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A verdade velada

FERNANDA CÂNCIO

http://dn.sapo.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=1481852&seccao=Fernan
da%20C%E2ncio&tag=Opini%E3o%20-%20Em%20Foco

Ouso de véu por mulheres, seja integral (burqa e hiqab) seja parcial (hijab) merece-me o mais vivo
repúdio. A ideia de que as mulheres devem andar tapadas, total ou parcialmente, porque essa é a
única forma de serem respeitadas e respeitáveis - de "estarem seguras" - é para mim uma
afirmação de desigualdade intolerável. Sou contra qualquer imposição do seu uso. Mas os mesmos
motivos que me levam a rejeitar vigorosamente o véu e a sua imposição - os princípios da igualdade
e da liberdade individual - obrigam-me a recusar a sua interdição total.

A Turquia foi, creio, o primeiro país do mundo a decretar uma interdição do véu em quase todo o
espaço público, numa imposição musculada da laicidade. Farol laico da Europa, a França lançou em
2003 o debate com o relatório Stasi, solicitado por Chirac a um conjunto de "sábios" e concretizado
em 2004 numa lei que interdita o véu (como outros sinais exteriores de religiosidade), nas escolas
públicas (para estudantes e professores) e a funcionários de serviços públicos. Em França, a
interdição parou à porta da universidade, onde as alunas são livres de usar véu;na Turquia inclui as
universitárias.

É nesta distinção entre o respeito pela auto-determinação de adultas (desde que não vinculadas a
uma tarefa de representação estatal) e a imposição da regra a todas as mulheres que para mim se
risca a fronteira. É certo que o actual debate em França se prende com o uso de véu integral -
aquele que tapa a cara toda ou mostra apenas os olhos. E que os argumentos utilizados pelos
defensores da interdição, como Sarkozy, incluem o direito fundamental à identidade, cruzando-o
com preocupações de segurança que em alguns casos fazem sentido (num banco, ao descontar um
cheque, é necessário certificar que a fotografia do BI corresponde à portadora). Mas dizer que tapar
o rosto corresponde à negação da existência é equivaler a individualidade e a integridade do Eu ao
reconhecimento dos outros - reconhecimento visual, ainda por cima.

Eu sou de quem? É esta a pergunta radical que a discussão do véu coloca. É, claro, uma pergunta
que só se pode fazer num mundo livre - o mundo em que quero viver e que espero a Europa seja.
Um mundo em que cadaum é radicalmente de si próprio, sendo aquilo que decidir ser (e não aquilo
que o deixam ser), e onde não pode existir um direito colectivo ao seu rosto, como não pode existir
um direito colectivo à respectiva elisão. O rosto, o corpo, a vida é de cada um. E dizer que as
mulheres que usam véu precisam desta interdição para se libertarem é dizer que não lhes
reconhemos a capacidade de serem livres. Mas, a ser assim, tanto faz usarem ou não véu.
Verdade?

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