CAMÕES

A época clássica inicia-se no séc. XVI e o primeiro período dessa época integra-se no grande movimento cultural do Renascimento pelo que foi um tempo áureo da nossa criação literária e todos os géneros literários foram tratados de forma excepcional. O Renascimento é considerado o movimento artístico, literário e filosófico que vai desde os finais do séc. XIV ao séc. XVI, tendo-se expandido de Itália para outros países da Europa. Para os humanistas (o Homem é o centro de todas as atenções) o Renascimento representava a orgulhosa convicção de que por um conhecimento mais extenso e exato da cultura greco-romana, as letras e as artes voltariam a ter o seu antigo esplendor. Não se pode, no entanto, dizer que tenha havido uma ruptura entre a Idade Média e o Renascimento, mas sim um processo de continuidade, por um lado porque a Idade Média nunca deixou de manter contacto com os autores antigos e, por outro lado, porque o Renascimento deu continuidade a certos aspectos anteriores. Coexistiram, assim, princípios e conceitos novos e velhos, religiosos e profanos, autoritários e individualistas. TEMAS DA POESIA LÍRICA CAMONANA
y y y y y y Amor lei do universo, princípio da existência e força espiritual Contradições do Amor Transformação do amador na coisa amada Amor platónico: sentimento de adoração do objecto amado, que leva à contemplação; amor espiritualizado Amor físico: sentimento que deseja a posse física do objecto amado. A poesia amorosa camoniana é dramática, dilacerada em contradições, entre o amor físico e o amor platónico.

Amor A mulher

y A mulher petrarquista: ideal de beleza ± cabelos de ouro, pele branca, sorriso longínquo, gesto suave, pensar maduro, alegria saudosa, algo de incorpóreo. É uma espécie de deusa que aparece em visões ao poeta e contamina a natureza, embelezando-a. O protótipo da mulher petrarquista é Laura, a musa inspiradora de Petrarca. y A mulher carnal: contornos físicos bem definidos e atraentes que despertam o desejo e a volúpia dos sentidos. É Vénus. y y y y y a saudade da mulher petrarquista (inacessível) a saudade da mulher carnal que não corresponde ou que morreu a saudade da pátria ausente: o exílio a saudade de Jerusalém: a terra é lugar de exílio, o homem sente-se exilado do Paraíso

Saudade Mudança Vida, Morte, Deus

y a mudança reversível da Natureza / a mudança irreversível do homem y a mudança da própria mudança y a mudança como algo negativo (pessimismo e morte) y as injustiças sociais, constatadas pelo poeta y os cataclismos naturais e desconcertantes: a morte sempre no horizonte e sem explicações lógicas; o fracasso dos sonhos e dos projetos. y o desconcerto do mundo

O ESTILO PALACIANO ² influência tradicional / medida velha O século XVI é em Portugal uma época rica de experiências estilísticas. Três tendências pelo menos é possível apontar: o estilo na tradição do Cancioneiro Geral, conceituoso, adaptado à glosa de um mote de forma mais ou menos engenhosa, com um ressaibo escolástico, breve e enxuto, sóbrio de imagens e em geral sem pretensões descritivas; o estilo clássico, introduzido pela influência latina e italiana, de frase ampla e redonda, predominantemente expositivo, em que, de forma quanto possível ordenada e racional (no sentido cartesiano), se pretende apresentar convincentemente uma doutrina, descrever com exatidão ou narrar com clareza, conservando ao mesmo tempo uma nobreza, majestade e sentido do conjunto que fazem pensar na arquitetura clássica; enfim, um estilo coloquial palaciano, caracterizado por uma enorme exuberância de imagens hauridas na vida quotidiana, comestíveis, objetos de uso, etc., pelo uso e abuso de jogos de

Natureza

y personificação da natureza y meio de engrandecimento das graças da amada y participação da natureza nos estados de espírito do poeta

por outro. (. no sentido atribuído por Rant a estas palavras na sua classificação dos juízos. Ele enriquece a língua com imagens novas. o repensar. António José Saraiva. os outros dois estilos atrás mencionados: o estilo engenhoso. novo e que merece. também. Em comparação com ele. por um lado. a sua atenção observadora. A palavra serve ou para cingir uma realidade sensorial.. desta espécie de debate doloroso entre o eu e o mundo exterior.palavras. ou pelo menos para o que eles consideravam como tal. em contraposição. Luís de Camões . a tal ponto que o utilizou como instrumento de uma mentalidade nova.. exclamativas e truncadas. O estilo sintético seria aquele que. o velho estilo do Cancioneiro Geral parece descarnado. que atribui às palavras (e. traduz uma sensibilidade nova. pobre e antiquado.) No seu conjunto. emoção e sua manifestação. e isto em resultado.. aproximando-se da linguagem falada. de tópicos tradicionais. Camões cultivou-o nas suas cartas e em fragmentos das suas comédias com uma mestria só igualada por Vasconcelos. 2 . Luís de Camões . ou. Livraria Bertrand. todavia. o que desenvolve as virtualidades do conceito ou da palavra a partir do pressuposto de que não existe uma realidade fora dele ou dela. (.. através delas. António José Saraiva. Este último só teve expressão literária em peças teatrais que pretendem surpreender a realidade linguística. o não transpuseram para a literatura. ou para explanar o discurso interior. pelo contrário. pode dizer-se que a poesia lírica camoniana não é lírica. e o estilo clássico uma laboriosa construção literária. ressuma de alegria de viver... reflete uma autêntica descoberta de um mundo que é. justamente. A poesia de Camões reflete algo mais do que a elaboração. havendo.. («) Dir-se-ia que. por isso. às ideias) uma existência. e em cartas íntimas.) Há nele [em Camões]. com recurso constante a frases interrogativas. para o Poeta. (. antes da sua reflexão dialéctica. 3.. corresponde a um pressuposto empirista e nominalista. que os escritores do século XVI. que parece ser muito praticado na corte. anunciado no conceptismo do Cancioneiro Geral. sem contestação. no segundo as palavras são meros condutores da experiência. o estilo clássico tinha este conteúdo. procurando por tentativas ajustar-se a ele. Camões fez mais do que imitar os modelos: tornou-se senhor do estilo que eles criaram. No primeiro caso é das palavras que nasce a construção mental. e o estilo clássico. ou para comunicar o fluir emocional. e o estilo clássico (camoniano) é sintético. discurso mental e discurso expresso. literariamente (uma vez que as cartas não se destinavam à publicidade e que os intermédios em prosa das comédias eram. Porque. muito afastada da língua viva.ª Ed. em qualquer caso.) (..Estudo e Antologia. poesia descritiva e poesia confessional (. aproxima-se da realidade sensorial.. e nem todos os seus cultores do século XVI souberam ir além da imitação. exemplos da fala corrente na corte). ESTILO CLÁSSICO ² influência clássica renascentista / medida nova Aqui tudo obedece ao sentimento de que a palavra é um sinal representativo de algo que lhe é exterior. É facto. Na lírica camoniana mal aflora em raríssimas composições jocosas. procura integrar a experiência considerada como algo exterior à linguagem. Livraria Bertrand. que a organiza. O contraste entre os dois estilos pode apresentar-se ainda desta forma: o estilo engenhoso é analítico. imitando-a quanto é possível. que é sempre formalista e convencional.. e nisso mesmo se antecipa ao Romantismo. dá à frase uma plasticidade que só reaparecerá com Garrett.) O estilo clássico de Camões é fortemente descritivo por um lado e confessional por outro. oposta àquela em que se formou e que transparece no seu estilo engenhoso. mas dramática. se o estilo engenhoso corresponde em Camões a um pressuposto realista. 3. por outras palavras. como peças de Jorge Ferreira de Vasconcelos. 1980. era uma imitação dos Latinos. intencionalmente. às vezes até o seu espanto. o pressuposto da dualidade objecto e palavra..ª Ed. («) Tanto Camões como Vasconcelos dão exemplos excelentes das virtualidades literárias deste estilo. Isto é verdade para Camões. Camões cultivou. O estilo analítico seria aquele que apenas explicita o conceito sem o modificar ou determinar pela experiência. pela vivacidade e agilidade da frase. não o é para todos os escritores clássicos seus contemporâneos. que a comanda. o estilo clássico. de dados assimilados. e idealista. Por trás da dualidade estilística de Camões pressente-se uma contradição essencial.Estudo e Antologia. se. 1980. segundo o qual só o que é experimentado tem existência.). incluindo Camões.

a exaltação da beleza de uma mulher de condição servil. com recurso a jogos de palavras. ideal e espiritual. a experiência da vida. aproveitamento das anástrofes. o amor sensível com a tortura do desejo. o verde dos campos e dos olhos. das anáforas. há uma perfeita fluência das ideias que. o humor. olhos verdes ou azuis. na livre expansão da alma enamorada de uma mulher ideal. olhar brando e sereno. O Petrarquismo consiste. homocentrismo. porque encontra correspondências no nosso temperamento. uso das antítese e dos paradoxos para traduzir a condição humana com as suas contingências. emprego das hipérboles para confessar os sentimentos. Essa mulher ideal apresentava um determinado tipo de beleza : cabelos de oiro. de grande riqueza lexical e semântica. a dor e a mágoa. Esparsa ± Uma só copla (mínimo de 8 versos e máximo de 16). nas glosas ao mote. o desconcerto do mundo. geralmente de 7 versos. de acentuado nas 6. Cantiga ± Um mote de 4 ou 5 versos (assunto). o pensamento religioso.ª e 10. já se encontravam nos nossos trovadores de amor cortês onde a "senhor" era idealizada e espiritualizada. riso terno e subtil. No Petrarquismo é escolhida a vida solitária e o poeta maltratado pelo amor refugia-se na Natureza e busca nela imagens que lhe permitam criar um confidente a quem confessa as suas amargas meditações de amor. de forma engenhosa. explicam o mote. a ausência e a saudade. a áurea mediania. frequência da metáfora. a mudança e efemeridade da vida. gesto manso. Vilancete ± Um mote de 2 ou 3 versos: umas (ou mais) glosas. da interrogação retórica. organizados em quadra (cabeça) e terceto (cauda). o elogio dos heróis. a mulher divinizada e inacessível.ª (sáfico). não tem mote nem glosas. os erros e as injustiças. dos hipérbatos. Fluente. utilização das personificações e prosopopeias para pintar e humanizar a Natureza. Trova ± Número indefinido de coplas. a mulher de beleza física e sensual. tez branca e rosada e lábios vermelhos. valorização da Natureza. 3 . ± uso (menos frequente) do verso hexassílabo. a saudade e o sofrimento. o ambiente cortesão com as suas o ³cousas de folgar´ e as suas futilidades.ª e 10. Medida nova ± uso do verso decassílabo. Soneto Canção Sextina Écloga Elegia Ode TEMAS LINGUAGEM VERSO VARIEDADE ESTRÓFICA Conceituosa. do paralelismo e das perífrases para melhor afirmar uma ideia. o destino. os trocadilhos e os processos hiperbólicos para exprimir o sofrimento amoroso. repete-se último verso do mote no último da glosa. Medida velha ± uso do verso de 5 sílabas métricas (redondilha menor) e de 7 (redondilha major). PETRARCA A influência de Petrarca é directa e profunda. uma glosa de 8. da aliteração e da harmonia expressiva para manifestar as emoções. 9 ou 10 versos (desenvolvimento). uma vez que o lirismo petrarquista na sua concepção de amor puro e ideal. pois. com naturalidade. uma mulher dotada de todas as perfeições e com graças terrenas que se ama com um amor que aspira a libertar-se da mancha da sensualidade como meio de ascender à contemplação divina.ª sílabas (heroico) ou nas 8. o amor simples e natural. a beleza suprema. mas que a cada passo deseja possuir-se. as ilusões frustradas do amor. composição reservada ao tratamento de assuntos tristes. harmoniosa. a menina que vai à fonte. o último verso da glosa repete o último do mote (com ou sem variantes). não tem mote nem glosas. com ou sem variantes.INFLUÊNCIA TRADICIONAL (aproveitamento da temática da poesia trovadoresca e das formas da poesia palaciana) (de influência italiana. trazida por Sá de Miranda e por António Ferreira) INFLUÊNCIA RENASCENTISTA Tradicionais e populares. de olhos pretos e tez morena: o amor platónico. O amor platónico e petrarquista. É o amor platónico.

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