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AS SETE VELAS DE MEU BARCO

A S S ETE V ELAS DE M EU B ARCO M.D. Poinsenet

M.D. Poinsenet

ÍNDICE

AS SETE VELAS DE MEU BARCO

I. O Dom de Temor São João da Cruz

II. O Dom de Piedade Santa Salsa

III. O Dom de Fortaleza São Tarcísio

IV. O Dom de Conselho São João Bosco

V. O Dom de Inteligência Santo Tomás de Aquino

VI. O Dom de Ciência Santa Bernadete

VII. O Dom de Sabedoria Santa Maria, Mãe de Deus

Era a noite de Quinta-feira Santa. Os apóstolos tinham acabado de receber a sua Primeira

Era a noite de Quinta-feira Santa. Os apóstolos tinham acabado de receber a sua Primeira Comunhão das mãos do próprio Jesus. Este, como sabia que no dia seguinte ia morrer na cruz, começou a falar com tanta ternura, que aqueles homens, que o seguiam havia três anos, se comoveram muito. Eis o que Jesus lhes dizia:

vou partir. Sei que isto que

vos digo é muito triste. Mas é preciso. É para o vosso bem. É porque vos amo que vou morrer por vós. Depois, voltarei para o meu Pai, que é também o vosso Pai. E vós já o conheceis, pois é a ele que falais quando dizeis, na oração que vos ensinei:

- Meus filhinhos, tenho de deixar-vos

Pai Nosso, que estais nos céus

- Mas não quero que fiqueis tristes. Escutai bem o que vos digo:

quando eu tiver voltado para junto de meu Pai, eu vos enviarei o grande Consolador, o Espírito Santo. Ele virá a vós. E, se souberdes recebê-lo, ele virá habitar em vossa alma.

- Enquanto estivestes comigo, eu vos ensinei muitas coisas. Mas,

apesar de vossa boa vontade, não pudestes compreender tudo

Santo virá, e ele vos explicará tudo quanto não entendestes. Se fordes fiéis,

ele vos fará compreender tudo o que eu vos disse

O Espírito

No dia seguinte, Jesus estava morto: pregado na Cruz. Foi uma coisa terrível! Todos os apóstolos fugiram. Por três vezes Pedro dissera que não conhecia Jesus, que nunca tinha estado com ele, tão grande era seu medo de ser também preso e morto pelos Judeus. Só à tarde é que João voltou ao Calvário e ficou perto de Nossa Senhora, que estava de pé junto à Cruz, enquanto Jesus morria. Os outros apóstolos sumiram; com certeza, estavam escondidos em algum lugar

Depois, foi o domingo de Páscoa. De manhã bem cedinho, Pedro e

Ficaram muito assustados! Não

João encontraram o túmulo vazio

entendiam mais nada. Na tarde desse dia, Jesus apareceu no meio deles. Como não precisou abrir a porta, pois o seu corpo glorioso podia passar

através das paredes, os apóstolos começaram a gritar:

- É um fantasma!

E Jesus teve de sossegá-los e acalmá-los.

Tomé

estava

ausente.

À

noite,

quando

disseram:

voltou,

os

outros

lhe

- Sabes, Tomé, nós vimos o Senhor! Ele está vivo! Ressuscitou!

Mas Tomé não quis acreditar e disse:

- Pois se eu não puser o dedo nas feridas de suas mãos, e a mão na chaga do seu lado, não acreditarei!

Não, na verdade, não podemos dizer que os apóstolos tivessem fé viva nem grande coragem! Eles precisavam muito receber o Espírito Santo!

Depois de sua ressurreição, durante um mês mais ou menos, Jesus continuou a aparecer-lhes, de vez em quando. Uma vez, foi no Cenáculo; outra, na praia, junto ao mar, onde os apóstolos tinham recomeçado a pescar, como antigamente, pois já não tinham outra coisa a fazer! Quando Jesus vinha visitá-los, ficavam radiantes, e sentiam o mesmo entusiasmo dos primeiros tempos. Mas logo que os deixava de novo, sentiam-se muito sós e terrivelmente tristes.

No fim de quarenta dias, Jesus disse-lhes que agora ia partir para sempre. Que triste notícia para os apóstolos! Jesus tinha vindo ainda uma vez tomar a refeição com eles, só para alegrá-los, pois o seu corpo glorioso já não precisava de alimento. E lembrou-lhes então a sua promessa:

- Não vos afasteis de Jerusalém, pois daqui a poucos dias eu vos enviarei o Espírito Santo. Quando ele tiver descido às vossas almas, ele vos dará a sua força. E todos vós sereis as minhas testemunhas

Nessa mesma tarde, os apóstolos viram Jesus elevar-se ao céu. Estava tudo acabado! Nunca mais veriam Jesus na terra.

Para obedecer à sua última vontade, os apóstolos reuniram-se no Cenáculo. Mas estavam muito tristes: Jesus tinha-os deixado para sempre! Felizmente, a Santíssima Virgem estava com eles. E, com todo o carinho, como só as mães sabem fazer, ela os consolou e tranqüilizou. Assim, calmos e sossegados, eles puseram-se a rezar com ela, enquanto esperavam o grande Consolador que Jesus lhes prometera.

Ao fim de dez dias, quando estavam todos reunidos em volta de

Nossa Senhora, um vento muito forte começou a soprar sobre a casa. Um verdadeiro tufão sacudia o telhado, as paredes, as portas. Todos olhavam

E, de repente, viram aparecer, na sala onde se encontravam,

assustados

chamas luminosas com a forma de línguas de fogo, que vieram pousar sobre cada um deles.

onde se encontravam, assustados chamas luminosas com a forma de línguas de fogo, que vieram pousar

E eis que já não sentiam medo! Alguma coisa acontecera em suas

almas. Uma coisa maravilhosa, espantosa, incrível! Parecia que as línguas de fogo que tinham visto por alguns instantes haviam-lhes penetrado nos

corações, aquecendo, abrasando, transformando-os. Sentiam agora uma alegria imensa, e ao mesmo tempo muita calma. Experimentavam a certeza absoluta de que Jesus é realmente o Filho de Deus, que ele tinha verdadeiramente ressuscitado, e que os escolhera - embora fossem pobres homens, medrosos e covardes - para levar, pelo mundo todo, a boa nova do Evangelho. A feliz notícia da Redenção!

Imediatamente, Pedro, que era o chefe dos apóstolos, saiu à rua e começou a explicar a todos que passavam que Jesus tinha morrido para nos salvar, que ele tinha ressuscitado, e que todos deviam crer no seu amor.

O medo que antes sentiam, desaparecera completamente!

Algum tempo depois, Pedro e João foram presos e levados para a

cadeia.

- Nós vos proibimos falar no Senhor Jesus - disse-lhes o juiz.

- testemunhas; ainda que nos ameacem de morte, falaremos de Nosso Senhor. Não podemos deixar de obedecer a Deus!

De fato, anos mais tarde, todos os apóstolos foram martirizados:

Pedro. Somos suas

Isso

é

impossível!

respondeu

São

-

cada um no país onde o Espírito Santo lhe ordenara pregar o Evangelho.

Mártires. Santos. Testemunhas de Jesus. Eis o que o Espírito Santo fez daqueles pobres homens que, na noite da Paixão de Jesus, tinham fugido, escondendo-se como uns poltrões e covardes.

Mas quando Jesus prometeu aos apóstolos que lhes enviaria o Espírito Santo, prometia ao mesmo tempo enviá-lo a todos aqueles que pelo Batismo se tornassem filhos de Deus.

Assim, quando fomos batizados, toda a Santíssima Trindade veio habitar em nossa alma:

O Pai, a quem dizemos: Pai Nosso, que estais nos céus.

O Filho, que veio habitar conosco na terra, a fim de que um dia possamos ir ter com ele no Céu.

O Espírito Santo, que invadiu a alma dos apóstolos, no dia de Pentecostes.

Sabemos que a nossa alma existe: se não tivéssemos alma, não poderíamos pensar, conhecer ou amar. No entanto, nunca podemos ver a nossa alma. O mesmo acontece com o Espírito Santo: ninguém pode vê-lo, mas temos de acreditar nele, porque Jesus, no seu Evangelho, diz que ele existe e que nos seria enviado pelo Pai. Como podemos reconhecer que ele está presente em nossa alma? Quando nos vemos diante de uma coisa difícil, que não teríamos coragem de fazer sozinhos, e sentimos que alguém nos ajuda: não, exteriormente, mas no fundo de nossa alma.

É sobretudo pela Confirmação que o Espírito Santo vem tomar conta de cada alma, como tomou conta da alma dos apóstolos no dia de Pentecostes. Ele vem, não para fazer daquele que é crismado um cristão, pois isso já foi feito pelo Batismo, mas para fazer com que viva como cristão. O Bispo, que possui os mesmos poderes que Jesus tinha dado a seus apóstolos, estende as duas mãos e pede ao Espírito Santo que desça, com a abundância de seus dons, sobre a alma daquele que recebe o Crisma.

Esses dons existiram primeiramente na alma de Jesus, como o anunciara bem antes o profeta Isaías:

“Sobre ele repousará o Espírito do Senhor, Espírito de Sabedoria e de Inteligência, Espírito de Conselho e de Fortaleza, Espírito de Ciência, de Temor, e de Piedade.”

Que são, afinal, esses maravilhosos dons que o Espírito Santo nos

dá?

Vemos, às vezes, no mar, bonitos barcos à vela, que parecem deslizar sobre as ondas. Não têm motor: é o vento que os impele. Para isso é que têm velas.

Os dons do Espírito Santo são como sete velas brancas, suspensas no barquinho de nossa alma. Quando estão desdobradas e estendidas, podem ser bem manejadas - isso é muito importante - e o grande sopro do

Espírito Santo virá então enchê-las! O Espírito Santo, que conhece o rumo certo, levará a alma para Deus, para a vida eterna do Céu.

Para que servem, em nossa vida, os sete dons do Espírito Santo? Eles fazem com que a nossa alma seja ensinada, guiada, pelo Espírito Santo, mais ou menos como o barco à vela, que é movido pelo vento. Mas cada um de nós tem de prestar atenção ao vento que vem encher suas velas, para que elas estejam sempre abertas e prontas a receber o sopro do Espírito Santo. Então, mesmo com chuva, tempestade ou neblina, ele guiará a alma até o porto da eternidade.

Isso, porém, não dispensa nosso esforço. O Espírito Santo não vem fazer o trabalho em nosso lugar. Ele vem ajudar-nos: e ninguém vem ajudar uma pessoa a não fazer nada. Mas, com o Espírito Santo, tudo fica logo muito mais bonito, mais verdadeiro, mais claro

I.

O DOM DE TEMOR

O pequeno João Yepes brincava com seus amiguinhos à beira de

uma lagoa. Era uma lagoa lodosa, cheia de lama escura e suja. Os meninos cortavam pequenos ramos de árvore e os jogavam com toda a força na água: formavam assim uma pequena frota. Era muito divertido! Mas de repente, zás! Ao jogar um pau, João escorrega e cai no charco. Na margem, seus companheiros gritam, assustados. João é ainda muito pequeno: só tem cinco anos! Vai se afogar! Está afundando na lama, e só se vê a sua cabecinha fora do lodo.

Eis, porém, que uma pessoa lhe estende os braços. Uma moda resplandecente de pureza e de luz debruça-se sobre a água: é a Virgem Maria. Admirado ao ver a aparição, o menino procura sair da lagoa e estende também os bracinhos. Mas, vendo que suas mãos pretas do lodo

imundo iam sujar as mãos tão brancas e tão puras de Nossa Senhora, João recua e mergulha de novo os braços na lama. Manchar as mãos tão lindas

da Virgem Santíssima?

pântano e até morrer ali, se for preciso.

Nunca! Joãozinho prefere afundar naquele

O dom de Temor, é isso! É o medo de manchar, ainda que pelo

menor pecado, pelo egoísmo, pela mentira, o reflexo da infinita pureza de Deus em nossa alma. É o medo de entristecer, por pouco que seja, o Espírito Santo que habita em nós. É o medo de causar a mais leve mágoa a

Jesus, que tanto sofreu por nossos pecados. Não é o medo de ser castigado,

de se machucar, ou de ter que se esforçar muito

João Yepes não teve medo de afundar na lama: só teve medo de não ser bastante puro para tocar as mãos da Virgem Maria.

O menino foi salvo por um homem que passava por ali e que lhe

estendeu uma vara, à qual ele se agarrou e assim alcançou a margem. Nunca mais, no entanto, pôde esquecer aquela visão de luz e de pureza, ao lado da lagoa tão suja em que caíra. Esse menino, quando cresceu, chamou-se Frei João da Cruz; depois, a Igreja chamou-o SÃO JOÃO DA

CRUZ. Ele escreveu coisas lindas sobre a pureza de Deus e sobre a pureza que a alma tem de alcançar para poder unir-se a Nosso Senhor:

É o contrário disso.

“Nossa alma é como uma vidraça, banhada pela brilhante luz do sol. Quando está pura, quando não tem manchas, ela resplandece como o próprio sol: e o sol é Deus.”

Mas é preciso ter muito cuidado para conservar a alma inteiramente pura, para evitar, tanto quanto possível, o menor pecado. Na verdade, o pecado é o único mal - pois é só ele que nos afasta de Deus. E, se for pecado grave, pode até separar-nos completamente de Nosso Senhor.

Pelo dom de Temor, o Espírito Santo murmura no fundo de nossa

alma:

- Presta atenção para não caíres na armadilha do pecado. Toma cuidado para não me entristecer, pois sou infinitamente bom, infinitamente puro, e forçosamente tenho horror a tudo quanto é feio ou impuro.

Toma cuidado para não te apegares tanto às coisas que eu te dei, a fim de não me esqueceres nem um bocadinho por causa dessas coisas.

Tudo quanto tens, fui eu quem te deu: podes amar tudo que é bom, tudo que é belo, tudo que criei para ti. Mas toma bem cuidado: é preciso que me ames mais do que todo o resto. É preciso até, de vez em quando, que faças o sacrifício daquilo de que mais gostas, para provar-me que me amas mais do que tudo.

O dom de Temor torna-nos então muito pobres, daquela pobreza de que Jesus disse:

“Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus.”

Ele esvazia-nos de tudo que é inútil, de tudo que estorva, de tudo que não é Deus. Para quê? Para que Deus possa tomar todo o lugar em nosso coração e encher-nos com a única verdadeira riqueza, que é o seu amor.

Há crianças que sabem escutar perfeitamente essa voz do Espírito Santo. E então, se ele puder fazer tudo que quiser em suas almas, o Espírito Santo as levará pelo caminho da santidade, mesmo que as crianças ainda sejam bem pequeninas.

II.

O DOM DE PIEDADE

Há muitos e muitos anos, no Norte da África, em Tipasa, onde hoje

é o território da Argélia, vivia um povo que não conhecia Nosso Senhor.

Adorava como deus um dragão representado por uma estátua horrível e riquíssima, feita de ouro e prata, com dois diamantes no lugar dos olhos. Para esse dragão, o povo tinha construído um templo magnífico no alto de um rochedo, à beira-mar.

Todo o ano, no mês de maio, os moradores de Tipasa faziam uma grande festa em honra de seu deus, com procissões, danças, divertimentos, nos quais todos comiam muito, e bebiam ainda mais!

A pequena Salsa tinha horror a essas festas, pois era cristã! Vendo

aquela gente adorar um ídolo ridículo, em vez de adorar a Deus, que é nosso Pai, sentia imensa tristeza.

Salsa não era muito crescida, tinha apenas quatorze anos, mas amava tanto a Deus que não podia deixar de procurar fazer alguma coisa por Nosso Senhor.

Assim, numa noite de festa do deus-dragão, ela encaminhou-se às escondidas para o templo no alto da rocha.

Todos os guardas tinham bebido muito e dormiam um profundo sono, deitados do lado de fora. Que sorte, para Salsa! Rapidamente, entra no templo e faz a volta do ídolo, procurando ver se está preso no pedestal. Observa então que a estátua é feita de duas partes: a cabeça é aparafusada sobre o corpo. Isso facilitará muito o seu trabalho! Devagar, para não fazer barulho, a corajosa menina faz girar a cabeça até que fique solta. Justamente, ali pertinho, há uma grande janela aberta sobre o mar, e, com um forte empurrão, a horrível cabeça é lançada às ondas. Ninguém percebeu nada!

Mas Salsa ainda não está satisfeita! É preciso também destruir o

a menos que

corpo. Este, porém, é por demais pesado para suas forças ela arranje uma barra de ferro para servir de alavanca.

A noite está agora completamente escura. Lá fora, Salsa consegue

achar um sólido ferro, e volta depressa para o templo. Enfia uma ponta sob

a monstruosa estátua e, com um vigoroso impulso, joga aquele

ídolo horroroso pela janela. Mas, desta vez, antes de cair no mar, a estátua bate nas pedras com terrível estrondo. Acordados pelo barulho, os guardas entram correndo no templo e cercam a menina, que não pode escapar. Com certeza vão matá-la. Não faz mal! O ídolo já não existe então, Salsa não se incomoda de morrer!

Por vingança, os guardas atiraram também a valorosa menina do alto do rochedo. Mas, três dias depois, seu corpo foi milagrosamente encontrado, perfeito, sob um navio que chegava da Gália.

- Hoje, a Santa Igreja chama essa menina SANTA SALSA.

Foi o dom de Piedade que levou Salsa ao heroísmo do martírio.

O dom de Piedade é que a fez compreender que só podemos adorar

a

Deus, porque só ele é infinitamente perfeito, porque só ele criou do nada

o

Céu e a terra.

O dom de Piedade pode ainda hoje levar ao martírio, e isso acontece por vezes. Mas o martírio não é obrigatório. Deus não pede isso a toda gente.

O que Deus pede a todos nós é que saibamos bem que ele é o nosso

Pai, e que vivamos como seus filhos.

Viver como filhos de Deus não é sempre tão fácil quanto parece. Pois Jesus nos recomendou: “Sede perfeitos, como vosso Pai celeste é perfeito”. Para isso, precisamos que o Espírito Santo venha a todo instante ajudar-nos, lembrando-nos que somos filhos de Deus, irmãos de Jesus e irmãos de todos os homens. Já São Paulo explicava aos primeiros cristãos, numa das belas cartas que costumava escrever- lhes:

“O Senhor enviou à nossa alma o Espírito Santo, que nos faz exclamar do fundo do coração: Pai, Papai!” Até para rezar bem o “Pai Nosso”, temos necessidade do Espírito Santo. Sozinhos, podemos certamente “recitar” as palavras das orações, mas não compreendemos o que dizemos. E, sobretudo, não temos consciência de que aquele a quem falamos está presente no íntimo de nossa alma, e vivo no tabernáculo. É por isso que tantas vezes rezamos tão mal as nossas orações! E felizmente ainda quando não as esquecemos!

O Espírito Santo é que nos faz compreender que rezar é uma alegria, pois é falar com alguém a quem amamos.

III.

O DOM DE FORTALEZA

Na semi-obscuridade das catacumbas, o Bispo acaba de oferecer o Santo Sacrifício da Missa. Com ar grave, volta-se para o pequeno grupo de fiéis que terminam sua ação de graças. Na penumbra, procura com o olhar um mensageiro seguro a quem possa confiar o Pão Consagrado, isto é, o Corpo de Cristo, para ser levado às tristes e úmidas prisões, onde os cristãos aguardam a hora do martírio.

- Tarcísio! chama o Bispo.

Uma criança levanta-se. Um menino de belos olhos leais e corajosos. Silenciosamente, aproxima-se do Bispo. Já compreendeu o que esperam que ele faça. Não é a primeira vez que isso acontece.

- Sim, eu o levarei.

Sob o amplo manto de lã, Tarcísio leva escondido o seu Deus. Calmo, forte, recolhido, segue pelas ruas de Roma. Ele é ainda uma criança. No meio de toda aquela gente, passará despercebido e ninguém

suspeitará de onde vem e para onde vai, pois, sem saber bem porquê, todo

o povo da cidade deseja a morte dos cristãos. Tarcísio julga que não será notado. Mas sabe perfeitamente o que acontecerá se o apanharem levando

a Eucaristia aos prisioneiros: será a morte!

O menino sente-se tão feliz com a difícil missão que lhe confiaram, caminha tão recolhido, rezando em silêncio, que nem vê, na esquina de uma pequena praça, um grupo de seus colegas dc escola, que organizavam uma grande partida de jogo.

- Tarcísio! Tarcísio! Venha cá!

- Precisamos de um companheiro para o nosso jogo!

- Não! responde Tarcísio, agora, não posso.

- Por quê?

- Aonde é que você vai?

- Que é que você carrega no seu manto?

- Mostre o que é!

A princípio, os meninos não fizeram a coisa por mal. Tarcísio tem

muito bom gênio e, embora seja cristão, é um bom colega. Mas o fato é que é cristão. Os companheiros pagãos o sabem, ou adivinham! Por brincadeira, talvez, um deles lança a frase que toda a cidade repete com desprezo: “É um asno de cristão, que carrega os mistérios!”

Os outros pulam e cercam Tarcísio:

- É verdade, Tarcísio? Mostre o que você leva aí!

- Mostre o que você leva, deve ser muito engraçado!

Tarcísio recua:

- Por favor, deixem-me passar!

Mas o bando cerca-o ainda mais de perto, e não o larga mais. Os meninos pagãos empurram e sacodem Tarcísio, dão-lhe bofetadas, pontapés, pedradas

Tarcísio não procura defender-se.

O sangue jorra-lhe do nariz, da boca. Seu rosto está todo ferido.

Mas não faz mal: com as duas mãos bem juntas, ele segura ainda o Pão consagrado. Isso é o que importa! Eis, porém, que tudo começa a rodar em volta dele, e, já sem forças, Tarcísio cai nas lajes de pedra.

Mas

Tarcísio está morto! SÃO TARCÍSIO, é como a Igreja hoje o designa.

Agora,

aproxima-se

um

centurião

e

os

meninos

fogem.

Sob formas diferentes, essa história tem se repetido muitas vezes, sempre que a Igreja é perseguida. Há uns vinte anos atrás, um meninozinho foi morto com uma injeção de veneno, porque tinha levado a Eucaristia a seu papai, que estava prisioneiro dos inimigos de Deus.

Essas crianças não tiveram medo nem do sofrimento, nem da morte. Como é isso possível?

É claro que, sozinhos, nunca teriam tal coragem! O Espírito Santo e

que lhes deu o dom de Fortaleza, fazendo com que ficassem firmes até o

fim, e dessem até a vida para provar que eram cristãos.

Mas temos de repetir aqui, que não somos todos chamados ao martírio. Nosso Senhor disse que não há maior amor do que dar a

vida por aqueles que amamos. É verdade! Há, no entanto, duas maneiras de dar a vida por Deus. De uma só vez, pelo martírio, como Tarcísio e Salsa; ou por uma generosidade de todos os dias, procurando fazer o bem, por amor, a todos os instantes, nas menores coisas, sem nunca se cansar. E esta segunda maneira talvez seja a mais difícil.

Não, não é nada fácil, viver, em cada momento, como verdadeiro filho de Deus! Não é fácil evitar sempre o menor pecado para conservar a alma sempre completamente pura, na resplandecente luz de Deus. Isso é até por vezes muito difícil, pois desde o pecado original nos inclinamos sempre para o mal, e o demônio está à espreita para tentar-nos e fazer-nos cometer faltas.

Temos, portanto, muita necessidade de que o Espírito Santo dê à nossa alma o dom de Fortaleza, que nos atrai para Deus, tal como o ímã atrai a limalha de ferro. Ah! Se pudéssemos ser como os Santos, simplesmente uma limalhazinha de ferro, tudo se tornaria tão fácil em nossa vida!

IV.

O DOM DE CONSELHO

Vamos falar aqui de um outro pequeno João, um outro grande Santo, que a Igreja chamará SÃO JOÃO BOSCO.

- Atenção! gritou Joãozinho. E, ágil como um esquilo, salta sobre a corda que esticou firmemente entre duas árvores do campo, ao lado da modesta casinha de sua mãe. Sua carinha redonda ri de contente! Os olhos castanhos brilham, cheios de alegria. Os cabelos pretos e crespos esvoaçam ao vento.

Na corda estendida, sobre a qual se equilibra perfeitamente, o menino dá viravoltas, pula, dança. Ao redor dele formou-se um ajuntamento: não só de crianças, mas também de gente grande. Todos têm os olhos fixos no pequeno acrobata de dez anos. Ninguém quer perder um só de seus movimentos!

Agora, João dá cambalhotas na grama, anda de mãos no chão e cabeça para baixo, “planta bananeira”. Depois, lança ovos no ar e apara-os com agilidade, sem deixar cair nenhum. Em seguida, aproxima-se dos espectadores e faz a mágica de tirar uma moeda do nariz de um pequeno! Mas o mais bonito é a dança do chapéu, que Joãozinho faz voltear na ponta de uma varinha. É extraordinário! Equilibra a vara no cotovelo, depois no ombro, no queixo, no nariz, na testa, e o chapéu sempre rodopiando! Toda a gente aplaude:

- Bravo! Joãozinho, bravo! Você é formidável!

Com ar decidido, o menino coloca-se agora bem de frente para seus admiradores. Seu rostinho tornou-se sério, mas continua com uma expressão feliz. Gravemente, ele faz um belo sinal da cruz no peito e começa repetir o sermão do Padre, que ouviu atentamente na Missa dessa manhã. Joãozinho tem uma memória prodigiosa e, se não repete o sermão inteiro, pelo menos não cai em nenhum erro, e repete com fidelidade o que escutou. Quando termina, convida toda aquela gente a rezar um terço com ele: é o preço que cobra pelo espetáculo!

Todas as acrobacias do menino só tinham por fim atrair crianças e adultos, para que ele, pequeno camponês que mal sabia ler, pudesse falar- lhes de Deus e os fizesse rezar a Nossa Senhora.

Desde a idade de nove anos, João sabe que será padre um dia, e que

se ocupará especialmente das crianças. Na verdade, sua mãe não possui

dinheiro para pagar o seminário. Seu pai morreu

como isso se há de realizar. Terá sem dúvida que esperar muito tempo! Mas não é preciso esperar nada para falar de Deus à gente de sua aldeia! É por isso que todos os domingos à tarde ele faz acrobacias de circo.

Mas como é que um menino de dez anos pôde ter sozinho semelhante idéia? Evidentemente, o Espírito Santo é que lhe ditou esse meio maravilhoso para reunir em torno de si seus companheirinhos com os pais.

É justamente pelo dom de Conselho que o Espírito Santo nos mostra, no íntimo de nossa alma, quais os melhores meios para chegarmos ao nosso alvo: isto é, ao Céu. Ainda que a nossa inteligência e a virtude dc prudência não bastem para mostrar-nos o caminho que devemos tomar, o dom de Conselho nos indica o rumo certo, desde que a vela de nosso barco, de nossa alma, esteja bem aberta!

e Joãozinho não sabe

V.

O DOM DE INTELIGÊNCIA

Todos sabem, com certeza, o ato de fé. As crianças o recitam de vez em quando na aula de catecismo, ou de noite, quando rezam. Ter fé é

acreditar que Deus existe, não só porque vemos todas as belas coisas que

ele criou: o mar, as montanhas, as estréias, os animais, as plantas

sobretudo, crer que Deus nos criou para o conhecermos e o amarmos. É acreditar que Deus nos enviou Seu Filho, Jesus Cristo, para falar-nos dele. É crer que esta vida, na terra, é apenas preparação para a vida verdadeira que Deus nos reserva no Céu, vida que será infinitamente mais bela que nossa vida de hoje, e que não terá fim.

Crer é uma maravilha! Mas, às vezes, a gente fica com vontade de ver as coisas! É um pouco como quando viajamos de trem, subindo uma serra: o trem passa por túneis e tudo fica escuro. Sabemos que, depois do túnel, teremos uma vista mais bonita do que a que ficou para trás, mas dá vontade de ver logo toda a paisagem, como aqueles que viajam de avião.

Quando o Espírito Santo vem habitar a nossa alma, pelo dom de Inteligência, ele pode fazer-nos compreender e sentir que tudo quanto acreditamos pela fé, é absolutamente verdade.

Se o pecado original não tivesse produzido uma confusão no mundo, e principalmente em nossa alma, compreenderíamos sem dificuldade, mesmo sem a ajuda de nossos olhos do corpo, que Deus é muito mais real do que tudo quanto vemos ao redor de nós. Isso seria normal, pois foi Deus quem criou tudo.

Compreenderíamos também que Deus é tão infinitamente perfeito que não podemos encontrar nada de melhor ou mais belo do que ele.

Entenderíamos, enfim, que Deus nos ama tanto, que não pode querer para nós outra coisa senão a felicidade, mesmo quando permite o sofrimento.

A Santíssima Virgem, que não foi tocada pelo pecado original, teve imediatamente esse olhar absolutamente puro, pelo qual descobria Deus em tudo, embora vivesse na terra e fosse obrigada a crer como nós.

Foi por isso que aceitou a ordem de sair de Nazaré e partir para

Mas é,

Belém, poucos dias antes do nascimento de Jesus, sem se perturbar, mesmo sabendo que lá estaria arriscada a não encontrar morada.

Foi por isso que ficou de pé junto da Cruz. Sofria terrivelmente, é verdade, mas mesmo sem compreender, continuava a crer no amor de Deus por Jesus, por ela, por todos os homens. E, enquanto todos os amigos de Jesus duvidavam ou se afligiam, ela, sozinha, conservava em sua alma imensa paz.

A alma que o Espírito Santo enche com o dom de Inteligência

compreende desde já as palavras de Jesus:

“Bem aventurados os puros de coração, porque verão a Deus”

E isso, não somente no Céu, mas de certo modo, já aqui na terra. Não com os olhos do corpo, é claro, mas com os olhos da alma.

Quando Jesus apareceu a seus amigos, entre sua Ressurreição e sua Ascensão, eles não o reconheceram à primeira vista. Madalena pensou que era o jardineiro. Os discípulos de Emaús julgaram que era um peregrino estrangeiro. E os Apóstolos assustaram-se, crendo que era um fantasma, pois Nosso Senhor passou através das paredes!

Só houve um que o reconheceu imediatamente: João. E isso, porque

tinha um coração puro. Logo que viu Jesus na margem do lago, no dia daquela pesca maravilhosa, João gritou:

- É o Senhor!

Aquele que tem o coração puro, aquele que tem o dom de Inteligência - pois as duas coisas estão sempre juntas - sabe reconhecer Deus em tudo, através de todas as coisas, tanto nos grandes acontecimentos, quanto nos pequenos. E tudo se torna então infinitamente simples. Se Deus está ali, por que temer?

Tomás tinha apenas cinco ou seis anos. Segundo o costume daquele tempo, seus pais o levaram ao mosteiro dos monges beneditinos para lá estudar. Havia ali uma porção de meninos que estudavam nas grandes salas em abóbada, debruçados sobre livros de pergaminho, - pois não existia ainda a imprensa - ou brincavam como os meninos de hoje, à hora do recreio, no vasto jardim da abadia. Muito diferente do uniforme de hoje era o que então usavam. Já que os meninos acompanhavam os

monges durante o ofício na grande igreja do mosteiro, vestiam-se como eles: o mesmo hábito preto, o mesmo escapulário preto, o mesmo capuz

preto

Tomás sentia-se muito feliz com os Beneditinos, pois gostava muito de estudar. Quando tinha um ou dois anos, e chorava como todos os bebês, só ficava quietinho se lhe dessem um livro: segurava então o livro com suas mãozinhas roliças, e sossegava logo. Agora, que já sabe ler e escrever, estuda com muita aplicação, e é dos melhores alunos, embora seja dos menores. Sente-se feliz, mas há alguma coisa que o preocupa: de vez em quando, pára de ler ou de escrever, e fica pensando

Há dias em que, à hora do recreio, não vai brincar e correr com os outros; caminha, sozinho, por uma alameda, e anda muito longe, sério e grave como um homenzinho: parece procurar a solução de um problema.

E é isso mesmo! Afinal, um dia, não agüentando mais pensar sozinho, Tomás aproxima-se de um monge, que encontra numa galeria:

pequenino, ao lado do religioso, o menino ergue a cabeça e seus olhos ardentes fixam-se no rosto do monge:

tudo em tamanho pequeno!

- Padre, pergunta ele, quem é Deus?

Quem é Deus? Tomás, que a Igreja chama hoje SANTO TOMÁS DE AQUINO, e que deu por padroeiro às escolas cristãs do mundo inteiro, passaria a vida toda procurando a resposta à sua pergunta de criança. Pois para conhecer inteiramente a Deus, para conhecê-lo tal “como ele é”, é preciso já estar no Céu.

Mas, pelo dom de Inteligência, Tomás compreendeu tantas e tantas coisas da perfeição de Deus, de seu esplendor, de seu amor, que escreveu uma quantidade de livros que os padres usam ainda hoje. E Tomás os escreveu há oitocentos anos!

E o mais maravilhoso é que, pouco antes de sua morte, por uma verdadeira luz do dom de Inteligência, Tomás compreendeu de repente que Deus é tão mais belo do que tudo que podemos saber sobre ele aqui na terra, que disse a outro frade Dominicano:

- Tudo que escrevi parece-me um pouco de palha, comparado ao que Deus me fez compreender agora!

VI.

O DOM DE CIÊNCIA

O dom de Inteligência nos é dado pelo Espírito Santo para que a

nossa fé seja mais viva; assim, esse dom de Inteligência nos faz, de certo

modo, ver ou pelo menos “adivinhar” Deus.

O dom de Ciência vai também ajudar-nos a crer ainda melhor, pois

faz-nos compreender a palavra de Deus: a História Sagrada, o Evangelho, o catecismo

Há nos Salmos uma bela frase, que diz o seguinte:

“Tua palavra, ó Senhor, é uma luz, e ela dá a inteligência aos pequeninos.”

Bernadete tem quatorze anos: não sabe ler nem escrever. Pequena, magrinha, sofrendo de crises de asma que a impedem de desenvolver- se, apesar disso, ajuda a mãe a cuidar dos irmãozinhos, na miserável casa em que vivem em Lourdes.

A casa é tão pobre e escura, que é conhecida como “o calabouço”.

Bernadete vai por vezes passar algumas semanas, ou até meses, com sua ama numa aldeia vizinha. Lá, toma conta dos carneiros na montanha. A ama gostaria que a menina aprendesse a ler. Afinal, ela já tem quatorze anos. E a boa mulher procura ensiná-la. Mas não há meio! É incrível, como Bernadete tem a cabeça dura!

- Não entra nada nessa cabecinha! diz a ama. Não entra nada!

Nem o catecismo, que ela tenta fazer Bernadete decorar, também não entra. É de desanimar! Como poderá Bernadete fazer a sua Primeira Comunhão, se não é capaz de guardar as respostas obrigatórias do catecismo?

As únicas orações que ela sabe são: o “Pai Nosso”, a “Ave Maria” e talvez o “Creio em Deus Pai”. É só! Mas na alma dessa menina ignorante, tão pouco dotada humanamente, o Espírito Santo infundiu a Ciência dos Santos. E, em breve, todo mundo terá de reconhecê-lo.

Em Massabielle, a Virgem Santíssima vem conversar com Bernadete. Nossa Senhora fala-lhe do Céu e dos pecadores, pelos

quais é preciso que todos os cristãos façam penitência. Confia-lhe recados. Confia-lhe segredos. E Bernadete que pelo dom de Inteligência compreende perfeitamente tudo quanto lhe explica a Santa Virgem, graças ao dom de Ciência sabe também escutar a sua mensagem e pô-la em prática.

A menina não tem medo nem dos soldados, nem do prefeito, nem do padre, que se mostra muito severo para ter certeza de que ela não está inventando nada e de que diz a verdade. Suas respostas sensatas, límpidas como a água do rio Gave que desce da montanha, causam espanto ao comissário de polícia, aos doutores, aos padres e até aos bispos. Para fazê- la cair numa tolice, perguntam-lhe:

- Quando é que você se sentiu mais feliz, Bernadete: quando recebeu Jesus, no dia de sua Primeira Comunhão, ou quando conversou com Nossa Senhora?

E ela responde acertadamente:

- As duas coisas não podem ser comparadas.

Bernadete mostra que compreendeu perfeitamente a mensagem da Virgem Maria: tudo o que é da terra não dura, e por isso não lhe devemos dar muita importância. O essencial é conhecermos a Deus, e amá-lo. E alcançarmos o Céu e procurarmos lá conduzir os pecadores que não pensam na sua salvação, rezando e fazendo penitência por eles.

“Não te prometo fazer-te feliz nesta vida, mas na outra” - dissera- lhe a Virgem Santíssima.

Mas a menina não julga por isso que possa fazer o que quiser

- Serei feliz! Sim, mas atenção! Se fizer o que devo fazer, se andar direitinho. Tenho de ganhar o meu Paraíso!

Ela compreende muito bem que as criaturas devem levar-nos a Deus, e não se tornar uma barreira, um obstáculo, por menor que seja, que impeça nossa aproximação de Deus, ou que não deixe passar a luz divina. Bernadete compreende que mesmo o sofrimento pode ser um verdadeiro presente do bom Deus.

Depois que a menina conversou com Nossa Senhora, toda a gente quer vê-la, agradá-la, fazer-lhe presentes. Não seria nada mau que a sua família, tão pobre e necessitada, recebesse alguns presentes! Mas

Bernadete não aceita nenhum! Recusa todos

de ouro que um bispo lhe oferece em troca do seu!

Um dia em que um bando de gente a acompanha e a cerca, chamando-a “a santinha”, querendo até cortar um pedacinho de seu capuz para dele fazer uma “relíquia”, Bernadete consegue afinal escapar e sacode os ombros, aborrecida:

até o rosário de correntinha

- Que bobos! Essa gente está maluca?!

Até a sua morte ela aceitará alegremente sofrimentos, doenças, humilhações, sem se admirar de que a Virgem Maria, que cura tantas pessoas na gruta de Lourdes, deixe que ela continue sempre doente.

- Nossa Senhora talvez queira que eu sofra! dizia simplesmente Bernadete.

Havia no seu coração a firme certeza de que Deus há de cumprir tudo quanto nos prometeu. Pelo dom de Ciência, ela compreendia, cada dia melhor, que a verdadeira vida não é a da terra, mas sim a do Céu. Isso é que fazia Bernadete ficar tão triste, quando pensava nos pecadores que vivem como se o Céu não existisse. E também por isso é que ela se conservava tão serena diante de tudo quanto lhe acontecia de penoso ou desagradável.

Eis o que o Espírito Santo pôde fazer na alma de uma pobre menina, que todo o mundo chamava de “tola e ignorante”.

É que ele infundiu na alma de SANTA BERNADETE, que não lhe fez obstáculo, a mais maravilhosa de todas as ciências: a Ciência dos Santos.

VII.

O DOM DE SABEDORIA

“Agora, escreveu São Paulo, isto é, aqui na terra, há três grandes virtudes: a fé, a esperança e a caridade. Mas no Céu, só haverá a caridade, que é a maior das três.”

Se, entre os dons do Espírito Santo, há dois que vêm em auxílio de nossa fé: os dons de Inteligência e de Ciência, e outro para ajudar à nossa esperança: o de Temor, deve haver também um para auxiliar a nossa caridade: é o dom de Sabedoria.

Sabedoria quer dizer possuir grande número de conhecimentos:

sábio é aquele que estudou muito, que sabe muitas coisas.

Mas a verdadeira Sabedoria não é bem isso! Tanto para as crianças quanto para os grandes, ter verdadeira sabedoria é fazer o que é razoável, em vez de seguir a fantasia, o capricho, ou as más inclinações. Ser sábio é procurar o caminho certo para alcançar o alvo, quando decidimos fazer uma viagem.

E a Sabedoria que nos dá o Espírito Santo é ainda melhor e mais do que isso! Deus é perfeitamente sábio. Tudo quanto ele faz, é perfeito. E ele tudo faz por amor. Deus não pode cometer o menor erro, a menor falha. Mas, o que é ainda mais maravilhoso, é que até com nossas tolices e nossos pecados Deus possa fazer prodígios de amor! Adão e Eva tinham desobedecido: Deus poderia ter privado do Céu todos os homens, pois o Céu era um presente suplementar - certamente o mais belo! - que ele nos tinha feito. Em vez disso, imaginou enviar-nos seu próprio Filho, para nos mostrar o seu amor, morrendo na Cruz e conduzindo-nos de novo ao caminho do Céu.

Pelo dom de Sabedoria, o Espírito Santo ensina-nos, portanto, a reconhecer em tudo o amor de Deus. E ensina-nos a amá-lo, fazendo sempre a sua vontade.

Isso é ser verdadeiramente sábio!

Foi Deus quem nos criou, e só ele sabe porque nos criou. Nós não o sabemos, a menos que ele nos diga.

Para revelar isso, mandou-nos seu Filho, Jesus, que veio dizer-nos

que fomos criados

para conhecer, amar e servir a Deus

e

chegarmos um dia ao Céu, onde seremos para sempre felizes da própria felicidade divina. A Sabedoria consiste simplesmente em crer que isso é verdade, e em fazer tudo quanto Jesus ensinou.

Pela virtude de caridade, amamos a Deus cumprindo a sua vontade. Pelo dom de Sabedoria, nós nos alegramos de amá-lo, fazemos a sua vontade com ardor e contentamento, e descobrimos em toda a parte seu esplendor e seu amor. Em todas as maravilhas criadas por Deus: nas flores perfumadas e coloridas, nas cascatas que despencam sobre os rochedos, nos relâmpagos que brilham nas nuvens, nos trovões que reboam ao longe, nas ondas do mar, no cimo das altas montanhas, nos milhares de estrelas que cintilam no céu límpido da noite.

Mas, mais claramente ainda, nós o descobrimos em nossa própria vida: nessa graça infinitamente valiosa que ele nos deu no dia de nosso Batismo, tornando-nos seus verdadeiros filhos; na absolvição que o Padre nos dá sempre de novo no sacramento da Confissão; na Eucaristia, que podemos receber tantas vezes quantas quisermos; nesse dom maravilhoso que é a Confirmação.

Pelo dom de Sabedoria sabemos descobrir numa pequena contrariedade ou num grande sofrimento o amor de nosso Pai do Céu que, mais ainda do que nós mesmos, quer a nossa maior felicidade, e sabe melhor do que nós qual o caminho que até lá nos leva.

Quando compreendemos bem que Deus nos ama e quer o nosso verdadeiro bem, não podemos deixar de ter confiança nele. Não temos então outra coisa a fazer senão colocar a nossa mão de criança na sua mão divina e deixar com muito amor que ele nos guie.

A quem se entrega assim, de todo o coração, disposto a fazer sempre a sua vontade, Deus faz sentir o seu amor, a sua presença. É por isso que o dom de Sabedoria desperta no íntimo de nossa alma a maior, a mais pura, a mais esplêndida alegria que possamos conhecer na terra.

Aquele que possui a Sabedoria, julga todas as coisas um pouco como Deus as julga. Sabe que Deus o ama e não pode querer nem permitir coisa alguma que não seja, afinal, para o seu bem, mesmo que seja o sofrimento. E assim, será sempre feliz.

A pequena MARIA tinha quatro anos quando foi apresentada no Templo. Seus pais a levaram, e, espontaneamente, ela disse a Deus:

- Eis-me aqui; eu vos entrego tudo quanto sou, tudo quanto tenho. Só desejo uma coisa: fazer a vossa vontade.

Nela, o Espírito Santo tinha podido difundir com plenitude todos os seus dons e, por conseguinte, também o mais belo do todos: o dom de Sabedoria. Na alma daquela meninazinha não tinha havido nunca, nunca, o menor pecado; nem mesmo o pecado original, do qual o bom Deus a preservou porque seria a Mãe de seu Filho.

E quando, passados pouco mais de dez anos, o anjo Gabriel veio anunciar-lhe que, se estivesse de acordo, ia ser com efeito a Mãe de Jesus, isto é, a Mãe de Deus, ela só encontrou uma palavra para responder, a palavra mais sábia, que uma criatura jamais pronunciou :

- Eis a serva do Senhor. Faça-se tudo segundo a sua vontade.

Deus não reserva o dom de Sabedoria somente para as pessoas grandes, para os homens que estudaram muito. Ao contrário, ele gosta de dar esse dom aos pequeninos, e Nosso Senhor afirmou certo dia:

“Eu te agradeço, ó Pai, por teres escondido essas coisas àqueles que se julgam sábios, e as teres revelado aos pequeninos.”

Na tua alma também, ó criança, o Espírito Santo quer fazer desabrochar os seus dons; o dom de Sabedoria, como os outros. Ele deseja encher, uma a uma, as sete velas do teu barco.

Pede-lhe, pois, que te torne dócil, atenta a seu grande sopro de amor, que te quer conduzir, cada dia, mais perto de Deus. Se soubesses o quanto ele deseja agir em tua alma! Se soubesses o quanto ele se alegra de encontrar uma alma de criança na qual possa fazer tudo quanto queira, recitarias certamente, de vez em quando, a bela oração que a Igreja nos faz cantar na Missa do dia de Pentecostes:

Vem, ó Espírito Santo, e envia do Céu um raio de tua luz.

Vem, ó tu, que és o Pai dos pobres, que dás sem medida,

ó Luz dos corações.

És o maior Consolador, tu, que com tanta doçura moras no fundo de nossa alma,

e tão suavemente a refrescas.

Se o esforço nos custa, és o nosso descanso;

se nos agitamos, és tu quem nos sossega;

e quando choramos, és tu, quem melhor nos consola.

Ó bendita Luz, que nos dás a felicidade,

enche até o fundo os corações

daqueles que, pelo Batismo,

a ti pertencem, e são fiéis.

Sem a tua ajuda, que é auxilio divino,

é certo que nada há no homem,

nada, nada, verdadeiramente puro.

Lava pois, o que em mim é impuro; rega o que é seco; cura o que pelo pecado foi ferido.

O

que em mim é rígido, torna dócil;

o

que é frio, torna ardente;

o

que é torto, endireita.

Àqueles que te são fiéis,

àqueles que em ti confiam, concede, por favor, os teus sete Dons.

Faze-nos merecer sempre mais amor, faze-nos morrer como os Santos, e dá-nos a tua alegria, que jamais terá fim. Amém.