PUC-Minas – Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais PPG-TIE – Programa de Pós-Graduação em Geografia: Tratamento da Informação

Espacial

Dossiê – Evolução do Pensamento Geográfico
Vitor Vieira Vasconcelos
MESTRANDO Setembro de 2008

Sumário:

1 - Introdução Geral o 1.1 - Do conhecimento Acadêmico o 1.2 - Da Disciplina Evolução do Pensamento Geográfico o 1.3 - Epistemologia o 1.4 - Da informação ao conhecimento o 1.5 - Vetor Epistemológico do Conhecimento Geográfico; Epistemologia da Geografia o 1.6 - A escala de análise da Geografia

2- As Origens e a Essência da Atividade Geográfica: Os Primeiros Geógrafos

   

3- As Geografias Pré-Helênicas

4- Geografia Grega

5 - Geografia Romana

6- Geografias Medievais o 6.1 - Geografia Chinesa o 6.2 - Geografia Muçulmana o 6.3 - Geografia Ocidental Cristã da Idade Média

7 - Os Antecedentes das “Escolas Européias” e a Universalização da Geografia o 7.1 - Varenius o 7.2 - A Enciclopédia o 7.3 - Kant o 7.4 - Darwin

2

8- A “Escola Alemã” de Geografia o 8.1 - Humboldt o 8.2 - Carl Ritter o 8.3 - Ratzel o 8.4 - Richthofen o 8.5 - Hettner

9 - A “Escola Francesa” de Geografia o 9.1 - As “Geographies Universelles” e o pensamento pioneiro de Reclus. o 9.2 - Vidal de La Blache e a Escola Regionalista

10 - Principais fundamentos e conseqüências da Primeira Revolução Quantitativa

11 - A Segunda “Revolução Quantitativa”; os Sistemas de Informação Geográfica

   

12 - Geografia Radical (ou Crítica)

13 - Geografia Cultural

14 - A Geografia e a especialização

15 - Pós-modernidade, Crise Paradigmática e Coexistência de Muitas Geografias

Bibliografia

3

1 - Introdução Geral

1.1 - Do conhecimento Acadêmico

A Academia, para a sociedade humana, pode ser caracterizada por duas funções básicas:

- Evitar a banalização, entendida como o nivelamento absoluto dos valores. Envolve saber reconhecer o que é e quem é especial ou importante, e no que vale a pena se dedicar para o progresso do conhecimento. - Combater o “faz-de-conta”, ou seja, a postura de fingir estar fazendo uma atividade, interessando-se apenas nas aparências. Pelo contrário, a Academia adota uma postura baseada no comprometimento e no esforço pessoal, em que se procura cumprir as metas a que se dispôs a realizar. O conhecimento exige trabalho, com tempo e dedicação, e não algo como somente intuição ou revelação. Há etapas a serem seguidas para se chegar ao conhecimento acadêmico; nesse caminho é preciso cuidar de seus aspectos teóricos, metodológicos e técnicos, antes de se elaborar hipóteses científicas.

A Academia dá prosseguimento ao trabalho histórico realizado por grandes pensadores. A cada época, ela permite herdar todo o significativo trabalho acadêmico já realizado e, a partir disso, procura dar-lhe um prosseguimento à altura. Podemos considerar os mestrandos e doutorandos como um grupo privilegiado, na sociedade, do ponto de vista de serem o grupo em formação para a manutenção da Academia.

1.2 - Da Disciplina Evolução do Pensamento Geográfico

A disciplina Evolução do Pensamento Geográfico tem importância fundamental nos cursos de Geografia por duas razões:

- Está voltada para o modo de pensar geográfico, fornecendo embasamento para a realização dos trabalhos posteriores. Como um estudo da história da Geografia, no que também acompanha a história da humanidade, será estudado, 4

contextualizadamente na história e no espaço, como a concepção de espacialidade de cada época gerou determinadas propostas de Geografia. A partir do estudo sobre como os geógrafos mais importantes de todos os tempos pensaram é esperado que o estudante possa distinguir os contextos epistemológicos dos trabalhos da Academia, assim como amalgame estas formas de pensar, e construa sua própria forma de pensar geograficamente.

- Outro motivo, para que esta seja a primeira disciplina do curso, é de que um programa voltado ao tratamento das informações espaciais possui um grande risco de tecnocratização. Iconoclasticamente, o tecnocrata seria aquele profissional que considera saber tudo e, nesse afã de poder, exatamente por isso considera que apenas ele pode fazer o que quiser. Porém, os softwares de tratamento de informação espacial vão passar e transformar-se rapidamente, tornando-se obsoletos, enquanto o pensamento geográfico acadêmico irá continuar através dos séculos. Essa disciplina poderia ser considerada, então, como uma “vacina” contra a tecnocratização. Isto não significa que as demais disciplinas da Geografia não possuam reflexões epistemológicas, mas o predomínio do ensino técnico poderia acabar não passando o valor essencial da Epistemologia.

A informação sozinha não resolve os problemas, é preciso de epistemologia para passar para o nível do conhecimento, e ir além do nível meramente técnico. Seria possível produzir mapa sem epistemologia, mas toma-se como certo que, utilizando desta, é possível produzir cartografia com muito mais qualidade. Aprender a pensar geograficamente é tanto um pré-requisito para o profissional pesquisador em Geografia, como também será algo que o indivíduo levará consigo até o fim de sua vida, nos mais diferentes momentos, como a maneira de experienciar uma viagem, ou de analisar relatos sobre outros lugares.

Além desses objetivos principais, um curso de Evolução do Pensamento Geográfico municia os estudantes de um instrumental composto de vocabulário, terminologia e capacidade de dissertar sobre temas internos à Geografia. Também auxilia a valorizar e melhorar os mapas mentais de cada um, aprimorando sua consciência espacial do mundo em que vivemos. Por fim, acompanhar a contextualização histórica na evolução 5

do pensamento geográfico também proporciona um novo olhar sobre a história da humanidade.

1.3 - Epistemologia A Epistemologia, a partir de sua origem etimológica grega, significaria o “Estudo da Ciência” 1. Seu sentido é quase o mesmo de Gnosiologia, ou seja, uma reflexão sobre o conhecimento2. Sobre esse aspecto, ela lida com noções cognitivas correlatas, como crença, compreensão, razão, julgamento, sensação, imaginação, aprendizado e esquecimento 3. Contudo, o conceito de Gnosiologia costuma se dirigir mais para o conhecimento em geral, enquanto a Epistemologia tem como objeto principal as ciências acadêmicas 4.

A epistemologia se interessa pela história do conhecimento, mais especificamente pela história do desenvolvimento das ciências. Parte-se da premissa de que, para construir e reconhecer algo de maior valor em um campo de saber, é preciso conhecer a tradição desse conhecimento, percorrendo esse caminho de suas origens até os dias de hoje. A Metodologia, por sua vez, é considerada pela maioria dos epistemólogos como uma parte da Epistemologia 5. A metodologia seria o estudo dos mecanismos internos da ciência, enfocando seus procedimentos 6.

A Epistemologia também pode ser específica, na medida em que trabalha sobre uma ou outra ciência em particular. São exemplos os trabalhos sobre Epistemologia da Geografia, Epistemologia da Biologia, etc. Todavia, a Epistemologia também pode estudar a relação entre as diversas ciências e disciplinas. Nesse tocante, é de seu interesse o surgimento constante de novas disciplinas pela especialização extrema, na

1

FERREIRA, 1987 e VIRIEUX-REYMOND, 1972 – “Le terme d’ épistémologie est formé du mot grec épistémé signifiant science et du suffixe logie (construit sur le mot grec logos), significant théorie, étude critique sur la science.” 2 MORA, 1964 3 LACEY, 1976 4 DICIONÁRIO DE FILOSOFIA LAROUSSE, 1969, e MORA, 1964 – “puede proponerse o seguinte: usar gnoseologia para designar la teoria del conocimiento em cualquiera de sus formas, y epistemología para designar la teoría del conocimento cuando el objeto de esta son principalmente las ciencias.” 5 DICIONÁRIO DE FILOSOFIA, 1964, P. 93, 94 e 203. 6 MICRO ROBERT, 1971, p. 665

6

qual há o risco da perda da unidade do conhecimento acadêmico 7. Também são de seu interesse as áreas de entroncamento das disciplinas, nas quais os diversos conhecimentos acadêmicos convergem, interagem e se agrupam, criando novos campos de conhecimento
8

. Tradicionalmente, a Filosofia e a Geografia são áreas de

entroncamento de diversas ciências, e atualmente têm surgido novas áreas convergentes, como a Cibernética. À Geografia, em particular, cabe o título tradicional de área de entroncamento entre as ciências humanas e a ciência da natureza. Essa é a razão pela qual, nas classificações acadêmicas, às vezes a Geografia seja classificada como parte das Ciências da Terra e, em outras, o seja como parte das Ciências Sociais.

Apesar de a Epistemologia enfocar o saber acadêmico, é preciso ter claro que existe uma linha muito tênue entre o conhecimento científico e o conhecimento geral. Essa relação entre os dois é muito próxima, como constantemente re-frisado pela corrente pós-moderna. Houve um período em que o conhecimento científico quis colocar barreiras muito grandes entre ele e o conhecimento comum, como maneira de delimitar com mais precisão o que seria o verdadeiro método científico. O objetivo desse alheamento seria garantir o seu valor frente às demais formas de conhecimento.

Na Epistemologia, o filósofo Feyerabent, combateu esta posição, propondo que há formas de conhecimento mais adequadas que a ciência. Segundo ele, a ciência tornarase um conhecimento hermético e fechado, criando óbice ao próprio desenvolvimento do saber humano. Feyerabent, em sua oposição aos métodos tradicionais científicos, propôs uma posição radical, combatendo inclusive o método e a razão acadêmicos. É salutar atentar-se para a força dos argumentos de Feyerabent; contudo, a opção por dar prosseguimento à Academia, por diversos profissionais, baseia-se ao menos na suposição de ainda existir um certo valor na produção do conhecimento científico.

Mas o que estuda a Epistemologia? A Epistemologia, como ramo da Filosofia, se interessa pelo conhecimento, no que abarca seus princípios, hipóteses e resultados, procurando sua produção, origem lógica, validade e finalidade. Seus objetivos poderiam ser sintetizados com perguntas comuns, tais como: O que eu faço está correto metodologicamente? Para que serve? Que valor possui?
7 8

VIRIEUX-REYMOND, 1972 VIRIEUX-REYMOND, 1972

7

Nessa última pergunta, cabe ressaltar que não se trata de um valor financeiro, e sim de valor em termos de utilidade, moralidade, apreciabilidade, entre outras tantas formas de valoração axiológica. Louis Lavelle escreveu que só existe valor quando há ruptura da indiferença 9. É nesse ponto que podemos nos remeter novamente à importância da função da Academia em combater a banalização ou generalização absoluta, visto que um conhecimento, para ter valor, não pode ser nivelado de plano com tudo mais.

O valor do conhecimento, até certo ponto, pode ser contextualizado pelo momento histórico. As percepções, valores e atitudes das pessoas atuam na produção do conhecimento, assim como o contexto social, cultural, econômico e político. Contudo, há conhecimentos que perduram ao longo da história, os quais, portanto, transcendem essa abordagem valorativa meramente contextual. Como exemplo, tomem-se as obras de arte clássicas, que continuam a ser apreciadas há séculos, demonstrando escapar em boa medida de um mero determinismo histórico.

Também é de interesse da Epistemologia a valorização ou desvalorização de certas áreas de conhecimento científico, ao longo da história 10. A preocupação com o que nos permite construir o conhecimento, ou seja, uma fundamentação epistemológica de bom nível, no permite utilizar os instrumentos e informações a nossa disposição para gerar um conhecimento de maior valor 11. A epistemologia é um modo de debater o valor de uma teoria com um mínimo de consenso, sem recorrer a questões religiosas ou pessoais.

Esse é o motivo pelo qual se dá tamanha importância à Epistemologia no meio acadêmico. Pois, apesar de seu estudo ser uma tarefa complexa, o efeito de seu aprendizado epistemológico pelo pesquisador o torna mais crítico em relação ao conhecimento que produz, assim como o torna crítico para avaliar e se movimentar em

9

PERELMAN, 1993, p. 45 - “pode dizer-se que o termo valor se aplica sempre que tenhamos de proceder a uma ruptura da indiferença ou da igualdade entre as coisas, sempre que uma delas deva ser posta antes ou acima de outra, sempre que ela é julgada superior e lhe mereça ser preferida". 10 VIRIEUX-REYMOND, 1972 – “par la redécouverte, grace des travaux d’ histoire des sciences, des disciplines dont l’objet avait été disloqué par la spécialisation.” 11 BUNGE, 1983 – “Methodology, like logic and decision theory, is a normative discipline”.

8

meio ao conhecimento produzido pelos seus pares acadêmicos e pelos demais produtores de conhecimento na sociedade 12.

1.4 - Da informação ao conhecimento

Há algumas décadas atrás, quando a estrutura de comunicações era pobre no Brasil, existia pouco acesso à informação, e muito menos ainda para a população desprivilegiada socioeconomicamente. Algumas pessoas possuíam rádios, poucos jornais circulavam, e somente em algumas cidades havia televisão. De qualquer forma, a disponibilidade desses meios de informação já era melhor do que não existir acesso a informação alguma. Se considerarmos a enorme disponibilidade de informação de hoje em dia, facilmente podemos asseverar que nossa vida é muito menos tediosa que a de antigamente.

O problema atual, por outro lado, seria conseguir selecionar a informação útil, em meio a tantas disponíveis
13

. Contudo, não se pode precipitar e afirmar haver muita

informação, pois comparado a “toda informação existente” no universo, o que possuímos acessível não deixa der ser infinitamente pequeno. Com efeito, isso vale para as duas dimensões cognitivas nas quais vivemos, ou seja, o espaço e o tempo. A título demonstrativo, na escala geológica o tempo do indivíduo é quase inexistente. A partir de tal reflexão, ponderamos que seria muito ambicioso para um ser humano almejar conhecer a totalidade do universo.

Uma informação percorre um longo caminho até transformar-se em conhecimento. Ela é triada por um sujeito, entre suas percepções, colocada em um contexto intelectual, expressa em um código específico e então disponibilizada a outros sujeitos. Importa
12

LOSEE, 1979 – “O cientista que ignora os precedentes na avaliação das teorias provavelmente não fará, ele próprio, uma boa avaliação.” 13 GOULD & WHITE, 1974 - ‘O comportamento humano é afetado somente pela porção do ambiente que realmente é percebido. Nós não podemos absorver e reter a quantidade virtualmente infinita de informações que incide sobre nós no dia-a-dia, mas construímos filtros percepcionais que peneiram as informações de modo altamente seletivo. A nossa memória, em vez de armazenar toda impressão sensorial provinda do ambiente, seleciona e retém somente pequena porção. A nossa visão do mundo, e sobre as pessoas e lugares que nele se encontram, é formada a partir de um conjunto de impressões altamente filtradas, e as nossas imagens são fortemente influenciadas pelas informações que recebemos através dos nossos filtros’.

9

voltar a destacar que apenas uma ínfima parte de toda informação do universo está disponibilizada em código.

Há muitas informações que não conseguimos entender e que, portanto, não nos apresentam valor, pelo simples fato de não sabermos interpretar o código pela qual ela se manifesta. Por exemplo, podemos ter em mãos um jornal russo, e mesmo sabendo que existe informação ali, não a conseguimos decifrar, por não ser um idioma de nosso domínio. No mundo existem centenas de línguas, e milhares de dialetos, o que representa um grande desafio para a comunicação e o acesso a informações.

Um exemplo clássico de código útil para o Geógrafo é o relacionado às técnicas de localização, onde, através do Sol, estrelas, coordenadas, cálculos e instrumentos, o profissional consegue interpretar informações externas e inferir sua posição no espaço. Pode-se até dizer que quanto maior o número de meios pelo qual o geógrafo consegue localizar-se, melhor geógrafo ele é. Isso é especialmente verdadeiro nas atividades de trabalho de campo, onde é crucial o senso de orientação e localização do pesquisador.

Na Geografia, outro exemplo de importância do código é no sensoriamento remoto, pois neste é necessário interpretar as cores falsas dispostas a partir das informações de satélite. O domínio desse código é essencial à boa interpretação das informações associadas à imagem.

A interpretação de informações pode seguir caminhos múltiplos. A contextualização do momento e lugar em que foi posta em código uma informação também pode trazer novos caminhos de interpretação. A escolha de uma palavra, e não de outra, em uma manchete de jornal pode levar a todo um caminho de reflexão. Há notícias que são publicadas para um grupo especial de leitores, os quais terão conhecimentos e valores específicos para interpretar a informação da maneira como foi pretendida pelo comunicador. Portanto, para uma melhor interpretação de um código, auxiliam muito certos conhecimentos prévios, como um conhecimento de uma região, de sua história, de sua população e de seu contexto geopolítico.

O risco do conhecimento se transformar em dogma é grande. Conseguinte, ele deixa de ser conhecimento, pois este deve ser mutável, por definição. Por isso, é importante 10

manter uma atitude de abertura a novas informações, incentivando o diálogo entre antigos e novos saberes.

1.5 - Vetor Epistemológico do Conhecimento Geográfico – Epistemologia da Geografia

No processo de transformação de uma informação em conhecimento, podemos reconhecer várias etapas, as quais formam uma espécie de caminho (ou vetor) epistemológico, rumo a uma abstração e complexidade crescentes do conhecimento. Podemos resumir esse vetor em fases, e dentre elas algumas são apresentadas a seguir:

11

Figura 1 – Processos e Etapas na produção do Conhecimento Geográfico. Fonte: Prof. Oswaldo Bueno Amorim Filho, PUC-Minas, 2008

12

1º - Campo da Realidade: é muito amplo e variado, e apenas uma pequena parcela dele termina por chegar a nós. Uma das maiores angústias humanas, ao lado da idéia da morte, é a da angústia de não podermos ter uma idéia da amplitude do universo, já que, por dedução racional, este é infinito. Ademais, a posição humana no universo tornou-se mais ínfima e irrelevante a partir do momento histórico em que se passou do geocentrismo para visões mais relativas do espaço; pois o ser humano, além de ser apenas um pequeno grão de areia no universo, ainda perdeu sua posição de centralidade. Para evitar essas angústias e manter nossa saúde mental, muitos recorrem à religião e à espiritualidade, tal como proposto pelo filósofo Blaise Pascal em sua obra “Pensamentos” 14.

2º - Campo da Informação: Ressalta-se que mesmo o nosso contato com a realidade já é filtrado, através das capacidades e limitações sensoriais de nosso corpo e mente. A partir de nosso aparato sensorial e cognitivo, podemos estruturar as informações captadas de forma estética, temporal e espacial.

3º - Campo do Conhecimento: é o principal objeto de estudo da Epistemologia. Dividese em: a) Tratamento da Informação: códigos e compreensão. b) Quadros e Sistemas Metodológicos e Conceituais: no caminho para transformar a informação em conhecimento, é necessário toda uma reflexão em torno da epistemologia e da organização racional dos dados. c) Conhecimento: as teorizações são a principal função da Academia. A função principal da Academia não é aprender a trabalhar com a informação, mas sim transformá-la em conhecimento.

4º - Campo da Atividade: É o momento em que o conhecimento torna-se valor, ao ser utilizado pelo o ser humano, seja para sua sobrevivência, seja para o seu prazer.

14

PASCAL, 1670 - Pensamentos

13

Conseguinte, podemos classificar as abstrações ao longo desse vetor nos seguintes níveis:

1º - Mundo Empírico (ou Campo da Realidade): Cada pessoa possui um bloco de experiência diferente dos outros; isso é o que torna um grupo de pessoa algo rico e heterogêneo.

2º - Identificações elementares: nomes básicos de lugares e coisas, partindo da constatação de que cada um é singular e diferente dos demais. Esta etapa foi muito enfocada pelos geógrafos viajantes, em seus relatos. Ainda hoje, constitui uma etapa fundamental para o trabalho geográfico.

3º - Conceitos: distinguem-se das definições elementares por se interessarem mais por classificações coletivas referentes a conjuntos de objetos, por meio da utilização de termos genéricos, em vez de se referirem a objetos individuais. A reflexão detida sobre os conceitos é de vital importância na atividade acadêmica, visto que a informação não se torna conhecimento preciso se não houver conceitos bem estruturados.

4º - Princípios: Possuem caráter abstrato e muito mais duradouro que os níveis de abstração anteriores. Podemos dizer que sempre há princípios guiando a atividade científica. Um exemplo geral de princípio é o da Conexão, pressupondo que as coisas neste mundo estão interligadas; princípio esse que tornou possível erigir a Teoria de Sistemas. Existem princípios que foram desenvolvidos dentro da Geografia; também há princípios que vieram de outras disciplinas, mas que foram incorporados à prática geográfica; bem como se podem supor princípios gerais da prática científica e extracientífica.

5º - Leis: são padrões e regras aos quais a natureza e o ser humano estão sujeitos. Chega-se a erigir poucas leis na Geografia, contudo, há de se apontar algumas na Geografia Física. Exemplos de status de lei na Geografia Física seriam as transformações ambientais mensuráveis, tais como a declividade, o tipo de rocha e a erosão. Hoje existe uma desconfiança considerável quanto à proposição de leis nas áreas das Ciências Humanas. Outrossim, segundo o cientista Prigogine, estamos na era da incerteza das leis da ciência, inclusive no tocante às ciências exatas. 14

6º - Modelos: Normalmente, são construções abstratas, explicativas, constituídas a partir de princípios e leis
15 16

. Atualmente, as explicações mais audaciosas, abstratas e

academicamente reconhecidas dos Geógrafos chegam a esse ponto. O mapa, para a Geografia, pode ser considerado como um modelo. Como o contexto espacial é o mais importante da Geografia, também é importante pensar no modelo mental que temos da espacialidade de nosso mundo.

7º - Teorias: são o trabalho intelectual mais elevado. Distinguem-se dos modelos justamente por sua maior durabilidade na história acadêmica, além de possuírem uma capacidade mais abrangente de explicação. De fato, é preciso que a teoria tenha uma estabilidade um pouco maior que os modelos. Inclusive, uma teoria pode incorporar vários modelos, e estes podem ser aperfeiçoados e substituídos dentro do arcabouço teórico mais amplo, sem com isso determinar a rejeição de uma teoria. Mas, com o passar do tempo, ao acrescentar mais e mais dados empíricos às teorias, estas impreterivelmente vão mudando. Pois a teoria dura enquanto ainda consegue explicar as coisas.

Conforme vão aparecendo dados inexplicáveis, poderemos dizer apenas, no máximo, que a antiga teoria explica parte das coisas. As teorias não chegam a ser abandonadas de plano – falar de substituição paradigmática de teorias, da forma proposta inicialmente por Thomas Kuhn, como um fenômeno brusco e repentino, seria uma concepção muito maniqueísta da história das ciências. Não é preciso chegar ao ponto de queimar os livros antigos depois de uma suposta quebra paradigmática. Aos poucos, não obstante, as teorias antigas vão perdendo a centralidade que anteriormente ocupavam, dando espaço a novas teorias que chamam cada vez mais atenção, em virtude da sua capacidade de

15

CHRISTOFOLETTI, 1985 - “ O modelo é instrumento que formaliza a hipótese para ser devidamente testada, implicando formulações quantitativas, verificáveis e universalmente aplicáveis”.
16

SANTOS, 2002 – “Um modelo é, sem dúvida, uma representação da realidade, cuja aplicação, ou uso, só se justifica para chegar a conhecê-la, isto é, como hipótese de trabalho sujeita a verificação. Da mesma maneira que dos fatos empiricamente apreendidos se chega à teoria por intermédio de conceitos e de categorias historicizadas, volta-se da teoria à coisa empírica através dos modelos. Dessa forma e com ou sem intuito de reformulá-la, submete-se a teoria a um teste pois a realidade não é imutável. Assim, o modelo se encontra no mesmo nível do conceito neste caminho incessante de vai-e-vem, do fato cru à teoria e desta, de novo, ao empírico. Este movimento permite que os fatos sejam melhor conhecidos (pela utilização da teoria) e que a teoria seja melhorada (pela prova dos fatos). Assim, os dois – conceito e

15

explicação. Portanto, a teoria não deve ser encarada como dogma. Esse é o mote para buscarmos novas teorias, procurando entender o que atualmente ainda não parece bem explicado. Contudo, a atividade teorética, em si, é bastante difícil, são poucos os pesquisadores que conseguem chegar a esboçar uma verdadeira teoria. O trabalho acadêmico mais comumente trabalha com fragmentos de teorias, chegando mais das vezes, em seu ápice, a propor modelos.

As teorias e os modelos são úteis porque, mesmo sendo sempre incompletos e imperfeitos, ajudam a não ter que reconstruir o conhecimento a partir do nada a cada tentativa de pesquisa. Podemos dizer que a trajetória acadêmica, rumo aos seus objetivos constitutivos, se completa conforme o estudioso avança ante as etapas cada vez mais abstratas.

As teorias, conceitos e princípios permanecem em discussão por milhares de anos, devido a serem construtos abstratos. Acontece o contrário com os dados empíricos, que são infinitos e vastos, e que, por motivo de acessibilidade, praticidade e utilidade, costumamos trabalhar apenas com os mais recentes. Ademais, para o contexto acadêmico, só utilizamos os dados empíricos à medida que teorizamos.

Os princípios são orientações básicas e duradouras, e dificilmente são desmentidos. Ao contrário das teorias e modelos, que são volta e meia contestados e reformados ao longo da história. Os princípios advêm em grande parte do “senso comum”, enquanto as teorias são bem mais artificializadas. Por isso mesmo, é difícil saber desde quando as pessoas utilizam certo princípio, ao menos até que um estudioso o formalize explicitamente. Poderíamos dizer que o princípio pertence, quiçá, mais à categoria da sabedoria que do conhecimento. Enfim, talvez seja por essas características que eles durem mais e sejam tão difíceis de serem contraditos.

Ademais, existem princípios sem os quais não é possível trabalhar na Geografia. Por exemplo, o princípio da diferenciação de áreas, formulado pela escola alemã de Geografia, entendendo que as regiões seriam áreas em que as diferenças internas são

modelo – devem permanentemente ser revistos e refeitos; e isto só pode ser obtido levando em conta que tanto a teoria como a realidade se encontra em processo de permanente evolução.”

16

menores que as diferenças externas. Hartshorne afirmava que esse seria o maior princípio da Geografia 17.

Outro princípio geográfico relacionado é o das regiões polarizadas, segundo o qual certas áreas possuem uma maior força de relacionamento com outras áreas, o que acaba, em âmbito geral, por criar sistemas de polarização. Os modelos matemáticos dedicados a esse tipo de estudo mostram regiões em que a polarização é bem explícita, enquanto em outras há interferências complexas entres diferentes áreas de polarização. Contudo, nesses modelos, e em especial nas áreas onde a resposta de polarização não se mostra tão evidente, é preciso considerar que o produto de análise nunca é exatamente conforme a realidade, visto que existem fatores culturais, sociais e individuais difíceis de mensurar.

Um outro princípio, o qual também é utilizado para outras ciências, é o da observação morfológica: tanto o geógrafo precisa reconhecer a morfologia da paisagem, quanto um médico necessita analisar a morfologia de uma radiografia ou exame por imagem. Uma análise morfológica pode detectar padrões como o de centralidade, embora essa detecção incorpore também a necessidade de se entender padrões de movimento – como no caso das ruas de uma cidade, que tendem para o seu centro. Já o princípio da extensão é patente: os elementos necessitam possuir uma extensão mensurável para serem tratados pela Geografia. Outro princípio basilar da Geografia seria o da Unidade Terrestre.

17

[GOMES, 1996]

17

Figura 2 – Princípios orientadores da Geografia Clássica ou Tradicional – Fonte: Prof. Oswaldo Bueno Amorim Filho – PUC-Minas, 2008.

18

Apesar de serem apresentadas uma a uma, não é vinculante que sejam seguidas todas as etapas do vetor epistemológico. Um exemplo disso é a construção de modelos geográficos que comumente não chegam a se estabelecer a partir de leis
18

. Há certas

explicações, na Geografia, que inclusive têm de recorrer a modalidades de argumentação não sistematizadas academicamente, com grau de confiabilidade e incerteza inferiores ou pouco conhecidos, como é o caso de fatores culturais e emocionais. Todavia, não se pode desconsiderá-las, visto que são fatores importantes na constituição do espaço geográfico.

Nos debruçando sobre a progressiva abrangência abstrativa no vetor epistemológico, podemos utilizar os conceitos de teoria, método e técnica, respectivamente do mais abstrato para o mais específico. Uma teoria pode abarcar e utilizar uma diversidade métodos, dentro de seu construto teórico. Por sua vez, um método pode abarcar várias técnicas. Uma técnica, conforme se desenvolva e se torne cada vez mais sofisticada, pode chegar a ser considerada como um método.

Exemplificando, na Geografia, o trabalho de campo é normalmente considerado como uma técnica, porém, caso o tipo de trabalho de campo seja suficientemente sofisticado e elaborado, pode chegar ao status de método. Em verdade, a prática de campo se torna quase uma sabedoria do geógrafo, incorporada à sua percepção contínua do mundo. Onde quer que vá, o Geógrafo observa e pensa sobre o meio de maneira peculiar, que podemos denominar como uma expressão do “espírito geográfico”.

Há várias outras técnicas de observação na Geografia, como as técnicas de análise de fotografias, aerofotos e de imagens de satélite, variando em seus graus de sofisticação e também no tipo de informação que é apreendida. Disso pode-se depreender sobre a importância da observação para a Geografia; logo, o Geógrafo deve procurar sempre aprimorar e aperfeiçoar sua capacidade de observação.

18

SANTOS, 2002 – “Os modelos não são obrigatoriamente interpretativos e podem ser puramente descritivos. Isto não suprime a necessidade de inscrevê-los em um quadro teórico, pois deste depende, em sua maior parte, o bom resultado de qualquer que seja a pesquisa.”

19

A Semiologia, da escola francesa, ou Semiótica, pela escola anglo-saxônica, é o ramo epistemológico que trabalha com as representações. Todas as etapas do trabalho acadêmico trabalham com representações: mesmo as teorias e modelos não deixam de ser representações, em última análise.

A Semiologia é muito importante para a Geografia, em especial para a Cartografia. Afinal, a Geografia trabalha com diversos tipos de representação: verbal (escrito ou oral), numérica, metalinguagem, cartográfica, entre outras. Os mapas, na linguagem cartográfica, são muito úteis para se comunicar um conhecimento espacializado sobre um lugar. O cuidado e as reflexões semiológicas na Cartografia ajudam a elaborar mapas mais claros e informativos. Isso é importante para não se elaborar mapas de difícil compreensão, devido ao excesso mal arranjado de informações. Outros mapas pecam por um maior cuidado na escolha de cores e de delimitações adequadas.

Uma das distinções basilares da Geografia, em relação às outras ciências, é a possibilidade de mapear (cartografar) a informação. Portanto, a padronização semiológica da atividade cartográfica é uma tarefa essencial para uma comunicação mais adequada através de mapas. Afinal, um bom geógrafo deve saber tanto fazer quanto interpretar mapas, constituindo-se atividade essencialmente comunicativa, tanto intra-acadêmica quanto para sua comunicação externa.

A padronização semiológica evitaria situações como mapas desenvolvidos por setores acadêmicos ou militares que só conseguem ser bem interpretados por profissionais das respectivas áreas. Essa padronização deve ser, idealmente, interdisciplinar, visto que a cartografia não é uma atividade exclusiva da Geografia. Outra situação a ser destacada refere-se ao uso geral das formatações cartográficas pré-existentes nos diversos softwares de SIG, sem um conhecimento e reflexão prévios sobre a semiologia cartográfica.

20

1.6 - A escala de análise da Geografia
19

O termo escala pode ser entendido como graduação ou categoria de análise

. Já em

termos de reprodução cartográfica e arquitetônica, também pode se referir à correlação entre a representação de um objeto e seu tamanho real. O mundo pode ser examinado em diferentes escalas de observação, desde a escala de observação da Física Quântica e da nanotecnologia, atinentes a elementos atômicos e sua interação, até a escala de observação das pesquisas astronômicas, que podem alçar às galáxias e a todo o universo conhecido.

Em cada escala, podemos observar elementos e estruturas diferentes, a partir de nosso aparato perceptivo e de instrumentos de análise
21 20

. É como se cada escala fosse uma

maneira de enxergar o mundo, dando ensejo à criação de diferentes teorias, conforme o enfoque da escala de abordagem . Essas abordagens e teorias fornecem-nos visões de

mundo, paralelas e concomitantes, como tais como, por exemplo, o mundo visto pela Física Atômica, pela Biologia Celular, pela Geografia, pela Astronomia, e várias outras ciências, cada qual com sua escala de abordagem apropriada.

A escala de análise da Geografia inicia-se com o habitat, espaço de vivência cotidiano, e vai até a representação do Planeta Terra como um todo. Esse limite máximo de seu objeto de análise pode ser inferido etimologicamente do próprio nome da disciplina, visto que “Geo” refere-se à deusa Gaia, a qual representa simbolicamente o nosso planeta, enquanto “Graphia” pode ser interpretado como a representação gráfica desta deusa. Ao contrário do que ocorre na Astronomia, para a qual o homem seria apenas um ponto ínfimo no meio do Universo, a ocupação e ações humanas tem papel significativo na escala e objeto de análise geográficos.

A variação de escalas de análise é um tema precioso para o geógrafo. É preciso cuidado ao comparar objetos de tamanhos muito diferentes, em escalas diferentes. Os estudos geográficos debruçam-se em várias escalas, da qual podemos traçar uma lista exemplificativa, em conformidade com a aproximação: Terra, Continente, País, Estado,

19 20

CASTRO, 1995 DOLLFUS, 1970 – “Sabe-se também que, quando se muda de escala, os fenômenos mudam não somente de grandeza, mas, de natureza.”

21

Cidade, Bairro, Quarteirão. No limite de proximidade, a Geografia já perpassa o campo da Arquitetura, nos espaços pessoais cotidianos, casas e prédios, na escala do “habitat”.

Em cada escala de análise, o Geógrafo deve escolher um nível de detalhamento adequado (também chamado de “escala de detalhe")
22

. Por exemplo, uma escala de

1:25.000 seria adequada para estudos em um Município, enquanto uma escala de 1:250.000 já seria melhor para trabalhar com as meso-regiões de um Estado como Minas Gerais. Por exemplo, ao comparar países de tamanhos, riqueza e população muito diferentes, é preciso manter sempre em conta essas diferenças de proporção.

Figura 3 – Município de Cornélio Procópio e sua região de entorno, visualizados em diversas escalas.

21 22

CASTRO, 1995 CASTRO, 1995

22

Isso não significa que o Geógrafo não utilize o conhecimento vindouro de outras escalas de análise, para em seguida distribuir espacialmente informações resultantes desses conhecimentos
23

. Na Geografia Física pode-se utilizar conhecimentos de Física

Quântica, como, por exemplo, para rastrear o fluxo hidrológico subterrâneo em áreas de carste por meio de isótopos radioativos. O estudo do calibre de grãos de areia, silte e argila, para estudos de erosão da Geografia Física, é um outro caso de como a Geografia pode utilizar-se de análises laboratoriais de outras escalas.

Passando para as escalas do infinitamente grande, desde a antiguidade houve uma vinculação entre a Geografia e a Astronomia, que auxiliava na localização, orientação e medições. Contudo, com o passar dos séculos, o desenvolvimento da Astronomia e da Geografia seguiu caminhos cada vez mais afastados, aqueles se voltando mais e mais para as estrelas e estes para o Planeta Terra.

Inobstante, é bastante evidente que o Geógrafo apenas utiliza de informações vindas de outras ciências, tomando-as de empréstimo, em vez de se dedicar à produção acadêmica desses conhecimentos 24. A Física Atômica não é Geografia, embora possa ser útil a esta última, eventualmente. Assim também ocorre com a Psicologia, Astronomia, Cibernética, dentre outras disciplinas.

23 24

DOLLFUS, 1970. DOLLFUS, 1970. “(...) o conhecimento mais profundo de certos níveis tem que fazer apelo a outras disciplinas que não são diretamente geográficas em sentido estrito.”

23

2 - As origens e a Essência da Atividade Geográfica: Os Primeiros Geógrafos
25

O homem primitivo já era ocupante do espaço deste em suas atividades
26

, por definição, e usuário-explorador
27

. Em suas atividades relacionava-se com o ambiente em seu . Nesse ínterim, a saída
28

entorno, e este, por sua vez, influía em seu desenvolvimento

dos homens arborícolas para os campos, adquirindo a postura ereta

e comportamento

caminhante, significou uma nova percepção e relação em meio ao espaço. A observação da paisagem poderia ser considerada como o primeiro “ato geográfico”.

Importantíssimo, nesse caminho evolutivo humano, foi o comportamento simbólico, podendo ser entendido como uma verdadeira evolução de consciência. A partir dele, o homem começar construir uma via comunicativa e emotiva através de representações, rituais, adornos, músicas, as quais incluem também o relacionamento simbólico com o espaço em que vive
29

. A linguagem, juntamente à memória, aparece então como

possibilidade de reconstruir mentalmente o mundo, sem necessidade do contato direto com os sentidos. A partir da tradição oral e do registro gráfico, os seres humanos começam a referir-se a histórias que envolvem a descrição de paisagens e suas características. Desse ponto, seria um passo para o desenvolvimento dos primeiros mapas 30.

Quando começam a ser elaborados mapas, então podemos partir do pressuposto de há alguém que domina o espaço e é capaz de representá-lo. Já podemos falar então de um desenvolvimento conceitual da prática geográfica.

25

NOUGIER, 1966 – “Desde a existência dos primeiros homens, há ocupação do solo, apropriação dos recursos primordiais. Ocupante pelo fato mesmo de sua existência, explorador para sua subsistência elementar, o homem nascente cria a Geografia Humana.” 26 CLOZIER, 1972 – “Os grupos humanos aparecem, com efeito, como os infatigáveis usuários do globo onde, para fins variados, eles multiplicam suas idas e vindas”. 27 NOUGIER, 1972 – “Nesses tempos tão remotos, uma constatação é evidente: nunca o homem foi tão dependente dos fatos físicos!” 28 NOUGIER, 1966 – “Abandonando a horizontalidade dos antropomorfos para se postar na vertical (...)” 29 NOUGIER, 1966 – “No Magdaliano, entre os milênios XV e X, um pensamento mais profundo aparece. A terra, sustento dos homens e dos animais, parece assumir um outro valor. (...) Insensivelmente, a terra tornou-se a Mãe-terra, a criadora de homens e animais. (...) Vários lugares tornam-se lugares sagrados.” 30 AMORIM FILHO, 1982 – “Quando os homens primitivos desenhavam nas paredes das cavernas, nas areias das praias, no piso de suas moradias a localização presumível de caça ou do poço de água

24

Figura 4 - mapa (planta) de Çatälhöyuk, pintado na pedra há cerca de 6000 anos, descrevendo uma cidade neolítica.

Figuras 5 e 6 – Histórias contadas a partir da escrita primitiva dos índios norteamericanos, onde há referências a características do ambiente, como rios, lagos, florestas, habitações, variações de distância entre os caminhos, dentre outros.

potável, eles elaboravam, sem disso ter consciência – os primeiros mapas de que se tem notícia, produzindo os primeiros exemplos de ‘geografia aplicada’.”

25

Figura 7 – Mapa dos índios norte-americanos, datado de 1825, elaborado originalmente sobre couro. Fonte: British Museum, por Raymond Wood.

Figura 8 – Mapa indígena, em couro de búfalo, das planícies centrais norte-americanas, a pelo menos 500 anos.

26

Pode-se dizer que o homem sempre teve sua característica de viajante, e nesta atividade construiu um relacionamento especial com o espaço. Necessidade de movimento, seja através de migrações forçadas, para sua própria sobrevivência
31

, ou devido também a

um sentimento intrínseco, a que compete denominar de curiosidade. Podemos postular que a representação dos lugares se conjuga com a busca humana de se explorar novas terras, e nesse contexto se desenvolve.

A compreensão de um espaço linear, ou seja, referente às rotas e itinerários, com certeza foi de vital importância para os seres humanos primitivos, dada a sua característica predominantemente nômade. Já o espaço “amplo” se apresentaria, por exemplo, no momento em que indivíduo se elevasse a um ponto elevado no relevo para planejar espacialmente as ações de seu interesse. Obviamente, ainda tratava-se de uma atividade extremamente aplicada e intuitiva, em contraposição à atividade geográfica reflexiva, histórica, sistematizada e explanativa que possuímos na Geografia atual.

A escala de ação do homem, no período primitivo, está restrita ao âmbito local e pontual, sem grande capacidade de usos e transformações substanciais da paisagem. Seria uma atividade exploratória, descritiva e diretamente aplicada. Mas marcam o início do que será o “espírito geográfico”.

A localização, a orientação e o conhecimento do ambiente são aspectos cruciais para o ser humano, em todos os tempos. Por exemplo, na pré-história, podemos destacar a eficiência das atividades humanas através da reflexão sobre a localização caça, dos perigos à sobrevivência, e inclusive de lugares insalubres relacionados a moléstias. No caso específico da caça, é de se esperar que o ser humano tenha aprendido a utilizar “armadilhas geográficas”, em que através do mapeamento mental do terreno, traçavamse as rotas da caça e dos caçadores, rumo a um terreno em que o segundo obtivesse uma posição privilegiada.

Um exemplo de atividade, geográfica em essência, é a dos guias, presentes desde as sociedades primitivas até a nossa sociedade moderna. Nas migrações, sua importância

31

CLOZIER, 1972 – “Um dos fatos mais característicos revelados pela pré-história reside precisamente nos deslocamentos, nas incessantes pulsações dos grupos humanos. (...) Êxodos em massa (...), premidos pela necessidade de alcançar regiões mais férteis, pastagens mais ricas(...)”

27

se fazia sentir, em uma relação quase messiânica com o grupo, apontando o caminho para as novas terras, assim como também na escolha dos caminhos mais seguros. Sua importância se dava inclusive nos conflitos com outros grupos, indicando por onde fugir, esconder e mesmo por onde atacar
32

. Ao guia, é como se o ambiente estivesse

cheio de sentido, emitindo sinais a todo tempo, convidando a ser decifrado por sua especial capacidade de observação.

Nos guias se percebe uma vocação, aptidão e cultivo de uma noção espacial especial, de um relacionamento íntimo entre o ser humano e o espaço, que se reconhece como missão pessoal em relação à comunidade em que vive. Há algumas características que são comuns aos guias, exploradores, viajantes e geógrafos, entres as quais podemos citar: - Capacidade de correr riscos. - Anti-conformismo. - Necessidade de liberdade. - Desejo de explorar e conhecer novas realidades.

É possível pensar, suscitando a atualidade desta abordagem dos guias como iniciadores do “espírito geográfico”, que se os professores atuais de Geografia incorporassem mais o “espírito dos guias”, a prática de ensino de Geografia obteria um grande salto de qualidade. Além dessa “geografia aplicada” das comunidades primitivas, também deve haver existido sempre uma geografia ligada ao simbólico, afetivo, cultural, remetendo-se à relação das pessoas com o espaço, suas paisagens e elementos constitutivos, o qual incluía também o senso de curiosidade, necessidade de liberdade e espírito de aventura33. No tocante a estes dois últimos, podemos dizer que o fato das viagens atraírem o ser humano não se resume à resolução de problemas práticos. Partindo da conjetura que há mais na mente humana que a estrita racionalidade, e de que temos
32

AMORIM FILHO, 1982 – “O que caracteriza os guias? Exatamente o fato de conhecerem o território, o espaço; o fato de saberem orientar-se tanto nas planícies cobertas por florestas, quanto nas montanhas ou nos desertos; o fato de saberem localizar as tribos inimigas, seja para se poder atacá-las, seja para delas fugir; a capacidade de identificarem a localização das fontes de alimentos ou dos produtos que formavam a riqueza dos homens.” 33 CLOZIER, 1972 – “A aventura – qualquer que seja seu motor: lucro, curiosidade, necessidade – é, de fato, o ponto de partida, a primeira etapa da Geografia”.

28

outras necessidades além da sobrevivência, há que se refletir sobre uma “Geografia” ligada a esse viés, baseada no senso estético e curiosidade, tecida entre o homem e os ambientes que se desdobram além dos obstáculos do horizonte. A Geografia, até os dias atuais, apresenta esta face de ajudar a saciar prazerosamente, mesmo que temporariamente, esse permanente senso de incompletude e inquietude que se apresentam através da curiosidade pelos lugares além de nosso conhecimento.

A história da Geografia acompanha a história da humanidade desde os seus primórdios. Desde a pré-história até os dias atuais, o homem sempre observou a paisagem, a fim de se proteger, sobreviver (inclusive em termos de obtenção de alimentação e dessedentação), ou mesmo admirar, através de seu sentimento estético. Hoje nós sofisticamos nossa maneira de observar e analisar a paisagem, através de toda uma história de reflexão, sistematização e acumulação de conhecimentos, a qual nos brinda com uma ampliação da capacidade de enxergar e pensar o mundo, assim também como a ampliação de nossa escala de ação. Os computadores nos auxiliam a interpretar melhor a paisagem, todavia, são apenas um meio, enquanto a relação entre o sujeito (humano) e o objeto (paisagem) continua a mesma em essência.

Contudo, os problemas espaciais continuam, em grande parte, muito semelhantes aos do alvorecer da humanidade, embora em escalas diferentes, e com contextos metodológicos diversos. Como não considerar cruciais, nos dias de hoje, questões sobre localização, distribuição
34

, locomoção no espaço, planejamento espacial de atividades, e mesmo

relações de afetividade com espaços cotidianos e da feliz descoberta de novos lugares através de viagens? E talvez seja justamente pela continuidade de seus objetivos fundamentais, que nos é possível reconhecer uma conexão entre o fazer e o pensar geográfico das diferentes épocas, ao longo da evolução histórica do pensamento geográfico.

De uma maneira formal, a Geografia só se transformou em formação acadêmica após o século XIX, contudo, como atividade prática, é bastante razoável conjeturar que a atividade geográfica sempre existiu, embora nem sempre tenha sido denominada com

34

AMORIM FILHO, 1982 – “A localização e a distribuição dos homens, a localização e a distribuição das coisas e fenômenos que interessam aos homens são e serão preocupação permanentes da

29

esse nome. E provavelmente continuará existindo, se supormos que muitas das razões de sua criação e existência ao longo da história se prolongam até nosso período atual, e não dão ensejo de que deixarão de existir tão rápido. Able dizia que a Geografia somente iria deixar de existir quando a superfície da Terra fosse lisa como uma bola de bilhar. Caso isso acontecesse, a partir daí precisaríamos apenas da Geodésia, além da tecnologia de GPS. Agradeçamos que tal fato não acontecerá, pois um mundo sem diferenças espaciais seria deveras monótono.

3 - As Geografia Pré-Helênicas A palavra “Geografia” ainda não existia na antiguidade pré-helênica, visto que só começou a ser utilizado na Grécia Antiga.

As civilizações pré-helênicas do Oriente Médio se desenvolveram ao longo de rios (Nilo, Jordão, Tigre e Eufrates), porém rodeadas por desertos, com difíceis condições de sobrevivência. As paisagens desérticas também provocam no homem uma sensação de pequenez diante da amplidão do mundo, o que pode ter contribuído para o surgimento de várias religiões nessa região.

Pode-se facilmente inferir que esses territórios ao longo dos rios eram bastante conflituosos, do ponto de vista geopolítico, assim como também do simbolismo religioso. Eis que estão, lado a lado, os berços de várias grandes civilizações e religiões que ainda hoje convivem de maneira bastante tensa. Criou-se então uma Geografia dos impérios e das guerras, com interesses militares, políticos e religiosos, em que o conhecimento do território era primaz para sobreviver e garantir o poder de cada sociedade.

Também é o período de início dos recenseamentos, no Egito e na Mesopotâmia, devido à necessidade dos reis em saber até onde iam seus impérios e qual seria a população abarcada sob seu domínio. Esses recenseamentos marcam o início do que será a Geografia Populacional.
humanidade. E são, justamente, problemas dessa natureza que estão na origem e na base da atividade geográfica.”

30

Nas civilizações pré-helênicas, inicia-se uma valorização da transmissão dos conhecimentos e técnicas e, com isso, as sociedades humanas apresentam um grande salto em sofisticação e organização. A Geografia passa a ser útil para a mensuração de propriedades, para a Agronomia e para as rotas comerciais. Criam-se faixas verdes ao redor dos rios, pujantes de agricultura, onde era essencial saber até onde plantar, além de ser preciso distinguir o quê plantar em quais lugares. Nesse aspecto, a Geografia começa a ser utilizada para o planejamento territorial.

Claro que ainda era uma Geografia pouco reflexiva sobre si mesma, e muito voltada para questões práticas: enchentes, secas, migrações, agropecuária, comércio, navegação, administração imperial e guerras. Paralelamente, também se desenvolvia uma geografia dos territórios simbólicos e sagrados, que suscitavam ao povo uma relação com sua terra atual ou originária, e os instigavam a lutar por elas. Seriam lugares religiosos, clânicos, tribais, nacionais, naturais/paisagísticos notáveis e, inclusive, lugares sagrados imaginários, criados pelas lendas e crenças.

4 - Geografia Grega

A geografia pré-helênica, abrangendo os antigos impérios do Egito, assim como da Mesopotâmia e dos demais povos do oriente médio, era predominantemente prática, orientada a possibilitar a sobrevivência sobre as difíceis condições naturais da região desértica, além de assegurar a proteção contra outros povos, e se possível, eliminá-los. Nesse contexto é que destacamos o pensamento geográfico grego como ruptura epistemológica do que estava sendo praticado até então. Para tanto, torna-se necessário nos interrogar sobre o processo de construção do conhecimento grego, para em seguida nos determos especificamente sobre sua ciência geográfica.

A civilização grega, no seu conjunto, pode ser considerada como uma civilização diagonal, enquanto as demais civilizações pré-helênicas seriam sociedades axiais. Entende-se por sociedades axiais aquelas que não procuravam contato cultural com outras civilizações, e que tendiam, de modo predominante, a competir, dominar e eliminar as culturas alheias. 31

De modo diferente das outras civilizações, os Gregos construíram seus saberes tecendo contatos e apropriando-se de elementos de diversos povos, acumulando ao máximo o conhecimento já produzido por povos anteriores ou contemporâneos a eles. Daí caracterizá-los como uma sociedade diagonal, ou seja, que perpassa as demais. Estudando-se a história da humanidade e observando a ascensão dos gregos e de outras grandes civilizações, pode-se levantar a hipótese de que uma das condições para o surgimento de grandes civilizações seja justamente um contexto no qual se gesta uma maior miscigenação de culturas e saberes.

A Grécia é uma região de península, circundada pelo mar mediterrâneo por praticamente todos os lados, e que ao longo sua história antiga e clássica, contava com vizinhos bastante beligerantes ao norte. Essa sua situação geográfica foi um ponto de partida para que os gregos se tornassem um povo navegador por excelência. Esta peculiaridade auxiliou no estabelecimento de contato com outros povos, através de explorações, rotas de comércio, colonizações
35

e migrações. Eram bastante valorizadas

as viagens de sábios a outros povos, para trazer novas idéias e conhecimentos.

Também deve ser lembrada a importância da tradição de expedições militares, iniciada por Alexandre, o Grande, e que consistia de uma comitiva composta de sábios, militares, tradutores, medidores, cartógrafos, espiões, e diversos outros especialistas, e que aproveitavam a campanha para assimilar o máximo possível de conhecimento e cultura dos povos com os quais travavam contato. As explorações gregas expandiram seu ecúmeno (mundo conhecido), assim como trouxe o contato com diversos outros povos.

35

PEDECH, 1976 – “A exploração, que conduziu à descoberta da bacia mediterrânea, (...) teve início com o fenômeno social e econômico ao qual se dá o nome de colonização. (...) Esse fenômeno corresponde a uma expansão de vários grupos de migrantes que, do século VIII ao VI (a.C.) instalaramse em numerosos pontos do entorno do Mediterrâneo e do Mar Negro, para fundar aí empórios e cidades, povoar e explorar as terras do interior.”

32

Figura 9 – A colonização grega.

Mas não foi apenas pela simples concatenação de conhecimentos externos que os gregos construíram a sua ruptura epistemológica. Cumpre então analisar em que base o modo de pensar grego se diferenciou dos demais povos.

Ao longo da história de formação do povo grego, tem-se que em torno de 1200 a.C., o povo dórico ocupa a região da Grécia. Esse advento foi responsável pela instauração de um novo regime social, em que a monarquia tradicional dá lugar às oligarquias. Esse é um momento crucial na preparação da passagem do conhecimento mítico, tradicional, para um novo tipo de sociedade, em que, como as conclusões e decisões são tomadas por várias pessoas em conjunto, passa a ser extremamente importante a capacidade de convencimento e de consenso. A verdade e a justiça já não são mais impostas por um monarca, mas sim elaboradas a partir de uma discussão e acordo entre os cidadãos livres dominantes.

Esse sistema oligárquico dará origem ao regime democrático grego, em que as decisões são tomadas em grandes assembléias. Nesta nova forma de organização, passa-se a valorizar bastante a figura dos sábios, por seu conhecimento, associada ao poder singular de expressão e convencimento. Vários sábios e professores de oratória são pagos por cidadãos ricos, para que possam ensinar esta arte a seus filhos e a eles próprios. Destarte, há uma grande valorização da acumulação e transmissão dos 33

conhecimentos, no papel dos sábios e professores, aos quais é dada a possibilidade de viver pelo exercício de sua atividade. 36

Contudo, o conhecimento não será valorizado apenas e simplesmente por sua capacidade de convencimento. Como Platão ilustra em seu diálogo Protágoras
37

, a

sociedade grega passa a valorizar, mais do que a beleza dos discursos, a capacidade de procurar a verdade. Esta seria a passagem do predomínio dos sofistas (professores de retórica) para a valorização da Filosofia e da Ciência propriamente ditas.

A passagem do conhecimento mítico (ou mágico) para a racionalidade é base essencial para a compreensão da alteração de pensamento travada em curso pela civilização helênica. No conhecimento mítico, se recorria a uma explicação do mundo baseada em intervenções divinas e sobrenaturais, de mundos aos quais o ser humano não tinha acesso direto e nem possuía grande poder de intervenção. Esse conhecimento mítico era apresentado pela tradição ancestral do povo, assim como pelos sacerdotes e reis, e era aceito como verdadeiro, sem questionamentos.

Já com o pensamento racional, a veracidade de um discurso precisa ser comprovada pelo valor atribuído a seus próprios argumentos. As explicações e teorias passam a poder ser discutidas por quem se demonstrar capaz de tanto, e são passíveis de ser rejeitadas ou alteradas pela constatação de que existe uma opção mais coerente a ser adotada. Esse tipo de conhecimento valoriza a capacidade humana de explicar os fenômenos, e abre a possibilidade para um caminho de evolução para os conhecimentos humanos.

É nesse contexto que poderemos falar da Filosofia e da Ciência da maneira como a concebemos hoje, ou seja, sempre abertas a uma contínua discussão, e re-elaboração, rumo a um conhecimento pretensamente cada vez mais completo, coerente e eficaz sobre o mundo. Esse seria um sentido implícito na conhecida “Alegoria da Caverna”, do livro VIII da “República”
38

, em que Platão apresenta, de maneira metafórica, o

processo de tomada de consciência de maneiras mais corretas de compreender o mundo.

36 37

JAEGER, 2001. PLATÃO (427-347 a.c.) – Protágoras, e JAEGER, 2001. 38 PLATÃO (427-347 a.c.) – República

34

Em sua alegoria, Platão conta a história de um personagem que vivia acorrentado em uma caverna, e que pensava que o mundo se resumiria ao teatro de sombras a que estava exposto 39; contudo, ao se libertar de sua prisão, consegue perceber uma nova realidade, ou seja, obtém acesso a uma compreensão mais verdadeira do mundo.

A civilização grega antiga apresentou uma ruptura no tocante às atividades intelectuais, e assim também o podemos dizer para o caso da Geografia. Até os dias de hoje, muito do que é a civilização ocidental deve-se a essas novas formas de pensar trazidas à tona com os gregos. Nisso se inclui a forma de ver o mundo e se colocar nele, o que é crucial para a Geografia. Igualmente se inclui um sistema de valores que são norteadores da ética e moral da sociedade até os dias de hoje, baseada em princípios como amizade, fidelidade, justiça, e sacrifício pelos outros.

Os gregos também forneceram a matriz para os dois métodos científicos basilares. A partir do pensamento de Platão, podemos identificar o delineamento do método dedutivo
40

, em que se parte das idéias para então compreender mais corretamente o
41

mundo sensível indutivo
42

. Já em Aristóteles, discípulo de Platão, nos é apresentado o método
43

, no qual predomina um caminho que parte da observação sistemática da . Ambas estas abordagens serão

realidade, a partir da qual são elaboradas as teorias

fundamentais em toda a história da ciência, incluída aí a história da Geografia.

Os métodos indutivos e dedutivos continuam sendo, em grande medida, bases metodológicas para os trabalhos geográficos, embora algumas correntes privilegiem mais o aspecto indutivo, enquanto outros enfatizem mais o viés dedutivo. Um exemplo de abordagem indutiva na Geografia seria a abordagem morfofuncional, que parte da descrição rumo à explicação – nesta abordagem, a Geografia pode ser considerada mais como arte e observação do que como ciência. A abordagem indutiva na Geografia compreende as seguintes etapas:
39

BONNARD, 1984 – “Tomam pois estas sombras pela própria realidade, quando elas não são mais que o obscuro reflexo duma imitação do real”. 40 JAMES & MARTIN, 1981 41 BAILLY & BEGUIN, 1982 – “élabore une construction théorique des processus qu´elle présume explicatifs du monde réel eu elle la confronte ensuite avec la réalité afin d´en vérifier la validité.” 42 JAMES & MARTIN, 1981 43 BAILLY & BEGUIN, 1982 – “Les études sont donc fondées sur l´observation détailée de la réalité à partir de données hétérogènes (physiques, biologiques. Économiques, ...) puisque par hypothèse (souvent implicite)(...)”

35

1 - Observação analítica por meio de dados de uma área (físicos, biológicos, econômicos, etc.). 2 - Classificação das morfologias e mapeamento dos dados, para encontrar padrões e ligações. 3 - Só após, então, vem a explicação, através das relações entre os elementos, pelo princípio da causalidade.

O processo indutivo geográfico consegue explicar melhor a realidade justamente à medida que os dados sejam de mais variados aspectos. Quanto mais processos e abordagens (inclusive de paradigmas geográficos diferentes) forem utilizados para estabelecer as relações entre os elementos, mais rica e segura é a explicação geográfica. Apesar desse aspecto positivo, essa demanda de pluralidade traz uma dificuldade iminente, que é o trabalho, dificuldade e custo extras de realizarem-se estudos muito amplos.

Em contraposição ao método indutivo, o método dedutivo segue uma metodologia diferenciada, que pode ser expressa nas seguintes etapas: 1 – Escolha de uma problemática a estudar. 2 – Escolha (ou elaboração) de uma teoria que será a base para a explicação. 3 – Confrontação com a realidade. 4 – Conclusão pela rejeição, não-rejeição ou modificação da teoria.

No era acadêmica atual, é muito comum o pesquisador já partir de teorias acadêmicas estabelecidas, ao menos como uma orientação inicial para suas pesquisas. Essa valorização dos construtos teóricos prévios e o seu processo de sua aplicação demonstram uma tendência atual que talvez retrate uma predominância cada vez maior do método dedutivo.

Após essa primeira abordagem sobre a ruptura epistemológica grega na Geografia e outras ciências, é importante nos debruçarmos brevemente sobre as principais contribuições e desenvolvimentos geográficos na história da Grécia Antiga.

36

Em um primeiro momento, podemos reconhecer na Grécia Antiga uma geografia marcadamente mítica, em Homero (em suas obras Ilíada e Odisséia) e em Apolônio (com a obra “Os Argonautas”). Nestas obras, o geográfico se mistura à literatura, e marca o início do que mais a frente se desenvolveria como o pensamento geográfico grego. É certo que a Geografia é apenas um elemento menor nessas obras, tal como um cenário para uma peça maior, a qual seria desenvolvida pelos personagens. Essa forma de misturar Literatura e Geografia também estará presente em grandes épicos ao longo da história posterior da humanidade, como é o caso dos Lusíadas, de Camões; da Divina Comédia, de Dante; da Volta ao Mundo em Oitenta Dias, de Júlio Verne; do Grande Sertão Veredas, de Guimarães Rosa; entre muitos outros épicos enquadrados como “literatura de viagem”.

A Geografia jônica se caracterizava pela preocupação pelos problemas da física terrestre. Isso incluía a elaboração de mapas e, posteriormente, uma complementação textual ao mapeamento
44

, a qual marca o nascimento de uma Geografia Descritiva.

Essa Geografia Descritiva interessava-se pelos estudos das cidades e povos, assim como do meio geomorfológico, natural e dos oceanos. Aliás, essa forma de estudo foi referida por alguns gregos como “Corografia”, que às vezes era considerada como uma área de saber distinta da Geografia propriamente dita.

Os Hipocráticos, a partir das experimentações e teorias médicas iniciadas por Hipócrates (aprox. 460-377 a.C.) e continuadas pela escola que fundou, estudaram como o ambiente poderia influir em aspectos da saúde das pessoas. Em suas teorias, partiam do pressuposto de que indivíduo deveria procurar um equilíbrio entre os seus fluidos internos. Todavia, fatores como a idade, influências psicológicas e o ambiente (clima, altitude, ventos, umidade, etc.) poderiam afetar esse equilíbrio
45

. Essas

reflexões sobre como o as variações ambientais de cada região participariam como um dos fatores para o estabelecimento de enfermidades pode ser considerado como o

44 45

PEDECH, 1976 VIETES, 2007, pp. 191 – “Na concepção hipocrática, o corpo humano e tudo aquilo que o circunda que, em conjunto, constituem a physis - eram pensados por meio da composição dos elementos ar, terra, água e fogo, e pelas qualidades de frio, quente, seco e úmido. Corpo e espaço eram compreendidos a partir desses elementos e qualidades. Daí, a importância de estudar o meio ambiente e o clima das diferentes regiões da Terra para se compreender a sua influência (melhor dizendo, a sua marca) sobre o homem.” e REBOLLO, 2006

37

princípio histórico para teorias muito posteriores

46

, como a Geografia Médica, o

Determinismo Ambiental e várias outras escolas de Geografia que refletiram sobre a relação do homem com o meio ambiente.

Os gregos começaram a se interessar por uma geografia da escala do globo, com a mensuração da Terra, coordenadas, áreas de continentes e mares, comparação de paisagens distantes, entre outros estudos. Erastóstenes foi o principal geógrafo grego no tocante às grandes medições47, dedicando-se a temas como a forma, curvatura e circunferência da Terra. Para possibilitar esses trabalhos, considera-se essencial o desenvolvimento intelectual grego nos campos da Matemática (especialmente a Geometria) e da Astronomia, assim como a elaboração de ferramentas e equipamentos auxiliares à Cartografia e à Astronomia.

Outra vertente de atuação da Geografia Grega foi a das descrições regionais, como de Heródoto, um habilidoso historiador-geógrafo
48

. “História” foi a principal obra de

Heródoto, que através do tema da guerra entre Grécia e Pérsia, põe a termo sua proposta de buscar o passado para entender o presente. Cabe ressaltar que o conceito de História dos gregos é um pouco diverso do conceito atual, e refere-se fortemente ao sentido de “investigação”, “pesquisa” e “inquérito” 49.

Heródoto era muito crédulo, e acreditava bastante nos relatos que os viajantes lhe contavam
50

, mas não se rogava de expor sua opinião sobre a veracidade destas

exposições de terceiros. Escreveu sobre a Mesopotâmia (Babilônia), os Citas, o Egito e o Norte da África. Em sua obra, valorizou muito o comportamento de cada povo que visitou e estudou, procurando descrever, bem como comparar, as característica de cada um, utilizando-se de uma noção embrionária do que posteriormente seria denominado de “gêneros de vida”. Pode-se dizer que a obra de Heródoto apresenta uma análise bastante completa e abrangente para um estudo de Geografia, visto que se empenhou em

46 47

GLACKEN, 2000 DE MARTONNE, 1948 48 BONNARD, 1987 – “Ao dar o título de Inqueritos a sua obra (ao mesmo tempo História e Geografia), Heródoto assenta estas duas ciências sobre a investigação científica.” 49 BONNARD, 1987 – “O título de sua obra é precisamente “Inquéritos”, em grego “Historiai”, palavra que na época não tem outro sentido.” 50 BONNARD, 1987 – “Sua credulidade parece tão infinita quanto a curiosidade...”

38

estabelecer relações entre quatro dimensões epistemológicas: história (tempo), geografia (espaço), quantificação (matemática) e representação (por mapas e desenhos).

A partir das ponderações tecidas até aqui, podemos apreender que houve, na Grécia antiga, entre 3.000 e 2.000 anos atrás, uma primeira Geografia completa e madura. “Completa” no sentido de ser totalizante por princípio, procurando compreender os fenômenos através de um estudo integrado pelos mais diversos processos, sem restringir o estudo somente a um campo de conhecimento especializado. Uma Geografia, que ao contrário de tudo que já havia feito antes, apresentava qualidades como a argumentação racional, metodologias científico-filosóficas para a investigação da verdade e, enfim, uma procura intrínseca pelo seu próprio crescimento como ciência, por meio da busca de novos mundos, novos povos, e principalmente, novas formas de compreender o mundo.

5 - Geografia Romana

Há duas posições quanto aos romanos que merecem uma análise mais atenta, para não incorrer em preconceitos infundados. A primeira é de que eles teriam sido meros executores das teorias gregas – o que podemos considerar como uma posição extremamente reducionista quanto aos trabalhos geográficos que realizaram
51

. A

segunda seria achar que não houve em Roma um verdadeiro pensamento geográfico – o que também seria uma posição bem extremada.

Esses dois posicionamentos partem do fato de que os Romanos foram, verdadeiramente, de espírito mais prático que os gregos. Portanto, seus trabalhos no campo geográfico estarão muito direcionados para atividades práticas do império, como exploração de áreas vizinhas, conquistas militares, recenseamentos administrativos, rotas comerciais, etc
52

. Os recenseamentos merecem destaque especial, pois permitiram avaliações

51

NICOLET, 1988 – “Aliás, qualquer dicotomia do gênero ciência grega e prática romana é ilusória, tanto a simbiose cultural, seja no plano prático, seja no teórico, é completa.” 52 NICOLET, 1988

39

globais inéditas, classificações e orientações das políticas públicas, como, por exemplo, a formulação e cobrança de impostos, assim como o recrutamento militar 53.

Também é relevante que os romanos, apesar de haverem vencido militarmente os gregos, foram muito influenciados culturalmente por estes últimos, ao longo de sua história. A Geografia grega buscava explicações para os fenômenos espaciais, e os romanos incorporaram bastante do desenvolvimento realizado até então, mas com um forte direcionamento para o que seria uma geografia aplicada aos interesses do império. Nisso os romanos contribuíram com várias técnicas de mensuração de distâncias, utilizando-se de conhecimentos como Astronomia e Topografia. As medições e a Cartografia tornaram-se muito valorizadas, por auxiliarem na dominação imperial, na administração e na engenharia de obras públicas. Entre as obras públicas que mais se beneficiaram desses novos conhecimentos, está a construção de aquedutos e de estradas.

Também, ao longo do período romano, foi extremamente relevante a ampliação do ecúmeno (mundo conhecido), seja através da navegação, dominação imperial e, também, por contatos diplomáticos e comerciais
54

. Novas informações que provinham

de várias regiões do mundo, em conjunto com as novas técnicas de mensuração de distâncias, possibilitaram a construção de mapas mais corretos e abrangentes dos que haviam sido elaborados em períodos anteriores 55.

53 54

NICOLET, 1988 JAMES & MARTIN, 1981 55 NICOLET, 1988 – “Políbio, assim como Estrabon, reconhecem aos romanos pelo menos o mérito de ter favorecido, como efeito indireto de sua dominação política e pacificação, as viagens e os levantamentos em múltiplas regiões, em particular as ocidentais.”

40

Figura 10 – Extensão do Império Romano em aproximadamente 0 a.C.

Figura 11 – Mapa de Agripa, relatando o conhecimento cartográfico do mundo mensurado pelos romanos. Fonte: NICOLET, 1991, e http://www.arqweb.com/vitrum/liberivd2.jpg, em maio de 2008.

41

Estrabon elaborou uma síntese do conhecimento geográfico desenvolvido até sua época, baseando-se principalmente em livros e textos de outros estudiosos. Entre as fontes de Estrabon, estão os dados primários dos lugares por onde passou, porém a maior parte foi realmente advinda do relato de viajantes. Foi historiador, filósofo, geógrafo e viajante. Embora tenha nascido na Grécia Oriental, durante sua vida presenciou o domínio e a crescimento do Império Romano por sobre uma extensa área, incluindo a sua terra natal.

Como vários geógrafos daquele período, Estrabon concordava com uma superioridade das civilizações gregas e romanas, em relação aos outros povos vistos como mais bárbaros e cujos habitantes poderiam inclusive ser escravizados. Pode ser considerado como o geógrafo mais completo do período grego e romano, coroando o desenvolvimento da Geografia nesse período histórico. Nisto, sua obra foi muito útil para os interesses práticos do império romano.

Figura 12 – Estrabon, em uma figura do século XVI.

42

Figura 13 - Europa vista por Estrabon

Estrabon talvez também possa receber o ilustre título de ser o primeiro a cunhar o termo “Geografia” com o sentido que possui hoje, e que doravante seria sempre usado para designar esta área do saber. Outros atribuem o termo Geografia a Erastóstenes, porém, para esse último, o termo “Geografia” teria um sentido bem mais estrito, relacionado à mensuração da Terra. O desenvolvimento geográfico grego, anterior a Estrabon, carecia de uma unidade temática e estava bastante disperso em discussões específicas, como geodésia física, filosofia política, astronomia e meteorologia, além da “medicina ambiental” hipocrática. O modelo proposto por Estrabon é um método integrador, que tem como referência o espaço, mas que também utiliza informações de várias outras ciências, buscando uma síntese. Em seu modelo teórico, Estrabon se preocupa em responder as seguintes perguntas: 1 – Qual é o objeto de estudo da Geografia? Essa seria a reflexão epistemológica inicial, abarcando o que se irá estudar, o porquê, e como será realizado esse estudo. 2 - O que a Geografia permite conhecer de mais amplo? Esta seria a etapa em que se apresenta a visão integrada do que seria o mundo conhecido.

43

3 – O que se pode conhecer regionalmente? Aqui são tecidos os comentários e informações sobre cada região conhecida, especificamente. 4 – Conclusão. Enfim, chega-se novamente a uma visão de conjunto para todo o corpo da obra desenvolvida.

Estrabon não fazia divisão entre uma Geografia Física e Humana, tendendo a privilegiar o estudo que englobasse as duas áreas. Mas distinguia como fundamental a divisão entre Geografia Geral e Regional, entretanto, como partes integrantes e complementares da Geografia, que deveriam se desenvolver em conjunto. Em sua grande obra Geografia, dedicou os primeiros dois livros a uma introdução, onde se aprofunda quanto à reflexão epistemológica sobre a Geografia, e que seria dedicada ao que chamou de Geografia Geral; enquanto os demais livros descrevem as várias regiões do mundo conhecido, constituindo o que Estrabon denominava Geografia Regional.

A Geografia Geral ocupar-se-ia mais das teorias gerais, dos métodos de mensuração e Cartografia, e das teorias gerais sobre o funcionamento do ambiente, como a Climatologia, Hidrografia, etc. Já a Geografia Regional estaria mais direcionada para o estudo aprofundado dos lugares, vinculando-se mais a relatos de viagens e tendendo a abarcar mais os aspectos humanos e etnográficos 56, bom como uma valorização de cada lugar no que ele possui de específico. Esse modelo de estrutura também será seguido pelas “Geografias Universais”, séculos mais tarde.

Varron desenvolveu uma proposta de Geografia Histórica, baseada no princípio de uma sucessão de estágios culturais. Esse enfoque aproxima-se do conceito de gênero de vida, e também pode ser observado de maneira semelhante nas obras de Pítheas e Heródoto (gregos) e de Pomponius Mela (romano).

Na passagem da era romana para a cristã, Ptolomeu e Marino de Tiro avançaram no conhecimento geográfico, lançando mão de sistemas de projeção que levavam em conta a curvatura terrestre e, a partir disso, calculando posições em termos de latitude e

56

DE MARTONNE, 1948 – “Observa-se que a geografia regional e descritiva é muito mais humana, mais atenta à etnografia, às migrações dos povos, aos costumes e às instituições, ao passo que a geografia geral é mais física, mais exata, ou pelo menos, mais exigente em precisão matemática.”

44

longitude

57

. Ptolomeu procurou realizar também uma síntese do conhecimento
58

geográfico, e sua obra foi adotada pela Igreja Católica

. Entretanto, posteriormente,

parte de seus trabalhos mostraram ser incorretos ou equivocados e, por isso, foram duramente criticados; por exemplo, a tese de que a Terra é o centro do universo.

Figura

14

Mapa

de

Ptolomeu

fonte:

http://www.arikah.net/commons/en/2/23/PtolemyWorldMap.jpg, em maio de 2008.

Muitos dos trabalhos geográficos do período grego e romano foram perdidos. Todavia, foi preservada uma parte expressiva dos trabalhos de Ptolomeu e Estrabon, que nos permitem conhecer sobre o que foi feito nesta época.

De Martonne analisa que a dualidade entre Geografia Geral e Regional, patente durante todo o período greco-romano e explicitada por Estrabon, foi um entrave ao desenvolvimento à Geografia
59

. Devido à especialização desses ramos, muitos dos

representantes da geografia greco-romana não conseguiram cruzar satisfatoriamente a

57 58

DE MARTONNE, 1948 e PEDECH, 1976 JAMES & MARTIN, 1981. 59 DE MARTONNE, 1948.

45

ponte entre as Geografias Geral e Regional, dedicando-se em primazia a apenas uma das duas 60.

Essa mesma distinção dualista teria gerado limitações e obstáculos ao desenvolvimento da Geografia durante grande parte do período posterior ao Greco-Romano, até nossa era contemporânea. Contudo, é preciso contextualizar a crítica de De Martonne, que se situava em um debate de crítica à Geografia Regional do início do século XX, a qual se deteria muito em descrições e valorizaria pouco a elaboração teórica, importante para um desenvolvimento conjunto da Geografia Geral. De Martonne se situava em um contexto de insatisfação com a Geografia Regionalista, que marcava o início do período ao qual sucederia a revolução quantitativo-teorética.

6 - Geografias Medievais

As Geografias muçulmana e chinesa, durante a maior parte da Idade Média, foram mais sofisticadas que a Geografia cristã européia. Só ao final da Idade Média é que a Geografia ocidental assumiu a dianteira do desenvolvimento geográfico.

6.1 - Geografia Chinesa

Para entender a produção geográfica chinesa, é importante notar certos aspectos de sua cultura e das principais correntes de pensamento de seu povo filosofia chinesa, apresenta o homem integrado à Natureza intenso dinamismo 63.
62 61

. O Taoísmo, antiga

e coloca como meta de

sabedoria justamente aprender a imitar e viver em harmonia com o mundo natural e seu

60

DE MARTONNE, 1948 – “Ver-se-ão antes dois ramos de uma mesma ciência desenvolverem-se par a par sem se encontrarem e sem se interpenetrarem.” 61 JAMES & MARTIN, 1981 62 TAO TE KING – “O grande Tao espraia-se como uma onda; (...) todos os seres nasceram dele; (...) protege e alimenta todos os seres” 63 TAO TE KING – “A virtude suprema é profunda e vasta; Opera de acordo com os hábitos dos seres; Permite atingir a harmonia universal;”

46

Essa valorização da harmonia da relação entre o homem e a natureza pode ser muito bem observada na arte chinesa. É marcante como cultura chinesa influenciou o seu desenvolvimento na Geografia, e isso inclui tanto a época medieval quanto os desenvolvimentos da Geografia chinesa do século passado, com os do geógrafo Yi-FuTuan.

Figura 15 – Pintura de Dai Jin (1388-1462), da Dinastia Ming – Fonte: Zhejiang School of Painting.

Também deve ser considerada a grande influência do Confucionismo no desenvolvimento da sociedade chinesa. Corrente de pensamento com enfoque ético, o 47

Confucionismo partia dos valores familiares de ordem e respeito aos pais, para transcender aos valores sociais de organização pública e obediência ao imperador
64

. A

ampla difusão do Confucionismo possibilitou o grande progresso da sociedade chinesa, quando comparado aos demais países do período medieval. Ao longo desse período, a China foi provavelmente o país com maior desenvolvimento e qualidade de vida
65

.

Comparativamente à Europa, durante a Idade Média o Império Chinês possuía uma estrutura social, intelectual, administrativa, econômica e de saúde bastante superior. Seu sistema de crédito, como exemplo, era bem desenvolvido, incluindo o uso de papel moeda. Enfim, essa superioridade a tornava muito atraente para todos os povos.
66

Também a Geografia foi bastante desenvolvida pelos chineses

. Destacam-se os

personagens como Chang Heng, do século II d.C., que estudou Sismologia e Cartografia, inventou o primeiro sismógrafo e propôs a representação cartográfica por redes de coordenadas. Ainda, vale mencionar Phei Hsiu, do século III d.C., que cartografou grande parte da China e desenvolveu uma cartografia bastante aplicada à execução de obras públicas. O sábio chinês Ken Shua (1031-1095), dentre outros estudos, também inventou a bússola, instrumento que se tornará essencial à navegação e à cartografia para todos os povos do mundo.

Figuras 16 e 17 – Sismógrafo inventado por Chang Heng (esquerda) e croqui da bússola, dos escritos de Ken Shua (direita).

64 65

COOPER, 1996 JAMES & MARTIN, 1981 66 JAMES & MARTIN, 1981 – “O estudo da geografia na China, como parte de uma tradição escolar mais abrangente, estava bem avançada em relação a tudo que se conhecia na Europa cristã da época”.

48

Figura 18 – Mapa chinês entalhado em pedra, de 1137 d.C., descrevendo o sistema hídrico sobre uma rede de coordenadas.

49

Figura 19 – Mapa datado de 1389, pintado em pano, descrevendo parte do mundo conhecido para os chineses.
67

Os chineses relatam como, em suas viagens, descobriram a Europa

. Como em geral

somos muito eurocêntricos, normalmente imaginamos a Europa descobrindo o mundo, mas pensamos pouco em outras civilizações realizando esse descobrimento. O desenvolvimento chinês em navegação e cartografia possibilitou um domínio sobre os mares orientais durante o período medieval. Entre os diversos exploradores e navegantes chineses, deve-se mencionar Zeng He, embaixador da dinastia Ming, que comandou uma grande frota de navios em expedições diplomáticas e comerciais 68.

67

JAMES & MARTIN, 1981 – “Na verdade, a Europa e a Índia foram ‘descobertas’ pelos missionários chineses bem antes dos missionários cristãos terem alcançado o Oriente.” 68 YAMASHITA, 2007

50

Figura 20 – Um dos mapas de navegação utilizado pela frota de Zeng-He. Fonte: YAMASHITA, 2007.

51

Figura 21 – Domínios do império chinês entre os séculos XIV e XVII, em conjunto com as rotas relativas às expedições de Zeng-He. Fonte: www.chinapage.com/zhenghe.html, em abril de 2008.

6.2 - Geografia Muçulmana

O nascimento e o surpreendente crescimento da religião islâmica ocasionaram o surgimento de uma grande civilização, com importante papel no desenvolvimento da Geografia. Fundado por Mahomed, o Islamismo se espalhou por grande do mundo em pouco mais de um século, abrangendo desde a Península Ibérica, passando pelo Norte da África e estendendo-se do Oriente Médio em direção à Índia. Tal expansão apoiou-se muito no caráter proselitista de sua religião, que se dedicava bastante à divulgação das palavras do Alcorão, o respectivo livro sagrado. Além disso, com suas regras de conduta social, a religião de Mahomed conseguia estruturar admiravelmente comunidades tribais que antes viviam em estado de barbárie.

52

Figura 22 – Mapa demonstrando a expansão do Islã, de 630 d.C. até os dias atuais. Fonte: Visão mundial, 1995 – Global Mapping International.

53

O deserto do Oriente Médio não era pujante ao cultivo e, como alternativa, os árabes dedicavam-se predominantemente ao comércio. Com a expansão do Islã, tornou-se possível viajar a comércio por uma larga faixa de extensão, o que, junto com as peregrinações religiosas características, auxiliou na circulação de informações e no desenvolvimento geográfico 69.

Os árabes preservaram muitas obras provenientes da Grécia antiga e empenharam-se bastante na tradução, interpretação e desenvolvimento dos conhecimentos gregos
70

.

Com o alvorecer da civilização árabe, constituíram-se muitos centros produtores de saber. O principal era Bagdá, cidade que foi o centro intelectual do mundo entre os séculos VIII e XIX
71

. Em Bagdá, havia a Casa da Sabedoria, instituição que se
72

dedicava com grande diligência à tradução de muitos textos antigos. Muito da Geografia grega que chegou ao Ocidente deu-se por intermédio dos árabes ; contudo, não foi

uma mera re-transmissão, pois estes últimos também ampliaram significativamente esses conhecimentos.

Um dos grandes nomes da Geografia muçulmana foi Al-Biruni, cientista e filósofo. AlBiruni estudou amplas áreas dos conhecimentos, seguindo o modelo de estudioso da dos gregos antigos. De certa forma, pode-se defender que ele foi um continuador do desenvolvimento intelectual grego, na Geografia e nos outros campos do saber, em um período em que houve uma interrupção da transmissão do conhecimento da Europa ocidental.

Nas campanhas militares dos muçulmanos em direção à Índia, Al-Biruni aproveitou para estudar a história e a ciência dos lugares por onde passava. Posteriormente, foi contratado pelo governante islâmico da Índia, para que se dedicasse somente aos estudos. Desde então, atrelou o conhecimento existente na Índia, Grécia e Islã, convergindo essas produções intelectuais, com um notável espírito de síntese, para um novo patamar de conhecimentos por ele construído. Al-Biruni baseava-se na tolerância às crenças e costumes de todos os povos, como condição para que fosse possível apreender o que havia sido desenvolvido por cada sociedade. Suas pesquisas

69 70

CLOZIER, 1972 JAMES & MARTIN, 1981 71 JAMES & MARTIN, 1981

54

envolveram áreas como a Geografia, Física, Matemática, Farmacologia e Botânica, com grande trabalho de compilação, além de pesquisas de experimentais.

Figura 23 – Vários selos árabes em homenagem a Al-Biruni, considerado o maior nome da ciência islâmica.

Outro nome importante da Geografia Islâmica foi Ibn-Batuta, muçulmano árabe de Marrocos. Batuta escreveu o livro “Viagem” com uma exposição de suas jornadas pelo mundo (entre de 35.000 e 75.000 milhas pelo Islã73), na qual relatou sobre regiões de uma boa parte do mundo islâmico. Suas peregrinações incluíram o Norte da África, a Índia, a China e o Leste Asiático (estes dois últimos como embaixador da China). Dessa forma, podemos dizer que sua atuação deu-se mais dentro do que seria uma Geografia descritiva regional. Ao longo de suas viagens, prestava assessoria aos Califas, bem como dava aulas, compartilhando as suas experiências.

72 73

JAMES & MARTIN, 1981 JAMES & MARTIN, 1981

55

Figura 24 – Peregrinações e Expedições de Ibn-Batuta

Al-Idrisi (1100-1116) nasceu na costa da África e estudou na Espanha, e também é figura importante na Geografia islâmica. Viajou bastante pelo mundo muçulmano, além de recolher informações de expedições enviadas pelo reio Rogério da Sicília. Como coroação de seu conhecimento, escreveu o “Livro de Roger – Entretenimento para aquele que deseja viajar ao redor do mundo”. Nesse livro, Idrisi corrige e amplia muito do trabalho que havia sido realizado por Ptolomeu, vários séculos antes reconhecido por suas contribuições à cartografia e à descrição de lugares.
74

. Idrisi é

Figura 25 – Al Idrisi

74

JAMES & MARTIN, 1981

56

Figura 26 – Mapa do mundo conhecido, elaborado por Al Idrisi.

Ibn-Khaldum (1332-1406) também fez interessantes contribuições à Geografia. Era filósofo e doutrinador, e se interessava bastante pela dinâmica das civilizações. Na sua Introdução à História Mundial, discutiu sobre a interação entre o ser humano e o ambiente, analisando também governos, cidades e Geografia Física
75

. Para Khaldun, o

clima era um grande responsável pela distribuição das civilizações sobre o mundo. Apesar de uma hipótese como essa ser vista com ressalvas se considerarmos a sociedade humana atual, devemos nos lembrara que, anteriormente às revoluções tecnológicas dos últimos séculos, os povos ainda eram muito dependentes dos fenômenos naturais.

75

JAMES & MARTIN, 1981

57

Figura 27 – Ibn-Khaldum

6.3 - Geografia Ocidental Cristã da Idade Média

A Idade Média Cristã costuma ser delimitada do período que vai da queda do Império Romano Ocidental (aproximadamente 500 d.C.) até a Queda do Império Romano Oriental (1453 d.C.).

O mundo grego e o Império Romano conferiam uma unidade social, uma centralidade que beneficiava as ciências, e principalmente a Geografia. Na Idade Média cristã, do contrário, não havia essa centralidade e, portanto, a produção de conhecimento geográfico foi assaz dispersa. O desenvolvimento intelectual estava restrito aos membros da Igreja Católica, que eram praticamente os únicos letrados. Os estudiosos existentes, normalmente centralizados em mosteiros, praticamente não se comunicavam entre si.

Quando a locomoção humana é restrita, em determinados períodos históricos, a Geografia é minada de sua força, e a humanidade perde com isso. Durante a Idade Média, as únicas informações externas a que se tinha acesso eram as histórias contadas de boca em boca. Essas histórias acabavam mesclando-se à imaginação humana e, com isso, davam origem a lendas, mitos, crenças e preconceitos.

As conclusões dos gregos sobre a esfericidade da Terra caíram no esquecimento, e passou-se por um longo tempo a acreditar que a Terra fosse um disco plano, com mar

58

por todos os lados, o qual desaguava em um precipício logo na linha do horizonte. Ao ver nos navios desaparecendo no oceano, no limiar da visão, pensava-se que eles estavam caindo nesse grande precipício. Todas essas lendas e crenças, aliadas ao clima de medo e insegurança que levava o povo a se refugiar nos feudos e mosteiros, contribuía para um medo colossal de viagens e explorações.

A Igreja Católica também manipulava bastante o conhecimento, adequando-o segundo os seus interesses e dogmas. Havia extrema censura a tudo que pudesse contrariar ou diferir das teses católicas. Um expoente desta censura foi o Tribunal do Santo Ofício (ou Inquisição), que queimou vários livros considerados pagãos e heréticos, além de punir e executar vários intelectuais.

A Cartografia cristã, da mesma forma que arte sacra medieval, não se preocupava tanto em retratar a realidade, e sim em transmitir uma mensagem religiosa, veiculando uma concepção de mundo cristã 76. Nessa concepção de mundo, o divino era mais importante que o terrestre, o que pode ser observado pelas representações pictóricas ao redor dos mapas, e também pela centralidade dada a Jerusalém.

Os mapas típicos desse período eram denominados de T/O, ou Orbis Terrarium. A letra “O” significava o círculo, forma geométrica perfeita, representando tanto Deus quanto o oceano que circulava o mundo 77. Já a letra “T”, conotava a cruz, o martírio de Jesus, e era cartograficamente representada pela junção dos três corpos d’água mais conhecidos. Os continentes eram divididos em Ásia, África e Europa, sendo que cada um teria sido colonizado por um dos filhos de Noé, após o Grande Dilúvio. Ademais, a Terra Santa estava sempre localizada como o centro do mundo mapeado, expressando cartograficamente o que seria a centralidade da religião.

76

JAMES & MARTIN, 1981 – “Os pensadores que se reuniram nos mosteiros da Europa cristã não estavam estudando a Terra enquanto observadores ou pesquisadores. Ao contrário, eles eram compiladores de informações provenientes de fontes documentais e de comentaristas, cujo esforço primordial era o de conciliar as idéias geográficas registradas em documentos com a autoridade das Escrituras, especialmente no Livro de Gênesis”. 77 JAMES & MARTIN, 1981

59

Figura 28 - Mapa T/O do Salmo – ano 1250 d.C.

No período posterior da Idade Média, houve uma evolução nas tecnologias de produção agrícola, assim como uma melhoria sanitária, com o fim das epidemias recorrentes. Tais 60

fenômenos acarretaram uma expansão demográfica, e as terras européias passaram a ser insuficientes para sua população. O povo pobre passava fome, enquanto os filhos dos nobres não tinham terras para repartir entre si.

O excesso de população e o desejo por terras foram canalizados pela Igreja Católica, em seu projeto das Cruzadas, ou mais propriamente “Guerra Santa”. A “Guerra Santa” consistiu em uma expansão da sociedade européia, de forma beligerante, rumo à reconquista das terras de Jerusalém. Esse movimento foi marcante por transformar a relação da Europa com o mundo exterior, passando do fechamento caracterizado do início da Idade Média, para uma atitude de procurar conhecer e dominar outras regiões
78

. O movimento das Cruzadas também foi importante por começar a dar um espírito de

união aos povos europeus, que ainda se encontravam muito dispersos em seu sistema feudal.

Figura 29 - Rotas das Cruzadas Fonte: RODRIGUES, 2001.

Outro fato interessante para a Geografia foi o período de contato entre a Ásia Oriental, Ásia Central e Europa, durante o século 13, por meio de comerciantes viajantes. Tal possibilidade se deu devido à grande extensão ocupada pelo Império Mongol, que se estendia desde a China, passando pela Ásia Central e chegando próximo à Europa 79. O

78 79

JAMES & MARTIN, 1981 CLOZIER, 1972

61

Império Mongol chegou a estabelecer relações amistosas com a Igreja Católica Européia, visando a uma estratégia de união para procurar conter o poder islâmico.

Dentre os personagens marcantes desse período, destaca-se Marco Pólo, que pode ser considerado uma ponte entre a Geografia Ocidental e a Chinesa. Marco Pólo e sua família eram comerciantes e, em suas rotas, conseguiram um ótimo relacionamento com Kublai Khan, líder do império mongol 80. Pólo tornou-se embaixador de Kublai Khan e, assim, adquiriu autorização para circular livremente e com segurança por todo o império mongol, dedicando-se tanto às atividades diplomáticas quanto ao comércio 81.

Marco Pólo pode então tomar contato com diversas civilizações da Ásia, principalmente a chinesa, que constituía o centro do Império Mongol, e com a qual Pólo ficou maravilhado. Não era para menos, afinal, como já abordado no subtítulo da Geografia Chinesa, do presente trabalho, a civilização chinesa poderia ser considerada como a mais sofisticada e desenvolvida do período da Idade Média. Ao retornar para a Europa, Marco Pólo foi preso em combate durante a guerra entre Gênova e Veneza, e na prisão ditou seu “Livro das Maravilhas”, o qual espalhou para toda a Europa sobre toda a sua fantástica experiência
82

. O caso de Marco Pólo ilustra bem a influência crescente da

burguesia ao longo do final do período medieval, e das alianças que a burguesia e os chefes de estado passaram a realizar entre si.

Nos períodos posteriores da Idade Média, os centros intelectuais migraram gradualmente dos mosteiros para as cidades (burgos), que se tornavam cada vez mais dinâmicas e importantes socialmente. Essas transformações valorizaram novamente a curiosidade e o saber, e começaram a tornar o conhecimento mais dinâmico e difundido na Europa Ocidental, possibilitando um novo desenvolvimento intelectual. Conforme se adquiriam novas informações provenientes de outros lugares do mundo, eram elaborados mapas Imago Mundi, que procuravam compilar representar o mundo conhecido das várias civilizações passadas e presentes: gregos, romanos, cristãos,

80 81

CLOZIER, 1972 JAMES & MARTIN, 1981. 82 CLOZIER, 1972 – “O Livro das Maravilhas despertou a curiosidade, a imaginação e as ambições dos europeus da Renascença, que procuraram então, atingir o Oriente asiático por uma rota direta e, assim, alcançar as prodigiosas riquezas descritas por aquele veneziano.”

62

árabes e orientais. Progressivamente, esses mapas tornaram-se cada vez mais precisos, amplos e detalhados.

Ao fim da Idade Média, em virtude das Cruzadas e com a retomada do domínio sobre a Península Ibérica, a Europa voltou a ter acesso a rotas marítimas e terrestres. Conseguinte, durante o período das grandes navegações houve um grande acúmulo de conhecimentos sobre o “Novo Mundo” que se abria ao conhecimento da civilização européia.

Em decorrência disso, os mapas voltam a ter utilidade prática patente para as navegações portuárias e rotas comerciais. Inicia-se o desenvolvimento de escolas cartográficas, que, utilizando-se de novos instrumentos como bússolas e astrolábios, arquitetaram as “cartas-portulanas”. A Cartografia Portulana baseava-se em uma rede de traçados radiais com estimativas, tomadas a partir dos pontos cardeais obtidos por meio de bússolas, em diversos portos ao redor do mundo 83. De cada porto principal, partiam diversas linhas radiais, em direção a outros pontos do mundo.

Figura 30 – Carta Portulana da América Latina, do século XV.

83

JAMES & MARTIN, 1981

63

Cartograficamente, a técnica portulana possuía algumas limitações, quando comparada às atuais técnicas de projeções e coordenadas, pois sua precisão é maior apenas em espaços deveras restritos, no que acaba distorcendo significativamente as regiões mais distantes. Contudo, era o início de um longo caminho de desenvolvimento, em que a Cartografia e a Matemática eram inseridas novamente no campo de debate da Geografia.

7 - Os Antecedentes das “Escolas Européias” e a Universalização da Geografia

7.1 - Varenius

Varenius (1622-1650) era alemão, e morreu cedo, com 27 anos, provavelmente de tuberculose. Porém, em sua curta vida, publicou obras como a grandiosa Geografia Generalis. Essa obra apresenta uma visão estruturada da Geografia, abarcando os conhecimentos existentes até a época e descrevendo o mundo conhecido.

Varenius se propôs a organizar o conhecimento que chegava à Europa sobre o mundo, no fim da Idade Média, em um novo clima favorável ao desenvolvimento científico e intelectual, e que também marcava o início da Renascença. Desse modo, ele procurou unificar o pensamento geográfico europeu, que havia ficado disperso ao longo da Idade Média. Trata-se de uma primeira reflexão epistemológica, pós-idade média, propondo o que deveria ser o corpo de estudo da Geografia, de maneira estruturada.

64

Figura 31 – Capa da obra Geographia Generalis, de Varenius. Há suposições de que Varenius seria o jovem retratado no lado esquerdo da ilustração.

Em sua obra, Varenius recebeu muitas influências de Descartes, seu contemporâneo, dentre as quais podemos notar o seu ceticismo metodológico rigoroso, além da aplicação da geometria analítica cartesiana à Geografia. A novidade da aplicação da geometria cartesiana à Geografia lançou as bases para desenvolvimentos que seriam realizados muitos séculos mais tarde, pela Geografia Quantitativa.

Varenius faz uma divisão entre uma Geografia Geral (ou Física) e uma Geografia Especial (Regional). A Geografia Geral (Física) seria constituída de leis e afirmações que poderiam ser comprovadas cientificamente. Cumpre atentar que a Geografia “Física” de Varenius não seria uma contraposição a uma Geografia Humana, tal como foi proposto séculos mais tarde, pois, para Varenius, ela recebia esse nome por poder ser demonstrada segundo a metodologia científica, que estava relacionada à Física. A Geografia Especial (Regional), por sua vez, seria mais descritiva e trataria de aplicar as leis e fundamentos da Geografia Geral às regiões específicas.

65

O livro “Geographia Generalis” foi traduzido por Isaac Newton e adotado por diversas universidades européias durante longo período. Com a obra de Varenius, podemos dizer que, preparando para o espírito que conduzirá a Geografia após o período do Renascimento, é apresentada pela primeira vez uma sistematização da Geografia de maneira completa e coerente. Dessa forma, podemos dizer que, se os gregos apresentam a primeira revolução epistemológica da Geografia, temos em Varenius o início da segunda revolução epistemológica geográfica, alçando a Geografia a um novo patamar. É surpreendente, além de desalentador, constatar como Varenius é tão pouco estudado nas obras atuais que tratam da evolução do pensamento geográfico.

7.2 - A Enciclopédia

A proposta do movimento enciclopédico era reunir, em um único livro, todos os ramos do saber, abarcando todo o conhecimento necessário para tornar um indivíduo em um cidadão. Esta proposta é consoante com o princípio do Iluminismo, segundo o qual a razão e o conhecimento são essenciais para o desenvolvimento humano e progresso da humanidade. A Enciclopédia foi um impulso centralizador de conhecimento, que havia ficado disperso durante a Idade Média. À Geografia, foi dedicada uma grande parte de um dos volumes da Enciclopédia.

A partir da publicação da Enciclopédia, cada área de conhecimento encorajou-se a sistematizar sua “enciclopédia” específica. Na Geografia, por exemplo, esse impulso incitou a elaboração das “Geografias Universais”. Esse “espírito enciclopédico”, que se incorporou à comunidade acadêmica, demonstrava um forte interesse de sistematizar e detalhar o conhecimento. Um exemplo foi do alemão Anton Friedrich Büsching (17241793) que empreendeu uma geografia enciclopédica da Europa, com os princípios metodológicos do enciclopedismo iluminista. Esse tipo de mote também pode ser observado nas teses regionalistas, devido à sua procura de completude, abarcando, de maneira integrada, a maior número de conhecimento possível sobre uma região.

66

7.3 - Kant

Immanuel Kant (1724-1804) é considerado como um dos maiores expoentes intelectuais do Iluminismo. Sua obra filosófica abarca várias áreas de conhecimento, como Lógica, Ética, Teoria do Conhecimento, Estética, Teoria das Ciências, entre outras. Além de seu trabalho filosófico, Kant também foi professor de Física, Antropologia, Geografia, Lógica, Metafísica e outras disciplinas
84

. A contribuição de Kant à Geografia deu-se

tanto por seu trabalho como professor geógrafo, quanto também por suas reflexões sobre o papel da Geografia no estudo dos fenômenos naturais, dentro de seu sistema filosófico sobre o conhecimento humano.

Figura 32 – Pintura de Immanuel Kant

O curso de Geografia Física, ministrado por Kant, era ofertado no período inicial dos cursos universitários e tinha como proposta apresentar aos alunos um “sumário da natureza”, ou seja, um quadro geral do saber humano mostrando ser possível conhecer o mundo de uma maneira integrada e sistemática 85. Esse quadro geral, além de propiciar
84 85

SANGUIN, 1994 SANGUIN, 1994 – “Como mostrou muito bem Claval, a conseqüência central das teorias Kantianas é mais ou menos a seguinte: o estudo da Terra nos faz tomar consciência das configurações em

67

ao aluno uma base de conhecimentos empíricos, necessários para os raciocínios e pesquisas científicos posteriores de seu curso86, também consistiria em um primeiro contato com o que seria uma propedêutica do conhecimento científico do mundo 87.

Kant nunca publicou um livro específico sobre o seu curso de Geografia. Porém, ao fim de sua vida, permitiu que um antigo aluno publicasse uma obra contendo as notas de sua disciplina. Essa publicação autorizada condensa muito do conhecimento geográfico existente na época de Kant e torna-se um dos livros referenciais na história do pensamento geográfico. Ao longo da obra, os tópicos desdobravam-se na seguinte ordem 88: •

1ª parte – – – – Águas Terra Atmosfera Transformações da Terra

2ª Parte – Exame da Terra – – O Homem Reinos • • • Animal Vegetal Mineral

3ª Parte – Detalhes naturais dos países

Inobstante a divisão acima exposta, Kant identificava a Geografia em cinco partes, a saber: Geografia Matemática (forma, dimensão, e movimento da Terra), Geografia

conjunto. (...) Sem o uso da Geografia, as viagens só conseguiriam fazer ver o mundo, mas graças ao conceito da arquitetônica, utilizado na geografia, elas possibilitam o conhecimento do mundo. (...) como produto do saber, a geografia é sinótica, no sentido de que ela fornece uma visão significativa e integrada do mundo tomado como um todo.” 86 SANGUIN, 1994 – “Nesse sentido, o saber geográfico constitui um maravilhoso antídoto para as sutilezas lógicas (abstrações), que não têm nada a ver com o mundo da experiência. (...) A Geografia, (...) ao fornecer um conhecimento preliminar do ambiente humano, permite ao homem viver mais judiciosamente.” 87 SANGUIN, 1994 88 KANT – Geographie, 1999

68

Moral (os costumes e o caráter do homem em relação ao meio ambiente), Política, Mercantil (comercial), e Teológica (a distribuição das religiões)” 89.

Em sua obra filosófica, cumpre destacar duas grandes contribuições à Geografia: [1] a classificação da Geografia como ciência dentro do esquema do conhecimento humano e [2] as obras kantianas que tratam sobre o tema da observação e do estudo dos fenômenos naturais.

Kant nos apresenta duas definições da Geografia. Na primeira, nos define a Geografia como a ciência da diferenciação da crosta terrestre
90

. Na segunda, seria a ciência
91

responsável pela descrição das coisas em termos de espaço

. Essa segunda definição

será de grande relevância para classificação científica da Geografia dentro do sistema Kantiano, devido à importância da intuição de espaço na teoria do conhecimento de sua obra “Crítica da Razão Pura”. Enquanto a História seria a responsável pela descrição temporal dos fenômenos, cabe à Geografia a descrição dos dados em sua organização espacial 92. Essa organização confere um status de especificidade ao método geográfico (descrição espacial), que lhe assegura um lugar no rol das ciências 93.

89 90

DICKINSON, 1978. DICKINSON, 1978 e SANGUIN, 1994 91 SANGUIN, 1994 92 CLAVAL, 1995, p. 4 – “Kant é, assim conduzido a atribuir à História e à Geografia finalidades diferentes daquelas das outras disciplinas: seu papel é o de captar as estruturas temporais e espaciais reveladas pela nossa experiência.” 93 SANGUIN, 1994 – “A extensão (espacial) é, para o professor de Konigsberg, uma importante categoria do entendimento humano: aí podem ser encontradas justaposições, sucessões, reagrupamentos, regularidades, ordem e desordem. Assim, Kant estima que a ciência do espaço deve ter um estatuto especial.”

69

Figura 33 - Esquema simplificado sobre o vetor epistemológico do conhecimento em Kant, incluindo sua relação com a classificação de algumas ciências.

Kant também classificou as ciências quanto ao seu objeto, dividindo-as em ciências específicas (de um só objeto) e ciências de síntese, sendo que estas últimas seriam responsáveis por aglutinar e integrar os conhecimentos das demais ciências. À Geografia cabe o título de ciência de síntese dos fenômenos naturais
94

, enquanto à

Antropologia cabe o de síntese dos conhecimentos sobre a estrutura humana. Nesse tocante, cabe ressaltar que os fenômenos naturais, objeto da Geografia, abarcavam todos os fenômenos perceptíveis, inclusive a observação da sociedade humana sobre o espaço
95

.

Em suma, todos esses papéis privilegiados da Geografia nas classificações sistemáticas científicas acarretaram uma maior valorização dessa ciência na comunidade intelectual européia
96

, contribuindo para a posterior criação de cursos universitários específicos

para a formação de geógrafos.

94

SANGUIN, 1994 – “Para Kant, a geografia é algo como uma condensação universal da natureza, pois o mundo é formado pela natureza e pelo homem. (...) Uma consideração que emerge da geografia Kantiana é que o homem é compreendido não somente na sua função de entidade natural, mas, mais ainda, em seu papel de agente de mudanças na face da Terra. (...) Tendo definido o homem como um fenômeno da natureza, ou mais exatamente como uma das aparências do mundo sensível, Kant restringe sua geografia a todas as coisas visíveis, concretas e tangíveis na face da Terra”. 95 GOMES, 1996. 96 SANGUIN, 1994 – “A maior herança de Kant é sua certeza de que hoje, como ontem, e amanhã, o geógrafo permanece como mestre da leitura e escritura do espaço.”

70

Kant também se debruçou bastante, em suas obras filosóficas, à observação e ao estudo da natureza. Aliás, a observação da natureza fez parte do íntimo cotidiano kantiano, em seus passeios matinais nos jardins e praças de Konigsberg, tanto que podemos traçar um paralelo entre esse contato pessoal com a natureza e o desenvolvimento intelectual de sua obra filosófica. Em sua obra Crítica da Faculdade de Julgar, Kant procurará os princípios e pressupostos a que o ser humano recorre ao observar a natureza, seja para a apreciação estética, seja para o desenvolvimento científico.

Kant reconhece que, nas ciências baseadas na observação empírica, existem diversas leis, padrões e comportamentos regulares que não são determinados analiticamente a partir das leis a priori do entendimento (em outros termos, que não são possíveis ou práticos de se aferir através da metodologia da Física Clássica). Para garantir a necessidade dessas leis empíricas, Kant toma mão do juízo reflexionante, o qual, “comparável à indução científica, [...] procede da diversidade particular das leis a um princípio unificador transcendental” 97.

Esse ideal de organização sistemática nos encaminha a considerar a existência de um propósito maior, que possibilite uma experiência unificada para o entendimento da natureza
98

. Para Georges Pascal, esse raciocínio leva Kant a reconhecer a necessidade

de uma idéia de finalidade que englobe toda a Natureza enquanto tal (e que, nesse caso, também seria também responsável pela harmonia observável no mundo natural) 99.

Note-se que essa idéia de finalidade atribuída ao mundo natural é apenas um princípio regulador, sem meios de ser comprovada a priori por nosso aparato cognitivo, mas que precisamos adotar para resolver nossas questões práticas de conhecimento. Devemos estar sempre conscientes de que se trata de uma pressuposição, e não de afirmação cientificamente veraz. Em vez de falar que existe realmente essa finalidade, seria como falar que “tudo se passa como se” existisse essa finalidade
97 98

100

. É nesses termos que se

Pascal, 2001, Cap. Crítica do Juízo Nascimento Junior, 2001, pág. 271 99 Pascal, 2001, Cap. Crítica do Juízo - “Sem dúvida, as leis particulares da natureza obedecem a um mecanismo puro, mas a finalidade é imprescindível para se poder compreender o sistema formado por essas leis. Para quem deseja compreender a natureza, tudo se passa como se uma inteligência divina a tivesse ordenado. A idéia de finalidade é, pois, um conceito a priori, regulador e não constitutivo: ‘Por esse conceito a natureza é representada como se algum entendimento encerrasse em si o princípio da unidade da multiplicidade de suas leis empíricas’ (Kant, Crítica do Juízo, p. 20)” 100 Pascal, 2001, Cap. Crítica do Juízo

71

torna coerente a tese de que nunca poderia haver um “Newton dos Talos de Grama”, pois a Física, definida a partir de conceitos puros do entendimento a priori, estaria em um grau de certeza superior aos conhecimentos que necessitam da suposição de um princípio regulador teleológico (visto ser necessário supor que a grama tem como finalidade o seu próprio crescimento) 101. Kant enfatiza esse cuidado, ao ressaltar que “Este conceito transcendental de uma finalidade da natureza não é um conceito da natureza, nem um conceito da liberdade, pois que nada atribui ao objeto (à natureza), mas representa a única maneira de proceder, na reflexão sobre os objetos da natureza, com vista a uma experiência completamente concatenada. É, pois, um princípio subjetivo (uma máxima) do juízo”
102

. O Juízo teleológico terá uma importância primordial na obra kantiana, visto que

somente a partir dele será possível intermediar a causalidade natural com a finalidade moral.

Portanto, o juízo teleológico conseguirá transitar da idéia de uma harmonia interna ao sujeito transcendental (das faculdades mentais subjetivas, que é a pressuposição para o juízo estético), para uma harmonia que resida na própria Natureza. E para falar de uma finalidade em um objeto da Natureza, é preciso que esse objeto seja causa final de si mesmo, de uma maneira que o “nexo das partes seja tal que cada parte pareça determinada pelo todo, e o todo, por seu turno, não seja possível senão pelas partes”
103

. Os principais exemplos de tais objetos serão os seres orgânicos, os quais se auto-

organizam e que, no contexto mais amplo, formam uma harmonia maior que é o ambiente natural. É o que Kant exemplifica: “Um produto organizado da natureza é um produto em que tudo é fim e meio reciprocamente; nele, nada há de inútil, nada sem objetivo, ou devido a um cego mecanismo natural” 104.

Conseqüentemente, Kant define dois métodos para se investigar a Natureza. Primeiro, o conhecimento discursivo fundado nas causas eficientes e, portanto, no determinismo causal, cujo exemplo é a Física; e em segundo lugar, de um entendimento intuitivo, que

101 102

Vaisman, 2006. Kant, Crítica do Juízo, p. 24, in Pascal, 2001, Cap. Crítica do Juízo 103 Pascal, 2001, Cap. Crítica do Juízo 104 Kant, Crítica do Juízo, Analítica do Juízo Teleológico, pág. 182, in Pascal, 2001, cap. Crítica do Juízo

72

inicia por supor finalidades em um ser vivo, ou mesmo na Natureza enquanto todo orgânico, para em seguida investigar suas partes 105.

O juízo teleológico, que, como vimos, está ancorado no juízo reflexionante, é imprescindível para o estudo dos fenômenos concernentes aos fenômenos vitais. Embora não possamos aplicá-lo com o rigor de uma causa eficiente, como se faz na Física, esse juízo deve ser um “fio condutor” para o cientista da Natureza, para que este compreenda os seres vivos e o ambiente natural. Esse entendimento hipoteticamente intuitivo, do todo para as partes, é que levaria o cientista da Natureza a conduzir seus estudos a partir de pressuposições tais como: “(1) a Natureza escolhe o caminho mais curto, (2) a Natureza não dá saltos, (3) na Natureza existe apenas um pequeno número de tipos de interação causal, (4) a Natureza apresenta uma subordinação das espécies e de gêneros por nós compreensíveis, e (5), na Natureza é possível incorporar espécies em gênero progressivamente mais elevados”
106

; além, é claro, da harmonia intrínseca

aos sistemas vivos, e da finalidade atribuída a esses sistemas em manter essa harmonia.

Ademais, reitera-se que o juízo teleológico é apenas uma suposição, e seu limite de aplicação é nunca entrar em contradição com o conhecimento mecânico determinístico do mundo 107. O finalismo e o mecanicismo não devem ser contraditórios. O finalismo é um condutor e complemento para o conhecimento causal 108.

105

Pascal, 2001, cap. Crítica do Juízo - “Por conseguinte, enquanto o nosso entendimento discursivo não conhece a natureza senão por adição de partes, o entendimento intuitivo teria um conhecimento direto da natureza como totalidade; conheceria o todo antes das partes; e portanto, conheceria as partes como fins, através da sua relação ao todo. É em referência a este entendimento intuitivo que procuramos compreender a natureza segundo o princípio de finalidade. Aliás, cumpre não esquecer que a natureza, tal como a conhecemos, não passa de fenômeno, pelo qual se nos manifesta uma realidade que nos escapa. O conhecermos esse fenômeno em termos mecânicos corresponde à natureza de nossa faculdade cognitiva; o que não significa, porém que a realidade subjacente a esse fenômeno não se organize segundo o finalismo”. 106 Nascimento Junior, 2001, pág. 271 107 Pascal, 2001, Cap. Crítica do Juízo, e Kant, Crítica do Juízo, Analítica do Juízo Teleológico, pág. 183. 108 Pascal, 2001, Cap. Crítica do Juízo -“A explicação mecanicista deve ser conduzida tão longe quanto possível, pois somente os fenômenos susceptíveis de tal explicação constituem verdadeiramente objetos de conhecimento. Mas onde essa explicação se revelar insuficiente, ali se pode, e até se deve sobrepor-lhe a explicação finalista, sem supor, contudo, que esta nos forneça um conhecimento propriamente dito. O que se disse é aplicável tanto aos seres organizados que encontramos na natureza, como à natureza considerada em sua totalidade”.

73

Essa discussão encontra uma frutífera atualidade no cenário contemporâneo da Geografia. Pois o duplo método de investigação da natureza, proposto por Kant, o qual envolve o juízo reflexionante (observação da natureza) de maneira complementar ao determinismo causal (experimentação empírica da Física), também pode ser aplicado para relacionar a complementaridade possível entre a Geografia Sistêmica e a Geografia Quantitativa. A Geografia Sistêmica (mais ligada ao juízo reflexionante) se preocupa mais com a percepção da interação entre elementos identificados em objetos de estudo dinâmicos e complexos, baseada em pressupostos tais como os que Kant atribui à Natureza através do juízo reflexionante. A Geografia Quantitativa, por sua vez, pode beneficiar-se da grande capacidade técnica atual em agregar dados primários e estabelecer padrões a partir desses dados. Assim como o duplo método de investigação proposto por Kant, a Geografia só tem a ganhar na conjugação entre as abordagens sistêmica e quantitativa, pois enquanto a aquela consegue fornecer uma intuição geral para o estabelecimento de hipóteses, a segunda impetra a comprovação de fato sobre a veracidade ou não dessas hipóteses, confrontando-a com os dados empíricos reais.

7.4 - Darwin

Charles Darwin começou a estudar Medicina, mas não concluiu o curso e formou-se, posteriormente, em Teologia (Filosofia Cristã). Pouco depois de formado, saiu em uma importante expedição britânica, com a frota do barco “Beagle”. O objetivo da viagem foi completar os dados cartográficos já existentes sobre o mundo, realizar estudos meteorológicos e elaborar levantamentos geológicos de atóis de coral.

Figura 34 – Charles Darwin

74

Figura 35 – Percurso da expedição do Beagle

Darwin ficou encantado com a exuberância das florestas tropicais e, a partir daí, empenhou-se com afinco no que viria a ser o trabalho naturalista mais famoso da história da humanidade. Ao longo da viagem, estudava os insetos e plantas, além do contexto geológico de cada região. Também estudava os fósseis de várias localidades. Como referência para seus estudos, Darwin utilizou-se muito das obras de Humboldt. Também não se pode deixar de ressaltar a importância dos últimos desenvolvimentos da Geologia, na época, que permitiram um embasamento mais forte para as teorizações darwinianas.

Darwin ficou famoso por sua Teoria da Seleção Natural. Para chegar a ela, baseou-se primeiramente na idéia de Malthus de que, em um ambiente propício, uma população tende a crescer. Aliando isso à escassez de espaço e recursos naturais, chegou à teoria da sobrevivência do mais apto. Por fim, bastava acrescentar a idéia de que existem mutações e adaptações nas espécies, para completar seu arcabouço teórico. 109

109

GEORGE, 1985 – “Sustentava que ‘pode ser comprovada’ a existência de ‘um poder infalível em funcionamento pela SELEÇÃO NATURAL’ (...) e que ‘a vida dos animais selvagens é uma LUTA

75

Os estudos naturalistas de Darwin, especialmente os realizados nas ilhas Galápagos, do Equador, contribuíram muito para sua Teoria da Seleção Natural. Pois, observando o isolamento de cada ilha, as condições naturais originaram o sucesso ou o insucesso de certas espécies.

Figura 36 – Roteiro de Expedição da frota do Beagle nas Ilhas Galápagos. Fonte: www.aboutdarwin.com, em maio de 2008.

PELA EXISTÊNCIA (...) mas se ocorrer alguma alteração das condições físicas na região (...) a variedade superior, então, permanecerá sozinha (...) aqui, e então, teremos progresso e diferenciação contínua’.”

76

Figura 37 – Espécies de tartarugas gigantes adaptadas a cada ilha de Galápagos, observadas por Darwin.

Também foi importante o diálogo de Darwin com outro naturalista, chamado Alfred Russel Wallace. Wallace escreveu uma carta para Darwin comentando sobre o modo como a geografia de um local limita ou facilita a expansão de uma espécie. As idéias de Wallace, tomadas a partir de observações em Madagascar, coincidiram muito bem com as de Darwin
110

. Por isso, Wallace também é considerado como co-autor da Teoria da

Seleção Natural.

110

GEORGE, 1985 – “Num dia decisivo – 18 de junho de 1858 – Darwin recebeu um artigo do Arquipélago Malaio. Achava-se em casa, em Kent, e Wallac, por sua vez, estava em sua cabana, nas Molucas. Os dois haviam conjeturado sobre o ‘problema das espécies’. Darwin fizera comentários nos seus cadernos de anotações, de 1839 em diante. Wallace discutira o problema com o seu amigo H. Bates, onze anos antes de enviar a Darwin o seu artigo ‘Sobre a Tendência das Variedades de Partirem Indefinidamente do Tipo Original’. Mas, quando Darwn recebeu esse artigo das Molucas – descrevendo em poucas palavras o que ele próprio se propunha a discutir em dez volumes – foi como um ‘raio vindo do céu’. (...) O artigo argumentava que as espécies haviam se ramificado em outras espécies. (...) Na sua primeira carta a Wallace, Darwin escreveu que concordava com a verdade de quase todas as palavras da publicação e que ele mesmo andara pensando sobre as mesmas coisas.”

77

Figura 38 – Alfred Russel Wallace

Com a teoria da evolução natural, o homem deixava de ser o centro da vida, pois passava a ser encarado como mais um ser vivo dentro do contexto da evolução das espécies. Afinal, se o ambiente influencia as populações de plantas e animais, também exerceria sua influência sobre as populações humanas. Trata-se de uma reviravolta colossal, comparável à revolução copernicana, a qual havia retirado a Terra como centro do universo
111

. Devido a essa transformação provocante ao pensamento tradicional,

Darwin encontrou muitos opositores da Igreja Católica, para os quais a Teoria da Evolução seria uma afronta aos seus dogmas religiosos.

Contudo, passaram-se as décadas e a Teoria da Evolução continua como um exemplo de uma das teorias que mais tempo se mantêm atuais dentro do cenário científico dos últimos séculos. A força de Darwin é sentida pelas inúmeras publicações sobre ele até hoje.

Darwin coroa o século XIX como o apogeu das explorações e mapeamentos do mundo. Ao lado dele estão outros personagens ilustres, tais como Humboldt. Pode-se perceber o reflexo dessa valorização das expedições por meio do crescimento das sociedades de Geografia por toda a Europa. A primeira Sociedade de Geografia foi a de Paris, depois foi a da Alemanha (fundada por Ritter e Humboldt) e em seguida veio a de Londres. Conseguinte, foram fundadas várias outras, por diversos países europeus. Era uma honra ser um explorador membro de uma Sociedade Geográfica, além de também permitir o acesso a dados de várias outras explorações já realizadas.

111

GEORGE, 1985

78

Com se percebe, a teoria darwiniana é tipicamente um estudo comparativo de regiões, como os que vinham sendo realizados anteriormente por Humbold e Ritter. Com efeito, Darwin vai valorizar bastante a diferenciação da paisagem, da natureza e das espécies. Era um método de pesquisa que “pairava no ar” nesse período histórico. Um dos fatores que dão mais força à teoria darwiniana é o casamento forte entre os dados empíricos (pela experiência de campo) e a estrutura epistemológica, o que é um ideal para os trabalhos geográficos em geral.

Darwin vai ter uma influência marcante na Geografia Alemã e Francesa, inicialmente nos estudos sobre a natureza. Posteriormente, há o surgimento de uma corrente denominada Darwinismo Social, que procura aplicar as idéias da Teoria da Evolução na sociedade. Essas idéias terão respaldo na geopolítica de Ratzel, e no Determinismo Ambiental, bem como também na ideologia nazista. Atualmente, alguns adeptos do Darwinismo Social utilizam essa argumentação para justificar a queda do socialismo, que não se adaptou à sociedade, e a permanência do capitalismo.

De qualquer forma, é preciso ficar atento a que a teoria original de Darwin não era tão determinista quanto algumas correntes posteriores do Darwinismo Social. Para Darwin, por exemplo, cada ilha de Galápagos teria sua própria história, embora seus caminhos pudessem ser explicados pela mesma estrutura teórica.

8 - A “Escola Alemã” de Geografia

A Geografia acadêmica começa com as grandes escolas francesa e alemã. Essas duas escolas receberam bastante influência do Iluminismo e, em especial, de Varenius, do Enciclopedismo e de Kant.

A escola alemã foi a primeira grande escola moderna de Geografia. Humboldt e Ritter fundaram essa escola, de maneira institucionalizada, o que marca oficialmente o início da Geografia Acadêmica. Por causa deles, a Geografia ganhou um caráter mais sistematizado, tornando-se uma ciência moderna e, com isso, sendo mais valorizada em meio às outras ciências. Pode-se dizer que se trata de mais uma revolução epistemológica, semelhante à dos gregos em importância, mas muito mais vasta, uma 79

vez que se espalhou por todos os povos, valorizando o ensino de Geografia e mostrando sua utilidade para os governos, seja no planejamento, seja na guerra.

8.1 - Humboldt

Alexander Von Humboldt (1769-1859) foi um dos últimos representantes do tipo de intelectual que consegue se colocar em diversas áreas de conhecimento. Seus trabalhos foram tão amplos e alcançaram tanto reconhecimento, que hoje levam o seu nome várias espécies de plantas e animais, além de cidades, universidades, uma corrente climática e até uma estrela. Pode-se até dizer que Humboldt tornou-se o segundo homem mais famoso na Europa, perdendo apenas para Napoleão Bonaparte. O que não deixa de ser uma contraposição interessante, pois Humboldt ficou famoso devido à ciência, enquanto Napoleão tem sua memória ligada às guerras.

Figura 39 - Estátua de Alexander Von Humboldt na entrada da Humboldt University, Unter den Linden, Berlim, Alemanha.

80

Figura 40 – Pico Humboldt, 11,020 pés de altitude, é o maior pico ao Sul da Cadeia Humboldt, em Nevada, EUA. Photo Copyright © Ralph Maughan. Fonte: http://wolves.wordpress.com/

Figura 41 – Pingüim da espécie Humboldt. Noorder Dierenpark Emmen (Northern Zoo, Emmen, the Netherlands). Fonte: http://commons.wikimedia.org, disponível em 2008.

81

Humboldt nasceu e viveu no ambiente intelectual do Iluminismo, onde circulavam sua família e seus amigos 112. Na adolescência, Humboldt fez uma viagem da nascente à foz do Rio Reno, e esta foi um marco decisivo em sua vida, levando-o a escolher posteriormente pela Geografia. Estudou Economia, Física, Química, Geologia, Línguas, Botânica, e diversas outras ciências. Destacou-se como proeminente naturalista.

Figura 42 - Alexander von Humboldt, painting by Joseph Stieler, 1843 Os Fosters, pai e filho, foram exploradores famosos. O pai navegou com o capitão Cook, cuja frota deu a volta ao mundo
113

; o filho, por sua vez, foi professor de

Humboldt e Ritter, influenciando sobremaneira o interesse desses dois pela Geografia.

Como sua família tinha muitas posses, Humboldt pode dedicar grande parte de sua vida à ciência e, ainda, utilizar sua riqueza para financiar as pesquisas e expedições a que se lançou. Com isso, foi possível a ele explorar profundamente a América Latina, que, à época, ainda era pouco estudada. Não foi permitido que Humboldt entrasse no Brasil, porque o Império Brasileiro achou que ele poderia ser um espião, talvez devido ao fato de trabalhar com mapeamento. Sem outra opção, Humboldt desceu pelo Rio Orenoco, até chegar ao Rio Amazonas - e escreveu então um livro sobre esta viagem.

112 113

GOMES, 1996 CLAVAL, 1995, p. 2

82

Figura 43 - A descida de Humboldt pelo Rio Orenoco – Fonte: http://www.edumedeiros.com/geografia/humboldt.php - Disponível em 2008. Em suas expedições, Humboldt realizou medições com os instrumentos mais modernos de sua época, gerando dados até então não estudados. Com a coleta de tantos dados empíricos, pode fazer um trabalho que envolveu, progressivamente, a ordenação, classificação, tipologias e modelos teóricos
114

. Como defensor do método científico,

Humboldt sustentava que não pode haver conhecimento confiável sem a experimentação verificável 115. Daí a importância de suas expedições e medições.

Um exemplo de inovação científica que propôs foi o uso de Isotermas, com as quais se tornou possível comparar mais adequadamente a variação da temperatura no espaço. Com seus estudos, Humboldt também chamou atenção para o peso que as correntes marítimas têm no clima terrestre.

114 115

MORAES, 1980 GOMES, 1996

83

Figura 44 – Linhas Isotermas, por Alexander Von Humboldt, Lines, 1817. Fonte: www.johost.eu, em julho de 2008.

Figura 45 – Corrente de Humboldt, descoberta por ele próprio. Humboldt também realizou várias descrições botânicas e espaciais. Ao todo, catalogou aproximadamente 60.000 espécies de plantas, sendo que por volta de 10% ainda eram desconhecidas para a ciência. Ainda nos trabalhos de botânica, produziu perfis de

84

vegetação de grandes montanhas e vulcões. A partir desses perfis, propôs a tipologia dos gradientes de vegetação em função das faixas de altitude. Pode-se dizer que Humboldt foi o pai da moderna Fito-Geografia.

No campo da Geologia, Humboldt escreveu um livro de destaque, assim como também estudou as minas da Rússia, a pedido do Czar. Outra ocupação de destaque de Humboldt foi sua atuação como diplomata.

A maior obra de Humboldt foi o Kosmos, que pretendia reunir todo o conhecimento científico sobre o mundo. Seu escopo incluía não só a Terra, mas todo o universo. Para isso, contou com a colaboração de muitos cientistas, que lhe renderam muitas citações no decorrer da obra. Também escreveu outros dois livros muito famosos: o “Quadros da Natureza” e “Viagem às regiões equinociais do Globo”. Neste último ele conta sobre suas expedições nos áreas tropicais, incluindo suas passagens pela América Latina. Escreveu um livro sobre Geologia.

Humboldt morreu em 1859, com noventa anos de idade. De sua vida, dedicou entre 70 a 80 anos à pesquisa e à publicação, deixando-nos uma obra densa e extensa.

8.2 - Carl Ritter

Carl Ritter (1779-1859) nasceu na Prússia e foi educado, quando criança, em uma escola pestalozziana. Seu professor de História Natural e Geografia marcou-o muito, pois, na cidade onde estudava, havia uma colina mais alta, onde toda semana esse professor levava os alunos para trabalhos de campo, durante os quais eles elaboravam vários croquis da cidade. Posteriormente, Ritter estudou as teorias de Rousseau e Pestalozzi, que valorizavam a vivência e observação do ambiente pela criança. 116
116

CLAVAL, 1995, p. 3 - “ROUSSEAU propõe inverter as prioridades: antes de propor às crianças um discurso sobre realidades que elas não conhecem, preciso levá-las a descobri-las confrontando-os com a vida real. (...) ROUSSEAU lembra que o olhar geográfico (isto é, aptidão para detectar configurações que só aparecem quando se muda de escala) assume todo eu sentido na medida que se apóia na experiência direta de campo. A obra pedagógica de ROUSSEAU é ampliada por PESTALOZZI (1746-1827). Este

85

Figura 46 – Carl Ritter

Ritter entrou para a história da Geografia, através de publicações e de sua intensa atividade acadêmica. Enumeramos abaixo alguns dos feitos mais marcantes:    Em 1804, publicou “Europa: quadros geográficos, históricos e estatísticos”. Em 1820, foi o primeiro professor de Geografia da Universidade de Berlim, criada pelo irmão mais velho de Humboldt. Em 1827/28, Ritter fundou a revista “Conhecimento da Terra” e também a Sociedade de Geografia de Berlim – esta junto a Humboldt. Ritter era colega de trabalho e amigo de Humboldt; contudo, como este último estava em constantes viagens, os encontros entre os dois eram esparsos.

Para Ritter, cada área seria única, diferente de qualquer outra, devido às inter-relações entre os fenômenos existentes no local. Cumpria então estudar a superfície da Terra, em suas regiões, e sua relação com o homem. Nesse aspecto, a história possuía um papel fundamental; enfim, uma região não é diferente das outras apenas por sua disposição física atual, mas principalmente por sua história – geológica e humana.

Em seu método de estudo, procurava transitar do simples em direção ao complexo. Como temática desse processo de pesquisa, seguia o roteiro metodológico na ordem seguinte: relevo, clima, produção, população e, por último, a síntese final. O

cria escolas de acordo com os pontos de vista de seu mestres. Essas escolas dão aos seus alunos uma perspectiva geográfica bem mais moderna do que aquela propiciada pela maioria das escolas. Não é por acaso que dois dos maiores mestres da geografia do século XIX - o alemão Carl-RITTER -e o francês Elisée RECLUS tenham sido formados em escolas pestalozzianas.”

86

detalhamento dos estudos de Ritter é impressionante, passando de dados demográficos, cartográficos, relatos e até a percepção de artistas sobre os locais.
117

Ritter teve uma forte influência da religião em suas obras disposição do mundo estivesse sempre voltada para Deus
118

. Para ele, é como se a

. Todavia, isso não excluía

a necessidade de se estudar o mundo de modo aprofundado.

Tanto as obras de Ritter quanto as de Humboldt eram bastante complexas e abarcam os aspectos físicos e humanos de maneira integrada. Como uma ligeira diferenciação de enfoque, podemos dizer que Humboldt se aprofundou um pouco mais nos dados físicos, enquanto Ritter enfocava mais a parte humana e histórica. Como método de pesquisa, Humboldt utilizou-se prioritariamente de seus próprios dados e observações de campo, enquanto Ritter baseou-se bastante na pesquisa de dados secundários.

Continuadores:

Humboldt e Ritter podem ser considerados como a matriz comum que fundou a escola alemã de Geografia. A partir deles, seguiram alguns continuadores ilustres, mas que se aprofundaram em ramos mais específicos. Ratzel põe ênfase na Geopolítica e na Geografia Humana; Richthofen se encaminha mais para a Geografia Física; enquanto Hettner envereda-se para a Geografia Regional. Isso não significa que os estudos desses três sejam tão especialistas e restritos como os que temos hoje em dia, porém não se pode deixar de notar uma tendência, mesmo que inicial, para a especialização das correntes geográficas.

117 118

MORAES, 1980 GOMES, 1996

87

8.3 - Ratzel

Ratzel (1844-1904) iniciou sua carreira como zoólogo. Depois, viajou como correspondente de jornais, e essas viagens despertaram-lhe o interesse geográfico. Posteriormente, passou a lecionar Geografia em Universidades.

Ratzel é considerado como o fundador da moderna Geografia Humana. Instituiu a Geografia Política como disciplina, a qual trataria das distribuições no espaço na sua relação com o poder. Antes de Ratzel, grande parte dos trabalhos de Geografia voltavase mais para aspectos naturais, e incorporava os dados humanos como estatísticas populacionais e de ocupação do solo. Com Ratzel, o elemento humano assume posição central, incorporando a discussão sobre cultura e nação.

Figura 47 - Ratzel, etching by Johann Lindner, c. 1892. Fonte: student.britannica.com, disponível em 2008 Contudo, por certo ponto de vista, pode-se dizer que Ratzel estabelece um enfoque específico como forma de fazer Geografia, afastando-se um pouco do ideal generalista de Humboldt e Ritter. Seria como se a unidade disciplinar dos fundadores da Geografia começa-se pouco a pouco a se dividir, ao longo da história.

As teorias de Ratzel tiveram influência de Hegel, principalmente no que se refere à importância do Estado Nacional. Para Hegel, o Estado poderia ser entendido como uma metáfora de um organismo, mas também como uma manifestação do “Espírito da

88

História (ou do Tempo)”. A formação do Estado remete-se à ligação do povo com o solo e à criação de uma cultura de união. O termo “Espírito do Tempo” também tem a ver com a sintonia de um Estado com o “espírito” de sua época, levando aquele a aproveitar melhor as oportunidades e assumir a liderança sobre os demais países. O Estado que se sintoniza com o espírito de sua época torna-se um organismo mais dinâmico e demonstra mais vitalidade. A “vitalidade” de um povo leva o seu Estado a expandir-se, seja territorialmente (o que era predominante na época de Ratzel), seja por outro tipo de influência, como dominação econômica, cultural ou diplomática.
119

Ratzel também teve influência de Darwin

, e sua apropriação do pensamento de

Darwin em aplicações sociais acarretaria, posteriormente, no Darwinismo Social. O princípio essencial da teoria Ratzeliana é que o Estado necessita de espaço, pois se apóia e se nutre dos recursos naturais 120. Além disso, o crescimento do Estado demanda mais recursos naturais. Dessa forma, o Estado que se desenvolver mais necessitará de mais espaço, dominando os territórios adjacentes e fazendo definhar os Estados vizinhos. Em suma, o Estado dinâmico e em expansão sobreviveria, enquanto o que ficasse apático ao desenvolvimento definharia.

O Espaço Vital seria a manifestação espacial do Estado e justificaria sua propagação na superfície da Terra. A vida é dinâmica, mas a Terra é uma só, com espaço limitado, e, portanto, se a vida cresce, só pode acarretar a luta pelo espaço. Assim, o Estado passa a ser protagonista e propulsor em relação ao espaço 121.

Para o desenvolvimento dessa teoria, foi muito importante para Ratzel a análise da América do Norte, na ocasião de suas viagens a esse continente como correspondente jornalístico. Era o período da “marcha para o oeste”, onde havia o confronto entre os colonos e os índios nativos. De um lado, havia os colonos, que buscavam ocupar a totalidade do espaço, e que relacionavam o domínio do espaço com o poder. Os colonos representavam uma civilização mais desenvolvida, e ávida por ouro e terras.

119 120

GOMES, 1996 CORRÊA, 1995 121 CORRÊA, 1995

89

Do outro lado, havia os índios norte-americanos, dispersos em tribos pelas planícies, tais quais ilhas, em meio a um vazio político nos amplos espaços compreendidos entre cada povoamento. Era uma civilização mais primitiva, segundo o olhar de Ratzel, e que estaria menos preocupada com sua expansão.

Para Ratzel, essa diferença da relação entre o homem e o solo, para esses dois povos, era o motivo fundamental que levava os colonos a dominarem a América do Norte. Ratzel usa essa análise para entender o processo de colonização e, inclusive, para justificá-lo como algo normal e esperado
122

. Para ele, as civilizações “culturais”

dominariam as civilizações “naturais” (ou primitivas), como uma conseqüência da história humana. Esse pensamento acaba por estabelecer uma certa hierarquia entre os povos, no que é bastante criticado hoje em dia.

Ratzel também se debruçou sobre as influências dos ambientes naturais sobre o desenvolvimento das sociedades sucessores
124 123

. Embora não fosse tão determinista quanto seus

, chegou a concluir que, em ambientes inóspitos ao desenvolvimento, só

encontraríamos civilizações nativas primitivas, sem chance de um desenvolvimento autóctone de civilizações culturais. Vis-à-vis, a superioridade européia poderia ser explicada, em parte, por suas condições naturais e climáticas.

Ratzel precisa ser compreendido dentro do contexto de sua época. Isso deve ser levado em conta antes de criticá-lo por questões éticas, como se faz hoje comumente. Ratzel não era nazista (movimento que lhe é posterior), mas suas idéias estavam dentro de um contexto de nacionalismo que se passava em toda a Europa. Na Alemanha, essa situação era ainda mais especial, pois o país estava passando por seu processo de unificação. Por isso, não é de se surpreender que ele valorizasse a cultura alemã e desmerecesse os povos não-europeus. Há de constatar-se, todavia, que mais adiante suas idéias foram incorporadas à ideologia nazista, assim como às de outras nações colonizadoras e imperialistas 125.
122 123

MORAES, 1980 MORAES, 1980 124 Os darwinistas sociais transpunham, talvez de maneira pouco crítica, as suposições das ciências naturais para as ciências sociais. 125 MORAES, 1980

90

Figura 48 – Mapa contextualizando a unificação da Alemanha, entre 1815 e 1871 – Fonte: Atlas da História do Mundo. São Paulo: Folha de São Paulo, 1995. pg. 212

8.4 - Richthofen

Ferdinand Von Richthofen (1833-1905) foi muito importante para o desenvolvimento da epistemologia da Geografia Física. Em seus trabalhos, interessou-se bastante pelo estudo dos recursos naturais e sua possibilidade de exploração. Seria algo como uma Geologia Econômica. Além disso, também pesquisou a influência dos atributos físicos da paisagem na sociedade - por exemplo, a influência do relevo nas migrações.

91

Figura 49 - Richthofen

Sua principal obra foi “Guia para o Pesquisador de Campo”, onde propôs uma metodologia para os trabalhos de campo
126

. Esse método era voltado principalmente

para estudos de Geografia Física, baseando-se essencialmente na observação e mensuração de dados em campo, porém abarcando também aspectos humanos. Ao fim de todo o roteiro de procedimentos propostos, seria possível chegar a um conceito de unidade de paisagem (landschaft).

Os geólogos o criticaram por seus estudos serem abrangentes demais, fugindo do escopo restrito dos estudos geológicos tradicionais. Os geógrafos, por sua vez, o criticavam por seus estudos enfocarem demasiadamente a Geologia, na contramão dos trabalhos geográficos em voga. 127

126 127

DICKINSON, 1978 DICKINSON, 1978 – “Richthofen não era aceito por todos os círculos geográficos de Berlin. Ele era considerado por muitos como, primariamente, um geólogo, mas, por seu turno, os próprios geólogos, muito inclinados a pensar apenas no estrito campo geológico, achavam sua abordagem exageradamente abrangente.”

92

Figura 50 – Tópicos abordados na obra “Guia para o Pesquisador de Campo”, de Richthofen.

93

8.5 - Hettner

Alfred Hettner (1859-1941) cursou Geografia Física e Filosofia. Para Hettner, a Geografia Regional seria como procurar uma síntese da Geografia Humana e Física, porém dentro do escopo de uma região específica. Portanto, a unidade da Geografia se daria na Geografia Regional. Para isso, propunha o conceito de “sistema”, como a possibilidade de interligação entre os diversos fenômenos e processos 128.

Hettner refletiu sobre a questão da escala, que seria uma construção mental do pesquisador, vinculando-se aos objetivos práticos deste. Quanto mais complexo fosse o fenômeno, menor deveria ser a área estudada, devido às possibilidades práticas de pesquisa.

A escola francesa incorporou muito mais de Hettner do que de Richthofen e de Ratzel; isso se explica porque os franceses se dedicaram mais aos estudos regionais. Richard Hartshorne, dos EUA, também foi muito influenciado por Hettner, desenvolvendo várias idéias deste último. Como se percebe, além de abrir as portas da Escola Francesa, Hettner também indicou caminhos para um dos pólos da Geografia Americana, durante o debate ocorrido no período da Revolução Quantitativa. Hartshorne era representante da "Geografia Clássica Americana”, que debateu com os geógrafos teoréticoquantitativos.

128

HETTNER, 1985 – “Os principais fenômenos de um lugar da terra são intrínseca e causalmente interligados e fazem cada lugar da terra formar, desse modo, uma unidade natural que se pode, em sua individualidade, ou em suas potencialidades, descrever. (...) Assim a ação analítica da inteligência conduz finalmente de volta à unidade e, com isso, a uma ‘artística’ concepção totalizante”.

94

Figuras 51 e 52 - Hettner

Schlütter prosseguiu com as proposições de Hettner e Richthofen, desenvolvendo a teoria da Landschaft 129. “Landschaft”, da língua alemã, poderia ser traduzido, na língua portuguesa, como “paisagem”, embora possua um significado mais amplo, abrangendo todo um modelo de se fazer Geografia, que estuda o homem e o seu meio ambiente de maneira integrada e que, ainda, possui ligação com conceitos artísticos
130

. Alguns

acadêmicos alemães preferem designar essa área de estudo como “Ecologia da Paisagem” a “Geografia da Paisagem”, devido à forte integração inferida sobre os elementos estudados.

9 - A “Escola Francesa” de Geografia

Ao contrário do que muitos livros costumam afirmar, as escolas francesas e alemãs são mais complementares do que antagônicas. Pois, embora procurassem de alguma forma competir na evolução do pensamento geográfico, esse progresso se dava por meio de respostas e críticas entre os problemas levantados de uma escola para outra. Analisando
129

ANDRADE, 1992 CHRISTOFOLETTI, 1985 - “A idéia de Landschaft é complexa e ambígua, mas parte do pressuposto de que a natureza do mundo pode ser concebida como um evento visual, total e unido. Essa idéia mostra uma combinação da ciência e da arte, que caracterizava muitas disciplinas no Século XVIII e estava baseada na concepção aristotélica de que a natureza ou absoluto se abre por si mesmo à observação, e que nada mais se poderia encontrar além dos fenômenos visíveis. Desta maneira, a geografia da paisagem tornava-se a percepção visual da natureza pura ou da natureza transformada pelo homem (Bartels, 1970, p, 5).
130

95

com certo distanciamento, vê-se que se tratou de um diálogo científico proveitoso para o desenvolvimento da Geografia. A Escola Francesa bebeu muito das fontes alemãs, além das duas escolas possuírem uma base filosófica comum, a qual parte dos gregos e passa por Varenius e Kant.

A visão antagônica sobre as Escolas Francesa e Alemã se dá principalmente devido ao clima de revanche que se deu entre os dois países na passagem do século XIX para o XX. A França perdeu províncias para a Alemanha após a Guerra Franco-Prussiana, em grande medida devido às estratégias geopolíticas alemãs. Isso criou um desejo nacional, na França, de superar a Alemanha nos campos que fossem, inclusive o acadêmico.

Figura 53 – Movimentações dos exércitos na Guerra Franco-Prussiana.

A rivalidade na corrida imperialista dos países europeus colocou à França a necessidade de pensar sobre o espaço e suas estratégias de poder. Portanto, não é exagerado supor que tanto a Escola Alemã, quanto a Francesa, quanto as demais escolas nacionais de Geografia foram impulsionadas por fins geopolíticos expansionistas
131

. Isso é uma

131

ANDRADE, 1992 – “Surgiram, então, as escolas, uma escola alemã, uma escola francesa, uma escola britânica, uma escola soviética, uma escola americana etc. Estas escolas, porém, não se apresentavam como compartimentos estanques, separadas completamente em suas proposições e métodos: elas se orientavam para estudos de maior interesse para o próprio país e procuravam soluções e orientação que justificassem a ação do mesmo. Serviriam , na Alemanha, para justificar e tentar legitimar a luta pelo

96

justificativa patente para o apoio que o Estado Francês ofereceu à institucionalização da Geografia no ambiente acadêmico.

A resposta da França à Alemanha por meio da Geografia poderia, grosso modo, ser dividida em três momentos: 1. Elaboração da Geografia Universal por Reclus. 2. Multiplicação das sociedades geográficas francesas. 3. Estruturação da Geografia por Vidal de La Blache.

9.1 - As “Geographies Universelles” e o pensamento pioneiro de Reclus. O geógrafo Conrad Malte-Brun escreveu uma obra denominada “Geografia Universal”, a qual era tal qual uma enciclopédia agrupando todo o conhecimento geográfico de sua época, nos idos de 1837. Esta obra dividia o mundo em diversas regiões, com a profundidade possível para aquele momento histórico.

Jean Jacques Eliseé Reclus (1830-1905), geógrafo anarquista e protestante, foi aluno de Ritter e fez a 2ª “Geografia Universal”, com uma síntese do conhecimento geográfico sobre o mundo, até sua época. Além disso, também escreveu críticas abrangentes aos imperialismos do mundo. Contudo, talvez por seu posicionamento político libertário, Reclus não conseguiu uma penetração muito grande para suas obras e, também, não criou uma escola organizada para prosseguir com seus trabalhos – o contrário do que acontecerá com Vidal de La Blache, como veremos.

espaço vital, na França e na Grã-Bretanha para melhor conhecer os seus impérios coloniais, nos Estados Unidos e Na Rússia para justificar consolidar a expansão por áreas contínuas e habitadas por povos pobres que permaneceriam sob o seu domínio e orientação. Tinham essas escolas, como não poderia deixar de ser, um sentido profundamente nacionalista, estavam comprometidas com os governos de que dependiam e a que serviam.”

97

Figura 54 – Reclus. Fonte: dwardmac.pitzer.edu Hoje, a última edição da “Geografia Universal” foi coordenada por Roger Brunet, na década de 1990. Pode-se dizer que esse tipo de obra oferece uma visão holística, mas também regionalista, do mundo desta época. É interessante reparar que se trata de uma retomada de um modelo de estudo iniciado a mais de um século, ou seja, um algo como um renascimento importante para os estudos regionais, os quais passaram por um longo período de críticas e desconsideração ao longo do século XX.

9.2 - Vidal de La Blache e a Escola Regionalista

La Blache (1845-1918) foi aluno de Ritter, e era muito amigo de Hettner. Suas obras “Tableau de La France” e os “Princípios da Geografia” são apontadas por muitos como as duas obras de Geografia mais importantes já publicadas na França.

98

Figura 55 – Vidal de La Blache

La Blache e Ratzel tinham o mesmo fundamento que os guiava no estudo geográfico: a unidade da relação homem-natureza. Contudo, La Blache contrapôs o Possibilismo ao enfoque mais determinista de Ratzel. Nesse aspecto, La Blache procurou uma visão mais equilibrada e ponderada, criticando o fatalismo e a concepção mecanicista da relação homem/natureza.

La Blache propunha uma valorização da capacidade humana de criação e adaptação ao ambiente, em contraposição ao império da Natureza moldando a história humana 132. Ao invés de partir da noção dos fatores naturais como condicionantes da ação humana, La Blache os considera como base de possibilidades para a ação humana
134 133

. Essa

concepção lablacheana incorpora mais o espírito de liberdade do ser humano e de sua responsabilidade em construir a história de sua sociedade . Todavia, são diferenças

metodológicas sutis, e os termos Determinismo e Possibilismo foram cunhados a partir de análises de estudiosos posteriores. Nem Ratzel se auto-declarava determinista, nem Vidal de La Blache se intitulava possibilista 135.

132 133

GOMES, 1996 GOMES, 1995 134 CORRÊA, 1990 135 SANTOS, 2002 - “É a famosa polêmica entre ‘deterministas’ e ‘possibilistas’, estes se dizendo alunos de Vidal de La Blache, arrogandose o privilégio de incluir a ação do homem como um fator a considerar e admitindo que os ‘deterministas’ (denominação que os ‘possibilistas’ atribuíram a Ratzel e seus discípulos)”

99

La Blache também condenava a politização da Geografia Alemã 136. Contra isso, propõe uma necessidade de neutralidade do discurso científico, para que suas conclusões sejam compromissadas com a verdade, e não com ideologias circunstanciais.

Há uma maior ênfase do regional na Geografia Francesa e do geral (global) na Geografia Alemã. Todavia, também houve trabalhos regionais na Alemanha, bem como trabalhos de Geografia Geral na França.

Figura 56 – Mapa físico da Península Balcânica, por Vidal de La Blache.

No ambiente Iluminista, a busca por princípios gerais era uma prioridade filosófica. A princípio, pode-se dizer que o Regionalismo Francês seguiu um caminho inverso, pois o foco dos estudos seria os locais particulares. Contudo, essa afirmação deve ser relativizada, haja vista Vidal de La Blache também haver trabalhado o tema dos princípios gerais na obra “Princípios da Geografia”.

Cabe salientar que o estudo regional, por si, não foi criado pelos Franceses. Os gregos antigos já realizavam estudos que poderiam ser ditos “regionais”. Também Ptolomeu e
136

MORAES, 1980

100

Varenius estudaram as regiões, sob a denominação que cunharam de Geografia Especial. Além disso, o estudo das regiões como um todo orgânico que compreende a superfície e a civilização humana já era um ideal proposto e levado a cabo por Humboldt e Ritter. Contudo, na Escola Francesa criar-se-á toda uma nova concepção e priorização da região, como abordaremos a seguir.

No estudo regional, busca-se uma síntese sistêmica que inclua o ser humano e a natureza, em suas inter-relações. Em suma, a região deve ser um todo em si. Portanto, o geógrafo regionalista não se especializa em apenas uma área específica da Geografia – é importante que ele mantenha um olhar abrangente sobre os vários aspectos que subjazem em uma região.

Uma região seria delimitada por uma certa homogeneidade de um gênero de vida por sobre uma constituição paisagística delimitável. Ou seja, procura-se um padrão de paisagem que distinga uma região de outra, e que possua um gênero de vida específico que se relacione a esse padrão. Busca-se assim estudar como os elementos de uma região evoluíram em sua inter-relação, para adquirir sua configuração atual
137

. Esse

estudo procura identificar, no fim, uma identidade cultural sobre o território, o que era geopoliticamente estratégico, pois contribuía para reavivar o nacionalismo francês.

Uma região pode ser abarcada por outra região, em outra escala de análise. Da mesma forma, uma região também pode se relacionar e ser influenciada por outra região. Do ponto de vista prático, há de se ressaltar que o tamanho de uma região é um limitador prático no detalhamento dos estudos regionais.

Todavia, o regionalismo não deve ser considerado como uma priorização da Geografia Especial sobre a Geografia Geral. Os agrupamentos regionais não são aleatórios, mas sim um reflexo da dinâmica da unidade terrestre com suas leis gerais. Aplicam-se as leis gerais em um território singular, que se presta a ser analisado sobre uma infinidade de relações. A título ilustrativo, existem cabeceiras e deltas de rios em todo o mundo, com suas leis gerais de evolução geomorfológica. Mas o estudo regional irá utilizar-se dessas

137

CORRÊA, 1990

101

leis para um caso específico, em uma dada localidade. Da mesma forma, o estudo de uma cidade utilizar-se-á dos princípios gerais de morfologia urbana.

Portanto, existe uma retro-alimentação entre a Geografia Geral e a Regional, com os avanços de uma servindo de subsídios para o progresso da outra. A verdadeira Geografia Regional, na concepção francesa, é uma síntese de alto nível, que incorpora todo um mundo de aspectos vindos da Geografia Geral. Em outras palavras, um estudo regional é uma verdadeira obra de arte, o que requer do artista um domínio pleno das teorias e técnicas de sua ciência.

As paisagens rurais foram um tema importante nos estudos regionais franceses. A Revolução Francesa havia eliminado os resquícios feudais nesse país, mas, enquanto nos outros países os camponeses migravam para as cidades, na França a população rural continuou com suas atividades. Os estudos das paisagens agrárias mostravam com vivacidade as relações entre o ser humano e a natureza, dando vazão a uma série de constatações frutuosas.

Apesar de se dedicar mais às paisagens agrárias, La Blache também estudou as redes urbanas
138

. Ele notava que algumas cidades formavam regiões nodais, e que criavam

uma configuração regional sob sua influência 139.
140

La Blache incorpora à geografia o conceito de Gênero de Vida

. Durante os séculos
141

XVIII e XIX, os gêneros de vida foram o grande tema da Geografia Humana

.O

gênero de vida, em contraposição às teorias de Ratzel e seus continuadores, estaria menos amarrado ao conceito de raça, e mais aos costumes e desenvolvimento

138

ANDRADE, 1992 – “Vidal de la Blache, que publicara o seu Tableau de Géographie de la France e numerosos artigos, procurou dar maior ênfase ao estudo das comunicações para que se compreendesse o relacionamento entre os gêneros de vida e as regiões , sobretudo agrárias, e as cidades que cresciam e ganhavam importância.” 139 GOMES, 1996 140 CORRÊA, 1990 141 SANTOS, 2002 – “O conceito de gênero de vida proposto por Vidal de La Blache (1911, pp. 193-212, 289-304) é também um desses numerosos paradigmas que orientaram a geografia humana moderna. Segundo esse enfoque, seria por intermédio de uma série de técnicas confundidas com uma cultura local que o homem entra em relação com a natureza. O espaço como objeto de estudo seria o resultado de uma interação entre uma sociedade localizada e um dado meio natural: um argumento sob medida para reforçar a idéia de região como unidade do estudo geográfico.”

102

tecnológico

142

. É uma diferença contextual, porque, para os alemães, a cultura estava

muito ligada à raça (laços de sangue), como uma superposição entre cultura, parentesco e ocupação do espaço.

Hoje, é um pouco mais complexo discorrer sobre gêneros de vida, tal como fazia a escola francesa, ao estudarmos a sociedade contemporânea
143

. Essa ressalva funda-se

na constatação atual de que o meio urbano tornou-se muito complexo, e nele as pessoas passam a ser cada vez mais polivalentes, com estilos e modos de vidas muito diferenciados. Nesse novo contexto, toda pessoa incorpora um universo diferenciado e com possibilidades múltiplas, sendo cada vez mais difícil exercer classificações de gêneros, classes, arquétipos ou comunidades homogêneas que sejam realmente fidedignas e coerentes. Entre os discípulos de La Blache, cumpre enumerar 144: - Emmanuel de Martonne – especialmente na Geografia Física - Maximilien Sorre – especialmente na Geografia Humana. - H. Baulig – Geografia de Zonas (escalas de estudo mais amplas que as regiões) Durante o início do século XX, as “Teses Regionalistas” receberam pesadas críticas por se aterem demasiadamente em aspectos regionais e não procurarem estabelecer ligações mais amplas para o desenvolvimento de teorias da Geografia Geral. Essa tese do distanciamento entre Geografia Geral e Regional, nas escolas regionalistas francesa e alemã, é proposição que deve ser vista com muitas ressalvas. Pois essas escolas de enfoque regional elaboraram trabalhos com bastante organização e embasamento cartográfico, sociológico e geomorfológico, demonstrando que possuíam consciência das técnicas gerais geográficas.

Também houve críticas, por parte da corrente teorético-quantitativa, que os estudos regionais não utilizariam as técnicas quantitativas e, por isso, não seriam adequados à comprovação pelo método científico. Uma acusação como essa merece ser analisada
142

ANDRADE, 1992 – “Para ele (La Blache), o gênero de vida seria o conjunto articulado de atividades que, cristalizadas pela influência do costume, expressam as formas de adaptação, ou seja, a resposta dos grupos humanos aos desafios do meio geográfico.”
143

CLAVAL, 2002

103

com cautela, visto que os regionalistas não eram avessos à quantificação; ao contrário, utilizavam-se bastante de estatísticas censitárias e de medições cartográficas para a construção de mapas. Mais do que isso, procuravam casar os dados quantitativos com a vivência pessoal do contexto da região. A única ressalva talvez fosse que não se utilizavam de modelos matemáticos complexos tais quais os que serão utilizados pela corrente teorético-quantitativa.

No período de 1930 a 1978, aproximadamente, as teses regionalistas continuaram muito importantes no ambiente acadêmico francês. Contudo, após 1960, o modelo Lablacheano foi perdendo espaço, gradualmente, para a Geografia Ativa. Nessa última fase das geografias regionais, era comum notar a procura em ligar o estudo profundo de uma região a subsídios úteis para o planejamento regional. Essa era uma forma de intentar mostrar que os estudos regionais ainda teriam utilidade para o desenvolvimento da região.

Antigamente, terminar uma tese regionalista era ter certeza de que se tinha um trabalho sólido realizado. Sua densidade era assegurada por uma vivência do pesquisador na região, entrenhando-se na vida local. Todavia, uma tese regionalista é um trabalho longo e com um grande volume de páginas, o que não se adapta muito às necessidades de planejamento atuais. Hoje, teses que demorassem décadas para ser elaboradas já teriam seus dados considerados desatualizados no mesmo momento de sua publicação. Enfim, uma tese regionalista, hodiernamente, chegaria ao ponto de ser considerada talvez mais uma obra de arte do que uma obra científica.

144

ANDRADE, 1992; MORAES, 1980

104

10 - Principais fundamentos e conseqüências da Primeira Revolução Quantitativa

Walter Christaller e Johann Heinrich Von Thünen podem ser considerados como precursores da Revolução Quantitativa
145

. Seguindo suas linhas de pesquisa, os

primeiros modelos abarcavam as relações espaciais relacionadas à Economia Regional e à Geografia Urbana.

Figura 57 – Von Thünen – Fonte: original.britannica.co, em agosto de 2008

Figura 58 – Walter Christaller – Fonte: faculty.washington.edu, em agosto de 2008

Um exemplo de modelo quantitativo clássico na Geografia foi o desenvolvido por Von Thünen (1783–1850). Von Thünen utilizou como ponto de partida a abstração do
145

CHRISTOFOLETTI, 1985

105

espaço como uma superfície plana e uniforme, denominada planície isotrópica. Nesse plano espacial, as atividades eram controladas pelas distâncias até o pólo urbano, formando círculos concêntricos de atividades produtivas
146

. A idéia central é a de que

os produtos perecíveis deveriam ser cultivados mais perto da cidade, e os mais duráveis poderiam ser produzidos mais distantes do centro urbano.

Figura 59 – Modelo simplificado de Von Thünen – Fonte: /www.history.ac.uk, Disponível em 2008.

146

ANDRADE, 1992 – “Desde o século XVIII, Von Thünen procurou desenvolver raciocínio sobre a existência de um estado ideal, fisicamente uniforme que se desenvolveria a partir de um dentro dinamizador – a capital – com zonas concentradas, a partir deste centro, as mais próximas, especializadas na produção de mercadorias com necessidade de um consumo mis rápido e de maiores proporções até aquelas de manutenção de florestas.”

106

Figura 60 – Modelo de Von Thünen – Fonte: www.answers.com, disponível em 2008.

Esse modelo foi elaborado há quase 200 anos, e, hoje, em virtude das inovações tecnológicas produtivas, podemos propor que ele já não se adapta tão bem à realidade. Na época de Von Thünen, não era possível transportar leite para um centro a mais de 200 ou 300 quilômetros sem que ele azedasse, pois o meio de transporte utilizado era a carroça. Outros produtos, como a batata, podiam ser transportados de mais longe. Atualmente, com o desenvolvimento dos meios de transporte e dos sistemas de refrigeração e conservação de alimentos, é possível importar produtos altamente perecíveis de regiões longínquas.

Christaller elaborou a Teoria dos Lugares Centrais. Trata-se de uma teoria geométrica do espaço onde, de um modo geral, os polígonos espaciais são representados lado a lado, estabelecendo hierarquias entre as cidades. 147

147

ANDRADE, 1992 – “Walter Christaller, que na década e 30 desenvolveu a teoria dos lugares centrais, pouco aceita ao ser formulada, mas que alcançou grande difusão após a Segunda Guerra Mundial. Christaller baseou-se em estudos sobre a Alemanha Meridional, analisando a difusão, pelo espaço, de cidades, classificadas de acordo com seu porte, e procurando estabelecer sua área de influência , de acordo com nível de demando de produtos mais ou menos especializados.16 A reflexão sobre os seus trabalhos na década de 60 e de 70 provocou grande florescimento da chamada geografia quantitativa e do conseqüente uso dos métodos matemático-estatísticos nos estudos geográficos. Ela contribuiria para a perda de influência da geografia regional e representava uma volta ao positivismo, alimentando a escola neopositiva moderna.

107

Figura 61 – Mapa de Christaller – Legenda original: Christaller, Walter (1933): Die zentralen Orte in Süddeutschland : eine ökonomisch-geographische Untersuchung über die Gesetzmäßigkeit der Verbreitung und Entwicklung der Siedlungen mit städtischen Funktionen. - Jena : Fischer, 1933. - 331 S. – Fonte: www.isl.uni-karlsruhe.de, disponível em 2008.

108

Figura 62 - Mapa de Christaller. Fonte: www.fao.org, disponível em 2008.

Figura 63- Exemplo de aplicação do modelo de Christaller. Fonte: csiss.ncgia.ucsb.edu, disponível em 2008

109

Carl Sauer, fundador da AAG (Associação Americana de Geógrafos), abriu as portas para a corrente quantitativa. O contexto era de uma crítica às escolas clássicas da Geografia, que não estariam conseguindo atender ao dinamismo demandado pelas duas guerras mundiais
148

. Os governos procuravam por uma Geografia aplicada, que

respondesse de maneira ágil e confiável às novas necessidades de planejamento 149. Essa demanda foi intensificada com a premência da reconstrução das cidades européias no pós-guerra.

Figura 64 – Carl Sauer – Fonte: people.cas.sc.edu, disponível em agosto de 2008

Em uma análise ampla, a Geografia Quantitativa pode ser considerada um esforço de transformar a Geografia, de fato, em uma ciência moderna, nos moldes das demais ciências de ponta
150

. Esse objetivo, em parte, veio em decorrência de numerosas

discussões anteriores sobre se a Geografia seria mesmo uma ciência, ou se seria uma arte, ou mesmo um modo de ver o mundo.

Schaefer criticava a pouca ênfase dada pelas escolas francesas na busca de leis gerais que governem as distribuições espaciais
151

. Para ele, os geógrafos regionalistas

estariam empenhando muito esforço na descrição, em detrimento da explicação. Como contraposição, Schaefer apontava a importância de se utilizarem modelos com maior rigor metodológico, os quais pudessem comprovar hipóteses nos moldes das modernas

148 149

GOMES, 1996 NARDY & AMORIM FILHO, 2003 150 GOMES, 1996

110

ciências exatas e biológicas 152. Schaefer vinha da Economia Espacial, da mesma escola de Von Thünen e Christaller.

Schaefer envolveu-se em um clássico debate com Hartshorne. Hartshorne era o principal representante da Geografia Clássica Americana e que, segundo Schaefer, defendia que a Geografia seria uma ciência única, com uma metodologia única, para estudar lugares únicos
153

- o que tornaria também o geógrafo um pesquisador com

habilidades únicas. Schaefer critica esse excepcionalismo da Geografia, pois uma ciência verdadeira deveria se preocupar em descobrir os padrões gerais, e não se render às aparentes singularidades
154

. Afinal, essas singularidades seriam apenas fenômenos
155

ainda não explicados pela capacidade teórica atual das ciências

. Ao se atentar para o

que havia de único nos lugares, os regionalistas estariam se aproximando mais da arte do que da ciência. Hartshorne esforçou-se por responder as críticas de Schaefer 156, mas isso não impediu o deslanche da corrente quantitativa. Contudo, Schaefer morreu antes de ver os efeitos de suas críticas.

Figura 65 – Richard Hartshorne – fonte: www.geography.wisc.edu/history/, disponível em agosto de 2008.

151 152

NARDY & AMORIM FILHO, 2003 CORRÊA, 1990 153 CORRÊA, 1995 154 GOMES, 1995 155 GOMES, 1996 156 NARDY & AMORIM FILHO, 2003

111

Para Burton e William Bunge, a ciência geográfica, para ser equiparada as outras ciências, precisaria se esforçar por construir modelos que fossem preditivos, além de serem validados firmemente por dados empíricos. Não bastava descrever, e mesmo apenas explicar o passado. Pois se uma lei fosse realmente correta, ela precisaria funcionar para dados passados, presentes e futuros.

Como um saldo positivo para a evolução do pensamento geográfico, a Revolução Quantitativa trouxe a Análise Espacial, e também a quantificação, que entraram de forma permanente para a Geografia
157

. A quantificação aumentou bastante as

possibilidades instrumentais da Geografia 158.

Embora pareça um contra-senso, à primeira vista, esse movimento foi primeiramente quantitativo, e só depois se tornou teorético. Pois, no primeiro auge dos modelos dessa corrente, percebeu-se que alguns trabalhos eram muito sofisticados do ponto de vista quantitativo, mas erravam exorbitantemente quando seus resultados eram comparados aos dados verificados em campo
159

. Um exemplo recorrente seria a situação em que se

atribui, a certas variáveis, valores ponderados errados para a constituição de um resultado quantitativo.

Muitos geógrafos chegaram a recusar completamente as técnicas quantitativas, por considerarem seus métodos incipientes (por seus erros iniciais), incompletos (por não abarcarem aspectos importantes da realidade humana e da Natureza) ou até mesmo epistemologicamente equivocados (casos em que a rejeição era total). 160
157

WRIGLEY, 1965 p.17. - “O uso de técnicas estatísticas, se corretamente utilizadas, permite uma maior precisão (...) os problemas práticos e metodológicos da geografia são de tal natureza que a utilização das técnicas estatísticas é adequada para exercer uma forte atração”, 158 NARDY & AMORIM FILHO, 2003 159 CHRISTOFOLETTI, 1985 – “Numa primeira fase, portanto, houve a ‘magia do número’, supondo que a quantificação por si só resolvia as questões. Evidentemente, acontecia que através da análise quantificada os problemas eram mais facilmente colocados e definidos, redundando em soluções mais rápidas e mais bem documentadas. Pouco a pouco, entretanto, foi-se percebendo que a quantificação levantava inúmeros problemas; era um meio e não um fim em si mesma. O mais importante era a noção e o conceito que se possuía dos fenômenos – era a perspectiva teórica. O uso indiscriminado e abusivo das técnicas estatísticas gerou insatisfação, o que levou Brian Berry a denominá-la de ‘geografia estatística tradicional’ (Berry, 1972, p.3).” 160 SANTOS, 2002 – “Ian Burton (1963, pp.151,162) classifica os adversários da geografia quantitativa em cinco grupos: O primeiro é o dos geógrafos que logo de saída recusam a “revolução quantitativa” e a consideram como capaz de levar a geografia por maus caminhos. O segundo grupo é constituído pelos geógrafos que consideram a carta suficiente para exprimir as correlações que caracterizam a organização do espaço. Um terceiro grupo de opositores afirma que “as técnicas estatísticas são adequadas para alguns temas geográficos, mas não para toda a geografia”. Uma outra ordem de objeções é mais abrandada: as

112

Como um meio de responder a tais constatações, procurou-se uma maior valorização da Epistemologia na Geografia Quantitativa. A partir daí, essa corrente de pensamento passou a receber a denominação de Teorético-Quantitativa, o que não foi apenas uma mudança de nome, mas sim uma evolução no seu valor como ciência.

Firmou-se como importante fazer a quantificação geográfica com uma boa base epistemológica, seja para obter o máximo de alcance de análise espacial, seja para garantir a acurácia dos resultados. O embasamento epistemológico também é proveitoso para garantir que não haja uma manipulação ideológica dos dados ou do próprio pesquisador. Inobstante, ainda se pode fazer uma Geografia estritamente tecnocrática, com o enfoque exclusivo no produto cartográfico a ser apresentado, porém cada vez mais se estima o trabalho geográfico bem fundamentado em teorias epistemológicas e filosóficas.

Esse retorno da valorização da Epistemologia para a reflexão geográfica contribui para um maior relacionamento entre a Geografia e a Filosofia. A ligação entre esses dois campos de saber já era considerada essencial para os gregos antigos, mas foi “eclipsada” durante o período subseqüente da história da humanidade.

Em um primeiro momento, pensou-se que a Geografia Teorético-Quantitativa dominaria o meio acadêmico geográfico por mais de um século. Contudo, isso não aconteceu. A principal crítica atual que baqueou a Escola Quantitativa é a de que ela enfocaria demais o aspecto metodológico
161

. Além disso, os modelos davam um grande peso à variável

de distância espacial, a qual seria o fator fundamental. Waldo Tobler propôs, inclusive, que a primeira lei da Geografia se remeteria às relações de distância 162.

técnicas quantitativas são desejáveis, mas os numerosos erros de aplicação deveriam desaconselhar o seu uso. Um último grupo prefere levantar críticas de natureza mais pessoal: para estes a quantificação seria uma boa coisa mas os geógrafos quantitativos não seriam tão bons...” 161 SANTOS, 2002 – “E. Ullman (1973, p.272) notou bem este problema, quando escreveu que era um equívoco pensar que o método quantitativo constituiu um sinônimo de análise espacial. “Os métodos quantitativos”, diz ele, “podem ser utilizados na maior parte das abordagens em geografia, mas eles mesmos não constituem a geografia; eles seriam uma condição desejável, mas não suficiente. (...) O grande equívoco da chamada “geografia quantitativa” foi o de considerar como um domínio teórico o que era apenas um método e, além do mais, um método discutível.” 162 MILLER, 2004

113

Alguns geógrafos quantitativos, nos moldes de Christaller, partiam inclusive do pressuposto das planícies anisotrópicas, as quais seriam uma abstração que pressupunha que o espaço fosse homogêneo, sem diferenças de uma região para outra. Pressupostos como esse simplificavam a realidade, o que permitiu o desenvolvimento matemático, mas, por outro lado, excluía outros fatores muito importantes para as análises geográficas
163 164

. Por isso, os modelos nunca forneciam respostas com eficácia total

.

Esse foco demasiado na análise metodológica da distância tornaria a Geografia uma ciência pobre, que percebe menos a diversidade das relações entre aspectos ambientais e humanos 165, já que não se apercebe das emoções, percepções e valores das pessoas 166.

11 - A Segunda “Revolução Quantitativa”; os Sistemas de Informação Geográfica

O surgimento dos SIG - Sistemas de Informação Geográfica - marcou o que se chama de segunda “Revolução Quantitativa” da Geografia. Incorporando os avanços da computação à análise espacial e tomada de decisão, os SIG se tornaram um instrumento quase indispensável ao Geógrafo moderno.

Houve uma época em que se dividiam os geógrafos em quantitativos e nãoquantitativos. Hoje já podemos dizer que a prática quantitativa já se incorporou ao fazer geográfico
167

. Ao contrário da primeira revolução quantitativa, na qual se pretendia

recusar tudo que já havia sido feito anteriormente na Geografia, a segunda revolução quantitativa apresenta-se madura, embasada epistemologicamente, e por isso consegue estender-se em uma perspectiva de diálogo e desenvolvimento conjunto em relação às demais abordagens geográficas. Trata-se de uma percepção mais amadurecida do

163 164

CORRÊA, 1995; GOMES, 1996 SANTOS, 2002 – “Eliot Hurst (1973, p. 46) afirma que na paisagem a maior parte daquilo que é objeto de nossa experiência não é susceptível de análise quantitativa.” 165 BROEK, 1967 - “O interesse que existe atualmente nas análises matemático-estatísticas de sistemas de distribuição e de ação recíproca no espaço, aumenta e refina nossos conceitos de relações recíprocas. Existe, entretanto, o perigo de dar excessiva importância a estes aspectos, pois eles restringiriam os horizontes da geografia e a reduziriam a uma ciência abstrata de relações espaciais 166 CLAVAL, 2002 167 CHRISTOFOLETTI, 1985 - “As técnicas quantitativas possuem a função de serem fundamentais na coleta e na análise dos dados, orientando a mensuração, a amostragem, a descrição e apresentação, a testagem das hipóteses e das inferências, a classificação e a análise multivariada das relações e das tendências das distribuições espaciais. Em suma, são peças básicas do arsenal técnico na formação do geógrafo.”

114

contexto acadêmico e que se funda, pois, não tanto no positivismo clássico, mas sim no Neo-Positivismo 168.

Com o tempo, os modelos espaciais também se tornaram mais complexos e consistentes, evoluindo para o conceito de análise de sistemas
169

. A Geografia

Quantitativa passa a ser considerada útil para as outras correntes da Geografia, porque sabe tratar os dados com uma metodologia moderna, epistemologicamente consistente e de eficácia comprovada por testes recursivos. Afinal, a quantificação por si só não é boa nem má, e sim depende apenas de como será utilizada.

12 - Geografia Radical (ou Crítica)

Nos períodos posteriores às décadas de 50 e 60, emergem duas críticas à revolução teorético-quantitativa: a Geografia Radical e a Geografia Cultural. A Geografia Radical, também chamada de Geografia Crítica, iniciou-se como uma contestação dos problemas existentes paradigmas anteriores, contudo, sem uma proposição consistente de um paradigma alternativo com base epistemológica. Apenas posteriormente, nas décadas de 1970 e 1980, esse movimento deu origem a uma Geografia Neo-Marxista, a qual possuía uma fundamentação epistemológica calcada nas teorias de Marx e da corrente filosófica marxista 170.

Tanto a Geografia Radical inicial quanto a Geografia Marxista empenhavam-se em mostrar como a Geografia, até o momento, havia se aliado às elites governantes para melhor explorar as classes mais pobres
171

. Procuravam mostrar como as teorias

geográficas anteriores serviram ou como instrumentos para os governos da elite, ou como meio para veiculação de ideologias que justificassem a exploração da sociedade
172

.

168 169

GOMES, 1996; NARDY & AMORIM FILHO, 2003 GOMES, 1996; NARDY & AMORIM FILHO, 2003 170 PEET, 1982 171 MORAES, 1980 172 CLAVAL, 2002

115

Como alternativa ao que havia sido feito até então, os geógrafos críticos procuravam construir uma Geografia que desnudasse os processos e contradições sociais e mostrasse a verdadeira face do capitalismo e de sua dominação sobre os trabalhadores
173

. Essa

nova Geografia se importava muito com o ensino de Geografia à população, como um meio de permitir ao povo uma nova consciência sobre sua situação de explorados, bem como fornecendo habilidades intelectuais para que planejassem maneiras de lutar contra o jugo do capital 174.

A Geografia Crítica rapidamente tornou-se o movimento hegemônico na Europa e no Brasil, além de ter adquirido alguma importância nos EUA. Contudo, a partir da década de 1990, a corrente crítica começou a perder espaço para outras correntes, especialmente para a Geografia Cultural. Na Europa, a Geografia Cultural tornou-se a nova corrente hegemônica, embora no Brasil a corrente principal ainda continue sendo a Geografia Crítica.

A União Soviética era um reforço extra-teórico para a Geografia Crítica. Todavia, com a queda e a transformação das potências socialistas, bem como com a crescente globalização do capitalismo, é preciso pensar o mundo sobre critérios não mais restritos apenas ao marxismo ortodoxo. Não se pode mais afirmar, atualmente, que a Geografia Crítica se ancora no Marxismo, e menos ainda no Estruturalismo; na verdade, ela parte muito mais das atualizações do pensamento Neo-Marxista 175.

A principal crítica contemporânea à Geografia Crítica é que ela confiaria tanto em seus postulados que chegaria ao ponto de já trazer as respostas prontas, servindo a experiência apenas para confirmar essa verdade teórica. Esse aspecto militante, e pouco aberto a uma humildade do saber, levaria a situações em que, quando a experiência não confirma abertamente a atitude do pesquisador, este se sentisse tentado a rejeitar a experiência, para não perder os dogmas a que se apegou 176.

173 174

MORAES, 1980 GOMES, 1996 175 SOJA, 1993 176 AMORIM FILHO, 1999

116

13 - Geografia Cultural

A Geografia Cultural prima por estudar a relação entre o homem e o ambiente a sua volta. Abarcam-se os valores, emoções, percepções sensitivas, imagens mentais, lembranças, heranças culturais, comportamentos, processos pedagógicos, costumes, criatividade e tudo o mais que possa influir nesse estudo
177

. Além disso, essa

investigação não se restringe ao estudo de cada indivíduo sozinho, e por isso alça-se à intersubjetividade, na qual as pessoas se relacionam umas com as outras e também com o espaço a sua volta, construindo uma cultura comum 178.

A Geografia Cultural privilegia a vivência do pesquisador com a comunidade e o ambiente estudados
179

. A partir dessa vivência, o pesquisador lança mão, para sua

análise, de uma base epistemológica provinda da em grande parte da Fenomenologia, mas também da Psicologia, Sociologia Cultural, Pedagogia, Existencialismo, Hermenêutica e outras correntes de pensamento 180. Entre os principais expoentes desta corrente, estão Yi-Fu-Tuan e Anne Buttimer 181. YiFu-Tuan foi um dos responsáveis pela instituição da corrente fenomenológica, sendo que sua obra “Topofilia” tornou-se um dos marcos da história da Geografia “humildade paisagística”, assim como o termo “admiração geográfica”.
182

. Nessa

obra, ele cunhou vários termos referenciais, como “humildade geográfica”, ou

Figura 66 – Yi Fu Tuan – Fonte: www.walkinginplace.org, disponível em 2008.

177 178

CORRÊA, 1995; CLAVAL, 2002 GOMES, 1996 179 CORRÊA, 1995 180 GOMES, 1996 181 AMORIM FILHO, 1999 182 GOMES, 1996

117

A aproximação da subjetividade humana, promovida pela corrente cultural, permitiu à Geografia pensar melhor como ocorre a evolução psico-pedagógica do indivíduo, no seu aprendizado em relação ao espaço. Inclusive, observa-se algumas vezes uma comparação entre a evolução da Geografia na história com a evolução da capacidade de compreensão do espaço por uma pessoa, de seu nascimento até a fase adulta.

Figura 67 - Children's Mental Maps of World in Thailand - From: T. Saarinen. "The Eurocentric Nature of Mental Maps of the World." Research in Geographic Education 1:2, 1999 - go.owu.edu, disponível em 2008 Outro tema bastante instigante é o dos mapas mentais. Afinal, é de importância crucial para a Geografia o modo como as pessoas imaginam o ambiente a sua volta e, com isso, tomam essa imagem como referência para suas decisões e sentimentos
183

. Esses mapas

podem corresponder mais fielmente ou não ao espaço empírico real, embora algumas vezes esse nem seja um ideal a ser alcançado. A título ilustrativo, tomem-se as inúmeras geografias imaginárias construídas por poetas, músicos e escritores.

Trabalhamos com nossos mapas mentais a todo o tempo, mesmo sem nos apercebermos disso
183 184

184

. Por exemplo, ao lermos notícias em um jornal, imaginamos a região ou local

CLAVAL, 2002 CHRISTOFOLETTI, 1985 - “A imagem que se possui dos lugares é diferente conforme os meios de informação que as pessoas dispõem. Desta maneira, cada indivíduo possui um mapa mental distinto, em virtude das imagens que caracterizam e valorizam os diferentes lugares, pois ‘construímos um mapa mental e necessitamos desenvolver as estruturas espaciais do nosso pensamento para adquirir esquemas de ação para a atividade espacial. É este o mapa mental que nos coloca em posição de estabelecer,

118

onde se passou o fato relatado. Todavia, não existe nenhum mapa mental cabalmente perfeito. Nosso mapa mental mais fiel seria o de nossa casa, ou mesmo de nosso quarto; e quanto mais distante o lugar é de nossa experiência cotidiana, mais impreciso será nosso mapa mental. Essa imprecisão progressiva chega até um limite, a que se denomina de “Terra Incógnita” ou “Ângulos Mortos”.

Nossos mapas mentais são formados principalmente por meio de nosso contato com mapas, mas também por meio de nossas viagens e, em parte ainda, por nossa imaginação. As viagens, como contato com a realidade, lembram-nos da riqueza desta, em comparação com os mapas, além de nos lembrar da dinâmica e mutabilidade do mundo. Este último aspecto torna-se mais evidente quando realizamos a mesma viagem mais de uma vez, depois de transcorrido certo período, e observamos quanto coisa mudou. Também é importante ressaltar que mesmo que olhemos um mapa real, já logo nos instantes seguintes em que desviamos nosso olhar, estamos modificando a lembrança do mapa com nossa imaginação.

Durante o auge da Geografia Teorético-Quantitativa e, depois, no da Geografia Crítica, os partidários da Geografia Cultural foram bastante marginalizados. Todavia, hoje a corrente cultural é uma das mais influentes, com imensa produção bibliográfica e inúmeros seminários e encontros acadêmicos realizados a todo instante
185

. Como todo

processo de hegemoneização, esse processo pode ser visto com inquietude, pois se trata de um enfoque específico da Geografia e, portanto, poderia relegar importantes maneiras de enfocar o território provindas das outras correntes.

A principal dificuldade atual da Geografia Cultural é pensar sobre sua metodologia de pesquisa. Isso lhe rendeu até algumas críticas, sobre ter se afastado demais do método

selecionar, analisar, classificar, modelar, enfim, de operar sobre as situações geográficas estudando as relações espaciais de maior significância aos nossos propósitos’ (Oliveira, 1972, p.17). Muitas vezes, o indivíduo possui informações melhores de lugares distantes que dos próximos, ou mantém maior contato e intercâmbio. Embora a distância absoluta seja maior, a acessibilidade e a significância de um lugar distante tornam esse lugar mais próximo da vivencia individual. Essas imagens mentais são responsáveis pela tomada de decisões, assim como pela elaboração de numerosos planejamentos.”
185

CHRISTOFOLETTI, 1985 – “Ligado ao problema da representação do espaço relativo encontra-se a analise do comportamento humano perante a dimensão espacial. A maneira pela qual o homem percebe o seu ambiente físico e social é questão básica para o geógrafo contemporâneo. Por esse motivo, a percepção espacial e a geografia do comportamento são setores em pleno pelo desenvolvimento.”

119

científico tradicional. Pois não basta apenas reconhecer a importância da subjetividade e da inter-subjetividade para estudar o espaço; é preciso desenvolver a atividade acadêmica de forma epistemologicamente clara, propiciando o progresso do diálogo científico rumo a trabalhos e teorias cada vez mais consistentes.

14 - A Geografia e a Especialização

Um tema principal que acompanha este último século é o da tensão entre especialização e generalização nos trabalhos geográficos. Essa tensão já se inicia no relacionamento da Geografia com outras ciências, em especial com as que a acompanharam mais de perto ao longo dos tempos, como a Geologia e a História.

Até o início do século passado, a graduação de História e Geografia era a mesma. Hoje, todavia, há geógrafos que não valorizam muito a ligação entre Geografia e História. Isso deve ser visto com cautela, pois o tempo é uma variável muito importante para a Geografia História.
186

, e mesmo a sucessão dos espaços e geografias tem muito valor para a

A Geologia possui muita relação com a Geografia. Em um primeiro momento, é importante para a Geografia Física a teoria da placas tectônicas, desenvolvida pela Geologia Estrutural. Já a Geologia Superficial – também chamada hoje de Geologia Ambiental – torna-se bastante difícil de diferenciar da Geografia Física, pois se trata de uma área de contato entre Geologia e Geografia.

Atualmente, devido à especialização de grupos acadêmicos, a Geografia Física separouse muito da Geografia Humana, e esta tem predominado nas últimas décadas. Mesmo quando se trabalha essas duas geografias de maneira conjunta, tem havido uma tendência de predominar o enfoque na Geografia Humana. Esta “exclusão” levou muitos geógrafos físicos a migrar para outras áreas acadêmicas, como a Geologia e a Agronomia.

186

CHRISTOFOLETTI, 1985

120

Essa crescente especialização dual da Geografia é extremamente preocupante, pois a força da Geografia está justamente em unir o humano ao físico, e o profissional geógrafo revela o sentido de sua profissão exatamente ao esforçar-se para relacionar as duas áreas. Só mais recentemente, com a valorização do movimento ecológico, voltouse a apreciar mais as contribuições da Geografia Física.

A especialização acadêmica na Geografia também se reflete no modo de produção do saber, independentemente de seu enfoque físico ou humano. Há professores acadêmicos, na Geografia, que trabalham mais sobre o aspecto teórico. Outros se debruçam sobre o metodológico. E outros, ainda, dedicam-se mais a trabalhos aplicados. Com esse tipo de especialização, nem sempre é fácil integrar os desenvolvimentos desses três campos, unindo teoria, metodologia técnica e aplicação em estudos de campo.

Enfim, a especialização da Geografia em correntes como Quantitativa, Crítica e Cultural levou certos profissionais a privilegiar certos aspectos tradicionais dos estudos geográficos, relegando outros. Algumas correntes deram pouca atenção ao aspecto morfológico (visível), para se debruçarem mais sobre as estruturas (invisível). Esses geógrafos podem ser inclusive muito bons na epistemologia, quantificação e qualificação, mas chegaram a afirmar que a Geografia não necessitaria mais de mapas. O cerne dessa argumentação também está na valorização do estudo das estruturas, em detrimento das imagens.

A estrutura, sem relegar a importância de sua investigação, possui sua análise bastante incitada por fatores socialmente contextualizados, inclusive ideológicos, sobre os quais suscitam controvérsias entre as várias correntes acadêmicas. Por isso, a maneira de analisar as estruturas altera-se bastante com o decorrer da história da humanidade. Por outro lado, quanto à morfologia, como aparência visível, existe um maior acordo, embora haja as diferenças de análise e classificação de paisagens, com o seu próprio desenvolvimento histórico.

A representação cartográfica sempre acompanhou toda a história da Geografia, desenvolvendo-se junto a ela e mostrando-se sempre como instrumento essencial. Podemos supor até que, caso algum dia não precisássemos mais de mapas, seria porque 121

já teríamos todo o conhecimento do mundo em nossa mente, como um imenso mapa mental. Não obstante, como o mundo está tornando-se cada vez mais dinâmico, e o conhecimento, por sua vez, mais e mais vasto, provavelmente esse dia hipotético nunca irá chegar. Pois cada retrato que é tirado do mundo tem-se tornado, rapidamente, desatualizado e incompleto.

Outros geógrafos argumentam que, com o advento das tecnologias de sensoriamento remoto, o geógrafo moderno não necessita mais realizar trabalhos de campo. Tais afirmações devem ser tomadas com bastante ressalva, visto que a experiência direta da realidade nos apresenta uma visão especial de um cenário, fornecendo informações diferentes e complementares às do sensoriamento remoto. Além de que a prática de campo é fundamental para nos lembrar da complexidade do real, fugindo do perigo de, pelos caminhos da abstração, afastarmo-nos da realidade. Desse modo, o contato direto de campo se apresenta como importantíssimo para checar a veracidade das hipóteses levantadas seja pelo sensoriamento remoto, seja pelo estudo das estruturas sociais.

Figura 68 - Imagem de Sensoriamento Remoto. Fonte: www.dsr.inpe.br, disponível em 2008.

122

15 - Pós-modernidade, Crise Paradigmática e Coexistência “Geografias"

de Muitas

Até poucas décadas atrás, defender idéias contra o paradigma geográfico dominante era um motivo de acirradas querelas. Todavia, na pós-modernidade, há a crise paradigmática que resulta em uma desconstrução da Geografia. Isso se calca no contexto histórico dos últimos 3 séculos, que tem se tornado cada vez mais complexo e dinâmico. Ao longo da história da evolução do pensamento geográfico, os paradigmas vão durando cada vez menos tempo, até chegar à época atual, na qual podemos falar de coexistência ou pluralidade de paradigmas 187.

A partir da segunda guerra mundial, porém principalmente após a década de 60 do século XX, se torna cada vez mais difícil definir um rumo de pesquisa ou orientação paradigmática duradoura, estável e dominante
188

. Em virtude disso, hoje não é fácil

utilizar o termo “ruptura epistemológica” a cada vez que aparece uma nova corrente de pensamento, tal como usamos para nos referirmos às quebras paradigmáticas dos gregos antigos, de Varenius e das escolas alemã e francesa. Afinal, atualmente seriam tantas “rupturas” ocorrendo a todo o tempo, que perderiam com isso o seu caráter emblemático. Mesmo com alguns autores utilizando termos como “Revolução Quantitativa”, “Revolução Radical” e até “Revolução Fenomenológica”, pode-se questionar se não se trata mais de um discurso enfático do que de uma constatação fundamentada. Por isso, ao invés de se referir a esse período como multiparadigmático, alguns autores chegam até a utilizar a expressão “a-paradigmático”.

Muitos pesquisadores, após um momento inicial de perplexidade, partem do ponto de vista de que não vale mais a pena procurar um único paradigma para a Geografia atual, e passam a valorizar a pluralidade de abordagens geográficas. Outrossim, cada abordagem geográfica existente no meio acadêmico contemporâneo se justifica segunda

187

AMORIM FILHO, 1999 – “Assim, durante a década de setenta, como resultado dos embates doutrinários provocados pelas críticas já referidas, pelo menos quatro orientações epistemológicas coexistem, entre si e com outras tradições mais antigas ou menos conhecidas, no amplo leque formado pela comunidade internacional dos geógrafos.”
188

MORAES, 1980

123

certos argumentos e razões, os quais são o motivo de sua permanência e continuidade
189

.

Com efeito, quanto mais plural for a Geografia, maior o diálogo e o desenvolvimento científico. Afinal, cada abordagem geográfica traz suas críticas em relação às demais, contribuindo para uma reflexão sobre as deficiências e potencialidades ainda não exploradas.

A Geografia nunca deveria deixar de ser múltipla, pois quanto maior a pluralidade, mais amplos serão os frutos de suas análises. Tal posição, que defende a coexistência de paradigmas, distancia-se da teoria proposta por Thomas Kuhn, de que a história da ciência se constituiria como uma indefinida sucessão paradigmática. O mesmo autor, no final de sua vida, reconhece que a teoria de sucessão paradigmática não poderia ser considerada de maneira tão maniqueísta.

Pelo contrário, nos círculos acadêmicos, a hegemoneização completa costuma ser um prenúncio da morte de uma área de conhecimento. Desse ponto de vista, a pluralidade por que passa o ambiente acadêmico da Geografia é fato extremamente positivo, pois traz uma dinamicidade constante, com possibilidades de diálogo e conseqüente desenvolvimento científico 190.

Os trabalhos geográficos que conjugam abordagens diferentes têm se mostrado possíveis, visto que há vários princípios e metodologias comuns ou complementares entre as diversas escolas. Por exemplo, um trabalho de Geografia Crítica torna-se bastante atraente quando incorpora também aspectos de cartografia e quantificação.

Hoje é valorizado o profissional de Geografia que possua certa flexibilidade teórica e metodológica. Um trabalho acadêmico cujo autor tem domínio da história do pensamento geográfico, dialogando entre diversos paradigmas, possui um potencial de desenvolvimento muito maior do que aquele que está imerso em um único paradigma. O importante, que dará unidade ao trabalho, é a expressão do “espírito geográfico”, qualquer que seja o paradigma referencial, e seja na pesquisa ou no ensino.
189 190

CLAVAL, 2002 MORAES, 1980

124

Se no campo acadêmico, onde os assuntos, pesquisas e comunidades de pesquisadores são relativamente bem delimitados, mesmo assim podemos falar de coexistência de paradigmas, imaginemos então no contexto da vida cotidiana! A cada década ou ano que passa, aumenta a instabilidade de teorias, sistemas, valores e visões de mundo, e o conhecimento se torna cada vez menos dogmático
191

. Esse contexto leva pensadores

como Edgar Morin a propor o que se chama de Teoria da Complexidade, para explicar o momento pelo qual estamos passando.

A aplicação da Teoria da Complexidade à Geografia é hodiernamente um tema de fronteira, o qual ainda não rendeu plenamente seus frutos nas correntes hegemônicas presentes. Em verdade, não há nem uma teoria propriamente dita da complexidade, de acordo com a concepção tradicional de teoria, mas sim uma certa idéia originada a partir do momento em que se constata a dissolução de paradigmas pela qual passa nossa sociedade.

Figura 69 - Edgar Morin, Fonte: luradoslivros.wordpress.com, 2007

A cada dia que passa, ganhamos em extensão na nossa capacidade de enxergar, pensar e agir no mundo. Há uma ampliação em nossa escala de ação sobre o espaço. Referindose a esse fenômeno, utilizam-se termos como “Ampliação do Horizonte Geográfico”, ou

191

CLAVAL, 2002

125

“Ampliação do Ecúmeno” (para os gregos, o termo “Ecúmeno” refere-se ao mundo habitado e conhecido pelo homem).
192

Algo que ilustra bem essa ampliação é a expansão das redes urbanas

. Até pouco

tempo atrás, as “megalópoles” eram a maior escala de análise urbana. Todavia, hoje já se pode até falar de uma “ecumenópole”, seria a rede de relações entre todas as cidades do mundo, interconectadas, com se formasse uma única e gigantesca aldeia global 193.

O mundo e suas paisagens modificam-se com o tempo, e por isso a Geografia deve ser sempre renovada. Se fossemos oniscientes espacialmente, não precisaríamos estudar Geografia. As alterações do pensamento geográfico deram-se, e continuarão se dando, muito em função das alterações na dinâmica da superfície terrestre, envolvendo o modo do homem relacionar-se com o espaço, estudando-o e transformando-o. Com a transformação acelerada corrente na cultura humana e em sua conseqüente modificação do espaço
194

, pode-se vislumbrar a tendência de a Geografia, concomitantemente,

tornar-se mais e mais complexa 195.

Conforme o mundo se modifica, teorias e conceitos de geógrafos anteriores demandam ser repensados e reinterpretados. Um exemplo seria o recorrente questionamento se os conceitos de gênero de vida e pays, cunhados pela geografia regional lablacheana, seriam eficientes para um mundo contemporâneo globalizado, em rápido

desenvolvimento tecnológico e marcado por desigualdades sociais derivadas de relações de trabalho e capital mundiais (SEABRA, 1984, p. 14). Para tentar lidar melhor com essa realidade moderna, geógrafos como Milton Santos e Dorren Maysen esforçaram-se para desenvolver teorias geográficas que incorporem essas novas relações entre a sociedade e o espaço.

A valorização da pluralidade na Geografia fez com que muitos voltassem a se espelhar nos fundadores das Escolas Alemã e Francesa, pois teriam sido suas as últimas correntes a procurar reunir, de forma sistemática e coerente, a abordagem sobre a relação entre o homem e o ambiente. Depois delas, as correntes quantitativa, crítica e

192 193

DIAS, 1995 DOXIADIS, 1968 194 HAESBAERT, 2000; CLAVAL, 2002

126

cultural enfocaram, cada uma, aspectos específicos e parciais do objeto de estudo da Geografia. Isso não significa que não houve avanços importantes, mas essas subdivisões infelizmente acarretaram visões restritivas e pouco abrangentes do fazer geográfico. A especialização crescente dos ramos da Geografia faz aparecerem questionamentos sobre se determinados trabalhos, de tão específicos, poderiam ser classificados como trabalhos geográficos, por terem-se afastado demais da essência dessa disciplina 196.

De certa maneira, pode-se defender a tese de que a Geografia sempre foi plural em sua essência, mas que os estudos históricos, por facilidades de explicação, acabaram por privilegiar esse enfoque de descrever a história da evolução do pensamento geográfico através de sucessões de paradigmas dominantes. Outrossim, a pluralidade da Geografia também é um dos motivos do prazer atuar como geógrafo.

Por fim, diante da perplexidade oriunda da percepção da pluralidade e dissolução de paradigmas na Geografia, observam-se várias reações por parte dos pesquisadores mais antigos. Alguns desistem da Geografia, sob a justificativa de que ela não consegue mais fornecer uma visão coerente da realidade. Outros se apegam “religiosamente” a um paradigma, no qual se sentem mais seguros, fechando-se para outras idéias e até lutando com fervor para que outras correntes de pensamento não sejam estimuladas.

Uma terceira maneira de conseguir lidar com a pluralidade de paradigmas, bem como com a perplexidade que ela causa inicialmente, é voltar aos princípios de nossa área de conhecimento. Seguindo a evolução de suas idéias e observando a ligação entre as diferentes correntes atuais e o que existe de unidade e de duradouro ao longo da história, pode-se perceber como a pluralidade, mais que um conjunto de correntes separadas, pode ser encarada como um processo de diálogo e de desenvolvimento. Assim, procura-

195 196

GOMES, 1995 ANDRADE, 1992 – “Essa desintegração também contribuiu para que houvesse uma especialização maior entre os geógrafos, estabelecendo áreas de investigação separadas entre a Geografia Física e Biológica de um lado e a Geografia Humana do outro. Linhas de separação que se adensaram cada vez mais, fazendo com que desenvolvessem como verdadeiros campos autônomos do conhecimento científico tanto capítulos da Geografia Física – Geomorfologia, Climatologia, Hidrografia, Fitogeografia, Zoogeografia – como da Geografia Humana – Geografia da População Agrária, da Indústria, da Circulação e transportes, Econômica, Política, Social etc. Estas subdivisões puseram em risco a própria existência da Geografia, como ciências, levantando dúvidas até em geógrafos famosos como Camille Valloux e Henry Baulig. Esta geografia dividida, compartimentada tanto na direção horizontal como na vertical, veio empobrecer epistemológica e metodologicamente a Ciência Geográfica.”

127

se absorver o que há de profícuo em cada corrente da história do pensamento geográfico, criando uma base forte com o essencial e, também, com o que é útil em cada expressão do espírito geográfico.

Fecha-se, pois, o círculo argumentativo traçado por este trabalho. Enfim, podemos retornar ao que afirmamos nos primeiros tópicos, sobre a necessidade de se debruçar sobre a disciplina de Evolução do Pensamento Geográfico, retornando às origens e aos meandros da história dessa disciplina. Dessa forma, estaremos mais aptos a adquirir a profundidade e a consistência necessárias a um desenvolvimento acadêmico epistemologicamente valoroso.

128

BIBLIOGRAFIA: ALMEIDA, Aires de – Filosofia e Ciências da Natureza: alguns elementos históricos – Universidade Federal de Santa Catarina, Centro de Filosofia e Ciências Humanas, disponível em http://www.cfh.ufsc.br/~wfil/aires.htm, 24/06/2006.

ANDRADE, Manuel Correia de. A Geografia Clássica. In: Geografia Ciência da Sociedade. São Paulo: Atlas, 1992.

AMORIM FILHO, O. B.: A Evolução do Pensamento Geográfico. In: Revista Geografia e Ensino. Ano I, N º 1, março de 1982. Belo Horizonte, IGC/UFMG.

AMORIM FILHO, Oswaldo Bueno - A Evolução do Pensamento Geográfico e a Fenomenologia . Publicado in Sociedade & Natureza. Uberlândia 11 (21 e 22) 67-87, jan./dez. 1999

BARRACLOUGH, G. & PARKER, G (Editores). Atlas da história do Mundo. São Paulo: Folha de São Paulo/Times Books, 1995.

BAILLY, A.; BEGUIN, H.: Introduction à la géographie humaine. Paris: Masson, 1982, 181 p. BONNARD, A. – A Civilização Grega. Lisboa, Edições 70, 1987

BROEK, J.O.M. Iniciação ao estudo da Geografia.Trad.:Waltersir Dutra.Zahar Editores, 1967. BROOK, Andrew - Kant’s View of the Mind and Consciousness of Self - Standford University, 2004. BUNGE, M. Treatise on Basic philosophy – Vol. 5: Epistemology & Methodology, Dordrecht, D. Reidel Publishing Company, 1983

129

CASTRO, I. E. “O problema da escala”. In: Castro, I. E. et al. (Orgs.) Geografia. conceitos e temas . Rio de Janeiro, Bertrand, 1995.

CLAVAL, Paul - Aprofundamento, Crise e Renovação. . In Geografia Cultural. Florianópolis, Editora da UFSC, 2002. 2ª ed. Cap. 2 p. 41-62

CLAVAL, P.: Histoire de la Géographie. Paris, PUF, 1995, 127 p. - Traduzido pelo Prof. Oswaldo Bueno Amorim Filho

CLAVAL, P. A revolução pós-funcionalista e as concepções atuais da geografia. In: MENDONÇA, F.; KOZEL, S. (Org.) Elementos de epistemologia da geografia contemporânea. Curitiba: Editora da Universidade Federal do Paraná, 2002. p.11-43.

CLOZIER, René: Histoire de la Géographie. Paris, P. U. F., 1972 (Première Édition: 1942). Trad. de Oswaldo Bueno Amorim Filho. COOPER, David E. As Filosofias do Mundo – Uma introdução histórica – Edições Loyola, 1996.

CORRÊA, A. L. Espaço, um conceito chave da Geografia. São Paulo: Ática, 1995.

CORRÊA, R.L. Região e Organização Espacial. São Paulo: Ática, 1990

CLOZIER, René. Histoire de la Géographie. Paris. P.U.F. 1972, 128 p. Traduzido e adaptado por Oswaldo Bueno Amorim Filho.

CHRISTOFOLETTI,

Antonio.

As

características

da

Nova

Geografia.

In:

CHRISTOFOLETTI, A. (org) Perspectivas da Geografia. São Paulo: DIFEL, 1985, 2 cd.

CHRISTALLER, Walter (1933): Die zentralen Orte in Süddeutschland : eine ökonomisch-geographische Untersuchung über die Gesetzmäßigkeit der Verbreitung und Entwicklung der Siedlungen mit städtischen Funktionen. - Jena : Fischer, 1933. 331 S. 130

DE MARTONEE, Emmanuel: Panorama da Geografia. Vol. 1. Lisboa, Edições Cosmos, 1953, 979 p. – Original em francês, 1948.

DIAS, L. C. Redes: emergência e organização. In: CASTRO, I. E. de et all.(Orgs). Geografia: Conceitos e temas. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, RJ. 1995.

DICIONÁRIO DE FILOSOFIA. Rio de Janeiro, Editora Larousse do Brasil, 1964, 344 p.

DICIONÁRIO DE FILOSOFIA LAROUSSE. Rio de Janeiro, Editora Larousse do Brasil, 1969

DICKINSON, R. E. The Makers of Modern Geography. London, Routledge and Kegan Paul, 1978. DOLFFUS, Olivier. L’Espace Géographique. Paris, P.U.F. 1970, 126 p. Condensado, adaptado e traduzido por Oswaldo Bueno Amorim Filho. DOXIADIS, C. A. – Ecumenopolis: Tomorrow’s City - From Britannica Book of the year 1968, Encyclopaedia Britannica, Inc., 1968

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Roi de Janeiro, Nova Fronteira, 1987

GEORGE, Wilma: As idéias de Darwin, São Paulo, Cultrix/Edusp, 1985, 172 pp. p. 10 a 19. Adaptado por Oswaldo Bueno Amorim Filho.

GOULD, P and WHITE, R. 1974: Mental maps. Harmondsworth: Penguin Books. John R. Gold. Oxford Brookes University University of Arizona.

GOMES, Paulo Cesar da Costa - Geografia e modernidade. Rio de Janeiro: Ed. Bertrand Brasil, 1996.

131

GOMES, Paulo C. da C. O conceito de região e sua discussão. In: CASTRO, Iná E.; GOMES, Paulo C.; CORRÊA, Roberto L. Geografia: conceitos e temas. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 1995, p. 49-76. GLACKEN, Clarence J. Histoire de la pensée géographique. Vol. 1, L’Antiquité. Paris, CTHS, 2000. Traduzido e adaptado por Oswaldo Bueno Amorim Filho. GLOBAL MAPPING INTERNATIONAL - Visão mundial – 1995. Versão em Português: SEPAL Brasil HAESBAERT, R. “Desterritorialização: entre as redes e os aglomerados de exclusão.” Geografia: conceitos e temas, In: CASTRO, I. E., GOMES, P.C.C., CORRÊA, R.L. (org.) pp.165-205. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000. HETTNER A. – Die Methode und das System der Geograpie (originalmente publicado em 1895) in Probleme der Allgemeinen Geographie – herausgegeben von Ernst Winkler, Wissenschaftliche Buchgesellschaft, Darmstadt, 1975. Traduzido por Oswaldo Bueno Amorim Filho. JAEGER, Werner – Paidéia: a formação do homem grego – Trad. de Artur M. Pereira – 4ª edição – São Paulo: Martins Fontes, 2001. JAMES P. E. & MARTIN G. J. All Possible Worlds – A History of Geografical Ideas. New York, John Wiley & Sons, 1981, 508 p. Traduzido e adaptado por Oswaldo Bueno Amorim Filho. KANT Emmanuel – Géographie – Traduction de Michèle Cohen-Halimi, Max Marcuzzi et Valérie Seroussi – Ed. Aubier, Paris, 1999

KANT, Immanuel. Crítica da Razão Pura. Trad. de J. Rodrigues de Merege. Rio de Janeiro, Ediouro, s/d.

KANT, Immanuel., Crítica da Faculdade do Juízo, trad. Marques, A./ Rohden, V., Lisboa, Imprensa Nacional, 1998 132

LACEY, A.R. A Dictionary of Philosophy. London, Routledge & Kegan Paul, 1976. LAO TSÉ. Tao Te King –– Editora Estampa, 1977, Lisboa.

LENCIONI, Sandra - Região e Geografia. São Paulo - 2003 -Edusp.

LOSEE, J. Introdução Histórica à Filosofia da Ciência. MICRO ROBERT – Dictionaire du Français Primordial. Paris, Le Robert, 1971, 1209 p. MILLER, H. J. – Tobler’s First Law and Spatial Analysis – Annals of the Association of American Geographers, 94 (2), 2004, pp. 284-289.

MORA, J. F. Diccionario de Filosofia. Buenos Aires, Editorial Sudamericana, 1964 (Tomo I) e 1966 (Tomo II).

NARDY, A. J. F & AMORIM FILHO, O. B. O papel da polêmica Geografia Regional versus Nova Geografia na explicitação da discussão epistemológica em Geografia – Em: Cidade, Epistemologia e Meio Ambiente – Ed. PUC-Minas, Belo Horizonte, 2003, p. 19-54. NASCIMENTO JUNIOR, Antônio Fernandes – Fragmentos da Presença do Pensamento Dialético na História da Construção das Ciências da Natureza – Revista Ciência & Educação, v. 6, n. 2, p. 119-139, 2000. NICOLET, Claude. L’Inventaire du Monde – Géographie et Politique aux origines de l’Empire Romain. Paris, Hachette, 1988. 343 p.

NICOLET. Claude. Space, Geography, Politics in the Early Roman Empire. Michigan: The University of Michigan Press, 1991.

133

NOUGIER,

Louis-René:

Géographie

Préhistorique.

In:

JOURNAX,

A.;

DEFFONTAINES, P. et DELAMARRE, M. J. B. (directeurs). Géographie Génerale – Encyclopédie de la Plêiade. Paris; Gallimard, 1966, 1883 pag. (891/916) – Trad. de Oswaldo Bueno Amorim Filho. PASCAL, Blaise – Pensamentos – 1670 – em: Os Pensadores, volume XVI, editora Abril Cultural. Trad. Sérgio Milliet. São Paulo, 1973.

PASCAL, Georges - O Pensamento de Kant - trad. Raimundo Vier - Petrópolis, Editora Vozes, 2001.

PÉDECH, Paul: La geographie des Grecs. Paris. PUF. 1976, 202p. Traduzido pelo Oswaldo Bueno Amorim Filho

PEET, Richard. Perspectivas da geografia. São Paulo, DIFEL, 1982, p. 225 - 254. Antonio Christofoletti (org) Tradução de Nedio Piram e Antonio Christofoletti

PERELMAN, C., O império retórico, Porto: Edições ASA, 1993 PLATÃO. Protágoras. (427-347 a.c.) - Trad. de Mario Ferreira dos Santos. São Paulo: Matese, 1965.

PLATÃO. República. (427-347 a.c.) - Trad. de Enrico Corvisieri. São Paulo: Nova Cultural, 2000. REBOLLO, Regina Andrés. O legado hipocrático e sua fortuna no período grecoromano: de Cós a Galeno. In: Scientia Studia. São Paulo: USP, v. 4, n. 1, 2006.

RODRIGUES, Joelza Ester. História em Documento. São Paulo: FTD, 2001, vol. 2.

SAARINEN, T.. "The Eurocentric Nature of Mental Maps of the World." Research in Geographic Education 1:2, 1999

134

SANGUIN, André Louis – Redescobrir o Pensamento Geográfico de Kant – Traduzido e Adaptado por Oswaldo Bueno Amorim Filho – Annales de Géographie, nº 576, pages 134-151. Paris, Armand Colin, 1994

SANTOS, Milton - A Geografia Quantitativa. In Por uma Geografia Nova: da crítica da geografia a uma geografia crítica. São Paulo: Edusp. 2002 (coleção Milton Santos; 2).

SEABRA, Manoel F. G. Geografia(s)? Revista Orientação. USP, Instituto de Geografia. Nº 5, p. 9 a 17. São Paulo, Outubro, 1984.

SOJA, Edward. A pós-modernização da geografia marxista. ln: Geografias PósModernas: a reafirmação do espaço na teoria social crítica. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1993. P. 82—96

THOUAR, Denis (1965) - Kant - trad. Tessa Moura Lacerda - São Paulo: Estação Liberdade, 2004.

VIEITES, Renato Guedes e FREITAS, Inês Aguiar de. Pavlovski e Sorre: duas importantes contribuições à Geografia Médica. In: Ateliê Geográfico – Revista Eletrônica. Goiânia: UFG-IESA, Dezembro de 2007, v. 1, n. 2. VIRIEUX-REYMOND, A. Introduction à l’Epistemologie. Paris, P.U.F.,1972.

WRIGLEY, E.A. (1965) Changes in the philosophy of geography. In R.J. Chorley and P. Haggett (eds) Frontiers in Geographical Teaching (rev. edn). London: Methuen. YAMASHITA, Michael. Zheng He – Los 7 viajes épicos alrededor del mundo de mayor explorador chino (1405-1433) -– Ed. Blume, China, 2007

135

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful