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André Matiaas1 

 
Toute conn
naissance esst une réponsse à une queestion. 
Gasston Bachelarrd, La formattion de l'espritt scientifique:: contribution
n a une 
psyychanalyse dee la connaissa ance objectivee, p. 14 
 
Que sa
ais­je? 
M
Michel de Montaigne 

Michel,  senhor  de  Montaigne, 


M M no  seu  ensaio  intittulado  De  Democritu
us  et 
Hera
aclitus, afirm
ma: 

Tommo  à  sorte  o  primeiro o  argumentto.  Todos  me m são  igua almente  boons.  E 
jamais pretend do tratá­loss por inteiro o. Porque eeu não vejo  o todo de n nada. 
Aqueles  que  nos  prometeem  mostrá á­lo  não  o  fazem.  De  cem  partees  ou 
rosttos que cad da coisa tem m, tomo um m deles, umas vezes só ó para o lam mber, 
outrras  vezes  sóó  para  o  ro
oçar,  outra
as  vezes  ainnda  para  o  beliscar  até  ao 
osso
o.  Penetro  nele, 
n não  com 
c amplittude,  mas  com 
c a  maioor  profundiidade 
que  sei.  E  freq
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vista
a  inusitad do.  Atreverr­me­ia  a  tratar  co om  profund didade  alg guma 
mattéria,  se  mee  conhecessse  menos.  Semeando  uma  pala avra  aqui,  outra 
o
acollá,  amostra as  desprend didas  do  seeu  conjunto o,  separada as  sem  dessígnio 
nemm  promessa,,  não  me  vejo 
v obrigad do  a  fazer  coisa  que  vvalha  nem  a  me 
man nter eu messmo sem variar quand do me aprazz e sem me  render à dú úvida 

1 Univ
versidade de Av
veiro – Departtamento de Lín
nguas e Culturaas. amatias@u
ua.pt 
MATIAS, A. (2007) O conhecer "em ensaio": uma experimentação do possível. In, V. 
Trindade, N. Trindade & A.A. Candeias (Orgs.). A Unicidade do Conhecimento. Évora: 
Universidade de Évora. 
 
 
ou  à  incerteza  ou  ao  meu  estado  original  que  é  a  ignorância.  [tradução 
nossa]2 

Como  observaremos  durante  o  nosso  estudo,  esta  passagem  poderá  ter 


condensada,  se  bem  que  de  um  modo  sub‐reptício,  a  total  dimensão  que  a 
problemática  do  conhecimento  adquire  não  somente  no  caso  específico  do  autor 
bordalês  e  da  sua  obra,  mas  sobretudo  no  ensaio  lato  sensu.  É  nosso  intento 
abordar algumas das particularidades específicas do conhecimento que se veicula 
e  se  constrói  nesta  classe  de  textos  tão  singular,  trazida  à  luz  do  dia  no  ano  de 
1580.  Todavia,  para  que  consigamos  vislumbrar,  em  toda  a  sua  magnificência,  a 
questão  do  conhecer  em  contexto  ensaístico,  é  jussivo  que  consideremos 
sucintamente o conceito de conhecimento na sua amplitude. 

De  um  modo  conciso,  poder‐se‐á  entender  por  conhecimento  a  apreensão  de 
algo através do pensamento e a capacidade de tornar presente ao pensamento esse 
algo  que  foi  apreendido.  Por  outro  lado,  é  também  lícito  afirmar  que  o 
conhecimento é a relação estabelecida entre o sujeito que conhece e o objecto que 
passará  a  ser  conhecido,  “como  acto  intencional  que  visa  conscientemente  algo 
(carácter  passivo),  ou  de  captação  do  significado,  informação,  ou  representação 
mental de algo (carácter activo)” (Silva, 1989: 1104‐1105). Tendo em consideração 
a  proposta  de  definição  de  Hessen,  o  conhecimento  poderá  ser  entendido  como 
uma  determinação  do  sujeito  pelo  objecto,  em  que  o  determinado  é  a 
representação  mental  desse  objecto  (Hessen,  1987:  27).  Ainda  nesta  esteira, 
Miranda Barbosa entende por conhecimento a relação estabelecida “entre sujeito e 
objecto,  por  meio  do  pensamento,  na  qual  o  sujeito  que  pensa  supõe 
intencionalmente  apreender  as  notas  caracterizadoras  do  objecto  e  julga  saber  o 
que o objecto é” (Barbosa, 1947: 135). Todavia, para a nossa reflexão, não se torna 
tão  pertinente  questionar  os  meandros  mais  recônditos  da  origem  do 
conhecimento,  nem  tanto  esse  quase  nó  górdio  que  é  a  própria  essência  do 
conhecer3. Cremos que, neste particular, o mais relevante será vislumbrar que tipo 
de  conhecimento  o  ensaio  nos  proporciona,  as  suas  características  e  as  suas 
sinuosidades. 

Posto  isto, detenhamo‐nos,  momentaneamente, na realidade  complexa  que  é  o 


ensaio. Desde a sua aurora, pela pena de Michel de Montaigne, esta classe de textos 
tem estado envolvida não em penumbras ofuscantes, antes sim numa certa difusão 

2  “Je  prends  de  la  fortune  le  premier  argument.  Ils  me  sont  également  bons.  Et  ne  desseigne  jamais  de  les 

produire entiers. Car je ne vois le tout de rien. Ne font pas, ceux qui promettent de nous le faire voir. De cent 
membres et visages qu’a chaque chose j’en prends un, tantôt à lécher seulement, tantôt à effleurer, et parfois à 
pincer jusqu’à l’os. J’y donne une pointe, non pas le plus largement, mais le plus profondément que je sais. Et 
aime plus souvent à les saisir par quelque lustre inusité. Je me hasarderais de traiter à fond quelque matière, si 
je  me  connaissais  moins.  Semant  ici  un  mot,  ici  un  autre,  échantillons  dépris  de  leur  pièce,  écartés,  sans 
dessein, sans promesse, je ne suis pas tenu d’en faire bon, ni de m’y tenir moi‐même, sans varier, quand il me 
plaît,  et  me  rendre  au  doute  et  incertitude,  et  à  ma  maîtresse  forme,  qui  est  l'ignorance.”  (Montaigne,  1967: 
133) 
3 “O problema essencial do conhecimento consiste em indagar o que é o conhecimento, q. d.: em investigar se o 

conhecimento  é  ou  não  aquilo  que  no  fenómeno  do  conhecimento  parece  ser  intencional.”  (Barbosa,  1947: 
157) 

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MATIAS, A. (2007) O conhecer "em ensaio": uma experimentação do possível. In, V. 
Trindade, N. Trindade & A.A. Candeias (Orgs.). A Unicidade do Conhecimento. Évora: 
Universidade de Évora. 

dissipadora  que  lhe  tem  toldado  a  sua  verdadeira  dimensão  intrínseca.  No  nosso 
entender,  perspectivamos  o  ensaio  como  um  compromisso  osmótico  bipolar:  por 
um  lado,  ele  é  aquilo  que  se  poderá  denominar  por  atitude,  isto  é,  uma 
predisposição em que se privilegia a tentativa, o pensar crítico, o crivo da dúvida, 
factos que propiciam a que a concepção do próprio ensaio extravase os seus limites 
enquanto  texto;  por  outro  lado,  o  ensaio  é  uma  classe  de  textos  efectiva  com 
balizas próprias, que apesar de plásticas lhe conferem singularidade face a outras 
classes de textos. Para compreender o ensaio como uma atitude vincada e singular 
é  incontornável  a  alusão  à  obra  de  Sílvio  Lima,  Ensaio  sobre  a  Essência  do  Ensaio 
(Lima:  1964),  leitura  impreterível  para  o  estudo  e  crítica  ensaísticos.  Para  o 
professor coimbrão, o ensaio é “uma atitude ginástica do intelecto que, repudiando 
o autoritarismo, pensa firmemente por si só e por si próprio. Quere dizer, o ensaio 
é o espírito crítico, o livre­exame” (Lima, 1964: 201). Na análise limiana, são tidas 
como principais características do ensaio o auto‐exercício da razão, a experiência 
oriunda da vida concreta, e ainda a sua capacidade crítica. Grosso modo, na óptica 
de Sílvio Lima, o ensaio “é um método humanístico, é o método humanístico” (Lima, 
1964: 202). 

Não  obstante,  conceber  tão‐somente  o  ensaio  como  uma  simples  atitude 


putativa e dubitativa, em que se questiona e pondera a possibilidade, amputa a sua 
autêntica  potencialidade  e  a  sua  amplitude  genuína.  Acreditamos  que  o  ensaio  é, 
em concomitância, um processo cognitivo mas também uma classe de textos com 
especificidades determinadas. Sustentando‐nos nas premissas de Arenas Cruz, em 
Hacía una teoría general del ensayo. Construcción del texto ensayístico (Arenas Cruz, 
1997), o ensaio é definido como  

 “um veículo de comunicação que pelas peculiaridades  formais (…) é um 
resultado  altamente  adequado  para  exercer  a  crítica  argumentada  da 
cultura,  em  quaisquer  dos  seus  aspectos,  desde  os  mais  exagerados,  até 
aos  mais  transcendentais,  a  partir  da  perspectiva  individual  do  eu.  Este 
atractivo deriva do facto de o ensaio ser uma classe de textos resultante 
de  uma  tensão  psicológica  entre  dois  desejos  aparentemente 
contraditórios:  o  de  pensar  e  descrever  a  realidade  e  as  formações 
culturais  tal  como  são  em  si  mesmas  e  o  de  impor  necessariamente  um 
ponto  de  vista  sobre  elas.  A  consequência  é  a  impossibilidade  de 
objectividade…” (Arenas Cruz, 1997: 129) 

Nesta  senda,  para  fazer  uma  apreciação  que  abarque  o  máximo  da  extensão 
ensaística, é imperioso que nos socorramos não apenas dos utensílios oriundos da 
Teoria da Literatura, mas também da Filosofia. Como tal, o ensaio é um texto, cujos 
contornos merecem ser examinados sob um prisma literário‐filosófico. Porém, ao 
nível  filosófico  devemos  ter  a  perfeita  noção  dos  terrenos  que  trilhamos.  Na 
verdade, ele é também um texto cujo objectivo se prende com uma ânsia por parte 
do seu autor em provocar no auditório o acto perlocutório. É neste particular que 
nos  atrevemos  a  incorrer  pela  Retórica,  nomeadamente  pela  sua  revitalização 
realizada  por  Chaïm  Perelman.  Neste  âmbito,  quando  falamos  em  conhecimento, 

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MATIAS, A. (2007) O conhecer "em ensaio": uma experimentação do possível. In, V. 
Trindade, N. Trindade & A.A. Candeias (Orgs.). A Unicidade do Conhecimento. Évora: 
Universidade de Évora. 
 
 
abordamos  conjuntamente  a  questão  da  verdade,  apesar  de  não  ser  nosso 
desiderato  demandar  o  que  é  a  verdade  no  seu  sentido  arquetípico,  mas  sim  a 
tipologia  de  verdade  que  nos  é  apresentada  e  construída  no  texto  ensaístico. 
Seguros  de  que  o  ensaio  procura  a  Verdade  à  medida  que  vai  encontrando 
“pequenas verdades”, sempre parcelares e não perenes, é importante que gizemos 
os  contornos  deste  conceito  no  contexto  retórico,  em  simultaneidade  com  a 
ascensão de uma nova racionalidade.  

Efectivamente, com a Retórica pisamos superfícies não da firme rocha em que a 
verdade  é  universal,  mas  sim  os  solos  arenosos  do  opinativo.  Perspectivar  a 
verosimilhança  como  a  sua  matéria‐prima  torna‐se  vital,  essencialmente  porque 
constatamos  que  não  lidamos  com  a  verdade  inteligível,  mas  sim  com  uma 
“verdade”  que  é  válida  por  ser  semelhante,  mas  não  igual  ou  correspondente,  a 
essa  verdade  de  teor  arquetípico.  Reanimando  a  distinção  estabelecida  por 
Aristóteles  entre  os  raciocínios  analíticos  e  os  raciocínios  dialécticos,  Perelman 
denuncia que a lógica formal, limitada aos raciocínios analíticos, não consegue dar 
resposta  aos  critérios  que  são  estabelecidos  aquando  da  formulação  de  juízos  de 
valor. Assim, há um confronto nítido entre a teoria da demonstração por um lado, e 
a  teoria  da  argumentação  por  outro.  Desta  forma,  vemos  que  se  principia  um 
esforço  em  recuperar  a  retórica  de  moldes  aristotélicos,  sendo  preteridos  os 
princípios teóricos da retórica clássica, que se tornou, de acordo com a concepção 
perelmaniana,  numa  técnica  balofa  e  estafada  de  figuras,  despreocupada  com  a 
adesão  dos  espíritos.  Além  disso,  o  Estagirita,  na  obra  Tópicos,  refere  que  os 
raciocínios  dialécticos,  contrastando  em  índole  com  os  analíticos,  se  baseiam  em 
opiniões consensualmente aceites por uma maioria4. É neste sentido que se deve 
perceber o conceito de eúlogos (euvjlogoº), isto é, a verosimilhança que entronca na 
razoabilidade. O raciocínio analítico tem a sua base na verdade necessária, unívoca 
e  impessoal,  ao  passo  que  o  dialéctico  encontra  o  seu  alicerce  na  opinião  (dovxa). 
Nesta  senda,  é  com  propriedade  que  Olivier  Reboul  afirma  que  “O  domínio  da 
retórica,  (…),  não  é  o  mesmo  da  verdade  científica  mas  do  verosímil”  (Reboul, 
1998:  27).  Esta  nova  racionalidade  proposta  não  seria  castradora  do  agir 
individual, porquanto reconhece valores como a pluralidade e a liberdade. 

Descartes na concepção criada em O Discurso do Método concede uma inegável 
importância à evidência. Sobre este ponto Perelman afirma em O Império Retórico: 
“A  finalidade  da  filosofia,  para  Descartes,  é  a  descoberta  da  verdade  em  todas  as 
coisas, e  o  seu  fundamento  é  a  evidência  [itálico nosso] de que «as coisas que nós 
concebemos  tão  clara  e  tão  distintamente  são  todas  verdadeiras»”  (Perelman, 
1993:  163).  O  pai  da  Idade  Moderna  considera,  assim,  que  nenhuma  verdade 
poderá  ser  tida  enquanto  tal  se,  porventura,  pairar  sobre  si  laivos  de  “não 
evidência”: a verdade tem que ser válida per se, independentemente da tradição e 
da autoridade, visto que o seu valor reside na sua própria evidência inequívoca5. A 
grande celeuma, origem de controvérsia, que existe no pensamento cartesiano, é o 

4 Cf. 100 a, 30‐31 (Aristote, 1967:1). 
5 “O conhecimento assim concebido não pode, portanto, ser progressivo: é perfeito ou não existe.” (Perelman, 

1997:159) 

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MATIAS, A. (2007) O conhecer "em ensaio": uma experimentação do possível. In, V. 
Trindade, N. Trindade & A.A. Candeias (Orgs.). A Unicidade do Conhecimento. Évora: 
Universidade de Évora. 

limite  da  concepção  cartesiana  a  uma  pura  contemplação,  dado  que  não  há  uma 
preocupação  com  a  realidade  exterior  –  tudo  o  que  é  veiculado  pelos  sentidos  é 
fonte  de  erro.  Numa  perspectiva  da  teoria  do  conhecimento,  Descartes  elaborou 
uma  estruturação  do  conhecimento  não  possível  em  termos  humanos,  mas 
adequada  à  não‐limitação  do  divino.  Desta  feita,  “o  conhecimento  cartesiano  é 
dado de uma vez, após uma ruptura completa, não só com o erro, mas também com 
a opinião e a verosimilhança dos quais a ciência deve ser purgada previamente à 
sua constituição” (Perelman, 1997: 159). 

Nesta  esteira,  num  movimento  de  reacção,  o  pensador  da  Escola  de  Bruxelas, 
com  a  revitalização  retórica,  situa‐se  no  campo  da  racionalidade,  conquanto  esta 
seja  eivada  por  outros  matizes.  Ele  defende  que  a  razão  deve  ser  o  espelho  do 
próprio Homem, limitado em cronotopia. Não há uma negação da racionalidade per 
se,  mas  sim  a  contestação  da  racionalidade  puramente  formal,  entroncando‐se 
precipuamente na razoabilidade. Face aos raciocínios analíticos, haverá agora um 
reconhecimento  do  valor  dos  raciocínios  de  tipo  dialéctico,  referidos  por 
Aristóteles, mas que ao longo do tempo foram sendo menosprezados. Assim, esta 
racionalidade é, como assevera Rui Grácio, uma racionalidade argumentativa. Com 
Perelman dá‐se um alargamento da noção de razão, visto que ela passa também a 
admitir,  como  meio  para  alcançar  o  conhecimento,  a  opinião  e  a  verosimilhança. 
Por  outro  lado,  a  razão  ao  perder  os  seus  traços  divinos  acolhe  a  falibilidade:  a 
razão  torna‐se  mais  humanizada,  ao  traduzir  os  contornos  do  limite  humano.  O 
falível,  como  poderemos  entender,  não  estabelece  uma  relação  sinonímica  nem 
com  o  arbitrário,  nem  com  a  falta  de  conexão  dos  conteúdos6.  Utilizando 
raciocínios  dialécticos,  a  Retórica  coloca‐se  não  no  campo  da  verdade  unívoca  e 
inequívoca,  mas  sim  da  opinião.  Dado  que  a  opinião  e  a  verosimilhança  estão 
fortemente intrincadas, é pertinente agora tentar circunscrever estes conceitos. 

Ao abordarmos o conceito de opinião, teremos forçosamente que meditar sobre 
a  verosimilhança,  na  medida  em  que  ambos  estabelecem  uma  ligação  de 
reciprocidade  dependente.  Segundo  Reboul,  verosímil  é  “tudo  aquilo  em  que  a 
confiança é presumida” (Reboul, 1998: 95). A questão da verosimilhança liga‐se a 
áreas  do  saber,  cujo  contexto  não  nos  possibilita  afirmar  contundentemente  se 
algo  é  verdadeiro  ou  falso.  Destarte,  a  noção  de  verosimilhança  está 
necessariamente  comprometida  com  o  conceito  de  opinião,  criando  dessa  forma 
uma  correlação  mútua.  É  exactamente  motivada  por  esta  ligação  que  se 
desencadeia  uma  desconsideração  preconceituosa  da  opinião  por  parte  da 
racionalidade  analítica,  uma  vez  que  aquela  não  se  estriba  “solidamente”  no 
caminho do conhecimento. 

6 “Falibilidade não é sinónimo de arbitrariedade, mas a própria expressão da nossa condição humana que não 

se autoproduz, que não se faz integralmente a si mesma, mas que é sempre condicionada, na sua criatividade, 
pelo  passado,  pela  tradição  e  pelos  sentidos  que  historicamente  moldam  e  são  moldados  por  contextos  e 
quadros de referência a partir dos quais a vida humana se organiza.” (Grácio, 1993: 23) 

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MATIAS, A. (2007) O conhecer "em ensaio": uma experimentação do possível. In, V. 
Trindade, N. Trindade & A.A. Candeias (Orgs.). A Unicidade do Conhecimento. Évora: 
Universidade de Évora. 
 
 
Tendo em consideração toda a metamorfose do ponto de vista principiada por 
Perelman, a verosimilhança torna‐se a pedra angular da estrutura argumentativa7. 
Perceber‐se‐á onde reside essa inovação/revitalização se atentarmos nas seguintes 
palavras  do  autor  de  O  Império  Retórico:  “Sendo  a  verdade  uma  propriedade  das 
proposições,  independente  da  opinião  dos  homens,  os  raciocínios  analíticos  são 
demonstrativos  e  impessoais.  Esse  não  é,  contudo,  o  caso  dos  raciocínios 
dialécticos. Um raciocínio é dialéctico, diz Aristóteles, se as suas premissas forem 
constituídas  por  opiniões  geralmente  aceites”  (Perelman,  1993:  22).  Desta  feita, 
uma opinião, uma doxa (dovxa) é um enunciado de valor subjectivo, na medida em 
que  não  se  sabe  se  é  passível  de  ser  verificável  em  todos  os  contextos  possíveis; 
por outro lado, ela pode ser posta em causa e até destronada através do confronto 
com outras opiniões8. “A verdade não é a coincidência perfeita com o seu objecto; a 
não  ser  que  não  tenha  objecto,  como  nas  concepções  formalistas  das  ciências 
dedutivas, ela é a aproximação e generalização, únicas coisas que tornam possível a 
comunicação” (Perelman, 1997: 365). Na realidade, uma opinião é um juízo que ou 
não  foi  ou  que  não  pode  ser  atestado  apodicticamente;  numa  opinião  não  temos 
propriamente um saber claro nem uma ausência dele, mas sim uma afirmação ou 
uma negação elaborada de um modo peculiar. Quanto mais verosímil uma opinião 
for, mais próxima da verdade estará. A opinião será, portanto, um processo oblíquo 
de alcançar um tipo de verdade essencialmente aberta, que não se claustrofobiza 
em sim mesma. 

Em jeito de sinopse, a Retórica permite uma valorização do subjectivo, elemento 
preponderante  e  vivificante  no  ensaio.  Essa  valorização  da  esfera  do  subjectivo, 
estandarte erguido e assumido pela Retórica, pressupõe também o cultivo de uma 
série  de  valores,  onde  a  tolerância,  a  crítica,  o  diálogo  e  a  persuasão  estão  muito 
vincados. Não só esta nova concepção da verdade é vital para a validade do ensaio, 
como também a capacidade de ajuizar oriunda da retórica se mostra indispensável 
no  labor  ensaístico.  Não  obstante,  devemos  ter  presente que,  tal  como  assegurou 
Perelman,  “a  argumentação  é  índice  de  dúvida”  (Perelman,  2002:  544):  força 
motriz  da  dinâmica  do  ensaio.  Por  outro  lado,  Rui  Grácio  relembra‐nos  que  “a 
eleição  do  próprio  tema  da  argumentação  pode  ser  lida  a  partir  do  princípio  do 
livre  exame,  que  tanto  incita  ao  “ousar  pensar”  como  inscreve  o  pensamento  na 
prioridade da resistência ao autoritatismo despótico” (Grácio, 1993: 97). De facto, 
o ensaio privilegia esta atitude de ousadia, este sapere aude de novas tonalidades e 
feições,  onde  as  opiniões  sustentadas  na  razoabilidade  não  se  furtam  à 
controvérsia e à polémica (Grácio, 1993: 113). Grosso modo, o ensaio vai desaguar 
neste estuário da razão prática propugnada por Perelman, na medida em que não 
negligencia  uma  racionalidade  que  corresponde  ao  homem,  naquilo  “que  ele 
realmente é: um ser situado, histórico, contextualizado, enraizado” (Grácio, 1993: 
21). Estamos diante de uma lógica mais “quente”, mais humana. 

7 “A argumentação retórica distingue‐se nitidamente, desde Aristóteles, dos modos de convencer próprios do 

discurso  científico.  Interessa‐se  mais  por  enunciados  ou,  mais  globalmente,  por  situações  de  comunicação 
pertencentes  à  vida  social,  religiosa  ou  política,  tanto  no  espaço  público  como  na  conversação  privada.  O 
estatuto epistemológico destes enunciados é o «verosímil» e não o da «verdade».” (Breton, 2001: 17‐18) 
8  Como  podemos  constatar,  uma  opinião  é  um  raciocínio  que  pressupõe  o  conceito  de  razoabilidade  e 

consequentemente, o de plausibilidade. (Arenas Cruz, 1997: 147). 

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MATIAS, A. (2007) O conhecer "em ensaio": uma experimentação do possível. In, V. 
Trindade, N. Trindade & A.A. Candeias (Orgs.). A Unicidade do Conhecimento. Évora: 
Universidade de Évora. 

Dos elementos supracitados, devemos dar especial ênfase ao facto de o ensaísta 
ser um homem que, simultaneamente, está inserido e é fruto de uma circunstância 
determinada e específica. Este fenómeno proporciona ao texto ensaístico, seja ele 
de  tez  literária  ou  não,  uma  forte  ligação  com  o  real:  o  texto  está  fundando,  mas 
também fundido com esse real. Não olvidando que o móbil do nosso estudo é o tipo 
de  conhecimento  criado  e  presente  no  ensaio,  aventamos  desde  já  que  o 
conhecimento  ensaístico,  assente  nos  pressupostos  da  racionalidade 
argumentativa  e  na  instilação  da  dúvida,  é  também  menos  rígido,  mais  plástico 
devido ao forte cunho pessoal que nele existe. Contudo, não devemos negligenciar 
que  o  ensaio,  tomado  como  atitude,  vai  desenvolvendo  num  continuado  a  sua 
construção  do  conhecimento.  Desta  feita,  não  é  meramente  casual  a  carga 
semântica que o conceito ensaio encerra. Sendo quase um lugar‐comum na crítica 
ensaística, convém sempre relembrar que ensaio é originário da palavra francesa 
“essai”,  que  por  sua  vez  tem  a  sua  origem  no  vocábulo  latino  exagium,  ii, 
significando  “peso”,  “pesagem”.  Na  verdade,  a  classe  de  textos  ensaio  é  uma 
pesagem de argumentos, onde a observação, o exame persistente e a atitude crítica 
estão presentes de um modo muito expressivo. Nesta senda, o ensaio é uma forma, 
um  meio  de  alcançar  o  conhecimento.  Não  obstante,  aquele  deve  ser  também 
encarado como um processo e um lugar de conhecimento: é nesta classe de textos 
e  durante  a  sua  escrita  que  o  conhecimento  vai  brotando  e  se  vai  construindo9. 
Claro está que não poderemos confundir a postura de um ensaísta com o papel de 
um investigador ou de um especialista de uma área específica. Se estes pretendem 
alcançar  conclusões  universais,  situação  que  se  reflecte nas  classes de  textos  que 
normalmente  cultivam  (monografia  ou  o  tratado)10,  o  ensaísta  mais  do  que 
conhecer  o  que  o  rodeia  pretende  dar‐se  a  conhecer  a  si  mesmo.  Assim  sendo,  o 
ensaio  é  uma  classe  de  textos  indubitavelmente  antidogmática,  avessa  às 
construções sistemáticas, pautando‐se por um cepticismo de cariz não autofágico, 
uma  vez  que  permite  ao  ensaísta  ampliar  e  edificar  o  seu  conhecimento  e  a  sua 
perspectiva. 

Tenhamos  em  consideração  as  palavras  de  Ortega  y  Gasset  na  sua  obra 
Meditaciones del Quijote: “O ensaio é ciência sem prova explícita” (Ortega y Gasset, 
2004: 753). Não enveredando pela crítica directa a esta proposta de definição do 
ensaio,  pretendemos  acentuar  o  facto  de  Ortega  frisar,  rigorosamente,  a  vertente 
putativa  e  crítica  que  o  ensaio  partilha  com  a  ciência,  ainda  que  se  distancie 
claramente desta, visto que as provas que o ensaio utiliza não são evidentes nem 
válidas  universalmente.  Cientes  de  que  o  ensaio  é  um  texto  que  se  sustenta  no 
balancear entre o literário e o não‐literário, notamos que há áreas do saber que ele 
toca de um modo muito particular: 

9 “Quando digo que o ensaio é uma forma de pensar, quero indicar que está escrito ao correr da pena.” (Gómez-

Martínez, 1981: 55) 
10 “O dizer que o ensaio não possui uma estrutura rígida, pretende‐se estabelecer uma distinção entre este e 

aqueles escritos caracterizados precisamente por uma rigorosa organização tanto formal como de conteúdo.” 
(Gómez-Martínez, 1981: 63) 

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MATIAS, A. (2007) O conhecer "em ensaio": uma experimentação do possível. In, V. 
Trindade, N. Trindade & A.A. Candeias (Orgs.). A Unicidade do Conhecimento. Évora: 
Universidade de Évora. 
 
 
“a filosofia,  se for  entendida como exercício de especulação intelectual a 
que  nada  é  alheio,  como  uma  espécie  de  ciência  de  todas  as  ciências;  a 
crítica,  se  pensarmos  nela  como  mister,  profissão  ou  ofício  de  inquirir  e 
ponderar as construções intelectuais alheias; a ciência, se a concebermos 
como  expressão  de  certezas  gerais  obtidas  mediante  a  investigação.  As 
três coisas não são idênticas mas têm, sem dúvida, pontos de tangência” 
(Gómez, 1996: 13). 

É indubitavelmente neste espaço simbiótico, proporcionado pela mescla destas 
áreas de saber, que o ensaio se edifica enquanto classe de textos híbrida. Uma vez 
que, criticamente, vagueia pelos terrenos da Literatura, da Ciência e da Filosofia, o 
ensaio  expõe  assim  uma  dupla  faceta  da  sua  condição:  a  par  das  suas 
condicionantes  metamórficas  que  espelham  o  seu  hibridismo,  ele  apresenta‐se 
também  como  um  descendente  de  Jano.  A  vertente  jánica  consubstancia‐se  no 
facto  de  o  ensaio  permitir  uma  elaboração  de  um  plano  de  reflexão  crítica, 
acompanhada  por  elementos  de  índole  estética  e  expressiva  (Arenas  Cruz,  1997: 
107).  Assim  sendo,  o  conhecimento  que  vem  e  se  edifica  no  ensaio  tem  também 
contornos  hermafroditas,  face  ao  hibridismo  e  complexidade  que  são  impressos 
nesta classe de textos. 

O pensamento e o saber, que se erigem no ensaio, vão sendo desenvolvidos no 
próprio texto, à medida que se realiza o processo de escrita criativa e artística, pois 
“o eu liberta‐se, e marcha, pensando, e pensa marchando” (Lima, 1964: 57). Nesta 
senda, tendo sempre presente as mais diversas características ensaísticas, como o 
sentido antidogmático, de não exaustividade11 e sobretudo de instilação da dúvida, 
esta classe de textos apresenta o ensaísta como um escritor em puro infortúnio. Na 
nossa  opinião,  o  conceito  de  escritor‐náufrago  vai  ao  encontro  da  propensão 
fragmentária do ensaio, visto que o ensaísta é um “caçador frustrado do Absoluto” 
(Lourenço,  1996:  4)  que  não  alcança,  porque  lhe  é  impossível  na  sua  limitação 
humana  um  conhecimento  de  unidade.  Resta‐lhe  apenas  a  deambulação  errante 
pelas  matérias  que,  em  brevidade,  versa.  O  ensaísta  não  é  só  um  exegeta  da 
realidade que o envolve e na qual está comprometido; ele é também o viajante que 
se  emaranha  no  alto  mar  da  dúvida12.  Como  tal,  não  será  inusitado,  nem 
inesperado  o  facto  de  um  ensaio,  no  decurso  do  seu  processo  de  construção, 
descarrilar  numa  temática  que  à  partida  não  teria  qualquer  elemento  de  relação 
com  o  mote  inicial13.  Isso  é  apenas  uma  consequência  da  vertente  dinâmica  do 
ensaio enquanto potenciador de um conhecimento intérmino. A este vector junta‐
se  a  espontaneidade  de  todo  o  processo  de  escrita,  em  que  transparece  uma 
orgânica  não  mecânica,  mas  muito  humanizada:  o  espontâneo  do  ensaio  é  o 
resultado  de  um  diálogo  que  o  ensaísta  vai  desenvolvendo  não  apenas  com  o 
potencial  leitor,  mas  principalmente  consigo  mesmo,  uma  vez  que  o  autor,  ao  se 

11 “Um ensaio não tenta esgotar um assunto, mas sim ser um mero avanço nessa direcção, uma contribuição 

individual que espera correcções e ampliações do próprio autor ou de outros” (Oviedo, 1991: 18). 
12 Neste  particular,  Fryda  Schultz  Montavani  não  se  inibe  de  classificar  o  ensaísta  como  um  aventureiro 
(Montavani, 1967: 16).  
13 “O ensaísta, embora se mantenha fiel ao seu tema, não está limitado por ele e na realidade excede‐o a cada 

momento.” (Oviedo, 1991: 13) 

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MATIAS, A. (2007) O conhecer "em ensaio": uma experimentação do possível. In, V. 
Trindade, N. Trindade & A.A. Candeias (Orgs.). A Unicidade do Conhecimento. Évora: 
Universidade de Évora. 

projectar  no  seu  texto,  dá‐se  a  conhecer  para  em  sincronismo  conhecer  e  se 
conhecer. 

Na  verdade,  está  é  uma  classe  de  textos  de  diálogo.  De  acordo  com  Oviedo,  “o 
ensaio é uma forma dialogante, um pensamento que quer ser comunicação aberta, 
tanto  com  o  leitor  como  com  o  mundo  histórico  a  que  pertence”  (Oviedo,  1991: 
16).  Nesta  esteira,  podemos  antever  que  o  ensaio  vai  chamar  a  si  a  função  e 
potencialidade  dos  diálogos  platónicos.  Se  bem  que  sob  a  capa  ilusória  de  um 
monólogo,  o  ensaio  é  de  facto  um  diálogo  com  o  seu  leitor,  com  a  realidade  que 
circunda  o  ensaísta  e  também  um  diálogo  com  o  “eu”  que  o  habita.  Em 
consequência,  há  no  contexto  ensaístico  uma  apropriação  da  máxima  délfica 
“Conhece‐te  a  ti  mesmo”  (gnw=çi seautovn)  que  desembocará  num  inevitável  “Só 
sei que nada sei”, retomado pelo “Que sais‐je?” cunhado na medalha de Michel de 
Montaigne.  Em  primeiro  lugar,  o  ensaísta  é  um  homem  que  conhece  os  limites 
intrínsecos  à  condição  humana,  o  que  implica  que  não  seja  alheio  à  dimensão  da 
problemática do conhecimento. A dúvida é tida como princípio de saber e ponto de 
partida  para  o  conhecimento,  que  erróneo  e  não  perene  deve  ser  buscado  numa 
constante dialéctica de suspicácia. A expressão Que sais­je? resume por um lado a 
autognose que o ensaio garante e, por outro lado, a atitude de dúvida profiláctica 
que  nele  existe  em  relação  ao  conhecer.  Em  segundo  lugar,  conscientes  de  que  o 
ensaio é também um texto de laivos autobiográficos, em que o autor se plasma no 
próprio  texto,  a  busca  do  conhecer  fica  assim  comprometida  com  a  finitude 
humana.  É  no  caminhar  da  possibilidade  que  o  homem  poderá  conhecer,  sempre 
certo de que almejar um saber objectivo e total seria uma ambição despropositada 
e inexequível. Estamos convictos de que todo o ensaio é uma atitude de reacção à 
concepção  hegeliana  da  “ideia  absoluta”:  em  ensaio,  o  conhecimento  é  sempre 
relativo  e  constantemente  sujeito  a  um  questionamento.  De  seguro  resta‐lhe 
apenas a ignorância consciente, que não conduz a um cepticismo destrutivo, antes 
aponta a capacidade infinda que o homem tem em expandir o que já conhece. 

De  um  modo  geral,  o  ensaio  constitui‐se  como  um  processo  de  errância14,  em 
que  o  texto  se  vai  desenhando  em  movimento  espiralóide.  Em  amiudado 
ziguezague e tacteio, qualquer ensaísta tem ainda hoje por gnoma uma das frases 
mais  interessantes  do  autor  bordalês:  “Gosto  do  andar  poético,  aos  saltos  e  aos 
pinotes.” (Montaigne, 2002c: 243). Na verdade, esta consciente vagabundagem do 
pensamento  ou  este  pensamento‐vadio  é  mais  uma  peça  fundamental  na 
concepção do conhecer ensaístico. Esta escrita ao sabor do próprio texto é a prova 
de  que  no  ensaio  se  traça  um  conhecimento  do  “errar”.  Tal  como  aventa  Maria 
Alzira Seixo em Outros erros: ensaios de literatura (Seixo, 2001), o ensaio é sempre 
um movimento de vaivém entre o erro e o saber, onde realidades como a digressão 
e a dispersão se fazem sentir veementemente. Todavia, mais uma vez se vinca que 
o erro não é adverso à verdade; aliás ele é vital para que haja verdades(s). O erro é 
a consequência directa da condição humana que cada homem tem em si. Ser finito 
e de limites o seu conhecimento encalha nos seus traços humanos. Como tal, o erro 

14 “O ensaísmo não oculta a sua dimensão errante.” (Jarauta, 1991: 44) 

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MATIAS, A. (2007) O conhecer "em ensaio": uma experimentação do possível. In, V. 
Trindade, N. Trindade & A.A. Candeias (Orgs.). A Unicidade do Conhecimento. Évora: 
Universidade de Évora. 
 
 
e a sua incessante superação em tentativa sisífica é o modus operandi que permite 
ao Homem conhecer. Todo o ensaio será, portanto, uma verdade a prazo, um erro a 
haver. 

Por outro lado, o erro é simultaneamente encarado por Maria Alzira Seixo como 
errância15,  em  divagação  e  em  erro,  visto  que  todo  o  ensaio  é  um  risco:  risco 
porque não teme expor as suas ideias; risco porque não se confrange em “mostrar” 
ao  seu  leitor  o  processo  sempre  atribulado  de  escrita.  Assim  sendo,  é  neste 
particular  que  o  ensaio  se  expõe  enquanto  dinâmica  de  pensamento,  de 
conhecimento e de escrita, uma vez que “o processo do erro é no seu processo que 
acaba  por  insistir,  no  caminho  do  risco,  mas  progressivo,  que  ele  assume.  É  no 
saber  que,  mesmo  parcialmente  e  com  todas  as  condicionantes,  ele  contorna  ou 
constrói”  (Seixo,  2001:  17).  O  ensaísta  ao  escrever  não  tem  qualquer  prurido  em 
nos  apresentar,  “desveladamente”,  o  seu  rascunho  de  pensamento,  pois  é 
precisamente esse ludismo com o leitor que ele pretende criar: eis o jogo ensaístico 
–  propiciar  a  atitude  crítica  no  leitor.  Em  suma,  no  ensaio  todo  o  errar  é  um 
(ar)riscar,  pois  é  na  dúvida  e  na  tentativa  que,  em  gerúndio,  se  bosqueja  uma 
verdade  possível,  porquanto  o  ensaísta  tem  a  noção  de  que  estando  em 
circunstância é‐lhe impossível fugir à força do devir a que está sujeito. 

Ultimando a nossa abordagem ao conhecimento ensaístico, urge aflorarmos um 
dos  procedimentos  mais  recorrentes  nesta  classe  de  textos:  a  metáfora.  Na 
realidade,  o  ensaio  utiliza‐a  não  só  como  um  artifício  poético‐literário,  mas 
também  e  mormente  como  um  instrumento  intelectual,  adensando‐se  consoante 
os campos de meditação em que o autor incorre. Conquanto alguns autores tenham 
defendido o seu afastamento ao nível científico, em contexto ensaístico a metáfora 
é  um  processo  fortemente  cultivado.  Ela  é  uma  construção  interpretativa  da 
realidade que o ensaísta arquitecta, dando‐a ao leitor como se de uma lente ou um 
filtro se tratasse. A metáfora apresentada em ensaio funcionará para o leitor como 
uma lente que lhe permitirá observar a realidade de um modo inesperado ou ainda 
não sondado. Assim sendo, a metáfora, enquanto processo de descobrimento ou de 
desvendamento, acentua‐se como modo de conceitualizar algo que se desconhece 
ou algo cujo conhecimento se revela escasso, incongruente ou insatisfatório. Desta 
feita,  tendo  em  consideração  pressupostos  ensaísticos  como  a  dúvida,  o 
antidogmatismo, a assistematicidade, a capacidade de abertura, a metáfora releva‐
se  como  um  dos  melhores  instrumentos  do  ensaio,  visto  que  ao  ser  entendida 
como processo de descobrimento interpretativo, à metáfora subjazerá o facto de a 
verdade ser dinâmica e em contínua metamorfose. 

A metáfora confere ao ensaio a capacidade de captar uma outra perspectiva da 
realidade que o envolve, propiciando uma atitude crítica de questionamento. Neste 
sentido,  ordinariamente,  muitas  das  metáforas  que  consubstanciam  as  teses  do 
ensaio põem em causa ou entram em confronto directo com as verdades escoradas 

15 “O  ensaio  pensa  o  seu  objecto  como  descentrado,  hipotético,  regido  por  uma  lógica  incerta,  impreciso, 
indeterminado: o seu discurso é sempre uma aproximação” (Jarauta, 1991: 45) 

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MATIAS, A. (2007) O conhecer "em ensaio": uma experimentação do possível. In, V. 
Trindade, N. Trindade & A.A. Candeias (Orgs.). A Unicidade do Conhecimento. Évora: 
Universidade de Évora. 

no  saber  ou  crenças  vigentes16.  Assim,  acreditamos  que  a  metáfora  ensaística 
choca o leitor, não porque apenas contraria as verdades do saber que vigora, mas 
também  porquanto  esse  embate  é  realizado  de  um  modo  artístico:  eis  as  razões 
pelas  quais  a  metáfora  torna  o  conhecer  ensaístico  verdadeiramente  original  e 
peculiar. Por fim, no que concerne à metáfora, devemos asserir que a sua utilização 
no  ensaio  proporciona,  ou  melhor,  acentua  a  intimidade  que  o  emissor  pretende 
estabelecer com o seu leitor, visto que uma metáfora só poderá ser apreendida em 
toda a plenitude se houver alguma cumplicidade entre ambos. 

Anunciando‐se  já  o  fim  do  nosso  estudo,  estamos  convictos  de  que  o  tipo  de 
conhecimento que o ensaio nos concede se finca numa pluriversalidade consciente, 
dado  que  não  negligencia  o  valor  das  múltiplas  opiniões  que  poderão  ser 
elaboradas sobre uma temática específica. Como tal, o ensaio é veículo de um saber 
incomensurável  que  nos  permite  questionar  as  próprias  bases  do  conhecimento, 
bem  como  os  limites  do  ser  humano.  Como  se  torna  evidente,  isso  implica  que  o 
conhecer  “em  ensaio”  seja,  tal  como  a  própria  classe  de  textos,  aberto,  sempre 
pronto a ser superado por uma outra óptica, perspectiva que o ponha em causa. 

À  guisa  de  epítome,  o  ensaísta  e  o  ensaio  têm  como  principal  sustentáculo  a 


dúvida. O cepticismo ensaístico, o cepticismo à maneira de Montaigne permite que 
não  nos  estatelemos  na  ortodoxia  abafante,  que  nos  coibiria  de  caminhar  em 
direcção à verdade e ao progresso do conhecimento. Pairando por entre as brumas 
da dúvida e da incerteza, o ensaísmo não é um ensinar, mas um exercício de auto‐
aprendizagem.  É  um  apre(e)nder  realizado  autónoma  e  singularmente, 
possibilitando  a  cada  um  de  nós  uma  autognose  e  um  conhecimento  do  Ser 
Humano  lato  sensu,  facto  que  nega  um  suposto  pendor  didáctico  do  ensaio, 
defendido  por  muitos.  Neste  sentido,  no  entender  de  Theodor  Adorno,  “a  mais 
íntima lei formal do ensaio é a heresia” (Adorno, 1962: 11). Contudo, mais do que 
heresia  texto  de  heterodoxia,  o  ensaio  questiona  a  verdade  pondo‐a  em  causa, 
permitindo  expandir  as  fronteiras  do  conhecimento,  embora  encontre  algumas 
restrições nos limites do homem. Além disso, o ensaio por ser um texto aberto, não 
exaustivo e plural, proporciona potencialmente uma penetração no conhecimento 
em  profundidade  e  não  tanto  em  amplitude.  A  exploração  cognitiva  no  ensaio  é 
feita  não  na  horizontal,  o  que  equivaleria  a  uma  reflexão  mais  abrangente  e 
exaustiva,  mas  sim  na  vertical,  facto  que  o  leva,  muitas  das  vezes,  a  incorrer 
paradoxalmente  em  errâncias  de  autognose.  Na  verdade,  não  é  debalde  que 
Montaigne afirma que o tratamento que dá um assunto em ensaio é penetrar nele 
não com amplitude, mas com a maior profundidade que pode (Montaigne, 2002a: 
369). 

O ensaio brinda‐nos com um conhecimento de experimentação pela polémica do 
confronto, afastando qualquer tipo de desígnios estabelecidos a priori, arraigados a 
sistemas ou dogmas. A sistematicidade e a exaustividade não são compatíveis com 

16 “Ao questionar a verdade estabelecida, abre fronteiras e nega as formas sacralizadas do conhecimento. Por 

consequência, o ensaio é antidogmático, assistemático e com alguma frequência herético.” (Oviedo, 1991: 13) 

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MATIAS, A. (2007) O conhecer "em ensaio": uma experimentação do possível. In, V. 
Trindade, N. Trindade & A.A. Candeias (Orgs.). A Unicidade do Conhecimento. Évora: 
Universidade de Évora. 
 
 
os ímpetos pulsantes do real, por isso o ensaio não pretende, nem poderia ser um 
texto  metódico  e  sistemático:  deixaria  de  consentir  múltiplas  interpretações, 
facultava somente um caminho de análise, impondo apenas uma leitura. Todavia, o 
ensaio  tem  uma  abrangência  que  extravasa  os  limites  da  própria  classe  de  texto, 
pois  também  implica  uma  nova  postura  do  seu  autor  face  à  realidade,  que  a  terá 
que  analisar  de  uma  diferente  perspectiva,  fazendo  em  simultâneo  uma  pesquisa 
da sua ipseidade, como nos garante Domingo Ynduráin: “Creio que, Montaigne com 
os  Essais  não  cria  um  novo  género,  o  que  cria  é  uma  nova  literatura  que  aspira 
reflectir  o  homem  que  a  escreve,  não  um  mundo  autónomo  e  objectivo, 
independente do autor e o do leitor” (Ynduráin, 1994: 1207). 

Assim  sendo,  o  ensaio  tem  como  força  instigadora  do  seu  conhecer  a  dúvida, 
pois, como afirmou Merleau‐Ponty, “não se trata de obter por qualquer preço uma 
conclusão  tranquilizadora,  nem  de  esquecer  no  fim  o  que  se  encontrou  no 
caminho. É na dúvida que a certeza virá. Mais: é a própria dúvida que vai revelar‐se 
certeza”  (Merleau‐Ponty,  1962:  312‐313).  O  ensaio  é,  na  verdade,  um  veículo  de 
um conhecimento errático, porque no erro, porque na errância, culminando numa 
corrente  de  possibilidade,  estabelecida  numa  dinâmica  dialéctica  com  o  leitor  de 
arte em pensamento e pensamento em arte. 

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