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Carícias, de Sergi Belbel

Tradução de Christiane Jatahy

CENA 1

Personagens: Homem Jovem e Mulher Jovem

Sala de estar de um apartamento. Poltronas.

HOMEM JOVEM Que estranho.

MULHER JOVEM Quê?

HOMEM JOVEM Tudo isso

MULHER JOVEM Do que você está falando?

HOMEM JOVEM Não sei se você se dá conta.

MULHER JOVEM Não. De quê?

HOMEM JOVEM Tenho uma sensação...

MULHER JOVEM Fala.

HOMEM JOVEM Uma sensação estranha...

MULHER JOVEM Que é que você tem?

HOMEM JOVEM É como se...

MULHER JOVEM Como se o que...

HOMEM JOVEM Como se já não...

MULHER JOVEM Não, o quê?

HOMEM JOVEM Como se a gente já não tivesse...

Pausa.

MULHER JOVEM Quê?

HOMEM JOVEM Nada pra dizer um pro outro.

MULHER JOVEM Claro.


HOMEM JOVEM Claro, o quê?

MULHER JOVEM Claro que temos algo pra dizer um pro outro.

HOMEM JOVEM Ah, claro?

MULHER JOVEM Claro.

HOMEM JOVEM O quê?

Pausa.

HOMEM JOVEM Diz o quê?

MULHER JOVEM Não sei, agora não me lembro.

HOMEM JOVEM Tá vendo? Tá se dando conta?

MULHER JOVEM Não. Não tô vendo. Não to me dando conta.

HOMEM JOVEM Não quer se dar conta.

MULHER JOVEM Mas, de quê? Vamos ver: de quê? Diz! De que porra eu
tenho que me dar conta, se é que eu posso saber?

HOMEM JOVEM Quer que eu repita?

MULHER JOVEM Não, por favor. Se você vai repetir o que acabou de dizer é
melhor que se cale.

HOMEM JOVEM Bom, então se é melhor que eu me cale, me calo.

Pausa.

MULHER JOVEM A gente tem muito pra dizer m pro outro, ainda, e você
sabe disso muito bem. Eu sei que tem coisas que você
pensa e se cala, porque não quer falar sobre elas, ou não
quer falar pra mim, sim, falar pra mim, pra mim, por
algum problema seu que eu ignoro, que até você mesmo
ignora, e isso me ofende, sabe? Me ofende, me angustia,
dói, me dói ver você assim, me ver assim, nos ver assim,
enchendo com palavras vãs todos estes vãos momentos de
silêncio, e depois os insultos, seus insultos, porque é uma
ofensa o que você acabou de me dizer, me insulta, me
ofende quando diz que não tem mais nada pra me dizer.

HOMEM JOVEM Desculpa, só um instante.

MULHER JOVEM Por que você me interrompe? Sempre me interrompe


quando começo a... a construir um... um discurso
minimamente coerente que ultrapasse os... os
monossílabos que tanto caracterizam as nossas conversas
cotidianas! Você parece com a minha mãe e se saí da casa
dela não foi justamente pra ir viver com outro igual a ela,
ou pior ainda! Não tem desculpa! Quem tava falando era
eu e vou continuar falando! Vamos ver se começam a
mudar as coisas nessa casa de merda, pelo menos nessa!

Ele a esbofeteia violentamente.

HOMEM JOVEM Quando uma pessoa pede desculpas, a gente desculpa, se


fala e escuta. Entendeu? Eu acabei de pedir desculpas só
para fazer um breve aparte em seu... estupendo discurso,
tão claro e coerente e vou fazê-lo, tá me ouvindo? Vou
fazê-lo, vou fazê-lo, vou fazê-lo!

Ele volta a esbofeteá-la, ainda mais forte.

HOMEM JOVEM Eu não disse que eu já não tenho mais nada pra te dizer.
Ouviu?

Volta a esbofeteá-la, selvagemente.

HOMEM JOVEM Eu disse que já não temos nada que nos dizer. Não eu. Não
você. Eu disse: nós.

Silêncio.

MULHER JOVEM O que você quer jantar?

HOMEM JOVEM Não sei. O que tem?

MULHER JOVEM Carne, ovos, salada. Posso fazer um macarrão, se você


preferir.

HOMEM JOVEM Não, não, massa de noite não, que me dá indigestão.


Prefiro uma salada, dessas com bastante ingredientes e
uma boa sobremesa.

MULHER JOVEM Temos alface, tomate, cenoura, milho, azeitonas, aipo,


cebola.

HOMEM JOVEM Não, não, nada de cebolas, que me dá azia.

MULHER JOVEM É melhor mesmo porque você fica com mau hálito
insuportável e deixa um fedor na cama que não tem quem
aguente.
HOMEM JOVEM Podemos pôr também pedacinhos de maçã e abacaxi, se
tiver, claro.

MULHER JOVEM Ótimo! Uma salada tropical! Adorei. Mas o abacaxi é de


lata.

HOMEM JOVEM Dá no mesmo.

MULHER JOVEM Bom, então tá, mãos à obra. Ih! Não sei se ainda tem
alguma coisa de sobremesa.

HOMEM JOVEM Não sobrou pudim?

MULHER JOVEM Claro, como eu ando desligada. Hoje mesmo comprei dois
de manhã. Ah! E também tem iogurte!

HOMEM JOVEM Prefiro pudim.

MULHER JOVEM Pois eu um iogurte.

HOMEM JOVEM Eu um pudim.

MULHER JOVEM Tudo bem, você come o seu pudim e eu como o meu
iogurte, não tem problema.

HOMEM JOVEM Não tem problema. Ajudo a preparar a salada?

MULHER JOVEM Claro, assim acabamos mais rápido. Vamos pra cozinha?

HOMEM JOVEM Vamos.

Eles se preparam para levantar. Ela para.

MULHER JOVEM Desculpa, só um instante.

HOMEM JOVEM Quê?

Ela lhe dá um murro no estômago e um golpe de joelho nos testículos. Ele cai no chão.

MULHER JOVEM Não tem azeite.

HOMEM JOVEM Ahhh...

MULHER JOVEM O nosso acabou! Você vai ter que pedir um pouco à
vizinha.

HOMEM JOVEM Ah, não posso resp...

MULHER JOVEM Vamos levanta, não vamos perder tempo à toa.

HOMEM JOVEM Ah. Ah...


MULHER JOVEM Vem, vamos, levanta, pega um copo enquanto eu ponho a
alface de molho, vai e pede à vizinha que encha o copo de
azeite de oliva. Mas tem que ser de oliva, hein!? Detesto
salada com azeite de girassol, não tem gosto de nada.

HOMEM JOVEM Você é um monstro.

MULHER JOVEM Levanta agora e vai na cozinha.

HOMEM JOVEM É nojenta.

Ela lhe dá um chute na cara.

MULHER JOVEM Vai à cozinha ou não vai à cozinha?!!!!?

Mais um chute.

MULHER JOVEM Vai pedir o azeite pra vizinha ou não vai pedir o azeite pra
vizinha?!!!!!?

Outro chute, ainda mais forte.

MULHER JOVEM Quer uma salada tropical ou não quer uma salada
tropical???!!!!

Silêncio.

HOMEM JOVEM Ah.

MULHER JOVEM Quê?

HOMEM JOVEM Aah.

MULHER JOVEM Não to entendendo o que você tá dizendo.

HOMEM JOVEM Aahhhh.

MULHER JOVEM Desculpa, mas se você não articular melhor.

HOMEM JOVEM Aahhhh.

MULHER JOVEM Quer dizer alguma coisa para mim, talvez?

HOMEM JOVEM Mmm...ss..sim...

MULHER JOVEM Tá vendo? Tá se dando conta? Tá vendo como você ainda


tem algo pra me dizer?

CENA 2
Personagens: Mulher Jovem e Senhora.

Um parque. Um banco de pedra.

MULHER JOVEM Que é que você quer?

SENHORA Presta atenção.

MULHER JOVEM Prestar atenção a quê?

SENHORA Ao que eu vou ler. Você sabe que eu tenho dificuldade de


falar. E o que eu quero dizer é... Me escuta atentamente.

MULHER JOVEM O que é?

SENHORA Não tem importância. Não importa quem escreveu. Não


importa como está escrito. Importa mais o que diz.
Palavras que falam sobre nós. E eu espero que você as
entenda porque as leio.

Abre o livro que tem sobre os seus joelhos e lê.

SENHORA “Cai a noite e o silêncio... abandona a cidade; porque não


é verdade que o silêncio é a noite; é comum acreditar que
tudo para quando as pessoas param, e então, as pessoas
acreditam que deter-se, enfim, depois de tanta rotina
implica parar o tempo e penetrar na calma, e pensam que
isso é a noite; o repouso do guerreiro, um teatro tedioso, a
sonolência letárgica, um parêntese vazio, o nada tão
necessário. Cai a noite e nasce um tempo que se opõe ao
próprio tempo; alimenta os desejos e nos empurra ao
excesso; os instantes se eternizam, o segredo inconfessável
se revela brutalmente, as máscaras caem e até o mínimo
gesto pode romper com tudo; se desfazem as paixões, os
medos saem voando... A noite é como um motor de
silêncios eloquentes, onde, o tempo não é tempo, nem o
lugar nenhum lugar, onde o escuro e radiante, onde o nada
não existe...”

MULHER JOVEM Caralho mãe, dá um tempo!

SENHORA O quê?

MULHER JOVEM Cala a porra dessa boca! Que saco! Afinal que merda você
tá tentando me dizer? Se é que você tá querendo me dizer
alguma coisa! Porque eu não tô acreditando que você me
fez vir de tão longe e tão tarde pra me encher o saco com
essas suas babaquices, com essa sua mania de palavras
melosas, frases sem pé nem cabeça e pensamentos
profundos escritos por imbecis para ignorantes anormais!
Olha, quer saber? Chega desse seu papo furado e vai logo
dizendo o que você quer, sem fazer rodeios estúpidos,
porque eu tenho mais o que fazer, tão me esperando pra
jantar e não posso perder tempo com uma velha chata!

SENHORA Vai!

MULHER JOVEM Mamãe não vamos começar.

SENHORA Só te peço um minuto. Estou tão sozinha, minha filha, e


tem tantas coisas que eu penso.... Desde o dia que você foi
embora, a casa não é mais o que era. É verdade, antes era
um inferno, uma batalha constante: brigas, gritos, mau
humor, angústia, choros, tensões. Eu tenho que reconhecer
que talvez tenha sido minha culpa que a gente tenha
declarado guerra uma contra a outra, uma guerra pequena,
ainda que hostil, a base dos mínimos gestos e de mínimas
palavras e de silêncios eternos. Se a guerra mais cruel é a
guerra entre as mulheres, é mais cruel ainda entre uma
mãe e sua filha. Mas agora que você não está, tenho tanta
saudade de você!

MULHER JOVEM Que é que você tá dizendo? Você ficou louca?

SENHORA Sim. Sim.

MULHER JOVEM Você reconhece?

SENHORA Sim. Sim.

MULHER JOVEM E foi pra isso que me chamou? Marca comigo com tanta
urgência, tem a coragem de me incomodar, me implora
pra que eu te escute para dizer o que já sei? Que você tá
completamente louca.

SENHORA Não. Para falar, de uma vez por todas, o que nunca te
disse. Sei que chegou o momento.

MULHER JOVEM Que momento?

SENHORA O momento.

MULHER JOVEM De te levar para o hospício?

SENHORA De te dizer a verdade.


MULHER JOVEM Se você se sente sozinha em casa, se a velhice te dá medo
e você não sabe como acabar com ela, vai viver num asilo,
me disseram que são ótimos, maravilhosos, confortáveis....

SENHORA Eu... a culpa não foi minha.

MULHER JOVEM Você conheceria pessoas, ia se divertir. São hotéis muito


bacanas, para velhos, mas limpos, pode entrar e sair, os
horários não são tão rígidos e tem até excursões...

SENHORA Sinto muito ter demorado tanto...

MULHER JOVEM Você devia me ouvir...

SENHORA Em te contar.

MULHER JOVEM Como é que eu faço pra te convencer? Sei que...

SENHORA Não sou sua mãe.

MULHER JOVEM ...o asilo é ideal. É o lugar ideal pra você. Vai para um
asilo.

Silêncio.

SENHORA Que horas são?

MULHER JOVEM Muito tarde.

SENHORA Filha.

MULHER JOVEM Quê?

SENHORA Pensei que o parque era o lugar ideal para dizer que afinal
tomei uma decisão a respeito dessa sua mania de afastar-
me de você, de deixar de ser uma carga para você e para o
mundo. Sei que eu sou jovem ainda, mas também sou
consciente da minha doença e também sou consciente de
tudo que me afoga e de que minto, minto para mim, minto
para você, para matar o tempo ou recuperá-lo, por isso
imploro...

MULHER JOVEM Você fala como um livro!

SENHORA Imploro que você se encarregue dos trâmites, assim me


economiza trabalho e problemas com papéis, com leis e
telefonemas e esforços e visitas e não faça caso do que eu
digo. Do que eu edisse. Você já tinha me convencido.
MULHER JOVEM Você tem razão. Este é o lugar ideal. É um parque tão
tranquilo. Tão solitário, mamãe. Tão solitário.

SENHORA Não entendo você.

MULHER JOVEM Não se preocupe. Vou me encarregar de tudo.

SENHORA Obrigada.

Pausa.

MULHER JOVEM Mãe.

SENHORA Quê?

MULHER JOVEM Você deveria ter me abortado.

SENHORA Adorarei, tenho certeza. Vou adorar o asilo.

MULHER JOVEM Tchau. E para de ler essas coisas. Vão te deixar ainda mais
louca.

SENHORA Me liga.

MULHER JOVEM Ainda mais.

CENA 3

Personagens: Senhora e Mulher Velha.

Sala de um asilo. Um sofá.

MULHER VELHA Eu gostava de dançar tango.

SENHORA E eu o rock’n’roll.

Pausa.

SENHORA Eu sempre dançava o rock’n’roll, todos os sábados e


domingos, eu fugia de casa pela janela do pátio, escondida
do papai e da mamãe, e ele me esperava na rua de trás, e a
gente dava as mãos; ele sempre tinha a mão quente, a
minha estava sempre fria, e ele a esquentava e a gente ia
correndo para a zona norte da cidade. Ali, da rua, já se
ouvia a música: rock autêntico e a gente dançava feito uns
loucos, e foi assim um ano inteiro, talvez mais, as mãos
apertando-se e os corpos apertados, a cada final de semana
até que... até que... chegou a menina, a estúpida menina,
você não pode imaginar como eu odiava a essa menina
nojenta quando estava no meu ventre: me impedia de
dançar! E para piorar, papai e mamãe colocaram madeiras
nas janelas e eu ia apodrecendo lá dentro e a barriga
inchando cada dia mais; mas uma tarde eu me libertei,
mais frenética do que nunca enganei a eles e fugi e fui
completamente sozinha ao Clube, ao salão de baile do
Clube, completamente sozinha, ele não estava lá e nem
nunca mais voltou, não voltou a me ver, mas eu ainda me
lembro dele: braços musculosos e pernas fortes, a barriga
de bronze e as mãos fervendo; fugiu, mas aquela tarde eu
dancei como nunca, era como uma droga, eu não podia
parar e todos me olhavam e eu dançando sozinha; a
estúpida de merda já devia ter uns sete ou oito meses de
letargia aqui dentro, sugando meu sangue, roubando o
alimento das minhas entranhar, algo inacreditavelmente
vivo nesta barriga agora mole, e eu a sacudi para cima e
para baixo e de um lado para o outro, chocando contra o
fígado e os ossos, o estômago e as tripas e contra meus
rins, porque era isso que eu queria; agitá-la, enjoá-la e
vomitá-la, minha vingança: quase seis meses depois dos
primeiros enjoos, seis meses sem me deixar dançar o
rock’n’roll, a imbecil, a traidora, a criatura inoportuna,
monstruosa, porque o rock’n’roll se dança com um par e
ele me abandonou e eles me encarceraram, mas aquela
tarde eu dancei sozinha como uma louca diante de todos
quando tocou meu rock preferido, o sangue já descia até
os meus tornozelos.

MULHER VELHA Eu gostava de dançar tango porque também odeio os


homens, eu também os odeio; e quando dançávamos
aquele pobre idiota nem percebia. E era feliz o infeliz,
porque pensava que estava me dominando. Sempre dizia...
o tango é o domínio do macho... e eu sabia que não, e
deixei o meu macho plantado ali mesmo, no salão de baile,
quando ele quis meter a mão no meio das minhas pernas
depois de ter dançado seu tango favorito (que era o que eu
mais detestava). Pobre rapaz, nem lembro mais da sua
cara, só me lembro das suas mãos peludas como verrugas
negras e o horror entre suas pernas. Coitadinho. O único
homem na minha vida, por sorte, o único. Nunca mais
voltei a dançar com nenhum outro homem, nunca mais... e
olha que eu gostava de tango, olha só que coisa mais
estranha... eu gostava de tango.

Pausa.

SENHORA Não Sab ia que você estava aqui.

MULHER VELHA Não tenha medo. Você acabará se acostumando a esse


lugar.

Pausa.

SENHORA Como o tempo passa.

MULHER VELHA Isso dizem.

SENHORA Mas você está muito bem.

MULHER VELHA Não é verdade.

SENHORA Falando sério.

Pausa. A senhora olha fixamente para a mulher velha, pega a sua mão e se aproxima.
Se beijam na boca, por um tempo. De repente, toca uma música doce, cafona, antiga.
Som ligeiramente defeituoso.

MULHER VELHA Vamos dançar?

SENHORA Vamos tentar.

Se levantam, se abraçam, dançam.

MULHER VELHA É horrível.

SENHORA Insuportável.

MULHER VELHA Ai! Já chega!

Param de dançar.

SENHORA Que absurdo.

MULHER VELHA Tirem isso! Parem!

A música para.

SENHORA É sempre assim?

MULHER VELHA Freiras velhas idiotas!

SENHORA Sempre assim?

MULHER VELHA Eu já cansei de falar, mas não tem jeito.


SENHORA Que horror.

MULHER VELHA Se essa vitrola fosse minha...

SENHORA Se fosse... nossa...

MULHER VELHA Nada. Nada. Música de asilo, música de asilo, para velhos
brochas, essas feiras de merda gostam de música de asilo,
adoram, focam loucas e não entra na cabeça delas que eu
detesto e que não sou a única! Tudo bem. Tudo bem. Vou
me queixar outra vez.

SENHORA Isso, vamos nos queixar.

MULHER VELHA Sim, as duas juntas, melhor nós duas juntas, unidas
venceremos.

SENHORA Não se preocupe, estou contigo.

MULHER VELHA Teremos que ser duras, fortes, intransigentes.

SENHORA Então, sejamos duras, fortes, intransigentes.

MULHER VELHA Teremos que tomar medidas drásticas.

SENHORA Como o quê, por exemplo?

MULHER VELHA Greve de fome. Greve de fome.

SENHORA Isso! Até que ponham uma música que a gente goste!

Pausa.

MULHER VELHA Talvez nos deixem morrer.

SENHORA Talvez sim.

MULHER VELHA Para mim já falta tão pouco tempo...

SENHORA Não!

MULHER VELHA Sim!

Pausa.

SENHORA Nós temos uma a outra.

MULHER VELHA Não tenha medo! Você acabará se acostumando a esse


lugar!

Silêncio.
SENHORA Ainda bem que você está aqui!

MULHER VELHA Por quê?

SENHORA Ainda bem que nos encontramos de Nov.

MULHER VELHA Que você está dizendo?

SENHORA Eu achava que já tinha perdido você.

MULHER VELHA Que você está dizendo?

SENHORA Você me ensinou tanta coisa!

MULHER VELHA O quê? O quê?

SENHORA Da vida. E em tão pouco tempo.

MULHER VELHA Desculpa.

SENHORA O quê?

MULHER VELHA É que eu não me lembro de você.

A Senhora chora.

CENA 4

Personagens: Mulher Velha e Homem Velho.

Uma rua. Um latão de lixo.

HOMEM VELHO Puta vestida de velha.

MULHER VELHA O que você está procurando?

HOMEM VELHO Comida.

MULHER VELHA Já faz mais de dez anos que não nos vemos.

HOMEM VELHO Tô com fome.

MULHER VELHA Você não vai me dizer nada?

HOMEM VELHO Puta.

MULHER VELHA Você não vai me dizer nada?


HOMEM VELHO Puta. Puta. Puta. Vai embora. Tô com fome.

Pausa. O Homem Velho mete metade do corpo no latão e afunda nos sacos de lixo.

MULHER VELHA Só tenho uns vinte minutos. Porque fecham o asilo às


nove. Alguém me disse que você estava aqui. E hoje,
enfim, eu decidi sair para procurar você. Dez anos é muito
tempo, mas você não mudou nada. Oito e meia, já são oito
e meia. Estou andando já faz mais de cinco horas. Porque
saí depois de comer. E estive dando voltas e mais voltas.
Não conheço essas ruas, nem esse bairro. E olha que é o
centro da cidade. Me disseram que você estava aqui. Já sei
que você dorme na rua. Que seu lençol é um jornal. Faz
dez anos que sei, e hoje, por fim, me decidi. Na verdade,
não sei por que. Ou se sei, não sei.

HOMEM VELHO Uma sardinha!

MULHER VELHA Você não me dá pena.

HOMEM VELHO Três sardinhas!

O Homem Velho tira do latão um saco que acabou de rasgar. Se senta no chão e tira do
saco umas latas de sardinha abertas.

MULHER VELHA Você não me dá pena.

HOMEM VELHO Vai embora puta vai embora são minhas.

MULHER VELHA Não quero comer.

HOMEM VELHO Vagabunda vagabundaça sei quem você é sei quem você é.

MULHER VELHA Você sabe quem eu sou.

HOMEM VELHO Sim: puta vestida de velha: um policial disfarçado. Não


não não! Não corte meu cabelo quero ficar aqui não me
leve não quero me lavar vou peidar não limpa meu cocô
gosto da merda seca assim minha mbunda não tem frio as
sardinhas são minhas!

MULHER VELHA Por que não vem comigo para o asilo?

HOMEM VELHO Minha bundinha não quer frio merda cocô quer cocô.

MULHER VELHA Por que você não vem comigo para o asilo?

HOMEM VELHO Minha irmã irmãzinha vivia num asilo.

MULHER VELHA Sua irmã.


HOMEM VELHO Puta vestida de velha.

Pausa.

O Homem Velho come avidamente metade da sardinha.

MULHER VELHA Tenho que ir.

HOMEM VELHO Sardinha. Sardinhazinha. Sardinhazinha bonita. A gostosa


sardinha.

MULHER VELHA Vem comigo.

HOMEM VELHO Puaf asco porcaria tenho sede que salgada que salgada!

Joga uma sardinha na cara da Mulher Velha.

MULHER VELHA Ai. O que você está fazendo?

HOMEM VELHO Sardinhazinhas salgadas para as putas velhas tenho fome


tenho sede.

O Homem Velho volta a mexer no latão de lixo.

MULHER VELHA E se for a última vez que a gente se vê? Você é forte, está
louco, os loucos são fortes, fortes demais para morrer
antes do tempo. Eu estou doente e sou mais velha que
você. Não muito, mas sou, só três anos, mas são anos.
Agora são, mas antes... o que eram três anos para nós?
Nada, A gente se entendia. Sempre nos entendemos, nos
entendíamos... antes... principalmente antes... Quando
apagavam a luz do nosso quarto, nós falávamos em voz
baixa, cochichávamos e morríamos de rir, nos
entendíamos. Não tínhamos medo, confessávamos tudo
um ao outro.

HOMEM VELHO Frango frito!

MULHER VELHA Não tente me dar pena.

HOMEM VELHO Um frango frito inteiro!

Pega outro saco de lixo já rasgado. Tira dele um osso de galinha. Se senta no chão. Em
volta dele, restos.

MULHER VELHA Não tente me dar pena.

HOMEM VELHO Franguinho frito um peito e uma asinha. Não vou te dar
puta velha caminhoneira.
MULHER VELHA Não quero comer, não tenho fome.

Ele come. Ela o observa, se agacha e senta-se do seu lado. Ele a olha surpreendido.

HOMEM VELHO A senhora não é um policial.

MULHER VELHA Não.

HOMEM VELHO É uma velha.

MULHER VELHA Sou.

HOMEM VELHO Uma velha que já foi jovem.

MULHER VELHA É.

HOMEM VELHO A senhora é boa?

MULHER VELHA Sou.

HOMEM VELHO Então posso dizer um segredo segredinho.

MULHER VELHA Pode.

Ele mostra a mão e aponta um anel.

HOMEM VELHO Gosta?

MULHER VELHA Gosto.

HOMEM VELHO Eu tinha uma mulher.

MULHER VELHA Eu sei.

HOMEM VELHO A senhora não sabe de nada.

MULHER VELHA Vem para o asilo.

HOMEM VELHO Uma mulher minha minha.

MULHER VELHA Sua mulher.

HOMEM VELHO Morreu.

MULHER VELHA Já faz tanto tempo.

HOMEM VELHO Me deixou.

MULHER VELHA Vem para o asilo.

HOMEM VELHO Me deixou.

MULHER VELHA Já faz muito tempo.


HOMEM VELHO Me deixou antes de morrer.

MULHER VELHA Não é verdade.

HOMEM VELHO A gente vivia junto.

MULHER VELHA O que você está comendo?

HOMEM VELHO A gente se via pouco.

MULHER VELHA Não fale tanto.

HOMEM VELHO Minha mulher tinha uma namorada. (Ri baixo)

MULHER VELHA Vem para o asilo.

HOMEM VELHO Que frango mais gostoso.

MULHER VELHA Eu sou boa.

HOMEM VELHO Era eu quem cozinhava.

MULHER VELHA Estou morrendo.

HOMEM VELHO Minha irmã.

MULHER VELHA Dez anos sem te ver.

HOMEM VELHO Enquanto eu cozinhava...

MULHER VELHA Me perdoa.

HOMEM VELHO ...Minha mulher tinha uma namorada: minha irmã.

Silêncio.

MULHER VELHA Estou com fome.

Ele dá a ela um osso de galinha. Comem. Olhares perdidos. Pausa. Ela se levanta com
dificuldade.

MULHER VELHA Quinze. Quinze para as nove. O asilo fecha às nove. Você
não quer vir comigo. Eu vou.

HOMEM VELHO Puta vestida de velha. Você está morrendo.

Ele solta uma grande gargalhada.

CENA 5
Personagens: Homem Velho e Menino.

Uma rua. Escada de um bar fechado.

MENINO Que é que tu tem aí nos bolsos?

HOMEM VELHO Pra cama neném pra cama.

MENINO Se é dinheiro pode ir passando.

HOMEM VELHO Que horas são? Não é muito tarde não é muito tarde? Não
são três horas não são quatro?

MENINO Cala essa boca.

HOMEM VELHO Oh calo calo.

MENINO Diz aí, que é que tu tem nos bolso?

HOMEM VELHO Menino menino você é um menino e é de noite muito


tarde muito tarde. O bar: fechado.

MENINO Vai passando.

HOMEM VELHO Ah filho da puta filho da puta tua mãe é uma puta.

MENINO Minha mãe não é puta, babaca.

HOMEM VELHO Oh quer me roubar. Os filhos da puta filhos das putas


roubam e batem roubam e batem.

Pausa.

MENINO Eii. Por que é que tu tá olhando pra mim velho escroto?
Tô com cara de palhaço?

HOMEM VELHO Palhaço. Não. É um menino. Os meninos não andam à


noite. Eu sim. Outros também. Então você não é um
menino. É um demônio um animal.

MENINO Tu que é um animal!

HOMEM VELHO Ah não Ah não Ah não. Eu sou um homem sou um


homem sou um homem.

MENINO Quer um cigarro?

O menino tira um cigarro e fuma.


MENINO São muito maneiros. O melhor, saca? Me custaram os
olhos da cara, porque é do bom mesmo.

HOMEM VELHO Um cigarro.

MENINO Toma, ó não vou com a tua cara, te acho nojento,


asqueroso, mas eu te dô se tu não disser nada aos home
quando te encontrarem e perguntarem por mim.

HOMEM VELHO Não digo nada não não não digo nada.

MENINO Toma, mas tu não me viu, falou?

HOMEM VELHO Não vi não vi não vi não vi nada.

O Menino lhe dá um cigarro e acende com um isqueiro de ouro.

HOMEM VELHO (ri baixo) Do teu papai.

MENINO Que isso cara? Meu pai não fuma, idiota, eu roubei de um
cara brother que eu até que ia com a cara dele e ele ia com
a minha, aí ele não vai pensar nunca que fui eu que roubei.
Aí, quer que eu te conte um lance?

O Homem Velho traga com prazer.

HOMEM VELHO Oh sim sim. Oh sim sim siiiiiiimmm.

MENINO Ó. O cara que eu roubei isso, é um cara que encontrei no


metrô e que me passou um bagulhinho, e só me cobrou
vinte pau, era do cacete, porra, uma merda que acabou, é
que eu tenho um amigo nojento que fumou a metade, puta
que pariu que anormal, o cara do metrô levou a gente na
casa dele, puta que pariu que casa meu irmão que casa,
puta que pariu, e a gente tomou banho ali porque fazia uns
oito dias que a gente não tomava banho, meu amigo
nojento e eu, e quando a gente tava assim no banho, a
gente viu que o cara tava ficando pelado no quarto dele e
que no quarto do cara tinha uma mulher peladona que
disse: quem são esses moleques? E ele disse que a gente
tinha vindo comprar bagulho e a mulher se levantou
peladona e entrou no banheiro, puta que pariu, tinha a
boceta muito preta, puta que pariu, e meu amigo e eu
quase morremos de rir, o lance é que a mulher era cantora
de um conjunto do caralho que se chama Cheiro de Sêmen
que eu e meu amigo, a gente tinha ido, tipo a uns quatro
dias atrás, de moto, com uns brothers nossos, pô que puta
coincidência, né não? E ela disse que a gente era muito
pequeno e eu disse que se ela era a garota do Cheiro de
Sêmen e ela disse que sim e que quantos anos a gente
tinha e tal e eu peladão disse que me amarrava muito no
grupo dela e que tinha treze, e aí ela entrou o cara, que
tinha um pau assim de grande ó, e fumando uma morra
disse pra gente “se veste e cai fora” e passou pra gente o
bagulho, e só cobrou vinte pau e a gente ficou brother, e
como a gente ainda tinha setenta e dois paus dos cem que
meu amigo tinha roubado do meu, a gente comprou a
parada, e aí eu roubei o isqueiro do cara e a gente saiu se
mijando de rir, puta que pariu, aí a gente fumou todo o
lance numa noite, puta que pariu, e bebendo e tudo, e a
gente passou a noite na casa de uns maluco, porra que
viagem meu irmão, eu voava como se fosse um anjinho,
com o fuminho e as bebidas, e de manhã eu ainda tava
doidão como se eu tivesse no céu, sem barulho nem nada
de nada, maior tranquilidade e senti o maior nojo de ver
meu amigo dormindo como um idiota.

HOMEM VELHO Como um anjinho.

MENINO Mas aí a gente saiu da casa dos caras e foi pra um buraco
que uma galera tava morando e que uns malucos deram o
endereço e abriram a porta e a gente disse “Podemos
dormir aí?” E disseram “tá limpo, tá limpo, mas só uma
noite, hein”; ali tavam os cantores do Merda Social, a
mulher do Lençóis Manchados e o baterista do Fudendo
minha mãe, era foda e a gente pensou “Porra, ainda
sobram sessenta e sete paus e esses caras com certeza
podem vender uma parada pra gente, porra maneiro”, e
compramos e matamos ali mesmo, puta que pariu cara
porra muito maneiro que viagem alucinei, tudo cheio de
cores e voamos e a gente tava no céu como um anjo e eu
não pensava em nada e me mijava de rir.

HOMEM VELHO Como um anjo.

MENINO Aí na manhã do dia seguinte a gente tinha doze reais como


a gente saiu fora às dez e todo mundo tava roncando então
a gente roubou dez paus da mulher dos Lençóis
Manchados e pegamos um ônibus e todas as velhas idiotas
e os velhos babacas como tu se afastaram cagando de
medo e eu pensava se a minha mãe me visse também ia se
cagar de medo. E com os dez pau rangamos uma pizza
num parque que tava cheio de Mauricinho, pô que nojo
esses Mauricinhos, todos vestidinhos assim que nem
veados e os cabelos penteadinhos, se eu tivesse a grana
que esses babacas têm, pô ia me entupir de maconha e de
acidinhos, pô, ia ser muito maneiro, mas depois da pizza
só sobraram seis reais e quarenta centavos e o maço de
cigarro custou dois e cinquenta, porra, muito caro, mas
não é tão caro quanto o que eu comprei essa tarde, custou
cinco e quarenta porque são importados, não é verdade
que são bons? Vinte e sete centavos cada cigarro, hein
cara? Tu tá fumando vinte e sete centavos, é bom você
saber, então a gente já tava cheio de ficar de bobeira pelo
parque, é que a gente não tem porra nenhuma pra fazer em
toda merda do nosso dia e não tamo afins de fazer nada
mesmo. Às vezes a gente fica meio mal e tudo é meio mal
para gente, até é meio mal enrolar um base, e estivemos
assim meio mal se balançando nuns balanço na pracinha
até que uns brothers nossos trouxeram cerveja de graça
“legal, está noite também vou ficar nas nuvens”, mas não,
porque era só uma garrafa e eu tive que dividir com meu
amigo nojento e os quatro brothers, que tinham sido
amigos do meu irmão, então, eu só mamei uns quatro ou
cinco traguinhos, mas um dos caras tinha um baseadinho,
e com a cola que a gente tinha cheirado a noite já tava
feita, mas eles saíram fora porque eles não fugiram de casa
e eu fiz eles jurarem pelo meu irmão que se meus pais
ligassem pra casa deles eles não iam dedar e aí eles foram
embora e eu fiquei super bem me balançando no balanço e
sonhei com meu irmão.

HOMEM VELHO Um anjinho.

Pausa.

MENINO Como é que tu sabe?

HOMEM VELHO Como um sonho. Fala fala fala e não entendo.

MENINO Como é que tu sabe?

HOMEM VELHO Anjinhos anjinhos estou vendo anjinhos. Que sonho.


Chato chato você é um chato e não fala como eu.

MENINO Mas não é verdade.

HOMEM VELHO Dormir dormir e não falar mais chega já chega.


MENINO Não é verdade. Meu irmão não é nenhum anjinho, cara.
Minha mãe é quem diz isso, todos os dias diz a mesma
coisa, três meses me dizendo a mesma coisa todos os dias:
mas é mentira, e vou te dizer porque Deus não existe, o
céu é uma mentira.

HOMEM VELHO Cala a boca cala a boca filho da puta dorme dorme cala a
boca.

MENINO Meu irmão não é nenhum anjinho, no colégio só dizem


mentiras e os anjos não andam de moto, você já viu
alguma vez um anjo com a cabeça aberta? Deus não
existe, é uma mentira nojenta.

HOMEM VELHO Para cama neném pra cama.

MENINO Foi ali. Ainda dá pra ver a mancha vermelha e negra do


cérebro esborrachado.

HOMEM VELHO Dormir dormir sonhar.

Silêncio.

MENINO Tá bom, agora já chega, me dá a grana de uma vez, o


babaca!

HOMEM VELHO Anjinhos anjinhos.

O menino começa a dar chutes no velho na barriga e lhe revista os bolsos.

HOMEM VELHO Ai. Ai. Ai. Filho da puta filho da puta filho da puta de
anjinho!

CENA 6

Personagens: Homem e Menino.

Banheiro de um apartamento. Banheira.

HOMEM Grande, hein.

MENINO Não é tão grande como o teu.

HOMEM Tá quase.
MENINO Quem me dera.

HOMEM Quantos pentelhos, hein?

MENINO Mas não são tão crespos como os teus.

HOMEM Cada coisa tem seu tempo.

MENINO Só quero ver.

HOMEM Você vai ver.

MENINO Por que tu tá olhando tanto pra mim?

HOMEM E você?

MENINO Quer tomar banho?

HOMEM Não.

MENINO E a mamãe?

HOMEM Dormindo.

MENINO Não quer tomar banho?

HOMEM Não.

MENINO Tá muito boa.

HOMEM Quem?

MENINO Que é que tu acha? A água.

HOMEM Ah.

MENINO Em que tu tava pensando?

HOMEM Que que você acha?

MENINO Na mamãe.

HOMEM Tá boa?

MENINO Não tá mal.

HOMEM Não tá mal.

MENINO Tem umas melhores.

HOMEM Claro que sim! Claro que sim!

MENINO Mas também tem umas piores, hein?


HOMEM É, é, é também.

MENINO Mas muitas, hein? Muitas muitíssimo piores.

HOMEM Você acha?

MENINO Tu não enxerga? Não vê por aí? Não olha quando elas
passam na rua?

HOMEM Às vezes.

MENINO Mentira.

HOMEM E você?

MENINO Eu sempre.

HOMEM Até parece, vai, cala a boca.

MENINO Não quer tomar banho?

HOMEM Não.

MENINO Eu já to com os dedos enrugados.

HOMEM Então, sai.

MENINO Não quero.

HOMEM Vai ficar mais enrugado ainda.

MENINO Até parece, vai, cala a boca.

HOMEM Esfrego as tuas costas?

MENINO Não precisa.

HOMEM Quer alguma coisa?

MENINO Não.

HOMEM Mmm... sabe que....?

MENINO Quê?

HOMEM Amanhã...

MENINO Amanhã o quê?

HOMEM Você vai ter uma surpresa.

MENINO Qual?
HOMEM Não. Não vou contar.

MENINO Por quê?

HOMEM Senão não vai ser uma surpresa.

MENINO Vai. Conta.

HOMEM Não. Não.

MENINO E a mamãe também não sabe?

HOMEM Não.

MENINO Que é?

HOMEM Você vai adorar.

MENINO É pra mim?

HOMEM Pra todos.

MENINO Pra mamãe também?

HOMEM É pra todos.

MENINO Sei. Deixa ver. E quem vai gostar mais; você, eu ou a


mamãe?

HOMEM Você vai gostar mais do que a mamãe.

MENINO E você?

HOMEM Eu adoro, me deixa maluco.

MENINO Puta que pariu! Puta que pariu! Um carro novo!

HOMEM Shhhhht. É. É, mas não conta para mamãe.

MENINO Caralho, muito maneiro, muito maneiro!

HOMEM Me entregam amanhã de manhã.

MENINO Ei, quando chegar vamos dar um role, tá bom?

HOMEM Está feliz?

MENINO Eu to.

HOMEM Eu também.

MENINO Ei, a mamãe também vai ficar, tenho certeza, hein?


HOMEM Claro que sim.

MENINO E que carro é?

HOMEM Você vai ficar com o queixo caído.

MENINO Já tô até imaginando.

HOMEM Sim. Shhhhht. Não diga nada.

MENINO Uaaauuu!!!

HOMEM Eu pedi vermelho.

MENINO Maneiro é a cor que eu mais gosto.

HOMEM Por isso que eu pedi vermelho.

MENINO Vou acordar a mamãe pra contar agora mesmo.

HOMEM Não. Não.

MENINO Vamos.

HOMEM Não, é melhor que a gente amanhã chame ela lá na rua e


ela encontre nós dois no carro. Você vai ver que cara ela
vai ficar.

MENINO É verdade, já to até imaginando. (Ri baixo)

HOMEM É, vai ser muito divertido.

MENINO É.

HOMEM Vai ser engraçado.

MENINO Não quer tomar banho?

HOMEM Não.

MENINO Vou botar mais água quente.

HOMEM Você o que tem que fazer é sair.

MENINO Só mais um pouco. Agora é que tá ficando bom.

HOMEM Não deve fazer bem ficar tanto tempo dentro d’água.

MENINO Por quê?

HOMEM Porque não.

MENINO Olha, se vai me encher o saco é melhor cair fora!


HOMEM Quem tá te enchendo o saco?

MENINO Você.

HOMEM O que eu disse?

MENINO Já tá começando a brigar comigo.

HOMEM Quem? Eu?

MENINO Quem seria? O espelho?

HOMEM Quando que eu briguei com você?

MENINO Que eu tenho que sair, que com certeza não é bom, que eu
vou pegar uma pneumonia, bah.

HOMEM Eu não falei de nenhuma pneumonia.

MENINO Dá no mesmo. Tu ia acabar falando.

HOMEM Tem vezes que eu não te entendo.

MENINO E tem vezes que eu não te aguento.

HOMEM Vou pra cama.

MENINO Tem certeza que não quer tomar banho?

HOMEM Tenho.

MENINO Nem comigo?

HOMEM Cabem os dois?

MENINO Claro! Já esqueceu?

O Homem se despe.

MENINO E tem alarme o carro novo?

HOMEM O que você acha?

MENINO Eu sei lá.

HOMEM Claro que sim.

MENINO Que mais que tem?

HOMEM Deixa ver... ar condicionado... teto solar eletrônico...


trancas com controle remoto... retrovisores reguláveis
eletronicamente... abertura da mala e da tampa da gasolina
de dentro do carro... ah, e equipamento de som estéreo
com cassete e cd de alta fidelidade.

MENINO Cd de alta fidelidade!

HOMEM É.

MENINO Maneiro.

O Homem entra na banheira.

HOMEM Ai. Tá pelando.

MENINO Que isso?! Tá é fria.

HOMEM Pra você, que já tá um tempão aqui.

MENINO Entra devagar,

HOMEM Tá.

MENINO Pô. Muito maior, né?

HOMEM Quê?

MENINO O teu.

HOMEM O meu?

MENINO Caralho! Não tá vendo? Que o teu é muito maior que o


meu?

HOMEM Que nada.

MENINO E tem um montão de pentelhos.

HOMEM Cada coisa tem seu tempo.

MENINO Só quero ver.

HOMEM Você vai ver.

MENINO Como sobe a água.

HOMEM É verdade que tá boa.

MENINO A mamãe?

HOMEM A água.

MENINO Papai.

HOMEM Que?
MENINO Olha.

HOMEM Quê?

MENINO Toca.

HOMEM Por quê?

MENINO Acho que agora eu te ganho.

HOMEM Em que você me ganha?

MENINO Olha como é que tá grande.

HOMEM Ficou duro.

Silêncio.

MENINO A mamãe tá roncando.

CENA 7

Personagens: Homem e Garota.

Estação Central. Assentos de plástico.

GAROTA E como é que ela conseguiu descobrir?

HOMEM Pelo cheiro da sua boceta.

GAROTA Vai à merda.

HOMEM Foi culpa minha, eu reconheço.

GAROTA E o que você disse pra ela?

HOMEM Nada.

GAROTA Nada.

HOMEM Que ela tava imaginando coisas.

GAROTA E ela acreditou?

HOMEM Não.

GAROTA E você vai fazer o quê?


HOMEM Não te entendo.

GAROTA Tô te perguntando o que você tá pensando em fazer.

HOMEM Nada.

GAROTA Não vai contar pra ela

HOMEM Você ficou louca?

GAROTA Não te entendo.

HOMEM Você vai perder o trem.

GAROTA Não. Eu vou ficar.

HOMEM Que maravilha. Posso saber, então, o que estamos fazendo


aqui?

GAROTA Discutindo sobre a minha boceta e as suas grosserias.

HOMEM Quer saber? É melhor que a gente se separe, to falando de


nós dois.

GAROTA Tá bom. A gente se separa.

HOMEM Ainda dá tempo.

GAROTA De quê?

HOMEM De pegar.

GAROTA Pegar o quê?

HOMEM O trem.

GAROTA Ah.

HOMEM Sabe, você devia se lavar com mais frequência. Com


certeza assim a gente teria evitado um ou outro problema.

GAROTA Do que você tá falando?

HOMEM Da sua boceta, claro. (Problema? Eu disse “um ou outro


problema”......?) Olha, é que... é que falando sério, sua
boceta tem um cheiro muito forte, que empesta, sabe?
Tudo bem, eu reconheço que todas as bocetas tem cheiro,
na verdade, fedem, é evidente, soltam uma pestilância
doce, com um pouco de fedor, só um pouco, não que seja
desagradável, pelo menos de maneira geral. Mas acontece
é que a sua... bom, agora que a gente terminou, eu posso
falar sem papas na língua... a sua solta um fedor realmente
insuportável... é estranho... não é o típico cheiro de
bacalhau ou de peixe podre das bocetas sujas na época da
menstruação, não, não, o teu, o da sua boceta, é outra
coisa, é mais azedo, mas ácido que doce, como o
amoníaco, uma coisa assim, como uma mistura de
amoníaco e carne podre... Cada vez que eu penso eu acho
mais insólito, em você; quero dizer que vendo você assim,
vestida, nunca imaginaria, até que eu pude comprovar com
as minhas próprias narinas... eu fiquei tão surpreso na
primeira vez... (quanto tempo já faz?... três meses?)...
normalmente as pessoas se lavam, se limpam, na primeira
vez, quero dizer, vão limpas e perfumadas ao primeiro
encontro... Oh! Me desculpe, na verdade, eu não sei se o
problema é sujeira, vai ver é só algo fisiológico, quero
dizer uma espécie de doença interna, uma mal formação
ou infecção das glândulas (porque são glândulas o que
vocês tem aí dentro, não é?) sabe, que nem as pessoas que
têm mau hálito, que parecem que têm estômago sujo, ou
que já tão quase vomitando, se é que já não vomitaram...
pois então, a primeira vez que você tirou a calcinha, eu
não podia acreditar, não, de verdade; desculpa por só estar
te dizendo agora, depois de tanto tempo, depois que a
gente já fez tantas vezes, mas são coisas que a gente só
pode falar quando a relação acaba e não existem mais
cobranças, nem entraves nem nada que nos uma, quando a
gente se sente livre como eu me sinto agora, bom, pois na
primeira vez eu quase vomitei, como fedia, me lembro
perfeitamente, puta que pariu, olhei de lado assim,
disfarçando, para o meio das suas coxas segurando a
respiração e pensando que eu ia ver um vapor espesso e
quente, uma fumaça verde, sei lá, saindo de lá de dentro,
de tão penetrante que era o fedor; mas a gente se acostuma
a tudo; às vezes... olha... às vezes nem lavando o pau com
sabão três vezes seguidas saía o cheiro, e eu tinha que
carregar esse cheiro (o cheiro da sua boceta) durante o
resto do dia (porque a maior parte das vezes, ou melhor,
todas as vezes, nós fizemos ao meio dia, lembra?); assim
não tinha jeito de esquecer de você. Agora que eu to
pensando, não sei como ela não percebeu antes; não deve
ter olfato tão fino como o meu, é óbvio... claro que, de
qualquer maneira, os dias que eu fazia com você tentava
não tirar a cueca na frente dela ou perto dela... eu ia
correndo ao banheiro com as calças do pijama, ensaboava
o pau mais uma vez e enfiava a cueca direto na máquina
de lavar, antes eu cheirava e me subia uma ânsia de
vômito... Que estranho, quando eu era jovem as minhas
cuecas só tinham o cheiro dos meus testículos, e eu
adorava cheirá-las. Agora, ao contrário... buf, são coisas
que eu não consigo entender. Você não diz nada? Por que
não diz nada?

GAROTA Eu sonhei tudo isso faz uns dois dias.

HOMEM Você ainda pode pegar o trem.

GAROTA Mas era diferente.

HOMEM Tá ficando tarde pra mim.

GAROTA No sonho era diferente, mas nem tanto. A gente falava de


acabar a nossa relação, eu via você chegar. Me dizia que a
sua mulher sabia da gente. Curiosamente, também
estávamos numa estação. Mas era você que ia pegar o
trem. Eu lembro que você me insultava. Mais ou menos,
como você acabou de fazer agora. Mas o que eu me
lembro melhor era o que eu dizia pra você. Eu falava com
você gritando no meio do barulho, cheio de gente em
volta, viajantes como mala, vendedores de jornais,
guardas, maquinistas, e sobretudo lixeiros... lixeiros
vestidos com macacões laranja (eram muitos, muitíssimos,
milhares e milhares e milhares de lixeiros fosforescentes
escutando de boca aberta as minhas palavras em frente a
nós dois, sentados no chão da estação, com as vassouras
perto dos pés). E eu estava furiosa, mas lúcida. Dizia que
as desgraças não são frutos da casualidade. Os homens
tem uma perigosa tendência a pensar que sim. As
mulheres não. Eu não. Eu sou uma mulher. E acusava
você. Aos gritos. Eu acusava você diante de todos. Você é
o culpado. De tudo. Absolutamente tudo. Todas as suas
desgraças, a histeria da sua mulher, o seu primeiro
princípio de impotência, o desequilíbrio do seu filho mais
velho. Sim. Você é o culpado. O único culpado. E todos
me aplaudiam. Todos me ovacionavam. Então, você se
levantava e ia embora. Sozinho. Pegava o trem. Sozinho.
E descarrilhava. E víamos como o trem descarrilhava com
você dentro, só você. E todos gritavam de alegria. E eu
gritava de alegria. E comemorava. Todos comemoravam.
Quando acordei, quis acreditar que era um pesadelo.
Agora sei que foi uma simples premonição. Vou embora.
Não quero perder o trem. Você não diz nada? Por que não
diz nada?

HOMEM O seu hálito fede... também... fede... o seu hálito.

GAROTA A buceta. O hálito. Sabe o que fede em você? A desgraça.


Você tem a desgraça à flor da pele.

HOMEM Você perdeu o trem.

GAROTA Não. Seu relógio está adiantado. Sinto muito.

HOMEM Se... na última vez eu tivesse me lavado...

GAROTA Não teria acontecido nada?

HOMEM Não.

GAROTA Com certeza.

HOMEM Ficaria tudo igual.

GAROTA Você vai me deixar o jornal?

HOMEM Pra quê?

GAROTA Pra ler durante o trajeto, para que seria?

HOMEM Você vai conseguir?

GAROTA Você tá bem?

HOMEM Boa viagem.

GAROTA Tá arrependido de não ter lavado o pau?

HOMEM Acho que... que não.

GAROTA Então por que você tá chorando?

HOMEM Adeus.

GAROTA Você não tem nenhum motivo pra chorar. Na verdade,


ninguém percebeu nada. Ninguém sabe de nada. Ninguém
me ouviu. Além do mais, ninguém se interessa, nem se
importa com a sua desgraça. Muito menos os lixeiros da
estação. Fica tranquilo. Esta buceta fedida e este mau
hálito se despedem de você sem histerias nem gritos nem
ataques de nervos nem ninguém que nos escute.

HOMEM Os sonhos são sonhos.


GAROTA E isto não é um teatro.

HOMEM Os sonhos são mentiras.

GAROTA E os trens não descarrilham.

HOMEM Adeus.

Silêncio.

GAROTA Odeio você.

CENA 8

Personagens: Garota e Senhor

Cozinha de um apartamento.

GAROTA Que você tá fazendo?

SENHOR Uma salada.

GAROTA E já tá pronta?

SENHOR Não.

GAROTA Que mais você vai fazer?

SENHOR Quer me ajudar?

GAROTA Quer que eu ajude?

SENHOR Não.

GAROTA Melhor. Prefiro olhar.

SENHOR Como antes.

GAROTA Não entendo como você pode gostar tanto.

SENHOR De quê?

GAROTA De cozinhar.

SENHOR Você sempre resistiu.

GAROTA A quê?
SENHOR A aprender.

GAROTA Com alguém que o fizesse minimamente bem, já era o


bastante.

SENHOR Passa a faca.

GAROTA Eu disse que olharia, que só olharia.

SENHOR É verdade.

GAROTA Não gosto dessa calça. Fica...

SENHOR Linguado.

GAROTA Quê?

SENHOR Linguado. Depois da salada um bom linguado.

GAROTA Péssima. Fica péssima em você. É para jovens.

SENHOR Sou jovem.

GAROTA Ontem eu encontrei uma amiga que me disse uma mentira.

SENHOR Esta alface tá cheia de vermes.

GAROTA Joga fora.

SENHOR Que amiga?

GAROTA Odeio vermes.

SENHOR Sei que o saleiro está bem perto de você.

GAROTA Tá na minha mão.

SENHOR Olha. Olha bem. Não te peço nada, tá vendo? Eu mesmo


venho buscá-lo. Pode soltar, já que você é tão gentil?
Muito obrigado. Bom, agora pode continuar olhando.

GAROTA Uma amiga do colégio. Fazia anos que eu não a via.

SENHOR Acho que já sei quem é.

GAROTA O que você tá fazendo com o sal?

SENHOR Brilham tanto.

GAROTA Que nojo.

SENHOR Quando você toca neles, eles se dobram sobre si mesmos.


Fazem bolinhas.
GAROTA Te vê muito na rua.

SENHOR E quando você os mete em um montinho de sal, explodem.

GAROTA Me disse que você é o homem maduro mais interessante


que ela já viu.

SENHOR Paf!

GAROTA Você é nojento.

SENHOR Ah! Já sei quem é.

GAROTA Mora perto daqui.

SENHOR e que mentira ela te disse?

GAROTA Me disse que você é o homem maduro mais interessante


que ela já viu.

SENHOR E que mentira ela te disse?

GAROTA Quer parar de brincar com esses vermes nojentos? Vou


acabar vomitando!

SENHOR Você já não olha como antes. Você cresceu. Cresceu


demais. Antes olhava e nada mais. Agora olha e fala.
Crítica.

GAROTA Você nem perguntou como foi a minha viagem.

SENHOR Como foi a sua viagem?

GAROTA Esse avental não é seu.

SENHOR Como foi a sua viagem?

GAROTA Bem, muito bem, estou muito feliz com meu novo
trabalho, felicíssima e adoro viajar e poder estar longe
dessa cidade de merda e esta viagem me fez muito bem.

SENHOR Já não tem mais vermes.

GAROTA Olha bem, não deixa sobrar nenhum.

SENHOR Você tem razão, esse avental é da sua mãe.

GAROTA Você deu de presente pra ela.

SENHOR Que memória.

GAROTA Que presente estúpido.


SENHOR Prático.

GAROTA Estúpido. Você comprou pra você.

SENHOR Gosto mais do que do meu.

GAROTA Eu que dei o seu presente pra você.

SENHOR Olha só que linguados!

GAROTA Peixe mais insosso. Faz um mês que não venho e você
decide fazer o peixe mais insosso que existe e uma salada
triste, uma salada triste cheia de vermes e um peixe sem
gosto; eu telefono a mil quilômetros de distância, mil
quilômetros e digo: “chegarei amanhã e irei vê-los, irei
jantar com vocês, porque depois de amanhã volto a viajar”
e você prepara de propósito os pratos mais inadequados, é
verdade, já estou até vendo, vejo perfeitamente: filha
chata, visita de passagem, reunião familiar forçada,
encontro sem graça, menu sem graça: salada e linguado!

SENHOR Você não falou da guarnição.

GAROTA De quê?

SENHOR Do linguado.

GAROTA Quê?

SENHOR Batatas fervidas. Pequenininhas. Redondinhas.

GAROTA O que foi que eu te fiz?

SENHOR São tão gostosas.

GAROTA Sei. E vai demorar muito pra ficar pronto? É porque... sabe
o que acontece?... é que... eu to com muita pressa. E
falando nisso, e a mamãe? Já não devia ter chegado? Ou
também vai fechar a loja mais tarde do que o costume
sabendo que estou aqui... quanto menos tempo me vendo
melhor? O que você acha?

SENHOR Acho que é um bom menu pra manter a linha.

GAROTA Da mamãe. O que você pensa?

SENHOR Não sei. E você?

GAROTA Que já deveria estar aqui.


SENHOR Talvez sim. Ai, mas sei lá. Ia acabar botando tudo de
cabeça pra baixo.

GAROTA Acabaríamos antes.

SENHOR Sujaria toda a cozinha.

GAROTA Ela não tem essas frescuras.

SENHOR Suja tudo.

GAROTA Pelo menos ela não tem.

SENHOR Seria horrível.

GAROTA Seria normal.

SENHOR Detesta a cozinha e estraga tudo.

GAROTA E você? Porque você gosta?

SENHOR É um dom.

GAROTA Uma merda.

SENHOR Uma herança.

GAROTA Perdida. Perdida. Eu não suporto você. Uma herança


perdida. Eu não a tenho, não a recebi, nunca quis aprender.

SENHOR No fundo não se pode aprender.

GAROTA Portanto não falhei, como você pensa.

SENHOR São tão pequenininhas, as batatas.

GAROTA Não falhei.

SENHOR Tão difícil descascá-las.

GAROTA A sua herança acaba em você.

SENHOR Acho que sua mãe está chegando.

GAROTA Acaba em você.

SENHOR Não tá ouvindo seus passos na escada?

GAROTA E não restará nada de você.

SENHOR Não tá ouvindo o ruído das chaves na fechadura?

GAROTA Absolutamente nada.


SENHOR Já sente o cheiro do seu perfume?

GAROTA Você está sozinho.

SENHOR Vai recebê-la.

GAROTA E não é por minha culpa.

De repente, num impulso, o Senhor atira todos os utensílios da cozinha no chão.


Grande barulho. Silêncio.

SENHOR Por que você não faz a comida?

GAROTA Por que você se ama tanto papai?

CENA 9

Personagens: Senhor e Rapaz.

Pequeno apartamento. Uma cama. Senhor carrega um pacote enorme.

SENHOR Um presente.

RAPAZ Que é?

SENHOR Adivinha.

RAPAZ Pela forma é fácil. Um quadro.

SENHOR Não. Não desembrulha. Ainda não.

RAPAZ Por quê?

SENHOR Você já vai ver.

RAPAZ Deixa ele aqui.

SENHOR Me dá um uísque

RAPAZ Não tenho.

SENHOR Não tem?

RAPAZ Você acabou com a garrafa.

SENHOR Não me lembro.


RAPAZ Era eu quem enchia seus copos.

SENHOR Não lembro.

RAPAZ É normal.

SENHOR Que é que você tem?

RAPAZ Eu to nervoso.

SENHOR De bebida. O que você tem de bebida?

RAPAZ Água.

SENHOR É muito pouco.

RAPAZ Não te esperava.

SENHOR Por que você tá nervoso?

RAPAZ Hoje... na casa da minha mãe. Minha irmã também estava


lá.

SENHOR Eu a vi anteontem.

RAPAZ Por isso.

SENHOR Pela rua, como sempre.

RAPAZ A gente tinha que morar mais longe. Todos, mais longe.
Que merda de bairro. Todo mundo acaba se encontrando,
mais cedo ou mais tarde. Já não existe mais intimidade.

SENHOR Se você quiser sim.

RAPAZ O que você quer dizer?

SENHOR Sabe quantos anos eu tenho?

RAPAZ Não quero saber.

SENHOR Por quê?

RAPAZ Não sei. Eu ia ficar angustiado.

SENHOR Cinquenta.

RAPAZ Pronto, fiquei angustiado.

SENHOR Quem diria?

RAPAZ Ninguém, realmente.


SENHOR Cinquenta, o que não impede que a sua irmã...

RAPAZ Faz de propósito. E na frente da minha mãe. Fala na frente


da minha mãe. Como das outras vezes. E quando fala me
olha.

SENHOR Você acha que ela te olha.

RAPAZ Me olha. Fala pra mim. Para me mostrar que ela sabe.

SENHOR Paranoia. Vamos mudar de assunto.

RAPAZ Tenho medo.

SENHOR Angústia. Medo. Você é jovem.

RAPAZ Não.

SENHOR Me dá água.

RAPAZ Abro o pacote?

SENHOR Tenho sede. Ainda não.

RAPAZ Se serve você mesmo.

SENHOR Me serve você.

RAPAZ Fica à vontade.

SENHOR Já estou.

RAPAZ O que a gente tava falando?

SENHOR Não me lembro.

RAPAZ De intimidade.

SENHOR Ah, sim. Tenho cinquenta anos.

RAPAZ Vou fechar a janela.

SENHOR E nem minha própria filha sabe de nada.

RAPAZ Esses apartamentos de merda.

SENHOR Quer chupar?

RAPAZ Quero.

SENHOR Já estou com a calça aberta.

RAPAZ Se a gente não fecha, eles veem tudo.


SENHOR Seus lábios.

RAPAZ Vizinhos de merda.

SENHOR Vem. Rápido.

RAPAZ Você não queria... água?

SENHOR Depois. Tira a roupa.

RAPAZ Tira a roupa você também.

SENHOR Tira a minha roupa você.

RAPAZ Você vai me deixar louco.

SENHOR Põe a mão.

RAPAZ Me deixa louco.

SENHOR Você gosta de mim.

RAPAZ Gosto. Muito.

O Senhor tira a roupa violentamente do Rapaz.

SENHOR Agora sim. Agora. Agora. Vem.

RAPAZ Agora o que? O que?

SENHOR Pega o pacote. Depressa.

RAPAZ Agora? O Pacote? Agora?

SENHOR Sim. Vem, depressa.

RAPAZ Que eu faço? Que... que você quer? Que... quer que eu
faça?

SENHOR Põe aqui. Diante da cama. Não. No pé da cama. Acima.


Aqui. Isso. Endireita. Não. Mais perto. Apoia em uma ou
duas cadeiras. É isso. Sim. Assim. Perfeito.

RAPAZ E agora o que? Que eu faço? Que... que tenho que fazer?

SENHOR Não tenha medo.

RAPAZ Não tenho medo.

SENHRO O seu não está duro.

RAPAZ Não tenho medo de você.


SENHOR Desembrulha. Rasga o papel e vem aqui.

RAPAZ É um espelho.

SENHOR Vem se aproxima. Venha, vem aqui. Pega nele. Assim.


Sua boca. Isso mesmo. Faz gostoso. Devagar. Sem pressa.
Quero ver tudo. Até o final. Sua pele. Eu to vivo. Devagar,
devagar. Eu gosto tanto. Gosto tanto. Você faz tão bem.
Não. Não, não, não. Não olhe. Você não olha. Não olha.
Que você tá fazendo?

RAPAZ Também quero me ver, quero ver. Quero olhar.

SENHOR Depois. Depois. Continua. Sem olhar. Até o final. Assim.


Isso mesmo. Depois eu faço em você. E você vai se olhar.
Vai nos olhar. Assim. Assim. Isso. Só nós. Os quatro. Os
quatro, sozinhos... Sozinhos? Como! Se somos... quatro!
Ah. Assim. Assim. Ah. Vocês três... os únicos que me
amam.

Silêncio.

CENA 10

Personagens: Rapaz e Mulher

Sala de jantar de um apartamento pequeno. Mesa e cadeiras.

RAPAZ O jantar tava muito bom.

MULHER Hoje estive me olhando no espelho por um tempo, já fazia


uns dias que eu não me olhava, talvez umas duas semanas,
ou talvez... dez anos; talvez pela primeira vez em minha
eu me olhei por um longo tempo, detalhadamente e com
insistência; eu tava acabando de chegar do mercado com
um humor de cachorra, que você conhece muito bem: as
coisas não param de subir e subir com uma velocidade que
eu bem que gostaria de ter para subir as escadas desse
edifício velho e decrépito, imagina, muito adequado para
uma mulher da minha idade e condição(você não diz
nada?): pois então, eu vinha tão carregada...

RAPAZ Me faz um café.


MULHER E mal abri a porta, tocou o telefone e você nem imagina
quem era.

RAPAZ A administradora de apartamentos dizendo que vai subir


seu aluguel.

MULHER Você não acha estranho que um telefone toque no mesmo


instante em que se está enfiando a chave na fechadura da
porta? Não? Pois eu sim, não sei se já tinha acontecido
comigo, é como se as duas coisas estivessem unidas ou
fossem uma coisa só; além do mais, você sabe muito bem,
que não é nada frequente que alguém telefone para essa
casa, não é normal, é anormal você sabe disso melhor do
que eu: inclusive eu sempre achei que o motivo principal
que te levou a me deixar, quero dizer, a ficar independente
(é assim que você fala, não é verdade?) foi porque o
telefone tocava pouco nessa taca, é sim, é sim, estou
falando sério, sempre pensei que foi por isso; tudo bem,
agora imagina só a cara que eu fiz, cansada e angustiada,
com as sacolas do supermercado me cortando literalmente
os pulsos e com a carteira vazia no sovaco, a
carteira...vazia, quando ainda faltam vários dias para
chegar ao fim do mês. Correndo, para não perder a bendita
chamada, larguei as sacolas no chão de qualquer maneira e
me quebraram sete ovos; bom, imagina só eu correndo
feito uma louca para o quarto, e por uns milésimos de
segundos pensei como eu gostaria de ouvir uma voz
agradável que me perguntasse como eu estou e me
ajudasse a passar agradavelmente o resto do dia, o resto
dos dias, o resto dos meus dias.

RAPAZ Vou mijar.

O Rapaz sai. A mulher continua falando como se não tivesse acontecido nada.
Enquanto fala, se levanta e dá uma busca nos bolsos da
jaqueta do Rapaz que está pendurada na cadeira.
Encontra a carteira e conta o dinheiro.

MULHER Mas não. Era uma amiga da minha irmã mais velha, que
vive num lugar desses para pessoas como ela, desses onde
eu não pretendo botar meus pés nessa vida. Mexendo em
uns papéis, sei lá, ela acabou encontrando por acaso meu
telefone e me ligou para que eu fosse visitar a ela, a umas
amigas e... e me animar a... a ir não sei aonde em um
desses carros especiais para pessoas como... como nós.
Que horror! Me disse, como nós! Imagina o programa.
Enfim, me fiz de idiota e comecei a falar de coisas sem
importância e do meu estado de saúde que não podia estar
melhor e que maravilha e da gentileza e simpatia das
pessoas desse bairro e de que eu estou feliz vivendo neste
apartamentinho antigo mas com muito charme e desliguei
o telefone em dois tempos e sem dar tempo para que ela
respirasse e voltasse a me convidar; enfim, mal eu
desliguei fui como uma sonâmbula para o banheiro e me
olhei no espelho. Mas, o que tá pensando aquela mulher,
aquela...velha!! como se atreve a telefonar para mim!!?
Tudo bem, não tem problema; quando eu me olhei no
espelho eu me acalmei em seguida: continuo sem
nenhuma ruga. Posso ficar mais uns dez anos sem ter que
me olhar no espelho.

Tira uma nota da carteira do Rapaz e põe dentro do decote, disfarçadamente. Mas o
Rapaz já tinha entrado sem que ela percebesse.

RAPAZ E o café?

MULHER Ai! Que susto! Você e essa sua mania, não vai mudar
nunca. Você é um sádico, um sádico. Por que você nasceu
desse jeito? Por quê? Eu não posso entender.

RAPAZ Acho que eu vou embora.

MULHER A quem você puxou? A quem?

RAPAZ Tô dizendo que vou embora.

MULHER Ao seu pai, com certeza que não, ele era um homem
encantador, galante e educado e que em paz descanse.

RAPAZ Senta.

MULHER E a sua irmã menos ainda, sensível, terna, incapaz de


matar uma mosca.

RAPAZ Se acalma.

MULHER É que não se pode estar assim pela vida, dando sustos
desta maneira, assustando as mulheres como você assusta,
porque se você assusta a mim, com certeza assusta
também as outras mulheres.

RAPAZ Que mulheres?

MULHER Oh, as que eu imagino que você esconde naquele buraco


em que você vive, e vai saber para fazer o quê.
RAPAZ Por que você não vai me visitar um dia desses?

MULHER Tenho que tomar o comprimido.

RAPAZ Por que você não se senta?

MULHER Também você nunca me convidou. Devo ser um estorvo


para você.

RAPAZ Vou tomar o café na rua.

MULHER Vai tomar o café aqui, comigo.

RAPAZ Quanto você quer?

MULHER Já te disse mil vezes que da próxima vez que você vier
jantar pode trazer alguma amiguinha, se você quiser. Eu
não me incomodo, pelo contrário. E nós mulheres nos
entendemos. E seria menos chato. Por que você é tão
chato? Ui, o comprimido. Por que você é tão cansativo?

RAPAZ Não! Depois! Depois você toma!

MULHER Depois de quê?

RAPAZ Não sei.

MULHER De quê?

RAPAZ Não sei, me deu um branco.

MULHER Vou fazer o café para você.

RAPAZ Não.

MULHER Ah, agora você não quer o café?

RAPAZ Não.

MULHER Existe alguém que entenda você nesse mundo?

RAPAZ Duvido.

MULHER Você tinha que ir ao médico.

RAPAZ Você ficou louca?

MULHER Agora tem uns ótimos. Até fazem companhia para você.

RAPAZ Estou em branco. Me deu um branco. Um branco. Fiz uma


pergunta e você não me respondeu. Não sei por que a
gente gasta tanto tempo desta maneira. Você me liga, me
liga, me liga quase todos os dias e me repete a mesma
coisa: que venha te ver, que venha de ver; já sei que você é
a melhor cozinheira do mundo, não duvido, nunca duvidei;
se você soubesse a propaganda que eu faço de você por ai,
você não acreditaria que as coisas que digo sobre você são
palavras minhas. E eu abro uma concessão e venho te ver;
mas não sei por que fico aqui tanto tempo, deve ser
masoquismo, sabe o que significa isso? Claro, com certeza
você sabe, com certeza, se você sabe o que significa
sádico, também sabe o que significa masoquista; não, não,
não se assuste, me deu um branco porque nãos ei porque
alguma coisa está me impedindo que eu vá embora daqui
sem antes você tenha respondido à minha pergunta; espero
a sua resposta da mesma maneira que você esperava
ansiosamente, desesperadamente minha pergunta (você
sabe disfarçar mas eu te conheço); e tenho eu aguentar
durante todo um jantar insuportável –delicioso, não posso
negar-, mas lento e chato, cheio de conversas vãs, vazias...
Nós podemos economizar o sacrifício, a partir de hoje,
presta atenção; isso de ficar em branco, mamãe, eu não
gosto, me deixa doente; eu digo para você que me faça um
café e você não faz, e o tempo se alonga e tudo é inútil,
porque na verdade você está esperando e eu estou
esperando e esperar cansa e me deixa mal e tudo fica
parado e tudo nos machuca e se perde. Por isso, desta vez
não mude de assunto e nem se faça de surda, porque eu
quero ir embora daqui o quanto antes, mamãe não se
preocupe; eu voltarei, voltarei outro dia, talvez na outra
semana, ou no outro ano, porque sou seu filho. Quanto
você quer?

MULHER Cem.

O rapaz tira o dinheiro da carteira.

RAPAZ Dez. Vinte. Trinta. Quarenta. Cinquenta. Sessenta.


Setenta. Oitenta... e noventa.

Põe o dinheiro no decote da Mulher, violentamente.

RAPAZ Os outros dez... te dou outro dia.

MULHER Obrigada, filho.

RAPAZ Foi um jantar maravilhoso.

MULHER O café você toma na tua, não é verdade?


RAPAZ É.

MULHER É que eu tenho que tomar o comprimido e você sabe que


me dá um sono terrível.

RAPAZ Será que existe alguém que me entende nesse mundo?

MULHER Eu, filho, eu.

Silêncio.

MULHER Tchau, filho.

RAPAZ Tchau.

MULHER Amanhã eu te telefono.

RAPAZ Se eu estiver trepando, não vou atender.

MULHER Agora que você vai começar a brincar?

O Rapaz sai. A Mulher vai até a mesa. Se senta. Tira as notas do decote, as arruma e
tenta alisá-las. Toca a campainha.

EPÍLOGO

...Toca a campainha da porta. A Mulher se levanta e anda em direção a porta. Olha


pelo olho mágico. Sorri e abre.

HOMEM JOVEM Boa noite.

MULHER Entra, entra. Desculpa a bagunça.

HOMEM JOVEM Se a senhora pudesse me fazer um favor...

MULHER Claro que sim, imagina... Quer sentar?

HOMEM JOVEM Não, não, é um segundo.

MULHER Como você preferir... O senhor é quem sabe

HOMEM JOVEM Poderia encher esse copinho de azeite de oliva, por favor?

Amanhã eu devolvo, sem falta.

MULHER Com muito prazer, com muito prazer, e não precisa me


devolver nada.

HOMEM JOVEM Muito obrigado.


MULHER Espere aqui que... oh, mas... mas... oh... que aconteceu
com o seu rosto?

HOMEM JOVEM Não, não é nada.

MULHER Está machucado?

HOMEM JOVEM Não, não, nada, não é nada.

MULHER Ai. Ai. Sente-se, sente-se, por favor... Foi na escada, não é
verdade? Você caiu na escada? Foi isso? Que horror.
Espera só um segundo, vem aqui comigo, senta aqui, fica
calmo, pode ficar tranquilo, tranquilo.

A Mulher vai até um móvel e pega algodão e água oxigenada.

MULHER Aqui, senta aqui. Não tenha medo. Não precisa se


preocupar. Eu te curarei como se eu fosse sua mãe. Melhor
ainda.

Lentamente, com muita delicadeza, a Mulher passa um algodão molhado na água


oxigenada no rosto do Homem Jovem. Em silêncio. Ele
olha a Mulher e se deixa curar por ela. Ela lhe seca
cuidadosamente as gotas de água com o algodão seco. Ele
relaxa e sorri. Ela lhe acaricia suavemente o cabelo. Ele
pega a mão dela em sinal de agradecimento. Ela lhe beija
a testa. Ele lhe beija a mão. Se olham nos olhos. (Dois
seres estranhos parecem se encontra.) O ar se torna
cálido e sensual. As notas que estavam na mesa caem no
chão.

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