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A CREDIBILIDADE DA INFORMAÇÃO NO JORNALISMO COLABORATIVO

Felipe Juliano Cardoso 1

RESUMO Este artigo avalia o novo rumo que o jornalismo vem tomando após a consolidação da internet como ferramenta básica da imprensa, e destaca suas mudanças com o surgimento do jornalismo cidadão e a participação do leitor no processo de democratização da informação. Tendo como apoio principal a pesquisa bibliográfica, apresenta conceitos ligados a estudos sobre o fenômeno do jornalismo participativo e sua plataforma principal, a internet, desde seu surgimento até a criação dos blogs e jornais on-line. A partir da análise de modelos de jornalismo cidadão com base em suas funcionalidades e ferramentas, a pesquisa expõe aspectos da credibilidade da informação e o comportamento de ambas as partes - jornalista e leitor - na construção da notícia e disseminação das informações na rede. A análise desta proposta tende ainda a contribuir com futuras pesquisas que visem estudar a relação dos sites de jornalismo com o público, bem como avaliar o comportamento dos profissionais de comunicação na recepção de notícias prontas e matérias concebidas pelo cidadão-repórter. Palavras-chave: Jornalismo cidadão. Participação do leitor. Credibilidade da notícia.

ABSTRACT This article evaluates the new direction that journalism is taking after the consolidation of the internet as a basic tool of the press, and highlights their changes with the emergence of citizen journalism and reader participation in the process of democratization of information. Having as main support the research literature, presents concepts related to studies on the phenomenon of participatory journalism and its main platform, the Internet, since its inception until the creation of blogs and digital newspapers. From the analysis of citizen journalism´s models based on their features and tools, the research presents aspects of the credibility of the information and the behavior of both parties - journalist and reader - in the construction of news and information dissemination network. The analysis of this proposal still tends to contribute to future research aimed at studying the relationship of journalism Web sites with the public, as well as evaluating the behavior of media professionals in receiving news and ready materials designed by the citizen reporter. Keywords: Citizen journalism. Participation of the reader. Credibility of the news.

Bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela Unisul e Especialista em Jornalismo Digital pelo Centro Universitário Internacional Uninter – e-mail: felipejcardoso@gmail.com

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Introdução

A participação dos web-leitores na pesquisa e até na produção de notícias mudou a maneira com que as informações são tratadas e veiculadas. Por este motivo nos últimos anos houve uma adaptação gradativa no perfil das empresas, nas redações, nos jornalistas e também nas próprias publicações. Desde o começo deste século o jornalismo on-line investe na publicação da informação, aproveitando o espaço ilimitado da web, para amparar a notícia nos mais diversos meios, como vídeo, áudio, galeria de fotos e infográficos, porém a participação do público é a grande novidade na rotina deste jornalismo digital. Esta mudança obrigou então os profissionais de comunicação a conviver com leitores, ouvintes, internautas e até telespectadores numa linguagem composta pela construção da notícia baseada na troca on-line e instantânea de informações. Visando facilitar o envio de materiais e a ampliação da cobertura jornalística, os portais disponibilizam as ferramentas e os meios pelos quais as notícias são canalizadas e compartilhadas entre jornalista e fonte. Estas ferramentas, na sua maioria, constituem formulários com campos específicos, que proveem ambiente para a inserção de arquivos, além de espaço para a postagem de textos, créditos etc., fazendo com que a participação do leitor na produção de conteúdo informativo digital esteja cada vez mais facilitada na internet. Devido à influência do grande espaço aberto aos leitores de grandes portais de conteúdo, a imprensa vem recebendo informações e publicando notícias provenientes de pessoas comuns e até certo ponto desconhecidas, pois o que se sabe a respeito do indivíduo colaborador são apenas informações básicas, relatadas por meio de cadastro prévio no site no qual se pretende veicular a notícia. As matérias enviadas podem então conter informações descontextualizadas, incompletas e até mesmo inverídicas. Sendo assim torna-se imprescindível debater sobre a importância da necessidade da apuração dos fatos procedentes destas fontes e o papel de equipes especializadas na checagem das informações, seja na lapidação da matéria enviada pelos leitores ou na relação entre imprensa e público.

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1. O Jornalismo on-line e o surgimento dos blogs

Os primeiros passos da rede mundial de computadores foram dados no Pentágono, em Washington, Estados Unidos. A Corrida espacial e a necessidade de experiências militares para alcançar novas soluções potenciais fizeram com que os americanos desenvolvessem a técnica de ligar os computadores em redes de comunicação na década de 1960. Mas foi somente no início dos anos 80 que a Internet começou a ser estudada com mais veemência em algumas instituições norte-americanas (MOURA, 2002, p. 16-17). Embora o fenômeno da informação pela internet possa ser considerado um fato de repercussão atual, há mais de 40 anos os jornais já possuíam recursos tecnológicos capazes de oferecer uma cobertura mais ampla em relação aos periódicos impressos. A prova disso é que em 1970 o jornal americano The New York Times já oferecia serviços on-line com o New York Times Information Bank. O jornal passou a disponibilizar resumos e textos completos de artigos atuais e artigos de suas edições passadas, utilizando um sistema de recuperação de informação para os assinantes que possuíam pequenos computadores (MOHERDAUI, 2002, p. 21). No Brasil as conexões globais deram seus primeiros passos no final dos anos 80 com a criação de órgãos reguladores. Segundo análise de Moura (2002, p. 21-22), em meados de 1988, o Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC), do Centro Nacional de Pesquisas (CNPq), efetuou as primeiras conexões com redes de outros países com a ajuda de universidades norte-americanas. Em 1990 um membro da Coordinating Committee for International Research Networks (CCIRN) esteve no Brasil para viabilizar a instalação de conexões com os Estados Unidos e auxiliar a implantação de redes no País, ligando 11 capitais brasileiras. No final de 1994 o Governo Federal decidiu que a Embratel e a Rede Nacional de Pesquisas (RNP) seriam as responsáveis pela exploração comercial da internet. Em 1995, é criado o Comitê Gestor da Internet para traçar os rumos da implantação e uso da Rede no Brasil. Também surge neste ano o primeiro webjornal brasileiro, o JB On-line2. Quando os jornais se tornaram mais conhecidos na internet, pela segunda metade dos anos 90, manter um site era complicado. Somente os programadores sabiam lidar
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O Jornal do Brasil foi o primeiro a estrear uma versão digital, realizando em maio de 1995 uma cobertura jornalística completa na internet por iniciativa de Sérgio Charlab (MOURA, 2002, p. 45).

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com as linguagens essenciais para a construção das páginas digitais. O usuário precisava entender de HTML3 se quisesse desenvolver uma página. Transferir os arquivos para o servidor não era simples e exigia conhecimentos específicos de informática. As dificuldades afastavam os leigos de abrirem seus próprios sites (PARRET, 2008, p. 16). Nesta fase inicial dos webjornais, Parret (2008, p. 16) mostra que somente as empresas de comunicação faziam parte deste novo modelo de jornalismo, em que a construção de uma versão informativa on-line necessitava de muitas mãos para o desenvolvimento de um site. O jornalista, encarregado do conteúdo, sozinho não era capaz de administrar e manter um jornal na internet, sendo clara a participação de uma equipe de profissionais por trás dos sites de notícias. Ainda segundo o autor, somente com o lançamento de serviços como o LiveJournal4 e o Blogger5, em 1999, as pessoas que desejavam publicar seus textos na internet puderam fazê-lo sem ter nenhuma noção de programação. Com as primeiras ferramentas capazes de auxiliar qualquer pessoa a ter seu próprio site, surgiu um movimento conhecido como blogosfera, que se constitui em uma rede de weblogs (web + log, ou seja, registro na rede) que facilitaram a disseminação da informação pela internet. Para Gillmor (2004, p. 28), os blogs foram as primeiras ferramentas que tornaram fácil, ou pelo menos mais fácil, a publicação de informações na web. Uma pesquisa6 realizada pela NM Incite - empresa de análise de mídia social que presta consultoria internacional - mostra o rastreamento de mais de 181 milhões de blogs até o final de 2011. Um número elevado e que cresceu cerca de 80% em cinco anos, como aponta também o estudo. Estes números fornecem subsídios para um melhor entendimento sobre o universo que este tipo de publicação ocupa e seu processo de evolução, não só no ambiente virtual, mas também na sociedade. Com isso se torna perceptível a importância do movimento conceituado como blogosfera e que toma forma no início deste século, gerando independência e autonomia aos usuários de internet na produção e divulgação de textos de qualquer natureza. A blogosfera é definida por Parret (2008, p. 16) como uma estrutura complexa, formada por pequenos produtores e distribuidores de informação e opinião, interessados em aumentar sua audiência, ampliar seus canais e enriquecer a difusão de notícias. O fluxo de ideias que circula livremente
Hyper Text Markup Language, que em português quer dizer Linguagem de Marcação de Hipertexto. É a linguagem de programação pioneira na construção de páginas para internet. 4 http://www.livejournal.com 5 http://www.blogger.com 6 NM Incite NM Incite. A Nielsen McKinsey Company. Number of Blogs Tracked by NM Incite. Disponível em: <http://www.nmincite.com/?page_id=210>. Acesso em: 30 abr. 2012.
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por essa rede acabaria, mais cedo ou mais tarde, impactando uma atividade cuja matériaprima é a informação: o jornalismo.

2. A participação do leitor na cobertura jornalística

O surgimento dos blogs e a abertura de espaço das mídias para o leitor deram início a um novo momento de democratização da informação, como observa o idealizador do site Jornalistas da Web7, Mario Cavalcanti. Os portais com proposta jornalística, cujo conteúdo é alimentado pelos próprios leitores, e a percepção desse fenômeno por parte dos veículos tradicionais - on-line ou não - deram início à era cidadã. Por jornalismo cidadão, chamado ainda de jornalismo colaborativo ou open source8 -, entende-se um modelo de jornalismo em que o leitor/usuário deixa de ser um mero receptor e participa, parcial ou integralmente, do processo de produção de um conteúdo jornalístico (CAVALCANTI, 2008, p. 3). O exemplo clássico do jornalismo colaborativo vem do slogan Todo cidadão é um repórter. Este foi - e ainda é - o conceito do sul-coreano Oh Yeon-ho quando criou em 2000 o OhMyNews9, apontado por Brambilla (2010, on-line)10 como gênese do jornalismo colaborativo no mundo. Assim, no final do século XX começam a surgir os primeiros esboços desta nova prática de jornalismo. Este movimento que abriu as portas das redações jornalísticas ao público já havia sido manifestado de maneira sutil, um ano antes da criação do portal asiático quando
[...] em 1999 a palavra Jornalismo open source apareceu pela primeira vez na revista Salon (http://www.salon.com). O repórter Andrew Leonard comentava a decisão editorial dos jornalistas do site Jane’s Intelligence Review (http://jir.janes.com), que decidiram, antes de publicar o artigo, submeterem-no aos comentários dos leitores do site Slashdot (http://www.slashdot.org). Os posts foram tão bem aceitos que acabaram incorporados ao corpo da reportagem do Jane’s. Desde então um grande número de internautas passou a ser protagonista de conteúdo em veículos de mídia (FERRARI, 2008, p. 11).

A internet se ergue então no século XXI como uma vitrine de informações e produtos dos mais diversos gêneros. Um espaço quase que infinito de opções de entretenimento, negócios e pesquisas, que gera força suficiente para fazer as sociedades
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http://www.jornalistasdaweb.com.br Termo derivado da criação dos softwares livres e aplicado pelo autor como sinônimo de jornalismo cidadão. 9 http://www.ohmynews.com 10 BRAMBILLA, Ana Maria. OhmyNews completa 10 anos. 28 fev. 2010. Disponível em: <http://anabrambilla.com/blog/2010/02/28/ohmynews-completa-10-anos>. Acesso em: 27 abr. 2012.

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dependerem quase que totalmente dela para as soluções cotidianas. A grande rede mundial de computadores pode ser considerada uma espécie de meio de transporte do novo milênio, pois leva informações detalhadas e em tempo real às pessoas, basta uma pequena pesquisa por ferramentas como Google Maps11 ou Wikipedia12 para que se encontre conhecimento sobre novas culturas, costumes, modas, imagens etc. Neste contexto a internet se solidifica com uma nova ferramenta jornalística. No mundo atual, que necessita de constante transmissão de dados, um sistema que permite troca e envio de mensagens e que incorpora todas as mídias numa só, facilita consideravelmente a vida do cidadão moderno, principalmente dos consumidores de notícias. A respeito deste tema, Targino (2009, p. 55) define como hipertexto e hipermídia o grande trunfo da internet e do webjornalismo. Este conceito que engloba além de textos, gráficos, sons, fotos, narração ou sequências animadas consiste em método de organização não-linear de informações, permitindo ao indivíduo selecionar o material que vai ler/ver/ouvir, quando e como, ao tempo que estimula o aprofundamento de questões emergentes no decorrer da busca. Este acesso dispensa conhecimentos especializados, e o próprio interessado manipula o sistema e percorre caminhos diferenciados, ainda que diante de um mesmo texto. Segundo a definição da autora, esta linguagem hipermidiática pode ser considerada uma espécie de guia interativo, e entende-se que com ela se obtém por meio da conectividade a abertura de um amplo espaço para manifestações sociais. A internet então como plataforma de comunicação, mostra-se responsável por mudanças não somente no cotidiano do jornalismo, mas também no ambiente de trabalho dos profissionais de comunicação, que passam a conviver cada vez mais com o público.
Parece uma mudança simples, mas em menos de uma década, os computadores e a internet implantaram a mão dupla no fluxo de informações, obrigando os jornalistas a rever seu relacionamento com o público. A história digital contemporânea está sendo escrita numa avalanche de informações. No meio desta enxurrada de dados, começa a acontecer outra mudança que está alterando a relação dos jornalistas com o público. Ambos começam a descobrir que, apesar de históricas desconfianças mútuas, eles têm muito mais em comum do que se imaginava. Quase quatro séculos depois de surgir como canal de comunicação entre pessoas, graças à circulação de notícias comunitárias, a imprensa começa a redescobrir suas origens e o caráter público de seu produto, a notícia, tentando achar um novo nicho no negócio da comunicação. E tudo isto passa pelo estabelecimento de uma nova relação com os consumidores de informação (CASTILHO, 2010, Diário Catarinense).

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http://www.maps.google.com.br http://www.wikipedia.org

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A mão dupla no fluxo da informação descrita por Castilho (2010) aponta uma mudança gradativa de cultura no âmbito do jornalismo, principalmente no modo de se compartilhar a notícia. A imprensa moderna vive a face de novas tecnologias e, no campo da comunicação, a utilização de dispositivos interconectados como telefones móveis, netbooks e todo tipo de computador favorece a união de forças entre os jornalistas e o público. Mielniczuk (2003, apud TARGINO, 2009, p. 54) define esta fase como jornalismo digital de terceira geração, por julgá-lo termo amplo, que permite incluir produtos jornalísticos na web e também recursos e tecnologias disponíveis para a difusão de conteúdos para equipamentos móveis, como iPods, MP3s, celulares, smartfones e outros. Ao sintetizar a importância da utilização dos dispositivos eletrônicos no jornalismo cidadão, é possível observar que as ferramentas disponíveis nos sites, direcionam o leitor até a produção da matéria, e isto pode ser feito a partir de qualquer computador conectado à internet. Estes sites são capazes de funcionar em variados sistemas operacionais, tais como os utilizados em desktops, notebooks, telefones e TVs.
Com modernos comunicadores, com ou sem fio, estamos conectados a dispositivos cada vez mais poderosos. O jornalismo popular está se abastecendo de todas estas inovações. Aparelhos eletrônicos para coletar, trabalhar e distribuir dados estão se tornando menores e mais potentes a cada ano. E as pessoas estão percebendo como colocá-los para trabalhar de uma forma com a qual os jornalistas profissionais estão começando a se habituar, na produção de notícias colaborativas, em que os leitores escrevem, editam e publicam informações e fotos feitas com o celular (GILLMOR, 2004, p. 160, tradução nossa).

Atualmente é possível enviar notícias em qualquer formato aos sites especializados e a mesma página que é acessada no PC, também funciona de maneira adaptada no aparelho celular ou no tablet. Com a exposição de alguns exemplos de sites de jornalismo cidadão é possível compreender melhor o mecanismo de funcionamento de suas ferramentas, bem como de seus conceitos e compartilhamentos de notícias. Para apresentar uma análise básica foram selecionados os seguintes sites: VC Repórter13, do portal Terra, VC no G114, das organizações Globo, e Blog do Leitor-Repórter15, do Grupo RBS. O critério de escolha dos sites teve como base a interface gráfica, usabilidade e o modo de se relacionar com seus colaboradores.

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http://noticias.terra.com.br/vcreporter http://g1.globo.com/vc-no-g1 15 http://wp.clicrbs.com.br/leitor-reporter

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No site VC Repórter, o portal Terra cria um ambiente todo voltado para o exercício do jornalismo cidadão. Na página inicial é possível enviar a matéria por meio de um link bem destacado, disponível na barra de menu, chamado “ENVIAR AGORA”. Ao acessar o espaço destinado à emissão das informações o usuário se cadastra inserindo dados pessoais tais como a numeração de seus documentos, nome completo, e-mail, cidade, país e o nome que será usado como crédito da reportagem. Na apresentação do site é possível encontrar as regras e os detalhes sobre o caminho que a postagem do internauta percorrerá até ser publicada. De acordo com o portal, todas as informações recebidas são checadas pelos jornalistas antes de sua publicação e, caso haja necessidade, a equipe responsável pode editar o material, inserindo alguns dados e reformatando um novo texto de acordo com o padrão editorial do portal. O VC Repórter exibe ainda um manual que explica detalhadamente como enviar notícias pelo celular, como redimensionar imagens em alta resolução, editar vídeos, e quais são os formatos de arquivos aceitos pelo sistema utilizado pelo site. Por meio do link “DICAS” é possível ainda receber uma breve aula de enquadramento fotográfico, imparcialidade e qualidade de texto, que sugere como exemplo de recomendações a utilização de uma linguagem clara e objetiva com frases curtas, evitando gírias ou termos de difícil compreensão. As manchetes do VC Repórter podem também ganhar destaque na página inicial do portal. Já com o modelo de jornalismo open source das Organizações Globo, VC no G1, a composição das ferramentas possibilita, na prática, as mesmas ações do Portal Terra, porém o usuário na primeira postagem deve realizar dois cadastros, um geral para acesso a todo o portal da Globo e outro somente para o envio de matérias. Todas as postagens recebem confirmação por e-mail. A equipe de profissionais do VC no G1, assim como do Terra, também tem na sua política de utilização, liberdade para editar o conteúdo enviado pelo usuário e resguardam-se inclusive do direito de retirar do ar - a qualquer tempo - as matérias enviadas pelos internautas. O material deve ser de autoria do usuário cadastrado e não são aceitas cópias de publicações de outros veículos. Em um menu de dicas é sugerido ao usuário a construção da notícia utilizando lead16: “Lembre-se de dizer sobre quem você está falando, o assunto que está abordando, onde isso está ocorrendo, o porquê e como”17.

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O lead é parte da notícia que fornece ao leitor a informação básica sobre o tema abordado e que pretende prender-lhe o interesse com informações pertinentes logo no início da matéria. 17 http://g1.globo.com/vc-no-g1/enviar-noticia.html

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O usuário pode obter grande visibilidade uma vez que o conteúdo postado também pode ser vinculado à página inicial do portal Globo.com18, assim como em outros sites das organizações Globo, como por exemplo: etc19, techtudo20, Globo Esporte21, dentre outros. No exemplo do Grupo RBS, denominado Blog do Leitor-Repórter, o formato como o próprio nome sugere é de um blog. Na página digital as notícias vão sendo inseridas e ordenadas apresentando a postagem mais recente em primeiro plano. Este exemplo de jornalismo cidadão se mostrou mais simples em relação aos outros analisados, principalmente pelo formato escolhido, já que ele não oferece tantos recursos quanto os sites do G1 e Terra. O Blog do Leitor-Repórter fica amparado dentro da versão digital do jornal Diário Catarinense22 e sua ligação pode ser encontrada em uma barra de links no topo do site, logo abaixo do cabeçalho. Como de praxe na maioria dos sites, é necessário preencher um cadastro antes de enviar qualquer informação. Em um pequeno menu à direita, o blog apresenta três opções de participação: sugestão de pauta, envio de notícias para o blog e remessa de artigos, que, de acordo com o site, se referem a “opiniões sobre temas relevantes”. Além dos caminhos mencionados também é possível participar de enquetes e de um mural de recados com pequenas mensagens. Neste espaço denominado MURAL, o internauta participa de discussões com outros usuários ou apenas posta um texto curto sobre assuntos variados ou sugeridos pelo próprio site. As informações enviadas podem ser aproveitadas em outros veículos do Grupo RBS e, assim como os demais modelos descritos nesta análise, todo conteúdo é moderado, passando pela apreciação de jornalistas responsáveis antes da publicação final. O leitor também encontra uma série de advertências e medidas restritivas em seu termo de aceitação23, dentre elas, a sujeição a possíveis penalidades impostas caso a notícia venha a gerar prejuízo ao site. Em todos os exemplos analisados é comum a lapidação da informação colaborativa antes da sua publicação. Segundo a política de utilização dos sites mencionados, esta é uma medida imprescindível para que a notícia seja veiculada. Em relação aos dados fornecidos pelo colaborador é preciso salientar que - em todos os sites analisados - nada impede que informações falsas sejam remetidas por meio dos campos cadastrais.
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http://www.globo.com http://etc.globo.com 20 http://www.techtudo.com.br 21 http://globoesporte.globo.com 22 http://www.diario.com.br 23 http://wp.clicrbs.com.br/leitor-reporter/termo-de-aceitacao

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3. A credibilidade da informação No Brasil uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) em 2009 derrubou a necessidade do diploma de Jornalismo para exercício da profissão, sob o argumento de que restringia a liberdade de expressão. Segundo o presidente do STF na época, ministro Gilmar Mendes, exigir o diploma de quem exerce o jornalismo é contra a Constituição Federal, que garante liberdade de expressão. Mendes defendeu, no julgamento, a tese de que o jornalismo é profissão diferenciada que tem vinculação com o amplo exercício das liberdades de expressão e de informação24. A discussão sobre a importância da obrigatoriedade ou não do diploma expõe um elemento que pode ter contribuído para um aumento significativo do número de registros de jornalistas, favorecendo o crescimento do jornalismo colaborativo e o fortalecimento dos blogueiros no Brasil. Este aumento descrito por Vasconcelos (2011, on-line)25 com base em dados do Ministério do Trabalho mostra que muitas pessoas foram acolhidas pela decisão do Tribunal e que, diante dos fatos, se enxergaram definitivamente inseridas no meio jornalístico.
Segundo dados do Ministério do Trabalho, de cada dez jornalistas registrados, quatro são profissionais sem graduação específica na área. É o que revelam os dados analisados entre 1º julho de 2010 e 29 de junho de 2011, após a formalização das normas para os registros de jornalistas com e sem graduação na área. Neste período foram concedidos 11.877 registros, sendo, 7.113 entregues mediante a apresentação do diploma de Ensino Superior e 40%, ou melhor, 4.764 por meio da Decisão/STF, a partir da ordem do Supremo Tribunal Federal, que em junho de 2009 extinguiu a obrigatoriedade da graduação específica em jornalismo para o exercício da profissão. Apesar de ambos os registros permitirem os mesmos direitos, o jornalista graduado é registrado como “Jornalista Profissional”, enquanto quem não possui diploma na área, recebe a nomeação de “Jornalista/Decisão STF” (VASCONCELOS, 2011, on-line).

Embora países como os Estados Unidos, Japão e França não exijam o diploma específico e, no entanto, mantenham cursos de jornalismo altamente qualificados e muito concorridos,26 no Brasil esta particularidade talvez não tenha o mesmo efeito. A questão

ABRIL.COM. STF derruba exigência de diploma para jornalistas. 17 jun. 2009. Disponível em: < http://www.abril.com.br/noticias/brasil/stf-derruba-exigencia-diploma-jornalistas-478108.shtml>. Acesso em: 12 mai. 2012. 25 VANCONCELOS, Izabela. Conseguir registro de jornalista é mais fácil do que DRT de artista. 22 dez. 2011. Disponível em: http://portal.comunique-se.com.br/index.php/editorias/17-destaque-home/67406conseguir-registro-de-jornalista-e-mais-facil-do-que-drt-de-artista.html. Acesso em 12 mai. 2012. 26 SANTOS, Lourival José. O Diploma de Jornalismo e a Liberdade de expressão. Disponível em: <http://jus.com.br/revista/texto/148/o-diploma-de-jornalista-e-a-liberdade-de-expressao>. Acesso em: 21 mai. 2012.

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da obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão de jornalista se constitui uma atenuante de discussão sobre credibilidade, confiabilidade e idoneidade, não só da informação, mas também da imagem do próprio profissional. O Ministério do Trabalho, por exemplo, distingue aqueles que passaram pelos bancos universitários dos beneficiados pela decisão do Supremo Tribunal Federal, quando nomeia os não-formados como “Jornalista/Decisão STF”. E com os dados da matéria de Vasconcelos (2011), percebe-se um grande número de registros profissionais pós-decisão do STF, o que inevitavelmente cria um grupo aparentemente homogêneo, mas que abriga agentes de naturezas diferentes num só meio. Isto contribui para que o jornalismo, em todos os âmbitos, continue seu caminho, sendo realizado com a presença de redatores e editores. Já nos blogs, o crescimento se dá com pouca preocupação com a questão da integridade dos dados, sem o monitoramento necessário para que suas páginas abriguem de maneira profissional a informação. [...] os blogueiros, principalmente amadores, não costumam checar o que recebem, preferindo apenas repetir informações. Não é raro encontrar boatos que se disseminam na internet, reproduzidos em blogs como se fossem verídicos (PERRET, 2008 p. 24-25). Embora a afirmação do autor não possa ser generalizada, pois ainda assim não se conhece a fundo as técnicas e a qualidade do trabalho da maioria dos responsáveis pelos blogs, é compreensível que se tenha mais credibilidade com as publicações fora deles. Análises de Targino (2009, p. 53) mostram ainda que a escrita livre em sites e blogs há muito deixou de ser fenômeno amador e de audiência limitada, o que impossibilita ignorar a blogosfera e suas repercussões futuras para a comunicação social e para o jornalismo em particular. Mas a informação que percorre uma trajetória - desde sua origem, na fonte, até sua publicação final, quando veiculada em jornais on-line, frequentemente passa por equipes responsáveis pelo filtro e moderação, como mostra a análise dos modelos no capítulo anterior. Ao que se propõe, o jornalismo cidadão parece carecer cada vez mais desse filtro e de profissionais que façam o trabalho de gatekeeper27 da redação. Com estas medidas restritivas que reforçam a credibilidade da informação e a confiança do veículo informador é que se pode obter um jornalismo colaborativo de qualidade, com diploma profissional ou não.

Gatekeeper é um termo criado no final da década de 1940 por David Manning White, da Boston University, O gatekeeper é uma espécie de editor que determina o conteúdo que entra no jornal.

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Segundo Brambilla (2008, p. 42) a credibilidade da informação e seriedade da notícia escrita pelo público, bem como a produção colaborativa de um jornalismo autêntico deve reunir variadas características como:
Filtrar todo conteúdo antes da publicação o mais rápido possível: apostar na ação de gatekeepers, estabelecendo dois ou três níveis de checagem e edição; contar com jornalistas profissionais na função de editores e animadores do processo; identificar plenamente os autores de todas as colaborações; fornecer feedbacks para os colaboradores sobre suas contribuições; estimular a comunidade a participar do noticiário por meio de premiações esporádicas ou mensagens de incentivo; abrir notícias para comentários constantes; manter contatos dos cidadãos-repórteres disponíveis para os leitores (demais membros daquela comunidade); oferecer ambiente de convívio on-line para todos os cidadãosrepórteres de um noticiário específico; estabelecer um código de ética e termos de uso facilmente visíveis e compreensíveis para quem produz e lê notícias, enfatizando o comprometimento moral e a relevância de uma informação publicada; não remunerar os cidadãos-repórteres por qualquer colaboração.

Em relação à última característica apontada pela autora, ainda é possível destacar que, mesmo que simbolicamente, a remuneração pelo envio de notícias pode favorecer a busca desenfreada por pautas irrelevantes assim como obstruir o fluxo de

compartilhamento de informações entre colaboradores e editores. O papel do jornalismo digital moderno, mesmo com as facilidades do modelo open source, pode ser pensado de forma vinculada à discussão que se aporta na remuneração e por consequência na profissionalização. Seja diplomado ou não, o que se tem são pessoas formadoras e partícipes de comunidades unidas com o mesmo objetivo de informar e disseminar a notícia. Sobre a questão da remuneração, Targino (2009, p. 60) afirma que a partir do momento em que há negociação, os valores-notícia ressurgem dentro da lógica de mercado capitalista e ameaçam a filosofia central de funcionamento do jornalismo de fonte aberta, que se apoia na colaboração e no compartilhamento dos recursos tecnológicos disponíveis, de forma igualitária e descentralizada, sem trâmites

mercadológicos. De acordo com Brambilla (2008, p. 41) do ponto de vista profissional ninguém sobrevive sendo apenas cidadão-repórter. Ainda que o OhMyNews e outros projetos remunerem seus colaboradores com pequenas quantias de dinheiro, o cidadão não tem a necessidade de escrever em busca de remuneração. O pagamento a cidadãos-repórteres pode não surtir o mesmo efeito em determinados países. A baixa renda da maioria da população brasileira, por exemplo, poderia servir como motivação principal para que o público enviasse informações. A motivação inicial de um cidadão-repórter deve ser o

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desejo de ver socializada uma informação que pode ser útil para outras pessoas. Não o dinheiro. Aí está o veículo do jornalismo colaborativo com espírito da rede, com o sentimento de comunidade. A palavra lapidação - mencionada anteriormente neste artigo - é muito oportuna para se referir à cultura wiki, um movimento que melhor define o sentimento de comunidade, de colaboração por meio de sistemas de composição e discussão (GILLMOR, 2004, p. 32). São vários cidadãos alimentando a notícia, e a informação toma forma à medida que as colaborações vão aumentando. Este feito é comum nos blogs e nas discussões dentro das redes sociais, tais como Facebook28 e Twitter29. Porém existe nesta questão uma barreira que pode afetar a credibilidade neste campo do jornalismo cidadão: a checagem gradativa dos fatos, que é feita à medida que a informação se atualiza pelas mãos dos cidadãos ou membros da comunidade. Ao contrário dos sites especializados no jornalismo cidadão, que definem a publicação após a checagem dos fatos, na cultura wiki esta verificação é feita durante, e não antes da publicação, podendo tornar a informação temporariamente vulnerável, causando danos à integridade da notícia e lesando princípios tão essenciais no jornalismo como ética, sensatez, imparcialidade e exatidão.

Conclusão Esta pesquisa mostrou que os avanços tecnológicos e o surgimento da blogosfera favoreceram o aumento da participação do público na construção das matérias jornalísticas. A contextualização contida em um trabalho formatado por meio do jornalismo colaborativo compreende a aplicação de sistemas de compartilhamento, tais como redes sociais e sites receptores de notícias que, além de canalizar o fluxo de troca de dados, ainda precisam estabelecer parâmetros de apuração e revisão dos fatos. Assim, explorando os recursos que a mídia digital proporciona, foi possível compreender que a colaboração por parte dos cidadãos potencializou um jornalismo que já existia, mas que ainda parecia oculto. No modo de se fazer jornalismo não houve nenhuma mudança drástica, apenas se utilizou da ajuda do cidadão comum para denotar o início do processo de abertura da web
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para o aproveitamento das fontes mais próximas dos fatos, independente de sua formação, origem ou classe social. O papel do gatekeeper e do editor continuará sendo imprescindível para transformar as contribuições em notícia. Assim bem observa Brambilla (2008, p. 33) quando aponta as características básicas para uma boa formatação da informação: “saber escrever um lead, por exemplo, não é tarefa do cidadão-repórter, mas do jornalista profissional, assim como identificar o teor de noticiabilidade de um fato e hierarquizar pautas”. Este é um conceito que talvez não se aplique da mesma forma aos blogs, que por sua natureza têm caráter de atuação mais independente. A blogosfera acaba por assim dizendo, exercendo notoriamente a liberdade de expressão, termo tão acentuado no Brasil pelo ministro Gilmar Mendes em 2009, quando o Supremo Tribunal Federal suprimiu a exigência do diploma para o exercício profissional do jornalismo. Desta forma, é possível entender que a atividade colaborativa, apesar de toda sua prerrogativa, possui algumas desvantagens, como por exemplo, o anonimato, a apuração de informações já publicadas, possibilidade de cadastros falsos e o recebimento de notícias irrelevantes. O acesso de indivíduos a partir de sistemas de cadastramento mais dinâmicos, que possam utilizar passaportes digitais, capazes de identificar eficazmente cada colaborador da imprensa, seria um avanço no processo de construção da credibilidade deste consolidado âmbito de atuação jornalística. Em contrapartida, o jornalismo excede os limites da abrangência global, publicando notícias provenientes da colaboração de cidadãos interconectados em qualquer parte do mundo. Porém é evidente que o aperfeiçoamento deste modelo democrático não se dará somente pela atmosfera dinâmica e atrativa que o ambiente midiático proporciona. É necessário continuar conciliando as novidades tecnológicas com a construção de ferramentas facilitadoras do processo de dinamização do conhecimento. Mesmo assim a credibilidade da informação colaborativa, pelo menos por enquanto, ainda não pode ser totalmente assegurada, pois ela é raramente evidenciada também no jornalismo tradicional e até em outras áreas de atuação.

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