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A história da Igreja do Lago

Jacob Munhak

Jeca Silvério

Carroção polonês

Em 1932, quando chegou a segunda leva de descendentes de imigrantes eslavos (poloneses, russos, ucranianos), formou-se a comunidade de São João, cuja vila em poucos dias já estava maior que a da hoje metrópole Cascavel. Os poucos “ranchinhos de pinho lascado” de Tio Jeca Silvério, sua família e empregados, como os descreveu Sandálio dos Santos, eram toda a vila de Cascavel. Não é de surpreender, assim, que São João tenha conseguido superar Cascavel em população urbana por um bom tempo. São João foi mais uma das tantas conquistas que tornaram Silvério a principal figura da nossa história. Ele indicou a melhor localização para Jacob Munhak e seu grupo se fixar. Silvério já vinha de três importantes vitórias. A primeira foi política: obteve de Foz do Iguaçu o reconhecimento de que a Encruzilhada dos Gomes receberia o nome oficial de Cascavel. A segunda, administrativa: conseguiu trazer o telégrafo de Lopeí. A terceira foi decisiva para manter o nome de Cascavel: Silvério determinou ao telegrafista Bento Barreto que os telegramas partidos daqui fossem datados de “Cascavel” e não de “Encruzilhada” (já sem o “dos Gomes”) como queriam os caboclos, nem “Aparecida dos Portos”, nome com que o prelado de Foz do Iguaçu, monsenhor Guilherme, batizou a vila da Encruzilhada.

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A brava comunidade de São João primeiramente construiu uma capelinha religiosa e em 1958 sua população já não era maior que a de Cascavel, sede municipal havia seis anos, mas o esforço participante e dedicado dos colonos construiu um templo que causava inveja aos cascavelenses. A bela Igreja Nossa Senhora de Fátima inaugura-se em 1960 e em poucos anos já não dará conta do crescente número de fiéis. O boom madeireiro fez a população dobrar num piscar de olhos. No fim da década de 1970, o falecido jornal Fronteira do Iguaçu recebeu a denúncia de que a igrejinha, fruto do esforço dos pobres agricultores eslavos, estava para ser demolida para a construção de um tempo maior. O jornal fez uma intensa campanha pelo tombamento da Igreja Nossa Senhora de Fátima e conseguiu impedir sua demolição. Mas as novas lideranças de São João queriam construir uma nova igreja na mesma área, de localização privilegiada.

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Prefeito Fidelcino Tolentino e governador José Richa, eleitos na virada contra a ditadura em 1982
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Com a vitória da frente eleitoral democrática contra a ditadura, em 1982, foi possível evitar a demolição da histórica igrejinha, com a participação do jornal Hoje. Quando a derrubada do templo já parecia inevitável, a Prefeitura encontrou a salvação: a igreja foi tombada pelo Patrimônio Público Municipal por decreto do prefeito Fidelcino Tolentino, em 1987. Como a comunidade de São João queria usar o terreno, o prédio foi retirado de lá e transplantado para a Região do Lago. Ali, a partir da década de 1990, iria compor com o Teatro Barracão um projeto oficial de preservação e recuperação da história local e do seu patrimônio. Tolentino não teve o direito de se reeleger. Retornou em 1993 e uma de suas primeiras providências foi dar um banho de proteção à Igreja do Lago. Em 18 de setembro de 1993 ela foi reinaugurada com a apresentação da Orquestra de Câmara de Assunção e corais locais. Uma linda festa mercosulina e multiétnica de preservação do nosso patrimônio cultural. Hoje, quando o Teatro do Lago foi deixado a se arruinar por incúria das autoridades frente às obrigações de zelar pelo patrimônio, a Igreja do Lago também já dá sinais de descuido. Não se pode permitir que um bem histórico já tombado também seja deixado ao deus-dará. Falta a Cascavel uma política de cultura coerente com sua transformação em uma das mais importantes cidades universitárias do Brasil. **
Alceu A. Sperança