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O Rio Tejo visto por Pessoa

Leonor Areal
leonor.areal(at)gmail.com

Acção de Formação «Lisboa e o ciclo da água»


Universidade Aberta, Julho 2003
Índice
1. Introdução............................................................................................................ 3
2. Desenvolvimento da temática literária .................................................................. 3
2.1. A questão heteronímica ............................................................................... 3
2.2. O Tejo visto pelos heterónimos.................................................................... 4
Campos, viajante................................................................................................... 4
Caeiro, pastor ........................................................................................................ 5
Pessoa, sonhador ................................................................................................... 6
Soares, devaneador................................................................................................ 8
Reis, neopagão .................................................................................................... 10
3. Proposta pedagógica........................................................................................... 12
3.1. Intertextualidades ...................................................................................... 12
3.2. Integração na área geográfica escolar......................................................... 12
3.3. Actividades pedagógicas............................................................................ 12
3.4. Roteiro de visita......................................................................................... 13
1. Cais e Gare Marítima da Rocha Conde d’Óbidos ....................................... 13
2. Cais do Sodré – Rua do Arsenal................................................................. 14
3. Terreiro do Paço – Café Martinho da Arcada ............................................. 14
4. Rua dos Douradores – Restaurante Pessoa ................................................. 15
5. Ruas da Baixa............................................................................................ 15
6. Largo de S. Carlos ..................................................................................... 15
7. Rua Garrett – A Brasileira ......................................................................... 16
8. Largo de Camões....................................................................................... 16
9. Hospital de S. Luís .................................................................................... 16
4. Bibliografia ........................................................................................................ 16
5. Anexos............................................................................................................... 16

2
O Rio Tejo visto por Pessoa
Leonor Areal

1. Introdução
Este trabalho enquadra-se na temática de “Lisboa e a Água” e procura identificar
a presença do Rio Tejo na obra ortónima e heterónima de Fernando Pessoa, na
perspectiva da sua utilização pedagógica no âmbito disciplinar da literatura portuguesa a
nível do 12º ano.
A primeira parte apresenta e relaciona textos de Pessoa em que encontramos o
rio Tejo, mostrando como se articula através deles a questão heteronímica.
A segunda parte estabelece um roteiro de visita em Lisboa, através do qual será
possível evocar não apenas os textos aqui discutidos, mas ainda outros de cariz extra-
literário ou de outros autores.

2. Desenvolvimento da temática literária

2.1. A questão heteronímica


A obra ‘ficcional’ de Fernando Pessoa, que consiste no conhecido «drama-em-
gente» de que participam alguns dos seus heterónimos e o próprio Fernando Pessoa
enquanto personagem de si próprio, é um dos aspectos mais imediatamente cativantes
da abordagem da sua obra literária, tal como se insere nos programas curriculares do
ensino secundário.
Embora apenas os heterónimos Caeiro, Campos e Reis façam parte do programa
de literatura portuguesa do 12º ano, outros “actores” participam deste romance, como o
próprio Pessoa e Bernardo Soares, seu alter-ego, que ficcionalmente se encontram no
“Restaurante Pessoa”, autenticamente situado na baixa lisboeta.
Todos estes heterónimos, no fundo, debatem entre si perspectivas existenciais
complementares e entrelaçadas. Todos eles de vivência lisboeta - uma vivência mais
poética que objectiva – aludem ao rio Tejo de forma simbólica, mas tão diferenciada
entre eles como as suas diversas posturas, o que torna possível estudar (ou começar a
estudar) a questão heteronímica a partir do seu reflexo nas águas do Tejo.

3
2.2. O Tejo visto pelos heterónimos

1. Campos, viajante

Álvaro de Campos, engenheiro naval deprimido, viajante compulsivo dos mares,


embora tenha nascido em Tavira, é sempre do Tejo que fala. E a ansiedade que o
transporta em cada partida, fá-lo sempre regressar a Lisboa, como sem equívoco
demonstram os seus dois poemas «Lisbon revisited» (1923 e 1926).
No Lisbon Revisited de 1923, ele interpela o “macio Tejo ancestral e mudo,
pequena verdade onde o céu se reflecte”, e este céu azul de Lisboa é “o mesmo da
minha infância”, cheio de “mágoa revisitada” de uma “Lisboa de outrora hoje” onde
projecta essa infância (que já não é algarvia) hoje irrecuperável (“nada me dais, nada me
tirais”). É com “esta eterna verdade vazia e perfeita”, na companhia desta imagem de
um Tejo céu azul, que Campos quer ficar sozinho (“Deixem-me em paz!”), a concluir
este poema que começa com os mais niilistas versos da sua obra (“Não: não quero nada.
Já disse que não quero nada.”) e que podem ser vistos como um dos pólos da sua atitude
heteronímica (sendo o outro: “quero tudo”).
No Lisbon Revisited de 1926, é já o tédio que domina a sua “angústia sem
leme”, quando volta à “cidade da minha infância, pavorosamente perdida...”, onde se
sente já “estrangeiro aqui como em toda a parte”. E nesta “Lisboa e Tejo e tudo” a que
volta e que anaforicamente interpela (“Outra vez te revejo”), já não se encontra a si
(“Mas, ai, a mim não me revejo!”) como virá a acontecer em toda a sua obra da fase
tardia, aqui prenunciada.
Para Campos, a cidade de Lisboa quase se resume a esta expressão “Lisboa e
Tejo e tudo”, onde é o rio que condensa todas as imagens que à cidade ele associa: as da
infância sonhada (da janela do “terceiro-andar das tias”1); e as das partidas sucessivas
da sua vida, que encontramos na Ode Marítima2 onde o futurista-sensacionista Campos
diz: “o marulho do Tejo galga-me por cima dos sentidos”.

1
“Que noite serena!” in Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944.
2
«Toma-me pouco a pouco o delírio das coisas marítimas,
Penetram-me fisicamente o cais e a sua atmosfera,
O marulho do Tejo galga-me por cima dos sentidos,
E começo a sonhar, começo a envolver-me do sonho das águas,
Começam a pegar bem as correias-de-transmissão na minh'alma
E a aceleração do volante sacode-me nitidamente.

Chamam por mim as águas,


Chamam por mim os mares.

4
No poema «Com as malas feitas e tudo a bordo”, toda a metafísica da partida
começa por “uma trémula sensação de futuro”, “enquanto se abre o espaço entre o navio
lento e o cais”, mas cedo se transforma, no curso de uma descrição das ”figuras no cais,
negras figuras, manchadas de lenços que se acenam” e do ”sossego destacado e
acostumado a isto dos empregados e dos carregadores, numa tal “inexplicável angústia
na minha alma, / Que não sei como têm coragem, vendo que eu grito assim, para
estarem parados / No cais, tranquilamente os descarregadores e os guardas fiscais!”.
Mas este é um grito surdo que desencadeia, no sujeito poético, “as lágrimas de todos os
que choram porque se separam”, numa “sensação metafísica de outras pessoas e das
suas realidades, e do seu décor...”, em vez de outros gritos mais audíveis como na Ode
Marítima ou na Ode Triunfal.
E há também, neste universo marítimo, onde mais amiúde surgem os cais3 que as
ondas do alto mar, uma clara evocação de Cesário Verde, o autêntico poeta da cidade de
Lisboa: “Ah o crepúsculo, o cair da noite, o acender das luzes nas grandes cidades”, este
“fundo unânime das ruas (...) ao cair da noite, ó Cesário Verde, ó Mestre, / Ó do
«Sentimento de um Ocidental»!”

2. Caeiro, pastor

É Cesário Verde também o mestre de Alberto Caeiro, por sua vez mestre de
Álvaro de Campos, tal como de Ricardo Reis, numa genealogia de afinidades da qual
participam ainda António Mora, Bernardo Soares, Fernando Pessoa e outros! 4

Chamam por mim, levantando uma voz corpórea, os longes,


As épocas marítimas todas sentidas no passado, a chamar.»
3
“Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!”. «Ode Marítima» in Poesias de Álvaro de Campos. Fernando
Pessoa. Lisboa: Ática, 1944. 1ª publ. in Orpheu, nº2. Lisboa: Abr.-Jun. 1915.
4
Em perfeita tertúlia ficcionada por Pessoa em vários textos e fragmentos. Cf. por exemplo:
«Notas para a recordação de meu Mestre Alberto Caeiro (algumas delas)» de Álvaro de Campos in
Textos de Crítica e de Intervenção. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1980. 1ª publ. in "Presença", nº 30.
Coimbra: Jan.-Fev. 1931.
Ou ainda: «Se a avaliação dos movimentos literários se deve fazer pelo que trazem de novo, não se pode
pôr em dúvida de que o movimento Sensacionista português é o mais importante da actualidade. É tão
pequeno de aderentes quanto grande em beleza e vida. Tem só 3 poetas e tem um precursor inconsciente.
Esboçou-o levemente, sem querer, Cesário Verde. Fundou-o Alberto Caeiro, o mestre glorioso [...].
Tornou-o, logicamente, neoclássico o Dr. Ricardo Reis. Moderniza-o, paroxiza-o - verdade que
descrendo-o [?] e desvirtuando-o -.o estranho e intenso poeta que é Álvaro de Campos. Estes quatro -
estes três nomes são todo o movimento. Mas estes três nomes valem toda uma época literária.» Páginas
Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf
Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966.

5
“Ao entardecer, debruçado da janela,” Caeiro lê, até lhe ”arderem os olhos”, o
Livro de Cesário Verde, de quem “tem pena” porque “ele tinha aquela grande tristeza /
Que nunca disse bem que tinha” e “andava na cidade como quem anda pelos campos...”.
Esta oposição entre o campo e a cidade, que surge em Cesário Verde com uma
melancolia ambivalente, é a mesma que Caeiro estabelece, mas noutra tonalidade
inequívoca, quando fala do rio Tejo em contraponto evidente ao Tejo de Cesário Verde
e de Campos. Porque, segundo Caeiro, o Tejo evoca demasiadas histórias e
significados, faz pensar demais, e é por isso que, sendo “mais belo que o rio que corre
pela minha aldeia”, “não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia / Porque o
Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia”. O rio Tejo surge aqui como elemento de
uma parábola que afirma a singularidade da experiência individual e sensorial e rejeita o
valor simbólico que lhe atribuem “aqueles que vêem em tudo o que lá não está”
(Campos, claro está).
É também esta atitude anti-metafísica, central na sua poesia, que ele afirma
quando noutro poema diz: “De longe vejo passar no rio um navio... / Vai Tejo abaixo
indiferentemente.” “É indiferentemente, por não ter sentido nenhum”.
Retirado algures numa aldeia no Ribatejo (tendo nascido em Lisboa), podemo-
nos perguntar se o rio que, noutro poema, Caeiro avista “de longe” não será afinal o
mesmo “rio que corre pela sua aldeia” e que vai “rio abaixo até à realidade do mar”, ou
seja, Lisboa. Portanto, um outro Tejo que “poucos sabem qual é” e por isso “é mais
livre e maior”. Toda a filosofia de Caeiro pode ser encontrada nestes dois poemas em
que ele refere o Tejo.

3. Pessoa, sonhador

Que Fernando Pessoa criou Caeiro como seu antónimo perfeito, podemos
percebê-lo com o poema ortónimo Abismo:

“Olho e Tejo, e de tal arte


Que me esquece olhando,
E súbito isto me bate
De encontro ao devaneando –
O que é ser rio, e correr?
O que é está-lo eu a ver?”

6
Aqui o Tejo é provocador de devaneios e de perguntas metafísicas, e logo de
seguida, como que ausente de si próprio, Pessoa sente que “tudo é oco”, “tudo – eu e o
mundo em redor – fica mais que exterior”, até que “súbito encontro Deus.” Conclusão
que, no inventor do Neopaganismo Português, soa como um arremedo inesperado...
No primeiro poema da Chuva Oblíqua, surge-nos a imagem de um “porto
sombrio” de que saem os navios que se interseccionam com a imagem sonhada de umas
“árvores ao sol”, qual uma miragem roubada a Caeiro, onde depois “o vulto do cais é a
estrada nítida e calma” e uma “sombra duma nau mais antiga” surge agora num “porto
sonhado” ao “ver esta paisagem”. Aqui as águas transparentes é que revelam “o outro
lado da minha alma”.
O rio como lugar de aparecimento do sonho, ou como sua metáfora ou
prefiguração, surge também “entre o sono e o sonho / Entre mim e o que em mim / é o
quem me suponho”, como espelho e duplo, ou como reflexo de “outras margens, /
Diversas mais além, / Naquelas várias viagens / Que todo o rio tem.”
“Esse rio sem fim”, nostálgico e introspectivo, noutro poema, pede emprestada a
Cesário Verde esta imagem: “No rumor do cais, no bulício do rio, / Na rua a acordar”.
Mas à “palida luz da manhã de Inverno” (a mesma de Chuva Oblíqua?), “o cais e a
razão / Não dão mais esperança” e “o que tem que ser / Será, quer eu queira quer não.”
Mas logo na estrofe seguinte o reverso é válido: “O que tem que não ser / Algures será,
se o pensei”. E assim Pessoa proclama aqui dois dos seus paradigmas temáticos: a dor
de pensar e a realidade do sonho: “Tudo o mais é sonhar.”
E de novo em diálogo intertextual com Campos e Caeiro, Pessoa evoca, numa
“Marinha”, os “Ditosos a quem acena / Um lenço de despedida!” que são felizes por
terem pena, enquanto ele sofre por não sentir pena na vida, com uma dor que “é já de
pensar” em vez de sentir (ao contrário do que aconselharia Caeiro, o mestre que
aparecera dele-mesmo, o criador de Pessoas.5) E numa alusão a Álvaro de Campos, seu
mais aguerrido alter-ego, Pessoa conclui:

5
«E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto
Caeiro. Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre. Foi essa a sensação imediata
que tive. E tanto assim que, escritos que foram esses trinta e tantos poemas, imediatamente peguei noutro
papel e escrevi, a fio, também, os seis poemas que constituem a Chuva Oblíqua, de Fernando Pessoa.
Imediatamente e totalmente... Foi o regresso de Fernando Pessoa Alberto Caeiro a Fernando Pessoa ele
só. Ou, melhor, foi a reacção de Fernando Pessoa contra a sua inexistência como Alberto Caeiro.»
Escritos Íntimos, Cartas e Páginas Autobiográficas. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de
António Quadros.) Lisboa: Publ. Europa-América, 1986. 1ª publ. inc. in Presença, nº 49. Coimbra: Jun.
1937

7
“E sobe, até mim, já farto
De improfícuas agonias,
No cais de onde nunca parto,
A maresia dos dias.”

4. Soares, devaneador

Bernardo Soares é o heterónimo prosador, de curiosas afinidades com Cesário


Verde, a primeira delas a sua vida de empregado de comércio da baixa lisboeta: “De que
me serve citar-me génio se resulto ajudante de guarda-livros? Quando Cesário Verde fez
dizer ao médico que era, não o Sr. Verde empregado de comércio, mas o poeta Cesário
Verde, usou um daqueles verbalismos do orgulho inútil que suam o cheiro da vaidade.”
Há em Bernardo Soares um tédio semelhante ao de Campos, mas diferente por
resultar de um anulamento progressivo e ensimesmado. Uma desilusão a ponto de
náusea: “A vida desgosta-me como um remédio inútil.” Este semi-heterónimo (porque
não suficientemente distinto de Fernando Pessoa, antes uma sua faceta incompleta), ao
contrário de Campos, e tal como Cesário Verde e Fernando Pessoa, é dos que ficam no
cais. Aqui, ele ressente o bulício de que não participa, tal como Pessoa, mas não como
Cesário. E diz:
“Amo, pelas tardes demoradas de Verão, o sossego da parte baixa, e sobretudo
aquele sossego que o contraste acentua na parte que o dia mergulha em mais bulício. A
Rua do Arsenal. A Rua do Arsenal, a Rua da Alfândega, o prolongamento das ruas
tristes que se alastram para leste desde que a da Alfândega cessa, toda a linha separada
dos cais quedos tudo isso me conforta de tristeza, se me insiro, por essas tardes, na
solidão do seu conjunto. Vivo uma era anterior àquela em que vivo; gozo de sentir-me
coevo de Cesário Verde, e tenho em mim, não outros versos como os dele, mas a
substância igual à dos versos que foram dele. Por ali arrasto, até haver noite, uma
sensação de vida parecida com a dessas ruas. De dia elas são cheias de um bulício que
não quer dizer nada; de noite são cheias de uma falta de bulício que não quer dizer nada.
Eu de dia sou nulo, e de noite sou eu.»
E continua: «Mas há mais alguma coisa... Nessas horas lentas e vazias, sobe-me
da alma à mente uma tristeza de todo o ser, a amargura de tudo ser ao mesmo tempo
uma sensação minha e uma coisa externa, que não está em meu poder alterar.»

8
Podemos aqui ver a proximidade entre Soares e o Pessoa ortónimo, nessa
dificuldade em conciliar o real exterior com interior sonhado: “tudo é alheio ao meu
sentir”. Noutro texto do Livro do Desassossego, ele diz. “Em mim o que há de
primordial é o hábito e o jeito de sonhar.” (...) “Toda a realidade me perturba.” (...)
“Porque eu não só sou um sonhador, mas sou um sonhador exclusivamente.” Então,
mais à frente, explica como consegue “observar as coisas e ao mesmo tempo sonhar
assuntos muitos diversos, estar ao mesmo tempo sonhando um poente real sobre o Tejo
real e uma manhã sonhada sobre um Pacífico interior; e as duas coisas intercalam-se
uma na outra, sem se misturar”, num processo perfeitamente similar ao da Chuva
Oblíqua interseccionista, e ainda ao sensacionismo que se lhe seguiu, quando diz: “sou
como alguém que visse passar na rua muita gente e simultaneamente sentisse de dentro
as almas de todos – o que teria que fazer numa unidade de sensação – ao mesmo tempo
que via os vários corpos (...).
Pode gerar perplexidade esta aproximação tão descarada aos pseudo-
movimentos vanguardistas que Pessoa criou, da parte de tão anódino personagem, nada
envolvido no meio literário. Mas é Fernando Pessoa ele-mesmo quem nos relata como
conheceu Bernardo Soares num restaurante da Baixa: “a sua voz era baça e trémula,
como a das criaturas que não esperam nada, porque é perfeitamente inútil esperar.”
“Não sei porquê, passámos a cumprimentar-nos desde esse dia. (...) A certa altura ele
perguntou-me se eu escrevia. Respondi que sim. Falei-lhe da revista Orpheu, que havia
pouco aparecera. Ele elogiou-a, elogiou-a bastante, e eu então pasmei deveras. Permiti-
me observar-lhe que estranhava, porque a arte dos que escrevem em Orpheu soe ser
para poucos. Ele disse-me que talvez fosse dos poucos. De resto, acrescentou, esta arte
não lhe trouxera propriamente novidade (...).”
Assim entra na ficção dos heterónimos esta personagem que, incompleta,
personifica o próprio quotidiano lisboeta, o mesmo de que partilha Fernando Pessoa, o
homem, e que, na sua extrema sensibilidade de estagnação angustiada como que reflecte
as águas lodosas do Tejo: “a maresia da brisa pairou de sobre o Tejo e espalhou-se
sujamente pelos princípios da Baixa. Nauseava frescamente, num torpor frio de mar
morno.” (...) “Havia estagnação no próprio voo das gaivotas; (...) A tarde caía num
desassossego nosso; o ar refrescava intermitentemente.”

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5. Reis, neopagão

A Ricardo Reis, médico exilado no Brasil, epicurista e sensacionista discípulo de


Caeiro, também não interessa o nome ou o local do rio à beira do qual se senta tão
frequentemente na companhia de Lídia ou Cloé. Este rio, que não levanta dúvidas nem
angústias metafísicas, reflecte o curso da vida que passa e não volta atrás, ensinando-o a
aproveitar o momento enquanto dura:

“Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.


Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.”

Para Reis, não vale a pena fazer um gesto, mas apenas deixar a vida correr como
um rio aprazível que não oferece resistência. Só assim se pode evitar o sofrimento, as
angústias e as mágoas:

“Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.


Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassossegos grandes.

Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,


Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.”

Este rio, que vai até ao mar, é como a vida que vai “para um mar muito longe,
para o pé do Fado, / Mais longe que os deuses”, numa imagem que a sua formação
clássica alimenta e a sua opção neopagã sustenta. Este rio é também o rio da morte onde
se leva “o óbolo ao barqueiro sombrio”.
É Ricardo Reis que escreve, no Prefácio aos poemas do mestre: “A obra de
Caeiro representa a reconstrução integral do paganismo, na sua essência absoluta, tal
como nem os gregos nem os romanos, que viveram nele e por isso o não pensaram, o
puderam fazer.”
E Álvaro de Campos corrobora: “O meu mestre Caeiro não era um pagão: era o
paganismo. O Ricardo Reis é um pagão, o António Mora é um pagão, eu sou um pagão;
o próprio Fernando Pessoa seria um pagão, se não fosse um novelo embrulhado para o
lado de dentro. Mas o Ricardo Reis é um pagão por carácter, o António Mora é um
pagão por inteligência, eu sou um pagão por revolta, isto é, por temperamento. Em
Caeiro não havia explicação para o paganismo; havia consubstanciação.”

10
Sabemos que, embora exilado, Reis esteve em Lisboa onde conviveu com os
seus amigos sensacionistas, tal como seu irmão Frederico Reis, crítico literário e
admirador da obra de mestre Caeiro. É Álvaro de Campos que assim relata como
Alberto Caeiro lhe apresentou um dia Ricardo Reis:
“Foi durante a nossa primeira conversa. Como foi não sei, e ele disse: «Está aqui
um rapaz Ricardo Reis que há-de gostar de conhecer: ele é muito diferente de si». E
depois acrescentou, «tudo é diferente de nós, e por isso é que tudo existe».
E, no entanto, Campos e Reis alimentaram várias disputas literárias e filosóficas,
discutindo mesmo as críticas feitas ao mestre. Tudo isto aconteceu à beira do Tejo,
como José Saramago vem a provar n’O Ano da Morte de Ricardo Reis, quando este,
regressado do Brasil após a morte de Fernando Pessoa, deambula pelas ruas de Lisboa e
em encontros fortuitos dialoga com o fantasma de Pessoa:
“Não sei o que é a morte, mas não creio que seja esse o outro lado da vida de
que se fala, a morte, penso eu, limita-se a ser, a morte é, não existe, é, Ser e existir,
então não são idênticos, Não, Meu caro Reis, ser e existir só não são idênticos porque
temos as duas palavras ao nosso dispor, Pelo contrário, é porque não são idênticos que
temos as duas palavras e as usamos. Ali debaixo daquela arcada, disputando, enquanto a
chuva criava minúsculos lagos no terreiro, depois reunia-os em lagos maiores que eram
poças, charcos, ainda não seria desta vez que Ricardo Reis iria até ao cais ver baterem
as ondas, começava a dizer isto mesmo, a lembrar que aqui estivera, e ao olhar para o
lado viu que Fernando Pessoa se afastava (...).”6

6
O Ano da Morte de Ricardo Reis. José Saramago. Lisboa: Caminho, 1984, p. 77

11
3. Proposta pedagógica

3.1. Intertextualidades
Há inúmeros textos de outros autores, coevos ou não de Pessoa, que se articulam
intertextualmente com o universo de Pessoa. Cesário Verde, como vimos, está presente
na obra de todos os heterónimos e assim (para mais, fazendo parte dos programas do
ensino secundário) não poderá deixar de ser incluído numa abordagem, como esta, do
espaço lisboeta ribeirinho. José Saramago, a posteriori, reinventa o universo ficcional
criado por Pessoa, o que também enriquecerá uma abordagem centrada na visão de uma
Lisboa-Tejo-e-tudo.
Outros autores - Almada Negreiros, Mário de Sá-Carneiro, António Tabucchi,
por exemplo – participam do quotidiano de Pessoa ou recriam este pequeno mundo, e
poderão ser convocados para um trabalho pedagógico de integração de referências
literárias.

3.2. Integração na área geográfica escolar


A Escola Secundária de Passos Manuel (onde sou professora) está situada no
centro histórico de Lisboa, muito perto da zona ribeirinha e na precisa área geográfica
em que Fernando Pessoa vivia o seu quotidiano, tão exclusivamente lisboeta, como se
sabe. Estas duas circunstâncias sugerem inevitavelmente várias possibilidades de
exploração didáctica da obra pessoana e dos locais por que Fernando Pessoa andou, real
e imaginariamente. É assim que pretendemos agora direccionar esta pesquisa para uma
proposta pedagógica de intervenção na zona geográfica da escola.

3.3. Actividades pedagógicas


Outras leituras da simbologia dos rios poderiam ser feitas sobre a obra de
Pessoa. Mas, neste caso, a ideia de analisar a diversidade pessoana na óptica do rio
Tejo, provém, apenas, do propósito de querermos preparar uma visita de estudo a esta
zona da cidade e aos locais de vivência real de Fernando Pessoa, que deste modo pode
ser ilustrada pelos textos que reflectem esse ambiente urbano. Além dos textos referidos
na primeira parte deste trabalho, na perspectiva dessa visita de reconhecimento local,
outros documentos extra-literários serão interessantes para explorar aspectos biográficos

12
de Pessoa, como o seu diário de 1913 ou as cartas a Ofélia de 1920 (em anexo). Estes
textos serão mencionados adiante, no roteiro de visita.
No momento da visita, será desejável que o estudo da obra pessoana já tenha
sido iniciado, pelo menos nos seus aspectos gerais, nomeadamente em relação à questão
heteronímica e também à época vanguardista de Orpheu. De resto, creio que este
percurso poderá constituir-se como um estímulo para um estudo de aprofundamento das
diferenças heteronímicas e do ambiente artístico contemporâneo.
Imagino ainda que cada ponto do percurso de visita poderá ser tratado por um
grupo de alunos que, previamente preparados, poderão intervir no local, por exemplo,
apresentando ou lendo os textos relacionados, e ainda recolhendo impressões pessoais
ou registando em fotografia (com uma câmara digital, por hipótese, que o professor se
encarregará de permitir aos alunos usar) aspectos particulares que poderão integrar
depois nos seus trabalhos escritos.
Situando-se a escola no ‘epicentro’ desta área lisboeta, outras possibilidades se
abrem, no reconhecimento local, que não a visita de estudo, adequada, necessariamente,
a turmas vindas de mais longe. É que os alunos da minha escola percorrem diariamente
as mesmas ruas de Pessoa e facilmente poderão explorar inúmeros outros locais de
referência pessoana, incluindo a Casa Fernando Pessoa (onde ele morou nos últimos 15
anos), em Campo de Ourique, não integrada neste roteiro por exigir um visita exclusiva.

3.4. Roteiro de visita

1. Cais e Gare Marítima da Rocha Conde d’Óbidos

Neste local, enquadram-se, obviamente, os textos de Álvaro de Campos, viajante


inveterado. Os navios, as partidas, os guindastes ainda existem, no que já é o último
reduto, na margem norte do Tejo, da actividade portuária descrita na Ode Marítima (e
com evocação das caravelas de outro tempo) e da Lisboa de Cesário Verde.
Dentro da gare, os painéis de Almada Negreiros descrevem as mesmas partidas e
as fainas piscatórias, essas já quase inexistentes nesta margem do Tejo. Aqui pode ser
ocasião, também, para lembrar a afinidade estreita entre Campos-futurista e Almada-
futurista, e ambos seus “Ultimatum” surgidos na revista Portugal Futurista (1917), tal
como a Ode Triunfal de Campos (Orpheu, nº 1, 1915).
Daqui podemos apanhar o eléctrico até ao Cais do Sodré.

13
2. Cais do Sodré – Rua do Arsenal

Dificilmente, em Lisboa, encontraremos um lugar sossegado apropriado para


evocar Alberto Caeiro. Mas talvez aqui, debaixo das altas copas das árvores do pequeno
jardim, ou em descanso contemplativo no molhe que avança adentro do rio, possamos
lembrar o Tejo de que fala Caeiro dizendo que não é o seu, e olhando de perto as suas
águas, abstrairmo-nos do que dele sabemos para o olharmos como apenas o rio correndo
que simplesmente é.
Pegando num dos poemas do ciclo “o pastor amoroso” de Caeiro, quando ele se
apaixona, podemos até imaginar a paixão terna que Fernando Pessoa tinha por Ofélia e
ler extractos de cartas (como aquelas que vão em anexo) em que, dada a greve dos
eléctricos, Fernando aconselha a sua namorada a apanhar o comboio no Cais do Sodré
para ir até Belém, onde trabalhava. Como ele aí explica, era aqui que costumava todos
os dias vir comprar jornais ingleses, o que demonstra a sua ligação à cultura anglófona
(em que fora educado na África do Sul) e à língua inglesa em que escrevia muitos
poemas, sob o heterónimo de Alexander Search.
Aqui se situa o Hotel Bragança (início da Rua do Alecrim) onde Ricardo Reis se
aloja, ao regressar do Brasil após a morte de Pessoa (segundo José Saramago), o que
naturalmente poderá ser evocado através de pequenos excertos deste romance, e
explicado também o desafio ficcional que é uma resposta ao jogo heteronímico
pessoano.
Prossigamos depois, até ao Terreiro do Paço, pela Rua do Arsenal, que ainda
conserva um interessante comércio alimentar e ferramental, herança de um certo
movimento ribeirinho já em extinção.

3. Terreiro do Paço – Café Martinho da Arcada

A visita ao café Martinho da Arcada, cujo interior está bastante preservado,


permite-nos ainda imaginar a presença de Pessoa, escrevendo os seus poemas em papéis
soltos. Com uma autorização prévia, será com certeza possível fazer aqui um pequeno
descanso (ou até almoçar no local), onde se poderá falar da poesia ortónima sobre o rio
Tejo.
Pequenos fragmentos do seu diário de 1913 poderão ser lidos aqui e noutros
locais do percurso a seguir na Baixa, com os quais se relacionem, na tentativa de
imaginar, em contexto, momentos desse seu quotidiano à época muito agitado e social.

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E um fragmento de O Ano da Morte de Ricardo Reis, que conta o encontro deste
com o fantasma de Pessoa, pode até ser dramatizado...

4. Rua dos Douradores – Restaurante Pessoa

Aqui fica o Restaurante Pessoa, cujo nome é prévio aos encontros ficcionais
entre Fernando Pessoa em pessoa e Bernardo Soares semi-pessoa, num jogo auto-
referencial delirante. Vale a pena entrar e evocar pela leitura o encontro dos dois7.
Também nesta rua ficaria o quarto onde Bernardo Soares vivia e sonhava8 e o
escritório onde trabalhava, e que podemos tentar situar num dos muitos que ainda aqui
há. Talvez encontremos um suficientemente vetusto, onde a leitura de Trechos do Livro
do Desassossego seja capaz de nos restituir o espírito do lugar.

5. Ruas da Baixa

Foram muitos os escritórios para que Fernando Pessoa trabalhou como


correspondente comercial, traduzindo cartas, e ainda algumas firmas que criou, além da
editora Olisipo por si fundada e outras publicações que dirigia ou em que colaborava.
Quase todos estes escritórios se situavam na baixa pombalina e podem ser facilmente
identificados no livro “A Lisboa de Fernando Pessoa” de Marina Tavares Dias (Ibis
ed.,1991) e estabelecer-se um percurso que passe por alguns deles, e que poderão ser
assinaladas a partir de extractos do diário de 1913, ou da diversa epistolografia
pessoana.

6. Largo de S. Carlos

Subindo o Chiado, é indispensável ir ao Largo de S. Carlos, para olhar a casa


onde FP nasceu em 1988 e recordar brevemente a história da sua pequena infância, com
a morte do pai (crítico de ópera) e do irmão bebé, a mudança para a Rua de São Marçal

7
Prefácio a Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Vol.I. Fernando Pessoa. (Recolha e transcrição
dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Prefácio e Organização de Jacinto do Prado
Coelho.) Lisboa: Ática, 1982.
8
«Vejo-me célebre? Mas vejo-me célebre como guarda-livros. Sinto-me alçado aos tronos do ser
conhecido? Mas o caso passa-se no escritório da Rua dos Douradores e os rapazes são um obstáculo.
Ouço-me aplaudido por multidões variegadas? O aplauso chega ao quarto andar onde moro e colide com
a mobília tosca do meu quarto barato, com o que me rodeia, e me amesquinha desde a cozinha [...] ao
sonho.»
Livro do Desassossego por Bernardo Soares.Vol.I. Fernando Pessoa. (Recolha e transcrição dos textos de
Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Prefácio e Organização de Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa:
Ática, 1982.

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(frente à Praça das Flores), o segundo casamento da mãe e a partida para a África do
Sul, que motiva o seu primeiro poema, dedicado à mãe, aos sete anos.

7. Rua Garrett – A Brasileira

De novo voltando à Rua Garrett, poderemos visitar a Brasileira e, junto à estátua


de Pessoa, reler excertos do diário aí localizados. E confrontá-los com extractos d’O
Ano da Morte de Ricardo Reis.

8. Largo de Camões

No Largo de Camões ficava a casa da irmã de Ofélia, onde Pessoa passava para
poder sorrir à sua namorada à janela, como ele conta em várias cartas.

9. Hospital de S. Luís

Entremos no Bairro Alto para concluirmos o nosso percurso no Hospital de São


Luís, onde Pessoa morreu em 1935, no mesmo quarto onde virá a morrer Almada
Negreiros em 1970, e onde António Tabucchi ficciona o encontro dos heterónimos junto
ao leito de morte de Pessoa.
No pequeno jardim sossegado do hospital, poderemos, finalmente, reflectir sobre
a visão que Ricardo Reis tem do rio enquanto metáfora da vida e da morte. E falar do
“neopaganismo português” como doutrina unificadora das atitudes estéticas dos vários
heterónimos, aos quais não convém esquecer de juntar António Mora, o heterónimo
filósofo.

4. Bibliografia
MultiPessoa – Labirinto Hipermedia (ou Fernando Pessoa Multimedia). CD-ROM,
Leonor Areal (org.). Cacém: Texto Editora, 1997
Portugal Futurista. Lisboa: Contexto ed., 1982 (edição facsimilada do original de 1917)
O Ano da Morte de Ricardo Reis. José Saramago. Lisboa: Caminho, 1984
A Lisboa de Fernando Pessoa. Marina Tavares Dias. Lisboa: Ibis ed.,1991
Os últimos três dias de Fernando Pessoa. António Tabucchi. Lisboa: Quetzal ed., 1995

5. Anexos

Textos pessoanos: disponíveis em arquivopessoa.net

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