P. 1
Picadas de Cobra

Picadas de Cobra

|Views: 753|Likes:
Publicado porlumar_sharp9850

More info:

Published by: lumar_sharp9850 on Oct 29, 2011
Direitos Autorais:Attribution Non-commercial

Availability:

Read on Scribd mobile: iPhone, iPad and Android.
download as PDF, TXT or read online from Scribd
See more
See less

10/29/2011

pdf

text

original

Picadas de cobra

Instituto Vital Brazil Rua Maestro José Botelho, 64, Vital Brazil CEP: 24.230-410 - Cx Postal 100.028 Tel.: (21) 2711-9254 / 2711-9223 - Niterói.

A ineficácia do soro antiofídico contra a letalidade das toxinas da altirostris já havia sido demonstrada pela equipe da bióloga Maria de Fátima Furtado, pesquisadora do Instituto Butantan, em São Paulo. Isso acontece porque o soro é feito a partir de um coquetel de toxinas retiradas de serpentes do mesmo gênero, mas de diferentes espécies. No caso das corais, do gênero Micrurus, apenas os venenos das duas espécies mais comuns (Micrurus frontalis e Micrurus corallinus) entram na composição da mistura de venenos (pool) usada na fabricação do soro. O pool é injetado, em pequenas quantidades, em cavalos, dos quais o sangue rico em anticorpos formados em resposta às injeções de veneno é retirado para fabricação do soro. São notificados, anualmente, mais de 20.000 acidentes por serpentes peçonhentas no Brasil e mais de 2.000 somente no Estado de São Paulo. Bothrops (jararacas), Crotalus (cascavel), Lachesis (surucucu) e Micrurus (coral verdadeira) foram responsáveis por, respectivamente, 88,3%, 8,3%, 2,7% e 0,7% dos acidentes notificados no país, de junho de 1986 a dezembro de 1987, em que se fez referência ao gênero da serpente.

MICRURUS (CORAL VERDADEIRA)

Gênero Leptomicrurus renjifoi

Cobra coral O tratamento específico desses envenenamentos é realizado com soro eqüino contra venenos de serpentes do mesmo gênero da que causou o acidente. Exceto para Crotalus e para Lachesis, por só haver no Brasil uma espécie de cada, soros antiofídicos específicos para cada espécie não são disponíveis no país. As doses recomendadas foram, inicialmente, baseadas na estimativa da quantidade de veneno que a serpente poderia inocular e na capacidade neutralizante do soro mensurada por soroneutralização in vitro e posterior inoculação em animais de experimentação. Nas últimas décadas, baseou-se, também, em opiniões de médicos com experiência clínica não controlada. A quantidade de veneno que as serpentes inoculam durante o bote defensivo é estimada pelo quanto se pode extrair de exemplares da mesma espécie. Um erro, entretanto, pode advir do fato da quantidade de veneno que pode ser extraída pelo homem não ser necessariamente a mesma que a serpente consegue inocular. Após a estimativa da quantidade de veneno que pode ser inoculada, bastaria saber, para o tratamento do paciente, o volume de soro necessário para neutralizá-la8. Se a maior quantidade de veneno que se podia extrair, por exemplo, de Bothrops jararaca era cerca de 160mg, acreditava-se que um volume de soro suficiente para neutralizá-la seria suficiente para o tratamento de, virtualmente, todos os envenenamentos por essa serpente. Nesse ponto, entretanto, o erro pode ser ainda maior. O doseamento do soro antibotrópico, por exemplo, é atualmente realizado por meio da soroneutralização, in vitro, de cinco doses letais 50% (DL50) de veneno de B. jararaca incubadas com diferentes volumes do soro e posterior inoculação da solução, em camundongos, por via intraperitoneal. Observando- se a sobrevida de 50% dos camundongos (DE50), pode-se avaliar o poder neutralizante do soro. A simples substituição do método Vital Brazil, que utiliza o pombo como animal de experimentação, para o método atual fez com que um mesmo soro antibotrópico passasse a ser considerado como tendo o dobro da capacidade de neutralização. Embora úteis, evidentemente, nenhuma dessas formas de doseamento corresponde à situação clínica em que o soro será utilizado. Embora não seja rotina a soroneutralização, pode, também, ser realizada in vivo, inoculando-se, separadamente, veneno e soro sem prévia neutralização, de forma mais parecida com o que acontece no tratamento clínico. Também nessas condições, diferentes vias de inoculação do veneno e do soro ou diferentes períodos de tempo entre a administração de um e do outro podem acarretar resultados discrepantes. A inoculação intramuscular do veneno de Bothrops ou de Crotalus, em camundongos, com posterior administração intraperitoneal de antiveneno, mostrou que, quando se administra o antiveneno 30 minutos após a inoculação do veneno, para se obter o mesmo efeito da sua administração concomitante, é necessário utilizarse dose cerca de três vezes maior. Uma dose de anticorpo (antiveneno) que, administrada imediatamente após a inoculação de uma certa quantidade do antígeno (veneno) é capaz de neutralizá-la totalmente, também deveria neutralizar todo o antígeno ainda disponível, quando administrada trinta minutos após. Nesse caso, a triplicação da dose não deveria melhorar a resposta terapêutica. Pode ser, entretanto, que para se obter maior rapidez na neutralização haja necessidade de uma relação entre moléculas de anticorpos e de antígenos mais favorável ao primeiro. Sendo assim, a dose ideal de soro para o tratamento não seria aquela capaz de neutralizar o veneno e,

sim, a que o fizesse em curto espaço de tempo e seria, possivelmente, muito maior. Em todos esses métodos de doseamento do soro, o que se está avaliando é a sobrevida dos animais de experimentação e, portanto, a neutralização da fração do veneno que lhes determina a morte. Essa fração, entretanto, pode não ser a mesma responsável pelo óbito no envenenamento humano. Observa-se, pelo que foi dito, que a capacidade neutralizante do soro especificada na bula não representa um valor absoluto. Não se pode dizer, portanto, que um paciente que foi inoculado com 160mg de veneno de B. jararaca, necessariamente, terá tratamento adequado com soro na dose correspondente àquela que, segundo a bula do medicamento, neutralizaria tal quantidade de veneno. Há que se considerar, também, que a gravidade do envenenamento e, portanto, a dose necessária para o tratamento dependem de variáveis como: gênero, espécie e porte da serpente que causou o acidente, região anatômica picada, via de inoculação do veneno e do antiveneno, tempo transcorrido entre o acidente e a soroterapia, e outras. Isso posto, podese concluir que, embora as várias formas utilizadas anteriormente possam ser úteis na avaliação da dose de antiveneno a ser administrada nos pacientes, essa deverá ser determinada, quando possível, por experimentos clínicos controlados. Na prática clínica, a orientação tem sido no sentido de se administrar o soro por via endovenosa, com a dose calculada por número de ampolas, de acordo com a gravidade do envenenamento e independente do peso do paciente. Devido à sua grande freqüência e, conseqüentemente, sua importância e a facilidade de se obter casos suficientes para os estudos, as primeiras avaliações das doses de soro necessárias para o tratamento foram feitas para o envenenamento botrópico. Um estudo foi realizado em um momento muito especial, em que o Hospital Vital Brazil — Instituto Butantan (HVB-IB), especializado no atendimento de acidentes por animais peçonhentos, por motivo não relacionado a novos conhecimentos científicos, passou a utilizar doses menores de soro para o tratamento do envenenamento por Bothrops. Foram, então, comparados dois períodos (1983/84 e 1986), tendo sido utilizadas, no segundo, doses aproximadamente duas vezes menores do que no primeiro, não se observando diferença na freqüência de complicações relacionadas à picada. Esse estudo, entretanto, não possibilitou avaliar se a utilização de soro em menor dose pode acarretar uma recuperação mais tardia da coagulação sanguínea ou um aumento da letalidade, pois o tempo gasto para a recuperação da coagulação não foi mensurado com precisão e, na região estudada, a serpente que mais comumente causa acidentes é B. jararaca, espécie que não tem sido causa freqüente de acidentes fatais. Dificuldades na produção dos soros antiofídicos e a utilização de doses cada vez maiores e que, eventualmente, poderiam ser excessivas estimularam a realização de estudos para avaliar as doses mais adequadas para o tratamento. Em estudos recentes, o Butantan Institute Antivenom Study Group (BIASG) avaliou pacientes picados por serpentes do gênero Bothrops, nos quais administrou as doses de soro antibotrópico atualmente recomendadas pelos órgãos oficiais de saúde (4 ou 8 ampolas, respectivamente, para casos de envenenamento leve ou moderado). Observou-se que, após o tratamento, a maioria apresentou uma rápida melhora clínica e poucos desenvolveram novos sinais compatíveis com envenenamento. Através de imunoensaio enzimático (ELISA) foi possível observar que o veneno foi depurado do plasma de virtualmente todos os pacientes dentro de 4 dias e o antiveneno permaneceu em concentrações relativamente altas nos três primeiros dias, decrescendo gradualmente nos 30 dias seguintes. Concluiu-se que, provavelmente, ambos os grupos de pacientes receberam doses de antiveneno excessivas para neutralizar o veneno. Nos pacientes que receberam oito ampolas de antiveneno, entretanto, a queda dos níveis de antígenos foi mais rápida. Apesar da conclusão acima, não está absolutamente claro se, em casos excepcionalmente graves em que o paciente corre risco de vida por apresentar choque, sangramento grave, etc., não haveria benefício na administração de grandes quantidades de moléculas de anticorpos em relação à quantidade de antígeno inoculada. Finalmente, o BIASG realizou, também, um experimento clínico (randomizado e duplo-cego), em que 88 pacientes receberam tratamento com 4 ou 8 ampolas de soro de uso habitual, respectivamente para casos de envenenamento leve e moderado, e 82 foram tratados igualmente, porém receberam ampolas que apresentavam a metade da capacidade neutralizante (antiveneno diluído ao meio). Não se observaram diferenças nos resultados obtidos nos dois grupos quanto aos dados avaliados, ou seja, na normalização da coagulação sanguínea, nos níveis séricos de fibrinogênio e produtos da degradação da fibrina/ fibrinogênio e na freqüência de evolução para necrose e abscesso. Esses dados sugerem que as doses utilizadas para o tratamento do envenenamento por Bothrops no HVB, e que passaram a ser recomendadas pela Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo e pelo Ministério da Saúde, são desnecessariamente altas.

Acidentes Ofídicos
Lúcia Helena Salvetti De Cicco É muito grande o número de acidentes humanos causados por mordeduras de cobras venenosas. Se considerarmos que os animais Domésticos permanecem, pelo menos, o dobro do tempo que um homem do campo, em contato, com o ambiente natural (pastos, capineiras, campos, etc...), é de se concluir que o número de acidentes aumentam consideravelmente. Os prejuízos com mortes de animais por mordedura de cobras, supera, em muitos casos, mortes causadas por doenças infecciosas ou parasitárias. É de extrema importância, que todo proprietário rural que possua criações domésticas, tenha em sua propriedade algumas ampolas de soro, para atender a tais acidentes, na sua maioria letais. Quando a cobra venenosa ataca o animal os sinais de picada são muito variáveis, indo desde os dois pontos hemorrágicos deixados pela presa até a uma simples arranhadura. Em alguns casos pode haver até mesmo ausência de sinal. Dentre as serpentes venenosas mais comuns no Brasil destacamos: 1) Família Viperidae - Sub-Família Crotalinae (com fosseta lacrimal). a) Gênero Bothrops (Jararacas) B. Jararaca Jararacas B. Jararacussu jararacussu B. Atrox Jararaca Grão de Arroz B. Cotiara cotiara B. Moogeni Caissaca B. Alternatus urutú b) Gênero Crotalus (cascavel) - Caracterizada pelo guizo na cauda. c) Gênero Lachesis (Surucuçu) 2) Família Elapidae Gênero Micrurus Corais venenosas Sintomas mais comuns nos acidentes ofídicos 1) Botrópico (Jararacas) No Brasil, mais de 80% dos acidentes causados por cobras tem sua origem nos ofídeos do gênero botrópico (jararacas, jaracussu, urutu). A picada é dolorosa, produzindo inchação local, vermelhidão, podendo aparecer bolhas também. Poderá ocorrer posteriormente, hemorragia nas gengivas e urina vermelha. Há possibilidade de necrose no local da picada. Tratamento: Soro Antibotrópico Em caso de dúvida do criador quanto ao tipo de cobra que picou o animal, pode-se aplicar no mesmo momento o Soro Polivalente. 2) Crotálico (cascavel) No Brasil em torno de 18% dos acidentes causados por cobras tem sua origem nos ofídeos do gênero crotálico (cascavel). A picada nem sempre é dolorosa. Dentro de 30 a 60 minutos manifesta-se o "Fascies neurotóxico", que consiste na queda das pálpebras, paralisia dos músculos motores dos olhos, acarretando a perda da cisão. Mais tarde a urina pode tornar-se vermelha (castanho escura). Em casos graves, pode haver diminuição da urina e mesmo anúria devido à lesão renal. Tratamento: Soro Anticrotálico Em casos de dúvida do criador quanto ao tipo de cobra que picou o animal, pode-se aplicar no mesmo momento o Soro Polivalente.

Tratamento auxiliar nos acidentes ofídicos

Dentro dos primeiros 30 minutos, é conveniente fazer pequenas picadas com uma agulha no local e em volta da picada para ajudar a extrair o sangue com o veneno inoculado. Deixar o animal em descanso evitando assim que a excitação provoque aumento dos batimentos cardíacos e consequentemente maior velocidade da circulação do sangue e consequentemente do veneno. Executar a soroterapia especifica imediatamente.

Tipos de peçonha e de veneno
Uma reação leve a veneno urticante – a normal para picadas isoladas de formigas, abelhas, vespas, marimbondos e mamangavas – é uma forte sensação de queimadura, seguida de inchaço e vermelhidão no local da picada ou queimadura, que pode durar minutos ou horas; pode ser aliviada com gelo ou amônia. Uma reação alérgica moderada pode durar alguns dias e resulta em dor mais forte e inchaço que se estende a áreas vizinhas. Pode-se aplicar anti-histamínicos e ministrar corticóides, sob recomendação médica. Uma séria reação alérgica começa alguns minutos depois da picada e afeta o corpo inteiro. A pessoa pode sentir náuseas, tonturas, fraqueza. Depois, espasmos, diarréia, coceira nos olhos e nariz, tosse, sensação de calor, vômitos e inchação do rosto e do corpo. Em seguida, pode haver dificuldade de respirar e engolir, queda de pressão e inconsciência. A maioria das mortes por esse motivo ocorre em cerca de 30 minutos, mas às vezes em menos. Pessoas hipersensíveis – cerca de 1% da população – precisam ter à mão uma dose de adrenalina injetável, para aplicação imediata, anti-histamínicos e um torniquete para conter a difusão do veneno pelo corpo até que se possa conseguir ajuda médica. Pessoas normais que sofrem um grande número de picadas podem ter os mesmos sintomas e precisar do mesmo tratamento. Em alguns países, como os EUA, as picadas de insetos matam mais pessoas por ano que as de cobras e aranhas. Efeitos semelhantes podem ser provocados por insetos e aracnídeos que não injetam ativamente esse veneno, mas provocam envenenamento passivo por contato. Os exemplos mais comuns no Brasil são as taturanas (larvas peludas de borboletas e mariposas). Os seringueiros da Amazônia, expostos a contato freqüente com taturanas urticantes (Premolis sp.), também desenvolvem reações crônicas, principalmente artrites. Outro exemplo é o das caranguejeiras (Grammostola sp. e Pamphobeteus sp.). Estas aranhas cabeludas e de grandes dimensões, com ferrões grandes, são responsáveis por picadas extremamente dolorosas, mas não venenosas. Seu veneno está em pelos urticantes no abdômen dorsal, que provocam forte irritação. São comuns na Amazônia e em outras partes do Brasil. Esse tipo de veneno também está presente nas anêmonas, medusas, caravelas-portuguesas, na maioria das águas-vivas e em alguns corais e ouriços do mar. O veneno hemotóxico raramente mata um adulto saudável, a menos que a serpente consiga dar várias picadas ou atingir uma veia. Mas tem efeitos horríveis e que freqüentemente exigem a amputação do membro atingido, para evitar a morte por septicemia. Mesmo quando isso não ocorre, cicatrizes e seqüelas permanentes são prováveis. Geralmente, as cobras que possuem esse tipo de veneno possuem presas longas e muito eficazes: 70% a 80% das picadas inoculam a peçonha. As exceções são a boomslang e a cobra-cipó, serpentes arbóreas africanas cujas presas estão no fundo da boca. Estas geralmente só picam pessoas que as manipulam descuidadamente. O tipo mais comum provoca o equivalente a uma pré-digestão da carne da vítima: os vasos sangüíneos perdem sua capacidade de reter o sangue e a capacidade de coagulação e o sistema imunológico são anulados. Ocorre hemorragia dos capilares, a carne se enche de líquidos e é destruída por bactérias (gangrena). Pode haver sangue na urina devido a hemorragias internas nos rins e, em casos graves, morte por falência renal. No local da picada, há dor intensa, edema, bolhas, inchaço e necrose dos tecidos. O paciente sofre também de hemorragia pelas mucosas (estômago, intestino, rim, boca, ouvido, útero), lesão dos tecidos (gangrena), taquicardia e alterações nervosas. A recuperação total de uma picada pode demorar meses. A morte, quando ocorre, geralmente leva dias. Algumas pessoas, porém, entram em estado de choque ou ter sintomas de ansiedade que podem não só ser confundidos com o efeito de venenos neurotóxicos, como de fato matar em poucos minutos, principalmente em regiões onde há lendas e tradições exageradas sobre cobras. É o que acontece com a chamada “víbora de cem passos” da �?sia – cujas vítimas supostamente morrem antes

de caminhar essa distância – e com a víbora serrilhada, encontrada na �?sia e �?frica. Existe mesmo uma lenda asiática sobre uma “víbora de dois passos”. Alguns venenos hemotóxicos, como o do ornitorrinco e o de certas víboras, têm o efeito contrário: provocam a coagulação do sangue, que pode resultar em tromboses fatais. No Brasil, há dois tipos de venenos ofídicos hemotóxicos – o botrópico e o laquético. Seus efeitos são muito semelhantes, mas exigem soros diferentes. O veneno botrópico responde pela grande maioria dos acidentes no Brasil; é produzido por cobras como a jararaca (Bothrops jararaca), jararacuçu (Bothrops jararacussu), urutu (Bothrops alternatus), cotiara (Bothrops fonsecai) e caiçaca (Bothrops moojeni), que existem em todo o Brasil e em todo tipo de terreno e vegetação. O veneno laquético é o da surucucu ou pico-dejaca (Lachesis muta), encontrada na Amazônia e na Mata Atlântica, do Rio de Janeiro até a Paraíba. Cobras venenosas grandes, como a surucucu e a urutu, têm uma glândula da peçonha mais avantajada e costumam ser mais agressivas. Fora do Brasil, outras cobras com venenos semelhantes (mas que também exigem antídotos específicos) incluem a maioria das víboras (família Viperidae) encontradas na Europa, �?sia e América do Norte, as cascavéis, mocassins e copperheads norte-americanas, a habu, encontrada na �?sia (principalmente China) e as africana boomslang e twig snake.

Jararaca Bothrops

Jararaca ilhoa

Jararaca do rabo branco

Jararaca pintada

Jararaca verde

Duas espécies de lagartos também possuem venenos hemotóxicos: o monstro de Gila (Heloderma suspectum), que vive nos desertos do Sudoeste dos EUA e noroeste do México e o lagarto-escorpião ou lagarto perolado (Heloderma horridum), das selvas do México e América Central. De certa forma, são piores do que as serpentes, pois em vez de picar e largar a vítima, continuam agarrados a ela e mastigando sua carne, até que sejam mortos ou gravemente feridos (queimá-los na garganta também funciona). Algumas aranhas também possuem veneno hemotóxico. Um exemplo é a aranha marrom (Loxosceles sp.) com 1 cm de corpo e pernas longas e finas. É encontrada em pilhas de tijolos, telhas, barrancos e nas residências. Adora se esconder nas roupas e pica quando é comprimida contra o corpo. Na hora quase não causa dor e às vezes a pessoa nem sabe que foi picada. A partir de 12 horas após a picada, porém, surge a dor local, inchaço, mal-estar geral, náuseas e febre. Pode levar à gangrena e à necrose. A tarântula (Lycosa sp.), conhecida também como aranha de jardim e aranha de grama, também inocula um veneno hemotóxico. Provoca sensação de queimadura, eritema e edemas e a necrose local pode abrir caminho para a infecção por tétano. Pessoas sensíveis podem ter sintomas semelhantes ao de uma picada de cobra. Com até 3 cm de corpo e 5 cm de pernas, possui no dorso do abdômen um desenho parecido com uma ponta de flecha. Não há tratamento específico. Centopéias (Cryptops sp., Otostigmus sp. e Scolopendra sp.), conhecidas também como lacraias, inoculam venenos hemotóxicos que provocam sangramento, inchaço e necrose superficial e, em algumas pessoas, também ansiedade, vômitos e mal-estar geral. Não há tratamento específico. O ornitorrinco macho possui, nas patas traseiras, esporões que injetam um veneno hemotóxico, cuja função é puramente defensiva. Ao contrário do veneno da jararaca, provoca a coagulação do sangue, em vez de impedila. Provoca inchação e forte dor por até três meses, contra a qual nenhum anestésico (nem sequer a morfina) é eficaz. Normalmente, não é fatal a seres humanos. Certas taturanas (Lonomia sp.) também possuem um veneno de tipo hemotóxico. Além da imediata sensação de queimadura, podem surgir, duas a 72 horas depois do contato, equimoses, hematomas, sangramento nas gengivas e sangue na urina. Não há soro disponível para este tipo de veneno. O veneno neurotóxico ataca o sistema nervoso, provoca paralisia e é o mais perigoso, pois pode matar em questão de horas por asfixia. A gravidade da picada aumenta com a proximidade dos centros nervosos (cérebro). Por outro lado, a maior parte das cobras que possui esse tipo de veneno tem presas curtas e pouco móveis, de forma que apenas 50% das picadas inoculam de fato a peçonha. No Brasil, o tipo mais conhecido é o veneno elapídico, da coral verdadeira. De ação puramente neurotóxica, é relativamente raro: apenas 2% dos acidentes. Essas cobras existem em todo o Brasil, em qualquer terreno, mas são tímidas e suas presas não consegue penetrar roupas. A maioria dos acidentes ocorre em pessoas que as manipulam intencionalmente. Os sintomas podem demorar 12 horas para aparecer: o paciente apresenta dor intensa no local da picada, salivação abundante, lacrimejamento, perturbações nervosas, queda das pálpebras, tremura e angústia, respiração difícil, pele azulada, andar cambaleante, cansaço, dores musculares, dificuldade em articular as palavras, ligeiras perturbações visuais. A morte vem por asfixia. Outras serpentes com veneno neurotóxico são a krait da �?ndia e Sudeste Asiático, as najas asiáticas e africanas, as mambas africanas, a taipã australiana e as serpentes marinhas do Sudeste asiático. Com exceção da krait, também considerada tímida, essas cobras são mais agressivas e perigosas que a coral. Embora sua picada não seja particularmente dolorosa, o veneno da serpente marinha é o mais potente de todas as cobras, seguido pelo da taipã. Em média, a picada dessas cobras mata em seis a doze horas. Se o veneno é injetado diretamente numa veia, pode matar em menos de uma hora. Algumas espécies de naja podem cuspir seu veneno a certa distância (até 3 m), geralmente visando os olhos da vítima. Se acerta, isso causa dor intensa, perturbação da visão e, às vezes, cegueira permanente. Entre as aranhas, a de veneno neurotóxico mais perigoso é a viúva-negra (Lactrodectus sp.). O tratamento envolve a aplicação de soro específico e de analgésicos poderosos. Mais comuns no País e igualmente perigosos são o escorpião amarelo (Tityus serrulatus), com uma

mancha escura e uma serrilha no fim da cauda e escorpião preto (Tityus bahiensis), também conhecido como escorpião marrom, de cor escura e cauda avermelhada. Ambos são de hábitos noturnos e escondem-se durante o dia sob madeiras ou pedras, ou em cupinzeiros e também freqüentam casas. A vítima pode apresentar náuseas ou vômitos, sudorese intensa, salivação, tremores e aumento da pressão arterial. Existe soro antiescorpiônico. Outro exemplo é a aranha armadeira (Phoneutria sp.), que causa a maioria dos acidentes com aranhas no Brasil. Com até 5 cm de corpo e até 15 cm de envergadura de pernas, vive em folhagens, bananeiras e dentro de casa e é reconhecida pela posição “em pé" sobre as patas de trás. O veneno age no sistema nervoso periférico, causando dificuldade respiratória e tremores musculares, mas não atinge o sistema nervoso central. Em crianças e ocorrências graves com adultos, aplica-se o soro antiaracnídico, depois de prova de alergia. O peixe fugu (espécie japonesa de baiacu), também possui um forte veneno neurotóxico, mil vezes mais potente que o cianureto. O sashimi de fugu sai pelo equivalente a 150 a 200 dólares, mas só deve ser preparado por especialistas bem treinados, que sabem como extrair a glândula que contém o veneno. Cerca de 60% das pessoas que ingerem o baiacu sem que o veneno tenha sido devidamente eliminado morrem de falência respiratória em 6 a 24 horas, depois de sentir sintomas como fraqueza, tontura, boca e língua formigantes, náusea, diarréia, suor, paralisia, convulsões e sufocação. Há uma espécie de água-viva, Chironex fleckeri, encontrada no litoral norte da Austrália e na região Indo-Pacífica, que possui um veneno neurotóxico, cardiotóxico e dermatonecrótico, capaz de matar uma pessoa de insuficiência respiratória em cinco minutos. Os sobreviventes sofrem sérias queimaduras na pele, que geralmente deixam cicatrizes permanentes. É provavelmente o animal venenoso mais perigoso da Terra. Uma espécie australiana de polvo, Hapalochaena maculosa, também causa ferroadas neurotóxicas em pessoas que o perturbem, casualmente ou propositalmente. O veneno misto tem efeito hemotóxico e neurotóxico ao mesmo tempo, o que pode dificultar o diagnóstico. O componente neurotóxico é geralmente o mais perigoso, mas podem tanto aparecer os sintomas de hemorragia quanto os de paralisia. Isso pode resultar em tratamento não apropriado, principalmente em lugares onde outros tipos de picada são mais comuns. Além disso, em alguns casos, como o da víbora do Gabão, a picada não provoca dor intensa – a picada pode não ser percebida ou ser confundida com a de um inseto, até que a vítima morre sem receber soro antiofídico. É o caso de certas cascavéis (incluindo a brasileira e a do deserto de Mojave, nos EUA) e da dabóia ou víbora de Russell, encontrada no sul da �?sia. No Brasil, o único tipo de veneno misto é o crotálico, produzido pela cascavel tropical. Bem mais perigosa que as espécies norte-americanas, é encontrada nas regiões de campo do Centro, Sul, Nordeste e da Amazônia, mas nunca no interior das florestas e responde por 18% dos acidentes ofídicos no Brasil. É considerada principalmente neurotóxica, mas também tem alguns efeitos hemotóxicos. A picada não produz dor marcante, mas o paciente apresenta fraqueza progressiva e rápida, queda das pálpebras (“cara de bêbado”), perturbações visuais até a cegueira, paralisia dos músculos do pescoço (cabeça caída), vômitos, diarréia, cheiro de urina, urina sanguinolenta; pulso fraco e sonolência. A morte vem por paralisia do sistema respiratório e ocorre em 75% dos casos não tratados. A peçonha crotálica é mais tóxica do que a botrópica, mas ambas são menos perigosas que a elapídica. No mar, ferroadas das arraias, peixes-pedras e escorpiões-do-mar inoculam veneno do tipo cardiotóxico. Afeta o sistema cardiovascular, o que pode produzir tanto palidez como vermelhidão no corpo, espasmos, arritmia cardíaca e, eventualmente, parada cardíaca. �?gua quente (50ºC) por 30 a 60 minutos decompõe esse veneno, mas também há risco de infecção, que pode exigir antibióticos e vacina antitetânica. A ferida provocada pelo ferrão é, em si, séria e pode levar meses para ser completamente curada. O veneno que os sapos e algumas rãs segregam através da pele também é cardiotóxico e pode matar por parada cardíaca, depois de fortes constrições musculares, paralisia, salivação e dispnéia. Normalmente só são fatais para animais (incluindo cães domésticos) que os comem. Seres humanos geralmente só são afetados quando manipulam sapos e acidentalmente levam o veneno aos olhos ou à boca, normalmente em doses não fatais, mas há histórias sobre rãs tão venenosas que é possível morrer só por tocá-las. O curare, veneno usado pelos índios em suas flechas e zarabatanas, é tirado de certas rãs, que costumam ser de cor berrante, com a qual advertem os predadores de que são perigosas. Uma das mais conhecidas é a Phyllobates terribilis, de cor dourada e de 1 cm a 5 cm de comprimento, usada pelos índios da

Colômbia. A pele de uma só dessas rãs contém veneno suficiente para matar 20 mil camundongos ou 100 homens adultos. O veneno de uma seta ou zarabatana permanece ativo por até dois anos.

Dose de soro (antiveneno) no tratamento do envenenamento por serpentes peçonhentas do gênero Bothrops
Autores: Jorge MT, Ribeiro LA Instituições: Departamento de Clínica Médica, Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, MG Resumo: São notificados, anualmente, mais de 20.000 acidentes por serpentes peçonhentas no Brasil e mais de 2.000 somente no Estado de São Paulo. Bothrops (jararacas), Crotalus (cascavel), Lachesis (surucucu) e Micrurus (coral verdadeira) foram responsáveis por, respectivamente, 88,3%, 8,3%, 2,7% e 0,7% dos acidentes notificados no país, de junho de 1986 a dezembro de 1987, em que se fez referência ao gênero da serpente. O tratamento específico desses envenenamentos é realizado com soro eqüino contra venenos de serpentes do mesmo gênero da que causou o acidente. Exceto para Crotalus e para Lachesis, por só haver no Brasil uma espécie de cada, soros antiofídicos específicos para cada espécie não são disponíveis no país. As doses recomendadas foram, inicialmente, baseadas na estimativa da quantidade de veneno que a serpente poderia inocular e na capacidade neutralizante do soro mensurada por soroneutralização in vitro e posterior inoculação em animais de experimentação. Nas últimas décadas, baseou-se, também, em opiniões de médicos com experiência clínica não controlada. A quantidade de veneno que as serpentes inoculam durante o bote defensivo é estimada pelo quanto se pode extrair de exemplares da mesma espécie. Um erro, entretanto, pode advir do fato da quantidade de veneno que pode ser extraída pelo homem não ser necessariamente a mesma que a serpente consegue inocular. Após a estimativa da quantidade de veneno que pode ser inoculada, bastaria saber, para o tratamento do paciente, o volume de soro necessário para neutralizá-la8. Se a maior quantidade de veneno que se podia extrair, por exemplo, de Bothrops jararaca era cerca de 160mg, acreditava-se que um volume de soro suficiente para neutralizá-la seria suficiente para o tratamento de, virtualmente, todos os envenenamentos por essa serpente. Nesse ponto, entretanto, o erro pode ser ainda maior. O doseamento do soro antibotrópico, por exemplo, é atualmente realizado por meio da soroneutralização, in vitro, de cinco doses letais 50% (DL50) de veneno de B. jararaca incubadas com diferentes volumes do soro e posterior inoculação da solução, em camundongos, por via intraperitoneal. Observando- se a sobrevida de 50% dos camundongos (DE50), pode-se avaliar o poder neutralizante do soro. A simples substituição do método Vital Brazil, que utiliza o pombo como animal de experimentação, para o método atual fez com que um mesmo soro antibotrópico passasse a ser considerado como tendo o dobro da capacidade de neutralização. Embora úteis, evidentemente, nenhuma dessas formas de doseamento corresponde à situação clínica em que o soro será utilizado. Embora não seja rotina a soroneutralização, pode, também, ser realizada in vivo, inoculando-se, separadamente, veneno e soro sem prévia neutralização, de forma mais parecida com o que acontece no tratamento clínico. Também nessas condições, diferentes vias de inoculação do veneno e do soro ou diferentes períodos de tempo entre a administração de um e do outro podem acarretar resultados discrepantes. A inoculação intramuscular do veneno de Bothrops ou de Crotalus, em camundongos, com posterior administração intraperitoneal de antiveneno, mostrou que, quando se administra o antiveneno 30 minutos após a inoculação do veneno, para se obter o mesmo efeito da sua administração concomitante, é necessário utilizarse dose cerca de três vezes maior. Uma dose de anticorpo (antiveneno) que, administrada imediatamente após a inoculação de uma certa quantidade do antígeno (veneno) é capaz de neutralizá-la totalmente, também deveria neutralizar todo o antígeno ainda disponível, quando administrada trinta minutos após. Nesse caso, a triplicação da dose não deveria melhorar a resposta terapêutica. Pode ser, entretanto, que para se obter maior rapidez na neutralização haja necessidade de uma relação entre moléculas de anticorpos e de antígenos mais favorável ao primeiro. Sendo assim, a dose ideal de soro para o tratamento não seria aquela capaz de neutralizar o veneno e,

sim, a que o fizesse em curto espaço de tempo e seria, possivelmente, muito maior. Em todos esses métodos de doseamento do soro, o que se está avaliando é a sobrevida dos animais de experimentação e, portanto, a neutralização da fração do veneno que lhes determina a morte. Essa fração, entretanto, pode não ser a mesma responsável pelo óbito no envenenamento humano. Observa-se, pelo que foi dito, que a capacidade neutralizante do soro especificada na bula não representa um valor absoluto. Não se pode dizer, portanto, que um paciente que foi inoculado com 160mg de veneno de B. jararaca, necessariamente, terá tratamento adequado com soro na dose correspondente àquela que, segundo a bula do medicamento, neutralizaria tal quantidade de veneno. Há que se considerar, também, que a gravidade do envenenamento e, portanto, a dose necessária para o tratamento dependem de variáveis como: gênero, espécie e porte da serpente que causou o acidente, região anatômica picada, via de inoculação do veneno e do antiveneno, tempo transcorrido entre o acidente e a soroterapia, e outras. Isso posto, podese concluir que, embora as várias formas utilizadas anteriormente possam ser úteis na avaliação da dose de antiveneno a ser administrada nos pacientes, essa deverá ser determinada, quando possível, por experimentos clínicos controlados. Na prática clínica, a orientação tem sido no sentido de se administrar o soro por via endovenosa, com a dose calculada por número de ampolas, de acordo com a gravidade do envenenamento e independente do peso do paciente. Devido à sua grande freqüência e, conseqüentemente, sua importância e a facilidade de se obter casos suficientes para os estudos, as primeiras avaliações das doses de soro necessárias para o tratamento foram feitas para o envenenamento botrópico. Um estudo foi realizado em um momento muito especial, em que o Hospital Vital Brazil — Instituto Butantan (HVB-IB), especializado no atendimento de acidentes por animais peçonhentos, por motivo não relacionado a novos conhecimentos científicos, passou a utilizar doses menores de soro para o tratamento do envenenamento por Bothrops. Foram, então, comparados dois períodos (1983/84 e 1986), tendo sido utilizadas, no segundo, doses aproximadamente duas vezes menores do que no primeiro, não se observando diferença na freqüência de complicações relacionadas à picada. Esse estudo, entretanto, não possibilitou avaliar se a utilização de soro em menor dose pode acarretar uma recuperação mais tardia da coagulação sanguínea ou um aumento da letalidade, pois o tempo gasto para a recuperação da coagulação não foi mensurado com precisão e, na região estudada, a serpente que mais comumente causa acidentes é B. jararaca, espécie que não tem sido causa freqüente de acidentes fatais. Dificuldades na produção dos soros antiofídicos e a utilização de doses cada vez maiores e que, eventualmente, poderiam ser excessivas estimularam a realização de estudos para avaliar as doses mais adequadas para o tratamento. Em estudos recentes, o Butantan Institute Antivenom Study Group (BIASG) avaliou pacientes picados por serpentes do gênero Bothrops, nos quais administrou as doses de soro antibotrópico atualmente recomendadas pelos órgãos oficiais de saúde (4 ou 8 ampolas, respectivamente, para casos de envenenamento leve ou moderado). Observou-se que, após o tratamento, a maioria apresentou uma rápida melhora clínica e poucos desenvolveram novos sinais compatíveis com envenenamento. Através de imunoensaio enzimático (ELISA) foi possível observar que o veneno foi depurado do plasma de virtualmente todos os pacientes dentro de 4 dias e o antiveneno permaneceu em concentrações relativamente altas nos três primeiros dias, decrescendo gradualmente nos 30 dias seguintes. Concluiu-se que, provavelmente, ambos os grupos de pacientes receberam doses de antiveneno excessivas para neutralizar o veneno. Nos pacientes que receberam oito ampolas de antiveneno, entretanto, a queda dos níveis de antígenos foi mais rápida. Apesar da conclusão acima, não está absolutamente claro se, em casos excepcionalmente graves em que o paciente corre risco de vida por apresentar choque, sangramento grave, etc., não haveria benefício na administração de grandes quantidades de moléculas de anticorpos em relação à quantidade de antígeno inoculada. Finalmente, o BIASG realizou, também, um experimento clínico (randomizado e duplo-cego), em que 88 pacientes receberam tratamento com 4 ou 8 ampolas de soro de uso habitual, respectivamente para casos de envenenamento leve e moderado, e 82 foram tratados igualmente, porém receberam ampolas que apresentavam a metade da capacidade neutralizante (antiveneno diluído ao meio). Não se observaram diferenças nos resultados obtidos nos dois grupos quanto aos dados avaliados, ou seja, na normalização da coagulação sanguínea, nos níveis séricos de fibrinogênio e produtos da degradação da fibrina/ fibrinogênio e na freqüência de evolução para necrose e abscesso. Esses dados sugerem que as doses utilizadas para o tratamento do envenenamento por Bothrops no HVB, e que passaram a ser recomendadas pela Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo e pelo Ministério da Saúde, são desnecessariamente altas.

Vacina Antiofídica
Estudo inédito da Funed pode mudar a relação do homem com as serpentes Pânico, asco, curiosidade, fascínio, veneração. São muitas as sensações que podem envolver uma pessoa ao se deparar com uma cobra, menos a indiferença. No terreno das emoções, as discussões podem se prolongar mas, quando se trata do veneno, as alternativas são limitadas. Se uma cobra venenosa picar uma pessoa ou um animal, o resultado pode ser a morte, se nenhuma providência for tomada. Até hoje, o tradicional e conhecido soro antiofídico é considerado a principal arma do homem contra o envenenamento por picada de serpente, mas uma pesquisa pioneira da Fundação Ezequiel Dias (Funed), financiada pela FAPEMIG, pode revolucionar esse quadro. A novidade é uma vacina que estimula a produção de anticorpos e imuniza o organismo contra o veneno. A coordenadora da pesquisa, Profª Thaís Viana de Freitas, inspirou seu trabalho em pesquisas do Centro de Controle de Venenos e Antivenenos da Organização Mundial de Saúde, em Liverpool, Inglaterra, em 1986. A pesquisadora trouxe a tecnologia inglesa para Minas Gerais, avançou nos estudos, visando a produção de uma vacina e acaba de concluir a pesquisa "Desenvolvimento de Liposomas como Vetores de Princípios Ativos para Utilização Terapêutica e Produção de Vacinas". O estudo tem como base a utilização de liposomas como veículos para antígenos (no caso, o veneno) e imunoestimulantes. Liposoma é uma estrutura sintética, que funciona como uma célula artificial e sua membrana pode ser preenchida com diversas substâncias para fins terapêuticos. As principais características que as tornam atraentes como vetores são: o caráter biodegradável, não-tóxico e não- imunogênico, a afinidade natural pelas células responsáveis pela apresentação de antígenos, a capacidade de induzir imunidade celular e humoral (mediada por anticorpos), a versatilidade físico-química e a capacidade de transportar, potencializar e reduzir a toxicidade de imunoestimulantes. Inicialmente, o trabalho foi direcionado para o uso veterinário, por se tratar da área de maior demanda. Estima-se que cerca de um milhão de animais domésticos (bovinos, eqüinos e caprinos) sejam perdidos anualmente, no Brasil, em conseqüência de acidentes ofídicos. Nesses casos, a soroterapia não é utilizada devido ao alto custo do tratamento. O veneno da Crotalus durissus terrificus, a cascavel sul-americana, um dos mais letais, foi o único enfocado nesse primeiro estudo. Agora, a pesquisadora pretende abranger outras variedades de serpentes brasileiras, melhorar o método e baratear a produção em outro projeto de pesquisa, recentemente aprovado pela FAPEMIG, intitulado "Desenvolvimento de Liposomas como Vetores de Venenos e Toxinas para Imunização Protetora Contra o Envenenamento por Serpentes Brasileiras". A vacina Ao contrário do soro antiofídico, que serve como tratamento após a picada, a vacina será para efeito profilático. Segundo a Profª Thaís, a metodologia é a mesma para outros tipos de peçonhas animais, como veneno de escorpião e aranha, e a adaptação a humanos é apenas uma questão de tempo. É uma boa notícia para as pessoas que convivem diretamente com o risco de envenenamento, como guardas florestais, tratadores, pesquisadores e amantes do ecoturismo. Um dos sócios da Brasil Aventuras Expedições - empresa mineira especializada em ecoturismo e turismo de aventura -, Marcelo Andrê, acredita que a imunização contra o veneno de serpentes seria de grande importância para profissionais como ele. "Nossos guias e clientes vão a lugares totalmente inóspitos, como o Pico da Neblina, onde a comunidade mais próxima fica a três dias de viagem de barco. Não podemos levar conosco o soro antiofídico, que deve ser mantido sob refrigeração. Em caso de picada, a vítima certamente morreria", afirma Andrê. Para se ter uma idéia do risco a que essas pessoas estão sujeitas, basta dizer que 74% das vítimas picadas por cascavel, não tratadas, morrem. Com a soroterapia, a mortalidade cai para 12%. Por se tratar de um trabalho pioneiro, o Escritório de Gestão Tecnológica da FAPEMIG ofereceu à pesquisadora auxílio em um pedido de patente, para resguardar seus direitos e de todas as instituições envolvidas. "É um trabalho muito complexo, que demanda tempo e dinheiro. Acho que não animaria a fazer o pedido sozinha", conta Thaís.

O atual sistema de tratamento Vinculada à Secretaria de Estado da Saúde de Minas Gerais, a Funed é uma das três instituições produtoras de soro antiofídico do Brasil. Além dela, apenas o Instituto Butantã, em São Paulo, e o Vital Brasil, em Niterói/RJ, fornecem o soro para o Ministério da Saúde, que se encarrega de redistribuí-lo para o resto do País. No Brasil, são produzidos basicamente os seguintes soros antiofídicos: Anti-Botrópico: contra o veneno da Jararaca (gênero bothrops); Anti-Crotálico: contra o veneno da Cascavel (gênero crotalus); Anti-Laquésico: contra o veneno da Surucucu (gênero lachesis); Anti-Elapídico: contra o veneno da Coral (gênero micrurus); Anti-Crotálico/Botrópico: contra venenos de Cascavel e Jararaca; Anti-Botrópico/Laquésico: contra venenos de Cascavel e Surucucu. Ao contrário do que se pensa, o soro não estimula a produção de anticorpos no organismo da vítima. Na verdade, ele já contém anticorpos, que são retirados do sangue de cavalos hiperimunizados. Injeta-se o veneno da serpente no animal, em pequenas doses, fazendo com que ele desenvolva os anticorpos. O problema é que o soro total, como utilizamos hoje, contém substâncias estranhas ao corpo do paciente. Por isso, a pessoa submetida ao tratamento também desenvolve anticorpos contra o próprio soro. Os efeitos colaterais vão desde uma urticária ou insuficiência renal até o choque anafilático, que pode ser fatal. Por isso, sempre é feito um teste alergênico antes da aplicação do soro antiofídico. Venenosa ou peçonhenta? Em princípio, todas as serpentes produzem veneno, mas nem todas são peçonhentas. A maioria das cobras não possui presas inoculadoras, o que as impossibilita introduzir a peçonha na vítima. Essas cobras, chamadas não-peçonhentas, apresentam presas não-articuladas e a secreção do veneno, que aflora em sua cavidade bucal, atua na digestão do alimento. Alguns métodos de diferenciação entre serpentes peçonhentas e não-peçonhentas foram introduzidos no Brasil pelos europeus. No entanto, parâmetros como pupilas verticais e cabeça triangular referem-se a características de serpentes africanas e européias e não devem ser levados em consideração no Brasil e em toda a América do Sul. Aqui, a identificação deve ser feita observando-se a fosseta loreal, orifício localizado entre o olho e a narina, capaz de perceber variações de calor num raio de até 5m e detectar a presença, tamanho, distância e movimentos de animais de "sangue quente" (aves e mamíferos). Com exceção da coral, todas as serpentes peçonhentas possuem fosseta loreal. A grande maioria das corais brasileiras apresenta anéis coloridos no corpo (vermelhos, amarelos, brancos e pretos). Algumas serpentes não-peçonhentas, conhecidas como falsas-corais, são extremamente

parecidas com as corais verdadeiras e diferenciá-las não é uma tarefa fácil. Para não correr riscos, é melhor considerar toda serpente que possua fosseta loreal ou anéis coloridos no corpo como peçonhenta. A ação do veneno Existem basicamente três tipos de veneno: o botrópico, o crotálico e o micrúrico ou elapídico. O envenenamento botrópico, causado por jararaca, jararacuçu, entre outras, em geral, não leva à morte, mas lesa os tecidos (gangrena), causando a perda do membro atingido. Os venenos crotálico, produzido pela cascavel, e elapídico, da coral verdadeira, têm ação neurotóxica, ou seja, atacam o sistema nervoso. São mais nocivos e, quando não tratados, são quase sempre letais.

Evite acidentes com serpentes. Veja as dicas: - Geralmente as serpentes picam do joelho para baixo. O uso de botas de cano alto evita até 80% dos acidentes. Antes de calçá-las, certifique-se de que não há cobras, aranhas ou escorpiões escondidos. - Não enfie as mãos em tocas, troncos ocos, cupinzeiros ou outros locais que possam abrigar animais peçonhentos. - Mantenha quintais, plantações e terrenos sempre limpos. Acabe com os ratos. A maioria das cobras alimenta-se de roedores. - Preserve os predadores. Emas, seriemas, gaviões, gambás e a cobra muçurana são os predadores naturais das serpentes peçonhentas e garantem o equilíbrio do ecossistema. - Preserve o meio ambiente. Desmatamentos e queimadas podem provocar mudanças nos hábitos dos animais, que acabam buscando refúgio em celeiros, paióis e até dentro das casas.

You're Reading a Free Preview

Descarregar
scribd
/*********** DO NOT ALTER ANYTHING BELOW THIS LINE ! ************/ var s_code=s.t();if(s_code)document.write(s_code)//-->