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POESIA

CONCRETA 50 ANOS
1956 - 2006
Seleção de Poemas de: Augusto de
Campos, Décio Pignatari, Haroldo de
Campos, Apollinaire, Blaise Cedrars,
Marcel Duchamp, Mallarmé, Maiakovski,
Hans, Arp, Ezra Poud, Eugen Gomringer,
Erthos Albino de Souza, Edgard Braga,
José Lino Grünevald, Arthur Rimbaud,
Seiichi Nikuni, Li Po (Rihaku), Matsuó
Bashô em ensaio verbi – voco – visual FACULDADES JORGE AMADO
realizado com a colaboração do poeta CURSO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL
Paulo Pedro Pepeu Mônica Rodrigues da Costa
apresentação em aulas, 2007 , 2008
nas disciplinas: Semiótica Geral
e Semiótica Aplicada
Poesia concreta, um
manifesto

- a poesia concreta começa por assumir uma responsabilidade total perante a


linguagem: aceitando o pressuposto do idioma histórico como núcleo
indispensável de comunicação, recusa-se a absorver as palavras com meros
veículos indiferentes, sem vida sem personalidade sem história - túmulos-tabu
com que a convenção insiste em sepultar a idéia.

- o poeta concreto não volta a face às palavras, não lhes lança olhares
oblíquos: vai direto ao seu centro, para viver e vivificar a sua facticidade.

- o poeta concreto vê a palavra em si mesma - campo magnético de


possibilidades - como um objeto dinâmico, uma célula viva, um organismo
completo, com propriedades psicofisicoquímicas tacto antenas circulação
coração: viva.

- longe de procurar evadir-se da realidade ou iludí-la, pretende a poesia


concreta, contra a introspecção autodebilitante e contra o realismo simplista e
simplório, situar-se de frente para as coisas, aberta, em posição de realismo
absoluto.
- o velho alicerce formal e silogístico-
discursivo, fortemente abalado no começo
do século, voltou a servir de escora às ruínas
de uma poética comprometida, híbrido
anacrônico de coração atômico e couraça
medieval.

- contra a organização sintática


perspectivista, onde as palavras vêm sentar-
se como "cadáveres em banquete", a poesia
concreta opõe um novo sentido de estrutura,
capaz de, no momento histórico, captar, sem
desgaste ou regressão, o cerne da
experiência humana poetizável.

- mallarmé (un coup de dés-1897), joyce


(finnegans wake), pound (cantos-ideograma),
cummings e, num segundo plano, apollinaire
(calligrammes) e as tentativas experimentais
futuristasdadaistas estão na raíz do novo
procedimento poético, que tende a imporse à
organização convencional cuja unidade
formal é o verso (livre inclusive).
Poesia concreta, um
manifesto

- o poema concreto ou ideograma passa a ser um campo relacional de


funções.

- o núcleo poético é posto em evidencia não mais pelo encadeamento


sucessivo e linear de versos, mas por um sistema de relações e equilíbrios
entre quaisquer parses do poema.

- funções-relações gráfico-fonéticas ("fatores de proximidade e


semelhança") e o uso substantivo do espaço como elemento de
composição entretêm uma dialética simultânea de olho e fôlego, que,
aliada à síntese ideogrâmica do significado, cria uma totalidade sensível
"verbivocovisual", de modo a justapor palavras e experiência num estreito
colamento fenomenológico, antes impossível.

- POESIA-CONCRETA: TENSÃO DE PALAVRAS-COISAS NO ESPAÇO-


TEMPO. (Publicado originalmente na revista AD - Arquitetura e
Decoração, n° 20, São Paulo, novembro/dezembro de
1956)
... mallarmé (un coup de dés -1897), joyce (finnegans wake),
pound (cantos-ideograma), cummings e, num segundo plano,
apollinaire (calligrammes) e as tentativas experimentais
futuristasdadaistas...

GUILLAUME
APOLLINAIRE
1880 -1918
num segundo plano, apollinaire
(calligrammes) e as tentativas
experimentais futuristasdadaistas...

MARCEL DUCHAMP
1887 – 1968

pintura sobre vidro


ready mades
cartaz dadaista
BLAISE La Prose
CENDRARS Transsiberien
1887 - 1961 et de la Petite Jehanne
de France, 1913

Pourtant, j’etais fort


mauvais poète.
Je ne savais pas aller
jusqu’ au bout.
J’avais faim.

MODIGLIANI

No entanto, eu era
um poeta muito ruim.
Não sabia ir até o final
Eu tinha fome.
Augusto de Campos
1973
ENIGMAGENS

1953

POETAMENOS
1953

1960

1970
EQUIVOCÁBULOS
POETAMENOS 1953

ouça o
poeta
POPCRETOS 1966
1954 - 1960

flor da boca da pele do céu


pele do céu da flor da boca
céu da flor da boca da pele
boca da pele do céu da flor
ENIGMAGENS 1973
1963

aducapacaustiduplielastifeliferofugahistoriloqualubrimendimultipliorganiperiodiplastipublirapareciprorustisagasimplitenaveloveraivivaunivoracid
ci
ci
atrocaducapacaustiduplielasti
feliferofugahistoriloqualubrimendimultipli
organiperiodiplastipublirapareciprorustisagasimplite
navelo atrocaducapacaustiduplielasti
feliferofugahistoriloqualubrimendimultipli
organiperiodiplastipublirapareciprorustisagasimplitenavelo
veraivivaunivoracidade
veraivivaunivoracidade city
city cité
cité
1961
1965
1975

Caetano Veloso
1975

ouça o
2002
Décio Pignatari
1958
NOIGANDRES 4

r a t e r r a t e r
r a t e r r a t e r
r a t e r r a t e r
r a t e r r a t e r
r a t e r r a t e r
r a t e r r a t e r r
a r a t e r r a t e r
r a r a t e r r a t e
r r a r a t e r r a t
e r r a r a t e r r a
t e r r a r a t e r r a
Noa Noa Noa Noa Noa Noa

“Quem é que passa neste rio – ele ou eu? Rio


da vida...Com barragens e barreiras de livros
religião medo e um amor que se odeia a se
mesmo, detive o ímpeto desse riso, inverti
seu curso, joguei torrente contra nascente,
a, rosa e lixa ma
agora é preciso derruir tudo – e partir!” um perfume dei
o e os RR encium
Quando os raios do sol penetraram na caverna da mente deserta,
pôs-se a lamber, bonita e coquete, o sangue das patas e do
focinho; ao bocejar, exibia a sua terrível máquina dental e uma
língua estupenda, rosa e lixa macia. Em ondulações de
intensidade variável, um perfume denso acompanhava os
movimentos do seu corpo e os RR enciumados: rru... rru... Como
em mulher formosa, passava as mãos pelos pêlos da fera, dos
cabelos à cauda nervosa de músculos sensíveis; arranhava
devagar a nuca e os flancos sedosos e quentes; ela recolhia as
garras nos estojos das paras feitos de veludo vivo, num
ronrosnar de prazer: rru... rru... Artimanhosamente,
entremostrava, exibia os seus indefiníveis encantos. O deserto
passou a ficar como que povoado, passou a revelar-lhe todas as
suas belezas sublimes – e a solidão, todos os seus segredos.

1992
onde (se vive
nossas um (corpo
(vozes (inteiro
de (corpo (gozando
(se entediam) de (gritar
e (devorado?
e (o tempo
(dentadura e esse
(vagarosa (corte na
(das máguas sombra
carniceiras) (sorriso na
vai cariando) e
curando)
a caicol)
o sentimento)
como os novos)
ares) longe na pele
a um) a (minha (sua face de um
mão (pêssego
na (nuca (inclinado
ovo furado sentem o nu (do tato:
polpa (viram
(tremente verna da mente desert seus olhos
e (surpresa o sangue das patas
esse (gomo
(onde só (vermelho
sua (boca ( que eu fui na
Haroldo de Campos
o azul é puro?
o azul é pus

de barriga vazia

o verde é vivo?
o verde é vírus

de barriga vazia

o amarelo é belo?
o amarelo é bile

de barriga vazia

o vermelho é fúcsia?
o vermelho é fúria

de barriga vazia

a poesia é pura?
a poesia é para

de barriga vazia
NASCEMORRE

se
nasce
morre nasce
morre nasce morre
renasce remorre renasce
remorre renasce
remorre
re
re
desnasce
desmorre desnasce
desmorre desnasce desmorre
nascemorrenasce
morrenasce
morre
se
palafitas
suspendem POEMANDALA
o
jejum
estes
mínimos
uma mins
unha
o de estória
olho central o quartzo
crescente teto
rosácea passáro
rosaberta fogos
sol
roxo
o
rouxinol

uguísu
um nítido
risco

sangraberta
a rosácea
o olho
ao sul sus
o centro
o azul penas
cônsul apenas
ruiu penso
VIA CHUANG-TSÉ
1

na

gaiola do lá
entrar

sem que os

passáros-nomes

arrulhem
POEMA QOHELÉTICO 2 : ELOGIO DA
TÉRMITA

os cupins se apoderaram da biblioteca


ouço o seu áfono rumor
o canto zero das térmitas
os homens desertaram a biblioteca
palavras transformadas em papel
os cupins ocupam o lugar dos homens
gulosos de papel peritos em celulose
o orgulho dos homens se abate
madeira
roída

tudo é vão

a lepra dos cupins corrói o papel os


livros
o gorgulho mina o orgulho
assim ficaremos cadáveres
verminosos
Crisantempo, 1988
VARIAÇÕES SOBRE AFORISMO ZEN

1.
se a mente é clara
o quarto escuro
tem um céu azul :
se a mente é escura
o quarto claro
escurece de sol
2.
o olho vê a mão
e não se vê
o tacto é o olho
da mão
o olho táctil
a mão vidente
o tactolhar
da mão-olho
tactilvê-
se Crisantempo, 1988
circuladô de fulô ao deus ao demodará que deus te guie
porque eu não posso guiá eviva quem já me deu circuladô de
fulô e ainda quem falta me dá

soando como um shamisen e feito apenas com um arame


tenso um cabo e uma lata velha num fim de festafeira no
pino do sol a pino mas para outros não existia aquela música
não podia porque não podia popular aquela música se não
canta não é popular se não afina não tintina não tarantina e
no entanto puxada na tripa da miséria na tripa tensa da mais
megera miséria física e doendo doendo como um prego
na palma da mão um ferrugem prego cego na
palma espalma da mão coração exposto como um nervo
tenso retenso um renegro prego cego durando na palma
polpa da mão ao sol

circuladô de fulô ao deus ao demodará que deus te guie


porque eu não posso guiá eviva quem já me deu
circuladô de fulô e ainda quem falta me dá

o povo é o inventalínguas na malícia da maestria no matreiro


da maravilha no visgo do improviso tenteando a travessia
azeitava o eixo do sol

circuladô de fulô ao deus ao demodará que deus te guie


porque eu não posso guiá eviva quem já me deu
circuladô de fulô e ainda quem falta me dá

e não peça que eu te guie não peça despeça que eu te guie


desguie que eu te peça promessa que eu te fie me deixe
me esqueça me largue me desamargue que no fim eu acerto que
no fim eu reverto que no fim eu conserto e para o fim me
reservo e se verá que estou certo e se verá que tem jeito e se

circuladô de
verá que está feito que pelo torto fiz direito que quem faz
cesto faz cento se não guio não lamento pois o mestre que
me ensinou já não dá ensinamento

circuladô de fulô ao deus ao demodará que deus te guie


porque eu não posso guiá eviva quem já me deu
fulô Caetano Veloso
poetas
EUGEN GOMRINGER

SILÊNCIO SILÊNCIO SILÊNCIO SILÊNCIO


SILÊNCIO
SILÊNCIO SILÊNCIO SILÊNCIO SILÊNCIO
SILÊNCIO
SILÊNCIO SILÊNCIO SILÊNCIO
SILÊNCIO
SILÊNCIO SILÊNCIO SILÊNCIO SILÊNCIO
SILÊNCIO
SILÊNCIO SILÊNCIO SILÊNCIO SILÊNCIO
SILÊNCIO
ERTHOS ALBINO DE SOUZA
CÓDIGO 1976

ras gar
gar ras
ras gar
gar ras
ras gar
gar ras
JOSÉ LINO GRUNEVALD
vai e vem nº 3
CÓDIGO 1976

toda regra tem exceção

esta regra tem exceção nem toda regra tem exceção

nem esta regra tem exceção


EDGAR BRAGA
vocábulo 1966
EDGAR BRAGA
alfabegrama
poetas & ideogramas

They who are skilled in fire

shall read tan the dawn

Eles que são hábeis em fogo

devem ser a cor do amanhecer

Ezra Pound, Canto 91

O ideograma Aurora, dialoga


com o texto em inglês como
imagem do nascer do sol.

femme
velha MATSUÓ BASHÔ
lagoa 1686

uma rã furu ike ya


merg ulha kawasu tobikomu
uma rã mizu no oto
águaágua.

(Décio Pignatári)

velha lagoa
o sapo salta
o som da água
(Paulo Leminski)

velho tanque
rã salt’
tomba
rumor de água
sapo
(ideograma chinês)
(Haroldo de Campos)
Ode 274
DA “ANTOLOGIA CLÁSSICA
Mão de Rei Wu DEFINIDA POR CONFÚCIO
não cai, só sua.
Não faz qual sol
luz só de dia.
EZRA POUND
Augusto de Campos
Shang- Ti (no céu)
fez reis Ch’eng e K’ang;
mol dou os réis;
ta lhou -lhes luz.

Gongo, flau ta soam,


tam- tam no tom,
som do bom grão
A idéia do que seria a
se ou ve en tão.
América se os clássicos
tivessem ampla
Quem faz, faz bem. circulação perturba o
Quem não tem fim. meu sono.
Um dom do chão
vem com o grão. Cantico del sole
Lamento do guardião da fronteira
LAMENT OF THE FRONTIER GUARD

Pelo Portão do norte sopra o vento carregado de areia,


Solitário desde a origem do tempo até agora!
Árvores caem, no outono a relva amarelece.
Cathay
Galgo torres e torres EZRA POUND, 1915
para vigiar a terra bárbara: Augusto de Campos
Desolado castelo, o céu, o amplo deserto.
Nenhum muro de pé sobre esta aldeia. By the north gate, the wind blows full of sand,
Ossos alvos com milhares de geadas, Lonely from the beginning of time until now!
Altas pilhas, cobertas de árvores e grama; Trees fall, the grass goes yellow with autumn,
I climb the towers and towers
Quem fez com que isso acontecesse? to watch out the barbarous land:
Quem trouxe a cólera imperial flamante? Desolate castle, the sky, the wide desert.
Quem trouxe o exército com tambores e atabales? There is no wall left to this village.
Bones white with a thousand frosts,
Bárbaros reis. High heaps, covered with trees and grass;
De uma primavera suave a um outono de saque e sangue, Who brought this to pass?
Tumulto de guerreiros dispersos pelo reino, Who was brought the flaming imperial anger?
Trezentos e sessenta mil, Who has brought the army with drums and with kettle-drums?
Barbarous kings.
E tristeza, tristeza como chuva. A gracious spring, turned to blood-ravenous autumn,
Tristeza para ir, tristeza no regresso. A turmoil of wars-men, spread over the middle kingdom,
Desolados, desolados campos, Three hundred and sixty thousand,
E nenhuma criança da campanha sobre eles, And sorrow, sorrow like rain.
Sorrow to go, and sorrow, sorrow returning.
Não mais os homens para a ofensa e a defesa. Desolate, desolate fields,
Ah! Como sabereis de toda tristeza And no children of warfare upon them,
no Portão do Norte, No longer the men for offence and defense.
Ah, how shall you know the dreary sorrow at the North Gate,
Como o nome de Rihaku esquecido With Rihaku's name forgotten
E nós, guardiões, pasto dos tigres? RIHAKU And we guardsmen fed to the tigers
Alan Davis-Drake
(Li Po) Gutemberg Project
ERNEST FENOLLOSA
The moon’s snow falls on the plum tree; Ezra Pound
Haroldo de Campos
A neve da lua cai sobre a ameixeira;

Its boughs are full of bright stars.


Seus galhos estão cheios de estrelas brilhantes.

We can admire the bright turning disc;


Podemos admirar o brilhante disco que gira;

The garden right above there, casts its pearls to our weeds.
O jardim lá de cima, lança suas pérolas sobre as ervas daninhas.
montanha verdeazul além da torre norte

água clara em redor da cidade este

aqui afinal nos separamos:

milhas e milhas através da relva seca

nuvens voláteis: a ânimo de quem viaja

o adeus sol posto a um velho amigo

mãos ondulando na partida

ao ríspido nitrido dos cavalos

Li Po / Haroldo de Campos
o texto chinês esta disposto à maneira
ocidental – esquerda -> direita
17. E do meu coração eu me dei § a saber o saber
e saber da loucura § e da sandice §§
soube §§ também isto § é o vento-que-some

18. Pois § em muito saber § muito sofrer §§§


E onde a ciência cresce § acresce a pena

II
1. Eu disse § para o meu coração §§
vem § vou provar-te no prazer §
e prover-te do melhor §§§
E isto também isto § névoa-nada

III
1. Para tudo § seu momento §§§
E tempo para todo evento § sob o céu

2. Tempo de nascer § e tempo de morrer §§§


Tempo de plantar §§ e tempo § de arrancar a planta

3. Tempo de matar § e tempo de curar §§


Tempo de destruir § e tempo de construir
12. Eu Qohélet O-que-Sabe § eu fui rei §
de Israel § em Jerusalém
4. Tempo de pranto § e tempo de riso §§
13. E do meu coração eu me dei
a indagar e inquirir § com saber §§
do ECLESIASTES
sobre o todo § de tudo o que é feito § sob o céu §§§ QOHÉLET ( O-QUE-SABE)
Haroldo de Campos
o E. E. CUMMINGS
céu 1894 – 1962
era Augusto de Campos
açuc ar lu
minoso
comestível
vivos
cravos tímidos
limões
verdes frios s choc
olate
s.
so b,
uma lo
minha especialidade é viver - era a legenda co
de um homem (que não tinha renda mo
porque não estava à venda) tiva c uspi

olhar à direita - replicaram num segundo ndo


dois bilhões de piolhos púbicos do fundo vi
de um par de calças (morimbundo) o
letas .
MAIAKÓVSKI
1893 - 1930

BORIS SCHNAIDERMAN
AUGUSTO E HAROLDO
DE CAMPOS, 1982

poema-anel Liu bliú (Amo) na tradução


gráfica de Lissitzki, para o livro Dliá Gólossa
(Para Voz), publicado em berlim, 1923
a tarde ardia com cem
sóis

MAIAKÓVSKI
Augusto de Campos
Eu
à poesia
só permito uma forma:
concisão,
precisão das fórmulas
matemáticas.
Às parlengas poéticas estou acostumado,
eu ainda falo versos e não fatos.
Porém
se
eu falo “A”
este “a”
é uma trombeta - alarma para
Humanidade.
Se eu falo
“B”
É uma nova bomba na batalha do homem.

MAIAKÓVSKI
Augusto de Campos
Sei o pulso das palavras a sirene das
palavras
Não as que se aplaudem do alto dos
teatros
Mas as que arrancam os caixões da treva
e os põem a caminhar quadrúpedes de
cedro
Às vezes as regalam inauditas inéditas
Mas a palavra galopa com a cilha tensa
ressoa os séculos e os trens rastejam
para lamber as mãos calosas da poesia
Sei o pulso das palavras Parecem fumaça
Pétalas caídas sob o calcanhar da dança
Mas o homem com lábios alma MAIAKÓVSKI
carcaça
Augusto de Campos
A chuva lúgubre olha de través
Através.
da gra-
de magra
os fios elétricos da idéia férrea –
colchão de penas.
Apenas
as pernas
das estrelas ascendentes
apoiam nele fácilmente os pés.
Mas o destroçar dos faróis,
reis
na coroa do gás
se faz mais doloroso aos
buquêshostisdasprostitutasdotrotoar.
No ar
o troar
do riso-espinho dos motejos –
das venenosas rosas
amarelas se propaga
em zig-zag.
Ag-
rada olhar de
trás do alarde

Vadim Rigin / domai.com


e do medo:
ao escravo
das cruzes
quieto-sofrido-indiferentes,
e ao esquife das casas suspeitas MAIAKÓVSKI
o oriente
deita no mesmo vaso em cinza e brasas. Augusto de
Campos
Ressuscita-me
O Amor Lutando contra as misérias
(Sobre o poema de Do cotidiano
Wladimir Maiakovski) Ressuscita-me por isso
Ressuscita-me
Quero acabar de viver o que me cabe
Minha vida
Para que não mais existam
Talvez quem sabe um dia Amores servis
Por uma alameda do zoológico Ressuscita-me
Ela também chegará Para que ninguém mais tenha
Ela que também amava os animais De sacrificar-se
Entrará sorridente assim como Por uma casa, um buraco
está Ressuscita-me
Na foto sobre a mesa Para que a partir de hoje
Ela é tão bonita A partir de hoje
Ela é tão bonita que na certa A família se transforme
Eles a ressuscitarão E o pai seja pelo menos o Universo
O Século Trinta vencerá E a mãe seja no mínimo a Terra
O coração destroçado já A Terra, a Terra
Pelas mesquinharias
Agora vamos alcançar
Tudo o que não podemos amar na
vida
Com o estrelar das noites
inumeráveis
Ressuscita-me MAIAKÓVSKI
Ainda que mais não seja
Por que sou poeta Caetano Veloso
E ansiava o futuro Gal Costa
e v en to
o ov o d
n t o 1 e á g u a.
fragme fogo. o ovo d e ar. em s e n t a do
o v o d e o o v o d
é . o h o m
e r d e i t ada
o
d e s e da. lh e r d ep e a m u lh
no saco de pé e a mu mem deitado c a r n e
m h o co d e
o home r sentada. o d a n o t r o n
u l h er
l h e st a m
e a mu de osso enco ala de osso. a
e sc a d a a b e n g
a
e m t em um carne i t ad o .
o ho m al a de o vo d e
ab e n g tad o . o
t e m u m v o s e n o
. o o a r
o v o d e p é
a . o o g o.
o t er r e f
. a a l d a r .
5 g u a e nt d e
n t o a á a v tão
e go . u m b o
m r. e
frag o. o fo mulhe apéu om um fogo.
ov . a c h sa c de a .
HANS ARP o em m
u ab l u v a t a gu
o m s t e r a e á
h o ve te um ma g tal d
(1886 - 1966)
o ov ves ste u v e n linas.
tradução: Mônica Costa /
g u a v e m a scu
a á mem este u s ma
Anita Hirschbruch
CORPO EXTRANHO 1982
o e
o h lher v as flor
u
a m excita
isto
STÉPHANE MALLARMÉ

(1842 – 1898)

UM LANCE DE DADOS

tradução Haroldo de Campos, 1974


JAMAIS

MESMO QUANDO LANÇADO EM CIRCUNSTÂNCIAS


ETERNAS

DO FUNDO DE UM NAUFRÁGIO
SEJA
que
o Abismo
branco
estanco
iroso
sob uma inclinação
plane desesperadamente
de asa
a sua

antemão retombada do mal de alçar o vôo


de e cobrindo os escarcéus
cortando cerce os saltos

no mais íntimo resuma

a sombra infusa no profundo por esta vela alternativa

até adaptar
à envergadura

sua hiante profundeza enquanto casco


de uma nau

pensa de um ou de outro bordo


fora de antigos cálculos
O MESTRE onde a manobra com a idade olvidada
exsurto
inferindo outrora ele empunhara o leme
dessa conflagração a seus pés
do horizonte unânime
que se prepara
se agita e mescla
no punho que o estreitava
como se ameaça um destino e os ventos
o único Número que não pode ser um outro
Espírito
para o arrojar
hesita na tempestade
cadáver pelo braço repregar-lhe a divisão e passar altivo
antes apartado do segredo que guarda
de jogar
maníaco encanecido
a partida
em nome das ondas invade a cabeça
uma ecoa barba submissa

naufrágio esse
direto do homem
sem nau
não importa
onde vã
ancestralmente em não abrir a mão
crispada
para além da inútil testa
legado na desaparição
a alguém
ambíguo
o ulterior demônio imemorial
tendo
de regiões nenhumas
induzido
o velho versus esta conjunção suprema com a probabilidade

aquele
sua sobra pueril
afagada e polida e devolta e lavada
suavizada pela vaga e subtraída
aos duros ossos perdidos entre as pranchas
nato
de um embate
as águas pelo ancião tentando ou o ancião contra as águas
Núpcias
cujo
véu de ilusão ressurto ânsia instante
como o fantasma de um gesto
vacilará
JAMAIS ABOLIRÁ
se abaterá
insânia
COMO SE
Uma insinuação simples
ao silêncio enrolada ironia
ou
o mistério
precipitado
uivado

nalgum próximo turbilhão de hilaridade e horror

esvoaça
em torno ao vórtice
sem o juncar
nem fugir

e lhe embalança o indício virgem

COMO SE
pluma solitária perdida

salvo

que a encontre ou eflore um gorro de meia-noite


e imobilize
no veludo enrugado por uma gargalhada sombria

essa brancura rígida


derrisória
em oposição ao céu
muito
para não marcar
exiguamente
quem quer que

príncipe amargo do escolho

dela se coife como de algo heróico


irresistível mas contido
por sua pequena razão viril
relâmpago
riso
que
angustioso
expiatório e púbere
mudo
SE

de vertigem
o lúcido e senhorial penacho
à fronte invisível
cintila ereta
então sombreia
uma estatura frágil tenebrosa
em sua torsão de sereia o tempo
de esbofetear
com impacientes escamas últimas bifurcadas

uma rocha

solar falso
de súbito
evaporado em brumas

que chantava
um marco no infinito
FOSSE O NÚMERO
êxito estelar

EXISTIRIA
diverso da alucinação esparsa da agonia

COMEÇARIA E CESSARIA
surdindo assim negado e ocluso quando aparente
enfim
por alguma profusão expandida em raridade

SERIA
pior CIFRAR-SE-IA
não mais nem menos
evidência da soma por pouco una
indiferentemente mas tanto quanto ILUMINARIA

Cai
O ACASO
a pluma
rítmico suspense do sinistro
sepultar-se
nas espumas primordiais
de onde há pouco sobressaltara seu delírio a um cimo
fenescido
pela neutralidade idêntica do abismo
NADA
da memorável crise
ou se houvesse
cumprido em vista de todo resultado nulo
humano
o evento
TERÁ TIDO LUGAR
uma elevação ordinária verte a ausência

SENÃO O LUGAR
inferior marulho qualquer como para dispersar o ato vazio
abruptamente que senão
por sua mentira
teria fundado
a perdição

nessas paragens
do vago
onde toda realidade se dissolve
EXCETO se funde com o além
à atitude
TALVEZ
afora o interesse
tão longe que um local
quando a ele assinalado
em geral
segundo tal obliqüidade por tal declive
de fogos
versus
deve ser
o Setentrião também Norte

UMA CONSTELAÇÃO

fria de olvido e dessuetude


não tanto
que não enumere
sobre alguma superfície vacante e superior
vigiando o choque sucessivo
duvidando sideralmente
rolando de um cálculo total em formação
brilhando e meditando
antes de se deter
em algum ponto último que o sagre

Todo Pensamento emite um Lance de Dados


RIMBAUD

VOWELS
www.sciam.com
RIMBAUD

A negro, E branco, I rubro, U verde, O azul, vogais,


Ainda desvendarei seus mistérios latentes:
A, velado voar de moscas reluzentes
Que zumbem ao redor dos acres lodaçais;

E, nívea candidez de tendas e areais,


Lanças de gelo, reis brancos, flores trementes;

I, escarro carmim, rubis a rir nos dentes


Da ira ou da ilusão em tristes bacanais;

U, curvas, vibrações verdes dos oceanos,


Paz de verduras, paz dos pastos, paz dos anos
Que as rugas vão urdindo entre brumas e escolhos;

O, supremo Clamor cheio de estranhos versos,


Silêncios assombrados de anjos e universos:
- Ó! Ômega, o sol violeta dos Seus Olhos!

VOGAIS
AUGUSTO DE CAMPOS
RIMBAUD

A noir, E blanc, I rouge, U vert, O bleu:voyelles


Je dirai quelque jour vos naissances latentes:
Qui bombinent autour des puanteurs cruelles,

Golfes d'ombres; E, candeurs de vapeurs et des tentes,


Lances de glaciers fiers, rois blancs, frissons d'ombelles;
I, pourpres, sang craché, rire de lèvres belles
Dans la colère ou les ivresses pénitentes;

U, cycles , vibrements divins des mers virides,


Paix de pâtis semés d'animaus, paix des rides
Que l'alchimie imprime aux grands fronts studiex;
O, suprême Clairon plein de strideurs étranges,
Silences traversés des Mondes et des Anges:
- O! 'oméga , rayon violet des Ses Yeux!

VOYELLES
EDGAR BRAGA
canto das vogais
Referências / agradecimentos

www.ubu.com
www.poesiaconcreta.com.br
The Project Gutenberg, EBook – E Pound Cathay
Revistas: Código; Qorpo Estanho; Poesia em Greve
Musa Paradisíaca, Josely Vianna Baptista
Caetano Veloso, (Você; Circulador; Gal Costa)
Edgar Braga, Desbragada
Haroldo de Campos, (Xadrez de Estrelas, Eclesiastes
Ideograma, lógica, poesia e linguagem)
Décio Pignatári (Toda Poesia; Panteros)
Augusto de Campos (Poesia 1949-1979, Poesia em risco)
www2.uol.com.br/augustodecampos/poesiaconc.htm
Mallarmé
Marjorie Perlof O Movimento Futurista

e desculpas à algumas fontes www não citadas