Você está na página 1de 131
PRODUÇÃO SOCIAL DO ESPAÇO URBANO NA PERIFERIA DA METRÓPOLE A INCORPORAÇÃO DA ANTIGA COLÔNIA JULIANO MOREIRA
PRODUÇÃO SOCIAL DO ESPAÇO URBANO NA PERIFERIA DA METRÓPOLE
A INCORPORAÇÃO DA ANTIGA COLÔNIA JULIANO MOREIRA
NO TECIDO FORMAL DO RIO DE JANEIRO
MARIA AYARA MENDO PÉREZ
Orientadora:
Prof.ª Dr.ª Maria Cristina Cabral
Coorientadora:
Prof. ª Dr.ª Rachel Coutinho Marques da Silva
RIO DE JANEIRO, 2014
1
A INCORPORAÇÃO DA ANTIGA COLÔNIA JULIANO MOREIRA NO TECIDO FORMAL DO RIO DE JANEIRO

MARIA AYARA MENDO PÉREZ

PRODUÇÃO SOCIAL DO ESPAÇO URBANO NA PERIFERIA DA METRÓPOLE A INCORPORAÇÃO DA ANTIGA COLÔNIA JULIANO MOREIRA NO TECIDO FORMAL DO RIO DE JANEIRO

Dissertação de mestrado em urbanismo Pós Graduação em Urbanismo da Universidade Federal de Rio de Janeiro (PROURB-UFRJ)

Orientadora:

Prof.ª Dr.ª Maria Cristina Cabral Coorientadora:

Prof. ª Dr.ª Rachel Coutinho Marques da Silva

RIO DE JANEIRO, 2014

PRODUÇÃO SOCIAL DO ESPAÇO URBANO NA PERIFERIA DA METRÓPOLE.

2

3

A INCORPORAÇÃO DA ANTIGA COLÔNIA JULIANO MOREIRA NO TECIDO FORMAL DO RIO DE JANEIRO

MARIA AYARA MENDO PÉREZ PRODUÇÃO SOCIAL DO ESPAÇO URBANO NA PERIFERIA DA METRÓPOLE A INCORPORAÇÃO DA
MARIA AYARA MENDO PÉREZ
PRODUÇÃO SOCIAL DO ESPAÇO URBANO NA PERIFERIA DA METRÓPOLE
A INCORPORAÇÃO DA ANTIGA COLÔNIA JULIANO MOREIRA NO TECIDO FORMAL DO RIO DE JANEIRO
Dissertação apresentada ao Programa de Pós Graduação em Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro
(PROURB_UFRJ) aprovada pela Banca Examinadora abaixo assinada.
Data:
________ _________
/
/
_________
Maria Cristina Cabral | Doutora | Universidade Federal do Rio de Janeiro
Rachel Coutinho Marques da Silva | Doutora | Universidade Federal do Rio de Janeiro
Eliane da Silva Bessa | Doutora | Universidade Federal do Rio de Janeiro
Maria Fernanda Rodrigues Campos Lemos | Doutora | Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro
4
PRODUÇÃO SOCIAL DO ESPAÇO URBANO NA PERIFERIA DA METRÓPOLE.
M539 Mendo Pérez, Maria Ayara. Produção social do espaço urbano na periferia da metrópole: a incorporação
M539
Mendo Pérez, Maria Ayara.
Produção social do espaço urbano na periferia da metrópole: a
incorporação da antiga colônia Juliano Moreira no tecido formal do Rio de
Janeiro / Maria Ayara Mendo Pérez. Rio de Janeiro: UFRJ / FAU, 2014.
128 f.: il.; 21 cm.
Orientador: Maria Cristina Cabral.
Coorientador: Rachel Coutinho Marques da Silva.
Dissertação (mestrado) – UFRJ / PROURB / Programa de Pós-Graduação
em Urbanismo, 2014.
Referências bibliográficas: f. 102-5.
1. Urbanismo – Aspectos sociais. 2. Espaços urbano. 3. Urbanização. 4.
Política urbana – Rio de Janeiro (RJ). 5. Planejamento urbano. I. Cabral, Maria
Cristina. II. Silva, Rachel Coutinho Marques da. III. Universidade Federal do Rio
de Janeiro, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Programa de Pós-
Graduação em Urbanismo. IV. Título.
CDD 711.13
5
A INCORPORAÇÃO DA ANTIGA COLÔNIA JULIANO MOREIRA NO TECIDO FORMAL DO RIO DE JANEIRO
DEDICATORIA A todos los rostros anónimos que con su sonrisa me inspiran cada día a pensar
DEDICATORIA
A todos los rostros anónimos que con su sonrisa
me inspiran cada día a pensar en una ciudad mas justa,
a todos aquellos que un día abrieron la puerta de sus
casas para mostrarme otras formas de vida,
a los que me enseñaron una nueva lengua y
nuevas formas de pensar,
y finalmente a todos los que me ayudan cada día a vivir y
sobrevivir en esta, nuestra ciudad infinita.
Setor 2 da Colônia Juliano Moreira
Fotografía:Acervo próprio, 2014.
6
PRODUÇÃO SOCIAL DO ESPAÇO URBANO NA PERIFERIA DA METRÓPOLE.
AGRADECIMENTOS Meus agradecimentos à Maria Cristina Cabral, pelo apoio, carinho, dedicação e generosa orientação ao longo
AGRADECIMENTOS
Meus agradecimentos à Maria Cristina Cabral, pelo apoio,
carinho, dedicação e generosa orientação ao longo do
mestrado e à Rachel Coutinho pela co-orientação. Tam-
bém a todas as pessoas que trabalham no Programa de
Pós-graduação em Urbanismos da FAU/UFRJ em especial
a Keila Araujo, sempre disposta a ajudar a todos e cada um
dos estudantes e pesquisadores do Programa.
Agradecimentos à fundação FAPERJ y CNPq por investir
em pesquisa, fazendo possível que estudantes e pesquisa-
dores de diferentes países e contextos podamos realizar
novas reflexões das cidades brasileiras.
Aos inicialmente colegas de turma e hoje amigos que
através dos debates e trabalhos fora e dentro das aulas
me mostraram e ensinaram a entender cada dia melhor as
grandes questões politicas, sociais e urbanas do Brasil.
Devo aqui agradecer especialmente a todas as pessoas
que trabalham e pesquisam no Campus Fiocruz Mata
Atlântica, principalmente à Equipe Técnico de Panejamen-
to Técnico e Regularização Fundiária (ETPTRF) pois com
eles iniciei o meu conhecimento real e pratico de uma das
questões que hoje em dia focam o meu interesse, o direito
à um lugar digno onde morar para todos os cidadãos desta
cidade, ao Fernando, Artur, Marcus, Flora, Carol, Célia e
Luís.
A relação de gratidão com todas as pessoas que acederam
a serem entrevistados no âmbito desta pesquisa, pois não
foi fácil para muitos deles relembrar e falar de determina-
dos assuntos, agradeço enormemente o tempo dedicado
pois desta forma cada um deles é protagonista deste
trabalho.
As minhas amigas Flávia, Livia e Flora, ja que elas são
parte essencial desta pesquisa, pois através de conversas
ao longo destes últimos anos, vemos sonhando e pensan-
do novas urbanidades. Agradeço enormemente o total
apoio em todos os sentidos assim como por elas ter sido as
minhas professoras da língua portuguesa.
Ao Marcelo pois com muito carinho me acompanhou ao
longo do caminho.
Finalmente agradeço a minha mãe, que mesmo na dis-
tancia, ela é a principal responsável deste sonho tenha-se
tornado realidade.
Setor 2 da Colônia Juliano Moreira
Fotografía:Acervo próprio, 2014.
7
A INCORPORAÇÃO DA ANTIGA COLÔNIA JULIANO MOREIRA NO TECIDO FORMAL DO RIO DE JANEIRO

RESUMO

Esta dissertação de mestrado trata da produção social do espaço urbano a partir da dinâmica socio- política de incorporação de áreas periféricas no tecido urbano formal das metrópoles, identificando as causas e características deste fenômeno socioterritorial que provoca o crescimento espraiado da man- cha urbana. Este processo é qualificado a partir do estudo da área delimitada pela antiga Colônia Juliano Moreira (CJM), no bairro de Jacarepaguá, analisando o processo de incorporação da ocupação informal no tecido urbano formal da metrópole do Rio de Janeiro. Esta transformação está sendo realizada atra-

vés da requalificação urbanística executada por meio de recursos públicos do Programa de Aceleração ao Crescimento (PAC), desde o ano 2007 até os dias de hoje. No processo de incorporação ao tecido for- mal aplicam-se os instrumentos urbanísticos fornecidos pelo Estatuto da Cidade, como a regularização

fundiária e a transformação dos terrenos ocupados em Áreas de Especial Interesse Social (AEIS), com

objetivo de possibilitar a urbanização e favorecer a permanência das famílias no seu local de moradia. Através da revisão bibliográfica, da análise a documentos históricos e entrevistas com agentes sociais do território, são levantadas dificuldades e desafios enfrentados no processo de gestão e planejamento, consequências das forças e interesses conflitantes entre os agentes sociais envolvidos na produção do espaço urbano da Colônia. A partir da compreensão destes impasses e perspectivas encontrados, busca-

se apontar dinâmicas de transformação socioterritorial nas periferias metropolitanas, visando colaborar

na reflexão sobre a necessidade de renovação metodológica para a implantação de políticas urbanas, im- plementadas pelos órgãos de planejamento urbano e gestão territorial. Entende-se que devem ser pen- sados e elaborados marcos de atuação, que estejam baseados em experiências práticas, como diretrizes

de negociação frente as diferentes lógicas dos agentes sociais envolvidos, com o objetivo de solucionar

situações de conflito na produção social do espaço. A partir da incorporação desta população periférica

ao sistema urbano formal das metrópoles, com acesso a infraestrutura e serviços públicos, deve sempre respeitar o modo de vida pré-existentes desta população, como no caso do estudo de caso que revela

um modelo urbano-rural-florestal que deve ser fonte de estudos e discussões transdisciplinares. Assim, destaca-se um grande desafio a ser enfrentado nas próximas décadas: a incorporação das periferias no

tecido formal das metrópoles, considerando a produção social do espaço urbano e aprofundando a polí-

tica urbana através do desenvolvimento de projetos experimentais, discutidos de forma interdisciplinar.

Palavras-chave: informalidade urbana, urbanização, produção social do espaço urbano,

instrumentos urbanísticos.

PRODUÇÃO SOCIAL DO ESPAÇO URBANO NA PERIFERIA DA METRÓPOLE.

8

abstract

This Master thesis deals with the social production of the urban space from the sociopolitical dynamics of incorporation of new peripheral areas within the formal urban fabric of metropolises, identifying the causes and characteristics of such a socio-territorial phenomenon that leads to the scattered growth of the urban

spot. This process is contextualized by means of the study of the area delimited by the old Colônia Juliano Moreira (CJM) an institution located in the neighbourhood of Jacarepaguá, in the process of incorporation in the formal urban fabric of Rio De Janeiro. This transformation is being carried through urban regene- ration, performed by means of public resources on the Programa de Aceleração ao Crescimento (PAC, Growth Acceleration Program), since 2007 to the present day. In the process of incorporation to the formal urban fabric, the urbanistic instruments supplied by the Statute of the City are applied together with the agrarian regularization and the transformation of occupied lands into Áreas de Especial Interesse Social (AEIS, Areas of Special Social Interest), with the aim of making urbanization possible and to favor the per- manence of the families in their housing. Through the literature review, and the documentary analysis of the interviews, the difficulties faced in the process are raised as a consequences of the forces and interests concerning the involved social agents in the production of the urban space of the area. From the unders- tanding of these obstacles and the perspectives found, the study seeks for a dynamic for socio-territorial transformation within the metropolitan peripheries, aiming at assisting the agencies of urban planning and territorial management in the methodological renewal of implantation of public policies and urbanis- tic instruments. A creation of an agency or public power device is suggested, which must have the objec- tive of fiscalizing the informal land divisions, but mainly to guarantee the security of the proper inspectors towards the possible threats of informal institutions. This agency or device also would have to assure that

during the application of the public policies and urbanistic instruments, the democratic and participative processes are guaranteed. Therefore, the creation of a device with reaction capacity to complex situations is adviced. Action frames must be thought and elaborated, based on action rules as negotiation lines of di- rection towards the different logics of the involved agents, with the aim of conciliating solutions to conflict situations. It is concluded that the incorporation of this population to the urban system, with access to pu- blic infrastructure and services, must always respect their existing way of life and sources of income, in this case study an urban-agricultural-forest model is shown, which must be a source of multidisciplinary studies and discussions. This discussion will be a major challenge in urban policy which must be faced in the deca- des coming, through the development of experimental projects, discussed in an interdisciplinary manner.

Key-words: urban informality, urbanization, social production of the urban space,

urbanistic instruments.

9

A INCORPORAÇÃO DA ANTIGA COLÔNIA JULIANO MOREIRA NO TECIDO FORMAL DO RIO DE JANEIRO

LA CIUDAD INFINITA En la ciudad infinita existe valentía y realidad La valentía de los que
LA CIUDAD INFINITA
En la ciudad infinita existe valentía y realidad
La valentía de los que ocupan
La realidad de quien mira sin miedo a ver
En la ciudad infinita un día encontré aquello que quizás siempre busqué.
Elaboração: próprio autor.
10
PRODUÇÃO SOCIAL DO ESPAÇO URBANO NA PERIFERIA DA METRÓPOLE.

_CAPITULO 1

LISTA DE ILUSTRAÇÕES

Figura 1.1: Mapa mundial representando a porcentagem de população urbana em relação à população total em cada pais, em

2010.

Figura 1.2: Crescimento da mancha urbana da Região Metropolitana do Rio de Janeiro desde a década de 1970 até a década

de 2000. Figura 1.3: Relação entre o mapa Índice de desenvolvimento social por setor censitário (2000) e o mapa Loteamentos irregula- res ou clandestinos no Rio de Janeiro (2004). Figura 1.4: Mapa das unidades a urbanizar pela Prefeitura do Rio de Janeiro, com recurso público através do programa Morar Carioca em 2013.

_CAPITULO 2

Figura 2.1: Limites administrativos do Plano Diretor de 2011 do município do Rio de Janeiro. Figura 2.2: Localização da RA- Jacarepaguá no município do Rio de Janeiro. Figura 2.3: Proporção da população moradora em setor censitário subnormal no total da população, por Regiões Administrati- vas, 2000. Figura 2.4: Ocupação territorial do Plano Diretor de 2011 do município do Rio de Janeiro. Figura 2.5: Croqui do Plano Piloto da Baixada de Jacarepaguá, elaborado por Lucio Costa. (1969) Figura 2.6: Proporção de domicílios com todos os serviços adequados, por RAs, 2000.

Figura 2.7: Proporção de domicílios ligados à rede geral de esgoto ou que possuem fossa séptica por Regiões Administrativas,

2000.

Figura 2.8: Mapa conceitual do município do Rio de Janeiro sinalizando os quatro clusters dos Jogos Olímpicos de 2016.

Figura 2.9: Sistema de corredores BRTs que esta sendo implantado no município do Rio de Janeiro. Figura 2.10: Dinâmica da população por Região Administrativa-Município do Rio de Janeiro, 2010.

_CAPITULO 3

Figura 3.1: Localização do bairro de Jacarepaguá no município do Rio de Janeiro. Figura 3.2: Localização da Colônia Juliano Moreira no bairro de Jacarepaguá. Figura 3.3: Fotos do trabalho agropecuário desenvolvido na Colônia Juliano Moreira na décadas de 1940-1950. Figura 3.4: Divisão em setores da área da Colônia Juliano Moreira. Figura 3.5: Mapa de gradientes de ocupação da Colônia Juliano Moreira no Programa de Aceleração ao Crescimento. Figura 3.6: Mapa de zoneamento da Colônia Juliano Moreira no Programa de Aceleração ao Crescimento. Figura 3.7: Mapa indicando a área de adensamento do Setor 2 Colônia Juliano Moreira no Programa de Aceleração ao Cresci- mento. Figura 3.8: Mapa indicando a área de urbanização e regularização fundiária do Setor 3 da Colônia Juliano Moreira no Programa de Aceleração ao Crescimento. Figura 3.9: Esquema indicando as obras que vão ser realizadas no escopo do Morar Carioca na Colônia Juliano Moreira. Figura 3.10: Mapa indicando a área que deve ser florestada na Colônia Juliano Moreira no Programa de Aceleração ao Cresci- mento. Figura 3.11: Planta geral do urbanismo da área da Colônia Juliano Moreira com o traçado da TransOlímpica, 2013. Figura 3.12: Mapa das vias expressas projetadas para conectar os diferentes polos dos Jogos Olímpicos.

_CAPITULO 4

Figura 4.1: Mapa da divisão em Área de Especial Interesse Social (AEIS) e Área de Especial Interesse Funcional (AEIF) realizada em 2008, na área da antiga Colônia Juliano Moreira. Figura 4.2: Fotos da Cooperativo do Grupo Esperança realizando a construção das moradias através de mutirão autogerido no setor 2 da Colônia Juliano Moreira em 2013. Figura 4.3: Foto panorâmica do Parque Estadual da Pedra Branco (PEPB).

11

A INCORPORAÇÃO DA ANTIGA COLÔNIA JULIANO MOREIRA NO TECIDO FORMAL DO RIO DE JANEIRO

_GRÁFICOS

LISTA DE GRÁFICOS E TABELAS

Gráfico I.1: Agentes sociais entrevistados. Gráfico I.2 : Estrutura da dissertação. Gráfico 1.1: Agentes sociais que produzem o espaço urbano, conforme estudado pelos autores: Gottdiener (1993), Villaça (2001), Abramo (2009) e Ribeiro, Silva, Rodrigues (2011). Gráfico 1.2: Diagrama representativo dos agentes urbanos, as inter-relações que se estabelecem entre eles, e os mecanismos que aplicam na dominação do espaço urbano, conforme as teorias dos autores pesquisados. Gráfico 2.1: Domicílios particulares ocupados em setores censitários de aglomerados subnormais, por características e locali- zação predominantes do sitio urbano. Brasil, 2010. Gráfico 3.1: Agentes sociais que produzem o espaço urbano na Colônia Juliano Moreira entrevistados no âmbito desta pesqui- sa. Gráfico 3.2: Diagrama do histórico da ocupação da Colônia Juliano Moreira desde 1659 até 1996. Gráfico 4.1: Diagrama dos agentes sociais atuantes na produção do espaço urbano da área da Colônia Juliano Moreira. Gráfico C.1: Diagrama da inter-relação entre os agentes sociais atuantes na produção do espaço urbano da área da Colônia Juliano Moreira.

_TABELAS

Tabela 1.1: Metrópoles brasileiras. População IBGE 2010. Tabela 1.2: População urbana, Meio Ambiente, e Desenvolvimento no Brasil. 2011 Tabela 1.3: População residente em aglomerados subnormais nas regiões metropolitanas de São Paulo, Rio de Janeiro, Belém, Salvador e Recife. Tabela 3.1: Orçamento destinado a realizar a TransOlímpica, entre os anos 2012 e 2016.

PRODUÇÃO SOCIAL DO ESPAÇO URBANO NA PERIFERIA DA METRÓPOLE.

12

LISTA DE ABREVIAÇÕES E SIGLAS

AEIS _ Área de Especial Interesse Social AEIF _ Área de Especial Interesse Funcional AP _ Área de Planejamento APP _ Área de Proteção Permanente BRT _ Transporte Rápido por Ônibus CEF _ Caixa Econômica Federal CJM _ Colônia Juliano Moreira CDRU _ Concessão de Direito Real de Uso CEDAE _ Companhia Estadual de Água e Esgotos COMLURB _ Companhia Municipal de Limpeza Urbana CUEM _ Concessão de Uso Especial para fins de Moradia EC _ Estatuto da Cidade ETPTRF _ Escritório Técnico de Planejamento Territorial e Regularização Fundiária FIOCRUZ _ Fundação Oswaldo Cruz IMASJM _Instituto Municipal de Assistência à Saúde Juliano Moreira ISER _ Instituto de Estudos da Religião MCMV-E _ Minha Casa Minha Vida Entidades MDA _ Ministério de Desenvolvimento Agrário PAC _ Programa de Aceleração ao Crescimento PDCFMA _ Programa de Desenvolvimento do Campus Fiocruz Mata Atlântica PEPB _ Parque Estadual da Pedra Branca RA _ Região Administrativa SABREN _ Sistema de Assentamentos de Baixa Renda SMAC _ Secretaria Municipal de Meio Ambiente SMH _ Secretaria Municipal de Habitação SMG _ Secretaria Municipal de Governo SMO _ Secretaria Municipal de Obras SMS _ Secretaria Municipal de Saúde SMU _ Secretaria Municipal de Urbanismo SNUC _ Sistema Nacional de Unidades de Conservação SPU _ Secretaria de Patrimônio da União SUS _ Sistema Único de Saúde UC _ Unidades de Conservação UNMP _ União Nacional pela Moradia Popular ZEIS _ Zona de Especial Interesse Social

13

A INCORPORAÇÃO DA ANTIGA COLÔNIA JULIANO MOREIRA NO TECIDO FORMAL DO RIO DE JANEIRO

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO

CAPÍTULO I_ ASPECTOS DO CRESCIMENTO ESPRAIADO DAS pERIFERIAS NAS METRÓPOLES BRASILEIRAS

  • 1.1. Particularidades dos processos de urbanização de áreas periféricas dos grandes núcleos metropolitanos brasileiros

  • 1.2. A informalidade e a dispersão na constituição do tecido intraurbano periférico

  • 1.3. A produção social do espaço urbano nas periferias metropoliTANAS

.. 1.3

1

Os agentes sociais

CAPÍTULO II_ ASPECTOS DO DESENVOLVIMENTO URBANO DA REGIÃO ADMINISTRATIVA DE JACAREPAGUÁ

  • 2.1 Processo de urbanização na Região Administrativa de Jacarepaguá

    • 2.1.1 Localização e situação no município do Rio de Janeiro

    • 2.1.2 Processo histórico da ocupação urbana

    • 2.1.3 O desenvolvimento da infraestrutura e serviços urbanos na região

      • 2.2 Produção social do espaço urbano na XVI RA-Jacarepaguá

CAPÍTULO III _ INCORPORAÇÃO DA COLÔNIA JULIAN O MOREIRA À METROPOLE CARIOCA

  • 3.1 A Colônia Juliano Moreira: da criação à decadência do hospital-colônia de saúde mental

    • 3.1.1 Localização e situação no bairro de Jacarepaguá

    • 3.1.2 Processo da ocupação informal da área

      • 3.2. Municipalização da Colônia Juliano Moreira e desmembramento da área em setores

      • 3.3. Os projetos urbanos atuais na Colônia Juliano Moreira

15

22

22

28

31

32

3 7

3 8

38

41

4 3

48

5 1

5 2

5 2

53

6 2

6 5

  • 3.3.1 Os programas de urbanização, regularização fundiária e promoção de habitação popular:

PAC - Colônia, Morar Carioca e Minha Casa Minha Vida

  • 3.3.2 A construção da via expressa TransOlímpica dentro da área da Colônia Juliano Moreira

CAPITULO IV_ A PRODUÇAO SOCIAL DO ESPAÇO URBANO NA COLONIA JULIANO MOREIRA

  • 4.1 As inter-relações entre os agentes que produzem o espaço urbano na Colônia

    • 4.1.1. As relações interinstitucionais

    • 4.1.2. As instituições informais

    • 4.1.3. Os movimentos sociais

    • 4.1.4. Os moradores da Colônia

      • 4.2. Os instrumentos urbanísticos oferecidos pelo Estatuto da Cidade aplicados na Colônia

        • 4.3 Os modos de vida na Colôni a: transição entre o rural e o urbano informal

CONSIDERAÇÕES FINAIS REVISÃO BIBLIOGRÁFICA APÊNDICE A

PRODUÇÃO SOCIAL DO ESPAÇO URBANO NA PERIFERIA DA METRÓPOLE.

65

73

7 8

7 9

80

85

87

89

91

93

98

1 0 4 1 0 7

14

INTRODUÇÃO Parque Estadual da Pedra Branca Fotografía: Lin Lima, 2013. 15 A INCORPORAÇÃO DA ANTIGA COLÔNIA
INTRODUÇÃO
Parque Estadual da Pedra Branca
Fotografía: Lin Lima, 2013.
15
A INCORPORAÇÃO DA ANTIGA COLÔNIA JULIANO MOREIRA NO TECIDO FORMAL DO RIO DE JANEIRO
INTRODUÇÃO Esta dissertação aborda a produção social do es- paço urbano dentro da área delimitada pela
INTRODUÇÃO
Esta dissertação aborda a produção social do es-
paço urbano dentro da área delimitada pela antiga
Colônia Juliano Moreira (CJM) no bairro de Jacare-
paguá, na dinâmica sociopolítica de incorporação
na malha urbana da metrópole do Rio de Janeiro.
a área a ser estudada inicia sua ocupação urbana in-
formal massiva na década de 1980 sendo o Estado
o principal agente social que tolera e provoca esta
dinâmica socioeconômica. O quadro de forças de-
senhado por Villaça (2001) na produção do espaço
urbano no contexto brasileiro é o principal marco
teórico-conceitual utilizado no âmbito desta pes-
quisa, na definição dos agentes sociais atuantes no
local assim como dos mecanismos de controle do es-
Através deste estudo de caso, pretende-se estudar
o processo de produção e reprodução do espaço ur-
bano nas periferias das metrópoles brasileiras, iden-
paço urbano utilizados por cada um destes agentes.
Para completar o conjunto de forças atuantes, tam-
bém foram pesquisados outros autores brasileiros,
tificando as causas e características deste fenômeno
entre os quais, Pedro Abramo (2009), que define
socioterritorial que provoca o crescimento espraiado
da mancha urbana, incorporando paulatinamente
um novo agente social que produz o espaço urbano
na cidade informal latino americana, as instituições
novas áreas periféricas ao tecido urbano das cidades.
informais. Em outras palavras, frente ao abando-
no do poder público, o vazio deve ser preenchido
No âmbito desta pesquisa o conceito produção do
espaço urbano é definido conforme explica o pes-
quisador Mark Gottdiener (1993). Segundo o autor,
em várias conjunturas, que vão desde realizar as
transações econômicas no mercado informal do
o espaço é uma construção social em todas as suas
dimensões, que reproduz as mesmas relações so-
ciais que o engendram. Conforme esta teoria, o ur-
banismo tradicional como ciência aplicada estaria
solo urbano, à produção de moradia, à comercia-
lização dos serviços públicos urbanos, à segurança
da população, até a figura da justiça ou uma pró-
pria lei instaurada pelas instituições informais.
obsoleta, pois não se propõe estudar a influência das
transformações econômicas, políticas e culturais na
própria forma do espaço urbano. Logo, neste traba-
lho se visa atender as recomendações de Gottdie-
ner (1993) quando aconselha analisar e entender as
Ao mesmo tempo, outros especialistas, como Ri-
beiro, Silva e Rodrigues (2011), apontam que tam-
bém devemos incorporar as novas influências que
os interesses econômicos internacionalizados es-
dinâmicas socioeconômicas que estão produzindo
as morfologias urbanas contemporâneas, antes de
propor ou implementar políticas publicas que não
levam em consideração as relações sociais do local.
Por conseguinte, pretende-se analisar no processo
de incorporação da antiga CJM no tecido urbano
tão produzindo no espaço urbano das metrópoles
brasileiras. Neste contexto de grandes megaeven-
tos esportivos, na metrópole do Rio de Janeiro,
principalmente, é possível perceber uma ampliação
deste agente internacional, constituindo uma forte
aliança entre poderes econômicos nacionais e in-
ternacionais, o que potencializa a própria dinâmica
formal da cidade, os impasses na implantação de
políticas publicas e instrumentos urbanísticos devi-
do aos diferentes interesses entre os agentes sociais
socioeconômica de periferização já existente. Estes
interesses econômicos internacionalizados estão
atuantes na produção do espaço urbano do local.
também influenciando na produção do espaço ur-
bano da Colônia, que será cortada por uma das três
vias expressas que a prefeitura vai construir com o
Segundo o pesquisador brasileiro Flavio Villaça
(2001) as camadas de mais alta renda da sociedade
objetivo de melhorar e redefinir a mobilidade na
brasileira são o agente social que domina e produz
o espaço urbano por cima do próprio poder público
ou do mercado. Dentre os mecanismos de controle
do espaço urbano, o autor explica que a burguesia
metrópole carioca, a TransOlímpica 1 .Esta obra faz
parte da agenda que a cidade deve cumprir para os
Jogos Olímpicos de 2016 e causará profundas mu-
danças nas dinâmicas territoriais do novo bairro.
atua através do Estado para controlar a própria le-
gislação urbanística, o que prejudica as camadas
pobres da população, uma vez que não conseguem
se adaptar a esta legislação vigente e, como conse-
quência, vivem na clandestinidade e na ilegalidade
Portanto, conforme é revelado por Gottdiener
1
A
Transolímpica
vai
ligar
os
dois
principais po-
los de competições
da
cidade,
Deodoro
e
Barra
da
Ti-
juca,
onde
acontecerá
a
maior
parte
das
provas
dos
Jo-
urbana. Esta linha de raciocínio será estabelecida
gos Olímpicos
de
2016.
Os
23
kms
de
extensão
vão
cortar
também como uma das hipóteses da pesquisa, pois
bairros importantes, como Magalhães Bastos, Curicica e Sulacap.
16
PRODUÇÃO SOCIAL DO ESPAÇO URBANO NA PERIFERIA DA METRÓPOLE.
(1993), a produção do espaço urbano é um proces- so que envolve forças políticas, econômicas e
(1993), a produção do espaço urbano é um proces-
so que envolve forças políticas, econômicas e cul-
ministrar e implementar este novo projeto urbano.
turais. Assim, estas forças, e suas inter-relações,
serão estudadas através da análise dos agentes
Através de um acordo político interinstitucional,
em 2007, o projeto urbano desenvolvido para a
área da Colônia Juliano Moreira é selecionado como
sociais atuantes, dentro recorte de espaço urbano
prioritário na obtenção de recursos do Programa de
estabelecido neste trabalho.
O nosso recorte espacial, a antiga Colônia Juliano
Aceleração ao Crescimento 2 (PAC) e apresenta-se
como modelo para o território nacional: “a Colônia
Juliano Moreira pode representar um modelo de ocu-
Moreira, localiza-se no bairro de Jacarepaguá, na
XVI RA de mesmo nome, na cidade do Rio de Ja-
neiro. Neste território, encontramos, atualmente,
pação e o início de um processo de requalificação da
área mirando o conceito de sustentabilidade em seus
aspectos social, econômico e ambiental.”
algumas características expostas em relação às pe-
riferias metropolitanas brasileiras, como o espraia-
mento urbano disperso associado à reprodução de
No contexto do PAC-Colônia, através do qual se re-
um grande número de ocupações informais.
cebe os recursos públicos para a requalificação ur-
bana da área, a grande dificuldade, uma vez a área
seja incorporada à malha urbana da cidade, será
assegurar a regularização fundiária das famílias.
A ocupação da área de estudo, tem origem no perí-
odo colonial, na Fazenda do Engenho Novo ligada a
atividades rurais, como a cana de açúcar e o cultivo
de café. Em 1912, a partir da desapropriação da fa-
zenda pelo governo federal, se implantou a Colônia
Juliano Moreira, um projeto público, considerado
Vários dos instrumentos urbanísticos oferecidos
pelo Estatuto da Cidade (EC) estão sendo aplicados
dentro da área da Colônia Juliano Moreira, a fim de
se garantir o direito à cidade desta população. Es-
tão sendo realizadas, por exemplo, a regularização
fundiária e a transformação dos terrenos ocupados
inovador, de hospital-colônia. A ocupação com fins
de moradia para os funcionários do mesmo con-
junto hospitalar se prolongou por setenta décadas,
caracterizando o território em vários aspectos mor-
fológicos e sócio-políticos, que devem ser conside-
em Áreas de Especial Interesse Social (AEIS), com
objetivo de possibilitar a urbanização e favorecer
a permanência das famílias no seu local de mora-
dia. Com estes instrumentos, pretende-se regular
a propriedade urbana, de modo que a especulação
rados até os dias de hoje.
imobiliária na área não suponha um impedimento
ao direito à moradia regular da população.
A partir do processo de municipalização, em 1996,
começa uma importante transformação sociopolí-
tica do território, a qual, ainda hoje, representa um
No panorama brasileiro, estão sendo implemen-
processo em curso. Esta transformação supõe uma
tadas muitas políticas públicas para urbanizar os
núcleos de ocupação informal, mas estas mesmas
significativa reconfiguração política, pois o territó-
rio deixa de ser administrado apenas pelo poder
público nacional, ou seja, o governo federal, e pas-
iniciativas encontram muitas dificuldades na hora
de garantir, posteriormente, a segurança da posse,
sa a ser dividido e administrado por vários poderes,
por meio da regularização fundiária das famílias.
Esta é uma das questões importantes que vai ser
entre eles, o poder público municipal, ou seja, a
prefeitura da cidade do Rio de Janeiro, que realiza
estudada neste trabalho, pois a dificuldade que o
a gestão da área que está sob sua administração
através das Secretarias de Saúde (SMS), Habitação
(SMH), e Urbanismo (SMU), e a Fundação Oswaldo
Cruz (Fiocruz). Configura-se outro quadro de inter-
relações institucionais que vão conformar os inte-
resses dos novos agentes na produção do espaço
poder público enfrenta na implantação destes ins-
trumentos urbanísticos é consequência das forças e
interesses conflitantes entre os agentes sociais en-
volvidos na produção do espaço urbano da área. As
inter-relações entre os agentes sociais e sua tradu-
ção na produção do espaço urbano da Colônia se-
rão desvendadas ao longo da pesquisa, através das
urbano da Colônia até os dias de hoje. A parceria
informações recolhidas, principalmente nos relatos
entre o poder público municipal e os poderes públi-
cos nacionais se estabelece com o mesmo objetivo
de desenvolvimento da região: a incorporação ao
tecido urbano formal da cidade. Tal processo incor-
pora a Prefeitura do Rio de Janeiro, como agente
protagonista o poder público municipal, para ad-
das entrevistas realizadas com os próprios agentes
atuantes no local.
PAC é a sigla para Programa de Aceleração ao Cresci-
mento, projeto do governo federal que tem como objetivo esti-
mular o crescimento da economia nacional através de obras de
2
infraestrutura, tendo sido lançado pelo governo Lula em 2007.
17
A INCORPORAÇÃO DA ANTIGA COLÔNIA JULIANO MOREIRA NO TECIDO FORMAL DO RIO DE JANEIRO

Objetivos da pesquisa

A partir da compreensão dos impasses e perspec-

tivas que a requalificação urbana e a implantação

destes novos instrumentos urbanísticos encontram

na área da antiga Colônia Juliano Moreira, busca-se

estudar os agentes sociais que produzem o espaço

urbano nas periferias metropolitanas, visando cola-

borar na reflexão sobre como estes interesses con- flitantes na gestão do território prejudicam a imple- mentação das políticas urbanas.

Os objetivos específicos da pesquisa são enten- der: (1) O processo histórico de ocupação informal da área da antiga Colônia Juliano Moreira desde a

década de 1980 até os dias atuais, facilitando as

pesquisas posteriores a estas transformações; (2)

A transformação sociopolítica na reconfiguração e controle do espaço urbano da área da Colônia Julia- no Moreira; (3) As inter-relações entre os diferentes

agentes sociais que produzem o espaço urbano atu-

almente na Colônia Juliano Moreira.

Abordagem metodológica

A metodologia desta pesquisa consistiu numa

abordagem qualitativa, de caráter exploratório-

descritiva, que tem por objetivo proporcionar maior

entendimento de uma dinâmica urbana ainda em

transformação. A pesquisa de caráter exploratória

é realizada para investigar estudos de caso, pois é

importante observar que no nosso recorte espacial a incorporação ao tecido urbano formal da metró-

pole ainda está em processo de desenvolvimento e,

portanto, não concluído. Também a pesquisa possui um caráter qualitativo, pois não contem instrumen-

tos estatísticos no processo de análise do objeto. A

pesquisa utilizou três meios de investigação: a revi-

são bibliográfica, o estudo de caso e a pesquisa de

campo.

Na revisão bibliográfica, que embasa o plano de análise e dispõe o quadro teórico-conceitual, ob- serva-se o contexto brasileiro no crescimento es-

praiado das áreas periféricas metropolitanas, para

descrever os conceitos e noções que caracterizam

as dinâmicas socioespaciais de urbanização e me-

tropolização das áreas informais, estudadas por

autores brasileiros como Nestor Goulart Reis, Ermí-

nia Maricato, Flavio Villaça, e Pedro Abramo, entre outros. Este levantamento bibliográfico revelou as

características em comum presentes nas dinâmicas

de crescimento informal destes territórios periur- banos e que também encontram-se na área da an- tiga Colônia Juliano Moreira. Desta forma o recorte espacial, enquadra-se dentro das teorias já estuda- das e reveladas pelos pesquisadores brasileiros nas últimas décadas. Outro propósito da revisão biblio- gráfica foi definir os agentes sociais que produzem

o espaço urbano nas metrópoles brasileiras, seus interesses e conflitos decorrentes. No caso desta pesquisa é considerada principalmente a teoria de Flavio Villaça, pois este autor aprofunda-se no estu-

do do caso especifico brasileiro. Portanto, esta te- oria é a mais adequada para enquadrar os agentes sociais que produzem o espaço urbano na Colônia e seus mecanismos de dominação urbana. A pes- quisa realizada por Villaça (2001) não aprofunda na

produção social do espaço urbano informal, e por isso, são trazidos outros marcos teóricos que com-

plementam a teoria de Villaça, tanto na descrição dos agentes como das inter-relações, entre eles, os pesquisadores brasileiros, Pedro Abramo (2009), Ermínia Maricato (2001), Ribeiro, Silva e Rodrigues

(2011).

Em paralelo realizou-se o estudo de caso e a pes-

quisa de campo. A pesquisa de campo foi realizada

em duas etapas, primeiramente foi realizada uma pesquisa documental através do analise de três do- cumentos da década de 1980, no Arquivo do Insti- tuto Municipal de Assistência a Saúde Juliano Mo-

reira (IMASJM) período das ocupações massivas informais da área, e também através do Estudo das Famílias Moradoras no Campus de Jacarepaguá:

Diagnóstico e Alternativas de Ação, realizado em

2004 pelo Instituto de Estudos da Religião (ISER). Buscando-se nestes documentos compreender a

dinâmica sociopolítica da ocupação informal, assim como, o reconhecimento dos agentes que provoca-

ram este processo. Posteriormente foi efetuada a

pesquisa documental referente ao período da mu-

nicipalização (1996) até os dias de hoje e, para este

fim, foram pesquisados documentos fornecidos pelo Escritório Técnico de Planejamento Territorial e Regularização Fundiária (ETPTRF) do Campus Fiocruz da Mata Atlântica (CFMA), entre os quais, o Plano Diretor do Campus Fiocruz da Mata Atlân- tica (FIOCRUZ, 2009) e o projeto proposto para o PAC-Colônia elaborado em 2008. Outros documen- tos foram necessários para analisar os projetos que estão sendo executados atualmente na área, para

isso foi pesquisado o site da Prefeitura do Rio de Ja-

neiro e desta forma foram analisados os relatórios

PRODUÇÃO SOCIAL DO ESPAÇO URBANO NA PERIFERIA DA METRÓPOLE.

18

que existem no site em relação aos projetos de urbanização que estão sendo realizados na cidade,
que existem no site em relação aos projetos de urbanização que estão sendo realizados na cidade, todos
estes datados em 2013.
Na continuação definiu-se os agentes sociais que deviam ser entrevistados, e elaborou-se a entrevista
semi-estruturada, através dos conceitos dos fenômenos urbanos estudados no marco teórico conceitual.
A entrevista foi estruturada em quatro itens (assuntos-conceitos) para os moradores entrevistados, e em
dois itens para os técnicos, mas procurando em todas as entrevistas dar a maior liberdade possível aos
entrevistados para poderem desenvolver os assuntos ou anedotas que eles considerassem apropriados,
pois nos relatos improvisados são reveladas as inter-relações entre os diferentes agentes sociais que pro-
duzem o espaço urbano da Colônia. Decidiu-se entrevistar oito agentes, entre os quais, dois agentes do
poder publico 3 e seis da sociedade civil. Também optou-se por guardar o anonimato de todos os agentes
sociais entrevistados, pois algumas das informações obtidas nas entrevistas são de índole confidencial,
portanto, por questões de segurança dos próprios entrevistados, se omite o nome e sobrenome. Expõe-se
as informações relativas ao cargo e tempo desempenhado pelo agente entrevisto, pela relevância signifi-
cativa no âmbito desta pesquisa, conforme o gráfico I.1. O relato completo das oito entrevistas realizadas
encontra-se no Apêndice A.
Gráfico I.1: Agentes sociais entrevistados
Agentes sociais
Órgão que pertence
Apelidos
entrevistados
Poder
municipal
Secretaria Municipal de
Habitação (SMH)
Prefeitura
Arquiteto Coordenador do
Planejamento e Projetos
No período 2009 -2013
ARQUITETO 1
Poder
pú blico
Poder
nacional
Secretaria
Patrimônio da União
Coordenadora da Regularização
Fundiária
No período 2000 -2013
ADVOGADA 1
Governo
(SPU)
Federal
Terras públicas
Movimentos
LIDERANÇA 1
sociais
União Nacional pela
Moradia Popular
(UNMP)
Coordenadora Nacional e
Regional.
Deste 1992
Moradora.
Nasce na CJM
Ocupação
MORADOR 1
em 1924
autorizada
Funcionário
aposentado ou família
de funcionários da CJM
Morador. Nasce
na CJM em
Ocupação
MORADORA 2
População
1939
autorizada
que reside
no local
Morador da
População do
CJM desde
Compra
MORADOR 3
local
1994
moradia
Moradora da
CJM desde
Ocupação
MORADORA 4
1990
autorizada
Sem vinculo com a
Instituição da CJM
Morador da
CJM desde
Compra
MORADOR 5
1998
moradia
Elaboração: próprio autor.
3
Entre os poderes públicos envolvidos na produção do espaço urbano da Colônia Juliano Moreira encontra-se tam-
bém a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) a qual, desde o ano 1999 esta implantando o Campus Fiocruz Mata Atlântica (CFMA) na
área da antiga CJM. A autora da dissertação forma parte da equipe de pesquisa no Escritório Técnico de Planejamento Territo-
rial e Regularização Fundiária (ETPTRF) do Campus Fiocruz da Mata Atlântica (CFMA), portanto, devido as questões de integrida-
de cientifica visando a objetividade no analise dos agentes sociais, se decide não entrevistar os técnicos ou coordenadores da Fiocruz.
19
A INCORPORAÇÃO DA ANTIGA COLÔNIA JULIANO MOREIRA NO TECIDO FORMAL DO RIO DE JANEIRO
Estrutura da pesquisa Esta pesquisa organiza-se em quatro capítulos, ocupação informal da área, desde a década
Estrutura da pesquisa
Esta pesquisa organiza-se em quatro capítulos,
ocupação informal da área, desde a década de 1980
– quando começam as ocupações massivas infor-
mais da área – até os dias de hoje. Posteriormente
alem da introdução e considerações finais, com
uma estrutura sequencial.
No capitulo 1, constrói-se o marco teórico-concei-
tual para abordar posteriormente o nosso estudo
procura-se entender o processo de transformação
sócio política do território desde 2007 até os dias de
hoje e o processo de incorporação no tecido formal
da cidade. Em paralelo aborda-se a nova configura-
ção estabelecida entre o conjunto dos agentes so-
de caso, a antiga Colônia Juliano Moreira (CJM), que
será estudado através da compreensão das carac-
terísticas em comum nos processos de urbanização
ciais e instituições envolvidos na gestão e produção
desta transformação urbana.
das áreas periféricas nas metrópoles brasileiras.
No capitulo 4, a pesquisa enfoca as inter-relações
Aborda-se a dinâmica sócio-urbana no crescimen-
to espraiado e disperso destes territórios, obser-
vando a inter-relação entre a informalidade urbana
estabelecidas entre os agentes sociais que produ-
zem o espaço urbano na Colônia Juliano Moreira, no
último período de tempo analisado, ou seja, desde
e a morfologia do tecido disperso. Enfatiza-se a
2007 até os dias de hoje. O registro deste processo
transformação no modo de vida da população, que
adquire um modo de vida urbano, mas sem os ser-
viços públicos 4 nem as infraestruturas urbanas im-
prescindíveis. Procura-se também entender quem
de transformação é pesquisado através do cruza-
mento entre as informações extraídas nas entrevis-
tas realizadas aos agentes sociais atuantes no local
são os agentes sociais que estão produzindo, cons-
e a teoria que fundamenta os capítulos anteriores,
principalmente, a teoria da produção do espaço
truindo e gerindo estas áreas da metrópole, tendo
urbano do pesquisador brasileiro Villaça (2001)
como pano de fundo os seguintes autores: Gottdie-
acrescentada com as teorias dos autores Gottdie-
ner (1993), Villaça (2001), Abramo (2009) e Ribeiro,
Silva, Rodrigues (2011).
ner (1993) e Abramo (2009). Por fim, discutem-se os
instrumentos urbanísticos que o poder público pos-
No capitulo 2, apresenta-se o processo histórico
recente de urbanização e incorporação na malha
urbana da atual XVI Região Administrativa - Jaca-
repaguá como área periférica da metrópole do Rio
de Janeiro, pois a antiga Colônia Juliano Moreira,
encontra-se dentro deste limite administrativo. O
sui, contidos no Estatuto da Cidade (EC), e sendo
aplicados na área da Colônia Juliano Moreira, visan-
do mudar as relações de poder existentes na base
fundiária da Colônia com objetivo de possibilitar a
urbanização da área e favorecer a permanência das
famílias no seu local de moradia. O esquema desta
estrutura se encontra no gráfico I.2:
recorte temporal estabelecido abarca desde 1970
até os dias de hoje, pois foi a partir da proposta do
Plano Piloto para a Baixada de Jacarepaguá reali-
zado pelo urbanista Lucio Costa que acentuou o
crescimento urbano espraiado na região. A seguir
analisa-se a produção social desta região urbana
nas últimas décadas e as consequências socioespa-
ciais na atualidade.
No capitulo 3, aborda-se a incorporação da antiga
Colônia Juliano Moreira (CJM) à malha urbana da
cidade em dois períodos de tempo. Inicialmente
aborda-se as causas e características do processo de
4
Definidos segundo o Ministério das Cidades como ativi-
dades de interesse comum reguladas e/ ou mantidas pelo poder
público, compreendendo os sistemas saneamento ambiental
– abastecimento de água, esgotamento sanitário, drenagem e
resíduos sólidos – de energia e iluminação pública, de circulação
e transportes, de telecomunicações, de informação e atendi-
mento às questões de interesse público. Disponível em http://
www.cidades.gov.br/index.php/reabilitacao-de-areas-urbanas-
centrais/928-duvidas-frequentes.html. Acesso em janeiro de 2014.
20
PRODUÇÃO SOCIAL DO ESPAÇO URBANO NA PERIFERIA DA METRÓPOLE.
Gráfico I.2 : Estrutura da dissertação Introdução CAPITULO 1 Marco teórico - conceitual - Urbanização de
Gráfico I.2 : Estrutura da dissertação
Introdução
CAPITULO 1
Marco teórico - conceitual
- Urbanização de áreas periféricas nos grandes
aglomerados urbanos
- Dinâmica sócio - morfológica na informalidade urbana
Revisão bibliográfica
periférica
- Agentes sociais que produzem o espaço urbano nas
metrópoles brasileiras
CAPITULO 2
Contextualização do objeto de estudo
Pesquisa documental
- Processo de urbanização da XVI RA - Jacarepaguá
- Características da ocupação informal da região
- Produção social do espaço urbano da área
CAPITULO 3
Análise do objeto
Pesquisa documental
Levantamento de campo
Coleta de dados/entrevistas
Sistematização das informações
- Definição da área de estudo
- Características da ocupação informal da área da CJM
- Transformação sociopolítica do território
- Processo de incorporação no tecido urbano formal da
metrópole
Analise do objeto
CAPITULO 4
Pesquisa documental
Levantamento de campo
Coleta de dados/entrevistas
Sistematização das informações
- Produção social do espaço urbano na CJM
- Inter - relação entre os agentes
- Instrumentos urbanísticos do poder público aplicados
na reversão da informalidade urbana
Considerações finais
Elaboração: próprio autor.
21
A INCORPORAÇÃO DA ANTIGA COLÔNIA JULIANO MOREIRA NO TECIDO FORMAL DO RIO DE JANEIRO
CAPÍTULO I_ ASPECTOS DO CRESCIMENTO ESPRAIADO DAS PERIFERIAS NAS METRÓPOLES BRASILEIRAS Parque Estadual da Pedra Branca
CAPÍTULO I_
ASPECTOS DO CRESCIMENTO ESPRAIADO DAS
PERIFERIAS NAS METRÓPOLES BRASILEIRAS
Parque Estadual da Pedra Branca
Fotografía: Lin Lima, 2013.
22
PRODUÇÃO SOCIAL DO ESPAÇO URBANO NA PERIFERIA DA METRÓPOLE.
CAPÍTULO I_ existentes nas áreas periféricas dos grandes núcleos urbanos, desaparecendo paulatinamente os modos de vida
CAPÍTULO I_
existentes nas áreas periféricas dos grandes núcleos
urbanos, desaparecendo paulatinamente os modos
de vida rurais. Segundo o ultimo relatório de Nações
ASPECTOS DO CRESCIMENTO ESPRAIADO DAS
pERIFERIAS NAS METRÓPOLES BRASILEIRAS
Unidas World Population 6 de 2012 a proporção de
população que mora em áreas urbanas aumentou
de 29% em 1950 para 50% em 2010. Espera-se que
Pretende-se fazer, neste capítulo, uma leitura dos
em 2050, 69% da população global, ou seja, 6,3 bi-
processos de urbanização e metropolização de áre-
as não urbanas e periféricas nos grandes aglome-
lhões de pessoas, morem em áreas urbanas. O Brasil
rados metropolitanos brasileiros. Nestes territórios
se consolidou um crescimento espraiado, onde a
população adquire um modo de vida urbano, mas
se encontra no conjunto dos países com maior por-
centagem de população urbana do mundo, entre
75-100% da população brasileira mora em centros
urbanos, como mostra a figura 1.1, abaixo. O foco
sem os serviços públicos nem as infraestruturas ur-
deste primeiro ponto é entender estes processos de
banas imprescindíveis. Nesse sentido, é importante
esclarecer vários aspectos da metropolização e do
urbanização de áreas não urbanas e periféricas dos
grandes núcleos metropolitanos brasileiros, com
processo de urbanização das aglomerações urba-
nas brasileiras, uma vez que as metrópoles continu-
suas determinadas características locais.
am crescendo atualmente nas suas áreas periféricas
(1.1). Desta forma, a inter-relação entre a informa-
lidade urbana e a morfologia do tecido disperso
Figura 1.1: Mapa mundial representando a porcenta-
gem de população urbana em relação à população total
em cada pais, em 2010.
na escala intraurbana será um fator estudado para
entender as causas dos grandes problemas destas
periferias metropolitanas (1.2). E finalmente, abor-
da-se quem são os agentes sociais que estão pro-
duzindo, construindo e gerindo estas áreas da me-
trópole, e quais são as decorrências socioespaciais
desta dinâmica do crescimento periférico metropo-
litano, tendo como pano de fundo alguns autores
que refletiram sobre o papel desenvolvido por estes
agentes no espaço urbano, Gottdiener (1993), Villa-
ça (2001), Abramo (2009) e Ribeiro, Silva, Rodrigues
(2011) (1.3).
Fonte: Relatório World Population, 2012. Nações Unidas.
Desde já é importante observar que o conceito de
urbano que trabalhamos nesta pesquisa refere-se
ao conceito definido por Flavio Villaça (2001). No li-
vro Espaço Intra-urbano no Brasil, ele categoriza o
1.1.
Particularidades dos processos de
urbano através de duas características: a existência
urbanização de áreas periféricas dos grandes
de uma rede de infraestrutura (vias, redes de água,
núcleos metropolitanos brasileiros
esgoto, pavimentação, energia, etc.) e a possibili-
dade de locomoção de produtos e de pessoas prin-
As metrópoles brasileiras continuam crescendo,
com um ritmo de crescimento inferior às décadas
cipalmente. Na perspectiva de Villaça, a localização
define o tempo e a possibilidade de deslocamento
de 1970 e 1980, mas ainda sem sofrer os processos
de decrescimento que vemos acontecer em outras
cidades do mundo 5 . No contexto urbano mundial
existe uma tendência de urbanização total (REIS,
2010), conceito entendido como o aumento do
das pessoas no espaço urbano e, portanto, domina
a estruturação do espaço intraurbano:
modo de vida urbano que se apropria de territórios
A acessibilidade é mais vital na produção de locali-
zação do que a disponibilidade de infraestrutura. Na
pior das hipóteses, mesmo não havendo infraestrutu-
ra, uma terra jamais poderá ser considerada urbana
se não for acessível - por meio do deslocamento diá-
5
O
fenômeno
urbano
das
cidades
decrescentes
está
sendo
investigado
através
de
uma
rede
internacio-
nal
de
pesquisa,
disponível
em:
https://sites.google.com/
6
Disponível
em:
http://esa.un.org/wpp/unpp/
site/shrinkingcitiesnetwork/.
Acesso
em
janeiro
de
2014.
panel_population.htm.
Acesso
em
janeiro
de
2014.
23
A INCORPORAÇÃO DA ANTIGA COLÔNIA JULIANO MOREIRA NO TECIDO FORMAL DO RIO DE JANEIRO
rio de pessoas - a um contexto urbano e a um conjun- to de atividades urbanas
rio de pessoas - a um contexto urbano e a um conjun-
to de atividades urbanas (
de transporte de passageiros.
...
).
E isso exige um sistema
(VILLAÇA, 2001, p.23)
ou filhos destes migrantes rurais. Frente à deficiên-
cia dos recursos públicos que deviam fornecer estes
serviços, as nossas metrópoles se transformaram
em grandes centros de pobreza urbana.
A repercussão deste conceito vai ser discutido pos-
teriormente no âmbito das consequências que esta
localização urbana tem no espaço intraurbano das
Nesse quadro, as grandes transformações urbanas,
nossas metrópoles. É importante ressaltar como
Villaça determina o espaço urbano através de duas
características, mas enfatiza que o mais importante
políticas e econômicas não foram acompanhadas
por uma mudança social e o Brasil continuou forte-
mente marcado pela desigualdade social. A popu-
lação se industrializou, mas não de forma espacial-
para definir um território urbano é a acessibilidade
por meio do deslocamento diário de pessoas, “mes-
mo não havendo infraestruturas”. Esta descrição
elegida por Villaça para explicar o conceito de terra
urbana, reflete o que seria frequentemente aceito
como espaço urbano nas cidades brasileiras.
mente equitativa. Este fato é uma das causas desta
particular transformação urbana. O poder público
não teve a capacidade de criar uma adequada rede
nacional de infraestruturas metropolitanas. “Dian-
te disso, pode-se afirmar que no Brasil os proces-
sos de urbanização e metropolização foram muito
Porém, também é preciso esclarecer que o conceito
de urbanização está sendo utilizado neste capítulo
próximos, tivemos uma urbanização rápida e uma
‘metropolização precoce’”. (RIBEIRO, SILVA e RO-
DRIGUES, 2011, p.4).
também no sentido de processo social e não neces-
sariamente no sentido físico, apenas. Quer dizer,
em coerência com o conceito de urbano de Villa-
ça, urbanização neste contexto é a mudança nos
modos de vida da população, que adota modos de
vida urbanos ou metropolitanos mesmo em áreas
afastadas dos núcleos metropolitanos e não neces-
sariamente urbanizadas no sentido físico, na exten-
são das redes de infraestruturas, serviços urbanos,
e equipamentos comunitários 7 .
Por isso, são muitos os estudiosos que reforçam
esta opinião da velocidade do processo de urba-
nização brasileiro como causa da metropolização
“precoce”, entre eles, a pesquisadora Ester Limo-
nad (2007), quando lembra que este processo acon-
teceu em apenas duas décadas:
Se
até
o
inicio
da década de 1960
o país ainda apre-
sentava fortes características rurais, os resultados dos
últimos censos demográficos (1991 e 2000) do Ins-
Para entender as causas desta contradição urbana
tituto
de Geografia
e
Estatística
(IBGE) não deixam
e social, devemos entender as características do
processo de inserção urbana no Brasil. Entre 1960 e
o final dos anos 1970 houve um crescimento demo-
gráfico muito forte nos centros urbanos brasileiros,
principalmente de população que emigrou do cam-
po em direção as cidades. Estima-se que neste pe-
ríodo foram mais de 40 milhões de pessoas chegan-
do aos principais núcleos urbanos do país (RIBEIRO,
SILVA e RODRIGUES, 2011).
mais margens a dúvidas. O Brasil enfim converteu-
se em um país urbano. Cerca de 82% de sua popu-
lação reside em áreas urbanas. (LIMONAD, 2007)
Neste marco de crescimento urbano, muitas áreas
não urbanas são incorporadas aos novos aglome-
rados urbanos mudando especialmente os modos
de vida da população. No Brasil, este processo de
absorção de uma área não urbana em área urbana
conta com características específicas pelo fato de
Neste contexto surge uma grande demanda de es-
paço urbano, serviços públicos e redes de infraes-
existirem territórios com modos de vida urbanos es-
tabelecidos durante varias décadas, mas ainda sem
infraestruturas e nem serviços públicos urbanos. É
truturas em um período de tempo muito curto. Es-
tas áreas eram demandadas principalmente pelas
por isso que o processo de incorporação adquire
uma complexidade social maior, como explica Ester
camadas mais baixas da população recém-migrada
7
Definidos segundo o Ministério das Cidades como
Limonad (2007) no artigo Nunca fomos tão Metro-
politanos. Considerações Teórico-Metodológicas so-
bre as tendências recentes da urbanização brasileira:
bens e edificações que abrigam atividades e serviços de inte-
resse público de saúde, educação, segurança, desporto, la-
zer, convivência comunitária, assistência à infância e ao ido-
so, geração de trabalho e renda. Disponível em http://www.
[
]
Além
da
mescla
de
usos
do
solo
para
ativida-
des
urbanas
e
rurais
dificultar
a
delimitação
físi-
cidades.gov.br/index.php/reabilitacao-de-areas-urbanas-
ca
e
funcional
destas
áreas
de
urbanização
difu-
centrais/928-duvidas-frequentes.html. Acesso em janeiro de 2014.
24
PRODUÇÃO SOCIAL DO ESPAÇO URBANO NA PERIFERIA DA METRÓPOLE.
sa, geralmente estas áreas apresentam-se em constante mudança e redefinição de atividades. Embora apresentem traços típicos
sa, geralmente estas áreas apresentam-se em constante mudança e redefinição de atividades. Embora apresentem
traços típicos do âmbito rural e apesar de seus habitantes viverem no “campo”, não dependem dele para sua sobrevi-
vência e reprodução. Ou seja, a inserção produtiva desta população residente no “campo” não se dá necessariamen-
te em atividades agrárias, não obstante muitos possuam hortas e galinheiros. O “campo” aparece como local de resi-
dência, e pode ser até o local de trabalho de atividades de serviços ou trabalho a domicilio. (LIMONAD, 2007, p.189)
Portanto, entendemos esta incoerência sociourbana, como uma das características principais que deve-
riam ser abordadas nos estudos urbano-metropolitanos brasileiros.
O último relatório das Nações Unidas realizado em 2011, Urban Population, Development and the Envi-
ronment, indica que no Brasil, atualmente, 87% da população reside em áreas urbanas, concentradas em
apenas 2,2% do território total do país 8 . Podemos interpretar que estes 87% de população que mora em
aglomerados urbanos têm acesso a serviços e infraestruturas urbanas? Podemos comparar numa mesma
pesquisa internacional os dados de uma população urbana mundial que mora em condições urbanas tão
divergentes? E ainda, como esse dado pode ser esclarecido na proposta de políticas públicas urbanas, se
no Brasil se “camufla” o modo de vida real desta população urbana periférica?
Em termos quantitativos, de acordo com o IBGE, o Brasil, tinha 15 metrópoles em 2010. O somatório da
população metropolitana no território nacional totalizava 69 milhões, como se pode ver abaixo na tabela
1.1. O último relatório de Nações Unidas em 2011, Urban Population, Development and the Environment,
indica que, atualmente, 29% da população urbana no Brasil habita em assentamentos precários 9 , como
se pode ver abaixo na tabela 1.2. Se levarmos em consideração os dados citados acima, realizando a por-
centagem de 29% sobre o total da população das metrópoles (69 milhões) teríamos como resultado – con-
tabilizando só estas 15 metrópoles – 23 milhões de pessoas morando em assentamentos precários, quer
dizer, uma metrópole com duas vezes a população do Rio de Janeiro.
Tabela 1.1: Metrópoles brasileiras. População IBGE 2010.
Fonte: Observatório das Metrópoles (2004, 2010)
Tabela 1.2: População urbana, Meio Ambiente, e Desenvolvimento no Brasil. 2011.
Fonte: Relatório de Nações Unidas. Urban Population, Development and the Environment. 2011
8
Esta medida foi realizada no ano 2000.
9
Esta pesquisa foi realizada com dados tomados entre os anos 2005 e 2007.
25
A INCORPORAÇÃO DA ANTIGA COLÔNIA JULIANO MOREIRA NO TECIDO FORMAL DO RIO DE JANEIRO
Este dado sugere que os aglomerados urbanos no Brasil possuem certas características muito particu- lares. Elegemos
Este dado sugere que os aglomerados urbanos no
Brasil possuem certas características muito particu-
lares. Elegemos neste trabalho, então, uma descri-
Segundo os pesquisadores Ribeiro, Silva e Rodri-
gues (2011), também a forma de incorporação ao
mercado laboral de uma população de migrantes
ção de aglomerado urbano que nos ajude a delimi-
tar estas características. É por isso que escolhemos
foi feita de forma precária. Esta ficou em grandes
proporções desempregada ou subempregada no
esta explicação de metrópole defendida pelos pes-
quisadores do Observatório das Metrópoles, Ribei-
ro, Silva e Rodrigues:
mercado informal, condição presente até hoje na
população metropolitana periférica.
Além disso, na década de 1980, no Brasil, houve
[
]
Refere-se a aglomerados urbanos que apresentam
uma grande crise econômica de graves consequên-
as dimensões de polarização e concentração no terri-
cias para as nossas cidades. Foi um amplo período
tório brasileiro nas escalas nacional, regional e local.
[
]
Internamente, estes espaços também apresentam
de ocupação massiva informal de terras urbanas
por estas camadas que estavam sendo excluídas
centração de poder econômico, social e cultural que
não se distribui homogeneamente nos municípios nele
inseridos. (RIBEIRO, SILVA e RODRIGUES, 2011, p.1).
Como já foi defendido até agora, estes núcleos se
concentram na escala nacional, e se dispersam no
espaço intraurbano (REIS, 2010). O que define ni-
tidamente o conceito de metrópole em qualquer
contexto mundial é a hierarquia urbana, embora
do mercado formal e dos espaços urbanizados fisi-
camente e, por isso, o poder público, em todas as
escalas, não teve como conter a “consolidação e a
potencialização de um mercado informal de terras ur-
banas”. (ABRAMO, 2009, p.27)
Frente à escassez de espaço urbano consolidado,
os poderes públicos nacionais e locais estabelece-
seja importante definir quais são as características
ram uma política de “tolerância” na formação pós-
ocupação deste novo espaço urbano pelas camadas
mais pobres da população que se define como: pre-
cário, autoconstruído e informal. O que foi poten-
particulares brasileiras nestes espaços urbanos for-
cializado a partir das ultimas décadas a partir de
temente hierarquizados. Esta hierarquia espacial
não é limitada ao sentido morfológico núcleo-peri-
feria, também se refere à grande desigualdade so-
cioeconômica, como defende Milton Santos (1993)
no livro A Urbanização Brasileira: “ao longo do sé-
culo, mas sobretudo, nos períodos mais recentes,
o processo brasileiro de urbanização revela uma
crescente associação com o da pobreza, cujo locus
políticas de mobilidade rodoviária, oferecendo o
ônibus como uma única alternativa ao transporte
público de massas para estas áreas periféricas. A te-
oria da relação entre a periferia e o ônibus é defen-
passa a ser, cada vez mais, a cidade, sobretudo a
grande cidade.” (SANTOS, 1993, p.11). A teoria de
Milton Santos é constatada no censo demográfico
do IBGE 2010 segundo o qual, os “53% da popula-
ção residente em aglomerados subnormais estão
dida pelas pesquisadoras Raquel Rolnik e Danielle
Klintovitz, para a metrópole paulista: “a predomi-
nância do ônibus e a ampliação do sistema viário já
viabilizavam a abertura dos loteamentos populares
na periferia metropolitana, oferecendo o modal de
transporte adequado a uma expansão dispersa e de
baixa qualidade.” (ROLNIK e KLINTOVITZ, 2011)
Neste sentido podemos afirmar que o espraiamento
concentrados nas regiões metropolitanas de São
Paulo, Rio de Janeiro, Belém, Salvador e de Recife”,
conforme a tabela 1.3:
metropolitano que se desenvolveu durante os anos
80 nas grandes aglomerações urbanas brasileiras
Tabela 1.3: População residente em aglomerados sub-
normais nas regiões metropolitanas de São Paulo, Rio
de Janeiro, Belém, Salvador e Recife.
Fonte: IBGE, Censo Demográfico, 2010
26
PRODUÇÃO SOCIAL DO ESPAÇO URBANO NA PERIFERIA DA METRÓPOLE.
tem duas características especificas: periférico e Nesse sentido, é importante esclarecer vários as- informal. Estas qualidades
tem duas características especificas: periférico e
Nesse sentido, é importante esclarecer vários as-
informal. Estas qualidades das nossas metrópo-
pectos da metropolização e do processo de urba-
les são definidas pelo pesquisador brasileiro Pedro
nização das aglomerações urbanas brasileiras, uma
Abramo: “o processo de metropolização apresentou
vez que as metrópoles continuam atualmente cres-
também um caráter de periferização e segregação
cendo nas suas áreas periféricas. Estas áreas perifé-
socioespacial elevado, com um papel considerável da
ricas que estão sendo absorvidas pela malha urba-
cidade ilegal.” (ABRAMO, 2009, p.11)
na paulatinamente são caracterizadas como novos
Entretanto, na década de 1990, as periferias con-
espaços urbanos, mas sem infraestruturas, serviços
tinuaram crescendo, e os núcleos metropolitanos
públicos urbanos e equipamentos comunitários im-
apresentaram paulatinamente menor ritmo de
prescindíveis. Ao mesmo tempo, a população incor-
crescimento até chegar ao ponto de crescimento
pora um modo de vida urbano, isto é, depende eco-
zero na década de 2000, décadas nas quais a popu-
nomicamente do núcleo da metrópole, e fenômeno
lação tende a sair do núcleo em direção à periferia.
de interdependência denominada por Flavio Villaça
Como justificam os pesquisadores Ribeiro, Silva e
como conurbação.
Rodrigues (2011), no caso especifico da metrópole
Quando um núcleo urbano depende economica-
do Rio de Janeiro “o saldo migratório intrametro-
mente do outro, a sua população sofre o resultado
politano permaneceu negativo para o núcleo, mas o
desta dependência e hierarquia no espaço urbano.
volume dessa perda diminuiu, foram mais de 100 mil
Este conceito de conurbação urbana foi esclarecido
pessoas que saíram do núcleo para a periferia de 1995
no contexto brasileiro pelo professor Flavio Villaça
para 2000, já de 2005 para 2010 aproximadamente
(2001) no livro Espaço Intra-Urbano no Brasil:
73
mil pessoas”. (RIBEIRO, SILVA e RODRIGUES,
O processo de conurbação ocorre quando uma cidade
2011, p.16).
passa a absorver núcleos urbanos localizados à sua volta,
Em outras palavras, nestas ultimas décadas, existe
pertençam eles ou não a outros municípios. Uma cidade
uma reorganização interna e dispersão de espaços
absorve outra quando passa a desenvolver com ela uma
já urbanizados em épocas anteriores. Apesar da
considerável redução, entre 2000 e 2010, as peri-
ferias continuaram crescendo (RIBEIRO, SILVA e
“intensa vinculação socioeconômica”. Esse processo en-
volve uma série de transformações tanto no núcleo urba-
no absorvido como no que absorve. (VILLAÇA, 2001, p.49)
RODRIGUES, 2011). Não é, portanto, uma dinâmi-
ca estagnada hoje em dia: as periferias das nossas
O fenômeno da conurbação urbana se apresenta
metrópoles continuam crescendo mesmo que seja
também dentro do mesmo município, como defen-
a um ritmo inferior. Conforme observamos na ima-
de Villaça, quando existe uma única centralidade no
gem 1.2, a mancha urbana da Região Metropolitana
aglomerado metropolitano. É por isso que a popu-
do Rio de Janeiro, continua crescendo também na
lação incorporada ao modo de vida urbano é condi-
década de 2000.
cionada a sair da periferia para trabalhar no núcleo,
sendo esta dinâmica denominada de mobilidade
Figura 1.2: Crescimento da mancha urbana da
Região
pendular núcleo-periferia. “A conurbação metropo-
Metropolitana do Rio de Janeiro desde a década de 1970
litana se apresenta assim, como um processo devo-
até a década de 2000.
rador de cidades e produtor de bairros.” (VILLAÇA,
2001, p.49).
Os pesquisadores Ribeiro, Silva e Rodrigues (2011),
demonstram como as cifras de pessoas que preci-
sam se locomover todos os dias da periferia até o
núcleo dobrou entre os anos 2000 e 2010: “[
...
]
é
preciso notar que mais que dobrou o quantitativo de
pessoas que mora na periferia e trabalha no núcleo –
passando de quase 250 mil pessoas para quase 520 mil
década 1970
(de 7,3% para 10% do total de pessoas que realizam
década 1980
movimento pendular intrametropolitano para traba-
década 1990
lho).” (RIBEIRO, SILVA e RODRIGUES, 2011, p.17).
década 2000
Portanto, independente das condições físicas, este
Fonte: Observatório das Metrópoles (2013)
lugar seria considerado como área urbana segundo
27
A INCORPORAÇÃO DA ANTIGA COLÔNIA JULIANO MOREIRA NO TECIDO FORMAL DO RIO DE JANEIRO
o conceito definido por Villaça anteriormente. No intra-urbano o foco se concentra no estudo da morfologia
o conceito definido por Villaça anteriormente.
No intra-urbano o foco se concentra no estudo da
morfologia do tecido urbano, acessibilidade, usos,
A dinâmica de mobilidade pendular associada aos
e divisão da propriedade:
preços atuais do transporte público nas grandes
metrópoles são fatores que ampliam a segregação
O espaço intra-urbano é fundamentalmente concre-
socioespacial como expõe Pedro Abramo: “o fenô-
to e tende a ser registrado por suas formas geomé-
tricas de divisão
da propriedade e edificação (teci-
meno das super-periferias revela o seu aspecto per-
do
urbano),
pela
infraestrutura
e
pelos
serviços
de
verso e de iniqüidade social com o comprometimento
mercado de uso. É um espaço cujo valor é dado pe-
crescente do orçamento familiar em custos de deslo-
camento.” (ABRAMO, 2009, p.38).
las edificações e pelas obras que lhes conferem aces-
sibilidade e condições de uso. (REIS, 2006, p.44)
Enquanto as nossas metrópoles são, cada vez mais,
Por isso a discussão desta pesquisa será abordada
pólos de concentração econômica nacional e inter-
na escala intraurbana do tecido urbano da metró-
nacional, as periferias que fazem parte delas per-
pole do Rio de Janeiro, por ser a escala onde se en-
manecem estagnadas e apresentando altos indica-
contra definido o uso e transformação do espaço
dores de pobreza invisibilizados.
físico. Em outras palavras, no tecido intraurbano
devem ser estudadas as transformações de um es-
paço público em um espaço privado e as alterações
1.2.
A informalidade e a dispersão na consti -
na propriedade da terra, uma vez que “entendemos
tuição do tecido intraurbano periférico
como tecido urbano o modo pelo qual se definem as
relações entre espaços públicos e espaços privados
Como já foi defendido no ponto anterior, as nossas
(enquanto propriedade ou posse), entre espaços de
metrópoles frente à elevada taxa de urbanização se
uso privado e de uso coletivo, sejam estes de proprie-
caracterizam pela sua dispersão e espraiamento no
dade pública ou privada.” (REIS, 2010, p.44). As três
território, sem limites bem definidos ou planejados.
situações que se definem com nitidez nesta escala
Com o objetivo de entender na escala intraurbana
são: a propriedade (ou posse), a produção (constru-
os motivos do crescimento urbano, o professor
ção) material, e o uso ou transformação (do uso)
Nestor Goulart Reis (2009), explica as característi-
deste espaço.
cas específicas locais e temporais do conceito de
Apesar da pesquisa realizada por Nestor Goulart
dispersão urbana nas metrópoles brasileiras e como
Reis (2006) não estar limitada ao estudo da perife-
são díspares das características das metrópoles eu-
ria informal das nossas metrópoles, a sua caracteri-
ropeias:
zação da dispersão urbana colabora neste trabalho
para esclarecer as características comuns da disper-
Nossa dispersão se estabelece nas regiões rurais de
uma só vez. Na Europa há um grande número de al-
deias e povoados rurais, e uma parte da dispersão se
fez a partir dessas aldeias. A população ali se trans-
forma e adota padrões metropolitanos. No Brasil, a
dispersão se dá em áreas ainda desocupadas, de uma
vez só. Em 30 anos passamos por todas as etapas que
a Europa passou em dois séculos. (REIS, 2006, p.21)
são diferenciada no contexto brasileiro:
-pelo esgarçamento crescente do tecido dos prin-
cipais núcleos urbanos, em suas áreas periféricas;
-pela formação de constelações ou nebulosas de núcleos
urbanos e bairros isolados em meio ao campo, de diferen-
tes dimensões, integrados em uma área metropolitana
ou em um conjunto ou sistema de áreas metropolitanas;
Nestor Goulart Reis defende que este tema deve ser
-pelas mudanças no transporte diário intrametropoli-
tano de passageiros, que transformou as vias de trans-
porte interregional, de tal modo que estas se tornaram
estudado em duas escalas paralelamente: na escala
grandes vias expressas inter e intrametropolitanas;
metropolitana 10 e do intra-urbano, mas entenden-
-pela difusão ampla de modos metropolitanos de vida e de
do que cada uma delas tem um objetivo de análise
diferente. Para ele, o processo de dispersão urba-
consumo, também estes dispersos pela área metropolitana
ou pelo sistema de áreas metropolitanas. (REIS, 2010, p. 13)
na é característica especifica da escala intraurbana.
Estas são características particulares da abordagem
geral de dispersão urbana em todos os contextos
10
Na escala metropolitana, a dispersão se estuda com o ob-
jetivo de entender as polaridades dentro do aglomerado urbano,
os eixos de transporte e comunicação da população, e as diver-
socioterritoriais, que abrange a dispersão das ca-
madas médias e altas da população em tipologias
sas maneiras de agrupação das classes sociais no espaço urbano.
28
PRODUÇÃO SOCIAL DO ESPAÇO URBANO NA PERIFERIA DA METRÓPOLE.
de condomínios privados e outras similares. Porém, no nosso caso vamos estudar as características espe- cíficas
de condomínios privados e outras similares. Porém, no nosso caso vamos estudar as características espe-
cíficas da dispersão na periferia informal metropolitana. Portanto, as questões a desenvolver neste ponto
são: Através de que mecanismos socioeconômicos se desenvolve esta informalidade periférica? Como esta
dinâmica socioeconômica urbana interfere na formação de uma morfologia particularmente dispersa?
No espaço intraurbano das periferias metropolitanas, a forma mais estabelecida de construção de habita-
ção é a autoconstrução da casa pela família, após a compra de um lote – porção de terra – na maioria dos
casos sem rede de infraestrutura urbana. Por conseguinte, antes da ocupação das famílias deve ser reali-
zado um loteamento ilegal e informal, que converte o uso de um território não urbano – podendo ter uso
agrícola ou não – em uso de moradia sem disponibilizar as redes de infraestruturas urbanas pelo poder
público ou os poderes privados que vendem os lotes. Em relação a influência deste sub-mercado de lotea-
mentos na morfologia urbana das periferias, Pedro Abramo (2009) a considera como principal responsável
pela dinâmica de dispersão urbana:
O primeiro sub-mercado (loteamentos) opera o fracionamento de glebas na periferia das cidades, constituindo-se no principal
vetor de expansão da malha urbana e da dinâmica de periferização precária cuja característica principal nas grandes cidades
latino-americanas é a inexistência (ou precariedade) de infraestruturas, serviços e acessibilidade urbana. (ABRAMO, 2009, p.11)
Portanto, a inter-relação entre a irregularidade da posse e a morfologia do tecido disperso na escala in-
traurbana é um fator que deve ser estudado e aprofundado para entender as causas dos grandes proble-
mas metropolitanos. Numa abordagem inicial, podemos identificar de forma esquemática, três atores
sociais produzindo este espaço urbano: (1) o poder público incapaz de fomentar uma oferta massiva e
regular de habitações dentro da rede da infraestrutura urbana, que tolera as ocupações de terra pública na
periferia metropolitana; (2) os agentes públicos ou privados que dividem e vendem esta terra como terra
urbana com finalidade habitacional; e (3) a população pobre que, sem acesso à moradia regular, compra os
lotes e constrói sua moradia na periferia dos grandes núcleos metropolitanos.
Neste contexto de grande desigualdade social e econômica surgem os movimentos de ocupação de terras
urbanas massivas ou individuais, espontâneas ou organizadas, através de diferentes interesses políticos
ou econômicos, “movidas por uma lógica da necessidade de ter acesso à vida urbana” (ABRAMO, 2005, p.3).
Desta forma se consolidou durante varias décadas o modus operandi de “fazer periferia”.
Figura 1.3: Relação entre o mapa Índice de desenvolvimento social por setor censitário (2000) e o mapa Loteamen-
tos irregulares ou clandestinos no Rio de Janeiro (2004).
Fonte: Instituto Pereira Passos. Prefeitura do Rio de Janeiro. Disponível em: http://ipprio.rio.rj.gov.br/frame-mapoteca/. Acesso
em janeiro de 2014. Elaboração: próprio autor.
29
A INCORPORAÇÃO DA ANTIGA COLÔNIA JULIANO MOREIRA NO TECIDO FORMAL DO RIO DE JANEIRO
A figura do loteador – agente social do espaço urbano que será explicado no próximo ponto
A figura do loteador – agente social do espaço urbano que será explicado no próximo ponto – procura uma
área da metrópole sem infraestrutura e nem serviços urbanos básicos, na periferia mais ou menos distante
do centro urbano. Para definir a periferização o essencial não é a questão da localização, e sim do acesso
aos serviços públicos, como explica Mauricio de A. Abreu: “o conceito inclui também a não acessibilidade ao
consumo de bens e serviços que, embora produzidos socialmente pelo Estado, localizam-se apenas nas áreas
mais privilegiadas da metrópole, beneficiando, portanto, principalmente, aqueles que aí residem” (ABREU,
1987, p.15).
Neste sentido, a venda de terra na periferia das metrópoles para fins de moradia sem as condições de
infraestrutura mínima tem a perversidade do denominado “fator de antecipação” de infraestrutura e servi-
ços futuros (ABRAMO, 2009). Quer dizer, pelo fato de estar numa área periurbana o loteador vende a terra
antecipando o valor futuro dela.
Aquilo que hoje é periferia amanha será incorporado ao tecido urbano da cidade, e o poder público dispo-
nibilizará a infraestrutura e os serviços urbanos básicos, para converter essa antiga periferia em um novo
bairro da metrópole. Este tempo entre a venda e a construção de infraestrutura urbana, é essencial para
definir o lucro do loteador. Uma área que está na periferia, mas com a promessa política de receber um
projeto público – nacional ou municipal – de construção de infraestrutura urbana como o PAC ou o Morar
Carioca 11 vão valorizar altamente essas terras. Como podemos conferir na próxima página, na figura 1.4,
a Prefeitura do Rio de Janeiro promete urbanizar entre o ano 2012 e até 2020 um total de 255.757 domicí-
lios.
Figura 1.4: Mapa das unidades a urbanizar pela Prefeitura do Rio de Janeiro, com recurso público através do progra-
ma Morar Carioca em 2013.
Fonte: Relatório o legado dos grandes eventos para a cidades do Rio de Janeiro e o seu impacto social. Prefeitura do Rio de Ja-
neiro. Secretaria Municipal de Habitação. 2013. Disponível em: http://www.transparenciacarioca.rio.gov.br/. Acesso em janeiro
de 2014.
11
O
Morar
Carioca
é
um
programa
da
Prefeitura
do
Rio
de
Janeiro
que
tem
como
objetivo
promover
a
inclusão
so-
cial, através da integração urbana e social
das
favelas do
Rio
até
o
ano
de
2020, foi
criado
por Eduardo Paes em julho de 2010.
30
PRODUÇÃO SOCIAL DO ESPAÇO URBANO NA PERIFERIA DA METRÓPOLE.

Como defende Pedro Abramo (2009) esta dinâmica

se manifesta na permanente procura de novas áre-

as periféricas, com objetivo de ser loteadas e vendi-

das com um valor agregado – a promessa da urba-

nização no sentido físico – que não existe na hora

da venda, mas existirá no futuro. Portanto, este

sub-mercado potencializa o espraiamento das pe-

riferias sem limites definidos nem planejados e ca-

racteriza morfologicamente o território periurbano

como disperso/difuso:

[

]

a melhor estratégia do ponto de vista espacial é a

busca de glebas baratas e sem infraestrutura na franja

da ocupação urbana do solo. O resultado, em termos de

produção da forma de ocupação do solo da cidade, é uma tendência a extensificação contínua produzindo uma es- trutura difusa da territorialidade da informalidade urba-

na. Em uma palavra, o funcionamento do submercado de loteamentos informais promove a extensificação do

uso do solo e a sua resultante é a produção de uma for-

ma difusa do território informal. (ABRAMO, 2009, p12)

de alta densidade. Os custos de construir infraes-

truturas em densidades baixas são muito altos, já

que esses custos são comparados com o número de

famílias que serão beneficiadas (relação custo por

moradia). Em altas densidades, estes custos são

divididos por um número maior de famílias e, por-

tanto, é mais rentável urbanizar áreas compactas.

Cabe indagar, por que o poder público tolera esta

dinâmica urbana durante décadas? Por que aceita

loteamentos de terras públicas, vendidas irregular-

mente para as camadas mais pobres da população

com um valor agregado denominado “fator de an-

tecipação” que depois deverá custear, sendo ciente

deste custo público mais elevado? Existem alianças

ou interesses políticos que potencializam estas di-

nâmicas? Quem são os agentes urbanos que produ-

zem então estas periferias? E finalmente, existem

estratégias dentro das políticas públicas urbanas

para frear esta dinâmica? Estas questões serão re-

tomadas adiante.

Diante disso, devemos então esclarecer o concei-

to de informalidade urbana, que até então não foi

definido. Esta informalidade transparece na irregu-

laridade construtiva e urbanística, como produto

construído na escala intraurbana que não atende

à normativa estabelecida pelo poder público no

espaço urbano. Porém, muitas dessas construções

irregulares não são definidas como assentamentos

informais. Por causa disto, a característica que de-

finiria a informalidade urbana seria relacionada à

propriedade da terra e ao acordo econômico. Em

outras palavras, “o mercado informal de uso do solo

é a somatória de duas dimensões da informalidade: a

informalidade urbana e a informalidade econômica”.

(ABRAMO, 2009, p.6). Neste sentido, é importante

destacar a definição de informalidade econômica,

que se refere às “irregularidades relativas aos con-

tratos de mercado que regulam as transações mer-

cantis” (ABRAMO, 2009, p.6).

O resultado desta dinâmica socioeconômica é vis-

lumbrado nas características morfológicas do teci-

do intraurbano das nossas periferias, consolidadas

no conceito anteriormente definido por “fator de

antecipação”, que deverá ser disponibilizado pelo

poder público.

Está tecnicamente demonstrado que construir a

posteriori uma rede de infraestrutura e serviços ur-

banos em áreas dispersas tem um custo econômico

muito mais alto do que construir em um território

  • 1.3. A produção social do espaço urbano

nas periferias metropolitanas

Tal como foi apresentado no item anterior, atu-

almente, muitos pesquisadores dos fenômenos

urbanos aprofundam-se na análise das relações

entre a geografia, a antropologia e o urbanismo.

Muitos deles reforçam a hipótese da inter-relação

entre a morfologia urbana e as forças econômicas,

políticas e culturais. Quando em 1993 o sociólogo

estadunidense Mark Gottdiener escreve o livro A

produção social do espaço urbano, tem como objeti-

vo demonstrar que “a forma do espaço não só é um

produto social, mas é também seu valor. Em suma, o

espaço é uma construção social em todas as suas di-

mensões.” (GOTTDIENER, 1993, p.28). O autor de-

fende que a ciência urbana tradicional está obsoleta

pelo fato de não analisar a influência das transfor-

mações econômicas, políticas e culturais na própria

forma do espaço urbano. Neste sentido, Gottdiener

recomenda estudar e entender as dinâmicas socio-

econômicas que estão produzindo formas urbanas

contemporâneas, antes de propor políticas urbanas

que não levam em consideração as relações sociais

do local. Para abordar essas dimensões vamos es-

tudar e analisar as forças econômicas, políticas e

culturais que produzem o espaço urbano nas perife-

rias das metrópoles brasileiras, através das pesqui-

sas de vários estudiosos, entre eles o estadunidense

Gottdiener (1993) que define os agentes que produ-

31

A INCORPORAÇÃO DA ANTIGA COLÔNIA JULIANO MOREIRA NO TECIDO FORMAL DO RIO DE JANEIRO

zem o espaço urbano na realidade estadunidense e

os pesquisadores brasileiros Flavio Villaça (2001) e

Pedro Abramo (2009) que focam suas pesquisas no

entendimento das metrópoles brasileiras. É impor-

tante ressaltar que o professor Villaça (2001) estuda

e analisa profundamente as teorias urbanas tanto

de Gottdiener (1993), como de Castells (1976) para

depois realizar a pesquisa própria no contexto bra-

sileiro, por isso, estas comparações estão sendo re-

alizadas a partir da compreensão da importância de

se ampliar e contextualizar as teorias de Gottdiener

no contexto do Brasil.

  • 1.3.1. Os agentes sociais

perspectiva do autor este grupo de forças do setor

imobiliário não tem uma hierarquia, nem uma força

superior externa que controle este grupo:

O setor imobiliário, inclusive a fração de capital financei-

ro organizada em torno dos investimentos na terra, é a linha de frente da materialização desse processo de des-

envolvimento capitalista tardio no espaço. É constituído de frações de classe, que muitas vezes competem entre

si, bem como de redes pró-crescimento que unem inte-

resses de outro modo dispares. Embora as ações desse

setor possam ser combinadas e organizadas, não existe

nenhum mecanismo abrangente de coordenação. A te- rra é sempre um investimento atraente, graças ao seu ca-

ráter flexível e aos incentivos produzidos pelas relações vigentes de produção. (GOTTDIENER, 1993, p.268)

Gottdiener (1993) caracteriza o poder municipal,

ou Estado local, como agente que pode se associar

ao setor privado formando uma rede de poder sem

uma hierarquia estabelecida, a qual tem como in-

teresse o desenvolvimento imobiliário de uma de-

terminada área com uma ideologia em comum: o

desenvolvimento econômico do território através

de empreendimentos imobiliários. Assim, o poder

local utiliza o controle de regular a terra municipal

como a sua principal força de dominação e produ-

ção do espaço urbano. Nas palavras do próprio au-

tor este processo se configura da seguinte forma:

Além dos programas e políticas nacionais, o Estado lo- cal também se envolve na produção do espaço, princi- palmente como um regulador do desenvolvimento do uso da terra ou manipulando a arrecadação tributária para subsidiar o desenvolvimento econômico e da pro- priedade. Já que a ideologia fundamental da vida muni-

cipal envolve a legitimação do impulso de crescimento econômico e como o controle da terra é o poder princi-

pal através do qual as jurisdições locais podem regular

o setor privado, lideres políticos municipais e interes- ses organizados em torno do desenvolvimento da te-

rra formam muitas vezes como que uma corporação de desenvolvimento imobiliário, juntando governo e em- presários para criar uma rede pró-crescimento. Essas

redes constituem o modo principal pelo qual a trans- ferência local da terra se transforma num motor para

a produção do espaço. (GOTTDIENER, 1993, p.269)

Na dinâmica socioeconômica descrita por Gottdie-

ner, o setor imobiliário seria a esfera de poder que

extrai maior benefício dessa simbiose, uma vez que

consegue lucrar através da produção e construção

desta forma urbana, sempre otimizada para o maior

lucro possível, através do apoio e consentimento

do poder público. É interessante observar que na

Por outro lado o urbanista e pesquisador Flávio

Villaça amplia esta teoria da estrutura de poder em

rede quando escreveu o livro Espaço Intraurbano

no Brasil, em 2001. Nessa pesquisa, o autor, expõe

que as camadas de mais alta renda da sociedade

brasileira se conformam como o agente social que

domina e produz o espaço urbano por cima do pró-

prio poder público ou do mercado, portanto, elas se

aproveitam das estruturas do mercado imobiliário

e do poder público como mecanismos de controle

da produção deste espaço urbano que, junto com a

ideologia, completa as três linhas de dominação da

burguesia:

As camadas de mais alta renda controlam a produção do espaço urbano por meio do controle de três meca- nismos: um de natureza econômica – o mercado, no

caso, fundamentalmente o mercado imobiliário; outro de natureza política: o controle do Estado, e, finalmen- te, através da ideologia. Sobre o primeiro controle - o do mercado – versa a quase totalidade desta obra. Afinal

o que se mostra nela é como se constituem os interes-

ses espaciais da classe dominante e de suas satélites e como, por sua vez, elas comandam o mercado imobiliá- rio conforme esses interesses. (VILLAÇA, 2001, p. 335)

Villaça define esta dominação como uma luta de

classes pelo espaço urbano. Mesmo que os indi-

víduos das camadas de alta renda também façam

parte do poder público ou do setor imobiliário, “os

homens não disputam enquanto ‘indivíduos’, mas en-

quanto classes, e essa disputa determinará a estrutu-

ra intra-urbana em qualquer modo de produção – não

apenas no capitalismo – e em qualquer sociedade de

classes”. (VILLAÇA, 2001, p. 333). Segundo esse au-

tor este grupo ou classe social mais abastada não

tinha um poder tão forte até a segunda metade do

PRODUÇÃO SOCIAL DO ESPAÇO URBANO NA PERIFERIA DA METRÓPOLE.

32

século XX, quando se articula com o mercado imo-

biliário, o marketing, os meios de comunicação e a

dinâmica econômica, tendo em vista um mesmo

objetivo político.

Em contraposição, na simbiose exposta por Got-

tdiener (1993), existem unicamente dois agentes

sociais bem definidos: o poder público local e o se-

tor imobiliário, os quais não constituem classes e

podem se integrar em uma única rede, que, com um

mesmo objetivo “manipulará o processo de tomada

de decisão sobre o uso da terra a fim de conseguir per-

missão para um projeto que os faça ganhar dinheiro”.

(GOTTDIENER, 1993). Em meio a essa dinâmica so-

cioeconômica, apesar de serem pequenas as “ma-

nipulações” sobre o uso da terra, tais modificações

influenciam a produção de grandes áreas do espaço

urbano, que serão planejadas na raiz desta mudan-

ça, deixando os urbanistas sem opção de produzir

um correto planejamento urbano, uma vez que não

tem o controle do uso da terra.

Muito importante para o desenvolvimento da nossa

pesquisa é a hipótese de Villaça (2001) em relação à

dominação das camadas de mais alta renda, já que

elas exercem três mecanismos de controle sobre o

poder publico, de modo que aturam para além de

uma inter-relação em rede. Dentre estes mecanis-

mos de controle, o autor explica que a burguesia

atua através do Estado para controlar a própria

legislação urbanística, o que prejudica as camadas

pobres da população, uma vez que não conseguem

se adaptar a esta legislação vigente e, como conse-

quência, vivem na clandestinidade e na ilegalidade

urbana:

[

O primeiro [mecanismo] é a localização dos aparelhos

]

do Estado [

].

O segundo mecanismo é a produção de

infraestrutura. Finalmente, o Estado atua através da le- gislação urbanística. Esta, é sabido, é feita pela e para as burguesias. Isso se revela pelo fato de se colocar na clan- destinidade e na ilegalidade a maioria dos bairros e das

edificações de nossas metrópoles. (VILLAÇA, 2001, p.338)

Villaça (2001) defende esta abordagem afirmando

que “a maioria dos loteamentos e das edificações

realizados para as camadas populares estão impos-

sibilitados – pelas leis do mercado – de obedecer à

legislação urbanística e edilícia.” Assim, nos bairros

populares a legislação urbana não existe na prática,

o que, segundo o autor, representa uma das formas

de controle da burguesia brasileira na produção do

espaço urbano.

Para abordar essas dimensões, devemos ainda ana-

lisar a hipótese de Pedro Abramo (2009) a partir do

estudo das cidades latino americanas, no artigo A

cidade com-fusa: mercado e a produção da estrutu-

ra urbana nas grandes cidades latino-americanas.

Segundo esse autor, a legislação urbanística das ci-

dades latino-americanas também é um instrumen-

to de produção de espaço urbano irregular, pois é

utilizada como barreira de inclusão das classes po-

pulares no espaço urbano formal. Neste sentido,

Abramo considera este mecanismo como a causa

essencial da existência do amplo mercado informal

nas metrópoles brasileiras:

A existência do mercado informal de solo é atribuída a vá- rios fatores, mas sobretudo, a uma legislação urbanística modernista que dialoga com os estratos de renda eleva-

dos das cidades latino-americanas. O modelo de cidade formal modernista das elites latino-americanas impõe

um conjunto de requisitos normativos que produziu uma verdadeira barreira institucional para a provisão de mora- dias para os setores populares com rendimento abaixo de

três salários mínimos, e induziu a ação irregular e/ou clan- destina de loteadores e processos de ocupação popular

de glebas urbanas e peri-urbanas. (ABRAMO, 2009, p.4)

Neste artigo, Abramo, ao falar desta hipótese, faz

referência também à professora e urbanista brasi-

leira Ermínia Maricato (2001), que no livro Brasil,

cidades, alternativa para a crise urbana, defende

esta mesma análise da produção do espaço urbano

informal:

O acesso legal à moradia está travado para a maioria da população e, dessa forma, está travando o desenvolvi- mento urbano sustentável. Nossas cidades são máquinas produtoras de irregularidade. No centro dessa problemá- tica está o nó da valorização fundiária e imobiliária que ajuda a definir quem se apropria dos ganhos imobiliários e ajuda a definir também quem tem direito à cidade ou ao exílio urbano na “não-cidade”. (MARICATO, 2001, p. 94)

Então, segundo o quadro definido por Villaça (2001),

a produção do espaço urbano se configura através

da dominação de uma classe social: as camadas de

alta renda. Este grupo por sua vez, se apoia no po-

der público, no setor imobiliário e na ideologia para

levar a cabo esta dominação. Como já dito, as cama-

das de alta renda através do poder público, utilizam

a legislação urbana, como mecanismo de exclusão.

O controle da legislação urbana é destacado tam-

bém por Maricato (2001) e Abramo (2009), como

uma das principais causas da produção do espaço

urbano da cidade popular informal ou “não-cida-

33

A INCORPORAÇÃO DA ANTIGA COLÔNIA JULIANO MOREIRA NO TECIDO FORMAL DO RIO DE JANEIRO

de”. Ou seja, num mesmo período, a primeira déca-

da dos anos 2000, os três pesquisadores brasileiros,

concluem que a atuação da legislação urbanística

brasileira expressa, até os dias de hoje uma barreira

na materialização de um espaço urbano que atenue

as desigualdades sociais brasileiras.

Para completar este conjunto de forças que pro-

duzem o espaço urbano informal devemos nos

questionar quem são os agentes que materializam,

portanto, a construção da “não-cidade” (Maricato,

2001) ou cidade informal. Se até agora vimos que

o poder público é utilizado como instrumento de

segregação, mas sem se configurar, geralmente,

como parte ativa que constrói infraestruturas e ser-

viços urbanos nas periferias, então, existem insti-

tuições informais que preenchem este vazio e con-

trolam a produção deste espaço urbano irregular?

Abramo (2009), ao aprofundar nas inter-relações

que se estabelecem na materialização da cidade

informal, explica que no mercado informal devem

existir agentes ou forças que estejam acima dos

membros envolvidos nas transações econômicas.

Nesse sentido, também é preciso que haja uma hie-

rarquia, já que as duas partes respeitam o acordo

por causa dessa existência de uma instituição infor-

mal, que legitima os acordos estabelecidos entre as

partes:

O mercado informal de solo deve estar fora dos mar- cos dos direitos, mas deve ter uma estrutura insti- tucional própria que garanta a reprodução temporal

das práticas mercantis informais de compra, venda e

locação de solo e/ou imóveis. Em outras palavras, o mercado informal deve ter instituições informais que

permitam o funcionamento do mercado e garantam em termos inter-temporais e inter-generacionais os contratos de natureza implícita estabelecidos nas tran-

sações informais de mercado. (ABRAMO, 2009, p.6)

Nesse contexto, as forças ou grupos de poder do

mercado informal podem ser de diferente índole, e

com diversas formas de executar o controle deste

espaço urbano. Conforme Abramo “Essa legitimi-

dade pode ser de natureza religiosa, étnica, cultural,

política ou mesmo a partir da violência e do controle

pela força, como constatamos em algumas pesqui-

sas empíricas sobre o mercado informal na América

Latina.” (ABRAMO, 2009, p.8). Em outras palavras,

frente ao abandono do poder público, o vazio deve

ser preenchido em várias conjunturas, que vão des-

de a segurança da população, até a figura da justiça

ou uma lei instaurada pelas novas instituições infor-

mais.

Além das constatações do atores acima mencio-

nados, devemos também incorporar as novas in-

fluências que os interesses econômicos internacio-

nalizados estão produzindo no espaço urbano das

metrópoles brasileiras. Neste contexto de megae-

ventos, várias metrópoles brasileiras têm convivido

com esta forte aliança entre os agentes sociais que

dominam o espaço urbano. Na metrópole do Rio de

Janeiro, principalmente, é possível perceber uma

ampliação deste agente internacional, o qual deve

ser adicionado como associado ao setor imobiliá-

rio nacional, constituindo uma força com os seus

próprios interesses também no território urbano.

Como explicam Ribeiro, Silva e Rodrigues (2011), se

realiza, sobretudo nesta cidade, uma forte aliança

entre poderes econômicos nacionais e internacio-

nais, o que potencializa a própria dinâmica socioe-

conômica de periferização já existente:

A cidade ficou nas mãos destes interesses, gerando uma

política de proteção e favorecimento dos setores imo-

biliários, de obras públicas, de concessão de serviços e dos segmentos das classes médias. Simultaneamente,

a “sagrada aliança” manifestou-se pela utilização per- versa da cidade, pois as camadas populares na socieda- de urbana e no sistema político eram integradas, mas de forma subalterna e regulada, em que o Estado ope-

rava com uma política de tolerância a todas as formas

de apropriação da terra. O que decorre desse processo

em termos de organização interna dos aglomerados

urbanos assemelha-se ao ocorrido na escala nacional.

De um lado, uma elevada concentração da riqueza nas

áreas centrais desses aglomerados e, por outro, o con- tínuo deslocamento das fronteiras sobre as áreas pe- riféricas. (RIBEIRO, SILVA e RODRIGUES, 2011, p.6).

Diante do exposto, podemos considerar que ao lon-

go desta dissertação vai ser analisada a produção

social do espaço urbano - dentro do recorte espacial

do estudo de caso na periferia metropolitana do Rio

de Janeiro - através do quadro revelado de forças ou

interesses definidos pelos diferentes autores pes-

quisados, Gottdiener (1993), Villaça (2001), Abramo

(2009) e Ribeiro, Silva, Rodrigues (2011). Conforme

o gráfico 1.1, define-se os seguintes agentes extra-

ídos dos autores pesquisados: (1) as camadas de

alta renda – ente não executor – mas que se revela

como a força que domina toda a estrutura social; (2)

o poder público, – ente executor – que se divide em

poderes locais (prefeitura) e nacionais, diferentes

instituições públicas de caráter estatal; (3) o setor

PRODUÇÃO SOCIAL DO ESPAÇO URBANO NA PERIFERIA DA METRÓPOLE.

34

imobiliário ou poderes econômicos, tanto os nacionais como os internacionalizados; e (4) as instituições informais; e
imobiliário ou poderes econômicos, tanto os nacionais como os internacionalizados; e (4) as instituições
informais; e a população de baixa renda ou camadas populares que residem principalmente nas periferias
metropolitanas.
Gráfico 1.1: Agentes sociais que produzem o espaço urbano, conforme estudado pelos autores: Gottdiener (1993),
Villaça (2001), Abramo (2009) e Ribeiro, Silva, Rodrigues (2011).
GOTTDIENER (1993)
VILLAÇA (2001)
ABRAMO
RIBEIRO, SILVA, E RODRIGUES (2011)
(2009)
PODER
PODER PÚBLICO/
PODER
PODER
PÚBLICO/
PODER LOCAL
PÚBLICO/
PÚBLICO/
ESTADO
ESTADO
PODER LOCAL
MERCADO/
MERCADO/
MERCADO
SETOR
SETOR
INFORMAL
SETOR IMOBILIÁRIO
SETOR IMOBILIÁRIO
IMOBILIÁRIO
IMOBILIÁRIO
NACIONAL
INTERNACIONALIZADO
IDEOLOGIA
IDEOLOGIA
CAMADAS DE BAIXA RENDA/
CAMADAS POPULARES
INSTITUIÇÕES
INFORMAIS
Elaboração: próprio autor
Nos próximos capítulos serão estudadas as dinâmicas urbanas na periferia metropolitana do Rio de Janei-
ro, especificamente na XVI Região Administrativa de Jacarepaguá, na qual determinados territórios foram
incorporados na malha urbana da cidade nas ultimas décadas. Serão analisadas as dinâmicas socioeco-
nômicas abordadas neste capitulo através dos diferentes autores, os quais definem o marco teórico dos
agentes sociais que produzem o espaço urbano nas cidades assim como as inter-relações estabelecidas
entre eles.
Através do diagrama representado no gráfico 1.2, pretende-se relacionar estes agentes urbanos com suas
respectivas conexões e mecanismos de dominação do espaço urbano, descritos principalmente por Flavio
Villaça (2001). Este diagrama foi elaborado com a intenção de ser um esquema modelo genérico, a partir
das ideias extraídas das diferentes teorias estudadas, que serve de base para um outro diagrama apresen-
tado mais adiante, referente ao recorte espacial da pesquisa.
35
A INCORPORAÇÃO DA ANTIGA COLÔNIA JULIANO MOREIRA NO TECIDO FORMAL DO RIO DE JANEIRO
Gráfico 1.2: Diagrama representativo dos agentes urbanos, as inter-relações que se estabelecem entre eles, e os
Gráfico 1.2: Diagrama representativo dos agentes urbanos, as inter-relações que
se estabelecem entre eles, e os mecanismos que aplicam na dominação do espa-
ço urbano, conforme as teorias dos autores pesquisados.
Elaboração: próprio autor
Ao longo da pesquisa o espaço urbano é entendido enquanto produto
social, que ajuda a recriar ou reproduzir as relações sociais que o geram,
portanto, as características da incorporação de um determinado território
ao tecido urbano da cidade, serão analisadas como um produto social que
reproduz as mesmas relações sociais do momento.
Desde já é importante observar, conforme defende o sociólogo francês
François Ascher (2004) no livro Novos princípios do Urbanismo, que “a di-
nâmica da urbanização está vinculada ao potencial de interação que ofe-
recem as cidades, à sua ‘urbanidade’, quer dizer, à potência multiforme que
produz o reagrupamento de grandes quantidades de população num mesmo
lugar” (ASCHER, 2004, p.17). A questão consiste em identificar qual é o
real “potencial de interação” que é possível estabelecer nestes territórios
periféricos que são incorporados ao tecido urbano. Existe realmente esta
‘urbanidade’ no modo de vida metropolitano que a população periférica
adquire?
Se a população adquire modos de vida urbanos, mas não tem acesso
ao mercado formal de trabalho e não tem acesso aos equipamentos co-
munitários sem se deslocar vários quilômetros, em meios de transporte
públicos de baixa qualidade e cada dia menos viáveis economicamente
para as famílias de baixa renda, qual é o modo de vida que as periferias
metropolitanas oferecem? Devemos imaginar outros modos de vida me-
nos dependentes dos centros urbanos, das “formalidades” e normativas
urbanísticas, porém com uma população menos segregada? Através do
estudo dos reais modos de vida desta população devemos nós, urbanis-
tas, reavaliar os instrumentos de planejamento e uso do solo urbano na
periferia metropolitana?
36
PRODUÇÃO SOCIAL DO ESPAÇO URBANO NA PERIFERIA DA METRÓPOLE.
CAPÍTULO II_ ASPECTOS DO DESENVOLVIMENTO URBANO DA REGIÃO ADMINISTRATIVA DE JACAREPAGUÁ Parque Estadual da Pedra Branca
CAPÍTULO II_
ASPECTOS DO DESENVOLVIMENTO URBANO DA REGIÃO
ADMINISTRATIVA DE JACAREPAGUÁ
Parque Estadual da Pedra Branca
Fotografía: Lin Lima, 2013.
37
A INCORPORAÇÃO DA ANTIGA COLÔNIA JULIANO MOREIRA NO TECIDO FORMAL DO RIO DE JANEIRO
CAPÍTULO II_ ASPECTOS DO DESENVOLVIMENTO URBANO DA REGIÃO ADMINISTRATIVA DE JACAREPAGUÁ Neste capitulo, analisa-se o processo
CAPÍTULO II_
ASPECTOS DO DESENVOLVIMENTO URBANO DA REGIÃO ADMINISTRATIVA DE
JACAREPAGUÁ
Neste capitulo, analisa-se o processo de urbanização e incorporação na malha urbana
da atual XVI Região Administrativa- Jacarepaguá como área periférica da metrópole do
Rio de Janeiro, pois a antiga Colônia Juliano Moreira, recorte espacial a ser desenvol-
vido nesta pesquisa, encontra-se dentro deste limite administrativo. Neste território
encontramos muitos fenômenos urbanos que foram abordados no capitulo anterior e
são característicos das periferias metropolitanas brasileiras, entre eles o espraiamento
urbano acelerado, que neste caso, foi a partir de 1969, influenciado principalmente pela
proposta do Plano Piloto para a Baixada de Jacarepaguá realizado pelo urbanista Lucio
Costa. Por conseguinte, o nosso recorte temporal abarca desde 1970 até os dias de hoje
(2.1). A seguir analisa-se a produção social desta região urbana nas ultimas décadas, e as
consequências socioespaciais na atualidade (2.2).
2.1 Processo de urbanização na Região Administrativa de Jacarepaguá
2.1.1 Localização e situação no município do Rio de Janeiro
O município do Rio de Janeiro divide-se em cinco Áreas de Planejamento segundo o Pla-
no Diretor 12 de Desenvolvimento Urbano Sustentável do ano 2011. Neste tópico será
estudada a XVI Região Administrativa – Jacarepaguá que esta inserida na Área de Plane-
jamento 4 (222,97 km 2 ), conforme a figura 2.1, onde se desenham os limites administra-
tivos do município:
Figura 2.1: Limites administrativos do Plano Diretor de 2011 do município do Rio de Janeiro.
Fonte: Disponível em http://www.rio.rj.gov.br/web/smu/exibeconteudo?id=2879239. Acesso em janeiro
de 2014.
12
Conforme a Lei Complementar 111/2011, disponível em http://www.rio.rj.gov.br/web/smu/
exibeconteudo?id=2879239. Acesso em janeiro de 2014.
38
PRODUÇÃO SOCIAL DO ESPAÇO URBANO NA PERIFERIA DA METRÓPOLE.
A Região Administrativa de Jacarepaguá esta atu- bano, onde encontramos um modo de vida caracte- almente
A Região Administrativa de Jacarepaguá esta atu-
bano, onde encontramos um modo de vida caracte-
almente constituída por dez bairros: Vila Valqueire,
rístico, e portanto, “deve ser considerado o impacto
Praça Seca, Tanque, Taquara, Pechincha, Freguesia
da dinâmica em espaços específicos, como a franja
(Jacarepaguá), Anil, Gardênia Azul, Curicica, além
urbana onde os usos rural e urbano estão mescla-
do bairro do mesmo nome, Jacarepaguá. Possui
dos formando uma zona de transição campo-cida-
como RAs contíguas: Madureira, ao norte, e Barra
de” (FRIDMAN, 1993) Nesta pesquisa abordaremos
da Tijuca, ao sul, com a qual integra a Área de Pla-
especificamente esta franja do território metropoli-
nejamento 4 (AP-4), e representa uma grande in-
tano, onde os usos encontram-se misturados, refle-
fluencia na dinâmica urbana da XVI RA.
tindo nos modos de vida da população.
A XVI RA- Jacarepaguá ocupa uma área de 126,61
Além disso, na maior parte da ocasiões esta popula-
km 2 – abraçada pelos Maciços da Tijuca e da Pedra
ção que vive na transição campo-cidade é conside-
Branca – e tem uma população de 572.030 habitan-
rado como aglomerado subnormal 13 pelo IBGE, já
tes segundo as informações do Instituto Brasileiro
que majoritariamente são ocupações informais, ou
de Geografia e Estatística (IBGE) de 2010. Estes va-
carecem de infraestruturas e serviços públicos ur-
lores correspondem ao redor de 10% da área e 9%
banos. No caso da XVI RA são 111.448 pessoas mo-
da população do município do Rio de Janeiro.
rando em aglomerados subnormais, dado muito re-
levante, pois se situa no primeiro lugar do ranking 14
Figura 2.2: Localização da RA- Jacarepaguá no municí-
pio do Rio de Janeiro.
das RAs da cidade com a maior população morando
em aglomerados subnormais, seguida apenas pela
RA XI-Penha com 75.794 pessoas. Como podemos
comprovar na figura 2.3, na próxima página, a RA-
Jacarepaguá encontra-se com uma proporção en-
tre o 20% e o 49% da população moradora em setor
censitário subnormal, do total da população segun-
do os dado do IBGE do ano 2000.
Fonte: Prefeitura do Rio de Janeiro. SMU. Disponível em http://
www.rio.rj.gov.br/web/smu/exibeconteudo?id=2879239.
Acesso em janeiro de 2014. Elaboração: próprio autor.
No conjunto desta RA a área urbanizada ou altera-
da supõe o 56% da área total, mas isso não significa
que mais da metade do território está fisicamente
urbanizado, apenas 25,27% é considerado área ur-
bana, o restante se completa com 10,09% de área
urbana não consolidada, e 18,53% de campo antró-
pico. Ou seja, se dentro dos 56% de área urbaniza-
da ou alterada, temos 31% que não é considerado
13
Definido pelo IBGE como o conjunto constituído por 51 ou
área urbana, como podemos definir portanto este
mais unidades habitacionais caracterizadas por ausência de título
de propriedade e pelo menos uma das características abaixo: irre-
território, se não é urbano? Como explica a pesqui-
gularidade das vias de circulação e do tamanho e forma dos lotes
sadora brasileira Fania Fridman (1993) no artigo Os
e/ou; carência de serviços públicos essenciais (como coleta de lixo,
rede de esgoto, rede de água, energia elétrica e iluminação pública).
donos da terra carioca: alguns estudos de caso exis-
tem territórios na passagem do uso rural e uso ur-
14
Disponível
em: http://portalgeo.rio.rj.gov.br/bai-
rroscariocas/index_ra.htm.
Acesso
em
janeiro
de
2014.
39
A INCORPORAÇÃO DA ANTIGA COLÔNIA JULIANO MOREIRA NO TECIDO FORMAL DO RIO DE JANEIRO
Figura 2.3: Proporção da população moradora em setor censitário subnormal no total da população, por Regiões
Figura 2.3: Proporção da população moradora em setor censitário subnormal no total da
população, por Regiões Administrativas-2000.
Fonte: Instituto Pereira Passos. Prefeitura do Rio de Janeiro. Disponível em: http://ipprio.rio.rj.gov.br/
frame-mapoteca/. Acesso em janeiro de 2014.
Esta porcentagem de pessoas morando em aglomerados suburbanos dentro da XVI-
RA, supõe uma precariedade urbana a ser analisada e estudada, pois esta área da
cidade é definida atualmente no Plano Diretor como Macrozona Incentivada à ocu-
pação através do adensamento populacional, como especifica o mapa de Ocupação
Territorial na figura 2.4:
Figura 2.4: Ocupação territorial do Plano Diretor de 2011 do município do Rio de Janeiro.
Fonte: Prefeitura do Rio de Janeiro (SMU).Disponível em
http://www.rio.rj.gov.br/web/smu/exibeconteudo?id=2879239. Acesso em janeiro de 2014.
40
PRODUÇÃO SOCIAL DO ESPAÇO URBANO NA PERIFERIA DA METRÓPOLE.
2.1.2 Processo histórico da ocupação urbana Para entender o contexto atual de Região Incentivada à ocupação
2.1.2 Processo histórico da ocupação urbana
Para entender o contexto atual de Região Incentivada à ocupação urbana e adensa-
mento populacional, estimulado pelo poder público, devemos analisar como foi o
processo de incorporação na malha urbana da metrópole que se iniciou nos anos 50,
quando a Baixada de Jacarepaguá ainda era majoritariamente uma área rural. Nes-
tas décadas de 1950 e 1960 foram removidas muitas favelas dos locais mais valoriza-
dos da zona sul da cidade, e a população foi trasladada até conjuntos habitacionais
na periferia da metrópole carioca. Entre as áreas escolhidas para este fim, estava a
zona norte de Jacarepaguá. De tal forma iniciou-se, como sugeria o Plano Agache
(1930), a “adoção de uma política urbana que privilegiasse a construção de habitações
baratas nos subúrbios, que também seriam dotados de um mínimo de infraestrutura
básica”. (ABREU, 1987, p.143)
Deste modo nasce a ocupação urbana de Jacarepaguá: o Estado como produtor so-
cial do espaço urbano – o qual desenvolve um papel importante neste período – es-
timula à implantação de industrias e construção de grandes conjuntos habitacionais
na periferia da metrópole, dotando assim estas regiões peri-urbanas de infraestrutu-
ra e de serviços urbanos básicos.
Porém como já foi dito na introdução deste capítulo, o fato que realmente transfor-
mou de forma essencial esta região foi o Plano Piloto para a Baixada de Jacarepaguá
de Lucio Costa, elaborado durante a administração de Negrão de Lima em 1969. O
objetivo principal deste plano era ser um instrumento urbanístico para incorporar
novas áreas à malha urbana da metrópole, sendo que estas áreas pertenciam prin-
cipalmente a particulares, e o plano seria desenvolvido principalmente pelo setor
imobiliário privado. Neste caso o poder público assume seu papel como regulador
e coordenador do processo, alem do compromisso de construir as infraestruturas e
serviços públicos urbanos.
Figura 2.5: Croqui do Plano Piloto da Baixada de Jacarepaguá, elaborado por Lucio Costa
(1969).
Fonte: Disponível em: http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/10.112/1825. Acesso
em janeiro de 2014.
41
A INCORPORAÇÃO DA ANTIGA COLÔNIA JULIANO MOREIRA NO TECIDO FORMAL DO RIO DE JANEIRO

Com ajuda da nova idealização urbana proposta no

Plano, na década de 1970 o discurso sobre o urbano

do poder público é principalmente de conquistar as

áreas periféricas vazias da metrópole. Conforme o

PUB-Rio de 1977 existia um grande desequilíbrio ur-

bano, “80% dos habitantes da cidade concentram-se

em 20% do território. Considerando que 30% da área

terrestre são “non aedificandi”, (áreas acima da cota

100, ou solos institucionais militares e reservas natu-

rais), as áreas disponíveis para urbanização atingem

42% das quais a quase totalidade está na Baixada de

Jacarepaguá, em Santa Cruz e Campo Grande.” Por

conseguinte, existia uma área do 80% dentro dos

limites do município disponíveis para serem trans-

formados em área urbana, onde esta população po-

deria residir menos adensada.

Assim se inicia um período no qual o poder públi-

co se apropria do discurso do espraiamento urbano

periférico, como solução à crise urbana da cidade

altamente adensada. Esta é uma decisão de política

urbana importantíssima, que remete ao modelo de

cidade que vivemos atualmente. Até hoje, é ouvido

um discurso análogo do poder público, que conti-

nua conquistando as áreas cada vez mais periféri-

cas da metrópole (hoje em dia, em Santa Cruz ou

Campo Grande). Neste discurso, o argumento mais

empregado foi em relação à quantidade de área

potencialmente urbanizável existente comparada

com o resto da cidade, em referência ao Pub-Rio

1977, que diz: “Como simples exemplo e termo de

comparação, pode-se ainda lembrar que a Baixada

de Jacarepaguá, sozinha, é quatro vezes maior do

que toda a zona sul da cidade, incluindo Copacaba-

na, Leme, Ipanema, Leblon, Gávea, Jardim Botânico,

Flamengo, Catete, Laranjeiras e Cosme Velho, todos

bairros densamente ocupados e de grande expres-

são no contexto do Rio de Janeiro.” Foi amplamente

publicado na época que a Baixada de Jacarepaguá

tinha 122,50 km2 de área potencialmente urbani-

zável, identificando este dado como uma impor-

tante qualidade da área, ao mesmo tempo que se

problematizava a alta densidade dos bairros mais

nobres da cidade. Por várias razões que serão de-

senvolvidas posteriormente neste tópico, o poder

público encontrava-se altamente interessado neste

espraiamento urbano periférico.

Depois de analisar as diferentes intenções do Pla-

no – a oportunidade de conquistar as áreas vazias

do município e transformar estas em um novo mo-

delo de cidade, lugar de residência da população

com menor densidade,– a produção de habitação

nesta região da periferia teve também determina-

das características socioespaciais que se refletem

na presente realidade urbana. Segundo os pesqui-

sadores e urbanistas brasileiros, Vera F. Rezende e

Gerónimo Leitão (2004), no artigo Planejamento e

realização da Barra da Tijuca como espaço residen-

cial, evolução e crítica de um projeto para uma área

de expansão da cidade do Rio de Janeiro, esclare-

cem que o plano original de Lucio Costa propunha

“blocos econômicos” dentro dos conjuntos residen-

ciais. Estes conjuntos teriam diferentes grupos de

renda assim como diversas tipologias segundo a

renda. Infelizmente, estas especificações do Plano

não estavam claramente reguladas, pois como os

mesmos autores explicam, num dos primeiros em-

preendimentos realizados nos anos 70 na Barra da

Tijuca, a proposta dos “blocos econômicos” não foi

respeitada e isso foi aceito como marco de referên-

cia para o resto dos empreendimentos realizados

posteriormente na região, quer dizer, sem mistura

de diferentes grupos de renda nos conjuntos habi-

tacionais que foram construídos.

As causas econômicas argumentadas em referên-

cia a este descaso ao Plano se justificam pelo tipo

de solo da região (turfa), que encarece altamente

a construção das edificações, e portanto dificulta

o lucro em empreendimentos de habitação para

a população de baixa renda (LEITÃO e REZENDE,

2004). Mas principalmente foi o fato de serem ter-

ras de propriedade particular que marcou a ocu-

pação e consolidação de um espaço que já nasceu

com uma vocação segregadora. “Há décadas (muito

antes de a Barra da Tijuca começar a se desenvol-

ver) ocorreu uma feroz disputa pela propriedade de

algumas terras nas região, por empresários que mais

tarde iriam ali produzir empreendimentos para a alta

renda. Porque tais interesses incidiram sobre aquela

região, e não sobre qualquer outra?” (VILLAÇA, 2001,

p. 348). Segundo Villaça (2001), como já foi aborda-

do no capitulo anterior, esta região – neste caso se

refere especificamente a Barra da Tijuca e não Ja-

carepaguá – pela sua localização, estava predesti-

nada a ser uma área exclusivamente das camadas

de alta renda da cidade, que escolhem onde morar,

pela localização, e não pela infraestrutura existen-

te. Este fato se vislumbrou varias décadas antes do

Plano ser elaborado, e o espaço foi reservado para

e por uma determinada classe social, e não para a

totalidade da população, nem para uma mistura de

diferentes grupos de renda. De maneira que a falta

PRODUÇÃO SOCIAL DO ESPAÇO URBANO NA PERIFERIA DA METRÓPOLE.

42

de normativa urbanística mais rigorosa no Plano,

poderia ser interpretado como um dos mecanismos

que as camadas de alta renda utilizam através do

poder público como dominação do espaço urbano,

explicado este fato através do discurso de Flavio

Villaça (2001).

Diante deste quadro, podemos identificar que: exis-

tia um interesse do poder público no desenvolvi-

mento urbano deste grande vazio na periferia. Ca-

sualmente, antes da dinâmica do desenvolvimento

urbano se iniciar, estas terras já tinham sido com-

pradas por grandes empresários (Villaça, 2001) e,

ao mesmo tempo, o Plano não continha uma legis-

lação rigorosa com respeito a moradia para a baixa

renda nem destinava áreas específicas para um uso

residencial popular. Portanto, conforme Villaça de-

fine, na produção do espaço urbano da metrópole

carioca o poder público poderia ter sido um meca-

nismo das camadas de alta renda, por meio do qual

desenvolveu a dominação do espaço na cidade,

através de uma lógica segregadora. “A Barra da Ti-

juca tinha seu destino selado, não por obra ou desejo

dos empreendedores imobiliários, e sim pela estrutu-

ração urbana.” (VILLAÇA, 2001, p. 348).

Frente a esta lógica urbana, quais foram as saídas

que a população de baixa renda enfrentou para re-

sidir nas novas áreas que ofereciam novas oportu-

nidades de emprego? Em meio ao conjunto de for-

ças que iniciam a incorporação na malha urbana da

região, se acelerou um “efeito dominó”: a ocupação

informal nas áreas limites do Plano, em terras de

propriedade do Estado ou em terrenos sem valor

para o capital imobiliário (principalmente margens

de rios, lagoas e morros). Na segunda metade da

década de 1970 começam as ocupações informais,

principalmente pela população de baixa renda que

trabalhava na região, majoritariamente na constru-

ção dos empreendimentos imobiliários, mas que

não tinha acesso a moradia formal perto do seu em-

prego, como explicam Leitão e Rezende (2005):

Em documento oficial da Secretaria Municipal de Pla- nejamento e Coordenação Geral em 1980, a qual estava vinculada a Sudebar, registra-se a existência de dezeno- ve favelas, com uma população de, aproximadamente,

26.000 moradores, seis a mais do que as inicialmente

observadas em vôos de inspeção efetuados pelo GTBJ

em 1971. [

]

Inicialmente, essas favelas abrigavam os

trabalhadores empregados nos empreendimentos imo-

biliários que estavam sendo construídos e, posterior- mente, se tornariam o “local de moradia permanente

para uma população cuja presença não havia sido pre-

vista pelo Plano Piloto”. (LEITÃO e REZENDE, 2005)

Deste modo a área peri-urbana começa a sofrer

um processo de ocupação informal, que repete os

padrões socioeconômicos que já aconteceram nos

bairros tradicionais da cidade nas primeiras déca-

das do século XX. Na procura de uma fonte de ren-

da, a população pobre se translada ou migra para

novas áreas da cidade, onde eles são necessários

como mão-de-obra barata, mas sem uma política

de habitação popular que acompanhe em parale-

lo estas mobilizações da população. Neste caso a

maior parte da população se estabeleceu na área

sul da XVI RA- Jacarepaguá, em áreas consideradas

impróprias para a construção de moradias destina-

das às classes media e media alta. Como explica a

pesquisadora Ana Beatriz Araujo Velasques (2004)

na dissertação de mestrado (IPPUR) Ações do Pla-

nejamento Urbano Moderno e seus impactos na

estruturação interna de Jacarepaguá: “Estas fave-

las são formadas, atualmente, pela aglutinação de

outras favelas próximas de menor porte e juntas for-

mam um “cinturão” de assentamentos de baixa ren-

da ou fronteira física no limite entre as RAs de Jaca-

repaguá e Barra da Tijuca, fato que merece atenção”.

(VELASQUES, 2004, p. 107).

2.1.3 O desenvolvimento da infraestrutura e servi - ços urbanos na região

Diante deste quadro de tolerância ou descaso do

Estado, na XVI RA- Jacarepaguá cresceram as ocu-

pações informais, loteamentos ilegais e favelas – ou

demais terminologias que podem ser encontradas

nas referências estudadas – que remetem a uma

mesma questão: a falta de legislação urbanística

que regule a apropriação de terras desta população

que não tem acesso à moradia formal, e a insufi-

ciência de infraestruturas urbanas e serviços bási-

cos públicos nestas áreas. Como explica Velasques

(2004), este fato também fomentou importantes

atuais deficiências dos serviços urbanos e fraque-

zas ambientais no território, “o rápido crescimento

das favelas já existentes e o surgimento de muitas

outras, conjugado ao descaso do poder público no

atendimento das novas demandas urbanas, agravou

a carência de equipamentos, de infra-estrutura urba-

na, e consequentemente, os problemas ambientais”.

(VELASQUES, 2004, p. 68). Podemos observar,

conforme a figura 2.6, que a XVI RA se encontra na

menor proporção de serviços urbanos adequados,

entre os quais se contabilizam três: a rede geral de

43

A INCORPORAÇÃO DA ANTIGA COLÔNIA JULIANO MOREIRA NO TECIDO FORMAL DO RIO DE JANEIRO

água; a rede de esgoto ou fossa séptica; e coleta direta ou indireta de lixo. Por
água; a rede de esgoto ou fossa séptica; e coleta direta ou indireta de lixo. Por conseguin-
te, isso significa que os três serviços públicos se encontram conjuntamente adequados
numa proporção menor que 84% dos domicílios da RA, tanto em áreas formais como nas
informais, segundo os dados do IBGE do ano 2000. Destaca-se o fato da XXIV RA- Barra
da Tijuca também se encontrar nesta mesma proporção de carência de serviços adequa-
dos, ou seja, existe uma escassez importante na rede de serviços urbanos no conjunto
da Área de Planejamento 4 (AP4), a exceção da XXXIV RA- Cidade de Deus, que curiosa-
mente possui uma proporção maior de serviços públicos apropriados.
Figura 2.6: Proporção de domicílios com todos os serviços adequados, por RAs, 2000.
Fonte: Instituto Pereira Passos. Prefeitura do Rio de Janeiro. Disponível em: http://ipprio.rio.rj.gov.br/fra-
me-mapoteca/. Acesso em janeiro de 2014.
No contexto da RA- Jacarepaguá, a parte norte se encontra abastecida com melhores
serviços e infraestruturas devido ao histórico da sua ocupação com os conjuntos habita-
cionais nas décadas de 1950 e 1960, que foram construídos pelo poder público e dotados
dos serviços urbanos básicos. Infelizmente outras áreas na parte sul e oeste da região,
não tiveram este planejamento antecipado, como expõe Velasques (2004):
As porções sul e parte da oeste da RA, de ocupação mais recente e compostas basicamente por fa-
velas e loteamentos irregulares, apresentam índices de crescimento populacional muito superiores
aos valores médios da cidade, fato este registrado em um curto intervalo de tempo. Essa explosão da
demanda informal proporcionou uma substancial defasagem no atendimento das redes, acarretan-
do como conseqüência a insalubridade e a poluição dos cursos de água. (VELASQUES, 2004, p. 69).
Os dados da Prefeitura do Rio de Janeiro do ano 2000, referentes a aglomerados sub-
normais na XVI RA mostram que em relação à infra-estrutura sanitária, possuía: 90,73%
dos domicílios abastecidos com água canalizada até o domicilio; 51,27% dos domicílios
com esgotamento sanitário ligado à rede oficial; e, 57,30% dos domicílios atendidos pela
coleta de lixo domiciliar. Conforme a figura 2.7, onde são contabilizadas as áreas formais
e informais, podemos demonstrar que o serviço público urbano mais escasso na região
oeste do município – na AP 4 e também em parte da AP 5 – é a rede de esgotamento sa-
nitário, onde menos do 84% dos domicílios possuem rede de esgotamento sanitário ou
fossa séptica, segundo os dados do IBGE (2000).
44
PRODUÇÃO SOCIAL DO ESPAÇO URBANO NA PERIFERIA DA METRÓPOLE.
Figura 2.7: Proporção de domicílios ligados à rede geral de esgoto ou que possuem fossa séptica
Figura 2.7: Proporção de domicílios ligados à rede geral de esgoto ou que possuem fossa séptica
por Regiões Administrativas, 2000.
Fonte: Instituto Pereira Passos. Prefeitura do Rio de Janeiro. Disponível em: http://ipprio.rio.rj.gov.br/fra-
me-mapoteca/. Acesso em janeiro de 2014.
Portanto, existe uma importante carência no que se refere principalmente, à rede de es-
gotamento sanitário e coleta de lixo, que como consequência, fomenta o lançamento
deste esgoto residencial e industrial sem tratamento nos rios e lagoas, poluindo assim
os corpos de água existentes ao redor destas áreas sem infraestruturas. Como podemos
observar no gráfico 2.1, referente à localização dos aglomerados subnormais no Brasil,
baseado em dados do IBGE 2010, 63,2% destas ocupações informais se situam na mar-
gem de córregos, rios, lagos e lagoas, sendo assim um padrão de ocupação que se repete
em todo o território nacional. Somado à poluição dos corpos de água assistimos também
ao desmatamento da Mata Atlântica nativa, ao assoreamento de rios, córregos e lagoas
o qual, combinado, provoca uma grande fragilidade ambiental na região.
Gráfico 2.1: Domicílios particulares ocupados em setores censitários de aglomerados subnor-
mais, por características e localização predominantes do sitio urbano. Brasil, 2010.
Fonte: IBGE, Censo Demográfico, 2010
45
A INCORPORAÇÃO DA ANTIGA COLÔNIA JULIANO MOREIRA NO TECIDO FORMAL DO RIO DE JANEIRO
Um dos motivos os quais a Companhia Estadual de Águas e Esgotos (CEDAE), ainda não realizou
Um dos motivos os quais a Companhia Estadual de Águas e Esgotos (CEDAE), ainda
não realizou a implantação total desta rede de esgotamento na região, se deve ao
alto custo orçamentário das obras por causa da baixa densidade das ocupações e lo-
teamentos informais. Está tecnicamente demonstrado que construir a posteriori uma
rede de serviços urbanos em áreas dispersas tem um custo econômico mais alto do
que construir em um território de alta densidade. Mas essa omissão deve-se, princi-
palmente pelo fato de não ter sido uma área prioritária para investimentos do poder
público municipal durante estas últimas décadas.
Atualmente, o cenário político urbano mudou. A cidade do Rio de Janeiro passa por
notáveis transformações socioespaciais, resultantes dos preparativos para os mega-
eventos esportivos – a Copa do Mundo FIFA em 2014 e os Jogos Olímpicos em 2016
– sendo que a RA Jacarepaguá esta localizada entre dois clusters olímpicos, conforme
apresenta a figura 2.8. Encontra-se na metade do caminho entre Barra da Tijuca, onde
será construído o Parque Olímpico do Rio 15 e o Centro Esportivo de Deodoro 16 .Por
isso, algumas as favelas e loteamentos informais da parte sul da RA estão recebendo
recursos públicos, através dos programas PAC ou Morar Carioca, para serem urbani-
zadas.
Figura 2.8: Mapa conceitual do município do Rio de Janeiro sinalizando os quatro clusters dos
Jogos Olímpicos de 2016.
Fonte: Dossiê de Candidatura do Rio de Janeiro a Sede dos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos 2016, Vo-
lume 1, 2013.
15
Na Região da Barra estarão localizados a Vila Olímpica e Paralímpica, o Parque Olímpico do Rio, o Riocen-
tro, o IBC/MPC e a Vila de Mídia da Barra. Acomodará 15 instalações onde serão realizadas competições de 15 espor-
tes olímpicos: Boxe, Tênis de Mesa, Badminton, Levantamento de Peso, Ginástica (Artística, Rítmica e Trampolim),
Ciclismo (Pista), Desportos Aquáticos (Saltos Ornamentais, Polo Aquático, Natação e Nado Sincronizado), Bas-
quete, Judô, Taekwondo, Luta (Livre e Greco-Romana), Handebol, Esgrima, Golfe e Tênis. Nos Jogos Paralímpicos,
acomodará 12 esportes: Basquete em Cadeira de Rodas, Rugby em Cadeira de Rodas, Judô, Bocha, Vôleibol senta-
do, Goalball, Tênis em Cadeira de Rodas, Futeibol de 5, Ciclismo (Pista), Natação, Tênis de Mesa e Halterofilismo.
16
A região será palco de sete competições olímpicas (Hipismo, Ciclismo - Moutain Bike e BMX, Pentatlo
Moderno, Tiro Esportivo, Canoagem - Slalom, Hóquei e Esgrima) e três paralímpicas (Tiro Esportivo, Hipismo e
Esgrima em Cadeira de Rodas).
46
PRODUÇÃO SOCIAL DO ESPAÇO URBANO NA PERIFERIA DA METRÓPOLE.
Devido aos megaeventos, a região também será Transcarioca 19 , segundo a figura 2.9. No total
Devido aos megaeventos, a região também será
Transcarioca 19 , segundo a figura 2.9. No total serão
dotada de grandes obras de infraestrutura viária.
quatro linhas trans (com sistema BRT), as quais são
Estas infraestruturas viárias (majoritariamente
apresentadas pelo poder público municipal como
vias-expressas) sempre foram desenvolvidas pelo
um “legado olímpico” que irá transformar a mobi-
poder público. Um importante exemplo no passado
lidade urbana carioca. Porém, estas linhas também
foi a construção da Linha Amarela, que tinha como
causam profundas mudanças nas dinâmicas territo-
objetivo essencial melhorar os deslocamentos das
riais de diversos bairros da metrópole.
camadas de alta renda que moravam na Barra da
Tijuca, porém acelerou a ocupação urbana de Ja-
Figura 2.9: Sistema de corredores BRTs que esta sendo
implantado no município do Rio de Janeiro.
carepaguá. “Ou seja, os agentes promotores do solo
aproveitaram-se indiscriminadamente e inconse-
quentemente da localização e do território de Jaca-
repaguá, sem qualquer preocupação com a ausência
de estrutura urbana capaz de suportar o extraordiná-
rio adensamento e o consequente caos viário causa-
do pela via expressa”. (VELASQUES, 2004, p. 68).
Segundo Velasques (2004), esta via expressa pre-
cipitou o crescimento urbano da região que já era
deficiente em infraestruturas e serviços públicos
urbanos, agravando portanto as fraquezas urbanas
e ambientais da RA. Este exemplo pode ser utili-
zado como uma importante referência na hora de
analisar as novas vias expressas, uma vez que estas
provocam uma grande ruptura do tecido urbano e
social, em áreas de expansão imobiliária e fragilida-
Fonte: Relatório o legado dos grandes eventos para a cidades
de ambiental.
do Rio de Janeiro e o seu impacto social. Prefeitura do Rio de
Janeiro. Secretaria Municipal de Habitação. 2013. Disponível
em: http://www.transparenciacarioca.rio.gov.br/. Acesso em
O poder público aplica o recurso público priorita-
janeiro de 2014.
riamente no sistema rodoviário – que não absorve
a demanda do movimento pendular moradia-tra-
Diante do exposto, assistimos ao longo das ultimas
balho da grande maioria dos habitantes da metró-
três décadas à acelerada ocupação urbana da RA-
pole – em detrimento do ferroviário. Desta forma
Jacarepaguá. Esta ocupação está caracterizada por
testemunhamos uma predominância do ônibus
um padrão que se repete na periferia metropolitana
como sistema de transporte público de massas, até
brasileira: a carência ou deficiência de um sistema
os dias de hoje, quando está sendo implantando
de infraestruturas e serviços públicos – no caso da
o Transporte Rápido por Ônibus, comumente de-
XVI RA principalmente na rede de esgotamento sa-
nominado BRT 17 . Na XVI-RA- Jacarepaguá serão
nitário e de drenagem urbana – o que prejudica as
construídas, num período de cinco anos, duas vias
condições ambientais e de salubridade do conjun-
expressas dotadas do corredor de BRT, com o ob-
to da população, prejudicando diferentes grupos
jetivo de conectar os diferentes pontos Olímpicos
de renda. No caso, o fato do poder público não ter
– o Parque Olímpico do Rio, na Barra da Tijuca, o
produzido habitação popular na região, teve como
Centro Esportivo de Deodoro – ao Aeroporto Inter-
conseqüência um acelerado crescimento dos aglo-
nacional Galeão através das vias Transolímpica 18 e
merados informais, que hoje em dia ainda correm o
risco de se adensarem e crescerem frente aos novos
projetos de infraestrutura viária que estão sendo
desenvolvidos na região pelo poder público. Nesse
17
O BRT (Bus Rapid Transit), ou Transporte Rápido por Ôni-
panorama, esta população é obrigada a adquirir no-
bus, um sistema de transporte coletivo de passageiros por meio
de infraestrutura segregada com prioridade de ultrapassagem.
vos modos de vida urbanos, com dificuldades para
18
A
TransOlímpica
vai
ligar
os
dois
principais po-
los
de
competições
da
cidade,
Deodoro
e
Barra
da
Ti-
juca,
onde
acontecerá
a
maior
parte
das
provas
dos
Jo-
19
A Transcarioca será o primeiro corredor a cortar trans-
gos Olímpicos
de
2016.
Os
23km
de
extensão
vão
cortar
bairros importantes como Magalhães Bastos, Curicica e Sulacap.
versalmente a cidade. Da Barra da Tijuca até a Ilha do Gover-
nador ao longo de 39km de extensão, 45 estações e 14 bairros.
47
A INCORPORAÇÃO DA ANTIGA COLÔNIA JULIANO MOREIRA NO TECIDO FORMAL DO RIO DE JANEIRO
ter acesso ao mercado formal de trabalho e portanto, desloca-se vários qui- lômetros até o lugar
ter acesso ao mercado formal de trabalho e portanto, desloca-se vários qui-
lômetros até o lugar de emprego, em meios de transporte cada dia menos
viáveis economicamente para as famílias de baixa renda.
Esta dinâmica urbana, denominada no capitulo anterior como incoerência
sociourbana, estabelece característicos modos de vida da população – na
transição entre o rural e o urbano – como explica Ester Limonad (2007) e
Fania Fridman (1993). Esta população mora em áreas que possuem traços
rurais sem serem urbanizadas fisicamente, mas o trabalho agrícola que
podem desenvolver não representa um modo de subsistência e, portanto,
dependem produtivamente do núcleo urbano. “Entretanto referida ao caso
urbano tal relação [entre os agentes sociais] não atua do mesmo modo que no
caso agrícola. Há agentes sociais distintos como os da construção civil e o Es-
tado, cuja ação permite regular o uso do chão da cidade através da legislação
urbanística e da implantação de serviços urbanos.” (FRIDMAN, 1993). Diante
disso, devemos portanto, analisar os agentes sociais que nestas três déca-
das, tem regulado e dominando o espaço urbano da XVI RA.
2.2 Produção social do espaço urbano na XVI RA-Jacarepaguá
A população da XVI RA continuou aumentando na primeira década de 2000.
Conforme a figura 2.10 abaixo, encontra-se em porcentagem de cresci-
mento de 20% ou mais, no ano 2010 em relação ao ano 2000, segundo da-
dos do IBGE (2010). Ou seja, está crescendo com mais intensidade que o
restante da cidade, contrariamente a outras Regiões Administrativas que
estão perdendo população, como no caso da VI- Lagoa, XIII- Meier ou XV-
Madureira.
Figura 2.10: Dinâmica da população por Região Administrativa-Município do Rio
de Janeiro- 2010.
Fonte: Instituto Pereira Passos. Prefeitura do Rio de Janeiro. Disponível em: http://ipprio.
rio.rj.gov.br/frame-mapoteca/. Acesso em janeiro de 2014.
Paralelamente ao crescimento da população, observamos uma baixa den-
sidade demográfica da XVI RA na mesma imagem 17 acima. Segundo a teo-
ria defendida por Pedro Abramo (2009) no capítulo anterior, a inter-relação
entre a irregularidade da posse e a morfologia do tecido disperso de baixa
densidade é um traço característico que apresentam as periferias metro-
politanas brasileiras. No caso da RA-Jacarepaguá comprovamos esta inter-
relação, pois se situa como a RA com maior número de aglomerados infor-
48
PRODUÇÃO SOCIAL DO ESPAÇO URBANO NA PERIFERIA DA METRÓPOLE.

mais do município do Rio de Janeiro, e ao mesmo

tempo tem uma baixa densidade demográfica de

até 49 Hab./ha. Confirma-se portanto nesta RA a

relação morfológica (baixa densidade) junto com a

dinâmica socioeconômica (aglomerados informais)

defendida por Abramo.

Neste sentido, a pesquisadora Velasques (2004),

esclarece que a dinâmica socioeconômica do lo-

teamento informal, é muito comum em Jacarepa-

guá, onde na venda de lotes informais também se

encontra o “valor agregado” da construção de fu-

turas infraestruturas pelo poder público. “Uma prá-

tica comercial muito comum em Jacarepaguá é o da

venda de lotes a baixo custo por falsos proprietários

ou incorporadores. Geralmente, estes loteamentos

irregulares ou clandestinos, não possuem nenhuma

infra-estrutura urbana implantada, sendo apenas

delimitados os lotes e o arruamento”. (VELASQUES,

2004, p. 108). Neste sentido, enxerga-se neste terri-

tório o denominado “fator de antecipação” (ABRA-

MO, 2009), na venda de terra da XVI RA para fins

de moradia sem as condições de infraestrutura.

Pelo fato de estar numa área periurbana, o loteador

vende a terra antecipando o valor futuro dela. Esta

teoria do “fator de antecipação” é também esclare-

cida pelos pesquisadores Leitão e Rezende (2005),

no caso concreto da Baixada de Jacarepaguá, onde

identificam o Plano Piloto como um mecanismo de

controle do espaço urbano através da legislação ur-

banística, que aumentou o valor da terra, sendo que

o lucro foi transferido ao setor imobiliário (tanto

formal como informal) com este “fator de antecipa-

ção”. Curiosamente neste caso, o próprio mercado

formal também utilizou este procedimento, pois

muitos condomínios de classe media alta da Barra

de Tijuca foram construídos e vendidos sem rede de

esgotamento adequada. Portanto, o poder público

municipal perdeu a oportunidade de apropriar-se

dos lucros através de outros mecanismos da legis-

lação urbanística e de aplicá-los na urbanização da

região:

O plano piloto promoveu, a abertura de novos espaços ao capital imobiliário, transferindo para as mãos de proprie- tários de terras e incorporadores, sob a forma de acrésci-

mos no valor da terra, uma vultosa soma de recursos, que poderia ser em grande parte ou totalmente recuperada a partir da utilização de instrumentos adequados, que se-

riam aplicados na urbanização . A operação consistiu na definição de um plano, de critérios e índices de aprovei- tamento de terrenos e na implantação da infraestrutura viária principal e de parte da infraestruturas de saneamen- to (abastecimento d’água). (LEITÃO e REZENDE, 2005)

Apresentamos três agentes sociais, definidos por

estes autores, atuantes na produção do o espaço

urbano da RA- Jacarepaguá: (1) o poder público que

promoveu a ocupação da área através do Plano Pi-

loto, implantou a infraestrutura viária principal para

viabilizar a ocupação pelas camadas de alta renda

da população, porém foi incapaz de fomentar uma

oferta massiva e regular de habitações para a popu-

lação de media e baixa renda, e em consequência

tolerou as ocupações informais de terra pública; (2)

os agentes públicos ou privados (tanto do mercado

formal como informal) que dividiram, venderam e

construíram edificações nessas terras, sem as ade-

quadas infraestruturas e serviços públicos urbanos

(principalmente rede de esgotamento e serviços

de coleta de lixo domiciliar), e extraíram lucro na

transação a partir do importante “fator de anteci-

pação”; e (3) a população que, sem acesso à mora-

dia regular dotada de serviços urbanos, comprou os

lotes e construiu sua moradia em áreas de grande

fragilidade ambiental, aumentando a poluição dos

corpos de água da região.

Na produção do espaço urbano na RA-Jacarepaguá,

observa-se “um caso emblemático de transferência

de recursos públicos para as mãos de particulares”

(LEITÃO e REZENDE, 2005). Neste sentido, os

autores Leitão e Rezende (2005) reforçam a teo-

ria de Gottdiener (1993) quando desvenda que o

setor imobiliário é o setor da cadeia de produção

que extrai maior beneficio, pois consegue lucrar

através da construção desse tipo de urbe, por meio

do apoio e consentimento do poder público. Des-

taca-se a complexidade das inter-relações entre os

agentes,mesmo quando eles pertencem ao mesmo

grupo de interesses. Segundo Gottdiener (1993),

dentro do mesmo grupo do setor imobiliário há

competição, apesar de almejarem mesmo objeti-

vo, a exploração imobiliária da região. No contex-

to do desenvolvimento do Plano, Leitão e Rezende

(2005) esclarecem que houve também uma segre-

gação entre as próprias empresas construtoras, as

empresas de médio e pequeno porte ficaram sem

possibilidade de construir edificações por causa dos

tipos edilícios propostos no Plano:

Trata-se da definição de normas para o aproveitamen- to de terrenos, que alijariam para a sua concretização

pequenas e médias empresas do setor imobiliário na

maior parte da área objeto do Plano. Para Conde Cal- das, ex-presidente da Ademi, as tipologias habitacio- nais propostas pelo Plano Piloto impossibilitaram a participação dessas empresas com conseqüências para

49

A INCORPORAÇÃO DA ANTIGA COLÔNIA JULIANO MOREIRA NO TECIDO FORMAL DO RIO DE JANEIRO

segregação social: “Essa discussão de fazer um plano aproveitando esses dois projetos – um do amigo (Nie- meyer) e o projeto do Harry Cole, também eram torres

de 30 andares – trouxe uma concepção de plano muito

ruim para o Rio de Janeiro. Foi ruim, porque só permi- tiam a construção na Barra, aí foi segregador também para as construtoras. Só grandes construtoras pude- ram construir na Barra Tijuca, porque só havia grandes condomínios. Não teve oferta de lotes para cons- truções normais como tem em qualquer lugar de cres- cimento da cidade”. (LEITÃO e REZENDE, 2005, p.348)

Portanto, a luta de classes que identifica Villaça

(2001), se estabeleceu também entre o próprio se-

tor imobiliário, sendo possível refletir porque a pro-

posta do Plano não ponderava a realidade técnica e

construtiva da grande parte das empresas constru-

toras da época?

No caso da RA- Jacarepaguá, existe um outro as-

pecto característico na produção do espaço urbano,

pois a informalidade urbana atinge também as clas-

ses media ou media-baixa, ou seja, muitos conjun-

tos residências de classes media o media baixa da

região, também são loteamentos irregulares que

não atendem a as normativas urbanísticas existen-

tes, como expõe Velasques (2004):

Outra tipologia de ocupação residencial predominante

nos bairros da zona oeste – à exceção da Barra da Ti-

juca - é a ocupação em loteamentos irregulares [

...

].

É

expressivo o número desse tipo de ocupação em Jacare-

paguá, geralmente realizada em terrenos desocupados,

de propriedade desconhecida ou particular, onde são er-

guidas residências unifamiliares de boa qualidade cons- trutiva e onde residem famílias de classe média e média baixa – sendo este o principal aspecto de diferenciação

entre estes e as favelas. (VELASQUES, 2004, p. 107)

tar a esta legislação vigente e, como consequência,

vivem na clandestinidade e na ilegalidade urbana.

Ou seja, a grande dificuldade está em apresentar

alternativas para que a maior parte da população

tenha outras opções, que não seja ocupar terras

sem serviços públicos para poder morar. Na região,

não só foram prejudicadas as camadas pobres, mas

também as camadas medias, que além de residir

em loteamentos irregulares – em uma proporção

maior que o restante da cidade – também carecem

dos serviços públicos urbanos adequados.

Ademais, é importante observar que esta área dis-

ponível da cidade se anunciava na década de 1970

como o grande espaço de maior potencial urbani-

zável do município, ao mesmo tempo que o poder

publico propunha um novo modelo de cidade e

auto-promovia-se através da ideologia sobre o es-

paço urbano, como expõe Villaça (2001): “mesmo

notáveis personalidades contribuem para difundir

ideologias sobre o espaço urbano. Lucio Costa refere-

se à Barra da Tijuca, cujo plano elaborou, como um

“descampado onde surgirá, definitivamente, a me-

trópole”. Infelizmente, podemos entender que se

perdeu na década de 1970, neste 25% da área ur-

banizável da cidade na época, a oportunidade de

construir uma metrópole, na qual os recursos pú-

blicos fossem implementados na construção de um

espaço urbano adequadamente equipado e menos

segregado, aspirando um bem comum homogêneo

para o conjunto da população.

A partir desta questão, corroboramos a legislação

urbanística brasileira como uma barreira na realiza-

ção de um espaço urbano que atenue as desigual-

dades sociais.

Desvenda-se a existência de população de classe

media que não tem acesso à moradia formal, por-

tanto uma importante incoerência socioeconômi-

ca, que vem sendo denunciada por muitos urbanis-

tas e pesquisadores brasileiros nas ultimas décadas,

entre eles, Villaça (2001), Maricato (2003), e Abra-

mo (2009). Segundo estes autores, a segregação

urbana executa-se também através da legislação

urbanística, que prejudica as camadas pobres da

população, uma vez que não conseguem se adap-

PRODUÇÃO SOCIAL DO ESPAÇO URBANO NA PERIFERIA DA METRÓPOLE.

50

CAPÍTULO III_ INCORPORAÇÃO DA COLÔNIA JULIANO MOREIRA À METROPOLE CARIOCA Pintura do aqueduto na Colônia Juliano
CAPÍTULO III_
INCORPORAÇÃO DA COLÔNIA JULIANO MOREIRA À
METROPOLE CARIOCA
Pintura do aqueduto na Colônia Juliano Moreira
Fotografía: Acervo própio, 2014.
51
A INCORPORAÇÃO DA ANTIGA COLÔNIA JULIANO MOREIRA NO TECIDO FORMAL DO RIO DE JANEIRO
CAPÍTULO III_ INCORPORAÇÃO DA COLÔNIA JULIANO MOREIRA À METROPOLE CARIOCA de Janeiro. Na parte oeste deste
CAPÍTULO III_
INCORPORAÇÃO DA COLÔNIA JULIANO
MOREIRA À METROPOLE CARIOCA
de Janeiro. Na parte oeste deste bairro, encontra-se
a antiga Colônia Juliano Moreira (CJM) atualmente
com 7.864.108,52m², e uma população aproximada
de 21,8 mil moradores.
Uma vez analisadas as particularidades do proces-
No território onde se localiza a antiga Colônia en-
so de espraiamento urbano da Região Administra-
contramos algumas características expostas nos
tiva de Jacarepaguá, vamos abordar neste capítulo
capítulos anteriores relacionadas às periferias me-
o nosso recorte espacial, a incorporação da antiga
tropolitanas brasileiras: espraiamento urbano dis-
Colônia Juliano Moreira (CJM) à malha urbana da
perso associado à reprodução de grande número de
cidade no período de tempo que recobre a década
aglomerados subnormais. O conjunto destes aglo-
de 1980 – quando começam as ocupações massivas
merados subnormais inseridos na área da Colônia
informais da área – até os dias de hoje. Na primeira
Juliano Moreira estão catalogados pelo Sistema de
parte, será analisado o conjunto de agentes sociais
Assentamentos de Baixa Renda 20 (SABREN) como
que produziram o espaço urbano na Colônia sob a
complexo de favelas, dentre as quais encontram-se:
administração do Estado Federal, uma vez que o ter-
Antiga Creche, Avenida Sampaio Correia, Curicica 1,
ritório era propriedade da União entre 1980 e 1996,
Entre Rios, Parque dois Irmãos, Vila Arco Iris, e Vale
ano que se inicia o processo de pré-municipalização
do Ipê. Este agrupamento de aglomerados segun-
(3.1). Posteriormente, será analisado o processo de
do os dados do IBGE (2010) possui uma população
municipalização do conjunto hospitalar desde 1996
de 15.742 moradores e 4.979 domicílios, represen-
até 2007, ano no qual o projeto urbano desenvol-
tando 10% da população do bairro de Jacarepaguá.
vido para a área da Colônia Juliano Moreira é sele-
Na área da antiga Colônia Juliano Moreira moram,
cionado como prioritário na obtenção de recursos
atualmente, em aglomerados subnormais,10% da
do Programa de Aceleração ao Crescimento (PAC)
população do bairro de Jacarepaguá. Muitos destes
(3.2). Finalmente, apresenta-se o território no perí-
aglomerados localizam-se em áreas de fragilidade
odo entre 2007 aos dias de hoje, incluindo o escopo
ambiental, na margem de córregos e rios, como o
do Programa PAC-Colônia e o seu desenvolvimento
Rio Pavuinha, o Rio Guerengué, o Rio do Engenho
atual, assim como outros programa de urbanização
Novo e o Rio do Areal.
(Morar Carioca) e promoção de habitação popular
(Minha Casa Minha Vida) existentes na área, além
Na caracterização geográfica da área, destaca-se o
da reflexão sobre as controvérsias e possíveis im-
dado de aproximadamente 60% da área da antiga
pactos que a implantação da TransOlímpica deverá
Colônia estar dentro do Parque Estadual da Pedra
gerar na área da Colônia. Em paralelo será apresen-
Branca, compreendendo todas as encostas do Ma-
tado o conjunto de agentes e instituições envolvi-
ciço da Pedra Branca acima da cota de nível de 100
dos na gestão e produção desta transformação ur-
metros. O Parque Estadual da Pedra Branca (PEPB)
bana (3.3).
foi criado em 28 de junho de 1974, pela Lei n.º 2.377
– portanto, 50 anos depois de ser implantando o
3.1
A Colônia Juliano Moreira: da criação
conjunto hospitalar da Colônia Juliano Moreira – e
à decadência do hospital-colônia de saúde
é a maior área de cobertura de Mata Atlântica ur-
bana do país, com cerca de 12.500ha. O PEPB pos-
mental
sui nascentes, cachoeiras, represas e grande bio-
diversidade ameaçadas pelo espraiamento urbano
circundante por áreas em processo de expansão
3.1.1
Localização e situação no bairro de Jaca -
como Jacarepaguá, Bangu, Campo Grande, Guara-
repaguá
tiba, Grumari, Vargem Grande, Recreio dos Bandei-
rantes. Do mesmo modo que a Colônia, o restante
O nosso recorte espacial, a antiga Colônia Juliano
da área do Parque sofre com invasões, loteamentos
Moreira localiza-se no bairro de Jacarepaguá, na
irregulares e favelização, provocando um comple-
XVI RA do mesmo nome, conforme a imagem abai-
xo. Segundo o IBGE (2010) o bairro ocupa uma área
de 7.579,64ha e possui uma população de 157.326
20
Reúne informações sobre favelas, loteamentos irregulares e
habitantes, adquirindo o 6º lugar no ranking dos
bairros com maior população do município do Rio
outros tipos de assentamentos precários da cidade do Rio de Janeiro.
Disponível em: http://ipprio.rio.rj.gov.br/. Acesso em janeiro de 2014.
52
PRODUÇÃO SOCIAL DO ESPAÇO URBANO NA PERIFERIA DA METRÓPOLE.
xo cenário de grande fragilidade ambiental. Entretanto, a zona de amortecimento do PEPB ainda não tem
xo cenário de grande fragilidade ambiental. Entretanto, a zona de amortecimento do
PEPB ainda não tem plano de manejo aprovado, através do qual se estabelece tanto
o zoneamento e as normas que regulam o uso da área, como o manejo dos recursos
naturais.
Figura 3.1: Localização do bairro de Jacarepaguá no município do Rio de Janeiro.
Fonte:
Prefeitura
do
Rio
de
Janeiro.
SMU.
Disponível
em
http://www.rio.rj.gov.br/web/smu/
exibeconteudo?id=2879239. Acesso em janeiro de 2014. Elaboração: próprio autor.
Figura 3.2: Localização da Colônia Juliano Moreira no bairro de Jacarepaguá.
Fonte: Prefeitura do Rio de Janeiro. SMU. Disponível em http://www.rio.rj.gov.br/web/smu/
exibeconteudo?id=2879239. Acesso em janeiro de 2014. Elaboração: próprio autor.
3.1.2
Processo da ocupação informal da área
A ocupação da área de estudo, atualmente denominada antiga Colônia Juliano Morei-
ra, tem origem na Fazenda do Engenho Novo, no período colonial, ligada a atividades
rurais como o cultivo da cana de açúcar e do café. Em 1912, a partir da desapropriação
da fazenda pelo governo federal, foi iniciada a implantação da Colônia Juliano Mo-
reira, um projeto público de hospital-colônia considerado inovador, baseado em dois
pilares: a praxisterapia, e a assistência hetero-familiar. Este projeto de vocação autos-
53
A INCORPORAÇÃO DA ANTIGA COLÔNIA JULIANO MOREIRA NO TECIDO FORMAL DO RIO DE JANEIRO
sustentável, estava inspirado no modelo europeu de colônias-agrícolas, onde os pacientes desenvolviam a praxisterapia, trabalho agrícola
sustentável, estava inspirado no modelo europeu de colônias-agrícolas, onde
os pacientes desenvolviam a praxisterapia, trabalho agrícola como instrumento
terapêutico, destacando-se a lavoura de cereais, hortaliças e, principalmente, a
pecuária, conforme se observa na imagem abaixo. Além da praxisterapia o pro-
jeto incorporou outro instrumento terapêutico, a assistência hetero-familiar, ou
seja, os funcionários que trabalhavam na Colônia passaram a morar no local, jun-
to com as suas famílias, proporcionando, no cotidiano, o contato dos pacientes
com pessoas sadias.
Figura 3.3: Fotos do trabalho agropecuário desenvolvido na Colônia Juliano Moreira nas
décadas de 1940-1950.
Fonte: Arquivo IMASJM (Instituto Municipal de Assistência à Saúde Juliano Moreira)
Este novo modelo de hospital psiquiátrico, nasce em um contexto de grandes
mudanças referentes aos conceitos de saúde mental, principalmente, difundi-
dos pelos médicos Juliano Moreira e Rodrigues Caldas. Esta nova visão de um
grande hospital implementado ao longo de 6 décadas em uma grande extensão
agrícola e onde os pacientes poderiam circular livremente em contato com as fa-
mílias dos funcionários, determinou fortemente a configuração urbana que hoje
se apresenta no território. Assim, a ocupação para fins de moradia destinados
aos funcionários da Colônia durante os anos de funcionamento do hospital, de-
termina características do território em vários aspectos morfológicos e sociopo-
líticos, que devem ser considerados até os dias de hoje.
A partir da década de 1980, impulsionado pela luta antimanicomial, o projeto
de hospital-colônia passou por um processo de decadência, período que será
analisado de forma mais aprofundada neste trabalho, por elucidar as principais
54
PRODUÇÃO SOCIAL DO ESPAÇO URBANO NA PERIFERIA DA METRÓPOLE.
causas e impactos do aumento das ocupações informais na Colônia Juliano Moreira. Esta reflexão se dará
causas e impactos do aumento das ocupações informais na Colônia Juliano Moreira.
Esta reflexão se dará com base na análise de quatro documentos e das 8 entrevistas
realizadas na pesquisa, definidas na tabela 4 na proxima página. Os documentos
são: (1) Histórico da Colônia Juliano Moreira, datado em julho de 1980; (2) Relatório
Interno da CJM realizado entre 1984 e 1985; (3) Primeiro Plano Diretor Decenal da
CJM datado em julho de 1987 21 ; e (4) Estudo das Famílias Moradoras no Campus de
Jacarepaguá: Diagnóstico e Alternativas de Ação, realizado pelo Instituto de Estudos
da Religião (ISER) em 2004 22 .
Gráfico 3.1: Agentes sociais que produzem o espaço urbano
entrevistados no âmbito desta pesquisa.
na Colônia Juliano Moreira
Setor onde
Instituição
Ida
Data da
Sexo
mora dentro da
CJM
Profissão
de
entrevista
/Movimento
21
de
Funcionário aposentado
outubro de
Morador (1)
masculino
74
Setor 2
da Colônia Juliano
2013
Moreira
14
de
Morador (2)
feminino
83
outubro de
Setor 2
Funcionaria aposentada
da Colônia Juliano
Moreira
2013
17
de
Arquiteto (filho e neto de
funcionários da Colônia
Morador (3)
masculino
25
outubro de
Setor 2
Juliano Moreira)
2013
4
de
Morador (4)
feminino
-
dezembro
Setor 3
Aposentada
de 2013
11
de
Administrativo
Morador (5)
masculino
-
novembro
Setor 1
de 2013
Arquiteto Coordenador
2
de
do Planejamento e
Arquiteto (1)
masculino
-
dezembro
de 2013
Projetos da Secretaria
Municipal de Habitação.
Prefeitura da cidade
do Rio de Janeiro
(2009-2013)
16
de
Coordenadora da
Advogada
feminino
-
novembro
Regularização Fundiária
Patrimônio da União
Terras Públicas. Rio
(1)
de 2013
(2000-2013)
de Janeiro. (SPU)
20
de
Liderança
Coordenadora Nacional e
Regional. Rio de Janeiro-
Zona Oeste-
feminino
-
dezembro
Jacarepaguá. (Desde
União Nacional pela
Moradia
Popular.(UNMP)
(1)
de 2013
1992)
Elaboração: próprio autor.
21
Estes
três
documentos
foram
encontrados
no
Arqui-
vo
do
Instituto
Municipal
de
Assistência
a
Saúde
Juliano
Moreira
(IMASJM).
22
Esta
pesquisa
foi
desenvolvida
como
parte
de
um
convênio
realizado
com
a
Fundação
Oswaldo Cruz
(Fiocruz)
em
outubro
de
2003,
e
em
parceria
com
os
pesquisadores
do Campus
Fio-
cruz
Mata Atlântica
(CFMA)
os
quais
disponibilizaram
este
estudo
para
a
realização
desta
pesquisa.
55
A INCORPORAÇÃO DA ANTIGA COLÔNIA JULIANO MOREIRA NO TECIDO FORMAL DO RIO DE JANEIRO

Conforme revelam os documentos pesquisados,

e os relatos dos 5 moradores entrevistados, a po-

pulação de residentes da Colônia se inicia com os

funcionários do hospital desde o início da década

de 1920, porém, o crescimento da ocupação urbana

acentuou-se a partir das décadas de 1970 e 1980. As

causas são diversas – algumas, inclusive, foram ex-

plicadas nos capítulos anteriores. No contexto na-

cional, o Brasil passou por uma grande crise econô-

mica que refletiu na falta de financiamento público

para a produção de habitação popular e, portanto,

isso provocou no território nacional uma massiva

ocupação informal de terras urbanas durante este

período. No contexto da região de Jacarepaguá, foi

impulsionado na mesma época o crescimento das

ocupações informais, as quais formaram “um ‘cin-

turão’ de assentamentos de baixa renda ou fronteira

física no limite entre as RAs de Jacarepaguá e Barra

da Tijuca” (VELASQUES, 2004, p. 107). O fato da

área da Colônia Juliano Moreira se encontrar mui-

to próxima deste cinturão de assentamentos gera

também uma incontrolável ocupação informal de

suas terras. Além disso, existem causas especificas

que provocaram, ao longo dos anos, a precariedade

habitacional da maior parte das moradias, a carên-

cia de infraestrutura e serviços urbanos e a irregula-

ridade jurídica da terra.

Um importante motivo interno desta ocupação

informal foi devido ao processo de decadência do

equipamento hospitalar, revelado nos três docu-

mentos pesquisados no arquivo do IMASJM, os

quais relatam as condições precárias das infraes-

truturas da Colônia nas décadas de 1970 e 1980. No

primeiro relato Histórico da Colônia Juliano Moreira,

datado de 1980, já encontramos informações com

respeito às moradias, sendo nesse momento con-

tabilizadas 459 habitações, sem especificar quantas

destas foram construídas pela instituição de saúde

e quantas pelos próprios funcionários. Ao mesmo

tempo, revela a existência de pavilhões que já fo-

ram desativados e serviam como moradia de várias

famílias, sendo que o documento não identifica se

estes moradores dos pavilhões desativados eram

funcionários da própria Colônia. Neste sentido,

também é importante destacar que nesta época já

existia uma área edificada de 115.000 m 2 , ou seja,

dentro da área total da Colônia Juliano Moreira de

7.864.000 m 2