A “vocação atual” da sociologia rural

Para uma abordagem das questões atuais que se colocam à sociologia rural - o verdadeiro objetivo deste texto1[1] -, é indispensável introduzir um quadro geral que esclareça a respeito da possibilidade de formulação dessas questões e mostre o sentido que é preciso trabalhar a fim de respondê-las. Este texto está organizado em torno de três eixos: um posicionamento da sociologia rural em relação à sociologia geral, que é o seu pressuposto absoluto; um posicionamento da sociologia rural diante das outras ciências sociais que estudam o mundo ou o espaço rural, o que se justifica pelas trocas importantes que ela tem com as mesmas - e, inversamente, as relações que as ciências sociais mantêm com a disciplina -; e uma reflexão sobre a curta história da sociologia rural, um preâmbulo indispensável para uma reflexão sobre sua presente situação e sobre o modo de perceber suas tarefas atuais e futuras. Três referências básicas A sociologia rural: aplicação da sociologia geral2[2] A sociologia rural - antes de tudo, trata-se aqui da sociologia rural francesa, podendo, contudo, o que será dito ser generalizável - jamais reivindicou o estatuto (absurdo) de disciplina única, à parte.3[3] Uma tal afirmação pareceria evidente. Em compensação, as conseqüências que necessariamente devem ser tiradas disto, são menos freqüentemente (para não dizer jamais) mencionadas e não são objeto da atenção que se impõe, se se pretende ver a sociologia rural como sociologia: se a sociologia rural, antes de tudo, é sociologia, ela pura e simplesmente se integra nas evoluções gerais - temáticas, metodológicas, teóricas - da sociologia. Isto, aliás, é patente, se se considera a sua própria história: é assim que ela, cada vez mais - ou simultaneamente - foi durkheimiana, funcionalista, culturalista, marxista, estruturalista, weberiana etc. Não existe, portanto, “escola” de sociologia rural, mas, através da sociologia rural, há análises de inspirações teóricas diversas que propõem diferentes maneiras de integrar as dimensões sociológicas da atividade agrícola e do mundo rural em uma análise de conjunto da sociedade francesa e, mais largamente, das “sociedades industriais”. (Henri Mendras propôs inclusive uma teoria geral válida para todas as sociedades). Desta proposição - que também é uma constatação - decorre toda uma série de indagações: como a sociologia rural seguiu estas evoluções? Ela simplesmente as seguiu ou, a seu modo, contribuiu para provocá-las? Uma resposta suporia uma análise mais detalhada, o que não será feita aqui, porque isto exigiria uma pesquisa específica.

1[1] O leitor já deve ter percebido a referência implícita ao título da obra de Georges Gurvitch (1950).
Contudo, devemos esclarecer aqui que ela não é propriamente uma obra de sociologia rural.

2[2] Precisemos bem: dizer que a sociologia rural é uma “aplicação” da sociologia geral não quer
dizer que a sociologia rural seja uma “ciência aplicada” (como foi algumas vezes afirmado). Quer-se dizer que a sociologia rural é um “ramo” da sociologia geral, tão fundamental quanto esta.

3[3] É interessante a este propósito consultar os primeiros escritos referentes à sociologia rural do
pós-guerra. Uma rápida pesquisa neste sentido conduz a resultados um pouco surpreendentes: o primeiro indício que encontrei de um curso de “sociologia rural” faz pensar que foi o Instituto de Estudos Políticos de Paris quem teve o papel pioneiro na matéria! Outras surpresas: este curso foi inicialmente confiado a dois geógrafos (em 1948-1949), em seguida a Jean Stoetzel (1951-1952), antes de ser atribuído a Henri Mendras. As apostilas dos cursos de Jean Stoetzel e Henri Mendras (cf. particularmente a apostila de 1963-1964), assim como a do curso dado por Henri Mendras no IHEDREA (s/d), começam sempre por uma precisão muito fundamentada referente à vinculação da sociologia rural à sociologia geral: Jean Stoetzel, Sociologie rurale, 1951-52 (curso ministrado no Instituto de Estudos Políticos de Paris, 304 p. datil.; Henri Mendras, Sociologie rurale, Paris. Os cursos de Direito, 1956-1957, 3 fascículos, 282 p. mimeo.; Henri Mendras, Sociologie rurale, Paris, Institut d’Études Politiques de Paris, Amicale des Éleves, 1963-1964, 216 p. mimeo.; Henri Mendras, Sociologie rurale, Paris, IEP de Paris, Amicale des Éleves, 1967-1968, 3 fascículos, 295 p. mimeo.; Henri Mendras, Sociologie de la campagne française, Que sais-je? n. 842, Paris, Presses universitaires de France, 1959 (reedição 1965), 128 p.; Henri Mendras, Sociologie rurale: notions générales et sociologie du changement, Institut des hautes études de droit rural et d’économie agricole (IHEDREA), s/d, 59p, mimeo.

Sociologia rural e ciências sociais da ruralidade: uma escola ruralista? Uma vez feitas as referências aos fundadores, pode-se continuar discutindo este tema que parece ser realmente central para a sociologia rural. Eis, por exemplo, o que escreveu Henri Mendras em 1958: “O ‘meio’ rural é um campo de investigação para todas as ciências sociais e seu estudo não poderia constituir uma disciplina autônoma. Os geógrafos que analisam as relações entre o homem e o meio natural e a distribuição espacial dos fenômenos humanos começaram naturalmente a se debruçar sobre o campo. A economia rural é um ramo (um dos mais antigos) da economia política. Ligando-se a um passado em que a agricultura era a atividade exercida pela maioria dos homens, a história social dá um grande destaque à descrição da vida camponesa. Os etnólogos estudam as estruturas ditas ‘arcaicas’ nas quais a busca ou a produção de alimentos ocupam todos os homens. Enfim, citadinos e rurais interessam igualmente ao psicólogo, ao demógrafo, etc. Enquanto homens iguais aos outros, os rurais também dizem respeito a cada ciência social. Entretanto, eles vivem em um meio particular que requer uma certa especialização do pesquisador e, às vezes, uma problemática diferente. Como o etnógrafo, o sociólogo rural deve, portanto, conhecer os métodos e as técnicas de todas as outras ciências sociais, a não ser que conte com a colaboração de uma equipe de diversos especialistas.” Encontra-se aqui uma profissão de fé que remete ao que se chama a interdisciplinaridade dos “ruralistas”.4[4] A démarche do “ruralista” ambiciona integrar todas as dimensões do social, o tempo, o espaço, o local e o global. Trata-se de uma démarche que se qualificaria hoje de holística (ou holista). Do ponto de vista sociológico stricto sensu, esta démarche se caracteriza também pela sua “transversalidade”. Isto aparece, por exemplo, particularmente nos planos das obras gerais de sociologia rural: por um desvio de alguma forma paradoxal, a sociologia rural, em princípio “especialidade” da sociologia, aparece de fato como uma sociologia “generalista” em si. O sociólogo rural se interessa por todo um conjunto de aspectos da vida social que é dividido, por sua vez, em várias “especialidades” da sociologia - sociologia política, sociologia da família, sociologia das religiões etc. Portanto, é pelo seu “objeto” - seria melhor falar de “campo de aplicação” - e não por uma “teoria” ou uma “escola de pensamento” particular, que a sociologia rural se define. Deste ponto de vista, podese bem seguir Michel Robert (1986: 5-6) quando ele escreve: “Com suas duas correntes bem nítidas, a sociologia rural se definirá, portanto, mais pelo seu campo de ação do que por uma coloração teórica original. Nisto, pode-se compará-la à sociologia urbana na qual se pensa imediatamente, embora a sociologia rural não seja sua antítese. Estas duas disciplinas não são construídas uma em relação à outra, nem a fortiori, uma contra a outra. Tendo dividido entre si o espaço e seus habitantes, elas seguem cada uma a sua rota teórica sem mesmo ter sempre relações elementares que seriam desejáveis”. É o que diz também Henri Mendras, escrevendo no Traité de Sociologie de Georges Gurvitch: “Se não se limita a uma sociologia agrícola especializada, a sociologia rural se define, portanto, pelo seu campo de estudo, as sociedades rurais” (Mendras, 1958: 316). É desta proposição que decorre uma interdisciplinaridade que “exige (pois) o concurso de todas as ciências sociais para chegar a uma integração dos diversos aspectos da vida rural. Nesta perspectiva, o sociólogo rural atribui a si mesmo uma dupla tarefa, por um lado, estudar os aspectos da sociedade que dizem respeito a sua ou a suas especialidades, e, por outro lado, reinterpretar e integrar, desde seu ponto de vista, os materiais que os pesquisadores de outras disciplinas lhe oferecem” (Mendras, 1958). Henri Mendras imediatamente acrescenta uma precisão que muda uma leitura à primeira vista estritamente “objetiva” da afirmação (no sentido de constitutiva de um “objeto” de uma certa forma “físico”): “Esta definição compreensiva parece-nos impor-se nos países de campesinato tradicional, notadamente na França. A sociedade rural conserva aí uma certa autonomia diante da sociedade global e é impossível reduzi-la a um grupo profissional, a um setor econômico ou a uma classe social, entre outros” (Mendras, 1958). Segundo ele, a justificativa da sociologia rural repousa, assim, no postulado - que poderia também ser tratado como uma hipótese - da existência, “nos países que têm um campesinato tradicional”, de uma “sociedade rural” (?) que “conserva uma certa autonomia face à sociedade global”. Assim definido esta é a definição de Henri Mendras, mas que pesou fortemente na sociologia rural durante pelo

4[4] Esta interdisciplinaridade está, por exemplo, na própria base da filosofia e da ação da Associação
dos Ruralistas Franceses.

menos 20 anos - o objetivo da sociologia rural é, de uma certa forma, demonstrar a validade desta proposição (desta hipótese, poderíamos dizer). Daí, a ênfase posta progressivamente na “mudança social” que deslocará as “sociedades rurais” de seu estatuto de “autonomia relativa” - o das sociedades camponesas - à sua integração total à sociedade global - através da passagem dos “camponeses” à condição de “agricultores”, estes últimos cada vez mais vistos como “um grupo profissional... um setor econômico ou... uma classe social, entre outros”. Uma hipótese forte cimenta as análises especificamente sociológicas de temas precisos do mundo rural: a de que existem laços estreitos entre os diferentes aspectos da vida social que leva a que estes aspectos sejam do domínio de diferentes áreas da sociologia ou de outras ciências sociais - a economia, a geografia, a etnologia, e a história, evidentemente - e a se reconhecer que é preciso, portanto, tratar de considerar todos estes aspectos conjuntamente como condição para compreender as evoluções do mundo rural e lhes dar uma interpretação verdadeiramente sociológica. Daí a busca constante da transversalidade no seio da sociologia e da interdisciplinaridade com as outras ciências sociais dedicadas ao tema. Daí, também o risco que os sociólogos rurais correm de parecerem fechados - juntamente com os outros “ruralistas” - limitados ao estudo do mundo rural “específico” e “fechado”. De fato, uma análise detalhada dos trabalhos dos sociólogos rurais mostraria que não se trata disto e que a preocupação de situar as evoluções do mundo rural no interior das evoluções da sociedade global é constante e sistemática. Deve-se sublinhar que esta dupla preocupação já é uma característica forte da sociologia rural, mantendo ao mesmo tempo suas preocupações com uma coerência de uma certa forma “interna” ao “mundo rural” (a expressão assume aqui todo o seu sentido) e com a integração deste conjunto a uma lógica global (uma coerência, de uma certa forma “externa”) de uma sociedade dita “englobante” para marcar esta “exterioridade atuante”. Pode-se dizer que esta é uma proposição e uma “postura” sociológicas de caráter geral e básico (que exigiria, diga-se de passagem, um exame aprofundado): ao mesmo tempo um exercício difícil de se fazer, uma espécie de desafio difícil de se manter. Mas, afinal de contas, não é o que torna interessante e mesmo justifica uma démarche de sociologia aplicada a qualquer uma das malhas, elementos ou aspectos da vida social? Em suma, não é essa uma das exigências fundamentais da análise sociológica e, portanto, do próprio trabalho do sociólogo? Sociologia rural e sociedade: dentro e fora Uma análise mais atenta da história da sociologia rural mostraria sem dificuldade o quanto esta história está ligada, através de suas temáticas - e talvez precisamente através da própria orientação de suas análises - às questões que são colocadas (às vezes, inclusive nos termos em que são postas) a respeito do mundo rural, da agricultura e dos agricultores na própria sociedade francesa. Não me parece esquematizar excessivamente se disséssemos que cinco e principais temas organizaram ao longo do tempo o questionamento que sociólogos rurais constantemente se têm feito através de ponderações variáveis e de enunciados igualmente diversos, se comparados os momentos em que são apresentados. O primeiro deles diz respeito às relações - e mais precisamente, na linguagem da época, à oposição cidade-campo. Este velho tema, que reaparece com mais força desde o final da guerra, tem um lado “acadêmico”: ele remete a antigas reflexões dos geógrafos e dos historiadores. Mas a forma como é retomada no pós-guerra corresponde muito diretamente a preocupações sociopolíticas maiores. Tratava-se então de lançar a França a uma política de reconstrução, industrialização e modernização e a questão que se punha era a de saber se esta componente essencial da sociedade que são os campos - entendamos “agrícolas” - na França dos anos 1950 será capaz de se adaptar às mudanças indispensáveis. Para a cidade, “civilização de conquista”, como Braudel a caracterizará mais tarde, a questão não se coloca: apenas se põe a questão de saber o que vai acontecer com elas em uma fase de crescimento rápido - o que será a questão central e “organizadora” da sociologia urbana. Está-se, assim, em um campo sócio-político e a sociologia rural vai tomar para si, sob diferentes formas, as questões decorrentes. Estas questões ressurgem periodicamente durante todo este meio século, com as formulações que evoluem em função das mutações sociais, econômicas, demográficas, etc. Algumas noções servem de referência nesta interrogação permanente da sociedade francesa sobre si mesma: desertificação (dos campos), rurbanização, terras não cultivadas, uniformização (dos modos de vida), morte (ou renascimento) do rural, etc. A sociologia rural - mas as outras ciências sociais igualmente o são - é constantemente interpelada pelo que se poderia chamar o “discurso social” sobre o rural. Ela também tenta dar as suas respostas.

Se nos fixarmos na cronologia, parece-me que o segundo tema a evocar é o das transformações da agricultura, não só do estabelecimento agrícola, e do trabalho do agricultor, mas também - tendo em vista o estreito laço entre o estabelecimento e a família - a transformação da família agrícola. Trata-se aqui do domínio da política agrícola que ocupa um lugar crescente na vida política a partir dos anos 50 até hoje. Tendo experimentado uma considerável “modernização”, sob o impacto de um movimento social poderoso e dinâmico na Quinta República - já em curso na Quarta, mas uma das grandes construções daquela - a agricultura ocupa um lugar de destaque na vida social - e sobretudo política - nesse período. Uma tal voragem sociológica era, evidentemente, um estímulo para os sociólogos rurais, a tal ponto de a sociologia rural ser considerada, com justiça, como tendo sido largamente infiel a sua vocação para se reduzir a uma sociologia dos agricultores (Robert, 1986). O terceiro tema, que já aparece no primeiro e prossegue no segundo, é o do lugar que os camponeses, e depois, os agricultores, ocupam na sociedade francesa e, mais particularmente, na estrutura e na vida política do país. Esta questão não é apenas o pano de fundo das transformações em curso, tanto nas relações entre a agricultura e a economia nacional, quanto nas relações entre cidade e campo: ela é claramente colocada pelos líderes do movimento social dos “jovens agricultores” (Debatisse, 1963; Lambert: 1970) e por aqueles que se poderia chamar de seus “intelectuais orgânicos” (Faure: 1966). Esse tema constitui, como já se viu, um dos capítulos inevitáveis - e, por assim dizer, até mesmo, uma forma de conclusão - em qualquer apresentação de conjunto da sociologia rural. O quarto tema, embora tenha surgido bem depois e mais como uma resposta a ele, poderia ser incluído no primeiro como um dos seus itens. Trata-se do tema do desenvolvimento local, inicialmente com o movimento das localidades (“pays”), o slogan “viver em sua própria localidade” (vivre au pays); depois, com as políticas de desenvolvimento rural, seus múltiplos recortes espaciais e procedimentos às vezes bastante inovadores na ação da administração (com a introdução dos planos de desenvolvimento rural, por exemplo). E hoje com os debates sobre o futuro do mundo rural no quadro de uma política de organização do território. Um último tema deve, enfim, ser evocado (embora este texto não pretenda exauri-lo): o do meio ambiente. É a questão mais nova, mesmo que sejam muitos os seus antecedentes que podem ser encontrados na sociologia rural (Mathieu & Jollivet, 1989). Como “discurso social”, ele é incontestavelmente um tema recente. Nele pode-se incluir a referência, tão atual quanto florescente, às paisagens. E, de forma mais geral, o problema das relações com a “natureza”, que constitui o pano de fundo - para não dizer o próprio fundamento - da questão do meio ambiente. Se não foi a partir da agricultura e do campo que as preocupações ambientais tomaram corpo (as primeiras vieram com a indústria e suas “poluições”), a agricultura, os recursos naturais renováveis (a água em particular, mas também os solos, as florestas, etc), a qualidade dos produtos agrícolas e do espaço rural não tardaram a entrar em cena, e mesmo a ocupar um lugar especial no tema do meio ambiente. Os “ruralistas” - e em particular os sociólogos - no campo das ciências sociais, foram os primeiros a se interessar por estas questões, a ponto de Bernard Kalaora dizer que seria necessário que as pesquisas em ciências sociais sobre o meio ambiente se liberassem da influência daquelas, influência julgada excessiva e tendente a se fechar. Até aqui, esta lista de temas recobre o essencial e ilustra suficientemente o nosso propósito, de apenas chamar a atenção para a estreita correspondência entre as grandes temáticas da sociologia rural e o que se poderia chamar as “questões da sociedade”. Em função da ótica considerada, três observações podem ser formuladas. Primeiro, foi sem razão que se acusou a sociologia rural de se fechar em sua “torre de marfim”; ao contrário, ela tentou trazer suas respostas às interrogações da sociedade que eram de seu domínio. Segundo, teria ela, ao fazer isto, pecado por um excesso de oportunismo? Foi ela, afinal, “teleguiada” de alguma forma pela “demanda social?” Observemos, desde logo, que parece lógico que as ciências sociais tratem dos problemas que se colocam na sociedade e para os quais elas são competentes. Sobre este ponto, notar-se-á que todos os temas evocados fazem parte da matriz inicial da sociologia rural. De fato, estes temas são mais recorrentes que sucessivos; apenas, ao “gosto do dia”, suas formulações sucessivas lhes dão uma aparência de novidade irredutível. Ao contrário, o que devem fazer as ciências sociais é precisamente mostrar que se trata de avatares, de desenvolvimentos circunstanciais de questões de fundo. Para isto, o que elas devem fazer é igualmente abandonar o discurso comum, na medida em que este é susceptível de ocultar os problemas reais. Emprega-se aqui uma fórmula da qual a prudência esconde mal a pretensão, para não dizer a imprudência: cada ator social tem sua concepção do que sejam os problemas reais - são aqueles que eles enfrentam em sua ação ou em seus interesses imediatos.

A identificação de um ramo da sociologia que se dedica a sua análise pôde se justificar. esta atitude é uma das grandes características da sociologia rural francesa e um dos pontos sobre os quais ela mais se diferenciou da “sociologia agrícola” de inspiração americana . ao movimento “neo-ruralista”.as “sociedades rurais” . mais tarde. e que parecem indispensáveis para a discussão presente. no domínio das pesquisas sobre a inovação. ao que parece. são. à recusa da idéia de que as sociedades industriais possam conservar traços. mesmo neste caso. A crítica que ela fez ao discurso da “rotina camponesa” ou. A segunda maneira de negar a pertinência da sociologia rural é indagar se o “objeto” que ela reivindica como seu . aquela atitude equivaleria a uma negação da história social que vai da sociedade feudal à sociedade industrial ou. seria muito instrutiva. elaborar um instrumental intelectual à altura de suas ambições. Segundo esta maneira de ver. Se a sociologia rural foi acusada de permanecer em sua “torre de marfim”. digamos. a sua análise crítica do processo de inovação . dar conta. neste caso. nem às exigências da especialização dos conhecimentos pela divisão do trabalho científico. A primeira consiste em afirmar que a sociologia rural nunca teve pertinência e sempre foi um artefato ideológico. por exemplo. A terceira questão que pode ser colocada consiste em saber se a sociologia rural conseguiu. tal como foi herdada das últimas quatro ou cinco últimas décadas. não teria sido porque ela nunca aceitou responder às questões tal qual estas lhe foram colocadas . Ao contrário. uma visão essencialista e idealista. Esse tipo de atitude pode ser vista sob dois ângulos: um remete à história. que em nada corresponde. a sociologia rural opôs sua formulação própria dos problemas à dos atores profissionais e do Estado? Por sua “distância crítica” em relação ao real. Sobre este balanço. tem ainda pertinência? Se sim. herdadas das sociedades agrárias de onde elas procedem. o que se pode dizer é que essas questões têm importância e mereceriam hoje um exame atento para que possamos. até mesmo. Considerada do ponto de vista da estrutura interna da sociologia. Além disso. A propósito. algumas pistas para realizar aquele balanço. mas não se justifica mais atualmente. entre outras. qual seria essa pertinência? qual a base das suas problemáticas e “objetos”? No que se refere às justificativas da sociologia rural há duas maneiras possíveis de ver as coisas.e isso talvez faça uma grande diferença em relação à economia (ou pelo menos a uma certa economia) e à geografia (ou pelo menos uma certa geografia). com a renovação das questões sobre as “tecnologias”. o outro. que é a de evidenciar as “lógicas sociais” implícitas ou. de “sociedades rurais .que assume hoje.e em vigor especialmente na Holanda. uma sociologia rural muito sensível aos avatares do questionamento social sobre o rural .e que conserva o seu modo próprio de ver: eis aí. seria preciso sociólogos competentes no estudo dos aspectos da realidade social em questão para realizar de maneira rigorosa e informada as pesquisas necessárias. os pontos de vista e as avaliações são evidentemente diferentes. querer responder com precisão a tal questão seria uma pesada tarefa. a característica da sua “postura” durante este meio século de sua história. Considerada no primeiro aspecto. pelo menos. configurando os dois grandes esquemas analíticos que ela propõe para compreender as evoluções contemporâneas da agricultura e das sociedades rurais nas sociedades ditas “industriais”.continuam existindo (se é que existiram em algum momento). Deve-se precisar ainda que. Devese notar que uma tal afirmação é coerente com a definição de Henri Mendras. o “rural” não existe mais. Questões atuais Duas questões definem o essencial: a sociologia rural.e. no curso deste período. que formularia questões-chave estruturantes da disciplina em torno das quais o trabalho da comunidade dos sociólogos se organizaria. e inclusive estruturas. Estes são elementos gerais básicos para um “enquadramento” da sociologia rural. as suas razões.Mas esta “pretensão” é a mesma da sociologia. e ainda menos lhes fornecer. abordar as tarefas futuras. uma análise comparada das duas démarches. o mais preparados possível. a uma epistemologia da sociologia. Em outras palavras. Deste ponto de vista. Portanto. um novo relevo e ao “modelo de desenvolvimento” operado pela política agrícola a partir dos anos 60 (agora questionado). e cujos discursos não podem. tanto da sociedade quanto da sociologia. ela suporia a existência de um esquema de referência teórico aceito por todos os sociólogos. aquelas que escapam à consciência dos atores. enquanto tais. ter-se-ia. quase próxima do seu “objeto” . nem ao caráter basicamente empírico da sociologia.

“pluriatividade”. como as que se presume existir nas sociedades industriais. isto é. quer as reivindicações das populações locais relativas a sua situação de vida. interrogando-se sobre as problemáticas atuais com as quais ela poderia se ocupar. basta remeter às reflexões sobre o “renascimento” rural. os dois planos sobre os quais elas devem ser examinadas . antes de mais nada. de sua amplitude real. é necessário. O último debate a ser feito refere-se ao meio ambiente. dar uma imagem “objetiva” das evoluções e situações reais e proceder ao que se poderia chamar uma “crítica externa” do discurso. convém redefinir o estabelecimento agrícola e a atividade profissional dos agricultores em seus próprios fundamentos . por outro. quer a emergência de políticas relacionadas com as novas funções do espaço rural.própria sociologia. “extensificação”. as questões reais que não são objeto de nenhum discurso. Após o enunciado da questão. os movimentos de mundialização das relações de troca entre os grandes produtos básicos e o desenvolvimento dos circuitos curtos dos produtos mais especializados etc. como. ainda. portanto. em outras palavras. considerando. desaparecem quando os camponeses se transformam em agricultores. apoiando-se em um corpus de textos ad hoc. Diante desta avalanche de questões e de argumentos contraditórios. ou ainda através das tensões produzidas pela intervenção da regulamentação européia sobre a matéria etc.que ela vem adotando há um terço de século. Ele deve. enfim. etc. É. aprofundar a análise para sermos mais precisos neste ponto. a sociologia rural não tem mais razão de ser em uma sociedade sem camponeses . É claro que estamos aqui no cerne do problema. Um primeiro bloco de questões gira em torno da diminuição da população ativa agrícola e suas conseqüências: há um debate particularmente aberto sobre o tema do número de estabelecimentos agrícolas (inclusive sobre o número que se deve ter como meta) que haverão de subsistir nos futuros dez ou vinte anos. catastrofista das coisas . as interrogações vindas da ou referentes à . Estas reflexões desembocam em todo o debate sobre o futuro do espaço e do mundo rurais e sobre quais deveriam ser as políticas que lhes dizem respeito. O questionamento social e a sociologia rural Quatro séries de questões podem ser colocadas. na qual os camponeses se tornaram agricultores. quanto dos discursos que elas suscitam. simultaneamente. é igualmente indispensável recolocar tais evoluções e as interpretações que o sociólogo pode fazer sobre o passado no médio e longo prazos. como este autor afirma. por um lado e. Pode-se acrescentar uma terceira dimensão que remete a um movimento de conjunto que diz respeito ao questionamento científico considerado globalmente. através dos conflitos. Que problemáticas e que objetos? Esta reflexão se inscreve no prolongamento da análise acima desenvolvida. de definir sistemas técnicos de produção que levem em conta. distinguindo os dois contextos em relação aos quais as evoluções da sociologia rural parecem estar referidas .em crise . antes de mais nada. Trata-se. através de uma . as “sociedades rurais”. ainda segundo Henri Mendras. deve passar à sua formulação sociológica.e inversamente. poder-se-ia acrescentar com maior razão. assim procedendo. estabelecer os fatos para se ter uma distância em relação aos discursos e. em termos sociais e ideológicos. acima lembradas. o sociólogo tem uma sêxtupla tarefa a cumprir. E isto. os termos que aparecem aqui são “diversificação”. de outro.e. o sociólogo também deve demonstrar que as suas análises enriquecem o conhecimento da sociedade francesa. através da necessidade de se conceber os sistemas de produção agrícolas “respeitadores do meio ambiente”. É preciso ainda analisar as conseqüências do modelo de desenvolvimento . através do grupo dos agricultores em dificuldade . que seria possível justificar a pertinência ainda hoje da sociologia rural. Se. levar em conta. mas seria necessário.camponesas”.por exemplo. as evoluções contraditórias nos domínios técnicos (com as biotecnologias e as técnicas “extensivas”). ele precisa evidenciar o que se poderia chamar os “silêncios significativos”.com o necessário abandono à referência às “2 UTH” (unidade de trabalho utilizada como referência nas análises sobre a moderna agricultura familiar). “produtividade”. clarificar o discurso por sua análise interna . Em uma palavra. é o caso da França. Um outro debate refere-se mais diretamente à agricultura e ao modelo de desenvolvimento .a saber: o questionamento social.ou. Para caracterizá-la. que trata da evolução da população dita rural. o que implica em evidenciar suas dimensões propriamente sociológicas e/ou dos objetos referidos.tanto das mudanças em curso. ele enriquece o seu aparelho analítico e oferece os meios para escapar dos desvios da interpretação de curto tempo e sem recuo freqüentemente associada a uma visão dramática. as trocas e os mercados (e não mais os temas centrados apenas na intensificação da produção) e. Esta primeira discussão se prolonga em outra. trata-se de repensar o desenvolvimento.isto é. em seguida. ao mesmo tempo. de um lado. se tais “sociedades rurais” são habitadas cada vez menos por populações de agricultores e cada vez mais por trânsfugas da cidade ou por assalariados das zonas rurais industrializadas ou terciarizadas.quem os emite? com que coerência? no quadro de que estratégias e com que objetivos? .

enfim.ao outro .melhor compreensão dos processos sociológicos e da sua adaptação às transformações gerais nas quais o país está inserido. Tanto em um caso como no outro. portanto. em particular.esta também podendo assumir uma variedade de formas . de alguma forma espacial do que podemos chamar de uma “sociedade local”. e uma abordagem atualizada das “sociedades rurais” deve ser precisamente. porque faltam as observações concretas para fazer um contrapeso à crescente invasão de discursos.ou da mudança social . um poder local que. A pluriatividade. em processo de rápidas mutações.para não dizer uma contradição fundamental . seja para uma outra já sem fundamentos agrários. precisamente.sem falar do conjunto do mundo . etc. Sobre este ponto poder-se-ia comparar o seu procedimento com o da sociologia das organizações. um .a “sociedade local” . ele próprio.e também as novas problemáticas e os novos conflitos. Além disso. a emergência de novas solidariedades territoriais . de fato. imagens e estatísticas que constroem o “senso comum” nesse nosso tema. que representam o futuro do espaço rural. dos seus processos de reestruturação sociopolítica. da inovação nos setores produtivos não-industriais. . depois. Existe um verdadeiro hiato . As transformações sociais internas radicais que os municípios conhecem. também já perderam toda a sua “autonomia relativa”.as quais.) é ir um pouco depressa demais.é arbitrário: existem outras “sociedades locais”. serem confrontadas com observações empíricas realizadas em trabalho de campo? Admitir a afirmação segundo a qual os camponeses tornaram-se agricultores (empresários. assim. Tais análises devem ser retomadas atualmente por duas razões: primeiro.000 municípios. se as duas razões de ser da sociologia rural desapareceram? Duas observações podem ser feitas em relação a esta maneira de colocar o problema. e. A hora. nem para todos os campos. então. mas ainda indispensável. Reduzir. Que se possa fazer um cruzamento entre as duas análises é. a das transformações de uma “sociedade local” de base agrária em direção a uma “sociedade local”. seja esta transição para uma formação de base não-agrária. analisar o papel que eles representam no processo de integração social através das suas funções tanto institucionais quanto simbólicas e notadamente identitárias. É possível indagar sobre a equivalência estabelecida por Henri Mendras entre “sociedades rurais” e “sociedades camponesas”. Não há apenas o campesinato. as recomposições espaciais às quais são levados. todas são razões para se repensar a teoria sobre a profissão e para se criar um novo quadro de análise que permita caracterizar sociologicamente os “villages” enquanto “sistema social” e. mas ela não é válida para todos os períodos históricos. é uma sociologia da “transição” . dar uma contribuição em todos os capítulos da sociologia. está longe de ter um peso insignificante no conjunto do sistema político. por esta mesma razão. este procedimento deve se situar no quadro de uma análise das transformações da sociedade global e. as novas funções que deles se espera. é a de um retorno maciço e metódico às pesquisas de campo. “agro-managers”. ele tem de mostrar que as suas análises robustecem o corpus teórico da sociologia. porém. a diversificação produtiva voltam a ser temas da ordem do dia que precisam ser considerados para caracterizar sociologicamente a situação atual dos agricultores. “molecultores”..devem ser tomadas como verdades estabelecidas? Não poderiam ser tratadas como hipóteses. A análise do que se poderia chamar um “sistema social localizado”. porque a situação dos agricultores evolui rapidamente. O questionamento sociológico e a sociologia rural A sociologia rural trata de todos os aspectos da vida social no campo.a um contexto incerto. aberto e complexo. tal contribuição. em suma. se se estima que os agricultores já se tornaram um “grupo profissional”. antes de mais nada. Toda tentativa de generalizar ao conjunto da Europa . as formas associativas. além das “sociedades camponesas”. em conseqüência.uma tal proposição leva a sublinhar seus limites. porque o contexto que a sociedade global constitui está. isto é. da relação social. Primeira observação: aquelas duas assertivas . qual seria. das relações entre o pequeno produtor independente e os setores industriais a montante e a jusante. Ela pode.que é requerida e isto supõe análises finas. não somente certo..entre a análise de um longo período de transformações estruturais do campesinato e a análise.o campesinato . enquanto tais. entre tantos outros e se as “sociedades rurais”. pura e simplesmente. serem submetidas a exame e.os novos “territórios rurais” . nos 36. são apenas uma só . é também um domínio no qual a sociologia rural investiu particularmente. No entanto. O mínimo que se pode dizer é que ela coloca um problema histórica e geograficamente. minuciosas e circunstanciadas capazes de perceberem as continuidades e as transformações nos processos de reprodução da sociabilidade e o sentido do ser-conjuntamente. A sociologia rural foi pioneira nas análises sociológicas do trabalho não-assalariado. cujo lugar na estrutura e na vida política se vincula ao poder local. considerado enquanto “sociedade” (local). O mesmo pode ser dito a respeito das “sociedades rurais”. é ocultar toda uma diversidade de situações que corresponde a uma multiplicidade de vias experimentadas num processo de adaptação .

uma das bases da pirâmide dos poderes.o seu passado “rural” para se adaptar ao presente. das múltiplas pressões que recebe e das expectativas as mais contraditórias que se tem sobre ele. Esta proposição é generalizável a todas as formações sociais nacionais. por uma comodidade pelo menos provisória. ela deve particularmente ser aplicada ao conjunto dos países europeus. os fundamentos. a condição social. em um setor produtivo sobre o qual se pode dizer que faz parte das “indústrias pesadas” mas não está baseado no modelo da grande empresa com salariado. a título de exemplo. em vias de se emancipar do seu conteúdo agrícola tradicional. da economia agrícola e da composição social da população rural. as questões que parecem dever ser consideradas como as questões centrais de hoje? Em todo caso.Agora. poder-se-ia chamar as sociedades “de villages” ou “de fraca dimensão”. Em suma. ao mesmo tempo que é uma exigência que se poderia qualificar de histórica. Inicialmente. ao mesmo tempo. em que haveria uma forma de “banalização” tal que pudesse retirar todo o interesse à análise sociológica de uns e de outros? Aqui há uma atitude que se parece àquela segundo a qual nós teríamos chegado a uma espécie de “fim da história”. um começo de reconhecimento desta ruptura. Porém. a ser associado a suas evoluções e a pesar também sobre elas. ainda. os “municípios rurais” e outros vilarejos e pequenas cidades continuarão a existir. justamente. a profissão. em um momento em que ele adquire cada vez mais relevo. e tudo isto continuará a fazer parte da sociedade global. a francesa . Estas são apenas algumas pistas. percebida aqui sob o ângulo das relações entre o Estado. para serem tratadas. especial e quantitativamente importante do poder “territorial”. os contextos. exigem que os seus aspectos referentes à “ruralidade” sejam analisados como facetas incontornáveis das evoluções da sociedade (no caso. interrogações sobre a noção de rural como categoria simbólica da representação que a sociedade constrói sobre si mesma. ao mesmo tempo. Por fim. por exemplo. é uma necessidade. os saberes e os conhecimentos adquiridos de um lado e. Questões. uma contribuição para uma sociologia da relação social. Dedicarse a esta análise seria tanto mais judicioso quanto o termo volta hoje à ordem do dia. interrogações sobre as formas sociais de mobilização do trabalho agrícola: seria a contribuição de tal sociologia para uma sociologia do trabalho. de outro.ocultação de uma ruptura e. A questão que se coloca é a do interesse de uma análise sociológica destes fenômenos. questionamentos sobre as evoluções das solidariedades territoriais sob a influência. tanto das políticas de cooperação intermunicipal. e ainda em que medida. pode-se.ou não . de uma forma geral. Esta é uma outra vertente de uma sociologia do político. a cidadania dos primeiros. Também seria interessante ver em que medida o seu sentido não está. francesa) tomada em seu conjunto. Outras já estão bem exploradas . a fisionomia e as funções sociais e territoriais dos segundos continuarão a evoluir. não é porque estes problemas não ocupam o primeiro plano na mídia que não devem mais ser estudados.e neste caso. quanto dos novos tipos de pressão ou de dependência de ordem espacial. tem por objetivo apenas mostrar que numerosos são os temas de pesquisa de dimensão geral que se pode abordar através das evoluções do mundo rural . Evocá-las aqui. como prejulgar este interesse? Tudo o que se pode fazer não é formular hipóteses sobre o que poderia ser. da fraca densidade relativa de seu povoamento. referentes aos fundamentos das reestruturações sociais locais e às transformações das relações locais de poder subseqüentes às evoluções das estruturas agrárias. as competências. levando em conta. Cabe ainda aos sociólogos decifrar os discursos e as políticas. Evidentemente.no caso. propor uma série de questões importantes para uma sociologia especializada na análise do atual mundo rural. isso é uma ilusão de ótica: os “agricultores”. Estas análises de sociologia política permitiriam evidenciar e compreender as atuais mudanças em curso no controle de uma parte. Questões. aqui. Deste ponto de vista. Ter-se-ia. A abertura a uma abordagem comparativa internacional. a questão se coloca em dar sentido a esta necessidade de continuidade . o território ”rural” que representa uma problemática particular em razão da importância de seu lugar no conjunto do território nacional. isto é. uma vez que ela remete a uma história em curso. relativas aos processos de socialização. em seguida.e quanto muito.no caso. as formas e o conteúdo da sociabilidade naquilo que. no quadro de uma análise dos processos de “integração” européia. esta mutação também não estaria exprimindo a necessidade de uma continuidade tanto simbólica quanto prática . Isto se traduz naquilo que se poderia chamar “dispositivos locais de ação”. precisamente. a sociedade civil e o território . .utiliza . da integração e da exclusão em “contextos” sociológicos bem definidos e diferentes dos subúrbios e dos bairros urbanos. confrontá-los aos fatos e evidenciar a forma como a sociedade . a segunda observação: mesmo supondo que os camponeses tenham se tornado agricultores e que as “sociedades rurais” tenham deixado de ser “sociedades camponesas”. os quais constituem novos modos de socialização do espaço e de regulação dos conflitos.como a análise da evolução do lugar dos agricultores na sociedade e a de seus comportamentos profissionais e políticos. portanto. Tal extensão à Europa da “construção rural” representa uma ocasião excepcional de renovação das problemáticas.

a concepção da pesquisa científica que se situa a montante da técnica. da mesma forma que entre o social e o técnico. 1991) ao invés de uma “sociologia rural”? Por que não. e de múltiplas formas. O que a sociologia rural . embora seja socialmente apropriado. os ecossistemas.uma sociedade? . o do desemprego e a questão do lugar e o papel do trabalho na socialização e integração social e. E em conseqüência. e que haveria de alguma forma uma mutação a fazer: seria necessário acreditar em uma ruptura radical que. e dos agricultores. Tudo isto faz dela um dos domínios privilegiados. social e economicamente utilizado e vivido.há quase um quarto de século. passando pelo microregional. de fato. São várias evoluções. a extensificação e a agrobiologia .de um lado. em cujo estudo a ciência tem o hábito de estabelecer cortes. “modelização”.Para caracterizar este conjunto de pesquisas a realizar. entre as diferentes ciências e. o nacional e o europeu. ligadas umas às outras. “interdisciplinaridade”. que se utiliza dos recursos naturais renováveis . Essa vantagem aparece com seus próprios problemas. os fenômenos de marginalização. os recursos genéticos. tanto sobre a sociedade quanto sobre o meio ambiente .e também controversa . um dos grupos sociais mais ricos em ensinamentos para o estudo das relações entre o social e o técnico. Seria preciso também que os sociólogos que se lancem a este gênero de pesquisas tenham uma cultura em ciências sociais suficiente para abordar o rural e notadamente para situar as suas evoluções presentes na história de suas relações com a sociedade global.. a atmosfera. Todas elas procedem de interrogações em curso há vinte anos. com a necessidade de se situar em diferentes dimensões simultaneamente que vão do nível do village a do planeta. A sociologia rural também está implicada nos seus próprios procedimentos. Isto quer dizer que são descobertas múltiplas relações entre fenômenos de ordens muito diferentes. contraditória .assiste-se a uma evolução muito nítida da concepção das relações entre ciência e sociedade.a água. A sociologia rural está diretamente implicada nestas evoluções. o regional. as biotecnologias e a informática. que atingem proporções crescentes da população na maioria dos países. no qual o ambiente natural predomina sobre o construído. Essas interrogações põem em questão um certo “credo” no “progresso técnico”. assim. seria melhor falar de uma “sociologia do rural” (Lagrave. modelado pelas práticas e pelas técnicas. O movimento científico e a sociologia rural Desde o começo dos anos 1970 . mas também entre o social. “análise sistêmica”. se isto clarifica as coisas? Mas. enquanto atividade de rápida inovação tecnológica ... que esta condição não leve a pensar que a “sociologia rural” não tenha sido precisamente senão uma “sociologia do rural”. não tem razão de ser e criar um contra-senso sobre o próprio “rural” e sua inserção na sociedade global. Ela o está por alguns dos seus temas e pelos elementos da vida social que estuda: a agricultura. mais particularmente. entre as ciências sociais e as ciências que podem ser globalmente qualificadas de “ciências da natureza”. O caminho que assim se abre é balizado por palavras-chave. cada vez com mais insistência. a interdisciplinaridade entre ciências sociais constitui um trunfo: é na interdisciplinaridade que existe entre os ruralistas que reside a oportunidade para reforça-la ou reanimá-la.quadro da vida imediato e base de vida a longo prazo. um rural herdado da história e constantemente remanejado. os solos. . o procedimento holístico na medida em que a análise sistêmica pode ser considerada como uma de suas versões. Procura-se uma ciência mais preocupada com suas próprias conseqüências.a água. criado. tais como “complexidade”. A agricultura enquanto setor de atividade aplicada ao ser vivo (animal e vegetal).mas isto também é válido para as outras ciências sociais do rural tem a aprender é a estender o seu projeto interdisciplinar às ciências da natureza que analisam os “sistemas naturais” envolvidos com os “sistemas sociais” que ela estuda. O mesmo acontece com o rural. Para tratar destas questões. ainda mais claramente nestes últimos anos . o tema das desigualdades sociais crescentes. de fato. Esse rural oferece campos os mais variados para uma análise das relações sociais organizadas entre uma coletividade humana . problemas de qualidade da produção e do meio ambiente. que revêem.donde o êxodo agrícola que alimenta o desemprego e provoca a migração rural. enfim.e os meios naturais. os solos. o técnico e a natureza em relação a todos os tipos de sociedades. e transforma os meios .superprodução. de outro. a questão do meio ambiente. não somente em seu âmbito. Reencontra-se. as populações animais e vegetais . triar o que é pertinente para cada pesquisador em sua própria disciplina e separar o resto.

pelos sociólogos que se ocupam destas questões. Seria acreditar.se isto se justifica . que as “entradas” específicas no funcionamento da sociedade . um bom conhecimento do “objeto” do meio rural e uma cultura científica apoiada em bibliografia. seja por falta de interesse. Há todo interesse em que os sociólogos não rurais invistam no campo rural a partir de suas questões e de seus procedimentos.ou. ele assume formas constantemente novas que correspondem a . curiosidade. este é um ponto sobre o qual a reflexão não avançou suficientemente nem se tem atualizado muito. que o rural só existiu em um contexto e em um período bem determinado e passado. o ponto de partida pode se situar no rural. este deveria ser o ponto central. É cada vez mais pertinente querer analisar em termos sociológicos as evoluções do mundo rural? Hugues Lamarche explica que não é porque a unidade de produção agrícola não é mais “camponesa” . Seria preciso chamar os sociólogos que fazem esta escolha e se submetem a tal preparação. Se se pode dizer.incluindo a agricultura e os agricultores .Para concluir. Poder-se-ia “declinar” este modo de ver de múltiplas maneiras. ao mesmo tempo especializada e geral. Seria enganar-se acerca do estatuto histórico do rural. Se se tiver que mencionar uma tarefa prioritária para a sociologia rural. tem-se a sensação de que. não têm nenhum monopólio a reivindicar nos domínios que são hoje de sua predileção. No que ele se tornará? Que formas tomará em uma sociedade “industrial” em mudança rápida? Esta é a questão. O que é preciso fazer. distinguindo-a . na verdade. e esta é uma outra faceta da observação precedente. os agricultores e o rural. dar uma contribuição original aos grandes debates da sociologia. A história. isto exige competência específica. condições que valem para qualquer domínio ou tema. e até mesmo leva a erros de interpretação principalmente em termos de “especificidades” do objeto estudado. em outras palavras. a sociologia rural pode. senão negligenciado. é preciso voltar a duas questões essenciais. Quarta observação: o que conta. de fato. Por exemplo: não é porque os agricultores não são mais camponeses . Uma abordagem setorial fecha e limita a compreensão.que a sociologia rural destes últimos cinqüenta anos pecou por carência neste ponto (o que sucedeu em vários casos). ela seria a de empreender tal reflexão teórica.centrem sua atenção sobre a agricultura.e que são privilegiadas . é preciso que eles o façam efetivamente. levada mais em consideração. pode-se dizer também. não cairmos na cegueira do olhar centrado no presente e nos discursos próprios da sociedade sobre si mesma. A segunda questão refere-se ao fato de saber se para realizar essas tarefas há necessidade de sociólogos que se qualifiquem como “rurais” e de uma sociologia dita “rural”. 1991-94).teria se banalizado e dissolvido na sociedade global. cujo estudo é necessário para compreender as transformações gerais e as vias pelas quais estas se produzem. É preciso assegurar os meios que caracterizam sociologicamente esta forma particular de organização produtiva e de mobilização do trabalho que é a atual unidade de produção agrícola. não o vendo mais. Ora. uma observação vem logo à mente: os sociólogos rurais. eles tendem a ignorá-lo e a se abster de considerá-lo em suas problemáticas. cada vez mais. realizar uma avaliação crítica do que foi escrito e que esta exigência metodológica fundamental seja. por gosto.e vão paralelas com .que eles não constituem um “grupo profissional”. Sem dúvida. constituem puros artefatos do método adotado. Se a pesquisa de questões “transversais” é a que deve prevalecer e se a idéia de comparação deve ser um princípio de método privilegiado. Ou ainda: não é porque a população agrícola não é mais dominante na população rural que a “ruralidade” não existe mais etc.aquelas que interessam . Em resposta a esta questão.termo que precisaria ser bem definido . com base nas suas pesquisas deste último meio século. Tenhamos cuidado para.de sua forma “camponesa” anterior. Ora. Quinta e última observação: em todo caso. é saber dar conta de maneira precisa dos processos. a partir de agora.as evoluções das sociedades globais. ou fora dele. isto suporia fazer um balanço preciso . com efeito. hoje. Referências bibliográficas . evidentemente. as quais. interesse. tentando compreender de onde procedem suas formas específicas. que ocupa um lugar bem determinado na estrutura social das sociedades capitalistas. não acaba de acabar... Uma segunda observação decorre da primeira: é preciso que os sociólogos invistam neste domínio. seja porque se trata de um universo que lhes é estranho ou o rejeitam. das evoluções e das características sociológicas daquilo que se estuda. de “sociólogos rurais”? Por que não? Mas. constitui um contra-senso não dizer que a sociologia rural teria perdido o seu sentido porque o rural . é que as mesmas análises sejam feitas apoiando-se em procedimentos e questionamentos maiores da sociologia. Se um balanço da sociologia rural viesse a ser feito. que importância tem isto? Terceira observação: o importante é que as análises sociológicas que se façam situem os aspectos particulares da vida social no contexto da sociedade global . incluindo os camponeses. então. E importa que tudo isto seja feito porque são componentes da sociedade global. Mas. torna-se necessário. pode-se dizer. enquanto que.que ela não é mais “familiar” (Lamarche.isto é tão evidente? . igualmente. E tanto mais indispensável quanto o peso destes componentes geralmente é subestimado.

desnecessário se faz dizer sobre o inter-relacionamento que as duas disciplinas possuem. Presses Universitaires de France. os métodos que essa Ciência utiliza para concretizar as suas investigações. “Discours communs. ARF éditions/L’Harmattan. as relações que as ciências sociais mantém com a disciplina" (JOLLIVET. como por exemplo as lutas pela posse da terra. que é o modo de cultivar a terra. L’agriculture familiale. como também com as demais "ciências sociais que estudam o mundo ou o espaço rural. Sendo um ramo da Sociologia. 1966. não somente entre si. Du rural à l’environnement. Comparaison internationale. Bernard. la question de la nature aujourd’hui. discours savants sur le rural”. Presses Universitaires de France. De acordo com o esquema proposto por Fernando de Azevedo. Ainda considerando que a Sociologia Rural é uma subdivisão da Sociologia Geral. ou apenas "o estudo das sociedades rurais" (MENDRAS. entre outras. 1998:1). Editions L’Harmattan. Todavia. mas quando se pensa no Rural. Marcel. Mathieu. In: George Gurvitch (dir). 1998:2). 1950. Traité de sociologie. mar. 1986. Gurvitch. Mendras. 1991. no contexto desse trabalho seria ligar a Sociologia Agrícola com a Rural. A tendência natural. Paris. forçoso . Faure. igualmente. Paris. pelo qual a Sociologia Especial consiste no estudo de categorias específicas de fatos sociais. Paris. Tome II: Dy mythe à la réalité. Lamarche. Paris. p. 2 volumes. Hugues. a industrialização do campo. Perspectivas teóricas. Henri “Sociologie du milieu rural”. Cahiers de l‘IMPSA. 1963. Notas Sociologia rural 2 Sociologia RURAL 2. Librairie Armand Colin. Les paysans dans la lutte des classes. "o bóia fria". a "Sociologia Rural é uma das subdivisões da Sociologia Especial "que estuda o modo de vida rural e a natureza das diferenças rurais e urbanas" LAKATOS & MARCONI (1999:29-30). Rose-Marie. Les paysans dans la société française. 1958. Tome I: Une réalité polymorphe. Paris. Robert. Paris. Lagrave. Éditions du Seuil.1. La vocation actuelle de la sociologie: vers une sociologie différentielle. como sendo a mesma coisa. Paris. Presses universitaires de France. 1991-1994. 2. Georges. Michel. 1970. Marcel (dir).297. inversamente. 5261. Nicole e Jollivet. Le combat des paysans. a reforma agrária. o que se justifica pelas trocas importantes que ela tem com as mesmas e. Há muitas relações sociais que se desenvolvem no campo que não dizem respeito à agricultura. certamente não se está pensando apenas na agricultura. Michel. Sociologie rurale. 1989. Lambert. Paris. Que-sais-je? n. La révolution silencieuse. Calmann-Lévy. a grilagem.Debatisse. 1958:316 apud JOLLIVET. usará.

bem como a mesma interdisciplinaridade com as demais ciências sociais. mas que Jean Stoetzel (1951-1952) e Henri Mendras (1963-1964). A economia rural é um ramo (um dos mais antigos) da economia política. os rurais também dizem respeito a cada ciência social." (MENDRAS apud JOLLIVET. Ligando-se a um passado em que a agricultura era a atividade exercida pela maioria dos homens. É dessa forma que deve ser feito o estudo da Sociologia Rural. acaba assumindo ares de disciplina geral. aliás. o sociólogo rural deve. Uma das pretensões do ruralista é. a não ser que conte com a colaboração de uma equipe de diversos especialistas. mais do que uma das especificidades da Sociologia Especial. Vale dizer ainda que não se deve compreender o rural com o oposto do urbano. é a matriz que direciona o epistemológico. produzindo um único conhecimento que. promover a integração das análises feitas pelo rural. global. Nesse sentido. O conhecimento é uno. portanto. A Sociologia Urbana. As divisões têm implicações meramente didáticas. uma problemática diferente. o mais apropriado é referir-se ao seu campo de atuação: as sociedades rurais. tal qual a Rural. a Sociologia Rural que deveria ser uma das especificidades em que se divide a Sociologia Especial. que estudam as particularidades dos fatos sociais. Enquanto homens iguais aos outros. da religião. grande parte da problemática rural atual é decorrente do entendimento errôneo de que aquilo que não é urbano é rural e vice-versa ou daquele que trata tudo como sendo a mesma coisa. Esse é um dos aspectos pouco considerados pelos estudiosos. perde também o seu caráter de disciplina específica. ao invés de se falar em objeto. "A realidade de nossos dias tem gerado uma sociedade que se urbaniza velozmente. por conseguinte. e dela herda igualmente as origens históricas e as perspectivas teóricas traçadas pelas diversas escolas e pensadores sociológicos. Os geógrafos que analisam as relações entre o homem e o meio natural e a distribuição espacial dos fenômenos humanos começaram naturalmente a se debruçar sobre o campo. a história social dá um grande destaque à descrição da vida camponesa. Destaca-se. Como o etnógrafo. antes de ser Rural ou Especial. na medida em que sua análise pode ser dividida em áreas como a da família. Assim. 1998). Assim se posiciona Mendras. Os etnólogos estudam as estruturas ditas ‘arcaicas’ nas quais a busca ou a produção de alimentos ocupam todos os homens. citadinos e rurais interessam igualmente ao psicólogo. Enfim. O seu objeto de estudo é. dessa forma. seus precursores. ao demógrafo. tanto interna quanto externamente.então nos é admitir que. às vezes. etc. pois o Urbano também é analisado por vários ângulos e planos diferentes e o que vai interessar à Sociologia Urbana não é uma dessas análises em particular. conhecer os métodos e as técnicas de todas as outras ciências sociais. inclusive que. Essa . entre outras. mas nenhum fenômeno social pode ser perfeitamente compreendido se dissociado do contexto geral em que se encontra e do qual recebe influência. Entretanto. senão que a síntese de todas elas. eles vivem em um meio particular que requer uma certa especialização do pesquisador e. em 1958: "O ‘meio’ rural é um campo de investigação para todas as ciências sociais e seu estudo não poderia constituir uma disciplina autônoma. essa disciplina é também Sociologia Geral. fazem questão de destacar logo ao início dos cursos que ministraram no Instituto de Estudos Políticos de Paris. por exemplo.

Esse seria um dos motivos para o trabalho integrado dessas ciências. entende que eles estão interligados. criou rapidamente um forte contingente de trabalhadores rurais-urbanos. que conserva uma certa autonomia em face da sociedade global" (MENDRAS. segundo Mendras (1958). Nesse sentido. de uma sociedade rural. o desenvolvimento local. "o bloco do rural". e. 2. os brasileiros também vivem o mesmo drama. Esses temas não foram exclusividades do povo francês. A tarefa do Sociólogo Rural. JOLLIVET (1998). Para alcançar esses resultados propostos. Essa temática começou a ser tratada com mais intensidade após a segunda grande guerra. Quando ao estudo particular da sociologia rural. tomando como ponto de partido a questão francesa. o estudo da sociedade rural se baseia no entendimento de que existem elos de ligação muito finos entre os diversos tratamentos dados ao seu "objeto material" por cada uma das ciências sociais que abordam essa temática. 2002:8).urbanização. sendo o objetivo da Sociologia Rural. levado a efeito pelos seus pesquisadores ao longo da história. certamente várias nações do mundo. a fim de se obter a compreensão global da sociedade rural. sem maiores dificuldades. de forma a poder integrar-se à sociedade global. os estudos das demais ciências sociais rurais. como se esse formasse um bloco independente. comandada pelo processo de industrialização que o campo está conhecendo.1. haja vista que esta não reconhece a sociedade rural como um de seus grupos sociais. as transformações da agricultura. incontestável. 1958). Esse fato. As relações cidade-campo. mas isso é apenas aparência. quando o mundo destruído envidava um esforço generalizado para a reconstrução. tem uma dupla orientação: estudar as especificidades próprias de sua área de estudos. todavia o faz. – O Objetivo da Sociologia Rural.2. e. por exemplo. Essa postura parece dar ao trabalho do grupo um caráter fechado e isolado do restante do conhecimento. sintetizar e integrar sob o seu ponto de vista. a industrialização e a modernização. 2. sendo impossível reduzi-la a um grupo econômico profissional. a posição dos camponeses na sociedade. A questão . Isso ocorre porque se está implantando no campo o modo industrial de produzir. com relação ao grupo dos agricultores e dos pecuaristas. o trabalho deve ter coerência interna e externa para que seja realmente um conhecimento científico válido. a ênfase do trabalho será na mudança social que se caracterizará com a transformação do camponês em agricultor ou pecuarista. ou qualquer outro grupo reconhecido. a análise ruralista se fundamentará na hipótese de "existência nos países que têm um campesinato tradicional. o meio ambiente. O que deve ser vislumbrado é o fato de que o trabalho do sociólogo rural tem uma duplicidade de objetivos: compreender o social rural e integrá-lo no social global. tem feito com que vários colegas autores tratem o campo como se trata a cidade/indústria. demonstrar a validade dessa proposição. A sociedade rural goza apenas de uma certa autonomia diante da sociedade global. Não se trata de "agricultores" ou "pecuaristas". ou seja. Dessa forma. esquecendo que as especificidades de cada um não foram ainda eliminadas" (OLIVEIRA. podendo ser sintetizados em cinco temas principais: as relações cidade-campo.2. reinterpretar.

A preocupação em produzir para atender a demanda mundial de alimentos (principalmente do mundo que pode pagar por eles. E. pode-se destacar o fato de que várias áreas do Brasil vêm se desertificando. plantação. onde normalmente acontecem as novidades. não é autárquica. A título de ilustração. várias partes do mundo. pode-se perceber as mudanças que esse tipo de empreendedor (que não é do campo. Mas a própria Britânica. ou derivadas da ação humana. Os maiores danos são causados na região dos cerrados. como o desmatamento" (BARSA. mas que apenas explora o campo). declara que ela "é a degradação do meio natural. no . a conceituar a desertificação. veio a enfrentar situações as mais complicadas. absorvendo as lições da guerra. milho. Segundo a Enciclopédia Britânica. com tendência à criação de zonas desérticas. vieram a passar pela mesma situação. algodão. Em geral. a morte ou o renascimento do rural. plantação e plantação. em especial na bacia amazônica. igualmente. cuja única preocupação é produzir e ganhar dinheiro. é dependente da matéria-prima e. onde não se vê uma árvore sequer. Viajando pelo país afora. Partir do nada destruído e retomar o ritmo da vida. pouco se incomodando com as conseqüências dos atos que pratica para assegurar essa produção. "Trinta por cento das áreas de floresta tropical do planeta estão concentradas no Brasil. Alguns ainda estão vivendo esses dramas rurais. arroz. 2001:132b). como: a desertificação. como as mudanças climáticas. no entanto. vem ocasionando na paisagem brasileira. levaria ao desaparecimento da floresta até o final do século XX. problemas com terras não cultivadas. E que lições! Quanta diferença houve entre o corpo-a-corpo dos soldados na primeira grande guerra e o corpo-a-máquina da segunda! A modernidade trouxera a tecnologia. 2001). a qual fora usada para matar e destruir. Agora ela deveria ser utilizada para a reconstrução e a implantação do novo mundo. Essa riqueza vegetal foi encarada. como obstáculo para o desenvolvimento do país. a rurbanização. pois essas são questões mais pertinentemente urbanas do que rurais. a sociedade rural européia. principalmente de muito alimento. principalmente a partir da década de 1970. Mas e o campo? O progresso sempre demorou um pouco mais a chegar lá. esse esforço seria normal. hoje coberto por extensas plantações. em princípio. Seria apenas uma questão de acomodação a um estilo de desenvolvimento mais acelerado. Para a cidade. em conseqüência do desmatamento desenfreado para aumentar a produção. No início da década de 1990. como a caatinga. Esse ritmo de devastação. antes coberto por uma vegetação natural. Por conta dessa situação. posteriormente. Atender essa demanda vai implicar em muitas mudanças. Produzida por causas naturais. mas nenhum deserto.uma área maior do que a França. apenas soja. que não vive no campo. De que forma a sociedade rural enfrentará os problemas modernos? A cidade não é capaz de bastar-se. considera-se uma região desértica quando sua precipitação média anual é inferior a 250 mm" (BARSA. a uniformização dos modos de vida.que se discutia era a de saber se os campos seriam capazes de suportar as mudanças. segundo os ambientalistas. o Brasil tem "regiões semi-áridas. aqueles que não podem continuam passando e morrendo de fome) criou o empresário rural. Fotografias de satélite tiradas em 1988 revelaram que o desmatamento realizado em pouco mais de dez anos na Amazônia atingia 12% da região .

As transformações atingem "não só o estabelecimento agrícola e o trabalho do agricultor. As ações desenvolvidas pelos homens do campo que conduzem às transformações da agricultura e que levam a propriedade rural a tornar-se uma propriedade agrícola. O processo de degradação afeta diretamente 250 milhões de pessoas e pode chegar a prejudicar um bilhão. Exemplo óbvio é o da Etiópia. representantes de 150 países iniciaram em Dacar. onde a devastação da vegetação natural reduziu a capacidade de armazenamento de umidade da terra e agravou os efeitos da estiagem sobre a agricultura.2 – As transformações da agricultura. Segundo dados das Nações Unidas. construção de estradas e hidrelétricas. impedir que o processo de desmatamento indiscriminado tenha continuidade e desenvolver projetos que.entanto. planta-se o que é requerido. mineração. 2004). As pequenas fazendas precisam se adequar às grandes. com 73%. O grande desafio ambiental do mundo contemporâneo consiste em recuperar. porque a derrubada de árvores destrói as bacias hidrográficas e empobrece o solo. com a reposição garantida do que for retirado e respeito aos ciclos biológicos das diversas espécies" (BARSA. 2. Ásia e África. mas cujas conclusões interessam à Sociologia Rural para complementar a sua análise da sociedade rural. portanto. agricultura em pequenas propriedades e crescimento urbano". cujo estudo é a meta da Sociologia Agrícola. São toleradas. a desertificação causa prejuízos de 42 bilhões de dólares ao ano. e os camponeses a ser agricultores – um grupo reconhecido pela sociedade –. eram as regiões mais preocupantes (PANORAMA.2. uma vez transformado em agricultor e feito membro ativo da sociedade global. para que possa fazer a sua síntese integradora que assegure a explicação unitária e global da sociedade rural. um fator intensificador da pobreza em países da América Latina. 2001:137). o que já foi degradado. É. Esse fenômeno é bastante comum na região centro-sul de Mato Grosso. por meio de programas de reflorestamento. nos municípios de Jaciara e Campo Verde. é a meta maior da Sociologia Rural. 1998). onde as pequenas propriedades plantam cana e criam frangos . mais atribuída à recessão econômica do que à consciência ecológica. A Sociologia Rural depende da análise realizada por cada uma das diversas ciências sociais que analisam os fenômenos rurais. favoreçam sua recuperação gradual. esta exige novas e constantes transformações para atender a demanda dos demais grupos sociais que a completam e que implicam na adoção de um modo de vida totalmente diferente. em todas as regiões da Terra. Mas. Muitas vezes elas apenas complementam a produção daquelas. com 74% de terras áridas ou semiáridas. e a África. mesmo ao incluírem a exploração econômica da floresta. "O desmatamento é uma das principais causas da seca. as taxas de desmatamento apresentaram uma redução. em particular. Em novembro de 1998. a II Cúpula Mundial sobre desertificação. mas também – tendo em vista o estreito laço entre o estabelecimento e a família – a transformação da família agrícola" (JOLLIVET. A América do Norte. capital do Senegal. As principais causas do desmatamento na região eram a criação de gado. exploração de madeira. O que plantar também deixa de ser uma decisão particular. Já não se trata de produzir apenas para a subsistência da família.

de Minas Gerais e em 2001. cujas metas são a geração de 7. "Trata-se de algo inédito. é uma proposta de geração de emprego e renda. em decorrência do esgotamento das jazidas diamantíferas que sustentara o seu desenvolvimento desde 1924. respectivamente. através do assentamento fundiário de 200 profissionais agrícolas. ao granjeiro" (OLIVEIRA. beneficiando um total estimado de 30 mil pessoas" (SOUSA. foi a forma encontrada pelo Governo do Município. Para começar a vender a idéia. 1999:6). do estabelecimento de novas relações com a indústria.o processo de produção e industrialização de Poxoréo – MT". do garimpo para a fruticultura. a própria Prefeitura implantou dos "Casulos" com o apoio do INCRA. Barra do Bugres e região. Depois de atingirem um peso médio de 1. ou então eram sertanejos que saíram do campo e se mudaram para as cidades acreditando que sua sorte mudaria e que. O Tecnofrutas visava produzir alimentos de forma orientada para atender à demanda das indústrias. para superar a recessão que passou a vivenciar desde o início desta década. Este processo tem sido possível em função. por exemplo. Todavia. e. Na expectativa de garantia de venda da produção. O "TecnoFrutas" — como foi batizado o projeto —. Na região de Poxoréo. que foi modificado e transformado em apenas um projeto de produção. por exemplo. desde 1997 a Administração Municipal vem incentivando o plantio do maracujá para fins industriais. abandonando-se a idéia original do assentamento de profissionais rurais. Em todas as propostas de assentamento fundiário postas em prática no Brasil. Normalmente os assentados são pessoas que trabalhavam como arrendatários e foram desagregados. de um lado. com a Superbom.para atender à demanda das indústria de açúcar e do frango. diferente das formas convencionais tradicionalmente utilizadas pelo INCRA. A mesma situação acontece em Nova Olímpia. onde se planta cana para a Itamarati. ainda não houve o envolvimento esperado e. As indústrias consumidoras de produtos de origem agrícola ou pecuária chamam estas relações de produção integrada. "A implantação do "TecnoFrutas . Em 1997 o Município fez acordos com a Maguari. através do INCRA. Isso significa que. os frangos são entregues para o abate. Tangará da Serra. a ser cultivada com frutas tropicais. no caso da avicultura. que pode variar em torno de 15%. de outro. "O processo de desenvolvimento recente no campo brasileiro tem criado condições para que uma fração do campesinato amplie a produtividade no trabalho familiar. do acesso tecnológico colocado à disposição da agricultura capitalista. mas não . por gerenciamento inadequado. a indústria de ração que também industrializa e comercializa o frango. não obtendo sucesso. em uma área de 6. A indústria destina uma percentagem do preço final. alguns pequenos proprietários aderiram ao projeto. 2002:71). mesmo com essa mudança. como alternativa para a mudança de atividade econômica. o costume é assentar "sem-terras".5 kg.500 empregos diretos. os acordos com as industrias acabaram sendo cancelados e o projeto está temporariamente desativado.400 hectares. enquanto tentava viabilizar os recursos que viabilizariam o projeto. entregue ao granjeiro os pintinhos e a ração que comerão até o abate. Este processo tem sido objeto de muitos estudos. desejam voltar ao campo.

vêm abrindo no espaço distante a possibilidade de acumulação" (OLIVEIRA. importância capital na história . Uma experiência diferente e que se relaciona com Primavera do Leste. Uma das idéias que está implícita no Tecnofrutas é que se deve trabalhar as novas gerações para uma nova forma de trabalho que não seja o garimpo. São pessoas que. e. Tem ele. pois. As pequenas propriedades do sul estão no limite máximo de sua capacidade produtiva. 1999. não fica com quem produziu. mas que não dominam as modernas tecnologias e conhecimentos. As propriedades são pequenas e limitam a sua capacidade de produção. A renda da terra. em virtude da enorme variação de preço do hectare nessa região em comparação com o sul do país. abrindo espaço no Sul para a continuidade e possibilidade da concentração de terras para uma fração de camponeses que têm acumulado riqueza neste processo. Os camponeses.possuem mais os campos para voltar. pois. 2002:72). não estão diante da expropriação inevitável pelo avanço das relações capitalistas de produção no campo. os quais vão se tornando médios e futuros grandes proprietários. utilizando o conhecimento e a tecnologia disponível" (SOUSA. com o esgotamento das jazidas. Assim. ao mesmo tempo que o subordina mais. produzida pelo trabalho familiar. Para eles. Além das situações particularizadas de Mato Grosso.3. o Município de Poxoréo se propõe a realizar o assentamento de "profissionais da terra". 2002:72). 2.o número de propriedades rurais na região sul caiu de 1. os quais devem ser deixados como representantes históricos de uma classe de garimpeiros que está fadada ao desaparecimento na região. A posição dos camponeses na sociedade. mas se realiza parte na indústria e parte no sistema financeiro" (OLIVEIRA. "O que estamos assistindo de fato é. pessoas formadas e qualificadas para trabalhar a terra de forma adequada. Onde conseguem comprar grandes áreas de terras. antes que eles sigam os exemplos de seus pais. camponês. MT. "A origem da civilização. acumularam condições para produzirem mais. é o caso dos camponeses do sul produtores de soja. ou seja. promove o seu deslocamento territorial.2. Contrariando essa linha. a mudança cultural é praticamente inviável. Normalmente vendem suas propriedades para os vizinhos. sujeita a renda da terra aos interesses do capital. sem necessariamente expropriar a terra do camponês. ao longo dos anos. o processo de industrialização da agricultura que. Não se muda de um dia para o outro. mas sim no seio de um processo contraditório. o momento em que se deu a transição da pré-história para o período neolítico.264 mil em 1970 para 1. a produção integrada campo/indústria atingiu também o sul do país no que tange à suinocultura – os granjeiros produzem milho e engordam suínos para as indústrias de carne – e à produção de fumo – que atende aos oligopólios das indústrias de cigarros. 10). Dessa forma eles estão vendendo as suas propriedades e vindo para o Centro-Oeste e Rondônia. nada foi senão o surgimento do primeiro campesinato. "Dessa forma. conseqüentemente. possuem apenas a experiência rural.145 mil em 1980. em sua grande maioria. No registro de Ariovaldo de Oliveira. A questão em Poxoréo é cultural e cultura é algo arraigado na personalidade das pessoas. mas não possuem espaço territorial para fazê-lo.

sendo . como é o caso dos "bóias-frias" brasileiros. preconizado pelo francês Marc Bloch. O campesinato cultiva extensões limitadas. coexistiam em propriedades gaulesas o escravo e o colono. o campesinato francês desenvolveu-se. o que caracteriza a sociedade camponesa da França é sua relação com a instituição senhorial. No entanto. Outro tipo de senhoriato foi herdado de Roma. O produto de seu trabalho destina-se primordialmente ao sustento da própria família. podendo ser vendido ou não o excedente da colheita. difundiram-se as empresas agrícolas em moldes capitalistas cujo objetivo era a produção e a venda da colheita.humana. A família. "As principais características desse tipo de campesinato perduram até hoje. e ela permaneceu subordinada a um conjunto de camadas sociais nas quais se inseria como inferior. os lavradores ricos. O campesinato caracterizava-se por ser uma camada inferior.2. e o socioantropológico. Cada família-membro cultivava sua parcela para subsistência e o excedente era vendido ou trocado. "Segundo essa corrente. às vezes por temporada. "As comunidades passaram a desenvolver sobre os pastos. segundo Bloch. então. homem livre que pagava o aluguel da terra ao senhor com parte da colheita. Com a revolução agrícola. que utilizam os membros da família como força de trabalho.3. usando instrumentos e técnicas rudimentares e mão-de-obra familiar. "O campesinato está longe de ser homogêneo. quando esta não é própria. uma vez que dos primeiros núcleos camponeses derivariam as posteriores culturas urbanas. a dos camponeses remediados. "Campesinato é o grupo social formado pela massa de trabalhadores da terra e pequenos proprietários rurais. chefiada pelo pai. deduzida a parte do aluguel da terra. sem a qual não seria possível compreender nem uma nem outra. defendido pelo antropólogo americano Robert Redfield. constitui sempre a unidade social de exploração da propriedade. possuidores de animais de lavoura e de transporte e que eventualmente contratam assalariados. Teoria histórica.1. O desaparecimento da escravatura possibilitou o aumento das parcelas arrendadas a colonos. Essa tendência foi diminuindo à medida que se desenvolvia a sociedade e aumentava o empobrecimento dos senhores. subordinada e explorada pelo senhoriato. braçais. no início. em coexistência no entanto com as unidades agrárias camponesas remanescentes. A classe dos senhores se originou da existência de diferenças de recursos e de prestígio entre os próprios camponeses: o membro do grupo que se destacava por suas qualidades ou riquezas rodeava-se de seguidores. denominados parceiros. Nele se identificam essencialmente três camadas: a dos camponeses ricos. O desaparecimento dessa subordinação ao senhoriato não logrou alçar a camada camponesa a uma posição elevada. "O fenômeno do campesinato tem sido estudado sob dois aspectos: o histórico. Assim. trabalhadores sem terra. existiam na França grandes conjuntos familiares. congregando várias gerações e famílias colaterais estabelecidas na mesma vizinhança. que se empregam como assalariados. florestas e rios um sistema de direitos coletivos que eram respeitados e defendidos por todos os camponeses. e a dos jornaleiros. 2. reservando pequena parcela para o sustento do proprietário. Surgiram. em oposição ao senhoriato. no início do século XVIII.

o regime de pagamento do aluguel da terra com parte da colheita (meia. submetida à camada urbana. com os quais não tinham condições de competir. a desapropriação dos bens da nobreza e do clero possibilitou a venda de terras a burgueses citadinos. Os camponeses surgem nas sociedades em que a cidade e o meio rural coexistem em situação mais ou menos equilibrada. em regra. praticamente monopolizavam a comercialização dos produtos agrícolas. "Além de camponeses proprietários. A família é a unidade econômica de base e se insere em um grupo de vizinhança. Apesar de sua feição autoritária. uma vez que cabe ao camponês abastecer a cidade. Durante a revolução. (2) parceiros. seu trabalho satisfaz as necessidades essenciais da vida.3. localizados em terras devolutas ou sem autorização do proprietário. Essa complementaridade deriva da dominação política que a cidade.que.2. encarregado da produção de alimentos para essas fazendas e para os povoados. valorização positiva do trabalho. ao lado dos escravos.2. "No Brasil. América Latina. O camponês constitui uma camada social inferior. a comunidade permite que seus membros se desliguem para criar situações socioeconômicas distintas. coexistiu com a escravidão uma camada camponesa semelhante à descrita por Marc Bloch na Europa feudal.3. desejo de enriquecer. Os camponeses tornaram-se policultores. contudo. "Com a revolução francesa. ao mesmo tempo em que se multiplicavam os pequenos proprietários camponeses. terça). orientadas primariamente para a subsistência da família. No decorrer do século XIX. cultiva pequenas áreas. um campesinato livre. é iletrado. Permaneceram. Era freqüente. e noções básicas de ética derivadas da importância atribuída ao trabalho. acentuou-se a subordinação do campesinato à sociedade urbana em desenvolvimento. Os instrumentos de trabalho são rudimentares e o excedente de produção é vendido ou trocado em mercados locais. em segundo plano diante dos fazendeiros monocultores e grandes criadores de gado. consagra uma porção significativa da colheita à subsistência e utiliza mão-de-obra familiar. elevado apreço à procriação e à progênie. e suas características são: atitudes práticas e utilitárias com relação à natureza. os lavradores abastados passaram a se utilizar dos métodos capitalistas. uma preocupação com a segurança. A relação entre o campesinato e a cidade é de complementaridade econômica. possuidores de animais. ou o equivalente em .3. vendendo o excedente da produção nas cidades e passando a ser comandados por citadinos. e continuou após a abolição da escravatura. Nas fazendas monocultoras ou de criação de gado havia. Sitiantes independentes formavam parte da comunidade camponesa. que pagam o aluguel da terra com uma percentagem da colheita. que passaram a alugar ou arrendar suas terras aos camponeses. "Essa segunda orientação relaciona o campesinato com diferentes tipos de sociedades.2. considerado como um mandamento divino a ser cumprido. os mais abastados. sempre existiram: (1) posseiros. como poder central. Entre esses. 2. possui tecnologia pré-industrial. Teoria antropológica. Esse tipo de campesinato é formado por unidades domésticas de produção. exerce sobre o campo. onde se instalavam. "O camponês latino-americano pratica a policultura e a criação em pequena escala. 2.

apropriavam-se de terras incultas. a ampliação do mercado interno de um país e a melhora do nível de vida das populações rurais. Sua problemática confunde-se com os primórdios da agricultura.1.2. medidas que refletem os privilégios dos proprietários mais próximos da metrópole. (4) moradores ou agregados. "A concentração de terras em mãos de poucos grandes fazendeiros.dinheiro. pois os que não possuíam recursos suficientes para receber e cultivar sesmarias.Reforma agrária. Os colonos. cultivassem e tornassem rentáveis. adquirindo-as pelo chamado direito de fogo morto. Sua implantação tem como resultados o aumento da produção agrícola.3. A lei vigorou até a promulgação da constituição republicana de 1891. porém. para os quais o aluguel da terra é fixo. "A primeira modificação importante na legislação agrária do Brasil data da vinda da corte portuguesa em 1808. tem sido o maior entrave à justiça social no campo. e apenas três no sul. A área média das pequenas propriedades não ultrapassa os vinte hectares e a numerosa população rural vive em péssimas condições de higiene e alimentação. o analfabetismo prevalece e inexistem as escolas técnico-agrícolas. numa tentativa de coibir o regime de posse. quando o príncipe regente D.3. estimulou a instalação de engenhos e concedeu vastas sesmarias a indivíduos que estivessem em condições de investir na lavoura canavieira. os estados. que alugam seu trabalho. (BARSA. Interessada na produção do açúcar. sistema de propriedade rural que se denomina latifúndio. No tocante às leis agrárias. localizaram-se no sul e deram início ali ao processo de formação da pequena propriedade agrária. que concedia autonomia legislativa aos estados da federação. que habitam as propriedades monocultoras. independentemente da quantidade colhida. . "O Brasil apresenta uma estrutura agrária em que convivem extensos latifúndios improdutivos. a formação da família patriarcal e a delimitação da propriedade privada. cultivando nelas certos gêneros. fertilização e recuperação do solo são desconhecidos. procedentes de vários países da Europa. exceto por compra. quando a coroa portuguesa simplesmente transplantou o sistema feudal inoperante da metrópole para as terras da colônia. (5) camponeses sem terra. Há regiões no país nas quais os processos de irrigação. 2001:339) 2. grandes monoculturas de exportação e milhões de trabalhadores rurais sem terra. o que resulta em elevados índices de mortalidade. João sancionou decreto que permitia a concessão de sesmarias a estrangeiros. Inauguraram também o regime de posse.2. "Reforma agrária é o termo empregado para designar o conjunto de medidas jurídicoeconômicas que visam a desconcentrar a propriedade das terras cultiváveis a fim de torná-las produtivas.4. no norte da colônia. a quem pagam com dias de serviço. 2. com permissão do proprietário. (3) arrendatários. Questão agrária no Brasil. em conseqüência da falta de um projeto global de política agrária que solucione seus problemas estruturais". Algumas sesmarias chegaram a atingir uma extensão de cinqüenta léguas. "Observa-se hoje no campesinato brasileiro um movimento de migração para as cidades. "A má distribuição da terra no Brasil data do início da colonização.4 . o colono podia conservar legalmente as terras que seu trabalho e dinheiro recuperassem. Por esse direito. "A primeira Lei de Terras do Brasil data de 1850 e proibia a aquisição de terras devolutas.

o latifúndio exerceu sempre poderosa influência sobre as decisões oficiais. arrecadação dos bens vagos.22. Problemas sociais e ação política. que o acesso à propriedade territorial será efetivado mediante a distribuição ou a redistribuição de terras. Por meio de seus representantes nos órgãos de governo locais e federais. "A partir da proclamação da república. mas nenhum modificou fundamentalmente a má distribuição da propriedade fundiária no país. Reza. doação. Sobreveio então o golpe militar de 1964. grilagem de terras. Aqueles que não tivessem regularizado suas posses até o início da vigência do código só poderiam fazê-lo com base no instituto do usucapião. cem mil e até um milhão de hectares. que exigia aprovação do Senado para qualquer concessão superior a dez mil hectares.504. se pretendia distribuir pequenos lotes a dez milhões de famílias.2. Multiplicaram-se as propriedades de dez mil. uma vasta classe de despossuídos foi relegada à mais extrema miséria e teve suas reivindicações reprimidas sistematicamente com violência. sobrevivendo assim à industrialização e às mudanças sociais ocorridas nos meios urbanos.1. seja no de harmonizá-las com o processo de industrialização do país". "Em 30 de novembro de 1964 o Congresso Nacional aprovou a lei número 4. compra e venda. "Tradicionalmente identificado com o setor mais conservador da cena política brasileira.2.4. Na base da pirâmide social. reversão à posse do poder público de . assassinato de líderes dos trabalhadores rurais e toda sorte de violência.3. Estatuto da Terra. no interesse da economia rural. conseguiu manter incólume o regime de propriedade e os privilégios de que desfrutava. sucederam-se os decretos que regulamentaram aspectos da propriedade da terra. as atividades agropecuárias.3. na segunda metade do século XX. proibiu a legitimação das posses e a revalidação de sesmarias. 2. "O governo do presidente João Goulart propôs. seja no sentido de garantir o pleno emprego. a fim de atender aos princípios de justiça social e ao aumento da produtividade". promulgado em 1916. Depois da constituição das organizações internacionais de direitos humanos.exceto por alterações muito superficiais. As diferenças sociais se agravaram e estenderam. O código civil brasileiro. Por essa via. "A mesma legislação. em flagrante desobediência à constituição de 1946.4. ainda. regeu a ocupação do Centro-Oeste e da Amazônia. que interrompeu a ampla mobilização nacional em favor da reforma agrária. já arcaica e ineficaz no início da colonização. em 1963. a aprovação de um princípio constitucional segundo o qual a terra não poderia ser mantida improdutiva por força do direito de propriedade. Em seu artigo primeiro. modificando o regime de sua posse e uso. proliferaram as denúncias de exploração do trabalho escravo.1. 2. endossaram os princípios e normas da Lei de Terras. o estatuto define a reforma agrária como "o conjunto de medidas que visam a promover melhor distribuição da terra. O parágrafo segundo do mesmo artigo esclarece que "o objetivo dessa política é amparar e orientar. que dispôs sobre o Estatuto da Terra. "O princípio segundo o qual a posse não garante a propriedade vedou ao trabalhador rural o acesso à terra e propiciou a formação de uma casta de latifundiários que se apossou das áreas rurais brasileiras.1. pela execução das seguintes medidas: desapropriação por interesse social mediante prévia indenização em títulos da dívida pública.

Nem o governo. O Plano Nacional de Reforma Agrária. O meio ambiente. "A constituição de 1967 endossou o estatuto ao permitir a desapropriação da propriedade rural com o objetivo de promover a justiça social. por terceiros. ou seja. a qualquer título. Financiava-se a pequena propriedade e não se avaliava os resultados do investimento.ar. "O ar. que é a essência que determina e regula. o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA).2. Hoje trabalha-se com a idéia do desenvolvimento local integrado e sustentável (DLIS). nem os organismos financeiros internacionais estão querendo financiar projetos que não apresentam um retorno concreto. A fim de promover e coordenar a implementação do estatuto e decretos complementares. O desenvolvimento local. e com o meio ambiente . energia solar etc. a água. ou seja. que permite a desapropriação imediata das terras. tinha como principal instrumento a desapropriação e previa o assentamento de sete milhões de trabalhadores. de 25 de abril de 1969. A partir do fim da década de 1980 intensificaram-se os conflitos no campo e surgiram novos grupos em defesa da reforma agrária. constituindo comunidades bióticas. relevo. Os princípios básicos de conservação da natureza foram enunciados pelos ecologistas. Tais comunidades mantêm entre si. se distribui no planeta segundo uma ordem naturalmente harmoniosa. no ecossistema. proposto pelo novo ministério.2. Em 1996. A base da indenização aprovada foi o valor declarado para efeito de pagamento do imposto territorial rural. composta de centenas de milhares de espécies e variedades de animais e plantas. O mais importante deles foi o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST). Como esses recursos não são inesgotáveis. o governo federal criou. que absorveu as atribuições dos órgãos anteriores. o bem-estar futuro da humanidade depende fundamentalmente de uma atitude positiva voltada para a conservação da natureza. cuja ação se baseia na ocupação de terras para pressionar o governo a fazer a reforma agrária.um profundo equilíbrio. solo. sua existência em comum. herança ou legado. o solo. água. em zonas críticas ou de tensão social. Esse desenvolvimento vem sendo controlado por empresas contratadas pelo governo especialmente para auxiliar e orientar os pequenos proprietários na montagem dos projetos.5. entende-se por conservação da natureza ou conservacionismo o esforço centrado em políticas e técnicas que têm por fim preservar na Terra condições propícias à vida e a uma integração maior entre as espécies. Com o DLIS surge uma nova situação em que faz-se necessário comprovar a viabilidade do projeto. um grau de risco pequeno. ." "Em sentido amplo.terras de sua propriedade indevidamente ocupadas e exploradas. O decreto-lei nº 554. regulou o processo especial de desapropriação dos imóveis rurais situados em áreas declaradas prioritárias. mas enfrentou forte resistência no campo para sua implementação. o Congresso aprovou duas medidas para facilitar a reforma agrária: o aumento dos percentuais do imposto territorial rural (ITR) para as propriedades improdutivas e o rito sumário. Durante muitos anos trabalhou-se com a idéia de fundo perdido. nas biocenoses.4. em 1970. as plantas e os animais são essenciais à vida do homem. para executar o Estatuto da Terra. 2. 2." . os minerais. segundo os quais a matéria viva. "Em julho de 1985 o governo instituiu o Ministério da Reforma e do Desenvolvimento Agrário.

Assim se explica. o conservacionista não toma o vocábulo "recursos" no mesmo sentido que o economista." "Os incêndios nas matas. Assim. É comum que esse processo de ravinamento tenha início num corte de estrada ou de caminho carroçável. no caso. por exemplo." "A derrubada de matas ou sua destruição pelo fogo causam danos imediatos à fauna. A carga sólida dos cursos fluviais também sofre considerável aumento. quando as primeiras dessas leis são transgredidas. eliminando-se a cobertura florestal numa vasta superfície de relevo acidentado. desencadeiamse processos como degradação ou devastação da flora. os troncos das árvores e as raízes expostas."Assim. mas sobretudo em áreas planas." "Em trechos de encostas íngremes. da fauna. além de um determinado ponto crítico. com a extinção de seus refúgios. Ao procurar defender os "recursos naturais". arrastando húmus e minerais solúveis. foram determinados os princípios da conservação dos solos. significando riqueza potencial. mas apenas no de "condições ambientais". o homem tornouse cada vez mais capaz de criar ambientes artificiais. e sim a leis econômicas. da flora. bem como partículas finas em suspensão. extermínio da fauna. razão pela qual ficam obstruídos muitos rios outrora navegáveis. variável em cada região natural. das águas continentais e marinhas. para que todo o conjunto venha a se modificar profundamente. porém. após chuvas prolongadas. erosão ou lixiviação (lavagem de sais do solo) aceleradas." "Basta que seja alterado um dos elementos do ecossistema. A mata exerce. torna-se muito menor a evaporação da água das chuvas. fontes alimentares e locais de procriação. poluição. isto é. são freqüentes os deslizamentos de terra. A rápida transformação do ambiente provocada pelo homem não obedeceu. em qualquer tipo de topografia. blocos de pedra e eventuais construções. que não ocorria antes devido aos obstáculos impostos pela capa de húmus do solo. Em determinadas . podem provocar a lixiviação. São essas as principais causas da erosão acelerada. empobrecimento ou esgotamento dos solos. alteração do regime de águas ou do clima. estudados pormenorizadamente cada um dos componentes dos ecossistemas. Nessas circunstâncias. Essa erosão pode ocorrer sem leito definido. ditos antropogenéticos (as "paisagens culturais" dos geógrafos). a formação de crostas no solo. O calor do fogo dilata as partículas minerais que. em zonas de vegetação aberta. chamadas voçorocas no sul do Brasil. a maior parte da água que se infiltra penetra diretamente no solo até o lençol freático. e diferenciados em escala crescente à medida que os meios técnicos evoluíam. Os rios que percorrem regiões florestais devastadas alteram em pouco tempo sua descarga e tendem a um regime torrencial. segundo o clima reinante na região. em que se alternam inundações e secas." "Já a água de escoamento superficial aumenta de volume e desce incontrolada pelas vertentes. a leis de conservação da natureza. que podem ser lateríticas ou calcárias. o papel de uma verdadeira esponja. Não sendo absorvida pelas raízes. aumentam muito o número de fissuras do solo. capazes de arrastar ladeira abaixo árvores. Desde o surgimento da sociedade humana. formando enxurradas. todo o regime de águas é logo perturbado. por onde as águas se infiltrarão." "Aspectos da degradação. após seu esfriamento. formando sulcos profundos nas encostas. acarretando profundas alterações na distribuição das populações animais. se desaparece. ou então em ravinas.

ante a evidência de que. que permite a orientação na neblina ou na escuridão. na Índia. instituiu-se em 1898 o parque El Chico.fato tomado como exemplo dos benefícios que paralelamente procedem da observação da vida das plantas. desde 1910 até sua morte em 1929. 1948) e finalmente se estabilizou como International Union for Conservation of Nature and Natural Resources (União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos . bem como entidades privadas. 1928). os enfoques de uma nova ciência. com sua longa tradição de respeito pelas coisas da terra." "Impondo-se a mentalidade conservacionista e o conceito da essencialidade de manutenção do equilíbrio. levaram a uma visão bem diversa das relações entre o homem e as diferentes espécies que com ele compartilham a existência na Terra. no México." "Graças ao estudo dos morcegos. possibilitaram a descoberta do fator sanguíneo Rh. Em 1895 foi criada uma Comissão Internacional para a Proteção das Aves Úteis à Agricultura. lutou pelo estabelecimento de uma Comissão Internacional de Proteção à Natureza. Bruxelas.circunstâncias. o de Yellowstone. Da mesma forma. justificando-se sua conservação e proteção cuidadosa pelas próprias razões que esses papéis indicam. Fontainebleau. como em Sarnath. passaram a reconhecer que a proteção da natureza é assunto de alcance internacional. Os japoneses. onde o Buda se inspirava. a etologia. nos Estados Unidos preservou-se em 1864 o vale do Yosemite e em 1872 foi criado o primeiro parque nacional do país. da Índia. que criou condições para que sejam poupadas centenas de milhares de vidas infantis. difundiram a teoria e a prática da arquitetura paisagística. evitando acidentes. Há milhares de anos existem nessa região áreas destinadas a proteger animais. Relevante foi o empenho do naturalista suíço Paul Sarasin." "O antigo conceito simplista de animais úteis e nocivos teve de ser abandonado." "Em 1900 realizou-se em Londres a Conferência Internacional de Proteção aos Animais da África. feita com isenção de julgamentos prévios. Daí aos sensores remotos foi um passo. no Japão implantaram-se em 1868 as áreas verdes de Matsushima." "Evolução da mentalidade ecológica. Assim. alguns governos. na organicidade de cada ecossistema. de seus recursos instintivos e de seus modos de vida. Amanohasidate e Miyajima. Os macacos Rhesus. O Extremo Oriente teve a primazia da mentalidade conservacionista. Certas iniciativas pioneiras já datavam de fins do século XIX. simples fungos que infestavam lâminas de microscópio conduziram à invenção da penicilina e à produção de toda uma gama de antibióticos . sobre espécies arborícolas e voadoras que se alimentam de plantas. que. O movimento protecionista. os zoólogos abriram caminho para a descoberta do radar. e na China. após organizar-se como Office International pour la Protection de la Nature (Organização Internacional para a Proteção da Natureza. "Desde o início do século XX. por exemplo. ressurgiu como The International Union for Protection of Nature (União Internacional para a Proteção da Natureza. onde os mandarins mantinham espécies de particular interesse em pequenos parques". todos têm um papel a desempenhar. aves corredoras e rapaces começam a predominar. cuja influência se estenderia a todo o mundo entre as duas guerras mundiais. A observação científica dos animais. voltada para o estudo do comportamento animal. já ampliou em muito a noção de sua utilidade para os seres humanos.

" "O evento de maior amplitude e de repercussão mais profunda. Edimburgo. que advertia contra o perigo de destruição das matas. São Paulo: Abril. a Convenção do Clima e a Agenda 21"." "Na década de 1860. como ficou conhecida. O primeiro documento a referir-se expressamente à conservação da natureza. Realizada no Rio de Janeiro. 1997. ratificada pelo Brasil em 1965. em Paris. José Bonifácio de Andrada e Silva propôs que "em todas as vendas de terras que se fizessem e sesmarias que se dessem. promoveram-se diversos congressos. Grupos e entidades ecológicas tornaram-se cada vez mais comuns. Na Eco-92. foram aprovados documentos de fundamental importância para a conservação da natureza. ao mesmo tempo. 2. foi a carta régia de 13 de março de 1797. em Washington. em 1968." "Objetivando o intercâmbio técnico-científico e a difusão dos conhecimentos conservacionistas. como a Convenção para a Proteção da América. .5. nas florestas das Paineiras. em 1937. e a Conferência Intergovernamental de Especialistas sobre as Bases Científicas para o Uso Racional e Conservação dos Recursos da Biosfera. passando a figurar com destaque entre as plataformas partidárias e as metas de novos governantes". dos primeiros parques nacionais e. a Declaração de Princípios das Florestas. Almanaque. A luta pela defesa da natureza. "Malgrado a criação.1. foi a Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento.Naturais. (BARSA. a consciência da necessidade de proteger a natureza só começou a difundir-se entre a população brasileira após as décadas de 1960 e 1970. em vista dos problemas de poluição e degradação ambiental que se acumulavam no final do século XX. em sintonia com o que então ocorria no restante do mundo". o barão de Pati do Alferes. sugeriu em seu livro Memória sobre a fundação e custeio de uma fazenda que os fazendeiros evitassem reduzir a cinza as preciosidades vegetais e que o governo tornasse obrigatório o plantio de "paus de lei" à beira das estradas.2. 2001:361) BIBLIOGRAFIA ABRIL. sob os auspícios da União Pan-Americana. Silvestre e Tijuca. começou a agir de forma organizada pela conservação da natureza. tomou feição crescentemente política. Francisco Peixoto de Lacerda Werneck. 1956). no Rio de Janeiro". Em 1861 fez-se a primeira experiência brasileira de reflorestamento tropical. no Brasil. se pusessem a condição de que a sexta parte do terreno nunca haveria de ser derrubada e queimada. não raro exercendo pressão sobre as autoridades públicas por decisões mais enérgicas. teve a adesão de 178 países e contou com a presença de mais de cem chefes de estado. sem que se fizessem novas plantações de bosques". como a Convenção da Biodiversidade. em junho de 1992. Em 1821. com a presença de representantes de 62 países e observadores de numerosas entidades. "A própria sociedade. "Conservacionismo no Brasil. de diversos órgãos governamentais que se sucederam no tempo com específicas atribuições conservacionistas. em 1940. a partir das décadas de 1920 e 1930. mobilizando-se em campanhas ao sentir o impacto da degradação de seus ambientes.

A CRISE DA SOCIOLOGIA RURAL NO BRASIL E SUAS TRADIÇÕES TEÓRICAS William Héctor Gómez Soto1 RESUMO Este artigo faz uma avaliação da crise da sociologia rural no Brasil a partir da análise das tradições teóricas que a influenciam principalmente a vertente sociológica americana e o marxismo clássico. Disponível na Internet via WWW. pela variedade de temas tratados.. novembro 1998: 5-25. Citações e referências a documentos eletrônicos. São Paulo: Contexto. 2002. INTRODUÇÃO A produção teórica sobre o “mundo rural” no Brasil dos últimos trinta anos poderia ser caracterizada. Cuiabá: UFMT. São Paulo: Atlas. São Paulo: Record. SOUSA. Porém é . URL: http://www. Eric R. Oreste. O que é sociologia.com Última atualização em 01 de janeiro de 2001.ed. 7ª série. [online]. Vol. Sample.. MT. 1992. Biografia de Thomas Robert Malthus. URL: http://www. Ariovaldo Umbelino de. Disponível na Internet via WWW. 11. 1976. pelo número significativo das pesquisas empíricas realizadas que possibilitaram a coleta de abundantes informações e dados sobre a realidade agrária. A terceira onda. Arquivo consultado em 02 de maio de 2004. Marcel. São Paulo: Brasiliense. e pelo outro. LAKATOS. MARTINS..net Arquivo consultado em 02 de maio de 2004. Tecnofrutas: o processo de produção e industrialização de Poxoréo. WOLFO. PRETI. MARCELIB.biomania. 2003.com. URL: http://www.ed. 57). 22. Busca-se compreender de que forma essas influências teóricas determinam a forma em que os cientistas sociais têm interpretado o “mundo rural” brasileiro. por um lado. Renato. 1994. 1999. Marina de Andrade. Rio de Janeiro: Zahar.. [online]. [online]. Pesquisa educacional.poxoreo. 5. Disponível na Internet via WWW. 1997.. Eva Maria & MARCONI.BARSA. Arquivo consultado em 02 de maio de 2004. São Paulo: Editora do Brasil. Sociedades camponesas.br/biografias. MOURA. 11. 2. São Paulo: Saraiva. São Paulo: Barsa.ed. [online]. Disponível na Internet via WWW. URL: http://www. SOLUÇÕES. Teoria tridimensional do Direito. ed.cjb. Cuiabá: UFMT. Izaias Resplandes de. OLIVEIRA. Brasil: para compreender a história. 7. (Coleção Primeiros Passos.. 1997. TOFFLER.quatrocantos. Sociologia geral.ed. Carlos Benedito. JOLLIVET. 1. REALE. Miguel. 1999. Gevilacio Aguiar Coêlho de. Nova Enciclopédia. 2001. Alvin. pela influência de referenciais marxistas. A geografia das lutas no campo. A "vocação atual" da sociologia rural in Estudos Sociedade e Agricultura.

Alguns autores brasileiros parecem ter dificuldade em deixar de lado “velhas idéias” como a “diferenciação social na agricultura e a polarização de classes” oriunda da “tradição marxista clássica”. enquanto que a nível internacional existe uma outra dinâmica que incorpora novas questões e novas perspectivas teórico-metodológicas para entender velhos problemas. Apesar disso. . Na quarta 1 Doutor em Sociologia (UFRGS) e Prof. seu contexto histórico e as principais visões. tendo como ponto de partida a compreensão da evolução da sociologia rural americana. Em seguida. iniciado a meados da década de 70 e caracterizado pela recuperação crítica das tradições teóricas de Marx e de Weber e pela emergência de novas questões de pesquisas. parece ter reduzido as possibilidades de inovações teóricometodológicas que. às tradições teórico-metodológicas funcionalistas. trata sobre a produção teórica brasileira sobre o “mundo rural”. A terceira parte. ao mesmo tempo contemple as mudanças da realidade e as discussões a nível internacional. discutimos as tradições teóricas da sociologia rural. tentamos apreender o processo de mudanças dentro da sociologia rural americana. Na primeira parte. A ausência de um debate científico e livre de conotações “ideológicas” sobre a problemática agrária. Atualmente. Este artigo está estruturado em cinco partes. alguns autores começam a chamar a atenção sobre a necessidade de repensar o “mundo rural” a partir das transformações que estão ocorrendo em escala mundial. existe uma relativa incapacidade da “sociologia rural” brasileira de explicar as mudanças no “mundo rural”. predominantes na sociologia americana da década de 60. do Instituto de Sociologia e Política (UFPEL). em menor grau.necessário assinalar que uma parte importante dessa produção teórica está vinculada.

portanto totalmente incapaz de abrigar o caráter explicativo que se lhe atribuia. início da década de 50 até início da década de 70.2 parte. O aspecto mais importante dessa nova sociologia rural refere-se ao conceito de “estrutura da agricultura”. devido a razões teóricas e empíricas. constituem uma “nova sociologia rural”. Sorokin e Zimmerman)2. 1. Durante esse período a sociologia rural americana foi dominada por uma perspectiva que definia os produtores como atores que podiam responder a estímulos e a novas tecnologias. Ambas as tradições parecem insuficientes para dar conta das mudanças que estão ocorrendo no mundo rural brasileiro. O continuum rural-urbano perdeu utilidade na medida em que a população rural diferenciava-se cada vez menos da população rural. Newby (1982) tem argumentado que os trabalhos inovadores sobre a agricultura. A sociologia do “mundo rural” e suas tradições teóricas A sociologia do “mundo rural” tem estado influenciada principalmente por duas tradições clássicas. Essas diferenças são apresentadas . na sociologia rural americana pode-se identificar três etapas: a primeira vai do início deste século até os primeiros anos da década de 50. Essa situação de “esgotamento” está dando lugar a novas concepções teóricas-metodológicas que alguns autores chamam de “nova sociologia rural” (Newby) ou “sociologia da agricultura” (Buttel). é conhecida como a época do enfoque do comportamento psico-social. A sociologia rural anterior a 1950 teve uma orientação teórica baseada no continuum rural-urbano (Toennies. Missouri. A terceira época. cuja manifestação mais conhecida foi a difusãoadoção de inovações. Minnesota. A segunda época. e que separam a sociedade rural da urbana. 1982) mostraram que os conceitos de “urbano” e “rural” não eram nem variáveis explicativas nem categorias sociológicas. onde o estudo sobre a agricultura foi construído como um dos muitos elementos necessários para compreender a estrutura social da vida comunitária rural. Esses autores mostraram que o conceito de “rural” era essencialmente descritivo e empírico e. De acordo com Buttel et al (1990). refere-se à “nova sociologia da agricultura”. Uma que pode ser chamada de “funcionalista” e a outra de “marxista clássica”. desde a metade da década de 70. Alguns autores (Gans e Pahl apud Newby. Kentucky e Iowa. queremos chamar a atenção sobre as transformações econômicas e sociais que estão fazendo emergir um novo “mundo rural” . A meados dos anos 60. A inícios da década de 50 essa tradição foi questionada por um novo grupo de sociólogos rurais influenciados pela Psicologia Social e formados principalmente na Cornell University e nas universidades de Wisconsin. a perspectiva teórica que dominava a sociologia rural (o continuum rural-urbano) entrou em crise. um conceito que foi deixado de lado na pesquisa social anterior aos anos 70. A noção de continuum rural-urbano estabelece uma série de traços da sociedade urbana e a sociedade rural que se supõem funcional e causalmente conectados.

” (Solari. “Desde a habitação rural isolada e até a grande cidade. 1973:12) 2 . Em outras palavras. existe um contínuo.por Sorokin e Zimmerman como extremos de uma escala polar de muitas gradações. existem inúmeros escalões intermediários que vão criando uma transição insensível entre o meio rural propriamente dito e o meio urbano. Entre o meio rural e o meio urbano existe uma gradação infinita.

Wilkening (1949. Essa orientação teórico-metodológica reflete-se na sociologia rural até inícios da década de 70. dentro da tradição da psicologia social consideravam que os agricultores eram atores sociais capazes de responder ao estímulo de novas tecnologias agrícolas. como a teoria da difusão e adoção de inovações. familiares e organizacionais) e relacionados com determinadas unidades de análise. 1950. Emile Durkheim e Max Weber eram considerados os modelos clássicos de pesquisa dentro da tradição da psicologia social da sociologia rural. Nesse período a sociologia rural foi mais quantitativa que durante a tradição dos estudos da comunidade rural (1900-1950).3 Os sociólogos rurais. elaborados por Hoffer (1942)4 e Ryan e Gross (1943)5 em Michigan e Iowa respectivamente. mas hipóteses necessárias de trabalho que surgem em abudância durante a rotina das pesquisas diárias e os amplos esforços sistemáticos para desenvolver uma teoria unificada capaz de explicar todas as uniformidades observadas de comportamento. Weber criticou amplamente as metodologias que implicavam a imposição da proposta hipotético-dedutiva das ciências naturais sobre as ciências sociais. assim como dos meios de comunicação e do sistema educacional. mantém sua influência até hoje. 1952. “A teoria de médio alcance é usada principalmente na sociologia para servir de guia às pesquisas empíricas. Por exemplo. a agenda mertoniana das Teorias de alcance médio (Middle-Range Theory). onde se combinava o raciocínio da psicologia social com um tipo de análise funcional (ou seja. Ocupa uma situaçào intermediária entre as teorias gerais de sistemas sociais. a noção de que a adoção de novas tecnologias poderia contribuir para uma mudança social positiva). apenas guardam uma superficial semelhança com as obras de Durkheim e Weber. a partir da síntese parsoniana e de uma incipiente Teoria da Ação enquanto que a noção da Theories of the middle range3 de Merton era a noção central na pesquisa sociológica e na sociologia rural das décadas de 50 e 60. a sintonia do funcionalismo com a análise causal a nível micro era estranha às noções centrais de Durkheim na sua análise da sociedade. Isto era uma premissa para compreender a expansão de novas tecnologias e significava uma postura a favor das mudanças tecnológicas. O mesmo pode se dizer em relação ao método históricocomparativo de Weber. Na tradição de pesquisa dentro da linha da difusão/adoção o agricultor era visto como um ator que respondia a diversos estímulos para melhorar a produção agrícola. organização e mudanças sociais. revolucionou a pesquisa e deu coerência à sociologia americana e definiu um modelo de pesquisa sociológico que em muitos aspectos. as teorias intermediárias entre as pequenas. De acordo com Buttel et alii (1990) os primeiros estudos dentro dessa tradição foram. A noção de Merton tinha como objetivo permitir que os sociólogos transformassem certas proposições abstratas do funcionalismo parsoniano em hipóteses testáveis com dados a nível micro (individuais.A. Apesar dessas críticas. as quais estão muito afastadas das espécies particulares de . E. A teoria de adoção-difusão de inovações foi o protótipo da “Theory os Middle-Range”. Teorias de médio alcance. Para Buttel et alii (1990) a síntese parsoniana e a elaboração de Merton. 1954)6 da Universidade de Chicago Merton denomina.

5 Ryan.comportamento. East Lansing: Michigan Agricultural Experiment Station. Rural Sociology 8 (March): 15-24 6 Wilkening. “The diffusion of hybrid seed corn in two Iowa communities”.”Merton (1970:55) 4 Hoffer. organização e mudanças sociais para explicar o que é observado e as minuciosas ordenadas descrições de pormenores que não estão de modo algum generalizados. Special Bulletin No. Eugene A. Acceptance of approved Farming Practices Among Farmers of Dutch Descent. Rural Sociology 14 (March). Neal C. Bryce e Gross. “A sociopsychological study of the adoption of improved farming practices”. 316. Charles M. 1949: 68-69 3 .

Lionberger (1960)9.”Rural Sociology 23 (June). caracteriza-se pela busca de teorias adequadas para compreender as estruturas agrárias modernas. Beal e Bohlen (1957)8. 1954: 29-37.4 exerceu uma grande influência nas primeiras pesquisas de difusão e adoção de tecnologias agrícolas. Na década de 70 uma nova geração de sociólogos rurais foram influenciados pelas críticas de Mill. a dinâmica central era a penetração do capital urbano-industrial na agricultura e o desaparecimento.” Rural Sociology 15 (December). mas inevitável. 1956: 284-292.” Rural Sociology 21 (September/December). ____________________”Change in farm technology as related to familism. Lenin. Essa busca significou a redescoberta de um conjunto de propostas clássicas para a compreensão do desenvolvimento agrário. ____________________ “A sociopsychological approach to the study of the acceptance of innovations in farming. 1950: 352-364. Gouldner e outros. Wright Mill criticou a teoria parsoniana e chamava a atenção de que as Teorias de Médio Alcance de Merton conduziam a um empiricismo abstrato que sufocava a imaginação sociológica. . “A multiple correlation analysis of factors associated with adoption of farm practices.” Amercican Sociological Review 19 (February). ____________________ “An introductory note on the social aspects of practice adoption. and family integration. Muitas das preocupações da sociologia rural traduziam-se em crítica da revolução verde. Beal. Para Kautsky. 1952: 272-275. family decision-making. a lógica básica do desenvolvimento agrário era a vinculação entre a estrutura de classes e a diferenciação social na agricultura e a formação de um mercado interno no capitalismo. A reavaliação da perspectiva teórica dominante na sociologia rural nas décadas de 50 e 60 pode levar a uma nova sociologia rural. George e Bohlen. baseada no marxismo. ____________________ “Informal leaders and innovators in farm practices” Rural Sociology 17 (September). Igualmente. na sua Imaginação Sociológica. Coughenour (1960)10 e Rogers (1962)11. As críticas de Mill receberam pouca atenção dos sociólogos rurais. por acreditar que os pequenos produtores agrícolas não tinham acesso às novas tecnologias além de serem ecologicamente destrutivas. A segunda tradição (19751985). Outros analisaram os impactos ecológicos da modernização da agricultura e argumentaram que os pesquisadores deviam considerar as variáveis ecológicas se eles queriam compreender a organização social e as mudanças tecnológicas na agricultura. do campesinato. essa tecnologia tinha como efeitos a marginalização da agricultura familiar e dos trabalhadores. 1958:97-102 7 Fliegel. por exemplo. Alguns sociólogos rurais analisaram a estrutura da pesquisa agrícola e o papel da sociologia rural no desenvolvimento e difusão de novas tecnologias. lento. Também foram notáveis as contribuições de Fliegel (1956)7. particularnente das obras de Marx. Essas perspectivas teóricas sobre a agricultura eram principalmente dedutivistas na medida em que buscavam identificar a lógica particular do desenvolvimento agrário. Kautsky e Chayanov. Em 1959. Joe. Frederick. Para Lenin.

Ames: Iowa Agricultural Extension Service 9 Lionberger.The Diffusion Process. “The functioning of farmers charecteristcs in relation to contact with media and practice of adoption. C. 8 . Diffusion of innovations. 1960: 283-297 11 Rogers. Herbert F. 1962. Everett M.” Rural sociology 25 (September). Adoption of New Ideas and Practices. Special Report 18. 1960 10 Coughenour. Milton. New York: Free Press. Ames: Iowa State University Press.

. onde o ponto de partida contém o destino final da trajetória: a mercadoria resulta de atividade particular. um operário e não um camponês. a “impossibilidade de definir claramente seus rendimentos demonstra que o conceito de camponês n’O Capital é logicamente impossível”. somente pode satisfazer suas necessidades através do mercado e é ali onde se manifesta a contradição entre o caráter social do trabalho e a apropriação privada de seu resultado. Se o camponês obtém lucro. ao mesmo tempo. Portanto é na produção de mercadorias que se encontra a base da diferenciação social que provoca o surgimento das classes sociais. mas voltada.. para a satisfação de necessidades gerais. Segundo Abramovay (1992). Cabe salientar que Marx não trata sobre as tendências e funções da agricultura familiar no desenvolvimento capitalista. Esses caráter transitório do campesinato (e de todos os pequenos proprietários) explica a ausência de um conceito de camponês na obra de Marx. Esses argumentos enfatizam que existe uma lógica última do desenvolvimento que se explica pela necessidade de sua própria dinâmica. Dessa forma surge uma nova relação social baseada na cooperação. privada. o produtor de mercadorias. Referimos-nos a Questão Agrária de Kautsky e a Desenvolvimento do capitalismo na Rússia de Lenin. as duas obras clássicas sobre a problemática agrária dentro da tradição marxista devem ser analisadas de acordo com o contexto de debate político em que seus autores estavam inseridos. sociais. O Capital de Marx: “. esses argumentos dedutivos abstratos tendem a perder força explicativa diante variações espaciais e temporais. Para Lenin se o campesinato em seu conjunto apoiaria a revolução democrática. De acordo com Abramovay (1992:36). Quando os trabalhadores exerçam a cooperação e a propriedade comum da terra e dos meios de produção será superada a contradição entre o trabalho social e a apropriação privada.5 Essas teorias dedutivas da estrutura agrária foram úteis no seu tempo e ainda podem fornecer elementos importantes para a pesquisa. Portanto os esforços dos socialdemocratas russos deveriam centrar-se na organização naqueles camponeses que mesmo sendo proprietários vendiam sua força de trabalho. por exemplo para garantir a acumulação do capital urbano-industrial. Sendo a burguesia e o proletariado as classes fundamentais da sociedade capitalista. Se receber salário tratase de um trabalhador assalariado. o campesinato está fatalmente condenado a desaparecer. Os debates da socialdemocracia alemã e Russa e os trabalhos de Kautsky e Lenin não se apoiavam nas conclusões de O Capital nem nas partes das Teorias da Mais-Valia em que Marx analisa a questão agrária. Isto se explica pela própria lógica de sua obra.. ele se torna um capitalista. A burguesia e o proletariado expressam essa contradição.” Abramovay (1992:33) No capitalismo. situa-se no plano de uma fenomenologia das formas sociais. somente os camponeses pobres apoiariam a revolução socialista. A ênfase de Lenin na diferenciação social do campesinato deve ser entendida na sua tentativa de demonstrar a impossibilidade de estabelecer uma ampla aliança de classes para realizar a Revolução na Rússia. ou para racionalizar a produção agrícola. Porém. Além disso. essas teorias dedutivas tendem a estar baseadas em argumentos teleológicos.

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aqueles que consideravam o campesinato em processo de rápido desaparecimento. Para Abramovay (1992:42) a idéia da diferenciação social de Lenin deve ser entendida no contexto do debate entre bolcheviques e mencheviques. a contradição entre progresso técnico e agricultura familiar enfatizada por Kautsky. os camponeses se tornariam capitalistas ou proletários. se insere nesse dilema e denuncia a falsidade dos socialdemocratas que fomentavam a ilusão da permanência dos camponeses no capitalismo e no socialismo. ou estavam estreitamente vinculados a ela. Por sua vez. O desaparecimento desse objeto de estudo subverteu a confiança dos sociólogos rurais dedicados a analisar as diferenças entre o “rural” e o “urbano”. os camponeses poderiam se unir aos proletários na construção da sociedade socialista. Argumentavam também que a pequena produção era tecnicamente superior à grande exploração capitalista. Pelo outro. a tarefa o partido deveria organizar os trabalhadores assalariados agrícolas e explicar aos camponeses a inevitabilidade de seu desaparecimento.propriedades objetivas e universais do desenvolvimento do capitalismo no campo”.. a não ser exigir as mesmas condições de trabalho no campo e na cidade.6 É sobre essa idéia da diferenciação social do campesinato que se formou o mais importante paradigma marxista sobre a questão agrária. Na base dessa argumentação encontra-se a idéia de que os socialdemocratas não poderiam levantar reivindicações de qualquer setor social proprietário de meios de produção. Por um lado. Para Engels.. Portanto o partido não deveria incluir nenhuma reivindicação camponesa (enquanto proprietários) no seu programa. mais do que “. tornado esta idéia o ponto de partida e de chegada de suas análises. Na Questão Agrária.1995 Os problemas de definição da sociologia rural partem do fato de que o “rural” não constitui uma categoria sociológica. Para eles. Igualmente Kautsky rejeita qualquer possibilidade de incluir no programa do partido qualquer tipo de reivindicação camponesa. aqueles que buscavam levantar algumas reivindicações específicas para o campesinato (crédito. Enquanto as populações rurais ficavam menos homogêneas. Contudo. os . Além disso. No interior do partido havia duas tendências. Para os primeiros. 2. O desenvolvimento do capitalismo no campo não resultou na proletarização dos pequenos produtores. mostrou ser falsa. A sociologia rural podia definir-se como o estudo dos que moravam numa localidade rural e se dedicavam à produção de alimentos. a obra de Kautsky deve ser compreendida no contexto do debate da socialdemocracia alemã na busca do apoio da população rural para ampliar sua representação parlamentar. Os marxistas estudiosos da problemática agrária dedicaram-se a encontrar a tendência da diferenciação social. O trabalho de Engels A questão camponesa na França e na Alemanha. por exemplo). No passado esse problema permaneceu oculto devido a que na maior parte das zonas rurais dos países capitalistas industrializados coincidiam as localidades de residência e de trabalho. Os anos de mudança: 1975 . Kautsky tentou demonstrar a inutilidade de dedicar esforços na organização do campesinato em processo de desaparecimento devido principalmente à superioridade técnica da grande exploração agrícola. as previsões de Lenin e Kautsky não se realizaram.

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mas há populações específicas que por razões diversas estão localizadas em zonas rurais. Ainda que a definição mais comum da sociologia rural consiste em considerá-la “o estudo científico da sociedade rural”. isto simplesmente desloca a questão central de se a “sociedade rural” pode definir-se sociologicamente. Sem dúvida trata-se de redefinir os velhos problemas a partir de novas abordagens. A sociologia rural se define melhor como a sociologia das localidades geográficas que têm uma população escassa e de pouca densidade em termos relativos. Esta tarefa seguirá exigindo um conhecimento empírico muito responsável da estrutura e as relações sociais. A sociologia rural parece enfrentar um conjunto de problemas relativos ao seu objeto de estudo.7 sociólogos também perdiam a clareza em relação ao que era o “rural”. que requer uma análise mais cuidadosa. a sua responsabilidade pública e inclusive a sua competência para fazer pesquisa. as críticas à sociologia rural ainda não permitiram uma mudança importante nos programas de pesquisa nesse campo. A história desta disciplina tem sido obstaculizada pela busca fútil de uma definição sociológica do “rural” e pela resistência a desconhecer que esse termo é uma categoria empírica mais que sociológica. a sua pertinência teórica. A perda de confiança na orientação que segue a sociologia rural tem sido maior nos Estados Unidos. quantitativo e “aplicado”. constitui uma mera “expressão geográfica”. de forma indutiva. De acordo com Newby (1982) as características do estilo “científico” da sociologia rural são as seguintes: positivista. Na falta de uma definição do “rural” aceitável do ponto de vista sociológico. Segundo Newby (1982) a sociologia rural tem-se caracterizado por sua natureza a-teórica e inclusive anti-teórica e até pela sua tentativa de elaborar. resulta irônico que a influência da sociologia rural americana tenha se estendido com maior rapidez e amplitude que antes. As origens da crise Existe certa confusão sobre a possibilidade de uma definição significativa do ponto de vista sociológico do “rural”. sem referência às teorias “gerais” da sociedade. não pode existir uma teoria da sociedade rural sem uma teoria da sociedade geral. esse termo é apenas um “referente empírico”. Do anterior derivam-se duas consequências: Em primeiro lugar. combinado com uma teoria que explique essa estrutura e essas relações. Apesar disso. ou seja. Esta confusão é sintomática de uma dificuldade conceitual mais profunda. Novos problemas sociais e sociológicos emergentes estariam provocando nos sociólogos rurais o sentimento de que eles não estavam suficientemente preparados para responder a essa nova situação. na década de 70 a sociologia rural parecia ter perdido o rumo. Muitos sociólogos têm negado a possibilidade de estudar a sociedade rural como uma parte da sociedade em seu conjunto. Mas isto poderia ser compreensível se levamos em conta que os autores clássicos têm descuidado a sociologia rural no seu esforço por criar teorias da sociedade industrial . não existe uma população rural. uma teoria sociológica especificamente rural. Além disso. Para alguns autores como Newby (1982). Contudo. indutivo. A formulação desta “nova sociologia rural” é um desafio para os sociólogos rurais na atualidade.

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urbana, além de que frequentemente têm ignorado a natureza da sociedade rural. O rural tem sido considerado como um resíduo e, portanto tem recebido pouca atenção na teoria sociológica geral.

Em segundo lugar, dado que o “rural” é uma categoria espacial é necessário uma teoria que vincule o espacial com o social. Além de que, uma teoria sociológica deverá enfatizar o social. A sociologia rural americana tornou-se sinônimo de um empirismo superficial, rejeição da teoria e banalização de temas importantes. A sociologia rural buscou a legitimidade científica nas instituições de ensino superior através da utilização de instrumentos estatísticos e a quantificação e manejo de dados, tentando compensar a negligência teórica com a competência metodológica. Porém, essas técnicas de coleta e análise de dados não significaram uma melhora no conhecimento produzido. A lentidão para entender esses fatos tem contribuído para o aprofundamento da crise da sociologia rural. Nos últimos anos acreditou-se que as falhas na compreensão do funcionamento da sociedade rural deviam-se unicamente à falta de dados e ao caráter rudimentar dos instrumentos disponíveis para medição e elaboração de modelos. O irônico é que na medida em que se aperfeiçoavam as técnicas de coleta e análise de dados ficava mais longe a possibilidade de entender a sociedade rural (Newby, 1982). Recentemente há indícios que as fraquezas teóricas da sociologia rural estão sendo questionadas, sobretudo nos Estados Unidos, mesmo que ainda não foi substituída a teoria do continuum rural-urbano por um novo corpo conceitual ou por um conjunto de problemas teóricos que poderia possibilitar novos temas de pesquisas para a sociologia rural. Não se trata de propor uma teorização abstrata, mas de reconhecer que a elaboração teórica e a pesquisa empírica não são exercícios separados. Como mencionado anteriormente, a sociologia rural requer de uma teoria da sociedade, dentro da qual pode ser localizado o “rural”. O que implica que os sociólogos rurais devem conhecer melhor as teorias sociológicas gerais, ainda que, não há uma teoria geral da sociedade aceita pelos sociólogos. Os sociólogos rurais devem adotar uma visão mais totalizadora para estudar a sociedade rural. É importante que os sociólogos rurais se considerem a si mesmos como sociólogos que tem como objetivo estudar certos aspectos das zonas rurais. Para Newby (1982) uma nova sociologia rural deve partir de um enfoque totalizador no estudo da sociedade rural. O debate internacional: a “nova sociologia rural” A nova sociologia rural procura entender a estrutura interna e a dinâmica da agricultura a partir de teorias neo-weberianas e neo-marxistas. Dentre os temas tratados por esta nova perspectiva estão: o papel da etnicidade na persistência da agricultura familiar; a indústria agrícola; a força de trabalho assalariado agrícola; pequenos produtores e a agricultura em tempo parcial e, gênero e agricultura. Ultimamente, o “meio ambiente da agricultura”, tanto no sentido literal como metafórico, também ocupa as preocupações desta nova perspectiva. No sentido literal, explora temas relacionados com os fatores naturais e

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ecológicos e os impactos da agricultura sobre o meio ambiente. A nova sociologia rural também trata sobre temas relacionados ao ambiente sócio-econômico da agricultura como as mudanças tecnológicas na agricultura, a sociologia das ciências agrárias e a crise agrícola (principalmente sua origem no ambiente das políticas públicas). De acordo com Buttel et alii (1990), um dos traços da nova sociologia que emergiu entre a metade e fins da década de 70 foi a diversidade de seus enfoques teóricos. Por exemplo, Rodefeld e Heffernan revisaram teorias tradicionais e demonstraram que a tendência aparentemente “natural” da diferenciação na agricultura tinha implicações negativas para os agricultores familiares e as comunidades rurais. Mais tarde foi desenvolvida uma tradição teórica baseada na economia política marxista e, especialmente, na abordagem clássica da economia política agrícola de Marx, Kautsky e Lenin. Nesse mesmo período, foram publicados um conjunto de artículos escritos por Mann e Dickinson (1987), Friedmann, e Newby que abriram novas visões na análise sociológica da agricultura, através da aplicação da teoria marxista. Esta tendência foi consolidada com a antologia editada por Buttel e Newby (1980), a publicação de um livro de Friedland et al (1981) e uma antologia por Havens et al (1986)12. Recentemente a economia política da agricultura tem tomado uma orientação neo-weberiana, estimulada por Newby e Mooney. Finalmente, a partir de 1980, a nova sociologia da agricultura tem sido influenciada por uma postura ecológica. A nova sociologia da agricultura tem sido teoricamente diversa, porém existem características comuns desta reorientação da pesquisa sociológica rural. Primeiro, a nova sociologia da agricultura tem sido teoricamente mais ambiciosa que as pesquisas tradicionais dominantes antes do início da década de 70, tentando combinar, a teorização macrosocial com a elaboração de formulações teóricas falsificáveis e hipóteses testáveis. Segundo, na nova sociologia da agricultura, os métodos qualitativo e histórico da pesquisa, têm uma maior importância, do que tiveram na pesquisa sociológica rural durante a década de 60. Da mesma forma que a perspectiva behaviorista, que era dominante nos anos 50 e 60, não substituiu a perspectiva dos estudos da comunidade rural, assim, também, a nova sociologia da agricultura não tem significado a substituição, da perspectiva behaviorista, em particular, da difusão-adoção de inovações. Certamente, a perspectiva da difusão-adoção, precisa ser revisada para manter-se viável e contribuir para a compreensão da agricultura. O maior aspecto distintivo - e sem precedentes - da nova sociologia da agricultura nos Estados Unidos tem sido a importância que tem concedido às perspectivas marxistas e neo-marxistas. Tal vez o trabalho de Steeves (1972)13 na Rural Sociology, foi o primeiro exemplo de um artigo publicado numa revista oficial, baseado amplamente na teoria marxista. Porém foi só até finais da década de 70 que começaram a ser elaboradas sistematicamente explicações marxistas, nas universidades, sobre a dinâmica da agricultura nos Estados Unidos.

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Havens, Eugene. Studies in the Transformation of U.S. Agriculture. Boulder, CO: Westiew Press, 1986 apud Buttel, F. et al. (1990) 13 Trata-se do artigo de Allan D. Steeves, “Proletarianization and class identification” Rural sociology 37 (march), 1972: 5-26 apud Buttel, F. et alii (1990)

O artigo de Mann e Dickinson. E como já foi mencionado anteriormente. A razão chave para entender o descaso da obra de Marx nos estudos sobre a agricultura tem sido tal vez o modelo marxista da polarização do processo econômico (de acordo com as leis da centralização e concentração do capital e a proletarização) entre capital e trabalho. especialmente de seu Tratado de Economia Marxista. Eles sugeriram que na obra de Marx encontram-se elementos de uma explicação não-voluntarista e não-subjetivista de porque o desenvolvimento capitalista é entendido em termos de proletarização e o estabelecimento da relação capital-trabalho é um processo mais lento na agricultura que na indústria. 1978b)14 e Newby (1978). reforçando com isto a idéia de que as atividades . está baseado principalmente no O Capital e os Gundrisse de Marx e secundariamente no trabalho de Lenin. O valor não é criado nessas interrupções. negado pela persistência da agricultura familiar Mann e Dickinson (1987) identificaram as fraquezas dos argumentos subjetivistas dominantes (Chayanov) sobre a persistência da agricultura familiar nas sociedades capitalistas avançadas. uma revista britânica que tem sido vanguarda na revitalização de uma economia política de estudos camponeses e da história agrária da Europa. Marx foi quase totalmente ignorado nas análises das mudanças estruturais na agricultura dos sociólogos rurais norteamericanos até finais da década de 70. Friedmann baseou-se na obra de Ernest Mandel. foi relevante para compreender a dinâmica estrutural da agricultura americana. Por tal razão. Apesar dessas inovações. O que é extraordinário dessa primeira fase do desenvolvimento da economia política marxista da agricultura é que essas primeiras contribuições basearam-se nos clássicos da economia política. por exemplo. um dos mais influentes “neo-weberianos” na Inglaterra. Eles enfatizaram que por causa da sazonalidade na agricultura existe uma tendência à separação entre o “tempo de produção” e o “tempo de trabalho”. Em termos marxistas. Seu estudo sobre a Questão Agrária de Kautsky. Portanto a agricultura torna-se não-lucrativa e por isso relegada aos agricultores familiares. o “trabalho vivo” contribui modestamente no processo de produção. O artigo de MannDickinson e um de Friedmann (1978b) foram publicados no Journal of Peasant Studies. Newby16 sugere que uma sociologia da agricultura proveitosa deveria basear-se na integração das perspectivas de Marx. Mann e Dickinson sugeriram que a realização das mercadorias agrícolas implica um maior tempo (tempo de produção mais tempo de circulação [tempo requerido para a venda das mercadorias]) do que a indústria. o “trabalho vivo” é o único que cria mais-valia. A terceira grande contribuição para o desenvolvimento da economia política da agricultura foi o trabalho de Newby (1978)15. o que dificulta a “calendarização” do processo de trabalho tornando a agricultura menos lucrativa que a indústria. os artigos pioneiros nesta tradição foram preparados por Mann e Dickinson (1987).10 Como já foi dito. Kautsky e Weber. dessa forma se produz a não identidade entre “tempo de produção” e “tempo de trabalho”. Newby (1978) centrou seus esforços na obra de Kautsky. No seu artigo de 1983. Friedmann (1978a.

Chichester.”Annual Review of Sociology 9: 67-81. 1: 71-99. state. 1978 16 ”A sociology of agricultura: toward a new rural sociology. 1983 14 . (org). and family farm: social bases of household production in an era of wage labor”.” Journal Peasant Studies 6. 15 ”The rural sociology of advanced capitalist societies. International Perspectives in Rural Sociology.” In: Newby H. 1978b. 1978a e “Simple commodity production and wage labour in the American plains.Trata-se dos artigos de Harriet Friedmann: “World market. England: Wiley. Comparative Studies in Society and History 20: 545-586.

os produtores capitalistas da Inglaterra. Mann e Dickinson. não obtém excedente para sua reprodução. os capitalistas são obrigados pela lógica da concorrência a competir para obter a taxa média de lucro para que suas empresas não fiquem fora do mercado. Eles enfatizaram que a pesquisa agrícola pode reduzir ou eliminar a distância entre tempo de produção e tempo de trabalho. minimizando a perecibilidade das mercadorias agrícolas e reduzindo o tempo “biológico” das plantas. Friedmann considera que os produtores simples de mercadorias agrícolas têm um maior grau de flexibilidade que os capitalistas reduzindo seu consumo ao nível de subsistência para sobreviver nos períodos de crise. considera que o desenvolvimento do capitalismo tardio tem significado a destruição da agricultura familiar e que as forças que afetam a produção agrícola . emergiu uma tradição neo-marxista diferente. da Prusia e dos Estados Unidos não conseguiram competir com os produtores familiares dos Estados Unidos.fazem improvável a sobrevivência da agricultura familiar. Friedmann indica o alto grau de risco e a demanda cíclica de trabalho da maioria dos sistemas de produção agrícola. Finalmente. diferentemente dos capitalistas.11 agrícolas estariam nas mãos de produtores agrícolas não-capitalistas. De Janvry (1980). Porém. portanto resulta menos atraente para os capitalistas. Porém. Por outro lado. As análises de Friedmann estão baseadas na tradição teórica marxista. De Janvry argumentou que o desenvolvimento capitalista na agricultura é mais lento que na indústria e que torna bastante provável que as forças da proletarização e a acumulação capitalista na agricultura destruam lentamente a agricultura familiar. Mann e Dickinson observaram que dado que os produtos agrícolas são perecíveis. Os capitalistas agrícolas tendem a liquidar seus negócios quando estes não são capazes de gerar a taxa média de lucro. subsídios estatais para pesquisa e investimento de capital . ao contrário enfatizam porque o capital não está interessado em investir na produção agrícola. Mesmo enfatizando as particularidades da agricultura que leva à persistência da agricultura familiar. um dos representantes dessa tradição. Então. eles não chegam a afirmar que o desenvolvimento na agricultura não tem um caráter capitalista. aumentam o risco de produção e. porém a sua explicação da persistência da agricultura familiar (que ela denomina de produção simples de mercadorias) descansa amplamente em como a agricultura familiar pode enfrentar a concorrência das empresas capitalistas no contexto hostil de mercados competitivos de meios de produção e mercadoria agrícolas. refirindo-se a América Latina.mudança tecnológica. seguindo as obras de Kautsky e Lenin. as relações capitalistas devem penetrar irreversível e . o produtores independentes são uma classe transicional no capitalismo avançado. Ela argumentou que a produção agrícola familiar. Simultaneamente com os trabalhos de Mann-Dickinson e Friedmann. Friedmann reconhece que existem condições que podem levar para sua transformação em formas capitalistas de produção. Friedmann testou empiricamente essa proposição com dados históricos que mostraram que durante a crise do preço do trigo no fim do século passado. Os produtores simples de mercadorias necessitam apenas de sua “reprodução simples”. provocando a sua diferenciação em classes sociais antagônicas. na visão de De Janvry.

inevitavelmente na agricultura familiar levando assim a seu desaparecimento como tem acontecido na indústria nas sociedades capitalistas avançadas. É útil notar que A questão agrária de Kautsky contém um conjunto de argumentos sofisticados sobre a lenta penetração do capitalismo na agricultura. Kautsky argumentou .

os trabalhadores desempregados com pequenas propriedades poderiam temporariamente retornar à produção de subsistência até melhorar as condições na indústria. Um primeiro passo dentro desta linha de pensamento foi a do teórico marxista Kautsky. A agricultura familiar resulta importante nas políticas dos Estados que buscam a descentralização do sistema industrial. a agricultura familiar aparece como tendo a . Esta integração das esferas de produção agrícola e não-agrícola tem sido elaborada por Bonanno (1985. mas que as relações capitalistas igual que na indústria. Neste contexto. mas as causas que permitem a emergência de formas organizacionais da produção agrícola. a agricultura em tempo parcial servia de reserva de trabalhadores das indústrias localizadas nas áreas rurais. Friedland afirma que o ritmo e a amplitude da penetração do capitalismo na agricultura. Nesse sentido. tornando-se desta forma uma força de trabalho de reserva. variam de acordo com o sistema de produção. baseado na agricultura da Califórnia. Esta proposta foi mais desenvolvida por Mottura e Pugliesi (1980). 198717). que analisou o papel do estado no estímulo às pequenas propriedades como uma estratégia para mediar os conflitos de classes nas sociedades avançadas. apesar de sua lentidão resultaria na descomposição do campesinato alemão.12 que o capitalismo. principalmente na Itália e nos Estados Unidos. Na indústria de algodão. Os trabalhos de Friedland representam também uma notável contribuição dentro da tradição de Kautsky e Lenin. O trabalho está também aumentando sua informalidade. uvas-passas e tomates. Dentro desta concepção as empresas industriais deslocam-se para as áreas rurais onde os trabalhadores não são sindicalizados e os salários são mais baixos porque muitos trabalhadores potenciais têm suas pequenas propriedades produzindo ineficientemente e. tem sido o argumento de que a diferenciação dos agricultores no capitalismo pode ser incompleta no futuro previsível quando a produção agrícola e não-agrícola venha a ser integrada dentro de um sistema particular que incorpore diferentes formas de organização da produção. há poucas oportunidades alternativas. acerca da lenta penetração do capitalismo na agricultura. Em períodos de contração industrial e desemprego. além disso. vários programas estatais que tentam resolver os problemas da agricultura. No seu livro. torna-se comum o trabalho por peça. está em constante crescimento. Manufacturing Green Gold. numa análise histórica da pequena agricultura familiar de tempo-parcial no sul da Itália e das funções da agricultura familiar no desenvolvimento econômico contemporâneo. Ele analisou particularmente a produção de alface. ele tomou uma postura similar a de De Janvry. podem ter a função de permitir a continuidade da agricultura familiar. Outro impulso na literatura de economia política neo-marxista. enfatizando o predomínio das análises sobre a emergência das relações capital-trabalho na agricultura e a separação dos produtores independentes de seus meios de produção. Apesar disso. O argumento central era que enquanto mais a produção agrícola organizava-se sob formas capitalistas. Ele argumentou que a questão central para compreender a evolução da agricultura nas sociedades industriais avançadas não era simplesmente o tipo dominante de posse das empresas agrícolas.

CO: Westview Press. 1987 apud Buttel. Departamento de Sociologia. . “The persistence of small farms in marginal areas of advanced Western societies: the case of Italy.17 Bonanno. Alessandro. Boulder. Et alii.” Tese de Doutorado. 1985 e “Small Farms. F. Universidade de Kentucky. (1990).

direta ou indiretamente. Mooney desenvolveu um modelo da estrutura de classes na agricultura incluindo as “localizações contraditórias de classes” que podem ser encontradas na agricultura familiar (unidade de capital e trabalho na agricultura familiar): o capitalista agrícola e o trabalhador assalariado agrícola. num certo sentido. A explicação de Mooney de porque essas “localizações contraditórias de classes” têm um componente subjetivista e está baseada na distinção weberiana de racionalidade substantiva e formal. uma fonte de trabalho de baixo custo e de segurança para os membros da família com pequenas propriedades. Esta super-exploração permite a transferência de valor da esfera domestica da produção para a esfera capitalista. pela agroindústria. esses . através de vários mecanismos. Além disso. Por conseguinte. O salário que os membros da família obtêm fora da sua propriedade. na agricultura de tempo-parcial. Sendo esta idéia um aspecto central para a compreensão das sociedades desenvolvidas e em desenvolvimento. Mooney observa que muitos agricultores são motivados mais pelas formas de racionalidade substantiva (por exemplo. Em cada um desses “desvios” não existe a relação capitaltrabalho na produção agrícola e onde os agricultores são explorados por uma fração de capital não-agrícola (no arrendamento. agricultura em tempo-parcial e endividamento. nos contratos agrícolas. o desejo por autonomia no seu trabalho) que pela racionalidade capitalista formal. A esfera domestica torna-se uma reserva de trabalho que subsidia a esfera capitalista. fornecendo ao mesmo tempo. Mooney observa que há alguns “desvios” que podem ser tomados pelos agricultores para evitar a proletarização. diametralmente opostas. pelo capital financeiro). contratos agrícolas. pelos latifundiários. pelos capitalistas não-agrícolas e no endividamento. Mooney argumentou que a exploração dos trabalhadores assalariados agrícolas é somente uma forma que a penetração capitalista na agricultura pode tomar. Então. Seguindo Wright (1985). o trabalho não-pago dos agricultores familiares reduz o salário dos trabalhadores empregados na indústria e os preços dos produtos agrícolas requeridos pelos agricultores. pelo outro. muitos dos trabalhos mais provocativos na tradição marxista dentro da “nova sociologia da agricultura” representam uma tentativa explicita ou implicitamente de realizar uma síntese. Mooney considera que esses “desvios” podem ser mais significativos. Particularmente. são. que as relações capital-trabalho. Friedland e outros na tradição de Lenin (e em menor medida de Kautsky).13 função de “keeper of surplus labor”. Esses “desvios” implicam arrendamento. Uma vez que as perspectivas de Mann-Dickinson e Friedmann por um lado e de De Janvry. Wenger e Buck (1988)18. contribui a pagar os custos da produção agrícola. analisaram a exploração e a super-exploração (extraindo maior valor daquele permitido para a reprodução da força de trabalho) dos membros da agricultura familiar. Por exemplo. A principal contribuição de Mooney tem sido lançar dúvidas se a existência convencional das relações capital-trabalho é uma adequada referência para avaliar a existência da penetração capitalista na agricultura. seguindo essa linha de pensamento e principalmente a partir dos primeiros trabalhos de Andre Gunder Frank (1967)19. na agricultura.

agricultores tendem a ser tenazes na participação dentro das empresas e freqüentemente tendem a tomar Wenger. New York: Monthly Review. Morton G. families. Pem Davison. Capitalism and Underdevelopment in Latin America. et alii (1990). 1988.. e Buck.” Rural Sociology 53 (Winter). F. apud Buttel. (1990) 19 `Frank. Andre Gunder. “Farms. 1967. 18 . F. and superexplotation: an integrative reappraisal. apud Buttel. et alii.

Esse debate deve ser compreendido no contexto político da “guerra fria”. No Brasil. deterioração dos termos de intercâmbio comercial e em conseqüência. obras de infraestrutura. Foi nesse contexto que emergiu um amplo debate de idéias sobre os problemas sociais e econômicos dos países do ‘terceiro mundo”. queda do salário real. Mooney argumentou que sua proposta superava as incompatibilidades das teorias marxistas e weberianas. Essas condições desfavoráveis marcam um novo período que pode caracterizar-se da seguinte maneira: O fortalecimento do capitalismo americano e suas novas formas de intervenção: investimentos diretos na indústria. Por outro lado. A politização do debate resultou das condições desfavoráveis que impediam a continuidade do processo de industrialização iniciado na década de 30. A diferença da Revolução industrial inglesa. organização sindical. o alinhamento dos países da América Latina à política da “guerra fria” significou a subordinação à estratégia de reconstrução do capitalismo sob hegemonia dos estados Unidos. a industrialização brasileira não implicou oposições e divisões entre a burguesia comercial/aristocracia agrária e classes industriais. Foi nesse contexto que se desenvolveu o debate no Brasil sobre a situação de atraso e as formas de superá-lo. a menos de que se adotasse uma perspectiva marxista ou leninista mecânica. 3. etc. abastecimento. inflação dos preços. da polarização de blocos (soviético e americano) e da descolonização. a crise capitalista da década de 30 estimulou um crescimento industrial considerável para suprir o mercado interno de bens industriais. empréstimos e cooperação técnica. a escassez de divisas. A produção teórica brasileira sobre o “mundo rural”: a influência do marxismo clássico A segunda guerra mundial (1939-1945) alterou profundamente as condições do comércio internacional e impactou de forma significativa nos países exportadores de alimentos e de matérias primas. que possibilitou a implementação de uma política estatal de industrialização no governo Vargas. Com esse incipiente processo de industrialização também se iniciou o ciclo de intervenção do Estado em vários setores da economia: investimento na siderurgia. Por sua vez. A tendência a aumentar a concentração de renda.14 um dos quatro “desvios” do desenvolvimento capitalista a fim agricultura. compras de empresas nacionais já instaladas. expansão do crédito. reorganização político-administrativa. ajuda militar. O processo de industrialização ficou num impasse: ou expandir o mercado interno ou reequipar o parque industrial através . queda da taxa de acumulação da indústria. O êxodo rural e a existência de uma massa de desempregados nas cidades contribuíram para a aliança de classes de caráter populista. de permanecer na Mann e Dickinson (1987) replicaram vigorosamente aos argumentos de Mooney e também criticaram seu projeto de sintetizar a proposta marxista e weberiana dado que algumas dessas teses são incompatíveis.

A primeira opção implicava um amplo movimento de apoio político para impulsionar mudanças estruturais onde a .da introdução de capitais estrangeiros.

Para os ideólogos do desenvolvimento o processo de transformação estrutural20 seria conduzido pela burguesia nacional em aliança com o proletariado urbano e onde a agricultura teria o papel de produzir alimentos e matérias primas e consumir bens industriais. Um debate que já existia entre os juristas brasileiros do século XIX. Roberto Simonsen salienta que está preocupado com os “fatos econômicos” e não com as intenções dos legisladores. que as relações de produção por não serem capitalistas retardavam a expansão do consumo de produtos industriais. que para entender as “instituições feudais” no Brasil. capitalistas ou escravistas. A reforma agrária seria a forma proposta para superar esse obstáculo e romper a aliança de poder dominante. a segunda opção demandaria uma rearticulação das classes e grupos sociais e econômicos vinculados aos interesses da “desnacionalização”. tiveram que conhecer o debate que existia entre historiadores espanhóis e portugueses acerca do feudalismo na Península Ibérica. Acioli Borges e outros. Entre os anos 30 e 50 o debate entre os autores que tratavam sobre a agricultura referiam-se obrigatoriamente a esse debate. Na sua História Econômica. especificamente sobre o caráter do latifúndio. Desde essa nova perspectiva. Portanto. posicionando-se ao qualificar alguns aspectos da estrutura agrária como feudais. esse debate adquire um novo conteúdo. a transformação da agricultura era indispensável para o desenvolvimento capitalista. A produção teórica brasileira sobre o “mundo rural” A produção teórica dos anos 60 sobre o “mundo rural” esteve fortemente marcada pelo debate em torno da natureza das relações de produção no campo.15 agricultura teria que desempenhar um papel-chave. Em conseqüência. a modernização das forças produtivas e as relações de produção possibilitariam a expansão do capitalismo no Brasil. A estrutura agrária baseada no latifúndio-minifúndio explicava o atraso das forças produtivas e sua incapacidade de produzir alimentos a baixo custo para suprir o mercado interno e em segundo lugar. o principal obstáculo estaria localizado no reduzido mercado interno. o interesse de estudo desses historiadores limitava-se às instituições. durante o segundo governo de Getúlio Vargas. O debate desses anos enfocava duas questões centrais: em primeiro lugar. Entretanto foi a polarização entre nacionalismo e entreguismo que colocou os termos do debate sobre o desenvolvimento capitalista nas décadas de 50 e 60. Nas décadas de 20 e 30 com a constituição de um campo intelectual independente e separado do Estado. autores como Nestor Duarte. tentaram mostrar a existência do feudalismo no Brasil a partir dos “fatos econômicos” e da legislação. De acordo com os ideólogos do desenvolvimento. que o atraso da agricultura era um obstáculo para o desenvolvimento capitalista. nos textos de Clóvis Caldeira. a polarização internacional existente na “guerra fria” traduziou-se a nível interno na polarização entre nacionalismo e entreguismo ou entre comunismo e democracia. Essa idéia era decorrente de uma visão feudalista da sociedade brasileira. Dessa forma. Cabe mencionar que. De acordo com Palmeira (1983) nos trabalhos da Comissão Nacional de Política Agrária. existia uma clara 20 . Por sua vez.

.Esse processo de transformações estruturais é conhecido na literatura como “Revolução Brasileira”.

Uma visão diferente tinha Furtado quando afirmava que a estruturas arcaicas só poderiam ser rompidas por indução. a agricultura e indústria progressista de São Paulo (o setor moderno) teria que vencer a resistência do outro Brasil (o setor arcaico). A segunda: o surgimento de novos partidos e grupos de esquerda que questionaram o “monopólio” exercido pelo Partido Comunista. constituindo unidades auto-suficientes separadas entre si) e resistente às mudanças. desempregada e pobre. o latifúndio e os capitais estrangeiros. através de ações impostas pelo setor moderno urbano e industrial. o outro “fechado e arcaico”. levando-lhe tecnologias e capital. O primeiro refere-se ao setor urbano e o segundo ao campo. a definição do estágio dessa “revolução”. O “moderno” em oposição ao “arcaico” era resultado da importação da “civilização industrial”. Tratava-se principalmente de aumentar a produtividade agrícola através da modernização tecnológica e a reorganização da produção em grandes empresas capitalistas. E também eram a favor da participação do capital estrangeiro. no início da década de 60 o debate feudalismo x capitalismo ultrapassa o campo intelectual e torna-se uma questão política por duas razões principais. portanto a reforma agrária não era necessária. a monocultura e o atraso técnico. Segundo essa concepção dualista. Cada grupo tinha sua versão da “revolução brasileira”. Entre seus aspectos negativos estavam: a fixação do homem no latifúndio. Segundo Palmeira (1983).16 preocupação em caracterizar as relações entre proprietários e agregados ou determinadas formas de arrendamento. . a sociedade brasileira (e dos países com passado colonial) estaria dividida em dois setores: um “aberto e moderno”. O camponês converte-se num protagonista político através da sua participação nos sindicatos rurais e nas ligas camponesas. A concepção dualista partia da premissa que a colonização gerou o latifúndio de caráter feudal (socialmente hierarquizado. O “arcaico” explicava-se pelo passado colonial assim como por resíduos de formas atrasadas de produção. ao mesmo tempo em que ampliaria o consumo de bens industriais. a reforma agrária passava a ser uma condição necessária para superar a produção insuficiente de alimentos e baixar os preços dos produtos agrícolas. ou seja. A primeira: a emergência de um movimento camponês e as lutas pela reforma agrária. criando uma população rural inútil. No caso do Brasil. Para os defensores dessa interpretação a modificação da estrutura fundiária não era fundamental ao desenvolvimento do capitalismo no Brasil. Assim. Essa posição aproximava Furtado de outras correntes dualistas intituladas “marxistas” que defendiam a “revolução democráticoburguesa” para eliminar os “restos feudais” (relações de trabalho no campo). A visão dualista A visão dualista da sociedade brasileira deriva-se das idéias de dois sociólogos franceses (professores de universidades brasileiras): Jaques Lambert e Roger Bastide. E isto passava necessariamente pela caracterização das relações dominantes na agricultura brasileira. sobretudo reconhecendo que a mentalidade dos capitalistas brasileiros impedia a poupança e o investimento produtivos.

única instância de grande expressão em que a parceria se apresenta em proporções apreciáveis ela se acha ligada não a reminiscência ou anacronismo feudais ou outros quaisquer. às classes médias urbanas e ao proletariado. Mas. Caio Prado Júnior enfatizava as origens capitalistas do Brasil. O fortalecimento dessa “burguesia nacional” estaria sendo obstaculizada pela limitação do mercado interno (pobreza do campesinato). 1972:30)21 Dessa forma rejeita a visão linear da evolução dos modos de produção preconizada por Alberto Passos Guimarães (Quatro Séculos de Latifúndio. Porém caberia aos camponeses participar da aliança popular na “revolução democráticoburguesa”. Caio Prado Júnior e André Gunder Frank foram os primeiros a criticar a visão feudal da sociedade brasileira. De acordo com as teses “marxistas” o setor moderno estaria composto pela “burguesia nacional” em oposição às empresas estrangeiras instaladas no país (o imperialismo). Da mesma forma. 1963) e difundida nas publicações soviéticas. “Falar assim da parceria como forma institucional de relações de trabalho e de produção que sobrevive anacronicamente de um passado feudal. ao negar o caráter nacional da industrialização do período Kubitscheik e caracterizar como capitalistas as relações de trabalho no campo. Tanto mais que no próprio caso da cultura algodoeira.Editora Brasiliense: São Paulo. foi na Revolução Brasileira (1966) que criticou profundamente o modelo desenvolvimentista. Uma idéia que se aproximava da visão dualista mais conservadora. A revolução brasileira.” (Prado Júnior. Caio. Os “feudais latifundiários”. na sua Formação do Brasil Contemporâneo. criticaram a idéia “marxista” da coexistência de dois modos de produção: o feudal e o capitalista.17 As teses marxistas “tradicionais” e o nacional-desenvolvimentismo Segundo as teses “marxistas” das décadas de 50 e 60 as estruturas econômicas e sociais do Brasil caracterizavam-se pela coexistência de dois modos de produção: o feudal e o capitalista. vinculadas à empresa colonial portuguesa e à expansão do capital mercantil. Caio Prado Júnior rejeita a idéia dos autores que viam na parceria (remuneração do trabalho e serviços prestados com participação no produto) a representação do caráter feudal da agricultura brasileira. No início da década de 40. nem muito menos 21 Prado Júnior. é evidentemente falso. Essa visão determinista nem leva em conta os processos históricos nem aceita modificações na sucessão dos modos de produção no tempo. e sim a circunstâncias peculiares da cotonicultura e conveniências técnicas e financeiras que lhe dizem respeito. os grupos comerciais em aliança com o imperialismo e ainda os camponeses representavam o obstáculo para o desenvolvimento capitalista. 1972 .

se encaixa perfeitamente nos esquemas políticos mais retrógrados”. Baran) rejeita a possibilidade de coexistirem numa mesma sociedade setores independentes uns de outros. “A questão política vivida como questão intelectual iria atribuir um sentido político às querelas intelectuais do passado.. bem arrumada. aparecer como um obstáculo à prática política e à própria prática científica”. ou mesmo indicações concretas que fundamentassem suas idéias. e Roberto Simonsen e Gunder Frank.23 Os defensores da tese feudalista consideravam que. De acordo com Palmeira (1983)22 o caráter político do debate fica evidente no confronto entre o texto de Alberto Passos Guimarães e André Gunder Frank. Gunder Frank influenciado pelas análises teóricas do grupo “marxista”americano da Monthly Review (Sweezy. reacionária. de um certo modo. É uma teoria conservadora. Então uma série de formulações que estavam dispersas naquele momento foram sistematizadas em um grande debate. eles dificilmente podem ser eliminados pela extensão do capitalismo ainda mais longe. No início dos anos 60. como os países mais desenvolvidos. 22 Citado em “Revisão crítica da produção sociológica voltada para a agricultura” ASEP-CEBRAP (1983) . partidários da tese capitalista e assim por diante” (Palmeira. 1983: 16). ia buscar em autores do passado argumentos de autoridade.) Se o desenvolvimento atual e os males da agricultura são devidos ao capitalismo. derivada logicamente desta análise é. na verdade abolir o feudalismo e seguir o mesmo caminho geral de desenvolvimento. Como disse Palmeira (1983: 16) “A necessidade de demarcar posições é que irá mover o debate. Gunder Frank responde da seguinte forma: “A conclusão política. defensores da tese feudal.. “Se a estrutura agrária brasileira sempre teve uma configuração capitalista por que revolucioná-la. 1983) As argumentações dos dois autores refletem as divergências e as lutas políticas da esquerda brasileira. para sustentar suas posições. dandolhe uma densidade ideológica até então inexistente e fazendo-o. por que reformá-la? A teoria do capitalismo colonial não é assim um achado histórico tão inocente quanto parece. transformado-as e a seus protagonistas em elementos de um só e mesmo debate. que aproximava no tempo autores como Alberto Passos e Nestor Duarte. que. Nesse caso é o próprio capitalismo e não o feudalismo que tem que ser abolido” (Gunder Frank apud Palmeira. (Guimarães). o que se transplantou para o Brasil foi o “feudalismo colonial”.18 poderia reconhecer a existência de outros sistemas de produção além dos definidos previamente. apesar de que a burguesia comercial era um elemento hegemônico do Estado português. enquanto que para os defensores da tese capitalista. (. cada um dos autores que defendia a tese feudal ou a tese capitalista.

Todas as referências de Palmeira provêm do documento do ASEP-CEBRAP. 23 . a menos que se indique o contrário.

Palmeira afirma que essa manipulação de dados evidencia que o que estava em jogo não era uma questão de demonstração científica. onde a questão chave era determinar a existência ou não de uma classe camponesa no Brasil. Para Palmeira (1983) alguns autores manipulavam as estatísticas com o objetivo de defender suas posições. Por sua vez. mas um jogo de relações políticas em que os autores estavam imersos. Como conseqüência. Diegues Júnior e o CIDA (Comité Interamericano de Desenvolvimento Agrícola). a estruturação do projeto político da “revolução democráticoburguesa” caberia a um grupo de intelectuais liderados por Hélio Jaguaribe e organizados no ISEB (Instituto Superior de Estudos Brasileiro) criado no Governo de Jucelino Kubitschek. No início da década de 70.19 mesmo que a colonização tenha sido uma empresa feudal. enquanto os defensores da tese feudal afirmavam que no Brasil existia uma classe camponesa que tinha a posse efetiva dos meios de produção. submetida ao mesmo tipo de exploração econômica que os trabalhadores urbanos. proletários. Por sua vez. Mas. que ao mesmo tempo diferenciavam do proletário. para . Tanto os defensores da tese feudalista como os defensores da tese capitalista identificavam o camponês com o pequeno produtor. mas não sua propriedade jurídica. conclui que a população rural estava constituída em quase dois terços por camponeses. O debate sobre o caráter do latifúndio levou os sociólogos rurais a discutir à problemática das classes sociais. utilizando os mesmos dados chegam à conclusão que uma metade da população rural eram camponeses e a outra. para os defensores da tese capitalista. além da dualidade capitalista/feudalista: a plantation. Cardoso. Por exemplo. nas suas teses de doutorado realizadas em Paris. O corpo das idéias organizadas em torno desse projeto político passou a ser conhecido como “ideologia nacional-desenvolvimentista”. Maria Isaura Pereira de Queiroz. Dentro desse projeto a estrutura brasileira era concebida como uma “fase de transformação” orientada para o desenvolvimento nacional. o que se transplantou foi o capitalismo. Como resultado do debate. Esses empresários rurais formariam parte da burguesia. É por isso que. o latifúndio. baseando-se em dados do Censo Demográfico e Agrícola de 1950. que se opunha a uma classe latifundiária numa luta pela propriedade da terra. S. propunham a existência de sistemas de produção específicos. Essas propostas representavam uma mudança importante no debate sobre as estruturas sócio-econômicas do Brasil. a luta pela terra seria secundária. os partidários da tese capitalista consideravam que não existia nada no Brasil que se assemelhasse a uma classe camponesa e que o que existia era uma classe de empresários rurais possuidores e na maior parte dos casos. proprietários dos meios de produção. a pequena produção mercantil ou a economia camponesa vista desde a perspectiva de Chayanov. ou o escravismo colonial. E quem se opunha aos empresários rurais seria uma massa de trabalhadores agrícolas (proletários). André Gunder Frank descobre dois terços de proletários e semiproletários. Sociólogos como Moacir Palmeira e historiadores como Ciro F. os pesquisadores abandonaram a visão dualista capitalismo/feudalismo e passaram a ter uma postura crítica em relação aos esquemas evolutivos dos modos de produção.

com . a ideologia mais representativa desse período era o nacionalismo que permitiria articular os diversos setores sociais.Jaguaribe.

sob a direção dos ‘empreendedores nacionais’. Compreendia Jaguaribe como nacional-capitalismo o conjunto de políticas adotadas por Vargas. o qual. no dizer de Jaguaribe. “Tal ideologia implicava na adoção de determinado modelo para a então ‘atual fase da vida nacional’. o único capaz de promover o desenvolvimento. Castro. O novo modelo nacional-trabalhista propunha uma drástica intervenção na agricultura para extinguir o seu caráter semifeudal e. assim como ao aumento do salário e do consumo. as forças sociais semifeudais remanescentes. 1979: 38). Em conseqüência. surgiram diversas tentativas críticas da análise dualista que buscavam outra interpretação das transformações que de fato estavam acontecendo na sociedade e em especial na agricultura. sob um objetivo comum: a expansão das forças produtivas. A prática política dos anos seguintes mostrou a fragilidade dos postulados teóricos do nacional-desenvolvimentismo. Ana Célia et al. Brasília. Essas críticas referem-se à visão da agricultura brasileira como “ineficiente” e incapaz de reagir aos estímulos da dinâmica da demanda da indústria nacional (por matérias primas e alimentos) e por produtos exportáveis. Deveriam reduzir-se rapidamente as desigualdades sociais e o desequilíbrio entre o campo e a cidade. era o nacional-capitalismo.” (Castro. Quadros e (até meados de 1963) Goulart.20 exceção dos latifundiários comprometidos com o statu quo.24 O modelo nacional-capitalista entra em crise no final de 1963 devido ao reconhecimento da heterogeneidade da sociedade brasileira o que significava por um lado desigualdades regionais e por outro. em fazendas cooperativas médias e grandes fazendas estatais. Binagri Edições. portanto. estas tinham em comum o esforço pelo desenvolvimento. Além de que a agricultura era incapaz de incorporar inovações tecnológicas em proporções significativas o que limitava a constituição de um mercado interno para os produtos industriais. 1979. numa visão ecumênica das classes sociais. Mas para isto era necessário o concurso de todos os setores “progressistas” em torno do “desenvolvimentismo” encarnado inicialmente no Plano de Metas do Governo Kubitschek. Evolução recente e situação atual da agricultura brasileira. Kubitschek. 24 . ausência de uma consciência nacional da burguesia brasileira que tendia a privilegiar sua essência burguesa antes que seus traços nacionais. A necessidade de reajustar o modelo nacional-capitalista dava passo a um novo modelo o nacional-trabalhismo. As propriedades tradicionais seriam transformadas em modernas fazendas capitalistas. autônomo e endógeno. A implementação do novo modelo possibilitaria a aliança entre a burguesia nacional e o proletariado porque o desenvolvimento capitalista levaria à criação de mais emprego. dentro do sistema de iniciativa privada e tendo no Estado a instância de planejamento coordenação e suplementação. em propriedades familiares médias.

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Enquanto na visão dualista o “obstáculo” ao desenvolvimento poderia ser eliminado através da reforma agrária e reformas estruturais. a diferença entre o Nordeste “tradicional” e o Centro-Sul “moderno”. libera mãode-obra e eleva o nível de rendimento dos que ficaram no campo. buscando responder afirmativamente à questão de se a agricultura poderia cumprir as cinco “funções” definidas por Johnston e Mellor: a) produzir alimentos a baixo preço para as cidades. Yufiro Hayami e Vernon Ruttan.21 As análises da nova fase distinguem-se das interpretações anteriores. A análise centrase na posição de equilíbrio e as políticas propostas têm como objetivo a maximização dos recursos disponíveis. na crítica conservadora a tese que afirma que a agricultura é um obstáculo para o desenvolvimento. a chave do processo de desenvolvimento econômico reside. Por outro lado. o que. d) abrir mercado consumidor para produtos industriais. o que elimina algumas questões como. baseou-se na proposta teórica-metodológica de T. reduzindo a influência de posturas ideológicas e sem fundamentação empírica. e) produzir gêneros exportáveis para possibilitar a capacidade de importação. fundamentalmente. b) liberar mão-deobra para a indústria. Para Delfim Neto apud Castro (1979:50) “. A pesquisa em nível universitário. Nesta perspectiva neoclássica a empresa agrícola é considerada uma empresa capitalista comum. No entanto. a situação do pequeno produtor e as particularidades da pequena produção.W. sem gerar uma crise de abastecimento ou de fornecimento de matérias-primas. aumentando a taxa de remuneração dos capitais investidos. Por exemplo. manifestava a preocupação por buscar a compreensão da realidade efetiva. A visão modernizante Por sua vez a crítica conservadora (Delfim Netto. estava na forma de encarar o objeto de estudo.. a diversidade das relações de produção.” De acordo com esta concepção a agricultura financiaria o desenvolvimento industrial. a um só tempo. por exemplo. Nessa visão a agricultura tem um lugar central no desenvolvimento econômico. por sua aparente “despolitização” e por estarem construídas a partir de levantamento de dados nas pesquisas de campo para sustentar os postulados teóricos. c) fornecer recursos para a formação de capital. Pereira de Carvalho e Ruy Miller Paiva) aos modelos aceitos na década de 50 e 60. é refutada empiricamente. Affonso Celso Pastore. dependeria do tipo de insumos utilizados e disponíveis (intensidade do fator capital no Centro-Sul e intensidade do fator Trabalho no Nordeste) e não de fatores estruturais. através de uma transferência de mão-de-obra do setor agrícola para os outros setores. a industrialização baseada na exportação de produtos agrícolas levou a uma especialização em torno de produtos como café. cacau e açúcar. Schultz. numa melhoria da produtividade do setor agrícola. Segundo Delfim Neto essa política a favor da agricultura de exportação manteve no mercado produtores .. a diferença fundamental entre essa e outras concepções em relação às funções que deveria cumprir a agricultura.

A. Maria de Conceição d’Incao) as relações sociais no campo são predominantemente capitalistas e portanto se faria desnecessário a reforma agrária. Antônio Barros de Castro afirmavam que a agricultura desempenhou seu papel requerido pela industrialização. Por sua vez. considera que a agricultura longe de cumprir um papel passivo. Octávio Guilherme Velho. Primeiro. Esses autores na busca de elaborar uma análise mais flexível introduziram noções como: articulação de diferentes modos de produção. Tese de Doutorado.22 ineficientes. A diferença de outros autores “modernizantes” . a disseminação de novas tecnologias tinha um significado macroeconômico. os autores divergem quando se trata das relações sociais no campo. porque a decisão de um grande número de produtores afetaria os preços dos fatores de produção e essas modificações no preços reduziriam as vantagens da nova tecnologia. Ruy Miller Paiva centrava sua análise nos preços para explicar a mudança tecnológica na agricultura. A crítica radical A crítica radical (uma visão modificada da tese capitalista) às posições dualistas baseia-se na capacidade que tem o desenvolvimento capitalista de refuncionalizar as formas existentes e de criar outras relações não-capitalistas de produção. 25 . Delfim Neto25 considerava que o livre mercado liberaria fatores de produção para serem utilizados em outras atividades mais lucrativas (criação de gado e de aves). b) O desenvolvimento do capitalismo necessitava recriar formas não capitalistas de produção para seu próprio funcionamento e portanto não se constituem em “obstáculo” de seu próprio desenvolvimento. Miller Paiva situa-se numa das correntes mais importantes conhecidas como “modernizadoras” da agricultura. O problema do café no Brasil. Maria Rita Loureiro. disponibilidade de capital. Francisco de Oliveira e Maria de Conceição de d’Íncao. Para outros (Maria Isaura Delfin Neto. Em consequência. USP. Outros autores como. Nas suas análises incorpora variáveis não econômicas como a demografia. imprime suas próprias características no desenvolvimento urbanoindustrial. E segundo. a estrutura social e o processo histórico. Alguns pontos devem ser salientados dessa crítica radical: a) O Brasil foi construído historicamente a partir da expansão do capitalismo europeu e seu desenvolvimento capitalista pode ser caracterizado como “dependente” ou “periférico”. diferentes relações de produção nas formações econômico-sociais e “subsunção formal do trabalho ao capital”. Essa crítica é sustentada por autores como José de Souza Martins. a questão da mudança tecnológica implicava dois aspectos. No seu estudo sobre o café. Porém. Rio de Janeiro: Editora da Fundação Getúlio Vargas. desconsiderando outras variáveis econômicas importantes como informação. os trabalhadores assalariados em lugar de lutar pela terra deveriam organizarse nos sindicatos e lutar pelas suas reivindicações de classe. 1979. a adoção de uma nova tecnologia depende da avaliação que faça o agricultor do custo-benéficio. Para alguns (Francisco de Oliveira. Para ele.

que descrevia como uma melhor organização do trabalho (que implicava uma racionalização do tempo e de cada movimento do trabalhador) poderia aumentar a produtividade. ainda que lentamente. Nos Estados Unidos . de novas contribuições teóricas e metodológicas. 1992)26. que alguns autores denominam de “acumulação flexível” (Harvey. W. culturais e sociais. tecnologias. o que Ford fez foi racionalizar velhas tecnologias e uma divisão do trabalho que já existia. Essas contribuições se expressam na incorporação de novos temas como a questão do meio ambiente. O objetivo da jornada de oito horas e os cinco dólares não era só aumentar a produtividade mas permitir que os trabalhadores tivessem as condições de tornar-se consumidores em massa. as noções do que é rural e do que é urbano. sociais e culturais que estão acontecendo em escala mundial e que estão mudando o caráter dos empregos e a organização das economias. os hábitos de produção e de consumo. As transformações do capitalismo mundial neste fim de século estão mudando radicalmente os processos de produção. Estamos vivendo numa era de incerteza. Octávio Guilherme Velho). desde finais do século passado. Mesmo assim. em 1911 tinha sido publicados Os Princípios de Administração Científica de F. caracterizada por um processo de transição. A crise do regime fordista está associada à perda da hegemonia política e financeira dos Estados Unidos. como resultado da racionalização fordista. o desenvolvimento sustentável (José Elí da Veiga) e a emergência de um “novo mundo rural” (Graziano da Silva). a saturação dos mercados internos da Europa e do Japão. Taylor. na gerência da produção e no consumo de massa. Henry Ford com o objetivo de aumentar a produtividade. A produção teórica brasileira sobre o “mundo rural” Apesar de que a nível geral existe uma espécie de estancamento e até refluxo da produção teórica sobre o “mundo rural”. José de Sousa Martins. introduzia a jornada de 8 horas e 5 dólares de recompensa para os trabalhadores de sua fábrica de automóveis em Michigan. a existência de um campesinato brasileiro estaria evidenciado não só pela posse jurídica da terra. mas pelas práticas e representações ideológicas. que vigoraram desde o fim da Segunda Guerra Mundial até inícios dos anos 70. o perfil dos trabalhadores. hábitos de consumo e configurações de poder político e econômico. Autores como Graziano da Silva (1996) percebem a emergência de um novo rural brasileiro produto da urbanização do meio rural brasileiro e da industrialização da agricultura e que formam parte de profundas transformações econômicas. o significado do espaço e do tempo e as práticas do Estado. O regime fordista pode ser definido como um conjunto de práticas de controle do trabalho.23 Pereira de Queirós. exigia a exportação dos excedentes. Na segunda metade da década de 60. Com o fordismo emergia uma nova sociedade baseada no controle racional do trabalho. já em 1914. No entanto. Antes. Porém. do regime de acumulação fordista para outro. milhares de trabalhadores estavam sendo deslocados da manufatura. 4. observa-se uma absorção.

David. a partir de 26 Harvey. 1992 . Condição Pós-moderna. Porém.esse declínio da demanda efetiva foi compensado pela produção de armas para a guerra de Vietnã e pelo combate à pobreza.Edições Loyola: São Paulo.

a longo prazo. cerca de um terço dos novos empregos criados estavam na categoria de “temporários”. assim como por rápidas mudanças das práticas de consumo e do surgimento de novos setores de produção. Apesar de que a flexibilização do mercado de trabalho não tem criado uma forte insatisfação trabalhista porque às vezes pode ser mutuamente benéfica. ou seja. novas formas de financiamento e inovações tecnológicas. a revista Fortune publicou que setenta e cinco por cento das peças de máquina eram produzidas em lotes de cinquenta ou menos. como o setor serviços. As novas formas de organização da produção colocaram em xeque a organização tradicional. Nesse mesmo período. As economias de escalas foram substituídas pela produção de pequenas quantidades de bens a preços baixos. O excedente de força de trabalho e a redução do poder dos sindicatos têm permitido aos patrões impor contratos de trabalho mais flexíveis. Esse novo regime de acumulação cria as condições para o crescimento do emprego no chamado “setor serviço” e uma alta mobilidade geográfica ou uma compressão do espaço tempo. produto da redução dos custos de transporte e da comunicação via satélite. cresce o número dos trabalhadores temporários e subcontratados sem nenhuma garantia de emprego. Como contraponto. quando as empresas obrigam os trabalhadores regulares a trabalhar mais nas épocas pico de demanda. por exemplo.24 1966. os “trabalhadores “flexíveis” aumentaram 16% enquanto os empregos permanentes caíram em 6%. Porém. enquanto a intensidade de trabalho se reduz com a queda da demanda. nos Estados Unidos. a falta de segurança do emprego e dos direitos de pensão afetará negativamente aos trabalhadores. marca o início dos graves problemas fiscais dos Estados Unidos que seria resolvido a custas da aceleração da inflação. Os “trabalhadores flexíveis” são contratados facilmente e são demitidos sem custos quando a empresa está em crise. a mudança mais importante têm sido a queda do emprego regular e o crescimento do trabalho em tempo-parcial. temporário ou subcontratado. com o crescimento de outros setores da economia. A flexibilização do mercado de trabalho se dá. provocando o fechamento de numerosas fábricas e estimulando um processo de desindustrialização. comerciais e organizacionais. O mercado de trabalho no regime de acumulação “flexível” caracteriza-se pela redução dos trabalhadores em tempo integral e pelo grau de adaptação às novas condições. Em 1983. Também se observa o crescimento de economias “informais” nos países capitalistas avançados e a reformulação do papel das mulheres no mercado de trabalho. (Harvey. Essas possibilidades de comunicação e a redução do espaço têm aumentado a capacidade dos empregadores para o controle da força de trabalho e em conseqüência. 1992: 148) A subcontratação e a . Na Inglaterra. (Harvey. A subcontratação organizada possibilita o surgimento de pequenos negócios. O regime de “acumulação flexível” rompe com a “rigidez” do fordismo e caracteriza-se pela emergência de mercados de trabalho e processos de produção mais flexíveis. entre 1984 e 1985. 1992: 144) Mudanças importantes aconteceram também na organização industrial. a queda da produtividade e da lucratividade das empresas. a redução do emprego e destruição do poder sindical. Porém. ser flexível e geograficamente móvel.

produção de pequenos lotes permitiram superar a rigidez do sistema fordista e atender a um mercado mais diversificado e dinâmico. A flexibilização .

Essa é a sua característica nova: uma . O rápido acesso às informações assim como ao conhecimento científico pode significar altas margens de lucro. Para sobreviver. moradia. ou seja caiu a média da vida útil dos bens produzidos. O “mundo rural” nos países desenvolvidos tem um novo ator social: o agricultor em tempo parcial (part-time farmer) e que se caracteriza por combinar atividades agropecuárias com outras atividades não-agrícolas seja dentro da propriedade ou fora dela. a prestação de serviços. Agora a agricultura não pode ser entendida sem sua vinculação com os setores que lhes fornecem os insumos industriais e lhes compram seus produtos. 1996).25 também provocou a aceleração das inovações e as conquistas de novos mercados. e às mudanças nos gostos dos consumidores. Com as transformações na produção e no consumo também emergiu uma nova estrutura de emprego que privilegia o emprego no setor de serviços (educação. seguros. o turismo. adubos químicos. Nesse contexto. conservação da natureza. Em consequência. dos preços das matérias primas. conservação do meio ambiente são novas atividades em crescimento no campo. imóveis e finanças) em detrimento do emprego industrial. A agricultura deixou de ser um setor relativamente autárquico. No “mundo rural” estão emergindo novas formas sociais e de organização econômica na medida em que a sociedade transita para um novo regime de acumulação. A modernização da agricultura era entendida como a introdução de sementes geneticamente melhoradas. Por sua vez. são essenciais para a tomada de decisões. e se integrou ao resto da economia. mas um trabalhador autônomo que combina diversas formas de ocupação (assalariadas ou não). como a assistência técnica e a extensão rural. a informação e a ciência tornaram-se uma mercadoria. As novas tecnologias ( automação. os funcionalistas americanos continuaram a identificar o campo com o atraso para justificar as ações de fora. A idéia de que as cidades representam o “novo” e o “progresso” e que o campo o “atraso” e o “velho” baseia-se na concepção de autores clássicos como Marx e Weber que identificavam as cidades com o capitalismo e o campo com o feudalismo. turismo. “Em resumo. máquinas e equipamentos que permitissem a superação da pobreza dos agricultores (Graziano da Silva. A idéia que identifica o “rural” exclusivamente com a agricultura não corresponde com a realidade. O lazer. De que forma essas transformações estão afetando o “mundo rural”? Para alguns autores como Graziano da Silva (1996)27. robôs) e novas formas organizacionais reduziram o tempo de giro na produção. com seu próprio mercado de trabalho. saúde. duas realidades em confronto. elemento central para a lucratividade das empresas. tanto em atividades urbano-industrial ou nas atividades emergentes de lazer. No processo de flexibilização e de mobilidade geográfica. o controle da informação assim como a rapidez na análise de dados. as empresas devem ter a capacidade de responder às variações da taxa de câmbio. As cidades não podem continuar a ser sinônimos de produção industrial nem o campo de produção agrícola e pecuária. o parttime não é mais um fazendeiro especializado. também foi reduzido o tempo de giro no consumo. a diferença entre o urbano e o rural é cada vez menos importante. moradia e prestação de serviços pessoais.

1996 (mimeo) .” (Graziano da Silva.pluriatividade que combina atividades agrícolas e não-agrícolas. José. 27 Graziano da silva. 1996:4). O novo rural.

têxtil. Igualmente. bebidas. muitas empresas têm migrado para o campo na busca de uma melhor qualidade de vida para seus funcionários e também por que no campo existe menor controle da poluição. Ainda Graziano da Silva (1996:6-7) enfatiza outros fenômenos relacionados com a pluriatividade nos países desenvolvidos: “a) O ‘desmonte’ das unidades produtivas em função da possibilidade de externalização de várias atividades que antes tinham que ser realizadas na própria fazenda através de contratação de serviços externos (aluguel de máquinas. assistência técnica. os clássicos (Marx. segundo. forma característica de transição da manufatura à indústria mecanizada. Ironicamente. vidro.26 É precisamente essa combinação de atividades não-agrícolas fora de seu estabelecimento que diferencia o part-time da visão marxista clássica da proletarização do campesinato. e o trabalho a domicílio. etc. . individualizou-se a gestão produtiva das propriedades agrícolas e com isso os membros da família foram liberados para realizar outras atividades nãoagrícolas fora da propriedade. etc. Primeiro. b) especialização produtiva crescente permitindo o aparecimento de novos produtos e de mercados secundários. através da combinação de atividades tipicamente urbanas com a gerência especificamente agropecuária (Graziano da Silva. O surgimento do part-time nos países capitalistas desenvolvidos é resultado da redução do tempo de trabalho necessário dos agricultores devido ao aumento da mecanização das atividades agrícolas e da automação das atividades de criação. Em consequência. Kautsky) consideravam que esse processo de proletarização implicava o desaparecimento do campesinato.). com o objetivo de diminuir os custos. como por exemplo. 1996). Muitas indústrias deslocam-se para o campo buscando uma maior proximidade de matérias-primas e de mão-de-obra barata e desindicalizada. que combina desde a prestação de serviços manuais até o emprego temporário nas indústrias tradicionais (agroindústrias. Além disso. A pluriatividade manifesta-se de duas formas. de animais jovens. O novo “mundo rural” caracteriza-se pelo crescimento das atividades rurais nãoagrícolas e pela transferência de atividades urbanas e industrias para o campo. assim como pela redução de áreas cultivadas e/ou a extensificação das atividades agropecuárias. algumas características próprias do mundo rural como as formas flexíveis de contratação e o emprego sazonal e temporário. constituem a nova fisonomia da indústria do final do século XX. através de um mercado de trabalho relativamente indiferenciado. A combinação de atividades agrícolas com não-agrícolas faz parte de um processo de “desespecialização” da divisão social do trabalho e que se origina nas mudanças recentes no processo de trabalho tanto na indústria fordista como na agricultura moderna. mudas e insumo.) e.

“. 1996). assistência médica e educação. assim como também cabe salientar a multiplicação de sítios de recreio (pequenas áreas de lazer de famílias de classe média urbana). que se assalariam nas fábricas de calçados. saneamento básico. Em algumas regiões do Rio Grande do Sul. têm crescido as atividades não agrícolas. aves. Muitas vezes os proprietários dessas pequenas áreas combinan o lazer com o desenvolvimento de alguma atividade produtiva (criação de abelha. exigem um marco conceitual distinto que possibilite entender essas mudanças. no Brasil e na América Latina nas últimas décadas. peixes e outros animais.. principalmente aquelas relacionadas com a proliferação das agroindústrias e as relacionadas com a urbanização do meio rural (moradia. frutas e hortaliças. possibilitando maiores facilidades de acesso aos bens públicos como previdência. atividades de recreação e turismo). a desarticulação do sistema agrícola colonial dá lugar à emergência da ‘part-time farming’ e da ‘pluriactivite’ da força de trabalho dos colonos. O meio rural está criando um outro tipo de riqueza. 1996: 310) No campo brasileiro. lazer e outros serviços) e com a preservação do meio ambiente. além de uma melhora substancial na qualidade de vida para os que moram nas zonas rurais.27 c) formação de redes vinculando fornecedores de insumos. Considerações finais Conclui-se que o “mundo rural” não pode continuar a ser considerado apenas como o espaço onde se realiza a produção agropecuária e fornecedor de mão-de-obra.. especialmente de profissões técnicas e administrativas de conteúdo tipicamente urbano. emboram permaneçam residindo e vivendo no espaço rural-agrário.” Apesar das diferenças.” (Schneider. além de maiores facilidades de transporte e meios de comunicação. agricultores. nos países subdesenvolvidos também pode-se observar a emergência da pluriatividade e do “part-farmer”. constituída de bens e serviços não materiais. o “mundo rural” ganhou novas funções e novos tipos de ocupações (Graziano da Silva. turismo. prestadores de serviços. e) melhoria na infraestrutura social e de lazer. . digitadores e profissionais liberais vinculados a atividades rurais nãoagrícolas. produção de flores e plantas ornamentais. Os conceitos de “urbano” e “rural” resultam obsoletos e não há elementos teóricos que nos expliquem as complexas relações entre eles. agroindústrias e empresas de distribuição comercial. mecânicos. d) crescimento do emprego qualificado no meio rural. como motoristas. ou seja. As transformações da agricultura.

desde uma perspectiva sociológica. 1991). o campo deve continuar (ou não) a ser objeto de estudo da Teoria Sociológica.. 1993) que explore novas perspectivas teórico-metodológicas e defina novos temas de pesquisa. No entanto. “trata-se de reconhecer que tais processos sociais agrários constituem expressões do processo histórico da divisão social do trabalho. como descobrir facetas diferentes de fenômenos já estudados. 1993). Grossi Porto. de acordo com as quais. 1991). dos clássicos aos contemporâneos. apesar das semelhanças que esta tem com outros setores. O “rural” representa um conjunto de objetos empíricos. os resultados desses estudos parecem requerer novos questionamentos e instrumentos teóricos-metodológicos que possibilitem “. torna-se mais dependente da sociedade global. foram estudados fenômenos relativos à estrutura da posse da terra. nas últimas décadas os estudos sobre o “campo” representam parte substancial da produção sociológica brasileira. além do que. os fenômenos que ocorrem no espaço agrário (Tavares dos Santos. um novo enfoque sobre a agricultura”.28 A utilização de critérios espaciais e ocupacionais é insuficiente para explicar as especificidades da sociedade rural. Nesse período.. a distinção entre cidade e campo”. A “tarefa” de revisitar o campo se traduz na definição de fenômenos antes não considerados na análise. o valor das agroindústrias supera o valor da terra. determinarem novas questões a serem analisadas e esboçar tendências e definir as características. deriva-se daí a necessidade de estudar. às políticas de intervenção do Estado para a modernização da agricultura (novas áreas de colonização. Como nos desafia Cavalcanti (1993:62). A partir de uma perspectiva teórica. (D’incao et al. uma “extrema ideologização”.. A definição de um novo campo de estudos da . mais especialmente. (Tavares dos Santos 1991: 15). pois sua estrutura interna baseia-se na propriedade e no uso da terra como fator produtivo e simbólico. (Gómez. chamam a atenção sobre a necessidade de “revisitar o campo” e de construir um outro “olhar sociológico” (Tavares dos Santos. resultado da crescente exclusão social e onde a perspectiva política “. na medida em que perde sua importância relativa.a explicação dos múltiplos entrelaçamentos existentes entre esses diferentes fenômenos e a sociedade em termos amplos. Ainda. como por exemplo. assentamentos. Tavares dos Santos (1991: 15). Entendendo o espaço agrário “como um locus de relações sociais de produção específicas. A produção teórica sobre o “mundo rural” produzida nos últimos quarenta anos merece ser objeto de avaliação profunda e de reflexão crítica que permita encontrar seus obstáculos epistemológicos frente às transformações da sociedade contemporânea. inovações tecnológicas na agricultura e estímulos para exportação) e seus impactos na organização da produção e nas relações de trabalho. enfatiza que a produção teórica brasileira sobre o “rural” tem sofrido. 1994). 1993. alguns sociólogos brasileiros (Cavalcanti. De acordo com Tavares dos Santos (1991). Na mesma linha de Gómez (1994). que dificultam a construção de uma nova abordagem teórica sobre os processos agrários. até a atualidade. mas não necessariamente objetos científicos.parece sobre determinar a visão analítica”. em uma formação social determinada”.. Para formar esses objetos científicos é necessário fazer uso de conceitos e teorias disponíveis no conhecimento sociológico.

Como afirma Solari (1972). .sociologia sobre a agricultura implica algumas limitações e impasses científicos. o desenvolvimento da sociologia está vinculado à mudança social e a uma situação de crise.

Apesar de algumas revisões na produção teórica sobre os processos sociais agrários. porque pouco se afasta dos antigos conceitos dos estudos da comunidade e pela sua incapacidade de criticar o sistema no qual se insere (Friedland apud Cavalcanti. seja pela significância e abrangência dos temas selecionados. 1993: 57). predominantes na Sociologia Rural Americana dos anos 60 ou pela tendência a se utilizar esquemas classificatórios rígidos para enquadrar grupos e classes sociais. questiona em que medida a denominada “crise dos paradigmas”. 1993). em alguns países de capitalismo avançado como Estados Unidos. a sociologia rural teria que desaparecer. busca-se um . por exemplo. Tavares dos Santos (1993). a partir das quais. para facilitar comparações com outros países (Cavalcanti. As críticas têm levado teóricos americanos. França. pode-se propor alguns elementos que possibilitem a superação a denominada “crise dos paradigmas” e construir um outro olhar sobre o campo. Esses problemas têm uma relação direta com a chamada crise dos paradigmas. Nesse caminho. Esta situação agrava-se pelo fato de que na sociologia rural há uma certa inércia explicativa.28 Nos Estados Unidos essa corrente intelectual surge em meados da década de 70. Esse movimento crítico é denominado “nova sociologia rural” ou “sociologia da agricultura”. a sociologia rural mostra-se como expressão da dominação do campo pela cidade e. (Tavares dos Santos. quando a agricultura nesse país atravessa uma crise profunda. os estudos realizados até agora requerem uma análise crítica sobre as possibilidades. Canadá. “sociologia da agricultura”. uma nova tendência intelectual denominada “nova sociologia rural”. produto de obstáculos epistemológicos como. dado o processo de urbanização da sociedade brasileira. obstáculos e tendências da agricultura brasileira. Kautsky e Chayanov. Inglaterra. Lenin. na década de 80 foram feitas algumas avaliações sobre a produção sociológica que teve o campo como objeto e. baseado em tendências neomarxistas e neo-weberianas que resgatam as constribuições de Marx. é dentro dessa preocupação epistemológica que tem emergido. sua vinculação às tradições teóricometodológicas funcionalistas. das ocupações agrícolas em sentido amplo. para converter-se num ramo das sociologias das ocupações. Segundo Cavalcanti (1993). ao menos em seu conteúdo tradicional. é uma condição necessária para novas abordagens. Avaliar essa produção. provoca efeitos negativos na expansão da análise sociológica do campo brasileiro. desde meados da década de 70. 1993). . a propor novas questões de estudos. 1991). seja pelo pouco rigor científico no tratamento dos mesmos. Espanha e Alemanha. A Sociologia Rural nos Estados Unidos está sendo questionada pela sua fragilidade. “economia política da agricultura” ou “sociologia dos processos agrários”. no que se referem aos processos sociais que aí se desenvolvem. Como afirma (Grossi. (que em certa medida é produto da crise do marxismo estruturalista e da análise funcionalista da “sociologia rural”). foram emitidos pareceres contra ou a favor da continuidade dessas análises. completado esse processo. O debate destas perspectivas teórico-metodológicas poderiam contribuir na definição de novos problemas ou questões.29 Dessa forma. A partir da leitura dos estudos agrários recentes. Como foi mencionado anteriormente. além de ser uma obrigação de ofício.

percorrer os mesmos 28 Os teóricos que formam parte da “sociologia da agricultura” publicam a revista International Journal of Sociology and Food ...retorno que possibilite ir ao encontro do novo. Trata-se de “.

visão esta que está presente especialmente nos estudos sobre a difusão de inovações. é a vinculação da Sociologia “Rural” a uma perspectiva evolucionista do pensamento histórico. O primeiro. Com o olhar atento ao invisível.30 caminhos. Tavares dos Santos (1991) identifica alguns obstáculos epistemológicos da Sociologia “Rural” brasileira. para retornar. ao enterrado. quanto questões emergentes que carecem de reflexões sociológicas pertinentes..” A avaliação da produção teórica sobre o “mundo rural” possibilitará o delineamento de perspectivas de análise que abordem tanto temáticas já tratadas. Visões que alcancem. Um terceiro obstáculo refere-se às análises sobre as classes sociais e os grupos sociais. quase sempre. O segundo. 1993). mesmo com lentidão. ao dissimulado. Finalmente se pode afirmar que a influência e predominância do “marxismo clássico” na sociologia rural brasileira têm impedido um desenvolvimento mais amplo das análises acerca da nova dinâmica do “mundo rural”. no âmbito da construção teórica. Nelas. buscou-se a análise das classes a partir da sua posição no processo produtivo. Contudo é possível observar que há. horizontes mais abrangentes. E ao não existente em visitas anteriores. para enfocá-las sob novas dimensões. é a sua vinculação com a orientação funcionalista. Dentro desta visão. as práticas sociais dos grupos dominados são entendidas dentro do processo de modernização. a emergência de uma nova forma de pensar o “mundo rural” no Brasil seguindo a vertente internacional que incorpora de forma criativa as contribuições teóricas de Weber e Marx. Essa visão é criticada por Marx quando reconhece uma nãolinearidade do processo histórico. (Grossi. assumindo uma postura dualista: o “tradicional” e o “moderno” ou “rural” e o “urbano”. as mesmas trilhas e veredas. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS . com novos olhos.

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nestas estruturas. pode constituir para as pessoas um excelente instrumento de compreensão das situações com que se defrontam na vida cotidiana. além de instituições como a família. ao mesmo tempo. mas também desenvolver um "antídoto" para a desintegração social. através dos seus conceitos. o conhecimento sociológico. a experiência de pessoas do mundo é crescentemente atomizada e dispersada. ou desarranjos. A Sociologia surgiu como uma disciplina no século XVIII. Isto ajuda a desenvolver modelos que possam entender mudanças sociais e como os indivíduos responderão a essas mudanças. as qualitativas. Sociólogos fazem uso frequente de técnicas quantitativas de pesquisa social (como a estatística) para descrever padrões generalizados nas relações sociais. é tarefa da Sociologia transformar as malhas da rede com a qual a ela capta a realidade social cada vez mais estreitas.Assim como toda ciência. História |[pic] |[pic] |[pic] |[pic] | . classe e gênero. as técnicas qualitativas — como entrevistas dirigidas. o surgimento do capitalismo ou a gênese do Estado Moderno). Em alguns campos de estudo da Sociologia. Os cursos de técnicas quantitativas/qualitativas servem. E pesquisam os microprocessos como relações interpessoais. o uso de ambas as técnicas de coleta de dados pode ser complementar. na forma de resposta acadêmica para um desafio de modernidade: se o mundo está ficando mais integrado. Hoje os sociólogos pesquisam macroestruturas inerentes à organização da sociedade. normalmente. processos sociais que representam divergência. Entretanto. discussões em grupo e métodos etnográficos — permitem um melhor entendimento dos processos sociais de acordo com o objetivo explicativo. a objetivos explicativos distintos ou dependem da natureza do objeto explicado por certa pesquisa sociológica: o uso das técnicas quantitativas é associado às pesquisas macro-sociológicas. Por essa razão. das observações do que é repetitivo nas relações sociais para daí formular generalizações teóricas. A Sociologia ocupa-se. por exemplo. inclusive crime e divórcio. a Sociologia pretende explicar a totalidade do seu universo de pesquisa. e também se interessa por eventos únicos sujeitos à inferência sociológica (como. de si mesmas como seres inevitavelmente sociais. teorias e métodos. Sociólogos não só esperavam entender o que unia os grupos sociais. Ainda que esta tarefa não seja objetivamente alcançável. das suas múltiplas relações sociais e. procurando explicá-los no seu significado e importância singulares. como raça ou etnicidade. uma vez que os estudos micro-sociológicos podem estar associados ou ajudarem no melhor entendimento de problemas macrosociológicos. consequentemente. às pesquisas micro-sociológicas.

que esperava unificar todos os estudos relativos ao homem — inclusive a História.| | | |Gilberto Freyre | |Karl Marx | |Vilfredo Pareto | |Émile Durkheim |[pic] | | |[pic] | |[pic] | | |Georg Simmel |Ferdinand Tönnies |Max Weber | A Sociologia é uma área de interesse muito recente. A Sociologia surge no século XIX como forma de entender essas mudanças e explicá-las. a Psicologia e a Economia. é necessário frisar. (corrente que teve grande força no século XIX). e ele acreditava que toda a vida humana tinha atravessado as mesmas fases históricas distintas e que. algo mais do que a introdução da máquina a vapor. Antes. 2 Em que pese o termo Sociologie tenha sido criado por Auguste Comte (em 1838). se a pessoa pudesse compreender este progresso. No entanto. baseadas principalmente nas tradições. que a Sociologia é datada historicamente e que o seu surgimento está vinculado à consolidação do capitalismo moderno. se consolida . poderia prescrever os "remédios" para os problemas de ordem social.talvez como o último pensador clássico ou o primeiro pensador moderno. colocaram em destaque mudanças significativas da vida em sociedade com relação a suas formas passadas. portanto. Esta disciplina marca uma mudança na maneira de se pensar a realidade social. de forma muito clara. as terras e as ferramentas sob o controle de um grupo social. para o pensamento social. como as Revoluções Industrial e Francesa. políticas e culturais ocorridas no século XVIII. As transformações econômicas. convertendo grandes massas camponesas em trabalhadores industriais. seu esquema sociológico era tipicamente positivista. desvinculando-se das preocupações especulativas e metafísicas e diferenciandose progressivamente enquanto forma racional e sistemática de compreensão da mesma. Neste momento. da Ciência Política e da Antropologia. Ela representou a racionalização da produção da materialidade da vida social. O triunfo da indústria capitalista foi pouco a pouco concentrando as máquinas. Montesquieu também pode ser encarado como um dos fundadores da Sociologia . mas foi a primeira ciência social a se institucionalizar. Em Comte. Assim é que a Revolução Industrial significou.

a sociedade capitalista. de matriz teórico-metodológica hermenêutico-compreensiva. Mas uma outra circunstância concorreria também para a sua formação. de fundamentação analítica. O desaparecimento dos proprietários rurais. como objeto que deveria ser investigado tanto por seus novos problemas intrínsecos. que divide de modo central a sociedade entre burgueses (donos dos meios de produção) e proletários (possuidores apenas de sua força de trabalho). As transformações econômicas. Correntes sociológicas Porém. Há paralelamente um aumento do funcionalismo do Estado que representa um aumento da burocratização de suas funções e que está ligado majoritariamente aos estratos médios da população. roubos e crimes. Trata-se das modificações que vinham ocorrendo nas formas de pensamento. a imposição de prolongadas horas de trabalho. Este fato é importante para o surgimento da Sociologia. tiveram um efeito traumático sobre milhões de seres humanos ao modificar radicalmente suas formas tradicionais de vida. o que se distingue da percepção de que este papel seja privilégio de um Estado que se sobrepõe ao seu povo. Ela traz diferentes estudos e diferentes caminhos para a explicação da realidade social.. Assim. não necessariamente em ordem de importância: (1) a positivista-funcionalista. e etc. originada pelo Iluminismo. pelas novas condições de existência por ela criada. fundadas pelos seus autores clássicos. e (3) a linha de explicação sociológica dialética. . Máquinas foram destruídas. a Sociologia não é uma ciência de apenas uma orientação teóricometodológica dominante. pois colocava a sociedade num plano de análise relevante. iniciada por Karl Marx. formação de sindicatos e movimentos revolucionários. não poderiam deixar de provocar modificações na forma de conhecer a natureza e a cultura. (2) a sociologia compreensiva iniciada por Max Weber. que mesmo não sendo um sociólogo e sequer se pretendendo a tal. deu início a uma profícua linha de explicação sociológica. das quais podem se citar. atos de sabotagem e exploração de algumas oficinas. evoluindo para a criação de associações livres. tendo como fundador Auguste Comte e seu principal expoente clássico em Émile Durkheim. pode-se claramente observar que a Sociologia tem ao menos três linhas mestras explicativas. como por seu novo protagonismo político já que junto a estas transformações de ordem econômica pôde-se perceber o papel ativo da sociedade e seus diversos componentes na produção e reprodução da vida social. O surgimento da Sociologia prende-se em parte aos desenvolvimentos oriundos da Revolução Industrial. dos artesãos independentes. que se achavam em curso no ocidente europeu desde o século XVI. Não demorou para que as manifestações de revolta dos trabalhadores se iniciassem.

psicológicas. O sociólogo dentro da organização intervem diretamente sobre os resultados da empresa. nesse contexto histórico social. educacionais. A Sociologia. Para compreender o surgimento da sociologia como ciência do século XIX. Esta disciplina tem se concentrado particularmente em organizações complexas de sociedades industriais. Robert E. econômicas. Nos EUA a Sociologia esteve de certo modo "engajada" na resolução dos "problemas sociais". Hinkle. especialmente pela sociologia britânica e positivista de Herbert Spencer). É interessante notar que a Sociologia não se desenvolve apenas no contexto europeu. podem ser citados: William I.Estas três matrizes explicativas. é importante perceber que. levando à sua consolidação como disciplina acadêmica já no início do século XX. contribuindo com os lucros e resultados da organização. instituições sociais e suas interações sociais. Park. políticas. Entre os principais nomes do estágio inicial da sociologia norte-americana. com enfoque científico. Desde o funcionamento de estruturas macro-sociológicas como o Estado. por motivações diferentes que as da velha Europa (mas certamente influenciada pelos europeus. Atualmente. em grande medida. vai debruçar-se sobre todos os aspectos da vida social. lhe será uma "jaula" que o transcenderá e lhe determinará a identidade. algo bem diverso da perspectiva acadêmica europeia. aplicando mormente o método comparativo. as ciências teóricas e experimentais desenvolvidas nos séculos XVII. quando a organização é observada e estudada podem se verificar as falhas assim alterar seu sistema de funcionamento e gerar lucro. inevitavelmente. sem jamais esquecerse que o homem só pode existir na sociedade e que esta. ela estuda organizações humanas. a classe social ou longos processos históricos de transformação social ao comportamento dos indivíduo num nível micro-sociológico. Martin Bulmer e Roscoe C. originaram quase todos os posteriores desenvolvimentos da Sociologia. ele se dá. originadas pelos seus três principais autores clássicos. Thomas. A sociologia como ciência da sociedade Ainda que a Sociologia tenha emergido em grande parte da convicção de Comte de que ela eventualmente suprimiria todas as outras áreas do conhecimento científico. . 3 especialmente a teuto-francesa. Ainda que seja relativamente mais tardio seu aparecimento nos Estados Unidos. assim. hoje ela é mais uma entre as ciências. XVIII e XIX inspiraram os pensadores a analisar as questões sociais.

Quanto a Psicologia social. Diferentemente da ética. Já o enfoque da Sociologia é na ação dos grupos. Deve ser notado. buscaram nas ciências naturais as bases de sua metodologia já mais avançada.Ao contrário das explicações filosóficas das relações sociais. estética e históricas. até mesmo. da abordagem científica da sociedade. a Sociologia tem de obedecer aos mesmos princípios gerais válidos para todos os ramos de conhecimento científico. e um ceticismo metodológico a fim de extirpar os elementos "incontroláveis" e "dóxicos" recorrentes numa ciência ainda muito nova e dada a grandes elucubrações. entretanto. Comparação com outras ciências sociais No começo do século XX. imprevisíveis e impassíveis de uma análise objetiva. negando às humanas tal estatuto com base na inviabilidade de qualquer controle dos dados tipicamente humanos. sejam estes naturais ou sociais. Já a Economia diferencia-se da Sociologia por estudar apenas um aspecto das relações sociais. e as discussões epistemológicas mais desenvolvidas. Esforços nesse sentido são visíveis nas obras de modernos teóricos sociais. ela se preocupa também com as motivações exteriores que levam o indivíduo a agir de uma forma ou de outra. baseada. sociólogos e antropólogos que conduziam estudos sobre sociedades não-industrializadas ofereceram contribuições à Antropologia. a ciência se presta à explicação e à compreensão dos fenômenos. que mesmo a Antropologia faz pesquisa em sociedades industrializadas. considerados por muitos. quando muito. reunindo um arcabouço de conhecimento que . Tais peculiaridades. que visa discernir entre bem e mal. foram e continuam sendo o foco de muitas discussões. apesar das peculiaridades dos fenômenos sociais quando comparados com os fenômenos de natureza e. a diferença entre Sociologia e Antropologia tem mais a ver com os problemas teóricos colocados e os métodos de pesquisa do que com os objetos de estudo. as explicações da Sociologia não partem simplesmente da especulação de gabinete. além de se interessar mais pelos comportamentos do que pelas estruturas sociais. aquele que se refere a produção e troca de mercadorias. a Filosofia social intenta criar uma teoria ou "teorias" da sociedade. no entanto. Dessa forma foram empregados métodos estatísticos. consequentemente. ora tentando aproximar as ciências. na ação geral. objetivando explicar as variâncias no comportamento social em suas ordens moral. ora afastando-as e. Nesse aspecto. Uma das primeiras e grandes preocupações para com a sociologia foi eliminar juízos de valor feitos em seu nome. na observação casual de alguns fatos. Muitos dos teóricos que almejavam conferir à sociologia o estatuto de ciência. a observação empírica. Como ciência. Por fim. como mostrado por Karl Marx e outros. a pesquisa em Economia é frequentemente influenciada por teorias sociológicas.

representam uma das mais profícuas vertentes da filosofia social. As formas como a Sociologia pode ser uma 'ciência da ordem' são diversas.entrelaça a filosofia hegeliana. porém. sejam eles empresas privadas ou Centrais de Inteligência. seus resultados podem ser utilizados com vistas à melhoria dos mecanismos de dominação por parte do Estado ou de grupos minoritários. Max Weber. Entretanto. seja complexo apreender tal abordagem. autoritárias e arbitrárias. Theodor Adorno. Por outro lado. Nesse sentido. 4 A produção sociológica pode estar voltada para engendrar uma forma de conhecimento comprometida com emancipação humana. À primeira vista. utilizando-se de os valores morais e políticos do iluminismo liberal mesclados com os ideais socialistas. no qual o Estado. como na orientação de políticas públicas promovidas nem sempre de acordo com o interesse das maiorias ou no respeito às minorias. as obras de Max Horkheimer. A evolução da Sociologia como disciplina . pode servir a diferentes tipos de interesses. Sociologia da Ordem e Sociologia da Crítica da Ordem A Sociologia. Escola de Frankfurt. Ela pode ser um tipo de conhecimento orientado no sentido de promover um melhor entendimento dos homens acerca de si mesmos. como mais popularmente se diz. entre outros. à revelia dos interesses e valores da comunidade democrática com vistas a manter o status quo. podendo mesmo servir à finalidades antidemocráticas. Há. submetendo a produção do conhecimento não ao progresso da ciência por si ou da sociedade. Ela pode partir desde a perspectiva do sociólogo individual. para alcançarem maiores patamares de liberdades políticas e de bem-estar social. representada por aquilo que ficou conhecido como Teoria Crítica ou. o uso do conhecimento sociológico é potencialmente perigoso. talvez. em vista do tipo de conhecimento que produz. mas aos seus interesses materiais imediatos. isto é. ao mesmo tempo. a teoria social de Marx e. o meio indireto. Jürgen Habermas. como principal ente financiador de pesquisas nas áreas da sociologia escolhe financiar aquelas pesquisas que lhe renderam algum tipo de resultado ou orientação estratégicas claras: pode ser tanto como melhor controlar o fluxo de pessoas dentro de um território. kantiana. a Sociologia pode ser orientada como uma 'ciência da ordem'.

nas questões de reforma agrária e movimentos sociais na cidade e no campo e a partir de 1964 o trabalho dos sociólogos se voltou para os problemas sócio políticos e econômicos originados pela tensão de se viver em um país cuja forma de poder é o regime militar.e também ocorreu a profissionalização da sociologia. A prática do lucro era condenada pela Igreja Católica. final da Idade Média.. desde lá cada vez mais foi de fundamental participação para a sociedade mundial e também brasileira. por exemplo. por exemplo. ao trabalhador rural. Na década de 60 a sociologia se preocupou com o processo de industrialização do país.. ou seja. a sociologia sofreu influencias americanas e europeias. isto diz respeito. Naquele caso. a maior potência do mundo à época. Mas para os fugitivos dos feudos. embora a densidade demográfica crescesse assustadoramente. e estudos sobre índios e negros Nas décadas seguintes de 40 e 50 a sociologia voltou para as classes trabalhistas tais como salários e jornadas de trabalho. não restava alternativa exceto a atividade comercial voltada ao lucro. iria engordar ainda mais os cofres da Nobreza. e também comunidades rurais. No Brasil nas décadas de 20 e 30 a sociologia estava num estudo sobre a formação da sociedade brasileira. se diz que o Modo de Produção entrou em contradição com os interesses das Forças Produtivas. . O surgimento da Sociologia e o Socialismo Europa. de nada adiantava produzir mais porque o excedente não iria para aqueles deles necessitados. tida como “desonesta” por praticamente todas as culturas e civilizações do mundo a partir de todos os pontos de vista éticos. que serão mais tarde chamados de “burgueses”. Além da preocupação com a economia política e mudanças sociais apropriadas com a instalação da nova república. na Europa. voltam também em relação ao estudo da mulher. Na América Latina. ela vai sofrer influências das teorias marxistas. As pessoas começam a se rebelar. aos conflitos entre as classes sociais. fogem dos feudos (a que eram “presas” por laços de honra) e passam a roubar ou com parcos recursos comprar bens baratos a grandes distâncias vendendo-os mais caro onde eram desejados – ressaltem-se as famosas “especiarias” -. crise do Modo de Produção Feudal. êxodos. Desde o início a sociologia vem-se preocupando com a sociedade no seu interior.A sociologia no mundo foi-se mostrando presente em várias datas importantes desde as grandes revoluções. na medida em que as suas preocupações passam a ser o subdesenvolvimento. Na década de 80 a sociologia finalmente volta a ser disciplina no ensino médio. Classicamente. e outros assuntos culminantes. fundadores de burgos. e analisando temas como abolição da escravatura.

muito mais interessante e lucrativo para a burguesia. enfim. Agora. mais recentemente. No início compravam títulos de nobres aos de antiga linhagem – que os discriminavam! – a seguir passaram a pensar em alternativas mais radicais (ser radical é ir à raiz e a burguesia foi radical no período de suas glórias revolucionárias!) como convocar os trabalhadores a uma aliança contra a nobreza e implantar um novo tipo de regime político. Aquelas sociedades que buscam a cura para este mal são “reconvertidas” ao satanismo pagão de holocaustos ao deus-mercado através de diversas formas de pressão e. “duque”. reiterando serem pecaminosos aqueles que praticavam a cobrança de juros. como ocorreu no Chile de Salvador Allende e.. no Afeganistão – um com proposta socialista. por vezes secretas. maçônicas mesmo.. você prosperará imensamente nesta terra. preferiria o discurso do padre (vale repetir. outro com proposta islâmica. à medida que se conscientizavam de que foram usados para uma troca de poder que em absolutamente nada lhes beneficiou começam a organizar-se em sindicatos e outras agremiações classistas. superiores em número. saem-se vitoriosos. em contradição com a sua prática) ou o do pastor? Assim cresceram as seitas protestantes pelo mundo afora.O capitalismo era como um pequenino câncer que surgiu no final da sociedade feudal. Os burgueses convocaram seus empregados. após muitos percalços. eram todos enfileirados 5 no caminho que conduz ao fogo do inferno. Estes. nisso você verá um sinal de estar sendo por ele abençoado”. no limite. desempregados e desesperados. agora praticamente falida. – ser “mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus”... desempregados e desesperados e mandá-los de volta a seus trabalhos. Por outro lado começam a surgir expadres. Era fundamental reorganizar a sociedade de maneira a que os novos donos da riqueza fossem também os donos do poder. por vezes aberta mas sempre e imediatamente proclamadas ilegais ou heréticas e perseguidas por todo o aparato estatal e religioso que a burguesia podia colocar em marcha! .. Os padres diziam nas missas – embora sua prática fosse bem outra. Surge uma nova religião para reforçar uma ética mais consentânea com os tempos cambiantes: surge o protestantismo. agora pastores que passam a informar: “se a mão de Deus estiver sobre a sua cabeça. uso da força física. ambos intoleráveis hereges dentro do fundamentalismo de mercado.. a seus desempregos e a seu desespero. “Usurários”. Se você tivesse enriquecido à beça na base do comércio lucrativo. crescendo e hoje. lucros. Foi crescendo. a burguesia e seus interesses comerciais se sobrepõem ao ser humano numa infecção que contamina todo o planeta. para uma aliança contra a nobreza ou “antigo regime” e. a “república”. “king” e “marquesa” passam a ser nomes de animais domésticos da burguesia! O passo seguinte foi agradecer e condecorar trabalhadores. Politicamente a burguesia endinheirada sentia-se lesada tendo de pagar tributos à antiga nobreza. ou do empréstimo a juros.

cedo percebeu que enquanto houver neste mundo gente que se alimenta e gente que passa fome. Chegou à conclusão de que somente a partir do ponto de vista de quem não tem absolutamente nada a perder se pode almejar a vislumbrar a verdade. da mera aparência fenomênica de alguma coisa. Movimento: Tudo está em movimento. tudo se transforma freqüentemente em seu contrário. Adotando o ponto de vista dos trabalhadores criou um ferramental intelectual inédito e até hoje embatido para a compreensão do Real. filosofia voltada não apenas à ascensão da classe trabalhadora ao poder. mas à libertação de toda a espécie humana de toda a classe de opressão e exploração... pois buscava a compreensão do que está para além da superfície. a configuração já mudou completamente. voltando ao reino das aparências criar uma filosofia capaz de . da filosofia clássica alemã (em particular o materialismo de Feuerbach e a dialética de Hegel) e a economia clássica inglesa construiu o MATERIALISMO DIALÉTICO. do “Positivo”.Karl Marx Originário da Renânia. Com base no socialismo chamado “utópico” dos franceses. está de um jeito. É como as nuvens no céu: você olha. Era necessário olvidar a essência e trabalhar com o que é perceptível aos sentidos físicos mais grosseiros e imediatos. Augusto Comte e a “Física Social” Evidentemente era necessário que a burguesia também produzisse uma teoria em defesa de seus pontos de vista e poucos foram tão brilhantes – e influenciaram tanto a nossa combalida Nação – quanto o positivismo. filho de burgueses e educados no mais rigoroso protestantismo. menciono apenas dois pontos. enquanto houver opressores e oprimidos a espécie humana inteira estará refém da insânia. um pedaço da enorme colcha de retalhos que mais tarde constituiria a Nação Alemã.. Era necessário esquecer a “filosofia negativa” e.. incrivelmente perspicaz. A essência é mais significativa que a aparência: Este postulado fez com que a Dialética ficasse conhecida como “Filosofia Negativa”. olha novamente. Dialética Há muito que dizer e em que refletir sobre a Dialética.

exterior ao indivíduo e coercitivo. Posição hoje indefensável. qualquer ciência que se volte a compreender o homem “afastando a ingerência filosófica” tende mais a falsear a compreensão do ser humano do que a compreendê-lo. por sinal.compreender o social com tanta precisão quanto a matemática ou a física – que hoje sabemos também serem imprecisas. não filosófica.. e outras idiotices só críveis porque repetidas em altos brados e ad nauseam... que já percebem as falhas do positivismo clássico..” Discípulo genial de Comte. e “juízos de valor”. tem de ser filosófica! O oposto disso é simplesmente fechar os olhos ao que constitui o SER do homem. . Falando claramente: para que uma ciência humana mereça ser chamada de “científica”.. aquelas mesmas que pavimentam todas as estradas do inferno. Olvidando totalmente a existência concreta de interesses antagônicos na Sociedade Burguesa. em linhas gerais... Como se a própria colocação da questão – seja ela qual for – não traga nela embutidos os juízos ou as pré-noções. Weber – a jaula de ferro do capitalismo. Se o fosse? Seria desejável? Se a filosofia responde a muitas questões que dizem respeito ao ser do homem no mundo.. Mas. Durkheim tem contudo enorme valor para a Sociologia contemporânea. “que os ricos sejam mais ricos para que. –. Comte pregava a necessidade de “libertar o conhecimento social de toda a ingerência filosófica”. Eivado de motivos nobres... tem esta raiz. através deles os pobres sejam menos pobres”. Durkheim e “As Regras.. mantêm suas mesmas raízes.. emoções. Émile Durkheim sistematizou algumas de suas idéias e foi o primeiro a usar efetivamente a expressão “Sociologia” para referirse ao estudo em pauta. Como se fosse possível ao ser humano estar acima de todos os sentimentos. que seu mestre ainda chamava de “Física Social”. O que é fato social? Tudo o que é coletivo. suas mesmas motivações – “conciliar Capital e Trabalho”.. crescendo por etapas ou degraus seria possível chegar-se a uma precisão “científica”. a Luta de Classes. impregnado de boas intenções.. Mas Comte e seus discípulos criaram um sistema “científico” voltado a conciliar o inconciliável: a Luta de Classes. busca integrar a todos em torno do ideal ou meta burguesa – “integralismo”. Como compreender o fato social? Primeiro passo: “Afastar sistematicamente as pré-noções”... 6 acerca da sociedade e do ser do homem.... como se isso fosse possível. Os positivistas contemporâneos..

a que se alinha com muito maior conforto. que resgata a Dialética Materialista com grande ênfase à Dialética. não escreveu uma única linha. o gênio adormecido desperta para o espanto de todos e compõe uma das mais geniais obras sociológicas do século XX – “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”. Segundo o capitão evangélico. De repente. percebe-lhe as limitações e conduz os avanços sociológicos que esta corrente positivista havia logrado atingir ao marxismo.Max Weber. O peso de sua erudição não tira o interesse do trabalho. o mais notável discípulo de Weber. separar o “lugar da teoria” do “lugar da prática” em ciência política. lutou na Primeira Guerra Mundial como capitão do exército prussiano chegou à conclusão de que é necessário não tomar partido. Freischwebend Intelligenz). O Clássico “História e Consciência de Classe” é um leitura obrigatória a todo aquele que queira compreender o ser humano vivendo em sociedade. um dos maiores gênios do século XX. Isso é a Destruição da Razão (em alemão. É nela que se defende que o grande critério a submeter o Real é a Razão Humanista. Escola de Frankfurt É fundamental citar o lugar dos teóricos de Frankfurt. filho de pastor evangélico. liberal. Foi um dos últimos brilhos a ir mais longe que Marx dentro do pensamento marxista. ao contrário. a inteligência deve ser livre de vínculos (em alemão. militar e evangélico talvez explique os motivos do “acidente de trabalho” que o conduziu a uma profundíssima crise depressiva que durou quatro longos anos em que até a alimentação era levada à sua boca pela esposa. Georg Lukács Húngaro. mas do quanto você tem em bens materiais. Sua grande obra ainda é “Razão e Revolução”. O Capital é irracional: desiguala os semelhantes e equaliza os dessemelhantes. Sua posição de professor conservador. não pronunciou uma única palavra. Teologia da Libertação . consta. Você vale o quanto é capaz de produzir e é avaliado não pela grandeza de sua alma e de seus valores humanos. particularmente Herbert Marcuse. “Zerstorung der Vernunft”). Quatro anos em que.

Mas o poder regenerativo do Humano surpreende mesmo aos 7 médicos e. morto e era aterrorizado pelo fantasma de seu cadáver insepulto o Capital proclama reiterado e repetidas vezes a “morte do comunismo”. O escravismo antigo não foi eterno (durou alguns milhares de anos). Não é crível que a espécie humana tenha de ser condenada ao inferno capitalista pelo resto da eternidade. da criminalidade. mesmo sem saber como será a Sociedade do Futuro. No início como um pequenino carcinoma que hoje tomou conta do planeta todo. da prostituição. o que fazer? Como o saudoso Capitão Luís Carlos Prestes. Além da conflituosa . como Che Guevara ou o padre Camilo Torres é equiparado aos primeiros cristãos. O capitalismo existe no mundo aí há uns quinhentos anos. “Sempre foi e sempre será assim” – preenchendo o futuro como se houvesse uma linha invisível a ligar todos os tempos. esta é a grande contribuição da América Latina em geral e do Brasil em particular ao Saber Universal. os exemplos se multiplicam. caso o próprio nome “comunismo” tenha se tornado pouco palatável do ponto de vista do marketing político. econômicas e culturais levam ao surgimento da Sociologia (Ciência Social ou Ciência da Sociedade). Assim como o Império Romano negou o cristianismo por quase 400 anos. • As conseqüências da rápida industrialização foram trágicas: aumento da violência. seguramente capitalista não será! Origens e Definições da Sociologia • Surge após revoluções Burguesas (Inglesa/ industrial e Francesa: Por volta de 1830. morrerei convicto do Futuro Comunista da Humanidade! Não é possível saber como vamos suplantar esta situação amarga em que “o homem é o lobo do homem”. eles dizem: “não tem jeito”. O comunismo nascente comparado ao cristianismo também em processo de parturição no Império Romano.Segundo os grandes filósofos europeus contemporâneos. • O século XVIII constituiu um marco importante para a história do pensamento ocidental e para o surgimento da sociologia: As profundas transformações políticas. do alcoolismo. a travessia do “Mar Tenebroso” que todos “sabiam” intransponível e a chegada ao Novo Mundo. como se a Vontade humana não houvesse sido capaz de proezas memoráveis como a transformação do Império Romano num Império Cristão. E agora. proclamando-lhe extinto. O que Weber chamava de “jaula de ferro” os Teólogos da Libertação chamam de “pessimismo defensivo” da burguesia. acabado. tampouco o foi o feudalismo (que durou cerca de um milênio). Em síntese. O revolucionário em busca de um mundo melhor.

• Não é por mero acaso que a sociologia – enquanto instrumento de análise – inexistia nas sociedades pré-capitalistas. Qual a importância desses acontecimentos para a Sociologia? • Essas transformações colocavam a sociedade num plano de análise. suas crises e seus antagonismos de classe. o surgimento da sociologia prende-se em parte aos abalos provocados pela revolução industrial. marca dos ideais iluministas que orientou o projeto revolucionário da burguesia deveria ser superado em nome da organização da sociedade e manutenção do status quo. . pelas novas condições de existência por ela criadas e também devido as modificações que vinham ocorrendo nas formas de pensamento: na forma de buscar conhecer a natureza e a cultura. a se constituir em problema. a interpretação crítica e negadora da realidade. Diante desta nova realidade e das transformações sociais surge a sociologia: 1) Positivista 2) Dialética Sociologia Positivista • Ênfase na ordem. • Não maistransformar a realidade masorganizar através de regras a sociedade: Ordem e Progresso. vai pensar a ordem social enfatizando a importância das instituições burguesas: a autoridade. porém. hierarquia e harmonia social. já no século XIX. • Assim sendo. religiosa para explicar a realidade. • Passa a prevalecer a busca por uma indagaçãoracional: método da observação e da experimentação – método científico. sobre suas transformações. Sociologia: Ciência da Sociedade • É a formação de uma estrutura social muito específica – a sociedade capitalista – que impulsiona uma reflexão sobre a sociedade. • Conteúdo estabilizador – reforma conservadora – leis imutáveis da vida social. a família. • Surge com um interesse prático: resposta a crise social da época(XIX). uma vez que o ritmo e o nível das mudanças que aí se verificam não chegavam a colocar a sociedade como “um problema” a ser investigado. mítica.relação Capital x Trabalho. a hierarquia social. • Pós revoluções burguesas. • Neste momento (que se iniciou com o renascimento) há uma renuncia da visão sobrenatural. • Busca estado de equilíbrio numa sociedade dividida pelos conflitos de classe. em objeto que deveria ser investigado. a ênfase continuará sendo no pensamento e explicação racional.

como tese novamente. • O caráter antagônico e contraditório da sociedade capitalista impediu um entendimento comum por parte da sociologia em torno ao objeto e aos métodos de investigação da nova ciência social. 8 • A falta de um entendimento comum na sociologia (no estudo dos fenômenos sociais) tem haver com o fato de vivermos numa sociedade dividida. . políticos. • Luta de opostos: luta de classes como motor da história. bem como as explicações sociológicas. • Compreensão dialética da realidade: (tese – antítese – síntese – tese) oposição sistemática: umatese gera dentro de si umaantítese. políticos e culturais. se divide entre aqueles que olhando a realidade querem mantê-la e aqueles que querem transformá-la. evidencia as contradições e antagonismos de classe desta sociedade. • Relação intrínseca entre teoria e prática. entre o pensamento dialético e o pensamento positivista/conservador. que se instala. Importante Considerar: • As explicações sociológicas sempre tiveram e têm intenções práticas: desejo de interferir nos rumos da sociedade.(UEL) O lema da bandeira do Brasil. • O mundo. culturais. Teoria Social voltada à transformação da realidade. indica a forte influência do positivismo na formação política do Estado brasileiro. Teoria Social visa a manutenção da ordem social. por sua vez. Exercícios 1. • Realidade entendida como totalidade histórica: conhecimento crítico e negador da sociedade capitalista. “Ordem e Progresso”. Sociologia Crítica/Dialética • Fenômenos sociais não são independentes dos fatores econômicos. tanto no que se refere a manter a ordem social vigente como para contestá-la. marcada pelos antagonismos e conflitos de classe. do choque dialético entre esses dois pólos sobrevém uma nova situação histórica (síntese) que ainda carrega em si elementos do velho (tese) e do novo (antítese).• Procura criar um objeto autônomo “o social” independente dos fenômenos econômicos. mudá-la.

2. cochichos com comentários maldosos. I.(UEL) Um jovem que havia ingressado recentemente na universidade foi convidado para uma festa de recepção de calouros. . que visam superar os valores das gerações adultas. III e IV são corretas. d) Apenas as afirmativas I. O fato social caracteriza-se por exercer um poder de coerção sobre as consciências individuais. O fato social é todo fenômeno que ocorre ocasionalmente na sociedade. a) Apenas as afirmativas I e II são corretas. Assinale a alternativa correta. III. Ao entrar na festa. c) Denúncia dos laços de funcionalidade que unem as instituições sociais e garantem os privilégios dos ricos. b) Apenas as afirmativas I e IV são corretas. IV. segundo Émile Durkheim (1858-1917). II. a) Crença na resolução dos conflitos sociais por meio do estímulo à coesão social e à evolução natural da nação. como fato social. causou estranheza. em que todos estavam trajando roupas esportivas. O calouro. O calouro não estava vestido de acordo com o grupo e sentiu as represálias sobre o seu comportamento.Assinale a alternativa que apresenta idéias contidas nesse lema. compareceu vestido com traje social. provocando risos. O fato social é exterior ao indivíduo e apresenta-se generalizado na coletividade. imaginando que a festa seria formal. O fato social expressa o predomínio do ser individual sobre o ser social. No convite distribuído pelos veteranos não havia informação sobre o traje apropriado para a festa. olhares de espanto e de admiração. b) Ideais de movimentos juvenis. Considere as afirmativas abaixo sobre as características do fato social para Émile Durkheim. c) Apenas as afirmativas II e III são corretas. d) Ideal de superação da sociedade burguesa através da revolução das classes populares. As regras que regem o comportamento e as maneiras de se conduzir em sociedade podem ser denominadas. e) Negação da instituição estatal e da harmonia coletiva baseada na hierarquia social.

buscando descobrir quais as tendências dos eleitores. 4. 161. e) pesquisar os sentidos e os significados recíprocos que orientam os indivíduos na maioria de suas ações e que configuram as relações sociais. . em troca de um sanduíche e um refrigerante. os poderes divinos sobre a natureza e sobre os humanos”.) Assinale a alternativa que apresenta a afirmação que está de acordo com a definição de pensamento mítico dada acima. suas funções e suas finalidades. além de auto definir-se. A utilização dessa teoria indica que os pesquisadores pretendem: a) investigar as funções sociais das instituições. também classifica e conceitua outras formas de pensamento. A aplicação do modelo de pesquisa que aparece descrito no texto baseia-se. além da convergência das intenções. escondidos atrás de vidros espelhados. até compor um mito geral. como eles propõem e ouvem argumentos sobre o tema. Marilena. tais como igreja. planilhas e tabelas de preferências de voto. Nessa técnica de pesquisa qualitativa. principalmente. pois são eles que determinam os comportamentos individuais. Por exemplo. na teoria sociológica de Max Weber (1864-1920). escola e família. comentam e debatem as campanhas políticas. II e IV são corretas. os concorrentes debruçam-se sobre gráficos.(UEL) Por trás das disputas que os candidatos travam pela preferência do eleitorado. é possível encontrar a definição de pensamento mítico como aquele que “vai 09 reunindo as experiências. Pesquisadores. as motivações que se repetem nos votos dos eleitores. para entender o comportamento dos grupos sociais. p. 2000. Com esses materiais heterogêneos produz a explicação sobre a origem e a forma das coisas. 3. há uma base minuciosa de informações.e) Apenas as afirmativas I. as narrativas. os relatos. São Paulo: Ática. b) pesquisar o proletariado como a classe social mais importante na estruturação da vida social. d) estudar a psique humana que revela a autonomia do indivíduo em relação à sociedade. descobrem-se. Convite à filosofia. as razões gerais que poderiam fazê-los mudar de opção. acompanham as conversas de grupos de pessoas comuns de diferentes classes que. (CHAUÍ. c) analisar os aparelhos repressores do Estado.(UEL) O pensamento científico. Perto das eleições.

(estudante. Não “creio que ocorram coisas ruins para mim. são a pobreza. sacrificado! . 24 anos) c) “Não temo o desemprego. por que Alugar mãos? Elas têm de fazer coisas maiores no banco da fábrica Do que alimentar seu dono e os seus. minas e moinhos: Tudo quebrado e. tudo junto É sacrificado ao fogo. quem com Deus está. lanifícios. além do trabalho infantil. café e frutas e peixes e porcos. disputando vaga com outros 40 mil candidatos) d) “Viemos em busca da ‘Terra sem males’. a distorção idade série e até o tráfico de drogas.” (depoimento de um candidato a emprego de gari no Rio de Janeiro. a fim de aquentar o deus do lucro! Montanhas de maquinaria. o poder da mente é forte e aquelas pessoas que pensam negativamente podem atrair má sorte. Mas se a produção apenas é consumida.” (explicação dada por líder guarani diante do questionamento sobre a instalação de grupos indígenas em áreas de mata atlântica protegidas por lei) e) “As principais causas da exclusão educacional apontadas pelo censo do IBGE [Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística].” (divulgação na imprensa de dados do IBGE sobre educação) 5.(UEL) “A casa não é destinada a morar. a distância entre a escola e a residência. (declaração da capitã do time de vôlei do Vasco da Gama ao comemorar a transferência da partida contra o Flamengo para um ginásio de sua preferência) b) “Considero a sexta-feira 13 um dia ‘nebuloso’. se é que se quer que haja Lucro! Apenas: para onde com a mercadoria? A boa lógica diz: Lã e trigo. altos-fornos.a) “Acredito em coincidência e essa [a transferência do local do jogo] é uma vantagem a mais para nós nesta final. o tecido não é disposto a vestir. para amolecer o deus do lucro. Estamos atrás do ‘paraíso’ sonhado por nossos ancestrais e ele se encontra por essas regiões. Estaleiros. tudo pode. ferramentas de exércitos em trabalho. Para mim. atrás do ‘Éden’. O pão ainda é destinado a alimentar: ele tem de dar lucro. e não é também vendida Porque o salário dos produtores é muito baixo – quando é aumentado Já não vale mais a pena mandar produzir a mercadoria –. “Foi lá que conquistamos nosso primeiro título”. mas prefiro me precaver com patuás e incensos”.

a pobreza e a fome são: 10 a) Oriundos da inveja que sentem os miseráveis por aqueles que conseguiram enriquecer. De acordo com o poema e com os conhecimentos da teoria de Marx sobre o capitalismo. Atirando-os a saunas e depois de volta a estradas geladas. Crítica marxista.. Em pânico. Começam a entender que o mundo burguês tem seus dias contados Por se mostrar pequeno demais para comportar a riqueza que ele próprio criou. e) Fenômenos característicos das sociedades humanas desde as suas origens. O manifesto. 2003. 16. exércitos gigantes. Que ela. as crises econômicas e políticas. [. mar. b) Frutos da má gestão das políticas públicas. empestando Também os recantos onde se refugia!) Em novas e maiores crises A burguesia volta atônita a si. (E pensando evitar a peste alguém apenas a carrega consigo.116. a burguesia atormentada Despedaça os próprios bens e desvaira com seus restos Pelo mundo afora em busca de novos e maiores mercados.] As leis da economia se revelam Como a lei da gravidade. a concentração da renda..De fato. na sociedade burguesa. mas sem planos. c) Inerentes a esse modo de produção e a essa formação social.) Os versos anteriores fazem parte de um poema inacabado de Brecht (1898-1956) numa tentativa de versificar O manifesto do partido comunista de Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895). arrasta consigo. p. é correto afirmar que. seu deus do lucro está tomado pela cegueira. planejadamente. d) Frutos do egoísmo próprio ao homem e que poderiam ser resolvidos com políticas emergenciais. quando a casa cai em estrondos Sobre as nossas cabeças. .” (BRECHT. Bertolt. São Paulo. n. Mas os miseráveis. As vítimas Ele não vê.

nosso conhecimento não é uma reprodução do real. d) I. A Sociologia surge como uma tentativa de romper com as técnicas e métodos das ciências naturais. 7. II e IV. reflete suas principais transformações e procura desvendar os dilemas sociais por ele produzidos. por refletir sobre a transformação de formas tradicionais de existência social e as mudanças decorrentes da urbanização e da industrialização. tais como a pobreza. Nesse sentido. de outra parte.] nos é também impossível abraçar inteiramente a seqüência de todos os eventos físicos e mentais no espaço e no tempo. inclusive a ciência. nenhum conceito e nem também a totalidade dos conceitos são perfeitamente adequados ao objeto ou ao mundo que eles se esforçam em explicar e compreender. porque ele pode somente transpô-lo. De um lado. . IV. Sobre a emergência da sociologia. é correto afirmar que.. A emergência da Sociologia só pode ser compreendida se for observada sua correspondência com o cientificismo europeu e com a crença no poder da razão e da observação. A Sociologia tem como principal referência a explicação teológica sobre os problemas sociais decorrentes da industrialização. na análise dos problemas sociais decorrentes das reminiscências do modo de produção feudal. b) II e III. (Traduzido de: FREUND.(UEL) A Sociologia é uma ciência moderna que surge e se desenvolve juntamente com o avanço do capitalismo. deve limitar-se a descrever sua aparência.6.. Paris: PUF. III e IV. p. assim como esgotar integralmente o mínimo elemento do real. Entre conceito e realidade existe um hiato intransponível. que reflete sobre a relação entre ciência social e verdade: “[. considere as afirmativas a seguir: I. por tratar de um objeto cujas causas são infinitas. escrito por Max Weber (1864-1920). Julien. 1969. II. III. a desigualdade social e a concentração populacional nos centros urbanos. implica uma seleção. e) I. para Weber: a) A ciência social. ao invés de buscar compreendê-lo.(UEL . sendo chamada de “ciência da crise”. 33. seguindo a orientação de nossa curiosidade e a significação que damos a isto que tentamos apreender”. Max Weber. A Sociologia é produto da Revolução Industrial.2005) Leia o texto a seguir. c) II e IV. Disso resulta que todo conhecimento. Estão corretas apenas as afirmativas: a) I e III.) Com base no texto e nos conhecimentos sobre o tema. reconstruí-lo com a ajuda de conceitos. enquanto recursos de produção do conhecimento.

a partir de sua inserção na sociedade e nos grupos sociais que a constituem. d) Alguns fenômenos sociais podem ser analisados cientificamente na sua totalidade porque são menos complexos do que outros nas conexões internas de suas causas. 8 – (UFUB) Selecione as afirmativas que indicam o contexto histórico. c) O conhecimento nas ciências sociais pode estabelecer parcialmente as conexões internas de um objeto. Assinale a alternativa correta: A) III e IV. e) O obstáculo para a ciência social estabelecer um conhecimento totalizante do objeto é o fato de desconsiderar contribuições de áreas como a biologia e a psicologia. II – O homem passou a ser visto. II – Com o desenvolvimento do industrialismo. propiciou o fortalecimento da servidão e da família patriarcal. IV – A formação de uma sociedade. que se industrializava e se urbanizava em ritmo crescente. B) I. que tratam dos eventos físicos e mentais. o sistema social passou da produção de guerra para a produção das coisas úteis. social e filosófico que possibilitou a gênese da Sociologia. portanto. III e IV. podemos afirmar que: I – A consolidação do sistema capitalista na Europa no século XIX forneceu os elementos que serviram de base 11 para o surgimento da Sociologia enquanto ciência particular. III – Aquilo que a Sociologia estuda constitui-se historicamente como o conjunto de relacionamentos que os homens estabelecem entre si na vida em sociedade. do ponto de vista sociológico. II e III. através da organização da ciência e das artes. III – O pensamento filosófico dos séculos XVII e XVIII contribuiu para popularizar os avanços científicos. alternativas estão corretas. I – A Sociologia é um produto das revoluções francesa e industrial e foi uma resposta às novas situações colocadas por estas revoluções. é limitado para abordá-lo em sua plenitude. . sendo a Teologia a forma norteadora desse pensamento. D) I e II. C) II.b) A ciência social revela que a infinitude das variáveis envolvidas na geração dos fatos sociais permite a elaboração teórica totalizante a seu respeito. E) Todas as 9 – (UFUB) Sobre o surgimento da Sociologia.

. através dos rituais. sem maiores preocupações de natureza prática. tendo em vista a necessária estabilização da ordem social burguesa. E) Observar. III e IV estão corretas. a família. medir e comprovar as regras que tornassem possível. A) II e III estão corretas. colaborar para transformar radicalmente a ordem capitalista responsável pela exploração dos trabalhadores. prever os fenômenos sociais.IV – Interessa para a Sociologia. deixando a solução dos problemas sociais por conta dos homens de ação. a Sociologia tinha uma importante tarefa a cumprir na visão de seus fundadores. não indivíduos isolados. Assinale a alternativa correta quanto a essa tarefa. D) I. mas inter-relacionados com os diferentes grupos sociais dos quais fazem parte. através da razão. B) Manter uma estrutura de pensamento mítica para a explicação do mundo. 11 – (UFUB) Surgida no momento de consolidação da sociedade capitalista. C) Condicionar o indivíduo. A) Desenvolver o puro espírito científico e investigativo. C) Contribuir para a solução dos problemas sociais decorrentes da Revolução Industrial. a agir e pensar conforme os ensinamentos transmitidos pelos deuses. 10 – (UFUB) Assinale a alternativa correta: O surgimento da Sociologia foi propiciado pela necessidade de: A) Manter a interpretação mágica da realidade como patrimônio de um restrito círculo sacerdotal. as classes sociais e etc. B) Todas as afirmativas estão corretas. III e IV estão corretas. C) I e IV estão corretas. dessa forma. E) II. B) Incentivar o espírito crítico na sociedade e. como a escola. D) Considerar os fenômenos sociais como propriedade exclusiva de forças transcendentais. dentre os quais se destaca Auguste Comte.

podemos afirmar que: I – É a primeira corrente teórica do pensamento sociológico preocupada em definir o objeto. a sociedade foi concebida como organismo constituído de partes integradas e coisas que funcionam harmoniosamente. 12 – (UFUB) Sobre o positivismo. III – Foi um pensamento predominante na Alemanha no século XIX. E) Todas as afirmativas estão corretas. D) A Sociologia compreensiva busca apreender o sentido da ação social e de seus nexos causais. II – Derivou-se da crença no poder absoluto e exclusivo da razão humana em conhecer a realidade e traduzi-la sob a forma de leis naturais. II e IV estão corretas. E) Nenhuma das anteriores. é correto afirmar que: A) Os juízos de valor do pesquisador não interferem em nenhuma fase do processo de investigação científica. C) O objetivo da Sociologia é estabelecer leis gerais explicativas da realidade social. IV – Nele. 13 – (UFUB) De acordo com o pensamento weberiano. E) Nenhuma das anteriores. 12 . B) A sociologia de Weber é um esforço de explicação da sociedade enquanto totalidade social. nascido principalmente de correntes filosóficas da Ilustração. III e IV estão corretas. como uma das formas de pensamento social. B) I. II e III estão corretas. D) I e III estão corretas. estabelecer conceitos e definir uma metodologia. segundo um modelo físico ou mecânico.D) Tornar realidade o chamado “socialismo utópico”. visto como única alternativa para a superação das lutas de classe em que a sociedade capitalista estava mergulhada. C) I. A) II.

homens e animais são padronizados devido ao peso da herança genética em todos os tipos de sociedades. ao contrário do comunitário. os sociólogos não teriam se interessado pelas leis de padronização existentes nas sociedades humanas.. particularmente a sociedade daqueles insetos. 01) Segundo o autor. 15. mas também insetos: formigas. o crescimento das cidades foi acompanhado pela progressiva transformação do espaço urbano em mercadoria. é caracterizado pela formalidade e pela impessoalidade. Sobre esse assunto. 02) De acordo com o texto. por exemplo. cupins e abelhas.(UEM – Verão 2008) A urbanização tornou-se o processo padrão de transformação do meio ambiente nas sociedades industriais. . 04) No modo de produção capitalista. 02) Nas sociedades industriais. produzindo modos particulares de convívio social. a introdução de novas tecnologias no campo foi um dos fatores que produziu o êxodo rural e contribuiu decisivamente para o crescimento populacional das cidades. se não fosse a descoberta das leis de padronização das sociedades de animais. por isso. 08) Segundo o autor. 04) Podemos concluir do texto que são os fatores do meio ambiente que levam à padronização dos comportamentos dos animais e dos seres humanos.. (.14 – (UEM – Inverno 2008) “Todos nós sabemos da existência de um certo tipo de ‘organização social’ entre animais não humanos. podem retratar também as desigualdades regionais existentes. que. não há diferença essencial alguma entre o estudo das sociedades humanas feito pela sociologia e o das sociedades de insetos feito pela entomologia. o fazemos porque constatamos que o comportamento de tais animais apresenta certas padronizações parecidas com algumas padronizações verificadas entre os seres humanos” (VILA NOVA. notadamente. 01) Para alguns sociólogos. assinale o que for correto. p. Introdução à Sociologia. tais como os macacos. São Paulo: Atlas. 16) Podemos deduzir do texto que tanto os pesquisadores dos animais quanto os sociólogos se preocupam com as ações regulares produzidas pela vida em sociedade. não apenas entre mamíferos superiores. 29). 08) Os fluxos migratórios indicam como as atividades econômicas estão distribuídas no território e. Considerando o que diz o texto acima. o avanço da urbanização faz predominar o padrão de relação societário. 1985. assinale o que for correto.) Quando comparamos as ‘sociedades’ animais não humanas. Sebastião.

16. d) Na modernidade.(UEL – 2006) “No início a ciência quis a morte do mito. ela reserva ao mito – e ao sonho – o lugar que lhe é próprio. Valéry glorificou esta luta destruidora contra as ‘coisas vagas’: ‘Aquilo que deixa de ser. que se tornam cada vez mais individualistas. o mito está ausente dos espaços sociais contemporâneos. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. Do mesmo modo. c) A morte e o extermínio do mito no ocidente decorrem da supervalorização e conseqüente predomínio da razão.17.(UEL – 2006) Nas três últimas décadas. 17. é um mito. Daniel Bell. armas do espírito ativo.) Com base no texto. e) O pensamento mítico se disseminou porque se pauta em conceitos e categorias. dando início assim a uma guerra interminável contra o pensamento mítico. está presente em todos os espaços. Quando a ciência traça seus próprios limites. basta o rigor do olhar e os golpes múltiplos e convergentes das questões e interrogações categóricas. Desde então. visto como obstáculo a uma verdadeira compreensão do mundo. os trabalhos publicados por Ralph Dahrendorf. como a razão quis a supressão do irracional. considere as afirmativas a seguir. Georges. I. por meio de suas metamorfoses.” (BALANDIER. o pensamento mítico é crucial para a compreensão científica do mundo.16) A forte influência dos padrões de convívio tipicamente urbanos sobre a vida no campo e o acesso massivo e indiferenciado a bens e a serviços produzem uma notável homogeneização da realidade social. Na sociedade pós-industrial. O mito por sua vez trabalha duro para se manter e. ocorre a perda da identidade coletiva dos trabalhadores. é correto afirmar: a) Pelo fato de ser destituído de significado social. por ser pouco preciso. a ciência atual busca menos sua erradicação que seu confinamento. Com base nos conhecimentos sobre o tema. além da concentração do capital. para se ver os mitos morrerem’. Alain Touraine e André Gorz permitiram ampliar a compreensão do processo de passagem da sociedade industrial para a pósindustrial. 1997.p. A desordem: elogio do movimento. muitos dos conceitos que haviam norteado o campo da análise social desde o século XIX perderam relevância. . b) A delimitação da área de atuação do saber científico implica na constituição de um lugar próprio para o mito.

que não segui os passos indicados. Mesmo assim o olhar do outro me congela em meu movimento em direção ao próximo segundo. após finalizado o percurso de um semestre. não li tudo o que devia(?) ter lido. numa crença concebida na superfície que demonstro ser. quando creio minimamente conhece-lo. Mesmo na cotidianidade. conhecido. como eu a ele. não consigo deixar de ser eu mesmo. O estranho se revela a mim. em minha dança encenada de papéis. sempre tropeçando. Sempre me será um estranho. Diante do outro. III e IV. Vim cheio de preconceitos. Uma tentativa de síntese. e) II. III. Não tentarei ser comportado. sempre serei um pouco desconhecido – para ele e para mim mesmo – e cada nova revelação será um choque. e cada novo encontro vai deixando indícios. sem pestanejar. na experiência que dele tenho a partir dos encontros travados anteriormente. admito. Diante do outro conhecido tento ser o que para mim e mais fácil ser. O estranho é o que melhor e mais apto está para me julgar de forma incondicional. Mas caio na dúvida se o que sou ou creio ser realmente condiz com a imagem que faço de minha figura. é defrontar-me com a sensação de fragilidade. O retorno aos conceitos elaborados à luz da análise social do século XIX impõese. Luiz Fernando Calaça de Sá Júnior Estar diante do outro. diante do outro. Como diria Sartre: “O inferno são os outros”. sinais. Comecei o disciplina descrente na possibilidade de eu vir a “aceitar” uma perspectiva sociológica do humano. tento ser eu mesmo. num conceito. agora. Partirei de minhas impressões gerais. num instante de lapso. O outro me aprisiona com o olhar.II. se eles foram . II e IV. aprisionando meu presente. na parcialidade de um ângulo. um estranho. de um momento passageiro. e não sei. sempre fingindo uma segurança ou uma meninice que não tenho verdadeiramente. Diante do outro. que confirmam ou negam a primeira impressão. num adjetivo. estranho. não fiz resenhas de capítulos. desde o início. o campo da investigação sociológica amplia-se para além dos estudos dos movimentos de classe. assim como eu a ele. IV. Admito. O uso de sistemas técnicos oriundos das descobertas científicas é o que distingue a sociedade pós-industrial da sociedade industrial. Não vim com muitas esperanças e tinha medo do previsível. b) I e III. sempre gaguejando. c) III e IV. de forma corajosa ou suicida. cristalizando minha existência num olhar. d) I. Não fui sistemático e rigoroso. nos dias partilhados em intimidade. Estão corretas apenas as afirmativas: a) I e II. dada a mobilidade 13 socioeconômica desde o advento da sociedade industrial. Com o advento da sociedade pós-industrial. como lago.

no “mundo real” da polis. cada qual se apropriando do que lhe é bem pra uso e abuso. utopias e “ismos” para remediar o mal estar que a civilização instaura na impossibilidade de saciedade do desejo. O único movimento que tive foi o inicial estranhamento manifestado na leitura do primeiro texto. O exercício da teatralidade de papéis assumidos e dissolvidos a cada momento. evitando o olhar constrangedor. Todos emitindo seus pontos de vista. Não sei. Nessa abertura para o mundo. Indivíduo e sociedade? Indivíduo ou sociedade? Indivíduo-sociedade? Papéis. De resto.desfeitos. o receio de expressá-la. na política midiatizada. fluidas. criamos crenças e dogmas em que possamos nos segurar. perdemos a condição de pessoa. do clareamento dental. tango. sem que se espere mais nada. O tempo das cirurgias plásticas. numa massa que corre em busca da própria sobrevivência. bastando apenas parecer o que não se é. Tentei prestar atenção no que emergia. dos escândalos que se tornam espetáculo de contemplação e êxtase. melodramas mexicanos. As palavras agora são pronunciadas de forma encenada. como fantoches ou ventrílocos. Criamos ficção de um mundo improvável. identidade. Há algo ainda em suspensão. a cada devis. nos tornamos anônimos e invisíveis. Os trabalhadores em equipes que surgem e se desfazem após a realização de uma tarefa. em que se finge santidade e competência. sem que se conheça sequer algo do outro. Somos nossa casa. Associações entre o burguês e o proletário. em que manipulamos o mundo em que somos manipuláveis. ou os papéis estão dados e legitimados por nós mesmos. para uma questão que acho sem solução. como diria Andy Warhol. conto de Franz Kafka. nossa cultura local e provinciana? Ou somos a polis. As outras aulas mantive um posição de ouvinte (des)interessado. negociáveis na pólis. E as cidades? Haverão realmente espaços para negociações – o grande mercado mundial de homens especialistas -. As aulas consistiram para mim como exposições de teses para as quais eu já vinha com todas as minhas antíteses. que questionava a relação de intimidade típica da organização familiar. Quinze minutos de fama. Desde este princípio me coloquei como estrangeiro. a pé e de ônibus. Lembro-me das minhas andanças pela cidade. em contraposição à vida errante e democrática. somos como os ratos. os colegas – até hoje desconhecidos – que emitiam suas opiniões. uma tentativa de formular um opinião. da moda sempre em mutação. as identidades múltiplas. de corpo fechado. as falas que surgiam das leituras. Ninguém é o que realmente aparenta ser. 14 E nas relações em grupo repetimos esses mesmos falseamentos de realidade. herança. lembrei-me de minha viagem a São Paulo no início do ano e do meu desagrado narcísico diante do que não era meu próprio espelho. na perda do . nossa família. como em Josefina. desconhecidos que sentam-se um ao lado dos outro ou se esbarram. nos dissolvemos. E todos escondem algo por traz do sorriso. numa relação mutualista. da sociabilidade e dos jogos de papéis vivido nas cidade. Apenas 15 minutos. o qual fui expositor.

planejamos e nos projetamos existencialmente. na liberdade que acredito ter nesse espaço aberto à reflexão. Também eu tenho meus vieses.verdadeiro desejo. Posso emitir opinião sobre a vivência do grupo. situações. trabalhamos e funcionamos. para ser eu mesmo. Senti . Tantos pontos de vista. Uma saída ensaiada da caverna. transformandonos em porcentagens e estatísticas. irrealidade e virtualidade. Isso até parece uma provocação ou uma pirraça. E a tentativa de síntese é falsa. fazendo comentários e perguntas incômodas. tantos sinais de fumaça sinalizando conceitos. É o mundo das caixas registradoras. Entre nós há. todos eles defendendo vieses. de que serve tantas discussões teóricas? De que serve a universidade que nos prende nas utopias de um mundo possível de salvação. O que mais me resta? Posso tentar fazer mais algumas correlações com o que eu já trazia como idéia. Mentira! Trago incômodos. Nesse ponto. Tolerar ou não tolerar? Será que esse meu falatório tem sentido. também. Ainda assim somos humanos. traçamos rumos que desejamos trilhar. e. Ela estava lá. Discorrendo livremente. vivemos em agrupamentos. e defendemos como se fossem reais. ou é uma grande confusão? Não sei. ou incorporar novas formas. Às vezes ingênua. Todos nós temos nossas ideologias. e precisamos conquistar o pão com o suor do próprio rosto. um ensaio de intelectualismo que vai do nada ao nada. E me pergunto. Despertar para a visão disso tudo é necessário. O mundo inteligível das idéias. nossas verdades. outras vezes confrontando a figura central de facilitadora. caminhando movida por uma mão abstrata. Citando. Estou tentando me arriscar. aparentemente sem nenhuma conexão com o que ela trabalhado. digitalizando-nos. construímos vidas e vias. o desconforto. ou simplesmente nos deixamos levar pela correnteza. mas será que realmente saímos do estado de cegueira e entorpecimento? Ou cairemos novamente numa outra cegueira de luminosidade ofuscante onde os contornos das formas são as mesmas sombras projetadas? Quando digo isso tento pensar no que lemos e discutimos. Nada tenho a perder. A sociedade formada de homens. e será que realmente preciso lapidá-los. sublimado ou transformado em sintoma e compulsão. Posso omitir meus sentimentos e acreditar que tudo transcorreu conforme o previsível. Mas esse mundo não é o mundo dos poetas. nossa forma “melhor” de ver o mundo. Estou apenas sumariando. Situação atípica. Uma presença. Mas bem posso estar enganado. para ser um outro em alteridade? Será que há essa alteridade ou nos suportamos? A diferença ideológica às vezes é tão mais marcante e conflitiva que as aparentes. na minha crença herética de que minha voz solitária me basta. Algo que destoa do resto do grupo. Desde o início apontei para minha descompostura intencional. e se reproduz. Unindo forças por uma coletividade que é tão abstrata quanto a geometria das formas platônicas. e o previsível seja o que se espera. Mas todo um discurso de contrariedade e tudo isso é. só consigo ver a arte como salvação. maquinaria pesada ou tecnologia digital.

É motivo de risos e desconforto. Saio de uma turma de desconhecidos. Acho que é o lugar da loucura no mundo. Já estou um tanto cansado das discussões que não levam a lugar nenhum. Fazemos um aqui um parâmetro com conceitos próprios (respostas pessoais de alunos nas questões abaixo. quando não censurado e reprimido. e sofista. realizadas em sala e entregue ao professor): . Momentos inesquecíveis nesse período. às fenomenologias do outro homem. e que interagem entre si constituindo uma comunidade. o mais forte que submete o outro por prazer de gozar. eu sei. Como exercitar a própria existência é o que me pergunto. fica a situação velada. pois tentei ser poeta. defendendo o absurdo. Algo se moveu. o discurso sobre o desejo. que não foram ainda assimiladas. Janelas se abrem para que articulações possam ser feitas no futuro. e domesticados. gostos. à antropologia. Eu guardei coisas em mim. Se exercitei meu papel nas arenas da polis acadêmica. posto que dissociada da vivência real com o outro. à sociologia. para depois ruminar. Nada me pereceu tão novo que não seja velho. O que é uma sociedade? Conceitos = Em Sociologia uma sociedade é o conjunto de pessoas que compartilham propósitos. Não sei se isso é o bastante. o relativismo dos valores como verdade afirmada. A sociedade é o objeto de estudo das ciências sociais especialmente da Sociologia. preocupações e costumes. teimar na minha ignorância e resistir à psicanálise. e que o imprevisível é desconcertante. mas eis que emerge e se cristaliza o “bode expiratório”. Não sei se tenho mais nada a falar. Como saio afinal? Não sei. Acho que é tudo o que posso emitir enquanto registro de minhas idéias e síntese de minha participação desse círculo de pessoas. Quero sedimentá-los um pouco. mas não mudei meus pontos de vista. foi por minha escolha pela omissão consentida. Jogo na lata de lixo de minha cachola. E também temos aquela que na risada de deboche abre espaço para as opiniões bem fundamentadas. O espaço. Nada se fala. Já não estou mais no início do percurso. pois mostrou o quanto estamos conformados com os papéis dados. 15 Indivíduo X sociedade Conceitos = a palavra indivíduo habitualmente descreve qualquer coisa. contra a ciência dos conceitos e da busca pela verdade. é importante. Mas sei-me em mutação. para as referências à filosofia alemã.prazer em ver essa situação se instaurar. ao marxismo. Senti-me contente. Sinto muito.

trabalhar de forma polarizada a relação entre indivíduo e sociedade. . já que não têm um sentido pensado. não havendo como existir uma imersão passiva do indivíduo em uma sociedade que o põe a mercê dos acasos.O indivíduo tem.Recusa. o lugar de criador de seu mundo. já que. compartilhando sentidos e significados. A influência social sobre o indivíduo é admitida. . . mas caráter de reflexo. . mas não é central. estudará o homem em relação de interdependência com o outro. .Nega a polarização indivíduo X sociedade.Ações reativas não interessam à sociologia.Sociologia para Weber: a ciência que busca entender a ação social. em sua teoria. é toda conduta humana dotada de significado subjetivo dado por seu executor.A explicação sociológica busca compreender e interpretar o sentido.Não existe acaso. .Objeto de investigação da sociologia weberiana: a ação social. já que todos agem de acordo com o significado atribuídos às ações. para ele. Quando esta ação visa a ação de uma pluralidade de indivíduos totalmente desconhecidos. a ação passa a ser social. .a) Sua vida esta vinculada a sociedade? (Você faz o que bem quer?) b) Quais foram as experiência e influências que vocês receberam da família? * Dos amigos * Dos vizinhos c) Como vocês apreender a ler e a escrever? d) Onde aprenderam normas sociais? e) O que vocês aprenderam na rua? f) Vocês vão algum culto religioso? Max Weber . como em Marx e Durkheim.Sociologia como a ciência que. move a construção da sociedade. mas sua interdependência. o sentido é o definidor da ação social. na contemporaneidade. . . interpretando-a para explicá-la em seu desenvolvimento e efeitos. . . a natureza e seu meio social. mas considerada uma fase posterior à criação do mundo por ele.A determinação social é admitida em Weber.Portanto. entendida como a ação realizada pelo indivíduo tendo como orientação a ação do outro indivíduo. o desenvolvimento e os efeitos da conduta de um ou mais indivíduos em relação a .Ação: para Weber.

segundo Weber.Relação social: diz respeito a uma ação de reciprocidade orientada. ao contrário da capacidade humana de compreensão.Metodologia de Weber: Método Compreensivo.O referido método utiliza-se de um recurso teórico chamado tipo ideal. . o alvo da sociologia de Weber é “a especificidade dos fenômenos e seus significados” (…) “Por isso. abstrai certos aspectos da realidade na tentativa de explicar as causas associadas à produção de determinados fenômenos”. que o particular ou específico não é aquilo que vem dado pela experiência. pelo qual busca o nexo causal dos sentidos compartilhados entre indivíduos e grupos em seu existir socialmente. Por exemplo. fica clara a impossibilidade de análise humana de toda a realidade. se busca compreender a natureza particular das conexões que se estabelecem empiricamente. enfim. . então.A objetividade weberiana. ou seja. obtendo-se resultados válidos não apenas para si. . . que haja conteúdo de sentido em si. já que. . para tanto. sendo necessário.Os tipos ideais permitem a relação entre objetividade do conceito puro e a própria compreensão histórica. tem-se o aperto de mãos: seu conteúdo de sentido é de amizade e cortesia. Os tipos ideais permitem essa relação.Aspecto fundamental da sociologia de Weber: busca pela conexão de sentidos presentes no contexto das ações praticadas por indivíduos e grupos no processo de interação social. que busca trabalhar com elementos da realidade. através destes fatores. que consistem em conceitos selecionados que permitem a tradução adequada de aspectos da realidade.outros (ação social). da imensidade absoluta. ou seja.Segundo Quintaneiro. mas o resultado de um esforço cognitivo 16 que discrimina. que pode ser entendido como compartilhado pela maioria dos membros de uma sociedade. uma vez que o tipo ideal é construídos por critérios que dizem respeito à cada pesquisador. nas estruturas conceituais disponíveis e nas normas de pensamento vigentes. organiza e. que é infinita. . Assim.Método Compreensivo: resgate interpretativo do passado para a compreensão do presente. compreensão da qual consiste em captar e interpretar sua conexão de sentido. que poderá ser mais ou menos evidente par ao sociólogo. O método utilizado baseia-se no estágio de desenvolvimento dos conhecimentos. . que cause a conduta dos indivíduos.Tipologias da sociologia weberiana: a da ação social e da tipologia da dominação. contextualizada à realidade social vivenciada por indivíduos e grupos. Barbosa e Oliveira. tem um forte componente subjetivo. . . . nem muito menos pelo ponto de partida do conhecimento. o cientista pode isolar. um fragmento ínfimo que considera relevante” (…) Pode-se dizer.

Tipologia da ação social é subdividida em: 1) ação social tradicional. por meio da família e da escola. temia a excessiva regulamentação da sociedade moderna. isto é. . . tecnologia e burocracia como racionalização. vista como a única maneira de organizar um grande número de pessoas efetivamente. É o que podemos chamar de socialização primária. e. 2) Dominação tradicional. onde a ação social é determinada por elementos fortes das personalidades individuais que propiciam a alguns ascenderem sobre os demais. Socialização é o processo pelo qual a sociedade ou comunidade ou grupo social ensina a seus membros seus costumes e regras. o que é o certo e o que é errado. ou seja. irmãos mais velhos e amigos íntimos. que consiste na organização da vida sócio-econômica de acordo com os princípios de eficiência e baseada no conhecimento técnico.Tipologia da dominação: o homem não busca o poder apenas para enriquecer economicamente. A burocracia. . nossa identidade. o ser humano tem de ser socializado. o que devem pensar.Weber descreve o desenvolvimento da ciência. 3)racional conforme valores e. expande-se com o crescimento econômico e político. A principal socialização se dá na primeira infância.A legitimação da dominação é a crença de que determinado indivíduo é capaz de governá-lo. Weber não vê o capitalismo como dominado pelo conflito de classes. mas pela ascensão da ciência e da burocracia. na qual se encontra vinculação com elementos da lei no contexto das sociedades completas. que são todas as pessoas muito importantes em nossa vida e dos quais dependemos. já que Weber concentra sua análise nos atores sociais e suas ações. . Por meio da socialização adquirimos o “direito” de atuarmos no grupo social em questão. ela vai aprendendo a agir em sua sociedade porque . Para que a sociedade funcione sem graves conflitos. Ela ocorre por meio dos outros significativos. . tipicamente ocidentais e marcos distintivos deste lado do planeta. 2)afetiva. . A socialização secundária se dá num âmbito maior. na qual a tradição determina de indivíduos e grupos. mas aspira às honras sociais derivados dele. como nossos pais. É por meio da socialização que vamos adquirindo o nosso Eu. que poderia esmagar o espírito humano justamente por tentar regulares todas as esferas da vida social. consideradas forças motrizes do agir social dos indivíduos e de suas interações.Weber.Ao contrário de Marx. O processo de socialização Compreender a perspectiva sociológica acerca do ser humano é compreender também como o ser humano é socializado. 4) conforme fins. a sociedade e o Eu são o verso e o reverso de uma mesma realidade. Na medida em que os outros significativos vão dizendo para as crianças como elas devem agir. entretanto.A tipologia da dominação é subdividida em: 1) Dominação racional-legal.. 3) Dominação de caráter carismático. É interessante notarmos que a criança descobre quem ela é quando descobre o que a sociedade é. por meio de todas as interações que travamos durante a vida.

Ou seja. conforme os padrões da sociedade em que está inserido. as escolhas profissionais. passando por um processo de socialização. verdadeiros autômatos. É por meio das estratégias de integração do indivíduo à . vivenciar tudo. Nessa constante interação com o meio. suas idéias e valores. Tais valores vão se consolidando e determinando suas escolhas. Ao ingressarem em um novo grupo. isto é. Os outros significativos vão se tornando o que. construindo padrões de comportamento próprios para interação em cada grupo. A cada vez que ingressamos em um novo grupo social. Se assim o fosse seríamos robôs. crenças. p. hábitos estes que não são inatos. aprendendo a usar os símbolos (linguagem) e aprendendo os seus papéis sociais. para o pensamento sociológico. Ao longo do processo de desenvolvimento humano. criando uma identidade. normas e práticas da organização. em sociologia. Obviamente. a sociedade. urbana e industrializada: para a socialização ser completa teríamos que aprender tudo. 60).vai descobrindo como é sua sociedade. o indivíduo vai internalizando crenças e valores. denominamos de Outros Generalizados. O processo de socialização de novos membros. identifica hábitos e valores característicos que o ajudam no desenvolvimento de sua personalidade e na integração de seu grupo. “em estado de isolamento social. Para Levy (1973. o indivíduo não é capaz de desenvolver um comportamento humano. Imaginem em nossa sociedade complexa. Segundo Levy (1973). moldando sua vida. é crucial para a reprodução do universo simbólico. pois este deve ser aprendido ao longo de suas interações com os grupos sociais”. E as crianças vão. Podemos afirmar que a “natureza” humana não surge no momento do nascimento. podemos perder nossa identidade se ela não for. existem algumas determinações genéticas. Ao mesmo tempo a socialização nunca termina. ao mesmo tempo. reforçada e atualizada pelos outros de nosso grupo social. Estamos sempre sendo socializados. Durkheim (1987) ressalta a importância da socialização ao mostrar que a sociedade só pode existir porque penetra no interior do ser humano. a socialização é um processo contínuo no qual o indivíduo ao longo da vida aprende. segundo autores de diversas correntes teóricas. Impossível. criando sua consciência. o principal fator de formação da identidade e personalidade de um indivíduo é sua socialização. Por meio do processo de socialização as estruturas da sociedade tornam-se as estruturas de nossa mente. participar de tudo. Os homens adquirem uma “natureza” ou uma identidade por meio de suas associações e podem perdê-la (ou ela declina) quando se encontram isolados. Este mesmo processo revela-se crucial no contexto de uma organização. conforme a idéia de reciprocidade. nesse momento se inicia um novo processo de socialização onde aprendemos os códigos para bem atuarmos 17 nesse grupo social. E ninguém é capaz de ser socializado em todos os aspectos de sua sociedade. Mas. tornando-o sociável. o indivíduo participa de inúmeros grupos sociais. que lhes permitirá articular-se com os processos de comunicação e de integração que permeiam o fazer coletivo. dentre elas. A socialização faz com que a pessoa adquira as normas definidoras dos critérios morais e éticos. O processo de socialização nunca é completo e perfeito. os funcionários precisam ser apresentados aos valores. uma psiquê humana e outros fatores de influência tratados por outras ciências.

que os acompanha e orienta durante o período inicial na organização. Para os novos empregados. para depois receber tarefas gradativamente mais complicadas e crescentemente desafiadoras. O supervisor deve cuidar dos novos funcionários como um verdadeiro tutor. Grupo de trabalho: O grupo de trabalho pode desempenhar um papel importante na socialização dos novos empregados. Os métodos de socialização organizacionais mais utilizados são os seguintes: 1. por meio de exemplos e pressões sociais. os colegas de trabalho. Os novos empregados que recebem tarefas relativamente solicitadoras estão mais preparados para desempenhar as tarefas posteriores com mais sucesso. Processo seletivo: A socialização tem início na entrevista de seleção através da qual o candidato fica conhecendo o seu futuro ambiente de trabalho. além de reforço positivo sobre comportamentos adequados ou. o gerente e o estilo da administração existente etc. os empregados principiantes tendem a internalizar altos padrões de desempenho e expectativas positivas a respeito de recompensas resultantes do desempenho excelente. 3. Programa de integração: É um programa formal e intensivo de treinamento inicial destinado aos novos membros da organização para familiarizá-los com a linguagem usual da organização. A aceitação grupal é fonte crucial de satisfação das necessidades sociais. 5. com os usos e costumes internos (cultura . Definindo a palavra socialização. as atividades desenvolvidas. os grupos de trabalho têm uma forte influência sobre as crenças a atitudes dos indivíduos a respeito da organização e de como eles devem se comportar. Antes mesmo do candidato ser aprovado. Conteúdo do cargo: O novo funcionário deve receber tarefas suficientemente solicitadoras e capazes de proporcionar-lhe sucesso no início de sua carreira na organização. como: aculturação. a cultura predominante na organização. A integração do novo funcionário deve ser atribuída a um grupo de trabalho que possa provocar nele um impacto positivo e duradouro. não têm chance de experimentar o sucesso e nem a motivação dele decorrente. até mesmo.organização que os valores e comportamentos vão sendo transmitidos e incorporados pelos novos membros. Com isso. Além disso. manipulação e. educação. o processo seletivo permite que ele obtenha informações e veja com seus próprios olhos como funciona a organização e como se comportam as pessoas que nela convivem. Leavitt (1991) apresenta alguns termos. A idéia principal é a persuasão das pessoas para adotarem determinadas atitudes e crenças. 4. o supervisor representa o ponto de ligação com a organização e a imagem da empresa. até mesmo. treinamento. reforço negativo sobre comportamentos impróprios. Supervisor como tutor: O novo funcionário pode ligar-se a um tutor capaz de cuidar de sua integração na organização. lavagem cerebral. Se o supervisor realiza um bom trabalho neste sentido. Quando os principiantes são colocados em tarefas inicialmente fáceis. 2. a organização tende a ser vista de forma positiva. os desafios e recompensas em vista.

.Estratégias formais e informais de socialização: o processo formal de socialização age na preparação do novato para ocupar um cargo específico na organização. O autor apresenta sete estratégias de socialização organizacional empregadas pelas empresas. os principais produtos e serviços. dependendo da intensidade de socialização que a organização pretende imprimir. normas e padrões de comportamento que a organização considera imprescindíveis e relevante para um bom desempenho em seus quadros.organizacional). o que influencia as atitudes e valores dos novatos. a socialização representa uma etapa de iniciação particularmente importante para moldar um bom relacionamento em longo prazo entre o indivíduo e a organização. a cultura da organização e se comporte daí para frente como um membro 18 que veste definitivamente a camisa da organização. em níveis de gerência ou direção. com uma agenda que programa sua permanência nas diversas áreas ou departamentos da organização com um tutor permanente (seu gerente ou diretor) e um tutor específico para cada área ou departamento envolvido na agenda. o programa de integração pode durar meses. na prática. enquanto em outras são coordenados pelo órgão de treinamento e executados por gerentes de linha nos diversos assuntos abordados. Sua finalidade é fazer com que o novo participante aprenda e incorpore os valores. Em algumas organizações. Quanto mais formal for o processo. valores e comportamentos. a estrutura de organização (as áreas ou departamentos existentes). Quase sempre. que não são mutuamente exclusivas e que. a missão da organização e os objetivos organizacionais etc. A socialização organizacional implica também na renúncia de certas atitudes. Na realidade. São programas que duram de um a cinco dias. o novo funcionário recebe um manual com informações básicas para sua integração na organização. mais o papel de novato é segregado e especificado. Nos casos em que o novo membro ocupa posição de destaque. as quais serão descritas a seguir. Maanen (1989) apresenta uma definição mais completa para socialização organizacional: é o processo pelo qual o indivíduo aprende valores. que permitem a ele participar como membro de uma organização. A socialização organizacional constitui o esquema de recepção e de boas-vindas aos novos participantes. os programas de integração são totalmente desenvolvidos pelo órgão de treinamento. não existe forma de . mas que depois contam com um acompanhamento. e maior a tensão. normas de comportamentos esperados. O programa de integração procura fazer com que o novo participante assimile de maneira intensiva e rápida. em médio prazo. Este é um processo que ocorre durante toda a carreira do indivíduo dentro da organização. Mais: ela funciona como elemento de fixação e manutenção da cultura organizacional. em uma situação real ou de laboratório. do novo participante pelo gerente ou supervisor que funcionam como seus tutores e que se responsabilizam pela avaliação de seu desempenho. estão combinadas de diversas formas. Em uma atmosfera informal.

diferenciação e grande parte da aprendizagem do novato necessariamente ocorre no interior das redes sociais e das tarefas relacionadas que envolvem sua posição. 19 . contra ou a favor da organização. Essa estratégia apresenta um elevado risco. é necessário que exista um programa seqüencial para que o processo de aprendizagem seja facilitado. .Estratégias fixas e variáveis de socialização: os processos de socialização fixa proporcionam a um novato um conhecimento preciso do tempo que necessitará para completar determinado estágio. o que pode gerar certa incompatibilidade entre os objetivos organizacionais e os do grupo. pois o novo integrante poderá ficar confuso e se perder durante o processo de socialização. ele desenvolve quase sempre uma consciência coletiva. . . Os processos não seqüenciais são realizados em um estágio transitório e sem uma relação com outras etapas anteriormente realizadas. . Quando um grupo é introduzido em um programa de socialização. de acordo com as habilidades e ambições dos indivíduos. ou seja. os indivíduos desconhecem a dimensão tempo do período de transição.Estratégias individuais e coletivas de socialização: na socialização coletiva. Nas estratégias isoladas de socialização.Estratégias de socialização por competição ou por concurso: as estratégias de socialização por competição caracterizam-se pela separação dos novos integrantes em grupos ou diferentes programas de socialização. da relação estabelecida entre o agente socializador e o novato. o processo formal de socialização é apenas a primeira etapa da socialização. Assim. em grande parte. com resultados relativamente similares. As estratégias individuais também geram mudanças mas. quando comparadas às coletivas. perdem em termos de homogeneidade de resultados. os novatos são agrupados em conjunto para o início e processados por um conjunto de experiências idênticas. Entretanto. por meio dos quais um indivíduo deve passar a ocupar uma posição e exercer um papel na organização. Nas estratégias de socialização variáveis. Contudo.Estratégias seqüenciais e não seqüenciais de socialização: a socialização seqüencial caracteriza-se por processos transitórios marcados por uma série de estratégias discretas e identificáveis. devendo aprender informalmente as práticas reais em seu setor. As mudanças são isoladas e dependem. as estratégias por concurso possibilitam uma certa participação e uma cooperação entre os indivíduos. cada um atua por conta própria e dificilmente procura apoio do grupo para as ações de sintonia. sendo uma garantia de que a organização não sofrerá qualquer mudança ao longo do tempo. Por outro lado. poderá também estimular a criatividade e a iniciativa dos novos integrantes. . Dessa forma. o tempo de transição é padronizado.Estratégias de socialização em série e isoladas: a estratégia de socialização em série é aquela que prepara os novos integrantes para assumir diversos papéis organizacionais similares. A segunda etapa ocorre quando o novato é colocado em sua posição organizacional designada. o indivíduo é socializado com base em sua iniciativa e não por qualquer padrão a ser seguido.

Por meio de “experiências indutoras de humildade”. Outro aspecto que merece destaque no processo de seleção é o reforço do sentimento de ultrapassar barreiras e de forte identificação do indivíduo com a organização na qual ele está ingressando. geralmente. p. Outro autor importante e que vem complementar a teoria de Maanen (1989) é Pascale (1985) que também destaca sete passos inter-relacionados. HOLLAND. RYNES & BOUDREAU.Estratégias de socialização por meio de investidura e despojamento: estas estratégias objetivam confirmar ou destruir a identidade do novato na organização. ou designar trabalhos que exigem pouca qualificação a indivíduos mais qualificados. no lugar das estratégias de investiduras. selecionando-se assim. Ele é bem-vindo da forma como ele é. “a seleção é bastante rígida (…) aquele que for escolhido terá tendência a considerar-se como entrando numa elite.A seleção: esta fase é dirigida a atrair candidatos “certos” e predispostos a aceitar as crenças e valores da organização. 1991. candidatos que identifiquem com os valores organizacionais e que reforcem a cultura da organização. Essas .Treinamento na linha de fogo: os esforços de treinamento específico para o trabalho voltam-se para o domínio das disciplinas básicas da organização. tais como atribuir metas difíceis de serem cumpridas. 60) ressalta que “as estratégias de despojamento. Ele é. Maanen (1989) enfatiza. Outros estudos também têm considerado o processo de seleção como a oportunidade inicial de atrair indivíduos que se identifiquem com os valores organizacionais e que reforcem a cultura da organização (CHATMAN. ainda. 1985). de modo a promover uma maior abertura para as normas e valores da organização. a organização procura reduzir a autocomplacência do indivíduo. Essa fase procura evocar uma auto-análise que facilite a aceitação dos valores da organização e assemelha-se às estratégias de despojamento relatadas por Maanen (1989). como mostram Pagés et al.Experiências indutoras de humildade: particularmente nos primeiros meses. As estratégias descritas acima são utilizadas pelas organizações para controlar e dirigir o comportamento de seus membros. crenças e valores. provavelmente produzem resultados similares entre os novatos”. procura confirmar e estabelecer a viabilidade e utilidade dos valores pessoais dos novatos. na investidura. Maanen (1989. a organização procura criar condições para que os novos integrantes passem a questionar seus comportamentos. 1986. . Os candidatos que são recrutados passam por uma bateria de testes e entrevistas para que sejam selecionados somente aqueles indivíduos predispostos a aceitar as crenças e valores da organização. Para os autores. (1987. Exceto a satisfação narcísica que isso provocou. submetido a uma série de “testes” rigorosos para obter acesso privilegiado na organização. p. que grande parte do controle sobre o comportamento do indivíduo nas organizações é resultado direto da maneira pela qual a pessoa é socializada. 114). . Ou seja. isso cria uma ligação tão sólida que não se consegue abandonar o que foi conseguido com tanta dificuldade”.. que estruturam o processo de socialização dos indivíduos na cultura organizacional: . Já no processo de despojamento procura-se destruir e despojar certos valores e crenças dos novatos.

Para Motta (1991. Esse poder de restrição e de opressão controla corpo.Modelos consistentes de papéis: os processos de socialização organizacional abrangentes oferecem modelos consistentes de papéis a desempenhar. 8). freqüentemente necessários para o sucesso da organização. p. por meio do comprometimento contínuo com os valores compartilhados. . “ …quaisquer que sejam as modalidades e a intensidade do poder disciplinar. Neste sentido.Aderência aos valores centrais da organização: a identificação com as crenças e valores comuns capacita os indivíduos a reconciliarem os sacrifícios pessoais. Dessa forma. O enfoque se dá particularmente nos aspectos relacionados ao sucesso competitivo e aos valores da organização. porém. Nesse ínterim. para os novos integrantes. por meio de um poder disciplinar presente nas suas práticas sociais cotidianas. 20 . a organização comunica as maneiras . p. Visa. devem dar prova de coerência e persistência de seus pensamentos”. os indivíduos “nunca podem ou devem perder a sua pose. com o propósito de medir os resultados operacionais e recompensar o desempenho individual. a fim de serem reconhecidos e recompensados. ele tem sempre o mesmo objetivo: formar corpos dóceis e produtivos”. gestos e risos (FOUCAULT. Nas organizações. mitos. Motta (1981. a construção da subjetividade dos indivíduos que estão a ele submetidos. O treinamento é uma espécie de materialização da cultura. o folclore reforça o código de conduta sobre “como realizamos as coisas por aqui”. o processo de socialização organizacional pode ser considerado como uma estratégia de poder e influência utilizada pela empresa para formar corpos dóceis e produtivos. Nesse sentido é também importante tratar da questão do poder nas organizações. 41) complementa com a seguinte afirmação. os indivíduos podem ser aprisionados pelas estruturas de poder nas organizações e também pela sua própria conduta. . além do repasse do conhecimento técnico necessário à realização do trabalho. Eles devem dar provas constantes de sua competência. 1989) e até mesmo a memória. rituais e símbolos da organização oferecem imagens fortes da empresa. Essa fase essencial cria uma base de confiança entre a organização e o indivíduo. Particularmente. .Uso de sistemas de recompensa e controle: a organização dedica um extremo cuidado à criação de sistemas abrangentes e consistentes. as organizações exercem um controle muito forte sobre os indivíduos.experiências extensivas e cuidadosas têm por objetivo inculcar no novo integrante os valores da organização.Folclore do reforço: as histórias. que mantêm a organização em sintonia com a sociedade. que influenciam a maneira como as pessoas vêem a organização.

(UEM – Inverno 2008) Em termos sociológicos. quando bem gerenciadas. Entretanto. Se as expectativas forem mais ou menos de encontro com a realidade. 02) De acordo com Karl Marx. pelas relações de cooperação que se desenvolvem entre os diversos grupos envolvidos no sistema produtivo. O estágio da metamorfose: é a etapa onde o novo funcionário irá superar alguns problemas descobertos durante o estágio de encontro. as relações entre as classes sociais transformamse ao longo da história conforme a dinâmica dos modos de produção. o novo funcionário é submetido a treinamentos. Ele terá absorvido as normas da organização e de seus colegas de trabalho. sobretudo. A socialização é um processo de adaptação que ocorre quando uma pessoa passa de fora para dentro da empresa. 04) As classes sociais. para que conheça melhor a cultura organizacional da empresa e desempenhe com maior sucesso sua nova função. 01) Sua utilização visa explicar as formas pelas quais as desigualdades se estruturam e se reproduzem nas sociedades. . os novos empregados devem passar por uma socialização que vai desligá-los de suas pressuposições anteriores. para Marx. assinale o que for correto sobre o conceito de classes sociais. Identidade e Socialização 01. Pascale (1985) advoga que essas fases.como reconhece formal ou informalmente seus “vencedores”. a integridade e a comunicação. Ou seja. Exercícios . O estágio do encontro: é a etapa onde o novo funcionário se vê diante da diferente posição entre suas expectativas e a realidade. o estágio de encontro irá confundir as percepções geradas antes. Para esse autor. substituindoos pelos padrões fundamentais. palestras.Indivíduo. sentindo-se assim aceito pelos colegas como pessoas de valor e digna de confiança. etc. atos e valores. Processos O estágio da pré-chegada: reconhece explicitamente que cada pessoa chega a uma empresa com um conjunto de valores. proporcionam uma forte identidade organizacional. atitudes e expectativas. cursos. É nesta etapa que o novo empregado terá o primeiro contato com a empresa. que carregam de maneira bem forte os traços e atributos que a organização valoriza. o objetivo da socialização é estabelecer uma base de atitudes. definem-se. que favoreça a cooperação. sendo que este pode abranger tanto o trabalho a ser feito quanto a organização. quando as expectativas e a realidade são diferentes. Finalmente. acarretando algumas mudanças.

a proximidade surge então como produtora do vínculo social e o camponês sedentário como o ser social por excelência. o que permite aumentar as 21 trocas.” (BERGER.(UEM – Verão 2008) Leia o texto a seguir: “Desde o início a criança desenvolve uma interação não apenas com o próprio corpo e o ambiente físico. pela experiência social. Rio de Janeiro: DP&A. que designa o aprendizado. mas também com outros seres humanos. são influenciados pelos valores e pelos costumes que caracterizam sua sociedade. In FORACCHI. a complementaridade e a troca: a divisão do trabalho social cria diferenças com base na complementaridade. desde o nascimento.2006) “Três grandes dimensões fundamentam o vínculo social. Marialice M.(UEL. 2001 p. ou seja. contêm dimensões sociais. 1977. os componentes não sociais das experiências da criança estão entremeados e são modificados por outros componentes. como os proletários. afirmação de um destino comum da humanidade por grandes sistemas religiosos e metafísicos. no caso do exemplo. 16) o desconforto físico que uma criança sente. dependendo da sociedade na qual eles estão inseridos. como a fome. das regras e dos valores sociais. Primeiro. 02) a relação que a criança estabelece com o seu corpo não deveria ser do interesse das ciências biológicas. Sociologia e Sociedade. pode receber dos adultos distintas respostas de satisfação. Podemos concluir do texto que 01) os indivíduos. até mesmo aquelas que parecem mais relacionadas às nossas necessidades físicas. e BERGER. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos. José de Souza. A biografia do indivíduo. só se realiza na sua relação com a classe opositora.” (BOURDIN. o sentimento de pertença à humanidade que nos leva a reforçar nossos vínculos com os outros seres humanos: força da linhagem. 28. desde o nascimento. o frio e a dor. Alain. 3. p. A questão local.08) A formação de uma classe social. de partilhar uma mesma cotidianidade. e MARTINS. 2. a burguesia. 16) A afirmação “a história da humanidade é a história das lutas de classes” expressa a idéia de que as transformações sociais estão profundamente associadas às contradições existentes entre as classes. Além disso. 200). “Socialização: como ser um membro da sociedade”. é correto afirmar: . 08) as experiências individuais. o fato de viver junto. Por fim. mas apenas da sociologia. é a história de suas relações com outras pessoas. Peter L.) Com base no texto e nos conhecimentos sobre o tema. pelos indivíduos. do vínculo sexual e familiar. Em segundo lugar. 04) o fenômeno tratado pelo autor corresponde ao conceito de socialização. Brigitte.

Considere as afirmativas abaixo sobre as características do fato social para Émile Durkheim. imaginando que a festa seria formal. causou estranheza. por resultarem de criações subjetivas dos indivíduos. I. e) O forte sentimento de pertencer à humanidade desmantela a noção de comunidade e minimiza o papel da afetividade nas relações sociais.2003) Um jovem que havia ingressado recentemente na universidade foi convidado para uma festa de recepção de calouros. O calouro não estava vestido de acordo com o grupo e sentiu as represálias sobre o seu comportamento. II e IV são corretas. No convite distribuído pelos veteranos não havia informação sobre o traje apropriado para a festa. olhares de espanto e de admiração. d) Pela ausência da cotidianidade. a) Apenas as afirmativas I e II são corretas. c) O cotidiano das pequenas cidades e do mundo campesino favorece a criação de vínculos sociais. segundo Émile Durkheim (1858-1917). O fato social é exterior ao indivíduo e apresenta-se generalizado na coletividade. c) Apenas as afirmativas II e III são corretas. As regras que regem o comportamento e as maneiras de se conduzir em sociedade podem ser denominadas. Assinale a alternativa correta. O calouro. II. O fato social é todo fenômeno que ocorre ocasionalmente na sociedade. 4. III. III e IV são corretas. em que todos estavam trajando roupas esportivas. b) Os sistemas religiosos e metafísicos são fatores de isolamento social. cochichos com comentários maldosos. 5. as grandes metrópoles deixaram de ser lugares de complementaridade e de trocas. O fato social expressa o predomínio do ser individual sobre o ser social. d) Apenas as afirmativas I.(UEL .(UEL – 2004) O texto a seguir refere-se à situação dos apátridas na 2ª Guerra Mundial: . IV. provocando risos. e) Apenas as afirmativas I.a) A divisão do trabalho social na sociedade contemporânea desagrega os vínculos sociais. O fato social caracteriza-se por exercer um poder de coerção sobre as consciências individuais. compareceu vestido com traje social. b) Apenas as afirmativas I e IV são corretas. como fato social. Ao entrar na festa.

imperialismo.. São Paulo: Companhia das Letras. De súbito revelou-se não existir lugar algum na terra aonde os emigrantes pudessem se dirigir sem as mais severas restrições. e) Ser um apátrida é ser reconhecido como um indivíduo com direitos fora de seu país de origem. 1989. b) A condição em que se encontra o apátrida é igual à condição de escravo. da liberdade ou da procura da felicidade. 229. nota-se a influência das idéias 22 positivistas em boa parte de sua legislação. conforme o tipo de divisão do trabalho social que predomina na vida coletiva numa determinada época tem-se um tipo diferente de solidariedade entre os indivíduos. totalitarismo. está em jogo quando deixa de ser natural que um homem pertença à comunidade em que nasceu. nenhum território em que pudessem fundar uma nova comunidade própria [. p. na privação de um lugar no mundo que torne a opinião significativa e a ação eficaz.] A calamidade dos que não têm direitos não decorre do fato de terem sido privados da vida. que apresentam artigos e parágrafos da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT. nenhum país ao qual pudessem ser assimilados. . Rio de Janeiro: DP&A. Alberto T. No Brasil. 6. Origens do totalitarismo: anti-semitismo.. é correto afirmar: a) Obter o reconhecimento por uma comunidade é condição básica para o gozo de direitos.) Com base no texto. Este consenso é garantido pelo meio moral que compartilhamos. (Adaptado de: RODRIGUES. d) Ao apátrida é garantida ressonância às suas opiniões mais significativas. Pois sem consenso não há cooperação entre os indivíduos e.] A privação fundamental dos direitos humanos manifesta-se.” (ARENDT.(UEL – 2005) Emile Durkheim observa que uma condição fundamental para que a sociedade possa existir é a presença de um consenso social.Edição de 1988) e da Constituição de 1988. Algo mais fundamental do que a liberdade e a justiça. por exemplo. p.. 227.“O que era sem precedentes não era a perda do lar. Desse modo. por sua vez. é produzido pela cooperação entre os indivíduos através de um processo de interação que Durkheim chamou de divisão do trabalho social. 230. 2000. mas a impossibilidade de encontrar um novo lar. nem da igualdade perante a lei ou da liberdade de opinião – fórmulas que se destinavam a resolver problemas dentro de certas comunidades – mas do fato de já não pertencerem a qualquer comunidade [. Durkheim destaca dois tipos de solidariedade: a mecânica e a orgânica.27-28. não há vida social. primeiro e acima de tudo. c) Ser privado da vida é menos importante que ser privado da liberdade.) Considere as afirmativas a seguir. Sociologia da Educação.. o qual. que são os direitos do cidadão. portanto. Hannah.

no estudo e solução dos problemas que se relacionam com a respectiva categoria ou profissão liberal”. em pleno século XXI [. d) Consciência coletiva.] Mas. leis. “[Da Organização Sindical:] A solidariedade de interesses econômicos dos que empreendem atividades idênticas. de número.. No plano da efetivação dos direitos... apenas as afirmativas: a) I e III.I. como pensamos. aí estão assassínios praticados por graúdos mandantes que se servem de pistoleiros profissionais. 30 ago. trabalho escravo. as categorias são representações essencialmente coletivas. de espaço. III e IV. a) Anomia.. são significativos os homicídios no mundo inteiro. e) II. . A 3.]. “[Dos direitos e deveres individuais e coletivos:] a criação de associações e. sendo vedada a interferência estatal em seu funcionamento”. está-se na era dos direitos. tratados. p. No Brasil.) Assinale a alternativa que indica o conceito utilizado por Emile Durkheim (18581917) para definir uma “condição social” do tipo descrito no texto. II e IV. [.. “[São prerrogativas dos Sindicatos:] colaborar com o Estado. na forma da lei. São Paulo. de gênero. como órgãos técnicos e consultivos.. II.(UEL – 2005) “A despeito de se viver na era dos direitos. menores para prostituição. são aquelas que os filósofos chamam de categorias do entendimento: noções de tempo. a de cooperativas independem de autorização.. de personalidade etc. d) I. c) II e III. 7. se.]”. Remetem ao conceito de solidariedade orgânica. b) Fato social. III. 8.. não se estaria na era do vazio [de direitos]?” [Situações sociais desse tipo são analisadas por alguns sociólogos a partir da consideração de que nos encontramos em] “uma condição social em que as normas reguladoras do comportamento perderam a sua validade. [onde] a eficácia das normas está em perigo”. (Folha de São Paulo.(UEL – 2006) “Na raiz de nossos julgamentos existe um certo número de noções essenciais que dominam toda a vida intelectual. a deplorável guerra do tráfico de drogas e as chacinas em grandes cidades brasileiras. IV. “[São condições para o funcionamento do Sindicato:] a proibição de qualquer propaganda de doutrinas incompatíveis com as instituições e os interesses da Nação [. Pelo número de concepções. 2004.. de causa. de substância.. para utilizar a expressão de Lipovetsky [. e) Conflito social. b) I e IV.. as condições sub-humanas a que são submetidas centenas de milhões de pessoas [. c) Coerção social.]. tráfico de mulheres. etc. similares ou conexas constitui o vínculo social básico que se denomina aqui categoria econômica”.].

a seguir. a moral (conjunto de valores e juízos direcionados à vida em comum) é o amálgama que une os indivíduos à vida em grupo. A moral traça as orientações da conduta ideal para as pessoas. 154-157. Assinale a alternativa que está em conformidade imediata com os pressupostos sociológicos mostrados no texto. e) As noções incomuns à vida intelectual de uma sociedade que deturpa os julgamentos dos sujeitos. Indicam-se. b) Estimular a produção econômica para a geração de empregos. c) O modo como a sociedade vê a si mesma nos modos de agir e pensar coletivos. Esses pressupostos. enfatizando aqueles voltados à população de 15 a 24 anos. c) Promover a instituição familiar. aos esquadrões da morte e a unificação das polícias. a respeito das condições para o bom convívio dos indivíduos numa coletividade. p. algumas possíveis propostas de ação para enfrentar esse problema. . morais.” (DURKHEIM. Para ele.(UEL – 2004) O sociólogo francês Émile Durkheim (1858-1917) considera a “comunhão de valores morais” a condição fundamental e primeira para a construção da coesão social. é correto afirmar que a noção de categorias do entendimento compreende: a) Os estados emocionais fugazes dos indivíduos de distintas sociedades. de sua morfologia.traduzem antes de tudo estados da coletividade: elas dependem da maneira pela qual esta é constituída e organizada. 9. de suas instituições religiosas. permitem a formulação de uma avaliação específica sobre o problema da criminalidade violenta praticada por jovens no Brasil. ao crime organizado. Durkheim afirma o papel do regulamento moral para a integração social. morais e econômicas. Émile. econômicas etc. b) Aquelas representações cuja formação é exterior às instituições religiosas. reforçar o papel socializador da escola com ênfase na educação para a paz e 23 para a cidadania e melhorar o funcionamento do sistema legal. insistindo que a moral é o mínimo indispensável. São Paulo: Ática. e parte do seu conteúdo se materializa em normas e regras. a) Priorizar o combate ao narcotráfico. hoje. d) A tradução de estados mentais dos indivíduos portadores de distintas visões de mundo. sem o qual as sociedades não podem viver em harmonia.) Com base no texto e nos conhecimentos sobre o tema. 1981. Sociologia.

e) II. minha família. nas festas de amigo-secreto e em muitas outras ocasiões. meus amigos. I. e) Investir no controle da natalidade. faço só o que desejo. esta obrigatoriedade de dar. impulsiva e impaciente e providenciar o tratamento terapêutico como política pública. se o vizinho nos convida para o casamento de seu filho. Nos aniversários. da minha cabeça. trocamos presentes. Sinto que dependo disso tudo e gostaria muito de ser . a relação da troca.2008) Leia os depoimentos a seguir: • Sou um ser livre.d) Detectar antecipadamente os jovens portadores de personalidade irritável. sou único. o que penso veio da minha família. III. gostaria de fazer o que desejo. Do mesmo modo. é comum que o convidado leve um presente. • Sou um ser social. (Jovem estudante e trabalhadora em uma loja de shopping). Não sigo o que me obrigam e pronto! Acredito que com a força dos meus pensamentos poderei realizar todos os meus sonhos. este indivíduo espera receber presentes de seus convidados. independente.. a escola. na festa de seu aniversário. O ato de presentear instaura e reforça as alianças e os vínculos sociais. d) I. III e IV. penso apenas com minhas idéias. Segundo o sociólogo francês Marcel Mauss. Estão corretas apenas as afirmativas: a) I e II. de receber e de retribuir é mais importante que o bem trocado. A troca de presentes cria e alimenta um circuito de comunicação nas sociedades. O lucro obtido a partir dos bens trocados é o que fundamenta as relações de troca de presentes. Com base no texto e nos conhecimentos sobre o tema. b) I e III. minha religião. Reciprocamente. considere as afirmativas a seguir. O presentear como prática social originou-se quando da consolidação do modo capitalista de produção. IV. autônomo. mas na maioria das vezes sigo meu grupo. 11. mas é difícil! Às vezes faço o que quero. e o meu esforço ajuda a sociedade a progredir.(UEL – 2006) Ao receber um convite para uma festa de aniversário. II e IV. reduzindo o número de nascimentos a médias compatíveis com os índices de desenvolvimento econômico previstos 10.(UEL . II. a prática de “presentear” é algo fundamental a todas as sociedades: segundo ele. temos certa obrigação em convidá-lo para o casamento do nosso filho. dos meus amigos e parentes. nos casamentos.. sei lá. c) III e IV.

É legal a gente viver segundo as regras e ao mesmo tempo poder mudá-las. sociologia compreensiva. as explicações sociológicas sobre a relação entre indivíduo e sociedade presentes nas falas.2008 ) De acordo com Florestan Fernandes: A concepção fundamental de ciência. muita gente não percebe. base da divisão social e transformação do modo de produção. Então. Em outros momentos faço o que me mandam e acho que deve ser assim mesmo. teoria da consciência de classe. fundado no liberalismo de vários autores dos séculos XVIII a XX. fundado no conceito dos três estados de Augusto Comte. fundada no conceito de ação social e suas tipologias de M. teoria organicista de Spencer. Rio de Janeiro: Cia Editora Nacional. taxas. fundada em K. • Sinto que às vezes consigo fazer as coisas que desejo. b) O fato social.(UEL . p. (Jovem estudante e Office boy). 73). fundado no conceito de consciência coletiva de E. Marx. Assinale a alternativa que descreve o objeto próprio da Sociologia. fundada no conceito de ação social e suas tipologias de M. fundado em Augusto Comte. sociologia compreensiva. Durkheim. é realista. 12. mas com alguns limites. fundado no liberalismo de vários autores dos séculos XVIII a XX. Nas raves existem regras. Marx. fundada em K. mesmo que minha mãe não permita ou concorde. Marx. a) Solidariedade mecânica. fundado na teoria política liberal. segundo Emile Durkheim (1858-1917). Assinale a alternativa que expressa. funcionalismo. de Emile Durkheim (1858-1917). no sentido de defender o princípio segundo o qual nenhuma ciência é possível sem definição de um objeto próprio e independente. funcionalismo. e) Corporativismo positivista. Fundamentos empíricos da explicação sociológica. c) Individualismo. Durkheim. a) O conflito de classe.livre. exterior e coercitivo em relação à vontade dos indivíduos. mas não sou! (Jovem estudante em uma escola pública que trabalha em empregos temporários). posso escolher coisas. sinto que sou livre. F. Weber. d) Sociologia compreensiva. seguranças. Weber. teoria da consciência de classe. Weber. fundada no conceito de ação social e suas tipologias de M. como ir a raves. (FERNANDES. respectivamente. teoria da consciência de classe. individualismo metodológico. etc. fundada no funcionalismo de E. individualismo. fundada em K. fundada em K. b) Teoria da consciência de classe. mas há toda uma estrutura. 1967. Marx. .

I.. 3) Com base no texto. diz Nhô Roque. como se diz sempre. Os Sertões. sitiante perto de Tatuí. 1982. o padrinho ajudar a comadre até ‘arranjar a vida’. A sua aparência. a Sociologia significa: “uma ciência que pretende compreender interpretativamente a ação social e assim explicá-la casualmente em seu curso e em seus efeitos.c) A ação social que define as inter-relações compartilhadas de sentido entre os indivíduos.. é um líder econômico. se refere ao comportamento dos outros. vol. considere as afirmativas a seguir: I. São Paulo : Círculo do Livro. A. Hoje. O nonagenário Nhô Samuel lembrava com saudade o dia em que o pai. entretanto. 1987. “Mesmo entre gente humilde. a gente paga o batismo e. quando o afilhado cresce. um forte.) III. o fazendeiro que manda nos seus agregados. “O coronel. empregados ou dependentes. Brasília: Editora UnB. Os Parceiros do Rio Bonito. não necessariamente. mas . funcionava o sistema de obrigações recíprocas. p.” (CANDIDO... porém. ainda presentes nas relações de trabalho rural brasileiro. O vínculo não obedece a linhas tão simples. Traduzido por Regis Barbosa e Karen Elsabe Barbosa. Isso tudo não tem sentido na estrutura social brasileira.” (WEBER. antes de tudo. produto da vontade e da ação de indivíduos que agem independentes uns dos outros. “O sertanejo é. [. nem vem dar louvado (pedir a benção). que se traduziriam no mero prolongamento do poder privado na ordem na ordem pública [. revela o contrário. A Revolução Brasileira. 247.. dando com isso origem a relações semi-feudais que implicariam uma situação de ‘latifúndios de tipo senhorial a explorarem camponeses ainda envolvidos em restrições da servidão da gleba’. 1989. E. orientando-se por este em seu curso. 95. 24 e) A cultura. ao primeiro lance de vista.” (PRADO Jr.” (CUNHA. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral. p. o desempeno. a estrutura corretíssima das organizações atléticas.. Diz que era costume. lhe disse que era tempo de irem buscar a novilha dada pelo padrinho.) II. “Não há assim por que considerar que as formas anacrônicas e remanescentes do escravismo. São Paulo: Livraria Duas Cidades. Falta-lhe a plástica impecável.] Ocorre que o coronel não manda porque tem riqueza.2008) De acordo com Max Weber. São Paulo : Brasiliense.) IV. antes de ser um líder político. M.” Por ação social entendem-se as ações que: “quanto ao seu sentido visado pelo agente. 106.]. Economia e sociedade.(UEL . p. p. resultado das relações de produção e da divisão social do trabalho. se o pai morria.. 2000. d) A sociedade. C. 13.

num pacto não escrito. Porto Alegre: Editora Globo. As meninas e as jovens também são capazes de expressar situações em que a discriminação e o preconceito contra o gênero feminino aparecem nos relacionamentos cotidianos na família. Como.manda porque se lhe reconhece esse poder. na escola. 25 . e que propicie o debate em torno das questões relacionadas às desigualdades de gênero. p. 622. Os donos do poder.” (FAORO. entre pais e filhos e. analisar e debater os problemas envolvidos nas situações apresentadas em cada trabalho proposto. utilizando os conceitos e idéias centrais referentes ao tópico. nos grupos de convivência. criando oportunidade para o professor provocar questões iniciais que permitirão o desenvolvimento do assunto. entre irmãos de diferentes gêneros . Outra maneira de iniciar o estudo desse tópico é através de um convite aos estudantes para que apresentem. R. do conhecimento público. por exemplo. d) I. III e IV b) II e III c) II e IV. tanto por parte da direção como dos professores e funcionários. os casos em que nos relacionamentos familiares . relacionado a preconceitos e discriminações de vários tipos. claramente. Filmes sugeridos: Na falta de condições para a apresentação de um filme. v. É também possível identificar tratamentos desiguais entre meninos e meninas não só na família como nas escolas.entre mulher e marido. divulgado em jornal e/ou televisão. 1973. oralmente. o professor pode lançar mão da narração de um conto ou da exposição de um caso real. situações vividas ou observadas em que. mesmo. 2. O principal propósito dessa atividade inicial é provocar o reconhecimento por parte dos alunos da existência de tratamento desigual entre homens e mulheres nos vários aspectos e dimensões da vida social. e) II.se manifestam tratamentos discriminatórios em relação à mulher e às crianças do sexo feminino. como a diferença entre os termos “sexo” e “gênero”. é manifesta a desigualdade no tratamento ou na posição socialmente ocupada por homens e mulheres. A introdução ao estudo deste tópico pode ser realizada com a apresentação de um filme que propicie o debate sobre o tema (caso a escola tenha os recursos necessários). os aspectos culturais e sociais envolvidos nas desigualdades e os preconceitos referentes ao gênero e à sexualidade. Gênero como fator de desigualdade: Gênero e desigualdade As atividades sugeridas devem propiciar aos alunos desenvolver as capacidades de identificar. II e III.) Correspondem ao conceito de ação social citado anteriormente somente as afirmativas a) I e IV.

. enquanto os femininos são retratados passivos. do livro Sociologia. em certa medida.2. forças socialmente aplicadas que recompensam ou restringem o comportamento. os alunos poderão ler e discutir o seguinte trecho do capítulo sobre “Gênero e Sexualidade”. De acordo com essa visão. de alguma forma. Artmed Editora S. esperançosos e voltados à vida doméstica.”.” Essa interpretação dos papéis sexuais e da socialização foi criticada e muitos escritores argumentam que “a socialização de gênero não é por si mesma um processo tranqüilo: diferentes organismos como a família. Estudo dirigido do texto abaixo e discussão sobre o tema:Após terem sidos expostos a uma introdução geral sobre o tema da sexualidade e do gênero. Pesquisadoras feministas demonstraram como produtos culturais e de mídia. um menino poderia ser sancionado positivamente em seu comportamento (“Que menino valente você é!”). Essa abordagem faz distinção entre sexo biológico e gênero social – uma criança nasce com o primeiro e desenvolve o segundo. mostram diferenças distintas no tratamento de meninos e meninas. contos de fadas. os livros ilustrados e os programas de televisão experienciados por crianças tendem a enfatizar diferenças entre os atributos masculinos e femininos. Além disso. tanto primários como secundários.”. os personagens masculinos em geral superam em número os femininos na maior parte dos livros infantis. “As influências sociais na identidade de gênero fluem por meio de diversos canais. “ Estudos sobre as interações entre pais e filhos. esteja mudando. as crianças internalizam gradualmente as normas e as expectativas sociais que são percebidas como correspondentes ao seu sexo. Os brinquedos. As diferenças de gênero não são biológicamente determinadas. de Anthony Giddens (pp. como a família e a mídia. Embora a situação. muitos estudos mostram que. Os personagens masculinos tendem a representar papéis mais ativos e aventurosos.. as teorias de socialização ignoram a capacidade dos indivíduos de rejeitar ou modificar as expectativas sociais acerca dos papéis sexuais. as identidades de gênero são resultados de influências sociais”.” Na socialização do gênero “meninos e meninas são guiados por “sanções” positivas e negativas. 2005) “Um caminho dentro da Sociologia para se analisar “as origens das diferenças de gênero é estudar a socialização do gênero. são culturalmente produzidas. a aprendizagem de papéis do gênero com o auxílio de organismos sociais. Por exemplo.. mesmo quando os pais acreditam que suas reações para ambos sejam iguais.. encarnam atitudes tradicionais . comercializados para audiências jovens. Essas afirmações positivas e negativas ajudam meninos e meninas a aprender os papéis sociais esperados e a adequar-se a eles. “Embora convenha nutrir certo ceticismo com relação a qualquer adoção indiscriminada da abordagem que postula os papéis dos sexos. as desigualdades de gênero surgem porque homens e mulheres são socializados em papéis diferentes. 105-6. Pelo contato com vários organismos sociais. programas de televisão e filmes. as escolas e outros núcleos de agrupamento talvez estejam em divergência com outros. ou ser alvo de sanções negativas (“Meninos não brincam com bonecas”). por exemplo..A.

em nossa sociedade. em revista. em Sociologia. etc. O que o termo “papéis” significa para a análise sociológica? (recordar o estudo sobre o tema da socialização em sua relação com a desigualdade de gênero) .” Algumas questões para orientar o estudo e o debate em sala: . tão "homens". coloca em ação estratégias que exigem do homem desempenhos que o produzem enquanto um guerreiro: indivíduo violento. pois nos indica uma sociedade 26 com mecanismos bastante violentos de produção de indivíduos. papel . coitados. nem dispostos a "comer todas" usando o sexo como arma contra as mulheres. competitivo e agressor.em que claramente está manifesto um preconceito contra mulheres ou homossexuais.) GÊNERO. condenados a tantos sacrifícios. não nascem violentos. tão competitivos. Dá medo viver numa sociedade que.atribuição de natureza social relacionada a alguma função e/ou desempenho esperado. para cada gênero. tendo que se mostrar tão duros. em programa de televisão ou em propaganda . de acordo com o que é esperado. Os papéis sociais são expectativas socialmente definidas que uma pessoa segue numa dada posição social. não custam lembrar que este "sacrifício" todo não é feito .Cite exemplos de “sanções” negativas ou positivas ( outros que os apresentados no texto) e que fazem parte do processo de socialização de gênero.Explique com suas palavras o que se quer dizer com a afirmação “homens e mulheres são socializados em papéis diferentes”. de esposa. Por um lado.para com o gênero e os tipos de objetivos e ambições esperados em meninos e meninas. VIOLÊNCIA E PODER Homens = sexo. enfim. de professor. (Por exemplo: assumir o papel de médico. de estudante. nem saem da barriga da mãe sedentos de poder. dia a dia. cotidianamente. se atribui aos termos “sexo” e “gênero”? Por que é importante para a análise sociológica fazer tal distinção? . Antes que alguém comece a sentir pena dos homens. Glossário: sanção – pena ou recompensa (reforço positivo ou negativo) com que se tenta garantir a execução de uma norma ou lei social.Qual o sentido que. No caso do texto o sentido do termo está diretamente associado às formas de aprovação ou reprovação dos comportamentos.apresentada em filme. socialmente. de pai.Indique alguma situação . SEXUALIDADE. esta constatação é preocupante. violência e poder: dá para mudar esta equação? Fernando Seffner1 Homens não nascem prontos. a serem assim. tão fortes. influenciando comportamentos diferenciais entre meninos e meninas? . Os homens são ensinados.

Os modos de constituir agregados familiares podem gerar situações de maior equidade de gênero. Homens jovens e negros são alvo de um verdadeiro genocídio no Brasil. Só que a mudança não virá apenas por conta de projetos de educação dos homens. Homens negros têm menos possibilidades de sucesso do que homens brancos. A situação é mais complicada. que na maior parte dos casos convivem de modo a permitir que os homens tenham estes comportamentos violentos. para "provar" sua masculinidade continuamente). são os homens que galgam os mais elevados postos na vida política e na esfera das empresas privadas (mas vale lembrar que os homens morrem primeiro. no mínimo. na estrutura econômica. as coisas não são tão simples como podem parecer.em vão. mas o princípio é esse mesmo: investir na educação de homens e mulheres. Simples. e que implica retirar poder dos homens e distribuir numa relação igualitária com as mulheres. EDUCAÇÃO PARA A IGUALDADE DE GÊNERO é. não? De fato. Por outro lado. x e y têm muito a ver com a discussão dos regimes de gênero. Entre um jovem negro e pobre e um jovem branco e pobre. Se os homens são assim porque foram educados para serem assim. diariamente atestado pelas manchetes dos grandes jornais. Aliás. mas fica o alerta: a situação é complexa. E antes que alguém comece a invejar os homens por causa desses benefícios. e partilhar desse poder conjuntamente. O nível de escolaridade estratifica as oportunidades também. é coisa de homem. por exemplo. a equação que colocamos no título. o que está diretamente relacionado a este esforço em galgar postos elevados e neles se manter). Mas as dificuldades são muitas. são os homens que estudam mais (embora as mulheres tenham conseguido avanços espetaculares nesta área. mesmo quando deles discordam. porque a questão não se resume aos pólos homem e mulher. também. Enfim. e são também eles que morrem mais em acidentes automobilísticos). por exemplo. o jovem negro tem muito mais chances de estar na mira da agressão policial. uma equação de segundo grau. a distribuição de poder é muito desigual. essa mesma constatação – os homens são assim porque foram educados para serem assim – nos permite pensar em modos de mexer na equação. tendo como objetivo um regime de equidade de gênero. uma situação em que homens e mulheres possam conviver com distribuição igualitária de poder. São os homens que gozam da maior mobilidade na sociedade (carro. se forem educados de outro modo poderemos ter homens com outras características. no interior de . é sempre possível localizar. de carreira política. e embora muitos homens confessem que o período escolar foi de grande tensão. ou não. E os processos educativos devem abranger também as mulheres. mas de uma redistribuição de poder. porque não estamos apenas tratando de processos educativos. buscando um regime de equidade de gênero. O quesito raça atua promovendo um desequilíbrio na masculinidade. de salários. e bem antes das mulheres. vale lembrar que as coisas são mais complicadas. Ou construir uma nova conceituação de poder. No interior do campo masculino. Não vamos seguir exemplificando. inclusive. São os homens que acessam as melhores oportunidades de emprego. com muitas variáveis. É necessário mudar elementos centrais de nossa estrutura social e. bem além do x e do y tradicionais. em alguns grupos populacionais. de cargos de mando e de benefícios em nossa sociedade.

basicamente nas relações entre homem e mulher. Tome uma revista semanal. Em determinados contextos. Conseguem mandar nas mulheres e em muitos homens. e isto tem gerado boa parte do que a imprensa descreve como sendo a crise dos homens. embora ainda esteja longe do estado de equilíbrio. o que em boa parte já foi conseguido. atuante desde o século XIX. Diversos motivos. faz curso de gastronomia. A crise nas relações de gênero é uma crise em torno da distribuição do poder. ao acaso. Uma parte da luta feminista se dá no sentido de conter a violência masculina sobre as mulheres. O que ocorre é uma crise nas relações de gênero. auxiliando-os a compreender e atuar no contexto social em que vivem. o que causa preocupação. pois essa designação tem permitido que uma parte da "saída" da crise seja produzida pelo mercado. EDUCAÇÃO PARA A IGUALDADE DE GÊNERO. um conjunto de características que configura um modo hegemônico de masculinidade. e você verá que o "novo homem" que busca "superar a crise" é um homem que vai a salão de beleza. é claro. via consumo de produtos e serviços. Outra frente de luta é para garantir o pleno acesso das mulheres à escola. Homens negros têm lutado por uma justa distribuição de oportunidades quando . sua trajetória de aprovação e os casos em que ela já foi aplicada. Se este é o caminho para superar a crise da masculinidade. até mesmo em crise do macho se fala. folheie suas páginas. Mas ainda falta muito para que os aprendizados escolares façam diferença na vida dos alunos. não precisamos de escola. Penso que a melhor expressão para designar o que está acontecendo não é essa. Fala-se muito hoje em crise das masculinidades. posicionaram as mulheres com possibilidades de disputar em regimes de quase igualdade com os homens o acesso a oportunidades na sociedade. Para quem pode. e a balança tem pendido para as mulheres. o homem em crise. dentre eles em especial o movimento feminista. Aceder a mais benefícios do que outros. Outro aspecto é que determinados grupos de homens têm questionado o privilégio de outros grupos de homens. tudo se resume ao mercado e ao consumo. aprendeu técnicas de prazer amoroso para melhor desempenho sexual. Mas não é por acaso que a imprensa escolhe chamar isso de crise dos homens. escolhe roupas com apuro e aceita dividir a conta 27 do restaurante com a parceira. Aparecem na imprensa numerosas matérias sobre a crise do homem. mais violência. e a Lei Maria da Penha é um bom exemplo disso. Mas não podemos deixar de reconhecer que a perda de poder dos homens tem gerado. em algumas situações. Ela é também um ótimo conteúdo para ser estudado em sala de aula.uma determinada ordem de gênero. Este modo hegemônico designa homens que conseguem EDUCAÇÃO PARA A IGUALDADE DE GÊNERO. podemos ter homens e mulheres como aliados na luta pela democratização do poder concentrado em mãos de determinados grupos de homens. não faltando materiais em sítios da internet e em organizações não governamentais feministas sobre a lei.

incentivando os alunos a uma participação cidadã na vida em sociedade. A escola não tem como "resolver" sozinha esta questão. como no caso da discussão dos regimes de cotas. Docente e orientador junto ao Programa de Pós-Graduação em Educação na linha de pesquisa Educação. ou o direito de pensão por morte do companheiro. até porque as pedagogias de construção da masculinidade estão presentes em propagandas da mídia. e os meninos podem aprender a fazer poemas na aula de Língua Portuguesa e a tirarem boas notas em Educação Artística. Mas valerá a pena como construção de um futuro mais justo. nem para alunos. Para isso. nos discursos sobre segurança e família. brasileiros. lutam para ter acesso a oportunidades de trabalho em pé de igualdade com os demais homens. lutar por isso é dar mesmo um salto para o futuro. nem para professoras. Dagmar Estermann Meyer2 .Todos estes movimentos sociais podem ser objetos de estudo e discussão na sala de aula. e até mental. em sistemas de recrutamento de recursos humanos. Mas a escola pode ser um ambiente onde os meninos e as meninas passem por uma experiência de estudo e discussão destes temas. Exemplo disso são os casos de adoção de filhos por casais homossexuais masculinos. EDUCAÇÃO PARA A IGUALDADE DE GÊNERO. que os "obrigam" a manter uma atitude guerreira. Homens homossexuais têm lutado para que a homofobia seja crime. o da escola inclusiva. Não vai ser fácil. por exemplo. nem para professores. em muitos discursos religiosos que asseguram para o homem a posição de mando sobre a mulher e justificam isso de modo "divino". Os homens não são "culpados" pela distribuição injusta de poder nas relações de gênero. juntamente com as mulheres negras. Sexualidade e Relações de Gênero. Da mesma forma como o movimento negro conseguiu tornar as atitudes racistas crime. Homens homossexuais têm lutado para que sua orientação sexual não lhes impeça o exercício de direitos reservados até agora aos homens heterossexuais.concorrem com homens brancos por uma vaga no mercado de trabalho. Ou para ingresso no ensino superior público. única chave para assegurar a manutenção do regime democrático entre nós. Também não se pode dizer que sejam simplesmente "vítimas" dos chamados "papéis de gênero". Homens portadores de alguma modalidade de deficiência física. que temos uma história em que os momentos de ditaduras e do domínio de oligarquias superam amplamente os momentos de exercício da democracia. que valoriza a diversidade. e de vivência num contexto onde a equidade de gênero é a regra. Nota: Professor da Faculdade de Educação / UFRGS. Mas os homens podem ser educados para perceber estas situações e para lutar por um mundo onde a equidade de gênero seja a regra. nem para alunas. Aliás. E em Educação Física. com evidentes prejuízos em termos emocionais e de saúde. O estudo desses temas se conjuga com um dos principais objetivos em educação hoje em dia. professores e professoras têm que perceber que meninas podem ser boas em Matemática.

gênero e sexualidade e outros programas trataram desse tema de forma mais específica. 28 por exemplo. sendo que quase tudo o que aprendemos a definir como educação nos cursos de formação de professores/as e.A discussão proposta por esta série de Programas nos encaminha na direção de nos ocuparmos um pouco mais explicitamente da noção de educação. bons cidadãos e estes termos não significavam exatamente as mesmas coisas quando essa educação escolar era dirigida para homens ou mulheres ou era desenvolvida em tempos e espaços diversos. contidas em (ou derivadas de) artefatos culturais contemporâneos da mídia. é preciso que estejamos expostos. ainda hoje. das diferenciações e desigualdades sociais delas decorrentes resulta. Dentre esses processos educativos EDUCAÇÃO PARA A IGUALDADE DE GÊNERO. Tais processos educativos podem. e é esse seu envolvimento com a produção de identidades sociais que faz com ela continue sendo. de ‘socialização’ (MEYER e COLS. grosso modo. de processos de aprendizagem e de instituições nem sempre convergentes e harmoniosas do ponto de vista de suas prioridades e objetivos políticos. 2006b. esse conjunto inclui. de forma continuada. na maioria das vezes. uma vez que a instituição escola que conhecemos (e na qual muitos/as de nós trabalhamos) esteve. Esta função “formativa” da escola parece ter sido bem mais importante do que a mera transmissão de determinados conhecimentos em sentido estrito. ser desdobrados em formais e não formais. a um conjunto amplo de forças. em outras teorizações. refinadas e naturalizadas. ainda. voltar o olhar para o espaço escolar propriamente dito. visibilizados e problematizados. o que se privilegia discutir como objeto específico desse campo se inclui nessa categoria de processos educativos intencionais – que poderiam. Tomada em sentido amplo e. hoje. uma vez que esta é central nesse contexto. Encontram-se as chamadas pedagogias culturais. também. ser divididos em intencionais e não intencionais. envolvida com projetos de formação de determinados tipos de pessoas ou de identidades sociais: bons cristãos. uma infinidade de “lugares pedagógicos” além da família. exaustivamente repetidas e atualizadas na cultura. também. 2006a). de questões vinculadas a gênero. a não ser em alguns campos específicos que se ocupam. O propósito neste texto é. de pedagogias que envolvem estratégias sutis. raça e sexualidade. Nesses campos eles assumem uma grande importância. as quais se têm revelado como processos educativos potentes quando se trata de instituir relações entre corpo. da igreja e da escola e engloba uma ampla e variada gama de processos educativos. educação envolve o conjunto dos processos pelos quais aprendemos a nos tornar e a nos reconhecer como sujeitos de uma cultura. que quase não percebemos como sendo educativas (MEYER. bons trabalhadores. Para que nos tornemos sujeitos de uma cultura. na perspectiva que aqui nos interessa. ao longo do tempo e nas diferentes sociedades e culturas ocidentais modernas. então. Os processos educativos não intencionais têm sido muito pouco re-conhecidos. incluindo aqueles que são chamados. uma vez que a produção dessas identidades e. no prelo). .

os movimentos gays e lésbicos. classe social. quanto é uma instância em que se disputam significados que produzem. é que a escola contemporânea é. em nossas escolas e salas de aula: Flavio. religião. suas regras disciplinares. morador da Zona Sul de São Paulo. Nesse sentido.] foi o ano em que virei chacota. Para descrever a sutileza do funcionamento de alguns dos mecanismos envolvidos com a produção de diferenças e de desigualdades sociais e culturais de gênero e de sexualidade. raça/etnia. ou desejam se fazer representar no espaço escolar e nos currículos que nele se desenvolvem.]. entre professores/as e gestores/as. muitas vezes. os movimentos étnicoraciais. E exatamente porque vivemos. é que a escola (como muitas outras instituições sociais) investe muito de seu esforço na elaboração e na implementação de mecanismos e de estratégias que objetivam uniformizar os indivíduos que a compõem. e todos estes grupos se fazem representar. Economicamente diferentes e estão relacionados. os movimentos de libertação nacional. de forma nem sempre harmoniosa. ainda. um tempo de emergência e de visibilização de uma multiplicidade de identidades sociais. que ele assim resume: [. negro.. de rivalidades e associações entre grupos e pessoas. entre professores/as e estudantes. lembra com nitidez de fatos ocorridos quando tinha 12 anos e estava na 6ª série. com o impacto dos meios de comunicação nas culturas que a atravessam bem como decorrem do contexto social particular em que cada escola se situa. política. atualizam e modificam algumas dessas identidades. hoje cursando o 2º ano do Ensino Médio. as relações entre professores/as. a escola é tanto uma instituição na qual convivem. interesses).. Dentre os fatores internos implicados com a complexidade e a heterogeneidade do espaço escolar podemos citar suas formas específicas de organização do tempo e do espaço. EDUCAÇÃO PARA A IGUALDADE DE GÊNERO. relato três exemplos ‘banais’ que se repetem. palco de disputas e de conflitos importantes. Apesar dessas características. Os fatores externos decorrem exatamente do fato de que nela convivem pessoas que são social (idade. as interações pedagógicas. definidas e disputadas por diferentes movimentos como os feministas. destes com os/as funcionários/as e entre os/as próprios/as estudantes. era chato. sexo. hoje. Por isso a escola é um espaço social complexo e plural na qual interagem fatores internos e externos à instituição. eu não suportava ir para a escola [. também. por .um espaço institucional constantemente disputado pelas mais diferentes vertentes políticas e por distintos movimentos sociais. de 16 anos. E é nesse embate entre uma heterogeneidade que se quer visível e representada e uma homogeneização que se busca implementar – tomando como referência determinados padrões de normalidade instituídos a priori e que nos são apresentados como ‘igualdade’ – que a escola se torna um espaço social de disputas e enfrentamentos. no âmbito da escola e do currículo que nela é implementado. diferentes grupos e identidades sociais. os movimentos ecológicos (para ficar nos exemplos mais conhecidos e nomeados). o que precisa ser compreendido e valorizado.. ou talvez em função delas..

que [...] Era briga todo dia. A diretora me chamava pra conversar, então era desagradável, eu chegava na escola e virava o pivô, entendeu? [...] Eu pensei em mudar de escola, de tanto que era horrível, fiquei assim, querendo muito sair de lá e não voltar mais. EDUCAÇÃO PARA A IGUALDADE DE GÊNERO. [...] Os professores não falavam nada. Eu tava sentado, fazendo minha lição, nem sentava no fundo, eu nunca sentei no fundo porque eu não gosto, eu sentava na frente [...] E era aquela atacação de papel. Eu abria o papel e tava escrito“seu viado” e não sei o que lá. Era horrível, era muita humilhação. [Entrevistador: E os professores viam isso?] Viam e não faziam nada3. O segundo exemplo está relatado na mesma dissertação4. Conta Fabiano: 29 [...] foi na sétima série, no primeiro dia de aula. A professora chegou e falou para nos apresentarmos para todo mundo. Não sei se foi uma brincadeira que ela fez, mas eu guardo até hoje essa coisa dela. Eu estava me apresentando e ela disse: – ‘qual é mesmo o teu nome?’ Eu falei: – ‘Fabiano’. – ‘Como é mesmo, Fabiana?’ Nisso eu fui motivo de gozação o ano inteiro e até terminar a oitava série. Foram dois anos agüentando ser chamado de viado! Fabiana! O terceiro exemplo desloca nosso olhar da relação professora-aluno-aluno para a relação entre alunos/as e multiplica mais ainda as diferenciações e os seus impactos na vida dos/as estudantes. A pessoa que nos ofende e nos maltrata e faz todas as outras coisas se acha melhor que todos. Só porque usam roupas caras, são altos e magros, bonitos e até mais inteligentes, quando na verdade não são grande coisa. Existe muito preconceito com negros, gordos, baixinhos e burros e isso nos faz sentir as piores pessoas no mundo. As pessoas inventam coisas sobre você e você é obrigado a ouvir comentários desagradáveis. Isso nos deixa péssimos e preocupados com o que pensam de você, ou o que será a próxima pegadinha (menina de 8ª série, 14 anos) 5. O que nós, educadores e educadoras, podemos aprender com esses depoimentos, tendo em vista as temáticas que estamos discutindo nesta série de programas? Como já enfatizei, aqui, os processos de homogeneização implementados pela escola e que pretendem definir o que – ou quem – é igual, estão estreitamente vinculados a referências daquilo ou daquele que são definidos como diferentes e, quase que por extensão, desiguais; e essa discussão tem sido EDUCAÇÃO PARA A IGUALDADE DE GÊNERO. Feita, com novos enfoques e com redobrado vigor, no contexto das teorizações educacionais agrupadas sob o termo pós-críticas. Tomando como referência a educação escolar, estas teorizações trabalham com uma importante ressignificação do conceito de currículo, considerando-o como sendo o núcleo que corporifica o conjunto de todas as experiências cognitivas e afetivas vividas pelos estudantes no decorrer do processo de educação escolar, o que significa

entendê-lo como sendo um espaço conflituoso e ativo de produção cultural (SILVA, 1995). No currículo confrontam-se diferentes culturas e linguagens, produzidas na escola e, sobretudo, em outras instâncias do social. Nesse sentido, a escola proporciona um espaço narrativo privilegiado para alguns enquanto produz ou reforça a desigualdade e a subordinação de outros. Uma afirmação que sugere a necessidade de se investir em discussões que nos permitam, exatamente, exercitar outros olhares sobre as práticas pedagógicas e sobre as relações sociais que se desenvolvem ou que desenvolvemos no contexto escolar. E fornecer os instrumentos para favorecer este tipo de reflexão acerca da própria prática é, do meu ponto de vista, uma grande contribuição dessas teorizações. Nesse sentido e considerando-se os depoimentos que apresentei neste texto, de que forma escola e currículo, com os diferentes atravessamentos externos que os afetam, podem estar implicados com a produção de diferenças e desigualdades de gênero e sexualidade? Como cultura e poder se combinam, nas práticas pedagógicas escolares em sentido amplo, para construir fronteiras entre grupos e populações, para instituir posições sociais de menino e de menina, de mulher e de homem, de heterossexual e homossexual, por exemplo, e para possibilitar o exercício de práticas sexistas, racistas e homofônicas no espaço escolar? Essa é uma questão que foi (e continua sendo) exaustivamente discutida na interface que se estabelece entre estudos que procuram articular educação, gênero e sexualidade. O conceito de gênero passa a ser utilizado no campo dos Estudos Feministas, por estudiosas anglo-saxãs, a partir da década de setenta. De forma sintética gênero pode ser definido como construção e organização social das diferenças entre os sexos, que se realiza em múltiplas instâncias, em diferentes práticas e instituições sociais e através de muitas linguagens. O que isso significa? EDUCAÇÃO PARA A IGUALDADE DE GÊNERO. Até então, o movimento feminista vinha se debatendo com a dificuldade de desvincular a discussão que se fazia para entender a subordinação das mulheres aos homens e também a sua flagrante desvantagem social e econômica, de um fato biológico que era (é) a diferença anatômica e fisiológica entre os sexos. Enquanto se buscava entender esse processo tomando como base a via biológica, ficava muito difícil sustentar projetos políticos de transformação dessas relações de desigualdade, porque, afinal de contas, a biologia é imutável, é o que se pensava há 30 ou 40 anos. Hoje, já sabemos que até a biologia é histórica, ou seja, ela também está sujeita a (enormes!) transformações, mas isso já é ir bem mais adiante nessa história. O conceito de gênero indica o seguinte: nós aprendemos a ser homens e mulheres desde o momento em que nascemos até o dia em que morremos e essa aprendizagem se processa em diversas instituições sociais, a começar pela família, passando pela escola, pela mídia, pelo grupo de amigos, pelo trabalho, etc. Mas significa mais ainda: como nós nascemos e vivemos em tempos e lugares específicos, gênero reforça a necessidade de se pensar que há muitas formas de sermos mulheres e homens, ao longo do tempo, ou no mesmo tempo histórico, nos diferentes grupos e segmentos sociais. O conceito de gênero também não se refere mais ao estudo da mulher, ele é um conceito que procura enfatizar a construção relacional e a organização social das diferenças entre os sexos, desestabilizando desta forma o determinismo biológico e

30 econômico vigente, até então, em algumas das teorizações anteriores. Esse conceito nos leva, pois, a procurar entender as construções de feminino, de forma articulada com o masculino, uma vez que ambos estão implicados nas mesmas relações. E tem mais: o que é apresentado como feminino, nas sociedades ocidentais, toma o masculino como referência. A mulher é apresentada como o oposto do homem, só que esta não é uma simples oposição: ela é, como todas as oposições binárias que estruturam o pensamento moderno, uma oposição hierarquizada, em que um dos termos da equação é socialmente menos valorizado que o outro. As oposições binárias são, também, relações de poder (LOURO, 2001; MEYER, 2005). EDUCAÇÃO PARA A IGUALDADE DE GÊNERO. Gênero, então, enfatiza a construção relacional do sexo e a organização social desta construção, entendendo que ela é uma construção que é histórica e que precisa ser entendida a partir de sua articulação com outras categorias sociais como classe social, raça/etnia, geração, sexualidade, para citar algumas das mais importantes. A noção de poder que está presente nessa relação introduz aí a dimensão de conflito, uma vez que as mulheres e os homens não são apenas mulheres ou apenas homens, mas são muitas outras coisas ao mesmo tempo. Isso significa dizer que não existe uma essência de mulher ou de homem nem a possibilidade de uma solidariedade dada a priori, a partir de uma única posição, neste caso, a partir da posição de gênero. Uma outra questão a ser reforçada, aqui, é que o conceito de gênero introduz uma virada importante nos estudos feministas. Ainda que esse campo continue priorizando análises sobre as mulheres, não se está falando mais de mulher no singular, mas entendendo que muitas outras formas de diferença e desigualdade se imbricam com o gênero e que elas precisam ser problematizadas de forma articulada. Uma dessas diferenças que se conecta de forma importante ao gênero é, exatamente, a de sexualidade. Sexualidade é um conceito que, muito freqüentemente, se confunde com gênero e, embora precisemos reconhecer que eles estão estreitamente ligados, cada um deles guarda suas especificidades e inscreve os sujeitos em sistemas de diferenciação diversos. Enquanto que gênero aponta para as formas pelas quais sociedades e culturas produzem homens e mulheres e organizam/dividem o mundo em torno de noções de masculinidade e feminilidade, a sexualidade tem a ver com as formas pelas quais os diferentes sujeitos, homens e mulheres, vivem seus desejos e prazeres corporais, em sentido amplo. Com isso, o que se quer dizer, nesta perspectiva teórica, é que os nossos desejos corporais e os focos de nossos desejos são produzidos e legitimados pela cultura e não são decorrências naturais da “posse” de um determinado aparelho genital ou do funcionamento de determinados hormônios. Homens e mulheres vivem de muitas formas e com diferentes tipos de parceiros os seus desejos e prazeres corporais: com parceiros de sexos diferentes, com parceiros do mesmo sexo, com parceiros de ambos os sexos e, crescentemente, com parceiros virtuais “descorporificados”. E

sexo é um termo usado, aqui, então, para fazer referência àquelas diferenças anatômicas. EDUCAÇÃO PARA A IGUALDADE DE GÊNERO. Fenotípicas, inscritas no e sobre o corpo, que cada cultura institui para marcar e diferenciar fisicamente mulheres de homens (LOURO, 1999; WEEKS, 1999). Tendo estes conceitos presentes, volto à questão antes colocada: o que nós, educadores e educadoras, podemos aprender com isto? Penso que, num primeiro momento, eles nos instigam a analisar os processos, as estratégias e as práticas sociais que nos constroem como sujeitos de gênero e sexuais. A pergunta norteadora, aqui, é: como vimos a nos tornar o que somos? E como funcionam os mecanismos de diferenciação e de hierarquização que, nesse processo de tornarse, desigualam sujeitos em função de seu gênero e de suas práticas sexuais? Essas são duas perguntas importantes para quem pretende investir em intervenções que permitam modificar, minimamente, as relações de gênero e sexuais que se desenvolvem na sociedade em que vivemos. Outra questão que precisamos colocar-nos, como educadores e educadoras comprometidos/as com mudanças nessas relações, é: como as diferentes linguagens que constituem os currículos escolares que planejamos e implementamos constroem, ajudam a manter ou re-definem posições sociais de gênero e de sexualidade? Uma das primeiras implicações dessa pergunta é considerar que, provavelmente, não existem disciplinas formais em que se objetiva ensinar como transformar crianças em meninos e meninas e estes e estas em homens e mulheres, a exemplo do que se faz em matemática quando aprendemos a adicionar, multiplicar ou dividir; ou, ainda, de como se pretende fazer, com relação ao sexo, no contexto de determinadas propostas de educação sexual escolar. Precisamos, então, reconhecer como aprendemos essas coisas que fazemos e em que espaços e em que lugares aprendemos a fazê-las de uma determinada maneira e não de outras. Vamos perceber que essas aprendizagens estão incorporadas em práticas quotidianas formais e informais que nem questionamos mais. Que elas atravessam os conteúdos das disciplinas que compõem o currículo oficial ou estão imbricadas na literatura que selecionamos, nas revistas que colocamos à disposição das estudantes para pesquisa e colagem, nos filmes que passamos, no material escolar que indicamos para consumo, no vestuário que permitimos e naquele que é proibido, nas normas disciplinares que organizam o espaço e o tempo escolares, nas piadas

31 EDUCAÇÃO PARA A IGUALDADE DE GÊNERO.Que fazemos ou que ouvimos sem nos manifestar, nas dinâmicas em sala de aula e em outros espaços escolares que não vemos ou decidimos ignorar, nos castigos e nas premiações, nos processos de avaliação... E pensar dessa forma, a partir desses conceitos e do que eles nos sugerem considerar, colocamos a necessidade de questionar não só

nós mesmas. de nascença. fez com que gênero voltasse a ocupar um lugar de destaque em várias discussões nos media. o Presidente da prestigiosa Harvard University fez alguns comentários sobre as mulheres terem.Conceito de Gênero Gênero não se refere exatamente aos homens e mulheres mas a relações entre os dois sexos. sociais.O conceito de gênero Gênero não se refere exatamente aos homens e mulheres mas a relações entre os dois sexos. Entendemos melhor quem tem autoridade para dizer o que. E. 2 . frequentemente designando mulheres a uma posição subalterna. sociais. e não propriamente. Desigualdade de Gênero 1 . ao mesmo tempo.Desigualdade de Gênero Introdução: Gênero & Diferenças Nos últimos 100 anos assuntos relativos a gênero. como essas que foram relatadas nos depoimentos que aqui apresentei. o meio social age fortemente nos dois sexos. E isso nos ajuda a reconhecer como estamos. Desigualdade de Gênero . constroem e ajudam a manter. políticos e morais que atribuem valores a essas ralações. o racismo e a discriminação que estes saberes veiculam. De repente. Esse conceito chama a atenção para os processos culturais. O gênero refere-se a essa ação e às relações que ela gera entre homens e mulheres. isso aponta para a dimensão política que reside na problematização de práticas aparentemente banais. profissionais da educação. O gênero refere-se a essa ação e às relações que ela gera entre homens e mulheres. a desenvolver a sensibilidade para perceber o sexismo. também. frequentemente designando mulheres a uma posição subalterna. e o caráter público desse comentário. inscritas nesses processos de nomeação em que a diferença é hierarquizada e transformada em desigualdade.os conhecimentos e saberes com que lidamos mas. Esse conceito chama a atenção para os processos culturais. periodicamente dominam os títulos dos jornais. políticos e morais que atribuem valores a essas ralações. por exemplo. Se fatores biológicos produzem ou não diferenças no cérebro ou no corpo de mulheres e homens. à identidade associada ao sexo masculino ou feminino. A autoridade que acompanha este posto. menos capacidades como cientistas. o meio social age fortemente nos dois sexos. e não propriamente. à identidade associada ao sexo masculino ou feminino. estávamos mais uma vez as voltas com questões básicas que marcaram as lutas . Se fatores biológicos produzem ou não diferenças no cérebro ou no corpo de mulheres e homens. Recentemente. de quem e em que condições.

entre outras. o enfoque de gênero requer o exame de fatores estruturais na sociedade – isto é.Desigualdade de Gênero * Existem diferenças? * Se existem. como era de se esperar.Desigualdade de Gênero Seja qual for a situação. Isso pode significar um tratamento diferente. Pode-se concluir que tanto os homens como as mulheres podem ser portadores dos relevantes genes. a igualdade de tratamento tem que estar de acordo com as respectivas necessidades de homens e mulheres.Desigualdade de Gênero Durante todos esses anos. as regras e práticas dentro de casa e com a família. algumas pessoas continuam a formular perguntas: 4 . 32 1 . mas no que se refere aos direitos. uma coisa é absolutamente certa: mesmo que existissem provas concretas e definitivas de que os sexos são claramente diferentes. será que refletem atitudes ou interesses? * Ou será que as diferenças refletem os diferentes processos de socialização e expectativas? * É possível determinar reações. muito se investigou. Em resumo. questionou ou qualificou. políticos e morais associados a essas diferenças. identidade sexual. na comunidade.Desigualdade de Gênero Várias diferenças de classe social.que mantêm uma posição desigual entre grupos diferentes de homens e mulheres. etnia. no estado e na sociedade em geral . Portanto. 3 . 1 . benefícios. Mas não existe nenhuma evidência final que prove a existência da capacidade científica ou de qualquer outra capacidade inteiramente genética. geografia.feministas do começo do século XX. no trabalho. para reconhecimento da igualdade entre mulheres e homens. geração e habilidade. em interação com gênero constituem e são também reproduzidas em relações sociais determinando injustiças e exclusões. marcados por muitos ganhos a favor da igualdade entre os gêneros. continuaria a ser necessário evidenciar que isso é distinto dos valores sociais. obrigações e oportunidades a igualdade prevalece. mais adequado. raça. 2 -Desigualdade de Gênero . comportamentos ou funcionamento baseado no sexo da pessoa? Enquanto essa discussão continua.

alterada pela Declaração 7/2006. e não podemos deixar de fora outras faces da realidade igualmente assentes em discriminações de gênero como sejam. * Acesso das mulheres à tomada de decisão É na área da tomada de decisão que o crescimento da presença das mulheres se tem produzido a um ritmo mais lento. * o tráfico de mulheres.Fim da discriminação de gênero é a chave para o desenvolvimento O Fundo de População das Nações Unidas (UNPFA) defende a igualdade entre os sexos e acrescenta que: "Investir nas mulheres e nos jovens. entre outras: * a mutilação genital feminina. * a violação.000 mulheres morrem por problemas relacionados com a gravidez e pela falta de acesso aos anticoncepcionais. permitirá acelerar o desenvolvimento a longo prazo. são fracos os progressos registrados ao longo de 30 anos de democracia. responsáveis por cerca de 76 milhões de gestações não desejadas nos países em vias de desenvolvimento e por cerca de 19 milhões de abortos praticados em condições perigosas. Nesta matéria. Por outro lado. * Em 2006 a Lei da Paridade (Lei Orgânica n. devendo a lei promover a igualdade no exercício dos direitos cívicos e políticos e a não discriminação em função do sexo no acesso a cargos políticos”. os direitos das mulheres têm ainda velhos e novos desafios por conquistar. estabelece que “A participação direta e ativa dos homens e das mulheres na vida política constitui condição e instrumento fundamental de consolidação do sistema democrático. A Constituição Portuguesa consigna o direito de todos os cidadãos a “tomar parte na vida política e na direção dos assuntos públicos do país”.A discriminação não afeta só a população portuguesa. Anualmente. que representam a maior parte da população mundial. Se tal medida não for tomada. Desigualdade de Gênero B .º 3/2006. de 21 de Agosto. a prostituição forçada * o casamento forçado O que nos leva a afirmar que em matéria de direitos humanos. de 4 de Outubro 2006) vem estabelecer que as listas . cerca de 530. o risco de fortalecer a influência da pobreza nas gerações futuras aumentará" * Fim da discriminação de gênero é a chave para o desenvolvimento.A . A discriminação é um dos principais responsáveis pelo aumento dos índices de mortalidade das mulheres entre os 15 e os 44 anos.

QUESTÃO 59 (Abril 2006) . B) Implica necessariamente uma relação social. “Se a nível de licenciaturas há mais mulheres a entrarem nas faculdades e se são também elas a terem mais sucesso. sem nenhuma correspondência com a realidade histórica. INE *TOMADA DE DECISÃ ECONÓMICA Fonte: BDAP (data de referência de 31 de Dezembro de 2005) *DIRIGENTES E CHEFIAS NA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA (2005) FORÇAS ARMADAS 1.Sobre a definição de ação social para Weber. assinale a alternativa correta. C) É um conceito de análise típico-ideal. de forma a estabelecer uma relação social. Outras Instâncias CARREIRA DIPLOMÁTICA Fonte: Ministério dos Negócios Estrangeiros 2. exceto na Alemanha. Vamos concluir este trabalho com uma questão. reciprocamente referida. ao reconhecer que a democracia só estará completa se for representada por homens e mulheres. que traduz o quanto ainda há para fazer em relação à descriminação. portanto. D) É aquela que se orienta pela ação dos outros. Conclusão Segundo os dados do Eurostat. apresentando Portugal um número muito próximo da média europeia (55.para a Assembleia da República. as mulheres consolidaram nos últimos anos a sua maioria entre os estudantes universitários em todos os países da UE. porque será que não ocupam mais lugares de topo?” 33 Exercícios 1 . prescindindo de significação. Esta Lei significa uma enorme vitória para a Democracia Portuguesa e para os Direitos das Mulheres. Acesso das mulheres à tomada de decisão *TOMADA DE DECISÃO POLÍTICA Fontes: Womenandmenindecision-making (Base de Dados Europeia)Dossier de Gênero. sendo.2%). para o Parlamento Europeu e para as autarquias locais são compostas de modo a assegurar a representação mínima de 33% de cada um dos sexos. A) Está fundada na coletividade.

propõe uma classificação típicoideal da ação social. convenções e rituais. cujos privilégios estão desigualmente definidos por leis.Acerca das formulações de Weber sobre poder e dominação. Marque a alternativa correta. A) A dominação exercida pelos dominantes somente é legítima quando assume um caráter do tipo burocrático-legal. é correto afirmar que: A) as classes sociais se organizam segundo seus princípios de consumo de bens nas diversas formas especificas de vida. D) as castas se organizam segundo as relações de produção e aquisição de bens. D) Os tipos puros de dominação . . B) as diferenças que correspondem às classes ou aos estacamentos geram. B) O poder está fundamentado na desigualdade de oportunidades que afeta cada indivíduo em dado contexto social. em sua obra Economia e Sociedade. de acordo com o sentido ou orientação dos atores.tradicional.constituem uma tipologia construída por Weber a partir da realidade histórica. III – o católico caminha noventa quilômetros para demonstrar sua fé. na esfera do poder social e dentro das respectivas ordens sociais. os partidos. IV – o(a) estudante escolhe o colégio X só porque ali estudaram seus pais e avós. Considere os exemplos de ação social citados abaixo: I – o consumidor adquire um relógio motivado pela emoção que este lhe causa. C) Faz parte de uma relação de dominação estatal o uso da força física para assegurar a obediência. QUESTÃO 53 (Dezembro 2004) Sobre a teoria weberiana acerca das várias formas de estratificação social. QUESTÃO 53 (Fevereiro 2003) Max Weber. II – o empresário estabelece uma gratificação para os empregados mais produtivos. assinale a alternativa INCORRETA. legal e carismático . C) os estamentos são grupos de status fechados.

motivações. a ação afetiva e a ação racional com relação a valores. marque a alternativa correta. é correto afirmar que: A) a dominação prescinde do poder. QUESTÃO 56 (Fevereiro 2003) Sobre os conceitos de poder e dominação. uma vez que os indivíduos que se submetem a uma ordem de dominação não levam em conta os recursos que possuem aqueles que exercem a dominação.A) Os exemplos III e IV ilustram. não se dá com o poder. o que. a ação racional com relação a fins e a ação tradicional. respectivamente. a ação afetiva e a ação racional com relação a fins. a ação tradicional funda-se no costume ou em um hábito já arraigado. B) Weber define as ações sociais burocrática. tradicional e carismática pensadas por Weber constituem uma construção intelectual pautada na história e visam explicar uma dada realidade histórica. D) Os exemplos II e III ilustram. respectivamente. necessariamente. tal como elaborados por Max Weber. respectivamente. A) Os conceitos de ação burocrática. QUESTÃO 54 (Fevereiro 2007) Sobre os tipos de ação social em Max Weber. D) A ação racional implica uma adequação entre meios e fins. já que a força sem uma base de legitimação não pode ser exercida. pois a dominação supõe a presença do consentimento na relação entre “X” e “Y”. C) toda relação de poder implica uma relação de dominação. B) são equivalentes. D) não são equivalentes. 34 C) Os tipos de ação burocrática. respectivamente. compartilhando. que acontecem sucessivamente em determinadas realidades histórico-culturais. portanto. a ação racional com relação a fins e a ação racional com relação a valores. uma vez que a ação . pois tanto um quanto outro são relações sociais às quais os indivíduos atribuem sentido. C) Os exemplos II e IV ilustram. tradicional e carismática a partir de uma construção típico-ideal que é estabelecida apenas no plano conceitual. B) Os exemplos I e III ilustram. tradicional e carismática pensados por Weber são construções históricas.

o saber e a força. . em alguma medida. C) o objetivo da sociologia é estabelecer leis gerais explicativas da realidade social.um modelo perfeito a ser buscado pelas formações sociais históricas e qualquer realidade observável.uma construção do pensamento que permite conceituar fenômenos e formações sociais.uma construção do pensamento que permite identificar na realidade observada as manifestações dos fenômenos e compará-las. em uma crença através dos tempos. Esse instrumento pode ser definido como: I. ideológico e político são. B) o poder é a probabilidade de alguém determinar o comportamento do outro. QUESTÃO 57 (Fevereiro 2007) A respeito das definições de Max Weber para poder e dominação. D) a sociologia compreensiva busca apreender o sentido da ação social e de seus nexos causais. o consentimento da parte do dominado para a ordem dada pelo dominante. III. QUESTÃO 42 (Janeiro 2000) De acordo com o pensamento weberiana. a riqueza. II. que prescinde da dimensão de dominação. C) a dominação implica.carismática ou afetiva se estabelece. D) os fundamentos dos poderes econômico. é correto afirmar que: A) os juízos de valor do pesquisador não interferem em nenhuma fase do processo de investigação científica. respectivamente. QUESTÃO 49 (Janeiro 2001) Para explicar os fenômenos sociais. é INCORRETO afirmar que: A) o Estado é uma relação estritamente de poder. B) a sociologia de Weber é um esforço de explicação da sociedade enquanto totalidade social. fundamentalmente. Weber propôs um instrumento de análise que chamou de tipo ideal.

QUESTÃO 54 (Janeiro 2004) Em sua teoria sociológica. até mesmo com certa irracionalidade. D) A articulação de dois ou mais tipos de ação social não oferecem sentidos compreensíveis aos cientistas sociais. QUESTÃO 57 (Janeiro 2004) Assinale a alternativa correta. ciúme. raiva. guarda bastante racionalidade combinada com a tradição. paixão. na medida em que os cientistas operam pela lógica da crença na emancipação do homem das mazelas sociais. A) O procedimento econômico corresponde ao modelo típico de ação racional com relação a fins. Max Weber propõe quatro tipos puros ideais de ação social. . exemplos de sociedades observadas em diferentes graus de complexidade. como se pode ver na Física e na Química. II e V estão corretas. que buscam captar realidades totalmente autônomas. V. Assinale a alternativa correta. estes em relação às conseqüências implicadas e os diferentes fins possíveis. III e IV estão corretas. pois considera um conjunto de necessidades sob uma quantidade escassa de meios para chegar ao objetivo pretendido. quanto à teoria weberiana sobre poder e dominação. III e V estão corretas. D) II. amor. por isso. que apresentam sentidos.IV. como se observa na competição individualista das sociedades capitalistas e. Isso ocorre porque os tipos ideais são conceitos limites. cuja conexão cabe aos cientistas sociais captar para compreender a realidade social. como Max Weber demonstrou no estudo da conexão entre a ética protestante e o espírito do capitalismo nos EUA. II e III estão corretas. avalia os meios relativamente aos fins. B) I. B) O procedimento científico pode ser considerado um modelo típico ideal de ação tradicional com relação a valores. A) I.um modelo que tem a ver com as espécies sociais de Durkheim. C) II. C) A ação afetiva típica ideal é a causada pelos sentimentos de ódio.uma construção teórica abstrata a partir de casos particulares analisados. Assinale a alternativa correta sobre a articulação dos tipos de ação social propostas por Weber.

B) O poder econômico e o poder ideológico definem-se. D) O poder sempre exige o consentimento por parte daquele que se comporta de acordo com a determinação do outro. A) Ação social racional com referência a fins. B) Ação social afetiva. D) Ação social racional com relação a valores. Menin resolveu projetar um negócio para atender aquela clientela. Depois. . QUESTÃO 44 (Julho 1999) A respeito do conceito weberiano de ação social. em que a crença na validade da norma 35 impessoal se estabelece. QUESTÃO 43 (Julho 2000) "300 milhões ... 15. (VEJA N. Primeiro. p. Menin elaborou uma cartilha que a empresa segue à risca até hoje.. passou a vender apartamentos semipadronizados com preços até 25% mais baixos. Após definir seu nicho de mercado.A) A dominação racional-legal é típica da sociedade capitalista. construiu pequenas casas em bairros populares de Belo Horizonte. . 12/04/2000. 148) Max Weber define uma tipologia da ação social que é apresentada nas afirmativas abaixo. O mérito de Menin foi ter vislumbrado uma oportunidade e apostado suas fichas nela. B) a decisão empresarial de inovação tecnológica para enfrentar a concorrência no mercado é uma ação racional com relação a fins. Como o senhor da foto virou milionário. é correto afirmar que: A) o exercício religioso da fé é uma ação afetiva.. Percebendo que ali podia estar sua galinha-dos-ovos-de-ouro. D) uma ação que se caracteriza pela livre escolha é tradicional. C) a ação que se orienta por valores não é uma ação social racional. C) A dominação fundada no carisma do líder nunca pode integrar o padrão de dominação capitalista. Assinale a alternativa que corresponde ao tipo de ação social descrita no texto.". respectivamente. pelas posses do saber e da riqueza. C) Ação social tradicional...

Anna Maria. E ainda menos tem toda dominação fins econômicos. sem a qual não há poder nas sociedades capitalistas. QUESTÃO 51 (Julho 2003) Na sociologia de Max Weber. portanto. Max. Introdução ao Pensamento Sociológico.. físicas e materiais. Considere as alternativas teóricas abaixo e assinale a alternativa INCORRETA. 1976. Edmundo Fernandes.QUESTÃO 47 (Julho 2001) “Deve-se entender por ‘dominação’. A) I e II estão corretas.” WEBER. B) I e III estão corretas.) Nem toda dominação se serve do meio econômico. a partir da conexão natural de sentidos entre a ética protestante e as imposições do capitalismo de Estado. III) O poder emerge de mandatos extra-econômicos. II) O poder decorre da posse básica e exclusiva de meios econômicos. Dias. como se vê nos EUA. a Sociologia é a ciência que pretende interpretar os sentidos prováveis da ação social. C) I e IV estão corretas. (. que se expressam na forma de usos. costumes e situações de interesse produzidos por diversos sujeitos. C) Max Weber define ação social como uma conduta dotada de um significado subjetivo dado por um sujeito . em toda espécie de probabilidade de exercer ‘poder’ ou ‘influência’ sobre outros homens. B) Para Max Weber. Com base no texto acima. a interioridade.) a probabilidade de encontrar obediência dentro de um grupo determinado para mandatos específicos (ou para toda sorte de mandatos). seus efeitos e suas regularidades. analise as afirmativas: I) O poder decorrente de qualquer tipo ideal de dominação tem sempre um conteúdo que lhe atribui legitimidade. apenas por agentes do Estado nas sociedades capitalistas. In: Castro. IV) Para ser exercido. que são obtidos com ou sem legitimidade. embora dispense coerções morais para operar com legitimidade. a particularidade e a generalização dos fatos sociais. o conceito de ação social tem sido fundamental em inúmeros estudos importantes sobre as sociedades modernas. seja esta jurídica. A) O conceito de ação social em Max Weber pretende comprovar a coerção.. Assinalar a alternativa correta. D) Apenas I está correta. o poder depende de coerções objetivas.. Rio de Janeiro: Eldorado Tijuca. Não consiste. costumeira ou afetiva. (. suas causas..

e. ou seja. D) Para Max Weber. independentemente de fins conscientes. Músicas e roupas alegres. no Triângulo Mineiro. independentemente de fins conscientes. implicando reações desenfreadas a estímulos não-cotidianos. Analisando os acontecimentos descritos. deram ao velório um clima de festa. implicando. O motivo era simples: para o espiritismo kardecista não existe luto. QUESTÃO 60 (Julho 2003) Assinale a alternativa que corresponde à formulação de Max Weber acerca dos chamados tipos puros de dominação legítima. movidas. de 10 de julho de 2002. não se propondo a julgar a validez da ação dos sujeitos. aparentemente incompatível com um acontecimento fúnebre. sendo a morte vista apenas como mais uma etapa cumprida num longo processo de aperfeiçoamento do espírito. independentemente dos seus resultados. por seus valores éticos. predominando uma orientação consciente dos agentes. D) vincula-se a ações racionais. por suas crenças na reencarnação e na comunicação com os espíritos. por suas esperanças em curas extraordinárias.36 que o executa. Texto adaptado da Revista IstoÉ.morria em Uberaba. o desenvolvimento e os efeitos da conduta de um ou mais indivíduos em relação a outros. A) A dominação legal-racional fundamenta-se na crença dos indivíduos acerca da validade de um dado instrumento normativo. Seu velório atraiu nada menos que 100 mil pessoas. por seus laços afetivos com o grande líder religioso. de acordo com a teoria de Max Weber e. seu caráter social. pode-se afirmar que esse sentido: A) está mais próximo das ações irracionais. a morte de Chico Xavier não deveria ser lamentada. orientando seu próprio comportamento. B) está mais próximo das ações racionais. coloridas. . tendo em vista a ação de outros sujeitos conhecidos ou desconhecidos. Por isso. naturalmente. como a caridade. sempre e unicamente. considerando tais acontecimentos dotados de sentido. a explicação sociológica busca compreender os sentidos. o famoso médium Chico Xavier. a maioria delas. apesar de sentida. QUESTÃO 56 (Julho 2003) No dia 30 de junho de 2002 – mesmo dia em que a seleção brasileira de futebol conquistou o tetra . uma orientação consciente dos agentes quanto aos meios e fins. predominando reações surdas a estímulos habituais. C) vincula-se a ações totalmente irracionais.

é INCORRETO afirmar que: . ou seja. D) A dominação carismática realiza. o monopólio considerado legítimo do recurso à força. C) É a expressão político-institucional dos antagonismos entre as classes sociais. o espírito do capitalismo. B) Corresponde a uma autoridade moral. A) Define-se pelo meio que lhe é próprio. cuja função é a de preservar a sociedade de crises em que a coesão esteja ameaçada. B) a vida social é resultado de um conjunto de ações individuais orientadas a um determinado fim e reciprocamente referidas. QUESTÃO 57 (Julho 2005) Quanto à definição weberiana de Estado. D) É o produto de processos sociais coercitivos e externos aos indivíduos. D) a vida social é resultado de um conjunto de ações coletivas. reciprocamente referidas de forma a estabelecer relações sociais. estabelecendo-se. que a estes se impõe também pela educação. uma vez que assegura aos investimentos privados um ambiente mais propício ao lucro desejado.B) A dominação carismática articula-se à motivação que os indivíduos têm com vistas à obtenção de determinados fins para suas ações sociais. orientando-se pela própria ação e estabelecendo relações sociais significativas. assim. as relações sociais. QUESTÃO 53 (Julho 2005) Segundo Weber é correto afirmar que: A) a ação social é qualquer ação que o grupo social pratica. 37 QUESTÃO 54 (Julho 2006) Quanto às análises weberianas sobre o desencantamento do mundo e o processo de secularização. C) toda ação social está condicionada por idéias de valores que são fenômenos histórico-material. C) A dominação tradicional é a mais apropriada à sociedade capitalista e está presente nas empresas e nos órgãos governamentais. assinale a alternativa correta. em patamar superior.

B) há uma relação impositiva entre a ética protestante e o espírito do capitalismo no sentido do desenvolvimento da moderna economia burguesa. o processo de racionalização do mundo e as religiões de salvação. Max. assinale a alternativa correta.A) a secularização diz respeito tanto à expropriação dos bens eclesiásticos quanto ao desencantamento do mundo. A respeito das relações de causalidade que o sociólogo Max Weber propõe entre as origens do capitalismo moderno. QUESTÃO 57 (Julho 2006) Sobre a ética do trabalho. fundada no trabalho. por exemplo) quanto à ciência e à tecnologia. levando ao desenvolvimento deste último no Ocidente. 11. as forças mágicas e religiosas. C) a decadência do poder hierocrático seria um sentido forte da secularização. conforme a sociologia de Max Weber. A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. e o espírito do capitalismo.] Ora. . C) há uma relação causal entre a ética racional protestante. “[. e o espírito do capitalismo. A) Coube às éticas religiosas do confucionismo (China) e hinduísmo (Índia) redefinirem o padrão das relações econômicas que. São Paulo: Livraria Pioneira Editora.. embora dependa parcialmente da técnica e do direito racional.” WEBER. QUESTÃO 54 (Julho 2007) Considere a citação. que possibilitou o desenvolvimento deste último no Ocidente. [“..] o racionalismo econômico. 6 ed.1989. com base na ética religiosa católica. possibilitou o desenvolvimento da mentalidade econômica burguesa no Ocidente. D) há uma relação causal entre o desenvolvimento da ética religiosa protestante. a partir do século XVI. culminaria no capitalismo de tipo moderno. B) a perspectiva de Max Weber é evolucionista e prevê o fim da religião em uma sociedade moderna.. D) o desencantamento do mundo refere-se tanto à desmagificação via religião ética (os profetas. é ao mesmo tempo determinado pela capacidade e disposição dos homens em adotar certos tipos de conduta racional. fundada na contemplação.. é correto afirmar que A) o estilo de vida normativo. p. sempre estiveram no passado entre os mais importantes elementos formativos da conduta. e os ideais éticos de dever deles decorrentes..

” MARTINS. para Weber. B) Há. mesmo contra resistências. A respeito das contribuições de Weber acerca dos conceitos de poder e dominação. a política. ao estimular a racionalização da conduta cotidiana de seus fiéis. a partir do século XVI. D) A dominação legal-racional dá-se por meio da obediência do quadro administrativo à pessoa do senhor. cujas prescrições de conduta se revelaram condição imprescindível para o desenvolvimento e consolidação das relações capitalistas modernas. a carismática (típica das sociedades tradicionais) e a legal-racional (típica das sociedades modernas). D) O processo de encantamento do mundo (irracionalização do conhecimento e das relações cotidianas) encontra-se na base da ética protestante. considerada legítima. assinale a alternativa correta. não mais que dois tipos puros de dominação. C) A transição de uma ordem política patrimonial-tradicional para uma ordem burocrático-legal é acompanhada por uma consolidação do tipo de dominação carismática. a história. como o direito.B) As seitas protestantes que floresceram nas sociedades orientais. Martins afirma que: “A obra de Weber representou uma inegável contribuição à pesquisa sociológica. em 38 detrimento de estatutos impessoalmente estabelecidos. 28 ed. O Que é Sociologia? São Paulo: Editora Brasiliense. Carlos B. QUESTÃO 57 (Julho 2007) Sobre o legado do pensamento científico de Max Weber. A) Ao passo que poder é toda probabilidade de impor a própria vontade numa relação social.. China e Índia no cenário econômico internacional que se seguiu à Revolução Industrial. abrangendo os mais variados temas. a arte. a economia. 66. a religião. p. o calvinismo foi responsável pela introdução de um padrão ético que. 1991. C) A partir de sua doutrina da predestinação. Seus trabalhos sobre a burocracia tornaram-no um dos grandes analistas deste fenômeno. de modo destacado. a música. quais sejam. . dominação é a probabilidade de encontrar obediência a uma ordem de determinado conteúdo. são responsáveis pela prematura posição de destaque do Japão. contribuiu de maneira inédita para o desenvolvimento das relações capitalistas modernas. Carlos B.

assinale a alternativa correta. fazendo com que o público acabe torcendo por eles. Marit Pia Jacobsen.A Experiência Genética” (Gattaca). passou os últimos dois anos em um hospital psiquiátrico. de acordo com as motivações e escolhas que possui e faz. a uma racionalidade. principalmente o ator que interpreta Elling. um ser social. Confesso que. que arranca boas gargalhadas do público. onde foi internado após a morte da mãe. razão pela qual os indivíduos refletem as normas sociais vigentes. ou a uma devoção afetiva ou. Sven Nordin. a expressão das classes sociais em luta. na verdade.” “ Gattaca . Um programa de socialização faz com que ele surpreendente. pela sinopse. esperava que "Elling" fosse um daqueles dramalhões que a Academia tanto adora. condição expressa pelo fato dos homens e mulheres fazerem a história. daqueles que levantam seu astral após a sessão. Sugestões de Filmes Parte superior do formulário Parte inferior do formulário Elling 2010-05-22 Francisco título original: (Elling) lançamento: 2001 (Noruega) direção:Petter Nass atores:Per Christian Ellefsen. um homem de 40 anos com problemas mentais. C) O gênero humano é. B) A sociedade se opõe aos indivíduos. Jorgen Langhelle. “Uns filmes gostosos de assistir. podendo estar relacionadas ou a uma tradição. D) O Estado capitalista nada tem a ver com as escolhas que os indivíduos fazem a partir das motivações que possuem. Ledo engano. mas sempre a partir de uma situação dada. A) O indivíduo age socialmente. A dupla protagonista brilha em cena. irremediavelmente. sendo. duração: 90 min gênero: Drama status: Inéditos Sinopse Elling (Per Christian Ellefsen). como força exterior a eles. ainda. de Andrew Niccol (1997) .QUESTÃO 42 (Março 2002) Segundo as concepções de indivíduo e de sociedade na sociologia de Max Weber. O filme possui um ritmo ágil e divertido.

o gênero Science Fiction (SF) tende a se confundir com outros gêneros fílmicos. Na verdade. “Metropólis”. Nesse caso. a Comédia ou Horror.Inteligência Artificial”. Robô”. Temas-chave: técnica e tecnologia. a trama filmica se constitui em função de uma determinada racionalidade tecnológica. de Alex Proyas. O que acontece é que. “Eu. “Matrix”. É claro que. como a tecnologia perpassa os mais diversos aspectos da vida cotidiana moderna. Ao lado do admirável mundo novo.|Eixo Temático | | O desenvolvimento das técnicas de manipulação genética decorrem do desenvolvimento das forças produtivas do trabalho social e da redução das barreiras | |naturais. principalmente em se tratando de um filme SF.Filmes relacionados: “Blade Runner”. de Ridley Scott. de Fritz Lang. tal avanço da| |ciência genética se traduz em possibilidades concretas de incremento do controle social estranhado. nas condições de uma sociedade de classes. “IA . ela não poderia deixar de estar no centro estruturante da trama filmica. ecossistema social e contradições do capital. . o Policial. 1990). capital e processo civilizatório. e a aguda vigência de determinações de controle social | |estranhado e de exploração de classe. dos Irmãos Wachowski. em seu livro Alien Zone: Cultural Theory and Contemporary Science Fiction Cinema (Verso. | |de Stanley Kubrick. como. o capital tende a se apropriar do | |desenvolvimento das forças produtivas sociais para aprofundar seu controle de classe. de Steven Spielberg. estruturando-o. observa que uma das características do cinema de ficção-científica é a sua intertextualidade. “2001-Uma Odisséia no Espaço”. | Análise do Filme Annette Kuhn. sem dissolver sua linha argumentativa (que incorpora outras textualidades). onde predomina a divisão hierárquica do trabalho e a propriedade privada. Neste caso. subsiste velhos valores estranhados e sociabilidades corrompidas pela lógica do | |capital. Ou seja. por exemplo. que é a própria racionalidade da sociedade moderna. a técnica e a tecnologia pulam adiante do argumento dramático. identidade e memória | |social. no caso do filme SF. Estamos diante de uma visceral contradição entre as imensas | |potencilaidades de desenvolvimento humano-genérico e da plena socialização da sociedade humana. O que poderia significar essa intertextualidade do gênero Science Fiction? Ela é característica peculiar de um gênero fílmico (o de ficção-científica) que constitui sua trama narrativa a partir de uma determinada racionalidade (a racionalidade tecnológica).

Numa sociedade de controle social quase-absoluto. No desenrolar da trama. todo o suspense se concentra no personagem Vincent Freeman. e os Inválidos. de Elia Kazan (com James Dean). ou do diretor Josef.O filme Gattaca – A Experiência Genética. seu irmão Anton. Apesar do mais alto controle social garantido pelo registro genético. que descobre a verdadeira personalidade de Jerome e ameaça denuncia-lo. Nesse ambiente de resistência individual. que almeja ir além do seu destino genético e decide assumir a personalidade de Jerome Morrow. a rivalidade entre irmãos (que é. nascido do acaso da Natureza. um Inválido condenado 39 pelo seu código genético a tarefas degradantes (Freeman significa. produto de um planejamento genético quase perfeito. como a atitude . “homem livre”). Gattaca retrata uma sociedade de classe cuja técnica de manipulação do código genético tornou-se prática cotidiana de controle social. de agudo cariz regressivo. Ao lado dos mais sofisticados recursos de manipulação genética. seja a de Vincent para ter acesso à corporação Gattaca e realizar seu sonho de tornar-se astronauta. assistimos a um jogo de ambição e fraude. um Válido que. quando Vincent encontra em Gattaca. outro. submetidos ao acaso da Natureza e às impurezas genéticas. Sua ambição é driblar as restrições de classe e se integrar na elite intelectual e moral de Gattaca e realizar seu maior sonho: ir para o planeta Titã. mais uma vez. Vincent clona os registros genéticos de Jerome. Apesar de ser um filme de ficção-científica deixa claro sua intertextualidade. no estilo de East of Eden. cabe salientar): um. os Válidos. A sociedade de Gattaca está dividida em duas “classes sociais”. Vincent é um jovem ambicioso. Gattaca parece se tornar um filme policial ou de suspense quando a trama narrativa se desloca para a busca do assassino de um dos diretores da corporação Gattaca. Utilizando os serviços clandestinos de um “pirata genético”. Torna-se claro. pode-se perceber certa solidariedade entre os “de baixo”. os “de baixo” apelam para fraudes sutis. a transfiguração de uma rivalidade de classe. no filme. os “filhos da Ciência”. de Andrew Niccol (1997) é um caso exemplar. a espécie humana continua a mesma: dividida em classes sociais e se utilizando de subterfúgios escusos e clandestinos para atingir seus interesses egoístas. “filho de Deus”. clandestinas. O que se observa é que o tema da técnica de manipulação genética perpassa todo o drama policial (e familiar) de Gattaca. A partir de um certo momento. que hoje estão se tornando realidade pelos avanços da engenharia genética e da biologia molecular. de Gattaca (representado pelo escritor Gore Vidal. os “filhos de Deus”. num papel especial). a trama de Gattaca sugere um drama familiar. em virtude de um acidente. literalmente. No final. como forma de resistência individual ao totalitarismo do destino genético. tal como um "retorno ao útero materno"?). ficou paralítico. satélite de Júpiter (seria uma alegoria de fuga do sistema do capital. que assassina outro diretor num jogo de poder. produtos da engenharia genética e da eugenia social.

sejam da classe dos Inválidos. na medida em que é produto de um afastamento das barreiras naturais – o domínio do código da vida . O destino trágico do verdadeiro Jerome. Não podemos culpar a técnica em si. certa nostalgia de um passado distante em que um fio de cabelo era apenas um fio de cabelo (ou uma mera lembrança afetiva). mesmo entre os Válidos existe uma certa hierarquia de classe . A ambição individualista de Vincent é que conduz a trama. uma divisão em casta ou de acordo com o sangue. mas que. não deixa de ser um protesto contra a sociedade de Gattaca. contra seus fluidos e restos corporais capazes de denúncia-lo como Inválido. os Condenados da Terra. de uma “grade”. que Vincent se revolta e busca uma saída individual. e não um registro genético capaz de denunciar a identidade de classe das pessoas. já desumanizado pelo capital. o diretor e roteirista Andrew Niccol sugere uma “natureza humana” recalcitrante às imposições sistêmicas. apesar do drama possuir.numa sociedade de classe. que aparentam certa simpatia pelos ideais transgressores de Vincent/Jerome. com o desenvolvimento da técnica. atingindo o próprio ser orgânico do homem. Gattaca sugere o dualismo Acaso (ligado a “primeira natureza”) versus Planejamento (imperativo da “segunda natureza”). produzida pela manipulação técnica. Mas apesar do clima totalitário. mas a forma social que a desenvolve e se apropria dela. A luta de Vincent não é apenas contra o Sistema de Gattaca. a atitude arrogante do verdadeiro Jerome diante de um policial que o interroga. Em Gattaca. A perspectiva do filme Gattaca é tipicamente americana. A sociedade do capital. guardiães da Ordem genético-fascista da sociedade de Gattaca. as saídas são individuais.que comete suicido se incinerando num auto-forno no exato momento em que Vincent parte para Titã. através de exame de DNA. Contra a técnica que supostamente desumaniza o homem. O filme se passa na corporação Gattaca. graças ao avanço da técnica. É o estranhamento assumindo proporções abismais. mas contra si mesmo.a não ser que os policiais. na verdade.agora demarcado. objeto de uma rede controlativa. Apesar disso. os proletários seriam os Inválidos. baseada na divisão hierárquica do trabalho. talvez uma nova forma de ciberespaço. antes de tudo. capaz de aprofundar o controle social do capital. no sentido clássico. numa certa passagem do filme. pelo estigma do destino genético. E Vincent representa o herói americano – um anti-herói ao estilo de Charles Chaplin? . É contra essa “segunda natureza”.condescendente do faxineiro Caesar (representado por Ernest Borgnine) ou pelo médico Lamar. nesse caso. considerar mesmo uma divisão de classe. o filme expõe as falhas irremediáveis de Gattaca e do seu sistema de controle.em sua luta contra o sistema. que . Na ótica do Cinema de Hollywood. conteúdo de classe. mas o final não é propriamente um final feliz. sugere que. É um destino genético produzido pelo homem. A sua luta é contra o destino de classe – ou casta? . tende a tornar-se uma “segunda natureza”. agora representado pelos imperativos categóricos da eugenia social. Pode-se apreender no filme. dividida em classe. ou sim. tende a incorporar novas determinações de poder e de controle cada vez mais rígidas e com um lastro natural (pode-se. mas poderia se passar num Campo de Concentração ou numa sociedade totalitária qualquer. bem ao estilo das sociedades tradicionais?).

as limitações e as delimitações do trabalho. sejam eles de nascimento. Seria a sociedade de Gattaca uma “gaiola de ferro”. se auto-incinerar ou então viajar para Titã (se conseguir. não deixa de ser singelo e desesperador. Capitulo II Agropecuária brasileira. Foram levantados ainda o problema de pesquisa. ou seja. Mas Adam não é um homem vulgar nem um doente comum. para as pessoas. inovações tecnológicas e desempenho produtivo No capítulo introdutório foram realizadas as primeiras observações sobre o tema a ser desenvolvido no trabalho. A sua mente ficou afetada e agora está internado num hospital psiquiátrico. uma alegoria da sociedade (pós)-moderna. sejam eles por incapacidade adquirida. É como se o único herói do filme busca-se lá fora o sentido da vida. os objetivos. uma sociedade de classe em que só restaria. um homem que viveu o drama de ser judeu na Alemanha nazi e sobreviveu aos traumas dos campos de concentração. apresentar-se como um Válido) ? Giovanni Alves (2003) 40 Filme Adam: Memórias de Uma Guerra Gênero: Drama Ano de Lançamento: 2010 Formato: Avi Qualidade: DVDRip Idioma: Português | Inglês Legenda: S/L Tamanho: 814 MB Sinopse: Em Adam: Memórias de Uma Guerra a estranha história de Adam Stein. O Seu cérebro é demasiado inteligente para confundir os seus médicos e perceber o que está para além da realidade fundir os seus médicos e perceber o que está para além da realidade. agora num sentido amplo. E o sonho de Vincent (ir a lua Titã). é claro.exclui como lixo humano todos os Inválidos. no sentido weberiano. adaptar-se. . onde o tentam reconduzir a uma existência o mais normal possível para quem viveu os horrores do Holocausto.

Ao contrário. Também é destacada a importância da agropecuária para a economia brasileira. a borracha e o cacau foram os principais geradores de renda para o país no período de 1500 a 1930. Como pode ser observado no gráfico da figura 2. produção de insumos e máquinas. Entretanto. o algodão.Este capítulo apresenta a evolução histórica da agropecuária brasileira desde a colonização até os dias atuais. com relação aos outros setores (indústria e serviços). como pode ser visto no gráfico da Figura 2. em detrimento da agropecuária.1. De acordo com Lima apud Rossi (1995). Nesta fase. pelo fornecimento de insumos às agro-industrias e pela produção de alimentos às pessoas que vivem nas cidades. a indústria brasileira começa a desenvolver-se com maior intensidade. no período observado4 A partir de 1920. caracterizada como modelo econômico primário-exportador. em 1960 a renda gerada pelo setor agropecuário já é menor que a produzida pelo setor industrial. bem como o processo de modernização pelo qual ela passou. a riqueza interna gerada pela indústria só se distancia da riqueza interna gerada pelo setor agropecuário no final da década de 50 ( Brum 1991). Pode-se dizer que produtos agrícolas como o pau-Brasil (extrativismo). passando este último a ganhar cada vez mais destaque na economia brasileira. cabendo apenas 12 % ao setor agropecuário (Mueller. 1997). Ainda são apresentados.25. o café. O financiamento desse crescimento é baseado na riqueza gerada pela agropecuária. a partir da década de 70. pode-se afirmar que ela foi e ainda continua sendo de fundamental importância para a economia brasileira. no segundo capítulo.1 Evolução histórica da agropecuária brasileira Desde o início da colonização. o complexo agro-industrial corresponde cerca de 40% do PIB e. esteve voltada para o desenvolvimento da indústria. de lá para cá.2 Gráfico da participação percentual dos setores no PIB6 Atualmente. através da geração de divisas pelas exportações de produtos agropecuários. até os dias atuais. quase todos os outros bens de consumo que não eram produzidos internamente dependiam da renda gerada pela exportação dos produtos agropecuários para serem adquiridos3. o setor de serviços e o setor industrial têm maior participação na geração da renda interna (cerca de 88 %). O setor agropecuário continua sendo a base para o bom desempenho do complexo agro-industrial que envolve toda a produção agrícola e pecuária. 2. A maior parte dos incentivos e políticas governamentais. a industrialização e a distribuição da produção do setor agropecuário. a agropecuária sempre teve um papel de destaque na economia brasileira. Figura 2. a cana-de-açúcar. sendo que ela foi e ainda continua sendo de fundamental importância para a geração de riquezas e o aumento do bem-estar social. não diminui a sua importância como setor alavancador da economia. O fato da agropecuária ter uma menor participação na formação do PIB. os estudos relacionados ao tema produtividade e agropecuária brasileira. este fato não significa que a agropecuária diminuiu sua importância para o desenvolvimento do país. e principalmente após a década de 30. o fumo. . Figura 2.1 Gráfico dos produtos de maior importância econômica para o Brasil. Mesmo assim.

o setor agropecuário é a base para todo o complexo agro-industrial. Esse processo de modernização é apresentado a seguir. funcionando como descentralizadora dos investimentos nos grandes centros e promovedora do progresso no interior. O desenvolvimento de pólos regionais proporcionado pelo agronegócio foi destacado por Neto e Edward (1999). existem basicamente dois modelos ou processos para a geração de tecnologias. que surgiu em correspondência com a transformação de uma economia puramente voltada à atividade primária para uma economia mais industrializada. produtos químicos e sementes melhoradas). estas áreas se encontram longe dos grandes mercados consumidores. Uma característica importante do complexo agro-industrial é a de que o processo de industrialização. se dá. serão expostos a seguir. Este crescimento é reflexo do aumento do setor industrial e do setor de serviços. a partir dos anos 40. O fluxograma da Figura 2. ou seja. Entretanto.3 Representação simplificada das relações do complexo agro-industrial Como pode-se notar. fertilizantes. O primeiro processo ou modelo A não tem ligação . o setor urbano brasileiro intensifica o seu processo de expansão7.3 apresenta uma simplificação das inter-relações do complexo agro-industrial. Esta parte da população. pois esta mudança estrutural na economia do país acarreta o deslocamento das pessoas do campo para a cidade. As possibilidades para a modernização. e com maior intensidade nas décadas seguintes. deixa de produzir alimentos e passa a requerer que a população restante no campo a alimente nas cidades. a utilização de insumos modernos e práticas adequadas ao cultivo. 2. bem como o caminho seguido. Em função destes fatos. como máquinas. no outro. Na área agropecuária.aproximadamente. no caso brasileiro. exigindo investimentos em infra-estrutura. 2. onde se desenvolvem com grande rapidez os setores industrial e de serviços. 40% das exportações brasileiras. A expansão da produção agropecuária brasileira. A primeira forma de expansão da produção pode ser viável no Brasil pela disponibilidade de áreas. que migra para as cidades. basicamente. segundo Alves e Contini (1988). dentre outros. o caminho a ser seguido requer a utilização de um maior nível tecnológico na produção. defensivos. o modelo de produção agropecuária baseado no senso comum passa a ter dificuldades em atender às necessidades emergentes. neste tipo de atividade.1 Necessidade de crescimento da produção e modelo de geração de tecnologias A partir da década de 40.2 Processo de modernização do setor agropecuário brasileiro Com a intensificação do crescimento dos setores industrial e de serviços.2. através do aumento da utilização de insumos modernos (máquinas. surge a necessidade de novas opções para a modernização da produção agropecuária. Esta expansão pode ser realizada basicamente de duas formas: em um caso pode-se optar pela expansão da fronteira agropecuária. Figura 2. Diante de tal questão. No caso da segunda forma de expansão da produção. a partir dos anos 70. Daí surge a necessidade de expansão da produção agropecuária para atender às necessidades emergentes. seria necessário a disponibilização de insumos modernos. ocorre em sua maioria no interior do país. tem-se uma elevação da demanda por produtos agropecuários.

como. não conseguindo recuperar o desgaste de solos. Como o país vinha há séculos utilizando o modelo tradicional e este atendendo às necessidades. Eles adaptavam experiências trazidas de suas regiões de origem às regiões similares. O conhecimento é desenvolvido pelos próprios agropecuáristas. por parte dos agropecuaristas. os imigrantes europeus e japoneses tiveram papel fundamental na geração e difusão do conhecimento. que anteriormente eram tecnicamente inviáveis para o cultivo e ainda contribuem para o melhor aproveitamento das atualmente exploradas. a busca de novas fronteiras. 25% do território brasileiro. foi gerado em função do crescimento da população urbana que. de exportação e de doenças. O outro processo ou modelo B é o que está baseado na pesquisa científica. com o decorrer do tempo. sempre existirá. No caso brasileiro. ocorre quando o ambiente de atuação agropecuária não permite a plena aplicação dos conhecimentos dos agropecuaristas. da geração de conhecimentos específicos àquele meio ambiente a ser explorado. com o aprofundamento das crises como a de abastecimento. neste caso. para a geração de conhecimentos. do início da colonização (1500) até os anos 50 deste século. pois possibilitam a conquista de novas fronteiras. sementes geneticamente melhoradas. A capacidade do aumento progressivo da produtividade. resistentes a doenças e com capacidade de adaptação a condições ambientais adversas à sua origem. O problema de abastecimento. O modelo baseado no senso comum foi predominante na agropecuária brasileira. Desta forma. A partir da década de 50 ele começa a entrar em crise. A necessidade da manutenção e ampliação das exportações agropecuárias era indispensável para a manutenção do equilíbrio no Balanço de Pagamentos. máquinas adequadas às culturas. que passar-se-á a expor. quanto por entidades públicas9. . abrindo espaço para a expansão da outra forma de geração de tecnologia. Este fato aconteceu. adubos capazes de corrigirem deficiências nutricionais dos solos. aumentou intensamente e causou uma maior pressão na demanda por alimentos. neste modelo. em Estados localizados no sul do Brasil. tanto pode ser feita pela iniciativa privada8. por exemplo. a partir dos anos 50. Estas inovações são o que freqüentemente chamam-se de insumos modernos. na base da tentativa e erro. Como conseqüência. Esse fato se dá devido a pouca ou nenhuma utilização de insumos modernos ou das práticas adequadas de manejo integrado dos solos. a provável forma de transformação do modelo tradicional para o modelo de base científica seria através de insuficiência de atendimento das necessidades do país pelo modelo clássico. apesar de gerarem outros desequilíbrios. pelo cultivo específico de uma ou de poucas culturas. Esta pesquisa. necessitando. como o cerrado brasileiro. práticas adequadas de uso do solos e formas de controle biológico10. principalmente. e os conhecimentos são repassados através das gerações. como descrito há pouco. devido ao processo de industrialização. o que acarretaria em pesados investimentos. é necessária uma profunda transformação na infra-estrutura de base do setor agropecuário brasileiro. Como se pode notar. é praticamente inexistente. o processo de geração do conhecimento científico é baseado na existência de instituições especializadas. visando o aumento da produção. que geram e difundem as inovações ou novos processos produtivos. mal ou intensamente utilizados.estrita com a pesquisa organizada. Como se pode observar. para mudar do modelo A para o modelo B. onde uma exploração agropecuária adequada deve suceder em moldes diferentes daqueles trazidos pelos imigrantes. e a Amazônia. Todos esses recursos facilitam o atendimento das necessidades emergentes. É o caso de fronteiras agropecuárias como o Cerrado. Dentre eles estão os defensivos capazes de controlar os desequilíbrios provocados na flora. Outra limitação desse modelo.

com pouca aplicação de tecnologia. de latifúndios despreocupados com a maximização dos lucros e por minifúndios. não existia uma classe dinâmica na agropecuária que ansiasse por inovações. faltavam mecanismos que facilitassem o acesso dos agropecuaristas aos meios. disponibilização de mão-deobra e terra. onde os agropecuaristas estavam muito mais preocupados com o atendimento de suas necessidades do que com o mercado. A primeira sugere que o problema estava relacionado à falta de políticas adequadas ao setor. 2. que. Do início da colonização até a década de 50 deste século. A sua estrutura agrária ainda continuava constituída. Pode-se considerar que existiam duas correntes teóricas tentando explicar esta falta de crescimento da produtividade. A partir dos anos 50. nos anos 50 e 60. segundo esta corrente. em grande parte. por parte do governo. quando muitas políticas foram realmente direcionadas para o aumento do nível tecnológico do setor.2 Políticas para a modernização da agropecuária brasileira Como enfatizado anteriormente. de acordo com os autores. a exploração agropecuária ocorreu de modo praticamente artesanal. insumos modernos. na criação da infra-estrutura. Estes autores. que apenas se aproveitavam da disponibilidade de mão-de-obra e terra.2. as inovações foram retardadas por fatores como a estrutura agrária. o processo de modernização só foi consolidado com maior intensidade a partir de 1970. destinando sua produção quase que exclusivamente ao atendimento das próprias necessidades (Santos. cria-se espaço para a modernização. da agropecuária brasileira: a neoclássica e a estruturalista. que poderiam impedir o desenvolvimento e a implementação de novos processos produtivos na agropecuária. Essa corrente também dava ênfase à grande disponibilidade de terra e mão-de-obra como fator inibidor das inovações. exigindo que a pesquisa apresentasse resposta a elas (Alves e Contini. por outro lado. não consideravam fundamental a criação de uma estrutura agrária adequada à absorção destas novas tecnologias. pois. Eles também reconhecem que a disponibilização destes insumos exigiria uma política de incentivos e investimentos pesados. existiam outros fatores. 1988). Estes fatores mencionados pressionavam a implementação de mudanças estruturais na agropecuária. 1988). em sua maioria. a agropecuária brasileira até meados dos anos 60 não apresentava sinais significativos de utilização de insumos industriais ou de processos produtivos adequados às suas condições edafo-climáticas. Pois. A segunda sugeria a inadequada estrutura de distribuição de terra como fator limitante à modernização. ou de modernização. Por outro lado. como a de preços mínimos e subsídios para a disponibilização de insumos modernos. como destaca Santos (1988). que possibilitassem o aumento da produção por espaço de terra e ainda a conquista de fronteiras antes tecnologicamente inacessíveis. que levassem ao progresso técnico. Apesar dessa oportunidade. ou por minifúndios que "não estavam interessados no mercado". . Essas questões estavam relacionadas à própria estrutura agrária brasileira. Devido a isto. a agropecuária sempre teve papel de destaque na economia brasileira. Teóricos neoclássicos como Schuh e Nicholls apud Santos (1988) atribuem a baixa produtividade da agropecuária ao reduzido nível de tecnificação utilizado pelos agropecuaristas. em função das crises. era composta. Conforme apresentado. Esse processo é que será discutido no próximo item do capítulo.Algumas doenças passaram a ameaçar a produção de culturas importantes como o cacau. ou por extensos latifúndios desinteressados em inovações.

O atraso técnico e a falta de infra-estrutura moderna de apoio ao setor agropecuário eram explicados pela abundância de terra e mão-de-obra verificadas até meados dos anos 60. existiam. Nota-se que as políticas sugeridas eram de curto prazo. inicia-se a ampliação do uso da mecanização. E viabiliza-se o cultivo de culturas . os autores consideram útil. Assim sendo. o processo de modernização da agropecuária brasileira ocorrido a partir dos anos 60 foi moldado segundo a estrutura agrária. Diante disto. de defensivos agrícolas e de outros insumos. E isso não seria possível utilizando-se apenas os instrumentos já existentes. crédito e assistência técnica. na maioria dos Estados brasileiros. não foi desenvolvida. fator escasso. terra e trabalho uma saída inteligente. para explicar a falta de modernização da agropecuária brasileira. dentro das propriedades agropecuárias. de adubos. por outro lado. e a utilização de fatores abundantes. os caminhos da modernização não visavam o longo prazo. do Mato Grosso do Sul e Goiás. autores estruturalistas. Já o preço da mão-de-obra era mantido estável tendo em vista o deslocamento das populações marginais do Rio Grande do Sul e do Nordeste para estas regiões. como a melhoria da estrutura agrária. que seriam os únicos em condições de se adequarem ao processo de inovação. (Santos. Deste modo. até 1975. Surgia. o progresso tecnológico nos meios de transporte evitava aumentos expressivos dos preços devido à fronteira agropecuária estar se tornando cada vez mais distante dos centros de consumo. parece ficar evidente a necessidade de aumentar os índices de produtividade da agropecuária. Em decorrência deste fator. não existia uma classe dinâmica de pequenos produtores capaz de absorver inovações tecnológicas. o modelo de inovação induzida de Hayami e Ruttan apud Santos (1988). estas políticas que facilitavam a disponibilização dos insumos tradicionais. como a do Paraná. torna-se possível a utilização de áreas de grandes dimensões em uma mesma propriedade. como preço mínimo. Apenas os grandes e médios produtores é que poderiam se beneficiar destas políticas. terras férteis disponíveis e ainda não utilizadas. Por outro lado. as políticas que visavam o aumento da produtividade rural ficaram atreladas aos grandes e médios produtores. na estrutura de distribuição da terra. A disponibilização destes fatores era corroborada pela expansão de fronteiras férteis. A partir destas condições descritas. a infra-estrutura rural. Esta corrente se baseia no processo de formação da estrutura agrária brasileira. Como foi apresentado. à agropecuária eram consideradas racionais pelos autores neoclássicos. Por outro lado. dificultou o acesso de terras a pequenos colonos à não modernização da agropecuária brasileira. como Furtado apud Santos (1988). terra e trabalho. e que. E os que existiam apresentavam um nível de desenvolvimento muito primitivo. Apesar de não contribuírem para o progresso técnico. o fator limitante à expansão de tecnologias modernas que proporcionassem o aumento de produtividade da agropecuária. via utilização de fortes subsídios. encontram. a necessidade de investimentos elevados para a utilização de novos processos produtivos que possibilitassem a expansão da produção agropecuária. Em decorrência deste modo de exploração agropecuária. em termos de distribuição de terras. Deste modo. Deste modo. já que a adoção de inovações técnicas era economicamente inviável. então. pode-se afirmar com bastante precisão que. 1988) A partir de 1965. Essa corrente considerava a não utilização do capital. que privilegiou as políticas de disponibilização de terras e mão-de-obra11 a grandes empresas agropecuárias.

Em outras palavras. e ainda incentivaria a expansão industrial interna. a partir do final dos anos 60. A modernização da agropecuária brasileira foi simultânea ao desenvolvimento de uma tendência mundial. para entrar em uma era de incentivos às exportações. o milho. que era de 630. no mesmo período. Estes fatores estavam relacionados à disponibilização da mão-de-obra e com a viabilização da utilização de terras por grandes empresas. ou até inferir que a agropecuária brasileira intensificou o processo de modernização a partir da década de 70. observa-se que em 1974 eram consumidos internamente 5 vezes mais tratores do que em 1969. dentre outras. apresentaram uma expansão até meados da década de 70. Pode-se citar. Quando se iniciou o processo de modernização. principalmente. Esse período ficou conhecido como "revolução verde".636. Um estudo sobre a utilização dos insumos modernos na agropecuária. por Estados e regiões que possuíam as condições mais adequadas de assimilação das inovações . Os defensivos (inseticidas. Deste modo. Como pôde-se notar. 45.080. A partir daí.775 e em 1995 salta para 52. No caso da venda doméstica de tratores agrícolas. Entretanto é importante observar que o Brasil é muito grande e possui diferenças estruturais. por fatores relacionados às políticas dirigidas ao setor. De forma agregada. de acordo com eles. salta para 1. e em 1994 passa a ser de 5. poupadores de terra e trabalho. O número de HP disponíveis em 1970 era de 7. Estas diferenças. O consumo interno de tratores agrícolas em 1994 foi de 46. sendo alguns deles proporcionados pelo II PND (Plano Nacional de Desenvolvimento. ocorre uma estabilidade no consumo. que se deu intensivamente até os anos 60. e fruto da disponibilidade de pacotes tecnológicos do exterior e do apoio ao desenvolvimento do setor rural. como o soja.664 unidades. para um mercado internacional exponencialmente crescente. com maior intensidade.1974/1979). em 1974. devido ao incentivo à produção interna. esse foi exógeno à agropecuária. pelo governo. porém é interessante observar que a potência média dos tratores aumentou. auxiliando o crescimento do setor industrial. influenciam a geração e a utilização dos novos processos produtivos. onde a agropecuária teria um papel importante.97513. Neste caso.910. em que os processos produtivos da agropecuária eram voltados ao uso intensivo de insumos industriais. um pouco superior a 1994. fungicidas e herbicidas). realizado por Barros e Manoel (1988).que são comercializadas em larga escala.824. a cana-de-açúcar. e mais intensivamente a partir da década de 70.995 e 9. como exemplo. 5 anos depois. segundo os autores. demonstra que estes se expandiram.380 toneladas de ingrediente ativo em 1969.45612 unidades. existe uma queda no consumo de defensivos no período14. respectivamente. como observado por Monteiro (1985). sociais e edafo-climáticas entre seus Estados e regiões. o consumo aparente de inseticidas e de fungicidas diminui entre 1974 e 1991 e o consumo de herbicidas aumenta. Outro fator que influenciou a modernização da agropecuária brasileira foi a saída gradativa de um período de substituição de importações. econômicas. pode-se verificar que houve uma intensificação no uso de insumos modernos. pois passava a demandar insumos industriais em escala. desde a colonização do país até meados dos anos 60. a agropecuária participaria com a exportação de produtos. o caso do consumo aparente de fertilizantes.208. o processo de modernização pode ter sido absorvido. Na realidade. o trigo. o desenvolvimento da agropecuária foi atrapalhado. aliadas à ação de grupos de interesses.959.

. alguns destes trabalhos que abordam a questão da mensuração da produtividade da agropecuária brasileira. Entretanto. considerando apenas a produtividade parcial dos fatores. o que os autores verificaram realmente foi que a produção por hectare estava crescendo em função do aumento do preço da cana-de-açúcar. a agropecuária brasileira. a produtividade poderia não estar aumentando. Já em uma análise que leva em consideração indicadores globais. sendo que o aumento da produção por hectare poderia ser fruto do crescimento da utilização de outros insumos.3 Estudos relacionados à produtividade e à agropecuária brasileira Como se pôde observar. No próximo item serão apresentados os trabalhos relacionados ao tema. Também fica destacado que o processo de modernização. que provavelmente acarretariam modificações na produção e na produtividade da agropecuária brasileira. não devendo ter sido distribuído de modo uniforme no país. Trevisam (1984) desenvolveu um estudo que trata sobre o relacionamento entre a estrutura fundiária e a produtividade alcançada pela cultura do cacau no Estado da Bahia. Os autores concluíram que a produtividade da cana-de-açúcar era sensível ao aumento de preço da cultura. Os trabalhos que serão apresentados a seguir apontam deficiências similares. pois eles utilizaram o rendimento por hectare como indicador de produtividade. os Estados e regiões que não se moldavam às inovações. 2. estes utilizaram-se do tema produtividade e agropecuária. o autor utilizou a produtividade da terra como indicador. que se intensifica nos anos 70. sofre um processo de modernização. Esses estudos consideraram a produtividade total dos fatores. alguns trabalhos correlatos ao tema foram desenvolvidos. Como se pode observar. Este problema persiste em todos os estudos que contemplam indicadores parciais em suas análises. 2. Frente às mudanças ocorridas no setor. Destacar-se-á. podem ter participado com menor intensidade deste processo.3. Diante desta questão. É importante salientar que alguns dos trabalhos não trataram diretamente sobre a questão de inovações e reflexos na produtividade. a agropecuária brasileira sofreu grandes mudanças. além de analisar somente casos regionais. a partir da década de 70. e concluiu que a produtividade do cacau. Entretanto. Assim sendo. principalmente.vindas do exterior e das desenvolvidas internamente. Frente a este fato. estava aumentando e que extratos muito grandes de terra apresentavam um menor rendimento. É bom enfatizar que a maioria dos estudos. a seguir. não trata a produtividade em um sentido global. em geral.1 Estudos regionais relacionados à produtividade que utilizaram indicadores parciais Dentre os estudos regionais relacionados à produtividade. Recentemente. pode-se destacar trabalhos como o de Pinazza e Noronha (1980). surge a necessidade de verificação das conseqüências no desempenho produtivo da agropecuária. alguns pesquisadores vêm desenvolvendo trabalhos visando a melhoria do dimensionamento das reais alterações de produtividade. Em seu estudo. é fruto das crises que se iniciam nos anos 40 e 50. foram desenvolvidos alguns estudos visando identificar alterações na produtividade da agropecuária brasileira. que trataram das relações entre o preço da cana-de-açúcar e a produtividade desta cultura no Estado do Rio de Janeiro. Estas alterações estavam relacionadas à expansão da utilização de insumos modernos. apesar das dificuldades estruturais.

Eles usam conceitos parciais de produtividade do trabalho e da terra para analisar o aumento do progresso tecnológico e o aumento da produtividade agrícola.3. Os autores discutem o efeito do progresso técnico no crescimento da produtividade. como soja e laranja. Os autores utilizaram a produtividade da terra no auxílio à análise de desempenho. A seguir serão expostos estudos de âmbito nacional que são baseados em indicadores parciais. que existiam grandes variações de produtividade entre as microregiões. Para alcançar tal objetivo. Hoffamann e Jamas (1990) se fundamentaram em indicadores parciais de produtividade da . todos estes autores empregaram indicadores parciais de produtividade em suas análises. e o aumento das possibilidades da exploração do trabalho. neste trabalho. como o desempenho insatisfatório da economia e cortes de incentivos ao setor. com uma visão marxista. se apoiam no aumento de produtividade para discutir a transformação do emprego na agricultura. As diferenças de produtividade da terra e do trabalho entre microregiões homogêneas da agropecuária paranaense. O autor considera como indicador de produtividade a produção por área. Foi verificado. É ressaltado na análise que grande parte do crescimento ocorreu em função do aumento de produtividade. Caso isto ocorra. O autor usa indicadores parciais para comparar as diferentes regiões do Estado. que.Silva et al (1985) estudaram os efeitos das condições do tempo sobre a produtividade agrícola no Estado de São Paulo. Avaliando a agricultura brasileira frente à sua estrutura de produção. Como se pode observar. pode-se estar incidindo no erro de superestimar ou subestimar os aumentos de produtividade. Os efeitos das políticas institucionais. foi analisada por Guerreiro (1996). no período de 1975 a 1970. Como já mencionado anteriormente. Os autores utilizam indicadores parciais de produtividade para realizar a análise. Mello (1990) investiga o crescimento não desprezível da agricultura brasileira na década de 80 frente a fatores adversos. O autor destaca o crescimento mais acentuado dos produtos destinados ao mercado externo. Para analisar o desempenho produtivo agropecuário de 332 microregiões do Brasil. eles desenvolveram um modelo de análise baseado no índice da evolução da produtividade da terra de 1956 a 1983. no desempenho e na composição da produção agrícola paranaense. como arroz e feijão. em relação aos produtos destinados ao mercado interno. O objetivo dos autores era de conhecer os efeitos das condições climáticas adversas sobre a produtividade agrícola. foi estudado por Pereira e Lugnani (1991) e Pereira (1992). frente ao processo de modernização. os indicadores parciais de produtividade não devem ser confundidos com a produtividade da agropecuária. apesar de destacarem os limites desses indicadores. pode-se citar o de Kageyma e Silva (1983).2 Estudos em âmbito nacional relacionados à produtividade e indicadores parciais Dentre os estudos voltados à análise da produtividade da agropecuária brasileira. 2. Albuquerque e Nicol (1987) desenvolvem um trabalho fazendo comparações da produtividade da agricultura brasileira em relação à de outros países. Silva (1983) baseia-se em indicadores parciais para explicar o comportamento dos diferentes extratos de produtores que compõem esta estrutura.

Desta forma. principalmente a gerada pelo sistema EMBRAPA.3 Abordagens nacionais sobre a produtividade considerando indicadores PTF Os estudos relacionados à produtividade. A característica comum destes trabalhos apresentados é que em todos foram utilizados indicadores parciais de produtividade em suas análises para explicar alguma situação ocorrida na agropecuária brasileira. Os preços dos produtos e dos insumos foram coletados dos Censos e de outras fontes secundárias. Os resultados. alguns estudos nesse sentido vêm sendo desenvolvidos visando a análise das alterações da produtividade da agropecuária brasileira. pretendia-se averiguar se os aumentos de produtividade poderiam ser explicados pelo desenvolvimento das pesquisas. rações. tentam apresentar um tratamento mais adequado à questão de mensuração da produtividade. que tinha como objetivo analisar as mudanças da produtividade na agropecuária brasileira durante o período de 1970 a 1985. Estes trabalhos serão analisados no próximo item. ainda é preciso ser mais produtivo. O estudo de Valente (1994) trata do desempenho da agricultura brasileira no período compreendido entre 1975 a 1993. face à análise de ambientes complexos. Os autores desses trabalhos.terra e do trabalho. tratores. principalmente a desenvolvida pelo sistema EMBRAPA15. Na tentativa de minimizar a deficiência das medidas parciais. apresentam resultados mais próximos da realidade. para o período de 1970 a 1985. 2. fertilizantes. conhecendo os limites dos indicadores parciais de produtividade. os autores trabalharam com o valor agregado do trabalho na produção agropecuária. apesar da melhoria. Os dados utilizados para a construção dos índices de produtividade foram extraídos dos censos agropecuários do IBGE. Baseando-se em indicadores parciais. como a Fundação Getúlio Vargas (FGV). ele conclui que o desempenho produtivo dos anos 80 foi um pouco superior do que o verificado no início da década seguinte. Diante da relevância do problema e da importância de uma análise mais acurada sobre a produtividade da agropecuária brasileira. requer. foram desenvolvidos alguns estudos que trataram a questão em um sentido mais amplo. Os autores também pretendiam avaliar o papel da pesquisa agropecuária. como é o caso do objeto de estudo. e com o valor agregado por hectare cultivado. os autores relacionam o crescimento da produtividade com a pesquisa agropecuária. defensivos agrícolas. Os índices de produtividade (PTF) foram construídos com base no índice de Tornqvist. área utilizada para produção.45%. . Os insumos utilizados eram: força de trabalho. vacinas e medicamentos. A taxa anual de crescimento da PTF encontrada foi de 2. como mencionado. os indicadores parciais de produtividade podem levar a resultados distorcidos. Os resultados demonstram que a pesquisa contribuiu para o crescimento da PTF. O autor ainda destaca que. a utilização do preço de insumos e produtos como fator homogeneizador. da produtividade da agricultura em relação a década de 70. o qual. apontaram aumento de produtividade. que consideram a PTF. Recentemente. considerando indicadores de PTF. Como já evidenciado anteriormente. no geral. nas alterações de produtividade. A partir desta taxa.3. significativa. Dentre estes. para encarar desafios da competição internacional. pode-se destacar o trabalho de Ávila e Evensom (1994). A produção considerada na análise foi composta pelos principais produtos da agropecuária brasileira. no terceiro capítulo. em seu cálculo.

Os autores o iniciam destacando a importância do tema e a pequena quantidade de trabalhos direcionados à questão. ou cresceu 25. No caso da utilização dos preços como fator do cálculo do índice de produtividade. se nos reportamos aos dados das Contas Nacionais. utilizado pelos autores.9%. poderíamos concluir alternativamente que o valor agregado da agricultura brasileira entre 1975 e 1980 decresceu 3. as elevadas taxas de inflação deixam os resultados extremamente sensíveis à escolha de um deflator. Na seqüência. uma relação física. Como foi definido. é influenciada por fatores como a evolução tecnológica e as mudanças no indicador de eficiência. como a necessidade de utilização de preços dos produtos e insumos e o não detalhamento das causas das mudanças de produtividade. Tendo os autores do trabalho estas informações à disposição. tendem a apresentar resultados muito mais próximos da realidade. p. como comentam Kageyama e Hoffmann (1984). uma desvalorização cambial poderia representar um aumento do valor dos produtos relacionados ao mercado externo. principalmente. ( Kageyama e Hoffmann. eles criticam os indicadores parciais de produtividade e ressaltam o objetivo de avaliar a evolução da produtividade total dos fatores da agropecuária brasileira. para as alterações de tecnologia de produção. Este fato não pode ser corrigido por uma simples correção de preços. sem que. ou seja. a produtividade é uma relação produto/insumo. Os autores fazem a seguinte colocação: " Assim. a agropecuária brasileira. Entretanto. conseqüentemente. O indicador de produtividade utilizado não apresentava a possibilidade de desmembramento das mudanças de produtividade em mudanças tecnológica e alterações no indicador de eficiência. Tendo que um fato econômico. Outra limitação dos indicadores de PTF utilizados pelos autores reside no fato de que a produtividade. Neste trabalho também foram desenvolvidos os indicadores parciais da terra e do trabalho. em primeira instância. no período de 1976 – 1994.Como destacado por Gasques e Conceição (1997) os trabalhos que consideram a produtividade total dos fatores. foi o de Gasques e Conceição (1997). Nesse caso. a análise pode ser prejudicada de algumas formas. Outro problema relacionado à utilização de preços está ligado a fatores conjunturais da economia. pode interferir no resultado da análise. a pesquisa agropecuária vem a contribuir. Desta forma. tenhamos razões objetivas e fortes para rejeitar um ou outro resultado. . fato este que poderia repercutir em aumento de produtividade sem que exista um real crescimento da relação produto/insumo. Deste modo. desvalorização cambial. também apresenta certas limitações. passou por sérios problemas inflacionários no período da análise. por exemplo. ou dos deflatores utilizados. considerando a produtividade total dos fatores. relacionando o papel das pesquisas nas mudanças de tecnologia.0%. como salientado no terceiro capítulo. haveria um crescimento do índice de produtividade. 1984)". no caso. é importante observar que o índice de PTF. ceteris paribus. ao invés da produtividade parcial. como se está considerando o valor produção pelo valor dos insumos utilizados. eles poderiam detalhar mais a análise. Outro trabalho que analisou a evolução da produtividade da agropecuária brasileira. Por exemplo. se adotarmos os dados dos Censos deflacionados pelo Índice de Preços Recebidos pelos Agricultores (da FGV). representaria um aumento do valor total da produção em moeda nacional e. a análise de produtividade pode sofrer a influência de fatores econômicos. a simples mudança da fonte de preço. 242. Uma acontece quando está se estudando uma série temporal e o objeto de estudo. No caso da utilização dos preços dos insumos e produtos.

11% a. A agregação dos insumos e produtos. por sua vez. Essa. Todos os dados foram obtidos com periodicidade anual. demonstram certo grau de preocupação com a tendência de crescimento a taxas decrescentes. e os insumos intermediários: fertilizantes e defensivos.. essa queda pode ocorrer em função da redução do crescimento do progresso tecnológico na agropecuária. frente à dificuldade de obtenção de informações. o que é preocupante devido a mesma ainda não se encontrar em um patamar elevado de utilização de tecnologias.a. No caso da mão-de-obra. a mudança no indicador de eficiência também pode interferir no crescimento da produtividade. temporária e permanente. conforme os autores. foram de 4. Como se observou. na análise do trabalho anterior. segundo os autores. já que os pesos das variáveis que são obtidos através dos preços podem não estar sendo representados da melhor . refere-se ao número de unidades vendidas. E como se mencionou. obtidas na mesma fonte.. apesar dos indicadores de PTF. e dos produtos de origem animal. As terras utilizadas pela pecuária não foram consideradas devido à pequena quantidade de informações disponíveis. Os insumos fertilizantes e defensivos têm seus preços facilmente encontrados no mercado.. ocorre por intermédio dos preços das variáveis. A metodologia utilizada para o cálculo dos indicadores de produtividade total dos fatores foi a mesma utilizada por Ávila e Evenson (1994). que foi apresentada pela agropecuária brasileira. diante dos resultados. Os insumos considerados na análise foram mão-de-obra. exibidos pela análise. As informações relativas ao preço das máquinas também apresentaram dificuldades de quantificação. "mesmo sem saber se este existe". foi a forma mais viável de cálculo do preço da mão-de-obra. ao progresso técnico. pura e exclusivamente. sendo as informações encontradas na PAM. segundo eles. A obtenção do preço da terra se deu pela utilização do preço médio dos arrendamentos de terra para a lavoura. Os problemas relacionados ao estabelecimento de preços de certas variáveis da análise também ficam evidentes. publicado pela FGV. sendo que os preços dos produtos foram obtidos junto ao IBGE e à FGV. pois. Fato que pode levar a sérias distorções nos resultados.O produto utilizado na análise foi obtido através da agregação das lavouras. O período de 1976 a 1994 apresentou a taxa média de 3. utilizados pelos autores. ainda persistem os problemas relacionados à utilização de preços dos produtos e insumos. A alternativa encontrada pelos autores foi utilizar as informações sobre o faturamento líquido definido pela Associação Nacional de Veículos Automotores (ANFAVEA) como sendo a soma das vendas de máquinas e peças de reposição.a. O fator terra foi composto pela área de lavouras temporária e permanente. apresentarem resultados mais consistentes que os indicadores de PPF. Os dados foram conseguidos junto às publicações Produção Agrícola Municipal (PAM) e Produção Pecuária Municipal (PPM) do IBGE.a. e de 3. ou seja. o custo ou preço foi obtido pela multiplicação do ponto médio de cada classe de rendimento pelo número de pessoas ocupadas na classe de rendimentos. entre 1986 e 1994. Os autores. A quantidade de máquinas. máquinas e terra. Como destacado há pouco.5% a. sendo que os autores atribuem as causas do aumento de produtividade. O não conhecimento das causas das mudanças de produtividade também se faz presente neste trabalho. os autores basearam seus indicadores no índice de Tornqvist.88% a. é evidente a dificuldade de obtenção dos preços de insumos importantes para a análise. entre 1976 e 1985. Os índices médios de crescimento da PTF.

predominantemente quentes. Encontramos vários tipos de solos no país. Destacou-se ainda o seu processo de modernização. Apesar de não ser mais a atividade de maior importância na economia brasileira continua se destacando pela significativa participação em nosso comércio exterior. bem como a sua importância para a economia brasileira.4 Considerações finais Neste capítulo foi apresentada uma síntese da evolução histórica da agropecuária brasileira. 2. consequentemente. era impossível usar mais de um insumo ou mais de um agregado de insumos. É interessante salientar que os trabalhos apresentados utilizaram indicadores de PTF. Fato este que poderia melhorar os resultados da análise. Pereira et al (1998a) e Pereira et al (1998b) iniciaram um trabalho visando minimizar estes problemas. Há dificuldades em se obter uma grande produção de gêneros de climas de temperaturas moderadas com custos aceitáveis. Seria interessante que existissem resultados desagregados relativos aos Estados e regiões. inundações de verão em algumas porções do território nacional e secas prolongadas especialmente no Sertão. mesmo tendo os preços como ponderador. pela produção de alimentos para uma população numerosa (com uma parcela que. O Brasil possui um extenso território com relativa variedade de climas. foram exibidos os estudos relacionados à produtividade e ao setor agropecuário e as limitações apresentadas por estes. que nos permite o cultivo de quase todos os produtos em larga escala. como a área destinada à pastagem. trabalhando com um agregado de produtos e um agregado de insumos. A análise também perde em qualidade quando insumos importantes. o . pois poderiam ser utilizados agregados de produtos ou insumos similares. de uma maneira geral. não podem ser considerados devido à falta de informações. No próximo capítulo serão apresentadas as considerações teóricas sobre produtividade e evolução tecnológica e ainda as formas de quantificação destas questões. seria possível verificar se houveram diferenças de crescimento da produtividade entre Estados e regiões. auxiliando as políticas para sanar as possíveis distorções regionais existentes. alguns de grande fertilidade como a terra-roxa. não possui renda suficiente para um bom padrão alimentar) e pela produção de matérias-primas para vários setores industriais e energéticos. Desta forma.forma. pelo emprego de aproximadamente 1/5 da PEA. Posteriormente. tendo o fator preço como homogeneizador. A Agropecuária no Brasil A atividade da agropecuária pertence ao setor primário da economia. Enfrentamos problemas de geadas no Sul e Sudeste durante o inverno. infelizmente. Entretanto. Mas. não temos grandes problemas climáticos que nos impeça a prática agrícola. ou ainda utilizar mais de um produto ou mais de um agregado de produtos. A produtividade da agropecuária brasileira foi analisada somente no âmbito nacional.

Quando desprotegido. realiza-se uma queimada para limpeza do terreno. seus constituintes minerais e orgânicos. quando então o solo se esgota e parte-se para outra área. *erosão e esgotamento do solo – provoca a destruição física do solo e a perda de sua qualidade. acentua-se esse processo. Mas é agravado pelo uso de técnicas agropecuárias incorretas. Quando em estágio avançado provoca a formação de sulcos profundos denominados voçorocas. monocultura sem os cuidados necessários (reposição do material fértil ao solo).massapé e o solo de várzea ou aluvial. É causado pela ação do clima. na África). grandes parcelas de solo são sistematicamente destruídas em todo o mundo. excesso de animais sobre o solo e excesso de peso sobre o mesmo. cultivo seguindo a mesma linha do declive do terreno (sem a aplicação das curvas de nível e/ou terraceamento). corretivos químicos e fertilizantes. Nele podemos incluir uma simples roça (como na Amazônia. em áreas com chuvas intensas. misturam-se as cinzas ao solo e se realiza uma monocultura sem maiores cuidados por um breve período de dois a três anos. entre caboclos e indígenas). Sistemas de produção na agricultura A agricultura pode ser praticada de diversas formas com um conjunto de características que passamos a apresentar a seguir: Sistema extensivo técnicas simples mão-de-obra desqualificada abundância de terras baixa produtividade rápido esgotamento dos solos Esse sistema é característico de regiões com grandes extensões de terras vazias e de menor grau de desenvolvimento. Alguns problemas específicos também afetam os solos do Brasil: *lixiviação – constitui no empobrecimento dos solos em regiões de climas muito úmidos com chuvas freqüentes que através do escoamento superficial retiram o material fértil do solo. para produzirem satisfatoriamente. necessitam da aplicação de adubos. Infelizmente. Muitos solos do país. em muitas áreas do território brasileiro. com procedimentos muito simples e de caráter itinerante: retira-se uma porção da mata. retirando-se as partículas que formam o solo. Os solos constituem um importante recurso natural que deve ser preservado através de técnicas conservacionistas. os solos possuem baixa fertilidade ou problemas como acidez elevada. Em algumas áreas o processo de desertificação avança sobre áreas que antes produziam alimentos (ex: sahel. predatórias e prejudiciais ao solo: desmatamento (especialmente junto às margens dos rios). . A recuperação de um solo pode ser demorada e muito cara. *laterização – constitui na formação de uma crosta ferruginosa endurecida próxima à superfície do solo pela concentração de óxidos de ferro e alumínio. Mas. Ocorre em áreas de clima tropical em que se alternam uma estação chuvosa (dissolução desses óxidos) e seca (quando esse material se acumula próximo à superfície e forma a crosta). pela retirada da vegetação. realizando-se o mesmo procedimento.

Plantation grandes áreas técnicas modernas muita mão-de-obra elevada produtividade monocultura agroindústria/exportação Esse sistema passou a ocupar grandes áreas em países subdesenvolvidos ocupando seus melhores solos. Os pecuaristas têm se preocupado em acompanhar as tendências desse mercado muito competitivo. observa-se uma rápida evolução qualitativa nas técnicas de criação. Está principalmente voltada para o mercado externo. Aplica a mecanização quando possível (lembre-se que não é todo cultivo que permite mecanização). com a modernização progressiva e exigências cada vez maiores do mercado. mas na prática é muito comum que se combinem características dos dois sistemas e. principalmente temporária (o bóia-fria ou trabalhador volante). bem como o serviço de técnicos agrícolas e agrônomos. . São comuns a prática da policultura e pecuária leiteira através desse sistema. com milhares de hectares de extensão). Sistemas de produção na pecuária Podemos também pensar nas características dos sistemas de criação de animais que lembram muito as características acima citadas. por vezes. geralmente com maior ocupação humana e com o uso de pequenas e médias propriedades.Sistema intensivo técnicas modernas mão-de-obra qualificada terras exíguas alta produtividade conservação dos solos É um sistema característico de regiões de maior desenvolvimento. Sistema Extensivo grandes propriedades gado criado a solta sem cuidados veterinários raças simples uso de pastagens naturais baixa qualidade e produtividade destinado ao corte Sistema Intensivo Pequenas e médias propriedades Criação confinada em estábulos ou currais Cuidados veterinários Raças selecionadas e aprimoradas Uso de pastagens cultivadas Rações balanceadas Alta qualidade e produtividade Destinado à produção de leite Evidentemente essa classificação e características são de natureza bem didática. especialmente produzindo para abastecimento do mercado interno. Mesmo assim utiliza muita mão-de-obra (trabalha com propriedades.

A mecanização e o uso de técnicas modernas permite um aumento da produtividade.). estocagem e transporte). no caso do agricultor é necessário que ele possa evoluir também em seus conhecimentos técnicos para que deixe de utilizar técnicas antiquadas que contribuem para a baixa produtividade e desgaste do solo.. justa.Formas de exploração da terra As propriedades agropecuárias podem ser exploradas diretamente pelo proprietário ou indiretamente pelo: *parceiro ou meeiro – aquele que utiliza as terras do proprietário e divide com este a produção obtida. com juros reduzidos. o volume de recursos à disposição para o agricultor não tem conseguido atender a todos e muitas vezes foi mal distribuído e desviado de suas reais finalidades (construção de hotéis-fazenda. .. Historicamente. é o ocupante. *grileiro – falsifica títulos de propriedade e vende terras que também não são suas Problemas enfrentados pela agropecuária no Brasil: *reduzido aproveitamento dos espaços disponíveis – muitas terras no Brasil não apresentam qualquer forma de utilização. traz segurança e tranqüilidade ao produtor. *arrendatário – aquele que paga um aluguel ao proprietário pelo uso da terra. no Brasil. embalagens. ferramentas. *nível de mecanização – o avanço da mecanização na agricultura vem ocorrendo especialmente no Centro-Sul do país. ou são mesmo analfabetos. Ocupa terras que não são suas. mão-de-obra) como na colheita (máquinas. irracional. *crédito rural e preços mínimos – para que o agricultor possa produzir ele precisa de uma linha de financiamentos. Melhorar o padrão de cultura da população é importante e. A sua aplicação indiscriminada. mão-de-obra. Deve ser introduzida de maneira planejada e deve ser estimulada como uma forma de permitir ao produtor a competitividade para sobreviver no mercado. piscinas em mansões rurais. equipamentos de irrigação. *posseiro – aquele que utiliza terras que encontra vazias para uma produção de subsistência. traz problemas como um desemprego acelerado no campo e até mesmo intensificação da erosão do solo. Na última década o Brasil conseguiu evoluir nessa questão e além disso tem aumentado o percentual de agricultores capitalizados o suficiente para bancar seu próprio empreendimento. combustível. *baixo nível de instrução e cultura do agricultor – grande parte dos que trabalham na terra tem um nível de instrução muito baixo. A adoção de uma política de preços mínimos. para fazer frente aos gastos tanto no plantio (sementes. Parte do crescimento de nossas safras agrícolas tem dependido da incorporação de novos espaços a esse setor produtivo mas ainda podemos ampliar e muito o espaço agrícola do país. adubos. fertilizantes. desde que não se concentre apenas em uma prática de subsídios que onerem o Estado e dificulte a capacidade de evolução da competitividade da agropecuária brasileira (como ocorre em países europeus).

consolidando-se no Centro-Sul do país e estendendo-se pelo Nordeste e Amazônia. Assim. o que leva a perdas significativas da colheita e a prejuízos ao agricultor. Em 1985. enquanto se incentivava também a ocupação do cerrado por grandes propriedades exportadoras (como a produção de soja. A grilagem de terras contribuiu para agravar a revolta social no campo brasileiro. com a melhoria da qualidade na . A formação de grupos armados por fazendeiros para proteção de suas terras (legais ou griladas) e a expansão das fronteiras agrícolas brasileiras contribuíram para definir um quadro de violência e ilegalidade nas áreas rurais. nem sempre os recursos suficientes para uma intensificação desse processo. é importante frisar que uma Reforma Agrária não pode parar simplesmente no ato de redistribuição de terras.*armazenamento e transporte . organizados ou não. Mas ainda permanecem problemas na armazenagem (deficiente e/ou insuficiente. Caso ele tivesse acesso a uma capacidade maior de armazenagem. Preocupada com o aumento da produtividade. de responsabilidade do Estado. Ao mesmo tempo em que avança a execução do PNRA (ainda que não seja a Reforma Agrária desejada por alguns setores da sociedade) avança a moderna produção agroindustrial. por exemplo). assim como a redistribuição de terras. Os que permaneceram no campo engrossaram movimentos sociais. Nas últimas décadas a continuidade desse processo associado à modernização agrícola (expansão da mecanização) e à pressão por uma agricultura cada vez mais capitalizada expulsou muitos trabalhadores do campo que se dirigiram para as cidades no movimento migratório do êxodo rural. A desapropriação de terras improdutivas que não estejam cumprindo sua função social está sendo feita. mas deve garantir condições mínimas para que o camponês pobre possa produzir: linhas especiais e subsidiadas de financiamento. O ritmo dessa reforma é contestado por alguns que a julgam lenta e tímida. multiplicando-se casos de invasões de propriedades. Juntam-se a todos esses atores alguns setores progressistas da Igreja e grupos políticos ideologicamente de uma esquerda mais radical (revolucionários) que também defendem seus pontos de vista e interferem na questão. no início de redemocratização do país. A atuação do INCRA durante os governos militares preocupou-se mais com a colonização agrícola de áreas vazias do território nacional (como a Amazônia) do que com a redistribuição de terras. muitas vezes massacrados na luta com os brancos. muitas vezes inapropriados para guardar a safra) e no transporte inadequado. com falta de silos e armazéns. Vale lembrar que existem interesses conflitantes nessa questão e. incluindo-se aí a invasão de terras indígenas. não precisaria escoar toda a sua produção imediatamente para o mercado e poderia conseguir um melhor preço posteriormente. *distribuição de terras – historicamente o modelo econômico adotado pelo Brasil e as legislações criadas favoreceram a formação de grandes propriedades através de um processo de concentração de terras. a necessidade pela execução de uma reforma agrária no país foi se tornando urgente e inadiável. estímulo à formação de cooperativas e criação de centros de apoio para armazenagem. assim como a presença de posseiros preocupados com sua sobrevivência e de sua família. o governo de José Sarney cria o Ministério da Reforma Agrária e a Constituição promulgada em 1988 contempla um Plano Nacional de Reforma Agrária. Além disso.a safra agrícola tem conseguido recordes de produção. treinamento e qualificação de mão-de-obra. transporte e comercialização da produção. conflitos e mortes nas áreas rurais.

Grande parte da produção é exportada no momento de entressafra para os países do hemisfério norte. a principal área de produção é o sul da Bahia. de amplo consumo interno. rebanhos melhorados. muitas vezes com produção insuficiente para abastecê-lo. São Paulo é o líder da produção nacional. *cacau – com dificuldades para manter posição de destaque no mercado externo. No entanto. mas com uma produtividade menor e a um custo mais elevado. Estamos apresentando aumento no total colhido. com destaque para o Mato Grosso. O problema de geadas em terras paulistas e paranaenses deslocou esse cultivo mais para o norte. *trigo – talvez o maior problema em nossa produção agrícola porque 2/3 do mercado interno continuam sendo abastecidos com o trigo importado da Argentina e EUA. *laranja – o Brasil disputa com os EUA a liderança mundial e é grande exportador.produção agropecuária e com ganhos de competitividade busca expandir seus mercados externos e enfrenta a prática protecionista de muitos mercados como o europeu e o norteamericano. *cana – o Brasil também costuma aparecer como o maior produtor mundial e um grande exportador de açúcar. especialmente para o próprio mercado norte-americano. Minas Gerais é o maior produtor nacional. Foi o cultivo de maior expansão nas últimas décadas do século XX. pode ser encontrado do sul ao norte do país. O Brasil é um dos maiores produtores mundiais. *uva – destaca-se a área de produção das Serras Gaúchas. bem como melhoria de . na região de Ilhéus e Itabuna. *arroz – importante alimento para abastecer o mercado interno. com maior produção no Centro-Sul do país. a grande expansão da cana a partir de meados da década de 1970 se deveu a criação do Pró-álcool que levou a cana a ocupar grandes extensões no Estado de São Paulo. É grande produtor mundial de vários produtos. É cultivado em simples roçados e também em grandes propriedades mecanizadas. O Centro-Oeste tem se tornado a principal área de cultivo. controle rigoroso do rebanho e até mesmo o polêmico cultivo de trasngênicos. O Brasil chega a ser o maior produtor ocidental desse gênero agrícola. Novas áreas de produção em climas mais quentes permitem um aumento da colheita do trigo no país. pesquisas agropecuárias. o maior produtor nacional. não só pelas pessoas mas também utilizado como ração animal. Essa moderna agropecuária tem se preocupado com o uso progressivo de sementes selecionadas. Principais produtos agrícolas O Brasil apresenta atualmente uma produção agrícola muito diversificada. As áreas mais recentes de produção estão no Centro-Oeste e Amazônia. *algodão – a produção é crescente para um mercado interno também em expansão. invadindo o Centro-Oeste e até a Amazônia. Observe o mapa com a produção agrícola e veja alguns destaques: *milho – é o principal produto de nossa agricultura. *soja – o maior produto agrícola de exportação do país. especialmente na indústria têxtil. informatização no campo. *café – o Brasil continua sendo o maior produtor e exportador mundial e procura atualmente melhorar a imagem de qualidade do café que produz e exporta para conquistar novos mercados mais seletivos. com destino para a produção de vinho. Cultura afetada pela praga da vassoura-de-bruxa que levou produtores do cacau a partirem para outros empreendimentos.

qualidade, indispensável para vendas externas de vinho. Além desses produtos podemos lembrar do feijão (MG-SP), importante alimento para o mercado interno, a mandioca, a banana (Vale do Ribeira) além da maior produção de frutas tropicais. Principais rebanhos brasileiros A pecuária brasileira começa a ser reconhecida como de boa qualidade. Os investimentos que estão sendo progressivamente realizados para livrar o rebanho de doenças como a febre aftosa e o comprometimento de rebanhos na Europa (como o mal da vaca-louca) têm levado a ampliação de alguns e a conquista de novos mercados de exportação (analistas indicam que o Brasil deve se tornar o maior fornecedor internacional nos próximos dez a quinze anos). Os principais rebanhos brasileiros são os de bovinos, suínos, ovinos e caprinos. Observe o mapa com a distribuição geográfica dos principais rebanhos no Brasil: *bovinos – na pecuária de corte destacam-se as regiões dos Pampas Gaúchos, oeste paulista e Triângulo Mineiro. Pecuaristas de outras áreas de criação preocupam-se em melhorar a qualidade de seu rebanho. Na pecuária leiteira podemos destacar Minas Gerais (várias áreas de criação, especialmente o sul do Estado), São Paulo (Vale do Paraíba, São João da Boa Vista, Araras, Mococa) e Rio de Janeiro (Vale do Paraíba e norte do Estado); *suínos – apresenta significativos ganhos de qualidade e especialização (mais carne e menos gordura, melhor higienização nos locais de criação, cuidados veterinários, selecionamento dos animais) o que tem permitido a busca de um aumento nas exportações dessa carne; *ovinos – o Brasil não tem destaque mundial. A maior parte do rebanho é encontrada no Rio Grande do Sul; *caprinos – também sem grande destaque mundial é uma criação que está evoluindo qualitativamente. Boa parte do rebanho, rústico, pode ser encontrada na Região Nordeste. Podemos também destacar o rebanho de eqüinos, especialmente em Minas Gerais e bubalinos (Ilha de Marajó, Pantanal e Vale do Ribeira). O Brasil parece apresentar condições favoráveis para a criação de búfalos e pode se tornar um grande criador mundial. O Brasil tem um dos maiores rebanhos de asininos e muares e é um dos maiores criadores de aves no mundo.

Estrutura Fundiária e os Conflitos de Terra
Alimentar com seus frutos é o que a agricultura brasileira vem fazendo há mais de quatro séculos, infelizmente sem a harmonia sugerida pela letra da bela canção transcrita ao lado. Como vimos, a agricultura brasileira sempre esteve entre as principais atividades econômicas do país. Mas o Brasil não se tornou uma potência agrícola, pois alguns dos maiores problemas sociais brasileiros estão centralizados no campo, como a estrutura fundiária marcada pela concentração de terras, os conflitos pela posse da terra e as relações desiguais de trabalho. Uma distribuição Irregular de terras

À forma como as propriedades rurais estão distribuídas, segundo suas dimensões, denominamos estrutura fundiária. A principal característica da estrutura fundiária brasileira é o predomínio de grandes propriedades. As origens dessa distribuição desigual de terras em nosso país estão em seu passado colonial. As capitanias hereditárias, que inseriram o Brasil no sistema colonial mercantilista, foram os primeiros latifúndios brasileiros: a colônia foi dividida em quinze grandes lotes entre doze donatários. A expansão da lavoura açucareira no litoral manteve o latifúndio como uma de suas características, ao lado da monocultura e da escravidão da mâo-de-obra africana no sistema de plantation voltado para a exportação. Portanto, a ocupação das terras brasileiras aponta para uma acentuada concentração de terras. Foi a Lei de Terras, promulgada em 18 de agosto de 1850, que praticamente instituiu a propriedade privada da terra no Brasil, Ao determinar que as terras públicas ou devolutas (ociosas) só poderiam ser adquiridas por meio de compra, essa lei limitou o acesso à posse de terras a quem tivesse recursos para satisfazer essa condição. Dessa forma, imigrantes europeus recém-chegados, negros libertos e pessoas sem recursos ficaram sem direito às terras livres, que foram compradas por abastados proprietários rurais. Com o passar do tempo, essa desigual distribuição de terras acabou gerando conflitos cada vez mais violentos e generalizados entre proprietários e não proprietários. As décadas de 1950e 1960 marcaram o surgimento de organizações que lutavam pêlos direitos dos trabalhadores rurais. Entre elas, podemos citar as ligas camponesas e a Confederação Nacional dos Trabalhadores do Campo (Contag). Membros do regime militar (1964-1985), preocupados com o descontentamento social no campo, elaboraram um conjunto de leis para tentar controlar os trabalhadores rurais e acalmar os proprietários de terras. Essa tentativa deu-se através de um projeto de reforma agrária para promover uma distribuição mais igualitária da terra, que resultou no Estatuto da Terra, cujos pontos principais veremos a seguir. Em 1993, durante o governo do presidente Itamar Franco, a Lei n" 8 629 reafirmou que a terra tem de cumprir uma função social. Foram definidos novos conceitos referentes às dimensões e classificações dos imóveis rurais. Com base no conceito de módulo rural foi utilizado o conceito de módulo fiscal. Segundo o Incra, Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, vinculado ao Ministério do Desenvolvimento Agrário, entende-se por módulo fiscal a unidade de medida expressa em hectares, fixada para cada região, considerando os seguintes fatores: - Tipo de exploração predominante no município. - Renda obtida com a exploração predominante. - Outras explorações existentes no município que, embora não sejam predominantes, são significativas em função da renda e da área utilizada. - Conceito de propriedade familiar, O tamanho do módulo fiscal varia de região para região, pois depende de alguns fatores, como as características do clima de cada área ou região. Ainda, segundo a Lei n° 8 629, ficou assim a classificação dos imóveis rurais quanto ao tamanho: - Minifúndio. O imóvel rural com área inferior a um módulo fiscal. - Pequena propriedade. O imóvel rural de área compreendida entre um e quatro módulos fiscais. - Média propriedade. O imóvel rural de área superior a quatro e até quinze módulos fiscais. - Grande propriedade. O imóvel rural de área superior a quinze módulos fiscais. Características da estrutura fundiária brasileira

A análise dos dados expressos nos gráficos abaixo nos mostra as principais características da estrutura fundiária no Brasil. Existe uma absurda concentração de terras em nosso país, onde poucos latifúndios ocupam a maior parte da área total brasileira e o grande número de minifúndios não chega a ocupar 2% dessa área. Como consequência temos um grave quadro socioeconômico: - Poucas propriedades rurais (43 956) com 1000 hectares ou mais concentram mais de 50% da área total do país. Geralmente, uma grande concentração fundiária pode gerar terras ociosas e improdutivas porque seus donos aguardam melhores preços para arrendá-las ou vendê-las (estão concentradas nas regiões Norte e Centro-Oeste). - Muitas propriedades rurais (947 408) não chegam a possuir 2% da área total, inviabilizando, muitas vezes, o plantio de algum produto. A despesa com sementes pode ser maior que o montante obtido com a colheita. - Êxodo rural como consequência da mecanização em algumas grandes propriedades rurais no Centro-Sul e entre os pequenos proprietários, porque produzem pouco, ficam endividados e não têm capital para investir. - Aumento do número de desempregados e subempregados que migram para as periferias das cidades e acabam ocupando áreas de mananciais. E o fato mais grave: o aumento dos conflitos sociais no campo. Mais de 50% dos conflitos de terra no Brasil ocorrem, respectivamente, nas regiões Nordeste e Norte. São regiões de grande concentração de propriedades rurais e de imóveis improdutivos, onde muitas vezes a polícia é mal preparada e mal equipada e os latifundiários impõem sua vontade às leis. Porcentagem da área improdutiva por região Outro triste exemplo da violência no campo são os assassinatos ocorridos entre 1986 e 1996, segundo a Comissão Pastoral da Terra (CPT), o Incra e o Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST). Soma-se a esse quadro brutal e desumano o uso improdutivo de muitas propriedades rurais que geram o ciclo: êxodo rural – desemprego -violência. A porcentagem dos imóveis improdutivos no Brasil mostra a necessidade urgente de uma política agrícola e de uma reforma agrária que contemple os trabalhadores rurais excluídos. As relações de trabalho no campo Geralmente encontramos entre os trabalhadores rurais brasileiros baixos indicadores socioecon&micos, como elevada natalidade, elevado analfabetismo, pequena qualificação profissional e baixa remuneração. Além disso, eles sofrem com a falta de cumprimento da legislação trabalhista por parte de alguns patrões e o elevado número de acidentes com ferramentas, como facões. Quanto mais distantes das principais cidades e capitais, mais tensas são as relações sociais no campo. O trabalho assalariado temporário é a forma predominante no Brasil. O predomínio do trabalho assalariado é consequência do processo capitalista (capitalização da atividade agrícola) que, por um lado, aumenta a produtividade rural (máquinas, irrigação, sementes selecionadas) e, por outro, dispensa o trabalhador residente ou permanente (aumento do número de assalariados). Tivemos no Brasil uma grande redução das modalidades tradicionais de trabalhadores rurais (permanentes, residentes, colonos e parceiros) e o

aumento de trabalhadores temporários sem vínculo empregatício. Geralmente, eles recebem no fim do dia pelo serviço prestado, trabalhando no plantio ou na colheita de canade-açúcar, laranja ou café. Moram na periferia das cidades onde os aluguéis são menores. Recebem a denominação de peões na região Norte, corumbás, nas regiões Centro-Oeste e Nordeste e bóias - frias nas regiões Sul e Sudeste. Outras formas de trabalho no campo Trabalho familiar. Realizado geralmente nas pequenas e médias propriedades rurais de subsistência. A falta de capital para investir na lavoura e as secas periódicas têm aumentado o número de trabalhadores familiares que abandonam o campo e migram para as periferias das cidades, onde se tornam trabalhadores temporários. Uma exceção entre os trabalhadores familiares é encontrada nas áreas vizinhas dos grandes centros urbanos (cinturões verdes) porque conseguem vender sua produção para os centros de abastecimento, redes de supermercados, feiras livres e até em carros ou caminhões que percorrem as ruas dessas cidades. Arrendamento. Forma de utilização da terra destinada ao cultivo ou à pastagem, que o proprietário arrenda (aluga) a quem tem capital para explorá-la. E comum no interior de São Paulo um grande proprietário arrendar propriedades menores vizinhas para o cultivo da cana-de-açúcar. Parceria. Forma de utilização da terra em que o proprietário dispõe de sua terra para um terceiro (o parceiro) que a cultiva. Em troca, o parceiro entrega ao proprietário parte de sua colheita. A forma de obter a propriedade da terra fez surgir duas figuras que estão frequentemente envolvidas nos conflitos pela terra: o posseiro e o grileiro. Posseiro. Indivíduo que tem a posse da terra e nela trabalha sem, porém, possuir o título de propriedade. Grileiro. Pessoa que toma posse da terra de outros, usando para isso falsas escrituras de propriedade. O peão, trabalhador volante mais recente que o bóia fria, é muito utilizado nas regiões de fronteiras agrícolas, sobretudo em projetos agropecuários da Amazônia. É "contratado" por um intermediário (gato) para trabalhar em regiões distantes, com promessas de salários, alojamento e alimentação. Quando recebe o pagamento, aparecem os "descontos": custos de transporte, alimentação, hospedagem, etc., quase nada restando do seu salário, chegando, às vezes, a ficar devendo. Muitas vezes jagunços e pistoleiros são contratados para evitar a fuga de trabalhadores, reproduzindo uma situação de escravidão (peonagem).

EVOLUÇÃO DO AGRONEGÓCIO BRASILEIRO, DESAFIOS E PERSPECTIVAS

Joaquim César Emanoel carlosadm2006@gmail.com

Carlos Barbosa

de

Lourenço Lima

(MAPA. it was used of bibliographical boardings that the historical evolution demonstrates. Restrição logística. identifying its situation in the world-wide scene. since it presents many advantages of the natural and economic point of view. Todo esse cenário brasileiro atual do agronegócio enquadra-se em uma evolução que remonta ao século XVI. além de elevada tecnologia utilizada no campo. Contudo as perceptivas do Agronegócio são bastante promissoras. dos quais 90 milhões ainda não foram explorados. passando pelo ponto onde houve um maior impulso ate chegar à posição de destaque que é o de ser uma das maiores potências mundiais do Agronegócio. utilizou-se de abordagens bibliográficas que demonstra a evolução histórica. Crescimento econômico. 2007). For this. Com isso.net/cursecon/ecolat/br/ Introdução O cenário atual aponta que o Brasil será o maior país agrícola do mundo em dez anos. Hoje um dos maiores entraves para o deslanchamento do setor é a logística de infraestrutura do país. Logistic restriction. desafios e perspectivas" en Observatorio de la Economía Latinoamericana. podendo o país explorar melhor suas potencialidades. Today one of the biggest impediments for the deslanchamento of the sector is the logistic one of infrastructure of the country. 2009. energia solar abundante e quase 13% de toda a água doce disponível no planeta. O agronegócio é hoje a principal locomotiva da economia brasileira e responde por um em cada três reais gerados no país. o setor apresenta restrições e desafios que ameaçam sua permanência entre os maiores na atividade.Resumo Este estudo teve por objetivo mostra como se deu a evolução do Agronegócio brasileiro. 2005). (BORGES. Com um clima diversificado. O artigo tem como objetivo geral identificar o cenário atual do agronegócio brasileiro. Para isso. identificando a sua situação no cenário mundial. como celeiro mundial em termos de agronegócio. o país possui 22% das terras agricultáveis do mundo. Abstract This study it had for objective sample as if it gave the evolution of the Brazilian agribusiness. Although the positive numbers. Key Words: Agribusiness. Para citar este artículo puede utilizar el siguiente formato: Carlos Lourenço y Barbosa de Lima: "Evolução do agronegócio brasileiro. e como objetivos específicos mostrar a sua evolução. passing for the point where it had a bigger impulse ties to arrive at the prominence position that is of being one of the biggest world-wide powers of the agribusiness. eficiente e competitivo no cenário internacional. However the percipient ones of the agribusiness are sufficiently promising. the sector presents restrictions and challenges that threaten its permanence enter the greaters in the activity. Segundo Rodrigues (2006). Esses fatores fazem do país um lugar de vocação natural para a agropecuária e todos os negócios relacionados à suas cadeias produtivas. being able the country to explore its potentialities better. chuvas regulares. Texto completo en http://www. Economic growth. dados estes que fazem do agronegócio brasileiro um setor moderno. faz-se mister ressaltar seus antecedentes históricos até o cenário atual. por meio de uma pesquisa bibliográfica. O agronegócio brasileiro é uma atividade próspera. . Palavras-Chave: Agronegócio. no contexto mundial atual. Apesar dos números positivos. O Brasil situa-se. segura e rentável. suas restrições e desafios. o Brasil tem 388 milhões de hectares de terras agricultáveis férteis e de alta produtividade.eumed. Número 118. já que ele apresenta muitas vantagens do ponto de vista natural e econômico.

o pau Brasil. extrapolou os limites físicos da propriedade. 2009). os fabricantes de fertilizantes. 2004). Foi à exploração de uma madeira. Este tipo de produção agrícola também é chamada de agribusiness ou agrobusiness. processamento e distribuição dos produtos agrícolas e itens produzidos a partir deles'. o agronegócio como sendo 'a soma total das operações de produção e distribuição de suprimentos agrícolas. até chegar ao consumidor final. Assim. No Brasil. médios ou grandes produtores. dois pesquisadores americanos reconheceram que não seria mais adequado analisar a economia nos moldes tradicionais. se fundamentam na propriedade latifundiária bem como na prática de arrendamentos. o transporte da produção e as atividades voltadas à distribuição. segundo Batalha (2002). Costuma-se dividir o estudo do agronegócio em três partes. com setores isolados que fabricavam insumos. defensivos químicos. Na segunda parte. Depende cada vez mais de insumos adquiridos fora da fazenda e sua decisão de o que. A ocupação do território brasileiro iniciada durante o século XVI e apoiada na doação de . via de regra. do armazenamento. sejam eles pequenos. Wedekin e Pinazza (1990). equipamentos. empacotadores. deslocando o centro de análise de dentro para fora da fazenda. com suas implicações sociais. O termo inclui todos os setores relacionados às plantações e às criações de animais. políticas e culturais. as indústrias agrícolas. inclusive o agricultor. está fortemente relacionada ao mercado consumidor. em uma permanente negociação de quantidades e preços. as propriedades rurais. Davis e Goldberg (1957) definem. o que correspondia ao equivalente a 32% do PIB brasileiro em 1980. A agricultura moderna. com seus elos entrelaçados e sua interdependência. Estes negócios. Este conceito procura abarcar todos os vínculos intersetoriais do setor agrícola. O conceito de agronegócio implica na idéia de cadeia produtiva. A primeira parte trata dos negócios agropecuários propriamente ditos (ou de "dentro da porteira") que representam os produtores rurais. Em 1957.Agronegócio Agronegócio também chamado de agribusiness. é o conjunto de negócios relacionados à agricultura dentro do ponto de vista econômico. representados pela indústrias e comércios que fornecem insumos para a produção rural. (JUNIOR PADILHA. como comércio de sementes e de máquinas e equipamentos. têm fortes raízes junto ao agronegócio. caracterizada pela agricultura em grande escala. as empresas de processamento e toda a distribuição. que deu nome definitivo ao nosso País. Estes autores concluíram que o agribusiness brasileiro representava 46% dos gastos relativos ao consumo das famílias. Já para Callado (2006). Histórico e Evolução do Agronegócio Brasileiro A história econômica brasileira. ou de "pós-porteira". estão os negócios à jusante dos negócios agropecuários. os abatedouros. processavam os produtos e os comercializavam. substituindo a análise parcial dos estudos sobre economia agrícola pela análise sistêmica da agricultura. essa abordagem sistêmica foi utilizada explicitamente por Araújo. Há diferentes agentes no processo produtivo. No Brasil o termo é usado quando se refere a um tipo especial de produção agrícola. o Agronegócio é toda relação comercial envolvendo produtos agrícolas. transporte. baseada no plantio ou na criação de rebanhos e em grandes extensões de terra. na terceira parte. etc. as indústrias têxteis e calçadistas. A definição correta de agronegócio é muito mais antiga do que se imagina e incorpora qualquer tipo de empresa rural. o agronegócio é um conjunto de empresas que produzem insumos agrícolas. mesmo a familiar. Por exemplo. constituídos na forma de pessoas físicas (fazendeiros ou camponeses) ou de pessoas jurídicas (empresas). supermercados e distribuidores de alimentos. E. beneficiamento e venda dos produtos agropecuários. Enquadram-se nesta definição os frigoríficos. com a finalidade de levantar as dimensões básicas do agribusiness brasileiro. quanto e de que como produzir. das operações de produção na fazenda. ( WIKIPÉDIA. onde estão a compra. os negócios à montante (ou "da pré-porteira") aos da agropecuária.

dispõe de produtores rurais experimentes e capazes de transformar essas potencialidades em produtos comercializáveis e detém um estoque de conhecimentos e tecnologias agropecuárias. da carne bovina. mão-de-obra acessível e diversas questões ligadas à conjuntura internacional. Por qualquer ângulo que se analise o mercado. Atualmente. o salto será de 58% para 66%. por sua vez. A evolução da composição do Complexo do Agronegócio confirma que as cadeias do agronegócio adicionam valor às matérias-primas agrícolas onde o setor de armazenamento. proporcionando o domínio de regiões antes consideradas “inóspitas” para a agropecuária. com o desenvolvimento da Ciência e Tecnologia. a soja ganha destaque como principal commodity brasileira de exportação. Até 2015. produtos oriundos do complexo de soja. no início do século. Em síntese. A extinção do pau-brasil coincidiu com o início da implantação da lavoura canavieira. que durante esse período serviu de base e sustentação para a economia. as evoluções devem ser muito maiores. No caso do frango. as funções de armazenar. gradativamente. açúcar e álcool. transformadoras de recursos em produtos. como a cana-de-açúcar. frutas e derivados. Na suinocultura. de suínos e aves. Isso fez surgir à oferta de um grande número de produtos. a ser um especialista. fica evidente que. processamento e distribuição final constituem o vetor de maior propulsão no valor da produção vendida ao consumidor. com maior intensidade na de 1960 até a de 1980. o Brasil deve quadruplicar sua participação. Antes da expansão deste sistema monocultor. O processo de colonização e crescimento está ligado a vários ciclos agroindustriais. planas e baratas. algodão e fibras têxteis vegetais. 2006). Nas áreas em que o país ainda tem uma fatia pequena do comércio mundial. com grande desenvolvimento no Nordeste. de acordo com previsões dos especialistas da área. 2007). Da poupança da agricultura. foram transferidas para organizações produtivas e de serviços nacionais e/ou internacionais fora da fazenda. a partir da década de 1930. O Brasil detém terras abundantes. (RENAI. fumo. a borracha dá exuberância à região amazônica. (VILARINHO. com isso. transformando Manaus numa metrópole mundial. O agronegócio brasileiro passou por um grande impulso entre as décadas de 1970 e 1990. como são os cerrados com uma reserva de 80 milhões de hectares. celulose e outros). como a do vinho e dos móveis. ainda mais a indústria de base agrícola. a exploração da madeira nas serras e a agricultura se desenvolvem com a participação das várias etnias que compõem o mosaico populacional da região. a suinocultura . "Num futuro próximo. 2006). hortaliças. chamando a atenção de todos os nossos parceiros e competidores em nível mundial. logo depois o café torna-se a mais importante fonte de poupança interna e o principal financiador do processo de industrialização. chá. consolidado na forte rede de interligação entre a agricultura e a indústria.terras por intermédio de sesmarias. impulsionando. cereais e derivados e a borracha natural são itens importantes da pauta de exportação brasileira (VILARINHO. A pecuária domina os pampas. tabaco. a participação nacional no mercado internacional de soja deve crescer dos atuais 36% para 46%. já havia se instalado no país como primeira atividade econômica a extração do pau-brasil. Perspectivas Para o Agronegócio Brasileiro Para Contini (2001). bem como as de suprir insumos e fatores de produção. o país é visto por muitos especialistas como principal candidato ao posto de grande fornecedor alimentício global. madeira (papel. processar e distribuir produtos agropecuários. instalam-se agroindústrias. conquistando metade do mercado internacional. O país passou então a ser considerado como aquele que dominou a “agricultura tropical”. como farto espaço territorial. café. monocultura da cana-de-açúcar e no regime escravocrata foi responsável pela expansão do latifúndio. O progresso do Sul do Brasil também está ligado ao agronegócio. envolvido quase exclusivamente com as operações de cultivo e criação de animais. o produtor rural passou. as perspectivas são promissoras. por exemplo. Por conta de condições extremamente favoráveis para a contínua expansão deste mercado. o tamanho que o Brasil adquiriu no campo do agronegócio é impressionante. mais recentemente. carnes e derivados de animais.

o crescimento do superávit do ano 2000 até 2007 foi de 235% no período.737 bilhões. ou 26% do PIB (29%. os setores da agricultura. 2007). o resultado é 12. representa a geração de U$ 6. Principalmente em regiões menos desenvolvidas. No contexto da recente crise cambial.639 US$ 39. Estes são pontos que reforçam a importância do agronegócio no Brasil.366 bilhões.103 bilhões. o beneficiamento/processamento das matérias-primas e a distribuição dos produtos. A agricultura contribuiu decisivamente para as exportações com saldo comercial setorial positivo da ordem de US$ 40. saldo acumulado é de US$ 19.799 US$ 4. No aspecto social. . Pecuária e Abastecimento.400 Importações US$ 5. ao redor de 17 milhões de pessoas. não se pode esquecer que esta tem capacidade limitada de absorver mão-de-obra.848 US$ 34. além de sua grande competitividade. 2009) A Tabela mostra o superávit do agronegócio brasileiro. abrangendo o suprimento de insumos. (CONTINI. É o setor que ocupa mais mão-de-obra em relação ao valor de produção: para cada R$ 1 milhão.400 US$ 69.700 US$ 11. (CNA.881 US$ 5.7 bilhões em 2007. 2001). de janeiro a maio deste ano.49% menor do que o registrado no mesmo período de 2008. era de 182 para a agropecuária. no Brasil.811 US$ 19.015 US$ 42.000 US$ 52.791 US$ 4.700 US$ 58.134 US$ 37.86 US$ 8. Enquanto as exportações renderam US$ 24.863 US$ 24. em torno de R$ 350 bilhões. a agricultura é o setor econômico que ainda mais ocupa mão-de-obra. 38 para a construção civil. 2007 apud SEIBEL. da agroindustrialização e de áreas correlatas serão importantes para o crescimento da renda e do emprego.492 US$ 4. as importações chegaram a US$ 4. 25 para a extração mineral. já sentindo os efeitos da crise.200 Saldo US$ 14. 2009). No entanto. 2007). A maior parte deste montante refere-se a negócios fora das porteiras. Tabela 1 – Balança comercial do agronegócio brasileiro (US$ bilhões) Período 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 Exportações US$ 20. utilização de alta tecnologia e gerador de empregos e riquezas para o país.CNA). um crescimento espetacular do setor.000 US$ 40. O agronegócio como um todo envolve mais de 1/3 do PIB brasileiro. no total. Mesmo reconhecendo-se os benefícios da transformação de uma sociedade agrária para uma industrial-urbana.será tão importante para a balança comercial do país quanto são hoje o frango e a carne bovina” (NETO.610 US$ 23. De acordo com os números. No mundo.847 US$ 4. em 1995. Importância Econômico-Social do Agronegócio Brasileiro O agronegócio é também importante na geração de renda e riqueza do País. O agronegócio é o maior negócio mundial e brasileiro.040 US$ 58. (RENAI. segundo a Confederação Nacional da Agricultura . o agronegócio tem sido um fator que minimizou os desequilíbrios das contas externas do Brasil. (Ver Tabela1). 2002).000 US$ 11.839 US$ 30.180 US$ 49. Apesar do saldo.5 trilhões/ano e. representa 27 milhões de pessoas. o número de ocupados.347 US$ 25.016 US$ 20.200 Fonte: Mapa (Ministério da Agricultura. a balança comercial do agronegócio teve uma queda de 0.18 bilhões de dólares em 2006 e de 49. que somados a 10 milhões dos demais componentes do agronegócio. evidenciando que o setor tem participação importante para o equilíbrio de nossas contas.53% do Produto Interno Bruto (PIB) do agronegócio no primeiro trimestre de 2009. (STEFANELO.

Em 2006 as exportações cresceram 19. (PAC. apenas 10% de sua capacidade total. ferrovias. elaborada pela CNT Confederação Nacional do Transporte (2007). açúcar. Na certeza que só as Parcerias Público-Privada. dos 84. embora tenham recebido investimentos com a privatização. não será suficiente para dotar o país de bom infra-estrutura. portos e canais de irrigação nos próximos anos. 37% encontram-se em estado péssimo de conservação e outros 32% possuem alguma deficiência. Ainda de acordo com a mesma fonte. cujas deficiências são responsáveis por prejuízo correspondente a 16% do PIB. as perspectivas acompanham as já anunciadas para o Brasil. depois de ultrapassar tradicionais concorrentes. De acordo com uma das pesquisas mais recentes sobre o assunto. Embora a privatização tenha contribuído para a modernização dos portos. O gargalo logístico envolve praticamente toda a infra-estrutura de transporte do país. carne bovina e de frango. O país é líder mundial de exportação de açúcar. caso dos 42 mil quilômetros de hidrovias. em que apenas 10 mil quilômetros são efetivamente utilizados. suco de laranja e soja. O agronegócio é justamente o que mais sofre com a ineficiência dos canais de transporte. O objetivo do programa é aumentar o investimento em infra-estrutura para: eliminar os principais gargalos que podem restringir o crescimento da economia. o excesso de mão-de-obra (que chega a ser de três a nove vezes superiores aos portos europeus e sul-americanos) ainda mantém os padrões de produtividade baixos. com 2.8% acima dos US$ 52. Consciente de que sozinho não conseguirá reverter esse quadro.832 quilômetros avaliados. correm sérios riscos de sofrer um pesado revés se os problemas relacionados à infra-estrutura logística . o Brasil será o maior país agrícola do mundo em dez anos. Desafios do Agronegócio no Brasil Segundo indicadores da (Unctad). Ao mesmo tempo. que pretende investir R$ 13. a Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento. Além da ampliação da malha de 30 mil quilômetros de extensão (praticamente igual a do Japão. um aumento de 10. sistemas como o do Tietê-Paraná. 2007). reduzir custos e aumentar a produtividade .68 bilhões em 23 projetos de reformas em rodovias. regiões com potencial no agronegócio. Um dos grandes entraves é a infra-estrutura. nos portos brasileiros essa média é de 27. a ampliação em 2007 foi de cerca de US$ 58.29% em relação a 2005. Esse montante coloca o Brasil entre os líderes mundiais na produção de soja. escoa apenas 2 milhões de toneladas de carga/ano. Por meio do plano de Parceria Público-Privada. (BORGES. É um dos motivos pelos quais todos os anos caminhões formam filas de até 150 quilômetros de extensão para descarregar suas cargas no porto de Paranaguá (PR). de que o agronegócio pode sair dessa melhor do que entrou. Em razão desse tipo de problema. 2007). café. 2009). café. país 22 vezes menor que o Brasil) é urgente a modernização do maquinário. o governo federal já busca o apoio da iniciativa privada. Enquanto o índice internacional de movimentação é de 40 contêineres/hora. Como resultado.Quando os efeitos da crise passar. como Estados Unidos e Austrália. ainda não conseguiram deslanchar. assim como as expectativas futuras. como o Nordeste. milho.4 bilhões. Essas boas posições devem consolidar-se ainda mais nos próximos anos.4 mil quilômetros e que consumiu US$ 2 bilhões em investimentos públicos em vários governos. Mas todos esses bons resultados. deixamos de fazer uso de canais de transporte de grande potencial. em termos de saldo. em particular a precariedade da malha rodoviária do país. foi concebido para eliminar esse descompasso e afastar o risco de gargalos nos próximos anos. a velocidade média das composições não ultrapassa lentos 25 km/h.04 bilhões de 2006. segundo estudo do Centro de Estudos de Logística da Universidade do Rio de Janeiro. Com os trens e bitolas atuais. (BORGES.o maior obstáculo para o desenvolvimento do agronegócio do Brasil. o Governo Federal criou o (PAC) Programa de Aceleração do Crescimento lançado no começo de 2007. As ferrovias. ainda estão longe de suprir a demanda do setor de agronegócio e se consolidar como uma alternativa viável ao transporte rodoviário. não forem solucionados. No transporte marítimo de cabotagem (outro canal com grande potencial no Brasil) assistimos a uma situação semelhante. Assumiu também a dianteira nos segmentos de carne bovina e frango.

O agronegócio se tornou o setor chave para que o Brasil se inclua no comercio mundial. Apesar das grandes vantagens encontradas no agronegócio brasileiro e das suas boas perspectivas futuras. mas podem ser superados. é indiscutível a importância do agronegócio à nossa economia. na redução do tráfego e desgaste das rodovias. a iniciativa privada ainda tem muito a contribuir para o desenvolvimento da infra-estrutura do país. os obstáculos para o crescimento do agronegócio brasileiro são imensos. fluvial e aéreo) para redução de custos e aumento do nível de serviços. Como nossos concorrentes. o que aumenta os custos de produção.das empresas. . substituindo 600 carretas de 30 toneladas nos eixos Cuiabá (MT) / Santos (SP) e Cuiabá (MT) /Paranaguá (PR). Isso sem falar da economia de combustível e de fretes. além dos recursos. Um exemplo do potencial desses pólos é representado por um estudo do Geipot (Empresa Brasileira de Planejamento em Transportes. o agronegócio brasileiro sofreu com o surto de gripe aviária. essencialmente. Além do embargo à carne bovina. Para ilustrar o que estamos falando. com diminuição da carga e simplificação dos procedimentos na tributação. Outro obstáculo sério ao desenvolvimento pleno do agronegócio está relacionado ao sistema tributário. incentivando a criação de pólos intermodais de transporte (integração entre os sistemas rodoviário. A reforma tributária é urgente. têm impostos baixos. Os investimentos em Infra-Estrutura logística do PAC previstos até 2010 são de R$ 58 bilhões de reais. o mesmo encontra muitos problemas e desafios a serem superados que dependem. estimular o aumento do investimento privado. e reduzir as desigualdades regionais. Mesmo assim. basta destacar que um único comboio na hidrovia Rio Madeira tem capacidade para 18 mil toneladas de grãos. inclusive no Mercosul. quanto a iniciativa privada. que prejudicou as exportações mesmo de países que não registraram casos da doença (como o Brasil). os obstáculos para o crescimento do agronegócio brasileiro são imensos. é que tanto o governo nas esferas federal. bem como de mudanças nas políticas econômicas internas. poderia ser ainda maior se houvesse políticas sérias agrárias e de infra-estrutura. ligada ao Ministério dos Transportes). o SAI brasileiro ocupa lugar de destaque entre os países produtores de alimento no mundo. tornando-os mais competitivos no mercado internacional. ferroviário. segundo Seibel (2007) mais de 50 países impuseram embargo à carne bovina desses estados. a carga tributária deve ser compatível com a dos nossos competidores. Com uma economia aberta ao exterior. Considerações Finais Como se observa. aumentar os atuais e com mecanismos complexos de arrecadação. mas as soluções também existem e precisam ser colocadas em prática. e resolva os problemas domésticos para que o pais se torne a potência do agronegócio do futuro. Como se vê. Por causa do surgimento de focos de febre aftosa em Mato Grosso do Sul e no Paraná. que estão entre os maiores produtores nacionais. mantenham a sua determinação em modernizar a infra-estrutura brasileira. Essa redução dos custos de transporte contribuiria diretamente para reduzir os custos de nossos produtos. estadual e municipal. É preciso destacar também que. a empresa alertava que o melhor aproveitamento e a utilização racional dos canais de transporte seria capaz de economizar em cerca de US$ 75 milhões os custos anuais de escoamento de grãos. de investimentos tanto públicos como privados. O potencial de prejuízos que isso pode acarretar aos produtores já foi demonstrado nos últimos anos. Além das medidas de controle sanitário que também estão na relação de assuntos importantes que vêm sendo negligenciados pelo governo. vezes há que perde o próprio mercado interno porque os produtos importados chegam mais baratos. isto é com possibilidade de exportar e importar qualquer produto do agronegócio. O que esperamos. Não há como o produtor rural e a agroindústria serem competitivos com governos vorazes em criar novos impostos. Como se vê. fica difícil ao produtor brasileiro competir nos mercados externos. Muito embora o potencial de comércio do agronegócio brasileiro seja muito grande. Já em 2000. marítimo.

L. O grande desafio do agronegócio no http://www. contigencialmente não tem passado de engodo da velha política brasileira. como o NE brasileiro. Cunha. Disponível em: < CONFEDERAÇÃO DA AGRICULTURA E PECUÁRIA DO BRASIL . Acesso em: 16 dez. Munoz. do PPP.Ministério da Agricultura. ao longo dos anos. que discute com a iniciativa privada a reconstrução da malha logística do Brasil em todos os segmentos modais. Os juros bem como as altas taxas de importação de aparatos agrícolas vêm. entretanto.agricultura. através. 2001.com. 135 p. 1957. CARDOZO. A. Complexo agroindustrial: o agribusiness brasileiro.CNA. Pinazza.br>. Mário Otávio. 238p. Goldberg. Cabe. Logo. imensa disponibilidade de água doce e energia renovável e sua capacidade empresarial. BORGES. Disponível em: < BRASIL . São Paulo: Agroceres. R. 2. nas diretrizes corretas fomentadas pelo Estado e na vertiginosa capacidade privada de produzir de racionalizar e de fazer.2009. o país precisa resolver problemas estruturais.2009. Brasil.empreendedorrural. C. o agronegócio brasileiro é persistente e. Disponível em: < http://www. Alardear o potencial do agronegócio brasileiro é o que tem sido feito pelo poder público. Referências ARAÚJO. potencial de produção. fazendo do agronegócio o nosso maior negócio. Nas contingências atuais. Acesso em: 06 fev. Contudo. apesar desses obstáculos. . por exemplo. Gestão agroindustrial. 1990. H.: "Desafios de logística nas exportações brasileiras do complexo agronegocial da soja" en Observatorio de la Economia Latino americana. 1. B. Dinamismo do Agronegócio Brasileiro. Disponível em: < http://www. BATALHA.br/site/agencia/>.gov.. ainda.br>. Além do mais. incremental e aplicação de políticas mais flexíveis e ágeis de crédito ao setor agrário.2008. CALLADO. São Paulo: Atlas. as políticas econômicas impedem que o rendimento seja maior e os problemas de logística geram custos elevados. 2006.com. ao Estado brasileiro promover a modernização de máquinas e equipamentos que dá suporte ao desenvolvimento da boa performance do campo. DAVIS. N. J. y Mauch Palmeira. E.br/artigos/artigo>. se faz necessário a criação de políticas públicas urgentes voltadas à infra-estrutura do país. http://www. deve-se calcar na viabilidade produtiva.Cabe ainda lembrar que para o Brasil se tornar a grande potência mundial do agronegócio. São Paulo: Atlas. Número 71. Isto implica dizer que as nossas vantagens como terras abundantes. buscar soluções práticas e definitivas..2009. já passou da fase de discussão. estrategicamente suplanta qualquer problema. Antonio A.agronline.2009. climas favoráveis. de fato. a articulação. Acesso em: 09 jul. Boston: Harvard University. pois somos competitivos em algumas cadeias produtivas e em outras não.net/cursecon/ecolat/br/>. Elisio. Agronegócio. Wedekin. 2006. A. que dê sustentabilidade continuada ao setor. Altamiro. CONTINI.cna. Pecuária e Abastecimento (MAPA). Acesso em: 09 jan. restringindo a inserção de novas tecnologias e/ou tecnologias de ponta à agricultura de determinadas regiões.org. cresce sua participação no mercado internacional. ed. ed. I. com que os investimentos se tornarem lucros financeiros e socialmente. Se faz necessário ainda. Acesso em: 09 jan. Disponível em: <http://www. A concept of agribusiness.eumed.

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doc Salvar no Google DocsEditar ArquivoVisualizar Visualizar Salvar no Google Docs Download Imprimir (PDF)ENTRE O TUTORIAL E O PARTICIPATIVO: A ABORDAGEM DE INTERVENÇÃO NA ESTRATÉGIA DE AÇÃO DO BANCO DO NORDESTE1 .Vídeos Mapas Notícias Livros Tradutor Acadêmico Blogs Em tempo real e muito mais » Configurações .Docs | Fazer login Entre o tutorial e o participativo.

Maria Odete Alves2 Lucimar Leão Silveira3

RESUMO

Analisam-se os aspectos da abordagem de intervenção utilizada pelo Banco do Nordeste do Brasil S.A, ao implementar uma estratégia de apoio ao pequeno produtor rural nordestino, além dos efeitos de um programa específico de capacitação inserido na mesma estratégia (Projeto Banco do Nordeste/PNUD), no nível de participação de associados na gestão e nos processos decisórios das organizações associativas. Verifica-se a existência de um processo em que há delineamentos de duas abordagens distintas: a) uma primeira etapa, com base no estímulo ao associativismo, cuja ação é tipicamente tutorial b) uma segunda etapa, através de um programa de capacitação inserido na mesma estratégia, ocorrendo de forma simultânea e dirigido ao mesmo público, contemplando uma ação ativa dos grupos para os quais se dirige, com características da intervenção participativa. Há um avanço na consciência dos sócios submetidos ao processo de capacitação, quando assumem que a participação não se refere apenas à qualidade de membro do grupo, mas significa tomar parte ativa nas decisões, planejar e executar determinada ação. Apesar dos avanços, a participação ainda se apresenta em nível micro, pois não se percebe uma intervenção dos indivíduos no sentido de modificar a sociedade.

Termos para indexação - estratégias de intervenção, intervenção pública, desenvolvimento rural,

participação.

Artigo apresentado no XXXVI Congresso da Sociedade Brasileira de Economia e Sociologia Rural, Poços de Caldas, 1998. Enga Agrônoma, pesquisadora do BNB/ETENE e mestranda em Administração Rural e Desenvolvimento pela Universidade Federal de Lavras (UFLA), CP 37, CEP 37.200-000 - Lavras - MG. 3 MS pela UFMG, professor do Departamento Educação da Universidade Federal de Lavras (UFLA), CP 37, CEP 37.200-000 - Lavras - MG.

1

1. A PARTICIPAÇÃO POPULAR NOS PROJETOS GOVERNAMENTAIS

As propostas de participação do povo em projetos governamentais surgiram após a Segunda Guerra

Mundial, inseridas numa proposta de Desenvolvimento de Comunidade (DC), cujo objetivo

institucionalizado pela Organização das Nações Unidas (ONU) seria solucionar problemas de integração de

esforços da população a planos regionais e nacionais de desenvolvimento econômico e social.

Estudo realizado por Ammann (1987) acerca do DC dá conta de que sua proposta, na prática,

consistia na implementação de programa de assistência técnica e social nos países subdesenvolvidos,

sobretudo da América Latina.

As primeiras propostas de DC no Brasil surgem no final dos anos 40. O apoio oficial se dá no

sentido de incrementar a produção de alimentos e a educação rural e industrial, reproduzindo o modelo

americano de extensão rural. Apesar de proclamar a participação popular como ingrediente necessário ao

processo de desenvolvimento nacional, o DC apresenta o conceito de participação de forma muito vaga e,

na prática, se afirma como instrumento do Estado para favorecer o consentimento espontâneo das classes

subordinadas às estratégias por ele definidas (Ammann, 1987).

Este método de intervenção passou a sofrer severas críticas, principalmente a partir da década de 70,

devido aos fracassos acumulados em termos de resposta aos problemas de exclusão social. Nesse período

surgiram abordagens alternativas, tendo como fundamento a participação consciente do povo no seu próprio

desenvolvimento e a prática da educação (Alencar, 1990). Esta outra visão de desenvolvimento sugere

mudanças no eixo do planejamento, desde as altas esferas de decisão até a localidade onde os agentes do

meio podem envolver-se plenamente nas decisões de sua comunidade.

Nos últimos anos, embora de forma tímida, algumas agências estatais têm caminhando no sentido dessa outra visão de desenvolvimento, a exemplo do Banco do Nordeste, que desde o início dos anos 90 vem promovendo algumas mudanças no processo de intervenção. A proposta deste trabalho surge, então, do interesse em fazer uma análise desse novo processo de intervenção, bem como verificar alguns dos seus efeitos na prática. A análise realizada apóia-se nos trabalhos de Oakley (1980) e Alencar (1990), que tratam das abordagens de intervenção convencional e educação participativa, e naqueles desenvolvidos por Ammann (1987), Bordenave (1987) e Demo (1993),

que fundamentam o conceito de participação.

2. A INTERVENÇÃO DO BANCO DO NORDESTE DO BRASIL (BNB)

O BNB é um órgão auxiliar para gestão e execução de políticas de crédito do Governo Federal.

Criado em 1952, tem a missão de contribuir para o desenvolvimento sustentável do Nordeste do Brasil,

promover a integração econômica regional com a economia brasileira e internacional e redução das

desigualdades regionais (Banco do Nordeste, 1993). A partir de 1967 torna-se o principal repassador de

recursos do Banco Central (BC) para a região Nordeste (Gondim et al., 1991).

Em 1991 Gondim et al. propõem ao Banco do Nordeste uma estratégia de apoio ao pequeno produtor

o documento sugere algumas medidas. é formado pela alocação de 1. dentre as quais. FNE: Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste. 1993).rural da Região. em particular. . Assim.8% do total arrecadado do Imposto de Renda e do Imposto sobre Produtos Industrializados. os recursos do FNE4. alegando a falta de uma estratégia adequada para apoiar essa categoria de produtores. em complemento ao suprimento creditício. nesse ano constata-se uma grande concentração do crédito em mãos de grandes produtores. acentuada a partir de 1990 com o início da operacionalização do referido Fundo. O documento reconhece que os resultados da ação do Banco junto aos pequenos produtores rurais têm sido frustrantes. em que o associativismo é o instrumento para implementação. Criado pela Constituição de 1988. o desenvolvimento de um programa de capacitação técnica para os pequenos produtores rurais. É atualmente a principal fonte de que dispõe a Instituição para financiar as atividades produtivas da Região (Banco do Nordeste. Implícita no documento se observa a preocupação principal em dar maior capilaridade ao crédito fornecido pela Instituição.

enquanto os membros do grupo exercem um papel passivo. por ele denominada de convencional ou “tutorial” e a abordagem “educação participativa”. ou seja. As duas abordagens apresentam diferenças metodológicas fundamentais no que diz respeito à unidade social para a qual se dirige a ação. as estratégias de intervenção são lineares. Na abordagem “ educação participativa” o agente externo passa a ter um papel de educador: . Alencar (1990) estabelece um paralelo entre duas abordagens de intervenção no meio rural: aquela normalmente utilizada nas políticas tradicionais. A INTERVENÇÃO NO MEIO RURAL: O CONFRONTO ENTRE DUAS ABORDAGENS Com base em estudos publicados a partir da década de 70.2 3. bem como aos papéis atribuídos aos agentes externos e ao público alvo. A comunidade é vista como um sistema social homogêneo. Na abordagem “tutorial” o agente externo é o responsável pelo diagnóstico da realidade e pelo estabelecimento de meios para solucionar os problemas detectados.

sendo vista então como um grupo internamente diferenciado. que requer tratamento diferenciado. Os membros do grupo responsabilizam-se pelo diagnóstico da realidade. promove a organização inicial dos grupos identificados e orienta a identificação dos problemas. pelo estabelecimento de meios para solucioná-los e pela avaliação das ações executadas. fundamentada em Paulo Freire. 1980. . Nessa abordagem a comunidade deixa de ter estrutura homogênea. para quem a conscientização não significa simplesmente a tomada de consciência da realidade ou “estar frente à realidade”. O processo de educação utilizado na abordagem “educação participativa” é fundamentado na conscientização.identifica os grupos com interesses comuns.26). pois “Implica que os homens assumem o papel de sujeitos que fazem e refazem o mundo” e só existe quando há o ato “ação-reflexão-ação” (Freire. p. A partir dos resultados da avaliação o próprio grupo assume a responsabilidade de buscar novas ações.

por parte dos membros do grupo. o que contribui para o aumento do seu poder de barganha. identificando as possíveis causas e propondo soluções. de curso de ações para lidar com os problemas com os quais se defrontam. e conduz à identificação de problemas. 4.estruturação do grupo e controle que os membros do grupo possuem sobre sua organização ou estrutura. desenvolvendo ações que visem à solução dos problemas. na tomada de decisões. 4) solidariedade predisposição dos indivíduos em cooperar dentro do grupo.desenvolvimento da consciência da realidade por parte dos 3 indivíduos e dos grupos. 2) participação envolvimento ativo dos indivíduos na identificação dos problemas e de suas causas. PARTICIPAR É CONTRIBUIR PARA A CONSTRUÇÃO DA SOCIEDADE .Oakley (1980) identificou no processo de “educação participativa” cinco subprocessos fundamentais e interrelacionados: 1) faculdade crítica . planejamento e execução de ações para solucioná-los. à capacidade dos indivíduos para analisá- los. 3) organização . 5) articulação - estabelecimento.

A participação é concebida como uma necessidade básica. Em cada nível e em cada caso. O que quer dizer que existe uma diferença entre as dinâmicas da microparticipação em grupos primários e associativos e da macroparticipação na luta social e política de grandes massas (Bordenave.O entendimento da intervenção na perspectiva de educação participativa requer algumas considerações sobre a natureza e o conteúdo do processo participativo. no entender de Ammann (1978) e Bordenave (1987). no entanto. 1987). É através dela que uma comunidade é estimulada a buscar seu próprio espaço. ocorre quando há a intervenção das pessoas nos processos dinâmicos que constituem ou modificam a sociedade. não nasce sabendo participar. . a dinâmica da participação será diferente. as diversas forças e operações que constituem a dinâmica da participação devem ser apreendidas e dominadas pelas pessoas. a fazer valer seus direitos e a lutar pela transformação da estrutura social. A macroparticipação ou participação social. A participação é uma habilidade que se aprende e se aperfeiçoa. A pessoa. Isto é.

. participação imposta (quando o indivíduo é obrigado a fazer parte do grupo e exercer certas atividades consideradas . na busca do próprio espaço de participação.. o processo de construção de uma sociedade participativa se inicia na aprendizagem do dia-a-dia na família. sempre se 4 fazendo. na comunidade etc. um processo no sentido legítimo do termo: “. Neste sentido. nisto mesmo começa a regredir”. em constante vir-a-ser.) a participação é em essência autopromoção e existe enquanto conquista processual. na tentativa de defender interesses individuais ou coletivos mais imediatos.A participação social não é algo acabado. infindável. p. na escola..18): é um processo de conquista. Participação que se imagina completa. Não existe participação suficiente. nem acabada. participação espontânea (no grupo de amigos. como coloca Demo (1993. Bordenave (1987) classifica a participação em cinco tipos: participação de fato (é o primeiro tipo de participação do indivíduo).. (. de vizinhos etc)..

as paróquias. pois a participação.indispensáveis). encerra em si mesma uma contradição e um potencial de conhecimento da realidade. embora concedida. as associações profissionais etc. da capacidade de tomar decisões e de adquirir poder. de modo a criar uma “ilusão de participação” política e social. Contudo. de crescimento da consciência crítica. Este faz parte da ideologia necessária para o exercício do projeto de direção-dominação. as cooperativas. que decidem sobre a organização. que objetiva manter a participação do indivíduo e dos grupos restrito a relações sociais primárias. como o local de trabalho. participação voluntária (o grupo é criado pelos próprios participantes. a vizinhança. mesmo o planejamento participativo tem seu lado positivo. Este autor cita como um exemplo típico de participação concedida o “planejamento participativo” implantado por alguns organismos oficiais. objetivos e métodos de trabalho) e participação concedida (a parte de poder ou de influência exercida pelos subordinados e considerada legítima por eles mesmos e seus superiores). Na medida em que .

a estratégia de apoio ao pequeno produtor e o Projeto Banco do Nordeste/PNUD5. a estabelecer rodízio no poder. e não para o aumento da dependência. cujo fenômeno básico é o controle do poder. a exigir prestação de contas. a forçar os mandantes a servirem à comunidade. Entretanto. pois coloca em julgamento seu poder e privilégios. não se deve perder de vista que a participação terá a constante oposição das classes dirigentes. 1993). para a análise do item 6. poder-se considerar a participação como o exercício da democracia. pois através dela aprende-se a 5 eleger. recorreu-se a publicações e documentos do Banco do Nordeste que orientam o FNE. 5. Daí. a deseleger. a desburocratizar.1..2. a dados de uma . qualquer oportunidade de participação constitui um avanço e não retrocesso.se aproveitem as oportunidades de participação para tal crescimento. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS A coleta de informações foi dividida em duas partes distintas: para a análise realizada no item 6. e assim por diante (Demo.

Nesta etapa utilizou-se o Experimento: tomaram-se os dados da pesquisa Survey e procedeu-se a um corte entre o grupo . junto a 70 entidades (35 cooperativas e 35 associações) e 910 produtores rurais nordestinos associados dessas organizações. cooperativas de crédito e associações atendidas no âmbito do PROGER7. Utilizou-se nessa pesquisa uma população selecionada através de amostragem probabilística estratificada. além dos atributos: organizações atendidas pelo Projeto Banco do Nordeste/PNUD. cooperativas de eletrificação/telefonia rural. cooperativas de irrigação. 59 organizações (26 cooperativas e 33 associações) e 687 produtores não haviam recebido o apoio do Projeto até o momento da pesquisa. realizada entre dez/94 e nov/95. Portanto. Os produtores vinculados a tais organizações e atendidos pelo mesmo Programa perfaziam um total de 158. As organizações atendidas pelo Projeto Banco do Nordeste/PNUD.pesquisa do tipo Survey6. correspondiam a 9 cooperativas e 2 associações. quando foram utilizados questionários estruturados específicos para cada categoria. do total de entrevistados.

A INTERVENÇÃO: DA ABORDAGEM AOS EFEITOS . tabulados e analisados os dados dos grupos 6. tomando-se por base os valores absolutos para posterior comparação. Foram então selecionadas todas as variáveis relacionadas com a participação dos associados na gestão e no processo decisório da organização: 1) participação na organização social. 4) participação no uso de bens e prestação de serviços. formado pelos não expostos ao processo (denominado de DEMAIS ou não-capacitados).experimental. 2) participação na PNUD: Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento 6 gestão administrativa. (capacitados e não-capacitados). representado pelas organizações e associados expostos ao processo de capacitação através do Projeto (aqui denominado de PNUD ou capacitados) e o grupo de controle ou testemunha. Em seguida foram segregados. 3) participação na gestão econômico-financeira.

3% e 64.7%. 68.1. que receberam nos anos de 1990/92. a partir da necessidade da própria Instituição de promover uma melhor distribuição do crédito do FNE.1%. 20.6%. para uma pequena participação no número de beneficiários (3.4%: 2. respectivamente. respectivamente).3%.6.5% e 96.8%. 45. Assim. até então concentrado na categoria dos grandes produtores. A estratégia elaborada elegia o associativismo como o instrumento para dar maior capilaridade ao crédito fornecido pela Instituição. 94. A abordagem de intervenção na estratégia de ação do Banco do Nordeste A estratégia de apoio ao pequeno produtor foi elaborada pelo Banco do Nordeste. a partir do ano de 1992. . respectivamente). receberam no período apenas 38.1%. 1995). os pequenos produtores apesar de constituírem a maioria nos anos de 1990/92 (86.6%. Enquanto isso. dos recursos do FNE (Valente Junior et al. respectivamente. ao passar a vigorar essa política.0% e 2. o crédito associativo passou a desfrutar de algumas vantagens comparativamente ao crédito direto8.7% e 22. do crédito do FNE.

7 mostra que. 66% das organizações pesquisadas existiam antes de 1992. Relatório de pesquisa realizada entre 1995/96 para avaliação da Estratégia Banco de dados existente no ETENE . 7 Programa de Fomento à Geração de Emprego e Renda. além de criarem condições de acesso ao crédito por parte dos pequenos produtores nordestinos. 1993). favoreceram sobremaneira o surgimento de novas cooperativas e associações de pequenos produtores rurais na Região.As modificações promovidas nos programas do FNE.Escritório Técnico de Estudos Econômicos do Nordeste. para servir de ponto de apoio para as ações daquela Instituição (Banco do Nordeste. e 34% se . Órgão do Banco do Nordeste do Brasil responsável pelos estudos e pesquisas que dão suporte à formulação de políticas regionais. A nível de aparato administrativo foi criada. no Departamento de Desenvolvimento Rural. pela data de constituição. uma Divisão de Cooperativismo (Divisão de apoio ao pequeno produtor e ao associativismo-COOPE). 8 Foi introduzida nos programas do FNE a concessão de subsídios adicionais a pequenos produtores que buscassem crédito via organização associativa e a cooperativas/associações que apresentassem planos integrados de desenvolvimento. bem como o crescimento do número de associados por organização.

. 1994). busca desenvolver o caráter empresarial das ..6% e 98. o projeto busca treiná-los para o planejamento. A metodologia GESPAR. sistemática de capacitação junto a tais organizações. quando foi criado o Projeto Banco do Nordeste/PNUD. bem como aos dirigentes de tais organizações (Banco do Nordeste. respectivamente). 1997). resultaram como condição prévia de acesso ao crédito (Giovenardi. O Projeto adota a Metodologia GESPAR9. sendo direcionado a pequenos produtores rurais nordestinos organizados em associações ou cooperativas. A implementação de ações de capacitação se deu a partir de 1993. através de convênio com o PNUD. 1993a).constituíram após aquele ano. 1995). Constatou-se que as associações. em sua grande maioria. tendo absorvido 55. a gerência e o controle dos seus empreendimentos (Banco do Nordeste.6%. “. Observou-se também que a partir de 1993 ocorreu uma reversão no processo de concentração do crédito. a organização..4% dos recursos do Fundo (Valente Junior et al. segundo Zapata10. Os pequenos produtores continuaram sendo a maioria em 1993/94 (94.3% e 69.

treinamentos e monitoração (Goni. Tânia. mas facilita o Metodologia GESPAR: Gestão Participativa para o Desenvolvimento Empresarial. . Para Goni (1995. p.Organizações e o sentido de ‘pertencer’ dos sócios. na metodologia GESPAR o capacitador processo. cursos. 1995). produção e comercialização. Para tal. a instrumentalização do grupo: “É papel do capacitador facilitar o desabrochar das idéias.05). seminários. sua priorização e sistematização”. preparada pela reflexão e pelo diálogo. cuja conseqüência é o conhecimento que o indivíduo passa a ter da realidade e o comprometimento com as ações desenvolvidas. Fundamenta-se na sensibilização. p.27). ZAPATA. Apresentação. In: GONI (1995. instrumentalizando-os através do planejamento estratégico e da gestão participativa para que suas organizações tenham sustentabilidade no ambiente e assim contribuam para a melhoria da qualidade de vida das famílias”. são realizadas oficinas de apoio à gestão. Através de ação integrada e não capacita.

na organização. no controle”(Goni.8 No processo em que se busca envolver os produtores em todas as atividades. 1995. desenvolvidos planos integrados. são realizados diagnósticos dos empreendimentos e. p. a metodologia postula que o envolvimento dos produtores nas atividades tem por base o entendimento da participação como sendo o ato de “fazer parte... nos quais estão inseridos projetos gerenciais e propostas de crédito (Banco do Nordeste.16) os produtores exercem um papel ativo. ter parte.7). Ser Parte no planejamento. 1993a). Segundo Goni (1993. p. tornando-se responsáveis pelo diagnóstico da realidade e pela busca de soluções para os problemas detectados: o próprio indivíduo vai “identificar e analisar os elementos relevantes no Sistema para estabelecer um Diagnóstico e abrir perspectivas de intervenção e mudança”. A participação dos associados nas organizações associativas: efeitos do Projeto Banco do Nordeste/PNUD .2. a partir deles. tomar parte. 6. na direção. Ainda.

se verifica. no grupo DEMAIS.1. em nível de igualdade (Valadares. 1995).6. Esse crescimento pode significar maior peso dos associados nas decisões a partir do voto. em relação a 1990. TABELA 1. Participação do associado na organização social da Entidade A freqüência dos associados às atividades de sua Organização cresceu em ambos os grupos no ano de 1994. Embora a freqüência do grupo PNUD seja maior em todas as atividades no ano de 1994. Freqüência dos sócios às atividades da organização associativa ATIVIDADE Assembléias Gerais Ordinárias Assembléias Gerais Extraordinárias Reuniões de Núcleos de Base Reuniões Seccionais FONTE: Banco de Dados BNB/ETENE 1990 . A Assembléia Geral constitui-se na instância em que é exercido o poder dos associados na Organização. um crescimento bem mais expressivo no mesmo período (TABELA 1).2.

Absoluto 245 181 40 35 % 36 26 6 5 DEMAIS 1994 Vr. Absoluto 535 403 76 88 94/ 90 % .Vr.

% Absoluto 99 63 76 48 23 15 10 6 78 59 11 13 118 123 90 151 PNUD 1990 .% Vr.

Absoluto 33 104 36 13 1994 94/ 90 % % 84 66 23 8 34 37 57 30 9 Os associados do grupo PNUD utilizam-se em maior proporção que os DEMAIS. de todos os .Vr.

veículos de comunicação disponíveis. Em ambos os grupos a pesquisa revelou que é alto o número de associados que se preocupa em estar a par dos acontecimentos de sua Organização (TABELA 2). TABELA 2. Veículos de comunicação utilizados pelo associado para se informar sobre as ocorrências relativas à sua organização associativa TIPOS Conversas informais Meios de comunicação social Meios de comunicação empresarial Visitas à Entidade Reuniões Outros Nenhum FONTE: Banco de Dados BNB/ETENE DEMAIS Vr. Absoluto 334 86 17 315 430 .

5 3.5 % 56 17 12 54 60 12 .12 24 PNUD Vr. Absoluto 88 27 19 86 95 19 8 % 49 13 2 46 63 1.

pela queda de 22% para 16. Daí a resistência por parte dos dirigentes . em relação ao grupo DEMAIS. Mesmo assim. do percentual de associados sem opinião formada ou que não responderam sobre a forma pela qual os dirigentes procuram envolvê-los nas decisões. os dados correspondentes ao grupo PNUD são ilustrativos do desenvolvimento da “faculdade crítica” dos associados. de crescimento da consciência crítica.quanto a envolver os membros nas decisões. na medida em que revelam o aumento da percepção que estes têm da realidade em que vivem. 1987). Participação pressupõe abertura de oportunidades de conhecimento da realidade.5 Na tabela a seguir (TABELA 3).5%.segundo a percepção dos associados . o que justifica o fato do alto percentual de membros (45% dos “não capacitados” . que pode refletir a ideologia necessária para o exercício do projeto de direção-dominação. é importante observar que o próprio título pressupõe a existência da participação “concedida” conforme prevista por Bordenave (1987). o que significa uma ameaça ao poder estabelecido dentro da organização (Bordenave.

10 TABELA 3. Absoluto 225 312 150 687 % 33 45 .e 47% dos “capacitados”) atribuírem a tais dirigentes o conceito de regular a ruim. Conceito do associado sobre os dirigentes de sua organização associativa quanto ao envolvimento dos associados nas decisões CONCEITO Ótimo/Bom Regular/Ruim Não possui opinião formada/ Não responderam TOTAL FONTE: Banco de Dados BNB/ETENE DEMAIS Vr.

2. quando se comparam os dados dos dois grupos.22 100 PNUD Vr. É perceptível a diferença entre ambos.5 47 16.5 100 6. quando 18% destes tomam parte do planejamento das áreas de capacitação e . Participação do associado na gestão administrativa da Entidade Observando-se a TABELA 4 é possível identificar alguns traços do que Oakley (1980) denominou de subprocessos da Educação Participativa. quanto à análise da realidade e identificação das possíveis causas dos problemas. Absoluto 57 74 27 158 % 36.2. a favor do grupo PNUD.

11 TABELA 4. aquisição de insumos e máquinas e implementos (47% cada) e comercialização (42%). ao se verificar que grande número de associados pertencentes ao grupo DEMAIS (64%). comercialização e aquisição de insumos. não participa do planejamento da Entidade. respectivamente.5% de membros do grupo DEMAIS. é insignificante a participação destes no planejamento de suas organizações associativas. 18% e 17% dos associados. Quanto ao envolvimento no planejamento das atividades como um todo. que despertam o interesse de 24%. também é perceptível a vantagem do grupo “capacitados”.assistência técnica da Organização. Com exceção das áreas de produção. No grupo PNUD é significativamente maior o número de associados que se preocupa com a forma como está sendo conduzido o planejamento dos diversos segmentos de sua Entidade. o interesse é bem maior no que diz respeito à produção (49%). contra apenas 3. Aí. Áreas de planejamento das organizações associativas em que ocorre participação do associado .

Humanos e materiais Definição de preços de revenda Não participa do planejamento FONTE: Banco de Dados BNB/ETENE DEMAIS Vr. técnica Propaganda e marketing Rec. Absoluto 164 124 118 91 58 44 25 1 5 33 .ÁREAS Produção Comercialização Aquisição de insumos Máquinas e implementos Armazenamento Benefic/industrialização Capacitação/assist.

7 5 64 .5 0.1 0.5 3. Absoluto 78 67 74 74 26 11 29 1 8 31 1 % 24 18 17 13 8 6.439 PNUD Vr.

ainda é maior a participação dos associados do grupo PNUD.5 Ocorre um retrocesso na questão do controle das atividades (TABELA 5). grande número de associados não participa das atividades de controle (78% entre os DEMAIS e 76% entre PNUD).5 5 20 0. comparativamente à questão do planejamento (TABELA 4). no que diz . Em ambos os grupos.demonstração de consciência dessa necessidade .% 49 42 47 47 16 7 18 0. embora com índices aquém do esperado.uma situação inversa é visível quando o assunto é controle. Porém. pois ao mesmo tempo que existe uma grande preocupação com o planejamento das atividades da organização .

os dirigentes). apesar de tomar parte do planejamento das atividades da Organização.respeito às atividades de controle realizadas pelas organizações associativas (TABELA 5). patronagem. Situações desta ordem. pode-se sugerir que existam resistências por parte dos dirigentes no sentido de envolver os sócios nas atividades de controle da Organização. na opinião de Oakley (1980) são propícias ao surgimento de 12 . os membros não assumem o seu controle de forma efetiva. partindo-se do pressuposto de que as atividades de controle dão certo nível de poder aos associados e. Assim. Por outro lado. indicativo de que existe certa dependência do grupo com relação aos líderes (no caso. levando-se em conta os dados constantes da TABELA 3 (47% dos componentes do grupo PNUD consideram os dirigentes de suas organizações de Regulares a Ruins quanto à preocupação em envolvê-los nas atividades). clientelismo ou outros traços comuns na intervenção tutorial.

Absoluto 75 63 87 36 35 533 % 11 9 13 5 5 .TABELA 5. Participação do associado nas atividades de controle da sua organização associativa TIPOS Custos Estoques Preços Qualidade dos produtos Qualidade dos serviços Não participa das atividades FONTE: Banco de Dados BNB/ETENE DEMAIS Vr.

Absoluto 33 3 34 15 10 120 % 21 2 21 9 6 76 6. Isso é uma demonstração de que é bem maior no primeiro grupo o nível de .3. Participação do associado na gestão econômico-financeira da Entidade Verifica-se que enquanto no grupo PNUD 16.2% (TABELA 6). no grupo DEMAIS esse percentual chega a 45.5% dos associados não possui opinião formada sobre o nível de transparência das informações contábeis de sua Entidade.2.78 PNUD Vr.

demonstrando maior nível de consciência crítica desenvolvido no primeiro grupo em relação ao segundo. o percentual dos que atribuem um conceito de Regular a Ruim ao nível de transparência das informações contábeis fornecidas pelos dirigentes de suas organizações associativas. Verifica-se também que é quase o dobro no grupo PNUD (44%). TABELA 6.6%). com relação aos DEMAIS (21.envolvimento dos sócios nesse tipo de atividade da Organização. Conceito do associado a respeito de seus dirigentes/organização associativa quanto ao nível de transparência nas informações contábeis CONCEITO Ótimo/Bom Regular/Ruim Não possui opinião formada Não respondeu Total FONTE: Banco de Dados BNB/ETENE GRUPOS DE ASSOCIADOS DEMAIS PNUD .

5 100 Apesar de ser elevado o nível de freqüência dos sócios nas assembléias. em ambos os grupos .2 687 100 158 % 39.Vr.5 44 16.2 26 22 3.6 69 311 45. Absoluto % Vr. Absoluto 206 30 63 148 21.

além de demonstrarem uma maior percepção da realidade por parte dos componentes do grupo . além dos 3% que se recusou a tratar do assunto. No grupo PNUD todos os associados entrevistados responderam quando questionados. Estes dados.5%). 13 Os dados da TABELA 7 revelam que é bem maior no grupo DEMAIS o percentual dos associados que sequer possui opinião formada sobre a ocorrência de prestação de contas/balanço de sua organização associativa (39.9%). o que corresponde ao dobro do percentual daqueles pertencentes ao grupo DEMAIS que atribuíram o mesmo conceito (22. No grupo PNUD 44% dos associados atribuiu aos dirigentes de suas organizações conceito de Regular a Ruim quanto ao nível de transparência nas informações contábeis. e apenas 13% se mostrou desinformado sobre a matéria. percebe-se que há um percentual bem maior de associados no grupo PNUD que efetivamente está a par do que acontece na Entidade e se preocupa com o controle do seu destino.(TABELA 1).

Absoluto 238 157 271 21 687 . Conceito do associado a respeito de seus dirigentes/organização associativa quanto à prestação de contas/balanço CONCEITO Ótimo/Bom Regular/Ruim Não possui opinião formada Não respondeu Total FONTE: Banco de Dados BNB/ETENE GRUPOS DE ASSOCIADOS DEMAIS Vr. significa também um reforço do que vem sendo identificado nos dados das tabelas analisadas anteriormente.PNUD. TABELA 7. de que há uma resistência dos dirigentes quanto a colocar os sócios a par dos acontecimentos da organização.

4. Participação do associado no uso de bens e prestação de serviços da Entidade A TABELA 8 apresenta o resultado da pesquisa quanto ao número de entidades que disponibiliza .PNUD Vr.6 22.5 3 100 % 43 44 13 100 6.2.9 39. Absoluto 68 69 21 158 % 34.

os associados do grupo PNUD demonstram certo interesse em participar do planejamento das áreas de capacitação e assistência técnica da Entidade. Os dados deixam transparecer traços do que sugere Bordenave (1987) a respeito do jogo do poder: capacitar os membros do grupo . exceto no que diz respeito à capacitação técnica gerencial. Ademais. é inferior ao do grupo DEMAIS (12%). aos seus associados.serviços aos associados nas áreas de assistência técnica gerencial e agronômica. Este dado é estranho. conforme revelam os dados da TABELA 4. No mínimo. bem como de capacitação técnica gerencial e tecnológica. Verifica-se que é maior o percentual de entidades do grupo PNUD que oferece os serviços mencionados. deveria haver uma preocupação por parte de tais dirigentes em ofertar os mesmos serviços aos seus associados. 14 considerando-se que a prioridade do Projeto Banco do Nordeste/PNUD está na capacitação técnica gerencial dos dirigentes das organizações associativas. cujo percentual (9%).

significa abrir para questionamentos destes sobre as decisões para dentro e para fora da organização. TABELA 8. Absoluto 3 16 7 5 PNUD Vr. técnica gerencial Assist. Absoluto 2 7 1 2 . Alguns serviços prestados pelas organizações aos seus associados Assist. que por sua vez geram conflito e fragilização do poder estabelecido. técnica agronômica Capacitação técnica gerencial Capacitação tecnológica FONTE: Banco de Dados BNB/ETENE SERVIÇOS DEMAIS Vr.

e dirigido ao mesmo público.. pelo menos no discurso contempla uma ação ativa dos grupos para os quais se dirige. que se apresenta inserido na mesma estratégia. 2) o programa de capacitação.% 5 27 12 8 % 18 64 9 18 CONSIDERAÇÕES FINAIS Percebe-se de forma clara a existência de um processo em que aparecem na estratégia de intervenção da instituição em questão. com características da intervenção participativa. delineamentos das duas abordagens descritas por Alencar (1990): 1) o estímulo ao associativismo. cuja ação se dá de forma tipicamente tutorial. .

15 A análise tentou aprofundar esta questão. A primeira constatação é que a intervenção tutorial de estímulo ao associativismo via concessão de crédito associativo provocou não apenas o crescimento do número de organizações associativas no Nordeste. buscando descobrir até que ponto a estratégia atinge os objetivos propostos. exercendo um papel passivo num processo cuja tendência é de reforço dos traços de dependência.O processo de capacitação. além de ter contribuído para o aumento da freqüência às assembléias realizadas em tais organizações. Tais resultados. não são suficientes para responder a questões do tipo: os associados estariam exercendo o controle democrático da organização? Estariam as assembléias funcionando como instância do exercício do poder do associado. encontra um grupo de indivíduos vivenciando uma experiência que se poderia denominar de “deseducação”. . porém. mas também do número de associados por organização. iniciado em fase posterior ao estímulo do associativismo.

pois o processo não ocorre de forma integral. que o crescimento se deu. aprovação de relatórios. . pois nada impede que seja passivo. com o objetivo principal de acesso ao crédito. como alertado por Demo (1993) tem controle relativo. quando assumem que a participação não se refere apenas à qualidade de membro do grupo. limitado. Deve-se admitir que o voto. da “solidariedade” e da “articulação”. conforme revelam os dados. Participar significa tomar parte ativa nas decisões. planejar e executar uma ação. Os dados revelam. em grande parte. porém. da “organização”. identificados por Oakley (1980). balanços etc? Maior número de votos em assembléias pode não significar necessariamente maior peso dos associados nas decisões. Percebe-se algum avanço na consciência dos sócios submetidos ao processo de capacitação. Não é percebido claramente o desenvolvimento nos membros do grupo PNUD da “faculdade crítica”. da “participação”. principalmente quando se sabe.ou como meros instrumentos formais para a obtenção de financiamento.

ou seja. transparece a resistência dos dirigentes de tais organizações quanto ao envolvimento dos sócios nas atividades.a participação social . Em outros momentos. em alguns momentos se percebe a existência de envolvimento ativo dos sócios nas tomadas de decisão dentro da sua organização associativa e na cobrança de ações por parte dos dirigentes. há uma ameaça ao poder estabelecido dentro da Organização. ou controle por parte destes sobre a Organização. pois não se percebe uma intervenção dos indivíduos no sentido de modificar a sociedade. nas decisões. Entretanto.como sugerem Ammann (1987) e Bordenave (1987). as atitudes deixam transparecer que ainda não há uma estruturação do grupo. Por outro lado. .um avanço neste sentido. conforme 16 A participação ainda se apresenta em nível micro. pois à medida que estes adquirem o conhecimento da realidade e a consciência crítica. porém. o que deveria ocorrer para que se efetivasse a participação no sentido macro .

pode-se considerar que o processo de capacitação contribuiu no sentido dessa construção. AMMANN. Jan. ____________________. v. 1993a.2. S. . 1987. BANCO DO NORDESTE. pois se verifica que os sócios das organizações buscam agora um espaço nas decisões. São Paulo: Cortez. Lavras-MG. Projeto BNB/PNUD. Fortaleza./jun.Fundo constitucional de financiamento do Nordeste. 1994. E. n. p. FNE . B. Impactos das aplicações. 1993. Administração Rural.23-43. na tentativa de defesa dos assuntos que lhes interessam. Informações Básicas sobre o FNE. que vai sendo construído e nunca se completa.1.tendo-se em mente o que coloca Demo (1993) que a participação é um processo de conquista. Exercício de 1993. ____________________. a partir de uma consciência crítica da realidade. BIBLIOGRAFIA ALENCAR. Fortaleza. 1990. Ideologia do desenvolvimento de comunidade no Brasil. Fortaleza.

84p. A. P. 1991 (mimeo). S. Oxford. Recife: 1995. 1987. São Paulo: Cortez. J. São Paulo: Moraes. Cadernos de 17 OAKLEY. FREIRE. (Coord. 176p. T.). Intervenção tutorial ou participativa: dois enfoques da extensão rural. J. Fortaleza: BNB.15. n. E. Community Development journal. Avaliação da estratégia de ação do Banco do Nordeste do Brasil em apoio ao pequeno produtor nordestino. 1980. Participação e poder: o comitê educativo na cooperativa agropecuária. GONDIM. N. GIOVENARDI. VALADARES. São Paulo: Brasiliense. P. M. H. p. 188p. DEMO. G. P. v. Uma estratégia de apoio aos pequenos produtores rurais do Nordeste. de. E. 1997. Brazil.10-22. O que é participação. COSTA.. O que é a Metodologia GESPAR? PROJETO BNB/PNUD. S.BORDENAVE. Participation in development in N. Fortaleza: Banco do Nordeste. Lavras: .1. P. SOUZA. P. Conscientização. 1993. E. H. Participação é conquista. 1980. GONI. 102p. D. J.

. C. Anais.. Curitiba: SOBER. p. M. 81p. 19 / 19 Nenhuma correspondência encontrada 1 2 3 4 5 6 7 . 1995. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE 18 Carregando. VALENTE JUNIOR. (Tese de Mestrado).. 1995. Estratégia de ação do Banco do Nordeste do Brasil junto ao pequeno produtor nordestino e distribuição do crédito do Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE): avaliação preliminar.. 1995.335-349.. 33. FILHO. dos S. v. 2v. A.1. Curitiba.UFLA. ALVES. ECONOMIA E SOCIOLOGIA RURAL.. S. O.

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