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UNIVERSIDADE COMUNITÁRIA REGIONAL DE CHAPECÓ

Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais

Kerli Paula Melz Viebrantz

A EXTENSÃO RURAL NA FORMAÇÃO PROFISSIONAL DOS AGRICULTORES DE ITAPIRANGA E MONDAÍ – SC, ENTRE AS DÉCADAS DE 1960 E 1990.

Chapecó, 2009.

UNIVERSIDADE COMUNITÁRIA REGIONAL DE CHAPECÓ

Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais

A EXTENSÃO RURAL NA FORMAÇÃO PROFISSIONAL DOS AGRICULTORES DE ITAPIRANGA E MONDAÍ – SC, ENTRE AS DÉCADAS DE 1960 E 1990.

Kerli Paula Melz Viebrantz

Dissertação apresentada ao programa de Pós- Graduação da Universidade Comunitária Regional de Chapecó, como parte dos pré- requisitos para a obtenção do título de Mestre em Ciências Ambientais.

Orientadora: Profa. Dra. Arlene Anélia Renk

Chapecó – SC, março, 2009.

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UNIVERSIDADE COMUNITÁRIA REGIONAL DE CHAPECÓ Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais

A EXTENSÃO RURAL NA FORMAÇÃO PROFISSIONAL DOS AGRICULTORES DE ITAPIRANGA E MONDAÍ – SC, ENTRE AS DÉCADAS DE 1960 E 1990.

Kerli Paula Melz Viebrantz

Esta dissertação foi julgada adequada para a obtenção do grau de

Mestre em Ciências Ambientais

sendo aprovado em sua forma final.

Arlene Anélia Renk, Doutora em Antropologia Orientadora

BANCA EXAMINADORA

Osmar Tomaz de Souza, Doutor em Meio Ambiente e Desenvolvimento

João Carlos Tedesco, Pós-Doutor em História

Chapecó, 26 de Março de 2009.

AGRADECIMENTOS

Ao

meu

esposo

Silvio,

sempre

presente,

caminhada repleta de ausências e estudos.

acompanhando

e

incentivando

essa

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À Sílvia Luiza, que, com sua presença, iluminou minha caminhada.

À minha mãe Lúcia e meu pai Atanásio, que sempre souberam dar valor ao estudo,

estimulando e incentivando a minha caminhada.

Aos meus colegas do curso de Mestrado, pelo companheirismo e aprendizagem proporcionados.

Aos professores do curso, pela dedicação e conhecimento partilhado.

À coordenação do curso e secretária pelo sempre cordial atendimento.

De forma especial, à professora orientadora Dra. Arlene Anélia Renk, que humildemente e pacienciosamente soube sempre trazer as recomendações pertinentes para que este trabalho se tornasse realidade, que incentivou, que me ajudou superar grandes obstáculos durante esta trajetória.

À Universidade Comunitária Regional de Chapecó - UNOCHAPECO e a Cordenação

de Aperfeiçoamento de pessoal de Nível Superior – CAPES, órgãos financiadores dessa

pesquisa. O auxílio financeiro proporcionou o estudo.

Muito obrigada!

RESUMO

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VIEBRANTZ, Kerli P. Melz. A Extensão Rural na Formação Profissional dos Agricultores de Mondaí e Itapiranga – SC, Entre as Décadas de 1960 e 1990. Dissertação (Mestrado). Universidade Comunitária Regional de Chapecó, 2009.

Este trabalho tem por objetivo analisar as atividades da extensão rural, em especial do Clube 4 S, nas décadas de 1960 a 1990, nos municípios de Mondaí e Itapiranga. Este período representou uma profunda transformação no modo de agir e de pensar do homem do meio rural, em que a Extensão Rural teve importante papel. Houve uma inserção acelerada na economia de mercado, introduziram-se o uso de técnicas e métodos que aumentaram a produção e provocaram sérios impactos ambientais. A extensão rural se valeu do capital social dos agricultores, expresso no associativismo e atividades comunitárias, para o engajamento dos jovens. Os Clubes 4 S voltaram-se para a formação de lideranças, introdução de valores e técnicas, que o Estado considerava adequadas para a superação do “atraso”. A introdução de novas tecnologias, modalidades de cultivo impulsionadas pelo trabalho da extensão rural, substituiu os saberes tradicionais, as sementes crioulas, abrindo espaço para sementes híbridas e reflorestamento de árvores exóticas. Houve uso intensivo do solo, sem questionar as possíveis conseqüências ambientais, adotando um modo de produção essencialmente voltado para o mercado.

Palavras-chave: Extensão Rural, Agricultura, Ambiente, Educação Informal.

ABSTRACT

VIEBRANTZ, Kerli P. Melz. The Rural Extension on the Profissional Formation of Farmers

in Itapiranga and Mondaí-SC. de Chapecó, 2009.

Dissertation (Masters). Universidade Comunitária Regional

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This Work has for objective to analyze the activities of rural extension special 4s club, in the 1960s to 1990s, in Mondaí and Itapiranga. This period represented a profound transformation in the way of acting and of thinking in the rural environment, inwich the rural extension had an important rob. There was an accelerat insertion in the economy of market, the was introduced techniques and methods that have increased production and caused serious environmental impacts. The rural extension was worth of the capital these farmers, expressed in associations and community activities, for engagement of young people. The 4s clubs. Training to formation leaders, introduction of values and techniques, that the state considered appropriate to overcoming “late”. The introduction of new technologies Kinds of cultivation promoted by the work of rural extension, substituted the traditional knowledge, the landraces seeds, opening space for hybrid and reforestation of exotic trees. There was intensive use of soil, without questioning the possible environmental consequents adopting a mode of production essentially focused on the market.

Key-words: Rural Extension, Agriculture, Environment, Informal Education.

LISTA DE FIGURAS

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Figura 1.1– Mapa de Localização da Região Pesquisada

09

Figura 1.2– Mapa Colonial de Porto Novo

24

Figura 1.3 – Balsas Transportadas Pelo Rio Uruguai

27

Figura 1.4 – Caça Predatória no Extremo Oeste Catarinense

28

Figura 1.5 – Suínos criados a solta. Década de 1960

30

Figura 3.1 – Folha de Rosto do Livro de atas dos clubes 4s

55

Figura 3.2 – Juramento

56

Figura 3.3– Desfile alusivo à comemoração da Independência do Brasil

58

Figura 3.4 – Verso da folha de rosto do livro de atas

60

Figura 3.5 – Exposição de trabalhos realizados pelos membros dos clubes 4s. Inicio da década

de 1980

66

Figura 3.6 – Casinha para espera de ônibus

70

Figura 3.7 – Placas de sinalização

70

Figura 4.1 - Exigências para o Cultivo da Batatinha

86

Figura 4.2 – Exigências para o Cultivo da Batatinha

87

Figura 4.3 – Erosão do solo na década de 1970

90

Figura 4.4 - Erosão do solo na década de 1970

90

Figura 4.5 – Terraço

91

Figura 4.6 - Patamares

92

Figura 4.7 - Mutirão para a construção de Taipas de Pedra. Dec. De 1970

93

Figura 4.8 - Viveiro de Mudas 4s

97

Figura 4.9 - Construção de biodigestores

98

Figura 4.10 - Mensagem aos Quatroessistas

103

SUMÁRIO

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INTRODUÇÃO

08

APORTE TEÓRICO CAPÍTULO I

12

A OCUPAÇÃO DO OESTE CATARINENSE

16

1.1 A Colonização do Oeste

17

1.2 Os Colonos e a Organização do Ambiente

26

1.3 Família Camponesa

30

CAPITULO II EXTENSÃO RURAL E OS CLUBES 4S

34

2.1 O Serviço de Extensão Rural nos Estados Unidos e no Brasil

34

2.2 A Superação do Atraso Agrícola

37

2.3 A Extensão Rural em Santa Catarina

42

CAPITULO III

EXTENSÃO RURAL E JUVENTUDE

50

3.1 Organização dos Clubes 4s

50

3.2 Estratégias Utilizadas nos Clubes 4s: Os Projetos

62

3.2.1 Projetos Coletivos

63

3.2.2 Projetos Individuais

65

3.2.3 Projetos Coletivos Comunitários

68

3.3 Formação de Liderança

71

3.4 A Experiência

73

3.5 A Crise na Extensão Rural

76

CAPITULO IV

A EXTENSÃO, AMBIENTE E AMBIGUIDADES

83

4.1 O Aumento da Produção

83

4.2 As Técnicas de Contenção da Erosão do Solo

88

4.3 O Reflorestamento

94

4.4 A Necessidade de se Repensar o Modo de Produção

104

CONSIDERAÇÕES FINAIS

108

REFERÊNCIAS CONSULTADAS E REFERÊNCIAS CITADAS

113

8
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INTRODUÇÃO

A partir da década de 1950, a agricultura da região oeste de Santa Catarina, passa a ser

subordinada a indústria e ao capital financeiro. A aplicabilidade desse modelo de produção exigiu a necessidade de “educar” o povo rural, para que ele passasse a adquirir equipamentos e insumos industrializados necessários à modernização da agricultura. Assim, surgiu em 1956, em Santa Catarina, a Extensão Rural objetivando criar estratégias de educação informal que consolidasse o modelo capitalista de produção agrícola: a Revolução Verde. Era necessário

formar um novo sujeito, um novo agricultor, apto a lidar com as novas tecnologias e técnicas

e com o crédito bancário, até então desconhecido por eles. A extensão rural foi

operacionalizada através da ACARESC – Associação de Crédito e Assistência Rural de Santa Catarina. É neste período que as ações do Estado são interiorizadas, com a instalação da

Secretaria de Estado dos Negócios do Oeste, com sede em Chapecó. O oeste catarinense é a última região do estado a ter a implantação da extensão rural. A ações centravam-se no Vale

do

Rio do Peixe, no Planalto Catarinense e em outras áreas mais próximas do litoral 1 .

A

extensão rural, entendemos como um processo de educação informal. Centramo-nos

na

concepção daquela orientada pelo Estado. No presente caso, levamos em conta, o número

1,

da cláusula I, firmada entre o Estado Catarinense e Acaresc (1963) TERMO DE ACORDO

(Decreto nº 24-05 de 1963), quando são explicitados os objetivos da extensão: “ EXTENSÃO visa levar ao agricultor, individualmente, isoladamente ou em grupos, através de métodos próprios, ensinamentos de técnicas melhoradas, com o fito de aumentar o rendimento de seu trabalho e de sua propriedade de vida do lar, e aos filhos com a finalidade de desenvolver neles o interesse pelas atividades agrícolas e domésticas”. O cabeçalho do texto afirma: “objetivando o desenvolvimento de um Serviço de

Extensão Agrícola e Doméstica, conjugado ao Crédito Rural Supervisionado, que permita a intensificação da produção agro-pecuária e concomitantemente a melhoria das condições sócio-econômicas das famílias rurais do Estado (Decreto nº 24-05 de 1963)”.

A intercessão do Estado Brasileiro na agricultura se torna mais presente no período da

guerra fria. Nesse período haviam várias tensões: de um lado, movimentos em favor da reforma agrária, como as Ligas Camponesas; de outro, o movimento para a modernização, sem esquecer do cunho ideológico que perpassava os movimentos. No sul, em especial,

1 Segundo Lohn (2008),em 1957, já sob a denominação de Associação de Crédito e Assistência Rural do Estado de Santa Catarina (ACARESC), encontravam-se em funcionamento os escritórios de São José, Indaial, Rio do Sul, Ibirama, Ituporanga, Capinzal, Herval do Oeste, Videira e Joaçaba, além do escritório central em Florianópolis.

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instituições que apoiavam os colonos, tal como Igrejas, alinharam-se em favor da modernização. A região do extremo oeste de Santa Catarina, resultante das colonizações de Porto Feliz (atual Mondai) e Porto Novo (Itapiranga) (figura 01), foi colonizada por agricultores vindos do Rio Grande do Sul e da Europa. Antes desses agricultores chegarem a Santa Catarina, eles ou seus ancestrais haviam migrado da Alemanha, em busca de condições de vida melhor e de liberdade (RENK, 2000). Os primeiros imigrantes alemães localizavam-se nas adjacências de São Leopoldo. A religião católica e luterana sempre foi uma fronteira entre os alemães e seus descendentes no Brasil, cultivando suas instituições religiosas e associativas. Bismarck, na Alemanha, com a chamada Revolução Cultural, expulsando os jesuítas contribuiu para o acirramento confessional no sul do Brasil. A constituição brasileira em especial a positivista do Rio Grande do Sul, fizeram com que Católicos e protestantes criassem suas instituições, suas escolas, imprensa, tipografias, sociedades de auxílio mútuo e colonização homogêneas, do ponto de vista confessional. Os católicos criaram no início do século XX as colônias de Santo Cristo e Cerro Largo para seus agricultores. Os protestantes criaram Panambi, de onde traçaram a colônia em Santa Catarina (KREUTZ, 1991).

de onde traçaram a colônia em Santa Catarina (KREUTZ, 1991). Figura nº 1.1 Mapa de Localização

Figura nº 1.1 Mapa de Localização da Região Pesquisada.

Fonte: mapainterativo.ciasc.gov.br. Adaptado por Silvio Viebrantz.

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A tendência em fazer núcleos coloniais homogêneos, no Rio Grande do Sul, e o impedimento por parte do governo positivista do estado (ROCHE, 1969) fez com que alemães católicos e protestantes se deslocassem à Argentina para a construção de colônias homogêneas. Mesmo em Santa Catarina, a maior parte das empresas colonizadoras dividiram as terras com o cuidado de formar comunidades homogêneas, ou seja, com a mesma etnia e religião. Mondaí, com a empresa Chapecó Peperi destinada para colonizadores alemães evangélicos, Itapiranga com a empresa Sociedade União Popular para os alemães católicos, a Luce & Rosa destinou Nova Milano (atual Seara) para os italianos e Nova Teutônia para os alemães. A Colonizadora Sul Brasil utilizou o mesmo procedimento: Palmitos para os alemães protestantes, São Carlos e Saudades para os alemães católicos e São Domingos (atual Caibi) para os italianos. O propósito era evitar conflitos que pudessem por em risco o “progresso da região”. Renk (2000), acrescenta que os povoamentos homogêneos correspondiam a uma tendência dos colonos abandonados pela administração brasileira. A omissão do Estado deixava ao encargo dos colonos a construção de equipamentos coletivos, como cemitérios, igrejas, salões comunitários, escolas e hospitais. Num contexto de acirramento de confissões (conflitos entre católicos e evangélicos), principalmente entre os alemães, os esforços comunitários foram no sentido de evitar duplicidades. Mondaí, originalmente Porto Feliz, foi criada e gerenciada por um pastor luterano do então Sínodo Riograndense e destinava-se a agricultores alemães e descendentes de confissão luterana (KOELLN, 1980). Porto Novo, depois nominada Itapiranga, destinava-se a colonos alemães e descendentes católicos. Este último empreendimento manteve até recentemente as marcas étnico-confessionais e foi chamado de projeto jesuítico (KREUTZ, 1991, WERLE,

2005).

Além do Rio Grande do Sul, os imigrantes, em menor proporção, vieram da Alemanha, em sua maioria eram urbanos e fugiam da crise dos anos 1930 e aqui tornaram-se agricultores (ocuparam a comunidade de Linha Becker-Itapiranga). Werlang (2006), relata a vinda de teuto-russos para a região Oeste catarinense, destaca que os teuto-russos de religião evangélica ocuparam as terras do atual município de Riqueza. Já os teuto-russos católicos colonizaram a região de Aguinhas – São Carlos. Os procedimentos da colonização serão aprofundados no primeiro capítulo desta dissertação. Com o surgimento da extensão rural no ano de 1956, e especificamente do trabalho com clubes 4s a partir da década de 1960, voltados aos jovens agricultores, o modo de

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produção modificou-se, passou-se a utilizar técnicas e tecnologias difundidas pela Revolução Verde que objetivaram um aumento da produção por área cultivada. Foi introduzido o crédito subsidiado. A organização do trabalho familiar também passa por transformações, a autoridade do pai passa a ser questionada, já que o saber relacionada ao modo produtivo não mais se centralizaria somente na figura do pai, e sim compartilhado com os filhos. Entretanto, as mudanças estruturais e ideológicas ocorridas no serviço de extensão rural público brasileiro na década de 1990, além da crise socioeconômica aliada a crise ambiental vivenciada na região, põe em cheque o modelo de extensão rural das décadas de 1960 a 1990. Isso que motiva o presente estudo, que discute a formação cultural dos pequenos agricultores do extremo-oeste de Santa Catarina, nos antigos municípios de Itapiranga, Mondaí, principalmente entre as décadas de 1960 e 1990. Este período representou uma profunda transformação no modo de agir e de pensar no meio rural, houve uma inserção acelerada na economia de mercado, introduziram-se o uso de técnicas e métodos que aumentaram a produção e provocaram sérios impactos ambientais. Neste sentido, formulou- se a questão central de pesquisa que norteou o estudo: qual o papel da Extensão Rural, enquanto política de estado, na formação profissional e cultural dos agricultores do extremo- oeste de Santa Catarina, no período da modernização da agricultura? Os objetivos do trabalho pautaram-se em uma análise das estratégias de educação informal, utilizadas pela Extensão Rural, na formação de uma cultura tecnicista, no extremo- oeste de Santa Catarina entre as décadas de 1960 e 1990, bem como as mudanças na propriedade ocasionadas com a implantação de técnicas e métodos modernos de produção agrícola. A preocupação e o interesse pela região, foco deste estudo, surgiu a partir de relatos de agricultores que reverenciavam anos anteriores, quando a produção se dava de forma campesina. Tais relatos despertaram o interesse em compreender o que motivou uma mudança cultural que proporcionou uma transformação no modo produtivo agrícola. A clareza da necessidade da pesquisa para compreender as transformações ocorridas no meio rural regional, surgiu durante o mestrado. Aprofundou-se a revisão bibliográfica em relação a essas mudanças e das ações da extensão rural. Realizou-se uma pesquisa documental do material produzido pela Acaresc para e sobre a extensão rural, principalmente aquela dos Grupos 4S 2 . Entre os quais a publicação de livretos utilizados para orientar os jovens agricultores sobre quais os

2 Os 4s significavam: Saber, Sentir, Servir e Saúde.

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procedimentos necessários para desenvolverem seus projetos, em tais livretos estavam descritos as medidas que deveriam ser utilizadas para dimensionar o plantio, a necessidade de se fazer análise do solo e que adubos que deveriam ser utilizados a partir da orientação do extensionista, salientavam a importância de se utilizar a semente selecionada (híbrida) e também os “remédios” que deveriam ser utilizados para eliminar possíveis pragas que atacariam a plantação. Publicavam-se também periódicos nos quais os jovens quatroessistas eram destacados por desenvolverem as novas técnicas e tecnologias com primor. Ter o seu trabalho exposto para os quatroessistas era motivo de honra. Utilizaram-se outros documentos institucionais, recursos iconográficos e jornais de circulação, a exemplo do Vale do Rio Uruguai. Outro objeto de analise foi o Livro de atas do clube 4s da comunidade de Vila Catres. Livros de outros clubes teriam sido incinerados, segundo os entrevistados, quando a igreja católica divulgou idéias contrárias ao trabalho extensionista. No trabalho de campo, além da documentação acima mencionada, foram realizadas entrevistas, num total 20, com ex-quatroessistas que atualmente residem nos municípios de Mondaí, Riqueza, Iporã do Oeste e Itapiranga. É importante salientar que a abrangência do escritório da Acaresc de Mondaí era também de duas comunidades do município de Caibi, mas o trabalho levou em conta apenas as colonizações iniciais. Além disso, foram ouvidos 05 extensionistas e ex-extensionistas rurais que trabalharam com os clubes 4s nessa região e residem no Mato Grosso, São Miguel do Oeste, Itapiranga e Mondaí. As entrevistas foram semi-estruturadas, tiveram duração de uma hora e meia, em média. Após consentimento prévio dos entrevistados, assegurando-lhes manter em sigilo identidade e conteúdo, as falas foram registradas em MP3, e integralmente transcritas. Estimulou-se a descrição de acontecimentos simples e concretos da experiência dos clubes 4s. A escolha dos informantes se deu a partir da leitura de antigos jornais que nomeavam líderes dos clubes 4s, buscou-se aqueles que ainda na região residem e a partir de suas falas descobriu-se outros informantes. Com o objetivo de preservar o anonimato desses, cita-se apenas iniciais fictícias. Após a transcrição das entrevistas efetuou-se um recorte dos conteúdos em elementos que posteriormente foram ordenados em categorias, agrupou-se esses elementos em função de sua significação para dar sentido ao material analisado e às intenções da pesquisa. O mesmo foi feito com documentos. Agrupamos o material em três categorias, que serviram de categorias de análise. São elas: família, juventude rural e ambiente.

Aporte Teórico

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A população estudada nesta dissertação nominava-se por colono. No entanto, a nominação externa, atribuída pelos técnicos, era de agricultor, o que implica em identidade profissional. Colono é uma categoria administrativa do Estado Brasileiro 3 . Neste caso, o tomamos na acepção empregada por Seyferth, está próximo a um modo de vida que na literatura foi trabalhado como campesinato 4 . Colonia também significa a gleba de terra de 24 hectares. Deve ser levado em conta que o nominar-se e ser nominado por colono não era pejorativo. O dia 25 de julho, em homenagem ao colono, era comemorado. A organização da produção agrícola assemelhava-se ao campesinato, considerando o campesinato uma economia familiar corporada (SHANIN, 2005). Isto é, havia um “comunitarismo interno”, cuja produção contava com todos os membros da família, mas o gerenciamento era do chefe da família, ou seja, o pai. Os membros familiares têm diferentes papéis, onde o poder centralizam-se na figura do pai que detinha o conhecimento da produção e tomava todas as decisões na organização familiar. Isso Woortmann (1997) chama de modelo centrado na família enquanto valor. O conhecimento rural passava de geração em geração, de modo que o chefe de família era o portador desses valores como constituídos, legitimando o seu poder de mando perante mulher e filhos. Woortmann (1997, p. 11) diz que a transmissão do saber no campesinato se dá no trabalho, pois o saber é um saber-fazer, parte da hierarquia familiar, subordinada ao chefe da família; o pai, se este que governa o trabalho, é ele quem governa o fazer-aprender. A transmissão do saber é mais do que a transmissão de técnicas, ela envolve valores, construção de papéis. Assim o pai da família governa a família porque governa a produção; governa o processo de trabalho porque domina o saber. O saber técnico é fundamental para a reprodução da estrutura social. A economia camponesa caracteriza-se pelo trabalho familiar, pelo controle dos próprios meios de produção, economia de subsistência e qualificação ocupacional multidimensional; as condições de vida produtiva camponesa necessitam o estabelecimento de um equilíbrio particular entre a agricultura, atividade extrativa, artesanato e natureza (SHANIN, 2005). Essas características de organização social e de produção diferem das

3 Segundo Renk (2000) o termo colono foi atribuído aos imigrantes pelas leis que nortearam a

colonização nas áreas que receberam os imigrantes no século XIX. Posteriormente, seus descendentes passaram

a utilizar essa categoria, embora nem nas regiões européias de onde vieram chamavam-se camponeses (Bauer ou conttadini, respectivamente em alemão e italiano).

4 Os estudiosos estabelecem diferenciação teórica entre campesinato e agricultura familiar. Aprofundar

a discussão não foi objeto deste estudo.

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características produtivas de mercado, um exemplo disso são os vínculos estabelecidos entre movimentos de oferta, demanda e preço nas sociedades mercantis, as quais mudam consideravelmente nas sociedades camponesas. Essas situações fazem com que a condição camponesa seja vista como inferior às sociedades mercantis. Esse foi um contexto fértil para a inserção da extensão rural, que fomentou novas idéias em relação a produção e organização social entre os camponeses e inserção em economia de mercado.

A região caracterizava-se por pequenas propriedades familiares, Renk (2000) citando

Bouquet e Woortmann diz que o campesinato (produção característica na região logo após a colonização) definia-se no trabalho familiar, na imbricação do parentesco e da economia, respaldada na hierarquia construída sob diferenças biológicas e cronológicas/etárias. O acesso a terra tomado enquanto patrimônio familiar, era principal fonte de sustento e norteadora das atitudes. Como suporte para análise ambiente, recorre-se a LEFF. O autor assegura que a problemática ambiental é o sinal mais eloqüente da crise da racionalidade econômica que conduziu o processo de modernização. Acrescenta que a meta iluminista da modernidade e a emancipação do homem através da razão convertem-se em alienação ao compreender as causas que movem o mundo, sem questionar os mecanismos tecnológicos que governam a produção. O que torna fundamental conhecer e questionar essa cultura que levou a humanidade a utilizar todos os limites: sociais e naturais, a fim de satisfazer nossas necessidades e desejos crescentes internalizados através de uma cultura consumista que exigiu mais produtividade.

O conceito de ambiente abrange uma totalidade que inclui os aspectos naturais e os resultantes das atividades humanas, sendo o resultado da interação de fatores biológicos, sociais, físicos, econômicos e culturais. A discussão da crise ambiental deve permear os mais diversos saberes.

A problemática ambiental demanda a produção de um corpo complexo e integrado de

conhecimentos sobre os processos naturais e sociais que intervêm em sua gênese e em sua resolução. O discurso da sustentabilidade se abre para um campo de estratégias teóricas e práticas pela apropriação da natureza, propondo a questão do poder no saber ambiental.

Diante do propósito homogeinizador do real que emerge da capitalização do homem, da cultura e da natureza, a construção de uma racionalidade ambiental que defenda uma ordem social fundada na produtividade ecológica e na diversidade cultural (LEFF, 2004). Dividiu-se o presente estudo em quatro capítulos. O primeiro capítulo aborda peculiaridades da colonização regional, para entendermos a organização do espaço e o modo

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de produção até a influência da extensão rural enquanto um órgão público. Discute também a influência da Igreja na formação cultural dos agricultores além do abandono do estado em relação à região antes da década de 1960. O segundo capítulo trata do cenário político nacional que motivou o governo a investir na agricultura brasileira. A influência dos conflitos da guerra fria nos investimentos do estado quanto à inovação e pesquisa. A família Rockefeller e a criação de um serviço de extensão rural pública no Brasil, além de resgatar a história de criação da Extensão Rural no Brasil, especialmente em Santa Catarina. O surgimento dos Clubes 4s, enquanto uma estratégia para a formação de uma cultura tecnicista entre os jovens agricultores. No terceiro capítulo são analisadas as ações e vivências das pessoas que participaram dos clubes 4s. Descreve-se como as pessoas viveram esse contexto. Através da análise documental aborda-se a ordem cronológica das atividades nos clubes. De que forma o extensionismo através dos clubes 4s mudaram a maneira de pensar e agir. E as razões abordadas para a crise da extensão rural no final na década de 1990. O quarto capítulo é reservado para discussões em torno das mudanças sócio- ambientais e econômicas ocorridas a partir do uso de novas técnicas e tecnologias de produção agrícola difundidas pelo trabalho quatroessista. Além da análise de conceitos e discussões em torno de questões ambientais trabalhados pelos extensionistas.

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CAPÍTULO I A OCUPAÇÃO DO OESTE CATARINENSE

Até o início do século XX a categoria região não poderia ser utilizada para a atual configuração do que se chama por oeste catarinense. Bourdieu (1989) assegura que não há região essencializada e tampouco “natural”, o que faz uma região são os fatos históricos que passam a retratar o espaço como homogêneo, esquecendo a heterogeneidades, nominações e configurações anteriores. Entende-se ser necessário apresentar, de forma abreviada, o que se identifica hoje como oeste catarinense. A ocupação dos Campos de Palmas, para o desenvolvimento da pecuária, foi o antepasso para o processo de colonização da região Oeste Catarinense, no século XX. Devido as características naturais: ricos pastos naturais, boa água e relevo suave, os campos da região sul foram utilizados na rota do tropeirismo. Deslocavam-se tropas de muares e gado procedentes do Rio Grande do Sul com destino aos mercados de São Paulo e Minas Gerais. No século XIX, foram implantadas as “fazendas de criar”, segundo Renk (2006, p.33) nos Campos de Palmas, que incorporava o atual oeste catarinense. Os fazendeiros paulistas instalaram-se com uma quantia razoável de capital econômico e com poucos braços, dentre os quais os negros forros, mestiços e índios. Quanto a estes últimos, o imaginário, à época, era que eles se “adaptavam melhor ao trabalho da pecuária por ser mais livre e ajustado a sua índole” (RITTER, 1980). Em conseqüência desse processo de apropriação dos campos surge uma hierarquia populacional, instaurando-se a função tutelar do grande proprietário de terra. Foi neste contexto que ocorreu a instalação das fazendas nos campos de Palmas, do Êre, do Irani, e outras Campinas que estariam inseridos nos campos gerais (RENK, 2006). Por ocasião da ocupação, os campos naturais da região tornaram-se muito disputados entre os fazendeiros que se deslocaram de São Paulo para instalar as fazendas, de modo que dos sessenta “conquistadores” ficaram em torno de 30 fazendeiros (Bandeira apud Renk, 2006). Maack (1981) diz que uma das formas utilizadas para ampliar os campos era o processo de queimada anual, diminuindo arbustos e pequenas matas, contribuindo dessa forma, para o empobrecimento do solo. A ocupação dos Campos de Palmas ocorreu antes da promulgação da Lei de Terras [1850], de modo que no período de 1854 a 1856, os grandes proprietários registraram suas

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terras na Capela de Palmas. A população cabocla que vivia nas matas, com cultivo de pequenas áreas, não registrou suas posses, seja por não possuir documentos, seja por desconhecer a lei. Esse é um dos fatores que aponta a existência de latifúndios, em áreas de campo, e contribuiu para a expropriação dos caboclos nas áreas florestais.

O tropeirismo, ao deslocar os animais para os centros maiores, contribuiu para que ao

longo das trilhas surgissem pequenos vilarejos, principalmente nos locais de pouso.

A região oeste de Santa Catarina, bem como a região Sudoeste do Paraná, foi por

muito tempo chamado de território de Palmas. Nas últimas décadas do século XIX o Brasil tentava resolver a questão dos limites ao oeste, com a Argentina. Além de assegurar o território, segundo Werlang (2006), ambos os países tinham interesses em explorar a madeira de lei encontrada na região, que tinha um alto valor comercial na Europa. O conflito foi resolvido no ano de 1895, sob a arbitragem do presidente Cleveland dos Estados Unidos, a região passou a pertencer definitivamente ao Brasil (WERLANG, 2006). Com a definição dos limites, os estados do Paraná e Santa Catarina passam a acirrar o conflito por essas terras. A disputa encontrava-se latente desde 1853, quando a Província do Paraná se desmembra de São Paulo e incorpora o atual sudoeste do Paraná e oeste catarinense, sendo esta uma das causas da guerra do Contestado. Essa questão foi encerrada em 1916, quando o presidente Wencelau Braz deu seu parecer. Acredita-se que não foi o Presidente quem arbitrou, mas na sua gestão. A arbitragem foi na mais alta corte do judiciário, o Supremo Tribunal Federal, em 1904, e só assinado o acordo com o Paraná em 1916. Dessa forma, no território catarinense foram criados quatro municípios na área contestada: Mafra, Porto União, Joaçaba e Chapecó. Quanto às colonizadoras, estas adquiriram as terras de mato seja do estado catarinense ou de empresas que haviam tituladas as terras antes de 1917, no Paraná. Iniciou-se um processo de colonização de descendentes de europeus, considerados aptos a desenvolver uma agricultura que iria trazer o progresso para o oeste, a exemplo do que aconteceu na imigração européia (SEYFERTH, 1982. WERLANG, 2006). Os índios e caboclos que viviam nessas terras, foram explorados para abrir estradas e depois expulsos, não tinham escritura de suas terras e tampouco condições financeiras para adquiri-las.

1.1 Colonização do Oeste

O processo de colonização e organização do espaço no oeste catarinense se deu a

partir dos anos de 1920. A paisagem florestal transformou-se em lavouras, introduzidas pelos

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colonos ou seja, um campesinato de descendentes de europeus. A exploração da pequena propriedade, em regime de trabalho familiar, o modo de vida, sofreu poucas alterações nas décadas seguintes. A partir dos anos sessenta, com a introdução de novas técnicas e tecnologias de cultivo, passou a haver uma aceleração nas mudanças. A região da mata passou a ser explorada a partir de 1917 com a chegada das empresas colonizadoras. Acreditava-se que, para incorporar a terra contestada à Santa Catarina, ocupar o “vazio demográfico” e aumentar a produção agrícola, era necessário a colonização por descendentes europeus, pois os mesmos seriam os “construtores do progresso e da civilização” (RENK, 2006, FLORES e SERPA, 2005). Pensava-se também que a colonização era necessária para revogar qualquer dúvida em relação aos limites da região, o governo catarinense queria ocupar o “deserto” e provar que essas terras eram brasileiras, bem como enfraquecer grupos conflitantes que acreditavam que essas terras deveriam pertencer ao estado do Paraná ou do Rio grande do Sul. Flores e Serpa (2005 p. 130,) enumeram as principais causas da colonização do Oeste catarinense bem como os motivos para a viagem de Adolfo Konder 5 ao oeste de Santa Catarina:

a questão da fronteira nacional com a Argentina e da construção da brasilidade; a premência da ocupação do Oeste catarinense como expansão do processo

civilizador para o interior, não só do estado, como também do país; o empenho em debelar as causas da Guerra do Contestado, vencendo poderes locais, em torno dos

Impunham-se eliminar os vazios

demográficos e fazer com que as fronteiras econômicas, geográficas e culturais

quais gravitavam grupos conflitantes. [

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coincidissem com as fronteiras políticas.

Outro fator que contribuiu para a ocupação do oeste de Santa Catarina, especialmente por imigrantes do Rio Grande do Sul descendentes de europeus, foi o esgotamento do solo gaúcho, bem como o retalhamento da terra 6 que dificultou o sustento das famílias numerosas que vieram para o oeste catarinense em busca de terras férteis “cheias de mato, terra boa”. (WERLANG, 2006). Em 1919, a empresa Chapecó-Pepery Ltda, adquiriu toda a área de terras entre os rios Chapecó e Peperi. (HEINEN, 1997, p.250). Em viagem realizada pelos sócios da empresa, descendo o rio Uruguai, escolheu-se uma vargem abaixo do rio Antas para iniciar a colonização. (Lugar onde hoje se localiza a cidade de Mondaí). Para ocupar a região, vieram principalmente os descendentes de alemães e italianos do Rio Grande do Sul. Antes destes agricultores chegarem a Santa Catarina, eles ou seus ancestrais haviam migrado da Alemanha, em busca de condições de vida melhor. Das ações

5 A viagem do chefe de estado Adolfo Konder ao oeste catarinense aconteceu no ano de 1929 (FLORES e SERPA, 2005 p. 130).

6 O retalhamento da terra acontecia pois os pais dividiam as terras entre o filhos homens quando esses constituíam uma nova família.

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de Bismarck, na Alemanha, com a chamada Revolução Cultural, expulsando os jesuítas resultou o acirramento confessional no sul do Brasil. Católicos e protestantes criaram suas instituições, suas escolas, sociedades de auxílio mútuo e colonizações homogêneas, do ponto de vista confessional. Os católicos criaram no início do século XX as colônias de Santo Cristo e Cerro Largo para seus agricultores. Os protestantes criaram Panambi, de onde traçaram a colônia de Porto Feliz em Santa Catarina (KREUTZ, 1991; ROCHE, 1969). Os agricultores que imigraram ao RS realizavam suas práticas agrícolas e associativas nos moldes aprendidos de seus ancestrais. O solo, flora e as culturas praticadas na Europa não encontravam similaridade no Brasil. O uso intensivo e o emprego de técnicas de plantio contribuíram para degradação do solo. Os colonizadores, em busca de melhores terras e em maior extensão, migraram do Rio Grande do Sul para o oeste de Santa Catarina. Para os agricultores que migraram do RS para Santa Catarina, o acesso a terra é característica da categoria camponesa, de sua identidade e do trabalho familiar numa economia corporada (RENK, 2000 p. 18). Os colonos demandavam terra para seus filhos e netos para que pudessem constituir e sustentar suas famílias, é o que Renk aborda como reprodução social camponesa. Shanin (2005) afirma que as características determinantes do campesinato parecem repousar na natureza e na dinâmica do estabelecimento rural familiar, enquanto unidade básica de produção e meio de vida social. Percebe-se então a necessidade do pai em proporcionar ao filho condições de ter sua propriedade quando constituísse uma nova família. O cultivo predador como um importante fator que leva a migração de colonos é apontado por Werle (2005), destaca que a terra vista apenas como “objeto de exploração”; (os métodos de trabalho considerados problemáticos como as queimadas, o desmatamento indiscriminado, a ausência de adubação e rotação de cultura) fez com que o solo fosse degradado, fazendo com que o colono fosse em busca de novas terras. Renk (2000) escreve que os colonos tinham diferentes estilos de vida. Os colonizadores italianos tinham maior grau de homogeneidade, a maioria era católica. Entre os alemães as diferenças eram mais salientes, em razão das diferentes regiões de procedência da Europa, além disso, haviam as diferenças religiosas; católicos e evangélicos, aborda também a heterogeneidade no grau de escolarização e a clivagem econômica. A constituição dos municípios de Mondaí e Itapiranga deve-se a dois fatores. Um deles é a reprodução social camponesa, ou seja, a continuidade da família na agricultura em novas terras. Renk (2000) citando Meyer (1974) e Bourdieu (1962 e 1980) afirma que a reprodução social camponesa se dá em dois movimentos, um de longa e outro de curta

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duração. Enquanto processo de longa duração inclui todos os mecanismos institucionais, bem como as atividades e normas ditadas pelos costumes, insere-se também a perspectiva de parentesco (GOODY apud RENK, 2000) que privilegia a continuidade das relações no tempo e da transmissão da propriedade intergerações. O movimento entre gerações é complementado por uma constelação de práticas sociais de curta duração que são movidas por valores que orientam as práticas que podem ser expressas na produção de bens, na socialização e incorporação de valores e no ethos de trabalho. Outro fator de constituição dos municípios de Mondaí e Itapiranga é o confessional. Eidt (2006), afirma que Porto Novo, atual município de Itapiranga e, Porto Feliz, atual município de Mondaí, foram “pacotes fechados”. O primeiro para alemães católicos e o segundo para alemães evangélicos. Os demais municípios da região Oeste tiveram colonização mista, muito embora, dentro das mesmas fronteiras as etnias se segregassem, organizando-se em comunidades com habitantes de uma mesma etnia e religião. A colonização de Porto Feliz (Mondaí), foi feita sob a direção de um dos sócios da colonizadora: Hermann Faulhaber, imigrante alemão, que na época trabalhava como pastor da Congregação Evangélica de Panambi – RS. Neumann (2007) assegura que da Alemanha, Hermann Meyer 7 fazia propagandas de sua colônia no Brasil, Neue Wurttember, gerenciada pelo pastor Faulhaber. Porto Feliz passou a ser uma colônia de Teuto-envangélicos, no entanto, com o passar dos anos esse município também foi ocupado por alemães católicos e Italianos. As dificuldades econômicas enfrentadas pelo empreendimento fizeram com que vendessem parte das terras à colonizadora de Porto Novo. Porto Novo (Itapiranga) teve sua colonização idealizada pelos padres Jesuítas que, segundo Werle (2005), pôde ser lida como integrante da “reação católica”, que após a Proclamação da República assumem a questão social para recatolicizar o país. Por serem colônias organizadas por associações de cunho religioso, Mondaí sentia uma forte influência da igreja evangélica na organização social. Itapiranga era influenciada pela igreja católica. Hann (2005), afirma que essa unidade étnica e religiosa teria favorecido a difusão de valores como ajuda mútua, confiança e reciprocidade entre as famílias, embora houvesse um profundo grau de discriminação étnica.

7 Segundo Neumann (2007), a família de Hermann Mayer era proprietária do Instituto Bibliográfico de Leipzig. Realizou trabalhos de etnologia no Brasil, em meados do século retrasado, quando interessou-se em empreendimento de colonização e alemães luteranos no Brasil no sul do Brasil. Igreja e escola eram imprescindíveis em seu projeto. Pastor Faulhaber esteve à frente do empreendimento de Panambi e posteriormente em Mondai. Um e ou projeto tiveram duros percursos.

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A associação Volksverein 8 deu suporte ideológico no que diz respeito em assistência religiosa e social, financeiro e técnico para a efetivação de inúmeras colonizações, entre elas a de Porto Novo, no entanto era obrigatório que os compradores de lotes dessa nova colônia fossem alemães e católicos, tal obrigatoriedade fica explícita em uma cláusula contratual: “O comprador, quer solteiro ou casado, compromete-se a entrar como sócio na comunidade Catholica de Porto Novo, logo que fixe residência em suas terras, sujeitando-se ao pagamento das taxas e mensalidades por esta estipuladas” (HANN, 2005 p.30) A Volksveirein para conquistar imigrantes para a nova colônia de Porto Novo divulgou, através de panfletos, jornais, revistas e livretos especiais as maravilhas da nova colônia. Além das igrejas e campanhas nas comunidades feitas pelos líderes, garantiam que na nova colônia a terra era muito fértil, barata e financiável, garantiam a unidade étnica e religiosa, ou seja, em tal colônia apenas seriam aceitos alemães católicos, diziam que os lotes seriam servidos de estradas construídas pela Volksveirein e que não faltariam assistência espiritual e religiosa, além de escolas alemães católicas. A associação pagava pessoas para arregimentar interessados. Alguns padres jesuítas incentivaram a colonização de Porto Novo,

e como na época a palavra do padre tinha credibilidade, os colonizadores sentiram-se mais

confiantes no projeto (JUNGBLUT , 2005 p. 81). No ano de 1932, a Volksveirein publicou um álbum de propaganda sobre Porto Novo que, foi dividido em duas partes: uma com 89 fotografias retratando aspectos da colônia, outro em forma de texto propaganda (JUNGBLUT, 2005 p. 83). Condições adversas da colônia de Porto Novo também são abordadas por Jungblut, (2005), afirma que o acesso a colônia era precário, os lotes ficavam muito distantes da escola

e da igreja, a topografia acidentada e a existência de muitas pedras desiludiu muitos colonos,

a falta de infra estrutura que prejudicou as relações comerciais, a falta de remédios, hospitais e médicos para tratar as pragas como borrachudos, bernes, bichos-de-pé, febre tifóide foram razões que dificultavam a colonização da colônia. No caso luterano, a literatura não deixa claro se eram os luteranos do protestantismo de imigração, através do então Sínodo Rio grandense (atual IECLB) ou se era o Sínodo de Missouri. Koelln (1980), afirma que a colônia de Porto Feliz teve vários problemas, que não permitiram executar na totalidade o projeto homogêneo. De um lado, a Coluna Prestes e a febre tifóide que espantou os eventuais compradores do RS. De outro, os negócios e

8 Também conhecida como Sociadade União Popular, instituição que servia de ponto de convergência entre a Igreja Católica e a população alemã das denominadas colônias velhas, localizadas no estado do Rio Grande do Sul. Projetou a colonização de Porto Novo (KREUTZ 1991. HANN 2005).

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contratempos, vendendo parte da gleba para os católicos e os transtornos com o suicídio do pastor Hermann Faulhaber fizeram com que áreas de terra pertencentes a colônia de Porto Feliz fossem comercializadas, permitindo a entrada de outras confissões religiosas, embora a ocupação fosse em comunidades distintas. Devido à ausência do poder público estatal no oeste catarinense as igrejas exerciam uma forte influência na organização social e produtiva das colônias. As colonizadoras dispunham de terras, com possibilidade de venda em parcelamento. No entanto, as condições encontradas nas novas colônias eram precárias. Careciam de recursos médicos, escolares, e sofreram com o isolamento. O estado manteve-se distante, suas ações não atingiam a região, salvo a cobrança de taxas e impostos. Em face da ausência e omissão do estado, a igreja passou a exercer um papel fundamental na formação ideológica dos agricultores. Eidt (2006) afirma que a colônia de Porto Novo foi pautada no tripé Deus, família e propriedade. Koelln (1980) também escreve sobre a influência da igreja luterana na organização das famílias da colônia de Porto Feliz. No início da década de 1930, as igrejas de diferentes confissões e regiões da Alemanha passaram a se preocupar com o problema do desemprego, da cultura e da espiritualidade, fundando associações entre elas a Skt Rafaelverein_ Associação São Rafael. Kolping, preocupado com os princípios religiosos e culturais, também se preocupou em organizar os jovens católicos em uma associação denominada Associação Católica Kolping (JUNGLBUT, 2005 p. 131).

O mesmo autor aborda ainda que ambas as associações preocupavam-se em conseguir

empregos aos seus associados, uma oportunidade segura para ganhar a vida em algum país estrangeiro. A Associação Católica Kolping promoveu a vinda de alemães para o litoral catarinense, no entanto, tal colonização não deu certo fazendo com que muitos viessem para Porto Novo no ano de 1935.

Já a Skt Rafaelverein organizava a emigração de alemães para o Estados Unidos, mas

aquele país proibiu a entrada de estrangeiros europeus no ano de 1929. Então passaram a organizar a emigração para a América do Sul, onde encontrou oportunidades na agricultura. A pobreza existente na Alemanha fez com que muitos alemães urbanos viessem para a América,

mesmo tendo que trabalhar no meio rural, participavam de uma escola sobre o trabalho agrícola para adaptar-se a nova profissão que desenvolveriam na América. Assim a Skt Rafaelverein junto a Volkesverein organizaram a colonização de uma área de Porto Novo, que passaram a chamar de linha presidente Becker em homenagem á um presidente da Volkesverein falecido há poucos dias (JUNGLBUT , 2005, p. 131).

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A migração para as colônias de Porto Novo e Porto Feliz termina na década de 1960, quando inicia-se um novo ciclo: os colonos dessa região se deslocam ao sudoeste do Paraná e outras áreas, já que a terra na região se torna escassa e já haviam grandes problemas com o esgotamento do solo. O processo de emigração dessas colônias acentua-se nas décadas seguintes, como uma das conseqüências da modernização da agricultura. Nas colônias sulistas, em razão do processo de povoamento disperso, seguindo os cursos de água ou estradas, os moradores organizavam-se nas chamadas linhas ou comunidades e contavam com pequenos núcleos aglutinados, não necessariamente geograficamente, mas socialmente, em torno de equipamentos comunitários, sejam capelas ou escolas. Nessas comunidades o representante da igreja (Padre para os católicos e o Pastor para os evangélicos) era visto como um líder junto aos camponeses. Esse fator favoreceu a reconstrução do modo cultural na região oeste catarinense, especialmente em relação à religiosidade e à língua alemã.

As linhas coloniais, as vezes também chamadas de picadas, eram linhas ou estradas pelas quais seguia a colonização. Abria-se uma estrada na floresta, geralmente ao longo do leito de pequenos rios, a partir da qual se mediam os lotes das famílias. Nestas linhas se fundavam as comunidades, que eram grupos de moradores, com suas propriedades rurais localizadas próximas umas das outras, que construíam uma igreja, escola e salão de festas (HANN 2005, págs. 31 e 32).

As linhas coloniais eram divididas de tal forma que todas tivessem acesso à água e a estrada (figura nº 1.2), o mapa colonial de Porto Novo. A maioria dos colonizadores fez suas

instalações (casa, chiqueiros, estrebarias) próximas aos rios, para facilitar o acesso a água. Essa ocupação às margens dos rios contribuiu para a destruição da mata ciliar, acentuou o processo erosivo do solo e contribuiu para o assoreamento dos rios. A presença da Igreja foi constitutiva na vida dos colonos. O clero exercia o papel de mediador da colônia com o mundo externo, era líder espiritual, organizando as comunidades. Muitos filhos desses colonos seguiram ou tentaram seguir a vida religiosa, o que era prestígio

à família e também representava o “encaminhamento” de um integrante do conjunto de filhos,

nem necessidade de prover terra ou outros bens a ele. Hann (2005) destaca que com o objetivo de assumir os interesses materiais, espirituais

e culturais de seus associados a igreja desenvolveu diversas atividades entre elas a publicação de periódicos, a fundação de hospitais, seminários, caixas rurais e especialmente escolas que eram um importante instrumento para o controle cultural:

Desde o inicio da colonização sempre existiu uma preocupação em fornecer condições de estudo para os filhos de colonos. A educação era vista pelos padres jesuítas com a maneira mais eficaz de se manter a identidade cultural e religiosa, já que era uma instituição coordenada pelos sacerdotes. A escola, portanto, era importante ferramenta para o controle e a difusão da religião e da ética do trabalho e para a homogeneização das ações dos indivíduos locais (HANN 2005, págs. 49 e 50).

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Figura nº1.2 Mapa Colonial de Porto Novo. Fonte: (JUNGLBUT, 2005 p. 102).

O texto de Werle (2005) discute o trabalho realizado pelos Jesuítas alemães junto a imigrantes e seus descendentes do Rio Grande do Sul e oeste catarinense entre os anos de 1898 à 1940, através dos congressos católicos inspirados nos Katholikintage 9 da Alemanha.

9 Katholikintage, segundo Werle (2005), era o dia que religiosos e leigos de diferentes regiões católicas da Alemanha, Áustria e Polônia se reúnem para discutir assuntos diversos relacionados a vida social, política econômica dos católicos. No Brasil não ocorreu unicamente no Sul. A presença desses Congressos se fez presente no Rio de Janeiro, nas primeiras décadas do século XX,

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Autores como Kreutz (1991) e Werle (2005) acrescentam que os Congressos Católicos, do

início do século passado, no Rio Grande do Sul, estimularam a Fundação da Sociedade União

Popular (SUP) também conhecida como Volkesverein, no RS em 1912, que projetou a

colonização de Porto Novo, e as Caixas Econômicas Rurais. Kreutz (1991) apresenta uma

listagem de instituições criadas pelos alemães para organizar as escolas, os agricultores e as

novas colônias. Entre essas associações destaca-se a Bauerverein 10 inicialmente era mista do

ponto de vista confessional, depois os católicos criam a Sociedade União Popular e que havia

outras instituições, como a dos professores entre essas destaca a Liga Nacional de Professores

(Landesverband Deutsch-Brasilianischer Lehrer) criada em 1927 e extinta em 1938,

congregava as seis associações de professores de imigração alemã então existentes no Brasil,

eram interconfecionais com exceção das duas do Rio Grande do Sul.

As colônias de Porto Novo e Porto Feliz localizavam-se no território de Santa

Catarina, mas as relações comerciais e culturais eram feitas com o estado vizinho: Rio Grande

Do Sul.

Nos Katholikintage, encontros de católicos de descendência alemã, esses eventos se

constituíam de cerimônias religiosas, palestras, debates e atividades recreativas. Entre essas

atividades, chamam atenção aquelas voltadas a questões ambientais e sociais que se

apresentam como problema para a comunidade.

o relacionamento dos imigrantes ao meio ambiente e a maneira de conduzir a agricultura era tema constantemente abordado, inclusive nos primeiros Congressos. Queimadas, reflorestamento, rotação de cultura, combate a pragas da lavoura, adubação verde, erosão, cuidados com a água eram assuntos freqüentemente abordados, assim como temáticas mais amplas como a formação de organizações de agricultores e assuntos econômicos das colônias. Conforme mencionado no II Congresso, a idéia é “abordar todos os aspectos da vida analisar, os problemas e perigos para depois soluciona-los ou evita-los”. Isso significava, em primeira linha, corrigir métodos de trabalho considerados prejudiciais para o desenvolvimento da

colônia. (WERLE, 2005, p.13). Observa-se que os métodos de trabalho, principalmente aqueles que agrediam o solo e

a água, eram preocupação nas primeiras décadas da colonização, no entanto, os modos de

produção mudaram na perspectiva de um aumento de produção e não numa perspectiva de

conservação ambiental.

Por outro lado, Hann (2005 p. 33), relata notícia publicada no St. Paulusblatt 11 de

1928, onde fica explicito que os colonizadores teriam o compromisso de desmatar:

10 Gertz (2004), diz que a Bauerverein era uma associação de agricultores, integrada por alemães e descendentes católicos e luteranos, cuja atividade inicia com a primeira década do século XX. Diz ainda que em sua pesquisa leu que nas assembléias gerais dessa associação eram manifestadas preocupações com a preservação ou deterioração dos solos, defendia-se a preservação das matas nos topos dos morros e nos aclives mais íngremes.

11 Periódico publicado e distribuído pela Igreja Católica.

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Atenção! Compradores de terras de “Porto Novo”. Todo um grupo de compradores de lotes de nossa colônia que fizeram suas compras a dois anos, não estão cumprindo suas clausulas contratuais de desmatar a floresta (grifo meu), construir e morar em suas terras. Para o interesse do desenvolvimento de nossa colonização, o não cumprimento desses termo contratual não pode ser adiado por muito tempo. Por isso quem não cumprir suas obrigações contratuais até a primavera, isto é, até final de setembro, perde seus direitos da colônia comprada e a terra estará a disposição da administração da colônia.

Por contrato, a exploração da madeira ficaria a cargo da Volksverein, especialmente as espécies com valor comercial. Junglut (2005, p. 82) escreve que nem mesmo o mato tinha valor, as espécies que tinham valor comercial como: cedro, louro e cabriúva, eram de direito da Volksverein. Apesar das exigências da colonizadora para a retirada da mata, para os colonos o mato era algo a ser removido á medida das necessidades de reprodução social. Woortmann (1997) referindo-se aos colonos do Rio Grande do Sul, afirma que se procurava fazer um rodízio de terras produzindo um movimento cíclico em que a natureza se tornava espaço de lavoura para voltar a ser natureza, era necessário deixar a terra “descansar”. A presença da mata para os teuto-brasileiros tinha um significado de previsão, no sentido de assegurar recursos para a geração futura, “colono que se preza, para ser respeitado pelos demais, deve ter uma área de mata, símbolo de uma boa administração” (Woortmann, 1997 p. 28). Agricultores entrevistados, descreveram que seus pais e avós também respeitavam o pousio, ou seja, procuravam deixar a terra descansar.

1.2 Os Colonos e a Organização do Ambiente

A região, antes da colonização, era coberta por uma densa mata: Floresta Estacional Decidual e Floresta Ombrófila Mista e ambas as ocupações florestais caracterizavam-se por madeiras de grande valor econômico como: Pinheiro-brasileiro, Grápia, Imbuia, Cedro, Canafístula, Louro-pardo, Guajuvira, entre outros (BAVARESCO, 2005). A fertilidade do solo e a existência de uma floresta constituída de madeiras de lei e nobres contribuíram de forma significativa para a colonização da região. Belani (1996), afirma que a exploração das matas e a indústria madeireira tornaram-se pilares da economia oestina. A bibliografia salienta a exploração da madeira pela Volksverein (JUNGBLUT, 2005). Não se têm dados a respeito da empresa colonizadora Pepery Guaçu. Bavaresco (2005, p. 73) conta que as empresas colonizadoras exploravam a madeira mais nobre e só depois vendiam as terras aos colonos, propiciando o desenvolvimento da indústria madeireira na região. Acrescenta que com a extração da madeira e a derrubada da mata para as lavouras de subsistência, houve uma grande concentração de madeireiras e serrarias que aproveitavam a madeira disponível, o

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baixo preço da madeira era compensado pela grande quantidade e variedade de espécies comercializadas, provocando a atividade de derrubada e comercialização. Essa madeira era exportada para a Argentina. O transporte era feito através do rio Uruguai, faziam-se as balsas, e em épocas de cheias as mesmas eram conduzidas pelos balseiros até São Borja e lá eram exportadas (figura 1.3).

Figura nº 1.3 Balsas Transportas Pelo Rio Uruguai Fonte: Acervo Pessoal de Gertrudes Janssen

O relevo da região oeste de Santa Catarina caracteriza-se pelo Planalto Dissecado rio Iguaçu/rio Uruguai, tendo uma superfície muito irregular. Predominam os solos Cambissolo, Cambissolo Húmico que são solos de menor profundidade e em desenvolvimento (BAVARESCO, 2005, p.85) Essas características do relevo e do solo, aliadas a prática da Coivara 12 e ao desmatamento, contribuíram para a transformação da paisagem e agravaram os problemas ambientais sofridos na região, especialmente o processo de erosão do solo, assoreamento dos rios e esgotamento do solo, pondo em risco os recursos ambientais e a produção agrícola, tal problema já é vivido desde a década de 1970 e será retomado no capítulo IV. Na falta de meios para os colonizadores se divertirem, passavam os domingos caçando, o que colaborou para a extinção de várias espécies de animais da região (Figura 1.4). O desmatamento ao longo dos rios e nos topos dos morros, além da caça indiscriminada

12 A grande maioria dos colonos, após a retirada da mata praticavam a Coivara, ou seja, queimavam a capoeira e com isso eliminavam grande parte da micro vida do solo. Neumann nomeia essa prática de Raubbe.

(www.upf.br/ppgh/download/Rosane%20Marcia%20Neumann.prn.pdf)

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contribuíram para a poluição das águas superficiais e também para a perda de grande parte da biodiversidade da região.

para a perda de grande parte da biodiversidade da região. Figura nº 1.4 Caça Predatória no

Figura nº 1.4 Caça Predatória no Extremo Oeste Catarinense. Fonte: Acervo Pessoal de Gertrudes Janssen.

No inicio da colonização, para a construção das propriedades, das comunidades e para a produção agrícola, transformou-se o meio natural usufruindo-se de seus recursos para o sustento. Testa et alii (1996) afirmam que os recursos naturais da região constituíram-se em um dos pilares do processo de colonização em pequenas propriedades. Dessa forma temos os ciclos econômicos extrativistas da exploração da madeira, erva-mate e em menor grau de gado bovino extensivo. Após a exploração principalmente da madeira, a economia passou a se basear na produção agrícola na qual a família organizava o processo produtivo e o trabalho. O mesmo autor aborda que, historicamente, a produção de excedentes serviu de base para o surgimento das agroindústrias a partir da década de 1960. Acrescenta ainda que a maior parte dos estabelecimentos tinha a suinocultura como uma relevante fonte de renda e que grande parte da produção de grãos era destinada a suinocultura, diz que o sistema de produção regional poderia ser denominado de policultura subordinada à suinocultura. A difícil situação de infra-estrutura e o tamanho do lote colonial, que não ultrapassava 24 hectares , propiciaram aos colonos apenas desenvolverem uma produção para subsistência (BAVARESCO, 2005, p.89). O sentido de subsistência explicado inicialmente pelo

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desenvolvimento da policultura, a família procurava plantar espécies vegetais essenciais para a alimentação da família, caso houvesse algum excedente esse era comercializado num armazém local, essa comercialização se dava em forma de troca, possibilitando ao colono a obtenção de produtos manufaturados ou de impossível produção na sua colônia, tais como:

sal, querosene, tecidos e ferragens. Eidt (1999, p.64) faz menção á produção de subsistência desenvolvida pelos colonos:

Os recursos naturais da região viabilizaram um modelo de desenvolvimento econômico de reduzida orientação para o mercado. A existência de mata nativa e a boa fertilidade natural do solo propiciaram ao migrante uma relativa autonomia e auto-suficiência, dentro dos limites estabelecidos pelos mentores da colonização. As famílias extraiam seu sustento exclusivamente da terra, com primitivismo justificável, em face ao isolamento das colônias, das terras íngremes e da necessidade de ocupar a mão de obra familiar.

Em relação ao desenvolvimento da pecuária, a criação de suínos, aves e gado de leite eram para o consumo próprio. Apenas a banha suína era comercializada. Esses animais eram criados livremente na propriedade (Figura nº1.5), a alimentação desses animais era baseada em mandioca, pasto e milho. Percebia-se um total descaso por parte do Estado em relação ao oeste catarinense, Renk (2006), escreve que os núcleos coloniais, as margens do rio Uruguai, só geograficamente estavam inseridos no estado de Santa Catarina. As relações comerciais, bem como os vínculos com a Igreja Evangélica Luterana, eram tidas com o Rio Grande do Sul, cujas orientações emanavam deste estado. A mesma autora afirma que no litoral catarinense havia um imaginário sobre a região oeste enquanto terra de barbárie, inóspita e paraíso da criminalidade. A economia da região oeste, no final da década de 1950, era pouco integrada aos mercados nacional e internacional. A madeira, a banha e o fumo constituíam-se nas únicas fontes de renda da população. Hahn (2005), afirma que a criação do suíno tipo banha (Figura 1.5) respondia por aproximadamente 73% da renda dos agricultores. Era necessário reverter esse baixo índice de desenvolvimento econômico da região oeste catarinense, já que, vivia-se em um período da história nacional que era necessário crescer, produzir, superar obstáculos que pudessem por em risco o progresso do Brasil, é nesse contexto que surge a extensão rural, para instituir um modo de produção que revertesse esse quadro de baixa produtividade. A ocupação do território e a transformação da paisagem da região pesquisada se deu a partir do campesinato, no qual priorizava-se a sobrevivência da família. A organização

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comunitária e a “extensão” rural era feita pelo clero 13 , foram substituídos por novos conhecimentos que modernizassem a produção agrícola, conhecimentos difundidos por um serviço público de extensão rural.

difundidos por um serviço público de extensão rural. Figura nº 1.5 Suínos criados a solta. Década

Figura nº 1.5 Suínos criados a solta. Década de 1960 Fonte: Acervo pessoal de Gertrudes Janssen.

A política assimilacionista de Getúlio Vargas neutralizou os empreendimentos confessionais. A intervenção do Estado vem no período da guerra fria, no bojo de um pacote de medidas voltadas à população interiorana dos países subdesenvolvidos. Nesse período da história brasileira é que temos a origem e a evolução da Extensão Rural.

1.3 Família Camponesa

As terras do extremo oeste catarinense foram divididas em pequenas propriedades rurais, em média de 25 hectares, o que Leo Waibel (apud Schneider 2002) chamava a atenção, considerando-a exígua para os padrões de exploração utilizados no Brasil. Waibel (apud Schneider 2002) identifica três sistemas agrícolas praticados nas áreas colonizadas por imigrantes europeus: o primeiro baseado no sistema de corte e queimada da floresta (coivara) é conhecida por agrônomos como sistema da primitiva rotação de terras, a parcela excedente

13 Embora as colônias fossem confessionais, a atuação fortemente direcionando a população, a produção acadêmica sobre Porto Novo/Itapiranga é muito mais evidente que aquela de Porto Feliz/Mondai. Diga-se o mesmo a respeito das ações católicas e luteranas. Recentemente, há uma literatura de caráter histórico ou sociológico abordando os feitos do luteranismo, principalmente a partir da abertura política e da inserção de pastores e pastoras nos movimentos sociais. Hoje, um programa de referência em extensão do luteranismo [e o CAPA (Centro de apoio ao pequeno agricultor)

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da produção que não era consumida na subsistência da família era comercializada via troca com as casas de comércio. O segundo estágio consistia na manutenção dos mesmos elementos técnico-produtivos do anterior, a não ser pelo incremento da criação pecuária que permitia o uso do esterco na adubação do solo e a introdução de equipamento como o arado. Os colonos passam a praticar o pousio deixando partes da propriedade sem cultura nenhuma, contudo em face ao tamanho reduzido da propriedade os períodos do posio eram curtos o que não permitia a recuperação do solo. O terceiro sistema é o de rotação de culturas combinado com a criação de gado. A adubação do solo ganha mais destaque requerendo mais trabalho, capital e conhecimento. Para tal sistema o colono deveria ter entre 10 a 20 cabeças de gado, plantar forrageiras, alternar culturas de cereais com hortaliças e leguminosas. Contudo nesse sistema apenas havia 5% das propriedades. (SCHNEIDER, 2002 p. 08 e 09). A produção agrícola, embora visasse venda ao mercado para pagamento de dívidas ou aquisição de bens, tinha como base a produção para o autoconsumo. Dependia-se do comércio com ingredientes como sal, querosene, tecido e despesas médicas. O artesanato e a produção doméstica permitiam atender as necessidades da família. Waibel (apud Schneider 2002) estudando os aspectos econômicos e produtivos que caracterizavam a paisagem das colônias alemães, acredita que as razões da crise agrícola brasileira baseava-se no tamanho da área das colônias. Propunha que os lotes deveriam ser de 55 á 60 hectares de terra boa e de 80 à 105 hectares de terra ruim, salientava que a não observância a estas recomendações agro-ambientais levaria ao uso inadequado do solo, através da prática de rotação de terras e a conseqüente perda da fertilidade (SCHENEIDER, 2002 p. 10) A família de colonos, tal qual a família camponesa, conta com forte androcentrismo, no qual o pai é o chefe de família. A família é conhecida por seu nome 14 , a filiação em Sindicato, Igrejas, o vínculo com comércio passa pelo crivo e autoridade masculina. O mesmo diz-se no gerenciamento do plantio, colheita, armazenamento e venda dos produtos. Os saberes tradicionais eram dominados pelo pai que, à medida em que filhos e filhas cresciam, os socializava de acordo com o gênero e aptidões. Nessas família agricultoras, a “minoridade” persistia até o casamento (sempre com autorização paterna). Além de todos os atributos inerentes à família camponesa, não podemos esquecer que se tratava e trata de um grupo doméstico, com coabitação, comensalidade e divisão de atividades.

pela líder do MMC, Adélia

Schmitz, de Santa Fé, Itapiranga (EIDT, 2006), quando, nos anos 80, “desafiou” um comerciante ao solicitar

14 A título de ilustração

poderíamos mencionar a entrevista

concedida

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O casamento era um momento demarcador da constituição de uma nova unidade familiar. A partir do casamento é que o jovem era considerado maduro e suficientemente apto a fazer as suas escolhas, até então era subordinado ao pai e com o casamento instaurava-se uma relação complementar hierárquica. O elemento masculino, ao casar e quando estabelece um padrão de residência neolocal, obtém emancipação plena. Já a mulher deixa de ser subordinada do pai e passa a ser submissa ao esposo. Os colonos, ou camponeses, organizaram-se em uma economia familiar corporada. Shanin (2005) afirma que a economia baseada no trabalho familiar caracterizava-se pelo

controle dos próprios meios de produção, economia de subsistência e o aprendizado ocupacional dentro da família. Woortmann (1997, p. 11) diz que o saber no campesinato se dá

no

trabalho, pois o saber é um saber-fazer, parte da hierarquia familiar, subordinada ao chefe

da

família; o pai, se este que governa o trabalho, é ele quem governa o fazer-aprender. A

transmissão do saber é mais do que a transmissão de técnicas: ela envolve valores, construção

de papéis. Assim o pai da família governa a família porque governa a produção; governa o

processo de trabalho porque domina o saber. O saber técnico é fundamental para a reprodução

da estrutura social. O campesinato na região caracterizava-se pelo trabalho familiar, na imbricação do

parentesco e da economia, respaldada na hierarquia construída sob as diferenças biológicas e cronológicas/etárias. Segundo Woortmann (1997), a categoria trabalho só se aplicava ao pai. A mulher, os velhos e os não adultos não trabalhariam, sua atividade definiam-se como ajuda.

O acesso à terra, tomado enquanto patrimônio familiar, é a principal fonte de sustento e

norteadora das atitudes. O parentesco, o patrimônio e trabalho orientam as práticas e o estilo

de vida dos camponeses. A organização do espaço-ambiente dos camponeses tendem a uma

forma de economia auto-sustentada. A igreja constituiu um importante papel na organização das famílias e da produção no

início da colonização, a educação nas famílias católicas se pautava nos ensinamentos dos princípios religiosos e do trabalho. A transmissão de saberes passava pela linguagem familiar

ou pela instituição escola/Igreja, as engrenagens administrativas e ideológicas eram assumidas

pelo clero. Eidt (2006) relata a importância dada a igreja até a década de 1970. O padre através de seus sermões e visitas as residências ditava as regras para a organização social da família e também da comunidade. Tal controle sobre os valores dos colonizadores de Porto Novo é percebida na tese de Eidt (2006) quando descreve as orientações do padre aos jovens

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que estariam formando uma nova família, percebe-se que a vida da família era orientada pela religião, na fala do padre fica evidente o poderio centrado no pai :

O religioso ainda observou que teriam de compartilhar juntos os momentos de adversidades e, para tanto, aconselhou que perseguissem fervorosamente o exemplo da Sagrada Família. Recomendou que não se descuidassem da reza diária do terço, observando ainda com firmeza a conduta pública e privada, para assim influir beneficamente na comunidade. Dirigiu-se com mais atenção ao Alfredo, pois, como futuro pai, era o responsável pela paz doméstica e a unidade da família.

Reforçou o compromisso comunitário dos dois e, principalmente, o do chefe da família. A condição de membros efetivos da comunidade lhes exigia estarem sempre prontos a servir. Em seguida, dirigiu-se a Rosa Maria:

Deves ater-te estritamente aos três compromissos mais sublimes de uma mulher, que são Kinder, Kirche e Küche! (filhos, igreja e cozinha) – Pois se vêem neles claramente expressas a dignidade da mulher, nada fora disto é agradável a Deus. (EITD, 2006, págs. 136 e 137)

Atualmente, verefica-se uma ruptura do modo de vida camponesa, que sofre mudança social acelerada, Shanin (2005, p.07) assegura que essa ruptura foi propiciada pelo capitalismo: “capitalismo significa descamponesação”. Afirma ainda que o principal motor da transformação capitalista da sociedade rural foi a indústria, que sobrepujou, subordinou e finalmente destruiu a agricultura camponesa. Com a transformação capitalista na agricultura temos três tendências principais: os processos de diferenciação, pauperização e marginalização. Renk citando Galeski que estudou as mudanças no campesinato polonês, diz que as mudanças no modo de produzir, de cultivar são determinadas pelas leis governantes do funcionamento do sistema capitalista e a unidade de produção está adquirindo certos traços específicos da empresa capitalista. A situação da família camponesa está baseada numa identidade de classe e situação ocupacional. Considerando as ações do mundo externo, o mercado e a indústria criam estímulos para a transformação; a intervenção do estado desempenha um papel ativo; a previdência social; o papel da extensão rural e a escolarização.

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CAPÍTULO II EXTENSÃO RURAL E OS CLUBES 4S

Discutir as políticas sociais, o contexto histórico, os objetivos da implantação da extensão rural no Brasil, e especialmente em Santa Catarina, bem como as estratégias utilizadas pela extensão rural para disseminar conhecimentos que proporcionassem a modernização da agricultura, é o objetivo neste capítulo. Durante muitos anos a produção agrícola esteve organizada em pequenas propriedades rurais, voltada para o autoconsumo familiar, praticavam a policultura e a mão de obra era familiar e artesanal. Autores que discutem a política agrícola brasileira (DELGADO et alli, 1996) apontam que os recursos públicos foram investidos no setor industrial, principalmente a partir do Governo Kubitschek, em detrimento do setor rural. Embora deva-se tomar cuidado de não homogeneizar a paisagem rural. Um grande fazendeiro de café não teria os mesmos interesses que o pequeno agricultor em policultura. Havia também uma representação recorrente do “atraso”, “do entrave” do agricultor e da agricultura brasileira, especialmente dos pequenos proprietários rurais. Mas com o objetivo de formar uma nova concepção de agricultura, em que a produção estivesse voltada para o mercado, surgiu no Brasil e, também em Santa Catarina, a Extensão Rural, que criou estratégias de educação informal para mudar o modo de agir e de pensar dos agricultores, para que os mesmos adotassem métodos e técnicas modernas de produção. Olinger (1996, p.04) 15 diz que a maioria dos países latino americanos adotaram a Extensão Rural sob o pressuposto de que seria o melhor instrumento para promover o desenvolvimento rural.

15 Glauco Olinger é engenheiro agrônomo, técnico em administração tem pós-graduação em ciências sociais e economia rural, especialista em engenharia rural e extensão rural. No que diz respeito á um trabalho diretamente voltado a extensão rural: foi fundador e diretor da Acaresc, presidente da Embrater, membro do conselho técnico administrativo da Epagri (OLINGER, 1996).

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2.1 O Serviço de Extensão Rural nos Estados Unidos e no Brasil

O serviço de Extensão Rural surgiu nos Estados Unidos quando o pequeno agricultor daquele país perdeu competividade face à dinâmica de urbanização e industrialização emergentes no final do século XIX. Era necessário que a agricultura norte americana se tornasse mais lucrativa. O serviço de Extensão passou a organizar o agricultor visando um aumento da produtividade (SEIFFERT, 1990). A Extensão Rural surge com o capitalismo monopolista de estado, quando a presença do estado passa a ser imprescindível na regulação do processo de acumulação de capital (FIGUEIREDO (apud SEIFFERT, 1990). Olinger (1996) aborda que os primeiros trabalhos de extensão rural governamental surgiram na década de 1940 com as fazendas demonstrativas. No entanto, critica tal trabalho, já que não servia a todos os interessados, o fomento paternalista só atingia poucos privilegiados, geralmente aqueles que tinham o apoio de pessoas influentes no governo. Em 1948, no município de Santa Rita do Passa Quatro – SP, Nélson Rockfeller contratou um engenheiro agrônomo para implantar um trabalho cooperativo entre agricultores, prefeitura, firmas locais e o governo do estado. O serviço abrangia assuntos de agropecuária e economia doméstica e tinha por objetivo aumentar a produção, a produtividade e a renda das famílias rurais. Tais atividades adotavam a metodologia educativa da extensão. Tal iniciativa repercutiu de forma positiva no estado de Minas Gerais, favorecendo o surgimento da extensão rural. (OLINGER, 1996 p.47). A extensão rural passa a existir no Brasil no contexto da guerra fria. O surgimento da Extensão Rural ocorre em um período da história brasileira onde a intervenção do Estado na economia e na sociedade era contínua, era necessário que o Brasil tivesse um grande desenvolvimento industrial, isso para que a doutrina do sistema de produção soviético não tivesse respaldo no Brasil (SEIFFERT, 1990). Dessa forma, era fundamental que a agricultura brasileira superasse o seu “atraso”, e para isso, era necessário que os agricultores tivessem uma cultura tecnicista, a qual seria formada a partir do trabalho dos extensionistas.(SOUZA,

2003).

Era necessário que a agricultura passasse a ter uma maior produtividade, a exemplo da estadunidense. Com recursos financeiros da Fundação Rockfeller houve a experiência pioneira em Minas Gerais. Esse estado teria sido escolhido pela AIA (Associação Internacional Americana para o Desenvolvimento Econômico e Social) já que o governo mineiro e os líderes desse Estado tinham uma mentalidade progressista assinando o convênio pelo qual se fundou a Associação de Crédito e Assistência Rural (ACAR) (OLIVEIRA,

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1999). Colby & Dennett (apud Oliveira, 1999), afirmam que o estado de Minas Gerais teria sido escolhido por ser o estado brasileiro mais rico em petróleo. Os resultados dessa experiência foram considerados satisfatórios e mais, este modelo foi adotado nos diversos Estados, como uma política social. A Fundação Rockfeller, nas primeiras décadas do século passado, financiou ações de pesquisa, intervenção e subsidiou a implantação de laboratórios na área da saúde no Brasil como também em outros países da América Latina (OLIVEIRA, 1999). O contexto do final da Segunda Guerra e o acirramento do bloco capitalista comandado pelos Estados Unidos e

bloco socialista, liderado pela União Soviética, fez com que a “filantropia científica” incluísse em sua pauta a população rural. Oliveira (1999), afirma que os filantropos buscavam apoiar as comunidades onde fosse possível obter “os resultados mais vantajosos”. No imaginário das elites a população rural seria facilmente seduzível aos ideais comunistas e, por isso a intervenção deveria acontecer imediatamente. As entidades anticomunistas que se destacaram no Brasil foram o exército e a igreja Católica. Rodeghero (2002, p.466) diz que o anticomunismo católico no Brasil se organizava

a partir da infra-estrutura já existente na Igreja e se beneficiava das boas relações que a

hierarquia mantinha com governos e grupos dominantes. A mesma autora salienta que imagens como o inferno, o demônio, vermes, abutres, polvos, serpentes, que se relacionavam

à doença, ao estrangeiro, à traição, à ilusão eram relacionadas ao comunismo para justificar a ameaça que tal sistema significava . Ante a ameaça do perigo vermelho, era fundamental que a agricultura brasileira, bem

como a da América Latina superasse o seu “atraso”. O receituário estaria na adoção de uma cultura tecnicista, a qual seria formada a partir do trabalho dos extensionistas. O autor acrescenta ainda que Nelson Rockefeller tinha interesses em que a Extensão Rural conseguisse formar uma ideologia que proporcionasse a modernização da agricultura no Brasil:

Embora não se possa asseverar quanto ao grau de consistência teórica sobre o modelo de agroindustrialização de Nelson Rockefeller, na prática apresentava inúmeras peças articuladas. Tinha interesses na indústria de montante - máquinas, equipamentos, pesticidas e fertilizantes químicos – bem como na de jusante – processamento de grãos e carnes, entidades crediticias para o financiamento, a pesquisa agropecuária e a extensão rural (OLIVEIRA, 1999 p. 112.).

Segundo Seiffert (1990), a argumentação utilizada para a transferência do modelo de Extensão Rural dos Estados Unidos para o Brasil enfatizava dois postulados fundamentais:

Por um lado, a doutrina da inviabilidade, a médio e a longo prazo do sistema econômico e político soviético. Por outro, a idéia de que a recuperação econômica dos países da Europa Ocidental viria reduzir a importância relativa da União Soviética no

continente europeu (

).

Isso explica os programas de ajuda aos países

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subdesenvolvidos como forma de contenção dos perigos da expansão comunista (SEIFFERT, 1990. p.48).

A mesma autora afirma que para os Estados Unidos se consolidar enquanto

hegemonia, difundindo idéias, métodos, técnicas capitalistas pelo mundo inteiro, diminuindo assim, o poder dos países socialistas, era necessário que os agricultores latino americanos pudessem “usufruir” da assistência técnica oferecida pela Extensão Rural.

A dimensão psico-politica da guerra fria ajuda compreender de que maneira a Extensão Rural expandiu-se na América Latina, enquanto forma de dominação do produtor rural. O pressuposto básico dessa dimensão era que a transferência do modelo americano de Extensão Rural deveria constituir-se em uma das formas de controle do produtor rural. (SEIFFERT 1990, p.48).

Na década de 1950, o governo Truman cria o PONTO IV- Programa norte-americano

de incentivo financeiro para a modernização agrícola de países subdesenvolvidos, com o objetivo de dar um toque de idealismo à política externa e fortalecendo o desenvolvimento capitalista nesses países (OLIVEIRA, 1999). A superação do “atraso” da agricultura brasileira passaria necessariamente por uma estratégia de desenvolvimento de perfil urbano-industrial, cuja viabilização dependia de um estado forte e interventor, com o poder de comando sobre a economia e capacidade de investir nos setores considerados essenciais para a consolidação de um modelo de produção com alta produtividade (GREGOLIN, 1999).

2.2 A Superação do Atraso Agrícola

Em um contexto mundial de disputas ideológicas entre o capitalismo e o socialismo, o sistema de produção capitalista procura se firmar no Brasil a partir de políticas voltadas a industrialização da produção. A produção agrícola deveria necessariamente ser modernizada e para tanto as políticas públicas voltam-se para o meio agrícola. Simon (1996, p. 08) diz que:

“A Extensão Rural surge na América Latina pela necessidade de mudança tecnológica da atividade agrícola, objetivando o aumento produção e produtividade necessária. Desta forma ”

acompanharia a necessidade de matéria-prima gerada pela indústria

inserção da extensão rural é oriunda de uma visão da realidade social, que pressupõe o desenvolvimento com a transferência de valores de um setor moderno para um tradicional. Carola (2004, p. 05), diz que para impulsionar o processo de modernização agrícola brasileiro foi necessário transformar a tradicional mentalidade rural, considerada pelos divulgadores do progresso industrial um poderoso obstáculo no caminho do desenvolvimento. Os agentes da modernização passaram então a problematizar o modo de vida do homem rural e de sua família, seus hábitos e costumes. Nesse contexto, a invenção do Jeca Tatu, de

Afirma ainda que a

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Monteiro Lobato: um homem de origem cabocla, sem terra, nômade agregado que trazia consigo uma esposa e vários filhos, seus pertences eram um cachorro sarnento, a foice, a enxada, a pica-pau, o pilãozinho de sal, a panela de barro, um santo encardido, três galinhas pevas e um galo índio (CAROLA, 2004 p. 06).

Era necessário que a cultura popular se subordinasse à cultura moderna. Souza (2005 p. 01), escreve que a representação elaborada acerca do camponês revela-nos a rejeição do arcabouço cultural do adulto analfabeto rural, concebendo-o como ícone do atraso econômico brasileiro e identificando-o como um empecilho à plena realização do desenvolvimento econômico necessário ao ingresso do território campestre na modernidade pretendida pelo processo capitalista. Sinônimo de modernidade era industrialização, a tônica do processo de modernização do país era fazer com que a agricultura produzisse, gerando lucros contribuindo com o desenvolvimento do Brasil. E para desenvolver-se era fundamental industrializar-se; surgiu então a Revolução Verde (DOS SANTOS, 2004). Mas para essa modernização era necessário um serviço de extensão rural comprometido com a formação de uma cultura moderna de produção agrícola. A Extensão Rural surgiu no Brasil com o propósito de ensinar o agricultor a produzir conforme os ditames da modernidade, que através de sementes e insumos industrializados aumentariam a produção. O interesse maior do serviço de extensão rural era habilitar o agricultor e sua família para obter maior produtividade, resultante do trabalho realizado, através do uso racional dos fatores de produção, principalmente dos novos insumos, maquinário e do crédito (OLINGER, 1996, p. 12). Em 1956, o presidente Juscelino Kubistschek, cria a ABCAR (Associação Brasileira de Crédito e Assistência Rural) em meio a um tempo em que as discussões envolviam um dualismo entre o campo e a cidade, entre o arcaico versus moderno. O meio rural foi identificado como responsável pelo atraso do desenvolvimento do país (SILVA, 2002). Olinger (1996) escreve sobre a função da ABCAR e salienta que a mesma iria coordenar a extensão rural no Brasil seguindo o modelo estadonidense:

A finalidade principal da ABCAR era coordenar a extensão rural no Brasil, preservando a sua filosofia, princípios, normas e metodologia de ação, acompanhando o desempenho das filiadas, realizando avaliações de resultados e buscando novos caminhos para aumentar a eficácia dos serviços. A ABCAR era ainda, responsável pela obtenção e distribuição dos recursos financeiros de origem federal, internacional e de outras fontes. Promovia o intercambio de conhecimentos

entre os técnicos das filiadas e do exterior e coordenava o adestramento do pessoal

nos centros de treinamento

(OLINGER, 1996, p. 60).

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Para legitimar o serviço de extensão rural, pelo decreto nº 50662 de 1961, a ABCAR e suas filiadas foram declaradas de utilidade pública, eximindo o sistema brasileiro de extensão rural do pagamento das obrigações sociais para o governo federal (Olinger, 1996). O artigo 1º do Decreto 50.632/1961, evidencia que a ação da extensão rural extrapolava a agricultura, incluía também a saúde e educação. No mesmo artigo percebe-se também que a União estava comprometida em financiar a modernização da agricultura.

Art. 1º A Associação Brasileira de Crédito e Assistência Rural - ABCAR, coordenadora do Sistema de Extensão e Crédito Supervisionado no País, e as Associações Estaduais, a ela filiadas, são reconhecidas como órgãos de cooperação com o Governo Federal, para o que manterão estreito entrosamento com os programas oficiais de crédito, fomento e assistência ao meio rural, objetivando imprimir unidade de ação às atividades comuns. No que diz respeito ao financiamento, a União entraria com 60% do orçamento, com:

a) - dotações orçamentárias consignadas nos anexos dos Ministérios da Agricultura,

da Educação e Cultura e da Saúde;

b) - contribuições prestadas por estabelecimentos oficiais de crédito, autarquias,

sociedades de economia mista, órgãos e entidades governamentais de objetivos vinculados ao desenvolvimento do meio rural;

c) - recursos provenientes do III Acôrdo do Trigo, celebrado entre os Governos dos

Estados unidos do Brasil e dos Estados Unidos da América (PL 480).

As políticas públicas para a agricultura estimularam a adoção de pacotes tecnológicos da revolução verde, considerada sinônimo de modernidade, e incentivou-se um enorme aprofundamento das relações de crédito na agricultura, mediante a adoção desses pacotes com mecanismos de seguro do preço e seguro do crédito à produção. Essas instituições, responsáveis pelo extensionismo rural, surgem com o objetivo de criar estratégias de educação informal ligadas ao conhecimento tecnicista, os quais transmitiam informações para a modernização da agricultura. A partir do final da década de 1940 e durante a década de 1950, há várias iniciativas de ação em direção à população rural, seja confessional (a exemplo dos Congressos, do Paulusblat), da ênfase ao associativismo, ou seja, de ordem estatal. Insere-se em ambas as esferas do didatismo rural, as missões rurais. O texto biográfico de Olinger deixa transparecer em vários momentos o papel da extensão como missão (no sentido confessional).

Outra tentativa, proposta em 1949, para assisstir os agricultores foram as Missões Rurais, por iniciativa dos Ministérios da Agricultura, Educação e Saúde. As missões eram compostas por equipes interdisciplinares (agrônomos, médicos, sociólogos, psicólogos e assistentes sociais) que se deslocaram em conjunto, em um só veiculo, para o campo, a fim de dar assistência ás populações rurais (OLINGER, 1996 p.84) Grifo do autor.

Fonseca (apud Souza e Caume, 2008), afirma que a instrução dada aos “educadores rurais” era de apenas aperfeiçoar o povo, sem deixar que se despertasse uma consciência crítica a respeito da condição de trabalhador rural e nem de “criar nele a veleidade de querer sair de sua classe. Os mesmos autores ainda citam a criação da Comissão Brasileiro

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Americana de Educação das Populações Rurais que com o apoio da Unesco organizou campanhas de Educação Rural:

Em 1945, foi criada a Comissão Brasileira Americana de Educação das Populações Rurais (Cbar) que, com o apoio da Organização das Nações Unidas para a Educação,

a Ciência e a Cultura (UNESCO), estabeleceu as condições para a Campanha

Nacional de Educação Rural, cujo fundamento era a idéia de que o atraso das zonas rurais decorreria da falta de preparo do homem do campo. Dessa forma, implanta-se no Brasil um projeto de extensão rural de acordo com o modelo americano (SOUZA

E CAUME, p. 05 2008).

O apoio de organismos internacionais como a UNESCO, OEA (Organização dos Estados Americanos) e CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe) aos programas de educação da população rural também é abordado por Souza (2005). O sucesso do regime militar, instaurado em 1964, dependia da agricultura, que passou

a controlar atividades sociais que julgava serem relevantes (Silva, 2002). Portanto, as relações

entre a extensão rural e os centros político-administrativos eram estreitas. Já na década de 1970, através do Primeiro Plano Nacional de Desenvolvimento, são definidas as metas para a agricultura que se baseavam no intenso uso de insumos modernos de mecanização agrícola. Para isso a extensão rural deviria necessariamente mudar a mentalidade do homem rural. No ano de 1964, surgiu o Sistema Nacional de Crédito Rural (SNCR). Souza e Caume. (2008), afirma que o crédito agrícola foi o vetor da modernização agrícola brasileira, através de taxas de juros subsidiados e de fartos recursos, estimulou-se as atividades de assistência técnica, pesquisa agropecuária e todo um conjunto de ações ligadas a agroindustrialização das matérias primas no campo. Araújo e Meyer (apud Gonçalves et alii (2008), salientam que os principias objetivos do crédito eram: prover fundos externos para financiar os custos operacionais e de comercialização agrícola, estimular o processo de formação de capital na agricultura; acelerar o processo de adoção de técnicas modernas; fortalecer a posição econômica dos agricultores, especialmente do médios e pequenos.

Divide-se a utilização desse crédito agrícola em três períodos: de 1966/79, de 1980/89

e de 1990/96. o primeiro período corresponde a fase de recursos crescentes onde, os quais a

partir do milagre econômico eram destinados a modernização agrícola foram esticados através dos créditos subsidiados pelo poder público. No segundo período os créditos tornam-se escassos e no terceiro período temos um “preparo para o abandono” desse tipo de crédito (Gonçalves et alii 2008). Percebe-se que nos anos oitenta os créditos para a modernização da pequena e média propriedade tornam-se escassos, no entanto, os alicerces desse novo modelo produtivo já estavam fincados. O que contribuiu para o processo de seletividade no meio

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agrícola, aqueles que, com algum capital se firmam com o moderno modelo de produção, e outra parcela de agricultores passa a ser excluída. Fundamentadas no capitalismo, o qual visa a maximização dos lucros, a Extensão Rural proporcionou a introdução dos pacotes tecnológicos voltados para a utilização de insumos e máquinas “Educando” o agricultor brasileiro para que esse fosse capaz de se tornar mais “moderno” e capaz de superar o “atraso” da agricultura brasileira, a partir do uso de métodos e técnicas para a produção agrícola. No entanto, Barros (apud SOUZA 2003), afirma que o real propósito da missão norte americana em trazer o modelo de extensão rural ao Brasil estava em aumentar a produção e a produtividade agrícola brasileira a fim de assegurar mercado fácil para suas utilidades industriais e, conseqüentemente aumentar o seu poder e seu capital. Gregolin (1999, p. 82) afirma que o modelo educacional extensionista, fundamentava- se na concepção que era necessário modificar o que os agricultores sabiam, pensavam, acreditavam, e produziam. A Extensão Rural deveria promover essa mudança de atitudes e de comportamento, difundindo informações e práticas necessárias para introduzir novas técnicas que modernizassem a agricultura fazendo com que os agricultores produzissem para o mercado e não mais para a sobrevivência. Para que os métodos e técnicas modernas fossem transmitidos aos agricultores brasileiros era necessário que os técnicos entendessem a pedagogia do consenso 16 , dessa forma, técnicos agrícolas foram aos Estados Unidos fazer treinamentos, esses voltaram para o Brasil com a “missão” de difundir os conhecimentos e informações que “modernizassem” a

agricultura Nacional. Os extensionistas, segundo Seiffert (1990), seriam os intermediários entre os interesses dos agricultores e as políticas agrícolas, objetivando ultrapassar o assessoramento técnico, promovendo mudanças socioeconômicas e culturais. Souza (2003), acrescenta que os extensionistas passaram a ser os intermediários do governo na difusão das inovações junto aos agricultores, e a juventude rural tornou-se principal alvo para a introdução e transmissão desses novos conhecimentos aos produtores rurais. Deveriam convencer os agricultores que o processo de mecanização da agricultura era irreversível e que seria a única forma de melhorar

a

qualidade de vida dos agricultores, e aqueles que não adotariam o sistema seriam atrasados,

o

seu modo de produção ultrapassado, a única forma de superar o atraso seria adotar o pacote

16 Segundo Seiffert (1990) essa pedagogia considerava a educação do ponto de vista da transmissão de conhecimentos, normas de conduta e valores das gerações adultas para jovens, desconsidera-se o conhecimento popular e condicionava os agricultores a produzir para obter o máximo do desenvolvimento econômico.

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tecnológico. Precisavam ensinar aos agricultores a melhor forma de administrar a sua propriedade. Essas idéias estão explicitas no discurso de Timmer, especialista em extensão agrícola:

a questão é persuadir os agricultores a utilizar os melhores métodos, aumentar a

capacidade de aquisição rural ensinando os agricultores como gastar seu dinheiro de modo racional, a educação precede o fomento, se não persuadirmos as populações

persuadir as populações a aceitar a

nossa propaganda é justamente a tarefa do extensionista, lavremos pois, a terra e

lancemos as sementes para a colheita de uma classe são de agricultores[ ] (ACARESC, 1981, P. 06)

Além disso, Souza (2003) chama atenção para o fato de que os extensionistas deveriam seguir uma metodologia adequada para a formação de lideranças, que seriam os intermediários dos extensionistas no meio rural.

[ ]

rurais a empregar um método de produção[

]

2.3 A Extensão Rural em Santa Catarina

A Extensão Rural no estado de Santa Catarina iniciou suas atividades no ano de 1957, com os mesmos objetivos e princípios que a nível nacional; a formação educacional dos agricultores que proporcionasse conhecimentos técnicos para desenvolver um modo de

produção moderno. Seiffert (1990, p.68) afirma que o plano postulava, através de campanhas educacionais, conduzir os agricultores a se tornarem autônomos o que possibilitaria a execução de empreendimentos, com o objetivo de aumentar os lucros, dessa forma a produção agrícola se tornaria mais capitalista. Governantes afirmavam que a renovação da economia agrícola e pastoril repousava no abandono dos processos de rotina e na adoção de métodos, sistemas e recursos modernos, que possibilitassem maiores rendimentos com menor parcela

de esforço; só assim se obteria melhor aproveitamento das energias humanas. A ACARESC foi o décimo sétimo projeto do Escritório Técnico de Agricultura -

ETA 17 que contribuiria com recursos financeiros, materiais e humanos durante os quatro primeiros anos de funcionamento. Seiffert (1990) salienta que o extensionismo, em suas origens organizou-se a partir do movimento associativista ruralista, liderado pela FARESC- Federação das Associações de Santa Catarina, que englobava as iniciativas de desenvolvimento rural. Nessa época, o governo catarinense assinou convênios com o PONTO

IV para promover campanhas educativas e semanas ruralistas. A partir de 1964, intensificou-

se a fase do “difusionismo produtivista”, que se baseava na aquisição por parte dos produtores

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de um pacote tecnológico modernizante, com uso intensivo de capital, que segundo a mesma autora, visavam o aumento da produtividade, via mecanização e uso de insumos modernos como adubos, defensivos e sementes melhoradas. Nessa época surgiu a EMBRATER- Empresa Brasileira de Assistência Técnica e Extensão Rural. Simon (1996, p. 10) afirma que o órgão tinha por objetivo melhorar as condições de vida da população rural e o aumento da matéria-prima necessária ao mercado interno e a exportação. Assegura ainda que as ações da Extensão, de um modo geral, são definidas pelo interesse do capital, algumas vezes buscando diversificação de culturas, assegurando assim a força de trabalho rural e industrial, noutras intensificando a produção para exportação. Temos também o surgimento da EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, destinada a realizar pesquisas para a geração de tecnologia (OLINGER, 1996), no entanto, teve seu alcance limitado, pois ficou subordinada à concepção quantitativista e imediatista que se impôs no contexto de uma modernização conservadora. Após o golpe militar, as relações entre Extensão Rural e centros políticos administrativos tornam-se ainda mais estreitas, já que o regime militar passa a controlar as atividades sociais, até porque esse regime também depende da agricultura (SILVA, 2002). Um exemplo disso é a criação da EMBRATER na década de 1970 era uma meta para a agricultura definida pelo Plano Nacional de Desenvolvimento que se baseava na intensificação do uso de insumos modernos, da mecanização agrícola e no incentivo aos programas de pesquisa e experimentação (SOUZA, 2003). No ano de 1962, o governo do estado de Santa Catarina cria a lei nº 3151 que reorganiza a secretaria da agricultura incubindo-a do estudo e execução da política de desenvolvimento agropecuário do estado; além da coordenação da política mineral do estado. Objetivando desenvolvimento da política nacional agropecuária, a secretaria se articulou com o ministério da agricultura e com órgãos e entidades afins, do setor público e privado. Legitimando o acordo com a ETA para o desenvolvimento da Extensão Rural em Santa Catarina. A partir dessa lei a Secretaria do Estado dos Negócios da Agricultura passa a constituir-se de órgãos de administração, órgãos de ensino, pesquisa e Extensão (conselho diretor do ensino, pesquisa e extensão, o serviço de ensino agrícola; serviço de pesquisa e experimentação agropecuária e o serviço de Extensão Rural) e os órgãos de fomento, defesa e organização da produção. Relacionada ao serviço de Extensão rural, a lei diz que a extensão objetiva elevar a produtividade do trabalho da família rural, através de assistência direta, nos aspectos técnicos,

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econômicos, social e financeiro. Esse serviço seria incumbido de instalar e fazer funcionar os escritórios, levar assistência técnica a agricultores, jovens e adultos, no tocante às praticas racionais de agricultura, pecuária e economia doméstica. Dar assistência quanto às práticas de saneamento básico na propriedade rural; elaborar programas que objetivassem o cultivo e a criação de plantas e animais de real importância econômica para o estado; transmitir aos agricultores os resultados dos serviços de pesquisa e experimentação; prestar colaboração aos centros práticos de treinamento; cooperar estreitamente com os órgãos encarregados do fomento e organização da produção; difundir, no meio rural, os objetivos da política agropecuária e agrária do estado, colaborando na integração dos órgãos oficiais com o produtor rural; atuar, como interveniente, entre as entidades bancárias e os produtores, para a execução dos programas de crédito rural (Lei nº3151 de 20 de dezembro de 1962). Entrevistados contam que a partir das orientações tidas através da Acaresc especialmente nos clubes 4s, tiveram um aumento considerável da produção considerável. Abordam também o surgimento de crédito rural voltado aos jovens agricultores para que esses adquirissem suas terras e tecnologias para aperfeiçoar a propriedade. Contam também sobre treinamentos, dos quais os líderes dos clubes 4s participavam com a obrigação de repassar os novos conhecimentos para os demais sócios do clube. As considerações dos entrevistados sobre o aumento da produção são abordadas no capítulo IV. Já as sobre o crédito fundiário e também sobre os cursos de aperfeiçoamento são abordadas no capítulo III. Nos anos de 1962 e 1963, foram criados vários decretos em Santa Catarina relacionados a questão agrícola com o objetivo de aumentar a produção agropecuária. O decreto nº 2360, de 27 de dezembro de 1962, com o objetivo de aumentar a produção dos bens essenciais e considerando a necessidade assistência ao homem do campo cria a CSPOP – Comissão Supervisora do Plano de Organização da Produção, que seria constituída pelo secretário da agricultura, presidente do Banco de Desenvolvimento do Estado de Santa Catarina, diretor da ACARESC e um representante da Igreja Católica Romana. Essa comissão teria como função fomentar o espírito associativo, desenvolver entidades existentes, propiciar meios e facilidades à organização e ao fortalecimento das classes rurais. Na década de 1960, representantes da igreja católica da região, em seus discursos abordavam a necessidade da modernização. Eidt (2006, p. 173 e 174) salienta que o padre de Porto Novo em suas exposições evidenciava a necessidade da instalação de uma escola agrícola, uma indústria de lacticínios e de um frigorífico. Enfatizava, sobretudo, que sem avanços o atraso econômico da região descortinava as mais amenas perspectivas para o futuro: - As pessoas devem estar propensas a sair da comodidade e juntar forças para começar

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uma vida nova. Ninguém pode rejeitar a técnica e o progresso. É preciso oferecer cursos técnicos aos colonos e melhorar a qualidade genética dos animais! Percebe-se que a igreja estava “preparando o terreno” para execução da extensão rural. O decreto nº 78, de 01 de fevereiro de 1963, determinou recursos que constituiriam o fundo rotativo agro-pecuário, cujo artigo 1, tem a seguinte redação:

Art. 1º- Fica o Poder Executivo autorizado a incorporar de trinta até cinquenta por cento (30 até 50%) do quantum previsto para arrecadação do imposto territorial, em cada exercício, ao “Fundos Conjuntos” da ACARESC (Associação de Crédito e Assistência Rural de Santa Catarina), de Serviço Cooperativo de Saúde e da Secretaria da Agricultura e Médica Sanitária, ao homem rural, na forma da Constituição do Estado.

Outra medida de organização da extensão rural no estado foi o decreto nº 188, de 06 de abril de 1963 constituiu um grupo de trabalho para desenvolver estudos e experiências relacionadas a agricultura e pecuária no planalto serrano. Desse grupo fazia parte Glauco Olinger, agrônomo especialista em engenharia rural e extensão rural, um grande líder extensionista catarinense. Face a reorganização da Secretaria da Agricultura, o Estado firma acordo entre o governo do estado de Santa Catarina e a ACARESC que foi aprovado pelo decreto n° 196, de 24 de maio de 1963, objetivando o desenvolvimento de um serviço de extensão agrícola e doméstica conjugado com o crédito rural supervisionado. Tal acordo previa, entre outras coisas, que a ACARESC deveria ensinar, dentro dos princípios da extensão rural, melhores técnicas de defesa dos recursos naturais renováveis de cultivo, de subsistência e de renda, de exploração zootécnica, de mecanização, irrigação e adubação, de melhoramento de pastagens e conservação da forragem, de combate às pragas e doenças de vegetais e animais, etc. bem como melhores práticas de administração do lar, nutrição, conservação de alimentos, higiene, vestuário, princípios de enfermagem, etc. Para a execução desse acordo contribuirão a secretaria da agricultura com correspondentes a aproximadamente 1428 salários mínimos da época, consignados no seu orçamento para o exercício de 1963, e a ACARESC com serviços e materiais estimados a aproximadamente 5000 salários mínimos da época. Entre as atividades do serviço de extensão rural tivemos a criação de Centros de Treinamentos no estado de Santa Catarina. Tais centros eram utilizados para o aperfeiçoamento de extensionistas e líderes rurais. O decreto nº 680, de 10 de setembro de 1963, aprovou o regulamento do Centro Prático de Treinamento que teria como principais finalidades: habilitação e treinamento pré-serviço do pessoal de extensão rural; treinamento em serviço para técnicos da ACARESC, da secretaria da agricultura e outras entidades

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interessadas atuantes do meio rural; treinamento prático para agricultores, suas esposas e seus filhos; treinamento de líderes e monitores rurais; oferecer local e instalação para reuniões técnicas em assuntos rurais a critério da administração; estudo para determinar a organização mais eficiente da unidade familiar de exploração agrária. O decreto ainda diz que esses treinamentos deveriam ser intensivos, práticos, e deveriam utilizar ao máximo os auxílios audiovisuais, obedecendo ao princípio de que o treinando deve “aprender a fazer, fazendo”. Os extensionistas e agricultores da região pesquisada passaram a fazer seus treinamentos no Centro de Treinamento de São Miguel do Oeste (CETRESMO). Em Santa Catarina o modelo modernizante se assentou no tripé formado pela produção familiar, o Estado e a Agroindústria. Isso porque a agroindústria transformou a produção familiar policultura em seu público ideal através do processo de integração. Nos anos de 1950 até 1980 a agroindústria de carnes contribuiu para a reprodução do sistema alicerçado na produção familiar. A partir de 1980, com a modernização da produção, ao concentrar fortemente a produção, exclui e se transforma em um elemento desestruturado do sistema de produção familiar. No que diz respeito ao Estado, esse criou as condições e deu o apoio necessário ao desenvolvimento do setor agroindustrial, a sua ação via crédito, pesquisa e extensão, teve o papel de mudar a base tecnológica da produção agrícola e sedimentar a relação entre a agroindústria e a pequena agricultura familiar (GREGOLIN, 1999). A ação da ACARESC, criada nos anos 50, além de acessória e serviços de extensão prestado aos agricultores criou um programa de educação do jovem rural, os chamados Clubes 4s 18 , a exemplo dos clubes 4Hs 19 dos Estados Unidos. No Brasil o trabalho com a juventude rural através dos clubes 4s iniciaram em Igrejinha, Minas Gerais, no ano de 1952 e em Santa Catarina no ano de 1957. Em Santa Catarina duas regiões foram escolhidas para a instalação dos primeiros escritórios locais e a organização dos clubes 4s: o Vale do Rio do Peixe e o Vale do Rio Itajaí. A direção considerava dois fatores: primeiro, porque ofereciam boas perspectivas para o sucesso do serviço a ser iniciado, com base no potencial da terra e dos agricultores. Segundo, porque o Secretário da Agricultura era do Vale do Rio do Peixe e o presidente da FARESC- Federação das Associações Rurais de Santa Catarina tinha raízes no Vale do Itajaí (OLINGER, 1996, p. 252).

18 A sigla 4s significa: Saber, Sentir, Servir e Saúde.

19 A sigla 4hs surgiu nos Estados Unidos e significa: head (cabeça); Heart (Coração), Hands (Mãos) e Health (Saúde) (SILVA p.35, 2002).

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Os clubes 4s foi um programa para os jovens, pois esses assumiam um papel de indutores e difusores de inovações pela sua força numérica, pela facilidade em aceitar idéias novas, como também de transmiti-las as suas famílias (SOUZA, 2003). A mesma autora ainda afirma que no discurso extensionista era necessário “dar oportunidade para que o jovem se descobrisse como ser progressista”. As atividades promovidas pela extensão rural, através do Clube 4S, se dão de diversas formas: além da “lavoura demonstrativa” e da organização da horta, também se procurou atingir o jovem agricultor educando-o para a higiene de seu corpo e também de sua propriedade. Os discursos e atividades organizadas nos encontros pretendiam impregnar o espírito de liderança.

Assim, para um agricultor se adaptar a um processo moderno de produção, este necessitava ter cuidados (controle) sobre a sua propriedade e sobre si mesmo para produzir o necessário, não mais para a subsistência ou para a produção em pequena escala, mas demonstrar que o campo não é sinônimo de atraso, e sim , de modernidade. (SILVA 2002 p.207).

Esses Clubes 4S, em sua ação educativa, inseriram políticas de desenvolvimento agrícola para modernizar o meio rural da região, incorporando a população rural a economia de mercado. O estado preocupado em oferecer essa educação, além das iniciativas feitas pela Extensão Rural, também passou fazer uso da imprensa para propagar os seus interesses, nesse sentido, a própria ACARESC passou a produzir textos e cartilhas com vistas para a mudança de hábitos. Com o decorrer do tempo e pelos meados do século XIX, essas atividades eram complementadas pela publicação de folhetos e com a participação efetiva de técnicos do governo federal e dos estados (OLINGER, 1996 p.13). Gregolin (1999, p. 83) acrescenta que os projetos educacionais eram organizados de forma centralizada dando pouca autonomia para as equipes locais e um relacionamento instituição/ produtor fortemente autoritário. Todas as atividades realizadas para capacitar o agricultor consistiam em fornecer conhecimentos que demonstrassem as vantagens dessas técnicas, que mudassem valores, para assim obter condutas, as quais desenvolvessem uma “agricultura moderna”. No entanto, não se questionavam os problemas sócio-ambientais que esse novo modelo de produção pudesse provocar. Como salienta Seiffert (1990, p.139), “As modernas práticas agrícolas adotadas, não eram questionadas em si; e não consideravam, também, os efeitos que essas práticas poderiam gerar sobre o meio ambiente”. Seiffert (1990, p.100), afirma ainda que, no inicio dos anos 80, a modernização da agricultura brasileira, passa a ser criticada por duas vertentes: a de estudiosos que passam a questionar os problemas sociais, econômicos e políticos que se agravam a partir da

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“Revolução Verde”; e a de estudiosos preocupados com a ecologia, já que, os problemas com a contaminação com alimentos, a degradação do solo, a intoxicação de trabalhadores rurais e as alterações climáticas, que se agravaram a partir da modernização agrícola. As práticas extensionistas foram expressivas para as inovações que ocorreram na agricultura catarinense garantindo que o agricultor entrasse no ritmo e na dinâmica da sociedade de mercado, ou seja, passou a produzir mais e conseqüentemente consumindo mais implementos agrícolas e aumentando as áreas cultivadas. Sendo assim, a natureza passa a ter apenas um valor capital, derrubam-se mais matas, usa-se intensivamente o solo e polui-se com o uso intenso de insumos agrícolas, tudo isso para aumentar a produtividade. Sem contar que a sociedade campesina passa por um processo de seletividade, onde poucos agricultores, os que têm condições financeiras de se modernizar acompanham o processo, mas a maioria passa a ser excluída. As novas práticas de produção agrícolas baseadas no uso do pacote tecnológico foram absorvidas pelos jovens rurais através da experiência dos clubes 4s, onde aprendiam e praticavam os novos conhecimentos. Discutir e analisar como se deu essa experiência e como esta marcou as atividades agrícolas desses jovens é a discussão do próximo capítulo. No final da década de 1980 e início da década de 1990, o serviço de extensão rural catarinense passa por uma reestruturação 20 . Gregolin (1999 p. 147) afirma que as mudanças no aparato institucional foram profundas:

Foram extintas a Associação de Crédito e Assistência Rural de Santa Catarina – ACARESC/EMATER, a Empresa de Pesquisa Agropecuária de Santa Catarina – EMPASC, o Instituto de Apicultura de Santa Catarina – IASC e a Associação de Crédito e Assistência Pesqueira de Santa Catarina – Arcapesc, e criada a Empresa de Pesquisa Agropecuária e Difusão de Tecnologias de Santa Catarina S.A. – EPAGRI.

A partir da década de 1990, o serviço de extensão rural de Santa Catarina muda seu foco, seus paradigmas. Segundo Simon (2003 p. 218), afirma que passa se observar mudanças internas, seja na forma de fazer pesquisa como nas técnicas de extensão rural, apontam para uma gestão integrada dos recursos naturais e do meio ambiente, conceito assumido como fundamental ao alcance do ecodesenvolvimento. Acrescenta ainda que várias ações a nível nacional se somam a absorção da sustentabilidade no discurso da extensão rural, fala sobre uma série de eventos até culminar no “Seminário Nacional: Decidindo a Política de Extensão Rural para o Brasil”, em 2002. Tal seminário, segundo o autor, foi um marco referencial inicial para uma nova fase da extensão rural catarinense que coincidiu com o lançamento do

20 As possíveis causas dessa reestruturação são abordadas no capitulo III.

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projeto PRAPEM Microbacias 02. Sobre essa redimenção de paradigmas no serviço de extensão rural, será discutido no capítulo III. O contexto histórico baseado na Guerra Fria e a necessidade de superar o atraso agrícola através de sua modernização fizeram com que as políticas sociais se voltassem a agricultura. Com a criação da extensão rural que, através de um projeto de Educação Informal voltado a população rural, disseminou conhecimentos capazes de impulsionar a revolução verde. A organização, as estratégias, os rituais utilizados pelos extensionistas para alcançar o objetivo traçado pelas elites quando da criação da extensão rural: criar uma cultura que proporcionasse o uso de modernas técnicas e tecnologias de produção; serão discutidos no próximo capítulo.

CAPÍTULO III

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EXTENSÃO RURAL E JUVENTUDE

O terceiro capítulo foi escrito com o intuito de abordar as atividades nos clubes 4s, os rituais e as estratégias utilizadas pelos extensionistas para fazer com que uma grande maioria da juventude rural, das décadas de 1960 á 1990, participassem assiduamente dos encontros e das atividades dos clubes 4s. Procura abordar a experiência vivenciada e o modo como essas atividades contribuíram para mudar a maneira de pensar e agir dos jovens rurais. Por fim, enfoca as razões abordadas por diversos autores para a crise da extensão rural no final da década de 1980 e início de 1990. A atividade extensionista objetivava criar novos conhecimentos que proporcionassem o uso de novas técnicas e tecnologias de cultivo. Introduzindo novos saberes, relegando saberes seculares, intervindo no modo de produzir no meio agrícola. Proporcionando a modernização da agricultura na região Oeste de Santa Catarina. Surgem assim questões que nortearam esse capítulo: Camponeses, colonos, agricultores fariam parte daquilo que Bourdieu (1977) chamou de “classe objeto?”, descreve-se a recepção e como o trabalho da extensão rural marcou a vida dos agricultores.

3.1 Organização dos clubes 4s

Os escritórios eram instalados nos municípios com um agrônomo, uma moça treinada em economia doméstica (curso de 2º grau) e um auxiliar de escritório (OLINGER, 1996 p.50). A extensionista A.F. conta como era o trabalho com os jovens agricultores, diz que o básico era em conjunto, o Básico o qual A. se refere são os repasses técnicos feitos em reuniões ordinárias, como também os projetos coletivos comunitários. Mas salienta que tinham atividades diferenciadas, nas quais as moças e rapazes eram separados em grupos diferentes. Diz que atividades relacionadas à industrialização caseira de alimentos ou o

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aproveitamento de alimentos, horta familiar, aproveitamento de frutas e hortaliças através de conservas e geléias, corte e costura, maquiagem, corte de cabelo, eram voltados para as moças. Para os rapazes os cursos eram voltados ao desenvolvimento da pecuária e cultivo de grãos.

Durante as décadas de 1960 á 1980, os clubes 4S tiveram seu auge em Santa Catarina, esses clubes pretendiam desenvolver atividades modernizantes relacionadas à agricultura, pecuária e educação para a saúde, já que o meio rural era visto pelos governantes e também pela população urbana como atrasada (OLINGER, 1996).

A agricultura representou no Brasil, a partir da década de 1950, um entrave ao progresso. Dentro dessa lógica, foi necessário investir em tecnologias, foi preciso modernizar, mas, sobretudo, criou-se a necessidade de formar um novo sujeito, um outro agricultor, apto a lidar com as novas técnicas e tecnologias. (SILVA, 2002 p.145).

A extensão rural no Brasil e especialmente em Santa Catarina criou vários programas para alcançar o seu propósito de modernizar a agricultura. Entre esses programas podemos citar o crédito rural, cooperativismo, suinocultura, fruticultura de clima temperado, clubes de mães e os clubes 4s. Os Clubes 4s congregavam jovens de 14 a 25 anos que encontravam ali um local para reunião e diversão, além de receber uma educação modernizante com acesso a pequenos créditos como a finalidade de, junto aos técnicos, fazerem experiências nas propriedades dos pais. (SANTO, 1999, p.56). Tal fator também foi abordado pelos entrevistados.

A família de colonos (WOORTMANN, 1997) compreende vínculos de

consangüinidade e afinidade (ocasionalmente de adoção). Seu ciclo doméstico pode variar de uma a três gerações sob o mesmo teto. Seu caráter é androcêntrico e pai é o chefe da família, incluindo a subordinação dos demais membros. Mulheres e filhos estão sob a autoridade paterna, a quem cabe administrar a propriedade e o destino dos filhos. Permitir a saída do filho para as reuniões e realizar experiências que se contrapunham ao saber tradicional paterno podia ser fonte de tensões.

Por parte do Serviço de Extensão Rural, atrair os jovens era a possibilidade de

disseminar informações e criar mentalidade com vistas à modernização. Chamar os jovens para participar dos clubes 4s era uma estratégia de passar as informações à geração que assumiria as propriedades. Souza (2003) afirma que o trabalho extensionista se dava através dos jovens, pois esses estariam mais receptíveis às mudanças, seriam indutores ou difusores de inovações no meio rural.

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A comunidade rural na qual se instalaria um clube deveria apresentar um potencial de jovens, adultos e jovens interessados, disponibilidade de líderes, potencial agro-pastoril e de economia doméstica, além de ter fácil acesso. (FURTADO et alii., 1996, p.65). Era necessário também que os agricultores tivessem poder aquisitivo e ser proprietário da terra.ou possibilidade de sê-lo futuramente.

Os Clubes 4s devem contribuir efetivamente para o aumento da produtividade. Importa, pois, localiza-los junto as comunidades de maior significação econômica para o município. Importa ainda congregar nos Clubes, de preferência, filhos de médios proprietários e de meeiros ou arrendatários em condições de tornar-se proprietários, futuramente. (ACARESC, s/d p. 05)

O livro de Atas dos Clubes 4 S, documento que permitiu uma análise das atividades realizadas nas reuniões dos clubes 4s, era padronizado pela ACARESC. Infelizmente encontrou-se somente os livros de um clube. Não se sabe ao certo o motivo do desaparecimento dos livros Atas de outros clubes, alguns ex-quatroessistas mencionam ter havido “revolta” entre os agricultores causada no final da década de 1980, já que, segundo os entrevistados, a igreja católica passou a difundir a idéia de que os clubes 4s estariam transmitindo conhecimentos que proporcionassem o enriquecimento de empresas de insumos agrícolas estadunidenses, o que fez com que muitos agricultores queimassem os documentos ou impressos relacionados aos clubes. Esse fato aponta à concorrência estabelecida entre as ações governamentais e a igreja, aspecto que será abordado adiante. O livro de atas do clube “Sentinela do Uruguai”, exemplar remanescente, tem sua primeira ata escrita no dia dois de novembro de um mil novecentos e oitenta um, e a última reunião registrada é do dia três de agosto de mil novecentos e oitenta nove. As reuniões dos clubes 4s eram classificadas em ordinárias e técnicas. As ordinárias eram mensais e foram descritas no livro de atas figura nº 3.1. Essas reuniões mantinham uma certa ordem (cujo roteiro estava descrito no verso da folha de rosto). Eram elementos recorrentes, solenidade de uma composição de mesa de honra, para a qual era convidada a diretoria do clube 4s e também autoridades ou extensionistas quando se faziam presentes. A abertura da reunião era feita pelo monitor ou pelo presidente do clube, o mesmo fazia a apresentação dos visitantes bem como dos pais presentes. A secretária do clube lia a ata da reunião anterior e também a chamada dos sócios do clube, o tesoureiro fazia a prestação de contas do mês, o repórter lia as correspondências recebidas e enviadas pelo clube. Em todas as reuniões os sócios faziam o juramento. Feito isso, passavam a discutir assuntos relacionados a encontros do clube, aos projetos coletivos, individuais e coletivos comunitários, sobre lazer e assuntos relacionados ao funcionamento do clube.

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As reuniões dos clubes eram ritualizadas. Rodolpho (2004) afirma que a vida social é marcada por um eterno conflito entre dois opostos: ou o do caos total onde ninguém segue nenhuma regra ou lei, ou uma ordem absoluta quando todos cumprem as regras e as leis estabelecidas. Então as sociedades procuram trazer os acontecimentos diários para dentro de uma esfera de controle e ordem. Nesse sentido, os rituais concedem autoridade e legitimidade quando estruturam e organizam as posições de certas pessoas, os valores morais e as visões de mundo. Para a autora os rituais procuram organizar aspectos da vida social através da repetição e da formalidade:

Dizemos que os rituais emprestam formas convencionais e estilizadas para organizar

certos aspectos da vida social, mas para que essa formalidade? Ora, as formas estabelecidas para os diferentes rituais tem uma marca comum: a repetição. Os rituais, executados repetidamente, conhecidos ou identificáveis pelas pessoas, concedem uma certa segurança. Pela familariedade com a seqüência ritual, sabemos o que vai

acontecer [

grupos sociais, os rituais demonstram a ordem e a promessa da continuidade destes

através da repetição e da formalidade, elaboradas e determinadas pelos

]

mesmos grupos (RODOLPHO, 2004, p. 140).

A ordem pré estabelecida das reuniões, a seqüência das atividades e a delegação das funções, as quais o grupo deveria obedecer nos encontros, é uma forma de se estabelecer um ritual no qual o discurso é ligado ao extensionismo rural. Bourdieu (1989), ao analisar o

mercado lingüístico, demonstra que uma linguagem nunca é neutra. Os discursos sempre extraem sua eficácia da correspondência entre a estrutura social na qual ele foi concebido com

a estrutura social de quem o recebe. O sociólogo afirma ainda que a desenvoltura e a

capacidade de falar e proferir discursos mais adequados ao modo de falar oficial exercem domínio sob aqueles que não tem tal facilidade em proferir seu discurso. Empiricamente, Buttelli (2007) chegou às mesmas conclusões em seu trabalho de campo. Os extensionistas com um maior domínio da competência técnica e também se valendo do modo de falar corretamente, em oposição ao linguajar rural, com forte sotaque alemão dialetal, conseguiram dessa forma exercer uma certa ascendência, um domínio sob os quatroessistas. No entanto, a quantidade de clubes 4s a serem atendidos fazia com que os extensionistas não pudessem acompanhar todos os encontros dos grupos. Para suprir, em parte, a presença do extensionista escolhiam-se líderes. Estes participavam de cursos de aperfeiçoamento, para coordenar os rituais das reuniões seguindo todos os passos pré- estabelecidos pela extensão rural. Poderíamos dizer que os extensionistas e os líderes dos

clubes 4s são os agentes divulgadores das novas técnicas e tecnologias de produção e exercem

o papel de mediador, expresso no de porta-voz do grupo. Buttelli (2007, p. 07) analisa

situação similar a esta estudada e afirma, ancorado em Bourdieu (1989), que o agente que

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profere o discurso é, portanto, um porta-voz dotado de poder, instituído pelo grupo, representando-o, personificando-o, agindo por procuração ao falar e fazer, nomeando, assim, a realidade. Neste caso entendemos que o líder de grupo é mediador entre o grupo e a empresa (Acaresc), já o extensionista é o porta-voz da empresa junto ao grupo, num e outro caso, fazem a mediação. A diretoria desse clube era escolhida anualmente e por votação, não era apresentada uma “chapa candidata”. Os sócios escolhiam, através do voto, as pessoas para ocupar os cargos da diretoria do clube. Com certeza aquelas pessoas que tinham uma maior facilidade em comunicar-se, se sobressaiam as outras, sendo escolhidos para a diretoria. Observou-se que nas diretorias do clube do qual leu-se as atas, os nomes escolhidos para esses cargos pouco mudavam, apenas trocavam de funções. Escolhiam-se também os líderes dos projetos individuais, que seriam responsáveis para organizar todos aqueles inscritos em uma determinada produção, por exemplo, o líder responsável pelo projeto do milho era responsável pela organização dos inscritos naquele projeto. E escolhia-se ainda o líder geral, ou como abordado no livro de atas o “líder dos lideres”, que era responsável pela organização dos líderes dos projetos. Na folha de rosto dos livros vinha impresso o significado dos quatro s, o lema e o juramento dos Clubes 4s (Figura 3.1). No ritual das reuniões, merece destaque o juramento. Segundo o livro de atas, era feito em todas as reuniões, onde um sócio o anunciava e os demais, em conjunto, o repetiam. Automatizado o teor do juramente, nos últimos anos, este era feito por todos os sócios presentes, em coro. A exemplo de outros rituais estudados, o juramento tem o efeito de reiterar continuamente a lealdade do grupo e produzir eficácia social de fortalecimento da unidade, de modo tal que a unidade (Clube) passa a ter uma ascendência sobre os participantes. Esse efeito de coesão fará com a lealdade ao grupo possa eventualmente enfraquecer a rigidez paterna. Isso não significa que os jovens se rebelassem, muito pelo contrário, apesar da década de rebeliões, eles passam de uma esfera de conhecimento, a tradicional, para outra, a modernizante. Sentir-se em grupo, contar com o grupo, fortalece o “espírito de corpo”, como Olinger (1996) lembra em diversas passagens. Sobre o juramento Silva (2002) interpreta-o da seguinte forma: o jovem precisava saber, aprender a usar métodos racionais em agricultura, pecuária e economia doméstica. O conhecimento racional foi valorizado em detrimento de conhecimentos passados de geração a geração. O agricultor que utilizava conhecimentos modernos precisava sentir a

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responsabilidade de tirar a agricultura do atraso, e sendo úteis a comunidade chamariam a sua atenção. Saúde era o princípio do trabalho, um jovem doente não produz, não engrandece a comunidade. “Já que é o jovem quatroessista quem sabe, é ele quem sente, quem serve e quem tem saúde para tudo realizar(SILVA, 2002 p. 54, grifo do autor).

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Figura nº 3.1 Folha de Rosto do Livro de atas dos clubes 4s. Fonte: Livro de Atas do Clube 4s Sentinela do Uruguai da Vila Catres_Mondaí

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Esse juramento expressa a necessidade criada para que os jovens participassem do Clube, para que dessa forma pudessem melhorar a qualidade de vida de sua família e também para a comunidade. O símbolo do Clube 4s era um Trevo de quatro folhas, que para muitos significa raridade. Além de abrigar as letras, popularmente significa um talismã de sorte. O juramento também era feito em momentos solenes dos clubes, na posse de novos sócios, de novas diretorias, nos seminários, em cursos, nas reuniões técnicas e outros encontros que reuniam mais clubes. No entanto o significado desse juramento foi pouco considerado nas entrevistas, percebe-se que o juramento era feito, pois fazia parte do ritual pré-estabelecido pelo serviço de extensão. Poderíamos fazer uma analogia com o hino nacional que muitas vezes é cantado sem que os cantores saibam exatamente o que significa. Ou, também com os cultos religiosos, quando automaticamente os participantes da comunidade respondem frases pré estabelecidas tradicionalmente.

respondem frases pré estabelecidas tradicionalmente. Figura nº 3.2 Juramento. Fonte: Acervo: EPAGRI Mondaí. Em

Figura nº 3.2 Juramento. Fonte: Acervo: EPAGRI Mondaí.

Em relação ao lema do clube 4s: “Progredir Sempre”, dá a conotação de que é necessário superar o atraso do meio rural e que para isso é fundamental participar do clube 4s para aprender utilizar as novas técnicas e tecnologias de trabalho agrícola, modernizando a sua propriedade o jovem estará progredindo. Estima-se que no ano de 1982, no Brasil tínhamos 45 milhões de jovens com menos de 25 anos, 18 milhões de jovens rurais e 43 mil sócios 4s. Em Santa Catarina 470 mil jovens

rurais e 16 mil sócios 4s. No extremo oeste 67 mil jovens rurais e 3580 sócios 4s (III SEMINÁRIO REGIONAL DE JUVENTUDE RURAL 4S, ABRIL DE 1982). No verso da folha de rosto (figura nº 3.4) estavam descritos os deveres do secretário, a ordem da reunião com as responsabilidades e funções de cada membro do clube durante a reunião. Na mesma página também estavam expostos os deveres e obrigações de cada membro do clube. Entre os deveres (descritos no verso da folha de rosto figura nº 3.4), no item B e C está a obrigatoriedade de todos em assistir todas as reuniões e atividades do 4s, além disso,

deveriam participar, trabalhar para que seu grupo obtivesse sucesso. No final dos livros de atas havia uma lista de presença, onde em todas as reuniões a secretaria deveria fazer a chamada dos sócios. Nas atas percebe-se a rigorosidade na exigência da participação dos

que faltar em duas reuniões seguidas sem justificativa,

não será mais sócio” (Ata nº17). Dentre as obrigações constam as de que os sócios deveriam ser leais amigos, educados e servir de bom exemplo para os outros jovens que vivem na comunidade ou no município. No livro de atas está descrito a discussão o comportamento dos sócios em visitas a outros clubes, bem como o comportamento de jovens dos outros clubes. O jovem quatroessista deveria ser diferente do agricultor “atrasado”. Deveria mostrar-se mais “civilizado”, dessa forma os trabalhos dos clubes teriam mais respaldo na sociedade. Lohn (2008), afirma que os discursos da extensão rural versavam sobre o agricultor ideal, o agricultor “modelo”, o moderno, procurava-se construir novos sujeitos sociais aptos a adotar as novas tecnologias.

jovens em todas as reuniões: “

aquele

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Aqueles que não participavam das atividades da ACARESC eram vistos como arcaicos e o conhecimento dos colonos era visto como antigo e inadequado:

Os discursos produzidos no âmbito da ACARESC permitem vislumbrar a elaboração e formulação de um projeto político com vistas a construir novos tipos de sujeitos sociais, um novo tipo de agricultor em Santa Catarina, envolvendo um confronto entre visões de mundo, culturas e modos de pensar diferentes. Mais do que a subordinação material ao desenvolvimento capitalista, caberia atuar como um poder simbólico, capaz de legitimar o saber técnico. Isto implicava na construção de um agricultor modelo, moderno e, ao menos nos projetos, conformados ás normas determinadas pelo serviço de Extensão Rural. No discurso as formas de produção costumeiras apareciam como arcaísmos que deveriam ser proscritas e substituídas pelas imposições técnicas dos extensionistas (LOHN, 2008 p. 14).

O jovem deveria ter um bom comportamento na sociedade, inclusive em momentos

solenes como comemorações alusivas ao dia sete de setembro (figura nº 3.3); “

da marcha o sócio que estiver com boa vontade e um sócio sendo um bom sócio participa da marcha se comportando como um verdadeiro patriota” (ata nº 32).

só participa

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Silva (2003), aborda como tentou-se instituir um modelo de jovem: organizado e disciplinado; que constituir-se-ia a partir das atividades dos clubes 4s, esses seriam responsáveis, ou capazes de superar o atraso da agricultura brasileira:

Os olhos da água da equipe surgiram no momento de um desfile, onde a disciplina e a organização e os resultados foram vistos por quem os viu passar. Foi esse o modelo de jovem eleito, foi esse modelo de jovem que se pretendia construir. Não se quer mais que reine a indisciplina e o atraso no campo, mas sim jovens bem asseados, capazes de produzir muito mais que seus pais, fazer de Santa Catarina e do Brasil um bom lugar para se insvestir e plantar. Assim, mesmo vivendo no campo, o jovem que se pretendeu constituir através das ações da extensão rural necessitava de tecnologia, diferentemente de outros movimentos do período. Procurou-se propagar um discurso na região oeste de Santa Catarina (mais especificamente) que vinha ao encontro dos objetivos de implantação desta forma de trabalho com a juventude rural. Necessitava-se constituir um agricultor que produzisse dentro de uma nova ordem (tanto técnica quanto tecnológica) e que se sentisse responsável pelo desenvolvimento de seu país (SILVA,2002, p.41).

Essa imagem de atraso é recorrente, conforme vimos no capítulo anterior.

atraso é recorrente, conforme vimos no capítulo anterior. Figura nº 3.3 Desfile alusivo à comemoração da

Figura nº 3.3 Desfile alusivo à comemoração da Independência do Brasil. Fonte: Acervo pessoal de José Heckler.

Percebe-se que há ênfase em uma normatização de condutas na vida cotidiana do jovem agricultor. Este aspecto remete aos “Manuais de etiqueta” que surgiram no Renascimento europeu, analisados por Norbert Elias (apud LOPES, 2006), e o papel no

controle das emoções e na estilização da conduta, fazendo naturalizarem e interiorizarem certos comportamentos desejáveis. Ou seja, o comportamento externo seria a manifestação

De outro lado, seria uma forma de criar uma nova “hexis corporal”, conforme

Bourdieu (1977) que anulasse a denúncia da condição de colono. Ao adotar a imitação prestigiosa (MAUSS, 1974) estaria superando o estado de atraso. As técnicas corporais, a

interna

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entonação da voz, a incorporação de cortesias, como agradecimentos, solicitação de licença, etc., contribuiriam para que o quatroessista deixasse de ser visto como atrasado. Um texto, como o Patrick Champagne, Os Camponeses na Praia, mostra a distância que havia entre modos urbanos e vida rural, podendo ser transposto para a situação em estudo.

A extensão rural fornecia códigos de comportamento tidos enquanto corretos para orientar as práticas do jovem quatroessista em sociedade. Tais como cordialidade, postura, deveriam demonstrar simpatia ao participar de eventos sociais, as extensionistas desenvolviam cursos de corte de cabelo e maquiagem as moças, para que essas pudessem se apresentar com uma melhor aparência. Em ocasiões solenes, como o desfile alusivo a comemoração da independência do Brasil citado acima, os jovens quatroessistas deveriam manter a ordem. Além de manter a ordem, deveriam usar o uniforme, manter a postura.

Outro dever do jovem quatroessista era executar um projeto de trabalho em sua propriedade. Sobre os projetos: haviam os individuais, os coletivos e os coletivos comunitários (analisados no item 3.3). deveriam ainda ser organizados com os cadernos de anotações utilizados para fazer a contabilidade dos projetos. Os clubes estavam organizados hierarquicamente. Haviam os clubes nas linhas e o comitê intermunicipal. A abrangência desse comitê intermunicipal era a de dois escritórios da Acaresc o de Mondaí e o de Itapiranga. A organização dos clubes também se deu no âmbito intermunicipal com a formação do comitê intermunicipal dos clubes 4s, tal comitê deveria ter um representante por clube, e teria como principal função, segundo seu estatuto, colaborar com o serviço de extensão rural, apoiando e estimulando as atividades educacionais com a juventude rural; deveria ajudar a difundir tecnologias; divulgar os resultados obtidos pelos clubes 4s, apoiar e promover cursos, encontros, seminários, convenções; auxiliar na realização de eventos, tais como: exposições, excursões, entrega de prêmios, dia de resultados e outros; conseguir recursos financeiros para apoiar os clubes 4s. A partir da conquista do crédito fundiário, cabia também ao comitê organizá-lo. Para a formação do comitê além dos líderes 4s eram convidados lideranças ligadas a indústria e ao comércio com o intuito de fazer com que o público “sinta o valor dos clubes 4s” (Estatuto dos Comitês 4s).

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Figura nº 3.4 Verso da folha de rosto do livro de atas. Fonte: Livro de Atas do Clube 4s Sentinela do Uruguai da Vila Catres_Mondaí.

O agricultor M.W. explica a função do comitê intermunicipal:

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Era promover os intercâmbios, fortalecer os grupos, e ter mais força para conseguir auxilio do governo. Nós era representantes de todos os grupos, assim nós conseguimos o crédito fundiário. Me lembro ainda de alguns que conseguiram terra através desse crédito. Tem um do Preferido 21 , o B., E. B., a primeira terra dele foi através do crédito fundiário, através dos clubes 4s. Ele conseguiu pagar sua terra, enquanto outros não conseguiram pagar. Por isso a gente lembra dele, ele foi um destaque (M. W.).

O crédito fundiário passou a ser oferecido para os jovens quatroessistas para que os mesmos adquirissem suas terras, não há informações sobre a fonte desses empréstimos bem como o pagamento dos mesmos. Os dados sobre esse crediário são aqueles coletados com os informantes. O ex-extensionista E.F., quando questionado de possíveis financiamentos oferecidos aos jovens participantes do clube, também menciona o crédito fundiário como uma conquista dos comitês regionais: Inclusive isso nasceu dentro dos comitês regionais, era uma das reivindicações dos jovens. Então existia um programa, não dava para todos que queriam, mas contemplavam alguns (E.F.).

O agricultor M.H. quando questionado sobre os financiamentos afirma que os sócios dos clubes 4s tinham acesso ao crédito fundiário para a aquisição de sua propriedade e que os membros do comitê é que escolhiam os beneficiados, compara a organização desse crédito com o Banco da Terra 22 :

Na época não tinha tantos recursos como tem hoje. Tinha o crédito fundiário, que é como hoje o banco da terra. Era ao nível de estado, depois passou para a federação. E isso, quem era associado ao clube 4s ele tinha preferência, lógico, porque ele já trabalhava na técnica. E daí tinha alguns membros do comitê 4s que participavam da comissão de escolha desse pessoal (M.H.).

Várias passagens dos livros de atas também mencionam o comitê intermunicipal, nos quais representantes do clube no comitê fazem um relatório das reuniões afirmando as qualidades necessárias para que um jovem fosse contemplado com o crédito rural: “ explicou ainda sobre o crédito fundiário concedido aos jovens rurais, sendo escolhido quem for o verdadeiro sócio 4s dentro da comunidade, participando de reuniões, tanto técnicas como disciplinares, falou ainda onde estão localizadas essas terras para serem adquiridas pelo crédito fundiário” (ata nº18). Percebe-se que para poder ser beneficiado com o crédito fundiário não bastava somente ser um sócio do clube 4s, mas deveria ser participativo, deveria envolver-se nas atividades do clube.

21 Preferido Alto é uma comunidade do meio rural de Iporã do Oeste, município que se desmembrou de

Mondaí.

22 Segundo Camargo et.al. (2005), o banco da terra criado em 1998 e destituído em 2003, tinha como objetivo financiar o acesso a terra e aos investimentos de estrutura básica aos agricultores sem terra, jovens rurais, arrendatários, meeiros e posseiros. Era um fundo federal.

O Crédito Fundiário foi visto por muitas famílias como uma alternativa para que seus

filhos pudessem ter acesso à terra, nesse sentido o crédito era visto com bons olhos pela comunidade. No entanto, muitos ex-quatroessistas lembraram que nas décadas de 1970 e 1980, devido a inflação, não era aconselhável fazer empréstimos, o agricultor M.W, citado

acima lembra somente de um jovem que fez o crédito fundiário e conseguiu pagá-lo. Os líderes políticos municipais, bem como aqueles do legislativo estadual ofereciam doações em dinheiro aos clubes 4s. Talvez com interesses eleitoreiros já que o clube reunia um grande grupo de pessoas e tinha uma grande representatividade na sociedade. Tais repasses financeiros são abordados por diversas passagens nos livros de ata: “Em nome do prefeito Municipal de Mondaí foi entregue nas mãos do tesoureiro um cheque no valor de 10

Falou também sobre um cheque de um deputado ao comitê, e

que muitas passagens para congressos foram pagas” (Ata nº45). Os conhecimentos também eram repassados através de encontros como seminários locais, municipais e regionais. A participação dos quatroessistas era assídua, para tais

encontros eram escolhidos alguns líderes e aqueles que participavam dos seminários deveriam

expor seus novos conhecimentos aos demais sócios do clube: “

fizeram uma explicação sobre o seminário 4s realizado em São Miguel do Oeste, do qual eles participaram nos dias 29, 30 e 31 de julho de 1987. Onde participaram de palestras muito interessantes como: relações humanas, meio ambiente, ecologia, entre outros” (ata nº 55). Sobre os seminários, no capítulo IV são discutidas as questões ligadas ao ambiente.

A eficácia do trabalho da extensão rural se deu em grande parte em função do discurso

ritual. Buttelli (2007, p. 8) afirma que os ritos são capazes de definir a realidade, concebida socialmente, como algo inscrito na natureza das coisas, portanto, na irrevogabilidade das conseqüências dos ritos para quem os sofrem (são permitidos) e os que não podem sofrer. A modernização da agricultura, a partir do trabalho da extensão, passou a ser vista como algo irremediável e necessária para que a qualidade de vida melhorasse no meio rural. O processo de seletividade dos agricultores, era visto como algo natural do processo, as possíveis conseqüências ambientais do processo de modernização nem foram questionadas.

O repasse de conhecimentos técnico relacionados à modernização da agricultura era

feito aos agricultores principalmente através dos projetos, nos quais os agricultores aprendiam na prática o manejo das novas técnicas e tecnologias de produção.

mil cruzeiros (Ata nº 04)”. “

os sócios A. M., F.V. e I.K.

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3.2 Estratégias utilizadas nos clubes: Os Projetos.

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A metodologia adotada para a transferência de conhecimentos que promoveriam a Revolução Verde, baseava-se principalmente no desenvolvimento de projetos. O processo educativo da Extensão Rural no desenvolvimento desses projetos tinha suas idéias e metodologias baseadas na pedagogia do Consenso que, segundo Seiffert (1990, p.10), seria uma proposta educacional baseada na sociologia do consenso que encontra no funcionalismo sociológico, associado à teoria dos sistemas, seu principal desenvolvimento. Segundo a autora, Candido Gomes afirma que a imagem de sociedade decorrente dessa proposta tem a unidade baseada numa ordem moral como base da coesão social – consenso espontâneo.

Acreditava-se que o consenso sobre um novo modo de produção seria alcançado a partir do princípio de que as pessoas aprendiam a fazer, fazendo. Que recomenda ensinar a fazer, fazendo, é de indiscutível eficácia para quem pretenda realizar mudanças de hábitos, atitudes e habilidades, principalmente entre os pequenos e médios agricultores (OLINGER, 1996, p.17). Para “aprender fazer fazendo”, os quatroessistas deveria executar três projetos. O projeto individual de agropecuária ou economia doméstica, acompanhado de contabilidade simplificada, com acessoria técnica, dessa maneira o jovem era preparado para ser empresário rural. Esses projetos deveriam ajustar-se ao tipo predominante de exploração e aos problemas existentes na área. (ACARESC, s/d p.05). Os projetos coletivos, nos quais discutiam-se as novas técnicas de produção. E os projetos coletivos de ajuda a comunidade com o objetivo de integrar o Clube a comunidade (FURTADO et alii. 1996, p.66).

3.3.1 Projetos Coletivos

Os projetos coletivos consistiam em uma área de terra de um dos sócios ou da

comunidade, onde os extensionistas ensinavam a utilizar as novas tecnologias e técnicas de produção, faziam experiências quanto a melhor técnica e insumos que se adaptariam ao clima e solo regional, muitos também chamavam essa área de terra de Lavoura Demonstrativa.

o clube em conjunto tinha um projeto coletivo, esse era

maior e o extensionista orientava o que devia ser feito”. Dessa lavoura fazia-se a contabilidade objetivando comparar os modos de produção. Esses balanços financeiros da produção eram feitos em conjunto para que todos pudessem fazer uma avaliação da produção e da produtividade dessa nova maneira de produzir. O ex- quatroessista S.M. afirma que as anotações serviam para que se comparasse a maneira tradicional de produção com as novas técnicas e tecnologias, e que dessa maneira convenciam

Como afirma o agricultor M.W.: “

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os produtores de que a nova maneira de produzir poderia ser mais rentável, já que a produtividade por hectare de terra era muito maior. As sementes e parte dos produtos utilizados nos projetos coletivos eram trazidas pelos extensionistas (ex-quatroessista S.M.) tal fator também é abordado no livro de Atas: “As sementes utilizadas nessas lavouras demonstrativas eram trazidas pelos extensionistas minimizando, a princípio, os custos da lavoura” (ata nº14). A fala de S.M. evidencia a euforia em relembrar o passado, para o mesmo o trabalho da lavoura demonstrativa foi um marco na história que proporcionou melhores condições de trabalho no campo. Por outro lado também o novo modo produtivo divulgado pelos extensionistas, traz consigo um pacote de insumos a serem utilizados: semente híbrida, o inoculante 23 e o adubo químico.

Depois da colheita se fazia um comparativo com a maneira tradicional de plantar. Tinha uma premiação, tinha, mas eu não me recordo ao certo de como era. O negócio era o jovem que se interessava em fazer o projeto da lavoura demonstrativa ganhava a semente selecionada da ACARESC e plantava. Na época também se plantava soja, e os extensionistas traziam a semente selecionada e também aquele outro produto para colocar junto era o inoculante. Eles misturavam esse produto com à semente e plantavam. Esse produto captava o nitrogênio do ar para fixar no solo. Daí quando se fazia a colheita, se comparava a soja plantada de maneira tradicional o e aquela com inoculante, o milho aquele com adubo e o sem, e tudo isso era anotado. Daí depois se comparava, com isso eles provavam para nos que comprando a semente selecionada e comprando adubo você produzia mais e dava mais dinheiro. Na época se alguém falava em 100 sacos de milho por hectare, meus Deus, isso não existe. (S.M.)

Várias estratégias eram utilizadas para as demonstrações dos novos produtos modernos. O extensionista E.F. descreve como faziam experiências para avaliar quais as variedades de sementes híbridas que se adaptasse ao ambiente regional, além de testar também quais os adubos que proporcionariam uma maior produtividade. Além de usar essa estratégia para experiências também serviam para convencer o homem do campo a utilizar os insumos industrializados.

Nós fazíamos experiências, eu me lembro que uma vez nós plantamos seis mil metros quadrados com adubo químico, seis mil metros quadrados com adubação verde, seis mil metros quadrados com adubo orgânico. E assim os jovens viam qual era a melhor adubação para adotar em casa. E assim nós fazia com o milho, plantava em tantos metros variedade tal, em outra área variedade tal, ali só mudava a variedade de milho, a adubação era a mesma, e quando colhia nós pesávamos para ver qual variedade melhor produzia nesse tipo de solo. E com o passar dos anos a gente via a diferença da área plantada com adubação orgânica e verde para a de adubação química(E.F.).

23 Os inoculantes são utilizados para fixação biológica de nitrogênio (FBN) são produtos desenvolvidos a partir de bactérias do solo capazes de estabelecer uma associação com as plantas e possibilitar o fornecimento de nitrogênio a elas.

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Percebe-se que no ano de 1987, o clube teve dificuldades em conseguir uma área de terra para realizar o seu projeto coletivo, na mesma ata o uso de adubos químicos também é citado.

sobre os projetos que o clube 4s pretende realizar, explicou (o presidente do clube) sobre o problema de conseguir uma área de terra para se fazer os projetos, falou que tem duas áreas que estão em negociação. Se conseguirmos uma área suficientemente grande, faremos uma plantação de milho, batatinha e talvez sorgo. Para isso a terra deverá ser adubada. Torna-se necessário à colocação de calcário, superfosfato e uréia. (ATA nº 55 )

Os lucros dos projetos coletivos eram utilizados para a organização de viagens turísticas ou em ajuda financeira para que sócios do clube pudessem participar de cursos na cidade ou em outros municípios. A.M., ex-sócio do clube, conta como utilizaram os recursos da lavoura demonstrativa para fazer viagens turísticas: “Nos projetos coletivos tínhamos principalmente a lavoura demonstrativa, como por exemplo: plantávamos batatinha, uma parte era dividida entre os sócios e outra vendida para que o clube tivesse alguns recursos. Houve uma oportunidade onde plantamos uma lavoura e com o lucro nos fomos para praia”. As viagens, bem como outras atividades recreativas, serviam de atrativo e de estímulo para a participação dos jovens, já que as atividades de lazer no meio rural, até então eram escassas. Muitos jovens tiveram a oportunidade de conhecer o meio urbano nas excursões organizadas pelo clube.

3.3.2 Projetos Individuais.

Os projetos individuais versavam em aplicar em sua propriedade, ou de sua família, o que haviam aprendido nos projetos coletivos. Segundo Souza (2003) os projetos individuais poderiam ser voltados para a agricultura, pecuária ou economia doméstica, os jovens eram orientados a desenvolver trabalhos com milho, trigo, batata, feijão, horta, cebola, suínos, gado de corte e leiteiro. As jovens desenvolviam projetos relacionados à economia doméstica relacionados à alimentação, higiene, saúde e habitação. A extensionista A.F. conta quais os encaminhamentos necessários para o desenvolvimento do projeto. Diz ainda que esses trabalhos eram divulgados e expostos para a comunidade em geral:

O jovem se inscrevia na área que quisesse desenvolver o seu projeto, um podia se inscrever em indústria artesanal, outro na produção de milho. Depois eles apresentavam esse trabalho para os demais jovens, para nós da equipe. Agora eu não me lembro se era a cada ano ou a cada dois anos nos tínhamos o dia dos resultados onde se reuniam todos os clubes 4s orientados por essa equipe, era um dia festivo e ali então era feito a exposição dos trabalhos (figura nº 3.5). Era uma variedade muito grande de trabalhos, muitos até comercializavam e outros apenas colocavam em exposição a sua produção. Vinha gente de todo o município e era uma forma de divulgar os trabalhos dos clubes 4s. (A.F.)

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Figura nº 3.5 Exposição de trabalhos realizados pelos membros dos clubes 4s. Inicio da década de 1980. Fonte: Acervo: Acaresc de Mondaí

O agricultor M.H. também chama o projeto individual de “lavoura testemunha” já que através deste poderia avaliar se a produção “moderna” era melhor ou pior do que a tradicional. O termo: “lavoura testemunha” dá a conotação de teste, que a nova tecnologia seria testada nos projetos individuais e que aí estaria o resultado para quem, por uma eventualidade, quisesse questionar esses novos métodos e tecnologias de produção.

Muitas vezes também se fazia uma lavoura testemunha. Porque isso era no começo que se começou com semente de milho selecionada, com adubação, era um começo. E a lavoura testemunha do lado, porque o serviço era o mesmo, e o custo daquela mais aperfeiçoada é lógico que aumentava mais, mas a produção era muito maior. Então em cima disso ali, houve uma grande euforia de plantar com o adubo, nessa nova tecnologia (S.M.).

Os pais que em um primeiro momento sentiam-se ameaçados, pois o conhecimento relacionado a organização da produção passou a ser compartilhado com o filho e o saber que antes dava autoridade ao pai passa a ser questionado. No entanto, quando percebe o aumento

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da produção na “lavoura testemunha” e que essa produtividade poderia proporcionar maiores lucros e que essa modernidade poderia facilitar o trabalho, os pais se tornam mais propícios a aceitar as novidades. Souza estudou as ações do clube 4s do distrito de São Roque, Passo Fundo, os procedimentos e estratégias da extensão rural são recorrentes, afirma que o aumento da produtividade adquirida com as novas tecnologias na execução dos projetos individuais tinha impressionado os pais e a comunidade:

os resultados dos projetos dos jovens superavam as expectativas da média do município e agradavam os pais, que viam no trabalho uma forma de melhorar a renda da família . Dessa forma, os resultados positivos dos projetos garantiam a credibilidade dos clubes e faziam crescer o número de interessados em melhorar a

Observamos que a população

rural, em especial a juventude, tornar-se-ia portadora de cultura e um instrumento

eficaz de inovação se aderisse aos novos ensinamentos (SOUZA, 2003 p. 151).

produtividade mudando as atividades habituais. (

)

As orientações técnicas dadas aos participantes dos projetos permearam a utilização de fertilizantes químicos que aumentaram a fertilidade do solo e conseqüentemente obteve-se um aumento da produção, bem como melhorias nas atividades domésticas e na vida social, proporcionaram momentos de euforia aos agricultores (SOUZA, 2003). Entre os participantes dos projetos individuais eram escolhidos os melhores, o que servia de incentivo para que o jovem se dedicasse ao projeto, os premiados eram considerados aptos a tornar a agricultura catarinense mais desenvolvida, superando o atraso que em outro momento inferiorizava o homem do campo. Entre os inscritos havia jovens dos mais diversos clubes atendidos pela mesma equipe da ACARESC, entre eles eram escolhidos os melhores. Essa competição pode ter influenciado ou acirrado intrigas entre as comunidades como também ter colaborado na formação de jovens mais individualistas.

Na época tinha premiações para aquele que organizava a propriedade melhor. Aquela que estava mais bonita. Olhava-se a horta, o pátio, a casa. A lavoura, aquele que conseguia alcançar melhores resultados, conseguia fazer a proteção contra erosão mais completa, tinha o plantio das árvores. Até nos produzíamos as próprias mudas com a orientação do extensionista da ACARESC, eles tinham deixado nós também bastante animados a participar do clube (L.P.).

O jovem que desenvolvesse um projeto individual receberia a assistência técnica dos extensionistas, o que lhes servia de estímulo a participar dos projetos: “O presidente convidou a todos a fazer o projeto individual. Aquele que fizer um projeto individual receberá assistência técnica direta pelo extensionistas” (Ata n 01 de 1988). Souza (2003) também afirma que as sementes e adubos utilizados na “lavoura testemunha” eram fornecidas gratuitamente pela ACARESC ou por alguma indústria. Outra metodologia adotada para disseminar novos conhecimentos relacionados a Revolução Verde era a realização de seminários locais ou regionais. Nos seminários os projetos individuais também eram incentivados, pois nesse projeto o sócio 4s faria a sua

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experiência, aplicando as práticas que havia aprendido nos projetos coletivos, compararia resultados e avaliaria a necessidade de fazer ou não, desta ou daquela forma (II SEMINÁRIO REGIONAL DE JUVENTUDE RURAL 4S, 1982). Seiffert (1990) afirma que a atividade extensionista tinha o seu trabalho fundamentado

no princípio do “aprender a fazer fazendo”. Os projetos coletivos e individuais eram metodologias utilizadas para transferir uma nova cultura de produção e organização da propriedade, através desses métodos os extensionistas podiam ensinar mostrando e avaliar as novas técnicas e tecnologias a partir da demonstração de resultados. Os líderes como também a diretoria dos clubes nas reuniões mensais estimulavam os sócios a participar dos projetos individuais, salientavam a necessidade de se persistir e concluir o projeto pois somente dessa forma poderiam ponderar sobre as novas tecnologias. Novamente aborda-se a premiação dos melhores projetos como incentivo para o empenho do jovem agricultor e reafirma-se que os premiados seriam motivo de orgulho para a comunidade: “A seguir o líder dos líderes, faz um apelo aos sócios para concluírem seus projetos começados, mesmo sem terem um grande lucro depois, mas concluir para ver o

(Ata nº 25). “O repórter V. usou da palavra incentivando os sócios para

resultado”

participarem deste ano ainda com mais ânimo nos projetos individuais, como no ano passado, para terem um bom resultado e talvez no fim do projeto serem premiados com mais medalhas que no ano passado, que foi um orgulho para o clube de terem tantos sócios premiados” (Ata

nº33).

Souza (2003) diz ainda que o fato de os resultados das lavouras demonstrativas serem positivos contribuiu para que o trabalho extensionista, especialmente com a juventude, tivesse mais credibilidade e faziam crescer o número de jovens e famílias a adotar as modernas técnicas de produção agropecuária, o que contribuiu para concretização da Revolução Verde.

Os projetos individuais foram expressivos na difusão das modernas técnicas e tecnologias, essa experiência foi essencial para a formação de uma nova cultura de produção (SOUZA, 2003). Outra metodologia adotada pela extensão rural para obter respaldo entre os agricultores foram os projetos coletivos comunitários.

3.3.3 Projetos Coletivos Comunitários

Os projetos coletivos comunitários eram desenvolvidos em conjunto pelos sócios do clube, contribuindo na organização da comunidade. Acreditava-se que os projetos de ajuda a comunidade eram importantíssimos, pois através deles os sócios 4s estariam servindo a

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comunidade, aprendendo a conviver em sociedade e estariam aprendendo e praticando liderança (II SEMINÁRIO REGIONAL DE JUVENTUDE RURAL 4S, 1982). Através dos projetos comunitários o trabalho dos 4s contribuiu para que as atividades sociais comunitárias se fortificassem, passou a haver maior integração, deram força aos mutirões nas construções de entidades sociais comunitárias como capelas, salões comunitários, campos de futebol. Esses mutirões também responsabilizavam-se pelo ajardinamento e pela limpeza dessas entidades. Percebe-se que o espírito comunitário que esteve presente no processo de colonização, ainda era muito valorizado. É o que Hahn (2005) chama de capital social, persiste o espírito de organização e participação dos eventos comunitários que representa importante meio de integração e convívio. De certa forma, esses valores foram incorporados ao trabalho com os jovens. Esses projetos também consistiam em organizar o trânsito com placas de informação, construir paradas de ônibus, auxiliar na organização de promoções como: bailes, festas, excurções, torneios esportivos, como contam os extensionistas A.F. e E.F:

Da parte técnica também eram feitas ações comunitárias, tinha as casinhas para esperar ônibus (figura nº 3.6), o reflorestamento, o cuidado em terrenos da comunidade como ao redor da igreja, do clube, então se fazia os mutirões e os jovens participavam fazendo ações para a comunidade. Também o que era feito era promoções, lazer, como gincanas com tarefas da área técnica e também social. (A.F.)

Nos tínhamos três projetos fortes no trabalho com 4s, um era com a comunidade onde os jovens auxiliavam na organização da comunidade e isso era muito importante porque fortificava a organização comunitária e avia uma ajuda mutua entre os jovens e os adultos. Outra área que se trabalhou bastante foi a recreação, não era só baile, só festa, tinha também na área de excursões também para sete

quedas, para o Paraná, para praia

(E.F.)

O agricultor M. H. também lembra das ações que faziam nos projetos comunitários, salienta que o trabalho em relação ao trânsito era essencial (figura nº 3.7), tendo em vista a ausência do estado na organização do mesmo: Sinalização de estradas os clubes 4s faziam, porque na época não tinha nada, era tudo deserto. Pegava aquela tabuinha e escrevia em cima.

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Figura nº 3.6 Casinha para espera de ônibus. Fonte: Acervo da EPAGRI Mondaí.

para espera de ônibus. Fonte: Acervo da EPAGRI Mondaí . Figura nº 3.7 Placas de sinalização.

Figura nº 3.7 Placas de sinalização. Fonte: Acervo pessoal de José Hekler

Em relação as recreações realizadas nos clubes, Silva (2002), diz que o clube 4s foi além de um espaço educativo para o jovem rural: sua utilização podia ser também um mecanismo de sociabilidade, um espaço que possibilitava o encontro entre jovens, a diversão, o namoro, enfim o projetos eram também um espaço de sociabilidade.

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Através dos projetos comunitários o trabalho quatroessista passa a ter respaldo na comunidade já que através dessas atividades a comunidade se fortaleceu, isso contribuiu também para que os pais aceitassem as novas tecnologias. Souza (2003) diz que o projeto era a base principal do trabalho dos clubes 4s a exemplo dos clubes 4H’s dos Estados Unidos, um projeto bem conduzido significaria lucros e serviriam como comprovação de que o novo modelo de produção era bom, para os pais e a comunidade em geral. Bechara (apud Souza, 2003, p. 117) conta como o trabalho quatroessista convencia a utilizar as modernas práticas de produção:

O trabalho com a juventude rural, não visa somente a formação de uma mentalidade nova para daqui a alguns anos: mas é, também no presente, um trabalho de extensão. É ensinar a família através da juventude, ou os pais através dos filhos. Estimular, entusiasmar os meninos a plantar ou criar segundo métodos modernos não é difícil. Um prêmio, ou um divertimento qualquer fará com que se desperte esse entusiasmo. O ano agrícola passa facilmente. Em alguns meses teremos, por exemplo, uma cultura completa de milho plantado e colhido. E os olhos dos pais são sempre carinhosos para aquilo que os filhos fazem. Eles vêm e acompanham tudo o que os filhos executam; acompanham como brincadeira de criança. Mas, terminado o ano agrícola, quando os filhos colhem o produto de seu trabalho, os pais vêem com surpresa que os filhos, proporcionalmente, colheram muito mais do que eles, adotando novas práticas de plantio e cultura. Não é preciso, pois, dizer que a mudança será radical no ano seguinte. As experiências de semelhante trabalho em nosso meio têm demonstrado isto facilmente. (BECHARA apud SOUZA, 2003, p. 117)

Para alcançar as propostas da ACARESC, era necessário que a equipe de extensionistas formassem lideranças que fariam um trabalho intermediário entre os sócios do clube com a equipe de extensionistas.

3.3 Formação de Lideranças:

Os clubes 4s foram grandes formadores de liderança, a organização do clube que exigia a formação de diretoria e de líderes de projetos, fez com que muitos jovens se engajassem em organizações, muitos se tornaram líderes sindicais, de movimentos populares, líderes políticos e comunitários, percebe-se que a maioria desses nomes exercem muita influência na organização comunitária e municipal. Os líderes de cada Clube eram capacitados através de cursos, muitas vezes realizados em centros urbanos maiores. Os líderes tinham a função de desenvolver no jovem rural uma mentalidade de progressista, capaz de aceitar a orientação dos técnicos. (ACARESC, s/d p. 13) A extensionista A.F. salienta que a participação das diretorias dos clubes 4s estimularam o surgimento de lideranças que se destacam até hoje.

Todos eram estimulados a exercer cargos de lideranças, tinha a diretoria que fazia um planejamento das ações e na reunião ordinária apresentavam esse planejamento.

Tinha o presidente, o vice presidente, o secretário, e todos faziam o uso da palavra, servindo de estimulo para a oratória. Isso tudo fazia com que formasse lideranças, tanto que os jovens que participaram dos clubes 4s foram e ainda são lideres na comunidade (A.F.).

Os extensionistas deram ênfase a questão da liderança, na fala dos extensionistas

percebe-se que exercer liderança era fundamental para conquistar o poder: “

extensionistas explicaram sobre os tipos de líderes que aparecem dentro de uma comunidade. Depois explicaram o que é um líder autocrático, o democrático e o líder indiferente. E dando o significado de cada líder. Continuando falaram sobre o que uma pessoa normal quer: è ter poder” (ata nº 52).

Em um relatório do seminário municipal dos 4s está descrito o significado dos tipos de líderes citados pelos extensionistas: o autoritário seria o líder que atua com idéias próprias, é ditador e não ouve o interesse da maioria; o democrático expõe as idéias ao grupo e acata as idéias do grupo e prevalece a idéia aceita pela maioria; o indiferente atua indiferente a reação do grupo, para ele tanto faz como são feitas as coisas. Havia um grande incentivo para que os líderes quatroessistas fossem democráticos (IV SEMINÁRIO MUNICIPAL DE JUVENTUDE RURAL 4S). Em diversas reuniões percebeu-se que eram escolhidos representantes para

movimentos populares e também para concorrer a cargos públicos: “

presidenta I. B. pelo esforço no movimento das mulheres e pediu para que todas participassem das reuniões das mulheres agricultoras” (ata nº 45). Seguindo houve então a eleição de um representante para a comissão contra as barragens (ata nº 53), tal comissão vincula-se mais

tarde ao MAB- Movimento do Atingidos por Barragens. Em outra reunião escolheu-se também um representante para o comitê do sindicalismo. No ano de 1987, em algumas atas, de forma tímida, falou-se sobre um comitê pró-constituinte, inclusive na ata nº 48 pediu-se o apoio de todos para a venda de uma rifa a fim de custear as despesas desse comitê. A extensionista A.F. lembra a importância da participação da mulher nos clubes 4s, que essa formação proporcionou á mulher iniciar a sua luta para a conquista de seu espaço nas diretorias comunitárias, até então a mulher estava subordinado ao pai e ao marido, a participação da mulher em diretorias e nas decisões comunitárias era negada. È bem provável que muitas mulheres que participaram dos clubes 4s, mais tarde aderiram a lutas como: a libertação da mulher, sindicalização, documentação, direitos previdenciários (salário

participação política. Como lembra a extensionista A.F.

“Porque até assim, a participação da mulher, a mulher participava das diretorias, participava

das decisões e isso tudo era estimulado. Através do livro de atas também percebeu-se que a

maternidade, aposentadoria,

parabenizou a

os

),

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partir de 1984 a mulher passa a ocupar mais cargos na diretoria do clube, antes apenas o cargo de secretária era ocupado pela mulher”. Importante lembrar que a extensão rural teve seu auge no período da ditadura militar. Em busca do fim da ditadura, na década de 1980, parte significativa da igreja católica bem como da luterana luta por sociedade democrática. A agenda de lutas inclui diversos aspectos, como as transformações no meio rural. Como por exemplo passam a pregar que a reforma agrária é muito mais importante que o Crédito Fundiário, adquirido por participantes dos clubes 4s para comprar suas terras e afirmavam que tal crédito era apenas uma forma de mascarar a falta de interesse em promover a reforma agrária. As manifestações pelo preço justo dos produtos, a constituição dos movimentos sociais, como MMA, MAB, MST mostram claramente os projetos concorrênciais entre as igrejas e o estado. Há uma disputa pela visão de mundo e poder de imposição de divisão (Bourdieu, 1989). De modo geral, exigia-se a fidelidade a um ou outro projeto. O fato de rapazes e moças participarem das reuniões ordinárias de forma conjunta, é algo novo para aquele momento, a mulher nos clubes 4s consegue conquistar um espaço participando das diretorias e fazendo o uso da palavra durante as reuniões. Por outro lado, é importante lembrar que o trabalho continua separado, as atividades relacionadas a casa é serviço de mulher e as relacionadas a roça é serviço de homem, um exemplo disso são os projetos, os homens desenvolviam projetos relacionados a agricultura e pecuária e as mulheres a indústria caseira, reaproveitamento de alimentos, horta, corte e costura.

3.4 A Experiência

Recorrer a experiência vivenciada pelos integrantes dos clubes 4s torna-se fundamental para entender como a juventude rural, nas décadas de 1960 à 1980, construiu seus conhecimentos técnicos de produção a partir de uma transmissão de conhecimentos através dos trabalhos extensionistas. Renk (1996) escreve que os povos são agentes ativos no processo histórico de construção do mundo no qual estão inseridos, que as organizações sociais e culturais não são dadas, mas sim construídas. Recorrendo a Geertz (2004) diz ainda que a experiência é construída e as formas simbólicas nos termos dos quais ela é construída determinam sua organização própria. Dessa forma, torna-se fundamental valer-se dos relatos da experiência de ex-quatroessistas e extensionistas, de documentos, especialmente os livros de atas das reuniões e seminários dos clubes 4s, para entender a relação que se estabeleceu com o ambiente a partir dessa nova maneira de produzir.

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Thompson apud Renk (1996) afirma que muitas repetições do mesmo tipo de acontecimento ou acontecimentos inter–relacionados exercem influência sobre a consciência social, sendo assim, pode-se dizer que as atividades desenvolvidas pelos extensionistas influenciaram na maneira de pensar e agir dos jovens agricultores. Os entrevistados demonstrataram que a experiência dos clubes 4s influenciou em suas vidas. A.M. quando questionado se valeu a pena participar dos clubes 4s e como isso contribuiu para a sua formação, da a sua resposta convicto de que participar dos clubes 4s foi fundamental para a formação de lideranças, já que o acesso a escolaridade era baixo. “Na minha opinião valeu muito a pena, porque quem participava eram os filhos de agricultores, e na formação de lideranças, porque tinha diretoria, tinha tudo. Porque naquela época a escolaridade não era que nem hoje e para você formar um líder era bem difícil. Acho que ajudou muito na formação de lideranças” (A.M.). P. K. quando lembra dos clubes, o faz com sentimento de saudades, lamenta o fim dos clubes e diz que os jovens que tiveram a oportunidade de participar dos clubes 4s, tem uma vida diferenciada hoje, salienta que a formação de lideranças contribuiu para que essas pessoas se diferenciassem das que não participaram dos clubes 4s. Lembra ainda que os líderes políticos do município de Mondaí hoje eram aqueles que despertaram nos clubes 4s:

Eram bons tempos.

Um dos maiores incentivadores foi o governo Amim. Eles estavam bom tempo no poder.

Começou existir o outro lado da batalha, vai ser feito politicagem, queriam tirar eles do poder porque os clubes 4s eram grandes formadores de lideranças, quem participou ativamente naquela época hoje colhe os frutos, isso são fatos. Se esse trabalho tinha que se buscar um outro rumo, se fosse continuamente incentivado. A fundação do Clube em Linha Catres foi em 1982 e assim da para olhar na pratica, os filhos daquela época estão hoje na chefia, são grandes lideranças (P.K.).

O mesmo agricultor (P.K.), quando questionado sobre as novidades que os extensionistas trouxeram para a agricultura, conta que as novidades foram muitas, mas a principal, foi a oportunidade de despertar e descobrir que os jovens também poderiam influenciar nas decisões referentes a produção. O poder relacionado ao saber passa a ser compartilhado, o filho passa a ter conhecimento e dialogar com o pai, que antes detinha todo o conhecimento em relação á produção.

Naquele tempo tinha palha deitada e então o mais fácil era botar fogo, o esterco, não tinha esterqueira, então quando chovia ia tudo emborra e a partir daí essas coisas foram mais aproveitadas, o capricho no próprio plantio, aos poucos as coisas foram mudando, por que tu sabe como era antigamente o pai mandava e os filhos tinham que obedecer. O clube despertou muito o interesse do caminhar da própria juventude, começaram a descobrir a escolha de sementes (P.K.).

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Para S.M., os clubes 4s foram um “marco para a agricultura”, salienta que a metodologia utilizada pelos extensionistas através dos projetos, onde se desenvolviam a prática e a teoria, contribuiu de maneira decisiva para que a produção superasse seu atraso e se tornasse mais técnica:

Daí vinham os extensionistas e davam os cursos teóricos e depois cada um em sua propriedade fazia a pratica. Às vezes também alguém cedia a terra e daí os extensionistas vinham mostrar a pratica. Era teórico e prática, eu, em minha opinião, foi um grande avanço para a época. Isso nos anos 70, porque antes não tinha nada. Tudo era feito sem técnica. Então o que era os 4s, era a juventude, e eram muitos, pra mim os clubes 4s foram um marco para agricultura.

Em todas as entrevistas percebe-se que a experiência dos clubes 4s mudou a forma de agir e pensar dos jovens agricultores. Abordam que através desses clubes é que se formaram grandes lideranças, o aumento da produção através do uso de sementes híbridas também é bastante citado, a organização da propriedade e da parte financeira também é lembrada pelos entrevistados, o saber em relação a produção passa a ser dividido entre o pai e os filhos, essas mudanças entre outras, são mencionadas com grande ênfase pelos entrevistados. Costa (1996) diz que identidades, linguagem e significados são produtos da interação social, portanto os clubes 4s tiveram grande influência na formação dos jovens quatroessistas. Saíram várias lideranças. Um exemplo disso é o atual Vice-Prefeito de Mondaí: Valdir Malmann que já tem longa carreira política inclusive já foi Prefeito por duas gestões. Muitos outros ex-quatroessistas também seguiram carreira política e atuaram ou estão atuando como vereadores nesse município. Apesar da extensão ser uma política social, das lideranças podemos apontar a trajetória de x e y, que, de filhas de agricultores, líderes no 4s, tornaram-se professoras, o que significa liderança comunitária, e outras participantes dos clubes tornaram-se lideres no MMA, atualmente MMC. O que aprenderam e apreenderam não significa que, obrigatóriamente, continuassem na linha da modernização da agricultura. Ao contrário, o potencial das lideranças foi incorporado pelos movimentos sociais. Hoje uma das bandeiras do MMC é agroecologia e sementes crioulas. As trajetórias mostraram o rompimento de um mundo localizado para situações nacionais e inserção em debates cujas agendas são nacionais ou internacionais. Ao contrário de suas mães, que não saíram das localidades, elas tiveram possibilidades de construir movimentos, de expressarem suas idéias em sociedade.

Thompson afirma-se que as pessoas podem modificar velhas maneiras de pensar a partir da experiência, assim se expressa:

A experiência entra sem bater à porta e anuncia mortes, crises de subsistência, guerra de trincheira, desemprego, inflação, genocídio. Pessoas estão famintas: seus sobreviventes têm novos modos de pensar em relação ao mercado. Pessoas estão

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presas: na prisão, pensam de modo diverso sobre as leis. Frente a estas experiências gerais, velhos sistemas conceptuais podem desmoronar e novas problemáticas podem insistir em impor sua presença. Essa apresentação imperativa dos efeitos do conhecimento não está prevista na epistemologia de Althusser, que é a do recipiente – um fabricante não se preocupa com a gênese de sua matéria-prima, desde que ela chegue a tempo”(1981, p.17).

Guardadas as distâncias, Emília Viotti da Costa, em Coroas de glória, lágrimas de sangue – a rebelião dos escravos de Demara em 1825 (1998), vale-se da categoria experiência para analisar a rebelião. Os registro da rebelião consideravam os escravos apenas enquanto cifras. Não levavam em consideração que os escravos pudessem ter uma história, sua história. Como também nenhum dos lados apresentou narrativa que incluísse a experiência do outro (Costa, 1998, p, 15). “As histórias contadas pelos participantes revelam suas experiências individuais, seus sonhos e pesadelos. Suas narrativas revelam as percepções e o modo como organizaram suas experiências”. (Idem, ibidem.). A respeito das narrativas dos envolvidos num acontecimento, expressa a autora: “Suas afirmações [das pessoas] não são simplesmente declarações sobre a “realidade”, mas comentários sobre experiências do momento, lembranças de um passado legado por precursores e antecipações de um futuro que desejam criar”.(idem, ibidem).

3.5 A crise da extensão rural:

No final da década de 1980, a extensão rural pública entra em crise, crise essa que se insere num contexto de transformações políticas, sociais e econômicas por que passa o país.

Os anos 80, período que se convencionou chamar de década perdida, foram marcados, por um lado, pelo processo de abertura política e o fim do regime militar, e por outro, por uma profunda crise econômica, crise da divida externa, da balança de

pagamentos, crise energética e inflação galopante. [

da luta pela redemocratização do país exige que se repense o modelo de desenvolvimento implantado, retoma a bandeira da reforma agrária, cobra uma política agrícola voltada para os pequenos agricultores e produtos destinados ao mercado interno, exige tecnologias apropriadas e sustentáveis (GREGOLIN, 1999,

A sociedade mobiliza em torno

]

p.89).

O mesmo autor acrescenta ainda que no que diz respeito a políticas públicas temos um processo declinante especialmente no crédito agrícola, cria-se a política de garantia de preços mínimos para compensar a retirada de subsídios para a agricultura.

Além dessas mudanças no contexto econômico e político nacional, outras hipóteses para a crise da extensão rural são apontados, Gregolin (1999) enumera três causas determinantes para a crise da extensão rural:

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a) A drástica redução de recursos destinados ao crédito rural, o fim dos subsídios e a desvinculação oficial da assistência técnica.

b) O progressivo esvaziamento da proposta de transferência tecnológica oficial, como conseqüência da consolidação de uma modalidade de assistência técnica constituída pelos serviços oferecidos pela iniciativa privada, especialmente as agroindústrias integradoras.

c) O processo extremamente centralizado e antidemocrático de tomada de

decisões, sem espaço para a participação das associadas estaduais, e muito menos dos agricultores e o controle centralizado na execução das ações, resultou em grande perda de legitimidade e levou o sistema à burocratização, a ineficiência e à incapacidade de dar respostas às especificidades regionais e locais (GREGOLIN, 1999, págs. 91 à 93). O mesmo autor escreve ainda que, tais motivos, aliados à redução de recursos destinados à EMBRATER e o fato que a extensão Rural ser estatal, mas não efetivamente pública, fez com que esse modelo de transferência tecnológica da extensão rural entrasse em uma profunda crise, da qual sofre os efeitos até hoje. A transferência do serviço de assistência técnica e extensão rural para os municípios, segundo Santos (2001), acontece em 1991 com a lei nº 8245 de 18 de abril de 1991, sendo que o estado passa a ser o coordenador e os municípios os executores da política agrícola. Além disso, pelo Decreto nº1080 de 20 de novembro de 1991 fica constituída a EPAGRI _ Empresa de Pesquisa Agropecuária e Difusão Tecnológica. Durante a passagem do serviço de assistência técnica e extensão rural do estado para o município, o estado fez diversas exigências para não correr o risco que na municipalização da agricultura fosse utilizada por interesses politiqueiros.

Para que se efetivasse esse projeto de municipalização da agricultura, incluindo a passagem da equipe técnica, veículos e equipamentos para o âmbito do município, havia pré-condições que o governo do estado estabeleceu em conjunto com a

secretaria da agricultura. Na explicação contida nos depoimentos, para evitar que o prefeito passasse a dispor dessa equipe técnica para manipula-la e fazer politicagem, caracterizando o que os críticos chamavam de prefeiturização em função dos maus exemplos que ocorreram, foram tomadas algumas precauções e exigidas algumas condições. Uma delas era a criação por lei, pela Câmara de Vereadores, de um Conselho Municipal de Desenvolvimento Rural, que teria o

poder de deliberar sobre a política agrícola municipal.[

Também se exigia a

criação do Escritório Municipal da Agricultura, no qual seria alocada a equipe técnica da Secretaria da Agricultura, que poderia ser somada à do município. O Conselho teria de aprovar um Plano Municipal de Desenvolvimento que, dessa forma, iria espelhar a vontade da população rural. Essa equipe técnica e a estrutura municipalizada ficariam a serviço desse plano. (SANTOS, 2001 p.119)

]

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Na literatura relacionada a crise da extensão rural outras causas também são enumeradas: Olinger (1996) afirma que o Brasil não tem uma política agrária que atenda aos interesses da agricultura familiar; que o ensino das ciências agrárias formaram profissionais com um excedente de teoria e quase absoluta falta de conhecimentos práticos; a pesquisa agropecuária tem negligenciado a geração de conhecimentos para serem adotados pelos pequenos agricultores; os sistemas de fomento praticados pelo poder público privilegiaram indivíduos ou grupos que assumem compromisso político partidários; os pequenos agricultores sempre tiveram difícil acesso ao crédito; os pequenos agricultores precisam produzir o máximo para o consumo próprio e os excedentes comercializáveis são de pequena monta, normalmente vendidos para intermediários; a falta de uma reforma agrária com medidas que visam modificar as normas jurídicas, econômicas, técnicas e ambientais. Em relação ao trabalho específico da extensão rural, Olinger diz que tal serviço entrou em crise por não se ajustar ao sistema de planejamento; estratégias e métodos de ação; definição de prioridades; acompanhamento e avaliação dos resultados alcançados face aos objetivos programados. Com a criação da EMBRATER extinguiu-se a ABCAR, as associadas perderam as isenções fiscais o que significou uma grande perda orçamentária. No que diz respeito à área administrativa havia um excessivo número de funcionários, a falta de controle desses funcionários que, às vezes, praticavam serviços particulares; falta de avaliação do desempenho dos profissionais, falta de avaliação dos resultados alcançados junto aos agricultores; excesso de burocracia; deficiência na disponibilidade de meios de trabalho; tendência dos agentes permanecerem nos escritórios urbanos; evasão dos técnicos qualificados para outras organizações; falta de recursos financeiros; deficiência na metodologia utilizada, bem como deficiência na área técnica já que muitos professores da disciplina de extensão nas ciências agrárias nunca foram agentes de campo; falta de informações úteis aos pequenos agricultores. A escolha de dirigentes por influência política partidária sem levar em conta o perfil técnico administrativo. A falta de motivação para o trabalho extensionista e a falta de marketing dos trabalhos realizados pela extensão, também são abordados como fatores para o declínio do trabalho extensionista (OLINGER, 1996). Os extensionistas entrevistados abordaram fatores como a interferência da igreja, a falta de vontade política e o despreparo de novos extensionistas para o trabalho com a juventude rural, como principais fatores para a crise na extensão rural pública e também o para fim dos clubes 4s. E.F também menciona o fato de se ter poucos investimentos em pesquisa, fazendo com que as empresas privadas invistam mais em pesquisa e consigam trazer

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mais novidades para os agricultores: Os clubes 4s eram reconhecidos pelo trabalho que se fazia, mas aos poucos foi se perdendo o status, outro problema sério que nós temos no Brasil é que se investe muito pouco em pesquisa. “As empresas privadas chegavam antes com as coisas do que o pessoal técnico da extensão. Muita coisa que nós aprendia, não era coisa produzida aqui no Brasil, já vinha pronto, de empresas de fora” (E.F.). O agravamento dos problemas sociais e ambientais a partir da década de 1980, também põe o modelo de desenvolvimento em cheque. Se por um lado a revolução verde deveria suprir a necessidade de produção de alimentos, por outro continuamos com milhares de pessoas passando fome. A modernização também fez com que identidades étnicas, costumes, fossem esquecidos.

O dilema mais formidável que vivemos neste final de século é a contradição que o desenvolvimentismo nos oferece, exibindo uma realidade marcada pela desigualdade e pela degradação ambiental em escala planetária. De um lado um mundo assistido de técnicas e políticas públicas e de outro uma maioria empobrecida. Esta divisão se expressa particularmente pela diferença entre regiões, entre países, entre regiões dentro de um mesmo país, entre cidades e até mesmo entre bairros de uma mesma cidade. A destruição ecológica vivida pelos países do terceiro mundo é indissociável de um conjunto de processos de degradação social e cultural, em especial a desintegração das identidades étnicas e das solidariedades sociais dos povos. A aniquilação de seus valores culturais e a substituição de suas práticas tradicionais de uso dos recursos, adaptadas ao meio em que vivem por muitos anos de experimentação, por tecnologias alheias ao seu contexto ecológico e cultural, dissolveram os complexos dispositivos de coesão social que atuam na preservação dos mecanismos ecológicos de sustentação da base natural da qual depende a sobrevivência (SIMON, 2003 p.17).

O movimento ambiental, que historicamente enfrentava o poder hegemônico sem estratégias, se constituía por agrupamentos dispersos sem coesão e continuidade, a partir de 1990 traz consigo novos saberes e projetos alternativos de desenvolvimento. O movimento ambiental incorpora novas reivindicações às demandas tradicionais de justiça social, através da participação popular na gestão dos recursos produtivos das comunidades rurais e urbanas, transformando o desenho do poder e enriquecendo os processos de democratização.Nesse contexto se consolida a crítica à revolução verde e às correntes de pensamento que contribuíram na orientação teórica da modernização da agricultura. Crítica essa que se volta muito fortemente aos órgãos ligados ao Estado que serviram de instrumentos na estratégia de construção do padrão moderno de produção agrícola. Nesse sentido, a extensão rural recebe as maiores atenções por parte dos estudos contestatórios, por ter contribuído decisivamente como uma das políticas públicas utilizadas como ferramenta do Estado, na aplicação de um modelo que se mostrou brutalmente desigual (SIMON, 2003 p. 17 e 18).

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O mesmo autor salienta que a agricultura sustentável surge como uma alternativa á agricultura convencional criando a possibilidade de escolha de uma nova maneira de produzir ao agricultor.

Os debates acontecidos nos anos 70 sobre as questões ambientais, que revelaram a outra face do desenvolvimentismo no Brasil, influenciaram na construção de um contra enfoque para a agricultura convencional, criando a possibilidade de escolha de um novo caminho a ser seguido pelos agricultores como opção para um desenvolvimento: a agricultura sustentável. Entretanto a década de 80 se constituiria em profunda crise no Brasil e por conseqüência no meio rural, resumida por Santos (1997:32) como a década da dominação social. Os reflexos são sentidos ainda no início dos anos 90, com a extinção do serviço de Extensão Rural Nacional. (SIMON, 2003 p.18/19)

Os ex-sócios e extensionistas entrevistados acreditam que o trabalho com os clubes 4s terminaram por influência da Igreja Católica já que a mesma teria interesses em formar os grupos de jovens. Bruneau (apud Renk, 2000) assegura que durante a última década do regime militar, a igreja católica implementou a opção preferencial pelos pobres. Enquanto o estado autoritário estava voltado ao crescimento econômico, a igreja passa a envolver-se nos projetos que contemplasse as classes subalternas. Diga-se o mesmo em relação aos pastores da IECLB 24 . É importante lembrar que as Igrejas Católica e a ICELB, não podem ser tomadas monoliticamente. Trazem dentro de si frações concorrentes. Uma destas, a popular que enfrentou o estado apoiando os colonos. Um exemplo disso é que em outra hora a igreja católica mostrava-se a favor da modernização da agricultura (EIDT, 2006), ao contrário da década de 1980.

A igreja queria criar o grupo de jovens, e os clubes 4s terminou-se e para mim a maior culpada disso foi à igreja. É, e daí eles estavam contra o governo. Eles disseram o seguinte, a igreja disse o seguinte: vocês estão trabalhando para um grupo de estrangeiros, o grupo Rockfeller eles que estão por traz dos clubes 4s, eles que querem isso para o Brasil. Eu nunca tinha ouvido falar desse grupo. E a igreja dizia que eles é que produziam a semente. É a semente, o adubo, eles jogaram tudo em cima, que era eles que vendiam. Diziam que os agricultores iam gastar muito nessas coisas e eles iam ficar ricos. Aquele crédito fundiário, isso também foi motivo para uma briga com a igreja, porque ela queria a reforma agrária (M.W.).

Da Igreja católica cabe lembrar que da anterior adesão do catolicismo às políticas do Estado, durante e após a ditadura, uma fração faz opção por projeto popular e neste os jovens ocupam papel de relevância. Há, na verdade, uma disputa em torno da adesão dos jovens. É recorrente o fato de termos uma disputa de projetos entre a igreja e o estado. A igreja católica ligada a Diocese de Chapecó, fez opção por um projeto popular e contribuiu para o surgimento inúmeros movimentos sociais, muitos dos quais originários de pastorais, como MST, MMA (atualmente MMC), Sindicatos com plataforma populares, apoio à luta pelas terras indígenas. Algumas das pastorais e dos movimentos sociais abrigavam Igreja católica e a IECLB.

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A IECLB, segundo Sinner e Majewski (2005 p. 36), entre os anos de 1963 e 1967, procurava desenvolver projetos entre os agricultores, estimulando a formação de cooperativas, a adoção de técnicas agrícolas, tinham uma proposta desenvolvimentista, servindo para neutralizar movimentos preocupados com a reforma agrária. Em 1978 é criado o CAPA - Centro de Apoio ao Pequeno Agricultor, e passa a defender a reforma agrária e os movimentos populares de pequenos agricultores:

Em 1979 já se fala na reforma agrária como atividade prioritária da IECLB, ressaltando-se que o assunto já mobiliza a igreja há alguns anos. Porém, a efetiva e radical defesa da reforma agrária, bem como o apoio explícito ao MST (Movimento dos Sem-Terra) se dá com toda a força na década de 80, principalmente no ano de 1982, que teve como tema a terra, expresso no lema.Terra de Deus, terra para todos. Ao final do XIII Concílio Geral da Igreja, após ampla discussão, a IECLB redigiu um documento oficial e uma carta às comunidades na qual defendia abertamente as associações populares, movimentos de classe, o CAPA, os movimentos no espírito de não-violência, o Estatuto da Terra, a Comissão Pastoral da Terra, o modelo simples de vida, a reforma agrária e a continuação dos debates sobre o assunto dentro da IECLB, para a conscientização (SINNER e MAJEWSKI , 2005 p. 37)

Souza (2003) escreve sobre a importância da igreja na aceitação dos clubes-4s já que a mesma teria o poder de aglutinar as pessoas do meio rural pela forte devoção religiosa. No entanto, segundo Silva (2002), a região oeste de Santa Catarina foi um lugar onde a Igreja católica mobilizou os agricultores discutindo os objetivos e a função dos clubes 4s, contribuindo para que os clubes terminassem as suas atividades. No livro de Atas do Clube Sentinela do Uruguai, percebe-se que já em 1984 havia a intenção de integrar o grupo de jovens ao clube 4s: “P.I. pediu para que a diretoria do grupo de jovens fizesse uso da palavra para acrescentar algo sobre a juventude e seu movimento. O presidente do grupo de jovens M.B. saudou a todos e convidou o jovem L.S. para falar sobre a reunião de comarca em São Carlos e o que foi tratado na reunião (ata nº40)”.

Essa iniciativa de reunir os dois grupos não obteve sucesso, apenas duas reuniões foram realizadas em conjunto. Ao ler as atas observou-se que após 1985 hà um certo “esvaziamento” dos clubes 4s, os trabalhos não são mais feitos com a mesma euforia e também com uma participação bem menor de jovens.

Por outro lado, é importante lembrar que o temor do “campo vermelho”, ou seja, o temor das elites de que os agricultores se tornassem adeptos ao comunismo, já deixara de existir, pois no final da década de 1980 o comunismo entra em crise. As políticas públicas antes voltadas aos pequenos agricultores passam a priorizar a produção de exportação em grande escala.

Outro fator abordado pelos entrevistados foram as questões políticas partidárias à nível estadual, bem como municipal sendo que líderes dos 4s se envolviam na política partidária municipal, candidatando-se a vereador ou trabalhando como cabo eleitoral, criando um certo desconforto no clube. Os prefeitos do município de Itapiranga eram nomeados, pois era considerada área de fronteira. Mesmo assim, havia o bipartidarismo Arena e MDB, que criou, de ambos os lados, profundas rivalidades. Já em Mondaí os prefeitos eram eleitos. Percebe-se ainda nas falas dos agricultores um sentimento de abandono por parte dos

extensionistas passaram a trabalhar mais nos escritórios e não vieram

extensionistas. “

mais para o interior. O grupo também terminou porque começou muita politicagem. Você também pode ver que muitos que eram líderes nos clubes 4s, hoje também estão na política” (I.K.).

os

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O enfoque educacional do trabalho de extensão foi substituído pelo econômico, o caráter assistencial perdeu seu sentido e ocorreu uma redefinição do público atendido pela extensão, na região que Souza (2003) pesquisou os clubes 4s pararam de funcionar, pois houve uma dispersão dos jovens, sendo que alguns passaram a participar dos grupos de jovens da Igreja; outros foram estudar na cidade, e os agricultores estavam envolvidos em outras atividades no meio rural, como sindicato dos Trabalhadores Rurais, lideranças nas igrejas, no que diz respeito à assistência técnica podiam contar com a cooperativa. O mesmo também aconteceu na região oeste. Simon (2005), aborda que atualmente a Epagri passa a questionar o desenvolvimentismo e através dos projetos microbacias passa a ter uma caminhada agroecologica. Acredita que a extensão rural pública e estatal viveu e ainda está vivendo um processo de transformações no enfrentamento dos problemas demandados por uma relação sociedade natureza mais complexa. Percebe-se que a exemplo de outros clubes 4s, os clubes da região durante os anos iniciais tiveram um crescimento extraordinário, e a experiência dos quatroessistas marcaram suas vidas no que diz respeito a organização social, produção agrícola e concepção de ambiente, o que será discutido no próximo capítulo. Mas após esse período, por várias razões acima discutidas, especialmente para se adequar às exigências feitas por pressupostos de um modelo de desenvolvimento mais sustentável, o modelo de extensão que pregava a agricultura “moderna ou industrializada” entra em declínio e passa por profundas mudanças em suas concepções teóricas metodológicas e instrumentais (SIMON, 2005 P. 20).

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No próximo capítulo discute-se a atuação da extensão rural em relação à concepção de ambiente entre as décadas de 1960 e 1980. Atividades que marcaram os jovens quatroessistas e que contribuíram para a situação ambiental atual.

CAPÍTULO IV

A EXTENSÃO, AMBIENTE E AMBIGÜIDADES.

A região oeste catarinense que depende da agricultura, tem sido particularmente

afetada pelo esgotamento dos recursos naturais, especialmente a água e o solo, através do uso de tecnologias inadequadas e voltadas para o mercado de exportação, em detrimento de sistemas diversificados, característicos da agricultura familiar outrora chamado de agricultura

camponesa nesta região, não podemos esquecer que a vida social e o artesanato praticados no período anterior a 1960 sofreram profundas alterações. Esse fator aliado à ação diferenciada do serviço de extensão rural estatal tem tomado novos rumos a partir da década de 1990, quando se tem uma ação mais voltada a sustentabilidade da pequena propriedade rural, faz- nos discutir nesse capítulo as ações da extensão rural durante a década de 1960 a 1990 relacionadas ao meio natural, que contribuiu para a atual situação. Analisar novos comportamentos, condutas e costumes frente ao ambiente a partir do trabalho realizado pelos extensionistas através dos clubes 4s também é objetivo desse capítulo.

4.1 O Aumento da Produção

O modelo estadunidense de extensão rural, o qual objetivava transferir idéias que

impulsionassem o uso de variedades altamente produtivas, insumos químicos, além da mecanização agrícola para um aumento da produtividade provocou sérios impactos ambientais. Gregolin (1999), escreve que esse modelo de extensão rural teve um importante papel no chamado “salto” à modernidade no meio rural, processo que impactou fortemente no aumento da produção e produtividade, mas que deixou profundas seqüelas socioeconômicas e ambientais. A concentração da terra e renda, a exclusão de milhões de trabalhadores que incharam as cidades, a destruição do solo, florestas e contaminação ambiental são algumas das conseqüências negativas de tal modelo.

O aumento da produtividade por área plantada foi um grande incentivo para que os

agricultores adotassem essa nova maneira de produzir, já que antes essa produção se dava em

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pequena escala, com a adoção das novas técnicas e tecnologias de produção a produtividade dobrou em alguns casos até triplicou, criando a princípio um sentimento de euforia entre os colonos. No entanto, esse processo de aumento da produtividade é um dos causadores dos problemas sócio-ambientais vividos hoje. Um ex-sócio do clube 4s faz uma comparação entre a produtividade antes e depois do uso das técnicas difundidas pela extensão rural, em sua fala percebe-se também a euforia com o aumento da produção.

o objetivo da ACARESC, dos clubes 4s, era aumentar a produtividade, porque na

época se colhesse 30 ou 40 sacos de milho por hectare, tudo bem. O que nos fazia,

só virava a terra e plantava, era só o nosso serviço, não tinha despesa, mas depois nos começamos a colher 80, 100 sacos de milho por hectare. Meu Deus colher 100 sacos por hectare, hoje a tecnologia evoluiu, se fala ate em colher 200 sacos por hectare. Mas na época se duvidava que fosse colhido 100 sacas por hectare, e o pessoal provava que era possível. Para mim o clube 4s foi um marco em termos de

tecnologia para a nossa agricultura

(S.M.)

O processo de incremento da produtividade dentro da indústria agroalimentar depende

da utilização de pesticidas químicos, fertilizantes, sementes híbridas ou geneticamente modificadas, entre outros e que essa produção, além dos impactos sociais e econômicos, esta trazendo conseqüências negativas para a qualidade da água e dos solos (LEFF, 2003, p67). Outras causas da crise enfrentada pelos pequenos produtores rurais do extremo-oeste de Santa Catarina são abordados por Renk (2000 p. 45), fatores esses apresentados por técnicos agrícolas que atribuem essa crise aos seguintes motivos: à distância dos mercados consumidores, a escassez de terras férteis, o esgotamento da fronteira agrícola, a estrutura fundiária pulverizada, além da alta densidade demográfica. “A ação conjunta desses fatores

gerou um quadro de descapitalização de significativa parcela dos estabelecimentos agrícolas”. Além desses impactos, é importante lembrar que o uso dessa tecnologia proporcionou lucros para as grandes companhias multinacionais, a Revolução Verde é um sistema complexo e muito bem concebido para a dominação industrial, e que aumentou a dependência dos países subdesenvolvidos em relação aos países centrais. (ACARESC, 1981, p.05).

O êxodo rural, provocado pela crise, vem diminuindo o contingente populacional dos

pequenos municípios do oeste de Santa Catarina, esse processo ou a crise vivenciada pela população oestina é principalmente devida a descapitalização e ao esgotamento dos recursos naturais, (RENK, 2000, p. 47) Acredita-se que essa crise é uma conseqüência do processo de modernização da agricultura na região, que se solidificou com a formação de uma cultura tecnicista, promovida pelo estado, através da extensão rural que viabilizou o uso do Pacote Tecnológico 25

25 Conjunto de técnicas e procedimentos agronômicos que se articulam entre si e são empregados em uma lavoura ou criação (ZAMBERLAM et al. 2002).

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aprofundando mudanças relacionadas ao modo de produção, definidos como prioritários e ao apelo a produção e a produtividade (GREGOLIN, 1999 p. 87). As novas técnicas e tecnologias que visavam o aumento da produção eram repassadas de forma oral nas reuniões dos clubes como também nas visitas dos extensionistas às propriedades, além disso, distribuíam cartilhas ilustrativas que deveriam orientar o plantio. Na fala dos ex-sócios dos Clubes 4s percebe-se uma contradição quanto ao incentivo ou não dos modernos insumos agrícolas. Se por um lado os agricultores entrevistados lembram que o serviço de extensão através dos clubes 4s não incentivavam o uso dos modernos insumos agrícolas, alguns deles afirmam que recebiam orientações para o uso de sementes híbridas: “para os projetos eles traziam as sementes, mas aquelas que nos usava em casa tinha que comprar, mas os extensionistas orientavam qual era para comprar (M. V.)”. Por outro lado, nas cartilhas que orientam a plantação de diversas culturas, distribuídas aos jovens quatroessistas para que esses executassem seus projetos individuais, ficava explícito o incentivo para o uso de agrotóxicos e outros insumos na produção. Um exemplo disso é a cartilha sobre a cultura de batatinha (figura nº 4.1 e 4.2) que indica todos os passos necessários para a plantação dessa cultura. Nos primeiros quadros da figura nº 4.1 percebe-se que entre as exigências feitas para a execução do projeto individual a análise da terra e a partir dessa análise o produtor era orientado a adubar a terra, além da calagem muitas vezes indicava-se outros adubos químicos para serem usados na propriedade. Para a plantação orientava-se o agricultor a adquirir somente a semente certificada já que essa renderia mais, seria mais resistente às doenças e pragas e as batatas teriam uma aparência melhor e conseqüentemente com mais valor no mercado. Na figura nº 4.2 de exigências para a produção de batatinhas podemos observar que as pragas e doenças deveriam ser combatidas com o uso de agrotóxicos, na página 16 da cartilha há uma lista dos inseticidas e fungicidas que deveriam ser utilizados para combater as pragas e doenças da plantação de batatinhas. Tais agrotóxicos são apontados atualmente como verdadeiros vilões no que diz respeito a poluição ambiental e a perda da biodiversidade, acredita-se que tais venenos sejam causadores de doenças que põe em risco a vida de várias pessoas. Nas duas figuras fica evidente a necessidade que o planejamento, a organização da propriedade, a racionalidade na demarcação da terra onde se irá produzir, no espaçamento entre as plantas, bem como o trabalho, são fundamentais para o aumento da produtividade.

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Portilho (1999) afirma que a organização defendida pelos extensionistas é adequada as necessidades de um mundo onde impera a racionalidade do planejamento, da ordem e do trabalho. Diz ainda que esses conceitos estão entrelaçados e servem para referendar o principio capitalista de investimento no capital humano como fator de aumento da produtividade e da produção. A Natureza deixa de ser fonte de significação e de vida para se converter em fonte de matérias-primas que alimentam a cumulação do capital (LEFF, 2000 p.

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que alimentam a cumulação do capital (LEFF, 2000 p. 96). Figura nº4.1 Exigências para o Cultivo

Figura nº4.1 Exigências para o Cultivo da Batatinha Fonte: Cultura da Batatinha Guia de Projeto 4s (1964)

Os extensionistas quando questionados sobre o incentivo ao uso das novas tecnologias e técnicas da revolução verde disseminados nos clubes 4s, respondem na defensiva, até concordam que o serviço de extensão surgiu com esse propósito, mas abordam que não são os únicos culpados pelos problemas ambientais causados pelo pacote tecnológico. Salientam que esse conhecimento na época era tido como o ideal para superar o atraso na agricultura brasileira e que as possíveis conseqüências desse modelo agrícola não eram questionados ou discutidos.

Olha, na época eu até acredito que sim, porque a extensão como todo na época tinha como objetivo divulgar as novas tecnologias, inclusive a semente híbrida. Era uma inovação, era a revolução verde, então em muitas unidades foram utilizadas sementes

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híbridas, adubos químicos. E o jovem ele tem desejo de coisas novas, ele quer aprender coisas novas, então ao mesmo tempo que se utilizou essas tecnologias, também se aprendeu muito coisa boa. Hoje essas tecnologias são vistas como um ponto muito negativo, com certeza não se utilizou essas novas tecnologias como uma visão de futuro, nós não imaginávamos na época os pontos negativos do uso desses tecnologias novas. Era o que tinha de tecnologia no momento e era bom e não se fazia uma avaliação: e as conseqüências. Não se tinha essa visão, essa perspectiva (A.F.).

A extensionista acrescenta ainda que a extensão foi uma arma poderosa para disseminar essa nova tecnologia, pois ela estava em todos os municípios do estado e tinha uma equipe bem estruturada, uma equipe para trabalhar especificamente com o jovem e outra para fazer outras atividades: “Nós fazíamos um trabalho junto aos jovens de discutir as técnicas, nós não dizíamos: você tem que usar essas novas técnicas e tecnologias nos discutíamos com eles. Nós recebíamos uma pressão para insistir, mas não procurava fazer” (A. F.).

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Figura nº4.2 Exigências para o Cultivo da Batatinha Fonte: Cultura da Batatinha Guia de Projeto 4s (1964)

Já o extensionista J. H. responsabiliza os colégios agrícolas e universidades pela disseminação das técnicas e tecnologias de produção pregadas pela Revolução Verde:

Nesses dias, conversando com um professor universitário ele disse que nós extencionistas éramos os culpados pela Revolução Verde e que nós fizemos os agricultores utilizar as tecnologias e técnicas do pacote tecnológico. Daí eu disse para ele que era para repensar um pouco na época o que se repassava nos colégios Agrícolas, nos cursos de Agronomia, nas Universidades era a Revolução Verde que dessa forma iríamos melhorar o Brasil (J. H.).

Não cabe aqui encontrar culpados ou inocentes, mas se torna importante discutir o trabalho educativo informal feito pelos extensionistas que contribuiu ou não para a formação de uma cultura tecnicista.

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O que se percebe que a natureza pouco acumulativa das economias camponesas que desenvolviam a sua produção rural em economia de auto-subsistência, que integravam valores culturais orientados por objetivos de estabilidade, prestígio, solidariedade interna e satisfação endógena de necessidades, assim como de distribuição e acesso eqüitativo da comunidade aos recursos ambientais (LEFF, 2000). Foi substituída por uma cultura de produção que capitalizou a renda do solo, uma mercantilização dos produtos agrícolas que passaram a gerar uma maior pressão sobre os recursos naturais, Rambo (2007) salienta ainda que com as modernas técnicas de produção o individualismo preponderou, às regras, ao bom senso, à moral, que deram lugar a competição pela melhor produção. Paralelamente a difusão do pacote tecnológico, percebeu-se que já havia uma grande preocupação em relação à erosão do solo decorrente das condições naturais adversas já que na região há uma predominância de solos rasos e pedregosos além de termos uma topografia muito acidentada. Essa erosão poderia por em risco o aumento da produtividade, por isso se fez necessário difundir técnicas de conservação do solo.

4.2 As Técnicas de Contenção da Erosão do Solo

A preocupação em relação a fertilidade do solo na região oeste catarinense é antiga. Um dos problemas que mais contribuem para essa a perda da produtividade na agricultura é a erosão do solo. O solo da região caracteriza-se por ser raso e pedregoso, isso aliado ao desmatamento e ao fato da topografia da região ser muito acidentada, contribuiu para um processo acentuado de erosão do solo. Testa et alii (1996) afirma que devido a essas características o solo da região é impróprio para as culturas anuais, em função disso a erosão do solo é um problema ambiental que inquieta os agricultores desde a década de 1970. Em relação a erosão do solo, através dos clubes 4s, tivemos várias iniciativas, com o desenvolvimento de práticas para conter a erosão como: taipas de pedra, as curvas de nível com o plantio de cana de açúcar, capim falares, terraços, patamares e o cultivo mínimo ou plantio direto. O extensionista E.F. acrescenta que procuravam explicar a importância da conservação do solo para que os jovens entendessem a sua importância, e lembra mais uma vez o porquê do trabalho com os clubes-4s ser com o jovem, já que os eles eram mais propícios a aceitar o novo:

Sobre a conservação do solo fazíamos as taipas de pedra, plantações em curva de nível, plantio direto e principalmente procurávamos fazer conhecimento, explicávamos o porque da conservação do solo, a importância do solo. Calagem, análise do solo, uma coisa bem técnica. Não foi fácil, principalmente o plantio direto, teve épocas que o milho já estava pronto para colher e ainda tinha gente que passava

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no meio para arrancar os inços que ficavam. Porque quanto mais limpo o solo, na concepção deles, era melhor, e então você imagina eles que eram acostumados a mexer a terra, a lavrar todo ano, dali a pouco chegar para eles dizer que não era mais para lavrar. Mais eu digo assim, muito mais fácil moldar, não sei se essa é a palavra certa, mas educar um jovem do que os adultos que já tem uma idéia formada (E. F.).

Outro aspecto importante da fala do extensionista é a menção ao plantio direto, percebe-se as dificuldades de introduzir as novas técnicas. Há uma necessidade de que o agricultor desconstrua o seu conhecimento em relação a produção agrícola e tenha uma nova

maneira de pensar em relação a “limpeza” de sua propriedade. O agricultor precisa modificar

o seu saber, aquilo que para ele era certo até aquele momento é tido pelo novo modelo de

produção como errado, o produtor precisa mudar a sua maneira de pensar e agir frente ao seu

cultivo.

Observando as imagens nº 4.3 e 4.4, percebe-se que a erosão do solo era um grande empecilho para o aumento da produção e da produtividade. Talvez, por isso, as técnicas de contensão da erosão do solo tenham sido tão enfatizadas pelos ex-sócios dos clubes 4s. A maioria dos entrevistados lembra os trabalhos realizados em relação a conservação do solo,

acreditam que se esse trabalho não tivesse acontecido a maior parte da terra seria improdutiva.

O que se percebe a partir da fala de Z.S.: “Eles ensinavam a fazer a curva de nível e plantar

cana de açúcar, e eles diziam que se nós não fizesse isso, daqui uns anos nos ia ter só a escritura da terra, a terra vai embora e eu nunca mais esqueci, ficava imaginando a terra ir embora e eu com a escritura na mão”.

ficava imaginando a terra ir embora e eu com a escritura na mão”. Figura nº 4.3

Figura nº 4.3 Erosão do solo na década de 1970.

Fonte: Acervo pessoal de Euclides Faé.

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Fonte: Acervo pessoal de Euclides Faé. 9 Figura nº 4.4 Erosão do solo na década de

Figura nº 4.4 Erosão do solo na década de 1970. Fonte: Acervo pessoal de Euclides Faé.

M.W. também fala da importância desse trabalho e acrescenta que muitos agricultores eram descrentes no que diz respeito ao plantio direto:

a fazer o terraceamento para conter a água. Não resolveu mais

amenizou o problema. E também já começaram a falar sobre cultivo mínimo e plantio direto. Mas o pessoal não acreditou que era possível. Em suma dá para dizer que se não fosse esse inicio, nos estaríamos passando fome. Porque o pessoal simplesmente lavrava a terra e a terra fértil ia tudo embora. Eles chamavam atenção para isso. A terra é o maior valor que nos temos e temos que cuidar dela”.

aprendemos “

As técnicas para a conservação do solo eram demonstradas nos projetos coletivos, a aplicabilidade dessas técnicas na propriedade dos jovens era acompanhada pelos extensionistas. Para orientar os jovens a desenvolver essas técnicas distribui-se cartilhas ilustrativas. As principais técnicas citadas pelos entrevistados e descritas nas cartilhas eram:

a) Terraços; b) Patamares; c) Plantio direto. Terraços Um terraço era um valo raso e largo construído quase em nível e que recebe a água da chuva que escorre do terreno acima dele (figura nº 14). O plantio deveria ser feito em nível, acompanhando o terraço, afirmava-se que a própria plantação quebraria a força da água e não

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deixaria que ela corresse com muito velocidade, evitando assim o carregamento da terra pela água (PUNDEK, 1979).

assim o carregamento da terra pela água (PUNDEK, 1979). Figura nº 4.5 Terraços Fonte: Pundek (1979)

Figura nº 4.5 Terraços Fonte: Pundek (1979)

Nas cartilhas de orientações, Pundek (1979) também descreve as distâncias necessárias entre os terraços. Orienta os agricultores a utilizar o terraço como prática de conservação do solo nas terras com inclinação até os 25%, e para medir essa inclinação sugere

a utilização do pé de galinha 26 . As dimensões do valo do terraço e os passos para a construção do terraço são descritos e ilustrados pelo manual.

a)

Patamares

Os patamares são terraços largos, sem canal, formados como se fosse um degrau de uma escada (figura nº15). Essa técnica é utilizada em terrenos com inclinações de 26% até 35%, também medidas pelo pé de galinha (PUNDEK, 1979). Talvez por isso os entrevistados citaram mais as práticas em relação aos patamares.

26 Um aparelho para medir a inclinação do terreno. No próprio manual de conservação do solo estão as instruções de como construí-lo e utiliza-lo.

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Figura nº4.6 Patamares. Fonte: Acervo pessoal de Euclides Faé

A largura entre os patamares, bem como os passos para a construção dos patamares também é descrita e ilustrada na cartilha de conservação do solo. o plantio de cana de açúcar, erva cidreira, o capim elefante e o capim napier deveria ser feito nos patamares, pois segundo Pundek (1979), essas plantas seguram a terra contendo a erosão do solo. Outra maneira de formar o patamar é fazendo taipas de pedra (figura nº 4.7). As taipas de pedra foram muito utilizadas na região pesquisada, já que os agricultores limpavam a terra, utilizando as pedras para a contensão da água e do solo. Os entrevistados também lembram que para fazer as taipas de pedra trabalhavam em mutirões, os sócios dos clubes 4s se reuniam na propriedade de um agricultor e o ajudavam a construir a taipa de pedra, já que esse era considerado um trabalho cansativo, abordaram que o trabalho em grupo era estimulante e que criava um vínculo de compromisso com os outros sócios do clube: “quando os outros precisavam de ajuda para fazer as taipas, nos tinha que ajudar, porque eles também vinha nos ajudar” (N.W.).

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Figura nº4.7 Mutirão para a construção de Taipas de Pedra. Dec. De 1970 Fonte: Acervo pessoal de Gertrudes Janssen

b) Plantio Direto

A técnica do Plantio Direto é um sistema de manejo do solo no qual a palha e os restos vegetais são deixados na superfície do solo com o objetivo de reduzir a erosão, melhorar as condições físicas e de fertilidade do solo, aumentar o teor de matéria orgânica, nutrientes e

água armazenada no solo (SECRETARIA DE AGRICULTURA E ABASTECIMENTO DE SÃO PAULO). A técnica do plantio direto foi citada pelos ex-sócios e extensionistas que trabalharam com os Clubes 4s, no entanto, no material didático produzido pela ACARESC para orientar os sócios dos clubes 4s essa técnica não é citada. Imagina-se que essa técnica tenha sido desenvolvida no final da década de 1980 ou inicio da década de 1990, quando o serviço de extensão rural passa por uma fase de transição já discutida no capitulo III. Nos manuais de conservação do solo está exposto que as terras com uma inclinação maior de 35%, não deveriam ser utilizadas para a agricultura e sim para o reflorestamento. Quanto ao reflorestamento também há muitas citações entre os entrevistados, bem como um material didático em relação á essa atividade.

4.3 O Reflorestamento

A extração de madeira na região extremo-oeste de Santa Catarina com a chegada das empresas colonizadoras, a retirada das matas iniciou nas margens dos rios e a medida em que

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expandiam a ocupação retiravam as madeiras encontradas nessas terras. Cancian (apud CARVALHO e NODARI, 2007, p. 274) faz uma descrição da derrubada da mata pelos agricultores no Paraná, descrição essa que se assemelha a atividade extrativa da mata ocorrida na região oeste de Santa Catarina: “O primeiro ato do cultivador não é lavrar a terra, mas desflorestar. Começa-se pela roçada, isto é, a limpeza à foice da subfloresta que se efetua em maio; deixa-se durante algumas semanas, de maneira a cobrir o solo com um leito de plantas bem secas, o facho; depois vem a derrubada, que consiste em por abaixo as árvores”. Nos anos iniciais da colonização as terras eram avaliadas pela quantia de mata que ainda dispunha, aquela com pouca floresta, ou seja, a limpa custava mais do que a área com mata, o que incentivou a retiradas das florestas (CARVALHO e NODARI, 2007, p. 275). A mesma autora ainda salienta que manter a terra limpa, sem mato, era uma forma que ajudava a confirmar a posse ou a propriedade. Segundo as autoras, a floresta era vista pelos agricultores como “nada”, era um obstáculo a ser superado, um nada, um marco zero a partir do qual se constrói a história da realização de se tornar proprietário rural. O desmatamento aliado a topografia acidentada da região foi outro grande causador do processo erosivo do solo. Entre as atividades de conservação do solo inseriu-se o reflorestamento. Tal iniciativa foi marcante, pois se percebe na fala de todos os entrevistados a lembrança relacionada ao reflorestamento. Através do trabalho realizado pelos clubes 4s é que se iniciou o plantio de árvores exóticas na região principalmente o eucalipto (Eucaliptus spp) e a uva do Japão (Hovenia dulcis), espécies que se adaptaram a essa região e muito bem se desenvolveram. Plantar eucaliptos era considerado bonito, pois eram homogêneos e plantados em carreira, esse plantio não se assemelhava a floresta encontrada na época da colonização. O plantio de eucaliptos também obteve sucesso pois eram plantados em áreas que não fossem adequadas para o cultivo, essas deveriam ser utilizados para o reflorestamento, mas um reflorestamento que pudesse proporcionar lucros a médio prazo, para isso era necessário plantar uma espécie de fácil cultivo e rápido crescimento. O ex-sócio C.M. conta sobre o reflorestamento, cita as áreas de terra e as espécies de árvores escolhidas para o plantio:

Me lembro do reflorestamento, das mudas que fizemos. Em casa, criei mudas e depois até ajudei a plantar, era plantadas em terras com muita pedra, muito morro, aquelas que não tinha utilidade para o plantio, essas eram para o reflorestamento. Era na verdade era um florestamento, plantava-se muito uva do Japão que na época por aqui não tinha ainda e eucalipto. Se hoje está quase tudo cheio desta arvore, fomos nós que praticamente plantamos na época do clube 4s, plantamos nos morros por aí e hoje a uva do Japão praticamente virou um inço, ela cresce muito fácil (C. M.).

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C.M. diz ainda que não se cogitava a idéia de que as espécies de árvores exóticas poderiam acarretar em conseqüências danosas ao ambiente, afirma que na época tinha-se a cultura de derrubar muito mato, pois todo o ano pensava-se que tinha que ter “terra nova”, já que fazia parte da cultura da família a rotação de terras citada no cap.I. Afirma que talvez o cultivo de eucalipto e de uva do Japão não tenha sido a melhor opção, mas que dessa forma iniciou-se uma consciência da necessidade da preservação e do replantio de árvores. Na fala do ex-sócio 4s I.K. observa-se como o cultivo dessas novas espécies foi marcante:

Mas o que mais chamou a atenção era a questão do reflorestamento foi em 83 ou 84, não lembro ao certo, daí a questão do reflorestamento foi bastante grande, daí foi formados grupinhos para reflorestar. Produziam as mudas na própria comunidade e depois distribuíam para os outros replantar. Era mais uva japonesa e principalmente eucalipto. As primeiras sementes quem trouxe foi o extensionista da ACARESC e depois os sócios dos clubes 4s foram buscar em outras comunidades. Porque hoje temos muitos tipos de eucalipto na região, tudo que veio da época dos 4s.

A plantação de árvores exóticas é questionável, pesquisadores asseguram que tais espécies põem em risco a biodiversidade regional, tal ameaça agrava-se quando as plantas exóticas ocupam o espaço das espécies nativas. Primack et alii (2001) acrescentam ainda que a introdução de espécies exóticas podem deslocar as espécies nativas através de competição por limitação dos recursos, quando essas espécies se adaptam ao novo habitat elas põem em risco a biodiversidade local. Um trabalho diferenciado em relação ao reflorestamento realizou-se entre os clubes 4s da ACARESC de Itapiranga e alguns grupos da ACARESC de Mondaí. O extensionista E.F. conta como através dos clubes incentivaram o plantio de árvores nativas. Afirma que para tal trabalho não receberam orientação nenhuma, que o conhecimento sobre as árvores nativas foi construído com os jovens quatroessistas e suas famílias, havia um grande incentivo por parte do estado em reflorestar com espécies de árvores exóticas. Lembra que tiveram grande dificuldade em convencer da necessidade de reflorestamento já que para o capital não era lucrativo, mas incentivaram todos os grupos a terem seu próprio viveiro de árvores nativas, muitas sementes e mudas eram trocadas entre os grupos, salienta que grande parte das árvores plantadas na época existem até hoje:

se você for ali em [Linha] Aparecida você vai encontrar áreas de árvores nativas que foram plantadas pelos clubes 4s. Foram plantadas cabriúvas, cedros, essas árvores que eram da região. O trabalho maior foi em relação a plantação de árvores exóticas, mas nós aqui no oeste começamos a incentivar a plantação de árvores nativas nas áreas mais íngremes onde a produção agrícola não era possível. Era difícil de convencer as pessoas de plantar, imagina há 30 anos atrás convencer as pessoas que plantar árvore era um bom negócio era muito difícil. Porque tinha muita a mentalidade que a cada ano era necessário tirar uma parte da mata porque era necessário fazer uma área nova de terra (E.F.).

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Mas era muito forte a questão do reflorestamento, em cada clube tinha um viveiro de mudas, nós escolhia uma propriedade e se reunia lá e fazia tudo, desde colher as sementes até replantar a muda. As informações para o cultivo dessas árvores nos buscávamos com os próprios agricultores, se coletava um conhecimento aqui outro ali e nos trocávamos os conhecimentos. Localizamos várias árvores nativas. As vezes em um lugar tinha bastante semente de uma árvore, em outra comunidade de outra, daí nos fazíamos intercambio dessas sementes. Isso aqui é fruto desse trabalho (aponta para o documento escrito), hoje até pode ser que já exista informações sobre essas árvores, mas na época não tinha e por isso que escrevemos esse documento. O pessoal acompanhava todo o processo de crescimento das mudas nós acompanhávamos o crescimento da árvore (E.F.).

Analisando o material elaborado pelo extensionista E.F. e R.F. em conjunto com os jovens quatroessistas para orientar o reflorestamento de espécies nativas, observa-se uma descrição das etapas desde a colheita de sementes, depois há uma descrição das vantagens em cultivar as espécies nativas, citam Angico, Cedro, Louro, Canafístula, Caroba, Açoita-Cavalo, Grápia, Bracatinga, Cabriúva, Cerejeira, Gangerana e Figueira. Sobre cada espécie citam a utilidade da madeira, a época de floração, de maturação dos frutos, de germinação, os métodos de plantio das sementes, a estratificação das sementes, o plantio definitivo, mas o que chamou a atenção foi a sugestão do uso de fungicidas para evitar doenças no plantio de mudas de angico. Ao mesmo tempo que incentiva-se o plantio de árvores nativas o que seria ambientalmente correto, ambiguamente também incentivado o uso de inseticidas, secantes, pesticidas e outros venenos nesse plantio, o que acarreta em poluição e elevar o índice de envenenamento do ambiente. Já no Guia Florestal para clubes 4s, distribuído pela ACARESC, orientava o plantio de árvores exóticas de forma descritiva e também ilustrativa. O uso de fungicidas para o combate a doenças nos viveiros bem como na plantação das árvores também era sugerido, orienta-se o tipo de veneno que deve ser utilizado, bem como a quantia. Também há orientações quanto ao espaçamento da cova na qual irá se plantaria a muda e também o espaçamento que deve ter entre as mudas. Na capa do Guia, as áreas de terra impróprias para a agricultura são sugeridas enquanto ideais para o reflorestamento, não observou-se maiores preocupações com o reflorestamento nas margens de rios ou fontes de água.

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Figura nº4.8 Viveiro de Mudas 4s Fonte: Acervo pessoal de Euclides Faé.

Além das práticas de conservação do solo e reflorestamento, outras medidas ambientais como a construção de biodigestores e proteção de fontes de água, também foram lembradas pelos entrevistados, no entanto com menor ênfase e em menor proporção. A extensionista A.F. conta que, embora de forma tímida, algumas iniciativas em relação ao ambiente foram tomadas através dos clubes 4s. Entre elas o incentivo a construção de esterqueiras e a utilização dos dejetos de animais como adubo na lavoura. Além disso, foram construídos biodigestores, dos quais alguns ainda estão funcionando:

Tinha a construção de esterqueiras, o trabalho, hoje já é utilizada outra tecnologia, mas na época até com coqueiros construíamos a esterqueira, a construção de biodigestores, a questão da energia já era preocupação na época, não era como agora, mas já se tinha essa preocupação e a construção de biodigestores já era incentivada. Tanto que aqui em Mondai ainda tem dois biodigestores funcionando desde aquela época (A.F.)

O destino dos dejetos de suínos é uma preocupação antiga, já que a região é considerada grande desde a colonização desenvolve essa cultura em grande proporção. Testa et alii (1996) afirmam que a economia da região era caracterizada por uma policultura hierarquicamente subordinada a suinocultura. Esse fator fez com que, já na década de 1980,

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houvesse uma preocupação com os dejetos de suínos, isso porque na época os chiqueiros eram construídos sem nenhum cuidado com os dejetos, na maioria das vezes eram carregados pela água.

os dejetos, na maioria das vezes eram carregados pela água. Figura nº 4.9 Construção de biodigestores

Figura nº 4.9 Construção de biodigestores Fonte: Acervo da EPAGRI Mondaí

Em relação à água, a maioria dos agricultores afirmaram que já se falava em proteção de fontes, até porque a água utilizada para consumo humano ficava ao céu aberto, sendo que outros animais bebiam da mesma água. Havia também alguma iniciativa no que diz respeito à conservação da mata ciliar, mas de forma muito tímida, segundo os ex-sócios. A.M. ex- quatroessista, diz também que a maioria dos jovens não dava muita atenção as questões relacionadas a água, já que acreditavam que ela era infinita: “Já se falava em proteção de fontes e também da conservação da mata ciliar nas margens dos rios, saiu o modelo Caxambu, mas na época as pessoas não davam muita bola, acreditavam que a água não iria faltar”. A Acaresc através dos clubes 4s, exerceu um significativo papel no saneamento básico do meio rural, visando o controle de verminoses, diarréias, etc., através da introdução de privadas sejam fossas secas ou sépticas, poços e nascentes protegidos para a obtenção de água limpa; construção de depósitos de lixo e combate às moscas (OLINGER, 1996 p. 282). Esse aspecto corrobora o do atraso atribuído à área rural. Dentre as práticas sanitárias introduzidas, consta a do banho diário, após a jornada de trabalho na roça.

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As questões ambientais também eram discutidas em encontros, seminários realizados para os clubes 4s, nesses encontros já se discutia as conseqüências da Revolução Verde, bem como possíveis soluções para os problemas socioeconômicos e ambientais enfrentados pelos jovens agricultores. Sobre os Seminários de Juventude Quatroessista obteve-se relatórios a partir do ano de 1981, esses encontros aconteciam a nível municipal, regional e estadual, e objetivavam oportunizar ao jovem a aquisição de maiores conhecimentos através de orientações técnicas, sociais e econômicas, despertar liderança, debater e analisar os problemas enfrentados pelos agricultores, preparar o jovem como cidadão, produtor e como pessoa. As questões relacionadas à preservação do meio ambiente também aparecem como objetivos dos clubes

4s.

Nas palestras proferidas nos seminários destacavam-se assuntos como: agricultura diversificada, religião, amizade, namoro, educação sexual, aspectos relacionados a colonização e uso das terras, sociologia rural, pró-criança rural 27 , pedagogia no trabalho com jovens rurais (palestra voltada aos líderes gerais), preços dos produtos agrícolas, importância do jovem no desenvolvimento do país, liderança, cooperativismo, produção agrícola catarinense, família, escola e comunidade, políticas agrícolas, legislação trabalhista, saúde pública, medicina comunitária, associativismo, sindicalismo, reforma agrária, participação da mulher na sociedade, constituinte, relatos de extensionistas sobre o trabalho dos clubes 4hs dos Estados Unidos e também a experiência dos grupos juvenis rurais no México, êxodo rural e crédito fundiário, agricultura racional. Além disso, os programas da secretaria da agricultura também eram divulgados através desses seminários. As palestras realizadas sobre as questões ambientais terão destaque e serão analisadas. Nos relatórios, escritos no final da década de 1970 e na década de 1980, percebeu-se contradição entre as palestras. Por um lado, tem-se falas que discutem a insustentabilidade do modelo de produção baseado no uso do pacote tecnológico difundido até então pela extensão rural. Por outro lado, ações que estimulam a continuidade do uso das técnicas e tecnologias difundidas pela revolução verde, como por exemplo o incentivo ao uso das sementes híbridas. Considerando as palestras relacionados ao meio ambiente, tem-se notado uma grande preocupação, principalmente com o solo, afirmava-se que era necessário fazer uso do solo de

27 O pró-criança rural era um programa de controle da natalidade no meio rural e de diminuição da mortalidade infantil. (Palestra proferida por Dr. Antenor Naspolini no II Seminário Regional de Juventude Rural 4s, Chapecó, 1984.)

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maneira sustentável 28 para que a vida, especialmente a humana, continuasse. Utiliza-se o processo de evolução da terra para justificar a necessidade de se preservar.

o solo deve ser bom para produzir. Deve ser sadio e fértil. Sobre um solo em

] quem compra um

pedaço de terra, compra o direito de usa-la, o solo é da pátria. Essa historia que o

produtor diz que o solo é dele e faz o que ele quiser, é um absurdo. [

dois centímetros de solo por ano. Para ter uma idéia, para formar um centímetro de

solo demoram quatrocentos anos. [

o homem existira no futuro, pois o solo será inviável. (CASTANHEIRA (apud

RELATÓRIO, 1981 s/p)

se continuar assim, não dá para acreditar que

se perde

ótimas condições, qualquer planta vive e produz otimamente. [

]

]

Na mesma palestra observa-se a responsabilidade do jovem na preservação do solo num contexto em que o palestrante passa a defender um modelo de produção agrícola agroecológica na qual agricultores devem ter conhecimento dos recursos vegetais e da biologia geral da área para entender as mudanças ocorridas naquele ambiente, o palestrante afirma ainda que se produzirem de forma mais harmoniosa com a natureza, deveria-se recorrer aos conhecimentos populares, principalmente das pessoas com mais idade.

Aí começa a responsabilidade do jovem rural, pois o solo é essencial para a produção. Mas como deve ser o solo? Deve ser fértil e sadio. Um grande mal quando nos pensamos em produzir, nós só olhamos para a planta. Para tal planta, precisamos de tal adubo. Quando aparece uma lagarta, já aplicamos o veneno para aquela lagarta. Esse é um grande erro, nós não observamos o solo em si. O solo sendo fértil e sadio, praticamente não tem pragas e doenças. Os antigos sabem disso. (CASTANHEIRA (apud RELATÓRIO, 1981, s/p)

Na ocasião discutiu-se ainda a destruição do habitat natural de várias espécies e também a importância da cadeia alimentar. Salientava-se que o homem era o responsável pela destruição desse habitat e pela quebra da cadeia alimentar e portanto responsável pelas pragas que atacavam as lavouras. “Uma praga na lavoura é um sinal da natureza de que alguma coisa não esta boa, devemos dialogar com a natureza” (CASTANHEIRA, (apud RELATÓRIO, 1981 s/p).

Discutem-se então as ações necessárias para uma melhor conservação destaca-se a adubação orgânica e a rotação de culturas.

do solo,

Em outros dois seminários entrou em pauta o conceito de Ecologia, um no ano de 1982 e outro no ano de 1984. No primeiro encontro definiu-se Ecologia como o estudo entre os organismos e o meio, debateu-se os tipos de poluição e abordou-se os maiores problemas:

desmatamento, erosão e poluição das águas. Para proteger a natureza abordou-se a necessidade das seguintes iniciativas: proteger e plantar árvores; não utilizar inseticida caseiro e sim telas e mosquiteiros; sabões caseiros; detergentes biodegradáveis, construção de fossas

28 Segundo Leff (2004) o Desenvolvimento Sustentável foi definido como um processo que permite satisfazer as necessidades da população atual sem comprometer a capacidade de atender as gerações futuras.

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cépticas; não jogar lixo na água; fazer agricultura orgânica sem o uso de agrotóxicos e produzir alimentos puros.

No segundo encontro o palestrante contextualizou a importância da produção de alimentos, falou sobre o crescimento demográfico e a possível falta de alimentos. E a

necessidade de se repensar o modelo de produção já que o praticado estava pondo em risco a qualidade do solo. Para sensibilizar os jovens dessa necessidade, citou o tempo necessário para a evolução dos seres na natureza e a rapidez com que se destrói uma mata, por exemplo, e compara-se a terra existe e demorou milhões de anos para o que tem ao nosso redor, o mato natural, nós em 30 a 40 anos conseguimos destruir quase tudo, isso no tempo representa uma

(ROSSO,

fração de segundos, se compararmos com o tempo que levou para se formar [ (apud, SEMINÁRIO 1984).

]

Ecologia conceituou-se como a ciência que estuda a relação existente entre os seres vivos e o meio onde vivem. Critiou-se também a cultura antropocêntrica, reafirmou-se a insustentabilidade do sistema de produção. O homem era sócio da natureza, hoje quer ser o dono de todos os seres vivos, apenas o homem foi capaz de transformar a face da terra, desfigurando-a e pondo em risco a própria vida. Muitas espécies foram extintas devido a intervenção irresponsável do homem (ROSSO, (apud, SEMINÁRIO 1984).

No II Seminário Regional de Juventude Rural 4s em 1982, o palestrante Inácio Trevisan falou sobre a “Agricultura Racional”: “Entendemos por agricultura racional, todo trabalho realizado, que tem por objetivo o aproveitamento correto da terra e demais fatores de produção, de tal forma que o resultado deste trabalho venha em benefício do próprio agricultor”.

Fez-se um diagnóstico da maneira de produzir: citou-se a exploração do solo para o beneficio humano, a quebra na cadeia alimentar; o uso incorreto de defensivos agrícolas, desmatamento, o destino incorreto de dejetos de animais. Tais ações estariam agravando a poluição da água, do solo e do ar, pondo em risco a sobrevivência humana. Para reverter tal realidade destacou-se a importância de cultivar e criar sem quebrar o ciclo natural, conservando o solo, aproveitando os dejetos de animais e “protegendo” a natureza.

Nesse encontro também foram citadas as conseqüências do uso de defensivos agrícolas para a saúde humana, salientou-se a necessidade de observar o período de carência dos venenos e também a gravidade de se reutilizar os vasilhames de veneno, afirmou-se que no Brasil são consumidas uma quantia de inseticidas superior ao padrão estabelecido pela

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Organização Mundial da Saúde. Em relação as consequências do uso de defensivos à biodiversidade nada foi comentado. A partir dos problemas levantados aconselhou-se que a utilização de venenos de forma racional. Mas o uso “racional” de venenos, não resolveria o problema da poluição por agrotóxicos, para diminuir essa poluição seria necessário utilizar maneiras agroecológicas 29 de produção. Na mensagem abaixo (figura nº4.10), distribuída pelos extensionistas durante um seminário, vereficou-se o estímulo a uma produção com alguns traços de uma agricultura menos poluente. Havia um grande incentivo à conservação do solo através de adubação orgânica, práticas de cultivo mínimo e o reaproveitamento de palhadas. Por outro lado, percebe-se que continuava o incentivo de uma produção agrícola voltada para o mercado. Novamente temos uma contradição no que diz respeito ao modo de produção agrícola, defendia-se uma menor agressão ao ambiente, porém com o incentivo a grande produtividade. Merece destaque o parágrafo em que diz que os agricultores deveriam desenvolver uma agricultura que respeitasse as leis da natureza, que dessa forma teriam terras férteis, criações sadias e lucrativas, a família teria mais saúde e mais dinheiro. As leis capitalistas exigiam cada vez mais um aumento da produção para que se tenha lucro, e para se sustentar precisa vender os insumos agrícolas. Está forma de pensar não é lógica, pois ao analisar a história e o contexto natural percebe-se que uma agricultura que respeite a natureza não é possível quando o objetivo é obter lucros. No discurso extensionista, a partir da década de 1980, tem-se uma preocupação com os recursos naturais, mas essa preocupação se deve à diminuição da produtividade devido a poluição do solo. Os problemas ambientais são conseqüência da necessidade que o sistema capitalista impõe para manter força e a base da exaustão dos recursos ambientais. Leff (2004, p.22) diz que a problemática ambiental é o sinal mais eloqüente da crise da racionalidade econômica que conduziu o processo de modernização. Acrescenta que a meta iluminista da modernidade e a emancipação do homem através da razão convertem-se em alienação ao compreender as causas que movem o mundo, sem questionar os mecanismos tecnológicos que governam a produção. Que torna fundamental conhecer e questionar a cultura que levou a humanidade utilizar todos os limites: sociais e naturais, a fim de satisfazer suas necessidades e desejos crescentes internalizados através do consumismo.

29 Entende-se por agroecologia um conjunto de conhecimentos que apresentem princípios e metodologias para práticas agrícolas a partir da visão do ecossistema.

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Figura nº4.10 Mensagem ao Quatroessistas Fonte: III Seminário Municipal 4s, Itapiranga, 1983

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4.4 A necessidade de se repensar o modo de produção

Com o advento da industrialização na produção agrícola ocorreram mudanças significativas na maneira de pensar e agir entre os colonos, intensificou-se o uso de sementes industrializadas, defensivos agrícolas e adubos químicos, além de máquinas agrícolas. Passou-se a valorizar o capital, antes produzia-se para a sobrevivência da família, caso houvesse um excedente comercializava-o, mas o objetivo principal da produção era o sustento da família. Com a Revolução Verde a preocupação central da produção era o mercado. Rambo (2007, p.193) falando sobre Itapiranga e adjacências afirma que o aumento da produtividade, a criação intensiva de suínos, aves e gado faz com que o solo receba uma sobrecarga de dejetos, que podem alterar a estrutura do solo, bem como os corpos hídricos. Afirma que o uso de agrotóxicos e adubos químicas põe em risco o equilíbrio do ecossistema. Matas ciliares são removidas,; corpos de água contaminados, poluídas e assoreadas; lençóis são comprometidos e fontes desaparecem; o solo e o ar sobrecarregados. Essa realidade ambiental exposta por Rambo aliada ao processo de seletividade no setor agrícola 30 discutido por Eidt (2006), também a respeito de Itapiranga, coloca em cheque os conhecimentos técnicos difundidos pela extensão rural, através dos clubes 4s, que propiciaram a Revolução Verde. Leff (2000, p. 36) diz que a racionalidade econômica, ao maximizar os excedentes e benefícios econômicos a curto prazo, deixa a questão da equidade social e da sustentabilidade ecológica para as políticas distributivas de uma riqueza criada sobre a base da acumulação do capital. Desvaloriza-se o “longo prazo” para se obter lucros a curtos e médios prazos, um exemplo disso é o plantar árvores exóticas de rápido crescimento para que se tenham lucros a um curto prazo. Outra conseqüência da Revolução verde, abordada por Leff é a perda da biodiversidade biológica, conseqüência dos processos de desmatamento e erosão de terras. Conseqüências ao ambiente decorrentes da incorporação de modelos tecnológicos inapropriados também são abordados por Simon (2005 p. 18):

Foi através de uma articulação subordinada das economias dos países do terceiro mundo à ordem econômica mundial e a incorporação de modelos tecnológicos inapropriados que se gerou nestes países um processo de deterioração ambiental:

contaminação do alimento, desmatamento, erosão dos solos, perda da biodiversidade, aumento do numero de pragas nos cultivos, contaminação do ar e dos recursos hídricos. A destruição da natureza causa, por conseqüência, a degradação das condições de produção e de subsistência dos paises pobres, induzindo a estratégias de

30 Eidt (1999), afirma que para o capital tem-se um grupo de empreendedores que acompanham o processo de modernização agrícola, de outro temos um grupo de agricultores que são considerados inadequados aos padrões de produtividade e competividade.

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sobrevivência de uma crescente população marginalizada da economia produzindo como efeito diversas formas de anomalias sociais.

A transferência de padrões tecnológicos de países desenvolvidos para subdesenvolvidos, a introdução de ritmos de extração e a difusão de modelos sociais de consumo, geram um processo de degradação dos ecossistemas, de erosão de seus solos e esgotamento de seus recursos. Leff (2000), afirma que o subdesenvolvimento é o efeito da perda do potencial produtivo de uma nação, devido a um processo de exploração e espoliação que rompe os mecanismos ecológicos e culturais.

O estilo de desenvolvimento (não sustentável) que a América Latina seguiu está

vinculado ás políticas implícitas e explicitas que adotaram os países do terceiro

mundo em matéria de investigação cientifica e desenvolvimento tecnológico: as condições de seleção, transferência, adaptação e difusão de padrões e pacotes tecnológicos; o estado de maturidade e produtividade do sistema nacional de investigação e sua articulação com os processos produtivos.

A principal causa do esgotamento de recursos naturais foi sua exploração intensiva

com base nos conhecimentos científicos e técnicos que foram criados para o aproveitamento dos recursos nas zonas temperadas do planeta (LEFF, 2000 P. 35).

Leff, (2003, p16) escreve que a crise ambiental é sobretudo um problema de conhecimento, o que leva a repensar o ser no mundo complexo(a diferença e o enlaçamento entre a complexidade do ser e do pensamento) para dali abrir novas vias do saber no sentido de reconstrução e repropriação do mundo. A crise ambiental veio questionar a racionalidade e os paradigmas teóricos que impulsionaram o crescimento econômico, que agravou os problemas sociais e naturais. Leff (2004, pág. 49), afirma que a destruição ecológica e o esgotamento dos recursos não são problemas gerados por processos naturais, mas determinados pelas formas sociais e pelos padrões tecnológicos de apropriação e de exploração econômica da natureza. O mesmo autor acrescenta ainda que a crise vivida pela sociedade atual é decorrente de uma cultura capitalista, uma cultura de mercado, e deve-se excitar a uma reflexão sobre o modo de viver, agir e produzir baseado em conhecimentos difundidos por interesses capitalistas.

A crise ambiental é a crise do nosso tempo. O risco ecológico questiona o conhecimento do mundo. Esta crise se apresenta à nós como um limite do real que resignifica e re-orienta o curso da história: limite do crescimento econômico e populacional, limite dos desequilíbrios ecológicos e das capacidades de sustentação da vida; limite da pobreza e da desigualdades social (LEFF, 2003, p.15).

O ambiente emerge impulsionado pelas diferentes ordens do real que foram exteriorizadas e dos saberes subjugados pelo desenvolvimento das ciências modernas (FOUCAULT apud LEFF, 2002). O conceito de desenvolvimento que emerge das diferentes ordens, a que se refere Foucault, atinge as pequenas comunidades entendidas como estáveis, passando por profundas modificações culturais. O espaço que estava estabilizado e detinha certos parâmetros passa por profundas modificações gerando a crise ambiental que é de nosso

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tempo. A comunidade centrada em suas raízes e cultura, passa a se organizar em torno de conhecimentos que priorizam o capital baseado em um aumento da produção e do consumo. A crise ambiental é um resultado do desconhecimento da lei (entropia), que tem se desencadeado no imaginário economicista uma “mania de crescimento”, de uma produção sem limites. A crise ambiental anuncia o limite de tal projeto (SCHÖNBERG (apud LEFF,

2002).

A mudança no modo de agir e pensar entre os agricultores fez com que se produzisse

com o objetivo principal de obter lucros, os recursos naturais tornaram-se importantes porque

atendiam as necessidades desse moderno modo de produção, procura-se controlar, domar a natureza com o propósito de aumentar a produção e a produtividade para satisfazer necessidades e desejos criados pela necessidade da evolução do capitalismo, pondo em risco a sobrevivência na terra.

Na epopéia do ser humano por salvar sua falta em ser através do conhecimento, tentou colmar sua incompletude com a idéia absoluta, com uma razão ordenadora, com uma certeza e uma autoconsciência de seu lugar no mundo. Nessa empresa por compreender, por ordenar, por dominar e controlar, coisificou o mundo, destruturando a natureza e acelerando o desequilíbrio ecológico; ao submeter a natureza ás leis de suas certezas e seu controle, abriu as comportas do caos e da incerteza. (LEFF, 2003, p.25).

A racionalidade ambiental integra os potenciais da natureza, os valores humanos e as

identidades culturais em práticas produtivas e sustentáveis, inclui, inter-relações complexas de processos ideológicos e materiais diferenciados, permitem que os fundamentos

epistemológicos e ontológicos do saber ambiental, adquirem sentido para se conceber uma estratégia capaz de construir uma nova ordem social.

A problemática ambiental demanda a produção de um corpo complexo e integrado de

conhecimentos sobre os processos naturais e sociais que intervêm em sua gênese e em sua resolução. O discurso da sustentabilidade se abre para um campo de estratégias teóricas e práticas pela apropriação da natureza, propondo a questão do poder no saber ambiental. Diante do propósito homogeinizador do real que emerge da capitalização do homem, da cultura e da natureza, a construção de uma racionalidade ambiental defende uma ordem social fundada na produtividade ecológica e na diversidade cultural (LEFF, 2004). Para modificar a realidade ambiental é fundamental entender o ambiente como uma totalidade que inclui os aspectos naturais e os resultantes das atividades humanas, sendo o resultado da interação de fatores biológicos, sociais, físicos, econômicos e culturais. A discussão da crise ambiental deve permear os mais diversos saberes. E para promover uma

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educação ambiental é necessário uma racionalidade que inclua todos os saberes como afirma Leff:

aprender a aprender a complexidade ambiental implica em uma revolução de pensamento, uma mudança de mentalidade, uma transformação do conhecimento e das praticas educativas para construir um novo saber e uma nova racionalidade que orientem a construção de um mundo de sustentabilidade, de equidade, de democracia. (LEFF, 2003, p.22).

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CONSIDERAÇÕES FINAIS

O objetivo desse estudo foi fazer uma análise das estratégias de educação informal utilizadas pela extensão rural entre os anos de 1956 à 1989, especialmente entre as décadas de

1960 à 1980, já que os escritórios da Acaresc surgiram na região do extremo-oeste de Santa

Catarina a partir de 1960. A educação da população rural promovida pelo serviço de extensão rural objetivava a formação de uma cultura “moderna” que proporcionasse o uso de novas técnicas e tecnologias de produção agrícola.

A colonização da região pesquisada: Mondaí e Itapiranga iniciou-se na década de

1920 por descendentes de alemães católicos na colônia de Porto Novo (Itapiranga) e de

alemães luteranos na colônia de Porto Feliz (Mondaí). A paisagem florestal transformou-se em lavouras, as famílias colonizadoras organizam-se em pequenas propriedades com regime de trabalho familiar. Devido a pouca infra-estrutura mercantil, as famílias passam a produzir para o auto-sustento. As duas colônias foram idealizadas por instituições religiosas: Porto Novo por padres Jesuítas e Porto Feliz por pastores luteranos. Devido à ausência do estado, a igreja organizou as comunidades aglutinadas socialmente em torno de equipamentos comunitários, especialmente capelas ou escolas. O representante da igreja era considerado um líder entre os colonos e todas as decisões passavam pelo padre ou pastor. A igreja exercia uma forte influência ideológica, ela assumiu os interesses materiais, espirituais e culturais de seus associados. Podemos afirmar que os colonos da região caracterizavam-se pelo campesinato. Schanin (2005) pontua algumas características deste campesinato: os agricultores organizavam de forma independente o seu trabalho sendo de mão de obra familiar, controlava os meios de produção, existia um equilíbrio na diversidade do que era plantado, buscando suprir as necessidades familiares. Woortmann (1997) afirma que o conhecimento se dá através do trabalho, o pai era quem governa o fazer – aprender. Através do trabalho se transmite técnicas e valores. O pai da família a governava pois organizava a produção, ele dominava o saber. O casamento era considerado um ritual de passagem, é a partir da constituição de uma nova família que o jovem era considerado apto á fazer as suas escolhas.

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Em um contexto nacional de modernização, industrialização, crescimento econômico, a agricultura passa a ser considerada atrasada, o campesinato passou a ser um entrave ao desenvolvimento capitalista. Era necessário uma nova concepção de agricultura, na qual a produção estivesse voltada ao mercado, não mais ao sustento da família. Sob o propósito que o melhor instrumento para promover a industrialização da agricultura seria a educação da população rural é que surgiu a extensão rural pública, no estado de Santa Catarina, a ACARESC. O serviço de extensão rural foi transplantado dos Estados Unidos para o Brasil e financiado por instituições norte americanas, especialmente a Fundação Rockfeller. A literatura revela que esse serviço foi adotado em ambos os países, como também em toda a América Latina, com a intenção de aumentar a produção. Por outro lado, não podemos esquecer o projeto estadounidense de se tornar uma potência mundial, para isso era necessário tornar os países da América Latina seus aliados, a estratégia utilizada foi financiar a modernização desses países, especialmente a modernização agrícola. Para formar um novo agricultor, um agricultor considerado ideal sob os moldes capitalistas, criou-se vários programas, o mais significativo na região estudada foram os clubes 4s programa voltado a juventude rural onde se desenvolviam atividades relacionadas à agricultura, pecuária e economia doméstica. Os clubes 4s tinham como objetivo repassar uma educação modernizante onde procurariam, através da teoria e prática, inserir novas técnicas e tecnologias de cultivo. As reuniões dos clubes eram ritualizadas, ou seja, formais e repetitivas. Segundo Rodolpho (2004) os rituais concedem autoridade e legalidade quando organizam as posições de certas pessoas, os valores morais e as visões de mundo. Dessa forma, os extensionistas e os líderes dos clubes 4s passaram a ter respaldo entre os jovens agricultores e os conhecimentos por eles repassados eram tidos como verdadeiros. Bordieu afirma que a linguagem não é neutra e que a capacidade de falar exercem domínio sob aqueles que tem dificuldades em proferir seus discursos. Os extensionistas conseguiram exercer uma forte influencia por terem uma boa oralidade. Entre as metodologias utilizadas para a transferência de conhecimentos técnicos e tecnológicos que promoveriam a Revolução Verde, os mais eficientes foram os projetos. Através desses os jovens aprenderiam á fazer, fazendo. Nos projetos coletivos, os quatroessistas aprendiam uma nova maneira de produzir, nos individuais os jovens colocavam em prática as novas técnicas de produção em determinadas áreas na propriedade dos pais, dessa forma a família poderia comparar a maneira tradicional de cultivar com a moderna.

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O conhecimento passa a ser dividido entre o pai e os filhos. Tal situação gerou

conflitos na família, os conhecimentos paternos passam a ser questionados, o poder paterno passa a ser questionado. As decisões em relação o que plantar, que semente usar, quais técnicas seriam utilizadas na produção não eram mais artesanais, o conhecimento antes passado de geração para geração a partir de então é debatido entre os pais e filhos, misturaram-se em um primeiro momento técnicas tradicionais e modernas. Quando os pais perceberam que as novas técnicas e tecnologias proporcionaram um aumento da produção, as técnicas tradicionais são esquecidas e a modernização agrícola ganha força. Entrevistados relatam que a princípio houve resistência dos pais em aceitar o novo modo de produção, no entanto, o aumento da produção que proporcionou mais lucros fez com que a modernização fosse aceita. Souza (2003) afirma que o extensionismo rural queria atingir a família através da juventude. Com o trabalho da ACARESC e dos Clubes 4s, a igreja perde poder em relação à orientação técnica dos produtores da região. Antes do surgimento da extensão rural pública, a orientação técnica era feita por padres e pastores, que através de suas pregações ou pelo material impresso, orientavam a produção. Com a modernização da agricultura difundida pela ACARESC, alguns valores religiosos são colocados em segundo plano, os agricultores que antes não mediam esforços quando se tratava na participação de atos comunitários ou religiosos passam a estar mais preocupados com a produtividade de sua lavoura. Talvez esse também seja um dos motivos que fez com que a igreja, no final da década de 1980 e 1990, se posicionasse contra ao trabalho realizado pelos extensionistas com os clubes 4s.

A experiência dos clubes 4s contribuiu significativamente para a formação de

lideranças. A metodologia de trabalho utilizada pelos extensionistas exigia a formação de líderes que contribuíssem na organização dos projetos do clube. Para esses jovens era oferecida a oportunidade de participação em cursos de formação em centros maiores. Grande parte dos entrevistados cita a formação de liderança como ponto positivo do trabalho extensionista, muitos afirmam que os líderes políticos locais tiveram sua formação no clube

4s.

Na história regional poucas vezes percebeu-se a participação da mulher em discussões

referentes a organização familiar ou comunitária. Em relatos orais ou escritos nos livros ata das reuniões do clube 4s, percebe-se que a mulher começou a participar de discussões em relação ao clube, passaram a ocupar cargos nas diretorias dos clubes 4s e também se organizar paralelamente para lutar pelos seus direitos. Muitas mulheres se tornaram líderes no Movimento das Mulheres Agriculturas ou no Movimento dos Atingidos pelas Barragens. As

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reuniões coletivas dos grupos 4s proporcionaram um despertar para que as moças passassem a se posicionar frente as discussões, não mais simplesmente aceitar a opinião dos pais ou dos irmãos.

Desde a década de 1950, a região enfrentava sérios problemas com o processo de esgotamento do solo. Para que o aumento produtivo fosse possível, a extensão rural teve que desenvolver técnicas de contenção da erosão do solo, entre elas merece destaque a construção de terraços, plantio direto, patamares para os quais, às vezes, se utilizava as taipas de pedra. O plantio de cana de açúcar, erva cidreira entre outros vegetais, em curva de nível, também era uma técnica de contenção da erosão do solo. Outra alternativa encontrada para diminuir a erosão do solo foi o reflorestamento. No entanto, os agricultores foram incentivados a cultivar espécies de árvores exóticas, pois essas seriam mais lucrativas, difundiu-se a ideia que era necessário utilizar todas as áreas da propriedade para obter lucro e o plantio de árvores exóticas, especialmente o eucalipto por ser de fácil produção e rápido crescimento, era uma produção rentável para os agricultores. Mas as espécies de árvores exóticas tiveram e tem uma grande contribuição na perda da biodiversidade regional. Pode-se pensar que as iniciativas em relação a conservação do solo foram por uma preocupação ambiental. No entanto, acredita-se que tais iniciativas teriam sido necessárias para o aumento da produção agrícola, já que a topografia acidentada da região exigiu e exige técnicas de contenção da erosão. No que diz respeito á questão sanitária os clubes 4s contribuíram para o melhoramento do saneamento básico no meio rural, através da introdução de privadas, sejam fossas secas ou sépticas, poços e nascentes protegidos para a obtenção de água limpa; construção de depósitos de lixo e combate às moscas, construção de biodigestores e também esterqueiras. O trabalho realizado pela extensão rural pública, especialmente pelos clubes 4s, foi significativo para que os agricultores dessa região adotassem as novas técnicas e tecnologias que proporcionaram a Revolução Verde. A modernização da agricultura e a subordinação do setor agrário ao industrial pôde determinar significativas mudanças na forma de como os colonos passam a enxergar e desejar o mundo (DOS SANTOS, 2004). Com a euforia de poder produzir mais e consumir mais, os colonos abriram mão de antigos saberes e passaram a ter os conhecimentos relacionados a industrialização enquanto certos. Cohen apud Simon (2005) afirma que a cultura tecnicista contribuiu de forma significativa para a aniquilação dos valores culturais e a substituição de práticas tradicionais de uso dos recursos naturais, colaborando para o processo de deterioração ambiental.

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A agricultura da região extremo-oeste catarinense tem sido afetada por vários problemas sócio-ambientais como contaminação do alimento, desmatamento, perda da biodiversidade, aumento do número de pragas nos cultivos, contaminação do ar , dos recursos hídricos e do solo, a descapitalização do pequeno agricultor e o êxodo rural. Souza e Caume (2008) dizem que no ensejo de superar o atraso agrícola diversas conseqüências são sentidas. Especialmente para os trabalhadores rurais que foram público alvo da extensão rural que desenvolveu ações destinadas à promoção e a assistência social com vistas ao controle político, econômico, social e cultural. Afirmam ainda que o estado viabilizou o projeto modernizante, mas não foi capaz de promover mecanismos de compensação aos efeitos sociais na estrutura agrária, nos recursos naturais, nos desequilíbrios do abastecimento alimentar, na concentração de renda, permitindo que a crise agrária se agrave. Várias são as hipóteses para a crise na extensão rural pública e para o fim do trabalho com clubes 4s sofrida a partir da década de 1980 (tais hipóteses são destacadas no capítulo III). Mas acredito que é fundamental rediscutir a hipótese levantada por Simon (2005), a necessidade, decorrente da crise agrícola, de se repensar a atuação da extensão rural perante aos agricultores familiares. Simon (2005 p. 217), afirma que o serviço de extensão catarinense vive hoje a fase denominada de “gestão de recursos naturais” e que através dos projetos Microbacias tem um discurso baseado na sustentabilidade. A degradação sócio-ambiental exige um repensar sobre a racionalidade capitalista. Leff afirma que precisamos uma racionalidade ambiental que dão sentido e organizam processos sociais através de certas regras, meios e fins socialmente construídos. O conhecimento ambiental se da por meio de um intercambio interdisciplinar, é necessário integrar conhecimentos sociais e naturais. A racionalidade ambiental deve estar comprometida com a vida, com a equidade social e com a construção de valores que permitam uma nova maneira de se relacionar com a natureza.

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