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ELE ENTOS DE

E istemo ogia
a eogr fia
CONTEMPORÂ EA
e ci çã o revisada

FRANCISCO MENDONÇA
SALETE KOZEL

4(//4,,m-
A publicação Elementos de
epistemologia da geografia
contemporânea reúne trabalhos
de pesquisadores brasileiros e
estrangeiros sobre as concepções
atuais da geografia.
Acha-se dividida em três tópicos
que englobam as discussões
relativas à geografia crítica,
geografia ambiental e geografia
cultural, na perspectiva do
processo de evolução dessas
correntes. Os renomados autores,
representantes de diversas e, por
vezes, conflitantes correntes de
pensamento, propõem questões
cruciais a respeito das tendências
contemporâneas do pensamento
geográfico face ao processo de
globalização, propiciando um
aprofundamento do debate
acerca da epistemologia da
geografia no âmbito da formação
de pós-graduação no Brasil.
ELEMENTOS DE

Epistemologia
da Geo rafia
CONTEMPORÂNEA
1 , edição revisada
2---.~-
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IJFPR

Reitor
Zaki Akel Sobrinho

Vice-Reitor
Rogério Andrade Mulinari

Pró-Reitora de Extensão e Cultura


Deise Cristina de Lima Picanço

Diretor da Editora UFPR


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Nadtake Fukushima
Sergio Luiz Meister Berleze
Sergio Said Staut Junior
ELEMENTOS DE

Epistemo ogia
da Geogr fia
CONTEMPORÂ EA
1. edição revisada

OR GAN dADO RES


FRANCISCO MEDONÇA
SALETE KOZEL

M1
410fr
UFPR
sejam, a geografia crítica, a geografia ambiental e a geografia cultural.
O evento buscou atingir três objetivos principais:
- Delinear e debater as tendências contemporâneas do pensa-
mento geográfico face ao processo de globalização.
Evidenciar e discutir características de três importantes cor-
rentes do pensamento geográfico contemporâneo no Brasil (crítica,
ambiental e percepção/cultural) na perspectiva do seu processo de evo-
lução.
Propiciar o aprofundamento do debate acerca da
epistemologia da geografia ao nível da formação de pós-graduação
no Brasil.
O curso de Mestrado em Geografia da Universidade Federal
do Paraná — UFPR, associado ao departamento de Geografia e ao
curso de Especialização em Análise Ambiental do mesmo departamento,
foram os promotores do Colóquio, que contou com o apoio da Asso-
ciação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Geografia — Anpege,
da Associação dos Geógrafos Brasileiros — AGB, da Coordenação de
Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior — Capes e do Conselho
Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico — CNPq.
O evento foi organizado especialmente para a pós-gradua-
ção, pois seu intento principal foi o de propiciar uma discussão
aprofundada das temáticas escolhidas, compatível com esse nível. Este
objetivo foi plenamente atingido, o que pode ser comprovado tanto
nos textos enviados pelos convidados quanto no depoimento dos se-
tenta participantes provenientes de vinte e uma instituições de ensino
superior e de dezesseis dos cerca de vinte e dois programas de pós-
graduação em geografia no Brasil em funcionamento.
Esta obra apresenta a mesma estrutura do evento, ou seja,
um texto introdutório e três sessões relativas aos subtemas das mesas-
redondas. Os textos que a compõe foram enviados pelos conferencis-
tas, palestrantes, debatedores e coordenadores das mesas-redondas, e
dessa maneira acham-se aqui organizados. Uma primeira versão dos
textos foi distribuída aos participantes durante o Colóquio. Os auto-
res tiveram cerca de quarenta dias após o término do evento para
promover a inserção de eventuais alterações e complementações. So-
mente três dos dezesseis convidados não enviaram seus textos.
Numa avaliação geral, pode-se dizer que importantíssimos
avanços foram alcançados com os debates promovidos pelo Colóquio,
sobretudo o delineamento de desafios e possibilidades futuras do de-
senvolvimento do conhecimento geográfico face às intensas transfor-
mações que a sociedade e a natureza estão submetidas neste processo
de globalização. A seriedade com que os convidados e participantes se
dedicaram às atividades do evento é que garantiram seu sucesso. A
todos que nele se envolveram, nossos mais sinceros agradecimentos. A
geografia brasileira muito se beneficiará com os resultados dessas dis-
cussões, boa parte materializada na presente obra.
Com a presente publicação, o teor dos debates realizados no
I Colóquio torna-se acessível a um público bem maior e poderá, assim,
render uma maior contribuição ao avanço da epistemologia da geo-
grafia contemporânea, para a qual oferece importantes elementos.
Decorre daí o título desta obra — Elementos de epistemologia da geo-
grafia contemporânea.
A realização deste I Colóquio reunindo diversas, diferentes, e
não raro conflitantes correntes do pensamento geográfico contempo-
râneo, foi, sem dúvida, uma cara mas necessária ousadia. Parecia pre-
mente oportunizar tal debate que, mesmo identificado como funda-
mental e já galgando alguns passos nas tradicionais instituições às
quais se vincula a geografia no Brasil, não atingia a franqueza e o
aprofundamento como o observado durante os debates ocorridos em
Curitiba. Para nós, constitui-se motivo de grande honra tê-lo promo-
vido, mesmo cientes de ser este um dos principais objetivos da forma-
ção ao nível de pós-graduação de qualquer ramo da ciência. Estamos
certos de que a realização de um II Colóquio desta natureza — já anun-
ciado para ser organizado pelo curso de Mestrado da Universidade
Federal do Rio Grande do Norte — dará continuidade ao pertinente e
interessante debate relativo à evolução do conhecimento geográfico,
como esse que tivemos a felicidade de vivenciar.

Curitiba, janeiro de 2002.

Francisco Mendonça
Coordenador do curso de Mestrado em Geografia — UFPR
Coordenador do curso de Especialização em Análise Ambiental — UFPR
3 PERCEPÇÃO, REPRESENTAÇÃO E RELIGIÃO
NO GEOGRÁFICO

Ainda sobre percepção, cognição e


representação em geografia / 189
Livia de Oliveira
Uma proposição temática / 197
Zeny Rosendahl
As representações no geográfico / 215
Salete Kozel
Imagem, representação e geopolítica / 233
Oswaldo Bueno Amorim Filho
João Francisco de Abreu
Por uma geografia do sagrado / 253
Sylvio Fausto Gil Filho

OS AUTORES / 267
A REVOLUÇÃO PÓS-FUNCIONALISTA
E AS CONCEPÇÕES ATUAIS DA GEOGRAFIA

Paul Claval
(Tradução: Nathalie Dessartre-Mendonça)

Gostaríamos aqui de defender o seguinte ponto de vista: duas


grandes concepções da geografia foram imaginadas entre o final do
século XVIII e os anos 70. A primeira insistia nas relações entre natu-
reza e sociedade. A segunda se preocupava com o papel do espaço no
funcionamento dos grupos humanos. Elas diferiam em muitos pon-
tos, porém baseavam-se em um pressuposto comum: o da existência
de realidades globais, fossem elas a natureza, a sociedade ou socieda-
des. As suas ambições consistiam em desenvolver propostas aceitáveis
nestas escalas e em participar, desta maneira, dos conhecimentos úteis
aos homens.
Os resultados que essas duas concepções obtiveram foram
consideráveis. Ninguém os nega. Não se trata de questioná-los: a geo-
grafia deve prosseguir beneficiando-se daquilo que os enfoques natu-
ralista e funcionalista lhe proporcionaram. O que se critica hoje são os
procedimentos utilizados para adquirir esses conhecimentos: os pres-
supostos nos quais se baseavam estão sendo contestados por um mo-
vimento de desconstrução das bases tradicionais da ciência, em geral,
e das ciências humanas, em particular. Para uma minoria, a revolução
epistemológica pós-funcionalista vem acompanhada de um ceticismo
generalizado: rejeita-se a ideia de que o conhecimento desinteressado
e a ciência sejam possíveis. Tendia-se, então, a ver nas disciplinas que
tratavam do mundo social, e que tinham se desenvolvido desde o
final do século XVIII, somente discursos cujo objetivo era estabelecer
o predomínio dos adultos ocidentais brancos e de sexo masculino so-
bre as mulheres, as crianças e as minorias étnicas dos seus próprios
países e no resto do mundo. A moda das epistemologias pós-

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Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

colonialistas foi tanta que ela conhecerá com certeza um refluxo rápi-
do.
Uma orientação mais moderada também é explorada. Ela
leva em consideração as críticas formuladas a respeito dos grandes
relatos, das metanarrações, que os geógrafos de cunho naturalista ou
funcionalista propunham Uma concepção mais modesta da ciência
se impõe: não se tem mais certeza de que as "rupturas epistemológicas"
que garantiam o estatuto dos conhecimentos de ontem tenham real-
mente dado à luz a modos de pensar e a práticas narrativas distintas
daquelas que sempre atuaram nas sociedades humanas. Os geógrafos
que pensam em reconstruir a geografia devem continuar tendo em
mente que o que estão fazendo não difere muito das geografias
vernaculares praticadas pelos povos sem escrita, dos relatos, das
recensões e dos guias produzidos pelas civilizações históricas.
Para acompanhar o movimento contemporâneo da reflexão
epistemológica, é bom mostrar como surgiu, relembrar as concepções
que critica, e ressaltar a sua lógica.

As concepções naturalistas da geografia

A superfície da Terra como objeto de estudo

A geografia tal qual a conhecemos nasceu de uma crise que


transforma, na segunda metade do século XVIII, o que era a discipli-
na desde o final da Antiguidade: Eratóstenes e sobretudo Ptolomeu
tinham-lhe atribuído como objetivo determinar as coordenadas dos
lugares na superfície da Terra e elaborar representações cartográficas.
Havia também uma preocupação descritiva, como o mostra a obra de
Estrabão, mas essa nunca tinha se tornado predominante. A partir do
século XVI, os Estados ocidentais, cientes do que podiam ganhar com
um melhor conhecimento da Terra, das rotas marítimas e das grandes
possibilidades que viriam com as trocas, contribuíram com a aventura

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Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

cartográfica. Infelizmente, esta era precária por causa da impossibili-


dade, na época, de medir as longitudes. O trabalho dos geógrafos
associava então levantamentos astronômicos para estabelecer as lati-
tudes com pesquisas em arquivos para avaliar as distâncias geográfi-
cas e as longitudes a partir de uma leitura crítica dos documentos de
viagem.
Nos meados do século XVIII, os avanços dos procedimentos
de determinação astronômica das longitudes e a invenção do cronô-
metro marítimo questionam essa primeira profissionalização da geo-
grafia (GODLEWSKA, 1999). A formação dos geógrafos não precisa
mais conciliar os conhecimentos cosmográficos com o trabalho em
biblioteca. O levantamento dos mapas torna-se assunto de engenhei-
ros. Os geógrafos perdem a metade da sua área tradicional. Devem
reciclar-se. Muitos tiram proveito de suas competências eruditas para
lançarem-se na reconstituição das geografias do passado. A corrente
mais dinâmica opta por outra orientação: dedica-se à descrição do
mundo de acordo com a perspectiva das ciências naturais. Alexandre
de Humboldt é um bom exemplo dessa reorientação.
Os geógrafos não se preocupam com o espaço, no sentido
geométrico da palavra. A partir de então deixam este campo para os
engenheiros cartógrafos e para os engenheiros geógrafos. Eles se inte-
ressam pela natureza e pela diversidade da superfície terrestre. A sua
ciência se dedica à descrição da face da Terra, ou seja, da superfície de
contato entre a litosfera, a hidrosfera e a atmosfera, assim como o
mostra Suess (1908-1918). A orientação se faz em direção à análise
das paisagens, porém mais percebidas na sua verticalidade, de balões
ou aviões, do que na perspectiva rasante ou oblíqua do viajante.
Na época, os geógrafos não se preocupam muito com refle-
xão epistemológica, conformam-se com a mentalidade compartilha-
da pelos especialistas em ciências físicas ou naturais.

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Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

A inserção das sociedades na natureza

Os geógrafos, é claro, não são indiferentes à presença dos


grupos humanos, nem às transformações que estes impuseram às paisa-
gens. A pergunta dos pesquisadores a este respeito é simples: a nature-
za preexistia aos grupos humanos, estes estão inseridos em um meio;
como fazer para extrair do meio ambiente no qual se estabeleceram,
os produtos destinados a assegurar a sua subsistência e a permitir,
geração após geração, a reprodução dos seus membros? O enfoque é
global, pois leva em consideração o conjunto dos meios constituintes
da natureza, por um lado, e da sociedade, por outro.
Os meios utilizados pelos homens com o fim de conseguirem
inserir-se na natureza são variados: alguns se limitam a colher uma
parte da produção da flora e da fauna naturais dos espaços onde es-
tão instalados; o tipo de vida que levam é baseado na colheita, na
caça e na pesca. Outros substituem às pirâmides ecológicas naturais as
associações mais produtivas do ponto de vista humano: inventam a
criação e a agricultura.
A geografia humana enfoca em primeiro lugar e fundamen-
talmente a análise das relações que se estabelecem entre os grupos hu-
manos e os ecossistemas dos espaços onde vivem. Vários procedimen-
tos contribuem para isso. Todos dedicam amplo espaço à descrição
dos tipos de vida e às dimensões técnicas da relação com a natureza.
Os homens se deslocam, realizam trocas, vendem o que pro-
duzem em excesso para adquirir o que não podem colher no próprio
espaço. As relações entre o homem e a natureza não são somente lo-
cais: às vezes, os sustentos ecológicos dos quais depende a vida dos
grupos ficam distantes. É a outro capítulo da geografia humana que
cabe este estudo: a análise de situação ou de posição, que, de Ritter a
Vidal de la Blache, constitui a contribuição mais original da discipli-
na (CLAVAL, 2001).

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Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

A diferenciação regional da Terra

A ação humana transforma a superfície da Terra. As combi-


nações de aspectos naturais e de artefatos que vão surgindo, muitas
vezes são notavelmente estáveis: os geógrafos traçam a gênese das pai-
sagens agrárias; descrevem as estruturas regionais que se instalam. Trata-
se de regiões geográficas quando as atividades humanas se inscrevem
nos quadros desenhados pelas regiões naturais, as regiões agrícolas,
industriais, turísticas, históricas ou, caso contrário, de regiões polari-
zadas.
A diferenciação regional da Terra aparece, de certa maneira,
como um produto da evolução: resulta da ação conjugada das forças
naturais e da ação humana.
Todos estamos conscientes da contribuição insubstituível desta
parte da disciplina e do seu conteúdo bastante moderno, pelo espaço
que dedica à relação com a natureza e anuncia as reflexões ecológicas
contemporâneas. Lamentamos, entretanto, o fato de que as descri-
ções e as interpretações que ela propõe não deem um papel mais ativo
aos homens, às suas opções, aos seus sonhos e às suas aspirações.
Tal geografia convinha mais aos espaços ainda profunda-
mente rurais do final do século XIX do que ao mundo já extrema-
mente urbanizado e industrializado do meio do século XX. As contin-
gências ambientais locais, que desempenhavam uma função tão im-
portante na perspectiva naturalista, desfazem-se então devido ao pro-
gresso dos transportes e à nova possibilidade de implantarem-se em
qualquer lugar fontes concentradas de energia.
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

As concepções funcionalistas da geografia

Uma mudança de enfoque

A pergunta fundamental a qual os geógrafos procuram res-


ponder agora é outra. Parece totalmente natural aos naturalistas
enfocar o estudo da distribuição dos homens, de suas atividades e de
suas obras na ótica da inserção dos grupos no meio ambiente: os
ecossistemas naturais haviam se instalado há mais de cem milhões de
anos; os grupos humanos, posteriores a eles, tiveram que aprender a
dominá-los para se desenvolverem.
Para quem não é naturalista no fundo da alma, esta aborda-
gem do estudo dos homens resulta um tanto curiosa. Para que adotar
uma ótica evolucionista? As perguntas que interessam aos grupos atu-
ais são aquelas com as quais eles se deparam. Não se situam na escala
dos tempos geológicos, ou naquela das durações pré-históricas e his-
tóricas. Pertencem ao presente, um presente suficientemente amplo
para poder observar processos em andamento e resgatar tendências.
As concepções epistemológicas adotadas pelos geógrafos per-
tencem à família neopositivista que predomina, na época, nas ciênci-
as sociais (BUNGE, 1962; HARVEY, 1969; AIVIADEO; COLLEDGE,
1975; GALE; OLSSON, 1979).

Em vez do meio, o espaço geográfico; em vez das influências naturais,


a função do distanciamento

Os grupos humanos passam a ocupar o centro da análise.


Vivem aqui, na Terra, mas a vastidão que os sustém deixa de ser con-
cebida em termos naturalistas, como se fosse feita de um mosaico de
meios. Trata-se de um espaço cujas propriedades geométricas contam,
mesmo sabendo que o fator Terra está presente em todas as combina-

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Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

ções produtivas, que morar implica consumir espaço, e que alguns


lugares se diferenciam pela presença de fatores.
As variáveis principais se modificam também. A influência
do meio estava no centro dos questionamentos da geografia natura-
lista do final do século XIX e do começo do século XX, mesmo se
tínhamos passado do determinismo a visões mais matizadas — o
possibilismo explicava como o peso das condições locais desfazia-se
com a elaboração de inovações técnicas ou pelo recurso ao transporte.
Para a geografia que se implanta nos anos 50, a variável
principal é a distância: o funcionamento dos grupos sociais é gerado
pela dispersão do seus membros. Uma parte das disponibilidades
energéticas e monetárias fica mobilizada pelo deslocamento das pes-
soas e pelo transporte dos bens. As notícias circulam mal, o que torna
aleatório o ajuste nas decisões econômicas e o controle que as institui-
ções políticas tentam impor com o fim de manter o equilíbrio social.
Isso também freia a divulgação das opiniões, das crenças ou das técni-
cas.
O espaço geográfico não ignora as dificuldades naturais, que
não permitem que se produza qualquer coisa em qualquer lugar. É
um mundo de troca, tanto que os atores econômicos devem ficar de
olho no mercado, ou nos preços. O estudo do espaço geográfico abor-
da amplamente o estudo das localizações (estenda-se por localizações
os pontos onde as empresas obtêm os seus maiores lucros aproveitan-
do-se da distância dos recursos) e o dos mercados.

Um espaço organizado

Nada melhor para mostrar que o espaço geográfico não se


confunde com aquele da geometria que o fato dele ser "organizado".
Para acabar com o problema que traz a dispersão, os homens organi-
zam redes, as pessoas que têm afinidades entre si, que trabalham no
mesmo setor ou que são ligadas por costumes comerciais formam re-
des sociais. Para o geômetra, são relações topológicas que indicam as
ligações existentes entre as pontas de um grafo ou rede.

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Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

Essas redes sociais e econômicas só fazem sentido porque


permitem estabelecer contatos, realizar transações, fazer negócios: o
que supõe a existência de infraestrutura material, vias de transporte e
sistemas de comunicação.
Os lugares para onde estas vias convergem levam vantagem
em relação aos outros: nesses lugares fica mais fácil organizar encon-
tros, estabelecer relações e fechar negócios. Nesses lugares, passa-se
num tempo mínimo de um parceiro comercial a outro. As cidades são
comutadores sociais, formas de organizações do espaço destinadas a
facilitar ao máximo todas as formas de interação. Quem nelas está
instalado acessa mais rápido e por um preço menor à informação —
basta que prestem atenção para aprender aquilo que lhes é útil. Diz-se
que desta maneira beneficiam-se de economias externas.
O espaço está organizado porque está estruturado em redes
de relações sociais e econômicas, em redes de vias de transporte e de
comunicação, e em redes urbanas, que concretizam os efeitos da com-
binação dessas redes.
Falar em organização, significa também ressaltar a
hierarquização dos lugares e dos espaços.

Uma visão dinâmica do espaço

O espaço analisado na perspectiva funcional não se limita a


ser organizado e hierarquizado. Ele não para de se transformar. Com
efeito, as cidades que se encontram no topo das redes urbanas e as
regiões que ficam no centro das zonas econômicas levam muitas van-
tagens: as empresas que aí se instalam se beneficiam, pelo menos no
caso das aglomerações, de economias externas particularmente fortes.
A todas aquelas para as quais o transporte dos produtos industrializa-
dos e a divulgação das informações constituem encargos importantes,
a acessibilidade à clientela é maior: é nesses polos urbanos, ou nessas
zonas centrais, que os potenciais populacionais e de renda atingem
seu nível mais elevado. Todas as atividades que não dependem obriga-
toriamente, na escolha da sua localização, das matérias-primas nem

o 18
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

da energia da qual precisam, vão, portanto, se instalar nas cidades e


nas zonas mais centrais.
Dentro de um espaço econômico, e enquanto deseconomias
externas associadas ao fenômeno de convergência, concentração e con-
gestionamento não neutralizam os efeitos das economias externas de
informação, a tendência ao acúmulo de atividades em zonas reduzi-
das se mantém. Em regiões e cidades centrais, encontram-se simulta-
neamente empresas que se aproveitam dos recursos locais e outras que
estão sendo atraídas pela acessibilidade ao mercado. Nas regiões peri-
féricas, somente os setores primário e secundário (primeira transfor-
mação) estão presentes. Nas regiões centrais, o setor primário está sem-
pre presente. O secundário tornou-se mais completo com as fases ulte-
riores de transformação. O terciário vem se tornando cada vez mais
importante. A economia das regiões ou das cidades centrais não para
de se diversificar. As chances de beneficiarem-se de um acesso gratuito
ou barato às informações pertinentes aumentam na medida em que se
diversifica o leque das fabricações e dos serviços.
As regiões periféricas, ao contrário, encontram dificuldades
em conservar as atividades que não dependem de recursos locais. Elas
adquirem o perfil de regiões especializadas. Sem um bom acesso ao
mercado, e criando pouca economia externa, elas assistem à fuga das
empresas mais inovadoras, aquelas cujos valores agregados são os
maiores.
O binômio centro-periferia está no centro das análises funci-
onais do espaço. Ele mostra a existência de regiões deprimidas, inclu-
sive nos países industrializados, e de países em via de desenvolvimento
na escala mundial.
A centralidade que estas pesquisas ressaltam não é uma pro-
priedade geométrica dos espaços levados em consideração: ela varia
em função da distribuição da população; as distâncias consideradas
são medidas ao longo das redes de transporte e de comunicação. Quan-
do o progresso técnico reduz os custos e a duração dos deslocamentos
e permite substituir os comutadores sociais e econômicos tradicionais,
inscritos no espaço por aqueles que a tecnologia eletrônica criou, a
dinâmica espacial como um todo se vê alterada. A tendência em cen-
tralizar as atividades encontra-se parcialmente compensada pela
metropolização, já que todos os centros situados no nível superior das

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Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

redes urbanas beneficiam-se doravante de uma boa acessibilidade à


área da informação. A contraurbanização também progride, já que a
existência de boas ligações eletrônicas basta para garantir boas chances
para certas atividades mesmo que instaladas em zonas periféricas.
Diferentemente das concepções naturalistas da geografia, o
enfoque funcionalista não se inscreve numa perspectiva evolucionista.
O espaço que essa apreende não é o produto da dinâmica da socieda-
de submetida às forças da natureza. É o produto de uma história.

Uma geografia humana que fala pouco dos homens

O entusiasmo pela nova geografia não dura muito. Ninguém


fica indiferente aos resultados que ela permite acumular em poucos
anos — uns vinte anos aproximadamente. Mas um sentimento de insa-
tisfação também surge. O mundo descrito pelo enfoque funcionalista
é cinzento: não trata do esplendor luminoso das folhas de bordo, no
outono, em Quebec ou na Nova Inglaterra, nem do perfume da
garriguel, na primavera, no ar impregnado de umidade que antecede a
tormenta. Nesse enfoque, o espaço se limita a considerações de cus-
tos: custos de abastecimento, de expedição, de informações a serem
centralizadas ou divulgadas.
Essa geografia é uma ciência social, porém fala muito pouco
dos homens. Salienta, é claro, a função das decisões de localização na
formação das paisagens econômicas, porém as supõe racionais: para
saber o que vão escolher, não é preciso conhecer aqueles que escolhem,
sua história, sua idade, a formação que receberam, seus planos de
carreira ou seus problemas pessoais ou familiares.

1 NT Garrigue refere-se a uma vegetação típica do sul da França, constituída às vezes de


alecrim.

o 20
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

Primeiro balanço

Limitações similares

O enfoque naturalista e o enfoque funcionalista são, igual-


mente, incapazes de fazer sentir e de explicar a diversidade dos ho-
mens. Isso explica as críticas que ocorrem, a partir dos anos 70, em
relação às duas correntes que até então prevaleceram na geografia
humana, e a vontade de levar em conta dimensões até então negligen-
ciadas. Pensando a respeito da região, Armand Frémont escreve em
1976:
Do homem à região e da região ao homem, as transparências da racionalidade
são perturbadas pelas inércias dos costumes, as pulsões da afetividade, os con-
dicionamentos da cultura, os fantasmas do inconsciente (FRÉMONT, 1976;
citado de acordo com reedição 1999, p. 58).2

Os dois enfoques até então dominantes compartilham outro


defeito: explicam aquilo que a observação revela da distribuição dos
homens, de suas atividades e de suas obras como se envolvesse fenô-
menos naturais que não podem ser questionados. Armand Frémont o
destaca:
A região, se é que existe, é um espaço vivido. Vista, percebida, sentida, amada
ou rejeitada, modelada pelos homens e projetando neles imagens que os mode-
lam. É um reflexo. Redescobrir a região significa, então, procurar captá-la onde
ela existe, vista pelos homens (FREMONT, p. 58).3

2 De l'homme à la région et de la région à l'homme, les transparences de la rationalité sont


troublées par les inerties des habitudes, les pulsions de l'affectivité, les conditionnements de la culture, les
fantasmes de l'inconscient. (FRÉMONT, 1976; citado de acordo com reedição 1999, p. 58).
3 La région, si elle existe, est un espace vécu. Vue, perçue, ressentie, aimée ou rejetée, modelée
par les hommes et projetant sur eux des images qui les modèlent. C'est un réfléchi. Redécouvrir la région,
c'est donc chercher à la saisir là oià elle existe, vue des hommes. (FRÉMONT, p. 58).

21
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

Epistemologias paralelas

Diante das desilusões que surgem dos dois paradigmas que


compartilham a disciplina, os geógrafos exploram outras vias. Mui-
tos não procuram questionar os pressupostos nos quais se baseiam as
problemáticas naturalista e funcionalista. O escopo deles é outro: an-
tes analisar os encadeamentos causais em ação em uma ou outra des-
sas perspectivas.
É uma boa hora para essa nova avaliação. As relações de
causalidade geralmente invocadas pelo enfoque naturalista e o enfoque
funcional são de tipo linear: é porque os solos são pobres e ácidos que
a cultura do trigo não rende muito, razão pela qual agricultores o
substituíram pelo centeio; é porque dentro dos Estados Unidos, a aces-
sibilidade é máxima na zona compreendida entre a costa atlântica e o
vale superior do Mississipi que o Industrial Belt aí se fixou.
Os pesquisadores sabem muito bem que os processos são fre-
quentemente mais complexos. A característica dos solos é um indica-
dor problemático para o agricultor, mas as plantas que escolhe, a cul-
tura rotativa que pratica, as técnicas a que sempre recorre, os adubos
que espalha, modificam as condições pedológicas. Num mercado, os
compradores propõem um preço em vista das quantidades e das qua-
lidades oferecidas. Em função desse preço, os vendedores modificam
suas propostas. Os compradores reagem propondo outra cotação. É
ao final desse jogo de respostas alternadas que o preço vem a ser esta-
belecido: estamos diante de um mecanismo de dupla retroação.
É à análise desse aspecto negligenciado da epistemologia da
geografia que se dedicam todos aqueles que, nos anos 70, se apaixo-
naram pela análise sistêmica (AURIAS, 1979; GUERMOND, 1984).
O interesse surgiu, nesse campo, graças ao entusiasmo que se tinha
pela cibernética concebida como estudo dos mecanismos de feed-back,
de retroação, nos anos 50. Nos anos 60, o objetivo se amplia. Em vez
de se limitar a apenas uma cadeia causal em particular, é pelo conjun-
to de cadeias causais ativas, num meio ou numa sociedade, que há
interesse: nascem os enfoques sistêmicos.
Eles atraem ainda mais os pesquisadores pelo fato de serem
válidos tanto no campo natural quanto no campo social (BERTRAND,

22
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

1969, ROUGERIE; BEROUVACHICHLI, 1991). Quando o sucesso


dos enfoques funcionalistas distancia os geógrafos humanos da geo-
grafia física, e a geografia física se restringe a especialidades precisas, o
enfoque sistêmico aparece como a salvação. Evidencia utilmente a
complexidade dos problemas que a geografia costuma analisar. Pro-
longa, em uma atmosfera intelectual diferente, as reflexões de André
Cholley sobre as combinações em geografia (CHOLLEY, 1951).

Repensando o tema da produção do espaço

O sentimento de insatisfação que os geógrafos sentem em


relação aos dois paradigmas a que aprenderam a recorrer também é
compartilhado por outros especialistas das ciências sociais: quando se
voltam para a geografia à procura de respostas às perguntas colocadas
pelas distribuições que estão estudando, suas perguntas ficam sem res-
postas. Mergulham, então, numa reflexão paralela sobre o espaço. É
verdade entre os historiadores — Braudel inventa assim a geohistória
(BRAUDEL, 1995). Também o é entre os economistas. François Perroux
propõe, em 1950, uma reflexão sobre o espaço econômico
(PERROUX, 1950). Ele lhe atribui uma estrutura folheada: o primei-
ro nível é constituído pelas realidades físicas, que compõem, segundo
ele, o próprio campo do geógrafo; o segundo trata da sociedade e da
economia, fala das empresas, destaca a existência de redes; o terceiro
é psicológico: os homens se projetam mentalmente no futuro; as em-
presas elaboram projetos; a região não é somente uma realidade pre-
sente; também existe em estado de região-plano, esse conjunto de vi-
sões sobre o futuro que contribuem para moldá-la.
A ideia de que o espaço tem uma estrutura folheada não tem
nada de original na época. E um dos temas prediletos da perspectiva
funcionalista: para ela, o mundo é estruturado ao mesmo tempo pe-
las redes físicas das infraestruturas, pelas redes das relações econômi-
cas e sociais, e pelas redes complexas dos lugares habitados. A inova-
ção de Perroux está em introduzir uma dimensão psicológica.

23
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

A ideia de região-plano torna-se, então, um dos lugares co-


muns da economia e do "planejamento"; Henri Lefebvre a adota
(LEFEBVRE, 1974). Para ele, o espaço é uma realidade com três ní-
veis: o das realidades materiais (ou naturais), o das realidades sociais
(o espaço ocupado pelos fenômenos sensoriais, inclusive aqueles que
resultam da imaginação constituída por projetos, símbolos e utopias)
e o das realidades mentais.
Henri Lefebvre é marxista. Está acostumado a diferenciar
níveis nos dados da experiência: o da economia, o do social e do
político e da ideologia. Para os defensores da linha ortodoxa que pre-
valecia então entre os comunistas franceses, é o econômico que, em
última instância, vence, e "superdetermina" os outros níveis. Estes
apenas merecem ser estudados graças ao lugar que ocupam nos dis-
cursos e nas discussões políticas.
Henri Lefebvre rompe simultaneamente com a ortodoxia
marxista e com os pressupostos compartilhados pelas perspectivas
naturalista e funcionalista, concedendo uma função essencial às ins-
tâncias conceptuais: é pelo fato das camadas populares recusarem as
condições que lhes são impostas, aspirarem a outras maneiras de viver
e lutarem para consegui-las que a realidade acaba se transformado. É
nessa ocasião que Lefebvre introduz a ideia do espaço produzido.
De certo modo, essa ideia não é nova. Na perspectiva
ambientalista, os meios humanizados apareciam como produtos da
evolução; na perspectiva funcionalista, o espaço organizado resultava
da história econômica e social. O que Henri Lefebvre diz, é que resulta
das representações mentais compartilhadas pelos atores sociais: estes
procuram a todo custo transformar seus sonhos em realidade. A op-
ção de Lefebvre justifica a atenção que dedica aos movimentos sociais.
Ela lhe permite romper com a ideia de que o mundo onde vivem os
homens é o produto das forças que se impõem a eles como vidas de
fora. Sua interpretação é revolucionária, pois abre um espaço, na cons-
trução do mundo, aos movimentos de revolta e à força do futuro. Sua
orientação é de esquerda, já que questiona as categorias propostas
pelos defensores da ortodoxia, seja ela marxista, naturalista ou
neoposivista.
A fórmula de Henri Lefebvre é sujeita a contrassensos. Para
muitos dos seus leitores, não há dúvida quanto ao fato da sociedade

24
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

constituir a realidade primordial. A pesquisa deve se desenvolver, em


primeiro lugar, neste nível, evidenciar o jogo das contradições que
nela existem, as tendências que estas produzem e os modos de organi-
zação que resultam de tudo isso. As formas sociais anteriormente de-
finidas no espaço abstrato dos modos de produção projetam-se no
solo; neste caso, o espaço é, de fato, "produzido" pela sociedade; não
se quer dizer com isso que ele resulta de uma evolução ou de uma
história ao longo da qual a sociedade se transforma e reveste formas
renovadas; afirma-se que o social é anterior ao natural e o gera. A
proposição é absurda. Ela se opõe radicalmente aos pressupostos na-
turalistas, porém não é possível para defendê-la. Seu sucesso é tanto
mais paradoxal quanto se deve a pesquisadores que conclamam em
alto som as suas convicções materialistas.
Muitos jovens geógrafos franceses flertam com as teses de
Henri Lefebvre, porém sem conseguir construir, a partir delas, uma
concepção nova do fazer geográfico. As orientações propostas por
Lefebvre têm mais repercussão nos Estados Unidos, onde inspiram em
parte Fredric Jameson e os que lançam a ideia de pós-modernidade
(JAMESON, 1991). É no contexto mais amplo desses questionamentos
que é preciso se situar para compreender a especificidade do enfoque
cultural na geografia atual.

O enfoque cultural: as condições de emergência

A gênese do novo enfoque cultural se estende por uns vinte


anos, ligada ao aumento da insatisfação dos pesquisadores à procura
de novas perspectivas, à influência de uma corrente filosófica, a
fenomenologia, e ao reforço de atitudes cada vez mais críticas em
relação à ciência em geral e às ciências sociais em particular.

25 1!1
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

A redescoberta da experiência e da vivência

Os geógrafos estão fartos do caráter convencional e sem bri-


lho das análises propostas tanto por parte da tradição naturalista
quanto pela corrente funcionalista. Os lugares não são vistos, não são
sentidos. As pessoas que os ocupam não têm mais consistência do que
a das sombras (FRÉMONT, 1976). Estamos prontos a desdenhar os
conselhos de prudência metodológica aos quais nos conduzia a preo-
cupação com a objetividade. O geógrafo é uma testemunha do mun-
do: quando é convocado a depor, tem o direito e o dever de dizer o
que viu e como o viveu. Isso não prejulga em nada a seriedade e a
imparcialidade das posições que assumirá depois, mas enaltece o que
apresenta e garante a autenticidade.
A geografia restabelece, portanto, as ligações com o indiví-
duo e com uma certa especificidade que é proporcionada por um cer-
to espaço. No mundo anglo-saxão, a curiosidade com os sentidos dos
lugares se afirma no começo dos anos 70. Na França, e após Armand
Frémond, valoriza-se mais a experiência vivida (FRÉMOND, 1976).
A fenomenologia então na moda justifica essas visões (DARDEL, 1952;
RELPH, 1970).
Bastaram alguns anos para que as atitudes mudassem. Os
geógrafos redescobrem a preocupação da forma literária e dos meios
necessários para dividir o que sentem, ou o que os grupos, que obser-
vam e ouvem, sentiram. Não hesitam mais em falar dos indivíduos,
em contar a vidas deles, em acreditar em seus depoimentos.
A disciplina se libera do peso que a oprimia. Ela fala do
frescor do orvalho, da pureza de certos céus, do cheiro das fogueiras
com lenha ou de esterco do qual é impossível escapar quando se per-
corre a planície do Ganges em dias ensolarados, no inverno. Ela faz
descobrir o encantamento das paisagens da estação fria nos vales do
norte de Hondo, onde as nevascas acontecem em um ambiente tão
calmo que cada objeto, o selim de uma bicicleta, uma pedra no leito
de uma torrente ficam cobertos de um chapéu branco totalmente re-
dondo e de aparência surrealista.
Os depoimentos relatados são plurifônicos: doravante, as
vozes das mulheres, dos jovens, dos idosos, contam tanto quanto as

26
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

dos homens em idade de ganhar o próprio pão. Cada grupo dispõe de


grades específicas para ler o real. Cada um interpreta o mundo segun-
do perspectivas que tanto quanto as demais merecem serem conside-
radas. As certezas de um mundo que, acreditava-se, se impunha a to-
dos da mesma maneira, opõem-se às dúvidas de uma percepção
doravante dividida, impressionista, evanescente às vezes. A complexi-
dade à qual os geógrafos são confrontados, surge logo no início, quando
descrevem fatos elementares.
Essa geografia é encantadora, porém é um pouco sentimen-
tal. É bom que os que a praticam descubram o mundo com um olhar
ingênuo e que sejam capazes de surpreenderem-se e de ficarem maravi-
lhados; porém será que não devem, a um certo momento, ter atitudes
menos ingênuas, mais críticas? É a reação de muitos: temem que a
moda do espaço vivido desacredite a geografia.

Os questionamentos da ciência

As atitudes em relação à ciência evoluem rapidamente a par-


tir dos anos 70. As certezas sobre as quais os procedimentos científicos
e epistemológicos positivistas repousavam no século XIX ficam aba-
ladas ao começar o século XX, com a elaboração das geometrias não
euclidianas, com as teses de Einstein sobre a relatividade e com o prin-
cípio de incerteza de Heisenberg. A esse questionamento oriundo da
própria pesquisa, acrescentam-se as dúvidas que nascem do uso que se
faz das descobertas; o progresso científico pode ser a pior coisa se
serve para aperfeiçoar as armas e para tornar os conflitos mais destrui-
dores: gases asfixiantes durante a Primeira Guerra mundial, armas
nucleares durante a Segunda.
Nos anos pós-guerra surgem novas preocupações: trata-se
das ameaças que pesam sobre o meio ambiente cuja gravidade até en-
tão não tinha sido descoberta. Entretanto, os fundamentos
epistemológicos da ciência não são questionados. No máximo são
historiados: a Razão que orienta a pesquisa não é dada definitiva-
mente; ela é construída passo a passo, ela se adapta às asperidades do

27
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

real, aos desvios impostos pelas experiências (BACHELARD, 1938).


A passagem dos saberes de todos os dias para o conhecimento científi-
co sempre vem marcada por uma ruptura fundamental da qual a re-
volução galileana nos fornece o modelo (KOYRÉ, 1962).
As concepções mudam a partir da publicação da obra de
Tomas Kuhn sobre a estrutura das revoluções científicas, em 1962
(KUHN, 1962). Aparentemente, segue os trilhos traçados pelos estu-
dos que Koyré tinha dedicado ao nascimento da física moderna siste-
matizando a ideia de revolução científica (KOYRÉ, 1962). Porém não
é uma instância superior, metafísica, se é que podemos dizer assim,
que decide das mudanças de paradigmas: quando os procedimentos
usados normalmente pelos pesquisadores perdem a sua fecundidade,
esses procuram novos modelos. É a sua virtude prática que decide do
seu sucesso e da recepção que vai receber por parte da comunidade
científica: são instâncias sociais que decidem da verdade. Essa deixa
de depender de uma razão abstrata. Será que não aconteceu a mesma
coisa com os saberes elaborados e utilizados pelas civilizações tradici-
onais? A generalização da ideia de revolução científica desvaloriza a
ideia de ciência. A respeito, Feyerabend concluiu: a pesquisa é uma
empreitada que só pode florescer em um ambiente de anarquia e de
questionamento permanente da autoridade (FEYERABEND, 1978).

Considerações críticas sobre as ciências sociais

As ciências sociais são atingidas por esses questionamentos


gerais. Também por críticas mais específicas. Algumas retomam temas
já antigos: suponha-se que leis regessem os fatos sociais; não equivale-
ria a deixar de se importar com a liberdade humana? Será que não
estamos cometendo um grave contrassenso contra a natureza humana
ao pretender estudá-la cientificamente? Esse era um dos temas predi-
letos de Nietzsche. Esse tema guia Foucault, que procede a uma crítica
sistemática de todos os saberes construídos pelas ciências sociais nos
três últimos séculos (FOUCAULT, 1966). Analisa-os mais como dis-
cursos sobre a sociedade do que como ciências. De um período a ou-

28
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

tro, os pontos de vista que elas adotam, a epistemê à qual obedecem,


mudam.
A história das ciências sociais revela uma surpresa: os traba-
lhos que os fundamentam não são, a bem dizer, científicos. Propõem,
nas suas primeiras páginas, relatos bastante curtos, que contam como
a sociedade nasceu. Apresentam-se como histórias, porém nada possi-
bilita inventá-los. São muito parecidos com os mitos que as socieda-
des primitivas utilizavam para dar um sentido ao Cosmos, à natureza
e ao destino dos indivíduos e dos grupos. Encontram-se na origem
das ideologias do mundo moderno: ideia de progresso, fascínio pela
utopia, filosofias da história (CLAVAL, 1980).
Se os textos relativos às ciências sociais são mais regidos pela
lógica dos discursos que pela da pesquisa das provas e da demonstra-
ção rigorosa, é preciso tratá-los como tal: os trabalhos de Roland
Barthes ou de Jacques Derrida ensinam a "desconstruí-los", ou seja, a
ler por trás daquilo que dizem, seu conteúdo oculto (BARTHES, 1955;
DERRIDA, 1967).
O desenvolvimento das ciências sociais é contemporâneo da
moda da modernidade. Esta se impõe na literatura e nas artes ao lon-
go do século XIX. Ela tem, como se apressa em lembrá-lo a história
da filosofia, raízes mais antigas, que são localizadas muitas vezes pró-
ximas a Descartes. Entramos em um mundo "pós-moderno". As pers-
pectivas abertas por ele possibilitam a crítica da modernidade. Elas
revelam as colusões que aconteceram entre pesquisadores e interesses
políticos e econômicos: para os críticos mais extremos, as ciências
sociais não tinham outra missão a não ser a de fornecer às instâncias
dominantes das sociedades ocidentais discursos para justificar o do-
mínio que os homens exerciam sobre as mulheres, as crianças, as mi-
norias, e a que os países industrializados impunham ao resto do mun-
do. Reclama-se, portanto, o nascimento de epistemologias "pós-colo-
niais" (GRÉGORY, 1994).

29
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

O enfoque cultural: sua formação sistêmica

Há uma geração que a reflexão epistemológica se desenvol-


ve em um turbilhão de contestações, de questionamentos e de "revo-
luções", que criam o sentimento de que se trata de um setor em plena
deliquescência. Os discursos e as práticas tradicionais foram profun-
damente afetados pelas ondas de contestação. Um novo modo de con-
ceber a geografia aflora então.

No começo: dados fragmentários e não hierarquizados

O que autorizavam os autores do passado em falar da "na-


tureza", da "economia", da "cultura" ou do "espaço"? O que lhes
permitia afirmar que a natureza era anterior à sociedade, quando a
percepção que temos das mesmas as entende na sua simultaneidade?
A ruptura com as perspectivas antigas se torna fato consumado quan-
do James Duncan denuncia, em 1980, a concepção "superorgânica"
da cultura que era a de Carl Sauer e a da escola de Berkeley (DUNCAN,
1980): não, a cultura não é uma realidade que sedia em um empíreo
inacessível, e que se imporia aos homens por não se sabe qual meca-
nismo misterioso. O questionamento da noção central da geografia
cultural valeria também para os que apresentam a "natureza", a "so-
ciedade", o "Estado" como entidades superiores que os pesquisadores
devem aceitar como dados.
Richardson aprende uma primeira lição da crítica de Duncan
(RICHARDSON, 1981): os geógrafos devem trabalhar sobre realida-
des mais acessíveis, mais próximas. Entenderão assim a passagem das
informações de um a outro (MONDANA; SÕDERSTRÕM, 1994).
Tomarão consciência da reinterpretação das normas as quais as pesso-
as se entregam permanentemente. A cultura perderá nisso a sua unida-
de: doravante, ela aparecerá como uma bagagem própria a cada indi-
víduo, que aprende a combinar e a interpretar o que lhe foi transmiti-
do e o que lhe traz a experiência.

o 30
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

A crítica de Duncan e os comentários propostos por


Richardson iluminam o caminho: indicam como substituir reflexões
sobre noções que nada permitem realmente apreender por estudos mais
pontuais, mais modestos, e centralizados nos processos que dão a luz
à cultura (CLAVAL, 1995) — podendo aplicar o procedimento mutatis
mutandis a outros conceitos e a outras áreas da geografia: sociedade,
natureza, espaço etc.

Itinerários, "time geography" e "locais"

É Hãgerstrand quem abre a perspectiva a partir da qual é


possível encarar a reconstrução da geografia como ciência. Ele foi for-
temente marcado pelas pesquisas do demógrafo Lotka e entendeu que
não se podia explicar a vida social pretendendo eliminar a sua dimen-
são temporal. A pesquisa social trata de conjuntos renovados de indi-
víduos. Convém partir deles, de suas trajetórias de vida e de como elas
se inscrevem no espaço (HÂGERSTRAND, 1970).
Anthony Giggens entende quanto o enfoque da time
geography modifica as perspectivas sobre a realidade social (GIGGENS,
1984): a observação se interessa por indivíduos específicos, acompa-
nha-os nas etapas de suas vidas, toma nota dos seus domicílios, dos
lugares onde trabalham, daqueles onde fazem as compras e que fre-
quentam nas horas de lazer e de descanso; reconstitui os seus desloca-
mentos. A vida social se organiza em volta de lugares de encontros, de
ateliês ou de escritórios onde as pessoas colaboram, de bares onde se
observam e se encontram. A frequência das relações que assim nascem
faz com que os que participam de um mesmo círculo de
intersubjetividade usem as mesmas palavras, com os mesmos matizes e
as mesmas conotações. Eles se entendem por meia palavra. Formam
aquilo que Giddens chama de locale, quer dizer, uma unidade elemen-
tar de relações sociais, de cultura, de sentidos e de lugares comparti-
lhados. Entretanto, o locale tem limites mutantes e não se confunde
nem com um ponto nem com uma área específica: por isso Giddens
evita falar em lugares e forja o termo de locale.

31 o
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

A realidade que os geógrafos, como os sociólogos ou os an-


tropólogos, estudam, é percebida na escala dessas realidades elemen-
tares. É falada, descrita e vivida ao mesmo tempo por aqueles que a
animam. As ciências sociais se interessam simultaneamente pelas ati-
tudes, pelos costumes e pelas práticas das populações pelas quais se
interessam, e como elas são percebidas e alimentam discursos.
A perspectiva cultural implica que se renuncie aos pontos de
vista totalizadores e às generalizações sem fundamentos sólidos que
proporcionavam. Ela parte do indivíduo e de suas experiências por-
que é através delas que os homens descobrem o mundo, a natureza, a
sociedade, a cultura e o espaço. Indaga também a respeito do real, da
maneira como é percebido, das palavras que dizem e das imagens que
o traduzem (BERDOULAY, 1988).

Uma nova maneira de apreender o social

A história e a sociologia nos tinham ensinado a fazer das


classes e dos sistemas de relações institucionalizados os fundamentos
de toda análise social. Nesta perspectiva, os processos que davam a
coesão ao corpo social eram econômicos — a riqueza está nas mãos de
grupos que a utilizam para manter o seu domínio — ou políticos — o
exercício do poder, se necessário de forma violenta, completava o jogo
da economia. Será que não estamos nos arriscando, se colocamos o
indivíduo no centro da análise, a esquecer o jogo das forças sociais,
econômicas ou políticas? Não, mesmo se não as apreendemos mais da
mesma forma. Com efeito, é a um nível mais elementar que apreende-
mos a constituição do social: este se implanta através do jogo das
representações que as pessoas recebem do mundo que as cerca, e que
constituem as grades através das quais percebem o real (BAILLY, 1995;
DEBARDIEUX, 1998). É pela imitação dos gestos e das atitudes e
pelas palavras que aprendemos a utilizar para falar do mundo, que a
sociedade se constrói e que as mais poderosas formas de influência e
de condicionamento se introduzem.

32
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

O espaço como teatro: a paisagem, o lugar e o território

O espaço que os novos enfoques apreendem não é mais con-


cebido como um mosaico de meios naturais ou humanizados; ele não
aparece mais como o suporte folheado e organizado das atividades
humanas. Constitui um teatro onde as pessoas se oferecem um espetá-
culo. É necessário aí um palco, ou palcos, onde os atores possam atu-
ar, uma plateia e camarotes para aqueles a quem o drama, a comédia,
ou a tragédia interessam, bastidores para proteção dos olhares indis-
cretos, e corredores que levem aos assentos, ou que vão do palco aos
bastidores, e vice-versa.
Dizer que o espaço dos novos enfoques constitui um palco é
dizer que existe uma relação estreita entre a intriga apresentada e o
cenário onde acontece. O geógrafo se interessa pela paisagem
(BERQUE, 1996; ROGER, 1995). Não a explora mais em uma pers-
pectiva funcional ou histórica, como o fazia antes. Ele a vê como um
elemento essencial da vida dos indivíduos e dos grupos. É sensível às
conivências que se estabelecem entre as formas materiais, ou vivas, os
conjuntos construídos e os que frequentam os lugares (SAUTTER,
1979).
O palco deve o seu caráter aos atores que nele se encontram,
à peça que interpretam e ao cenário em que acontece. O conjunto
possui uma certa unidade: é o que faz dele um lugar (ENTRICKIN,
1991). Quando um lugar toma a forma de um tecido de lugares car-
regados de sentido para todo uma população, ele se torna território
(BONNEMAISON, 1997 e 1998).
O espaço transformado em território oferece aos grupos uma
base e uma estabilidade que eles não teriam sem isso. Faz nascer um
sentimento de segurança. As paisagens que o caracterizam, os monu-
mentos que nele se encontram tornam sensível a história coletiva e
reforçam a sua força. O território constitui um dos componentes es-
senciais das identidades.

33
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

Lugares, encontros e horizontes de expectativas

O espaço onde se movimentam os indivíduos lhes oferece


ocasiões de encontros e de experiências renovadas. Em vez de ficarem
trancados em ambientes cujas instituições sociais garantem a conti-
nuidade, descobrem novos horizontes. Eis que estamos ao lado de
estrangeiros que têm uma formação similar à nossa, exercem uma
profissão que pouco difere da que praticamos aqui, mas que têm salá-
rios mais elevados, férias mais longas, um acesso mais fácil a todos os
níveis de educação para seus filhos, e uma melhor qualidade do aten-
dimento médico do que daqueles que usufruímos. Ninguém se atrevia
a sonhar com tais possibilidades. Agora que os encontros acontece-
ram, cada um diz para si mesmo: "porque não eu?"
Os lugares frequentados abrem, portanto, perspectivas no-
vas para novos futuros para todos. Nas situações multiculturais, ima-
gina-se muitas vezes as pessoas apegadas às suas convicções, agarradas
às normas que lhes foram ensinadas e, sobretudo, preocupadas em
proteger suas identidades. Essas reações existem e explicam o aumen-
to das tensões em muitas situações em que os grupos são levados a
coabitar. Porém, o que esquecemos é a transformação dos horizontes
de expectativas que resulta do contato com os demais: as trajetórias
seguidas pelos membros do grupo a qual pertencemos não são sempre
aquelas que permitem viver melhor, tirar o melhor proveito de suas
aptidões e dar todas as suas chances para seus filhos. Os sinais exteri-
ores de pertença a tal ou tal etnia subsistem — eles são até mesmo
muitas vezes reforçados. Ao mesmo tempo, e segundo as informações
recebidas de fora e os contatos diretos, as atitudes mudam; o que
esperamos da existência se modifica.
Os fluxos de notícias que nos chegam de outras partes e os
encontros com o exterior, entretanto, modificam profundamente os
comportamentos. É assim que a modernização das sociedades aconte-
ce, a despeito das normas impostas pelas suas culturas, e graças às
perspectivas descobertas pelas massas. Henri Lefebvre estava certo ao
salientar o quanto o jogo dessas projeções multiplicadas numa escala
de sociedades inteiras podia pesar sobre o futuro das mesmas.

o 34
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

A ontologia espacial

O espaço do enfoque naturalista era feito de um mosaico de


ecossistemas — ou de geosistemas. O do enfoque funcionalista era
organizado e hierarquizado pelas redes que neles desenvolviam. O do
enfoque cultural também é distinto, mas as diferenças significativas
que nele se descobrem não se inscrevem no registro das categorias po-
sitivas.
Os enfoques naturalista e funcionalista compartilhavam o
fato de interessar-se pelos seres e pelas coisas somente se esses revesti-
am formas sensíveis. É o que explica a resistência ostentada durante
muito tempo para com as representações. O sagrado era, quanto a ele,
totalmente ocultado.
O enfoque cultural se interessa pela maneira como as reali-
dades são percebidas e sentidas pelos homens: se esses consideram que
tal fonte, tal bosque, tal montanha, ou tal edifício são sagrados, o
pesquisador deve tomar isso em conta. Não cabe a ele dizer se as con-
cepções que as populações por ele estudadas fazem do sagrado são
racionais. Ele deve entendê-las, determinar a sua origem, analisar a
sua gênese e ver para que servem.
A oposição entre sagrado e profano fundamenta-se na ideia
de que existem dois níveis de realidades: o mundo positivo, apreendi-
do pelos nossos sentidos, que tocamos, que frequentamos, e um outro
mundo, onde se situam as forças, os princípios ou as divindades que
são responsáveis pelo que acontece no mundo positivo (ELIADE, 1965;
CLAVAL, 1984). Esse outro mundo se situa em um espaço ao qual,
normalmente, os homens não têm acesso. Entretanto, a separação
entre esses dois universos não é total: os pontos ou as áreas onde os
aléns afloram são carregados de poder numinoso: é o que lhes confere
sua sacralidade.
Para viver, toda sociedade precisa de normas e de regras. Do
além, descobrem-se perspectivas sobre o nosso mundo que permitem
julgá-lo, entender o que não funciona, e ver como corrigi-lo. Levar em
conta a ontologia espacial que toda sociedade tem, é aceitar analisar a
função desempenhada, na vida dos grupos, pela regra moral. É inte-

35 0
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

ressar-se pelo sentido que os homens dão à suas vidas, e dar importân-
cia ao modo como eles se projetam no futuro.

Temas reinterpretados

A maioria dos temas abordados pelo enfoque cultural já era


tratada pela geografia de ontem. A novidade consiste na perspectiva
sob a qual são abordados. Basta um exemplo para demonstrá-lo: o da
comunicação.
Relativamente negligenciada nas geografias naturalistas do
início do século (a não ser no âmbito dos estudos relativos à difusão
das técnicas), a comunicação se torna cada vez mais importante na
medida que o enfoque funcionalista se aprofunda: as decisões dos
atores dependem das informações das quais dispõem, e, portanto, da
existência de redes capazes de encaminhá-las. O jogo dos feed-backs,
dos mecanismos de retroação, é essencial para entender que um ajuste
das decisões seja possível na ausência de todo controle autoritário — o
mercado é seu melhor exemplo (CLAVAL, 1964).
A perspectiva cultural insiste em primeiro lugar nas diferen-
ças qualitativas entre modos de transmissão: a imitação e a palavra
garantem uma transmissão perfeita dos gestos, das atitudes; a escrita
consegue resultados inferiores neste aspecto, porém fixa a memória e
facilita o exercício das qualidades intelectuais de abstração; a mídia
moderna retoma as relações com a primazia do audiovisual, mas
doravante divulgado em espaços imensos (CLAVAL, 1995).
A perspectiva cultural se interessa também pelo conteúdo das
mensagens: alguns procuram transmitir informações detalhadas ne-
cessárias ao uso de tal ou tal técnica; a distância, que enfraquece esses
conteúdos, perturba consideravelmente a divulgação dos mesmos.
Outras mensagens são muito breves: seu conteúdo é simbólico; os que
os recebem se reconhecem na imagem, na música ou nos textos difun-
didos, ou os sentem como estranhos: a comunicação simbólica permi-
te vencer a distância e une os grupos espalhados em vastas extensões
(GOTTMANN, 1952).

36
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

Conclusão

Existem várias maneiras de conceber a geografia. A


epistemologia se interessa simultaneamente pelas grandes questões que
os pesquisadores tentam resolver, e pelos meios que os mesmos usam
para consegui-lo. Aqui tratamos do primeiro aspecto.
Pareceu-nos possível resgatar três problemáticas maiores: a
perspectiva naturalista estuda a inserção dos grupos humanos no meio
ambiente; o ponto de vista funcionalista estuda como os mesmos con-
seguem se estruturar organizando o espaço para vencer o obstáculo da
distância. O enfoque cultural se recusa a considerar a natureza, a soci-
edade, a cultura, o espaço como realidades prontas, dados que se im-
poriam aos homens como do exterior. Julga que o mundo é mais
complexo. Para mostrá-lo, parte dos indivíduos e se debruça nas suas
experiências. O que lhe importa é compreender o sentido que as pes-
soas dão à sua existência.
Tamanha mudança de perspectiva sacudiu o todo o arcabouço
científico tradicional. A moda da desconstrução e das epistemologias
pós-colonialistas tende a reduzir o conhecimento científico a um dis-
curso às ordens dos interesses dominantes. Nem todo mundo compar-
tilha o ceticismo e o pessimismo que traduzem essas concepções. A
construção de um novo modo de conceber a geografia está no cami-
nho certo — esperamos tê-lo demonstrado.
Geralmente costuma-se, sob a influência de Thomas Kuhn,
conceber a história das ciências como uma sucessão de fases normais e
de revoluções. Essas propõem paradigmas que substituem os que pre-
valeciam até então, mostravam-se incapazes de dar conta de um nú-
mero crescente de fatos.
O que a evolução do pensamento geográfico propõe é dife-
rente: a constituição de uma série de pontos de vista diferentes, mas
que não se excluem totalmente. Não é porque nos interessamos pelas
reações individuais das pessoas que a inserção dos grupos humanos
no meio ambiente deixou de ser um problema pertinente, ou que os
efeitos do congestionamento, nas áreas de alta densidade que analisa-
vam os enfoques funcionais, desapareceram.

37
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

Nota complementar

Introdução
Que epistemologia para enfrentar um mundo globalizado?

A globalização: novos desafios para a geografia

A situação da geografia no mundo atual é paradoxal. As


evoluções atuais explicam a atenção redobrada que damos aos pro-
blemas tratados por nossa disciplina: 1. o papel do espaço é mais
evidente que no passado devido à globalização; 2. todas as ciências
sociais se concientizaram do sentido do espaço na vida dos grupos
humanos — o que corresponde a um fenômeno novo/novidade.
Ao mesmo tempo, os geógrafos se questionam quanto à iden-
tidade e às finalidades de sua disciplina. Sentem que esta não é conce-
bida de modo satisfatório; esta é a razão pela qual eles se interessam
pelos problemas epistemológicos.
No passado, os homens se viam confrontados a dois proble-
mas geográficos essenciais: 1. o meio ambiente parecia geralmente
(como) avaro demais para satisfazer as necessidades dos grupos hu-
manos — o que explicava a importância dada às relações entre os ho-
mens e o meio ambiente; 2. o espaço aparecia como um obstáculo às
relações entre os indivíduos e entre os grupos humanos. A distância
era sempre um fator essencial da explicação geográfica.
O progresso técnico modificou muito profundamente essas
condições nos últimos cinquenta anos. 1. Graças à diminuição dos
custos de transporte, tornou-se possível mobilizar formas de energia
concentradas em qualquer parte do globo, o que provocou um cresci-
mento fenomenal da produtividade da natureza. Localmente, essa
deixa de parecer tão avara quanto antes. Se os recursos locais não
bastam para satisfazer a demanda, sempre é possível importar o que
falta de outros lugares. 2. O progresso técnico tem outras consequências.
A distância não aparece mais como um obstáculo tão grande quanto

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Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

no passado devido às revoluções do transporte veloz e das telecomu-


nicações.
Desse modo, os dois problemas maiores dos geógrafos do
passado, a avareza da natureza local e a distancia como obstáculo
maior à mobilidade, desapareceram. Para muitos pesquisadores em
outras ciências, a compressão contemporânea do espaço significa que
a geografia perdeu uma parte importante do seu papel. Para os
geógrafos, a evolução técnica contemporânea tem um significado di-
ferente: 1. A avareza da natureza aparece cada vez menos como um
problema local, porém os limites impostos pelos meios à ação huma-
na não deixaram de existir; mudaram de caráter, manifestam-se mais
pela multiplicação das poluições do que pela impossibilidade de pro-
duzir aquilo que precisamos; mudaram também de dimensão, o equi-
líbrio global do planeta está ameaçado pelo efeito estufa, o buraco de
ozônio etc.; 2. a maior facilidade da vida de relações não leva a uma
uniformização geral da Terra; a função dos lugares e a dos sentimen-
tos de enraizamento é maior que no passado.
Para explicar essas evoluções, é indispensável desenvolver uma
reflexão sobre a epistemologia de nossa disciplina.

As grandes famílias epistemológicas da geografia

A modernização dos enfoques tradicionais e os problemas oriundos da


globalização

Os enfoques naturalistas e funcionalistas conheceram durante


os últimos trinta anos uma modernização inegável, o que os tornou
mais aptos a tratar das realidades do mundo atual. Graças às perspec-
tivas sistêmicas, pode-se compreender as evoluções complexas que
conduziram à extensão das áreas vítimas de poluições, do
desregulamento dos mecanismos que regiam os equilíbrios naturais
no planeta — efeito estufa, buraco do ozônio etc.

39 §s)
Francisco Mendonça e Salete Kozel. (Orgs.)

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Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

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1 - GEOGRAFIA CRÍTICA

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VELHOS TEMAS, NOVAS FORMAS

Ruy Moreira

As décadas de 70-80 são atravessadas por um rol de temas


cujo significado só com a sucessão dos anos foi se definindo. Por falta
de uma clareza maior, designou-se de crise a esta conjuntura, termo
indicativo de uma compreensão imprecisa mas igualmente anunciativo
da percepção de que mudanças mais amplas estão por acontecer. A
geografia, a exemplo de outros campos de saber, mostrou-se teorica-
mente desarmada para o desafio intelectual então posto, entrando
numa fase de transformações críticas a que se denominou renovação
da geografia brasileira'. Passados todos estes anos, pode-se operar um
mergulho mais profundo no rol daqueles temas, esclarecer-lhes o sen-
tido e mapear seus desenvolvimentos. Quais eram estes temas? Que
realidade está se expressando através deles? Como se resolveram ou se
desdobraram no tempo?

1 Todo movimento de ideias traz um nome de batismo que o identifica. Com o movimento
nascido nos anos 70 não foi diferente, e recebeu diversos nomes: Santos denominou-o geografia nova (em
contraposição à nova geografia, designação também dada à geografia teorético-quantitativa, objeto da crítica
do autor); Oliveira, geografia libertária; Moraes e Costa, geografia crítica; chamei-a geografia marginal;
Silva, renovação (terminologia que tenho adotado). Este texto trata do temário da renovação, sua atualidade
e vencimento. O convite ao leitor é para a análise dos conteúdos desses temas e dos modos de enfrentá-los
hoje. O nome com que a intelligentsia geográfica tenha se reconhecido, seu significado, selos, zelos e rubricas
é um problema da história institucional, que o leitor interessado fica convidado a fazer. Para o estudo do
ternário e desenvolvimento da renovação no período inicial da década de 1978-1988, bem como a bibliogra-
fia correspondente, remeto o leitor a Assim se passaram dez anos (A renovação da geografia brasileira no
período 1978-1988), texto publicado em versão final na revista GEOgraphia, número 3, ano de 2000, e do
qual este pode ser considerado de certo modo uma continuidade.

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Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

O espaço-ação

Uma teoria da ação tendo o espaço como objeto está assim


embutida na crítica. Não se pensa a renovação no seu sentido discursivo,
sem o passo prático correspondente. O ser deságua no como deve ser
(tema de um texto de Kropotkine, referido à geografia física). O dis-
curso da crítica desdobra-se numa práxis (SANTOS, 1978, 1996).
A ponte de ligação entre a crítica teórica e a ação prática do
discurso construído é a abertura da renovação ao debate crítico e de
renovação que está acontecendo em todas as demais áreas de saber.
Sobretudo, quanto ao papel da determinação espacial das sociedades
na história. A tese do espaço como mediação da reprodução das rela-
ções estruturais da sociedade é o elo da ação: Lefebvre fala de
reprodutibilidade (1969), Foucault (1979) e Thompson (1998) de
disciplinarização, Deleuze e Guattari (1995) de controle, todos reme-
tendo ao espaço como mediação e regulação do processo da história,
politizando o debate do papel do espaço na teoria social moderna.

Os temas

Os temas concretos que se movem por trás desse debate apa-


rentemente acadêmico entretanto evoluem de modo mais rápido que
a reciclagem da ciência, ultrapassam-na para só se reveleram mais à
frente: temas que expressam já claramente um corte estrutural em cur-
so na história e temas que só com o tempo tornam claras suas tendên-
cias.

50
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

A crise dos paradigmas e modos de atitudes

A crise das formas clássicas de representação de mundo já


aparece nos anos 70. Através da literatura, ganha grande transparên-
cia no período, embora esteja claro que remonta à virada do século,
particularmente com o surgimento da teoria da incerteza, entre os
físicos. A teoria da relatividade de Einstein, ao mesmo tempo fim e
sobrevida da física clássica, tem remate com o desenvolvimento e
popularização das descobertas quânticas. Em consequência, toda uma
representação de mundo assentada na exatidão físico-matemática entra
em ruína. E se abre o debate do estatuto da verdade científica e de
todo o paradigmático de representação clássica nela referenciado
(MOREIRA, 1991). Críticas vindas do mundo da filosofia e das artes,
campos discordantes de uma concepção imperial de verdade,
instrumentada na certeza científica oriunda da física, e por isso pouco
ou marginalmente ouvidos, ascendem agora. A lei da gravidade, tudo
isto deixa claro, não é universal, bem como não é universal um mun-
do assentado em leis físico-matemáticas. A desordem quântica é tão
verdade científica, quanto o é a ordem gravitacional. E as teorias de
mundo são formas de representação, guardando seus limites. É o que
ganha foro.
A devastação ambiental, que se torna banalidade em toda a
escala do planeta, generalizada pela uniformidade técnica da ocupa-
ção dos espaços feita em nome da racionalidade econômica, põe a
última pá de cal na verdade do paradigma técnico-científico vigente.
O tema ambiental junta-se ao tema das representações da natureza,
levando o debate a centrar-se na reformulação da ideia paradigmática
de natureza, espaço e tempo.
É que a relação entre o homem e a natureza ganhara um
caráter utilitário por excelência, diante de um proveito econômico
que jogara para trás a finalidade da troca metabólica; homem, traba-
lho e técnica aparecendo como algozes de uma natureza indefesa di-
ante de uma ideologia do progresso, que tudo desominiza, sobretudo
o próprio homem. Então, como numa reação em cadeia de quem
acumulara forças aguardando seu momento de retorno, eclode ao lon-
go dos anos 60 aos 80 uma sucessão de desastres ecológicos de efeitos

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Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

destrutivos, que sepultam os argumentos de eficiência sociohumana


da razão técnico-científica hegemônica. De Minamata a Chernobil, o
discurso do progresso é minado ponto a ponto, condenando a socie-
dade industrial e suas representações de mundo à falência (GONÇAL-
VES, 1989).
Em consequência, novas formas de olhar o real vão apare-
cendo, a epistemologia oferecendo-se como o solo fértil da crítica.
Crítica da técnica, do modelo econômico centrado no lucro industri-
al, do primado da razão sobre a sensibilidade humana, e, mais para a
frente, de toda forma de metanarrativa.
Uma atitude perceptiva nova aqui e ali vai aparecendo, de
início na forma da chamada à consciência ecológica, formulação ain-
da carregada da linguagem simbólica de esquerda, e nada pós-moder-
na. E uma compreensão multioriginada e multiorientada dos fenô-
menos, centrada no fluxo da informação e da linguagem, e resolvida
no modelo das processos de ressintetizações, a exemplo dos processos
de constituição da vida no planeta, ganha força e forma de pensa-
mento (MOREIRA, 1993).

A descentralização fabril

Do século XIV ao XIX, com ponto de referência no século


XVIII iluminista, molda-se no ocidente europeu uma sociedade
centrada na indústria fabril. A necessidade da acumulação fabril ori-
enta o conjunto das trocas, das relações do trabalho e da produção,
determina de modo incisivo todas as formas de representação, e defi-
ne os modos de percepção e atitudes diante do mundo daí em diante,
para tanto servindo-se dos modos de organização do espaço e do tem-
po (MOREIRA, 1998).
A instituição, auge e crise do paradigma clássico estão relaci-
onados à emergência, crise e decadência da sociedade industrial. É
conhecido o vínculo do mundo visto como modelo físico-matemáti-
co com o sistema de máquinas da fábrica, instituído pela revolução
industrial, a relação de reciprocidade existente entre a física da gravi-

o 52
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

dade e a engenharia desse sistema, sua semelhança com a engrenagem


de um relógio. Sabemos ser esta a origem da ideia de natureza, espaço
e tempo vigentes.
Todo a sociedade que aí se desenvolve está orientada nesse
sentido de construir-se à imagem e semelhança da centralidade fabril:
a fábrica é posta no centro de um arranjo de espaço que vai se
modelizando em termos de centro e periferia, primeiramente na escala
regional, depois nacional e por fim mundial, tendo a divisão territorial
do trabalho fabril por motor-agente desse figurino e a uniformidade
da técnica saída de dentro da fábrica por veículo (MOREIRA, 2000b).
A região é a matriz espacial dessa sociedade da centralidade
fabril, distinguindo-se duas formas de arranjo: a região homogênea,
nas fases da acumulação mercantil e inicial da acumulação industrial
(período respectivamente da subsunção formal e da proeminência da
mais-valia absoluta); e a região polarizada, na fase da acumulação
industrial propriamente dita (período da subsunção real, com proe-
minência da mais-valia relativa).
A formatação homogênea corresponde ao período de for-
mação dessa sociedade, isto é, às fases imediatamente anterior e inici-
al da revolução industrial. O arranjo do espaço mal está saindo do
arcabouço originado pelas formações sociais antecedentes (a feudal,
no centro-noroeste europeu). O desenvolvimento técnico é ainda o da
indústria domiciliar (out-putting system). E a organização espacial de
conjunto está entregue ao domínio da intermediação mercantil. O
capital mercantil deve por em ordem e integrar uma produção parce-
lar, desconcentrada e dispersa, que domina de forma indireta por meio
da esfera da circulação. Só a cidade mercantil (o burgo) apresenta
alguma capacidade de integração do território, e o faz valendo-se de
meios de transporte e comunicação precários e da máquina de um
Estado Nacional ainda insuficientemente organizado. A velha paisa-
gem das velhas sociedades agrárias domina o visual de um arranjo do
espaço que começa a conviver com os de uma industrialização tateante
e de inserção espacial ainda indivisa, quadro consagrado pelos textos
de La Blache. Onde, entretanto, a acumulação mercantil é mais ex-
pansiva, e em face disto o Estado Nacional vê-se territorialmente mais
integrado e o arranco rumo à revolução industrial encontra-se mais
claro, a matriz espacial da região homogênea se firma, definindo suas

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Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

estruturas, traços paisagísticos, limites e fronteiras, dividindo em seg-


mentos de trabalho e mercado o espaço nacional enfim constituído.
A formatação polarizada vem logo a seguir, na esteira da
consolidação da nova indústria. Localizada num ponto ao redor do
qual organiza-se a cidade, a fábrica molda para trás e para frente as
relações de montante e de jusante de sua rede de influências, cruza-a
com a rede de outras fábricas, formando o espaço complexo da soci-
edade industrial. Posta agora a serviço da indústria, a acumulação
mercantil centra na cidade o comando da relação com o entorno ru-
ral, iniciando a formação de uma rede de hierarquia urbano-regional
entre as cidades, posicionadas em função dos respectivos equipamen-
tos terciários. Progressivamente, o recorte dos espaços hierárquicos e
superpostos dos polos urbano-regionais redesenha e substitui o recor-
te da região homogênea, já esgarçada pelos fluxos de trocas emanados
das cidades, reconfigurando as segmentações do espaço nacional nes-
sa rede hierarquizada de regiões polarizadas.
É quando a esfera da circulação financeira se autonomiza da
esfera de produção da indústria, dissolve os recortamentos regionais
da acumulação industrial-mercantil e organiza o todo do espaço
mundial nos circuitos da acumulação do dinheiro. O espaço da
centralidade fabril começa a ser dissolvido numa espacialidade orga-
nizada sem fronteiras, cujo resultado é o atual espaço mundial
globalizado em rede (MOREIRA, 1997a).

A metamorfose do valor-trabalho

Esta sucessão de reconfigurações de relação e arranjos do es-


paço interage com as metamorfoses do valor e do trabalho, refletidos
nos modos de articulação entre as esferas da produção e circulação.
Pode-se reduzir a três os modos de articulação das esferas,
com suas respectivas formas de expressão do valor e do trabalho: o
mercantil, o industrial e o financeiro. O elo de ligação é o modo cor-
respondente de acumulação.

o 54
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

Acumular na fase mercantil significa especular com os pre-


ços dos produtos da produção parcelar, comprados a níveis baixos e
vendidos a níveis altos no mercado, acumulando-se com a diferença.
O capital não tem a propriedade da esfera da produção, dominada e
conduzida pelo pequeno produtor parcelar independente, controlan-
do-a e organizando-a de fora, indiretamente, a partir da esfera da
circulação. O valor de uso é a forma de valor predominante, que o
capital incorpora transformando-o em valor de troca através da
sobreposição do mercado.
Diferente é acumular na fase industrial. Acumular significa
capital assumir diretamente a tarefa da produção do excedente, de
modo a tornar o valor de uso em valor de troca desde o berço nascen-
te, levando o domínio da esfera da produção até a esfera da circula-
ção, numa relação invertida com e entre as duas esferas, e assim
hegemonizando sob esta forma o circuito do valor por inteiro. O va-
lor de troca é a forma-valor predominante, o valor de uso vinculan-
do-se a uma esfera da produção desde o início definida como produ-
ção de mercadorias. Vínculo somente possível por meio da criação da
sociedade do trabalho. A produção da mercadoria no capitalismo é
filha do trabalho abstrato, trabalho que não é a atividade específica
de nenhum dos produtores de valor de uso (chamado trabalho con-
creto), mas a soma dos trabalhos parciais criados pela e na divisão do
trabalho (chamada trabalho coletivo), nascendo assim o valor como
quantidade média necessária de tempo de trabalho encarnada em cada
unidade de produto (cada mercadoria) e o trabalho como atividade
assalariada definida em contrato. O trabalho abstrato surge das trans-
formações estruturais geradas na primeira fase pela acumulação mer-
cantil, que retira e separa o trabalho abstrato do trabalho concreto, e
dá partida a todo o desdobramento acima analisado, nascendo dessa
reestruturação a sociedade do trabalho, caracterizada pelo mercado
da força de trabalho e da relação contratual do salário, onde o mun-
do do trabalho define-se em função do mundo (produção e realiza-
ção) do valor, tendo a economia industrial como centro e fundamen-
to (é a sociedade do trabalho o que vemos analisado por Marx em O
Capita/).
Mais diferente ainda é acumular na fase financeira. Significa
capital desconectar-se da relação direta ou indireta com as esferas,

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Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

seja da produção e seja da circulação das fases anteriores, para centrar


seu movimento no processo da circulação pura e simples do dinheiro.
O capital financeiro desconecta o valor da sua relação anterior com o
mundo da mercadoria, dando-lhe nova forma de existência. O valor
de uso e o valor de troca seguem existindo, mas o capital incorpora
em sua acumulação formas de excedentes vindas de várias proveniên-
cias (que se somam ao valor oriundo da produção industrial capitalis-
ta), que atuam como fontes e formas distintas de valor. O valor e o
trabalho tornam-se assim fenômenos polissêmicos. O trabalho
reaproxima-se da forma que encontramos no conceito metabólico e o
valor acompanha esta forma multifacética do trabalho Esta alteração
do mundo do trabalho reflete-se na sociedade do trabalho, mudando-
a de forma (MOREIRA, 2002).

A sociedade do híbrido e da diferença

À passagem da sociedade da centralidade fabril para a socie-


dade da poliformia do valor e do trabalho, dissolvendo a centralidade
como fundamento na viscosidade fluida das relações em rede, está
relacionada a amergência do híbrido e da diferença.
A sociedade da centralidade fabril é uma sociedade alicerçada
na dicotomia e na identidade (a representação industrial fala do
dicotômico e do idêntico). Tudo é dividido em pares de opostos sepa-
rados e por meio desse método classificado por semelhança. Os gru-
pos são arrumados em pares dicotômicos e classificados em grupos de
identidade.
O paradigma clássico tem aí sua origem, identificado com o
discurso da dicotomia e da identidade (DELEUZE, 1988).
A dicotomia nasce da invenção da racionalidade moderna.
Separa-se razão e não razão, criando-se o racional e o irracional como
mundos distintos e reciprocamente excludentes. Tem origem assim a
invenção da loucura, vinda da separação radical entre o sadio e o
louco, o dotado e o destituído da razão (FOUCAULT, 1979). Tomada
como medida das coisas, a razão é preenchida de um conteúdo mate-

o 56
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

mático. Tem origem aí a invenção da natureza e do homem moder-


nos, e, pelo mesmo lance, o tempo e o espaço, sempre vistos como
pares separados, dicotomicamente excludentes e identificados um com
a presença e outro com a ausência da razão e da racionalidade. Assim,
distinguem-se, a partir da fronteira estabelecida pela razão, natureza e
homem (a natureza é a razão matemática, dirão os físicos Galileu,
Descartes e Newton, e o homem a não razão, dirão os metafísicos,
que só a educação ilustrada racionaliza e corrige) espírito e corpo,
ciência e arte (definidos como razão e sensibilidade), ocidente e orien-
te, civilização e barbárie, todas dicotomias de enorme significado geo-
gráfico (MOREIRA, 1991).
A identidade vem da classificação que em função dessa fron-
teira o método científico estabelece. Assim, separados por suas dife-
renças e agrupados por suas semelhanças, os fenômenos, coisas e obje-
tos, são definidos por suas identidades. Na prática, a identidade é
rejeitada pela empina (onde o que existe é a diferença) e só existe por
força do e no conceito (MOREIRA, 1999).
O híbrido nasce por decorrência (SCHÜLER, 1995). Surge do ato
da razão reunir num só lugar tudo que separa e rejeita no ato da dicotomia.
Tudo o que rejeita na dicotomia, a razão junta no lado oposto, misturando
num híbrido. A razão é o claro, o preciso, o puro ou depurado (o espírito, a
ciência, a civilização, o ocidente). O híbrido é então o impuro e o misturado
(o corpo, a sensibilidade, a barbárie, o oriente).
Este antagonismo entre a razão e o hídrido é a origem do
espaço geográfico moderno: a razão é o ocidente europeu científico,
industrial e ilustrado, o colonizador portador da luz da civilização. O
híbrido é o mundo do colonizado: o bárbaro inculto, o exótico, o
corpo-sensualidade dos mestiços, o fantástico e o encantado expulsos
pela razão ilustrada para a periferia da Europa (o trópico brasileiro,
para onde o europeu expulsa seus criminosos e degredados para dar
início à colonização).
Oculta na identidade, a diferença se liberta no hídribo. É o
múltiplo, o outro, o contrário com direito de cidadania na dialética
da unidade (mesmo quando esta unidade chama-se identidade).
Eis que a globalização financeira poliformiza o valor e o
trabalho, e assim libera o espaço do híbrido e da diferença. Então,
subitamente, o ocidente descobre o híbrido e a diferença como o múl-

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Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

tiplo dissolvido na dicotomia e na identidade. E descobre-os junto à


economia política da poliformia. Até porque a diferença é o cidadão
geográfico do espaço em rede (MOREIRA, 1999a).

A reinvenção da regulação geográfica

Cabe assim reinventar a regulação espacial, em vista duma


sociedade multifacetada no valor, no trabalho, no híbrido, na dife-
rença.
O caráter mediador do espaço assume diferentes conforma-
ções de acordo com a sociedade existente. É regulação da hominização
do homem pelo próprio homem por meio do processo do trabalho no
té/os da história. Mas é regulação das relações de domínio nas socie-
dades de classes.
Não por acaso, espaço e território indistingem-se na socie-
dade capitalista, onde mediação significa hegemonia. Quem tem o
domínio do espaço, tem o poder de determinação dos territórios, e
vice-versa. Dito de outro modo: quem domina a mediação, determi-
na seu modus operandi, as fronteiras que separam o meu do teu, o eu
do outro, a circunscrição dos mercados, a região, o país, o mundo.
Por isso que a escala dos recortes de hegemonia e contra-hegemonia
faz do território uma estrutura tão complexa quanto o espaço
(MOREIRA, 2001).
A sociedade polissêmica, sociedade do híbrido e da diferen-
ça, pede esta regulação. Se o mundo da finança globalizada é o mun-
do do valor e do trabalho polissêmicos, não se pode validá-la numa
regulação espacial configurada aos pares, própria da classificação dos
homens na perspectiva da dicotomia e da identidade.
Há que reinventar a regulação espacial. E há que começar
pela reinvenção dos métodos e das representações geográficas (da pró-
pria geo-grafia, como forma de representação). Na sociedade
pluralizada, onde a economia política do espaço vira o espaço políti-
co da economia que acumula sobre a diferença, a regulação espacial
deve falar a linguagem da diferença e do híbrido. Idem as representa-

58
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

ções. Não mais servem os registros puros da geografia física diante de


uma natureza hibridamente socializada. Também não servem os de
uma geografia humana pura, diante de uma cultura técnica que tem
que dar conta do metabolismo reconsiderado. Não serve mais a velha
cartografia (MOREIRA, 1991, 1997a).
A desconstrução territorial neoliberal do presente tem essa
lógica da ida a uma configuração normativa nova que reafirme os
espaços de domínio, mas não a penetre da representação das frontei-
ras (MOREIRA, 1998b).

O espaço, determinidade principal da história

O múltiplo e o outro põem então em evidência a


determinidade concreta do espaço, longamente obscurecida pela
determinidade abstrata do tempo. E a possibilidade do resgate. Reside
aqui a brecha e a artimanha da sociedade do híbrido e da diferença.
O resgate do espaço é obra da razão técnica, a mesma razão
que em nome da dicotomia e da identidade o suprimira diante do
tempo. Quanto mais as relações espaciais vão se construindo pela téc-
nica no tempo, mais a história vai se tornando espaço que tempo,
numa crescente densificação histórica do espaço ou densificação espa-
cial da história (Santos fala do espaço como empiricização do tempo
pela técnica, indicando a técnica como veículo da densificação
sociotemporal do espaço) que torna impossível entender-se a história
sem o espaço (SANTOS, 1978, 1996). O ente suprimido vai assim
emergindo da sua obscura subalternidade na história das sociedades,
estas redescobrindo-se sucessivamente como espaço.
A chamada crise ambiental é o momento de virada desta
troca de sinais entre as categorias do espaço e do tempo. Menos que
um evento datado, o problema ambiental é um acontecimento locali-
zado, e decorrente do modo de localização. Por isso a insistente liga-
ção da crise ambiental com a explosão da sociedade técnica na litera-
tura referida ao tema. Afinal, o espaço é a relação metabólica do ho-
mem com a natureza, vista na escala da sua expressão social. No que

59
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

interagem desde o berço comum espaço e meio ambiente. Alterar um é


alterar o outro, reinventar um é reinventar o outro, desequilibrado
um está desequilibrado o outro, por força dessa imbricação solidária.
Daí a concomitância do resgate do espaço e da relação me-
tabólica do homem, na busca de uma nova forma de representação.
Eis o termo da brecha. E eis também da artimanha. O espaço
é resgatado desde o contexto da história natural até o da sua conver-
são em história social como produto e mediação concreta da troca
metabólica, abrindo para a redescoberta da história como processo de
hominização do homem pelo próprio homem através do processo do
trabalho, mas para o fim da reinvenção da sua dimensão técnica (fala-
se da diferença como biodiversidade, linguagem da nova técnica), e
não para o resgate do homem emancipado na hominização por si
próprio.
Toda reinvenção traz alguma forma de retorno às origens.
Assim, o espaço é resgatado na sua interação com o tempo, como
igual, nessa volta ao contexto do homem metabólico. Mas a
geograficidade redescoberta é uma contextualidade sem a dialética
que a informa (MOREIRA, 1999b). Fica de fora a essencialidade
ontológica da hominização do homem pelo próprio homem. A histó-
ria do homem segue existindo, mas como uma geograficidade sem
estrutura, sem sujeito e sem projeto (MOREIRA, 1997b).

Velhos temas, novas formas

Passadas mais de duas décadas, a borboleta saiu do casulo.


O mundo se faz como representação. A realidade do capitalismo entra
numa nova fase de espaço-temporalidade. A consequência é a morte
(ou uma nova morte) da sociedade do trabalho.
Clarificados nessa perspectiva, são infinitos os termos do des-
dobramento. Muda o significado da relação e muda assim o universo
dos conceitos. Um ardil dos deuses da ontologia, atingindo em cheio
nossa capacidade de intervir no mundo.

60
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

Referências

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61
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

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62
PEQUENAS ARGUMENTAÇÕES PARA
UMA TEMÁTICA COMPLEXA

Eliseu Savério Sposito

Introdução

Expor ou debater ideias sobre este tema (geografia crítica)


pode levar ao lugar comum que se tem assistido, de maneira geral, nas
abordagens ditas epistemológicas do pensamento geográfico. Vários
textos já publicados abordam essa temática por vários ângulos
(ANDRADE, 1987; CAPEL, 1981; CLAVAL, 1993; CORRÊA, 1989;
DI MÉO, 1991; GREGORY, 1996; LENCIONI, 1999; MENDOZA
et al., 1982; MONTEIRO, 1980; MORAES, 1981, 1986 e 1990,
MOREIRA, 1982; PEREIRA, 1989; QUAINI, 1979 e 1983; SAN-
TOS, 1978; entre outros). Se fizermos uma leitura atenta de todos
eles, veremos que uma característica é recorrente: o dimensionamento
temporal dos acontecimentos, principalmente do passado para o pre-
sente, procurando se enquadrar, sempre, a discussão do pensamento
geográfico em uma linha do tempo estabelecida pelo autor.
Esse esquema de abordagem das "geografias" produzidas não
pode ser apontado como errado, ultrapassado ou ineficiente, pois to-
dos os autores citados (e tantos outros aqui omitidos) mantiveram-se
atentos aos fatos e às ideias que apresentaram. No entanto, a ligação
direta entre o que se pensa e o tempo cronológico tem levado muitos
autores a produzir textos enfadonhos e com "cara" de dejà vu, que
não atrai mais nossa atenção nem provoca maiores reflexões.

63
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

Afirmações como essas poderão levar o leitor a um julga-


mento severo do que estamos escrevendo, considerando o texto como
pretensioso ou, no mínimo, inadequado para a comunidade científi-
ca. Mas é exatamente a inquietação por pensar como refletir, de ma-
neira diferente mas não errada, de maneira resumida mas não
exageradamente incompleta, que queremos apresentar e submeter à
análise do leitor.
Uma vez levantada esta preocupação com a maneira de apre-
sentar o conteúdo, vamos a algumas reflexões iniciais.
Para se interpretar uma temática como geografia crítica, se-
ria bom, no mínimo, levar em consideração a palavra mais polêmica
dessa tendência do pensamento geográfico, que é a palavra crítica.
Qualquer dicionário de filosofia traz a origem e a descrição dessa pa-
lavra. Originária do grego (kritiké, que significa arte de julgar), a pala-
vra vai tomando diferentes sentidos científicos e filosóficos (e aqui
não vamos tecer nenhum comentário sobre o significado da palavra
no nível do senso comum). Para Japiassu (1989), crítica significa "juízo
apreciativo, seja do ponto de vista estético [...], seja do ponto de vista
lógico [...], seja do ponto de vista intelectual (filosófico ou científi-
co)...". Por outro lado, na filosofia, quando a palavra crítica incorpo-
ra um sentido kantiano, ela possui o "sentido de análise" (p. 62).
Vejamos: já buscamos, no grego, o significado etimológico
da crítica. Podemos, doravante, seguir "criticamente" seu sentido para
fazer uma leitura das principais ideias, teorias, conceitos e, até mes-
mo, das análises feitas dessas ideias, teorias e conceitos, num exercício
de abordagem epistemológica do pensamento geográfico. Se o fio con-
dutor for a "linha do tempo", do passado para o presente, com a
enumeração de autores e suas contribuições, vamos voltar ao "lugar
comum" já bastante conhecido de todos nós.
É preciso lembrar, no entanto, que não estamos propondo,
aqui, algo revolucionário e jamais visto na discussão da geografia crí-
tica. Apenas queremos iniciar nossa exposição lembrando, como deve
ocorrer sempre, que é preciso analisar (e criticar) o pensamento geo-
gráfico de uma perspectiva científico-filosófica que vai além dos fatos
e da importância de cada um daqueles que faz a análise.

64
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

A necessária discussão da linguagem

Em primeiro lugar, é preciso uma aproximação bastante ín-


tima com a filosofia, mesmo que os geógrafos não precisem ser nem
parecer, em momento algum, filósofos. Vamos ficar próximos da filo-
sofia e emprestar, dela, as "ferramentas" que precisarmos para discutir
o pensamento geográfico, a principal ótica pela qual deve ser pensada
a geografia crítica.
Uma das primeiras atitudes a ser adotada é o rigor com as
palavras. Em português, há grandes dificuldades para se utilizar, ade-
quadamente, as palavras de acordo com seu significado mais profun-
do. Sem entrar no mérito dessa questão, precisamos estar conscientes
de que isso, realmente, ocorre.
O rigor deve ser observado, primeiramente, quando procu-
ramos utilizar as palavras-chave do discurso epistemológico. Quando
falamos de conceito, categoria, ideia, ideologia, por exemplo, preci-
samos ter claro o que, exatamente, essas palavras significam'.
O caminho necessário é o recurso às características da lin-
guagem, desenvolvidas na teoria do conhecimento.
A linguagem é importante para a elaboração, através das di-
ferentes formas de pensar, de respostas reflexas para as diferentes in-
formações percebidas pelo indivíduo, quando ele utiliza, como recur-
so, o cérebro humano para perceber objetos e acontecimentos em dife-
rentes contextualizações. Isso permite o conhecimento do mundo, a
comunicação do indivíduo com as pessoas e permeia a própria forma
de pensar de cada um de nós. É importante lembrar, neste momento,
que os processos mentais vão formando os "modelos" do mundo,
segundo os padrões que se elaboram com seus respectivos sentidos,
que permitem ao indivíduo sua localização no tempo e no espaço e
seu posicionamento social.
Para Adam Schaff (1991), o indivíduo exerce papel ativo no
processo de construção do conhecimento de acordo com três fatores:

1 O rigor ao qual nos referimos, torna-se cada vez mais necessário, porque temos observado,
ao longo dos anos trabalhando na docência universitária, uma depreciação contínua e lamentável da língua
portuguesa por parte dos segmentos discentes. Não cabe aqui discutir as razões, mas esta constatação precisa
ficar registrada.

65
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

a estrutura do aparelho perceptivo do sujeito; a língua com a qual ele


pensa e se comunica; e os interesses de classe ou de grupo (p. 90), o
que permite lembrar, como já afirmou Bordieu (1996), que o conheci-
mento é, assim, por definição, condicionado socialmente, porque o
"conhecimento científico se inspira na convicção de que não pode-
mos capturar a lógica mais profunda do mundo social a não ser sub-
mergindo na particularidade de uma realidade empírica, historica-
mente situada e datada" (p. 15).
A linguagem é, em sua constituição abstrata, simbólica (os
signos, os significantes e os significados variam com os diferentes idi-
omas e com as culturas a eles relacionadas), complexa (os significados
são variados e diferentes palavras podem indicar significados seme-
lhantes) e compósita (diferentes unidades simples se desdobram e se
multiplicam infinitamente, variando de acordo com as regras sintáti-
cas e com as comunidades linguisticas) (GARCIA, 1988, p. 53).
A palavra e os signos carregam diferentes significados que
variam de acordo com o tempo, o lugar em que são expressos, o idio-
ma e as características culturais do grupo que os utilizam. Sem ir além
da simples lembrança, basta lembrar as mudanças provocadas, nas
últimas décadas, pela introdução da informática e da sua linguagem,
altamente cifrada, em diferentes domínios sociais.
O exemplo da informática permite uma reflexão bem sim-
ples sobre a utilização de um termo grego. Ao se referir aos textos
curtos e objetivos que devem compor as home-pages, todos falam em
hipertextos. No entanto, se formos buscar a melhor composição
vernacular, devemos falar em hipotexto, que seria o termo mais ade-
quado para indicar o significado desse tipo de texto escrito. Outro
exemplo que lembramos, já incorporado pela comunidade geográfi-
ca, é a denominação a uma vertente chamada "geografia teorética". A
palavra teorética, que em português significa teórico e aparece na ge-
ografia como uma tradução da palavra theoretical (que, em inglês,
significa teórica ou teórico), levou à aceitação e incorporação por to-
dos, sem contestações aparentes, do adjetivo teórico por apenas uma
corrente doutrinária inspirada no neopositivismo, negligenciando qual-
quer outra possibilidade de outras correntes também produzirem teo-
rias. Como as palavras são transmitidas pelos pesquisadores e profes-
sores, a comunidade, quando desavisada, vai incorporando neologis-

66
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

mos ou mesmo palavras utilizadas inadequadamente, como corretos.


Esse é um primeiro cuidado que precisamos tomar quando procura-
mos os termos mais adequados para expressar o que estamos pensan-
do. Os modismos podem parecer simpáticos, mas não são, necessaria-
mente, corretos.
Indo além das palavras, vamos refletir um pouco sobre o
conhecimento. Ele comporta alguns problemas. Morin (2000) afirma
que "todo conhecimento comporta o risco do erro e da ilusão" que
"parasitam a mente humana" e, por isso mesmo, "a educação deve
mostrar que não há conhecimento que não esteja, em algum grau,
ameaçado pelo erro e pela ilusão" (p. 19-20). O conhecimento, en-
fim, está sujeito a erros (mentais, intelectuais e da razão) por causa
das formas sob as quais se apresenta: palavra, ideia, teoria, por exem-
plo.
Mesmo assim, não é a possibilidade de se incorrer no erro
que deve inibir as tentativas de leitura do pensamento geográfico. Um
dos caminhos, a nosso ver, é pela utilização do método e pela leitura
dos paradigmas.

A leitura dos paradigmas e o emprego do método

Podemos iniciar este item mostrando o que Morin (2000)


fala sobre paradigma. Para ele, o paradigma define as "operações ló-
gicas-mestras", considerando-se que "o nível paradigmático é o do
princípio de seleção das idéias que estão integradas no discurso ou na
teoria, ou postas de lado e rejeitadas", condicionado pela operação
lógica que o direciona (p. 25).
Por essas razões, "os paradigmas contêm suas componentes
ideológicas e doutrinárias e são, por sua força filosófica em designar
os parâmetros para a produção científica e filosófica e para a reflexão
epistemológica do conhecimento elaborado, condicionantes e entra-
ves para a liberdade de pensamento" (SPOSITO, 2000, p. 77).
Compondo o complexo "mundo" dos paradigmas, outro
ponto a ser considerado é a verdadeira "posição", no discurso

67 0
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

epistemológico, de cada termo, de acordo com seu significado ou,


pelo menos, com aquilo que procura indicar. E essa análise torna-se
altamente complicada porque, para ser realizada, exige, por causa da
complexidade do conhecimento, uma seleção do que se vai discutir. E
qualquer recorte da realidade adotado trará, imediatamente, à tona,
as suas próprias limitações.
Para começar, vamos expor, um pouco, do que compreende-
mos por método. Severino (1992), define o método como "o conjun-
to de procedimentos lógicos e de técnicas operacionais que permitem
ao cientista descobrir as relações causais constantes que existem entre
os fenômenos" (p. 121).
Fazendo um exercício baseado no tempo cronológico, va-
mos buscar, entre os atenienses, o que significava o método. Para eles,
método restringia-se à arte de dominar o discurso (retórica) porque,
para os sofistas, não havia normas estabelecidas para se verificar o que
era falso ou o que era verdadeiro.
Isso só vai mudar com as contribuições de Sócrates e, muito
mais tarde, durante o Renascimento, com René Descartes, criador do
subjetivismo idealista e racional que, partindo da dúvida constante,
cria um subjetivismo idealista e racional e rejeita as certezas dogmáticas
e prontas.
A partir daí, o empirismo inglês, o idealismo alemão, a dialética hegeliana, o
positivismo comteano e o materialismo histórico marxista serviram de bases
teóricas e doutrinárias para o desenvolvimento não só do conhecimento cientí-
fico e filosófico, mas de métodos diferentes e de posturas e interpretação da
realidade baseados em fundamentos diferenciados. Assim, se os pontos de
partida são racionalistas ou empiristas, materialistas ou idealistas, os métodos
são utilizados dependendo da própria intencionalidade do investigador
(SPOSITO, 2000, p. 22).

O método não se resume a uma palavra que pode ser utiliza-


da de qualquer maneira, significando qualquer procedimento que se
aproxime de uma atividade científica. A sua estruturação (que con-
tém, inclusive, elementos incorporados historicamente) levou-nos à
diferenciação entre três métodos que se desdobram, de acordo com o
rigor de cada um, em outros "métodos" científicos.
Sem qualquer preocupação com sua importância filosófica
ou histórica, podemos dizer que um primeiro método é aquele que

o 68
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

chamamos de hipotético-dedutivo, que se baseia fundamentalmente


em algumas regras, que são: a evidência (a partir da qual não se deve
admitir nada como verdadeiro a não ser quando ela é reconhecida
como tal); a análise (que se realiza a partir da divisão do fenômeno
em tantas parcelas quantas forem possíveis para um melhor
discernimento de sua composição); e a síntese (que define o encami-
nhamento do pensamento do indivíduo, partindo de reflexões mais
simples para se atingir aquelas mais complexas, desde que nada seja
omitido).
No século XX, Karl Popper incorpora, ao método hipotéti-
co-dedutivo (na tendência doutrinária denominada neopositivista), a
noção de falseabilidade, argumentando que o conhecimento só pode
ser considerado científico se ele resiste a qualquer refutação, indican-
do que houve progresso para a ciência. Para ele, a lógica se baseia nos
procedimentos científicos adequados a um sistema lógico de raciocí-
nio estruturado pela linguagem matemática.
Outro método que precisamos considerar é o
fenomenológico, segundo o qual é preciso, sempre, avançar para as
próprias coisas. Sobre esse método, vamos ver o que buscou Armando
Corrêa da Silva (1986), em Bochénski, para resgatar a sua definição:
Podemos distinguir na fenomenologia dois traços fundamentais. Em primeiro
lugar, trata-se de um método que consiste em descrever o fenômeno, isto é,
aquilo que se dá imediatamente. Como tal, a fenomenologia não se interessa
pelas ciências da natureza e se defronta com o empirismo. Também renuncia —
e com isso põe-se em oposição ao idealismo — a tomar como ponto de partida
uma teoria do conhecimento. Deste modo, vemos que, como método, repre-
senta uma atitude radicalmente contrária a todos os traços que predominam no
século XIX. Por outro lado, seu objeto é constituído pela essência, isto é, o
conteúdo inteligível ideal dos fenômenos, que é captado em uma visão imedi-
ata: a intuição essencial (p. 54-55).

Mais especificamente falando da geografia, esse autor afir-


ma que a "valorização subjetiva do território" é decorrência de "reto-
mar a subjetividade como tema de trabalho". Por isso, uma das ten-
dências recentes é "apreender o significado do lugar", por não ser ele
"apenas algo que objetivamente se dá, mas algo que é construído pelo
sujeito no decorrer de sua experiência" (p. 55).

69
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

Finalmente, nessa organização dos métodos que compare-


cem claramente como instrumentos científicos e filosóficos para a nossa
reflexão, temos o método dialético.
Esse método, presente no pensamento de Aristóteles, foi tra-
balhado por Hegel no século XIX na perspectiva idealista. Foi estu-
dando esse último filósofo que Marx deu, ao método, uma perspecti-
va materialista.
Para Lefebvre (1983), é utilizando a dialética que "os pes-
quisadores confrontam as opiniões, os pontos de vista, os diferentes
aspectos do problema, as oposições e contradições; e tentam [...] ele-
var-se a um ponto de vista mais amplo, mais compreensivo" (p. 171).
A dialética, como "a ciência das leis gerais do movimento e
desenvolvimento da natureza, da sociedade e do pensamento huma-
nos" (LENCIONI, 1999), possui três leis, que podem ser resumidas da
seguinte maneira: a) a transformação da quantidade em qualidade e
vice-versa; b) a unidade e interpenetração dos contrários, e c) a nega-
ção da negação.
Michael Lõwy (1991), para quem não há apenas uma, mas
várias maneiras de definir o método dialético como concebia Marx,
utiliza, indistintamente e como sinônimos, os termos dialética mate-
rialista, materialismo dialético, filosofia da práxis e método dialético.
No entanto, aqui vale um alerta: o uso indistinto dos termos, princi-
palmente quando escrito sob a chancela de filósofos importantes, como
Lõwy, causam desserviço àqueles que pretendem se aprofundar no es-
tudo da epistemologia de qualquer ciência. Esse alerta é compartilha-
do com Frigotto (1989), para quem, em ciências sociais, é preciso
lembrar que:
- há uma tendência de tomar o 'método', ainda que dialético, como um conjun-
to de estratégias, técnicas, instrumentos;
a teoria, as categorias de análise, o referencial teórico, por outro lado, apare-
cem como uma camisa-de-força;
a falsa contraposição entre qualidade e quantidade é resultado de uma leitura
empiricista da realidade e a realidade empírica;
- é preciso pensar na dimensão do sentido necessário e prático das investigações
que se fazem nas faculdades, centros de mestrado e doutorado (sentido histó-
rico, social, político e técnico) e se ter o cuidado necessário com metodologias
que entram em cena, que se disseminam e são utilizadas indistintamente, como
aconteceu, recentemente, com a pesquisa-ação (p. 83).

70
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

Para completar essa rápida exposição sobre o método, preci-


samos lembrar que ele comporta, necessariamente, vários outros ele-
mentos sem os quais não se pode compreendê-lo.
Dessa maneira, temos que abordar o conceito de "doutri-
na", (do latim doctrina, que significa ensinamento, teoria), que se
refere ao conjunto de conhecimentos, princípios e teorias que deter-
minam "o caráter de verdade de um sistema filosófico, político ou
religioso" (JAPIASSU, 1989); como exemplo, podemos citar a doutri-
na cristã, a doutrina marxista, a doutrina darwinista etc.
Outro elemento que devemos lembrar é a "teoria", que se
define como um conjunto de conhecimentos ou modelo explicativo
que serve para se estabelecer uma leitura do mundo, de caráter
especulativo ou mesmo doutrinário.
Doutrina e dogma remetem, imediatamente, à "ideologia",
conceito que, se tomado em sua dimensão filosófica, vai muito além
do senso comum e é, desta maneira, muito mais complexo do que
parece. Ele se origina, no século XIX, com estudos de fenômenos bio-
lógicos e se transforma, ao longo do tempo, para significar conjunto
de ideias, princípios e valores referentes às formas como as pessoas
agem prática, científica e politicamente.
Karl Marx (juntamente com Friedrich Engels) dá um senti-
do diferente a essa palavra. Marx define seu significado "consideran-
do ideólogos aqueles metafísicos especuladores, que ignoram a reali-
dade" (LÕWY, 1985, p. 11), e é "nesse sentido que ele vai utilizá-lo a
partir de 1846 em seu livro chamado A ideologia alemã". Assim, para
Marx, ideologia "é um conceito pejorativo, um conceito crítico que
implica ilusão, ou se refere à consciência deformada da realidade que
se dá através da ideologia dominante: as idéias das classes dominantes
são as ideologias dominantes na sociedade" (LÕWY, 1991, p. 12).
Este parágrafo e o seguinte estão transcritos como já analisa-
mos anteriormente (SPOSITO, 2000), Lênin dá outro sentido à pala-
vra ideologia: ela é "qualquer concepção da realidade social ou polí-
tica, vinculada aos interesses de certas classes sociais", existindo uma
ideologia burguesa e uma ideologia proletária (p. 12), por exemplo.
Para completar, de maneira bem simplificada, o que precisa-
mos reter do conceito de ideologia, vejamos o que afirma Oliveira
(1990): "a ideologia é, antes de mais nada, um instrumento de domi-

71
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

nação que é utilizado para que seja mantida a dominação". Para que
não seja percebido o "mascaramento das propostas dos dominadores,
as idéias dominantes devem ser assumidas pelos dominados como suas
ou de sua classe" (p. 26). A assunção das ideias dominantes dá-se sob
a forma ideológica. Daí sua importância para explicar os conflitos
latentes entre classes ou grupos distintos na sociedade capitalista e a
intermediação do Estado como intermediário e como diminuidor das
possibilidades de conflitos.
Neste ponto do texto, temos que "fechar" o encaminhamento
dedutivo de nossa reflexão, afirmando que o método, em suas dife-
rentes formas de organização não prescinde da consideração de ou-
tros elementos como doutrina, teoria e ideologia, além da distinção
clara entre indução e dedução, que não são métodos, mas antes de
tudo, mecanismos intelectuais do exercício do pensamento humano,
dependendo do ponto de partida que se toma, sempre relacionando
as noções de totalidade e de singularidade, todo e partes, universal e
individual etc.
Todos esses elementos devem ser considerados, conjuntamen-
te, quando vamos estudar qualquer temática, teoria, conceito,
metodologia, desenvolvimento histórico etc., referentes a aspectos
epistemológicos de qualquer corrente da geografia e, entre elas, a geo-
grafia crítica.

Conclusão: o ponto de partida como proposta

Com tudo isso, vamos montando nosso sistema de aborda-


gem, interpretação e análise do pensamento geográfico, sempre consi-
derando a contextualização necessária para que a exposição não se
perca em discurso vazio. Lembrando Norbert Elias (1998), é preciso
"pensar o indivíduo a partir da multidão" (p. 21), para se inverter a
prática que se instaurou, na análise do pensamento geográfico, de se
pensar sempre o fato encadeado cronologicamente a outros fatos para
se realizar a epistemologia do conhecimento. É preciso superar a prá-
tica de se partir do fato tout court. Para Elias, "como em relação às

72
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

teorias geocêntricas, é compreensível que o sujeito possa, sem maiores


considerações, confiar em sua própria experiência e generalizá-la a
ponto de encarar o 'indivíduo' como ponto de partida de qualquer
reflexão referente ao vasto mundo" (p. 18).
Assim, a proposta de leitura da geografia crítica (como de
qualquer outra corrente doutrinária que teve conhecimentos produzi-
dos pelos geógrafos), passa pela busca dos vários elementos do méto-
do citados anteriormente. Podemos discutir o espaço e o tempo, por
exemplo, como categorias, num diálogo constante com a filosofia e
com a física. Os conceitos de região, espaço e território emergem como
referência importante na elaboração das teorias geográficas. E por fa-
lar em teorias, elas também poderão, sem qualquer sombra de dúvida,
servir de referencial básico para a epistemologia do pensamento geo-
gráfico.
Temas como modernidade e globalização (é preciso ter cui-
dado com essas palavras, quando elas se tornam ferramentas do dis-
curso ideológico!), recentemente incorporados às preocupações dos
geógrafos, podem ser tomados como ponto de partida para a crítica
do pensamento geográfico, desde que relacionados com ideias de so-
ciólogos, historiadores e antropólogos, por exemplo.
Esses temas2 podem ser enfocados por várias prismáticas: va-
mos explorá-los, doravante, um pouco pelo ângulo da urbanização,
para o qual a cidade no interior da metrópole contemporânea provo-
ca a discussão sobre a apropriação do território e a propriedade priva-
da, visualizada em meios da mídia através da violência policial, por
exemplo, que afeta diretamente o indivíduo, lembrando, com as devi-
das limitações, como já ocorrera, sob formas e intensidades diferentes,
quando se instaurou a propriedade privada nos interstícios do feuda-
lismo.
O papel de São Paulo como cidade global, mas também em
sua complexa organização interna: cidade de muros — físicos e sociais
— com segregação, obstáculos e encraves fortificados, com variadas
densidades demográficas, provocando desencontros no contexto geo-
2 Este e os três parágrafos seguintes contêm ideias e reflexões que foram livremente incorpo-
radas a partir das exposições e debates que ocorreram no 7° Simpósio Nacional de Geografia Urbana,
realizado em S. Paulo, entre 15e 19 de outubro de 2001. Não estão citados os expositores e debatedores
porque, em nosso texto, procuramos raciocinar sobre temas que possam auxiliar na reflexão de uma
metodologia para o estudo do pensamento geográfico.

73
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

gráfico, debilitando a construção da vida social. Por outro lado, São


Paulo também pode ser enfocada pela ótica do capital que utiliza o
território, ao torná-lo fragmentado, como instrumento das firmas no
processo de produção e de apropriação de valor econômico social-
mente incorporado.
Foi Leila Dias, no 7 Simpósio Nacional de Geografia Urbana,
em São Paulo, realizado em outubro de 2001, quem trouxe, empres-
tada da sociologia, comparação sobre uma tipologia de "geografias"
que pode auxiliar em nossa reflexão. Para ela, há a "geografia cientí-
fica", que procura, sempre, avanços teóricos; a "geografia descritiva",
baseada em inúmeros dados, mas que não se preocupa com maiores
explicações dos fenômenos; e uma "geografia expressiva", cujos tex-
tos exprimem, de maneira organizada, o que todo mundo já sabe.
Nesse mesmo evento científico, Lia Osório lembrou, ao ex-
por sua visão das cidades da Amazônia, do "princípio da incerteza" e
de quatro problemas que marcam a interpretação geográfica: a) a re-
lação causa-efeito, "resolvida" por Milton Santos, quando se estuda,
no lugar, tempos diferentes; b) o princípio da determinação e da
indeterminação, que criam e recriam formas e dinâmicas territoriais;
c) a diferenciação entre processo e cronologia; e d) o princípio da
autorregulação, que cria novas ordens.
As citações dos três parágrafos anteriores justificam-se, neste
texto, para demonstrar a necessidade de se definir, claramente, os re-
cortes da realidade que se pretende estudar e, mais ainda, da aceitação
da complexidade que a realidade assumiu, epistemologicamente, com
as transformações provocadas pela incorporação, nos dois últimos
séculos, de novos elementos, principalmente aqueles baseados nas for-
mas de apropriação e transformação da natureza, que embasaram e
estão embasadas nas relações de produção. Essas afirmações levam à
conclusão de que há a inseparabilidade entre o ambiental e o social e
a necessária consciência de que essa contradição — de inseparabilidade,
de complementaridade e de separação — não pode ficar ausente das
reflexões da geografia crítica, desde que não se considere o natural
como objeto e o ser humano como sujeito.
As escalas e suas múltiplas articulações, e as formas como a
natureza circula como mercadoria, remetem ao entendimento da re-
produção desigual do espaço e a necessidade de pensar o produzir

o 74
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

(que pode ser através da intervenção direta ou indireta) o espaço, num


momento histórico em que se conforma uma "identidade pós-moder-
na" em conflito com as premissas da sociedade industrial, fordista ou
"flexível"3.
Outro exemplo de busca empírica do conhecimento geográ-
fico e da tentativa de interpretação da geografia crítica, do ponto de
vista da metodologia de análise do pensamento geográfico, pode ser
visualizado pela história (que sempre volta às nossas mentes pelo en-
cadeamento cronológico — o que deve estar claro, para que não se
permaneça nesse nível simplista de raciocínio) da Associação dos
Geógrafos Brasileiros (AGB), que também pode ser um referencial para
se verificar como, quando e por quê os geógrafos se reuniram em diver-
sos eventos científicos. Por exemplo: Pierre Monbeig, um dos primei-
ros geógrafos a participar da AGB, levou para a França, na década de
1950, uma concepção de geografia brasileira. Esse geógrafo (e muitos
outros) foi responsável pela produção de um conhecimento que vai se
consubstanciando numa epistème que provoca, em um dado momen-
to, uma ruptura epistemológica que só vai se tornar "visível" posteri-
ormente.
Toda esta exposição, que pretendemos encerrar aqui (mas
que não esgota a temática em tela), pode ser vista como um conjunto
de portas de entrada para a discussão do pensamento geográfico, mas
com um alerta: é preciso ter muito cuidado sobre uma dificuldade
que pode comparecer para todos, que é a distinção necessária entre o
"como eu penso" e o "como eu leio os outros", por um lado, e "o que
pensar" em consonância ao "como pensar", de outro.
Ao terminar este texto, fica a sensação de não ter esgotado a
discussão do tema. Essa sensação deve ser incorporada como ponto
de partida e como possibilidade de continuidade do debate e não como
ponto final inibidor das tentativas posteriores de desenvolver raciocí-
nios para a compreensão dos diferentes momentos e elementos que
contribuíram para a elaboração dos conhecimentos que, ao longo do
tempo, vão conformando o pensamento geográfico. Ficamos, enfim,
com a proposta aventada no início: considerando-se a teoria do co-

3 As ideias deste parágrafo foram expostas por Maria Encarnação B. Sposito, na sessão de
avaliação das mesas redondas do 7 Simpósio Nacional de Geografia Urbana.

75
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

nhecimento (principalmente aqueles elementos concernentes à lingua-


gem e suas múltiplas conformações) e o método científico (que não é
"peça única" no discurso transdisciplinar com a filosofia), devemos
optar pelas temáticas, superando o encaminhamento cronológico (do
tipo passado-presente-futuro), para considerar a realidade em sua com-
plexidade real, mesmo que seja necessário optar, conscientemente, por
um recorte qualquer.

Referências

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FAZENDA, I. (Org.). Metodologia da pesquisa educacional. São Paulo: Cortez, 1989. p.
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SPOSITO, E. S. Contribuição à metodologia do ensino do pensamento geográfico. Tese de
Livre Docência — Faculdade de Ciências e Tecnologia, Universidade Estadual Paulista.
Presidente Prudente, 2000.

76
CERTA MÁ HERANÇA MARXISTA: ELEMENTOS
PARA REPENSAR A GEOGRAFIA CRÍTICA

Luis Lopes Diniz Filho

Nossos ídolos ainda são os mesmos e as


aparências não enganam não.
Belchior, "Como Nossos Pais"

As influências do marxismo sobre a geografia

Não há dúvida de que a assimilação do marxismo foi a pe-


dra angular na edificação da chamada geografia crítica, influencian-
do de modo intenso todos os seus aspectos teórico-metodológicos e
ideológicos. Houve diferenças significativas nas formas dessa assimi-
lação, dependendo do país, instituição ou mesmo das interpretações
particulares de cada geógrafo sobre a obra marxiana, mas é inegável
que o marxismo constituiu a principal fonte da geografia crítica ou
radical.
Uma análise sucinta da formação da geografia crítica na Fran-
ça, Estados Unidos e Brasil é suficiente para revelar as várias formas
assumidas por essa influência. Yves Lacoste, uma das figuras pioneiras
da geografia crítica, manteve relações bastante ambíguas com o mar-
xismo. Por um lado, ele advertia quanto aos riscos que a incorpora-

77
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

ção do marxismo à geografia poderia trazer, na medida em que, não


havendo uma preocupação de Marx em teorizar os fenômenos relaci-
onados ao espaço, disso poderia resultar a incapacidade da geografia
explicar autonomamente tais fenômenos, pois toda explicação deri-
varia inevitavelmente da teoria econômica marxista ou da análise his-
tórica (LACOSTE, 1989, p. 140-152). Por outro lado, a ninguém
escapa a nitidez com que certas proposições e categorias marxistas
influenciaram a obra de Lacoste, tais como o conceito de ideologia
enquanto "falsa consciência", ideias sobre a crise do capitalismo e a
proposta explícita de associar o resgate dos estudos geopolfticos a
uma "pedagogia militante" (GOMES,1996, p. 289-290). Desse modo,
pode-se dizer que esse autor se inspirava fortemente no marxismo em
sua visão crítica da sociedade capitalista e nas suas concepções sobre o
vínculo que existe entre ciência, política e ética profissional, ao mes-
mo tempo em que procurava valorizar a autonomia epistemológica
da análise do espaço; se não poderia haver uma geografia marxista
propriamente dita, haveria entretanto uma complementaridade entre
teorias marxistas e estudos geográficos, já que o espaço constituiria o
"domínio estratégico por excelência", influindo decisivamente nas lutas
políticas (LACOSTE, 1989, p. 142).
Mais radicais, diversos geógrafos anglo-saxões, e em especial
norte-americanos, propuseram-se a construir uma perspectiva de aná-
lise do espaço baseada essencialmente no instrumental teórico e
metodológico fornecido pelo marxismo, quer dizer, uma geografia
marxista de fato. Isso significa que o marxismo forneceria um méto-
do de análise (o materialismo histórico dialético), uma teoria crítica
abrangente da sociedade capitalista (da qual se desdobravam várias
teorias específicas, como a teoria da renda da terra, as "leis do desen-
volvimento desigual e combinado" etc.) e ainda uma teoria da trans-
formação social, ou da revolução. Com base nesses elementos, seria
possível, entre outras coisas, repensar o objeto da ciência geográfica,
derivar das teorias econômicas marxistas teorias capazes de explicar a
dimensão espacial do capitalismo e, por fim, tornar a geografia apta a
exercer um papel político revolucionário.
Dentro desse grupo, alguns autores assumiam a concepção
de que o espaço constitui um reflexo da sociedade, uma instância
determinada pelas leis de funcionamento do modo de produção capi-

78
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

talista, ao passo que outros procuravam demonstrar que a relação


sociedade/espaço se estabeleceria por meio de determinações recípro-
cas, de modo que o espaço social seria parte constituinte da própria
dinâmica da sociedade capitalista, com suas leis e contradições. A for-
ma como era discutida a relação sociedade/espaço e as possíveis pro-
priedades determinantes ou condicionantes deste último variavam con-
forme o autor, mas em todos os principais nomes dessa corrente ma-
nifestava-se a preocupação de sublinhar a especificidade da análise
espacial.
No livro A justiça social e a cidade — uma das obras basilares
para a formação da geografia crítica —, David Harvey acusava a inge-
nuidade das teorias que pensavam a existência de uma causalidade
simples na relação sociedade/espaço, privilegiando, ora um, ora ou-
tro, como fator determinante. Seu argumento era o de que tais teorias
trazem como pressuposto "a existência de uma linguagem adequada
para discutir simultaneamente a forma espacial e o processo social", a
qual não existiria. Daí porque o autor procurava demonstrar a neces-
sidade de integrar as linguagens da "imaginação sociológica" e da
"imaginação geográfica" numa mesma estrutura conceitual, a fim de
esclarecer as influências das formas espaciais sobre os processos sociais
e construir uma abordagem consistente da cidade (HARVEY, 1980, p.
17-34). Numa linha de discussão semelhante, Edward Soja buscou
demonstrar a tese de que essa relação deveria ser compreendida como
constituinte de uma "dialética socioespacial", dentro da qual o espa-
ço desempenha um papel tão "ativo" quanto o da própria sociedade,
não sendo possível portanto estabelecer uma determinação
unidirecional entre tais elementos (SOJA, 1983). Assim como em Yves
Lacoste, havia nesses últimos a preocupação de estabelecer uma auto-
nomia epistemológica para a geografia, mas com a diferença de que,
enquanto aquele autor procurava valorizar a análise espacial por meio
do refinamento epistemológico dos procedimentos utilizados pela
geografia tradicional, tais como as técnicas cartográficas, a definição
da escala de análise etc., os autores americanos buscavam chegar a esse
resultado por reflexões epistemológicas em torno do conceito de "es-
paço social".
Comparando-se as vertentes analisadas até o momento com
a geografia crítica brasileira, nota-se que esta última nasceu perse-

79
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

como "um sistema de objetos e um sistema de ações" (SANTOS, 1996


e 1978).
Em que pese o ecletismo epistemológico explícito desse au-
tor, não há como negar que sua visão crítica da sociedade capitalista
sempre esteve afinada com teorias e ideologias marxistas. Milton San-
tos nunca escondeu seu apoio aos regimes socialistas, sua concepção
"terceiro-mundista" das relações políticas e econômicas internacio-
nais — inclusive no que tange ao contexto da globalização (SANTOS,
2000) —, suas críticas à ação do capital internacional e das grandes
empresas etc. Em termos político-ideológicos, a única diferença im-
portante entre Milton Santos e a enorme maioria dos intelectuais
marxistas, geógrafos ou não, residia em sua recusa a desempenhar
qualquer tipo de militância.
Comparando-se os autores citados até o momento, nota-se
que, cada qual à sua maneira, todos eles utilizaram intensamente con-
ceitos e teorias de extração marxista em suas análises, além de parti-
lharem de uma concepção crítica da sociedade capitalista profunda-
mente influenciada pelo marxismo e muitas vezes também por outras
teorias afinadas com o pensamento de esquerda, como as teorias do
subdesenvolvimento e da dependência. Adicionalmente, esses autores
classificaram a geografia como uma ciência social, mas ao mesmo
tempo procuravam demarcar a independência ou especificidade dela
frente às demais.
Outro ponto comum entre esses autores estava no combate
movido às demais vertentes de análise geográfica dos anos 70e 80, o
qual revela o teor da incorporação do marxismo à geografia. À seme-
lhança de Lacoste e dos representantes da vertente anglo-saxã, com
efeito, os geógrafos brasileiros esposaram o conceito de ideologia como
"falsa consciência"' e, por essa via, afirmavam que a geografia tradici-
onal e a quantitativa seriam intrinsecamente reacionárias, na medida
em que trabalhariam com categorias abstratas, a-históricas, e sem co-
locar em foco as questões realmente cruciais, ligadas às contradições
do modo de produção capitalista e à luta de classes. No limite, essas
correntes escamoteariam o caráter político da produção do conheci-
mento científico, o qual constituiria em si mesmo uma das muitas for-

3 Uma crítica a esse conceito de ideologia característico do marxismo ortodoxo pode ser
encontrada em Moraes (1988).

82
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

mas assumidas pela luta de classes4. Nesse sentido, é possível dizer


que, embora variasse a forma e intensidade da assimilação do marxis-
mo conforme o autor, em todos eles estava presente a intenção de
revolucionar a geografia tanto em termos epistemológicos quanto em
termos éticos e políticos, ou seja, trabalhar com um método de análise
capaz de ir além da mera aparência dos fenômenos, formulando por
isso teorias científicas de fato e informando a elaboração de projetos
políticos voltados para a transformação radical da sociedade.
Noutras palavras, o marxismo exerceu influência decisiva
na gênese e desenvolvimento da geografia crítica, influência essa que,
apesar e também por causa das diferenciações assinaladas, manifes-
tou-se em quatro esferas estreitamente complementares da produção
geográfica, a saber: a) no plano epistemológico, subsidiando os esfor-
ços de redefinição do objeto da disciplina, fornecendo um método de
análise que se procurava aplicar a esse objeto e ainda um discurso que
atribuía ao método marxista uma cientificidade inquestionável; h) no
plano teórico, por oferecer uma teoria crítica ampla do capitalismo e
um sistema de conceitos e teorias mais específicas passíveis de serem
aplicadas no estudo de temas geográficos; c) na esfera ideológica,
moldando (e ao mesmo tempo se amoldando) à "visão de mundo"
dos geógrafos, isto é, às representações e valores simbólicos que orien-
tam seus posicionamentos políticos; d) no plano deontológico, esta-
belecendo a existência de um estreito vínculo entre ciência, ética e
política e enfatizando a necessidade da ação militante, a qual deveria
tomar por base os pressupostos teóricos e metodológicos menciona-
dos para assumir um caráter científico e socialmente transformador.
No entanto, passadas cerca de três décadas desde o advento
da geografia crítica, que balanço poderia ser feito das transformações
trazidas pela incorporação do marxismo à disciplina?
De imediato, é preciso lembrar que o marxismo já é por si só
um campo de pensamento extremamente heterogêneo, pois ao longo
do século XX desenvolveram-se inúmeras correntes teórico-

4 Embora sem utilizar tão ostensivamente termos marxistas, as objeções de Milton Santos
àquelas correntes alinhavam-se perfeitamente às dos demais geógrafos críticos brasileiros da época. Seus
comentários sobre a geografia quantitativa mesclavam reflexões aprofundadas sobre os pressupostos teóricos
e metodológicos da modelagem dos padrões espaciais com criticas puramente ideológicas, que reproduziam
os argumentos usados pelos marxistas sobre o caráter intrinsecamente conservador daquela corrente (SAN-
TOS, 1982 e 1978, p. 41-83).

83
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

metodológicas e políticas tributárias da obra marxiana, muitas das


quais comportando visões antagônicas entre si (inclusive no que diz
respeito à interpretação dos trabalhos de Marx). Contudo, os geógrafos
na maioria das vezes deram pouca atenção a essa diversidade interna
do marxismo, procedendo a uma forma de assimilação seletiva que
qualificou como marxistas sobretudo as teses vinculadas às correntes
mais ortodoxas, denominadas geralmente de "marxismo vulgar" pela
forma dogmática como interpretam a obra marxiana, transforman-
do-a numa verdadeira doutrina de base economicista (MORAES, 1988
e 1985). Pode-se mesmo afirmar que o "pecado original" da geografia
marxista, responsável maior pelos seus equívocos político-ideológicos
e insuficiências epistemológicas, foi a leitura dogmática das obras de
Marx e dos clássicos do pensamento marxista, conforme já começa a
ser reconhecido por alguns autores'. Leia-se, por exemplo, esta passa-
gem de uma entrevista de David Slater (1999, p.138):
Penso que vivi um período no qual tinha uma posição bastante dogmática em
termos de marxismo, mais precisamente no período entre 1970 até 1981,
1982. Quero dizer com isso que em termos de dogmatismo eu tinha a idéia de
que a luta de classes era fator determinante ou dominante de quase qualquer
coisa no mundo.
Esta foi uma perspectiva típica desse período, no qual, a influência do marxis-
mo tradicional colocou sempre muita ênfase na importância das classes sociais,
da relação entre capital e trabalho assalariado; e que o político, os fatores
políticos, o Estado, a ideologia, foram mais ou menos conseqüências das rela-
ções entre capital e trabalho. Modo de Produção foi o conceito determinante
em toda essa perspectiva.

5 Tal reconhecimento pode encerrar algumas armadilhas, porém. Manuel Correia de Andrade
fala de um grupo de autores que trabalharia com um marxismo ortodoxo e dogmático, aí incluídos os que
"procuravam escantear os problemas da geografia física, geografia em uma sociologia menor". Deles se
distinguiriam aqueles que "...formulavam seu pensamento em função da práxis e aplicavam um marxismo
dinâmico e verdadeiramente dialético. Não esqueciam, entre outros textos, os ensinamentos de F. Engels na
Dialética da natureza e acompanharam com atenção os ensinamentos de geógrafos franceses como Pierre
George, J. Tricart, Yves Lacoste, Michel Rochefort etc." (CORREIA DE ANDRADE, 1999, p. 30). Existem
aí várias ideias criticáveis, como a de sugerir que aqueles representantes da geografia ativa seriam marxistas
por excelência e o postulado de integrar as geografias física e humana com base numa suposta "dialética da
natureza". Todas as tentativas de aplicar o marxismo às ciências naturais fracassaram (inclusive aquelas
perpetradas pelos geógrafos), já que o materialismo histórico dialético é justamente uma das mais bem
acabadas propostas de analisar a sociedade através de parâmetros totalmente autônomos em relação àqueles
empregados nas ciências naturais (MORAES, 1997; GOMES, 1996, p. 284). Ao insistir em teses desacredi-
tadas, a análise de Andrade acaba carregando mais elementos de ortodoxia do que as visões que ele rejeita.

84
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

Não deixa de ser irônico concluir que, apesar da vigorosa


crítica dos marxistas aos vieses ideológicos e carências epistemológicas
da geografia tradicional, e também da corrente quantitativista, a assi-
milação do marxismo pela geografia se fez também à custa de grandes
simplificações, reveladas tanto na forma de utilização das categorias
marxistas fundamentais — que ganhavam conteúdos abstratos e for-
mais, mesmo estando referenciadas a situações históricas precisas (GO-
MES, 1996, p. 280) — quanto na "visão de mundo" dos geógrafos, ou
melhor, em suas concepções político-ideológicas. Ao longo dos anos
90, a crescente insatisfação com os rumos tomados pela geografia
crítica, num processo que com certeza foi influenciado pela derrocada
do socialismo real, levaram a um certo consenso quanto ao fracasso
do ambicioso projeto intelectual lançado por essa vertente vinte anos
antes.
A geografia abandonou o projeto de construir, por intermédio direto do mar-
xismo, uma ciência total. Hoje, os geógrafos que invocam o marxismo o fazem
a partir de uma perspectiva muito mais limitada, como uma filiação ideológica
ou como uma inspiração de ordem geral. De qualquer forma, não existe mais a
crença em uma via metodológica única, que será aquela da 'verdadeira' geogra-
fia, e se reconhece a importância e a riqueza de outras condutas possíveis para
a geografia.
Assim, a pretensa revolução do saber geográfico pela teoria e a prática marxista
mostra claramente sinais de esgotamento. Trata-se, portanto, uma vez mais, de
uma revolução científica da modernidade geográfica. Como as outras, esta
revolução quis, em seus primórdios, apresentar-se como a ruptura definitiva e
final, sucumbindo em seguida sob o peso das expectativas, e acabando, como as
outras, por ser substituída por uma outra novidade (GOMES, 1996, p. 303).

Com efeito, já não é difícil encontrar geógrafos que reconhe-


cem erros e insuficiências na geografia marxista, propondo-se por isso
a fazer uso também de outras matrizes metodológicas que, igualmen-
te afastadas das concepções positivistas clássicas e do neopositivismo,
poderiam auxiliar no desenvolvimento de uma Geografia capaz de
formular uma crítica radical à sociedade capitalista contemporânea, e
daí a recente aproximação de muitos geógrafos marxistas em relação
às correntes humanista e pós-moderna.
Não obstante todas essas mudanças, é possível dizer que o
marxismo continua sendo a viga mestra da geografia crítica, ao me-
nos no Brasil. Em primeiro lugar, porque a "visão de mundo" dos

85
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

geógrafos continua sendo moldada basicamente pelo discurso políti-


co-ideológico marxista, sobretudo em suas vertentes mais radicais. Em
segundo lugar, porque continua sendo abundante a presença de certas
categorias e teses fundamentais da teoria econômica marxista nos tra-
balhos de geografia, assim também como o uso do conceito de ideolo-
gia como "falsa consciência" da realidade vinculada a interesses de
classes ou grupos sociais dominantes. Para perceber isso, basta ler o
Plano Curricular Nacional de Geografia (PCN) e as críticas dos
geógrafos que, embora concordando integralmente com as concep-
ções ideológicas expressas nesse documento, atacam ferozmente a ins-
tituição dos PCN pelo fato dela ter sido decidida com base em reco-
mendações do Banco Mundial. Leiam-se também os livros didáticos
de geografia lançados ou reeditados nos anos 90 e os resumos de tra-
balhos publicados nos Anais dos eventos promovidos pela AGB, que
demonstram claramente a influência direta de autores e teorias mar-
xistas sobre os trabalhos da geografia brasileira contemporânea e/ou
sobre a postura político-ideológica dos geógrafos.
O que é problemático nessa continuidade da influência mar-
xista sobre a geografia brasileira, porém, é o fato de que o marxismo
que informa os trabalhos de muitos geógrafos ainda é o mesmo mar-
xismo vulgar e dogmático característico das décadas de 70 e 80. Tudo
se passa como se a única insuficiência da geografia marxista daquele
período estivesse na desconsideração da importância do indivíduo e
de sua dimensão subjetiva, ou ainda de certos tipos de relações de
poder que extrapolam a luta de classes e a geopolítica dos Estados
nacionais. Ao invés de uma "fertilização" mútua de influências mar-
xistas, fenomenológicas e de outras fontes, o que se tem é apenas uma
alternância de categorias e perspectivas teóricas de gêneses bastante
diversas para explicar os problemas da sociedade contemporânea, sem
que se questione a visão que a maioria dos geógrafos tem a respeito
do capitalismo atual.
Em função disso, o que se propõe neste texto é fornecer al-
guns subsídios para uma reflexão mais aprofundada sobre a crise do
marxismo e o modo como ela coloca a necessidade de rever não ape-
nas alguns postulados básicos do discurso científico do marxismo ou
as insuficiências da perspectiva materialista ortodoxa no trato da
temática cultural, mas também a urgência de reavaliar a visão que a

86
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

geografia tem da sociedade capitalista contemporânea e das relações


sociedade/espaço nesse contexto histórico concreto.
Todavia, como não seria possível fazer uma discussão
aprofundada sobre essa questão no espaço de um artigo como este,
optou-se por indicar apenas alguns dos traços mais marcantes da crise
do marxismo e o modo como ela problematiza as visões tradicionais
da esquerda a respeito das relações entre Estado, mercado e sociedade.
Para chegar a esse resultado da forma mais objetiva possível, optou-se
por fazer uma síntese do "mesão" de debates realizado em 9 de abril
de 1991 no Centro Brasileiro de Análise e Planejamento — Cebrap — a
respeito do tema "Adeus ao Socialismo?". Esse debate foi transcrito,
senão integralmente, em grande parte, na edição número 30 da revis-
ta Novos Estudos, tendo contado com a participação de alguns dos
mais reconhecidos estudiosos brasileiros da obra marxiana, tais como
Francisco de Oliveira, José Arthur Giannotti, Maria da Conceição
Tavares, Roberto Schwarz, Paul Singer e vários outros.
Antes de iniciar essa síntese, porém, é preciso fazer três ressal-
vas: primeiramente cabe dizer que, embora o tema do debate faça
referência unicamente à crise do socialismo real, as discussões trata-
ram recorrentemente dos impactos dessa crise sobre as teorias marxianas
— como não poderia deixar de ser, já que o marxismo sempre colocou
a prática como critério de verdade das teorias —, o que revela a
pertinência das discussões ali realizadas frente aos propósitos deste
texto; em segundo lugar, cabe dizer que o sentido de apontar resumi-
damente alguns dos inúmeros equívocos e limitações das teorias
marxianas não é o de decretar a morte em bloco desse corpo de ideias
e nem propor que ele seja lançado na "lata de lixo da história"; na
realidade, os autores participantes do debate (ao menos em sua maio-
ria) explicitam a necessidade de reconhecer tais equívocos e fragilida-
des justamente como forma de reconstruir a crítica marxista ao capi-
talismo6; por último, é claro que, em se tratando de um debate, mui-
tas afirmações feitas no seu desenrolar foram objeto de controvérsias
(por vezes até bastante acirradas), motivo pelo qual optou-se por apre-

6 Mostrar a atualidade de Marx é o que procura fazer, por exemplo, José Arthur Giannotti
em seu livro Certa herança marxista, título parafraseado neste artigo (GIANNOTTI, 2000). A razão da
paráfrase está no entendimento de que, enquanto em outras áreas já existe uma discussão intelectual
amadurecida sobre a crise do marxismo e a necessidade de sua renovação, na geografia brasileira o desafio
ainda é o de estimular uma verdadeira revisão do marxismo vulgar.

87
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

sentar aqui aquelas afirmações que, ao menos na transcrição do deba-


te, não encontraram objeções por parte dos debatedores após serem
enunciadas. As conclusões a que chegaram foram agrupadas segundo
alguns eixos de discussão que nos pareceram fundamentais, conforme
segue:

Repensando o projeto socialista

Como visto, o ponto de partida do debate era o fracasso do socia-


lismo real, reconhecido por todos os debatedores, ainda que com
diferenças de ênfase. Dentre eles, Antônio Flávio Pierucci destacou-
se pela forma como expressou sua perplexidade diante dos rumos
tomados pelo socialismo: "...a verdade é que o fracasso do chama-
do socialismo real ou do comunismo é muito maior do que a gente
conseguia imaginar. O ideal socialista — mesmo depois do Krushev,
e também para aqueles que eram anti-stalinistas — continuava a ser
algo profundamente esperançoso. No entanto, a dimensão da po-
breza que se encontra no Leste Europeu [...], pelo que pude consta-
tar pessoalmente, é uma coisa que eu jamais podia imaginar. O
grau de deterioração das cidades da ex-República Democrática Ale-
mã —RDA — é impressionante. Elas são verdadeiras ruínas. E é uma
sociedade profundamente pobre. A RDA é um país profundamente
poluído e as pessoas são profundamente acomodadas. Elas têm os
seus direitos, é verdade, há igualdade, há uma série de coisas, mas
as pessoas são profundamente acomodadas e, pior, se submetendo
a situações muito abaixo daquilo que nós, ocidentais, mesmo do
Terceiro Mundo, chamamos de dignidade. A troco de um pouquinho
mais de pão branco, a troco de um iogurte com quark, a troco de
qualquer coisa que seja sofisticação de consumo. [...] A minha fala
vai no sentido de mostrar que a utopia está carregada de mentira"
(SINGER et al., 1991, p. 17-18).
Isso impõe a questão de repensar o que é socialismo e como ele
pode ser construído. Segundo Paul Singer, a concretização do ideal

88
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

de uma sociedade socialista, para Marx e a maioria das correntes


marxistas, passava necessariamente pela industrialização e pelo pla-
nejamento estatal centralizado. O planejamento deveria satisfazer
duas expectativas centrais em relação a esse ideal: a) garantir eleva-
da prosperidade através de um crescimento econômico acelerado e
estável, porque já não mais afetado pelas crises cíclicas de acumula-
ção de capital; b) promover a igualdade, ainda que isso não signi-
ficasse necessariamente a abolição de todo o desnível econômico
entre os indivíduos.
A primeira expectativa foi frustrada, visto que, como coloca Singer,
"as economias centralmente planejadas não somente não assegu-
ram estabilidade — elas têm a sua própria conjuntura cíclica, prova-
velmente diferente da capitalista, mas ela existe, sobretudo em com-
petição direta com o capitalismo na segunda metade do século XX
— como certamente não desenvolveram as forças produtivas mais
do que o capitalismo. Provavelmente desenvolveram menos"
(SINGER et al., 1991, p. 8).
Existia um "erro lógico grave" embutido na segunda expectativa,
posto que o planejamento centralizado da economia necessaria-
mente cria uma desigualdade entre os indivíduos (sobretudo em
termos sociais), já que impõe uma distinção entre quem emite or-
dens e quem deve cumpri-las.
Em seguida, Singer afirma que "a economia centralmente planeja-
da, além de ser inflexível, é muito pouco propensa a aceitar inova-
ções e mudanças que são básicas para o desenvolvimento das forças
produtivas. Ela tende a ser muito hierárquica e provavelmente muito
coatora da liberdade, sobretudo individual, sem falar das liberda-
des políticas. É difícil conciliar isso com decisões individuais neces-
sariamente indisciplinadas" (SINGER et al., 1991, p. 9).
Sendo assim, é reconhecido que certos setores são mais bem organi-
zados através da competição no mercado do que pelo Estado, caso
sobretudo daqueles que produzem bens não padronizados, como
vestuário e alguns produtos agrícolas. Há porém outros setores que
naturalmente se organizam sob a forma de monopólios ou
oligopólios, dado que produzem bens padronizados (aço, produ-

89
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

tos químicos etc.), e esses setores podem ter suas atividades planeja-
das pelo Estado. Nesse contexto, o "planejamento centralizado to-
tal" deve ser substituído por um planejamento parcial, em que o
Estado opera apenas os setores que demandam um controle mais
centralizado, ainda segundo Singer.
Alguns debatedores ressaltaram também que o mercado é essencial
para concretizar o próprio ideal socialista, pois sem ele é impossível
combinar cidadania, desenvolvimento e justiça social. Para Gabriel
Bolaffi, é preciso pensar formas que permitam compatibilizar pla-
nejamento e mercado, e isso não só para a economia ser melhor
planejada, não só porque o mercado em muitos casos fornece indi-
cações mais eficientes para a organização da produção, mas tam-
bém porque o mercado [...] é o lugar em que as relações sociais e as
relações econômicas realmente se objetivam. E o planejamento pre-
cisa dessa objetividade para ser um planejamento eficaz, para ser
um planejamento para o bem comum e não para os interesses desse
ou daquele grupo ou até para os interesses desse ou daquele diretor
de empresa estatal (SINGER et al., 1991, p. 17).
Em suma, houve consenso de que é necessário combinar mercado e
planejamento estatal para que essas duas instâncias operem de for-
ma mutuamente limitante. Sem a imposição de limites ao poder do
Estado, este degenera em totalitarismo; se o mercado funcionar
sem qualquer limite, geram-se inúmeras distorções na distribuição
da riqueza, entre várias outras.

Estado, mercado e sociedade no capitalismo atual

A visão de Fábio Wanderley Reis sobre esse tema é a de que


...os países capitalistas mais maduros são aqueles onde o welfare state prospe-
rou intensamente e onde acabou existindo um compromisso chamado atual-
mente neocorporativo. São países em que supostamente haveria a realização
mais cabal do capitalismo, e no entanto vigora aí um elemento centralizador, ou

10 90
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

seja, o Estado, como modo de garantir um mínimo de igualdade, e de alguma


maneira neutralizando a operação mais exacerbada do fator oligopolizante.
[...] há um componente não mercantil que é a contrapartida mais ou menos
necessária à própria lógica mercantil do capitalismo (SINGER et al., 1991, p. 12).

Essa análise é confirmada por outros debatedores, como Francisco


de Oliveira, que reconhecem o fato de que o capitalismo "avançou
no sentido daquilo que supúnhamos premissas teóricas do socialis-
mo" — na medida em que foi capaz de combinar dinamismo econô-
mico, distribuição de renda e democracia — embora essa trajetória
de sucesso só tenha se realizado realmente num seleto grupo de
aproximadamente dez países (SINGER et al., 1991, p. 13)7.
Sendo assim, esse debatedor coloca que o grande "desafio teórico"
que se coloca no presente não é tanto explicar o fracasso do socialis-
mo, mas sim os avanços do capitalismo nesses países, a questão da
igualdade e as possibilidades de dar maior abrangência àqueles avan-
ços, incorporando maior número de pessoas, sociedades e nações.
À luz dessas considerações, cabe chamar atenção para uma pergun-
ta que, embora tendo sido levantada mais de uma vez ao longo do
"mesão", não foi respondida por nenhum dos debatedores, qual
seja: reconhecidos os avanços do capitalismo, e uma vez admitido
que o socialismo não pode ser outra coisa senão um modelo de
organização política e econômica que combina o funcionamento
do mercado com a ação planejadora do Estado, qual seria então a
diferença entre socialismo e social-democracia?

7 Se o silêncio pode ser mais eloquente que as palavras, cabe assinalar um importante ponto
de reflexão para os geógrafos embutido no fato de que nenhum dos debatedores, nem mesmo aqueles que
afirmaram que o sistema capitalista foi "vitorioso" só em poucos países, propôs explicar esse fenômeno como
fruto de algum mecanismo de exploração do tipo "centro/periferia". E cabe acrescentar que alguns debatedores,
como Maria Hermínia Tavares de Almeida, criticaram a ideia de que o êxito dos países capitalistas
desenvolvidos possa ser encarado como uma "experiência idiossincrática", que por isso não careceria de
reflexão teórica mais aprofundada (SINGER et al., 1991, p. 28).

91
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

As teorias econômicas marxistas frente ao capitalismo


contemporâneo

Segundo Francisco de Oliveira, "com os novos processos


tecnológicos, aquilo que era específico do capital — uma certa for-
ma de produzir valor, ou de produzir excedente econômico basea-
do na exploração da força de trabalho — praticamente explode"
(SINGER et al., 1991, p. 13). É justamente esse fenômeno que, com-
binado com o avanço das lutas sociais, permitiu ao capitalismo criar
determinadas formas de reprodução social de caráter não mercantil,
e daí os seus avanços, conforme visto no tópico anterior'.
Outros debatedores vão enfatizar as repercussões das dificuldades
enfrentadas pelas teorias econômicas marxianas sobre outros as-
pectos teóricos e metodológicos do marxismo.
Seguindo a linha de raciocínio de Oliveira, José Arthur Giannotti
afirma que um dos aspectos essenciais do esforço teórico empreen-
dido por Marx para fundamentar o "socialismo científico" era a
tese de que deveria haver uma medida objetiva da exploração do
trabalho9. Todavia,
hoje nós sabemos perfeitamente que não existe uma medida objetiva da explo-
ração. Nós sabemos que existe exploração, nós vemos a exploração na cara, e
nós não temos medidas objetivas para ela. Como conseqüência disso nós nos
voltamos para as idéias políticas de poder. E pensamos essa exploração em
termos políticos, exclusivamente (SINGER et al., 1991, p. 19)10.
8 Oliveira refere-se ao fato de que o avanço tecnológico faz com que a valorização do capital
se torne autônoma em relação à própria fonte do valor, que é o trabalho "vivo", abrindo assim espaço para
formas politizadas de redistribuição do excedente, isto é, externamente aos mecanismos de mercado.
(TAVARES, s.d.). É por isso que, ao contrário do que supõe o marxismo vulgar, não existe uma correlação
linear entre exploração e pobreza, pois a renda dos trabalhadores pode se ampliar ao mesmo tempo em que
se eleva a produtividade, ou seja, o grau de "exploração" da força de trabalho (DINIZ FILHO, 1999).
9 Segundo esse autor "...Marx salientava sempre uma oposição entre socialismo utópico e
socialismo científico, sem isso nós não podemos entender qual foi o seu esforço teórico. Nós sabemos também
que esse 'científico' não estava ligado à ciência positivista, mas à Wissenschaft alemã. Esse cientificismo, ou
essa ciência marxista, se opunha justamente a uma utopia" (SINGER et al., 1991, p.19).
10 A perda dessa medida está associada à heterogeneidade incontornável assumida pelos proces-
sos produtivos no capitalismo monopolista, já que algumas empresas detêm uma capacidade de inovação
tecnológica superior à de seus concorrentes, operando portanto com níveis de produtividade do trabalho
sistematicamente superiores à média. Isso destrói a possibilidade de um "trabalho homogêneo", que no modelo
teórico de Marx era o pressuposto para a existência de um "tempo social médio" de trabalho necessário para

o 92
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

Por sua vez, Marco Aurélio Garcia assinala "...a crise não só de
territórios gigantescos da teoria econômica de inspiração marxista,
mas também da forma pela qual se articulavam, na teoria marxis-
ta, economia e política" (SINGER et al., 1991, p. 25). Tal articula-
ção entra em crise, entre outros motivos, porque a teoria da revolu-
ção construída pelo marxismo tinha como um de seus pressupostos
fundamentais uma análise crítica da economia capitalista que pro-
curava demonstrar a inevitabilidade de uma crise fatal do capitalis-
mo, na qual esse modo de produção iria sucumbir sob o peso das
próprias contradições. Justamente as visões apocalípticas do capi-
talismo é que caíram em descrédito nas últimas décadas.

A problematicidade da categoria "luta de classes"

As teses de Marx sobre a luta de classes foram profundamente


marcadas pelos movimentos revolucionários de 1848, na medida
em que ele supôs que a oposição entre classes, bastante nítida nesse
episódio, iria reproduzir-se e ampliar-se com a evolução do capita-
lismo (SINGER et al., 1991, p. 30).
Essa previsão não se realizou por vários motivos, tais como: a) o
regime republicano logrou construir uma ideologia capaz de pôr
novamente em cheque a noção de classe social (SINGER et al.,
1991, p. 30); b) o desenvolvimento econômico capitalista, ao con-
trário do que se esperava, não produziu um proletariado numerica-
mente majoritário em relação às demais classes, mas sim o declínio
relativo e até absoluto dessa classe (SINGER et al., 1991, p. 25);
c) apenas em circunstâncias históricas excepcionais constituem-se
classes sociais no sentido marxista do termo, de modo que a análise
sociológica marxista torna-se intrinsecamente problemática por ter

a produção de mercadorias, o qual deveria atuar justamente como medida objetiva da exploração do trabalho.
Sendo assim, a mais-valia despiu-se de seu fundamento econômico, mas ainda conserva seu fundamento
político, ligado ao controle sobre os processos de trabalho (GIANNOTTI, 1990 e 2000).

93
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

de pressupor a existência de uma oposição de classes subjacente aos


processos sociais investigados, como afirma Conceição Tavares.
Devido a essas dificuldades de adequação da teoria à realidade his-
tórica concreta, entra em colapso o conceito de "sujeito político
revolucionário" e, por conseguinte, o projeto de revolução.

A historicidade das ideias de Marx

Marx previu a superação da questão nacional, mas as trajetórias do


capitalismo, e mesmo do socialismo real, desmentiram essa previ-
são.
Outro erro de previsão foi quanto à questão do Estado, que para
Marx já estaria começando a definhar em sua época, mas que veio
a se fortalecer no século XX.
A penetração do capitalismo no campo, em termos tanto das rela-
ções de produção quanto da mecanização, ocorreu muito mais len-
tamente do que Marx previu, e isso por ter tomado como modelo
a trajetória da agricultura inglesa, caracterizada pela rápida expro-
priação do campesinato. Esse equívoco gerou pelo menos duas
distorções: de um lado, levou os soviéticos a copiar o modelo agrí-
cola dos países capitalistas avançados (chegando assim aos sovkoses
e kolkoses), mas cujo resultado foi a falência da agricultura da ex-
URSS; de outro lado, o "atraso" do campo abriu espaço para revo-
luções comunistas de base rural, e, como afirma Luiz Felipe de
Alencastro (SINGER et al., 1991, p. 31), "...não há nada mais
aberrante para Marx do que a idéia do camponês revolucionário".
Esse autor prossegue ainda lembrando que a ocorrência de "revolu-
ções camponesas" na Ásia fizeram com que fossem incorporadas ao
"patrimônio socialista", sem que se discutisse de forma aprofundada
as implicações disso.

0 94
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

Ao contrário do que a teoria marxista previa, as revoluções socia-


listas do século XX não irromperam nos países capitalistas avança-
dos, mas, ao contrário, somente nos menos desenvolvidos. O fato
de sequer existir um movimento socialista organizado nos EUA é
um sintoma desse desacerto.
Outro ponto problemático diz respeito à questão da democracia.
Segundo Conceição Tavares, Marx não produziu nenhum conceito
de democracia e nem se preocupou com sua evolução histórica,
pois os esforços dele se concentraram na análise do modo de pro-
dução. Ademais, a própria escatologia comunista dele "supõe em
última instância o totalitarismo" (Ibid, p. 40). Já em Marx havia
um menosprezo pela democracia, portanto, que se estendeu ao so-
cialismo real e criou um paradoxo histórico, na medida em que,
como destaca Marco Aurélio Garcia, ao falar sobre o avanço da
democracia liberal na segunda metade do século XX,
...toda a saga da democracia aparece [...] muito mais como conquista do prole-
tariado do que, propriamente, como concessões mistificadoras da burguesia, o
que em grande medida o discurso marxista havia assumido, por razões perfeita-
mente claras (SINGER et al., 1991, p. 27).

Considerações finais: elementos para repensar a geografia crítica

Conforme visto, os anos recentes começam a criar mudanças


de postura que podem ser bastante positivas, em especial a aceitação
de que há várias perspectivas teóricas e metodológicas utilizáveis pela
geografia, não havendo motivos para crer na possibilidade de fundar
a geografia exclusivamente sobre o marxismo ou qualquer outra ver-
tente do pensamento científico. Não obstante, essa mudança pode
trazer em si mesma algumas armadilhas. A atual postura "pluralista"
pode deixar a geografia ainda mais desarmada frente aos riscos de um
ecletismo mal conduzido, que acabe sacrificando a própria coerência
do discurso. Pior ainda, esse ecletismo pode ser utilizado justamente
para dar sobrevida a certas teorias marxistas que, embora tendo al-

95
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

cançado boa repercussão nos anos 60 e 70, encontram-se hoje desa-


creditadas.
Um exemplo disso é dado pelo livro Geografias pós-moder-
nas, de Edward Soja. Nesse livro, o autor se propõe a realizar uma
crítica renovadora do marxismo a partir da "espacialização" das teo-
rias de Marx, o que culminaria na edificação de um "materialismo
histórico geográfico". Perseguindo esse objetivo, o autor se refere a
diversos teóricos "pós-modernos" para demonstrar a existência de uma
"dialética socioespacial" que teria sido negligenciada pela teoria soci-
al crítica, por ser esta fortemente imbuída do "historicismo" da filo-
sofia do século XIX. Ora, sem entrar no mérito de discutir as contri-
buições que essas ideias podem trazer para o avanço das pesquisas em
geografia cultural ou social, é preciso alertar que elas foram utilizadas
pelo autor também na geografia econômica, e isso para justificar a
tese de que é possível estabelecer a existência de "regiões que exploram
regiões" sem cair num fetichismo do espaço. Segundo seu argumento,
reconhecer a existência dessa "dialética socioespacial" implicaria ne-
cessariamente a impossibilidade de estabelecer uma distinção lógica
absoluta entre processos sociais e processos "espaciais", de modo que
as relações gerais de produção e os mecanismos de extração de mais-
valia deveriam ser vistos como sendo intrinsecamente socioespaciais.
Para fundamentar esse argumento, o autor recorre a certas teorias do
"intercâmbio desigual" surgidas nos anos 70 para estabelecer a exis-
tência de regiões objetivamente definidas como "polos de acumula-
ção" e de "desvalorização" (SOJA, 1993, p. 143-144).
Quer dizer, o autor simplesmente tenta ressuscitar algumas
velhas teorias das trocas desiguais inspiradas pelo marxismo utilizan-
do essa "dialética socioespacial" para justificar que é possível estabele-
cer a existência de relações de exploração entre regiões análogas às
que se entabulam entre as classes sociais sem cair num fetichismo do
espaço. Contudo, um dos aspectos da crise do marxismo é justamente
a constatação de que não existe uma medida objetiva da exploração
do trabalho, o que implica a impossibilidade de pensar uma distinção
entre classes sociais definidas unicamente com base em relações de
exploração econômica intrínsecas ao processo de valorização do capi-
tal, quanto mais usar tal distinção para inferir a existência de relações
de exploração que se dariam de modo análogo entre as "regiões".

96
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

Some-se a isso a problematicidade histórica da categoria "luta de clas-


ses" e ficará claro que esse autor se propõe a fazer uma crítica renova-
dora do marxismo sem levar em conta os componentes realmente
cruciais da própria crise de certas teorias marxistas, prendendo-se a
uma polêmica contra o "historicismo" justamente para poder esqui-
var-se de enfrentar questões espinhosas como essas mencionadas. E o
mais grave é que, ao recorrer às críticas "pós-modernas" contra o
"historicismo" (como aquelas lançadas por Michel Foulcault), Soja se
esquiva da necessidade de discutir as inconsistências entre as teorias
do intercâmbio desigual e a teoria do valor trabalho elaborada por
Marx, as quais já vêm sendo apontadas na bibliografia especializada
há mais de vinte anos".
As teses desse autor chamam atenção também para outro
risco presente na geografia crítica. Se é válida a preocupação em dotar
a geografia de independência epistemológica, por outro lado essa bus-
ca pode, em certos casos, predispor à assimilação e/ou formulação de
teorias que incorrem em formas variadas de fetichismo do espaço. E é
significativo notar que, se as acusações de fetichismo são comumente
lançadas pelos geógrafos marxistas que defendem a natureza "refle-
xa" do espaço frente à sociedade, por outro lado o próprio marxismo
vulgar forneceu instrumentos para a fetichização. Basta ver que, no
afã de valorizar a análise espacial e dotar a geografia de instrumentos
que lhe permitissem elaborar uma crítica radical da sociedade capita-
lista, até mesmo autores sofisticados terminaram por se aproximar de
certas teorias marxistas surgidas nos anos 70 que se pautavam por um
simplismo extremado. Isso fica nítido na forma como um autor do
porte de David Harvey — que jamais poderia ser reduzido a um exem-
plar de marxista estreito — encampou mesmo assim as teorias de Gunder
Frank sobre as "trocas desiguais" e o "desenvolvimento do subdesen-
volvimento", apesar dos estudos que, já nos anos 70, apontavam a
fragilidade teórica e empírica dos trabalhos de Frank (HARVEY, 1996
e 1980, p. 198 e 225-226).
Nesse sentido, pode-se afirmar que a combinação de teorias
marxistas e "pós-modernas" a que se assistiu na geografia nos anos 80
e 90 constituiu uma tentativa renovada de concretizar uma das maio-
res promessas da geografia crítica radical, isto é, conferir aos geógrafos
11 Uma critica detalhada das teses desse autor pode ser encontrada em Diniz Filho (1999).

97
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

a capacidade de formular uma crítica "de raiz" à sociedade capitalista


por meio de uma análise essencialmente baseada no espaço e nas rela-
ções sociedade/espaço. O conteúdo crítico e a valorização da análise
espacial presentes em várias perspectivas de análise classificáveis como
"pós-modernas" favoreceu essa aproximação — como se nota especial-
mente na obra de Foucalt —, ainda que do ponto de vista epistemológico
haja grandes diferenças entre esses autores e as teorias marxistas, sem
falar nas aporias entre os próprios representantes do "pós-modernis-
mo". Entender esse recurso a novas fontes epistemológicas exige uma
análise da trajetória da geografia crítica em seus aspectos teóricos,
correlacionando-a com a crise do marxismo.
De imediato, percebe-se que a utilização de teorias marxistas
na análise espacial (não apenas por parte dos geógrafos, mas também
de profissionais de outras áreas) mostrou-se mais complexa do que se
supunha inicialmente. Na geografia econômica, os estudos que busca-
vam explicar a "lógica do capital no espaço" evidenciaram a dificul-
dade de conciliar a perspectiva histórica de análise (essencial dentro
do marxismo) com o esforço de teorizar o fenômeno do desenvolvi-
mento desigual a partir da análise do movimento do capital em geral.
As construções teóricas resultavam formais e abstratas, pois a
historicidade dos processos econômicos aparecia nelas apenas como
"herança", ou seja, como criação de condições iniciais de desenvolvi-
mento desigual a serem investigadas. Além disso, a aplicação exclusi-
va de categorias marxistas à geografia econômica conduzia à tese de
que a difusão das formas de reprodução de capital "tipicamente capi-
talistas" produziria uma homogeneização total do espaço econômi-
co, o que levou economistas e geógrafos a enfatizarem as diferencia-
ções que persistiriam e que seriam produzidas pelo próprio avanço do
capitalismo monopolista. Na área dos estudos urbanos e regionais,
nota-se que a incorporação do marxismo, por si só, não auxiliava na
resolução de algumas controvérsias epistemológicas importantes, acerca
de conceitos como "região" e "espaço urbano", ou mesmo na explica-
ção de alguns processos centrais na organização do espaço nessas esca-
las (VILLAÇA, 2001, p. 15; DINIZ FILHO, 2000, p. 39-58; GO-
MES, 1996, p. 298-301).
Ao mesmo tempo, houve uma importante mudança de
enfoque no âmbito da geografia anglo-saxã após o auge experimen-

98
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

tado pelo marxismo nos anos 70. David Slater, por exemplo, mante-
ve várias de suas preocupações iniciais com a questão do subdesenvol-
vimento e da dependência, mas reconhece que sua abordagem migrou
de uma perspectiva própria da geografia econômica para a geografia
política (SLATER, 1999). Ainda mais ilustrativo é o percurso de David
Harvey, que rompeu com os postulados do marxismo ortodoxo quanto
à busca de cientificidade e objetividade das análises e passou a se dedi-
car principalmente à temática cultural e da história das ideias. Embo-
ra sem deixar de utilizar com frequência algumas categorias marxistas
no estudo dessas temáticas, essas mudanças revelam a trajetória que
levou esse autor do marxismo ao pós-modernismo (GOMES, 1996,
p. 302). E é especialmente interessante assinalar que as discussões eco-
nômicas realizadas por esse autor em sua fase pós-moderna (associa-
das às análises de caráter cultural) mostram uma diminuição da influ-
ência marxista. Comparem-se as abordagens desse autor em alguns de
seus livros mais influentes: em A justiça social e a cidade, a análise está
baseada em diversos conceitos e teorias marxistas, como "modo de
produção" e a teoria de renda da terra, além de fazer várias referências
a mecanismos de exploração entre territórios que operariam através
do sistema urbano mundial; já na obra A condição pós-moderna, o
autor se vale principalmente da "teoria da regulação" no intuito de
caracterizar a atual fase histórica do capitalismo, para a partir daí
compreender o processo de descentralização industrial ocorrido mun-
dialmente a partir da crise dos anos 70 e as expressões culturais e
formas de sociabilidade próprias da "cidade pós-moderna" (HARVEY,
1980 e 1994)12.
Em suma, muitos autores anglo-saxões procuraram relativizar
ou abandonar parcialmente o uso de conceitos e teorias econômicas
marxistas em suas análises sobre o espaço urbano-regional ou sobre as
relações internacionais, além de começarem a dar mais importância
para a análise de temas ligados à cultura e ao uso político do espaço.
Também no Brasil é possível observar um movimento semelhante, na

12 Não se trata de dizer que o autor endossou integralmente as teses "regulacionistas" nesse
último livro, apenas que elas efetivamente compuseram a principal referência teórica em sua análise do
capitalismo atual. "Mas os contrastes entre as práticas político-econômicas da atualidade e as do período de
expansão do pós-guerra são suficientemente significativas para tornar a hipótese de uma passagem do
fordismo para o que poderia ser chamado regime de acumulação 'flexível', uma reveladora maneira de
caracterizar a história recente" (HARVEY, 1994, p. 119).

99
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

medida em que os anos 90 assistiram a um considerável crescimento


da geografia cultural, sob a inspiração da fenomenologia, do funcio-
nalismo e de outras matrizes epistemológicas. Isso é particularmente
significativo se for considerado que esse ramo da geografia nunca ti-
vera um desenvolvimento importante no Brasil, que até a década pas-
sada havia ficado relativamente à margem do processo de revalorização
da geografia cultural ocorrido internacionalmente a partir de 1970
(CORRÊA; ROSENDAHL, 1999).
Ora, como visto anteriormente, um dos sintomas da crise
das teorias econômicas de inspiração marxista está no fato de que o
marxismo ocidental passou a considerar a exploração do trabalho em
sua dimensão exclusivamente política; do mesmo modo, o marxismo
ocidental passou a se ocupar principalmente da kulturkritik e da aná-
lise das formas de sociabilidade próprias do capitalismo avançado,
deixando em segundo plano as discussões em teoria econômica, como
afirma Maria da Conceição Tavares (SINGER et al., 1991, p. 14).
Nesse contexto, as mudanças temáticas e epistemológicas ocorridas
na geografia crítica nestes vinte anos podem ser interpretadas não
apenas em função dos percalços para a utilização exclusiva de concei-
tos e teorias marxistas na análise da dimensão espacial da economia e
na área dos estudos urbanos e regionais — o que não significa que esse
instrumental não tenha contribuições significativas a oferecer —, mas
também como reflexos de uma transformação mais ampla do pensa-
mento marxista ocidental, o que coloca a necessidade de uma refle-
xão mais aprofundada dos geógrafos sobre a atualidade das teorias
marxistas.
Para orientar adequadamente essa revisão, é preciso relembrar
a ambiguidade do momento atual. Se é prudente abandonar a ideia
de revolucionar a geografia a todo momento, substituindo tudo o
que vem do passado pelo modismo acadêmico mais recente, por ou-
tro lado essa postura pode amortecer o ímpeto de fazer uma discussão
aprofundada sobre os equívocos em que a geografia incorreu (e pode
estar ainda incorrendo) ao abraçar o marxismo vulgar. Se a geografia
crítica não corre o risco de sofrer um julgamento tão severo quanto o
que ela própria lançou contra as vertentes que a precederam (inclusive
cometendo injustiças), muitos dos equívocos derivados da assimila-
ção do marxismo vulgar podem perpetuar-se na produção geográfica.

o 100
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

A ênfase nas teorias e no jargão marxista é reduzida sem que se faça


uma avaliação aprofundada sobre a crise do marxismo, no intuito de
identificar quais daquelas teorias precisam ser descartadas completa-
mente e quais poderiam ainda ser úteis para substantivar as análises
sobre a relação sociedade/espaço no capitalismo contemporâneo.
A discussão feita anteriormente sobre as tentativas feitas por
Edward Soja para dar sobrevida a certas teorias que foram influentes
nos anos 70 dá bem a medida disso. Todavia, a desconsideração da
crise do marxismo em sua verdadeira significância não é exclusivida-
de desse autor, mas sim uma característica comum a muitos geógrafos
brasileiros. E, não havendo uma rediscussão ampla quanto à pertinência
das teorias marxistas sobre o funcionamento do capitalismo atual,
também não pode haver uma reavaliação da postura político-ideoló-
gica dos geógrafos, a qual configura um terceiro plano de discussão.
Neste ponto, peço licença para começar a escrever em pri-
meira pessoa e também para restringir minhas observações ao Brasil,
pois comentarei um episódio testemunhado pessoalmente. Em 2000,
participei com alguns geógrafos de um debate acerca do filme cubano
Morango e chocolate e constatei a forma como muitos dentre nós con-
tinuam fazendo ouvidos moucos à crise do socialismo. A explicação
dos debatedores para a queda do socialismo na antiga URSS e no leste
europeu é a de que aqueles países nunca foram realmente socialistas,
pois o que existiu ali teria sido apenas um "capitalismo de Estado" —
como seria possível falar de "capitalismo" em economias totalmente
estatizadas, nas quais as empresas não atuavam com o objetivo da
maximização dos lucros, é uma questão que ficou no ar. De outro
lado, defendem o regime cubano alegando que ele já não é mais tão
autoritário como aparece no filme citado (!) e que os problemas soci-
ais de Cuba também existem no mundo capitalista, caso da prostitui-
ção. Em suma, o modelo cubano seria um exemplo de que o socialis-
mo, embora imperfeito, pode funcionar.
Mas o que essas explicações não levam em conta é que, pri-
meiro, Cuba também está fazendo reformas em favor da economia de
mercado e, segundo, que sua especificidade em relação às demais "eco-
nomias de transição" está justamente na insistência em preservar, tan-
to quanto for possível, duas características fundamentais do socialis-
mo real naqueles países, quais sejam, o controle estatal centralizado

101
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

sobre a economia e a ausência de democracia". E não se pense que


essa explicação contraditória é uma idiossincrasia de uns poucos
geógrafos presentes naquele evento, pois é na verdade bastante co-
mum, senão majoritária.
Ora, ainda é muito cedo para saber se a economia cubana irá
continuar relativamente estagnada, em função de sua baixa
competitividade internacional, ou, se ao invés disso, Cuba ainda con-
seguirá desenvolver um modelo de relacionamento entre Estado, mer-
cado e sociedade que seja democrático, economicamente dinâmico e
socialmente mais justo que aqueles vigentes em algumas outras "eco-
nomias de transição". E nem é isso o que importa nesta discussão. O
que se quer frisar aqui é que as representações e valores simbólicos que
compõem a "visão de mundo" dos geógrafos frente ao capitalismo
contemporâneo (em que pesem umas poucas declarações autocríticas)
continuam profundamente matizados pelos vícios característicos do
marxismo vulgar, conforme já apontado: menosprezo pela democra-
cia, estatismo estreito e visão puramente negativa do mercado.
E não é preciso restringir-se à discussão da crise do socialis-
mo para constatar isso, pois essa filiação ideológica ao marxismo vul-
gar está presente na maioria dos trabalhos da geografia brasileira. Os
geógrafos continuam "explicando" os problemas ambientais e urba-
nos como resultados perversos da "lógica do capitalismo", sem aten-
tarem para o fato de que esses problemas eram muito mais graves
dentro do socialismo real; continuam supondo que não há relação
entre desenvolvimento econômico e bem-estar social nos marcos da
sociedade capitalista, contra todas as evidências empíricas; continu-
am pensando que o progresso econômico e social de um país ou re-

13 Um artigo escrito pelo economista cubano Pedro Monreal (2001) sobre a crise da
economia de seu país nos anos 90 e a estratégia empregada para superá-la deixa claro que o regime cubano
procura manter a economia estatizada ao máximo possível, mas ainda assim persegue uma "reinserção" na
economia mundial para obter os capitais privados necessários para financiar um movimento de reestruturação
produtiva: "The Cuban State evidently has no means of its own to successfully implement the required
economic transformations. Therefore, private funds are necessay to achieve high rates of growth. This is not
to say that economic reform should focus on downsizing the state sector, but rather that a mixed economy
is needed". Ademais, é interessante como essa "reinserção" aparece em sua análise como uma imposição para
a retomada do crescimento econômico: "...reinsertion should be considered as a kind of `second best option'
for Cuba's economy (lacking a better alternative at the moment)". Como resultado, "the global economy has
had a visible `pull effect' on policy malcing in Cuba. Important sectors of the Cuban economy are already
market oriented and have found 'a place under the sun' in the global economic system as well as potential
for `upgrading' within the system" (MONREAL, 2001, p. 3, 8 e 9).

o 102
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

gião só pode ocorrer às custas da exploração e miséria de outros países


regiões — embora poucos hoje em dia procurem efetivamente de-
monstrar essa tese, como fez Edward Soja; palavras como "lucro" e
"mercado" continuam sendo demonizadas pelos geógrafos, marxistas
não marxistas; a geografia agrária brasileira não reviu em nada as
teorias com as quais já vinha trabalhando há cerca de vinte anos, sus-
tentando ainda hoje uma visão dicotômica entre empresas capitalistas
"campesinato"; e assim por adiante.
Esse congelamento no tempo de certas teorias e posturas
político-ideológicas remete a uma última questão importante, a qual
diz respeito à necessidade de rever as discussões deontológicas no âm-
bito da geografia crítica. Ninguém pode negar que uma contribuição
relevante dessa corrente para a geografia foi a de introduzir a preocu-
pação em refletir sobre os fundamentos éticos do trabalho científico,
questionando a utilidade social do saber geográfico e as funções ideo-
lógicas que esse saber pode cumprir. Contudo, a maneira como esses
questionamentos foram equacionados foi extremamente
simplificadora, e isso por várias razões.
Primeiramente, porque a aceitação do marxismo foi posta
pelos geógrafos críticos dos anos 70 e 80 como uma questão de or-
dem ética, estabelecendo assim um raciocínio extremamente
maniqueísta, no qual a opção por determinados métodos (sobretudo
neopositivismo) denotaria um compromisso deliberado do pesqui-
sador em fazer o jogo das "classes dominantes", já que o debate cien-
tífico seria apenas mais um front da luta de classes. Em segundo lugar,
porque os geógrafos críticos trabalharam com uma oposição simpló-
ria entre capitalismo e socialismo, sem se darem conta de que havia
enormes diferenças entre as propostas liberais (que rejeitavam e ainda
rejeitam o planejamento territorial) e as propostas associadas ao
keynesianismo e à social-democracia, bastante favoráveis a essas for-
mas de intervenção do Estado na economia e no território, com vistas
a corrigir as distorções geradas pelo mercado.
Em função disso, a geografia crítica acusou o planejamento
de ser apenas um instrumento a serviço da acumulação de capital, das
estratégias de dominação ideológica do "Estado burguês" e até mes-
mo do "imperialismo". Isso colocou o debate acadêmico, a atuação
no sistema de ensino e a militância político-partidária como as únicas

103
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

formas eficazes e eticamente justificáveis de ação transformadora do


real, contribuindo enormemente para encerrar os geógrafos em dis-
cussões teórico-metodológicas estéreis (porque desvinculadas da aná-
lise empírica e de qualquer perspectiva de aplicabilidade) e numa crí-
tica ideológica inconsequente ao capitalismo. Ainda pior, isso colo-
cou os geógrafos numa posição contraditória em face da conjuntura
política nacional e internacional dos anos 90, quando eles cerraram
fileiras contra o neoliberalismo e assim reconheceram (implícita e tar-
diamente) que o planejamento estatal, inclusive na área das políticas
territoriais, era na verdade um instrumento que procurava "domar" o
mercado e corrigir os aspectos negativos do seu funcionamento.
Em consequência, uma reflexão séria sobre o posicionamento
dos geógrafos em face dessas mudanças permite concluir que a geo-
grafia quantitativa possuía uma concepção muito mais correta das
relações entre Estado e mercado do que os geógrafos críticos, na me-
dida em que buscava subsidiar teoricamente políticas estatais destina-
das a promover uma distribuição mais equitativa da renda (em ter-
mos pessoais e regionais), melhorar a qualidade de vida urbana, pro-
mover o desenvolvimento econômico etc. Em suma, as críticas
propaladas pelos geógrafos críticos à perspectiva analítica até acerta-
vam em algumas de suas objeções teórico-metodológicas aos pressu-
postos da economia neoclássica e também ao refutar a alegada
despolitização das propostas de planejamento assentadas em lingua-
gem tecnocrática, mas não há como deixar de reconhecer que, pela
estreiteza de sua avaliação das relações entre Estado e mercado, as
propostas da geografia crítica no "domínio prático" representaram
um retrocesso lamentável em relação à geografia quantitativa.
Ainda mais significativo, porém, é que as revisões recentes
dessas ideias equivocadas da geografia crítica não passam pelo reco-
nhecimento de que a vertente analítica (apesar de também equivoca-
da em alguns pontos) acertou muito mais em suas concepções sobre o
planejamento territorial e as possibilidades de atuação profissional do
geógrafo, mas sim por uma aproximação entre o marxismo e a
fenomenologia humanista. Como esta última vertente também é bas-
tante crítica do cientificismo positivista, partilha certos valores sim-
bólicos com o marxismo e trata de temas não econômicos, abre-se
assim uma via bastante adequada para livrar a geografia de um jargão

104
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

marxista rançoso e direcionar as pesquisas para outras temáticas, tudo


isso sem haver a necessidade de rever os dogmas do marxismo vulgar
acerca da "lógica do capitalismo", anteriormente comentados. Quer
dizer, aceita-se a necessidade de trabalhar com várias perspectivas teó-
ricas e metodológicas (ideia em si mesma correta), mas o recurso às
diversas opções à disposição, ao invés de renovar efetivamente a geo-
grafia e sua visão acerca da sociedade contemporânea, serve para manter
intacta essa visão tradicional, ao mesmo tempo em que empresta à
disciplina novos ares de modernidade científica, num contexto políti-
co-intelectual em que o jargão marxista já soa bastante desgastado. A
geografia crítica muda, mas continua a mesma.
Sendo assim, o último plano de discussão proposto diz res-
peito à necessidade de retomar as discussões deontológicas da geogra-
fia à luz de um novo entendimento das relações entre Estado, merca-
do e sociedade no mundo atual. Uma questão central a responder
seria esta: até que ponto uma geografia que se esforça em mostrar
somente os aspectos negativos da operação do mercado pode atribuir-
se um papel político progressista num contexto histórico em que até
marxistas reconhecem a importância do mercado, inclusive para a
reconstrução do socialismo? Dizer que esse tipo de visão é válida e
necessária como forma de resistir à ideologia neoliberal não avança
nada, visto que no atual contexto histórico o socialismo só consegue
ser uma alternativa viável ao neoliberalismo quando substitui seus
preceitos "estatistas" tradicionais por propostas que sinalizem formas
mais criativas de combinar a operação do mercado com o planeja-
mento estatal.
Outra questão pertinente seria determinar de que modo os
valores humanistas que informam a geografia cultural contemporâ-
nea se relacionam com o funcionamento do mercado. À primeira vis-
ta, essa relação só poderia ser negativa (como geralmente tem sido no
Brasil), pois a fenomenologia humanista é pródiga em críticas ao pres-
suposto do "homem econômico", que está na raiz dos trabalhos de
modelagem inspirados pela economia neoclássica; além disso, o mer-
cado seria o lugar da competição e do individualismo, lastreados por
uma racionalidade instrumental que não guarda relação com qual-
quer perspectiva de sociabilidade fundada em valores solidários. No
entanto, existem propostas para combinar ou ao menos estabelecer

105 o
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

uma complementaridade entre as perspectivas analítica e


fenomenológica da geografia (ainda que raras), pois a consideração
dos aspectos subjetivos das decisões dos agentes econômicos pode ser
um caminho para superar as insuficiências dos modelos (CROCIA DE
BARROS, 1993). Ainda mais importante, porém, é que os avanços
sociais alcançados nos países que melhor conseguiram combinar capi-
talismo com democracia indicam que o funcionamento do mercado,
por si só, não é empecilho para o florescimento de uma cultura forte-
mente impregnada de valores solidários, que serviu de base para a
edificação do welfare state e tem funcionado como elemento de resis-
tência ao neoliberalismo. A recente expansão do chamado "Terceiro
Setor" é outra boa evidência disso. Por fim, o mercado é, como já foi
visto, um espaço de sociabilidade, isto é, a instância na qual as rela-
ções econômicas e sociais se objetivam, de maneira que, sem um com-
ponente importante de operação do princípio de mercado, não é pos-
sível um planejamento voltado para o bem comum e nem o desenvol-
vimento da cidadania.
Concluindo, estamos diante de mais uma fase de mudanças
na geografia, a qual traz consigo possibilidades interessantes de reno-
vação, mas também muitas armadilhas a evitar e questões que preci-
sam ser encaradas, ao invés de contornadas. Este artigo procurou
mapear alguns desses perigos e questões, além de fornecer subsídios
úteis para um repensar mais amplo da geografia crítica. Até que pon-
to as indagações e linhas de reflexão sugeridas aqui são pertinentes, é
algo a ser discutido; seja como for, o debate está aberto.

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108
2 - GEOGRAFIA AMBIENTAL
intAffILVi:" './1.1e1W. 1,11 I IlYjká ,111 I á 0,5 I S.

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,


GEOGRAFIA FÍSICA (?) GEOGRAFIA AMBIENTAL (?)
OU GEOGRAFIA E AMBIENTE (?)

Dirce Maria Antunes Suertegaray

Inicio minha intervenção nesta mesa dizendo que falar de


geografia ambiental não é necessariamente redundante, mas soa, sem
dúvida, estranho. Em primeiro lugar, minha intenção é dizer porque
não seria redundante para, posteriormente indicar que, mesmo não
sendo redundante, é inadequado.
Mais recentemente, temos sugerido uma leitura do espaço
geográfico que o conceba como uno e múltiplo. Sua compreensão,
portanto, só se viabilizaria a partir de uma leitura calcada em diferen-
tes conceitos. Os conceitos que, em meu entendimento, decifram o
espaço geográfico são, entre outros, região, paisagem, território, rede,
lugar e ambiente. Isto significa dizer que, quando pensamos o espaço
geográfico, compreendemo-lo como a conjunção de diferentes cate-
gorias, quais sejam: natureza, sociedade, espaço-tempo. Estas catego-
rias transformam-se com a histórica mudança do mundo; por
consequência, transforma-se o espaço geográfico, bem como o con-
ceito de espaço geográfico. Assim, quando fazemos a leitura do espa-
ço geográfico a partir de um desses conceitos, temos imbricadas todas
as demais relações. Entretanto, ao utilizar um conceito e não outro
estamos optando por enfatizar uma dimensão passível de ser analisa-
da e não outra. Ou seja, pensando dessa forma temos, ao fazer opção
pelo conceito de território, a análise do político; da região, o econô-
mico, ou o cultural; da paisagem, a natureza, ou a cultura; do lugar,
a subjetividade humana, ou a coexistência; da rede, as conexões entre
nós, pontos ou lugares de diferente natureza política, econômica, cul-
tural; enfim, ao pensarmos ambiente, temos a análise das transfigura-
ções da natureza e da natureza humana. Estes exemplos indicam, em
meu entendimento, a persistência em todas as dimensões analíticas,

111 o
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

daquilo que fundamenta historicamente a análise geográfica: a rela-


ção natureza-sociedade, ou dito de outra forma, a busca de conexão
entre a dimensão natural e social. Entretanto, embora a persistência,
essa relação não é necessariamente desvendada quando se constrói
uma análise do espaço geográfico. Isto porque o olhar através de um
conceito constitui um filtro que ressalta o que esse conceito indica.
Sendo assim, acreditamos não ser redundante falar de geografia
ambiental, ou seja, nem toda a análise geográfica ressalta, ou tem
como objetivo enfatizar a transfiguração da natureza pela prática so-
cial, portanto, não objetiva explicitar questões ambientais. Porém, não
consideramos apropriada a denominação geografia ambiental, pois
implica em qualificar a geografia. Assim, a geografia poderia ser de-
nominada de ambiental como poderia também ser denominada de
territorial, ou regional ou das paisagens, como, inclusive, no passado
já foi denominada.
Sobre a questão ambiental, outras reflexões são, em meu en-
tendimento, significativas. Estas dizem respeito às conexões entre a
geografia física, a concepção de natureza e de ambiente. Área, catego-
ria e conceito imbricados na dimensão ambiental.

Geografia física e sua superação

Uma breve análise da construção da geografia física, a partir


de meados do século XIX, tomando como ponto de partida a defini-
ção de geografia física proposta por Humboldt (1982) nos permite
dizer, com certeza, causando polêmica que a geografia física não cons-
tituiu um campo de conhecimento passível de ser pensado de forma
conjuntiva.
Dizemos isto baseados na história do conhecimento da na-
tureza, pautado na modernidade pela compartimentação. Esta pers-
pectiva analítica promoveu o esfacelamento desta área da geografia,
denominada de geografia física, nas, então, conhecidas subdivisões.
Durante o século XX, tivemos uma construção do conheci-
mento da natureza dividido em subáreas do conhecimento. Em algu-

112
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

mas delas é visível uma construção teórico-metodológica de maior


consistência. Este é o caso da geologia, da biologia e da geomorfologia,
por exemplo, para falar do que conheço mais proximamente.
Independentemente desta prática, alguns geógrafos busca-
ram construir um conhecimento mais conjuntivo. No Brasil, esta pers-
pectiva tomou como referência a abordagem sistêmica. O método
sistêmico proveniente da biologia dos anos 20 foi adotado na geogra-
fia com o objetivo de promover uma análise integrada da natureza.
Tornaram-se clássicos entre nós os textos de Sotchava (1977), Tricart
(1977), Bertrand (1982), entre os pesquisadores externos, e os de
Christofoletti (1979) e Monteiro (2000) entre os geógrafos nacionais
que buscaram a integração a partir deste caminho analítico. Não
obstante, em nossa leitura, o que observamos é que a busca de articu-
lação na perspectiva sistêmica ultrapassou a dimensão analítica refe-
rente à materialização do que se convencionou chamar de natureza.
Ao buscar este caminho construiram-se conceitos como o de
geossistema, que, por sua vez, ultrapassa na sua construção a integração
do conhecimento da natureza. Ultrapassa, porque inclui o homem (a
ação do homem) neste contexto. Esta concepção, ainda que naturali-
ze o ação do homem, impõe uma outra discussão que, em nosso en-
tendimento, ultrapassa a geografia física. Ultrapassa, na medida em
que resgata para a análise a dimensão antrópica, característica central
da geografia enquanto ciência da relação natureza e sociedade.
Outro dado que nos parece importante considerar quando
nos referimos à geografia física diz respeito ao advento da questão
ambiental. O termo ambiental, para além de todas as conceituações
expressas, indica a compreensão do ser na relação com seu entorno.
Este ser pode ser entendido individualmente ou coletivamente, de for-
ma genérica e naturalizada, ou como um ser social e historicamente
construído. Estas formas de compreensão promovem leituras diferen-
ciadas da questão ambiental e expressam a tensão relativa a diferentes
concepções de mundo. Resgatam a importância da compreensão
socioeconômica nas transformações da natureza, nas suas derivações,
nos impactos... Daí o questionamento: esta dimensão analítica ainda
é passível de ser reconhecida como compreensão da natureza ou como
geografia física? Não estaria a questão ambiental promovendo uma

113
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

construção que ultrapassa o campo especificamente da geografia físi-


ca? Não estaria esta temática exigindo um repensar mais conjuntivo
da própria geografia e, para além dela, um repensar transdisciplinar e
interdisciplinar?
Enfim, num mundo que se unifica pela produção e reprodu-
ção da natureza tornada mercadoria, discutir a natureza e a questão
ambiental resgata a unidade da geografia.

Sobre natureza

A geografia, ao longo de sua história, trabalha com o con-


ceito de natureza. Este conceito enquanto construção cultural é com-
preendido de diferentes maneiras. Faremos aqui duas referências. A
primeira diz respeito ao conceito de natureza que está subjacente à
concepção de geografia desde sua autonomia, perpassando pela sua
construção ao longo do século XX. Trata-se da concepção de nature-
za como algo externo ao homem. Nesse sentido, natureza é concebi-
da, conforme Suart Mill apud Drouin (1991), como "...a parte que
em todas as coisas e no próprio homem, escapa ao querer humano".
Entendida como tal, a natureza na geografia foi causa da organização
social, foi possibilidade de construção social mediante o maior ou
menor grau de desenvolvimento técnico, foi recurso mediado pelo
trabalho na produção de riqueza.
Assim, natureza pode ser compreendida de forma diferencia-
da, podendo ser a expressão de um "sistema total das coisas com to-
das suas propriedades", ou "o que em nós ou fora de nós não depende
de nossa intervenção" (STUART MILL apud DROUIN, 1991).
Na primeira leitura, podemos pensar as coisas externas ao
homem como natureza; já no segundo caso, podemos pensar uma
dimensão do humano, aquilo que escapa de nossa intervenção como
natural. Resulta destas concepções caminhos analíticos diferenciados:
de um lado temos uma natureza externa ao homem, conjunto de to-
das as coisas produzidas sem a intencionalidade humana, portanto,
algo distinto ao homem. De outro lado, temos um caminho analítico

114
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

que entende a construção humana como natureza. Em sendo assim,


deriva daí a leitura de natureza como organismo auto-eco-re-
organizacional (MORIN, 1990), ou seja, natureza é a autorreprodução
do ser/seres na sua relação com o entorno. A natureza, não sendo
externa ao homem, se auto produz com a presença humana. O que
distinguiria, então, natureza de humanidade/sociedade. Segundo Mil-
ton Santos, isto pode ser diferenciado pela distinção entre coisas (na-
tureza) e objetos (tudo o que é produzido com uma intencionalidade).
A obra de Milton Santos (1997) expressa essa diferenciação
e, ao mesmo tempo que diferencia, remete à discussão sobre a cons-
trução de outra natureza. Que natureza seria essa?
Para Milton Santos (1997), a natureza a que se refere é uma
natureza artificial, tecnificada. Esta interpretação associa-se ao con-
texto atual, denominado por ele de período "Técnico Científico
Informacional". Neste momento histórico, "não nos é permitido pen-
sar a natureza como primariamente natural, ou melhor, como decor-
rente de processos que advém exclusivamente de sua auto-organiza-
ção" (SUERTEGARAY, 2000).
Isto exige uma reflexão efetiva sobre o que é natureza hoje.
Algumas proposições encaminham a discussão. Milton Santos (1997)
qualifica a natureza denominando-a de natureza artificial, ou
tecnificada, ou ainda, natureza instrumental. Isto porque a técnica no
seu estágio atual permite a intervenção, não só nas formas, como nos
processos naturais. Alguns exemplos cabem para melhor ilustrar: a
intervenção no ciclo cicardiano de maneira generalizada, seja entre os
homens, onde a necessidade do relógio na vida diária constitui um
exemplo expressivo, seja entre os animais e vegetais através da acelera-
ção nos processos de produção e reprodução destes para o consumo
humano. Além deste exemplo, cabe registrar a constituição de semen-
tes transgênicas, assim como a transmutação de animais (ovelha Dolly),
entre tantos outros mais comumente lembrados, o efeito estufa e a
camada de ozônio (na climatologia), as águas superficiais contamina-
das (na hidrologia) e os depósitos tecnogênicos (na geomorfologia/
geologia). Tratar-se-ia a natureza, nesta circunstância, não mais como
uma dimensão de interface com a sociedade, mas como uma dimen-
são de transmutação/transfiguração. O termo transfiguração aqui
adotado é entendido conforme apresenta Maffesoli (1995) "transfi-

115
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

faz sua própria crítica ao desvendar suas diferentes formas de compre-


ender a questão ambiental.
Assim, retomar o conceito de espaço geográfico e repensar
com ele o conceito de ambiente é, do nosso ponto de vista, tarefa que
se impõe aos geógrafos.
Objetivando contribuir com este debate, expressamos algu-
mas ideias já esboçadas em outro momento sobre Espaço Geográfico
Uno Múltiplo (SUERTEGARAY, 2000).
Em nossa compreensão, espaço geográfico é o conceito
balizador da geografia. A análise geográfica se efetiva através de con-
ceitos que denominamos operacionais. Conforme já nos referimos no
início deste texto, muitos são estes conceitos; a título de exemplo
costumamos lembrar os mais evidentes: região, território, lugar, pai-
sagem, redes, geossistema e ambiente.
Aqui, é nosso interesse particular enfatizar a discussão
ambiental, não obstante cabe expressar como o conceito de ambiente
pode ser uma expressão do geográfico.
Podemos pensar o espaço geográfico como um conjunto uno
e múltiplo aberto a múltiplas determinações. Estas podem ser lidas e
se expressam através de diferentes conceitos. Assim, espaço geográfico
poderia ser entendido como um disco, a exemplo do disco de Newton.
O disco setorizado em diferentes áreas expressa a possibilidade analí-
tica de leitura do espaço geográfico a partir de diferentes conceitos.
Ou melhor, podemos ler o espaço geográfico enquanto paisagem, ter-
ritório, região, ambiente etc. Cada setor do disco representa a visão
analítica privilegiada por um ou outro geógrafo. Assim, temos, nesta
representação, a possibilidade de diferentes leituras. Entretanto, o es-
paço geográfico é dinâmico A dinamicidade do espaço geográfico é
representada pelo movimento, no caso, o girar do disco. O movimen-
to expressa a conjunção de cores (branco), ou seja, a unidade na
multiplicidade. O espaço geográfico pode ser lido, então, através de
diferentes conceitos de paisagem, e/ou território, e/ou lugar, e/ou am-
biente, sem desconhecermos que cada uma destas discussões contém
as demais. Isto porque cada uma delas enfatiza uma dimensão da
complexidade organizacional do espaço geográfico: o econômico/cul-
tural (na paisagem), o político (no território), a existência objetiva e
subjetiva (no lugar), a transfiguração da natureza (no ambiente). En-

o 118
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

tretanto, nenhuma destas discussões prescinde das determinações ex-


pressas em uns e em outros (SUERTEGARAY 2000).
Enfim, cabe dizer, em conclusão, que, ao tratarmos do espa-
ço geográfico na sua face ambiental, implica conceber que: "A presen-
ça do homem concretamente como ser natural e, ao mesmo tempo,
como alguém oposto à natureza promoveu/promove profundas trans-
formações na natureza em si mesma e na sua própria natureza..."
(SUERTEGARAY, 2000). Esta transformação vimos chamando de
transfiguração. Significa dizer que o homem, por meio de seu desen-
volvimento técnico é capaz de, não só intensificar processos naturais,
como também produzir novos. Estas práticas, como anteriormente
nos referimos, transfiguram a natureza, ou seja, transformam-na em
outra figura, em outra coisa, que poderá conter a figura de origem,
mas não será mais a mesma.
Comporta pensar esta questão, ao pensar em geografia. A
natureza, não a sua transfiguração, recria-se em novas formas
tecnificadas/artificializadas, cuja presença na superfície da Terra já são
evidentes.
Essas novas formas indicam aos geógrafos a necessidade de
reflexão epistemológica. Caminho árduo, mas necessário, se quiser-
mos construir um diálogo interdisciplinar que contribua para a deci-
fração das coisas e dos objetos que, em interação entre si e com os
homens e mulheres vivendo em sociedade, configuram a materialidade
da vida.

Referências

ALIATA, F.; SILVESTRI, G. El paisage en el arte y las ciencias humanas. Buenos Aires:
Centro Editor de America Latina, 1994.
BERTRAND, G. Paisage y geografia física global. In: MENDOZA, J. G.; JIMINES, J. M.;
CANTERO, N. O. (Orgs.). El pensamiento geográfico: estudio interpretativo y antologia de
textos (de Humboldt a las tendências radicales). Madrid: Alianza Editorial, 1982.
CHRISTOFOLETTI, A. Análise de sistemas em geografia. São Paulo: Hucitec, 1979.

119
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

A história da sociedade humana do último quartel do século


XX encontra-se fortemente marcada pelo debate acerca da questão
ambiental, fato que se repercute de maneira integral no escopo do
conhecimento geográfico.
O século XX assistiu à lenta transformação da conotação
dos termos ambiente e ambientalismo, visto que, até meados do mes-
mo, as discussões relativas a essa temática ainda tinham uma concep-
ção majoritariamente naturalista e científica. A evolução da alteração
do conceito de meio ambiente pode ser assim observada nas seguintes
palavras de Bailly e Ferras (1997, p. 115-166)
Em 1917, o meio ambiente, é para uma planta "o resultante de todos os fatores
externos que agem sobre ela". Em 1944, para um organismo "a soma total
efetiva de fatores aos quais um organismo responde". Em 1964, Harant e Jarry
propõem "O conjunto de fatores bióticos (vivos) ou abióticos (físico-quími-
cos) do habitat". Em 1971, segundo Ternisien : "Conjunto, num momento
dado, dos agentes físicos, químicos e biológicos e dos fatores sociais suscetíveis
de ter um efeito direto ou indireto, imediato ou a termo, sobre os seres vivos e
as atividades humanas. E aí está a palavra na moda, vítima da inflação
jornalística...3

Na evolução do conceito de meio ambiente (environment,


environnement) observa-se o envolvimento crescente das atividades
humanas, sobretudo nas quatro últimas décadas, mas ele continua
fortemente ligado a uma concepção naturalista, sendo que o homem
socialmente organizado parece se constituir mais num fator que num
elemento do ambiente. De maneira geral, e observando-se tanto o sen-
so comum como o debate intra e extra-academia, a impressão geral
que se tem é de que a abordagem do meio ambiente está diretamente
relacionada à natureza, como se existisse um a priori determinante,
traduzido numa hierarquização dos elementos componentes do real,
onde aqueles atinentes ao quadro natural estão hierarquicamente em
posição mais importante e sem os quais não haveria a possibilidade
da compreensão ambiental da realidade.
3 "En 1917, l'environnement, c'est pou une plante 'the resultant of ali the externai factors
acting upon it'. En 1944, pour un organisme 'the sum total effective factors to which na organism responds'.
En 1964, Harant et Jarry proposent `Ensemble des facteurs biotiques (vivants) ou abiotiques (physico-
chimique) de l'habitat'. En 1971 selon Ternisien : `Ensemble, à un moment donné. Des agents physiques,
chimiques et biologiques et des facteurs sociaux susceptibles d'avoir un effet direct ou indirect, immédiat ou
à terme, sue les êtres vivants et les activités humaines'. Et voilá le mot à la mode, em proie à Pinflation
journalistique...". Trad.: F. Mendonça.

o 124
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

Entretanto, é notório o fato de que o emprego do termo


meio ambiente parece ter se tornado incômodo a um segmento dos
ambientalistas mais contemporâneos, pois que, como o evidenciou
Porto Gonçalves (1989), o fato de a palavra meio também significar
metade, parte, porção etc., denotaria a ideia do tratamento parcial
dos problemas ambientais. Mesmo se esta leitura crítica apresente con-
siderável coerência etimológica, não deixa de ser lastimável o fato de
os geógrafos pouco terem lutado para explicitar a especificidade e
importância do termo meio no que concerne à sua significação cientí-
fica; afinal, o emprego do mesmo em contexto ambiental constitui-se
atualmente numa derivação, ou mesmo numa apropriação geral do
conceito de meio geográfico. Há que se atentar também para o fato de
que muitos geógrafos consideram o termo ambiente, ou meio ambi-
ente, um "quase sinônimo" do termo geografia, vendo no emprego de
expressões tais como "geografia ambiental" um reducionismo.
Este último conceito — meio geográfico —, empregado por
Albert Demangeon e por Elisée Reclus no início do século passado,
inaugurou uma aberta e avançada compreensão dos diferentes espa-
ços geográficos do planeta numa perspectiva ambientalista globalizante.
Todavia, o conceito de meio geográfico não deve ser concebido como
sinônimo de ambiente, ou de meio ambiente, conforme o emprego e
significado atual deste último, pois não se trata mais somente de uma
determinada concepção científica do objeto de estudo da geografia,
afinal o momento histórico contemporâneo impregnou o conceito
atual de ambiente de considerável complexidade. Assim, a presente
concepção geográfica de meio ambiente, portadora de uma herança
de tamanha importância, (re)assegura e ao mesmo tempo reflete-se
numa outra perspectiva da abordagem ambiental, como o afirmou
Veyret (1999, p. 6), pois
De fato, para um geógrafo, a noção de meio ambiente não recobre somente a
natureza, ainda menos a fauna e a flora somente. Este termo designa as relações
de interdependência que existem entre o homem, as sociedades e os compo-
nentes físicos, químicos, bióticos do meio e integra também seus aspectos
econômicos, sociais e culturais.

Ainda que tenha sido ampliado e se tornado mais abrangente,


o termo meio ambiente — ou ambiente — (estes sim podem ser tomados
como sinônimos), parece não conseguir desprender-se de uma gênese

125
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

e uma história fortemente marcadas por princípios naturalistas, o que


leva a crer que tenha sido gerada uma concepção cultural do meio
ambiente que exclui a sociedade da condição de componente/sujeito,
mas a inclui como agente/fator. Inserir na abordagem ambiental a
perspectiva humana — portanto social, econômica, política e cultural
— parece ser um desafio para toda uma geração de intelectuais, cientis-
tas e ambientalistas que se encontram vinculados a tais discussões no
presente, e certamente também no futuro próximo.
Assim, observa-se na atualidade, diante de tão importante
desafio, uma forte tendência à utilização, de forma ampla, do termo
socioambiental, pois que se tornou muito difícil e insuficiente falar de
meio ambiente somente do ponto de vista da natureza quando se pen-
sa na problemática interação sociedade-natureza do presente, sobre-
tudo no que concerne a países em estágio de desenvolvimento com-
plexo (MENDONÇA, 1993). O termo sócio aparece, então, atrelado
ao termo ambiental, para enfatizar o necessário envolvimento da so-
ciedade enquanto sujeito, elemento, parte fundamental dos processos
relativos à problemática ambiental contemporânea.
Esta evolução conceitual teve, na realização da Conferência
das Nações Unidas Para o Desenvolvimento e Meio Ambiente, a Rio-
EC0/92, um de seus principais marcos. Os debates travados naquele
evento, ou por ocasião do mesmo, resultaram, dentre outros, em
mudanças de concepções relativas ao meio ambiente, pois engendra-
ram novos elementos que resultaram em novas maneiras de se conce-
ber os problemas ambientais (MENDONÇA, 1993). A importância
atribuída à dimensão social desses problemas possibilitou o emprego
da terminologia socioambiental, e este termo não explicita somente a
perspectiva de enfatizar o envolvimento da sociedade como elemento
processual, mas é também decorrente da busca de cientistas naturais a
preceitos filosóficos e da ciência social para compreender a realidade
numa abordagem inovadora. A abertura observada no âmbito da ci-
ência social para o envolvimento da dinâmica da natureza como inte-
grante da complexidade da sociedade, ainda que bem menos expressi-
va que no caso anterior, também impulsiona a constituição da com-
preensão socioambiental da realidade.
Todavia, o debate acerca da etimologia relativa à problemá-
tica ambiental não se esgota com a adoção de uma ou outra termino-

126
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

logia, como bem o alertou Moraes (1994), ao tratar dos fundamentos


epistemológicos para o estudo do meio ambiente, quando ressaltou
que um dos principais problemas atinentes a este campo de estudos
diz respeito à diversidade conceitual e de linguagem que o envolve.
Segundo este autor
...0 termo ecologia, por exemplo — e ninguém vai negar a sua centralidade para
a discussão em foco —, aparece em alguns contextos discursivos como um
objeto; porém, em outros contextos aparece como método; em outros ainda
como ciência, e mesmo em alguns, como questão política. Temos então um
termo que varia bastante, dependendo do contexto discursivo de quem o em-
prega (MORAES, 1994, p. 47).

O mesmo ocorre com o termo ambiente, eivado que é de


uma pluralidade de concepções e conceitos, e presente tanto em
acepções científicas, políticas e culturais, quanto em político-gover-
namentais, movimentos sociais gerais etc. Mas num aspecto parece
haver concordância: os termos ambiente e ambientalismo emprega-
dos na atualidade ligam-se a concepções completamente diferentes
daquelas do final do século XIX e início do XX. Se naquele momento
estavam atrelados diretamente ao estudo da natureza do planeta, no
momento presente ligam-se mais aos graves problemas derivados da
interação entre a sociedade e a natureza, à relação homem — meio,
homem — natureza, físico — humano, homem — homem etc.
Assim sendo, o contexto recente no qual emergem as gran-
des discussões e desafios ambientais parece não mais permitir ao ho-
mem a vivência de situações nas quais ser cientista, intelectual, técni-
co, profissional e cidadão sejam experiências desconectadas. Para aque-
les que vivem no mundo da academia e das instituições de pesquisa,
um cotidiano de permanente envolvimento com problemas ambientais
é, inúmeras vezes, difícil separar o ecológico do ecologismo, o ambi-
ente do ambientalismo. Por seu lado, aqueles imersos nos movimen-
tos ambientalistas estão sempre a demandar suporte científico para a
defesa de suas causas.
No caso particular da geografia como ciência, o que se ob-
serva é uma muito estreita vinculação entre ela e o trato do ambiente
— e por conseguinte da problemática ambiental, sendo esta uma das
mais explícitas características da geografia, desde sua condição de nas-

127
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

cente ciência moderna oitocentista (MORAES, 1990; MENDONÇA,


1989 e 1993).

Geografia ecológica, geografia ambiental, geografia


socioambiental: construção histórica e particularidades

Analisada no campo do pensamento geográfico moderno, a


abordagem ambiental pode ser concebida a partir de dois grandes
momentos, conforme Mendonça (1993). O primeiro, no qual o am-
biente configurava-se em sinônimo de natureza (ambientalismo = na-
turalismo), prevaleceu desde a estruturação da científica da geografia
até meados do século XX, sendo porém possível ainda observá-lo como
uma postura filosófica perante o mundo por parte de muitos cientis-
tas e intelectuais, inclusive de geógrafos. A este primeiro período tam-
bém poderia ser associado o tecnicismo, a segunda postura que Moraes
(1994) identifica nos cientistas da atualidade perante a problemática
ambiental.
A terceira postura identificada por Moraes (1994), o roman-
tismo, é fortemente marcada por perspectivas políticas extremistas na
condução de problemas ambientais, mas não se assemelha ao segundo
momento do ambientalismo geográfico da concepção de Mendonça
(1993). Neste segundo momento é que se observa o salto dado por
alguns geógrafos ao romperem com a característica majoritariamente
descritiva-analítica do ambiente natural — que é ainda muito presente
—, passando a abordá-lo na perspectiva da interação sociedade-natu-
reza e propondo, de forma detalhada e consciente, intervenções no
sentido da recuperação da degradação e da melhoria da qualidade de
vida do homem.
Neste segundo momento do ambientalismo geográfico, nota-
se uma expressiva diferença da corrente ambientalista face a outras
correntes do pensamento geográfico a ela coetâneas, e de maneira muito
particular à corrente da geografia crítica. Se para esta última a derro-
cada do socialismo real e o questionamento da perspectiva marxista
como prisma necessário para a leitura do real se enfraqueceram, para

128
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

a corrente ambientalista o impacto não foi tão profundo; afinal tor-


nou-se mais explícito que a busca para a solução dos problemas
socioambientais do planeta deve estar acima de quaisquer ideologias,
mesmo que possa ser por todas apropriada.
Todavia, e de maneira geral, tanto na França como no Bra-
sil, não se pode afirmar que tenha havido uma total semelhança entre
geografia crítica e geografia ambiental, ou mesmo que no âmbito da
geografia crítica brasileira a abordagem da questão ambiental tenha se
dado de maneira ampla e satisfatória. Para muitos geógrafos, tanto
num país quanto noutro, a perspectiva ambiental parece não ter con-
figurado expressão marcante para caracterizar um novo segmento ou
uma nova corrente do pensamento geográfico, como se pode detectar
nas seguintes palavras de Bailly e Ferras (1994, p. 47): "Desde 1975 a
nova geografia se aprofunda em muitas correntes que se reforçam:
geografia crítica, geografia das representações, geografia política, ge-
ografia teórica, geografia cultural, geografia humanista... "4. Note-se
que a geografia ambiental aí não aparece, sendo o mesmo também
observado na concepção de uma boa parte daqueles mais vinculados
aos aspectos humanos da geografia no Brasil.
Um tal descaso, por parte de alguns geógrafos, atitude que
se assemelha a uma tomada de posição tecnocentrista (FOLADORI,
1999) frente à problemática ambiental atual, pode ser atribuído a
vários fatores, dentre os quais cabe destacar:
1 a opção pela concepção de que a geografia é uma ciência eminente-
mente social — para a qual o suporte físico-natural (mesmo altera-
do) parece ser secundário ou sem importância, tanto na estruturação
espacial da sociedade quanto na influência da natureza sobre ela
ou vice-versa;
2 o distanciamento voluntário à problemática ambiental do planeta
— o que pode revelar a crença de que a tecnologia que gerou os
problemas ambientais também encontrará as soluções para os mes-
mos e que, portanto, eles não constituem objeto de primeira ordem
para o interesse geográfico;

4 "Depuis 1975 la nouvelle géographie s'approfondit em de multiples courants qui se


renforcent: géographie critique, géographie des représentations, géographie politique, géographie théorique,
géographie culturelle, géographie humaniste...". Trad.: F. Mendonça.

129
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

3 o desconhecimento e a recusa da compreensão da dinâmica da na-


tureza e da sua importância na constituição do espaço, do territó-
rio e da sociedade.
Neste aspecto, e sem querer polemizar quanto a diferenças
de capacidades entre geógrafos físicos e geógrafos humanos, mesmo
concordando com os argumentos de Massey (1999), há que se reco-
nhecer o considerável esforço de numerosos geógrafos físicos na com-
preensão e inserção dos processos sociais em sua interação com a na-
tureza das paisagens e nos problemas ambientais, o que ainda é bas-
tante ínfimo em relação à aproximação de geógrafos humanos no
que concerne à apreensão da natureza no estudo da sociedade.
A explícita posição ideológica da corrente crítica no Brasil e
seu vínculo ao método marxista (materialismo histórico e materia-
lismo dialético) como base para a elaboração do estudo do espaço e
do ambiente permitiram somente abordagens parciais dos mesmos,
ainda que uma infinidade de trabalhos de excelente qualidade tenham
sido elaborados sob esse enfoque. O fato ocorrido no Brasil, nos anos
70 e 80 quando, dentre os militantes da corrente da geografia crítica
se encontravam alguns geógrafos físicos, parece lembrar um pouco o
que ocorreu nos anos 50 e 60 na França. Naquele país um grupo de
geógrafos físicos (Jean Dresch, Jean Tricart etc.) militava no partido
comunista e/ou em partidos de esquerda e, ao mesmo tempo, estuda-
va fenômenos ligados ao quadro natural do planeta; no Brasil pode-
se citar, numa sequência cronológica que vai dos anos 60 aos anos 90,
geógrafos como Aziz Ab'Saber, Claudio de Mauro, Dirce Suertegaray,
Wanda Sales, Francisco Mendonça, Walter Casseti, dentre outros.
O aprendizado com a militância política de esquerda em
muito ensinou a estes geógrafos quanto a novas perspectivas de análi-
se do espaço e do ambiente, sendo que os consideráveis avanços intro-
duzidos no estudo da paisagem são certamente decorrentes da vivência
política. Quanto à geografia por eles produzida, todavia pode-se afir-
mar que ela foi arrojada e inovadora ao superar as características da
geografia clássica ou tradicional, e de inserir a perspectiva analítica e
crítica geral aos modelos vigentes na sociedade e na ciência natural,
mas que foram incapazes de inserir o marxismo, enquanto método,
na dinâmica processual dos elementos da natureza na evolução das
paisagens.

130
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

Não se pode, então, admitir tal produção geográfica como


pertencendo integralmente à corrente da geografia crítica, ou que te-
nha sido produzida em completa conformidade com os princípios da
corrente crítica brasileira, pois a ciência produzida por aqueles geógrafos
é revestida de uma importantíssima postura crítica face à produção
do conhecimento, mas não de uma aplicação da perspectiva marxista
na análise detalhada da evolução da paisagem e dos problemas
ambientais. O método de investigação científica utilizado por tais
geógrafos explicita diferenças fundamentais entre postura crítica ge-
ral e postura crítica marxista. Soares Pontes (1999, p. 38), ao discutir
a natureza/sociedade na visão marxista, oferece argumentos impor-
tantíssimos para a compreensão desta distinção ao considerar que
A história da natureza precederia a história da humanidade, mas uma vez que
esta última houvesse atingido um elevado grau de desenvolvimento tecnológico
e agisse cada vez mais eficazmente no sentido de modificar a natureza, a histó-
ria natural ficaria subordinada à história social e seria parte integrante desta.
A grande preocupação dessa linha interpretativa não é evidentemente o estudo
da natureza em sis , mas a fundamentação do socialismo como continuação
lógica do capitalismo, como "etapa" histórica posterior e mais avançada, numa
interpretação evolucionista.

A natureza não deve mesmo ser enfocada a partir de méto-


dos específicos aos estudos da sociedade, assim como a sociedade não
o deve ser a partir de métodos das ciências naturais, ainda que a abor-
dagem da problemática ambiental parta de uma ótica social. Neste
aspecto, e para enriquecer essa discussão, é interessante e elucidativo
observar a interpretação de Leff (2001, p. 49), para quem
...a partir do momento em que a natureza se transforma, num processo geral,
em objeto de uma ciência — a evolução biológica, a dinâmica dos ecossistemas
—, esses objetos biológicos devem incluir os efeitos das relações sociais de
produção que os afetam. E esses efeitos devem ser considerados em suas deter-
minações sócio-históricas específicas, não na redução do social e da história em
processos naturais ou ecológicos. Desde que a natureza se transforme em obje-
to de processos de trabalho, o natural absorve-se no materialismo histórico.
Isto não nega que operem as leis biológicas dos organismos que participam no
processo', inclusive o homem e sua força de trabalho; mas o natural se transfor-
ma no biológico superdeterminado pela história. Nem o recurso natural nem a
força de trabalho se referem ao metabolismo biológico ou ao desgaste energético
5 Grifo deste autor.
6 Grifo deste autor.

131
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

dos organismos vivos. O recurso natural e a força de trabalho não são entes
naturais existentes independentemente do social, mas são já o biológico deter-
minado pelas condições de produção e reprodução de uma dada estrutura
social.

Essa última interpretação, mesmo que explicitamente atre-


lada a uma visão de mundo e do ambiente a partir de uma perspectiva
marxista, não deixa de chamar a atenção para a necessária distinção
entre "leis naturais" (dinâmica da natureza) e processos sociais (dinâ-
mica da sociedade) envolvidos na gênese da problemática ambiental
contemporânea. A geografia socioambiental não deve prescindir desta
perspectiva.
Ao tratar da corrente ecológica e sua derivação no âmbito da
geografia, o que teria originado uma "geografia ecológica", Andrade
(1987, p. 119) afirma que ela tem como um de seus marcos impor-
tantes a publicação da proposta da ecogeografia de Jean Tricart e Jean
Kilian (1979). Na sua concepção, esta corrente se construiu a partir
do momento em que
Os geógrafos passaram também a preocupar-se seriamente com o problema do
meio ambiente, observando-se que na área de geografia física muitos evoluíram
de trabalhos específicos sobre morfologia, clima, hidrologia etc. para realizar
pesquisas mais amplas a respeito do meio ambiente, ou, continuando os traba-
lhos em suas áreas específicas, passaram a aplicar os conhecimentos especializados,
levando em conta o impacto dos elementos naturais quando influenciados pela
sociedade sobre o meio ambiente...

No Brasil, o desenvolvimento de uma abordagem consoante


com a perspectiva de uma geografia ecológica teria, segundo a com-
preensão de Andrade (1987), sido iniciado por Hilgard O'Railly
Sternberg, Aziz Nacib Ab'Saber e Carlos Augusto de Figueiredo
Monteiro, em finais da década de 60 e início de 70. Considerando os
avanços que esta corrente significa para a evolução do pensamento
geográfico, o referido autor parece explicitar alterações de sua con-
cepção ao evidenciar, em obras mais recentes (ANDRADE, 1994 e
1999), o envolvimento de geógrafos mais afetos às humanidades no
tratamento do meio ambiente. Segundo ele
Hoje, com a aceitação dos problemas do meio ambiente, quer face à exploração
desordenada dos recursos, nem sempre renováveis, quer em conseqüência da
poluição da água e da atmosfera, os estudos ambientais vêm tendo uma grande

132
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

aceitação e vêm se difundindo tanto em trabalhos propriamente geográficos


como em trabalhos interdisciplinares (ANDRADE, 1999, p. 31).

Observa-se, assim, avanços consideráveis no tratamento da


questão ambiental nos anos 80 e 90 até o presente, ou seja, de uma
fase predominantemente caracterizada pelo enfoque ecológico, que
ressaltava a vertente naturalista, para uma outra centrada no ambien-
te, na qual sociedade e natureza compõem as duas partes de uma
interação dialética. Esta perspectiva geográfica do enfoque ambiental
não é, todavia, nova, podendo ser identificada nas ideias de Elisée
Reclus produzidas há cerca de cem anos e que, mesmo tendo sofrido
um hiato de mais de meio século na sua difusão e aplicação, foram
retomadas e aprimoradas no momento contemporâneo. Nesta cor-
rente, a problemática ambiental na geografia deixa de ser identificada
apenas como ligada à geografia física e passa a ser geográfica. Esta
fase atual do desenvolvimento do pensamento geográfico parece aten-
der ao seguinte clamor de Monteiro (1984, p. 24-25), um dos princi-
pais precursores da corrente socioambiental da geografia, lançado há
cerca de vinte anos:
Que os geógrafos dedicados aos aspectos naturais não deixem de considerar o
homem no centro deste jogo de relações, e que aqueles dedicados às desigual-
dades sociais não as vissem fora dos lugares seriam meros pontos superficiais de
uma convergência que pode ser, como tem sido, desatada a qualquer momento.
O verdadeiro fio condutor de uma estratégia capaz de promover a unicidade do
conhecimento geográfico advirá de um pacto mais profundo que só pode ema-
nar de uma concepção filosófica propícia.

Uma concepção filosófica propícia à abordagem científica


da problemática ambiental atual pode ser encontrada em várias pro-
posições filosóficas produzidas desde a Grécia Clássica e, na insufici-
ência dessas, demandar novas formulações, como bem o postularam
Capra (1987), Morin e Kern (1995), e Leff (2001), dentre outros. No
âmbito da geografia, os estudos relacionados a esta problemática tan-
to têm sido desenvolvidos segundo os mais diferentes matizes filosófi-
cos usualmente empregados por esta ciência, e aí os extremismos que
exacerbam o enfoque para o natural ou para o social são bastante
peculiares, quanto demandado rupturas da configuração atual da pro-
dução geográfica. Tais rupturas têm sido marcadas em relação a con-
cepções teóricas e metodológicas e técnicas de investigação da dimen-

133 o
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

são espacial da referida problemática, já que, como o reconheceu Moraes


(1994, p. 46), ao introduzir uma discussão relativa à epistemologia
para o estudo do meio ambiente, trata-se de "...uma questão nova,
[...] arredia aos padrões tradicionais. .."7.
Se na sociedade em geral o termo meio ambiente ou ambien-
te (environment, environnement), vitimado que foi pela inflação
jornalística banalizou-se, como bem o apontaram Bailly e Ferras
(1997), no âmbito acadêmico-científico ele não passou impune a esse
processo. Tais termos têm sido utilizados das mais diversas maneiras,
mas, em boa parte das vezes, têm sido empregados como num proces-
so industrial em que se colocam rótulos novos em produtos ultrapas-
sados ou que não correspondem ao texto ali expresso. Assim, é preci-
so ter muito cuidado, pois os rótulos podem embelezar os produtos e
expressar a vanguarda dos mesmos, mas podem também ser forte-
mente enganosos.
É então necessário se ter muita cautela e discernimento, pois
nem tudo que é geográfico é ambiental. Neste mesmo sentido, é tam-
bém preciso assinalar que nem tudo que é produzido na perspectiva
da geografia física deve receber o rótulo de ambiental, pois muitos
não se configuram como tal, embora constituam importantes contri-
buições para aqueles. A característica de ambiental de um estudo não
o faz melhor ou pior que nenhum outro elaborado em conformidade
com outras correntes, quer seja da geografia ou de outra ciência; o faz
apenas distinto dos demais.
Na concepção aqui defendida, um estudo elaborado em con-
formidade com a geografia socioambiental deve emanar de problemá-
ticas em que situações conflituosas, decorrentes da interação entre a
sociedade e a natureza, explicitem degradação de uma ou de ambas. A
diversidade das problemáticas é que vai demandar um enfoque mais
centrado na dimensão natural ou mais na dimensão social, atentando
sempre para o fato de que a meta principal de tais estudos e ações vai
na direção da busca de soluções do problema, e que este deverá ser
abordado a partir da interação entre estas duas componentes da reali-
dade.

7 Grifos deste autor.

134
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

aceitação e vêm se difundindo tanto em trabalhos propriamente geográficos


como em trabalhos interdisciplinares (ANDRADE, 1999, p. 31).

Observa-se, assim, avanços consideráveis no tratamento da


questão ambiental nos anos 80 e 90 até o presente, ou seja, de uma
fase predominantemente caracterizada pelo enfoque ecológico, que
ressaltava a vertente naturalista, para uma outra centrada no ambien-
te, na qual sociedade e natureza compõem as duas partes de uma
interação dialética. Esta perspectiva geográfica do enfoque ambiental
não é, todavia, nova, podendo ser identificada nas ideias de Elisée
Reclus produzidas há cerca de cem anos e que, mesmo tendo sofrido
um hiato de mais de meio século na sua difusão e aplicação, foram
retomadas e aprimoradas no momento contemporâneo. Nesta cor-
rente, a problemática ambiental na geografia deixa de ser identificada
apenas como ligada à geografia física e passa a ser geográfica. Esta
fase atual do desenvolvimento do pensamento geográfico parece aten-
der ao seguinte clamor de Monteiro (1984, p. 24-25), um dos princi-
pais precursores da corrente socioambiental da geografia, lançado há
cerca de vinte anos:
Que os geógrafos dedicados aos aspectos naturais não deixem de considerar o
homem no centro deste jogo de relações, e que aqueles dedicados às desigual-
dades sociais não as vissem fora dos lugares seriam meros pontos superficiais de
uma convergência que pode ser, como tem sido, desatada a qualquer momento.
O verdadeiro fio condutor de uma estratégia capaz de promover a unicidade do
conhecimento geográfico advirá de um pacto mais profundo que só pode ema-
nar de uma concepção filosófica propícia.

Uma concepção filosófica propícia à abordagem científica


da problemática ambiental atual pode ser encontrada em várias pro-
posições filosóficas produzidas desde a Grécia Clássica e, na insufici-
ência dessas, demandar novas formulações, como bem o postularam
Capra (1987), Morin e Kern (1995), e Leff (2001), dentre outros. No
âmbito da geografia, os estudos relacionados a esta problemática tan-
to têm sido desenvolvidos segundo os mais diferentes matizes filosófi-
cos usualmente empregados por esta ciência, e aí os extremismos que
exacerbam o enfoque para o natural ou para o social são bastante
peculiares, quanto demandado rupturas da configuração atual da pro-
dução geográfica. Tais rupturas têm sido marcadas em relação a con-
cepções teóricas e metodológicas e técnicas de investigação da dimen-

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Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

são espacial da referida problemática, já que, como o reconheceu Moraes


(1994, p. 46), ao introduzir uma discussão relativa à epistemologia
para o estudo do meio ambiente, trata-se de "...uma questão nova,
[...] arredia aos padrões tradicionais... "7
Se na sociedade em geral o termo meio ambiente ou ambien-
te (environment, environnement), vitimado que foi pela inflação
jornalística banalizou-se, como bem o apontaram Bailly e Ferras
(1997), no âmbito acadêmico-científico ele não passou impune a esse
processo. Tais termos têm sido utilizados das mais diversas maneiras,
mas, em boa parte das vezes, têm sido empregados como num proces-
so industrial em que se colocam rótulos novos em produtos ultrapas-
sados ou que não correspondem ao texto ali expresso. Assim, é preci-
so ter muito cuidado, pois os rótulos podem embelezar os produtos e
expressar a vanguarda dos mesmos, mas podem também ser forte-
mente enganosos.
É então necessário se ter muita cautela e discernimento, pois
nem tudo que é geográfico é ambiental. Neste mesmo sentido, é tam-
bém preciso assinalar que nem tudo que é produzido na perspectiva
da geografia física deve receber o rótulo de ambiental, pois muitos
não se configuram como tal, embora constituam importantes contri-
buições para aqueles. A característica de ambiental de um estudo não
o faz melhor ou pior que nenhum outro elaborado em conformidade
com outras correntes, quer seja da geografia ou de outra ciência; o faz
apenas distinto dos demais.
Na concepção aqui defendida, um estudo elaborado em con-
formidade com a geografia socioambiental deve emanar de problemá-
ticas em que situações conflituosas, decorrentes da interação entre a
sociedade e a natureza, explicitem degradação de uma ou de ambas. A
diversidade das problemáticas é que vai demandar um enfoque mais
centrado na dimensão natural ou mais na dimensão social, atentando
sempre para o fato de que a meta principal de tais estudos e ações vai
na direção da busca de soluções do problema, e que este deverá ser
abordado a partir da interação entre estas duas componentes da reali-
dade.

7 Grifos deste autor.

134
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

Por outro lado, é preciso também insistir: toda a produção


emanada da geografia pode ser muito útil para a abordagem de estu-
dos ambientais; afinal, uma das mais importantes dimensões da pro-
blemática ambiental é a sua manifestação espacial. Geografia ecológi-
ca e geografia ambiental constituem, assim, especificidades de uma
mesma corrente, aqui concebida como geografia socioambiental; a
primeira reveste-se de uma característica mais marcadamente natura-
lista, enquanto na segunda se destaca a abordagem que toma a natu-
reza e a sociedade em mesma perspectiva, sendo o socioambiental
empregado para evidenciar esta visão, como colocado anteriormente.

A geografia socioambiental e o problema metodológico:


rompendo com paradigmas da ciência moderna

A crise ambiental é a crise de nosso tempo. O risco


ecológico questiona o conhecimento do mundo. Esta crise
apresenta-se a nós como um limite no real, que ressignifica e
reorienta o curso da história: limite do crescimento econômi-
co e populacional; limite dos desequilíbrios ecológicos e das
capacidades de sustentação da vida; limite da pobreza e da
desigualdade social. Mas também crise do pensamento ociden-
tal...
(LEFF, 2001, p. 191).

Uma das características principais da ciência moderna — a


partir da fase mais evoluída da modernidade (conforme BERMAN,
1986) —, é o emprego de métodos de investigação na produção do
conhecimento científico. Os postulados positivistas que condicionam
a estrutura da ciência ainda aprisionam — mesmo no presente —, a
leitura da realidade a fileiras disciplinares, reduzindo portanto a apre-
ensão da mesma a perspectivas separativas, estanques e

135
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

empobrecedoras. A abordagem da problemática ambiental, num tal


contexto, deixa sempre a desejar.
A evolução da geografia, vista de maneira genérica nestes
aproximados 150 anos na condição de ciência, é um espelho que re-
flete diretamente os postulados positivistas que impõem a adoção de
métodos específicos a correntes distintas do pensamento. Assim, à ge-
ografia clássica (ou tradicional) associou-se o positivismo, à New
Geography o neopositivismo, à geografia da cultura e da percepção, o
humanismo, à geografia crítica, o marxismo etc., dentre várias cor-
rentes, momentos e derivações de análises científicas.
E à geografia socioambiental, qual método se associa?
Essa questão aponta, primeiramente, para a constatação de
que "...Não há apenas um método na ciência e urge entender as pos-
sibilidades de cada um no equacionamento da temática ambiental..."
(MORAES, 1994, p. 47), sobretudo face às características desta cor-
rente, revestida que é de uma característica multi e interdisciplinar.
A abordagem da problemática ambiental, para ser levada a
cabo com profundidade e na dimensão da interação sociedade-natu-
reza, rompe assim com um dos clássicos postulados da ciência moder-
na, qual seja, aquele que estabelece a escolha de apenas um método
para a elaboração do conhecimento científico. Tal abordagem deman-
da tanto a aplicação de métodos já experimentados no campo de vá-
rias ciências particulares, quanto a formulação de novos. Mas esta
característica não é uma peculiaridade somente da abordagem
ambiental, ela reflete a identidade própria da geografia em muitas de
suas experiências, pois, conforme Trystram (1994, p. 475),
...Interface, a palavra escolhida por Phillippe Pinchemel é reveladora. A geogra-
fia tem a ver com tudo, mas nem por isso deixa de dar conta do recado. Ela está
na encruzilhada de numerosos caminhos que vão da antropologia à sociologia,
da natureza à ecologia, das ciências da Terra às estatísticas...8.

A superação do positivismo na geografia não é, entretanto,


um desiderato muito recente. Várias foram as propostas que busca-
ram interagir métodos de ramos da própria geografia ou de discipli-
nas diferentes em um mesmo estudo. No que concerne ao estudo do
8 "...Interface, le mot choisi par Philippe Pinchemel est révélateur. La géographie n'est ni une
touche à tout ni une bonne à rien. Elle est à la croisée des nombreux chemins qui mènent de l'anthropologie
à la sociologie, de la nature à l'écologie, des sciences de la Terre aux statistiques..." Trad.: F. Mendonça.

136
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

ambiente, destacam-se as perspectivas da produção de uma geografia


física global a partir da interação de métodos que tomam a perspecti-
va vertical (ecossistema) e horizontal (geossistema) das paisagens, abar-
cando também as atividades humanas enquanto fator da dinâmica da
paisagem. Ressaltam-se na história recente da geografia as contribui-
ções de Sotchava (geossistema) — bastante melhorada por Georges
Bertrand —, e de Jean Tricart (ecodinâmica e ecogeografia), dentre ou-
tras (MENDONÇA, 1989, 1993 e 1998; CHRISTOFOLLETI, 1999).
As aludidas propostas metodológicas baseiam-se na TGS
(Teoria Geral dos Sistemas), largamente empregada nas ciências natu-
rais, fato que tem vinculado o tratamento do ambiente no âmbito da
geografia — por meio das referidas metodologias — muito mais a uma
perspectiva naturalista que social. Isto é decorrente, como bem o apon-
tou Gregory (1992, p. 238), do fato de que
O perigo de se adotar a abordagem sistêmica acriticamente é que se presume
que seja suficiente apenas identificar as estruturas do sistema e delinear as
inúmeras variáveis envolvidas em um sistema particular, que então reforça a
primeira lei da ecologia, conforme foi graficamente enunciada por
COMMONER (1972), segundo a qual tudo está relacionado a tudo...

Mas, ainda que parciais e limitadas — e duramente criticadas


por Soares Pontes (1999), há que se atribuir grande mérito às
supramencionadas metodologias de perspectiva globalizante na geo-
grafia física, pois buscaram interagir sociedade e natureza numa mes-
ma abordagem, e de alguma maneira o fizeram — sendo alguns exem-
plos dignos de nota, como é o trabalho exemplar de Monteiro (1987)
relativo ao Recôncavo Baiano. Elas contribuíram também, tanto para
o aprimoramento da geografia física quanto para a construção da
geografia socioambiental aqui discutida.
Mesmo que se observe o registro da preocupação com o
enfoque de caráter global na vertente físico-geográfica desde os anos
50, o que lhe atribui a condição de ambiental — ainda que o enfoque
seja parcial —, a seguinte argumentação de Richard H. Briant (citado
por DERRUAU, 1996, p. 12) complementa as afirmações aqui desen-
volvidas de que "...Não é suficiente, para ser claro, definir a geografia
física como sendo o estudo integrado do meio (ambiente) natural à
superfície ou à proximidade imediata da superfície da Terra", pois por

137
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

mais abrangente que ela possa ser, ainda toma o homem e a sociedade
como fator e não como elemento da paisagem.
Situando a origem e o desenvolvimento da geografia ecoló-
gica como ligada à geografia física, Andrade (198 7, p.121) reconhece
a abertura vivenciada por tais geógrafos ao se lançarem a uma nova
concepção e produção do estudo do ambiente do ponto de vista geo-
gráfico, pois, segundo ele, "em muitos pontos, eles (especialistas em
geografia física)9 se aproximam do grupo dos chamados geógrafos crí-
ticos ou radicais, enquanto em outros se contactam com o grupo que
faz a geografia da percepção e do comportamento". Esta constatação
reflete, dentre outros aspectos, a insuficiência dos métodos disciplina-
res individualizadamente inerentes à ciência moderna para o trata-
mento da realidade e dos problemas ambientais. Revela, ao mesmo
tempo, a necessária aplicação de uma perspectiva multi e interdisciplinar
intrageografia, e desta com outras ciências, pois "...a discussão sobre a
questão ambiental deverá trafegar nos limites de marcos disciplina-
res..." (MORAES, 1994, p. 50).
Mesmo se aproximando dos geógrafos críticos, como o afir-
mou Andrade (1987), os geógrafos físicos não puderam inserir o mar-
xismo como metodologia central de sua análise nem nos estudos físi-
co-geográficos nem naqueles socioambientais que elaboraram, pois
...uma abordagem marxista da questão ambiental vai encará-la como uma ma-
nifestação de processos sociais, pelos quais uma dada sociedade organiza o
acesso e uso dos recursos naturais disponíveis, organização que se articula na
própria estruturação social constituindo parte do processo global de sua repro-
dução... (MORAES, 1994, p. 78).

Ainda que a perspectiva marxista seja um instrumento de


inestimável valor na análise da dinâmica social — particularmente a
partir do materialismo histórico e dialético —, ou mesmo que outros
métodos como o estruturalismo, o funcionalismo etc., contribuam
em muito para a compreensão da sociedade, a abordagem ambiental
será ainda elaborada de forma parcial e estanque se enfocada a partir
de somente um deles, pois que o social compõe apenas uma parcela
do ambiente. Os elementos da natureza não devem ser reduzidos so-
mente a recursos, pois antes de serem transformados constituem-se

9 Expressão do próprio autor em outra parte do mesmo parágrafo.

138
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

em bens e elementos naturais que possuem dinâmica própria e que


independem da apropriação social; como tal desempenham papel fun-
damental na estruturação do espaço geográfico. Mesmo integrantes
de espaços apropriados pelo homem e sua sociedade, não escapam ao
controle do fluxo de matéria e energia que rege a existência do siste-
ma solar, do planeta Terra e de seus componentes. É bem verdade que
em muitos lugares — como as grandes cidades e seu cotidiano, por
exemplo —, tem-se a falsa impressão de que o homem é o grande re-
gente, que a "natureza" e suas forças ou não existem ou foram
subjugadas aos desígnios humanos. É mesmo incrível que, numa abor-
dagem geográfica, sejam esquecidos o relevo que forma o suporte à
existência da cidade, da água e do ar que sustentam a vida de seus
habitantes, o alimento que produzido no solo os nutre etc.
Enfocando a vertente ambiental da geografia e a necessária
abertura metodológica que ela encerra, Monteiro (1980) já esclarecia,
no final da década de 70 e justamente no momento em que a geogra-
fia brasileira passava a ser fortemente marcada pela corrente da geo-
grafia crítica, ser ela constituída
...por geógrafos que, mesmo considerando o prisma antropocêntrico da geogra-
fia, vêm nela principalmente a ciência dos lugares. Embora considerando que
aumenta cada vez mais o poder de decisão e a capacidade de alteração antrópica,
os "Sistemas" organizados na superfície da Terra, comportar-se-ão sempre como
sistemas naturais e, como tal, devem ser pesquisados. Isto sob o impacto ideo-
lógico universal da "cruzada pró meio ambiente", sob o lema de "só temos uma
Terra"... (MONTEIRO, 1980, p. 48).

Mas, sabiamente, apontava ele também para o fato de que a


vertente ambiental não deveria ser pensada como predominante na
geografia, mas ser apenas uma possibilidade a mais para reflexão dos
geógrafos sobre o mundo, já que "Os vetores, conduzindo a noção de
geografia como ciência social serão predominantes (2 vértices do tri-
ângulo)...". Para ele, o "ambientalismo" na geografia não apagaria
...o desenvolvimento ou continuação de linhas centrais de pensamento (em
relação à figura abstrata do triângulo mobilizado para esse raciocínio), como,
muito provavelmente não impedirá (impediria)" os avanços setoriais mais ex-
tremos até que cheguem a ultrapassar os limites de demarcação da investigação
"geográfica" para desenvolver-se autonomamente... (MONTEIRO, 1980, p.
48-49).
to Alteração feita por este autor.

139
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

O objeto de estudo da geografia socioambiental, construto


contemporâneo da interação entre a natureza e a sociedade, não pode
ser concebido como derivador de uma realidade onde seus dois com-
ponentes sejam enfocados de maneira estanque e independentes, pois
que é a relação dialética entre eles que dá sustentação ao objeto.
A corrente da geografia socioambiental está ancorada na con-
cepção de que talvez "o maior ponto de relevância epistemológica
para a geografia esteja na atitude fenomenológica de não considerar
nem a Natureza (matéria da experiência) nem o Homem (corpo que
percebe) como `fundantes" (MONTEIRO, 1984, p. 26). É,
indubitavelmente, uma identificação inovadora da e na geografia —
ambiental —, que possui sua originalidade mas que não se coloca como
excludente a nenhuma das outras possibilidades de realização do co-
nhecimento geográfico. Nas seguintes palavras deste último autor,
emprestadas de Merleau-Ponty, se pode identificar os traços mais ge-
rais, mas não exclusivos, da perspectiva metodológica dessa corrente
da geografia, em sua fase contemporânea aqui nominada corrente
socioambiental da geografia,
O homem e a sociedade não estão exatamente fora da natureza e do biológico
— distinguem-se deles por reunirem as "apostas" da natureza, arriscando-as
todas juntas". É nesse particular que o "ambiental" não deve ser visto apenas no
nível do biológico ou ecológico, mas sobretudo pelo que contém de construção
holística.

Ela se configura, pela característica de multi e


interdisciplinaridade e da perspectiva holística na concepção da
interação estabelecida entre a sociedade e a natureza, como um cam-
po profícuo ao exercício do ecletismo metodológico, pois "enquanto
abstrações humanas da realidade, os métodos e técnicas devem ser
considerados como não sendo de domínio de nenhum conhecimento
particular, mas que são momentaneamente requisitados por uma ci-
ência ou outra" (FERNAND JOLY, citado por MENDONÇA, 1998,
p. 65). Ecletismo não é, há que se assinalar, sinônimo de pot-pourri
ou, numa linguagem coloquial, não significa fazer "o samba do cri-
oulo doido"; a lógica, a seriedade e a coerência na escolha de
metodologias e técnicas condizentes com o objeto de estudo são atri-

140
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

butos necessários para a obtenção de resultados concisos em estudos


de caráter socioambiental.

Sintetizando a abordagem

Ao identificar a corrente do pensamento geográfico, geogra-


fia socioambiental, a partir do delineamento de sua construção histó-
rica, mesmo que aqui genericamente pontuada numa condição
introdutória e de contribuição à discussão da epistemologia da geo-
grafia contemporânea, levanta-se mais argumentos para a constatação
de que a geografia é mesmo um savoir difficile, como o apontou P. e
G. Pinchemel (em epígrafe neste texto). Ao se identificar esta corrente
como um campo particular de análise do geógrafo, dentre vários ou-
tros, não se está propugnando pela sua excelência em relação aos de-
mais, dado que a riqueza do pensamento geográfico reside na sua
própria pluralidade de enfoques.
Essa nova corrente aqui delineada não se encontra, todavia,
com as características totalmente definidas, mas um conjunto destas
permite distingui-la no conjunto da ciência geográfica contemporâ-
nea, como se viu. A natureza cambiante do mundo contemporâneo, e
da intensidade da velocidade que o qualifica, impõe a necessária si-
multaneidade de novos olhares, novas técnicas e novas perspectivas
sobre o objeto de estudo da geografia. Impõe sobretudo a abertura das
mentes para se criar o novo, o diferente, aquele que superará o estágio
de dificuldades e limitações de apreensão do real que tão marcadamente
ainda caracteriza o presente. Um novo pensamento, desencadeador de
mudanças, não se consolida se não exercitar um diálogo de saberes
distintos e sem demover resistências, mas estes acabam por lapidá-lo,
pois proporcionam a experimentação de ousadias e profundo repen-
sar de formulações. Se ele não se mostrar capaz de inserir os ganhos do
processo e tornar-se velho mais rápido que as projeções de longevidade
lançadas, é mesmo melhor que tenha uma vida curta ou que nem a
experimente.

141
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

Contudo, a crise ambiental contemporânea — crise de civili-


zação, crise da razão e crise histórica — como se apontou ao longo
deste texto, está a demandar de toda a sociedade, e da ciência em
particular, uma reflexão profunda acerca de sua trajetória. Num tal
contexto, é preciso ser aberto, criativo e ousado o suficiente para pro-
por alterações e criar as possibilidades para o nascimento de novas
propostas, como a geografia socioambiental aqui delineada.
Não é preciso ser partidário de radicalismos ambientalistas
ou ecologistas para se compreender a importância dos elementos da
natureza na constituição da sociedade humana, sobretudo ante aos
extremismos de degradação mediante sua apropriação pela sociedade
segundo o projeto da modernidade, como bem o assinalou Serres (1988
e 1994), ainda que ele seja um partidário da ecologia radical. À geo-
grafia se impõe, então, um papel fundamental nesta construção de
um mundo novo, de uma vida nova. Tomada do ponto de vista da
problemática ambiental contemporânea, sua contribuição será muito
mais eficaz e aprofundada se elaborada em conformidade com a cor-
rente da geografia socioambiental, neste texto esboçada.

Referências

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Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

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143
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

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WHITE JR., L. Machina ex Deo: essays in the dynamism of western culture. Cambridge,
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2:(

Agradecimentos
a Bernardo Mançano pelo convite para a produção deste texto, e a Nilson César Fraga pela
leitura crítica.

144
A NATUREZA E O ESPAÇO GEOGRÁFICO"

Valter Casseti

A presente análise parte do princípio de que a concepção


externalizada da natureza responde pela legitimação da apropriação
privada dos meios de produção, o que implica diferentes formas de
subjugação, como o antagonismo de classes sociais e os problemas
ambientais, sem deixar de considerar o reflexo epistemológico eviden-
ciado na geografia.
A análise procura enfocar algumas questões entendidas como
relevantes para a compreensão do problema e estão fundamentadas
no conceito engelsiano de "dialética da natureza". Na oportunidade
procuram-se estabelecer algumas relações entre o conceito pré-socrático
da physis com a perspectiva ontológica de natureza, partindo do prin-
cípio de que buscam a compreensão da realidade objetiva, assim como
o conceito categorial de "espaço" apropriado pela geografia.
Considerando portanto o conceito ontológico de natureza,
no qual a matéria sintetiza os fenômenos naturais e sociais, busca-se a
compreensão da "unidade do real" como possível objeto de superação
da relação dicotômica que legitima e reproduz o processo de aliena-
ção.
A questão central fundamenta-se na necessidade de se des-
pertar para uma nova forma de pensar o mundo, um novo paradigma,
que implique na superação do estado de crise, que para Capra (1998)1
representa o "ponto de mutação" entre o racionalismo mecanicista
cartesiano e a nova tendência intuitivista de base ecológica.

"Texto fundamentado em CASSETI, V. Contra a correnteza, Goiânia: Kelps, 1999.


1 Só tomamos conhecimento da obra de Capta após a publicação do Contra a correnteza.

145
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

A natureza externalizada

O conceito de natureza externalizada tem origem na con-


cepção mitológica da "natureza hostil", criada em função da submis-
são do homem aos mistérios incompreensíveis da vida no estado mais
primitivo. A busca da superação dos obstáculos impostos pela nature-
za é a prova de que o homem rompeu com o resto da criação, levan-
do-o ao desejo de controlar o mundo natural, razão da ideia de natu-
reza dominada. Turner (1990) entende que as atitudes herdadas em
relação ao mundo natural, às quais fundamenta a ideia de natureza
hostil, têm suas raízes no antigo Oriente Médio (os israelitas compar-
tilharam com sumérios, babilônios, caanitas e hititas um meio ambi-
ente parecido e portador de desafios inerentes ao período), a partir do
qual, através do texto sagrado, chegou ao mundo ocidental.
A concepção de uma natureza externalizada, de base
mecanicista, foi recuperada no iluminismo para atender as expectati-
vas do sistema de produção. A apropriação do conceito de natureza
externalizada no Iluminismo foi retomada por Descartes, precursor
da filosofia moderna, maior expoente da racionalidade, como guia
da conduta humana. Ao separar o corpo da alma, Descartes procura o
"desencantamento do homem" e a busca da "feliz apatia", que para
Adorno e Horkheimer (1986) significa a dominação da natureza in-
terna em prol da dominação da natureza externa. Tais princípios de-
monstram um fim paradoxal, pois ao mesmo tempo em que a ciência
passa a ser a fonte do conhecimento para a produção do novo ho-
mem, a separação corpo e alma leva a entender que o pensamento
independe da prática, renovando a lógica idealista, como forma de
preservar o processo de alienação, imprescindível à legitimação, tanto
da subjugação, como da apropriação privada da natureza.
Assim, ao mesmo tempo em que a natureza é externalizada,
tem-se a mitificação da chamada "lei natural" em detrimento das ca-
tegorias econômicas, como dos interesses das relações de classe da so-
ciedade moderna2 (ADORNO, 1975). "A lei da acumulação capitalis-

2 Marx, no Manifesto comunista, considera os tempos modernos associados ao desenvolvi-


mento da "sociedade burguesa moderna".

o 146
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

ta, que se pretende mitificar convertendo-a em uma lei natural, não


expressa, portanto, mais do que uma coisa: que sua natureza exclui
toda redução do grau de exploração do trabalho ou todo aumento do
preço que pode implicar sério risco na reprodução do capital numa
escala cada vez mais alta" (MARX, 1946).
Num primeiro momento, a ideologização do conceito de na-
tureza externalizada visa a legitimação da apropriação privada dos
meios de produção, imprescindível à reprodução do capital. Ainda, a
concepção hostil da natureza externalizada, fundada no princípio
baconiano de "conhecer a natureza para dominá-la", induz ao pro-
cesso de apropriação espontaneista dos recursos com o advento dos
novos conhecimentos científicos e tecnológicos. É com essa perspecti-
va que se acentua o processo de colonização, tendo por objetivo aten-
der às expectativas do capitalismo mercantilista. "A partir de Bacon, o
objetivo da ciência passou a ser aquele conhecimento que pode ser
usado para dominar e controlar a natureza e, hoje, ciência e tecnologia
buscam sobretudo fins profundamente antiecológicos" (CAPRA, 1998).
Para o autor, utilizando o conceito do tao, a natureza da ciência me-
dieval, baseada na razão e na fé, era muito diferente daquela adotada
pela ciência contemporânea, passando de yin (da integração) para
yang (a autoafirmação).

O desencantamento do mundo

A intenção de Descartes, acima de tudo, foi criar uma nova


racionalidade com vistas à eficácia e eficiência ("Penso, logo existo"),
requisitos indispensáveis a uma sociedade moderna, que nascia sob a
égide capitalista. Nas Paixões da alma Descartes aprofunda as ques-
tões sobre a relação corpo e alma, como forma de superação dos "es-
píritos animais", cuja cognição se dá através de sonhos e devaneios. A
separação corpo-alma promove a eficácia, a dominação da natureza e
o consequente "desencantamento do mundo". Para Adorno e
Horkheimer (1986), os homens não teriam nada mais a admirar nos
céus após suas pesquisas astronômicas, e muito menos nas suas almas

147
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

e corpos após suas pesquisas psicológicas e fisiológicas. Referindo-se à


estratégia de Galileu em dirigir a atenção do cientista para as propri-
edades quantificáveis da matéria, Laing apud Capra (1998) observa os
efeitos do "desencantamento" produzido em toda ciência moderna:
"Perderam-se a visão, o som, o gosto, o tato e o olfato, e com eles
foram-se também a sensibilidade estética e ética, os valores, a qualida-
de, a forma; todos os sentimentos, motivos, intenções, a alma, a cons-
ciência, o espírito. A experiência como tal, foi expulsa do domínio do
discurso científico".
Observa-se, portanto, que "desencantar o homem" não sig-
nifica desacreditá-lo; pelo contrário, os homens desencantados seri-
am aqueles aptos a buscar para si o compromisso com a sua própria
história, com um conhecimento racional liberto de princípios e verda-
des preexistentes. Capra (1998) evidencia que a divisão entre espírito
e matéria levou à concepção do universo como um sistema mecânico
que consiste em objetos separados, os quais, por sua vez, foram redu-
zidos a seus componentes materiais fundamentais, cujas propriedades
e interações, acredita-se, determinam completamente todos os fenô-
menos naturais. Essa concepção cartesiana da natureza foi, além dis-
so, estendida aos organismos vivos, considerados máquinas constitu-
ídas de peças separadas. Veremos que tal concepção mecanicista do
mundo ainda está na base da maioria de nossas ciências e continua a
exercer uma enorme influência em muitos aspectos de nossa vida.
Para Heisenberg apud Capra (1998), "essa divisão penetrou
profundamente no espírito humano nos três séculos que se seguiram a
Descartes, e levará muito tempo para que seja substituída por uma
atitude realmente diferente em face do problema da realidade".
Portanto, ao mesmo tempo em que se produziu a
ideologização do conceito de natureza, considerando a necessidade
do sistema de produção capitalista em ter legitimada a apropriação
privada da natureza, e consequentemente dos meios de produção, pro-
curou-se construir um novo homem, destituído dos "instintos selva-
gens", para pensar racionalmente em prol da eficiência e eficácia ne-
cessárias ao novo modelo produtivista. É nesse contexto que se pro-
move uma nova ética, fundamentada no desencantamento do mun-
do, na qual a ciência passa a ter um papel fundamental, razão pela
qual têm-se as teorizações sobre as regras de conduta, as construções

148
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

pedagógicas e políticas. Para Ghiraldelli (1994), as construções


normativas têm por objetivo, "menos regrar o homem para a conduta
feliz em sociedade e mais regrar o homem para continuar a operar, a
ser eficaz e eficiente na sociedade moderna". Tem-se portanto, a pro-
moção do comportamento competitivo em detrimento da coopera-
ção, o que é reforçado pelos darwinistas sociais com a "sobrevivência
dos mais aptos".
Weber, tanto no texto A ciência como vocação (1982) como
em A ética protestante e o espírito do capitalismo (1999) expressa uma
certa preocupação com o "desencantamento do mundo" enquanto
base racionalista. No primeiro trabalho, Weber (1982) ressalta o de-
sencantamento do mundo como autonomia das esferas de valor, es-
tando a racionalidade reduzida à esfera do conhecimento, ficando a
moral e a estética no campo do não racional: "O destino de nossos
tempos é caracterizado pela racionalização e intelectualização e, aci-
ma de tudo, pelo 'desencantamento do mundo'". Ressalta ainda que
hoje "a ciência como o caminho para a natureza" soaria como blasfê-
mia aos ouvidos dos jovens, que proclamam o oposto: "redenção em
relação ao intelectualismo da ciência a fim de voltar à própria nature-
za de cada um e, com isso, à natureza em geral". No segundo, a
modernidade é descrita como a época da "organização capitalística
racional, assentada no trabalho 'formalmente' livre", portanto, ori-
entada para um mercado real. Atribui ao caráter utilitarista da virtu-
de, fundamentado na revelação divina, a forma de promoção da efi-
cácia e da eficiência' . Lembrando Hunt (1989),
os desejos humanos são, em grande parte, socialmente determinados e como
tal, sua satisfação pode ou não aumentar o bem-estar humano, e que a produ-
ção humana é um fenômeno social, no qual nenhum indivíduo (e muito menos
um objeto inanimado, como um terreno ou uma máquina) pode ser julgado
como sendo o único responsável por uma determinada quantidade do que é
produzido, e no qual o destino e o uso dos frutos da produção são socialmente
determinados, podendo ser benéficos ou prejudiciais ao bem-estar humano.

Bourdieu (1979) conclui que "a teoria da utilidade margi-


nal ressalta um aspecto fundamental das sociedades modernas, a ten-
dência à 'racionalização' (formal) que afeta todos os aspectos da vida
econômica".
3 Weber (1982), fazendo referência a Benjamin Franklin.

149
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

O princípio da subjugação

Morin4, ao tratar da relação antropossocial numa visão eco-


lógica observa que a subjugação não é uma invenção humana,
exemplificando através do parasitismo nos animais. A partir de en-
tão, apresenta a tese de que "a subjugação da natureza pelo homem
transforma a natureza da subjugação". Embora o processo de domi-
nação da natureza remonte ao patriarcado, fundado na visão de uma
natureza selvagem e perigosa, a concepção cartesiana de natureza e o
surgimento da ciência newtoniana tornou-a um sistema mecânico,
podendo ser manipulado e explorado. Conforme Merchant, apud
Capra (1998),
ao investigarmos as raízes de nosso atual dilema ambiental e suas conexões com
a ciência e tecnologia e a economia, cumpre-nos reexaminar a formação de uma
visão do mundo e de uma ciência que, ao reconceituar a realidade mais como
uma máquina do que como um organismo vivo, sancionou a dominação da
natureza e das mulheres. Têm que ser reavaliadas as contribuições de tais
'patriarcas' da ciência moderna como Francis Bacon, William Harvey, René
Descartes, Thomas Hobbes e Isaac Newton.

Ao tratar a subjugação da natureza e a "produção do ho-


mem pelo homem", Morin (1977), numa nova perspectiva, recupera
de certa forma as categorias econômicas do desenvolvimento social
da teoria marxista, sobretudo ao tratar da "megamáquina
antropossocial" que resulta da tendência natural dos seres vivos, ob-
servando que "há subjugações nos ecossistemas, mas os ecossistemas
não são subjugadores por si mesmos". Após relatar o processo de sub-
jugação na história da humanidade, considerando entre as primeiras a
subjugação ao fogo e a sua escravização generalizada, evidencia que
"a entrada da humanidade na história é a entrada do Estado subjugador
no âmago das sociedades, ao mesmo tempo que a entrada da turbu-
lência e da desordem no curso das sociedades".
O Estado, como representante máximo da superestrutura ide-
ológica, é o aparelho dos aparelhos, que concentra em si o aparelho
administrativo, o aparelho militar, o aparelho religioso e, depois, o
4 "... não só as sociedades humanas sempre fizeram parte dos ecossistemas, mas sobretudo os
ecossistemas [...] fazem agora parte das sociedades humanas..." Mono (1977).

150
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

aparelho policial. O aparelho administrativo impõe a toda a socieda-


de a organização 'maquinal', no sentido em que este termo significa
regra uniformizada, inflexível 'mecânica': a religião e o exército im-
põem, cada um, a sua maquinalidade própria, feita em ambos os ca-
sos de ritual — preponderante na religião — e da disciplina, preponde-
rante no exército.
Portanto, o Estado apresenta papel fundamental no proces-
so de subjugação, funcionando como regulador das relações sociais,
conservando a ordem social que, por sua vez, encontra-se definida
pelos interesses das classes dominantes. Representa, portanto, a or-
dem legal e política, bem como ideológica e cultural, que correspondem
às formas definidas de consciência social. Reforça-se aqui a apropria-
ção ideológica das "leis naturais", comentada anteriormente, como
forma de legitimação das categorias econômicas da sociedade (a trans-
posição do conceito de "Espírito universal" de Hegel na ideologização
da "história natural").
É pela imposição jurídico-legal e ideológico-cultural que o
Estado impõe, em última instância, a subjugação da força de trabalho
às relações de produção, responsáveis pelas diferentes formas de sub-
jugações, sintetizadas pela subjugação do homem pelo homem. Ten-
do-se como estratégia ideológica o processo de alienação patológica,
as relações de produção e suas vinculações superestruturais promo-
vem a reprodução ampliada da subjugação, num primeiro momento
determinada pela "mais-valia", e hoje, pela revolução científico-
tecnológica-informacional como força produtiva.
Torna-se importante considerar que, se a manutenção do pro-
cesso de subjugação e a consequente legitimação da apropriação pri-
vada dos meios de produção, como fator responsável pelo antagonis-
mo de classes sociais, encontram-se associadas à reprodução continu-
ada da alienação, é mais que evidente que a origem de tais princípios
tem como argumento primeiro o processo de externalização da natu-
reza. Isto porque, legitimando-se a natureza externalizada em relação
ao homem, torna-se natural a externalização da força de trabalho em
relação aos meios de produção, assim como torna-se também natural
a externalização do ser humano enquanto ser social, diluindo-o en-
quanto classe social, recuperando assim o conceito psicofísico do ho-

151
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

mem dual elaborado por Descartes, que tem por objetivo alcançar a
"feliz apatia".

A geografia no contexto da externalização da natureza

Partindo do princípio de que o racionalismo tem por objeti-


vo a busca teleológica da eficiência e eficácia do homem a partir do
conhecimento científicos, em detrimento do conhecimento
especulativo, torna-se evidente a conclusão de que a ciência nasce
subjugada aos interesses ideológicos das novas concepções filosóficas,
que têm como subsídio o modelo econômico produtivista em desen-
volvimento. Portanto, tendo como guia o princípio baconiano de "co-
nhecer a natureza para dominá-la", além de a ciência legitimar o pro-
cesso de externalização da natureza, estimula a busca do conhecimen-
to com vistas aos interesses do sistema de produção, impondo à natu-
reza um processo de "dominação", o que permite a subjugação de
povos pela expansão territorial e a apropriação espontaneista dos re-
cursos como forma de reprodução ampliada do capital.
Tais fundamentos fazem com que a ciência passe a se carac-
terizar como instrumento de legitimação do sistema vigente,
estruturando-se numa filosofia idealista, na qual o positivismo e suas
derivações respondem pela reprodução do processo de alienação. Tem-
se assim a dicotomização entre as ciências naturais e as sociais: a "na-
tureza" é estudada exclusivamente pelas ciências naturais, enquanto
as ciências sociais preocupam-se exclusivamente com a sociedade, di-
vorciada da natureza; ou ainda, a "natureza" nas ciências naturais é
supostamente independente das atividades humanas, enquanto a "na-
tureza" das ciências sociais é vista como criada socialmente.
É nesse panorama que surge a geografia, de forma dualizada,
tendo, de um lado, Humboldt (1769-1859) como precursor da geo-
grafia física, e de outro Ritter (1779-1859), da geografia humana,
que para Harvey (1983), "empenham-se em construir uma descrição
sistemática da superfície do globo, como repositório de valores de uso
5 Observa-se que o iluminismo descarteano utiliza-se do método gnosiológico fundamentado
na ciência moderna demarcada pela experimentação.

152
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

exploráveis (tanto naturais como humanos) e como o /ocus de formas


diferenciadas de reprodução econômica e social".
Considerando o processo histórico da ciência moderna, há
de se convir que a geografia, enquanto formadora da consciência so-
cial, exerceu importante papel ideológico na reprodução da aliena-
ção, contribuindo para o processo de subjugação, na medida em que
atendeu aos interesses da superestrutura (megamáquina
antropossocial). Por outro lado, legitimou a apropriação do conheci-
mento científico e tecnológico proporcionado pela ciência, promo-
vendo verdadeira revolução nas forças produtivas, e subjugando a força
de trabalho a uma nova modalidade de "mais-valia", representada
por uma "ideologia de compensação", responsável pela pacificação
dos conflitos.
Embora a geografia tenha passado por uma relativa ruptura
epistemológica a partir da década de 70, ainda prevalecem diferenças
entre os geógrafos. Lacoste (1973) não esconde o estado de crise que o
discurso geográfico tradicional conhece, ressaltando que a prática dos
geógrafos não corresponde ao projeto unitário, na medida em que
uns se especializam em geografia física, enquanto outros se envere-
dam pelo caminho da geografia humana, considerando "as estratégi-
as ocultas que tem o espaço".

A visão sistêmica da natureza

Morin (1977), ao tratar do conceito de sistema, estabelece


relação entre a noção de 'ordem soberana' que permeia a ciência mo-
derna, e a 'desordem genética' que é marcada pelo conceito de entropia
(Clausius). Ao mesmo em tempo que os novos avanços científicos
permitem compreender que o átomo não se constitui numa entidade
organizada (a desordem está prevista no microtecido de todas as coi-
sas). Hubble, ao fornecer a primeira base empírica à expansão do uni-
verso, permite concluir que o macrocosmo é fruto de uma catástrofe
original que tende para uma dispersão infinita. Assim, "a desordem
infiltrou-se cada vez mais profundamente no interior da physis"

153
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

(MORIN, 1977). Ao recuperar o pensamento clássico grego6 da opo-


sição Ubris à Diké (ordem e desordem), apresenta a proposta do anel
tetralógico constituído pelo jogo cosmogenésico da desordem-
interação-ordem-organização. "A ordem nasce, ao mesmo tempo que
a desordem, da catástrofe térmica e das condições originais singulares
que determinam o processo constitutivo do universo" (MORIN, 1977).
A partir de então, concebe 'sistema' como o universo que "emerge não
só na base da physis (átomos), mas também no fecho da abóbada
cósmica" (MORIN, 1977). O autor discute organização do sistema,
oferecendo uma compreensão trinitária marcada pela organização,
inter-relação e o sistema, sem contudo desconsiderar a existência da
`antiorganização' ("não há organização sem antiorganização" ou "a
antiorganização é, ao mesmo tempo, necessária e antagônica à orga-
nização"). Portanto, o sistema é visto como unidade complexa, apro-
priando-se do conceito de Ladriède (1973): "um sistema é um objeto
complexo, formado por componentes distintos ligados entre si por
um certo número de relações". Assim, concebe a natureza como uma
síntese polissistêmica constituída de núcleo-átomo-molécula-célula-
organismo-sociedade. Oferece, assim, por meio do conceito de siste-
ma, a incorporação histórica do homem enquanto componente da
natureza, ao mesmo tempo em que evidencia, por meio do conceito
de 'unidade complexa', a ideia de 'unidade do real', apropriada por
Engels (1979). Ao falar do 'tempo complexo', Morin (1977) recupe-
ra o conceito de matéria: "já não há physis congelada. Tudo nasceu,
tudo apareceu, tudo surgiu, uma vez. A matéria tem uma história".
Ao observar que todo sistema comporta e produz antagonis-
mo7, Morin recupera a lei da dialética referente à "interpenetração
dos contrários". Na oportunidade apresenta considerações sobre o
"holismo", fundamentado na opinião de Pascal apud Morin (1977):
"considero impossível conhecer as partes sem conhecer o todo, bem
como conhecer o todo sem conhecer as partes em particular"8.
6 Heráclito já entendia a 'unidade fundamental' como unidade de tensões opostas: existe uma
harmonia oculta das forças opostas, "como a do arco e da lira" (D. Si).
7 "Toda a totalidade se baseia na competição entre os elementos e pressupõe a luta entre as
partes" (VON BERTALANFFY, 1968).
8 Capra (1998) entende que a concepção sistêmica representa uma nova concepção de vida, ou
seja, a mutação do racionalismo linear ao indutivismo holístico. Ou ainda, da mudança dos valores
"sensualistas" aos "ideacionais", resgatando os conceitos de Sorokin. No I Ching chinês, a ideia pode ser
correlacionada à mutação do yan (ego-ação) ao yin (eco-ação).

154
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

O conceito trinitário de sistema proposto por Morin encon-


tra-se fundamentado na teoria da auto-organização, que segundo
Debrun (1996) "não é mera decorrência do seu próprio começo. Se
fosse o caso, ela se transformaria, precisamente, em autopóiese. O
começo funcionaria como uma lei de construção do que vem depois.
Mas o processo de auto-organização apenas 'herda' esse começo que
ele vai levar em conta de modo muito variável". Maturama apud
Flickinger (1994) propõe o termo `autopóiese'
como denominação daqueles sistemas que se destacam pelo fato de eles repre-
sentarem entrelaçamentos de seus componentes. Simultaneamente, o entrela-
çamento deve ser considerado como resultado da produção de seus componen-
tes. Assim, a `autopóiese' é a forma de organização de sistemas, por sua vez
entrelaçamentos da produção de componentes. Estes últimos produzem, atra-
vés de suas interações, o entrelaçamento; entrelaçamento este que o produziu
determinando seus limites.

A concepção dialética da natureza

Ao introduzir a ideia de que a natureza não pode deixar de


ser física, Morin (1977) resgata o conceito da physis , no sentido de
entender que o universo físico deve ser concebido como o próprio
lugar da criação e da organização. Nesse sentido, parte da ideia de que
"somos seres físicos", o que a transforma (a physis) em princípio
significante. Tal fato leva o autor a evocar a organização biológica e a
organização antropossocial sob o ângulo da organização física.
Bornheim (1982), ao resgatar a ideia de physis dos pré-
socráticos, a sintetiza como
a totalidade de tudo o que é. Ela pode ser apreendida em tudo o que acontece:
na aurora, no crescimento das plantas, no nascimento de animais e homens. E
aqui convém chamar a atenção para um desvio em que facilmente incorre o
homem contemporâneo. Posto que a nossa compreensão do conceito de natu-
reza é muito mais estreita e pobre que a grega, o perigo consiste em julgar a

155
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

physis como se os pré-socráticos a compreendessem a partir daquilo que nós


hoje entendemos por natureza: neste sentido, se comprometeria o primeiro
pensamento grego com uma espécie de naturalismo. Em verdade, a physis não
designa principalmente aquilo que nós, hoje, compreendemos por natureza,
estendendo-se secundariamente ao extranatural.

Na oportunidade, Borheim (1982), com relação às críticas


equivocadas de Aristóteles aos filósofos pré-socráticos observa que
A 'física' pré-socrática nada tem a ver com a física na acepção moderna da
palavra, assim como a physis não pode ser traduzida sem mais pela palavra
natureza. Hoje, a natureza tende a confundir-se sempre mais com o objeto das
ciências da natureza, com algo que pode ser dominado pelo homem, que pode
ser posto a seu serviço e canalizada em termos de técnica. Desta forma, a
natureza transforma-se em expressão da vontade de poder.9

A referida ideia apresenta uma estreita relação com o concei-


to de "natureza dialética" formulado por Engels (1979). Ao apresen-
tar crítica ao materialismo vulgar (Büchner), Engels considera a
dialética como "a forma mais importante do pensamento para a mo-
derna ciência da natureza, já que é a única que nos oferece o análo-
go". Portanto, o conceito de "dialética da natureza" é também mate-
rialista, manifestando-se numa dupla oposição: antiidealista, por con-
trapor a ideia externalizada que se lhe impõe, e antimecanicista, por
ser um combate crítico ao materialismo vulgar (metafísica).
Ao compreender a natureza como processo, Engels (1979)
oferece a ideia central e revolucionária da passagem da 'história natu-
ral' para a 'história da natureza', considerando o homem como
consequência do processo evolutivo. Com esse propósito, enuncia as
três leis da dialética, desenvolvidas por Hegel, que de 'pensamento' se
converte em perspectiva do 'materialismo dialético'.
Para tratar a questão do materialismo da natureza, Engels
recorre ao conceito de "unidade do real", utilizado por Hegel, que
tem como fundamento a 'matéria', embora numa percepção idealista.
Assim, na abordagem do materialismo dialético, a matéria deixa de
ser entendida como conjunto de propriedades imóveis, absolutas e
finitas da concepção mecanicista, para se tornar "o real objetivo que
se dá através da aparelhagem sensitiva, existindo independentemente
9 A ideia chinesa do tao tem grande semelhança com a physis: "é a natureza cíclica de seu
movimento incessante; a natureza, em todos os seus aspectos — tanto os do mundo físico quanto os dos
domínios psicológico e social" (CAPRA, 1998, p. 33).

156
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

da nossa consciência, e neste sentido amplo identifica-se com a pró-


pria natureza" (BRANCO, 1989). Assim, resgata-se o conhecimento
como resultado da prática, ou seja, da percepção da realidade objeti-
va: "o conhecimento é um processo de assimilação (termo biológico)
e não de transposição; processo dialético e não mecânico". Em sínte-
se, se o pensamento resulta da percepção (prática) na realidade objeti-
va, conclui-se que não está isolado do movimento da matéria. Logo,
o homem, enquanto processo evolutivo da natureza, enquanto maté-
ria, no sentido filosófico, também se constitui natureza. Não como
mero "espelho passivo da natureza" no dizer de Schmidt (1978), mas
numa relação 'dialética da natureza', que significa, entre outras coi-
sas, a associação da história à natureza. É preciso entender que o siste-
ma de produção e as forças produtivas é que dão à natureza sua exis-
tência social. Assim sendo, torna-se absurda a ideia da dicotomia en-
tre pensamento humano e o real, entre espírito e matéria e, em última
instância, entre natureza e sociedade. Entender o homem como natu-
reza, representa a superação do conceito de natureza como objeto
universal do trabalho, passando a se caracterizar como sujeito e objeto
ao mesmo tempo.
Desse modo, a dialética da natureza, na perspectiva engelsiana,
pode ser entendida nos diferentes planos filosóficos evidenciados a
seguir:
No plano ontológico: a dialética da natureza implica con-
ceito de matéria ontologicamente aberto, partindo do princípio de
que a realidade objetiva existe independente da consciência que a re-
flete. "A categoria da matéria abarca não apenas os fenômenos natu-
rais (fenômenos da natureza, o ser físico), mas também o ser social;
aspecto fundamental que exprime a originalidade contida nesta defi-
nição categorial" (BRANCO, 1989).
No plano gnosiológico: a natureza é entendida como sinô-
nimo de realidade objetiva, precedendo a atividade cognitiva; o pri-
mado do ser em relação ao pensar. Conforme Engels (1976), a unida-
de do real consiste na sua materialidade, sendo que a prova dessa
materialidade é dada pelo progresso do conhecimento em geral e do
conhecimento científico em particular. Portanto, ao mesmo tempo
em que o sujeito busca a compreensão da realidade objetiva, que se

157
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

converte em conhecimento, também se constitui objeto desse comple-


xo processo natural.
c) No plano da práxis tem-se a prática social, que se consti-
tui a base do processo cognitivo, negando a clássica dicotomia entre
conhecimento e atividade prática. A práxis como elemento mediador
se caracteriza como atividade transformadora do mundo natural e
social, ou seja, da realidade objetiva.
Assim, torna-se possível superar a concepção externalizada
da natureza (plano ontológico), entender a materialidade da realida-
de objetiva, desprovida das implicações idealistas ou mesmo metafísicas
(plano gnosciológico e por conseguinte epistemológico), para, através
da prática social, promover as necessárias transformações em busca da
justiça social, a partir de uma nova maneira de pensar o mundo (pla-
no da práxis).

Natureza ontológica e espaço geográfico

O conceito de physis dos pré-socráticos é a arké, princípio de


tudo aquilo que vem a ser. Para Borheim (1982), "nossa compreensão
do conceito de natureza é muito mais estreito e pobre que a grega [...].
Em verdade, a physis não designa principalmente aquilo que nós, hoje,
compreendemos por natureza, estendendo-se, secundariamente ao
extranatural [...]. Pensando a physis, o filósofo pré-socrático pensa o
ser, e a partir da physis pode então aceder a uma compreensão da
totalidade do real: do cosmos, dos deuses e das coisas particulares, do
homem e da verdade, do movimento e da mudança, do animado e do
inanimado, do comportamento humano e da sabedoria, da política e
da justiça". Para Heidegger (1953) "À physis pertencem o céu e a ter-
ra, a pedra, a planta, o animal e o homem, o acontecer humano como
obra do homem e dos deuses e, sobretudo, pertencem à physis os pró-
prios deuses". Observa-se, portanto, que o conceito de physis, embora
distante da ideia metafísica de natureza, coincide com a concepção
engelsiana de "natureza dialética". Casini (1987) observa que physis é

158
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

"sinônimo de ghénesis, vocábulo `teogónico'l° por excelência, já utili-


zado por Homero e Hesíodo para designar o nascimento das coisas,
por uma criação a partir do caos e do oceano". Retoma-se aqui a
ideia apresentada por Morin (1977) de que a desordem genésica pre-
cede a ordem soberana.
Embora Santos (1978) reconheça o risco de definir o 'obje-
to' da geografia, lembrando inclusive Santo Agostinho ("se me per-
guntam se sei o que é, respondo que sim; mas se me pedem para defi-
ni-lo, respondo que não sei"), deixa a entender que
espaço se define como um conjunto de formas representativas de relações
sociais do passado e do presente e por uma estrutura representada por relações
sociais que estão acontecendo diante dos nossos olhos e que se manifestam
através de processos e funções. O espaço é, então, um verdadeiro campo de
forças cuja aceleração é desigual. Daí porque a evolução espacial não se faz de
forma idêntica em todos os lugares.

O espaço geográfico pode ser entendido assim como as rela-


ções processuais que explicam a materialidade da paisagem.
Partindo do princípio de que a physis é 'a totalidade de tudo
que é', podendo-se atribuir o mesmo entendimento ao conceito de
natureza ontológica preconizada por Engels, pode-se atribuir ao con-
ceito de espaço geográfico a mesma perspectiva totalizante que ex-
pressa a "unidade do real".
Conforme se observou, nos diferentes conceitos estão pre-
sentes os princípios da dialética: as transformações decorrentes das
funções ao longo do tempo, que respondem por formas diferenciadas
(a transformação da qualidade em quantidade); o jogo de forças an-
tagônicas evidenciadas na essência pela 'desordem', embora sintetiza-
das na aparência pela 'ordem' (interpenetração dos contrários) e o
'velho' dando lugar ao 'novo' sem desconsiderar o significado do pas-
sado, que permanece testificado no presente como suporte evolutivo
(a negação da negação). Resumindo, da mesma forma que a physis
expressa a totalidade, a visão ontológica de natureza dialética, deri-
vada de tais pressupostos, também procura integrar as relações entre
natureza e sociedade numa perspectiva unificada. A noção de espaço
io O conceito de `teogónico' refere-se ao físico, "porque se funde com elementos animistas e
míticos" (CASINI, 1987, p. 24).

159
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

geográfico, embora apropriada como categoria geográfica, também


busca a superação dicotômica entre natureza e sociedade, destacando
o peso social no processo de organização do território.
Em síntese, para explicar a concepção ontológica de nature-
za torna-se imprescindível superar as implicações dicotômicas da rela-
ção metafísica natureza-sociedade, resgatar a dialeticidade das rela-
ções processuais, reforçando o argumento de que é o sistema de pro-
dução e as forças produtivas que dão à natureza sua existência social.
Torna-se necessário, então, superar a ideologização das "leis da natu-
reza" como forma de legitimação das diferenças sociais, em que a
propriedade e a vida são colocadas supostamente como mera
acidentalidade, sem desconsiderar o homem como resultado do pro-
cesso evolutivo da natureza. Assim, sem qualquer pretensão de sugerir
um novo referencial epistemológico para a geografia, entende-se o
conceito ontológico de natureza como algo que se aproxima do con-
ceito categorial de "espaço", partindo do princípio de que buscam a
compreensão totalizante da "unidade do real".
Capra (1998)" tem razão ao afirmar que
para descrever esse mundo apropriadamente, necessitamos de uma perspectiva
ecológica que a visão de mundo cartesiana não nos oferece. Precisamos, pois, de
um novo 'paradigma' — uma nova visão da realidade, uma mudança fundamen-
tal em nossos pensamentos, percepções e valores. Os primórdios dessa mudan-
ça, da transferência da concepção mecanicista para a holística da realidade, já
são visíveis em todos os campos e suscetíveis de dominar a década atual.

12( 3flct

Tomando a física como referencial paradigmático para as


ciências, pode-se brevemente concluir que:
a) a reflexão genética sobre a geografia apoiou-se na física
clássica, que tem por princípio filosófico o racionalismo cartesiano. O
fundamento mecanicista newtoniano promoveu o enfoque

11 Independente da opção que esse autor faz ao utilizar como referencial de mutação
paradigmática a filosofia chinesa (atitudes e valores culturais) em detrimento da concepção marxista.

160
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

reducionista e fragmentário (metafísico) na geografia, ao mesmo tempo


em que a relação causa-efeito legitimou o determinismo;
b) já na era quântica, a geografia "redescobre" o marxismo
sem contudo assumir o novo paradigma da "ciência-referência". Numa
perspectiva humanística prioriza as relações essencialmente
socioeconômicas, de tendência humanística, como base para a com-
preensão do "espaço geográfico".
Assim, como a física quântica oferece um novo paradigma
ao descobrir que nem o elétron nem qualquer outro "objeto" atômico
possuem propriedades intrínsecas, independentes do meio ambiente,
também o espaço geográfico não pode ser entendido de forma frag-
mentária, pois isso estaria reforçando o conceito cartesiano de nature-
za externalizada. Diante disso, torna-se imprescindível promover a
esperada ruptura epistemológica, espelhada nos novos paradigmas;
fundamentada numa concepção dialética, em busca de uma visão
ontológica de natureza.
Torna-se necessário compreender os fenômenos em sua inte-
gridade (o mundo não pode ser analisado a partir de elementos isola-
dos), buscando suas conexões locais e não locais para poder entender
o espaço em sua essência. "Hoje, existe uma ampla medida de concor-
dância [...] em que a corrente do conhecimento avança na direção de
uma realidade não mecânica; o universo começa a se parecer mais
com um grande pensamento do que com uma grande máquina" Jeans
apud Capra (1998).

161
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

Referências

ADORNO, T. W. Dialectica negativa. Madrid: Taurus, 1975.


ADORNO, T. W; HORKHEIMER, M. Dialética do esclarecimento. Rio de Janeiro: Zahar,
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FLICKINGER, H-G. O lugar do novo paradigma no contexto da teoria moderna do
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BORNHEIM, G. Os filósofos pré-socráticos. São Paulo: Cultrbe, 1982.
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163 0
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

Na década de 20, a ecologia concentrava-se nas relações fun-


cionais dentro das comunidades animais e vegetais. Charles Elton in-
troduziu o conceito de "cadeias alimentares e de ciclos de alimentos"
como o seu "princípio organizador" em seu livro pioneiro, Animal
ecology (CAPRA, 1996, p. 43).
Alexander von Humboldt, na visão da CAPRA (1996), foi
um dos maiores unificadores dos séculos XVIII e XIX, pois tinha o
"hábito de ver o Globo como um grande todo". Identificou o clima
como uma força global unificadora e reconheceu a coevolução dos
sistemas vivos, do clima e da crosta terrestre. Esta visão tornou-se
uma das fortes tradições da geografia alemã, com os estudos
climatogênicos de Büdel e da geografia da vegetação, ou geoecologia
de Troll.
A geografia russa czarista desenvolveu uma tradição funcio-
nal e integrada para estudar o ambiente natural e colocava mais ênfa-
se nos traços bioclimáticos que nos geomorfológicos, como o balanço
hídrico e calorífico de Voeikov e o zoneamento natural, de bases
edafológicas, em que se fundou a ciência da paisagem
(landshaftovedenie) de Dokuchaev. Voeikov estudou e divulgou siste-
maticamente, num período em que predominava o determinismo da
natureza, farta documentação sobre o impacto humano sobre a Terra.
Este geógrafo é considerado como importante precursor do moderno
movimento de conservação da natureza.(JOHNSTON; CLAVAL,
1986, p. 87-91).
A geografia desde sua origem sempre esteve no centro das
relações entre sociedade e meio ambiente, tanto no âmbito dos lugares
como nas escalas planetárias. Na verdade, são estas relações e estas
extensões que a tornam atrativa àquelas pessoas que eventualmente se
deparam com a produção do geógrafo. Para o Professor Carlos
Augusto Monteiro, o maior encanto da geografia — não importando
o arcaísmo do nome — reside na complicada trama das interações do
Homem com a Terra (MONTEIRO, 1995, p. 27).
Assim, a geografia, ao estudar as relações entre o homem e o
meio, ou, entre a sociedade e a natureza, na busca de explicar os rela-
cionamentos entre esses dois domínios da realidade, sempre esteve no
fulcro da questão ambiental. Para Cassetti (1991), a relação homem-
meio contém em si duplo aspecto, ou seja, é relação ecológica e é

166
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

relação histórico-social. Assim, a questão ambiental encontra-se fun-


damentada na relação de propriedade das forças produtivas, determi-
nada pelas relações em suas partes fundamentais.
Segundo Cassetti (1991), "a forma de apropriação e trans-
formação da natureza responde pela existência dos problemas
ambientais, cuja origem encontra-se determinada pelas próprias rela-
ções sociais. Uma nova estrutura socioeconômica implantada em uma
região implica uma nova organização do espaço, que por sua vez
modifica as condições ambientais anteriores".
Que relações sociais respondem por essa nova estrutura
socioeconômica da sociedade globalizada? Quais as implicações na
organização espacial e nas condições ambientais? É preciso conhecer
alguns dados sobre esta sociedade globalizada.
Clóvis Rossi, do Conselho Editorial da Folha de S.Paulo, mos-
tra a importância da evolução técnica nas relações econômicas da so-
ciedade globalizada com a seguinte comparação: "A notícia do assas-
sinato do presidente norte-americano Abraham Lincoln, em 1865, le-
vou 13 dias para cruzar o Atlântico e chegar à Europa. A queda da
Bolsa de Valores de Hong Kong (outubro-novembro/97) levou 13 se-
gundos para cair como um raio sobre São Paulo e Tóquio, Nova York
Tel Aviv, Buenos Aires e Frankfurt. Eis ao vivo e em cores, a
globalização".
Não há uma definição para a globalização que seja aceita
por todos. A sua face mais conhecida no cotidiano é da interligação
acelerada dos mercados nacionais movimentando bilhões de dólares
por computador em alguns segundos. Para alguns historiadores como
Prof. Luiz Roberto Lopez, do IFCH - UFRG, a globalização implica
uniformização de padrões econômicos e culturais em âmbito mundial
historicamente, associada a conceitos como hegemonia e domina-
ção, mediante a apropriação de riquezas do mundo com a decorrente
implantação de sistemas de poder.
Os economistas alertam para o fato de que a globalização
não pode confundir-se simplesmente com a presença de um mesmo
produto em qualquer lugar do mundo, mas pressupõe a padroniza-
ção dos produtos a partir de uma estratégia mundialmente unificada
de marketing, destinada a uniformizar sua imagem junto aos consu-
midores.

167 fto
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

O lado perverso da globalização é que ela não beneficia a


todos de maneira uniforme. Uns ganham muito, outros ganham me-
nos, outros perdem. No plano individual, a necessidade de menores
custos de produção pelo mercado globalizado demanda maior
tecnologia e a mão de obra menos qualificada é descartada. No plano
das relações do espaço mundial, os países mais pobres perdem com a
desvalorização das matérias-primas que exportam e o atraso
tecnológico.
Na visão de Ianni (1995) a globalização pode ser expressa
nos seguintes termos
ainda que a nação e o indivíduo continuem sendo muito reais, foram subsumidos,
real ou formalmente, pela sociedade global, pelas configurações e movimentos
da globalização. A Terra mundializou-se, de tal maneira que o globo deixou de
ser uma figura astronômica para adquirir mais plenamente sua significação
histórica.

Em relação ao meio ambiente, os impactos da globalização


da economia decorrem principalmente de seus efeitos sobre os siste-
mas produtivos e sobre os hábitos de consumo das populações, em
sua maioria, negativos.
Lavinas (1993) faz uma análise crítica a respeito do conceito
de desenvolvimento sustentável e reconhece que a questão ambiental
deverá desempenhar um papel importante na determinação no senti-
do de reorientar novas relações entre os homens. Assim, faz o seguinte
questionamento: "os limites dos recursos naturais, seu esgotamento,
podem ser o paradigma que permitirá resolver a questão da explora-
ção?" A partir da ameaça que pesa sobre a vida no planeta, em decor-
rência do desequilíbrio ecológico, a autora vislumbra na questão eco-
lógica uma alternativa para reverter as relações de exploração geradas
em nome do progresso.
Em relação à organização do espaço mundial há uma ten-
dência de que a atividade de produção, com todas as consequências
negativas ao meio ambiente delas advindas, concentre-se nos países
menos desenvolvidos, onde são mais baratos a mão de obra e o solo e
são contornadas, com menores custos, as exigências de proteção ao
meio ambiente. No território dos países mais desenvolvidos ficam as
atividades mais ligadas ao desenvolvimento de tecnologias, à enge-

168
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

nharia de produtos e à comercialização, ou seja, o subsistema "limpo"


da produção industrial.
Outro fator que tem exercido pressão negativa sobre o meio
ambiente e que tem crescido com a globalização da economia é o
comércio internacional de produtos naturais, como madeiras nobres e
derivados de animais. Este comércio tem provocado sérios danos ao
meio ambiente e colocado em risco a preservação de ecossistemas in-
teiros. A exemplo da exportação de madeiras nobres, tráfico de ani-
mais silvestres e produtos florestais não madeiráveis da Amazônia para
os países centrais.
Na agricultura e na pecuária, a facilidade de importação e
exportação pode levar ao uso, em países com legislação ambiental
pouco restritiva ou fiscalização deficiente, de produtos químicos e
técnicas lesivas ao meio ambiente, mas que proporcionam elevada
produtividade a custos baixos. É o caso, por exemplo, de determina-
dos agrotóxicos que, mesmo retirados de uso em países mais desen-
volvidos, continuam a ser utilizados em países onde não existem siste-
mas eficientes de registro e controle. Os produtos agrícolas e pecuários
fabricados graças a esses insumos irão concorrer deslealmente com a
produção de outros países (José de Sena Pereira Jr., Globalização e
meio ambiente).
Parafraseado a questão levantada por Carlos Augusto
Monteiro sobre "O que faz o 'clima' ser um fato geográfico? Em que
medida nos interessa o conhecimento dos processos morfogenéticos?"
A nossa questão é "o que faz do 'meio ambiente' um fato geográfico?
Ou em que medida nos interessa o conhecimento dos processos
ambientais?" A resposta de Monteiro (1995) também pode ser a nos-
sa. Responde esse autor: "No momento em que se reclama uma apro-
ximação das ciências para elaborar um conhecimento mais conjunti-
vo um tal cisma seria uma direção contra a corrente geral". Falava o
autor principalmente no cisma entre as geografias, que à medida que
fizeram o seu aprofundamento vertical, aliás sempre muito bem-vin-
do, teriam deixado de colher os seus melhores frutos decorrentes da
"integração espacial" que esteve na origem da geografia.
Com suas raízes em autores da Antiguidade Clássica, a geo-
grafia como GEO = TERRA e GRAFIA = DESCRIÇÃO, com
Heródoto e Estrabão já apontava para estudos mostrando os traços

169
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

naturais e sociais das terras que percorriam, ou seja, os traços naturais


como o ambiental que abrigava diferentes modos de vida do homem.
Na Idade Moderna, a geografia é reconhecida como um cam-
po do conhecimento que estuda unidades da superfície da Terra, — as
regiões — integradas pelas relações do homem com o seu meio, ou com
o seu ambiente, operacionalizando o seu objeto de estudo por meio da
diferenciação de áreas.
Neste sentido, Moraes (1981, p. 18-20), assinala três visões
como objeto da geografia: 1) Caberia à geografia explicar as influên-
cias da natureza sobre o desenvolvimento da humanidade. A ação ou
mecanismos do meio sobre os homens e as sociedades. O homem é
colocado como elemento passivo ou determinado pelas condições
naturais. 2) Cabe à geografia explicar as ações do homem na transfor-
mação do meio. Caberia estudar como o homem se apropria dos re-
cursos oferecidos pela natureza. 3) O objeto da geografia seria a "rela-
ção em si", com os dados naturais e humanos tendo o mesmo peso,
ou seja, a geografia deve buscar o estudo do equilíbrio entre o homem
e a natureza.
Para Monteiro (1995) nos meados da década dos 50, a pers-
pectiva regional na geografia passa a comprometer-se mais com a or-
ganização econômica do espaço, e assim, no caso da geografia brasi-
leira, esta passa de um determinismo ambiental para um determinismo
econômico.
Para Monteiro (1995), a geografia tem sido antropocêntrica,
embora Emanuel de Martonne tenha publicado a sua obra em Geo-
grafia física e Maximelien Sorre nos seus Fundamentos de geografia
humana, passa a mensagem da influência do clima nas atividades
humanas. A geografia brasileira procurou manter o estudo da relação
Terra-Homem por influência da escola Vidalina. Monteiro cita ainda
que os mestres franceses que influenciaram a nossa geografia humana,
como Pierre George e J. Beaujeau-Garnier, tiveram uma forte forma-
ção em geografia física. Os geógrafos brasileiros que alcançaram des-
taque e que foram influenciados diretamente pelos primeiros mestres
franceses que colaboraram no início dos cursos de geografia no Brasil,
sempre trabalharam na perspectiva da relação Terra-Homem, quer te-
nham-se dedicado mais à geografia física ou à geografia humana.

170
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

Por outro lado, não podemos deixar de reconhecer que a


construção do conhecimento geográfico sempre se alimentou no avan-
ço da ciência. A ciência clássica concebia a noção de mundo como
uma grande máquina, a partir da visão mecanicista construída por
Copérnico, Galileu e Newton. Tomando por base o método analítico-
empiricista de Francis Bacon e a lógica apriorística de Descartes,
consubstanciou-se a visão determinística da natureza. Laplace in Pessis-
Pasternak (1993, p. 13) formulava sua concepção determinística nos
seguintes termos:
Devemos encarar o estado presente do Universo como o efeito do seu estado
anterior e como causa daquele que se seguirá. Uma inteligência que, em dado
momento conhecesse todas as forças que animam a natureza e a situação
respectiva dos seres que a compõem [...] abarcaria na mesma fórmula os movi-
mentos dos maiores corpos do Universo e de seu menor átomo: nada seria
incerto para essa inteligência, e o futuro, assim como o passado, estaria presen-
te para ela.

Esta visão fundamenta o axioma "o presente é a chave do


passado", de Lyel, na ciência geológica. Daí passa a influenciar a geo-
grafia física por meio da visão estruturalista davisiana na
geomorfologia, reforçada pela noção cíclica da natureza. Helmholtz,
médico e físico alemão, citado por Prigogine e Stengers (1984, p. 71),
declarava que "os fenômenos da natureza devem ser reduzidos aos
movimentos de partículas materiais que possuem forças motrizes
invariantes, dependentes só da sua situação espacial", ou seja, com-
preender a natureza é compreendê-la em termos mecânicos.
Na medida em que, nos termos da visão determinista, proje-
tos como de uma física-social e de um darwinismo-social não se
viabilizam, também na geografia a interação Terra-Homem tende a
desintegrar-se. A geografia humana aproxima-se cada vez mais das
ciências sociais e distancia-se das relações com suas bases naturalistas,
representada pela geografia física. A geografia física, por sua vez, uti-
liza-se cada vez mais do método de análise das ciências naturais e,
com isto, tende a verticalizar-se em campos de especialização.
A concepção da evolução darwinista forçou um recuo do
modelo cartesiano do mundo como uma máquina, que passou a ser
descrito como um sistema em evolução e em permanente mudança,
no qual estruturas complexas se desenvolviam a partir de formas mais

171 o
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

simples. Estas ideias também passaram para as ciências humanas. Na


física, este modelo foi tomado pela termodinâmica e em sentido opos-
to, ou seja, um movimento no sentido de uma crescente desordem.
Embora a termodinâmica, a ciência da complexidade, expresse suas
leis em termos de probabilidade, a sua visão newtoniana concebe um
mundo que caminha para um estado de máxima entropia, onde os
processos de trocas energéticas tendem a cessar, ou seja, contrário ao
modelo biológico-evolucionista de um universo vivo, caminhando da
desordem para a ordem, em termos de estados de complexidade cres-
centes (CAPRA, 1982, p. 67). Na geografia, as teorias cíclicas, vigen-
tes até os anos 60 em geografia física, embora tenham assimilado o
princípio evolucionista, não conseguem libertar-se da explicação
mecanicista da natureza.
A física atômica, construída a partir do início deste século,
concluiu que a matéria não é constituída por partículas duras, sólidas
do mundo newtoniano, mas que os próprios átomos consistem em
vastas regiões de espaço onde partículas extremamente pequenas — os
elétrons — se movimentam em redor do núcleo, de natureza dual, que
ora se apresentam como partículas, ora como ondas, dependendo de
como são observadas. Na verdade, apresentam-se como padrões
ondulatórios de probabilidades. Não representam probabilidade de
coisas, mas de interconexões. Einstein as chamou de "quanta". Niels
Bohr afirmava que "as partículas materiais isoladas são abstrações, e
suas propriedades são definíveis e observáveis somente através de sua
interação com outros sistemas". Para Heisenberg apud Capra (1984,
p. 75), "O mundo apresenta-se, pois, como um complicado tecido de
eventos, no qual conexões de diferentes espécies se alternam, se sobre-
põem ou se combinam, e desse modo determinam a contextura do
todo". Capra (1984, p. 76) acentua que "as partículas subatômicas —
e, portanto, em última instância, todas as partes do universo — não
podem ser entendidas como entidades isoladas, mas devem ser defini-
das através de suas inter-relações. L. Shlain, citado por Capra (1984,
p. 115), acha que para se formar uma nova base conceitual na biolo-
gia, que possa transcender a concepção cartesiana, provavelmente terá
que se adotar a visão sistêmica da vida. Os seres vivos têm uma ten-
dência para formar estruturas de múltiplos níveis, que diferem em sua
complexidade e parecem reger-se por um princípio básico de auto-

0 172
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

organização. Em cada nível existe um equilíbrio dinâmico entre ten-


dências autoafirmativas e integrativas e cada um funciona como
interfaces e postos de revezamento entre os vários níveis hierárquicos
(CAPRA, 1984, p. 274-275). Finalmente esse autor afirma que a nova
visão da realidade baseia-se na consciência dos estados de inter-rela-
ção e interdependência essencial de todos os fenômenos — físicos, bio-
lógicos, psicológicos, sociais e culturais, visão que transcende as atu-
ais fronteiras disciplinares e conceituais (CAPRA, 1984, p. 259).
Embora a geografia tenha, desde seu início, intuído a im-
portância do papel das inter-relações e conexões entre o homem e o
meio e o papel da situação e da posição como definidoras dos padrões
espaciais, esses paradigmas só foram trabalhados ao nível do empírico.
Na medida em que se alçava a reflexões epistemológicas mais rigoro-
sas, caia presa do determinismo clássico ou perdia a sua perspectiva
unificadora.
As contribuições de Ilya Prigogine à termodinâmica mo-
derna falam do não equilíbrio, das estruturas dissipativas, da cria-
ção da ordem pela desordem e do tempo irreversível. Para esse autor,
a existência de uma flecha de tempo comum aos sistemas físicos e
humanos talvez seja o fato que melhor exprime a unidade do Uni-
verso na ciência moderna. A sua teoria admite extrapolações nos
mais diversos domínios: desde a formação dos ciclones até a organi-
zação das formigas, passando pelo crescimento urbano. Suas pro-
postas apontam para uma "nova aliança", ou seja, uma convergên-
cia de duas culturas, a científica e a humanista, para uma ciência
pluralista em substituição ao modelo determinista-mecanicista
(PESSIS-PASTERNAK, 1992, p. 36).
Na década dos 60, a geografia, acentuadamente os geógrafos
físicos, passam a interessar-se por análises mais integrativas, relacio-
nando o espaço físico ao humano. Historicamente na Alemanha já se
produzia uma "geoecologia". Na Rússia, Kalesnik (1958) apud Cassetti
(1995) define a geografia física como a ciência da integração. Utiliza
o conceito de Landschft-esfera como objeto da geografia física, na qual
a referida integração é vista através das leis geográficas gerais da Terra,
ou leis da Landschft-esfera, que são: 1) integridade, unidade de sua
composição e da sua estrutura; 2) existência dos fenômenos circulares
da matéria e energia; 3) presença de ritmo em seus fenômenos; 4)

173
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

coerência da estrutura da Landsch ft-esfera de particularidades zonais e


azonais; e 5) continuidade de sua evolução, cujo resultado é a luta
dos processos exógenos e endógenos.
Na França, com base no conceito de paisagem, procura-se
estruturar uma "geografia física global". O conceito de paisagem
que funda esta abordagem é concebido como "a paisagem não é
simples soma dos elementos geográficos disparatados. É uma por-
ção do espaço, o resultado da combinação dinâmica, (portanto ins-
tável) de elementos físicos, biológicos e antrópicos, que interagindo
dialeticamente, uns sobre os outros, fazem da paisagem um conjun-
to único indissociável, em perpetua evolução" (BERTRAND, 1968).
Os geógrafos russos, a partir da sua tradição em "ciência da paisa-
gem", inspirando-se na Teoria Geral dos Sistemas operacionalizam o
conceito de paisagem na ideia de "geossistema". A paisagem passa a
ser vista como
uma série estruturada de componentes (geosferas) que apresentam relações
perceptíveis entre si, funcionando como um todo complexo que, apesar disso,
é caracterizada por uma relativa uniformidade, resultante de inter-relações e
feedbacks entre os componentes e pelo intercâmbio de massa e energia com o
ambiente adjacente. Podendo a paisagem ser natural ou cultural (DEMEK,
1978).

A construção desse instrumento teórico visou sobretudo ca-


pacitar a geografia física como uma ferramenta capaz de responder ao
planejamento físico-territorial. A ênfase atribuída à complexidade de
seus componentes, ao mecanismo dialético que preside as suas
interrelações e a preocupação na sua sistematização, por outro lado,
habilita-a também a participar da nova discussão sobre o meio ambi-
ente, ou seja, fazer a interlocução da geografia com questão ambiental
que emerge a partir dos fóruns mundiais de Paris em 1968 e Estocol-
mo em 1972.
Os novos conceitos da ciência, já mencionados, poderão ser
explorados pela geografia ambiental. Na medida que se avança na
visão integradora da geografia, os conceitos de não equilíbrio, de es-
truturas dissipativas, poderão ser úteis para tratar das complexas ques-
tões ambientais, no que se refere, por exemplo, ao tema do desenvol-
vimento sustentável, no qual há necessidade de se fazer convergir as
visões das culturas científica e humanista.

o 174
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

Em Pessis-Pasternak (1992) declara-se que na ciência clássi-


ca insistia-se sobre estabilidade e determinismo, hoje por todo lado
fala-se em instabilidades, flutuações, bifurcações. E afirma: "estou con-
vencido de que o objetivo da ciência é reforçar as relações entre o
homem e o Universo. Dentro dessa visão, o tempo do homem tornar-
se-á expressão exacerbada, talvez a expressão suprema das leis funda-
mentais da natureza".
Para se dar conta das atuais questões ambientais, que pressu-
põem complexas relações entre o homem e a Terra, há que se fazer
com que a convergência entre as culturas científica e humanista sejam
regidas pelo tempo do homem, pois como comentam Prigogine e
Stengers (1991, p. 1) a respeito da metamorfose da ciência, de que
partindo duma natureza semelhante a um autômato, submetida a leis matemá-
ticas cujo calmo desenvolvimento determina para sempre o seu futuro tal como
determinou o seu passado, chegamos hoje a uma situação teórica completa-
mente diferente, a uma descrição que situa o homem no mundo em que ele
mesmo descreve e implica a abertura desse mundo.

Por outro lado, aquilo que recomenda Santos (1982) para a


análise do espaço, também é válido para as questões ambientais, ou
seja, se avaliamos apenas os seus elementos, sua natureza, sua estrutu-
ra ou as possíveis classes desses elementos, não ultrapassaremos dos
limites da descrição. E isto tem ocorrido com muita frequência, tanto
no planejamento ambiental como nas análises de impactos ambientais.
Somente a relação que existe entre as coisas é que nos permite real-
mente conhecê-las e defini-las, isto é, fatos isolados são abstrações, o
que lhes dá concretude são as relações que mantêm entre si, portanto,
a realidade é complexa nas ligações entre suas variáveis. Assim, a aná-
lise sistêmica (geossistêmica) tem o mérito de fornecer uma abstração
adequada dessa complexidade, de maneira a evidenciar as conexões
mais importantes.
No universo descrito pelas ciências modernas, o aleatório
tem um papel cada vez maior, como no caso dos seres vivos, na
autoestruturação dos sistemas macroscópicos longe do equilíbrio, que
não são calculáveis por leis gerais. Próximo ao equilíbrio, as leis da
natureza são universais, longe do equilíbrio, elas são específicas e exi-
gem um fluxo de energia, ou seja, elas dissipam energia, daí o nome
de "estruturas dissipativas" (PESSIS-PASTERNAK, 1992, p. 38). A

175 o
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

questão do determinismo x aleatoriadade na natureza e seu rebatimento


na geografia física já foi objeto de nossa preocupação e tivemos opor-
tunidade elaborar uma breve reflexão sobre o assunto Canali (1994).
Em face das atuais mudanças paradigmáticas da ciência,
deve-se aproveitar a oportunidade para revisitar-se os fundamentos
do projeto permanente da geografia. No momento atual em que a
geografia precisa tratar das questões ambientais, cabe retomar e
aprofundar a reflexão teórica sobre as interações Terra-Homem na
sua dimensão espacial. Não se trata de recolocar uma vez mais um
novo objeto para a geografia, mas de avaliar como esta questão se
insere na nova discussão sobre a temática ambiental que aí está, am-
pla, inter, multi e pluridisciplinar, que de há muito transbordou o
campo da ecologia.
Neste sentido, tanto Milton Santos no presente, quanto E.
de Martonne, no passado, nos dão algumas pistas. Ambos são con-
cordes em dizer que a geografia não deveria se preocupar tanto, como
ainda hoje a prática demonstra, em discutir se o seu objeto de análise
é o "físico" ou o "humano". A questão a responder é, se é possível,
tratar qualquer objeto de análise pelo "método geográfico", princi-
palmente naquilo em que esse método tem de mais peculiar, ou seja,
os princípios de extensão e da unidade terrestre. Estes princípios po-
dem dar o significado e o valor geográfico aos objetos da realidade.
Interessante notar, guardadas as devidas distâncias por to-
dos nós conhecidas, o paralelismo que há entre as preocupações de
Milton Santos e Emanuel De Martonne sobre a questão do objeto da
geografia. O primeiro ao finalizar o seu grande projeto sobre a Natu-
reza do Espaço faz a pergunta se seria realmente necessário definir um
objeto particular, como sendo o objeto de estudo da geografia. Ao
invés disto, dever-se-ia colocar a questão sobre se há um método geo-
gráfico de análise da realidade. Tal busca seria então no sentido de
como tratar geograficamente os objetos da realidade. Neste sentido,
propõe que se estabeleçam as categorias e conceitos a partir do concei-
to fundante da geografia, o "espaço geográfico". Define então o espa-
ço geográfico como a soma indissolúvel de sistemas de objetos e siste-
mas de ações. Acrescenta que "a significação geográfica e o valor geo-
gráfico dos objetos vem do papel que, pelo fato de estarem em
contiguidade, formando uma extensão contínua, e sistematicamente

176
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

interligados, desempenham no processo social" (SANTOS, 1996, p.


62-63).
Emanuel De Martonne, ao tratar a questão sobre a defini-
ção da geografia acentuava que
A geografia pode ser considerada uma ciência formada, conforme o plano
desenhado por Varenius e desenvolvido por Humboldt e Ritter. Não deve-se
estar muito preocupado com a delimitação exata do seu campo "objeto", o
essencial é observar os princípios do método geográfico, que segundo ele tinha
como originalidade e fecundidade a colocação das "realidades terrestres (DE
MARTONNE, 1964, p. 37-41).

Ambos acentuam a importância da extensão. Milton Santos


acentua o papel da "contiguidade", formando uma extensão contí-
nua de objetos e ações sistematicamente interligados formando o es-
paço geográfico. De Martonne fala sobre o "princípio da extensão"
como um dos componentes essenciais do método geográfico, pois se-
gundo ele, é diferente estudar o Quercus, que é uma abstração de um
bosque de carvalhos. Estes definem-se por estarem associados a outras
plantas, ocuparem um "lugar", terem uma "extensão" e uma
"fisionomia" próprias, resultante do equilíbrio com as condicionantes
particulares desse lugar.
Coltrinari (1995) chama-nos a atenção para a importância
da requalificação do princípio da unidade terrestre da geografia clás-
sica em que a Terra é vista como um corpo único, a partir da aborda-
gem sistêmica atual que permite a compreensão de fenômenos globais
— ambientais — referidos por ela, como o da existência de vestígios de
chuvas ácidas contidos em amostragem de gelo da Groenlândia, a
3030 m de profundidade, originados pelas erupções do vulcão Vesúvio
que soterrou Pompeia e Herculano em 79 d.C. e de vestígios do desas-
tre de Chernobyl de 1986. Que categoria de fenômenos são estes? Que
dimensão de escala possuem? Dove, citado por Christofoletti (1982),
com base no principio da unidade terrestre, já dizia em relação aos
movimentos da atmosfera, "não se pode isolar nenhuma parte, pois
cada parte age sobre a sua vizinha".
Milton Santos assinala que pela primeira vez na história da
humanidade estamos convivendo com uma "universalidade empírica"
(SANTOS, 1984). Então, segundo ele, "cabe ao geógrafo propor uma
visão totalizante do mundo, mas é indispensável que o faça, a partir

177
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

de sua própria província do saber, isto é, de um aspecto da realidade


global". É importante notar que para este autor, na noção de totali-
dade, está implícito que ela não decorre da soma das partes, mas ao
contrário, a totalidade explica as partes. A totalidade é a realidade em
sua integridade, se apresenta como o conjunto de todas as coisas e de
todos os homens em sua realidade, isto é, em suas relações e em seu
movimento (SANTOS, 1996, p. 92-93).
Esta realidade constituída pelos objetos geográficos é domí-
nio tanto da geografia física (florestas, montanhas, lagos) como da
geografia humana (cidade, barragem, estrada) e da sua evolução his-
tórica. O espaço geográfico leva em conta todos os objetos existentes
numa extensão contínua e apresentam-se como paisagem (SAN-
TOS,1996, p. 59).
Para Milton Santos há uma diferença entre "paisagem" e
"espaço". A paisagem é o conjunto de formas que, num dado mo-
mento, exprimem as heranças que representam as sucessivas relações
localizadas entre homem e natureza. O espaço são essas formas, isto é,
a paisagem mais a vida ou a sociedade que as anima. A paisagem
muitas vezes é utilizada como "configuração territorial" para o con-
junto de elementos naturais e artificiais que fisicamente caracterizam
uma área.
Tomando-se o geossistema como uma estrutura formal de
operacionalização do conceito de paisagem, pode-se ver o geossistema
como integrando os subsistemas potencial ecológico de determinado
espaço no qual há uma exploração biológica, podendo ser influencia-
do na estrutura e expressão espacial por fatores sociais e econômicos.
Embora em princípio o geossistema possa ser uma abordagem para
dar conta do estudo integrativo do espaço natural, para a análise dos
processos de degradação ambiental, contudo, o ser humano não pode
ser um mero figurante em sua análise (CASSETTI, 1991).
Os princípios básicos do estudo dos geossistemas são o da
conectividade e o da totalidade. Pode-se compreender um sistema como
um conjunto de elementos formando um todo, estruturado por um
conjunto de ligações entre esses elementos e por um conjunto de liga-
ções entre o sistema e seu ambiente, isto é, cada sistema se compõe de
subsistemas, e todos são parte de um sistema maior, onde cada um

o 178
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

deles é autônomo e ao mesmo tempo aberto e integrado ao meio, ou


seja, existe uma inter-relação direta com o meio.
Quanto aos elementos, ou objetos geográficos que devem
compor o geossistema no estudo de uma situação particular, deve-se
levar em conta os objetivos deste estudo. Seus elementos mudam de
importância de acordo com a problemática a ser estudada, ou com o
lugar e toda a sua rede relacional em dado momento.
Para Zanoni e Raynaut (1994, p. 145) a noção de meio
ambiente é multicêntrica, ou seja, muda de conteúdo em função do
objeto central de análise. Este conceito implica na possibilidade de se
deslocar, por definição, o que era o objeto central da análise, numa
determinada escala espacial ou de complexidade, para o outro objeto,
ficando o primeiro como o meio ambiente. Assim, na análise de um
processo morfogenético elementar de uma vertente, determinados agen-
tes funcionarão como o meio ambiente. Ampliando-se a escala de
análise para uma bacia hidrográfica, por exemplo, em que se analise
um conjunto complexo de processos morfogéticos, o contexto
ambiental estaria relacionado à escala da unidade morfoestrutural e/
ou zona bioclimática. Assim, na análise de uma dada questão ambiental
poderá ser enfatizado, por exemplo, o estudo dos impactos da ação
antrópica sobre os solos, ou água, ou vegetação ou a atmosfera, po-
rém não se pode desalojá-los da sua situação de contexto. O impor-
tante é levar sempre em conta as relações mútuas entre todos os com-
ponentes do geossistema, bem como a sua integração com o todo,
considerando que uma intervenção local faz parte de um sistema mai-
or, tanto no sentido de explicá-la como de assimilá-la como um im-
pacto proporcional no todo.
O método de análise das atuais questões ambientais, estas
como resultantes da apropriação exacerbada dos recursos naturais pela
sociedade globalizada e tecnificada, não deve ser diferente da análise
do espaço geográfico, que na visão de Santos (1996, p. 92). "deve
partir da totalidade concreta com que ela se apresenta neste período
de globalização — uma totalidade empírica — para examinar as rela-
ções efetivas entre a Totalidade-Mundo e os Lugares. Isso equivale a
revisitar o movimento do universal para o particular e vice-versa,
reexaminando, sob esse ângulo, o papel dos eventos e da divisão do

179
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

trabalho como uma mediação indispensável", pois conforme Monteiro


(1995, p. 27) "as mudanças no mundo são reflexos das mudanças no
homem já que o mundo é acontecimento produzido no homem e
ocorre através de mudanças de 'sentido' que este confere àquele". A
ênfase que se possa dar à lógica do movimento universal não deve
esmaecer ou assimilar o lugar, pois não se deve esquecer que as "con-
dições" e "circunstâncias" do meio geográfico são a contraparte que
atua como virtualidades que favorecem ou dificultam o movimento
dialético do todo. Para Milton Santos "assim estaremos atribuindo
um novo estatuto aos objetos geográficos, às paisagens, às configura-
ções geográficas, à materialidade do espaço geográfico. Pois o espaço
não é apenas um receptáculo da história, mas condição de sua realiza-
ção qualificada (SANTOS, 1996).
No entanto, a gestão ambiental pressupõe intervenções prá-
ticas como o diagnóstico, o zoneamento e a avaliação ambiental. Neste
sentido, será preciso identificar as alterações ambientais e isto pressu-
põe a noção do estado de normalidade (estabilidade) e de organiza-
ção do meio ambiente. Isto implica a noção de complexidade de abor-
dagens holísticas, a fim de se compreender o processo de funciona-
mento e os parâmetros que regem o tal estado de normalidade (estabi-
lidade) ou de equilíbrio.
Ross Harrison, citado por Capra (1996, p. 39), explorou a
concepção de organização, que viria substituir a noção de função em
fisiologia. Esta mudança de função para organização representa um
mudança do pensamento mecanicista para o pensamento sistêmico.
Harrison identificou a configuração e a relação como dois aspectos
importantes da organização, os quais foram posteriormente unifica-
dos na concepção de padrão como uma configuração de relações orde-
nadas.
Para Christofoletti (1995, p. 337), os sistemas ambientais —
geossistemas — resultantes da interação dos elementos componentes
da natureza, possuem uma organização espacial. Estes sistemas funci-
onam pela integração espacial que é dada por meio dos fluxos verti-
cais e horizontais de matéria e energia. Assim, o estudo das alterações
ambientais nos geossistemas está relacionado ao conhecimento das
respostas morfológicas geradas por estes fluxos e na determinação dos
limiares que estas podem suportar a partir de uma nova entrada de

4\, 180
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

energia no sistema, ou mesmo no relaxamento deste fluxo. Numa


dada vertente, por exemplo, a mudança no uso do solo pode implicar
na alteração da taxa de energia relacionada ao fluxo que percorre a
hidrologia da vertente. Casseti (1991, p. 81) cita índices de 99,07%
do total de perdas de solo e de 66,04% de perdas de água para verten-
tes utilizadas para cultivo, em relação a vertentes cobertas com mata
ou pastagem, para um total de chuva de 1.401,2 mm. num experi-
mento realizado em 1980-81, em Goiânia.
O bioquímico Lawrence Harrison, citado por Capra (1996,
p. 39), pioneiro no uso da palavra sistema, utilizou-a para denotar
tanto organismos vivos como sistemas sociais. In "LILIENFELD,
Robert, The risi of systems theory, John Wiley, N. York, 1978, o siste-
ma passou a significar um todo integrado cujas propriedades essenci-
ais surgem das relações entre suas partes", e o "pensamento sistêmico"
a compreensão de um fenômeno dentro do contexto de um todo maior.
Esta é a raiz da palavra "sistema, que deriva do grego synhistanai
(colocar junto)". Portanto, entender sistematicamente é colocar as coisas
dentro de contexto e estabelecer a natureza de suas relações (CAPRA,
1996, p. 39).
Para Capra (1996), o pensar sistêmico surge como um novo
modo de pensar, é o pensar em termos de conexidade, de relações, de
contexto. De acordo com a visão sistêmica, as propriedades essenciais
de um organismo, ou sistema vivo, são propriedades do todo, que
nenhuma das partes possui. Elas surgem das interações e das relações
entre as partes. A natureza do todo é sempre diferente do que a mera
soma das suas partes. No paradigma cartesiano, a complexidade de
um sistema pode ser entendida inteiramente a partir das propriedades
de suas partes. Isto é o pensamento analítico ou reducionista.
O grande impacto do pensamento sistêmico no século XX é
que as partes não podem ser entendidas pela análise. As propriedades
das partes não são propriedades intrínsecas e só podem ser entendidas
a partir da organização do todo. Não se concentra em blocos básicos,
mas em princípio de organização básicos. O pensamento sistêmico é
"contextual", oposto ao analítico. A análise significa isolar alguma
coisa a fim de entendê-la; no pensamento sistêmico significa colocá-
la no contexto de um todo amplo (CAPRA,1996, p. 41).

181
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

Com relação ao mundo natural, Milton Santos explica que


este está em constante troca de energia entre seus elementos e conhece
um movimento perpétuo, pelo qual sua identidade se renova enquan-
to se modificam seus aspectos. Cita e concorda com Whitehead quan-
do este intitula de "diversificação da natureza" o processo pelo qual
se constituem entidades a que se chama de elementos naturais, produ-
tos cujas características derivam a cada movimento do respectivo modo
de diversificação (SANTOS,1996, p. 105). Uma das questões impor-
tantes na abordagem ambiental é a consideração sobre a biodiversidade,
de modo que para compreedê-la é necessário enfocá-la no contexto
de um sistema em perpétuo movimento e integrado numa totalidade.
Segundo Collingwood (1964, p. 166), citado por Santos
(1996, p. 105) a teoria de Whitehead vê "a natureza como consistin-
do de padrões móveis, cujo movimento é essencial à sua existência".
Os diversos momentos da diversificação criam padrões específicos, que
a definem. Milton Santos propõe que o papel que no mundo natural
é representado pela diversificação da natureza, se compare, no mundo
histórico, ao papel representado pela divisão do trabalho. Depois das
invenções técnicas vai aumentando o poder de intervenção e autono-
mia relativa do homem, ao mesmo tempo em que se vai ampliando a
parte da "diversificação da natureza" socialmente construída (SAN-
TOS, 1996, p. 106).
Desse modo, a estabilidade da organização e das relações do
meio ambiente formando padrões de estabilidade, na verdade são "pa-
drões móveis" na diversidade da natureza — na biodiversidade —, que
caracterizam as paisagens e que deverão ser compreendidos pelo pen-
sar sistêmico ou geossistêmico. Para se avaliar as alterações ambientais
no contexto de uma organização espacial do meio ambiente —
geossistema —, este tomado como padrão de configuração de relações,
implica em se entender o papel que desempenha a resiliência do siste-
ma, relacionada à complexidade dos limiares dos seus componentes.
Para Tavares (2001, p. 15), a origem deste conceito vem da
resiliência dos materiais na física e engenharia. O precursor do concei-
to foi o inglês Thomas Young, 1807, que considerando a tensão e
compressão, introduz pela primeira vez a noção de módulo de elasti-
cidade. Fez experimentos sobre tensão e compressão em barras, bus-
cando a relação entre a força aplicada num corpo e a deformação que

182
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

essa força produzia. Foi o pioneiro na análise do estresse causado pelo


impacto.
Silva Jr. (1972) denomina resiliência de um material, corres-
pondente a determinada solicitação, à energia de deformação máxi-
ma que ele é capaz de armazenar sem sofrer deformações permanen-
tes. Ou, resiliência refere-se à capacidade de um material absorver ener-
gia sem sofrer deformação plástica ou permanente. Diferentes materi-
ais apresentam diferentes módulos de resiliência.
O conceito ambiental de resilência diz respeito à magnitude
do distúrbio que pode ser absorvido antes que um sistema se modifi-
que. Para Bogossi (CAVALCANTI, 1997, p. 60), a resilência é ligada à
visão contemporânea de que ecossistemas têm equilíbrios múltiplos.
A mesma autora, citando Holling et al. (1993) diz que existe mais de
um possível estado clímax, cada um sendo controlado por diferentes
agrupamentos de espécies.
Este conceito tem sido transferido inclusive da física para a
psicologia. Assim como "a relação tensão/pressão com deformação
não permanente do material" na física, na psicologia corresponderia
à relação na "situação de risco/estresse/experiências adversas com as
respostas finais de adaptação/ajustamento do indivíduo". A ideia está
ligada à vulnerabilidade ou capacidade de resistência ao estresse. A
resiliência é a habilidade de superar adversidades ( ZIMMERMAN;
ARUNKUMAR, 1994, p. 4).
As questões colocadas na introdução deste texto ficam cada
vez mais interessantes, quando se percebe que o aprofundamento das
chamadas "ciências duras" tem levado ao desmonte do determinismo
newtoniano-laplaceano e constata que a essência do "físico" nada mais
é do que padrões ondulatórios de probabilidades de combinações de
partículas extremamente pequenas que se movimentam em torno de um
núcleo, de natureza dual, que ora se apresentam como partículas, ora
como ondas, dependendo de como são observadas. E suas propriedades
são definíveis e observáveis somente através de sua interação com outros
sistemas. O mundo apresenta-se, pois, como um complicado tecido de
eventos, no qual conexões de diferentes espécies se alternam, se sobre-
põem ou se combinam, e desse modo determinam a contextura do todo.
Por outro lado, o meio ambiente é multicêntrico e o seu conteúdo é
função do objeto central de sua análise. Por seu lado, a geografia sempre

183
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

esteve a estudar a complicada trama das das interações do Homem com


a Terra. Portanto, toda aquela aparente falta de objetividade que sempre
estivemos tentando exorcizar da geografia, para torná-la mais científica,
ou no mínimo mais coerente, parece que estávamos enganados. Na me-
dida em que hoje se conclui que a própria essência da matéria se apresen-
ta não como uma coisa em si, mas como padrões que se definem para
nós, em função da maneira como os observamos, de tal modo que só
podemos captar as suas propriedades a partir do seu sistema de cone-
xões; parece que no fundo nunca estivemos tão errados no nosso fazer
geográfico.
Assim também o pensamento sistêmico nunca esteve ausente
da geografia e Humboldt já tinha o "hábito de ver o Globo como um
grande todo", ou um "geossistema". A tradição Vidalina de estudos
regionais integrados pelas relações Terra-Homem é outro exemplo de
pensamento sistêmico-contextual em que a visão da realidade basea-
va-se na consciência dos estados de inter-relação e interdependência
essencial de todos os fenômenos físicos, biológicos, sociais e culturais.
Ao longo do texto também procurou-se apontar alguns
descompassos entre o avanço da ciência e a epistemologia da geogra-
fia. Com a crescente demanda para os estudos ambientais, a geografia
poderá retomar e atualizar alguns de seus próprios conceitos ou se
apropriar de novos, como "resiliência" por exemplo. Pode-se retomar
os estudos sobre o papel da "posição" e da "situação" como definidoras
da estrutura da organização espacial dos sistemas socioambientais,
pois compreender um fato geográfico é colocá-lo no "contexto e esta-
belecer a natureza das suas relações". É importante examinar o papel
das redes e da conectividade nos estudos dos fluxos de energia e maté-
ria. Assim também o estudo dos lugares como "princípio de organiza-
ção básicos" da estrutura dos geossistemas. Enfim, falar em geografia
Ambiental é falar da geografia de sempre, porém aberta para assimilar
novos conceitos e reexaminar antigos a partir dos novos desafios.
Para finalizar, queremos "dar a mão à palmatória" ao ilustre
mestre Carlos Augusto, pois o seu encantamento pela geografia — por
causa da complicada trama das interações do Homem com a Terra —
parece estar cada vez mais no centro, tanto dessa "nova ciência" que
se está produzindo, como dessa "nova cultura" que se está construin-
do no seio da sociedade globalizada do século XXI, no espaço de uma
Terra-Mundo.

o 184
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

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186
\ 3 - PERCEPÇÃO, REPRESENTAÇÃO E
RELIGIÃO NO GEOGRÁFICO
\I

krA
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

Para a geografia há um valor epistemológico, comparado


com o de outras formas de conhecimento. A questão será compreen-
der porque a percepção não nos conduz de maneira segura na famili-
aridade do objeto e quais os elementos subjetivos de transposição ou
de deformação foram obstáculos a esta leitura, em aparência imediata
das propriedades do meio externo, em nosso caso, da natureza/socie-
dade. Convém lembrar que quando uma reação permanece rigorosa-
mente a mesma em todas as idades, é, pois, provável que a percepção
dependa, pelo menos em parte, de algum mecanismo fisiológico ina-
to. Pode-se citar as percepções ligadas aos aparelhos sensoriais: tona-
lidade de cores, de sons, acuidades olfativas, gustativas ou táteis. No
nosso caso geográfico, trabalhamos quase que inteiramente com a
percepção visual. Estão aí os inúmeros estudos e pesquisas, principal-
mente com a paisagem.
A precaução essencial é não utilizar, para analisar os fenô-
menos perceptivos, senão uma linguagem e uma conceitualização que
permaneçam puramente relacionais. Isto é, que não façam apelo a
nenhum fator, não mais que às próprias relações e suas interligações.
Estas relações serão métricas, todas às vezes que for possível, e coorde-
narão diretamente as medidas tomadas nas pesquisas. Em outros ca-
sos, elas serão espaciais no seu sentido topológico, ou ainda,
probabilístico. Quando não for possível contar com uma expressão
matemática, serve-se de símbolos lógicos. Isto permite, para poder con-
ferir um certo grau de explicação, a construção a partir de estruturas
espaciais ou probabilísticas, comportando a necessidade lógico-mate-
mática, como por exemplo, construir as estruturas de grupo ou de
redes, de fluxos ou de movimento.
Ora, esta abordagem relacional no estudo da percepção geo-
gráfica pode conduzir, não somente a enunciar corretamente os dados
geográficos, mas também para auxiliar a construir modelos suscetí-
veis de conferir uma necessidade e um interesse que levam à própria
explicação. Esta posição relacional deve substituir as implicações im-
precisas e incompletas da realidade; por um sistema de implicações
lógico-matemáticos que vem a construir um saber, um conhecimento
coerente e adequado aos dados da experiência.
Assim, fazemos a indagação: que é, com efeito, perceber?
Em que difere de inferir, englobar em graus diversos? Corresponde,

o 190
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

portanto, a sistemas relacionais, nos quais é possível caracterizar as


estruturas, não por decisões arbitrárias, mas procurando traduzir passo
a passo em expressões precisas as condutas dos sujeitos, das pessoas.
Deste modo, é impossível atribuir a todas as percepções uma estrutura
única, porém nos defrontamos de uma parte, de um todo, um con-
junto de estruturas perceptíveis de uma complexidade crescente, e de
outra parte, de uma gama de pré-inferências. Lembramos aqui que as
estruturas perceptíveis não se apresentam como aditivas, mas sim
irreversíveis. É oportuno, também, não confundir percepção com sen-
sação, apesar de se apresentarem intimamente ligadas na apreensão
da realidade. A sensação é a condição básica da condição sensorial da
percepção, necessitando um órgão corporal para se realizar. E poderí-
amos dizer que a percepção é a apreensão de uma qualidade sensível,
acrescida de uma significação, como uma qualidade essencial, e não
apenas um acréscimo.
Para continuar as nossas reflexões, precisamos lançar mão
das noções sobre inteligência.

Ainda sobre cognição

Epistemologicamente, aqui assumimos que a inteligência pre-


cede a percepção, não aceitamos que as operações sejam abstraídas
das percepções. Há diferenças entre a inteligência e a percepção. Esta
está subordinada à presença do objeto, que nos fornece um conheci-
mento imediato. Enquanto a inteligência pode evocar os objetos em
sua ausência mediante a via simbólica, imaginária ou conotação ver-
bal e, mesmo em sua presença, pode ser interpretada pelas ligações
mediatas, elaboradas graças aos quadros conceituais. Por outro lado,
a percepção está subordinada às condições limitativas de proximida-
de no espaço e no tempo. Como exemplo: ao olhar a lua cheia não se
pode perceber ao mesmo tempo a lua minguante, apesar de evocada
pela memória. Ao passo que a inteligência pode aproximar, não im-
porta qual elemento de outro, independente das distâncias espaço-

191 o
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

temporais; pode igualmente dissociar, através do pensamento, os ob-


jetos vizinhos e raciocinar sobre eles em completa independência.
A percepção é essencialmente egocêntrica e ligada a uma cer-
ta posição do sujeito percebedor em relação ao objeto, ao percepto,
sendo estritamente individual e incomunicável (senão através da lin-
guagem ou do desenho). De outro lado, a constituição do conheci-
mento intelectual independe do eu, sendo assim, comunicável. Neste
contato com o objeto presente, a inteligência ultrapassa, sem cessar o
dado, no sentido de uma reconstrução interpretativa. Outro aspecto
importante é que o dado perceptivo comporta uma significância, sem
sair das fronteiras do percepto, tendo os significantes e significados
não ultrapassado os quadros dos índices, em oposição aos símbolos e
sinais que são significantes diferenciais de seus significados e podem
representar um objeto ausente; um signo é cada vez mais diferenciado
de seus significados. Ao contrário da percepção, a inteligência escolhe
os dados, aquilo que lhe é necessário para resolver o problema, ultra-
passando, assim, o próprio dado, atingindo a construção dedutiva e a
abstração solidariamente. Pode-se afirmar que as atividades intelectu-
ais são operatórias, portanto apresentam em suas estruturas mobili-
dade, reversibilidade, associatividade, transitividade.
Em geografia importa tanto a percepção como a cognição.
Mas pode-se dizer que a cognição fundamenta toda a pesquisa geo-
gráfica a partir da percepção que cada um de nós constrói da realida-
de e a meta que perseguimos ou tentamos atingir. Aceita-se que o
verbo de cognição é conhecer. Conhecer consiste em construir ou re-
construir o objeto do conhecimento, de maneira a apreender o meca-
nismo desta construção. Convém lembrar que para Piaget o pensa-
mento se confunde com a inteligência, mas não com a imagem. Esta
não é um elemento do pensamento propriamente dito, nem continu-
ação direta da percepção, mas sim o símbolo do objeto, podendo ser
concebida como uma imitação interiorizada. Por exemplo: a imagem
sonora é apenas a imitação interior do som correspondente e a ima-
gem visual é o produto da imitação do objeto e da pessoa, quer o
corpo inteiro, quer seus movimentos.
Não se deve esquecer que a percepção e a cognição estão
atreladas à representação, e tratar de representação é tocar em cheio
no problema básico da geografia — os mapas.

192
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

Ainda sobre representação

Quando se trata da representação, juntamente com a per-


cepção e a cognição, naturalmente se volta para a elaboração e cons-
trução do espaço, que por sua vez são essencialmente devidas à coor-
denação de movimentos que são solidários entre si. Lembramos que
não existe um espaço, mas vários espaços, e aqui vamos nos preocu-
par com o espaço representativo, que por sua vez é geométrico,
topológico, projetivo, psicológico etc. Quanto à natureza, o espaço
pode ser: ontológico, quando é um ser, um objeto, uma coisa;
epistemológico, quando é um conteúdo e possui propriedades própri-
as; psicológico, quando é uma construção, um processo com partici-
pação efetiva do sujeito, e lógico, quando é uma relação, um sistema
de referências ou sistema sociocultural. A noção de espaço implica um
elemento teórico e um prático. Quando diz respeito à conceituação,
pode ser como um conceito (teórico) entendido como substância (ser
independente), propriedade (estados e alterações), relações (entre os
objetos), e representação (das relações). Quando diz respeito à vivência
(prático) pode ser um espaço vivido de sobrevivência, relacionamen-
to, atividades, movimentação, apreciação cultural ou organização. As
maneiras de se refletir o espaço podem ser: absoluta (quando a coisa é
em si mesma, tem existência independente da matéria); relativa (quan-
do se estabelece relação entre objetos e depende da matéria) e relacional
(como estando contido em objetos, isto é, um objeto existe na medida
em que contém e representa dentro de si as relações com outros obje-
tos). Lembramos sempre que o espaço não é absoluto, nem relativo ou
relacional em si mesmo, mas pode se transformar em um ou em ou-
tro, dependendo do interesse ou necessidade circunstanciais. Enquan-
to representativo, o espaço é simbólico e geométrico, precisando ser
mapeado e mensurado, pois o representamos como processo, recons-
trução, e mais ainda, como representação mental e gráfico, trabalhan-
do também com a imagem mental.
No caso da gografia, o espaço usado é o geométrico, medi-
ante várias geometrias, constituindo uma verdadeira linguagem espa-
cial geográfica. Ao mesmo tempo, a gênese do espaço representativo é
topológico antes de vir a ser projetivo e depois euclidiano. Neste espa-

193
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

ço topológico só as relações de vizinhança, de ordem, de contorno e


de continuidade se conservam, sendo estabelecidas por aproximações
entre as partes de um objeto, isto é, os elementos de uma configura-
ção. Três fatores influenciam a construção do espaço: a maturação
orgânica, os encontros ativos entre os sujeitos e seu ambiente e a pres-
são da sociedade. Quanto a este ultimo fator, queremos lembrar o
papel que os estudantes são e estão constantemente submetidos aos
moldes da escola.
Retomando o título desta Mesa Redonda 3, com o tema
Percepção, Representação e Religião no Geográfico, não podemos dei-
xar de usar as palavras e as ideias de Dardel quando reconhece, além
de um espaço material (dos oceanos e das terras), um espaço telúrico
que permeia o geográfico como resposta à realidade que nos rodeia,
como um encontro de vivência criativa, uma estética das formas dos
sólidos e dos líquidos e de uma certa forma da vontade ou do sonho.
A geografia se defronta com espaço construído, um espaço que é obra
do próprio homem. Os rosários e redes de vilas e povoados, estradas e
caminhos, cidades e arranha-céus, contudo, espelham a preocupação
geográfica procurando seus movimentos e fluxos e constituindo as
redes de antes e de agora. Não vamos aqui nos demorar na paisagem
geográfica porque corremos o perigo de nos enveredar em todas dire-
ções que podem nos levar a outros espaços.
Por conseguinte, queremos lembrar aqui da geografia mítica
e heroica, tão menosprezada e agora colocada junto às demais, até
com a própria científica. Durante séculos e ainda entre as sociedades
primitivas, as explicações geográficas eram colocadas em cosmogonias
fabulosas, mais com a lógica do conhecimento que dispunham. As
representações mitológicas clássicas e de agora eram grafadas em es-
paços topológicos, buscando uma legitimidade e a universalidade sem-
pre com fundamento religioso. Estas relações espaciais guardavam as
manifestações culturais com o sagrado e o terreno: com montanhas,
pedras, árvores, rios, animais, constituindo um quadro de referências
para a vida e para a morte. Estas relações se intensificam diante de
detalhes topográficos valorizados pelo mito, pelo simbolismo, consti-
tuindo essa geografia mítica, que ainda precisamos estudar e conside-
rar em nossas investigações. Nesta geografia mítica, a relação funda-
mental é a do grupo social com sua geografia, com sua proximidade,

194
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

com suas formas particulares fortificadas pelas celebrações, festas, ce-


rimônias. Isto facilitava a compreensão, através de ações sagradas,
dos seus espaços e de seus lugares, de suas naturezas e de seus clãs,
confirmados por contos e músicas.
Para completar todo esse quadro, o espaço geográfico neces-
sita, ainda, de uma outra explicação que é a geografia heroica. Ela é
humana, pois se constitui de personagens heroicas, fabulosas, históri-
cas, lendárias, criando a lenda e as virtudes corajosas dos conquista-
dores, sempre atrelada à geografia mítica, coletiva e tradicional. São
inúmeras as narrativas históricas, em diversas civilizações. Entre nós,
as mais famosas e conhecidas podemos citar: Odisséia, Ilíada, Eneida,
El Cid, as sagas escandinavas, os paraísos terrestres, as ilhas mágicas,
as viagens de Marco Polo, as Mil e Uma Noites, e muitas e muitas
mais. Revelam uma geografia, não de gabinete, mas de contato direto
com a natureza e com os homens, de descobrimentos de terras e de
oceanos, e agora dos espaços siderais, à procura de novos planetas,
outras galáxias.
Claro que entre os geógrafos há sempre uma preocupação
científica, pragmática, laboratorial, desde o aparecimento da geogra-
fia com a ciência moderna. Essa sempre perdurará e será necessária. As
atitudes e os valores sempre vão atribuir importância aos estudos quan-
titativos, às mensurações, ao uso dos computadores, ao mapeamento
digital. Mas devem ser acrescentados aos estudos qualificativos, a aten-
ção às respostas individuais e grupais das pessoas, os levantamentos
para se conhecer a percepção e a cognição de moradores e usuários de
lugares. Talvez o mais relevante é considerar a afetividade humana
para com a natureza e a sociedade; considerar a ética, os direitos na-
turais e humanos e quiçá aceitar as diversidades geográficas, que no
fundo é que dão cores, odores, sabores e maciez ou aspereza a toda a
nossa paisagem.

195
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

Referências

BANG, V. et al. L'épistemologie de l'espace. Paris: PUF, 1964.


DARDEL, E. L'homme et la terre. Paris: PUF, 1952.
DEL RIO, V.; OLIVEIRA, L. Percepção ambiental, a experiência brasileira. São Pu1o:
Studio Nobel, 1999.
OLIVEIRA, L. Que é geografia. Sociedade e natureza, Uberlândia, ano 11, n. 21-22, p. 89-
95, jan./dez.1999.
P1AGET, J. Les mecanismes perceptifs. Paris: PUF, 1961.
. Seis estudos de psicologia. Rio de Janeiro: Forense, 1973.
TUAN, Y.-F. Espaço e lugar. São Paulo: Difel, 1983.

196
UMA PROPOSIÇÃO TEMÁTICA

Zeny Rosendahl

As complexas ligações da religião com as outras dimensões


da vida nas diferentes sociedades tornam tarefa difícil especificar que
aspectos da religião são de interesse para os geógrafos.
Deseja-se apresentar um conjunto de temas que, em si, cons-
tituem parte do ternário da geografia humana, introduzindo-os ex-
plicitamente na geografia da religião. O ternário proposto tem por
finalidade estimular estudos sistemáticos e comparativos entre as di-
versas religiões e suas respectivas dimensões espaciais, visando tanto
encontrar analogias como formular princípios que, de um lado, unam
a diversidade religiosa no espaço e, de outro, definam caminhos e
práticas espaciais distintas. Desse modo, o exame dos temas selecio-
nados pode ser objeto de preocupação para aqueles que se dedicam ao
estudo de uma mesma religião em suas complexas dimensões espaci-
ais.
O ternário selecionado é constituído pelos seguintes temas:
fé, espaço e tempo — difusão e área de abrangência;
centros de convergência e irradiação;
religião, território e territorialidade e
espaço e lugar sagrado: vivência, percepção e simbolismo.
É conveniente ressaltar que os temas em questão não são
mutuamente excludentes entre si; ao contrário, interpenetram-se. As-
sim, à guisa de exemplificação, um centro de convergência religiosa
está inserido no espaço de abrangência de uma determinada fé; o cir-
cuito de urna procissão no interior de um centro de peregrinação, por
sua vez, pode ser visto como parte da vivência do espaço sagrado.
É importante ressaltar ainda que o ternário aqui apresenta-
do não esgota as possibilidades de se colocar em evidência outros te-

197
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

mas. Mas isto é uma questão inesgotável: o que importa agora é ini-
ciar este caminho.

Fé, espaço e tempo: difusão e área de abrangência

Pode-se dizer, de modo geral, que a experiência da fé nos


classifica como crentes e descrentes. A fé identifica o crente num siste-
ma religioso e o investe de poderes que só ele adquire em sua experiên-
cia religiosa. A fé, no contexto judaico-cristão, leva a que tudo seja
possível para Deus e também para o homem. "Se o homem não duvi-
dar e acreditar que aquilo que diz se realizará, isto realizar-se-á. É por
isso que vos digo: tudo o que pedirdes rezando ser-vos-á concedido"
(Marcos, XI, 22-24). Neste contexto, a fé significa liberdade, uma
liberdade que permite ao homem participar ontologicamente da exis-
tência de Deus, uma liberdade que encontra sua validade e seu apoio
em Deus. Mas os mistérios da fé interessam à experiência religiosa, à
teologia e ultrapassam nosso estudo. A perspectiva que interessa aos
geógrafos está na análise da experiência da fé no tempo e no espaço
em que ela ocorre.
Os geógrafos Jackson e Hudman examinaram as principais
crenças religiosas, analisando suas origens, sua difusão e os sistemas
de crenças que afetam a interação homem-ambiente (1990, p. 365-
411).
A religião muçulmana é uma das três grandes religiões uni-
versais, juntamente com o budismo e o cristianismo. O islamismo,
contudo, é menos difundido do que o cristianismo, que se espalhou
por todos os continentes.
O cristianismo é a religião que reconhece Jesus Cristo como
seu fundador: todas as variedades de cristianismo reconhecem a sua
autoridade. A mensagem de Cristo teve sua maior difusão auxiliada
pelo Império Romano. O cristianismo foi adotado como religião do
Estado pelo imperador romano Constantino, convertido no ano de
337. A partir de Roma, espalhou-se ao longo das rotas de comércio

o 198
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

do mundo romano. A difusão do cristianismo pelo Império Romano


é um exemplo de difusão hierárquica. O movimento dos primeiros
missionários cristãos para as grandes cidades e centros do Império
Romano foi seguido por conversões e difusão para áreas vizinhas.
Esta difusão proporcionou a estabilidade política por meio da comu-
nicação favorecida pelo uso de uma língua comum, o grego falado
pelos povos na parte oriental do Império e o latim nas demais áreas,
mas também pela proteção das rotas de comércio e de suas estradas. A
Igreja Cristã foi se tornando cada vez mais privilegiada e de forte do-
mínio cultural nas áreas convertidas. A difusão do cristianismo verifi-
cou-se também a partir da expansão europeia iniciada no século XV
A difusão espacial das religiões é particularmente importan-
te para a geografia e Sopher (1967) analisou as formas com que a
disseminação da mensagem de fé pode ocorrer. Ele propõe que, par-
tindo de seus lugares de origem, as religiões difundiram a sua mensa-
gem por meio da conversão de novos adeptosl.
A difusão da fé torna-se particularmente importante para a
geografia ao se refletir sobre a ação missionária de expansão de ideias
e condicionamentos simbólicos, algumas vezes resolvida por meio de
trocas dramáticas no processo de aculturação. A migração natural de
pessoas que transmitem sua cultura e a migração de sistemas religio-
sos resultam em adaptações ou integrações de religiões a um determi-
nado ambiente estranho, que pode alcançar um equilíbrio ou desen-
volver mecanismos de conquista, como veremos adiante, ao analisar
religião, território e territorialidade.
Algumas questões sobre a difusão e a área de abrangência de
uma dada fé podem ser agora colocadas. Qual é a área de abrangência
de religiões como as diversas denominações pentecostais e cultos afro-
brasileiros? Como e quando deu-se a difusão espacial dessas religiões?
Quais foram os agentes da difusão? Que barreiras impediram uma
maior difusão?

1 Sopher analisa o processo de expansão espacial das religiões. Afirma que a distribuição das
religiões pode ser gerada pela interação espacial como a difusão, migração e competição por espaço.
Afetando significativamente estes processos estão a emicidade ou universalidade relativas aos conceitos
religiosos, a simplicidade ou complexidade do ritual religioso e a flexibilidade ou rigidez de organização
(1967, p. 86-106).

199
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

Os centros de convergência e irradiações

A peregrinação aos lugares sagrados vem sendo abordada com


relativa frequência entre os geógrafos, constituindo-se em mais uma
via para o estudo geográfico das religiões. Trata-se de uma demons-
tração de fé que adquire uma nítida espacialidade, pois envolve o
deslocamento de um lugar a outro que, em muitos casos, é marcado
por uma periodicidade regular. Envolve, assim, espaço e tempo fixos
— os lugares sagrados —, e fluxos — a peregrinação. As peregrinações
constituem um fenômeno notável, comum à maioria das religiões,
inserindo-se em diferentes contextos culturais.
No catolicismo, as cidades de Roma e Lourdes representam
os dois maiores centros de convergência de peregrinos no mundo; Meca,
por sua vez, é a principal cidade de peregrinação islâmica, enquanto
Benares é o centro sagrado dos hindus. Mandala é o centro de conver-
gência budista, enquanto Lhasa é o lugar sagrado do lamaismo e Kyoto
dos adeptos do xintoísmo.
A peregrinação anual a Meca, iniciada no século VII e que
continua até nossos dias, é um dos mais notáveis movimentos de po-
pulação no Oriente Médio. Sua influência se estende às áreas de fé
islâmica, recebendo uma das maiores concentrações de visitantes do
mundo. Pelos estudos desenvolvidos por King (1972, p. 62-71), Sopher
(1981, p. 120), Jackson e Hudman (1990, p. 389), os Pilares do
Islamismo são, para todos os crentes sadios do sexo masculino, cinco
manifestações de fé a saber: a profissão de fé — shahada, o culto —
salat, os atos de caridade — zakat, a peregrinação — hajj, e o jejum —
saum.
A prática de peregrinações a lugares sagrados para benefício
espiritual e para prestar homenagem é comum também no budismo,
apesar de não ter sido defendida pelo próprio Gautama Buda. O
surgimento da peregrinação Shikoku ocorreu após a morte de Buda,
provavelmente iniciada pelos seus seguidores, na busca de lugares onde
acreditavam encontrar as cinzas de Buda, que foram espalhadas pelo
território indiano. O geógrafo Tanaka (1981, p. 240-250) analisou os
significados simbólicos no itinerário dos peregrinos e da topografia
sagrada das "unidades rituais" espaço-temporais que se repetem em

200
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

cada uma das oitenta e oito estações do caminho de peregrinação ao


redor da ilha Shikoku. A característica singular da peregrinação Shikoku
é sua estrutura espacial. Devido à natureza mutável da peregrinação,
afirmações e conclusões podem ser apropriadas apenas para o período
particular examinado. Isto se dá pelo caráter inerentemente dinâmico
da peregrinação: os locais de peregrinação surgem, declinam e às vezes
se propagam. Tanaka explora essa natureza dinâmica da peregrinação
Shikoku, peregrinação budista popular no Japão, exemplificando os
lugares de peregrinação e como eles se estabelecem. Tanaka analisa a
peregrinação circular como sistema espacial-simbólico, considerando
os vários ajustamentos espaciais que se verificam na peregrinação.
A análise da peregrinação budista na Birmânia, empreendi-
da por Lubeigt (1987, p. 68-71) nos anos de 1978 e 1980, permitiu
compreender a economia do espaço sagrado de Samataung, medir a
espacialidade de sua atração espiritual a partir da investigação do re-
gistro de chegada dos peregrinos e de suas doações oferecidas como
presentes.
A peregrinação cristã, que data do século 'V, também é co-
nhecida como romaria, pelo fato de consistir inicialmente na ida de
devotos de suas localidades para Roma. Acredita-se que a graça divi-
na é especialmente poderosa nos lugares visitados por Jesus Cristo,
pelos santos ou pela Virgem Maria, lugares nos quais eles apareceram
em visões ou onde estão guardadas as suas relíquias. Os principais
centros de peregrinação incluem Roma, Lourdes, Jerusalém e centenas
de outros centros de convergência religiosa cristã espalhados pelo
mundo. Existem santuários de nível internacional, nacional, regional
e local.
O interesse em estudar as peregrinações aos santuários cató-
licos vem crescendo entre os geógrafos. Rinschede (1985, p. 195-257)
analisou as transformações espaciais ocorridas na localidade de Lourdes,
na França, em consequência das peregrinações àquele centro espiritu-
al francês. O referido geógrafo reconhece uma organização espacial
altamente formal. Os limites da área de abrangência são fornecidos
pelo comportamento dos peregrinos: pelos lugares sagrados e pela
localização característica dentro deles, pelas atividades auxiliares as-
sociadas aos peregrinos ao redor do local, pelas funções como aloja-
mento para doentes e turistas e pela venda de artigos religiosos relaci-

201
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

onados aos peregrinos. Rinschede, ao comparar o santuário de Lourdes


com outros santuários católicos, relaciona diversas características co-
muns como: a forma periódica das peregrinações, a estrutura comer-
cial altamente dependente dos romeiros, a oferta de bens de serviços,
bem como a alta taxa de visitantes ao lugar.
Em alguns países, a peregrinação católica pode oferecer o
aspecto turístico associado ao religioso, como as peregrinações a
Lourdes, na França, e Roma, na Itália. Entretanto, deve-se reconhecer
que, no Brasil, a peregrinação guarda, na quase unanimidade dos ca-
sos, uma característica evidentemente religiosa, assumindo o sentido
de um sacrifício.
Os locais sagrados no Brasil variam em tamanho e impor-
tância, incluindo desde um pequeno cruxifixo à beira da estrada até
santuários requintados como a Basílica de Nossa Senhora Aparecida,
estrategicamente construída no eixo Rio-São Paulo, ligando as duas
mais importantes cidades brasileiras.
Apenas poucos geógrafos brasileiros se aventuraram no estu-
do das peregrinações em nosso território. Os centros de convergência
religiosa de Bom Jesus, em Iguape, Pirapora do Bom Jesus e Bom Jesus
dos Perdões, situados no estado de São Paulo, foram examinados por
França (1972), em estudo religioso-geográfico. Sua preocupação es-
tava voltada para as cidades de função religiosa, iniciando desta for-
ma no Brasil o estudo do impacto da religião sobre a paisagem.
Na tentativa de relacionar religião e ambiente por meio do
estudo da organização espacial dos centros de peregrinação do interi-
or do Brasil, Rosendahl (1993, p. 39-41) analisou Muquém, no esta-
do de Goiás, e Santa Cruz dos Milagres, no estado do Piauí. São cen-
tros rurais de convergência religiosa, predominantemente do catoli-
cismo popular, nos quais o fenômeno religioso re-cria o espaço sagra-
do por ocasião da peregrinação.
Como explicar que uma localidade de 200 habitantes receba
numa festa religiosa a presença de 60.000 pessoas, conforme ocorre
em Muquém? Que transformações espaciais são advindadas dessa ro-
maria? Como continuar a ignorar a força do sagrado criando e recri-
ando espaços a cada tempo sagrado? Muitas outras questões emer-
gem. Qual a gênese de um dado centro de peregrinações? Qual o al-
cance espacial, isto é, área de influência de um centro de peregrina-

202
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

ção? Qual a sua estrutura interna nos momentos de máxima peregri-


nação e nos dias comuns? Quais as relações entre peregrinação e as
atividades de mercado?
Para melhor compreensão do fenômeno da peregrinação tor-
nam-se necessários estudos adicionais de como esse fenômeno se rela-
ciona com os outros fenômenos culturais. Como o político e o religi-
oso interagem, determinando comportamentos à comunidade? Como
movimentos político-religiosos fazem surgir o consenso sobre deter-
minados lugares? Religião e política estariam associadas? Como, en-
tão, não analisar as relações de poder?

Religião, território e territorialidade

A religião será examinada no contexto geográfico relacio-


nando à apropriação de determinados segmentos do espaço. Confor-
me abordou Corrêa (1993, p. 1-2), a apropriação de um lado
associa-se ao controle de fato, efetivo, por vezes legitimado, por parte de
instituições ou grupos sobre um dado segmento do espaço [...], a apropriação
pode assumir uma dimensão afetiva, derivada das práticas espacializadas reali-
zadas por parte de grupos distintos definidos segundo renda, raça, religião,
sexo, idade ou outros atributos.

É nesta poderosa estratégia geográfica de controle de pesso-


as e coisas, ampliando muitas vezes o controle sobre territórios que a
religião se estrutura enquanto instituição. Territorialidade, por sua
vez, significa o conjunto de práticas desenvolvido por instituições ou
grupos no sentido de controlar um dado território.
Os geógrafos focalizaram padrões espaciais que refletem as
expressões materiais e simbólicas de grupos religiosos em sua
territorialidade, nos diferentes contextos sociais.
Ao tratar as religiões como fenômeno cultural, Sopher 2 clas-
sificou-as em dois grandes grupos: religiões étnicas e religiões
2 O autor prefere o termo universalizante para que não se confunda o hinduísmo e a religião
chinesa com o budismo, cristianismo e islamismo. As cinco religiões às vezes são chamadas de religiões
"universais" ou"mundiais". Budismo, cristianismo e islamismo, em ordem cronológica, são os. três principais

203
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

universalizantes. As primeiras são associadas a um grupo específico de


pessoas e geralmente estão ligadas a um lugar específico. As religiões
universalizantes estão associadas à crença de que sua mensagem e sua
doutrina tratam da vida e das relações com Deus ou deuses de manei-
ra apropriada para todas as pessoas. As religiões universalizantes, ao
contrário das étnicas, romperam seus laços com o lugar específico de
origem e disseminaram sua mensagem. O cristianismo, o islamismo e
o budismo, a partir de seus lugares de origem, difundiram-se ampla-
mente pelo resto do mundo.
Uma organização complexa como a Igreja Católica Romana
desenvolveu exemplos notáveis do uso da territorialidade em diferen-
tes espaços, durante o longo tempo de sua história. A Igreja Católica
articula-se num sistema territorial hierárquico e burocrático, talvez
como a mais antiga e duradoura das organizações.
Os geógrafos Sopher (1961) e Sack (1986) realizaram pes-
quisas sobre a rede de administração e de serviços religiosos na estru-
tura espacial da Igreja Católica Romana. No estudo de Sack, a Igreja
reconhece e controla muitos tipos de territórios, porém ela engloba
dois amplos tipos: o primeiro refere-se aos lugares sagrados e edifíci-
os da Igreja; o segundo inclui a sua própria estrutura administrati-
va. A Igreja Católica Romana divide seu domínio em hierarquias
territoriais de paróquias, dioceses e arquidioceses. Cada um destes
territórios é chefiado por um funcionário da Igreja, cujo posto na
administração geral corresponde ao posto na hierarquia. Os sacer-
dotes têm jurisdição sobre a paróquia, os bispos sobre as dioceses, os
arcebispos sobre as arquidioceses e o Papa, em Roma, sobre todos os
níveis hierárquicos.
No estudo elaborado por Sopher (1961), a Igreja Católica é
responsável por organizar comunidades de católicos romanos,
objetivando ensinar a fé e fornecer serviços rituais. Sopher também
reconhece na organização da Igreja Católica dois tipos de territórios:
episcopais e lugares sagrados. A organização interna da Igreja assinala
uma organização religiosa, porém a religião não é o único interesse.
Ela é também uma instituição política e econômica. Estes dois papéis

sistemas universalizantes, pela classificação de Sopher. Ele exclui, assim, o hinduismo e a religião chinesa dos
sistemas universalizantes (SOPHER, 1967, p. 4-9).

204
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

afetam as funções religiosas dentro dos territórios católicos e, em al-


guns casos, são geradores de conflitos.
São inúmeros os exemplos do uso do poder e prestígio dos
governos para sustentar sistemas religiosos. Talvez o exemplo de mai-
or significância geográfica tenha sido o estabelecimento do cristianis-
mo como religião oficial do Império Romano. O cristianismo, como
religião do Estado adotada pelo Império Romano, não apenas deu
aos líderes da Igreja status oficial, fortalecendo a burocratização da
Igreja, mas também colocou numerosas unidades territoriais em suas
mãos. Pelas pesquisas realizadas por Sack, as dioceses durante o Impé-
rio Romano eram territórios de propósitos múltiplos, a religião repre-
sentando uma de suas funções. Além disso, nos meados do século IV
ao fim do século VI, os limites geográficos da Igreja eram os limites
práticos do Império (SACK, 1986, p. 95).
Na Idade Média, a paróquia frequentemente representava
uma unidade político-administrativa e econômica, além da função
religiosa. Líderes seculares controlavam as nomeações dos sacerdotes e
os rendimentos da propriedade. Os senhores ricos fundavam igrejas e
davam propriedades para o seu sustento e, como retorno, queriam
assegurar o controle sobre elas (SACK, 1986, p. 93). Mesmo assim, a
Igreja tornou-se um importante Estado, politicamente soberano.
A diocese como unidade essencial na hierarquia territorial
sobrevive ainda hoje na Igreja Católica. A história da territorialidade
dentro da Igreja não é muito simples e pelos estudos dos geógrafos
Sack (1986), Jackson e Hudman (1990, p. 361-411), a união da teo-
ria organizacional e a territorialidade sugerem alguns efeitos territoriais
gerais. Para eles, a territorialidade esteve lado a lado com o desenvol-
vimento da organização e hierarquia da Igreja. Quando a última au-
mentou, a primeira também se ampliou, a teoria sendo aplicada in-
versamente.
Ressaltamos que um dado lugar pode ser usado como um
território em um tempo e não mais em outro. Sopher, num estudo
microgeográfico da religião, fornece modelos geográficos de interação
entre sistemas religiosos. Aborda o comportamento estratégico adota-
do por minorias religiosas dentro de domínios religiosos maiores e a
mistura de comunidades religiosas em áreas de transições (SOPHER,
1961, p. 94).

205
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

A territorialidade desses sistemas religiosos pode advir de três


tipos comportamentais:
por coexistência pacífica;
por instabilidade e competição; e
por intolerância e exclusão.
Ao se considerar estes tipos, deve-se ressaltar que o compor-
tamento evidenciado não é necessariamente uma consequência dos
conceitos religiosos. Algumas vezes é produto de longa experiência
histórica que subsiste na tradição das comunidades envolvidas, mes-
mo quando a fé e a prática religiosa estejam diminuindo (SOPHER,
1961, p. 94).
A interação caracterizada como coexistência pacífica repre-
senta um equilíbrio, acompanhado por sentimentos mútuos de res-
peito, indiferença ou de antipatia. Sistemas religiosos étnicos simples
e muitos sistemas elaborados, apesar de estarem ligados intimamente,
não mostram preocupação com as crenças e as práticas de outros sis-
temas. A disposição de tolerância religiosa que permeia alguns territó-
rios permite que as pessoas tenham filiação religiosa pluralista, como
cerimônias em templos de diferentes sistemas religiosos. A tolerância
religiosa permite o sincretismo razoavelmente uniforme em todo o
território cultural. Pode ocorrer, contudo, em certas comunidades fa-
naticamente exclusivistas em questões religiosas, uma coexistência re-
lativamente pacífica, levando a uma tendência autossegregadora pela
antipatia mútua entre elas. Como exemplo, cita-se os católicos e pro-
testantes na Irlanda do Norte, onde a separação é especialmente
marcada nos distritos das classes trabalhadoras de Belfast, que ten-
dem a ser exclusivamente protestantes ou exclusivamente católicas
(SOPHER, 1961, p. 97).
Em oposição à autossegregação de comunidades religiosas,
a tolerância pode demonstrar uma pluralidade harmoniosa sob os
auspícios do Estado secular. São subsistemas denominacionais, co-
muns na vida dos Estados Unidos, em que cada subsistema possui um
papel institucionalizado, socialmente aceito e reconhecido pelos ou-
tros subsistemas.
O segundo tipo de interação entre sistemas religiosos é a com-
petição e instabilidade, no qual um dos sistemas é caracterizado pela

206
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

instabilidade. A conversão por contato e a atividade missionária estão


fortemente associados a este tipo de interação. Movimentos missio-
nários surgem esporadicamente entre segmentos de uma sociedade sim-
ples, estabelecendo um primeiro contato entre um sistema
universalizante e a religião étnica fracamente organizada. A organiza-
ção e o esforço desempenhado pelos movimentos missionários ten-
dem a criar um padrão de conversão escasso, em torno de conceituações
centrais. Num estágio avançado de interação, os primeiros centros de
difusão teriam sido absorvidos, e o padrão de conversão à religião
universalizante em recuo, gerando uma área de resistência.
A intolerância religiosa é o terceiro tipo de interação entre
sistemas religiosos proposto por Sopher. O comportamento exclusivista
das religiões antigas, como o judaísmo, o cristianismo e o islamismo,
reivindicando a posse única da verdade religiosa, tem algumas vezes
provocado reação hostil entre os adeptos dos sistemas religiosos ori-
entais. O uso da pressão política para destruir outros sistemas religio-
sos se deu através da conquista e da extensão de controles políticos,
que induziam à conversão por meio de uma variedade de pressões
(SOPHER, 1961, p. 103).
Ódios religiosos históricos continuam a atormentar o ho-
mem neste século. Apesar da distinção religiosa ser apenas um elemen-
to de diferenciação cultural é, em alguns casos, a raiz de conflitos
dentro de estados que buscam uma identidade nacional, com base em
outras características culturais homogêneas.
Entre os estudos religioso-geográficos realizados no Brasil,
destaca-se a contribuição de Machado (1992) à compreensão do fe-
nômeno do pentecostalismo, ao estabelecer a relação entre religião,
território e territorialidade. Segundo a referida autora, de modo dife-
rente da Igreja Católica, no pentecostalismo a territorialidade é infor-
mal e fugaz, não se limitando a uma estrutura territoral formal e pe-
rene expressa pelas paróquias e dioceses católicas que são espacial-
mente delimitadas e permanentes.
É necessária uma geografia missionária católica e protestan-
te para termos uma avaliação do papel do cristianismo como
divulgador de uma cultura ocidental. Como podemos geograficamente
compreender as missões jesuítas no sul do Brasil e a teocracia
estabelecida para conversão da população indígena do Paraguai no

207
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

século XVIII? Como compreender os conflitos étnico-religiosos entre


os sérvios, croatas e muçulmanos no território iugoslavo em 1993?
As relações entre sistemas religiosos e organização política
do espaço constituem uma significativa temática de investigação na
geografia das religiões.

Espaço e lugar sagrado: vivência, percepção e simbolismo

A religião nunca é apenas metafísica. Em todos os povos, as


formas e os objetos de culto são rodeados por uma aura de profunda
seriedade moral. Todo lugar sagrado contém em si mesmo um senti-
do de obrigação intrínseca. Ele não apenas encoraja a devoção, como
a exige; não apenas induz a aceitação intelectual, como reforça o com-
promisso emocional do devoto.
No estudo elaborado por Tuan (1989, p. 44) o sagrado é
tudo o que se destaca do lugar comum e da rotina. Naturalmente nem
tudo que é excluído espacialmente é espaço sagrado e nem toda inter-
rupção da rotina é uma hierofania. A palavra sagrado significa sepa-
ração e definição, sugere sentido de ordem, totalidade e força. Sagra-
do, por si só, é um conceito religioso. Espaços sagrados são espaços
qualitativamente fortes, onde o sagrado se manifestou. E para o ho-
mem religioso essa manifestação pode estar contida num objeto, numa
pessoa, em inúmeros lugares. Para o homem religioso a natureza não
é exclusivamente natural, está sempre carregada de um valor sagrado.
Podem ser distinguidos e delimitados vários tipos de espaços
sagrados. Desde o espaço vivido pelos grupos aborígenas, coletores da
Austrália Central, ao ritualizarem seu espaço de vida por meio de mi-
tos-ancestrais, até a presença de catedrais e locais de peregrinações
designados como espaços sagrados nas sociedades tecnologicamente
mais adiantadas.
A ideia de que existem espaços sagrados e que pode existir
um mundo no qual as imperfeições estarão ausentes, conduz o ho-
mem a suportar as dificuldades diárias. O homem não somente su-

208
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

porta as infelicidades da vida como também é conduzido a imaginar


realidades mais profundas, realidades mais autênticas do que aquelas
que seus sentidos revelam. O homem consagra o espaço porque ele
sente necessidade de viver num mundo sagrado, de mover-se num es-
paço sagrado. O homem religioso, desta maneira, se exprime sob for-
mas simbólicas que se relacionam no espaço: cada vez que se ergue
uma nova igreja, o grupo religioso tem a impressão de que cresce e se
consolida. Apesar da onipresença de Deus, existem espaços que são
mais sagrados do que outros. Seja no budismo, no islamismo ou no
catolicismo, a hierarquização do sagrado está presente. É nos espaços
sagrados de peregrinação que esta diferenciação é mais nítida.
A presença do santuário significa uma modificação sensível na percepção do
espaço, dando fim, inicialmente, a um estado de relativa indeterminação. Este
espaço é doravante organizado, repartido e a fronteira entre o sagrado e o
profano é nitidamente traçada (CLAVAL, 1992, p. 100).

Há santuários de maior atração do que outros. Jerusalém é


reconhecida como espaço sagrado que atrai adeptos de mais de um
credo religioso; Roma abriga a capital administrativa do catolicismo,
enquanto Meca é o mais famoso centro do islamismo. São espaços
sagrados vivenciados por maior número de devotos. Em seguida, vêm
centros de peregrinação da importância de Lourdes na França, de Fá-
tima em Portugal, Assis na Itália, Saint'Anne du Beaupré no Canadá,
Nossa Senhora Aparecida em São Paulo, entre outros, e centenas de
santuários espalhados pelo interior do Brasil e outros países. Ressalve-
se que qualquer que seja a localização do espaço sagrado, a popula-
ção, atraída em busca de satisfação espiritual e material, apresenta
características singulares e repetitivas em seu comportamento.
Os geógrafos da religião propugnam o estudo do espaço pela
análise do sagrado, desvendando sua ligação com a paisagem e com a
linguagem codificada pelo devoto em sua vivência no espaço. Claval
chama a atenção da
ontologia espacial que a fenomenologia religiosa nos faz compreender, nos dá a
chave da geografia do sagrado, da sua permanência ou da sua transitividade, do
calendário que a caracteriza e dos rituais que permitem reatar com a pureza das
origens, ou com todo outro momento privilegiado onde o ser não sofria limita-
ções que ocorrem hoje (CLAVAL, 1992, p. 126).

209
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

O caminho da pesquisa está delineado e os questionamentos


são numerosos. Que grupos sociais detonam o fenômeno religioso no
espaço sagrado? Quais são os elementos fundamentais responsáveis
pelas transformações no espaço sagrado? Quais as interdependências
e as relações funcionais entre o espaço sagrado e espaço profano?
Algumas das possíveis indagações foram respondidas pelos
geógrafos ao considerarem as práticas religiosas que se realizam em
tempos e lugares simbólicos.
Abrem-se possibilidades de pesquisa em várias frentes. Como
compreender os processos através dos quais objetos específicos, paisa-
gens e construções são investidos de significado religioso? Como e
porquê alguns objetos ambientais e características da paisagens são
atraídos por ricos sistemas religiosos, enquanto outros não o são? Como
religioso se expressa e se transmite no espaço sagrado?
A geografia permite reflexões de novos caminhos de estudos
comparativos entre sociedades com diferentes tradições espirituais e
ideológicas. Como pensar na meditação zen-budista numa
megalópole? Como entender a permanência de ritos milenares prati-
cados pelas comunidades religiosas nos dias de hoje? Que processos
socioculturais os geógrafos estão negligenciando em estudos religio-
so-geográficos?
Estudos comparativos da atividade religiosa com outras prá-
ticas culturais realizadas pelo grupos sociais foram bem pouco explo-
rados entre os geógrafos. O simbolismo dado à prática do jogo e à
atividade religiosa na sociedade foi abordado por Isaac (1960, p. 14).
Em seu estudo comparativo, atribui ao jogo, em razão do que repre-
senta, uma atividade distinta das outras por expressar liberdade e ne-
cessidade física. O jogo marca o afastamento da vida comum para um
mundo que tem suas próprias regras. O culto religioso, como o jogo,
está fora da esfera de ação humana intencional e, como o jogo, requer
seu próprio espaço designado. Quer seja arena, tabuleiro de jogo,
palco, salão e outras formas, serão todas áreas de jogos; portanto,
espaços cercados, delimitados e consagrados. Pelo proposto por Isaac,
a atividade religiosa e o jogo representam uma necessidade humana
básica que opera em liberdade relativa em relação ao ambiente, trans-
formando-o de acordo com suas próprias leis.

210
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

Os padrões de transformações impostas pelas atividades reli-


giosas, sua maior ou menor impressão no espaço, estão fortemente
relacionados com os aspectos culturais da comunidade, de tal modo
que o espaço pode ser percebido de acordo com os valores simbólicos
ali representados. Tudo é potencialmente sagrado, mas apenas em al-
guns lugares escolhidos o potencial é realizado. A manifestação de
poder do sagrado em determinados lugares o diferencia dos demais
lugares. O poder do sagrado pode ser atraente, tornando o lugar um
centro convergente de crentes, ou pode ser apavorante e repelente,
tornando o lugar tabu, considerado maldito.
A definição de um lugar como sagrado reflete a percepção
do grupo envolvido e uma vez que a percepção varia de grupo para
grupo, dificilmente se pode generalizar sobre os princípios de lugar
sagrado. Os povos têm atribuído sacralidade a diferentes objetos como
árvores sagradas, pedras, grutas com poderes milagrosos, uma fonte
que cura, um túmulo em volta do qual ocorrem milagres, o Monte
das Oliveiras e inúmeros outros lugares. A fidelidade religiosa demons-
trada nos faz acreditar na existência de uma topografia sagrada. Lu-
gares santos indianos são encontrados em nascentes de rios e em suas
confluências, como se verifica no rio Ganges. Para os budistas, a pre-
ferência ocorre geralmente nas montanhas do Tibet e no Ceilão. Os
cristãos elegem igualmente as montanhas e as grutas, e isto está de-
monstrado nas muitas igrejas construídas nos inúmeros locais em que
a evangelização católica teve êxito.
A transferência da santidade de um lugar foi tema de inves-
tigação de Sopher (1961, p. 51) ao analisar a colonização espanhola
na América. Os missionários destruíram os templos pré-cristãos, mas
se preocuparam em consagrar os locais construindo igrejas católicas
no mesmo lugar. A cidade mexicana de Cholula possui a maior parte
de suas igrejas construídas sobre colinas, que tinham sustentado os
templos aztecas. A santidade do lugar sobrevive à mudança de reli-
gião, assim permanecendo como sinal de fé de ambas as religiões. Da
mesma forma, no período inicial da difusão do islamismo, algumas
igrejas e templos da religião do profeta Zoroastro foram convertidos
em mesquitas. Quando um sistema religioso não substitui por com-
pleto o outro sistema, ambos podem compartilhar a santidade de um
mesmo lugar. Na índia e no Oriente Médio o mesmo lugar sagrado

211
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

vem sendo venerado por duas ou mais comunidades religiosas dife-


rentes.
A visita aos lugares sagrados, especialmente no cristianismo,
está associada à prática de peregrinação. Na religião mórmon, porém,
que não inclui em suas doutrinas a prática da peregrinação, os fiéis
realizam uma convergência anual à Praça do Templo em Salt Lake
City. Milhares de mórmons e não mórmons visitam a praça pelo sim-
bolismo enquanto centro sagrado dos mórmons (JACKSON;
HUDMAN, 1991, p. 401).
Algumas vezes o lugar sagrado pode possuir divisões
hierarquizadas. Assim, Sack (1986, p. 93-95) analisou a territorialidade
dos lugares sagrados nas igrejas católicas, atribuindo graus variáveis
de santidade. Apesar das variadas formas de construção, todas con-
têm lugares similares classificados de acordo com a sacralidade pro-
posta por Sack. Primeiramente o altar como o lugar mais sagrado, em
seguida o lugar destinado ao coro e, em terceiro, o lugar ocupado pela
comunidade de leigos. Para Sack, neste caso existe uma relação entre a
posição hierárquica e acessibilidade geográfica. Durante as cerimônias
realizadas dentro da igreja, somente os funcionários qualificados da
igreja têm acesso ao altar.
Acreditamos que os estudos baseados na experiência religio-
sa pessoal e os que evidenciam o sentido de lugar são importantes por
fornecerem a dimensão espacial do sagrado e permitirem a compreen-
são dos problemas mais específicos da valorização subjetiva, tais como
os da percepção e de consciência do espaço, assim como de suas for-
mas de representação.

O 212
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

Referências

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Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

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214
AS REPRESENTAÇÕES NO GEOGRÁFICO

Salete Kozel

As representações espaciais constituem um campo há muito


trilhado pelos geógrafos, ao conceber o espaço sob conotações dife-
renciadas. A preocupação com as representações espaciais sempre este-
ve presente, tanto no cotidiano dos grupos sociais como na pesquisa
geográfica, mais tarde estruturada pela vertente cartográfica e atual-
mente incorporando, além da linguística e comunicação, a cultura, os
valores, os significados e a ideologia.
O conceito de representação espacial para os geógrafos se
estrutura na fusão das várias correntes contemporâneas, incorporan-
do o conceito de representação social oriundo da psicologia.
Ao esboçarmos um conceito para geografia das representa-
ções, encontramos em Bailly (1995) considerações pertinentes, as quais
referendamos: "deve ser capaz de falar da região como um teatro da
aventura humana, captando a experiência vivida por cada indivíduo
em suas relações com o território". Uma relação sensível, estabelecida
pela contemplação, porém aberta à intuição, referendada pelo ideoló-
gico'.
Caberia sobretudo à geografia das representações entender
os processos que submetem o comportamento humano, tendo como
premissa que este é adquirido por meio de experiências (temporal,
espacial e social), existindo uma relação direta e indireta entre essas
representações e as ações humanas, ou seja, entre as representações e o
imaginário, revolucionando a gênese do conhecimento, permitindo-
nos compreender a diversidade inerente às práticas sociais, às mentali-
dades, aos vividos.

1 O termo ideológico está sendo utilizado na perspectiva balchtiniana, referindo-se a um


conjunto de práticas e valores sociais, que refletem uma "visão de mundo" de um grupo ou classe social.

215 o
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

As representações em geografia constituem-se em criações in-


dividuais ou sociais de esquemas mentais estabelecidos a partir da re-
alidade espacial inerente a uma situação ideológica, abrangendo um
campo que vai além da leitura aparente do espaço realizada pela ob-
servação, descrição e localização das paisagens e fluxos, classificados e
hierarquizados. O que na visão de Gregory (1996) é denominado
"mundo-como-exposição", evidenciando que os espaços são vividos
por homens e sociedades reais, concretas.
A aparência e a essência implícitas na organização espacial se
integram, permitindo desvendar como as sociedades a utilizam e trans-
formam, a partir das relações socioculturais e econômicas que estabe-
lecem. Ao resgatar o vivido e as subjetividades, atribui-se à análise
espacial maior amplitude para desvendar aspirações e valores perti-
nentes aos grupos humanos, refletindo-se na organização espacial.
Neste sentido, Bailly (1995) considera as representações como
uma verdadeira revolução epistemológica no campo geográfico, abrin-
do várias perspectivas de pesquisa, principalmente na área didático-
pedagógica: o ensino da geografia teria mais significado se priorizasse
a pesquisa e análise das representações construídas pelas sociedades,
considerando ainda o próprio aluno como agente de representações e
conhecimentos necessários para entendimento das relações estabelecidas
na organização espacial.
Outra área em que as representações seriam de fundamental
importância seria a análise regional, a qual propicia uma leitura
interiorizada sob a ótica do cotidiano vivido pelos grupos humanos,
levando à compreensão dos sistemas de valorização e territorialidade
correspondentes, e, por meio das subjetividades, viabiliza a seleção de
elementos importantes para o estabelecimento das regiões.
Em geral, os estudos regionais apresentam os recortes físicos
e humanos sem discutir as manipulações espaciais existentes nas vári-
as escalas geográficas, o que comumente acontece ao se estabelecer
diferentes recortes espaciais quando os critérios e as condições são es-
colhidos de acordo com interesses e ideologias vigentes.
As regionalizações, portanto, devem evidenciar muito mais
que os recortes apresentados, pois ao descobrir os homens e o sentido
que atribuem ao lugar, descobrirão as comunidades e as
territorialidades, desvendando as ideologias espaciais, muitas vezes

216
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

remetendo ao cerne de numerosos conflitos existentes no mundo con-


temporâneo.
Tal perspectiva, ao incorporar componentes mentais abstra-
tos das representações, permite passar da simples descrição regional à
compreensão das relações existentes entre os atores sociais e sua orga-
nização espacial.
Mais que mostrar uma transformação estrutural que reafir-
me a cientificidade geográfica, esta abordagem pretende mostrar a
necessidade de compreensão do espaço, despertando a atenção para a
importância deste conhecimento. Enfim, todo conhecimento geográ-
fico está interligado a um contexto de representações sociais que se
difundem e podem ser integradas aos conhecimentos científicos.
Além dos exemplos citados, poderíamos estender essa ver-
tente de estudos a vários temários, como geopolítica, turismo, migra-
ções, educação ambiental etc, propiciando o seu redimensionamento.
Ao retomar o conceito de representação para melhor enten-
der essa proposta na vertente geográfica, é importante ressaltar que
mesmo antes de se constituir uma questão de estudo da psicologia
social, foi considerada uma questão filosófica fundamental desde os
estudos de Platão na antiga Grécia. O que demonstra que esta proble-
mática não se limita a considerar o espírito humano como suporte
das representações de produtos cognitivos resultantes da relação ser
humano/mundo, mas desvendá-los como produtos de natureza cien-
tífica, considerando-os social e culturalmente.
Como dimensionar as representações, sua estrutura, nature-
za e funcionamento dentro da concepção geográfica?
É grande a diversidade de conceitos, conforme nos apontam
diversos pesquisadores em suas interpretações. As representações, em
princípio, foram consideradas apenas como produtos de uma história
pessoal associada a saberes e experiências adquiridas. Essa vertente
surge no bojo do pragmatismo oriundo da psicologia cognitiva e soci-
al, assim como da biologia. Neste aspecto, podemos destacar os traba-
lhos de Piaget (1947), Brunner (1960) e Bachelard (1989) como refe-
rências.
A revolução técnico-científica, a partir da década de 80, pas-
sa a desencadear processos, exigências e necessidades, e as representa-
ções espaciais passam a se constituir não apenas num sistema referencial,

217
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

mas sobretudo buscam compreender os sentidos da consciência espa-


cial, incorporando aportes linguísticos e socioculturais.
O campo conceitual varia segundo as escalas espaciais e tor-
na-se indispensável relacionar as representações com a realidade, prin-
cipalmente porque somos atores e consumidores do espaço, constru-
indo representações em função de objetivos diversos.
Com relação a este aspecto, Moscovici (1961), ao estabele-
cer a ligação entre os domínios científicos da psicologia social e
cognitiva enfatiza que os conceitos são articulados a partir de noyau
dur, ou seja, um núcleo ou centro sólido, para que possa ser construído,
pois o imaginário e a conceituação estão atrelados às diferenças indi-
viduais. Consequentemente, as representações acontecerão numa pro-
gressão espiral, permitindo abordar os conceitos em nível crescente de
complexidade, constituindo-se na base didático-pedagógica, isto é,
essa construção conceitual que acontecerá de forma crescente e pro-
gressiva permite que os indivíduos ou grupos sociais revelem suas
potencialidades, maneiras de imaginar e compreender as lógicas espa-
ciais, livres de julgamentos de valor.
Embora esta abordagem signifique uma perspectiva inova-
dora, não é aceita por muitos geógrafos, por não considerarem a sabe-
doria e os sentimentos provenientes do "senso comum" como análise
científica, possíveis de serem incorporados à pesquisa geográfica.
Um dos primeiros artigos publicados sobre a aplicação das
representações em geografia foi escrito em 1986, por Audigier, ao
documentar suas pesquisas didático-pedagógicas, no qual destaca que
toda representação é o resultado de três elementos: apresentação e
organização das informações, e leitura do que foi representado, esta-
belecendo um paralelo entre o senso comum e o saber científico na
construção do conhecimento, reportando-se às representações e ciên-
cia, conforme explicitado no quadro abaixo:

Representações limitadas Ciência-verdade


Apresenta o real por ele mesmo Enuncia-se através de uma construção
Evidência geral Seu campo de validade é preciso
Não necessita de exemplos para ser comprovado Apresenta exemplos que confirmam
Integra a parte ao todo Classifica e distingue
Modo de pensar binário, onde a analogia representa um Constrói-se sobre o complexo e sobre o sistema
importante papel rigoroso de provas

218
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

Um dos primeiros artigos publicados sobre a aplicação das


representações em geografia foi escrito em 1986, por Audigier, ao
documentar suas pesquisas didático-pedagógicas, no qual destaca que
toda representação é o resultado de três elementos: apresentação e
organização das informações, e leitura do que foi representado, esta-
belecendo um paralelo entre o senso comum e o saber científico na
construção do conhecimento e reportando-se às representações e à
ciência.
Audigier mostra, assim, que o conhecimento proveniente do
senso comum, explícito nas representações, opõe-se à construção do
conhecimento científico, o que, segundo ele, constitui-se na
représentation de la représentation, que predetermina a opinião de
muitos pesquisadores, os quais se apoiam fundamentalmente na ideia
de ruptura, reforçando uma concepção de representação frágil e limi-
tada, portadora de subjetividades redutoras. Esse autor levanta ques-
tões como:
Para que servem as representações?
Qual seria sua lógica e seu modo de funcionamento?
Em que teorias e modelos científicos que explicam o
mundo se encaixam?
Evidencia ainda as representações como "um valor
anedótico".
A partir desse trabalho, surgiram várias pesquisas e muitos
questionamentos sobre a validade, aplicação e estruturação das repre-
sentações no domínio geográfico.
Os estudos sobre as representações revela-se no entanto como
uma vertente interessante para o campo geográfico, principalmente
ao apresentar visões contraditórias de resistência e difusão.
Moscovici (1989) delineia seus aspectos ao fazer a seguinte
leitura: "...a propriedade principal de uma representação social baseia-se
na cognição, mas é legitimada pelo ponto de vista social...".
As pesquisas preocupam-se, deste modo, em confirmar as
provas e evidências a favor de uma teoria e cientificidade. A resistên-
cia de uma representação pode levá-la a coexistir com os saberes cien-
tíficos mais elaborados e este noyau dur torna-o insensível aos discur-
sos e demonstrações racionais.

219 o
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

A geografia, ao incorporar essa vertente, é enriquecida com


novas problemáticas que a tornam mais atraente, principalmente em
relação ao enfoque ambiental e sociocultural.
No entanto, alguns autores como Le Roux (1990), chegam
a confundir estereótipos com representações, pois as mesmas não têm
por objetivo mensurar o espaço físico e reproduzi-lo com precisão,
mas traduzir hipóteses sobre a organização espacial e toda riqueza que
este conceito pode oferecer (talvez o seu conceito esteja baseado em
outros parâmetros).
As considerações de Denis (1989) e Kerlan (1987) também
apontam para a mesma direção, ou seja, analisam as representações
como um produto, algo que se realiza antes da aprendizagem científi-
ca, um esboço preparatório ao trabalho que se pretende produzir, ao
afirmar que "...o termo representação é utilizado para designar um
processo assim como um produto deste processo".
Para Kerlan (1987), porém, as representações são anterior-
mente organizadas na mente e recuperadas durante o processo de apren-
dizagem, destacando que "este será o risco [...] dissimular o que é
essencial, a atividade de representação, o processo e seus produtos".
Uma das fragilidades dessa abordagem é apontada por
Audigier (1986) que nos faz perceber onde se encontra o maior pro-
blema, quando diz que "as representações são fundamentalmente di-
nâmicas e contextualizadas, mas elas nos escapam [...] quando não
conhecemos ou reconhecemos as representações de indivíduos e gru-
pos, adotando como resultado de nossa própria construção intelectu-
al", destacando que a questão da interpretação não tem, realmente,
uma diretriz única e vai estar vinculada à visão de mundo de quem a
interpreta.
A partir da definição dos parâmetros de análise é possível
desenvolver um trabalho realmente interessante em geografia das re-
presentações, mesmo ao considerarmos que enquanto pesquisadores
podemos incorrer numa análise parcial.
Os pedagogos Hameline (1998) e Chevallard (1985) tam-
bém desenvolveram uma didática das representações, enfatizando as
diferenças existentes entre os conhecimentos científicos e comuns, le-
vantando questões relativas à dimensão cognitiva das representações.

220
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

Ao falar das representações como reveladores dos processos cognitivos,


enfatizaram as cartas mentais como
instrumentos destinados a nos esclarecer pontos do imaginário individual e
coletivo e da concepção que nós temos de mundo, a qual serve de base a muitos
de nossos comportamentos, tanto ao nível das escolhas dos itinerários quanto
ao nível de nossas preferências espaciais.

Essas considerações demonstram que a compreensão do pro-


cesso cognitivo nos leva a melhor entender os indivíduos e
consequentemente a sua visão de mundo, contribuindo para explicar
os comportamentos e redimensionar as ações.
Estamos inseridos no mundo e não podemos nos excluir dele
para compararmos aparência com essência, conteúdo com representa-
ção, pois o senso comum e o contexto estão implícitos e não podem
simplesmente ser eliminados, constituindo-se no cerne do processo
cognitivo.
As representações espaciais advêm de um vivido que se
internaliza nos indivíduos, em seu mundo, influenciando seu modo
de agir, sua linguagem, tanto no aspecto racional como no imaginá-
rio, seguidas por discursos que incorporam ao longo da vida.
Esta rápida retrospectiva sobre o conceito de representação
no contexto educacional nos serve de parâmetro para avaliar dificul-
dades e preconceitos enfrentados diante desse "novo enfoque".
A geografia das representações atualmente vem se expandin-
do pelas diversas vertentes do conhecimento geográfico, propiciando
a análise de fenômenos socioespaciais, como êxodo rural, urbaniza-
ção, planejamento ambiental, turismo, pois os agentes ou atores soci-
ais são pressionados pelos processos econômicos, tecnicismo,
globalização. Entretanto, o percurso individual continua sendo mar-
cado por significados, valores e escolhas pessoais, enriquecendo a com-
preensão dos processos espaciais por incorporar o "vivido" às análi-
ses. Apesar das diferentes interpretações, reflexo de pensamentos e vi-
sões de mundo, percebe-se que o interesse científico pelos atores soci-
ais tem aumentado de forma significativa.
Como geógrafos, tivemos o objetivo de mostrar o aporte das
representações em campos de pesquisa distintos, para que se tenha
clareza das possibilidades e importância dessa abordagem no campo
dos estudos geográficos.

221
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

Preocupamo-nos, ainda, em deixar evidente os limites e os


perigos dos reducionismos que conduzem a uma concepção equivoca-
da, fundada na ideia de ruptura entre o conhecimento científico e as
representações.
É importante destacar a importância desta ruptura
epistemológica, representando novos horizontes para o conhecimen-
to geográfico, ao analisar as questões centradas nos atores sociais,
suas experiências, valores e ações, o que não se resume a subjetivida-
des. Esta ruptura representa uma cisão com a visão objetivista que
pesquisa classificações, estruturas e causas profundas, e o homem não
pode ser estudado e interpretado aos pedaços.
Essa inquietude já era demonstrada por Claval em 1984, ao
enfatizar que "...toda ciência social combina os modelos de homem e
os modelos de sociedade. Eu me dei conta do pouco caso que nós
fazemos dos primeiros, então neste caso todo nosso zelo vai para o
segundo"; o que, de fato, atualmente está acontecendo.
A geografia das representações tem se estruturado tanto na
vertente relacionada à dimensão cognitiva, na qual as representações
são conceituadas como processos de conhecimento do mundo, como
na dimensão operatória, como um modo de agir sobre o mundo.
A construção do conhecimento através da construção de
imagens pode ser gerada a partir dos processos provenientes da per-
cepção sensível, do conhecimento imaginário e abstrato, assim como
da internalização de discursos, ou dialogismo, quando considerado
sob o olhar bakhtiniano.
Encontramos em Morin (1986) o aporte que vem referendar
a amplitude que pretendemos dar às representações, o que fica evi-
dente quando enfatiza que as representações refletem a visualização
da realidade percebida, consistindo ao mesmo tempo uma tradução e
uma construção, sendo que a síntese cognitiva é dotada de atributos
como a coerência, globalidade, constância e estabilidade, pois a per-
cepção retiniana é internalizada através do movimento dos olhos e da
cabeça, fazendo parte das qualidades organizacionais que dão ao
mundo consistência ao ser visto, podendo ser considerado estável ao
efetuar a cada instante análises e sínteses.

222
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

Por corresponder a um modelo da realidade, pode ser enri-


quecido, completado, corrigido e retrabalhado de acordo com as ex-
periências, sensibilidades e necessidades de cada um.
Diante desta abordagem, podemos conceituar as representa-
ções como um conhecimento que permite ao indivíduo se apropriar
do mundo exterior, acompanhado de palavras e ideias comunicáveis.
O conhecimento imaginário origina-se a partir da reprodu-
ção de uma imagem visual, que substitui o real através da lembrança,
provocada por fragmentos do real. O objeto pode ter sido anterior-
mente percebido, como pode ser novo, produzido pelas capacidades
criativas e a representação.
A imagem é uma forma de representação que resulta de uma
abstração, que perde, quando representada, seu isomorfismo estrutu-
ral advindo da percepção, conferindo à imagem uma grande parte de
seu valor funcional, compreensão da linguagem e a resolução de pro-
blemas.
O conhecimento abstrato incide sobre as propriedades dos
objetos, de forma precisa ou generalizada, podendo ser considerado
como uma atividade de conceituação, e as representações acontecem
num nível superior de abstração.
Apesar dessas distinções em termos de processos cognitivos,
existe uma unicidade nas representações, existindo uma unidade en-
tre o real e o imaginário ao nível das imagens mentais.

Bases teórico-conceituais da geografia das representações

Ao refletirmos mais profundamente sobre o real e o imagi-


nário, surgem questionamentos sobre as bases teórico-conceituais da
geografia das representações, tendo em vista que ao construir um co-
nhecimento, as representações imbricam-se entre a concepção realista
que embasa o real, o científico; a concepção idealista que dá suporte
teórico ao imaginário e a concepção sociocultural que perpassa os dois
conceitos, proporcionando a análise da teia de relações estabelecidas
entre a sociedade e o espaço geográfico.

223
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

A concepção realista demonstra que o objeto existe indepen-


dente do pensamento, pois o conhecimento é um reflexo objetivo da
realidade e vincula-se, portanto, à compreensão das distorções exis-
tentes entre a realidade e a representação, e aprofunda estudos na
busca dos obstáculos ou ruídos que interferem nessa comunicação da
informação. Busca, portanto, entender a correspondência existente
entre o objeto e sua representação, e se preocupa com a objetividade, a
verdade, a comprovação, em corrigir erros, em direção à cientificidade
do conhecimento.
Essa concepção reflete uma visão de mundo que, a partir de
uma suposta neutralidade, tudo explica e comprova. As correntes fi-
losóficas positivista e neopositivista são o seu suporte, direcionando
as pesquisas à compreensão e explicações lógicas entre sujeito e objeto.
Relacionando este suporte teórico às representações, temos as teorias
da informação e da comunicação nas suas inúmeras vertentes. Assim,
ao analisarmos esta concepção no bojo da geografia das representa-
ções, nos deparamos com a percepção e a cognição que enfatizam o
comportamento humano através do behaviorismo, a construção ex-
perimental implícita no construtivismo piagetiano e as operações
mentais lógicas estabelecidas pela cognição.
Para Piaget (1963), a epistemologia genética é a base do co-
nhecimento, e permite que possa ser abordado cientificamente. Seus
estudos se baseiam na experimentação, a partir da observação do com-
portamento do sujeito a uma determinada situação, sendo que a re-
presentação construída pelo sujeito se constitui numa estrutura de com-
preensão do real. As representações são, portanto, produtos da per-
cepção, integradas pela dimensão simbólica. Não considera as interfe-
rências da afetividade e do meio social, e prioriza as dimensões bioló-
gicas do desenvolvimento intelectual.
Na década de 50, o "cognitivismo" se estrutura abrangendo
pesquisas nas áreas da psicologia, linguística e neurociências, associa-
das ao aparecimento do computador. Esta abordagem tem como cen-
tro a ideia de que a inteligência funciona tal como um computador,
sendo que a cognição funciona tal como o tratamento da informação
realizado pela máquina. A lógica matemática explica o funcionamen-
to do cérebro e do sistema nervoso. O cérebro trata das informações
provenientes do exterior e, ao aplicar cálculos algorítimos, desenvolve

224
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

as representações mentais, conhecidas como linguagem interna, for-


malizada e lógica como as regras sintáticas e semânticas inerentes às
teorias linguisticas. Esta visão mecanicista de pensar, subsidiada pela
corrente neopositivista, permeou grande parte dos trabalhos realiza-
dos sobre as representações.

FIGURA 1 - CONCEPÇÃO IDEALISTA


Representação como "Metáfora do Conhecimento"
MODO DE PRODUÇÃO DA
CONHECIMENTO REALIDADE NO ESPAÇO E
NA CONSCIÊNCIA
Seletividade 4 Memória

Percepção para
Conhecimento
as terminações
Sensível
Exterior ao nervosas
Homem

Reprodução

REALIDADE Conhecimento REPRESENTAÇÃO


Imaginário Imagem Síntese
• Construção • Cognitiva

Interior ao
Homem
Conhecimento
Abstrato Conceito

Rendimento

Formulação
Verbal

FONTE: KOZEL, S., 2001, adaptado de ANDRÉ, Y., 1998.

A concepção idealista dá suporte teórico ao imaginário, res-


saltando o real como produto do pensamento ou da consciência (fi-
gura 1), refletindo a representação como "uma metáfora do conheci-
mento". A realidade é captada pelo conhecimento sensível, imaginá-
rio e abstrato, propiciando a construção e reconstrução da realidade,
explicitando-se por meio das representações, que num primeiro mo-
mento acontecem como "síntese cognitiva", passando pela memória/
consciência em direção à seletividade, apontando para a lente que se
usa para ver e conceber o mundo e as coisas pertinentes a ele.
Os princípios da objetividade do conhecimento são ditados
pela razão e não pelo real, que é permeado pelos subjetivismos. Um

225
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

dos autores que trazem à luz esta concepção é Kant (1991), ao estabe-
lecer que a realidade do mundo psíquico depende do espírito, e as
coisas nos aparecem como substâncias, regidas por leis de causalidade
e finalidade; se nos aparecem como situadas no espaço e no tempo,
isto não significa que sejam tais em si mesmas, mas apenas que nós as
fazemos assim. O conhecimento é construído por meio dos sentidos,
sendo construções da razão e não dados objetivos. As coisas não po-
dem ser conhecidas por si mesmas, mas pelas representações que faze-
mos delas; as leis são produtos do entendimento e não dos
ensinamentos provenientes da natureza.
A vertente americana, centrada em Berkeley, leva esta con-
cepção a extremos, considerando a realidade do mundo à forma em
que é percebida, o que significa que o fato de existir já implica em ser
percebido. E assim surgem vários questionamentos: como admitir a
existência de uma realidade que não é concebida? Porém, para Kant
(1991), nem toda realidade se reduz ao espírito, não chegando ao
extremo proposto pelos americanos.
Entre as duas concepções opostas, surgem inúmeras inter-
mediárias, e entre elas, nem a realidade (objeto), nem o ser humano
(sujeito) são o centro, mas o conhecimento pode ser elaborado pelos
seres humanos como integrantes de uma realidade. Consideramos essa
abordagem mais coerente por articular o real e o imaginário, o cotidi-
ano e a fantasia, dentro de um contexto de representações sociais e
ideológicas do mundo. Em suma, constitui-se numa concepção
sociocultural que proporciona uma análise mais elaborada sobre a teia
de relações estabelecidas entre a sociedade e o espaço geográfico.
Esta abordagem tem suas raízes nos estudos de Durkheim
(apud MACHADO, 1998), consolidando a teoria das representações,
centrada na relação epistemológica entre sujeito e objeto, na qual, por
meio da sua atividade, o sujeito constrói tanto o mundo como a si
próprio.
Associada a essa abordagem; resgata-se a teoria social,
redimensionando-a, pois a mesma não se limita a uma só área do
conhecimento, mas perpassa todas as áreas das ciências sociais, pro-
pondo tornar intelegíveis as práticas sociais e intervir em sua conduta
e consequências, que de acorda com Gregory (1996) é profundamen-

226
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

te comprometida com o poder, o conhecimento e a espacialidade, e


está em constante movimento, o que permite melhor explicar os fenô-
menos do conhecimento numa sociedade moderna, mais dinâmica,
mais fluida, onde a informação gira numa rapidez assombrosa.
As representações sociais estabelecem uma síntese entre os
fenômenos cognitivos, afetivos e sociais, que na realidade estão com-
pletamente interligados, permitindo a incorporação de análises ideo-
lógicas, dos saberes populares e do senso comum. Esta dimensão com-
plexa e sistêmica das representações é denominada por Morin (1991)
como "síntese cognitiva".
Para Jodelet (1988), as representações sociais se constituem
numa "forma de conhecimento, socialmente elaborado e partilhado,
tendo uma visão prática e concorrendo para a construção de uma
realidade comum a um conjunto social". Destaca ainda algumas ca-
racterísticas importantes para a sua compreensão, tais como:
1 nas representações, o aspecto imaginativo é inseparável
do aspecto significativo;
2 não pode ser uma reprodução passiva de um exterior num
interior, sendo que é perpassada pelo imaginário, individual e social;
3 representa a interação existente entre o sujeito e o mun-
do;
4 implica em atividade conjunta de construção e reconstru-
ção no ato da representação, pois como o sujeito é social, a atividade
é tanto simbólica corno cognitiva;
5 possui um caráter criativo e autônomo.
A relação complexa existente entre o real, o imaginário e o
social no sentido das representações é frequentemente explicitada nas
análises geográficas. O que, segundo André (1998), Bailly (1995) e
Gregory (1996) constituem-se num desdobramento episternológico
da geografia humana, ressaltando que esta abordagem
é consciente de sua subjetividade, analisando os discursos e as práticas espaci-
ais, podendo desabafar através da estrutura das representações, coerências e
repetições, não somente aquela dos homens racionais, mas também daqueles
que experimentam o sentimento de vinculação aos lugares, à vida.

227
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

Compreender a subjetividade dos atores passa principalmen-


te pelo estudo das representações do mundo construído por eles. As-
sim, as representações passarão a ser analisadas como fundamento de
uma ação que pressupõe um conhecimento e não apenas como um
processo cognitivo.
Nesse sentido, Bourdier também traz contribuições interes-
santes quando reflete sobre representações e realidade, ao argumentar
que as representações são distorcidas, porque também fazem parte do
real, constituindo-se num processo dialógico.
Certamente as representações podem apreender o real anun-
ciado e produzir a realidade objetiva opondo-se às subjetividades (fi-
gura 2), constituindo-se na dialógica das representações espaciais, na
qual contribuem para evidenciar o espaço real que se pretende, e o
espaço produzido contribui para a elaboração das representações.

FIGURA 2 - A DIALÓGICA DAS REPRESENTAÇÕES ESPACIAIS


ESPAÇO REAL
Localização

GEOGRAFIA Espaço Espaço Estrutura


DE Vivido Produzido Fluxo
RESULTADOS

Prática Percepção

Espaço
Percebido

Processos
Cognitivos
GEOGRAFIA
DE
PROCESSOS

Ri: Habitantes Produção do Espaço


Rd: Grupo Decisório 1-----. Consumação do Espaço

FONTE: KOZEL, S., adaptado de BOURDIER, P., 1987.

228
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

As representações, sob este enfoque, passarão a ser tratadas


tanto como produtos como processos, mediando o espaço real e os
grupos sociais, entre a percepção e a prática. Os produtos construídos
a partir desses procedimentos se constituirão nas bases para a compre-
ensão e análise das transformações sociais e espaciais.
Analisando as representações ainda por este prisma, Bakhtin
(1986) nos remete a refletir sobre os significados atribuídos às coisas,
não apenas como processos que ocorrem entre a percepção e a prática,
mas como algo contextualizado e referendado, pois segundo ele, os
homens materializam a realidade pelas representações, utilizando os
signos que não provém de uma consciência vazia. A própria consciên-
cia é uma construção de signos, visto que é algo que se constrói de
fora. A representação é um tipo de linguagem, portanto uma constru-
ção sígnica, um produto social oriundo da comunicação. A interrelação
entre os indivíduos é perpassada pelos valores, cujos significados são
construídos pelos discursos ou "dialogismos" que, ao serem incorpo-
rados, se constituem em signos que se transformam em enunciados ou
representações.
Os humanos, por serem sociais, interagem com seus seme-
lhantes por meio dos enunciados e estabelecem o diálogo entre os
discursos proferidos, o que vem a se constituir numa antropologia
filosófica ou dialogismo. Porém, pelo dialogismo, os sujeitos tornam-
se históricos e sociais por incorporar diferentes vozes ou discursos dos
outros, e este tecido de muitas vozes se entrecruzam, se completam,
polemizam entre si, com o interior e o exterior. Dialogismo não é
apenas mais um conceito entre tantos, mas um instrumento impres-
cindível no estudo e compreensão do real.
O mundo das representações é anterior ao nosso nascimento
e outros o construíram para nós, porém precisamos, no decorrer da
existência individual, criar mundos simbólicos pessoais ou inventar
uma linguagem, e deste modo, na relação que estabelecemos com os
outros, passamos a construir nosso próprio mundo semiótico.
Estudar as coisas do mundo humano é na verdade se debru-
çar sobre o pensamento do outro, o texto do outro, sobre os valores
dos outros e, nesse sentido, desenvolvermos um contínuo exercício
para captar nas palavras a sua essência epistemológica, seu ponto de

229
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

observação, valores sobre sua vida e seu mundo, seu mirante; premissa
importante para todos os que trabalham com as ciências sociais.
Com base nessas considerações, com as quais retomamos di-
ferentes abordagens e aportes teórico-metodológicos, podemos avali-
ar a importância desse enfoque para as pesquisas geográficas, por le-
var sobretudo a compreender a lógica dos atores, desde as aspirações
individuais aos sistemas de valores dos grupos sociais refletidos nos
lugares e territórios, aspectos imprescindíveis nas análises do geográfi-
co.
Por todo o exposto, as representações devem ser vistas como
mais uma forma de pensar e entender a "teia da vida" em suas múlti-
plas relações, permeando entre a realidade e os atores sociais ao reali-
zar suas práticas, o que pode ser melhor enfatizado pelas palavras de
Bakhtin (in FARACO et al., 1996): "a vida é dialógica por natureza.
Viver significa participar de um diálogo [...I o homem participa deste
diálogo com toda sua vida: com os olhos, lábios, alma, espírito, com
todo seu corpo e com seus atos".
Nessa perspectiva, as imagens como representações dos diá-
logos encerram mais uma forma de linguagem ou enunciados que se
caracterizam por seu conteúdo e por seu sentido, pois eles não existem
sem uma intenção, mesmo implícita, sobretudo porque não escreve-
mos, falamos ou representamos algo vazio, para nada dizer. Mesmo
quando imaginamos ou externamos nossos monólogos, dirigimo-nos
a uma ou mais pessoas, e por mais simples que seja está repleto de
intencionalidades.
Esta é a dimensão das representações, que propomos quan-
do pesquisamos essa vertente no geográfico, o que atualmente vem
subsidiando algumas pesquisas desenvolvidas não só na área de geo-
grafia, como nas áreas de história, sociologia, filosofia, ciências soci-
ais, teoria da linguagem etc., sobretudo por refletir o atual momento
histórico.

230
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

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232
IMAGEM, REPRESENTAÇÃO E GEOPOLITICA

Oswaldo Bueno Amorim Filho*


João Francisco de Abreu*

O movimento intelectual da chamada geografia humanistica


tomou forma e desenvolveu-se — sobretudo a partir dos anos 1960 —
para, entre outras coisas, tentar superar ou, talvez, minimizar duas
oposições que tinham orientado a maior parte das pesquisas e refle-
xões, tanto dos geógrafos quanto dos cientistas em geral nos últimos
três séculos. Trata-se das dicotomias entre o sujeito e o objeto e entre o
homem racional e o homem inteiro.
A primeira dessas dicotomias, de acordo com Cassirer (2001,
p. 206-309), tem suas origens mais remotas entre os gregos, mas vai se
consolidar e se acentuar a partir do Renascimento, em especial com
Descartes e Leibniz. Trata-se, para Cassirer, de uma "genuína revolu-
ção da forma de pensar, [...I pois, quase não existe uma direção da
filosofia do Renascimento que não tenha participado desse trabalho
(compreender a relação entre o sujeito e objeto)."
Essa dicotomia evoluiria, a partir do século XVIII, no meio
intelectual do Ocidente, para uma oposição, muitas vezes radical en-
tre o sujeito (subjetivismo) e o objeto (objetivismo racionalista).
É interessante observar que, nos séculos XVIII, XIX e grande
parte do século XX, a adoção pelos geógrafos de uma postura que
tinha como modelo o homem racional não apresentou maiores difi-
culdades, uma vez que nossa disciplina possuía uma grande afinidade
com a história natural, então fortemente guiada pelo paradigma
racionalista, que seria, além disso, prolongado e fortalecido pelo de-
senvolvimento da filosofia positivista.

" Os autores agradecem aos professores Gilmar Rocha (PUC-Minas) e André Velloso (UNI-BH)
pelo apoio na aplicação dos questionários e aos estagiários Danny Zahredine e Youssef Alvarenga por sua
ajuda na tabulação dos questionários.

233
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

A questão se complica para os geógrafos na medida que,


desde o final do século XIX, a geografia, ao incluir cada vez mais os
fatos humanos em suas pesquisas e reflexões (nascimento da geogra-
fia humana), conserva uma postura predominantemente naturalista e
racionalista. A objetivação e o objetivismo são, assim, as categorias
comumente — e muitas vezes automaticamente — empregadas pelos
geógrafos para fazer a mediação entre esse homem naturalista e
racionalista e objetos, paisagens e, até mesmo, os outros homens.
Para acrescentar complexidade ainda maior a essa questão,
quando se dá o aparecimento da corrente humanística na geografia,
na segunda metade do século XX, surge junto com ela e, depois, para-
lelamente a ela, um outro movimento que também se opõe a esse
modelo positivista da geografia. Esse novo movimento, que recebeu
várias denominações até agora (geografia radical e, mais recentemente,
geografia crítica), acabou por filiar-se também a um modelo de ho-
mem que merece, para muitos autores, o nome de homem ideológico.
Para boa parte dos geógrafos ligados à corrente humanística, o que os
mentores intelectuais do movimento radical ou crítico acabaram por
construir não foi apenas uma nova alternativa em relação ao modelo
naturalista e racionalista da geografia positivista, mas um novo
determinismo.
Vale a pena lembrar que, desde o século XVIII, filósofos como
Kant já forneciam elementos para se questionar a objetividade
racionalista, ao afirmar que "a realidade perfeitamente objetiva não
nos é jamais acessível" (KNAFOU, 1997, p. 373). Assim, de acordo
com aquele filósofo, para tomar consciência da realidade e poder agir
sobre ela, há que se levar em conta as maneiras pelas quais os seres
humanos apreendem essa realidade, que se nos apresenta sob a forma
de fenômenos.
Consequentemente, é óbvio que, deste ponto de vista, esses
modos de apreensão dos fenômenos que nos cercam são fundamen-
tais, na medida que, de nossa apreensão do mundo dependem as ações
que desenvolvemos na superfície da Terra. Esta constatação foi crucial
para o desenvolvimento da corrente humanística da geografia nas úl-
timas décadas. De fato, não obstante a persistência de problemas teó-
rico-metodológicos que têm dificultado, por exemplo, a unificação e

234
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

a coerência do movimento humanístico, seu crescimento e sua evolu-


ção têm sido notáveis dos anos 1970 para cá.
Sem querer fazer uma revisão mais abrangente dessa história
da geografia humanística (o que não caberia no escopo deste pequeno
texto), pode-se esquematizá-la, dizendo que se em um primeiro mo-
mento houve um predomínio dos estudos de percepção ambiental, em
seguida o foco maior se centrou nos temas da cognição espacial e das
paisagens. Mais recentemente porém, e sem descartar os temas privile-
giados nas duas fases anteriores, o foco dos geógrafos humanísticos
tem-se voltado para as diferentes representações e imagens que,
ininterruptamente, os seres humanos constroem de seus ambientes,
desde as escalas locais até às mundiais.
Em função dessa evolução, a aproximação — que, nas etapas
iniciais, tinha-se dado preferencialmente com os modelos e os profis-
sionais da psicologia — começou também, mais recentemente, a se de-
senvolver com outras orientações epistemológicas, entre elas com a
geografia cultural. Isto vem ocorrendo, em grande parte, porque te-
mas como os das religiões, nacionalidades, etnias, valores, entre ou-
tros fundamentais na elaboração de representações e imagens geográ-
ficas, possuem também peso significativo na temática e nas reflexões
da geografia cultural.
Por outro lado, não se pode esquecer que, dentro do movi-
mento humanístico, a forte vertente fenomenológica (principalmente
através das obras de Yi-Fu Tuan e Edward Relph) defende o princípio
de que a realidade é estabelecida pelas subjetividades e que, assim, as
realidades geográficas só poderiam ser acessíveis ao conhecimento de
tipo inter-subjetivo.
De acordo com Berque (1996, p. 34, citado por Knafou,
1997, p. 381), a geografia deve tentar "reencontrar a realidade do
mundo-ambiente tal qual nós a vivemos concretamente e não tal como
é figurada pela racionalidade científica".
Tentativas de superar as diferenças que separam os conheci-
mentos geográficos produzidos pela objetivação científica da realida-
de e aqueles resultantes das abordagens intersubjetivas vêm ocorrendo
— entre os geógrafos humanísticos, em particular, e os geógrafos em
geral — há algumas décadas. Embora nem sempre bem compreendido
e aceito por toda a comunidade geográfica, um dos exemplos mais

235
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

bem sucedidos nesse sentido foi o dos mapas mentais de Gould e White
e vários seguidores, a partir de 1974.
No mesmo sentido e praticamente a partir da mesma época,
Saarinen e seus associados vêm produzindo, nos Estados Unidos, pes-
quisas cujos temas são as imagens de outros países. São pesquisas que
se voltam para a relação existente entre as imagens que os seres huma-
nos formam de países e regiões do mundo e as opiniões que desenvol-
vemos sobre esses países e regiões. O importante é que essas represen-
tações e imagens geográficas, assim como as opiniões que delas resul-
tam, parecem ter impacto significativo nas opiniões, decisões e ações,
objetos do interesse dos estudiosos das relações internacionais e da
geopolítica contemporânea.
Uma das contribuições importantes da abordagem dos
geógrafos para um estudo mais consistente das imagens e representa-
ções espaciais diz respeito à consideração permanente da questão de
escala.
Na escala local (onde se desenrolam nossas experiências co-
tidianas), as representações e imagens que construímos estão, em prin-
cípio, mais próximas da realidade dita "objetiva", pois que nossa ex-
periência vivida desta realidade se acumula e se renova continuamen-
te.
Nos níveis escalares subsequentes e crescentemente mais
abrangentes, as imagens e representações vão se tornando menos pre-
cisas, na medida que não resultam mais da experiência cotidiana e
não são parte de nosso mundo vivido. Mais ainda, dependem de in-
formações, imagens e representações selecionadas e veiculadas por ter-
ceiros, com seus próprios valores, intenções, preferências, vieses e limi-
tações.
Numa escala ainda mais ampla — nível mundial —, não so-
mente há grandes espaços, numerosos países e regiões para os quais a
maior parte das pessoas dispõe apenas de imagens incompletas, este-
reotipadas, distorcidas, ou mesmo não dispõe de imagem e represen-
tações. A esse respeito, Saarinen (1976, p. 209) considera que
Na escala mundial, nossas imagens da realidade são, na melhor das hipóteses,
incompletas. As concepções sobre outras nações ou sistemas mundiais se basei-
am em generalizações muito amplas, nos quais as exceções são inevitáveis.
Ninguém pode entender mais do que uma fração da diversidade terrestre de

236
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

cada vez. Além disso, nossas imagens se baseiam grandemente em informação


fornecida por terceiros. Há uma grande dificuldade em se avaliar o grau de
acerto e de erro de tal informação, pois ela envolve amplas generalizações sobre
pessoas, lugares e eventos que estão além da limitada esfera de ação do próprio
indivíduo. [...] E, entretanto, em nenhuma outra escala as conseqüências da
ignorância coletiva são potencialmente mais perigosas.

O problema pode se tornar ainda mais complicado quando


o ensino escolar (neste caso, principalmente o geográfico), ao qual a
sociedade tem atribuído a tarefa da instrução sobre o mundo exterior,
cumpre de maneira incompleta sua função. O risco de se depender,
para o conhecimento do mundo exterior, principalmente dos meios
de comunicação mais populares, é imenso, pois imagens imprecisas,
simplistas e estereotipadas podem constituir a fonte predominante na
formação das representações geográficas da sociedade.
Nas décadas de 1970 e 1980, Saarinen e associados desen-
volveram vários estudos sobre as imagens e representações do mundo,
do ponto de vista de uma parcela geopoliticamente importantíssima
da humanidade: os estudantes, tanto os de segundo grau, quanto os
universitários. Saarinen definiu como objeto principal dessas pesqui-
sas as "visões do mundo dos estudantes" (1976, p. 225-226). E, em
termos metodológicos, a demarche que propunha era, segundo suas
próprias palavras, bastante simples:
O método é simples e direto: folhas de papel em branco são dadas aos estudan-
tes e é solicitado que eles façam um croquis do mapa do mundo, identificando
todos os lugares que eles considerem interessantes e/ou importantes. Os mapas
obtidos são fascinantes e eles fornecem um meio direto de se investigar as visões
do mundo dos estudantes. A técnica foi aplicada a vários grupos de estudantes
secundários e universitários de diferentes partes do mundo. [...] A despeito das
diferenças, há sempre similitudes impressionantes em qualquer conjunto de
mapas sobre um mesmo lugar. A unidade mais comumente mencionada é a
nação. [...] Calculando-se a freqüência com que cada nação é incluída, é possí-
vel a construção de um mapa-síntese para cada grupo (de estudantes).

Entre os vários resultados dessas pesquisas de Saarinen e as-


sociados, cabe mencionar:
uma série de similitudes em termos de imagens e repre-
sentações de certos países, mesmo levando-se em conta as diferentes
localizações nacionais dos estudantes pesquisados;

237
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

a tendência no sentido de se exagerar a importância do


país natal (ou de residencial atual) e de suas imediações;
a tendência geral de se identificar e caracterizar melhor os
países do continente onde se vive, e países de dimensões espaciais
maiores, como os Estados Unidos, a então União Soviética, a China,
o Canadá, o Brasil, a índia etc;
a presença, em grande parte dos croquis produzidos pelos
estudantes, de extensos espaços vazios, ou sem visibilidade representa-
tiva, em várias regiões do mundo, refletindo a pequena importância
atribuída a tais áreas e países.
No que se refere aos estudantes dos próprios Estados Uni-
dos, as constatações das pesquisas de Saarinen foram decepcionantes:
Levantamentos [...] nos Estados Unidos sobre tópicos das relações internacio-
nais tendem a revelar uma ignorância abismal quanto aos problemas (internaci-
onais) atuais e quanto às características e localização de países estrangeiros
(1976, p. 210).

Ainda nos anos 80 e durante a década dos 90, novos estudos


sobre os conhecimentos, imagens e representações que os estudantes
possuem das regiões e países do mundo continuaram a ser feitos, muitos
deles sob os auspícios de importantes organizações internacionais e
americanas ligadas ao ensino e à pesquisa geográficos, como a National
Geographic Society e o National Council for Geographic Education.
Archer, Shelley e Leib publicaram, em 1997, um estudo que
apresenta grande interesse para aqueles que buscam — como nós — rela-
cionar percepções, imagens e representações à geopolítica e às relações
internacionais. De acordo com esses autores, o objetivo maior de sua
pesquisa foi "investigar as percepções estudantis da importância
geopolítica dos países do mundo na era pós-guerra fria. Essa questão
chama a atenção para as atitudes dos jovens que, provavelmente, vão
participar — como cidadãos, eleitores e políticos — na criação, condu-
ção e avaliação da política externa dos Estados Unidos no século
XXI..." (ARCHER et al., 1997, p. 76).
Esses autores afirmam (p. 77) que o método da pesquisa foi
adaptado diretamente da já mencionada obra pioneira de Gould e
White (1974) sobre as preferências que as pessoas possuem quanto aos

238
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

lugares. Naquela ocasião, Gould e White solicitaram aos estudantes


pesquisados que hierarquizassem os cinquenta estados americanos em
termos de "desirabilidade de moradia". No estudo de Archer, Shelley e
Leib (1997), os estudantes foram instruídos a hierarquizar os países
do mundo em termos de importância geopolítica. Para que não se
trabalhasse com o improvável universo de todos os países do mundo
(em grande parte desconhecidos dos estudantes), foram listados, para
a construção do ranking, os 55 países que, à época (1995/1996), pos-
suíam mais de 15 milhões de habitantes. Esses países continham, en-
tão, mais de 90% da população mundial.
Cento e dezenove estudantes de cinco turmas (duas da Uni-
versidade de Nebraska, duas da Universidade Estadual do Sudoeste do
Texas e uma da Flórida), da disciplina geografia política, apresenta-
ram respostas de questionários utilizáveis na pesquisa. Essas respostas
foram submetidas, tal como no estudo de Gould e White (1974), a
uma análise de componentes principais que igualmente atribuiu ao país
considerado de maior importância geopolítica o escore 100 e àquele
percebido como o menos importante geopoliticamente, o escore zero.
Em termos de resultados desse estudo, é interessante notar
que, apesar dos estudantes pesquisados pertencerem a universidades
de estados diferentes, houve um consenso bastante alto quanto à hie-
rarquia da importância geopolítica dos países selecionados. Apenas
para efeito de exemplificação dos resultados, países como os Estados
Unidos, Rússia, China, Reino Unido, Alemanha, Japão e Canadá ob-
tiveram os escores mais altos (entre 100 e 80). Já potências intermedi-
árias como Arábia Saudita, Austrália, Brasil, Espanha, Irã, Iraque, Itá-
lia, Turquia tiveram escores de 60 a 79.
Os autores (1997, p. 81) chamaram a atenção para alguns
pontos importantes em suas conclusões:
um tema importante a ser pesquisado envolve a pesquisa
futura da estabilidade e das modificações de tais rankings;
pesquisas futuras deverão incluir outros importantes ato-
res geopolíticos não pertencentes apenas ao sistema de estados, como
as corporações multi e transnacionais, organizações não governamen-
tais, entre outras;

239
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

pesquisas poderiam avaliar, também, até que ponto, por


exemplo, esses rankings baseados na importância geopolítica dos paí-
ses são influenciados pelo ensino da geografia política.
Como se pôde observar, pela revisão bibliográfica feita até
agora, já se dispõe, nesse campo de estudo, de sólidos fundamentos
teórico-metodológicos e se observa um interesse acadêmico (ou não)
crescente em relação a esse tipo de pesquisa. Tendo em vista tudo isso
e principalmente os trágicos acontecimentos de 11 de setembro de
2001 nos Estados Unidos, cujos desdobramentos apenas se iniciam,
resolvemos realizar, em Belo Horizonte, uma pesquisa que nos permi-
tisse estabelecer algumas pontes entre as imagens e representações in-
ternacionais das pessoas e a geopolítica mundial.

A pesquisa em Belo Horizonte

Os desdobramentos imediatos dos atentados em Nova York


e Washington serviram para, entre muitas outras coisas, atrair a aten-
ção da sociedade em geral e dos acadêmicos em particular para uma
região de nosso planeta bastante afastada das preocupações cotidia-
nas de grande parte da humanidade, em especial no Ocidente e, parti-
cularmente, no Brasil.
De fato, não se pode dizer que, antes desse 11 de setembro a
Ásia Centro-Meridional (nome genérico atribuído ao espaço que se
estende das ex-repúblicas soviéticas da Ásia Central até o Oceano Indico
e da índia e da China até o Irã e o Mar Cáspio) fosse objeto de interes-
se importante por parte dos brasileiros e mesmo dos acadêmicos.
Se de um lado é verdade que não se deve esperar dos cida-
dãos comuns um bom ou razoável conhecimento de muitas regiões e
áreas da Terra, de outro lado, em função da compartimentação do
saber e da divisão do trabalho acadêmico, pode-se esperar de profes-
sores e estudantes de determinados campos disciplinares um conheci-
mento significativo da superfície terrestre. Fazem parte desse grupo,
em primeiro lugar e em função do próprio nome de sua disciplina, os

o 240
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

geógrafos. A seguir, vêm os praticantes de várias disciplinas afins, como


os historiadores, os profissionais de relações internacionais, os cientis-
tas sociais, os profissionais da diplomacia, os economistas internacio-
nais, os profissionais do direito internacional, os profissionais da co-
municação e vários outros.
Tão logo aconteceram os atentados de 11 de setembro e fi-
cou claro que a etapa subsequente do conflito se realizaria com mais
intensidade no Afeganistão e nos espaços vizinhos da Ásia Centro-
Meridional, decidimos fazer ume estudo que permitisse relacionar dois
domínios da geografia que, embora sólidos e dinâmicos cada um de
per si, têm sido muito pouco interligados: de um lado, os chamados
estudos perceptivos (dentro do movimento humanístico) e, de outro, a
geografia política / geopolítica.

O método

As questões fundamentais que guiaram a realização da pes-


quisa são:
que tipos de conhecimentos os sujeitos objetos do estudo
possuíam sobre a Ásia Centro-Meridional, antes e depois de 11 de
setembro de 2001;
como se formaram e como estão se formando agora os
conhecimentos e, sobretudo, as imagens e representações que esses su-
jeitos possuíam e possuem daquela região;
quais são os principais veículos que os sujeitos têm usado
para se informarem sobre a evolução do conflito e sobre seu primeiro
teatro de operações, que é o Afeganistão e o restante da Ásia Centro-
Meridional;
quais são as principais características, deficiências e lacu-
nas dos mapas mentais que os sujeitos da pesquisa demonstram pos-
suir do Afeganistão e do restante da Ásia Centro-Meridional.

241
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

Para sujeitos dessa pesquisa foram escolhidos 145 estudan-


tes do primeiro período dos cursos de graduação em geografia (uma
turma de 55 estudantes da PUC-Minas e outra, de 50 estudantes do
Unicentro Universitário — UNI-BH) e em Relações Internacionais (uma
turma de 40 estudantes da PUC-Minas).*
Desses 145 estudantes, 15 deixaram de participar, de fato,
da pesquisa, na medida que não preencheram os questionários e ma-
pas mudos que lhes foram submetidos pelo pesquisador. Desse modo,
o número de estudantes que participou efetivamente da pesquisa foi
130, uma amostra bastante significativa se se considerar que o total
dos estudantes no primeiro período dos cursos de geografia e de rela-
ções internacionais em Belo Horizonte é de aproximadamente 400.
Os instrumentos de medida utilizados foram, como já se
mencionou, um pequeno questionário e um mapa mudo. O questio-
nário, além de informações pessoais dos respondentes (o nome do
estudante não faz parte dessas informações), é composto de 5 ques-
tões que cobrem aspectos ligados aos meios de comunicação e outros
que os estudantes vêm utilizando para acompanhar o desenvolvimen-
to do conflito, assim como aspectos geográficos dos países da Ásia
Centro-Meridional. Um espaço em branco foi deixado ao final do
questionário para que os estudantes pudessem expressar livremente
seus pontos de vista pessoais sobre os temas da pesquisa. Uma vez
preenchidos e recolhidos os questionários, um mapa mudo — conten-
do apenas as fronteiras políticas dos países da região e alguns poucos
acidentes geográficos não nomeados (principais cidades e rios) — foi
submetido a todos os estudantes para serem preenchidos sem nenhu-
ma forma de consulta, a fim de se verificar de que se compõem os
mapas mentais que os estudantes possuem daquela macrorregião.
Toda a pesquisa foi, por coincidência, realizada no dia 5 de
setembro, às vésperas do primeiro ataque dos americanos e aliados ao
grupo taleban no Afeganistão. Como é do conhecimento de todos, o
início dos bombardeios americanos ampliou extraordinariamente a
cobertura da região pela mídia mundial e nacional. Certamente a pes-
quisa, caso fosse realizada atualmente (2a quinzena de outubro), for-
neceria resultados diferentes daqueles obtidos em 5 de outubro.

* A não inclusão de estudantes do curso de graduação em Geografia da UFMG deveu-se à


ausência de docentes e discentes daquela Universidade, em razão de uma greve geral.

242
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

Os resultados dos questionários foram tabulados por turma


e, também, considerando-se o total dos estudantes. Embora os resul-
tados por turma, por universidade e por curso de graduação sejam
bastante interessantes, serão apresentados e discutidos aqui apenas os
resultados totais, tendo em vista a pequena dimensão prevista para
este paper.
O tratamento dos mapas mentais foi feito de acordo com a
seguinte técnica:
os mapeamentos utilizados no trabalho se basearam em
metodologias e técnicas de visualização científica (ROSENBAUM,
1994) e nos métodos de mapeamento de superfícies de informação
(GOULD, 1974);
foram produzidos mapas coropléticos de percepção espa-
cial para a variável — percentual de informações percebidas — e em se-
guida esses mapas foram transformados em cartogramas
tridimensionais;
os cartogramas tridimensionais retratam com maior inten-
sidade e precisão a variável escolhida;
os mapas e cartogramas foram gerados em ambiente "GIS"
utilizando-se os programas Arcview e Cview.
Detalhes técnicos de transformações de coordenadas, proje-
ções cartográficas e modelagem matemática podem ser encontrados
em Abreu e Amorim (2001).

Os resultados

A parte introdutória do questionário buscou estabelecer um


perfil dos estudantes pesquisados.
Todos os estudantes residem na Região Metropolitana de
Belo Horizonte, com predominância daqueles que moram no municí-
pio de Belo Horizonte (70%), seguidos por Contagem (12%) e Betim
(2%); outras cidades da RMBH são, também, residências dos estu-
dantes, porém, com percentuais menores.

243
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

A maior parte desses estudantes pertence à faixa de idade


entre 19 e 24 anos (65%).
Em seguida, algumas questões procuraram estabelecer os ní-
veis de experiência internacional dos estudantes, considerando-se que,
em princípio, tais experiências contribuem bastante para a formação
de imagens mais representativas do mundo exterior.
No que concerne aos países estrangeiros já visitados, 66%
dos estudantes informaram nunca terem saído do Brasil. Os demais
estiveram principalmente nos Estados Unidos (14,6%) e em países do
Mercosul (4%). Vários outros países foram visitados, porém em pro-
porção estatística irrelevante. A finalidade das visitas ao exterior foi,
prioritariamente, o turismo (58,1%), em seguida, passeio e estudo
(20%) e, por fim, apenas o estudo (14%). Pouquíssimos estiveram no
exterior a trabalho (2,3%) ou por outros motivos não especificados
(4,7%).
Quanto aos idiomas estrangeiros (outros meios de conheci-
mento privilegiado do mundo exterior) falados e entendidos, 58%
dos estudantes declararam não conhecer suficientemente nenhum;
18,5% falam e entendem o inglês; 11,5% declararam conhecer bem o
inglês e o espanhol. Os demais idiomas mencionados, isto é, francês,
alemão, italiano, japonês e hebraico, não chegam a alcançar percentuais
significativos.
As questões seguintes têm a ver com o conhecimento que os
estudantes declararam ter sobre a macrorregião da Ásia Centro-Meri-
dional. Foram contemplados: os níveis desse conhecimento, como ele
foi obtido e, sobretudo, como ele vem se ampliando após o dia 11 de
setembro.

A situação antes de 11 de setembro de 2001

Um número considerável de estudantes (71,5%) afirmaram


possuir alguma forma de conhecimento sobre a Ásia Centro-Meridio-
nal antes de 11 de setembro de 2001. Porém, apenas 10% deles soube-
ram especificar esses conhecimentos quando solicitados neste sentido.

244
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

E, quando isso foi feito, apenas quatro países foram mencionados


com algum acerto: Paquistão e Afeganistão (31% dos estudantes), Irã
e Iraque (23%). Assim, o que se observa é que, apesar da afirmação de
que havia entre os estudantes um grupo majoritário que possuía co-
nhecimentos sobre a Ásia Centro-Meridional antes de 11 de setembro
de 2001, no momento da especificação desses conhecimentos, apenas
uma pequena proporção desses estudantes fez indicações corretas. Além
disso, mesmo este pequeno número se referiu quase exclusivamente
aos principais países da região, ignorando outros aspectos regionais
importantes, em especial os da geografia física. Entre os países, não
houve, por exemplo, praticamente referência às ex-repúblicas soviéti-
cas da Ásia Central, com exceção de uma — o Cazaquistão — que, por
sinal não chega a fazer fronteira com o Afeganistão.
Indagados sobre as fontes desses conhecimentos pré - 11/09/
2001, a maioria dos estudantes (72,8%) revelou que eles foram obti-
dos nos meios de comunicação. O restante (27,7%) indicou princi-
palmente a escola e alguns poucos falaram de viagens como as fontes
privilegiadas desses conhecimentos. Entre os meios de comunicação, a
televisão (especialmente os telejornais) aparece em primeiro lugar, se-
guida pelas revistas semanais e os jornais, além do rádio. A Internet
também foi indicada como fonte desses conhecimentos. Entre as dis-
ciplinas escolares, geografia, história e religião (nesta ordem) foram as
mais indicadas.

A situação após o 11 de setembro de 2001

Após os acontecimentos de 11 de setembro, a cobertura ma-


ciça da mídia e as repercussões em outras fontes de conhecimento —
em especial na escola — vão provocar um aumento extraordinário das
informações disponíveis sobre o conflito em geral e sobre o Afeganistão
e sua região, em particular.
No que se refere à questão sobre que estudantes possuíam
em 5 de outubro de 2001 (quase um mês depois dos atentados e data
de aplicação dos questionários) alguma forma de conhecimento sobre

245 fok
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

a Ásia Centro-Meridional, o percentual passou de 71,5% (referente


ao período anterior ao 11 de setembro) para 96%, agora.
Mesmo considerando-se que se trata apenas de uma declara-
ção, a mudança, em cerca de um mês, foi bastante significativa. Quando
se tratou, por exemplo, de especificar os conhecimentos sobre a Ásia
Centro-Meridional, os 10% de estudantes — de antes de 11 de setem-
bro — tinham evoluído para 514%, em 5 de outubro. O número de
países mencionados também aumentou, a começar pelo Afeganistão,
anteriormente praticamente desconhecido e que, em 5 de outubro,
passa a ser (sozinho ou em grupos de países) indicado na quase tota-
lidade das referências. Importantes, também, foram as frequências de
indicações do Paquistão, do Irã e do Iraque. Muitos outros países
foram mencionados, desde a costa mediterrânea (Turquia, Síria, Líba-
no e Israel), Península Arábica (Arábia Saudita), até a China e a índia
no leste. Mesmo os países da Ásia Central ex-soviética foram
referenciados em maior número.
No entanto, os aspectos físicos foram, de novo ignorados
em sua quase totalidade; a exceção foi constituída por duas indica-
ções: uma à cadeia montanhosa do Himalaia e uma outra aos rios
Ganges e Indus.
Com relação às fontes de informações sobre o conflito e so-
bre a Ásia Centro-Meridional, os meios de comunicação mais uma vez
lideraram com grande vantagem. E, neste caso, os estudantes detalha-
ram quais foram esses meios: entre as empresas de televisão — mídia
mais utilizada — a Rede Globo aparece com uma liderança incontestá-
vel (25% do total dos estudantes), seguida pela Rede Bandeirantes
(13,1%) e, surpreendente, pela CNN americana (10%).
A Internet também passou a ser bem mais utilizada (21,5%).
No que se refere aos jornais e revistas, o Estado de Minas e
Veja tiveram o maior número de indicações, seguidos pela Folha de S.
Paulo e O Globo e outros jornais mineiros (O Tempo e Hoje em Dia).
Por fim, as disciplinas acadêmicas também tiveram sua im-
portância mais reconhecida, assim como outros eventos universitários
sobre o conflito e o teatro de operações (mesas-redondas, debates,
conferências etc.). Quanto às disciplinas que os estudantes considera-
ram mais importantes no processo de formação de suas imagens e
representações do Afeganistão e de toda a Ásia Centro-Meridional,

246
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

além da geografia (na liderança) e da história, a geopolítica recebeu


muitas indicações. Mas, em síntese, apesar do aumento da importân-
cia dessas disciplinas e de outras atividades acadêmicas, o papel de
maior destaque continua sendo o dos meios de comunicação, com
progressos notáveis (uso crescente da cartografia) mas, também, com
suas deficiências (principalmente a fragilidade das contextualizações
geográficas, históricas e geopolíticas).
Apesar de ter sido oferecida aos estudantes a oportunidade
de se expressaram livremente na parte aberta, ao final do questioná-
rio, poucos fizeram uso dessa prerrogativa. Os comentários se agrupa-
ram em três ou quatro temas: a brutalidade dos atentados de 11 de
setembro; o papel desempenhado por Osama Bin Laden nesses acon-
tecimentos e como líder do fundamentalismo islâmico, e, por outro
lado, recriminações aos Estados Unidos e manifestações de
antiamericanismo.

Os mapas mentais

Para complementar os questionários e, inclusive, para verifi-


car — pelo menos parcialmente — a fidedignidade das informações ne-
les contidas, uma segunda etapa foi incluída na pesquisa: a dos mapas
mentais. Os mapas mudos, distribuídos aos estudantes individualmente,
contemplam a Ásia Centro-Meridional, centralizada no Afeganistão e
alcançando, ao Norte, as ex-repúblicas soviéticas da Ásia Central; ao
Sul, o Oceano Indico; a Oeste, o Iraque e, a Leste, as regiões fronteiriças
da índia e da China. Esse mapa mudo não é totalmente mudo! Opta-
mos por manter os limites políticos dos países (sem que seus nomes
fossem mencionados), pontos referentes à localização das cidades mais
importantes e os traçados seguidos pelos cursos dos principais rios da
macrorregião.
Foi solicitado aos estudantes que identificassem e nomeas-
sem, sem qualquer consulta, os países, as cidades e os aspectos físicos
(rios importantes) presentes nos mapas. Assim, esses mapas mudos
apresentavam menos dificuldades de preenchimento do que as folhas

247
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

em branco utilizadas nas pesquisas de Saarinen. Os estudantes foram,


ainda, estimulados a incluir no mapa mudo quaisquer outros aspec-
tos geográficos e geopolíticos que lhes parecessem significativos. Fo-
ram-lhes concedidos 20 minutos para a elaboração da resposta.
Apesar de um número importante de localizações errôneas e
de largos espaços deixados em branco, os principais países da região —
no que se refere ao conflito ora em curso — foram identificados:
Afeganistão, Paquistão e Irã foram os países mais presentes nos mapas
mentais. Aparecem a seguir, mas com frequência e grau de acerto me-
nores, países como o Iraque, a índia e a China. Com indicações corre-
tas bem menos numerosas aparecem a Turquia e a Síria. Por fim, com
pouquíssimas referências, estão as ex-repúblicas soviéticas do
Uzbequistão, Turcomenistão, Tadjiquistão e Cazaquistão. O
Quirguistão, que também pertence a este último grupo de países, não
chegou a ter nenhuma indicação.
Quanto às cidades, o número de indicações corretas foi mui-
to pequeno e limitado a algumas poucas capitais: Cabul, Islamabad,
Teerã e Bagdad.
Quanto aos acidentes da geografia física, quase não houve
identificações corretas: os rios Indus, Tigre e Eufrates foram os únicos
que tiveram referências e localizações corretas, porém em número es-
tatisticamente irrelevante. Outros aspectos físicos importantes para a
região, como as cadeias montanhosas do Hindu-Kuch, Tian-Chan e
Himalaia, ou os desertos de Karakum, Salgado e Taklamakan ou, ain-
da, os rios Amu-Darya e Sir-Darya, não chegaram sequer a ser menci-
onados.

Considerações finais

Ao final deste trabalho, embora breve, torna-se necessário —


particularmente para a comunidade de geógrafos — enfatizar algumas
constatações e fazer algumas reflexões, no sentido de repensarmos o
papel de nossa disciplina na realidade paradoxal em que vivemos hoje
em dia, marcada pelo forte movimento unificador e integrador da

o 248
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

globalização econômica, que se choca com vários tipos de resistências,


algumas também globalizadoras, outras regionais e paroquiais.
Um primeiro aspecto é o importante desenvolvimento da
corrente geográfica chamada humanística, que vem levando os
geógrafos a explorarem novas fronteiras temáticas e a explorarem novas
relações interdisciplinares. Entre essas relações, que já foram predomi-
nantes com a psicologia, vem se destacando, recentemente, o inter-
câmbio com a geografia cultural e com a geopolítica, na medida que
ambas passaram a privilegiar, cada vez mais, temas como as religiões,
as etnias, os valores nacionais, as percepções, os aspectos simbólicos,
principalmente dos lugares, monumentos, paisagens e territórios.
Do ponto de vista perceptivo, essa evolução leva a um aumen-
to da importância das imagens e representações que os diferentes grupos
humanos vão construindo das paisagens, dos países, regiões e grandes
espaços que compõem a superfície da Terra. Isso coincide com o apareci-
mento de uma nova fase de expansão de grandes orientações cultural-
religiosas, às vezes sob formas bastante extremadas, em que se entrecho-
cam doutrinas, ensinamentos, princípios orientadores, modos de vida,
caracterizando talvez o que Huntington (1996) chamou de "choque de
civilizações". O que se tem como resultado é uma verdadeira guerra de
propaganda permanente em escala universal.
Assim, o estudo das percepções, imagens e representações —
principalmente quando elas são coletivas — cria uma nova e crucial
dimensão na análise geopolítica das disputas, dos focos de tensão,
dos conflitos e das guerras.
No que concerne à pesquisa objeto do presente paper e reali-
zada em Belo Horizonte, algumas observações gerais devem ser feitas:
a escolha de uma amostra composta por estudantes uni-
versitários se deu tendo em vista as facilidades da pesquisa e pela cren-
ça de que tais estudantes representam uma camada, em princípio, mais
esclarecida da sociedade;
apesar disso, esse grupo de estudantes demonstrou, em bom
número, não possuir um conhecimento satisfatório da região em que
se desenrola atualmente o conflito, principalmente se recuarmos nos-
sas indagações para o período anterior ao dia 11 de setembro de 2001;
as informações contidas nas respostas aos questionários
distribuídos permitiram constatar que, infelizmente, o ensino escolar

249
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

(secundário ou universitário) não tem desempenhado o papel que dele


se poderia esperar na formação manutenção e ampliação dos mapas
mentais dos estudantes sobre quase toda a Ásia. Sem querer fazer ou-
tras generalizações — não autorizadas pela presente pesquisa — pode-
mos, contudo, levantar a hipótese de que aquilo que se verificou para
a Ásia Centro-Meridional tem a probabilidade de estar se repetindo
para outras regiões do planeta. E isso é tanto mais preocupante quan-
to hoje sabemos que mapas mentais bem estruturados sobre as várias
regiões do mundo e do Brasil se colocam entre os mais importantes
quadros conceituais necessários à transformação de informações de
base geográfica (extremamente numerosas atualmente) em conheci-
mentos estáveis (poucos, hoje em dia, quando comparados ao volume
de informações disponíveis);
outra constatação evidente foi a do papel impressionante
e irreversível dos diferentes meios de comunicação na formação, ma-
nutenção e ampliação de nossos mapas mentais. Porém, essa imensa
disponibilidade de informações traz, em seu bojo, pelo menos três
questões preocupantes: a banalização dessa infinidade de informa-
ções; seleções inadequadas, por parte do cidadão, das informações de
fato relevantes em função da carência de quadros conceituais sólidos
(entre eles os de caráter geográfico) e, por fim, o risco de ser vítima de
um excesso de manipulação dessas informações, cujo único antídoto
eficiente é o desenvolvimento do espírito crítico.
No que se refere ao paradoxo criado pela disponibilidade es-
pantosa de informações sobre o mundo inteiro na atualidade e a fragili-
dade dos mapas mentais (principalmente regionais) dos cidadãos e até
mesmo dos professores e estudantes de geografia, a situação se deve pos-
sivelmente, no caso do Brasil, a algumas tendências verificadas no ensi-
no dessa disciplina nos últimos 10 ou 15 anos: o predomínio bastante
forte de um ensino alinhado com apenas uma orientação paradigmática
da geografia; a negligência em relação ao ensino da geografia física em
favor de uma maximização da geografia humana; a negligência — na
verdade, o desaparecimento quase completo de sala de aula e dos livros
didáticos — da geografia regional, em termos da caracterização e da des-
crição das macrorregiões do mundo; descaso — quando não abandono
completo — de práticas cartográficas e, até mesmo, do uso de atlas, como,

250
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

também, das técnicas de tratamento computacional das informações


geográficas (geoprocessamento — SIG).
É verdade que, muito recentemente (algo em torno de cinco
anos), vem se observando uma reação, inclusive nos livros didáticos,
a essa postura pedagógica danosa para a unidade e para a riqueza da
abordagem geográfica. Mas, muito tempo ainda vai passar até que os
jovens estudantes de hoje possam ter nos livros de geografia e em sala
de aula o embasamento epistemológico e a prática metodológica e
técnica que lhes permitam, de um lado, formar e manter os conceitos
e os mapas mentais indispensáveis à assimilação e à transformação da
pletora de informações sobre o mundo e suas regiões em conhecimen-
to válido cientificamente e relevante socialmente, e, de outro, à am-
pliação de uma visão do mundo e de suas partes, necessária ao cidadão
e tomador de decisões do futuro.

Referências

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SAARINEN, Th. F. Environmental planning: perception and behavior. Prospect Heights,
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251
,
POR UMA GEOGRAFIA DO SAGRADO

Sylvio Fausto Gil Filho

Introdução

A abordagem geográfica da religião conota a tendência cres-


cente de condicionar a análise do sagrado aos parâmetros da análise
espacial, na medida em que aparece uma certa resistência dos geógrafos
da religião de ir além da análise estrutural do fenômeno religioso. Tal
desconfiança reside no fato de que o fenômeno religioso, como tal,
está além de suas implicações espaciais imediatas. Ao prender o fenô-
meno religioso a uma rede de distâncias possíveis, o colocamos nos
ditames do espaço geométrico e o cristalizamos em relações puramen-
te locacionais.
Todavia, a apreensão conceitual de uma geografia da religião
emerge de historiadores da Igreja e não de geógrafos Neste sentido, a
geografia da religião seria uma análise e descrição do fenômeno religi-
oso em termos da ciência geográfica (BARRET, 1982). Esta perspecti-
va possui certa ambiguidade por ser muito genérica, permitindo todo
e qualquer tipo de estudo. Sendo assim, geógrafos como Isaac (1965)
e Stump (1986) apud Park (1994) distinguiram duas abordagens pos-
síveis:
1 Uma geografia religiosa, focada na influência da religião
na percepção do homem sobre o mundo e a humanidade, que essenci-
almente concerne ao âmbito teológico e cosmológico.
2 Uma geografia das religiões que remete aos efeitos e rela-
ções da religião com a sociedade, meio ambiente e cultura. Sob este

253
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

ponto de vista, a religião é estritamente uma instituição humana. Sendo


assim, o que se evidencia são as suas relações com os vários elementos
humanos e físicos.
A segunda abordagem tende, atualmente, a ser hegemônica.
Justamente neste cenário construímos a crítica. Ao reduzir a religião
somente a uma instituição humana, cumprimos o papel de qualificá-
la per se sob dois pressupostos: como sistema simbólico ou como ide-
ologia.
Na primeira hipótese, a religião é projeção simbólica e con-
dição que permite de forma dissimulada a coerência das relações soci-
ais. Como definiu Geertz (1989), "um sistema simbólico que atua
para estabelecer poderosas, penetrantes e duradouras disposições e mo-
tivações nos homens através da formulação de conceitos de uma or-
dem de existência geral e vestindo essas concepções com tal aura de
fatualidade que as disposições e motivações parecem singularmente
realistas" (p. 104-105).
Na segunda hipótese, a religião é uma projeção distorcida da
realidade, que cumpre a função de manutenção da coerência social,
sob o ponto de vista daqueles grupos que exercem o poder. Desse
modo, "só existe prática através de e sob uma ideologia e só há ideo-
logia pelo sujeito e para o sujeito" (ALTHUSSER, 1992). Neste senti-
do, a ideologia religiosa é destinada aos indivíduos e os transforma
em sujeitos. Sendo assim, o discurso religioso os interpela como sujei-
tos concretos e os coloca diante da escolha entre aceitar ou não este
comando. Todavia, quem profere o comando é um Sujeito Único e
Transcendente, ou seja, Deus. Na abordagem althusseriana, a religião
ao transformar os indivíduos em sujeitos concretos diante de um Su-
jeito absoluto se faz ideologia, pois reproduz uma infinidade de sujei-
tos submetidos a essa relação. Tal relação permite o reconhecimento
dos próprios indivíduos enquanto sujeitos, do Sujeito Absoluto e a
perpetuação desse reconhecimento mútuo.
Reconhecer a religião apenas como sistema simbólico ou como
ideologia é subestimá-la no seu aspecto mais legítimo e essencial — a
sua sacralidade.

254
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

Concordamos que nas circunstâncias mais abrangentes de


análise para as ciências humanas "Religião é a experiência do Sagra-
do" (OTTO, 1992). Como comenta Wach (1990), este conceito con-
cede um caráter objetivo da experiência religiosa que se contrapõe a
teorias psicológicas de caráter mais subjetivo e individual, abrindo-se
para a dimensão social do sagrado.

O sagrado enquanto categoria

O sagrado, para Otto (1992), é uma categoria de interpreta-


ção e avaliação a priori, e como tal, somente podemos remetê-la ao
contexto religioso. A teoria do sagrado de Otto nos permite resguar-
dar um atributo essencial para o fenômeno religioso, ao mesmo tem-
po que o torna operacional. Nesta abordagem, o sagrado reserva as-
pectos dito racionais, ou seja, passíveis de uma apreensão conceptual
por meio de seus predicados e aspectos não racionais que escapam à
primeira apreensão, sendo estes exclusivamente captados enquanto
sentimento religioso. O não racional é o que foge ao pensamento
conceptual por ser de característica explicitamente sintética e só é as-
similado enquanto atributo. Neste patamar reflexivo está o âmago da
oposição entre o racionalismo e a religião.
O caráter próprio do pensamento tradicional diante do fe-
nômeno religioso é o de reconhecer aquilo que por um momento não
obedece às leis da natureza. Esta intervenção no andamento natural
das coisas, feita pelo transcendente, que é o autor dessas leis, apresen-
ta-se como uma tese apriorística. Ou seja, resta saber se a própria orto-
doxia não foi responsável em velar o elemento não racional da reli-
gião ao enfatizar em demasia o estudo de aspectos doutrinários e ritu-
ais e menosprezar os aspectos mais místicos e essenciais da experiência
religiosa. Otto concorda com esta assertiva. O contexto cultural reli-
gioso do seu trabalho justifica esta premissa.
Tornando a ideia de Deus como totalmente racional, a orto-
doxia aponta para estudos da experiência religiosa enquanto repre-

255
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

sentação humana, e como tal toma a religião em seu caráter pura-


mente racional.
Para Otto (1992) "...a religião não se esgota nos seus enun-
ciados racionais e a esclarecer a relação entre os seus elementos..."
(p.12). Esta motivação nos envolve especialmente com a categoria do
sagrado, o que garante de forma peculiar uma análise abrangente do
fenômeno religioso.
A análise da experiência do sagrado remete a um atributo
imanente do sentimento religioso. Pelo sentimento religioso qualifi-
camos e reconhecemos o sagrado em sua exteriorização.
Entretanto, se o sagrado é único enquanto categoria, para-
doxalmente ele é plural enquanto fenômeno. O sagrado per se é ex-
clusivamente explicado em sua própria escala, ou seja, a escala religi-
osa. Todavia, no plano fenomênico, ele se apresenta em uma diversi-
dade de relações que nos possibilita estudá-lo à escala das ciências
humanas.
Podemos conceber quatro instâncias analíticas possíveis do
sagrado:
1 A primeira refere-se a sua materialidade fenomênica, a
qual é apreendida por meio dos nossos instrumentos preceptivos ime-
diatos. Refere-se à exterioridade do sagrado e sua concretude.
2 A segunda é a apreensão conceptual por meio da razão,
pela qual concebemos o sagrado pelos seus predicados e reconhece-
mos a sua lógica simbólica. Sendo assim, o entendemos enquanto sis-
tema simbólico e projeção cultural. Trata-se de uma possibilidade muito
presente na análise filosófica e antropológica.
3 A terceira possibilidade nos remete à tradição e à natureza
arquetz'pica do sagrado enquanto fenômeno. Neste sentido, o reco-
nhecemos através das Escrituras Sagradas, das Tradições Orais Sagra-
das e dos Mitos, sendo este o enfoque teológico dos especialistas da
religião.
4 A quarta possibilidade de reconhecimento do sagrado nos
remete ao sentimento religioso, seu caráter transcendente e não racio-
nal. É uma dimensão de inspiração muito presente na experiência
religiosa. É a experiência do sagrado per se. Esta dimensão escapa à
razão conceptual em sua essência e é reconhecida pelos de seus efeitos.

256
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

Trata-se daquilo que qualifica uma sintonia entre o sentimento religi-


oso e o fenômeno sagrado.

A especialidade do sagrado

Na lembrança de Merleau-Ponty (1993),


...o espaço não é um meio contextual (real e lógico) sobre o qual as coisas estão
colocadas, mas sim o meio pelo qual é possível a disposição das coisas. No lugar
de pensarmos o espaço como uma espécie de éter onde todas as coisas estariam
imersas, devemos concebê-lo como o poder universal de suas conexões (p.
258).

Nesta perspectiva, o espaço é de caráter relacional e sob este


aspecto é de natureza dinâmica.
Guardadas as devidas proporções, o qualitativo de sagrado
na tipologia de determinados espaços nos coloca diante de uma ques-
tão importante, a saber: o espaço sagrado é uma categoria analítica
autônoma particular ou é parte de um sistema classificatório e como
tal é universal?
O par antípoda particular e universal não é uma razão de
escala, mas sim uma razão de natureza. Quando discutimos sobre o
sagrado, apontamos a sua natureza singular e ao mesmo tempo plu-
ral. Singular na medida em que é específico e único em sua expressão;
no entanto, é plural e diverso em sua experiência.
Eliade (1995) refere-se ao espaço sagrado como poderoso e
significativo e como tal é estruturado e consistente; em contrapartida,
o espaço não sagrado é amorfo e vazio. No que tange ao homem
religioso, o espaço é pleno de rupturas qualitativas. Mais precisamen-
te, é na experiência do sagrado que o homem descobre a realidade do
mundo dos significados e a ambiguidade de todo o resto.
Para Eliade, a experiência religiosa do espaço se apresenta
como primordial e, neste sentido, é o marco referencial da própria
origem do mundo. Quando o sagrado manifesta-se, ele expressa o
absoluto em meio à completa relatividade da extensão que o envolve.

257
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

Na discussão do autor, a dualidade sagrado e profano perfaz


o entendimento da realidade. Se não conseguimos dizer o que é o
sagrado em sua plenitude nós podemos caracterizar o que não é. Quan-
do a análise parte da negação do que seja o sagrado passamos a reco-
nhecer o profano.
Nesta reflexão, não reservamos uma autonomia ao profano,
pois confirmando a plena significação do sagrado, o profano seria
apenas transição; o não sagrado é inteligível porque existe o sagrado.
O mundo pode ser regionalizado em três instâncias: sagrado, não
sagrado e o profano como transição.
Os fenômenos podem ser percebidos pela sua materialidade
através dos sentidos, entretanto, quando concebemos uma realidade a
esta conferimos uma existência puramente intelectual. A realidade
intelectual não é sensível per se. Sendo assim, os qualitativos e adjeti-
vos de um fenômeno fazem parte deste âmbito, o mundo dos atribu-
tos e da nomeação. Do mesmo modo, as realidades do mundo da
existência não são intrinsecamente não sagradas. Em muitas culturas
religiosas a realidade sensível é inerentemente sagrada, na medida em
que faz parte do mundo da natureza. Por exemplo: na cultura religi-
osa zoroastriana, desde o século V a.C. até a sua expressão tardia na
Pérsia e índia, os elementos da natureza, a terra, a água e o fogo são
inerentemente sagrados. Nas culturas religiosas africanas, como a cul-
tura Iorubá, os elementos da natureza possuem uma sacralidade
indissociável.
Contudo, na cultura judaico-cristã houve uma ruptura. Nesta
perspectiva, condicionou-se a sacralidade a uma ação externa de con-
sagração do mundo. A realidade do mundo a priori é de natureza
profana. Este ato de poder na consagração do mundo reveste-se de
uma áurea institucional reservada ao clero. Somente o clero teria a
unção necessária para estabelecer o sagrado. Sendo assim, um mono-
pólio institucional do sagrado se estabelece, pois a não sacralidade
imanente do mundo na tradição judaico-cristã transforma-se em um
capital simbólico indisponível para o leigo.
Retornando à nossa tese da não autonomia do não sagrado
e do profano, enquanto categoria da geografia do sagrado, aludimos
que o sagrado seria a realidade primeira da análise. A esta realidade
atribuímos a plena autonomia, submetendo o não sagrado e o profa-

258
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

no a uma existência apenas na relação. Por conseguinte, o não sagra-


do e o profano só existem em relação ao sagrado e sem esta referência
torna-se apenas o nada.
Outrossim, se classificamos o espaço sagrado como centro
do "sistema mundo", como na abordagem de Eliade, conferimos ao
mesmo a noção de "ponto fixo", lugar de mediação entre a terra e o
céu. Neste contexto, fornecemos ao espaço um atributo de rigidez,
como algo já dado, já posto, palco da trama humana, inclusive em
sua dimensão religiosa. Todavia, se espaço é relacional, ele é parte
indissociável do processo de sacralização do mundo e não apenas seu
receptáculo. O espaço não é a cristalização do fenômeno, mas parte
das possibilidades relacionais do mesmo. Sendo assim, construímos
imagens do espaço e atribuímos a elas as representações de nossa exis-
tência.
Lembrando a análise de Bachelard (1989) do poema de Henri
Michaux:
o espaço, mas você não o pode conceber, esse horrível inte-
rior-exterior que é o verdadeiro espaço.
Algumas (sombras), retesando-se pela última vez, fazem um
esforço desesperado para estarem em sua única unidade.
[...] destruída pelo castigo, ela não era mais que um ruído,
mas enorme.
Um mundo imenso ainda a ouvia, mas ela já não existia,
transformada apenas e unicamente num ruído, que ia rolar
séculos ainda, mas fadada a extinguir-se completamente,
como se nunca tivesse existido (p. 220).

O grito, o rumor de quem perdeu sua espacialidade, no de-


sespero da dispersão do ser, do que resta apenas uma faina que ecoa
no espaço e no tempo. O espaço do interior se dissolve e o espaço do
exterior deixa de ser o vazio. A reflexão fenomenológica de Bachelard
(1989) indica para a imagem e sua efemeridade.
O que se evidencia aqui é que o aspecto metafísico nasce no próprio nível da
imagem, no nível de uma imagem que perturba as noções de uma espacialidade
comumente considerada capaz de reduzir as perturbações e de devolver o
espírito à sua posição de indiferença diante de um espaço que não tem dramas
a localizar (p. 221-222).

259
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

No dualismo interior/exterior está o dilema da imagem do


espaço, onde termina o íntimo e interno e aflora a amplitude do ex-
terno. O poeta citado justapôs a claustrofobia e a agorafobia. A ago-
nia das incertezas do íntimo e a opressão ampliatiforme do espaço.
A nossa intenção de resgatar a reflexão da "Poética do espa-
ço" é ligá-la ao qualitativo sagrado que impregna de significados as
imagens do espaço. Projeta uma ordem simbólica do mundo e possi-
bilita o contraponto entre angústia e serenidade do interior e entre a
opressão e a liberdade do exterior. A dinâmica do espaço sagrado rei-
tera a transcendência própria da experiência religiosa. O espaço sagra-
do é a imagem da experiência religiosa cotidiana, assim como sua
própria referência.
Na intenção de demonstrar a dinâmica relacional do espaço
sagrado, lembramo-nos da obra de Domenicos Theotokopoulos (1541-
1614), apelidado de El Greco, especialmente o afresco conhecido como
O Enterro do Conde de Orgaz, de 1586, que está na Igreja de São
Tomé, em Toledo, Espanha. Nesta obra, El Greco demonstra o seu
misticismo da Contra-reforma de raiz neoplatônica; trata-se de uma
expressão de dinâmica religiosa permeada de representações devida-
mente articuladas horizontalmente (a imanência do sagrado) no mun-
do fenomênico, porém impregnados de significados próprios do mun-
do transcendente demonstrando sua articulação vertical (a
transcendência do sagrado).

260
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

FIGURA 1 - O ENTERRO DO CONDE DE ORGAZ

FONTE: Mark Harden's Artchive 2000.

O que observamos no afresco é uma dinâmica relacional que


pode ser analisada na seguinte decomposição:

261
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

1 No plano inferior, reconhecemos o corpo do Conde de


Orgaz sendo colocado em sua tumba. O primeiro plano é do corpo
que expressa a efemeridade da matéria que agora está sem vida. Re-
presenta, em nossa perspectiva, a primeira relação, própria da
espacialidade. A dimensão do corpo que na condição de morte trans-
forma as relações do cotidiano. Representa uma nova rede de relações
não justificáveis quando em vida e o colocando no patamar das rela-
ções religiosas. A morte representa a base radical da espacialidade do
sagrado. Ela nos demonstra a plena consciência do transitório, do
material, do contingente. A concretude da morte do homem edifica as
relações de transcendência próprias da religião. Um aspecto
determinante da representação social da religião é a superação da
morte, sendo suas expressões presentes na espacialidade do sagrado.
2 O segundo plano representado no afresco demonstra a
ação institucional da religião por meio dos sacerdotes em uma hierar-
quia visível. Lembrando Bourdieu (1998), os sacerdotes representam
aqueles que são consagrados ao ofício religioso, detentores do capital
simbólico que legitima a ação. Enquanto um ampara o corpo do
Conde, outro pede pela sua alma. O sacerdote assume o papel para o
qual foi consagrado, ou seja, a intermediação entre a Terra e o Céu.
3 O terceiro plano remete àqueles que observam a ação dos
sacerdotes e expressam o pesar pelo morto. Diante dos leigos que fa-
zem parte como observadores da trama é a investidura do sacerdócio
que legitima a ação. Nesta situação, o corpo sacerdotal exerce o poder
final da teia de relações, pois aos olhos dos leigos eles podem garantir
ao falecido a sua transcendência. A relação dos amigos e familiares do
Conde com o contexto da ação sacerdotal reitera a supremacia sim-
bólica da instituição Igreja. De outro modo, uma relação mais banal
se apresenta, que é a espacialidade social que o contexto do enterro
estabelece. Toda uma representação do cotidiano se realiza; no entan-
to, a despeito destas relações não sagradas do entorno, estabelecem-se
relações próprias de transcendência, portanto sagradas. Neste ponto
aparece o quarto plano.

262
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

4 O quarto plano é a parte superior do afresco que represen-


ta a certeza da transcendência própria do espírito da fé despertada
pelo sentimento religioso. Assim, o artista expressa a representação do
céu com todos os componentes do imaginário cristão. Neste plano, o
sagrado é representado a partir da tradição religiosa, na qual toda a
trama se desenvolve. Toda esta rede de relações permite identificar
uma espacialidade específica própria da experiência do sagrado.
O afresco expressa uma teia de relações específica que sim-
bolicamente permeia a experiência do sagrado, mais propriamente na
cultura ocidental. Entretanto, as categorias da trama podem ser con-
sideradas universais.

Dimensões da geografia do sagrado

Neste intuito, uma geografia do sagrado não é a considera-


ção pura e simples das espacialidades dos objetos e fenômenos sagra-
dos e, por conseguinte, de seu caráter locacional; mas sim, sua matiz
relacional. A geografia do sagrado estaria muito mais afeta à rede de
relações em torno da experiência do sagrado do que propriamente às
molduras perenes de um espaço sagrado coisificado.
A partir destas premissas, propomos as seguintes dimensões
de análise:
1 A dimensão do homem em sua natureza individual, como
primeira dimensão da prática espacial, correspondente à phisis social
realizada no âmbito religioso. Nesta dimensão, a expressão dos atores
sociais no momento da trama são as respostas diretas de uma dinâmi-
ca espacial e temporal. A coincidência da trama dos atores sociais com
a expressão da religião em determinada temporalidade é um dado
histórico, porém sempre em transição. A prática e o discurso que se
configuram e o contexto em que eles aparecem só é inteligível dentro
dos limites da experiência institucional da religião.

263 o
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

2 A dimensão social ou da organização apresenta-se nesta


rede de relações na medida em que a integração entre o discurso e o
contexto assume um plano de correlações análogas. A mediação dos
consagrados a proferirem o discurso, representa, nesta dimensão, os
responsáveis pela comparação autorizada, pela classificação compe-
tente e pela construção da imagem de mundo pela qual se pretende
dizer alguma coisa. Nesta dimensão, observa-se um sistema de rela-
ções que põe em relevo as divisões, as classes, as subordinações e o
julgamento diferenciado.
3 A terceira dimensão é a da instituição propriamente dita,
a qual se realiza como ator da própria história por excelência e sub-
mete as pluralidades da dimensão anterior e expressa-se na fluidez
vertical do poder hierárquico. O espaço de representação constituído
ao nível das relações sociais e de organização é diverso e plural em sua
gênese. É subvertido pelas relações de poder e dos atores que a exer-
cem. A instituição é o reino do controle do grupo, do indivíduo e do
dizer. Constitui, assim, uma territorialidade na qual o agente princi-
pal é a própria instituição religiosa.

Referências

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Elementos de Epistemcdogia da Geografia Contemporânea

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WACH, J. Sociologia da religião. São Paulo: Paulinas, 1990.

265
OS AUTORES

Paul Claval
Doutor em Geografia e professor da Universidade de Paris
W- Sorbonne Pantheon. Recebeu, em 2001, a condecoração da Legion
d' Honneur da República Francesa pela sua contribuição ao desenvol-
vimento do conhecimento cientifico.

Ruy Moreira
Doutor em Geografia Humana pela Universidade de São
Paulo. Atualmente é professor associado da Universidade Federal
Fluminense.

010 Eliseu Savério Sposito


Doutor em Geografia e Professor Titular do Departamento
de Geografia da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade
Estadual Paulista, cam pus de Presidente Prudente — SP.

Luis Lopes Diniz Filho


Doutor em Geografia e professor do Departamento de Geo-
grafia da Universidade Federal do Paraná.

Dirce Maria Antunes Suertegaray


Doutora em Geografia e professora do Departamento de
Geografia — Instituto de Geociências da Universidade Federal do Rio
Grande do Sul.
Francisco Mendonça

Doutor em Geografia e professor titular do Departamento


de Geografia e do curso de Doutorado em Meio Ambiente e Desen-
volvimento da Universidade Federal do Paraná. Foi professor visitan-
te na Universidade de Paris I — Sorbonne Pantheon.

Valter Casseti

Doutor em Geografia Física pela Universidade de São Paulo.


Atualmente presta consultoria na área ambiental.

Naldy Emerson Canali

Doutor em Geografia e professor senior-bolsista da Univer-


sidade Federal do Paraná.

Livia de Oliveira

Doutora em Geografia e professora voluntária titular do


Departamento de Geografia do Instituto de Ciências Exatas da Uni-
versidade Estadual Paulista — cam pus de Rio Claro — SP.

Zeny Rosendahl

Doutora em Geografia e professora do Departamento de


Geografia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro — UERJ.

Salete Kozel

Doutora em Geografia e professora do Departamento de


Geografia da Universidade Federal do Paraná.

Oswaldo Bueno Amorim Filho

Doutor em Geografia e professor titular aposentado do De-


partamento de Geografia da Universidade Federal de Minas Ferais. É
atualmente professor de Departamento de Geografia da Pontifícia Uni-
versidade Católica de Minas Gerais.
40 João Francisco de Abreu

Doutor em Geografia e professor titular do Departamento


de Geografia da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais.

Sylvio Fausto Gil Filho

Mestre em Geografia, doutor em História e professor do


Departamento de Geografia da Universidade Federal do Paraná.
A profunda crise que se vivencia na fase contemporânea
da modernidade desperta questionamentos e desafia os
intelectuais a identificar os marcos dessa crise e a
compreender o processo em curso. Especificamente aos
geógrafos, cumpre perceber as repercussões na
estruturação e organização do espaço, objetivando
delinear cenários da realidade futura.
Esta obra registra discussões aprofundadas acerca dos
reflexos espaciais da atual crise histórica e contribui para
o avanço da epistemologia da geografia.

série

9 85 3