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O homem pré-históri-

co vivia da caça e da coleta. Sua vida era regulada por um aconte- cimento cíclico, a sucessão dos dias e noites, que determinava seus períodos de atividade e de sono.

Aos poucos, o homem percebeu que de uma semente enter- rada no chão brotava uma planta, que dava outros frutos e outras sementes, e aprendeu a plantar. No entanto, nem sempre a plantação dava certo. Com o passar dos séculos e dos milênios, os agricultores primitivos foram percebendo que o sucesso ou fracasso de suas plantações dependia da ocorrência de chuvas. Quando chovia depois da semeadura, a planta crescia e a colheita era boa. Quando não chovia, a colheita fracassava. O agricultor primitivo vivia uma constante incerteza: quan- do vai chover para eu poder plantar? Será que vou conseguir boa colheita? Em certas regiões do planeta, como nas onde hoje estão o Brasil e a África central, o homem não era tão afetado por esse problema, pois nesses locais chove muito. Em outras regiões, no entanto, como a Mesopotâmia (onde atualmente estão os países árabes) e o Egito, ou a região andina (que se estende desde a Terra do Fogo, ao sul, até a Venezuela, ao norte), esse era um problema gravíssimo, pois aí só chove numa determinada época do ano: se o agricultor plantar na época certa, ele obtém colheita; caso contrário, seu trabalho é totalmente perdido. Os calendários nasceram da necessidade de se conhecer os ciclos de chuva e de seca. As antigas civilizações do Egito, da Mesopotâmia e dos Andes estiveram entre as primeiras a desen- volver calendários.

Os antigos egípcios tinham uma escrita bem desenvolvida, e deixaram registradas muitas de suas realizações, entre elas seu calendário. Por esse motivo, quando se explica o surgimento do calendário, normalmente se usa o exemplo do calendário egípcio. Faremos isso também neste livro.

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Vamos contar uma história.

É uma ficção, uma história imaginada, mas contém os fatos que se acredita estarem ligados ao nascimento do calendário. Transportemo-nos para o norte da África, para o Egito, alguns milhares de anos antes de Cristo. Numa determinada noite, um agricultor teve um sono agitado e acordou antes de o Sol nascer. Olhando para o céu, ele viu no horizonte, que já estava clareando, uma estrela muito brilhante, que se destacava das outras. Logo depois, o Sol nasceu na mesma direção onde estava aquela estrela, e sua luz fez desaparecer todas as outras estrelas. Alguns dias depois, choveu. Muito tempo depois, aquele homem viu a mesma estrela brilhante no horizonte, de madrugada, no local onde em seguida surgiu o Sol. Alguns dias depois, choveu. Na terceira vez que nosso personagem viu a mesma estrela no horizonte antes do nascer do Sol, achou que poderia chover

novamente e se preparou para plantar. Realmente choveu, e a colheita foi boa.

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Imagine a alegria desse agricultor! Agora já não haveria mais tanta incerteza com relação às chuvas. Bastaria olhar todas as madrugadas para o céu: quando aquela estrela aparecesse no horizonte antes do nascer do Sol, a época da chuva estaria chegando! Assim, para acompanhar os ciclos da chuva e da seca, o homem passou a observar o céu mais atentamente, identificando as estrelas e as constelações, dando-lhes nomes e anotando suas posições no céu todas as noites. Estava nascendo a astronomia. Aquela estrela brilhante que, no Norte da África, aparecia no leste de madrugada, anunciando a época de chuva, foi chamada de Sótis pelos egípcios. Hoje, a conhecemos pelo seu nome grego, Sírius.

Observando o céu durante anos e séculos, o homem consta- tou muitas coisas interessantes. Durante a noite, as estrelas e a Lua sempre apareciam no mesmo lado do céu, percorriam-no e desa- pareciam no lado oposto. De manhã, o Sol aparecia também naquele lado, percorria o céu e desaparecia no lado oposto, quan- do então anoitecia novamente. O lado onde as estrelas, o Sol e a Lua apareciam todo dia recebeu o nome de leste. O lado oposto recebeu o nome de oeste. Logo o homem compreendeu que o céu, durante o dia, contém tantas estrelas quanto à noite, só que elas não são vistas porque a luz do Sol é muito intensa. Conforme a posição do Sol em relação às estrelas, algumas são vistas durante a noite inteira; outras, somente no início ou no final da noite. De fato, observando o céu noites seguidas, esses astrônomos primitivos logo perceberam que, à medida que os dias e as noites se sucediam, o Sol ia lentamente mudando de posição em relação às estrelas. Por exemplo, se num certo dia a estrela Sótis aparecia momentaneamente no leste antes do nascer do Sol, cerca de 15 dias depois elajá aparecia durante mais algum tempo, subindo um pouco em relação ao horizonte enquanto ainda estava escuro. Com

O calendário

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o passar dos dias, ela surgia cada vez mais cedo, e ficava mais tempo visível, até aparecer no começo da noite, ficando então visível a noite inteira. Depois disso, quando anoitecia, a estrela Sótisjá estava alta e desaparecia no oeste antes do nascer do Sol, diminuindo novamente o tempo que ficava visível, até aparecer só por alguns instantes no oeste ao anoitecer. Daí a alguns dias, ela aparecia de novo no leste ao nascer do Sol, repetindo então o mesmo ciclo. Qualquer estrela que se observasse todas as noites seguia um ciclo igual ao da estrela Sótis: aparecia no leste de madruga- da e ia ficando cada vez mais tempo visível durante a noite;

depois, começava a diminuir o tempo em que ela ficava visível, até que aparecia momentaneamente no oeste ao entardecer, para em seguida começar a aparecer novamente no leste, de madru- gada. Contando os dias decorridos entre dois aparecimentos suces- sivos da mesma estrela no leste ao nascer do Sol, descobriu-se que

o intervalo era sempre o mesmo: 365 dias. Esse período deu ongem ao ano.

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do- e:ue6 Os antigos astrônomos logo percebe-

ram que as estações de chuva e de seca, de calor e de frio, etc. se

repetiam sempre na mesma época do ano. Portanto, o ciclo solar de 365 dias determinava também o ciclo das estações do ano. Isso se relaciona com o fato de o percurso aparente do Sol no céu variar ao longo do ano. Numa determinada fase do ano,

o Sol percorre um caminho aparentemente mais longo no céu,

atingindo também maior altura em relação ao horizonte. Nessa época do ano, que chamamos de verão, o dia é longo, a noite é

Curtae a temperatura é mais alta. Seis meses depois, no inverno,

o Sol percorre no céu um caminho aparentemente mais curto,

~antendo-se também mais próximo do horizonte, resultando em dIas curtos, noites longas e temperaturas mais baixas.

18

o

calendário

No hemisfério Sul, por exemplo, por volta de 22 de dezem- bro o Sol percorre, durante o dia, o caminho mais longo no céu. Esse é osolstício de verão, ou seja, o dia mais longo e a noite mais curta do ano. Já por volta de 22 de junho, ocorre, também no hemisfério Sul, o solstício de inverno, quando o Sol percorre seu caminho mais do ano. curto no céu, ocorrendo o dia mais curto e a noite mais longa

Solstício

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Trajetórias aparentes do Sol no hemisfério Sul.

o calendário

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Entre o solstício de verão e o solstício de inverno, ocorrem

os equinócios, ou seja, as datas nas quais o dia tem a mesma

duração que a noite. O equinócio de outono ocorre no hemisfério

Sul por volta de 21 de março, e o equinócio de primavera, por volta de 23 de setembro. As datas de 23 de setembro, 22 de dezembro, 21 de março e

22 dejunho correspondem, no hemisfério Sul, ao início da prima- vera,do verão, do outono e do inverno,respectivamente (no hemis- fério Norte, são o início do outono, inverno, primavera e verão). E por que ocorrem as estações do ano? Durante muito tempo, a idéia predominante entre os astrôno- mos era a de que as estrelas estariam fixas numa grande esfera à volta da Terra - ojirmamento -, que giraria constantemente ao redor de nós, com período de 24 horas. Segundo essa antiga idéia, o Sol e a Lua seriam "arrastados" por essa esfera, girando também ao nosso redor uma vez a cada 24 horas. Essa rotação de 24 horas daria origem ao cicIo dia/noite. Além disso, supunha-se que o Sol tivesse um movimento

próprio,

deslocando-

se em relação às estre-

las, dando uma volta a

cada 365 dias, resul-

tando no cicIo anual.

A Lua também teria

se~ movimento pró-

pno, resultando seu

ciclo de fases.

Segundo os antigos, as estre- las, o Sol e a Lua girariam ao redor da Terra.

20

o calendárioI

Segundo esse raciocínio, a trajetória anual do Sol seria incli- nada em relação ao equador terrestre e, por isso, numa parte do ano ele iluminaria mais uma certa região e em outra parte do ano iluminaria menos, ocasionando o verão e o inverno.

Movimento de

24 h do Sol

do solstício de inverno do

no dia

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Hemisfério Sul

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Movimento

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de 24 h do Sol no dia do solstício de verão do Sul

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Posição do Sol correspondente ao solstício de verão no Hemisfério Sul

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Movimento diário (24 horas) da

- esfera das estrelas

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TERRA

Sul

ESFERA DAS

ESTRELAS

(FIRMAMENTO)

Movimento do Sol em relação à esfera das estrelas (365 dias)

Explicação para as estações do ano, segundo os antigos. A Terra permaneceria fixa e a esfera das estrelas (firmamento) giraria ao nosso redor, com período de 24 horas. O equador da Terra dividiria o firmamento em duas metades: norte e sul. Em seu movimento de 24 horas, o firmamento arrastaria consigo o Sol, que teria um lentO movimento em relação aofirmamento, com periodo de 365 dias. inclinado em relação ao equador terrestre. Quando o Sol estivesse no extremo norte de sua trajetória, seria verão no norte e inverno no sul. Nessa época do ano, o dia é mais longo que a noite no hemisfério Sul (a parte iluminada da Terra é maior que a parte escura nO hemisfério Sul; por isso, ao longo de 24 horas. o período claro é mais longo que o período escuro). Dividindo em quatro partes iguais a trajetória do Sol em relação aO firmamento. definiam-se as quatro estações do ano.

O calendário

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Hoje, essa idéia é considérada incorreta. A partir do século XVII,com os trabalhos de pensadores como Copérnico e Galileu, sabemos que:

. As estrelas estão praticamente fixas para nós, pois seus movi- mentos, umas em relação às outras, têm durações muito longas em comparação à nossa contagem de tempo. .O ciclo do dia deve-se à rotação da Terra em tomo de seu próprio eixo, com período de 24 horas. .O ciclo do ano deve-se ao movimento da Terra em tomo do Sol, com duração de 365 dias.

Hoje

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Solstício de inverno (22 de junho)

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Solstício de verão (22 de dezembro)

 

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22

o

calendário

· As estações do ano se devem ao fato de o eixo de rotação da Terra ser inclinado em relação ao plano de sua órbita, provo- cando uma maior ou menor incidência de radiação solar em cada hemisfério em função da posição do planeta em seu percurso. Assim, o solstício de verão no hemisfério Sul ocorre quando esse hemisfério fica voltado na direção do Sol e o solstício de inverno ocorre no ponto oposto da órbita da Terra, quando esse hemisfério fica voltado para o lado oposto ao Sol. Compare essas duas figuras com a figura sobre as trajetórias aparentes do Sol, na página 18. Veja que as duas são explicações válidas para o que se vê a partir da Terra, embora a segunda seja mais simples.

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homem pré-histórico conhecia era o ciclo da Lua, cujas fases-

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Outro acontecimento cíclico que o

nova,crescente,cheiae minguante-

se repetema cada29 diase

meio. Os ciclos da Lua parecem ter relação com alguns aconteci- mentos biológicos importantes, como o ciclo menstrual da mulher (um ciclo lunar) e o tempo de gestação (dez ciclos lunares para o ser humano). Hoje, sabemos que a Lua gira ao redor da Terra, e que esse movimento gera as várias fases lunares. Para medir a passagem do tempo ao longo do ciclo solar, ou seja, ao longo do ano, os egípcios utilizavam os ciclos da Lua, arredondados para 30 dias. Assim, foi criado o mês. Um ciclo do Sol contém aproximadamente 12ciclos da Lua, surgindo daí o ano de 12 meses. Nos mais antigos calendários egípcios, o ano tinha 12 meses de trinta dias, num total de 360 dias. Essa contagem apresentava um erro de cinco dias por ano em relação ao ciclo solar, ou seja, a cada ano as estações se desviavam cinco dias em relação ao calendário. Quando esse desvio ficava

.

o calendário

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muito grande, acrescentava-se um mês a mais no fim do ano, para corrigir o calendário. Essa prática, no entanto, trazia muitos problemas, pois esse mês era acrescentado sem uma regra defini- da. Para introduzir uma regra constante, os egípcios criaram um calendário em que o ano tinha 12 meses de trinta dias e no final do ano acrescentavam-se cinco dias. Entre os egípcios, a contagem dos anos não era contínua, reiniciando-se cada vez que um novo faraó assumia o trono. Outra civilização antiga, a dos babilônios, dava muita impor- tância às fases da Lua, que duram aproximadamente sete dias. Cada período de sete dias terminava com um dia "maligno", no qual não se trabalhava. Esse costume foi herdado pelos cristãos, dando origem à nossa semana de sete dias com um descanso semanal, embora, na concepção cristã, o dia de descanso semanal não seja maligno, e sim o dia do Senhor (em latim, dies dominica, originando a palavra "domingo").

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Observando-se

o céu durante a noite, vêem-se

sur-

gir no horizonte inúmeras estrelas, numa lenta sucessão. No Egi- to, as várias fases da noite eram delimitadas por determinadas es- trelas. Quando uma certa estrela despontava no horizonte, termi- nava uma fase, ou "hora", e se iniciava a seguinte. A noite foi,

assim, dividida em

Para ficar com o mesmo número de horas da noite, o período diurno também foi dividido em 12, surgindo assim o ciclo de 24 horas, que usamos até hoje. A hora egípcia, no entanto, não tinha o mesmo significado da hora atual. Os períodos noturno e diurno eram divididos em 12 horas cada um em qualquer fase do ano, tanto no verão, quando a noite é mais curta, quanto no inverno, quando a noite é mais longa. Isso significa que a duração da hora variava ao longo do ano. A hora noturna era longa no inverno e a hora diurna, curta. No verão, ocorria o contrário: a hora noturna era curta e a diurna era longa.

12 horas.

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calendáriqll

Foram os astrônomos gregos, por volta do século 111a,C"j que adotaram pela primeira vez a hora com duração constante,:. igual a 1/12 da noite no equinócio da primavera. Esse sistema, quei! utilizamos hoje, consolidou-se por volta do século XIV, quandoi

foram inventados

os primeiros

relógios mecânicos.

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Desde os antigos egípcios, as festas,

religiosas eram ligadas às atividades agrícolas; por isso, o calen-,

dário de festas religiosas se apoiava no ciclo do Sol, muitas vezesf ajustado pelo ciclo lunar, para que a festa caísse na Lua cheia,,1 quando a noite é mais iluminada. Esse costume foi herdado pelos:, judeus e, posteriormente, pelos cristãos, chegando então até nós. A Páscoa, por exemplo, teve origem na antiqüíssima festa da' chegada da primavera (que, nos países de inverno rigoroso, é motivo de grande alegria, pois marca o fim do frio). A Páscoa é comemorada no primeiro domingo após a primeira Lua cheia da primavera do hemisfério Norte.

Alguns séculos após a morte de Cristo, a Igreja Católica adotou a Páscoa como data comemorativa de sua ressurreição. É interessante ressaltar o transplante cultural ocorrido com a colonização do hemisfério Sul pelos povos do norte. A Páscoa, que originalmente é a comemoração do fim do inverno, é come- morada por nós, no hemisfério Sul, no final do verão.

Não é só a Páscoa: muitas outras festas religiosas têm origem em rituais milenares ligados aos ciclos do Sol e da Lua. A noite

mais curta do ano no hemisfério Norte, o solstício de verão, que ocorre por volta de 22 de junho, era motivo de uma grande festa que marcava o início do verão. Nessa festa, as pessoas aproveita- vam a noite quente acordadas, fora de casa, e acendiam fogueiras para obter luz e fazer assados. Com o estabelecimento do cristi- anismo na Europa, a Igreja adotou essa comemoração: assim, o antiqüíssimo ritual das fogueiras no solstício de verão (21 de

junho) e balões. se transformou na nossa festa de São João, com seus fogos

O calendário

25

Outra festa milenar era a da noite mais longa do ano no hemisfério Norte, o solstício de inverno, que ocorre por volta de 22 de dezembro. As pessoas não saíam de casa nessa noite, porque o frio era muito intenso. FicavaI?' então, reunidas ~m família, comemorando a data com um Jantar regado a mUlto vinho. Essa festa foi adotada pela Igreja como a comemoração do aniversário de Cristo, fixado em 25 de dezembro, nosso dia de Natal. Novamente vale a pena lembrar que no hemisfério Sul as estações do ano são invertidas em relação à Europa, mas as festas são comemoradas da mesma forma. Assim, na noite fria que marca o início do inverno, fazemos uma festa ao ar livre (quer- messe de São João); na noite quente de 25 de dezembro, ficamos

fechados em casa, consumindo alcoólicas.

carne,

castanhas

e bebidas

Por volta de 50 a.C., a República

Romana, conduzida por Júlio César, estava se transformando em Império. Dentre as várias inovações administrativas introduzidas por César, uma foi a criação de um novo calendário, em 45 a.C., que ficou conhecido como calendário juliano. Até esse ano, Roma adotava o ano de 360 dias, com 12meses detrinta dias. Como vimos, essa contagem apresentava um erro de cinco dias por ano; para corrigir esse erro, os romanos introduzi- am, de acordo com a necessidade, um mês extra no fim do ano. Isso gerava uma grande confusão, pois o Império nascente já era bastante extenso e, além disso, a inclusão de meses extras era freqüentemente deturpada com fins políticos, ~endo usada para prolongar mandatos, adiar eleições, etc. Na época de Júlio César, Por exemplo, o ano oficial estava defasado três meses em relação ao ciclo solar, de forma que o outono do calendário correspondia aos meses mais frios e o inverno coincidia com o aparecimento das flores.

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calendáriQ'1O calendário

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Aconselhado por astrônomos, Júlio César abandonou o mês'

No calendário juliano, o ano teria 12 meses. A duração de

de trinta dias, que ainda era um resquício do ciclo da Lua, e crioUi cada mês teria de ser ajustada de tal forma que:

um novo calendário, totalmente baseado no Sol.

.Cada mês possuísse um número inteiro de dias. .A soma de todos os meses fosse exatamente igual a um ano. Se o ano de 365 dias fosse dividido em 12 meses iguais, cada mês teria 30,4 dias. Para evitar esse problema, Júlio César estabe- leceuque os meses teriam alternadamente 31 e 30 dias, começan- do com 31. Dessa forma, somando-se os 11primeiros meses, chegava-se a 336 dias, restando 29 dias para completar um ano de 365 dias. Ficou então estabelecido que o último mês do ano teria 29 dias e, nos anos bissextos, 30 dias. O ano iniciava-se na primavera de Roma (nosso outono) e os meseseram numerados: primeiro mês, segundo mês, terceiro mês, etc. Assim, o primeiro mês era o atual mês de março (dessa seqüência numérica, restam hoje os nomes setembro, outubro, novembro e dezembro, que eram o sétimo, oitavo, nono e décimo mês, respectivamente). O último mês do ano, que tinha duração variável, era o último mês do inverno do hemisfério Norte, correspondendo ao atual mês de fevereiro.

Já naquela época se sabia que o ciclo solar, que regula as estações do ano, tem, na verdade, 365 dias e um quarto (é fácil chegar a essa conclusão, tirando a média de muitos anos acumu~ lados). César criou, então, um novo calendário, no qual os anos~ tinham 365 dias, exceto um ano em cada quatro, que tinha 366,1 dias. Dessa forma, obteve-se o ano com duração média de 365 dias':

e um quarto. Antes dessa reforma, quando os meses eram ainda ligados ao ciclo lunar, os romanos os contavam pela Lua nova, que era chamada calendas (daí a tabela dos meses e dos dias se chamar "calendário"). O dia extra introduzido de quatro em quatro anos' entrava junto com o sexto dia antes da calenda do primeiro mês do ano; por isso, foi chamado "bissexto". Assim, o ano de 366 dias' também ficou com o nome de "ano bissexto". Os anos bissextos eram os múltiplos de quatro.

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Duração média do ano de 365 dias e um quarto

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Duração dos anos no calendário juliano.

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TERCEIRO

QUINTO

SÉTIMO

NONO

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MÊS(atual

MÊS (atual

MÊS(atual

MÊS(atual

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março)

maio)

julho)

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novembro)

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SEGUNDO

QUARTO

SEXTO

OITAVO

DÉCIMO

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MÊS (atual

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MÊS (atual

MÊS(atual

MÊS(atual

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junho)

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28

o calendárioI O calendário

29

o sistema criado por César era fácil de utilizar e de memo-

rizar: começava com um mês de 31 dias, depois vinha um de 30, um de 31, e assim alternadamente, até que o último tinha duração variável. Infelizmente, alguns anos depois, essa solução foi estragada por interesses políticos. O problema surgiu com a prá- tica de homenagear deuses e imperadores dando seus nomes aos meses do ano. O primeiro mês recebeu o nome do deus Marte (surgindo o mês de março), o quarto mês recebeu o nome da deusa Juno, e assim por diante. Ao próprio Júlio César coube o quinto mês, que até hoje se chama julho. Com a morte de Júlio César, assumiu o poder o imperador Augusto, que foi homenageado com o mês seguinte (agosto).

No entanto, algum bajulador notou que o mês de Júlio César tinha 31 dias, enquanto o mês de Augusto tinha somente 30. Fez-se, então, uma alteração no calendário: o mês de agosto ganhou um dia, roubado de fevereiro, que passou a ter 28 e 29 dias.

Isso trouxe um problema: uma sucessão de três meses de 31

dias -

julho, agosto e setembro.Para evitar isso, alteraram-se

todos os meses, de setembro a dezembro. Assim, uma solução simples e elegante foi transformada numa bagunça que permanece até hoje e que as pessoas têm dificuldade para memorizar. Como os cônsules, eleitos com mandato de um ano, toma-

vamposseem IQ dejaneiro,essa datapassoua marcaro iníciodo

ano, prática que se estende até hoje. Com relação à contagem dos anos, o calendário juliano tomava como base o suposto ano da fundação de Roma, que, nas contas da época, teria ocorrido 708 anos antes. Assim, o calendá- rio se iniciou no ano 708 (na nossa contagem atual, 45 a.c.). Aproximadamente 600 anos depois de Júlio César, foi mon- tada pela primeira vez uma tabela de datas festivas da Igreja Católica, que tomava como base o suposto ano de nascimento de Cristo, 753 do calendário juliano. Esse ano acabou sendo adotado como ano I, dando origem à contagem dos anos que utilizamos a partir daí.

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Como vimos,

o calendário

juliano baseava-se no ano de 365 dias e um quarto, considerado correto para a astronomia da época de Júlio César. Medidas pos- teriores, no entanto, mostraram que o ano trópico, isto é, o ano medido pelas quatro estações, tem a duração de 365,2422 dias, ou seja, é 1I minutos mais curto que o adotado no calendário juliano. À primeira vista, parece que essa diferença é desprezível; afinal, o que são 11minutos em um ano? No entanto, à medida que os anos vão passando, esses desvios vão se acumulando. A cada 128 anos, acumulava-se um desvio de um dia. Ao se aproximar o ano de 1600 d.C., já havia um desvio acumulado de 13 dias, ou seja, as estações do ano reais já haviam retrocedido 13 dias em relação ao calendário. Essa situação incomodava bastante a Igreja, devido ao calen- dário litúrgico. Pelo calendário litúrgico, por exemplo, a Páscoa deveria ser comemorada no domingo seguinte à primeira Lua cheia depois do equinócio da primavera. Devido ao desvio do calendário, o equinócio da primavera já estava caindo na metade de fevereiro, ou seja, em pleno inverno oficial. Mas a Páscoa é, essencialmente, a comemoração da chegada da primavera! Como comemorá-Ia no inverno? Em 1582, o papa Gregório XIII convocOUuma equipe de matemáticos e astrônomos para resolver o problema do desvio do calendário. Muitas soluções foram apresentadas,mas a que acabou prevalecendo foi uma pequena alteraçãono calendáriojuliano, pela

qual, basicamente, era preciso eliminar um desvio de um dia a cada

desvio de três

128 anos, o que resultava, aproximadamente,em um

dias a cada 400 anos. A solução foi retirar três dias do calendário

a cada 400 anos, da seguinte forma: os anos múltiplos de cem

deixariam de ser bissextos, exceto os múltiplos de 400, que conti-

nuaram sendo. Assim, de acordo com o calendário gregoriano,que

é o calendário utilizado até hoje, o ano de 1600 foi bissexto (pois

é múltiplo de 400), mas os anos de 1700, 1800 e 1900 não; o ano 2000 será bissexto, mas os anos 2100, 2200 e 2300, não.

30

1596

bissexto

1600

bissexto

1604

bissexto

1608

bissexto

1696

bissexto

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1704

bissexto

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1796

bissexto

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ano normal

1804

bissexto

1808

bissexto

1896

bissexto

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ano normal

1904

bissexto

1908

bissexto

1996

bissexto

2000

bissexto

2004

bissexto

2008

bissexto

2196

bissexto

2200

ano normal

2204

bissexto

2208

bissexto

Anos no calendário gregoriano (utilizado atualmente).

o

calendário

o calendário

31

Para corrigir o erro acumulado até então, o papa emitiu um decreto eliminando vários dias do ano de 1582, o que causou uma grande confusão, mas colocou o calendário em dia com o movi- mento da Terra. A Igreja Católica era a instituição mais poderosa do mundo ocidental; por isso, o calendário gregoriano acabou prevalecendo em toda a Europa, espalhando-se posteriormente para as colônias européias na América, Ásia e África. Hoje, esse é o calendário adotado universalmente nas relações internacionais, embora al- guns povos, como os judeus, ainda utilizem internamente seus próprios calendários. O calendário gregoriano não é absolutamente exato. Ele tem um pequeno desvio, e calcula-se que dentro de 3 mil anos o erro será de um dia. Mas isso é um problema lá deles!