogações em curso há vinte anos.assiste-se a uma evolução muito nítida da concepção das relações entre ciência e sociedade.e os meios naturais.a água. Para tratar destas questões. problemas de qualidade da produção e do meio ambiente. 1991) ao invés de uma “sociologia rural”? Por que não. o procedimento holístico na medida em que a análise sistêmica pode ser considerada como uma de suas versões.donde o êxodo agrícola que alimenta o desemprego e provoca a migração rural. os solos. as biotecnologias e a informática. criado.a água. que se utiliza dos recursos naturais renováveis .. a extensificação e a agrobiologia .mas isto também é válido para as outras ciências sociais do rural tem a aprender é a estender o seu projeto interdisciplinar às ciências da natureza que analisam os “sistemas naturais” envolvidos com os “sistemas sociais” que ela estuda. E em conseqüência. e de múltiplas formas.. seria melhor falar de uma “sociologia do rural” (Lagrave. mais particularmente. no qual o ambiente natural predomina sobre o construído. O movimento científico e a sociologia rural Desde o começo dos anos 1970 . Reencontra-se. A agricultura enquanto setor de atividade aplicada ao ser vivo (animal e vegetal). São várias evoluções.quadro da vida imediato e base de vida a longo prazo. contraditória . os ecossistemas. Procura-se uma ciência mais preocupada com suas próprias conseqüências. os fenômenos de marginalização. que revêem. entre as diferentes ciências e. e transforma os meios . não somente em seu âmbito. tanto sobre a sociedade quanto sobre o meio ambiente . Seria preciso também que os sociólogos que se lancem a este gênero de pesquisas tenham uma cultura em ciências sociais suficiente para abordar o rural e notadamente para situar as suas evoluções presentes na história de suas relações com a sociedade global. triar o que é pertinente para cada pesquisador em sua própria disciplina e separar o resto.

ou fora dele. constitui um contra-senso não dizer que a sociologia rural teria perdido o seu sentido porque o rural .que ela não é mais “familiar” (Lamarche. é preciso voltar a duas questões essenciais. interesse. pode-se dizer também. por gosto. este deveria ser o ponto central. na verdade. Ora. É cada vez mais pertinente querer analisar em termos sociológicos as evoluções do mundo rural? Hugues Lamarche explica que não é porque a unidade de produção agrícola não é mais “camponesa” .as evoluções das sociedades globais. tentando compreender de onde procedem suas formas específicas. torna-se necessário. das evoluções e das características sociológicas daquilo que se estuda. Seria acreditar. que o rural só existiu em um contexto e em um período bem determinado e passado.de sua forma “camponesa” anterior. e esta é uma outra faceta da observação precedente. ele assume formas constantemente novas que correspondem a .que eles não constituem um “grupo profissional”. de “sociólogos rurais”? Por que não? Mas. não têm nenhum monopólio a reivindicar nos domínios que são hoje de sua predileção. Uma segunda observação decorre da primeira: é preciso que os sociólogos invistam neste domínio. ela seria a de empreender tal reflexão teórica. Se um balanço da sociologia rural viesse a ser feito.e que são privilegiadas . curiosidade. Em resposta a esta questão. seja porque se trata de um universo que lhes é estranho ou o rejeitam. eles tendem a ignorá-lo e a se abster de considerá-lo em suas problemáticas. este é um ponto sobre o qual a reflexão não avançou suficientemente nem se tem atualizado muito. que as “entradas” específicas no funcionamento da sociedade .se isto se justifica .. É preciso assegurar os meios que caracterizam sociologicamente esta forma particular de organização produtiva e de mobilização do trabalho que é a atual unidade de produção agrícola. senão negligenciado. pode-se dizer. que ocupa um lugar bem determinado na estrutura social das sociedades capitalistas. cada vez mais.e vão paralelas com . Se a pesquisa de questões “transversais” é a que deve prevalecer e se a idéia de comparação deve ser um princípio de método privilegiado. Quarta observação: o que conta. Uma abordagem setorial fecha e limita a compreensão. A segunda questão refere-se ao fato de saber se para realizar essas tarefas há necessidade de sociólogos que se qualifiquem como “rurais” e de uma sociologia dita “rural”. ao mesmo tempo especializada e geral.que a sociologia rural destes últimos cinqüenta anos pecou por carência neste ponto (o que sucedeu em vários casos). Se se pode dizer. constituem puros artefatos do método adotado. a sociologia rural pode. é saber dar conta de maneira precisa dos processos. Há todo interesse em que os sociólogos não rurais invistam no campo rural a partir de suas questões e de seus procedimentos. E importa que tudo isto seja feito porque são componentes da sociedade global.aquelas que interessam .centrem sua atenção sobre a agricultura.Para concluir.termo que precisaria ser bem definido . tem-se a sensação de que. a partir de agora. com base nas suas pesquisas deste último meio século. em outras palavras. um bom conhecimento do “objeto” do meio rural e uma cultura científica apoiada em bibliografia. Ou ainda: não é porque a população agrícola não é mais dominante na população rural que a “ruralidade” não existe mais etc. realizar uma avaliação crítica do que foi escrito e que esta exigência metodológica fundamental seja. é que as mesmas análises sejam feitas apoiando-se em procedimentos e questionamentos maiores da sociologia. então. com efeito. E tanto mais indispensável quanto o peso destes componentes geralmente é subestimado. Seria enganar-se acerca do estatuto histórico do rural. Sem dúvida.teria se banalizado e dissolvido na sociedade global. dar uma contribuição original aos grandes debates da sociologia. Seria preciso chamar os sociólogos que fazem esta escolha e se submetem a tal preparação. seja por falta de interesse. Tenhamos cuidado para. de fato. cujo estudo é necessário para compreender as transformações gerais e as vias pelas quais estas se produzem. uma observação vem logo à mente: os sociólogos rurais.. não cairmos na cegueira do olhar centrado no presente e nos discursos próprios da sociedade sobre si mesma. e até mesmo leva a erros de interpretação principalmente em termos de “especificidades” do objeto estudado. 1991-94). é preciso que eles o façam efetivamente. O que é preciso fazer.ou. pelos sociólogos que se ocupam destas questões. Se se tiver que mencionar uma tarefa prioritária para a sociologia rural. No que ele se tornará? Que formas tomará em uma sociedade “industrial” em mudança rápida? Esta é a questão. levada mais em consideração. A história. Quinta e última observação: em todo caso. Referências bibliográficas . igualmente. o ponto de partida pode se situar no rural. os agricultores e o rural.incluindo a agricultura e os agricultores . incluindo os camponeses. Por exemplo: não é porque os agricultores não são mais camponeses . Ora. evidentemente. enquanto que. Poder-se-ia “declinar” este modo de ver de múltiplas maneiras. as quais. não o vendo mais. isto suporia fazer um balanço preciso . que importância tem isto? Terceira observação: o importante é que as análises sociológicas que se façam situem os aspectos particulares da vida social no contexto da sociedade global . condições que valem para qualquer domínio ou tema. isto exige competência específica. Mas. não acaba de acabar. distinguindo-a . hoje.isto é tão evidente? .

1989. Rose-Marie. Paris. Michel. p. Éditions du Seuil. Ainda considerando que a Sociologia Rural é uma subdivisão da Sociologia Geral. Marcel (dir). Lambert. Comparaison internationale. Georges. Notas Sociologia rural 2 Sociologia RURAL 2. Paris.1. como por exemplo as lutas pela posse da terra. Presses Universitaires de France. 1963. usará. Traité de sociologie. a reforma agrária. Lagrave. “Discours communs. "o bóia fria". a "Sociologia Rural é uma das subdivisões da Sociologia Especial "que estuda o modo de vida rural e a natureza das diferenças rurais e urbanas" LAKATOS & MARCONI (1999:29-30). 1998:1). 1966. Hugues. 1958. Editions L’Harmattan. Robert. La vocation actuelle de la sociologie: vers une sociologie différentielle. entre outras. 1986. Cahiers de l‘IMPSA. Faure. como sendo a mesma coisa. la question de la nature aujourd’hui. La révolution silencieuse. Presses Universitaires de France. Gurvitch. Mendras. mar. A tendência natural. 2 volumes. inversamente. Paris. Presses universitaires de France. Du rural à l’environnement. Paris. Paris. não somente entre si. Lamarche. Bernard. ou apenas "o estudo das sociedades rurais" (MENDRAS. Sociologie rurale. 1970. as relações que as ciências sociais mantém com a disciplina" (JOLLIVET. Tome II: Dy mythe à la réalité. 2. Paris. Perspectivas teóricas. ARF éditions/L’Harmattan. Sendo um ramo da Sociologia. 1950. 1991-1994. a industrialização do campo. Les paysans dans la lutte des classes.297. igualmente. que é o modo de cultivar a terra. Todavia. De acordo com o esquema proposto por Fernando de Azevedo. no contexto desse trabalho seria ligar a Sociologia Agrícola com a Rural. certamente não se está pensando apenas na agricultura. Le combat des paysans. L’agriculture familiale. In: George Gurvitch (dir). os métodos que essa Ciência utiliza para concretizar as suas investigações. 1998:2). Henri “Sociologie du milieu rural”. Marcel. pelo qual a Sociologia Especial consiste no estudo de categorias específicas de fatos sociais. discours savants sur le rural”. Les paysans dans la société française. o que se justifica pelas trocas importantes que ela tem com as mesmas e.Debatisse. Michel. Que-sais-je? n. desnecessário se faz dizer sobre o inter-relacionamento que as duas disciplinas possuem. 5261. a grilagem. Há muitas relações sociais que se desenvolvem no campo que não dizem respeito à agricultura. Paris. Librairie Armand Colin. mas quando se pensa no Rural. Tome I: Une réalité polymorphe. Mathieu. Paris. forçoso . 1991. Calmann-Lévy. Nicole e Jollivet. 1958:316 apud JOLLIVET. como também com as demais "ciências sociais que estudam o mundo ou o espaço rural.

grande parte da problemática rural atual é decorrente do entendimento errôneo de que aquilo que não é urbano é rural e vice-versa ou daquele que trata tudo como sendo a mesma coisa. produzindo um único conhecimento que. ao invés de se falar em objeto. inclusive que. O conhecimento é uno. da religião. A economia rural é um ramo (um dos mais antigos) da economia política. essa disciplina é também Sociologia Geral. eles vivem em um meio particular que requer uma certa especialização do pesquisador e. fazem questão de destacar logo ao início dos cursos que ministraram no Instituto de Estudos Políticos de Paris. 1998). em 1958: "O ‘meio’ rural é um campo de investigação para todas as ciências sociais e seu estudo não poderia constituir uma disciplina autônoma. tanto interna quanto externamente. tal qual a Rural. Os geógrafos que analisam as relações entre o homem e o meio natural e a distribuição espacial dos fenômenos humanos começaram naturalmente a se debruçar sobre o campo. mais do que uma das especificidades da Sociologia Especial. e dela herda igualmente as origens históricas e as perspectivas teóricas traçadas pelas diversas escolas e pensadores sociológicos. Enfim. acaba assumindo ares de disciplina geral. por exemplo. pois o Urbano também é analisado por vários ângulos e planos diferentes e o que vai interessar à Sociologia Urbana não é uma dessas análises em particular. que estudam as particularidades dos fatos sociais. Vale dizer ainda que não se deve compreender o rural com o oposto do urbano. mas que Jean Stoetzel (1951-1952) e Henri Mendras (1963-1964). Destaca-se. global. Uma das pretensões do ruralista é. bem como a mesma interdisciplinaridade com as demais ciências sociais. etc. os rurais também dizem respeito a cada ciência social. seus precursores. O seu objeto de estudo é. dessa forma. ao demógrafo. "A realidade de nossos dias tem gerado uma sociedade que se urbaniza velozmente. citadinos e rurais interessam igualmente ao psicólogo. As divisões têm implicações meramente didáticas. Enquanto homens iguais aos outros. mas nenhum fenômeno social pode ser perfeitamente compreendido se dissociado do contexto geral em que se encontra e do qual recebe influência. É dessa forma que deve ser feito o estudo da Sociologia Rural. é a matriz que direciona o epistemológico. o mais apropriado é referir-se ao seu campo de atuação: as sociedades rurais. uma problemática diferente. Essa . Assim. conhecer os métodos e as técnicas de todas as outras ciências sociais. Como o etnógrafo. a não ser que conte com a colaboração de uma equipe de diversos especialistas. Ligando-se a um passado em que a agricultura era a atividade exercida pela maioria dos homens. Assim se posiciona Mendras. Esse é um dos aspectos pouco considerados pelos estudiosos." (MENDRAS apud JOLLIVET. o sociólogo rural deve. Entretanto. Os etnólogos estudam as estruturas ditas ‘arcaicas’ nas quais a busca ou a produção de alimentos ocupam todos os homens. senão que a síntese de todas elas. a Sociologia Rural que deveria ser uma das especificidades em que se divide a Sociologia Especial. entre outras. aliás. às vezes. portanto. perde também o seu caráter de disciplina específica. a história social dá um grande destaque à descrição da vida camponesa. na medida em que sua análise pode ser dividida em áreas como a da família. Nesse sentido. A Sociologia Urbana. antes de ser Rural ou Especial.então nos é admitir que. por conseguinte. promover a integração das análises feitas pelo rural.

mas isso é apenas aparência. comandada pelo processo de industrialização que o campo está conhecendo. haja vista que esta não reconhece a sociedade rural como um de seus grupos sociais. tem feito com que vários colegas autores tratem o campo como se trata a cidade/indústria. tomando como ponto de partido a questão francesa. Dessa forma. "o bloco do rural". esquecendo que as especificidades de cada um não foram ainda eliminadas" (OLIVEIRA. 1958). Isso ocorre porque se está implantando no campo o modo industrial de produzir. segundo Mendras (1958). JOLLIVET (1998). Não se trata de "agricultores" ou "pecuaristas". quando o mundo destruído envidava um esforço generalizado para a reconstrução. Esse seria um dos motivos para o trabalho integrado dessas ciências. Esses temas não foram exclusividades do povo francês. A questão . que conserva uma certa autonomia em face da sociedade global" (MENDRAS. como se esse formasse um bloco independente. entende que eles estão interligados. 2002:8). O que deve ser vislumbrado é o fato de que o trabalho do sociólogo rural tem uma duplicidade de objetivos: compreender o social rural e integrá-lo no social global. criou rapidamente um forte contingente de trabalhadores rurais-urbanos. Essa temática começou a ser tratada com mais intensidade após a segunda grande guerra. o estudo da sociedade rural se baseia no entendimento de que existem elos de ligação muito finos entre os diversos tratamentos dados ao seu "objeto material" por cada uma das ciências sociais que abordam essa temática. de forma a poder integrar-se à sociedade global. reinterpretar. sendo impossível reduzi-la a um grupo econômico profissional. a análise ruralista se fundamentará na hipótese de "existência nos países que têm um campesinato tradicional. e.1. o desenvolvimento local. – O Objetivo da Sociologia Rural. Esse fato. sintetizar e integrar sob o seu ponto de vista. incontestável.urbanização. tem uma dupla orientação: estudar as especificidades próprias de sua área de estudos. sem maiores dificuldades. com relação ao grupo dos agricultores e dos pecuaristas. o meio ambiente. e. A sociedade rural goza apenas de uma certa autonomia diante da sociedade global. de uma sociedade rural. por exemplo. as transformações da agricultura. 2. certamente várias nações do mundo. a industrialização e a modernização. Essa postura parece dar ao trabalho do grupo um caráter fechado e isolado do restante do conhecimento. os brasileiros também vivem o mesmo drama. os estudos das demais ciências sociais rurais. As relações cidade-campo. a fim de se obter a compreensão global da sociedade rural. a ênfase do trabalho será na mudança social que se caracterizará com a transformação do camponês em agricultor ou pecuarista.2. todavia o faz. ou qualquer outro grupo reconhecido. levado a efeito pelos seus pesquisadores ao longo da história. 2.2. ou seja. podendo ser sintetizados em cinco temas principais: as relações cidade-campo. Para alcançar esses resultados propostos. sendo o objetivo da Sociologia Rural. Nesse sentido. A tarefa do Sociólogo Rural. demonstrar a validade dessa proposição. a posição dos camponeses na sociedade. Quando ao estudo particular da sociologia rural. o trabalho deve ter coerência interna e externa para que seja realmente um conhecimento científico válido.

a morte ou o renascimento do rural. antes coberto por uma vegetação natural. plantação. como obstáculo para o desenvolvimento do país. Produzida por causas naturais. mas que apenas explora o campo). a rurbanização. em especial na bacia amazônica. no entanto. segundo os ambientalistas. onde não se vê uma árvore sequer. Para a cidade. Atender essa demanda vai implicar em muitas mudanças. hoje coberto por extensas plantações. Essa riqueza vegetal foi encarada. pode-se destacar o fato de que várias áreas do Brasil vêm se desertificando. plantação e plantação. considera-se uma região desértica quando sua precipitação média anual é inferior a 250 mm" (BARSA. E. 2001:132b). absorvendo as lições da guerra. arroz. declara que ela "é a degradação do meio natural.uma área maior do que a França. Em geral. pouco se incomodando com as conseqüências dos atos que pratica para assegurar essa produção. levaria ao desaparecimento da floresta até o final do século XX. em princípio. Alguns ainda estão vivendo esses dramas rurais. pode-se perceber as mudanças que esse tipo de empreendedor (que não é do campo. Fotografias de satélite tiradas em 1988 revelaram que o desmatamento realizado em pouco mais de dez anos na Amazônia atingia 12% da região . em conseqüência do desmatamento desenfreado para aumentar a produção. é dependente da matéria-prima e. que não vive no campo. Por conta dessa situação. como a caatinga. De que forma a sociedade rural enfrentará os problemas modernos? A cidade não é capaz de bastar-se. vem ocasionando na paisagem brasileira. como as mudanças climáticas. Partir do nada destruído e retomar o ritmo da vida. no . a conceituar a desertificação. a sociedade rural européia. No início da década de 1990. principalmente de muito alimento. Os maiores danos são causados na região dos cerrados. apenas soja. Viajando pelo país afora. onde normalmente acontecem as novidades. 2001). Esse ritmo de devastação. cuja única preocupação é produzir e ganhar dinheiro. a uniformização dos modos de vida. igualmente. Agora ela deveria ser utilizada para a reconstrução e a implantação do novo mundo. com tendência à criação de zonas desérticas. A título de ilustração. posteriormente. a qual fora usada para matar e destruir. "Trinta por cento das áreas de floresta tropical do planeta estão concentradas no Brasil. Mas a própria Britânica. esse esforço seria normal. Segundo a Enciclopédia Britânica. veio a enfrentar situações as mais complicadas. como: a desertificação. E que lições! Quanta diferença houve entre o corpo-a-corpo dos soldados na primeira grande guerra e o corpo-a-máquina da segunda! A modernidade trouxera a tecnologia. ou derivadas da ação humana. mas nenhum deserto. como o desmatamento" (BARSA. Seria apenas uma questão de acomodação a um estilo de desenvolvimento mais acelerado. não é autárquica. milho. várias partes do mundo. aqueles que não podem continuam passando e morrendo de fome) criou o empresário rural. A preocupação em produzir para atender a demanda mundial de alimentos (principalmente do mundo que pode pagar por eles.que se discutia era a de saber se os campos seriam capazes de suportar as mudanças. Mas e o campo? O progresso sempre demorou um pouco mais a chegar lá. pois essas são questões mais pertinentemente urbanas do que rurais. vieram a passar pela mesma situação. problemas com terras não cultivadas. algodão. principalmente a partir da década de 1970. o Brasil tem "regiões semi-áridas.

por meio de programas de reflorestamento. representantes de 150 países iniciaram em Dacar. Mas. Segundo dados das Nações Unidas. 1998). onde as pequenas propriedades plantam cana e criam frangos . O processo de degradação afeta diretamente 250 milhões de pessoas e pode chegar a prejudicar um bilhão. Em novembro de 1998.entanto. 2001:137). A Sociologia Rural depende da análise realizada por cada uma das diversas ciências sociais que analisam os fenômenos rurais. uma vez transformado em agricultor e feito membro ativo da sociedade global. O que plantar também deixa de ser uma decisão particular. mesmo ao incluírem a exploração econômica da floresta. Esse fenômeno é bastante comum na região centro-sul de Mato Grosso. nos municípios de Jaciara e Campo Verde. a desertificação causa prejuízos de 42 bilhões de dólares ao ano. A América do Norte. planta-se o que é requerido. capital do Senegal. mas cujas conclusões interessam à Sociologia Rural para complementar a sua análise da sociedade rural. exploração de madeira. com 73%. construção de estradas e hidrelétricas. é a meta maior da Sociologia Rural. em particular. favoreçam sua recuperação gradual. e a África. portanto. mineração. "O desmatamento é uma das principais causas da seca. Exemplo óbvio é o da Etiópia. É. Ásia e África. As transformações atingem "não só o estabelecimento agrícola e o trabalho do agricultor. o que já foi degradado. porque a derrubada de árvores destrói as bacias hidrográficas e empobrece o solo. esta exige novas e constantes transformações para atender a demanda dos demais grupos sociais que a completam e que implicam na adoção de um modo de vida totalmente diferente. As ações desenvolvidas pelos homens do campo que conduzem às transformações da agricultura e que levam a propriedade rural a tornar-se uma propriedade agrícola. agricultura em pequenas propriedades e crescimento urbano". um fator intensificador da pobreza em países da América Latina.2 – As transformações da agricultura. em todas as regiões da Terra. e os camponeses a ser agricultores – um grupo reconhecido pela sociedade –. Já não se trata de produzir apenas para a subsistência da família. As principais causas do desmatamento na região eram a criação de gado. 2. mais atribuída à recessão econômica do que à consciência ecológica. com 74% de terras áridas ou semiáridas. O grande desafio ambiental do mundo contemporâneo consiste em recuperar. impedir que o processo de desmatamento indiscriminado tenha continuidade e desenvolver projetos que. As pequenas fazendas precisam se adequar às grandes. as taxas de desmatamento apresentaram uma redução. com a reposição garantida do que for retirado e respeito aos ciclos biológicos das diversas espécies" (BARSA. mas também – tendo em vista o estreito laço entre o estabelecimento e a família – a transformação da família agrícola" (JOLLIVET. onde a devastação da vegetação natural reduziu a capacidade de armazenamento de umidade da terra e agravou os efeitos da estiagem sobre a agricultura. a II Cúpula Mundial sobre desertificação. 2004). Muitas vezes elas apenas complementam a produção daquelas. para que possa fazer a sua síntese integradora que assegure a explicação unitária e global da sociedade rural. eram as regiões mais preocupantes (PANORAMA.2. cujo estudo é a meta da Sociologia Agrícola. São toleradas.

cujas metas são a geração de 7. do acesso tecnológico colocado à disposição da agricultura capitalista. Normalmente os assentados são pessoas que trabalhavam como arrendatários e foram desagregados. Isso significa que. do estabelecimento de novas relações com a indústria. Este processo tem sido possível em função. entregue ao granjeiro os pintinhos e a ração que comerão até o abate. é uma proposta de geração de emprego e renda. ao granjeiro" (OLIVEIRA. alguns pequenos proprietários aderiram ao projeto. para superar a recessão que passou a vivenciar desde o início desta década. o costume é assentar "sem-terras". Depois de atingirem um peso médio de 1. os acordos com as industrias acabaram sendo cancelados e o projeto está temporariamente desativado. em uma área de 6. mesmo com essa mudança. "O processo de desenvolvimento recente no campo brasileiro tem criado condições para que uma fração do campesinato amplie a produtividade no trabalho familiar. através do INCRA. Tangará da Serra. Na região de Poxoréo. ainda não houve o envolvimento esperado e.500 empregos diretos. que foi modificado e transformado em apenas um projeto de produção. Em 1997 o Município fez acordos com a Maguari. de outro. Em todas as propostas de assentamento fundiário postas em prática no Brasil. de um lado. os frangos são entregues para o abate. desde 1997 a Administração Municipal vem incentivando o plantio do maracujá para fins industriais. mas não . a própria Prefeitura implantou dos "Casulos" com o apoio do INCRA.para atender à demanda das indústria de açúcar e do frango. A indústria destina uma percentagem do preço final. abandonando-se a idéia original do assentamento de profissionais rurais. 2002:71). a ser cultivada com frutas tropicais. beneficiando um total estimado de 30 mil pessoas" (SOUSA.o processo de produção e industrialização de Poxoréo – MT".5 kg. com a Superbom. Para começar a vender a idéia. A mesma situação acontece em Nova Olímpia. diferente das formas convencionais tradicionalmente utilizadas pelo INCRA. como alternativa para a mudança de atividade econômica. a indústria de ração que também industrializa e comercializa o frango. O "TecnoFrutas" — como foi batizado o projeto —. em decorrência do esgotamento das jazidas diamantíferas que sustentara o seu desenvolvimento desde 1924. "A implantação do "TecnoFrutas . não obtendo sucesso.400 hectares. "Trata-se de algo inédito. O Tecnofrutas visava produzir alimentos de forma orientada para atender à demanda das indústrias. ou então eram sertanejos que saíram do campo e se mudaram para as cidades acreditando que sua sorte mudaria e que. foi a forma encontrada pelo Governo do Município. 1999:6). As indústrias consumidoras de produtos de origem agrícola ou pecuária chamam estas relações de produção integrada. de Minas Gerais e em 2001. do garimpo para a fruticultura. Este processo tem sido objeto de muitos estudos. por gerenciamento inadequado. Barra do Bugres e região. no caso da avicultura. onde se planta cana para a Itamarati. através do assentamento fundiário de 200 profissionais agrícolas. enquanto tentava viabilizar os recursos que viabilizariam o projeto. e. respectivamente. desejam voltar ao campo. que pode variar em torno de 15%. Na expectativa de garantia de venda da produção. por exemplo. Todavia. por exemplo.

o momento em que se deu a transição da pré-história para o período neolítico.264 mil em 1970 para 1. importância capital na história .o número de propriedades rurais na região sul caiu de 1. ao mesmo tempo que o subordina mais. sujeita a renda da terra aos interesses do capital. 2. 2002:72).possuem mais os campos para voltar. 10). "Dessa forma. com o esgotamento das jazidas. Dessa forma eles estão vendendo as suas propriedades e vindo para o Centro-Oeste e Rondônia. vêm abrindo no espaço distante a possibilidade de acumulação" (OLIVEIRA. não fica com quem produziu. Não se muda de um dia para o outro. Onde conseguem comprar grandes áreas de terras. A renda da terra. é o caso dos camponeses do sul produtores de soja. os quais vão se tornando médios e futuros grandes proprietários. os quais devem ser deixados como representantes históricos de uma classe de garimpeiros que está fadada ao desaparecimento na região. São pessoas que. pessoas formadas e qualificadas para trabalhar a terra de forma adequada. Para eles. Tem ele. As pequenas propriedades do sul estão no limite máximo de sua capacidade produtiva. Assim. As propriedades são pequenas e limitam a sua capacidade de produção. antes que eles sigam os exemplos de seus pais. camponês. em sua grande maioria. sem necessariamente expropriar a terra do camponês. 2002:72). mas sim no seio de um processo contraditório. mas que não dominam as modernas tecnologias e conhecimentos. em virtude da enorme variação de preço do hectare nessa região em comparação com o sul do país. nada foi senão o surgimento do primeiro campesinato. o Município de Poxoréo se propõe a realizar o assentamento de "profissionais da terra". ou seja. pois. acumularam condições para produzirem mais. abrindo espaço no Sul para a continuidade e possibilidade da concentração de terras para uma fração de camponeses que têm acumulado riqueza neste processo. a produção integrada campo/indústria atingiu também o sul do país no que tange à suinocultura – os granjeiros produzem milho e engordam suínos para as indústrias de carne – e à produção de fumo – que atende aos oligopólios das indústrias de cigarros.3. a mudança cultural é praticamente inviável. Contrariando essa linha. o processo de industrialização da agricultura que. "A origem da civilização. e. Uma experiência diferente e que se relaciona com Primavera do Leste. mas se realiza parte na indústria e parte no sistema financeiro" (OLIVEIRA. "O que estamos assistindo de fato é. pois. mas não possuem espaço territorial para fazê-lo. Os camponeses. não estão diante da expropriação inevitável pelo avanço das relações capitalistas de produção no campo. conseqüentemente. promove o seu deslocamento territorial. utilizando o conhecimento e a tecnologia disponível" (SOUSA. possuem apenas a experiência rural. No registro de Ariovaldo de Oliveira. Uma das idéias que está implícita no Tecnofrutas é que se deve trabalhar as novas gerações para uma nova forma de trabalho que não seja o garimpo. 1999. A questão em Poxoréo é cultural e cultura é algo arraigado na personalidade das pessoas. A posição dos camponeses na sociedade. Normalmente vendem suas propriedades para os vizinhos. MT. Além das situações particularizadas de Mato Grosso.145 mil em 1980.2. produzida pelo trabalho familiar. ao longo dos anos.

O produto de seu trabalho destina-se primordialmente ao sustento da própria família. como é o caso dos "bóias-frias" brasileiros. Teoria histórica. trabalhadores sem terra. em oposição ao senhoriato. difundiram-se as empresas agrícolas em moldes capitalistas cujo objetivo era a produção e a venda da colheita. deduzida a parte do aluguel da terra. homem livre que pagava o aluguel da terra ao senhor com parte da colheita. "Segundo essa corrente. O desaparecimento da escravatura possibilitou o aumento das parcelas arrendadas a colonos. reservando pequena parcela para o sustento do proprietário. então. que se empregam como assalariados.3. coexistiam em propriedades gaulesas o escravo e o colono. em coexistência no entanto com as unidades agrárias camponesas remanescentes. "As comunidades passaram a desenvolver sobre os pastos. Essa tendência foi diminuindo à medida que se desenvolvia a sociedade e aumentava o empobrecimento dos senhores. congregando várias gerações e famílias colaterais estabelecidas na mesma vizinhança. defendido pelo antropólogo americano Robert Redfield. Surgiram. No entanto. Outro tipo de senhoriato foi herdado de Roma. o campesinato francês desenvolveu-se. no início do século XVIII. 2. A classe dos senhores se originou da existência de diferenças de recursos e de prestígio entre os próprios camponeses: o membro do grupo que se destacava por suas qualidades ou riquezas rodeava-se de seguidores. "O fenômeno do campesinato tem sido estudado sob dois aspectos: o histórico. Com a revolução agrícola. segundo Bloch. às vezes por temporada. o que caracteriza a sociedade camponesa da França é sua relação com a instituição senhorial. que utilizam os membros da família como força de trabalho. sendo . a dos camponeses remediados.2. braçais. "As principais características desse tipo de campesinato perduram até hoje. uma vez que dos primeiros núcleos camponeses derivariam as posteriores culturas urbanas. e a dos jornaleiros. Nele se identificam essencialmente três camadas: a dos camponeses ricos. subordinada e explorada pelo senhoriato. e o socioantropológico. O campesinato cultiva extensões limitadas. florestas e rios um sistema de direitos coletivos que eram respeitados e defendidos por todos os camponeses. Assim. denominados parceiros. os lavradores ricos. A família. no início.humana. sem a qual não seria possível compreender nem uma nem outra.1. podendo ser vendido ou não o excedente da colheita. quando esta não é própria. constitui sempre a unidade social de exploração da propriedade. "O campesinato está longe de ser homogêneo. chefiada pelo pai. preconizado pelo francês Marc Bloch. O campesinato caracterizava-se por ser uma camada inferior. existiam na França grandes conjuntos familiares. O desaparecimento dessa subordinação ao senhoriato não logrou alçar a camada camponesa a uma posição elevada. usando instrumentos e técnicas rudimentares e mão-de-obra familiar. possuidores de animais de lavoura e de transporte e que eventualmente contratam assalariados. e ela permaneceu subordinada a um conjunto de camadas sociais nas quais se inseria como inferior. "Campesinato é o grupo social formado pela massa de trabalhadores da terra e pequenos proprietários rurais. Cada família-membro cultivava sua parcela para subsistência e o excedente era vendido ou trocado.

Os instrumentos de trabalho são rudimentares e o excedente de produção é vendido ou trocado em mercados locais. terça). a desapropriação dos bens da nobreza e do clero possibilitou a venda de terras a burgueses citadinos.2. encarregado da produção de alimentos para essas fazendas e para os povoados. "Com a revolução francesa. o regime de pagamento do aluguel da terra com parte da colheita (meia. Essa complementaridade deriva da dominação política que a cidade. submetida à camada urbana. localizados em terras devolutas ou sem autorização do proprietário. cultiva pequenas áreas.que. os mais abastados. Sitiantes independentes formavam parte da comunidade camponesa. coexistiu com a escravidão uma camada camponesa semelhante à descrita por Marc Bloch na Europa feudal. O camponês constitui uma camada social inferior. em regra. uma preocupação com a segurança. ao lado dos escravos. Os camponeses surgem nas sociedades em que a cidade e o meio rural coexistem em situação mais ou menos equilibrada. A família é a unidade econômica de base e se insere em um grupo de vizinhança.2. um campesinato livre. 2. e noções básicas de ética derivadas da importância atribuída ao trabalho. acentuou-se a subordinação do campesinato à sociedade urbana em desenvolvimento. onde se instalavam. A relação entre o campesinato e a cidade é de complementaridade econômica. que passaram a alugar ou arrendar suas terras aos camponeses. "O camponês latino-americano pratica a policultura e a criação em pequena escala. consagra uma porção significativa da colheita à subsistência e utiliza mão-de-obra familiar. e suas características são: atitudes práticas e utilitárias com relação à natureza. Entre esses. os lavradores abastados passaram a se utilizar dos métodos capitalistas. orientadas primariamente para a subsistência da família. praticamente monopolizavam a comercialização dos produtos agrícolas. "No Brasil.2. (2) parceiros. "Essa segunda orientação relaciona o campesinato com diferentes tipos de sociedades. ao mesmo tempo em que se multiplicavam os pequenos proprietários camponeses. Esse tipo de campesinato é formado por unidades domésticas de produção. elevado apreço à procriação e à progênie. No decorrer do século XIX. uma vez que cabe ao camponês abastecer a cidade. América Latina. como poder central. e continuou após a abolição da escravatura. vendendo o excedente da produção nas cidades e passando a ser comandados por citadinos. seu trabalho satisfaz as necessidades essenciais da vida. contudo. com os quais não tinham condições de competir. ou o equivalente em . Durante a revolução.3. Os camponeses tornaram-se policultores. considerado como um mandamento divino a ser cumprido. 2. possuidores de animais. que pagam o aluguel da terra com uma percentagem da colheita. exerce sobre o campo. Era freqüente. Teoria antropológica.3. valorização positiva do trabalho. "Além de camponeses proprietários. em segundo plano diante dos fazendeiros monocultores e grandes criadores de gado. desejo de enriquecer.3. possui tecnologia pré-industrial. a comunidade permite que seus membros se desliguem para criar situações socioeconômicas distintas. sempre existiram: (1) posseiros. Permaneceram. Nas fazendas monocultoras ou de criação de gado havia. Apesar de sua feição autoritária. é iletrado.

(5) camponeses sem terra. "Observa-se hoje no campesinato brasileiro um movimento de migração para as cidades. Há regiões no país nas quais os processos de irrigação. cultivassem e tornassem rentáveis. exceto por compra. A área média das pequenas propriedades não ultrapassa os vinte hectares e a numerosa população rural vive em péssimas condições de higiene e alimentação. e apenas três no sul.dinheiro. o analfabetismo prevalece e inexistem as escolas técnico-agrícolas. numa tentativa de coibir o regime de posse. medidas que refletem os privilégios dos proprietários mais próximos da metrópole. os estados.3. "Reforma agrária é o termo empregado para designar o conjunto de medidas jurídicoeconômicas que visam a desconcentrar a propriedade das terras cultiváveis a fim de torná-las produtivas. (4) moradores ou agregados. Por esse direito. "A concentração de terras em mãos de poucos grandes fazendeiros. 2. para os quais o aluguel da terra é fixo. Sua implantação tem como resultados o aumento da produção agrícola. 2001:339) 2. em conseqüência da falta de um projeto global de política agrária que solucione seus problemas estruturais". independentemente da quantidade colhida.4. o que resulta em elevados índices de mortalidade. que alugam seu trabalho. quando a coroa portuguesa simplesmente transplantou o sistema feudal inoperante da metrópole para as terras da colônia.4 . "A má distribuição da terra no Brasil data do início da colonização. porém. no norte da colônia. cultivando nelas certos gêneros. o colono podia conservar legalmente as terras que seu trabalho e dinheiro recuperassem. grandes monoculturas de exportação e milhões de trabalhadores rurais sem terra. "A primeira modificação importante na legislação agrária do Brasil data da vinda da corte portuguesa em 1808. João sancionou decreto que permitia a concessão de sesmarias a estrangeiros. Inauguraram também o regime de posse. procedentes de vários países da Europa. A lei vigorou até a promulgação da constituição republicana de 1891. "O Brasil apresenta uma estrutura agrária em que convivem extensos latifúndios improdutivos. que concedia autonomia legislativa aos estados da federação. apropriavam-se de terras incultas.Reforma agrária. quando o príncipe regente D. Sua problemática confunde-se com os primórdios da agricultura.2. a formação da família patriarcal e a delimitação da propriedade privada. tem sido o maior entrave à justiça social no campo. pois os que não possuíam recursos suficientes para receber e cultivar sesmarias. a quem pagam com dias de serviço. localizaram-se no sul e deram início ali ao processo de formação da pequena propriedade agrária. Algumas sesmarias chegaram a atingir uma extensão de cinqüenta léguas. No tocante às leis agrárias. que habitam as propriedades monocultoras. Interessada na produção do açúcar. a ampliação do mercado interno de um país e a melhora do nível de vida das populações rurais. (3) arrendatários. Os colonos. .3. adquirindo-as pelo chamado direito de fogo morto.2. fertilização e recuperação do solo são desconhecidos. (BARSA. com permissão do proprietário. "A primeira Lei de Terras do Brasil data de 1850 e proibia a aquisição de terras devolutas. sistema de propriedade rural que se denomina latifúndio. estimulou a instalação de engenhos e concedeu vastas sesmarias a indivíduos que estivessem em condições de investir na lavoura canavieira. Questão agrária no Brasil.1.

a aprovação de um princípio constitucional segundo o qual a terra não poderia ser mantida improdutiva por força do direito de propriedade. conseguiu manter incólume o regime de propriedade e os privilégios de que desfrutava. seja no de harmonizá-las com o processo de industrialização do país".3. promulgado em 1916. se pretendia distribuir pequenos lotes a dez milhões de famílias. regeu a ocupação do Centro-Oeste e da Amazônia. em 1963.1.2. Sobreveio então o golpe militar de 1964.22. sucederam-se os decretos que regulamentaram aspectos da propriedade da terra. o latifúndio exerceu sempre poderosa influência sobre as decisões oficiais. endossaram os princípios e normas da Lei de Terras.3. "A mesma legislação.4. as atividades agropecuárias. que exigia aprovação do Senado para qualquer concessão superior a dez mil hectares. o estatuto define a reforma agrária como "o conjunto de medidas que visam a promover melhor distribuição da terra. "Em 30 de novembro de 1964 o Congresso Nacional aprovou a lei número 4.4. que interrompeu a ampla mobilização nacional em favor da reforma agrária. proibiu a legitimação das posses e a revalidação de sesmarias. arrecadação dos bens vagos.exceto por alterações muito superficiais. no interesse da economia rural. que dispôs sobre o Estatuto da Terra. mas nenhum modificou fundamentalmente a má distribuição da propriedade fundiária no país. Na base da pirâmide social. 2. doação.504. Por meio de seus representantes nos órgãos de governo locais e federais. cem mil e até um milhão de hectares. Por essa via.1.1. Em seu artigo primeiro. Depois da constituição das organizações internacionais de direitos humanos. "O governo do presidente João Goulart propôs. compra e venda. "A partir da proclamação da república. Aqueles que não tivessem regularizado suas posses até o início da vigência do código só poderiam fazê-lo com base no instituto do usucapião. que o acesso à propriedade territorial será efetivado mediante a distribuição ou a redistribuição de terras. As diferenças sociais se agravaram e estenderam. O parágrafo segundo do mesmo artigo esclarece que "o objetivo dessa política é amparar e orientar. pela execução das seguintes medidas: desapropriação por interesse social mediante prévia indenização em títulos da dívida pública. modificando o regime de sua posse e uso. "O princípio segundo o qual a posse não garante a propriedade vedou ao trabalhador rural o acesso à terra e propiciou a formação de uma casta de latifundiários que se apossou das áreas rurais brasileiras. já arcaica e ineficaz no início da colonização. ainda. uma vasta classe de despossuídos foi relegada à mais extrema miséria e teve suas reivindicações reprimidas sistematicamente com violência. na segunda metade do século XX. reversão à posse do poder público de . Reza. sobrevivendo assim à industrialização e às mudanças sociais ocorridas nos meios urbanos.2. 2. assassinato de líderes dos trabalhadores rurais e toda sorte de violência. O código civil brasileiro. "Tradicionalmente identificado com o setor mais conservador da cena política brasileira. em flagrante desobediência à constituição de 1946. Multiplicaram-se as propriedades de dez mil. Problemas sociais e ação política. seja no sentido de garantir o pleno emprego. grilagem de terras. a fim de atender aos princípios de justiça social e ao aumento da produtividade". proliferaram as denúncias de exploração do trabalho escravo. Estatuto da Terra.

se distribui no planeta segundo uma ordem naturalmente harmoniosa. herança ou legado. Com o DLIS surge uma nova situação em que faz-se necessário comprovar a viabilidade do projeto. o Congresso aprovou duas medidas para facilitar a reforma agrária: o aumento dos percentuais do imposto territorial rural (ITR) para as propriedades improdutivas e o rito sumário. de 25 de abril de 1969. . constituindo comunidades bióticas.2.ar. sua existência em comum. regulou o processo especial de desapropriação dos imóveis rurais situados em áreas declaradas prioritárias. Os princípios básicos de conservação da natureza foram enunciados pelos ecologistas. proposto pelo novo ministério. "O ar. no ecossistema. nem os organismos financeiros internacionais estão querendo financiar projetos que não apresentam um retorno concreto. 2. O Plano Nacional de Reforma Agrária. O mais importante deles foi o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST).4.um profundo equilíbrio. que permite a desapropriação imediata das terras. Durante muitos anos trabalhou-se com a idéia de fundo perdido. segundo os quais a matéria viva. A fim de promover e coordenar a implementação do estatuto e decretos complementares. água. cuja ação se baseia na ocupação de terras para pressionar o governo a fazer a reforma agrária. Hoje trabalha-se com a idéia do desenvolvimento local integrado e sustentável (DLIS). entende-se por conservação da natureza ou conservacionismo o esforço centrado em políticas e técnicas que têm por fim preservar na Terra condições propícias à vida e a uma integração maior entre as espécies. Esse desenvolvimento vem sendo controlado por empresas contratadas pelo governo especialmente para auxiliar e orientar os pequenos proprietários na montagem dos projetos. em 1970. as plantas e os animais são essenciais à vida do homem. A partir do fim da década de 1980 intensificaram-se os conflitos no campo e surgiram novos grupos em defesa da reforma agrária.5. para executar o Estatuto da Terra. O decreto-lei nº 554. Tais comunidades mantêm entre si.terras de sua propriedade indevidamente ocupadas e exploradas. O desenvolvimento local. ou seja. Nem o governo. mas enfrentou forte resistência no campo para sua implementação. a água. o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA). A base da indenização aprovada foi o valor declarado para efeito de pagamento do imposto territorial rural. tinha como principal instrumento a desapropriação e previa o assentamento de sete milhões de trabalhadores. por terceiros. solo. Como esses recursos não são inesgotáveis. o governo federal criou. Financiava-se a pequena propriedade e não se avaliava os resultados do investimento.2. o bem-estar futuro da humanidade depende fundamentalmente de uma atitude positiva voltada para a conservação da natureza. "Em julho de 1985 o governo instituiu o Ministério da Reforma e do Desenvolvimento Agrário. relevo. que é a essência que determina e regula. em zonas críticas ou de tensão social. nas biocenoses. o solo. e com o meio ambiente . um grau de risco pequeno. composta de centenas de milhares de espécies e variedades de animais e plantas. os minerais. a qualquer título. energia solar etc." . "A constituição de 1967 endossou o estatuto ao permitir a desapropriação da propriedade rural com o objetivo de promover a justiça social." "Em sentido amplo. Em 1996. que absorveu as atribuições dos órgãos anteriores. O meio ambiente. 2. ou seja.

e sim a leis econômicas. A carga sólida dos cursos fluviais também sofre considerável aumento. porém. blocos de pedra e eventuais construções. arrastando húmus e minerais solúveis. empobrecimento ou esgotamento dos solos. da fauna. com a extinção de seus refúgios. para que todo o conjunto venha a se modificar profundamente. segundo o clima reinante na região. a formação de crostas no solo. que não ocorria antes devido aos obstáculos impostos pela capa de húmus do solo. alteração do regime de águas ou do clima. variável em cada região natural. Não sendo absorvida pelas raízes." "Em trechos de encostas íngremes. poluição. Ao procurar defender os "recursos naturais". É comum que esse processo de ravinamento tenha início num corte de estrada ou de caminho carroçável." "A derrubada de matas ou sua destruição pelo fogo causam danos imediatos à fauna. chamadas voçorocas no sul do Brasil. capazes de arrastar ladeira abaixo árvores. estudados pormenorizadamente cada um dos componentes dos ecossistemas. A rápida transformação do ambiente provocada pelo homem não obedeceu."Assim. e diferenciados em escala crescente à medida que os meios técnicos evoluíam. aumentam muito o número de fissuras do solo. o homem tornouse cada vez mais capaz de criar ambientes artificiais. acarretando profundas alterações na distribuição das populações animais. isto é. ou então em ravinas. por exemplo. que podem ser lateríticas ou calcárias. se desaparece. após chuvas prolongadas. O calor do fogo dilata as partículas minerais que. A mata exerce. por onde as águas se infiltrarão. da flora. em zonas de vegetação aberta. bem como partículas finas em suspensão." "Basta que seja alterado um dos elementos do ecossistema. formando enxurradas. além de um determinado ponto crítico. das águas continentais e marinhas. quando as primeiras dessas leis são transgredidas. erosão ou lixiviação (lavagem de sais do solo) aceleradas. Os rios que percorrem regiões florestais devastadas alteram em pouco tempo sua descarga e tendem a um regime torrencial." "Os incêndios nas matas. Desde o surgimento da sociedade humana. a leis de conservação da natureza. Em determinadas . Essa erosão pode ocorrer sem leito definido. foram determinados os princípios da conservação dos solos. fontes alimentares e locais de procriação. todo o regime de águas é logo perturbado. a maior parte da água que se infiltra penetra diretamente no solo até o lençol freático. podem provocar a lixiviação. após seu esfriamento. razão pela qual ficam obstruídos muitos rios outrora navegáveis. torna-se muito menor a evaporação da água das chuvas. o papel de uma verdadeira esponja. significando riqueza potencial. os troncos das árvores e as raízes expostas. em qualquer tipo de topografia. extermínio da fauna. Assim se explica. eliminando-se a cobertura florestal numa vasta superfície de relevo acidentado. mas sobretudo em áreas planas." "Já a água de escoamento superficial aumenta de volume e desce incontrolada pelas vertentes. ditos antropogenéticos (as "paisagens culturais" dos geógrafos). são freqüentes os deslizamentos de terra. o conservacionista não toma o vocábulo "recursos" no mesmo sentido que o economista. São essas as principais causas da erosão acelerada. Nessas circunstâncias. no caso." "Aspectos da degradação. em que se alternam inundações e secas. mas apenas no de "condições ambientais". formando sulcos profundos nas encostas. Assim. desencadeiamse processos como degradação ou devastação da flora.

Há milhares de anos existem nessa região áreas destinadas a proteger animais. no Japão implantaram-se em 1868 as áreas verdes de Matsushima. alguns governos." "O antigo conceito simplista de animais úteis e nocivos teve de ser abandonado. ante a evidência de que. cuja influência se estenderia a todo o mundo entre as duas guerras mundiais. Amanohasidate e Miyajima. Em 1895 foi criada uma Comissão Internacional para a Proteção das Aves Úteis à Agricultura." "Impondo-se a mentalidade conservacionista e o conceito da essencialidade de manutenção do equilíbrio. Fontainebleau. possibilitaram a descoberta do fator sanguíneo Rh. que. Da mesma forma. todos têm um papel a desempenhar. voltada para o estudo do comportamento animal. O Extremo Oriente teve a primazia da mentalidade conservacionista. Os macacos Rhesus. bem como entidades privadas. onde os mandarins mantinham espécies de particular interesse em pequenos parques". lutou pelo estabelecimento de uma Comissão Internacional de Proteção à Natureza. de seus recursos instintivos e de seus modos de vida. 1928). por exemplo. que criou condições para que sejam poupadas centenas de milhares de vidas infantis. Daí aos sensores remotos foi um passo. feita com isenção de julgamentos prévios." "Graças ao estudo dos morcegos.circunstâncias. aves corredoras e rapaces começam a predominar. "Desde o início do século XX. instituiu-se em 1898 o parque El Chico. levaram a uma visão bem diversa das relações entre o homem e as diferentes espécies que com ele compartilham a existência na Terra. na Índia. da Índia. simples fungos que infestavam lâminas de microscópio conduziram à invenção da penicilina e à produção de toda uma gama de antibióticos . na organicidade de cada ecossistema. o de Yellowstone. após organizar-se como Office International pour la Protection de la Nature (Organização Internacional para a Proteção da Natureza. ressurgiu como The International Union for Protection of Nature (União Internacional para a Proteção da Natureza. evitando acidentes. com sua longa tradição de respeito pelas coisas da terra. onde o Buda se inspirava. sobre espécies arborícolas e voadoras que se alimentam de plantas. nos Estados Unidos preservou-se em 1864 o vale do Yosemite e em 1872 foi criado o primeiro parque nacional do país. Relevante foi o empenho do naturalista suíço Paul Sarasin. Certas iniciativas pioneiras já datavam de fins do século XIX. como em Sarnath. A observação científica dos animais. os enfoques de uma nova ciência. já ampliou em muito a noção de sua utilidade para os seres humanos. Assim. a etologia. os zoólogos abriram caminho para a descoberta do radar." "Evolução da mentalidade ecológica. no México. justificando-se sua conservação e proteção cuidadosa pelas próprias razões que esses papéis indicam. O movimento protecionista. Bruxelas. que permite a orientação na neblina ou na escuridão. e na China. passaram a reconhecer que a proteção da natureza é assunto de alcance internacional. Os japoneses. desde 1910 até sua morte em 1929." "Em 1900 realizou-se em Londres a Conferência Internacional de Proteção aos Animais da África.fato tomado como exemplo dos benefícios que paralelamente procedem da observação da vida das plantas. 1948) e finalmente se estabilizou como International Union for Conservation of Nature and Natural Resources (União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos . difundiram a teoria e a prática da arquitetura paisagística.

Almanaque. ratificada pelo Brasil em 1965. o barão de Pati do Alferes.1." "Objetivando o intercâmbio técnico-científico e a difusão dos conhecimentos conservacionistas. Na Eco-92. "Conservacionismo no Brasil. foi a Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento. dos primeiros parques nacionais e. 2001:361) BIBLIOGRAFIA ABRIL. a Declaração de Princípios das Florestas. como ficou conhecida. se pusessem a condição de que a sexta parte do terreno nunca haveria de ser derrubada e queimada. Grupos e entidades ecológicas tornaram-se cada vez mais comuns. teve a adesão de 178 países e contou com a presença de mais de cem chefes de estado. sob os auspícios da União Pan-Americana. 1997. em Washington. Em 1821. tomou feição crescentemente política. com a presença de representantes de 62 países e observadores de numerosas entidades. em 1937. como a Convenção para a Proteção da América. a partir das décadas de 1920 e 1930. 1956)." "Na década de 1860. em vista dos problemas de poluição e degradação ambiental que se acumulavam no final do século XX. foram aprovados documentos de fundamental importância para a conservação da natureza. de diversos órgãos governamentais que se sucederam no tempo com específicas atribuições conservacionistas." "O evento de maior amplitude e de repercussão mais profunda. em Paris. "Malgrado a criação. sem que se fizessem novas plantações de bosques". 2. ao mesmo tempo. no Brasil. mobilizando-se em campanhas ao sentir o impacto da degradação de seus ambientes.Naturais. em sintonia com o que então ocorria no restante do mundo". . promoveram-se diversos congressos. Realizada no Rio de Janeiro. sugeriu em seu livro Memória sobre a fundação e custeio de uma fazenda que os fazendeiros evitassem reduzir a cinza as preciosidades vegetais e que o governo tornasse obrigatório o plantio de "paus de lei" à beira das estradas. a Convenção do Clima e a Agenda 21". José Bonifácio de Andrada e Silva propôs que "em todas as vendas de terras que se fizessem e sesmarias que se dessem. A luta pela defesa da natureza. começou a agir de forma organizada pela conservação da natureza. O primeiro documento a referir-se expressamente à conservação da natureza. "A própria sociedade. não raro exercendo pressão sobre as autoridades públicas por decisões mais enérgicas. a consciência da necessidade de proteger a natureza só começou a difundir-se entre a população brasileira após as décadas de 1960 e 1970. que advertia contra o perigo de destruição das matas. Em 1861 fez-se a primeira experiência brasileira de reflorestamento tropical. em 1940. e a Conferência Intergovernamental de Especialistas sobre as Bases Científicas para o Uso Racional e Conservação dos Recursos da Biosfera.5. como a Convenção da Biodiversidade. passando a figurar com destaque entre as plataformas partidárias e as metas de novos governantes". em 1968. no Rio de Janeiro". foi a carta régia de 13 de março de 1797. São Paulo: Abril. em junho de 1992. (BARSA.2. Silvestre e Tijuca. Edimburgo. nas florestas das Paineiras. Francisco Peixoto de Lacerda Werneck.

Rio de Janeiro: Zahar.ed. A terceira onda. 2. São Paulo: Record. URL: http://www. Citações e referências a documentos eletrônicos. O que é sociologia. Sample.biomania. Eric R. [online]. pela variedade de temas tratados. ed. 11. Busca-se compreender de que forma essas influências teóricas determinam a forma em que os cientistas sociais têm interpretado o “mundo rural” brasileiro. INTRODUÇÃO A produção teórica sobre o “mundo rural” no Brasil dos últimos trinta anos poderia ser caracterizada. [online].. SOLUÇÕES.. Cuiabá: UFMT. 7. URL: http://www. 2002. Tecnofrutas: o processo de produção e industrialização de Poxoréo. 1997. 1994.poxoreo. Biografia de Thomas Robert Malthus. São Paulo: Contexto. São Paulo: Barsa. MARCELIB. Arquivo consultado em 02 de maio de 2004. MARTINS.. Teoria tridimensional do Direito. 1976. LAKATOS.. Disponível na Internet via WWW. São Paulo: Brasiliense. 1997.. A "vocação atual" da sociologia rural in Estudos Sociedade e Agricultura.ed. REALE. Alvin. 5. São Paulo: Atlas. MT. e pelo outro. Eva Maria & MARCONI. Arquivo consultado em 02 de maio de 2004. Sociologia geral. JOLLIVET. Gevilacio Aguiar Coêlho de. 22. Renato. [online].ed. Pesquisa educacional. URL: http://www. URL: http://www. Nova Enciclopédia.ed. Cuiabá: UFMT.. (Coleção Primeiros Passos. Sociedades camponesas. Disponível na Internet via WWW. São Paulo: Saraiva. PRETI.net Arquivo consultado em 02 de maio de 2004. 7ª série. Ariovaldo Umbelino de. 1992. SOUSA. WOLFO. [online]. Miguel. 1999. OLIVEIRA. Vol. Disponível na Internet via WWW.com.quatrocantos. Disponível na Internet via WWW. Oreste. MOURA.BARSA. Izaias Resplandes de. A geografia das lutas no campo. 1999. 2003. Carlos Benedito. A CRISE DA SOCIOLOGIA RURAL NO BRASIL E SUAS TRADIÇÕES TEÓRICAS William Héctor Gómez Soto1 RESUMO Este artigo faz uma avaliação da crise da sociologia rural no Brasil a partir da análise das tradições teóricas que a influenciam principalmente a vertente sociológica americana e o marxismo clássico. 11. Marcel.br/biografias. por um lado. pelo número significativo das pesquisas empíricas realizadas que possibilitaram a coleta de abundantes informações e dados sobre a realidade agrária.cjb. pela influência de referenciais marxistas. 57). TOFFLER. 2001. Marina de Andrade. 1. Porém é . novembro 1998: 5-25. Brasil: para compreender a história. São Paulo: Editora do Brasil.com Última atualização em 01 de janeiro de 2001.

Na primeira parte. Em seguida. Apesar disso. enquanto que a nível internacional existe uma outra dinâmica que incorpora novas questões e novas perspectivas teórico-metodológicas para entender velhos problemas. discutimos as tradições teóricas da sociologia rural. tentamos apreender o processo de mudanças dentro da sociologia rural americana. tendo como ponto de partida a compreensão da evolução da sociologia rural americana. parece ter reduzido as possibilidades de inovações teóricometodológicas que. existe uma relativa incapacidade da “sociologia rural” brasileira de explicar as mudanças no “mundo rural”. iniciado a meados da década de 70 e caracterizado pela recuperação crítica das tradições teóricas de Marx e de Weber e pela emergência de novas questões de pesquisas. Atualmente. do Instituto de Sociologia e Política (UFPEL). predominantes na sociologia americana da década de 60. ao mesmo tempo contemple as mudanças da realidade e as discussões a nível internacional. às tradições teórico-metodológicas funcionalistas. Alguns autores brasileiros parecem ter dificuldade em deixar de lado “velhas idéias” como a “diferenciação social na agricultura e a polarização de classes” oriunda da “tradição marxista clássica”. alguns autores começam a chamar a atenção sobre a necessidade de repensar o “mundo rural” a partir das transformações que estão ocorrendo em escala mundial. em menor grau.necessário assinalar que uma parte importante dessa produção teórica está vinculada. Na quarta 1 Doutor em Sociologia (UFRGS) e Prof. seu contexto histórico e as principais visões. A terceira parte. . A ausência de um debate científico e livre de conotações “ideológicas” sobre a problemática agrária. Este artigo está estruturado em cinco partes. trata sobre a produção teórica brasileira sobre o “mundo rural”.

1. A meados dos anos 60. Missouri. A terceira época. queremos chamar a atenção sobre as transformações econômicas e sociais que estão fazendo emergir um novo “mundo rural” . A segunda época. O aspecto mais importante dessa nova sociologia rural refere-se ao conceito de “estrutura da agricultura”. Essas diferenças são apresentadas . devido a razões teóricas e empíricas. início da década de 50 até início da década de 70.2 parte. Newby (1982) tem argumentado que os trabalhos inovadores sobre a agricultura. constituem uma “nova sociologia rural”. a perspectiva teórica que dominava a sociologia rural (o continuum rural-urbano) entrou em crise. Sorokin e Zimmerman)2. A noção de continuum rural-urbano estabelece uma série de traços da sociedade urbana e a sociedade rural que se supõem funcional e causalmente conectados. O continuum rural-urbano perdeu utilidade na medida em que a população rural diferenciava-se cada vez menos da população rural. e que separam a sociedade rural da urbana. Uma que pode ser chamada de “funcionalista” e a outra de “marxista clássica”. De acordo com Buttel et al (1990). é conhecida como a época do enfoque do comportamento psico-social. um conceito que foi deixado de lado na pesquisa social anterior aos anos 70. Kentucky e Iowa. onde o estudo sobre a agricultura foi construído como um dos muitos elementos necessários para compreender a estrutura social da vida comunitária rural. portanto totalmente incapaz de abrigar o caráter explicativo que se lhe atribuia. A sociologia rural anterior a 1950 teve uma orientação teórica baseada no continuum rural-urbano (Toennies. cuja manifestação mais conhecida foi a difusãoadoção de inovações. desde a metade da década de 70. 1982) mostraram que os conceitos de “urbano” e “rural” não eram nem variáveis explicativas nem categorias sociológicas. Ambas as tradições parecem insuficientes para dar conta das mudanças que estão ocorrendo no mundo rural brasileiro. A inícios da década de 50 essa tradição foi questionada por um novo grupo de sociólogos rurais influenciados pela Psicologia Social e formados principalmente na Cornell University e nas universidades de Wisconsin. Esses autores mostraram que o conceito de “rural” era essencialmente descritivo e empírico e. na sociologia rural americana pode-se identificar três etapas: a primeira vai do início deste século até os primeiros anos da década de 50. Alguns autores (Gans e Pahl apud Newby. Essa situação de “esgotamento” está dando lugar a novas concepções teóricas-metodológicas que alguns autores chamam de “nova sociologia rural” (Newby) ou “sociologia da agricultura” (Buttel). Durante esse período a sociologia rural americana foi dominada por uma perspectiva que definia os produtores como atores que podiam responder a estímulos e a novas tecnologias. refere-se à “nova sociologia da agricultura”. A sociologia do “mundo rural” e suas tradições teóricas A sociologia do “mundo rural” tem estado influenciada principalmente por duas tradições clássicas. Minnesota.

“Desde a habitação rural isolada e até a grande cidade. Em outras palavras.por Sorokin e Zimmerman como extremos de uma escala polar de muitas gradações. existem inúmeros escalões intermediários que vão criando uma transição insensível entre o meio rural propriamente dito e o meio urbano. 1973:12) 2 .” (Solari. existe um contínuo. Entre o meio rural e o meio urbano existe uma gradação infinita.

a agenda mertoniana das Teorias de alcance médio (Middle-Range Theory). onde se combinava o raciocínio da psicologia social com um tipo de análise funcional (ou seja. a noção de que a adoção de novas tecnologias poderia contribuir para uma mudança social positiva). revolucionou a pesquisa e deu coerência à sociologia americana e definiu um modelo de pesquisa sociológico que em muitos aspectos. Essa orientação teórico-metodológica reflete-se na sociologia rural até inícios da década de 70. as teorias intermediárias entre as pequenas. De acordo com Buttel et alii (1990) os primeiros estudos dentro dessa tradição foram. dentro da tradição da psicologia social consideravam que os agricultores eram atores sociais capazes de responder ao estímulo de novas tecnologias agrícolas. apenas guardam uma superficial semelhança com as obras de Durkheim e Weber. Isto era uma premissa para compreender a expansão de novas tecnologias e significava uma postura a favor das mudanças tecnológicas. 1952. Teorias de médio alcance. E. A teoria de adoção-difusão de inovações foi o protótipo da “Theory os Middle-Range”. Ocupa uma situaçào intermediária entre as teorias gerais de sistemas sociais. as quais estão muito afastadas das espécies particulares de . familiares e organizacionais) e relacionados com determinadas unidades de análise. “A teoria de médio alcance é usada principalmente na sociologia para servir de guia às pesquisas empíricas. organização e mudanças sociais. a sintonia do funcionalismo com a análise causal a nível micro era estranha às noções centrais de Durkheim na sua análise da sociedade. Apesar dessas críticas. elaborados por Hoffer (1942)4 e Ryan e Gross (1943)5 em Michigan e Iowa respectivamente. assim como dos meios de comunicação e do sistema educacional. Na tradição de pesquisa dentro da linha da difusão/adoção o agricultor era visto como um ator que respondia a diversos estímulos para melhorar a produção agrícola. como a teoria da difusão e adoção de inovações. A noção de Merton tinha como objetivo permitir que os sociólogos transformassem certas proposições abstratas do funcionalismo parsoniano em hipóteses testáveis com dados a nível micro (individuais. Weber criticou amplamente as metodologias que implicavam a imposição da proposta hipotético-dedutiva das ciências naturais sobre as ciências sociais.A. 1950. Wilkening (1949. mas hipóteses necessárias de trabalho que surgem em abudância durante a rotina das pesquisas diárias e os amplos esforços sistemáticos para desenvolver uma teoria unificada capaz de explicar todas as uniformidades observadas de comportamento. Por exemplo. Para Buttel et alii (1990) a síntese parsoniana e a elaboração de Merton. a partir da síntese parsoniana e de uma incipiente Teoria da Ação enquanto que a noção da Theories of the middle range3 de Merton era a noção central na pesquisa sociológica e na sociologia rural das décadas de 50 e 60. 1954)6 da Universidade de Chicago Merton denomina. O mesmo pode se dizer em relação ao método históricocomparativo de Weber. mantém sua influência até hoje.3 Os sociólogos rurais. Emile Durkheim e Max Weber eram considerados os modelos clássicos de pesquisa dentro da tradição da psicologia social da sociologia rural. Nesse período a sociologia rural foi mais quantitativa que durante a tradição dos estudos da comunidade rural (1900-1950).

Special Bulletin No. Bryce e Gross. organização e mudanças sociais para explicar o que é observado e as minuciosas ordenadas descrições de pormenores que não estão de modo algum generalizados. 1949: 68-69 3 . Acceptance of approved Farming Practices Among Farmers of Dutch Descent.comportamento. 316. Neal C. 5 Ryan. Charles M. Eugene A. “A sociopsychological study of the adoption of improved farming practices”. Rural Sociology 8 (March): 15-24 6 Wilkening. “The diffusion of hybrid seed corn in two Iowa communities”.”Merton (1970:55) 4 Hoffer. East Lansing: Michigan Agricultural Experiment Station. Rural Sociology 14 (March).

____________________ “Informal leaders and innovators in farm practices” Rural Sociology 17 (September). 1956: 284-292. Essa busca significou a redescoberta de um conjunto de propostas clássicas para a compreensão do desenvolvimento agrário.” Amercican Sociological Review 19 (February). Também foram notáveis as contribuições de Fliegel (1956)7. Em 1959. Coughenour (1960)10 e Rogers (1962)11. Kautsky e Chayanov. Wright Mill criticou a teoria parsoniana e chamava a atenção de que as Teorias de Médio Alcance de Merton conduziam a um empiricismo abstrato que sufocava a imaginação sociológica. family decision-making. a lógica básica do desenvolvimento agrário era a vinculação entre a estrutura de classes e a diferenciação social na agricultura e a formação de um mercado interno no capitalismo. A reavaliação da perspectiva teórica dominante na sociologia rural nas décadas de 50 e 60 pode levar a uma nova sociologia rural. lento. particularnente das obras de Marx. Essas perspectivas teóricas sobre a agricultura eram principalmente dedutivistas na medida em que buscavam identificar a lógica particular do desenvolvimento agrário. George e Bohlen. ____________________ “An introductory note on the social aspects of practice adoption. do campesinato. 1952: 272-275. ____________________ “A sociopsychological approach to the study of the acceptance of innovations in farming. caracteriza-se pela busca de teorias adequadas para compreender as estruturas agrárias modernas. por acreditar que os pequenos produtores agrícolas não tinham acesso às novas tecnologias além de serem ecologicamente destrutivas.” Rural Sociology 21 (September/December). a dinâmica central era a penetração do capital urbano-industrial na agricultura e o desaparecimento. As críticas de Mill receberam pouca atenção dos sociólogos rurais.”Rural Sociology 23 (June). mas inevitável. por exemplo. 1954: 29-37. and family integration. essa tecnologia tinha como efeitos a marginalização da agricultura familiar e dos trabalhadores. Frederick. 1950: 352-364. 1958:97-102 7 Fliegel. Outros analisaram os impactos ecológicos da modernização da agricultura e argumentaram que os pesquisadores deviam considerar as variáveis ecológicas se eles queriam compreender a organização social e as mudanças tecnológicas na agricultura. “A multiple correlation analysis of factors associated with adoption of farm practices. A segunda tradição (19751985). Joe.” Rural Sociology 15 (December). Na década de 70 uma nova geração de sociólogos rurais foram influenciados pelas críticas de Mill. na sua Imaginação Sociológica. Muitas das preocupações da sociologia rural traduziam-se em crítica da revolução verde. Gouldner e outros. Para Lenin. Lionberger (1960)9. ____________________”Change in farm technology as related to familism. Lenin. baseada no marxismo. Alguns sociólogos rurais analisaram a estrutura da pesquisa agrícola e o papel da sociologia rural no desenvolvimento e difusão de novas tecnologias. .4 exerceu uma grande influência nas primeiras pesquisas de difusão e adoção de tecnologias agrícolas. Para Kautsky. Beal. Igualmente. Beal e Bohlen (1957)8.

1960 10 Coughenour. New York: Free Press. 1962.” Rural sociology 25 (September). Milton. Special Report 18. Everett M. 8 . Herbert F. “The functioning of farmers charecteristcs in relation to contact with media and practice of adoption.The Diffusion Process. Ames: Iowa State University Press. C. Adoption of New Ideas and Practices. Diffusion of innovations. Ames: Iowa Agricultural Extension Service 9 Lionberger. 1960: 283-297 11 Rogers.

A ênfase de Lenin na diferenciação social do campesinato deve ser entendida na sua tentativa de demonstrar a impossibilidade de estabelecer uma ampla aliança de classes para realizar a Revolução na Rússia. privada.5 Essas teorias dedutivas da estrutura agrária foram úteis no seu tempo e ainda podem fornecer elementos importantes para a pesquisa. por exemplo para garantir a acumulação do capital urbano-industrial.” Abramovay (1992:33) No capitalismo. Portanto é na produção de mercadorias que se encontra a base da diferenciação social que provoca o surgimento das classes sociais. somente os camponeses pobres apoiariam a revolução socialista. a “impossibilidade de definir claramente seus rendimentos demonstra que o conceito de camponês n’O Capital é logicamente impossível”. Segundo Abramovay (1992). ou para racionalizar a produção agrícola. Dessa forma surge uma nova relação social baseada na cooperação. ao mesmo tempo. A burguesia e o proletariado expressam essa contradição. Esses argumentos enfatizam que existe uma lógica última do desenvolvimento que se explica pela necessidade de sua própria dinâmica. Referimos-nos a Questão Agrária de Kautsky e a Desenvolvimento do capitalismo na Rússia de Lenin. um operário e não um camponês. sociais. Esses caráter transitório do campesinato (e de todos os pequenos proprietários) explica a ausência de um conceito de camponês na obra de Marx. o produtor de mercadorias. Para Lenin se o campesinato em seu conjunto apoiaria a revolução democrática. Se o camponês obtém lucro. o campesinato está fatalmente condenado a desaparecer. Isto se explica pela própria lógica de sua obra. essas teorias dedutivas tendem a estar baseadas em argumentos teleológicos. Sendo a burguesia e o proletariado as classes fundamentais da sociedade capitalista. situa-se no plano de uma fenomenologia das formas sociais.. Porém. ele se torna um capitalista. Cabe salientar que Marx não trata sobre as tendências e funções da agricultura familiar no desenvolvimento capitalista. onde o ponto de partida contém o destino final da trajetória: a mercadoria resulta de atividade particular. somente pode satisfazer suas necessidades através do mercado e é ali onde se manifesta a contradição entre o caráter social do trabalho e a apropriação privada de seu resultado. esses argumentos dedutivos abstratos tendem a perder força explicativa diante variações espaciais e temporais. De acordo com Abramovay (1992:36). mas voltada. Se receber salário tratase de um trabalhador assalariado. Quando os trabalhadores exerçam a cooperação e a propriedade comum da terra e dos meios de produção será superada a contradição entre o trabalho social e a apropriação privada. Os debates da socialdemocracia alemã e Russa e os trabalhos de Kautsky e Lenin não se apoiavam nas conclusões de O Capital nem nas partes das Teorias da Mais-Valia em que Marx analisa a questão agrária. . Além disso. Portanto os esforços dos socialdemocratas russos deveriam centrar-se na organização naqueles camponeses que mesmo sendo proprietários vendiam sua força de trabalho. O Capital de Marx: “. para a satisfação de necessidades gerais. as duas obras clássicas sobre a problemática agrária dentro da tradição marxista devem ser analisadas de acordo com o contexto de debate político em que seus autores estavam inseridos..

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Igualmente Kautsky rejeita qualquer possibilidade de incluir no programa do partido qualquer tipo de reivindicação camponesa. Para Engels. mostrou ser falsa. Os anos de mudança: 1975 . Portanto o partido não deveria incluir nenhuma reivindicação camponesa (enquanto proprietários) no seu programa. Para eles. ou estavam estreitamente vinculados a ela. No interior do partido havia duas tendências. tornado esta idéia o ponto de partida e de chegada de suas análises. O desaparecimento desse objeto de estudo subverteu a confiança dos sociólogos rurais dedicados a analisar as diferenças entre o “rural” e o “urbano”. Além disso. mais do que “.. O desenvolvimento do capitalismo no campo não resultou na proletarização dos pequenos produtores.6 É sobre essa idéia da diferenciação social do campesinato que se formou o mais importante paradigma marxista sobre a questão agrária. Enquanto as populações rurais ficavam menos homogêneas. aqueles que consideravam o campesinato em processo de rápido desaparecimento.propriedades objetivas e universais do desenvolvimento do capitalismo no campo”. A sociologia rural podia definir-se como o estudo dos que moravam numa localidade rural e se dedicavam à produção de alimentos. aqueles que buscavam levantar algumas reivindicações específicas para o campesinato (crédito. os camponeses se tornariam capitalistas ou proletários. se insere nesse dilema e denuncia a falsidade dos socialdemocratas que fomentavam a ilusão da permanência dos camponeses no capitalismo e no socialismo. por exemplo). Por um lado. a contradição entre progresso técnico e agricultura familiar enfatizada por Kautsky. a tarefa o partido deveria organizar os trabalhadores assalariados agrícolas e explicar aos camponeses a inevitabilidade de seu desaparecimento. os camponeses poderiam se unir aos proletários na construção da sociedade socialista.. Por sua vez. as previsões de Lenin e Kautsky não se realizaram. Na base dessa argumentação encontra-se a idéia de que os socialdemocratas não poderiam levantar reivindicações de qualquer setor social proprietário de meios de produção. Os marxistas estudiosos da problemática agrária dedicaram-se a encontrar a tendência da diferenciação social. a não ser exigir as mesmas condições de trabalho no campo e na cidade.1995 Os problemas de definição da sociologia rural partem do fato de que o “rural” não constitui uma categoria sociológica. Argumentavam também que a pequena produção era tecnicamente superior à grande exploração capitalista. Para os primeiros. Pelo outro. Para Abramovay (1992:42) a idéia da diferenciação social de Lenin deve ser entendida no contexto do debate entre bolcheviques e mencheviques. os . Contudo. O trabalho de Engels A questão camponesa na França e na Alemanha. a obra de Kautsky deve ser compreendida no contexto do debate da socialdemocracia alemã na busca do apoio da população rural para ampliar sua representação parlamentar. Na Questão Agrária. Kautsky tentou demonstrar a inutilidade de dedicar esforços na organização do campesinato em processo de desaparecimento devido principalmente à superioridade técnica da grande exploração agrícola. No passado esse problema permaneceu oculto devido a que na maior parte das zonas rurais dos países capitalistas industrializados coincidiam as localidades de residência e de trabalho. 2.

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Muitos sociólogos têm negado a possibilidade de estudar a sociedade rural como uma parte da sociedade em seu conjunto. sem referência às teorias “gerais” da sociedade. resulta irônico que a influência da sociologia rural americana tenha se estendido com maior rapidez e amplitude que antes. Sem dúvida trata-se de redefinir os velhos problemas a partir de novas abordagens. De acordo com Newby (1982) as características do estilo “científico” da sociologia rural são as seguintes: positivista. quantitativo e “aplicado”. que requer uma análise mais cuidadosa. A sociologia rural parece enfrentar um conjunto de problemas relativos ao seu objeto de estudo. a sua responsabilidade pública e inclusive a sua competência para fazer pesquisa. Do anterior derivam-se duas consequências: Em primeiro lugar. a sua pertinência teórica. Segundo Newby (1982) a sociologia rural tem-se caracterizado por sua natureza a-teórica e inclusive anti-teórica e até pela sua tentativa de elaborar. Apesar disso. A história desta disciplina tem sido obstaculizada pela busca fútil de uma definição sociológica do “rural” e pela resistência a desconhecer que esse termo é uma categoria empírica mais que sociológica. não existe uma população rural. A perda de confiança na orientação que segue a sociologia rural tem sido maior nos Estados Unidos. não pode existir uma teoria da sociedade rural sem uma teoria da sociedade geral. na década de 70 a sociologia rural parecia ter perdido o rumo. A formulação desta “nova sociologia rural” é um desafio para os sociólogos rurais na atualidade. combinado com uma teoria que explique essa estrutura e essas relações. ou seja. Esta confusão é sintomática de uma dificuldade conceitual mais profunda. constitui uma mera “expressão geográfica”. Mas isto poderia ser compreensível se levamos em conta que os autores clássicos têm descuidado a sociologia rural no seu esforço por criar teorias da sociedade industrial . uma teoria sociológica especificamente rural. A sociologia rural se define melhor como a sociologia das localidades geográficas que têm uma população escassa e de pouca densidade em termos relativos. Contudo. Novos problemas sociais e sociológicos emergentes estariam provocando nos sociólogos rurais o sentimento de que eles não estavam suficientemente preparados para responder a essa nova situação. Para alguns autores como Newby (1982). mas há populações específicas que por razões diversas estão localizadas em zonas rurais. Ainda que a definição mais comum da sociologia rural consiste em considerá-la “o estudo científico da sociedade rural”. esse termo é apenas um “referente empírico”. Esta tarefa seguirá exigindo um conhecimento empírico muito responsável da estrutura e as relações sociais. indutivo. as críticas à sociologia rural ainda não permitiram uma mudança importante nos programas de pesquisa nesse campo. Além disso. isto simplesmente desloca a questão central de se a “sociedade rural” pode definir-se sociologicamente. de forma indutiva. Na falta de uma definição do “rural” aceitável do ponto de vista sociológico. As origens da crise Existe certa confusão sobre a possibilidade de uma definição significativa do ponto de vista sociológico do “rural”.7 sociólogos também perdiam a clareza em relação ao que era o “rural”.

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urbana, além de que frequentemente têm ignorado a natureza da sociedade rural. O rural tem sido considerado como um resíduo e, portanto tem recebido pouca atenção na teoria sociológica geral.

Em segundo lugar, dado que o “rural” é uma categoria espacial é necessário uma teoria que vincule o espacial com o social. Além de que, uma teoria sociológica deverá enfatizar o social. A sociologia rural americana tornou-se sinônimo de um empirismo superficial, rejeição da teoria e banalização de temas importantes. A sociologia rural buscou a legitimidade científica nas instituições de ensino superior através da utilização de instrumentos estatísticos e a quantificação e manejo de dados, tentando compensar a negligência teórica com a competência metodológica. Porém, essas técnicas de coleta e análise de dados não significaram uma melhora no conhecimento produzido. A lentidão para entender esses fatos tem contribuído para o aprofundamento da crise da sociologia rural. Nos últimos anos acreditou-se que as falhas na compreensão do funcionamento da sociedade rural deviam-se unicamente à falta de dados e ao caráter rudimentar dos instrumentos disponíveis para medição e elaboração de modelos. O irônico é que na medida em que se aperfeiçoavam as técnicas de coleta e análise de dados ficava mais longe a possibilidade de entender a sociedade rural (Newby, 1982). Recentemente há indícios que as fraquezas teóricas da sociologia rural estão sendo questionadas, sobretudo nos Estados Unidos, mesmo que ainda não foi substituída a teoria do continuum rural-urbano por um novo corpo conceitual ou por um conjunto de problemas teóricos que poderia possibilitar novos temas de pesquisas para a sociologia rural. Não se trata de propor uma teorização abstrata, mas de reconhecer que a elaboração teórica e a pesquisa empírica não são exercícios separados. Como mencionado anteriormente, a sociologia rural requer de uma teoria da sociedade, dentro da qual pode ser localizado o “rural”. O que implica que os sociólogos rurais devem conhecer melhor as teorias sociológicas gerais, ainda que, não há uma teoria geral da sociedade aceita pelos sociólogos. Os sociólogos rurais devem adotar uma visão mais totalizadora para estudar a sociedade rural. É importante que os sociólogos rurais se considerem a si mesmos como sociólogos que tem como objetivo estudar certos aspectos das zonas rurais. Para Newby (1982) uma nova sociologia rural deve partir de um enfoque totalizador no estudo da sociedade rural. O debate internacional: a “nova sociologia rural” A nova sociologia rural procura entender a estrutura interna e a dinâmica da agricultura a partir de teorias neo-weberianas e neo-marxistas. Dentre os temas tratados por esta nova perspectiva estão: o papel da etnicidade na persistência da agricultura familiar; a indústria agrícola; a força de trabalho assalariado agrícola; pequenos produtores e a agricultura em tempo parcial e, gênero e agricultura. Ultimamente, o “meio ambiente da agricultura”, tanto no sentido literal como metafórico, também ocupa as preocupações desta nova perspectiva. No sentido literal, explora temas relacionados com os fatores naturais e

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ecológicos e os impactos da agricultura sobre o meio ambiente. A nova sociologia rural também trata sobre temas relacionados ao ambiente sócio-econômico da agricultura como as mudanças tecnológicas na agricultura, a sociologia das ciências agrárias e a crise agrícola (principalmente sua origem no ambiente das políticas públicas). De acordo com Buttel et alii (1990), um dos traços da nova sociologia que emergiu entre a metade e fins da década de 70 foi a diversidade de seus enfoques teóricos. Por exemplo, Rodefeld e Heffernan revisaram teorias tradicionais e demonstraram que a tendência aparentemente “natural” da diferenciação na agricultura tinha implicações negativas para os agricultores familiares e as comunidades rurais. Mais tarde foi desenvolvida uma tradição teórica baseada na economia política marxista e, especialmente, na abordagem clássica da economia política agrícola de Marx, Kautsky e Lenin. Nesse mesmo período, foram publicados um conjunto de artículos escritos por Mann e Dickinson (1987), Friedmann, e Newby que abriram novas visões na análise sociológica da agricultura, através da aplicação da teoria marxista. Esta tendência foi consolidada com a antologia editada por Buttel e Newby (1980), a publicação de um livro de Friedland et al (1981) e uma antologia por Havens et al (1986)12. Recentemente a economia política da agricultura tem tomado uma orientação neo-weberiana, estimulada por Newby e Mooney. Finalmente, a partir de 1980, a nova sociologia da agricultura tem sido influenciada por uma postura ecológica. A nova sociologia da agricultura tem sido teoricamente diversa, porém existem características comuns desta reorientação da pesquisa sociológica rural. Primeiro, a nova sociologia da agricultura tem sido teoricamente mais ambiciosa que as pesquisas tradicionais dominantes antes do início da década de 70, tentando combinar, a teorização macrosocial com a elaboração de formulações teóricas falsificáveis e hipóteses testáveis. Segundo, na nova sociologia da agricultura, os métodos qualitativo e histórico da pesquisa, têm uma maior importância, do que tiveram na pesquisa sociológica rural durante a década de 60. Da mesma forma que a perspectiva behaviorista, que era dominante nos anos 50 e 60, não substituiu a perspectiva dos estudos da comunidade rural, assim, também, a nova sociologia da agricultura não tem significado a substituição, da perspectiva behaviorista, em particular, da difusão-adoção de inovações. Certamente, a perspectiva da difusão-adoção, precisa ser revisada para manter-se viável e contribuir para a compreensão da agricultura. O maior aspecto distintivo - e sem precedentes - da nova sociologia da agricultura nos Estados Unidos tem sido a importância que tem concedido às perspectivas marxistas e neo-marxistas. Tal vez o trabalho de Steeves (1972)13 na Rural Sociology, foi o primeiro exemplo de um artigo publicado numa revista oficial, baseado amplamente na teoria marxista. Porém foi só até finais da década de 70 que começaram a ser elaboradas sistematicamente explicações marxistas, nas universidades, sobre a dinâmica da agricultura nos Estados Unidos.

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Havens, Eugene. Studies in the Transformation of U.S. Agriculture. Boulder, CO: Westiew Press, 1986 apud Buttel, F. et al. (1990) 13 Trata-se do artigo de Allan D. Steeves, “Proletarianization and class identification” Rural sociology 37 (march), 1972: 5-26 apud Buttel, F. et alii (1990)

um dos mais influentes “neo-weberianos” na Inglaterra. especialmente de seu Tratado de Economia Marxista. Portanto a agricultura torna-se não-lucrativa e por isso relegada aos agricultores familiares. por exemplo. Mann e Dickinson sugeriram que a realização das mercadorias agrícolas implica um maior tempo (tempo de produção mais tempo de circulação [tempo requerido para a venda das mercadorias]) do que a indústria. Newby16 sugere que uma sociologia da agricultura proveitosa deveria basear-se na integração das perspectivas de Marx. Seu estudo sobre a Questão Agrária de Kautsky. está baseado principalmente no O Capital e os Gundrisse de Marx e secundariamente no trabalho de Lenin. Kautsky e Weber. reforçando com isto a idéia de que as atividades .10 Como já foi dito. negado pela persistência da agricultura familiar Mann e Dickinson (1987) identificaram as fraquezas dos argumentos subjetivistas dominantes (Chayanov) sobre a persistência da agricultura familiar nas sociedades capitalistas avançadas. Eles enfatizaram que por causa da sazonalidade na agricultura existe uma tendência à separação entre o “tempo de produção” e o “tempo de trabalho”. o “trabalho vivo” é o único que cria mais-valia. No seu artigo de 1983. Friedmann (1978a. Em termos marxistas. Apesar dessas inovações. A terceira grande contribuição para o desenvolvimento da economia política da agricultura foi o trabalho de Newby (1978)15. E como já foi mencionado anteriormente. os artigos pioneiros nesta tradição foram preparados por Mann e Dickinson (1987). O artigo de Mann e Dickinson. dessa forma se produz a não identidade entre “tempo de produção” e “tempo de trabalho”. o que dificulta a “calendarização” do processo de trabalho tornando a agricultura menos lucrativa que a indústria. foi relevante para compreender a dinâmica estrutural da agricultura americana. Marx foi quase totalmente ignorado nas análises das mudanças estruturais na agricultura dos sociólogos rurais norteamericanos até finais da década de 70. O valor não é criado nessas interrupções. Por tal razão. A razão chave para entender o descaso da obra de Marx nos estudos sobre a agricultura tem sido tal vez o modelo marxista da polarização do processo econômico (de acordo com as leis da centralização e concentração do capital e a proletarização) entre capital e trabalho. Eles sugeriram que na obra de Marx encontram-se elementos de uma explicação não-voluntarista e não-subjetivista de porque o desenvolvimento capitalista é entendido em termos de proletarização e o estabelecimento da relação capital-trabalho é um processo mais lento na agricultura que na indústria. O que é extraordinário dessa primeira fase do desenvolvimento da economia política marxista da agricultura é que essas primeiras contribuições basearam-se nos clássicos da economia política. Newby (1978) centrou seus esforços na obra de Kautsky. Friedmann baseou-se na obra de Ernest Mandel. uma revista britânica que tem sido vanguarda na revitalização de uma economia política de estudos camponeses e da história agrária da Europa. o “trabalho vivo” contribui modestamente no processo de produção. 1978b)14 e Newby (1978). O artigo de MannDickinson e um de Friedmann (1978b) foram publicados no Journal of Peasant Studies.

1: 71-99.Trata-se dos artigos de Harriet Friedmann: “World market.” In: Newby H. 1978b. 1983 14 .” Journal Peasant Studies 6. International Perspectives in Rural Sociology. state.”Annual Review of Sociology 9: 67-81. (org). 15 ”The rural sociology of advanced capitalist societies. and family farm: social bases of household production in an era of wage labor”. England: Wiley. 1978a e “Simple commodity production and wage labour in the American plains. 1978 16 ”A sociology of agricultura: toward a new rural sociology. Comparative Studies in Society and History 20: 545-586. Chichester.

De Janvry (1980). Friedmann reconhece que existem condições que podem levar para sua transformação em formas capitalistas de produção. Friedmann considera que os produtores simples de mercadorias agrícolas têm um maior grau de flexibilidade que os capitalistas reduzindo seu consumo ao nível de subsistência para sobreviver nos períodos de crise. aumentam o risco de produção e. Porém. Friedmann indica o alto grau de risco e a demanda cíclica de trabalho da maioria dos sistemas de produção agrícola. emergiu uma tradição neo-marxista diferente. diferentemente dos capitalistas. Ela argumentou que a produção agrícola familiar. provocando a sua diferenciação em classes sociais antagônicas.mudança tecnológica. Friedmann testou empiricamente essa proposição com dados históricos que mostraram que durante a crise do preço do trigo no fim do século passado. subsídios estatais para pesquisa e investimento de capital .fazem improvável a sobrevivência da agricultura familiar. portanto resulta menos atraente para os capitalistas. considera que o desenvolvimento do capitalismo tardio tem significado a destruição da agricultura familiar e que as forças que afetam a produção agrícola . De Janvry argumentou que o desenvolvimento capitalista na agricultura é mais lento que na indústria e que torna bastante provável que as forças da proletarização e a acumulação capitalista na agricultura destruam lentamente a agricultura familiar. da Prusia e dos Estados Unidos não conseguiram competir com os produtores familiares dos Estados Unidos. Eles enfatizaram que a pesquisa agrícola pode reduzir ou eliminar a distância entre tempo de produção e tempo de trabalho. os produtores capitalistas da Inglaterra. ao contrário enfatizam porque o capital não está interessado em investir na produção agrícola. Finalmente. Os capitalistas agrícolas tendem a liquidar seus negócios quando estes não são capazes de gerar a taxa média de lucro. um dos representantes dessa tradição. Mann e Dickinson. os capitalistas são obrigados pela lógica da concorrência a competir para obter a taxa média de lucro para que suas empresas não fiquem fora do mercado. Porém. Então. Simultaneamente com os trabalhos de Mann-Dickinson e Friedmann. Por outro lado. As análises de Friedmann estão baseadas na tradição teórica marxista. refirindo-se a América Latina. Mesmo enfatizando as particularidades da agricultura que leva à persistência da agricultura familiar. eles não chegam a afirmar que o desenvolvimento na agricultura não tem um caráter capitalista. não obtém excedente para sua reprodução. Os produtores simples de mercadorias necessitam apenas de sua “reprodução simples”. na visão de De Janvry. porém a sua explicação da persistência da agricultura familiar (que ela denomina de produção simples de mercadorias) descansa amplamente em como a agricultura familiar pode enfrentar a concorrência das empresas capitalistas no contexto hostil de mercados competitivos de meios de produção e mercadoria agrícolas.11 agrícolas estariam nas mãos de produtores agrícolas não-capitalistas. o produtores independentes são uma classe transicional no capitalismo avançado. Mann e Dickinson observaram que dado que os produtos agrícolas são perecíveis. seguindo as obras de Kautsky e Lenin. minimizando a perecibilidade das mercadorias agrícolas e reduzindo o tempo “biológico” das plantas. as relações capitalistas devem penetrar irreversível e .

É útil notar que A questão agrária de Kautsky contém um conjunto de argumentos sofisticados sobre a lenta penetração do capitalismo na agricultura.inevitavelmente na agricultura familiar levando assim a seu desaparecimento como tem acontecido na indústria nas sociedades capitalistas avançadas. Kautsky argumentou .

Na indústria de algodão. ele tomou uma postura similar a de De Janvry. Esta integração das esferas de produção agrícola e não-agrícola tem sido elaborada por Bonanno (1985. os trabalhadores desempregados com pequenas propriedades poderiam temporariamente retornar à produção de subsistência até melhorar as condições na indústria. O argumento central era que enquanto mais a produção agrícola organizava-se sob formas capitalistas. tornando-se desta forma uma força de trabalho de reserva. a agricultura familiar aparece como tendo a . Esta proposta foi mais desenvolvida por Mottura e Pugliesi (1980). acerca da lenta penetração do capitalismo na agricultura. variam de acordo com o sistema de produção. numa análise histórica da pequena agricultura familiar de tempo-parcial no sul da Itália e das funções da agricultura familiar no desenvolvimento econômico contemporâneo. Um primeiro passo dentro desta linha de pensamento foi a do teórico marxista Kautsky. Dentro desta concepção as empresas industriais deslocam-se para as áreas rurais onde os trabalhadores não são sindicalizados e os salários são mais baixos porque muitos trabalhadores potenciais têm suas pequenas propriedades produzindo ineficientemente e. Ele argumentou que a questão central para compreender a evolução da agricultura nas sociedades industriais avançadas não era simplesmente o tipo dominante de posse das empresas agrícolas. uvas-passas e tomates. Friedland afirma que o ritmo e a amplitude da penetração do capitalismo na agricultura. Outro impulso na literatura de economia política neo-marxista. vários programas estatais que tentam resolver os problemas da agricultura. O trabalho está também aumentando sua informalidade. mas que as relações capitalistas igual que na indústria. apesar de sua lentidão resultaria na descomposição do campesinato alemão. enfatizando o predomínio das análises sobre a emergência das relações capital-trabalho na agricultura e a separação dos produtores independentes de seus meios de produção. tem sido o argumento de que a diferenciação dos agricultores no capitalismo pode ser incompleta no futuro previsível quando a produção agrícola e não-agrícola venha a ser integrada dentro de um sistema particular que incorpore diferentes formas de organização da produção. baseado na agricultura da Califórnia. que analisou o papel do estado no estímulo às pequenas propriedades como uma estratégia para mediar os conflitos de classes nas sociedades avançadas. Neste contexto. 198717). Ele analisou particularmente a produção de alface. está em constante crescimento. Manufacturing Green Gold. torna-se comum o trabalho por peça. além disso. Os trabalhos de Friedland representam também uma notável contribuição dentro da tradição de Kautsky e Lenin. Apesar disso. mas as causas que permitem a emergência de formas organizacionais da produção agrícola.12 que o capitalismo. principalmente na Itália e nos Estados Unidos. Em períodos de contração industrial e desemprego. A agricultura familiar resulta importante nas políticas dos Estados que buscam a descentralização do sistema industrial. há poucas oportunidades alternativas. podem ter a função de permitir a continuidade da agricultura familiar. Nesse sentido. a agricultura em tempo parcial servia de reserva de trabalhadores das indústrias localizadas nas áreas rurais. No seu livro.

F. 1985 e “Small Farms. Et alii. Alessandro. Boulder. Universidade de Kentucky. “The persistence of small farms in marginal areas of advanced Western societies: the case of Italy. .17 Bonanno. 1987 apud Buttel. (1990).” Tese de Doutorado. CO: Westview Press. Departamento de Sociologia.

Esta super-exploração permite a transferência de valor da esfera domestica da produção para a esfera capitalista. seguindo essa linha de pensamento e principalmente a partir dos primeiros trabalhos de Andre Gunder Frank (1967)19. o desejo por autonomia no seu trabalho) que pela racionalidade capitalista formal. Mooney observa que há alguns “desvios” que podem ser tomados pelos agricultores para evitar a proletarização. que as relações capital-trabalho. nos contratos agrícolas. Particularmente. esses . uma fonte de trabalho de baixo custo e de segurança para os membros da família com pequenas propriedades. Mooney argumentou que a exploração dos trabalhadores assalariados agrícolas é somente uma forma que a penetração capitalista na agricultura pode tomar. analisaram a exploração e a super-exploração (extraindo maior valor daquele permitido para a reprodução da força de trabalho) dos membros da agricultura familiar. na agricultura. Mooney desenvolveu um modelo da estrutura de classes na agricultura incluindo as “localizações contraditórias de classes” que podem ser encontradas na agricultura familiar (unidade de capital e trabalho na agricultura familiar): o capitalista agrícola e o trabalhador assalariado agrícola. Mooney observa que muitos agricultores são motivados mais pelas formas de racionalidade substantiva (por exemplo. pelos latifundiários. são. contribui a pagar os custos da produção agrícola. diametralmente opostas. Em cada um desses “desvios” não existe a relação capitaltrabalho na produção agrícola e onde os agricultores são explorados por uma fração de capital não-agrícola (no arrendamento. A esfera domestica torna-se uma reserva de trabalho que subsidia a esfera capitalista. Friedland e outros na tradição de Lenin (e em menor medida de Kautsky). num certo sentido. pelos capitalistas não-agrícolas e no endividamento. pelo outro. direta ou indiretamente. Então. Seguindo Wright (1985). o trabalho não-pago dos agricultores familiares reduz o salário dos trabalhadores empregados na indústria e os preços dos produtos agrícolas requeridos pelos agricultores. A explicação de Mooney de porque essas “localizações contraditórias de classes” têm um componente subjetivista e está baseada na distinção weberiana de racionalidade substantiva e formal. contratos agrícolas. fornecendo ao mesmo tempo. Por exemplo. O salário que os membros da família obtêm fora da sua propriedade. através de vários mecanismos. pelo capital financeiro). Uma vez que as perspectivas de Mann-Dickinson e Friedmann por um lado e de De Janvry. A principal contribuição de Mooney tem sido lançar dúvidas se a existência convencional das relações capital-trabalho é uma adequada referência para avaliar a existência da penetração capitalista na agricultura. Além disso.13 função de “keeper of surplus labor”. agricultura em tempo-parcial e endividamento. Por conseguinte. muitos dos trabalhos mais provocativos na tradição marxista dentro da “nova sociologia da agricultura” representam uma tentativa explicita ou implicitamente de realizar uma síntese. Mooney considera que esses “desvios” podem ser mais significativos. Sendo esta idéia um aspecto central para a compreensão das sociedades desenvolvidas e em desenvolvimento. Wenger e Buck (1988)18. Esses “desvios” implicam arrendamento. na agricultura de tempo-parcial. pela agroindústria.

e Buck. New York: Monthly Review. F. et alii (1990). families. et alii.” Rural Sociology 53 (Winter). apud Buttel. and superexplotation: an integrative reappraisal..agricultores tendem a ser tenazes na participação dentro das empresas e freqüentemente tendem a tomar Wenger. F. apud Buttel. Morton G. 1988. 1967. “Farms. Pem Davison. Capitalism and Underdevelopment in Latin America. (1990) 19 `Frank. Andre Gunder. 18 .

deterioração dos termos de intercâmbio comercial e em conseqüência. Foi nesse contexto que emergiu um amplo debate de idéias sobre os problemas sociais e econômicos dos países do ‘terceiro mundo”. de permanecer na Mann e Dickinson (1987) replicaram vigorosamente aos argumentos de Mooney e também criticaram seu projeto de sintetizar a proposta marxista e weberiana dado que algumas dessas teses são incompatíveis. Por outro lado. A diferença da Revolução industrial inglesa. No Brasil. O êxodo rural e a existência de uma massa de desempregados nas cidades contribuíram para a aliança de classes de caráter populista. Foi nesse contexto que se desenvolveu o debate no Brasil sobre a situação de atraso e as formas de superá-lo. organização sindical. abastecimento. reorganização político-administrativa. da polarização de blocos (soviético e americano) e da descolonização. A produção teórica brasileira sobre o “mundo rural”: a influência do marxismo clássico A segunda guerra mundial (1939-1945) alterou profundamente as condições do comércio internacional e impactou de forma significativa nos países exportadores de alimentos e de matérias primas. a menos de que se adotasse uma perspectiva marxista ou leninista mecânica. que possibilitou a implementação de uma política estatal de industrialização no governo Vargas. a industrialização brasileira não implicou oposições e divisões entre a burguesia comercial/aristocracia agrária e classes industriais. queda da taxa de acumulação da indústria. a escassez de divisas. Esse debate deve ser compreendido no contexto político da “guerra fria”. inflação dos preços. Essas condições desfavoráveis marcam um novo período que pode caracterizar-se da seguinte maneira: O fortalecimento do capitalismo americano e suas novas formas de intervenção: investimentos diretos na indústria. compras de empresas nacionais já instaladas. A politização do debate resultou das condições desfavoráveis que impediam a continuidade do processo de industrialização iniciado na década de 30. expansão do crédito. etc. obras de infraestrutura. ajuda militar. o alinhamento dos países da América Latina à política da “guerra fria” significou a subordinação à estratégia de reconstrução do capitalismo sob hegemonia dos estados Unidos. Com esse incipiente processo de industrialização também se iniciou o ciclo de intervenção do Estado em vários setores da economia: investimento na siderurgia. Por sua vez. O processo de industrialização ficou num impasse: ou expandir o mercado interno ou reequipar o parque industrial através . 3. empréstimos e cooperação técnica. queda do salário real. Mooney argumentou que sua proposta superava as incompatibilidades das teorias marxistas e weberianas.14 um dos quatro “desvios” do desenvolvimento capitalista a fim agricultura. A tendência a aumentar a concentração de renda. a crise capitalista da década de 30 estimulou um crescimento industrial considerável para suprir o mercado interno de bens industriais.

da introdução de capitais estrangeiros. A primeira opção implicava um amplo movimento de apoio político para impulsionar mudanças estruturais onde a .

O debate desses anos enfocava duas questões centrais: em primeiro lugar. A produção teórica brasileira sobre o “mundo rural” A produção teórica dos anos 60 sobre o “mundo rural” esteve fortemente marcada pelo debate em torno da natureza das relações de produção no campo. a segunda opção demandaria uma rearticulação das classes e grupos sociais e econômicos vinculados aos interesses da “desnacionalização”. Essa idéia era decorrente de uma visão feudalista da sociedade brasileira. tentaram mostrar a existência do feudalismo no Brasil a partir dos “fatos econômicos” e da legislação. A estrutura agrária baseada no latifúndio-minifúndio explicava o atraso das forças produtivas e sua incapacidade de produzir alimentos a baixo custo para suprir o mercado interno e em segundo lugar. existia uma clara 20 . Roberto Simonsen salienta que está preocupado com os “fatos econômicos” e não com as intenções dos legisladores. o principal obstáculo estaria localizado no reduzido mercado interno. Em conseqüência. tiveram que conhecer o debate que existia entre historiadores espanhóis e portugueses acerca do feudalismo na Península Ibérica. esse debate adquire um novo conteúdo. Nas décadas de 20 e 30 com a constituição de um campo intelectual independente e separado do Estado. nos textos de Clóvis Caldeira. Por sua vez. a transformação da agricultura era indispensável para o desenvolvimento capitalista. A reforma agrária seria a forma proposta para superar esse obstáculo e romper a aliança de poder dominante. De acordo com os ideólogos do desenvolvimento. que o atraso da agricultura era um obstáculo para o desenvolvimento capitalista. Acioli Borges e outros. autores como Nestor Duarte. Desde essa nova perspectiva. Cabe mencionar que. a modernização das forças produtivas e as relações de produção possibilitariam a expansão do capitalismo no Brasil. Para os ideólogos do desenvolvimento o processo de transformação estrutural20 seria conduzido pela burguesia nacional em aliança com o proletariado urbano e onde a agricultura teria o papel de produzir alimentos e matérias primas e consumir bens industriais. a polarização internacional existente na “guerra fria” traduziou-se a nível interno na polarização entre nacionalismo e entreguismo ou entre comunismo e democracia. Dessa forma. durante o segundo governo de Getúlio Vargas. capitalistas ou escravistas. que as relações de produção por não serem capitalistas retardavam a expansão do consumo de produtos industriais. Na sua História Econômica. especificamente sobre o caráter do latifúndio. o interesse de estudo desses historiadores limitava-se às instituições. De acordo com Palmeira (1983) nos trabalhos da Comissão Nacional de Política Agrária. posicionando-se ao qualificar alguns aspectos da estrutura agrária como feudais.15 agricultura teria que desempenhar um papel-chave. Entre os anos 30 e 50 o debate entre os autores que tratavam sobre a agricultura referiam-se obrigatoriamente a esse debate. Entretanto foi a polarização entre nacionalismo e entreguismo que colocou os termos do debate sobre o desenvolvimento capitalista nas décadas de 50 e 60. Portanto. que para entender as “instituições feudais” no Brasil. Um debate que já existia entre os juristas brasileiros do século XIX.

.Esse processo de transformações estruturais é conhecido na literatura como “Revolução Brasileira”.

Segundo essa concepção dualista. desempregada e pobre. através de ações impostas pelo setor moderno urbano e industrial. A concepção dualista partia da premissa que a colonização gerou o latifúndio de caráter feudal (socialmente hierarquizado. criando uma população rural inútil. Tratava-se principalmente de aumentar a produtividade agrícola através da modernização tecnológica e a reorganização da produção em grandes empresas capitalistas. E isto passava necessariamente pela caracterização das relações dominantes na agricultura brasileira. . ao mesmo tempo em que ampliaria o consumo de bens industriais. portanto a reforma agrária não era necessária. A primeira: a emergência de um movimento camponês e as lutas pela reforma agrária. sobretudo reconhecendo que a mentalidade dos capitalistas brasileiros impedia a poupança e o investimento produtivos.16 preocupação em caracterizar as relações entre proprietários e agregados ou determinadas formas de arrendamento. Entre seus aspectos negativos estavam: a fixação do homem no latifúndio. O camponês converte-se num protagonista político através da sua participação nos sindicatos rurais e nas ligas camponesas. Assim. E também eram a favor da participação do capital estrangeiro. No caso do Brasil. A segunda: o surgimento de novos partidos e grupos de esquerda que questionaram o “monopólio” exercido pelo Partido Comunista. O “moderno” em oposição ao “arcaico” era resultado da importação da “civilização industrial”. Essa posição aproximava Furtado de outras correntes dualistas intituladas “marxistas” que defendiam a “revolução democráticoburguesa” para eliminar os “restos feudais” (relações de trabalho no campo). O primeiro refere-se ao setor urbano e o segundo ao campo. levando-lhe tecnologias e capital. o outro “fechado e arcaico”. Cada grupo tinha sua versão da “revolução brasileira”. Para os defensores dessa interpretação a modificação da estrutura fundiária não era fundamental ao desenvolvimento do capitalismo no Brasil. a definição do estágio dessa “revolução”. a sociedade brasileira (e dos países com passado colonial) estaria dividida em dois setores: um “aberto e moderno”. Segundo Palmeira (1983). a reforma agrária passava a ser uma condição necessária para superar a produção insuficiente de alimentos e baixar os preços dos produtos agrícolas. no início da década de 60 o debate feudalismo x capitalismo ultrapassa o campo intelectual e torna-se uma questão política por duas razões principais. ou seja. o latifúndio e os capitais estrangeiros. O “arcaico” explicava-se pelo passado colonial assim como por resíduos de formas atrasadas de produção. A visão dualista A visão dualista da sociedade brasileira deriva-se das idéias de dois sociólogos franceses (professores de universidades brasileiras): Jaques Lambert e Roger Bastide. a agricultura e indústria progressista de São Paulo (o setor moderno) teria que vencer a resistência do outro Brasil (o setor arcaico). a monocultura e o atraso técnico. Uma visão diferente tinha Furtado quando afirmava que a estruturas arcaicas só poderiam ser rompidas por indução. constituindo unidades auto-suficientes separadas entre si) e resistente às mudanças.

os grupos comerciais em aliança com o imperialismo e ainda os camponeses representavam o obstáculo para o desenvolvimento capitalista.” (Prado Júnior. “Falar assim da parceria como forma institucional de relações de trabalho e de produção que sobrevive anacronicamente de um passado feudal. Essa visão determinista nem leva em conta os processos históricos nem aceita modificações na sucessão dos modos de produção no tempo. foi na Revolução Brasileira (1966) que criticou profundamente o modelo desenvolvimentista. Caio Prado Júnior rejeita a idéia dos autores que viam na parceria (remuneração do trabalho e serviços prestados com participação no produto) a representação do caráter feudal da agricultura brasileira. 1972 . na sua Formação do Brasil Contemporâneo. nem muito menos 21 Prado Júnior. Uma idéia que se aproximava da visão dualista mais conservadora. Mas. Porém caberia aos camponeses participar da aliança popular na “revolução democráticoburguesa”. Caio. A revolução brasileira.Editora Brasiliense: São Paulo. às classes médias urbanas e ao proletariado. Tanto mais que no próprio caso da cultura algodoeira. e sim a circunstâncias peculiares da cotonicultura e conveniências técnicas e financeiras que lhe dizem respeito.17 As teses marxistas “tradicionais” e o nacional-desenvolvimentismo Segundo as teses “marxistas” das décadas de 50 e 60 as estruturas econômicas e sociais do Brasil caracterizavam-se pela coexistência de dois modos de produção: o feudal e o capitalista. 1972:30)21 Dessa forma rejeita a visão linear da evolução dos modos de produção preconizada por Alberto Passos Guimarães (Quatro Séculos de Latifúndio. criticaram a idéia “marxista” da coexistência de dois modos de produção: o feudal e o capitalista. De acordo com as teses “marxistas” o setor moderno estaria composto pela “burguesia nacional” em oposição às empresas estrangeiras instaladas no país (o imperialismo). é evidentemente falso. Da mesma forma. Os “feudais latifundiários”. 1963) e difundida nas publicações soviéticas. O fortalecimento dessa “burguesia nacional” estaria sendo obstaculizada pela limitação do mercado interno (pobreza do campesinato). Caio Prado Júnior enfatizava as origens capitalistas do Brasil. ao negar o caráter nacional da industrialização do período Kubitscheik e caracterizar como capitalistas as relações de trabalho no campo. vinculadas à empresa colonial portuguesa e à expansão do capital mercantil. Caio Prado Júnior e André Gunder Frank foram os primeiros a criticar a visão feudal da sociedade brasileira. No início da década de 40. única instância de grande expressão em que a parceria se apresenta em proporções apreciáveis ela se acha ligada não a reminiscência ou anacronismo feudais ou outros quaisquer.

bem arrumada. ou mesmo indicações concretas que fundamentassem suas idéias. partidários da tese capitalista e assim por diante” (Palmeira. o que se transplantou para o Brasil foi o “feudalismo colonial”. “A questão política vivida como questão intelectual iria atribuir um sentido político às querelas intelectuais do passado. Gunder Frank responde da seguinte forma: “A conclusão política. No início dos anos 60.23 Os defensores da tese feudalista consideravam que. 1983) As argumentações dos dois autores refletem as divergências e as lutas políticas da esquerda brasileira. e Roberto Simonsen e Gunder Frank. derivada logicamente desta análise é. Baran) rejeita a possibilidade de coexistirem numa mesma sociedade setores independentes uns de outros.. 1983: 16). reacionária. Nesse caso é o próprio capitalismo e não o feudalismo que tem que ser abolido” (Gunder Frank apud Palmeira. dandolhe uma densidade ideológica até então inexistente e fazendo-o. de um certo modo. aparecer como um obstáculo à prática política e à própria prática científica”. transformado-as e a seus protagonistas em elementos de um só e mesmo debate. 22 Citado em “Revisão crítica da produção sociológica voltada para a agricultura” ASEP-CEBRAP (1983) .. que. apesar de que a burguesia comercial era um elemento hegemônico do Estado português. cada um dos autores que defendia a tese feudal ou a tese capitalista.) Se o desenvolvimento atual e os males da agricultura são devidos ao capitalismo. se encaixa perfeitamente nos esquemas políticos mais retrógrados”. Então uma série de formulações que estavam dispersas naquele momento foram sistematizadas em um grande debate.18 poderia reconhecer a existência de outros sistemas de produção além dos definidos previamente. como os países mais desenvolvidos. Gunder Frank influenciado pelas análises teóricas do grupo “marxista”americano da Monthly Review (Sweezy. (. defensores da tese feudal. Como disse Palmeira (1983: 16) “A necessidade de demarcar posições é que irá mover o debate. ia buscar em autores do passado argumentos de autoridade. na verdade abolir o feudalismo e seguir o mesmo caminho geral de desenvolvimento. para sustentar suas posições. É uma teoria conservadora. por que reformá-la? A teoria do capitalismo colonial não é assim um achado histórico tão inocente quanto parece. enquanto que para os defensores da tese capitalista. eles dificilmente podem ser eliminados pela extensão do capitalismo ainda mais longe. que aproximava no tempo autores como Alberto Passos e Nestor Duarte. (Guimarães). “Se a estrutura agrária brasileira sempre teve uma configuração capitalista por que revolucioná-la. De acordo com Palmeira (1983)22 o caráter político do debate fica evidente no confronto entre o texto de Alberto Passos Guimarães e André Gunder Frank.

Todas as referências de Palmeira provêm do documento do ASEP-CEBRAP. a menos que se indique o contrário. 23 .

Dentro desse projeto a estrutura brasileira era concebida como uma “fase de transformação” orientada para o desenvolvimento nacional. Por sua vez. Essas propostas representavam uma mudança importante no debate sobre as estruturas sócio-econômicas do Brasil. para os defensores da tese capitalista. para . mas não sua propriedade jurídica. Como conseqüência. baseando-se em dados do Censo Demográfico e Agrícola de 1950. Para Palmeira (1983) alguns autores manipulavam as estatísticas com o objetivo de defender suas posições. proprietários dos meios de produção. a pequena produção mercantil ou a economia camponesa vista desde a perspectiva de Chayanov. que ao mesmo tempo diferenciavam do proletário. proletários. Palmeira afirma que essa manipulação de dados evidencia que o que estava em jogo não era uma questão de demonstração científica.19 mesmo que a colonização tenha sido uma empresa feudal. ou o escravismo colonial. nas suas teses de doutorado realizadas em Paris. Sociólogos como Moacir Palmeira e historiadores como Ciro F. S. Por exemplo. O corpo das idéias organizadas em torno desse projeto político passou a ser conhecido como “ideologia nacional-desenvolvimentista”. No início da década de 70. os partidários da tese capitalista consideravam que não existia nada no Brasil que se assemelhasse a uma classe camponesa e que o que existia era uma classe de empresários rurais possuidores e na maior parte dos casos. o latifúndio. Tanto os defensores da tese feudalista como os defensores da tese capitalista identificavam o camponês com o pequeno produtor. Por sua vez. além da dualidade capitalista/feudalista: a plantation. que se opunha a uma classe latifundiária numa luta pela propriedade da terra. E quem se opunha aos empresários rurais seria uma massa de trabalhadores agrícolas (proletários). utilizando os mesmos dados chegam à conclusão que uma metade da população rural eram camponeses e a outra. O debate sobre o caráter do latifúndio levou os sociólogos rurais a discutir à problemática das classes sociais. Esses empresários rurais formariam parte da burguesia. onde a questão chave era determinar a existência ou não de uma classe camponesa no Brasil. Mas. a luta pela terra seria secundária. Como resultado do debate. mas um jogo de relações políticas em que os autores estavam imersos. Maria Isaura Pereira de Queiroz. o que se transplantou foi o capitalismo. propunham a existência de sistemas de produção específicos. os pesquisadores abandonaram a visão dualista capitalismo/feudalismo e passaram a ter uma postura crítica em relação aos esquemas evolutivos dos modos de produção. enquanto os defensores da tese feudal afirmavam que no Brasil existia uma classe camponesa que tinha a posse efetiva dos meios de produção. Diegues Júnior e o CIDA (Comité Interamericano de Desenvolvimento Agrícola). Cardoso. É por isso que. André Gunder Frank descobre dois terços de proletários e semiproletários. a estruturação do projeto político da “revolução democráticoburguesa” caberia a um grupo de intelectuais liderados por Hélio Jaguaribe e organizados no ISEB (Instituto Superior de Estudos Brasileiro) criado no Governo de Jucelino Kubitschek. submetida ao mesmo tipo de exploração econômica que os trabalhadores urbanos. conclui que a população rural estava constituída em quase dois terços por camponeses.

a ideologia mais representativa desse período era o nacionalismo que permitiria articular os diversos setores sociais. com .Jaguaribe.

“Tal ideologia implicava na adoção de determinado modelo para a então ‘atual fase da vida nacional’. sob a direção dos ‘empreendedores nacionais’. Ana Célia et al. assim como ao aumento do salário e do consumo. Brasília. O novo modelo nacional-trabalhista propunha uma drástica intervenção na agricultura para extinguir o seu caráter semifeudal e. era o nacional-capitalismo. as forças sociais semifeudais remanescentes. Deveriam reduzir-se rapidamente as desigualdades sociais e o desequilíbrio entre o campo e a cidade. 1979. Além de que a agricultura era incapaz de incorporar inovações tecnológicas em proporções significativas o que limitava a constituição de um mercado interno para os produtos industriais.” (Castro. dentro do sistema de iniciativa privada e tendo no Estado a instância de planejamento coordenação e suplementação. As propriedades tradicionais seriam transformadas em modernas fazendas capitalistas. portanto. autônomo e endógeno. numa visão ecumênica das classes sociais. 24 . Essas críticas referem-se à visão da agricultura brasileira como “ineficiente” e incapaz de reagir aos estímulos da dinâmica da demanda da indústria nacional (por matérias primas e alimentos) e por produtos exportáveis. 1979: 38). A implementação do novo modelo possibilitaria a aliança entre a burguesia nacional e o proletariado porque o desenvolvimento capitalista levaria à criação de mais emprego. em fazendas cooperativas médias e grandes fazendas estatais. A prática política dos anos seguintes mostrou a fragilidade dos postulados teóricos do nacional-desenvolvimentismo. Compreendia Jaguaribe como nacional-capitalismo o conjunto de políticas adotadas por Vargas. Mas para isto era necessário o concurso de todos os setores “progressistas” em torno do “desenvolvimentismo” encarnado inicialmente no Plano de Metas do Governo Kubitschek. o qual.24 O modelo nacional-capitalista entra em crise no final de 1963 devido ao reconhecimento da heterogeneidade da sociedade brasileira o que significava por um lado desigualdades regionais e por outro. Castro. sob um objetivo comum: a expansão das forças produtivas. Evolução recente e situação atual da agricultura brasileira. estas tinham em comum o esforço pelo desenvolvimento. A necessidade de reajustar o modelo nacional-capitalista dava passo a um novo modelo o nacional-trabalhismo.20 exceção dos latifundiários comprometidos com o statu quo. Binagri Edições. ausência de uma consciência nacional da burguesia brasileira que tendia a privilegiar sua essência burguesa antes que seus traços nacionais. o único capaz de promover o desenvolvimento. surgiram diversas tentativas críticas da análise dualista que buscavam outra interpretação das transformações que de fato estavam acontecendo na sociedade e em especial na agricultura. Quadros e (até meados de 1963) Goulart. em propriedades familiares médias. no dizer de Jaguaribe. Kubitschek. Em conseqüência.

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21 As análises da nova fase distinguem-se das interpretações anteriores. a chave do processo de desenvolvimento econômico reside.. baseou-se na proposta teórica-metodológica de T. e) produzir gêneros exportáveis para possibilitar a capacidade de importação. aumentando a taxa de remuneração dos capitais investidos. buscando responder afirmativamente à questão de se a agricultura poderia cumprir as cinco “funções” definidas por Johnston e Mellor: a) produzir alimentos a baixo preço para as cidades. Pereira de Carvalho e Ruy Miller Paiva) aos modelos aceitos na década de 50 e 60. por sua aparente “despolitização” e por estarem construídas a partir de levantamento de dados nas pesquisas de campo para sustentar os postulados teóricos. a diferença fundamental entre essa e outras concepções em relação às funções que deveria cumprir a agricultura.. No entanto. através de uma transferência de mão-de-obra do setor agrícola para os outros setores. sem gerar uma crise de abastecimento ou de fornecimento de matérias-primas. Por outro lado. A análise centrase na posição de equilíbrio e as políticas propostas têm como objetivo a maximização dos recursos disponíveis. Para Delfim Neto apud Castro (1979:50) “. Por exemplo. A visão modernizante Por sua vez a crítica conservadora (Delfim Netto. Schultz. b) liberar mão-deobra para a indústria. por exemplo. Nessa visão a agricultura tem um lugar central no desenvolvimento econômico. d) abrir mercado consumidor para produtos industriais. A pesquisa em nível universitário. Segundo Delfim Neto essa política a favor da agricultura de exportação manteve no mercado produtores . a um só tempo. a industrialização baseada na exportação de produtos agrícolas levou a uma especialização em torno de produtos como café. c) fornecer recursos para a formação de capital. Nesta perspectiva neoclássica a empresa agrícola é considerada uma empresa capitalista comum. reduzindo a influência de posturas ideológicas e sem fundamentação empírica. numa melhoria da produtividade do setor agrícola. a situação do pequeno produtor e as particularidades da pequena produção.” De acordo com esta concepção a agricultura financiaria o desenvolvimento industrial.W. cacau e açúcar. Affonso Celso Pastore. o que elimina algumas questões como. manifestava a preocupação por buscar a compreensão da realidade efetiva. Enquanto na visão dualista o “obstáculo” ao desenvolvimento poderia ser eliminado através da reforma agrária e reformas estruturais. fundamentalmente. estava na forma de encarar o objeto de estudo. na crítica conservadora a tese que afirma que a agricultura é um obstáculo para o desenvolvimento. o que. a diferença entre o Nordeste “tradicional” e o Centro-Sul “moderno”. dependeria do tipo de insumos utilizados e disponíveis (intensidade do fator capital no Centro-Sul e intensidade do fator Trabalho no Nordeste) e não de fatores estruturais. libera mãode-obra e eleva o nível de rendimento dos que ficaram no campo. a diversidade das relações de produção. é refutada empiricamente. Yufiro Hayami e Vernon Ruttan.

a estrutura social e o processo histórico. a disseminação de novas tecnologias tinha um significado macroeconômico. A diferença de outros autores “modernizantes” . Nas suas análises incorpora variáveis não econômicas como a demografia. Para outros (Maria Isaura Delfin Neto. Em consequência. Primeiro. Por sua vez. O problema do café no Brasil. Maria Rita Loureiro. imprime suas próprias características no desenvolvimento urbanoindustrial. Esses autores na busca de elaborar uma análise mais flexível introduziram noções como: articulação de diferentes modos de produção. Rio de Janeiro: Editora da Fundação Getúlio Vargas.22 ineficientes. No seu estudo sobre o café. a questão da mudança tecnológica implicava dois aspectos. considera que a agricultura longe de cumprir um papel passivo. Miller Paiva situa-se numa das correntes mais importantes conhecidas como “modernizadoras” da agricultura. USP. a adoção de uma nova tecnologia depende da avaliação que faça o agricultor do custo-benéficio. Para alguns (Francisco de Oliveira. A. Delfim Neto25 considerava que o livre mercado liberaria fatores de produção para serem utilizados em outras atividades mais lucrativas (criação de gado e de aves). b) O desenvolvimento do capitalismo necessitava recriar formas não capitalistas de produção para seu próprio funcionamento e portanto não se constituem em “obstáculo” de seu próprio desenvolvimento. A crítica radical A crítica radical (uma visão modificada da tese capitalista) às posições dualistas baseia-se na capacidade que tem o desenvolvimento capitalista de refuncionalizar as formas existentes e de criar outras relações não-capitalistas de produção. E segundo. os trabalhadores assalariados em lugar de lutar pela terra deveriam organizarse nos sindicatos e lutar pelas suas reivindicações de classe. Tese de Doutorado. disponibilidade de capital. Francisco de Oliveira e Maria de Conceição de d’Íncao. Ruy Miller Paiva centrava sua análise nos preços para explicar a mudança tecnológica na agricultura. 1979. Outros autores como. Para ele. Maria de Conceição d’Incao) as relações sociais no campo são predominantemente capitalistas e portanto se faria desnecessário a reforma agrária. os autores divergem quando se trata das relações sociais no campo. Alguns pontos devem ser salientados dessa crítica radical: a) O Brasil foi construído historicamente a partir da expansão do capitalismo europeu e seu desenvolvimento capitalista pode ser caracterizado como “dependente” ou “periférico”. Essa crítica é sustentada por autores como José de Souza Martins. Antônio Barros de Castro afirmavam que a agricultura desempenhou seu papel requerido pela industrialização. porque a decisão de um grande número de produtores afetaria os preços dos fatores de produção e essas modificações no preços reduziriam as vantagens da nova tecnologia. 25 . desconsiderando outras variáveis econômicas importantes como informação. Porém. Octávio Guilherme Velho. diferentes relações de produção nas formações econômico-sociais e “subsunção formal do trabalho ao capital”.

Henry Ford com o objetivo de aumentar a produtividade. culturais e sociais. sociais e culturais que estão acontecendo em escala mundial e que estão mudando o caráter dos empregos e a organização das economias. O objetivo da jornada de oito horas e os cinco dólares não era só aumentar a produtividade mas permitir que os trabalhadores tivessem as condições de tornar-se consumidores em massa. Porém. o desenvolvimento sustentável (José Elí da Veiga) e a emergência de um “novo mundo rural” (Graziano da Silva). As transformações do capitalismo mundial neste fim de século estão mudando radicalmente os processos de produção. Octávio Guilherme Velho). W. mas pelas práticas e representações ideológicas. tecnologias. o que Ford fez foi racionalizar velhas tecnologias e uma divisão do trabalho que já existia. Mesmo assim.23 Pereira de Queirós. Antes. que alguns autores denominam de “acumulação flexível” (Harvey. como resultado da racionalização fordista. Estamos vivendo numa era de incerteza. A crise do regime fordista está associada à perda da hegemonia política e financeira dos Estados Unidos. A produção teórica brasileira sobre o “mundo rural” Apesar de que a nível geral existe uma espécie de estancamento e até refluxo da produção teórica sobre o “mundo rural”. os hábitos de produção e de consumo. exigia a exportação dos excedentes. José de Sousa Martins. o perfil dos trabalhadores. Autores como Graziano da Silva (1996) percebem a emergência de um novo rural brasileiro produto da urbanização do meio rural brasileiro e da industrialização da agricultura e que formam parte de profundas transformações econômicas. que descrevia como uma melhor organização do trabalho (que implicava uma racionalização do tempo e de cada movimento do trabalhador) poderia aumentar a produtividade. do regime de acumulação fordista para outro. em 1911 tinha sido publicados Os Princípios de Administração Científica de F. hábitos de consumo e configurações de poder político e econômico. Na segunda metade da década de 60. de novas contribuições teóricas e metodológicas. O regime fordista pode ser definido como um conjunto de práticas de controle do trabalho. as noções do que é rural e do que é urbano. 1992)26. que vigoraram desde o fim da Segunda Guerra Mundial até inícios dos anos 70. ainda que lentamente. milhares de trabalhadores estavam sendo deslocados da manufatura. observa-se uma absorção. Nos Estados Unidos . caracterizada por um processo de transição. 4. Essas contribuições se expressam na incorporação de novos temas como a questão do meio ambiente. a existência de um campesinato brasileiro estaria evidenciado não só pela posse jurídica da terra. a saturação dos mercados internos da Europa e do Japão. já em 1914. na gerência da produção e no consumo de massa. Taylor. Com o fordismo emergia uma nova sociedade baseada no controle racional do trabalho. No entanto. introduzia a jornada de 8 horas e 5 dólares de recompensa para os trabalhadores de sua fábrica de automóveis em Michigan. o significado do espaço e do tempo e as práticas do Estado. desde finais do século passado.

a partir de 26 Harvey.esse declínio da demanda efetiva foi compensado pela produção de armas para a guerra de Vietnã e pelo combate à pobreza. David. Condição Pós-moderna. Porém. 1992 .Edições Loyola: São Paulo.

(Harvey. assim como por rápidas mudanças das práticas de consumo e do surgimento de novos setores de produção. novas formas de financiamento e inovações tecnológicas. a longo prazo. quando as empresas obrigam os trabalhadores regulares a trabalhar mais nas épocas pico de demanda. a falta de segurança do emprego e dos direitos de pensão afetará negativamente aos trabalhadores. a redução do emprego e destruição do poder sindical. A subcontratação organizada possibilita o surgimento de pequenos negócios. ser flexível e geograficamente móvel. Apesar de que a flexibilização do mercado de trabalho não tem criado uma forte insatisfação trabalhista porque às vezes pode ser mutuamente benéfica. temporário ou subcontratado. Essas possibilidades de comunicação e a redução do espaço têm aumentado a capacidade dos empregadores para o controle da força de trabalho e em conseqüência. Os “trabalhadores flexíveis” são contratados facilmente e são demitidos sem custos quando a empresa está em crise. 1992: 144) Mudanças importantes aconteceram também na organização industrial. marca o início dos graves problemas fiscais dos Estados Unidos que seria resolvido a custas da aceleração da inflação. cerca de um terço dos novos empregos criados estavam na categoria de “temporários”. Esse novo regime de acumulação cria as condições para o crescimento do emprego no chamado “setor serviço” e uma alta mobilidade geográfica ou uma compressão do espaço tempo. A flexibilização do mercado de trabalho se dá. (Harvey. O mercado de trabalho no regime de acumulação “flexível” caracteriza-se pela redução dos trabalhadores em tempo integral e pelo grau de adaptação às novas condições. produto da redução dos custos de transporte e da comunicação via satélite. a mudança mais importante têm sido a queda do emprego regular e o crescimento do trabalho em tempo-parcial. nos Estados Unidos. por exemplo. Também se observa o crescimento de economias “informais” nos países capitalistas avançados e a reformulação do papel das mulheres no mercado de trabalho. comerciais e organizacionais. a queda da produtividade e da lucratividade das empresas. O regime de “acumulação flexível” rompe com a “rigidez” do fordismo e caracteriza-se pela emergência de mercados de trabalho e processos de produção mais flexíveis. 1992: 148) A subcontratação e a . como o setor serviços. Na Inglaterra. As novas formas de organização da produção colocaram em xeque a organização tradicional. O excedente de força de trabalho e a redução do poder dos sindicatos têm permitido aos patrões impor contratos de trabalho mais flexíveis. com o crescimento de outros setores da economia. cresce o número dos trabalhadores temporários e subcontratados sem nenhuma garantia de emprego. Porém. enquanto a intensidade de trabalho se reduz com a queda da demanda. os “trabalhadores “flexíveis” aumentaram 16% enquanto os empregos permanentes caíram em 6%. Como contraponto. Nesse mesmo período. Porém. a revista Fortune publicou que setenta e cinco por cento das peças de máquina eram produzidas em lotes de cinquenta ou menos. entre 1984 e 1985. ou seja. provocando o fechamento de numerosas fábricas e estimulando um processo de desindustrialização. As economias de escalas foram substituídas pela produção de pequenas quantidades de bens a preços baixos.24 1966. Em 1983.

produção de pequenos lotes permitiram superar a rigidez do sistema fordista e atender a um mercado mais diversificado e dinâmico. A flexibilização .

moradia e prestação de serviços pessoais. também foi reduzido o tempo de giro no consumo. No processo de flexibilização e de mobilidade geográfica. O “mundo rural” nos países desenvolvidos tem um novo ator social: o agricultor em tempo parcial (part-time farmer) e que se caracteriza por combinar atividades agropecuárias com outras atividades não-agrícolas seja dentro da propriedade ou fora dela. imóveis e finanças) em detrimento do emprego industrial. O rápido acesso às informações assim como ao conhecimento científico pode significar altas margens de lucro. A modernização da agricultura era entendida como a introdução de sementes geneticamente melhoradas. adubos químicos. ou seja caiu a média da vida útil dos bens produzidos. As novas tecnologias ( automação. De que forma essas transformações estão afetando o “mundo rural”? Para alguns autores como Graziano da Silva (1996)27. As cidades não podem continuar a ser sinônimos de produção industrial nem o campo de produção agrícola e pecuária. A idéia de que as cidades representam o “novo” e o “progresso” e que o campo o “atraso” e o “velho” baseia-se na concepção de autores clássicos como Marx e Weber que identificavam as cidades com o capitalismo e o campo com o feudalismo. robôs) e novas formas organizacionais reduziram o tempo de giro na produção. a prestação de serviços. Com as transformações na produção e no consumo também emergiu uma nova estrutura de emprego que privilegia o emprego no setor de serviços (educação. Essa é a sua característica nova: uma . No “mundo rural” estão emergindo novas formas sociais e de organização econômica na medida em que a sociedade transita para um novo regime de acumulação. Nesse contexto. A agricultura deixou de ser um setor relativamente autárquico. o parttime não é mais um fazendeiro especializado. conservação da natureza. turismo. seguros. e se integrou ao resto da economia. Por sua vez. O lazer. conservação do meio ambiente são novas atividades em crescimento no campo. a diferença entre o urbano e o rural é cada vez menos importante. saúde. são essenciais para a tomada de decisões. dos preços das matérias primas. o turismo. como a assistência técnica e a extensão rural. tanto em atividades urbano-industrial ou nas atividades emergentes de lazer. elemento central para a lucratividade das empresas. o controle da informação assim como a rapidez na análise de dados. Agora a agricultura não pode ser entendida sem sua vinculação com os setores que lhes fornecem os insumos industriais e lhes compram seus produtos. moradia. máquinas e equipamentos que permitissem a superação da pobreza dos agricultores (Graziano da Silva.25 também provocou a aceleração das inovações e as conquistas de novos mercados. “Em resumo. e às mudanças nos gostos dos consumidores. duas realidades em confronto. 1996). com seu próprio mercado de trabalho. mas um trabalhador autônomo que combina diversas formas de ocupação (assalariadas ou não). a informação e a ciência tornaram-se uma mercadoria. Para sobreviver. A idéia que identifica o “rural” exclusivamente com a agricultura não corresponde com a realidade. Em consequência. os funcionalistas americanos continuaram a identificar o campo com o atraso para justificar as ações de fora. as empresas devem ter a capacidade de responder às variações da taxa de câmbio.

O novo rural.” (Graziano da Silva. José. 1996:4). 27 Graziano da silva. 1996 (mimeo) .pluriatividade que combina atividades agrícolas e não-agrícolas.

Ironicamente.26 É precisamente essa combinação de atividades não-agrícolas fora de seu estabelecimento que diferencia o part-time da visão marxista clássica da proletarização do campesinato. Kautsky) consideravam que esse processo de proletarização implicava o desaparecimento do campesinato. O novo “mundo rural” caracteriza-se pelo crescimento das atividades rurais nãoagrícolas e pela transferência de atividades urbanas e industrias para o campo. . os clássicos (Marx. O surgimento do part-time nos países capitalistas desenvolvidos é resultado da redução do tempo de trabalho necessário dos agricultores devido ao aumento da mecanização das atividades agrícolas e da automação das atividades de criação. assistência técnica. algumas características próprias do mundo rural como as formas flexíveis de contratação e o emprego sazonal e temporário. A combinação de atividades agrícolas com não-agrícolas faz parte de um processo de “desespecialização” da divisão social do trabalho e que se origina nas mudanças recentes no processo de trabalho tanto na indústria fordista como na agricultura moderna. Muitas indústrias deslocam-se para o campo buscando uma maior proximidade de matérias-primas e de mão-de-obra barata e desindicalizada. que combina desde a prestação de serviços manuais até o emprego temporário nas indústrias tradicionais (agroindústrias. etc. através da combinação de atividades tipicamente urbanas com a gerência especificamente agropecuária (Graziano da Silva. forma característica de transição da manufatura à indústria mecanizada. segundo. como por exemplo. 1996). individualizou-se a gestão produtiva das propriedades agrícolas e com isso os membros da família foram liberados para realizar outras atividades nãoagrícolas fora da propriedade.). Igualmente. têxtil. e o trabalho a domicílio.) e. Em consequência. muitas empresas têm migrado para o campo na busca de uma melhor qualidade de vida para seus funcionários e também por que no campo existe menor controle da poluição. assim como pela redução de áreas cultivadas e/ou a extensificação das atividades agropecuárias. b) especialização produtiva crescente permitindo o aparecimento de novos produtos e de mercados secundários. A pluriatividade manifesta-se de duas formas. com o objetivo de diminuir os custos. etc. constituem a nova fisonomia da indústria do final do século XX. vidro. mudas e insumo. através de um mercado de trabalho relativamente indiferenciado. Além disso. de animais jovens. bebidas. Ainda Graziano da Silva (1996:6-7) enfatiza outros fenômenos relacionados com a pluriatividade nos países desenvolvidos: “a) O ‘desmonte’ das unidades produtivas em função da possibilidade de externalização de várias atividades que antes tinham que ser realizadas na própria fazenda através de contratação de serviços externos (aluguel de máquinas. Primeiro.

Os conceitos de “urbano” e “rural” resultam obsoletos e não há elementos teóricos que nos expliquem as complexas relações entre eles. frutas e hortaliças. além de uma melhora substancial na qualidade de vida para os que moram nas zonas rurais. . saneamento básico. como motoristas. Em algumas regiões do Rio Grande do Sul. agricultores. Muitas vezes os proprietários dessas pequenas áreas combinan o lazer com o desenvolvimento de alguma atividade produtiva (criação de abelha. nos países subdesenvolvidos também pode-se observar a emergência da pluriatividade e do “part-farmer”. exigem um marco conceitual distinto que possibilite entender essas mudanças. agroindústrias e empresas de distribuição comercial.. O meio rural está criando um outro tipo de riqueza.” Apesar das diferenças. constituída de bens e serviços não materiais. assistência médica e educação.. a desarticulação do sistema agrícola colonial dá lugar à emergência da ‘part-time farming’ e da ‘pluriactivite’ da força de trabalho dos colonos. ou seja. 1996). produção de flores e plantas ornamentais. “. no Brasil e na América Latina nas últimas décadas. que se assalariam nas fábricas de calçados. principalmente aquelas relacionadas com a proliferação das agroindústrias e as relacionadas com a urbanização do meio rural (moradia. prestadores de serviços. d) crescimento do emprego qualificado no meio rural. o “mundo rural” ganhou novas funções e novos tipos de ocupações (Graziano da Silva.” (Schneider. atividades de recreação e turismo). e) melhoria na infraestrutura social e de lazer.27 c) formação de redes vinculando fornecedores de insumos. têm crescido as atividades não agrícolas. As transformações da agricultura. 1996: 310) No campo brasileiro. mecânicos. digitadores e profissionais liberais vinculados a atividades rurais nãoagrícolas. aves. assim como também cabe salientar a multiplicação de sítios de recreio (pequenas áreas de lazer de famílias de classe média urbana). possibilitando maiores facilidades de acesso aos bens públicos como previdência. emboram permaneçam residindo e vivendo no espaço rural-agrário. além de maiores facilidades de transporte e meios de comunicação. turismo. especialmente de profissões técnicas e administrativas de conteúdo tipicamente urbano. peixes e outros animais. lazer e outros serviços) e com a preservação do meio ambiente. Considerações finais Conclui-se que o “mundo rural” não pode continuar a ser considerado apenas como o espaço onde se realiza a produção agropecuária e fornecedor de mão-de-obra.

um novo enfoque sobre a agricultura”. A partir de uma perspectiva teórica. deriva-se daí a necessidade de estudar. às políticas de intervenção do Estado para a modernização da agricultura (novas áreas de colonização. Grossi Porto. de acordo com as quais. Na mesma linha de Gómez (1994). Como nos desafia Cavalcanti (1993:62). O “rural” representa um conjunto de objetos empíricos. até a atualidade. 1994). 1993) que explore novas perspectivas teórico-metodológicas e defina novos temas de pesquisa. A “tarefa” de revisitar o campo se traduz na definição de fenômenos antes não considerados na análise. uma “extrema ideologização”. 1993. De acordo com Tavares dos Santos (1991). resultado da crescente exclusão social e onde a perspectiva política “. foram estudados fenômenos relativos à estrutura da posse da terra. 1993). a distinção entre cidade e campo”. Nesse período. Ainda.. como por exemplo. o valor das agroindústrias supera o valor da terra. inovações tecnológicas na agricultura e estímulos para exportação) e seus impactos na organização da produção e nas relações de trabalho. apesar das semelhanças que esta tem com outros setores.28 A utilização de critérios espaciais e ocupacionais é insuficiente para explicar as especificidades da sociedade rural. que dificultam a construção de uma nova abordagem teórica sobre os processos agrários. torna-se mais dependente da sociedade global. nas últimas décadas os estudos sobre o “campo” representam parte substancial da produção sociológica brasileira. como descobrir facetas diferentes de fenômenos já estudados.. os resultados desses estudos parecem requerer novos questionamentos e instrumentos teóricos-metodológicos que possibilitem “. mas não necessariamente objetos científicos. em uma formação social determinada”. Para formar esses objetos científicos é necessário fazer uso de conceitos e teorias disponíveis no conhecimento sociológico. na medida em que perde sua importância relativa. A produção teórica sobre o “mundo rural” produzida nos últimos quarenta anos merece ser objeto de avaliação profunda e de reflexão crítica que permita encontrar seus obstáculos epistemológicos frente às transformações da sociedade contemporânea.. os fenômenos que ocorrem no espaço agrário (Tavares dos Santos. (D’incao et al. enfatiza que a produção teórica brasileira sobre o “rural” tem sofrido. Tavares dos Santos (1991: 15). “trata-se de reconhecer que tais processos sociais agrários constituem expressões do processo histórico da divisão social do trabalho. (Tavares dos Santos 1991: 15). alguns sociólogos brasileiros (Cavalcanti. desde uma perspectiva sociológica. pois sua estrutura interna baseia-se na propriedade e no uso da terra como fator produtivo e simbólico. assentamentos. No entanto. 1991).parece sobre determinar a visão analítica”. além do que. 1991). o campo deve continuar (ou não) a ser objeto de estudo da Teoria Sociológica. mais especialmente. Entendendo o espaço agrário “como um locus de relações sociais de produção específicas. (Gómez. determinarem novas questões a serem analisadas e esboçar tendências e definir as características. dos clássicos aos contemporâneos. chamam a atenção sobre a necessidade de “revisitar o campo” e de construir um outro “olhar sociológico” (Tavares dos Santos. A definição de um novo campo de estudos da .a explicação dos múltiplos entrelaçamentos existentes entre esses diferentes fenômenos e a sociedade em termos amplos..

sociologia sobre a agricultura implica algumas limitações e impasses científicos. o desenvolvimento da sociologia está vinculado à mudança social e a uma situação de crise. Como afirma Solari (1972). .

Tavares dos Santos (1993). a partir das quais. porque pouco se afasta dos antigos conceitos dos estudos da comunidade e pela sua incapacidade de criticar o sistema no qual se insere (Friedland apud Cavalcanti. Como foi mencionado anteriormente. produto de obstáculos epistemológicos como. (que em certa medida é produto da crise do marxismo estruturalista e da análise funcionalista da “sociologia rural”). A Sociologia Rural nos Estados Unidos está sendo questionada pela sua fragilidade. além de ser uma obrigação de ofício. obstáculos e tendências da agricultura brasileira. Canadá. As críticas têm levado teóricos americanos. Espanha e Alemanha. A partir da leitura dos estudos agrários recentes. seja pela significância e abrangência dos temas selecionados. Como afirma (Grossi. desde meados da década de 70. é dentro dessa preocupação epistemológica que tem emergido. Apesar de algumas revisões na produção teórica sobre os processos sociais agrários. sua vinculação às tradições teóricometodológicas funcionalistas. (Tavares dos Santos. dado o processo de urbanização da sociedade brasileira. das ocupações agrícolas em sentido amplo. pode-se propor alguns elementos que possibilitem a superação a denominada “crise dos paradigmas” e construir um outro olhar sobre o campo. na década de 80 foram feitas algumas avaliações sobre a produção sociológica que teve o campo como objeto e. por exemplo. Kautsky e Chayanov. Esse movimento crítico é denominado “nova sociologia rural” ou “sociologia da agricultura”. Nesse caminho. é uma condição necessária para novas abordagens. 1991). provoca efeitos negativos na expansão da análise sociológica do campo brasileiro. Avaliar essa produção. “sociologia da agricultura”. “economia política da agricultura” ou “sociologia dos processos agrários”. Inglaterra. em alguns países de capitalismo avançado como Estados Unidos.28 Nos Estados Unidos essa corrente intelectual surge em meados da década de 70. 1993: 57). para converter-se num ramo das sociologias das ocupações. a sociologia rural teria que desaparecer. Esta situação agrava-se pelo fato de que na sociologia rural há uma certa inércia explicativa. busca-se um . para facilitar comparações com outros países (Cavalcanti. O debate destas perspectivas teórico-metodológicas poderiam contribuir na definição de novos problemas ou questões.29 Dessa forma. foram emitidos pareceres contra ou a favor da continuidade dessas análises. seja pelo pouco rigor científico no tratamento dos mesmos. uma nova tendência intelectual denominada “nova sociologia rural”. quando a agricultura nesse país atravessa uma crise profunda. Lenin. França. . a propor novas questões de estudos. no que se referem aos processos sociais que aí se desenvolvem. questiona em que medida a denominada “crise dos paradigmas”. baseado em tendências neomarxistas e neo-weberianas que resgatam as constribuições de Marx. os estudos realizados até agora requerem uma análise crítica sobre as possibilidades. Esses problemas têm uma relação direta com a chamada crise dos paradigmas. ao menos em seu conteúdo tradicional. Segundo Cavalcanti (1993). a sociologia rural mostra-se como expressão da dominação do campo pela cidade e. completado esse processo. 1993). 1993). predominantes na Sociologia Rural Americana dos anos 60 ou pela tendência a se utilizar esquemas classificatórios rígidos para enquadrar grupos e classes sociais.

. percorrer os mesmos 28 Os teóricos que formam parte da “sociologia da agricultura” publicam a revista International Journal of Sociology and Food .. Trata-se de “.retorno que possibilite ir ao encontro do novo.

a emergência de uma nova forma de pensar o “mundo rural” no Brasil seguindo a vertente internacional que incorpora de forma criativa as contribuições teóricas de Weber e Marx.” A avaliação da produção teórica sobre o “mundo rural” possibilitará o delineamento de perspectivas de análise que abordem tanto temáticas já tratadas. O segundo. quanto questões emergentes que carecem de reflexões sociológicas pertinentes. Nelas. ao enterrado. buscou-se a análise das classes a partir da sua posição no processo produtivo. horizontes mais abrangentes. quase sempre. E ao não existente em visitas anteriores. Finalmente se pode afirmar que a influência e predominância do “marxismo clássico” na sociologia rural brasileira têm impedido um desenvolvimento mais amplo das análises acerca da nova dinâmica do “mundo rural”. 1993). é a sua vinculação com a orientação funcionalista. Dentro desta visão. Essa visão é criticada por Marx quando reconhece uma nãolinearidade do processo histórico. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .. Com o olhar atento ao invisível. é a vinculação da Sociologia “Rural” a uma perspectiva evolucionista do pensamento histórico. mesmo com lentidão. Um terceiro obstáculo refere-se às análises sobre as classes sociais e os grupos sociais. para enfocá-las sob novas dimensões. (Grossi. para retornar. Contudo é possível observar que há. visão esta que está presente especialmente nos estudos sobre a difusão de inovações.30 caminhos. Visões que alcancem. Tavares dos Santos (1991) identifica alguns obstáculos epistemológicos da Sociologia “Rural” brasileira. com novos olhos. as mesmas trilhas e veredas. as práticas sociais dos grupos dominados são entendidas dentro do processo de modernização. no âmbito da construção teórica. O primeiro. assumindo uma postura dualista: o “tradicional” e o “moderno” ou “rural” e o “urbano”. ao dissimulado.

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José Vicente. Ciências Sociais Hoje. tempo de produção e desenvolvimento capitalista na agricultura: uma reconsideração da tese de Mann-Dickinson. o papel da política na sociedade ou o comportamento religioso —. tentando explicá-los. El desafio de la sociologia rural en la actualidad. 4. que serve para estudar os fenômenos sociais. ou seja. o maior interessado na produção e sistematização do conhecimento sociológico atualmente é o Estado. São Paulo: Brasileinse. Porto Alegre. abril de 1982. Cobrindo todas as áreas do convívio humano — desde as relações na família até a organização das grandes empresas. PRADO JR. Boulder. Montclair. Sérgio. Frederick H. 1973. a Sociologia pode vir a interessar. grupos e instituições.Número Especial. 1. 1996. Enquanto o indivíduo na sua singularidade é estudado pela psicologia.” In: Buttel. e Newby. Enrico. p. Tempo de trabalho. 1985 O que é Sociologia A Sociologia é uma das ciências humanas que estuda as unidades que formam a sociedade.. Porto Alegre: Programa de PósGraduação em Sociologia. Cadernos de Sociologia. Associação dos sociólogos de São Paulo (ASEP)Centro Brasileiro de Análise e Planejamento. Giovanni e Pugliese. Osmund & Co. Entretanto. My Own Boss. 9(1): 7-26. analisando os homens em suas relações de interdependência. José Vicente. Literatura Econômica. “Capitalism in agriculture and capitalism agriculture: the Italian case. Howard.) The Rural Sociology of the Advanced Societies. 347-356. Aldo. MOONEY. em diferentes graus de intensidade. 1993. . 1991 WRIGHT. São Paulo: ANPOCS/Vértice. REVISÃO CRÍTICA DA PRODUÇÃO SOCIOLÓGICA VOLTADA PARA A AGRICULTURA. NJ: Allanheld. ano 17-n. CO: Westview Press. RS. Classes. TAVARES DOS SANTOS. México. Ensaios FEE. Erick Olin. 1972. Compreender as diferentes sociedades e culturas é um dos objetivos da sociologia. a Sociologia tem uma base teórico-metodológica. Os resultados da pesquisa sociológica não são de interesse apenas de sociólogos. A construção de um outro olhar sociológico sobre o campo. São Paulo: Companhia Editora Nacional..32 MOONEY. n. Crítica da Sociologia Rural e a construção de uma outra Sociologia dos processos agrários. São Paulo. In: Szmrecsányi. TAVARES DOS SANTOS. 1987. 32. Patrick H. estuda o comportamento humano em função do meio e os processos que interligam os indivíduos em associações. O Objeto da sociologia rural. 1980 NEWBY. (UFRGS). London: Verso Editions. SOLARI. Howard (org. Vida Rural e mudança social. Comércio Exterior. Os colonos da indústria calçadista e as transformações da agricultura familiar. Caio. vol. Patrick H. A revolução brasileira. a diversas outras áreas do saber. normalmente o principal financiador da pesquisa desta disciplina científica. 24-25 de março de 1983 SCHNEIDER. Tamás e Queda Oriowaldo. 1988 MOTTURA.

como raça ou etnicidade. além de instituições como a família. normalmente. a Sociologia pretende explicar a totalidade do seu universo de pesquisa. uma vez que os estudos micro-sociológicos podem estar associados ou ajudarem no melhor entendimento de problemas macrosociológicos. Entretanto. e também se interessa por eventos únicos sujeitos à inferência sociológica (como. mas também desenvolver um "antídoto" para a desintegração social. nestas estruturas. a experiência de pessoas do mundo é crescentemente atomizada e dispersada. na forma de resposta acadêmica para um desafio de modernidade: se o mundo está ficando mais integrado. as técnicas qualitativas — como entrevistas dirigidas. é tarefa da Sociologia transformar as malhas da rede com a qual a ela capta a realidade social cada vez mais estreitas. Sociólogos fazem uso frequente de técnicas quantitativas de pesquisa social (como a estatística) para descrever padrões generalizados nas relações sociais. classe e gênero.Assim como toda ciência. Os cursos de técnicas quantitativas/qualitativas servem. através dos seus conceitos. Isto ajuda a desenvolver modelos que possam entender mudanças sociais e como os indivíduos responderão a essas mudanças. discussões em grupo e métodos etnográficos — permitem um melhor entendimento dos processos sociais de acordo com o objetivo explicativo. consequentemente. E pesquisam os microprocessos como relações interpessoais. procurando explicá-los no seu significado e importância singulares. ou desarranjos. pode constituir para as pessoas um excelente instrumento de compreensão das situações com que se defrontam na vida cotidiana. teorias e métodos. A Sociologia surgiu como uma disciplina no século XVIII. História |[pic] |[pic] |[pic] |[pic] | . Em alguns campos de estudo da Sociologia. a objetivos explicativos distintos ou dependem da natureza do objeto explicado por certa pesquisa sociológica: o uso das técnicas quantitativas é associado às pesquisas macro-sociológicas. Ainda que esta tarefa não seja objetivamente alcançável. de si mesmas como seres inevitavelmente sociais. inclusive crime e divórcio. A Sociologia ocupa-se. Por essa razão. das suas múltiplas relações sociais e. às pesquisas micro-sociológicas. por exemplo. Sociólogos não só esperavam entender o que unia os grupos sociais. processos sociais que representam divergência. das observações do que é repetitivo nas relações sociais para daí formular generalizações teóricas. o conhecimento sociológico. as qualitativas. Hoje os sociólogos pesquisam macroestruturas inerentes à organização da sociedade. o uso de ambas as técnicas de coleta de dados pode ser complementar. o surgimento do capitalismo ou a gênese do Estado Moderno). ao mesmo tempo.

| | | |Gilberto Freyre | |Karl Marx | |Vilfredo Pareto | |Émile Durkheim |[pic] | | |[pic] | |[pic] | | |Georg Simmel |Ferdinand Tönnies |Max Weber | A Sociologia é uma área de interesse muito recente. como as Revoluções Industrial e Francesa. se a pessoa pudesse compreender este progresso. colocaram em destaque mudanças significativas da vida em sociedade com relação a suas formas passadas. é necessário frisar. Esta disciplina marca uma mudança na maneira de se pensar a realidade social. Em Comte. (corrente que teve grande força no século XIX). que esperava unificar todos os estudos relativos ao homem — inclusive a História. da Ciência Política e da Antropologia. poderia prescrever os "remédios" para os problemas de ordem social. Ela representou a racionalização da produção da materialidade da vida social. Montesquieu também pode ser encarado como um dos fundadores da Sociologia . No entanto. desvinculando-se das preocupações especulativas e metafísicas e diferenciandose progressivamente enquanto forma racional e sistemática de compreensão da mesma. seu esquema sociológico era tipicamente positivista. convertendo grandes massas camponesas em trabalhadores industriais. baseadas principalmente nas tradições. de forma muito clara. se consolida . para o pensamento social. as terras e as ferramentas sob o controle de um grupo social. a Psicologia e a Economia. Antes. políticas e culturais ocorridas no século XVIII. e ele acreditava que toda a vida humana tinha atravessado as mesmas fases históricas distintas e que. A Sociologia surge no século XIX como forma de entender essas mudanças e explicá-las.talvez como o último pensador clássico ou o primeiro pensador moderno. O triunfo da indústria capitalista foi pouco a pouco concentrando as máquinas. Assim é que a Revolução Industrial significou. 2 Em que pese o termo Sociologie tenha sido criado por Auguste Comte (em 1838). que a Sociologia é datada historicamente e que o seu surgimento está vinculado à consolidação do capitalismo moderno. mas foi a primeira ciência social a se institucionalizar. portanto. Neste momento. As transformações econômicas. algo mais do que a introdução da máquina a vapor.

As transformações econômicas. Máquinas foram destruídas. tiveram um efeito traumático sobre milhões de seres humanos ao modificar radicalmente suas formas tradicionais de vida. tendo como fundador Auguste Comte e seu principal expoente clássico em Émile Durkheim. Há paralelamente um aumento do funcionalismo do Estado que representa um aumento da burocratização de suas funções e que está ligado majoritariamente aos estratos médios da população. pode-se claramente observar que a Sociologia tem ao menos três linhas mestras explicativas. que mesmo não sendo um sociólogo e sequer se pretendendo a tal. a Sociologia não é uma ciência de apenas uma orientação teóricometodológica dominante. pois colocava a sociedade num plano de análise relevante. como por seu novo protagonismo político já que junto a estas transformações de ordem econômica pôde-se perceber o papel ativo da sociedade e seus diversos componentes na produção e reprodução da vida social. O desaparecimento dos proprietários rurais. que se achavam em curso no ocidente europeu desde o século XVI. Ela traz diferentes estudos e diferentes caminhos para a explicação da realidade social. . fundadas pelos seus autores clássicos. o que se distingue da percepção de que este papel seja privilégio de um Estado que se sobrepõe ao seu povo. não poderiam deixar de provocar modificações na forma de conhecer a natureza e a cultura. Trata-se das modificações que vinham ocorrendo nas formas de pensamento. de matriz teórico-metodológica hermenêutico-compreensiva. Este fato é importante para o surgimento da Sociologia. pelas novas condições de existência por ela criada. originada pelo Iluminismo.a sociedade capitalista. Mas uma outra circunstância concorreria também para a sua formação. evoluindo para a criação de associações livres. atos de sabotagem e exploração de algumas oficinas. a imposição de prolongadas horas de trabalho. Correntes sociológicas Porém. que divide de modo central a sociedade entre burgueses (donos dos meios de produção) e proletários (possuidores apenas de sua força de trabalho). iniciada por Karl Marx. Não demorou para que as manifestações de revolta dos trabalhadores se iniciassem. O surgimento da Sociologia prende-se em parte aos desenvolvimentos oriundos da Revolução Industrial. das quais podem se citar. dos artesãos independentes.. formação de sindicatos e movimentos revolucionários. e etc. deu início a uma profícua linha de explicação sociológica. (2) a sociologia compreensiva iniciada por Max Weber. Assim. não necessariamente em ordem de importância: (1) a positivista-funcionalista. roubos e crimes. de fundamentação analítica. e (3) a linha de explicação sociológica dialética. como objeto que deveria ser investigado tanto por seus novos problemas intrínsecos.

por motivações diferentes que as da velha Europa (mas certamente influenciada pelos europeus. econômicas. 3 especialmente a teuto-francesa. políticas. Hinkle. XVIII e XIX inspiraram os pensadores a analisar as questões sociais. especialmente pela sociologia britânica e positivista de Herbert Spencer). Thomas. é importante perceber que. Martin Bulmer e Roscoe C. algo bem diverso da perspectiva acadêmica europeia. . podem ser citados: William I. vai debruçar-se sobre todos os aspectos da vida social. psicológicas. Atualmente. contribuindo com os lucros e resultados da organização. ela estuda organizações humanas.Estas três matrizes explicativas. originaram quase todos os posteriores desenvolvimentos da Sociologia. assim. sem jamais esquecerse que o homem só pode existir na sociedade e que esta. instituições sociais e suas interações sociais. Robert E. lhe será uma "jaula" que o transcenderá e lhe determinará a identidade. levando à sua consolidação como disciplina acadêmica já no início do século XX. Entre os principais nomes do estágio inicial da sociologia norte-americana. Para compreender o surgimento da sociologia como ciência do século XIX. O sociólogo dentro da organização intervem diretamente sobre os resultados da empresa. Ainda que seja relativamente mais tardio seu aparecimento nos Estados Unidos. educacionais. Nos EUA a Sociologia esteve de certo modo "engajada" na resolução dos "problemas sociais". ele se dá. É interessante notar que a Sociologia não se desenvolve apenas no contexto europeu. nesse contexto histórico social. A Sociologia. Desde o funcionamento de estruturas macro-sociológicas como o Estado. Esta disciplina tem se concentrado particularmente em organizações complexas de sociedades industriais. quando a organização é observada e estudada podem se verificar as falhas assim alterar seu sistema de funcionamento e gerar lucro. inevitavelmente. Park. originadas pelos seus três principais autores clássicos. em grande medida. as ciências teóricas e experimentais desenvolvidas nos séculos XVII. aplicando mormente o método comparativo. a classe social ou longos processos históricos de transformação social ao comportamento dos indivíduo num nível micro-sociológico. hoje ela é mais uma entre as ciências. com enfoque científico. A sociologia como ciência da sociedade Ainda que a Sociologia tenha emergido em grande parte da convicção de Comte de que ela eventualmente suprimiria todas as outras áreas do conhecimento científico.

baseada. e as discussões epistemológicas mais desenvolvidas. sociólogos e antropólogos que conduziam estudos sobre sociedades não-industrializadas ofereceram contribuições à Antropologia. a diferença entre Sociologia e Antropologia tem mais a ver com os problemas teóricos colocados e os métodos de pesquisa do que com os objetos de estudo. Quanto a Psicologia social.Ao contrário das explicações filosóficas das relações sociais. consequentemente. a pesquisa em Economia é frequentemente influenciada por teorias sociológicas. a ciência se presta à explicação e à compreensão dos fenômenos. ora tentando aproximar as ciências. Muitos dos teóricos que almejavam conferir à sociologia o estatuto de ciência. estética e históricas. Tais peculiaridades. apesar das peculiaridades dos fenômenos sociais quando comparados com os fenômenos de natureza e. Já o enfoque da Sociologia é na ação dos grupos. Nesse aspecto. negando às humanas tal estatuto com base na inviabilidade de qualquer controle dos dados tipicamente humanos. Deve ser notado. que visa discernir entre bem e mal. e um ceticismo metodológico a fim de extirpar os elementos "incontroláveis" e "dóxicos" recorrentes numa ciência ainda muito nova e dada a grandes elucubrações. como mostrado por Karl Marx e outros. objetivando explicar as variâncias no comportamento social em suas ordens moral. no entanto. Esforços nesse sentido são visíveis nas obras de modernos teóricos sociais. entretanto. Por fim. que mesmo a Antropologia faz pesquisa em sociedades industrializadas. Como ciência. ela se preocupa também com as motivações exteriores que levam o indivíduo a agir de uma forma ou de outra. na ação geral. além de se interessar mais pelos comportamentos do que pelas estruturas sociais. quando muito. Diferentemente da ética. a Filosofia social intenta criar uma teoria ou "teorias" da sociedade. buscaram nas ciências naturais as bases de sua metodologia já mais avançada. foram e continuam sendo o foco de muitas discussões. Já a Economia diferencia-se da Sociologia por estudar apenas um aspecto das relações sociais. sejam estes naturais ou sociais. Uma das primeiras e grandes preocupações para com a sociologia foi eliminar juízos de valor feitos em seu nome. aquele que se refere a produção e troca de mercadorias. Comparação com outras ciências sociais No começo do século XX. na observação casual de alguns fatos. Dessa forma foram empregados métodos estatísticos. considerados por muitos. as explicações da Sociologia não partem simplesmente da especulação de gabinete. imprevisíveis e impassíveis de uma análise objetiva. reunindo um arcabouço de conhecimento que . até mesmo. ora afastando-as e. a Sociologia tem de obedecer aos mesmos princípios gerais válidos para todos os ramos de conhecimento científico. a observação empírica. da abordagem científica da sociedade.

Nesse sentido. Por outro lado. sejam eles empresas privadas ou Centrais de Inteligência. representam uma das mais profícuas vertentes da filosofia social. podendo mesmo servir à finalidades antidemocráticas. o meio indireto. o uso do conhecimento sociológico é potencialmente perigoso. a teoria social de Marx e. no qual o Estado. isto é. seja complexo apreender tal abordagem. Ela pode partir desde a perspectiva do sociólogo individual. submetendo a produção do conhecimento não ao progresso da ciência por si ou da sociedade. Jürgen Habermas. Escola de Frankfurt.entrelaça a filosofia hegeliana. entre outros. como mais popularmente se diz. seus resultados podem ser utilizados com vistas à melhoria dos mecanismos de dominação por parte do Estado ou de grupos minoritários. Theodor Adorno. as obras de Max Horkheimer. como na orientação de políticas públicas promovidas nem sempre de acordo com o interesse das maiorias ou no respeito às minorias. para alcançarem maiores patamares de liberdades políticas e de bem-estar social. Max Weber. Ela pode ser um tipo de conhecimento orientado no sentido de promover um melhor entendimento dos homens acerca de si mesmos. kantiana. a Sociologia pode ser orientada como uma 'ciência da ordem'. 4 A produção sociológica pode estar voltada para engendrar uma forma de conhecimento comprometida com emancipação humana. As formas como a Sociologia pode ser uma 'ciência da ordem' são diversas. representada por aquilo que ficou conhecido como Teoria Crítica ou. Há. À primeira vista. porém. em vista do tipo de conhecimento que produz. mas aos seus interesses materiais imediatos. talvez. Entretanto. autoritárias e arbitrárias. à revelia dos interesses e valores da comunidade democrática com vistas a manter o status quo. A evolução da Sociologia como disciplina . pode servir a diferentes tipos de interesses. utilizando-se de os valores morais e políticos do iluminismo liberal mesclados com os ideais socialistas. ao mesmo tempo. como principal ente financiador de pesquisas nas áreas da sociologia escolhe financiar aquelas pesquisas que lhe renderam algum tipo de resultado ou orientação estratégicas claras: pode ser tanto como melhor controlar o fluxo de pessoas dentro de um território. Sociologia da Ordem e Sociologia da Crítica da Ordem A Sociologia.

Na década de 80 a sociologia finalmente volta a ser disciplina no ensino médio. a sociologia sofreu influencias americanas e europeias. aos conflitos entre as classes sociais. de nada adiantava produzir mais porque o excedente não iria para aqueles deles necessitados. na Europa..e também ocorreu a profissionalização da sociologia. O surgimento da Sociologia e o Socialismo Europa.. embora a densidade demográfica crescesse assustadoramente. nas questões de reforma agrária e movimentos sociais na cidade e no campo e a partir de 1964 o trabalho dos sociólogos se voltou para os problemas sócio políticos e econômicos originados pela tensão de se viver em um país cuja forma de poder é o regime militar. Além da preocupação com a economia política e mudanças sociais apropriadas com a instalação da nova república. iria engordar ainda mais os cofres da Nobreza. ela vai sofrer influências das teorias marxistas. A prática do lucro era condenada pela Igreja Católica. isto diz respeito. se diz que o Modo de Produção entrou em contradição com os interesses das Forças Produtivas. por exemplo. que serão mais tarde chamados de “burgueses”. e estudos sobre índios e negros Nas décadas seguintes de 40 e 50 a sociologia voltou para as classes trabalhistas tais como salários e jornadas de trabalho. Desde o início a sociologia vem-se preocupando com a sociedade no seu interior. e analisando temas como abolição da escravatura. As pessoas começam a se rebelar. Na década de 60 a sociologia se preocupou com o processo de industrialização do país. e outros assuntos culminantes. voltam também em relação ao estudo da mulher. por exemplo. Na América Latina. ao trabalhador rural. crise do Modo de Produção Feudal. fundadores de burgos. êxodos. e também comunidades rurais. Naquele caso. não restava alternativa exceto a atividade comercial voltada ao lucro.A sociologia no mundo foi-se mostrando presente em várias datas importantes desde as grandes revoluções. fogem dos feudos (a que eram “presas” por laços de honra) e passam a roubar ou com parcos recursos comprar bens baratos a grandes distâncias vendendo-os mais caro onde eram desejados – ressaltem-se as famosas “especiarias” -. Classicamente. final da Idade Média. na medida em que as suas preocupações passam a ser o subdesenvolvimento. tida como “desonesta” por praticamente todas as culturas e civilizações do mundo a partir de todos os pontos de vista éticos. Mas para os fugitivos dos feudos. a maior potência do mundo à época. ou seja. . No Brasil nas décadas de 20 e 30 a sociologia estava num estudo sobre a formação da sociedade brasileira. desde lá cada vez mais foi de fundamental participação para a sociedade mundial e também brasileira.

a “república”. “king” e “marquesa” passam a ser nomes de animais domésticos da burguesia! O passo seguinte foi agradecer e condecorar trabalhadores. desempregados e desesperados. em contradição com a sua prática) ou o do pastor? Assim cresceram as seitas protestantes pelo mundo afora. por vezes aberta mas sempre e imediatamente proclamadas ilegais ou heréticas e perseguidas por todo o aparato estatal e religioso que a burguesia podia colocar em marcha! . muito mais interessante e lucrativo para a burguesia. você prosperará imensamente nesta terra. Agora.. – ser “mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus”. Era fundamental reorganizar a sociedade de maneira a que os novos donos da riqueza fossem também os donos do poder. Os padres diziam nas missas – embora sua prática fosse bem outra. superiores em número. desempregados e desesperados e mandá-los de volta a seus trabalhos. Por outro lado começam a surgir expadres. por vezes secretas. “duque”. uso da força física. no limite. lucros. à medida que se conscientizavam de que foram usados para uma troca de poder que em absolutamente nada lhes beneficiou começam a organizar-se em sindicatos e outras agremiações classistas.O capitalismo era como um pequenino câncer que surgiu no final da sociedade feudal. preferiria o discurso do padre (vale repetir. Politicamente a burguesia endinheirada sentia-se lesada tendo de pagar tributos à antiga nobreza. No início compravam títulos de nobres aos de antiga linhagem – que os discriminavam! – a seguir passaram a pensar em alternativas mais radicais (ser radical é ir à raiz e a burguesia foi radical no período de suas glórias revolucionárias!) como convocar os trabalhadores a uma aliança contra a nobreza e implantar um novo tipo de regime político. Surge uma nova religião para reforçar uma ética mais consentânea com os tempos cambiantes: surge o protestantismo. mais recentemente.. após muitos percalços. crescendo e hoje. maçônicas mesmo. Se você tivesse enriquecido à beça na base do comércio lucrativo. Os burgueses convocaram seus empregados. nisso você verá um sinal de estar sendo por ele abençoado”. a burguesia e seus interesses comerciais se sobrepõem ao ser humano numa infecção que contamina todo o planeta. enfim.. saem-se vitoriosos. para uma aliança contra a nobreza ou “antigo regime” e. agora praticamente falida. Estes. Foi crescendo.. outro com proposta islâmica. como ocorreu no Chile de Salvador Allende e. agora pastores que passam a informar: “se a mão de Deus estiver sobre a sua cabeça. “Usurários”.. ou do empréstimo a juros. a seus desempregos e a seu desespero. reiterando serem pecaminosos aqueles que praticavam a cobrança de juros.. eram todos enfileirados 5 no caminho que conduz ao fogo do inferno. ambos intoleráveis hereges dentro do fundamentalismo de mercado. Aquelas sociedades que buscam a cura para este mal são “reconvertidas” ao satanismo pagão de holocaustos ao deus-mercado através de diversas formas de pressão e. no Afeganistão – um com proposta socialista.

um pedaço da enorme colcha de retalhos que mais tarde constituiria a Nação Alemã.. A essência é mais significativa que a aparência: Este postulado fez com que a Dialética ficasse conhecida como “Filosofia Negativa”. menciono apenas dois pontos. Com base no socialismo chamado “utópico” dos franceses. olha novamente. Augusto Comte e a “Física Social” Evidentemente era necessário que a burguesia também produzisse uma teoria em defesa de seus pontos de vista e poucos foram tão brilhantes – e influenciaram tanto a nossa combalida Nação – quanto o positivismo. a configuração já mudou completamente. tudo se transforma freqüentemente em seu contrário. pois buscava a compreensão do que está para além da superfície. Chegou à conclusão de que somente a partir do ponto de vista de quem não tem absolutamente nada a perder se pode almejar a vislumbrar a verdade..Karl Marx Originário da Renânia. voltando ao reino das aparências criar uma filosofia capaz de . da filosofia clássica alemã (em particular o materialismo de Feuerbach e a dialética de Hegel) e a economia clássica inglesa construiu o MATERIALISMO DIALÉTICO. cedo percebeu que enquanto houver neste mundo gente que se alimenta e gente que passa fome.. Movimento: Tudo está em movimento. Dialética Há muito que dizer e em que refletir sobre a Dialética. Era necessário olvidar a essência e trabalhar com o que é perceptível aos sentidos físicos mais grosseiros e imediatos. Adotando o ponto de vista dos trabalhadores criou um ferramental intelectual inédito e até hoje embatido para a compreensão do Real. Era necessário esquecer a “filosofia negativa” e. filosofia voltada não apenas à ascensão da classe trabalhadora ao poder. está de um jeito. incrivelmente perspicaz. do “Positivo”. É como as nuvens no céu: você olha. filho de burgueses e educados no mais rigoroso protestantismo. da mera aparência fenomênica de alguma coisa. enquanto houver opressores e oprimidos a espécie humana inteira estará refém da insânia.. mas à libertação de toda a espécie humana de toda a classe de opressão e exploração.

6 acerca da sociedade e do ser do homem....” Discípulo genial de Comte.. Posição hoje indefensável. que já percebem as falhas do positivismo clássico. Eivado de motivos nobres.. Weber – a jaula de ferro do capitalismo.. não filosófica.. Olvidando totalmente a existência concreta de interesses antagônicos na Sociedade Burguesa. busca integrar a todos em torno do ideal ou meta burguesa – “integralismo”. exterior ao indivíduo e coercitivo. e “juízos de valor”. como se isso fosse possível.. Durkheim e “As Regras. Durkheim tem contudo enorme valor para a Sociologia contemporânea. aquelas mesmas que pavimentam todas as estradas do inferno. através deles os pobres sejam menos pobres”. Como compreender o fato social? Primeiro passo: “Afastar sistematicamente as pré-noções”. Comte pregava a necessidade de “libertar o conhecimento social de toda a ingerência filosófica”. Se o fosse? Seria desejável? Se a filosofia responde a muitas questões que dizem respeito ao ser do homem no mundo. a Luta de Classes. Como se a própria colocação da questão – seja ela qual for – não traga nela embutidos os juízos ou as pré-noções. qualquer ciência que se volte a compreender o homem “afastando a ingerência filosófica” tende mais a falsear a compreensão do ser humano do que a compreendê-lo..compreender o social com tanta precisão quanto a matemática ou a física – que hoje sabemos também serem imprecisas... Falando claramente: para que uma ciência humana mereça ser chamada de “científica”. suas mesmas motivações – “conciliar Capital e Trabalho”. tem esta raiz.. Émile Durkheim sistematizou algumas de suas idéias e foi o primeiro a usar efetivamente a expressão “Sociologia” para referirse ao estudo em pauta.. O que é fato social? Tudo o que é coletivo. –. . que seu mestre ainda chamava de “Física Social”. e outras idiotices só críveis porque repetidas em altos brados e ad nauseam... Mas Comte e seus discípulos criaram um sistema “científico” voltado a conciliar o inconciliável: a Luta de Classes. por sinal. Os positivistas contemporâneos. impregnado de boas intenções.... emoções. “que os ricos sejam mais ricos para que.. crescendo por etapas ou degraus seria possível chegar-se a uma precisão “científica”. Como se fosse possível ao ser humano estar acima de todos os sentimentos. mantêm suas mesmas raízes.. em linhas gerais. Mas. tem de ser filosófica! O oposto disso é simplesmente fechar os olhos ao que constitui o SER do homem.

É nela que se defende que o grande critério a submeter o Real é a Razão Humanista. Você vale o quanto é capaz de produzir e é avaliado não pela grandeza de sua alma e de seus valores humanos. liberal. ao contrário. percebe-lhe as limitações e conduz os avanços sociológicos que esta corrente positivista havia logrado atingir ao marxismo. consta. O Clássico “História e Consciência de Classe” é um leitura obrigatória a todo aquele que queira compreender o ser humano vivendo em sociedade. Isso é a Destruição da Razão (em alemão. O Capital é irracional: desiguala os semelhantes e equaliza os dessemelhantes.Max Weber. não pronunciou uma única palavra. Georg Lukács Húngaro. Sua posição de professor conservador. De repente. particularmente Herbert Marcuse. filho de pastor evangélico. lutou na Primeira Guerra Mundial como capitão do exército prussiano chegou à conclusão de que é necessário não tomar partido. Teologia da Libertação . “Zerstorung der Vernunft”). que resgata a Dialética Materialista com grande ênfase à Dialética. militar e evangélico talvez explique os motivos do “acidente de trabalho” que o conduziu a uma profundíssima crise depressiva que durou quatro longos anos em que até a alimentação era levada à sua boca pela esposa. Sua grande obra ainda é “Razão e Revolução”. a que se alinha com muito maior conforto. Escola de Frankfurt É fundamental citar o lugar dos teóricos de Frankfurt. mas do quanto você tem em bens materiais. o gênio adormecido desperta para o espanto de todos e compõe uma das mais geniais obras sociológicas do século XX – “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”. a inteligência deve ser livre de vínculos (em alemão. não escreveu uma única linha. um dos maiores gênios do século XX. Segundo o capitão evangélico. O peso de sua erudição não tira o interesse do trabalho. Foi um dos últimos brilhos a ir mais longe que Marx dentro do pensamento marxista. Freischwebend Intelligenz). Quatro anos em que. separar o “lugar da teoria” do “lugar da prática” em ciência política. o mais notável discípulo de Weber.

esta é a grande contribuição da América Latina em geral e do Brasil em particular ao Saber Universal. morto e era aterrorizado pelo fantasma de seu cadáver insepulto o Capital proclama reiterado e repetidas vezes a “morte do comunismo”. Em síntese. como se a Vontade humana não houvesse sido capaz de proezas memoráveis como a transformação do Império Romano num Império Cristão. O que Weber chamava de “jaula de ferro” os Teólogos da Libertação chamam de “pessimismo defensivo” da burguesia. No início como um pequenino carcinoma que hoje tomou conta do planeta todo. E agora. da criminalidade. Assim como o Império Romano negou o cristianismo por quase 400 anos. O comunismo nascente comparado ao cristianismo também em processo de parturição no Império Romano. O capitalismo existe no mundo aí há uns quinhentos anos. • O século XVIII constituiu um marco importante para a história do pensamento ocidental e para o surgimento da sociologia: As profundas transformações políticas. eles dizem: “não tem jeito”. da prostituição. Mas o poder regenerativo do Humano surpreende mesmo aos 7 médicos e. Além da conflituosa . do alcoolismo. os exemplos se multiplicam. O escravismo antigo não foi eterno (durou alguns milhares de anos). proclamando-lhe extinto. econômicas e culturais levam ao surgimento da Sociologia (Ciência Social ou Ciência da Sociedade). seguramente capitalista não será! Origens e Definições da Sociologia • Surge após revoluções Burguesas (Inglesa/ industrial e Francesa: Por volta de 1830. morrerei convicto do Futuro Comunista da Humanidade! Não é possível saber como vamos suplantar esta situação amarga em que “o homem é o lobo do homem”. o que fazer? Como o saudoso Capitão Luís Carlos Prestes. tampouco o foi o feudalismo (que durou cerca de um milênio). mesmo sem saber como será a Sociedade do Futuro. caso o próprio nome “comunismo” tenha se tornado pouco palatável do ponto de vista do marketing político. a travessia do “Mar Tenebroso” que todos “sabiam” intransponível e a chegada ao Novo Mundo. “Sempre foi e sempre será assim” – preenchendo o futuro como se houvesse uma linha invisível a ligar todos os tempos.Segundo os grandes filósofos europeus contemporâneos. O revolucionário em busca de um mundo melhor. como Che Guevara ou o padre Camilo Torres é equiparado aos primeiros cristãos. • As conseqüências da rápida industrialização foram trágicas: aumento da violência. acabado. Não é crível que a espécie humana tenha de ser condenada ao inferno capitalista pelo resto da eternidade.

uma vez que o ritmo e o nível das mudanças que aí se verificam não chegavam a colocar a sociedade como “um problema” a ser investigado. • Pós revoluções burguesas. marca dos ideais iluministas que orientou o projeto revolucionário da burguesia deveria ser superado em nome da organização da sociedade e manutenção do status quo. • Não é por mero acaso que a sociologia – enquanto instrumento de análise – inexistia nas sociedades pré-capitalistas. religiosa para explicar a realidade. • Conteúdo estabilizador – reforma conservadora – leis imutáveis da vida social. o surgimento da sociologia prende-se em parte aos abalos provocados pela revolução industrial. a ênfase continuará sendo no pensamento e explicação racional. a se constituir em problema. • Surge com um interesse prático: resposta a crise social da época(XIX). • Não maistransformar a realidade masorganizar através de regras a sociedade: Ordem e Progresso. • Assim sendo. Sociologia: Ciência da Sociedade • É a formação de uma estrutura social muito específica – a sociedade capitalista – que impulsiona uma reflexão sobre a sociedade. sobre suas transformações. • Busca estado de equilíbrio numa sociedade dividida pelos conflitos de classe. mítica. . já no século XIX. Qual a importância desses acontecimentos para a Sociologia? • Essas transformações colocavam a sociedade num plano de análise. • Passa a prevalecer a busca por uma indagaçãoracional: método da observação e da experimentação – método científico. a interpretação crítica e negadora da realidade. a hierarquia social. vai pensar a ordem social enfatizando a importância das instituições burguesas: a autoridade. suas crises e seus antagonismos de classe. Diante desta nova realidade e das transformações sociais surge a sociologia: 1) Positivista 2) Dialética Sociologia Positivista • Ênfase na ordem. hierarquia e harmonia social. em objeto que deveria ser investigado. a família. • Neste momento (que se iniciou com o renascimento) há uma renuncia da visão sobrenatural. porém. pelas novas condições de existência por ela criadas e também devido as modificações que vinham ocorrendo nas formas de pensamento: na forma de buscar conhecer a natureza e a cultura.relação Capital x Trabalho.

do choque dialético entre esses dois pólos sobrevém uma nova situação histórica (síntese) que ainda carrega em si elementos do velho (tese) e do novo (antítese). • Relação intrínseca entre teoria e prática. políticos. • Compreensão dialética da realidade: (tese – antítese – síntese – tese) oposição sistemática: umatese gera dentro de si umaantítese. Sociologia Crítica/Dialética • Fenômenos sociais não são independentes dos fatores econômicos. mudá-la. culturais. políticos e culturais.(UEL) O lema da bandeira do Brasil. Teoria Social visa a manutenção da ordem social. entre o pensamento dialético e o pensamento positivista/conservador. • Realidade entendida como totalidade histórica: conhecimento crítico e negador da sociedade capitalista.• Procura criar um objeto autônomo “o social” independente dos fenômenos econômicos. • Luta de opostos: luta de classes como motor da história. Exercícios 1. • O caráter antagônico e contraditório da sociedade capitalista impediu um entendimento comum por parte da sociologia em torno ao objeto e aos métodos de investigação da nova ciência social. bem como as explicações sociológicas. indica a forte influência do positivismo na formação política do Estado brasileiro. por sua vez. tanto no que se refere a manter a ordem social vigente como para contestá-la. como tese novamente. . evidencia as contradições e antagonismos de classe desta sociedade. • O mundo. se divide entre aqueles que olhando a realidade querem mantê-la e aqueles que querem transformá-la. 8 • A falta de um entendimento comum na sociologia (no estudo dos fenômenos sociais) tem haver com o fato de vivermos numa sociedade dividida. Importante Considerar: • As explicações sociológicas sempre tiveram e têm intenções práticas: desejo de interferir nos rumos da sociedade. Teoria Social voltada à transformação da realidade. marcada pelos antagonismos e conflitos de classe. “Ordem e Progresso”. que se instala.

b) Apenas as afirmativas I e IV são corretas. e) Negação da instituição estatal e da harmonia coletiva baseada na hierarquia social. O fato social expressa o predomínio do ser individual sobre o ser social. b) Ideais de movimentos juvenis. causou estranheza. compareceu vestido com traje social. provocando risos. c) Denúncia dos laços de funcionalidade que unem as instituições sociais e garantem os privilégios dos ricos. . O fato social caracteriza-se por exercer um poder de coerção sobre as consciências individuais. III. O fato social é exterior ao indivíduo e apresenta-se generalizado na coletividade. O calouro. IV. II. Considere as afirmativas abaixo sobre as características do fato social para Émile Durkheim. 2. III e IV são corretas. c) Apenas as afirmativas II e III são corretas. a) Apenas as afirmativas I e II são corretas. segundo Émile Durkheim (1858-1917). Assinale a alternativa correta. em que todos estavam trajando roupas esportivas. O fato social é todo fenômeno que ocorre ocasionalmente na sociedade. que visam superar os valores das gerações adultas. I. olhares de espanto e de admiração. cochichos com comentários maldosos. a) Crença na resolução dos conflitos sociais por meio do estímulo à coesão social e à evolução natural da nação. d) Ideal de superação da sociedade burguesa através da revolução das classes populares. As regras que regem o comportamento e as maneiras de se conduzir em sociedade podem ser denominadas. imaginando que a festa seria formal.(UEL) Um jovem que havia ingressado recentemente na universidade foi convidado para uma festa de recepção de calouros. Ao entrar na festa. No convite distribuído pelos veteranos não havia informação sobre o traje apropriado para a festa. como fato social. d) Apenas as afirmativas I.Assinale a alternativa que apresenta idéias contidas nesse lema. O calouro não estava vestido de acordo com o grupo e sentiu as represálias sobre o seu comportamento.

comentam e debatem as campanhas políticas. A aplicação do modelo de pesquisa que aparece descrito no texto baseia-se. os relatos. p.e) Apenas as afirmativas I. d) estudar a psique humana que revela a autonomia do indivíduo em relação à sociedade. os poderes divinos sobre a natureza e sobre os humanos”. buscando descobrir quais as tendências dos eleitores. Convite à filosofia. b) pesquisar o proletariado como a classe social mais importante na estruturação da vida social. suas funções e suas finalidades. acompanham as conversas de grupos de pessoas comuns de diferentes classes que. como eles propõem e ouvem argumentos sobre o tema.) Assinale a alternativa que apresenta a afirmação que está de acordo com a definição de pensamento mítico dada acima. . 3. descobrem-se. Marilena. planilhas e tabelas de preferências de voto. Nessa técnica de pesquisa qualitativa. além de auto definir-se. as razões gerais que poderiam fazê-los mudar de opção. Pesquisadores. e) pesquisar os sentidos e os significados recíprocos que orientam os indivíduos na maioria de suas ações e que configuram as relações sociais. principalmente.(UEL) O pensamento científico. 4.(UEL) Por trás das disputas que os candidatos travam pela preferência do eleitorado. Com esses materiais heterogêneos produz a explicação sobre a origem e a forma das coisas. 161. as narrativas. para entender o comportamento dos grupos sociais. também classifica e conceitua outras formas de pensamento. é possível encontrar a definição de pensamento mítico como aquele que “vai 09 reunindo as experiências. há uma base minuciosa de informações. pois são eles que determinam os comportamentos individuais. Por exemplo. além da convergência das intenções. II e IV são corretas. 2000. (CHAUÍ. Perto das eleições. em troca de um sanduíche e um refrigerante. os concorrentes debruçam-se sobre gráficos. na teoria sociológica de Max Weber (1864-1920). as motivações que se repetem nos votos dos eleitores. escola e família. escondidos atrás de vidros espelhados. até compor um mito geral. São Paulo: Ática. tais como igreja. c) analisar os aparelhos repressores do Estado. A utilização dessa teoria indica que os pesquisadores pretendem: a) investigar as funções sociais das instituições.

altos-fornos. ferramentas de exércitos em trabalho. “Foi lá que conquistamos nosso primeiro título”. (declaração da capitã do time de vôlei do Vasco da Gama ao comemorar a transferência da partida contra o Flamengo para um ginásio de sua preferência) b) “Considero a sexta-feira 13 um dia ‘nebuloso’. o poder da mente é forte e aquelas pessoas que pensam negativamente podem atrair má sorte. são a pobreza. O pão ainda é destinado a alimentar: ele tem de dar lucro.” (depoimento de um candidato a emprego de gari no Rio de Janeiro. por que Alugar mãos? Elas têm de fazer coisas maiores no banco da fábrica Do que alimentar seu dono e os seus. mas prefiro me precaver com patuás e incensos”.a) “Acredito em coincidência e essa [a transferência do local do jogo] é uma vantagem a mais para nós nesta final. a distorção idade série e até o tráfico de drogas. lanifícios. Estaleiros. Para mim. a fim de aquentar o deus do lucro! Montanhas de maquinaria. Mas se a produção apenas é consumida. a distância entre a escola e a residência. tudo pode. (estudante. se é que se quer que haja Lucro! Apenas: para onde com a mercadoria? A boa lógica diz: Lã e trigo.” (divulgação na imprensa de dados do IBGE sobre educação) 5. tudo junto É sacrificado ao fogo. café e frutas e peixes e porcos.” (explicação dada por líder guarani diante do questionamento sobre a instalação de grupos indígenas em áreas de mata atlântica protegidas por lei) e) “As principais causas da exclusão educacional apontadas pelo censo do IBGE [Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística]. Estamos atrás do ‘paraíso’ sonhado por nossos ancestrais e ele se encontra por essas regiões. disputando vaga com outros 40 mil candidatos) d) “Viemos em busca da ‘Terra sem males’. 24 anos) c) “Não temo o desemprego. e não é também vendida Porque o salário dos produtores é muito baixo – quando é aumentado Já não vale mais a pena mandar produzir a mercadoria –. para amolecer o deus do lucro.(UEL) “A casa não é destinada a morar. atrás do ‘Éden’. o tecido não é disposto a vestir. quem com Deus está. minas e moinhos: Tudo quebrado e. Não “creio que ocorram coisas ruins para mim. sacrificado! . além do trabalho infantil.

quando a casa cai em estrondos Sobre as nossas cabeças. São Paulo. a pobreza e a fome são: 10 a) Oriundos da inveja que sentem os miseráveis por aqueles que conseguiram enriquecer. Bertolt. Crítica marxista.) Os versos anteriores fazem parte de um poema inacabado de Brecht (1898-1956) numa tentativa de versificar O manifesto do partido comunista de Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895). a burguesia atormentada Despedaça os próprios bens e desvaira com seus restos Pelo mundo afora em busca de novos e maiores mercados. As vítimas Ele não vê. as crises econômicas e políticas. Em pânico. De acordo com o poema e com os conhecimentos da teoria de Marx sobre o capitalismo.. (E pensando evitar a peste alguém apenas a carrega consigo.” (BRECHT. Atirando-os a saunas e depois de volta a estradas geladas. seu deus do lucro está tomado pela cegueira. [. n.] As leis da economia se revelam Como a lei da gravidade. Mas os miseráveis.De fato. mas sem planos. 16. c) Inerentes a esse modo de produção e a essa formação social. O manifesto. . planejadamente. Começam a entender que o mundo burguês tem seus dias contados Por se mostrar pequeno demais para comportar a riqueza que ele próprio criou. e) Fenômenos característicos das sociedades humanas desde as suas origens. b) Frutos da má gestão das políticas públicas. d) Frutos do egoísmo próprio ao homem e que poderiam ser resolvidos com políticas emergenciais. empestando Também os recantos onde se refugia!) Em novas e maiores crises A burguesia volta atônita a si. na sociedade burguesa. 2003. mar. Que ela.. arrasta consigo. a concentração da renda.116. é correto afirmar que. exércitos gigantes. p.

inclusive a ciência. (Traduzido de: FREUND.] nos é também impossível abraçar inteiramente a seqüência de todos os eventos físicos e mentais no espaço e no tempo. e) I. A emergência da Sociologia só pode ser compreendida se for observada sua correspondência com o cientificismo europeu e com a crença no poder da razão e da observação. reconstruí-lo com a ajuda de conceitos. IV. . II. implica uma seleção. deve limitar-se a descrever sua aparência. é correto afirmar que. A Sociologia surge como uma tentativa de romper com as técnicas e métodos das ciências naturais. Nesse sentido. enquanto recursos de produção do conhecimento. Julien. tais como a pobreza. nosso conhecimento não é uma reprodução do real.. Sobre a emergência da sociologia. nenhum conceito e nem também a totalidade dos conceitos são perfeitamente adequados ao objeto ou ao mundo que eles se esforçam em explicar e compreender. escrito por Max Weber (1864-1920). Max Weber. Estão corretas apenas as afirmativas: a) I e III. b) II e III. para Weber: a) A ciência social. Disso resulta que todo conhecimento. Entre conceito e realidade existe um hiato intransponível. por tratar de um objeto cujas causas são infinitas. sendo chamada de “ciência da crise”. c) II e IV.. porque ele pode somente transpô-lo. Paris: PUF. 33. ao invés de buscar compreendê-lo. que reflete sobre a relação entre ciência social e verdade: “[. considere as afirmativas a seguir: I. d) I. p. na análise dos problemas sociais decorrentes das reminiscências do modo de produção feudal. por refletir sobre a transformação de formas tradicionais de existência social e as mudanças decorrentes da urbanização e da industrialização.2005) Leia o texto a seguir. a desigualdade social e a concentração populacional nos centros urbanos.(UEL . de outra parte.(UEL) A Sociologia é uma ciência moderna que surge e se desenvolve juntamente com o avanço do capitalismo. assim como esgotar integralmente o mínimo elemento do real. reflete suas principais transformações e procura desvendar os dilemas sociais por ele produzidos. 7. 1969. II e IV. III. III e IV.) Com base no texto e nos conhecimentos sobre o tema. De um lado. seguindo a orientação de nossa curiosidade e a significação que damos a isto que tentamos apreender”. A Sociologia é produto da Revolução Industrial. A Sociologia tem como principal referência a explicação teológica sobre os problemas sociais decorrentes da industrialização.6.

IV – A formação de uma sociedade. III – Aquilo que a Sociologia estuda constitui-se historicamente como o conjunto de relacionamentos que os homens estabelecem entre si na vida em sociedade. e) O obstáculo para a ciência social estabelecer um conhecimento totalizante do objeto é o fato de desconsiderar contribuições de áreas como a biologia e a psicologia. II e III. podemos afirmar que: I – A consolidação do sistema capitalista na Europa no século XIX forneceu os elementos que serviram de base 11 para o surgimento da Sociologia enquanto ciência particular. d) Alguns fenômenos sociais podem ser analisados cientificamente na sua totalidade porque são menos complexos do que outros nas conexões internas de suas causas.b) A ciência social revela que a infinitude das variáveis envolvidas na geração dos fatos sociais permite a elaboração teórica totalizante a seu respeito. a partir de sua inserção na sociedade e nos grupos sociais que a constituem. do ponto de vista sociológico. Assinale a alternativa correta: A) III e IV. que se industrializava e se urbanizava em ritmo crescente. B) I. 8 – (UFUB) Selecione as afirmativas que indicam o contexto histórico. portanto. é limitado para abordá-lo em sua plenitude. propiciou o fortalecimento da servidão e da família patriarcal. c) O conhecimento nas ciências sociais pode estabelecer parcialmente as conexões internas de um objeto. II – Com o desenvolvimento do industrialismo. . D) I e II. E) Todas as 9 – (UFUB) Sobre o surgimento da Sociologia. que tratam dos eventos físicos e mentais. sendo a Teologia a forma norteadora desse pensamento. o sistema social passou da produção de guerra para a produção das coisas úteis. através da organização da ciência e das artes. III e IV. II – O homem passou a ser visto. I – A Sociologia é um produto das revoluções francesa e industrial e foi uma resposta às novas situações colocadas por estas revoluções. alternativas estão corretas. III – O pensamento filosófico dos séculos XVII e XVIII contribuiu para popularizar os avanços científicos. C) II. social e filosófico que possibilitou a gênese da Sociologia.

a agir e pensar conforme os ensinamentos transmitidos pelos deuses. D) Considerar os fenômenos sociais como propriedade exclusiva de forças transcendentais. como a escola. E) II. D) I. prever os fenômenos sociais. sem maiores preocupações de natureza prática.IV – Interessa para a Sociologia. A) II e III estão corretas. 11 – (UFUB) Surgida no momento de consolidação da sociedade capitalista. tendo em vista a necessária estabilização da ordem social burguesa. B) Todas as afirmativas estão corretas. A) Desenvolver o puro espírito científico e investigativo. E) Observar. 10 – (UFUB) Assinale a alternativa correta: O surgimento da Sociologia foi propiciado pela necessidade de: A) Manter a interpretação mágica da realidade como patrimônio de um restrito círculo sacerdotal. . a família. mas inter-relacionados com os diferentes grupos sociais dos quais fazem parte. não indivíduos isolados. dentre os quais se destaca Auguste Comte. colaborar para transformar radicalmente a ordem capitalista responsável pela exploração dos trabalhadores. as classes sociais e etc. Assinale a alternativa correta quanto a essa tarefa. III e IV estão corretas. através dos rituais. B) Incentivar o espírito crítico na sociedade e. C) I e IV estão corretas. C) Contribuir para a solução dos problemas sociais decorrentes da Revolução Industrial. III e IV estão corretas. B) Manter uma estrutura de pensamento mítica para a explicação do mundo. C) Condicionar o indivíduo. deixando a solução dos problemas sociais por conta dos homens de ação. medir e comprovar as regras que tornassem possível. através da razão. a Sociologia tinha uma importante tarefa a cumprir na visão de seus fundadores. dessa forma.

E) Nenhuma das anteriores. E) Nenhuma das anteriores. II e IV estão corretas. B) A sociologia de Weber é um esforço de explicação da sociedade enquanto totalidade social. 12 . podemos afirmar que: I – É a primeira corrente teórica do pensamento sociológico preocupada em definir o objeto. segundo um modelo físico ou mecânico. II e III estão corretas. C) O objetivo da Sociologia é estabelecer leis gerais explicativas da realidade social. é correto afirmar que: A) Os juízos de valor do pesquisador não interferem em nenhuma fase do processo de investigação científica. II – Derivou-se da crença no poder absoluto e exclusivo da razão humana em conhecer a realidade e traduzi-la sob a forma de leis naturais. B) I. C) I. estabelecer conceitos e definir uma metodologia. nascido principalmente de correntes filosóficas da Ilustração. visto como única alternativa para a superação das lutas de classe em que a sociedade capitalista estava mergulhada. a sociedade foi concebida como organismo constituído de partes integradas e coisas que funcionam harmoniosamente. III e IV estão corretas. A) II. E) Todas as afirmativas estão corretas. 12 – (UFUB) Sobre o positivismo. III – Foi um pensamento predominante na Alemanha no século XIX. IV – Nele. D) I e III estão corretas. como uma das formas de pensamento social. 13 – (UFUB) De acordo com o pensamento weberiano.D) Tornar realidade o chamado “socialismo utópico”. D) A Sociologia compreensiva busca apreender o sentido da ação social e de seus nexos causais.

os sociólogos não teriam se interessado pelas leis de padronização existentes nas sociedades humanas. assinale o que for correto. 02) De acordo com o texto. por isso. homens e animais são padronizados devido ao peso da herança genética em todos os tipos de sociedades. tais como os macacos. 15. (. Considerando o que diz o texto acima. que. 01) Segundo o autor. o crescimento das cidades foi acompanhado pela progressiva transformação do espaço urbano em mercadoria. não há diferença essencial alguma entre o estudo das sociedades humanas feito pela sociologia e o das sociedades de insetos feito pela entomologia. se não fosse a descoberta das leis de padronização das sociedades de animais. 1985. 08) Os fluxos migratórios indicam como as atividades econômicas estão distribuídas no território e. 04) Podemos concluir do texto que são os fatores do meio ambiente que levam à padronização dos comportamentos dos animais e dos seres humanos. o avanço da urbanização faz predominar o padrão de relação societário. 29). Sobre esse assunto. por exemplo. .(UEM – Verão 2008) A urbanização tornou-se o processo padrão de transformação do meio ambiente nas sociedades industriais. Sebastião. 04) No modo de produção capitalista. 16) Podemos deduzir do texto que tanto os pesquisadores dos animais quanto os sociólogos se preocupam com as ações regulares produzidas pela vida em sociedade.. 02) Nas sociedades industriais. 01) Para alguns sociólogos.) Quando comparamos as ‘sociedades’ animais não humanas. produzindo modos particulares de convívio social. é caracterizado pela formalidade e pela impessoalidade. a introdução de novas tecnologias no campo foi um dos fatores que produziu o êxodo rural e contribuiu decisivamente para o crescimento populacional das cidades. mas também insetos: formigas..14 – (UEM – Inverno 2008) “Todos nós sabemos da existência de um certo tipo de ‘organização social’ entre animais não humanos. não apenas entre mamíferos superiores. cupins e abelhas. ao contrário do comunitário. podem retratar também as desigualdades regionais existentes. assinale o que for correto. p. São Paulo: Atlas. 08) Segundo o autor. particularmente a sociedade daqueles insetos. notadamente. o fazemos porque constatamos que o comportamento de tais animais apresenta certas padronizações parecidas com algumas padronizações verificadas entre os seres humanos” (VILA NOVA. Introdução à Sociologia.

) Com base no texto. muitos dos conceitos que haviam norteado o campo da análise social desde o século XIX perderam relevância. 1997. por ser pouco preciso. ela reserva ao mito – e ao sonho – o lugar que lhe é próprio.p.” (BALANDIER.(UEL – 2006) Nas três últimas décadas. o mito está ausente dos espaços sociais contemporâneos. Desde então. Alain Touraine e André Gorz permitiram ampliar a compreensão do processo de passagem da sociedade industrial para a pósindustrial. 16. ocorre a perda da identidade coletiva dos trabalhadores. dando início assim a uma guerra interminável contra o pensamento mítico. que se tornam cada vez mais individualistas. o pensamento mítico é crucial para a compreensão científica do mundo. d) Na modernidade. Quando a ciência traça seus próprios limites. está presente em todos os espaços. e) O pensamento mítico se disseminou porque se pauta em conceitos e categorias. para se ver os mitos morrerem’. 17. Na sociedade pós-industrial. armas do espírito ativo. O mito por sua vez trabalha duro para se manter e. I.(UEL – 2006) “No início a ciência quis a morte do mito. é um mito. Com base nos conhecimentos sobre o tema. . Georges. além da concentração do capital.16) A forte influência dos padrões de convívio tipicamente urbanos sobre a vida no campo e o acesso massivo e indiferenciado a bens e a serviços produzem uma notável homogeneização da realidade social. Do mesmo modo. a ciência atual busca menos sua erradicação que seu confinamento.17. como a razão quis a supressão do irracional. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. considere as afirmativas a seguir. visto como obstáculo a uma verdadeira compreensão do mundo. os trabalhos publicados por Ralph Dahrendorf. é correto afirmar: a) Pelo fato de ser destituído de significado social. b) A delimitação da área de atuação do saber científico implica na constituição de um lugar próprio para o mito. c) A morte e o extermínio do mito no ocidente decorrem da supervalorização e conseqüente predomínio da razão. A desordem: elogio do movimento. Valéry glorificou esta luta destruidora contra as ‘coisas vagas’: ‘Aquilo que deixa de ser. por meio de suas metamorfoses. basta o rigor do olhar e os golpes múltiplos e convergentes das questões e interrogações categóricas. Daniel Bell.

II. num instante de lapso. diante do outro. em minha dança encenada de papéis. Vim cheio de preconceitos. não fiz resenhas de capítulos. de um momento passageiro. que confirmam ou negam a primeira impressão. Partirei de minhas impressões gerais. O estranho é o que melhor e mais apto está para me julgar de forma incondicional. sem pestanejar. c) III e IV. admito. III e IV. Mesmo assim o olhar do outro me congela em meu movimento em direção ao próximo segundo. cristalizando minha existência num olhar. conhecido. e não sei. é defrontar-me com a sensação de fragilidade. sempre serei um pouco desconhecido – para ele e para mim mesmo – e cada nova revelação será um choque. Uma tentativa de síntese. numa crença concebida na superfície que demonstro ser. Diante do outro. de forma corajosa ou suicida. num conceito. desde o início. e cada novo encontro vai deixando indícios. na parcialidade de um ângulo. um estranho. após finalizado o percurso de um semestre. Diante do outro. se eles foram . quando creio minimamente conhece-lo. como lago. Luiz Fernando Calaça de Sá Júnior Estar diante do outro. não consigo deixar de ser eu mesmo. o campo da investigação sociológica amplia-se para além dos estudos dos movimentos de classe. II e IV. estranho. que não segui os passos indicados. Mas caio na dúvida se o que sou ou creio ser realmente condiz com a imagem que faço de minha figura. Como diria Sartre: “O inferno são os outros”. Diante do outro conhecido tento ser o que para mim e mais fácil ser. Comecei o disciplina descrente na possibilidade de eu vir a “aceitar” uma perspectiva sociológica do humano. IV. sempre gaguejando. Não fui sistemático e rigoroso. d) I. Com o advento da sociedade pós-industrial. e) II. nos dias partilhados em intimidade. agora. sinais. Admito. sempre fingindo uma segurança ou uma meninice que não tenho verdadeiramente. Não vim com muitas esperanças e tinha medo do previsível. assim como eu a ele. O uso de sistemas técnicos oriundos das descobertas científicas é o que distingue a sociedade pós-industrial da sociedade industrial. num adjetivo. b) I e III. Não tentarei ser comportado. O estranho se revela a mim. dada a mobilidade 13 socioeconômica desde o advento da sociedade industrial. como eu a ele. O retorno aos conceitos elaborados à luz da análise social do século XIX impõese. Estão corretas apenas as afirmativas: a) I e II. Mesmo na cotidianidade. não li tudo o que devia(?) ter lido. III. sempre tropeçando. Sempre me será um estranho. na experiência que dele tenho a partir dos encontros travados anteriormente. O outro me aprisiona com o olhar. aprisionando meu presente. tento ser eu mesmo.

bastando apenas parecer o que não se é. nossa cultura local e provinciana? Ou somos a polis. As aulas consistiram para mim como exposições de teses para as quais eu já vinha com todas as minhas antíteses. dos escândalos que se tornam espetáculo de contemplação e êxtase. O tempo das cirurgias plásticas. na política midiatizada. Apenas 15 minutos. Não sei. lembrei-me de minha viagem a São Paulo no início do ano e do meu desagrado narcísico diante do que não era meu próprio espelho. desconhecidos que sentam-se um ao lado dos outro ou se esbarram. as identidades múltiplas. identidade. que questionava a relação de intimidade típica da organização familiar. como em Josefina. somos como os ratos. negociáveis na pólis. Ninguém é o que realmente aparenta ser. Há algo ainda em suspensão. As palavras agora são pronunciadas de forma encenada. Criamos ficção de um mundo improvável. tango. numa massa que corre em busca da própria sobrevivência. os colegas – até hoje desconhecidos – que emitiam suas opiniões. Somos nossa casa. Nessa abertura para o mundo. numa relação mutualista. As outras aulas mantive um posição de ouvinte (des)interessado. como diria Andy Warhol. nos tornamos anônimos e invisíveis. Tentei prestar atenção no que emergia. o receio de expressá-la. nos dissolvemos. a cada devis. uma tentativa de formular um opinião. ou os papéis estão dados e legitimados por nós mesmos. o qual fui expositor. melodramas mexicanos. Os trabalhadores em equipes que surgem e se desfazem após a realização de uma tarefa. as falas que surgiam das leituras. nossa família. De resto. sem que se conheça sequer algo do outro. da moda sempre em mutação. para uma questão que acho sem solução. na perda do . Lembro-me das minhas andanças pela cidade. E todos escondem algo por traz do sorriso. utopias e “ismos” para remediar o mal estar que a civilização instaura na impossibilidade de saciedade do desejo. herança. E as cidades? Haverão realmente espaços para negociações – o grande mercado mundial de homens especialistas -. criamos crenças e dogmas em que possamos nos segurar. O exercício da teatralidade de papéis assumidos e dissolvidos a cada momento. da sociabilidade e dos jogos de papéis vivido nas cidade. Desde este princípio me coloquei como estrangeiro. conto de Franz Kafka. fluidas. em contraposição à vida errante e democrática. em que manipulamos o mundo em que somos manipuláveis. O único movimento que tive foi o inicial estranhamento manifestado na leitura do primeiro texto.desfeitos. Indivíduo e sociedade? Indivíduo ou sociedade? Indivíduo-sociedade? Papéis. como fantoches ou ventrílocos. a pé e de ônibus. sem que se espere mais nada. 14 E nas relações em grupo repetimos esses mesmos falseamentos de realidade. do clareamento dental. Associações entre o burguês e o proletário. perdemos a condição de pessoa. cada qual se apropriando do que lhe é bem pra uso e abuso. em que se finge santidade e competência. evitando o olhar constrangedor. Todos emitindo seus pontos de vista. no “mundo real” da polis. de corpo fechado. Quinze minutos de fama.

Estou tentando me arriscar. Unindo forças por uma coletividade que é tão abstrata quanto a geometria das formas platônicas. para ser eu mesmo. Entre nós há. Também eu tenho meus vieses. Todos nós temos nossas ideologias. só consigo ver a arte como salvação. É o mundo das caixas registradoras. Uma presença. um ensaio de intelectualismo que vai do nada ao nada. todos eles defendendo vieses. nossas verdades. Mas bem posso estar enganado. transformandonos em porcentagens e estatísticas. Nada tenho a perder. O mundo inteligível das idéias. na liberdade que acredito ter nesse espaço aberto à reflexão. Posso omitir meus sentimentos e acreditar que tudo transcorreu conforme o previsível. Senti . na minha crença herética de que minha voz solitária me basta. Citando. Isso até parece uma provocação ou uma pirraça. Discorrendo livremente. construímos vidas e vias. e precisamos conquistar o pão com o suor do próprio rosto. trabalhamos e funcionamos. digitalizando-nos. de que serve tantas discussões teóricas? De que serve a universidade que nos prende nas utopias de um mundo possível de salvação. Mentira! Trago incômodos. Mas todo um discurso de contrariedade e tudo isso é. vivemos em agrupamentos. O que mais me resta? Posso tentar fazer mais algumas correlações com o que eu já trazia como idéia. caminhando movida por uma mão abstrata. Uma saída ensaiada da caverna. Situação atípica. ou é uma grande confusão? Não sei. e se reproduz. Às vezes ingênua. Desde o início apontei para minha descompostura intencional. irrealidade e virtualidade. planejamos e nos projetamos existencialmente. E a tentativa de síntese é falsa. Ela estava lá. outras vezes confrontando a figura central de facilitadora. Nesse ponto. e. Mas esse mundo não é o mundo dos poetas. também. aparentemente sem nenhuma conexão com o que ela trabalhado. maquinaria pesada ou tecnologia digital. fazendo comentários e perguntas incômodas.verdadeiro desejo. Despertar para a visão disso tudo é necessário. traçamos rumos que desejamos trilhar. Ainda assim somos humanos. mas será que realmente saímos do estado de cegueira e entorpecimento? Ou cairemos novamente numa outra cegueira de luminosidade ofuscante onde os contornos das formas são as mesmas sombras projetadas? Quando digo isso tento pensar no que lemos e discutimos. nossa forma “melhor” de ver o mundo. para ser um outro em alteridade? Será que há essa alteridade ou nos suportamos? A diferença ideológica às vezes é tão mais marcante e conflitiva que as aparentes. tantos sinais de fumaça sinalizando conceitos. e defendemos como se fossem reais. o desconforto. Estou apenas sumariando. Posso emitir opinião sobre a vivência do grupo. sublimado ou transformado em sintoma e compulsão. A sociedade formada de homens. ou simplesmente nos deixamos levar pela correnteza. e o previsível seja o que se espera. E me pergunto. situações. ou incorporar novas formas. Algo que destoa do resto do grupo. Tolerar ou não tolerar? Será que esse meu falatório tem sentido. Tantos pontos de vista. e será que realmente preciso lapidá-los.

à sociologia. pois mostrou o quanto estamos conformados com os papéis dados. ao marxismo. Fazemos um aqui um parâmetro com conceitos próprios (respostas pessoais de alunos nas questões abaixo. O espaço. é importante. Se exercitei meu papel nas arenas da polis acadêmica. Acho que é o lugar da loucura no mundo. Quero sedimentá-los um pouco. pois tentei ser poeta. Não sei se tenho mais nada a falar. O que é uma sociedade? Conceitos = Em Sociologia uma sociedade é o conjunto de pessoas que compartilham propósitos. Como exercitar a própria existência é o que me pergunto. É motivo de risos e desconforto. à antropologia. teimar na minha ignorância e resistir à psicanálise. Já não estou mais no início do percurso. mas eis que emerge e se cristaliza o “bode expiratório”. Jogo na lata de lixo de minha cachola. Mas sei-me em mutação. Senti-me contente. Como saio afinal? Não sei. e domesticados. 15 Indivíduo X sociedade Conceitos = a palavra indivíduo habitualmente descreve qualquer coisa. Nada me pereceu tão novo que não seja velho. realizadas em sala e entregue ao professor): . e que o imprevisível é desconcertante. o discurso sobre o desejo. mas não mudei meus pontos de vista. Eu guardei coisas em mim.prazer em ver essa situação se instaurar. o mais forte que submete o outro por prazer de gozar. Momentos inesquecíveis nesse período. E também temos aquela que na risada de deboche abre espaço para as opiniões bem fundamentadas. quando não censurado e reprimido. eu sei. foi por minha escolha pela omissão consentida. defendendo o absurdo. Nada se fala. Já estou um tanto cansado das discussões que não levam a lugar nenhum. posto que dissociada da vivência real com o outro. para as referências à filosofia alemã. Não sei se isso é o bastante. Janelas se abrem para que articulações possam ser feitas no futuro. Sinto muito. gostos. Acho que é tudo o que posso emitir enquanto registro de minhas idéias e síntese de minha participação desse círculo de pessoas. contra a ciência dos conceitos e da busca pela verdade. Algo se moveu. e sofista. o relativismo dos valores como verdade afirmada. fica a situação velada. para depois ruminar. e que interagem entre si constituindo uma comunidade. às fenomenologias do outro homem. A sociedade é o objeto de estudo das ciências sociais especialmente da Sociologia. Saio de uma turma de desconhecidos. que não foram ainda assimiladas. preocupações e costumes.

a ação passa a ser social. entendida como a ação realizada pelo indivíduo tendo como orientação a ação do outro indivíduo.Não existe acaso. A influência social sobre o indivíduo é admitida. Quando esta ação visa a ação de uma pluralidade de indivíduos totalmente desconhecidos. o desenvolvimento e os efeitos da conduta de um ou mais indivíduos em relação a .Nega a polarização indivíduo X sociedade. . já que todos agem de acordo com o significado atribuídos às ações.A determinação social é admitida em Weber. mas considerada uma fase posterior à criação do mundo por ele. já que não têm um sentido pensado. não havendo como existir uma imersão passiva do indivíduo em uma sociedade que o põe a mercê dos acasos. move a construção da sociedade. interpretando-a para explicá-la em seu desenvolvimento e efeitos.Sociologia para Weber: a ciência que busca entender a ação social.Recusa. . trabalhar de forma polarizada a relação entre indivíduo e sociedade. mas não é central. mas caráter de reflexo.a) Sua vida esta vinculada a sociedade? (Você faz o que bem quer?) b) Quais foram as experiência e influências que vocês receberam da família? * Dos amigos * Dos vizinhos c) Como vocês apreender a ler e a escrever? d) Onde aprenderam normas sociais? e) O que vocês aprenderam na rua? f) Vocês vão algum culto religioso? Max Weber . . mas sua interdependência. . para ele.Objeto de investigação da sociologia weberiana: a ação social.Portanto. .Sociologia como a ciência que. na contemporaneidade. . é toda conduta humana dotada de significado subjetivo dado por seu executor. . já que. estudará o homem em relação de interdependência com o outro.O indivíduo tem.Ação: para Weber. . compartilhando sentidos e significados. . o lugar de criador de seu mundo.Ações reativas não interessam à sociologia. como em Marx e Durkheim. a natureza e seu meio social.A explicação sociológica busca compreender e interpretar o sentido. . em sua teoria. o sentido é o definidor da ação social. .

mas o resultado de um esforço cognitivo 16 que discrimina. abstrai certos aspectos da realidade na tentativa de explicar as causas associadas à produção de determinados fenômenos”. .Relação social: diz respeito a uma ação de reciprocidade orientada.O referido método utiliza-se de um recurso teórico chamado tipo ideal. . um fragmento ínfimo que considera relevante” (…) Pode-se dizer. . Barbosa e Oliveira. . obtendo-se resultados válidos não apenas para si. para tanto. que haja conteúdo de sentido em si. ou seja. ou seja. através destes fatores. que poderá ser mais ou menos evidente par ao sociólogo. que é infinita. . . o alvo da sociologia de Weber é “a especificidade dos fenômenos e seus significados” (…) “Por isso. Os tipos ideais permitem essa relação. o cientista pode isolar. pelo qual busca o nexo causal dos sentidos compartilhados entre indivíduos e grupos em seu existir socialmente. . fica clara a impossibilidade de análise humana de toda a realidade. então. organiza e. nas estruturas conceituais disponíveis e nas normas de pensamento vigentes. contextualizada à realidade social vivenciada por indivíduos e grupos. se busca compreender a natureza particular das conexões que se estabelecem empiricamente. .outros (ação social). O método utilizado baseia-se no estágio de desenvolvimento dos conhecimentos. que o particular ou específico não é aquilo que vem dado pela experiência. .Tipologias da sociologia weberiana: a da ação social e da tipologia da dominação. sendo necessário.A objetividade weberiana. Assim.Aspecto fundamental da sociologia de Weber: busca pela conexão de sentidos presentes no contexto das ações praticadas por indivíduos e grupos no processo de interação social.Os tipos ideais permitem a relação entre objetividade do conceito puro e a própria compreensão histórica. nem muito menos pelo ponto de partida do conhecimento.Metodologia de Weber: Método Compreensivo. . ao contrário da capacidade humana de compreensão. que pode ser entendido como compartilhado pela maioria dos membros de uma sociedade. tem um forte componente subjetivo.Segundo Quintaneiro. já que. enfim. que busca trabalhar com elementos da realidade. que cause a conduta dos indivíduos.Método Compreensivo: resgate interpretativo do passado para a compreensão do presente. segundo Weber. da imensidade absoluta. que consistem em conceitos selecionados que permitem a tradução adequada de aspectos da realidade. tem-se o aperto de mãos: seu conteúdo de sentido é de amizade e cortesia. Por exemplo. compreensão da qual consiste em captar e interpretar sua conexão de sentido. uma vez que o tipo ideal é construídos por critérios que dizem respeito à cada pesquisador.

Na medida em que os outros significativos vão dizendo para as crianças como elas devem agir. por meio da família e da escola. . que são todas as pessoas muito importantes em nossa vida e dos quais dependemos. A socialização secundária se dá num âmbito maior. Weber não vê o capitalismo como dominado pelo conflito de classes.Ao contrário de Marx. Por meio da socialização adquirimos o “direito” de atuarmos no grupo social em questão.Tipologia da ação social é subdividida em: 1) ação social tradicional.Weber descreve o desenvolvimento da ciência. na qual se encontra vinculação com elementos da lei no contexto das sociedades completas. 2)afetiva. 3) Dominação de caráter carismático. Para que a sociedade funcione sem graves conflitos. 4) conforme fins. como nossos pais. o ser humano tem de ser socializado. e. ou seja. É interessante notarmos que a criança descobre quem ela é quando descobre o que a sociedade é. . A burocracia. nossa identidade. Ela ocorre por meio dos outros significativos.. . por meio de todas as interações que travamos durante a vida. a sociedade e o Eu são o verso e o reverso de uma mesma realidade. que poderia esmagar o espírito humano justamente por tentar regulares todas as esferas da vida social. tecnologia e burocracia como racionalização. . Socialização é o processo pelo qual a sociedade ou comunidade ou grupo social ensina a seus membros seus costumes e regras. entretanto. ela vai aprendendo a agir em sua sociedade porque . expande-se com o crescimento econômico e político. mas pela ascensão da ciência e da burocracia. o que devem pensar.A tipologia da dominação é subdividida em: 1) Dominação racional-legal. consideradas forças motrizes do agir social dos indivíduos e de suas interações. A principal socialização se dá na primeira infância. o que é o certo e o que é errado. já que Weber concentra sua análise nos atores sociais e suas ações. que consiste na organização da vida sócio-econômica de acordo com os princípios de eficiência e baseada no conhecimento técnico. . 2) Dominação tradicional. É o que podemos chamar de socialização primária.Weber. na qual a tradição determina de indivíduos e grupos. tipicamente ocidentais e marcos distintivos deste lado do planeta.A legitimação da dominação é a crença de que determinado indivíduo é capaz de governá-lo. É por meio da socialização que vamos adquirindo o nosso Eu. mas aspira às honras sociais derivados dele. . isto é. vista como a única maneira de organizar um grande número de pessoas efetivamente. onde a ação social é determinada por elementos fortes das personalidades individuais que propiciam a alguns ascenderem sobre os demais.Tipologia da dominação: o homem não busca o poder apenas para enriquecer economicamente. 3)racional conforme valores e. irmãos mais velhos e amigos íntimos. O processo de socialização Compreender a perspectiva sociológica acerca do ser humano é compreender também como o ser humano é socializado. temia a excessiva regulamentação da sociedade moderna.

reforçada e atualizada pelos outros de nosso grupo social. suas idéias e valores. o indivíduo não é capaz de desenvolver um comportamento humano. isto é. Nessa constante interação com o meio. Este mesmo processo revela-se crucial no contexto de uma organização. Mas. criando sua consciência. Os outros significativos vão se tornando o que. Se assim o fosse seríamos robôs. nesse momento se inicia um novo processo de socialização onde aprendemos os códigos para bem atuarmos 17 nesse grupo social. verdadeiros autômatos. segundo autores de diversas correntes teóricas. o indivíduo participa de inúmeros grupos sociais. em sociologia. Segundo Levy (1973). 60). E as crianças vão. ao mesmo tempo. Para Levy (1973. Podemos afirmar que a “natureza” humana não surge no momento do nascimento. Impossível. hábitos estes que não são inatos. crenças. E ninguém é capaz de ser socializado em todos os aspectos de sua sociedade. os funcionários precisam ser apresentados aos valores. Ao ingressarem em um novo grupo. É por meio das estratégias de integração do indivíduo à . A socialização faz com que a pessoa adquira as normas definidoras dos critérios morais e éticos. tornando-o sociável. participar de tudo. a socialização é um processo contínuo no qual o indivíduo ao longo da vida aprende. aprendendo a usar os símbolos (linguagem) e aprendendo os seus papéis sociais. Imaginem em nossa sociedade complexa. o principal fator de formação da identidade e personalidade de um indivíduo é sua socialização. pois este deve ser aprendido ao longo de suas interações com os grupos sociais”. uma psiquê humana e outros fatores de influência tratados por outras ciências. urbana e industrializada: para a socialização ser completa teríamos que aprender tudo. construindo padrões de comportamento próprios para interação em cada grupo. Os homens adquirem uma “natureza” ou uma identidade por meio de suas associações e podem perdê-la (ou ela declina) quando se encontram isolados. é crucial para a reprodução do universo simbólico. conforme a idéia de reciprocidade. Tais valores vão se consolidando e determinando suas escolhas. dentre elas. as escolhas profissionais. moldando sua vida. vivenciar tudo. Durkheim (1987) ressalta a importância da socialização ao mostrar que a sociedade só pode existir porque penetra no interior do ser humano. que lhes permitirá articular-se com os processos de comunicação e de integração que permeiam o fazer coletivo. Por meio do processo de socialização as estruturas da sociedade tornam-se as estruturas de nossa mente. p.vai descobrindo como é sua sociedade. O processo de socialização nunca é completo e perfeito. Obviamente. o indivíduo vai internalizando crenças e valores. podemos perder nossa identidade se ela não for. para o pensamento sociológico. Ou seja. passando por um processo de socialização. A cada vez que ingressamos em um novo grupo social. denominamos de Outros Generalizados. O processo de socialização de novos membros. a sociedade. Estamos sempre sendo socializados. conforme os padrões da sociedade em que está inserido. normas e práticas da organização. Ao mesmo tempo a socialização nunca termina. criando uma identidade. existem algumas determinações genéticas. Ao longo do processo de desenvolvimento humano. identifica hábitos e valores característicos que o ajudam no desenvolvimento de sua personalidade e na integração de seu grupo. “em estado de isolamento social.

os desafios e recompensas em vista. A aceitação grupal é fonte crucial de satisfação das necessidades sociais. o gerente e o estilo da administração existente etc. que os acompanha e orienta durante o período inicial na organização. treinamento. o supervisor representa o ponto de ligação com a organização e a imagem da empresa. como: aculturação. A idéia principal é a persuasão das pessoas para adotarem determinadas atitudes e crenças. Os novos empregados que recebem tarefas relativamente solicitadoras estão mais preparados para desempenhar as tarefas posteriores com mais sucesso. para depois receber tarefas gradativamente mais complicadas e crescentemente desafiadoras. não têm chance de experimentar o sucesso e nem a motivação dele decorrente. Além disso. Conteúdo do cargo: O novo funcionário deve receber tarefas suficientemente solicitadoras e capazes de proporcionar-lhe sucesso no início de sua carreira na organização.organização que os valores e comportamentos vão sendo transmitidos e incorporados pelos novos membros. Com isso. O supervisor deve cuidar dos novos funcionários como um verdadeiro tutor. os empregados principiantes tendem a internalizar altos padrões de desempenho e expectativas positivas a respeito de recompensas resultantes do desempenho excelente. A integração do novo funcionário deve ser atribuída a um grupo de trabalho que possa provocar nele um impacto positivo e duradouro. Os métodos de socialização organizacionais mais utilizados são os seguintes: 1. as atividades desenvolvidas. Leavitt (1991) apresenta alguns termos. além de reforço positivo sobre comportamentos adequados ou. 5. educação. 4. os colegas de trabalho. Se o supervisor realiza um bom trabalho neste sentido. Quando os principiantes são colocados em tarefas inicialmente fáceis. até mesmo. Grupo de trabalho: O grupo de trabalho pode desempenhar um papel importante na socialização dos novos empregados. a organização tende a ser vista de forma positiva. Definindo a palavra socialização. 3. até mesmo. Antes mesmo do candidato ser aprovado. os grupos de trabalho têm uma forte influência sobre as crenças a atitudes dos indivíduos a respeito da organização e de como eles devem se comportar. reforço negativo sobre comportamentos impróprios. Supervisor como tutor: O novo funcionário pode ligar-se a um tutor capaz de cuidar de sua integração na organização. Programa de integração: É um programa formal e intensivo de treinamento inicial destinado aos novos membros da organização para familiarizá-los com a linguagem usual da organização. por meio de exemplos e pressões sociais. manipulação e. a cultura predominante na organização. Para os novos empregados. com os usos e costumes internos (cultura . lavagem cerebral. 2. o processo seletivo permite que ele obtenha informações e veja com seus próprios olhos como funciona a organização e como se comportam as pessoas que nela convivem. Processo seletivo: A socialização tem início na entrevista de seleção através da qual o candidato fica conhecendo o seu futuro ambiente de trabalho.

mas que depois contam com um acompanhamento. Quase sempre. a missão da organização e os objetivos organizacionais etc. os principais produtos e serviços. Sua finalidade é fazer com que o novo participante aprenda e incorpore os valores. não existe forma de . . estão combinadas de diversas formas. mais o papel de novato é segregado e especificado. o que influencia as atitudes e valores dos novatos. em níveis de gerência ou direção. que não são mutuamente exclusivas e que. Quanto mais formal for o processo. O programa de integração procura fazer com que o novo participante assimile de maneira intensiva e rápida. as quais serão descritas a seguir. enquanto em outras são coordenados pelo órgão de treinamento e executados por gerentes de linha nos diversos assuntos abordados. normas e padrões de comportamento que a organização considera imprescindíveis e relevante para um bom desempenho em seus quadros. O autor apresenta sete estratégias de socialização organizacional empregadas pelas empresas. na prática. Em algumas organizações. Este é um processo que ocorre durante toda a carreira do indivíduo dentro da organização. Em uma atmosfera informal.organizacional). Na realidade.Estratégias formais e informais de socialização: o processo formal de socialização age na preparação do novato para ocupar um cargo específico na organização. valores e comportamentos. a estrutura de organização (as áreas ou departamentos existentes). normas de comportamentos esperados. o programa de integração pode durar meses. os programas de integração são totalmente desenvolvidos pelo órgão de treinamento. a socialização representa uma etapa de iniciação particularmente importante para moldar um bom relacionamento em longo prazo entre o indivíduo e a organização. com uma agenda que programa sua permanência nas diversas áreas ou departamentos da organização com um tutor permanente (seu gerente ou diretor) e um tutor específico para cada área ou departamento envolvido na agenda. Maanen (1989) apresenta uma definição mais completa para socialização organizacional: é o processo pelo qual o indivíduo aprende valores. Mais: ela funciona como elemento de fixação e manutenção da cultura organizacional. A socialização organizacional implica também na renúncia de certas atitudes. A socialização organizacional constitui o esquema de recepção e de boas-vindas aos novos participantes. o novo funcionário recebe um manual com informações básicas para sua integração na organização. São programas que duram de um a cinco dias. em uma situação real ou de laboratório. a cultura da organização e se comporte daí para frente como um membro 18 que veste definitivamente a camisa da organização. do novo participante pelo gerente ou supervisor que funcionam como seus tutores e que se responsabilizam pela avaliação de seu desempenho. e maior a tensão. dependendo da intensidade de socialização que a organização pretende imprimir. que permitem a ele participar como membro de uma organização. em médio prazo. Nos casos em que o novo membro ocupa posição de destaque.

o tempo de transição é padronizado. . pois o novo integrante poderá ficar confuso e se perder durante o processo de socialização.diferenciação e grande parte da aprendizagem do novato necessariamente ocorre no interior das redes sociais e das tarefas relacionadas que envolvem sua posição. cada um atua por conta própria e dificilmente procura apoio do grupo para as ações de sintonia. poderá também estimular a criatividade e a iniciativa dos novos integrantes. . 19 . devendo aprender informalmente as práticas reais em seu setor. os novatos são agrupados em conjunto para o início e processados por um conjunto de experiências idênticas. Essa estratégia apresenta um elevado risco. A segunda etapa ocorre quando o novato é colocado em sua posição organizacional designada.Estratégias de socialização por competição ou por concurso: as estratégias de socialização por competição caracterizam-se pela separação dos novos integrantes em grupos ou diferentes programas de socialização. Entretanto.Estratégias individuais e coletivas de socialização: na socialização coletiva. o que pode gerar certa incompatibilidade entre os objetivos organizacionais e os do grupo. perdem em termos de homogeneidade de resultados. Por outro lado. por meio dos quais um indivíduo deve passar a ocupar uma posição e exercer um papel na organização.Estratégias seqüenciais e não seqüenciais de socialização: a socialização seqüencial caracteriza-se por processos transitórios marcados por uma série de estratégias discretas e identificáveis. contra ou a favor da organização. ele desenvolve quase sempre uma consciência coletiva. é necessário que exista um programa seqüencial para que o processo de aprendizagem seja facilitado. da relação estabelecida entre o agente socializador e o novato. sendo uma garantia de que a organização não sofrerá qualquer mudança ao longo do tempo. Os processos não seqüenciais são realizados em um estágio transitório e sem uma relação com outras etapas anteriormente realizadas. Dessa forma. Assim. . Quando um grupo é introduzido em um programa de socialização. o processo formal de socialização é apenas a primeira etapa da socialização.Estratégias de socialização em série e isoladas: a estratégia de socialização em série é aquela que prepara os novos integrantes para assumir diversos papéis organizacionais similares. As estratégias individuais também geram mudanças mas. com resultados relativamente similares. em grande parte. as estratégias por concurso possibilitam uma certa participação e uma cooperação entre os indivíduos. Contudo.Estratégias fixas e variáveis de socialização: os processos de socialização fixa proporcionam a um novato um conhecimento preciso do tempo que necessitará para completar determinado estágio. de acordo com as habilidades e ambições dos indivíduos. Nas estratégias de socialização variáveis. . Nas estratégias isoladas de socialização. As mudanças são isoladas e dependem. ou seja. . quando comparadas às coletivas. o indivíduo é socializado com base em sua iniciativa e não por qualquer padrão a ser seguido. os indivíduos desconhecem a dimensão tempo do período de transição.

candidatos que identifiquem com os valores organizacionais e que reforcem a cultura da organização. Já no processo de despojamento procura-se destruir e despojar certos valores e crenças dos novatos. Os candidatos que são recrutados passam por uma bateria de testes e entrevistas para que sejam selecionados somente aqueles indivíduos predispostos a aceitar as crenças e valores da organização.. crenças e valores. 1985). As estratégias descritas acima são utilizadas pelas organizações para controlar e dirigir o comportamento de seus membros. no lugar das estratégias de investiduras.Estratégias de socialização por meio de investidura e despojamento: estas estratégias objetivam confirmar ou destruir a identidade do novato na organização. Maanen (1989. Essas . isso cria uma ligação tão sólida que não se consegue abandonar o que foi conseguido com tanta dificuldade”. Ele é. “a seleção é bastante rígida (…) aquele que for escolhido terá tendência a considerar-se como entrando numa elite. que estruturam o processo de socialização dos indivíduos na cultura organizacional: . 1991. Maanen (1989) enfatiza. . provavelmente produzem resultados similares entre os novatos”. de modo a promover uma maior abertura para as normas e valores da organização. Ele é bem-vindo da forma como ele é. tais como atribuir metas difíceis de serem cumpridas. Outros estudos também têm considerado o processo de seleção como a oportunidade inicial de atrair indivíduos que se identifiquem com os valores organizacionais e que reforcem a cultura da organização (CHATMAN. . (1987. HOLLAND. na investidura. Por meio de “experiências indutoras de humildade”. RYNES & BOUDREAU. que grande parte do controle sobre o comportamento do indivíduo nas organizações é resultado direto da maneira pela qual a pessoa é socializada. a organização procura criar condições para que os novos integrantes passem a questionar seus comportamentos. a organização procura reduzir a autocomplacência do indivíduo.Experiências indutoras de humildade: particularmente nos primeiros meses. selecionando-se assim. ou designar trabalhos que exigem pouca qualificação a indivíduos mais qualificados. p. 114). Essa fase procura evocar uma auto-análise que facilite a aceitação dos valores da organização e assemelha-se às estratégias de despojamento relatadas por Maanen (1989).Treinamento na linha de fogo: os esforços de treinamento específico para o trabalho voltam-se para o domínio das disciplinas básicas da organização. Exceto a satisfação narcísica que isso provocou. p. Para os autores. procura confirmar e estabelecer a viabilidade e utilidade dos valores pessoais dos novatos. 1986.A seleção: esta fase é dirigida a atrair candidatos “certos” e predispostos a aceitar as crenças e valores da organização. 60) ressalta que “as estratégias de despojamento. ainda. Outro autor importante e que vem complementar a teoria de Maanen (1989) é Pascale (1985) que também destaca sete passos inter-relacionados. geralmente. submetido a uma série de “testes” rigorosos para obter acesso privilegiado na organização. Outro aspecto que merece destaque no processo de seleção é o reforço do sentimento de ultrapassar barreiras e de forte identificação do indivíduo com a organização na qual ele está ingressando. como mostram Pagés et al. Ou seja.

para os novos integrantes. que mantêm a organização em sintonia com a sociedade. . ele tem sempre o mesmo objetivo: formar corpos dóceis e produtivos”.Aderência aos valores centrais da organização: a identificação com as crenças e valores comuns capacita os indivíduos a reconciliarem os sacrifícios pessoais. por meio do comprometimento contínuo com os valores compartilhados. 20 . p. com o propósito de medir os resultados operacionais e recompensar o desempenho individual. por meio de um poder disciplinar presente nas suas práticas sociais cotidianas. 41) complementa com a seguinte afirmação. . 8). Nesse ínterim. “ …quaisquer que sejam as modalidades e a intensidade do poder disciplinar.Folclore do reforço: as histórias. a construção da subjetividade dos indivíduos que estão a ele submetidos. O treinamento é uma espécie de materialização da cultura. o folclore reforça o código de conduta sobre “como realizamos as coisas por aqui”. Essa fase essencial cria uma base de confiança entre a organização e o indivíduo. porém. o processo de socialização organizacional pode ser considerado como uma estratégia de poder e influência utilizada pela empresa para formar corpos dóceis e produtivos. rituais e símbolos da organização oferecem imagens fortes da empresa. . Visa. 1989) e até mesmo a memória. freqüentemente necessários para o sucesso da organização.experiências extensivas e cuidadosas têm por objetivo inculcar no novo integrante os valores da organização. as organizações exercem um controle muito forte sobre os indivíduos. Neste sentido. a organização comunica as maneiras . Particularmente. Esse poder de restrição e de opressão controla corpo. mitos. Eles devem dar provas constantes de sua competência. Nas organizações. p. Motta (1981. além do repasse do conhecimento técnico necessário à realização do trabalho. que influenciam a maneira como as pessoas vêem a organização. devem dar prova de coerência e persistência de seus pensamentos”. O enfoque se dá particularmente nos aspectos relacionados ao sucesso competitivo e aos valores da organização.Modelos consistentes de papéis: os processos de socialização organizacional abrangentes oferecem modelos consistentes de papéis a desempenhar.Uso de sistemas de recompensa e controle: a organização dedica um extremo cuidado à criação de sistemas abrangentes e consistentes. a fim de serem reconhecidos e recompensados. Dessa forma. os indivíduos podem ser aprisionados pelas estruturas de poder nas organizações e também pela sua própria conduta. Nesse sentido é também importante tratar da questão do poder nas organizações. os indivíduos “nunca podem ou devem perder a sua pose. gestos e risos (FOUCAULT. Para Motta (1991.

a integridade e a comunicação. que favoreça a cooperação. pelas relações de cooperação que se desenvolvem entre os diversos grupos envolvidos no sistema produtivo. para que conheça melhor a cultura organizacional da empresa e desempenhe com maior sucesso sua nova função.Indivíduo. Ou seja. 04) As classes sociais. etc. Exercícios . para Marx. atitudes e expectativas. Entretanto. atos e valores. acarretando algumas mudanças. assinale o que for correto sobre o conceito de classes sociais. definem-se. proporcionam uma forte identidade organizacional. Se as expectativas forem mais ou menos de encontro com a realidade. cursos. Pascale (1985) advoga que essas fases. sendo que este pode abranger tanto o trabalho a ser feito quanto a organização. sobretudo. o estágio de encontro irá confundir as percepções geradas antes. Processos O estágio da pré-chegada: reconhece explicitamente que cada pessoa chega a uma empresa com um conjunto de valores.(UEM – Inverno 2008) Em termos sociológicos. os novos empregados devem passar por uma socialização que vai desligá-los de suas pressuposições anteriores. A socialização é um processo de adaptação que ocorre quando uma pessoa passa de fora para dentro da empresa. Ele terá absorvido as normas da organização e de seus colegas de trabalho. Identidade e Socialização 01. o objetivo da socialização é estabelecer uma base de atitudes. as relações entre as classes sociais transformamse ao longo da história conforme a dinâmica dos modos de produção. É nesta etapa que o novo empregado terá o primeiro contato com a empresa. quando bem gerenciadas. quando as expectativas e a realidade são diferentes. 02) De acordo com Karl Marx. o novo funcionário é submetido a treinamentos. 01) Sua utilização visa explicar as formas pelas quais as desigualdades se estruturam e se reproduzem nas sociedades. sentindo-se assim aceito pelos colegas como pessoas de valor e digna de confiança.como reconhece formal ou informalmente seus “vencedores”. O estágio do encontro: é a etapa onde o novo funcionário se vê diante da diferente posição entre suas expectativas e a realidade. palestras. que carregam de maneira bem forte os traços e atributos que a organização valoriza. substituindoos pelos padrões fundamentais. O estágio da metamorfose: é a etapa onde o novo funcionário irá superar alguns problemas descobertos durante o estágio de encontro. Finalmente. . Para esse autor.

e BERGER. como os proletários. José de Souza.” (BOURDIN. 1977. dependendo da sociedade na qual eles estão inseridos. 3. do vínculo sexual e familiar. só se realiza na sua relação com a classe opositora. Alain.2006) “Três grandes dimensões fundamentam o vínculo social. é a história de suas relações com outras pessoas. o frio e a dor. mas também com outros seres humanos. A questão local. pelos indivíduos.” (BERGER. Podemos concluir do texto que 01) os indivíduos. 2001 p. Brigitte. “Socialização: como ser um membro da sociedade”. Marialice M.(UEM – Verão 2008) Leia o texto a seguir: “Desde o início a criança desenvolve uma interação não apenas com o próprio corpo e o ambiente físico.) Com base no texto e nos conhecimentos sobre o tema. o sentimento de pertença à humanidade que nos leva a reforçar nossos vínculos com os outros seres humanos: força da linhagem. Sociologia e Sociedade. A biografia do indivíduo. o fato de viver junto.08) A formação de uma classe social. mas apenas da sociologia. no caso do exemplo. Além disso. pela experiência social. e MARTINS. Por fim. como a fome. Peter L. 04) o fenômeno tratado pelo autor corresponde ao conceito de socialização. desde o nascimento. os componentes não sociais das experiências da criança estão entremeados e são modificados por outros componentes. de partilhar uma mesma cotidianidade. a burguesia. ou seja. In FORACCHI. 02) a relação que a criança estabelece com o seu corpo não deveria ser do interesse das ciências biológicas. Em segundo lugar. a complementaridade e a troca: a divisão do trabalho social cria diferenças com base na complementaridade. é correto afirmar: . 2. afirmação de um destino comum da humanidade por grandes sistemas religiosos e metafísicos. desde o nascimento. 28. p. a proximidade surge então como produtora do vínculo social e o camponês sedentário como o ser social por excelência. Rio de Janeiro: DP&A. Primeiro. contêm dimensões sociais. que designa o aprendizado. 16) A afirmação “a história da humanidade é a história das lutas de classes” expressa a idéia de que as transformações sociais estão profundamente associadas às contradições existentes entre as classes. 16) o desconforto físico que uma criança sente. 200).(UEL. 08) as experiências individuais. são influenciados pelos valores e pelos costumes que caracterizam sua sociedade. pode receber dos adultos distintas respostas de satisfação. das regras e dos valores sociais. o que permite aumentar as 21 trocas. até mesmo aquelas que parecem mais relacionadas às nossas necessidades físicas. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos.

as grandes metrópoles deixaram de ser lugares de complementaridade e de trocas. I. b) Os sistemas religiosos e metafísicos são fatores de isolamento social.(UEL – 2004) O texto a seguir refere-se à situação dos apátridas na 2ª Guerra Mundial: . e) Apenas as afirmativas I.(UEL . causou estranheza. provocando risos. As regras que regem o comportamento e as maneiras de se conduzir em sociedade podem ser denominadas. O fato social é todo fenômeno que ocorre ocasionalmente na sociedade. em que todos estavam trajando roupas esportivas. O calouro não estava vestido de acordo com o grupo e sentiu as represálias sobre o seu comportamento. olhares de espanto e de admiração. c) Apenas as afirmativas II e III são corretas. IV.2003) Um jovem que havia ingressado recentemente na universidade foi convidado para uma festa de recepção de calouros. b) Apenas as afirmativas I e IV são corretas. No convite distribuído pelos veteranos não havia informação sobre o traje apropriado para a festa. O fato social caracteriza-se por exercer um poder de coerção sobre as consciências individuais. d) Pela ausência da cotidianidade. III e IV são corretas. por resultarem de criações subjetivas dos indivíduos. d) Apenas as afirmativas I. O fato social expressa o predomínio do ser individual sobre o ser social. segundo Émile Durkheim (1858-1917). Considere as afirmativas abaixo sobre as características do fato social para Émile Durkheim. cochichos com comentários maldosos. II. c) O cotidiano das pequenas cidades e do mundo campesino favorece a criação de vínculos sociais. O calouro. imaginando que a festa seria formal. O fato social é exterior ao indivíduo e apresenta-se generalizado na coletividade. e) O forte sentimento de pertencer à humanidade desmantela a noção de comunidade e minimiza o papel da afetividade nas relações sociais. compareceu vestido com traje social. como fato social. Assinale a alternativa correta. II e IV são corretas. a) Apenas as afirmativas I e II são corretas. III.a) A divisão do trabalho social na sociedade contemporânea desagrega os vínculos sociais. 5. 4. Ao entrar na festa.

p. 6. que apresentam artigos e parágrafos da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT. nenhum país ao qual pudessem ser assimilados. é produzido pela cooperação entre os indivíduos através de um processo de interação que Durkheim chamou de divisão do trabalho social. é correto afirmar: a) Obter o reconhecimento por uma comunidade é condição básica para o gozo de direitos. primeiro e acima de tudo. imperialismo. o qual. por exemplo. De súbito revelou-se não existir lugar algum na terra aonde os emigrantes pudessem se dirigir sem as mais severas restrições. Desse modo. 2000. nenhum território em que pudessem fundar uma nova comunidade própria [. Hannah. por sua vez. na privação de um lugar no mundo que torne a opinião significativa e a ação eficaz. Este consenso é garantido pelo meio moral que compartilhamos. Durkheim destaca dois tipos de solidariedade: a mecânica e a orgânica. Algo mais fundamental do que a liberdade e a justiça. 1989. portanto. d) Ao apátrida é garantida ressonância às suas opiniões mais significativas. p. Sociologia da Educação. e) Ser um apátrida é ser reconhecido como um indivíduo com direitos fora de seu país de origem. b) A condição em que se encontra o apátrida é igual à condição de escravo. totalitarismo. . não há vida social.. está em jogo quando deixa de ser natural que um homem pertença à comunidade em que nasceu. 230. que são os direitos do cidadão.Edição de 1988) e da Constituição de 1988. 229.) Considere as afirmativas a seguir.“O que era sem precedentes não era a perda do lar.] A privação fundamental dos direitos humanos manifesta-se. nota-se a influência das idéias 22 positivistas em boa parte de sua legislação.” (ARENDT. No Brasil. Origens do totalitarismo: anti-semitismo...(UEL – 2005) Emile Durkheim observa que uma condição fundamental para que a sociedade possa existir é a presença de um consenso social..) Com base no texto. c) Ser privado da vida é menos importante que ser privado da liberdade. Pois sem consenso não há cooperação entre os indivíduos e. da liberdade ou da procura da felicidade.27-28. mas a impossibilidade de encontrar um novo lar. (Adaptado de: RODRIGUES.] A calamidade dos que não têm direitos não decorre do fato de terem sido privados da vida. São Paulo: Companhia das Letras. conforme o tipo de divisão do trabalho social que predomina na vida coletiva numa determinada época tem-se um tipo diferente de solidariedade entre os indivíduos. nem da igualdade perante a lei ou da liberdade de opinião – fórmulas que se destinavam a resolver problemas dentro de certas comunidades – mas do fato de já não pertencerem a qualquer comunidade [. Alberto T. 227. Rio de Janeiro: DP&A.

são aquelas que os filósofos chamam de categorias do entendimento: noções de tempo. Pelo número de concepções. aí estão assassínios praticados por graúdos mandantes que se servem de pistoleiros profissionais. e) Conflito social. b) Fato social. tratados. de causa. III e IV. “[Da Organização Sindical:] A solidariedade de interesses econômicos dos que empreendem atividades idênticas.]”. tráfico de mulheres.]. c) Coerção social. 2004. de gênero.. II. a deplorável guerra do tráfico de drogas e as chacinas em grandes cidades brasileiras. na forma da lei. etc.. e) II. as condições sub-humanas a que são submetidas centenas de milhões de pessoas [. de número.] Mas. de personalidade etc. “[São condições para o funcionamento do Sindicato:] a proibição de qualquer propaganda de doutrinas incompatíveis com as instituições e os interesses da Nação [.(UEL – 2006) “Na raiz de nossos julgamentos existe um certo número de noções essenciais que dominam toda a vida intelectual. “[São prerrogativas dos Sindicatos:] colaborar com o Estado.... III. A 3.I. a) Anomia. apenas as afirmativas: a) I e III.. como órgãos técnicos e consultivos.. no estudo e solução dos problemas que se relacionam com a respectiva categoria ou profissão liberal”. “[Dos direitos e deveres individuais e coletivos:] a criação de associações e. de espaço. de substância. sendo vedada a interferência estatal em seu funcionamento”.(UEL – 2005) “A despeito de se viver na era dos direitos. para utilizar a expressão de Lipovetsky [. se. Remetem ao conceito de solidariedade orgânica. 30 ago. São Paulo.. a de cooperativas independem de autorização..]. .) Assinale a alternativa que indica o conceito utilizado por Emile Durkheim (18581917) para definir uma “condição social” do tipo descrito no texto. No Brasil. trabalho escravo. 8.. II e IV. c) II e III. em pleno século XXI [. p.. d) I. está-se na era dos direitos. (Folha de São Paulo. No plano da efetivação dos direitos. menores para prostituição. IV. [. são significativos os homicídios no mundo inteiro. leis. similares ou conexas constitui o vínculo social básico que se denomina aqui categoria econômica”. b) I e IV. como pensamos. as categorias são representações essencialmente coletivas.]. 7. [onde] a eficácia das normas está em perigo”. d) Consciência coletiva. não se estaria na era do vazio [de direitos]?” [Situações sociais desse tipo são analisadas por alguns sociólogos a partir da consideração de que nos encontramos em] “uma condição social em que as normas reguladoras do comportamento perderam a sua validade.

Durkheim afirma o papel do regulamento moral para a integração social. . a respeito das condições para o bom convívio dos indivíduos numa coletividade. econômicas etc. Sociologia. morais e econômicas.) Com base no texto e nos conhecimentos sobre o tema.traduzem antes de tudo estados da coletividade: elas dependem da maneira pela qual esta é constituída e organizada. A moral traça as orientações da conduta ideal para as pessoas. c) O modo como a sociedade vê a si mesma nos modos de agir e pensar coletivos. permitem a formulação de uma avaliação específica sobre o problema da criminalidade violenta praticada por jovens no Brasil. c) Promover a instituição familiar. Para ele. São Paulo: Ática. enfatizando aqueles voltados à população de 15 a 24 anos.” (DURKHEIM. 9. b) Estimular a produção econômica para a geração de empregos. d) A tradução de estados mentais dos indivíduos portadores de distintas visões de mundo. b) Aquelas representações cuja formação é exterior às instituições religiosas. reforçar o papel socializador da escola com ênfase na educação para a paz e 23 para a cidadania e melhorar o funcionamento do sistema legal. a moral (conjunto de valores e juízos direcionados à vida em comum) é o amálgama que une os indivíduos à vida em grupo. hoje. e) As noções incomuns à vida intelectual de uma sociedade que deturpa os julgamentos dos sujeitos. aos esquadrões da morte e a unificação das polícias. a seguir. Émile. Assinale a alternativa que está em conformidade imediata com os pressupostos sociológicos mostrados no texto. e parte do seu conteúdo se materializa em normas e regras. é correto afirmar que a noção de categorias do entendimento compreende: a) Os estados emocionais fugazes dos indivíduos de distintas sociedades. a) Priorizar o combate ao narcotráfico. p.(UEL – 2004) O sociólogo francês Émile Durkheim (1858-1917) considera a “comunhão de valores morais” a condição fundamental e primeira para a construção da coesão social. insistindo que a moral é o mínimo indispensável. Esses pressupostos. morais. ao crime organizado. de suas instituições religiosas. de sua morfologia. algumas possíveis propostas de ação para enfrentar esse problema. 154-157. 1981. Indicam-se. sem o qual as sociedades não podem viver em harmonia.

esta obrigatoriedade de dar. penso apenas com minhas idéias. se o vizinho nos convida para o casamento de seu filho. a prática de “presentear” é algo fundamental a todas as sociedades: segundo ele. (Jovem estudante e trabalhadora em uma loja de shopping). Não sigo o que me obrigam e pronto! Acredito que com a força dos meus pensamentos poderei realizar todos os meus sonhos. dos meus amigos e parentes. b) I e III. sou único. temos certa obrigação em convidá-lo para o casamento do nosso filho. Com base no texto e nos conhecimentos sobre o tema. A troca de presentes cria e alimenta um circuito de comunicação nas sociedades. reduzindo o número de nascimentos a médias compatíveis com os índices de desenvolvimento econômico previstos 10. autônomo.(UEL . o que penso veio da minha família.d) Detectar antecipadamente os jovens portadores de personalidade irritável.2008) Leia os depoimentos a seguir: • Sou um ser livre. e) Investir no controle da natalidade. II. Nos aniversários. nos casamentos. meus amigos. é comum que o convidado leve um presente. nas festas de amigo-secreto e em muitas outras ocasiões. e o meu esforço ajuda a sociedade a progredir.(UEL – 2006) Ao receber um convite para uma festa de aniversário. II e IV. Reciprocamente. a relação da troca. da minha cabeça. Do mesmo modo. considere as afirmativas a seguir. Sinto que dependo disso tudo e gostaria muito de ser . O presentear como prática social originou-se quando da consolidação do modo capitalista de produção. trocamos presentes. Estão corretas apenas as afirmativas: a) I e II. gostaria de fazer o que desejo. minha família. e) II. Segundo o sociólogo francês Marcel Mauss. 11. a escola. IV. independente. d) I. mas é difícil! Às vezes faço o que quero. • Sou um ser social.. III e IV. este indivíduo espera receber presentes de seus convidados. mas na maioria das vezes sigo meu grupo. de receber e de retribuir é mais importante que o bem trocado. na festa de seu aniversário.. I. III. c) III e IV. faço só o que desejo. O ato de presentear instaura e reforça as alianças e os vínculos sociais. O lucro obtido a partir dos bens trocados é o que fundamenta as relações de troca de presentes. impulsiva e impaciente e providenciar o tratamento terapêutico como política pública. sei lá. minha religião.

no sentido de defender o princípio segundo o qual nenhuma ciência é possível sem definição de um objeto próprio e independente. teoria da consciência de classe. . Nas raves existem regras. base da divisão social e transformação do modo de produção. é realista. (FERNANDES. individualismo. Rio de Janeiro: Cia Editora Nacional. fundada no conceito de ação social e suas tipologias de M. c) Individualismo. fundada no conceito de ação social e suas tipologias de M. e) Corporativismo positivista. Weber. muita gente não percebe.(UEL . respectivamente. fundada no funcionalismo de E. fundado no conceito de consciência coletiva de E. Então. Weber. Fundamentos empíricos da explicação sociológica. como ir a raves. fundada no conceito de ação social e suas tipologias de M. Durkheim. fundada em K. mas há toda uma estrutura. teoria organicista de Spencer. Marx. fundado no conceito dos três estados de Augusto Comte. teoria da consciência de classe. Em outros momentos faço o que me mandam e acho que deve ser assim mesmo. fundado na teoria política liberal. p. mas com alguns limites. Marx. Assinale a alternativa que descreve o objeto próprio da Sociologia. exterior e coercitivo em relação à vontade dos indivíduos. Marx. funcionalismo. funcionalismo. posso escolher coisas. (Jovem estudante e Office boy). fundado no liberalismo de vários autores dos séculos XVIII a XX. de Emile Durkheim (1858-1917).2008 ) De acordo com Florestan Fernandes: A concepção fundamental de ciência. 1967. sociologia compreensiva. 12. Assinale a alternativa que expressa. teoria da consciência de classe. fundada em K. F. seguranças. individualismo metodológico. 73). fundada em K. Marx. sinto que sou livre. segundo Emile Durkheim (1858-1917).livre. Durkheim. • Sinto que às vezes consigo fazer as coisas que desejo. Weber. b) Teoria da consciência de classe. as explicações sociológicas sobre a relação entre indivíduo e sociedade presentes nas falas. taxas. d) Sociologia compreensiva. etc. sociologia compreensiva. b) O fato social. É legal a gente viver segundo as regras e ao mesmo tempo poder mudá-las. a) Solidariedade mecânica. fundado no liberalismo de vários autores dos séculos XVIII a XX. mesmo que minha mãe não permita ou concorde. a) O conflito de classe. fundada em K. fundado em Augusto Comte. mas não sou! (Jovem estudante em uma escola pública que trabalha em empregos temporários).

Brasília: Editora UnB. Hoje. 1982. resultado das relações de produção e da divisão social do trabalho. vol. a estrutura corretíssima das organizações atléticas.2008) De acordo com Max Weber.. 2000..]. M.” Por ação social entendem-se as ações que: “quanto ao seu sentido visado pelo agente. A Revolução Brasileira.” (PRADO Jr.. 3) Com base no texto. p. 13. “Mesmo entre gente humilde. quando o afilhado cresce. p. o fazendeiro que manda nos seus agregados. dando com isso origem a relações semi-feudais que implicariam uma situação de ‘latifúndios de tipo senhorial a explorarem camponeses ainda envolvidos em restrições da servidão da gleba’. empregados ou dependentes. Os Parceiros do Rio Bonito. produto da vontade e da ação de indivíduos que agem independentes uns dos outros. Economia e sociedade. sitiante perto de Tatuí.) II. A sua aparência. 1989. a Sociologia significa: “uma ciência que pretende compreender interpretativamente a ação social e assim explicá-la casualmente em seu curso e em seus efeitos.. não necessariamente. Falta-lhe a plástica impecável. 1987. A. um forte. como se diz sempre. considere as afirmativas a seguir: I.. nem vem dar louvado (pedir a benção). Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral. 106. se o pai morria.) III. entretanto. São Paulo: Livraria Duas Cidades. O vínculo não obedece a linhas tão simples.) IV. p. I. mas .] Ocorre que o coronel não manda porque tem riqueza. ao primeiro lance de vista. porém. C. d) A sociedade. São Paulo : Círculo do Livro. p. lhe disse que era tempo de irem buscar a novilha dada pelo padrinho.(UEL . 95.c) A ação social que define as inter-relações compartilhadas de sentido entre os indivíduos. a gente paga o batismo e. ainda presentes nas relações de trabalho rural brasileiro. 247. O nonagenário Nhô Samuel lembrava com saudade o dia em que o pai.. Isso tudo não tem sentido na estrutura social brasileira. orientando-se por este em seu curso.. Os Sertões. São Paulo : Brasiliense. “O sertanejo é. o padrinho ajudar a comadre até ‘arranjar a vida’.” (CANDIDO. E. funcionava o sistema de obrigações recíprocas. Traduzido por Regis Barbosa e Karen Elsabe Barbosa. que se traduziriam no mero prolongamento do poder privado na ordem na ordem pública [. antes de tudo. 24 e) A cultura. antes de ser um líder político. diz Nhô Roque.” (WEBER. [. “O coronel. revela o contrário. é um líder econômico. o desempeno. se refere ao comportamento dos outros. “Não há assim por que considerar que as formas anacrônicas e remanescentes do escravismo.” (CUNHA. Diz que era costume.

mesmo. os casos em que nos relacionamentos familiares . num pacto não escrito. divulgado em jornal e/ou televisão. III e IV b) II e III c) II e IV. As meninas e as jovens também são capazes de expressar situações em que a discriminação e o preconceito contra o gênero feminino aparecem nos relacionamentos cotidianos na família. A introdução ao estudo deste tópico pode ser realizada com a apresentação de um filme que propicie o debate sobre o tema (caso a escola tenha os recursos necessários). oralmente. nos grupos de convivência. relacionado a preconceitos e discriminações de vários tipos. do conhecimento público. Filmes sugeridos: Na falta de condições para a apresentação de um filme. 2. analisar e debater os problemas envolvidos nas situações apresentadas em cada trabalho proposto. 25 .entre mulher e marido. o professor pode lançar mão da narração de um conto ou da exposição de um caso real. Os donos do poder. tanto por parte da direção como dos professores e funcionários. p.” (FAORO. e que propicie o debate em torno das questões relacionadas às desigualdades de gênero. Outra maneira de iniciar o estudo desse tópico é através de um convite aos estudantes para que apresentem. 1973. entre pais e filhos e. criando oportunidade para o professor provocar questões iniciais que permitirão o desenvolvimento do assunto. é manifesta a desigualdade no tratamento ou na posição socialmente ocupada por homens e mulheres. utilizando os conceitos e idéias centrais referentes ao tópico. na escola. por exemplo. situações vividas ou observadas em que. v. claramente.) Correspondem ao conceito de ação social citado anteriormente somente as afirmativas a) I e IV. entre irmãos de diferentes gêneros . 622. II e III. e) II. O principal propósito dessa atividade inicial é provocar o reconhecimento por parte dos alunos da existência de tratamento desigual entre homens e mulheres nos vários aspectos e dimensões da vida social.manda porque se lhe reconhece esse poder. como a diferença entre os termos “sexo” e “gênero”. os aspectos culturais e sociais envolvidos nas desigualdades e os preconceitos referentes ao gênero e à sexualidade. d) I. Como. Gênero como fator de desigualdade: Gênero e desigualdade As atividades sugeridas devem propiciar aos alunos desenvolver as capacidades de identificar.se manifestam tratamentos discriminatórios em relação à mulher e às crianças do sexo feminino. Porto Alegre: Editora Globo. R. É também possível identificar tratamentos desiguais entre meninos e meninas não só na família como nas escolas.

comercializados para audiências jovens. como a família e a mídia.” Na socialização do gênero “meninos e meninas são guiados por “sanções” positivas e negativas. de Anthony Giddens (pp. 105-6. Pesquisadoras feministas demonstraram como produtos culturais e de mídia. forças socialmente aplicadas que recompensam ou restringem o comportamento. são culturalmente produzidas. em certa medida. Pelo contato com vários organismos sociais. “Embora convenha nutrir certo ceticismo com relação a qualquer adoção indiscriminada da abordagem que postula os papéis dos sexos. as identidades de gênero são resultados de influências sociais”. os alunos poderão ler e discutir o seguinte trecho do capítulo sobre “Gênero e Sexualidade”. encarnam atitudes tradicionais . as escolas e outros núcleos de agrupamento talvez estejam em divergência com outros. 2005) “Um caminho dentro da Sociologia para se analisar “as origens das diferenças de gênero é estudar a socialização do gênero. “ Estudos sobre as interações entre pais e filhos.” Essa interpretação dos papéis sexuais e da socialização foi criticada e muitos escritores argumentam que “a socialização de gênero não é por si mesma um processo tranqüilo: diferentes organismos como a família. Artmed Editora S. a aprendizagem de papéis do gênero com o auxílio de organismos sociais. as desigualdades de gênero surgem porque homens e mulheres são socializados em papéis diferentes. programas de televisão e filmes... enquanto os femininos são retratados passivos. “As influências sociais na identidade de gênero fluem por meio de diversos canais. esperançosos e voltados à vida doméstica.”. as teorias de socialização ignoram a capacidade dos indivíduos de rejeitar ou modificar as expectativas sociais acerca dos papéis sexuais. ou ser alvo de sanções negativas (“Meninos não brincam com bonecas”). Além disso. os personagens masculinos em geral superam em número os femininos na maior parte dos livros infantis. Os personagens masculinos tendem a representar papéis mais ativos e aventurosos. Essas afirmações positivas e negativas ajudam meninos e meninas a aprender os papéis sociais esperados e a adequar-se a eles. de alguma forma. Essa abordagem faz distinção entre sexo biológico e gênero social – uma criança nasce com o primeiro e desenvolve o segundo. Estudo dirigido do texto abaixo e discussão sobre o tema:Após terem sidos expostos a uma introdução geral sobre o tema da sexualidade e do gênero.. tanto primários como secundários. Embora a situação. do livro Sociologia. os livros ilustrados e os programas de televisão experienciados por crianças tendem a enfatizar diferenças entre os atributos masculinos e femininos. as crianças internalizam gradualmente as normas e as expectativas sociais que são percebidas como correspondentes ao seu sexo.. Por exemplo.”.A.. contos de fadas. por exemplo.2. um menino poderia ser sancionado positivamente em seu comportamento (“Que menino valente você é!”). De acordo com essa visão. muitos estudos mostram que. mesmo quando os pais acreditam que suas reações para ambos sejam iguais. mostram diferenças distintas no tratamento de meninos e meninas. Os brinquedos. As diferenças de gênero não são biológicamente determinadas. esteja mudando.

Os papéis sociais são expectativas socialmente definidas que uma pessoa segue numa dada posição social. coitados. coloca em ação estratégias que exigem do homem desempenhos que o produzem enquanto um guerreiro: indivíduo violento. em nossa sociedade. competitivo e agressor. socialmente.) GÊNERO. a serem assim. nem dispostos a "comer todas" usando o sexo como arma contra as mulheres. Dá medo viver numa sociedade que. em programa de televisão ou em propaganda .Cite exemplos de “sanções” negativas ou positivas ( outros que os apresentados no texto) e que fazem parte do processo de socialização de gênero. esta constatação é preocupante.Qual o sentido que.Explique com suas palavras o que se quer dizer com a afirmação “homens e mulheres são socializados em papéis diferentes”. papel . (Por exemplo: assumir o papel de médico. não custam lembrar que este "sacrifício" todo não é feito . em revista. se atribui aos termos “sexo” e “gênero”? Por que é importante para a análise sociológica fazer tal distinção? . de estudante. Antes que alguém comece a sentir pena dos homens. dia a dia. enfim. Glossário: sanção – pena ou recompensa (reforço positivo ou negativo) com que se tenta garantir a execução de uma norma ou lei social. etc. violência e poder: dá para mudar esta equação? Fernando Seffner1 Homens não nascem prontos. Os homens são ensinados.Indique alguma situação . de pai. de acordo com o que é esperado. Por um lado. de professor. cotidianamente. pois nos indica uma sociedade 26 com mecanismos bastante violentos de produção de indivíduos.atribuição de natureza social relacionada a alguma função e/ou desempenho esperado. tão competitivos.para com o gênero e os tipos de objetivos e ambições esperados em meninos e meninas.” Algumas questões para orientar o estudo e o debate em sala: . No caso do texto o sentido do termo está diretamente associado às formas de aprovação ou reprovação dos comportamentos. em Sociologia. para cada gênero. tendo que se mostrar tão duros. nem saem da barriga da mãe sedentos de poder. VIOLÊNCIA E PODER Homens = sexo. O que o termo “papéis” significa para a análise sociológica? (recordar o estudo sobre o tema da socialização em sua relação com a desigualdade de gênero) . influenciando comportamentos diferenciais entre meninos e meninas? .apresentada em filme. de esposa. tão "homens". SEXUALIDADE. não nascem violentos. condenados a tantos sacrifícios.em que claramente está manifesto um preconceito contra mulheres ou homossexuais. tão fortes.

tendo como objetivo um regime de equidade de gênero. Enfim. e bem antes das mulheres. diariamente atestado pelas manchetes dos grandes jornais. Homens jovens e negros são alvo de um verdadeiro genocídio no Brasil. por exemplo. Simples. é coisa de homem. Os modos de constituir agregados familiares podem gerar situações de maior equidade de gênero. mas o princípio é esse mesmo: investir na educação de homens e mulheres. também. mas de uma redistribuição de poder. Homens negros têm menos possibilidades de sucesso do que homens brancos. E antes que alguém comece a invejar os homens por causa desses benefícios. vale lembrar que as coisas são mais complicadas. Só que a mudança não virá apenas por conta de projetos de educação dos homens. O quesito raça atua promovendo um desequilíbrio na masculinidade. é sempre possível localizar. não? De fato. a distribuição de poder é muito desigual. essa mesma constatação – os homens são assim porque foram educados para serem assim – nos permite pensar em modos de mexer na equação. mesmo quando deles discordam. Não vamos seguir exemplificando. São os homens que acessam as melhores oportunidades de emprego. com muitas variáveis. Por outro lado. uma situação em que homens e mulheres possam conviver com distribuição igualitária de poder. de salários. e são também eles que morrem mais em acidentes automobilísticos). que na maior parte dos casos convivem de modo a permitir que os homens tenham estes comportamentos violentos. porque não estamos apenas tratando de processos educativos. A situação é mais complicada. bem além do x e do y tradicionais. x e y têm muito a ver com a discussão dos regimes de gênero. a equação que colocamos no título. mas fica o alerta: a situação é complexa. são os homens que galgam os mais elevados postos na vida política e na esfera das empresas privadas (mas vale lembrar que os homens morrem primeiro. e partilhar desse poder conjuntamente. Entre um jovem negro e pobre e um jovem branco e pobre. No interior do campo masculino. São os homens que gozam da maior mobilidade na sociedade (carro. o que está diretamente relacionado a este esforço em galgar postos elevados e neles se manter). EDUCAÇÃO PARA A IGUALDADE DE GÊNERO é. para "provar" sua masculinidade continuamente). Mas as dificuldades são muitas. de carreira política. e embora muitos homens confessem que o período escolar foi de grande tensão. são os homens que estudam mais (embora as mulheres tenham conseguido avanços espetaculares nesta área. inclusive. na estrutura econômica. em alguns grupos populacionais. E os processos educativos devem abranger também as mulheres. buscando um regime de equidade de gênero. Ou construir uma nova conceituação de poder. É necessário mudar elementos centrais de nossa estrutura social e. no interior de . as coisas não são tão simples como podem parecer. o jovem negro tem muito mais chances de estar na mira da agressão policial. ou não. se forem educados de outro modo poderemos ter homens com outras características. e que implica retirar poder dos homens e distribuir numa relação igualitária com as mulheres. de cargos de mando e de benefícios em nossa sociedade. O nível de escolaridade estratifica as oportunidades também. porque a questão não se resume aos pólos homem e mulher.em vão. no mínimo. Aliás. uma equação de segundo grau. por exemplo. Se os homens são assim porque foram educados para serem assim.

O que ocorre é uma crise nas relações de gênero. aprendeu técnicas de prazer amoroso para melhor desempenho sexual. Penso que a melhor expressão para designar o que está acontecendo não é essa. um conjunto de características que configura um modo hegemônico de masculinidade. é claro. Este modo hegemônico designa homens que conseguem EDUCAÇÃO PARA A IGUALDADE DE GÊNERO. e isto tem gerado boa parte do que a imprensa descreve como sendo a crise dos homens. Homens negros têm lutado por uma justa distribuição de oportunidades quando . via consumo de produtos e serviços. até mesmo em crise do macho se fala. Outro aspecto é que determinados grupos de homens têm questionado o privilégio de outros grupos de homens. o que causa preocupação. embora ainda esteja longe do estado de equilíbrio. em algumas situações. Mas ainda falta muito para que os aprendizados escolares façam diferença na vida dos alunos. Aceder a mais benefícios do que outros. Conseguem mandar nas mulheres e em muitos homens. o homem em crise. Diversos motivos. Tome uma revista semanal. atuante desde o século XIX. Em determinados contextos. sua trajetória de aprovação e os casos em que ela já foi aplicada. auxiliando-os a compreender e atuar no contexto social em que vivem. Aparecem na imprensa numerosas matérias sobre a crise do homem. posicionaram as mulheres com possibilidades de disputar em regimes de quase igualdade com os homens o acesso a oportunidades na sociedade. e a balança tem pendido para as mulheres. Mas não podemos deixar de reconhecer que a perda de poder dos homens tem gerado.uma determinada ordem de gênero. não faltando materiais em sítios da internet e em organizações não governamentais feministas sobre a lei. podemos ter homens e mulheres como aliados na luta pela democratização do poder concentrado em mãos de determinados grupos de homens. não precisamos de escola. o que em boa parte já foi conseguido. Para quem pode. folheie suas páginas. ao acaso. tudo se resume ao mercado e ao consumo. faz curso de gastronomia. A crise nas relações de gênero é uma crise em torno da distribuição do poder. e a Lei Maria da Penha é um bom exemplo disso. Fala-se muito hoje em crise das masculinidades. Se este é o caminho para superar a crise da masculinidade. Ela é também um ótimo conteúdo para ser estudado em sala de aula. dentre eles em especial o movimento feminista. escolhe roupas com apuro e aceita dividir a conta 27 do restaurante com a parceira. pois essa designação tem permitido que uma parte da "saída" da crise seja produzida pelo mercado. Mas não é por acaso que a imprensa escolhe chamar isso de crise dos homens. basicamente nas relações entre homem e mulher. Uma parte da luta feminista se dá no sentido de conter a violência masculina sobre as mulheres. mais violência. Outra frente de luta é para garantir o pleno acesso das mulheres à escola. e você verá que o "novo homem" que busca "superar a crise" é um homem que vai a salão de beleza. EDUCAÇÃO PARA A IGUALDADE DE GÊNERO.

Todos estes movimentos sociais podem ser objetos de estudo e discussão na sala de aula. Aliás. que temos uma história em que os momentos de ditaduras e do domínio de oligarquias superam amplamente os momentos de exercício da democracia. juntamente com as mulheres negras. nem para professoras. e até mental. Os homens não são "culpados" pela distribuição injusta de poder nas relações de gênero. Ou para ingresso no ensino superior público. Não vai ser fácil. Homens portadores de alguma modalidade de deficiência física. Também não se pode dizer que sejam simplesmente "vítimas" dos chamados "papéis de gênero". Mas os homens podem ser educados para perceber estas situações e para lutar por um mundo onde a equidade de gênero seja a regra. por exemplo. Homens homossexuais têm lutado para que a homofobia seja crime. nem para alunos. brasileiros. Sexualidade e Relações de Gênero. Para isso. ou o direito de pensão por morte do companheiro. professores e professoras têm que perceber que meninas podem ser boas em Matemática. O estudo desses temas se conjuga com um dos principais objetivos em educação hoje em dia. nos discursos sobre segurança e família. em muitos discursos religiosos que asseguram para o homem a posição de mando sobre a mulher e justificam isso de modo "divino". Homens homossexuais têm lutado para que sua orientação sexual não lhes impeça o exercício de direitos reservados até agora aos homens heterossexuais. nem para professores. e de vivência num contexto onde a equidade de gênero é a regra. até porque as pedagogias de construção da masculinidade estão presentes em propagandas da mídia. lutam para ter acesso a oportunidades de trabalho em pé de igualdade com os demais homens. Mas a escola pode ser um ambiente onde os meninos e as meninas passem por uma experiência de estudo e discussão destes temas. Docente e orientador junto ao Programa de Pós-Graduação em Educação na linha de pesquisa Educação. Mas valerá a pena como construção de um futuro mais justo.concorrem com homens brancos por uma vaga no mercado de trabalho. EDUCAÇÃO PARA A IGUALDADE DE GÊNERO. em sistemas de recrutamento de recursos humanos. que valoriza a diversidade. e os meninos podem aprender a fazer poemas na aula de Língua Portuguesa e a tirarem boas notas em Educação Artística. como no caso da discussão dos regimes de cotas. com evidentes prejuízos em termos emocionais e de saúde. E em Educação Física. incentivando os alunos a uma participação cidadã na vida em sociedade. o da escola inclusiva. A escola não tem como "resolver" sozinha esta questão. Exemplo disso são os casos de adoção de filhos por casais homossexuais masculinos. única chave para assegurar a manutenção do regime democrático entre nós. nem para alunas. Dagmar Estermann Meyer2 . que os "obrigam" a manter uma atitude guerreira. lutar por isso é dar mesmo um salto para o futuro. Nota: Professor da Faculdade de Educação / UFRGS. Da mesma forma como o movimento negro conseguiu tornar as atitudes racistas crime.

voltar o olhar para o espaço escolar propriamente dito. refinadas e naturalizadas. o que se privilegia discutir como objeto específico desse campo se inclui nessa categoria de processos educativos intencionais – que poderiam. em outras teorizações. 28 por exemplo. de pedagogias que envolvem estratégias sutis. contidas em (ou derivadas de) artefatos culturais contemporâneos da mídia. também. Dentre esses processos educativos EDUCAÇÃO PARA A IGUALDADE DE GÊNERO. de questões vinculadas a gênero. Tais processos educativos podem. uma vez que esta é central nesse contexto. Encontram-se as chamadas pedagogias culturais. no prelo). e é esse seu envolvimento com a produção de identidades sociais que faz com ela continue sendo. exaustivamente repetidas e atualizadas na cultura. . Esta função “formativa” da escola parece ter sido bem mais importante do que a mera transmissão de determinados conhecimentos em sentido estrito. ser divididos em intencionais e não intencionais. ainda hoje. ainda. Para que nos tornemos sujeitos de uma cultura. grosso modo. ao longo do tempo e nas diferentes sociedades e culturas ocidentais modernas. sendo que quase tudo o que aprendemos a definir como educação nos cursos de formação de professores/as e. também. Os processos educativos não intencionais têm sido muito pouco re-conhecidos. de ‘socialização’ (MEYER e COLS. gênero e sexualidade e outros programas trataram desse tema de forma mais específica. na perspectiva que aqui nos interessa. ser desdobrados em formais e não formais. esse conjunto inclui. da igreja e da escola e engloba uma ampla e variada gama de processos educativos. uma infinidade de “lugares pedagógicos” além da família. Tomada em sentido amplo e.A discussão proposta por esta série de Programas nos encaminha na direção de nos ocuparmos um pouco mais explicitamente da noção de educação. bons cidadãos e estes termos não significavam exatamente as mesmas coisas quando essa educação escolar era dirigida para homens ou mulheres ou era desenvolvida em tempos e espaços diversos. de processos de aprendizagem e de instituições nem sempre convergentes e harmoniosas do ponto de vista de suas prioridades e objetivos políticos. as quais se têm revelado como processos educativos potentes quando se trata de instituir relações entre corpo. que quase não percebemos como sendo educativas (MEYER. O propósito neste texto é. a não ser em alguns campos específicos que se ocupam. envolvida com projetos de formação de determinados tipos de pessoas ou de identidades sociais: bons cristãos. uma vez que a produção dessas identidades e. é preciso que estejamos expostos. Nesses campos eles assumem uma grande importância. então. bons trabalhadores. hoje. educação envolve o conjunto dos processos pelos quais aprendemos a nos tornar e a nos reconhecer como sujeitos de uma cultura. na maioria das vezes. uma vez que a instituição escola que conhecemos (e na qual muitos/as de nós trabalhamos) esteve. 2006b. 2006a). incluindo aqueles que são chamados. raça e sexualidade. visibilizados e problematizados. a um conjunto amplo de forças. das diferenciações e desigualdades sociais delas decorrentes resulta. de forma continuada.

no âmbito da escola e do currículo que nela é implementado. raça/etnia. classe social.. um tempo de emergência e de visibilização de uma multiplicidade de identidades sociais.um espaço institucional constantemente disputado pelas mais diferentes vertentes políticas e por distintos movimentos sociais. os movimentos gays e lésbicos. religião.. a escola é tanto uma instituição na qual convivem. atualizam e modificam algumas dessas identidades. EDUCAÇÃO PARA A IGUALDADE DE GÊNERO. de forma nem sempre harmoniosa. destes com os/as funcionários/as e entre os/as próprios/as estudantes. que ele assim resume: [.. eu não suportava ir para a escola [. de 16 anos. os movimentos ecológicos (para ficar nos exemplos mais conhecidos e nomeados). Nesse sentido. com o impacto dos meios de comunicação nas culturas que a atravessam bem como decorrem do contexto social particular em que cada escola se situa. relato três exemplos ‘banais’ que se repetem. ou talvez em função delas. palco de disputas e de conflitos importantes. ainda. lembra com nitidez de fatos ocorridos quando tinha 12 anos e estava na 6ª série. sexo. as interações pedagógicas. Dentre os fatores internos implicados com a complexidade e a heterogeneidade do espaço escolar podemos citar suas formas específicas de organização do tempo e do espaço. de rivalidades e associações entre grupos e pessoas. entre professores/as e estudantes. diferentes grupos e identidades sociais. política. E é nesse embate entre uma heterogeneidade que se quer visível e representada e uma homogeneização que se busca implementar – tomando como referência determinados padrões de normalidade instituídos a priori e que nos são apresentados como ‘igualdade’ – que a escola se torna um espaço social de disputas e enfrentamentos. as relações entre professores/as. Economicamente diferentes e estão relacionados. por . era chato. entre professores/as e gestores/as. os movimentos de libertação nacional.]. interesses). Por isso a escola é um espaço social complexo e plural na qual interagem fatores internos e externos à instituição. quanto é uma instância em que se disputam significados que produzem. em nossas escolas e salas de aula: Flavio. hoje. Apesar dessas características.. muitas vezes. também. os movimentos étnicoraciais. negro. Os fatores externos decorrem exatamente do fato de que nela convivem pessoas que são social (idade. suas regras disciplinares. e todos estes grupos se fazem representar. hoje cursando o 2º ano do Ensino Médio. é que a escola contemporânea é. o que precisa ser compreendido e valorizado. definidas e disputadas por diferentes movimentos como os feministas. Para descrever a sutileza do funcionamento de alguns dos mecanismos envolvidos com a produção de diferenças e de desigualdades sociais e culturais de gênero e de sexualidade. morador da Zona Sul de São Paulo. ou desejam se fazer representar no espaço escolar e nos currículos que nele se desenvolvem. é que a escola (como muitas outras instituições sociais) investe muito de seu esforço na elaboração e na implementação de mecanismos e de estratégias que objetivam uniformizar os indivíduos que a compõem.] foi o ano em que virei chacota. E exatamente porque vivemos.

que [...] Era briga todo dia. A diretora me chamava pra conversar, então era desagradável, eu chegava na escola e virava o pivô, entendeu? [...] Eu pensei em mudar de escola, de tanto que era horrível, fiquei assim, querendo muito sair de lá e não voltar mais. EDUCAÇÃO PARA A IGUALDADE DE GÊNERO. [...] Os professores não falavam nada. Eu tava sentado, fazendo minha lição, nem sentava no fundo, eu nunca sentei no fundo porque eu não gosto, eu sentava na frente [...] E era aquela atacação de papel. Eu abria o papel e tava escrito“seu viado” e não sei o que lá. Era horrível, era muita humilhação. [Entrevistador: E os professores viam isso?] Viam e não faziam nada3. O segundo exemplo está relatado na mesma dissertação4. Conta Fabiano: 29 [...] foi na sétima série, no primeiro dia de aula. A professora chegou e falou para nos apresentarmos para todo mundo. Não sei se foi uma brincadeira que ela fez, mas eu guardo até hoje essa coisa dela. Eu estava me apresentando e ela disse: – ‘qual é mesmo o teu nome?’ Eu falei: – ‘Fabiano’. – ‘Como é mesmo, Fabiana?’ Nisso eu fui motivo de gozação o ano inteiro e até terminar a oitava série. Foram dois anos agüentando ser chamado de viado! Fabiana! O terceiro exemplo desloca nosso olhar da relação professora-aluno-aluno para a relação entre alunos/as e multiplica mais ainda as diferenciações e os seus impactos na vida dos/as estudantes. A pessoa que nos ofende e nos maltrata e faz todas as outras coisas se acha melhor que todos. Só porque usam roupas caras, são altos e magros, bonitos e até mais inteligentes, quando na verdade não são grande coisa. Existe muito preconceito com negros, gordos, baixinhos e burros e isso nos faz sentir as piores pessoas no mundo. As pessoas inventam coisas sobre você e você é obrigado a ouvir comentários desagradáveis. Isso nos deixa péssimos e preocupados com o que pensam de você, ou o que será a próxima pegadinha (menina de 8ª série, 14 anos) 5. O que nós, educadores e educadoras, podemos aprender com esses depoimentos, tendo em vista as temáticas que estamos discutindo nesta série de programas? Como já enfatizei, aqui, os processos de homogeneização implementados pela escola e que pretendem definir o que – ou quem – é igual, estão estreitamente vinculados a referências daquilo ou daquele que são definidos como diferentes e, quase que por extensão, desiguais; e essa discussão tem sido EDUCAÇÃO PARA A IGUALDADE DE GÊNERO. Feita, com novos enfoques e com redobrado vigor, no contexto das teorizações educacionais agrupadas sob o termo pós-críticas. Tomando como referência a educação escolar, estas teorizações trabalham com uma importante ressignificação do conceito de currículo, considerando-o como sendo o núcleo que corporifica o conjunto de todas as experiências cognitivas e afetivas vividas pelos estudantes no decorrer do processo de educação escolar, o que significa

entendê-lo como sendo um espaço conflituoso e ativo de produção cultural (SILVA, 1995). No currículo confrontam-se diferentes culturas e linguagens, produzidas na escola e, sobretudo, em outras instâncias do social. Nesse sentido, a escola proporciona um espaço narrativo privilegiado para alguns enquanto produz ou reforça a desigualdade e a subordinação de outros. Uma afirmação que sugere a necessidade de se investir em discussões que nos permitam, exatamente, exercitar outros olhares sobre as práticas pedagógicas e sobre as relações sociais que se desenvolvem ou que desenvolvemos no contexto escolar. E fornecer os instrumentos para favorecer este tipo de reflexão acerca da própria prática é, do meu ponto de vista, uma grande contribuição dessas teorizações. Nesse sentido e considerando-se os depoimentos que apresentei neste texto, de que forma escola e currículo, com os diferentes atravessamentos externos que os afetam, podem estar implicados com a produção de diferenças e desigualdades de gênero e sexualidade? Como cultura e poder se combinam, nas práticas pedagógicas escolares em sentido amplo, para construir fronteiras entre grupos e populações, para instituir posições sociais de menino e de menina, de mulher e de homem, de heterossexual e homossexual, por exemplo, e para possibilitar o exercício de práticas sexistas, racistas e homofônicas no espaço escolar? Essa é uma questão que foi (e continua sendo) exaustivamente discutida na interface que se estabelece entre estudos que procuram articular educação, gênero e sexualidade. O conceito de gênero passa a ser utilizado no campo dos Estudos Feministas, por estudiosas anglo-saxãs, a partir da década de setenta. De forma sintética gênero pode ser definido como construção e organização social das diferenças entre os sexos, que se realiza em múltiplas instâncias, em diferentes práticas e instituições sociais e através de muitas linguagens. O que isso significa? EDUCAÇÃO PARA A IGUALDADE DE GÊNERO. Até então, o movimento feminista vinha se debatendo com a dificuldade de desvincular a discussão que se fazia para entender a subordinação das mulheres aos homens e também a sua flagrante desvantagem social e econômica, de um fato biológico que era (é) a diferença anatômica e fisiológica entre os sexos. Enquanto se buscava entender esse processo tomando como base a via biológica, ficava muito difícil sustentar projetos políticos de transformação dessas relações de desigualdade, porque, afinal de contas, a biologia é imutável, é o que se pensava há 30 ou 40 anos. Hoje, já sabemos que até a biologia é histórica, ou seja, ela também está sujeita a (enormes!) transformações, mas isso já é ir bem mais adiante nessa história. O conceito de gênero indica o seguinte: nós aprendemos a ser homens e mulheres desde o momento em que nascemos até o dia em que morremos e essa aprendizagem se processa em diversas instituições sociais, a começar pela família, passando pela escola, pela mídia, pelo grupo de amigos, pelo trabalho, etc. Mas significa mais ainda: como nós nascemos e vivemos em tempos e lugares específicos, gênero reforça a necessidade de se pensar que há muitas formas de sermos mulheres e homens, ao longo do tempo, ou no mesmo tempo histórico, nos diferentes grupos e segmentos sociais. O conceito de gênero também não se refere mais ao estudo da mulher, ele é um conceito que procura enfatizar a construção relacional e a organização social das diferenças entre os sexos, desestabilizando desta forma o determinismo biológico e

30 econômico vigente, até então, em algumas das teorizações anteriores. Esse conceito nos leva, pois, a procurar entender as construções de feminino, de forma articulada com o masculino, uma vez que ambos estão implicados nas mesmas relações. E tem mais: o que é apresentado como feminino, nas sociedades ocidentais, toma o masculino como referência. A mulher é apresentada como o oposto do homem, só que esta não é uma simples oposição: ela é, como todas as oposições binárias que estruturam o pensamento moderno, uma oposição hierarquizada, em que um dos termos da equação é socialmente menos valorizado que o outro. As oposições binárias são, também, relações de poder (LOURO, 2001; MEYER, 2005). EDUCAÇÃO PARA A IGUALDADE DE GÊNERO. Gênero, então, enfatiza a construção relacional do sexo e a organização social desta construção, entendendo que ela é uma construção que é histórica e que precisa ser entendida a partir de sua articulação com outras categorias sociais como classe social, raça/etnia, geração, sexualidade, para citar algumas das mais importantes. A noção de poder que está presente nessa relação introduz aí a dimensão de conflito, uma vez que as mulheres e os homens não são apenas mulheres ou apenas homens, mas são muitas outras coisas ao mesmo tempo. Isso significa dizer que não existe uma essência de mulher ou de homem nem a possibilidade de uma solidariedade dada a priori, a partir de uma única posição, neste caso, a partir da posição de gênero. Uma outra questão a ser reforçada, aqui, é que o conceito de gênero introduz uma virada importante nos estudos feministas. Ainda que esse campo continue priorizando análises sobre as mulheres, não se está falando mais de mulher no singular, mas entendendo que muitas outras formas de diferença e desigualdade se imbricam com o gênero e que elas precisam ser problematizadas de forma articulada. Uma dessas diferenças que se conecta de forma importante ao gênero é, exatamente, a de sexualidade. Sexualidade é um conceito que, muito freqüentemente, se confunde com gênero e, embora precisemos reconhecer que eles estão estreitamente ligados, cada um deles guarda suas especificidades e inscreve os sujeitos em sistemas de diferenciação diversos. Enquanto que gênero aponta para as formas pelas quais sociedades e culturas produzem homens e mulheres e organizam/dividem o mundo em torno de noções de masculinidade e feminilidade, a sexualidade tem a ver com as formas pelas quais os diferentes sujeitos, homens e mulheres, vivem seus desejos e prazeres corporais, em sentido amplo. Com isso, o que se quer dizer, nesta perspectiva teórica, é que os nossos desejos corporais e os focos de nossos desejos são produzidos e legitimados pela cultura e não são decorrências naturais da “posse” de um determinado aparelho genital ou do funcionamento de determinados hormônios. Homens e mulheres vivem de muitas formas e com diferentes tipos de parceiros os seus desejos e prazeres corporais: com parceiros de sexos diferentes, com parceiros do mesmo sexo, com parceiros de ambos os sexos e, crescentemente, com parceiros virtuais “descorporificados”. E

sexo é um termo usado, aqui, então, para fazer referência àquelas diferenças anatômicas. EDUCAÇÃO PARA A IGUALDADE DE GÊNERO. Fenotípicas, inscritas no e sobre o corpo, que cada cultura institui para marcar e diferenciar fisicamente mulheres de homens (LOURO, 1999; WEEKS, 1999). Tendo estes conceitos presentes, volto à questão antes colocada: o que nós, educadores e educadoras, podemos aprender com isto? Penso que, num primeiro momento, eles nos instigam a analisar os processos, as estratégias e as práticas sociais que nos constroem como sujeitos de gênero e sexuais. A pergunta norteadora, aqui, é: como vimos a nos tornar o que somos? E como funcionam os mecanismos de diferenciação e de hierarquização que, nesse processo de tornarse, desigualam sujeitos em função de seu gênero e de suas práticas sexuais? Essas são duas perguntas importantes para quem pretende investir em intervenções que permitam modificar, minimamente, as relações de gênero e sexuais que se desenvolvem na sociedade em que vivemos. Outra questão que precisamos colocar-nos, como educadores e educadoras comprometidos/as com mudanças nessas relações, é: como as diferentes linguagens que constituem os currículos escolares que planejamos e implementamos constroem, ajudam a manter ou re-definem posições sociais de gênero e de sexualidade? Uma das primeiras implicações dessa pergunta é considerar que, provavelmente, não existem disciplinas formais em que se objetiva ensinar como transformar crianças em meninos e meninas e estes e estas em homens e mulheres, a exemplo do que se faz em matemática quando aprendemos a adicionar, multiplicar ou dividir; ou, ainda, de como se pretende fazer, com relação ao sexo, no contexto de determinadas propostas de educação sexual escolar. Precisamos, então, reconhecer como aprendemos essas coisas que fazemos e em que espaços e em que lugares aprendemos a fazê-las de uma determinada maneira e não de outras. Vamos perceber que essas aprendizagens estão incorporadas em práticas quotidianas formais e informais que nem questionamos mais. Que elas atravessam os conteúdos das disciplinas que compõem o currículo oficial ou estão imbricadas na literatura que selecionamos, nas revistas que colocamos à disposição das estudantes para pesquisa e colagem, nos filmes que passamos, no material escolar que indicamos para consumo, no vestuário que permitimos e naquele que é proibido, nas normas disciplinares que organizam o espaço e o tempo escolares, nas piadas

31 EDUCAÇÃO PARA A IGUALDADE DE GÊNERO.Que fazemos ou que ouvimos sem nos manifestar, nas dinâmicas em sala de aula e em outros espaços escolares que não vemos ou decidimos ignorar, nos castigos e nas premiações, nos processos de avaliação... E pensar dessa forma, a partir desses conceitos e do que eles nos sugerem considerar, colocamos a necessidade de questionar não só

O gênero refere-se a essa ação e às relações que ela gera entre homens e mulheres. Se fatores biológicos produzem ou não diferenças no cérebro ou no corpo de mulheres e homens. o meio social age fortemente nos dois sexos. fez com que gênero voltasse a ocupar um lugar de destaque em várias discussões nos media. nós mesmas. periodicamente dominam os títulos dos jornais. sociais. a desenvolver a sensibilidade para perceber o sexismo. e não propriamente. frequentemente designando mulheres a uma posição subalterna. o racismo e a discriminação que estes saberes veiculam. à identidade associada ao sexo masculino ou feminino. políticos e morais que atribuem valores a essas ralações. inscritas nesses processos de nomeação em que a diferença é hierarquizada e transformada em desigualdade. Entendemos melhor quem tem autoridade para dizer o que. o meio social age fortemente nos dois sexos. 2 . Desigualdade de Gênero 1 . políticos e morais que atribuem valores a essas ralações. frequentemente designando mulheres a uma posição subalterna. sociais.Conceito de Gênero Gênero não se refere exatamente aos homens e mulheres mas a relações entre os dois sexos. Se fatores biológicos produzem ou não diferenças no cérebro ou no corpo de mulheres e homens. De repente. Recentemente. E. profissionais da educação. o Presidente da prestigiosa Harvard University fez alguns comentários sobre as mulheres terem. por exemplo. E isso nos ajuda a reconhecer como estamos. A autoridade que acompanha este posto.Desigualdade de Gênero Introdução: Gênero & Diferenças Nos últimos 100 anos assuntos relativos a gênero. de nascença. O gênero refere-se a essa ação e às relações que ela gera entre homens e mulheres. constroem e ajudam a manter. Desigualdade de Gênero . de quem e em que condições. Esse conceito chama a atenção para os processos culturais. e não propriamente. ao mesmo tempo. isso aponta para a dimensão política que reside na problematização de práticas aparentemente banais.O conceito de gênero Gênero não se refere exatamente aos homens e mulheres mas a relações entre os dois sexos. estávamos mais uma vez as voltas com questões básicas que marcaram as lutas . também.os conhecimentos e saberes com que lidamos mas. à identidade associada ao sexo masculino ou feminino. Esse conceito chama a atenção para os processos culturais. e o caráter público desse comentário. menos capacidades como cientistas. como essas que foram relatadas nos depoimentos que aqui apresentei.

geografia.Desigualdade de Gênero Durante todos esses anos. benefícios. as regras e práticas dentro de casa e com a família. Pode-se concluir que tanto os homens como as mulheres podem ser portadores dos relevantes genes. no trabalho. Portanto. Isso pode significar um tratamento diferente. mais adequado. para reconhecimento da igualdade entre mulheres e homens. em interação com gênero constituem e são também reproduzidas em relações sociais determinando injustiças e exclusões. mas no que se refere aos direitos. no estado e na sociedade em geral . na comunidade. 3 . identidade sexual. uma coisa é absolutamente certa: mesmo que existissem provas concretas e definitivas de que os sexos são claramente diferentes. continuaria a ser necessário evidenciar que isso é distinto dos valores sociais. obrigações e oportunidades a igualdade prevalece. a igualdade de tratamento tem que estar de acordo com as respectivas necessidades de homens e mulheres. geração e habilidade. será que refletem atitudes ou interesses? * Ou será que as diferenças refletem os diferentes processos de socialização e expectativas? * É possível determinar reações. 32 1 . algumas pessoas continuam a formular perguntas: 4 . 2 -Desigualdade de Gênero . Em resumo. marcados por muitos ganhos a favor da igualdade entre os gêneros.Desigualdade de Gênero Várias diferenças de classe social. entre outras.Desigualdade de Gênero * Existem diferenças? * Se existem.feministas do começo do século XX. Mas não existe nenhuma evidência final que prove a existência da capacidade científica ou de qualquer outra capacidade inteiramente genética. etnia. como era de se esperar. comportamentos ou funcionamento baseado no sexo da pessoa? Enquanto essa discussão continua. 1 . políticos e morais associados a essas diferenças. muito se investigou. raça.Desigualdade de Gênero Seja qual for a situação. o enfoque de gênero requer o exame de fatores estruturais na sociedade – isto é.que mantêm uma posição desigual entre grupos diferentes de homens e mulheres. questionou ou qualificou.

responsáveis por cerca de 76 milhões de gestações não desejadas nos países em vias de desenvolvimento e por cerca de 19 milhões de abortos praticados em condições perigosas.000 mulheres morrem por problemas relacionados com a gravidez e pela falta de acesso aos anticoncepcionais. A discriminação é um dos principais responsáveis pelo aumento dos índices de mortalidade das mulheres entre os 15 e os 44 anos. devendo a lei promover a igualdade no exercício dos direitos cívicos e políticos e a não discriminação em função do sexo no acesso a cargos políticos”. cerca de 530. * Acesso das mulheres à tomada de decisão É na área da tomada de decisão que o crescimento da presença das mulheres se tem produzido a um ritmo mais lento. estabelece que “A participação direta e ativa dos homens e das mulheres na vida política constitui condição e instrumento fundamental de consolidação do sistema democrático. Nesta matéria. Se tal medida não for tomada. os direitos das mulheres têm ainda velhos e novos desafios por conquistar. permitirá acelerar o desenvolvimento a longo prazo. Anualmente.A . Por outro lado. de 21 de Agosto.º 3/2006. * o tráfico de mulheres. A Constituição Portuguesa consigna o direito de todos os cidadãos a “tomar parte na vida política e na direção dos assuntos públicos do país”. Desigualdade de Gênero B . que representam a maior parte da população mundial. e não podemos deixar de fora outras faces da realidade igualmente assentes em discriminações de gênero como sejam. * Em 2006 a Lei da Paridade (Lei Orgânica n. a prostituição forçada * o casamento forçado O que nos leva a afirmar que em matéria de direitos humanos. alterada pela Declaração 7/2006. de 4 de Outubro 2006) vem estabelecer que as listas . entre outras: * a mutilação genital feminina.A discriminação não afeta só a população portuguesa. o risco de fortalecer a influência da pobreza nas gerações futuras aumentará" * Fim da discriminação de gênero é a chave para o desenvolvimento.Fim da discriminação de gênero é a chave para o desenvolvimento O Fundo de População das Nações Unidas (UNPFA) defende a igualdade entre os sexos e acrescenta que: "Investir nas mulheres e nos jovens. são fracos os progressos registrados ao longo de 30 anos de democracia. * a violação.

D) É aquela que se orienta pela ação dos outros. QUESTÃO 59 (Abril 2006) . Conclusão Segundo os dados do Eurostat. C) É um conceito de análise típico-ideal. as mulheres consolidaram nos últimos anos a sua maioria entre os estudantes universitários em todos os países da UE.Sobre a definição de ação social para Weber.para a Assembleia da República. Esta Lei significa uma enorme vitória para a Democracia Portuguesa e para os Direitos das Mulheres. porque será que não ocupam mais lugares de topo?” 33 Exercícios 1 . exceto na Alemanha. prescindindo de significação. sendo. INE *TOMADA DE DECISÃ ECONÓMICA Fonte: BDAP (data de referência de 31 de Dezembro de 2005) *DIRIGENTES E CHEFIAS NA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA (2005) FORÇAS ARMADAS 1. A) Está fundada na coletividade. que traduz o quanto ainda há para fazer em relação à descriminação. Outras Instâncias CARREIRA DIPLOMÁTICA Fonte: Ministério dos Negócios Estrangeiros 2. “Se a nível de licenciaturas há mais mulheres a entrarem nas faculdades e se são também elas a terem mais sucesso. B) Implica necessariamente uma relação social. apresentando Portugal um número muito próximo da média europeia (55. ao reconhecer que a democracia só estará completa se for representada por homens e mulheres. sem nenhuma correspondência com a realidade histórica. portanto. para o Parlamento Europeu e para as autarquias locais são compostas de modo a assegurar a representação mínima de 33% de cada um dos sexos. reciprocamente referida. de forma a estabelecer uma relação social.2%). assinale a alternativa correta. Vamos concluir este trabalho com uma questão. Acesso das mulheres à tomada de decisão *TOMADA DE DECISÃO POLÍTICA Fontes: Womenandmenindecision-making (Base de Dados Europeia)Dossier de Gênero.

legal e carismático . A) A dominação exercida pelos dominantes somente é legítima quando assume um caráter do tipo burocrático-legal. D) Os tipos puros de dominação . IV – o(a) estudante escolhe o colégio X só porque ali estudaram seus pais e avós. QUESTÃO 53 (Dezembro 2004) Sobre a teoria weberiana acerca das várias formas de estratificação social. assinale a alternativa INCORRETA. B) O poder está fundamentado na desigualdade de oportunidades que afeta cada indivíduo em dado contexto social. D) as castas se organizam segundo as relações de produção e aquisição de bens. convenções e rituais. de acordo com o sentido ou orientação dos atores. em sua obra Economia e Sociedade. Marque a alternativa correta. II – o empresário estabelece uma gratificação para os empregados mais produtivos.constituem uma tipologia construída por Weber a partir da realidade histórica.Acerca das formulações de Weber sobre poder e dominação. é correto afirmar que: A) as classes sociais se organizam segundo seus princípios de consumo de bens nas diversas formas especificas de vida. na esfera do poder social e dentro das respectivas ordens sociais. QUESTÃO 53 (Fevereiro 2003) Max Weber. Considere os exemplos de ação social citados abaixo: I – o consumidor adquire um relógio motivado pela emoção que este lhe causa. propõe uma classificação típicoideal da ação social. cujos privilégios estão desigualmente definidos por leis. os partidos.tradicional. . C) Faz parte de uma relação de dominação estatal o uso da força física para assegurar a obediência. III – o católico caminha noventa quilômetros para demonstrar sua fé. B) as diferenças que correspondem às classes ou aos estacamentos geram. C) os estamentos são grupos de status fechados.

B) Os exemplos I e III ilustram. a ação afetiva e a ação racional com relação a fins. B) são equivalentes. QUESTÃO 54 (Fevereiro 2007) Sobre os tipos de ação social em Max Weber. pois tanto um quanto outro são relações sociais às quais os indivíduos atribuem sentido. marque a alternativa correta. respectivamente. B) Weber define as ações sociais burocrática. motivações. que acontecem sucessivamente em determinadas realidades histórico-culturais.A) Os exemplos III e IV ilustram. não se dá com o poder. respectivamente. QUESTÃO 56 (Fevereiro 2003) Sobre os conceitos de poder e dominação. respectivamente. tradicional e carismática a partir de uma construção típico-ideal que é estabelecida apenas no plano conceitual. uma vez que os indivíduos que se submetem a uma ordem de dominação não levam em conta os recursos que possuem aqueles que exercem a dominação. A) Os conceitos de ação burocrática. C) toda relação de poder implica uma relação de dominação. tradicional e carismática pensadas por Weber constituem uma construção intelectual pautada na história e visam explicar uma dada realidade histórica. uma vez que a ação . C) Os exemplos II e IV ilustram. tradicional e carismática pensados por Weber são construções históricas. a ação racional com relação a fins e a ação racional com relação a valores. pois a dominação supõe a presença do consentimento na relação entre “X” e “Y”. D) não são equivalentes. é correto afirmar que: A) a dominação prescinde do poder. respectivamente. portanto. a ação afetiva e a ação racional com relação a valores. já que a força sem uma base de legitimação não pode ser exercida. a ação racional com relação a fins e a ação tradicional. compartilhando. tal como elaborados por Max Weber. necessariamente. D) Os exemplos II e III ilustram. 34 C) Os tipos de ação burocrática. o que. D) A ação racional implica uma adequação entre meios e fins. a ação tradicional funda-se no costume ou em um hábito já arraigado.

QUESTÃO 57 (Fevereiro 2007) A respeito das definições de Max Weber para poder e dominação. .carismática ou afetiva se estabelece. D) os fundamentos dos poderes econômico. III. o saber e a força. a riqueza. em alguma medida. QUESTÃO 49 (Janeiro 2001) Para explicar os fenômenos sociais.uma construção do pensamento que permite conceituar fenômenos e formações sociais. ideológico e político são. QUESTÃO 42 (Janeiro 2000) De acordo com o pensamento weberiana. em uma crença através dos tempos. é INCORRETO afirmar que: A) o Estado é uma relação estritamente de poder. C) o objetivo da sociologia é estabelecer leis gerais explicativas da realidade social. B) o poder é a probabilidade de alguém determinar o comportamento do outro. II. respectivamente. B) a sociologia de Weber é um esforço de explicação da sociedade enquanto totalidade social. fundamentalmente. D) a sociologia compreensiva busca apreender o sentido da ação social e de seus nexos causais. o consentimento da parte do dominado para a ordem dada pelo dominante. Weber propôs um instrumento de análise que chamou de tipo ideal. que prescinde da dimensão de dominação. C) a dominação implica.uma construção do pensamento que permite identificar na realidade observada as manifestações dos fenômenos e compará-las.um modelo perfeito a ser buscado pelas formações sociais históricas e qualquer realidade observável. é correto afirmar que: A) os juízos de valor do pesquisador não interferem em nenhuma fase do processo de investigação científica. Esse instrumento pode ser definido como: I.

estes em relação às conseqüências implicadas e os diferentes fins possíveis. A) O procedimento econômico corresponde ao modelo típico de ação racional com relação a fins. B) I. que apresentam sentidos. II e V estão corretas. . V. como se observa na competição individualista das sociedades capitalistas e. D) A articulação de dois ou mais tipos de ação social não oferecem sentidos compreensíveis aos cientistas sociais.um modelo que tem a ver com as espécies sociais de Durkheim. QUESTÃO 57 (Janeiro 2004) Assinale a alternativa correta. que buscam captar realidades totalmente autônomas. como se pode ver na Física e na Química. A) I.uma construção teórica abstrata a partir de casos particulares analisados. como Max Weber demonstrou no estudo da conexão entre a ética protestante e o espírito do capitalismo nos EUA. QUESTÃO 54 (Janeiro 2004) Em sua teoria sociológica. avalia os meios relativamente aos fins. até mesmo com certa irracionalidade. Assinale a alternativa correta. por isso. D) II. na medida em que os cientistas operam pela lógica da crença na emancipação do homem das mazelas sociais. quanto à teoria weberiana sobre poder e dominação. amor. C) A ação afetiva típica ideal é a causada pelos sentimentos de ódio. Assinale a alternativa correta sobre a articulação dos tipos de ação social propostas por Weber. Max Weber propõe quatro tipos puros ideais de ação social. exemplos de sociedades observadas em diferentes graus de complexidade. II e III estão corretas. B) O procedimento científico pode ser considerado um modelo típico ideal de ação tradicional com relação a valores. guarda bastante racionalidade combinada com a tradição. pois considera um conjunto de necessidades sob uma quantidade escassa de meios para chegar ao objetivo pretendido. III e IV estão corretas. ciúme. C) II. Isso ocorre porque os tipos ideais são conceitos limites. paixão. III e V estão corretas. cuja conexão cabe aos cientistas sociais captar para compreender a realidade social. raiva.IV.

. Menin elaborou uma cartilha que a empresa segue à risca até hoje. passou a vender apartamentos semipadronizados com preços até 25% mais baixos.A) A dominação racional-legal é típica da sociedade capitalista. Percebendo que ali podia estar sua galinha-dos-ovos-de-ouro. 15. Menin resolveu projetar um negócio para atender aquela clientela. QUESTÃO 44 (Julho 1999) A respeito do conceito weberiano de ação social. p. C) Ação social tradicional.". respectivamente. O mérito de Menin foi ter vislumbrado uma oportunidade e apostado suas fichas nela. B) a decisão empresarial de inovação tecnológica para enfrentar a concorrência no mercado é uma ação racional com relação a fins.. em que a crença na validade da norma 35 impessoal se estabelece. 12/04/2000.. B) Ação social afetiva. . QUESTÃO 43 (Julho 2000) "300 milhões . D) Ação social racional com relação a valores. (VEJA N. construiu pequenas casas em bairros populares de Belo Horizonte. Assinale a alternativa que corresponde ao tipo de ação social descrita no texto.. C) A dominação fundada no carisma do líder nunca pode integrar o padrão de dominação capitalista. D) uma ação que se caracteriza pela livre escolha é tradicional. é correto afirmar que: A) o exercício religioso da fé é uma ação afetiva. Primeiro.. A) Ação social racional com referência a fins. B) O poder econômico e o poder ideológico definem-se. Depois. . D) O poder sempre exige o consentimento por parte daquele que se comporta de acordo com a determinação do outro. C) a ação que se orienta por valores não é uma ação social racional.. pelas posses do saber e da riqueza. Após definir seu nicho de mercado. Como o senhor da foto virou milionário. 148) Max Weber define uma tipologia da ação social que é apresentada nas afirmativas abaixo.

Edmundo Fernandes. B) I e III estão corretas. (. Assinalar a alternativa correta. portanto. físicas e materiais. costumeira ou afetiva. seja esta jurídica. Considere as alternativas teóricas abaixo e assinale a alternativa INCORRETA. costumes e situações de interesse produzidos por diversos sujeitos. IV) Para ser exercido. B) Para Max Weber. sem a qual não há poder nas sociedades capitalistas. Introdução ao Pensamento Sociológico. 1976. Max. analise as afirmativas: I) O poder decorrente de qualquer tipo ideal de dominação tem sempre um conteúdo que lhe atribui legitimidade. a particularidade e a generalização dos fatos sociais. E ainda menos tem toda dominação fins econômicos. que são obtidos com ou sem legitimidade. suas causas.. a partir da conexão natural de sentidos entre a ética protestante e as imposições do capitalismo de Estado..” WEBER. A) O conceito de ação social em Max Weber pretende comprovar a coerção. como se vê nos EUA. Rio de Janeiro: Eldorado Tijuca. Com base no texto acima. III) O poder emerge de mandatos extra-econômicos.) Nem toda dominação se serve do meio econômico. QUESTÃO 51 (Julho 2003) Na sociologia de Max Weber. o conceito de ação social tem sido fundamental em inúmeros estudos importantes sobre as sociedades modernas.QUESTÃO 47 (Julho 2001) “Deve-se entender por ‘dominação’. II) O poder decorre da posse básica e exclusiva de meios econômicos.. em toda espécie de probabilidade de exercer ‘poder’ ou ‘influência’ sobre outros homens. embora dispense coerções morais para operar com legitimidade. D) Apenas I está correta. Dias. In: Castro. A) I e II estão corretas.. que se expressam na forma de usos. (.) a probabilidade de encontrar obediência dentro de um grupo determinado para mandatos específicos (ou para toda sorte de mandatos). o poder depende de coerções objetivas. Não consiste. a interioridade. a Sociologia é a ciência que pretende interpretar os sentidos prováveis da ação social. C) Max Weber define ação social como uma conduta dotada de um significado subjetivo dado por um sujeito . apenas por agentes do Estado nas sociedades capitalistas. seus efeitos e suas regularidades. Anna Maria. C) I e IV estão corretas.

aparentemente incompatível com um acontecimento fúnebre. ou seja. Músicas e roupas alegres. uma orientação consciente dos agentes quanto aos meios e fins. D) vincula-se a ações racionais. a morte de Chico Xavier não deveria ser lamentada. seu caráter social. por suas crenças na reencarnação e na comunicação com os espíritos. pode-se afirmar que esse sentido: A) está mais próximo das ações irracionais. independentemente de fins conscientes. Seu velório atraiu nada menos que 100 mil pessoas. o desenvolvimento e os efeitos da conduta de um ou mais indivíduos em relação a outros. independentemente dos seus resultados.morria em Uberaba. predominando reações surdas a estímulos habituais. de acordo com a teoria de Max Weber e. a explicação sociológica busca compreender os sentidos. a maioria delas. O motivo era simples: para o espiritismo kardecista não existe luto. QUESTÃO 60 (Julho 2003) Assinale a alternativa que corresponde à formulação de Max Weber acerca dos chamados tipos puros de dominação legítima. Por isso. implicando reações desenfreadas a estímulos não-cotidianos. Texto adaptado da Revista IstoÉ. C) vincula-se a ações totalmente irracionais. . coloridas. movidas. deram ao velório um clima de festa. QUESTÃO 56 (Julho 2003) No dia 30 de junho de 2002 – mesmo dia em que a seleção brasileira de futebol conquistou o tetra . tendo em vista a ação de outros sujeitos conhecidos ou desconhecidos. Analisando os acontecimentos descritos. sempre e unicamente. por seus laços afetivos com o grande líder religioso. A) A dominação legal-racional fundamenta-se na crença dos indivíduos acerca da validade de um dado instrumento normativo. independentemente de fins conscientes. apesar de sentida. orientando seu próprio comportamento. o famoso médium Chico Xavier. sendo a morte vista apenas como mais uma etapa cumprida num longo processo de aperfeiçoamento do espírito. de 10 de julho de 2002. como a caridade. naturalmente. por suas esperanças em curas extraordinárias. por seus valores éticos. e. D) Para Max Weber. no Triângulo Mineiro. não se propondo a julgar a validez da ação dos sujeitos. considerando tais acontecimentos dotados de sentido. B) está mais próximo das ações racionais. predominando uma orientação consciente dos agentes. implicando.36 que o executa.

reciprocamente referidas de forma a estabelecer relações sociais. em patamar superior. o monopólio considerado legítimo do recurso à força. orientando-se pela própria ação e estabelecendo relações sociais significativas. D) A dominação carismática realiza. uma vez que assegura aos investimentos privados um ambiente mais propício ao lucro desejado. B) a vida social é resultado de um conjunto de ações individuais orientadas a um determinado fim e reciprocamente referidas. as relações sociais. C) A dominação tradicional é a mais apropriada à sociedade capitalista e está presente nas empresas e nos órgãos governamentais. A) Define-se pelo meio que lhe é próprio. estabelecendo-se.B) A dominação carismática articula-se à motivação que os indivíduos têm com vistas à obtenção de determinados fins para suas ações sociais. que a estes se impõe também pela educação. B) Corresponde a uma autoridade moral. o espírito do capitalismo. QUESTÃO 57 (Julho 2005) Quanto à definição weberiana de Estado. QUESTÃO 53 (Julho 2005) Segundo Weber é correto afirmar que: A) a ação social é qualquer ação que o grupo social pratica. C) É a expressão político-institucional dos antagonismos entre as classes sociais. assinale a alternativa correta. é INCORRETO afirmar que: . ou seja. C) toda ação social está condicionada por idéias de valores que são fenômenos histórico-material. assim. 37 QUESTÃO 54 (Julho 2006) Quanto às análises weberianas sobre o desencantamento do mundo e o processo de secularização. D) É o produto de processos sociais coercitivos e externos aos indivíduos. cuja função é a de preservar a sociedade de crises em que a coesão esteja ameaçada. D) a vida social é resultado de um conjunto de ações coletivas.

B) há uma relação impositiva entre a ética protestante e o espírito do capitalismo no sentido do desenvolvimento da moderna economia burguesa. 6 ed. sempre estiveram no passado entre os mais importantes elementos formativos da conduta. C) a decadência do poder hierocrático seria um sentido forte da secularização. é correto afirmar que A) o estilo de vida normativo. fundada na contemplação.. C) há uma relação causal entre a ética racional protestante. possibilitou o desenvolvimento da mentalidade econômica burguesa no Ocidente. 11. fundada no trabalho. D) o desencantamento do mundo refere-se tanto à desmagificação via religião ética (os profetas. embora dependa parcialmente da técnica e do direito racional. .] Ora. [“..A) a secularização diz respeito tanto à expropriação dos bens eclesiásticos quanto ao desencantamento do mundo. é ao mesmo tempo determinado pela capacidade e disposição dos homens em adotar certos tipos de conduta racional. B) a perspectiva de Max Weber é evolucionista e prevê o fim da religião em uma sociedade moderna. A respeito das relações de causalidade que o sociólogo Max Weber propõe entre as origens do capitalismo moderno. o processo de racionalização do mundo e as religiões de salvação.. assinale a alternativa correta. p. “[. e os ideais éticos de dever deles decorrentes. QUESTÃO 54 (Julho 2007) Considere a citação. QUESTÃO 57 (Julho 2006) Sobre a ética do trabalho. levando ao desenvolvimento deste último no Ocidente. por exemplo) quanto à ciência e à tecnologia.] o racionalismo econômico. A) Coube às éticas religiosas do confucionismo (China) e hinduísmo (Índia) redefinirem o padrão das relações econômicas que.1989. a partir do século XVI.. A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. D) há uma relação causal entre o desenvolvimento da ética religiosa protestante. com base na ética religiosa católica. as forças mágicas e religiosas. conforme a sociologia de Max Weber.. e o espírito do capitalismo. Max. São Paulo: Livraria Pioneira Editora. e o espírito do capitalismo. culminaria no capitalismo de tipo moderno.” WEBER. que possibilitou o desenvolvimento deste último no Ocidente.

para Weber. como o direito.. . o calvinismo foi responsável pela introdução de um padrão ético que. p. 66. considerada legítima. O Que é Sociologia? São Paulo: Editora Brasiliense. de modo destacado. cujas prescrições de conduta se revelaram condição imprescindível para o desenvolvimento e consolidação das relações capitalistas modernas. contribuiu de maneira inédita para o desenvolvimento das relações capitalistas modernas. Seus trabalhos sobre a burocracia tornaram-no um dos grandes analistas deste fenômeno. China e Índia no cenário econômico internacional que se seguiu à Revolução Industrial. a música. a carismática (típica das sociedades tradicionais) e a legal-racional (típica das sociedades modernas). quais sejam. A) Ao passo que poder é toda probabilidade de impor a própria vontade numa relação social. mesmo contra resistências. não mais que dois tipos puros de dominação. dominação é a probabilidade de encontrar obediência a uma ordem de determinado conteúdo. B) Há. a economia. A respeito das contribuições de Weber acerca dos conceitos de poder e dominação. a partir do século XVI. a política. D) O processo de encantamento do mundo (irracionalização do conhecimento e das relações cotidianas) encontra-se na base da ética protestante.” MARTINS. Martins afirma que: “A obra de Weber representou uma inegável contribuição à pesquisa sociológica. QUESTÃO 57 (Julho 2007) Sobre o legado do pensamento científico de Max Weber. Carlos B. 1991. C) A partir de sua doutrina da predestinação. ao estimular a racionalização da conduta cotidiana de seus fiéis. assinale a alternativa correta. a religião. a história. 28 ed. a arte. em 38 detrimento de estatutos impessoalmente estabelecidos.B) As seitas protestantes que floresceram nas sociedades orientais. abrangendo os mais variados temas. C) A transição de uma ordem política patrimonial-tradicional para uma ordem burocrático-legal é acompanhada por uma consolidação do tipo de dominação carismática. são responsáveis pela prematura posição de destaque do Japão. D) A dominação legal-racional dá-se por meio da obediência do quadro administrativo à pessoa do senhor. Carlos B.

O filme possui um ritmo ágil e divertido. como força exterior a eles. Um programa de socialização faz com que ele surpreendente. B) A sociedade se opõe aos indivíduos. assinale a alternativa correta. Marit Pia Jacobsen. um ser social. Sven Nordin. de Andrew Niccol (1997) . ou a uma devoção afetiva ou. que arranca boas gargalhadas do público. A dupla protagonista brilha em cena. Jorgen Langhelle. na verdade. C) O gênero humano é. mas sempre a partir de uma situação dada. Confesso que. razão pela qual os indivíduos refletem as normas sociais vigentes. passou os últimos dois anos em um hospital psiquiátrico. irremediavelmente.A Experiência Genética” (Gattaca). de acordo com as motivações e escolhas que possui e faz. A) O indivíduo age socialmente. um homem de 40 anos com problemas mentais. duração: 90 min gênero: Drama status: Inéditos Sinopse Elling (Per Christian Ellefsen). principalmente o ator que interpreta Elling. a expressão das classes sociais em luta. esperava que "Elling" fosse um daqueles dramalhões que a Academia tanto adora. “Uns filmes gostosos de assistir. ainda. daqueles que levantam seu astral após a sessão. onde foi internado após a morte da mãe. podendo estar relacionadas ou a uma tradição. condição expressa pelo fato dos homens e mulheres fazerem a história. D) O Estado capitalista nada tem a ver com as escolhas que os indivíduos fazem a partir das motivações que possuem. Sugestões de Filmes Parte superior do formulário Parte inferior do formulário Elling 2010-05-22 Francisco título original: (Elling) lançamento: 2001 (Noruega) direção:Petter Nass atores:Per Christian Ellefsen. pela sinopse.” “ Gattaca . sendo. a uma racionalidade. fazendo com que o público acabe torcendo por eles.QUESTÃO 42 (Março 2002) Segundo as concepções de indivíduo e de sociedade na sociologia de Max Weber. Ledo engano.

estruturando-o.Inteligência Artificial”. a técnica e a tecnologia pulam adiante do argumento dramático. Temas-chave: técnica e tecnologia. sem dissolver sua linha argumentativa (que incorpora outras textualidades). que é a própria racionalidade da sociedade moderna. “Eu. Neste caso. O que acontece é que. | Análise do Filme Annette Kuhn. subsiste velhos valores estranhados e sociabilidades corrompidas pela lógica do | |capital. a Comédia ou Horror. onde predomina a divisão hierárquica do trabalho e a propriedade privada. o Policial. em seu livro Alien Zone: Cultural Theory and Contemporary Science Fiction Cinema (Verso. como a tecnologia perpassa os mais diversos aspectos da vida cotidiana moderna. 1990). nas condições de uma sociedade de classes. a trama filmica se constitui em função de uma determinada racionalidade tecnológica. por exemplo. principalmente em se tratando de um filme SF. Nesse caso. ela não poderia deixar de estar no centro estruturante da trama filmica. o capital tende a se apropriar do | |desenvolvimento das forças produtivas sociais para aprofundar seu controle de classe. o gênero Science Fiction (SF) tende a se confundir com outros gêneros fílmicos. e a aguda vigência de determinações de controle social | |estranhado e de exploração de classe. dos Irmãos Wachowski. “Matrix”. de Fritz Lang. Estamos diante de uma visceral contradição entre as imensas | |potencilaidades de desenvolvimento humano-genérico e da plena socialização da sociedade humana. como. “IA . Ao lado do admirável mundo novo. no caso do filme SF. tal avanço da| |ciência genética se traduz em possibilidades concretas de incremento do controle social estranhado. Robô”. O que poderia significar essa intertextualidade do gênero Science Fiction? Ela é característica peculiar de um gênero fílmico (o de ficção-científica) que constitui sua trama narrativa a partir de uma determinada racionalidade (a racionalidade tecnológica). capital e processo civilizatório. É claro que. de Steven Spielberg. Ou seja. .|Eixo Temático | | O desenvolvimento das técnicas de manipulação genética decorrem do desenvolvimento das forças produtivas do trabalho social e da redução das barreiras | |naturais. “2001-Uma Odisséia no Espaço”. de Ridley Scott. de Alex Proyas. ecossistema social e contradições do capital.Filmes relacionados: “Blade Runner”. identidade e memória | |social. Na verdade. observa que uma das características do cinema de ficção-científica é a sua intertextualidade. “Metropólis”. | |de Stanley Kubrick.

satélite de Júpiter (seria uma alegoria de fuga do sistema do capital. assistimos a um jogo de ambição e fraude. Sua ambição é driblar as restrições de classe e se integrar na elite intelectual e moral de Gattaca e realizar seu maior sonho: ir para o planeta Titã. que hoje estão se tornando realidade pelos avanços da engenharia genética e da biologia molecular. Apesar do mais alto controle social garantido pelo registro genético. como a atitude . A sociedade de Gattaca está dividida em duas “classes sociais”. de Elia Kazan (com James Dean). os “filhos de Deus”. Gattaca parece se tornar um filme policial ou de suspense quando a trama narrativa se desloca para a busca do assassino de um dos diretores da corporação Gattaca. de Andrew Niccol (1997) é um caso exemplar. produtos da engenharia genética e da eugenia social. e os Inválidos. quando Vincent encontra em Gattaca. um Inválido condenado 39 pelo seu código genético a tarefas degradantes (Freeman significa. Nesse ambiente de resistência individual. Ao lado dos mais sofisticados recursos de manipulação genética. cabe salientar): um. “homem livre”). a trama de Gattaca sugere um drama familiar. ou do diretor Josef. A partir de um certo momento. de agudo cariz regressivo. ficou paralítico. Utilizando os serviços clandestinos de um “pirata genético”. como forma de resistência individual ao totalitarismo do destino genético. submetidos ao acaso da Natureza e às impurezas genéticas. outro. pode-se perceber certa solidariedade entre os “de baixo”. de Gattaca (representado pelo escritor Gore Vidal. Numa sociedade de controle social quase-absoluto. “filho de Deus”. clandestinas. num papel especial). No desenrolar da trama. produto de um planejamento genético quase perfeito. em virtude de um acidente. mais uma vez. nascido do acaso da Natureza. O que se observa é que o tema da técnica de manipulação genética perpassa todo o drama policial (e familiar) de Gattaca. um Válido que. os Válidos. todo o suspense se concentra no personagem Vincent Freeman.O filme Gattaca – A Experiência Genética. a rivalidade entre irmãos (que é. Vincent é um jovem ambicioso. que descobre a verdadeira personalidade de Jerome e ameaça denuncia-lo. literalmente. a espécie humana continua a mesma: dividida em classes sociais e se utilizando de subterfúgios escusos e clandestinos para atingir seus interesses egoístas. que assassina outro diretor num jogo de poder. a transfiguração de uma rivalidade de classe. que almeja ir além do seu destino genético e decide assumir a personalidade de Jerome Morrow. tal como um "retorno ao útero materno"?). Vincent clona os registros genéticos de Jerome. os “filhos da Ciência”. Gattaca retrata uma sociedade de classe cuja técnica de manipulação do código genético tornou-se prática cotidiana de controle social. Torna-se claro. Apesar de ser um filme de ficção-científica deixa claro sua intertextualidade. no filme. No final. seja a de Vincent para ter acesso à corporação Gattaca e realizar seu sonho de tornar-se astronauta. os “de baixo” apelam para fraudes sutis. seu irmão Anton. no estilo de East of Eden.

Pode-se apreender no filme. sugere que. não deixa de ser um protesto contra a sociedade de Gattaca. É o estranhamento assumindo proporções abismais. agora representado pelos imperativos categóricos da eugenia social. uma divisão em casta ou de acordo com o sangue. guardiães da Ordem genético-fascista da sociedade de Gattaca. já desumanizado pelo capital. A luta de Vincent não é apenas contra o Sistema de Gattaca. A sociedade do capital. numa certa passagem do filme. produzida pela manipulação técnica. Apesar disso. mas poderia se passar num Campo de Concentração ou numa sociedade totalitária qualquer. O filme se passa na corporação Gattaca. mas que. graças ao avanço da técnica. É um destino genético produzido pelo homem. bem ao estilo das sociedades tradicionais?). Não podemos culpar a técnica em si. Na ótica do Cinema de Hollywood. na verdade. antes de tudo. nesse caso. o filme expõe as falhas irremediáveis de Gattaca e do seu sistema de controle. o diretor e roteirista Andrew Niccol sugere uma “natureza humana” recalcitrante às imposições sistêmicas. objeto de uma rede controlativa.em sua luta contra o sistema. É contra essa “segunda natureza”. a atitude arrogante do verdadeiro Jerome diante de um policial que o interroga. mesmo entre os Válidos existe uma certa hierarquia de classe . Mas apesar do clima totalitário. pelo estigma do destino genético. Em Gattaca. talvez uma nova forma de ciberespaço.a não ser que os policiais. na medida em que é produto de um afastamento das barreiras naturais – o domínio do código da vida . mas contra si mesmo. as saídas são individuais. com o desenvolvimento da técnica. E Vincent representa o herói americano – um anti-herói ao estilo de Charles Chaplin? . que aparentam certa simpatia pelos ideais transgressores de Vincent/Jerome.agora demarcado. mas a forma social que a desenvolve e se apropria dela. atingindo o próprio ser orgânico do homem. mas o final não é propriamente um final feliz. considerar mesmo uma divisão de classe.condescendente do faxineiro Caesar (representado por Ernest Borgnine) ou pelo médico Lamar. os Condenados da Terra. capaz de aprofundar o controle social do capital. tende a incorporar novas determinações de poder e de controle cada vez mais rígidas e com um lastro natural (pode-se. O destino trágico do verdadeiro Jerome. Contra a técnica que supostamente desumaniza o homem. baseada na divisão hierárquica do trabalho.que comete suicido se incinerando num auto-forno no exato momento em que Vincent parte para Titã. os proletários seriam os Inválidos. Gattaca sugere o dualismo Acaso (ligado a “primeira natureza”) versus Planejamento (imperativo da “segunda natureza”). A perspectiva do filme Gattaca é tipicamente americana. certa nostalgia de um passado distante em que um fio de cabelo era apenas um fio de cabelo (ou uma mera lembrança afetiva). no sentido clássico. que . dividida em classe. A ambição individualista de Vincent é que conduz a trama. apesar do drama possuir. conteúdo de classe. através de exame de DNA. sejam da classe dos Inválidos. de uma “grade”. tende a tornar-se uma “segunda natureza”. e não um registro genético capaz de denunciar a identidade de classe das pessoas. contra seus fluidos e restos corporais capazes de denúncia-lo como Inválido. que Vincent se revolta e busca uma saída individual.numa sociedade de classe. ou sim. A sua luta é contra o destino de classe – ou casta? .

para as pessoas. se auto-incinerar ou então viajar para Titã (se conseguir. . Seria a sociedade de Gattaca uma “gaiola de ferro”. É como se o único herói do filme busca-se lá fora o sentido da vida. O Seu cérebro é demasiado inteligente para confundir os seus médicos e perceber o que está para além da realidade fundir os seus médicos e perceber o que está para além da realidade. uma sociedade de classe em que só restaria. Mas Adam não é um homem vulgar nem um doente comum. não deixa de ser singelo e desesperador. E o sonho de Vincent (ir a lua Titã). é claro. as limitações e as delimitações do trabalho. uma alegoria da sociedade (pós)-moderna. A sua mente ficou afetada e agora está internado num hospital psiquiátrico. apresentar-se como um Válido) ? Giovanni Alves (2003) 40 Filme Adam: Memórias de Uma Guerra Gênero: Drama Ano de Lançamento: 2010 Formato: Avi Qualidade: DVDRip Idioma: Português | Inglês Legenda: S/L Tamanho: 814 MB Sinopse: Em Adam: Memórias de Uma Guerra a estranha história de Adam Stein. sejam eles de nascimento. inovações tecnológicas e desempenho produtivo No capítulo introdutório foram realizadas as primeiras observações sobre o tema a ser desenvolvido no trabalho.exclui como lixo humano todos os Inválidos. adaptar-se. Capitulo II Agropecuária brasileira. ou seja. um homem que viveu o drama de ser judeu na Alemanha nazi e sobreviveu aos traumas dos campos de concentração. onde o tentam reconduzir a uma existência o mais normal possível para quem viveu os horrores do Holocausto. Foram levantados ainda o problema de pesquisa. agora num sentido amplo. os objetivos. sejam eles por incapacidade adquirida. no sentido weberiano.

esteve voltada para o desenvolvimento da indústria.25. a agropecuária sempre teve um papel de destaque na economia brasileira. como pode ser visto no gráfico da Figura 2. produção de insumos e máquinas.1 Gráfico dos produtos de maior importância econômica para o Brasil. Como pode ser observado no gráfico da figura 2. o fumo.2 Gráfico da participação percentual dos setores no PIB6 Atualmente. Figura 2. este fato não significa que a agropecuária diminuiu sua importância para o desenvolvimento do país. a partir da década de 70. O fato da agropecuária ter uma menor participação na formação do PIB. o algodão. Entretanto. pode-se afirmar que ela foi e ainda continua sendo de fundamental importância para a economia brasileira. Ao contrário. Mesmo assim. e principalmente após a década de 30. cabendo apenas 12 % ao setor agropecuário (Mueller. Também é destacada a importância da agropecuária para a economia brasileira. O financiamento desse crescimento é baseado na riqueza gerada pela agropecuária. 1997). caracterizada como modelo econômico primário-exportador. bem como o processo de modernização pelo qual ela passou. O setor agropecuário continua sendo a base para o bom desempenho do complexo agro-industrial que envolve toda a produção agrícola e pecuária. de lá para cá.Este capítulo apresenta a evolução histórica da agropecuária brasileira desde a colonização até os dias atuais. a borracha e o cacau foram os principais geradores de renda para o país no período de 1500 a 1930. Ainda são apresentados. Pode-se dizer que produtos agrícolas como o pau-Brasil (extrativismo). em 1960 a renda gerada pelo setor agropecuário já é menor que a produzida pelo setor industrial. o café. sendo que ela foi e ainda continua sendo de fundamental importância para a geração de riquezas e o aumento do bem-estar social. a indústria brasileira começa a desenvolver-se com maior intensidade. a riqueza interna gerada pela indústria só se distancia da riqueza interna gerada pelo setor agropecuário no final da década de 50 ( Brum 1991). o complexo agro-industrial corresponde cerca de 40% do PIB e. quase todos os outros bens de consumo que não eram produzidos internamente dependiam da renda gerada pela exportação dos produtos agropecuários para serem adquiridos3. o setor de serviços e o setor industrial têm maior participação na geração da renda interna (cerca de 88 %). no período observado4 A partir de 1920. Nesta fase. passando este último a ganhar cada vez mais destaque na economia brasileira. no segundo capítulo. . não diminui a sua importância como setor alavancador da economia. pelo fornecimento de insumos às agro-industrias e pela produção de alimentos às pessoas que vivem nas cidades.1.1 Evolução histórica da agropecuária brasileira Desde o início da colonização. a cana-de-açúcar. os estudos relacionados ao tema produtividade e agropecuária brasileira. através da geração de divisas pelas exportações de produtos agropecuários. até os dias atuais. Figura 2. com relação aos outros setores (indústria e serviços). a industrialização e a distribuição da produção do setor agropecuário. A maior parte dos incentivos e políticas governamentais. 2. em detrimento da agropecuária. De acordo com Lima apud Rossi (1995).

segundo Alves e Contini (1988).2 Processo de modernização do setor agropecuário brasileiro Com a intensificação do crescimento dos setores industrial e de serviços. se dá. serão expostos a seguir. existem basicamente dois modelos ou processos para a geração de tecnologias. deixa de produzir alimentos e passa a requerer que a população restante no campo a alimente nas cidades. Daí surge a necessidade de expansão da produção agropecuária para atender às necessidades emergentes.1 Necessidade de crescimento da produção e modelo de geração de tecnologias A partir da década de 40. através do aumento da utilização de insumos modernos (máquinas. onde se desenvolvem com grande rapidez os setores industrial e de serviços.2. estas áreas se encontram longe dos grandes mercados consumidores. o setor agropecuário é a base para todo o complexo agro-industrial. no outro. Esta parte da população. Diante de tal questão. neste tipo de atividade. Esta expansão pode ser realizada basicamente de duas formas: em um caso pode-se optar pela expansão da fronteira agropecuária. pois esta mudança estrutural na economia do país acarreta o deslocamento das pessoas do campo para a cidade. 2. produtos químicos e sementes melhoradas). e com maior intensidade nas décadas seguintes.3 apresenta uma simplificação das inter-relações do complexo agro-industrial. O primeiro processo ou modelo A não tem ligação . surge a necessidade de novas opções para a modernização da produção agropecuária. As possibilidades para a modernização. No caso da segunda forma de expansão da produção. Esse processo de modernização é apresentado a seguir. ocorre em sua maioria no interior do país. que surgiu em correspondência com a transformação de uma economia puramente voltada à atividade primária para uma economia mais industrializada. ou seja. o setor urbano brasileiro intensifica o seu processo de expansão7. Em função destes fatos. Na área agropecuária. funcionando como descentralizadora dos investimentos nos grandes centros e promovedora do progresso no interior. O fluxograma da Figura 2. tem-se uma elevação da demanda por produtos agropecuários. Este crescimento é reflexo do aumento do setor industrial e do setor de serviços. Entretanto. 2. A primeira forma de expansão da produção pode ser viável no Brasil pela disponibilidade de áreas. A expansão da produção agropecuária brasileira. a partir dos anos 70. bem como o caminho seguido. Uma característica importante do complexo agro-industrial é a de que o processo de industrialização. fertilizantes. o caminho a ser seguido requer a utilização de um maior nível tecnológico na produção. basicamente. como máquinas. 40% das exportações brasileiras.3 Representação simplificada das relações do complexo agro-industrial Como pode-se notar. defensivos. no caso brasileiro. a partir dos anos 40. Figura 2. dentre outros. O desenvolvimento de pólos regionais proporcionado pelo agronegócio foi destacado por Neto e Edward (1999). exigindo investimentos em infra-estrutura.aproximadamente. a utilização de insumos modernos e práticas adequadas ao cultivo. seria necessário a disponibilização de insumos modernos. o modelo de produção agropecuária baseado no senso comum passa a ter dificuldades em atender às necessidades emergentes. que migra para as cidades.

aumentou intensamente e causou uma maior pressão na demanda por alimentos. em Estados localizados no sul do Brasil. e os conhecimentos são repassados através das gerações. apesar de gerarem outros desequilíbrios. A partir da década de 50 ele começa a entrar em crise. Todos esses recursos facilitam o atendimento das necessidades emergentes. sempre existirá. o que acarretaria em pesados investimentos. Outra limitação desse modelo. os imigrantes europeus e japoneses tiveram papel fundamental na geração e difusão do conhecimento. sementes geneticamente melhoradas. na base da tentativa e erro. foi gerado em função do crescimento da população urbana que. a busca de novas fronteiras. pelo cultivo específico de uma ou de poucas culturas. Como conseqüência. mal ou intensamente utilizados. que anteriormente eram tecnicamente inviáveis para o cultivo e ainda contribuem para o melhor aproveitamento das atualmente exploradas. devido ao processo de industrialização. como descrito há pouco. tanto pode ser feita pela iniciativa privada8. Dentre eles estão os defensivos capazes de controlar os desequilíbrios provocados na flora. por exemplo. O conhecimento é desenvolvido pelos próprios agropecuáristas.estrita com a pesquisa organizada. é praticamente inexistente. Como o país vinha há séculos utilizando o modelo tradicional e este atendendo às necessidades. como. O modelo baseado no senso comum foi predominante na agropecuária brasileira. Como se pode notar. Esta pesquisa. necessitando. No caso brasileiro. a provável forma de transformação do modelo tradicional para o modelo de base científica seria através de insuficiência de atendimento das necessidades do país pelo modelo clássico. para mudar do modelo A para o modelo B. A capacidade do aumento progressivo da produtividade. Estas inovações são o que freqüentemente chamam-se de insumos modernos. ocorre quando o ambiente de atuação agropecuária não permite a plena aplicação dos conhecimentos dos agropecuaristas. principalmente. . por parte dos agropecuaristas. O problema de abastecimento. A necessidade da manutenção e ampliação das exportações agropecuárias era indispensável para a manutenção do equilíbrio no Balanço de Pagamentos. é necessária uma profunda transformação na infra-estrutura de base do setor agropecuário brasileiro. Este fato aconteceu. adubos capazes de corrigirem deficiências nutricionais dos solos. práticas adequadas de uso do solos e formas de controle biológico10. neste caso. a partir dos anos 50. Desta forma. quanto por entidades públicas9. com o aprofundamento das crises como a de abastecimento. do início da colonização (1500) até os anos 50 deste século. abrindo espaço para a expansão da outra forma de geração de tecnologia. resistentes a doenças e com capacidade de adaptação a condições ambientais adversas à sua origem. com o decorrer do tempo. como o cerrado brasileiro. É o caso de fronteiras agropecuárias como o Cerrado. O outro processo ou modelo B é o que está baseado na pesquisa científica. para a geração de conhecimentos. de exportação e de doenças. que passar-se-á a expor. Como se pode observar. visando o aumento da produção. Eles adaptavam experiências trazidas de suas regiões de origem às regiões similares. não conseguindo recuperar o desgaste de solos. pois possibilitam a conquista de novas fronteiras. máquinas adequadas às culturas. neste modelo. e a Amazônia. o processo de geração do conhecimento científico é baseado na existência de instituições especializadas. da geração de conhecimentos específicos àquele meio ambiente a ser explorado. que geram e difundem as inovações ou novos processos produtivos. Esse fato se dá devido a pouca ou nenhuma utilização de insumos modernos ou das práticas adequadas de manejo integrado dos solos. onde uma exploração agropecuária adequada deve suceder em moldes diferentes daqueles trazidos pelos imigrantes. 25% do território brasileiro.

Esse processo é que será discutido no próximo item do capítulo. exigindo que a pesquisa apresentasse resposta a elas (Alves e Contini. como a de preços mínimos e subsídios para a disponibilização de insumos modernos. cria-se espaço para a modernização. que levassem ao progresso técnico. ou por extensos latifúndios desinteressados em inovações. como destaca Santos (1988). Estes fatores mencionados pressionavam a implementação de mudanças estruturais na agropecuária. não existia uma classe dinâmica na agropecuária que ansiasse por inovações. pois. em sua maioria. . faltavam mecanismos que facilitassem o acesso dos agropecuaristas aos meios. A primeira sugere que o problema estava relacionado à falta de políticas adequadas ao setor. era composta. a exploração agropecuária ocorreu de modo praticamente artesanal. por parte do governo. que. Pode-se considerar que existiam duas correntes teóricas tentando explicar esta falta de crescimento da produtividade. a agropecuária brasileira até meados dos anos 60 não apresentava sinais significativos de utilização de insumos industriais ou de processos produtivos adequados às suas condições edafo-climáticas.2. Apesar dessa oportunidade. em grande parte. com pouca aplicação de tecnologia. de acordo com os autores. 1988). em função das crises. que poderiam impedir o desenvolvimento e a implementação de novos processos produtivos na agropecuária. não consideravam fundamental a criação de uma estrutura agrária adequada à absorção destas novas tecnologias. A sua estrutura agrária ainda continuava constituída. segundo esta corrente. Estes autores. que possibilitassem o aumento da produção por espaço de terra e ainda a conquista de fronteiras antes tecnologicamente inacessíveis. o processo de modernização só foi consolidado com maior intensidade a partir de 1970. nos anos 50 e 60. por outro lado.Algumas doenças passaram a ameaçar a produção de culturas importantes como o cacau. disponibilização de mão-deobra e terra. as inovações foram retardadas por fatores como a estrutura agrária. Do início da colonização até a década de 50 deste século. 2. Por outro lado. de latifúndios despreocupados com a maximização dos lucros e por minifúndios. A partir dos anos 50. Essa corrente também dava ênfase à grande disponibilidade de terra e mão-de-obra como fator inibidor das inovações. Teóricos neoclássicos como Schuh e Nicholls apud Santos (1988) atribuem a baixa produtividade da agropecuária ao reduzido nível de tecnificação utilizado pelos agropecuaristas.2 Políticas para a modernização da agropecuária brasileira Como enfatizado anteriormente. quando muitas políticas foram realmente direcionadas para o aumento do nível tecnológico do setor. 1988). Pois. a agropecuária sempre teve papel de destaque na economia brasileira. da agropecuária brasileira: a neoclássica e a estruturalista. Eles também reconhecem que a disponibilização destes insumos exigiria uma política de incentivos e investimentos pesados. na criação da infra-estrutura. insumos modernos. ou por minifúndios que "não estavam interessados no mercado". Essas questões estavam relacionadas à própria estrutura agrária brasileira. existiam outros fatores. onde os agropecuaristas estavam muito mais preocupados com o atendimento de suas necessidades do que com o mercado. que apenas se aproveitavam da disponibilidade de mão-de-obra e terra. Devido a isto. ou de modernização. destinando sua produção quase que exclusivamente ao atendimento das próprias necessidades (Santos. A segunda sugeria a inadequada estrutura de distribuição de terra como fator limitante à modernização. Conforme apresentado.

por outro lado. a infra-estrutura rural. e que. as políticas que visavam o aumento da produtividade rural ficaram atreladas aos grandes e médios produtores. terras férteis disponíveis e ainda não utilizadas. Por outro lado. então. encontram. até 1975. como a melhoria da estrutura agrária. que privilegiou as políticas de disponibilização de terras e mão-de-obra11 a grandes empresas agropecuárias. existiam. dificultou o acesso de terras a pequenos colonos à não modernização da agropecuária brasileira. via utilização de fortes subsídios. não existia uma classe dinâmica de pequenos produtores capaz de absorver inovações tecnológicas. autores estruturalistas. E viabiliza-se o cultivo de culturas . Surgia. Em decorrência deste modo de exploração agropecuária. torna-se possível a utilização de áreas de grandes dimensões em uma mesma propriedade. pode-se afirmar com bastante precisão que. fator escasso. E isso não seria possível utilizando-se apenas os instrumentos já existentes. terra e trabalho uma saída inteligente. Diante disto. de defensivos agrícolas e de outros insumos. (Santos. Essa corrente considerava a não utilização do capital. Deste modo. E os que existiam apresentavam um nível de desenvolvimento muito primitivo. os autores consideram útil. o progresso tecnológico nos meios de transporte evitava aumentos expressivos dos preços devido à fronteira agropecuária estar se tornando cada vez mais distante dos centros de consumo. Nota-se que as políticas sugeridas eram de curto prazo. Assim sendo. à agropecuária eram consideradas racionais pelos autores neoclássicos. o processo de modernização da agropecuária brasileira ocorrido a partir dos anos 60 foi moldado segundo a estrutura agrária. Como foi apresentado. que seriam os únicos em condições de se adequarem ao processo de inovação. na maioria dos Estados brasileiros. Deste modo. A disponibilização destes fatores era corroborada pela expansão de fronteiras férteis. crédito e assistência técnica. a necessidade de investimentos elevados para a utilização de novos processos produtivos que possibilitassem a expansão da produção agropecuária. já que a adoção de inovações técnicas era economicamente inviável. e a utilização de fatores abundantes. estas políticas que facilitavam a disponibilização dos insumos tradicionais. inicia-se a ampliação do uso da mecanização. A partir destas condições descritas. em termos de distribuição de terras. não foi desenvolvida. Apenas os grandes e médios produtores é que poderiam se beneficiar destas políticas. Esta corrente se baseia no processo de formação da estrutura agrária brasileira. terra e trabalho. na estrutura de distribuição da terra. Já o preço da mão-de-obra era mantido estável tendo em vista o deslocamento das populações marginais do Rio Grande do Sul e do Nordeste para estas regiões. dentro das propriedades agropecuárias. parece ficar evidente a necessidade de aumentar os índices de produtividade da agropecuária. Deste modo. o modelo de inovação induzida de Hayami e Ruttan apud Santos (1988). Em decorrência deste fator. Apesar de não contribuírem para o progresso técnico. o fator limitante à expansão de tecnologias modernas que proporcionassem o aumento de produtividade da agropecuária. como preço mínimo. de adubos. como a do Paraná. como Furtado apud Santos (1988). para explicar a falta de modernização da agropecuária brasileira. do Mato Grosso do Sul e Goiás. os caminhos da modernização não visavam o longo prazo. 1988) A partir de 1965. Por outro lado.O atraso técnico e a falta de infra-estrutura moderna de apoio ao setor agropecuário eram explicados pela abundância de terra e mão-de-obra verificadas até meados dos anos 60.

Deste modo. Na realidade. para entrar em uma era de incentivos às exportações. que era de 630. em 1974. No caso da venda doméstica de tratores agrícolas. com maior intensidade.45612 unidades. influenciam a geração e a utilização dos novos processos produtivos. a cana-de-açúcar.1974/1979). Esse período ficou conhecido como "revolução verde". como o soja. de acordo com eles. A modernização da agropecuária brasileira foi simultânea ao desenvolvimento de uma tendência mundial. em que os processos produtivos da agropecuária eram voltados ao uso intensivo de insumos industriais. Como pôde-se notar. segundo os autores. esse foi exógeno à agropecuária. por Estados e regiões que possuíam as condições mais adequadas de assimilação das inovações . onde a agropecuária teria um papel importante. para um mercado internacional exponencialmente crescente. demonstra que estes se expandiram.97513. o milho.775 e em 1995 salta para 52. ocorre uma estabilidade no consumo. salta para 1. como observado por Monteiro (1985). Os defensivos (inseticidas. um pouco superior a 1994. Entretanto é importante observar que o Brasil é muito grande e possui diferenças estruturais. O consumo interno de tratores agrícolas em 1994 foi de 46. sociais e edafo-climáticas entre seus Estados e regiões. apresentaram uma expansão até meados da década de 70. porém é interessante observar que a potência média dos tratores aumentou. o trigo.080. e fruto da disponibilidade de pacotes tecnológicos do exterior e do apoio ao desenvolvimento do setor rural. dentre outras. e em 1994 passa a ser de 5. econômicas.959.824. principalmente. pois passava a demandar insumos industriais em escala. e ainda incentivaria a expansão industrial interna.380 toneladas de ingrediente ativo em 1969. sendo alguns deles proporcionados pelo II PND (Plano Nacional de Desenvolvimento. O número de HP disponíveis em 1970 era de 7.que são comercializadas em larga escala. por fatores relacionados às políticas dirigidas ao setor.208.664 unidades. 5 anos depois. 45. o desenvolvimento da agropecuária foi atrapalhado. Estas diferenças.636. Quando se iniciou o processo de modernização. fungicidas e herbicidas). o processo de modernização pode ter sido absorvido. Neste caso. pode-se verificar que houve uma intensificação no uso de insumos modernos. De forma agregada. a partir do final dos anos 60. auxiliando o crescimento do setor industrial. observa-se que em 1974 eram consumidos internamente 5 vezes mais tratores do que em 1969. que se deu intensivamente até os anos 60. pelo governo. como exemplo. devido ao incentivo à produção interna. Pode-se citar. existe uma queda no consumo de defensivos no período14. no mesmo período.910. desde a colonização do país até meados dos anos 60. respectivamente. Em outras palavras. Outro fator que influenciou a modernização da agropecuária brasileira foi a saída gradativa de um período de substituição de importações. o consumo aparente de inseticidas e de fungicidas diminui entre 1974 e 1991 e o consumo de herbicidas aumenta. realizado por Barros e Manoel (1988). e mais intensivamente a partir da década de 70. A partir daí. aliadas à ação de grupos de interesses.995 e 9. Um estudo sobre a utilização dos insumos modernos na agropecuária. o caso do consumo aparente de fertilizantes. poupadores de terra e trabalho. ou até inferir que a agropecuária brasileira intensificou o processo de modernização a partir da década de 70. Estes fatores estavam relacionados à disponibilização da mão-de-obra e com a viabilização da utilização de terras por grandes empresas. a agropecuária participaria com a exportação de produtos.

os Estados e regiões que não se moldavam às inovações. além de analisar somente casos regionais. Entretanto. No próximo item serão apresentados os trabalhos relacionados ao tema. a seguir. Frente às mudanças ocorridas no setor. Estas alterações estavam relacionadas à expansão da utilização de insumos modernos. surge a necessidade de verificação das conseqüências no desempenho produtivo da agropecuária. a agropecuária brasileira. pois eles utilizaram o rendimento por hectare como indicador de produtividade. estes utilizaram-se do tema produtividade e agropecuária. podem ter participado com menor intensidade deste processo. Destacar-se-á. 2. Assim sendo. é fruto das crises que se iniciam nos anos 40 e 50. que provavelmente acarretariam modificações na produção e na produtividade da agropecuária brasileira. o que os autores verificaram realmente foi que a produção por hectare estava crescendo em função do aumento do preço da cana-de-açúcar. estava aumentando e que extratos muito grandes de terra apresentavam um menor rendimento. É importante salientar que alguns dos trabalhos não trataram diretamente sobre a questão de inovações e reflexos na produtividade. a agropecuária brasileira sofreu grandes mudanças.1 Estudos regionais relacionados à produtividade que utilizaram indicadores parciais Dentre os estudos regionais relacionados à produtividade. É bom enfatizar que a maioria dos estudos. alguns trabalhos correlatos ao tema foram desenvolvidos. não trata a produtividade em um sentido global. Também fica destacado que o processo de modernização. não devendo ter sido distribuído de modo uniforme no país. alguns destes trabalhos que abordam a questão da mensuração da produtividade da agropecuária brasileira. Este problema persiste em todos os estudos que contemplam indicadores parciais em suas análises. que se intensifica nos anos 70. que trataram das relações entre o preço da cana-de-açúcar e a produtividade desta cultura no Estado do Rio de Janeiro. Esses estudos consideraram a produtividade total dos fatores. Como se pode observar. Frente a este fato. Os autores concluíram que a produtividade da cana-de-açúcar era sensível ao aumento de preço da cultura. sendo que o aumento da produção por hectare poderia ser fruto do crescimento da utilização de outros insumos. em geral. Os trabalhos que serão apresentados a seguir apontam deficiências similares. principalmente. sofre um processo de modernização. considerando apenas a produtividade parcial dos fatores. pode-se destacar trabalhos como o de Pinazza e Noronha (1980). apesar das dificuldades estruturais. Já em uma análise que leva em consideração indicadores globais.vindas do exterior e das desenvolvidas internamente.3 Estudos relacionados à produtividade e à agropecuária brasileira Como se pôde observar. alguns pesquisadores vêm desenvolvendo trabalhos visando a melhoria do dimensionamento das reais alterações de produtividade. a produtividade poderia não estar aumentando. e concluiu que a produtividade do cacau. Entretanto. Trevisam (1984) desenvolveu um estudo que trata sobre o relacionamento entre a estrutura fundiária e a produtividade alcançada pela cultura do cacau no Estado da Bahia. foram desenvolvidos alguns estudos visando identificar alterações na produtividade da agropecuária brasileira. . Em seu estudo. a partir da década de 70. 2. Recentemente. Diante desta questão. o autor utilizou a produtividade da terra como indicador.3.

foi estudado por Pereira e Lugnani (1991) e Pereira (1992). se apoiam no aumento de produtividade para discutir a transformação do emprego na agricultura. em relação aos produtos destinados ao mercado interno. Eles usam conceitos parciais de produtividade do trabalho e da terra para analisar o aumento do progresso tecnológico e o aumento da produtividade agrícola. O objetivo dos autores era de conhecer os efeitos das condições climáticas adversas sobre a produtividade agrícola. O autor considera como indicador de produtividade a produção por área. que existiam grandes variações de produtividade entre as microregiões. apesar de destacarem os limites desses indicadores. Foi verificado. Os autores utilizam indicadores parciais de produtividade para realizar a análise. no desempenho e na composição da produção agrícola paranaense. frente ao processo de modernização. É ressaltado na análise que grande parte do crescimento ocorreu em função do aumento de produtividade. Avaliando a agricultura brasileira frente à sua estrutura de produção. Os efeitos das políticas institucionais. eles desenvolveram um modelo de análise baseado no índice da evolução da produtividade da terra de 1956 a 1983. que. como o desempenho insatisfatório da economia e cortes de incentivos ao setor. neste trabalho. os indicadores parciais de produtividade não devem ser confundidos com a produtividade da agropecuária. Como se pode observar. pode-se citar o de Kageyma e Silva (1983). As diferenças de produtividade da terra e do trabalho entre microregiões homogêneas da agropecuária paranaense. Hoffamann e Jamas (1990) se fundamentaram em indicadores parciais de produtividade da . com uma visão marxista. como arroz e feijão. no período de 1975 a 1970. O autor destaca o crescimento mais acentuado dos produtos destinados ao mercado externo. e o aumento das possibilidades da exploração do trabalho.3. foi analisada por Guerreiro (1996). pode-se estar incidindo no erro de superestimar ou subestimar os aumentos de produtividade. Para analisar o desempenho produtivo agropecuário de 332 microregiões do Brasil. Silva (1983) baseia-se em indicadores parciais para explicar o comportamento dos diferentes extratos de produtores que compõem esta estrutura. 2. Albuquerque e Nicol (1987) desenvolvem um trabalho fazendo comparações da produtividade da agricultura brasileira em relação à de outros países. Mello (1990) investiga o crescimento não desprezível da agricultura brasileira na década de 80 frente a fatores adversos. como soja e laranja.Silva et al (1985) estudaram os efeitos das condições do tempo sobre a produtividade agrícola no Estado de São Paulo. Como já mencionado anteriormente. Os autores utilizaram a produtividade da terra no auxílio à análise de desempenho. Os autores discutem o efeito do progresso técnico no crescimento da produtividade. A seguir serão expostos estudos de âmbito nacional que são baseados em indicadores parciais. Para alcançar tal objetivo. O autor usa indicadores parciais para comparar as diferentes regiões do Estado.2 Estudos em âmbito nacional relacionados à produtividade e indicadores parciais Dentre os estudos voltados à análise da produtividade da agropecuária brasileira. todos estes autores empregaram indicadores parciais de produtividade em suas análises. Caso isto ocorra.

2.terra e do trabalho. Como já evidenciado anteriormente. principalmente a desenvolvida pelo sistema EMBRAPA15. Os resultados demonstram que a pesquisa contribuiu para o crescimento da PTF. significativa. os indicadores parciais de produtividade podem levar a resultados distorcidos. O autor ainda destaca que. requer. que tinha como objetivo analisar as mudanças da produtividade na agropecuária brasileira durante o período de 1970 a 1985. A produção considerada na análise foi composta pelos principais produtos da agropecuária brasileira. apontaram aumento de produtividade. defensivos agrícolas. a utilização do preço de insumos e produtos como fator homogeneizador. o qual. pretendia-se averiguar se os aumentos de produtividade poderiam ser explicados pelo desenvolvimento das pesquisas. Recentemente.45%. alguns estudos nesse sentido vêm sendo desenvolvidos visando a análise das alterações da produtividade da agropecuária brasileira. Os autores também pretendiam avaliar o papel da pesquisa agropecuária. face à análise de ambientes complexos. Os dados utilizados para a construção dos índices de produtividade foram extraídos dos censos agropecuários do IBGE. pode-se destacar o trabalho de Ávila e Evensom (1994). tratores. para o período de 1970 a 1985. A partir desta taxa.3. O estudo de Valente (1994) trata do desempenho da agricultura brasileira no período compreendido entre 1975 a 1993. Diante da relevância do problema e da importância de uma análise mais acurada sobre a produtividade da agropecuária brasileira. apresentam resultados mais próximos da realidade. os autores trabalharam com o valor agregado do trabalho na produção agropecuária. fertilizantes. Na tentativa de minimizar a deficiência das medidas parciais. Os resultados. tentam apresentar um tratamento mais adequado à questão de mensuração da produtividade. . considerando indicadores de PTF. área utilizada para produção. vacinas e medicamentos. A característica comum destes trabalhos apresentados é que em todos foram utilizados indicadores parciais de produtividade em suas análises para explicar alguma situação ocorrida na agropecuária brasileira. e com o valor agregado por hectare cultivado. os autores relacionam o crescimento da produtividade com a pesquisa agropecuária. apesar da melhoria. Os autores desses trabalhos. para encarar desafios da competição internacional.3 Abordagens nacionais sobre a produtividade considerando indicadores PTF Os estudos relacionados à produtividade. rações. como mencionado. principalmente a gerada pelo sistema EMBRAPA. ainda é preciso ser mais produtivo. Os insumos utilizados eram: força de trabalho. ele conclui que o desempenho produtivo dos anos 80 foi um pouco superior do que o verificado no início da década seguinte. Desta forma. Os preços dos produtos e dos insumos foram coletados dos Censos e de outras fontes secundárias. Baseando-se em indicadores parciais. no geral. Dentre estes. em seu cálculo. que consideram a PTF. como é o caso do objeto de estudo. foram desenvolvidos alguns estudos que trataram a questão em um sentido mais amplo. Os índices de produtividade (PTF) foram construídos com base no índice de Tornqvist. conhecendo os limites dos indicadores parciais de produtividade. nas alterações de produtividade. Estes trabalhos serão analisados no próximo item. da produtividade da agricultura em relação a década de 70. como a Fundação Getúlio Vargas (FGV). A taxa anual de crescimento da PTF encontrada foi de 2. no terceiro capítulo.

relacionando o papel das pesquisas nas mudanças de tecnologia. haveria um crescimento do índice de produtividade. considerando a produtividade total dos fatores. tendem a apresentar resultados muito mais próximos da realidade. . fato este que poderia repercutir em aumento de produtividade sem que exista um real crescimento da relação produto/insumo. a análise pode ser prejudicada de algumas formas. a simples mudança da fonte de preço. a análise de produtividade pode sofrer a influência de fatores econômicos.9%. conseqüentemente. Deste modo. Este fato não pode ser corrigido por uma simples correção de preços. para as alterações de tecnologia de produção. ceteris paribus. Outra limitação dos indicadores de PTF utilizados pelos autores reside no fato de que a produtividade. 1984)". Tendo que um fato econômico. sem que. principalmente. no período de 1976 – 1994. 242. se adotarmos os dados dos Censos deflacionados pelo Índice de Preços Recebidos pelos Agricultores (da FGV). Os autores fazem a seguinte colocação: " Assim. passou por sérios problemas inflacionários no período da análise. em primeira instância. Os autores o iniciam destacando a importância do tema e a pequena quantidade de trabalhos direcionados à questão. Por exemplo. tenhamos razões objetivas e fortes para rejeitar um ou outro resultado. poderíamos concluir alternativamente que o valor agregado da agricultura brasileira entre 1975 e 1980 decresceu 3. por exemplo. Neste trabalho também foram desenvolvidos os indicadores parciais da terra e do trabalho. uma relação física. Outro problema relacionado à utilização de preços está ligado a fatores conjunturais da economia. ( Kageyama e Hoffmann. ou cresceu 25. ou seja. pode interferir no resultado da análise. é importante observar que o índice de PTF. Desta forma. a pesquisa agropecuária vem a contribuir. é influenciada por fatores como a evolução tecnológica e as mudanças no indicador de eficiência. No caso da utilização dos preços como fator do cálculo do índice de produtividade. como salientado no terceiro capítulo.Como destacado por Gasques e Conceição (1997) os trabalhos que consideram a produtividade total dos fatores. Uma acontece quando está se estudando uma série temporal e o objeto de estudo. uma desvalorização cambial poderia representar um aumento do valor dos produtos relacionados ao mercado externo. desvalorização cambial. eles criticam os indicadores parciais de produtividade e ressaltam o objetivo de avaliar a evolução da produtividade total dos fatores da agropecuária brasileira. foi o de Gasques e Conceição (1997). também apresenta certas limitações. Na seqüência. p. a agropecuária brasileira. Como foi definido. representaria um aumento do valor total da produção em moeda nacional e. como se está considerando o valor produção pelo valor dos insumos utilizados. No caso da utilização dos preços dos insumos e produtos. O indicador de produtividade utilizado não apresentava a possibilidade de desmembramento das mudanças de produtividade em mudanças tecnológica e alterações no indicador de eficiência. as elevadas taxas de inflação deixam os resultados extremamente sensíveis à escolha de um deflator. eles poderiam detalhar mais a análise. se nos reportamos aos dados das Contas Nacionais. no caso.0%. utilizado pelos autores. como comentam Kageyama e Hoffmann (1984). Tendo os autores do trabalho estas informações à disposição. a produtividade é uma relação produto/insumo. ou dos deflatores utilizados. Outro trabalho que analisou a evolução da produtividade da agropecuária brasileira. Nesse caso. Entretanto. como a necessidade de utilização de preços dos produtos e insumos e o não detalhamento das causas das mudanças de produtividade. ao invés da produtividade parcial.

O não conhecimento das causas das mudanças de produtividade também se faz presente neste trabalho.a. na análise do trabalho anterior. já que os pesos das variáveis que são obtidos através dos preços podem não estar sendo representados da melhor . Todos os dados foram obtidos com periodicidade anual. apresentarem resultados mais consistentes que os indicadores de PPF. sendo que os preços dos produtos foram obtidos junto ao IBGE e à FGV. publicado pela FGV.88% a. No caso da mão-de-obra. pura e exclusivamente. A metodologia utilizada para o cálculo dos indicadores de produtividade total dos fatores foi a mesma utilizada por Ávila e Evenson (1994).5% a. segundo eles. por sua vez. pois. A obtenção do preço da terra se deu pela utilização do preço médio dos arrendamentos de terra para a lavoura... foram de 4. O fator terra foi composto pela área de lavouras temporária e permanente. entre 1976 e 1985. sendo as informações encontradas na PAM. apesar dos indicadores de PTF. diante dos resultados. Os insumos considerados na análise foram mão-de-obra. frente à dificuldade de obtenção de informações. essa queda pode ocorrer em função da redução do crescimento do progresso tecnológico na agropecuária. Os índices médios de crescimento da PTF. o custo ou preço foi obtido pela multiplicação do ponto médio de cada classe de rendimento pelo número de pessoas ocupadas na classe de rendimentos. Os dados foram conseguidos junto às publicações Produção Agrícola Municipal (PAM) e Produção Pecuária Municipal (PPM) do IBGE. máquinas e terra. foi a forma mais viável de cálculo do preço da mão-de-obra. O período de 1976 a 1994 apresentou a taxa média de 3. temporária e permanente. sendo que os autores atribuem as causas do aumento de produtividade.a. e de 3. Essa. obtidas na mesma fonte. Os insumos fertilizantes e defensivos têm seus preços facilmente encontrados no mercado. A agregação dos insumos e produtos. conforme os autores. ocorre por intermédio dos preços das variáveis. ainda persistem os problemas relacionados à utilização de preços dos produtos e insumos. e os insumos intermediários: fertilizantes e defensivos.O produto utilizado na análise foi obtido através da agregação das lavouras. E como se mencionou.. Como se observou. é evidente a dificuldade de obtenção dos preços de insumos importantes para a análise. entre 1986 e 1994. refere-se ao número de unidades vendidas.11% a. ou seja. Como destacado há pouco. As terras utilizadas pela pecuária não foram consideradas devido à pequena quantidade de informações disponíveis. exibidos pela análise. que foi apresentada pela agropecuária brasileira. ao progresso técnico. A alternativa encontrada pelos autores foi utilizar as informações sobre o faturamento líquido definido pela Associação Nacional de Veículos Automotores (ANFAVEA) como sendo a soma das vendas de máquinas e peças de reposição. utilizados pelos autores. segundo os autores. a mudança no indicador de eficiência também pode interferir no crescimento da produtividade. Fato que pode levar a sérias distorções nos resultados. os autores basearam seus indicadores no índice de Tornqvist. o que é preocupante devido a mesma ainda não se encontrar em um patamar elevado de utilização de tecnologias. A quantidade de máquinas. "mesmo sem saber se este existe". Os problemas relacionados ao estabelecimento de preços de certas variáveis da análise também ficam evidentes. As informações relativas ao preço das máquinas também apresentaram dificuldades de quantificação.a. e dos produtos de origem animal. Os autores. demonstram certo grau de preocupação com a tendência de crescimento a taxas decrescentes.

forma. tendo o fator preço como homogeneizador. A análise também perde em qualidade quando insumos importantes. infelizmente. Há dificuldades em se obter uma grande produção de gêneros de climas de temperaturas moderadas com custos aceitáveis. Desta forma. auxiliando as políticas para sanar as possíveis distorções regionais existentes. não podem ser considerados devido à falta de informações. Posteriormente. seria possível verificar se houveram diferenças de crescimento da produtividade entre Estados e regiões. 2. bem como a sua importância para a economia brasileira. Mas. de uma maneira geral. O Brasil possui um extenso território com relativa variedade de climas. foram exibidos os estudos relacionados à produtividade e ao setor agropecuário e as limitações apresentadas por estes. não temos grandes problemas climáticos que nos impeça a prática agrícola. A Agropecuária no Brasil A atividade da agropecuária pertence ao setor primário da economia. É interessante salientar que os trabalhos apresentados utilizaram indicadores de PTF. Apesar de não ser mais a atividade de maior importância na economia brasileira continua se destacando pela significativa participação em nosso comércio exterior. pelo emprego de aproximadamente 1/5 da PEA. A produtividade da agropecuária brasileira foi analisada somente no âmbito nacional. Seria interessante que existissem resultados desagregados relativos aos Estados e regiões. pela produção de alimentos para uma população numerosa (com uma parcela que. alguns de grande fertilidade como a terra-roxa. não possui renda suficiente para um bom padrão alimentar) e pela produção de matérias-primas para vários setores industriais e energéticos. trabalhando com um agregado de produtos e um agregado de insumos.4 Considerações finais Neste capítulo foi apresentada uma síntese da evolução histórica da agropecuária brasileira. que nos permite o cultivo de quase todos os produtos em larga escala. Fato este que poderia melhorar os resultados da análise. No próximo capítulo serão apresentadas as considerações teóricas sobre produtividade e evolução tecnológica e ainda as formas de quantificação destas questões. Enfrentamos problemas de geadas no Sul e Sudeste durante o inverno. Encontramos vários tipos de solos no país. inundações de verão em algumas porções do território nacional e secas prolongadas especialmente no Sertão. ou ainda utilizar mais de um produto ou mais de um agregado de produtos. pois poderiam ser utilizados agregados de produtos ou insumos similares. o . Pereira et al (1998a) e Pereira et al (1998b) iniciaram um trabalho visando minimizar estes problemas. predominantemente quentes. Entretanto. Destacou-se ainda o seu processo de modernização. como a área destinada à pastagem. consequentemente. mesmo tendo os preços como ponderador. era impossível usar mais de um insumo ou mais de um agregado de insumos.

*laterização – constitui na formação de uma crosta ferruginosa endurecida próxima à superfície do solo pela concentração de óxidos de ferro e alumínio. corretivos químicos e fertilizantes. . *erosão e esgotamento do solo – provoca a destruição física do solo e a perda de sua qualidade. realizando-se o mesmo procedimento. A recuperação de um solo pode ser demorada e muito cara. Em algumas áreas o processo de desertificação avança sobre áreas que antes produziam alimentos (ex: sahel. em muitas áreas do território brasileiro. acentua-se esse processo. excesso de animais sobre o solo e excesso de peso sobre o mesmo. Ocorre em áreas de clima tropical em que se alternam uma estação chuvosa (dissolução desses óxidos) e seca (quando esse material se acumula próximo à superfície e forma a crosta). retirando-se as partículas que formam o solo. Muitos solos do país. seus constituintes minerais e orgânicos. Mas. os solos possuem baixa fertilidade ou problemas como acidez elevada. na África). pela retirada da vegetação. monocultura sem os cuidados necessários (reposição do material fértil ao solo). Nele podemos incluir uma simples roça (como na Amazônia. em áreas com chuvas intensas. necessitam da aplicação de adubos. Alguns problemas específicos também afetam os solos do Brasil: *lixiviação – constitui no empobrecimento dos solos em regiões de climas muito úmidos com chuvas freqüentes que através do escoamento superficial retiram o material fértil do solo. com procedimentos muito simples e de caráter itinerante: retira-se uma porção da mata.massapé e o solo de várzea ou aluvial. predatórias e prejudiciais ao solo: desmatamento (especialmente junto às margens dos rios). Quando desprotegido. realiza-se uma queimada para limpeza do terreno. entre caboclos e indígenas). Infelizmente. misturam-se as cinzas ao solo e se realiza uma monocultura sem maiores cuidados por um breve período de dois a três anos. quando então o solo se esgota e parte-se para outra área. Quando em estágio avançado provoca a formação de sulcos profundos denominados voçorocas. Sistemas de produção na agricultura A agricultura pode ser praticada de diversas formas com um conjunto de características que passamos a apresentar a seguir: Sistema extensivo técnicas simples mão-de-obra desqualificada abundância de terras baixa produtividade rápido esgotamento dos solos Esse sistema é característico de regiões com grandes extensões de terras vazias e de menor grau de desenvolvimento. grandes parcelas de solo são sistematicamente destruídas em todo o mundo. cultivo seguindo a mesma linha do declive do terreno (sem a aplicação das curvas de nível e/ou terraceamento). É causado pela ação do clima. para produzirem satisfatoriamente. Mas é agravado pelo uso de técnicas agropecuárias incorretas. Os solos constituem um importante recurso natural que deve ser preservado através de técnicas conservacionistas.

Sistema intensivo técnicas modernas mão-de-obra qualificada terras exíguas alta produtividade conservação dos solos É um sistema característico de regiões de maior desenvolvimento. bem como o serviço de técnicos agrícolas e agrônomos. Os pecuaristas têm se preocupado em acompanhar as tendências desse mercado muito competitivo. São comuns a prática da policultura e pecuária leiteira através desse sistema. Plantation grandes áreas técnicas modernas muita mão-de-obra elevada produtividade monocultura agroindústria/exportação Esse sistema passou a ocupar grandes áreas em países subdesenvolvidos ocupando seus melhores solos. Está principalmente voltada para o mercado externo. especialmente produzindo para abastecimento do mercado interno. com a modernização progressiva e exigências cada vez maiores do mercado. observa-se uma rápida evolução qualitativa nas técnicas de criação. Sistemas de produção na pecuária Podemos também pensar nas características dos sistemas de criação de animais que lembram muito as características acima citadas. por vezes. Sistema Extensivo grandes propriedades gado criado a solta sem cuidados veterinários raças simples uso de pastagens naturais baixa qualidade e produtividade destinado ao corte Sistema Intensivo Pequenas e médias propriedades Criação confinada em estábulos ou currais Cuidados veterinários Raças selecionadas e aprimoradas Uso de pastagens cultivadas Rações balanceadas Alta qualidade e produtividade Destinado à produção de leite Evidentemente essa classificação e características são de natureza bem didática. com milhares de hectares de extensão). principalmente temporária (o bóia-fria ou trabalhador volante). Aplica a mecanização quando possível (lembre-se que não é todo cultivo que permite mecanização). . mas na prática é muito comum que se combinem características dos dois sistemas e. Mesmo assim utiliza muita mão-de-obra (trabalha com propriedades. geralmente com maior ocupação humana e com o uso de pequenas e médias propriedades.

Ocupa terras que não são suas. *grileiro – falsifica títulos de propriedade e vende terras que também não são suas Problemas enfrentados pela agropecuária no Brasil: *reduzido aproveitamento dos espaços disponíveis – muitas terras no Brasil não apresentam qualquer forma de utilização. irracional. no caso do agricultor é necessário que ele possa evoluir também em seus conhecimentos técnicos para que deixe de utilizar técnicas antiquadas que contribuem para a baixa produtividade e desgaste do solo.Formas de exploração da terra As propriedades agropecuárias podem ser exploradas diretamente pelo proprietário ou indiretamente pelo: *parceiro ou meeiro – aquele que utiliza as terras do proprietário e divide com este a produção obtida. Historicamente. embalagens. equipamentos de irrigação. justa. A mecanização e o uso de técnicas modernas permite um aumento da produtividade. A sua aplicação indiscriminada. desde que não se concentre apenas em uma prática de subsídios que onerem o Estado e dificulte a capacidade de evolução da competitividade da agropecuária brasileira (como ocorre em países europeus). Parte do crescimento de nossas safras agrícolas tem dependido da incorporação de novos espaços a esse setor produtivo mas ainda podemos ampliar e muito o espaço agrícola do país. ferramentas. Deve ser introduzida de maneira planejada e deve ser estimulada como uma forma de permitir ao produtor a competitividade para sobreviver no mercado. Na última década o Brasil conseguiu evoluir nessa questão e além disso tem aumentado o percentual de agricultores capitalizados o suficiente para bancar seu próprio empreendimento. fertilizantes. . ou são mesmo analfabetos. no Brasil. é o ocupante. mão-de-obra. com juros reduzidos. A adoção de uma política de preços mínimos. *nível de mecanização – o avanço da mecanização na agricultura vem ocorrendo especialmente no Centro-Sul do país. *baixo nível de instrução e cultura do agricultor – grande parte dos que trabalham na terra tem um nível de instrução muito baixo.).. traz problemas como um desemprego acelerado no campo e até mesmo intensificação da erosão do solo. adubos. para fazer frente aos gastos tanto no plantio (sementes. *crédito rural e preços mínimos – para que o agricultor possa produzir ele precisa de uma linha de financiamentos. *posseiro – aquele que utiliza terras que encontra vazias para uma produção de subsistência. Melhorar o padrão de cultura da população é importante e. estocagem e transporte). *arrendatário – aquele que paga um aluguel ao proprietário pelo uso da terra. combustível. traz segurança e tranqüilidade ao produtor. mão-de-obra) como na colheita (máquinas. piscinas em mansões rurais.. o volume de recursos à disposição para o agricultor não tem conseguido atender a todos e muitas vezes foi mal distribuído e desviado de suas reais finalidades (construção de hotéis-fazenda.

a safra agrícola tem conseguido recordes de produção. Os que permaneceram no campo engrossaram movimentos sociais. assim como a presença de posseiros preocupados com sua sobrevivência e de sua família. A formação de grupos armados por fazendeiros para proteção de suas terras (legais ou griladas) e a expansão das fronteiras agrícolas brasileiras contribuíram para definir um quadro de violência e ilegalidade nas áreas rurais. Mas ainda permanecem problemas na armazenagem (deficiente e/ou insuficiente. com falta de silos e armazéns. Assim. a necessidade pela execução de uma reforma agrária no país foi se tornando urgente e inadiável. conflitos e mortes nas áreas rurais. Além disso. nem sempre os recursos suficientes para uma intensificação desse processo. A atuação do INCRA durante os governos militares preocupou-se mais com a colonização agrícola de áreas vazias do território nacional (como a Amazônia) do que com a redistribuição de terras. de responsabilidade do Estado. multiplicando-se casos de invasões de propriedades. Juntam-se a todos esses atores alguns setores progressistas da Igreja e grupos políticos ideologicamente de uma esquerda mais radical (revolucionários) que também defendem seus pontos de vista e interferem na questão. O ritmo dessa reforma é contestado por alguns que a julgam lenta e tímida. assim como a redistribuição de terras. Preocupada com o aumento da produtividade. enquanto se incentivava também a ocupação do cerrado por grandes propriedades exportadoras (como a produção de soja. incluindo-se aí a invasão de terras indígenas. Em 1985. o que leva a perdas significativas da colheita e a prejuízos ao agricultor. muitas vezes massacrados na luta com os brancos. Ao mesmo tempo em que avança a execução do PNRA (ainda que não seja a Reforma Agrária desejada por alguns setores da sociedade) avança a moderna produção agroindustrial. é importante frisar que uma Reforma Agrária não pode parar simplesmente no ato de redistribuição de terras. com a melhoria da qualidade na . treinamento e qualificação de mão-de-obra. consolidando-se no Centro-Sul do país e estendendo-se pelo Nordeste e Amazônia. organizados ou não. Nas últimas décadas a continuidade desse processo associado à modernização agrícola (expansão da mecanização) e à pressão por uma agricultura cada vez mais capitalizada expulsou muitos trabalhadores do campo que se dirigiram para as cidades no movimento migratório do êxodo rural. A grilagem de terras contribuiu para agravar a revolta social no campo brasileiro. não precisaria escoar toda a sua produção imediatamente para o mercado e poderia conseguir um melhor preço posteriormente. Vale lembrar que existem interesses conflitantes nessa questão e. transporte e comercialização da produção. Caso ele tivesse acesso a uma capacidade maior de armazenagem. A desapropriação de terras improdutivas que não estejam cumprindo sua função social está sendo feita. por exemplo).*armazenamento e transporte . no início de redemocratização do país. estímulo à formação de cooperativas e criação de centros de apoio para armazenagem. mas deve garantir condições mínimas para que o camponês pobre possa produzir: linhas especiais e subsidiadas de financiamento. muitas vezes inapropriados para guardar a safra) e no transporte inadequado. o governo de José Sarney cria o Ministério da Reforma Agrária e a Constituição promulgada em 1988 contempla um Plano Nacional de Reforma Agrária. *distribuição de terras – historicamente o modelo econômico adotado pelo Brasil e as legislações criadas favoreceram a formação de grandes propriedades através de um processo de concentração de terras.

mas com uma produtividade menor e a um custo mais elevado. É grande produtor mundial de vários produtos. Estamos apresentando aumento no total colhido. *laranja – o Brasil disputa com os EUA a liderança mundial e é grande exportador. informatização no campo. O Brasil é um dos maiores produtores mundiais. muitas vezes com produção insuficiente para abastecê-lo. *cacau – com dificuldades para manter posição de destaque no mercado externo. com destino para a produção de vinho. Grande parte da produção é exportada no momento de entressafra para os países do hemisfério norte. Essa moderna agropecuária tem se preocupado com o uso progressivo de sementes selecionadas. bem como melhoria de . especialmente na indústria têxtil. com maior produção no Centro-Sul do país. a grande expansão da cana a partir de meados da década de 1970 se deveu a criação do Pró-álcool que levou a cana a ocupar grandes extensões no Estado de São Paulo. *uva – destaca-se a área de produção das Serras Gaúchas. não só pelas pessoas mas também utilizado como ração animal. *café – o Brasil continua sendo o maior produtor e exportador mundial e procura atualmente melhorar a imagem de qualidade do café que produz e exporta para conquistar novos mercados mais seletivos. invadindo o Centro-Oeste e até a Amazônia. *trigo – talvez o maior problema em nossa produção agrícola porque 2/3 do mercado interno continuam sendo abastecidos com o trigo importado da Argentina e EUA.produção agropecuária e com ganhos de competitividade busca expandir seus mercados externos e enfrenta a prática protecionista de muitos mercados como o europeu e o norteamericano. na região de Ilhéus e Itabuna. No entanto. Novas áreas de produção em climas mais quentes permitem um aumento da colheita do trigo no país. Cultura afetada pela praga da vassoura-de-bruxa que levou produtores do cacau a partirem para outros empreendimentos. É cultivado em simples roçados e também em grandes propriedades mecanizadas. controle rigoroso do rebanho e até mesmo o polêmico cultivo de trasngênicos. O problema de geadas em terras paulistas e paranaenses deslocou esse cultivo mais para o norte. O Brasil chega a ser o maior produtor ocidental desse gênero agrícola. pesquisas agropecuárias. a principal área de produção é o sul da Bahia. pode ser encontrado do sul ao norte do país. especialmente para o próprio mercado norte-americano. de amplo consumo interno. Principais produtos agrícolas O Brasil apresenta atualmente uma produção agrícola muito diversificada. Minas Gerais é o maior produtor nacional. São Paulo é o líder da produção nacional. *soja – o maior produto agrícola de exportação do país. *cana – o Brasil também costuma aparecer como o maior produtor mundial e um grande exportador de açúcar. *algodão – a produção é crescente para um mercado interno também em expansão. As áreas mais recentes de produção estão no Centro-Oeste e Amazônia. Observe o mapa com a produção agrícola e veja alguns destaques: *milho – é o principal produto de nossa agricultura. com destaque para o Mato Grosso. o maior produtor nacional. O Centro-Oeste tem se tornado a principal área de cultivo. *arroz – importante alimento para abastecer o mercado interno. Foi o cultivo de maior expansão nas últimas décadas do século XX. rebanhos melhorados.

qualidade, indispensável para vendas externas de vinho. Além desses produtos podemos lembrar do feijão (MG-SP), importante alimento para o mercado interno, a mandioca, a banana (Vale do Ribeira) além da maior produção de frutas tropicais. Principais rebanhos brasileiros A pecuária brasileira começa a ser reconhecida como de boa qualidade. Os investimentos que estão sendo progressivamente realizados para livrar o rebanho de doenças como a febre aftosa e o comprometimento de rebanhos na Europa (como o mal da vaca-louca) têm levado a ampliação de alguns e a conquista de novos mercados de exportação (analistas indicam que o Brasil deve se tornar o maior fornecedor internacional nos próximos dez a quinze anos). Os principais rebanhos brasileiros são os de bovinos, suínos, ovinos e caprinos. Observe o mapa com a distribuição geográfica dos principais rebanhos no Brasil: *bovinos – na pecuária de corte destacam-se as regiões dos Pampas Gaúchos, oeste paulista e Triângulo Mineiro. Pecuaristas de outras áreas de criação preocupam-se em melhorar a qualidade de seu rebanho. Na pecuária leiteira podemos destacar Minas Gerais (várias áreas de criação, especialmente o sul do Estado), São Paulo (Vale do Paraíba, São João da Boa Vista, Araras, Mococa) e Rio de Janeiro (Vale do Paraíba e norte do Estado); *suínos – apresenta significativos ganhos de qualidade e especialização (mais carne e menos gordura, melhor higienização nos locais de criação, cuidados veterinários, selecionamento dos animais) o que tem permitido a busca de um aumento nas exportações dessa carne; *ovinos – o Brasil não tem destaque mundial. A maior parte do rebanho é encontrada no Rio Grande do Sul; *caprinos – também sem grande destaque mundial é uma criação que está evoluindo qualitativamente. Boa parte do rebanho, rústico, pode ser encontrada na Região Nordeste. Podemos também destacar o rebanho de eqüinos, especialmente em Minas Gerais e bubalinos (Ilha de Marajó, Pantanal e Vale do Ribeira). O Brasil parece apresentar condições favoráveis para a criação de búfalos e pode se tornar um grande criador mundial. O Brasil tem um dos maiores rebanhos de asininos e muares e é um dos maiores criadores de aves no mundo.

Estrutura Fundiária e os Conflitos de Terra
Alimentar com seus frutos é o que a agricultura brasileira vem fazendo há mais de quatro séculos, infelizmente sem a harmonia sugerida pela letra da bela canção transcrita ao lado. Como vimos, a agricultura brasileira sempre esteve entre as principais atividades econômicas do país. Mas o Brasil não se tornou uma potência agrícola, pois alguns dos maiores problemas sociais brasileiros estão centralizados no campo, como a estrutura fundiária marcada pela concentração de terras, os conflitos pela posse da terra e as relações desiguais de trabalho. Uma distribuição Irregular de terras

À forma como as propriedades rurais estão distribuídas, segundo suas dimensões, denominamos estrutura fundiária. A principal característica da estrutura fundiária brasileira é o predomínio de grandes propriedades. As origens dessa distribuição desigual de terras em nosso país estão em seu passado colonial. As capitanias hereditárias, que inseriram o Brasil no sistema colonial mercantilista, foram os primeiros latifúndios brasileiros: a colônia foi dividida em quinze grandes lotes entre doze donatários. A expansão da lavoura açucareira no litoral manteve o latifúndio como uma de suas características, ao lado da monocultura e da escravidão da mâo-de-obra africana no sistema de plantation voltado para a exportação. Portanto, a ocupação das terras brasileiras aponta para uma acentuada concentração de terras. Foi a Lei de Terras, promulgada em 18 de agosto de 1850, que praticamente instituiu a propriedade privada da terra no Brasil, Ao determinar que as terras públicas ou devolutas (ociosas) só poderiam ser adquiridas por meio de compra, essa lei limitou o acesso à posse de terras a quem tivesse recursos para satisfazer essa condição. Dessa forma, imigrantes europeus recém-chegados, negros libertos e pessoas sem recursos ficaram sem direito às terras livres, que foram compradas por abastados proprietários rurais. Com o passar do tempo, essa desigual distribuição de terras acabou gerando conflitos cada vez mais violentos e generalizados entre proprietários e não proprietários. As décadas de 1950e 1960 marcaram o surgimento de organizações que lutavam pêlos direitos dos trabalhadores rurais. Entre elas, podemos citar as ligas camponesas e a Confederação Nacional dos Trabalhadores do Campo (Contag). Membros do regime militar (1964-1985), preocupados com o descontentamento social no campo, elaboraram um conjunto de leis para tentar controlar os trabalhadores rurais e acalmar os proprietários de terras. Essa tentativa deu-se através de um projeto de reforma agrária para promover uma distribuição mais igualitária da terra, que resultou no Estatuto da Terra, cujos pontos principais veremos a seguir. Em 1993, durante o governo do presidente Itamar Franco, a Lei n" 8 629 reafirmou que a terra tem de cumprir uma função social. Foram definidos novos conceitos referentes às dimensões e classificações dos imóveis rurais. Com base no conceito de módulo rural foi utilizado o conceito de módulo fiscal. Segundo o Incra, Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, vinculado ao Ministério do Desenvolvimento Agrário, entende-se por módulo fiscal a unidade de medida expressa em hectares, fixada para cada região, considerando os seguintes fatores: - Tipo de exploração predominante no município. - Renda obtida com a exploração predominante. - Outras explorações existentes no município que, embora não sejam predominantes, são significativas em função da renda e da área utilizada. - Conceito de propriedade familiar, O tamanho do módulo fiscal varia de região para região, pois depende de alguns fatores, como as características do clima de cada área ou região. Ainda, segundo a Lei n° 8 629, ficou assim a classificação dos imóveis rurais quanto ao tamanho: - Minifúndio. O imóvel rural com área inferior a um módulo fiscal. - Pequena propriedade. O imóvel rural de área compreendida entre um e quatro módulos fiscais. - Média propriedade. O imóvel rural de área superior a quatro e até quinze módulos fiscais. - Grande propriedade. O imóvel rural de área superior a quinze módulos fiscais. Características da estrutura fundiária brasileira

A análise dos dados expressos nos gráficos abaixo nos mostra as principais características da estrutura fundiária no Brasil. Existe uma absurda concentração de terras em nosso país, onde poucos latifúndios ocupam a maior parte da área total brasileira e o grande número de minifúndios não chega a ocupar 2% dessa área. Como consequência temos um grave quadro socioeconômico: - Poucas propriedades rurais (43 956) com 1000 hectares ou mais concentram mais de 50% da área total do país. Geralmente, uma grande concentração fundiária pode gerar terras ociosas e improdutivas porque seus donos aguardam melhores preços para arrendá-las ou vendê-las (estão concentradas nas regiões Norte e Centro-Oeste). - Muitas propriedades rurais (947 408) não chegam a possuir 2% da área total, inviabilizando, muitas vezes, o plantio de algum produto. A despesa com sementes pode ser maior que o montante obtido com a colheita. - Êxodo rural como consequência da mecanização em algumas grandes propriedades rurais no Centro-Sul e entre os pequenos proprietários, porque produzem pouco, ficam endividados e não têm capital para investir. - Aumento do número de desempregados e subempregados que migram para as periferias das cidades e acabam ocupando áreas de mananciais. E o fato mais grave: o aumento dos conflitos sociais no campo. Mais de 50% dos conflitos de terra no Brasil ocorrem, respectivamente, nas regiões Nordeste e Norte. São regiões de grande concentração de propriedades rurais e de imóveis improdutivos, onde muitas vezes a polícia é mal preparada e mal equipada e os latifundiários impõem sua vontade às leis. Porcentagem da área improdutiva por região Outro triste exemplo da violência no campo são os assassinatos ocorridos entre 1986 e 1996, segundo a Comissão Pastoral da Terra (CPT), o Incra e o Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST). Soma-se a esse quadro brutal e desumano o uso improdutivo de muitas propriedades rurais que geram o ciclo: êxodo rural – desemprego -violência. A porcentagem dos imóveis improdutivos no Brasil mostra a necessidade urgente de uma política agrícola e de uma reforma agrária que contemple os trabalhadores rurais excluídos. As relações de trabalho no campo Geralmente encontramos entre os trabalhadores rurais brasileiros baixos indicadores socioecon&micos, como elevada natalidade, elevado analfabetismo, pequena qualificação profissional e baixa remuneração. Além disso, eles sofrem com a falta de cumprimento da legislação trabalhista por parte de alguns patrões e o elevado número de acidentes com ferramentas, como facões. Quanto mais distantes das principais cidades e capitais, mais tensas são as relações sociais no campo. O trabalho assalariado temporário é a forma predominante no Brasil. O predomínio do trabalho assalariado é consequência do processo capitalista (capitalização da atividade agrícola) que, por um lado, aumenta a produtividade rural (máquinas, irrigação, sementes selecionadas) e, por outro, dispensa o trabalhador residente ou permanente (aumento do número de assalariados). Tivemos no Brasil uma grande redução das modalidades tradicionais de trabalhadores rurais (permanentes, residentes, colonos e parceiros) e o

aumento de trabalhadores temporários sem vínculo empregatício. Geralmente, eles recebem no fim do dia pelo serviço prestado, trabalhando no plantio ou na colheita de canade-açúcar, laranja ou café. Moram na periferia das cidades onde os aluguéis são menores. Recebem a denominação de peões na região Norte, corumbás, nas regiões Centro-Oeste e Nordeste e bóias - frias nas regiões Sul e Sudeste. Outras formas de trabalho no campo Trabalho familiar. Realizado geralmente nas pequenas e médias propriedades rurais de subsistência. A falta de capital para investir na lavoura e as secas periódicas têm aumentado o número de trabalhadores familiares que abandonam o campo e migram para as periferias das cidades, onde se tornam trabalhadores temporários. Uma exceção entre os trabalhadores familiares é encontrada nas áreas vizinhas dos grandes centros urbanos (cinturões verdes) porque conseguem vender sua produção para os centros de abastecimento, redes de supermercados, feiras livres e até em carros ou caminhões que percorrem as ruas dessas cidades. Arrendamento. Forma de utilização da terra destinada ao cultivo ou à pastagem, que o proprietário arrenda (aluga) a quem tem capital para explorá-la. E comum no interior de São Paulo um grande proprietário arrendar propriedades menores vizinhas para o cultivo da cana-de-açúcar. Parceria. Forma de utilização da terra em que o proprietário dispõe de sua terra para um terceiro (o parceiro) que a cultiva. Em troca, o parceiro entrega ao proprietário parte de sua colheita. A forma de obter a propriedade da terra fez surgir duas figuras que estão frequentemente envolvidas nos conflitos pela terra: o posseiro e o grileiro. Posseiro. Indivíduo que tem a posse da terra e nela trabalha sem, porém, possuir o título de propriedade. Grileiro. Pessoa que toma posse da terra de outros, usando para isso falsas escrituras de propriedade. O peão, trabalhador volante mais recente que o bóia fria, é muito utilizado nas regiões de fronteiras agrícolas, sobretudo em projetos agropecuários da Amazônia. É "contratado" por um intermediário (gato) para trabalhar em regiões distantes, com promessas de salários, alojamento e alimentação. Quando recebe o pagamento, aparecem os "descontos": custos de transporte, alimentação, hospedagem, etc., quase nada restando do seu salário, chegando, às vezes, a ficar devendo. Muitas vezes jagunços e pistoleiros são contratados para evitar a fuga de trabalhadores, reproduzindo uma situação de escravidão (peonagem).

EVOLUÇÃO DO AGRONEGÓCIO BRASILEIRO, DESAFIOS E PERSPECTIVAS

Joaquim César Emanoel carlosadm2006@gmail.com

Carlos Barbosa

de

Lourenço Lima

passing for the point where it had a bigger impulse ties to arrive at the prominence position that is of being one of the biggest world-wide powers of the agribusiness. (MAPA. 2005). Abstract This study it had for objective sample as if it gave the evolution of the Brazilian agribusiness. O Brasil situa-se. Todo esse cenário brasileiro atual do agronegócio enquadra-se em uma evolução que remonta ao século XVI. However the percipient ones of the agribusiness are sufficiently promising. Para citar este artículo puede utilizar el siguiente formato: Carlos Lourenço y Barbosa de Lima: "Evolução do agronegócio brasileiro. Although the positive numbers. Apesar dos números positivos.net/cursecon/ecolat/br/ Introdução O cenário atual aponta que o Brasil será o maior país agrícola do mundo em dez anos. O agronegócio é hoje a principal locomotiva da economia brasileira e responde por um em cada três reais gerados no país. utilizou-se de abordagens bibliográficas que demonstra a evolução histórica. since it presents many advantages of the natural and economic point of view. já que ele apresenta muitas vantagens do ponto de vista natural e econômico. segura e rentável. Com um clima diversificado. desafios e perspectivas" en Observatorio de la Economía Latinoamericana. Com isso. identificando a sua situação no cenário mundial. chuvas regulares. Logistic restriction. the sector presents restrictions and challenges that threaten its permanence enter the greaters in the activity. Texto completo en http://www. 2007). . podendo o país explorar melhor suas potencialidades. Restrição logística. Esses fatores fazem do país um lugar de vocação natural para a agropecuária e todos os negócios relacionados à suas cadeias produtivas. Key Words: Agribusiness. it was used of bibliographical boardings that the historical evolution demonstrates. 2009. Segundo Rodrigues (2006). e como objetivos específicos mostrar a sua evolução. como celeiro mundial em termos de agronegócio. Today one of the biggest impediments for the deslanchamento of the sector is the logistic one of infrastructure of the country. O artigo tem como objetivo geral identificar o cenário atual do agronegócio brasileiro. (BORGES. Hoje um dos maiores entraves para o deslanchamento do setor é a logística de infraestrutura do país.Resumo Este estudo teve por objetivo mostra como se deu a evolução do Agronegócio brasileiro. Economic growth. energia solar abundante e quase 13% de toda a água doce disponível no planeta. por meio de uma pesquisa bibliográfica.eumed. o país possui 22% das terras agricultáveis do mundo. suas restrições e desafios. faz-se mister ressaltar seus antecedentes históricos até o cenário atual. Palavras-Chave: Agronegócio. dados estes que fazem do agronegócio brasileiro um setor moderno. no contexto mundial atual. O agronegócio brasileiro é uma atividade próspera. Para isso. além de elevada tecnologia utilizada no campo. eficiente e competitivo no cenário internacional. Contudo as perceptivas do Agronegócio são bastante promissoras. o Brasil tem 388 milhões de hectares de terras agricultáveis férteis e de alta produtividade. For this. o setor apresenta restrições e desafios que ameaçam sua permanência entre os maiores na atividade. being able the country to explore its potentialities better. passando pelo ponto onde houve um maior impulso ate chegar à posição de destaque que é o de ser uma das maiores potências mundiais do Agronegócio. identifying its situation in the world-wide scene. dos quais 90 milhões ainda não foram explorados. Crescimento econômico. Número 118.

constituídos na forma de pessoas físicas (fazendeiros ou camponeses) ou de pessoas jurídicas (empresas). segundo Batalha (2002). quanto e de que como produzir. médios ou grandes produtores. Estes negócios. defensivos químicos. os abatedouros. com a finalidade de levantar as dimensões básicas do agribusiness brasileiro. as empresas de processamento e toda a distribuição. equipamentos. o que correspondia ao equivalente a 32% do PIB brasileiro em 1980. E. via de regra. A agricultura moderna. caracterizada pela agricultura em grande escala. o agronegócio é um conjunto de empresas que produzem insumos agrícolas. substituindo a análise parcial dos estudos sobre economia agrícola pela análise sistêmica da agricultura. Depende cada vez mais de insumos adquiridos fora da fazenda e sua decisão de o que. dois pesquisadores americanos reconheceram que não seria mais adequado analisar a economia nos moldes tradicionais. 2004). baseada no plantio ou na criação de rebanhos e em grandes extensões de terra. do armazenamento. inclusive o agricultor. extrapolou os limites físicos da propriedade. o pau Brasil. estão os negócios à jusante dos negócios agropecuários. os negócios à montante (ou "da pré-porteira") aos da agropecuária. o agronegócio como sendo 'a soma total das operações de produção e distribuição de suprimentos agrícolas. das operações de produção na fazenda. políticas e culturais. em uma permanente negociação de quantidades e preços. as indústrias agrícolas. transporte. processamento e distribuição dos produtos agrícolas e itens produzidos a partir deles'. No Brasil. Enquadram-se nesta definição os frigoríficos.Agronegócio Agronegócio também chamado de agribusiness. Davis e Goldberg (1957) definem. empacotadores. Foi à exploração de uma madeira. Há diferentes agentes no processo produtivo. mesmo a familiar. está fortemente relacionada ao mercado consumidor. ou de "pós-porteira". Já para Callado (2006). deslocando o centro de análise de dentro para fora da fazenda. os fabricantes de fertilizantes. processavam os produtos e os comercializavam. No Brasil o termo é usado quando se refere a um tipo especial de produção agrícola. têm fortes raízes junto ao agronegócio. A primeira parte trata dos negócios agropecuários propriamente ditos (ou de "dentro da porteira") que representam os produtores rurais. Histórico e Evolução do Agronegócio Brasileiro A história econômica brasileira. Em 1957. ( WIKIPÉDIA. até chegar ao consumidor final. é o conjunto de negócios relacionados à agricultura dentro do ponto de vista econômico. com setores isolados que fabricavam insumos. que deu nome definitivo ao nosso País. representados pela indústrias e comércios que fornecem insumos para a produção rural. sejam eles pequenos. Costuma-se dividir o estudo do agronegócio em três partes. como comércio de sementes e de máquinas e equipamentos. essa abordagem sistêmica foi utilizada explicitamente por Araújo. com seus elos entrelaçados e sua interdependência. A ocupação do território brasileiro iniciada durante o século XVI e apoiada na doação de . se fundamentam na propriedade latifundiária bem como na prática de arrendamentos. onde estão a compra. o transporte da produção e as atividades voltadas à distribuição. etc. O termo inclui todos os setores relacionados às plantações e às criações de animais. Este tipo de produção agrícola também é chamada de agribusiness ou agrobusiness. Na segunda parte. as propriedades rurais. Este conceito procura abarcar todos os vínculos intersetoriais do setor agrícola. O conceito de agronegócio implica na idéia de cadeia produtiva. o Agronegócio é toda relação comercial envolvendo produtos agrícolas. A definição correta de agronegócio é muito mais antiga do que se imagina e incorpora qualquer tipo de empresa rural. Por exemplo. supermercados e distribuidores de alimentos. 2009). Estes autores concluíram que o agribusiness brasileiro representava 46% dos gastos relativos ao consumo das famílias. (JUNIOR PADILHA. na terceira parte. Assim. Wedekin e Pinazza (1990). com suas implicações sociais. as indústrias têxteis e calçadistas. beneficiamento e venda dos produtos agropecuários.

dispõe de produtores rurais experimentes e capazes de transformar essas potencialidades em produtos comercializáveis e detém um estoque de conhecimentos e tecnologias agropecuárias. com o desenvolvimento da Ciência e Tecnologia. monocultura da cana-de-açúcar e no regime escravocrata foi responsável pela expansão do latifúndio. algodão e fibras têxteis vegetais. a borracha dá exuberância à região amazônica. "Num futuro próximo. consolidado na forte rede de interligação entre a agricultura e a indústria. proporcionando o domínio de regiões antes consideradas “inóspitas” para a agropecuária. cereais e derivados e a borracha natural são itens importantes da pauta de exportação brasileira (VILARINHO. No caso do frango. logo depois o café torna-se a mais importante fonte de poupança interna e o principal financiador do processo de industrialização. por sua vez. instalam-se agroindústrias. 2006). da carne bovina. 2006). hortaliças. a partir da década de 1930. A evolução da composição do Complexo do Agronegócio confirma que as cadeias do agronegócio adicionam valor às matérias-primas agrícolas onde o setor de armazenamento. como são os cerrados com uma reserva de 80 milhões de hectares. O Brasil detém terras abundantes. Na suinocultura. processar e distribuir produtos agropecuários. Atualmente. as funções de armazenar. com grande desenvolvimento no Nordeste. café. (RENAI.terras por intermédio de sesmarias. A pecuária domina os pampas. Em síntese. o Brasil deve quadruplicar sua participação. transformando Manaus numa metrópole mundial. transformadoras de recursos em produtos. Perspectivas Para o Agronegócio Brasileiro Para Contini (2001). com isso. a exploração da madeira nas serras e a agricultura se desenvolvem com a participação das várias etnias que compõem o mosaico populacional da região. planas e baratas. mão-de-obra acessível e diversas questões ligadas à conjuntura internacional. a soja ganha destaque como principal commodity brasileira de exportação. Até 2015. como a do vinho e dos móveis. que durante esse período serviu de base e sustentação para a economia. por exemplo. celulose e outros). foram transferidas para organizações produtivas e de serviços nacionais e/ou internacionais fora da fazenda. como farto espaço territorial. a ser um especialista. frutas e derivados. o produtor rural passou. Da poupança da agricultura. de suínos e aves. o país é visto por muitos especialistas como principal candidato ao posto de grande fornecedor alimentício global. ainda mais a indústria de base agrícola. Isso fez surgir à oferta de um grande número de produtos. (VILARINHO. O agronegócio brasileiro passou por um grande impulso entre as décadas de 1970 e 1990. as evoluções devem ser muito maiores. Por qualquer ângulo que se analise o mercado. as perspectivas são promissoras. bem como as de suprir insumos e fatores de produção. Por conta de condições extremamente favoráveis para a contínua expansão deste mercado. Antes da expansão deste sistema monocultor. gradativamente. fumo. chá. carnes e derivados de animais. conquistando metade do mercado internacional. tabaco. chamando a atenção de todos os nossos parceiros e competidores em nível mundial. a suinocultura . produtos oriundos do complexo de soja. o tamanho que o Brasil adquiriu no campo do agronegócio é impressionante. Nas áreas em que o país ainda tem uma fatia pequena do comércio mundial. já havia se instalado no país como primeira atividade econômica a extração do pau-brasil. O progresso do Sul do Brasil também está ligado ao agronegócio. madeira (papel. processamento e distribuição final constituem o vetor de maior propulsão no valor da produção vendida ao consumidor. a participação nacional no mercado internacional de soja deve crescer dos atuais 36% para 46%. com maior intensidade na de 1960 até a de 1980. açúcar e álcool. como a cana-de-açúcar. O país passou então a ser considerado como aquele que dominou a “agricultura tropical”. A extinção do pau-brasil coincidiu com o início da implantação da lavoura canavieira. no início do século. envolvido quase exclusivamente com as operações de cultivo e criação de animais. o salto será de 58% para 66%. impulsionando. fica evidente que. mais recentemente. 2007). O processo de colonização e crescimento está ligado a vários ciclos agroindustriais. de acordo com previsões dos especialistas da área.

além de sua grande competitividade. o crescimento do superávit do ano 2000 até 2007 foi de 235% no período.347 US$ 25.700 US$ 58.400 Importações US$ 5. (CNA.492 US$ 4. O agronegócio é o maior negócio mundial e brasileiro. representa 27 milhões de pessoas. a agricultura é o setor econômico que ainda mais ocupa mão-de-obra.será tão importante para a balança comercial do país quanto são hoje o frango e a carne bovina” (NETO.49% menor do que o registrado no mesmo período de 2008. Mesmo reconhecendo-se os benefícios da transformação de uma sociedade agrária para uma industrial-urbana.799 US$ 4. era de 182 para a agropecuária. (STEFANELO. evidenciando que o setor tem participação importante para o equilíbrio de nossas contas.CNA). de janeiro a maio deste ano. A agricultura contribuiu decisivamente para as exportações com saldo comercial setorial positivo da ordem de US$ 40.200 Fonte: Mapa (Ministério da Agricultura. 38 para a construção civil. abrangendo o suprimento de insumos.134 US$ 37. da agroindustrialização e de áreas correlatas serão importantes para o crescimento da renda e do emprego.016 US$ 20.737 bilhões. no Brasil.366 bilhões. De acordo com os números. 2009) A Tabela mostra o superávit do agronegócio brasileiro. Tabela 1 – Balança comercial do agronegócio brasileiro (US$ bilhões) Período 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 Exportações US$ 20. um crescimento espetacular do setor. representa a geração de U$ 6. Estes são pontos que reforçam a importância do agronegócio no Brasil.103 bilhões. (RENAI. Principalmente em regiões menos desenvolvidas.53% do Produto Interno Bruto (PIB) do agronegócio no primeiro trimestre de 2009.040 US$ 58. que somados a 10 milhões dos demais componentes do agronegócio. no total. Importância Econômico-Social do Agronegócio Brasileiro O agronegócio é também importante na geração de renda e riqueza do País.811 US$ 19.791 US$ 4. já sentindo os efeitos da crise. 25 para a extração mineral.881 US$ 5. 2007). não se pode esquecer que esta tem capacidade limitada de absorver mão-de-obra. (CONTINI.839 US$ 30. ou 26% do PIB (29%. o beneficiamento/processamento das matérias-primas e a distribuição dos produtos.7 bilhões em 2007. No aspecto social.639 US$ 39. A maior parte deste montante refere-se a negócios fora das porteiras. No mundo. as importações chegaram a US$ 4. 2007 apud SEIBEL. . 2002). No entanto. Enquanto as exportações renderam US$ 24. o resultado é 12.610 US$ 23. Apesar do saldo. ao redor de 17 milhões de pessoas. utilização de alta tecnologia e gerador de empregos e riquezas para o país. No contexto da recente crise cambial.86 US$ 8.000 US$ 40.700 US$ 11. em torno de R$ 350 bilhões.000 US$ 52.863 US$ 24. Pecuária e Abastecimento. saldo acumulado é de US$ 19.200 Saldo US$ 14.847 US$ 4.015 US$ 42. em 1995.000 US$ 11. 2009).400 US$ 69. É o setor que ocupa mais mão-de-obra em relação ao valor de produção: para cada R$ 1 milhão. o número de ocupados.18 bilhões de dólares em 2006 e de 49.180 US$ 49. O agronegócio como um todo envolve mais de 1/3 do PIB brasileiro. a balança comercial do agronegócio teve uma queda de 0. o agronegócio tem sido um fator que minimizou os desequilíbrios das contas externas do Brasil. (Ver Tabela1).5 trilhões/ano e. segundo a Confederação Nacional da Agricultura . 2007).848 US$ 34. os setores da agricultura. 2001).

O agronegócio é justamente o que mais sofre com a ineficiência dos canais de transporte.o maior obstáculo para o desenvolvimento do agronegócio do Brasil. país 22 vezes menor que o Brasil) é urgente a modernização do maquinário. o Brasil será o maior país agrícola do mundo em dez anos. Assumiu também a dianteira nos segmentos de carne bovina e frango. escoa apenas 2 milhões de toneladas de carga/ano. não forem solucionados. café. regiões com potencial no agronegócio. açúcar. milho. como Estados Unidos e Austrália. 2009). Consciente de que sozinho não conseguirá reverter esse quadro. em termos de saldo. Com os trens e bitolas atuais. café. (PAC. caso dos 42 mil quilômetros de hidrovias.8% acima dos US$ 52. Ainda de acordo com a mesma fonte. portos e canais de irrigação nos próximos anos. em particular a precariedade da malha rodoviária do país. 2007). Em razão desse tipo de problema.68 bilhões em 23 projetos de reformas em rodovias. a ampliação em 2007 foi de cerca de US$ 58. embora tenham recebido investimentos com a privatização. elaborada pela CNT Confederação Nacional do Transporte (2007). Mas todos esses bons resultados. cujas deficiências são responsáveis por prejuízo correspondente a 16% do PIB. carne bovina e de frango. É um dos motivos pelos quais todos os anos caminhões formam filas de até 150 quilômetros de extensão para descarregar suas cargas no porto de Paranaguá (PR).4 mil quilômetros e que consumiu US$ 2 bilhões em investimentos públicos em vários governos. nos portos brasileiros essa média é de 27.832 quilômetros avaliados. ferrovias. ainda estão longe de suprir a demanda do setor de agronegócio e se consolidar como uma alternativa viável ao transporte rodoviário. de que o agronegócio pode sair dessa melhor do que entrou. um aumento de 10. as perspectivas acompanham as já anunciadas para o Brasil. o Governo Federal criou o (PAC) Programa de Aceleração do Crescimento lançado no começo de 2007. (BORGES. Esse montante coloca o Brasil entre os líderes mundiais na produção de soja. dos 84. o governo federal já busca o apoio da iniciativa privada. deixamos de fazer uso de canais de transporte de grande potencial. Por meio do plano de Parceria Público-Privada. As ferrovias. suco de laranja e soja.04 bilhões de 2006. O objetivo do programa é aumentar o investimento em infra-estrutura para: eliminar os principais gargalos que podem restringir o crescimento da economia. ainda não conseguiram deslanchar. Um dos grandes entraves é a infra-estrutura. 37% encontram-se em estado péssimo de conservação e outros 32% possuem alguma deficiência. Na certeza que só as Parcerias Público-Privada. O país é líder mundial de exportação de açúcar. correm sérios riscos de sofrer um pesado revés se os problemas relacionados à infra-estrutura logística . que pretende investir R$ 13. Ao mesmo tempo. como o Nordeste. a Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento. No transporte marítimo de cabotagem (outro canal com grande potencial no Brasil) assistimos a uma situação semelhante. o excesso de mão-de-obra (que chega a ser de três a nove vezes superiores aos portos europeus e sul-americanos) ainda mantém os padrões de produtividade baixos. segundo estudo do Centro de Estudos de Logística da Universidade do Rio de Janeiro. com 2. Enquanto o índice internacional de movimentação é de 40 contêineres/hora.29% em relação a 2005. Essas boas posições devem consolidar-se ainda mais nos próximos anos. sistemas como o do Tietê-Paraná.4 bilhões. depois de ultrapassar tradicionais concorrentes. Além da ampliação da malha de 30 mil quilômetros de extensão (praticamente igual a do Japão. foi concebido para eliminar esse descompasso e afastar o risco de gargalos nos próximos anos. a velocidade média das composições não ultrapassa lentos 25 km/h. Em 2006 as exportações cresceram 19. apenas 10% de sua capacidade total. assim como as expectativas futuras. De acordo com uma das pesquisas mais recentes sobre o assunto. (BORGES. reduzir custos e aumentar a produtividade . 2007). O gargalo logístico envolve praticamente toda a infra-estrutura de transporte do país. Como resultado.Quando os efeitos da crise passar. Desafios do Agronegócio no Brasil Segundo indicadores da (Unctad). Embora a privatização tenha contribuído para a modernização dos portos. em que apenas 10 mil quilômetros são efetivamente utilizados. não será suficiente para dotar o país de bom infra-estrutura.

mantenham a sua determinação em modernizar a infra-estrutura brasileira. quanto a iniciativa privada. mas podem ser superados. Além do embargo à carne bovina. o agronegócio brasileiro sofreu com o surto de gripe aviária. que prejudicou as exportações mesmo de países que não registraram casos da doença (como o Brasil). Como se vê. tornando-os mais competitivos no mercado internacional. isto é com possibilidade de exportar e importar qualquer produto do agronegócio. Além das medidas de controle sanitário que também estão na relação de assuntos importantes que vêm sendo negligenciados pelo governo. Como se vê. É preciso destacar também que. têm impostos baixos. Para ilustrar o que estamos falando. Outro obstáculo sério ao desenvolvimento pleno do agronegócio está relacionado ao sistema tributário. Por causa do surgimento de focos de febre aftosa em Mato Grosso do Sul e no Paraná. Isso sem falar da economia de combustível e de fretes. basta destacar que um único comboio na hidrovia Rio Madeira tem capacidade para 18 mil toneladas de grãos. Considerações Finais Como se observa. com diminuição da carga e simplificação dos procedimentos na tributação. vezes há que perde o próprio mercado interno porque os produtos importados chegam mais baratos. fica difícil ao produtor brasileiro competir nos mercados externos. Com uma economia aberta ao exterior.das empresas. o SAI brasileiro ocupa lugar de destaque entre os países produtores de alimento no mundo. substituindo 600 carretas de 30 toneladas nos eixos Cuiabá (MT) / Santos (SP) e Cuiabá (MT) /Paranaguá (PR). ferroviário. é que tanto o governo nas esferas federal. os obstáculos para o crescimento do agronegócio brasileiro são imensos. na redução do tráfego e desgaste das rodovias. é indiscutível a importância do agronegócio à nossa economia. Um exemplo do potencial desses pólos é representado por um estudo do Geipot (Empresa Brasileira de Planejamento em Transportes. Já em 2000. o mesmo encontra muitos problemas e desafios a serem superados que dependem. mas as soluções também existem e precisam ser colocadas em prática. essencialmente. que estão entre os maiores produtores nacionais. segundo Seibel (2007) mais de 50 países impuseram embargo à carne bovina desses estados. a carga tributária deve ser compatível com a dos nossos competidores. os obstáculos para o crescimento do agronegócio brasileiro são imensos. Não há como o produtor rural e a agroindústria serem competitivos com governos vorazes em criar novos impostos. o que aumenta os custos de produção. estadual e municipal. ligada ao Ministério dos Transportes). bem como de mudanças nas políticas econômicas internas. Essa redução dos custos de transporte contribuiria diretamente para reduzir os custos de nossos produtos. aumentar os atuais e com mecanismos complexos de arrecadação. a empresa alertava que o melhor aproveitamento e a utilização racional dos canais de transporte seria capaz de economizar em cerca de US$ 75 milhões os custos anuais de escoamento de grãos. e reduzir as desigualdades regionais. Muito embora o potencial de comércio do agronegócio brasileiro seja muito grande. de investimentos tanto públicos como privados. inclusive no Mercosul. incentivando a criação de pólos intermodais de transporte (integração entre os sistemas rodoviário. poderia ser ainda maior se houvesse políticas sérias agrárias e de infra-estrutura. além dos recursos. Mesmo assim. estimular o aumento do investimento privado. marítimo. Os investimentos em Infra-Estrutura logística do PAC previstos até 2010 são de R$ 58 bilhões de reais. O que esperamos. Apesar das grandes vantagens encontradas no agronegócio brasileiro e das suas boas perspectivas futuras. e resolva os problemas domésticos para que o pais se torne a potência do agronegócio do futuro. O potencial de prejuízos que isso pode acarretar aos produtores já foi demonstrado nos últimos anos. fluvial e aéreo) para redução de custos e aumento do nível de serviços. Como nossos concorrentes. . O agronegócio se tornou o setor chave para que o Brasil se inclua no comercio mundial. a iniciativa privada ainda tem muito a contribuir para o desenvolvimento da infra-estrutura do país. A reforma tributária é urgente.

br/site/agencia/>. climas favoráveis. I. 2006. 2006. Pecuária e Abastecimento (MAPA). ao longo dos anos. ed.eumed. Acesso em: 09 jan. Goldberg.agricultura. Complexo agroindustrial: o agribusiness brasileiro. do PPP. R. com que os investimentos se tornarem lucros financeiros e socialmente. CONTINI. BORGES.cna. ed. ainda.2009. Munoz. apesar desses obstáculos.empreendedorrural. Elisio. . A. 1990. J. cresce sua participação no mercado internacional.org. 2. Gestão agroindustrial. buscar soluções práticas e definitivas.br>. Número 71. N. Disponível em: < BRASIL .com. E. Mário Otávio. estrategicamente suplanta qualquer problema. Disponível em: < http://www. Além do mais. Antonio A.Ministério da Agricultura. CALLADO.: "Desafios de logística nas exportações brasileiras do complexo agronegocial da soja" en Observatorio de la Economia Latino americana. como o NE brasileiro. http://www. restringindo a inserção de novas tecnologias e/ou tecnologias de ponta à agricultura de determinadas regiões. já passou da fase de discussão. São Paulo: Agroceres. y Mauch Palmeira.2008. que dê sustentabilidade continuada ao setor. através. 1. São Paulo: Atlas.br/artigos/artigo>.CNA. Logo. Dinamismo do Agronegócio Brasileiro. as políticas econômicas impedem que o rendimento seja maior e os problemas de logística geram custos elevados. 135 p. nas diretrizes corretas fomentadas pelo Estado e na vertiginosa capacidade privada de produzir de racionalizar e de fazer. B. Acesso em: 06 fev. A concept of agribusiness. Isto implica dizer que as nossas vantagens como terras abundantes. Cunha. CARDOZO.2009. Wedekin. se faz necessário a criação de políticas públicas urgentes voltadas à infra-estrutura do país. Os juros bem como as altas taxas de importação de aparatos agrícolas vêm. L. que discute com a iniciativa privada a reconstrução da malha logística do Brasil em todos os segmentos modais. O grande desafio do agronegócio no http://www. H. imensa disponibilidade de água doce e energia renovável e sua capacidade empresarial. DAVIS. o país precisa resolver problemas estruturais. pois somos competitivos em algumas cadeias produtivas e em outras não. contigencialmente não tem passado de engodo da velha política brasileira. ao Estado brasileiro promover a modernização de máquinas e equipamentos que dá suporte ao desenvolvimento da boa performance do campo. Acesso em: 09 jul. A. deve-se calcar na viabilidade produtiva. incremental e aplicação de políticas mais flexíveis e ágeis de crédito ao setor agrário..br>. 238p. entretanto. Acesso em: 09 jan. Cabe. de fato.2009.Cabe ainda lembrar que para o Brasil se tornar a grande potência mundial do agronegócio. Contudo.agronline. potencial de produção.gov. Se faz necessário ainda. BATALHA. C.. Boston: Harvard University. a articulação.com. Brasil. Referências ARAÚJO. 2001. Acesso em: 16 dez. Disponível em: < CONFEDERAÇÃO DA AGRICULTURA E PECUÁRIA DO BRASIL . São Paulo: Atlas. por exemplo.net/cursecon/ecolat/br/>.2009. 1957. Pinazza. Disponível em: < http://www. Alardear o potencial do agronegócio brasileiro é o que tem sido feito pelo poder público. Nas contingências atuais. fazendo do agronegócio o nosso maior negócio. Disponível em: <http://www. Agronegócio. Altamiro. o agronegócio brasileiro é persistente e.

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Vídeos Mapas Notícias Livros Tradutor Acadêmico Blogs Em tempo real e muito mais » Configurações .Docs | Fazer login Entre o tutorial e o participativo.doc Salvar no Google DocsEditar ArquivoVisualizar Visualizar Salvar no Google Docs Download Imprimir (PDF)ENTRE O TUTORIAL E O PARTICIPATIVO: A ABORDAGEM DE INTERVENÇÃO NA ESTRATÉGIA DE AÇÃO DO BANCO DO NORDESTE1 .

Maria Odete Alves2 Lucimar Leão Silveira3

RESUMO

Analisam-se os aspectos da abordagem de intervenção utilizada pelo Banco do Nordeste do Brasil S.A, ao implementar uma estratégia de apoio ao pequeno produtor rural nordestino, além dos efeitos de um programa específico de capacitação inserido na mesma estratégia (Projeto Banco do Nordeste/PNUD), no nível de participação de associados na gestão e nos processos decisórios das organizações associativas. Verifica-se a existência de um processo em que há delineamentos de duas abordagens distintas: a) uma primeira etapa, com base no estímulo ao associativismo, cuja ação é tipicamente tutorial b) uma segunda etapa, através de um programa de capacitação inserido na mesma estratégia, ocorrendo de forma simultânea e dirigido ao mesmo público, contemplando uma ação ativa dos grupos para os quais se dirige, com características da intervenção participativa. Há um avanço na consciência dos sócios submetidos ao processo de capacitação, quando assumem que a participação não se refere apenas à qualidade de membro do grupo, mas significa tomar parte ativa nas decisões, planejar e executar determinada ação. Apesar dos avanços, a participação ainda se apresenta em nível micro, pois não se percebe uma intervenção dos indivíduos no sentido de modificar a sociedade.

Termos para indexação - estratégias de intervenção, intervenção pública, desenvolvimento rural,

participação.

Artigo apresentado no XXXVI Congresso da Sociedade Brasileira de Economia e Sociologia Rural, Poços de Caldas, 1998. Enga Agrônoma, pesquisadora do BNB/ETENE e mestranda em Administração Rural e Desenvolvimento pela Universidade Federal de Lavras (UFLA), CP 37, CEP 37.200-000 - Lavras - MG. 3 MS pela UFMG, professor do Departamento Educação da Universidade Federal de Lavras (UFLA), CP 37, CEP 37.200-000 - Lavras - MG.

1

1. A PARTICIPAÇÃO POPULAR NOS PROJETOS GOVERNAMENTAIS

As propostas de participação do povo em projetos governamentais surgiram após a Segunda Guerra

Mundial, inseridas numa proposta de Desenvolvimento de Comunidade (DC), cujo objetivo

institucionalizado pela Organização das Nações Unidas (ONU) seria solucionar problemas de integração de

esforços da população a planos regionais e nacionais de desenvolvimento econômico e social.

Estudo realizado por Ammann (1987) acerca do DC dá conta de que sua proposta, na prática,

consistia na implementação de programa de assistência técnica e social nos países subdesenvolvidos,

sobretudo da América Latina.

As primeiras propostas de DC no Brasil surgem no final dos anos 40. O apoio oficial se dá no

sentido de incrementar a produção de alimentos e a educação rural e industrial, reproduzindo o modelo

americano de extensão rural. Apesar de proclamar a participação popular como ingrediente necessário ao

processo de desenvolvimento nacional, o DC apresenta o conceito de participação de forma muito vaga e,

na prática, se afirma como instrumento do Estado para favorecer o consentimento espontâneo das classes

subordinadas às estratégias por ele definidas (Ammann, 1987).

Este método de intervenção passou a sofrer severas críticas, principalmente a partir da década de 70,

devido aos fracassos acumulados em termos de resposta aos problemas de exclusão social. Nesse período

surgiram abordagens alternativas, tendo como fundamento a participação consciente do povo no seu próprio

desenvolvimento e a prática da educação (Alencar, 1990). Esta outra visão de desenvolvimento sugere

mudanças no eixo do planejamento, desde as altas esferas de decisão até a localidade onde os agentes do

meio podem envolver-se plenamente nas decisões de sua comunidade.

Nos últimos anos, embora de forma tímida, algumas agências estatais têm caminhando no sentido dessa outra visão de desenvolvimento, a exemplo do Banco do Nordeste, que desde o início dos anos 90 vem promovendo algumas mudanças no processo de intervenção. A proposta deste trabalho surge, então, do interesse em fazer uma análise desse novo processo de intervenção, bem como verificar alguns dos seus efeitos na prática. A análise realizada apóia-se nos trabalhos de Oakley (1980) e Alencar (1990), que tratam das abordagens de intervenção convencional e educação participativa, e naqueles desenvolvidos por Ammann (1987), Bordenave (1987) e Demo (1993),

que fundamentam o conceito de participação.

2. A INTERVENÇÃO DO BANCO DO NORDESTE DO BRASIL (BNB)

O BNB é um órgão auxiliar para gestão e execução de políticas de crédito do Governo Federal.

Criado em 1952, tem a missão de contribuir para o desenvolvimento sustentável do Nordeste do Brasil,

promover a integração econômica regional com a economia brasileira e internacional e redução das

desigualdades regionais (Banco do Nordeste, 1993). A partir de 1967 torna-se o principal repassador de

recursos do Banco Central (BC) para a região Nordeste (Gondim et al., 1991).

Em 1991 Gondim et al. propõem ao Banco do Nordeste uma estratégia de apoio ao pequeno produtor

é formado pela alocação de 1. 1993). os recursos do FNE4. dentre as quais. FNE: Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste. alegando a falta de uma estratégia adequada para apoiar essa categoria de produtores. Implícita no documento se observa a preocupação principal em dar maior capilaridade ao crédito fornecido pela Instituição. o documento sugere algumas medidas. em que o associativismo é o instrumento para implementação. Criado pela Constituição de 1988.8% do total arrecadado do Imposto de Renda e do Imposto sobre Produtos Industrializados. acentuada a partir de 1990 com o início da operacionalização do referido Fundo. . em complemento ao suprimento creditício. O documento reconhece que os resultados da ação do Banco junto aos pequenos produtores rurais têm sido frustrantes. É atualmente a principal fonte de que dispõe a Instituição para financiar as atividades produtivas da Região (Banco do Nordeste. em particular. Assim. o desenvolvimento de um programa de capacitação técnica para os pequenos produtores rurais.rural da Região. nesse ano constata-se uma grande concentração do crédito em mãos de grandes produtores.

bem como aos papéis atribuídos aos agentes externos e ao público alvo. A comunidade é vista como um sistema social homogêneo. por ele denominada de convencional ou “tutorial” e a abordagem “educação participativa”. Na abordagem “tutorial” o agente externo é o responsável pelo diagnóstico da realidade e pelo estabelecimento de meios para solucionar os problemas detectados. Na abordagem “ educação participativa” o agente externo passa a ter um papel de educador: . A INTERVENÇÃO NO MEIO RURAL: O CONFRONTO ENTRE DUAS ABORDAGENS Com base em estudos publicados a partir da década de 70. Alencar (1990) estabelece um paralelo entre duas abordagens de intervenção no meio rural: aquela normalmente utilizada nas políticas tradicionais. enquanto os membros do grupo exercem um papel passivo. as estratégias de intervenção são lineares. As duas abordagens apresentam diferenças metodológicas fundamentais no que diz respeito à unidade social para a qual se dirige a ação.2 3. ou seja.

p. pelo estabelecimento de meios para solucioná-los e pela avaliação das ações executadas. A partir dos resultados da avaliação o próprio grupo assume a responsabilidade de buscar novas ações. 1980. Nessa abordagem a comunidade deixa de ter estrutura homogênea.identifica os grupos com interesses comuns. que requer tratamento diferenciado. promove a organização inicial dos grupos identificados e orienta a identificação dos problemas. Os membros do grupo responsabilizam-se pelo diagnóstico da realidade. fundamentada em Paulo Freire. para quem a conscientização não significa simplesmente a tomada de consciência da realidade ou “estar frente à realidade”.26). . sendo vista então como um grupo internamente diferenciado. O processo de educação utilizado na abordagem “educação participativa” é fundamentado na conscientização. pois “Implica que os homens assumem o papel de sujeitos que fazem e refazem o mundo” e só existe quando há o ato “ação-reflexão-ação” (Freire.

na tomada de decisões. à capacidade dos indivíduos para analisá- los.desenvolvimento da consciência da realidade por parte dos 3 indivíduos e dos grupos. por parte dos membros do grupo. o que contribui para o aumento do seu poder de barganha. 3) organização . e conduz à identificação de problemas. 5) articulação - estabelecimento. 4) solidariedade predisposição dos indivíduos em cooperar dentro do grupo. de curso de ações para lidar com os problemas com os quais se defrontam. planejamento e execução de ações para solucioná-los.estruturação do grupo e controle que os membros do grupo possuem sobre sua organização ou estrutura. desenvolvendo ações que visem à solução dos problemas. 4.Oakley (1980) identificou no processo de “educação participativa” cinco subprocessos fundamentais e interrelacionados: 1) faculdade crítica . PARTICIPAR É CONTRIBUIR PARA A CONSTRUÇÃO DA SOCIEDADE . 2) participação envolvimento ativo dos indivíduos na identificação dos problemas e de suas causas. identificando as possíveis causas e propondo soluções.

no entender de Ammann (1978) e Bordenave (1987). 1987). Isto é. A pessoa. A participação é uma habilidade que se aprende e se aperfeiçoa. a dinâmica da participação será diferente.O entendimento da intervenção na perspectiva de educação participativa requer algumas considerações sobre a natureza e o conteúdo do processo participativo. não nasce sabendo participar. as diversas forças e operações que constituem a dinâmica da participação devem ser apreendidas e dominadas pelas pessoas. a fazer valer seus direitos e a lutar pela transformação da estrutura social. ocorre quando há a intervenção das pessoas nos processos dinâmicos que constituem ou modificam a sociedade. . A participação é concebida como uma necessidade básica. Em cada nível e em cada caso. A macroparticipação ou participação social. no entanto. É através dela que uma comunidade é estimulada a buscar seu próprio espaço. O que quer dizer que existe uma diferença entre as dinâmicas da microparticipação em grupos primários e associativos e da macroparticipação na luta social e política de grandes massas (Bordenave.

o processo de construção de uma sociedade participativa se inicia na aprendizagem do dia-a-dia na família. em constante vir-a-ser. Bordenave (1987) classifica a participação em cinco tipos: participação de fato (é o primeiro tipo de participação do indivíduo).. participação espontânea (no grupo de amigos. Neste sentido. participação imposta (quando o indivíduo é obrigado a fazer parte do grupo e exercer certas atividades consideradas . na tentativa de defender interesses individuais ou coletivos mais imediatos.A participação social não é algo acabado... p. (. nem acabada.18): é um processo de conquista. Participação que se imagina completa. sempre se 4 fazendo. nisto mesmo começa a regredir”.) a participação é em essência autopromoção e existe enquanto conquista processual. infindável. um processo no sentido legítimo do termo: “. de vizinhos etc).. na comunidade etc. na escola. como coloca Demo (1993. Não existe participação suficiente.. na busca do próprio espaço de participação.

Na medida em que . Contudo. Este autor cita como um exemplo típico de participação concedida o “planejamento participativo” implantado por alguns organismos oficiais. as paróquias. de modo a criar uma “ilusão de participação” política e social. que objetiva manter a participação do indivíduo e dos grupos restrito a relações sociais primárias. participação voluntária (o grupo é criado pelos próprios participantes.indispensáveis). as cooperativas. como o local de trabalho. embora concedida. as associações profissionais etc. da capacidade de tomar decisões e de adquirir poder. mesmo o planejamento participativo tem seu lado positivo. de crescimento da consciência crítica. que decidem sobre a organização. a vizinhança. encerra em si mesma uma contradição e um potencial de conhecimento da realidade. Este faz parte da ideologia necessária para o exercício do projeto de direção-dominação. pois a participação. objetivos e métodos de trabalho) e participação concedida (a parte de poder ou de influência exercida pelos subordinados e considerada legítima por eles mesmos e seus superiores).

pois coloca em julgamento seu poder e privilégios. a estabelecer rodízio no poder. cujo fenômeno básico é o controle do poder. a dados de uma . pois através dela aprende-se a 5 eleger. poder-se considerar a participação como o exercício da democracia. 1993). para a análise do item 6. a deseleger.1. e assim por diante (Demo.se aproveitem as oportunidades de participação para tal crescimento. qualquer oportunidade de participação constitui um avanço e não retrocesso. e não para o aumento da dependência.2. não se deve perder de vista que a participação terá a constante oposição das classes dirigentes. Daí.. a desburocratizar. a estratégia de apoio ao pequeno produtor e o Projeto Banco do Nordeste/PNUD5. Entretanto. a exigir prestação de contas. recorreu-se a publicações e documentos do Banco do Nordeste que orientam o FNE. 5. a forçar os mandantes a servirem à comunidade. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS A coleta de informações foi dividida em duas partes distintas: para a análise realizada no item 6.

cooperativas de crédito e associações atendidas no âmbito do PROGER7.pesquisa do tipo Survey6. As organizações atendidas pelo Projeto Banco do Nordeste/PNUD. correspondiam a 9 cooperativas e 2 associações. cooperativas de irrigação. Nesta etapa utilizou-se o Experimento: tomaram-se os dados da pesquisa Survey e procedeu-se a um corte entre o grupo . Os produtores vinculados a tais organizações e atendidos pelo mesmo Programa perfaziam um total de 158. Portanto. cooperativas de eletrificação/telefonia rural. quando foram utilizados questionários estruturados específicos para cada categoria. além dos atributos: organizações atendidas pelo Projeto Banco do Nordeste/PNUD. Utilizou-se nessa pesquisa uma população selecionada através de amostragem probabilística estratificada. junto a 70 entidades (35 cooperativas e 35 associações) e 910 produtores rurais nordestinos associados dessas organizações. do total de entrevistados. 59 organizações (26 cooperativas e 33 associações) e 687 produtores não haviam recebido o apoio do Projeto até o momento da pesquisa. realizada entre dez/94 e nov/95.

tabulados e analisados os dados dos grupos 6.experimental. Em seguida foram segregados. Foram então selecionadas todas as variáveis relacionadas com a participação dos associados na gestão e no processo decisório da organização: 1) participação na organização social. A INTERVENÇÃO: DA ABORDAGEM AOS EFEITOS . 2) participação na PNUD: Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento 6 gestão administrativa. 3) participação na gestão econômico-financeira. 4) participação no uso de bens e prestação de serviços. (capacitados e não-capacitados). tomando-se por base os valores absolutos para posterior comparação. formado pelos não expostos ao processo (denominado de DEMAIS ou não-capacitados). representado pelas organizações e associados expostos ao processo de capacitação através do Projeto (aqui denominado de PNUD ou capacitados) e o grupo de controle ou testemunha.

para uma pequena participação no número de beneficiários (3.1%.7% e 22. a partir da necessidade da própria Instituição de promover uma melhor distribuição do crédito do FNE.3% e 64. ao passar a vigorar essa política.5% e 96.4%: 2. Enquanto isso. Assim. a partir do ano de 1992. até então concentrado na categoria dos grandes produtores.6%.8%.7%.1%. os pequenos produtores apesar de constituírem a maioria nos anos de 1990/92 (86. respectivamente). o crédito associativo passou a desfrutar de algumas vantagens comparativamente ao crédito direto8.1. 94. . do crédito do FNE.0% e 2. 20. respectivamente). respectivamente.3%.6%.6. dos recursos do FNE (Valente Junior et al. 1995). receberam no período apenas 38. A abordagem de intervenção na estratégia de ação do Banco do Nordeste A estratégia de apoio ao pequeno produtor foi elaborada pelo Banco do Nordeste. 45. respectivamente. 68. que receberam nos anos de 1990/92. A estratégia elaborada elegia o associativismo como o instrumento para dar maior capilaridade ao crédito fornecido pela Instituição.

7 Programa de Fomento à Geração de Emprego e Renda. pela data de constituição. bem como o crescimento do número de associados por organização. para servir de ponto de apoio para as ações daquela Instituição (Banco do Nordeste. uma Divisão de Cooperativismo (Divisão de apoio ao pequeno produtor e ao associativismo-COOPE). favoreceram sobremaneira o surgimento de novas cooperativas e associações de pequenos produtores rurais na Região. 7 mostra que. além de criarem condições de acesso ao crédito por parte dos pequenos produtores nordestinos. Órgão do Banco do Nordeste do Brasil responsável pelos estudos e pesquisas que dão suporte à formulação de políticas regionais. A nível de aparato administrativo foi criada. e 34% se . Relatório de pesquisa realizada entre 1995/96 para avaliação da Estratégia Banco de dados existente no ETENE . 8 Foi introduzida nos programas do FNE a concessão de subsídios adicionais a pequenos produtores que buscassem crédito via organização associativa e a cooperativas/associações que apresentassem planos integrados de desenvolvimento. no Departamento de Desenvolvimento Rural. 1993).As modificações promovidas nos programas do FNE.Escritório Técnico de Estudos Econômicos do Nordeste. 66% das organizações pesquisadas existiam antes de 1992.

1994). tendo absorvido 55.6%. 1993a). A implementação de ações de capacitação se deu a partir de 1993. 1995).constituíram após aquele ano. em sua grande maioria.4% dos recursos do Fundo (Valente Junior et al. quando foi criado o Projeto Banco do Nordeste/PNUD. A metodologia GESPAR. Constatou-se que as associações. 1997). busca desenvolver o caráter empresarial das . resultaram como condição prévia de acesso ao crédito (Giovenardi. Os pequenos produtores continuaram sendo a maioria em 1993/94 (94. “. respectivamente). a gerência e o controle dos seus empreendimentos (Banco do Nordeste. O Projeto adota a Metodologia GESPAR9.. Observou-se também que a partir de 1993 ocorreu uma reversão no processo de concentração do crédito.. segundo Zapata10. a organização. sistemática de capacitação junto a tais organizações.3% e 69. bem como aos dirigentes de tais organizações (Banco do Nordeste. sendo direcionado a pequenos produtores rurais nordestinos organizados em associações ou cooperativas..6% e 98. o projeto busca treiná-los para o planejamento. através de convênio com o PNUD.

treinamentos e monitoração (Goni. são realizadas oficinas de apoio à gestão.Organizações e o sentido de ‘pertencer’ dos sócios. sua priorização e sistematização”. Através de ação integrada e não capacita. mas facilita o Metodologia GESPAR: Gestão Participativa para o Desenvolvimento Empresarial. In: GONI (1995. . Para Goni (1995. na metodologia GESPAR o capacitador processo. Tânia. cuja conseqüência é o conhecimento que o indivíduo passa a ter da realidade e o comprometimento com as ações desenvolvidas.05). Apresentação. produção e comercialização. p. Para tal. preparada pela reflexão e pelo diálogo. cursos.27). p. Fundamenta-se na sensibilização. 1995). a instrumentalização do grupo: “É papel do capacitador facilitar o desabrochar das idéias. ZAPATA. instrumentalizando-os através do planejamento estratégico e da gestão participativa para que suas organizações tenham sustentabilidade no ambiente e assim contribuam para a melhoria da qualidade de vida das famílias”. seminários.

na direção. ter parte. 1995. p. nos quais estão inseridos projetos gerenciais e propostas de crédito (Banco do Nordeste. Ainda.8 No processo em que se busca envolver os produtores em todas as atividades. no controle”(Goni. 6.. Ser Parte no planejamento.16) os produtores exercem um papel ativo.. Segundo Goni (1993. 1993a). tomar parte. a partir deles. na organização. A participação dos associados nas organizações associativas: efeitos do Projeto Banco do Nordeste/PNUD . desenvolvidos planos integrados. são realizados diagnósticos dos empreendimentos e. tornando-se responsáveis pelo diagnóstico da realidade e pela busca de soluções para os problemas detectados: o próprio indivíduo vai “identificar e analisar os elementos relevantes no Sistema para estabelecer um Diagnóstico e abrir perspectivas de intervenção e mudança”. p. a metodologia postula que o envolvimento dos produtores nas atividades tem por base o entendimento da participação como sendo o ato de “fazer parte.2.7).

Participação do associado na organização social da Entidade A freqüência dos associados às atividades de sua Organização cresceu em ambos os grupos no ano de 1994. Freqüência dos sócios às atividades da organização associativa ATIVIDADE Assembléias Gerais Ordinárias Assembléias Gerais Extraordinárias Reuniões de Núcleos de Base Reuniões Seccionais FONTE: Banco de Dados BNB/ETENE 1990 . no grupo DEMAIS. 1995). A Assembléia Geral constitui-se na instância em que é exercido o poder dos associados na Organização.2. um crescimento bem mais expressivo no mesmo período (TABELA 1). Esse crescimento pode significar maior peso dos associados nas decisões a partir do voto. em relação a 1990. TABELA 1.6. em nível de igualdade (Valadares.1. se verifica. Embora a freqüência do grupo PNUD seja maior em todas as atividades no ano de 1994.

Vr. Absoluto 245 181 40 35 % 36 26 6 5 DEMAIS 1994 Vr. Absoluto 535 403 76 88 94/ 90 % .

% Absoluto 99 63 76 48 23 15 10 6 78 59 11 13 118 123 90 151 PNUD 1990 .% Vr.

Vr. Absoluto 33 104 36 13 1994 94/ 90 % % 84 66 23 8 34 37 57 30 9 Os associados do grupo PNUD utilizam-se em maior proporção que os DEMAIS. de todos os .

Absoluto 334 86 17 315 430 .veículos de comunicação disponíveis. TABELA 2. Veículos de comunicação utilizados pelo associado para se informar sobre as ocorrências relativas à sua organização associativa TIPOS Conversas informais Meios de comunicação social Meios de comunicação empresarial Visitas à Entidade Reuniões Outros Nenhum FONTE: Banco de Dados BNB/ETENE DEMAIS Vr. Em ambos os grupos a pesquisa revelou que é alto o número de associados que se preocupa em estar a par dos acontecimentos de sua Organização (TABELA 2).

5 % 56 17 12 54 60 12 .12 24 PNUD Vr. Absoluto 88 27 19 86 95 19 8 % 49 13 2 46 63 1.5 3.

5 Na tabela a seguir (TABELA 3). pela queda de 22% para 16. 1987). os dados correspondentes ao grupo PNUD são ilustrativos do desenvolvimento da “faculdade crítica” dos associados. do percentual de associados sem opinião formada ou que não responderam sobre a forma pela qual os dirigentes procuram envolvê-los nas decisões. Daí a resistência por parte dos dirigentes .5%. em relação ao grupo DEMAIS. Participação pressupõe abertura de oportunidades de conhecimento da realidade. é importante observar que o próprio título pressupõe a existência da participação “concedida” conforme prevista por Bordenave (1987). o que significa uma ameaça ao poder estabelecido dentro da organização (Bordenave.quanto a envolver os membros nas decisões. de crescimento da consciência crítica. na medida em que revelam o aumento da percepção que estes têm da realidade em que vivem. Mesmo assim. que pode refletir a ideologia necessária para o exercício do projeto de direção-dominação.segundo a percepção dos associados . o que justifica o fato do alto percentual de membros (45% dos “não capacitados” .

Conceito do associado sobre os dirigentes de sua organização associativa quanto ao envolvimento dos associados nas decisões CONCEITO Ótimo/Bom Regular/Ruim Não possui opinião formada/ Não responderam TOTAL FONTE: Banco de Dados BNB/ETENE DEMAIS Vr. Absoluto 225 312 150 687 % 33 45 . 10 TABELA 3.e 47% dos “capacitados”) atribuírem a tais dirigentes o conceito de regular a ruim.

5 100 6. quando 18% destes tomam parte do planejamento das áreas de capacitação e . quando se comparam os dados dos dois grupos.5 47 16. É perceptível a diferença entre ambos. Participação do associado na gestão administrativa da Entidade Observando-se a TABELA 4 é possível identificar alguns traços do que Oakley (1980) denominou de subprocessos da Educação Participativa.22 100 PNUD Vr. quanto à análise da realidade e identificação das possíveis causas dos problemas.2.2. Absoluto 57 74 27 158 % 36. a favor do grupo PNUD.

também é perceptível a vantagem do grupo “capacitados”. é insignificante a participação destes no planejamento de suas organizações associativas. No grupo PNUD é significativamente maior o número de associados que se preocupa com a forma como está sendo conduzido o planejamento dos diversos segmentos de sua Entidade. comercialização e aquisição de insumos. respectivamente. ao se verificar que grande número de associados pertencentes ao grupo DEMAIS (64%). Quanto ao envolvimento no planejamento das atividades como um todo. que despertam o interesse de 24%.5% de membros do grupo DEMAIS. aquisição de insumos e máquinas e implementos (47% cada) e comercialização (42%). 11 TABELA 4. Aí. Áreas de planejamento das organizações associativas em que ocorre participação do associado . contra apenas 3. o interesse é bem maior no que diz respeito à produção (49%). 18% e 17% dos associados. Com exceção das áreas de produção. não participa do planejamento da Entidade.assistência técnica da Organização.

técnica Propaganda e marketing Rec. Absoluto 164 124 118 91 58 44 25 1 5 33 .ÁREAS Produção Comercialização Aquisição de insumos Máquinas e implementos Armazenamento Benefic/industrialização Capacitação/assist. Humanos e materiais Definição de preços de revenda Não participa do planejamento FONTE: Banco de Dados BNB/ETENE DEMAIS Vr.

439 PNUD Vr.5 0.1 0.7 5 64 .5 3. Absoluto 78 67 74 74 26 11 29 1 8 31 1 % 24 18 17 13 8 6.

demonstração de consciência dessa necessidade . comparativamente à questão do planejamento (TABELA 4). no que diz . grande número de associados não participa das atividades de controle (78% entre os DEMAIS e 76% entre PNUD).uma situação inversa é visível quando o assunto é controle. Porém.% 49 42 47 47 16 7 18 0. Em ambos os grupos. pois ao mesmo tempo que existe uma grande preocupação com o planejamento das atividades da organização .5 5 20 0.5 Ocorre um retrocesso na questão do controle das atividades (TABELA 5). ainda é maior a participação dos associados do grupo PNUD. embora com índices aquém do esperado.

Assim. patronagem. os membros não assumem o seu controle de forma efetiva. indicativo de que existe certa dependência do grupo com relação aos líderes (no caso.respeito às atividades de controle realizadas pelas organizações associativas (TABELA 5). Por outro lado. apesar de tomar parte do planejamento das atividades da Organização. Situações desta ordem. partindo-se do pressuposto de que as atividades de controle dão certo nível de poder aos associados e. pode-se sugerir que existam resistências por parte dos dirigentes no sentido de envolver os sócios nas atividades de controle da Organização. os dirigentes). clientelismo ou outros traços comuns na intervenção tutorial. levando-se em conta os dados constantes da TABELA 3 (47% dos componentes do grupo PNUD consideram os dirigentes de suas organizações de Regulares a Ruins quanto à preocupação em envolvê-los nas atividades). na opinião de Oakley (1980) são propícias ao surgimento de 12 .

TABELA 5. Absoluto 75 63 87 36 35 533 % 11 9 13 5 5 . Participação do associado nas atividades de controle da sua organização associativa TIPOS Custos Estoques Preços Qualidade dos produtos Qualidade dos serviços Não participa das atividades FONTE: Banco de Dados BNB/ETENE DEMAIS Vr.

Isso é uma demonstração de que é bem maior no primeiro grupo o nível de .2% (TABELA 6). Absoluto 33 3 34 15 10 120 % 21 2 21 9 6 76 6. Participação do associado na gestão econômico-financeira da Entidade Verifica-se que enquanto no grupo PNUD 16.78 PNUD Vr.3.5% dos associados não possui opinião formada sobre o nível de transparência das informações contábeis de sua Entidade. no grupo DEMAIS esse percentual chega a 45.2.

Verifica-se também que é quase o dobro no grupo PNUD (44%). o percentual dos que atribuem um conceito de Regular a Ruim ao nível de transparência das informações contábeis fornecidas pelos dirigentes de suas organizações associativas. demonstrando maior nível de consciência crítica desenvolvido no primeiro grupo em relação ao segundo.envolvimento dos sócios nesse tipo de atividade da Organização.6%). Conceito do associado a respeito de seus dirigentes/organização associativa quanto ao nível de transparência nas informações contábeis CONCEITO Ótimo/Bom Regular/Ruim Não possui opinião formada Não respondeu Total FONTE: Banco de Dados BNB/ETENE GRUPOS DE ASSOCIADOS DEMAIS PNUD . TABELA 6. com relação aos DEMAIS (21.

Absoluto 206 30 63 148 21.Vr.5 44 16.2 26 22 3. Absoluto % Vr.2 687 100 158 % 39.5 100 Apesar de ser elevado o nível de freqüência dos sócios nas assembléias. em ambos os grupos .6 69 311 45.

No grupo PNUD todos os associados entrevistados responderam quando questionados. No grupo PNUD 44% dos associados atribuiu aos dirigentes de suas organizações conceito de Regular a Ruim quanto ao nível de transparência nas informações contábeis.(TABELA 1).5%). além dos 3% que se recusou a tratar do assunto. o que corresponde ao dobro do percentual daqueles pertencentes ao grupo DEMAIS que atribuíram o mesmo conceito (22. 13 Os dados da TABELA 7 revelam que é bem maior no grupo DEMAIS o percentual dos associados que sequer possui opinião formada sobre a ocorrência de prestação de contas/balanço de sua organização associativa (39. e apenas 13% se mostrou desinformado sobre a matéria.9%). além de demonstrarem uma maior percepção da realidade por parte dos componentes do grupo . Estes dados. percebe-se que há um percentual bem maior de associados no grupo PNUD que efetivamente está a par do que acontece na Entidade e se preocupa com o controle do seu destino.

de que há uma resistência dos dirigentes quanto a colocar os sócios a par dos acontecimentos da organização. Absoluto 238 157 271 21 687 . significa também um reforço do que vem sendo identificado nos dados das tabelas analisadas anteriormente. Conceito do associado a respeito de seus dirigentes/organização associativa quanto à prestação de contas/balanço CONCEITO Ótimo/Bom Regular/Ruim Não possui opinião formada Não respondeu Total FONTE: Banco de Dados BNB/ETENE GRUPOS DE ASSOCIADOS DEMAIS Vr. TABELA 7.PNUD.

5 3 100 % 43 44 13 100 6.PNUD Vr.2. Absoluto 68 69 21 158 % 34. Participação do associado no uso de bens e prestação de serviços da Entidade A TABELA 8 apresenta o resultado da pesquisa quanto ao número de entidades que disponibiliza .4.6 22.9 39.

No mínimo. deveria haver uma preocupação por parte de tais dirigentes em ofertar os mesmos serviços aos seus associados. é inferior ao do grupo DEMAIS (12%). Verifica-se que é maior o percentual de entidades do grupo PNUD que oferece os serviços mencionados. Este dado é estranho. conforme revelam os dados da TABELA 4. Os dados deixam transparecer traços do que sugere Bordenave (1987) a respeito do jogo do poder: capacitar os membros do grupo . exceto no que diz respeito à capacitação técnica gerencial. aos seus associados. bem como de capacitação técnica gerencial e tecnológica. Ademais. os associados do grupo PNUD demonstram certo interesse em participar do planejamento das áreas de capacitação e assistência técnica da Entidade.serviços aos associados nas áreas de assistência técnica gerencial e agronômica. cujo percentual (9%). 14 considerando-se que a prioridade do Projeto Banco do Nordeste/PNUD está na capacitação técnica gerencial dos dirigentes das organizações associativas.

Absoluto 2 7 1 2 . Alguns serviços prestados pelas organizações aos seus associados Assist.significa abrir para questionamentos destes sobre as decisões para dentro e para fora da organização. técnica gerencial Assist. TABELA 8. técnica agronômica Capacitação técnica gerencial Capacitação tecnológica FONTE: Banco de Dados BNB/ETENE SERVIÇOS DEMAIS Vr. Absoluto 3 16 7 5 PNUD Vr. que por sua vez geram conflito e fragilização do poder estabelecido.

que se apresenta inserido na mesma estratégia. cuja ação se dá de forma tipicamente tutorial. pelo menos no discurso contempla uma ação ativa dos grupos para os quais se dirige.. e dirigido ao mesmo público. com características da intervenção participativa. delineamentos das duas abordagens descritas por Alencar (1990): 1) o estímulo ao associativismo. . 2) o programa de capacitação.% 5 27 12 8 % 18 64 9 18 CONSIDERAÇÕES FINAIS Percebe-se de forma clara a existência de um processo em que aparecem na estratégia de intervenção da instituição em questão.

mas também do número de associados por organização. além de ter contribuído para o aumento da freqüência às assembléias realizadas em tais organizações. A primeira constatação é que a intervenção tutorial de estímulo ao associativismo via concessão de crédito associativo provocou não apenas o crescimento do número de organizações associativas no Nordeste. 15 A análise tentou aprofundar esta questão. encontra um grupo de indivíduos vivenciando uma experiência que se poderia denominar de “deseducação”. porém. exercendo um papel passivo num processo cuja tendência é de reforço dos traços de dependência. não são suficientes para responder a questões do tipo: os associados estariam exercendo o controle democrático da organização? Estariam as assembléias funcionando como instância do exercício do poder do associado. buscando descobrir até que ponto a estratégia atinge os objetivos propostos. Tais resultados.O processo de capacitação. iniciado em fase posterior ao estímulo do associativismo. .

Os dados revelam. . em grande parte. porém. com o objetivo principal de acesso ao crédito. balanços etc? Maior número de votos em assembléias pode não significar necessariamente maior peso dos associados nas decisões. que o crescimento se deu.ou como meros instrumentos formais para a obtenção de financiamento. principalmente quando se sabe. Deve-se admitir que o voto. quando assumem que a participação não se refere apenas à qualidade de membro do grupo. conforme revelam os dados. planejar e executar uma ação. da “participação”. limitado. identificados por Oakley (1980). Percebe-se algum avanço na consciência dos sócios submetidos ao processo de capacitação. Não é percebido claramente o desenvolvimento nos membros do grupo PNUD da “faculdade crítica”. pois o processo não ocorre de forma integral. Participar significa tomar parte ativa nas decisões. da “solidariedade” e da “articulação”. da “organização”. pois nada impede que seja passivo. como alertado por Demo (1993) tem controle relativo. aprovação de relatórios.

como sugerem Ammann (1987) e Bordenave (1987). ou seja. Por outro lado. pois à medida que estes adquirem o conhecimento da realidade e a consciência crítica. pois não se percebe uma intervenção dos indivíduos no sentido de modificar a sociedade. conforme 16 A participação ainda se apresenta em nível micro. . transparece a resistência dos dirigentes de tais organizações quanto ao envolvimento dos sócios nas atividades. ou controle por parte destes sobre a Organização. há uma ameaça ao poder estabelecido dentro da Organização. as atitudes deixam transparecer que ainda não há uma estruturação do grupo. Entretanto.a participação social . o que deveria ocorrer para que se efetivasse a participação no sentido macro . Em outros momentos.um avanço neste sentido. nas decisões. em alguns momentos se percebe a existência de envolvimento ativo dos sócios nas tomadas de decisão dentro da sua organização associativa e na cobrança de ações por parte dos dirigentes. porém.

BANCO DO NORDESTE. n.2. p. Fortaleza. Fortaleza. Impactos das aplicações. Informações Básicas sobre o FNE. pois se verifica que os sócios das organizações buscam agora um espaço nas decisões.Fundo constitucional de financiamento do Nordeste.tendo-se em mente o que coloca Demo (1993) que a participação é um processo de conquista. 1993a. ____________________. AMMANN. a partir de uma consciência crítica da realidade. BIBLIOGRAFIA ALENCAR. FNE . 1994. B. 1990. Projeto BNB/PNUD. ____________________. na tentativa de defesa dos assuntos que lhes interessam. pode-se considerar que o processo de capacitação contribuiu no sentido dessa construção. Exercício de 1993. S.23-43. v. Jan. E. 1993. São Paulo: Cortez. que vai sendo construído e nunca se completa.1. 1987. Ideologia do desenvolvimento de comunidade no Brasil. Lavras-MG./jun. Administração Rural. Fortaleza. .

N. São Paulo: Cortez. S. Conscientização. P. n. O que é participação. Cadernos de 17 OAKLEY. Brazil. D. E. 188p. 1987. S. A. T. p. Recife: 1995. Intervenção tutorial ou participativa: dois enfoques da extensão rural. Fortaleza: Banco do Nordeste. 1980. 1991 (mimeo). O que é a Metodologia GESPAR? PROJETO BNB/PNUD. H. FREIRE. 102p. DEMO. Participação é conquista. 1993.15. GONI. H. J. v. (Coord. P. 1980. Lavras: . Avaliação da estratégia de ação do Banco do Nordeste do Brasil em apoio ao pequeno produtor nordestino.. E. Oxford. Participação e poder: o comitê educativo na cooperativa agropecuária. GIOVENARDI. SOUZA. Uma estratégia de apoio aos pequenos produtores rurais do Nordeste. 84p.). J. P.10-22. VALADARES. P. P. São Paulo: Brasiliense. 176p. E.BORDENAVE. Participation in development in N. São Paulo: Moraes. J. M. 1997. Community Development journal. Fortaleza: BNB. GONDIM. G. COSTA. de.1.

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