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UFRJ

O CIDADÃO POLIDO e o SELVAGEM BRUTO
A EDUCAÇÃO DOS MENINOS DESVALIDOS NA AMAZÔNIA IMPERIAL

Irma Rizzini

Tese de Doutorado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História Social, Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Doutor em História. Orientador: Marcos Luiz Bretas da Fonseca

Rio de Janeiro, março de 2004

O cidadão polido e o selvagem bruto A educação dos meninos desvalidos na Amazônia Imperial
Irma Rizzini Orientador: Marcos Luiz Bretas da Fonseca

Tese de Doutorado submetida ao Programa de Pós-Graduação em História Social, Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Doutor em História.

Aprovada por: _______________________________ Presidente, Prof. Marcos Luiz Bretas da Fonseca _______________________________ Prof. Aldrin Moura Figueiredo _______________________________ Prof. João Luís Ribeiro Fragoso _______________________________ Prof. Luiz Cavalieri Bazílio _______________________________ Prof. Mary Del Priore

Rio de Janeiro, março de 2004.

Rizzini, Irma. O cidadão polido e o selvagem bruto: a educação dos meninos desvalidos na Amazônia Imperial / Irma Rizzini. – Rio de Janeiro: UFRJ/IFCS/PPGHIS, 2004. x, 444 f.: il.; 29,7 cm. Orientador: Marcos Luiz Bretas da Fonseca Tese (doutorado) – UFRJ/ /IFCS/ Programa de Pós-Graduação em História Social, 2004. Referências Bibliográficas/Fontes: f. 391-405. 1. História da educação. 2. Meninos desvalidos. 2. Meninos indígenas. 3. Instituições educacionais. 4. Amazônia. 5. Pará. 6. Amazonas. I. Rizzini, Irma. II. Universidade Federal do Rio de Janeiro, Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, Pós-Graduação em História Social. III. O cidadão polido e o selvagem bruto: a educação dos meninos desvalidos na Amazônia Imperial.

Agradecimentos

A elaboração de uma tese, ao longo de seus quatro anos, permite a construção de todo tipo de laço de solidariedade e compreensão. Citarei aqui aqueles que acompanharam o processo com grande proximidade ou que facilitaram a realização de tarefas que, de outro modo, teriam sua execução comprometida. Assim, agradeço a consideração e os cuidados especiais que recebi, do professor Marcos Bretas, pela orientação dedicada e o apoio em diversas atividades exercidas durante a pesquisa. Vindo de outra área acadêmica e assumindo um objeto de pesquisa inteiramente diverso da minha experiência anterior, a confiança depositada no projeto me ajudou a prosseguir, mesmo nos momentos mais difíceis desta trajetória. das professoras Vera Lúcia Soares (Universidade da Amazônia /Pará) e Patrícia Melo Sampaio (Universidade do Amazonas), pelos convites para os seminários realizados em suas universidades, quando tive oportunidade de debater a pesquisa que vinha realizando na região. da professora Karla Martins (Universidade Federal do Amapá/Universidade Federal de Viçosa), sempre pronta a responder aos meus pedidos de ajuda. Foram longas e agradáveis conversas por e- mail. de Cláudia Paixão (UFRJ/IFCS), que me auxiliou no início da pesquisa e com a maior disposição se prontificou a fotografar imagens de instituições educacionais do início do século XX, depositadas em obras da Biblioteca Nacional e do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Já nos últimos momentos da tese, Luis Fernando de Faria Nogueira preparou a reprodução digital dos mapas em anexo. de Alessandra Martinez Schueler, pelas importantes dicas sobre a história da educação no século XIX. de Eneida Pamplona, que com paciência e carinho, ouviu minhas dúvidas e incertezas ao longo da escrita da tese. Agradeço à equipe do Centro de Estudos e Pesquisas sobre a Infância, especialmente a Irene Rizzini, pela enorme compreensão que demonstrou ter ao me liberar de todas as (inúmeras) atividades do Centro. E à coordenação do PPGHIS, que viabilizou a realização da pesquisa nos arquivos e bibliotecas de Belém e Manaus em 2002, com a aprovação para a concessão das passage ns. À família Marinho Batista, nas pessoas de Luciana, Virginia e Edir, meu agradecimento especial, pela acolhida durante a pesquisa realizada em Belém, quando a hospitalidade e afeição de todos amenizaram a saudade de casa. As trocas de idéias e materiais com Luciana foram fundamentais para o aprofundamento do meu aprendizado sobre a história do Pará. Sem dúvida, o saldo das novas amizades é uma feliz conquista de todo este processo. E, relaciono por último, para guardar bem na memória, os meus queridos Ricardo, Clarissa e Camila, que permaneceram o tempo todo ao meu lado, me apoiando e dando a necessária tranqüilidade afetiva para a árdua tarefa a que me propus fazer.

Resumo
O cidadão polido e o selvagem bruto A educação dos meninos desvalidos na Amazônia Imperial Irma Rizzini Orientador: Marcos Luiz Bretas da Fonseca

Resumo da Tese de Doutorado submetida ao Programa de Pós-Graduação em História Social, Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Doutor em História. O envolvimento e os percalços dos governos das províncias amazônicas junto à instrução da população, no período de 1850 a 1889, constituem o objetivo deste estudo. A educação popular é analisada de acordo com o entendimento de seus empreendedores, ou seja, como a instrução elementar e profissional do povo, formado, em geral, pelos filhos dos pobres livres. A população desvalida do Pará e do Amazonas apresentava grande diversidade étnica e cultural, atingindo as instituições educacionais nos aspectos mais fundamentais, pois freqüentemente não havia a desejada uniformidade lingüística e de costumes. A pesquisa privilegia as instituições educacionais dirigidas aos meninos, tanto as escolas primárias quanto os internatos de ensino profissional. A prioridade recai sobre a educação enquanto uma política de governo, portanto, as escolas públicas e os internatos oficiais de formação de artífices são os objetos principais da análise. Dos internatos, optou-se por incorporar à análise aqueles cujas propostas educacionais se aproximavam das instituições oficiais, como foi o caso do Instituto Providência, criado pelo Bispo do Pará. A experiência dos internatos nortistas é comparada com outras iniciativas disseminadas pelo país, abarcando tanto os estabelecimentos de educandos artífices quanto os esparsos e breves projetos dos colégios indígenas do Segundo Reinado. As fontes do estudo foram pesquisadas nos arquivos do Rio de Janeiro, Belém e Manaus, abrangendo, além de outros materiais, a documentação primária e secundária das instituições educacionais públicas e as coleções eclesiásticas. A correspondência entre diretores e presidentes de província, os relatórios institucionais, os artigos e cartas aos jornais de Belém e Manaus sobre a educação popular se mostraram fontes essenciais para a pesquisa. O estudo revela que o quadro da educação popular se modificou substancialmente nas duas províncias, notadamente no último decênio do Império. Pais de alunos e moradores das pequenas localidades do interior das províncias forçaram a abertura de nichos de participação neste processo, através das cartas aos jornais e às diretorias de instrução pública. Belém e Manaus abrigaram os institutos de aprendizes artífices de maior duração do Império e conheceram um importante crescimento na instrução primária pública, atingindo índices de alfabetização correspondentes às principais capitais do país.

Abstract
The polite citizen and the rough savage Education of poor children in Brazilian Amazônia (1850-1889) Irma Rizzini Supervisor: Marcos Luiz Bretas da Fonseca Programa de Pós-Graduação em História Social, Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, Universidade Federal do Rio de Janeiro

This study concerns the development and the difficulties faced by the provinces of the north of Brazil to offer education to the people, between 1850 and 1889. The idea of popular education is treated according to its contemporary understanding; as basic and professional training for the children of free poor. The lack of a common language and customs among the poor in Amazonas and Pará, due to its ethnic and cultural diversity presented a challenge to the new educational institutions. The research is focused on institutions for the education of boys, both in primary schools and in boarding schools dedicated to professional training. The priority is to understand education as public policy, therefore public sponsored establishments are privileged in our work. Boarding schools are examined when their project is similar to public institutions. The experience of boarding schools in the north is compared to others around the country, both for training craftsmen or dedicated to the rare projects for the education of the indian children. The sources of the study have been researched in archives from Rio de Janeiro, Belém, and Manaus, encompassing the surviving documents from the institutions, and eclesiastical sources. The exchanges between public education officials, public reports, letters to the press and articles published in Belém and Manaus were essential to our purposes. We show that popular education in the North provinces experienced deep changes in the last decade of the Brazilian Empire. Parents and inhabitants of small villages mobilized through the press. They also wrote to the authorities, forcing them to open new spaces for education. Belém and Manaus held the longest lasting professional boarding schools and had a significant growth in primary public education, reaching levels of literacy as high as the main cities of the country.

O cidadão polido e o selvagem bruto A educação dos meninos desvalidos na Amazônia Imperial Sumário
Introdução..........................................................................................................................1

Capítulo 1 - A educação nas Províncias do Pará e do Amazonas: o século das luzes na Amazônia ..............................................................................................................12 Abordagens historiográficas da educação no Brasil .................................................15 O governo da população e a instrução pública: Amazonas e Pará na metade do século XIX ......................................................................................................................... 22 Visitando a cena: as escolas sob exame ................................................................... 31 A observação e o exame em prol da reforma da vida indiana no Pará...................32 Um testemunho – Gonçalves Dias no Amazonas .................................................39 As casas escolares e os professores..........................................................................48

Capítulo 2 - A civilização nas fronteiras remotas da Amazônia: expansão da instrução pública nas décadas de 1870 e 1880..........................................................55 Os números da instrução primária pública na Amazônia ..........................................59 A expansão geográfica......................................................................................... 61 A expansão social................................................................................................68 Necessidades dos governos e demandas da população .............................................78 A fiscalização das escolas e a política d’aldeia ........................................................ 85 Tensões na inspeção escolar: as queixas de pais, professores e autoridades públicas ............................................................................................................................ 90 A visita escolar: observando a escola e os modos de viver da população ................ 100 Modos de viver das famílias versus a instrução da infância ................................ 105 Entre pais, chefes de família e mandões d’aldeia: imagens, vivências e usos da escola ..............................................................................................................................112 Os combates ao patronato e à politicagem na instrução pública ......................... 118 Os procedimentos escolares: críticas através da imprensa ...................................... 136 Os procedimentos escolares: o mestre sob o olhar vigilante dos pais.................. 140

..............................................................................................406 Imagens.................................................182 Educação versus exploração do trabalho dos meninos índios..........................................................................................340 Instituto “Providência”........................ Pará.........................309 O controle dos governantes sobre a instituição..................Capítulo 3 .......................................273 A extinção da Casa de Educandos de Manaus..........................324 Colégio dos Índios de Urubá..................................................................Colégios indígenas do Brasil Imperial: projetos educacionais do Cônsul Domingos Gonçalves....158 O ensino profissional no Segundo Reinado........................................................................................................................................................................430 ............................................................................................................350 Conclusão..........406 Tabelas.............................................................391 Bibliografia........159 O ensino de ofícios mecânicos em instituições asilares: casas de educandos artífices e instituições afins......303 A entrada da ruim política da Província no Instituto Paraense............................................................................................................................................................................................................................................................................................................293 O Instituto Paraense de Educandos Artífices............ étnicos e políticos......................Instituições asilares de formação de artífices na Amazônia Imperial: educandos de Belém e Manaus ....................................267 A exposição da decadência da Casa dos Educandos na imprensa amazonense..............................Selvagens x polidos: o ensino profissional no Segundo Reinado.............................................................. Goiás............................................................................................................................ Pernambuco.............380 Fontes......................................................223 Resultados do aprendizado: a difícil inserção no mercado de trabalho.............................................331 Colégio Isabel....265 Educandos do Amazonas.....................288 O Instituto Amazonense de Educandos Artífices........................253 Capítulo 4 ..........234 Representações e expectativas familiares..............................................................................................190 A educação para o trabalho nas instituições imperiais....................................................................................... do Brigadeiro Couto de Magalhães e do Bispo Macedo Costa............................................................................................................... ...............168 A clientela das instituições: critérios sociais....................................................206 Os mestres de ofícios........313 Capítulo 5 ...............................................................227 O cidadão polido e o selvagem bruto: o regime disciplinar das instituições e o comportamento dos educandos...............................................397 Anexos ............................

................178 Filiação dos colonos da Colônia Orfanológica Isabel – PE...62 Número de matriculados e de escolas públicas primárias da Província do Amazonas no 1º trimestre de 1888....................406 Anexo 1 ....................................... em idade escolar (6 a 15 anos)............409 Anexo 5 ............170 Instituições de formação profissional ....................... segundo o Censo de 1872.............................................. por tipo de escola......................................................População escolar e escolas públicas primárias por comarca da Província do Pará (1881) ...................................................................Instrução Pública no Amazonas (1852-1889)...........69 Alunos e alunas matriculados nas escolas públicas da Província do Amazonas no 1º trimestre de 1888.............................Escolas públicas do Pará em dezembro de 1888..................................Freqüência diária das escolas públicas de ensino primário do Pará (1º trimestre de 1864) .......................................................Freqüência diária das escolas públicas noturnas da Província do Pará no 1º trimestre de 1887 e no 2º trimestre de 1888.....104 Do capítulo 3 Casas de Educandos Artífices criadas no século XIX...................408 Anexo 4 ..........................................66 Freqüência à escola dos meninos e das meninas livres...............................................................207 Número de alunos por aula oferecida na Colônia Orfanológica Isabel – PE.................................410 .Instrução pública primária no Pará (1840-1888)..................... Pernambuco e Bahia.........................64 Freqüência diária das escolas públicas primárias (diurnas) da Província do Pará no 1º trimestre de 1887 e no 2º trimestre de 1888........................................................................................................409 Anexo 6 .................Quadro demonstrativo da freqüência das escolas de instrução primaria do Pará (1861-1870)............408 Anexo 3 .......................................................................................71 Freqüência diária das escolas públicas primárias (diurnas) da Província do Pará no 1º trimestre de 1887 e no 2º trimestre de 1888..187 Programa de ensino de instituições profissionalizantes do século XIX......................................................................Rio de Janeiro............................................................................................. segundo o Censo de 1872.....................Quadros e tabelas Do capítulo 2 Freqüência à escola da população livre em idade escolar (6 a 15 anos)......................................82 Relação das visitas escolares localizadas na documentação (1870-1889)...................................................................237 Do capítulo 4 Despesas da Província do Amazonas com educação da mocidade entre 1858 e 1868..................................................................................407 Anexo 2 ..............................................................................213 Casa dos Educandos Artífices do Maranhão: alunos “demitidos” em 1850....409 Anexo 7 ........ 289 Anexos Estatística escolar do Pará e do Amazonas (referente aos capítulos 1 e 2).......

........ por sexo..414 Número de alunos por oficina ....................................Instituto Paraense de Educandos Artífices ..427 Imagens ..........Freqüência à escola da população livre em idade escolar (6 a 15 anos).Instituto Paraense de Educandos Artífices ...............................................................................................419 Estatística escolar e Censo de 1872................. Instituto Gentil Bittencourt Siglas RPAM – Relatório da Presidência da Província do Amazonas RPPA – Relatório da Presidência da Província do Pará RPMA ..416 Anexo 14 .......................................430 Mapas do Pará e do Amazonas – distribuição geográfica das escolas públicas...........................421 Anexo 23........Jovens formados nos Asilos dos Meninos Desvalidos (RJ) entre 1875 e 1894.............................Maranhão ...................411 Anexo 9 ............................................................ Instituto do Prata.......................Número de alunos das escolas públicas de ensino primário no Amazonas (1852-1876) ... .............................................Pernambuco .........................................431 Fotos de internatos de formação profissional do Pará e do Amazonas...................... de 1888)..................................Relatório da Presidência da Província do Maranhão RPPE – Relatório da Presidência da Província de Pernambuco RPGO – Relatório da Presidência da Província de Goiás ............................................Quadro demonstrativo da matricula das escolas públicas primárias da Província do Amazonas no 1º trimestre de 1888..........417 Anexo 17 ..........................................................Colégio de Ed ucandos Artífices em 1873 ......................Número de educandos por ano (Casa dos Educandos .415 Anexo 12 ...........................Paraíba ......................418 Anexo 19 ...............417 Anexo 15 ......... 1887 e 2º trim........................................................................................Casa de Educandos Artífices em 1848 .....412 Anexo 10 ..............420 Anexo 21............................................................415 Anexo 13 ...418 Anexo 20 ...........................................Maranhão ......414 Anexo 11 ................ segundo o Censo de 1872 (Pará e Amazonas)...............Ceará .....Anexo 8 ...............Casa de Educandos Artífices em 1861 .......Mapa demonstrativo freqüência diária das escolas públicas primárias da Província do Pará (1º trim.............................................Colônia Orfanológica Isabel em 1876 ...........................................418 Anexo 18 ................................................ por profissão ....................................Casa de Educandos Artífices (Amazonas) ......Situação em 1888 das localidades relacionadas no “Mapa geral do movimento do ensino público primário na Província do Amazonas no ano de 1877” .........413 Estabelecimentos de ensino profissional (referentes aos capítulos 3 e 4)..................................Manaus) ........................Casa de Educandos Artífices em 1862 .........Destinos dos ex-alunos da Casa Pia dos Órfãos de São Joaquim – Bahia (1825-1910) ....................................... 420 Anexo 22..........................415 Anexo 13 ......................................................417 Anexo 16 ..................433 Amazonas: Instituto Afonso Pena Pará: Instituto Lauro Sodré............................................................Mapa geral do movimento do ensino público primário na Província do Amazonas no ano de 1877.................

delineadas ainda no século XIX. através da consolidação da língua portuguesa na região. Portanto. As duas províncias inseriam-se nos movimentos. pela queda do regime imperial. a instrução elementar pública é discutida. As transformações pelas quais passaram Belém e Manaus do período da belle époque mostram o quão profundamente as metas do progresso e da civilização. quase 40 anos de história. abrangendo. Em se tratando de uma região cercada pelo preconceito contra a selva e o selvagem . nacional e internacional. parafraseando o bispo.Antonio de Macedo Costa. Trata-se do Instituto de Agricultura. Nos dois primeiros capítulos. D. em 1850. As escolas públicas espalhadas pela imensa região e os estabelecimentos de educandos artífices das capitais constituem objetos privilegiados deste estudo. como também a intromissão da Igreja local no âmbito da instrução pública e na educação do povo amazônico. para a educação dos filhos do Amazonas e do Pará. Em termos específicos. 1 . O limite inicial é determinado pela separação legal do Amazonas da Província do Grão-Pará. visava-se à formação de quadros para o funcionalismo público e para servir aos propósitos eleitorais. Artes e Ofícios “Providência”. portanto. foram seguidas.Introdução O foco da presente pesquisa incide sobre a educação dos meninos nas províncias do Pará e do Amazonas. O objetivo inicial da pesquisa de investigar a educação indígena “falou mais alto” neste caso. com uma única exceção. os termos progresso e civilização adquiriam valoração toda especial. O objeto de análise é o conjunto das instituições educacionais voltadas para a instrução elementar e à formação profissional de meninos índios e desvalidos. de disseminação da instrução elementar entre as classes populares. na perspectiva de um programa de educação popular voltado para a afirmação da nacionalidade. Uma sociedade formada por cidadãos de arco e flecha constituiu um estigma que as elites locais se esforçaram por suplantar. num período em que a quantidade de escolas e de alunos passou a ser considerada importante indicador de progresso e de civilização de uma nação. somente as iniciativas dos governos provinciais são trazidas à cena. criado pelo Bispo do Pará. A análise abarca o período de 1850 a 1889. e o final.

governantes e governados estavam com os pés fincados na terra local. visando reverter o tão anunciado estado crítico das escolas elementares. A educação tornava-se uma prioridade para liberais e conservadores. e especificamente. criando o seu primeiro regulamento e algumas escolas. Verifica-se. utilizando intensamente os recursos oferecidos pelas instituições educacionais em benefício dos mecanismos eleitorais. que estava prestes a fechar as portas. notadamente no último decênio do Império. do Estado e da Igreja. As Casas de Educandos 2 . envolvendo a sociedade letrada de Belém e Manaus. algumas bem distantes das capitais. a instrução do povo alcançou uma posição de destaque na região. O quadro da educação popular se modificou substancialmente nas duas províncias. e reformava a legislação. passaram a contar com escolas públicas de meninos e meninas e as principais cidades instituíram escolas noturnas para trabalhadores. No primeiro período. O número de escolas e alunos aumentou consideravelmente. o debate relativo à educação do povo expandiu-se do âmbito governamental. não apenas nas capitais. Atentos às grandes questões do século das luzes.As diferenças na abordagem das décadas de 1850-1860 e 1870-1880 são patentes neste trabalho. sob a influência das idéias liberais e sob o domínio das paixões partidárias. para o estudo das instituições públicas de formação de artífices do Pará e do Amazonas. no âmbito da população. O Pará vivia o fracasso da experiência da Casa de Educandos Artífices. O Amazonas iniciava a estruturação do ensino público na Província. através das cartas aos jornais e às diretorias de instrução pública. As demissões e novas admissões de professores e funcionários das instituições educacionais públicas nos períodos de mudança de gabinete incendiavam as discussões n os jornais de Belém e Manaus. neste período. Pais de alunos e moradores das pequenas localidades do interior das províncias forçaram a abertura de nichos de participação neste processo. Os diretores da instrução pública não se cansaram de repudiar o envolvimento de professores no processo eleitoral das cidades. quando povoações. em decorrência da trajetória educacional das províncias. Os capítulos 3 e 4 estão voltados para a discussão do ensino profissional no século XIX. em âmbito nacional. Nas décadas de 1870 e 1880. as iniciativas educacionais são mais tímidas e restritas à esfera governamental. vilas e povoados do interior. Para o “bem” ou para o “mal”. a expansão geográfica e social da instrução.

a favorecer suas redes de protegidos. Pernambuco e Goiás. As denúncias de moradores e familiares de alunos do interior. o esforço de trazer à tona o cotidiano educacional. Tarefa praticamente impossível na análise dos rígidos internatos. inimigos e amigos políticos. o governo procurou reservar vagas para filhos de índios. visitantes. ao lado de meninos desvalidos e de indígenas. os anseios e os flashes do cotidiano da instituição educativa eram expostos através dos jornais. especialmente. para que governo e população se inteirassem das angústias e 3 . Os estabelecimentos estavam sob o controle do centro do poder político das províncias. oriundos das províncias do Pará. incluindo-se as escolas públicas. obedecendo às exigências da análise. deixando-a. A autoridade máxima da província acompanhava o funcionamento cotidiano da instituição. a pesquisa de periódicos amazonenses. delegados literários. impuseram a necessidade de ampliar o escopo da pesquisa para os mais diversos projetos de educação popular na região. A admissão de educandos era decidida pela presidência. foram instalados nas capitais. porém somente no que condiz aos colégios indígenas (internatos). pais. Ao lado das importantes fontes oficiais. atendendo às suas necessidades e conferindo-lhes status social. As cartas e os artigos de colaboradores surgiram inesperadamente na pesquisa. Em se tratando de categoria s das mais desvalorizadas socialmente. moradores dos povoados. não foi de todo malogrado. adotando estratégias visando eliminar suas desconfianças. Contudo. No Amazonas. A metodologia de trabalho e as fontes de pesquisa estão descritas nos capítulos. através das visitas de chefes ou parentes à instituição. uma iniciativa da qual o bispo Macedo Costa se ocupou pessoalmente. sobretudo do Pará. em muitos momentos. nem é preciso advertir o leitor de que suas vozes não aparecem na documentação. as dos menores desvalidos e dos filhos de índios. Três projetos de ensino agrícola e artístico são expostos. O tema do ensino profissional é retomado no capítulo 5. A análise centra-se na experiência paraense. vulnerável aos desmandos das disputas políticas. etc. se mostrou extremamente rica devido ao acesso de outros participantes do processo educativo: professores. alterando seus rumos. porém. vivências da escola e do internato por seus diversos participantes. tendendo. e especialmente. dos paraenses. submetidos às ingerências diretas dos presidentes. como passaram a ser chamados a partir da década de 1870.Artífices ou os Institutos. Filhos de funcionários públicos e de militares estudaram nos institutos.

Associados às outras fontes pesquisadas na região e nas bibliotecas e arquivos situados no Rio de Janeiro. propondo reformas ou enaltecendo as suas instituições educacionais. conforme a análise as exige. Uma breve apresentação das províncias do Amazonas e do Pará se faz necessário para uma melhor compreensão das políticas educacionais desenvolvidas em seus territórios no século XIX. permitiram a construção de cenas da vida institucional. analisando. Os ofícios trocados entre os diretores do Instituto Paraense de Educandos Artífices e os presidentes do Pará. pesquisadas nos arquivos públicos e religiosos do Pará e do Rio de Janeiro. José Ribamar Bessa Freire. Mas. A pesquisa realizada nos arquivos e bibliotecas de Belém e Manaus. Ana Maria Daou. Informações adicionais estão distribuídas pelos capítulos. pinçado dos rolos dos microfilmes da Biblioteca Nacional. possibilitaram à pesquisadora. A caracterização baseia-se nos trabalhos de Patrícia Maria Melo Sampaio. os jornais locais mostraram o quanto estavam comprometidos com a educação popular na região. mesmo com toda a aridez dos documentos burocráticos. possibilitada pela concessão de passagens através da coordenação do Programa de PósGraduação em História Social (UFRJ/IFCS). As coleções eclesiásticas relativas à correspondência do bispo. cedemos ao ímpeto de nos estender no relato dos caminhos da pesquisa. combatendo. Uma extensa carta de um morador do interior do Pará revelou as possibilidades deste novo caminho. passando à descrição das províncias amazônicas. Temendo a repetição. pouco se referem à iniciativa. 4 . como a aquisição das terras do Instituto Providência. A carta representou para esta pesquisa um verdadeiro achado. a pesquisa não pretendia somente abarcar a documentação governamental. contra o professor público. somente citada nas questões restritas ao âmbito estatal. senão “entrar” na instituição. Novamente.propostas de reforma destes atores. indignado com a abertura de uma taberna colada à parede da escola – a carta seguia com a descrição de outros problemas da escola e desmandos do mestre junto a seus alunos. Logo pudemos descobrir o silêncio das fontes eclesiásticas quanto ao Instituto que tanto empolgou o polêmico Bispo do Pará. Maria de Nazaré Sarges e no Censo de 1872. possibilitou contornar a dificuldade de acesso aos meninos e familiares dos internatos profissionalizantes. ao menos dar umas “olhadelas” pela janela. Tratava-se de uma denúncia de morador ou pai de família.

avenidas e praças arborizadas. devido à imensidão da região. DAOU. com iluminação a gás. formada por quatro paróquias. Rio de Janeiro. Baixo Amazonas e Alto Amazonas. Cidade de longa história colonial. somente implantada em 1852. Maria de Nazaré. Entre os escravos.560 habitantes ao findar o século XIX (IBGE-Sinopse do Recenseamento de 1920. 2 A população total da Província. Com a implementação do Código Criminal na região. Patrícia Maria Melo. pois a legislação vetava o acesso dos escravos ao ensino público no país.458 escravos.Santa Maria de Belém se originou da construção de um forte no século XVII pelos colonizadores portugueses. 2000. Em 1850. e da Província no todo. foi significativo. emancipado do Estado do Maranhão e Grão-Pará. os dados educacionais da área geográfica correspondente ao município de Belém. Essa situação persistiu até o início do XIX. separaremos a cidade de Belém de seu município.000 habitantes. 5 . 2001. dedicada às atividades extrativistas. O Censo de 1890 contabilizou para o município de Belém somente 50. Em 1872. Os filhos dos escravos não foram incluídos na categoria da população em idade escolar do Censo Geral de 1872. Citado por SARGES. especialmente. o município de Belém já contabilizava 61. 1 O Censo de 1872 apresenta aspectos importantes da Província.237 indivíduos. Maria de Nazaré. à dificuldade de acesso a certos locais e à mobilidade de uma parcela da população da capital e dos demais núcleos populacionais. em 1872.064 habitantes.997 habitantes. O crescimento demográfico da bela cidade formada pelo casario colonial. 27. 1 2 SAMPAIO. subordinada diretamente a Lisboa. Já os dados de 1900 se aproximam das estimativas: Belém possuía 96. 2000 e SARGES. entre eles. era de 275. ressaltando-se a necessidade de se olhar com reserva para os dados censitários do período. constituído por doze paróquias. distribuídos por treze distritos correspondentes às antigas paróquias. A sede do Estado do Grão-Pará manteve-se em Belém. obedecendo a um preceito constitucional que prescrevia a instrução pública gratuita aos cidadãos. a Província do Pará passou a ter três comarcas: Grão Pará.90). Quando necessário para fins de comparação. p. o Alto Amazonas tornou-se a Província do Amazonas. visando à defesa da região contra a invasão de estrangeiros. em 1833. Belém chegou à metade do século XIX com uma população em torno de 25. Apresentaremos. 89 sabiam ler e escrever. Ana Maria. 1926. chegando ao final do século com uma estimativa em torno de cem mil habitantes. O Estado do Grão-Pará e Rio Negro foi criado entre 1772-1774.

empregadas em levantamentos realizados anteriormente no Amazonas.9% da população em idade escolar.997 habitantes. como a doméstica.5%.1%. Considerando-se a Província toda. com maior concentração nas quatro paróquias que formavam a capital. Belém apresentava índices surpreendentes. Na Corte. p. a relação se inverte: 18. 4 FREIRE. As meninas em idade escolar tinham um índice maior de freqüência às aulas do que os meninos: 26. foram eliminadas do primeiro Censo Geral do Império. Uma ressalva deve ser feita à categoria “freqüentam escolas” do Censo de 1872. O Censo de 1872 oferece uma visão aproximada da composição étnica da região. 24.972 habitantes constituídos por escravos.3% de pardos e 18. a taxa de alfabetizados continuava alta para o período.4% dos moradores do município de Belém. José Ribamar Bessa. 35. 36. Na cidade de Belém. cujos escravos representavam 14. mas somente 14. ocupavam 5. Alessandra Frota. 3 O índice de alfabetização da população livre do município da capital era bem mais alto: 53. de todas as faixas de idade.3% das meninas na faixa de 6 a 15 anos estavam na escola. ou seja. contra a taxa de 22.15% de meninas.3% dos meninos. 6 . 1997. a educação das meninas vinha adquirindo um valor diferenciado com relação aos meninos e ao restante do Pará. freqüentavam escolas.3% dos 61.8% dos 274. atingindo 22. A diferença entre os percentuais de escravos dos dois municípios não explica a clivagem no índice de alfabetização entre Belém. 4 Os ofícios mecânicos.166. já que no período era comum o uso dos termos freqüência e matrícula escolar como sinônimos.4% da população em idade escolar. e a Corte.2% de brancos. 40.9% de pretos. As categorias de índios e mamelucos.6% de caboclos. Os recenseadores encontraram em Belém uma população formada por 5. A diferença entre as taxas de alfabetização e freqüência à escola revela a baixa escolarização da população frente a outras formas educacionais. p. Comparado com a cidade do Rio de Janeiro. A categoria de “caboclos” passou a incorporar estes dois grupos. 45. Incluindo no cálculo a população escrava do município. com 17. A freqüência à escola em Belém não era muito superior aos outros municípios. instalado em 1872.2% da população total era alfabetizada em 1872. os quais passariam a compor o programa de ensino profissionalizante do Instituto Paraense de Educandos Artífices. 2003.Dentre a população livre da Província.4% sabiam ler e escrever.3% de meninos contra 11. centro do poder político do país. Os “operários” 3 O percentual de analfabetismo no Pará correspondia ao do Império. constituída por indivíduos livres entre 6 e 15 anos. em torno dos 80% (MARTINEZ.131).

no ano de 1888. Manoel Baena listou quinze estabelecimentos. vilas e povoações do Pará. mas seus governantes e legisladores promoveram reformas legislativas e a criação de um significativo número de instituições educativas. não escondendo o que ele considerava velho e feio. O Pará não apenas acompanhava as discussões acerca da educação popular que circulavam pelo país e nos “países cultos”. elaborou um relatório por solicitação do Governo Imperial. o diretor da instrução registrou na Província toda. progresso e civilização são expressões que adquiriram um forte simbolismo nas províncias amazônicas. Além dos estabelecimentos educacionais citados. apresentando cifras de um terço a 100% mais altas do que a freqüência efetiva às aulas. Em 1885. A difusão da instrução pública tornou-se um objetivo importante nas duas últimas décadas dos oitocentos. a cidade de Belém possuía 24 escolas e. o governo mantinha um liceu para o ensino secundário de rapazes e um colégio (internato) para órfãs e desvalidas. O número de escolas podia apresentar variações nos relatórios do mesmo ano.930 alunos. com a freqüência média de 9. metais. para o ensino de ofícios e de agricultura aos desvalidos. A 5 Geralmente as diretorias de instrução do Império contabilizavam os alunos matriculados . porém destacando o progresso de suas companhias urbanas e a beleza de suas edificações. este número saltou para 53 escolas primárias. Manoel Baena.que trabalhavam com madeiras. descrevendo todas as cidades. 7 . Antonio de Macedo Costa. o diretor da 2ª seção da Diretoria da Secretaria da Presidência da Província. A aspiração de transformar matas em campos cultivados e nativos em seres civilizados era tema recorrente nos discursos das elites ilustradas de Belém e Manaus. D. A cidade era formada por quatro distritos ou freguesias. Neste ano. além do Asilo Santo Antônio para meninas e do Instituto Providência. calçados e em edificações eram mais abundantes. O número de estabelecimentos particulares de ensino primário e secundário também crescia.550 alunos matriculados em 331 escolas públicas. A Escola Normal e o Instituto Paraense de Educandos Artífices surgiram no calor dos empreendimentos e debates educacionais. capítulo 2). 5 No ano de 1885. ambas iniciativas do Bispo do Pará. sobretudo na cidade de Belém. Baena retratou mais detalhadamente a cidade de Belém. servidos por linhas de bonde. 16. devido à diferença entre o total de escolas providas de professores e o total de escolas criadas (Cf. vestuários. Prosperidade. no anseio de sobrepor estas condições à resistência imponente da selva e do selvagem . notadamente a partir da metade da década de 1870.

em 1755. A cidade de Manaus também teve sua origem ligada à defesa da região. Os dados disponíveis informam que. 8 . quatorze praças. O Censo de 1872 apresentou uma população total de 57. pois apenas 2% do contingente populacional eram formados por cativos. uma menção aos Manáos. retratos de uma cidade dinâmica e orgulhosa de seu progresso. Instalada em 1852. chácaras e chalés terminam por compor o quadro da Belém imperial. Como lembra Patrícia Sampaio. e o crescimento populacional notável na segunda metade dos oitocentos. porém. a denominação definitiva de cidade de Manaus.indústria animada e o comércio ativo e importante de Belém estão inseridos na descrição do autor. em 1851. em 1833. por 42% de menores. pelo Teatro da Paz e Teatro-circo Cosmopolita. Patrícia Maria Melo. (mal) distribuída por um vasto território. palácios. algumas primorosas. o Amazonas possuía 29. região transformada. e que pouco contava com o braço escravo de origem africana. Ana Maria. constituída em 1856. um dos grupos indígenas que ocupou a área. não impedem a análise dos significados dos números. o Amazonas conquistou a independência administrativa e política. instalado no século XVIII. e 42. na Comarca do Alto Amazonas. associado à migração de nordestinos provocada pelo incremento da exploração da borracha. além das lanchas e rebocadores. 6 Os recenseamentos da população do Amazonas revelam duas características importantes da região: a existência de uma escassa população. que veio a receber. contudo. os levantamentos do período apresentavam inúmeros problemas. A administração pombalina criara. A Província era servida por 35 vapores. Ruas calçadas a paralelepípedos. Os símbolos culturais estavam representados pela biblioteca pública e a do Grêmio Português. 2000 e SAMPAIO. não esquecendo das nove tipografias que imprimiam oito jornais e um periódico. Não se deve esperar precisão nas cifras. Na metade do século XIX. Manaus é a denominação moderna do antigo povoado da Fortaleza São José do Rio Negro.185 moradores no ano de 1856. elas permitem acompanhar a movimentação populacional da Província e especificamente. em 1856. a Província do Amazonas tinha por capital a cidade da Barra do Rio Negro. 1997. Tratava-se de uma população jovem. ocorrendo a separação da Comarca do Alto Amazonas com relação ao Grão Pará. da capital. este construído em madeira para um público de 2500 pessoas. os quais.904 habitantes. a capitania de São José do Rio Negro.610 indivíduos para a 6 DAOU.

1996. Da população com profissão declarada da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição de Manaus.39.7% da população total da Província. que preservavam a identidade étnica. Os chamados tapuios e os índios eram legalmente livres. As categorias pardo e negro. ou entre os sem profissão. O recenseamento de 1872 levantou as categorias de cor e profissão. 7 Cerca de metade da população do Amazonas vivia no município de Manaus.6%. vestuários. era formada por uma maioria de “caboclos” – 64% e 69%. que viviam do comércio de produtos extrativos e de pequenos serviços nos povoados (SILVA. e 16. mamelucos ou não. isto é. isto é. Patrícia Maria Melo. 9 SAMPAIO. A cidade de Manaus acompanhou este crescimento populacional. p. em 1872. Marilene Corrêa da. com 5. representavam 1.383. 109).Província. 8 O Censo não contabilizou os índios “não domesticados”. permitindo-nos vislumbrar como se compunha a população racialmente e em que se ocupava. pois era comum a execução das duas tarefas.42-43.6% de seus habitantes. A Província. que incluíam os escravos. a atividade extrativista. p. Entre as atividades relacionadas no Censo aos “operários”. calçados e edificações. p. 9 Uma categoria profissional importante para a região amazônica não está contemplada no Censo. os classificados como “operários”. Ana Maria. p. 3. 1998. formado por seis paróquias. As profissões relacionadas aos ofícios ensinados no estabelecimento de educandos de Manaus eram pouco representadas na Província. 17.37-42. alcançando. isto é. a maior parte empregava-se na lavoura (36%).686 pessoas morando em 1. nesta ordem. cujos trabalhadores possivelmente foram inseridos entre os lavradores. Em Manaus.081 habitantes estimados em 1852. população inativa. eram minoria. contudo. Dentre as profissões manuais e mecânicas. de brancos.não significando. A feição índia de sua população é reforçada pela pouca representatividade das outras categorias: 19. o Amazonas dedicava-se principalmente aos trabalhos com madeiras. pessoas com profissão mal definida ou não declarada.6% da população total de Manaus e 1. por descendentes de índios.5% no total. 7 8 SAMPAIO. 9 . 1997. 1997. metais. diminuindo a proporção de escravos para 1. respectivamente. inclusive a capital. A categoria abarcava crianças e idosos. pardos e negros representavam 12.5%. Os pardos alcançaram 13% da população total e os negros. DAOU.4% .727 casas. Patrícia Maria Melo. O índice dos sem profissão era muito alto .4% em Manaus. Tapuios eram índios “destribalizados”. os diversos grupos autônomos.

a capital começava a empreender uma trajetória rumo à civilização e à cultura européias. Além do investimento na educação pública. o Estado regulou sua ação no sentido de transformar a feição da cidade tapuia. Portanto. Dentre os 979 escravos arrolados pelo recenseamento no Amazonas. O avanço migratório de nordestinos. Na Paróquia de Manaus. com suas casas cobertas de palha. acompanhadas pela vigilância atenta dos diretores de instrução. no início da década de 1870. principalmente as meninas. a biblioteca pública e o museu botânico. instalou-se o Liceu. consistiu em fator determinante para a disseminação da língua portuguesa. como o teatro. A política de difusão de escolas pelo interior teve sua contribuição na “portugalização” da Amazônia. Em 1877. se esforçaram por suplantar. Na virada do século XIX. Neste processo. O investimento nas instituições educacionais adquiriu nova valorização. lançando as primeiras pedras para a construção de monumentos em homenagem à cultura e ao conhecimento científico. a maioria vinda de fora da Província. A freqüência à escola entre a população em idade escolar correspondia aos seguintes percentuais: em Manaus. direcionado para a construção de um novo modo de vida. o índice caía para 13.5% dos habitantes sabiam ler e escrever e na Província toda. passando a 23 escolas públicas primárias em 1889. Neste período.O Censo de 1872 revela uma sociedade onde a tradição oral imperava. em 1882. a Escola Normal e. expulsos de suas regiões pela seca e atraídos pela produção de borracha. reergueu-se o estabelecimento dos educandos artífices. facilitada pela navegação a vapor. com 1. este 10 . apenas uma pequena parcela da população do Amazonas tinha acesso à escola. processo analisado por José Bessa Freire. somente 12. sobretudo das mulheres. a cidade tinha oito escolas públicas e 385 matriculados. Manaus possuía fortes raízes indígenas que as elites locais e os administradores.5%. O índice de pessoas livres alfabetizadas era muito baixo. somente 18. resultando em baixos índices de alfabetização da população.9% dos meninos e meninas freqüentavam escolas. sob a moderna designação de Instituto Amazonense de Educandos Artífices. suplantando o neheengatu. e na Província. a língua portuguesa já era dominante na Amazônia.104 alunos. nenhum sabia ler e escrever. 18. As escolas públicas se multiplicaram na capital. Especialmente nas duas últimas décadas do século XIX.5%. a língua geral amazônica. em consonância com os símbolos da civilização ocidental.

na primeira década do século XX.processo se intensificou com a criação de novos espaços. A autora investiga a implantação do processo civilizador na sociedade amazonense da virada do século XIX. 10 10 DAOU. vistos como elementos de progresso e civilização pela “elite da borracha”. Edinea Mascarenhas Dias (1988) analisa o “período do fausto” no final do século XIX e a influência do crescimento da cidade de Manaus no surgimento de instituições de controle social. focando os novos espaços criados na cidade de Manaus. 1998. vistos como elementos de progresso e civilização pela “elite da borracha”. Ana Maria. 11 . como o teatro e o mercado. como o demonstra Ana Maria Daou.

3 Ofício de Francisco Antonio Rodrigues ao Presidente da Província. No ofício enviado ao presidente.” 2 Ao nascer do Amazonas. e esta é medonha considerando os seus effeitos sociaes. capital da nova Província. a ignorancia dos póvos é tambem uma escravidão.” 1 “Eu desejava que as luzes fossem diffundidas pela classe do povo e pelos pobres. conduzidos por um alferes. não obstante serem muito extremosos por seus filhos. O diretor assegura ter conseguido o consentimento de pais e parentes. Instrucção publica.126). Exa. os quais. Francisco Antonio Rodrigues comemora o “triunfo” de vencer uma possível repugnância dos pais em confiar os filhos à educação oferecida pela Província. As quatro raparigas e os quatro rapazes chegaram de canoa. 1864. 2 Dr. devido ás felizes esperanças que V. l3onge de suas vistas: “He me assaz lisongeiro o significar a V. A Estrella do Amazonas. confiavam na tutela oferecida pelo governo recém instaurado. Abacaxis.Capítulo 1 A educação nas Províncias do Pará e do Amazonas O século das luzes na Amazônia "A verdadeira redempçao do paiz está no derramamento das luzes. Presidente do Pará. 4/3/1852 (Jornal A Estrella do Amazonas. dá a seos governados. em comum acordo com o primeiro administrador provincial. Illustrando-os.27. 23/3/1852) 12 .” 3 O primeiro jornal da Província. Couto de Magalhães. inspetor das escolas públicas de ensino primário nos Municípios da Capital. civilisando-os é que havemos de ser grandes algum dia. O diretor de índios do Rio Abacaxis enviou os jovens Mundurucú para que fossem educados na cidade. A boa vontade por parte dos prestimosos pais 1 Conselheiro Joaquim Maria Nascentes d'Azambuja (1884? P. p. Foi pois um triumpho. In: RPPA. Amazonas. que pude conseguir que os pais e parentes a isso se prestassem sem a menor repugnancia. como “governados”. aplaude a iniciativa em prol da civilização e educação dos índios. de Itacoatiara e Parintins. Exa. oito jovens índios aportaram na Cidade da Barra. João Baptista Figueiredo Tenreiro Aranha. nos ofícios apropriados à sua condição e gênero.

isto é. principalmente após a instalação da Província do Amazonas em 1852. que tem sabido gravar. representando um ato instaurador do governo da população. nos sentimos mais confortáveis ao lembrarmos ao leitor que nossos estudos não pretendem dar conta da totalidade da problemática proposta. As duas províncias participaram ativamente do movimento civilizador que orientou. asilos para órfãos e instituições de ensino de ofícios. a pedido do pai. p.90). Na Amazônia. a criação de escolas primárias e secundárias. Uma nova era parecia chegar à região. as tônicas da falta de braços e de agricultura e da independência de seus habitantes. Antes denominado 5 de setembro (1851). pesquisadores. no país.lhes no coração o dito principio”. o jornal mudou de nome com a instalação da Província. focalizaremos as idéias e as realizações educacionais. quando “algumas tribus indígenas do Amazonas vão chegando a reconhecer que com a educação e a instrucção é que virão a ser uteis á si e á Sociedade. Nós. 1990. buscando articular os debates em torno da educação do povo amazônico com as medidas tomadas ou apoiadas pelos governos amazonenses e paraenses para a efetivação das propostas educacionais. A Estrela do Amazonas anuncia a vinda dos índios e informa que o pequeno filho do “Principal dos Mondurucús do rio Canumá” já vinha sendo educado nas primeiras letras no Palácio do Governo. Presidente da Província. o jornal divulgava os atos administrativos do Império e do governo local e noticiava acontecimentos da Corte e das províncias (SANTOS et al. dirigiam-se à formação de “cidadãos úteis a si e à Pátria”. O jornal irradia esperança no futuro do Amazonas. 4 O que a imensa e pouco habitada Província esperava da educação de sua população? Quais foram os debates. A análise será norteada pela concepção de que os projetos educacionais do Segundo Reinado. torna vam mais prementes o objetivo da formação de um povo trabalhador e obediente. O primeiro número deste jornal circulou no dia 07 de janeiro de 1852.dos pequenos aprendizes em confiarem seus filhos aos cuidados da Província foi recebida como um sinal de confiança no governo recém empossado. quando “uma nova estrela appareceu no diadema imperial”. No caso 4 A Estrella do Amazonas. 23/3/1852. temos como foco estas questões. em todas as partes do país. 13 . Criado pelo primeiro Presidente da Província. os projetos e as realizações educacionais dos governos das duas Províncias amazônicas. e esse reconhecimento já alguns chefes delles tem manifestado ao actual Exmo. de trabalhadores disciplinados. Ou seja. tementes a Deus e ao Estado. Criar escolas era indicador importante de progresso e civilização. Pará e Amazonas? Neste capítulo.

Neste capítulo. acompanhava com grande interesse e conhecimento as discussões nacionais e internacionais relativas à educação popular.o Segundo Reinado. o filhotismo. por abordar questões relativas aos sistemas educacionais de duas províncias. Segundo seus autores. levando à criação ou à reforma das instituições educacionais. nas questões condizentes à educação oferecida pelo Estado. a proteção política orientava as mudanças nas instituições educativas governamentais. focalizamos o primeiro período. bem como dos anseios de mudança de seus atores. Avaliações da política educacional dos governos e de suas instituições resultavam em aplausos. olhar entrelaçado com os temperos locais. A documentação privilegiada são os relatórios de província. dentro de um período longo da história . professores. abordamos os debates relativos à educação do povo no Norte amazônico. tanto a liberal quanto a conservadora. fontes importantes de análise da situação da instrução e educação populares no período. mostrando como as críticas e as propostas repercutiam nas ações. Não há de nossa parte nenhuma pretensão de fazer uma história da instrução e da educação populares nas duas províncias. é insuficiente. A imprensa. quando as discussões e realizações estiveram mais restritas ao âmbito governamental. mestres e pessoal administrativo. divididos entre as facções liberais e conservadoras. um aviso desta natureza. termos que expunham o favorecimento a “amigos” e parentes na redistribuição de cargos públicos. mas também dos pais e moradores das pequenas povoações do interior do Pará e do Amazonas. além da correspondência dos presidentes com o Ministério do Império. a politicagem. críticas e propostas de reforma. 14 . Nos anos 1870 e 1880. A abordagem da instrução elementar pública feita neste trabalho obedece a dois períodos: 1850-1869 e 1870-1889. principalmente àquelas relativas ao pessoal diretores. contamos com a abundante fonte dos jornais. não apenas da sociedade ilustrada. relatórios das diretorias de instrução pública e dos visitadores escolares. Neste capítulo. As análises não se pretendiam isentas: liberais e conservadores denunciaram a miúdo o partidarismo. expande-se o envolvimento. Nos dois últimos decênios. o patronato político .do presente estudo.

para este período. focaliza os debates nacionais sobre instrução e educação populares. constituídas pelos negros (livres. como a baixa capacidade de investimento das províncias. p. afetava diretamente a instrução pública.137). 5 Intensos foram também os limites à expansão da instrução pública a toda população. 7 Projetos de reforma da instrução eram elaborados pelas províncias com surpreendente freqüência. sobretudo a partir do Ato Adicional de 1834. ver MARTINEZ. principalmente das chamadas “camadas inferiores da sociedade”. um intenso debate em prol da intervenção do Estado na educação 15 . 6 Evaldo Cabral de Melo (1984) mostra que o governo monárquico não logrou uma descentralização autêntica no país. Luciano Mendes de. devido à opção de convocar seus apontamentos no contexto das discussões inseridas nos capítulos. Intensos foram os debates e a constituição de leis para o ordenamento legal da educ ação escolar. é necessária para a compreensão dos pressupostos que fundamentam esta pesquisa. a questão da criação de um sistema nacional de educação.1-7. Estudos recentes mudaram o enfoque sobre o período. 7 Sobre a historiografia relativa a instrução pública. A revisão historiográfica realizada para o projeto de tese não é reproduzida no produto final. pelo sistema desigual de recolhimento de impostos e distribuição de favores. Embora nem todas as idéias tenham sido realizadas. sobretudo nas províncias mais pobres. A autora identifica. o Segundo Re inado assistiu a uma importante intervenção estatal na educação. gerando ressentimentos nas províncias do Norte (atual Norte e Nordeste). e aos econômicos. o qual responsabilizou os governos provinciais pela instrução pública. Luciano Mendes de Faria Filho observa que a historiografia consagrada concebe o século XIX como uma espécie de idade das trevas da educação primária. indicando que havia em várias províncias uma intensa discussão acerca da necessidade de escolarização da população. O “processo de espoliação” sofrido pelo Norte durante o Segundo Reinado. embora bastante breve. 8 Escolas. através das iniciativas dos governos e assembléias provinciais. 2000. não efetivado no período. 6 A historiografia revela a riqueza dos debates e das ações educacionais empreendidos no período. aliado a crises econômicas mundiais e locais. notadamente.Abordagens historiográficas da educação no Brasil A abordagem da historiografia. libertos ou escravos). O autor lembra que as províncias publicaram um grande número de textos legais sobre instrução. Alessandra 1997. Em Minas Gerais. A história da educação no Império permaneceu por muito tempo no limbo. 5 FARIA FILHO. relacionados aos aspectos políticos e culturais da sociedade escravista da época. foram 600 textos entre 1835 e 1889 (p. 8 Analete Regina Schelbauer (1998) em Idéias que não se realizam: o debate sobre a educação do povo no Brasil de 1870 a 1914. índios e mulheres.

depositando. outras perspectivas de análise são possíveis. regulamentada pelas províncias em momentos diferentes.7 de 11/2/1861. faltam professores habilitados. reforçada pelos ideais da civilização moderna. ressaltavam a falta: faltam escolas. Mesmo províncias mais importantes e populosas viveram o drama de não atingir o número mínimo de alunos de forma a manter a escola em funcionamento. faltam materiais e mobília. claramente 1nos pais a responsabilidade pelos tímidos números da freqüência escolar na Província. os governos tinham que vencer a resistência da população. 1987. quando discursavam ou escreviam sobre a educação do povo. 16 . ensino primário e secundário da Província do Amazonas (Arquivo Nacional.259. Preocupava-se o governante com a baixa procura pelo ensino oferecido pelo “poder público” nos povoados. afirmando não ter sido realizada neste momento. Tendemos a encontrar neste ato toda a positividade. A instrução pública constituiu-se em palco privilegiado do confronto entre o governo da casa e o governo do Estado. A instituição escolar teria vindo ocupar um vazio no processo de socialização. 10 Ofício n. p. 9 FARIA FILHO. p. Manoel Clementino Carneiro da Cunha apresenta relatório sobre o estado sanitário. 11 As autoridades e interessados no tema. Visão que contaminou os historiadores da educação da época e de períodos posteriores. Muitas escolas foram fechadas por falta de alunos e os pais (e também os filhos) acusados de ignorarem a importância da educação para a vida civilizada. sempre em meio a grandes conflitos a respeito de sua aplicabilidade.. seguindo uma tendência universal (p. faltam alunos. O presidente. como a percebida por Faria Filho para o século XIX: popular. 9 No entanto. A “remoção dos obstáculos” ao progresso da “educação do povo” só seria possível com a “mudança de hábitos e idéias” da população. Além de todos os obstáculos referentes à criação de escolas no Brasil imperial.127. Correspondência entre a Presidência da Província do Amazonas e o Ministério do Império – 1852-1889) 11 MATTOS. Luciano Mendes de. A tese da não realização das propostas educacionais no Império vem sendo questionada pela historiografia dirigida ao estudo das instituições e das práticas educacionais.. a recepção à instituição escolar nem sempre foi positiva. Ilmar Rohloff de. Faria Filho levanta uma questão muito interessante com relação à criação de escolas primárias. 10 Muito se discutiu a respeito da obrigatoriedade escolar.131). em 1861.institutos e asilos para a infância desvalida surgiram durante todo o período. dentro de uma concepção de cidadania que se considerava adequada às camadas populares. explicava o Presidente do Amazonas ao Ministro do Império. contudo. Contudo. 1999.

14 Alessandra Frota Martinez (1997). p.146. a construção do Estado. pelo contrário. campo de experimentações que esperava-se que funcionasse como exemplo e modelo para as outras províncias do país. como a família. 1999. para se impor. Neste aspecto.133. da vivência e da formação de alunos e professores. paralelamente à d ifusão das regras de civilidade e do sentimento religioso. adquiriu novos significados quando à instrução foi incorporado o sentido do educar. na perspectiva daqueles que defendiam a superioridade e a especificidade da educação escolar frente às outras instâncias de socialização. os educadores e demais interessados na instrução do povo. ao analisar a instrução pública na Corte entre 1870 e 1889. As divergências entre conservadores 12 13 FARIA FILHO. a constituição de uma classe hegemônica e a formação do povo. 2000. Mattos analisou o papel da instrução pública no “laboratório fluminense”. ciente de seus direitos e deveres. o trabalho de Ilmar de Mattos 13 é um marco. p.“Vê-se pois. Abandona-se uma história do que a educação deveria ter sido. o instruir. verificou que novos sentidos foram acrescentados à palavra educação. 1987. tiveram que deslocar outras instituições e processos formadores de seus tradicionais lugares. Educar para a vida em sociedade passaria a ser também função da escola. Formar o povo implicava em levá. A instrução pública ocupava um lugar privilegiado na meta perseguida pelos dirigentes “saquaremas” de superar um passado compreendido como desorganizado e bárbaro em virtude de um outro momento. Faria Filho concebe a escola como um instrumento de fabricação do cidadão. Luciano Mendes de. seja porque motivo for. importante para a luta do governo do Estado contra o governo da casa. Luciano Mendes de. da escrita e do contar do período colonial. a história da educação tem se debruçado sobre as perspectivas do cotidiano escolar.” 12 Mais recentemente. que deveria constituir o homem integralmente. para uma história de como ela foi vivenciada pelos seus atores mais diretos (alunos. ao contribuir para a compreensão da relação entre a instrução pública. para se afirmar. 14 Baseado na análise de Ilmar Mattos. que a escola não veio atuar num vácuo.lo a adquirir os princípios éticos e morais necessário s à convivência social e a melhorar os seus “costumes”. a construção do Estado Imperial. o da ordem e da civilização. Do ensino da leitura. 17 . A instrução pública no país foi majoritariamente administrada por conservadores. professores e famílias) e como se inseriu em um projeto político mais amplo. em que a legislação é privilegiada. 15 FARIA FILHO. a Igreja e o grupo de convívio 15 . Ilmar Rohloff de. MATTOS. no período de 1830 a 1850.

136. 16 Os estudos avançam rumo a desnaturalização do lugar da escola. O autor.e liberais se manifestavam no campo da instrução pública na oposição entre os “ideais de maior centralização/controle dos poderes públicos e maior autonomia/liberdade de ensino dos pais e educadores”. 259. como os trabalhos de Márcia Alves sobre a Casa de Educandos de Manaus. A diferenciação nos processos de escolarização entre as províncias é um indício de que ocorreram diferentes apropriações e adaptações dos sistemas escolares da Corte. espaços. 19 Não podemos deixar de ressaltar que a Amazônia colonial vivenciou uma importante e atribulada história de educação 16 MARTINEZ. que via a institucionalização da escola como um “vir a ser contínuo” e a mostrar que no processo histórico de construção da instituição escolar. recebemos três artigos sobre o processo educacional no Pará do século XIX. 1997. São trabalhos utilizados nos capítulos referentes aos internatos de formação profissional. p. os seus defensores tiveram de “apropriar. de Belém. ver MATTOS. 17 A historiografia recente recusa a idéia da transposição automática de modelos educacionais estrangeiros (europeus e norte-americanos) 18 . 19 Na fase de revisão final da tese. 1987. segundo a autora. correspondiam às diferenças entre “saquaremas” e “luzias” no tocante à distribuição do “aparelho de Estado” (maior centralização a partir da Corte e do Sudeste versus distribuição mais equilibrada entre os poderes locais). professor da UFPA José Maia Bezerra Neto. Não pretendemos aqui dar conta da historiografia da educação. Ilmar Rohloff de. prevê a publicação dos textos para este ano (ver bibliografia). A instrução primária na Amazônia imperial é campo por desbravar. construído pela historiografia. de Márcio Reis Páscoa. sobre o Asilo de Santo Antônio. remodelar. principalmente com relação à região Norte. cuja carência de estudos recentes na área nos levou. mas apontar que o Segundo Reinado foi um período muito rico em termos da afirmação da educação e da instrução populares e que o campo de pesquisa é extenso e pouco explorado. uma ou outra instituição educativa (internatos) foi estudada por historiadores das universidades federais locais. 17 FARIA FILHO. Luciano Mendes de. sobre o ens ino da música na mesma cidade e o de José Maia Bezerra Neto. 18 A respeito da transplantação de modelos estrangeiros. Alessandra Frota. Divergências as quais. sensibilidades e valores próprios de tradicionais instituições de educação”. p. em inúmeros momentos. 127. 18 . Essa diversidade encontrada na legislação e nas experiências escolares das províncias vem sendo abordada pelos estudos nos últimos anos. de outras províncias e países. conhecimentos. a limitar nosso diálogo às fontes. p. ou recusar tempos.

2002. 21 Garcilenil Silva esclarece que no período de vigência do Diretório dos Índios (1757-1798). levou à ruína o ensino na região. Garcilenil do Lago. 1985. as vilas e lugares não possuíam meios para estabelecer as escolas. vigários se responsabilizaram pela educação dos filhos e filhas dos índios. A educação pouco significado teve frente à economia e aos privilégios que gozavam a elite colonial. além do que. a qual dedicaremos algumas linhas. indicando o embate entre o Estado colonial e a Igreja quanto ao esforço de controle da educação dos índios e dos colonos. nas escolas das aldeias e das fazendas e nos colégios e seminários. Em alguns lugares. Garcilenil Silva introduz o leitor na história da educação da Amazônia colonial estruturando-a em três períodos. sobretudo a jesuítica. A precariedade e a fragmentação das aulas régias na região teriam sido causadas por três fatores principais: a falta de professores leigos e de espaços para funcionamento das aulas. o interesse maior de Portugal residia na defesa da economia local. 20 A historiografia. A autora focaliza os agentes (instituições e pessoas) que assumiram a educação na região: as ordens religiosas que primeiramente assumiram total responsabilidade pela catequese e educação dos índios. A reorganização do ensino na capitania do Grão Pará através da Reforma de Marquês de Pombal em 1759 não se efetivou na prática. em outros. OLIVEIRA. Este cenário sofreu algumas mudanças com a instauração do Regimento Provisional para os Professores de 20 21 SILVA. onde se ensinaria a língua portuguesa. Betânia Leite. o Regimento do Diretório (1757-1798) e o Regimento Provisional (1798-1808). as escolas tinham como mestres soldados de vida licenciosa e incapazes de instruir.dos índios. 19 . de acordo com a vigência da legislação dirigida aos índios: o Regimento das Missões (1616-1757). a direção laica da educação dos nativos introduzida pelo Diretório dos Índios e as primeiras tentativas de sistematização do ensino no Estado do Grão Pará. em geral. Os autores não encontraram evidências no Arquivo Público do Pará da realização deste modelo educacional no Grão Pará. entre 1759 e 1808. concorda que a expulsão das ordens que até então se ocuparam da educação dos índios. RAMALHO. José Pedro Garcia . As investigações de José Pedro Garcia Oliveira e Betânia Leite Ramalho também sugerem que a determinação da introdução das aulas régias ou disciplinas isoladas na capitania do Grão Pará não teria alterado em nada o mapa educacional da região.

. cit. escrever. submissos e leais ao rei fidelíssimo”. principalmente. Ademais. A autora afirma que escolas foram instaladas na capital.87-88 e 111. enfrentava22 23 SILVA. nos propósitos educacionais das novas medidas de civilização dos índios. Garcilenil do Lago.um elemento de unificação e de identificação. A análise da historiadora baseia-se.23 A autora afirma que. na segunda metade do século XVIII. nas vilas e povoados. Professores nomeados deveriam ensinar a mocidade. Retórica. tementes e obedientes ao Deus dos lusos. 25 Idem.Filosofia. a despeito das dificuldades para o cumprimento do objetivo educacional. de um e outro sexo. o uso da língua geral ou da língua da própria etnia. DOMINGUES. com o advento do Diretório dos Índios. 24 Uma das medidas previstas pelo Diretório e executada principalmente pela administração local foi a criação de escolas. Ângela. p. a transformação dos índios em indivíduos que reconhecessem e se sujeitassem à soberania portuguesa.los cristãos. era utilizada como um instrumento de política . a ler. 20 . Duas aulas de primeiras letras foram criadas em Belém e treze no interior. 1986. O segundo. 24 Op. A autora define a civilização dos índios. pois não havia mestres preparados. e de transformá. obediência e amor para com o Soberano e a Pátria. O primeiro objetivo visava a transformar a diversidade física e humana da região numa unidade integrada em território lusobrasileiro. que autorizavam aos jovens a falar a língua geral. inclusive às crianças indígenas residentes em aldeamentos. fazendo com que em muitas povoações o ensino ficasse a cargo de padres. do que propriamente no seu cumprimento. localizadas nas freguesias mais populosas do Estado. incluindo o Arquivo Público do Pará. a educação foi inserida no contexto de um processo de colonização da Amazônia e de civilização dos índios. 68. pesquisa realizada nos arquivos portugueses e brasileiros. contar e os princípios da religião e os da lealdade. Gramática e de Primeiras Letras no Estado do Grão Pará. 1995. como o “acto de torná.los em portugueses. resistente às ofensivas européias. 22 Ângela Domingues apresenta uma versão da história educacional do Grão Pará com algumas divergências quanto à aplicação das medidas previstas pelo Diretório. O Diretório proibia às crianças e a quem estivesse apto a falar o português. 25 A escola. p. vista como um meio de transmissão da língua portuguesa. onde era ministrado um “ensino em conformidade com o conceito europeu de educação”.

em serviços diversos. Op. 76. 27 Hipótese não comprovada. A estratégia educacional não se restringiu à implantação de escolas.se a falta de materiais e instalações. como de exercer algumas funções no âmbito dos mecanismos de poder governamentais e da estrutura religiosa”. 21 . Domingues afirma que a política educacional dirigiu-se aos “filhos de principais. de sargentos. caça e pesca e como mão-de-obra para particulares.. As escolas deveriam ser freqüentadas por todas as crianças indígenas. Crianças provenientes de famílias com algum prestígio ou destaque em seu meio. p. no exemplo e na ação. atingiu somente filhos de principais. pois a documentação analisada não forneceu indicações sobre o papel dos índios cultos ou educados na sociedade colonial. O estudo de Domingues nos deixa algumas questões não respondidas: se a política educacional. afastados de suas famílias. Um sistema de educação. no caso dos índios. A hipótese da autora é que se pretendia “formar um grupo apto e fiel..mores e de outros indivíduos que tivessem lugar de destaque ou de prestígio na comunidade”. baseado no valor da tradição. Estas questões estarão assombrando os governos provinciais amazônicos no século seguinte. vigários e particulares. em termos de civilização dos índios. 70. 26 As crianças tinham participação importante nas atividades da coletividade. numa época em que faltavam adultos. como permitir que a criança continuasse vivendo sob os hábitos indígenas. pois percebia-se nelas alguns inconvenientes em termos da formação de futuras lideranças ou de exemplos para as comunidades indígenas. cit. como colheita. quem freqüentava as escolas das localidades? Pode-se concluir que. nas roças e nas casas. capaz de administrar localmente as comunidades. visando afastálas do contato com a família e a comunidade. a escola teve um papel insignificante? Qual foi o papel desempenhado na sociedade local por 26 27 Op. cit. mantendo-se a transmissão de conhecimentos. em contato com a lí ngua de origem. no entanto. p. A resistência indígena à escola era grande. como os filhos de principais. de capitães. eram enviadas aos seminários ou às casas de particulares. do ponto de vista cultural e econômico. que “pretendia derrotar e substituir as tradições e a memória coletiva”.mores. Outro inconveniente residia na utilização dos alunos por diretores. se contrapunha a um sistema dissociado da vida cotidiana.

1868.. 1987. embora não se esquive de mencionar os abusos cometidos nos resgates realizados por capitães. 30 Tenente coronel João Wilkens de Mattos. assistiu-se a um crescimento gradativo das escolas de instrução primária e a fundação de 28 29 Op. instalada em 1804 pelo bispo do Pará. a instituição passou a denominar-se Colégio de Nossa Senhora do Amparo.p. 75. Em termos educacionais. colonos e missionários. s.” 30 Em primeiro de janeiro de 1852 era instalada a recém criada Província do Amazonas. ao trazer quinze meninas indígenas de sua viagem ao interior. a Casa dedicou-se ao recolhimento e educação de meninas pobres. O Almanak paraense dá um sentido positivo ao termo “resgate” para o caso das índias recolhidas pelo bispo em aldeias do Rio Negro (Amazonas). cit. A historiografia clássica sobre história do Pará elege algumas iniciativas de maior porte. Não podemos deixar de citar que a educação na primeira metade do século XIX é tema que aguarda o interesse dos pesquisadores.178 e GOVERNO DO ESTADO DO PARÁ.. p. A imensa região.esta “aristocracia indígena” que freqüentou os seminários e os colégios? 28 Como a experiência educacional proporcionada pelo Diretório dos Índios foi absorvida pelas reformas posteriores? Não apenas a era pombalina mantém-se obscura quanto aos resultados das iniciativas educacionais. afastando-se da finalidade original do “resgate” de indígenas. Manoel de Almeida Carvalho. 29 Mais tarde. a história da instrução pública no período regencial permanece no silêncio. O governo da população e a instrução pública: Amazonas e Pará na metade do século XIX “Sem desenvolvimento intellectual. Todavia. então denominada Comarca do Alto Amazonas. futura Manaus. D. Numericamente.. 4/4/1869. como cidadão e como pai de família. A cidade da Barra. “Instrucção publica”. p. em 1838. quando o Governo da Província assumiu a sua administração e manutenção. com o intuito de educá-las. 22 . pertencia à Província do Pará. Com o tempo. Presidente do Amazonas. passou a sediar o novo governo. cujo centro administrativo estava sediado em Belém. In: RPAM. ninguém se pode bem governar. O resgate de índios resultava da prática colonial de apreender grupos indígenas de diferentes etnias para as missões religiosas e para o trabalho nas fazendas... ALMANAK administrativo. como a Casa das Educandas. a aquisição da autonomia administrativa foi positiva para o Amazonas.

Anexo F (Relatório do Diretor da Instrução Pública.instituições educacionais voltadas para o ensino profissional. 23 . 32 Segundo José Ribamar Bessa Freire (2003). foram criadas após a sua emancipação”. a formação do cidadão implicava não somente no conhecimento dos direitos e deveres pela população livre. Ofício 196. também enviado ao Ministro do Império. sobretudo. pontuando as discussões que embasam as criações. cônego Joaquim Gonçalves de Azevedo. O aprendizado do português e a sedentarização da população do interior foram necessidades reclamadas pelos inspetores e diretores da instrução na região.31 Mais importante do que a “dança” dos números das cadeiras criadas. O nheengatu se disseminou pela Amazônia colonial. e assim será tratada. reforçava a disposição civilizadora da jovem Província. Correspondência entre a Presidência da Província do Amazonas e o Ministério do Império – 1852-1889). na Província do Amazonas. Desabituar-se da língua geral. falada pelos meninos em casa e nas ruas. A instrução primária não é o único foco desta pesquisa.. em 1861. Anexo n. 7/3/1859. como era defendido pelos agentes educacionais de outras partes do Império. 1861. embates e realizações. contrariamente ao que determinou o Ato 31 RPAM. contribuído para a “portugalização” da região. 33 A perspectiva de Gonçalves Dias era a da formação da nacionalidade. levando-o a defender a intervenção do governo central na instrução pública primária das províncias. quando pobres e ricos iam à pescaria. tendo a escola pública e. até meados do século XIX. com seus avanços e recuos. com seus debates. a migração nordestina e a expansão da navegação a vapor. 33 DIAS. em resposta ao Aviso de 12/1/1859. é o movimento da sociedade local em prol da educação popular. afirmando ao Ministro do Império que “todas as escolas existentes na Provincia. Em 1858. Antonio Gonçalves.2. mas compõe o movimento em prol da educação popular no período. o cônego diretor da instrução pública no Amazonas. à exceção de uma. Após a expulsão da ordem por determinação do Marquês de Pombal no século XVIII. consistia na primeira tarefa das escolas das freguesias e vilas do interior. Mapas com as alterações devidas (Arquivo Nacional. como um dos projetos de civilização e incorporação da população local à cidadania brasileira. 32 A “vida ambulante” dos habitantes era outro fator a ser enfrentado de forma a aumentar a freqüência às escolas e evitar o afastamento das aulas por quatro a cinco meses ao ano. objetivo ressaltado com grande ênfase por Gonçalves Dias na comissão dirigida às escolas primárias do Rio Solimões. No caso da região amazônica. a legislação dirigida aos índios passou a coibir o seu uso. secundário e normal. a partir da atuação missionária dos jesuítas. 7/9/1858. isto é. o nheengatu ou a língua geral amazônica era a língua dominante n o Amazonas. Trabalharemos com alguns números das duas províncias.

noções de geometria applicada ás artes. 35 AMAZONAS. após a promulgação da Lei do Ventre Livre em 1871. baseado por sua vez no Decreto que reformara no mês anterior. Pelo primeiro artigo do regulamento amazonense. que “organiza a Instrucção Primaria nesta Provincia do Amazonas”.”35 Embora inspirado no regulamento paraense de 27/10/1851. uma transposição de leis. “sem a menor cerimônia” (p.Adicional de 1834. O Amazonas só contava nesta época com sete escolas providas de professores e 107 alunos. da sagrada e do Brazil. da historia natural. e de geographia. e as prendas proprias deste sexo. numeração e principaes regras d'arithmetica. no entanto. começando por apresentar à Assembléia Legislativa Provincial o primeiro regulamento da instrução pública. calligraphia. mesmo quando inspiradas nas legislações da Corte e de outras províncias. 30/4/1852. verifica-se que as leis. só vindo a constituir alvo de preocupações relativas à educação. 37 Esta situação exigia do governo amazonense a 34 O ato adicional de 1834 (Lei n. A agilidade com que foi elaborado o regulamento n. 36 RIO DE JANEIRO. os nascidos livres. Tenreiro Aranha afirma que somente três escolas tinham professores e na capital. A massa dos escravos do Império estava excluída deste projeto. ele se diferencia destes buscando atender às especificidades locais. as leis criadas na Corte influenciassem as legislações provinciais.16 de 12/8/1834) responsabilizou os governos provinciais pela instrução primária e secundária. Até o final do Império.292 alunos.38). e o Pará possuía 42 escolas e 1. o ensino primário e secundário no município da Corte 36 . Nos casos do Pará e do Amazonas. libertos e índios. como a não separação do ensino em dois graus e a criação de internatos nas escolas para alunos pensionistas particulares e para aqueles sustentados pela Província. somente a feminina estava funcionando. 37 RPAM.1. a moral. voltaremos às análises de visitadores e diretores da instrução pública do período. 34 Mais adiante. muito embora. e a intellectual com o ensino de leitura. a instrução pública permaneceu descentralizada. pois o professor falecera. e para o sexo feminino a mesma educação. dois meses após a sua emancipação do Pará. por exemplo. Decreto n. em seu relatório.1 de 8/3/1852. doutrina Christã. foram adaptadas às condições locais. indica a disposição do governo em se posicionar frente a um dos principais desafios do século: a formação de cidadãos pela educação do povo brasileiro. Não havia. Mais adiante. a grammatica da lingoa nacional. O relatório do diretor da instrução 24 . “A instrucção primaria nesta Provincia comprehenderá a educação phisica.630 de 17/9/1851. e os outros abandonaram as cadeiras. A recém instalada Província do Amazonas rapidamente se inseriu na corrida rumo às luzes. constituído no período por homens livres. Regulamento n. e a instrucção intellectual mais modificadas.

instrução. totalizando quinze. Sendo os internos “orfãos ou expostos indigentes”. Regulamento n. (Arquivo Nacional. atendendo às considerações feitas pelo presidente. art. através do seu órgão executivo representado pela Inspetoria Geral de Instrução Primária e Secundária do Município da Corte.4. 38 A Estrella do Amazonas. Anexo F). 2002. 14/1/1854. indústria. Como Ministro do Império. Cons. relatando o que tem feito e o que pretende fazer. colônias. 23/3/1852.criação de estratégias para aumentar o número de escolas e de alunos. O internato seria implantado na própria residência do professor ou da professora. De Herculano Ferreira Penna ao Ministro Secretario d'Estado dos Negócios do Império. cabia ao governo sustentá.1 de 8/3/1852. p. que deveria dispor de “2 ou 3 alcovas dormitorios dos discipulos internos. Esta informação foi passada ao Ministro do Império Luiz Pedreira do Couto Ferraz40 . a Assembléia na última sessão o autorizou a organizar novos regulamentos. Luiz Pedreira do Couto Ferraz. Couto Ferraz consolidou as diretrizes da política educacional dos conservadores. 18 de dezembro de 1850 (IHGB. Lei de 18 /11/1853. 7/9/1858.7º. e casa e quintal para os exercicios da educação phisica e da ornicultura”. como seja: saúde pública. 39 A despeito do empenho de Tenreiro Aranha em galgar a “escada do progresso” através da instrução. enquanto a Província não dispusesse de “casas pias de educação”. regulamentou o ensino público e particular na Corte (Regulamento de 17 de fevereiro de 1854). etc. Em 1871. Seguindo as orientações do “laboratório fluminense”.41 pública em 1858 diz que havia somente duas escolas funcionando com regularidade em 1852. “Mappa das Cadeiras de Instrucçao Primaria. subiu ao Conselho de Estado (SCHUELER.10). de forma a permitir a sua implementação.los. e dando as ocorrências nos diversos departamentos. 25 . artigos 14 e 25. o regulamento não chegou a ser examinado na Assembléia. navegação. As demais permaneciam no “desprezo” dos professores. 39 AMAZONAS. Diretoria de Instrucção Publica”. Pará. comércio. E mais. Oratorio para a educação moral. visando “dar á população Amazoniense o gráo de civismo e intelelligencia que precisa para o desenvolvimento de todos os ramos. nem tampouco teve votado o aumento da despesa. ocupados com o comércio (RPAM.Coleção Manuel Barata). Alessandra Martinez. com que ha de ella florecer e prosperar”. escreveu esperançoso o redator do jornal A Estrella do Amazonas. pelo presidente Hercula no Ferreira Penna que. onde governou até 1853. Correspondência entre a Presidência da Província do Amazonas e o Ministério do Império – 1852-1889). centralizando as atribuições do serviço na pasta do Império. 41 Ofício n. 40 O saquarema Luiz Pedreira do Couto Ferraz organizou a legislação do ensino primário e secundário na Província do Rio de Janeiro. deu notícias mais promissoras: entre 1852 e 1853 diversas leis criaram mais oito escolas na Província. no mesmo ofício. 38 A criação dos internatos permitiria que crianças de sítios e lugares distantes freqüentassem as escolas.

São vários os relatos. os seus atores. segundo presidente a tomar posse no Amazonas. do Regulamento n. Como vimos. ou seja. No entanto. dificultando a implementação dos internatos propostos por Tenreiro Aranha. erros nas lições e nas escritas. a pobreza de outros e sobretudo a falta de Professores habeis. os quais eram responsáveis pelo aluguel das casas escolares. e nos exercicios e actos da educacão física e moral” (Art.1. de Herculano Ferreira Penna ao Ministro do Império (Arquivo Nacional. em torno dos 6 aos 14 anos. pois em muitos lugares. 8/3/1852). Como veremos. onde os alunos eram disciplinados por meio de castigos e prêmios. 44 A adoção de castigos físicos e morais pelo regulamento. Muito comumente. as condições de funcionamento das escolas na região dificultavam seriamente a propalada difusão da instrução. palhoças ou casas acanhadas. Maus modos e costumes.(IHGB-Coleção Manuel Barata). mantidos até os idos de 1870. foram responsabilizados pelo estado “pouco lisonjeiro” das escolas primárias. 43 Eventuais atrasos de salários também poderiam dificultar a instalação dos internatos. 42 As escolas mal acomodavam os alunos durante o dia. de 14-1-1854. ou a inhabilidade e relaxação de muitos dos existentes”. onde residiam.17. anuncia em ofício ao Ministério do Império a preocupação em adaptar os regulamentos às circunstâncias do local. rixas e mutilações eram faltas 42 Ofício n. meninos e professores. Correspondência entre a Presidência da Província do Amazonas e o M inistério do Império – 1852-1889). No interior. as escolas funcionavam nas Igrejas. dominará os discursos dos homens que deixaram registros sobre a instrução pública nas duas províncias. 20/12/1858. falta de asseio em si. provenientes do Pará e do Amazonas. 44 Não há mais referência à criação dos internatos na documentação posterior. desobediência ao professor ou ao preceptor 45 . como atestou o diretor da instrução pública em 1858. não devia ser bem compreendida por filhos de “pais extremosos” como atestam os relatos do período a respeito das famílias indígenas. 43 Relatório do diretor da instrução pública do Pará. alertando sobre os baixos ordenados que levavam os professores a instalarem as escolas em casas inapropriadas. 45 Foi estipulado pela lei que o preceptor seria “Discipulo da classe mais superior. 26 . ou Candidato ao lugar de Professor. os governantes procuraram responder prontamente às necessidades para o incremento da instrução na Província. e zelosos. só existia a casa do pároco.Herculano Ferreira Penna. Crianças que ingressavam nas escolas. a visão do “desleixo de muitos pais de familias. pais. ou nos seus livros e papéis.4. A medida exigiria um aumento significativo da verba referente aos ordenados dos professores. o qual teria por função dirigir “os discipullos na instrução em cada uma das classes. possivelmente resistiram ao rígido sistema educacional.

1999.. em vários aspectos da vida social e política do Império. Já as ações boas e adiantamentos notáveis rendiam recompensas em graduações.118. 46 Até aproximadamente a metade do século XIX. o esforço legislador sobre a escola. 27 . em todo o Segundo Reinado. nas províncias amazônicas. louvores. ao menos as mais indispensavies para fazer fructificar a arvore da instrucão nesta 46 47 AMAZONAS. por exemplo. dos compêndios. de forma a diminuir o arbítrio dos professores com relação a vários aspectos de sua vida cotidiana. p. a uniformidade do methodo. verifica-se. e o premio ao estudioso deverão sem duvida sellar com feliz resultado as paginas desse regulamento que assim organisado tratá consigo. a correcção ao indocil e pouco applicado. como a adoção do método de ensino. palmatoadas. FARIA FILHO. V ale a pena citar um trecho do relatório do cônego Joaquim Gonçalves de Azevedo. recompensas. É intensa a crença no poder da regulamentação do “regime interno das escolas”. etc. normatizando e disciplinando o seu funcionamento.Regulamento n. férias. dependendo do grau (mínimo.47 As escolas públicas. horários. castigos. As instituições oficiais. 1988. Luciano Mendes de. pela organização de um regulamento que diminuísse o arbítrio do professor: “A regularidade portanto do estudo. médio ou máximo). ficar em pé fora do banco. vão sendo colocadas sob as mãos ordenadoras do Estado. menção por escrito. através do qual ele revela a esperança em dar regularidade à instrução. Na década de 1850. Os aprendizes do poder. o esforço para o restabelecimento da tranqüilidade pública e a estabilidade política resultará na imposição do império da lei. podiam conter mais de uma centena de artigos. aplausos e de pequenos presentes a presentes melhores. repreensão. tabela B.1 de 8/3/1852. ou mais meia hora na escola. representadas pelas ações dos governos e assembléias provinciais. isolamento. e os asilos para a educação feminina. se inserem no projeto de formação do povo brasileiro (os cidadãos) e sofrerão intenso processo de regulamentação de seu funcionamento. Os regulamentos dos institutos paraenses e amazonenses para desvalidos. diretor da instrução pública na nascente Província do Amazonas. tais como. O autor baseia esta análise no trabalho de Sérgio Adorno. A regulamentação da instrução pública é parte do projeto de governabilidade da população e o professor disciplinado. nas minúcias de seu dia a dia. quando não todas as vantagens precizas. regulamentando. resultavam em advertência. e dos compendios. um braço importante do Estado atuando na sociedade. através da educação das futuras gerações de governados. como os institutos e colônias de formação de artífices e de trabalhadores agrícolas.que.

revelando que inexistia unanimidade quanto à validade e à aplicabilidade da norma. o Pará já contava com um corpo significativo de escolas primárias. 28 . as imprensas paraense e amazonense estarão discutindo o tema. Até o final do século. como previa o artigo 25o do regulamento paraense. dos alunos e dos professores. 1/10/1864. 49 RPAM. reproduz trecho de seu relatório de 1855. o ensino obrigatório e a instituição dos visitadores das escolas. a instrucção elementar é livre de facto”. 49 Temia-se que a medida ocasionasse efeito contrário. p. o Pará incorporou algumas das propostas que circularam durante o século XIX no país. apresentava um quadro diverso do Amazonas.19. tais como. Anexo F. À época. colocando-se contra a medida. que não deve ser desprezada na análise das políticas educacionais dos governos provinciais. devido à dispersão da população. 50 Não foi encontrada nenhuma evidência na documentação de que a multa pela ausência de matrícula escolar tenha sido aplicada aos responsáveis. O cônego Azevedo. 7/9/1858. sob a perspectiva do progresso moral. O ensino obrigatório era uma questão altamente polêmica em todo o Império pela dificuldade de implantação. Instituir visitadores para examinar o estado das escolas. diretor da instrução pública do Amazonas. 50 A legislação educacional demonstra que governantes e legisladores não só acompanhavam as discussões sobre as vantagens e os avanços na instrução. pôde-se dizer que no Brasil. A penalidade da multa nos casos das crianças entre 6 e 14 anos que não estivessem recebendo a instrução primária nas escolas públicas ou particulares. embora também se debatesse frente às dificuldades de consolidar um sistema educacional mais efetivo em território tão extenso e com uma população tão diversificada. era condenada por muitos no período. No caso das províncias nortistas era uma necessidade reclamada 48 RPAM. tendo vivenciado uma experiência sólida de educação popular.”48 A Província do Pará. como buscavam aplicar as medidas que consideravam mais convenientes para a educação dos seus governados. Com o regulamento da instrução pública aprovado em 1851. garante que “obrigatoria de direito. era uma medida reclamada por diversas vozes interessadas na prosperidade da instrução do país.nascente província. fazendo com que os mais pobres e os índios intensificassem o nomadismo de forma a fugir das punições. social e econômico das províncias. à insuficiência de escolas e às dificuldades de transporte. na segunda metade do XIX. O diretor da instrução amazonense em 1864. ou em suas próprias casas.

tornava impossível a fiscalização pelos diretores da instrução pública. emprehendi-a no citado Regulamento”. que viajara meses antes para Manaus em busca dos índios selvagens que não encontrara no Ceará (PEREIRA. e. 3/5/1861). mostrou-se satisfeito com os seus serviços. 29 . Regulamento n. visitador das escolas públicas das regiões do rio Solimões. 3/11/1860 (Relatório do diretor da instrução pública do Amazonas. 23. 54 Gonçalves Dias foi nomeado chefe da Seção Etnográfica da Comissão Científica Exploradora pelo Ministro do Império.103 de 9/7/1859 (RPAM. no Amazonas.I). p. nº 8. antes de propor reformas e novos regulamentos.9. art. ao presidir os exames dos alunos e alunas. p. visto que. de 6/12/1859.. Regulamento n. a comitiva partiu do Rio com destino ao Ceará.). investigar quais eram os obstáculos para o seu aproveitamento como mão-de-obra. PARÁ. 264-266).6. 54 Eventualmente. sendo o padre Antonio Augusto de Mattos nomeado visitador das escolas elementares de sete vilas.348. Os governantes não hesitaram em conhecer a realidade de perto. quatro cargos de visitadores. RPPA. Em ofícios dirigidos aos professores de Silves. no ano de 1861. a distância das escolas do interior em relação à capital. O Pará criou. e crendo. 52 No Amazonas. procurou habilitar-se com “informações sisudas a respeito do ensino (.. Somente em 1859. 51 A novidade não ficou no papel: a documentação da década de 1850 mostra que as escolas paraenses foram visitadas por diversas autoridades. Couto Ferraz. Antonio Coelho de Sá e Albuquerque. 12/5/1860. o regulamento de 1859 criou o cargo de visitador. A Comissão fora instituída pelo Imperador. uma solenidade oficial. o presidente Manoel Clementino Carneiro da Cunha nomeou Antônio Gonçalves Dias. doc. por ocasião de sua viagem ao Amazonas. presidentes de província visitavam as escolas e demais prédios públicos pessoalmente. cujas escolas deveriam ser vistoriadas pelo diretor da instrução. Lei Provincial n. Uma “festa literária” era o que os professores esperavam 51 52 Lei n. 53 Em 1861. Este foi o caso do Presidente do Pará. naquelas localidades onde não pôde pessoalmente visitar. antes que desaparecem. 1943. fez de sua visita às escolas públicas das freguezias de Serpa e Silves. cabendo à seção dirigida por Gonçalves Dias realizar o estudo etnográfico dos índios selvagens de algumas províncias do Brasil. “sempre que parecer necessário”. sem a presença do poeta.me senhor de esclarecimentos e dados rasoaveis para uma reforma exequivel e util. determinado a reformar a instrução publica a partir das visitas que fez às escolas publicas da Capital e a muitas do interior e. exceto para a capital. de 27/10/1851. pelo regulamento de 1851. que tomou esse “ramo do serviço publico debaixo de meos especiais cuidados e vigilancia”. 203. em seguida à dissolução da Comissão Científica Exploradora. João Wilkens de Mattos. Negro e Madeira. 53 AMAZONAS.com vigor. RPAM. em 1856. Lúcia Miguel. e retornou em julho de 1861.

Levantamento realizado junto aos ofícios dos presidentes amazonenses aos ministros Império e nos relatórios provinciais informa que João Wilkens de Mattos ocupou vários cargos públicos na administração amazonense: foi Diretor Geral de Índios no Amazonas em 1856-1858. aos alunos e aos professores. os prêmios seriam os primeiros salários para que os alunos se tornassem cavalheiros tão dedicados e zelosos na gestão dos negócios públicos da Província. Mattos foi Diretor Geral da Instrução Pública. de fevereiro a abril de 1874. preocupou-se com a inércia. mantinham um repertório mínimo comum de representações acerca dos grupos indígenas e dos homens livres pobres. Este repertório dirige a escrita dos relatórios. O interior das escolas e os atos escolares foram diretamente observados. Wilkens de Mattos foi um dos poucos amazônidas a receber um título de nobreza (Barão de Mariuá). a confirmar suspeitas. junto às casas escolares. 55 Os relatórios dos visitadores e dos diretores da instrução pública mostram aspectos da vida da população e das suas concepções a respeito das escolas. que escreveu ao Correio de Manáos relatando a visita. 55 Correio de Manáos. Delegado da Repartição Geral das Terras Publicas em 1859 e Presidente da Província de 26/11/1868 a 8/4/1870. e impôs medidas de homogeneização e regularização do ensino (Cf. quando teve que seguir para a Corte a fim de ocupar uma cadeira na Câmara Temporária (RPPA. em prol da instrução da mocidade. Para o morador de Silves. cartas publicadas em 10 e 24/12/1869. Dependendo da oportunidade de observação. tal como o seu presidente. No seu governo. de formação e origens sociais diversas. ele terá matizes mais fortes ou estará encoberto pela evidência do observado. estará mais sujeito às representações estereotipadas correntes na região e na sociedade em geral. aspectos da vida social e do trabalho das famílias e tudo aquilo que se encontra além da escola. que circulavam pelo país. permeado pelos exames feitos nos locais. 30 . obrigando aos examinadores a rever determinados “pré-conceitos” e sem dúvida. 17/1/1875). filtrados pelas representações que os grupos dominantes possuíam dos índios e dos desvalidos. aos materiais. capítulo 2).fazer quando recebessem os diplomas e prêmios dos alunos aprovados pelo presidente. As “pessoas gradas”. No Pará. o pouco zelo e a falta de habilitação dos professores. Ou seja. Notícia de 19/11/1869.

citada por Alessandra Martinez Schueler (2002. No entanto. O padrão comparativo não era menos do que a “ilustração de nosso século” e a meta a ser perseguida. A indignação com os resultados e com o pequeno número de alunos e alunas examinados ao final de cada ano é manifestada por toda a documentação oficial relativa à instrução pública do Segundo Reinado. consistiu na questão dos exames escolares. cônego Joaquim Gonçalves de Azevedo. em geral. por seus respectivos presidentes. em todos os relatórios. 31 . continuou a ser reproduzido ao longo do século. expondo o “atraso” das províncias nortistas. de dados relativos à escolarização nos países europeus. acusados de muitas vezes retirarem os filhos das escolas antes de prestarem exames ou mesmo. “galga r a escada do desenvolvimento e do progresso”. seus autores recusavam a transposições para o solo nacional. no Pará e no Amazonas. até mesmo nas regiões com maiores índices de escolaridade. 56 O número de alunos examinados e aprovados era citado nos relatórios oficiais como indicador de desempenho do professor. a partir da década de 1850. os motivos de seu atraso e as medidas necessárias para o seu melhoramento. acusavam os pais de retirar as crianças tão logo soubessem assinar o nome. nos relatórios da instrução pública. mostra que este tipo de representação acerca do desleixo dos pais.Visitando a cena: as escolas sob exame Uma das temáticas educacionais. o abandono da escola antes do aluno prestar exames era fenômeno comum. Na Corte. anseios expressos pelo diretor amazonense. A discussão não foi uma exclusividade das províncias amazônicas. tão logo soubessem “ler uma palavra”. os governos criaram outros mecanismos de avaliação do preparo e da moral do professor: o cenário escolar tornou-se alvo de exames. entre as mais discutidas de todo o período. os diretores da instrução pública do Pará e do Amazonas foram convocados. o que em muito aborrecia e frustrava os mestres. de modelos 56 A documentação de professores públicos da Corte da década de 1870. capítulo 2). no esforço de sanar os problemas da instrução pública. que pelas dificuldades próprias da região. a apresentarem um relatório da situação da instrução pública primária e secundária. a fiscalização in loco era medida recomendada. Embora os representantes dos governos reconhecessem as dificuldades com as quais tinham que lutar os professores no desempenho de sua missão. como no Município Neutro. os quais. No ano de 1858. Embora fosse comum a citação. teriam todos os motivos para o pouco apreço de sua população pela instrução de seus filhos.

defendeu o Presidente do Pará em 1867. solicitou ao diretor da instrução pública uma avaliação do estado da instrução pública e particular da Província. que necessitão dos filhos para os ajudarem em suas pescas. Anexo F. que tem de forçar e constrange-los a vencer o agro dos estudos.estrangeiros. e na acquisição de outros misteres indispensaveis para a subsistencia e a distancia em que se achão colocadas muitas das freguesias em relação aos sitios. aliado a uma suposta incompreensão de pais e filhos a respeito da importância da instrução. não havendo nellas pessoas residentes. 9/4/1867. o Presidente do Pará. 32 . não cuidão do dever. outros porque os pais os tirão das escolas apenas assignão o nome. sendo como são pela maior parte despidos do nobre desejo de se instruirem. 7/9/1858.. por expressar como se configurava o conflito 57 58 RPPA. O cônego Azevedo lembra que já em 1855 relacionou “as causas da falta de freqüência e matrícula dos meninos em todas as escolas da província”. escorada na criminosa condescendencia dos pais que desconhecendo a utilidade da instrucção e o nenhum direito que lhes assiste para privarem os filhos deste beneficio.” [A] “repugnancia que a mocidade tem para o estudo. e outros elementos aproveitaveis ao fim que se tem em mira”. O principal obstáculo apontado pelos visitadores era o modo de vida das famílias dos alunos. tendo enumerado como irremediáveis. advertindo os poderes públicos a respeito dos empecilhos ao aumento da freqüência nas escolas das pequenas povoações.) a pobreza dos pais. apenas se queixa que requisitara verba para inspecionar as escolas particulares do interior. A citação longa é necessária. condições de vida da população. Major Manoel de Frias e Vasconcellos. e assim uns não estudam porque não querem. mas não diz se as visitava.. (. 57 Hábitos e costumes da população do interior afloram nos relatórios. RPAM. p. seus habitos e costumes. com a indicação das “causas que têm concorrido para o progresso ou atrazo deste ramo do serviço publico”. não tendo sucesso no seu intento. e finalmente nas aulas maiores moços de talentos e esperanças as abandonão depois de dois e trez annos de aproveitamento. estava informado a respeito das escolas do interior.17. O diretor costumava visitar as escolas da capital."58 A observação e o exame em prol da reforma da vida indiana no Pará Em 1858. onde possão os meninos morar para frequentarem o estudo. seria “o exame das condições especiaes em que nos achamos em relação á extensão do nosso territorio. Mais importante do que a “trasladação de idéas”.

20/12/1858. Vasconcellos percebe que as famílias resistem à própria constituição da instituição escolar. de jurados. no entanto. O espaço de educação escolar atuava. como veremos adiante. Sahidos d’ahi eivados de vicios e prejuizos de familia. em termos físicos e pedagógicos. para que se dê por prompto nas materias do ensino primário”. a quem seus pais lhe recommendão que não obedeça ao seu mestre. por solicitação do Presidente da Província. de magistrados publicos!!! Pais tão bem existem que apenas o menino fica sabendo firmar seu nome. e por isso tem sido sempre para essa escola da infancia que hei chamado sem cessar as vistas mais attenciosas d’aquelles. Este gravissimo mal. que não aceite as suas reprehensões e os seus castigos. não publicado no relatório provincial (grifo nosso). impedindo que a formação pretendida pelo poder público se consolidasse. 59 É interessante como a interpretação oficial da relação das famílias com a escola é desvinculada das condições de funcionamento da instituição. com suas palmatoadas e castigos humilhantes. é a educação domestica. para que nunca possão servir de testemunhas em um processo. O diretor Felix Barreto de Vasconcellos começa seu relatório anunciando que. de que tenho fallado. e é por isso que attribúo a uma grande parte dos nossos pais de familia o motivo do enbrutecimento. de certa forma. como infelizmente acontece ainda entre nos? Quem não sabe arte. diretor. apontadas por todos os avaliadores como inadequadas. entendidas como frutos da ignorância e do embrutecimento dos familiares. Documento manuscrito. muitas vezes a família não permitia que a instrução ultrapassasse a assinatura do nome. que tem a seu cargo o governo da Provincia. o menino. com os corações estragados. De Felix Barreto de Vasconcellos. e ahi se preparo para serem um dia uteis a si e a sociedade. o aprender se dava na prática. em que vive á maior parte da nossa população. Em geral os filhos se corrompem na casa paterna com o leite venenoso de pessimos exemplos e doutrinas subversivas da religião e da moral. para logo o tirão da escola. sem a qual senão consegue a instrucção. acostumados ou a um rigor estupido.entre a educação doméstica e a educação do Estado. na companhia dos 59 Relatório do diretor da instrução pública do Pará. entendendo nada mais lhe ser necessario. que muito de proposito não querem que seus filhos se instruão. o menino nascido e creado na ociosidade e estupidez. não a estima disse o insigne Camões. 33 . Pois existem por toda esta Provincia pais. “A primeira e mais formidavel barreira que se oppõe por toda parte aos planos mais bem calculados para elevar á instrucção primaria a uma inteira perfeição. Como ter amor ao trabalho. Major Manoel de Frias e Vasconcellos (IHGBColeção Manuel Barata). Fora da escola. bem poucos são os que se amoldão á disciplina de uma escola. ou a huma condescendencia mal pensada. Controlando a sanha educativa do Estado. em conflito com a família. não fica somente aqui: elle vai mais longe ainda. condena as reações de pais e crianças à disciplina imposta por professores.

tais como. jornalistas. O presidente Wilkens de Mattos condenou a “conduta exagerada das autoridades”. a serem alvos do recrutamento forçado. especialmente as companhias de aprendizes. o número de alunos matriculados manteve-se estável nas duas províncias (ver em anexo. representando 2. O trabalho não devia beneficiar somente o indivíduo. do assinar o nome. a diminuição da freqüência escolar do ano de 1864 para o de 1865 foi provocada pelo “recrutamento forçado e em larga escala” (RPAM. Não se trata de uma utilidade abstrata. O temor do recrutamento possivelmente afastou famílias dos povoados no início da Guerra. ao formular o seu argumento a favor da “reforma da vida indiana ” pela educação de “meninos índios de ambos os sexos” nas escolas dos povoados e na capital. Em todo o Império. na escola. a estatística escolar demonstra que nos últimos anos do conflito. educadores. a partir de 1865. 34 . outras temiam que o domínio de tal conhecimento tornasse seus filhos aptos ao desempenho de funções indesejadas.470 menores em 1868.a queixa da falta de braços para as obras públicas das duas capitais em crescimento é recorrente na documentação. há aspectos bastante concretos nessa chamada à pátria . levando consigo os filhos. p. que alistaram na Marinha 1.41). ressaltaram a importância para a jovem nação do preparo de trabalhadores prestativos à pátria e. Pretender assumir a tutela educacional de uma parcela significativa da população não significava que os governos estivessem dispostos a ter sob seu teto as “classes ociosas”. contra os 93 de 1863 (p.203). 24/6/1866. Urgia incutir nestes segmentos o valor do trabalho e a noção de pátria. o povo deveria atender à sua convocação. especialmente no Pará. não dependentes das instituições do Estado para a sua manutenção. tabelas 2 e 8). mas mesmo assim o número de alunos nas escolas foi crescente no período. O Presidente do Pará. ao mesmo tempo. 60 Vasconcellos reproduz certos conceitos caros ao século: serem úteis a si e à pátria e desenvolver o amor ao trabalho . o fenômeno não se repete.2% da população total (RPAM. Sá e Albuquerque. autoridades diversas. enfim todos aqueles que deixaram registros relativos à educação no século XIX e início do XX. 984 habitantes do Amazonas foram enviados à Guerra do Paraguai. com exceção de uma afirmação do Presidente do Amazonas de que. O aprendizado necessário à sobrevivência no ambiente local era garantido nas atividades desenvolvidas junto à família e ao grupo de convívio. 4/4/1868. um repetir de frases sem relação com a vida cotidiana das crianças. contrapôs à d i éia abstrata da civilização a idéia positiva da utilização do 60 Renato Pinto Venâncio (1999) assegura que as diversas instituições destinadas a meninos maiores de sete anos passaram. conhecendo uma certa estagnação em meados da década de 1860.320). servir de testemunha em processos. Não há qualquer relato na documentação amazônica do recrutamento de meninos das escolas públicas. Algumas famílias viam vantagens no aprendizado dos rudimentos de leitura. como indicam as tabelas em anexo. Contudo. seguindo de significativo crescimento nos anos 1870. Nos anos seguintes. se o Estado necessitasse.adultos. A ambivalência era grande. p. Entre 1865 e 1868. quando o recrutamento violento dispersou os índios das aldeias e provocou a retirada da população do rio Solimões.

Percorrendo o Rio Amazonas. como ocorria freqüentemente nas administrações provinciais. obteve “informações acerca das producções naturaes do solo e dos objectos que podem constituir fontes abundantes de riqueza para o povo”. mandou mobiliar escolas e determinou outros melhoramentos das freguesias e vilas visitadas. e não de relatórios parciais de funcionários públicos. Diminuir o monopólio e a influência dos regatões sobre os índios através da criação de feiras para o comércio com outros compradores. seria um objecto de grande importancia economica e financeira.los às modalidades de trabalho que interessavam ao Governo da Província.”61 “Observei e examinei certos factos nas localidades”. afirmara o presidente.los ao trabalho. nas mãos dos regatões. Albuquerque reformou a instrução publica na Província. ao passar a administração. ele teme esbarrar com as “resistências tenazes” dos índios e a “indolência quase de vegetais” que recorrem quando são alvos dos descimentos realizados por “famílias”. segundo Albuquerque. Quando Albuquerque entra no terreno da reforma dos hábitos e costumes da vida indiana. instituiu e extinguiu escolas. o administrador vagueia no campo das especulações quando sugere medidas a serem tomadas no sentido de produzir necessidades que os índios desconheciam. demitiu e transferiu professores e abriu concurso para 31 freguesias e povoados. enfatizando que a tônica do seu relatório é a observação. de forma a estimulá. Até então bastante objetivo e prático na sua ação. tomou uma série de medidas para a melhoria ou construção de prédios públicos e igrejas. induzi. e educar os meninos para que se tornassem “agentes da 61 RPPA. pois os produtos do trabalho dos índios acabavam. O administrador expressou com extrema clareza as motivações que permeavam as propostas civilizadoras da época: “Quando a idéia abstrata da civilisação de uma raça numerosa vivendo hoje vida inteiramente animal no centro das mattas não fosse digna do estudo e solicitude dos homens d’Estado. 12/5/1860. a idéa positiva e real da utilisação do trabalho e da industria d’esta raça. é fruto de sua observação e intervenção.trabalho das “futuras gerações”. criando um novo regulamento. 35 .34. O documento que apresenta à Assembléia Provincial. p. seguida da reforma. Na viagem ao interior. Isto é. em beneficio d’ella e do paiz.

tapuias ou simplesmente desvalidas. os quais. recorreu a expedientes coercitivos para obrigar as famílias a matricular os filhos nas escolas. 63 O recrutamento forçado à Companhia de Aprendizes no Pará e do Amazonas provocou em momentos diferentes. levando pais e parentes a recorrerem ao auxílio do próprio poder público. Ou seja. fosse na escola pública ou na Companhia de Aprendizes. por iniciativa própria ou por ordem de seus superiores. Segundo a autoridade. Pelo relatório do diretor da instrução pública do Pará. com aprovação da presidência. dependendo de quem estivesse no poder. como a aplicação de multa era medida ineficiente.30-34. enviaram crianças índias. 20/12/1858 (IHGB-Coleção Manuel Barata). 12/5/1860. não poderiam estar sujeitas à tamanha ameaça. Para as famílias afetadas pela medida autoritária do governo. Outro fator de descontentamento pode ter vindo do recrutamento de crianças que. Quantos filhos de índios foram enviados à Companhia de Aprendizes Marinheiros sem provocar alarde alguma das autoridades locais e da imprensa das capitais? 62 63 RPPA. 36 . se impunha a educação prezada pelo Estado. não é esclarecido de onde partiram os protestos.autoridade publica no centro das mattas e desertos hoje impenetraveis” constituíam as propostas do “Governo Illustrado” que o administrador pretendeu instaurar no Pará. Aos pais e tutores. pela posição de suas famílias na localidade.62 A educação de meninos e meninas indígenas jamais se tornou uma política sistemática dos governos paraenses e amazonenses. iniciativas essas. Felix Barreto de Vasconcellos. vindas da presidência. No caso citado. o governo achou por bem recorrer a uma punição bastante severa para os pais. tais medidas funcionaram muito bem até o “espírito de partido” ativar uma luta entre algumas autoridades policiais e delegados da instrução pública. a reação de liberais e conservadores. as próprias autoridades reconheciam como muito zelosos e afeiçoados aos filhos. na capital. para serem educadas em escolas e instituições de aprendizes. Relatório do diretor da instrução pública do Pará. a documentação nos fornece fragmentos de histórias de autoridades públicas que. a questão pode se resumida da seguinte forma: ou mandavam os filhos à escola ou eles seriam recolhidos pela polícia à Companhia de Aprendizes Marinheiros. muitas vezes autoritárias. mas não é difícil supor que oponentes liberais ao governo conservador estivessem combatendo ordens tidas por arbitrárias. Todavia. somos informados de que a Diretoria. frente à pobreza e à possibilidade das famílias se transferirem para outros sítios. p.

ver capítulo 5. tendo Couto de Magalhães conseguido a aprovação do Governo Imperial para o seu ato e para situações futuras desta ordem. Valéria Weigel (2000) verificou. de índios e dos pequenos vagabundos da capital foi um recurso utilizado para compor o corpo de aprendizes marinheiros da região. e dando-se-lhes praça de aprendizes marinheiros”. acompanhado de toda a sua familia e disse-me que vinha pedir protecção contra as extorsões. Ao indiozinho após a admissão na instituição educacional. feito por Couto de Magalhães. arrancando-se-lhe dous filhos. Para os internatos indígenas criados na região do rio Negro por missionários. ele conta que. a partir de 1879. Presidente da Província do Pará. referentes aos internatos indígenas norte-americanos. “entrou. por exemplo. o 64 RPPA. ao serem internados nas instituições de instrução primária e profissional. 37 . O recrutamento forçado de meninos do interior. pois em toda a região amazônica. por motivos diversos. era-lhe imposta uma nova identidade. dos costumes e da língua. 1864. Assim.me pelo palacio a dentro um Tuchaua. de que tinha sido victima. só o pai falava português. composta de homens e mulheres. a que eram submetidos meninos e meninas das reservas indígenas norte-americanas no século XIX e princípios do XX. Da família. 65 Este tipo de relato. e uma autoridade interessada no destino dos índios. criados longe das reservas. que o uso da língua nativa ou da língua geral era duramente reprimido nas instituições. e já sujeitas ao vexame de uma vida tanto mais acerba para elles quanto mais livremente havião sido creados!” 64 Os meninos receberam baixa imediatamente. Pouco sabemos como se dava o processo educativo do ponto de vis ta dos alunos. A inscrição da nova identidade . a de aluno ou aprendiz. O autor contou com ampla documentação.12. quanto as formas empregadas pelos índios para se defenderem. que não sabião fallar o portuguez. conversar na língua nativa à noite. através de entrevistas com ex-alunos e alunas. Esta informação coincide com situações relatadas por David Wallace Adams (1995). p.Couto de Magalhães. A respeito da obra indigenista e do colégio indígena criado na década seguinte por Couto de Magalhães. deixou um relato que evidencia tanto o abuso de poder das autoridades. nos dormitórios.era vivida pelos alunos com intenso sofrimento e reações possíveis dentro das rígidas normas disciplinares das instituições. mesmo não falando o português. O presidente mandou se apresentarem as “pobres creanças. O historiador retrata em minúcias as mudanças corporais (roupas e corte de cabelo). com todos os seus símbolos materiais e comportamentais . é muito raro na documentação. em 1864-1865. pouco tempo após sua posse. identificavam a criança que ingressara no sistema educacional oficial como filha de índios. visando o afastamento dos internos de seus costumes tribais. no início do século XX.a de civilizados. enfardeladas em roupas de panno calidissimo. 65 O não falar a língua nacional não implicava no impedimento da comunicação. Para uma reconstituição da história da educação formal dos índios na região recorremos aos casos contados por aqueles que. junto com a farda e todos os símbolos de sua nova condição. Após criticar duramente a exploração a que os índios eram submetidos pelos diretores de índios. como. era comum o uso da língua geral. biografias e fotografias. como cartas dos alunos.

com o aumento da população pela migração cearense e de outras províncias nordestinas. O Amazonas também sofreu um acréscimo populacional com os retirantes nordestinos. com os migrantes brasileiros e imigrantes estrangeiros.11. Os projetos educacionais passaram a incluir estes novos habitantes. 68 66 67 MINISTÉRIO DA MARINHA. o índio vai “sumindo” dos relatórios paraenses. 2/6/1889. e se lhe impunha uma nova identidade: o de aprendiz.16. 68 RPAM. onde havia cerca de 200 internos em 1864 66 . Mapa demonstrativo dos alunos matriculados na Escola Primária do Instituto Amazonense em 10/5/1889. visando a restabelecer as escolas de Tomar e São Gabriel. as escolas dos pequenos povoados do Amazonas atenderam também a crianças indígenas. no caso da Companhia paraense. Mais tarde. É o que nos induz a pensar a proposta do governo amazonense. p. provocando a criação ou o restabelecimento de escolas primárias. uniformizado na farda e no tratamento. em 1878. levando os governos a mobilizar recursos para recebê-los na Província. documento n. muitos dos quais eram filhos de cearenses. levando ao seu registro oficial como um número a mais e um nome cristão. A educação dos meninos índios na escola também era um anseio dos governos neste período e. 25/8/1878. no rio Negro. pelas informações fornecidas por Gonçalves Dias no início da década de 1860. para onde famílias de cearenses estavam se encaminhando. Catequizar índios e educar seus filhos tornaram-se objetivos menos importantes do que promover a colonização da Província. 38 . Relatório de 1864.67 O cenário escolar é igualmente alterado com a migração em massa. In: RPAM. como se pode constatar na relação de alunos do Instituto Amazonense de Educandos Artífices do ano de 1889. O transpor a porta da instituição já implicava na mudança de identidade.menino ingressava na massa dos aprendizes.

Na viagem. Antonio Gonçalves Dias. tendo feito mais duas excursões de visitas às escolas: uma pelo rio Madeira e outra pelo Rio Negro. seu conterrâneo. sob precárias condições (canoas remadas por índios. o prestigiado poeta Gonçalves Dias chegou a Manaus.Um testemunho – Gonçalves Dias no Amazonas Em fevereiro de 1861. Passados mais de vinte anos. O fato de ter recusado o pagamento destinado pelo Governo da Província ao seu trabalho de visitador é um indício de que considerava a viagem ao Amazonas como uma oportunidade de cumprir as “instruções” pertinentes à função de etnógrafo que assumira junto à Comissão Científica. p. visitador das escolas públicas do rio Solimões. Relatório da inspeção das escolas públicas do rio Solimões. Antonio Gonçalves. e de outro. sendo logo nomeado pelo presidente Manoel Clementino Carneiro da Cunha. debaixo de sol e chuva) e muito doente (tinha “tuberculose de laringe” e sífilis. 1861 (Documento n. a comprovação do quanto a instrução era atrasada na região (UCHÔA. 72 A leitura da “repugnância da mocidade” pelos estudos e a “condescendência criminosa dos pais” já vinha sendo realizada pelo diretor da instrução pública do Amazonas. Um testemunho muito interessante da situação das escolas do interior do Amazonas consiste no relatório que Gonçalves Dias apresentou ao governo amazonense em março de 1861.69 Gonçalves Dias permaneceu na Província por nove meses. 3/5/1861. Antonio Gonçalves. estando já bastante enfraquecido nesta época? A única explicação plausível seria a tentativa de concluir a tarefa pela qual fora designado pelo Governo Imperial.10) 39 . após visitar cinco freguesias do Rio Solimões.1 do RPAM. MOACYR. 1966. A última excursão resultou no Diário da viagem ao Rio Negro. 71 DIAS. A historiografia tradicional sobre educação no Amazonas recorre a este documento. Primitivo. 7/9/1858. a respeito do estado da instrução pública e das “medidas mais acertadas para o seu desenvolvimento” (1884?. e na volta entregou ao governo um relatório de sua viagem. 70 O que teria levado Dias a viajar pelos rios amazônicos. como o uso da língua geral. como ocorreu no anexo F do RPAM. A recusa ao pagamento pela comissão de inspeção às escolas públicas dos rios Solimões. Negro e Madeira. não é difícil encontrar na documentação a representação da “indolência dos pais” como uma das causas do atraso da instrução na Província. que citaremos mais adiante. o que faziam "em casa e nas ruas e em toda parte". 71 O visitador reproduz. inclusive em relatório publicado.72 69 DIAS. os seus aspectos pitorescos. conforme defendeu Joaquim Azambuja no relatório apresentado ao Governo do Amazonas. 1939). foi “gentileza” bem vista pelo Governo da Província e fez “história” entre os biógrafos do poeta. Dias identificou nos hábitos e na língua dos alunos e suas famílias características da “população indígena do Amazonas” que considerou obstáculos à sua civilização. as retóricas do “desleixo dos pais” e do desinteresse dos filhos pela instrução. 1861. alcançou o Peru. a partir da fala de um professor. ressaltando de um lado. além de outros males). nomeada pelo Imperador. Amazonas). Julio Benevides. presentes nos escritos sobre a educação até o final do Império. o poeta e etnógrafo maranhense. 70 Na visita às escolas do interior. descrevendo a situação das escolas visitadas.

A oscilação na freqüência diária das escolas era significativa. que seos filhos lucrarião com a frequencia de uma escola primaria”.. 74 O professor atribuiu ao “desle ixo dos pais” o fato de existirem em abundância meninos que não freqüentavam a escola. fenômeno observado por Gonçalves Dias (1861) nas escolas do Solimões.5. desapparece esse enthusiasmo animador! Assim tem sido muitas das escolas de ensino primario e algumas mesmo de secundario. tinha 18 alunos sob seus cuidados. p. 75 DIAS. situação verificada pelo padre Antonio Augusto de Mattos. cônego Joaquim Gonçalves de Azevedo. ou por que estes por ignorancia condescendem com a pouca vont ade dos filhos. mesmo compartilhando da visão do descuido da família. princiando estas os annos lectivos com boas esperanças. nomeado visitador das escolas ele mentares de sete vilas amazonenses. atendendo a 73 74 DIAS. 40 . Presidente do Pará. Todavia.” 73 Em São Paulo de Olivença. Antonio Gonçalves. e concluindo-os com um ou dous discipulos. Em Tabatinga. porem não sei porque fatalidade.. corroborou esta visão em 1860. porém esses povoados tinham uma população limitada. afirma que a procura inicial pela escola era grande: "(. 76 RPAM. 1861. 1861. Amazonas. previase que o restabelecimento desta poderia contar com 15 alunos.3. ou por nimio desleixo dos paes. e “meninos com bastante adiantamento”. ou por não comprehenderem o alcance da instrucção. é que ha ali bom numero de meninos que não frequentão as escolas.”76 O diretor da instrução amazonense. cuja escola não estava em funcio namento. escrevendo. “talvez por suggestões extranhas os distraião quando não seja por conveniência do momento. O diretor da instrução no Amazonas em 1858. O zeloso professor. É questionável a idéia corrente de que os pais não buscavam colocar os filhos na escola. Encontrou a escola em funcionamento e os meninos em seus lugares. Antonio Gonçalves. p. o empecilho das faltas diárias e das férias de cinco meses ocasionadas pela temporada da pescaria também se manifestava nesta escola. e por Couto de Magalhães (1864). Alguns retiravam acintosamente os filhos das escolas.“O que é certo e m’o disse o proprio professor. Anexo F. número considerado bom pelo inspetor. reverendo Manoel Ferreira Barreto.) todas as vezes que se inaugura alguma escola matriculam-se muitos alumnos e começão a tarefa com gosto. responsabilizando determinadas atitudes dos pais pela diminuição do número de alunos de algumas escolas. Gonçalves Dias se deparou com a única escola onde dominava a ordem e a regularidade. 1858. 75 A freqüência nas escolas das freguesias visitadas ficava em torno de 10 a 19 alunos. fato observado pelo visitador.

que também tinham seus filhos freqüentando as escolas das pequenas localidades. 80 DIAS. documento n. alguns passaram a exercer cargos públicos. O número de alunos matriculados foi realmente alto para as escolas da recém criada Província: Canumá: 27. parte das crianças que estudava nas escolas das freguesias. p. do qual grande parte dos alunos fugia.conselhos de “amigos mal intencionados”. a vantagem maior estaria em aprender o idioma nacional.5. as descrições das expectativas e das atitudes das fa mílias com relação à escola vêm carregadas de imagens a respeito do “singular modo de viver [dos índios] nestas vastas solidões do Amazonas” 78 . o vigário nomeado não enviou informações. Coary: 62. através da escola. 3/11/1860. como a fornecida pelo governo amazonense em 1854. Pode-se supor que para tapuios e índios. Na de São Paulo de Olivença. pode-se pinçar opiniões divergentes. seus filhos teriam facilitado o contato e a troca de produtos com os comerciantes nos povoados ou pelos rios. Mas para outra parte. Antonio Gonçalves. 1/10/1864. 77 78 RPAM.19. como a necessidade que os pais tinham dos serviços dos filhos. da interferência dos homens influentes sobre as famílias. não havendo necessidade do exame final. 1/8/1854. Portanto. vilas e cidades provavelmente poderia contar no futuro com a intervenção de protetores aliados às suas famílias. mas de difícil solução. As relações da família com os protetores ligados aos poderes públicos garantiam a devida colocação. 1861. 79 Para alguns. A “prova” da boa vontade dos pais estava na procura por vagas nas quatro escolas recém instaladas na Província e no pedido de tal “benefício” por outros distritos. À margem destas leituras generalizantes. 79 RPAM. outros enxergavam no assinar o nome toda a utilidade das escolas.80 Esta informação revela que saber ler e escrever era suficiente para se almejar um cargo público. Gonçalves Dias revela que da relação de alunos que saíram da escola do professor de São Paulo de Olivença sem prestar o exame final.22.8. aliadas a aspectos muito concretos. de que os pais “ainda nos lugares mais incultos”. 41 . segundo os relatórios de todo o período. RPAM. São Gabriel: 29. buscavam dar educação aos seus filhos. a alfabetização garantiria postos na administração pública. da falta da compreensão da utilidade da instrução. Portanto. p.77 Os significados da escola para as famílias chegam a nós filtrados pelas representações das autoridades com relação aos grupos populares e às lideranças locais. p.

84 Gonçalves Dias deixou registrada na sua obra de 81 Gonçalves Dias iniciou suas atividades de “visitador” em 1851. 84 Luciana Marinho Batista (2003) discute a clássica concepção dos governantes e da historiografia paraenses a respeito da decadência da agricultura na Província do Pará. visitando várias escolas européias em 1856 (PEREIRA. principalmente no que se refere ao nomadismo dos índios. movel. as autoridades não devem pressionar as famílias com multas para que deixem os filhos na escola. que os não tire d’ali antes de aptos. aspiração associada à concepção corrente. de 1840 a 1870. Antonio Gonçalves. mas porque muito se afeiçoam a elas ou precisam de seus préstimos.82 Dias constata que a verdadeira propriedade das famílias é a canoa. Mais tarde. accommoda-se dentro della com a mulher e filhos.”83 A possibilidade de abandonar a moradia repercute diretamente nos objetivos educacionais dos governos. errante. e não a casa. da agricultura comercial como instrumento de civilização e riqueza das províncias. pondera Gonçalves Dias. mas sua análise é pontuada por esse repertório. 1943. Lúcia Miguel. Para dizer a um destes que mande os filhos á escola. 42 . 81 Não faz comparações diretamente. essa é a verdadeira propriedade. o indio continua o seo viver instavel.Gonçalves Dias tinha grande conhecimento das instituições educativas. Levá. símbolo da mobilidade. p. e não comprehendendo que careção de mais nada.los à pescaria é a verdadeira escola. abandona-a tão logo chega o período da pesca. os índios e os escravos. não porque não tenha com quem deixá-las no povoado. levando as crianças consigo. levando a intensificação da vida nômade. O controle governamental sobre esta população é muito limitado. p. 1861. p. ao ser designado pelo Governo Imperial a visitar as escolas públicas e os asilos das províncias do Norte. é ordenar-lhes que mude radicalmente a sua norma de vida. Compartilha com a visão dos grupos dominantes da região a respeito da “vida errante” da população amazônica. que os prenderia ao local. vão às praias e assim vivem muitos meses no anno. 83 DIAS. como ellas. foi enviado em comissão à Europa para estudar o estado da instrução pública nos “países mais adiantados”. Morando em pobres choupanas. do intenso desejo de luzes e civilização dos ilustrados que escreviam sobre o povo livre.207). investigando os seus problemas e apontando soluções.8. pois o efeito será o contrário ao desejado. ela domina os meios de sobrevivência nas matas e rios e independe das instituições do governo para educar os filhos. “por mais verdes que sejão sempre podem e sabem governar a canôa”. entre os agentes da administração oficial.3. A concepção negativa do modo de vida da população amazônica provinha. em parte. questionando-a com o emprego de dados da exportação agrícola paraense. “A canôa sim. Os meninos. dando aos filhos a educação que tiverão. esta população não teria apreço a casa. 1861. Antonio Gonçalves. improvidente. do Brasil e do exterior. 82 DIAS.

Antonio David de Vasconcellos Canavarro.. a de geometria e a de geografia (RPAM. 3/5/1861. em função da exploração que sofriam dos comerciantes. dizem elles. de forma que meninos não passem anos na escola e saiam “não sabendo cousa nenhuma”. este encarregado de estudar o estado sanitário das povoações do rio Negro. 86 DIAS. 43 . “Qual dos povos da Oceania ou do Brasil estavam mais aptos para receberem a civilisação?”. Pedro II. Documento n. 3/5/1862. a saber. A “Memoria apresentada ao IHGB e lida na augusta presença de sua Magestade Imperial”. já que a sua principal obra indigenista e denominada de etnográfica. ele sugere que a escola se adapte à realidade de vida dos pais. o comandante tenente Rufino Luiz Tavares. a qual Gonçalves Dias e o engenheiro Joaquim Leovigildo de Souza Coelho percorreram no ano de 1861. o engenheiro citado. 88 COELHO. A região do rio Negro.. v. do número de habitantes. descobrimos que dos 16 povoados e três 85 De acordo com a concepção de trabalho etnográfico da época.14). Joaquim Leovigildo de Souza. Relatorio sobre o estado das povoações do Rio Negro . O visitador propõe que se remova as causas desse modo de vida. como na Amazônia.”88 Complementando as informações do relatório de Souza Coelho com o Diário da viagem ao Rio Negro. no Amazonas. agilizando o ensino do português. sugerindo a precariedade do ensino secundário à época. o inspetor das escolas públicas Gonçalves Dias e o inspetor de saúde pública.35. a saber. Revista do IHGB. “Os moradores não querem mandar seos filhos para a escola. Brasil e Oceania. parte 2a. responsabilizando os pais por essa situação. dos povoados.4.) antes querem. de Gonçalves Dias. (. a crença na possibilidade de civilização dos índios. p. é representada em seus escritos sob a égide da decadência – da agricultura. levando a população a perder os “habitos de vida errante”. que seos filhos aprendão a caçar e a pescar do que a ler. 87 A viagem de exploração ao rio Negro foi realizada no período de 15/8 a 5/10/1861. da religião e da instrução.87 O engenheiro afirma em seu relatório ao Presidente da Província que não havia instrução no rio Negro. p. Entretanto. O engenheiro e o médico regiam gratuitamente duas cadeiras vagas do ensino secundário em Manaus. Brasil e Oceania. É um tema bastante enfatizado no seu relatório. In: RPAM. que não podem prescindir do “serviço dos filhos”. 1867 [1852?].8. foi feita sem qualquer observação de campo. 1861. p. ao compreender que mais vale cultivar os gêneros que buscavam nas matas do que se embrenhar nas fatigantes e pouco produtivas excursões pelas matas e praias. Compunham a comissão.22. no vapor Pirajá e de canoa.86 Difundir a língua nacional já garantiria a utilidade das escolas em regiões de população de origem indígena. tomo 30. em comissão solicitada pelo governo amazonense. se propunha a resolver a questão colocada pelo Imperador D.caráter etnográfico 85 . em alguns trechos. ele não se limita a propor formas de mudar os hábitos da população. Antonio Gonçalves. A expedição ao rio Negro exigiu dos professores voluntários o afastamento das aulas por dois meses. A mobilidade que encontrou na população do Solimões talvez tenha colocado em cheque as suas teses otimistas para o período.

e muitas vezes. Uma hipótese plausível para as omissões consiste na brevidade da estadia nas povoações. A freguesia de São Gabriel e o povoado de Tomar possuíam professores. quem sabe. Nada consta a respeito de Carvoeiro.20). os quais escreviam bem e liam corretamente. Gonçalves Dias não cita a escola de Barcelos. como nas últimas horas da madrugada. todas da região do rio Negro. em São Gabriel. São Gabriel e Moura. apresentavam alunos. com 18 alunos. como inspetor deveria estar ao par desta experiência bem sucedida. somente duas freguesias (Barcelos e Tauapeçaçu) e um povoado (Carvoeiro) tinham escolas com alunos freqüentando. não comprometido com os conflitos locais. a diversidade das finalidades dos escritos e das experiências dos autores contribui para uma maior riqueza de informações. uma iniciativa do vigário (RPAM. o que nos leva a suspeitar que a escola mais freqüentada do rio Negro fosse particular. esclarece ele) em sítios mais ou menos afastados dos povoados. Tauapeçaçu e Carvoeiro não são mencionados (RPAM. Em momento algum de seu diário. e de Tauapeçaçu. além de estar fazendo um registro em diário pessoal. 44 . fontes nem sempre explicitadas nos relatos. como estava nos casos das escolas de Carvoeiro.14). por exemplo. Algumas informações podiam ser adquiridas através de terceiros. mas cita os gêneros de agricultura praticada pelos habitantes (em sua grande maioria. ele procurou investigar o que os habitantes cultivavam nos sítios e os gêneros da extração vegetal e animal. e não em documento oficial. A despeito destes contratempos. p. por ter 25 alunos em “estado de adiantamento”. que impressionou muito a Coelho. nos revela o que estava por detrás dos panos com relação ao funcionamento precário das instituições do Estado e da Igreja. em horários inadequados para uma observação escolar. segundo o quadro apresentado pelo diretor da instrução em janeiro de 1861. o que indica.freguesias visitados. mais uma vez. que induziu Coelho a 89 No ano letivo de 1860. p. que não passava de algumas horas. Gonçalves Dias. ambos ignorados por Coelho. vê de forma muito marcante a decadência da agricultura nos povoados visitados. com 60 alunos. as escolas de Barcelos. ele justifica a ausência de alunos como uma falta dos pais. Coelho vê a decadência urbana dos povoados. estando vaga em 1868. mas não discípulos. como as brigas de poder. a rotatividade do professorado e a inconstância no provimento das escolas. O mérito do feito é atribuído pelo engenheiro aos esforços do vigário. mamelucos e índios. 4/4/1869. 3/5/1862. Tomar. Por melhor conhecer os modos de vida da população da região e pelos objetivos de sua comissão. Já Gonçalves Dias. A respeito de Tomar. A função de Gonçalves Dias nesta comissão era a de “Inspetor das escolas públicas”. O quadro das escolas criadas entre 1852 e 1868 revela que a de Tauapeçaçu foi criada em 1860. 89 O interessante é que há omissões com relação à existência das escolas nos dois relatos.

Não se deve desprezar a informação repassada por Coelho. Então sim. Coelho relaciona algumas causas para o abandono das povoações que fornecem pistas para a não procura pela instrução dos filhos nos locais onde não havia alunos ou mesmo escolas.depositar nas famílias a falta de alunos. Dias esteve com o vigário. e desconfiou das atenções recebidas por parte do padre. mas não relata a sua versão. Pelo envolvimento dos moradores na construção da Igreja e na compra do sino. 1997 [1861].300 e tantas almas” na área. 90 O sucesso ou a desgraça da instrução na região parece estar nas mãos dos vigários.91 Além de vigário. Gonçalves Dias conhecera o alferes em Manaus. tinha a impressionante cifra de 60 alunos na escola. Afirma que pesavam acusações fortes contra ele. é desvendado pela revelação de Gonçalves Dias a respeito das intrigas entre o comandante do forte e o vigário. deixa suas impressões no papel: “É tudo miséria e destruição”. presume-se que o vigário fosse o professor da escola. 1997 [1861]. mas Gonçalves Dias não menciona quem era o professor. o padre abandonou a Igreja. Antonio Gonçalves. pois conta com “1. conta-nos Dias. “queria ser tudo”. aparentemente inexplicável. queria ser o comandante do destacamento. O fracasso educacional de São Gabriel.46. por ter casado e batizado a maior parte das pessoas de São Gabriel para cima. O vigário. se ela existiu. sem ter deixado substituto em seu lugar. responsáveis pelo ensino nas escolas das povoações do rio Negro. os quais desejavam um outro vigário. e pela dificuldade de enviar professores para pequenas e distantes povoações. p. mas não menciona a sua atuação escolar. o padre Salgado.74. já que os moradores podiam requerer ao governo a nomeação de professores para seus povoados. Em Tauapeçaçu. DIAS. Carvoeiro. p. a sua versão da história originase dele e talvez de alguns moradores da freguesia. O padre é muito elogiado por Coelho. Gonçalves Dias informa objetivamente que o professor não tem alunos e que o diretor de índios está no Pará. podendo ter mais. o padre Salgado ensina de favor a 18 alunos. segundo informação de Coelho. diretor de índios e professor da escola. A educação fornecida pelo Estado era muitas 90 91 DIAS. como vigário e professor. a respeito da prioridade dada pelas famílias à educação requerida para a sobrevivência no habitat e na cultura locais. “lugar que se vai tornando importante”. Alegando não ter hóstia para dizer missa (esta é a única informação que Coelho dá a respeito do vigário). os índios do Uaupês de que era diretor e a escola onde era professor. 45 . Antonio Gonçalves.

também instaladas naquele período de grandes esperanças na instrução popular. o paraense ama a independência” (RPPA.e as “arbitrariedades cometidas pelos subdelegados e inspetores”.) acima de tudo. no rio Solimões. o recrutador. Dentre as causas da depopulação dos povoados. não sabiam ler e escrever. a população afluía às povoações nos dias de festa. por vontade própria ou iniciativa do governo. Presidente da Província do Pará. A escola de Coary. o subdelegado. como o comandante da guarda nacional. os ataques de índios e. em sua grande maioria. somente dez meninos estudavam. entrando em conflito com a população. 1864. Tanto Dias quanto Coelho observam que os inspetores de polícia das povoações. desejassem um cargo para seus filhos. chegou a 1866 com apenas oito..17). O grande número de exonerações de professores. certamente repercutiu na freqüência dos alunos. os quais levavam o paraense a fugir dos povoados. com 19 alunos em 1862. 46 . como as febres intermitentes. às atividades econômicas dos habitantes. a população chegou a se retirar com a chegada da comissão. tinham apenas três alunos cada em 1866. E conclui: “(. p.. demonstrando ao diretor da instrução o interesse das famílias pela instrução de seus filhos. como o comércio realizado nos rios. e tantos outros “tyrannetes que o oprimmem”. cit. o vigário. mas a 92 COELHO. onde os habitantes construíam as suas palhoças. O recrutamento em larga escala teria motivado a diminuição da freqüência escolar no Amazonas. Geralmente. Outros fatores relacionam-se às condições de vida na região. No segundo ano do conflito com o Paraguai. duas resultavam da atuação do Estado: o medo do recrutamento . fator este considerado de maior peso.vezes rejeitada. fato explicado pelo temor à ação dos recrutadores . logo quando foi instalada em 1854. No ano anterior. Cinco dias ou mais de viagem até o povoado mais próximo impediam a freqüência às aulas e às missas. o inspetor de quarteirão. São Paulo de Olivença e Tabatinga. Se a freqüênc ia às escolas elementares era inconstante.21. Gonçalves Dias encontrou a escola desativada desde o início do ano devido à aposentadoria do professor. a tônica do relatório da instrução pública é de desânimo. Fonte Boa. Couto de Magalhães. 92 Os sítios ficavam às margens dos lagos e igarapés. p. levantou junto aos “homens que ahi existem espalhados pelo immenso valle do rio Tocantins”. notadamente a ação dos representantes do Estado e da Igreja. E se. afluíram 62 alunos. op. por ventura. o funcionamento das aulas também o era. nos locais em que os ocupantes de cargos públicos representavam negativamente o Estado.. Na visita realizada em fevereiro de 1861. o domínio da leitura e da escrita não era uma exigência. fatores semelhantes aos relacionados para o Amazonas.em alguns povoados. Joaquim Leovigildo de Souza.

1/8/1854. 326). RPAM 1866 (Regulamento n. considerava inútil prover as escolas vagas e manter em funcionamento as escolas que infringiam o regulamento. Orlando Araújo Costa. 95 O bispo reúne. O diretor da instrução amazonense. 96 RPAM. quando do lançamento do projeto do Christophoro. 93 Desesperançado. o Vapor-Igreja. por não atingirem o número mínimo de quinze alunos. 47 . em anexo. uma pinçada do passado e a outra projetada para o futuro – a tradição e a modernidade poderão salvar o Amazonas da estagnação determinada por uma população de “vida nômade e errante”. simbolizando a modernização almejada para a Província. p.nem – Padre”. Navio-Missionário. a reforma da vida errante da população. os limites físicos. Portanto. ocasionará o trabalho e. 1/10/1853). iria combater os defeitos morais da população pela catequese.16. humanos e financeiros da Província impõem que se possa contar apenas com algumas escolas. por conseguinte. que inaugurou a primeira linha da Província. A navegação a vapor foi iniciada no Amazonas em 1853. Araújo Costa recomenda duas soluções. 95 Os projetos educacionais do bispo Antonio de Macedo Costa são analisados no capítulo 5. este último. 1861. crença levada a extremos pelo Bispo do Pará e do Amazonas. 94 O vapor. com a barca Marajó. em um único projeto. “É necessário esperar que o – vapor . O diretor lamenta que “os professores nem ao menos sabem escrever um officio de remessa dos mappas de suas escolas”. em 1883. p. 319.façam uma conquista em grande revolução”. encurtará as distâncias. “Não temos – vapor .318. DIAS. que iria civilizar e catequizar os habitantes do vale. avisa o diretor Araújo Costa. 1866. 1866. para o diretor da instrução. Antonio Gonçalves.e o – Padre . anuncia ele.96 93 RPAM. o vapor e o padre. como se pode ver na tabela 8.estatística escolar demonstra que a freqüência também oscilara muito no início da década de 1860. previsto pelo regulamento de 1865. 94 RPAM. 4/8/1865 e p. diminuindo sensivelmente o tempo de viagem entre Belém e Manaus (RPAM.

seus representantes não se furtarão em assinalar a inércia dos governos em prover as escolas de mobília adequada e materiais. peço para vêr as escriptas dos meninos. De acordo com o entendimento de que cabia ao Estado se responsabilizar por tudo que dissesse respeito às escolas públicas.”99 97 98 DIAS. estava suprida do material pedagógico necessário. que agora o acho aprendendo. e n’aquelles lugares. E denunciar a omissão do Estado em questões que deveriam estar sob sua condução. 1861. 99 Relatório do diretor da instrução pública do Pará. Assim. considerada a melhor das três que Gonçalves Dias visitara no Solimões. informou ao presidente que. a mobília e material da escola eram “de empréstimo”. Pergunto por que razão já não passou adiante aquelle alumno.As casas escolares e os professores As condições materiais e humanas de funcionamento das escolas são indicadores do investimento limitado do Estado neste período.. tinta e compêndios. não havendo uniformização. ou fornecidas pelos alumnos ou por seus pais. como papel. p. levavam professores a utilizar o catecismo com esta função. O diretor. papel e tinta aos alunos pobres era insuficiente para atender aos pedidos dos professores e dos delegados da instrução pública. e responde-se-me que por falta de livros e de compendios. No Pará. nem penna. Amazonas. 98 A verba prevista em lei para o fornecimento de traslados. que na minha visita anterior aprendia a mesma materia. E deste modo atrazãose os meninos. No entanto.4. compêndios mal escritos ou mesmo a ausência deles e a inexistência de livros de leitura. onde nem mesmo se dá este recurso. Antonio Gonçalves. e respondese-me que não escreverão por não terem papel. que por lei deveriam ser fornecidos pelo governo. todas as mais se servem de mobilia emprestada pelos particulares. 20/12/1858. as escolas enfrentavam dificuldades semelhantes. Em Fonte-Boa. anuncia-se que os métodos de ensino eram escolhidos pelos professores. Relatório do diretor da instrução pública do Pará. Felix Barreto de Vasconcellos. encontra-se apenas algum banco ou cadeira da propriedade do Professor ”. 20/12/1858.) a excepçao das escolas da Capital. “(. compêndios. 48 . Vasconcellos observou pessoalmente as conseqüências da penúria das escolas: “Saio á visitar as escolas.97 A escola de Olivença.. Todos os relatórios denunciam que as condições de funcionamento das casas escolares não eram as mais apropriadas. nem tintas. e nem eu posso castigar os Professores. não tinha bancos nem mesas.

No Pará. o espírito reformador do Presidente do Pará o levou a estipular mudanças visando melhorar as casas escolares. informa o relatório do diretor da instrução.9. RPPA. Regulamento n. as cadeiras do interior estavam abandonadas. Relatório do diretor da instrução pública do Pará. No novo regulamento que Sá e Albuquerque formulou para a instrução pública. de abril de 1860. 20/12/1858. chegando a tirar licenças por conta própria. Amazonas. como ocorria na Vila de Moura até pelo menos a década de 1880. 49 . pois os professores tendo alcançado pelo patronato a função.8.102 Nos relatórios da instrução pública do Pará e do Amazonas do ano de 1858. como a pescaria. pelos baixos ordenados. segundo a categoria das escolas. Os professores se envolviam com as atividades econômicas locais. apenas estariam visando o agenciamento do comércio. A referência a outras atividades exercidas pelos professores é comum na documentação oitocentista. 12/5/1860. A falta de professores habilitados para o magistério é outra questão do período. que não tinham direito à aposentadoria no futuro e recorriam a atividades alternativas para “ganharem o pão”. João Barbosa Rodrigues (1885). ele marcou gratificações para aluguéis de casa. 102 O naturalista e botânico brasileiro. o extrativismo e até a negociação de produtos artesanais com grupos indígenas. em 1860.35).(IHGB-Coleção Manuel Barata). pelo professor e alguns moradores de Moura (p. os professores enfrentavam muitas dificuldades na realização de suas tarefas. foram transformadas em expedições de catequese pelo tenente Horta. 101 Como se pode deduzir. que só começará a ser resolvida com a instalação das escolas normais do Pará (1871) e do 100 101 PARÁ. Quando da instalação do Amazonas. levando Sá e Albuquerque a transferir dois professores para “afastá-los de outras distrações”. utilizando seus ordenados como garantia de crédito. após observar pessoalmente que “por toda a parte as casas das escolas são acanhadas e mesmo indecentes para o importante fim a que são destinadas”. Os diretores reforçavam a necessidade de fiscalização sistemática das escolas pelo governo. p.Na administração seguinte. os respectivos diretores queixam-se do pouco interesse dos professores pelo ensino. A m aioria das escolas contava com professores interinos. a começar. 100 As professoras públicas do Pará já contavam com esse auxílio desde 1858. mas poucos professores mereciam este “honroso titulo”. denunciou em sua obra sobre a Pacificação dos Crichanás que pescarias nem sempre pacíficas no rio J auapery. o diretor da instrução constata que havia “um bem crescido numero de escolas de ensino primario disseminadas por toda Provincia”.

7. o ensino tradicionalmente esteve nas mãos de religiosos. As outras duas já tiveram escolas em funcionamento. Antonio Gonçalves. e hábitos morais e religiosos. Porém. 105 A Cabanagem. é preciso geito. como a falta de homens para assumir a função após a Cabanagem105 . três tinham escolas providas de professores. p.103 Nas cinco localidades visitadas por Gonçalves Dias no Amazonas. referida por Patrícia Sampaio (1997. não havendo inconveniente. 50 . Dias vê na condição de professor outros requisitos. certo amor e direi mesmo respeito as crianças . p. e talvez habito.”104 Na região. ocorreu na região amazônica entre 1835 e 1840. imposta pela necessidade.7. 1861. escrever e contar.3). p.. Os sacerdotes eram obrigados a residir nessas localidades e pressupunha-se que possuíssem ciência suficiente para ensinar a ler.Amazonas (1882). O movimento que envolveu grupos indígenas autônomos. Fatores de ordem política e social. obrigaram a Província do Pará a recorrer aos párocos. Segundo o autor. No relatório de 1840. passíveis de influir no “animo tenro e facilmente impressivel das crianças.) para ensinar não basta saber. 1861.. mas que não é de presumir que se reunão em todos.condições a que dariamos o nome de capacidade profissional que se encontra de certo em alguns sacerdotes. por estarem envolvidos com outras ocupações e por não haver garantias de “capacidade profissional” para o cargo. cuja instrução e educação lhes for confiada”. p. O Pará tinha 25. que vão além da ciência e da moral: “(. todos religiosos. que levou o governo a recorrer aos religiosos.54-55) como uma das mais violentas rebeliões do período regencial. foi reprimido violentamente. mestiços e negros. 103 104 DIAS. cit. tendo sido iniciada em Belém. o reverendo de Olivença era ao mesmo tempo vigário. o visitador apresenta certas restrições ao emprego dos sacerdotes. como professores interinos. o presidente João Antonio de Miranda atenta para o “estado vertiginoso da Província”. no caso específico dessa freguesia. uma delas regida por um sacerdote. índios aldeados. tapuias. Gonçalves Dias aprova a medida. os quais apresentavam “alguma habilitação”. Mesmo assim. O preparo de professores e professoras fora uma medida reclamada pelos diretores de instrução desde o final da década de 1850. Antonio Gonçalves. em dar-lhe a faculdade de impor multas aos pais faltosos com o dever de colocar os filhos nas escolas (Op.. logo expandida para todo o vale. das 35 escolas em funcionamento. paciencia. deixando um saldo de 30 a 40 mil mortes. DIAS. Os jornais das décadas de 1870 e 1880 estarão vigilantes junto às nomeações políticas de seus opositores no governo. A dificuldade em arregimentar pessoas preparadas para lecionarem em “lugarejos que são menos que aldeias” levou as administrações a prover os lugares de professores primários com sacerdotes. os regulamentos serão burlados com a aprovação em concurso ou simples indicação pelos governos de professores não habilitados. professor e diretor de índios.

instaurando um monopólio que. aos vigários. 11 eram regidas por padres. Gonçalves Dias visitara as instituições educativas do Norte brasileiro. das 42 cadeiras de instrução primária da Província. 10 eram religiosos. 18/12/1850 (IHGB .109 No entanto. Ao longo do século. a tentativa do governo central de impor limites à atuação do clero na instrução pública não se efetivou nas províncias amazônicas neste período. Anexo F. a composição do quadro de professores não era muito diversa: em 1858. desestimulando os cidadãos a adotaram o magistério primário como profissão permanente e estimada. Mappa das Cadeiras de Instrucção Primaria. mas sim. O monopólio não significava assumir integralmente a instrução da população. que o acúmulo de funções era uma desvantagem para o ensino. Outras questões estavam em jogo na medida adotada pelo Império. a legislação educacional tenderá para o controle crescente do Estado sobre as instituições de ensino primário e secundário. como o fará posteriormente. só a Igreja poderia colocar em risco. chamada por Miranda. estava confiado em grande número de casos.107 No Amazonas. No seu relatório de 1852. 7/9/1858. três delas estavam situadas na Comarca do AltoAmazonas. Diretoria de Instrução Pública do Pará. 15/8/1840. de “Gigante Prostrado”. 108 Cerca de uma década antes de sua visita ao Amazonas. ao menos. 51 .regidas por professores interinos. Esta constatação teria levado o Governo Imperial a restringir tais nomeações. incluindo o Pará. o presidente Sá e Albuquerque afirmara que nenhuma outra província do Império tinha as interinidades das escolas em maior número do que o Pará. Mapa 1. ele observa que esta Província tinha cadeiras regidas por sacerdotes. Dias pondera. dos quais o Presidente da Província presumia terem. particulares ou religiosas. permitidas somente para os párocos que tivessem coadjutores. impondo regras para a abertura e para o funcionamento de escolas e colégios. diz ele. 109 Aviso n. Antonio Gonçalves. trazendo vantagens para o público somente quando desempenhavam seus deveres 106 107 RPPA. O ensino. 27 por não religiosos e 4 por mulheres. o saber devido.106 Passados dez anos. 108 RPAM. Em 1860. o controle das instituições educacionais. devido aos baixos ordenados e aos “poucos cômodos da vida social nas pequenas povoações do interior”.15. p. de 18 professores das cadeiras masculinas.97 de 10/3/1851 (DIAS. como a tentativa de assumir o controle da educação do povo. 1852). em 1862.Coleção Manuel Barata). no momento.

Carlos 150 índios nossos civilizados e selvagens emigrados de Marabitanas. Waupés e (?)”. ver capítulo 2.Ofício n. os padres estavam sujeitos às punições “em nome da moralidade pública”. podendo a atuação destes assumir um cunho policial. RPPA.74. 15/05 e 26/8 de 1858. As demissões de professores podiam resultar de denúncias feitas pelos pais à Diretoria de Instrução Pública. Arquivo Nacional. Uma função deste porte fora requisitada pelo governo amazonense em 1858. 12/5/1860. Acompanhado de cinco homens armados. p. provocada pelo “falso cristo”. por se encontrar o missionário dos rios Içana e Uaupés.14/2/1859. fazendo da presença dos religiosos nas povoações e missões da Amazônia. jornal conservador). fora também demitida a professora interina da escola feminina. 111 Na metade do século XIX. jornal liberal. demitido em 1860 por Albuquerque. 113 No rio Uaupés. 115 Ofício n. ao lado da presença militar. Correspondência entre a Presidência da Província do Amazonas e o Ministério do Império – 1852-1889). o temor do ressurgimento dos conflitos que resultaram na Cabanagem era bastante forte entre os poderes locais. responsáveis pela fiscalização das escolas. Do Presidente da Província do Amazonas ao Ministro do Império (Arquivo Nacional. levou o governo amazonense a informar à Imperial Legação do Brasil na Venezuela da necessidade de convocar o padre Romualdo. que formara muitos seguidores. Denúncias eram encaminhadas aos jornais de Belém. por outro.com dedicação. 114 Em outubro de 1858. estando o índio Alexandre apenas acompanhado de um filho e de um enteado e sendo caçado pela polícia. um braço dos poderes públicos entre seus habitantes. 12/5/1860. A respeito. e a estabelecer aldeias militares e barcos armados na fronteira (Ofício n. como ocorreu ao padre que ocupava o lugar de professor interino na escola de Monte Alegre. Na mesma vila. com anexo de 28/7/1858. descritos como grupos decididos a resistir. publicadas na sessão de “Solicitados” (encontramos tais cartas nos jornais “A Província do Pará ”. 112 As ações catequéticas e educacionais dos missionários e vigários tinham um forte cunho político.9. Correspondência entre a Presidência da Província do Amazonas e o Ministério do Império – 1852-1889). 113 A Estrella do Amazonas. ao frei Manoel de Santanna Salgado. o frei entrou em confronto com o grupo do “cristo Venâncio”. e na “A Constituição”. resultando em feridos de um lado e na morte de alguns índios. enviado ao Ministério do Império. quando os delegados da instrução pública. 112 O temor da repetição da “subversão de 1835”. tendo inclusive armas e flechas envenenadas. 31/7/1858. 52 . em missão permanente. o movimento estava “dissolvido”. Correspondência entre a Presidência da Província do Amazonas e o Ministério do Império – 1852-1889). 87. se mostravam inertes (muitas vezes o delegado era “amigo” do professor). muito doente. 114 “Um tal Aguir que comercia para Venezuela afirma ter visto apresentar-se em S. O frei fora incumbido de investigar o “cristo-índio” n o rio Içana.1.110 Como os professores seculares. se assim o Estado requisitasse. a repressão policial aos seguidores do Cristo Alexandre provocou a fuga de mais de uma centena de índios da região para a Venezuela. 22/10/1858.8. p. segundo o testemunho de um comerciante. Do Presidente da Província ao Ministro do Império (Arquivo Nacional. 115 Outros cristos vinham se reunindo 110 111 RPPA.

visitou grande parte da Diocese. Alberto Gaudêncio Ramos (1952). O relato biográfico do padre Christiano Müller (1915. fundou o Seminário diocesano. 31/7/1858.74. posições também ocupadas no Pará. fazendo emergir novas tensões às disputas pelo poder secular. suspeito de ser o causador da revolta na população de Marabitana. onde era vigário. 118 Raymundo Heraldo Maués (1998) e Fernando Arthur Neves (1998) abordam tangencialmente a ocupação de cargos públicos por eclesiásticos nas últimas décadas do século XIX no Pará. 118 Padres. danças e beberagens. freis e cônegos foram professores públicos. onde era professor. diretores de índios.com grupos de índios. reverter a tendência anti-clerical que crescia em determinados 116 117 A Estrella do Amazonas. vice-presidentes e até presidente de província. o Presidente do Amazonas comunicou ao Ministro do Império que o cônego mudou-se para o Pará. deputados provinciais. Outros exemplos da presença de religiosos na administração pública são analisados no segundo capítulo deste estudo. 119 Os sacerdotes tinham especial interesse na instrução primária pela questão do ensino religioso.42-43). 117 A população impunha seus limites à função de representante dos poderes públicos assumida pelo religioso. e a longo prazo. como o fez o “cristo-índio” do Içana. que realizava casamentos e batizados. A mão repressora do Estado na região do rio Negro deixou seqüelas: o padre Salgado. Envolvido diretamente com a formação religiosa de seu rebanho. sendo em 1866. e ensinava o catecismo nas escolas. Em ofício de 24/7/1862. Macedo Costa. ocupou o de Diretor Geral de Índios. no Pará. 53 . citado neste capítulo. sagrado Bispo de Goiás por D.19) revela que o menino nascido no interior do Pará e admitido como pobre no seminário em Belém. A catequese. Ofício n. “civilizados e selvagens”. corria o risco da apropriação considerada indesejada pelos governantes e religiosos. 116 A conjunção de forças – militares e religiosas – obteve a subjugação dos movimentos. sem a aliança com a educação civil voltada para a formação do cidadão. 26/8/1858. diretores e visitadores da instrução pública. Azevedo foi vigário geral e reitor do seminário do Amazonas. liderados e engendrados por índios. Do Presidente da Província do Amazonas ao Ministro do Império (Arquivo Nacional. Ademais. ficando vago o cargo de 2o vice-presidente (Arquivo Nacional. A presença de religiosos em cargos administrativos da Província do Pará e do Amazonas é tema raramente abordado pela historiografia. teve que ser retirado da região em 1858. Azevedo foi nomeado Vigário Geral de Belém. p. com suas práticas rituais. pela sua ação religiosa e educacional. Segundo D. o qual impressionara Gonçalves Dias e o engenheiro Coelho. diretor da instrução pública amazonense. 119 Um exemplo refere-se ao cônego Joaquim Gonçalves de Azevedo. o sacerdote exerceu importantes funções na Igreja da região e de Goiás. visando. práticas sacramentais associadas aos rituais indígenas. entre outros cargos civis. em comissão ao rio Negro no ano de 1861. Correspondência entre a Presidência da Província do Amazonas e o Ministério do Império – 18521889). Correspondência entre a Presidência da Província do Amazonas e o Ministério do Império – 1852-1889). sob uma perspectiva imediata. Foi a primeira sagração episcopal na Amazônia (p. ao tratarem do envolvimento de membros do clero na política partidária local. a formação moral e cristã dos meninos.

voltaremos ao tema da interferência da Igreja na instrução pública. 54 . a luta era pelo espaço do ensino do catecismo aos meninos. Os 29 anos do bispado de D. tanto os referentes às escolas quanto aos asilos e institutos de educandos artífices. No capítulo 2. mas estaremos apontando para a interferência dos mesmos nos projetos educacionais dos governos. Não teremos como aprofundar a participação dos religiosos na vida política das províncias. Os deputados liberais combatiam esse pressuposto. 120 A respeito dos projetos educacionais do Bispo do Pará e do Amazonas. chegando alguns a questionar a necessidade do ensino da religião nas escolas.setores. ver capítulo 5. fora um dos protagonistas. que segundo os padres só poderia ser feito por religiosos. Macedo Costa nas províncias amazônicas foram marcados pelo grande interesse e intervenção na educação de pobres e ricos. muitas vezes de forma ostensiva. realizada através dos mecanismos políticos disponíveis na época. Antonio de Macedo Costa. 120 Na instrução primária. após a eclosão do conflito com a maçonaria. resultando em meados da década de 1870 na famosa “Questão Religiosa”. cujo Bispo do Pará. que trata da expansão do ensino público no Pará e no Amazonas.

em se tratando de uma região com importante parcela de índios que mantinham seus costumes e tradições. imbuídos da importância em estender a instrução popular aos mais longínquos lugares do país. aldêas. 1 A Província do Pará . porque emfim só a luz da instrucção pode libertar o povo brasileiro da ignorancia em que se debate.”1 A citação acima. Na Amazônia. é um entre vários exemplos. este anseio trazia consigo o desafio das enormes distâncias que separavam as povoações de suas duas províncias. de como os governantes buscavam realizar o desígnio civilizador junto a seus governados. um enigma indecifravel.. freguezias. Porque só assim attingiremos o pé de nação civilisada. A viagem do Presidente do Amazonas ao interior. cidades e freguesias da Província. seu presidente empreendeu uma visita a diversas vilas.. argumento explorado exaustivamente pelos administradores em seus relatórios. A população dispersa pelo território. 55 . Onde houver um folego humano para quem o alphabeto for um phantasma. por todas as villas. sem desprezar o catequizador. o Pará e o Amazonas. ahi queremos um professor. 10/8/1876. por todas as cidades. expressa a aspiração dos homens ilustrados da época. do jornal liberal A Província do Pará do ano de 1876. povoações da provincia. dedicada às atividades extrativas e à pequena agricultura em sítios afa stados dos núcleos populacionais. constituía um obstáculo à difusão da instrução.Capítulo 2 A civilização nas fronteiras remotas da Amazônia Expansão da instrução pública nas décadas de 1870 e 1880 “Queremos a instrucção primaria derramada por todos os angulos. em 1877. Inspirado pelo objetivo de levar um pouco de luz aos habitantes do interior do Amazonas.

Os alunos são representados pelos resultados dos exames das escolas. abordando-os com brindes e com a música dos meninos do Instituto de Educandos Artífices. Nas visitas. cumprindo o cerimonial do exame pessoal de alguns alunos. por sua inserção nos lugares mais distantes e pouco povoados do Amazonas e do Pará. por possuírem outros modos de vida. embates e das práticas educacionais. Muito se escreveu a respeito dos professores. mas raramente suas vozes aparecem nos textos. e reforçar a fidelidade daqueles já cooptados pelas instituições públicas. A estes três últimos. 56 . sob o ponto de vista dos debates. denunciando ou elogiando professores. Domingos Jacy Monteiro. e por opiniões expressas nos documentos oficiais. sem esquecer de proporcionar o sacramento do batismo a avultado número de crianças Maués. jornais e textos de especialistas. por parte de moradores que dominavam a escrita e os caminhos da imprensa. predominando as opiniões ou as avaliações negativas reproduzidas nos relatórios oficiais em meio a registros de observações feitas in loco. atentando para as representações a respeito do educar. permaneciam à margem dos poderes públicos. 19/2/1877. pelas investigações de visitadores e autoridades. cultura e língua. elegendo-se a escola primária pública como uma instituição importante para análise. 2 A visita exemplar do administrador é aqui descrita como uma ilustração da disposição dos governos da região em incorporar ao computo de seus governados aqueles que. vez ou outra se publicava uma carta nos jornais da capital. no período de 1870 a 1889. Famílias dificilmente deixaram registros. O mais freqüente era a representação estereotipada destes grupos. formados por relatórios de presidentes das duas províncias e de diretores da instrução pública. visitou as repartições e as escolas públicas.atendendo às “queixas de seus habitantes”. adentrou nas malocas dos índios. por parte dos atores envolvidos. acompanhado dos mais caros símbolos da civilização cristã. 2 A Constituição. O interesse deste estudo concentra-se nas propostas e nos programas educacionais dirigidos à população mais pobre. as dificuldades se apresentam. que “viviam como verdadeiros bugres”. ora por sua estereotipia. famílias e alunos. como autoridades e professores públicos. conforme noticiou o jornal conservador paraense A Constituição. por ocasião das visitas escolares nas capitais e no interior. ora pela escassez de informações. O objetivo consiste em analisar a trajetória da expansão da instrução pública primária nas províncias amazônicas.

inspetores e autoridades costumavam examinar pessoalmente alguns meninos e meninas a título de avaliação do estado do ensino em determinada escola. Mas não nos iludamos com o documento oficial. destinada a circular somente em determinados meios e. conforme a advertência feita por um morador de Belém em 1877. 57 . trabalhamos com as representações veiculadas pela imprensa. melhor ciente do caso do que o delegado literário. seus fins implícitos. Assim. Desta forma. Trabalhamos com a divulgação das informações. das motivações políticas e pessoais da produção dos textos. Um alerta faz-se necessário com relação às fontes deste estudo. O missivista pediu ao diretor da instrução pública que tomasse providências a respeito do “procedimento indecoroso” de um adjunto (assistente do professor público) da escola do 1o distrito. ao escrever para a seção de “solicitados” do jornal A Província do Pará.inglez ver do que para exprimir a verdade”. com sorte. e quando 3 A Província do Pará. alega o desconfiado denunciante. Portanto. adotando a conceituação proposta por Dan Sperber. Vianna. verificando a que público se pretend ia atingir. mas insistiu que se buscasse a verdade dos fatos pessoalmente junto a um certo sr. neste capítulo. Pois que. as representações mentais são aquelas em que o sujeito é produtor e usuário. quando comunicadas tornam-se representações públicas . acarretando conseqüências metodológicas que demandaram um cuidado especial na análise das fontes. tanto do documento reservado quanto do publicado. responsável por informar à Diretoria as ocorrências escolares. dos conflitos. tendo como destino o depósito nos arquivos públicos. 18/4/1877. Tudo o que chegou a nós podia ou devia ser divulgado. os jornais utilizados neste capítulo constituem as fontes de pesquisa privilegiadas para o estudo das representações acerca da escola e dos sujeitos nela implicados. exige o cuidado extremo do pesquisador com as suas condições de produção. na qual. dos dados. dentre outros tipos de acontecimentos concernentes à vida escolar. na medida do possível. não lidamos com a documentação oficial produzida no dia a dia da administração pública. Além do fato relatado em si. e a investigação. das ocorrências. 3 A suspeita da personagem da época só vem a reforçar o pressuposto metodológico de que a análise. o contexto de sua exposição mereceu o estudo cauteloso dos meandros dos discursos. “isso de papeis officiaes serve mais para . portanto produtor e usuário são distintos.

devendo ser consideradas no processo de comunicação as transformações de conteúdo. 5 4 5 SPERBER. ao fazerem circular as diferentes representações acerca dos conflitos. Dan. O sistema escolar sempre foi marcado pelos discursos dos agentes sociais que nele ocuparam posições. constituem as representações culturais. Dentro da proposição de Sperber. inscrições que favorecem as contradições nos sistemas de representações. expõem em primeira mão as representações mentais de seus produtores. sendo distribuídas por todo o grupo social. Os textos transcritos de outros jornais permitem a disseminação. com a divulgação de saberes e experiências do campo educacional. 321-341). os artigos escritos por jornalistas e redatores dos próprios jornais comunicam representações mentais de seus autores a respeito dos temas educacionais e transmitem elaborações baseadas em representações públicas circulantes aos níveis regional. entendemos que as cartas.4 Pensando no contexto das fontes específicas de nosso estudo. produzidas dentro e fora das escolas.90-103. Ao se tornarem públicas. as cartas. no interior de uma determinada comunidade ou fora dela. 58 . dos agentes institucionais e dos usuários. as notícias e os artigos publicados nos jornais transformam as representações mentais em públicas. as representações comunicadas. Ao contrário. p. as interpretações acerca dos acontecimentos escolares integram o conjunto das representações acerca da instrução pública de um determinado grupo social. das práticas pedagógicas e sociais inseparáveis do funcionamento cotidiano da escola e das possibilidades de reforma do ensino. provindas diretamente da cena escolar e de seu entorno social. como os discursos dos políticos. movida pelos interesses políticos e sociais dos grupos mobilizados pela instrução e educação oferecidas pelo Estado. da profissão docente e da instituição escolar. construídas a partir da vivência ou da observação direta das tramas e dos dramas da vida escolar. Pode-se imaginar que a imprensa auxiliou na construção de uma cultura escolar ou de culturas escolares. das representações públicas produzidas por terceiros (autores de outras folhas. Representações culturais que os regulamentos se esforçaram por engessar. não significando de forma alguma. conforme nos alerta Michel Gilly (2001. pode-se falar de uma luta de representações. mas que as práticas escolares sempre as puseram em confronto. 2001.amplamente disseminadas e tornadas habituais a um determinado grupo social. adquirem a posição de representações culturais . p. tanto locais quanto de outras províncias e países). dos administradores. n acional e internacional. dentro de um determinado meio. uma unidade interpretativa.

como se pode observar nas tabelas 1 a 10. nos casos de professores que não enviavam seus mapas. articuladas com as práticas educacionais das duas províncias em conjunto. outras são pertinentes a cada província em particular. reveladas pela documentação das duas províncias. Por outro lado. out ras estão relacionadas à especificidade regional. pois muitas vezes o professor anotava o número de alunos matriculados. Não era ocorrência incomum professores fraudarem os mapas de forma a manter o número mínimo exigido por lei para manter a escola em funcionamento ou para conservar a sua posição na hierarquia escolar. Ora se usava. como era esperado. quase unanimemente. intensa mobilização em prol da instrução elementar.Estaremos tratando aqui de questões pertinentes à educação popular. pois geralmente só contabilizavam as escolas criadas pela 59 . quando os relatórios provinciais registram significativo aumento no número de escolas e de alunos matriculados. Iniciaremos com uma breve discussão a respeito da expansão quantitativa da instrução nas capitais Belém e Manaus. Os números da instrução primária pública na Amazônia Nas duas últimas décadas do Império houve. o nacional e o internacional (ocidental). por parte dos governos amazonenses e paraenses. sobretudo nos lugares mais distantes onde as visitas escolares aconteciam mais esparsamente. como irreais. especialmente a partir de 1875. mas não os que efetivamente freqüentaram as aulas. e no interior do Pará e do Amazonas. a despeito das punições previstas nos regulamentos. porém respeitando suas fronteiras e deixando entrever a tensão entre o local. ora “freqüência de alunos”. nem sempre os diferenciando devidamente. incidia costumeiramente sobre as estatísticas escolares. Optamos por apresentar as discussões. nos relatórios. Os dados escolares apresentados pelas diretorias da instrução pública não refletiam a situação educacional das províncias no todo. Os dados escolares divulgados pelas diretorias de instrução baseiam-se nos mapas enviados pelos professores públicos. o termo “alunos matriculados”. considerados. Algumas delas são comuns às discussões nacionais a respeito da instrução primária e à educação do povo. pelo território e pela população que compõem as províncias. em anexo. a não contagem do número total de alunos.

as escolas das missões indígenas e os meninos e as meninas que recebiam a instrução elementar em casa. Os municípios de Belém e de Manaus eram formados por doze e seis paróquias. A categoria “freqüentam escolas” abrangia a população em idade escolar. as monographias. alertando o leitor de que o recenseamento reúne os números do ensino público e particular. O Pará tinha 32 municípios e 71 paróquias ou freguesias no todo e o Amazonas.124. 1999. O Censo Imperial relaciona os dados por paróquias e os totaliza no final. em todos os paizes verdadeiramente cultos. No seu relatório sobre a instrução pública no Estado do Pará em 1890. Os dados do Censo de 1872. criticou de forma contundente a estatística escolar realizada no país. envolvido com o tema da educação popular no Pará desde os tempos do Império. Falhas na estatística escolar ocorriam na instrução pública de todo o Império. p. gerando análises e críticas contundentes. as inspecções. os pareceres. queixou-se da insuficiência de registros e dados estatísticos sobre a educação no país: “Os inqueritos. A documentação oficial das províncias do Pará e do Amazonas anuncia o firme propósito de disseminar a educação e a instrução pelo interior amazônico (expansão geográfica) e estender o seu alcance às mais diversas categorias sociais da população mais pobre (expansão social). opositores políticos e especialistas em educação. sem desconsiderar as interpretações e os usos das estatísticas pelos governos. estes índices são ligeiramente superiores aos apresentados pelas diretorias de instrução pública das províncias. as estatisticas comparadas que desde muito são. 60 . como a realizada por Rui Barbosa no Parlamento brasileiro em 1882. excluindo-se as escolas particulares. os meninos e as meninas livres entre os 6 e 15 anos. sete municípios e 22 paróquias ou freguesias. respectivamente. fallecem-nos a nós totalmente..administração provincial.6).. 6 Reforma do ensino primário e várias instituições complementares. citado por FARIA FILHO. mas não as freqüentavam ou o faziam de forma intermitente. relativos à freqüência à escola. O paraense José Veríssimo (1892).. pelos municípios com as respectivas paróquias. que estava m na escola. são utilizados para a análise da situação educacional no início da década de 1870.” (p. É razoável supor-se que ela englobava duas situações: aqueles que efetivamente freqüentavam escolas e aquelas que estavam matriculados. Desta forma. ou seja. Luciano Mendes de. Estatística e situação do ensino popular. 6 Os dados serão utilizados como um perfil aproximado do investimento público na instrução popular.

Neste momento. Conforme a distância do centro político e econômico de cada Província aumentava. e 12.9% no primeiro caso. Os percentuais expõem um baixo grau de escolarização das duas sociedades. Fora dos municípios das capitais. o Pará e o Amazonas não apresentavam índices muito destoantes de freqüência à escola.A expansão geográfica O Censo Imperial de 1872 revela que o Amazonas e o Pará concentravam suas escolas nos municípios das capitais. 61 . no caso do Amazonas. cerca de 14. conforme mostram os percentuais abaixo. contudo correspond iam à situação da m aioria das províncias brasileiras. a maior concentração de alunos no município da capital é justificada pelo fato de nele residirem mais da metade das crianças entre 6 e 15 anos da Província. a queda na freqüência é sensivelmente mais acentuada. isto é. diminuía a freqüência escolar.5% no segundo. Os dados da população em idade escolar mostram que.

Os números apresentados sem a indicação das fontes encontram-se organizados por tabelas. cidades.84% 100. encontra-se em anexo (nº 21).62% 53. e abrigavam a capital de cada Província. Cada uma abarcava extensa área geográfica.93% (1) Percentuais em relação ao total da Província (2) O município de Belém (12 paróquias) abrange a Cidade de Belém (4 paróquias) AMAZONAS Paróquia de Manaus Município de Manaus (2) Outros municípios Amazonas Totais População em idade escolar (1) 32. 8 O Pará possuía 14 comarcas em 1881 e o Amazonas cinco. em 1877. e em menor número. As tabelas da distribuição das escolas públicas e dos alunos por comarca indicam que as comarcas das capitais do Pará e do Amazonas estavam à frente nos esforços educacionais. 62 .00% Freqüentam escolas 18.54% (1) Percentuais em relação ao total da Província (2) O município de Manaus (6 paróquias) abrange a Paróquia de Manaus.30% 23. ao final da tese. não 7 8 A tabela completa.27% 9. com vilas.00% PARÁ Cidade de Belém Município de Belém (2) Outros municípios Pará Freqüentam escolas 23.16% 76.90% 22. As estatísticas das diretorias de instrução pública para períodos posteriores confirmam a tendência da maior escolarização nas capitais e nos núcleos populacionais de seus municípios ou comarcas.23% 46. com os valores absolutos. segundo o Censo de 18727 Totais População em idade escolar (1) 12.44% 12. com a devida referência às fontes. povoações.77% 100.66% 14. As das capitais possuíam o maior número de centros populacionais.86% 15.Freqüência à escola da população livre em idade escolar (6 a 15 anos). freguesias.44% 12.

104 alunos. ao final do Império. a praça. Manaus já contava com 23 escolas públicas primárias em 1889. o refiname nto dos costumes e dos gostos revelava sinais de diferenciação social. no governo do engenheiro militar Eduardo Ribeiro. Sob o governo do liberal José Lustosa da Cunha Paranaguá. duplicando a sua população.esquecendo que. os educacionais. Relatório com que o Presidente Manoel Francisco Machado abriu a 2 sessão da Assembléia Legislativa Provincial. verificamos que Manaus vivenciou um crescimento demográfico alto no período. a comarca da capital do Amazonas contava com nove núcleos populacionais englobando 21 escolas e 712 alunos. Em 1877. 63 .185) 10 DAOU. entre eles. 1. No todo. comarca da capital é uma categoria bem mais ampla do que capital da província. As 27 escolas restantes se situavam nas comarcas de Itacoatiara. Através do mapa apresentado pela Secretaria de Instrução Pública no ano de 1877. Solimões e Rio Negro. com 642 alunos. 969 alunos estudavam fora da capital da Província. A constituição da elite amazonense da borracha forjou o surgimento dos símbolos de uma desejada civilização. Ana Maria.364 alunos e. 11 DAOU. Mas. p. Ao todo existiam 1. 2000. (Citado por UCHÔA. nos anos 1892 a 1896.783 estudavam no município da capital. o mercado. presente em nove bair ros ao final do Império. Dos núcleos populacionais. este número chegou a 3. o estabelecimento dos educandos.10 Contudo. 1966. a riqueza gerada da comercialização em torno da borracha acarretou novas demandas de serviços públicos e privados. como o teatro. abrangendo áreas urbanas e rurais. Parintins. ainda nos anos 1880. os bailes e os banquetes. 1998.534. 11 Como a melhoria da educação escolar. tendo Manaus oito escolas e 385 matriculados. em 8/10/1889. distribuídos por 49 escolas. a capital conheceu maior crescimento da instrução primária. a cidade não chegou a transformar sua feição urbana.9 Destes. percebe-se que a maior parte das escolas amazonenses situava-se em pequenos núcleos populacionais que. como está demonstrado 9 a AMAZONAS. os números de escolas e alunos do Amazonas mais que dobraram. atendendo a 1. o que viria a ocorrer posteriormente. embora pudessem distar dias de barco da capital. estavam longe de corresponderem a uma ampla disseminação da instrução pelo interior da Província. Comparando os dados educacionais de 1877 com os de 1888/1889 verifica-se que Manaus quase triplicou o número de escolas. Ana Maria. Pelos recenseamentos gerais de 1872 e 1890.

assunto abordado ao longo do capítulo. Neste ano.00 Nº de escolas 20 93 113 % 17. e. a saber. “(. p.10.22 73. In: RPPAM. concorrendo seus habitantes com elevada cifra para os cofres provinciaes. abaixo relacionadas. 64 . femininas e mistas. As outras localidades da comarca da capital permaneceram no mesmo estágio. freguesias e povoações do interior reuniam 93 casas escolares.30 100. A recuperação dos patamares educacionais de 1883 e 1884 só ocorrerá nos dois últimos anos do Império.. 65 a mais do que as existentes em 1877. totalizando 113 escolas públicas primárias na Província no primeiro trimestre de 1888. em anexo. argumentando que.na tabela 7. 5/9/1888). em anexo). propondo a criação de quatro escolas de ensino primário masculino em povoados do rio Purus. 12 A cidade de Manaus possuía 20 escolas e as cidades. a instrução pública esteve presente em 25 núcleos populacionais do interior contra 58 em 1888.78 100. rico e populoso rio Purús uma só escola de ensino primario. indicando que a expansão do ensino não ficou restrita à capital. é de inteira justiça que alguma couza se faça em seo bem estar. O crescimento populacional de núcleos situados em áreas de intensa exploração extrativista repercutiu na “política” de criação de escolas. 3 cidades. vilas. masculinas. 5/9/1888 (ver dados discriminados por localidade na tabela 23.00 Fonte: RPAM. O deputado da Assembléia amazonense Braule Pinto apresentou um projeto em 1877. 10 vilas.. proveniente de impostas. Número de matriculados e de escolas públicas primárias da Província do Amazonas no 1º trimestre de 1888 Local Capital Interior Total Nº de matriculados 629 1770 2399 % 26. Esta tendência de crescimento é revertida em 1885 quando os conflitos gerados com a retomada do poder pelos conservadores repercutiram diretamente no ensino. Anais da Assembléa Legislativa Provincial do Amazonas. 1877.) não existindo no vastissimo. 16 freguesias e 29 povoações (“Quadro demonstrativo da matricula das escolas publicas da província do Amazonas relativa ao primeiro trimestre de 1888”.”13 12 O quadro das matrículas do ano de 1888 mostra que houve um significativo aumento no número de localidades do interior do Amazonas com escolas públicas. 13 AMAZONAS. Ver anexo nº 23.70 82. embora novas escolas tenham surgido em locais em que a instrução pública era ausente.

A tabela 4. 2/2/1889. a proporção de alunos por população escolar era maior no Amazonas do que no Pará. 15 Ver na tabela 22. Nos mapas do Pará e Amazonas. Apesar de algumas omissões do mapa apresentado no relatório do diretor da instrução em fevereiro de 1889 e dos presumíveis erros de coleta. chegou a afirmar em 1883 que. com a freqüência diária de 1. Belém possuía 24 escolas e.795 alunos.237 habitantes e o Amazonas. nove vilas e três povoações. pode-se verificar a localização de parte das localidades indicadas nas tabelas 22 e 23. distribuídos em 13 núcleos populacionais: a capital Belém. o Pará tinha 275. O Pará tinha dez vezes mais alunos do que o Amazonas em 1875. cerca de 85% das escolas do Pará estavam instaladas nas pequenas cidades. dados retirados do anexo 2 do RPPA. 15 A tabela abaixo apresenta a freqüência diária do 1º e 2º trimestres dos anos de 1887 e 1888. com uma população cinco vezes maior. em anexo. em anexo.848 alunos. Das 323 escolas relacionadas no quadro da freqüência diária de 1887 e 1888. em 1881. p. Em 1885. Os dados mostram que 78% dos alunos das escolas públicas primárias estudavam fora da capital.840 alunos matriculados. é plausível sugerir que havia uma razoável distribuição das escolas pelo interior. respectivamente.610. Com o crescimento do alunado em meados da década de 1880. a distribuição da freqüência dos alunos por localidade na tabela “Freqüência diária das escolas públicas primárias da Província do Pará no 1º trimestre de 1887 e no 2º trimestre de 1888”. apresenta a distribuição da população escolar e das escolas públicas pelas 14 comarcas da Província do Pará. conselheiro Joaquim Azambuja (1884?. a distância entre as duas províncias voltou a diminuir. 87 escolas e 3. 65 . 57. em anexo. no 2o trimestre de 1888. 14 Pelo recenseamento de 1872. utilizando estimativas populacionais feitas a partir do Censo de 1872. este número saltou para 46 escolas primárias. O visitador escolar do Amazonas. vilas e povoados da Província. em 1881. 14 A comarca da capital do Pará possuía. ou seja.85).Os dados apresentados pelas diretorias de instrução mostram que o Pará conheceu um incremento na instrução primária no meio da década de 1870 e o Amazonas somente nos últimos anos do regime imperial. 277 funcionavam no interior e 46 na capital. Na Província funcionavam 267 escolas primárias públicas com 10.

87 1507 5524 7031 % 21. O citado relatório do diretor da instrução e o mapa apresentado no anexo 22 apresentam discrepâncias nos números. 66 .97 78. nacional e internacionalmente.36 e “Mappa comparativo da frequencia diaria das escolas publicas da Provincia do Pará”.03 100. que foram incluídas na tabela 6.24 85. 16 O diretor registrou na Província 16.43 78. 2/2/1889. As oito escolas noturnas não incluídas na tabela acima não alteram esta situação. especialmente nos amazonenses.550 alunos matriculados em 331 escolas. com a freqüência média de 9. O abandono das povoações em função das atividades laborais da população. pois no 2º trimestre de 1888 só freqüentaram 145 alunos. comparativamente a outras províncias do Império e países cultos. 2/2/1889.Freqüência diária das escolas públicas primárias (diurnas) da Província do Pará no 1º trimestre de 1887 e no 2º trimestre de 1888 Local Capital Interior Total 1º trim. Excluídas as escolas noturnas. calculando a proporção população escolar versus população em idade escolar. em determinados períodos do ano. p. em anexo. por determinação do governo central. 88 1854 6583 8437 % 21. Sistematicamente. As estimativas e os cálculos apresentados pelas diretorias de instrução e pelas presidências baseavam-se no Censo de 1872 e nos mapas de matrícula escolar. deparou-se com falhas flagrantes.00 Nº de escolas 46 277 323 % 14. fartamente identificadas nos relatórios provinciais.57 100. as províncias discutiram por meio dos relatórios oficiais e dos jornais as suas posições no ranking educacional. chegamos a número inferior ao da freqüência média do ano.930 alunos. Há duas explicações plausíveis para o caso: ou a freqüência foi maior nos outros trimestres do ano ou simplesmente. é um dos fatores que contribuiu para a 16 RPPA. Totalizando os números da freqüência diária do 2º trimestre de 1888. anexo 2. portanto devem ser olhados com reserva e interpretados à luz das teses defendidas por seus anunciadores.00 2º trim.00 Fonte: RPPA. trata-se de um problema de coleta. anexo 2 Dados discriminados por localidade na tabela 22.76 100. O recenseamento de 1872. diferença que não pode ser desprezada.

ver SAMPAIO.17. especialmente o tópico “1. p. em torno de 350 mil habitantes. Em 1883. tendo estudado em vários países da Europa. Contudo. o presidente José Paranaguá justificou a imperfeição dos dados censitários para a realização de um novo censo no Amazonas. nos seus pólos negativo e positivo. e por outro. 19 17 A respeito dos recenseamentos na Província do Amazonas.subcontagem dos habitantes. mas consideramos relevante mencionar a importância que os números da educação escolar assumem para os governos neste período. um paleógrafo e vários livros de leitura. Eleito deputado provincial no Pará. p. 67 . somente 8. ele cumpriu comissão como visitador escolar da Província. pois dos 49. Joaquim Pedro Corrêa de Freitas foi diretor da instrução no Pará de 1876 a 1881. o presidente lembra que o Pará tinha mais alunos do que as províncias de Pernambuco. estavam matriculados nas escolas da Província.V). do qual ele apresenta os primeiros resultados. Domingos José da Cunha Junior.2. proporcionalmente à população total. Eles exibem. passando por várias presidências. Pelas suas contas. continuidade nos relatórios seguintes. da mesma natureza das enfrentadas no período imperial. 17 Não citaremos todas as estimativas fe itas. Compôs um compêndio de geografia e história do Brasil. foi propagandista da abolição e concorria com seu próprio dinheiro para a instrução de pessoas pobres. é o do Presidente do Pará. Outro aspecto apontado refere-se ao não arrolamento da população indígena.886 eram absorvidos pelo ensino público e particular. não se esquivou de utilizar a “assustadora” estatística geral do Império para comprovar a posição privilegiada do Pará na corrida rumo à civilização. 18 Um diretor da instrução que passou cerca de cinco anos dirigindo a instrução pública paraense. 19 Relatório do diretor geral da instrução pública. Comparando a população escolar com a população em idade escolar. Nos anos de 1875 e 1882. In: RPPA. 15/2/1877. ele revela o “atraso” do Pará frente aos “países civilizados”. Como se contam os homens na Província do Amazonas”. 1/7/1873. as mais visíveis quando se tratava do avanço da educação no Império. entretanto. de conservadores e liberais (ver RPPA. Patrícia (1997). expõem as dificuldades enfrentadas para investir em uma das áreas em que os discursos eram os mais exaltados – o da educação e da instrução popular. de um lado. o Pará era a sétima Província do Império em número de alunos matriculados e uma das primeiras relativamente à sua população. Cálculos realizados com base na estimativa da população total. Agnello Bittencourt (1985 [1925]) descreve as dificuldades de recenseamento da população do Amazonas em 1920. em 1873. LV. 15/2/1881. não havendo. 18 RPPA. O resumo biográfico da Biblioteca Pública d o Pará informa que o paraense Corrêa de Freitas (1829-1888) nasceu em Cametá e formou-se em medicina. p. Joaquim Pedro Corrêa de Freitas. anexo A.949 indivíduos estimados entre 7 e 14 anos. Um bom exemplo deste uso dos números. Bahia e Rio de Janeiro. a valorização dada por determinada administração à educação de seus governados. anexo 3. ou pelo menos.

refere-se à “juventude” da província amazonense. Para o período aproximadamente de 1840 a 1870/1880. temos os trabalhos de Patrícia Sampaio (1997) e Luciana Batista (2003). além da caça e da pesca. sustentada pela premissa da total dedicação de sua população às atividades extrativas. p. especialmente Luciana Batista. profissionais e de gênero. o algodão e o açúcar. As autoras. o arroz com casca. 20 O Pará. p. pela falta de estudos que a subsidiem e por fugirem aos propósitos desta pesquisa. As atividades extrativas eram exercidas paralelamente ou associadas às atividades agrícolas. 21 A expansão social Nas duas últimas décadas do Império. quando se intensificou a exploração da borracha em toda a região amazônica. só funcionava a escola feminina. como o cacau. ao contrário. sem dúvida. as atividades econômicas da população. põem em cheque a visão oficial da decadência da agricultura na região. a legislação e as práticas engendradas em várias províncias brasileiras na metade do século XIX. Somente três escolas do interior tinham professores e. No Amazonas. quando informou que na Comarca do Alto-Amazonas só havia três escolas. o Amazonas era uma região esquecida pelos poderes públicos em termos da instrução de sua população. acompanhando a discussão. A primeira delas. ao se tornar independente do Pará. Chamada de Gigante Prostrado pelo presidente paraense em 1840. enquanto o Pará foi importante exportador de produtos agrícolas. 1852. engajava-se na implementação de uma política voltada para instrução e educação populares. No que se refere ao gênero.Algumas hipóteses podem ser sugeridas para explicar a diferença quantitativa na instrução pública primária das duas províncias. como a formação territorial e a concentração populacional.15 e RPAM. a geração de riqueza pela província e o emprego do dinheiro público. Como indicamos no capítulo 1. é notável o crescimento do número de alunas nas capitais do Pará e do Amazonas. na capital. o fenômeno da maior incidência de meninas estudando do que meninos.37. Estes são aspectos que nos esquivaremos de analisar. Outros fatores. a situação educacional não sofreu alterações significativas dez anos depois. Não temos informações mais aprofundadas a respeito da produção agrícola e demais atividades econômicas das províncias para o período posterior a 1870. Na cidade de Manaus. predominavam os meninos nas 20 21 RPPA. O Censo de 1872 já havia captado para a cidade de Belém. respectivamente. observada no final da década de 1870. 15/8/1840. conforme o exposto nas tabelas em anexo. que informam a respeito das atividades econômicas das Províncias do Amazonas e do Pará. as atividades agrícolas estavam voltadas para o consumo doméstico e para o mercado interno. possivelmente interferiram na capacidade de investimento e na obtenção de resultados na esfera da educação pública de cada província. 68 . a instrução se expandiu para outras categorias sociais.

e muito inferior à masculina.26 8.07 10.012 meninas em 72 22 Alessandra Schueller (2002) observou o mesmo fenômeno com relação à cidade do Rio de Janeiro. sugerindo as diferenças de mentalidade com relação à importância de alfabetizá.33 16. Conforme se observa na tabela abaixo.72 12. em anexo. os números de meninos e meninas na instrução primária pública estarão equilibrados nas capitais. em idade escolar (6 a 15 anos). que conheceu maior disseminação das escolas públicas em meados dos anos 1870 (p. 775 meninos estavam matriculados em 25 escolas primárias públicas do interior contra 194 meninas em 15 escolas.86 10. Freqüência à escola dos meninos e das meninas livres.30 7.65 17.las além dos conhecimentos fornecidos pelo contexto doméstico.63 18. O Pará tinha 4. Belém e Manaus. Meninas Freqüentam escolas % 14. no interior a diferença continuará grande – no Amazonas do ano de 1877.43 11.25 21.las e de educá. segundo o Censo de 1872 Meninos PARÁ Cidade de Belém Município de Belém Outros municípios Pará Freqüentam escolas % 22.19 Freqüentam escolas % 21. Ainda anos 1870.580 meninos em 92 escolas e 1. situação que não perdurará como mostram os dados escolares de 1877. 69 .30 Meninas Freqüentam escolas % 26. 22 No interior. a presença das meninas nas escolas caía drasticamente.00 Os dados das diretorias da instrução pública confirmam as tendências apontadas pelo Censo de 1872.32 23.45 14.56-57). no interior do Pará a freqüência feminina era muito menor do que a de suas companheiras da capital.15 Meninos AMAZONAS Paróquia de Manaus Município de Manaus Outros municípios Amazonas Ver tabela 21. No entanto.escolas.

Das 43 escolas públicas primárias de Belém. 23 24 Relatório da Diretoria da Instrução Pública do Pará. Considerando que das masculinas. In: RPPA. e não por sexo. 29 do sexo masculino e 24 femininas. respectivamente. e apresenta a distribuição das mesmas pelas categorias de cidades.33. quando o número de aluna s em pouco suplantava o de alunos. a qual estima insignificante. atendiam a jovens e adultos. O diretor não explica a “anomalia” recorrendo à diferença populacional entre homens e mulheres. mesmo na capital. portanto.300 alunas. relativa ao número bem superior de alunas do que de alunos nas escolas primárias de Belém.1 em seu relatório de julho de 1889. como seria necessário. como a supracitada. Não temos como confrontar os números do jornal e os de Santa Rosa. que em segundos desmontam a surpresa de uma revelação. em dezembro de 1888. pelo menos. três eram noturnas e. mas não informa o número de alunos e alunas. 23 A necessidade do trabalho dos filhos repercutia tanto na educação dos meninos na cidade quanto nas áreas rurais. freguesias e localidades. Belém tinha 711 meninos e 689 meninas na instrução primária. 53 escolas públicas. A freqüência média era de 472 meninos e 769 meninas. mais zelosas com a educação das filhas do que com a dos filhos. 70 . Americo Santa Rosa. 4/12/1888 e 17/10/1876. chegando em 1889 a viver uma situação inusitada. existia um significativo distanciamento entre matrícula e freqüência às aulas. quanto ao número de escolas. De acordo com o jornal. confrontam as informações divulgadas pelo diretor da instrução paraense. Província do Pará . 18/9/1889. É sempre pertinente lembrar da fragilidade dos arrolamentos estatísticos da época. Anexo. visto que o mapa da freqüência diária do ensino primário público em meados de 1888 somente discrimina os dados por localidades e tipos de escolas. 24 . 16 eram do sexo masculino e 27 do feminino. Pela notícia de 1876. mas às escolhas e interesses das “mães de família”. Esta é uma tendência já observada em meados da década de 1870. p. vilas. O jornal informa ainda que na Província existiam 345 escolas.escolas no ano de 1872. a qual o diretor da instrução confessou não conseguir explicar: o número de meninas estudando na capital era muito maior do que o de meninos. a capital tinha. “que empregam em misteres. de que possão auferir salario immediato no futuro como a aprendizagem de officios mechanicos”. conforme tabela em anexo. Os dados escolares apresentados pela Província do Pará. indicando que. havia um equilíbrio entre os sexos. sendo 292 no interior. com 740 alunos e 1. o qual não cita a fonte das informações dadas. referentes ao final de 1888.

o governo paraense instaurou uma política visando estender o benefício da instrução aos adultos das classes pobres. meninos até nove ou dez anos. Alunos e alunas matriculados nas escolas públicas da Província do Amazonas no 1º trimestre de 1888 Tipo de escola Masculina Feminina Mista Total Capital Interior 187 1051 344 568 98 151 629 1770 Total 1238 912 249 2399 % Capital 15. o número de meninas estudando era significativamente menor. A argumentação vai de 25 26 RPPA. No interior. Trabalhadores que durante o dia tiravam a sua subsistência. 25 Em 1871. apesar de sua criação recente. e no total das matrículas. As escolas mistas. Abel Graça percebia nestas escolas “um elemento de prosperidade” em toda a parte onde existiam. No interior.22% % Interior 84. 71 . como pode ser visto na presente tabela. sendo que Belém contava com 339 alunos. freqüentadas por meninas e. quando o número de alunas ultrapassou levemente o de alunos do ensino primário. p. Na década seguinte. à noite podiam “cultivar a intelligencia que na infância ficou abandonada”. principalmente os “operários”.10. foram no meados oito professores públicos para reger escolas noturnas nas cidades paraenses. desejando incluir a Província na obra patriótica da emancipação do elemento servil. No início dos anos 1870. p. não tiveram seus dados computados por sexo. 26 O presidente assegura ter aberto as escolas aos escravos.78% Fonte: RPAM. 5/9/1888 (mapa completo no anexo 23). pois os relatórios não fazem esta discriminação.11% 37.89% 62. as escolas primárias públicas de Manaus são tomadas pela presença feminina. RPPA.Em Manaus já se observava o crescimento do ensino feminino. mostrando-se empolgado com a freqüência aos cursos no Pará.12. a diferença entre alunos e alunas já não é tão significativa. através da regulamentação e criação de escolas noturnas na capital e nas cidades do interior. como se pode ver no mapa relativo ao ano de 1877.36% 26.72% 39. 15/2/1872. 15/2/1872. nas públicas e particulares. As escolas noturnas foram criadas pelo regulamento de 20/4/1870.64% 73. com quase o dobro de alunas em relação ao de alunos.28% 60. a situação se inverte.

No 1º trimestre de 1888. uma em cada cidade do interior. a Companhia de Aprendizes Marinheiros e o Instituto Paraense de Educandos Artífices passaram a 27 28 RPPA. Abel Graça justificou a iniciativa alegando que. 15/2/1872.. “(. 1/7/1873. estando duas escolas instaladas na capital e as demais. uma lei estabeleceu a admissão de “menores libertadas”.. 29 Na década de 1880. No final do Império.11. p. AlMANAK administrativo. e um deles custeava as aulas. Não há qualquer referência a alunos escravos nas escolas públicas e quanto à escola particular para escravos acima citada. escrita e as quatro operações aritméticas. somente 183 alunos freqüentaram as oito escolas noturnas mantidas pela Província. compostas pelo programa básico de leitura. no Colégio do Amparo. 28 No mesmo período. os dados da freqüência diária das escolas públicas paraenses assinalam que as escolas noturnas não atingiram o desenvolvimento esperado. p. mercantil e industrial para o anno bissexto de 18681889 (volume de 1871. em 1873. prevendo-se a sua emancipação futura. apenas é dito que pertencia ao colégio particular de Santa Maria de Belém.encontro às discussões das décadas de 1870 e 1880 a respeito da necessidade dos poderes públicos e de outros setores da sociedade prepararem os escravos para a inserção gradual na sociedade brasileira. As particulares atendiam a 325 alunos livres. contando 55 alunos. 16 escolas noturnas para adultos. aparentemente por falta de procura por parte daqueles que se esperava instruir. para lhes servir de guia.) fora do estado da servidão e entrando para a sociedade livre o homem liberto deve levar algumas luzes.” 27 Perseguindo o objetivo do “derramamento da instrução por todas as classes sociaes”. Um almanaque paraense informa que a escola fora fundada em 1871 pelo padre Felix Valente de Leão.87). RPPA. mantido pelo governo provincial para a educação de meninas órfãs e desvalidas. oito públicas e oito particulares. 29 Lei 784 de 10/9/1873 72 . o Pará possuía. As públicas contavam 150 alunos. p. sendo uma delas especialmente destinada a escravos.14. apoiado por três cidadãos que se prestaram a lecionar gratuitamente. alguns rudimentos de moral e bons costumes. até o número de 15. conforme o exposto na tabela em anexo.

os efeitos da Lei do Ventre Livre se faziam sentir nas iniciativas educacionais dos poderes públicos paraenses. e aos ingênuos de qualquer outro proprietário. Somente no período da Belle Epoque. “Eu nada pedi e nada peço á esta situação”. informa os seus percalços junto ao governo liberal no processo de criação da escola. representada e apresentada como potencia lmente perigosa à sociedade. O diretor da instrução que recebera o mesmo comunicado. a escola para ingênuos de ambos os sexos. criada na fazenda São Francisco no ano de 1882. em 1899. carta dirigida a três instâncias: ao Presidente do Pará. O proprietário enviou ao jornal A Constituição. p. o Instituto pode aumentar a sua capacidade de atendimento. mas só encontramos registros esparsos destas experiências. 31 RPPA. O autor mostra-se muito irritado com a Presidência da Província. 32 A Constituição. O governante clama pela ação dos poderes públicos e dos filantropos para que estes “menores” pudessem ser úteis a si e ao seu país. códice 1907 (Arquivo Público do Pará). com a construção do novo prédio. o Presidente do Pará pretendia atender no Instituto de Educandos filhos de ex-escravos. Após a abolição da escravidão.receber ingênuos para a sua formação profissional. É possível que outras escolas para escravos ou ingênuos do Ventre Livre tenham sido criadas por particulares. como pode ser observado na foto em anexo (Instituto Lauro Sodré). como por exemplo. 30 Timidamente. a um certo Nelson. respondeu enviando cópia dos artigos penais do regulamento da instrução. Hygino Amanajas. um verdadeiro palácio. fora entendida como um pedido e afirma que. revelando. jornalista liberal que o criticara. e ao público. pois a comunicação que fizera a respeito da escola. e por outro. em obediência ao regulamento. 2/2/1889. Tal medida dependeria da ampliação das instalações do Instituto.42. escrevendo de Abaeté. o ímpeto do Estado em impor a lei sobre a ação de particulares. A Província do Pará (6/8/1885) noticiou a respeito dos valores dos prêmios a serem pagos às autoridades que remeterem órfãos desvalidos e ingênuos para a Companhia. visando a evitar a ociosidade e os vícios de “menores” que só poderiam receber a instrução primária das escolas públicas. 32 30 Pará. no rio Maracapucú. rapidamente os filhos dos ex-escravos são inseridos na categoria dos “menores”. 10/11/1882. Minutas de ofícios da Presidência da Província ao diretor do Instituto de Educandos. 73 . já que não há mais proprietários para exercer a função. de um lado. como as desavenças políticas afetavam as iniciativas educacionais. 31 Observa-se que. 1887. se o Estado ou os homens de bem não cuidarem de sua iniciação ao trabalho. destinada ao ensino gratuito aos filhos de suas escravas e de sua mãe.

com 83 alunos e não há mais referência à escola para escravos. duas escolas noturnas. com 129 alunos. em se tratando de índios em contato mais estreito com a civilização. 34 Até o final do Império. escolas poderiam ser instaladas próximas ou no interior do aldeamento quando algum governante se sensibilizasse com o abandono com que viviam os índios em termos de instrução. funcionavam mais três escolas noturnas. são citadas no relatório provincial cinco escolas voltadas para a instrução do pessoal dos Arsenais de Marinha. totalizando 99 alunos. Em inícios de 1874. as quais. 74 . No Amazonas. 33 No ano seguinte. não cabia à Diretoria Geral da Instrução Pública instalar e manter escolas nestas áreas. O regulamento de 1874 da escola da cadeia de São José. 35 A freqüência das escolas era de 88 alunos. O ensino seria diário. 23/3/1873. funcionavam com “muita regularidade” e eram “bem freqüentadas”.Dentro da política de extensão da instrução às outras classes. 35 RPAM. e da cadeia pública da capital. e os mais adiantados receberiam como prêmio a dispensa dos serviços a que estavam obrigados os presos. Manteve-se a proibição da alfabetização de escravos pelo poder público. os governos criaram “escolas especiais” em instituições públicas. a Câmara Municipal de Manaus criou. Localizamos nos relatórios paraenses uma referência à mudança da escola elementar de Acará-Miry para 33 34 RPPA. só permitia a matrícula dos presos livres e sem doenças contagiosas.10. em 1873. 36 RPAM. para a instrução de guardas. pois estando submetida à tutela da Diretoria Geral de Índios. p. instruíam 192 adultos. com 25 participantes. como os corpos de polícia. p. criada na fronteira de Tabatinga por militares. em número de sete. serão mantidas oito escolas noturnas públicas nas cidades paraenses. 36 A população indígena dos aldeamentos raramente recebeu instrução elementar. Contudo. possuía 14 praças da guarnição e dois paisanos operários aprendendo os primeiros rudimentos da leitura e da escrita. p. 23/3/1874.18. A iniciativa particular estava reduzida a cinco escolas. As escolas noturnas públicas. por iniciativa pessoal de militares e professores públicos. p. 17/1/1875.22. No interior. dos corpos dos exércitos. em Belém. Uma delas. 15/2/1874. 80 praças estudavam na escola do corpo de polícia do Pará. fornecido todo o material e compêndios aos alunos.21-22. RPPA.

Chamou a atenção dos engenheiros o fato da escola da vila de Itaituba. pesaroso.41 37 38 RPPA. cujos índios empregavam-se nas plantações. foi a vez do aldeamento do alto Gurupy ter a sua escola provisória para meninos. nos informam os autores. a afirmar. no relatório à Presidência do Pará. a grande maioria à sombra da “luz da instrução”. A vila contava com 75 . em 1882. industria e estatistica.60. p. p. 7/1/1884. e 14/4/1888. Voltaremos a este relatório mais adiante devido às representações que expõe a respeito da “maneira de viver” da gente do interior do Pará. 19/4 e 15/6/1877. No 1o trimestre de 1887. commercio. fenômeno atribuído aos modos de vida da população e à ignorância dos pais com relação aos seus direitos. Em 1885. Os índios permaneciam fiéis às crenças e tradições de seus antepassados. Antonio Manuel Gonçalves.260 índios aldeados em 1883. atraídos pela exploração da borracha.6. 1885). Manuel. 7/1/1884. na administração do Barão de Santarém. pois a existente anteriormente fora transferida de lugar. 38 Em 1877. ser freqüentada por apenas sete alunos. “Os conservadores e a instrução pública III”. A Constituição. dados da instrução pública mostram que a situação educacional de Itaituba se modificara.222. passou a contar com uma escola pública do sexo masculino. em Cametá. p. 1872. Coronel José Evangelista de Farias Maciel. Contabilizou-se 4.58 (relatório citado pelo Presidente da Província). Tratava-se de índios aldeados e batizados em outros tempos. a Aldeia de Parijós. levando o presidente liberal General Visconde de Maracajú. 1883. TOCANTINS. 5/5/1883. 39 O diretor geral de índios. A escola fora criada em 1873. que “Em geral se póde dizer que a civilisação não penetrou ainda na taba do gentio. Uma delas é citada no relatório de 1872 da viagem dos engenheiros Corrêa de Miranda e Gonçalves Tocantins ao rio Tapajós. e em 1888.37 O Almanak Paranse informa que. havia uma escola elementar no aldeamento do rio Maracanã. p. 39 A Província do Pará . em município habitado em grande parte por “índios Mundurucus”. citada como “povoação de Parijós”. possuía 31 alunos na escola pública do sexo masculino (BAENA. Julião Honorato Corrêa de. submetidos que estavam à tutela dos patrões.local mais próximo a este aldeamento e a proposta do diretor geral de índios da criação de uma escola no aldeamento de Mirity-Pitanga. apresenta uma estatística da população dos aldeamentos dos quais conseguiu obter informações. ALMANAK paraense de administração. a aldeia. talvez pelo aumento de migrantes. no ano de 1883. 40 RPPA. 41 MIRANDA.”40 Raras são as alusões às escolas de áreas habitadas predominantemente por índios. pois não mais que dez sabiam ler.

à Presidência da Província do Amazonas. que o sucesso escolar dos alunos era atribuído. uma escola com alguns meninos. não havendo referência alguma às habilidades das crianças. do feminino. os índios submetidos à “catequese e civilização” estavam reunidos em cinco missões administradas pelo frei Jesualdo Machetti. filhos de índios das “tribus Turá e Arara” eram alegres. estatísticas da população. 27/6/1885. frei Machetti.38. Anexo 2). uma das escolas. Em 1881.”. característica que os tornava somente hábeis para o aprendizado dos trabalhos mecânicos. ao esforço pessoal do missionário. usos e costumes dos índios. a mais antiga nos seus 11 anos de existência.los “o que não lhes causa impressão material”.No Amazonas. 2/2/1889. no rio Waupés. tais como natureza do solo. 76 .. 43 A Província do Pará . 43 Em Taraquá. funcionava uma escola com freqüência diária de mais de 70 meninos e meninas. o frei Zilochi fundou nos idos de 1883. com 24 e 23 alunos(as) respectivamente. a criação de escolas primárias para a população indígena aldeada ficava a cargo dos religiosos responsáveis pelas missões. In: RPAM. atribuiu o grande aproveitamento dos alunos à “assidua dedicação do missionario reverendo frei Theodoro Maria Portararo”. Observa-se. que tinha seus alunos em grande aproveitamento.. 42 Ofício do Prefeito das Missões. o jornal publicou uma série de longos relatos da viagem do explorador. sua aplicação à agricultura. As opiniões emitidas pelo frei em carta ao Prefeito fundamentaram a proposta do presidente liberal José Lustosa da Cunha Paranaguá de criar oficinas e asilos nas localidades mais próximas dos “aldeamentos dos gentios” para a educação profissional dos “órfãos e duas escolas. produtos naturais. pelo Prefeito. contudo. Entre 26/4 e 5/7/1885. De Manáos á foz do Urubú. 42 Os meninos. sem muita esperança de conseguir ensiná. ambas regidas por religiosos franciscanos. 4/4/1881. que supomos ser a feminina. inscrições e objetos cerâmicos. 1º tenente da armada brasileira. Antonio Madeira Show. In: RPPA. Somente duas contavam com escolas. p. frei Jesualdo Machetti. era freqüentada por 33 alunas (“Mappa comparativo. situação igualmente conferida ao frei Theodoro pelo explorador do rio Urubu. No ano seguinte. Na missão de São Francisco. provavelmente uma do sexo masculino e outra. mas é contrariada pela experiência educacional do religioso da missão de São Francisco. diligentes e todos sabiam ler e escrever. tratando de temas de interesse econômico e etnológico. A concepção do frei a respeito da incapacidade dos índios para o trabalho intelectual condizia com a visão dos chamados civilizados a respeito da questão. minerais. O Prefeito das Missões.

45 RPPA. 47 Relatório do Prefeito das Missões. voltado para a formação de ferreiros.45. ver capítulo 5. em 1883 (Cf. p. 47 44 RPAM. provavelmente por estavam fora do controle da Diretoria de Instrução. A tese da habilidade manual sobrepujando a capacidade intelectual dos índios foi amplamente difundida por Couto de Magalhães no período. “estabelecimento industrial” da diocese. músicos e outros artistas. O frei relata que nas missões do Waupés os índios eram batizados e bastante civilizados. frei Jesualdo Machetti.2-4. acima citada. nos bosques. Araripe recomendou a experiência do Instituto Providênc ia.menores indígenas”. ao final do ano de 1887. Anexo 13. 5/9/1888. Os 25 alunos moravam com o missionário no colégio e. Sobre a sua influência na educação indígena. 1884?. 46 A escola da missão do Taraquá. Frei Machetti relata que. crescimento medido pelo aumento das viagens a vapor. Uns dois mil índios trabalhavam para os negociantes do rio Negro ou vendia m diretamente aos regatões. As missões teriam incrementado o comércio na região. Macedo Costa. indivíduos que.85. In: RPAM. Em 1883. Joaquim Maria Nascentes de. 25/3/1883. p. pelo bispo D. 77 .los. através da obra O Selvagem (1875).57. o visitador escolar do Amazonas. O Instituto foi instalado em área rural próxima a Belém. Madeira e Purus no cálculo da proporção entre alunos e população escolar da Província. Como “norma”. porém pouco dedicados à lavoura devido à ocupação com a extração da goma elástica e da piaçava em parte do ano. quando vários senhores do rio Negro foram convidados para assisti. 46 AZAMBUJA. p. 25/3/1886. além da ritualística religiosa. conservariam “os habitos e a inutilidade do selvagem”. capítulo 5). p. 44 Proposta do mesmo teor foi feita no Pará pelo presidente conservador Alencar Araripe. seguiam os cerimoniais da instrução propagados pelo Estado na época. 45 As referências às escolas das missões são raríssimas. existiam mais escolas para meninos índios aldeados do que os relatórios apontam. os alunos foram submetidos aos exames públicos de catecismo e leitura. conselheiro Joaquim Maria Nascentes d’Azambuja informou que não computara os alunos que freqüentavam as escolas das missões de Waupés. marceneiros. A opção por instalar um colégio em detrimento da escola diária pode ter sido decorrente das atividades laborais dos pais. apresentou anos depois uma experiência educacional consolidada. Seus alunos não eram incluídos na estatística escolar. Portanto.

ao usurpar as crianças na ocupação do tempo e do espaço. 25/3/1870. difundir. identificado com as experiências européias e norte-americanas. 48 Até o final da década. A análise da autora baseia-se na operacionalização do conceito realizada por Julia Varela. por este “competir” com as famílias. como em outras regiões brasileiras. p. articulada aos objetivos formadores dos Estados. “(.) no Brasil apenas no século XIX. o 48 49 RPAM.. 78 . inicialmente europeus. propagar e estender a instrução a todos: às “classes populares”. a partir da criação de uma maquinaria escolar.Necessidades dos governos e demandas da população Ao abrir a sessão na Assembléia Provincial de 1870. 2002. p. como o ensino doméstico e o promovido por instituições religiosas. RPPA. 49 O conceito de forma escolar se remete ao surgimento de um novo espaço educacional e socializador. As práticas tradicionais de socialização talvez tenham sido as mais resistentes ao modelo escolar. iniciando-se um processo tenso de constituição da escolarização e de afirmação da forma escolar como meio de socialização e governo da população. rumo a um ideal de “progresso” escolar. 50 SCHUELER. Bernard Lahire. a educação pública foi sendo lentamente construída. Alessandra. com o processo de formação do Estado independente e com a formação do Império. do século XVI em diante. a forma escolar.13. que co-existiu com outras formas. conflitos e a diversidade das práticas pedagógicas caracterizaram a implantação e implementação da forma moderna de educação da população. Alessandra Schueler lembra que. buscando vencer o “atraso” da instrução no país. e tentar impor um aprendizado que nem sempre era o mais valorizado em seu meio ou que garantisse a reprodução familiar.”50 De modo algum. Na Amazônia. os termos disseminar.4. Resistências. às “massas” e às “mais longínquas localidades”. Estando estabelecida na legislação e nas práticas educacionais dos governos das duas províncias. tutores e protetores. 60. 4/1/1881. p. este processo se constituiu linearmente. em seus discursos. Daniel Thin e Guy Vincent. o tenente-coronel Wilkens de Mattos expressou o desejo de “disseminar a civilização pelas fronteiras remotas” do Amazonas. os governantes do Pará e do Amazonas estarão empregando.. o desafio da década tornou-se a consolidação e a expansão das “escolas regulares” aos lugares distantes e pouco povoados.

54 RPAM. 79 . a escola se tornava efetiva. acarretando conflitos e boicotes às medidas tomadas por cada parte. aspectos que continuaremos a analisar neste capítulo. tais como “formar dessas massas bons cidadãos com consciência de seus direitos e deveres e mães de família”. em poucas palavras expressou o que esperava da instrução do povo amazonense: “É de mister desenvolver pari passu n´esta gente o sentimento de familia e o desejo da propriedade. Assim. desde que reunissem dez meninos ou dez meninas. almejada para esta população – índia e tapuia . bastava ter quinze alunos para se criar uma escola. art. o presidente Domingos Jacy Monteiro. 52 No decorrer da década de 1870.14. 51 É importante ressaltar que as propostas e iniciativas não encontravam unanimidade entre os diferentes governos. p. 53 RPPA. dois dos moveis mais poderosos para o progresso social. É fácil imaginar os obstáculos enfrentados para manter escolas no alto interesse de todos. PARÁ. marcada pelo controle do uso do tempo e do espaço. 52 Geralmente.43. especialmente no interior. regulamento n. escolas elementares podiam ser criadas nas pequenas povoações disseminadas pelos rios e igarapés. 26/5/1877. 15/2/1876.dentro de uma ótica da vida moderna.processo de afirmação e expansão da forma escolar sofreu reveses vindos de todas as partes e pela própria diversidade da constituição étnica e cultural da população. Porém. No Amazonas. podia ser encargo da administração provincial. regulamento de 13/1/1874. 53 Encaminhar os indivíduos pertencentes à “grande classe popular” constituía o objetivo dos mentores da instrução pública do Amazonas deste período. devendo os governos aprovar ou rejeitar as resoluções. e no Pará. Atingindo 30 alunos. p.17 de 28/3/1883.16. a criação de escolas elementares ou provisórias. É importante ressaltar que a grande maioria das referências às famílias indígenas ou tapuias não 51 AMAZONAS. A tolerância legal para a manutenção de escolas com poucos alunos constituiu uma das medidas adotadas para atingir a este fim. os governos passam a explicitar com mais clareza os objetivos políticos da disseminação da instrução pública. entre deputados liberais e conservadores nas Assembléias Provinciais e entre o executivo e o legislativo. art.” 54 Sentimento de família e desejo de propriedade são dois valores relacionados à vida sedentária. providas por interinos. a criação de escolas era atribuição das Assembléias. nos aspectos mais estratégicos para uma população tida por arredia à civilização e afeita à vida errante.17.

carente de funcionários preparados para representar o Estado nas localidades distantes das duas imensas províncias. Uma das principais causas utilizadas para justificar o “atraso” da instrução nas províncias amazônicas era o modo de vida da população. p. ressaltando o patriotismo das duas medidas. 56 Ver relatórios da Província do Pará. 57 O diretor da instrução amazonense chega a se queixar que. o abandono não deve ter atingido uma dimensão que sobrecarregasse as municipalidades. em certas localidades. São várias as referências na documentação à importância da escola para o fornecimento de pessoal para as funções públicas. 57 Combater a indiferença da população pelos negócios públicos. No entanto. como ocorreu em várias capitais e cidades do Império. principalmente para a região. anexo 3. seja pegando em armas ou servindo nos cargos públicos. Acreditamos que Jacy Monteiro estivesse referido a uma moral orientadora das relações familiares. a maioria no século XIX. no Brasil foram instaladas doze Rodas para o recebimento de bebês abandonados. Era de conhecimento de todos e as observações etnográficas dos viajantes. Tratava-se de uma expectativa bastante concreta com relação aos resultados da instrução. 25//3/1872.3). que carregava os filhos consigo nos deslocamentos exigidos pela atividade extrativista. afirma-se freqüentemente o forte elo entre pais e filhos. dentro de uma perspectiva cristã e calcada nos valores culturais ocidentais. em grande parte criadas pela Santa Casa da Misericórdia de cada cidade. por prejudicar os objetivos educacionais do Estado. embora nos orçamentos anuais estivessem previstas verbas para a criação e tratamento de expostos pelas câmaras municipais das cidades e vilas.56 Alguns presidentes e diretores de instrução pública das duas províncias associaram o recrutamento forçado ao ensino obrigatório. p.reproduz a visão da falta de sentimento de família. 55 Os anos 1880 testemunham o apreço pelo aumento da “força do Estado” e pela firmação da nacionalidade. em 15 de fevereiro de 1880 e de 1883. ao preparar os filhos da pátria para servir à nação. favorecendo as alianças em prol dos 55 Segundo Maria Luiza Marcilio (1997. Não há referência ao abandono de crianças nesta época nos espaços urbanos amazônicos. pois Belém e Manaus não instalaram Rodas de Expostos. desde o século XVIII. 80 . devido à falta de vulgarização da instrução no interior (RPAM. levando sim. não se encontrava quem pudesse exercer os cargos policiais mais inferiores. a uma crítica velada às relações de parentesco desta população. nas mais diversas regiões brasileiras. ao contrário.52). demonstraram largamente os cuidados e o apreço dos pais pelos filhos.

aprovou-se novo regulamento da instrução pública. no mesmo discurso em que anunciou a intenção de estender as fronteiras educacionais do Amazonas. Na gestão de Mattos. atendendo a alunos de várias idades. nas normas legais. Os meios disciplinares. a homogeneização do ensino. de acordo com as regras impostas pelas diretorias de instrução pública. ou seja. Regulamento n. à instalação de escolas em verdadeiras palhoças. inclusive a do Pará. A escolha da casa cabia ao mestre. A casa era alugada pelo professor ou professora. as autoridades buscaram implementar um modelo escolar. 81 . é um fim que aparece nos escritos da instrução pública. impedindo que cada professor fizesse o que bem entendesse. como vinha ocorrendo. chegando a afirmar que em toda a província se ensinava e se aprendia o mesmo que na capital. nem sempre consoante com as práticas educacionais do professorado. 25/3/1870.interesses dos governos na administração das províncias. jamais alcançou o grau esperado pelos poderes públicos. informa ter uniformizado a instrução. Paralelamente aos apelos às assembléias em prol da expansão deste “importante ramo do serviço público”. A falta de utensílios. fazendo com que as crianças aprendessem sob o jugo do “terror do mestre”. Wilkens de Mattos. calcadas. volta e meia. as residência s eram acanhadas. levando. na faixa etária que podia ir dos 6 aos 15 anos. anti-higiênicas e sem ventilação. Os governos enfrentaram inúmeros empecilhos no esforço de tornar as escolas espaços sob o controle do poder público. o qual previa a elaboração do regimento interno das escolas públicas pela Diretoria de Instrução e proibia o emprego dos castigos corporais. faltavam habitações apropriadas. mobílias e livros levavam os professores a utilizarem o que tinham à mão e ao que estavam habituados. em geral. prática já abolida por diversas províncias. cada escola tinha um professor que regia uma aula. reservando um espaço para a função pública.13. As escolas públicas primárias das duas províncias eram do tipo isolada. de 14/3/1869. em contraposição ao uso privativo das mesmas pelos professores e pelas famílias. levando os visitadores das escolas à denúncia de que. 58 Entretanto. Escolas com grande número de crianças podiam ter o auxilio de um adjunto. p. 58 RPAM. No interior. em alguns casos. extrapolavam o permitido por lei. que morava com a família. por sua vez.18.

escrita.2. Aos filhos desta “população mais rude”. predominantes na capital. propunha-se reduzir o ensino ao mais estritamente necessário. principalmente as indígenas. que atendiam aos mais “desfavorecidos da fortuna” e as efetivas. A divisão do ensino primário em dois graus criou um abismo. quatro operações aritméticas. p. Com a instituição das escolas normais em Belém (1871) e Manaus (1882). tanto no Amazonas quanto no Pará. entre as escolas de 1o grau. 59 RPAM. 59 No Amazonas. noções práticas do sistema métrico. dedicadas ao ensino elementar que consistia na leitura. quando no 2o trimestre de 1888. Total 1º trim 87 1507 5524 7031 1º grau 1690 4443 6133 2º grau 74 123 197 1888 Provisórias 90 2017 2107 Capital Interior Total Total 2º trim 88 1854 6583 8437 Fonte: RPPA. 2/2/1889. tais como aposentadoria. especialmente as das povoações mais distantes. de provisão interina. pois deveriam provar habilitação ou serem concursados. não foram poucos os que enxergaram no internato a única alternativa para impedir que as crianças destas regiões. 82 . Outra diferenciação importante referia-se às garantias concedidas aos professores efetivos. foi a implementação de duas categorias de escolas: as elementares ou provisórias. fossem afastadas das escolas.107 alunos que freqüentavam as escolas provisórias no Pará.017 estudavam fora da capital. tornando-o diferenciado daquele regido nas escolas da capital. por tipo de escola Local 1º grau 1133 4122 5255 1º trim. a condição de normalista passou a ser preferida para o preenchimento de vagas das escolas efetivas. 2º grau 292 30 322 1887 Provisórias 82 1372 1454 2º trim. 25//3/1871. Freqüência diária das escolas públicas primárias (diurnas) da Província do Pará no 1º trimestre de 1887 e no 2º trimestre de 1888. Esta situação está claramente exposta na tabela abaixo. retirados da escola dominando somente os rudimentos da leitura e da escrita.As famílias. devido à falta de educação escolar. em termos de freqüência. dos 2. cujo ensino era favorecido por mestres melhor habilitados. 2. O que resultou na prática. emergem da documentação como ignorantes e indiferentes à instrução dos filhos. e também ao preparo para o cargo. licença e melhores salários. Ver tabela completa no anexo nº 22. anexo 2.

aritmética. seminários e a estudantes no exterior ou em outras províncias do Império. e as de 2o grau. somente Santarém possuía este tipo de ensino. por mais que lhes recomendassem os professores. 18/9/1889. que incluía. 61 A tabela 22. o Pará alcançou uma freqüência considerada bastante satisfatória pelo diretor da instrução nas escolas de 1o grau regidas por professores dedicados. 47. No interior. estendendose para mais quatro cidades em 1888. além da subvenção a escolas particulares. a ponto do diretor Americo Santa Rosa ter encontrado apenas cinco alunos matriculados numa das escolas de 2o grau. 62 Com freqüência os administradores expõem. somando oito escolas.doutrina cristã e costura para as meninas. nos relatórios de província. Os governos de ambas as províncias se queixavam de que as vultuosas verbas empregadas na instrução não traziam os benefícios esperados. 60 Ao final da década. demonstrando o quanto este investimento era valorizado pelos governos. elementos de geometria. capítulo 4. 83 . mostra que as escolas de 1o grau transformadas em 2o grau em 1888 tiveram uma redução drástica na freqüência diária. caligrafia. que concentrava a maior parte dos estabelecimentos de 2º grau. como se pode observar no quadro do anexo 22. em anexo. 29/3/1883. através de avisos do Ministério do Império. catecismo e história bíblica. verifica-se que. O regulamento n.547. mas as do 2o grau não eram procuradas pelos pais iletrados. Projeto de Lei n. não exercia o atrativo que se desejava nas famílias. as despesas que efetuaram com a instrução pública.30. o crescimento do alunado de 2º grau é justificado pela instalação de novas escolas: em 1887. Pela tabela acima. mas somente na capital. In: RPPA. além do primário. de historia e em particular do Brasil. Belém tinha um número muito maior de alunos cursando o 2o grau do ensino primário do que no 2o trimestre de 1888. ciente da história da nação. de geografia. p. Anexo. Em Belém. 1. a instrução era diversificada conforme a categoria da escola: 1a a 4a classe ou elementar e efetiva. O pressuposto de que as famílias da capital teriam maior interesse na continuidade dos estudos dos filhos ou das filhas não é confirmado pelos dados da freqüência diária. A divisão do ensino em dois níveis é antiga nas duas províncias. desenho linear. buscou comprometer as províncias brasileiras com a causa da instrução. cujo programa se estendia à gramática portuguesa. se no 1º trimestre de 1887. o ensino secundário e os institutos de educandos artífices. A formação do cidadão. os colégios particulares talvez estivessem açambarcando os filhos das classes que p ercebiam vantagens na continuidade dos estudos. mas apresentam números que comprovam o alto investimento dos tesouros provinciais na instrução pública. 61 Relatório da Diretoria da Instrução Pública do Pará. de 28/3/1883. da região (história do Pará) e da religião do Estado. No Pará. dividiu o ensino primário em dois graus no Amazonas. 62 Os poucos que se detiveram a explicar o que esperavam em termos dos resultados da instrução primária. 60 Pará. Os presidentes não somente afirmam. atendendo também à expectativa do Governo Imperial que.

pois se continuava a exigir. 65 O inspetor extraordinário das escolas públicas de Parintins e Itacoatiara no Amazonas. como o demonstra a pesquisa de Alessandra Schueler sobre a escolarização na cidade do Rio de Janeiro. levando à instituição do ensino obrigatório. 64 Pode-se supor que. SCHUELER. para as famílias das áreas rurais. Frota Martinez de. como por exemplo.”66 63 64 A Constituição. Se pais. 7/11/1886. História da instrução pública no Brasil (1500-1889): história e legislação . por exemplo. A freqüência irregular e a deserção das aulas constituíam grave problema em todo o Império. pois o futuro do menino ou da menina estaria atrelado ao trabalho familiar. 63 A interrupção dos estudos não era privilégio das províncias amazônicas. uma composição literária como exame de português. 65 O debate sobre a questão da obrigatoriedade escolar para o nível elementar foi intenso na segunda metade do século XIX. tutores etc não dispõem de recursos para dar ás crianças devida instrução. senão também o mais seguro meio de defesa nacional. 1884?. ocorria o mesmo fenômeno. Na Corte. e para a pratica dos bons habitos nas differentes phases da vida social. tem o Estado o dever de supri-los. o diploma não fosse cobiçado. No contexto urbano. quando a maioria não era apresentada por pronta e outros alunos simplesmente fugiam. provavelmente aterrorizados. Inspeção realizada em 1883. p. gradativamente adotado pelos regulamentos da instrução pública. Os exames gerais de preparatórios dirigidos a meninos de escolas de primeiras letras de Belém chegaram a ser questionados no jornal conservador A Constituição. “Os direitos da infância são mais sagrados que os do pae. apresenta as diferentes vis ões sobre questões que estavam no cerne do debate sobre instrução pública no Segundo Reinado. conselheiro Joaquim Maria Nascentes d’Azambuja. porém de difícil execução nas áreas rurais e nos sertões do país. clama pelos “direitos da infância” na tentativa de sobrepujá. fazendo-as inscrever ou matricular nos estabelecimentos publicos. a questão não é só de humanidade. 66 AZAMBUJA. a defesa da nação contra os vícios e os maus instintos. missão nobre para subordinar á razão os máos instinctos que fomenta a ignorancia. 84 . Joaquim Maria Nascentes de. n’uma idade em que é mais facil prevenir e corrigir o vicio e implantar a moral seu natural correctivo. as posições favoráveis e as resistências à obrigatoriedade do ensino primário.32. José Ricardo de Almeida (1989) na obra editada em 1889. no período de 1870 a 1890. na defesa enfática do ensino obrigatório.los aos dos pais e acima de ambos. o qual exigia um aprendizado ignorado e até desprezado pela escola. p. o diploma era estritamente necessário para seguir os estudos que levavam aos exames de preparatórios (para cursar a faculdade) e para o curso normal.11. 2002.aludiram aos exames públicos de final de ano.

oriunda de seus “amigos” ou dos adversários políticos. Jornal A Província do Pará . o Americano e o Franco-Brasileiro . superior é só aquelle que melhor cumpre os seus deveres.) O Estado e os mestres não pedem aos vossos paes. p. que publicou o abaixo assinado de pais. 16/12. “Meus meninos Os professores substituem a autoridade paterna. como ocorreu com o fechamento do Colégio Americano do comendador José Veríssimo. quando todas estavam obrigadas a fazê. O fechamento foi motivado por uma discussão travada entre os diretores de dois colégios tradicionais de Belém. attende com mais docilidade aos preceitos e conselhos de seus preceptores. 20/12 e o número de 27/12/1885. As escolas particulares.... garante aos pais o seu arrimo na velhice. por opor-se à liberdade de ensino adotada no Império. tutores e a imprensa liberal condenaram a portaria do diretor da instrução pública. o conselheiro faz um apelo aos alunos em prol da educação e instrução oferecidas pelo Estado.) Nas escolas todos são iguaes. tutores e correspondentes. E somente aquelas que contavam com subvenção governamental enviavam os mapas de matrículas. Pais. principalmente as poucas do interior das quais as diretorias tinham conhecimento.No regimento interno proposto à Presidência da Província. tanto vale o rico como o pobre. apesar de introduzir uma outra autoridade aos meninos. não ha differenca de condicão. na capital paraense em 1885. (. Os governos pelejavam para obter informações e fiscalizar as escolas públicas. Azambuja inicia a sua pregação buscando sensibilizar os meus meninos aos propósitos formadores da escola. os sentimentos que deveis consagrar á Deus e a seus semelhantes. (. foi a da fiscalização.” 67 A fiscalização das escolas e a política d’aldeia A medida defendida em todo o período como forma de garantir a obediência às investidas do Estado em normatizar o funcionamento das escolas. 68 Exceções ocorria m nas situações consideradas abusivas ou 67 68 AZAMBUJA.lo.53 (grifo nosso). tanto públicas quanto particulares. op.. tutores ou protectores senão que os auxiliem para que possas mais tarde servir-lhe de arrimo na velhice. mas que. fomentando em vossos espiritos e gravando em vossos corações as ideias do justo e honesto. resultava em protestos vindos de todos os lados.cit. instituição diferenciada do entorno por pretender a igualdade social. 18/12. mais se applica ao estudo.. nunca foram efetivamente fiscalizadas. sofrendo ambos a 85 . interferir na iniciativa privada.

nem tampouco foi investigada. seguindo seus interesses particulares. 69 Como apontado no capítulo 1. ao mesmo tempo em que se empenhavam numa luta de resistência. Mas eram as escolas do interior que mais preocupavam os governos. tanto às características das pequenas localidades quanto à vida selvagem de parte dos habitantes da Província. o qual tinha conhecimento anterior do envolvimento da instituição em “fatos de excessivo rigor”. que povoava o imaginário das elites ilustradas de temores de serem confundidos com seres tão pouco civilizados. é pela imprensa que sabemos como ela agia. as duas províncias amazônicas criaram dispositivos de fiscalização das escolas públicas primárias. de Belém. Atribuía-se o fazer politica d’aldeia ou de botocudos ao adversário. fundado na Corte em 1871 pelo famoso Barão de Macaúbas. como foi o caso do aluno falecido após ter sido vítima de castigos excessivos e negligência no Colégio Marquez de Santa Cruz. A política d’aldeia foi o grande vilão da instrução popular do Pará – raro é o relatório provincial que não a menciona. O jornal A Constituição adotou posição favorável ao diretor do Colégio. vilas e povoações do interior para inspecionar os estabelecimentos educacionais de seus distritos e municípios. denominando-o de “nosso honrado amigo”. proibida pelo regulamento. como interferia no cotidiano na escola. porém autorizada pelo pai (8/6/1883). resultado das más condições da prisão a que fora submetido no Colégio Ateneu. ele admite que o diretor interno aplicava a palmatória. Pouco durou o castigo. em detrimento do cuidado aos negócios públicos. não abalou a respeitabilidade da instituição. Nas capitais. eram atraídos por ela. Longes de suas vistas e controle. tutores e protetores dos alunos reagiam a esta força com que os setores públicos e privados.imorais. Mas. no clássico O Ateneu. A morte do aluno. 69 RPPA. O falecimento do aluno interno teve grande repercussão na imprensa. negando os maus tratos infligidos ao menino. os administradores recorreram ao auxílio dos moradores das cidades. estes colaboradores do Estado foram repetidamente acusados de fazerem a sua própria política. que no âmbito da instrução pública. causadora de alianças e conflitos entre professores e inspetores. 7/1/1884. as inspeções escolares podiam ser feitas pelos próprios diretores da instrução e eventualmente. O Colégio perdeu a subvenção do governo. e publicou ofício dirigido ao Presidente da Província.51. O termo remetia-se. Entretanto. pelos próprios presidentes. 86 . ficção com traços autobiográficos de sua experiência como aluno interno do Colégio Abílio. Imiscuídos no que pejorativamente se chamava a política d´aldeia. e como os familiares. punição do fechamento. Caso parecido é relatado por Raul Pompéia. pois antes do final do mês de dezembro voltaram a funcionar. p.

surja por ahi um director geral ou uma autoridade policial no firme proposito de atirar com o arco sobre os nossos hombros. Hom’essa. 70 A expressão jocosa. sob ordens do diretor da instrução pública do Pará. O próprio jornalista utiliza as imagens negativas atreladas ao viver indígena ao atacar o diretor da instrução e o chefe de polícia na questão dos colégios interditados. a fiscalização das escolas públicas ficou a cargo dos delegados de cada distrito. é fazer côro com o outro que chamou-nos cidadãos d’arco e flexa. o qual. que autorisa a violencia praticada pelo sr. O protesto do jornalista liberal às imagens ligadas ao selvagem e ao bárbaro. usada no Senado pelo Conselheiro Martinho Campos. director geral. no entanto. da Corte. No Pará. às vezes. quando do fechamento dos dois colégios particulares supracitados. que ainda alliada a uma civilisação de taba. Arquivo Nacional. não póde fazer rir a quem está compenetrado dos progressos. O termo foi empregado quando o jornal analisava o critério da freqüência mínima para o fechamento de escolas.! (. comenta o assunto (Manaus. sem comprehender o mal que póde causar. O presidente do Amazonas José Paranaguá. indicados pelos diretores de instrução e nomeados pelos presidentes de 70 A Província do Pará .” 72 Voltaremos ao tema da “politicagem” e dos “politiqueiros” mais adiante.. fora rejeitada pela imprensa paraense. em carta ao Barão de Loreto.) Essa gracinha. 18/12/1885 (grifo nosso). embora. especialmente no Pará. 11/4/1885. carta de 18/01/1884. não teria sido respeitado pelo governo. de que o frei Sebastiani quisera catequizar os paraenses no sermão dado na igreja de Nazareth. 72 A Província do Pará . “Já houve quem dissesse que qualificar de barbaro e selvagem o regulamento [da instrução pública]. os cidadãos a arcos e flechas. de vez em quando.permitia a manutenção de práticas abusivas. pela importância que ele assume para a instrução pública. 87 . associar. 71 Podia-se internamente utilizar imagens pejorativas relacionadas à vida indiana. quando chamou os paraenses de cidadãos de arco e flecha..nos a pilheria nos espiritos dos freis Sebastianis”. 23/10/1877. de forma bem humorada. mas as rejeita quando comprometem os progressos dos paraenses ilustrados em “matérias civilizadoras”. 71 A Província do Pará. GF-Coleção Barão de Loreto). expressa bem a dualidade quanto ao emprego das figuras. que hemos feito em materias civilisadoras. em Belém – “O culpado [pela idéa de catechisar-nos] é quem nos chama de cidadãos de arco e flexa. afrontava os esforços das elites paraenses de apagar de sua civilização quaisquer traços que a identificassem à cultura indígena ou a uma civilização de taba. como o fez o jornalista da Província do Pará ao comentar a notícia do Liberal do Pará.

segundo informação de Manuel Baena (1885. A comarca da Capital reunia o maior número de escolas. Os livros de matrícula seriam fiscalizados. publicada no jornal A Constituição. 1/12/1882).província. 88 . ficando os professores à mercê do “patronato” político. p. Caso os regulamentos fossem seguidos à risca. 25 serviam à comarca da Capital. e todo comportamento imoral e inadequado à função de professor denunciado ao diretor da instrução. In: RPPA. Existiam nela 87 escolas públicas primárias em 1881 (RPPA. o Pará tinha 88 delegados literários. a ser exercido pelos presidentes das câmaras municipais. função prevista a partir de 1864. p. resultado já esperado pelos deputados da Assembléia Legislativa do Pará. mas detinham funções importantes como fiscalizadores das escolas e executores de tarefas administrativas. A substituição dos delegados literários foi decretada pela lei n. O regulamento de 1869 estabeleceu o cargo de inspetor municipal. distribuídas nos seus dois municípios e doze freguesias. 73 Em 1883. anexo 3. conforme o regulamento em vigor.139 de 12/3/1883. e nas paróquias e distritos de paz pelo respectivo primeiro juiz de paz. O problema da política d’aldeia não se resolveu com a nomeação dos presidentes de câmara e juizes de paz. dez sacerdotes.1. 4/1/1882.62). e os demais. eles garantiriam a presença constante e vigilante da repartição pública em todo lugar em que existissem escolas. Os inspetores com freqüência direcionavam seus relatórios e denúncias ao sabor de suas proteções ou perseguições políticas. os inspetores paroquiais eram escolhidos entre os moradores ou entre os juizes de paz. empregados públicos. incompetência e uso das escolas para fins pessoais. a freqüência e o aproveitamento dos alunos verificados. a inspeção das escolas passou a ser feita nas cidades e vilas pelos presidentes das câmaras municipais. Destes. Todos os anos seria feito o arrolamento das crianças em idade escolar de cada localidade. p.. motivadas por acusações de perseguições. divisão política presente em 1885.14). A relação entre professores e delegados literários (ou inspetores) era permeada de tensões. autorizando ou não o recebimento dos ordenados. criando mais um nível na hierarquia escolar. Os delegados não tinham direito a ordenado ou gratificação. embora avaliassem que este seria um mal 73 Relatório do diretor geral da instrução pública. sendo cinco bacharéis em direito. 74 A inspeção deveria ser feita nas escolas públicas e particulares (Assembléia Provincial do Pará. trimestralmente remetidos os mapas de matrícula dos alunos e mensalmente atestada a freqüência dos professores. sessão de 3/11/1882. negociantes e lavradores. 15/2/1877. LIX. As escolas seriam visitadas regularmente e observadas em seus aspectos material e humano. 74 No Amazonas. Em 1877.

Responsabilizava-se os delegados e tornava-se pública a decisão. Para o deputado Joaquim Cabral. O esforço de “marcar limites às delegacias” não vinha obtendo sucesso. In: RPPA. 77 Relatório do diretor geral da instrução pública.lo no desenvolvimento do ensino. estas condições eram alcançadas integralmente. anexo 3. por residirem longe das escolas ou por falta de habilitação. Sessão Ordinária em 13/4/1883). mesmo colocando a instrução nas mãos dos mandões d’aldeia. 15/2/1877. como uma forma de cerceamento aos regentes das escolas. buscava selecionar pessoas que com suas habilitações. O diretor afirma que. p. pois muitos delegados não respondiam às circulares enviadas pela Diretoria. mas que. A Província do Pará . o diretor da instrução. Joaquim Pedro Corrêa de Freitas. a Diretoria determinou que os professores entregassem as listas de alunos “reconhecidamente pobres” aos delegados para a distribuição gratuita de livros escolares e mandou providenciar de maneira que nas escolas públicas do sexo feminino da paróquia de Abaeté fossem admitidos meninos até a idade de nove anos. 7/9 e 2/9/1877. a Diretoria tolerava alguns deles. pelo menos para a realização das mudanças no funcionamento da escola. reconheceu que os delegados não cumpriam bem os seus deveres. pois “nunca um juiz de paz dará attestado favoravel a um professor adve rsario pollitico”. 76 Neste mesmo ano. 89 . Em alguns casos.menor. ignorando as “idéias políticas dos indivíduos”. O delegado fazia a ponte entre o professor do interior e o diretor da instrução. no entanto. Duas notícias publicadas no jornal A Província do Pará sugerem que não bastava comunicar ao professor as alterações a serem feitas. 77 75 76 A Constituição. a medida afetaria liberais e conservadores. Em 1877. 21/8/1883 (Assembléia Legislativa do Pará. patriotismo e boa vontade pudessem auxiliá. LIX. pois. 75 Mesmo com todos os problemas identificados no exercício da função recorria-se ao delegado literário para executar medidas determinadas pela Diretoria de Instrução do Pará. necessitava de quem a representasse para atestar a freqüência dos professores.

A imprensa no Pará . 79 É impossível e até desnecessário entrar no mérito do que era verdadeiro ou falso. um dos chefes mais influentes do partido liberal. Os contatos entre o interior e a capital eram amplos. docentes e inspetores. quase sempre estabelecidos pelas relações políticas e partidárias. pela publicação das cartas e abaixo-assinados de pais e moradores a respeito das escolas públicas de seus filhos e protegidos. de acordo com a situação dominante: liberais no poder. professores e autoridades públicas As colunas “a pedidos” ou “solicitados” dos jornais paraenses retratavam os conflitos envolvendo delegados literários. Foi o primeiro jornal paraense a iniciar a venda avulsa nas ruas. 90 . e o segundo. no entanto.. p. No artigo. pelas inovações implantadas pelo co-fundador Antonio Lemos. eram possíveis e pertenciam à construção da experiência escolar na Província. através do rodízio de denúncias contra a administração pública. professores. Paulino de.3. amparadas pelos laços familiares. alunos. pois repercutiam nas famílias e 78 79 FIGUEIREDO. tornando A Província uma folha distinta das demais. é dado grande destaque para o jornal. observa que as transcrições das cartas vindas de paragens distantes nas colunas das gazetas paraenses diminuíam as excessivas distâncias da região Amazônica. A Constituição foi fundado em 1874. s. em termos técnicos e dos serviços oferecidos. dos boicotes ordenados por potentados desgostosos (BRITTO. professoras e seus cônjuges. O tornar público conflitos do cotidiano escolar sugere que as vivências e as questões pertinentes à instrução pública eram de interesse de um grupo mais extenso do que o dos representantes do Estado. Aldrin Moura de Figueiredo. não é difícil imaginar que a abordagem das ações educacionais na Província estivesse condicionada às posições políticas de cada folha. p.289-291). O Pará tinha um corpo significativo de escolas. muito propriamente. Um dos fundadores d’A Província foi Joaquim José de Assis. pela atenção dada ao tema da instrução pública e especialmente. As cartas refletem esse posicionamento. algumas relacionadas a questões íntimas das vidas desses atores. a publicação das cartas indica que tais ocorrências. Sendo o primeiro simpatizante do partido liberal. 78 Vários jornais do Pará e do Amazonas do período foram consultados. as relações entre estes níveis extrapolavam o interesse da Diretoria de Instrução. alunos e pais. segundo Paulino de Britto. e portanto. órgão do partido conservador.d.Tensões na inspeção escolar: as queixas de pais. cartas e artigos acusatórios publicados na Constituição e vice-versa. e A Província do Pará em 1876. privilegiamos para análise as cartas das gazetas paraenses A Província do Pará e A Constituição. permitindo tornar-se independente dos assinantes.

acusada pelo respectivo delegado de não registrar a freqüência diária das alunas e de ter espancando uma menina. o que mais incomodasse os diretores fosse a “amizade” entre delegados e professores. 91 . 81 Professores recorreram à imprensa para se defender de supostas perseguições de delegados literários. como também era fartamente anunciado por anular qualquer possibilidade de inspeção séria. Numa das cartas. As queixas publicadas nos jornais retratam aquilo que já era do conhecimento do governo paraense desde meados da década de 1870: as escolas não eram bem inspecionadas. pescador e iletrado do responsável pela delegacia literária. ele faz emergir a condição de caboclo. Entretanto. o missivista anônimo de Faro. p. foco de discussões em todo o Império. prejudicando o trabalho da Diretoria e criando embaraços para o pagamento dos vencimentos dos docentes por parte do tesouro provincial. tanto conservadores quanto liberais. Assembléia Legislativa da Província do Pará. em 80 RPPA. comumente retratada pelos “ilustrados” como ignorante. pois “os delegados litterarios não têm capacidade ou se tornam logo amigos ou inimigos do professor”. anexo A. 80 A substituição das pessoas de maior influência na localidade por empregados públicos no preenchimento dos cargos de delegados literários parece não ter alterado muito o quadro das tensões entre professores e inspetores no interior do Pará. 82 Mas talvez. 25/7/1883. aspectos que compunham a massa da população amazônica. 81 Relatório da Diretoria Geral da Instrução Pública do Pará.lhes os mapas de freqüência. 82 A Constituição. 26/8/1877. Os jornais amazonenses não recuaram frente ao tema da instrução e da educação do povo. Os deputados provinciais. arvoravam-se em seus perseguidores e tiranos” (A Constituição. Sem poupar farpas aos dois empregados públicos. como foi o caso da professora da escola feminina de Irituia. In: RPPA. Sessão de 11/4). quando a divulgação das denúncias tinha o claro propósito de demonstrar a decadência da instrução promovida pelo governo opositor. 18/4/1885. O diretor. O fato de professores possuírem “amigos” entre esta categoria não só era do conhecimento das diretorias. no relatório publicado em abril de 1885.21.fomentavam os embates partidários. afirmando que os delegados “quando não se prestavam á servir de instrumentos nas mãos dos professores. parte para o ataque ao professor e ao delegado literário do povoado. os paraenses cederam espaço à crônica escolar de uma forma pouco freqüente na imprensa da Província vizinha. após aplaudir a nomeação do novo presidente liberal. 17/1/1875. fizeram avaliação semelhante em 1883. se queixa da recusa de presidentes de câmara e juizes de paz em atestar o exercício dos professores e visar.

mas não inverossímil. tornavam a função facilmente manipulável pelo professor. Condições. Entretanto.termos de instrução e educação civil e religiosa. e não deixam de lembrar aos poderes públicos. 85 A acusação é grave. 28/4/1883 (grifo nosso). isto mesmo com muito trabalho e pachorra. por dissimular os abusos de professores. lavradores ou fabricantes de borracha. disciplina. Este delegado da ignorancia não tendo meios para viver no povoado. no Pará. authomato do professor. por exerceram atividades incompatíveis com o magistério.”83 O abaixo-assinado solicitando um novo professor para a povoação de Condeixa. Os moradores reclamam por “um fiscal que olhe para a ordem e disciplina da escola”. que ao seu ver. entenderam que as autoridades públicas não as respeitavam. que sem escrúpulos e impedimentos. gerou muitas denúncias. mal e porcamente assigna seo nome. inserida na pouco povoada comarca de Soure. afirma que os delegados literários não cump riam os seus deveres. O jornal do partido conservador no Pará. pois o fiscal. Referências a professores pescadores ou dedicados a extração de produtos 83 84 A Constituição. na série de artigos sob o título. além de ser inábil. A conivência de delegados com professores faltosos. “A delegacia litteraria está entregue a um pobre caboclo pescador. 11/5/1883. cujo delegado. alguns moradores da pequena Condeixa. acusa o velho delegado literário de deixar o professor entregue a si mesmo. mora na beira da pescaria. nos lugares em que eram comercia ntes. A Constituição. Os conservadores e a instrução pública. explorava seus alunos nas mais diversas formas. e duramente cobraram o exercício de sua função na educação dos meninos. A Constituição. residindo a cinco quilômetros de distância. longe da villa dous dias de viagem redonda. na vila de Monsarás. publicada em 1883 sob a vigência da situação liberal. professor habilitado e moralidade são qualificações que o discurso oficial lembrava o tempo todo como indispensáveis para o progresso da instrução. pois um dos maiores problemas que o Amazonas e o Pará enfrentavam junto ao professorado do interior era justamente a atração e a facilidade com que se entregavam a atividades não relacionadas ao magistério. de “Que vale uma escola sem bom mestre e sem moralidade?” 84 Ordem. 92 . Nas palavras de seu delator. nunca visitava o povoado. Pará. 26/8/1882. 85 A Constituição.

15/2/1881. pais e moradores. Funcionando na capital. p. 17/5/1883. as relações entre professor público e delegado literário são rapidamente citadas. Reprimir este fato. através de remoções ou demissões de professores. se preparam para a temporada da “pândega lucrativa dos castanhais”. 87 SOUSA. os juizes de paz ou presidentes de câmara) estavam obrigados a informar o governo a respeito destes fatos. Os pais deveriam passar a ser “os fiscais natos dos educadores de seus filhos no interior dos povoados”. A Constituição sugeriu que a escolha dos professores fosse feita pelos pais de família. porém. insatisfeitos com o abandono das escolas. Romance escrito em 1888. de maneira marcantemente negativa.”88 Está claro que. O conselho analisava e decidia a respeito das questões relativas às escolas na Província. 88 A Constituição. um da Escola Normal e o professor primário do Instituto de Educandos Artífices (RPPA.031 de 7/5/1880. 113 e 104. presidente da Câmara Municipal da capital. nascido em Óbidos. era uma das tarefas dos conselhos diretores da instrução. de Inglês de Sousa. e como é íntimo do delegado literário.VI). o conselho reunia sete membros. dois professores do Liceu. alegará doença para dar férias aos meninos. responsável por fiscalizar a instrução primária local. Tais relações não escaparam à literatura regional. Os habitantes de Vila de Silves. nas gestões conservadoras. No romance. buscando-se evitar a nomeação de indivíduos só porque eram governistas. jamais se considerou dotar os pais de tamanho poder. porém desconfiamos que os pais não foram omissos ou indiferentes como queriam os responsáveis pela difusão da instrução nas províncias. Inglês de. provedor do Colégio do Amparo (internato para meninas desvalidas). anexo A. 86 Os delegados (e em 1883. sem constrangimento algum. 93 . Amazonas. e pela imprensa partidária. a saber: diretor geral da instrução. protegendo-se a amigos á custa do suor do povo. foi reorganizado pela lei 1. O Missionário. 87 Como solução contra o favorecimento de professores incapazes e inescrupulosos. inclusive nos oficiais. H. Inglês de Sousa era paraense. visto como abuso.vegetais são facilmente encontradas nos mais diversos tipos de documentos. A conivência com professores que burlavam o regulamento da instrução pública revela que muitos professores estiveram sob a proteção dos inspetores. 1998. Estes casos só apareciam nos jornais pelas denúncias de moradores e pais. E anuncia: “É de toda a conveniencia que se acabem com os patronatos escandalosos. incluindo as representações enviadas pelos empregados da instrução. A população do 86 O conselho diretor do Pará. criado em 1870. O professor anuncia que seguirá os moradores às praias. p. “Os conservadores e a instrução pública VII”.

Os pedidos de criação de escolas ocorreram durante todo o período no Pará. antes julgada como refratária à instrução.30. Inicialmente. Santa Rosa vê como solução para esse “embaraço” voltar à Assembléia provincial a tarefa da criação das escolas provisórias. afirmando que atendera aos reclamos da população criando escolas em algumas localidades. como registra o presidente Abel Graça no relatório de fevereiro de 1872. e assim justifica a sua atitude. Americo Marques de Santa Rosa. Muito revoltado com a ousadia do delegado. a do comportamento moral/sexual das alunas. p. p. Relatório da Diretoria da Instrução Pública do Pará. preveniu a professora para que “tenha toda a cautela em que não saia moça alguma em estado de gravidez!”. sob o exercício do pátrio poder. porém argumenta que se atendesse à exigência de criar uma escola na foz do rio. que a recuza é considerada como falta de solicitude pelo bem publico”. “mais tarde reclamam outras nas cabeceiras. que segundo o reclamante. 90 Há registro também da indisposição de “pais de família” com o delegado literário de Abaeté. 15/2/1872. pois a população se disseminava pelos extensos rios e igarapés. o diretor da instrução paraense.10. Em visita à escola feminina. 94 . sob a proposta da Diretoria da Instrução Pública. recebia todos os dias pedidos de criação de escolas provisórias. isto é. In: RPPA. a educação de meninos e meninas pelo Estado passou a ser uma opção desejada pelas famílias. o solicitante pede providências ao Presidente da Província. 89 90 RPPA. o presidente Ferreira Braga anuncia a criação de cinco escolas no interior do Pará. por sugestão de Americo Santa Rosa. tida por imoral. No relatório de 18/8/1889. Ele considerou as reclamações justas. vindos de todas as partes. 24/7//1889. mesmo com todos as dificuldades com que lutavam as escolas públicas do século XIX no interior da Amazônia. indicando que. foi nomeado em função dos desacertos do frei (seu protetor) e do governo (sempre tendente a nomear empregados públicos). de forma que todas as freguesias e povoações da Província já contavam com aulas de ensino primário. entrou numa esfera somente admitida no âmbito doméstico. 89 Ao final do Império. passa a exigir escolas. ofendidos com a sua intromissão. na escola onde estudavam suas filhas. provinham dos núcleos populacionais estabelecidos.interior. e com tanta insistencia. O delegado. ao apagar das luzes do regime imperial.

por exercer o magistério de forma dedicada e inteligente.. mas que não o levou a representar contra o professor. pois é para o que tem algum préstimo. como o emprego de meninos das escolas em tarefas domésticas ou comerciais. recomendação que pelo visto. o delegado litterario que vá fazer canôas. o qual trimestralmente informava à Diretoria da Instrução Pública sobre o estado das escolas entregues a sua inspeção. expresso na intenção clara de o rebaixar à condição social de caboclo ou tapuio. A freqüência era menor do que o exigido por lei. 95 . No artigo do professor de primeiras letras dos educandos de Manaus consta que Gentil Augusto Bittencourt foi um “ex -ajudante desse estabelecimento” ( Commercio do Amazonas. 6/11/1877.(.. As denúncias não deixam de expressar certos usos do cargo. 27/7/1875). Em 1881. mas A Província do Pará denuncia que o vigário. fato registrado no livro arquivado na escola e informado à Diretoria de Instrução. Gentil de Moraes Bittencourt. 27/10/1877. ocupava os alunos da escola em seu “serviço particular”.) “porque os paes de familia não estão resolvidos a que suas filhas ouçam immoralidades desta ordem.”91 O arrojo do delegado lhe valeu o revide injurioso. 26/9/1877 (grifo nosso). indicando também que os diretores estavam atentos às críticas e consideravam as representações feitas contra os nomeados. os delegados e inspetores aceitaram ou procuraram a posição segundo interesses escusos. justiça seja feita: não podemos afirmar. e do conhecimento do governo. Há registros de pessoas notáveis entre os delegados literários. A Província do Pará . Bittencourt eximiu o professor de culpa pela baixa freqüência da escola noturna. 92 Todavia. Uma das 91 92 A Província do Pará . que em sua maioria. 93 A Província do Pará . como o “ilustre” magistrado de Bragança. no mesmo município. por só se prestar a “fazer canoas”. Esta era uma acusação dirigida geralmente aos professores. 12/4/1881). 93 Em uma querela a respeito da escola noturna de Bragança e da escola elementar de Peroba. o Dr. Gentil Augusto de Moraes Bittencourt ocupava o cargo de chefe do Tesouro Provincial (Ofício do diretor do Instituto Paraense de Educandos Artífices ao Presidente da Província. Os relatórios paraenses mostram que havia realmente um rodízio não desprezível de inspetores. constituía ofensa grave. que vinha a ser o delegado literário da paróquia de Curuçá. fato noticiado nas cidades de Vigia e Belém.

23/5/1877 e 19/10/1877. supõe-se que os jornais da capital encontravam considerável circulação no interior. cujo caráter a corrupção não atingiu. onde a instrucção a mais elementar é ainda tão pouco vulgar”. em 1885. Começa por relatar que inspecionar pessoalmente e dirigir a inspeção são tarefas difíceis. que visitara escolas do interior. por serem estranhos ao mister. os segundos. 18/4/1885. 94 A publicação das cartas expõe a dinâmica das delações e reações relativas à instrução pública. defende o mestre das acusações.101. 96 . que aponta os obstáculos da inspeção de escolas na Província. a inspeção ficava sujeita às divergências políticas e às intrigas locais.cartas. mostra-se extremamente insatisfeito com a atuação dos “comissários visitadores. quando moradores pediam a criação de uma escola mista no Marco da Légua. 2/2/1889. Duas cartas vieram em seu socorro: a do próprio delegado literário e de um conhecido seu. escrevendo de Belém. Pela quantidade de cartas provenientes de freguesias e vilas. Facilmente o professor era atingido publicamente. mas pelos mesmos meios buscava proteção aos ataques. Os primeiros. mas não informa o sexo (RPPA. Anexo 2). In: RPPA. uma referência no relatório de 1872 do diretor da instrução. O “Mappa comparativo da frequencia diaria das escolas publicas da Provincia do Pará” registra que 40 alunos freqüentaram a aula primária de Marco da Légua no 1o trimestre de 1887. p. Pelo menos nos dois últimos casos. em uma província. como os de juizes de paz e de presidentes de câmara. “por não haver possibilidade de escolha. comissários literários e inspetores de distritos e municípios”. “moço altamente protegido” na capital. mostrou-se preocupado com as reclamações estampadas no jornal A Constituição. 95 No caso amazonense. anexo A-95. Gustavo Adolpho Ramos Ferreira. As cartas igualmente atingiam o Governo da Província que. Tudo começou com as cartas (não assinadas) contra o professor supracitado. levadas a termo com muita fadiga e dissabores. a de um “caeteense”. Relatório da Diretoria Geral da Instrução Pública do Pará. por terem suas funções anexas a cargos eleitorais. não localizamos na documentação tamanho embate entre fiscalizadores e executores da política educacional. na comarca da capital. A contínua mudança de indivíduos e falta de habilitação e até mesmo o fato de muitos deles apenas saberem 94 95 A Província do Pará . ocupando-se dele acidentalmente em comissões anuais. Há sim. usando o nome do “honrado” delegado. e os terceiros.

punida com a demissão de ambos. “senão em nome” e atribui o atraso da instrução à “falta de inspeção immediata e activa nas escolas”. p. RPAM. publicadas na imprensa paraense. excluindo os religiosos do cargo. Pelas cartas dirigidas ao Presidente da Província. inspetor escolar da freguesia. completavam o quadro da precariedade da fiscalização das escolas no Amazonas. substituiu alguns inspetores. não póde ser professor. 96 Um relatório de 1877 dá uma pista para entendermos porque os inspetores escolares estão praticamente ausentes dos relatos a respeito do cotidiano escolar no Amazonas. a Assembléia amazonense delega aos “pais de família” a inspeção das escolas do interior. e a professora da escola feminina compuseram uma “aliança” bastante diversa daquelas denunciadas na instrução pública paraense: o padre vivia debaixo do mesmo teto que a professora. In: RPAM.” 97 Na década seguinte.3. com a aprovação do Presidente da Província. em vez de cooperar para a civilisação da sua freguezia concorre poderosamente para a sua decadencia moral e material. Considerado um cargo público gratuito. a identificação do comportamento imoral de seus empregados provinha primeiramente da população. pela Igreja e pelo Estado. O termo pai de família supõe que o designado possuísse uma certa respeitabilidade em seu meio. foi demitido “a bem do serviço e da moralidade pública”. 97 . sabemos que os moradores e pais de família levavam ao conhecimento do governo os escândalos da instrução pública no interior. O regulamento de 1886 prevê a criação de conselhos paroquiais ou de distrito. Assim. O presidente informa que não havia quase inspetores paroquiais na Província. Depositando no sacerdote e no professor o poder de atuarem como alavancas do progresso moral e material da Província. ele justifica a destituição da função temporal do religioso: “Um homem nas condições deste Padre. mas silencia quanto aos requisitos para a escolha de seus componentes. Como medida saneadora. e só não mudou outros por não ter “quem sirva” para a função. Um deles. O padre. garantida não somente pela paternidade biológica.assinar o nome. em “mancebia notória”. não póde ser parocho. anexo 3. em alguns casos. composto de três pais de família. não póde ser inspector parochial. mas o 96 97 Relatório da Diretoria Geral da Instrução Pública do Amazonas. nomeados pelo diretor geral. p. 26/5/1877. desmoraliza. 25/3/1882. o pároco de Silves. o administrador pode identificar os agentes inabilitados moralmente para o cumprimento da missão civilizadora para a qual foram designados. porque em vez de moralizar. o regulamento expõe minuciosamente quais são as funções dos conselhos.50. Portanto.

em 1854. examinando-se a freqüência e o adiantamento dos alunos. como o ensino obrigatório e a inspeção das escolas. instaurou-se um conselho fiscal com o diretor geral e lentes do Liceu. estabeleceu a obrigatoriedade do ensino primário de 1o grau. aprovado em 1879. Regulamento n.indivíduo responsável por uma determinada rede de protegidos. em parte. o Barão de Loreto. e o estado material das escolas. o procedimento do professor. Luciano Mendes de. definindo um raio de distância entre a escola e a moradia do(a) aluno(a). eram de difícil execução em algumas regiões. o regulamento de 1886 teve vida efêmera.. foram adotadas por várias províncias brasileiras. que prometeu apresentar à Assembléia amazonense o projeto do novo regulamento da instrução pública.54). São quinze funções. 56. Uma vez por mês. Zelli Efigênia Santos de. os quais. Os regulamentos do Amazonas (1872) e do Pará (1860) previam a obrigatoriedade. as dificuldades de adotar medidas que. resultado de mais uma reforma condenada a não passar do papel? 98 A elaboração das leis da instrução talvez explique. exercendo cargos públicos. dar posse aos professores. como outros do período. Nos relatórios. SALLES. os quais reconheceriam a sua liderança local. apenas um presidente admitiu utilizar o regulamento de outra província como modelo. como foi o caso de José Paranaguá.222). baseado no pernambucano. artigos 217 a 219. O mesmo se deu com o regulamento da Escola Normal. Paranaguá espelhou-se no regulamento organizado pelo então Presidente d e Pernambuco e seu amigo Franklin Doria. Segundo Júlio Benevides Uchôa (1966. tutores e protetores. Nomear os examinadores ao final do ano. p.259). dando ao conselho poderes de polícia e de coordenação da instrução no local. 98 . p. impor sanções e nomear substitutos. as escolas e os estabelecimentos de sua jurisdição deveriam ser inspecionados. passar mensalmente atestado do exercício aos professores para a cobrança dos respectivos vencimentos. Minas Gerais já havia regulamentado a medida em 1835 (FARIA FILHO. O administrador os considerou os melhores do país. também circulavam pelas províncias. 99 O regulamento que reformou a instrução na Corte. na faixa dos 7 aos 14 anos. Medidas imbuídas do poder de levar a civilização a todos os pontos do Império. Na capital. fato que vinha a dificultar a operacionalização das mudanças. 99 Os debates e as leis circulavam entre as autoridades públicas do país. por sua vez. modelado pelo expedido em Pernambuco em 1880. dentro do qual a norma deveria ser obedecida por pais. Não encontramos referências ao funcionamento desses conselhos após 1886: a medida se tornou letra morta. da Escola Normal e professores do ensino primário (art. não duvidando em incluir no projeto 98 AMAZONAS. 17/3/1886. 2002. são funções que colocavam os professores nas mãos dos chefes locais. embora tivessem um certo grau de aceitação no Império.

mas demonstra que está a par do assunto. GF-Coleção Barão de Loreto). 99 . Paranaguá insistiu que este elaborasse o regulamento da instrução. 101 Foi a este amigo de família que solicitara a remessa dos regulamentos da Biblioteca Nacional e o da sua Biblioteca como guias para a regulamentação da primeira Biblioteca Pública do Amazonas. p. O Presidente do Pará e o diretor da instrução do Amazonas condenaram o espírito de imitação. alegando não ter encontrado no Amazonas quem pudesse incumbir-se de sua execução. em 1883 (A Constituição. p. em cartas enviadas ao deputado na Assembléia Geral e conselheiro Franklin Doria. Pela correspondência de Paranaguá ao Barão. vol. Manaus. 100 De junho a novembro de 1882.25. em 1883 e 1884. Pará. 15/2/1883. O advogado Franklin Americo de Menezes Doria (1836-1906). de obras recentemente publicadas acerca de instituições escolares. ele não o cita como modelo. Barão de Loreto. 18/01/1884 e 10/11/1883 (Arquivo Nacional. exerceu diversos cargos na administração imperial. referente aos estabelecimentos para educandos artífices no Brasil. 103 A recusa à cópia de iniciativas estrangeiras é comum nos relatórios destes presidentes. 1884. O capitão José 100 101 RPAM. 25/3/1883. 104 Embora rejeitassem a simples transposição de modelos de legislação e instituições educacionais.III e site da Academia Brasileira de Letras).) pondo-as logo em pratica”.32 e RPAM. I Fundaçao do museo escolar nacional. levando as reformas ao naufrágio ou a não passarem do papel (RPPA. Paranaguá recebeu também a coleção que escolhera. A reorganização do ensino primário. Sacramento.“muitos e muitos artigos transcriptos dos mencionados regulamentos”. p. vindo a ocupar o último gabinete da monarquia com a pasta do Império (BLAKE. sabemos que Dória mantinha o amigo informado a respeito do movimento da instrução na Corte e atendeu a seus pedidos. 1/10/1880. porém a adaptação da legislação referente às várias instituições educativas brasileiras não era recusada. Cartas de José Lustosa da Cunha Paranaguá ao Barão de Loreto. Rio de Janeiro. p. GF-Coleção Barão de Loreto). 9/11/1882.13. 104 A respeito da inspiração de modelos educacionais. como seus discursos e um exemplar dos "Documentos relativos á fundação do Museu escolar Nacional". 102 No mesmo período.. 16/11/1883) e publicou os Discursos proferidos na camara dos deputados em 1879. 102 Cartas de José Lustosa da Cunha Paranaguá ao Barão de Loreto. 27/8/1889. devido à grande diferença apontada entre os hábitos e o grau de civilização do Brasil e os dos “países cultos”. criada por Carlos Leoncio de Carvalho. I. 9/11/1882 (Arquivo Nacional.. o Barão de Maracajú informa no relatório à Assembléia paraense que reformou o regulamento do ensino na Província de Mato Grosso. os presidentes não se furtaram em enviar indivíduos em comissão de estudos da instrução popular na Europa. enviando-lhe publicações a respeito de sua atuação na instrução pública. das quais ele pretendia tirar as “boas indicações (. 103 RPPA.5). ver o capítulo 3. Na área educacional participou como sócio da fundação da Associação Protectora da Infancia Desamparada. Manaus.

art. quando o regulamento transferiu 105 RPAM. 1889. 105 A visita escolar: observando a escola e os modos de viver da população No Pará e no Amazonas. Na década seguinte. Verissimo viajou à Paris. como as do interior durante a década de 1870. tais como.18. Os governos selecionavam visitadores escolares entre bacharéis. saúde robusta e probidade. As escolas das capitais eram geralmente inspecionadas pelos próprios diretores. um tema freqüente de discussão nos meios oficiais da instrução pública. podendo este ser exercido por empregado público.financeiros. professores públicos e ex-diretores.60 e 61. com a função de inspecionar as escolas conforme designação do Presidente da Província. o Pará já tinha regulamentado o cargo de inspetor geral. impedidos pelo regulamento de perceber qualquer recompensa. a partir de meados da década de 1870. resultando em resoluções legais e medidas de aplicação das administrações provinciais. regulamentos de 9/4/1860.Fleury em 1881.14. sendo criado o lugar de visitador em comissão anual. 106 Desde 1864. exigia-se os predicados próprios à sua posição hierárquica e ao seu papel específico. inteligência. brasileiros de reconhecida capacidade receberam esta missão no país. no Amazonas. em comissões anuais. viajaram com a missão de visitar sistemas educacionais europeus e apresentar o relatório das suas comissões. em 1889. como comissionado do Pará na Exposição Universal de 1889. Essa situação se reverteu em 1872. não há mais referência ao cargo. e José Veríssimo. com a missão de estudar a seção de instrução pública. indicando que a função não estava imbuída de nenhuma especialidade ou profissionalização. p. pelas distâncias e empecilhos administrativo. munido de uma pauta que instrumentaria o governo na modernização do sistema educacional provincial (Cf. 10/1/1881 e RPPA. Pelo menos desde 1860. Inserido no degrau dos “empregados públicos de alta categoria”. as quais. As visitas escolares ficariam a cargo dos comissionados do governo em excursões a regiões onde existissem escolas. . A preocupação concentrava-se nas escolas do interior. podendo ser exercida por qualquer pessoa instruída. capítulo 3). nem mesmo auxílio para as viagens. conhecimentos acerca das matérias da instrução primária. no Pará. art. Neste período. estava prevista a função dos visitadores em comissão no Amazonas. 106 PARÁ. permaneciam nas mãos dos professores com uma ingerência muito precária dos poderes públicos. e de 13/1/1874. resultando alguns relatórios em avolumadas publicações. a fiscalização das escolas primárias públicas tornou-se. 100 .

previa inspeções extraordinárias. e n. por pessoas idôneas comissionadas mediante gratificação (art.29 de 16/3/1872. presidentes das províncias do Pará e do Amazonas se queixam do comprometimento do tesouro provincial com a criação e manutenção das escolas. quando o Amazonas. provavelmente pelo grande 107 108 AMAZONAS. Além destas tarefas. mas não se chegou ao ideal da inspeção anual das escolas.para os professores do liceu o encargo de visitar as escolas. o diretor da instrução no Pará em 1885. 107 A função ganhou legitimidade como atividade especializada que exigia qualidades específicas do executor. as falhas e a fiscalização insuficiente das escolas do interior foram exaustivamente criticadas pelas diretorias. devendo todas as informações ser apresentadas em relatório minucioso. situação condenada ao longo de todo nosso período. ao reformar a instrução pública. queria que todas as escolas da Província fossem inspecionadas uma vez por ano. Em vários relatórios.108. de 28/ 3/1883. em relatório circunstanciado. AMAZONAS.42. O regulamento previa para o cargo de visitador a função de inspecionar as escolas e os estabelecimentos de instrução do interior. anexo A-95.13.30 e 31. a freqüência e o aproveitamento dos alunos. de 14/12/1881. nem tampouco localizamos os relatórios dos visitadores nos jornais apoiados pelos governos. art. 109 Relatório da Diretoria Geral da Instrução Pública do Pará. A legitimidade do cargo é consolidada com o regulamento de 1881. Até o final do século XIX. regulamentos n. 101 . registrando-se as “queixas e votos dos pais de família”.54. mas nunca debelada eficazmente. criou dois “lugares de visitadores de escolas”. O regulamento n. 109 Nos anos 1880. p. regulamento n. 108 As leis enfatizavam a investigação sobre o procedimento moral e civil dos professores e a indicação das providências para a melhoria do ensino. considerando o testemunho das juntas paroquiais e dos “cidadãos qualificados da localidade”. Não havia uma sistemática na nomeação de visitadores (remunerados). e os procedimentos dos professores. a serem designados pelo Presidente da Província. In: 18/4/1885. art.12. 47. as duas províncias promoveram várias inspeções. 277). art. de 31/8/1864. passando a ter inscrição no orçamento governamental. Ao longo do período. As propostas de profissionalizar e remunerar os inspetores locais das escolas nunca chegaram a ser implementadas. os diretores da instrução não desempenharam mais a comissão devido ao gradativo aumento da complexidade de suas funções junto à Diretoria. verificando o estado material dos mesmos. a ser publicado no jornal oficial. em comissão auxiliada financeiramente pelo governo.

geralmente numa única viagem. a residir na capital. Ao final do Império. In: RPPA. p. de criar o cargo remunerado de “fiscal” da instrução. Sendo ele empregado público. a inspeção continuou a ser feita por visitadores escolares contratados eventualmente. 113 Relatório do diretor geral da instrução pública. lei n. que podia durar de um a três meses. onde o esperaria mais de vinte escolas para inspeção. p. art. 880. então aposentado. a ser exercido somente por pessoa de confiança do diretor e nomeada pelo Presidente da Província. o médico Joaquim Corrêa de Freitas. anexo 3 e RPPA.4). equivalente ao dobro do valor fixado em lei para os visitadores sem vínculo (funcional) com o governo 111 . 112 Relatório do diretor geral da instrução pública. cobria-se apenas o custo da viagem. Na década de 1870. Corrêa de Freitas lamenta não poder ter um visitador remunerado para cada comarca. visitou 83 escolas em quatro comarcas. mas não removeu totalmente o obstáculo representado pelas grandes distâncias para o acesso dos poderes públicos às “mais remotas fronteiras” das duas maiores províncias do Império. Um exemplo foi a proposta feita em 1889 pelo diretor da instrução do Pará. as visitas foram esporádicas e realizadas pelos governantes ou diretores da instrução. sugestão não encampada pela Província. como pode ser observado no quadro a seguir. O Amazonas intensificou a política de inspeção anual através da contratação de diversos visitadores pagos. Semestralmente. Ele sugere a contratação de um visitador para cobrir as escolas do interior. anexo 3.número de delegados nomeados. 15/2/1877. 110 Já o cargo de visitador era remunerado. As visitas dessas duas autoridades tinham conotações 110 111 Relatório da Diretoria Geral da Instrução Pública do Pará. anexo 2. 2/2/1889. Como exemplo. 102 . 112 O vapor possibilitou a adoção da instituição da visita escolar ao encurtar o trajeto entre os povoados. 14/4/1877. no ano de 1875. In: RPPA. por cada comissão. que. 113 Pelas informações prestadas pelos relatórios provinciais. Raymundo Nina Ribeiro. visitou 51 escolas de três comarcas. entre 1885 e 1888. 5o . 26 do sexo masculino e 25 do feminino. os diretores continuavam a lutar pela idéia.19. o diretor. O visitador fiscalizava um grande número de escolas. pelo menos no Pará. Em 1882. 15/2/1877. In: RPPA. 15/2/1883. em pouco mais de três meses. temos a viagem do diretor da instrução pública do Pará. PARÁ. ele deveria remeter à Diretoria um relatório sobre as escolas inspecionadas no interior e semanalmente comunicar as ocorrências das escolas da capital.

103 . com todos os benefícios que com ela se antevia para a difusão da civilização pelo interior das províncias. reforçado pela recepção nas localidades e nas escolas. sobretudo a associação que as autoridades faziam entre os costumes da população e as dificuldades em expandir a instrução. a seguir. mais as notícias dos jornais. Os quadros. estes textos. Infelizmente só contamos com um dos relatos dos visitadores comissionados. Notícias breves das visitas apareciam nos jornais e/ou nos relatórios provinciais.diferenciadas. Os jornais das duas províncias divulgavam algumas visitas. aliados aos diversos relatórios de diretores da instrução das duas províncias. Os presidentes impunham um caráter de solenidade ao ato. Já as visitas dos diretores tinham um cunho técnico e resultavam em relatórios descritivos e analíticos. Contudo. contratado pelo governo amazonense. relacionam as visitas escolares localizadas na documentação. para inspecionar algumas escolas do interior. Trata-se da obra Doutrinas pedagógicas e elementos de instrucção publica para uso das escolas de ensino primario especialmente das Províncias do Amazonas e do Pará. discorrendo a respeito das “causas do atraso” da instrução e das indicações para o seu “desenvolvimento”. do conselheiro Joaquim Nascentes de Azambuja. que aproveitavam a oportunidade para elogiar ou recriminar os professores. para análise. Gustavo Adolpho Ramos Ferreira. publicado como anexo ao relatório provincial em 1872. em 1883. indícios de suas repercussões entre os moradores das vilas. As visitas realizadas pelos presidentes do Amazonas em 1870 e 1875 foram retratadas em cartas enviadas aos jornais. Outro relatório de visitas a escolas do interior disponível é do diretor da instrução pública do Amazonas. principalmente quando os presidentes ou diretores as faziam pessoalmente. Eles podiam conciliar a visita com os exames finais ou pessoalmente examinar alguns alunos e alunas. nos permitem identificar alguns pontos importantes da discussão a respeito da educação popular e do cotidiano escolar locais.

Conselheiro. Deputado na Assembléia Provincial / inspetor geral interino das escolas públicas Lente de pedagogia da Escola Normal / bacharel Professor público Áreas visitadas No escolas Vilas de Silves e Serpa Relatório localizado Informes e cartas jornal e relatório prov. Parintins e do rio Solimões / Escolas de Aurão. Conceição. Itacoatiara e Parintins (7/9 a 7/12/1883) Carta no jornal Informe no jornal Livro (Azambuja. 4/4/1869. 18861887 Professores públicos / líder conservador quando vigário de Itacoatiara. quando votou contra a extinção da Casa de Educandos de Manaus Presidente da Província Dr. dr. anexo 3 1875 1877 Antonio dos Passos Miranda Domingos Jacy Monteiro Joaquim Maria Nascentes de Azambuja 1883 Escola feminina de Itacoatiara Em viagem aos rios Maués e Andirá. 1884?) 1885 Francisco Publio Ribeiro Bittencourt e Raymundo Agostinho Nery / Padre José Henrique Felix da Cruz Dacia / Elmino Álvares Affonso Lourenço Pessoa / Alfredo Sérgio Ferreira Alexandre dos Reis Rayol 1887 1888 1889 Escolas de Itacoatiara. mas não localizamos outras referências a respeito (RPPA. Parintins e Maués Escolas do rio Madeira / rio Solimões Informe nos relatórios prov. Codajás e Badajós / Escolas dos municípios de Itgacoatiara. Vila Bela. diretor da instrução pública no Espírito Santo. Informe no relatório prov. Rio Branco. Anderá. situadas ao longo do rio Figueiredo Tenreiro Solimões / Sem Aranha / João Wilkens (1874) / Presidente da Província em 1869-1870 informação de Mattos 114 Wilkens de Mattos informa que Ramos Ferreira visitava as escolas do interior anualmente.21). examinou alunos e alunas em Vila Bela Escolas do município da Capital. Presidente da Província Bacharel em direito. durante a licença do respectivo serventuário Capitão Bento de Professor primário em Todas as escolas Belém (1865) e Manaus. bacharel em direito. Abacaxis e Camunã RPAM. Informe no relatório prov.Relação das visitas escolares localizadas na documentação (1870-1889) Data Nome Formação/ Ocupação AMAZONAS Presidente da Província. deputado provincial em 1877. em medicina. engenheiro civil formado nos Estados Unidos. Silves. p. Informe em Braga (1980) e Uchôa (1966) Nomeação interina. ocupou cargos na administração pública e na Assembléia amazonense. Silves. em direito. 25/3/1872. 1870 João Wilkens de Mattos 1872 Gustavo Adolpho Ramos Ferreira114 Escolas do rio Negro e as de Serpa. 104 . exerceu cargos diplomáticos por 38 anos. diretor da instrução pública no Pará em 1879 Diretor da instrução desde 1867.

estudioso da educação. capítulo 1). Representava-se no cenário amazônico a luta pelo avanço do 115 RPPA. necessidades expostas pelas autoridades diretamente envolvidas com a educação do povo. Os discursos oficiais opunham a agricultura e a extração. pelo governo 1876 1877 Presidente da Província / 4 escolas públicas de Diretor da instrução Belém pública do Pará Ex-diretor da instrução pública do Pará 51 escolas das comarcas da Capital. 115 As expressões relativas às imagens construídas sobre a população amazônica serão extraídas dos textos. pelas quais a pujança da natureza constantemente ameaçava a cultura. 18/9/1889. 12/5/1860. Marajó e Vigia 57 escolas das comarcas da Capital.Data Nome Formação/ Ocupação PARÁ Áreas visitadas No escolas 83 escolas das comarcas da Capital. Cametá. p. In: RPPA. As tentativas de reforma da instrução pública se sucederam. todavia. Cametá e Igarapé-miry 1882 Informe no relatório prov. ex-médico da Comarca de Santarém. necessário para a análise dos discursos dos administradores e defensores da instrução na região. Travava-se um embate entre representações da selva(gem) e da civilização. Santarém. de Freitas Antonio Joaquim Gomes do Amaral Capistrano Bandeira de Mello Filho / Joaquim Pedro Corrêa de Freitas Joaquim Pedro Corrêa de Freitas filiado ao partido conservador Médico. Anexo. e no jornal Informe no jornal 1875 Joaquim Pedro Corrêa Formado em medicina. mas esbarravam na necessidade da reforma da vida indiana e na remoção dos preconceitos da população em relação às inovações educacionais. É principalmente quando se discute a educação nas duas províncias que a descrição dos modos de vida da população aflora.34 (Cf. p. Informe no relatório prov. Óbidos e Bragança Relatório localizado Informe no relatório prov.32. 105 . costumes e modos de viver da população na imensa e isolada região. nos obrigando a um certo abuso nas citações. Relatório da Diretoria da Instrução Pública do Pará. quando se recomendava veementemente o domínio do cultivo sobre a coleta. Modos de viver das famílias versus a instrução da infância Uma questão presente nos diversos escritos da instrução refere-se aos obstáculos impostos à sua difusão pelos hábitos. geralmente de forma crítica e pessimista.

a atividade conheceu nova organização. porque a independencia.188). 117 Não é demais lembrar que a dedicação da população à extração de produtos naturais em detrimento do cultivo era uma representação dos grupos dominantes da região. do açúcar e do algodão. p. e a moral reivindica o seu direito.progresso e da civilização sobre a natureza e a barbárie de seus habitantes. os caboclos. na companhia da mulher e dos três filhos pequenos. “ambulante”. como a do café. o discurso que inviabilizava a conciliação entre agricultura e extração podia ser confrontado quando se “pinta ao vivo a maneira de viver d´aquella gente”. os índios. para occupar-se da lavoura. sendo que na fase do “rush” (1890-1912). o trabalho nos seringais foi realizado predominantemente pela população local. 116 MIRANDA. nas quaes reina a abundancia e o bem estar. não tendo sido desenvolvida nenhuma melhoria tecnológica para aumentar a produtividade. Antonio Manuel Gonçalves. Julião Honorato Corrêa de. isto é. A “educação mais regular” só se viabilizaria com a opção pela lavoura. 1872. um deles ainda de peito. Em praticamente todo o Segundo Reinado. 117 No entanto. Os dois engenheiros. Tamanha oposição não deixaria de afetar a educação da população e a solução apontava para a vitória das armas da vida civilizada. os mestiços. pondera Hideraldo Lima da Costa (1995. o espírito da família se desenvolve. da população dedicada à extração de produtos naturais. cujos proprietarios tinhão abandonado o trafico da borracha. principalmente das autoridades do Estado. 6. TOCANTINS. a mudança do modo de viver da população. após a exploração empreendida pelo rio Tapajós.”116 A lavoura implicava na mudança considerada fundamental por vários atores envolvidos no estudo e na reforma da instrução no Pará e no Amazonas. Contudo. região habitada pela “população índia”. e incompreensível o fato do “bom trabalhador” expor sua família a privações e riscos quando possuía uma excelente casa. Após um dia de intenso trabalho. posição expressa por Corrêa de Miranda e Gonçalves Tocantins. No chamado “período do rush”. Ou seja. p. armavam a rede na praia e dormiam ao relento. O rendimento do trabalho de todo o verão foi considerado irrisório pelos exploradores. O homem viajava em sua pequena canoa. a atividade atraiu enormes levas de nordestinos. e a paz e felicidade domestica nunca deixam de vir coroar os esforços do lavrador. no abandono da “vida errante”. comissionados pelo governo paraense. ao descreverem uma família que se dedicava à extração da goma elástica e a uma “boa plantação de café”. denominada de modelo do “apogeu” por João Pacheco Oliveira Filho (1979). Os estudos mostram que a população associava a atividade da extração com a agricultura de subsistência e comercial. os filhos recebem educação mais regular. observaram que “homens sensatos” já resistiam à fascinação dos seringais: “Vimos varias casas. expressão empregada pelos mesmos engenheiros que exploraram o Tapajós. 106 . A agricultura diversificada e em pequena escala da região foi freqüentemente interpretada como sem importância econômica frente à grande monocultura implementada em outras províncias. a cultura e os modos de vida dos regionais foram fundamentais para que os nordestinos recém-chegados se tornassem seringueiros.

portanto não faltou oportunidade de conversar e entender os motivos da opção de vida de seus membros. As viagens eram longas e perigosas. Antonio Manuel Gonçalves. portanto. Chegam a afirmar que.terras férteis e a plantação. e instrução dos filhos sem interrupções lhes pareciam. homens livres e independentes. o próprio exemplo dado pelos autores para a ilustrar indica que os trabalhadores tinham outras alternativas. a visão do que seria um lucro compensador frente a tamanho sacrifício parece ter obstaculizado qualquer possibilidade de compreensão do outro. especialmente a extração da borracha. estes “verdadeiros autômatos” se tornariam cidadãos. relacionando as referências que as guiavam. que só o progresso. Costa focaliza os textos dos viajantes e não os documentos oficiais da região. e até os “índios mais 118 Hideraldo Lima da Costa (1995) analisa as representações dos viajantes estrangeiros na Amazônia do século XIX. as elites locais. Para o autor. responsáveis por seus atos. que “vive em completa ignorância de seus interesses e de seus direitos”. cultivavam suas roças. 119 MIRANDA.”119 De forma alguma é nossa intenção questionar a exploração sofrida pelos índios e caboclos na coleta do látex e preparo da borracha. como a perspectiva da acumulação de capital a partir do trabalho dis ciplinado e metódico. no entanto. especialmente os administradores do poder público. valores e julgamentos morais pelas autoridades não são dimensionados. acumulação de um certo capital. Os engenheiros tiveram a companhia da família citada em um trecho da viagem. a apreensão e o uso deste repertório de teorias. a instrução e a introjeção dos preceitos da vida civilizada seriam capazes de superá-la. atuando os viajantes como “formadores de opinião”. 118 Um aspecto ressaltado pelos exploradores refere-se à condição da população índia do Tapajós. preceitos capazes de levar à rejeição de outros modos de viver. Este tipo de leitura sobre a incapacidade dos indivíduos gerirem as suas vidas era associada ao tipo de atividade econômica a que se dedicava m. porém. como o café e o tabaco. Morada e trabalho fixos. TOCANTINS.9. 107 . Somente com a penetração dos “raios da civilização”. seres sem iniciativa. os gêneros de primeira necessidade caríssimos e a borracha vendida aos regatões gerava um “lucro puramente ilusório”. a quem obedecia cegamente. Percebia-se no trabalho e no tempo dos amazônidas. submetida à “tutela de um patrão”. uma inferioridade em relação aos seus países. “A falta de braços livres para o trabalho parece-nos resultar antes do modo de viver da população. 1872. alguns comercializavam produtos agrícolas. como a outros viajantes na Amazônia. Julião Honorato Corrêa de. p. condições mínimas para uma existência nos moldes das modernas civilizações do Ocidente. Longe de serem autômatos. conceitos. corroboravam da mesma visão.

se queixa que parte das escolas era pouco concorrida devido à estação da colheita da borracha. passa uma vida errante. Antonio Manuel Gonçalves. relação selada na afirmação de que. não póde receber educação alguma. e occupando-se mais com a extração dos productos naturaes. indispensáveis.. 108 . In: RPAM. o que os viajantes encontraram na região foi uma escola com apenas sete alunos. A incompatibilidade entre a cultura da terra e o extrativismo é sugerida. que é quasi nulla. op.7 e 9. por afastar as crianças das escolas durante o verão. Joaquim Pedro Corrêa de Freitas. “Pobrissimas. A atividade seringueira.5. 122 Relatório da Diretoria Geral da Instrução Pública da Província do Amazonas. do que com a cultura da terra. perus. O diretor que mais tempo passou à frente da instrução pública no Pará informa que vinha fazendo estudos sobre a instrução 120 121 MIRANDA. TOCANTINS. anexo 3.”121 Outros documentos oficiais atribuem à extração de produtos naturais a predominância de analfabetos nos lugares mais distantes das freguesias. e ás vezes. em geral. que raras vezes lhe permite manter na escola os filhos. Gustavo Adolpho Ramos Ferreira. O diretor da instrução do Pará. é também culpada pelo descuido com a educação. 120 A instrução seria um dos instrumentos para o cultivo da inteligência. p. Julião Honorato Corrêa de. Seguindo a retórica dos discursos sobre o desleixo dos pais com a instrução (escolar) dos filhos. As famílias eram. Op. galinhas e algumas cabeças de gado. seguindo a tônica do discurso oficial. “A população. os autores se mostraram pessimistas quanto à melhoria da geração futura. a borracha aparecia como o grande vilão. No entanto. p. que se embrenha pelos seringaes. p.20. que contava 33 casas bem construídas e muitos meninos entregues à ociosidade ou a outros misteres. além das pequenas fazendas de gado existentes nas ricas terras do Tapajós. quando os povoados eram abandonados por muitos de seus habitantes. na vila de Itaituba.civilizados” criavam carneiros. cujos serviços cedo principião á ser-lhe úteis.. 25/3/1872. cit. já responsabilizada pelo “atraso da agricultura” na região. patos. em seu relatório sobre a inspeção às escolas do rio Negro e de outras localidades. cit.” 122 Dentre as atividades extrativas. no segundo semestre do ano. Este é o argumento utilizado pelo diretor e visitador de escolas públicas do Amazonas. definida como “a primeira de todas as forças produtivas”.

e nessa época as escolas são pouco concorridas. p. de se internarem com suas familias pelos mattos em busca daquelle producto. os meninos que já alguma cousa sabião. Os resultados levaram-no a polarizar o extrativismo e a agricultura. op. “Primeiro. que quanto mais disseminada é a população. AZAMBUJA. 1884?. como acontece nas comarcas da Vigia e Bragança. As povoações são assim dizimadas. as escolas. e a sedução exercida pela exploração da goma elástica. relacionou “a indústria da borracha” como a principal responsável pelo abandono da escola e pelo retrocesso no aprendizado dos meninos: “Esta é a primeira causa da deserção de nossas escolas pelo habito em que estão os seringueiros na estação propria da colheita. Novamente surge a questão da dedicação dos mestres a outras atividades. e essa falta de estabilidade lhes tolhes todo o movimento de progresso.XLI. É o que se observa nesta provincia e na do Pará. que nos lugares em que a população entrega-se á extracção da borracha. 125 AZAMBUJA. Freitas faz a seguinte afirmação. p. tudo deixando abandonadas as casas de sua residencia. objecto principal de nossa exportação.80.46. além da docência.”123 O visitador das escolas públicas do Amazonas. o visitador. deixou o mesmo tipo de testemunho quanto aos estragos da atração da borracha no progresso da Província. 109 . menos freqüentadas são as escolas. em 1883. p. move-se com assodamento.nas diversas paróquias da Província. 15/2/1877. filhos. em certa epoca do anno. e a freqüencia nos diversos mezes do anno é quasi sempre a mesma. ficão quasi despovoadas. Legitimado pela observação. se nada sabiaõ. Coincide esta romaria com o segundo semestre do anno.”125 Azambuja só enxergou uma saída para a educação dos filhos dos seringueiros e dos índios menores que viviam nas “selvas e nas margens dos rios. anexo 3. segundo. cit. arrastando comsigo mulheres. periodicamente. pois “A população move-se em busca de um pretendido Eldorado.. conselheiro Joaquim Azambuja. sob a perspectiva da freqüência às escolas. ao passo que a que vive da lavoura ou da pesca. aggregados. tem nas escolas grande numero de alumnos matriculados. pela falta de estabilidade de seus habitantes. porque não ha mestres para dar-lhes a devida instrucção. Joaquim Maria Nascentes de.” 124 Como resultados de suas “observações e estudos”. hoje em completo 123 124 Relatório do diretor geral da instrução pública. In: RPPA. Voltaremos ao tema mais adiante. desaprendem. continuaõ analphabetos.

110 . para o diretor amazonense Ferreira Ramos. 128 MIRANDA. op. a “vida nômada” devido ao fabrico da goma elástica e à colheita de vários produtos continuará a importunar os gestores da instrução no Amazonas e no Pará. ao inaugurar-se a associação protectora da infancia desvalida na Côrte. o diretor simplesmente 126 AZAMBUJA. esperando da primeira a celebração freqüente dos atos religiosos de forma a atrair os habitantes para os centros de população. a ser sanada com a criação dos asilos.45-46. estavam entregues a seus próprios recursos. a adaptação programática à realidade local. visando a educação profissional e agrícola dos meninos. 126 O abandono dos pequenos índios a que se refere o autor está pautado na carência de catequese e civilização.80. A educação e a instrução visavam a aquisição da “pratica dos direitos e deveres sociaes”. e da escola. O mote “governar é fazer o bem” exigia muita determinação dos administradores para ser aplicado.20. Os engenheiros anunciavam a navegação a vapor no baixo Tapajós. p. por contrato já firmado pelo Presidente do Pará com a Companhia do Amazonas. cit. Ferreira Ramos. Antonio Manuel Gonçalves. p. impedindo-os de “desterrar a ignorância” dos sertões amazônicos. Julião Honorato Corrêa de. p. que em breve estaria ligada à capital. inculcando. as quais. 127 RPPA. de modo que os meninos regressassem às famílias que não podiam prescindir de seus serviços. O autor recomenda como de muito interesse para a Província a conferência do Conselheiro Leoncio de Carvalho. onde “as vistas do governo. clamou pela ação missionária e educacional.. 127 A população é acusada de viver embrenhada nas matas. TOCANTINS. a promover uma verdadeira “revolução econômica” na região.abandono”: a criação de asilos nas cabeças de comarcas e em diferentes pontos culminantes no interior do Amazonas. reduzindo o ensino ao estritamente necessário. o qual. O diretor da instrução amazonense.lhes o gosto pelo trabalho e tornando-os “mais sedentários e emancipados dessa lida aventureira e precária de seus progenitores e patrões”. 128 Os autores citados vislumbram na melhoria dos meios de comunicação uma das soluções para este isolamento das famílias. Explicitando de forma mais concreta o que se podia esperar da educação dos meninos pobres do interior. Até o final do século. Joaquim Maria Nascentes de. a sua ação benéfica e a regular administração da justiça difficilmente podem chegar”. propoz que se lhes desse um caracter pratico e profissional”. A meta consistia em oferecer aos meninos a educação e a instrução suficientes e no menor espaço de tempo. “derramou muita luz sobre a organisação do ensino nestes estabelecimentos. 15/2//1877. 1884?.

aparentemente contraditórias. incremento e importancia ás localidades em que funccione esta instituição” – assim Azambuja expressou a posição estratégica que os 129 Relatório da Diretoria Geral da Instrução Pública da Província do Amazonas. como outros autores/atores educacionais. In: RPAM. quando. A autoridade reproduz a visão das elites a respeito das atividades laborais dos amazô nidas. “Os professores e a acção do Governo darão mais vida. compunham importantes desafios visualizados no período. 111 . e pressuposto da presença do Estado junto a grupos populacionais e territórios que escapavam de suas vistas. claro está que este não coincide com o conceito de “trabalho” por ele chamado de “lei fatal da humanidade”.5-6. prescindia de um tipo de vida e trabalho em outros padrões. Ramos chamou este trabalho realizado junto à família. de “serviços”. e adaptar a escola às condições de vida das famílias. de acordo com as tradições de seu grupo familiar e social.29 e 39). mas de apontar o fortalecimento de uma retórica do discurso transformada em verdade inquestionável. associadas aos modos de uma vida errante do que propriamente ao trabalho direcionado ao progresso da nação e ao disciplinamento da população. 130 Não entramos no mérito de negar a influência dos modos de vida da população sobre os resultados escolares. em um mesmo trecho de seu relatório. inspirado nos moldes europeus. Ramos. anexo 3. cabia aos professores convencer aos pais da necessidade de “habitual-os ao trabalho desde a infância”. atraindo-a aos núcleos de povoação. p.afirma que. Claramente a escola era percebida como um instrumento a mais na introdução das forças civilizadoras na indomada região. Tornar a população sedentária. o esforço se concentraria no afastamento temporário da criança do trabalho familiar para que na escola fosse educada e instruída. 25/3/1872. sendo “o trabalho uma lei fatal da humanidade”. conferiu à vida autônoma das famílias o afastamento dos filhos das escolas. o que a esperava era uma vida de trabalho. transformados freqüentemente pelas autoridades em obstáculos quase que intransponíveis. 130 Barbara Weinstein (1993) chama a atenção para a mobilidade da população dedicada à extração do látex na Amazônia imperial e para o fato dos trabalhadores possuírem um certo grau de controle sobre as suas atividades (p. O modelo escolar implantado no Brasil. Inicialmente. 129 É surpreendente que Ramos fizesse todas estas considerações a respeito do trabalho. e para que? De forma que introjetasse o valor do trabalho.

porque pudemos perceber esta forma de uso nos textos. portanto. vivências e usos da escola As três categorias citadas no título acima são referendadas na documentação em relação às povoações e escolas do interior. In: RPPA. e as lideranças entre os moradores são sempre relativas às cidades. As visitas que fizera às escolas dos pequenos povoados em 1875-1876. D.46. 132 Relatório do diretor geral da instrução pública. que circulavam nos diversos textos relativos à educação. alocado em Belém e Manaus. seus autores não se preocuparam em descrevê. Entre pais. o Bispo do Pará.XLI. 131 A dissonância entre a vida no interior e na capital do Pará é apontada pelo diretor e visitador escolar Corrêa de Freitas.asilos para a infância teriam no interior do Amazonas. 112 . as quaes formão a maioria da população. Neste período (1883). Os asilos nunca chegaram a ser implantados pelo governo amazonense. 1884?. chefes de família e mandões d’aldeia: imagens. Os pais são geralmente lembrados quando se tenta expor a indiferença. “Pela capital não se póde fazer ideia do que é o interior da provincia no modo de viver dos seus habitantes. p. para educação profissional de meninos pobres e indígenas das duas Províncias. na capital só não freqüentava escola ou não aprendia quem não queria. a categoria surge 131 AZAMBUJA. especialmente as classes menos favorecidas da fortuna. p. vilas e povoações afastadas do centro do poder público. o autorizou a afirmar que. obtendo de ambas subsídio público.”132 Segundo o diretor. e para o demonstrar. Joaquim Maria Nascentes de. apesar de ser notório à época que tais estatísticas eram prejudicadas pelas informações adulteradas e por omissões no arrolamento. em área rural próxima a Belém. O interesse pela “educação do povo” não era o mesmo nas paróquias. ele compara as paróquias e freguesias por número de alunos e população. São categorias extraídas do senso comum.las com maior acuidade. o Instituto “Providência” de Artes. Dificilmente são encontradas referências às famílias das capitais. Antonio de Macedo Costa fundou. mas no interior a falta de escolas nas localidades necessitadas e a pobreza dos alunos impediam a matrícula e a freqüência regular às mesmas. anexo 3. a repugnância e a ignorância manifestadas quando se trata da instrução dos filhos. Pais e chefes de famílias são tratados aqui como duas categorias diferenciadas. portanto. comprometendo a aplicação do regulamento da ins trução pública junto à população. Ofícios e Agricultura. 15/2/1877.

Vimos no primeiro capítulo deste estudo. Dentre as causas que concorriam para retardar o desenvolvimento da instrução pública na Província. associada aos pequenos núcleos populacionais. Ramos Ferreira propôs que o ensino nas escolas das pequenas localidades do Amazonas se restringisse ao estritamente necessário. priorizando-se o ensino moral e religioso. In: RPAM. exigida pelos missivistas. a educação oferecida deveria ser diferenciada. na hora do planejamento. anexo IV. conforme as “necessidades da população”. p. No período 1870-1889. outra referência negativa. Os chefes ou pais de família. geralmente estão relacionados aos poderes do Estado. 25/3/1871. No entanto. porém. A indiferença dos pais pela instrução dos filhos é uma das principais causas atribuídas ao “atraso da instrução” na região. haveria maior recepção dos pais à instrução da infância. representantes das câmaras municipais e juizes. posição defendida por outros administradores.carregada de negatividade. podendo-se ampliar o ensino público. tais como. militares. para o diretor da instrução amazonense. Mandões podem ser os homens mais ricos da localidade. em todo o Segundo Reinado. como o tema é recorrente na documentação sobre educação. Já nos grandes povoados. os pais do interior serão lembrados principalmente por este descuido. as propostas vão de encontro às percepções dos gestores sobre as necessidades do povo. 133 A ênfase neste tipo de formação denota bem qual era a imagem das elites letradas sobre a população que vivia “disseminada” na região. especialmente no Amazonas. habitados por uma “população mais desenvolvida pela educação”. são lembrados como vítimas da incúria de professores e inspetores escolares. publicadas nos jornais. Os mandões são os chefes locais. Portanto. sem deixar de evocar os traços indíge nas dos modos de vida de grande parte da população.2 e 4. explicado pela “indiferença senão repugnancia pela instrucção da infância” nos lugares distantes e pouco povoados. No relatório do ano seguinte (1872). respaldado pelas visitas feitas a escolas do interior. quando se sentem aviltados pela imoralidade ou incompetência dos executores da instrução. Assim. basicamente citados nas cartas de moradores. em sentido positivo. O termo impõe uma respeitabilidade. 113 . a primeira arrolada foi a “indifferença ou repugnância da população pela instrucção e educação da 133 Relatório da Diretoria Geral da Instrução Pública da Província do Amazonas. sempre empregados pelos autores de forma pejorativa. Ramos Ferreira volta ao tema após analisar o estado da instrução no Amazonas. Eles mandam na aldeia.

2. O “mandão d’aldeia” é transformado pelo olhar religioso no “anjo tutelar deste povo”. que. no decurso da vida. 25/3/1872. p. 135 RPPA. os conceitos de instrução e educação se diferenciam e se tornam objetivos do ensino público. In: RPAM. 114 . no jornal da diocese do Pará A Boa Nova. mas não se furta de expor um problema interno à educação oferecida pelas escolas. não é possível resgatar o tempo de permanência das crianças nas escolas. como mostrou Alessandra Martinez (1997) ao analisar a instrução na Corte. Tal aspecto foi somente analisado para o caso do Pará. (. 25/3/1872. “A educação tem por objecto e fim principal os costumes.”135 A permanência de oito anos na escola é surpreendente quando se está referindo a pais que não dariam importância à educação oferecida pelo Estado. habituando o homem á incessante abstenção do mal e á pratica constante do bem. e. grifo nosso). dificuldade vivida por outras províncias.. que buscou a 134 Relatório da Diretoria Geral da Instrução Pública da Província do Amazonas. anexo 3. p.4. conseguiu vencer a repugnância de muitos pais. O diretor amazonense preocupou-se em distinguir os dois objetivos ao discorrer sobre o estado da instrução na Província. “A instrucção tem por objetcto e fim principal o desenvolvimento da intelligencia e a acquisição de copia d´idéas que s irvão para alcançar novos conhecimentos no decurso da vida”. Pela documentação disponível. Segundo o jornal. o tenente-coronel residente no Mosqueiro. p. os relatórios informam que a continuidade dos estudos primários de 2o grau não despertava o interesse da população. a repressão dos máos instintos e o desenvolvimento das qualidades nobres do coração. cit. já que os relatórios amazonenses não empregam a categoria tipo ou nível da escola na estatística escolar.. O militar hospedava o Bispo do Pará. tornando a freqüência escolar digna de nota para uma população tão diminuta. á si e á humanidade de que faz parte” (Op. o diretor acusa a ignorância dos pais. levando-o a “aconselhar” os pais a mandarem filhos e filhas às escolas.infância”. Neste período.) a repugancia [provém] da demora prolongada dos meninos nas escolas. 25/3/1872. evidencia como a noção da importância formadora da escola podia ser apropriada por um chefe local..2. nem tampouco os resultados do ensino. 134 Neste ponto. Uma notícia publicada em 1873. sobretudo por ter estabelecido um “cordão sanitário” no local contra as “perniciosas e subversivas doutrinas” divulgadas pelas idéias maçônicas da folha O Pelicano. Quanto aos anos de estudos. como já mencionamos. o habilitão para ser util. Para Ferreira. D. Macedo Costa. a não ser pelos exames finais dos quais poucos obtinham resultado favorável. de onde sahem no fim de 8 ou mais annos com pouco ou nenhum resultado. anexo 3.

1/10/1873. também para cada sexo. 115 . As seções oficiais dos jornais. 137 RPPA. propõe o incremento da “inspeção amovível das escolas”. “As escolas. esperando dele não só o reconhecimento da utilidade de instruir o filho. o ensino primário particular estava bem aquém (freqüência de 1. tornando-os aliados dos governos na causa da instrução do povo.105-107. onde os “pais de famílias” teriam uma participação estratégica ao relatarem suas queixas e votos.680 alunos). e onde residisse 300 indivíduos. sendo 15 internatos). onde eram publicados os “despachos da presidência”. considerou excessivo e desnecessário o número de estabelecimentos particulares no Estado (34. é defendida em mais dois relatórios oficiais da década de 1880. Este foi um período de debates efervescentes a respeito das querelas entre os maçons e os bispos do Pará e de Olinda. mas que tomasse “contas ao mestre. apresentando uma série de propostas para ampliar o número de escolas e garantir a freqüência dos alunos. insatisfeito com as lutas políticas que comprometiam a fiscalização dos inspetores permanentes. sendo o principal fiscal e cooperador da honrosa tarefa de desenvolver a instrucção” – “não é conveniente esperar tudo do Estado” – defende Vicente de Azevedo. O diretor da instrução no Pará. e muito inferior ao ensino primário público até o final do Império.18. 137 A fiscalização das escolas pelos pais de família. irrelevante numericamente no Pará e no Amazonas em meados da década de 1870. disse eu. p.240 alunos). personagens da chamada Questão Religiosa. In: RPPA. chegando a propor que em cada localidade onde houvesse a aglomeração permanente de 120 habitantes. comparado com o ensino primário público (417 escolas. 138 136 A Boa Nova. 15/2//1874. José Veríssimo (1892). p. freqüência de 9. através das representações contra professores. anexo A. Entretanto. o Presidente do Pará volta-se aos pais. são o direito das populações”. uma efetiva.tranqüilidade da bucólica ilha para cuidar da saúde e de seu fiel rebanho. tendo rezado missa e explicado o evangelho de modo a ser compreendido pelo povo da freguesia. 18/4/1885. a serem registrados no relatório do visitador e publicados no jornal oficial. nos advertem que esta participação ocorria por iniciativa dos próprios pais. indicando ter expectativas mais amplas com relação ao “pai de família”. fosse instalada uma escola elementar para cada sexo. 136 Ao discorrer sobre as casas escolares na capital. diretor da instrução paraense em 1890. preocupado tanto com a fiscalização das escolas e dos professores quanto com a precariedade do ensino particular. 138 Relatório da Diretoria Geral da Instrução Pública da Província do Pará. proclamou o diretor da instrução paraense em 1885. cabendo ao governo capitalizar essa verve fiscalizadora das famílias.

RPPA. entraram em acordo com os professores e com a administração pública. pedindo o restabelecimento das escolas masculina e feminina. nível de escolaridade.A extinção de escolas com menos de 20 alunos.23. 141 RPPA. visando manter os filhos nas escolas. onde não houvesse escola pública ou subvencionada pela Província. p. p. as quais. a instrução primária que tanto preocupara seus defensores quantos aos meios de torná. no 2o . o leitor é informado que o professor designado para a povoação de Badajós assumiu a cadeira em abril do mesmo ano. 28/8/1879. No relatório de 1879. dá indícios de estar sendo incorporada pela população como um direito. p. conforme a “conveniencia dos ditos moradores e em aproveitamento dos alunos”. no 1o distrito. e de julho a dezembro. dentre outras características. p. que a pedido dos moradores. pelo Presidente do Pará. mas é um registro importante que assinala que os pais não permaneceram impassíveis frente às políticas de criação e extinção de escolas adotadas pelos corpos de deputados da Assembléia Provincial e pelos administradores. As cartas e abaixo-assinados publicados nos jornais indicam este pressuposto. 116 .8 e RPAM. embora não saibamos que pais eram esses. sob a administração de Pereira da Silva.139 Este tipo de reação das famílias e protetores r aramente é mencionado na documentação oficial. 17/1/1875. posição na comunidade. conforme é relatado em 1875. suas condições de vida e atividades laborais.36. 142 139 140 RPAM. 142 A lei n. Outra mudança foi concedida à professora da freguesia de Nossa Senhora do Carmo do Tocantins. passou para o lugar denominado São Benedito. solicitaram e obtiveram autorização para alternar entre dois distritos o funcionamento das escolas: de janeiro a junho. a criação de novas escolas e apresentando queixas de professores. do interior do Amazonas em 1877. As mudanças podiam estar relacionadas às atividades laborais das famílias. levou os moradores de Badajós a dirigirem um abaixo-assinado ao governo. Os habitantes de vila Franca. 140 Pedidos de mudanças do local da escola também chegavam à Diretoria da Instrução. É o que o indicam os pedidos ou abaixo-assinados requerendo a estatização de escolas primárias particulares. 25/8/1878. 1878.17. acordados com os professores. mostrando que os abaixo-assinados repercutiam nas decisões governamentais.la obrigatória.1547 de 1883 previa no artigo 43 a subvenção pelo governo paraense à escola particular freqüentada por mais de 15 alunos. 141 No decorrer dos anos.

não podendo recusar a matrícula aos alunos que a procurassem. Abaixo-assinados como fonte para a história da educação brasileira do século XIX. Rio de Janeiro: Faperj. 2a discussão do Projeto n.23. vindos das mais diversas localidades. 27/8/1889. que passa a reivindicar a criação de escolas e o compromisso do professorado com o ensino. 2002). agora para reclamar a respeito das faltas do professor elementar do lugar Tupinambá. 144 Relatório da Diretoria Geral da Instrução Pública da Província do Pará.O conselho diretor da instrução do Pará. mas instigada pela percepção da legitimidade do processo por uma parcela da população. etc. as reivindicações de moradores. 25/3/1886. Daniel. 145 GONDRA. Na discussão da lei pelos deputados provinciais. Assembléia Legislativa da Província do Pará . 2001. Poderes da Assinatura. José e LEMOS. In: RPPA. quase todas afastadas da Corte. Trabalho integrante do projeto “Idéias de Escola: fontes. evidenciam a crescente escolarização do Pará. 145 tendo direito a uma subvenção anual de 400$. evidenciam que a escolarização não pode ser reduzida a um movimento resultante de um projeto do Estado. pedindo que a escola particular aberta pelo professor com a freqüência de 18 alunos fosse considerada elementar (pública). (Citado por SCHUELER. 143 Ao final dos anos 1880. 143 RPPA. localizadas em áreas onde o ensino público se apresentava mais precário. Para os autores. recebeu em 1885 um abaixo-assinado de moradores da povoação Jauacá. Outro abaixo-assinado é citado no relatório.33. redigidos por moradores das diversas freguesias da cidade do Rio de Janeiro entre 1869 e 1888. p. fomentando uma demanda que o governo não teria como atender. decorrente não apenas de uma política de governo. os pedidos de criação de escolas provisórias chegaram a incomodar a Diretoria da Instrução paraense pelo tom imperioso e exigente dos solicitantes das mais longínquas localidades. pais e demais envolvidos no ramo. entre outros. organização e cultura escolar na cidade do Rio de Janeiro (1824-1890)”. pais de famílias. p. solicitando que o mesmo “não continue a abandonar sua escola em prejuízo do serviço da instrucção publica”. criado para auxiliar os diretores na avaliação das reclamações. José Gondra e Daniel Lemos analisaram uma série de abaixo-assinados. comerciantes. Sessão ordinária em 11/4/1883. a opinião defendida pela maioria era a de que a “confiança dos pais de família” era muito mais valiosa do que a da presidência na escolha das escolas a se tornarem elementares. de professores. 1547). sem se considerar as demandas de parte da população no sentido da extensão da rede escolar. 27/7/1883. pois implicariam em abrir escolas por todos os pontos da Província. através do subsídio estatal (A Constituição. pedidos. 144 Os abaixo-assinados. O diretor Americo Santa Rosa considerou muitos deles desarrazoados. Alessandra. 117 .

ressalta que os presidentes de província exerciam um papel articulador do sistema clientelista entre as províncias e o governo central. O reclamante anexo u ao recurso interposto ao governo. Os combates ao patronato e à politicagem na instrução pública Richard Graham.Os atos da Diretoria da Instrução. o professor acionou apenas o testemunho dos homens cujas posições na escala social teriam condições de legitimar o seu pedido. p. 1997. vários documentos comprobatórios de sua competência e seriedade. emperravam a operacionalização das metas oficiais e das expectativas dos beneficiários do sistema. 5 e 6/12/1885. pela análise empreendida até o momento. especialmente do Pará. O apadrinhamento constituía o principal instrumento de cooptação de partidários leais ao Gabinete. acabavam por se constituir em fator de mobilização dos chefes de família em favor dos professores. levando os presidentes a intervir em numerosos assuntos. vários pontos que.86. no estudo sobre Clientelismo e política no Brasil do século XIX . O professor constituía alvo privilegiado das investidas dos reclamantes. é o uso politiqueiro do serviço da instrução pública o maior problema identificado por aqueles envolvidos direta ou indiretamente nas questões relativas à difusão do ensino nas províncias. pequenos e grandes. O professor normalista. contra a sua vontade. para daí serem encaminhadas à diretoria de instrução. com o objetivo de gerar dividendos eleitorais a favor do Gabinete. interferindo diretamente nas escolas à revelia dos interesses locais. que preferiam remeter suas queixas e reivindicações relativas às escolas públicas diretamente a o presidente da província. no Pará. entretanto. Vimos. 147 Esta observação é corroborada pelas cartas de pais de famílias e moradores do interior. 118 . cujos filhos estudavam na dita escola da vila. Um exemplo contundente refere-se à reação dos pais de alunos que freqüentavam a escola masculina de Soure. Richard. incluindo atestados do presidente da câmara municipal de Soure e de alguns proprietários e comerciantes. 146 A escola era freqüentada por crescido número de alunos. tendo sido transferido para Quatipurú. especialmente no Pará. conseguiu mobilizar as lideranças locais a seu favor. GRAHAM. 146 147 A Província do Pará . Entretanto. segundo os atores envolvidos na trama da instrução.

tanto os governos de conservadores quanto os de liberais. que não apenas a ingerência direta da administração provincial e das autoridades locais. nos aspectos que intervinham diretamente no cotidiano escolar. tão repetidamente chamadas de os “mandões d´aldeia”. podendo se mover ou ser movimentada de acordo com o jogo político em ação. Cabral viu na medida um anacronismo com relação à época. Discursos pronunciados na sessão ordinária em 3 de abril de 1883). liberal ou conservadora. assim expressando a sua indignação: “Quando no seculo XIX uma Assemblea prejudica o ensino publico para proteger a dous amigos politicos de um modo tão escandaloso.O professor é um agente importante na dinâmica do clientelismo na instrução pública. basta apontar o facto. sobretudo quando opositoras dos governos. ora como vítima do partidarismo. sendo da situação. Ora apresentado como acionador do patronato. a demissão de professores e a nomeação de substitutos. sofreram intensa campanha da imprensa adversária contra o uso da estrutura da instrução pública para beneficiar protegidos e punir opositores políticos. ele era uma peça sensível às condições políticas do momento. passavam a ocupar o lugar do abuso do poder em prol de seus interesses eleitorais. É importante lembrar que as relações clientelísticas ocorriam por outras vias. 119 . e presidida pelo polêmico cônego Siqueira Mendes. Portanto. os quais. A retórica da necessidade de neutralidade na instrução provinha de políticos e administradores de ambos os partidos. nem sempre preparados para a função. dispensam-se os commentarios. 11/6/1883 (Assembléia Legislativa da Província do Pará. Joaquim Cabral. e mandar dar gratificações a dois professores particulares das localidades. a interferência do clientelismo na profissão docente. As assembléias provinciais. de suprimir as cadeiras elementares de Cametá-Tapera e Pacajá. Enfatizaremos nesta análise. acusada de ser o maior entrave existente ao desenvolvimento da instrução popular. podiam aprovar disposições movidas pelo clientelismo não favorável ao indicado pelos representantes governamentais. O deputado liberal e anti-clerical. O combate à politicagem suscitava lutas apaixonadas por se constituir em uma arma poderosa contra os adversários políticos. liberal e conservador. como a remoção.”148 A imprensa. O discurso indignado do 148 A Constituição . utilizou todas as armas de combate a esta prática. condenou a medida proposta pela Assembléia de maioria conservadora em 1883.

o comércio e a indústria.18. sem contar com a inscrição de um só candidato.deputado liberal da Assembléia paraense. adquirindo a vitaliciedade após cinco anos de trabalho. não obstante as escolas elementares ou provisórias continuarem a ser regidas por não concursados. é forçoso lembrar que mesmo o professor efetivo (por concurso ou título de habilitação) tinha garantias bastante restritas no magistério. Embora tenha sido muitas vezes burlada. como a navegação. a afilhadagem e os 149 A Constituição. situação ainda registrada até meados do ano seguinte. 151 No entanto. 120 . diz o relatório. que no país todo produziam graves males.7. devendo a instrução ser tratada tal qual um desses terrenos neutros. discursou à Assembléia Provincial combatendo as “preoccupações partidarias”. período no qual. No ano de 1878. como o patronato. a Província do Amazonas abriu concurso para cadeiras exercidas interinamente. deve tambem ser collocada fóra da acção da politicagem dos mandões. A instrucção é uma cousa séria. “Se a instrucção deve ser objecto da politica larga e generosa de principios. apesar das várias tentativas. sessão ordinária em 13/4/1883). 150 Afora a posição ingênua da isenção política de outras esferas da administração pública. 1878. devia estar livre d’essas vergonhas. 151 RPAM.las. O receio era causado pelas provas de capacidade exigidas pelo regulamento. A adoção do concurso público para a seleção de professores efetivos foi uma medida logo adotada pelos regulamentos. p.”149 O Presidente do Amazonas. p. Joaquim Cabral. percebe-se pelos discursos oficiais e denúncias nos jornais da interferência da política eleitoral no cotidiano escolar. a instituição do concurso denota o grau de preocupação e a vontade política de alterar o quadro de práticas tão denunciadas. na linha da defesa da neutralidade na instrução. 7/3/1882. 21/8/1883 (Assembléia Legislativa da Província do Pará. extrapolava o aceitável para o período. por falta de pessoas habilitadas para preenchê. demonstra o sentimento de que. mas a pedir ou propor formas de proteger o magistério das investidas clientelísticas relacionadas ao partidarismo. na região. 150 RPAM. as cadeiras ficavam eternamente em concurso. Para um presidente. estava sujeito às mudanças de governo e da política. que o clientelismo na instrução pública. levando aqueles que se sentiam prejudicados a não só denunciar.

recorriam à cadeira de primeiras letras. males anunciados no início da década de 1870. estudos que nos permitissem comparar o entrelaçamento entre o 152 Richard Graham (1997) esclarece que o concurso¸ instaurado para algumas funções da estrutura de poder imperial. com certeza. pois a rede escolar. Domingos José da Cunha Junior. de forma a prevenir alguns dos piores abusos do sistema clientelista. da parte tanto de liberais quanto de conservadores. O patronato. o relatório de agosto de 1879 relaciona apenas três indivíduos aprovados. ao se premiar a ignorância ao invés do mérito. como demonstram as cartas levadas aos jornais. homens que não possuíam escravos para a lavoura ou sem meios para seguirem a carreira comercial. 153 No primeiro relatório paraense do período estudado neste capítulo. 152 Quando finalmente o governo amazonense conseguiu realizar o concurso para professores primários.11. a documentação mostra que o sistema clientelista soube se adaptar às novas circunstâncias. constituído pela proteção de indivíduos desejosos de ter um emprego público por não possuírem outros meios de vida. condicionando a distribuição de cargos à rede de favorecimentos dos protetores.lo serão anunciadas. continuará a ser denunciado nos anos seguintes. como muitas vezes se tentou fazer crer. Segundo o Presidente do Pará. espalhada por territórios isolados pelas grandes distâncias. Não era a falta de pessoal habilitado que alimentava o sistema. p. Na instrução.16. e medidas para coibi. 1870. O “manto afagador” da proteção afastava os mais habilitados das escolas. 1/7/1873. 121 . não eliminava a importância de um protetor. favorecia o abuso no exercício da função. 154 RPPA. p. o presidente acusa “o patronato e a política” pelo embaraço no ensino da Província. a família contava com bons protetores.favores eleitorais. p. nesta análise. 154 Abel Graça toca numa ferida conhecida de todo o Império brasileiro: a afilhadagem e o favorecimento político permeavam a administração pública do país. pois uma carta de recomendação podia mudar os seus resultados (p. 155 RPPA. não sem antes acionarem os seus protetores. de sobrenome “Salgado”. e comprometia a fiscalização e a disciplina das mesmas. gerando a suspeita de que mais do que boa instrução. Contudo. 155 A criação da escola normal neste período foi motivada pela intenção de habilitar os professores para o magistério e formar um corpo de candidatos aptos para a seleção de professores via concurso. O Pará. faltam. passou a contar com um professorado mais preparado para o magistério. 26/8/1879. contudo.39.326). 153 RPPAM. a prática clientelista era particularmente nefasta.

ou seja. que não fossem chefes de partidos e mesmo políticos militantes. No início da década de 1880. Quanto mais longe das capitais. a segunda é politica e geograficamente determinada pela maior ou menor proximidade das capitais. a Corte e as capitais. Graham ressalta a importância das eleições nas vilas e cidades do século XIX. caracterizados por ele como “ignorantes e desarrazoados”. 15/2/1881. pois contribui para desvendar o envolvimento do cargo de professor público na política local. engendrada pelas lideranças dos povoados. “Mesquinha e vingativa. Se a primeira é por ele glorificada e identificada como oriunda do “centro mais civilizado do país”. denominada ironicamente de política pequena. argumentando que as eleições testavam e ostentavam a liderança do chefe local. fato negativo. 156 A ressalva é pertinente ao nosso estudo. Richard Graham afirma que o clientelismo sustentava todo ato político no país. Richard.V. 1997. anexo A. Corrêa de Freitas orientava os professores a não se envolverem com política. visando. escolheriam deputados para o Congresso. In: RPPA. representada pela grande ou geral política. em dois turnos.” 157 Há mais de cinco anos dirigindo o ensino público na Província. Corrêa de Freitas. e é capaz para chegar a seus fins de deprimir.clientelismo e a instrução pública em outras províncias. por sua vez. e a provincial ou local. escolhiam as figuras mais proeminentes do local para formar os colégios eleitorais. Relatório da Diretoria Geral da Instrução Pública do Pará. O diretor constrói uma espécie de geo-política da politicagem . calcada na maior ou menor distância da vida política dos centros urbanos principais. mesmo os trabalhadores agrícolas sem terra. 122 . evitar que conflitos sociais eclodissem instaurando a desordem e a destruição de um modo de vida que favorecia os donos de terras. o diretor testemunhou os dissabores dos professores que não se amoldavam à vontade dos “potentados das localidades”. sentiu-se à vontade para classificar a política em duas categorias: a nacional. os quais. no que ele afirma ter sido 156 157 GRAHAM. pois é qualificada como. vilas e cidades do interior do Pará e do Amazonas. A prática clientelista envolvia tanto o preenchimento de cargos públicos quanto a proteção de pessoas humildes. pois os votantes. na sua articulação com o sistema político brasileiro. mais pronunciada e ativa se apresenta a política pequena. injuriar e calumniar. p. tendo já bons anos de experiência à frente da Diretoria de Instrução do Pará.

as quais. é descrito o envolvimento dos professores das pequenas localidades do interior com a política. o esquema de nomeações funcionava através do empenho. Tamanha reserva ou indiferença em relação à política partidária não implicava no desinteresse aos assuntos públicos. em locais com diminuto pessoal. progressista e honesta.4. pois.”158 Neste mesmo volume.seguido pela maioria. 160 Revista do Amazonas. se tornava ou o tornavam chefe de partido. Com exceção das escolas da capital. 160 Na série A educação e o Estado. No artigo A instrucção publica. no relatório apresentado pelo presidente José Coelho da Gama e Abreu.no a sindicar as ocorrências e a corrigir os professores. as queixas dos interessados pressionaram o governo. e no rio Negro 5. 159 A ação do governo junto à instrução primária. levaram. O professor. sobretudo nas pequenas localidades. cumpre-lhes conncorrer com seus votos para que se firme e se mantenha no paiz uma politica ordeira. e de algumas cidades e vilas. 123 . p. 15/2/1881. como elementos do progresso.V. prática que se refletia diretamente no modo de reger as cadeiras e na relação com os alunos. os professores não devem ser indifferentes á marcha da administração publica. 5/6/1876. Eram 78 assinantes no total. 15/2/1881. A revista lutava para se manter com as assinaturas. se empenhavam em destrinchar os meandros do apadrinhamento político na educação.10. segundo Gama e Abreu. 158 159 Relatório da Diretoria Geral da Instrução Pública do Pará. O artigo desnuda a engrenagem da pressão política sobre os professores. RPPA. pois como “Cidadãos brazileiros e interessados no desenvolvimento moral do paiz. o autor acusa o atraso da instrução pública pelo fato do povo não ler jornais. garantindo a simpatia e a consideração dos “pais de família”. agravando a dependência da imprensa aos cofres provinciais. referindo-se ao passado. não provinham de forma majoritária da capital. quando os governos tentavam transformar o cargo em instrumento eleitoral. encontrou analistas na imprensa amazonense. que por motivações diversas. p. anexo A. Deles se esperava que fossem reservados em suas idéias políticas. A patronage nas nomeações dos professores das escolas primárias disseminadas pelo Amazonas foi o elo que a Revista do Amazonas relacionou à dependência da imprensa local à “ação governamentiva”. livre. as quais. no Solimões 53. o jornal Commercio do Amazonas esquadrinha a relação entre o governo e o professor público sob o ponto de vista político. In: RPPA. o jornalismo e o governo do Amazonas. n. sendo na capital 20. Mais uma vez.

) que não venha a luta dos partidos que se debatem pôr difficuldades á boa ordem na administração do ensino. Este é o primeiro a macular o alto caracter do professor publico. o governo. um colaborador da Revista Familiar. V. 26/10/1880. capítulo 4). e aos seus representantes nas localidades. e. geralmente protegida dos achaques. pois.63).. Sob a situação liberal. Em 1883. 124 . Os artigos de cunho educacional consultados revelam a postura crítica do jornal com relação aos atos do governo (Cf. 18/2/1883. n. formada pelo professorado e pelo corpo de delegados literários. 162 Revista familiar: periodico dedicado ás famílias. subjeitando-o. “A magna questão da instrução publica deve ser alheia á politica.exercida por governantes do Amazonas. subgeitando-o[sic] aos revezes da politica. ás consequencias terriveis da permanencia em logares insalubres e baldos de todos aquelles recursos necessarios para a conservação da saude e da vida. “O povo segue maquinalmene o exemplo do chefe. quantas forem as defferentes opiniões dos homens que se acharem no poder. Pelo menos foram estas as idéas dominativas até bem pouco tempo. a cujas inspirações partidárias submetia a sua “milícia”. não terá o direito natural ao homem de conservar ou deffender suas opiniões. sob o pseudônimo de Senior. obrigando o professorado a recorrer a largo jogo de cintura caso não quisesse se sujeitar a cair de posição e ser encostado em “lugares insalubres” como punição à desobediência. infligiam. e se elle reccusa a declarar-se. A figura do diretor da instrução pública. será obrigado a mudal-as tantas veses. Na análise do colaborador. concediam-se favores. sabe que é somente o elemento partidario entre nós que a perturba. estraga e desmoralisa. acusou a administração do ensino de ser uma ficção. Senior conclui seu artigo de maneira contundente. ou mesmo se se abraça qualquer delles. o Commercio do Amazonas “caracterizou-se por ser um jornal aberto às diferentes correntes de opinião” (p.”161 As críticas ácidas à administração da instrução no Pará não eram privilégio dos liberais.” 162 161 Commercio do Amazonas. e sua familia. Segundo Santos et al (1990).3. (. refletindo o sentimento geral da imprensa da época a respeito da necessidade de distanciar a instrução da política. ou o que é peor. si o não fiser. o governo foi duramente atacado pela imprensa aclamada como neutra e pelos órgãos conservadores ou simpatizantes. como ocorria em outras províncias do Império.. independente de suas posições partidárias.se penas. dirigindo-se ao governo paraense. foi tachada de chefe. obrigando-o a abraçar este ou aquelle partido. dimittem-no. avultando o expediente da diretoria com justificativas de faltas e pedidos de licenças com vencimentos. Aos adversários do diretor.Exc. removem-no para logares longinquos.

asseverou que na 163 164 A Constituição. O Muanense. 164 Já os “pais de Barbacarena”. os reclamantes informam que o dito professor já estivera em Muaná. três meses após a denúncia do Muanense. feita ao jornal. será tambem um bom professor!” 163 Temos um forte indício de que a denúncia contra o professor de Muaná. 125 . Por uma carta remetida pelos pais ao redator. a remoção e a demissão de professores. quando valeria mais a recomendação de que. revoltado com a manutenção na escola masculina de um “professor de chapa”. 17/3/1883. 165 A Constituição. ou seja. onde teve o mesmo procedimento de desrespeito ao magistério. resultando na transferência do professor para a escola de Barcarena. A Constituição. é fato que o uso da instrução pública como “instrumento de política”. mais do que causar incômodo. teve resposta imediata da Diretoria de Instrução. “Seja um bom capanga eleitoral. não foram atendidos em seu pedido. sem conhecimento mínimo das matérias da instrução primária. o público é informado de que o diretor da instrução nada fez para atender ao abaixo-assinado enviado no ano anterior. sobretudo no Pará. afetou diretamente as escolas primárias. o professor que fora preterido pelo diretor da instrução para ocupar a dita cadeira. 165 Mesmo considerando a hipótese de que o autor da carta de Muaná estivesse defendendo um “amigo”. como é corroborado pelas mais diversas denúncias contra professores. O “Muanense” declara que o ensino público no Brasil e. 8/8/1882 (Carta de 16/7/1882).Ao ressurgirem os liberais no governo paraense. o jornal conservador A Constituição. 25/2/1883 (Carta de 15/10/1882). dirigido à Presidência da Província em outubro de 1882. A suspeita decorre de um abaixo-assinado de vinte pais de Barcarena contra o professor público que viera de Muaná. Outros se aproveitaram da situação. seguindo os discursos que defendiam o caráter apolítico da instrução. instala a oposição ferrenha aos liberais no poder e faz suas as palavras de um morador de Muaná. em de março de 1883. ou seja. decaiu com a situação liberal. valendo-se do privilégio do cargo público/político para obter ganhos pessoais. afora a intimidação e a opressão por que muitos devem ter passado. Na carta enviada ao jornal A Constituição. porque os “ouros na politicagem” sobrepujavam o “mérito do professor”. ao determinar a seleção.

169 Nos dois anos seguintes. 169 A Constituição. quando solicitou exoneração do cargo. “Da Vigia nos escrevem”. somente dois eram conservadores. serão analisados mais adiante. 168 A Constituição. com críticas ácidas à “exclusão de amigos nossos do magistério”. De acordo com a lista publicada. com a subseqüente proteção de filhos dos seus amigos. noticiando que. o jornal do Partido Conservador do Pará publicou em torno de cinco matérias com denúncias do uso partidário do diretor interino da instrução pública na Província. levando os denunciantes a proclamar que. era chefe do partido liberal. “O povo vive descontente vendo. 24/6/1884). como teria ocorrido em uma escola da capital e em todas da cidade de Vigia. ao tratarmos do cotidiano escolar e das representações acerca dos docentes. Começando a denúncia. 167 Além das denúncias do favorecimento de professores pela afilhadagem e pelo compadrio. como a interferência em concursos e exames públicos. relatados nas cartas e abaixo-assinados de moradores ou pais de família. estão ensinando aos meninos o despreso pela religião de todo este povo. basicamente tratando das nomeações de professores “ignorantes” ou dedicados a outras atividades além do magistério.instrução “só deve reinar a neutralidade pelo amor á educação dos meninos. as denúncias do jornal conservador contra o diretor liberal continuam. que são os nossos futuros cidadãos”. Estes aspectos. 126 . 30/11/1882. 8/8/1882. 7/1/1884. Em 1883. que pela informação do jornal. entre 18 examinandos. 166 167 A Constituição. referentes à situação e à atuação dos professores. 28/11/1882. Americo Marques de Santa Rosa. Ele voltará ao cargo em 1889. Além dos “títulos de afilhadagem ” dos mestres. que sendo elle christão. o público é informado dos “efeitos desastrados” da administração de Santa Rosa. representou o Pará no Congresso Pedagógico da Corte (RPPA. 166 De julho a novembro de 1882. os alunos não foram interrogados sobre os rudimentos da moral e da religião nos exames escolares. Santa Rosa foi diretor interino da instrução até maio de 1884. há outras gravíssimas.”168 As denúncias do ano são fechadas com o tom irônico do título Ainda Bílis. à demissão acintosa de delegados literários e à reprovação nos exames de preparatórios de filhos dos adversários do diretor.

de 1883. Uma das missões destes religiosos na Assembléia consistia em combater aqueles que pretendiam expulsar a religião das escolas e lutar por manter o monopólio da religião católica na instrução pública. A Assembléia do Pará. pois. chefe do partido conservador. 1030 de 7/5/1880. das elites e dos religiosos na região. o qual estaria impregnado pelo “espirito malevolo do clericalismo” da comissão de instrução pública da Assembléia Provincial. Mancio Ribeiro temia a “perigosa organização das escolas neutras. 127 . jocosamente teimou pela proeminência do a. Algumas discussões assumiam um tom anedótico. O bispo manifestava grande interesse na educação do povo. não se envolvendo em questões partidárias ou concorrendo a cargos eletivos. em que o primeiro afirmara ser o ensino religioso a base da educação. pessoalmente investido no seu fortalecimento. Entretanto. isto é. Mancio Caetano Ribeiro. 11/6/1883 (Assembléia Provincial do Pará.547. sessão de 3/4/1883). onde seja vedado ao professor pronunciar o nome de Deus”. Joaquim Cabral. como a ocorrida entre o padre doutor e o deputado liberal. c. o padre Dr. 17/4/1883 (Ensino religioso . freqüentemente ultrapassando a linha tênue 170 171 Liberal do Pará . se a administração era liberal.. exerceram cargos públicos e nas instituições educacionais mais importantes. levando os adversários a combater as iniciativas do executivo e do legislativo. Ibid. D. o cônego José Lourenço da Costa Aguiar. 1992. 30/3/1883. e pelo médico Julio Mario da Serra Freire. e o segundo. O combate da imprensa liberal contra o ensino clerical no Brasil é abordado por Riolando Azzi. proporcionados pela Lei n. 171 A manutenção do ensino religioso católico nas escolas públicas constituía uma frente de batalha importante nas décadas de 1870 e 1880. escrevendo ou traduzindo textos bíblicos e de civilidade cristã para a educação dos meninos. composta por dois sacerdotes. a assembléia era dominada pelos conservadores. 1.O interessante do período é que os agentes do planejamento e da execução da instrução pública são atacados por todos os lados. tendo o Bispo do Pará. era presidida pelo cônego Manoel José de Siqueira Mendes. Antonio de Macedo Costa. Mancio Caetano Ribeiro). b. sacerdotes ocuparam assentos na assembléia provincial. nos idos de 1882 e 1883. “um dos padrões de gloria da assembléa liberal”. A Constituição. 170 O propósito do redator é condenar o projeto de reforma da instrução n. A instrucção publica é a preocupação do seculo – de tal modo o jornal Liberal do Pará. do padre dr. mas se manteve nos limites das atuações eclesiástica e educacional. inicia longo artigo analisando os benefícios para a instrução no Pará. órgão do partido liberal.

que deve se banido d’um estabelecimento de educação de meninos? Como querer o progresso. pois. Vigário Geral e Governador no Bispado ao Presidente da Província Bandeira de Mello Filho.. e sendo este um dos principaes deveres dos Parochos bastantes recommendados pelas leis da Igreja. que lhe escreveu dizendo-se surpreendido com a proibição do delegado literário de explicar o Catecismo da Doutrina Cristã na escola da Paróquia.. (Arquivo Público do Pará). avançar que o ensino da religião é uma cousa inutil. ao se envolverem na política local orientados por interesses partidários e até pessoais. O cônego se pôs a fazer um longo sermão às pretensões da minoria liberal. lembrando. desde a pregação dos Nobrega e Anchieta até nossos dias. banindo a religião que é a sua origem?”173 Um ofício do cônego Sebastião Borges de Castilho ao Presidente do Pará. sessão de 3/4/1883).Ea n qual me expõem o dito Parocho o embaraço que acha em continuar a leccionar o Cathecismo na escola daquella Parochia.” 174 172 A respeito da atuação dos eclesiásticos na política do Pará. O ofício do vigário ao cônego é de 7/3/1877. a civilisação do Brazil é obra da Religião Catholica. 128 . conforme a orientação da diocese. Raymundo Heraldo (1998) e NEVES. Numa sessão.dos interesses eclesiásticos. a instrucção.lhes que. que defendeu os interesses da diocese na Assembléia Provincial. cônego Siqueira Mendes. a civilisação. É á religião catholica que devemos as nossas luzes. citando o artigo 5º da Constituição Brasileira. O despacho do presidente foi favorável à solicitação do cônego. no cumprimento de qual o Exm Srnr Bispo Diocesano muito se empenha. “Com effeito. ver os trabalhos de MAUÉS. 173 A Constituição. O Vigário Geral e Governador no Bispado imediatamente encaminhou o seguinte ofício ao presidente: “Tendo recebido do Rdo Vigario de Mocajuba officio que tenho a honra de enviar por copia a V. (. rogo a Vexa que se digne mandar que pela Directoria geral da Instrução Publica se permitta áquelle parocho ensinar o Cathecismo não só numa mais ainda em todas as escola da sua Parochia. 12/3/1877. a nossa nacionalidade. atividade que exercia todos os sábados e nas 4a feiras. as nossas instituições e os nossos progressos. no ano de 1883. O cônego se apressou em socorrer o vigário de Mocajuba. 174 Ofício do cônego Sebastião Borges de Castilho. Fernando Arthur Freitas (1998). o cônego chamou à ordem os deputados que atacavam a religião do Estado ao rejeitarem o ensino religioso. o nosso caracter.) Como. revela como este embate se dava no cotidiano escolar. 172 Um exemplo notório é o do presidente da Assembléia paraense. Bandeira de Mello Filho. 11/6/1883 (Assembléia Provincial do Pará.

presente em toda a estrutura do Estado Imperial.”175 O Liberal do Pará insiste na mesma problemática apontada por toda a imprensa. o embate fez parte do processo de construção da escola pública no Brasil. do outro lado. uniram-se. O Liberal do Pará. 15/4/1883. 177 Relatório da Diretoria da Instrução Pública do Pará. 129 . Garantido por lei. o jornal da diocese. 177 A lei reformou o conselho diretor da instrução pública e buscou interessar as localidades na inspeção das escolas com a criação dos conselhos paroquiais.1. Nas discussões calorosas do projeto de reforma da instrução pública (n. contra o Projecto de Reforma que ahi apparecia. preservando a figura do diretor da instrução. porém. traduzindo uma bôa intensão pelo menos. Tamanho desmonte jamais foi alcançado. In: RPPA. deram-se as mãos. Nos anos de 1883 e meados de 1884. 176 O desacordo começava na identificação dos acionadores do sistema clientelista e das medidas para controlar os efeitos danosos ao ensino. A lei que reformou a instrução pública em 1880 criou alguns instrumentos. mas sem dúvida. p. como a garantia de “inamovibilidade ao professor sem prejuizo de direito ao accesso por meio do concurso estabelecendo-se o processo administrativo para os casos de remoção e demissão definidos pela lei”. engajada ou neutra: era preciso proteger os professores dos “caprichos dos mandões d’aldêa e das violencias das paixões partidarias”. As denúncias posteriores à lei mostram que imensos foram os obstáculos encontrados no esforço de demover da instrução o ranço clientelístico.32 (Diretor: Americo Santa Rosa). para darem combate. Com a volta dos conservadores ao poder. e o espirito maçonico ou da impiedade. 30/3/1883. 18/9/1889. condena a união entre a politicagem e a maçonaria ou a impiedade. este papel de 175 176 A Boa Nova. levando a Igreja paraense a recorrer à coerção do Estado. A Boa Nova. Anexo. o jornal conservador manterá o canal aberto para as denúncias de abusos e arranjos do professorado.O ofício mostra que o bispo Macedo Costa não descuidava da orientação ao clero de sua diocese na importância da atuação catequética nas escolas públicas da Província. o ensino do catecismo encontrava opositores entre professores e delegados literários. estas últimas tratadas como sinônimos: “E o espirito da politicagem de um lado.547).

1/5/1883. Contudo. não só pelo autor dos artigos.” 178 Um dos aspectos tidos por problemáticos. 17/5/1883. sobretudo o patronato e a afilhadagem sob o governo liberal. O autor (anônimo) reconhece que liberais e conservadores possuíam princípios semelhantes. O autor citou o artigo 4o da lei 1. publicada em 1883 no jornal A Constituição. determinou que “para o provimento das escolas elementares serão preferidos os professores normalistas. obreiros do progresso e regeneradores da sociedade. preferindo as despezas de méro luxo ás essenciaes e indispensaveis.denunciante é restabelecido na imprensa liberal. pois “Por toda a parte são as escolas elementares dirigidas por individuos completamente ignorantes. concernentes à importância da instrução para o progresso do país. referia-se ao provimento das escolas elementares ou provisórias. e na falta destes serão as cadeiras providas por cidadãos de reconhecida moralidade. ele defendeu seu ponto de vista. sustentam estas mesmas verdades. com bem poucas excepções. Assim. antepondo o progresso material ao moral. “Os liberaes. mas desconfiava das reais intenções dos liberais. afirmando que. a imprensa conservadora não somente serviu de canal para as denúncias. A lei de 1880. mas isto é só para inglez vêr: na pratica procedem de modo diverso. comtanto que sejam governistas. que provem perante a presidencia da provincia idade maior de 21 anos. não terem sofrido condenação por crime infamante e não padecerem molestias que os incompatibilize com o magisterio”. constituindo-se amantes da instrucção. mas por muitos diretores de instrução do Pará e do Amazonas. e defendeu a instrução inserida em “campo neutro”.030 de 7/5/1880. os quais sustentariam um discurso “só para inglês ver”. A Constituição. aprovada por Assembléia de maioria liberal no Pará. O articulista conservador observa que esta disposição vinha sendo fraudada (no período do governo liberal). o colaborador buscou comprovar o progresso da instrução na gestão conservadora e analisou práticas que dificultavam o desenvolvimento da instrução pública no Pará. acima de qualquer interesse partidário ou individual. pois abriu espaço nos editoriais e artigos para avaliações críticas da instrução no Brasil. a afilhadagem ás necessidades sociaes.”179 178 179 A Constituição. 130 . Na série Os conservadores e a instrução pública. em these.

p. sustentando como influência legitima o conselheiro Bernardo de Souza Franco em sua candidatura á câmara vitalícia. sobretudo as da capital. Manoel José de Siqueira Mendes nasceu na cidade de Cametá. 181 Além do favorecimento político. o jornal liberal A Província do Pará. vol.. em 1825. Foi um dos colaboradores d’A Boa Nova. retratado como o “novo pescador. 183 A Província do Pará . todos liberais.. A Província do Pará cedeu espaço para denúncias de terceiros.o “padre cura-candidato”. “Foi deputado provincial por várias vezes. que o elegeu deputado em suas assembléias e também à Assembléia Geral na última legislatura da monarquia. parentes e 180 181 A Província do Pará . Foi vigário no Amazonas e no Pará. as demissões na secretaria de instrução pública. o jornal A Província do Pará denunciou. e outro em Cametá. o jornal combate os interesses eleitorais de Costa Aguiar. (BLAKE. 11/10/1885. Era presbítero secular. preservado dos cortes por ser conservador. José Lourenço da Costa Aguiar era presbítero secular. 180 A derrubada e remonta nas instituições educacionais da Província. o jornal denuncia a proteção aos conterrâneos do cônego José Lourenço da Costa Aguiar. a exceção de um inspetor de alunos. vol.lo por um primo seu e a colocação de irmãos. jornal da Diocese do Pará e. depois. e não poupa críticas à influência do cônego Manoel José de Siqueira Mendes nos atos do governo.Após a queda do gabinete liberal em 1884. doutor pela universidade de Santa Apolônia e membro da Academia pontifícia dos nobres. 1898). e a volta ao poder dos conservadores. conhecedor do neengatu ou tupi do norte. Sacramento. como o Instituto de Educandos Artífices. 183 Afora os ataques diretos. A principio militou sob as fileiras do partido liberal. 131 . deputado geral e senador do Império e administrou sua província por três vezes. Agnello Bittencourt (1973. estaria mais preocupado em perseguir eleitores do que em arrebanhar almas para a devoção cristã. Sacramento. 25 e 29/9/1885. a vice-presidência demitiu 100 empregados públicos. 10/12/1885. V). em 1894. Atacando a guilhotina colocada em praça pública pela situação conservadora. que ocupavam cargos de confiança. lente de teologia do seminário episcopal e fundou um colégio na capital. nomeado cônego da sé paraense. que em “excursão eleitoral” pelo rio Arary. que veio à imprensa acusar o “cura Aguiar” de substituí. Pará. a Escola Normal e o Liceu. arrebataram as atenções dos jornalistas. 6/10/1885. VI). de votos. como a do ex-secretário da instrução pública. não de almas” . 182 Dois meses depois. Profe ssores e professoras da instrução primária também foram atingidos. O jornal informa que em 19 dias. em 1885. A Província do Pará . Ceará. pois vários cargos estariam sendo preenchidos por cearenses.112) o define como um homem erudito. como vice-presidente. na obra “Christu Muhençáua” (“Doutrina Crista”. Nascido na cidade de Sobral. passando para as fileiras contrárias. sagrado Bispo do Amazonas. além das mais de 500 autoridades policiais. Foi lente de latim do Liceu de Belém. foi delas chefe e contraiu inimigos que jamais deixaram de agredi-lo” (BLAKE. reinicia a campanha crítica aos atos dos governos conservadores. em 1847. tendo vertido para este idioma as principais doutrinas do credo cristão. 182 A Província do Pará .

retirantes nos principais cargos públicos. 186 Segundo A Província do Pará. 184 O termo retirante. 6/10/1885. em “mangas de camisa”. Apresentou-se no Liceu um cearense. 187 A Província do Pará . De forma sarcástica. 27/11/1885. causando indignação nos estudantes. para exercer o cargo de inspetor de alunos. ao proclamar que. segundo notícia de 1885. em parte. A Província do Pará . colégio secundário público. era lançada por opositores políticos. Instituições. o cura navalhada. iniciativa que cabia à Assembléia Provincial tomar. Indivíduos analfabetos vinham sendo nomeados interinamente. volta e meia. referindo-se à interferência de José Lourenço Aguiar nas demissões e nomeações públicas. a seção de “solicitados” publicara um artigo intitulado. fossem eles liberais ou conservadores. foi interpretado como “indignação” pelo editorial denominado de “Reação da Amazonia III”. denúncia que. os quais quebraram grande parte das vidraças do edifício. freqüentado. 186 A Província do Pará . substituída por indivíduos despreparados. publicada no jornal amazonense A Província. sofriam diretamente com a invasão dos afilhados. entulhando as repartições com “gente inepta”. os quais já as possuíam. em letras destacadas. A reação dos alunos seria normalmente taxada de baderna. mas em se tratando de um ato cujas supostas conotações políticas iam de encontro às convicções partidárias do jornal. por estudantes que possuíam condições de ingressar no ensino superior ou ocupar cargos administrativos de melhor posição. Novas escolas estavam sendo criadas em diversos distritos de paz do Amazonas. como os institutos de educandos do Pará e do Amazonas. O jornalista vê um trágico destino para o ensino primário na Província. 132 . a começar pela direção. 184 185 A Província do Pará. ironicamente utilizado para denominar os amigos e conterrâneos do cônego Aguiar. indica a nomeação de cearenses para a administração pública. 187 A instrução pública primária também foi atingida pelas nomeações apressadas. as duas províncias que compunham a “Amazonia brazileira” vinham tendo os diversos ramos da administração pública desorganizados pelas presidências. 6/10/1885. 3/11/1885. de tendência liberal. 185 A concepção da inferioridade social dos cearenses pela elite da capital é bem exemplifica por um incidente ocorrido no Liceu de Belém.

passando depois a capelão do colégio do Amparo para meninas desvalidas e professor de religião da Escola Normal.”188 O jornal do partido conservador paraense. no período da questão religiosa (BLAKE. 190 O ex-diretor fora destituído do cargo a bem da moralidade pública da administração. nenhum outro fora um padre. 133 . recebeu as últimas ordens sacras e foi nomeado lente de moral do seminário de Belém. p. vol. VII). que comungava as idéias do partido liberal. em julho de 1888. para a direção da instrução pública. A Constituição. o Vigário Geral da Província cônego Raymundo Amancio de Miranda. na política e na religião. como o de reitor do seminário de Manaus. vicepresidente da Província por duas vezes em 1888 e diretor geral de instrução pública. teriam convertido o professorado em prêmio dos seus “capangas”. 27/9/1885. contra-atacando os liberais que. O jornal denuncia também a politicagem no Instituto de Educandos do Amazonas. Exerceu por algum tempo o cargo de governador do bispado do Pará e outras funções no magistério. O relatório citado é de junho de 1889 (RPAM. quando exercia o cargo de diretor do Instituto Amazonense de Educandos Artífices. defende seus correligionários. Nunca um diretor de instrução da Província fora tão atacado em relatório oficial. denunciou uma série de atos da administração interina do cônego.14. exerceu diversos cargos. por ter colocado a instrução à “margem de tudo”. sob os oito anos de seu domínio. vigário da freguesia de Nazareth da cidade de Belém e monsenhor camareiro secreto extranumerário do papa Leão XIII. Sulpicio na França. porém. no Amazonas. Ao apagar das luzes do regime. jornal católico do Pará. Vigário Geral do Alto-Amazonas. Amazonense. ao substituir os professores elementares por “analfabetos e imorais”. 191 Somos informados pelo relatório do novo 188 A Província. alegando que se mantinha ainda os adversários. Sacramento. 190 RPAM. diretor geral dos índios. a diretoria de instrução do Amazonas emitirá um relatório pleno de denúncias graves contra os desmandos do ex-diretor sob a situação conservadora. ultraconservador. pelas remoções e nomeações feitas a toque de caixa. O cônego fora convidado. e cursou teologia no seminário de S. cargo pelo qual acumulara alguns desafetos. removendo professores sem critério algum. No Brasil.“Agora os discipulos passarão a ensinar o mestre. O sacerdote fora também vice-presidente em exercício no Amazonas. em janeiro de 1887. Era cônego honorário da Sé do Pará. 16/4/1886. Raymundo Amancio de Miranda nasceu em 1848. os agentes da instrução pública se debaterão com a trama política engendrada pelo revezamento entre liberais e conservadores no poder. demitindo outros com diploma efetivo e fraudando concursos. 189 Até o fim do Império. 10/1/1887. 191 O jornal A Província do Pará (20/7/1888). Posteriormente. 2/6/1889). Colaborador d’A Boa Nova. demitindo somente aqueles contra os quais existiam provas de “incapacidade e mau procedimento”. 189 A Constituição. nomeando pessoas sem habilitação. O jornal acudiu o governo conservador.

Escolas abandonadas pelo poder público e pelos alunos.192 O relatório do (suposto) desmonte da instrução pública. Em 1883. era desolador. o Presidente da Província podia mandar instalar cadeiras do ensino primário nos distritos de paz onde não estivessem criadas por lei especial. 1886 e 1888. em que o tom predominante é o da decadênc ia 193 . Vê-se que Bento Aranha localiza o surgimento do problema na administração conservadora. ex-Presidente da Província. um relatório mais contundente foi produzido no âmbito da instrução pública do Amazonas. nos revela que ao final do Império. ao contrário do de 1883. atribuindo à iniciativa da presidência liberal a eliminação dos abusos através do regulamento de 1883. Julio Benevides. professores e inspetores despreparados e sem respeito às leis compõem o quadro descrito pelo visitador. 1966.diretor.24. o presidente liberal José Paranaguá nomeou o 192 Relatório da Diretoria da Instrução Pública do Amazonas. ao fechar as cortinas da monarquia. pelos quais. visitador extraordinário das escolas públicas do rio Solimões. o sistema de ensino no Amazonas se mostrava frágil e suscetível à sanha clientelista de um diretor que tinha mais poder do que se exigia ou do que era conveniente para o exercício do cargo. causado pelos atos do cônego. No segundo semestre de 1889. In: RPAM. até o término de sua vigência. a instrução também não fora poupada das críticas e propostas de mudanças. p. apresentou à presidência um diagnóstico da instrução oficial em toda a Província. Bento Aranha evita nomear a facção e os governantes responsáveis pelo desmonte da educação. data com precisão o período em que se deu o processo: na vigência dos regulamentos de 1873.191-196. exercendo-a até meados de 1878. o advogado Agesiláo Pereira da Silva. quando as cadeiras vagas ou criadas passaram a ser somente providas por concurso. Embora conhecesse bem a política local. Pereira da Silva assumiu a administração do Amazonas em maio de 1877. o novo regulamento instituiu o provimento interino pelo Presidente da Província quando vagasse qualquer cadeira de instrução pública primária ou secundária. em 1886. 134 . Neste ano. com móveis imprestáveis. onde nem mesmo as 22 escolas da capital se salvavam dos abusos e da inércia dominantes no ramo. que o padre acumulava o ordenado de diretor com os vencimentos de Presidente da Província. 193 Citado por UCHÔA. Se o quadro apresentado pelo visitador. p. Bento de Figueiredo Tenreiro Aranha. até o seu preenchimento efetivo por concurso. 2/6/1889. No entanto. 1881. em períodos anteriores.

tutores e protetores retiravam as crianças dos estabelecimentos públicos.conselheiro Joaquim Azambuja inspetor extraordinário das escolas públicas de Parintins e Itacoatiara. diretor experiente pelos anos que já atuara na função. 135 . por ineficiência daqueles que os regulamentos tentavam profissionalizar. as famílias recorriam aos seus contatos ou laços para instruir seus filhos quando. constituiu um grave empecilho à propalada difusão da instrução pelo interior do Amazonas. um Atlas. a despeito das inúmeras reformas e das leis promulgadas em prol da difusão da instrução pública. O tom do relatório não é otimista: Santa Rosa anuncia o atraso da instrução na Província.194 O inspetor atesta que. da baixa freqüência ou da deserção. Pais. os alunos nenhum aproveitamento obtinham. confiando a sua instrução e educação a “pessoas que não são da profissão. Mais uma vez.Crucificado.120. 194 AZAMBUJA. um armário. compêndios e utensílios considerados indispensáveis ao ensino. cadeiras para os visitantes. chegando a afirmar que a ela não se fazia a devida justiça. O Pará.M. entregue aos “cálculos mesquinhos dos partidos”. onde faltavam os materiais. o inspetor recusa o estereotipo da indolência da população. situação que segundo o diretor. O último relatório da diretoria de instrução do Pará disponível é da metade do ano de 1889. uma mesa com estrado e uma cadeira de braços para o professor. Joaquim Maria Nascentes de. todos deploram. o inspetor arrolou como mobília necessária às escolas. se vê perto do final do século. p. dentre outros materiais. a imagem do S. uma esfera celeste e outra terrestre. mapa do Brasil e outro da Província do Amazonas. ou affeiçao particular”. um relógio. mas poucos têm coragem de combater. mesmo em povoados próximos à capital. o Imperador. na avaliação de Santa Rosa. através da não matrícula. a situação passada é acusada de golpear duramente a instrução. Os moradores que se decepcionavam com a escola oficial buscavam seus próprios meios para fazer educar os meninos. mas prestão seus serviços por caridade. A ausência do aluno nas aulas. o pouco ou nenhum aproveitamento era a causa primeira da deserção nas escolas. devido principalmente à “política transviada de seus generosos intuitos”. o retrato de S. como os relativos às prendas domésticas. em todo o interior da Província. tão próximas da capital e com tantas crianças em idade escolar. Neste ponto de seu relatório. o ensino público estivesse em condições tão desfavoráveis. E lamenta que. a mercê das “paixões partidárias”. No regimento interno das escolas proposto à presidência. 1884?. Azambuja poupa pais e professores de críticas mais severas e centra sua atenção na precariedade das escolas. escrito por Americo Santa Rosa. Muito impressionou ao visitador que em povoações importantes.

diriam conservadores e liberais. viciando a propria fonte da instrucção publica. 18/9/1889. 195 Os “inimigos da instrução” não deram trégua aos intuitos dos governos de promover a educação do povo. pois como instrumento de uma política de Estado. 1892. José. removendo professores de forma acintosa e cerceando suas garantias.V. p. cenas esparsas do cotidiano escolar afloram dos textos. Instaurado o regime republicano. como também de outras províncias. Críticas e propostas de reforma das condições. cedeu espaço aos artigos informativos e analíticos sobre a educação. 136 . fontes importantes dos dramas escolares que os relatórios oficiais evitavam revelar. sobretudo das cartas e abaixoassinados enviados por pais e moradores. p. anuncia o “triste estado da nossa instrucção publica”. procurando sempre fazer do professorado um corpo. desta forma.entregando-a a mãos inábeis. O comportamento dos professores e suas repercussões no cotidiano escolar chegaram ao nosso conhecimento através das queixas e comentários dos pais nas cartas e manifestos publicados nos jornais.” 196 Os procedimentos escolares: críticas através da imprensa A imprensa paraense das décadas de 1870 e 1880. Os jornais se tornaram. estava exposta às disputas políticas e partidárias locais. inventariando como principal causa da situação do ensino em 1890. o conservador A Constituição e o liberal A Província do Pará. e das diferentes funções da alta administração da instrucção publica um fato eleitoral. José Veríssimo. Comecemos pelos ímpetos reformistas dos jornalistas. materiais. In: RPPA. As estatísticas educacionais do Império foram esmiuçadas e comparadas. o diretor geral da instrução pública do Pará. não apenas do Pará. ao olhar para as agruras da instrução no Pará e no Amazonas. neste estudo representada por duas folhas diárias politicamente posicionadas. e do país no todo. Neste processo. Anexo. VERISSIMO.29. a “Invasão do partidarismo. A instrução pública constitui-se no grande alvo das análises e dos informativos educacionais da imprensa paraense. não esquecendo que os seus 195 196 Relatório da Diretoria da Instrução Pública do Pará. pedagógicas e humanas das escolas ocuparam espaço importante nas folhas.

“As nossas escolas primarias.progressos eram percebidos como indicadores de civilidade e funcionavam como uma vitrine.”197 O autor do artigo mostra-se ciente das mudanças na instrução popular ocorridas no mundo ocidental. dos jornalistas. Por este mecanismo. Uma sala pequena. em 1876. bancos e mezas velhos. em detrimento do estudo sobre o estado das escolas e dos meios de reformá. recita versos de Camões. as unhas negras. especialmente nos Estados Unidos e na França. desenhada com mais ênfase no Brasil a partir da década de 1870. cobertos de uma espessa crosta de tinta derramada. em meados dos anos 1870. alunos limpos e vestidos adequadamente. apresentão o aspecto mais desolador que é dado conjecturar-se. imbuído do espírito positivista que 197 A Província do Pará. O jornalista d’A Província do Pará conta que examinou rapidamente trabalhos apresentados nas conferências pedagógicas que vinham ocorrendo em Belém.las. defendia a reforma da escola. por sua vez coberta de uma camada de poeira. O autor lança-se. O lado propriamente escolar não é melhor. que privilegiaram métodos e sistemas. a transformação é total: professores formados na escola normal. prédios especialmente construídos para este fim. sem ar e ás vezes sem luz sufficiente. dando sua palavra “clara e positiva”. Ao contrário. comidos pelos cabellos compridos e despenteados eis o aspecto por assim dizer physico de uma escola primaria. à apreciação das escolas e dos alunos. Nela. fatos sujos. acanhada. este soletra o b a ba. então. O jornalista. tomada de espírito reformador. louvou mestres interessados e habilidosos. meninos de todas as idades. aquelle. condenou seus ocupantes. que trazemos aqui. desleixados. mostrando-se decepcionado com as abordagens. outro decora em voz alta as regras da grammatica. é triste affirmal-o mas impossivel negar. seguindo os preceitos higiênicos exigidos pela aglomeração de crianças. 137 . Condenando a típica escola do século XIX. tornando-se objeto de interesse da sociedade letrada que. dos colaboradores e dos leitores. regida por um professor em sua casa. esquadrinhou seu funcionamento. empregando métodos e compêndios que mais lhe aprouvessem. com repercussões que extrapolavam o nível local. propondo reformas viáveis de serem implantadas no Pará. método uniformizado e a distinção dos alunos por classes. um charivari. o analista propõe uma nova escola. a escola pública não ficou fora das vistas dos redatores.5/7/1876. É uma balburdia. Uma vozeria ou ao menos um sussurro crescente reina sempre na aula: um repete a taboada. o instrumental pedagógico e as instalações físicas. e menos freqüentemente.

notadamente médicos e pedagógicos. com desfiles de carros alegóricos e a grande 198 O método lancasteriano. 200 A respeito das reformas sofridas por Belém no período da belle époque. Heloísa. noticiados pela A Província do Pará no ano de 1876. 198 Ao longo do século. o método visava à instrução de crianças e adultos com a colaboração de alguns dentre eles. era valorizado pelo seu potencial disciplinador. em 1888. na passagem do século XIX. com a intensa troca com os saberes científicos. a profissionalização da carreira docente e as novas exigências em termos de instrução e educação. A interiorização do “amor ao trabalho” e da obediência à hierarquia demandavam novas tecnologias educacionais: novos métodos de ensino. é descrita por Ana Maria Daou (2000). (Ver LESAGE. sendo rapidamente implantado em numerosos países. que seriam monitores de seus colegas. Alessandra. esta escola só será efetivamente implantada nos principais centros urbanos do Pará e do Amazonas no período áureo da borracha. As conferências pedagógicas realizadas em Belém vinham retratando temas específicos da organização e higiene escolar. estimulados pelas grandes festas escolares organizadas pelos governos. encherão de orgulho os cidadãos. buscando inserir no âmbito da prática do ensino a distinção e a especialização. como o asseio dos alunos e do local. Esperava-se mais da escola do que desenvolver hábitos disciplinares de hierarquia e ordem. 199 VILLELA. informando a respeito das novas tendências educacionais nos mais diversos aspectos da vida escolar. uma série de longos artigos sobre “estudos de pedagogia”. normalmente chamado de “mútuo”. Pierre. A belle époque amazônica. MARTINEZ. a vigilância e o controle externo sobre o comportamento do aluno não eram suficientes para formar o cidadão. porém não tardou a ser criticado por seus resultados inexpressivos em termos de aprendizagem. O método mútuo. 2000.924). 200 Os grupos escolares. Maria de Nazaré. surgiu na Inglaterra do final do século XVIII. 1999. Ligado aos trabalhos e às concepções de Bell e Lancaster. O mesmo jornal publicará. adotado pelas províncias brasileiras em meados do século XIX. 138 . p. 199 Afora uma ou outra experiência isolada. os métodos pedagógicos e a falta de homogeneidade no ensino. funcionando em prédios escolares amplos. que transformou a feição urbana de Manaus e Belém. 2000. termos seus. quando as capitais passarão por profundas reformas urbanas. O mais capaz servia de professor àquele que era menos capaz. 1997. a escola vai adquirindo novas feições. nova organização espacial e uma maior diversidade de materiais. ver SARGES.toma corpo na época. como a realizada em 1905 na cidade de Belém. O método permitiu abrigar-se em sala de aula grande número de alunos.

que reformou a instrução primária e secundária da Corte. 205 A Província do Pará. ao indicar os métodos simultâneo e individual. 139 . com programas de ensino por classe. verifica-se a partir da segunda metade do século XIX. 203 A mudança de método não significava a execução plena e linear das indicações normativas. ver GALVÃO. Gradativamente. como os do Pará e do Amazonas de 1860. Montenegro (1901-1909). com muitas fotos das crianças em frente aos grupos escolares e nos carros alegóricos. p. agindo o professor sobre vários alunos simultaneamente. Ana Maria de Oliveira. Album da festa das creanças: descripçoes e photographias. 205 Combater a indolência dos professores e fazer a propaganda da educação escolar em contraposição à doméstica foram estratégias empregadas para debelar um obstáculo sério à difusão do ensino em m eados dos anos 1870: a baixa freqüência escolar levando ao fechamento de escolas pouco concorridas. 1872 e 1873. sem contar novas alterações previs tas por lei nos intervalos das grandes reformas. O método favorecia a organização de classes mais homogêneas.23. não bastava a reforma das escolas. problema vivido por várias províncias brasileiras. adotado pelo regulamento de 1854. Alessandra. Governador A. Luciano Mendes de (1999. os regulamentos migraram para o método simultâneo. como ocorreu no Amazonas entre 1864 e 1865. ensino de 1o e 2o grau ou elementar e intermediário ou médio e complementar.participação de alunos e populares. 202 As matérias e os conteúdos do ensino eram estruturados em níveis crescentes.. às vezes. diminuindo as distâncias entre os centros urbanos e os lugares mais longínquos. um int enso esforço reformador nas legislações provinciais relativas à instrução pública.. 2000). 204 Contudo.). 202 SCHUELER. 204 A respeito dos métodos de ensino no século XIX. os quais representavam aspectos da nação brasileira (PARÁ. 2002. “Reorganisando as escolas de primeiras lettras” e regulamento n. CATANHO. Tanto o Pará quanto o Amazonas fecharam escolas nos 201 O Governo do Estado do Pará editou um bonito álbum desta festa.12 de 9/2/1860. 203 AMAZONAS.21/8/1876. com o aval do conselho diretor. comparado pelo jornal ao vapor que adentrava os “desertos” amazônicos. Marta Regina da Costa (2002) e FARIA FILHO. As reformas da instrução ocorriam em seqüência. regula mento n.29 de 16/3/1872. a concepção a respeito da ignorância do povo. ou ao permitir posteriormente ao diretor da instrução a adoção de outros. que fugia das escolas tal qual fugia das margens dos rios quando chegaram os primeiros vapores. “Reformando a instrucção publica da Provincia do Amazonas”. de um ano para o outro. Os próprios regulamentos previam a combinação de métodos diferentes. 201 Contudo. por divisões estabelecidas nos regulamentos – por exemplo. deflagrava considerações a respeito da aceitação deste símbolo da civilização.

vindo a ocupar o lugar desejado aos desvalidos. almejando que através da escola a criança adquirisse a noção do trabalho regular assalariado. parte para a discussão da importância da educação escolar frente às deficiências da educação familiar. o qual. 140 . a dedicação e as habilitações dos professores consistem nos três principais eixos abordados pelos missivistas. cujas despesas não compensavam os resultados. A moralidade. são as correspondências das seções de solicitados que melhor expressam as reações da população ao comportamento e ao preparo dos professores. Ataques contra a vida privada das professoras são inexistentes. vilas e povoações.idos de 1876 e 1877 por medida de economia do tesouro provincial. É só na escola que se póde adquirir aquella força de ensino e energia de vontade que faz do homem um cidadão e da criança um operário. Sob o título “Mysterios de Itaituba”. descrevendo acontecimentos miúdos que revelam a relação que os docentes tinham com suas escolas e alunos.” 206 Os procedimentos escolares: o mestre sob o olhar vigilante dos pais Um meio bastante debatido para tornar a escola mais atraente para pais e filhos consistia no disciplinamento do professorado. 10/7/1876. Pequenas localidades do interior são citadas neste trecho do capítulo. permitindo visualizar a distância com relação às capitais. levando A Província do Pará a publicar um artigo da Comissão Executiva do Centro Liberal. porém maridos tidos por devassos nem sempre foram poupados. A medida conheceu forte oposição na imprensa liberal. isto é. Entretanto. conforme não se cansaram de apregoar os presidentes de província. sobretudo no aspecto sexual. Nos restringimos a apresentar. mapas do Pará e do Amazonas mostram a localização das cidades. o de operário: “Somos grandes partidarios da educação escolar. A Constituição reproduz a noticia do 206 207 A Província do Pará. o qual. tratando da reforma eleitoral. Os liberais paraenses viam na escola o meio para a educação dos “povos livres e liberaes”. numa tentativa de racionalizar a vida financeira e administrativa da instrução pública. recebeu todo tipo de crítica na imprensa e nos relatórios. Em anexo. 207 Um importante alvo de queixas indignadas refere-se ao comportamento moral dos professores. quando necessário. algumas informações sobre a situação das escolas locais. no período retratado neste capítulo.

em sua propria casa uma desventurada que ali se recolheu ainda em vida de sua mulher. Voltaremos ao assumpto se fôr preciso. levou o missivista a desejar ao professor o “estigma dos homens de bem”. o jornal voltou ao tema do defloramento da aluna pelo marido da professora. 141 . ao contrario] o qual. condição comparada à prostituição feminina.Baixo-Amazonas. 208 No ano seguinte. 4/10/1882. apresenta-a em reuniões. a população exerceu papel importante na construção do lugar social do professor. O chefe de polícia mandou proceder ao inquérito. ao ouvir o relato da “menor” a respeito das proezas do acusado. a missão não saiu das páginas da imprensa liberal nos anos de 1876 e 1877. está o sr. 210 A Província do Pará. acusando o frei Pelino de improbidade no uso da verba para brindes e de fazer os índios trabalharem em seu benefício. onde. mystificando seus amigos. professor faça voto de castidade. Administrada por missionários e mantida pelo governo. A Constituição. que tende só a perversão de seus discipulos. por isso chamamos a attenção da autoridade competente. 15/3/1883. Em 1877.áçuruC . não contente com ter levado á prostituição. Provavelmente. que vinha a ser o coletor provincial e geral de Itaituba. 31/10/1877. A Constituição buscou combater o que chamou de “ousadia” do coletor. cuja desobediência deveria lançar o estigma ao professor. folha de Santarém. imediatamente “pos a pedra em cima”. a castidade de suas filhas. 209 O mais comum é a reprovação da vida privada do professor. A missão se localizava no Alto Tapajós. deixando para trás a “vida exemplar” que deveria levar. mas o que exigimos é mais moralidade em seus actos. mas o subdelegado que era “pessoa ou cousa” do marido da professora. Não queremos que o sr. Sem dúvida. macula. A Província do Pará publicou nos “solicitados” uma queixa contra a conduta moral do professor da vila de Curuçá.” 210 O desvirtuamento de sua missão. afim de pôr um obice á sua carreira. com a impureza de sua amante. “Neste ultimo caso. região rica de produtos naturais. com base nos rígidos preceitos morais da sociedade da época. O jornal expõe o modo como a rede clientelista atingia duas instituições públicas importantes do período: a polícia e a escola. por ter seduzido moça n ova ou por viver amasiado. pois estaria se empenhando em galgar uma outra posição. os queixosos da imoralidade dos mestres não entendiam que estes princípios necessitavam ser seguidos à 208 209 A Constituição. professor da villa de .[Curuçá. a de diretor da missão do Bacabal. a respeito de um suposto atentado do marido da professora de Itaituba contra uma aluna sua. enquadrado na categoria dos mestres que se apresentavam de forma “cínica e imoral” aos discípulos.

em todo o Império. ao final do Império. defendendo a continuidade de sua dependência ao homem e de seu império no lar. Redatores do jornal liberal A Província do Pará perpetravam uma oposição ferrenha à conquista da igualdade e dos direitos políticos da mulher. 142 . Nos concursos públicos passou-se a dar preferência às candidatas quando havia igualdade de habilitações e. que ao final do Império está consolidada. o aprendizado dos misteres domésticos e de uma instrução ainda mais elementar que a dos meninos. 7/10/1888. assim definiu preceitos da educação das filhas: “Dae-lhes uma instrucção elementar. inclusive para a instrução de meninos pequenos nas escolas mistas. visando à uniformização do ensino de forma a favorecer o controle do Estado sobre este “importante ramo do serviço público”. criando meios de educá.los ou de puni. no Pará. Ensinae-lhes a fazer pão e explicae-lhes que uma boa cozinha tira muito dinheiro da botica.”212 A posição social de professoras. Fazei-as bem entender que um mil réis é mil réis.los. Ensinae-lhes a lavar. remendar meias e fazer sua propria roupa. e que sabe economisar só quem gasta menos do que ganha. é gradualmente bem aceita na sociedade. responsáveis respectivamente pela instrução religiosa e intelectual do povo. Outro aspecto que o correspondente deixa entrever é a afronta imposta pelo comportamento do professor à “castidade das filhas” de seus amigos. as professoras percebiam um valor 211 212 A Província do Pará. mas pela introjeção de valores morais e normas disciplinares. de qual tendência fosse. Não é fortuitamente que se comparava a docência ao sacerdócio. no lar e na educação dos filhos. não só através de conteúdos e técnicas. A sociedade estava mais vigilante com relação ao comportamento de padres e professores. A Província do Pará. 15/11/1885. 211 A menina deveria ser instruída para ocupar o lugar atribuído ao seu sexo. A Província do Pará.risca por todos os homens. É válido advertir o leitor de que o autor não demonstra no artigo nenhuma intenção de fazer pilhéria do assunto. engommar. O tema da “educação das filhas” suscitava debates que levavam a só um ponto: o extremo conservadorismo da imprensa. nos casos extremos. Igreja e Estado buscavam disciplinar seus agentes. A escola normal e as conferências pedagógicas dos anos 1870 foram instituições criadas com o objetivo de preparar os professores para o exercício de sua missão. Os programas de ensino feminino incluíam.

marca com veemência o aspecto moralista da função docente feminina. sendo praticamente todos os cargos públicos preenchidos por homens. O lavrador. em 1884. portanto no lar ou na escola. lavrador de Piraem. e não satisfeito. A professora proporcionaria a “continuação da educação domestica”. A necessidade dos professores complementarem seus pagamentos com atividades extras. tendo quatro filhos a educar fez. a abandonou grávida. relacionadas à proteção e à higiene oferecidas pelo espaço físico. Lei n. 213 A educação das meninas estava cercada de preocupações morais. sem contar com a inconfessada economia feita com a manutenção dos baixos ordenados do magistério primário. que o hospedou em sua casa por muito tempo. A Constituição. influenciou a preferência dos governos por professoras primárias. À concepção a respeito do “alto encargo de educar a mocidade” pode ser atribuída algumas denúncias a respeito da “vida imoral” de alguns professores. Hospedeiro de todos os vícios. município de Santarém. A carta de um za ngado chefe de família. no Pará. pois. garantindo às famílias tementes da educação das filhas longe da proteção do lar. 143 . uma casa para sua escola no lugar Muacá. seduziu 213 214 PARÁ. Tais queixas vinham geralmente de povoações do interior. aliada à questionada moralidade. Na recepção oferecida por seu marido a dois capitães. já que as letradas poucas opções possuíam de trabalho. 664 31/10/1870. O discurso de uma professora da cidade de Macapá. na maior parte do tempo. a pedido desse professor. condição melhor aceita pelas mulheres. ela continuaria em sala de aula a árdua missão de educadora da infância. seduziu uma sobrinha de seu “benfeitor” e após viver com ela em concubinato. além de se embriagar e acumular dívidas. sugere que professores podiam negociar ou obter favores dos pais para instalar suas escolas. O professor da escola pública de Piraem fora inicialmente “agasalhado” por um cidadão. um local que seria a extensão deste.mais alto para o aluguel das casas.9o . onde a vigilância sobre o professor só podia vir dos moradores. 214 Mantendo a moral e os bons costumes. onde viveu algum tempo amasiado com a moça que depois abandonou. art. o habitat da mulher não mudaria em essência. 23/2/1884. ela reforçou aos seus convidados ilustres a obrigação da professora de ser o “modelo dos bons costumes sociaes” e o “mais moralisada possível” – só assim garantiria a “sympathia e estima d’esse circulo”.

indagando “Que vale uma escola sem bom mestre e sem moralidade? Mora esse professor em uma casinha sua. pois nada mais foi publicado a respeito no jornal daquele ano (1884).uma enteada sua. nos jornais. com promessa de casamento. As meninas. centradas na sua falta de instrução e vadiagem. da qual percebe dez mil rs mensaes. nesta situação. devia ocorrer em todo o país. O denunciante conclui a carta pedindo “rigorosa punição”. de forma a garantir a educação escolar de seus filhos. aceitando que na casa que construíra para a escola morasse o professor com a amasia. 217 A Constituição.”216 O rapto de meninas por professores é relatado em duas denúncias. O caso do professor da povoação de Condeixa corrobora esta impressão. No caso da menina de 11 para 12 anos. A Constituição.217 O rapto de moças nas províncias não era privilégio de professores. Tratava-se de meninas novas. 215 A notar de interessante no relato é a disposição do lavrador em fechar os olhos para o comportamento do professor. A mocinha de 14 anos vivia em uma casa de família aprendendo os afazeres domésticos. 3/2 e 27/10/1883. o abaixo-assinado dos moradores lança a última pedra. que fugira. porém não sabemos como terminou o incidente. funccionando a escola n’esta mesma casa. pagos pelo thesouro. Este fato denota que. 23/8/1884. se noticiava a respeito esperando-se uma reparação através do casamento. o que talvez tenha provocado reações mais fortes por parte dos responsáveis. 215 216 A Constituição. 144 . a tutela de meninos e meninas com o fim de obter criadagem gratuita. onde sem respeito ás familias e aos seus alumnos vive de portas á dentro com sua amasia. tais comportamentos que nas cartas eram tratados como imorais. 26/8/1882. isto é. não realizada. ficavam sujeitas às investidas sexuais de seus próprios tutores. uma do Amazonas e outra do Pará. uma de 11 e a outra de 14 anos. maneira muito delicada de referir-se a uma prática comum na época. pois somente depois de desfilar uma infinidade de acusações contra o professor público. fato este que. podiam ser tolerados em nome da instrução dos meninos. dependendo do interesse dos pais. vez ou outra. pela rigidez dos costumes da sociedade da época. como os próprios jornais não se cansaram de denunciar. o próprio pai irrompeu em sala de aula exigindo satisfações ao professor.

em passeio para Peroba. e até o professor exercendo o ofício de advogado em localidades aonde ter um mínimo de conhecimento dispunha o indivíduo a exercer atividades para as quais não possuía formação. 10/12/1885). Os suplicantes pedem ao diretor da instrução que tome providências de modo a coibir os abusos do professor. em Ponta de Pedras no Pará. 218 Estes são casos extremos. e por motivos diversos. levando ao abandono da escola por determinados períodos do ano. na suposição de que ela tivesse acoitado a filha. na foz do rio. O tutor era cunhado de um magistrado. recomendado pelo juiz de órfãos (A Província do Pará .e os casos que chegaram aos jornais são terríveis. que ainda tinha o acinte de aproveitar os alunos na pesca. O exercício de outras atividades além do magistério. do afastamento dos professores de seus distritos e do emprego dos alunos em seus serviços particulares. eram mal alimentadas. como muitos dos moradores dos povoados. 145 . cujos responsáveis preferiam garantir seus criados gratuitos a permitir que dessem baixa na Companhia de Aprendizes Marinheiros. constituía-se em fator de enorme irritação aos pais. cujas longas ausências da escola elementar gerou a denúncia no jornal. em 1877. devido aos maus tratos recebidos. enviados à presidência e até divulgados nos jornais. 218 Esta descrição refere-se ao caso de Amélia. mandou prender a mãe de Amélia. em 1885. quando sob o domínio conservador. pois além de não receberem qualquer tipo de educação que a tutela oficial obrigava. relata outros casos. Que manda seos alumnos a cidade de Bragança. tanto paraense quanto amazonense. os jornalistas lembraram de denunciar. serviam como criadas e diante dos abusos sofridos. dedicado ao comércio de produtos naturais. não só de pais ou chefes de família. inclusive de meninos tutelados que vadiavam pelas ruas. como insistiu o jornal A Província do Pará . são algumas das acusações sofridas pelos professores. buscar sua familia. O delegado de policia. Os regulamentos eram taxativos na proibição do exercício de atividades incompatíveis com o magistério. ou o professor lavrador que usava os alunos como “escravos” na colheita. não raro aparecia nas denúncias. “Que o professor emprega os seos discipulos em pescaria. Ou o professor pescador. algumas recorriam à fuga e ainda enfrentavam a perseguição da polícia. e por isso. A Província do Pará veiculou nas suas páginas os mais diversos abusos ocorridos nas escolas do governo. Uma destas denúncias atingiu o professor da escola pública de Peroba. que aos 13 anos fugiu da casa do tutor. Professor regatão. A imprensa. mas também por diretores e presidentes de província. Professor mascate. no Pará. á pedido do tutor. informando. mal vestidas. gerando abaixo-assinados e representações contra professores públicos.

mas não do professor e da lição. 1885. Joannico. Três dias depois. situada nos limites com a Província do Amazonas. com o agravante de funcionar colada a uma taberna. recebendo do professor repreensão severa e a ordem de permanecer ajoelhado sobre o banco. 146 . A pequena Faro. p. residia numa das “pequenas mas pitorescas vilas que adornam as margens do nosso decantado Amazonas. Que nos sabbados quasi nunca dá escola. o menino tomou gosto da “patuscada com os outros collegas”. que não interferira até aquele momento nas ações de seu empregado. Após dois meses de escola. Este usava os alunos como “criados domesticos. 20/5/1877. varredores de sala. Suas duas escolas públicas (masculina e feminina) atendiam. recitado “em voz alta e com muito chiste e gargalhada”: 219 A Província do Pará . Gentil. 28/4/1883. Manuel. era a vez d’A Constituição dispor-se a atuar como veículo do descaso do governo com a instrução. João Miguel Filho.Que faz delles seos escravos applicando-os na colheita de feijões. aberta pelo próprio professor. Um revoltado morador de Faro escreveu ao redator do jornal em 1883. o magistrado Gentil de Moraes Bittencourt. Joannico improvisou um verso. pegadores de bezerros e pescadores”. fazendo chacota com um fato bastante comum no período: o professor tinha outra distração. através das denúncias contra professores públicos. O tratamento dispensado aos alunos reforçou a revolta do denunciante contra a autonomia do professor e a inércia da diretoria de instrução pública. carregadores d’agua. 220 A Constituição. Pois que o “filho do potentado” pôs-se a zombar do professor. em anexo). não encontrou o referido professor por estar este no pagode do sr. e emprega va os estudantes em seu bene fício. A casa escolar era mantida na umidade e na fedentina de pombos e bodes. invocando o nome do ilustre delegado literário de Bragança. nada aprendera. carta de um “caeeténse” contestando as acusações ao honesto professor de Peroba. condenando a escola e o professor. 220 O tema do emprego dos alunos na pescaria é trazido à tona pelo menino Joannico. a pescaria.” 219 Sob o domínio liberal. através do trecho do “romance de costumes paraenses”. para fazer pagodes em sua casa.” Levado à força para a escola aos onze anos de idade. na qualidade de delegado áquella localidade. tabela 22 e mapa do Amazonas. respectivamente. a 65 alunos e 23 alunas em 1888 (Cf. possuía em 1885. de Aristides Lobato. cerca de 250 habitantes (BAENA. publicado na Revista familiar: periodico dedicado ás familias. carregadores de crianças. filho de um major.67). Finalmente que indo o dr. é publicada no mesmo jornal.

pois sendo filho do chefe da vila. a bebida chegou a ser citada por um deputado da Assembléia do Pará. condenando o internato para o qual o menino é enviado na capital. autorisa o abandono da escóla que fica convertida em tasca e paga integralmente os vencimentos do professor que regateia rio acima. Pará e Maranhão para designar um refresco ou pirão. 21/8/1883. entende. A chamada “baixa política” é identificada pelo redator do jornal A Constituição como responsável pela permissividade na instrução pública. água e açúcar ( Novo dicionário Aurélio. Lobato defende a escola do interior contra os desmandos dos “potentados” locais.lo para “empunhar o bastão de chefe d’esta importante localidade”. qualquer que seja o attestante de sua frequencia!” 222 O autor conclui a acusação citando o professor de Porto de Móz. e segue a narrativa. apoiado pelos pais. 7/11/1882.3. não se limita a espalhar pelas escólas elementares da provincia verdadeiros analphabetos como professores. Chibé. dos quais escapuliu para casa. sendo os atestados assinados pelas autoridades 221 LOBATO. Os deputados que defendiam o turno único argumentavam que as aulas poderiam ser interrompidas para a merenda e recreio dos alunos. aquella que só visa arranjar espoletas eleitoraes á custa dos cofres publicos e da educação popular. Sessão Ordinária em 13/4/1883). Joannico não aceita o castigo que recebe do professor. edição de 1986). A resposta de Joaquim Cabral veio rápida e bem humorada. O que vão levar para comer? P ão secco? conservas? ou chibé?” (A Constituição . “A baixa politica. Alimento popular na Amazônia. Aristides. manifestada tanto pela nomeação de professores elementares tidos por analfabetos quanto pela tolerância aos professores regatões. 147 . quando subiu o rio Xingú para aproveitar a safra da borracha e fazer o seu negócio. causando hilaridade entre os colegas: “Os pobres meninos entesinhos frageis terão que estudar nas horas de maior calor e sob o martirio da fome. que não lhe cabem a palmatória e os outros castigos que auxiliavam os professores em suas tarefas pedagógicas. O tesouro provincial pagou ao seu procurador Moreira Bastos & cia os vencimentos integrais dos meses de julho de 1881 a fevereiro de 1882. visando a prepará. feito com farinha de mandioca. “como é publico e notorio”. Assemb léia Legislativa do Pará.“Quem quizer vêr estudante Vá na reponta da maré Que hão de estar todos pescando Para o professor Chibé. tornando seus pais inimigos do professor. quando se discutia a mudança do horário escolar no interior.” 221 A ousadia do pequeno poeta resultou em meia dúzia de bolos. p. palavra de origem tupi. vae além. 222 A Constituição. 1883. é empregada no Amazonas. que abandonara no verão anterior a cadeira que regia.

1878. cujos professores pouco se demoravam nas localidades. ora por um segundo suplente de juiz de paz.competentes. usando um argumento que devia parecer convincente aos leitores. 226 Relatório da Diretoria da Instrução Pública do Pará. 26/5/1877. p. que tão prontamente divulgava. O Presidente do Amazonas Jacy Monteiro. Outra notícia do mesmo jornal informa que o diretor da instrução pública lançará “suas vistas” para o professor elementar de Emburanunga. muito menos como população escolar. Pereira da Silva explica a resolução. 223 As denúncias a respeito das infrações disciplinares dos professores podiam resultar na demissão “a bem do serviço público”. trocou os lugares de dois professores por se entregarem a negócios diversos. In: RPPA. Se as vistas do diretor se mostrassem curtas. p. que segundo informações recebidas. 13/7/1883. a trama do clientelismo. 225 RPAM.50. aguardando os carregamentos de produtos naturais. A Constituição. o jornal estava vigilante. É o que declaram os presidentes nos relatórios de província. em 1877. O caso desvenda. além de demitir outros a bem do serviço público. pois não queria parecer “inimigo das luzes”: as escolas situavam-se em lugares remotos. ora pelo suplente do dele gado litterario”. 227 RPAM. como ocorreu ao professor elementar de Icatú. disposto a aumentar o campo de visão sobre as “sinecuras” de seus adversários. presidentes e diretores de instrução recorriam às remoções de professores para outras localidades. de um lado. 366 de 7/6/1877). e de outro. 7/3/1886. 148 . empregava-se no comércio de mascate. 18/4/1885. vila de Vizeu. “ora pelo delegado literário. todas com menos de 20 alunos. e como ela afetava diretamente as escolas. o papel da imprensa opositora nas denúnc ias dos excessos clientelistas. p. comerciantes que eram. 227 A justificava esclarece o significado do termo “despovoado” na concepção da autoridade – índios tidos por selvagens não contavam como população. Um dos removidos era dono de uma olaria em Borba e o outro. 226 Como no Pará. 223 224 A Constituição. afastando-se por tempo indeterminado da localidade onde estava estabelecida a escola. vereador da Câmara de Silves. e um deles. 225 O professor que faltou aulas para exercer a função de advogado igualmente sofreu punição da Diretoria de Instrução Pública do Pará. justificou o fechamento de 12 escolas em 1877. no Pará. “quase despovoados ou habitados unicamente por índios semi-selvagens”. isto é. 224 Além disso. por ter abandonado a escola. a instrução pública no Amazonas se debatia com professores envolvidos em atividades extrativas no interior.101.7 (Resolução n.

e o corpo era maltratado com proibições como o veto ao alívio das necessidades fisiológicas. quer fora da escola”. dirigiram um abaixoassinado ao Presidente do Pará em 1883.. Como muitos outros. richoso. o professor é descrito da pior forma possível: “E assim. Condicionando o bom mestre ao bom aluno. só respira máu trato. e nenhum aproveitamento aos alumnos. formada por manadas de gado. apresentando fatos indicativos de sua “crassa ignorância”. lamentaram a miséria a que estava entregue a escolar elementar do rio Traquateua. quer dentro. sendo a escola freqüentada apenas por 228 A Província do Pará . Fora dela. A noticia indignada d’A Província do Pará visa a atacar o estado deplorável da instrução na situação conservadora. Vinte pais de Barcarena. pois privava os alunos de Cristo.Os “solicitados” publicados nos jornais revelam que pais e moradores estavam vigilantes quanto ao comportamento dos professores. mas não inacessível aos conflitos locais. ele se ausentava da escola. ou seja. e deixava em seu lugar um substituto completamente analfabeto.). uma vez que as desavenças do professor extrapolaram as paredes da escola. aludindo à “população” que ali vivia. pois a inteligência nenhum resultado alcançava. Não só o espírito não era cultivado. não podendo a má arvore dar bons fructos. não poderá tambem o máu professor dar bons alumnos. Pede-se que o presidente mande examinar o professor.. levando os meninos a aparecerem “indecentes em casa de seus pais”. é lembrado que em quase oito anos de magistério..” 228 O texto segue neste tom melindrado.”. boicotando as escolas e exigindo providências para a intervenção na instituição pública. não se achava menino que saísse pronto daquela escola. preguiçoso e colerico. porque o seu genio altivo. para ensinar!. mas descreve um quadro não inviável da escola citada.. “mais servia para abrir escola nos campos de Marajó. sob o domínio do Estado. cujo professor empossado pelo Presidente da Província. Outra denúncia demonstra como as famílias reagiam da forma como podiam. “não podendo por mais tempo tolerar os abusos praticados pelo professor publico d’esta freguesia (. dentro e fora da escola. Uns pais de família de Mosqueiro. sem um troféu ou um hino cantado ao Espírito Santo. e por tanto é incapaz de beneficiar a uma mocidade esperançosa.. 25/2/1882. comarca da capital. ofensivo à moral evangélica. E por último. 149 .. o seu comportamento era de desrespeito à “massa da população”.

arranjada pela politicagem . em vez da instrucção ir em progresso cada vez mais é aniquilada.exc. Na carta. pois “Estudam 4. Simplesmente. e pior. denominada pelos “solicitados” de “escandalosa sinecura”. o público é informado de que o professor. pede-se um visitador incógnito para que o poder público “lance suas vistas para este e outros muitos arranjos”. 229 Pelos mesmos motivos. porque assim lhes ensina o mestre! Como vê v. 15/2/1884. ignorando totalmente o sistema metrico e grammatica. 2/2/1889. quando nem mesmo eleitor era. a frequencia diaria não passa de seis a oito alumnos. a escola pública de Condeixa registrava 31 alunos. dizendo-se apenas movidos pelo interesse na instrução pública e na educação de seus filhos. 230 Nem sempre as queixas dos pais eram motivadas pela escolha política de inábeis professores. dirigida ao Presidente da Província para “ler e providenciar”. tem péssimos costumes e a casa onde funciona a escola “não está nas condições da lei”. No 1o trimestre de 1887. mal sabia rabiscar o próprio nome. indicativo de que o atendimento à solicitação dos pais fizera voltar os alunos ou. 231 A Constituição. incluindo uma menina. vivendo em santo ócio. Para fazer número. Os pais se revoltaram com a perda do “tempo precioso de educação” de seus filhos. pais de família de uma vila paraense não matricularam suas filhas na escola do sexo feminino. os fósforos continuavam a fazer número nos mapas da escola (“Mappa comparativo da frequencia diaria das escolas publicas da Provincia do Pará” In: RPPA. malmente soletram e rascunham uma carta. (. Os pais da povoação de Condeixa recusaram o espírito partidário como motor do abaixo-assinado enviado à Presidência do Pará. conforme expõe o artigo. 8/11/1885.” 231 229 230 A Província do Pará . A Constituição. casas térreas dizem terreias.. na pior das hipóteses. Tornando o quadro ainda mais miserável. no entanto que dos mappas mensaes deve contar a frequencia de muitos phosphoros. A professora inábil. 150 . em contabilidade pouco ou nada sabem porque o professor mal sabe as 4 operações elementares da aritmetica. 26/8/1882. homens adultos e meninos e meninas que mal balbuciavam as palavras estariam sendo matriculados. muitos meninos não frequentam a escola por verem seus paes que em vez de illustrarem as suas intelligencias é embrutecel-as.três sobrinhos do mestre.. recebia mensalmente o ordenado pago pelo tesouro. Anexo 2). não compreendiam como o professor público conseguiu se manter por dez anos no magistério sem habilitar um aluno. 5 annos e sahem da escola sem nada saberem. este mestre ainda precisa de mestre. vg.) Os alumnos não sabem dar ás palavras e ás phrases o tom e o accento que lhes convém. além de ignorante.

mas pouco importa: fui da classe como todos foram. ocorrida em meados de 1886. Fausto relembra os bolos bem dados nos componentes de uma certa troupe meninoria e condena com veemência a extinção da escola.17). mantidas inclusive na escola prática. os castigos corporais. e que muitos bolos apanhou do professor Benicio. Em seu lugar. a partir da educação escolar. sugerindo a fragilidade nas escolhas dos professores do interior. “Não vão pensar que fui da troupe meninoria. A proibição dos castigos corporais não implicou na abolição imediata das práticas tradicionais de disciplinamento dos alunos. de codinome Fausto. ou desfructar um dia de sueto: não fui do numero. 151 . onde se aprendia a falar errado por um mestre baldo de toda a instrução necessária ao “progresso” dos filhos de famílias que buscavam a distinção social em relação ao meio e à cultura locais. cuja disciplina rigorosa só servia para amedrontar os alunos. cujas escolas elementares podiam ser providas por professores não concursados. Pedro Vicente de Azevedo (RPPA. tais como as palmatoadas ou a penitência de joelhos. e é com grande 232 Este foi o caso do Presidente do Pará. O jornalista d’A Província do Pará. Não pertenci a esse bando de innocentes e irresponsaveis. 15/2/1874. As queixas contra professores e professoras compõem um interessante painel do cotidiano escolar da época e revelam como os pais reagiam a práticas escolares que com o tempo foram deixando de ser percebidas como legítimas. 232 Desde a década de 1860 no Pará e de 1870 no Amazonas. que entendiam que abrir a torneira a uma pipa de agua que o aguadeiro abandonava na rua. Fósforo era o falso eleitor incluído nas listas eleitorais e a sua presença nos mapas escolares denota a íntima relação entre política partidária e instrução pública no Pará. era um acto tão meritorio e justo como dar uma bôa lição. Os pais de família da povoação boicotaram a escola do povoado. passou pelos bancos da escola onde os novos mestres ensaiavam o ofício de professor primário. que muito pulou por aquelles bancos. o professor teria sido nomeado por um ex-diretor da instrução com base em informações falsas de terceiros. Um aspecto interessante da carta é o emprego do termo phosphoros no contexto da instrução pública. tal qual os castigos físicos. por meios correcionais e de recompensas.Ex-praça da polícia. instituição modelar anexa à escola normal de Belém. surge um minucioso sistema disciplinador. não constavam mais dos regulamentos da instrução pública. associando-a às fraudes típicas das eleições. p. Alguns governantes começavam a identificar as punições dos mestres ao “antigo regime”.

deu destaque a um “acto de selvageria” cometido pelo professor de uma escola do sexo masculino da capital. A expulsão de Philippe já chegara ao conhecimento da diretoria de instrução pública. no ano de 1883. em junho de 1884. chegando a ser entendidos como decorrentes da incapacidade moral dos mestres e até como crime a ser punido. 235 A Constituição deu vazão. pedindo providências à “autoridade” para dar fim ao divertimento de ”meninos vadios e de filhos-família” que enchiam as ruas de Manaus com seus papagaios. denunciou o incidente à Diretoria de Instrução e o fez chegar à imprensa como noticia e não através da seção de “solicitados”. como veremos adiante.pezar. admitia e expulsava os alunos ao seu bem querer. 235 A Província do Pará . sendo o seu representante máximo convocado. O professor e o seu adjunto espancaram barbaramente com uma régua o menino Pedro. filho de Manoel Vicente. sob um “sol ardentíssimo” (11/8/1882). Guimarães” que. quando dirigido a um “filho-família”. para confirmar o fato. 234 O próprio Fausto. e cheio de saudades. através da carta. empurrando-o até a rua. que na citação acima se mostrou benevolente com os bolos do professor Benicio. 22/6/1884. Já o termo “filhos-família” foi empregado por um jornalista do Amazonas. como normalmente chegavam ao jornal as queixas contra as escolas. A associação entre castigo corporal e incapacidade moral do mestre-escola partiu de um artigo d’A Província do Pará condenando a educação teológica na família e na escola (15/11/1885). 28/4/1884. a uma extensa e indignada carta de um morador de Faro contra o professor público.”233 Algumas cartas de pais e notícias de jornais condenaram os castigos corporais nas escolas. 236 A Constituição. como acontecera com Philippe. O castigo de Pedro ficaria certamente no anonimato de mais uma ocorrência da vida diária de uma escola. Definido o ato como “abuso”. aproveitou a abolição da escravidão para comparar a escola com os suplícios do cativeiro. se ele não fosse filho de um certo “sr. A autoridade do professor ou professora sobre os alunos presumivelmente era sentida de forma mais legitima ou 233 234 A Província do Pará . mas supomos que as penas eram diversamente interpretadas. O jornal A Província do Pará. 6/9/1888 (grifo do autor). que eu relembro os bons tempos da Escola Pratica. 236 Não queremos com este caso afirmar que somente as famílias com um certo capital social discordassem dos castigos recebidos por seus filhos nas escolas. 152 . o jornal pede ao diretor da instrução severa punição para o “crime”. ultrajado em sua autoridade paterna. que entre outras atitudes condenadas pelo missivista.

para “persuadir” Joannico a ir à escola. 4/1/1881. ilustra a relação tensa do chefe local com o professor público de uma pequena vila às margens do rio Amazonas. as correntes do trabalho 237 238 LOBATO. a escola do mestre e a escravidão. e não no castigo. “onde a palmatoria era a vergonha. o banco. cujas posições na sociedade local. relatando cenas da disciplina imposta pelo professor e sentidas como um tratamento ultrajante. tornando-se este inimigo do professor. pressupunham uma atitude submissa dos demais. Da comparação com a escravidão. 238 O termo castigo recebeu. aos brados de “A liberdade! Viva a liberdade!”. 1883.72. a escola não escapou. A reação do menino foi fugir e se queixar ao pai. 153 . A personagem citada há pouco. Joannico. na escola do mestre de sua cidade. e o decuriao. Abertamente. o autor do romance paraense mostra-se favorável ao professor. na resolução do Conselho.inquestionável pelas famílias mais pobres do que pelos chefes de família. foi feita por Fausto. cuja autoridade foi colocada a toda prova pelo “filho do potentado”. outra se interpôs à sua vida de rapaz solteiro e folgazão. recentemente adquirida. em decorrência da qual. n’A Província do Pará. desfila as “escravidões” por quais vinha passando um jovem branco e livre. o feitor terrível”. 237 Uma resolução do Conselho Diretor da instrução pública do Pará. o professor infligiu aos seus alunos castigos barbaros e poder depois deliberar a respeito”. O alegre texto de Fausto. os membros do Conselho requisitaram ao chefe de policia o corpo de delito “a fim de verificar o Conselho. A associação entre duas instituições do século XIX. pois em casa. Fausto se livrou da escravidão da escola. por exemplo. porém. se com efeito. Claro está que o problema aqui consiste numa guerra de autoridade. RPPA. p. o cipó de vassoura de açaí funcionava como corretivo ou. o menino Joannico. o cepo onde nos amarravam. indicando que o professor ultrapassara o limite do socialmente aceitável no disciplinamento de seus alunos. A representação contra o professor partiu do delegado literário de Mojú. A primeira teve lugar na infância. comparável às punições sofridas pelos escravos. desvela como as queixas contra castigos eram apuradas pelo poder publico. comemorando a libertação dos escravos. acaba sendo castigado pelo professor com umas boas palmatoadas. em 1880. É razoáve l imaginar que pais e filhos se ressentissem do tratamento disciplinar impróprio a indivíduos livres. Aristides. ou seja. descrito pelo romancista como um aluno vadio e insolente. o atributo de bárbaro.

acusações que a levaram a assumir o lugar de perseguida. a 239 240 A Província do Pará . na seção de anúncios d’A Constituição. de onde um vigilante enviou uma carta ao Commercio do Amazonas. 240 Não há como saber os meandros do conflito entre a professora e o delegado literário. Acusações como estas são raras. usando como testemunho da incompetência da professora o exame feito pessoalmente pelo Presidente da Província em duas alunas indicadas. amenizou dizendo. no Pará. representado por “esse amaldiçoado officio de escriptor. no Amazonas. tabuada de multiplicação e doutrina cristã. Na visita feita à escola. 154 . ele diz não ter encontrado registro nenhum no livro de freqüência diária. uma das armas empunhadas pelos professores na luta para manter o emprego. às fraudes nos informes a respeito da freqüência escolar. “estão tomadas de susto”.cotidiano. os ataques às professoras se limitam à falta de preparo para a função. segundo caucaso. falhas não circunscritas ao seu sexo. o vigilante não perdoou o atraso da escola. onde eu. com a exceção de uma carta publicada por uma professora em 1882. Passos Miranda buscou disfarçar. sou todos os dias roido pelo abutre devorador do trabalho cotidiano”. Citaremos apenas um caso. 239 Castigos físicos aplicados por professoras nas suas alunas não são narrados na documentação. como o fato da professora passar dias sem ir à escola. ilustrando como a falta de habilitação dos professores repercutia sobre as famílias. Segundo o missivista. A Constituição. Porém é interessante sublinhar o fato dela recorrer ao jornal com matéria paga. as filhas de Felisardo Moraes a nada responderam. Outras reclamações dos pais foram submetidas à Diretoria de Instrução pelo inspetor. pois ela não explica o porque da perseguição. respondendo ao oficio do diretor da instrução. Assustadas ou não. foi acusada pelo delegado literário de espancar uma menina. segundo informação de seu protetor. segundo Prometheu. que ao seu ver. A professora de Irituia. 16/5/1888. O fato se deu em Itacoatiara. alegando estar o livro disponível ao exame do diretor e desconhecer o porque da ausência das meninas protegidas por um denunciante. 26/8/1882. Ao que o presidente Passos Miranda. Argüidas a respeito de alguns rudimentos de gramática.

O jornal A Constituição aproveita o clima de contentamento que cercou os agraciados com bons resultados nos exames e seus familiares. os sucessos na sua missão.” 242 O professor Lima procurou o mesmo jornal. erros e acertos. sendo selecionados(as) por indicação. que compartilharam o “pão da sabedoria” com seus alunos. 242 A Constituição. como toda instituição. a sociedade e a pátria esperam dele.interinidade que se prolongava por seis anos era toda a causa da apatia. O professor informa que ela já havia sido censurada pelo Presidente da Câmara Municipal. expõe os números (o quantitativo) do seu trabalho e as posições (o qualitativo) que seus alunos passaram a ocupar na sociedade. informando nos “solicitados”. Entendemos a escola como processo. e se compenetrar da honrosa missão que se lhe ha confiado. e parte para a sua defesa pessoal. reformas. pressionadas pela difícil tarefa de forjar cidadãos conformados com o que a família. são familiares satisfeitos com os resultados alcançados por seus filhos e protegidos. 12/12/1884. com inteligência. A carta é iniciada com um comentário a respeito de um artigo em que fora censurada a professora que. encontra-se professores que sabem se compadecer de sua alta obrigação. Os agradecimentos vinham após a realização dos exames ao final do ano. mas que também não aceitará censuras.. movimento interminável de experiências. para homenagear os professores de Salinas. crendo que. dedicação e amor ao trabalho. todavia trabalhando com instrumentos de importante potencial libertador. Alguns pais de família ou parentes tiveram o cuidado de ir à imprensa apresentar seus agradecimentos a professoras e professoras. Lembramos aqui que os professores(as) interino(as) regiam as escolas elementares. por ter sido também mencionado no artigo. Deixando claro que não cobrará elogios. “(. 155 . possivelmente. tentativas.. matriculando 30. sem necessidade de concurso. do desproveito e da desmoralização reinantes na escola. sobretudo as socializadoras. apresentava a freqüência de 100. 241 De forma alguma é nossa intenção passar a idéia de que a escola primária do oitocentos foi um fracasso. 25/7/1875. 241 Commercio do Amazonas.) no professorado da Provincia do Pará. como a leitura e a escrita.

Cynthia.500 alumnos em todas as classes e tendo sido approvados plenamente na quarta [classe] 140. um aumento gradativo no número de professores efetivos e vitalícios. em detrimento de sua formação profissional”. quando os regentes. Até o final do século. p. tem lecionado a 2. tempos e lugares lhe dispensam suas attenções e toda prova de consideração e estima?”243 * * * É somente nos últimos decênios do século XIX que os governos começaram a investir na formação e profissionalização do professor primário. criando as escolas normais e estabelecendo regras para a seleção de professores em que a condição de normalista fosse pré-requisito para o provimento efetivo das cadeiras. bachareis.“(. quais eram os seus motivos? Estariam prestando favores aos potentados locais ou aos pobres professores que dependiam do emprego para sobreviver. podiam ser eleitores de cargos provinciais e também nas Assembléias Paroquiais. no entanto. 244 Muitas questões permanecem sem respostas com relação à escola pública do século XIX. tendo medicos.8. O crescimento do número de escolas no interior estaria condicionado às práticas clientelistas? Apesar da tônica civilizadora e salvacionista dos discursos. até a mudança do sistema eleitoral na República. officiaes superiores e inferiores. 156 . 14/4/1884. Possivelmente. que em todas as occasiões. 2002. que por sua vez. a partir do regulamento de 1835. as cadeiras do interior mantiveram o seu humilde papel na hierarquia eleitoral. a institucionalização da instrução elementar na Província de Minas Gerais. reduzindo o caráter provisório e leigo do cargo. a influência local do professor poderia explicar o “investimento na produção do lugar do professor como empregado público. teriam sido os arranjos políticos a principal motivação dos administradores e legisladores para a criação das escolas nas pequenas localidades do interior amazônico? Quem eram os moradores que solicitavam o estabelecimento das cadeiras. favorecedor ou não das redes clientelísticas de poder. etc. Tudo indica que o professor Lima estava lotado em Belém.) que elogios podem elevar o professor que. VEIGA. ou percebiam na instrução oficial possibilidades de ascensão social na ocupação de cargos (eleitorais ou por indicação) na 243 244 A Constituição. Para Cynthia Veiga. em 27 annos.. A autora aborda em seu artigo. podendo ser observado. indicavam os eleitores da província.. de acordo com a sua renda anual. direitos políticos garantidos pela Constituição do Império. professores interino s continuaram a ser nomeados no interior do Amazonas e do Pará.

torna a temática extremamente rica de possibilidades de pesquisas a desenvolver. buscamos vislumbrar saídas. observando-se o contexto nacional do surgimento destas instituições. Uma outra modalidade de educação popular se impunha aos governos das últimas décadas do século XIX: o treinamento de meninos pobres para o trabalho manual. através do aprendizado dos ofícios mecânicos e/ou das atividades agrícolas. verificação também feita por Cynthia Veiga. As implicações do clientelismo e a produção do lugar de professor como empregado público são. indicar hipóteses. mas a sua complexidade provocada pelas inúmeras implicações da instituição escolar junto às mais diversas instâncias da sociedade. temas pouco estudados. no artigo citado. As experiências provinciais de instrução elementar vê m sendo alvo de interessantes análises nos últimos anos. 157 . através da documentação tratada neste capítulo. o tema do ensino profissional dos internatos criados na Amazônia será retratado.estrutura do Estado? Estas são questões que. por exemplo. Nos capítulos seguintes.

durante a segunda metade do século XIX. enfocando especificamente os estabelecimentos de educandos do Amazonas e do Pará. retomaremos o tema. sob o aspecto dos conflitos que emergiam da vida cotidiana dos envolvidos na trama institucional. completam o escopo da análise. As instituições são analisadas.Capítulo 3 Selvagens x polidos O ensino profissional no Segundo Reinado Neste capítulo.Pedro II. Não pertencem ao escopo da análise as companhias de aprendizes vinculadas às instituições militares. a organização interna. O objeto de estudo é constituído pelos estabelecimentos de internação que treinavam meninos na faixa dos sete aos 21 anos no trabalho artesanal. No capítulo 4. a documentação é complementada por artigos de jornais e ofícios trocados entre presidentes de província e diretores dos educandos. O modelo educacional das instituições de educandos artífices conheceu ampla disseminação pelas províncias nas primeiras décadas do Império de D. No caso do Norte Amazônico. os estabelecimentos civis oficiais e alguns particulares. introduzimos o tema do ensino profissional dirigido aos meninos órfãos desvalidos e aos pobres. governo e família) e os comportamentos dos educandos. ao longo do capítulo. cujo fim era a formação profissional. as relações com o seu entorno (sociedade. focalizando as instituições educacionais criadas em várias províncias brasileiras. As iniciativas dos governos provinciais representadas pelas Casas de Educandos Artífices. Algumas instituições do gênero. 158 . sobretudo as do A mazonas e do Pará. sob diversos pontos de vista que as identificavam: os programas de ensino e suas transformações. Os relatórios e regulamentos produzidos no período sobre diversas instituições de ensino de ofícios e agrícolas constituem a base documental deste capítulo. criadas por iniciativa religiosa e do Governo Imperial. são os objetos privilegiados deste capítulo. e sim.

principalmente aquelas surgidas antes da República. por nascerem. Celso Fonseca aponta outros problemas sofridos por essas instituições. No entanto. 1/3/1883. deve consistir para o Estado unicamente no lucro que lhe provem da assistencia aos desherdados da fortuna. as reduz a tentativas frustradas. que são merecidos. desde o período colonial. em cinco volumes.41. da historiografia relativa ao ensino profissional no país. que mais tarde se apresentarão cidadãos moralisados e trabalhadores úteis a si e á patria. nos relatórios das instituições. formadas por instituições asilares. A obra tem o mérito de tornar visíveis as diversas iniciativas dos governos. de cada estado do país. escolas e cursos de ensino manufatureiro. na maioria dos casos. Para a elaboração deste texto. equivocadamente comprometidas com a educação dos pobres e desvalidos. ao nosso estudo.” 1 A historiografia clássica dirigida ao estudo do ensino técnico no Brasil difunde a idéia de que pouco se fez por essa área no Brasil oitocentista e que este pouco foi carregado de fracasso e escolhas equivocadas. como as 1 2 RPPE. O ensino profissional no Segundo Reinado “A compensação das despezas e mesmo dos sacrificios. reforçando a desvalorização do trabalho manual herdada do trabalho escravo. 159 . Trabalhos analíticos surgiram baseados nos dados levantados por Celso Sukow da Fonseca. Fonseca apresenta as iniciativas na área. na visão do autor. Uma obra de referência pela quantidade de informações arroladas e pela amplidão geográfica e histórica é o estudo de Celso Sukow da Fonseca História do ensino industrial no Brasil . sem maiores conseqüências. Assim. foi organizado um “Cadastro das instituições de ensino profissional do século XIX” apoiado no trabalho de Fonseca. como a falta de recursos materiais e humanos adequados ao ensino industrial. pelo SENAI. bastante fidedignos quando checados junto a outras fontes. p. instituições. além de outros estudos e. vindo a ser referência básica para estudos posteriores2.Começaremos discutindo questões e contribuições.publicado originalmente na década de 60 e reeditada em 1986.

fundamentando-a nos novos estudos que surgiram sobre as instituições de ensino profissional do século XIX. alguns calcados em rica documentação que.. João VI em 1808 e a permissão para a abertura de estabelecimentos industriais houve uma retomada do crescimento das atividades secundárias. tal qual a amazonense. com raras exceções. entre 1840 e 1865. Os governos de nove províncias instalaram Casas de Educandos Artífices em suas capitais. SANTOS. inúteis ou mesmo 3 4 FONSECA. pelos governos provinciais e por particulares (religiosos e industriais).4 Entretanto. Retomaremos a discussão. de Guerra e de Marinha. que. se na maioria das províncias onde foram criadas. através do encaminhamento de crianças e adolescentes às oficinas dos arsenais militares. com a constituição do Estado nacional. não havia desenvolvimento industrial algum? Como uma Casa. proliferaram pelas províncias brasileiras. por outro traz novos questionamentos. ocupações relativas aos ofícios mecânicos teriam sofrido um processo discriminatório. sem atingir o objetivo principal da formação de mão-de-obra especializada. Aliás. Iniciou-se um lento processo de formação compulsória de trabalhadores para diversos ofícios. Jailson. esclarece muitos pontos da questão. deixando de ser exclusivo ao ambiente doméstico e às poucas corporações de ofícios instaladas.5 Outras instituições foram criadas para este fim. p. O ensino de ofícios no Brasil adquiriu no século XIX um novo sentido.15. Com a vinda de D.5. surgiram e se extinguiram em meio ao fracasso total. entre 1840 e 1864. Cels o Sukow da. 160 . sustadas no século XVIII pelas autoridades coloniais. formar para que. de Norte a Sul do país. de um lado. preocupados com a formação para o trabalho e em evitar que crianças desvalidas se tornassem futuros vadios. e às Companhias de Aprendizes Marinheiros. que levaram os governos a investir durante longos anos em instituições que Fonseca considerou desnecessárias. 1986. por várias delas estarem associadas ao trabalho escravo.Casas de Educandos Artífices. persistiu por 40 anos onde não havia “estabelecimento industrial importante”?3 A aparente contradição entre o surgimento das Casas e a falta de demanda por operários especializados encerra na obra do autor uma possível discussão dos motivos. lembra o autor. explícitos ou implícitos. 2000. formando as Companhias de Aprendizes Artífices. v.

Rio de Janeiro : FGV/IESAE. em dez estados brasileiros. Luiz Antônio. 1986. 10 FONSECA. a função principal destas instituições disciplinares era recuperar socialmente os menores que perambulavam pelas ruas . (Mimeo) apud FRANCO.6. p. destinada a amparar e conter os desvalidos. Luiz Antônio Carvalho. A justificativa econômica não explica também a preferência pelos filhos de pais miseráveis.6 A tensão entre os objetivos políticos e econômicos que explicam o surgimento das instituições de ensino de ofícios é apontada por Luiz Antônio Carvalho Franco. 161 . 1988. indigentes. Para o autor. expostos e indigentes. Luiz Antônio.“limpar” as ruas das cidades. Álvaro Pereira (1999). p. e que ensinavam ofícios. 6 CUNHA. s. ver os trabalhos de VENÂNCIO.5. F ranco questiona a associação entre a criação dessas instituições e as necessidades da indústria nascente.. Renato Pinto (1999) e NASCIMENTO.8 Celso Sukow Fonseca tenta compreender o ensino de ofícios dirigido aos menores abandonados. voltadas para a educação dos “meninos pobres e desvalidos”. 1988. da “modernização” e da “civilização”. “na medida em que os menores abandonados representavam o avesso do “progresso”. 8 Ibid. Luiz Antônio Cunha (1979) mostra como os objetivos técnicos e econômicos da formação de artífices foram se mesclando a objetivos ideológicos. Celso Sukow da. enfim aos “deserdados da fortuna”. A demanda por mão-de-obra especializada no decorrer do século XIX era insuficiente para explicar o grande número de instituições voltadas para o abrigo de órfãos. v.69.10 Um exemplo da desvinculação entre atividade fabril e demanda de formação profissional consistiu no 5 Sobre as Companhias de Aprendizes Marinheiros.119.perigosos à sociedade. ressaltando a aparente contradição inerente ao fato do processo de industrialização ser quase nulo na maioria das províncias. 9 No período republicano. 7 FRANCO..7 A preocupação com a formação de uma força de trabalho nacional estava restrita a algumas instituições. crianças órfãs. não seguiu a tendência centralizadora do crescimento da indústria (A formação escolar da força de trabalho industrial do Brasil: as Escolas de Aprendizes Artífices. transformando o ensino de ofícios em uma obra de caridade e controle social. 1979. principalmente arsenais de Guerra que necessitavam de mão-de-obra especializada. manteve-se a desvinculação entre atividade industrial e criação de escolas de aprendizes artífices. p.9 E não deixa de denunciar a “mancha do pecado original” presente na criação destas instituições. Luiz Antônio Cunha mostra que a criação das escolas no ano de 1909.d. a partir das necessidades da indústria.

13 RPPA. p. uma província que neste período mantinha uma indústria voltada para a fabricação de produtos tradicionais da região.surgimento da primeira Casa de Educandos Artífices. 1/9/1862. No levantamento realizado pelo Governo da Província. inclui-se na primeira categoria um amplo escopo de unidades de produção. fábricas de cal e louça e produção de aguardente. Havia também engenhos de açúcar. encadernador. nos moldes da fábrica moderna. O Pará manteve uma produção têxtil doméstica de certa importância no período colonial12. couros e peles. ocorrido no Pará. HARDMAN. serrarias. marceneiro. com 1. ferreiro. carpinteiro.395). sapateiro.165 unidades dentre um total de 1. sobre os estabelecimentos industriais e agrícolas do Pará para a exposição industrial. olarias. Victor. foram retiradas dos relatórios provinciais e da legislação) quando afirma que não havia demanda do setor fabril pelo ensino profissional. como farinha de mandioca. o almanaque publicado décadas depois apresenta um número significativo de artesãos dedicados aos ofícios de alfaiate. p.14 A hipótese defendida por Luiz Antônio Franco da restrita relação entre instituição de ensino profissional e controle social dos desviantes pode ser contestada a partir da realização de estudos específicos sobre as instituições dentro da realidade local. as quais. Contudo.24. O próprio critério de definição do termo “indústria” já pode comprometer a análise. A compreensão dos motivos que levaram à criação das instituições não pode se restringir à quantificação das indústrias fabris das províncias. cuja produção era mecanizada através da utilização 11 12 FONSECA. peixe seco. LEONARDI.273 estabelecimentos industriais no município da capital. Em meados do século XIX nenhuma província do país tinha um setor industrial desenvolvido.57-58. 1982. p. “manteiga de tartaruga. entendido como um conjunto de fábricas para beneficiamento de matérias primas. principalmente de alimentos. por sua vez. com predomínio quase absoluto dos “estabelecimentos de fabricar farinhas”. João Severiano (1986 [1880]. colas de peixe. atividade não mencionada na documentação do século XIX. em 1840. impedindo-nos de avaliar a importância que poderia ter uma instituição de formação de artesãos para a vida da cidade. 162 .13 As tradicionais atividades dos ofícios artesanais não são consideradas no levantamento. O autor se baseia em dados secundários (as informações apresentadas por Celso Fonseca. funileiro. em 1861. redes maqueiras e a piaçaba”11. Francisco Foot.

por iniciativa do Irmão leigo catarinense. asilo criado em 1799 na cidade de Salvador. Os menores eram encaminhados para empresas comerciais e oficinas de artesãos para completarem a educação recebida na instituição.21 (sessão referente ao Estabelecimento dos Educandos). O estudo de Alfredo Matta sobre a Casa Pia Colégio de Órfãos de São Joaquim. abarcava um número elevadíssimo de pequenas fábricas de quintal. 3/9/1866. a partir da educação de suas crianças também foi um objetivo importante destas instituições que não pode ser ignorado.16 A obediência. o orfanato surgiu como formador e fornecedor de mão-de-obra especializada no período de transição entre o trabalho escravo e o assalariado. incluindo o trabalho artesanal das oficinas dos mestres de ofícios. grupo de pressão capaz de influenciar os rumos da cidade.. Segundo Francisco Foot Hardman e Victor Leonardi (1982). detectou o crescimento do interesse de setores da sociedade na formação de artesãos. p. com suas instituições de ensino de ofícios. é uma das estratégias para explicar a manutenção ou fechamento de tais instituições. Segundo Matta. dos arsenais (“trens”) e as fábricas.39). interesse recrudescido com o fim do tráfico de escravos em 1850. o respeito à hierarquia e a promoção da civilidade dos costumes constituem objetivos importantes dos internatos para desvalidos. A fundação da Casa. oficinas nas quais patrão e empregados trabalhavam lado a lado (p. Joaquim Francisco do Livramento. conseqüência da urbanização da capital.. como comércio e serviços. O apogeu ocorreu entre 1850 e 14 15 AlMANAK Paraense. além das fábricas. 1883. O termo indústria deve aqui ser entendido em sentido mais abrangente. Compreender as relações mantidas entre setores públicos e privados das cidades. que até 1874 não implicou na obrigatoriedade de pagamento. tanto públicos quanto privados. a atividade industrial e manufatureira do século XIX. O disciplinamento das classes populares. 16 RPPAM. A “innoculação intima do amor ao trabalho” é um mote que aparece insistentemente nos regulamentos dos asilos e nos escritos de seus defensores. 163 . contou com o apoio da comunidade e de autoridades de Salvador e coincidiu com o da criação da Associação Comercial da Bahia.do vapor ou da energia hidráulica.15 Outros setores que empregavam menores como aprendizes também devem ser incluídos no rol daqueles que necessitavam de mão-de-obra melhor preparada. quando os proprietários assinavam um termo de responsabilidade.

eleitos pela Junta. 22 FRAGA FILHO. continuação dos estudos ao nível secundário e formação religiosa.20 Não se pode afirmar que a demanda explícita por “mão-de-obra especializada” motivou o direcionamento educacional do asilo para a formação profissional . de benfeitores do Colégio. Alfredo Eurico Rodrigues. 1996. a qual incluía o comércio. um Procurador e nove Consultores. porém a pesquisa de Walter Fraga Filho nos dá alguns indícios. qualidades que a Mesa diretora da Casa acreditava estarem incorporadas aos alunos que ali se formavam. Até mais da metade do século não havia remuneração e deviam servir aos mestres. p. cerca de 70% dos menores saíram empregados da Casa. serviços diversos e as oficinas de artesãos. como aprendizes. e até a década de 1860. Walter. Destes.é mais certo se apoiar em um conjunto de fatores.56 e 66). 20 Ibid. um Presidente da Mesa. Não há como saber qual dessas aquisições era mais valorizada pelos empregadores. Alfredo Eurico Rodrigues. 1996. carros e fundição (Ibid. em sua falta. Os meninos não eram encaminhados para as oficinas. absorveu mais 30 jovens.17 Somente a fábrica de tecidos de Valença absorveu 70 asilados no período de 1845 e 1849.140. boa educação e presteza para o trabalho”. um Escrivão. 164 . tinha por função cobrar anualmente desta as contas da Casa e o relatório do adiantamento dos menores e estado geral do Colégio (MATTA. com “sujeição. 1996.. com mandato trienal e composta por treze membros: um Provedor..21 As vantagens que tinham com relação aos outros aprendizes eram a alfabetização e o aprendizado de noções de aritmética. Sobre os destinos dos ex-alunos. por sua vez. e 11.187. O restante dividiu-se em ofícios nobres. lojas e fábricas como trabalhadores formados e sim. p. p. 19 Oito fábricas receberam asilados da Casa: cinco do setor de tecidos. um Tesoureiro. ou. de charutos.. A Junta administrativa. 63-187. segundo as relações tradicionais da época entre mestres e aprendizes. p.1870.179). além das qualidades já mencionadas.22 17 18 MATTA. além do grupo encaminhado pelo Governo da Província para os arsenais militares.8% tiveram como destino empresas e instituições reconhecidas na época como fabris 19. quando cerca de 90% dos menores foram empregados. álgebra e desenho. mais de 40% foram empregados em “artes de ofícios”. pretensamente adquiridas pela rígida formação religiosa e moral. p. e as restantes.18 Entre 1825 e 1910. Além de eleger a nova Mesa diretora. Ibid. ver em anexo a tabela 20. 21 A Mesa era o órgão que administrava os bens e o governo da instituição. era um colegiado presidido pelo Provedor e composto por vinte antigos mesários. quando receberiam o treinamento definitivo para sua futura ocupação.

colocando-a sob a proteção do Estado. A iniciação profissional da criança podia levar à trajetória em direção à rua. como castigo por mau comportamento. onde os meninos viviam desde os sete anos de idade sob um rígido regime disciplinar e claustral. a longas jornadas de trabalho e aos castigos corporais. bem cedo os meninos saíam de casa para viver na companhia de mestres de ofícios. Nas ruas. p. os meninos vivenciavam os prazeres da vadiação. se organizavam em grupos para sobreviver e se defender das constantes investidas da polícia. Buscavam uma mão-de-obra barata e capaz de se sujeitar aos rigores disciplinares dos ambientes de trabalho. como demonstram os ofícios da polícia da segunda metade do século XIX sobre fugas e apreensões de aprendizes. como atestam os ofícios das autoridades policiais da época. pois não só apreendia os menores. A extensa documentação da Casa permitiu a Alfredo Matta levantar os destinos dos ex-alunos como aprendizes nas oficinas.Na cidade de Salvador do século XIX. 165 . Nos casos de fugas. A polícia tinha uma função repressora/assistencial.maus tratos e humilhações. as autoridades tiravam a criança do domínio dos pais e do mestre. mas não se sabe se após este período conseguiam empregar-se nas profissões que aprenderam. o que também não representava destino muito diferente em termos do tratamento disciplinar: eram mandados para a Companhia de Aprendizes Marinheiros. onde decerto não encontraria melhor tratamento. submetidos a uma severa disciplina. Em casos mais graves de maus tratos. etc. O tratamento muitas vezes não se diferenciava daquele dado aos escravos . havendo reincidência.23 É possível que mestres de ofícios. como receber chibatadas e ser preso por correntes. como buscava colocações possíveis em instituições e oficinas. instituição que recebia os alunos indesejáveis da Casa Pia e de estabelecimentos de educandos artífices. As fugas eram constantes e as diligências policiais para capturar os meninos também o foram ao longo do período (1840-1870). 1996. Alfredo Eurico Rodrigues. a polícia apreendia o menor e o devolvia ao mestre. o menino era encaminhado para a armada.124. casas de comércio. comerciantes e demais empregadores tenham preferido buscar aprendizes no asilo. Pode-se supor que 23 MATTA. Muitos meninos recolhidos nas ruas foram encaminhados para tendas de mestres de ofícios.

interessava aos empregadores a mão-de-obra barata e submissa representada pelos menores, que iam sendo substituídos por outros, fornecidos pela Casa. O autor afirma que o setor industrial era reduzido na cidade de Salvador à época, portanto, a capacidade de absorção de mão-de-obra era pequena. Já outros setores, como o de serviços, eram mais representativos e necessitavam de trabalhadores, ao menos, alfabetizados, como a função de caixeiro, que absorveu 304 dos 1.233 destinos conhecidos entre 1825 e 1910. Esta categoria representou a maior demanda do mercado de trabalho de Salvador recebida pelo asilo no período imperial. Os ofícios diversos, além do de caixeiro, absorveram 229 menores, as fábricas, 145, e os ofícios nobres, 81.24 Estes dados mostram uma instituição intimamente ligada ao mercado de trabalho local, atendendo às suas demandas, vindas freqüentemente de negociantes que apoiavam a Casa. A Casa Pia conheceu o seu apogeu no período do Império, quando ajudou a formar o perfil do trabalho assalariado na Bahia, em relação a algumas categorias profissionais, como tipógrafo, marceneiro, boticário e caixeiro, entre outras.25 A sujeição como um aspecto valorizado pelos empregadores não deve ser desprezada. Muitos aprendizes eram ó rfãos ou órfãos de pai, não podendo contar com o apoio familiar, caso não se adaptassem ao trabalho. Isto não significa que não houvesse inadaptações e resistências ao tratamento recebido, marcado por maus tratos.26 Já em 1841 havia a preocupação com a entrega de meninos a particulares, devido às fugas de muitos aprendizes para a vida nas ruas, atitude que rompia com os objetivos de formação da instituição. Em 1871, aparece a primeira manifestação da Mesa contra os mestres de ofícios, ou empregadores dos menores - muitas vezes os aprendizes eram explorados, sem receber a “verdadeira formação e perícia”.27 Neste ano, a Casa instalou as suas primeiras oficinas, de modo a treinar os meninos sem a exposição aos perigos das ruas, à exploração dos mestres e à má influência do ambiente de trabalho, principalmente das oficinas. A mudança do local de treinamento pode também indicar que, nas últimas décadas do século XIX, o provimento de mão-de-obra para as oficinas deixou de ser um fator determinante da atuação institucional.
24 25

Ibid., p.139 e 160. Ver distribuição dos destinos dos ex-alunos na tabela 20. Ibid., p.207. 26 Ibid., p.187.

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Pelo lado da instituição, o encaminhamento para o trabalho representava não somente a continuidade da formação especializada do aprendiz. O interesse da Mesa ao enviar menores à fábrica de Valença, por exemplo, não se restringia ao aprendizado de um ofício: considerava que a fábrica era um “excelente destino”, pois lá encontrariam “o temor, o respeito e a sujeição, e tornar-se por fim úteis à nação”, a despeito da insatisfação e do temor que este destino causava nos meninos e nas famílias.28 No caso da Bahia, não houve uma relação direta entre a atuação do asilo e a retirada de crianças da rua. O objetivo era dar formação moral e profissão a meninos pobres e órfãos, de preferência brancos e filhos de uniões legais. Os critérios de raça e de legitimidade não eram explícitos - foram depreendidos pela análise estatística das fichas de todos os meninos que passaram pela Casa. Se considerarmos o perfil apresentado por Walter Fraga Filho a respeito de 83 menores apreendidos pela polícia nas ruas de Salvador, entre 1840 e 1870, dos quais a maioria era de não brancos (95% dos 60 menores que tinham cor conhecida), verificamos que a Casa Pia não era um destino possível para a maioria dos meninos que vadiavam pelas ruas.29 A própria Companhia de Aprendizes Marinheiros de Salvador, que recebia menores enviados pela polícia, passou a adotar restrições ao ingresso de “moleques” (rapazes negros) a partir da década de 1860.30 Portanto, a hipótese do surgimento dos asilos de ensino de ofícios para o saneamento das ruas e controle social dos miseráveis não pode ser generalizada para todas as experiências. A noção de saneamento/higiene pública começou a ser mais amplamente utilizada para justificar a criação de instituições nas últimas décadas do século XIX, com a maior penetração dos discursos dos higienistas em determinados meios sociais. Para a população de rua, considerada “infância perigosa” pelos reformistas, começaram a ser criadas, ao final do século XIX e primeiras décadas do XX, instituições especializadas, como as colônias correcionais e agrícolas, que os recebiam visando educá-los pelo e para o trabalho.

27 28

Ibid., p.65. MATTA, Alfredo Eurico Rodrigues, 1996, p.188. 29 FRAGA FILHO, Walter, 1996, p.120. 30 Ibid., p.130.

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O ensino de ofícios mecânicos em instituições asilares: casas de educandos artífices e instituições afins

No Segundo Reinado, período privilegiado pela presente pesquisa, crescem as iniciativas dirigidas à educação dos filhos das camadas populares para o trabalho. No presente capítulo são abordadas práticas educacionais que surgiram e/ou existiram no período, independente da localização geográfica. Neste período, predominaram alguns modelos institucionais, amplamente difundidos pelas províncias, que são analisados ao longo do capítulo, tanto sob o ponto de vista do funcionamento e da dinâmica interna da instituição, quanto das tendências educacionais que influenciaram a sua organização. Tanto quanto os dados o permitirem, as relações com os grupos sociais e governos locais serão enfatizadas, como também no tocante às famílias dos internos. A análise esbarra na limitação das fontes primárias, constituídas por relatórios institucionais e discursos/textos de atores sociais da época. No entanto, alguns estudos auxiliam no conhecimento do cotidiano das instituições, por seus autores terem se baseado nas fichas dos internos e na documentação “miúda” dos estabelecimentos e studados, como foram os casos de Matta (1996) e Lopes (1994), que puderam contar com o “Arquivo da Provedoria da Casa Pia de Órfãos de São Joaquim” (Bahia) e o “Arquivo do Asylo de Meninos Desvalidos” (Rio de

Janeiro/PROEDES/FE/UFRJ), respectivamente, constituindo raras e fundamentais iniciativas de preservação histórica. A grande maioria das instituições surgiu a partir da segunda metade do século XIX. Eram projetos de origem governamental (provincial, algumas com incentivo do governo central), religiosa (ordens religiosas), particular (filantropos ou empresários) ou misto (particulares ou religiosas com subvenção governamental). A maior parte dos estabelecimentos era do tipo asilar, ou seja, composta por internatos onde o contato do interno com a sociedade e com a família era rigidamente controlado. O enfoque aqui será dado às instituições asilares, notadamente àquelas voltadas para o ensino de ofícios mecânicos, inseridas no meio urbano.

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As Casas de Educandos Artífices representaram o modelo mais constante no período em termos do ensino de ofícios. Foram nove Casas criadas nas capitais de nove províncias, entre 1840 e 1865, com uma proposta de funcionamento bastante parecida entre si. A primeira Casa criada foi a do Pará, em 1840, e possivelmente serviu de modelo para as outras. Há referências nos relatórios provinciais e institucionais do Amazonas com relação à utilização das Casas do Maranhão e do Pará como modelos. Por sua vez, a Casa maranhense se espelhou na experiência do Pará, iniciativa louvada nos primeiros tempos de sua existência. É bem provável que a legislação que regulamentava o funcionamento das Casas também fosse difundida entre as províncias e copiada com as necessárias adaptações às condições locais. De forma alguma se pode afirmar, com isso, que as instituições foram homogêneas no seu processo pedagógico.

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Casas de Educandos Artífices criadas no século XIX Local
PARÁ

Ano de criação
1840

Ano de extinção
Fechada em torno de 1852. No início da década de 1850, a Casa de Educandos Artífices do Pará entrou em decadência, levando à deserção de alunos. Contando com uma média de 50 alunos por ano até 1850, Gonçalves Dias encontrou somente 12 educandos na sua visita a Casa em agosto de 1851. Em 1872, o governo provincial fundou o Instituto Paraense de Educandos Artífices. Em 1899, mudou-se para a nova sede, construída especialmente para abrigá-lo. Transformado na Escola Profissional Lauro Sodré em 1949; hoje funciona no prédio a Escola Pública Lauro Sodré. Crise em 1889 devido às dificuldades financeiras da Província, decorrentes da queda dos preços do algodão e do açúcar. Na República, a Casa deixa de existir e no seu edifício foi instalada a Escola de Aprendizes Artífices do Maranhão, em 1910. Extinta em 1868; em 1874 surge o Instituto de Educandos Artífices. O Instituto “desapareceu lentamente”, segundo Candido Motta. Extinta em 1873. Em 1858, o Presidente da Província , Agostinho Luís da Gama, afirmou que faltava aos mestres o estímulo de paga ou ordenado, e aos educandos, os materiais e instrumentos de trabalho. Em 1859, o governo sugeriu à Assembléia Legislativa a transformação do Colégio em asilo agrícola. Segundo Celso Fonseca, o estabelecimento fechou as portas muito antes de findar a Monarquia. Fechado pela administração provincial em 1877, como uma das medidas de redução de despesas do governo; reaberto em 1882, com o nome de Instituto Amazonense dos Educandos Artífices. Em 1894 passa a se chamar Instituto de Artes e Ofícios. Denominado Instituto Affonso Penna, a instituição manteve suas diretrizes no regulamento que a reorganizou em 1908, instalada em amplo e arejado edifício, Escola fechou por dificuldades materiais das instalações, falta de espaço para as oficinas e a inexistência de professorado capaz, segundo Celso Fonseca. Foram localizadas informações sobre o “Colégio de Educandos” nos relatórios provinciais até o ano de 1874; referências ao seu fechamento não foram encontradas.

MARANHÃO

1841

SÃO PAULO

1844

PIAUÍ ALAGOAS

1849 1854

CEARÁ AMAZONAS

1856 1858

RIO 1859 GRANDE DO NORTE PARAÍBA 1865

Fontes: Celso Sukow Fonseca (1986); Luiz Antônio Franco (1988); Candido Motta (1909); relatórios provinciais; relatórios institucionais; Antonio Gonçalves Dias (1989 [1852]).

170

Verifica-se no quadro acima que, nas décadas de 40 e 50 do século XIX, houve uma disseminação de internatos de ensino de ofícios, baseados no modelo de aprendizado das oficinas de artesãos, onde o mestre ensinava aos meninos através da execução de trabalhos orientados por ele. As semelhanças se encerram aí. Nos estabelecimentos, os mestres eram contratados pelo governo, sendo constituídos por operários e até ex-educandos. As dificuldades de se obter mestres qualificados era enorme, conforme os relatos dos presidentes de várias províncias, como os do Amazonas, Pará e Maranhão, cujas experiências foram investigadas com mais afinco devido aos objetivos desta pesquisa. As províncias amazônicas chegaram a importar mestres estrangeiros, tentativa, que no caso do Amazonas resultou desastrosa. A Casa do Maranhão, tida por Celso Fonseca como a melhor casa de ensino profissional do Império, era um exemplo de experiência bem sucedida para o Amazonas, cujo presidente, no primeiro ano de funcionamento do estabelecimento, tentou inutilmente contratar como mestres dois “filhos da Casa”. Como condição, não bastava a “pericia nos officios”, mas também a “boa conducta e os hábitos disciplinares d’aquelle estabelecimento, que pode servir de modelo”.31 Já a Casa do Pará serviu de modelo para a criação do estabelecimento do Maranhão, cujo presidente pediu aprovação junto à Assembléia Legislativa Provincial para enviar àquela província o diretor a ser escolhido por ele, com o objetivo de trazer “idéias práticas” para que pudesse executar o seu “projeto”.32 Não sabemos se a visita à Casa paraense foi realizada, mas o tempo de permanência do alferes José Antonio Falcão na direção da Casa e os elogios recebidos, não só por autoridades, como por visitantes, mostram que o diretor se preparou para a sua nova função. O alferes permaneceu por mais de dez anos na direção da instituição, um longo tempo se considerarmos a alta rotatividade dos governos provinciais. Os elogios ao “bom diretor” provinham de todas as partes. Autoridades do Maranhão e de outras províncias, visitantes e especialistas não mediram palavras para expressar admiração ao estabelecimento.33

31 32

RPAM, 03/05/1859, p.13. FONSECA, Celso Sukow da., 1986, p. 42. 33 Antonio Gonçalves Dias (1852), visitante oficial ao estabelecimento em 1851, atribuiu ao bom diretor e aos hábeis professores a prosperidade da Casa maranhense, considerando-a a mais completa em seu gênero e a que apresentava os melhores resultados ( p.354). Dez anos depois, a Casa continuava

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Os relatórios que Falcão publicou em 1849 e 1851 são bastante detalhados e extensos e foram impressos por conta própria, sem ônus para o governo, visando divulgar o trabalho para a Assembléia Legislativa e a outras instâncias do Império. A Biblioteca Nacional recebeu os exemplares, enquanto que, não foi possível localizar qualquer obra relativa às outras Casas de Educandos, com exceção dos relatórios provinciais e de referências esparsas em almanaques e nos relatos de alguns viajantes estrangeiros e autores brasileiros. Com exceção de São Paulo, todas as Casas foram criadas no Norte do Brasil (segundo os critérios de divisão regional da época). As três situadas no extremo norte tiveram maior duração e maior número de meninos acolhidos. A dificuldade de comparar as experiências das nove Casas situa-se na ausência ou na impossibilidade de acesso a estudos sobre as instituições34. As três experiências nortistas (Amazonas, Pará e Maranhão) serão enfatizadas e eventualmente comparadas com as outras, quando os dados disponíveis o permitirem. O objetivo consiste em analisar as propostas assistenciais e pedagógicas das instituições, entendidas como tentativas de controle social de uma população percebida como potencialmente ameaçadora à vida urbana - observa-se que as instituições foram criadas nas capitais das províncias. Porém, o seu surgimento não foi somente restrito ao objetivo político. Ao contrário do que afirmam alguns autores35, as informações disponíveis indicam que as

recebendo elogios. Em visita não combinada à Casa em 1860, Agassiz (1975) ficou surpreendido com a ordem e os cuidados na instituição, que segundo ele “não são virtudes brasileiras”: “Uma disciplina perfeita e um asseio escrupuloso reinam em todo o estabelecimento”. Agassiz elogia também o espaço físico e a localização do estabelecimento. Na década de 1870, o Presidente da Província, Silvino E. Carneiro da Cunha reitera esse conceito: “não conheço e nem tenho notícia de melhor e mais útil estabelecimento em nosso país” (FONSECA, Celso Sukow da., op. cit., p.50). Em 1887, o diretor da Sociedade Central de Imigração, Tarquinio de Souza Filho, ao analisar O ensino technico no Brasil, prossegue na mesma linha ao afirmar que o estabelecimento “faz honra áquella provincia e é um dos melhores do seu genero” (p.96). 34 Das nove casas, localizamos somente o interessante artigo de Márcia Eliane Alves (1995) sobre a Casa de Educandos Artífices de Manaus, baseado nos relatórios provinciais, relatórios de diretores e na legislação. Alves focaliza o contexto da criação da instituição, o olhar do estrangeiro, o ensino e os meios disciplinares do estabelecimento, no período de 1858 a 1877. Márcio Leonel Páscoa (1996) investigou o ensino da música em Manaus, abordando a banda do estabelecimento dos educandos. Não obstante o contato com professores da UFPA e as pesquisas realizadas via Internet, não foi possível localizar estudos ou pesquisadores dedicados à Casa ou ao Instituto de Educandos do Pará, até que no período de revisão final da tese, recebemos o artigo do prof. José Maia Bezerra Neto (UFPA) sobre o ensino profissional no Pará do século XIX. Segundo o autor, trata-se de “um estudo sobre as práticas e representações sociais acerca da instrução pública primária e artística destinada às classes pobres da sociedade paraense oitocentista, a partir da leitura dos Relatórios e Falas da Presidência do Governo Provincial”. Dois artigos nossos analisam as propostas educacionais das instituições imperiais de ensino profissional e os estabelecimentos nortistas de educandos artífices (RIZZINI, Irma, 2001, 2002). 35 FONSECA, Celso Sukow da, 1986 e FRANCO, Luiz Antônio, 1988.

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instituições urbanas tinham uma participação na produção, atendendo principalmente às necessidades da máquina governamental. Todavia não será possível demonstrar em que grau de intensidade se deu esta participação. O fato de três instituições terem sido extintas e reinstaladas sob a denominação de “Instituto” (Amazonas, Pará e São Paulo) indica que as autoridades provinciais buscavam seguir as novas tendências assistenciais de especialização das instituições. Na década de 1870, se inicia um lento processo de diversificação e especialização do atendimento à infância, culminando no surgimento de novas denominações para as instituições. Assim, aparecem os institutos, as colônias, as escolas agrícolas e industriais, se diferenciando do asilo, da casa, do orfanato e do recolhimento, terminologias que não permitem identificar a natureza da finalidade da instituição: abrigar, formar ou recuperar. Outro exemplo de mudança de nome, mais tardia, foi o Asilo de Meninos Desvalidos, criado pelo Governo Imperial em 1875, e que passou a denominar-se Instituto Profissional Masculino, em 1894, ao ser transferido da Diretoria de Higiene e Assistência Pública para a Diretoria de Instrução Pública36. No Asilo, cuja proposta educativa não se diferenciava substancialmente dos estabelecimentos de educandos artífices, o caráter assistencialista representado pelo recolhimento de crianças que viviam a mendigar pelas ruas é suplantado pela preocupação de educar os desvalidos, dandolhes uma profissão considerada digna e adequada à classe social a qual pertenciam. Luiz Carlos Barreto Lopes observa que com o passar dos anos era cada mais freqüente no Asilo o “recolher” crianças de famílias empobrecidas diante do falecimento, em geral do marido, profissional com algum nível de qualificação ou que ocupara algum posto na estrutura funcional do Estado Imperial.37 Dos nove estabelecimentos, quatro prosperaram, sobrevivendo aos novos rumos educacionais instaurados a partir da década de 1870, com o movimento ilustrado. Os estabelecimentos do Amazonas, Pará e São Paulo renasceram em meio a grandes expectativas junto aos seus projetos pedagógicos, que traziam algumas inovações, como veremos mais adiante. A ênfase recai no aspecto educacional das instituições, percebidas
36

Decreto Legislativo n.75 de 6/21894, que fixou a despesa do município da Corte e seu orçamento para o ano corrente. Sobre o Instituto Profissional Masculino, ver MARQUES, Jucinato de Sequeira, 1996. 37 LOPES, Luiz Carlos Barreto, 1994, p.157.

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como “importantes focos de educação”. Assim queria o Presidente da Província do Amazonas ao reinstalar o agora chamado “Instituto Amazonense”.38 Portanto, ao final do Império só restaram estes três Institutos e a Casa d e Educandos do Maranhão, que não sofrera alteração no nome. A extinção das instituições é justificada pelos governos por uma série de motivos ligados à viabilidade de mantê-las com os recursos humanos e materiais disponíveis. A queixa da falta de pessoal h abilitado era uma constante; o investimento em materiais e em obras oscilava conforme o governo, dificultando a continuidade do trabalho. A improbidade administrativa é um fator que não pode ser descartado. O uso indevido das verbas, maquiado por escrituração incompleta é citado nos relatórios do Pará e do Amazonas. Na primeira fase do ensino profissional do Pará, o uso das verbas foi desvirtuado por despesas exageradas, circundadas por “documentos viciados, incompletos ou de pouca fé”. Em 1849, constatou-se que o ex-diretor da Casa dos Educandos não depositara no tesouro provincial os 3:643$330 réis resultantes do produto do trabalho do estabelecimento.39 A medida saneadora tomada pelo Governo Provincial é criticada por Antonio Gonçalves Dias no relatório apresentado, em 1852, ao Governo Imperial a respeito da Instrução pública em diversas províncias do Norte.40 O diretor fora obrigado a apresentar mensalmente ao governo contas das diárias que recebia do trabalho dos educandos, restituindo as sobras. O investimento em melhorias na Casa e em comodidades para os educandos estava impossibilitado. O edifício do estabelecimento dos educandos do Pará não apresentava boas condições, anos após a fundação. O telhado encontrava-se arruinado, a ponto de chover em quase toda a parte, e as paredes estavam arrombadas em alguns lugares. Em 1850, o diretor interino escreveu ao Presidente da Província pedindo consentimento para fazer os reparos necessários.41 Na visita que fez ao estabelecimento em agosto de 1851, Gonçalves Dias testemunhou o estado de decadência do mesmo, com grande perda de educandos pela
38 39

RPAM, 25/3/1883, p.34. RPPA, 1/10/1849, p.43. 40 DIAS, Antonio Gonçalves, 1989 [1852], p.354. 41 Ofício do diretor da Casa de Educandos Artífices do Pará ao Presidente da Província, 11/1/1850. (Arquivo Público do Pará).

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os oficiais educandos foram empregados em obras públicas. No prédio do estabelecimento dos educandos passaram a morar emigrantes (Op.deserção. investiu no apoio aos retirantes cearenses fugidos da seca. p. 18 estavam empregados no arsenal de Marinha. Dias encontrou somente doze. os quais deveriam compensar os gastos da sua educação. cit. justificou a extinção do estabelecimento de educandos ocorrida em 1877.32). camas. uniformes e calçados. p. Em 1881. transformou-se em enfermaria para os cearenses doentes que trabalhavam na estrada de ferro do Madeira e Mamoré (16/5/1881. 44 RPAM. em meio a uma crise financeira do governo. 12 no de Guerra.2.7. 43 RPPA.. roupas. p.8). o diretor da Casa de Educandos observou no seu relatório que a escrituração do estabelecimento era incompleta. a despeito de sua quase “banca-rôta”. no relatório de 1851. pois os mestres não tomavam interesse particular pelos educandos.45 O presidente levanta um ponto que não aparece nos relatórios anteriores: o fracasso educacional da instituição. na sua visita. p. pagando as passagens dos que quisessem emigrar para o Amazonas e alojando-os em colônias agrícolas.17 em 1850 . tais como as do Arsenal de Guerra e o de Marinha. p. existiam 53 educandos. 45 RPAM. 1878. Criou-se nos relatórios provinciais um item denominado “Retirantes cearenses”/”Emigrantes cearenses”/”Emigração e colonização” (RPAM. Arquivo Público do Pará). registrando o alto número de deserções . onde tudo faltava: redes. os quais trabalhavam em oficinas externas percebendo diminutos jornais.42 O trabalho nas oficinas dos arsenais.43 No Amazonas. recebendo menos do que receberiam nas oficinas particulares. prejudicando a Casa e os jovens. Os meninos viviam em péssimas condições. 25/3/1872.50-51. prejudicava a “regularidade e a disciplina”. 175 . O Go verno da Província. Afirma que neste período não chegou a doze “o número de 42 Dos 38 educandos existentes em julho de 1850. fora das vistas do diretor. 15/8/1851. havendo a necessidade de um livro de entrada e saída de material. devido ao temor causado pelos abusos do último diretor. Anexo 5. A instrução pública também foi atingida pelas medidas de contenção de despesas e racionalização administrativa ao se extinguirem doze escolas com menos de vinte alunos. pelas altas despesas que impingiu ao tesouro provincial em vinte e nove anos de existência.44 O Presidente da Província. 1878. que foram somente cinco no mesmo período. Em janeiro de 1850.8). 5 na obra do farol das salinas e 4 não tinham colocação (Ofício do diretor da Casa de Educandos Artífices do Pará ao Presidente da Província. p. É o que atesta o Presidente do Pará. 8/7/1850. Nesta situação encontravam-se os educandos mais antigos.contra as admissões. Extintas as oficinas.

não há como checar esta informação. SOARES. FONSECA. A omissão do número de educandos que saíam “prontos” talvez indique que não deviam ser muitos os que completavam o período educativo. 48 RPAM. muitas situadas nas cidades aonde existiram Casas ou Institutos de Aprendizes. que ao nascimento da República são irreversíveis. 1878. nos auxilia na compreensão do processo de extinção das instituições de ensino de ofícios. Aqueles que sobreviveram ao advento da República foram adaptando-se ao novo cenário da formação profissional.os anos de 1909/1910 são divisores de água nesse quadro. podemos depreender dessa experiência algumas conclusões para as outras instituições. 176 . As cidades com mais recursos se reurbanizam.48 Os estabelecimentos de formação de artífices foram instituições imperiais. 25/3/1883. com a criação e fundação das Escolas de Aprendizes Artífices nas capitais de dez estados do país. pois houve na Assembléia Legislativa quem discordasse de sua extinção. Neste período. p.44. como os Liceus de Artes e Ofícios. p. Embora estejamos tratando de cidades e populações diferentes. e não os formados. Jailson Alves dos.rapazes até então sahidos por promptos nos diversos officios!”.49 A experiência da Casa Pia Colégio de Órfãos de São Joaquim.46 Como os relatórios provinciais e os anexos contendo os relatórios dos diretores apresentam somente o número de alunos por oficina e matérias cursadas. Os institutos nos povoados não foram criados. em 1882. 1982. a partir da década de 70 do século XIX. a produção e o comércio se intensificam.47 Cinco anos depois. Esta tendeu a ocupar espaços e pedagogias distintas da assistência caritativa . 2000. 1979. ver CUNHA. 1986. Celso Sukow da. Outras instituições dirigidas à formação profissional surgem. numa sociedade não mais escravista. que durante todo o século XIX formou oficiais artesãos e caixeiros para o mercado de trabalho de Salvador. 2000. A crença na importância do estabelecimento não foi totalmente abalada. A demanda por mão-de-obra para os setores secundários cresce. o governo de José Lustosa da Cunha Paranaguá reinstalou a instituição. Manoel de Jesus. ao final da década de 46 47 RPAM. para o adestramento de filhos dos “gentios” na “pratica dos trabalhos mechanicos”. o país vislumbra os primeiros movimentos de industrialização.6. SANTOS. Luiz Antônio.. O processo de extinção do estabelecimento é analisado no capítulo 4. defendendo o recolhimento de indígenas ao estabelecimento e a criação de “pequenos institutos” nos povoados. 1981. 49 A respeito das Escolas de Aprendizes Artífices.

51 O ano de 1910 assiste ao surgimento das Es colas de Aprendizes. para que possam depois. Alfredo Eurico Rodrigues. Os estabelecimentos de ensino de ofícios não eram instituições de caridade como os asilos que recolhiam expostos e abandonados. recebendo crianças cuidadas por suas famílias . e não para determinado ofício mecânico. A primeira foi instalada no Rio de Janeiro em 1858 pela Sociedade Propagadora das Belas Artes.14). v. pelos gastos realizados com a educação. resultando em novo direcionamento dado ao orfanato pelos estatutos de 1910. O governo federal assume a formação de mão-de-obra para a indústria. voltados para a formação genérica. Vários Liceus de Artes e Ofícios surgiram após o advento da República. mantida pelo governo e administrada por religiosos capuchinhos: “Não há duvida. como o de Belém. Celso Sukow da. Além disso. quando se requeria a instrução elementar. As Casas.186050. o ensino técnico atrela-se ao nível secundário. contando agora com uma subvenção do governo (FONSECA. 1/3/1883. criando programas de caráter nacional. indenizações por parte dos educandos ou de suas famílias. 52 RPPE. Em Manaus. que vê decrescer a sua importância como instituição formadora e fornecedora de mão-de-obra a partir dos anos 1870. ao referir-se à Colônia Orfanológica Isabel. Salvador teve o seu Liceu em 1873. abandonando o projeto da formação de um operariado especializado proveniente da classe dos desvalidos . vivendo independentemente. p. p. As novas instituições de ensino profissional abandonam o modelo do internato.. distanciadas do modelo da caserna ou do claustro na educação para o trabalho. como no Império (MATTA. abandonados e indigentes.5. os quais não esperavam ter nenhum retorno financeiro de suas atividades. as oficinas deveriam render lucro para cobrir as despesas dos estabelecimentos. 1986. mas acabou fechando devido à precariedade das instalações. 1996. estabelecendo “uma fonte de renda publica”. Institutos e Colônias de ensino profissional previam nos seus regulamentos. em 1883.órfãos. conforme a visão otimista expressa pelo Presidente da Província de Pernambuco. foi fundada em 1884. que o Estado deverá concorrer para crear nesses estabelecimentos meios de rendas. Em 1867 foi reaberta.4.. pois a formação profissional ficara a cargo das províncias no século XIX.51 A derrocada da expectativa da auto-sustentabilidade não deve ser desprezada como fator de descrédito e decadência das instituições. miseráveis. 34). v. ao contrário do período imperial. o que é uma novidade.”52 50 Instituições nascidas de iniciativas particulares que se reproduziram por várias províncias.49).41. As transformações no mundo do trabalho refletem na Casa Pia. com algumas disciplinas técnicas que começaram a ser introduzidas a partir da década de 1850. com 173 alunos (Ibid. até desaparecer completamente. dispensar os auxilios da administração publica. porém. p. Os governos alimentavam a expectativa de que os estabelecimentos assistenciais/educacionais se tornassem financeiramente independentes.têm agora como clientela os filhos das classes trabalhadoras. Gradualmente. alimentação e vestuário. como uma iniciativa federal. 177 .

1875 Casa Pia e Colégio de Órfãos de São Joaquim/BA 1799 Fontes: Luiz Carlos B. Alfredo Eurico R. fazendo com que as instituições dependessem de subvenções governamentais e outros recursos. o estabelecimento foi fechado e o edifício entregue à Santa Casa. nenhuma atingiu semelhante meta. trabalhando na oficina. Município do Rio de Janeiro. todos sob o regime de internato: Instituições de formação profissional . Matta (1996). localizados no Rio de Janeiro. As despesas eram sempre maiores do que a renda das oficinas. Pernambuco e Bahia. dotados. como também no Asilo de Meninos Desvalidos.Rio de Janeiro. estudo coordenado por Ataulpho de Paiva (1922). medida que segundo Ataulpho de Paiva (1922). A direção diminuiu o encaminhamento de alunos aos empregadores.os educandos. 1849. pois em 1913 nenhum aluno ingressou na escola. apelavam para a “insubordinação e falta d'actividade” para serem “despedidos do Estabelecimento”. do Rio de Janeiro. Focalizaremos três estabelecimentos. p. Pernambuco e Bahia Instituição/Local Asilo de Meninos Desvalidos/Instituto Profissional Masculino/RJ Colônia Orfanológica Isabel/PE Ano de criação 1875 Ano de extinção Em 1911. embora permanecesse por muito tempo formando artesãos. Lopes (1994). Os Estatutos de 1910 deram nova direção à Casa. O autor estava se referindo aos meninos internados como castigo aplicado pelas famílias.77. como se queixou o diretor da Casa do Maranhão .53 Além das Casas de Educandos. permanecendo o educando por mais três anos na instituição. Celso S. na sua avaliação.Das instituições estudadas. não obteve sucesso. de “rudez e vadiação”. A única forma de não cumprir esta obrigação seria a família indenizar a instituição. tornou-se uma escola profissional comum (externato). Transformada na Escola Industrial Frei Caneca em 1894 (ensino agrícola. Fonseca (1986). Em 1904. zootécnico e industrial). Transformado em escola pública. Na Casa dos Educandos de Manaus procurou-se obedecer a esta determinação do Regulamento. José Antonio. tão logo se tornavam adultos. 178 . com a exclusão da ingerência do governo nos seus assuntos. Resistências surgiram contra esta norma. outras instituições de formação profissional foram criadas no país. 53 FALCÃO. e a Usina arrendada a um particular. As indenizações com a educação dos meninos deveriam ser pagas após o término da formação.

. a educação dos meninos era calcada no trabalho realizado nas oficinas de carpintaria. que assumiu a sua manutenção a partir de 1862. A Colônia Orfanológica Isabel. 1994. 56 RPPE. o que não chegou a acontecer. das primeiras letras e da doutrina cristã. sem seguir adiante. esteve sob a direção do missionário capuchinho frei Fidelis Maria de Fognano. Em termos de instituições asilares de formação de operários e artífices. No século XIX. foram transferidos trinta órfãos do Colégio para a Colônia e admitidos mais seis (FOGNANO. Luiz Carlos Barreto. fundada pelo governo provincial. em muitos aspectos. que desde cedo eram preparados para o trabalho. Minas Gerais aprovou projetos. criada por um religioso. 116-157). João Alfredo dos. Desta forma.5. e no aprendizado da música. com apoio de negociantes e proprietários de terras. 57 FONSECA.276-278. disseminando um modelo de atendimento mesclado entre a assistência caritativa e a formação que levasse o 54 Após a inauguração. p. Outras províncias deram os primeiros passos para fundar Casas de Educandos. O internato admitia meninos desvalidos entre sete e nove anos. nas bandas de música. para ser instalado em Minas Gerais. dezenas de pessoas. etc. de acordo com o modelo das instituições de ensino de ofícios. não só em temos financeiros.57 O mesmo fim teve a resolução n. para criação de três Casas de Educandos. que autorizou ao Presidente da Província fundar um Colégio de Educandos. 1889. p. só a Casa Pia era particular. sapataria e marcenaria. os menores eram enviados ao arsenal de Guerra para o trabalho nas oficinas ou se empregavam como caixeiros junto ao comércio. Fidelis Maria de. Um “Colégio de Índios” teve seu decreto de criação aprovado pelo Governo Regencial. numa estreita relação com o Governo da Província. a Colônia será analisada comparativamente às mesmas. contou com intensa participação do governo provincial.118). 1997. v. p. se assemelhava ao das outras instituições da época. em 1876. No período imperial de sua existência. mas também nos rumos da Casa. 1/3/1873. em torno dos quatorze anos. 179 .. Ao completarem a formação. o Estado foi o responsável pela criação e manutenção das principais iniciativas. p. lojas ou fábricas encaminhavam doações em bens ou em dinheiro (LOPES. nunca instaladas.Das três instituições citadas. entre Olinda e Recife nas instalações do Convento de Santa Teresa. veio substituir o antigo Colégio dos Órfãos55.56 Como o ensino de ofícios. A Colônia oferecia o ensino de ofícios e agrícola.441 de 21/8/1856 da Assembléia Legislativa Provincial de Sergipe. apoiada por negociantes e industrialistas da Corte54. de acordo com o regulamento. 55 Quando instalada. o Colégio era administrado por religiosos. instalada em vasta área da extinta colônia militar de Pimenteiras. em 1832. Criado em 1831. Celso Sukow da.2). onde. O Asilo de Meninos Desvalidos foi uma iniciativa do Governo Imperial. ficariam sob a guarda de tutoresempregadores até completar 21 anos (ANJOS JÚNIOR.

não poupa críticas ao desvirtuamento do que considera ser o “fim da instituição”.60 Operários eram convocados através de anúncios nos 58 59 LOPES.”59 No mesmo documento. e tornam-se inúteis e pesados à sociedade. 41. que esse estabelecimento devia ser uma fonte de renda (. seguia diretrizes bastante claras. p. 1994. isto é. 60 VERISSIMO. RPMA.menor a ser “útil a si e à Pátria”. expressas pelo Presidente da Província em 1841: “O 1o (objetivo) será desviar da carreira dos vícios dezenas de moços. seja através dos produtos das oficinas. o presidente afirma que “ela será ao mesmo tempo uma casa de Caridade”.. onde o “Estado concorre em competencia menos justa.152 180 . de que tanto necessita. A Casa dos Educandos do Maranhão. não somente após o término da formação. o 2o consistirá em animar as artes. A associação entre caridade e ensino de ofícios. mantendo-se sem recorrer à caridade pública pela mendicância passa a ser a verdadeira caridade. 160. e oferecer à Capital e à Província trabalhadores e artífices. Ter condições de exercê-lo.58 Aparentemente. considerada por Fonseca e por atores sociais da época como “a melhor do país”. No relato de suas visitas ao Instituto paraense no primeiro ano do regime republicano. José.. formação agrícola e industrial estará presente nas propostas e no corpo das instituições durante todo o período. Luiz Carlos Barreto. 1892. expressão a qual as famílias recorriam com bastante freqüência ao solicitarem internação para seus filhos no Asilo de Meninos Desvalidos. mas durante o treinamento. o “ensino profissional e tecnico”. para não dizer menos licita. que.. o caráter predominantemente caritativo do atendimento prestado pela maior parte das instituições de ordens religiosas e de filantropos é rejeitado pelo Estado. 1986. nem quem promova a sua educação. José Verissimo. crescem ao desamparo. não tendo de que vivam. p. Celso Sukow da. seja pela prestação de serviços nas obras públicas.) visando apenas o lucro”. mais próxima dos ideais filantrópicos do final do século. apud FONSECA. O trabalho é associado à pobreza e à desvalia. neste período. p. 3/7/1841. Entendeu-se. O Estado espera ser ressarcido do investimento na educação e manutenção do educando. erradissimamente. o Diretor Geral da Instrução Pública do Estado Federado do Pará. com os particulares. Diz que o estabelecimento transformou-se em uma espécie de oficina.

25. p. 4/4/1869.152. 63 RPAM. Verissimo apoia-se nas “estatisticas estrangeiras” que identificam nestas crianças a “fonte” da criminalidade e da vadiagem. do que como futuros trabalhadores. Para o autor. mas darem saldo. Contudo. em fases diversas de seu funcionamento. O ideal filantrópico aproxima-se do objetivo político do controle social.62 O objetivo de educar meninos desvalidos é a tônica das autoridades envolvidas na criação dos estabelecimentos imperiais. carpinteiro. percebidas antes como “uma ameaça para o futuro”. p. alguns governantes davam maior ênfase à necessidade de formar trabalhadores para a província. alfaiate. Tarquinio. livreiro. e pelo salário elevado dos operários. Este é um período de transição. José Verissimo é taxativo: “Nem é um estabelecimento industrial. todos eles ensinados no estabelecimento dos Educandos de Manaus.jornais para trabalhar como “jornaleiros” nas oficinas. tais como os ofícios de marceneiro. a Província sofria com a falta do trabalho mecânico. VERISSIMO. entre outros. em que as instituições são convocadas a rever as suas finalidades. nem uma escola”. Ao menos no período inicial de sua instalação.96. como enxerga Verissimo. torneiro. que vê de forma muito positiva o fato das oficinas não só manterem-se com a própria renda. ferreiro. p. O perigo do desvio ronda essa “classe” de 61 62 SOUZA FILHO. tornando-se o treinamento dos educandos uma atividade secundária. José. Um indício de que a ênfase ao lucro resultante do trabalho já era uma realidade há pelo menos uma década antes pode ser encontrado no livro de Tarquinio Souza Filho61.”63 A tônica do desenvolver o “amor ao trabalho” é bastante acentuada nos casos de cidades maiores como Salvador e São Paulo. como foi o caso do Amazonas. 1892. trata-se de um sinal de prosperidade. e não de decadência. sapateiro. Esta preocupação com a falta de operários bem preparados foi expressa pelo governo Wilkens de Mattos. Verissimo defende justamente a criação de uma “instituição mais philantropica que de ensino”. que pretendeu usar os educandos em obras públicas: “Sabeis quanto custa a mão-de-obra nesta capital pela imperfeição da execução. 1887. dirigida ao atendimento de crianças “contaminadas pelo vicio do meio em que vivem”. 181 .

pretendia-se igualmente acolher meninos desvalidos.2. na acepção da época. decoro e ações lícitas. p. de Salvador.66 Meninos fugiam das oficinas. 1889. tornando-se alvos constantes da ação da polícia e das denúncias da imprensa. os regulamentos definiam os critérios sociais e de idade para o ingresso no corpo de educandos das instituições.. étnicos e políticos Em geral. como as noções de virtude.) facilitar aos meninos pobres e desvalidos a sua educação industrial.meninos aptos a freqüentar as instituições de formação pelo e para o trabalho. situada em área rural. e se tornem maus e prejudiciais cidadãos. Na Colônia pernambucana.. a expressão aparece no seu primeiro regulamento (após a extinção da Casa dos Educandos em 1868): “(. vadios e mendigos que.. 1996.”64 Na Casa Pia. sem garantia de que iriam realmente aprender um ofício. O impedimento racial como 64 65 Regulamento de 3/1/1874. O favorecimento político podia particularmente alterar os critérios regulamentares dos institutos. aprovado pela Lei n. 52 de 24/4/1874. renegavam o trabalho.113). pois aos mestres e demais empregadores (comércio. o “amor ao trabalho” estava entre as regras sociais valorizadas na educação dos órfãos. MATTA. uma patrulha prendeu 22 meninos classificados como vadios. Fidelis Maria de. em contraposição ao vício e ao ilícito. 67 FOGNANO. grupo étnico e as ingerências políticas que alimentavam as relações clientelísticas eram determinados pela articulação entre a prática institucional e a administração provincial. e “habilital-os a viver honestamente no meio da Sociedade”.67 A clientela das instituições: critérios sociais. No Instituto de São Paulo. 182 . porém os fatores raça.65 A cidade de Salvador convivia com a presença de bandos de moleques. Apenas na noite de 22/10/1854. Alfredo Eurico Rodrigues. locais onde freqüentemente eram explorados e mal tratados. impedindo assim que por falta dela se desviem do amor ao trabalho. muitos retirados das ruas de Recife. p. 66 A documentação da polícia e a imprensa de Salvador do Segundo Reinado permitiram a Fraga Filho constatar que “a maioria das freguesias centrais possuía suas maltas de peraltas”. alguns deles escravos (Ibid. fábricas) interessava manter a mão-de-obra barata do menino na realização de trabalhos domésticos ou de tarefas mais simples.

confirmam o marco que representavam as idades de sete e doze anos para a iniciação ao trabalho. 1849. entravam mais cedo: aos cinco anos. “meninos pobres e desvalidos” (PI. Na sociedade da época. como foi o caso do diretor da Casa de Educandos do Maranhão. As doze instituições citadas tinham por finalidade atender a: “moços pobres e desvalidos” (RN). de 25/11/1882. A definição extremamente generalista da clientela oculta os rumos que cada Casa deu aos seus objetivos. ou recolhidos dentre os recrutados pelos 68 O Instituto Amazonense de Educandos Artífices “tem por fim dar gratuitamente ensino primario e profissional a cem menores de 7 a 15 anos de idade. A idade precoce sem dúvida se devia a esta proposta de formação integral . mas educar segundo os preceitos da religião católica e da vida social. Maria Vitoria Pardal Civiletti (1991) e Maria Lúcia de Barros Mott (1979). A preferência por índios é reforçada no período republicano.70 Obter um perfil mais aproximado da clientela destas instituições é um desafio que poucos pesquisadores conseguem vencer. 69 No caso das crianças escravas.1º). em atenção aos bons costumes e às regras da civilidade. “menores livres desvalidos (AM. “meninos pobres e órfãos” (BA). A criança começava realizando pequenas tarefas e aos 12 anos já acompanhava os adultos no trabalho. contudo. 183 . “órfãos desvalidos e filhos de pais pobres” (PB). 77. SP). O aprendizado nas oficinas dos estabelecimentos começava normalmente aos doze anos. “órfão ou filhos de pais pobres” (AM).norma regulamentar não foi encontrado. Compunha a proposta pedagógica de todas as instituições a alfabetização. sobretudo. calcadas na literatura de viagens do século XIX. “órfãos de pai e mãe”. 44.68 Os meninos entravam cedo para os estabelecimentos. a partir dos seis ou sete anos de idade. a formação religiosa e moral e o ensino da música. No entanto. dentre os quaes deverão ser preferidos os pobres e. e desprotegidos. “órfãos desamparados. Na Casa do Pará. que forem oferecidos. idade em que o jovem rapaz era considerado apto a assumir atividades mais complexas ou que exigissem maior esforço69. os filhos de Viúva miserável. Manifestando aptidão para determinado ofício. “órfãos pobres e filho do pobre” (PA). “expostos” (SP). 70 FALCÃO. o rapazinho era ensinado para praticar na fazenda. houve quem visse na idade tenra uma desvantagem para o objetivo educacional da instituição. os filhos de Pais miseráveis” (PA). O mesmo ocorria nas oficinas urbanas. a indicação étnica constou do regulamento do Instituto Amazonense em 1882.não bastava instruir ou ensinar um ofício. as crianças escravas e as desvalidas. p. os ingenuos e os indios” (Regulamento n. José Antonio. PE)”. art. “moços pobres. já assumiam pequenas tarefas de iniciação ao trabalho. aos sete anos.

10).83. a de Mme Aimée Montanha e a do Padre José Maria do Valle. O plano de economia proposto pelo diretor do Instituto Paraense d e Educandos Artífices ao Presidente da Província. obstados por falta de acomodações. de enviar os educandos para passar férias com suas “famílias ou protetores”. sem cuidar da ampliação das acomodações. o estabelecimento atingiu essa lotação. aguardando os demais peticionários oportunidade de serem atendidos. p. pois da fundação do estabelecimento. As categorias criadas pelas instituições de forma a delimitar a sua clientela aparentemente mascaram a restrição de acesso à educação de determinados grupos sociais constituídos por escravos. desvalidas.98 e 9/3/1878. Outro 71 RPAM. Percebe-se claramente um distanciamento entre os objetivos institucionais que originam as instituições e as práticas que se definem na sua operação real. p. 1889. 15/2/1877. órfãs. Somente em 1888. “crianças de rua. caso o Estado não mais garantisse a sua proteção. incluindo-se também os ilegítimos. onde dois ou três meninos dormiam no mesmo leito. ingênuos e índios. 184 . Respondendo à presidência. o que acarretou graves problemas de superlotação dos dormitórios. p.71 A correspondência entre a Presidência do Pará e o diretor do Instituto ilustra a pressão por admissões sofrida pela instituição. entre elas. De 60 meninos. queixa -se o diretor (RPAM. mediante o esquema do favor. pobres ou indigentes” (RJ). “contra todas as regras de hygiene”. que tendia a favorecer os seus dependentes. até próximo ao final do Império. Coelho sugere o preenchimento das vagas pelos mais necessitados.respectivos Juizes de Órfãos” (MA). chegando a abrigar 123 menores no ano seguinte. como mostraremos a seguir. 781 de 9/9/1873). é percebida como uma falha. O relatório seguinte de João Capistrano Bandeira de Mello confirma que o governo era pressionado por muitos pedidos de admissão. em 1872. apenas 12 permaneceram no estabelecimento. muito inferior ao previsto em lei (100 vagas pela lei n. Uma possível interpretação para o restrito atendimento a estas categorias baseia-se no vigor da política clientelista do Estado Imperial. permanecendo em seus lares por dois meses. a maioria tinha quem os acolhesse. A oferta de vagas para o Instituto. apontada em todos os relatórios provinciais. o diretor José Luis Coelho informa haver duas vagas no estabelecimento contra dez petições de admissão. A maioria dos educandos desfrutara da medida. permite-nos levantar algumas hipóteses a respeito da composição familiar da clientela. cujos beneficiados estavam concentrados em uma faixa da população onde predominavam os brancos e filhos de união legítima. não chegou a atender a 100 educandos por ano. indicando que a instituição não priorizava o atendimento aos totalmente desvalidos. Portanto.

protegido de D. As viúvas de um alferes honorário do Exército e de um professor público obtiveram vagas para seus filhos.75 As crianças acolhidas nas instituições tornavam-se educandos ou menores. cuja composição só é possível compreender juntando as peças que a documentação oferece dispersa e escassamente. auxilia no levantamento de questões sobre aspectos pobremente revelados pelos atores sociais que deixaram registros. pois o caso não estava previsto no regulamento. Izabel de Melo Faria. 24/1/1888 (Arquivo Público do Pará). cujo tutor. formavam uma massa indiferenciada. 75 Ofício do diretor do Instituto Paraense de Educandos Artífices ao Presidente da Província. A vinculação da direção do Instituto à Presidência da Província é analisada no capítulo 4. no collegio do Amparo e no Instituto de Educandos. Foi o caso do Major Comandante do Corpo de Polícia que intercedeu pelo filho do soldado do Corpo de Polícia que ficou em abandono pela transferência de seu pai para o exército. 73 Lei n.1351 de 12/3/1889: “Autorisa a Presidencia a mandar admittir. pois o número de educandos encontrava-se completo. 74 Minuta de ofício da Presidência do Pará ao diretor do Instituto Paraense de Educandos Artífices. em 1889. 17/2/1882 e 20/2/1880 (Arquivo Público do Pará). solicitara que fosse considerado aprendiz externo.ofício esclarece que as 19 petições recebidas pelo diretor não podiam ser acolhidas. desde já. no Pará. com destino ao Sul do Império. a seu f ilho Gentil Augusto da Silva Nobre. o diretor José Luis Coelho consultou Dantas Filho se devia admiti-lo.72 Ofícios deste teor se sucedem na documentação relativa ao Instituto Paraense.74 Um empregado da Secretaria da Província teve vaga garantida pelo presidente Souza Dantas Filho. Ou o do menor de nome Raymundo. Quem eram as crianças que ingressavam nos internatos de formação profissional? 72 Ofícios do diretor do Instituto Paraense de Educandos Artífices ao Presidente da Província. 21/1 e 29/4/1879. guardadas as diferenças do contexto do surgimento de cada uma. como também o menor educando Raimundo Lameira Bittencourt. 13/5/1881 (Arquivo Público do Pará). Identificado no exame médico como hermafrodita. Major Bernardino de Lima Lameira. diversos orphãos”. A comparação entre as várias instituições da época. 185 . Solicitações provenientes de famílias cujos pais possuíam vínculos com os poderes públicos constam em lei aprovada.73 Alguns dos ofícios dos presidentes da Província aos diretores do Instituto Paraense identificam a procedência do candidato e do pedido.

Nos regulamentos dos estabelecimentos amazonense e paraense é explicito o veto aos escravos. Na Casa Pia de Salvador. Frei Fognano discriminou os internos pela categoria “filiação”. 76 A Constituição de 1824 garantiu aos cidadãos o direito à instrução primária gratuita (Art. não era a preferida pelas famílias constituídas por pai e mãe. iniciativa pouco comum entre os diretores à época.76 Índios raramente são citados nos regulamentos. apresentados no quadro abaixo. situada em área rural. A maior parte dos internos era formada por órfãos.É raro haver identificação étnica nos dados apresentados pelos diretores das instituições por nós estudadas. Outro fator de restrição que aparece em algumas instituições é a ilegitimidade de nascimento (filhos de uniões livres). a preferência por filhos de uniões legais foi comprovada por Alfredo Matta ao consultar todas as fichas dos alunos que passaram pela Casa. com a libertação dos escravos pelo Amazonas em 1884. medida confirmada pelo corpo da legislação da instrução pública aprovada na Corte. portanto. 179). Na Colônia Orfanológica de Pernambuco. Os dados. Os limites da cidadania legalmente estabelecidos no artigo 6 excluíram os escravos do acesso à escola pública. a restrição não mais aparece nos regulamentos da instrução pública. dentre os 167 internos do ano de 1888. mostram que a Colônia agrícola e industrial. por ocasião de sua reabertura em 1882. 127 eram filhos de “legítimo matrimônio”. por meninos que não podiam contar com a proteção das famílias. o acesso à escola pública era vetado aos cativos. critério que provavelmente valeu para as outras instituições. 186 . Nas Províncias do Pará e do Amazonas. voltadas para a formação de trabalhadores livres. segundo relatório do diretor em 1889. com exceção do regulamento do estabelecimento amazonense. no entanto. a proporção de filhos legítimos era bem maior do que a existente na cidade de Salvador no século XIX. Nesta.

p.PE Filiação Abandonados pelos pais Órfãos de pai e mãe Órfãos de pais Tem pais inutilizados Tem pais sentenciados Filhos naturais Tem mães conhecidas Tem filiação desconhecida Total Fonte: FOGNANO. O critério étnico raramente é explicitado nos regulamentos e relatórios. 1889. direta ou indiretamente. 1994. contendo referências ao merecimento e à história de vida da mãe. 187 . Não por uma decisão exclusiva da Mesa. que fora funcionário público ou tivera alguma ocupação certa. Luiz Carlos Barreto. no Rio de Janeiro também recebeu maior número de filhos de união legítima. somente um filho de escrava entrou na instituição. O ingresso do primeiro negro na instituição. como na Casa Pia da Bahia. que vetava o ingresso de crianças negras e índias e dificultava a admissão de pardos. Somente uma criança indígena ingressou na Casa nos seus mais de 77 LOPES. ao Asilo de Meninos Desvalidos. todavia. pois as pastas dos alunos demonstram que com o tempo a casa passou a acolher com mais freqüência filhos de famílias empobrecidas pelo falecimento do pai.77 Na Casa Pia. na prática institucional ele surge em alguns casos. resultou de um abaixoassinado de toda a Mesa ao Presidente da Província. como era de praxe entre os dirigentes e autoridades governamentais ligados. que provavelmente tinha os seus privilegiados a indicar.Filiação dos colonos da Colônia Orfanológica Isabel . mas também por determinações do governo provincial.144. o Asilo dos Meninos Desvalidos. após a Lei do Ventre Livre. Número de alunos 8 75 30 12 2 21 10 9 167 Provavelmente. em 1858.

78 Décadas antes. 80 LOPES. D. Destas.79 O incidente mostra o fundador da instituição totalmente destituído de poder. na medida em que os governantes da Província baiana sempre se mostraram extremamente reticentes ao ingresso de categorias raciais desvalorizadas pela sociedade brasileira. disseminada pelo e no Estado brasileiro. Pedro levou a questão à Mesa da Casa. Das 103 pastas existentes.100 anos de funcionamento. Ibid. situação comum nas fichas de filhos de escravas e ex-escravas. p.80 No entanto. 1996.. visando à instrução e formação de filhos de escravas e ex-escravas. Nestas pastas encontram-se solicitações de internação de proprietários de escravos influentes. O índio Manoel do Espírito Santo e outros meninos cujas famílias foram intensamente atingidas pela seca do sertão baiano da década de 1860 foram acolhidos pela direção do estabelecimento. A Colônia Orfanológica de Pernambuco abrigava doze ingênuos em 1888. pretas ou pardas. Pedro I. pois sobreviveram ao tempo somente 713 das pastas do total de 4. buscando apoio em instâncias superiores e externas à Casa e à própria Província. 188 . desde que atendessem às condições dos estatutos. antes disso. seguia-se uma tradição clientelista da assistência pública no país. o irmão Joaquim havia escrito a D. p. p. etc. no ano de 1883 foram preservadas 103 pastas dos 145 alunos matriculados. que vetou a entrada dos menores índios. 34 revelam somente os nomes das mães dos menores. aparentados de funcionários públicos. senadores e deputados. mas não há como obter uma dimensão mais aproximada do atendimento a esta população. etc. é possível avaliarse que a internação dessas crianças não resultava de uma política de governo. em vários 78 79 MATTA. Luiz Carlos Barreto. crioulas. libertas. em 15 estão registradas a condição de escravas ou ex-escravas.81 Ao que parece. Como as internações eram realizadas mediante o requerimento às autoridades (incluindo-se aí o próprio Imperador.139 e 141.52.817 asilados que passaram pela instituição. O Asilo carioca atendeu também a ingênuos da Lei do Ventre Livre e a filhos de ex-escravas. diretores de instrução e do Asilo. dando-nos indícios importantes das origens sociais e étnicas dos internos. 1994.). Alfredo Eurico Rodrigues.106-115. pedindo que fossem aceitos meninos índios no Colégio. o Asilo atendeu a um número mais significativo de crianças negras e pardas em comparação aos outros considerados nesta análise. número insignificante para a quantidade de escravos absorvidos na produção açucareira.

82 Marcus Vinicius Fonseca mostra que nos debates a respeito do processo de abolição do trabalho escravo no Brasil. As relações clientelistas transformaram um asilo que pretendia educar crianças de rua (portanto.níveis e setores. a educação era apresentada como “um dos elementos necessários para viabilizar a transição dos ex-escravos para uma sociedade organizada a partir do trabalho livre”. edição de 1986. devido às próprias características da Lei do Ventre Livre. 189 . segundo definição do Dicionário do Aurélio. p. acabando por favorecer a exploração do trabalho dos nascidos livres até os 21 anos. Rio de Janeiro: Oficinas da S. e indenizar os senhores pelas despesas ocasionadas pela criação dos filhos de suas escravas nascidos após a lei. miserável. o que não justificou aumentar ou manter o apoio às instituições de formação profissional. Ocorreu justamente o oposto.. 81 82 Ibid. Pode-se inferir que no Rio de Janeiro. 1881. pelo Governo Imperial. Poucos optaram por entregar as crianças ao Estado mediante indenização.83 O autor discute a criação e o fomento de instituições já existentes. fortalecida pela proximidade com o estado central. desvalidas).96. 84 Segundo Marcus Vinicius Fonseca (set. já que o Ministério da Agricultura previa que o Estado deveria assumir a educação de um número enorme de crianças ao completarem oito anos de idade. 83 FONSECA. Jucinato de Sequeira Marques (1996) apresenta definição semelhante. Dirigido por Antonio Lopes dos Santos Valente. agrícola e/ou industrial. p. ª Lito-Tipografia Fluminense. comum em toda parte. Dicionário da Língua Portuguesa .159. cerca de 113 crianças foram entregues até 1885. No Brasil todo. de Antônio de Moraes Silva.111) foram 403. encontra-se desprotegido. assaz benevolente com os proprietários de escravos. em um instituto para meninos cujas famílias contavam com protetores. p. atingisse com mais facilidade a filhos de escravas e ex-escravas. desamparado. Lisboa: Imprensa Nacional. de acordo com uma postura liberal de igualdade.84 As instituições disponíveis para receberem ingênuos atenderam quase que somente crianças livres desvalidas. sem valimento e “sem valia”. Definição aproximada encontra-se no Diccionario contemporaneo da lingua portugueza feito sobre um plano inteiramente novo. 2000./2000.827 crianças nascidas livres de mulheres escravas no período de 1871 a 1885. a ação clientelista. 1922 (facsímile da segunda edição de 1813). Desvalido é aquele que não tem valor. visando o atendimento às crianças nascidas livres após a promulgação da Lei do Ventre Livre. desgraçado. devido à falta de mão-de-obra ocasionada pela proibição do tráfico vinte anos antes. Marcus Vinicius.

cuja “política do favor” criava obstáculos à operacionalização dos fins previstos para as instituições educacionais. 190 . a escravidão fora extinta no Amazonas. Veremos. Minuta de ofício da Presidência do Pará ao diretor do Instituto Paraense de Educandos Artífices. determinação que levou ao não preenchimento da totalidade das vagas disponíveis.564 de 8/8/1882 mandava o Instituto Amazonense de Educandos Artífices (ex-Casa de Educandos Artífices) dar preferência a índios e ingênuos. e dois anos depois.28. 1879. localizamos somente o encaminhamento de dois ingênuos para admissão. um ano após a promulgação da Lei do Ventre Livre. 1888. e não por demanda das famílias. o número de escravos na Província era muito reduzido. para os ofícios da diretoria à Presidência da Província.1889 para os ofícios dos presidentes aos diretores e de 1888.85 Da correspondência disponível no Arquivo Público do Pará. filho de Diamantina de Jesus. no próprio Estado clientelista.86 No Amazonas. e do ingênuo Luciano. que a coleção disponível para consulta é incompleta e abarca somente os anos de 1875. Trata-se do ingênuo Manuel. Criado o Instituto de Educandos do Pará. Dentre os estabelecimentos analisados neste capítulo. 1887. geralmente como resultado dos esforços dos governos. Depois disso. por decreto provincial. como a tentativa de fomentar uma política de educação indígena esbarrava na prática de exploração do trabalho dessas crianças. não há qualquer referência ao atendimento de ingênuos. entre a Presidência do Pará e a direção do Instituto. à frente. somente há comprovação do ingresso de índios nas casas amazonense e maranhense. sendo desnecessário fundar asilos para libertos na Província.Não há indicação a respeito de restrições étnicas nas Casas de Educandos Artífices. filho de Maria Lourenço. contudo. Educação versus exploração do trabalho dos meninos índios Algumas instituições de educação de artífices receberam meninos indígenas. o Presidente da Província “pensava em servir-se dele até para a instrução dos filhos libertos dos escravos”. p. e por fim. apesar da procura pelas famílias pobres. cujos governos deliberadamente esboçaram programas de educação e civilização dos menores indígenas nas instituições do 85 86 FONSECA. Nota-se. 1986. mandados admitir pelo presidente. Celso Sukow da. mas a determinadas categorias. como os escravos. a lei n. mesmo porque. 2/5 e 5/12/1887 (Arquivo Público do Pará).

nomeado pelo Imperador e. Nos primeiros meses de funcionamento. a maioria dos internos tinha nomes e sobrenomes de origem portuguesa. Não fosse o relatório do diretor ao Presidente da Província. e um o missionário para “conversão dos Índios ao cristianismo” (art. sob proposta do diretor geral. não conheceríamos a sua origem. Este número era subestimado. Romualdo mostrou-se muito apto para o 87 As Diretorias de Índios estavam subordinadas à Diretoria Geral de Índios do Amazonas.13). não se deve descartar a possibilidade da admissão de meninos vindos. Porém.89 Este último teve sua admissão intermediada pelo Diretor Geral de Índios. Contudo.° 426. Anexo G. por exemplo. 1 ). a pedido de familiares. Em 1865. jornal de 16/02/1859. 8/5/1865. expediente de 18/06/1858. 88 No jornal Estrella do Amazonas estão publicados os ofícios da presidência encaminhando os meninos ao diretor do estabelecimento. geralmente. alguns filhos de principais. em cada aldeia. havia 38 diretorias no Amazonas com 17. que com este lhe será apresentado. Nestes (poucos) casos. almejou educar e integrar filhos de índios à sociedade civilizada. teve a sua Casa de Educandos criada. cujos ex-integrantes passavam a ser considerados oficialmente “nacionais”.405 índios distribuídos nos distritos de suas jurisdições. viuva do principal da tribu Miranha. p. indígena filho do Principal da “tribu Miranha”. de 24/07/1845. expediente de 11/07/1858 e jornal de 09/10/1858. este destino provinha de iniciativas diversas. Nos casos de crianças indígenas. um diretor nomeado pelo presidente. Um exemplo desta lacuna da documentação é caso do educando Romualdo da Silva Mingues. conforme atestou o Presidente da Província em 1865 (RPAM. tutores ou protetores. 89 Estrella do Amazonas. O decreto n. possivelmente provenientes de aldeias vinculadas a Diretorias de Índios87 e de missões religiosas. filho da india Felippa. Presidentes do Amazonas e viajantes relatam o ingresso de meninos índios na Casa de Manaus. Agostinho Minguens”. pois os arrolamentos não eram confiáveis. determinou que em cada província haveria um diretor geral dos índios. 07/09/1858. 88 RPAM. não havendo referências étnicas. ingressaram o “indio menor de nome João de nação Moravá” e o “menor Romualdo. que oito anos após a sua instalação.Estado. comentando a sua entrada na Casa. 191 . A falta dessa referência nos quadros de alunos matriculados nos impede de conhecer qual era a real composição étnica dos internos do estabelecimento. a etnia do menino era identificada no sobrenome ou nos quadros de alunos matriculados (o primeiro nome era invariavelmente “cristão”). de aldeamentos extintos. A jovem Província amazonense.

192 . Entre fins de agosto e meados de novembro de 1885. onde tocava requinta. receberam as honras funerárias do corpo de educandos.aprendizado da música.90 A admissão de crianças que não falavam o português não era rara no estabelecimento. 90 91 RPAM. Ignacio era de origem indigena e succumbiu. 93 A Província. No relatório provincial de 1866. a ler e a escrever a nova língua. receberam a beira da sepultura as honras funerais que lhe fez todo o corpo de educandos. Anexo E. da “Baré”. 8/11/1885. três educandos faleceram. sobretudo após ter sido reerguido em 1882. 05/09/1866. a língua dominante no Amazonas era o Nheengatu . ver capítulo 4. alcançando a posição de melhor aluno da classe dos mais adiantados. dez indígenas que não falavam o português. os presidentes faziam defesas enfáticas da educação. todos com nomes cristãos. A respeito de sua experiência. 2003). o professor de primeiras letras ensinava a 40 meninos. 03/11/1860 (Doc. Até o século XIX.94 Como veremos adiante.3: “Mapa de adiantamento da aula de musica dos Educandos artífices”). José Ribamar Bessa. atenta ao seu prestigiado Instituto. Os dous primeiros que falleceram no Instituto.”93 Na documentação raramente se ressaltava a origem indígena do menino. Estes alunos enfrentavam o desafio de aprender a falar. segundo nos informam victima de uma affecçoes pulmonar. oito deles receberam a indicação da proveniência étnica: sete vinham da “tribu Mura” e um.) sepultou-se no cemiterio de S.. O professor Ramiro e Silva entrou no estabelecimento em 1867. Mais da metade dos alunos era natural de localidades do interior do Amazonas..91 Em meados de 1870. de nome Ignácio. apresentados com nome e sobrenome. nos relatórios. Sofreriam algum tipo de discriminação dos demais? Localizamos apenas uma alusão a tratamento discriminatório recebido por um educando indígena. especialmente os indígenas. Mas o indígena. e agora ao terceiro lhe são negadas essas honras. sendo apenas acompanhado por uma turma do corpo de educandos e sem a competente musica. José o cadaver de Ignacio. (. FREIRE. Os dois outros falecimentos foram noticiados em 23/8 e 27/9/1885. A imprensa amazonense. noticiou o tratamento inferior dado a um educando indígena no seu enterro. Os dois primeiros. 94 RPAM. 92 Commercio do Amazonas. ocorrido após seu falecimento. vez por outra. entre eles. n.92 A documentação silencia quanto à questão da adaptação à instituição dos alunos identificados como índios provenientes das “malocas”. educando artífice. a língua geral desenvolvida inicialmente com a ação jesuítica na região (Cf. 27/7/1875. dentre sessenta alunos.

115. na viagem científica ao Brasil nos anos de 1865 e 1866. Índios ou não. produto das raças que se estão fundindo no vale. sob a justificativa de que “a civilização. capaz de compreender a arte. mamelucos. mulatos e cafusos. Viajantes estrangeiros que visitaram a instituição. é preferível à barbaria”. mesmo que imposta pela força. O alemão Robert Ave-Lallemant relata que “meninos.81. 97 AGASSIZ. em suma.”96 À senhora Agassiz foi revelado que alguns internos haviam sido subtraídos à força de seus pais. das crianças índias. tais como. p. as indústrias e até a ciência. Luiz e Elizabeth Cary. Morais tangencia a difícil questão de quem podia ser considerado índio. corrigindo enganos. e ameaçados de vagabundagem.97 As observações dos viajantes levantam pontos não abordados nos relatórios provinciais e que merecem ser investigados: quem eram esses meninos que perambulavam pelas ruas.principalmente profissional. produtos da mistura de raças que vinha ocorrendo no vale. são recolhidos a esse instituto e transformados em homens trabalhadores e úteis”. em prol de sua civilização e incorporação ao trabalho. e sim com nativos. “sem nenhuma vigilância”? 95 96 AVÉ-LALLEMANT. quase todos índios. registraram a atenção do governo amazonense com a educação dos “meninos índios”. atendo-se ao critério racial: “Acredito que não fossem índios inteiramente. na obra À margem do livro de Agassiz (1939). 1975 [1865-1866]. A senhora Agassiz denomina a instituição de “escola para índios”. cafusos. comenta partes do livro da senhora Agassiz. mas nativos daqueles tempos: mamelucos. mulatos. como registra a senhora Agassiz. p. 193 . a verdade palpitante é que o menino amazônico demonstra uma viva inteligência. perambulando sem nenhuma vigilância. entre 1859 e 1866.128. Raimundo. houve quem duvidasse de que o casal tivesse se deparado com índios “inteiros”. p. como dormir em redes e tomar açaí. MORAIS. Posteriormente.95 O casal Luiz e Elizabeth Agassiz também deixou suas impressões sobre Manaus e a Casa dos Educandos. Raimundo Morais. as crianças da escola em questão. mostrando-se surpresa com a aptidão das crianças pelas “artes civilizadas”. Robert. a beleza. 1961 [1859]. 1939. confirmando fatos e louvando a adaptação da senhora aos hábitos amazônicos. Com relação à existência de meninos índios entre os educandos.

como Agnello Bittencourt (1985[1925]. com crianças desvalidas. neste período. Mundurucus. índio era o selvagem . de 1845. No máximo o domesticado ou o manso que. parág. 194 . A legislação do período não prevê a perda do pátrio poder para o Estado. sem o consentimento dos pais.151) e José Verissimo (1892. preservava as tradições culturais e os sinais que o identificavam a uma etnia específica. filhos de índios domesticados que viviam nos arredores das cidades e vilas da região e filhos dos chamados tapuios. manifestado por algumas autoridades. era basicamente de origem indígena. capaz de ser identificado como pertencente a uma etnia específica. Nos discursos das autoridades aqui retratadas e de intelectuais da época. não assumida nos relatórios oficiais. como o número considerável de índios domesticados que viviam nos arredores das cidades e vilas da Província do Amazonas (Maués. fato que só ocorrerá com a criação do Código de Menores de 1927. por exemplo. A questão da autoridade pública passar por cima do pátrio poder da família também merece destaque.1o. o presidente Paranaguá demonstrou acreditar na importância dos grupos indígenas compreenderem “as vantagens de darem aos menores uma educação útil e proveitosa”.está lidando. 6.Se considerarmos que a população da região. Em 1883. Na perspectiva dos atores sociais. p. era uma ação marginal. acerca do Regulamento das Missões de Catequese e Civilização dos Índios. p.11). A imprecisão dos censos realizados na região é apontada por outros autores do Amazonas e do Pará. recomenda que jamais se use a violência de modo a forçar os meninos e os adultos a adquirirem instrução (ler. o desvalimento antecede o critério étnico. apesar de manter relações comerciais ou de prestação de serviços com os civilizados.6o. é bastante razoável supor que o estabelecimento estivesse abrigando crianças índias.29). foi realmente uma prática da instituição. 20. parág. antes de tudo. o índio. aquele proveniente das malocas. 99 Art. O decreto 426. índios destribalizados pelo contato de várias gerações com os civilizados (missionários ou população estabelecida na região). Uarauaquis.98 A documentação oficial . E mesmo assim.relatórios e regulamentos .99 Se a internação forçada. ao remeter meninos índios 98 O relatório do Presidente da Província de 30/4/1852 alerta para a omissão de informações nos censos populacionais. incluindo a criança. p. nos rios Madeira e Purus (SAMPAIO. 1997. estava submetido à legislação específica. Pariquis e Muras. escrever e contar) e que “não sejam os pais violentados a fazer batizar os seus filhos”. Art. Não há tampouco qualquer outro relato sobre crianças abandonadas ou que viviam nas ruas de Manaus. Patrícia Maria Melo.

meses depois. Nos internatos indígenas norte-americanos. 1995 e ELLIS. e o pai com as vestimentas e sinais corporais típicos do barbarismo da vida tribal.101 No primeiro ano do governo de José Paranaguá.102 O presidente Paranaguá. responsável pelo ressurgimento da instituição em 1882. incumbiu pessoas de remeter índios para o Instituto Amazonense. criados entre 1870 e 1902. a prática é transformada em lei. 25/3/1883. No jornal Estrella do Amazonas é noticiado pouco tempo depois da fundação da Casa dos Educandos a determinação do Presidente da Província para que se levasse o chefe indígena de três “malocas” Mura em visita ao estabelecimento. o governante esperava aproveitar estes braços 100 101 RPAM. Purús. alguns acompanhados pelos chefes. acompanhados de seus próprios chefes. Clyde. A justificativa é bastante semelhante àquela empregada três décadas depois: “ (. Tratava-se de uma nova fase da instituição. As restrições a tudo que lembrasse as suas culturas de origem provocavam intenso desagrado e resistências por parte dos internos (Cf. mostrou-se favorável a receber na Casa maior número de indígenas. David Wallace.. mostrando o contraste entre o filho civilizado. conforme o antagonismo entre civilizados e bárbaros. pessoalmente tomou providências para atender à lei. realçado pelos reformadores. não estava previsto nos regulamentos o ingresso de meninos indígenas. Na primeira fase. Solimões e outros.) fazer-lhe comprehender praticamente as vantagens que os índios podem colher trazendo seus filhos para alli serem educados”. 1996). A primeira medida dessa trajetória rumo à civilização consistia no corte do cabelo dos meninos. No início da década de 1870. contudo. em seu fardamento militar. tendo ele próprio conseguido remeter menores indígenas de diversas tribos. Jornal Estrella do Amazonas de 26/5/1858 (n. com o nome de Instituto Amazonense de Educandos Artífices.294). p. na busca de comprovação do efeito civilizador do projeto educacional empreendido pelo governo norte-americano.ao estabelecimento. de 1858 a 1877. o presidente José de Miranda da Silva Reis afirmara que o estabelecimento não tinha por fim exclusivo civilizar e educar indígenas catequizados. em suas viagens aos rios Madeira. Através da “educação profissional” de meninos indígenas.. 195 . Visitas após alguns meses de internação podiam resultar em fotografias. reinstalada em 1882. 35. de modo a contrastar o aspecto selvagem com a aparência de homem branco. ADAMS. as visitas de pais eram estimuladas como meio de se superar os temores das famílias quanto a maus tratos de seus filhos. a serem remetidos pelos missionários. consistia em fotografar os meninos e as meninas tão logo chegavam ao internato.100 Esta parece ter sido uma prática instaurada desde os primórdios da existência da instituição. Ele relata que. sendo prevista a reserva de vagas para índios e ingênuos. Outro meio empregado pelos diretores. ano de seu fechamento. “com preferência aos sahidos das malocas”. a troca da vestimenta pelo uniforme escolar e a proibição de falar a língua indígena.

realizando viagens a diversos povoados do Amazonas. RPAM. Márcia. José da Cunha Lustosa da Cunha Paranaguá. Magalhães relata que estudou as raças que tinham mais facilidade para aprender a ler e a escrever. como Pará. lançou-se à missão de conhecer o interior e sua gente. p. Ele falava do alto de sua experiência como diretor do Collegio Isabel. algumas inteiramente barbaras”. ao chegar em Manaus. o jornal Amazonas anuncia que a educação no estabelecimento dos filhos das ‘famílias indígenas da Amazônia” foi abordada na coleção de documentos apresentados pela delegação do Governo Imperial ao Congresso Internacional da Proteção da Infância. p. O Colégio recebia crianças de “todas as tribus do Araguaya. Magalhães elaborou um plano para o aperfeiçoamento e a reprodução da “idéa do Collegio Isabel” nas províncias onde se encontrava o “elemento selvagem”. Mato Grosso e Goiás. Amazonas. 25/3/1883. por ele criado em 1870 sob a proteção da Princesa Imperial.7. Sobre a atuação do governante na instrução pública amazonense. Uma década antes.105 Couto de Magalhães não anunciava apenas uma teoria ou um projeto educacional. capítulo 4. 35 e 44. 196 . buscando arrancar os “gentios” do “estado de barbaria em que se acham”. ver capítulo 2. constatando o “abandono de assistência social por parte d o Governo da Província e do Império”. 102 103 RPAM. e junto ao ensino profissional. p. 1995. como a busca de curiosidades antropológicas e históricas: a coleta necrológica em velho cemitério indígena para a Exposição Antropológica de 1882 e a localização de descendentes de sobreviventes do massacre perpetrado às nações do rio Urubú pelo capitão Favela. por ocasião de sua visita aos educandos e é encontrado em documento manuscrito de cunho administrativo de 1882. no Araguaia. em meados de 1660. Amazonas. incapazes de exercer qualquer g ênero de “trabalho regular”. 1/8/1883 (Órgão do Partido Republicano Liberal). A partir desta experiência.103 A educação de crianças das “malocas” é justificada pela necessidade de estabelecer um “laço de união entre a raça civilizada e as tribus selvagens”. Agassiz. Outros objetivos motivaram as suas viagens. em Paris. 104 ALVES. Couto de Magalhães já vinha publicando suas idéias e experiências em busca da criação de um “laço entre o indio e o christão”. à época de sua criação. 25/3/1871. através da “educação intellectual pratica” das crianças das tribos da região do Araguaia. Agnello Bittencourt (1973) relata que o bacharel em Direito. No ano seguinte. O argumento fora apresentado a Sra.105. citado por Márcia Alves. entre os 52 alunos do estabelecimento. vindo da Corte. em Goiás.para a riqueza pública. sob o argumento de que os adultos que viviam em aldeamentos estavam apenas “domesticados mas não civilizados” e portanto.104 A idéia não é nova.

visto que “o indio não se presta ao trabalho sedentário”. José Vieira Couto de. através de “influências naturaes”. p. ao comunicar a criação de um estabelecimento de Educandos na Província para a educação de “órfãos pobres e filho do pobre”. em dez ou quinze anos “numerosos indios d’essa vasta região estarão utilisados”. aprenderiam ofícios como os de carpinteiro e ferreiro. 106 Qual seria a utilidade desse governo? Aproveitar o “braço indigena” para as nossas indústrias. A formação de uma elite indígena. A escravização de crianças indígenas na região parece ter sido prática corrente. inclusive das crianças. Porém. mas também próxima de sua gente através do conhecimento da língua. 106 MAGALHÃES. com grande ascendência entre os seus. estavam calcadas nesta concepção das sociedades indígenas. basicamente as indústrias extrativas e pastoris. Desde que “a política não venha desnaturar a instituição”. permitiria que as tribos fossem por ela governada. mas na prática. principalmente através das crianças. p. consistindo na administração de serviços do colégio. 107 Ibid.463. A experiência do Colégio Isabel é apresentada no capítulo 5. Nele. pois. o qual receberia os meninos mais inteligentes e representantes de quatro ou cinco línguas sul-americanas. O Presidente do Pará. por isso mesmo.Esses colégios estariam subordinados a um colégio central a ser fundado na Corte: um “collegio de interpretes”. p.. 197 . ex-alunos seriam empregados e pagos pelo colégio central. Teria-se assim um braço do Estado brasileiro no interior de povos incomodamente independentes. ocorria a exploração em massa e até a escravização de índios. e receberiam uma “educação intellectual pratica”. defendeu a ampliação dos “benefícios” a serem oferecidos pelo estabelecimento aos meninos indígenas: 105 MAGALHÃES. José Vieira Couto de. vistos e temidos como “selvagens”. sem imposição. integrada aos costumes cristãos. nos discursos defendia-se a integração do índio à sociedade civilizada.. op.107 Para o governo das tribos.512. de modo a serem “regulares administradores”.cit. percebe-se uma constante tensão entre civilizar e explorar. pelas referências que aparecem nos escritos de uma ou outra autoridade. preservando a sua liberdade. 464. As tentativas do Governo da Província do Amazonas em civilizar os índios. 1873.

p. em 1882. estarem sob a proteção da Província dois índios menores. Os meninos encontravam-se doentes. ao mandar a polícia apreender meninos desertores da Companhia de Aprendizes Marinheiros e outros 108 RPPA. mas muito casualmente pelos parentes.55. No Amazonas. O Presidente da Província. filhos de índios aldeados eram entregues ou doados a particulares por várias autoridades locais ou diretores das aldeias. autoridades do mesmo porte confirmaram a prática. e empregados na extração da goma elástica ou no trabalho doméstico na capital. Alarico José Furtado.”108 O presidente sugere que a exploração do trabalho das crianças indígenas era prática disseminada nas casas particulares.111 Em foro privado.“Eu estenderia tal beneficios aos indios de menor idade. tendo sido inaugurado dois anos depois. O presidente Herculano Ferreira Penna lamenta o fato da maioria das crianças não receberem o benefício da instrução primária. arrancados de suas malocas ou comprados. 198 . quando diversas autoridades posicionaram-se contra a escravidão negra e tornaram-se fervorosos defensores da educação do povo.109 Tais denúncias serão mais abundantes na última década do Império. p. retirados da escravidão. 1/10/1853. Os pais não foram localizados. É mais um meio a empregar-se para a catechese e civilisação dos índios. O destino que o aguardava não iria ser trilhado com menos dificuldades. Meninos de um de outro sexo.110 No jornal Amazonas. a exposição de Furtado é reproduzida. que geralmente são empregados aqui como creados de servir nas casas particulares. quando ele se pronunciou a respeito do “comercio revoltante de índios”. 110 RPAM. o Presidente da Província. confiado aos cuidados do Vigário Geral. abordou o tema. desde os primórdios da instalação da Província. pois Furtado pretendia interná-lo na “Companhia de Menores” (Marinheiros). Na carta ao Barão de Loreto. 27/8/1881. Em se tratando de “índios de menor idade”. 1870. submetidas que estavam ao trabalho e ao tratamento muito inferiores à sua condição. José Paranaguá fez seus desabafos ao ser acusado pela imprensa amazonense de que estaria empreendendo uma “caçada de menores” pela cidade. para que se tornasse “um homem util a si e á sociedade”. anunciou na fala à Assembléia amazonense de 1881. 660 de 31/10/1870. O Instituto Paraense de Educandos Artífices foi criado pela Lei Provincial n. vindo um deles a falecer no Hospital de Caridade de Manaus e o outro estava na antiga Casa dos Educandos. 109 RPPA.22. dificilmente recebiam alguma remuneração.

em geral. provenientes tanto da capital quanto das pequenas localidades.114 O mecanismo legal da tutela. carta de 9/5/1882 (Arquivo Nacional. que os deixem vegetar na estupidez”. O Bispo do Pará. dispostos a largar a comodidade da cidade para viver em lugares longínquos “para se desvellarem na educação. O maior obstáculo vinha a ser a obtenção de sacerdotes e de “homens seculares” instruídos e virtuosos. Argumenta. que deveriam zelar por sua sorte. outra importante autoridade referiu-se ao “cativeiro” de “tapuiozinhos”. cerrados. veiculado pelos juizes de órfãos. As próprias autoridades. às crianças pobres e órfãs de pai. A prática dirigia-se. grosseiros”. em estado de orfandade ou desvalidos. 111 112 Publicado trecho da Exposição de 7/3/1882. 14/4/1882. pela exploração do trabalho da criança. caracterizando-se. constituindo-se nos chamados “filhos de criação”. na maioria dos casos.”112 Na mesma época. que mais fácil era achar em quantidade “especuladores que os vão reduzir a captiveiro. permitiu a ocorrência de inúmeros abusos contra meninos e meninas. Em 1871. na instrucção de tappuyosinhos boçaes. o bispo. dentre outros “ambiciosos”. Correspondência entre José Lustosa da Cunha Paranaguá e Franklin Américo de Meneses Doria. Contudo. listou os embaraços à instalação de asilos profissionalizantes nas aldeias indígenas. Denúncias da exploração do trabalho. quando não ha aqui casa que não tenha o seu curumim (menino tapuyo) apanhado nos mattos para servir de criado. sem retribuição alguma. sem o menor cuidado com a educação escolar. no jornal Amazonas. pois mestres de obras.menores desvalidos e vagabundos. a exploração das crianças desvalidas ocorria sem a máscara do “filhos de criação”.113 A prática de acolhimento de crianças por famílias com melhores condições de vida é bastante tradicional na sociedade brasileira. Entendia Paranaguá que os verdadeiramente caçados eram os curumins empregados nas casas das famílias da cidade: “Chamam a isso de caçada. o presidente Miranda Reis pede que se abra mais espaço na Casa dos Educandos do Amazonas para o recebimento de menores indígenas catequizados. Barão de Loreto. dos maus tratos e da negligência quanto à instrução das crianças estão publicadas nos jornais de Belém de meados da década de 1880. 199 . GF-Coleção Barão de Loreto). ao defender seu projeto de catequese dos amazônidas empregando um Navio-Igreja. utilizavam-se de seu trabalho. encarregavam tais pessoas de sua educação.

4). que tudo indica terem sofrido exploração por parte de ricos e pobres. estamos cientes de que os “dardos” trocados entre os representantes da imprensa posicionada eram os mais venenosos possíveis. quando o caso chegava nas mãos dos inimigos políticos. O uso das crianças podia adquirir a feição de abuso e ser denunciado na imprensa. 115 Jornal do Amazonas. caracterizado como o “redactor assalariado de “Amazonas”.116 O problema persistiu ao longo dos anos. Em 1880.”115 A exploração do trabalho dos meninos nos seringais é igualmente denunciada nos relatórios. que o médico. 25/3/1871. Segundo o jornal conservador. Portanto. depois de aproximadamente cinco anos de domínio liberal. que manda para as tabernas fazendo compras e carrega bandejas de doces. o médico tinha assento na Assembléia Provincial do Amazonas. Antonio Macedo de. 114 RPAM. etc. meninos e meninas indígenas eram os preferidos para servir nas casas. o Commercio do Amazonas noticiou que Aprigio Martins de Menezes foi demitido do cargo de diretor geral da instrução pública (27/5/1880). Tem mandado vender doces e frutas nas ruas pelas orphãs que tem tido em sua casa de onde algumas tem fugido e outras tem morrido. 25/3/1885. para a taberna e da taberna para casa. o relatório provincial de 16/5/1881 informa que Menezes pedira exoneração do cargo em abril de 1881 (p. 4/3/1886. de acordo com os vários relatos. A dificuldade enfrentada pela Companhia de Aprendizes Marinheiros de Manaus para preencher as vagas era atribuída aos interesses econômicos de “inculcados protectores”. 116 RPAM. medico sem clinica e jogador de profissão”. a descrição do trabalho da pequena órfã nas ruas da cidade resgata cenas da vida das crianças índias. Diz a gazeta. especialmente as órfãs que já acolhera.117 113 COSTA.68. Aprigio Martins. Contudo. O período era de intensas brigas políticas. p. O projeto do Navio-Missionário do bispo é descrito no capítulo 5. O Jornal do Amazonas veiculou um duro ataque ao médico e ex-deputado liberal. em sua casa os índios eram maltratados. 200 . Em 1883. 25/3/1874. Em 1885. 117 RPAM. “produto das caçadas que costumam fazer nas malocas”. “Tem em casa uma pequena orphã de 7 para 8 anos. No e ntanto. chega a afirmar que o envio de menores indígenas para a Companhia não iria prejudicar os interesses dos “potentados” que tinham consigo grande quantidade de crianças índias. 1884. o presidente Ferreira Jr. quando extrapolava o tratamento socialmente aceitável ou mesmo. devido à volta dos conservadores ao poder.Na cidade de Manaus.

Não era só o fato de não possuírem sobrenomes que os distinguiam dos demais: careciam de “se domar” aos “usos da civilização” para poderem se dedicar ao aprendizado das primeiras letras. na Corte. por religiosos. ao ingressarem na instituição. 119 RPMA.273 índios. publicado em 1851. esperar somente pela mudança da “indole e pessimo natural deste gentios. o encaminhamento à Armada Nacional.120 Uma vez sob o jugo da Marinha. 28/7/1848.118 Os índios da Colônia de Pindaré. em o que deposita toda a sua esperança”. p. entre um e quinze anos. com exceção desses dois “colonos”. à margem direita do Rio Pindaré. provenientes. supersticiosos. A Província tinha 23 aldeias. segundo os relatórios provinciais. uma modalidade de conversão que em instituições militarizadas como as Casas de Educandos. 119 Dois meninos “Pindaré” não se adaptaram à instituição. Nos relatórios de 1849 e 1851 do diretor da Casa dos Educandos não há registro da entrada de meninos indígenas de outras aldeias no estabelecimento. em 1841. É possível que muitos não concordassem em enviar os filhos para estudar na capital. tendo sido a primeira colônia indígena do Maranhão. havia 35 menores batizados.44. com um total de 3. 1851. aprendiam apenas ofícios mecânicos. da “Nação Guajajaras” não gozavam de boa reputação nos meios oficiais. O uso do tempo e do 118 No primeiro ano de internação de Servolo Pedro Pindaré e Torquato Celestino Pindaré. 201 . provavelmente não foram “domados” aos “usos da civilização”. tidos pelo padre diretor como possuidores de má índole.224) a Colônia de São Pedro do Pindaré aldeava índios Tenetehara. Trata-se de seis “colonos” da aldeia do Pindaré. e 68 adultos pagãos. em permitir a educação de seus filhos na capital da Província. comandados pelo Ministério da Marinha. apesar da Colônia ter sido dirigida desde a sua criação. implicava na observância de inúmeras regras extremamente rígidas. a Colônia contava em 1848 com uma população de 174 índios. por meio da educação dos menores. Dentre estes. Segundo Mércio Pereira Gomes (2002. O motivo do castigo não é relatado. José Antonio. organizada em 1840. distribuídas por cinco Diretorias de Índios. Não é difícil supor que este tipo de ocorrência tenha inibido a vontade ou a aceitação. isto é. Escreveu o reverendo ao Presidente da Província em 1848. Pelos dados apresentados. os pais aceitavam o batismo dos filhos. tendo recebido o castigo que mais temor infundia nas famílias e nos educandos. Os nomes Pedro Pindaré e Celestino Pindaré foram incorporados no ato da internação. além de não se prestarem ao culto à Divindade e só terem por veneração a comida.Na Casa maranhense há também indícios do ingresso de meninos indígenas no extenso relatório de diretor. por parte das famílias do aldeamento. p. p. De acordo com o relatório provincial de 28/7/1848 (p. que receberam o sobrenome de “Pindaré”.77. todos os educandos tinham aulas de primeiras letras. desumanos. Nos primeiros tempos de internação. os pais dos aprendizes perdiam o controle sobre seus destinos. 120 FALCÃO. mas resistiam à iniciação ao cristianismo: 65% dos adultos eram pagãos.40).

torna-se uma estratégia de destruição da representação interna de tempo. A do Maranhão.8. quando havia sido citada como uma das instituições que seriam avaliadas para exercer esta função. no século XIX. p. 24/6/1884. que resistiam ao ritmo do trabalho contínuo. fato que prejudicava bastante o aproveitamento dos alunos. pretendia-se atender aos ingênuos da Lei do Ventre Livre. ou seja. estendendo-a para duas horas diárias. José Carlos Barreiro mostra como. a origem étnica/racial dos educandos não é mencionada. No Amazonas do final do Império. 124 Marcus Vinicius Fonseca (2000. em 1889.6. tida como exemplar à época. ela ocorria ao final do dia. verifica-se que o trabalho era a atividade privilegiada. a partir da uma representação hegemônica burguesa do tempo útil. 123 RPPA. Seleções de alunos segundo critérios estipulados pelos dirigentes havia. pois não encontrou referências a ela nos relatórios do Ministro da Agricultura nos anos posteriores a 1876. João Carlos. “cansados do trabalho braçal em que se ocupavam durante o dia”. pela manhã. mas se dentre estes se 121 122 BARREIRO.121 Observando-se a rotina diária prevista para as Casas de Educandos. em 1884. 1987. após o trabalho nas oficinas.. no máximo..122 No Pará. o controle do tempo dos trabalhadores. Ibid.56.58) observa que provavelmente a Casa do Pará não recebeu verba do Governo Imperial para o acolhimento de ingênuos. 1849. como reconheceu o Presidente da Província. José Antonio. em 1858. À instrução primária era reservada uma carga horária de uma hora e meia a duas horas e meia diárias. p. o diretor avaliou que uma hora e meia de instrução primária era insuficiente. 202 . Os maiores de quinze anos passaram a freqüentar a “escola” à tarde (de quatro às seis horas) e os menores. horários que deixavam o dia liberado para o trabalho. 1851. p. os educandos estudavam a noite. p.123 Nos relatórios da Província do Pará não há quaisquer indícios do atendimento de crianças indígenas pelo Instituto Paraense. nem sempre nos melhores horários.espaço era ditado pela instituição.124 Seguindo a tendência das outras Casas. Admitindo a necessidade de mudar o horário das aulas para o primeiro turno do dia (de seis às oito e meia da manhã). FALCÃO. trabalho e liberdade dos homens livres. e isso para meninos que lá entravam sem saber a idade. A categoria dos desvalidos era o alvo da instituição. o Barão de Maracajú transferiu a decisão final para o seu sucessor na presidência. e de quinze minutos. Na Casa de Manaus. a distribuição das atividades diárias no tempo e no espaço era fracionada em períodos de uma hora. de seis as oito. por exemplo.

não viessem vadios. com imenso sucesso.”126 O autor maranhense deixa claro que o fim da instituição é formar artífices. p. que ainda he peor do que o recebimnto dos de pequena idade. usando a instituição para acolher seus protegidos e para afastar das ruas das cidades os indesejáveis. ele tentou angariar o apoio do 125 Esta era a faixa de idade a qual se dirigiam os inúmeros manuais de civilidade que surgiram na Europa até o século XIX. o que incluía a capacidade física e moral. 1851. a partir de adaptações feitas ao texto de Erasmo. fisica. e por isso. se de envolta com os adolescentes que só fossem recebidos.177). Este último defendia a formação técnica de bons operários. José Antonio. Dos 225 jovens que por ela passaram. a condição moral do candidato era bastante valorizada. As autoridades governamentais tinham fins políticos. como a experiencia me tem mostrado que he factivel de succeder. e por três séculos foi o gênero literário que disseminou a pedagogia das “boas maneiras” (p. A civilidade pueril.a formação era dirigida aos meninos e deveria ser iniciada. 15 foram “despedidos por castigo”. p. escrita e aritmética (p. pois a experiência demonstra que: “Se alcançarião os fins da Instituição mais promptamente. 32 saíram “promptos nos officios que aprenderão”. e 52 foram “demitidos por incapacidade. como os jovens tidos por vadios e viciosos. ou moral”. período de aquisição dos rudimentos de leitura. 127 Ibid.empregavam critérios de raça e de etnia. publicado pela primeira vez em 1530. entre os sete e doze anos125. Segundo Revel (1992) trata-se de um “breve tratado didático”. e não recuperar ou regenerar “adolescentes” que se desviaram das normas sociais. denota que a instituição excluiu mais alunos do que formou.74. O movimento dos alunos.171). em média.69.127 Mais do dobro dos considerados aptos para exercer a função de artífice foi excluída do processo educativo proposto pela instituição. que reformula a própria noção de civilidade. 126 FALCÃO. 203 . rudes e rapazes eivados de vicios. só é possível levantar hipóteses. Percebe-se aqui uma tensão entre os propósitos do Governo da Província e do diretor da Casa.. entre 1842 e 1850. A primeira seleção era feita por sexo e idade . desde a criação da Casa instalada em São Luís. As regras da civilidade deveriam ser apresentadas prioritariamente às crianças na faixa dos sete anos (a idade da “razão”) e antes dos doze (e das ameaças da puberdade). Além dos critérios citados. O diretor temia que “pessoas dignas de toda a Consideração” que eram procuradas pelos pretendentes por admissões na Casa “retirassem o seu favorecimento ao Estabelecimento”.

o favor estava referido ao “homem livre”. destinado a atender indigentes . indústria. a instrução e a qualificação profissional tornavam-se imprescindíveis para alcançar-se postos de trabalho. tais como. administração.129 Na medida em que as cidades cresciam. como foi o caso do Asilo de Meninos Desvalidos. os 128 129 Ibid. em relação ao seu uso europeu”. aqueles que não tinham proteção de pessoas bem situadas socialmente . ou seja. identifica a prática do favor como um dos fatores que o levaram a considerar que no “Brasil as idéias estavam fora de centro.74. pois as instituições do favor e da escravidão se chocavam com a ideologia liberal. 1988. Prática instaurada com a colonização. escorada nas idéias de liberdade do trabalho e de igualdade perante a lei. SCHWARZ. transformando a possibilidade de ingresso nas instituições em moeda de negociação..mas que acaba por receber os indicados pelas mais diversas autoridades da Corte. superados os primeiros temores. provocava na proposta pedagógica da instituição. dependente direta ou indiretamente. ao analisar historicamente a apropriação da ideologia liberal pelas elites no Brasil. comércio. amplamente disseminada na sociedade brasileira desde o período colonial. política. governando até mesmo. Roberto Schwarz (1988). o passe tornou-se um benefício clientelista. É muito improvável que tenha conseguido o seu intento. A força de tal prática pode explicar o afastamento das camadas tidas como inferiores. e que na mesma razão se permitam ou recusem as admissões”. o ingresso numa instituição pública de preparo para o trabalho podia ser visto como um castigo. 204 . A análise das instituições de formação profissional expõe a penetração da prática do favor no Estado brasileiro.Presidente da Província para a exclusão dos que não possuíam “aptidão para a aprendizagem das Artes e ofícios.os desvalidos. da classe “dos que têm”. o favor combinava-se às mais variadas atividades. veremos ao longo deste capítulo que o “favorecimento” dominava a seleção daqueles que deveriam ingressar nas instituições. Se nos primeiros anos de funcionamento. Roberto. Na vida urbana. profissões liberais e operárias. como os índios e ingênuos. chegando a ponto de desvirtuar as finalidades de alguns estabelecimentos. p.128 Falcão chamava a atenção do governo para os prejuízos que a instituição do favor..

como pode parecer à primeira vista. levando os governos a burlarem os seus programas e inclusive a legislação. O Brasil do século XIX não importou.130 É o que se observa no uso pessoal da política educacional dos governos provinciais. Maria Sylvia de Carvalho Franco contesta a tese das idéias fora do lugar. em geral. decorrente de sua ação expansionista. porém dificilmente resistiam ao apelo clientelista das relações de poder entre homens livres. 130 FRANCO. nos leva a pensar que a instituição do favor não poderia ter se sustentado com idéias fora do lugar. mas as práticas muitas vezes alimentavam a rede de favores aos protegidos. O favor se estende às relações entre elites e Estado. é estabelecida uma ordem de sucessão. não tinham protetores. de onde emergiu o conceito de igualdade que lhe é inerente. que vincula autoridade oficial e influência pessoal. O país integrava-se ao modo de produção capitalista. no sentido do planejar e não executar.quais. Programas educacionais foram criados e mantidos por longos períodos. 1976. sede do capitalismo. e funda as relações entre homens livres. cujos discursos expressavam os interesses das províncias. sustentadas por um sistema de dominação garantido pela ausência de privilégios juridicamente estabelecidos e encoberto pelas representações igualitárias. do distanciamento entre os discursos e as práticas. argumentando que elas pressupõem a polarização entre nações metropolitanas. pelo amplo emprego das instituições da escravidão e do favor. criando uma dissonância entre os discursos e as práticas. sendo estes últimos os responsáveis pelo processo de mudança. Assim. onde os ditos países atrasados devem progredir rumo aos países industrializados. O favor surge como desdobramento da produção lucrativa. interesses nacionais e objetivos pessoais. disseminou e distorceu o ideário liberal burguês. Maria Sylvia de Carvalho. relativa à educação no século XIX. 205 . periféricos e dependentes. e os povos coloniais. Não pretendemos confirmar a idéia difundida na historiografia. a partir das relações de mercado específicas. através do clientelismo. Uma tal ramificação e força na sociedade. mesmo possuindo a condição primordial para o ingresso (ser livre). porém ajustado à estrutura social e política da sociedade brasileira.

interessa a formação voltada para a clientela masculina. BONATO.A educação para o trabalho nas instituições imperiais Durante o século XIX surgiram. artesanais e/ou agrícolas. 131 MUNIZ. O ensino de ofícios e agrícola era acompanhado da instrução elementar. inclusive com rendimentos decorrentes das apresentações públicas. 2000.131 No âmbito deste estudo. a seguir. Paulo Ricardo et al. 206 . apresenta o s programas projetados e/ou aplicados nas instituições voltadas para o ensino de ofícios retratadas neste estudo. GARCIA. dezenas de asilos. Este último oscilava entre o ensino técnico e algo mais próximo a uma educação moral e disciplinar. 199-. a música estava inserida nos programas de todas as instituições aqui retratadas. As instituições dedicavam-se ao ensino do trabalho manual. institutos. escolas e externatos destinados à formação profissional de meninos e ao preparo de meninas nas tarefas domésticas. da educação religiosa e do ensino de música. em todas as províncias do país. Nailda Marinho da Costa. Ora tratada como uma oficina a mais. expressa na educação oferecida pelas instituições e escolas femininas. 2000. basicamente relacionado às atividades tradicionais do período. ora como um instrumento educacional moralizador e civilizador. O quadro. Tania Elisa Morales. principalmente o ensino de ofícios manufatureiros. Alguns autores dedicaram atenção à rígida divisão sexual do trabalho no período.

ao nivelamento. 1886: criou-se a cadeira de elementos de cálculo. coronheiro. vida prática e vida doméstica. Ofícios mecânicos. de aritmética. de máquinas. Segundo Gonçalves Dias. ofícios mecânicos em oficinas externas. mecânica geral e aplicada. de língua francesa. desenho topográfico.042 de 9/12/1862). Instrução primária. a partir de 1846. 1894: Curso de Ciências e Letras: noções elementares de língua portuguesa. de álgebra e geometria prática. os desenhos e trabalhos de escultura para a decoração do teatro da Capital foram realizados pelo professor e seus alunos. oficinas (Regul. geometria plana e mecânica aplicada às artes. Foram introduzidas também a ginástica e a aula de desenho. artes tipográfica e litográfica. alfaiate. geometria e trigonometria. música. 1853: música (alunos se exercitavam nas bandas da Guarda Nacional e na da própria Casa). surrador. Casa de Educandos (Alagoas) Casa de Educandos (Amazonas) Instituto Amazonense de Educandos Artífices em 1882 Casa de Educandos (Ceará) Casa de Educandos (Maranhão) 1858: ensino de primeiras letras. desenho geométrico. que seria ministrada na Casa de Fundição (Fonseca. mecânica aplicada às artes. escultura e desenho. perspectiva e arquitetura civil. 1886). noções de mecânica aplicada às artes e construção naval. de 1882). exercícios militares. alfaiate. música vocal e instrumental. dourador. assim como a teoria e a prática das regras de cálculo. Aprendem os ofícios de espingardeiro. 207 . Instrução primária. aritmética e noções de álgebra. música e ofícios (marceneiro. de física e química práticas. de história e geografia do Brasil. Curso de Artes: desenho geométrico. carpinteiro. música. preparatória para a cadeira de mecânica aplicada. desenho (a partir da Resolução 1. geometria. sapateiro e pedreiro). desenho linear e mecânico. ginástica. Curso Profissional: treinamento nas oficinas. são criadas oficinas dentro do estabelecimento. geometria descritiva e aplicada ao desenho linear. 1882: programa de ensino mais amplo. ofícios mecânicos 1841: primeiras letras e princípios religiosos na primeira parte do dia. de máquinas. constituído por ensino de primeiras letras. de ornato e paisagem. música instrumental. música vocal e instrumental. sapateiro. ofícios mecânicos. escultura. a Casa maranhense mantinha um programa de ensino voltado para a instrução elementar. instrução moral e cívica. à agrimensura. 1851: primeiras letras. carapina. escultor e marceneiro.Programa de ensino de instituições profissionalizantes do século XIX Instituição Asilo de Meninos Desvalidos (Rio de Janeiro) Instituto Profissional Masculino em 1894 Instrução o 1875: instrução primária de 1 e 2o graus: álgebra elementar. Segundo Souza Filho (1887). o novo programa não teria sido executado. ofícios mecânicos. classes de catecismo. a princípio em oficinas externas. ofícios mecânicos com oficinas no próprio estabelecimento. Deste modo. esgrima e trabalhos manuais. de ornatos de figuras. A banda de música fazia apresentações nas festividades da cidade de Manaus e nas solenidades religiosas.

amor ao trabalho). a leitura. geometria e mecânica aplicada às artes. escrita. gramática nacional e aritmética até as frações decimais inclusive. trabalho no engenho da Colônia. decoro. Celso Sukow da Fonseca (1986). Tarquinio Souza Filho (1887). mecânica. religião. Aula de música. gramática e língua p ortuguesa. 1863: manteve somente o ensino elementar de quatro anos. música. ações lícitas e ilícitas. 1849). marceneiro.Casa de Educandos (Pará) Instituto Paraense de Educandos Artífices em 1872 Casa de Educandos (Paraíba) Casa de Educandos (Piauí) Casa de Educandos (São Paulo) Instituto de Educandos Artífices em 1874 Casa Pia (Bahia) 1840: ensino primário e de música (se exercitavam na banda da própria escola). urbanidade. 1889). leitura e princípios de aritmética. formados oficiais. a a Três aulas: 1 . sapateiro. curtidor. leitura e escritura portuguesa. marceneiro. gramática e língua francesa ou inglesa. álgebra e geometria. noções gerais de aritmética e álgebra. Lopes (1994). 1874: exercícios militares. religiosa e física. música e ginástica. torneiro e alfaiate. 1842: criada uma oficina de funileiros. 1865: prevista no regulamento de 6/12/1865 a criação de oficinas de alfaiate. Luiz Antônio Cunha (1979). serralheiro e tanoeiro. 2 . regulamentos. Colônia Isabel (Pernambuco) Fontes: relatórios provinciais e institucionais. doutrina cristã. Ofícios mecânicos 1886: instrução elementar. noções gerais de aritmética. 1872: aula de primeiras letras. 208 .leitura. Ofícios mecânicos 1840: ensinar a ler. funileiro. geometria prática e desenho linear. exercícios militares necessários a um Guarda Nacional (Regul. Antonio Gonçalves Dias (1989[1852]). ferreiro. 1871: em funcionamento as oficinas de alfaiate e sapateiro.Matta (1996). escrever. Ensino de ofícios em oficinas internas e externas. frei Fidelis Fognano (1877. José Antonio Falcão (1849. o Presidente da Província manda criar no estabelecimento uma oficina de marceneiro. operações fundamentais da aritmética. treinamento para trabalhos braçais. Alfredo Eurico R. instrução primária e aula de música. serralheiro. aprendizado em fábricas e no comércio. 1851). 1849: primeiras letras. 1874). 1853: lei autorizou o engajamento de um professor de música. 1828: programa de ensino dividido em nove anos: ensino de tática militar elementar. Ofícios mecânicos Educação literária. jogo de armas (Regul. trabalhavam nas oficinas dos arsenais de Guerra e Marinha e nas obras públicas. primeiras letras.escrita. aritmética. Os educandos. Luiz Carlos B. Oficinas: ferreiro. moral. ensino profissional e de música. gramática. 3 . Pelo Ofício n. contar. sapateiro.escrita.95 de 25/11/1842. Ofícios mecânicos e agricultura. regras sociais (noções de virtude e vício. desenho e música a partir do início de 1873. desenho. acrescentando-lhe o desenho linear (Estatutos 1863). aritmética até as frações ordinárias inclusive. natação. desenho. ginástica.

aritmética e princípios religiosos. O ensino da música passa a ser percebido como de “reconhecida utilidade (. restringiase à instrução elementar ministrada nas escolas públicas da época.. em 1859. ou seja. Os arsenais tinham as suas bandas de música. No contexto das instituições imperiais de formação profissional. que constituíram mais uma fonte de renda.) n'um Instituto d'esta natureza”. Fidelis Maria de. etc. sendo que as apresentações feitas a pedido dos governos não eram cobradas. o modelo utilizado parece ter sido o das instituições militares.133 A habilidade especial para a música foi igualmente ressaltada no caso do Instituto Providência.132 A relação entre música e prevenção da criminalidade é feita pelo Presidente da Província do Amazonas. 4/4/1869. O ensino da música era muito valorizado na Casa. As Casas de Educandos formaram as suas bandas. os progressos 132 133 FOGNANO. A participação em festas e atividades culturais da cidade sem dúvida representou um importante fator de motivação e atração para o aprendizado da música. escrita. a música foi um importante instrumento de educação civil e religiosa. Os instrumentos eram periodicamente substituídos. que após afirmar que os “nossos jovens são mui habeis para a musica”. feitas as encomendas em outras províncias e países europeus.134 Desde a ação pedagógica jesuítica do Brasil Colonial. como ocorria desde o período colonial nas oficinas de artesãos que admitiam aprendizes.O ensino nas primeiras Casas de Educandos.5. A banda fazia apresentações em solenidades públicas e particulares. oriunda da participação em diversas solenidades. p. 1996. O jornal Estrella do Amazonas noticiou. aprendido na execução das tarefas. inclusive em festas religiosas. ver PÁSCOA. RPAM..Sobre o ensino da música na Casa dos Educandos. praticamente todas as instituições adotaram o ensino da música. leitura. 1877. Rapidamente a banda da Casa de Educandos de Manaus assumiu importante posição nas festividades da cidade. voltado para o ensino de ofícios mecânicos e de agricultura a meninos índios e desvalidos do Pará e do Amazonas. onde aprendizes ingressavam. O ensino de ofícios era totalmente prático. levando alguns institutos a verdadeiros sacrifícios para manter os professores e comprar instrumentos na Europa. conclui que “o musico raras vezes commete crimes atrozes”. pela atração que exercia sobre os índios. 209 . Na década seguinte. surgidas na década de 1840. o tenentecoronel Wilkens de Mattos. enterros.

137 A música dos educandos alegrava as noites de domingo da família do Presidente da Província e simbolizou os encantos da civilização junto aos índios por ocasião da viagem do presidente ao interior da Província. a festa da Imaculada Conceição de Nossa Senhora (1859). onde se publicava o expediente do Governo da Província. onde dominavam as “violas plangentes”.M. a festividade de São João Batista da guarda nacional do município da capital (1860). Requisitada para todos os tipos de cerimônias e festas da Província. como faziam todos os domingos e feriados. pode-se acompanhar a trajetória da banda entre 1858 e 1861. retornavam da cidade. 137 Estrella do Amazonas. jornal de 22/05/1861. São vários os ofícios solicitando os seus serviços para os mais diversos festejos. no Pará. 136 Estrella do Amazonas. ao avistarem o casal. religiosos e populares. Em 1861. se levantaram na embarcação (“piroga”). 28/12/1859. relativo a projetos educacionais dirigidos a crianças indígenas. em companhia dos músicos educandos. tendo o governo já estabelecido uma tabela dos preços da música dos educandos. entre outras. o presidente determinou que a banda seguisse para a vila de Serpa. tais como a Procissão de São Sebastião (1860). para tocar durante a festa do Espírito Santo. Os “órfãos da escola de índios”. Dois anos após a criação da Casa amazonense. jornal de 14/04/1860. o Imperador (1860). após tocarem sob as janelas presidenciais. os meninos músicos se empenhavam nas apresentações. A música dos educandos era presença indispensável nos festejos oficiais. correndo as despesas e o pagamento por seus serviços por conta do respectivo festeiro. 138 A respeito da viagem do Presidente Domingos Jacy Monteiro ao interior da Província. referida às festividades para que fosse convidada.136 A banda vinha tocando em diversas festas religiosas e era uma das atividades das mais valorizadas na Casa e no seu entorno. ver capítulo 4. 135 Estrella do Amazonas.135 Pelo citado jornal. representado pelos setores públicos e particulares. expediente de 23/02/1860. a música permitia aos educandos participarem da vida social de Manaus e até de vilas próximas.da banda dos educandos. Os meninos. pelo bispo Antônio Macedo Costa. o baile dado pela Sociedade Recreação Familiar Amazonense em sinal de regozijo ao aniversario natalício de S. ouviu uma banda de música.138 O casal Agassiz relata que ao voltar de canoa de um jantar. percebidos na festa da Immaculada Conceiçáo de Nossa Senhora. expediente de 09/05/1861. 134 Instituição criada em 1882. como o aniversário da independência do Brasil. 210 . O Instituto é retratado no capítulo 5.

Pedro Maria de Lacerda. Ofícios da Presidência do Pará ao diretor do Instituto Paraense de Educandos Artífices entre maio e junho de 1888. Um exemplo foi o de D. A festa fora oferecida pela Presidência da Província em homenagem ao casal. Arquivo Nacional). D.Maria Malcher. todos vestidos uniformemente de branco. 139 A banda do Instituto Paraense também ocupava uma posição importante nas festas religiosas e populares. os deputados mostraram-se incomodados com um outro aspecto da preferência pela banda. Luiz e Elizabeth Cary. a participação de sacerdotes. do centro de Manaus. João Baptista. O estabelecimento distava vinte m inutos de canoa. as quais. de Nazareth no planejamento e na realização da festividade (o termo festa civil foi empregado por D.S. em carta ao Bispo do Rio de Janeiro. referentes a diversos convites de comemorações em prol da lei abolicionista (Arquivo Público do Pará). sinalizando o presidente no ofício ao diretor que ficaria imensamente agradecido por este “favor”. por discordar da liderança da Irmandade de N. 140 No programa da procissão. Arquivo da Arquidiocese do Rio de Janeiro). Na programação do Círio de Nazaré. em homenagem ao salvamento dos náufragos.141 A banda era igualmente requisitada para os festejos particulares. 141 Minuta de ofício da Presidência do Pará ao diretor do Instituto Paraense de Educandos Artífices. a banda dos educandos está situada logo após o carro precursor. pois havia proibido a procissão e. não só na procissão que acompanhou a imagem da Virgem pelas ruas de Belém. datada de 4/8/1879. O casal visitou os educandos em 1865. 1975. 9/5 e 11/5/1889. por conseguinte. a convite das famílias. 211 . e as “salas são arejadas e espaçosas e a localização é admirável” (Idem). consta a participação da banda. uma festa civil. como no aniversario da adesão da Província à Independência e ao Império ou no aniversario da extinção da escravidão. 14/5/1888 (Arquivo Público do Pará). Os aprendizes marinheiros também deviam acompanhar o cortejo. Um ou mais meninos podiam ir tocar nas casas particulares. segundo um deputado da Assembléia paraense. a música dos educandos tinha presença obrigatória. No mês seguinte. mas também nos quinze dias de festejos. p.170 e 176. banda tocou para 200 convidados na “festa campestre” realizada na Casa de Educandos. decorada ao estilo tropical.140 Nas solenidades de cunho oficial. como a participação em 139 AGASSIZ. O programa foi enviado ao Ministério do Império pelo Bispo do Pará.142 Contudo. 142 Ofício da Presidência do Pará ao diretor do Instituto Paraense de Educandos Artífices. Macedo Costa (Ofício de 16/10/1879. 9/8/1887. Contra a vontade do bispo. após o carro dos milagres e o escaler do brique S. do ano de 1879. carregado no ombro pela tripulação.produzindo um efeito encantador ao luar. Macedo Costa. preferiam a banda de música dos educandos às dos batalhões da guarnição. que o considerava um confronto à sua autoridade. que solicitara à presidência seis músicos do estabelecimento para tocar em sua casa. a festa do Círio de 1879 realizou-se. com o apoio da Presidência da Província e da polícia. D.

Os tumultos da cidade representavam outro aspecto dos riscos da exposição dos educandos aos locais públicos. O resultado de se contratar a banda para tocar em festas era a quebra da disciplina. posição ocupada por um educando. sessão ordinária de 31/3/1883). era pessoa de confiança do diretor e provavelmente a principal testemunha de sua sindicância. O agente. provavelmente festas promovidas por populares. dentre eles dois religiosos. em junho de 1883.145 O regulamento. A Constituição.divertimentos chinfrins. A agenda de apresentações acarretava a quebra da rotina institucional. a occasião dada á embriaguez e aos outros vicios. composta por deputados conservadores. Os músicos tocaram na Sé. pelo perigo de sua utilização em divertimentos noturnos. a entrada altas horas da noute para o estabelecimento.143 O convívio dos educandos músicos junto aos eventos sociais de Belém trouxe preocupações de ordem moral e disciplinar aos governantes e legisladores. como teatros e bailes. soube por fontes não suspeitas que os educandos foram atacados por pessoas embriagadas que os queriam forçar a tocar em uma passeata. dirigidos pelo educando que servia de contra-mestre e pelo agente. 29/5 e 31/5/1883 (Assembléia Legislativa Provincial. sessão ordinária de 31/3/1883). manteve a criação da orquestra. “Aquillo é um estabelecimento de educação. não é casa de negocio. mandado executar pelo presidente Barão de Maracajú. Na discussão legislativa sobre a reforma do Instituto Paraense condenou-se a presença da banda de música em “divertimentos pouco decentes”. A defesa da “moralidade do estabelecimento” levou o orador a confirmar a seus pares que.”144 A tentativa da comissão de reforma do Instituto em introduzir a “inovação da orquestra” no regulamento foi condenada por um deputado liberal. as 10 e meia da noite. 212 . proposta pela comissão de reforma do estabelecimento. o diretor relata que no conflito ocorrido na rua dos Mercadores. ao exigir a presença dos educandos em locais que de outro m odo jamais freqüentariam e em horários que fugiam à rígida distribuição do tempo nas instituições asilares. contrapostas aos festejos de família. 31/5/1883 (Assembléia Legislativa Provincial. Respondendo a oficio do presidente. O diretor termina pedindo ao presidente a diminuição da participação da música do estabelecimento 143 144 A Constituição.

vindos da Itália. ao menos quando foi adotada. O fato pode ser explicado por ela ter 145 146 A Constituição. Fidelis Maria de. Director. 213 . mantendo-o no nível elementar. Número de alunos por aula oferecida na Colônia Orfanológica Isabel . concedendo o seu estudo aos colonos de boa conduta.5. o diretor informa que comprara mais 36 instrumentos. 1889). frei Fidelis Foganano (1877.147 A tabela a seguir demonstra que a música. conta e princípios de gramática Gramática nacional e aritmética Não freqüenta Total de alunos Com geometria e geografia Com música Solfejo instrumental de música 1876 32 30* 17 79 57 1886 18 57 18 30 123 12 55 23 32 1888 56 42 46 15*2 8 167 46 - Fontes: Relatório da Colonia Orphanologica Izabel (1886) apud Celso S. escrita e princípios de aritmética A Colônia foi a única instituição sobrevivente à década de 1870 que não atualizou o programa de ensino. * Escrita. pois os educandos sofreram contusões e foram obrigados a se retirar rapidamente do local. ao final do século. A valorização da música fez com que os “Revds. Economo e Mordomo mui espontaneamento [cedessem] para este fim as respectivas gratificações a que tinham direito”. a utilizá-la como instrumento de coerção. leitura. p. 29/5/1883. 27/11/1880 (Arquivo Público do Pará).nestes festejos. aritmética até as frações ordinárias inclusive. Mesmo com as dificuldades financeiras que enfrentava o estabelecimento.PE Aulas Com principio de leitura e escrita Com principio de leitura escrita e conta Com leitura. diretor da Colônia Isabel de Pernambuco. 146 Na medida em que outras instituições de ensino musical foram surgindo. Fonseca (1986). contou com um grande número de colonos. O gosto pela música levou frei Fognano. *2 Leitura. 1877. Ofício do diretor do Instituto Paraense de Educandos Artífices ao Presidente do Pará. 147 FOGNANO. as bandas das Casas de Educandos perderam espaço para outros grupos musicais.

onde o mercado de trabalho tendia rumo à especialização da ocupação. acrescentaram novas matérias ao seu currículo. pois o trabalho fabril era incipiente em meados do século XIX. os asilos. se viu obrigada nos idos de 1860 a começar a rever o regime claustral que impunha aos internos. mecânica aplicada às artes. Celso Sukow da.sido uma instituição também voltada para a formação de lavradores. mas não dominarão o ensino. mas a educação moral e disciplinar manteve-se atrelada aos princípios de duas instâncias que serviram de molde para as casas. As outras instituições estavam instaladas nas capitais. As aulas garantiam a instrução para o exercício dos ofícios manufatureiros. previu-se a criação de oficinas próprias e a ampliação da formação profissional (MATTA. levando os aprendizes ao total despreparo no enfrentamento do mundo do trabalho. 1986. As instituições que se mantiveram em funcionamento. 1996. A formação do 148 Nos Estatutos de 1863.a intervenção dirigia-se ao corpo e à mente.149 A missão a que se propunham estas instituições estava direcionada ao ensino de ofícios aos meninos desvalidos e à formação do trabalhador moralizado e disciplinado. como geometria. muito embora se mantivesse a estrutura da educação ministrada até então. e por sua localização fora da área urbana. etc: a religiosa e a militar. Serão mantidos nas décadas posteriores. importando mais o aprendizado prático. às fábricas. 149 FONSECA. os institutos.não só o intelecto deveria ser cultivado . ao extinguir a Colônia Isabel em 1894. Os trabalhadores destinavam-se às oficinas de artesãos. uma instituição que seguia rigidamente os princípios religiosos do claustro.64). p. p. a maioria das instituições já oferecia cadeiras de apoio ao ensino de ofícios. ao comércio e em menor escala. A Casa Pia. Alfredo Eurico Rodrigues. particularmente nas duas últimas décadas do século XIX . A ginástica foi incorporada aos currículos. Até a década de 1880. após 1870.119. mantendo-se a educação religiosa.148 Este mesmo regime foi criticado pelo Governo de Pernambuco. Os princípios religiosos e os exercícios militares orientavam a educação dirigida aos meninos. esperando poder inserir os ex-colonos nas áreas rurais. reduziu-se o caráter claustral. noções de álgebra e desenho linear. sendo mesmo a base educacional nos primórdios da criação dos estabelecimentos. exigindo dos trabalhadores novos conhecimentos técnicos. 214 .

O número de aprendizes externos chegou a ultrapassar o do que internos. 215 . como ocorria geralmente nas instituições que tinham suas próprias oficinas. após visita à “imperial fabrica de cigarros e charutos da rua da Ajuda. fechadas em 1847.. em 1863. p. São Paulo e Pará.64.150 Nas últimas décadas do século houve um crescimento da atividade fabril. Trata-se do livro de Van Halle (1876). aprendiam a ler e a escrever (p. de sapataria. para atender a demanda interna de roupas e calçados. fábricas e casas de comércio na cidade de Salvador e localidades próximas. o qual. Crianças de asilos e filhos de pais pobres aprendiam o ofício na fábrica e alguns industrialistas complementavam esta “formação”.151 Somente em 1871. havia 89 órfãos internos e 120 aprendendo diversos ofícios com particulares. 152 Em 1845. As Casas de Educandos do Maranhão. p. José Miguel Lizaur”. No entanto. fundada pelo Sr. Por exemplo. passou cerca de 50 anos de sua existência enviando seus órfãos para se “empregarem” como aprendizes em oficinas particulares. a Casa Pia.152 O escopo de atividades em que se ocupavam os órfãos era enorme.operário fabril e das demais categorias era feita no próprio ambiente de trabalho.132). proporcionando a instrução primária aos jovens trabalhadores. funilaria e posteriormente. as de tipografia. também promoviam a formação de artífices em oficinas externas. pela maior parte órfãos e crianças abandonadas. criadas no início da década de 1840. 150 A localização de fontes referentes a estas experiências é muito difícil. a tendência era enviar os meninos para as oficinas do governo. oficinas mecânicas do arsenal de Guerra. onde cem jovens na faixa de oito a dezesseis anos. 1996. alfaiataria e marcenaria. não apenas limitado a algumas modalidades de trabalho manual. por terem provocado aumento nos custos da Casa e terem diminuído a sua capacidade de atender asilados. Alfredo Eurico Rodrigues. Sendo instituições governamentais. segundo argumentação da Mesa (MATTA. pois havia várias outras ocupações não oferecidas pela Casa.5). Encontramos indicações em um relato. aprendizes continuaram a ser enviados para os locais de trabalho. mostrou-se encantado pela ordem e disciplina que reinava na escola noturna da fábrica carioca. a mesa diretora providenciou a instalação de oficinas próprias. A tradição do aprendizado no próprio local de trabalho foi mantida pelas primeiras instituições de ensino de ofícios. 151 Ibid. foram criadas oficinas de sapataria e alfaiataria. mas as instituições profissionalizantes aparentemente continuaram a oferecer as mesmas ocupações. especialmente os ofícios fabris. A mais antiga.

12/1/1881. 9. Existia ainda a de sapateiro. Mas a relação entre a formação dada pelas Casas de Educandos e a demanda do mercado de trabalho das cidades onde foram instaladas não está clara. a relação com as instituições militares se manteve. 216 . não deixando de produzir para clientes externos. Ver. também criado em 1840. Na primeira Casa criada no Brasil. o corpo da polícia e o arsenal de Guerra foram os maiores compradores das oficinas de alfaiates e sapateiros. onde os educandos faziam a manutenção do armamento. o aprendizado ocorria em oficinas particulares e fábricas. adotou o modelo de ensino intramuros. Essas oficinas foram mantidas durante o período imperial de funcionamento da instituição. não mais como empregadores. No ano de 1880.a de alfaiate. garantindo à oficina de marceneiros o seu maior ganho.153 As instituições governamentais atendiam à demanda de mão-de-obra dessas oficinas. fundado muitos anos após a extinção da Casa de Educandos. Luiz Antônio. p. só havia três oficinas internas. foi instalada próxima ao trem militar. onde os aprendizes percebiam um terço do seu produto. o ensino de ofícios era feito no arsenal.155 Alguns 153 Trem militar era o antigo nome dado às oficinas do exército. não por acaso. o apoio do Governo da Província era importante para sua manutenção. além do próprio Instituto. 154 CUNHA. em obras públicas e particulares. No estabelecimento de São Paulo. Nos primeiros anos de funcionamento da Casa maranhense não havia oficinas.154 No entanto. O Instituto Paraense. 1979. onde órfãos iam aprender ofícios mecânicos. A prestação de serviços às instituições militares era realizada por algumas Casas de Educandos. tabela com oficinas e número de aprendizes. sendo que duas delas serviam ao exército e à polícia . inclusive. e a de espingardeiro. muitos arsenais do país tiveram as suas Companhias de Aprendizes Artífices. Embora se tratasse de uma instituição religiosa. tendo criado cinco oficinas em suas instalações. que confeccionava fardamento para as duas instituições. Particulares também faziam encomendas. mas como principais consumidores dos produtos de suas oficinas. no anexo nº 13. onde aprendizes recebiam treinamento nos ofícios mecânicos. a paraense. Todavia. Anexo LIX. 155 RPPA. que absorvia produtos de todas elas. A Casa Pia. Já as de ferreiros e funileiros abasteciam principalmente o estabelecimento dos educandos.como aos trens dos arsenais de Guerra. a maior parte da formação era feita em oficinas externas. o que indica que recebiam encomendas externas.

51. o alferes que dirigia a Casa maranhense condenou o “methodo” d o “ensino externo” por desvantagens morais. absorvendo aproximadamente metade dos 60 internos em 1848. o convívio com os maus exemplos nas ruas e nas oficinas. o costume de enviar os jovens “de idade muito tenra. a bordo dos vapores da A rmada Nacional. idades e ofícios dos educandos maranhenses em 1848).158 O grupo vinculado à alfaiataria era o maior (63 alunos de um total de 111).”157 A solução seria a criação de oficinas “de menor dispendio.42. ao contrário das outras oficinas que geralmente recebiam jovens a partir dos doze anos. 159 Ver quadro no anexo nº 17 (número. FALCÃO. ou de constituição debil” para esta oficina.. Celso Sukow da.69. Uma década depois. artísticas e econômicas. com a autorização do Governo 156 157 RPPA. o Liceu Paraense e o Palácio do Governo. esse dado pode ter outras significações não apontadas por Celso Fonseca. várias oficinas foram instaladas na instituição. A alfaiataria recebeu o maior impulso. Meninos a partir dos oito anos já aprendiam o ofício de alfaiate. 158 FONSECA. “onde vêem e ouvem o que não convem”. p. 217 . como as de alfaiates. como por exemplo. o que..159 A Casa atendeu ainda à solicitação do governo provincial para a formação de mãode-obra especializada na navegação a vapor nos rios da Província.. A partir de 1846. a maior parte dos educandos maranhenses freqüentava oficinas relacionadas às artes do vestuário e da construção.anos depois. para Celso Fonseca. Ao final da década de 1840. 1849. levou o diretor a defender a necessidade de colocar o “(. O uso dos aprendizes para a realização dos trabalhos domésticos dos mestres. em 1861.156 O aprendizado fora dos muros das instituições trazia problemas para a formação dos alunos. p. a fim de aprenderem o ofício de maquinista.) menino (. e os sentimentos do dever e da virtude. denunciados nos relatórios dos dirigentes. e de mais pronta execução”. enviando doze alunos da Casa dos Educandos ao Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro. demonstra as limitações da indústria da época no Maranhão. 1986...) debaixo da influencia de huma tutela bem faseja que saiba inocular em seu espirito as doces affeiçoens. p. as oficinas tinham novos clientes: a companhia de bombeiros. latoeiros e espingardeiros. e alguns achacados. 20/10/1887. José Antonio. sapateiros.

a partir da década de 1870. inclusive com novas instalações e endereço.162 Nenhuma referência é feita à antiga Casa dos Educandos Artífices. 162 RPPA. Alguns deles eram ajudantes na padaria. frei Fidelis Fognano. SOUZA FILHO. a instituição pretendia preparar agricultores. 1887. voltado para a instrução elementar. O Presidente da Província do Pará cita como modelo para a criação da “instituição” o estabelecimento do Maranhão. em contraste com as normas rígidas e com o controle exercido pelos estabelecimentos sobre a vida dos internos. expectativa manifestada pelo diretor em 1876: 160 161 FONSECA. segundo o diretor.. A Colônia Orfanológica Isabel. 1986. especialmente os ingênuos. Celso Sukow da. carpinteiro. de onde foram afastados em 1888. que resolvera revezar as diversas turmas de seis em seis horas. música e ofícios relacionados ao vestuário e à construção (marceneiro. 163 FOGNANO. p. pois a experiência mostrou ser inconveniente permanecerem em lugares distantes.164 Sendo a produção de açúcar a principal atividade econômica da Província. ao trabalho agrícola e ao fabrico do açúcar.161 Portanto. os estabelecimentos tendem a possuir as suas próprias oficinas. evitando que o aprendiz mantivesse contato com companhias indesejáveis e fosse seduzido pelas atrações das ruas . dentro da área da instituição. sapateiro e pedreiro). alfaiate. oferecia o ensino de ofícios artesanais e do trabalho agrícola. Pará e São Paulo tiveram seus antigos estabelecimentos de educandos fechados. p. atendendo a 155 meninos. Tarquinio de.a liberdade é a primeira delas. como era de praxe ocorrer nas colônias agrícola-industriais. Os alunos se dedicavam ao aprendizado nas oficinas.96. criada no mesmo período dos Institutos.8. p. no início da década de 1870. 1870.22.Imperial. Os novos Institutos de Educandos Artífices surgem.48. 218 . adotando o “método” do ensino ministrado dentro dos muros da instituição.160 Em 1886. durante o dia e a noite. “onde não podem ser devidamente vigiados”. onde os colonos trabalhavam doze horas por dia. a Casa maranhense mantinha o mesmo programa de ensino. 1889. Fidelis Maria de. p. o qual “produz magnificos resultados” e que teria servido de modelo ao estabelecimento do Amazonas. deixando-os demasiadamente fatigados.163 A atividade principal da Colônia era o fabrico de açúcar. totalmente desvinculados da experiência anterior. na destilaria (produção de álcool e aguardente) e na serraria.

.14. os quaes recolhidos em tempo a um Instituto d'esta natureza. sendo a aguardente produzida na destilaria considerada de “excelente qualidade” e preferida sobre outras “oficinas” . onde as crianças trabalhavam junto aos adultos. transformando órfãos e desvalidos em colonos. e d'este modo ser aproveitados. como já demonstramos. Após a abolição. o Governo Imperial além de ter n'esta nascente Colonia um pequeno ensaio do que terá de fazer. O diretor defendeu a “colonização” da Província pelo preparo de crianças no “Instituto”. p. p. quer seja porque o clima não é muito favoravel ao estrangeiro laborioso. “Varias experiencias se tem tentado para introduzir colonos. que trazem comsigo a unica esperança que sustenta a agricultura n'estas Provincias do Norte? Pois bem. desde cedo. O papel exercido pela instituição ficou reservado à preparação para o trabalho de meninos potencialmente inúteis para a Província. FOGNANO. aprendendo no exercício da ocupação. como ocorria na Colônia. Fidelis Maria de. se coadjuvasse certa e efficazmente esta obra grandiosa não teria ao mesmo tempo á sua disposição um vasto estabelecimento para n'elle recolher centenares d'esses ingenuos.é bom lembrar que a produção da usina de açúcar era vendida na região. 219 . 1877. a plantação da canna de assucar. quér seja porque não querem elles subjeitar-se ao unico genero de agricultura até hoje cultivado.não era diferente da praticada pelos donos de engenhos. ao principal gênero de agricultura comercial de Pernambuco: o cultivo da cana de açúcar. o facto é. entretanto que a cada passo se encontram meninos que vivem na maior miseria e abandono. e por conseguinte na ociosidade. poderiam vir a ser homens morigerados e trabalhadores. 164 165 Ibd. mas até hoje pouco ou nenhum resultado tem ellas dado.“Não tem elle (o Governo Imperial) por ventura os ingenuos a quem brevemente deve tratar de dar uma educação para d'elles fazer agricultores? Não tem por conseguinte de procurar abrir casas de educação da natureza d'este Instituto para n'ellas recolher estas crianças.”166 A exploração do trabalho dos internos efetivada na instituição . que mui poucos colonos existem n'esta Provincia. foi um objetivo que ajudou a manter a credibilidade da Colônia até o final do Império. que um dia não muito remoto terão de occupar seus maiores cuidados?”165 O atendimento aos ingênuos foi insignificante em relação ao número de crianças nascidas após a Lei de 1871. 166 Idem. tornando possível a sujeição. Superar a ameaça da ociosidade e da falta de braços.13.

esta produção discursiva não encontrou paralelo nas ações. o combate ao nomadismo e a criação de colônias para o adestramento de crianças ao trabalho. Todavia.8.137. Reclamavam que os arredores dos engenhos estavam sempre abarrotados de “vadios” e “ociosos”. no cultivo da cana e na criação de gado.168 Outra dificuldade apontada pelos fazendeiros era a resistência do homem livre despossuído em manter um ritmo continuado de trabalho. limpar e colher. José Carlos. O programa de bolsa escola implantado na Zona da Mata pernambucana pelo Governo Federal em 1997 retirou uma significativa parcela das crianças em idade escolar obrigatória do trabalho nos canaviais. analisados por José Carlos Barreiro. A Colônia. associando o trabalho à civilização e o ócio à barbárie. A produção de textos sobre o tema é significativa no Império. onde crianças continuam a ser exploradas no trabalho. de certa forma. Fidelis Maria de. provocando prejuízos de grande monta”. O governo paraense. ocupava o lugar da família nesta iniciação ao tutelar crianças e jovens. por exemplo. plantar. o que os levou a elaborações ideológicas. por um curto período de tempo. amenizando o sofrimento de alguns milhares de pequenos trabalhadores. em 1861. Pedro 2º”. como o recrutamento forçado. As preocupações com a formação de lavradores vinham de toda a parte. órfãos ou não. como também os adolescentes dispensados do programa por atingir a idade limite. 1987. para o treinamento de meninos órfãos e desvalidos. 1889. p. a 167 FOGNANO. Propostas de mudanças na legislação para combater a v agabundagem. garantida pela chamada “liberdade” do cidadão foram apresentadas. chegou a fundar a “Escola Rural D. Pouquíssimas colônias agrícolas surgiram neste período e muitas vezes. Os proprietários viam nesta resistência um empecilho para a formação do hábito do trabalho “continuado e aturado”. 168 BARREIRO. sobretudo os indígenas. p. expressam enfaticamente a preocupação dos senhores de engenho com a rejeição dos homens livres à atividade agrícola.esta prática se manteve praticamente irredutível até a atualidade167. nos períodos quando a intensificação do trabalho nas plantações se tornava necessária. Percebiam na instrução primária e nos ensinamentos da religião a possibilidade de vincular a noção de trabalho à idéia de liberdade e independência e da introjeção de noções como a idéia de tempo útil. 220 . homens livres “que não acediam contudo ao trabalho de roçar. Contudo. mas não mexeu na estrutura fundiária da região. Estratégias de controle do espaço foram adotadas na época. Os trabalhos do Congresso Agrícola de Recife de 1878.

Pedro 2º”. é bem provável que. 169 170 PARÁ. as doenças eram provocadas pelo hábito que os meninos traziam de comer terra. desde o primeiro ano de funcionamento do estabelecimento.2. nas instituições. anemia. oficina que concentrou grande número de alunos durante a existência da instituição. isentando a Companhia de qualquer responsabilidade pelo estado de saúde dos aprendizes (RPAM. mesmo com a seleção que dispensava os fisicamente debilitados. tuberculose e pneumonia. 7/8/1858. entre 1882 e 1885. anexo G. Assim.66). 221 . Há outros fatores a considerar: a alfaiataria produzia fardamento para uso interno (para os educandos) e externo (corporações militares). 171 RPAM. "Crêa a escóla rural de D. Possivelmente o seu custo era menor. que preparou jovens para o trabalho no comércio. Os falecimentos ocorridos na Companhia de Aprendizes Marinheiros de Manaus. Embora as instituições civis não apresentassem este quadro. Na Casa de Manaus. realizada na capital do Império. p. Para o comandante. resultaram de doenças relacionadas à alimentação insuficiente ou inadequada. entrassem crianças com algum grau de desnutrição. todas as outras instituições dedicavam-se ao ensino de ofícios mecânicos. sendo raros os falecimentos. Com exceção da Casa Pia da Bahia. pelos motivos apresentados acima. As tabelas em anexo mostram a preferência dada pelos asilos em termos de profissões.170 O diretor da Casa de Educandos do Maranhão relata que encaminhava os meninos menos aptos fisicamente para a alfaiataria. supõe-se que muitos chegavam aos estabelecimentos acometidos de desnutrição. tais como. o estabelecimento colaborou na composição do acervo amazonense para a exposição nacional de indústria. os aprendizes produziam as peças para o provimento interno e externo. provavelmente por desinteresse das famílias.171 O Governo da Província não deixava de recorrer à Casa dos Educandos quando necessitava de auxílio nas áreas em que podiam contribuir.169 O investimento estatal se concentrou nas instituições urbanas. A alfaiataria foi a que concentrou maior número de aprendizes em vários estabelecimentos. A documentação indica que ela podia receber alunos de constituição física mais frágil. 21/9/1885. p. sapateiro. Verifica-se. Regulamento de 1/5/1861. marceneiro e carpinteiro.experiência foi minguando. por exigir maquinário pouco complexo e matéria prima mais barata do que as outras oficinas. uma seleção de oficinas que privilegia os ofícios de alfaiate. gastrenterite. pela idade ou pelo desenvolvimento físico do menino. Pela origem social dos meninos e pelos flagelos sofridos pela população nortista ocasionados pelas grandes secas.

em dezembro de 1861. A Casa ofertou amostras de diversos tipos de madeiras da região à Comissão do Amazonas, chefiada por Gonçalves Dias a pedido do presidente.172 O Instituto Amazonense restabeleceu as oficinas tradicionais dos estabelecimentos de educandos, tais como, as de alfaiate, sapateiro, marceneiro, torneiro e ferreiro. A maior concentração de alunos pequenos ocorria na alfaiataria, muitos deles, com idade inferior a nove anos, pois as crianças assim que ingressavam no estabelecimento iniciavam o trabalho de auxiliar de alfaiate e o estudo na cadeira de primeiras letras173. A instituição passou por momentos de dificuldades financeiras, não só por oscilações na economia da Província, mas devido à instabilidade de investimento dos poderes públicos. A Casa não se mantinha com o rendimento das oficinas.174 Os educandos eram bastante afetados nos períodos mais agudos de falta de verba, quando andavam “em casa sujos e esfarrapados”, sem uniformes de serviço e para poderem sair do estabelecimento. A solução foi responsabilizar a oficina de alfaiates para a confecção de fardamentos para os internos, com “grande economia para o estado”. A oficina de sapateiros conseguiu igualmente diminuir a despesa com calçados para os educandos.175 O processo de distribuição dos meninos pelas oficinas não é claramente explicitado nos relatórios. A capacidade física deve ter sido um critério importante, pois muitas profissões citadas exigem boa constituição física. A possibilidade do aluno escolher a profissão não parece ter sido uma questão importante para os diretores, pois sequer é mencionada nos relatórios. Pela idade precoce com que iniciavam a formação, geralmente aos doze anos, pela sua origem social e pelo funcionamento hierarquizado nestas instituições, é pouco provável que os educandos fossem consultados. Dos “moços pobres” oferecidos ou recolhidos pelos Juizes de Órfãos, cabia ao Presidente da Província do Maranhão julgar os “aptos para aprenderem os ofícios mecânicos”, isto é, fazer a seleção para o ingresso na Casa de

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RPAM, 3/5/1862, Anexo 7, p.14. RPAM, 12/7/1884, p.24. A foto em anexo, do Instituto Amazonense em 1909, ilustra o ingresso precoce dos meninos na alfaiataria. 174 A constatação da incapacidade da instituição se manter foi comunicada à Assembléia Provincial: “É uma util instituição, da qual porém a Província jamais deve esperar tirar lucros pecuniários que indemnisem ao menos a quarta parte da despesa feita com a sua manutenção” (RPAM, 25/3/1874, p.26). 175 Referências à carência de roupas e à confecção de uniformes e sapatos nas oficinas: (RPAM, 12/7/1884, p.23; 25/3/1885, p.17; 28/10/1885, p.7; 25/3/1886, p.28; 7/7/1888, anexo 9, n.2; 10/5/1889, p.81).

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Educandos.176 A avaliação das vocações era feita pelo diretor, após um período de permanência na oficina. O diretor da Casa maranhense imediatamente introduziu os colonos da aldeia de Pindaré nas oficinas, dois aprendendo o ofício de alfaiate “com alguma aptidão”, um o de carapina, “mostrando ter habilidade”, e o outro o de espingardeiro, “sem mostrar a habilidade que tem pelo pouco tempo que tem de ensino”. Como tinham idade desconhecida, foi preciso fazer a distribuição baseada em idades prováveis.177 Os órfãos encaminhados para o trabalho em fábricas, lojas e oficinas externas pela Casa Pia eram selecionados pelo Reitor, segundo as suas aptidões, mas muitas vezes eram consultados. A decisão final dependia também de outros fatores, como o comportamento e o sucesso nos estudos, ter algum parente importante e ser “mais ou menos branco”.178

Os mestres de ofícios Os estabelecimentos encontravam dificuldades em contratar mestres para as oficinas, pela falta de oferta de pessoas qualificadas para o cargo e pelos baixos salários pagos pelas instituições, talvez o obstáculo mais importante e freqüente. Estes obstáculos sugerem que muitas instituições com oficinas internas não conseguiram oferecer um ensino profissional de qualidade, capaz de competir com o mercado de trabalho. Problemas com a suspensão dos trabalhos das oficinas por desistência de instrutores, mestres despreparados, a contratação de ex-alunos ou alunos mais antigos para ocuparem a função de mestre, dificuldades financeiros que impediam a compra de materiais necessários à execução dos trabalhos e manutenção do equipamento, foram vividos por vários estabelecimentos em momentos diferentes de suas existências. No Amazonas, como já foi dito, as dificuldades para se conseguir mestres era enorme e as tentativas de “importá-los” de outras províncias e países nem sempre funcionaram. Durante toda a sua existência, o estabelecimento enfrentou problemas, não só em contratar
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De acordo com a Lei Provincial n.105 de 23/8/1841 (FALCÃO, José Antonio, 1849, p. 38). FALCÃO, José Antonio, 1851, p.109. 178 MATTA, Alfredo Eurico Rodrigues, 1996, p.185. O Reitor era o responsável pela administração da Casa e pela educação dos órfãos.

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mestres, como em mantê-los. A apreensão com a contratação de mestres aparece nos relatórios provinciais desde o período inicial do estabelecimento, quando os baixos salários frente à “carestia do mercado” preocupavam o governo.179 Recorreu-se, diversas vezes, ao emprego de educandos e ex-educandos para ocuparem a função, apesar dos visíveis contratempos que a medida acarretava. O regulamento permitia que os alunos que serviam de mestres recebessem a terça parte do jornal diário, o que não ocorreu no ano de 1867.180 No ano seguinte, o governo contratou mestres “filhos da casa”, com gratificação bem menor do que os antigos mestres. No entanto, se manteve, em períodos posteriores, a estratégia de empregar alunos mais antigos, causando problemas disciplinares entre os alunos, por infundir “pouco respeito àquelles que foram seus companheiros”. Alguns anos antes, a direção da Casa recorreu ao emprego de dois galés como mestres, experiência não repetida posteriormente. Há notícia de que pelo menos um deles foi dispensado do cargo, pois tinha o “vicio da embriaguez”.181 Em 1871, o presidente do Amazonas, José de Miranda da Silva Reis, mandou contratar na Europa dez operários alemães, “artifices perfeitos em seus officios”, na perspectiva de resolver a questão da falta de mestres. O fracasso da experiência, reforçado pelo despreparo profissional e pela má conduta do grupo, como embriaguez e indisciplina, acabando por se constituir em mau exemplo para os meninos, resultou na devolução de parte do grupo à sua pátria, às custas da Província. Da experiência com os operários alemães, somente a oficina de encadernação foi preenchida por mestre capacitado, o alemão Theobald. No entanto, pouco durou no cargo, vindo Theobald a falecer após dois meses de trabalho, embriagado numa canoa.182 O mestre torneiro não teve destino melhor: faleceu na mesma época “victima de um caso sporadico de febre amarella”.183 Dois se evadiram e o restante foi enviado para o ponto de sua procedência. O presidente Domingos Monteiro Peixoto, responsável pelo término da experiência cara com os operários alemães, avaliou-a de forma bastante negativa:
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RPAM, 3/11/1860, p.23. RPAM, 9/2/1868. 181 RPAM, 1/10/1864, p. 26. Os presos que realizavam serviços públicos eram conhecidos como galés (SALLA, Fernando, 1999, p.40). 182 RPAM, 25/3/1871 e 25/3/1873, p.12.

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“Estes estrangeiros, além de ignorarem, pela maior parte, o officio que deviam ensinar, não eram entendidos, nem se faziam compreender, e davam-se a excessos e á vícios, que até os tornavam prejudiciais á disciplina do estabelecimento.”184 A direção do estabelecimento voltou-se, assim, para os “nacionais”, contratando no Maranhão professor e contra-mestre de música e mestres para as oficinas de alfaiate, carpinteiro e sapateiro.185 Em Pernambuco, o mestre torneiro voltou para a sua terra natal em 1876, obrigando o diretor a suspender os trabalhos por não achar quem quisesse trabalhar pelo mesmo jornal.186 Anos depois, o problema persistia, enfrentando a Colônia dificuldade em contratar mestres habilitados, não só pelos parcos salários, como também pela privação do “convívio social” que o viver no estabelecimento impunha a todos.187 No relatório de 1889, constata-se que a Colônia Isabel passou a empregar ex-colonos para o ensino dos meninos: dois excolonos foram contratados como professores primários devido ao número excessivo de colonos e de alunos externos que freqüentavam as aulas; na oficina de alfaiataria, o mestre era também um ex-colono. O mestre da destilaria tinha por ajudante um ex-colono e a padaria era dirigida por outro. Os colonos eram igualmente empregados na manutenção dos estabelecimentos e em outras atividades neles realizadas, como o trabalho na usina de açúcar, na plantação e na criação de animais, na padaria, na serraria e na olaria. Estes locais de trabalho não são citados como locais de aprendizagem, embora fizessem parte da formação dos colonos, inclusive em termos da disciplina necessária ao exercício da atividade laboral. 188 A Casa de Educandos em Natal, criada em 1859, enfrentou enormes empecilhos para cumprir o seu objetivo do ensino de ofícios: precariedade das instalações, falta de espaço para as oficinas e inexistência de professorado capaz, fatores que levaram ao seu fechamento.189 A Casa de Alagoas, criada um ano antes, enfrentou obstáculos semelhantes, apontados pelo Presidente da Província, Agostinho Luís da Gama, o qual afirmou em 1858
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RPAM, 8/7/1872, p.7. RPAM, 25/3/1873, p.12. 185 RPAM, 25/3/1873, p.13. 186 FOGNANO, Fidelis Maria de, 1877, p.5. 187 RPPE, 1/3/1883, p.42.. 188 FOGNANO, Fidelis Maria de, 1889, p.24.

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que faltava aos mestres o estímulo de paga ou ordenado, e aos educandos, os materiais e instrumentos de trabalho.190 No ano seguinte, solicitou à Assembléia Legislativa a transformação do estabelecimento em asilo agrícola. A Casa do Maranhão, orgulho dos presidentes da Província que a acompanharam, enfrentou empecilhos para contratar mestres, pois tantos os “Nacionais” quanto os “Estrangeiros” não se sujeitavam aos salários pagos aos mestres na Casa. O estabelecimento encontrou dificuldades para conseguir meios de pagar aos empregados e de achar “homens que se penetrassem da vontade de desempenhar bem os deveres a que se ligassem”.191 A mão-de-obra escrava nas oficinas da Província era abundante, porém o diretor considerava que não convinha “por modo nenhum dar mestres escravos aos educandos”.192 O autor não apresenta os motivos da restrição aos escravos, mas sabemos que o preconceito em relação a esta categoria social era grande, principalmente com relação aos preceitos morais e religiosos da época. Um aspecto importante aparece no seu discurso: o escravo não é cidadão, e um compromisso fundamental da instituição é a “educação dos cidadãos futuros” para “o bem da Patria, e da humanidade”, conhecedores dos deveres e dos direitos pertinentes à sua “classe”, conforme veremos mais à frente.193 Medidas foram tomadas para driblar os obstáculos. A Casa de Educandos da Paraíba, criada na década seguinte (1865), portanto já ciente dos problemas enfrentados por outros estabelecimentos, previa no seu regulamento que os mestres de ofícios ficassem com a metade da renda das respectivas oficinas, o que segundo Celso Fonseca foi uma inovação para a época. Contudo, a Casa não prosperou, tendo existido somente por cerca de dez anos. Instalada em prédio inadequado, atendia em torno de 30 alunos, com apenas duas oficinas funcionamento precariamente, a de alfaiates e a de sapateiros.194 No Maranhão, a Casa enfrentava a concorrência das oficinas externas, além de não dispor de capitais para aceitar encomendas grandes. O Governo da Província prontamente

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FONSECA, Celso Sukow da., 1986, p.88. Ibid., p. 144. 191 Ibid., p.62. 192 FALCÃO, José Antonio, 1851, p.21. 193 Ibid., p.72. 194 RPPB, 6/91873 e 6/7/1874.

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determinou medidas ao tesouro provincial, buscando viabilizar financeiramente o trabalho das oficinas. Entre elas, estabeleceu-se que: adiantasse ao diretor da Casa imediata indenização depois de recebido o produto de suas manufaturas; concorresse ao fornecimento de peças de fardamento e equipamento para os corpos do exército estacionados nesta Província; e por último, que os aprendizes fossem trabalhar nas demais oficinas a jornal fora do estabelecimento, tanto nas obras públicas, quanto nas particulares.195 Esta última medida contrariava a posição defendida pelo diretor anos antes, ao condenar o perambular pelas ruas e as influências recebidas nas oficinas, condições tidas por prejudiciais à formação moral do educando.196 Provavelmente, os aprendizes não foram enviados às oficinas, ao menos, às particulares, pois a concorrência para conseguir uma vaga em um mercado de trabalho dominado pela mão-de-obra escrava era muito grande, conforme a análise minuciosa da questão realizada pelo diretor.197

Resultados do aprendizado: a difícil inserção no mercado de trabalho Em meados do século XIX, o diretor da Casa maranhense levantou uma questão que provavelmente atingiu outras províncias cuja economia dependia do trabalhador escravo, tanto a urbana quanto a rural: como inserir os educandos formados em um mercado de trabalho que privilegia o trabalho escravo e garantir que possam “viver na sociedade como membros proveitosos”, conservando “o uzo da educação civil e religiosa que receberem” sem rendimentos que os permitam “viver licitamente”?198 Na análise de José Antonio Falcão, o grande número de “escravos que se empregão no uzo e aprendisado dos officios mecanicos, ou para dizer melhor, de todos os ramos de industria da Provincia” é m otivado por fatores econômicos, como os salários mais baixos, pagos aos senhores, e disciplinares, devido à sujeição dos cativos aos donos ou encarregados

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FONSECA, Celso Sukow da., 1986, v.4, p.47. FALCÃO, José Antonio, 1849, p.42-43. 197 FALCÃO, José Antonio, 1851, p.18-22. 198 Ibid., p.21.

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das obras ou oficinas.199 O autor enxerga no amplo emprego de escravos danos políticos, por trazer prejuízos à formação do hábito do trabalho nos homens livres, atingindo a própria nação, à qual escapa o cidadão, distante de preencher os seus deveres e de conhecer os seus direitos, dentro da órbita de sua condição social de “operario livre”. Na argumentação que apresenta ao Presidente da Província, assim se expressou o diretor: “(...)a pouca ocupação que tem os operarios livres, que não podem competir com os escravos em baratea de salarios, em quantidade de trabalho, e em sujeição aos donos ou encarregados das obras ou officinas, em exempção dos deveres a que elles estão sujeitos como cidadão, e que os escravos não tem; qualidades que dão a preferencia aos escravos nos recebimentos para as obras ou officinas, e que fazem perder o habito do trabalho aos livres, e lhe tirão os meios de legal subsistencia, sendo aliás os filhos do Paiz dotados de excellente habilidade, que com mais alguma dedicação ao trabalho, a salarios regulares, sem a concorrencia dos escravos, e cingindo-se mais a orbita propria da sua classe, da qual se alongão, com prejuizo seu e da Nação a que pertencem, ou porque se não lembraõ de que o preenchimento dos proprios deveres, e conhecimento dos seus direitos, he a summa da felicidade dos cidadãos e dos Estados, ou por outras causas alheias ao assumpto de que me occupo de que não me he preciso tratar, inquestionavelmente formarião parte dos que compõe a grandeza e gloria Nacional, pelo ramo da industria; porque Exm. Sr. as obras que nos vem do estrangeiro não são mais elegantes, nem mais solidas, do que as que os ditos filhos do Paiz apromptão quando trabalhão.”200 Além dos escravos, os estrangeiros também estavam presentes nas oficinas e nas obras, os quais “chegam com habito do trabalho proprio do seu país”, isto é, com o costume da economia. Os oficiais estrangeiros conseguiam um jornal que cobria as despesas, faziam um fundo com o qual compravam propriedades e em seguida, deixavam de exercer o trabalho manual, vivendo dos rendimentos de seus prédios. Portanto, não só os operários livres perdiam o “costume de trabalhar, que he o manancial da felicidade do Artifice”: o estrangeiro, tão logo formava um pé de meia, abandonava o seu ofício e se tornava proprietário. Ao que parece, os oficiais estrangeiros tinham privilégios e eram preferidos na contratação, devido à
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A causa dos menores salários dos escravos deve-se ao fato de que “ganhão para os respectivos senhores, que os mandam trabalhar pelos melhores salários que encontram (para o que tem direito incontestavel) que por menores que sejão, lhe são mais convenientes do que terem os escravos em ocio, causando-lhe as mesmas despesas que lhe causão quando trabalhão; em alimentação, vestuario, e tratamento nas molestias”. Este quadro, segundo Falcão, pode ser constado “visitando qualquer dos estabelecimentos industriaes que ha nesta Capital, e consultando os directores, Nacionaes ou Estrangeiros” (Ibid., p.18-19).

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carência de mestres e à resistência em empregar escravos em cargos de liderança, principalmente nas situações em que teriam homens livres sob sua sujeição. O fato de dois mestres da Casa de Educandos do Maranhão terem sido “discipulos de estrangeiros”, um francês e um português, corrobora esta hipótese.201 Os obstáculos a serem enfrentados pelo operário livre e que também emperravam o ensino aos educandos não estavam restritos à “concorrência” do trabalho escravo. O diretor denuncia a “pratica dos donos das obras de dificultarem o pagamento aos operarios” e queixa-se de que faltavam obras para os educandos aprenderem os ofícios a que se dedicavam, pois a maior quantidade de “obras” eram dos ofícios de alfaiates e sapateiros, que não podiam ser destinados a todos os educandos, pois “só aprendem a fazer fardetas, calças e sapatos, proprios para a tropa de linha”, impedindo-os de “adquerir os meios necessarios para uma subsistencia honesta”.202 Carlos Alberto Medeiros Lima busca responder à questão da existência ou não de competição entre livres e escravos no exercício dos ofícios artesanais, na cidade do Rio de Janeiro na passagem para o século XIX. O autor analisa a distribuição de ofícios entre mestres artesãos examinados pelas suas corporações de ofícios (1793-1816) e escravos com ofícios artesanais arrolados em inventários post-morten (1789-1817). Portanto, está trabalhando com duas categorias hierarquicamente diferenciadas nas oficinas, além do fato de se tratar de escravos e livres. Lima constatou que o trabalho artesanal cativo não representava ameaça ao livre, pois mestres artesãos e escravos ocupavam ofícios de natureza diversa. Os artesãos livres predominavam nos ofícios encaminhados independentemente, e os escravos artesãos eram mais freqüentes nas ocupações subordinadas. Tratava-se da diversificação interna da atividade de seus senhores, artesãos independentes. Por exemplo, escravos cavouqueiros eram possuídos por pedreiros; serradores de tábuas pertenciam a marceneiros; malhadores eram de propriedade habitualmente de ferreiros. Ou então, exerciam atividades

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Ibid., p.18. Ibid., p.18-20. 202 Ibid., p.21.

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como parte anexa a negócios de outra natureza, como doceiros, aparelhadores, amassadores, rendeiros, realizadas no interior de domicílios como atividade doméstica.203 Considerando que os aprendizes das Casas de Educandos não saíam da instituição como mestres e sim como auxiliares ou “operários”, nas palavras de seu diretor, é bastante plausível que os escravos fossem seus concorrentes, como afirmara Falcão, em 1849/1851, para o caso do Maranhão. Nas décadas posteriores, esta concorrência provavelmente reduziu-se bastante, com a transferência de escravos do Norte para o Sul, fenômeno que passa a ocorrer com a proibição do tráfico negreiro em 1850. Portanto, a análise de Falcão é válida para o período tratado por ele.204 Ele chega a afirmar que mestres estrangeiros ganhavam muito dinheiro nos seus ofícios, o que não ocorria com os operários, pela concorrência com o trabalho escravo. Lima focaliza mestres e cativos, que ocupavam posições hierarquicamente diferentes no mundo do trabalho artesanal. Falcão se refere a operários e cativos que, na divisão do trabalho na oficina, ocupavam posição semelhante. Um dado interessante levantado por Lima consiste no predomínio de livres nos ofícios de alfaiate e sapateiro, justamente as atividades priorizadas nas Casas de Educandos. Poderiam os educandos exercer um ofício de forma autônoma ao saírem da instituição? Com certeza não. Falcão revela a contradição da formação dos meninos; especializavam-se no preparo de fardamentos para a tropa de linha, atendendo a uma necessidade do Estado, mas, por outro lado, estavam despreparados para o exercício do ofício. Neste caso, a associação entre o ensino de ofícios e as necessidades de manufaturas do Estado impedia os educandos de adquirir uma formação adequada ao mercado. A análise do diretor sobre as condições do mercado de trabalho é guiada pelo temor da perda do hábito de trabalho e da formação civil e religiosa recebida durante os longos anos de internação. A questão sugerida é por demais pertinente à formação engendrada pelas

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LIMA, Carlos Alberto Medeiros, 1997, p.35-40. A predominância da mão-de-obra escrava nas atividades artesanais exercidas no Maranhão é confirmada para o ano de 1820, pelos dados apresentados por Spix e Martius (1961[1817-1820) sobre o “estado da indústria” na Província, fornecidos por “um dos mais illustrados funcionarios do Estado em São Luís” (p.301). Entre os “profissionais da industria” (constituídos por trabalhadores dedicados aos ofícios artesanais), 1.179 eram escravos e 964 livres. Além disso, 1.800 escravas auxiliavam nas indústrias, sem profissão definida. Neste período, ocupavam-se no ofício de alfaiate 96 escravos e 61 homens livres (p.314).

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e um mediocre interesse estreitamente local e burocratico. p. deparou-se com “escassos relatorios das repartições de instrucção publica. destacados dos escravos e dos vadios. principalmente do contingente que se desliga da instituição após completar o aprendizado. até na cor da pele. 1996. Os relatórios de presidentes de província. tinham mais prestígio na sociedade. Em primeiro lugar. O diretor da instrução pública do Pará em 1890. isto é. mas por outro. na medida em que a instituição se direcionou para a formação de trabalhadores livres. p. preparando seus órfãos para ocupar ofícios geralmente reservados aos brancos. como o de caixeiro. onde se podem talvez alcançar algumas noticias.206 205 206 MATTA.205 A avaliação dos resultados da formação para o trabalho das instituições imperiais é tarefa complexa. nem sempre as fontes disponíveis permitem uma avaliação mais fidedigna. Alfredo Eurico Rodrigues. 231 . Se os dados da Casa Pia de Salvador e do Asilo de Meninos Desvalidos do Rio de Janeiro demonstram que ambas as instituições alcançaram os seus objetivos de formação e fornecimento de mão-de-obra para oficinas e fábricas. se mantinham atualizados em relação às necessidades da produção manufatureira e do comércio. o que por um lado. Situação bem diferente ocorria na Casa Pia da Bahia. os egressos encontram uma realidade social não condizente à vivência institucional e à educação recebida. Em se tratando de instituições de longa duração. o m esmo não pode ser sustentado para os outros estabelecimentos aqui considerados. dificilmente há preocupação em comparar informações com os anos anteriores e mais raro ainda é a dedicação aos resultados da formação. portanto. chapeleiro e colchoeiro. relatórios parciais perdem a visão do todo. onde os meninos aprendiam já integrados ao mercado.171. a Casa também formou artífices nas artes que exigiam maior conhecimento e adestramento e que.7). Entre os mais diversos ofícios. A prestação de contas quanto ao trabalho realizado é sempre referente ao ano corrente. permitia a exploração mais intensa do seu trabalho. de diretores e avaliadores são atravessados por objetivos políticos capazes de obscurecer os resultados alcançados pelas instituições. a diversidade das experiências deve ser levada em conta.instituições totais. em termos de trabalhadores livres qualificados. José Veríssimo. Pode-se dizer que a Casa Pia criou uma reserva de mercado. Em segundo. como os de ourives. mas não beber lições” (1892.

mal distribuído e ineficaz. de diversas províncias. O tom do relatório é extremamente pessimista e o Instituto Paraense de Educandos Artífices não é poupado. 1892.É interessante observar que relatórios oficiais dedicam espaço à não formação. baseou-se em “pessoas competentes e fidedignas” para afirmar que de lá “não saiu um só operario habil. Pode-se suspeitar do comprometimento do autor com a mudança nos rumos da educação sob o regime republicano. quase nulo. como os relatórios enviados pelas províncias ao Ministério do Império. visitando escolas e internatos. ao fracasso da instituição na sua tarefa educativa. No entanto. O seu roteiro incluía os temas mais valorizados do debate educacional da época: a organização do ensino 207 VERISSIMO. foram acusados através da documentação oficial de não atingirem os seus objetivos pedagógicos. Não lhe faltaram parâmetros de comparação com a educação no mundo civilizado: Verissimo viajou a Paris como comissionado do Pará na Exposição Universal de 1889. O paraense José Verissimo. tendo ficado “desagradavelmente impressionado” ao constatar que o ensino literário e técnico era desorganizado. lançou-se a uma ampla avaliação da instrução pública e particular no ano de 1890. pelo saldo advindo das oficinas lá instaladas (p. segundo suas palavras. insuficiente. com a missão de estudar a seção de instrução pública. pressupõe-se que a prosperidade das oficinas é indicador do desempenho dos jovens educandos. p. brevemente descritas em seu livro. Visitara por duas vezes o Instituto. processo inaugurado com a condenação das iniciativas imperiais (ou da falta de). em 1886. o estabelecimento se encontrava em “condições de prosperidade”. A falta de acomodações é a explicação dada para o fato. Sendo assim. A existência de motivações políticas para tais visões negativas é uma hipótese plausível. Souza Filho não visitou as inúmeras instituições.96). José. Como não pôde contar com registro cofiáveis.207 Veríssimo selou a sorte de uma instituição com dezoito anos de existência. munido de uma pauta que instrumentaria o governo na modernização do sistema educacional provincial. Os estabelecimentos do Amazonas e do Pará. Tarquinio de Souza Filho (1887) afirma que. quando o regulamento previa 200 vagas. ele reproduz as informações e avaliações presentes na documentação oficial.151. Ainda no período imperial de funcionamento do Instituto paraense. como diretor da Instrução Pública do Pará nos primórdios do regime republicano (1890 a 1891). atendia-se somente a 92 educandos. Nada é dito a respeito da formação dos aprendizes. em momentos diferentes de sua trajetória. Obviamente. 232 . varrido pelo presidente por uma pequena e forte palavra: “caos”. dezessete deles vividos sob o regime imperial. um bom mestre ou contra-mestre de officina.

métodos e aparelhos pedagógicos. Domingos Jacy Monteiro aponta para o desvirtuamento de seus objetivos educacionais. p. 233 . ensino misto. 26/5/1877. ocasionado pela má administração dos últimos tempos.primário. 51-52. como os de sapateiro e alfaiate. O autor não diz quais são estes fins. finalidade primordial das Casas de Educandos Artífices. a instituição foi extinta. 1889. 210 RPAM. Ele testemunha o sucesso da instituição na formação de funileiros ao afirmar que os exeducandos treinados neste oficio ganhavam a vida honestamente na função. ensino técnico. que a tensão entre utilidade e rendimento das oficinas desponta. escolas normais. No relatório com que passou a Presidência da Província a Agesiláo Pereira da Silva. p.210 No embate ocorrido entre colaboradores de duas folhas de tendências políticas opostas. como o antigo educando Borges. e no seu relatório. estando alguns estabelecidos. O presidente teve participação direta na extinção da Casa dos Educandos. mas podemos supor tratar-se do ensino de ofícios. A Constituição. Sobre o processo de extinção da Casa amazonense. os educandos encontravam dificuldade em obter colocação após o desligamento. ao remeter à Assembléia Provincial uma demonstração do tesouro a respeito dos valores escoados na sua manutenção.209 Em meados da década de 1870. não teriam saído por prontos nos diversos ofícios. arquitetura escolar. o mesmo não ocorria com os fins de sua fundação. Um deputado defendia a utilidade da oficina de funileiro por garantir um meio de vida seguro para o educando no futuro. mais do que doze rapazes.208 É justamente através de um debate na Assembléia Legislativa sobre a reforma do Instituto Paraense. o presidente Agesiláo Pereira da Silva justifica a decisão da Assembléia Legislativa expondo o alto custo e os parcos resultados do esforço educativo: em vinte e nove anos de existência. ver capítulo 4. com oficina própria situada à rua do Norte. foi revelado que nos ofícios onde havia abundância de profissionais na cidade. Se uma parte dos alunos conseguia aprender a ler. desde a fundação. o estabelecimento dos educandos em Manaus caminhava lentamente para o seu fechamento. educação física. No 208 209 RPPA.18. em 1875. entre outros.211 Em 1877. escrever e a contar. As discussões em torno da reforma de 1883 desvendam pontos nevrálgicos da vida institucional e dos resultados da formação que estão ausentes dos relatórios oficiais. sessão ordinária de 31/3/1883). 31/5/1883 (Assembléia Legislativa Provincial.

Como reagiram a esta situação e o que suas famílias pensavam a respeito constituem as partes mais difíceis de analisar devido ao tipo de documentação que dispomos. quando o contato com o educando é percebido como pernicioso e ameaçador à educação recebida na instituição.entanto. a autoridade não explica como chegou ao número que expressava o total fracasso educacional do estabelecimento. Indícios das reações dos meninos à dinâmica institucional podem ser depreendidas das situações de punição e de prêmio/elogio ao aproveitamento e aos comportamentos. A maior ou menor rigidez das normas disciplinares representam um bom indício da expectativa dos planejadores em relação aos internos e também. pelo Estado e por particulares. a família é geralmente ignorada. Trabalharemos com estas brechas. que com certeza. O debate travado através das duas folhas é analisado no capítulo 4. impressionou à boa parte dos deputados provinciais. uma resposta às dificuldades e resistências encontradas na disciplinamento dos mesmos. sendo às vezes citada. Assim. Pode-se concluir que o número de rapazes dados por prontos não é absolutamente confiável. dificilmente suas expectativas aparecem na documentação. O cidadão polido e o selvagem bruto: o regime disciplinar das instituições e o comportamento dos educandos A crença na educação como “o melhor legado que se pode deixar a hum joven” e como um instrumento de prevenção da criminalidade levou os representantes de algumas 211 Commercio do Amazonas e Jornal do Amazonas. Os aprendizes artífices do século XIX sofreram intensa exploração de sua capacidade de trabalho. Como o afastamento da família é uma característica fundamental destas instituições. mas foi extremamente útil no sentido de auxiliar o Governo da Província na redução das despesas. que expõe os acontecimentos e as representações dos planejadores e dirigentes das instituições. 234 .

como a Muita Sabedoria de V. os selvagens da cidade. analfabetos. Todos os educandos eram regidos por uma disciplina militar. tornam-se bons e incansáveis trabalhadores. Celso Sukow da. mas também prepará-los nas aptidões necessárias a um Guarda Nacional. como se observa á vista do cidadão polido e o selvagem bruto”. FONSECA. e sendo o primeiro dever do cidadão pegar em armas e defender a 212 213 FALCÃO. O regulamento da Casa Maranhense (de 1841) manda que os “Artífices” estejam preparados para “defender a sua Pátria”: “Que sendo os desejos de S. tudo feito pelos alunos”. religiosa e civil. como previa o regulamento da Casa de Educandos do Piauí: “fazer continências quando encontrassem o Presidente da Província.. p.huma segunda naturesa que o homem recebe. formar cidadãos que fossem uteis a si e a sociedade. inaptos. 1851. como brutos. José Antonio. cujos contatos com as atrações da cidade e com a família podem pôr tudo a perder. demarcando dois momentos do processo educativo: o início. rudes. O regulamento de 1849 previa. o Comandante ou qualquer oficial da tropa sediada em Teresina. incorrigíveis. viciosos. vadios. indomados. conhece .Ex. inertes. 235 . enfim. alunos aplicados. huma como que Magica que dessemelha os entes que na forma ou na especie são semelhantes. Em decorrência do processo educativo. 64. as instituições adotaram medidas extremas para garantir a introjeção das normas disciplinares e o melhor controle sobre o interno.213 A realização de exercícios militares não visava somente o ensino de normas disciplinares e hierárquicas aos educandos. ainda.instituições a perceberem na educação por eles proporcionada um caráter de diferenciação entre os homens: “A educação he. aparece a identificação positiva dos jovens: polidos pela educação moral. assim como a pegar em armas. o serviço de sentinela à porta da Casa e ronda nas suas vizinhanças.212 Os relatórios oscilam entre visões extremamente negativas dos educandos e visões positivas. o diretor do estabelecimento. que envolvia a obrigação de seguir determinadas regras bastante minuciosas. 1986. Diante de visões tão negativas dos recém chegados à engrenagem educadora que os transformaria em cidadãos. Ex. p. insubordinados. submissos e disciplinados. em caso de toque a rebate.72.

PARÁ.217 214 215 Artigo 25 do Regulamento de 2/12/1841 (FALCÃO. de marcar que o director ensinasse o manejo e exercicio militar a todos os educandos.101). devendo aquele prestar continência a qualquer superior. O regime militar incluía o respeito à hierarquia e a pronta obediência aos superiores.1o). o regulamento de 8/2/1873 manda “seguir o quanto fôr possivel o regimen militar. adotar o regime militar adaptado e o uso de uniforme militar (art. 1996. Portaria de 30/3/1872 (Deu regulamento para o Instituto de Educandos Paraense. A Mesa não permitiu a criação de um curso público de ensino de artes mecânicas na instituição. de forma a evitar a exposição dos internos aos “maus hábitos e à vida sem regras de muitas famílias”. Servindose S. criado em 1874.”214 Há registros da militarização de outras Casas também. Alfredo Eurico Rodrigues. 236 . Os contatos com os parentes eram regulados pela instituição.sua Patria.215 Nas instituições religiosas como a Casa Pia de Salvador. possivelmente por dificuldades de adaptação dos meninos ao mundo externo.216 A partir da década de 1860. p. como o manejo e exercício militar no caso do Amazonas e do Instituto paulista. só permitidas mediante autorização e acompanhada pelo Reitor. que constitue parte de huma bem dirigida educação.62. 216 MATTA. mas por outro lado.3o). Este. No Amazonas. p. 1851. 217 Segundo os estatutos reformados em 1863 (Ibid. deveria ser organizado em companhia militar anexa ao corpo militar (art. O primeiro regulamento do Instituto Paraense exige do educando a “obediencia militar a todo serviço e trabalho a pedido ou sob inspeção do diretor”. o regime claustral era levado às últimas conseqüências: os meninos viviam reclusos na Casa até serem encaminhados a mestres e pessoas tidas por responsáveis. 59). tentando controlar o contato dos internos com os perigos percebidos como ameaçadores à formação moral e religiosa recebida na instituição. criou algumas oficinas próprias. impedindo a mistura dos órfãos com outros meninos. e devendo os Artifices assim creados pertencer aos Corpos civicos. p. passou a restringir as saídas dos órfãos e as visitas aos alunos na Casa. segundo o regulamento de 3/1/1874.133). creado pela lei provincial n. hera indispensavel que conhecessem os primeiros e mais essenciais elementos do exercicio militar. que a partir de 1841. a Casa reduziu o caráter claustral. 660 de 31 de outubro de 1870). na perspectiva defendida pela Mesa..Ex. todos os trabalhos começarão e terminarão por toques de corneta” (Art.

14 jovens tidos como “inaproveitáveis para os fins da Instituição”. cuja desobediência resultava em castigos graduados . depois de 1835. sendo fortemente discriminatórias. eram encaminhados para o trem militar. Além do regime de funcionamento. Portanto. regimento de artesãos do exército. pobres e desvalidos. entrava em cena a repressão através da punição ao mau comportamento ou insucesso no rendimento do interno. carregando consigo a pecha de “indomáveis”. os planejadores sabiam disso e nos regulamentos das instituições. classificados a partir de categorias vistas na época como impeditivas ao trabalho. p. os meninos que fugiam das oficinas e fábricas ou aqueles com comportamento/rendimento reprováveis. Nas instituições militares passavam a viver sob regime militar. Alfredo Eurico Rodrigues. Não a expulsão para as ruas ou para a família: o melhor método considerado para estes casos era o recrudescimento da disciplina militar. conforme descrição a seguir. Ibid. os castigos. Casa dos Educandos Artífices do Maranhão: alunos “demitidos” em 1850 Classificação dos educandos demitidos Alienação mental Obstrutos 218 219 Números 1 3 MATTA. se o sistema disciplinar pela coerção falhasse. através do envio dos inadaptados aos arsenais de Guerra ou Marinha.157. o diretor da Casa dos Educandos “demitiu” em 1850.343 destinos conhecidos da Casa Pia. e aos “indomáveis” ou “incorrigíveis”. adotava-se um regime disciplinar e hierárquico militarizado. Em Salvador. p. detalhados em grau de crescente severidade. mediante autorização do Governo da Província. que evitava deixar os meninos ociosos. incluíam a suspensão da alimentação e a prisão para os “recalcitrantes”. 1996. sem quaisquer adaptações e ocupando o último nível da escala hierárquica: o de aprendizes.As instituições empregavam meios diversos a fim de garantir a submissão dos internos. a expulsão. Não havia regime infalível. Arsenal de Marinha. passando para punições mais severas. ou.219 No Maranhão. 237 .50.218 Foram 76 menores enviados pelo governo à Marinha dentre os 1.. determinando em minúcias o uso do tempo e do espaço.da simples advertência.

composta por negros. índios e mestiços. como demonstram João Reis e Eduardo Silva. 1989. e pelo tipo de população atendida: menores de idade. João. cujos senhores muitas vezes não tiveram alternativa a não ser negociar modos de vida mais aceitáveis para seus trabalhadores cativos. p. 221 REIS. Nas demissões por “castigos”. os meninos eram encaminhados para a Armada Nacional. Porém. não há qualquer referência aos destinos dos casos de deficiência física ou mental. no início do seu funcionamento. p. não só de modo a dar conta dos tidos como incapazes para se 220 Em 1848.220 Pensar a resistência e capacidade de negociação dos internos do sistema institucional da educação para o trabalho do século XIX é uma tarefa árdua. A origem familiar dos educandos não é discriminada no relatório. provenientes de famílias pobres ou empobrecidas pelo falecimento do provedor. 238 . como a causa de tantas demissões.Constituição detriorada (sic) Indomabilidade para o ensino Inércia habitual Acanhamento de idade e de inteligência Rudez de entendimento Aleijado de uma perna Negação para aprender os ofícios mecânicos Fonte: Falcão. provavelmente pelos mesmos motivos. pelo silêncio das fontes. 1851. e uma parcela de meninos tida como racialmente inferior. ao contrário do que ocorria com os escravos.221 Alunos rebeldes poderiam ser dispensados. 1849. José Antonio. O poder de barganha conferido pelo valor e utilidade econômicos dos aprendizes era irrisório (podiam ser facilmente substituídos). pois o diretor trata da questão dos pedidos de internação por parte destes e confere à utilização da instituição como castigo para os filhos rebeldes.77. mas pode-se pressupor que a maior parte deles tivesse família ou responsável. medida autorizada por todos os regulamentos dos internatos. a Casa maranhense recebeu dois expostos da Santa Casa de Misericórdia (FALCÃO. 1 2 2 1 2 1 1 Nos anos anteriores. 49 meninos foram dispensados.100). mas a maior parte das crianças era admitida através de requerimentos dos familiares dirigidos ao Presidente da Província. como ocorreu a dois educandos vindos da Aldeia de Pindaré. Diretores não se furtaram de recorrer à medida extrema. SILVA. Eduardo.

No entanto. o deputado evocou o desejo dos educandos de certa idade em sair do estabelecimento. questionou jocosamente a crueldade da pena. internadas contra a sua vontade. A comissão de reforma. e também da pequenez das idades em que alguns heraõ recebidos para artifices. quando a instituição era utilizada pelas famílias como castigo. ou finalmente da insubordinação. isto é. mas também para aparar os excessos clientelistas dos governos. como justificativa para a adoção de 222 FALCÃO. da qualidade dos jovens que se apresentavaõ para as admissoens. a sua análise deposita na “qualidade” dos educandos a causa do seu fracasso educacional: “Desconformidade do movimento (de educandos) contido n'elle. Falcão percebeu com clareza os inconvenientes de receber crianças castigadas pelas famílias. Neste momento. 239 . José Antonio. o educando tem um valor econômico que deve ser garantido. 1849. p. quando o educando deveria trabalhar nas oficinas para indenizar o estabelecimento das despesas efetuadas com a sua educação. prática que Falcão testemunhou e combateu. Um deputado liberal defendeu associar à pena de expulsão o envio a uma das companhias de Marinha. com os fins da instituição provinhaõ. por quaisquer meios. Três décadas depois. na maior parte. Porém. dominada por conservadores. principalmente nos últimos anos de formação. mesmo que fosse preciso recorrer-se a prêmios em dinheiro para mantê-lo trabalhando. O valor político não deve ser desprezado. proposta por um liberal.” 222 Está claro que os educandos adotavam comportamentos de “insubordinação e falta de atividade” com a finalidade de serem dispensados. pois interessava ao diretor e ao governo apresentarem bons resultados de forma a justificar o investimento realizado. os legisladores paraenses enfrentaram situação semelhante ao discutirem os meios disciplinares a serem adotados na reforma do regulamento do Instituto de Educandos. e falta d'actividade que começavaõ a ter logo que se achavaõ adultos com o fim de serem despedidos do Estabelecimento. Não se dando por vencido.77. unico recurso que tinha havido para o não transtornarem. citando o estabelecimento maranhense como exemplo e modelo a ser seguido. que depois de matriculados her que se lhe conheciaõ as rudez e vadiação de que heraõ dotados. a rebeldia visava à expulsão.beneficiarem da educação oferecida pela instituição.

uma medida antipática às famílias. como veremos adiante. em 1881. sessão de 31/3/1883).80. ele pediu ao Presidente da Província para “restabelecer o premio de 30 por cento aos educandos que apromptassem obras perfeitas o que he hum optimo estimulo para obrigar a aprender e trabalhar.135. devendo a “medida extraordinária” garantir a disciplina interna contra a ação dos “incorrigíveis”. Alfredo Eurico Rodrigues. p. nos moldes dos quartéis. a Casa Pia distribuía prêmios em dinheiro aos melhores alunos. mestres. onde meninos eram selecionados para exercer funções de liderança. os quartos continham de 45 a 60 camas. O anexo nº 17 (número. como a experiência já fez reconhecer”. ao aluno que obtivesse o melhor comportamento. ponderou o reformista. No Asilo dos Meninos Desvalidos. Cuidava-se também de distribuir os menores pelos oito dormitórios por faixas de idade. em visita ao estabelecimento.diretores. pois após sete anos da criação da Casa. professores.128). Além disso. Ibid. p. Assim. p. as instituições adotaram fórmulas para garantir o comportamento esperado dos educandos além dos “meios de repressão”. conforme estava previsto nos Estatutos de 1828 (MATTA. A preocupação com a “vigilancia nocturna” era tanta que a direção criou um sistema de controle do trabalho 223 224 A Constituição.224 Portanto. na vida quotidiana das instituições. não poderia assemelhar-se a qualquer colégio. 240 . 225 Ibid. o qual seria recompensado com uma medalha de ouro. 1996. o Conde Villeneuve instituiu um prêmio. inconvenientemente próximas segundo observação do jornalista Ernesto Senna. como meio de “obrigar a aprender e trabalhar”.o sono dos asilados era vigiado pelos inspetores noturnos. serventes e cozinheiros. as rígidas normas dos regulamentos tiveram que ser adaptadas de forma a tornar viável a convivência entre os alunos e os agentes institucionais . p. inspetores. esta só dispunha de oito educandos entre 18 e 21 anos trabalhando nas oficinas. Luiz Carlos Barreto.223 A este tipo de estratégia dos internos. em cada dormitório havia um cubículo para o “respectivo inspector”. como a distribuição de prêmios. 226 LOPES. 1994.. Com certeza.. situado na Corte. que oscilavam entre a repressão e a sedução do aluno.225 O tratamento diferenciado dos internos. Sendo uma instituição que abrigava “meninos de todas as condições”.226 Contudo. idades e ofícios dos educandos maranhenses em 1848) mostra que os recursos adotados pelos rapazes mais velhos a fim de serem dispensados apresentavam resultados. era largamente empregado pela direção das instituições.107. Na Bahia. o estabelecimento não descuidava da vigilância dos internos nos períodos de inevitável inatividade . o primeiro diretor da Casa maranhense propôs outras. 29/5/1883 (Assembléia Legislativa Provincial do Pará.

Estes se revezavam de duas em duas horas. 227 228 SENNA. é preciso comunicar que medidas contentoras estão sendo rapidamente tomadas. Relatório da “Directoria do Instituto Paraense de Educandos Artífices” (19/11/1878). 15/2/1881. “obrigados a fazer soar de 30 em 30 minutos uma campainha electrica. O diretor do Instituto dos Educandos do Pará. “não obstante as differentes rondas que faço”. aos dezessete anos. Crianças e adolescente surgem nos discursos e nas práticas como seres necessitados de disciplinamento e ilustração. o que demandaria o emprego de “uma mulher de certa idade”. em meio a medidas como a separação do dormitório dos educandos já homens dos menores e do estabelecimento de rondas noturnas e diurnas. mesmo do refeitorio”. Os dormitórios foram objetos importantes dos cuidados dos diretores dos internatos. Ele estava apontando para o fato.228 No relatório seguinte surge a notícia de que os educandos estavam divididos em quatro companhias.230 O espectro da sexualidade ronda as medidas inventadas ou reproduzidas para obstar um suposto mal jamais revelado nos relatórios consultados. Ernesto. ou seja.227 O reverso dessa história é que provavelmente o minucioso e oneroso dispositivo de controle (de asilados e empregados) permitia aos internos saber em que momentos o vigilante se encontrava longe dos dormitórios. novas propostas aparecem. Dificilmente os meninos são apresentados como tendo outras necessidades. 16/6/1879. In: RPPA. A-III e A-V. 241 . além das esperadas pelos planejadores e executores dos programas educacionais. In: RPPA. após dez anos de educação.124. os quais se esmeravam em criar mecanismos de isolamento e vigilância em torno dos perigos que a sexualidade adolescente poderia apresentar. “dispostos de maneira a serem de um só golpe de vista examinados. suas manifestações são reveladas aos leitores pelos aspectos negativos da rebeldia e da incapacidade. A-LIV. e que denuncia a vigilancia do empregado”. muitos deles ex-educandos. 1895. admitiu que não confiava na eficácia das mesmas. José Luis Coelho. que existe no pateo.229 Seguindo a leitura dos relatórios. cada uma em aposento separado. Uma exceção ocorreu quando o diretor do Instituto Paraense admitiu que os educandos de menor idade necessitavam de mais “carinho e mimo” no seu trato. 229 Relatório da “Directoria do Instituto Paraense de Educandos Artífices” (12/1/1881).dos inspetores. como a vantagem em desligar o jovem mais cedo da instituição. p.

16). 1999. Luiz Augusto dos Reis (1892) critica o fato de que “entre nós têm sido entregues muitas dessas escolas (mistas) com alunos de 15 e 16 anos a senhoras. o que não se aplicaria aos cativos.232 Nas instituições só podiam ingressar “menores livres” . principalmente os açoites. os açoites continuaram sendo empregados até o final do século. Um ponto unânime era a proibição de determinados castigos corporais. assumindo a identidade de trabalhadores. diretor da Colônia Isabel. 1882. 242 . Em uma sociedade escravista.234 A solução de reservar o ingresso somente aos filhos de lavradores não parece ter encontrado eco junto ao governo pernambucano. ou de gente do campo”. estavam previstos os açoites para os escravos (SALLA.que hoje nos soa estranho. Frei Fognano. p. O emprego de professoras jovens no ensino de rapazes era temido. na análise dos relatórios e dos regulamentos das instituições. Além do aspecto moral. a relação de funcionários do Instituto do Pará do ano de 1887. esta não deve ter sido uma tarefa fácil. 231 Percebe-se. com a Revolta da Chibata. 42. 15/2/1881. 20/10/1887.12. p.56 e RPPA. tratamento reservado a escravos. regidas por professoras. o programa de ensino era diferenciado por gênero.67. que manteve homens mesmo nas funções cujo exercício era permitido às mulheres. “pesado e sujeito aos rigores das intemperies”. 1/3/1883. 234 RPPE. Fidelis Maria de. como a de cozinheiro e enfermeiro. 1883. percebido como perigoso à moralidade feminina. mas somente recebiam meninos até 9 ou 10 anos. O termo “educadora” tem aqui um sentido mais amplo (dos cuidados à criança no dia a dia). No século XIX e início do XX não era bem visto o emprego de professores nas escolas para crianças maiores e jovens do sexo oposto. escolas mistas foram criadas nas capitais e principais cidades brasileiras.84. pois os 50 meninos 230 231 RPPA. e muitas vezes a professoras solteiras de 18 a 20 anos de idade” (p. relata que os meninos remetidos da capital recusavam o trabalho agrícola. p. identificado como trabalho de escravo: “a maior parte delles [repetia] que o trabalho só é próprio do escravo!”. No seu relatório sobre a instrução pública em países europeus. de que não havia a presença feminina como educadora nas instituições de ensino de ofícios do período. indica que a sugestão de contratar uma mulher para o cuidado dos menores não foi considerada pelo governo. o que levou o diretor da Colônia a defender somente a admissão de “filhos de agricultores. pois no Código Criminal do Império. aprovado em 1830. influenciava os meninos do campo. 232 A Constituição de 1824 aboliu os açoites e demais penas cruéis aos presos.233 A rejeição dos meninos da cidade ao trabalho agrícola. mas ofensivo e inaceitável quando aplicado aos livres. sendo que na Marinha só foram abolidos em 1910.lá seriam educados para se distinguirem dos selvagens e dos escravos. Nas forças armadas. Fernando. p.44). RPPA. um certo padrão na escolha dos castigos para aqueles que não seguiam as normas institucionais. Nas duas últimas décadas do XIX. 233 FOGNANO. p. crença atribuída pelo frei aos conselhos dados pelos parentes. Contudo. que seriam honrados e dignificados pelo trabalho manual. p.

os máos tractos. depois de haver expulso os indomáveis. em primeiro plano.”236 Diante desse quadro dramático. submisso e moralisado”. “que não tem correspondido aos cuidados e desvellos que se empregam em favor de sua educação”. através do exemplo e da palavra dos religiosos. 1889. de sorte que nos vimos obrigados a pôr em execução. provavelmente oriundo de alguma cidade da Província. p. o frei pretendia neutralizar as influências que os maus exemplos e os maus tratos poderiam ter exercido sobre as crianças. 1883. Fidelis Maria de. contra os recalcitrantes as penas estabelecidas no Regulamento.238 A ele. frei Fognano buscou e conseguiu trazer sete religiosos da Europa para ajudar na educação dos meninos. quando ela fosse inata. e 29 vieram do que o diretor chamou de “Centro”. os bons modos. (FOGNANO. grande parte proveniente de gente de máos instinctos e que não pode transmittir a seus filhos ou aggregados senão exemplos da peior espécie. Não deve a ninguem causar surpresa a situação pouco agradavel em que se acham aquelles que têm de luctar com 150 indoles diferentes. na constituição do sujeito “trabalhador. obter as reformas que eram indispensaveis para a completa execução do Regulamento. confirmando a hipótese de que o surgimento das colônias agrícolas atendeu. 1887. 238 FOGNANO. a 235 Dos 50 que ingressam. Assim expressa o seu desencanto: “Quando fomos encarregados desta nobre e ardua missão. a pancada por qualquer descuido. 4 foram levados pela Polícia. Pode ser Centro da capital ou Centro da Província.2). 237 Idem.237 Índoles tão diversas requeriam uma intervenção homogeneizadora. pelos mais brandos e suasorios. a uma necessidade imediata dos centros urbanos em resolver os seus problemas de distribuição da população “inútil” e “perigosa”. Mas com profundo pezar o diremos: os nossos melhores esforços foram quasi completamente frustados. e sabendo-se que essas crianças desde os mais verdes annos nunca conheceram senão o rigor. e nunca a persuação. Fidelis Maria de. 17 vieram da capital (Recife).11. reforçando a educação moral e cristã. Nos relatórios da Colônia da década de 1880. sem nenhuma outra referência. 236 FOGNANO. do que apenas à intenção de prepará-la para o trabalho ou de atender à demanda de mão-deobra disciplinada. estavamos firmes em não empregar meios disciplinares rigorosos. Com uma visão um tanto negativa das famílias. os conselhos. p. p. e que com facilidade se esteriotypam na fraca intelligencia da infancia.recebidos em 1888 vieram de áreas urbanas235. 5. Fidelis Maria de. e sim procurarmos. 243 . com que se podia amenisar a sua má indole. o diretor mostra-se desiludido com o comportamento dos colonos.

27/7/1875. adotou o castigo da palmatória. p. divulgadas na imprensa amazonense.“recompensa”. responsabilizou a proibição dos castigos físicos nas escolas pela decadência da aula de primeiras letras dos educandos a partir do início da década de 1870. até 1869. na contramão da instrução pública.240 Já os estabelecimentos de educandos guardam em comum práticas de punição.13. os governantes decidiam se a perda do pecúlio e o envio às companhias de aprendizes marinheiros acompanhariam a punição. a primeira a surgir. até chegar à 13a punição. Entretanto. 244 . prática somente adotada de forma regulamentar pela Casa do Amazonas em 1873. Ibid. como os castigos humilhantes. Aos educandos são aplicáveis as seguintes penas: 1º Repreensão particular 2 o Repreensão pública na oficina ou na aula 3 o Repreensão pública perante o corpo dos educandos 239 240 Idem. os “castigos disciplinares”. tendo sido permitidos determinados castigos físicos na instrução pública amazonense. para mantê-los ocupados enquanto os outros trabalhavam. em raro testemunho da atuação docente junto aos educandos. e ao “indolente e insubordinado”. a expulsão.239 Como garantia. ver capítulo 4. “ Art.67. Não encontramos justificativas para a adoção no regulamento de 8/2/1873 do uso da palmatória. enviandose a maior parte dos “menores de 6 a 12 anos” para as oficinas de carpina e sapateiro. a prisão e por fim. 241 Commercio do Amazonas. A Casa do Pará. a privação de alimentação. pois alguns dos meninos já empalhavam cadeiras e outras mobílias e faziam seus chinelos. cujas “penas” vão num crescente. A respeito do testemunho do professor Ramiro e Silva. o professor de primeiras letras recorria a este estratagema para disciplinar os educandos em suas aulas. O professor do estabelecimento. Terão suas queixas. Ramiro e Silva. A iniciativa trouxe proveitos para a instituição. Nos casos de expulsão dos “incorrigíveis”. da mais leve a mais severa. adotaram-se medidas para prevenir os perigos decorrentes da ociosidade. que renovava os “meios disciplinares” junto ao alunado. influenciado a administração e a assembléia provinciais na adoção oficial dos castigos corporais? 241 É interesse transcrever o artigo do regulamento..

tal punição possuía maior poder de coerção do que as penas aplicadas internamente. Contudo. e a circulação de objetos que poderiam induzir a atitudes reprováveis. conseqüentemente. como a do diretor da Casa amazonense. a punição aos desertores não através de castigos físicos (“que são revoltantes e até deshumanos”).194 de 9/7/1859. bem como ao respeito com os “superiores” e aos comportamentos tidos como amorais . 245 .1. 25/3/1872. Pedro Jayme Lisboa. desde o primeiro regulamento da Casa são detalhadas séries de proibições aos educandos.243 A aplicação de castigos físicos encontrou vozes dissonantes. fogos.uso de palavras obscenas. no relatório 242 AMAZONAS. o jogo de cartas e similares. cerca de um ano antes da adoção regulamentar da palmatória. 25 de 8/2/1873. 243 AMAZONAS. pólvora. impressões ou estampas sem autorização do diretor e bebidas alcoólicas. 7 de 26/3/1858. “Reformando o Estabelecimento dos Educandos da Provincia do Amazonas”. para servir de exemplo aos demais. 244 RPAM.4 o Privação de recreio 5 o Trabalho obrigado em horas de folga 6 o Privação de uma das refeições 7 o Meia ração por um a quatro dias 8 o Rebaixamento temporário ou definitivo dos cargos e postos que excitam emulação o 9 Prisão simples ou com trabalho 10 o Prisão incomunicável até oito dias 11 o Prisão incomunicável com diminuição de alimento até 48 horas 12 o Uso moderado de palmatória 13 o Expulsão do estabelecimento”242 Nos regulamentos de 1858 e 1865 não estão previstos castigos corporais e o número de penas aplicáveis é bem menor. Este defendeu. “organisando o estabelecimento dos educandos artifices”. Por exemplo. apesar de legalmente proibida. como a prisão e os castigos físicos. no relatório de 1872. tais como armas.244 Os vários relatos indicam que este era um destino rejeitado pelos meninos. conforme atestou a comissão instituída pelo Ministério do Império. todas referidas ao controle da comunicação interna e externa. Regulamento n. a aplicação de castigos físicos era uma prática comum nas escolas da Corte. anexo 5. Aprovado pela Lei Provincial n. Regulamento n. mas obrigando-os a ter praça na armada ou no exército. A proibição legal dos castigos não impediu o emprego das palmatoadas e demais martírios do corpo nos mais diversos tipos de instituições educacionais. p.

Seus planejadores estavam atentos às novas tendências da educação. pode-se pressupor que a prisão tivesse esse fim também.245 É de se pressupor que mestres e diretores dos estabelecimentos de educandos mantivessem o castigo físico. Alessandra. o Asilo) substituiu-se o termo pena por meios disciplinares. três “serventes alugados” e um cozinheiro remunerado que faziam todo o serviço da cozinha. que regulamentou o recém criado Instituto Paraense de Educandos Artífices. 246 . mais apegados a padrões rígidos de disciplina e de obediência à hierarquia. Eram três “africanos livres”. mas adotava as penas de repreensão.246 A prisão de educandos era outra prática comum aos estabelecimentos de educandos artífices.247 Não é explicitado quem seriam estes membros. cozinha e lavagem de roupa eram feitos por africanos livres. servente do estabelecimento”. 1849. a Casa. Não surtindo efeito a aplicação das penas. A portaria de 30/3/1872. carretos e o despejo. mas como havia escravos e “africanos livres” trabalhando na instituição e problemas de fuga.248 Em 1850 foi construído o xadrez.105. 248 FALCÃO. tendo o Presidente da Província encarregado o Chefe de Policia para “fazer diligenciar a captura do Africano livre Paulino. 247 FALCÃO. restrição alimentar e prisão. artigos 39 e 40. José Antonio. 249 A Casa amazonense também contava com o trabalho de africanos livres no início de seu funcionamento. Regulamento de 1872. abolindo certas práticas condenadas pela pedagogia e atualizando a terminologia. p. presos 245 246 Composta por delegados da Instrução Pública (MARTINEZ. principalmente ao lembrarmos que muitos diretores eram militares. No Maranhão. Os trabalhos de limpeza.apresentado em 1874. A “precisão da prisão” iria aumentar igualmente para os “membros que não forem educandos”. Os alunos que apresentavam comportamento reprovável eram entregues aos pais.107. mas o podia substituir pelo trabalho indígena quando preciso. José Antonio. Assim. pois os educandos estavam crescendo e as oficinas também. trabalho obrigatório. p. não previa o emprego de castigos físicos. Um dos africanos livres fugira. para o Instituto (e não. o diretor se queixou que faltava construir a prisão para “prevenir as consequencias”.52). 1851. p. o educando deveria ser encaminhado pelo Presidente da Província para “verificar praça” no exército ou armada. 1997.

pois. a quem querem favorecer” ( Estrella do Amazonas. como prisões. p. eram empregados pelos governos em serviços públicos e particulares. Referências aos africanos livres no estabelecimento encontram-se também no RPAM. 1999. onde “ahi cauzáo as vezes desordens com bebedeiras e richas. indicam a dificuldade em manter os africanos livres disciplinados.. empregados nas obras públicas da Província. que mui positivamente lhes proihiba taes visitas das seis e meia horas da tarde em diante”. africana livre que servia de lavadeira no estabelecimento foi substituída por uma índia indicada pelo diretor. anexo G. sendo somente encaminhados para estabelecimentos públicos. A alegação de que faltavam índios e que lhes repugnava ir às obras públicas irritou o Presidente da Província.252 Fernando Salla relata que a Casa de Correção de São Paulo contava com o 249 250 Ibid.2. 251 Ofícios da Presidência da Província à direção da Casa de Educandos. 10/11/1858. solicitando o Governo trabalhadores índios para as obras públicas. pois lhe constava que os diretores parciais “os empregáo nos seos serviços e das pessoas. Já os presos sentenciados que trabalhavam no estabelecimento recebiam uma ração igual a percebida pelos educandos. sob a lei Eusébio de Queiroz. e os respectivos expedientes de 18/06/1858.117. Alguns ofícios publicados no jornal Estrella do Amazonas. p. Desde 1850.sentenciados ou índios. tal qual os mestres de ofícios. o presidente a mandou encaminhar ao diretor de obras públicas. 247 . O status de livre dos africanos chegados ao Brasil a partir de 1831. expediente de 13/07/1858). percebendo seus jornais quinzenalmente. 7/9/1858.79. 17/09/1858 e 12/05/1860). a concessão para particulares fora proibida. quando uma legislação considerou ilícito o tráfico. Afastada do estabelecimento de educação. sendo muitos dos serviços feitos pelos próprios educandos. publicados no jornal Estrella do Amazonas (Jornais de 09/10/1858. Estando sob a tutela do Estado. entre 1858 e 1859. tendo como livres todos os escravos que dessem entrada nos portos do Império. p.251 Na década seguinte. 15/10/1858. 252 SALLA. não significou que possuíssem liberdade para tomar decisões a respeito de seus destinos e não evitou que fossem tratados como escravos. o estabelecimento já não contava com esta mão-de-obra. Muitos ofícios publicados no Estrella do Amazonas dirigem-se ao Diretor Geral de Índios. 23/04/1859. Apolinária seguiu o destino dos africanos livres e de muitos índios da região. 26/02/1859 e 27/06/1860. recommendo a Vmc.250 Os africanos livres eram pagos por seus serviços na Casa dos Educandos de Manaus. Apolinária. tida por ébria. Fernando. orfanatos e hospícios. Parceiros de alguns deles pernoitavam no rancho dos educandos.

Esta é a posição expressa pelo professor de uma escola pública da Corte. 1899. em certos meios da instrução pública. o Asilo dos Meninos Desvalidos. 1994.J. como a restrição alimentar.257 Vinte anos antes.255 A severidade das punições previstas pode ser explicada por vários fatores.trabalho de africanos livres e enfrentou inúmeras tentativas de fuga. os estabelecimentos nortistas empregavam a reclusão em prisão como meio disciplinar. as instituições “importaram” e adaptaram o modelo do quartel. 248 . que se tornavam indolentes e pouco dispostos ao trabalho duro e disciplinado. analfabetos. especialmente as mães. podendo recorrer a outras medidas.256 Circulava ainda. p. e “dobra-se a todas as vontades” do pequeno. reparação do dano. No entanto. 77-87. o qual propaga a “transformação de nossas actuaes Escholas Publicas em Escholas publicas profissionaes”. de administração religiosa. 257 VIEIRA. Van Halle.. 255 MATTA. 256 FALCÃO. a Casa Pia. no relato de suas “impressões” das viagens que fez ao Brasil 253 254 Ibid. o que reflete na escola. Luiz Carlos Barreto. J. p. o quadro não era diferente: a privação do alimento e da liberdade. mimavam os seus filhos. 1851.72. seguia a mesma linha de punições: privação de recreio. mesmo as das classes populares.meninos desvalidos. inclusive as suas penalidades. trabalho braçal no Colégio e reclusão solitária. p. os açoites e palmadas eram proibidos pelos Estatutos de 1828. No Rio de Janeiro. afirmando que a primeira dirige um “amor cego e egoismo exagerado” ao filho.128.. Os africanos livres somente foram emancipados em 1864. mediante encarceramento na prisão por até três dias e a expulsão. 1996.os selvagens brutos . Vieira compara a mãe brasileira com a inglesa. como já foi mostrado: o ingresso era vetado aos negros e índios e priorizado aos filhos legítimos. LOPES.254 Na Bahia. José Antonio. Há igualmente que se considerar a visão e a expectativa em relação aos meninos a serem educados .54. p. 135. eram as punições principais.253 Conforme citado há pouco. Alfredo Eurico Rodrigues. na concepção das elites da época do que seria uma educação adequada à “classe da sociedade a que pertencem os educandos”. Sem dúvida. a visão de que os pais brasileiros. alimentação.R. o que pode ser compreendido pela seleção que a instituição fazia de seus candidatos à internação. instituição criada como modelo para outras províncias. cujas famílias não os educavam convenientemente.

3. e deitavam-se as 8 1/2 da noite. como nos outros estabelecimentos. p. estes pequenos viciosos e mentirosos vão se queixar a seus pais das injustiças que receberam. tinham instrução primária e horário para estudo. muito elogiada pelo autor. p. (. por um amor todo maternal pelos filhos. à Escola Normal de Niterói.) o que attribuo á falta.. Problemas com o comportamento dos internos.” 258 Afirma ainda que a qualquer “reprimenda ou punição por mais bem merecida.. No ano de 1876.259 As resistências e inadaptações às tentativas de imposição educacional e cultural promovidas pelas instituições são amenizadas ou não estão bem dimensionadas nos relatórios. e mesmo aos Srs. 260 FOGNANO. 1876. não são considerados. moços de boas familias e que pertecem aos primeiros colegios e externatos da capital” (p. os quaes aceitam. Há casos que podem ser considerados como uma forma de resistência passiva. sedução. Os meninos acordavam as 4 3/4 da manhã.” E conclui. á incuria da educação que dão os pais aos seus filhos e ao amor cego que nada vê de máu no que elles fazem. Na obra. não sem mostrar-se extremamente intolerante e preconceituoso: “Eu podia comparar estes pais e mãis. trabalhavam na fazenda e nas oficinas. 249 . em logar de se informarem com os directores dos collegios.7. José. a satisfação dos alunos e a disposição para o trabalho. Um ano após a fundação da Colônia Isabel. marcada pelo trabalho e pelos horários rígidos.. onde diz ter notado “a falta de respeito desta mocidade estudiosa a seus professores. o bom comportamento. e “salvo poucas excepções. o viajante relata as visitas à escola pública da freguesia de São. 258 HALLE. insubordinação e recusa em aprender ofícios. o seu diretor avaliou que os colonos estavam “satisfeitos”. após visitas feitas a colégios da Corte.. diretores do estabelecimento. 259 Ibid. que. como aqueles taxados de inertes.11 a 26). no dia a dia. 1877.. e à Casa de Detenção (p. de instrução primária aos seus pequenos operários. José Van. á indiferença. Ao contrário. E igualmente expressou a sua indignação com a “falta de respeito dos estudantes. tais como deserção. sempre dispostos para o trabalho”. Fidelis Maria de. tão pouco severos para lhes dar uma boa educação. à escola do Sr. a rotina diária era. na rua da Ajuda. p.260 Lá.7). Nos relatórios estão registrados os casos mais graves de transgressão.(1876) empregara a mesma retórica. são ressaltados por alguns.” Os pais tiravam os meninos dos colégios para confiá-los a estabelecimentos semelhantes.6. Lizaur. fuga. elogios tais como. com os macacos. os sufocão!. rudes no aprender e acanhados de inteligência.

os máos habitos que d'essa cidade trazem. para a cultura.”263 261 262 Ibid.. me autorisa a desmentir semelhante asserção [da pouca vontade de trabalhar existente nos paises intertropicais]. do banho e de uma pequena refeição. Ibid. irem alegres e satisfeitos para o trabalho e permanecerem n'elle até as 9 horas: voltarem. tendo 94 colonos em dezembro de 1875. No final da década de 1880. p.20.. 263 FOGNANO. em resposta às queixas repetidas que ouvia contra “a pouca vontade de trabalhar inerente à natureza dos paises intertropicais”.) facilmente se viciam. e assim viciados não somente com difficuldade se sujeitam ao regimen estabelecido n'este Instituto senão que também procuram inocular nos que n'elle são educandos..) os maiores de 12 anos (.14.3. p. principalmente aqueles vindos da capital. entendendo que o hábito de trabalhar se desenvolve pela educação correta. depois de jantarem.) principalmente tendo sido elles nascidos e criados n'essa capital onde (. responsabilizando as famílias de “certa classe” pela “educação defeituosa” dada aos filhos. assistirem n'aula até 2 horas da tarde. Com effeito quem vê meninos levantarem-se as 4 3/4 da manhã e depois de ouvirem a missa. não póde crêr-se que seja effeito do clima. não se mostrarem nem cansados nem enfados. o diretor recebeu muitos meninos com mais de doze anos. p. levando-os a rejeitarem o trabalho. do que de defeito natural." 262 A maioria dos meninos tinha de 11 a 16 anos (81 internos) e 31 colonos estavam na faixa dos seis aos dez anos. O autor desloca a discussão da natureza para a educação. No meu fraco entender essa repugnancia para o trabalho provém mais da educação defeituosa que certa classe de gente dá a seus filhos. 250 . “(. construcções e genios. “A curta experiencia d'estes dous annos. além de se mostrarem resistentes ao regime do “Instituto”.de 112 colonos. eivados de vícios. tornarem para o serviço até as 5 horas e meia. e voltando depois d'esta lida diaria. os quais. 1889. no meio d'estes meninos de diversas idades. e depois de ter almoçado... quatro foram expulsos por “tentativa de fuga e seducção”.. Fidelis Maria de.. pois a Colônia fora criada um ano antes.261 Frei Fognano dá o seu depoimento sobre a disposição que os colonos apresentavam para o trabalho. o diretor se opôs à admissão de maiores de 12 anos. principalmente os mais pequenos. e por conseguinte. a indolencia que infelizmente se nota entre certa classe de trabalhadores. contaminam os menores com os seus “maus hábitos”. Os banidos há muito apresentavam “comportamento irregular”. as 3 horas. Portanto..

cit. p. Neste ano eram 110 famílias. A maioria dos chefes de famílias era de lavradores iletrados.266 O diretor utilizou um recurso que é de praxe.264 Nota-se que o contato dos colonos com o sexo oposto era bastante controlado. só para meninos e. receando invasões nas terras da Colônia. por se apresentarem como melhores educadores do que homens adultos. onde não pudessem ser vigiados. cujos filhos não teriam destino muito diferente.eram 173 famílias com 780 filhos em 1876. como também uma redução da natalidade. inclusive na circulação pela Colônia. dependendo da boa vontade dos deputados da Assembléia Provincial em aprovar verbas destinadas aos estabelecimentos.20). a dedicação. ou melhor.14). Os lavradores e suas famílias ocupavam 43 Km2 da área da Colônia. Alunos que se mostravam obedientes às normas institucionais eram selecionados pelo diretor para chefiar divisões e seções do corpo de educandos.265 Está claro que o diretor omitiu o aspecto financeiro. “por não lhes ser facil a frequentação das escolas onde lhes poderia ser communicada essa instrucção” (Op.. 251 . Uma das estratégias de disciplinamento dos internos consistia no emprego de internos mais antigos na vigilância dos colegas. houve não só uma diminuição do número de famílias na Colônia. com as dificuldades 264 Esta informação é do relatório de 1889. Fognano relata que permitia a seus moradores lavrarem a terra nas divisões das terras para que as vigiassem. a escola mista no povoado de Jaqueira. 265 Idem. 1889. Selecionar os educandos mais adaptados.. sendo que 117 deles pagavam 10$000 anuais pelo uso da terra. a maior parte analfabeta. Em 1888. pois empregar educandos para o trabalho interno representava uma economia fundamental para instituições que viviam sob constante aperto financeiro. Se os dados estatísticos estiverem corretos. compondo 629 indivíduos. valor tido por “insignificante” pelo diretor (Op. p.5 filhos por chefe de família. do correto e pronto repasse de loterias e da caridade alheia. cit. que em 1876 havia atingido a taxa de 4. submissos à ordem institucional. é uma estratégia que as instituições aprenderam a empregar. até os dias de hoje.Entre os “vícios” e “maus hábitos” supõe-se que estivessem incluídas as manifestações da sexualidade dos colonos adolescentes. cujo diretor impedia que os jovens fossem trabalhar nos locais mais distantes. nos internatos para “menores carentes”. portanto não podemos afirmar que em 1876 os filhos dos lavradores freqüentavam escolas. 1877. e os costumes”. talvez dirigidas aos “pequenos” e aos filhos ou filhas dos lavradores que moravam na Colônia . pois só havia duas escolas disponíveis na região: a escola de primeiras letras da própria Colônia. pois “têm a prática do serviço do estabelecimento.

e faz o ponto dos ditos mestres e operarios. Os melhores podiam ser contratados como funcionários da instituição..267 Assim. fiscaliza a pontualidade do comparecimento e estada no trabalho dos mestres. possivelmente cumpriam suas tarefas com afinco e dedicação. direção e funcionários que os monitores recrutados entre os meninos e as meninas freqüentemente eram mais rígidos com os/as colegas do que os próprios inspetores. para exercer tais funções.39. solicitando uma gratificação para que ele pudesse manter-se no “emprego de administração do serviço". pois não recebera o repasse da loteria provincial (FOGNANO. no estabelecimento do Maranhão.22). José Antonio. ajudavam na educação dos outros meninos. por exemplo. em pesquisa realizada na década de 1980 em internatos para “menores carentes e abandonados”. he zeloso na conservação da policia material do Estabelecimento (. tem 24 annos de idade. Entre várias situações.). e aprendizes. 268 FALCÃO. mais certo neste caso. Ocupavam funções hierarquicamente superiores aos seus colegas e. Altoé verificou. por gratidão ou pela busca de aprovação e reconhecimento da direção da Casa. 267 O fenômeno da reprodução das normas disciplinares pelos internos quando têm a oportunidade de ocupar o lugar do funcionário foi detectado por Sônia Altoé (1990). e também dos trabalhadores das obras que são feitas para o acrescentamento dos comodos do edificio.. nem sempre compromissadas com os objetivos educacionais da instituição. p.192). comporta-se exemplarmente.enfrentadas para arregimentar funcionários dispostos a trabalhar muito e ganhar pouco. conforme a exposição feita por Falcão. e são as pessoas mais capazes de os reproduzir de forma acrítica. nas entrevistas com internos. os agentes. fiéis. p. Há pelo menos o registro de um caso desta natureza no relatório de 1851. chefes das divisões e cabos das seções eram todos educandos. ela relata o caso de menino admirado pela direção e pelos funcionários por sua capacidade de comando: “ele sabe controlar mais de 50 colegas”. Fidelis Maria de. Os internos bem adaptados têm as normas e os valores preconizados pela instituição interiorizados. operarios. pois pela idade devia deixar de ser educando. Assim se expressou: “He educando desde o principio do Estabelecimento. do que lutar para conseguir um lugar no concorrido mercado de trabalho das oficinas da Província. 1889. 252 . passou por imensas dificuldades financeiras ao final da década de 1880. he desvalido.”268 266 A Colônia Isabel. sendo capaz de “dá conta da disciplina” melhor do que o adulto (p. das officinas. O diretor recomendara o agente Antonio Francisco Simões ao Presidente da Província e à Assembléia Legislativa Provincial. Outro obstáculo transposto com o uso de internos no controle e na vigilância de seus pares consiste na dificuldade do preparo. e segundo o diretor. de pessoas de baixa qualificação. garantindo o futuro. 1851.

p. onde o fácil acesso a mestres de ofícios e operários não justificava o emprego de ex-educandos.269 Despertou a atenção de Senna o grande número de cargos ocupados por ex-alunos. A economia institucional (financeira e disciplinar) era favorecida pelo trabalho dos meninos. 271 Commercio do Amazonas. pegavam água e remavam canoas.271 Alguns cargos previstos nos regulamentos amazonenses e paraenses eram ocupados por educandos como os de agente. checando se tomavam a medicação corretamente. obtinham ganhos imediatos e perspectivas futuras. em 1875. o de roupeiro e outros mais valorizados. A limpeza e o cuidado com os meninos doentes. Ernesto Senna conta que v isitara o então denominado “Instituto de Ensino Profissional”. Em 1894. paralelamente ao asseio e à ordem existentes do estabelecimento.No Rio de Janeiro. professores de música e desenho. Na instituição amazonense. e professores adjuntos. 1895. averiguar se algum ato contrário à moral ocorria durante o banho. Ibid. que por sua vez.123. como todos os de contra-mestres das oficinas. Os educandos tiravam lenha. conforme relatou o autor do artigo publicado “a pedidos” no Commercio do Amazonas. entre outras atividades do gênero. por exemplo. verificou-se a existência da mesma prática no Asilo dos Meninos Desvalidos. o Asilo passou a ser denominado “Instituto Profissional Masculino”. fiel e enfermeiro. Os educandos cuidavam do funcionamento cotidiano da instituição. como o de secretário do Instituto. Em suas Notas de um reporter. 3/7/1875. 253 . verificando o andamento das refeições na cozinha e vigiando os companheiros no exercício das atividades diárias como. Ernesto.270 As várias oficinas empregavam cerca de 45 menores cada uma e atendiam a encomendas externas e às necessidades do Instituto de roupas e calçados para 400 educandos. Representações e expectativas familiares 269 270 SENNA. cabiam ao educando enfermeiro. parte do trabalho interno passou a ser responsabilidade dos alunos em decorrência do fim do emprego de africanos livres e presos sentenciados nos serviços da Casa.

sem saberem conhecer o abcedario. FALCÃO. A visão que o diretor da Colônia pernambucana tinha da “classe da sociedade d'onde lhe vem a maior parte d'esses mesmos educandos” era bastante negativa: a classe social a qual pertenciam não era “a mais apta para dar-lhes bons exemplos”. Antecessores de V. 99 tinham até treze anos.olha que eu vou te metter na Casa dos Educandos. hera como huma especie de castigo dado aos jovens. em 1888.. p.Nos primeiros tempos de funcionamento dos institutos governamentais. p. que se lhe requeria a admissão para aqui. que tinham uma visão extremamente negativa do estabelecimento nos primeiros tempos de funcionamento. dotados de “rudez e vadiação” só conhecidas após a matrícula. Em compensação. dos 167 colonos. 1851. a fim de que V. (. mais de huma Mãe se deo por offendida por lhe aconselharem que pedisse a admissão de filhos que tinhão com mais de 13 annos de idade. onde eu comer meu filho tambem come: do que eu tenho a honra de informar a v. Sr. Ex.20. a ser as ameaças com que as Mães intimidavão os filhos para que se aquietarem . e sempre protegida pelos Exms. chegavão mesmo Exm.. 1889. provavelmente crescidos lá. e só pela constancia empregada.272 O diretor da Casa dos Educandos do Maranhão se queixa de que jovens ingressavam na Casa por castigo aplicado pelas famílias. a grande maioria dos Institutos e das Casas de Educandos não aceitava meninos acima dos doze anos . meu fiho não nasceu para isso.) as causas de tantas demissões (por inabilidades ou castigos) “he explicada pela inteira repugnancia que havia para entregar os jovens a educação desta Casa. a relação entre família e instituição foi de estranhamento e desconfiança. então e agora. Ex.Ex. se digne de observar a differença que ha entre as opiniões.77. o que o resultado hera virem a qui ter muitos d'aquelles em quem de todo não se descobria aptidão para outro qualquer emprego. respondendo muito agoniadas a quem as aconselha . A direção rejeitava a educação doméstica e a família temia a tutela do Estado. Fidelis Maria de.Deos me livre. sem ter havido mudança de Directoria ou systhema de dirigir. José Antonio.”273 272 273 FOGNANO.restrição que visava ao maior controle sobre os contatos e comportamentos aprendidos entre os de sua “classe”. Assim. 254 . A solução encontrada pelo frei foi reduzir a idade de ingresso – aliás. formadas a respeito da Instituição. 27 jovens encontravamse na faixa dos dezessete aos dezenove anos. Falcão associou a “insubordinação” à “qualidade” dos jovens admitidos por castigo. muitos dos quais acabavam sendo expulsos.

dirigiu um requerimento ao P residente da Província pedindo a admissão de três filhos. “. as famílias passaram a desejar que seus filhos fossem educados na Casa. frente a um destino incerto. ou sob a sua protecção. p.78. a concentração das officinas aqui. o diretor conta que. “Tem ocorrido para a melhora presente. Em 1849. FALCÃO. p. e as boas qualidades de quasi todos os jovens que para aqui são recolhidos. 277 FALCÃO.. p. como relata Falcão. 1849.275 Falcão afirma estar convencido de que os pais não buscavam colocar os filhos no estabelecimento para economizarem as despesas necessárias para a criação dos jovens.”274 Uma semana após a fundação da Casa. destes muitos em perfeita innocencia.”277 274 275 Ibid.. a “repugnância” das mães foi cedendo e os pedidos para internação começaram a surgir. No ano seguinte.276 A nova postura das famílias e a instalação de oficinas internas interferiram diretamente na “melhora” da instituição. e requerem-se as admissoens com anticipação” cinco jovens habilitados a ingressar no estabelecimento. o presidente ordenara que se angariasse meninos para educandos.. p. A reação indignada de algumas mães ante a solicitação de internar o filho no período inicial do funcionamento da Casa indica que.77. com a argumentação de que “onde eu comer meu filho tambem come”. por ordens do presidente. sendo somente um admitido. que não faça os maiores esforços para o verem recebido n'esta Casa. Após oito anos de funcionamento. mas o diretor conseguiu obter 26 deles para iniciar o seu trabalho... Os meios pelos quais os meninos foram recrutados não são relatados.71.99. bem poucas são as pessoas que tenhão em seu poder. “os 60 lugares estão sempre completos. José Antonio. seis meses após a criação da Casa. hum joven da classe que não seja a mais grada da sociedade. pois as famílias não receberam bem a instituição.. 276 Ibid. 1849. pela “constância” do atendimento e pela “proteção” recebida do governo provincial. estavam na fila de espera.O autor registra que as “opiniões formadas a respeito da Instituição” mudaram. Este foi o caso de uma mãe que. com muitas solicitações. em 1841. José Antonio. optava-se em manter a criança em casa. 255 .

a admissão de meninos provenientes de famílias que viam o “amor pelo trabalho” como um valor importante a ser incutido nos filhos. e talvez fora d'ella”. por não saber ler ou escrever”. 256 . responsáveis ou tutores dos meninos. como superior ou a única possível para o menino. mostravam-se “obedientes aos superiores. ou outra qualquer occasião de desunião. Como conseqüência. p. Os textos valorizavam a educação a ser recebida na instituição. tanto por ocasião das solenidades públicas. e anunciavam a impossibilidade dos responsáveis de educarem as crianças. a maioria com a intermediação de pessoas notáveis e/ou reconhecidas como idôneas. em estabelecimentos da natureza deste. José Antonio. sem repugnancia e com capricho. que assinavam os pedidos “a rogo de.142. dirigidos ao diretor do estabelecimento e a outras autoridades governamentais. o diretor se desdobra em elogios aos alunos. p..279 Ao lado da argumentação do “cidadão útil a seu país”. Não temos os textos dos requerimentos feitos ao governo maranhense. pela via do trabalho. pais. As solicitações eram feitas por avós.278 As solicitações de internação feitas pelas famílias correspondem à expectativa das instituições de tornar o jovem “útil a si e à Pátria”. idosos. 1994. Intramuros. de não haverem entre elles rixas. e o que tem de executar para o serviço economico do estabelecimento.39.Pelos relatos sobre o comportamento dos educandos.. É o que se pode depreender dos requerimentos feitos por familiares ou responsáveis ao Asilo de Meninos Desvalidos. recorrendo ao mesmo tipo de argumentação. nos inúmeros casos em que o pai não existia. mas os encontrados nas pastas dos alunos do Asilo dos Meninos Desvalidos foram analisados por Luiz Carlos Lopes. como he reconhecido nesta Provincia. resultou na evolução dos comportamentos dos alunos a níveis mais aproximados dos desejados pela instituição. Proprietários de escravas também solicitavam internação para crianças nascidas de ventre livre. 1851. recorria-se com freqüência à pobreza da mãe. Os educandos se apresentavam aos atos religiosos com “decência”. “gravidade” e “respeito”. quanto no interior do estabelecimento. no Rio de Janeiro. e em confraternidade com os iguaes. O sentido de educar 278 279 FALCÃO. Luiz Carlos Barreto. LOPES. aprezentando a raridade. praticando todo o serviço que lhe encarregão os mestres a respeito do ensino. no relatório referente ao ano de 1850. situação comumente ocasionada pelo fato da mãe ser ex-escrava.

No primeiro ano. p. que enfrentou sérias desconfianças da população nos primeiros anos de funcionamento da Casa de Educandos. Luiz Carlos Barreto. o estabelecimento gerava desconfianças. chegando a 122 em 1884. respectivamente (LOPES. 1994. 03/05/1859.nesse momento adquire um novo matiz. O número de internos aumentou de forma gradativa. atingindo o ápice em 1872. antes é procurado com empenho. p. como relata o presidente Francisco José Furtado: “O estabelecimento prospera. o número de internos é crescente. vindo a reforçar a incapacidade das famílias de educar suas crianças e jovens. o Asilo dos Meninos Desvalidos foi a que teve maior número de matriculados.”281 No ano seguinte. 257 .155 e 158). Outro fator apontado pelo Presidente da Província para o pequeno número de educandos refere-se às dificuldades financeiras da instituição. 281 RPAM. e já não inspira temor. e contaria um grande número de meninos desvalidos. eram apenas dezenove educandos. O mesmo fenômeno ocorreu no Amazonas.280 Como ocorreu no Maranhão. Na segunda fase da instituição. no ano seguinte (1876) até 1882 manteve cerca de uma centena de meninos. De todas as instituições citadas neste estudo. O que gerava desconfiança nas famílias e nos jovens? Trabalharemos com hipóteses construídas a partir de informações. Supõe-se. quando foi reaberta sob o nome de Instituto Amazonense de Educandos Artífices. pinçadas 280 Termos empregados nas solicitações de 1878 e 1882. O temor despertado na população por algumas instituições educativas governamentais tem sua análise bastante dificultada pelo fato dos autores da documentação jamais se dedicarem ao assunto. sendo três indígenas. No primeiro ano de funcionamento existiam apenas 58 asilados. com 98 educandos. a demanda por vagas no Asilo era crescente. Preparar cidadãos úteis à pátria e excelentes filhos pela ordem. chegando a 430 asilados em 1892. a Casa amazonense contou com poucos educandos: apenas dezessete. incorporando valores caros à década da libertação do ventre da escrava. portanto.8. Os termos das cartas se sofisticam. superadas com o tempo. que não havia demanda por parte da população por este tipo de instituição. algumas fugidias. Ao contrário. se computasse a quantia consignada para esse utilissimo serviço. o número de educandos sofreu um aumento. A partir de 1883. trabalho e moralidade era tarefa apropriada às instituições do Estado.

1992.de textos dos atores sociais que. qualquer ingerência sobre a família. BITTENCOURT. pais ou responsáveis procurassem internar seus meninos para que fossem instruídos nos ofícios manuais. dirigidas a expostos. 1992. ANJOS. em meados do século XIX o trabalho manual carregava todo o estigma que o associava à escravidão. não eram instituições militares. 1991. o preconceito não impediu que superadas as desconfianças iniciais. A tônica da “educação condigna”. e mais do que isso. VENÂNCIO.a partir de 1840 . MESGRAVIS. as crianças aprendiam a ler. 1997. por motivos diversos. e como era comum nas classes populares recorrer-se ao trabalho dos filhos. que surgem paralelamente às Companhias Aprendizes Marinheiros. desvinculado do Estado. 1993. 1997a. 1988. Nas escolas públicas. 1990. O diretor José Antonio Falcão nos dá a entender que as famílias precisaram de uns meses para perceber a “constância” do trabalho proposto. VENÃNCIO. 282 Há uma significativa produção historiográfica sobre assistência aos expostos e órfãos. A assistência à infância era dominada pela caridade de irmandades religiosas.vadios ou mendigos. escrever e a contar. 1999). representaram uma novidade no cenário do ensino da educação profissional. Que temores seriam estes? Em termos de instituições de formação profissional só existiam os arsenais militares. 1997b. a freqüência muitas vezes era sazonal. 1987. Mas. não havendo qualquer iniciação profissional. voltada para a formação do “bom cidadão” cresce ao se aproximar a década de 1870. OLIVEIRA.tiveram que superar os maiores temores ao ingressar nestes estabelecimentos. as primeiras gerações de educandos . pois embora absorvessem os métodos pedagógicos da caserna. As Casas de Educandos. 1990. GERTZE. A tônica era mais de castigo/repressão do que de educação. 1991. estavam envolvidos com os estabelecimentos. 1995. fazendo com que os Institutos recebam um número maior de pedidos de ingresso do que podem atender. a partir da criação das Casas dos Expostos pela Santa Casa da Misericórdia. onde era comum o envio de meninos recolhidos nas ruas . MARCÍLIO. Portanto. LIMA. 1997. Ter os filhos sob a tutela do Governo da Província era algo novo no cenário da educação e da assistência da época. LIMA. Os pais tiravam as crianças das escolas quando bem queriam. Em primeiro lugar. 258 . 1975. Constância na qualidade do atendimento ou constância da ação governamental? Talvez os dois aspectos tenham contribuído para minimizar as desconfianças. A função de ensinar um ofício ao jovem sempre ficara no âmbito doméstico. GONÇALVES. 1986-1987. em várias cidades brasileiras nos séculos XVIII e XIX (ALMEIDA et al. abandonados e órfãos282.

Portanto.Outro fator estava na percepção do valor da educação . por considerar inconveniente o convívio com os menores e. 3/1/1881 (Arquivo Público do Pará). mostrando que nas situações de moléstia. vendo nesta última o risco da transmissão de vícios por parte de “pais pobres e ignorantes”. o diretor confronta a educação institucional com a educação doméstica. Um dos motivos que aparecia no Asilo de Meninos Desvalidos e no Instituto Paraense de Educandos Artífices era a necessidade do aluno prover a subsistência da mãe e dos irmãos. 259 . contudo um ofício do diretor demonstra que em dado momento.284 Outra questão revelada pela correspondência entre a direção do Instituto Paraense e a Presidência da Província refere-se ao tratamento dos internos doentes. além de reivindicar a tutela dos internos em todas as situações de suas vidas. ao se opor à saída provisória dos órfãos desvalidos e dos pobres. poderiam liberar as vagas para outros meninos desvalidos e pobres. No corpo documental. porque é minha opinião que não devem sair provisoriamente d‘este estabelecimento por motivo de molestia 283 284 . Assim o diretor Manoel Joaquim Fernandes Penna inicia a sua contestação: “Não fui minucioso em meu officio n. A retirada de crianças das instituições pela família era feita mediante requisição à diretoria ou ao Governo da Província.645 enviado a V. os pais o tiravam da escola. os familiares preferiam ter os meninos junto a si.A respeito. Não há nenhum indício na documentação consultada de que as instituições dificultassem a saída dos educandos. já sabendo trabalhar. ver os capítulos 1 e 2 deste estudo. O diretor do Instituto Paraense defendeu junto ao Presidente da Província o desligamento dos educandos entre 18 e 20 anos. Oficio do diretor do Instituto Paraense ao Presidente da Província. argumentando serem eles adotados pela Província. Estes pedidos geralmente encontravam a benevolência dos presidentes. é comum surgirem ofícios versando sobre pedidos de pais e protetores para realizar o tratamento de educandos em suas casas. onde se expunham os motivos do pedido de desligamento. Os pedidos de desligamento são analisados no capítulo 4. sobretudo os de maior idade. obrigando as famílias a abrirem mão do convívio e do trabalho dos filhos. a direção resolveu confrontar a prática.Ex na parte que me foi apresentada pelo medico do estabelecimento.283 Nas Casas de Educandos.diretores de instrução pública se queixavam que assim que o aluno aprendia a assinar o nome. os meninos ficavam sob a tutela integral do g overno.

integrados ao mercado de trabalho urbano.E que entretanto resolverá o que achar mais acertado na sua alta sabedoria”. pois a saída com pouca idade “seria para elles. onde o trabalho das crianças não era absolutamente desprezado. o qual. p.286 A Colônia. com uma população predominantemente mestiça ou de origem indígena.educandos n’elle admittidos na forma do art. a situação é bem diferente. que os veste. isto é. 1886. O diretor da Colônia Isabel queixa-se que recebia vários pedidos de retirada de colonos por parentes e tutores. Na Casa do Amazonas.”285 Este ofício demonstra que o próprio governo orientava os diretores no sentido do encaminhamento de doentes para suas casas. 260 . ?/6/1886 (Arquivo Público do Pará).2. vinculada à economia extrativista e rural. Em Manaus. pela simples razão de que são elles adoptados pela Provincia. no levantamento feito por ordem da presidência. que os internavam alegando grande pobreza. 1º do regulamento em vigor. além do ensino de ofícios. Fidelis Maria de. muitas famílias deviam ver nas suas propostas educacionais a possibilidade dos filhos ascenderem social e economicamente. e por vários motivos “infundados”. promovia o ensino agrícola. O frei temia que a instituição estivesse sendo desvalorizada e tratada como “uma casa de pouca importância”. é bem menos provável que as famílias concordassem em abrir mão de seus filhos. não era muito valorizado pelas famílias que o identificavam com o trabalho escravo. orphãos desvalidos ou jovens menos favorecidos da fortuna. 286 FOGNANO. inevitável perdição”. cura e ensina. pois significava investimento perdido e o não cumprimento das finalidades da instituição. No entanto. o diretor não deixa de concluir o oficio dentro da formalidade do cargo: “É o que me cumpre informar a V. Da lista de doentes apresentadas pelo médico do estabelecimento. As temporadas de pesca requeriam o 285 Ofício do diretor do Instituto Paraense de Educandos Artífices ao Presidente da Província. Fognano resistia à idéia de liberá-los. tempos depois solicitavam o desligamento. alimenta. como as Casas de Educandos. A interrupção da formação do aluno não devia agradar à direção. todos os familiares e protetores se mostraram favoráveis ao acolhimento dos meninos. no âmbito das instituições que surgiram dentro do contexto urbano. Apesar de emitir opinião contrária à medida. e pelo risco de voltarem viciados das cazas de extranhos ou dos paes pobres e ignorantes.

nessa operação leva-se mezes. o Presidente da Província Antonio Epaminondas de Mello. 03/05/1859. pescar. Em 1866. educando-lhes os filhos. ou para outra qualquer colheita de productos naturaes. 1997. Patrícia Sampaio aponta que desde finais do século XVIII. como o cultivo de roças ou dedicadas à pesca. garantia de sua sobrevivência nos meses seguintes. de uma estreita combinação entre a agricultura e a coleta de produtos extrativos em uma economia de pequenas e médias unidades de produção. escarmentados por perseguições e cruezas seculares. no Amazonas. p. tutor ou protector arrasta-o para o seringal.288 A história de exploração e escravização dos índios na região é apontada pelos governantes da Província como um dos fatores importantes para o afastamento das crianças das instituições educativas. SAMPAIO. 24/6/1866. p. 261 .auxílio de t oda a família. porque seu pae. O presidente Francisco José Furtado. de sorte que vê-se qualquer creança remar. pois ao passo que se inicião na civilização as novas gerações. “A reprodução do estabelecimento por outros pontos da Província (. mas não a freqüenta.8. Investir na “educação dos meninos índios” foi a solução proposta pelo autor como uma estratégia para neutralizar a representação negativa que tinham dos civilizados. Patrícia.) é o meio mais seguro e conveniente de aproveitar os restos das tribus indigenas. referia-se às “desconfianças e ressentimentos dos pais” pelas “perseguições seculares” que sofreram..78. se queixou da resistência dos responsáveis em deixar seus filhos freqüentarem a escola: “O menino que tem oito anos..”289 287 288 RPAM. matricula-se na escola. voltada para a subsistência e/ou o abastecimento do mercado interno. 289 RPAM. se desarmão as desconfianças e ressentimentos dos pais. que póde prestar qualquer serviço. relatos de viajantes indicam a existência. p.321. menos saber ler e escrever. fumar e embriagar-se.”287 Famílias que viviam nas proximidades de Manaus e de outras localidades se dedicavam a atividades caracteristicamente rurais. um ano após a fundação da Casa dos Educandos.

Um ano após a criação da Província do Amazonas. devendo prestar contas de seu trabalho ao diretor geral de índios de sua província (Decreto n. para os “infantes de um e de outro sexo”. O estabelecimento de educandos fora reaberto sob a administração de Paranaguá. 292 RPAM.290 Pelos relatórios provinciais.55. 293 RPAM. p. providenciou para que o estabelecimento de Educandos pagasse as passagens dos chefes que preferiram acompanhar os meninos à capital. parece-nos que o estabelecimento encontrou dificuldades para superar tais desconfianças e enfrentou obstáculos bem concretos para o preenchimento de vagas destinadas aos meninos indígenas. pode-se supor que as meninas fossem encaminhadas para o trabalho doméstico em Manaus e nas povoações. Assim.293 Ao que parece. 07/09/1858. cujos resultados desconhecemos. O principal obstáculo consistia na prática corriqueira de escravizá-los. por autoridades locais ou por diretores das aldeias291. poderia-se “utilisa-los para o trabalho e para a civilisação”. 01/10/1853. p. e só casualmente pelos seus próprios parentes. denuncia que um grande número de meninos e meninas indígenas era entregue ou “doado” (grifo do autor) a particulares. de 24/7/1845). com o fito de “obter menores indigenas de varias tribus”. 262 . p. em fala dirigida à Assembléia Legislativa. O presidente José Lustosa da Cunha Paranaguá. houve um efeito imediato que consistiu na concordância das famílias ou chefes indígenas em enviar meninos para o Instituto. Conselheiro Herculano Ferreira Penna. Furtado defendia o aldeamento dos “selvagens” e a criação de “casas de educação”. pois Paranaguá afirma em seu relatório à Assembléia Provincial que. buscando fazer os chefes e os pais compreenderem “as vantagens de darem aos menores uma educação útil e proveitosa”. O 290 291 RPAM. O diretor de aldeia era nomeado pelo Presidente da Província para a administração da aldeia. Não apresenta maiores detalhes a respeito do tipo de exploração a que eram submetidos. o presidente provincial. e os meninos. 25/3/1883. 426.21.Para “salvar os restos dessa raça infeliz. que ainda orça por muitos mil”. pelas denúncias contidas em outros relatórios. para a extração de produtos naturais. porém.35.292 O ingresso de indígenas na Casa requeria uma ação deliberada do governo provincial junto às aldeias de índios. Fazer os chefes indígenas conhecerem o estabelecimento era uma estratégia para angariar mais crianças. entre os 119 alunos matriculados havia “muitos de raça indígena”. sob a “expectativa geral” de que representasse “um grande elemento de vida da Província”.

atingindo o seu ápice no início da República. A instrução dos meninos e das meninas sofreu um importante incremento nas províncias. Esta trajetória rumo à civilização e à cultura européias já se delineava no Segundo Reinado. 263 . não só em termos de crescimento populacional. como a escola normal. em parte. Sob a égide do movimento “ilustrado”. quando segmentos das elites brasileiras. cresce a migração nortista para a região. p. a geração de intelectuais das últimas décadas do século XIX se propõe a “ilustrar”.294 Foi justamente na década de 1880 que o estabelecimento deu um salto em termos de número de internos. a partir de década de 1870. período no qual as instituições educativas prosperaram. Sobretudo. principalmente a cearense. como em sua urbanização. Roque Spencer Maciel de. p. A demanda por vagas aumenta. obstáculos a serem transpostos na difícil caminhada rumo ao mundo civilizado. Na Bahia. propiciado pela exploração da borracha. principalmente a partir da década de 1870. Manaus estava iniciando um período de “fausto”. a “iluminar” o país.. a biblioteca pública e o museu botânico. percebido como decorrência do trabalho escravo e da existência de uma enorme população distanciada dos preceitos ditados pela civilidade. já funcionando como Instituto Amazonense. no poder das idéias e da educação. quando houve um significativo investimento na educação pública e se assentaram iniciativas em homenagem à cultura e ao conhecimento científico. A Casa Pia manteve uma boa procura durante todo o Império. A cidade sofre mudanças.9. Nos mapas de alunos da Casa de Educandos começam a surgir muitos meninos naturais do Ceará. viveram um momento eufórico de uma grande crença na educação. caracterizado pela crença total na ciência. a população mais empobrecida reconhecia a importância da instituição para a criação de seus jovens. BARROS.295 Acreditava-se no 294 295 Ibid. passando para mais de uma centena em 1884.Instituto é louvado por Paranaguá como um “importante foco de educação”. pela ciência e pela cultura. “um templo ás artes e á educação da mocidade”. sob a influência do movimento ilustrado.34. aclamada como um instrumento fundamental para superar o atraso do país. ao final da década de 80 do século XIX. mas os índios tinham fortes motivos para desconfiar da educação oferecida pelos “civilizados”. 1986.

arrastando nas trevas uma existencia cheia de perigos e sem gosos sociaes. o número total das escolas primárias públicas foi duplicado nos anos 1870/80 . traçados pela sua origem. é um grande passo dado em favor do progresso moral dos nossos comprovincianos. tem bôa letra. que adquirio habitos regulares de vida. cidadãos que. com destaque à Corte. da família e da sociedade: “O ensino das artes e officios á classe desfavorecida da fortuna. Alessandra Frota. 264 . mas educar os indivíduos dentro dos princípios morais e religiosos vigentes. É este estabelecimento digno da maior solicitude dos administradores e legisladores desta provincia. em 1884 este número salta para 148 (MARTINEZ. como bem demonstra Alessandra Martinez (1997). em prol de si mesmo. que conhece as quatro operações arithmeticas (. neste período. 10/3/1887.. de pescadores.).298 No ano de 1870. ou collectores de productos silvestres. 298 RPAM. p. que corrente e correctamente saber lêr. o Presidente da Província do Amazonas. Verifica-se.296 Portanto. sob a concepção de que a educação “fórma o coração infiltrando n´elle nobres sentimentos. as escolas industriais e agrícolas que associavam a instrução elementar ao ensino profissional. 1997). a escrever e dar conhecimentos gerais e elementares.13. Um educando. pela sua origem.. estaria votada a não passar de tripolantes de pequenas embarcações. não esquecendo que a preparação do trabalhador (disciplinado. só por excepção e 296 Na cidade do Rio de Janeiro. que houver feito a sua aprendisagem. que reconhece o seu lugar e respeita as hierarquias da vida social) era uma necessidade que se impunha para o Estado e para a produção.297 Tornar os asilos espaços de formação profissional. o Tenente-Coronel João Wilkens de Mattos. 297 MARTINEZ.poder da instrução para superar o atraso e a barbárie dos hábitos e da cultura popular.em 1870 eram 47 escolas. assim expressou o seu entusiasmo com o poder da educação em transformar os destinos dos desvalidos. atenderia à necessidade dos setores populares de preparar seus filhos para o trabalho. Está elle fadado á derramar pela nossa escassa sociedade. teem de concorrer com seus conhecimentos artisticos para o progresso material da provincia. á classe de cidadãos que. ao passo que a instrução sómente desenvolve e illustra o entendimento”. o termo instrução tinha uma conotação bem mais ampla do que ensinar a ler. um considerável incremento do investimento dos governos provinciais na instrução pública. É neste período que florescem os institutos profissionais. recebendo uma instrucção primaria regular. além das demais funções. 1997.

” 299 Era justamente esta classe desfavorecida da fortuna o sustentáculo da economia amazonense. analisaremos a acidentada história do estabelecimento de educandos artífices de Manaus. p. surgiu o Instituto Paraense de Educandos Artífices. util á si. 299 RPAM. e á sociedade. As duas instituições constituem os objetos de análise do próximo capítulo. coletando e transportando produtos silvestres. a caça e a pesca. 265 . Sustentariam os sucessores de Wilkens de Mattos o entusiasmo deste paraense em transformar os amazônidas em operários urbanos? No capítulo 4.15. á sua familia. o qual.muita infelicidade deixará de ser um bom cidadão. caminhava para a extinção quando. 25/3/1870. em meio a grandes esperanças com relação ao futuro da Província do Pará.

criados pelos governos provinciais do Amazonas e do Pará e instalados nas capitais. caracterizadas pelo preparo de artífices dentro dos ofícios artesanais necessários à vida civil e militar da época. ferreiros. por uma grande depressão ocasionada pela queda da bolsa em 1873. Após 19 anos de existência. provenientes de famílias pobres ou desvalidas. semelhante à caserna. analisamos o surgimento das instituições de formação profissional do Segundo Reinado. neste período. tais como. e dependendo da idade de admissão. úteis a si. instalando em Belém o Instituto Paraense de Educandos Artífices. Extinta em 1852. transcrevendo os valores do déficit das províncias brasileiras. em 1840. chegando a atender a 98 educandos em 1872. à família e à pátria. O preparo de músicos para as bandas que se apresentavam em eventos públicos e privados constituiu um objetivo bastante valorizado destas instituições. lá permaneciam por cerca de dez anos. entre outros. tutores ou protetores. Já o Amazonas não conheceu um período tão grande de interrupção na educação dos meninos desvalidos. 1 Cinco anos 1 O jornal A Província do Pará anunciou a ameaça de bancarrota do Pará. A finalidade consistia em tornar paraenses natos. O mundo capitalista passava. o estabelecimento foi extinto em 1877. A Casa de Educandos Artífices de Manaus foi criada por lei quatro anos após o nascimento da Província do Amazonas e instalada em 1858. funileiros. somente em 1872 o governo paraense voltou a investir no preparo de meninos desvalidos para o trabalho artesanal. A Casa dos Educandos do Pará foi a primeira a surgir no país. marceneiros. Meninos entre 7 e 14 anos ingressavam nos estabelecimentos a pedido de pais. determinando a emergência de uma nova era do capitalismo internacional. desenvolvidas no Norte Amazônico. Neste capítulo.Capítulo 4 Instituições asilares de formação de artífices na Amazônia Imperial Os educandos de Belém e Manaus No capítulo anterior. Trata-se dos estabelecimentos de educandos artífices. atribuindo a “obra” à situação conservadora (15/12/1876). alfaiates. com o fim da era do triunfo 265 . focalizamos duas experiências oficiais de educação de aprendizes artífices. vivendo sob rigoroso regime disciplinar. em meio à crise financeira que assolou as províncias brasileiras neste período. sapateiros.

tinham grande apreço às suas instituições educacionais e mantinham-se especialmente vigilantes quando as liberal (HOBSBAWM. mantida pelo governo estadual. sob o domínio liberal. tornando-se alvo de críticas por parte de liberais e conservadores. Eric J. neste priorizamos as mudanças institucionais e educacionais em andamento na década de 1870.14). Se no capítulo anterior. A instituição paraense se conservou por longos anos. Ambas as instituições sobreviveram à mudança de regime político e viveram um período próspero nos primeiros anos do século XX. Entre 1875 e 1877. com muitos pedidos de desligamento por parte dos familiares e deserções de aprendizes. em regime de externato. denominando-a de Instituto Amazonense de Educandos Artífices. 2001). as denúncias da imprensa fomentaram o debate da necessidade de uma reforma drástica da Casa. As fontes desta análise centram-se nos artigos e notícias dos jornais das duas províncias. p.depois. A “grande depressão” de 1873-1896 gerou a “crise do Norte”. em grande parte. o estabelecimento amazonense sucumbiu às mudanças do ensino profissional. esquecido da antiga experiência “desaparecida” dos anais da história educacional paraense na época. observando as inovações educacionais absorvidas por estas instituições na década de 1870. o Instituto Paraense nasceu em meio a grandes expectativas quanto à promoção do progresso e da civilização na Província. que se desvinculava da política local ao se tornar uma meta do governo federal. permitindo. as províncias amazônicas. No caso do Pará. como outras do país. como já analisamos no capítulo 2. dependente das exportações de matérias primas ao mercado internacional.. instaladas em edifícios grandiosos. Centramos a discussão no período de extinção e ressurgimento da instituição em 1882. construídos para o fim educacional. os quais. com a fundação das Escolas de Aprendizes Artífices. Com uma economia. Nos anos 1870. o Amazonas reinstala a instituição. o estabelecimento amazonense viveu intensa crise. o Instituto surgiu em 1872. se ressentiram com a retração econômica. 266 . quando praticamente o açúcar e o algodão nordestinos foram eliminados do mercado internacional (MELO. Evaldo Cabral de. A antiga Casa de Educandos não deixou vestígios – aos poucos a verba e o número de educandos aprovados pelas leis orçamentárias da Assembléia Provincial do Pará foram minguando e o estabelecimento adentrou nos anos 1850 em ritmo de decadência. Ao final da primeira década republicana. abordamos o surgimento das instituições desde as primeiras iniciativas em 1840.nos o conhecimento mais apurado da vida institucional. Tal como o amazonense. 1984.

isto 2 A respeito da visita de Wilkens de Mattos. quatro meninos fugiram da Casa de Educandos de Manaus e rumaram para a freguesia de Serpa. As fontes são apresentadas com maior acuro na medida de sua utilização. Educandos do Amazonas Em novembro de 1869. Iniciamos o capítulo com a análise da experiência amazonense. O paraense W. tendo ocupado vários cargos na administração pública. Armados com um chaço e facas. 2 Ao término de sua missão. verificando o estado de duas instituições que não podiam faltar nos núcleos populacionais da Província. Três dos meninos reagiram à pena de prisão no estabelecimento. que ao tempo do surgimento do Instituto Paraense. os almanaques e as demais obras. Foi cônsul do Brasil na Guiana Francesa e na cidade de Loreto. No mesmo período. São ofícios manuscritos. escondendo-se num sítio situado a nove léguas da vila. o Presidente do Amazonas. João Wilkens de Mattos. ao longo do texto. os relatórios oficiais.ingerências políticas obstruíam os seus objetivos educacionais. de volta a Manaus. imposta pelo presidente. Peru. depositados no Arquivo Público do Pará. 267 . ordenou a captura e levou os desertores consigo. recebeu o titulo de Barão de Muriuá (Adaptado do resumo biográfico elaborado pela Biblioteca Pública do Pará). Em maio de 1889. o paraense e tenente coronel. portarias e ofícios impressos nos permitem visualizar as expectativas e intenções dos legisladores e das administrações provinciais quanto ao destino dos institutos. são fundamentais para uma leitura mais isenta das paixões partidárias e do fazer cotidiano das instituições. nascido em Belém. visitou as escolas públicas e as igrejas de Serpa e Silves. além de deputado provincial no Pará e deputado geral. arrombaram a prisão e tentaram evadir-se. ressurgindo uma década depois de implantada a segunda tentativa do Governo do Pará na educação de artífices. ciente da fuga dos educandos. A tentativa frustrada de fuga resultou em castigos determinados pessoalmente por Wilkens de Mattos para dois deles. caminhava para o seu fim. A correspondência entre os presidentes do Pará e os diretores do Instituto Paraense constitui fonte privilegiada neste capítulo. que retratam as iniciativas de formação profissional das províncias. Leis. era formado em matemática e engenharia civil nos Estados Unidos. os quais proporcionaram a análise do controle presidencial sobre a instituição e de uma fração de sua vida cotidiana. ver capítulo 1. sendo a pena disciplinar máxima arbitrada.de Mattos. Por fim.

serventes e remeiros. Os meninos músicos se destacaram na inauguração da Companhia Fluvial do Alto Amazonas. o Correio de Manáos publicou outra notícia envolvendo os educandos. para onde afluíram “grupos de pessoas de todas as classes. No mesmo número do jornal. em parte. nas mãos de educandos que ocupavam cargos como os de fiel. Cerca de duas semanas após o incidente. No relatório de 4/4/1869. 268 . relata em detalhes a inauguração da Companhia Fluvial. desta vez. a banda tocou todo o tempo. A festa começou pela manhã. grandes e pequenas”. composto pelos meninos da banda de música. 10/12/1869. tendo recebido visitantes tais como os viajantes Avé-Lallemant (1859). agente. com o almoço a bordo. enfermeiro. o ingresso na Marinha. tocaram “uma de suas melhores execuções” à chegada do Presidente da Província. casal Agassiz (1865). 6 Correio de Manáos. Mattos afirma que visitava o estabelecimento uma vez por semana e fornece informações sobre o adiantamento e as dificuldades dos educandos (p. cujas atividades estavam. Coudreau (1887) e o Bispo do 3 4 Correio de Manáos.26). a bordo do vapor Madeira. as administrações provinciais não mantiveram tamanho contato e controle sobre o andamento cotidiano da instituição. O estabelecimento amazonense não era exceção.é. 3 O presidente não emitiu as ordens de seu gabinete – fez-se de corpo presente na punição dos meninos. a instituição exibe os troféus d o sucesso educacional e encarcera e expulsa aqueles que podem expor os seus fracassos. um folhetim assinado por O Pacheubas. 6 Nos seus dez anos de existência. fazendo conhecer seus progressos. A autoridade máxima da Província se empenhava para manter a ordem na instituição. que nos anos seguintes. 4 Veremos. destacando “os harmoniosos sons dos instrumentos dos nossos aprendizes Educandos”. visitando-a semanalmente. Era costume nas províncias a promoção de visitas às instituições educacionais de maior prestígio quando viajantes nacionais e estrangeiros ilustres chegavam às capitais. que durou até oito da noite. 10/12/1869. mais adiante. 5 Nestes eventos. 5 Correio de Manáos. livreiro. 26/11/1869. pelo brilho dos educandos. a instituição adquiria visibilidade para toda a sociedade de Manaus. os quais. Durante o passeio até a boca do Solimões. o grupo que proporcionava grande satisfação à instituição e à administração provincial.

e a paraense se viu envolvida nas fraudes de um almoxarife. e não costumam constar dos relatórios oficiais. notório mau comportamento ou escasso aproveitamento dos alunos. quando a urgência da Guerra do Paraguai fez com que rapazinhos fossem enviados diretamente das Escolas de Aprendizes à Armada Imperial. 8 A Constituição.Pará acompanhado do Bispo do Rio Grande do Sul (1872). A visita dos bispos ao Amazonas encontra-se anunciada no jornal da diocese paraense A Boa Nova.” A posição provocou o comentário irônico do um deputado conservador que considerou a disposição ilegal: “É um liberal que assim falla!” 8 Não é absurdo imaginar que. impondo ao seu chefe a urgência de debelar a indisciplina. porém os responsáveis variavam conforme a orientação política do jornal. Os embates da imprensa. a saber. Assembléia Legislativa Provincial. sob o enfoque 7 As visitas dos estrangeiros foram abordadas no capítulo 3. 9 A respeito das repercussões do recrutamento nas instituições educacionais. em 1869. certamente causou impressão no corpo de educandos e mesmo no pessoal da Casa. motivados pela orientação política das folhas. rebeliões e fugas surgem fugazmente na imprensa. Os liberais defendiam a pena máxima do envio dos educandos considerados incorrigíveis para assentar praça nas companhias de marinha. Nenhuma das ocorrências pôde ser negada. O ingresso forçado na Marinha era tido como uma pena das mais cruéis. ver capítulos 5. Sobre o envolvimento do Bispo do Pará com a educação popular. 29/5/1883 (Pará. 269 . quando a Casa amazonense foi acusada de nenhum proveito trazer a seus alunos. 2/11/1872. Eventos de tal natureza encontraram ampla repercussão em jornais de Manaus e Belém. prontamente determinado pela autoridade. O castigo exemplar. 9 Os relatos de conflitos. a imprensa se mobilizava para atacar ou defender seus correligionários ou opositores políticos. ver capítulo 1. tido por “estabelecimento modelo. pela discussão engendrada entre deputados liberais e conservadores na Assembléia paraense no ano de 1883. são analisados no capítulo 2 deste trabalho. o ingresso na Companhia fosse também rejeitado pelos meninos e pelas famílias. quando obtiveram ampla receptividade do governo e da população. Em períodos de crises mais agudas. como fraudes no emprego do dinheiro público. Sessão ordinária em 31/3/1883). 7 A atuação direta do presidente na correção dos desvios dos educandos demonstra a importância que a instituição adquiriu para a Província. a exemplo do regulamento da Casa de Educandos do Maranhão.

transferindo esta última função aos educandos maiores. Reformando o Estabelecimento dos Educandos da Provincia do Amazonas. fazendo todo tipo de serviço no estabelecimento. 15/7/1875. 1/7/1875 e 4/6/1874). vindo ao Jornal do Amazonas (20/7/75). a ocupação do cargo de enfermeiro por educando era prevista pelo regulamento e o emprego dos alunos nos serviços da Casa foi apontado em outras circunstâncias. Segundo o artigo do Commercio do Amazonas de 15/7/1875. de 40 para 100. 48).329 de 25/5/1875. O citado expediente oficial demonstra que o Governo da 10 Lei n. extinguiram-se igualmente os lugares de capelão. capitão de Mar e Guerra Nuno Alves Pereira de Mello Cardoso. extinguiram-se as oficinas de torneiro. mediante gratificação. o ofício de livreiro era exercido por um educando e que educandos já serviam como enfermeiros e serventes. e eliminou-se o cargo de professor de primeiras letras. 270 . sob “publicação solicitada”. 12 Commercio do Amazonas. o Vice-Presidente da Província. Só retomaremos a discussão nas situações em que as paixões partidárias motivaram ou rondaram os debates. a serem designados semanalmente pelo diretor. isto é. 12 De fato. preocupado com os riscos da instituição decair caso não houvesse a intervenção ágil e firme do governante.000$000 e o aumento do número previsto de educandos. 11 Pelo expediente de junho de 1875.da instrução elementar ministrada nas escolas públicas. gastou-se no exercício anterior mais de 70 contos de réis com o estabelecimento. Duas medidas aprovadas pela Assembléia amazonense ao fixar a despesa e orçar a receita provincial atingiram duramente a Casa dos Educandos em 1875: a redução da verba de 44:066$640 para 40. a alfabetização e a formação de oficiais artífices para servir à Província. 25 de 8/2/1873. enfermeiro e servente. acordado com o diretor do estabelecimento dos educandos. que deveria passar a ser exercido pelo escrivão. a defender o Governo da Província e o diretor dos educandos contra as críticas do Commercio do Amazonas. Na resolução do governo. de ferreiro e de livreiro. O fato é que nos anos seguintes. Lei n 302 de 13/5/1874. extrapolando a verba orçamentária. os confrontos e as acusações concernentes às instituições profissionalizantes. o estabelecimento não atingiu o progresso desejado. art. major Felinto Elisio Fernandes de Moraes. (Regulamento n. O jornalista do Commercio do Amazonas denuncia que capelão nunca houve. Não sabemos se Wilkens de Mattos cuidou pessoalmente em garantir a disciplina e a educação no estabelecimento. 10 Em seguida. determinou que a junta de fazenda do tesouro provincial indicasse os meios de cortar despesas no estabelecimento. 11 Relato de Justus. O regulamento em vigor determinava que o número de educandos seria fixado anualmente pela Assembléia Provincial. Fixa a despeza e orça a receita provincial. idem (Commercio do Amazonas.

No mesmo jornal. e a prestar contas da quantia recebida.los como sendo de uma só autoria. e o segundo. O controle sobre o uso do dinheiro se estendeu à quantidade de peças de roupas e calçados destinados aos internos e ao tempo de duração de cada uma. Somente um dos artigos recebeu assinatura – a defesa escrita pelo professor de primeiras letras Alexandre R. importância a ser entregue ao diretor. Antonio dos Passos Miranda. termo empregado pela crítica feita no Commercio do Amazonas aos cortes sugeridos pelo diretor. As rubricas de alimentação e vestuário também foram atingidas pelo “principio de economia política”. o Commercio do Amazonas. Do outro lado da contenda. obrigado a usá. O autor aproveita para culpar a Assembléia Legislativa Provincial por aprovar atos incoerentes. contra o 1º vice-presidente da Província. 14 Justus associa as críticas do opositor a uma suposta tentativa de indispor o novo presidente recém-chegado à Província. Ramiro e Silva em favor de sua atuação no estabelecimento. variáveis fixadas em uma nova tabela. A linha de argumentação é a mesma em ambos os textos. 13 A reação da imprensa à deliberação governamental foi imediata: em cinco artigos de julho de 1875. identificou o texto de sua autoria como “de interesse publico”. Jornal do Amazonas. 20/7/1875.la de conformidade com a tabela aprovada pela presidência.Província não estava totalmente inteirado do funcionamento diário da instituição e que a propalada influência do diretor nas decisões da junta do tesouro pode ser questionada. esquivando-se de apresentar-se. o jornalista que combateu as resoluções do governo. Marcou-se uma etapa de quinhentos réis a cada educando para comedorias. em resposta ao Commercio do Amazonas. bem mais longo. colaboradores e jornalistas das folhas Commercio do Amazonas e Jornal do Amazonas partiram para o duelo. defendendo o diretor e o governo em dois artigos. 271 . cujos argumentos esclareceram aspectos importantes do funcionamento institucional e dos resultados da formação junto aos internos. O primeiro artigo foi publicado “a pedido”. aparece Justus no Jornal do Amazonas. aparece na primeira página do jornal como assunto de interesse público. Jornal do Amazonas. podemos tratá. quando nega existir interesses ofendidos. 3/7/1875. 12/7 e 20/7/1875. negando ao administrador “os meios mais indispensáveis a boa direcção nos diferenttes ramos do serviço publico”. Nuno Alves Pereira de Mello 13 14 Commercio do Amazonas.

20/7/1875. a reforma da instituição: “Não ha duas opiniões sobre a utilidade d'instituições desta ordem. major Felinto Elisio Fernandes de Moraes.Cardoso. e o diretor dos Educandos Artífices. enquanto seu opositor pretende representar o interesse público. configurandose um grande “arranjo de família”. o futuro dos educandos. por conseguinte. Entregar ao diretor o dinheiro da alimentação dos educandos era prática já ensaiada. 272 . mas discordam quanto ao remédio a ser aplicado para sanar os abusos que pareciam ocorrer em todos os níveis hierárquicos. como os de dois exdiretores que estariam visando tomar a instituição por arrematação com a certeza de conseguir posteriormente a remissão da dívida por parte da Assembléia. temendo que os meninos se tornassem vítimas da economia do governo. Como se apresentava esta decadência? 15 16 Jornal do Amazonas. mas é indispensável que as cerquem de elementos de prestigio para bem prehencher o seu fim.”16 O Commercio do Amazonas lançou a primeira pedra: culpou o diretor pela decadência da instituição. setores do governo e da sociedade se mobilizaram para denunciar a sua “decadência”. produzia queixas contra a probidade deste funcionário. interesses escusos. 15/7/1875. e não se faça delles simplesmente um arranjo de familia. ao iniciar o seu longo artigo em que combateu. E como afirmou o crítico. Commercio do Amazonas. por trás das críticas. Eliminar oficinas de que a Província era carente e o cargo de professor elementar condenaria a formação e. empregando Justus a expressão de seu inimigo. Dois aspectos eram da concordância de todos: o estabelecimento sobrecarregava o erário público e não correspondia aos seus fins. O interessante é que somente com a iniciativa da Assembléia Provincial em conter os custos da instituição. O missivista vê. que segundo o autor do artigo. 15 Justus representa o próprio governo e a direção da instituição. Os dois lados da contenda revelam os problemas que a Casa vinha enfrentando na condução de sua missão institucional. ponto a ponto.

O jornalista do Commercio do Amazonas. a instituição os faz regredir. O professor segue buscando os culpados pela situação.” 17 A acusação é grave. em detalhado artigo ao Commercio do Amazonas. profissional. 15/7/1875. é quem desfia primeiro o rosário da incompetência educacional da instituição. Ramiro e Silva reconhece a “dura verdade” do pouco ou nenhum aproveitamento e até a regressão dos educandos na escola de primeiras letras. mas responsabiliza somente o professor pelo atraso dos alunos. Vamos à defesa apresentada aos leitores: 17 18 Commercio do Amazonas. o principal indicador de fracasso repousava na sua missão mais importante que era a da formação elementar. e na Amazônia em particular: a abolição dos castigos físicos nas escolas e a educação das crianças indígenas. como atestam os partícipes do debate. no Brasil em geral. não vinha sendo cumprida. 18 A referência à suposta proteção do professor é breve e ausente de esclarecimentos. moral e religiosa dos meninos. já que ao invés de promover o avanço dos meninos. A causa? interroguem o ex-professor despedido d'aquelle estabelecimento. A finalidade primeira das instituições de educação popular do período. que não estaria cumprindo os seus deveres cotidianos. recorrendo a um argumento capaz de mover o mestre do lugar de expectador: ele seria um “protegido”. neste capítulo representada pelas duas folhas opositoras. e elle o dirá com lisura. incitando à manifestação os envolvidos. “Educandos ha que tendo entrado para alli sabendo ler e escrever. 273 . Justus não nega o fato. 20/7/1875. que consistia no ensino das primeiras letras. expõe e esmiúça as práticas educacionais e disciplinares do estabelecimento dos educandos de Manaus. focalizando dois aspectos importantes para a discussão das instituições educacionais do século XIX. Commercio do Amazonas e Jornal do Amazonas. que passaremos a chamar de simplesmente “o jornalista”. regida por ele. contudo foi suficiente para provocar a reação imediata do mestre Alexandre Ramiro e Silva. mal sabem hoje assignar o seo nome. A imprensa amazonense.A exposição da decadência da Casa dos Educandos na imprensa amazonense Na discussão a respeito da decadência da Casa de Manaus. Jornal do Amazonas. a ponto de alguns mal saberem assinar o nome.

quando o presidente Domingos Peixoto a tornou independente da Diretoria de Instrução Pública. as palmatoadas eram permitidas por lei nas escolas públicas amazonenses até meados de 1869. Este período correspondeu às administrações de Wilkens de Mattos e de José de Miranda da Silva Reis. e no ano lectivo de 1869. e em 1871 apenas saio um alumno e este mesmo saio porque era dedicado. na gestão de Domingos Monteiro Peixoto. costume que Ramiro e Silva sugere ter sido positivo para o cumprimento de suas funções. visto ter sido nessa epocha completamente prohibido o castigo corporal nessa casa. Wilkens de Mattos. somente entre 1869 e 1873. presidencia do exm. O uso da palmatória não constava dos regulamentos da Casa dos Educandos de Manaus até a aprovação do regulamento de fevereiro de 1873. 70 estavam inscritos na aula de primeiras letras (ver tabela em anexo. oito alumnos sairão promptos de primeiras lettras. o que bastante contribuio p ara o primeiro passo do definhamento dessa tão importante quanto util instituicão. Dois presidentes que acompanhavam de perto a educação dos meninos. Como abordamos nos capítulos anteriores. permanecer de joelhos. as medidas para discipliná. sr. os bolos não conheciam amparo legal. em 1870. entre outros. 20 Para o autor. o professor argumenta que obtinha resultados no ensino quando ainda era permitido o castigo corporal na instituição. sendo então setenta e oito o numero de alumnos. por seu aproveitamento.”19 A despeito do ingresso dos indígenas que não falavam português. a autonomia da escola dos educandos foi prejudicial ao seu desenvolvimento devido à irregularidade da inspeção. através do Regulamento de 8/2/1873. tendo então a escola quarenta alunmos.los. bem como. prescritas com o novo regulamento da instrução pública. palmatoadas. a freqüência da escola foi regular. De 1868 a 1872. pois dificilmente as alterações nos regulamentos provocavam mudanças imediatas nas práticas educacionais dos professores. sr. sendo então presidente o exm. inclusive dez indigenas que ainda não fallavão o portuguez. Pode-se concluir pela argumentação do professor que o problema da escola – ou seja. tinham o hábito de fazer visitas freqüentes e inesperadas ao estabelecimento. tambem sairão oito nas mesmas condições e dois dos quaes. 27/7/1875. os quais. constituíam meios disciplinares tradicionalmente empregados nas instituições educacionais do século XIX e se mantiveram até meados do XX. o 19 20 Commercio do Amazonas. Assim. Miranda Reis. o número de alunos por aula e oficina).“Em dezenove de setembro de 1867 entrei no exercicio de professor desse Estabelecimento. 274 . Porém. Dos 78 educandos existentes na Casa amazonense em 1871. lhes forão facultados os estudos secundarios no lyceu publico.

como porque os alumnos não frequentavão mais a escola. Os autores dos artigos das duas folhas supracitadas concordam que a direção do estabelecimento perdera a condução da educação dos meninos . voz igualmente rara nas fontes documentais de que dispomos. Wilkens e Miranda Reis em seus relatorios. põe em cheque os objetivos educacionais da instituição. dos quais uma boa parte deveria freqüentar as aulas por duas horas e meia diárias. Eram cem internos em 1872. Ramiro e Silva. que mal lhes sobrava tempo para a escola elementar. Nos annos lectivos de 1869 a 1871. se precavendo das opiniões que consideravam escassos os resultados alcançados pelo exercício de sua função. A ênfase recaía no treinamento nas oficinas e na confecção das obras encomendadas. 275 . As casas de aprendizes artífices costumavam dedicar pouco tempo à instrução elementar.somente discordam quanto ao diretor ser o responsável por esta situação. “Desde a installação do estabelecimento . Há outras explicações.que aproveitamento poderião ter?”21 A argumentação do professor demonstra ter havido no período uma grande oscilação no número de educandos. Si os alumnos não frequentavão a escola. 21 Commercio do Amazonas.a 1868 saio algum educando prompto de primeras lettras? Não consta. . A carga horária do ensino elementar não conheceu maiores alterações. como o de remeiros do diretor.alguns soltos pelo porto.como posso provar com os srs. como vimos no capítulo 3. pelo art. Porque nos annos lectivos de 1873 e 1874 não houve exames? Não só porque. devendo nos leccionar duas horas e meia.abandono das aulas pelos alunos e pelo professor que não cumpre seus deveres – se devia à falta de inspeção sobre a atuação do regente e do emprego de meios disciplinares mais coercitivos.1858 . Porque não fizerão em 1872? O estabelecimento caminhava para a decadencia e o numero dos educandos attingia a cem. questionando os seus sucessos escolares desde a fundação em 1858. dezoito educandos fizerão satisfatoriamente exames publicos de instrucção primaria? Fizerão e disso tratarão os srs. Nos deteremos. como a denúncia do Commercio do Amazonas de que os meninos eram empregados em tantos serviços. 27/7/1875. por enquanto. cujos nomes ja declinei . no relato do professor. outros entregues à embriaguez nas idas à cidade e não poucas deserções . Infelizmente não temos os testemunhos dos alunos. 31 do regulamento citado forão augmentados as materias do ensino.

determinadas pelo regulamento de 1873.los como amanuenses nas secretarias do governo. o professor assumiu a cadeira de música em 1871. adotou um programa semelhante e a Casa de Manaus. Segundo Márcio Leonel Páscoa (1996). escrita. Os alunos de Ramiro e Silva. também ampliará o programa de ensino. art.lo. 8º. passaram a ser incorporadas com mais freqüência a partir da década de 1860. capítulo 3 deste trabalho. geometria. 25 A respeito. p. há notícia de uma peça musical publicada por Ramiro e Silva (p. Wilkens de Mattos acompanhava de perto os progressos e as dificuldades dos meninos. contratando professores preparados para executá. Ele conta que os alunos não tinham tempo para estudar. Somente após cursar a primeira escola. em anexo. 22 Além das primeiras letras. a convite de Miranda Reis. 276 . o qual dividia o ensino em duas escolas. que no Brasil.26. estas disciplinas já constavam do regulamento da Casa amazonense em 1865. Regulamento n.79). professor da Casa desde 1867.porém. noções de aritmética. o qual passou a ser composto de leitura. em 1882. Reorganizando Estabelecimento dos Educandos Artifices da Provincia do Amazonas. elementos de geografia do Brasil e princípios de geometria prática com aplicação do desenho linear. A inclusão dessas matérias correspondeu às novas diretrizes programáticas das instituições de ensino profissional do século XIX. 24 O Instituto Paraense de Educandos Artífices. física e química com aplicações às artes e desenho linear e industrial. liam bem e praticavam com desembaraço as quatro operações da aritmética. 15 de 2/2/1865. 4/4/1869. nem mesmo os principais rudimentos da gramática portuguesa. a saber. 23 O regulamento de 1873 aumentou consideravelmente o número de matérias do ensino primário. conforme indica a tabela 11. 24 AMAZONAS. Nem ao menos se conseguiu 22 23 RPAM. 25 Contudo. fundado em 1872. na Casa dos Educandos de Manaus não há referência à efetivação das novas diretrizes programáticas do ensino. O pouco conhecimento gramatical frustrou a intenção de empregá. onde consta o número de educandos desde a fundação da Casa. ver o quadro “Programa de ensino de instituições profissionalizantes do século XIX”. o aluno poderia cursar as matérias específicas para sua formação. uma de primeiras letras e outra elementar. não havia uma política rígida com relação ao número de beneficiados com a educação oferecida pela instituição. reinstalada com a nova denominação de Instituto Amazonense de Educandos Artífices. Na verdade. elementos de gramática portuguesa. sistema métrico decimal.

Ramiro e Silva apela à hierarquia institucional. Pelo regulamento. Não temos nos porventura habilitações para o magisterio? Não passamos pelas provas de um concurso? Não ensinamos com bom exito desde 1867 a 1871? Não demos provas de dedicação nesse periodo? O sr.regularizar o programa elementar nos últimos anos de seu funcionamento. portanto. nem pode saber.” 27 26 Commercio do Amazonas. cabia a esta autoridade vigiar e conduzir os trabalhos na instituição. Portanto. Ante uma possível objeção dos “interessados” de que o professor não fazia reclamações a respeito da situação que descreve com tanta revolta. lembrando as relações que ligavam o diretor ao Presidente da Província de então. Peixoto. não mudou o quadro de decadência do ensino. A diminuição do número de alunos. a elle estão subordinados todos os empregados e todo o pessoal”. Portanto. 277 . e com uma série de argumentos. “É desnecessario lembrar que o presidente da provincia foi o exm. o professor devolve ao diretor a acusação de “protegido”. Ramiro e Silva refere-se brevemente ao fato dos alunos não freqüentarem mais a escola. na primeira fase da existência do estabelecimento. de 1858 a 1877. compadre e amigo do actual director. sobre os quais nos deteremos mais adiante. artigo 15º. Neste ponto. Justus e seu opositor apontaram alguns aspectos da vida dos meninos na instituição que poderão esclarecer este ponto. não se detém nas causas. decisão que teria prejudicado a escola dos educandos. o diretor é a “primeira autoridade do estabelecimento. Silva introduz o tema delicado das redes de fidelidade. autor do mesmo regulamento. legalmente reforçada. era “amigo” do diretor. combate a qualificação de protegido atribuída à sua pessoa: “Não foi Justus quando pensou em tal. o ensino escolar permaneceu restrito às primeiras letras. condição que impediria aos empregados recorrerem à intervenção do governante. decretada pela Assembléia Provincial em 1874. cabendo aos empregados obedecer às suas ordens. o bacharel Domingos Monteiro Peixoto. Justus não sabe. 27/7/1875. porém. nos revela o mestre.”26 O presidente responsável pelo regulamento que desvinculou o estabelecimento da Diretoria de Instrução Pública. sr.

A banda de música é um bom exemplo de como esses interesses imiscuíam no maior ou menor investimento na educação dos meninos. 4/4/1869. O caráter de obrigatoriedade para os iniciantes não contraria a hipótese do gosto pela música por boa parte dos educandos.los. Muitos de seus alunos particulares e do Instituto Amazonense se tornaram executantes profissionais (PÁSCOA.84). P. p. logo que soubessem ler. a maioria dos alunos estudava música com proveito. intermediados pelos diretores. 25/3/1872. 28 O estudo da música não era privilégio de um grupo destacado. influenciavam os resultados da formação proposta pelas instituições. a de músico da banda. 27/7/1875. tanto da instituição amazonense quanto da paraense. 1996. Os interesses dos presidentes. mas ainda conseguiu manter um bom percentual de estudantes. encaminhados pelas respectivas presidências. que eram políticos e pessoais. 27 28 Commercio do Amazonas.O professor destaca um ponto que a massa documental. permaneciam freqüentando as aulas de música. 1996. 30 RPPA. 278 . os presidentes aceitavam os pedidos relacionados pelos mestres de música.26. substituído em 1871 pelo professor de primeiras letras Ramiro e Silva (PÁSCOA. 40 estudavam música marcial e 24 de orquestra. Era professor de música o oficlidista e compositor Miguel Torres. Dos 98 educandos existentes em 1872. Na administração de Wilkens de Mattos. 29 RPAM. É grande o número de ofícios contendo solicitações de apresentações da música dos educandos nos mais diversos contextos. Márcio Leonel. proporcionalmente ao corpo total de educandos. O instrumental era comprado na Europa e geralmente. como o músico e compositor baiano Miguel Torres (1868 ou 1869) e após o ressurgimento da instituição em 1882. participando dos mais diversos eventos sociais da cidade. interferindo no cotidiano e nos rumos da instituição.77-78). 29 A aula de música perdeu alunos nos anos seguintes. p. 30 Todos os meninos. Na correspondência dos presidentes com os diretores dos institutos do Amazonas e do Pará. O empenho dos alunos se justificava pela possibilidade de abraçar a profissão de músico e de alcançar uma posição única na instituição.20. números que sugerem o interesse dos meninos pelas aulas de música. que a despeito do desinteresse pelas letras. pois não há como separá. a banda tem posição de destaque. confirmam: os presidentes de província tinham ingerência direta e constante sobre os institutos. isto é. p. professor de música da Escola Normal (1883). 51 dos 68 educandos. deveriam freqüentar a aula de música segundo norma do regulamento de 1873. o governo contratou o violinista baiano Adelelmo do Nascimento. a Professores de prestígio passaram pelo estabelecimento amazonense na 1 fase. pois era grande o número de alunos que participava das aulas.

entre eles. mas o missivista considerou que o objetivo educacional concretizado não poderia prejudicar a banda. levando consigo os educandos músicos para auxiliá.302 de 13/5/1874. que fez com que a banda não podesse funcionar por algum tempo. desfa lcando a banda por um período. Justus afirma que ela fora duramente atingida pelas medidas que ele considerou arbitrárias da Assembléia. Educandos ocupavam o lugar de mestre e a banda passou um período sem funcionar.) hoje todas as officinas trabalham com alguma perfeição.lo na abordagem aos índios. 16/3/1875. Pelas discussões do período sobre os gastos do estabelecimento. as oficinas não trabalhavam regularmente e a banda não tocava coisa que prestasse. “(. quando o diretor Felinto de Moraes assumiu o cargo. mais de 12 músicos. Em 1877. ao dar lugar à saída de 27 meninos dos mais adiantados nos ofícios. O regulamento previa o desligamento dos educandos após o término do aprendizado. por força da lei orçamentária n. pois.29). o presidente Domingos Jacy Monteiro visitou o interior da Província. poucos meses antes da extinção da Casa de Educandos Artífices de Manaus. O desejo dos rapazes de serem desligados ao concluírem a formação também não deveria prejudicar o desempenho das oficinas e da banda. a banda continuou a exercer o seu papel na Província. Além de cumprir o papel de governante solícito às queixas da população e visitar repartições e escolas públicas. O major Felinto teria tirado a instituição da inércia. enfatiza o papel da música dos educandos 31 Jornal do Amazonas. e continuaria a tocar orchestra.” 31 Independente da crise pela qual passava o estabelecimento neste período e da perda de alunos por desligamento.. p. Justus alega que. não deveria ser atingida pelos altos e baixos da política provincial e da dinâmica institucional. 20/7/1875. a qual limitou o número de educandos a 40. Não que ela estivesse fora do alcance dos reflexos da crise. promovendo batizados e atraindo índios com música e brindes. A Constituição. O relato da viagem publicado no jornal paraense..Nas discussões sobre a decadência da Casa amazonense. Jacy Monteiro empreendeu uma viagem missionária pelos rios Maués e Andirá. A música. 279 . e que entretanto foi de novo restabelecida. entre eles mais de 12 musicos. foram despedidos 37 educandos (RPAM. e a banda de musica toca soffrivelmente de modo a rivalisar com a do 3º batalhão de artilharia. a banda é preservada de críticas. cara à instituição e ao governo. provavelmente tratouse de uma medida de economia dos cofres provinciais. se não fosse a reducção do numero feita pela assembléa que deu lugar a sahida de 27 meninos dos mais adiantados nos officios. O relatório provincial informa que.

Ás 6 horas da tarde regressava s. formado no Rio de Janeiro e na Europa. onde. “Voltando s. À visão do paquete da Companhia Fluvial e da comissão do presidente. Outro aspecto da educação dos meninos alvejado pelo Commercio do Amazonas consiste no ensino da doutrina cristã. homens. 33 Contudo. Citaremos um trecho do relato que ilustra as pretensões do presidente com relação à banda. “Quadro demonstrativo do movimento do Estabelecimento”). a autoridade recorreu aos meninos músicos para atrair os moradores. percorrendo o presidente cada “barraca” na tentativa de convencê.los à aproximação. em estrepitosa vozeria. Domingos Jacy Monteiro era doutor em medicina e em direito. Uma velha capela do aldeamento foi escolhida para os batizados. quando reproduziu uma cena catequética colonial. Monteiro governou o Amazonas de julho de 1876 a maio de 1877 (DAOU. no período próximo ao fechamento da Casa.exc. Previsto desde a fundação do estabelecimento. 32 A Constituição. o acompanhavam agora até a praia. mandou que desembarcasse a musica dos educandos. doc. mostravam saudar a aquelles que lhes tinham ido fazer christos.. a capella. logo que se achou a musica em terra.393). findas todas as cerimonias. Ana Maria Lima. entregar-lhes pessoalmente alguns objectos.” A muitos delles. Ás 4 horas da tarde do mesmo dia. 33 RPAM. até que poude s.. e a seus filhos.exc.).exc.nº2. o “jornalista” afirma que nunca existiu capelão na Casa e que os meninos desconheciam a doutrina e mesmo o cerimonial cristãos. que para abrilhantar os baptisados. havia determinado embarcasse no mesmo paquete. p.na missão civilizadora da autoridade. o ensino religioso constava da programação educacional divulgada no relatório provincial de 1858. Anexo G (Relatório do diretor interino. 1998. formada por “alguns amigos” e pelo frei Samuel Mancini. para bordo.exc. mulheres e crianças das “malocas” dos índios Maués se esconderam nos matos. dignou-se s. somente a banda de música ofereceu a utilidade almejada pelos governa ntes da Província. os indios que até então estavam occultos. Fracassada a tentativa. Nenhum indio dessa malóca. 280 .exc. 19/2/1877. como que movidos pelo som de uma harmonia por elles nunca ouvida. conseguir o fim desejado. falla ou entende portuguez (. respectivamente. 7/9/1858. comprometendo a sua formação como bons cidadãos. pois os poucos que permaneceram nas malocas não entendiam o português. mandou s. e foi então quando poudese ver o avultado numero de indios que se designam por Maués. e mantido por todos os regulamentos. foram pouco a pouco se chegando.” 32 Ao que parece. Nascido no Rio de Janeiro. e aquelles que com a presença do navio corrião para o matto. distribuir brindes que propositalmente havia levado.

36 RPAM. e às orações no “singelo altar” que Reis mandou instalar.) com palhoças miseraveis servindo de matrizes”. RPAM. ocasionada em parte. 281 . contudo. geralmente deputados liberais . p. estava a extinção do lugar de capelão. os rudimentos da doutrina christá. tal como o diretor.“Se perguntarem a um dos meninos que ali se educam.36. e pela disponibilidade limitada daqueles imbuídos de espírito missionário. Correspondência entre a Presidência da Província do Amazonas e o Ministério do Império – 18521889). 15/7/1875. 35 Os relatos sobre a dificuldade de obter religiosos para as missões no Amazonas não são incomuns. Ofício do Bispo do Pará ao Ministro do Império José Bento da Cunha Figueiredo. elle o não saberá responder. associando à tarefa religiosa o lugar de ajudante do diretor.. Tampouco a diocese lograva prover as paróquias da Província – das 32 paróquias existentes no Amazonas em 1883. 25/3/1872. Alguns ha que não sabem o signal da cruz! Que bons cidadãos não aguarda a sociedade destes bins(?) educandos!” 34 Entre as medidas de contenção de despesa expedidas pelo governo em junho de 1875. 8/3/1876 (Arquivo Nacional.. caso sobrassem candidatos. Somente debaixo de pena de obediência os sacerdotes aceitariam exercer nestes locais um “ministerio todo de penas e sacrificos”. A dedicação dos educandos à religião estava restrita às missas de domingo e dias santos. 25/3/1883. pela política de contenção dos gastos com a Igreja exercida pelo Estado Imperial. com uma população “largamente disseminada e pobrissima”. pois não há mais referência ao tema. O religioso deveria morar no estabelecimento. Esclarecera o bispo ao Ministro do Império que algumas paróquias não passavam de “aldeotas ou logarejos longínquos (. Miranda Reis. somente nove encontravam-se providas de vigários. a criação do lugar de capelão do estabelecimento.e ainda. propôs no relatório de 1872. p. Presume-se que o governante não obteve sucesso no intento. Os presidentes e o próprio bispo Macedo Costa se queixavam da pouca afluência de sacerdotes para a região. 36 Não se deve desprezar. a política provincial com relação às instituições educacionais – as lutas de poder dentro das assembléias entre deputados favoráveis ao ensino religioso e aqueles que se posicionavam contra. o presidente que se preocupava em fazer visitas inesperadas à Casa dos Educandos. porque ali ninguem se occupa disso. a maior ou menor importância dada à educação religiosa pelos presidentes versus 34 35 Commercio do Amazonas.17.

a disponibilidade de alocar recursos para tal objetivo.. partiu do governo conservador. 37 O ensino profissional nas oficinas do estabelecimento é um tema dos mais privilegiados pelo “jornalista” e por Justus. 40 Justus. A permanência das oficinas que atendiam à necessidade da instituição em garantir aos educandos vestuário e calçado a custo inferior. Os trabalhos em madeiras.120). entre os 8. a paróquia de Manaus possuía 279 “operários”. Segundo o “jornalista”. enquanto abundavam alfaiates e sapateiros não só na capital como em todos os lugarejos da Província. p. não nega que existisse em “cada canto ou beco nésta cidade uma officina de 37 38 Mello Cardoso ocupou a Presidência do Amazonas de meados de março a início de julho de 1875. se tornáo serventes de obras e rachadores de lenha. ferreiros e serralheiros. 3/7/1875. Em se tratando de um levantamento realizado em 1883. o número de habitantes estava muito aquém do esperado e. tipógrafos. marceneiros.. portanto. alega que as oficinas mantidas recebiam de quatro a cinco vezes mais encomendas do que as extintas. 282 . ao ver reduzida a verba do estabelecimento. o autor do artigo afirma que nas oficinas de alfaiate e sapateiro da Província se ensinava gratuitamente aos aprendizes. extinguem-se estas officinas no estabelecimento dos educandos!” 38 Na coluna “A pedido” do Commercio do Amazonas. dando-lhes de comer e vestir sem a menor retribuição. competindo com os educandos após a conclusão do período de aprendizagem. funileiros. pois “Temos superambundancia de alfaiates e sapateiros na provincia. 40 Segundo o Censo de 1872.. 1884. comprometia os destinos dos jovens oficiais. A iniciativa de extinguir o lugar de capelão. O primeiro relaciona a importância das oficinas com o mercado externo e o segundo. Commercio do Amazonas. 39 Portanto. O recenseamento providenciado pelo presidente Paranaguá localizou 214 “artistas” em Manaus. e só temos duas officinas de máos ferreiros. defendendo a posição do governo. publicada no almanaque de 1884. E no embate das palavras. ourives.816 habitantes levantados. com as demandas internas. o número de artesãos também (ALMANACH. quer-se mais alfaiates e sapateiros! Não temos uma só officina de torneiro. 15/7/1875. como defendeu Justus. Na relação dos profissionais . que trabalhavam nos ofícios que costumavam ser ensinados nos estabelecimentos de educandos. 39 Commercio do Amazonas. metais e calçados ocupavam mais profissionais. sapateiros. alfaiates e sapateiros não conseguiam viver de seus ofícios após deixarem o estabelecimento. nesta ordem. encadernadores. vestuários. na administração provisória do militar Mello Cardoso. e que náo podendo viver pelos seus officios. A extinção das oficinas de ferreiro e torneiro é combatida pelo Commercio do Amazonas sob o argumento de que o Amazonas carecia de oficiais nestes misteres. muitos meninos teriam condições de aprender estes ofícios. estão os alfaiates.

pois “não podemos deixar de andar vestidos e calçados”. até ser decretada a sua extinção. 44 O presidente que assumiu pouco tempo após a resolução do vice-presidente Mello Cardoso em reduzir o ensino na Casa. escrever e contar. a de ferreiro apresentou rendimento significativamente menor do que as outras. por serem justamente ofícios mais necessários do que os de torneiro e ferreiro. 43 RPAM. p. 26/8/1879. continuavam a existir. como tantas vezes se defendeu nos relatórios oficiais? Justus nada comenta acerca da ocupação dos ex-educandos em misteres inferiores à educação recebida na instituição. p. 45 Monteiro. No entanto. o edifício foi fechado e os cearenses tiveram as diárias cortadas. o ensino de primeiras letras passou às mãos do escrivão interino. portanto. 283 . o presidente que levou a banda de 41 Jornal do Amazonas.100) para o período de 1868 a 1873. alfaiate. Obter informações a respeito dos destinos dos educandos é muito raro. em 1876. Dentre as rendas das oficinas de sapateiro. p. p. já que este funcionário substituiu o diretor em sua licença. 41 Desconhecemos o desfecho do debate. que poderiam ser dispensadas. 44 RPAM. 45 RPAM. tendo sido dois compartimentos alugados a particulares. como o Seminário Episcopal e a guarda policial.10. p. que neste período era crescente. expostas no gráfico elaborado por Márcia Alves (1995. sob ordem verbal do expresidente Passos Miranda (Jornal do Amazonas.12.5 e 31/2/1880. ao contrário de muitas obras de ferreiro e torneiro. a denúncia de que muitos deles não ocupavam a posição para a qual foram preparados é fundamental para o estudo da instituição. O estabelecimento dos educandos vinha sendo usado para abrigar migrantes. marceneiro. pois não localizamos no Commercio do Amazonas uma possível tréplica do “jornalista”. contrib uindo para a difusão da descrença na capacidade formadora da instituição. conforme ordenou o expediente do ano anterior e continuou a funcionar de forma crítica. Por que estaria o governo apenas preocupado com a manutenção interna da instituição e não com a formação de uma mão-de-obra útil à Província. 14/1. Estes empecilhos não impediram que uma parte dos educandos aprendesse a ler. 20/7/1875. os quais deveriam trabalhar e perceber a mesma diária dos educandos.51. não acatou a decisão de cortar as oficinas de ferreiro. 42 A diária aos migrantes fora determinada pelo expediente de maio de 1876. É plausível que tais destinos ocorressem. 43 As suas instalações passaram a ser cobiçadas por outras instituições.alfaite ou sapateiro”. 26/5/1877. segundo exposição do presidente Domingos Jacy Monteiro. banda de música e ferreiro. sem oposição do governo provincial. 7/12/1876). torneiro e livreiro que. em abandono. 42 Ao ser extinto.

o levantamento das condições de salubridade da região. ver capítulo 1. porém. o presidente havia nomeado uma comissão para propor os meios da Casa obter os “efeitos desejáveis” e corresponder a seus fins. só retornou ao cargo três meses depois. 48 RPAM.52. Canavarro acompanhara G onçalves Dias na comissão aos povoados do Rio Negro. se fartam de denunciar o comportamento inadequado dos meninos e dos empregados de uma instituição deste tipo. a permanencia de longas horas no porto desta cidade. A respeito das comissões de Gonçalves Dias na região. Ao escrivão e professor. com a aquiescência do presidente. Disposto a reduzir as despesas e melhorar os serviços da instituição. O médico dos educandos. Antonio David de Vasconcellos Canavarro. de 7/7/1877. Por motivo não explicitado no relatório. refletindo nos seus objetivos educacionais. os artigos das duas folhas. analisados neste capítulo. pediu exoneração do cargo e não foi substituído. visitou o estabelecimento e verificou que o diretor não atendia as suas ordens. através do estabelecimento de educação. O major Felinto de Moraes foi substituído pelo capitão de fragata reformado José Francisco Pinto.música em viagem ao interior. major Felinto de Moraes que os males afloraram. os participantes não apresentaram o trabalho pedido. 47 A colocação na instituição decadente desestimulava o funcionalismo. 49 A Casa dos Educandos vinha passando por uma fase crítica nos idos de 18741875. freqüentemente consentidas com remuneração completa ou parcial. sendo o cargo no estabelecimento dos educandos preenchido por outro escrivão. 26/5/1877. Os laços de fidelidade aos amigos políticos travava a máquina estatal. 364. Em termos disciplinares. p. foi na gestão do então diretor. Coube ao médico. 49 Lei n. sob a justificativa de que o estado de salubridade da instituição era bom. entregues a si mesmo. para inspeção das escolas públicas. contratada pelo governo provincial em 1861. determinou-se a volta ao trabalho. Para o Commercio do Amazonas. o estabelecimento teve sua extinção votada pela Assembléia Provincial. que não enxergava obter uma posição de destaque no setor público e na vida social. 284 . p. 46 O funcionário. RPAM. 48 Cerca de um mês depois deste relatório. a distracção dos mestres das officinas e dos empregados do 46 47 Licença concedida sob a administração do 1º vice-presidente Nuno Mello Cardoso. pois “A distração dos meninos andando abaixo e acima como remeiros da canoa do director. 26/5/1877. com as longas licenças. ele foi nomeado para o cargo de administrador da recebedoria provincial. em licença concedida há um ano pela presidência.52.

especialmente nas licenças. 285 . Um educando licenciado se embriagou. o educando escapou da “superior correcção por mostrar-se arrependido no dia seguinte e ter bons precedentes”. 16/3/1875. publicada no ano seguinte. na defesa publicada no jornal pelo diretor interino. ao assumir a direção. o castigo não demorou. levando a que muitas desejassem retirar seus meninos de lá. alega que o diretor encontrou o estabelecimento em completo estado de abatimento devido à “falta de disciplina e moralidade”.lhe o “castigo do regulamento”. ver capítulo 3.estabelecimento. p. interferiram na concepção que as famílias tinham do estabelecimento. 53 Sobre os castigos na casa amazonense e nos demais institutos de aprendizes artífices.. outros que se embriagavam quando vinham a cidade e outros que fugiam dos dormitorios para virem passar a noite em orgias e bailes mascarados. A falta do hábito de beber teria causado a embriaguez. que o animaram a beber. e já finalmente eram as officinas dirigidas por educandos contractados que só não tinham habilitações como a força mental precisa para desempenharem os lugares de mestres.. Os outros foram postos à disposição do juízo de órfãos. demonstra que nem todos os casos de indisciplina entre os educandos da Casa estavam sob controle.” 50 Justus amplia a lista das desordens nas quais os educandos se envolviam.”51 Estes acontecimentos. correspondeu a requerimentos de seus pais. situação que procurou corrigir. porém.) não pequeno numero de educandos desertados. Felinto de Moraes teria encontrado. quando a maior parte dos 37 educandos despedidos. Pelos regulamentos da instituição. As explicações do menino para o seu ato são reproduzidas pelo diretor no jornal. “(. tutores e parentes. são males que urgem remediar. chegando à expulsão nos casos mais graves. o qual. teria sido vítima de alguns paisanos. 52 RPAM. permanecendo no estabelecimento somente 42 “menores”. Antonio H. porém. 53 Antes do 50 51 Commercio do Amazonas. Pacifico. Infligido. 15/7/1875. que todos os veem a passear diariamente na cidade. os castigos se apresentavam em vários níveis de intensidade.29. os quais reforçavam o desprestígio da instituição. 20/7/1875. 52 Uma matéria do diretor interino. É o que se pode depurar da informação do relatório provincial de meados de 1875. Jornal do Amazonas. por força da lei orçamentária que reduziu a verba destinada à Casa.

a recuperação do funcionamento da instituição de acordo com as normas regulamentares e do prestígio social que um dia tivera. 286 . comportamento esperado entre meninos.. por sua vez. O autor da denúncia lembra que o comendador.grau máximo (a 13ª pena). convidou o informante a visitar a instituição. porém temos a informação de que a interinidade da direção era exercida pelo escrivão. que vivia em abandono. questionou a pouca disposição dos altos funcionários públicos para o sacrifício em prol da educação de seus filhos e protegidos. órgão do Partido Conservador. As filhas de funcionários de categoria superior teriam sido beneficiadas com as doze vagas subvencionadas pelo Governo da Província para a educação de meninas pobres no Colégio Brasileiro. O diretor afirma que não faltavam alimentos na Casa e desejando provar a boa administração.. dificultando o cumprimento pleno de suas funções. O jornal Amazonas. ocorrida em 1883. por ocasião de uma provocação ao Jornal do Amazonas. e mais ainda. órgão do Partido Republicano Liberal. Uma só pessoa acumulava três cargos. No relatório presidencial do período nada é revelado sobre a questão. revelando “os factos e a verdade”. Mais uma v ez. a imprensa cumpre o papel de canal para o debate público em torno das minúcias do funcionamento cotidiano da Casa. Uma troca de farpas entre gazetas amazonenses. como quaisquer outros dos colégios. Outra ocorrência levou o diretor a dirigir uma carta de defesa da probidade da administração do estabelecimento ao redator do jornal: o fato dos educandos pedirem dinheiro fora do estabelecimento. “(. confirma a má fama que a Casa padeceu no período próximo à sua extinção.” 54 A acusação da má disciplina na instituição fora feita por um “informante” ao Commercio do Amazonas.) a unica prova que posso fornecer ao informante é convidando-o a apparecer no referido estabelecimento a qualquer hora depois da refeição por que alli entre os porcos da casa encontrará farellos para alimentar-se. tornando-se praticamente a única fonte de conhecimento dos meandros da instituição. dono do Jornal do 54 Jornal do Amazonas. também responsável pela cadeira de primeiras letras. desejavam consumir guloseimas. que. O diretor. se viu forçado a responder ao “caluniador”. o regulamento em vigor (1873) previa o uso moderado de palmatória (12ª) e a prisão incomunicável com diminuição de alimento até 48 horas (11ª). 8/11/1876.

A Província do Pará . a notícia tinha o poder de espalhar o pânico entre as famílias e atrair olhares desconfiados para a instituição onde. O tom indignado da matéria aumenta com a lembrança da má organização que lá existia.) quando esses alumnos atravessavam as ruas e o rio da cidade a carregar barricas de assucar.. 56 Verdadeira ou não. incluindo a utilização dos alunos nos trabalhos braçais: “(. 17/6/1876. chegando à imprensa paraense. teria sido dado de presente pelo diretor dos educandos ao comendador Antonio José Gomes Pereira Bastos e levado para a Corte. paneiros de farinha. João Fausto dos Anjos. cujas filhas estudavam no Colégio Brasileiro. educado. a má reputação ultrapassou as fronteiras da Província. muitos dos quaes nem ao menos desvalidos são”.. onde estaria trabalhando numa cervejaria. O jornal alerta para a necessidade de evitar-se reduzir “á escravidão os nossos orphãos. No processo de extinção da Casa. tinha um “sobrinho seu legitimo” que fora aluno do extinto estabelecimento de educandos. gigos de louças e a remar canôas!” 55 O autor esclarece que a organização era diversa da empregada quando do restabelecimento da instituição em 1882. O jornal pede a intervenção do Ministro da Justiça para que o abuso não ficasse impune. sob o nome de Instituto Amazonense dos Educandos Artífices. 55 56 Amazonas. uma grave denúncia de abuso cometido contra um órfão do corpo de educandos de Manaus foi reproduzida no jornal A Província do Pará. como avisa o Amazonas. nem todos eram desvalidos. protetores e pais certamente não foram “doadas” à instituição. 287 .Amazonas. Crianças que podiam contar com tutores. 6/4/1883. promovendo-se na Província a comercialização de “menores” e a regressão aos tempos da lucrativa industria do “tráfico de negros”. portanto às custas do erário público. Uma notícia do Amazonas denunciara que o “menor” órfão. Em 1876. pelo governo liberal de José Paranaguá.

lo por contrato a uma empresa particular. o jornalista do Commercio do Amazonas antecipou em dois anos o destino da Casa de Educandos de Manaus. com grave prejuizo da instituição”. visando à recuperação do estabelecimento. consistiu em ofertá. Idem. um administrador publico. desde a fundação. para manter e educar 100 meninos. sugerindo a incapacidade do Estado em administrar financeiramente a instituição: “A um particular era bastante e ainda lucrativo 40:000$000 réis. 57 58 Commercio do Amazonas. No período de 1858 a 1868. ou se o tire do estado de agonia lenta que o vai matando aos poucos.A extinção da Casa de Educandos de Manaus “É nossa opinião. mas certamente este não foi o olhar dos governantes que o sucederam. A deliberação não pôde ser convertida em lei por falta de sessão nos dias em que deveria ter sido aprovada a redação do projeto. só pode encarregar-se da educação e sustento de 40 meninos por setenta e tantos contos de réis como aconteceu no exercicio passado!” 58 As cifras expostas nos relatórios presidenciais demonstram que o estabelecimento. que ganha avultado salario da provincia. extinta em julho de 1877. A solução proposta pela Assemb léia Provincial. o estabelecimento daria lucro nas mãos de uma empresa particular. Pelos cálculos do jornalista. tendo por base propostas vantajosas que teriam sido apresentadas aos deputados. 288 . pois que. ou se acabe com o estabelecimento dos educandos. a despesa com os educandos foi equivalente a da instrução pública no todo (ensino primário e secundário). 15/7/1875. teve um custo alto para a Província. O presidente Wilkens de Mattos apresentou o resumo financeiro abaixo com a intenção de valorizar o empenho do governo em promover a instrução no Amazonas. abocanhando a educação cerca de 36% do orçamento da Província dos seus 17 anos de existência. 57 Com esta frase.

escrevendo ao Jornal do Amazonas. publicado no jornal paraense A Constituição.719$394 10.lhe o preciso tratamento em suas enfermidades. ele atribui as críticas recebidas pela instituição na gazeta opositora aos interesses de dois pretendentes. “uma moção pelos relevantes serviços prestados a provincia”.350$000 506. certos de que conseguiriam de “mão beijada” o perdão da dívida e mais ainda. além do ensino primario e da musica. 233. em fevereiro de 1877. dar.31. nem que fosse por três ou vinte contos. tendo o contractante obrigação de alimentar. nas decisões da Assembléia quanto ao estabelecimento. vestir e calçar os educandos. anuncia que o presidente resolveu que “todo o serviço do estabelecimento dos educandos artifices de ora em diante se faça por contracto. que estariam almejando tomar conta da mesma por meio de arrematação.Despesas da Província do Amazonas com educação da mocidade entre 1858 e 1868 Instrução primária de ambos os sexos e com a secundária Estabelecimento d’educandos Seminário episcopal de S. Assim. Meses antes da extinção da Casa. A “medida salvadora” proposta pela Assembléia fora tentada mais tarde pela administração provincial. ex-diretores da Casa. 289 . fornecer materia prima para as officinas. 4/4/1869. que eram parentes ou protegidos “d’este ou d’aquelle figurão da terra”. 59 A transferência da administração do estabelecimento a particulares não ocorreu em momento algum de sua história. Justus. prestar. o Governo da Província lançou um edital convocando contratantes para o estabelecimento.649$156 223. O edital da Secretária do Governo.225$149 39. emfim encarregar-se de todo o 59 Jornal do Amazonas. ironiza a ingerência de diretores.lhes um officio mecanico. 20/7/1875.943$699 A proposta da arrematação da instituição a terceiros não era do agrado de todos. p. José Alguns jovens que têm ido estudar ciências eclesiásticas nos seminários de França Despesa total Fonte: RPAM.

64 60 61 A Constituição. manutenção e controle dos materiais. por desejar retirar-se para sua província. por artigo aditivo de um deputado que votou a favor da extinção. recebendo da provincia por este trabalho um subsidio. 53. sessão de 27/6/1877. e os que não possuíam este arrimo. 290 . 63 Jornal do Amazonas. ex.custeio. Felinto de Moraes. 61 Por fim. a proposta mais vantajosa não poderia ser coberta pelo restante da verba e encerra o assunto. 64 Jornal do Amazonas. o Presidente da Província iria providenciar sobre sua sorte. 26/5/1877. RPAM. entre outros. curadores. A manutenção das oficinas trabalhando. autorizado a tratar das visitas dos pretendentes à casa e ao terreno. anunciou no jornal a venda de sua casa. a banda de música foi convocada pelo presidente para tocar na festa de Corpus Christi e acompanhar a procissão que iria sair da Igreja de Nossa Senhora dos Remédios.364. A lei determinou que os educandos fossem entregues a seus pais. 19/2/1877 (Edital de 3/2/1877).mestre da oficina de marceneiro do extinto estabelecimento. Os educandos músicos tiveram o benefício de levarem consigo os instrumentos musicais de que faziam uso. porém devido à despesa já realizada. 19/7/1877. p. O presidente Jacy Monteiro relata que recebera quatro propostas. em Manaus. tutores. estando o ex-diretor. extinguindo o “Estabelecimento dos Educandos Artífices”. O prédio e os terrenos poderiam ser alienados. assinada pelo presidente bacharel Agesiláo Pereira da Silva.” 60 A abertura da concorrência à arrematação dos serviços da Casa livraria o governo da tarefa de administrar e fiscalizar os diversos serviços que envolviam a vida da instituição. 8/9/1877. Os utensílios do estabelecimento seriam destinados a outras repartições e o seu produto recolhido aos cofres provinciais. A casa situava-se “na rua que fica á margem do igarapé de Manáos confrontando com o referido estabelecimento d'educandos”. por exemplo. 62 Cerca de uma semana após a aprovação da lei da extinção da Casa. 62 Assembléia Legislativa do Amazonas. Francisco José dos Santos. aplicando o produto ao pagamento da dívida passiva da Província. 63 Nos arremates do triste fim da Casa dos Educandos. resignandose: “fui obrigado a deixar tudo como estava”. ou parentes. fiscalização sobre a qualidade e o destino dos produtos encomendados. em 7 de julho de 1877. exigia um grande cuidado com a compra. teve aprovação a lei n.

e porque foi iniciativa minha em projeto n. a importância da instituição para a educação da infância desvalida: “Ainda em 3 ª discussão votamos contra o projeto n. e sobre meus filhos a maldição do povo. como na que por ventura tenhão de adoptar. sessão de 27/6/1877. M. e porque as finanças não devem ser melhoradas por leis vexatorias e odiosas. revertido ás rendas da província bastaria para fazer desaparecer como por magia essa maromba deficit tão proclamada. ex-diretor da instrução pública.” 65 Os outros três deputados apresentaram em conjunto o voto contrário ao projeto. sessão de 27/6/1877. enfatizando. de um estabelecimento cujo unico defeito proveio das más administrações e falta de uma lei regulamentar. conservando-se o unico estabelecimento que honra a provincia. encontrou a resistência de quatro deputados contra doze que votaram a favor. o projeto apresentado à mesa pelo deputado. 9 de 29/7/1856 a sua creação. e. Sobre a atuação de Ramos Ferreira na Diretoria de Instrução Pública do Amazonas.Na Assembléia. padre Daniel P. porque é uma medida ante progressista e por tanto retrograda. 12 como prejudicial a provincia. tanto mais que uma tal lei não se deo na crise em que um exbanjamento dava em resultado esse deficit em cerca de seiscentoso contos de réis o qual hoje se acha reduzido (talvez) a cincoenta contos. “Voto contra a extincção do estabelecimento dos educandos artifices d’esta provincia de que trata o projeto n. Entre os votos dos deputados que se opuserem à extinção da Casa encontra-se o de Gustavo Adolpho Ramos Ferreira. Paço da assembléa legislativa provincial do Amazonas. 291 .”66 65 66 Assembléia Legislativa do Amazonas. não quero acarretar sobre mim. ver capítulo 2. de Oliveira. Gustavo Adolpho Ramos Ferreira. finalmente porque a verba de tres por cento addicionaes que pagão contra a justiça os vapores não subvencionados os quaes d’elles devem ser issemptados. porque distroe a instituição eminentemente popular do unico estabelecimento da provincia em que a infancia desvalida podia encontrar a par da educação solida um meio de vida honesto. 12. cujo voto enfático transcrevemos a seguir. Sala da assembléa do Amazonas. d’esse povo que cansado trabalha para pagar impostos da producção que com o suor de seo rosto adquire. 2 de julho de 1877. e ainda porque: a minha consciencia repugna de aceitar o progresso e a civilisação tão apregoados. Assembléia Legislativa do Amazonas. 2/7/1877. e de Francisco Antonio Monteiro Tapajós. como o fez o coronel Francisco Tapajós. José Justiniano Braule Pinto e Gabriel Antonio Ribeiro Guimarães. e que tem em compensação a não educação de seus filhos e condemnados assim a ignorancia. extinguindo-se estabelecimentos e instituições que servem para educar a mocidade e moralisar os costumes constituindo cidadãos uteis á patria onde nascem.

sem sacrificar aquelas que revertiam em benefício do povo. 68 A indagação é inevitável: por que não fora demitido o diretor. denominando-o de ditador. em comemoração à reinstalação da instituição em 1882. 67 Tapajós questiona o consolidado argumento da necessidade de sanar o déficit público. como sempre ocorreu? Não se justifica fechar o estabelecimento para afastar o seu diretor. cujos problemas teriam resultado da administração incompetente e do regulamento inadequado. capítulo 2). em junho de 1877. o jornalista vê um móvel inconfesso para o seu fim. Responsabilizando pelos parcos resultados práticos da instituição. quando o governo procurará acompanhar as tendências do ensino profissional do período. Como atingir a moralização dos costumes do povo e garantir a seus filhos um meio de vida honesto aprovando-se leis contrárias à difusão da educação popular? Esta indagação só será resolvida com o restabelecimento da instituição em 1882. outras despesas poderiam ter sido cortadas. o jornalista concorda que. Na linha dos votos acima transcritos.Os dois votos assinalam a contradição entre o desejo de progresso e civilização da Província e a destruição de uma instituição de educação popular. a interferência no seminário é o destaque do agravo. 68 Amazonas. quando o 67 No período. como o liceu. É justamente por um dos artigos do jornal liberal Amazonas. quando a Província já superara o pior momento da crise. contra a administração de Monteiro. apesar das ameaças de bancarrota. escolas públicas da Província foram extintas por alegação de corte de despesas e da atuação de professores que desrespeitavam acintosamente as normas regulamentares (Cf. devido à reforma sem autorização feita no estabelecimento dos educandos e em estabelecimentos de instrução pública. 10/9/1882. a incúria dos diretores e a pouca atenção dada pelos administradores. que Jacy Monteiro tinha inimigos combativos entre os deputados conservadores. Na versão do Amazonas. Ramos Ferreira. o major Ribeiro Guimarães e o capitão Braule Pinto depositam confiança na educação oferecida pela instituição. Cinco deputados assinaram a moção aprovada pela Assembléia. que veio à tona uma outra versão para a extinção da Casa pela administração conservadora. que iniciava “uma nova phase de economia e aproveitamento”. 292 . ou seja. a perseguição ao diretor que imprimia novos rumos ao estabelecimento. a extinção do estabelecimento teve principalmente o fim de alijar da diretoria o capitão de fragata José Francisco Pinto. Sabemos. A briga política em torno do fechamento da instituição não é revelada. Contudo. por uma moção aprovada na Assembléia Legislativa.

Anais. neste momento. da alta do preço da borracha. criando o Instituto Amazonense de Educandos Artífices. 72 Ao anunciar a 69 Moção de 5/6/1877 (AMAZONAS. a Província do Amazonas vivia um período de prosperidade econômica.. teria influído nos rumos da educação popular. explicado pelo Almanaque Administrativo de 1884 como conseqüênc ia do aumento da população nos diferentes rios da região em decorrência da migração nordestina.112. alojado no antigo prédio dos educandos. O jovem governante..” 71 Nos idos de 1882. 69 Duas semanas depois. O deputado Padre Daniel de Oliveira assinou a moção. João Lustosa da Cunha Paranaguá. Um outro Padre (Torquato) e Canavarro. bem assim a que autorisa a despeza de 10 contos com o transporte de pessoas que queiram emigrar para o Amazonas”. lançou-se na realização de outros melhoramentos em Manaus. No exercício do seu cargo. por “importar” trabalhadores prontos com a economia que fizera sustando a formação de artífices. 70 A Província do Pará .presidente retirou o subsídio governamental à instituição. que rejeitou o relatório presidencial e requereu um voto de solene reprovação à administração de Monteiro. 1877. p. 1884. suspendendo as pensões dos que eram mantidos pela Província. reformou a instrução pública. indicando que a Província vizinha optara. atribuída às administrações liberais. adotou medidas que deixaram marcas na cidade de Manaus: restabeleceu o Instituto de Educandos. A boa direção dos recursos. Padre Daniel leu na Assembléia o projeto de extinção do estabelecimento dos educandos e junto com onze parceiros.. deu seu voto a favor do mesmo. 71 ALMANACH administrativo historico mercantil da Provincia do Amazonas. médico dos educandos até meados de 1877. o Marquês de Paranaguá. “A presidencia sanccionou a lei da assembléa extinguindo o estabelecimento de educandos. O presidente José Lustosa da Cunha Paranaguá reinstalou o ensino profissional na Província. instalou a Biblioteca Pública e o Museu Botânico. p. Assim. A Província do Pará trouxe noticias do Amazonas. iniciou a construção do teatro do Amazonas e 293 . 27/7/1877. 72 O advogado José Lustosa da Cunha Paranaguá era filho do Presidente do Conselho dos Ministros.22).. também votaram a favor da extinção da instituição. do crescimento da produção e do comércio. no início de sua vida pública. 70 O Instituto Amazonense de Educandos Artífices “Bem haja pois o governo que sabe prover as necessidades do povo que lhe está confiado.

57). 73 Associando o ato da inauguração do Instituto ao ato patriótico da Independência do Brasil. Segundo Regina Lima (1978). animadas em readquirir “um objeto de seu agrado”. p. ele afirma ter iniciado a construção do novo edifício do Instituto Amazonense. capitão Bento de Figueiredo Tenreiro Aranha. 75 Amazonas. Analisando os ciclones que se abateram sobre o antigo estabelecimento. em matéria de destaque. O Governo Imperial colocou à disposição da presidência o major do 11º batalhão de infantaria. o autor lembra que os benéficos resultados sentidos na experiência passada informam a respeito da capacidade educativa deste tipo de instituição. o “jovem e cheio de fé no porvir” dr. Compareceram as pessoas mais gradas da capital. as elites políticas e econômicas do Amazonas. 74 Restabelecido pela lei provincial n. ver capítulo 2. conta que os educandos o chamavam de pai e que um aluno fizera um retrato a crayon do diretor Innocencio de Araújo. de reconhecida “habilidade e honestidade”. Sobre a atuação de José Paranaguá na reforma da instrução pública no Amazonas. em 10/7/1884 (BITTENCOURT. Innocencio Eustaquio Ferreira de Araújo. 10/9/1882. conforme narra o Amazonas. Na “futurosa” Província do Amazonas. 294 .305-308). E não eram atraídas pela novidade. sob a do reservatório de água da cidade. 19/3/1882 (a gazeta fazia oposição à folha conservadora Jornal do Amazonas). pois a Província acumulou vinte anos de experiência junto ao “decaído estabelecimento de Educandos Artífices”. a cerimônia ocorreu em sete de setembro de 1882. 1973. vislumbraria a oportunidade de iniciar “uma carreira que o levará sem custo ás mais altas posições. em sua maioria. principalmente na Corte. 75 O major permaneceu no Instituto por aproximadamente dois anos e meio. Ocupar cargos políticos e administrativos pelo Amazonas. Poucos meses após a sua saída. antecipada pela ascensão do Partido Conservador ao poder. José Paranaguá. 73 Amazonas. a Província decretou a libertação de todos os escravos. 74 A solenidade conheceu enorme concorrência. não se tratava de uma tentativa. levantou dados populacionais da Província. 564 de 8/5/1882. significava para boa parte destas autoridades um “trampolim” para cargos mais importantes. ponderação feita pelo narrador da cerimônia. Agnello. sua Província natal. eram naturais de outras províncias do país.posse da presidência. No relatório de 16/2/1884. por exemplo. e finalmente. O visitador da instrução pública em 1889. quando pediu exoneração do cargo. o jornal Amazonas desfiou elogios à sua pessoa. especialmente ao fácil trânsito nos “círculos do Rio de Janeiro”. legou 15 contos para a alforria dos cativos. projeto não levado adiante pelos presidentes posteriores (p. a que póde um cidadão aspirar na nossa patria”.

destacou-se a presença de ex-educandos do antigo estabelecimento. 10/9/1882. Entre o público. A útil instituição surge cinco anos depois. 77 Amazonas.77 Moraes aproveita a oportunidade para lembrar que o Commercio do Amazonas foi um dos órgãos de publicidade que combateu a extinção do antigo estabelecimento dos educandos. como a Fênix. À libertação do povo das amarras da ignorância seguiu-se à libertação de uma rapariga e de seu filho menor.. promovida por uma comissão de paraenses promotores 76 UCHÔA. Os discursos se sucederam entre os amigos de prestígio da administração liberal.84). Júlio Benevides. (. na imagem do orador. não pode se abster da tentativa dos poderes públicos em. 76 A notícia publicada no mesmo número do Amazonas informa que a inauguração ocorreu perante “numeroso concurso de pessoas de todas as classes sociaes”.. discursando em nome dos ex-companheiros. Rodolpho Cavalcante. 1966. a qual. p. O sr. O italiano Arturo Lucciani. p. 1996. tornando o cidadão util á sua patria”. o orador a designou de “poderosa alavanca da civlisação moderna”.orientação do professor de desenho Arturo Lucciani. Enaltecendo o papel da imprensa. quando um deles obteve a palavra. conscio dos seus direitos e deveres. Márcio Leonel. reproduzindo o mote da utilidade à sociedade que era freqüentemente aclamado para os desfavorecidos da fortuna que passavam pelas instituições de caridade ou oficiais. Parte do discurso lido por Gregorio de Moraes foi estampado na notícia do Amazonas. o filho do povo restituindo-o a sociedade. este em nome do Commercio do Amazonas. do obscurantismo.196.” O ex-educando mostrou gratidão à oportunidade de educar-se pela Província. O visitador fez uma avaliação positiva do Instituto. 295 . ingressou na instituição ao final do Império Até 1899.) arrancar ás garras da ignorancia. formado pela Academia de Belas Artes de Florença. como José Veríssimo e Gregorio José de Moraes. renascendo de suas próprias cinzas. e da miseria com todo o seu cortejo de vicios e desregramentos. que como elle sahiram daquella casa de educação com a provincia que assim offerecia a seus filhos poucos favorecidos da fortuna o meio de se tornarem uteis a sociedade. “em um eloquente e sentido discurso congratulou-se em nome de seus collegas. o professor de desenho permaneceu no Instituto dos Educandos Artífices (PÁSCOA.

O ensino religioso estava em suas mãos. e ginástica. Aumentou-se o número de internos para 100. A instrução moral e religiosa. p. nomeado pelo presidente. O desenho.dos festejos de 15 de agosto. Todos pertenciam à aula de primeiras letras.35 e 16/2/1884. deveriam compor as fileiras do corpo de educandos. à independência do Império brasileiro. ciências físicas e naturais. é de supor que poucos entraram sabendo ler. nem mesmo quando o cônego Amancio Miranda assumiu a direção em 1885. Ao capelão. na capela do Instituto. p. tais como. ocorrida em 15/8/1823. passando a contar com 48 meninos. Encerra-se o artigo com o jornalista desejando os mais ardentes votos à iniciativa de Paranaguá. 10/9/1882. “muitos de raça indígena”. 79 RPAM. 78 O regulamento. comum às instituições educativas do período. aprovado em novembro de 1882. Cabem aqui dois esclarecimentos: o filho menor da escrava não poderia ter sido libertado. trouxe novidades com relação aos regulamentos do antigo estabelecimento. cabia dizer missa aos domingos e dias santificados. A numerosa e escolhida assembléia aplaudiu a entrega da carta de liberdade. o Instituto abrigava 79 educandos. O citado 15 de agosto é a data comemorativa da adesão do Grão Pará. dada a preferência por alunos já alfabetizados para o aprendizado da música. O programa sofreu o acréscimo de cadeiras. tais como. 296 . O programa da instrução primária estendeu-se às disciplinas adotadas nas escolas primárias de 2º grau. índios e ingênuos. seguindo todos ao “copo d’água” nas dependências do Instituto. O presidente encomendou na Europa o instrumental completo para a orquestra. sempre em obediência às ordens do diretor. continuava no regulamento. 25/3/1883. portanto. A preferência não era mais exclusiva aos órfãos desvalidos: sobretudo. Entretanto. o francês e a ginástica tiveram rapidamente professores incorporados à instituição. mecânica aplicada. devendo ser formada uma banda e uma orquestra. 79 Não demorou muito para a banda 78 Amazonas. No início de 1883. A cadeira de música compreendia a música vocal e de instrumentos de corda e de sopro. desejando Paranaguá ampliar o edifício para receber 150 “menores”. caso tivesse nascido após a lei de 1871 que decretou a libertação dos filhos do ventre da escrava. porém. geografia. quando a esposa do major Innocencio fez as honras da casa. não há alusão à contratação do capelão nos relatórios. dos quais somente 15 freqüentavam a aula de música. francês. entre 7 e 15 anos. história do Brasil e gramática portuguesa.19-20. a aula de música aumentara a freqüência. já com 119 educandos. Um ano depois.

marceneiro e torneiro abocanharam praticamente todos os meninos. sem diminuição da alimentação. 297 .23. RPAM.ser solicitada a participar das solenidades mais concorridas de Manaus. devendo o moderno professor abandonar o suplício dos castigos corporais. devendo portanto. 81 Mais exigente ficou o regulamento com os mestres: comprovado conhecimento em suas artes e saber ler. com inscripção no livro da matricula 6º Expulsão do estabelecimento com perda do pecúlio. comportamento. segundo a aptidão profissional. o regulamento de 1882 reduziu-as para apenas seis: “Art. ir além do ensino prático. p. surgiu mais uma oficina. com maior concentração nas duas primeiras. a de livreiro e encadernador. 80 As oficinas de alfaiate. O ensino era gratuito e não deveria transcorrer além dos seis anos de formação. ou de ambas as cousas juntamente 3º Exclusão da mesa por uma a tres vezes 4º Prisão por um a quatro dias no xadrez do Instituto 5º Reprehensão publica á frente do corpo dos educandos. A correção do educando faltoso estava restrita à admoestação e à repreensão.Os meios disciplinares para os educandos são os seguintes: 1º Advertencia e rephensão particular na Scretaria do Estabelecimento 2º Privação de recreio ou passeio. assiduidade e zelo de cada um. com 15 discípulos. tarefa que no antigo estabelecimento não havia esclarecimento se era da esfera da direção ou da docência. os “meios disciplinares” se tornaram menos extensos e cruéis. Cabia aos professores assumir funções de vigilância sobre os alunos faltosos nas aulas e nas lições. De treze penalidades em 1873.” 80 81 Amazonas. Os mestres se transformaram em educadores.78 . 12/7/1884. A pena de prisão foi abreviada ao máximo de quatro dias. E não bastava dominar os seus ofícios. já que suas tarefas ganharam complexidade. Somente professores habilitados poderiam ingressar no estabelecimento. ferreiro e serralheiro. tal como a inauguração do Museu Botânico por José Paranaguá. ao serem responsabilizados pela classificação dos aprendizes. Em 1884. sempre por meio de concurso público. em fevereiro de 1884. O mapa dos alunos deveria conter observações sobre o comportamento e o aproveitamento de cada um. sapateiro. quando o regulamento mandava demitir o jovem. Com tantos cuidados e vigilância sobre os educandos. 17/2/1884. escrever e contar constituíam pré-requisitos para a nomeação.

conforme menciona o sucessor de Paranaguá. e segundo Paranaguá. iniciativa que não teve continuidade nas administrações seguintes. para conhecimento e estudo da região. segundo o relato do presidente. Joaquim José Paes da Silva Sarmento. O presidente reservou vagas para os “filhos dos gentios”. 16/2/1884. se tornou efetivo por nomeação de Sarmento. Em suas viagens. 25/3/1883. 82 Em 1884. Innocencio de Araujo. providenciando o preenchimento nas diversas viagens empreendidas pelos rios Madeira. O presidente Jansen Ferreira Junior se mostrou satisfeito com o fato de não ter havido nenhuma deserção e nenhum sinistro desde a fundação do Instituto. já funcionavam as classes de catecismo. 24. Paranaguá iniciara a construção de um novo edifício p ara o Instituto. 85 RPAM. Juruá e Japurá.17 e Anexo (Relatório do diretor do Instituto Amazonense). 84 O diretor interino. custeando a Província as passagens dos meninos e de alguns chefes que os acompanhavam.Como dissemos. O clima na instituição era de harmonia. p. 25/5/1885. o Instituto já atendia a 79 educandos. o qual continuou a subir na hierarquia militar. poucos meses após a instalação. 12/7/1884. espaçoso e bem dividido. Somente em 1904(?). O governante relata ter obtido “menores indígenas” de todas essas localidades. a instituição de formação de artífices ganhará um espaço especialmente construído para este fim: trata-se do Instituto Afonso Penna. vida prática e vida doméstica. Afirma o diretor em seu relatório não existir uma só “criança incorrigível” entre as 122 do estabelecimento. Paranaguá incumbiu pessoas de remeter índios para a instituição. O diretor informara em oficio que os meninos estavam sem roupa para o diário e que as oficinas estavam paradas por falta de 82 83 RPAM. disciplina e bom aproveitamento dos alunos. permanecia o major na direção do estabelecimento.35. quando nenhum caso de varíola surgiu lá durante a epidemia de meados de 1885. 298 . p.19-20. p. A diretoria vetou a comunicação dos “menores” com a cidade a fim de evitar o contágio da varíola. 85 O Instituto continuou a crescer. muitos requerimentos vinham sendo negados. RPAM. 83 Neste ano. p. Purus e Solimões. 84 RPAM. em obediê ncia à lei que mandou preferir índios e ingênuos. 86 Pela exposição de outubro de 1885 são divulgados alguns fatos que indicam o descuido público com a instituição. sob a direção do tenente coronel Innocencio.9. 86 RPAM. cujas fotos encontramse em anexo. p. O estado sanitário era excelente. 11/10/1884. inclusive dos rios Negro.

. o Vigário Geral do Alto Amazonas. Infeliz mocidade!. porem. A Província. Padre Raymundo Amancio de Miranda. são abordadas no capítulo 2. O médico homeopata Serra Freire participou. segundo noticias do jornal amazonense A Província : um por “congestão pulmonar”. p. 27/9 e 8/11/1885. A atuação da comissão e a vida pública de cônego Amancio de Miranda. 18/10/1885 (grifo do autor). conservador na política e na religião.. três educandos faleceram.27). Em visita ao estabelecimento. Julio Mario da Serra Freire. Guimarães. O artista despresará as horas do trabalho do martello e do malho para empregal-a no estudo das doutrinas subversivas do catecismo da diocese que ensina a mulher casada preferir a companhia do padre a do seu marido. p. o presidente Joaquim de Oliveira Machado o demitiu “a bem da moralidade da administração” devido às acusações da Câmara de Manicoré e de outras. O vice-presidente.. 23/8. ex-deputado da Assembléia Paraense. 90 A Província. amanhã. destinado à obra abandonada do novo prédio do Instituto. em 1883.7. O jornal liberal acusa o governo conservador de substituir funcionários públicos por “amigos” de 87 88 RPAM. constatadas em documentos oficiais (RPAM. 88 A direção em outubro de 1885 não estava mais nas mãos de um militar.19 e Anexo 6 (Relatório do diretor do Instituto Amazonense de Educandos Artífices). Desgraça da provincia do Amazonas!. Mancio Caetano Ribeiro. 25/3/1886.materiais. outro por “longo e doloroso padecimento” e o terceiro. Guimarães encontrou grande quantidade de material largado. autorizo u a liberação de verba para sanar estas dificuldades. O tenente coronel Innocencio fora exonerado a seu pedido. 299 . formando um bloco de oposição aos deputados liberais. A inserção de Freire no serviço público amazonense teve vida curta: em meados de 1889. 89 O jornal amazonense A Provincia ironizou o ingresso dessas duas figuras no Instituto Amazonense.. e sim de um sacerdote. de acordo com a informação prestada no relatório provincial. Hoje alli forma-se artistas sem coacção da liberdade de consciencia do educando.. se formarão ociosos propagadores das doutrinas supresticiosas dos Loyolas. 89 RPAM. de origem indígena. devido a uma “afecção pulmonar”. anunciando o domínio do jesuitismo na instituição oficial. 28/10/1885. em companhia do cônego José Lourenço da Costa Aguiar e do padre Dr. instalada sob um governo liberal: “Demitiram o medico para o substituir por um clerical de casaca e vão demittir agora o director para nomear um clerical de sotaina.. 2/6/1889. cegos e obedientes escravos do ultramontanismo de Roma! O jesuitismo vae agora invadir a instituição mais liberal desta provincia. tenente coronel Clementino José P. Um novo médico chegara ao Instituto. da comissão de instrução pública da Assembléia Provincial do Pará. p. 87 Entre agosto e novembro de 1885.”90 São tempos de se inverter as acusações de perseguições políticas. humildes.

promotora do ultramontismo romano e da escravidão. mas era preciso rever a tabela dos vencimentos. 25/3/1886. 93 RPAM. 300 . a guerrear contra a situação. em nome do amor à família. O cônego pretendia fazer a reforma total do estabelecimento. e valorizasse. O jornal liberal. Os jornais o acusaram de recolher presos a bordo da canhoneira Manáos alguns “menores”. teve seus atos duramente atacados pelo Amazonas e pela Província do Pará. da moral e da religião. 93 Até o final do Império. A Província conclama os “pais de família” a permanecerem atentos ao ensino na instituição. 10/1/1887.lo. em janeiro de 1888. incompetência e abuso de poder. antes de tudo. 91 O relatório do cônego Amancio de Miranda sinaliza vários problemas da instituição. De olhos atentos sobre o Instituto reinstalado pelo governo liberal de Paranaguá. tendo permanecido na direção do Instituto por um ano. 27/11/1885. pois o Instituto tinha 120 alunos. ao ser convidado em novembro de 1886. O professor contava com um adjunto para auxiliá. à liberdade e ao progresso da pátria. para que seus filhos amem a liberdade e não se tornem escravos de uma seita. pois os educandos ganhavam uma calça e uma blusa de quatro em quatro meses e os colchões caíam aos pedaços. pois trocou o cargo de diretor do Instituto pela direção da instrução pública. Anexo 10. a começar por reformar o regulamento. Os empregados tinham boa vontade. Propôs que se retirasse o ensino da língua francesa. viu na substituição da direção dos institutos amazonense e paraense a transformação da instrução em “apanágio da politicagem”.14 (Relatório da Diretoria da Instrução Pública). vigilante quanto às demissões e nomeações com a volta dos conservadores ao poder. a imprensa simpatizante do Amazonas e do Pará se apressava a defender a obra quando percebia na atuação dos diretores. Anexo 6 (Relatório do diretor do Instituto Amazonense de Educandos Artífices). O diretor em exercício. 92 Amancio de Miranda não dispôs de muito tempo para fazer a reforma pretendida. A Província do Pará. como previa o novo regulame nto da instrução. de Belém. o Instituto passará por mais três substituições de diretores e por dificuldades de fornecimento de materiais. p. e 91 92 Província do Pará . Os cidadãos são convocados. pois resultado algum se conseguia fazendo de todos os que freqüentavam uma escola “uns sabichões”. o ensino das primeiras letras. RPAM. Não localizamos nas coletâneas de leis do Amazonas a existência de um regulamento do Instituto Amazonense após 1882. como a falta de roupas.partido e permitir o ingresso da “politicagem” na instituição. Era necessário dividir a escola em dois graus de ensino.

o “juiz competente” concedeu habeas-corpus. em substituição a um professor exonerado a seu pedido. Perto de completar sete anos de sua reinstalação. como o de João Barbosa Rodrigues. o nome de um pai ausente ou que não assumira o filho. 301 . tutelada do diretor do estabelecimento. o que reduz em muito a possibilidade de análise. mas não há informação se as famílias se mudaram para a capital ou se os filhos seguiram diretamente para o Instituto. A possibilidade de a mãe informar. Portanto. com cerca da metade de seus alunos estudando música e desenho. exonerado a seu pedido no mesmo semestre. p. a maioria já adolescente. somente sete não tinham pais conhecidos. a presidência o exonerou 94 A Província do Pará . estando inscrito no mapa da escola primária do Instituto. uma notícia clama pela atenção do chefe de polícia do Amazonas para o desaparecimento da “menor Adélia”. receando a perda da vaga ou a discriminação contra o filho.informam que.107 e 108. 2/6/1889. sabemos que o diretor interino do Instituto no período era o cidadão Pedro d’Alcantara da Silva Moraes. entre 7 e 17 anos. estudioso de botânica que empreendeu viagens de estudos e de pacificação de índios pelo interior do Amazonas. Em 1889. Com o incremento da migração cearense. Destes. Não obtemos mais dados familiares. o Instituto Amazonense seguiu funcionando regularmente. 95 RPAM. o perfil dos atendidos sofre modificações: diminuem os sobrenomes indicativos de origem indígena (como o nome da aldeia ou rio de onde procedia o aluno) e cresce o alunado procedente do Ceará. por intermediação do governo ou por solicitação dos pais. diretor do Museu Botânico de Manaus. No mesmo dia. o termo “pai incógnito”. 14/1/1888. que brutalmente espancada pelo tutor. 95 Alguns nomes de prestígio passaram pela docência do Instituto Amazonense. Pelo relatório provincial de 10/1/1888. com a aquiescência das autoridades locais. Rodrigues assumira a cadeira de desenho no ano de 1886. Anexo E. teria fugido de casa. não pode ser descartada. pelo menos uma parte significativa dos meninos provinha de famílias onde o pai era ou foi presente. 94 A despeito das oscilações na política provincial que afetavam diretamente as instituições educacionais com o rodízio de pessoal. o Instituto continha 120 alunos. Muitos alunos procediam do interior. em favor dos meninos.

A escola primária estaria dividida em três graus. dos quais se esperava grande aproveitamento com a boa vontade e a dedicação do novo professor. uma instituição religiosa situada em Tefé. o estudo das primeiras letras. porém. fundado pelos padres da Congregação do Espírito Santo receberia trinta órfãos para instruir nas artes. ofícios e trabalhos agrícolas.82 (Relatório do diretor do Instituto Amazonense de Educandos Artífices). O relatório do diretor da instrução pública apontou para a decadência. marceneiro. porém. O Estado transferiu a obra educativa para a Igreja. encadernador. p. ao contrário do que ocorreu quando foi criado o Instituto Amazonense de Educandos Artífices em 1882. 97 Em 1904. Relatorio do diretor da Secretaria dos Negocios do Interior. 30/6/1899. funileiro.do cargo. a instituição de formação de artífices ressurgiu. o aprendizado nas oficinas. à boca do rio Solimões. foi deliberada a suspensão dos trabalhos do Instituto de Artes e Ofícios. não demoraria muito para reerguer o tradicional estabelecimento de formação de artífices de Manaus. mas não temos como precisar se a instalação no novo edifício ocorreu nesta data. 96 RPAM. cinco das quais funcionaram no período anterior da instituição: alfaiate. ou seja. O regulamento previa a instalação de sete oficinas. Os poucos educandos existentes tiveram seus destinos determinados pelo decreto de extinção. tendo todos os seus 45 alunos “algum adiantamento”. 97 GOVERNO DO AMAZONAS.lo. p. 302 . o Instituto resistiu por mais dez anos. 20 e 27 e 2/6/1889. por exemplo. O Instituto de Educandos Artífices surgiu sem qualquer referência à experiência anterior. Cada oficina desta englobaria profissões especializadas. p. 96 Iniciado o novo regime político do país. na de marcenaria se formariam torneiros. dentro de um modelo educacional e de uma estrutura institucional que não diferiam da instituição imperial. das cadeiras específicas e da música. O objetivo consistiu em preparar representantes do “sexo forte” para as profissões manuais. 25/3/1886. enquanto não fossem contratados os professores necessários. sapateiro. carpinteiros.27. acrescentando-se as de ferreiro e pedreiro. justificativas empregadas anteriormente para fechar o primeiro estabelecimento criado. somente a de primeiro grau funcionaria. até que se concluíssem as obras do novo edifício. Em janeiro de 1899. A verba destinada à manutenção dos educandos do Instituto passou a auxiliar. por decisão do governo. o abatimento e os sacrifícios pecuniários por parte do Estado e dos esforços do diretor para animá. anexo E. O Asilo Orfanológico.

marceneiros e entalhadores. das oficinas. em amplo e arejado edifício. a instituição manteve suas diretrizes no regulamento que a reorganizou. 99 ESTADO DO AMAZONAS. abordamos a trajetória da Casa paraense. por determinação do Governo Federal. A época das instituições asilares de formação de artistas se extinguira. atendendo a grande número de aprendizes externos. o Pará promoveu duas experiências de formação de artífices. na cidade de Belém. proporcionando. Decreto n. providenciada pelo Presidente da Província. “educar menores pobres. 98 Denominado Instituto Affonso Penna. A de Manaus funcionou nas instalações do novo Instituto. especia lmente indios. pois optamos por priorizar as discussões sobre a educação dos meninos pobres na região. art. Em junho de 1872. Convidados ilustres estiveram presentes. da banda de música e da sala de aula. a primeira Casa de Educandos do país. Título V: Regulamento do Instituto de Educandos Artífices. A administração provincial instalou em 1840. como o 98 AMAZONAS. Abel Graça. junto a outras iniciativas do gênero. fotos do edifício. escolas de aprendizes artífices foram criadas em vários estados. ou seja. empreendidas por algumas províncias brasileiras. órfãs e pobres. quando o tema da educação e da instrução populares conheceu grande destaque na imprensa nacional e os dois institutos amazônicos conquistaram o interesse dos jornais da região. a inauguração solene do Instituto Paraense de Educandos Artífices. 691 de 22/12/1904. Manáos: Imprensa Official.lhes ensino primario e artístico”. 1908. O regulamento mandava preferir crianças indígenas. bastante desacreditado “desapareceu” da documentação. 1º. No capítulo 3. Não retomaremos a análise da Casa de Educandos do Pará neste capítulo. O estabelecimento do Pará manteve-se até meados de 1850 quando. na coluna principal. O Instituto Paraense de Educandos Artífices Como a Província vizinha. orphãos. 99 Em 1910. 303 . na música e nos ofícios mecânicos. em 1908. o Jornal do Pará destacou. O objetivo consistia em instruir meninos desvalidos e órfãos nas primeiras letras. Ver em anexo. como o de 1882. Regulamento para o Instituto Affonso Penna: a que se refere o Decreto 880 de 26/9/1908. sob os auspícios dos poderes públicos. próximas à década de 1870.

com brindes aos cavalheiros e ao “primeiro cidadão do Império”. Sobre a atuação do cônego Siqueira Mendes na instrução. O novo edifício somente surgirá com a instauração do regime republicano. 102 Abel Graça se entusiasmou com a proposta.r Abel Graça será lembrado com reconhecimento: o nome do illustre fundador do Instituto Paraense de Educandos Artifices será gravado em lettras de ouro na historia d’aquelle estabelecimento. o sr. enaltecendo a iniciativa da presidência para a formação dos futuros cidadãos do Pará: “Mais tarde. Amazonas. a perspectiva da abolição do elemento servil 100 Segundo Agnello Bittencourt (1973. 4/6/1872. cujas fotos estão em anexo. o Instituto Lauro Sodré. como “irmã do progresso e da civilização”. A instituição fora criada por lei de 1870. p. o jornalista amazonense Bento Aranha foi aprovado no exame de professor de primeiras letras em Belém (1865) e nomeado professor em Manaus (1874). forem cidadãos instruidos. 103 RPPA. que vão agora começar a aprender. 1915. exerceu a função de visitador das escolas públicas do rio Solimões. e deu encaminhamento ao projeto ainda em 1870. 1870. D. e grande número de pessoas gradas da sociedade paraense. com grandes salas decoradas com simplicidade. Em 1889. cônego Manoel José de Siqueira Mendes.100 O jornal reproduziu o entusiasmo dos presentes.”101 Terminada a seqüência dos discursos. adquirido pela Província. o diretor do Instituto major Luiz Eduardo de Carvalho. 135). O Instituto ocupava o prédio de uma vasta quinta no bairro de Nazaré. Bento de Figueiredo Tenreiro Aranha dissertou longamente sobre a instrução. quando os meninos. que entrão para ali agora balbuciando as lettras do alphabeto. os chefes militares e das repartições públicas. os convidados desfrutaram de um “luxuoso e opulento almoço”. 101 Jornal do Pará . Iniciado o ato pelo presidente. quando essas crianças. forem homens e souberem colher todas as vantagens do trabalho intelligente. discursou sobre as vantagens do estabelecimento e dos seus resultados futuros. na época áurea da exploração da borracha. e concorrerem para o desenvolvimento moral e intellectual do seo paiz. 304 . p.50. Pedro II. Raymundo Joaquim. quando estava em exercício o 1º vice-presidente. ver capítulo 2. quando os importantes resultados d’aquelle estabelecimento forem conhecidos.103 A escassez de braços na Província.22. 102 MARTINS. p. O engenheiro Guilherme Francisco Cruz elaborou um projeto para a construção do estabelecimento para órfãos e desvalidos e foi encarregado dos trabalhos preparatórios por Abel Graça. Um verdadeiro palácio é erguido.chefe de política. cuja inspiração se originava no estabelecimento do Maranhão. d.

em toda a sua existência.9 da lei provincial n. o presidente obteve autorização da Assembléia Provincial para aumentar de 30 para 100 o número de educandos. se verificará um excessivo controle presidencial. p.. No início do ano de 1874. porém estas vagas não foram totalmente preenchidas por falta de acomodações no edifício. 1874.660 de 31/10/1870. 105 RPPA.. 105 O modelo educacional em questão não era desconhecido dos paraenses.e a expectativa de que os desvalidos fossem úteis à Província e às suas famílias.Guilherme Heseth Ajudante fiel .Dr. 104 No ano seguinte. Jayme Pombo Bricio Almoxarife . por parte dos mais diversos níveis sociais. De um lado. compunham as justificativas para a criação da instituição educacional. Instituto criado pelo art. alvo do cuidado dos poderes públicos. a fortalecerá e a tornará vulnerável. o estabelecimento atendia a 44 meninos.28. deixando os diretores amarrados às determinações das presidências nos eventos mais cotidianos possíveis.João Pedro da Silva Castro 104 ALMANAK Administrativo. os governantes não medirão esforços para atender às determinações dos regulamentos. o máximo que podia suportar. segundo o presidente Pedro Vicente de Azevedo. à exceção do escriturário. publicado em 1874: Empregados: Diretor . Como no estabelecimento amazonense.major Luiz Eduardo de Carvalho Escriturário . A relação abaixo foi divulgada pelo Almanaque de Carlos Seidl.88-89. De outro. O valor e o prestígio atribuídos à iniciativa. p. e submetendo-a aos reveses da política e do clientelismo do Estado. sobretudo o Maranhão. nomeou-se para o posto de diretor um militar.vago Médico . ao mesmo tempo. O Instituto nasceu com os cargos preenchidos. 305 . o major Luiz Eduardo de Carvalho. que começara a mostrar-se impróprio para seus fins. A avalanche de pedidos de admissão junto aos presidentes da Província é uma característica importante da instituição. 15/2/1874. cujas províncias vizinhas vinham desenvolvendo as experiências mais bem sucedidas do país. A população rapidamente depositou na instituição a confiança na boa educação de seus filhos.

como agente.Joao Cyrillo da Silva Ferreira Serralheiro .84. por determinação do regulamento de novembro de 1873. particulares e outros). 306 . introduziu-se a cadeira de ginástica. 107 RPPA.Francisco Ciára Branco Mais tarde. podendo ele substituir o diretor quando ausente. O agente era a posição imbuída de maior poder entre os educandos. faltando portanto. na relação do Almanaque a de alfaiate. Eram funções relativas ao trato e vigilância direta sobre os colegas e sobre as atividades diárias dos serviços de cozinha e lavanderia.29) informa que existiam cinco oficinas. aliás. “Acompanhar os educandos. as quais atendiam a encomendas internas (fardamento e roupas de uso diário dos educandos) e externas (fardamento do corpo de polícia.Theodoro Orestes Mestres106 Carpina . um ofício bastante valorizado pelos governos e pelos estabelecimentos de educandos.”108 106 O relatório provincial de 1874 (15/2/1874. não consentindo contendas e altercações. Entre o pessoal.o diretor Tecnologia e desenho .Padre João Simplicio das Neves Pinto e Sousa Música . Guiherme Francisco Cruz Capelão . 107 Logo surgiram as oficinas de sapateiro e alfaiate. 108 PARÁ. em turmas. por prover fardamento ao corpo de educandos e às demais repartições públicas. por exemplo.José Pedro de Leão Funileiro .Dr. e empregando toda a vigilancia para que os educandos não contraiam máos habitos. p. fiel. 17/1/1875. art. Regulamento do Instituto Paraense de Educandos Artífices de 30/3/1872. o cozinheiro e as funções preenchidas por educandos. constavam ainda os serventes. Cabia ao agente. e se não empreguem na pratica de actos reprovados. amanuense e enfermeiro.Padre João Simplicio das Neves Pinto e Sousa Geometria e mecânica . como alegou o presidente Pedro Azevedo ao solicitar a sua adoção no Instituto. até a porta das aulas e officinas. assistir aos banhos e aos actos de recreio.Professores Primeiras letras . p. valorizada em vários países.36.Honorato Antonio Ferreira Celso Marceneiro .

O programa era minuciosamente distribuído ao longo do dia. art. devendo seguir o seguinte plano: 1º: aritmética. teórico e prático. O ensino teórico dividia-se em dois anos. o programa das aulas teóricas se tornou mais complexo. e passou a exigir mais tempo do dia dos alunos. também reservados aos exercícios militares. O ensino profissional. serralheiro e ferreiro. funileiro e ferreiro. A parte da tarde era dedicada à aprendizagem do ofício e da música. quatro operações aritméticas.O fiel acompanhava todos os serviços da casa. o qual se iniciava em torno do meio dia. manejos de armas e passeios. mecânica prática. mapas e ofícios e quaisquer outros serviços de escrita. conforme prescrevia os regulamentos de 1872 e 1873. inspecionando a cozinha. gramática da língua nacional e instrução moral e religiosa. fazer as orações na capela. tabuada. Regulamento de 30/3/1872. O ensino se dividia em ensino primário e curso teórico. os educandos passavam pelos exames anuais. torneiro. sapateiro. providenciando o banho e fazendo com que se cumprisse a limpeza de seus compartimentos. em 1883. do ensino primário. 87. pelo regulamento de 1883. formar para revista. seguir para a aula de primeiras letras e almoçar. pelos extensos regulamentos do Instituto. O ensino da doutrina cristã pelo capelão do estabelecimento ocorria aos domingos e dias santos. O curso teórico precedia o trabalho nas oficinas. Como na instrução pública. conforme a vocação dos educandos. sapateiro. 109 Os educandos nomeados recebiam uma pequena gratificação mensal pelo cofre do Instituto. noções do sistema métrico. A aula primária constava de leitura e caligrafia. desenho topográfico e máquinas. Mais simples nos dois primeiros regulamentos (de 1870 e 1872). verificando o cumprimento das prescrições médicas. surrador e curtidor e na de alfaiate. Até o final do Império. O amanuense auxiliava o escriturário e o almoxarife na cópia de relações. música instrumental e de orquestra e ginástica. 307 . deveria ser exercido nas oficinas de marceneiro. o estabelecimento manteve em funcionamento cinco oficinas: alfaiate. Os meninos deveriam acordar as cinco da manhã. Figuras 109 PARÁ. geometria prática e desenho linear 2º: álgebra. O enfermeiro cuidava da limpeza e do asseio da enfermaria e dos doentes. marceneiro.

Todos os atos da vida diária dos educandos deveriam ser anunciados por toques de sineta ou de tambor. O engenheiro Antonio Manuel Gonçalves Tocantins que. 112 110 A Província do Pará . 28/9/1883 e 22/9/1882. 308 . 111 Aos incorrigíveis. Dirigir-se aos superiores sem a devida continência constituía falta grave. explorou o rio Tapajós. A repressão às rebeliões de internos aparece no regulamento de 1883. o diretor e visitador da instrução pública paraense Joaquim Pedro Corrêa de Freitas. A Constituição. 110 Esperava-se do corpo de educandos disciplina e obediência militares. se envolveram com o tema da educação popular na Província. Corrêa de Freitas. maio a agosto de 1883). freqüentar tabernas. Clementino Lisboa.de destaque participaram como comissários da presidência nos exames do Instituto. comissionado pelo governo. 112 Sempre sobravam muitas vagas na Companhia de Aprendizes Marinheiros do Pará. A revista matinal visava a verificar os faltosos e o cuidado com o asseio. 111 PARÁ. O deputado votou contra o projeto que deu novo regulamento ao Instituto (Cf. a vigilância nos dormitórios e nos banhos buscava prevenir os atos tidos por obscenos que tanto preocupavam os dirigentes de internatos. A Constituição. e outros apenas insinuados pelos legisladores. Regulamentos de 1872 e 1883. denotando o prestigio da instituição. participou das discussões do novo regulamento do Instituto de Educandos em 1883. independente da orientação política. Gonçalves Tocantins e Costa Aguiar. a clamar para o alistamento do “povo molecório” que circulava pelas ruas de Belém e Santarém. o deputado provincial Clementino José Lisboa e o cônego José Lourenço da Costa Aguiar. um liberal na Assembléia liderada pelo cônego Siqueira Mendes. conversar no meio das ruas ou largos. Os regulamentos eram precisos quanto às possíveis faltas dos alunos. por caminhos bastante diferentes. 23/9/1877 e 24/9/1885. A hierarquia institucional iniciava-se com o respeito aos companheiros mais velhos. acompanhar pessoa que não fosse educando. punidas com a pena da expulsão. prevendo todo tipo de transgressão. determinado pelo Presidente da Província. levando a imprensa. como sair à noite. como se pode verificar no capítulo 2. se empenhar em atos reprováveis. parar em esquinas. cabia aos educandos receberam com toda a “docilidade” as correções impostas. Cometidas as faltas. previa-se o destino geralmente rejeitado pelo povo paraense e até por deputados da Assembléia Provincial: o encaminhamento à Marinha. como o jogo. confrontando as posições da maioria conservadora.

Trata-se do primeiro diretor. 309 . A Constituição.A entrada da ruim política da Província no Instituto Paraense O Instituto não tardará a freqüentar as primeiras páginas dos jornais. Em meio ao embate travado com o órgão conservador. major Luiz Eduardo de Carvalho. 19/4/1876 (grifo do autor). Carvalho “manifestou-se político”. Um certo vice-presidente “lembrou-se” de tornar o cargo incompatível com o de professor de geometria dos “menores do Arsenal de guerra”. mas ainda não havia sido executada. ao Instituto. 113 A Província do Pará . em meio aos combates do que o jornal A Província do Pará designou por a ruim política da Província. O primeiro ponto refere-se à seleção do candidato ao cargo máximo do estabelecimento. aos liberais. concedendo ao mestre das oficinas de sapateiro. O ex-diretor era “amigo particular” do presidente que o nomeou para o cargo e dele foi retirado por alguma inimizade. em lições de uma a duas horas. “A Província do Pará”. A gazeta dedicou a sua coluna principal. exercido por ele três vezes por semana. em uma série de longos artigos. O jornal apelou para que o presidente Benevides rejeitasse as mudanças. neste caso. questionando a reforma pretendida pela Assembléia Provincial em 1876. correeiro e curtume a gratificação de 50% de seu salário. na eleição de juizes de paz do 4º districto da capital. A gazeta vê na medida um único fim: “Digamos a verdade: o artigo 1º do projecto só visou uma coisa: deitar fóra do Instituto o director . sem estender o benefício aos outros mestres. instituindo-se a condição de ser versado em artes mecânicas. declarando que recorrer à Assembléia seria “o mesmo que chamar no deserto”. apesar da pouca vant agem oferecida pelos vencimentos percebidos. saudado como inteligente e honesto.Tenente-coronel Baptista de Miranda. em 1875. o crime de lesa politica votando em chapa liberal. pois somente após a demissão.” 113 As reformas no Instituto estariam direcionadas por “fins odiosos”. como a lei promulgada pela Assembléia. O autor afirma que antes deste caso. imbuído em prestar seus serviços a tão útil instituição. caracterizada pelas perseguições aos opositores. A lei fora sancionada pelo Presidente da Província. o Instituto se viu privado de um ótimo diretor por causa da política. que praticou. o jornalista do A Província do Pará se diz autorizado a revelar que o major não desejava abandonar a direção do Instituto.

substituídos por falecimento. que alterou o regulamento do Instituto de Educandos. que segundo A Província. Em 30 anos. surgirá nas páginas da Província do Pará como um dos inúmeros alvos da “grande derrubada e remonta” que o domínio conservador estaria promovendo nas repartições públicas. não passariam de três possíveis candidatos no Pará. órgão do partido conservador. sabemos que a investida dos deputados fracassou. conforme denunciou a gazeta A Província do Pará. de 23/4/1883. com a volta ao poder. 115 Lançado o primeiro artigo. eliminou as palavras “o diretor será. por considerá. 24/4/1876. tenentecoronel Innocencio Eustaquio Ferreira de Araújo. 114 Carvalho permaneceu no Instituto Paraense como professor de geometria e de mecânica aplicada. 116 A discussão arrefece na imprensa e por uma breve nota comunicando atos oficiais do governo. 118 Contudo. sempre que for possivel um engenheiro”. 29/9 e 6/10/1885. Evitando detalhar os meandros da discussão. álgebra 114 A Província do Pará . permanecendo Baptista Miranda na direção do Instituto. 117 A Província do Pará . A Lei n. 118 A Província do Pará . os desgostos com as atitudes dos membros da Assembléia Provincial nunca deixaram de ser manifestados por ele. e anos mais tarde. O primeiro refere-se à limitação imposta na seleção de diretores. A Constituição. 6 e 13/6/1876 (“Expediente do Governo”). iniciou um debate posicionandose favoravelmente às iniciativas dos deputados conservadores da Assembléia. 24/4/1876.las prejudiciais ao Instituto. Miranda obteve dois meses de licença para tratar da saúde. o título de vitaliciedade em ambas as cadeiras. José Luis Coelho não se desvinculou da instituição. sempre atenta aos atos dos governos conservadores. como o ex-diretor major Carvalho. sendo substituído pelo engenheiro civil José Luiz Coelho. destacaremos alguns pontos reveladores da ingerência política na instituição educacional. Em 1885. porém reuniam as qualidades necessárias aos administradores. que conheceu rápida resposta da gazeta liberal. 117 O engenheiro aparece nos relatórios de 1878 em diante ocupando a direção. Coelho era o diretor quando foi exonerado. 1174. em junho de 1876. dedicando-se ao ensino de aritmética. obtendo. No Instituto Amazonense caía o seu primeiro diretor. É A Constituição quem informa do posicionamento político tardio do e x-diretor. A constante mudança de dirigentes é apontada como prejudicial à instituição e o estabelecimento do Maranhão é citado como exemplo dos benefícios da constância de diretores. dirigiram a Casa maranhense somente três homens. 310 . 115 A Província do Pará . buscando provar a isenção política em torno de sua demissão. Nenhum possuía “conhecimentos científicos”.No entanto. A Província do Pará. 13/12/1877. o seu mais vigilante opositor político. 116 A Província do Pará . segundo denúncia do mesmo jornal em 27/11/1885. Em dezembro de 1877.

e francês, tendo sido esta última uma iniciativa de sua direção que não chegou a se tornar oficial. O novo diretor nomeado em 1885, Manoel Joaquim Fernandes Penna, permaneceu até a volta do domínio liberal em 1889, quando o engenheiro Coelho reassumiu a direção. 119 A Constituição revela o que A Província do Pará afirma já saber: existia na Assembléia a idéia da extinção do Instituto, a qual não vingou. O tema não é aprofundado, mas percebe-se no debate um conflito de interesses entre deputados e administradores. A Província assegura que a presidência não acatava de imediato os projetos legislativos, consultando a comissão nomeada para estudar as reformas a serem feitas em benefício da instituição. E sai em defesa do poder administrativo, ferido na sua esfera de ação pela exorbitância de atribuições do legislador. Dois poderes disputam o privilégio de determinar as nomeações na instituição, sugerindo o capital eleitoral/clientelista que ela assume para a política local. Nos primeiros anos de funcionamento, a disputa ocorria entre deputados conservadores, dominantes na Assembléia, e o governo conservador, tendo por objeto uma instituição criada por conservadores. A Província relaciona uma série de reformas prejudiciais geradas pelo legislativo, como a redução do número de educandos, a sua elevação sem o correspondente aumento da verba, o aumento do número de oficinas, etc. 120 É interessante como na contenda da política provincial, a instituição criada e administrada por um governo conservador, era defendida pelos liberais. Ao que parece, o foco principal da oposição dos liberais centrava-se nos políticos conservadores e não nos governantes, vindos na maioria das vezes, de fora da Província, ocupando o lugar por um intervalo de tempo que mal lhes permitia imiscuir-se na política local, caso este fosse o interesse. A Província do Pará chegou a ponto de enxergar o intento de “matar” o estabelecimento nas matérias do órgão conservador, o qual estaria desprestigiando o diretor com publicações inconvenientes à disciplina do Instituto, alterando os fatos com o fim de “plantar a insubordinação no corpo de educandos”. 121 No ano de 1876, as medidas de contenção dos gastos públicos afetarão as atividades do Instituto. O governo suspendeu o trabalho nas oficinas e despediu os
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RPPA, 16/6/1879; 25/3/1886 e 18/9/1889. A Província do Pará , 27/4 e 30/4/1876. 121 A Província do Pará , 30/4/1876. Infelizmente, não tivemos acesso ao ano de 1876 do jornal A Constituição , para a checagem dos problemas disciplinares denunciados pela folha.

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mestres, além de determinar o envio dos educandos para passar as férias em companhia de seus pais, tutores e protetores. Bandeira de Mello informa que dos 60 internos, 48 saíram no dia 1º de novembro e retornaram no início de janeiro de 1877. Portanto, o temor manifestado pelo jornalista da Província do Pará de que muitos não voltassem, apesar dos termos de responsabilidade assinados, não se verificou. Os educandos reencontraram somente as oficinas de alfaiataria e carpintaria reabertas, no entanto, as restrições financeiras não impediram o restabelecimento das cinco oficinas, as quais, permaneceram funcionando regularmente até a reorganização do estabelecimento no período republicano. 122 O presidente Bandeira de Mello acompanhou pessoalmente os trabalhos no Instituto, visitando-o logo após a volta dos meninos licenciados. Mello não parecia compartilhar a opinião da contenção dos gastos públicos através da extinção do estabelecimento, pois verificou quais eram seus problemas mais urgentes, como a aglomeração nos dormitórios e elaborou um plano e orçamento para promover melhorias nas instalações da casa. 123 Não demorou muito, o presidente estava de volta ao Instituto para tratar de um caso que provocou profunda consternação no governo e uma tremenda balbúrdia na imprensa paraense de tendências políticas opostas: a fraude do almoxarife. O crime fora cometido no âmbito de um governo conservador, porém o almoxarife era um liberal, batizado pela imprensa opositora de “liberal ladrão”. 124 Longos artigos seguiram-se nos meses seguintes na Província do Pará e na Constituição, analisando e desvendando a fraude do almoxarife na escrituração do estabelecimento, onde figurava m na receita madeiras e outros materiais que nunca entraram no Instituto. Mello examinou pessoalmente os objetos e a escrituração do estabelecimento e nomeou uma comissão para investigar o crime do almoxarife. De toda a apuração resultou a demissão do almoxarife a bem do serviço público, e na ordem para que fosse responsabilizado na forma da lei. 125 Três meses após a ocorrência,

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A Província do Pará , 20/10 e 24/10/1876; RPPA, 15/2/1877, p.98. A Província do Pará , 17/1 e 21/1/1877. Durante a gestão do engenheiro José Luis Coelho, algumas obras foram autorizadas, como a ampliação dos dormitórios e o conseqüente aumento no número de educandos para 92 (RPPA, 15/2/1881, Anexo). 124 Matéria transcrita do Diario do Gram Pará pela A Constituição, 10/2/1877. Segundo A Constituição (9/2/1877), o almoxarife foi um dos liberais que ”mais se distinguiram na eleição de Nazreth; sendo eleito 2º juiz de paz d’essa infeliz parochia”. 125 A Constituição, 17/2/1877 (“Actos Officiaes” da Presidência da Província em 12/2/1877).

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a Assembléia Provincial aprovou uma lei de reorganização do Instituto de Educandos que incumbiu o diretor de exercer as funções de almoxarife. 126 A ocorrência fortaleceu o controle presidencial sobre a instituição, quando todo e qualquer fornecimento às oficinas que permaneceram no Instituto (alfaiataria e sapataria) passou a depender da autorização de Bandeira de Mello. O controle da administração provincial sobre a vida institucional era exercido minuciosamente, sobretudo pela pessoa do presidente, como veremos a seguir. O controle dos governantes sobre a instituição

A correspondência entre o Presidente da Província e o diretor d o Instituto Paraense desvenda o controle exercido pelos presidentes sobre os mais diversos aspectos da instituição, como a admissão, o desligamento e a expulsão de educandos, a contratação e demissão de empregados, a compra de materiais para as oficinas e para o estabelecimento em geral, o recebimento de encomendas externas, as apresentações da banda de música, a escolha dos comissários para presidir os exames anuais, entre outros. 127 Os ofícios assinalam aspectos do funcionamento cotidiano da instituição, sendo neste momento, uma fonte contrastante em relação à contenção e à abordagem generalista dos relatórios oficiais. Em alguns momentos, transportaremos as palavras dos dois dirigentes principais da instituição e dos demais participantes de sua história, através dos pedidos de consideração às suas necessidades. Nestes textos, aparecem as famílias, ex-educandos e empregados, vozes raras na documentação educacional do período. No andamento da administração interna, os diretores mantinham a presidência informada de todas as ocorrências e recebiam recomendações do presidente quanto à execução de suas tarefas. Os exemplos são muitos, porém, nos deteremos nos mais contundentes. Um deles revela que o Presidente da Província, nomeava de punho próprio os educandos que trabalha vam na instituição. O Presidente do Pará oficiou, em

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Lei n. 892, de 27/41877. A visita do presidente é relata pela Província do Pará , 10/2/1877. A correspondência entre a Presidência do Pará e o Instituto de Educandos encontra-se depositada no Arquivo Público do Pará. A documentação é constituída por minutas de ofícios emitidos pela Presidência e de ofícios enviados pelos diretores do Instituto aos presidentes. Tivemos acesso aos anos de 1875, 1878 a 1882, 1884 a 1889, estando incompleta a coleção dos anos citados.

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1879, que aprovava a dispensa pelo almoxarife do educando nomeado pela presidência para auxiliá- lo no seu cargo, contudo, recomendou ao diretor que fizesse “o almoxarife sentir que não lhe cabia de moto próprio dispensar o educando, senão representar para que fosse elle dispensado”. No curto ofício, o chefe máximo da Província chamava a atenção do diretor e do funcionário sob a sua inspeção. 128 Em outro, o presidente responde à participação da volta do almoxarife que se achava licenciado do cargo, recomendando ao diretor que “faça sentir ao mesmo almoxarife que não convem tornar a deixar em atrazo a escripturação ou a fazel-a imperfeitamente e irregular como já aconteceu, deve ndo igualmente Vmce fazer n’ella effectiva a sua inspecção”.129 O presidente não perdeu a oportunidade para lembrar das obrigações de seus nomeados. Não só os corretivos intermediavam a relação entre presidência e direção do estabelecimento. No momento oportuno, o presidente recorria aos elogios com a finalidade de louvar as iniciativas que expressassem o empenho do diretor. Ao ser informado pelo diretor da abertura de um curso noturno de aritmética e álgebra no Instituto, sob sua regência, Gama e Abreu abandonou a sobriedade dos ofícios e louvou “esse seu acto patriotico, que é a manifestação do empenho com que Vmce usa do engrandecimento do estabelecimento que, em bôa hora, foi confiado ao seu zelo e solicitude.” 130 Detalhes do dia a dia dos educandos também não escapavam dos cuidados dos presidentes. Em resposta ao pedido de dispor de um valor do cofre do estabelecimento para a aquisição de uma banheira de acapu para o banho dos educandos, o presidente achou o preço excessivo e pediu que lhe informasse “quantos meninos se banham simulttaneamente á ella?” Dez dias depois, o presidente autorizou a compra da banheira grande de acapu para banhos dos meninos. 131 O uniforme dos educandos não passava desapercebido do controle presidencial. A ve rba para a compra de meias, correame e luvas para o uniforme foi liberada, mas não sem antes o diretor ser advertido a respeito

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Minuta do ofício do Presidente da Província do Pará ao diretor do Instituto de Educandos, 1/2/1879. Minuta do ofício do Presidente da Província do Pará ao diretor do Instituto de Educandos, 2/9/1879. 130 Idem. 131 Minutas dos ofícios do Presidente da Província do Pará ao diretor do Instituto de Educandos, 22/8 e 2/9/1879. Acapu é uma árvore amazônica, que fornece madeira de ilimitada duração (Novo dicionário do Aurélio, 1986).

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do tempo de duração desses objetos, “que não sendo de uso continuo, devem durar mais do que efetivamente duram”. 132 A relação de dependência entre diretor e presidente era construída no dia a dia dos trabalhos da instituição. Tendo determinado que as oficinas do Instituto preparassem artefatos para a exposição da Imperial Sociedade Beneficente Artística Paraense, a ser inaugurada em dezembro de 1879, o presidente Gama e Abreu orientou ao diretor que agisse com energia junto aos mestres. E caso lhe aprouvesse agir fora das limitações do regulamento, bastava recorrer ao seu apoio. O presidente ao reforçar a autoridade do diretor, assina la a relação de dependência: “Quando julgar conveniente por deficiencia do regulamento recorrer a mim faça-o sem hesitação que me achará sempre pronto a apoia-lo em tudo quanto for justo.”133 Na década de 1880, o controle sobre o funcionamento institucional se manteve, preservado tanto por governos liberais quanto conservadores. A dispensa e a nomeação de educandos para cargos na instituição deveriam ser aprovadas pelo presidente, com as devidas justificativas. 134 O aprendizado externo dependia da autorização do presidente, que permitiu a um educando aprender o ofício de telefonista, com a condição de pernoitar sempre no Instituto. 135 O presidente Miguel Pernambuco acusou a irregularidade do procedimento do diretor Manoel Joaquim Fernandes Penna ao fazer nomeações interinas, advertindo-o de que a nomeação de substitutos dos empregados licenciados “compete exclusivamente a esta Presidencia”. 136 Demandas e queixas de educandos e responsáveis podiam chegar diretamente ao gabinete presidencial. No mesmo dia em que se apresentou no Palácio do Governo um educando queixoso, o diretor recebia um ofício da secretaria da presidência ordenando urgência na resposta ao episódio. O educando Adolpho Carlos de Souza queixou-se ao presidente que, por ordem do diretor, fora compelido a restituir ao estabelecimento as peças de seu fardamento, inclusive o boné e a roupa ordinária,

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Minuta do ofício do Presidente da Província do Pará ao diretor do Instituto de Educandos, 4/9/1879. Minuta do ofício do Presidente da Província do Pará ao diretor do Instituto de Educandos, 9/12/1879. 134 Minuta do ofício do Presidente da Província do Pará ao diretor do Instituto de Educandos, 21/3 e 26/3/1887. 135 Op. cit., 25/4/1887. 136 Op. cit., 4/1/1889.

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“sendo que para sair foi- lhe emprestado por um empregado da casa o bonet que com este lhe será apresentado”. 137 A relação entre os responsáveis e instituição era intermediada pelo presidente, sobretudo nos pedidos de admissão e desligamento. Queixas de familiares ou protetores também chegavam ao Palácio, no entanto, pouquíssimos ofícios tratam do tema. Um destes casos aconteceu em 1889, quando a mãe de um educando procurou a presidência para se queixar dos castigos corporais infligidos a seu filho no estabelecimento, sobre os quais pediu-se informação ao diretor. 138 A presidência recebia os requerimentos de admissão e de desligamento e os encaminhava ao diretor. Nestas situações, o diretor podia ser questionado nas suas obrigações. Tratando de um requerimento de uma mãe ou protetora, o presidente cobrou do diretor “pontualidade na remessa das informações que tiver de prestar”. 139 O diretor despachava os pareceres ao governo, anexados às petições, de forma a subsidiar a decisão presidencial. Mais de uma dezena de petições de desligamento encontram-se na documentação do Governo do Pará entre março de 1881 e fevereiro de 1882. Na sua maioria, são viúvas alegando pobreza e a condição do filho como arrimo de família, de forma a obter a autorização de desligamento. Os textos seguiam um mesmo padrão, com um ou outro detalhe particular, como o fato da viúva ser “sobrecarregada de filho”. Esta era a situação de Catharina Maria R odrigues dos Reis , viuva pobre e sobrecarregada de filho fallecendo-hes os meios para viver, tendo no [?] seu filho de nome Antonio Gonçalves dos Reis, que é official de 2ª classe da officina de Funileiro e que já pode ajudar a supplicante a ganhar o pão para si e seus irmãos vem repeitosamente rogar pelo seu respeitavel despacho seja desligado o dito seu filho do mesmo... e consideral-o official externo da officina acima dita.”140 O tutor de dois irmãos, já com 18 e 20 anos, insiste no pedido de desligamento de seus tutelados e busca o destino desejado por outros familiares: garantir um emprego na própria instituição, como oficial externo. João Braga da Silva Moya tuctor dos orphãos seus cunhados de nomes José Cardozo Bahia e Manoel Cardozo Bahia; filhos de Josepha de Jesus Cardozo
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Op. cit., 14/10/1887. A resposta do diretor não foi localizada. Op. cit., 15/1/1889. A resposta do diretor não foi localizada. 139 Minuta do ofício do Presidente da Província do Pará ao diretor do Instituto de Educandos, 28/3/1887. 140 Petição ao Presidente do Pará, 4/2/1882.

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Bahia; officina de 1ª classe das officinas de Marcineiro e Sapateiro do Instituto Paraense de Educandos Artifices este com vinte annos de idade e aquele com dezoito; que tem do requerido a V.Excia em data de 28 de dez findo a graça de mandar desligar os seus ditos tutelados do corpo de educandos artifices Paraense visto como, se acham elles nas condições ganharem o pão quotidiano para si e sua velha mãi e irmã, vem o supplicante pedir veni a V.Excia para de novo pedir como por est a pede a graça de mandal-os desligar. Pede tambem se digne mandal-os considerar officiaes externos das respectivas officinas. O supplicante confia no caracter justiceiro de V.Excia.” 141 Os pedidos seguem um cerimonial próprio, rogando pela ordem presidencial em seu “respeitável despacho” ou ao “caráter justiceiro de Vossa Excelência”, como o supracitado. Os despachos do diretor que acompanham cada petição orientam a ação do presidente, mas terminam confirmando o poder de decisão desta autoridade: “V.Excia decidirá entretanto o que julgar mais acertado em sua alta sabedoria.” Os despachos revelam que os alunos não lograram concluir todos os cursos teóricos do Instituto, apesar da idade avançada. A despeito disto, o diretor prefere aprovar a saída dos educandos, mas não emite opinião a respeito da contratação de primeiros oficiais desligados como oficiais externos. Apenas lembra ao presidente que esta só deve ocorrer quando for necessário ao estabelecimento. Educandos maiores (entre 18 e 20 anos) requeriam ao diretor o desligamento, obtendo parecer favorável, pois como justificou o diretor José Luis Coelho, em 1881, ao presidente José Coelho da Gama e Abreu, muitos se tornavam inúteis, incorrigíveis, eivados de vícios que contagiavam os companheiros. Coelho apresentou a Gama e Abreu um quadro com os nomes dos educandos requerentes, com o tempo de internação e a idade. Alguns nomes da relação constam das petições dos familiares, entregues entre 1881 e 1882, vindo a oficializar os pedidos feitos ao diretor. Os despachos às petições dos pais informam que os educandos já eram oficiais mecânicos e a despeito de não terem concluído o período previsto pelo regulamento de ressarcimento das despesas efetuadas com sua educação, os riscos para a disciplina do estabelecimento

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Petição ao Presidente do Pará, 20/1/1882. Em ofício de 11/9/1880, o diretor justifica ao presidente a iniciativa de contratar oficiais externos alegando não possuir educandos suficientemente preparados para atender às encomendas feitas às oficinas. Os últimos entrados não contavam ainda um ano de estada no estabelecimento e deviam ser preparados para os exames anuais. As aulas funcionavam diariamente, exceto nas 5a feiras, restando quatro horas diárias de trabalho nas oficinas.

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compensavam as dispensas, segundo avaliação da direção. 142 Assim o dirigente justificou o parecer favorável ao afastamento dos educandos “homens” do estabelecimento: “Tendo já participado verbalmente a V.Exa que os educandos maiores me tinhão pedido para serem desligados do Estabelecimento, é meu dever passar as mãos de V.Exa as petições juntas dos mesmos. Acho na verdade de conveniencia a sahida d’esses educandos, as quaes, na maior parte estão no Estabelecimento desde a sua abertura, e hoje homens, sendo inconveniente a convivencia d’elles com os menores, acrescida tambem que sendo o Estabelecimento para pobres e desvalidos, não devem emquanto muitos necessitão ficarem alguns, sabendo já trabalhar, tomar o lugar de novos que poderão em menos tempos [sic] do que estes estarem mais adiantados. V.Excia sabe que n’uma casa d’educação onde tem educandos de 7 annos de idade, é de conveniencia que hajão poucos maiores. O ultimo nome da lista é do educando que me serve d’agente, o qual tambem pede sahir; não obstante ter servido bem o lugar, não me opponho a sua sahida.” 143 O controle mais cuidadosamente assegurado da presidência com relação ao estabelecimento consistia na decisão de quem iria ter acesso à “graça” de pertencer ao corpo de educandos. Os expedientes do governo publicados nos jornais e os ofícios disponíveis revelam que o ingresso no Instituto Paraense era intensamente desejado pelas famílias e protetores. O governo era assolado por pedidos de admissão, na maioria das vezes, por parte das mães, que, como mostram as petições para desligamento, percebiam na formação de artífice proporcionada pela instituição uma perspectiva de um arrimo de família melhor preparado. O diretor não possuía poder de decisão na escolha dos alunos, mas podia vetar o ingresso imediato de candidatos que não apresentavam as condições e a documentação exigidas pelo regulamento. 144 São comuns os ofícios do diretor à presidência dando conta da falta dos documentos solicitados na matricula, tais como, certidão de batismo, certificado de pobreza e atestado de vacina. Impedimentos apontados pelos exames do médico do Instituto levaram diversas vezes a direção a ponderar ao presidente a conveniência de admitir determinados
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Há pelo menos trinta anos, o alferes Falcão, diretor da Casa de Educandos do Maranhão, chegara a conclusão semelhante (Cf. capítulo 3). 143 Oficio do diretor dos educandos ao Presidente da Província, 3/1/1881. O citado educando, último da lista, ingressou no estabelecimento em agosto de 1880 e obteve um lugar privilegiado na instituição, ocupando um cargo remunerado. Não consta no quadro a sua idade, que deveria ser entre 18 e 20 anos, portanto, o seu ingresso feriu as normas do regulamento, que permitia somente a admissão de meninos entre 7 e 14 anos. 144 Os regulamentos estabeleciam a idade de ingresso (7 a 14 ou a 12 anos), a condição de orfandade, desvalimento e pobreza do candidato, boas condições sanitárias, ter sido vacinado, e o veto aos escravos.

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candidatos, deixando, contudo, a decisão nas mãos da autoridade superior. Outro impedimento referia-se à naturalidade do candidato. Por oficio, o presidente advertiu ao diretor que somente paraenses natos poderiam ser admitidos, conforme determinava a lei que criou o Instituto. 145 A documentação não informa se o critério foi rigidamente obedecido. Apesar da advertência do governo, o diretor consultou o presidente se podia matricular um “menor”, filho de portugueses, conforme descobrira pelas pesquisas que procedera. 146 Uma terceira instância participava do processo de admissão, a considerar as leis aprovadas em 1889, autorizando a presidência a admitir no Instituto de Educandos alguns órfãos de pai. Não podemos afirmar que muitos candidatos tenham passado pelo crivo da Assembléia Provincial, pois não localizamos tais leis nas coleções dos anos anteriores. Um exemplo consiste na lei que, em março de 1889, autorizou o presidente Miguel Pernambuco a admitir no Instituto os filhos do finado alferes honorário do exército, Camillo José d’Araujo Nobre, e as filhas no Colégio Nossa Senhora do Amparo, internato mantido pela Província. Em maio, um ofício mostra que a direção e a presidência ainda não tinham chegado a um acordo de quais dos meninos seriam matriculados. Em junho, o governo ordenou o ingresso de três dos quatro filhos do alferes. 147 Os impedimentos por motivo de doença expõem ao extremo o cuidado da direção na tomada de decisão quanto a não admissão ou a demissão de alunos. O exame médico com resultado desfavorável ao exercício de ofícios mecânicos impedia a matricula do candidato, com o aval presidencial. Todavia, nos casos não previstos pelo regulamento, o diretor optava por não orientar a decisão presidencial, deixando que outros fatores influíssem na avaliação dos caminhos a seguir. Um caso exemplar foi o do filho de um empregado da Secretaria da Província que se apresentou no Instituto para ser examinado pelo médico, conforme deliberação da presidência. Diante do diagnóstico de que “o menor Aristhydes Augusto da Silva Nobre apresenta signaes de ter sido

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Minuta do ofício do Presidente da Província do Pará ao diretor do Instituto de Educandos, 23/5 e 9/6/1879. A Lei Provincial n.660 de 31/10/1870 só autorizou a admissão de “menores filhos da província”, informa o presidente ao diretor no ofício de 23/5/1879. 146 Ofício do diretor dos educandos ao Presidente da Província, 16/1/1880. 147 Minutas dos ofícios do Presidente da Província do Pará ao diretor do Instituto de Educandos, 22/5 e 17/6/1889; Lei n. 1351 de 12/3/1889, Autorisa a Presidencia a mandar admittir, desde já, no Collegio do Amparo e no Instituto de Educandos, diversos orphãos.

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enfermidade denominada “malacia” (RPPA. LIV).vaccinado. José Salles(?) Lopes e João Augusto de Figueiredo soffrem de anemia. apresenta. porém um defeito nas partes genitaes: é hermaphrodita. 148 Nos casos de educandos que adoeciam. 149 Ofício do diretor dos educandos ao Presidente da Província. Dependendo tal padecimento de tratamento longo. 320 .Excia se digne ordenarme o que devo fazer a vista da mesma”. Anexo. conforme o parecer emitido pelo médico Jayme Bricio: “Os educandos Antonio José Gualdenio. Julio Dasmin de Carvalho. 15/2/1881. enfermidade que o médico associava ao hábito de comer terra. Um educando de oito anos morrera da doença no ano anterior. Arthur do Espirito Santo. o médico Jayme Bricio lembrava ao diretor que o estabelecimento era uma “casa de trabalho” e não um “asilo de doentes”. não conhecemos a resposta do presidente. composta principalmente de carne mal assada. Apesar de Francisco Mendes Correa acompanhar as aulas de primeiras letras fazia cinco anos. A comunicação à presidência dos casos de doenças impeditivas do trabalho ocorreu em outros momentos. 16/3/1881 e 5/6/1880. de alimentação reconstituinte. o diretor José Luis Coelho consultou o presidente Souza Dantas Filho se o devia admitir. foi somente quando o diretor descobriu 148 No oficio do diretor. 150 Ofício do diretor dos educandos ao Presidente da Província. Em 1881. portanto.”149 Penna omite sua posição no oficio. considerando que nestas circunstancias. sendo que no primeiro é profunda. o diretor não só comunicava ao governo. como é denominado no parecer do médico do Instituto. 19/6/1886. 13/5/1881). sou de parecer que sejam eliminados d’este Instituto. é robusto. No relatório de 12/1/1881. e não Aristhydes. de mudança de ar. sem proveito. tendo em vista que os lugares occupados por elles podem ser substituidos com vantagem para o estabelecimento. 150 Um ofício reservado do diretor José Luis Coelho revela que a doença não impeditiva ao trabalho nas oficinas podia justificar a recomendação de expulsão quando denunciasse a prática de atos considerados imorais para jovens internos de uma “casa de educação para menores”. apresentado em anexo (Ofício reservado do diretor dos educandos ao Presidente da Província. o primeiro nome do candidato é Gentil. o diretor Manoel Joaquim Fernandes Penna se viu diante de vários casos de anemia entre os educandos. roga apenas que “V. N ão tivemos acesso aos ofícios presidenciais do ano de 1881. mas solicitava orientação quanto a que medida tomar. p. ao defender a demissão de vários educandos anêmicos. taes educandos não podem frequentar regularmente as officinas. predominando os orgãos masculinos”. o médico Jayme Bricio cita a morte do educando devido à anemia profunda. Em 1886.

sem ainda estar prompto: por esta razão rogo a V. 2 de julho. vadio e insuportável” menor Jerônimo(?) Antonio da Silva. não dando esperanças de corrigirse. Minuta do ofício do Presidente da Província do Pará ao diretor do Instituto de Educandos. 4/8/1879. só localizamos um ofício no qual a presidência mandava apresentar ao “inspetor do Arsenal de Marinha. molestias estas que devem ser desconhecidas dos educandos d’este estabelecimento. que se tem tornado incorrigivel. a autorização era obtida sem maiores dificuldades. 5/2/1881. “Examinando o livro de estatistica medica do estabelecimento.Excia se digne permittir que o mesmo seja expulso do estabelecimento. “V. cabendo-lhe deliberar a respeito da aplicação da pena mais severa. Do corpo documental disponível. no mesmo ofício. como V. provenientes de famílias que podiam contar com algum tipo de proteção ou condição de educar seus filhos. perguntando ao medico do estabelecimento. do diretor”. cujas vistas tinham suas limitações. em boa parte. devendo passar pelo 151 152 Ofício reservado do diretor dos educandos ao Presidente da Província. Sendo os meninos. sugeriu a admissão de dois candidatos.Exc porém decidirá o que julgar mais acertado em sua alta sabedoria”. Nestes casos. e está matriculado na aula de primeiras lettras desde 1875. o educando desse estabelecimento Fernando(?) de Mattos Costa. pode-se afirmar que raramente se optava por um destino rejeitado pelas famílias e pelos rapazes. soffrimento gonorrhéa. isto é. Coelho aproveitou o ensejo para pedir a expulsão do “não menos incorrigivel. ressaltando que.ser ele portador de doença venérea que o pedido enfático de sua expulsão do estabelecimento chegou à mesa do presidente Gama e Abreu.Excia sabe as vistas do Director não podem acompanhar os educandos por toda as parte. deparei com o nome do educando Francisco Mendes Correa. 321 . visto ser elle uma casa d’educação para menores. e vadio. n. O destino do “incorrigível” estava nas mãos do presidente. conforme consta of. o envio à armada. A má conduta dos educandos e o risco de contágio dos companheiros levavam o diretor a solicitar a despedida daqueles que afrontavam as normas da casa. Não obstante a disciplina e vigilancia que emprego.262. 152 A expulsão do estabelecimento nos casos de procedimentos considerados impróprios era indicada pela Congregação dos Lentes do Instituto. afim de dar praça na Companhia de Aprendizes Marinheiros desta provincia. O educando Correa é de pessimo comportamento.”151 Não só este educando escapou da vigilância do diretor. este me informou que o mesmo soffre tambem bubões. Outros aguardavam vaga e o diretor.

em homenagem ao governador que transformou a feição urbana de Belém. O objetivo 153 154 PARÁ. à admissão de candidatos a cadeiras e aos motivos para a exclusão de educandos. Ela deliberava sobre diversos assuntos referentes ao ensino. A Congregação era formada por lentes ou professores do Instituto e presidida pelo diretor. classificação que dispensava maiores explicações. 5/11/1873. Em abril de 1887. doze educandos receberam da Congregação a indicação da pena de expulsão por incorrigíveis. tornando-se escola profissiona l em 1949. A expansão desta modalidade educacional ocorreu somente no período republicano. 156 FONSECA. além da encadernação e tipografia. Minuta do ofício do Presidente da Província do Pará ao diretor do Instituto de Educandos. 1911. o antigo Instituto de Educandos Artífices Paraenses tornou-se o Instituto Lauro Sodré. Regulamento do Instituto Paraense de Educandos Artífices. O projeto de ampliação do número de educandos para 200 não teve aplicação. uma ampla e primorosa construção para 300 internos. 154 O Instituto manteve-se em funcionamento sem maiores atropelos até o final do Império. especialmente edificada para o fim educacional. SOUZA. por parte do legislativo e do executivo. serralheiro e ferreiro. alfaiate. 153 Já a admissão de educandos estava fora de seu escopo de ação. GOVERNO DO PARÁ. Em anexo. o estabelecimento passou a funcionar nas novas instalações. sapateiro. 1909(?). 26/4/1881 e 17/1/1889.crivo da presidência. Dois anos depois. 156 Nas duas primeiras décadas do período republicano. Augusto Olympio. a atividade missionária na região foi recrudescida com a instalação de internatos em núcleos indígenas. fotos do Instituto Lauro Sodré no início do século XX. A presidência aprovou a deliberação da Congregação. No internato. O ensino profissional era exercido nas oficinas de marceneiro e carpinteiro. à disciplina. Celso Sukow da. Atos de agressão levavam ao mesmo destino. Em 1897. e no seu collega Antonio Lombo”. o programa de ensino abarcava o curso elementar primário e o curso completo de desenho e música instrumental. 322 . atendendo a 233 educandos em 1910. quando chegou a atender a 300 meninos. em vista da agressão e ferimento por elle praticados no chefe da turma a que pertencia. aprendizes dedicaram-se à impressão tipográfica das obras oficiais. impondo a “pena de expulsão” ao “educando Thomaz Campbell. 155 A pretensão de expandir o ensino profissional na Província não encontrou respaldo financeiro. sob a justificativa da falta de acomodações. 155 O artigo 1º do Regulamento de 1883 elevou para 200 o número de educandos paraenses. Por várias décadas. O Instituto teve vida longa. 1986.

No século XIX. Com este capítulo. voltados para índios mansos ou selvagens. esperando ter aberto veios de discussão para a rica história da educação popular na Amazônia. 323 . sob o comando do bispo Antonio de Macedo Costa. as iniciativas de uma educação exclusiva de índios foram bastante tímidas e não necessariamente vinc uladas à Igreja. fechamos o ciclo do nosso estudo. resgatamos três projetos de formação profissional e instrução elementar do Império. No capítulo 5. As ordens religiosas associaram a educação temporal à conversão de meninos e meninas à fé e aos valores cristãos.educacional da formação de lavradores e operários seguia o mesmo modelo das instituições do século XIX. analisando de forma mais aprofundada a experiência paraense.

Brigadeiro José Vieira Couto de Magalhães (1837-1898). calcadas no preparo de futuros trabalhadores mecânicos e agrícolas. Identificamos e analisamos três propostas educacionais. projetos e ações desenvolvidos na segunda metade do século XIX. que exigiam ações junto 324 . criador e fundador do Collegio Isabel em 1870. para educação de crianças das “tribos selvagens” do Araguaia. e Artes Industriaes em 1874. das “selvas” e das capitais das Províncias do Pará e do Amazonas. e D. Outras instituições do período recebiam crianças indígenas. No presente capítulo focalizamos debates. quando Bispo do Pará. analisadas nos capítulos 3 e 4. as quais. analisamos a implementação de instituições de ensino de ofícios. mentor do projeto do Collegio dos Indios de Urubá de Agricultura. em todo o país. experiências de educação indígena em colégios (internatos) foram desenvolvidas. quando diretor do Serviço de Catequese do Vale do Araguaia e da Empresa de Navegação em Goiás. para educação dos meninos desvalidos dos povoados do interior. ocorrido durante o século XIX. do Brigadeiro Couto de Magalhães e do Bispo Macedo Costa Nos dois capítulos anteriores.Capítulo 5 Colégios indígenas do Brasil Imperial Projetos educacionais do Cônsul Domingos Gonçalves. quando cônsul de Portugal no Recife. a partir de iniciativas aparentemente isoladas. Antonio de Macedo Costa (1830-1891). Além das instituições criadas nas cidades e alguns asilos agrícolas do interior. como as Casas de Educandos de Manaus e de São Luís. O estudo está centrado nas idéias e nas criações de três atores sociais que ergueram suas obras entre 1870 e 1882. com relação à educação para o trabalho de crianças indígenas no Brasil. São eles: Domingos Maria Gonçalves (1843?). envolviam índios mansos e selvagens. criador e fundador do Instituto de Artes e Oficios e Agricola da “Providencia” em 1883. Duas autoridades ocupavam postos na estrutura do Estado brasileiro.

MAGALHÃES. no livro do biógrafo do bispo. e pela existência de uma significativa população livre e escrava . e Artes Industriais é um projeto no sentido estrito da palavra: não chegou a ser executado. David.aldeados ou misturados à população. 1880. só obtivemos informação a respeito do citado projeto de educação de índios para o trabalho. No caso do Colégio Isabel. nos discursos e escritos de Macedo Costa sobre instrução pública e civilização da “população amazônica”. Gonçalves foi um incansável criador de projetos educacionais dirigidos a índios e ingênuos. Pela própria situação dos índios na região . 325 . Preocupado em dar publicidade ao plano de civilisação para os indios mansos e demais projetos educacionais.3 No que diz respeito à região hoje conhecida como Nordeste. e o relato do próprio Couto de Magalhães.à catequese e à civilização da população indígena. Henri. 1939. 1874. A análise tem como foco os projetos pedagógicos dos autores. 1880 e 1882. no Segundo Reinado. ou seja. em termos de investimentos em 1 2 CAUME. 1989 [1889]. 1884 e 1930. Os jornais de Belém e Manaus retratam alguns aspectos da criação e do funcionamento do Instituto Providência. Constituem fontes de pesquisa para este estudo obras publicadas dos autores e informações colhidas de relatórios das presidências das províncias citadas. ALMEIDA.1 A análise da experiência paraense centra-se na descrição de José Ricardo Pires de Almeida sobre o Instituto. José Ricardo Pires de. sem apoio institucional. 1997. LUSTOSA. portanto as fontes consultadas restringem-se à exposição de suas idéias e ações educacionais dirigidas aos indígenas. Dom Antonio de Almeida Lustosa. COSTA. 2 O Colégio dos Índios de Urubá de Agricultura. COUDREAU. e na imprensa local. José Vieira Couto de. Gonçalves deixou três obras contendo detalhados relatos da trajetória percorrida nas frustadas tentativas para viabilizar tais idéias. questão abordada mais adiante. o qual retrata a criação. pudemos também contar com o artigo de David Caume.a educação de índios não era vista como uma questão que merecesse tratamento específico. 1887. 1873. bem como da polêmica questão do ensino clerical. Domingos Maria. o funcionamento e a extinção da instituição. 3 GONÇALVES. jamais implantados por esperar o apoio do Governo Imperial e das elites econômicas que nunca chegou. A pesquisa em arquivos públicos e eclesiásticos pouco contribuiu para a análise da instituição. 1871. Antonio de Almeida. Arcebispo do Pará em 1939. Antonio Macedo. Já o cônsul português ingressou nesta seara por iniciativa individual.

Todavia. ao afirmar que as mulheres tinham sempre um filho ao colo e pouco apego à descendência. cultural e até racialmente. esta se resumiu à conivência com seu o extermínio. ciente de sua incapacidade de materializar as idéias. esta observação não é verdadeira para o período inicial da República.4 No entanto. condenando-a logo em seguida sob a argumentação de que as crianças a asilar pelo Estado seriam tantas. e suas implicações para a etnologia e para a política indigenista. concretizadas ou não. como um discurso monocórdico. internatos para a educação de meninos e meninas. através dos aldeamentos. por se encontrarem vivendo miscigenados à população não índia. de Itacoatiara e de Parintins. A chamada “mistura” não ocorreu como um processo natural de integração de populações que mantinham intercâmbios diversos. obedecendo aos propósitos desta 4 A expressão “índios misturados” aparece freqüentemente nos relatórios provinciais do Nordeste. quando os capuchinhos da Ordem da Lombardia fundaram. De qualquer forma. O autor confere uma natureza animal à raça indígena.264-280. buscando vencer a aridez das fontes e a imobilizadora concepção de que.43). a ênfase recai sobre a iniciativa do Bispo do Pará. pela “ignorancia. entre as várias autoridades. João Pacheco de Oliveira (1999) analisa a construção nas últimas décadas do século XX do objeto “índios do Nordeste”. outras. A escolha das três experiências para análise deveu-se a um fato muito simples: dada a raridade das iniciativas educacionais de um certo porte dirigidas a grupos indígenas no período. Mércio Pereira. o principal objeto dos desvelos do governo (1884?. principalmente a criação de internatos indígenas. não obstante o esforço de seus criadores. É sobre essas propostas. que o investimento acabaria por prejudicar as escolas. p. argumentava-se a favor da criação de asilos para o ensino agrícola e dos ofícios mecânicos de criaturas indígenas6. miseria e indolencia desta raça”. não saíram do papel. 6 Termos empregados pelo Conselheiro Joaquim Azambuja. ele não espera pela refutação de sua proposta.instituições destinadas ao ensino profissional de crianças indígenas. Piauí. onde eram notórias a carência de colonos e a existência de muitos grupos indígenas não incorporados ao sistema produtivo e de uma população cabocla e tapuia dedicada ao extrativismo. 2002. as quais constituíam ao seu ver. algumas propostas se concretizaram. que propuseram a criação de asilos para filhos de índios do Amazonas. se houve alguma política imperial voltada para a população indígena. nos núcleos indígenas do Maranhão. p. antes resultou da política de assimilação implementada pelo Governo Imperial.5 Na região amazônica. optamos por analisar todos os projetos de formação profissional de crianças i ndígenas. 326 . que nos voltamos neste capítulo. 5 GOMES. Azambuja era uma. quando os índios da região deixam de ser vistos por sua especificidade étnica. economica. Ceará e Pará. cujas histórias pudemos resgatar. Entretanto. encarregado pelo Presidente do Amazonas José Paranaguá de inspecionar as escolas públicas primárias nos municípios da Capital. processo impulsionado pelo ressurgimento de etnias tidas como extintas.

expresso no pressuposto da participação de populações não brancas na vida social e econômica das províncias pela via do trabalho. Portanto. Os três projetos trazem consigo o objetivo de transformação cultural dos sujeitos pelo impedimento do convívio social com os seus grupos de origem. como operários e camponeses. João Pacheco de. Partimos do pressuposto de que o esforço de alinhavar estas experiências enriquece a análise. OLIVEIRA FILHO. p.7. Norbert. Os três autores trabalharam de forma totalmente independente uns dos outros. interpretaram e expressaram8 suas observações sobre as populações nativas nas viagens pelo interior do país. cristãos e dotados de um repertório mínimo de hábitos da vida civilizada que os mantivessem numa relação de dependência aos patrões e ao Estado. Imersos nos ideais da civilização. As propostas obedeciam a um recorte étnico. a análise de Elias dos “processos civilizadores” e da “sociedade de corte” pode ser bastante útil para uma compreensão do universo mental e cultural dos autores. no sentido eliasiano7. perceberam. mas todos eram movidos por perspectivas de civilização dos povos não atingidos pelas luzes da ilustração e por modelos de progresso irradiados pelos países europeus. estas possuíam propostas de formação com muitos pontos em comum. que prioriza as instituições educacionais da Amazônia. a respeito da decadência da agricultura e da persistência do nomadismo da população. costumes e modelos de comportamento interiorizados pelo processo educativo pelo qual passavam os homens 7 8 ELIAS. como os estabelecimentos de Educandos Artífices. de forma disciplinada. sobretudo na região amazônica. a análise dos projetos civilizadores dos autores através de suas idéias e iniciativas não parte da premissa de que tais projetos estariam calcados na busca por um alto grau de civilização e cultura. Embora as instituições educacionais não tenham emergido de uma política pública unificada. os autores possivelmente viram. no tempo e no espaço. permitindo-nos tecer uma rede de práticas aparentemente desconexas.pesquisa. econômico e social. 327 . através dos parâmetros dos hábitos. 1987. 1993/1994. Estes são aspectos muito valorizados pela retórica presente nos discursos da época. Pretendia-se transformar os índios em trabalhadores. entre si e com as instituições estudadas neste trabalho. No entanto.

de técnicas agrícolas. pelas concepções que circulavam entre autoridades e intelectuais a respeito da possibilidade de civilizá-los. através das observações feitas nas viagens pastorais pelo Amazonas e Pará. dedicou-se principalmente ao estudo das línguas indígenas como uma estratégia de assimilação dos índios aos civilizados. e dos ofícios mecânicos. As propostas educacionais dirigidas às crianças indígenas no período inseriam-se. no debate da falta de braços para a colonização dos vastos sertões do país. a questão da educação dos ingênuos. Todos os três autores empreenderam viagens em que tiveram contatos com populações indígenas. Iniciado o processo de abolição da escravidão. Torna-se premente manter os ex-escravos nos locais de trabalho. é claro. mas orientados por objetivos diversos: o desejo de conhecer as populações primitivas e seus costumes motivou o português Domingos Gonçalves a vir para o Brasil. a discussão assume matizes bastante específicos. um dos aspectos de sua ampla agenda de reforma do catolicismo no Brasil. Macedo Costa. tornando-os trabalhadores “úteis à nação” e ao mesmo tempo. impõe-se como uma necessidade em termos de controle social e formação da mão-de-obra. não só numa perspectiva técnica. mas também moral e cultural: ao ensino das primeiras letras. já que milhares de indivíduos viviam à margem da civilização. sem esquecer de seus interesses empresariais junto à navegação no rio Araguaia. Isto. associa-se a introjeção do amor ao trabalho. principalmente nas áreas rurais. neste período. após a promulgação da Lei do Ventre Livre. Era toda uma riqueza não aproveitada. onde se previa um grande êxodo com o rompimento dos laços que os prendiam ao trabalho. No caso dos índios. respeitando-se as diferenças de formação e papéis ocupados na sociedade.ilustrados da “boa sociedade”. que Couto de 328 . em “hordas selvagens” arredias ao contato com o chamado civilizado e avessas aos benefícios da “vida civilizada”. de uma forma geral. contribuindo para resolver a carência populacional do país em termos de mãode-obra disciplinada para o trabalho regular. Couto de Magalhães. buscou meios para desenvolver a civilização da população amazônica.

9 A obra de Couto de Magalhães. Já o bispo Antonio de Macedo Costa mobilizava-se pelos referenciais que lhe permitiam ou lhe exigiam a sotaina: a formação de bons católicos dentro dos parâmetros da reforma da Igreja ocorrida na Europa católica. o cônsul português era simpático à obra de Magalhães por confirmar a sua crença na capacidade de trabalho da população indígena. 10 329 . O bom cristão professa. sendo citada por autores nacionais e estrangeiros. com ênfase nas verdades religiosas transmitidas no ensino da doutrina cristã e na prática sacramental. 11 Os seminários foram intensamente alvejados nesse processo. um “catolicismo íntimo e sério”. obteve grande sucesso no Brasil e na Europa à época de sua publicação (1875). José Vieira Couto de. o embate com os liberais e as concepções/idéias de D. a partir de seus referenciais culturais e modos de vida. por uma fé moldada por outro universo cultural. Os reformadores lutaram por estabelecer no Império brasileiro a nova fé tridentina. de forma a implantar o novo modelo de Igreja no Brasil. Macedo Costa para a reforma da sociedade amazônica. 10 O Bispo do Pará. livre das superstições. Crítico austero de várias obras sobre os índios brasileiros. como ocorreu com a festa paraense do Círio de Nazaré em 1879. do fanatismo e da ignorância presentes nas práticas de devoção da tradição medieval católica. O Selvagem . sendo que esta focaliza a reforma católica. 1975.14. p. D. Antonio Macedo Costa na reforma da Igreja no Brasil. especialmente através da reforma moral e disciplinar dos eclesiásticos e da educação das crianças e dos jovens com vista à sua formação religiosa (ADÃO. pois a reforma do clero era ponto estratégico para o sucesso do projeto. que o bispo lutou para implantar no Brasil. em 1861. Buscava-se substituir a devoção religiosa da população luso afro-brasileira e indígena. As manifestações religiosas populares passam a ser reprimidas nas situações em que a Igreja é impedida de imprimir a “marca” da teologia oficial.Magalhães estimava em “um milhão de braços aclimados e os únicos que se prestam às indústrias . ao assumir a diocese na cidade de Belém. 11 Sobre a atuação de D.extrativas e pastoris”. com base em artigos e notícias jornalísticas e nos seus livros. proibida de realizar-se pelo bispo Macedo Costa. no período entre 1863 e 1878. Áurea. O Concílio de Trento (1545-1563) constituiu um importante ato oficial de Contra-Reforma. iniciou longa trajetória rumo à união do episcopado numa ação pastoral conjunta. 9 MAGALHÃES. tentavam implantar no Brasil. ver os estudos de Riolando Azzi (1992) e Karla Denise Martins (2001). 1997. nas palavras de Macedo Costa. como Macedo Costa. Domingos Gonçalves é um deles. que sacerdotes formados na Europa. p. estabelecendo uma frente de luta contra a heresia.14).

defendeu seus projetos em inúmeros ofícios enviados ao Ministério do Império e em artigos na imprensa. além de cumprir agenda dos ofícios de sacerdote. Ao deparar-se com situações consideradas ameaçadoras à fé católica. nas viagens. contatou grupos indígenas na expectativa de promover o aldeamento e a catequese dos índios. A Constituição e A Província do Pará .12 Vejamos as experiências e seus resultados. na Província do Amazonas. com cursos para alunas externas e um instituto de ensino profissional para meninos indígenas e desvalidos.Antonio sabia que o seu rebanho era grande e bastante diversificado. publicou e distribuiu pelas escolas públicas livros sobre história bíblica e civilidade cristã. As iniciativas educacionais descritas baseiam-se em artigos e notícias dos jornais A Boa Nova (da diocese). comprara meninos índios para iniciar a ação missionária. fez discursos e publicou textos na defesa da instrução elementar e da civilização e catequese da população da região. nas visitas pastorais ao interior. como ocorreu em viagem ao alto Purús. mas dispunha de várias frentes de luta: dirigiu pessoalmente a “regeneração” dos seminários da diocese e enviou moços para estudar em seminários europeus de forma a poderem posteriormente lhe auxiliar na formação dos seminaristas em Belém e Manaus. 12 Ofício de 3/12/1878 ao Ministério do Império (Arquivo Nacional. conheceu manifestações religiosas de povos da região e condenou publicamente o que considerava impostura. Correspondência entre a Presidência da Província do Amazonas e o Ministério do Império – 1852-1889). que segundo seu relato. mobilizando missionários e governo. tomou medidas enérgicas para debelá-las. para a qual ofereceu mais de 700 volumes. criou um asilo para órfãs. e providenciou a educação profissional de meninos em Belém. quando localizou uma missão protestante inglesa. 330 . fundou uma biblioteca eclesiástica no palácio episcopal franqueada ao público.

inserida no livro A instrucção agricola e o trabalho livre (1880).14 Muitos artigos na imprensa da Corte e da cidade de Campos retrataram as suas tentativas de estabelecer asilos agrícolas para os ingênuos. a afirmação do autor de que a lei de 28/9/1871 chamou sua atenção para “a questão economica do trabalho livre”. 1874. Gonçalves chegou a ser proprietário de duas 13 14 GONÇALVES. à articulação de um programa de educação dos ingênuos na cidade de Campos. em meados da década de 1870. e Artes Industriaes” é de autoria de Domingos Maria Gonçalves. chamando ao “combate cavalleiros e peões para que estes tomem parte na incruenta cruzada do século XIX”. impulsionado pelo “desejo meio poetico e humanitario de conhecer os povos indigenas da America”. situada a 250 km de Recife. Gonçalves acreditava na importância em dar “publicidade” aos seus projetos como meio de angariar apoio aos mesmos. e artes industriaes” (1874). p.13 Gonçalves dedicou-se inicialmente. Domingos Maria. dando mais ânimo ao “desejo de conhecer os habitantes primitivos do Brasil”. não só ao estudo do tema na literatura brasileira e estrangeira. que veio ao Brasil por vontade própria. Pernambuco O projeto para a criação do “Collegio dos Indios de Urubá de Agricultura. O autor se dedicará. 1880. 331 . pois as duas categorias se encontravam alijadas das luzes da instrução. nos setores públicos e privados. No entanto. A trajetória de mais de uma década em prol da educação das camadas alijadas da instrução pública é contada pelo autor na Historia das minhas tentativas para o estabelecimento d´escolas agrícolas. O autor publicou três livros apresentando suas propostas e as dificuldades enfrentadas. Domingos Maria.9. mas ao esforço de observação e intervenção. p. de instâncias do Governo Central e do Governo da Província do Rio de Janeiro. nos permite entender que Gonçalves estendia aos escravos a condição de primitivos. que culminou na publicação do trabalho “Collegio dos indios de Urubá de agricultura. GONÇALVES.3.Colégio dos Índios de Urubá. Nele é apresentado um projeto de educação dos índios da aldeia de Urubá. enfrentando resistências de fazendeiros locais.

Dr. Instituto Industrial.folhas diárias . A Aldeia de Urubá localizava-se entre a Vila de Cimbres e a de Pesqueira.veículos de suas idéias a respeito da questão do trabalho livre e da instrução agrícola. Couto de Magalhães” publicou o seu “precioso livro” O Selvagem . exerceu por alguns anos o cargo de “condutor de Engenharia Civil“ e desempenhou várias comissões. foi nomeado Cônsul de Portugal em Nantes. cujas terras Gonçalves considerou abençoadas por Deus.17 Gonçalves pretendia dar publicidade ao seu projeto para que fosse empregado em estabelecimentos do gênero.67). distribuídos em 238 famílias (ARRUTI. 332 . O lisboense Domingos Maria Gonçalves. devido ao clima e à fertilidade. como a que colheu apontamentos para a história da indústria portuguesa (1865 e 1866) e selecionou objetos de arte antiga nos distritos do Porto e Braga para serem enviados à Exposição Universal de Paris em 1867. além de escrever em periódicos literários e participar de associações de instrução popular. participando de associações de instrução popular e escrevendo sobre o tema 16. sendo que “poucos conservam a pureza primitiva do sangue” devido aos “cruzamentos com o elemento negro”. 18 Segundo o levantamento r ealizado. com números dos anos de 1877 e 1878. O autor lembra que publicou o seu plano de civilisação para os indios mansos ao mesmo que tempo que o seu “ilustrado amigo. situada no alto sertão pernambucano. vol IX.Commercio de Campos e Jornal da Provincia15 . em 1857. 1874. Ao deixar Recife. onde “procura chamar a atenção publica para o seu systema de civilisação d’indios bravios”. Fora Cônsul de Portugal na França aos 27 anos e ocupava esse cargo quando solicitara para vir ao Brasil. o aldeamento de Cimbres estava localizado a 64 léguas de Recife. Esse jornal não consta do Catálogo de periódicos brasileiros microfilmados da Fundação Biblioteca Nacional. Domingos Maria. A sua formação deu-se nas seguintes instituições: Curso Superior de Letras. p. p. 17 GONÇALVES. mestiçagem percebida como negativa pelo autor segundo os modelos desenvolvidos pelos teóricos raciais da época. 16 O autor recomenda aos leitores a consulta ao seu resumo biográfico inserido no Diccionario bibliographico dos escriptores portuguezes de Innocencio da Silva. Noticioso e não Politico” consta do acervo microfilmado da Biblioteca Nacional.18 Habitavam-na 1. 1995. Já o “Commercio de Campos .500 indivíduos de “origem india”. p. corajoso viajante e sabio brazileiro o Sr. possuindo 789 habitantes. Gonçalves. em direção ao Rio de Janeiro. O plano dirigia-se aos índios da Aldeia de Urubá. esteve envolvido com projetos relativos à instrução pública em Portugal. 15 Gonçalves era co-proprietário e redator-chefe do Jornal da Provincia. ocupando uma área sem medição oficial. pela Comissão de Demarcação das Terras Públicas da Capitania de Pernambuco. Em 1870.10.Diario de Interesses Economicos. Escola do Comércio e Liceu de Lisboa. com cerca de três por duas léguas. 1994. Cimbres era o mais povoado dos oito aldeamentos existentes na Província em 1857.146. antes de chegar ao Brasil. José Maurício Andion. obteve licença do cargo. que existiu pelo menos até 1886.

Lilia Schwarcz discute a incorporação destas teorias pela intelectualidade brasileira. não comparavam o que viam com a realidade dos habitantes rurais que. o maior problema dos escritores era de método: escreviam sobre o que não observaram. mas que tinham que lidar com a perspectiva pessimista de um país miscigenado. condições de vida 19 20 SCHWARCZ. os quais não se davam ao trabalho de observação. Lilia. que os índios da Aldeia eram aptos ao trabalho regular. 333 . que ao mesmo tempo. isto é. As contradições estavam presentes nos autores que adotavam as teses poligenistas. precisava provar que essa condição racial não condenaria o seu projeto pedagógico.20 Gonçalves. SCHWARCZ. acreditavam que. e mesmo que tivessem observado. levando o gênero humano à degeneração (SCHWARCZ.19 Na segunda metade do século XIX. A saída foi demostrar pela observação. p. Na segunda metade do século XIX. 1995b). como os museus etnográficos. 1995. Gonçalves ressalta que o seu projeto estava baseado em “estudos e observações”. em termos de degenerescência. contra as idéias pré-concebidas e equivocadas da literatura nacional e internacional.177. não escapou às contradições quando se debruçou sobre um projeto de educação de índios mestiços. um europeu que acompanhava estas discussões. sem adaptações e reconstrução de conceitos. os institutos históricos e as faculdades de medicina e direito. Desta forma. 21 GONÇALVES.21 Gonçalves analisa parte desta literatura.Autores como Kidd. 1995b. p. A mestiçagem era percebida como negativa pelo autor. Lilia. Le Bon. discordando das posições que podiam contrariar os pressupostos do seu projeto. em muitos aspectos. p. criticando a forma como os índios vinham sendo estudados por escritores nacionais e estrangeiros. Domingos Maria. as teses monogenistas e poligenistas foram alvos de debates por intelectuais europeus e brasileiros tendo como foco a miscigenada população brasileira. resultando na divulgação de visões equivocadas sobre os índios do Brasil como “verdade axiomatica”. que defendiam a origem diversificada das raças humanas. Lilia.8. 1996. a visão de que o índio resistia ao trabalho. Para ele. Taine e Gobineau. autores poligenistas. 1995.172. questionando a idéia de que houve uma importação direta das teorias. alocada nos poucos centros de produção de conhecimento do país. calcados nas teses poligenistas da origem diversa das raças. 1874. compartilhavam com os índios. acreditavam que o mestiço herdaria somente as características “ruins” de cada uma das raças constituintes. pior do que as taxadas de raças puras inferiores eram as mestiças. ou seja.

25 Comte de Hure. L’Empire du Brésil”. tendo em vista o numero de embriagados em relação á população.25 “Os indios trabalham tanto ou mais do que os outros habitantes pobres d’estas paragens. sendo esta feita pelos proprios indios. 23 Ibid. raramente há na aldeia um crime de ferimentos e outros atentados contra as pessoas e a propriedade não obstante a ausencia de autoridade de policia. sob o argumento de que “se os índios vivem tão selvajadamente.. não há nenhum ladrão de cavalo. e nem tampouco. A cidadania era o grande diferencial entre os índios e os habitantes rurais. os outros pequenos habitantes rurais são também selvagens”. na ânsia de 22 Deve ser esclarecido aqui que Gonçalves teve contato com índios aldeados pela diretoria de índios de Pernambuco. e do 2o Diretor parcial da Aldeia de Urubá. I. mandioca e algum algodão tão bem como os outros. “a raça branca e a preta” não tinham o mesmo valor do que os índios em relação ao trabalho. trabalhava-se muito na lavoura. nem espirituosos quanto os indios”. 334 . o que não é verdade. ter credito e obter capitais. p. Saint-Hilaire. na visão do autor: “Os habitantes ruraes não tutelados tem a seu favor o gozarem dos foros de cidadãos . Historie des Relations Commerciales entre la France et le Brésil. (. Tenente-Coronel Severiano Monteiro Leite. policia. segundo suas próprias observações. etc. ele se contradiz. O autor não justifica a criação de uma instituição de instrução e formação profissional para uma comunidade que. com “amor e obediência” e sem desordens..24 Baseado no conhecimento obtido sobre a Aldeia de Urubá.semelhantes.7. têm escolas. Voyage au Brésil. Gonçalves afirma que os índios eram superiores nos aspectos mais inesperados aos ditos civilizados: na Aldeia que visitou. eram “tão destros. funcionava de forma tão harmoniosa. Horace Say. o que é vetado aos indios: podem ser proprietarios do terreno que cultivam.”26 Gonçalves conta que obteve o apoio do 1o Diretor Geral dos Índios da Província. são acusados de se entregar muito ao uso da aguardente. de Abreu e Lima. contrariava as teses da resistência ao trabalho defendida por autores citados por Gonçalves. O modo de vida. para a criação do Colégio. Nesse ponto. feijão.no civel e comercial. Historia do Brazil.22 Ao seu ver. padres. J.”23 A qualificação de selvagens aplicada aos índios é combatida pelo autor. portanto ele está se referindo a uma realidade específica dos índios nordestinos do século XIX. Barão de Buique. calcado no duro trabalho agrícola.) Plantam milho. 24 Idem.

Comentando os dados do Censo de 1872. Idem.5.30 Gonçalves. Asilos para órfãos e filhos de trabalhadores foram criados no início do século XIX.”27 Uma rápida observação feita em uma publicação posterior demonstra que sua visão sobre os índios aldeados não era das mais positivas. 30 ALVIM. 1874. 26 27 GONÇALVES. 28 GONÇALVES. Domingos Maria. p. estragados pela falsa educação que se lhes deu. a partir dos oito anos de idade. mas é provável que Gonçalves pretendesse fazer um ensaio em Urubá das idéias que defendia sobre a educação dos “habitantes primitivos” do Brasil. para atender às necessidades de braços das fábricas. ingênuos e os meninos desvalidos das cidades. de seu projeto para a Província. O autor parece compartilhar com Couto de Magalhães a visão da degeneração do índio aldeado. onde os “empresários” seriam recompensados.28. terrenos que estão no estado de manin hoss. criando-se muitos estabelecimentos sem ônus para a nação.511). 1880. econômicas e políticas. será transformada em um povoado trabalhador e policiado. p. propõe uma modalidade de tutela a uma categoria considerada incapaz de gerir a própria vida. 29 GONÇALVES.958 “indios aldeados.28 Não sabemos se foi uma opinião adquirida depois de anos de residência no Brasil. 1880. Maria Rosilene Barbosa. Domingos Maria. diz que o Brasil possuía 388. principalmente na Inglaterra e na França.) uma povoação que hoje é inutil. p. O sistema evitaria o pobre pela instrução e amor ao trabalho. Domingos Maria. enriquecendo-se e enriquecendo aqueles que os cercavam.387-400. no afã de conquistar parceiros. Crianças. mas a sua força de trabalho era explorada de forma imediata. viciados. formada por índios. p. elles que por lei não tem direitos civis nem politicos”.12. A intenção era propor um “novo genero de industria e caridade”. não só eram treinadas e domesticadas na disciplina fabril.demostrar as vantagens. ao se referir da seguinte forma à Aldeia: “(. e amanhã talvez perigosa.29 A associação entre indústria e assistência à infância não era nova na Europa pós-revolução industrial. em artigo à revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (1873. 1985.. escravos. tutela a ser exercida pelo cerceamento produzido pelo trabalho compulsório e pelo viver em espaços controlados pelos empregadores.. “Cada tribu que aldêamos é uma tribu que degradamos” afirmava Magalhães. desbravados e cultivados. 335 . p.

a cevada. produção e criação de gados. carpina. alfaiate. Nele. etc. 33 Ibid.31 Aos meninos seriam ensinados ofícios mecânicos úteis à localidade. uma vez por semana. sapateiro. etc. sob o empréstimo por cinco anos de doze contos de réis dos cofres provinciais e a concessão de umas ruínas da Cadeia de Cimbres. Em proposta à Assembléia Provincial pretendeu que os benefícios dessa educação fossem estendidos a vinte órfãos pobres da comarca.32 A meta era tornar o Colégio auto-suficiente com outras produções. desenho geométrico e principios de archithetonico”. possivelmente os índios eram vistos como incapazes de compreender o bem que as luzes da instrução e da 31 32 GONÇALVES. contar.33 Tampouco há qualquer referência sobre o que pensavam os índios a respeito do plano que o cônsul e os diretores de índios pretendiam implementar em seu “benefício”. onde se cultivarão pelos processos mais economicos. não só as plantas indigenas de maior valor.9-12. mas cederia por vinte anos um sítio na Aldeia. p. Como seres “primitivos”. Em vinte anos. A instituição deveria contar com a mão-de-obra indígena para o serviço de campo. apenas é dito que a permanência no Colégio seria de quatro anos. Não está claro nos textos de Gonçalves se os meninos indígenas estariam. com a introdução do “principio economico da divisão do trabalho”. Idem. Seria instalada uma “escola pratica de agricultura nos terrenos da aldeia. “ferreiro. submetidos ao regime de internato. diariamente. Haveria também uma escola noturna não só para os adultos índios. escrever. calculada em 300 índios aptos para esta atividade. Contrato assinado em 21/3/1874. 336 . Domingos Maria. mas para outras pessoas estudarem gratuitamente. principios de veterinaria e agricultura pratica com principios de theorica”. o cacau. a escola prática de agricultura e. mas muitas das exoticas de reconhecida vantagem para a província”. Gonçalves se obrigava “a ensinar simultaneamente a cem indios maiores de 10 annos a ler. a escola noturna.9. 1874. a vinha. Todos os agricultores iriam freqüentar. O ensino das artes industriais seria ministrado nas oficinas. tais como. para no terreno edificar o Colégio. como o trigo. excluídos dos benefícios da cidadania. como os órfãos.A proposta resultou no contrato assinado com a Diretoria Geral dos Índios da Província de Pernambuco em 1874. O governo não teria despesa alguma. doutrina christã. o tabaco. esperava ter de 500 a 600 “operarios instruidos”. à escolha do reformador. p.

prevendo-se a reserva de terras para o seu assentamento em aldeamentos. nada 34 “Escriptura Publica de contrato que fazem o Exm. Tratava-se de uma proposta bastante ambiciosa. 35 N. 337 . Além do mais. disposição burlada por municípios. Em 1850 houve uma grande transformação com relação à posse da terra no território brasileiro. Carlos de. e a complicada tramitação de seus projetos pela burocracia dos governos provincial e Imperial. 373. art. Onde não mais existissem “hordas de índios selvagens”. 145-146). p. 36 MOREIRA NETO. que regulamentou a Lei das Terras. 1. a aquisição da cidadania brasileira pelos índios da aldeia de Urubá aceleraria o processo de extinção do aldeamento e da etnia. de 30/11/1854. Na prática.318. 6). o projeto envolvia não somente as crianças. 601 de 18/09/1850. principalmente nas províncias mais povoadas. para obtenção da aprovação do Ministro da Agricultura. as terras deveriam ser vendidas.”34 Além disso. iniciou-se a longa jornada de Gonçalves em prol da criação de estabelecimentos de educação agrícola no país. pois ao término da formação. a educação proporcionada pelo Colégio acarretaria profundas mudanças no status político e na identidade étnica da Aldeia. Aldeias com habitantes considerados já civilizados sofreram uma campanha sistemática de extinção. Enviado o contrato à Presidência da Província de Pernambuco. O decreto n. A lei de 185035 determinou que todas as terras deveriam ser adquiridas por compra e só garantiu terras para os índios selvagens. a perda da condição de índio pela incorporação legal à condição de cidadão brasileiro aceleraria o processo de perda do direito ao uso da terra.civilização poderiam trazer para suas vidas. tendo suas terras sido incorporadas aos próprios nacionais. 1998. cujos homens aptos para o trabalho deveriam estar disponíveis ao Colégio.36 Estabelecido o contrato. A longo prazo. os índios seriam premiados com a cidadania brasileira ao atingirem a maioridade: “O governo obriga-se a conceder todos os foros de cidadão brazileiro aos alunnos que tenham completado com vantagem o quadrienio escolar. conhecida como Lei das terras. Barão de Buique e o Dr. dentro de uma lógica de trabalho que se impunha no e pelo mundo ocidental. previa a garantia à propriedade da terra por índios considerados em “estado de civilização”. Domingos Maria Gonçalves” (12/3/1874. mas suas famílias. logo que estes tenham chegado á idade de vinte e um annos. que abrangia a educação de crianças e adultos. 1971. como as do Nordeste. afetando a vida de todos. províncias e Império (CUNHA.

o autor da obra mais completa do século XIX sobre ensino técnico no Brasil limita-se a informar. na visão de Gonçalves. para criação.20. p. No entanto. 1880. foi à Corte tratar pessoalmente da aprovação do contrato. que a escola agrícola de Campos e as Estações Agronômicas “criadas em mais recente data” não tiveram execução por falta de meios (SOUZA FILHO. Em outro trabalho. “nada foi feito pelos índios”. Preparou um bem elaborado projeto para criação de “estabelecimentos zootécnicos” (o primeiro seria implantado em Campos e os outros. hoje fallecido”. Na década seguinte. questiona se o Ministro “sabe direito público brasileiro”. não mais voltar (p. assentada a poeira levantada por Gonçalves. 39 Idem. De 27/7/1874.98). o qual aprovava o projeto. Servia. projeto de José Bonifácio. 1998.VI). Domingos Maria. à direção escolar e ao sistema geral de trabalho. p. 1887. o Ministro da Agricultura “cobriu o contrato com um oficio”38. Gonçalves. como por exemplo. mas através de iniciativas do Estado e não de particulares. 41 GONÇALVES. sem citar o nome de Gonçalves.foi feito. terem recebido parecer favorável da Assembléia Constituinte do Brasil independente (Cf. CUNHA. de “ideias pequeninas e egoistas do Diretor de Agricultura de então. conclui um desolado Gonçalves. p. apesar dos “Apontamentos para a civilisação dos Indios bravos do Imperio do Brazil”. Manuela Carneiro da.40 Afora as picuinhas e os invejososinhos 41. 2455 de 22/12/1879). o fato de um cidadão português conseguir publicidade para criar uma instituição que deveria resultar da iniciativa do Estado. com o mesmo plano do Colégio de Urubá na parte que se refere ao ensino. que poderiam ter dificultado o apoio ao projeto. Gonçalves se queixa dos nove anos que aqui perdeu e anuncia a sua partida desta terra. 338 .37 Gonçalves. “segundo o costume”. Portugal e principalmente Estados Unidos). outros motivos podem ter impedido o avanço da proposta. adaptando-o para o atendimento aos desvalidos e ingênuos.47. “a exemplo do que é feito em outros paises” (Hungria. foi infrutífera. Outro argumento contra a criação do estabelecimento partiu. 1882). resultando em total fracasso. Tarquinio. A educação foi uma das estratégias pensadas para a 37 38 GONÇALVES. munido de uma carta particular de apresentação ao Ministro da Agricultura. p. por resolver “completamente o problema de civilisação d’indios e da colonisação nacional”. em cinco províncias). para talvez. 1880. 138). Conselheiro Costa Pereira. Hamburgo. 40 Gonçalves não desistiu do projeto.39 O fato é que daí para diante só enfrentou resistência dos poderes públicos. Domingos Maria. As suas tentativas de estabelecer no Município de Campos “uma escola agricola teorica e pratica” para 200 menores (lei n. reprodução e engorda da raça suína. embora angariasse a simpatia da imprensa carioca. pelo Ministro da