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O dono da bola

André Macedo
i, 08 de Janeiro de 2010

http://www.ionline.pt/conteudo/40907-o-dono-da-bola

O presidente executivo do BPI, teve um gesto pouco comum. Numa altura de crise
económica profunda, Fernando Ülrich apresentou, ao longo de 33 páginas, um
"contributo para a discussão sobre a sustentabilidade das contas públicas". Não há
grandes e palpitantes novidades no estudo, apenas a conclusão de que o país tem
de mudar de vida ao longo dos próximos dez anos para evitar o descarrilamento
fatal. Cortar na despesa e olhar para as receitas são os eixos do documento.

Talvez para evitar um choque directo com o governo, Ülrich absteve-se - o que é
pena - de fazer recomendações explícitas, embora seja claro que o BPI considera
excessivos os riscos financeiros assumidos pelo Estado nas parcerias público-
privadas e noutras obras públicas. Como se vê, não há nada de particularmente
excitante ou corrosivo no documento, embora não seja habitual o líder de um
banco assumir o risco político de falar sobre assuntos que não afligem directamente
os seus negócios. (Isto apesar de, quase todos os dias, os analistas da maioria dos
bancos falarem sobre o estado da economia através de opiniões avulsas ou de
estudos conduzidos pelas próprias instituições financeiras.) Dito isto, o que Ülrich
fez é positivo, embora também não o converta subitamente na Madre Teresa de
Calcutá. No limite, a preocupação do BPI é egoísta, na medida em que, se o país
capotar, o BPI segue o mesmo triste caminho.

Perante esta circunstância, Sócrates tinha três alternativas: ouvia Ülrich e não dizia
nada, agradecia diplomaticamente a missa ou atirava-se com unhas e dentes ao
presidente executivo do BPI. Como seria de prever, escolheu a última alternativa.
"Aqueles que foram os causadores da crise financeira são os primeiros a queixar-se
das acções do Estado que permitiram a resolução dessa crise. O Estado esteve
disponível e com vontade de não permitir uma catástrofe do sistema financeiro. É
curioso que sejam agora os bancos a queixarem-se", disse o primeiro-ministro.

Já se sabia que Sócrates se achava o dono da bola. Num país onde falta,
demasiadas vezes, a coragem para decidir, esta estilo possessivo já deu frutos e foi
importante. Hoje, no entanto, perante a dimensão da crise, seria conveniente ter
uma atitude mais aberta e inclusiva, menos epidérmica e mais construtiva. As
soluções para o problema podem vir de qualquer lado, mesmo o mais inesperado, e
precisam da colaboração de todos, especialmente dos bancos.

É verdade que, além de apontar os problemas, Ülrich poderia explicitar também a


forma como o BPI pretende ajudar Portugal - o que não só lhe ficava bem como
credibilizava a intervenção. Também é verdade que a simpatia de Ülrich pelo PSD
(e por Cavaco Silva) pode ter ajudado a irritar o primeiro-ministro - alguns
conselhos amigos são, na verdade, abraços de urso. De qualquer modo não era
necessário ir logo à canela. Portugal está no osso, não vale a pena provocar mais
fracturas, o drama já está bem exposto.

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