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Licenciatura em Enfermagem - ESEC

Bioquímica e Biofísica

Clonagem

AC Santos - 2008/2009
Clonagem é o processo natural ou artificial pelo qual são produzidos clones,
cópias fiéis geneticamente de outro ser, por reprodução assexuada.
A clonagem tem sido um assunto muito debatido recentemente com o advento de
técnicas que permitem a clonagem de animais a partir de óvulos não fecundados. Mas
processos de clonagem artificial são conhecidos desde o século XIX entre os horticultores,
que já obtinham clones de orquídeas através da cultura de tecidos meristemáticos de uma
planta matriz, que originava dezenas de novas plantas geneticamente idênticas.

O termo clone foi criado em 1903 pelo botânico Herbert J. Webber enquanto
pesquisava plantas no Departamento de Agricultura dos Estados Unidos.
Segundo Webber, o termo vem da palavra grega Klón, que significa broto vegetal.
É basicamente um conjunto de células, moléculas ou organismos descendentes de uma
célula e que são geneticamente idênticas a célula original.
Desta forma, a clonagem é um processo de reprodução assexuada, onde são
obtidos indivíduos geneticamente iguais (microorganismo, vegetal ou animal) a partir de
uma célula-mãe. É um mecanismo comum de propagação de espécies de plantas, bactérias e
protozoários.
Em humanos, os clones naturais são gémeos univitelinos, seres que compartilham
do mesmo DNA, ou seja, do mesmo material genético originado pela divisão do óvulo
fertilizado.
A clonagem alcançou a ficção aquando da escrita de "Admirável
Mundo Novo", por Aldous Huxley, que talvez não imaginasse que algum
dia a ciência poderia aproximar-se tanto da ficção da sua obra. Ainda que
com possibilidades remotas de tornar-se realidade, a produção de
indivíduos em laboratório, como diz Huxley, já ultrapassou a linha
divisória entre a ficção e a realidade.

Clonar significa produzir indivíduos idênticos a um outro, por meio de


técnicas que excluem a fertilização.
Na área vegetal, a clonagem deixou de ser novidade há muito tempo. A técnica
tem sido usada para propagar inúmeras espécies de plantas, como batata, bananeira e
abacaxi. Partindo-se de “pedacinhos” de uma planta, é possível originar em meses, dezenas
ou centenas de outras plantas iguais. A importância disso é que podemos escolher os
melhores indivíduos para serem produzidos, qualquer que seja o aspecto desejado
(produção, sanidade, etc.).
Enquanto a clonagem vegetal vinha sendo continuamente otimizada, a clonagem
animal e, sobretudo, a humana eram consideradas apenas uma visão futurista da ciência.
Clonagem em Biologia Molecular

MacFarlane Burnet - prémio Nobel em 1965 com um trabalho sobre síntese


proteica e códio genético.
Um suiço fez, mais tarde, um raciocínio brilhante: o DNA tem forma de escada,
em que os “degraus” são de natureza proteica e os “corrimões” são constituídos por
açúcares.

Os “degraus” são diferentes de pessoa para pessoa, então se se conseguisse


fracturar a molécula em pequenos fragmentos poder-se-ia estudar o genoma do indivíduo!
Assim, os utensílios ou ferramentas biológicas são: enzimas de restrição, sondas de DNA
ou RNA e hibridização molecular (Werner Arber, Hamilton Smith, Daniel Natham, 1970,
USA) ⇒ biologia e a genética moleculares.
Enzimas de restrição ou endonucleases[1] de restrição:
são componentes do sistema de defesa celular de bactérias contra DNA
estranho.
Estas enzimas cortam o DNA estranho de dupla cadeia em sequências
nucleotídicas específicas, geralmente com simetria dupla em torno de um ponto central,
chamadas sequências palindrómicas[2], mas não o seu próprio DNA (que é metilado em
pontos potenciais de reconhecimento).
A sua designação deriva do nome da bactéria de que foi isolada (ex: Eco RI da
E. coli, Pst I da Providentia stuart).

Família de exonucleases 5'-3‘: (a) exonuclease T5, (b) ribonuclease


H do bacteriófago T4 e (c) domínio exonuclease da Taq polymerase,
(d) a estrutura colorida da T5 exonuclease codificada de acordo com
as regiões que mostram flexibilidade.

[1] Exonuclease: corta a extremidade da cadeia de DNA.


[2] Chama-se palindroma a qualquer palavra que quando se lê de trás para a frente repete o original (ex: anilina, ana, asa, etc.)
Vector
(Hubert Boyer, Stanley Cohen, USA) é um plasmídeo, fago ou cosmídeo no qual é possível
inserir sequências de DNA estranho, para proceder à sua clonagem (produzir muitas cópias
para formar uma biblioteca de DNA = amplificação).

Tabela 1 - Vectores de clonagem

Características Funções
Serem estáveis na célula hospedeira Permite a replicação
Controlarem a sua própria replicação Permite a sua multiplicação dentro da
célula com aumento do nº de cópias
Possuirem pequena dimensões Permite uma rápida introdução na célula
por transformação, electroporação ou
transdução
Serem cortadas num só local por uma Permite a inibição do DNA dador e a
enzima de restrição circularização do plasmídeo
Não serem transferidos por conjugação Evita que o DNA recombinante se
dissocie para as populações nativas das
bactérias
Terem carcaterísticas facilmente detectá- Evita possível distinguir as células
veis transformadas das não transformadas
Serem facilmente isoladas das células Aumenta o rendimento do plasmídeo
recombinante
Diagramas de vectores de clonagem simples derivados de um plasmídeo. O plasmídeo pode transportar um ou mais
genes que lhe confiram propriedades particulares, tais como a resistência a certos antibióticos. O gene selectivo ampr
codifica a enzima β -lactamase, que inactiva a amplicilina (antibiótico).

Vector de
expressão 4,85 Kb

Local
centrómero promotor
Local múlpiplo
de clonagem
Insert de DNA origem (MCS ou
polylinker)
Local terminador

telómero bla
ex: pGEM (1959
pb)
Vector de expressão.
Plasmídeo: segmento circular de DNA de cadeia dupla
que se encontra no interior das bactérias e se replica
autonomamente.

Cosmídeo: vectores sintéticos para clonagem de genes que podem inserir grandes fragmentos
de DNA estranho.

YAC (yeast artificial chromosomes):


cromosoma artificial construído com regiões
centroméricas e teloméricas dos cromosomas
de leveduras, por forma a permitir a inserção
de grandes fragmentos de DNA heterólogo
(maior que 100 Kb), mantendo a sua
capacidade de replicação.
Tabela 2 - Componentes de uma experiência de clonagem.

Componentes Função
DNA dador (insert) Fonte do DNA ou gene a ser clonado
Endonuclease de restrição Enzima utilizada para cortar tanto o DNA
do dador como o do vector em locais
específicos, de modo a que o DNA do dador
possa ser inserido no vector
Vectores Plasmídeo ou bacteriofago utilizado para
introduzir o gene a ser clonado numa célula
hospedeira adequada
Ligase de DNA Enzima utilizada pata ligar as extremidades
livres e adaptáveis do DNA do vector e do
dador e assim formar um vector
recombinante
Célula hospedeira Geralmente uma bactéria ou uma célula de
levedura. Os vectores recombinantes
introduzem-se nas células hospedeiras de
modo a obter maior quantidade de
moléculas de DNA recombinante
Técnicas de amplificação in vitro (PCR) em Biologia Molecular

Clonagem de DNA ou clonagem molecular - isolamento seguido de produção de várias réplicas de


um fragmento de DNA, pot multiplicação num vector (plasmídeo, fago, cosmídeo, YAC).
A reacção de PCR (polymerase chain reaction) foi delineada por Kary Mullis em 1985. Com
um fragmento de DNA podem fazer-se milhares de cópias. Utiliza-se uma enzima que se
reproduz a temperatura elevada, Taq polimerase (Taq → de Thermophillus aquaticus).

PCR = reacão de polimerização em cadeia utilizada para amplificar determinadas


sequências de DNA. São usadas duas sequências de oligonucleótidos de DNA
flanqueadores, como iniciador de replicação (primers) e, recorrendo a uma polimerase do
DNA, fazem-se replicações sucessivas da sequência do DNA inicial.

Amplificação de DNA: produção de múltiplas cópias de uma sequência de DNA


(amplicons).

Primer (sequência de iniciação): sequência de DNA ou RNA complementar para o


início de uma sequência nucleotídica e que serve de ponto de partida para esta ser copiada
por uma polimerase.
Ciclo de amplificação

1ª etapa: destruição do DNA (90˚C) (30 '' a 1 min)


2ª etapa: hibridação dos primers (30 '' a 1 min)
3ª etapa: elongação pela Taq polimerase (30 "' a 2 min)

volta-se a iniciar outro ciclo e assim sucessivamente ... várias vezes (é só preciso
juntar mais primers, a Taq não se gasta)

nf = n0 + 2n nf = nº de cópias final; n0= nº cópias inicial

A PCR é usada correntemente em diagnóstico médico (atenção às contaminações!), em


várias áreas (ex: fase de eclipse do vírus da SIDA) porque é uma técnica:
- rápida,
- sensível,
- específica,
- não precisa de clonagem, isto é, permite multiplicar um fragmento de DNA sem
recorrer a clonagem.
Também se utiliza noutras áreas de investigação científica para as mais variadas
aplicações.
Hibridação: ligação de sequências unicatenares de ácidos nucléicos (DNA ou RNA)
através da complementaridade de bases.

Géis (agarose ou poliacrilamida): suprimem s correntes de conversão produzidas por


pequenos gradientes de temperatura; servem de crivos moleculares que acentuam a
separação.

Probes: (sondas): moléculas de DNA ou RNA marcadas com isótopos radioactivos (ex:
32P) ou não radioactivas (ex: peroxidase; avidina-biotina + peroxidase = fluorescência)
usadas para detectar a presença de sequências complementares por hibridização.

Aplicação de sondas:
- diagnóstico genético pré-natal
- diagnóstico genético pré-sintomático
- identificação individual (DNA fingerprints)

Com a PCR pode fazer-se a sequenciação do genoma, mas utilizam-se várias outras
técnicas em Biologia Molecular:
- Southern Blotting
- Northern blotting
- Western blotting
O blotting é a transferência do DNA (ou RNA ou proteínas) de um gel para uma
membrana sintética (nylon ou nitrocelulose).
Após a hibridização, por ex: tendo usado 32P-DNA, tem de se “revelar” =
autorradiografia.
O autorradiograma serve então para fazer a leitura (sempre de baixo para cima) da
sequência de nucleótidos.
Hoje em dia há aparelhos automáticos para fazer quer a PCR quer a hibridização e a
leitura dos blots.

Aplicação prática - ex: verificação de mutação genética na fenilcetonúria ou nas anemias (ex: anemia
falciforme forma mediterrânica caracterizada por fragilidade dos glóbulos vermelhos).

Hb S (anemia
falciforme)
Hb A (normal)

heterozigótico

Fig. 3 - Esquema das bandas electroforéticas num gel de poliacrilamida na anemia falciforme.
SOUTHERN BLOT:
- técnica usada para testes de hibridização em fragmentos de DNA separados por
electroforese em gel, após acção de enzimas de restrição.
A designação Southern vem do nome do cientista que a inventou. As designações de
Northern e Western surgiram depois desta e apontam as regiões dos USA onde foram
descobertas as respectivas técnicas.

Técnica de Southern Blotting

extracção de DNA - a célula é lisada


com detergentes (ex: SDS, Triton X,
Tween)
precipitam-se as proteínas com
enzimas (ex: proteinase K)
o DNA vai ser precipitado com
solventes (ex: fenol e formol)
com uma vareta enrola-se o DNA e
retira-se da solução.
A técnica de Northern Blot é aplicada a amostras de RNA.
A técnica de Western Blot aplica-se a amostras de
peptídeos e proteínas.
Alguns benefícios da biotecnologia

Fizeram-se progressos consideráveis no sentido de introduzir genes em animais e


plantas para curar doenças genéticas, aumentar a produtividade das plantas e do gado
e tornar os cereais mais resistentes a doenças. Por exemplo, introduzem-se muitos
genes em plantas para as tornar resistentes a insectos e a plantas infestantes. Muitos
cientistas estão a tentar introduzir em alguns cereais como o trigo, o arroz, a cevada e
o milho, os genes bacterianos para a conversão do azoto atmosférico em amónia. Isto
permitiria o crescimento dos cereais sem a necessidade de adição de fertilizantes de
azoto, bastante dispendiosos e muitas vezes prejudiciais ao meio ambiente
Hibridoma Anticorpos
Proteínas Insulina
lnterferão
Albumina sérica humana
Hormona humana do crescimento
Activador plasminogénico de tecidos
Antitrombina
Factores de coagulação do sangue
Luciferase (pirilampo)
Linfocinas
Factor da necrose tumoral
Gonadotropina humana

Agricultura Cereais resistentes a doenças


Tomates hidropónicos
Resistência a pesticidas
Bio-insecticidas
Fixação do azoto

Vacinas Hepatite B
Herpes
Gripe
Malária
Pesquisa do genoma humano

Há três grande projectos a nível mundial nesta área desde 1985: USA, Japão e CEE.
O genoma humano haplóide (23 com) tem 3 × 109 pb. Pretende-se fazer a sequenciação
do genoma, isto é, determinar a ordem efectiva das 3 × 109 unidades (nucleótidos) que
constituem o genoma. Conhecendo o genoma teremos mais possibilidades de entender a
fisiologia normal, ver quais os mecanismos etiológicos e etiopatogénicos das doenças, para
produzir novos medicamentos, novos alimentos, etc..
Até ao momento já foi feito o mapeamento cromosómico, ou seja, a identificação de
marcadores moleculares que permitem uma localização rápida e aproximada de genes, e a
divisão dos cromosomas em fragmentos de DNA com extremos comuns. Ainda não está
terminado para os 23 crom a sequenciação dos fragmentos de DNA obtidos; a
reconstituição da ordem das bases púricas e pirimídicas nos cromosomas, recorrndo à
sobreposição das regiões comuns nos extremos dos fragmentos de DNA; a comparação
das sequências entre diversos genes, indivíduoas da mesma espécie ou mesmo de outras
espécies. Já estão descobertos cerca de metade dos nossos genes e com os novos
conhecimento entretanto adquiridos o número de genes diminuiu para 20 a 25 mil
genes…
1º é preciso fazer um mapa genético (em cada cromosoma encontrar marcadores
moleculares, onde as enzimas de restrição vão actuar; 1 centimorgan = 1 milhão de pares
de bases). Depois faz-se um mapa físico, formado por várias sequências. A seguir é
necessário pô-los topo a topo até encontrar o comprimento total do cromosoma. Por fim
quando se tiverem todas as sequências é que se vê o que é “lixo” ou não (o DNA
codificante é só entre 5 a 10%)…

Na espécie humana já foram identificados mais de 5 000 genes e localizados e


clonados 1 500 genes.

Crom 1 = 263 Mb (8,6% do genoma)


Crom 21 = 50 Mb (1,6% do genoma) - contém o gene da doença de Alhzeimer (braço longo - AD1), da amiloidose
cerebral (APP), do síndroma de Down (DCR), …
Crom X
Croms Y - 2 genes
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/science96/

Chromosome 1
GBA. In Gaucher disease,
the defective enzyme is
unable to metabolize
glucocerebrosides which
accumulate in characteristic,
distended phagocytic cells

AD4.
Brain
scans
of
a
healthy
elderly
person
and
a
patient
with
Alzheimer's
disease
Cromosoma 1
DMD FMR1

Defects
in
the
dystrophin An
unstable
nucleotide
repeat
is
gene
cause
Duchenne associated
with
the
most
common
muscular
dystrophy,
a form
of
mental
retardation
known
fatal
progressive as
Fragile
X
syndrome
degeneration
of
muscle
tissue

ATP7A ALD
Abnormal
Purkinje
cell 
Mylein-stained
section
of
brain
in
dendrites
in
the
brain adrenoleukodystrophy,
characterized
by
of
a
patient
with defective
catabolism
of
long
chain
fatty
Menkes
disease acids

Cromosoma X
TDF
-
Testis-determining
factor
(also
known
as
SRY)
binds
to
DNA
and
regulates
genes
controlling
the
development
of
the
testis
http://www.genome.gov/12513430
Como resultado do avanço no conhecimento científico, tanto a clonagem
humana como a animal estão na ordem do dia. Isto ficou mais evidente em Fevereiro de
1997 com o nascimento da ovelha Dolly, o primeiro mamífero a ser clonado a partir de
uma célula adulta, na Escócia.
Clonagem

Plasmídeo Bactéria
recombinante hospedeira (E. coli)

Transformação da bactéria
hospedeira por mistura com
o plasmídeo recombinante

Crescimento em meio de cultura


durante 24h a 37ºC

1997 - Ian Wilmut (Edimburg, UK) - 1º clone de animal adulto (ovelha Dolly):
Ovelha Finn Dorset → célula do dador (glândula mamária), clonada numa cultura com muito
baixa concentração de nutrientes para que não se exprimisse.
Ovelha Blackface → óvulo (colhido por sucção). Fundiu as duas células (1º impluso eléctrico
serve para as pôr em contacto e o 2º impulso eléctrico funde-as). O embrião resultante foi
implantado (mórula com 6 a 8 células) no útero de outra ovelha. O resultado foi um cordeiro
da raça Finn Dorset, geneticamente igual ao dador inicial.
Como o que foi clonado foi uma célula adulta houve envelhecimento precoce, devido à
peristase (o ambiente intra-uterino mantém o extra-uterino).
Com os avanços obtidos na área animal, abriram-se perspectivas para que a
técnica também fosse estudada em seres humanos com fins terapêuticos. No entanto, a
manipulação de células humanas gerou polémica que culminou quando foi levada para o
plano reprodutivo.

Em 2002, equipas de investigadores fizeram anúncios sobre possíveis


trabalhos visando à produção de clones humanos. O mais recente foi feito pela
Companhia Clonaid, uma organização religiosa internacional fundada há pouco mais de
6 anos que acredita na existência de extraterrestres e se denomina como a primeira
companhia do mundo a oferecer serviços de clonagem humana, a qual anunciou, sem
nenhuma comprovação científica, o nascimento do primeiro clone humano. Alguns dias
mais tarde, a mesma empresa anunciou o nascimento de um segundo clone, mais uma
vez sem apresentar nenhuma prova sobre a bagagem genética destes recém-nascidos,
causando desconfiança na comunidade científica internacional sobre a veracidade de tais
nascimentos.
Embora a teoria seja simples, na prática a clonagem é complexa.

Nos animais os resultados da clonagem têm freqüentemente apontado para nascimentos


com algum tipo de anomalia e alta ineficiência quando os resultados são expressos em
nascimentos vivos por transferência de embrião.
Mesmo assim, as pesquisas na área não param e depois do anúncio do
nascimento da ovelha Dolly, proles vivas de camundongos, ratos, coelhos, porcos e vacas
já foram registradas.
O Brasil também já apresenta resultados na área. Em março de 2001,
pesquisadores da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia anunciaram o nascimento
do primeiro clone bovino batizado de “Vitória”. Embora a técnica de clonagem animal seja
bem mais complexa do que a vegetal e ainda esteja longe de ser totalmente dominada, os
objetivos finais são bastante semelhantes àqueles da clonagem vegetal e incluem, entre
outros, a possibilidade de multiplicação de animais com boas características genéticas e a
recuperação de populações de espécies silvestres ameaçadas de extinção.
Sob o ponto de vista técnico, e para os defensores da clonagem humana, a
tecnologia poderia beneficiar, por exemplo, casais inférteis que deixariam de utilizar as
técnicas atuais de fertilização in vitro para reproduzir indivíduos relacionados a si mesmos.
No plano da ficção, acredita-se que por meio dela seria possível clonar novos
Hitlers, Einsteins, Vivaldis, etc..
Baseando-se nas experiências com os animais, nas quais a eficiência em se
produzir proles vivas e normais é bastante baixa, actualmente a clonagem humana para fins
reprodutivos é injustificável. Devido a estes riscos e aos princípios éticos, instituições como
a Organização Mundial da Saúde e Unesco são contra os estudos de clonagem para estes
fins.
O objectivo da investigação da clonagem humana nunca foi clonar pessoas ou
criar bebés para no futuro serem dadores de partes ou produtos humanos.
A investigação tem como objectivo obter células estaminais para curar doenças
As células estaminais são células cujo destino ainda não foi "decidido".
Podem transformar-se em vários tipos de células diferentes, através de um processo
denominado "diferenciação".
Nas fases iniciais do desenvolvimento humano, as células estaminais do embrião
"diferenciam-se" em todos os tipos de células existentes no organismo - cérebro,
ossos, coração, músculos, pele, etc..

Os cientistas estão entusiasmados com a possibilidade de


controlar o espectacular poder natural destas células para
curar vários tipos de doenças. Por exemplo, as doenças de
Parkinson e Alzheimer resultam de lesões em grupos de
determinadas células no cérebro. Ao fazer um
transplante das células estaminais de um embrião para a
parte do cérebro com lesões, os cientistas esperam
substituir o tecido do cérebro que se perdeu.

Num futuro próximo, a investigação das células estaminais poderá revolucionar a forma
de tratamento de muitas "doenças mortais" como, por exemplo, acidentes vasculares
cerebrais, a diabetes, doenças cardíacas e até mesmo a paralisia.
As atitudes relativamente à utilização de células estaminais embrionárias para fins
de investigação e tratamentos médicos variam de país para país. Na Alemanha, por
exemplo, a remoção de células estaminais de um embrião humano é considerada
ilegal.
Na Grã-Bretanha é legal mas, de acordo com regulamentos rigorosos, os cientistas
britânicos podem utilizar embriões humanos para investigação até 14 dias após a fertilização.
Nesta altura, o embrião é uma bola de células com cerca de um quarto do tamanho de
uma cabeça de alfinete (0,2 mm).

Muitos países ainda não possuem leis claras que regulem a investigação de
células estaminais humanas.
Uma vez que a utilização de embriões é uma questão
controversa eticamente, os cientistas em todo o mundo estão à
procura de outras fontes de células estaminais. As células
estaminais encontradas na medula óssea dos adultos são uma
possibilidade. Estas células têm o potencial para se
"diferenciarem" em diferentes glóbulos vermelhos ao longo do
ciclo da vida.
No futuro, os cientistas esperam manipular estas células estaminais adultas para
que, em vez de produzirem apenas glóbulos vermelhos possam produzir células do cérebro,
fígado, coração e células nervosas.
Existem actualmente pelo menos 100 000 embriões excedentários congelados
armazenados por toda a União Europeia.

Estes embriões foram criados como uma fase de rotina dos tratamentos
da esterilidade (FIV). Um único ciclo de tratamento de FIV envolve
normalmente a fertilização simultânea de vários ovos. De seguida, vários
ovos fertilizados são reimplantados na mãe e os restantes são congelados,
caso a primeira tentativa de gravidez não seja bem sucedida.

Se a mulher sujeita à FVI engravidar de imediato, o casal pode optar por não
utilizar os restantes embriões. Em alguns países, os casais podem optar por doar os embriões
para investigação ou pela sua eliminação.
No entanto, nunca chegou a ser tomada uma decisão sobre o destino de alguns
embriões armazenados. Nos últimos 20 anos, desde o início da FIV, muitos dos dadores de
ovos e esperma mudaram de casa, voltaram a casar e mudaram de nome ou talvez até já
tenham morrido. As clínicas de fertilidade podem não conseguir encontrá-los. O destino de
muitos embriões armazenados é, por isso, incerto.
Uma segunda fonte de embriões para o fornecimento de células estaminais, ainda
mais controversa, seria a criação de embriões somente para investigação ou tratamento.
Contudo, já existem milhões de espermatozóides e milhares de ovos não fertilizados
congelados em clínicas de FIV em toda a Europa. Se os espermatozóides fossem utilizados
para fertilizar os ovos, existiriam ainda mais embriões para fornecer células estaminais de
modo a curar doenças.
Medula óssea de adultos

Uma fonte promissora de células estaminais poderia ser a medula óssea de um adulto.
As células estaminais da medula óssea dos adultos produzem normalmente glóbulos
vermelhos e células da medula óssea.

Até há pouco tempo, os cientistas pensavam que era impossível a estas


células da medula óssea "voltar atrás no tempo" e reinventarem-se a elas
próprias para produzirem tipos de células completamente diferentes como,
por exemplo, células do cérebro, células nervosas, do intestino ou da pele.

Nos Estados Unidos os cientistas identificaram, recentemente, uma célula estaminal


da medula óssea de adultos que pensam poder desenvolver-se noutro tipo de células. "É algo
de extraordinário", afirma o perito em células estaminais Austin Smith do Centre for Genome
Research em Edimburgo, Reino Unido.
Não só as células estaminais retiradas de um adulto com o seu consentimento
seriam eticamente aceitáveis para a maioria das pessoas e governos, como seriam também
melhores para os pacientes.
Imagine que padece de uma doença que está a matar as células do cérebro. As
células estaminais poderiam ser retiradas da sua medula óssea, seriam manipuladas no
laboratório para se tornarem em células cerebrais e voltariam a ser implantadas no seu cérebro
- não existindo, assim, uma rejeição imunitária do transplante.
Caso funcione, esta é uma perspectiva muito entusiasmante. Os primeiros
resultados parecem promissores, mas os cientistas não têm ainda conhecimento da
versatilidade exacta das células estaminais da medula óssea. Estão muito mais confiantes sobre
o que as células estaminais dos embriões possam fazer.
Tipos diferentes de células estaminais poderiam resultar mais eficazmente em
tratamentos de doenças diferentes, por isso, a maioria dos cientistas optaria por continuar a
investigação de ambos os tipos.

Sangue placentar

Uma última opção como fonte de células estaminais é o


sangue do cordão umbilical que normalmente é eliminado no parto.
Algumas empresas recolhem o sangue da placenta e, através de uma
taxa, armazenam-no caso a criança venha a adoecer.
Esta técnica prevê que as células estaminais recolhidas desta
forma possam ser utilizadas para tratar problemas sanguíneos como,
por exemplo, leucemia e algumas perturbações genéticas e imunitárias.
No futuro, o sangue do cordão umbilical poderá vir a ser uma fonte de
células estaminais para curar acidentes vasculares cerebrais, a diabetes, a
doença de Parkinson e a distrofia muscular.