A CRIANÇA NA PERSPECTIVA DO ABUSADOR SEXUAL

Andreína da Silva Moura

Dissertação de Mestrado

Porto Alegre/RS, 2007

A CRIANÇA NA PERSPECTIVA DO ABUSADOR SEXUAL

Andreína da Silva Moura

Dissertação apresentada como requisito parcial
para obtenção do Grau de Mestre em Psicologia
Sob Orientação da
Profª. Dr.ª. Silvia Helena Koller

Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Instituto de Psicologia
Programa de Pós-Graduação em Psicologia
Março, 2007

Dedico este trabalho, a todas as
famílias

que

sofrem

com

as

situações de abuso sexual.. a todos
as crianças, mães,

pais.. enfim

todos

sofrem

aqueles

que

ou

sofreram com esta experiência em
algum

momento

de

suas

vida.

carinhosamente. Minha amiga brilhante. claro. João Felipe. Amo. amo vocês! E tenho muitas saudades de nossa convivência diária. não está mais entre nós. muita mesmo) esteve me acompanhando nessa caminhada que começou em São Paulo no ano de 2002. Kátya. pois é assim que os conheço. Família. quando eu chorei ao ver uma palestra com os integrantes do CEP-RUA. não vou usar metáforas. a David. Primeiro. meus primeiros e grades amores. Quero agradecer também aos amigos que fiz em terras gaúchas. de verdade. Felipe que foram meus melhores espelhos. os agradecimentos não são só por isso. dou-me conta de que muita gente (mas. por terem me ensinado que na vida as pessoas são bem mais importantes que as coisas. Laali. Isso me conforta e me deixa feliz. Como não sou poeta. Aninha. Obrigada. como seu apelido. Não poderia deixar de agradecer a Normanda. Karin. pois ela que me apresentou ao CEP. ao meu pai (Matos) por ter me dado o conselho certo na hora certa. Carlão. Mas. E claro. Alyson. a Júbis. Agradeço também aos meus tios.. por ter sido um grande homem.AGRADECIMENTOS É madrugada. serei clara. Um agradecimento especial a Sol. agradeço a minha família. tanto nos assuntos acadêmicos quanto nos pessoais. com que divido minha vida em tudo! Te amo! Tu sabes que é irmã que não tive. gurias! . Agradeço a vocês por terem me ensinado a amar. Maíra. Agradeço por ter sido uma companheira de casa tão amável e agradável. Enfim. a minha avó Isabel pela sua doçura e apoio e ao meu irmão (Júnior) pelo carinho e companheirismo. por ter me ensinado a lutar pelo que desejo. a Lara. por me apoiar sempre. Mateus.. Ao pensar nisso. primos e Vó Maria pelo carinho. pois eles são sim meu alicerce. Vou apenas agradecer a todas as pessoas que amo e que contribuíram direta ou indiretamente para que eu concluísse o mestrado. e está é a última parte importante dessa dissertação. Ter tantas pessoas como companheiras denota que tenho ao meu lado muitas pessoas importantes em minha vida. Débora. a todos eles pelo GRANDE amor que sempre me dirigiram. Tenho tantos! Amigos de verdade! Primeiro aos de Natal: A Karlinha. Tita. Rayanne. Cris e Mel por terem sido sempre tão prestativas e tão amáveis mesmo quando éramos ilustres desconhecidas. vocês continuam em mim e continuarão pra sempre. Ao meu avô que. Agradeço a minha mãe. todos vocês! Muitos foram chamados pelos apelidos.. Mesmo estando tão distantes fisicamente. Agradeço aos meus amigos. Walda.. minha força.

A minha querida orientadora Sílvia Koller. A Clarinha pela sua meiguice e por ter me acompanhado em momento difícil a minha vida. Agradeço também as minhas professoras Martha. Ao Jan. Ao amigo William pelas horas de conversa. sempre. ela na graduação. pelas reuniões tão produtivas e prazerosas. a Laíssa por mesmo antes de me conhecer ter me orientado. Te agradeço por tudo: pelas conversas. Vera Ramirez e Renato Flores pelas suas disponibilidades e contribuições tão relevantes ao meu trabalho. pela nossa amizade. pelas nossas brincadeiras. eu no mestrado. pois começamos juntas na UFRGS. apreço.por você sempre. correções e por acreditar em mim. pelas risadas.. Agradeço também as professores da banca: Cleonice Bosa. A Camila. Laíssa e Clarinha. Agradeço a ele também pela lucidez das conversas. pela sua dedicação. pelas tardes de trabalho que passamos juntos. meu companheiro. Obrigada. Agradeço também ao CNPq por ter me proporcionado a oportunidade material de cursar o mestrado. pelos nossos planos. Chefa! Terás para sempre minha admiração.. pelas piadas que me fizeram rir sempre. que sempre esteve ao meu lado. pela paciência. essa cearense tão carinhosa que entrou na minha vida. Um agradecimento especial para o Renato que abriu as portas do Ambulatório de Genética para que eu pudesse realizar a coleta. Marco. Agradeço aos meus queridos sogros (Sérgio e Valquíria Duvoisin) pelo cuidado expresso de tantas maneiras nos últimos meses. por dividir um momento profissional tão delicioso quanto aquele de Cruz Alta.Outros amigos feitos aqui nos pampas: Michele. A Airi pela força que me deu em tantos momentos: Brigada. Renata e Carol. Serei sempre grata a vocês.. pelo empréstimo do computador. Riri! Meus agradecimentos vão também para Ana Paula e Samara.. A Carmem. agradeço ao meu amor eterno Christian Duvoisin. Um agradecimento especial para Juliana. pelas suas orientações. e sempre acreditar . meu amado. Finalmente.. pois afinal eles me iniciaram na vida acadêmica. A Michele. Ao Lucas. Agradeço ao Vicente. Rosangela e Magda. Agradeço a Deus por ter-me feito capaz de levar meus sonhos adiante. A Luísa e Martha por terem me ensinado tanto sobre esse difícil tema que é o abuso sexual contra crianças. por ter sido uma boa amiga nessa fase final. tão querida. pelo seu carinho. ainda me lembro dela chegando com os livros pra me emprestar mesmo antes de eu pedir. amor mesmo! Agradeço a minha equipe de pesquisa: Juliana.

. Te amo. lágrimas de alegria por ter me dado conta que tenho pessoas admiráveis a minha volta! Obrigada.em mim.. Acabo por aqui com tantas lágrimas nos olhos. por todo amor que me tens. meu amor! Sempre! Todas essas palavras não são capazes de expressar o quão feliz e grata sou a você. sempre! Muito obrigada! É preciso fé cega E pé atrás Olho vivo Faro fino E tanto faz (Engenheiros do Havaí) É preciso ainda Mudar de perspectiva Mudar de ângulo Olhar por trás E isso exige que a gente Mude De ponta cabeça E de frente pra trás .

.................................................................................................................. 33 1.......................................3 Instrumentos .............................................................. 139 ANEXO B: Termo de Concordância para o Departamento de Genética ...................................... 51 CAPÍTULO IV CONCLUSÕES..........1 Delineamento ...2 Abuso Sexual contra Crianças: Números............... 144 ............. 41 CAPÍTULO II MÉTODO........SUMÁRIO CAPÍTULO I INTRODUÇÃO.. 49 CAPÍTULO III RESULTADOS E DISCUSSÃO.......2 Participantes ...................... 45 2.............. 142 ANEXO C: Ficha Bio-Sócio-Demográfica ........ 11 1.................................................................................................................... 45 2..........................................................................4 Abusadores Sexuais e sua Visão sobre as Crianças............... 126 ANEXOS ANEXO A: Termo de Consentimento Livre e Esclarecido .............................................................................................. 21 1........................................................................... 45 2............... 49 2.... Conceitos e Definições........................................................................................................................4 Procedimentos. 143 ANEXO D: Entrevista Semi-Estruturada..... 29 1.......................................1 Modos de Perceber a Infância: Analisando as Crenças sobre as Crianças no Contexto Social e a partir da Fala de Adultos ....5 A Bioecologia do Desenvolvimento dos Abusadores Sexuais ......................3 Abusadores Sexuais: Classificações e Características................... 10 1......

LISTA DE TABELAS Tabela 1: Fases do Ciclo Vital dos Participantes 51 Tabela 2: Visão sobre as Crianças 54 Tabela 3: Caracterização das Vítimas 58 7 .

essas respostas foram estereotipadas. acusados de abuso sexual contra pessoas de até 13 anos. em sessão única. Palavras-chave: abusadores sexuais. recrutados no Ambulatório do Departamento de Genética da UFRGS. depreciando suas vítimas infantis. Os resultados indicam relações saudáveis entre participantes e crianças. Estudos indicam que abusadores possuem distorções cognitivas sobre crianças. e uma visão nãodistorcida e positiva sobre crianças. pois eles demonstraram capacidade empática limitada em relação às crianças. de 37 a 73 anos. Realizou-se um estudo exploratório descritivo com 5 homens. de modo a obter sua visão sobre as crianças.Resumo O objetivo deste estudo foi investigar as relações de abusadores sexuais com crianças ao longo de suas vidas. abuso infantil. relações entre participantes e crianças. As entrevistas foram realizadas individualmente. Entretanto. 8 . etc. Reflexões sobre a utilização de autorelatos na pesquisa com abusadores sexuais são discutidas. visão sobre as crianças. Os instrumentos utilizados foram: uma Ficha Bio-sócio-demográfica e uma Entrevista Semi-Estruturada contendo questões sobre visão acerca das crianças.

etc. A bio-social-demographic protocol and a semi-structuralized interview containing questions related to view about children. Researches indicate that abusers have cognitive distortions about children. as the participants demonstrated a limited emphatic capacity related to children. A descriptive exploratory study has been carried out with 5 subjects. Self-report measures used in sexual abusers research are discussed. and a non-distorted and positive view about children. who were recruited at an ambulatory of genetics studies at the university. were applied to participants. those answers were stereotyped. depreciating their child victims. The results indicated healthy relationships between the participants and children. child sexual abuse. However. aged from 37 to 73 years old.Abstract The aim of this research was to analyze child sexual abusers’ view about children. relationship between participants and children. accused of sexual abuse against 13 year old children. perceptions about children. Keywords: Sexual abusers. 9 . through their relationship with them along their life spam.

O próprio desenvolvimento ao longo do ciclo vital faz com que a pessoa. Este é um aspecto fundamental a ser investigado. Polaschek. Silva. Estima-se que a prevalência de abuso sexual na população brasileira seja de 30% (Picazio. 2005). Becker. 2002). e uma das razões para isto é a dificuldade que os pesquisadores têm em acessar e manter vinculados os abusadores durante o processo de coleta de dados. No entanto. presença de vitimização dos próprios abusadores na infância e distorções cognitivas figuram em alguns estudos publicados. que indicariam possíveis problemas futuros. 1998. quando relaciona-se com dados sobre abusadores. sobretudo no âmbito nacional brasileiro. A visão que o abusador possui sobre as crianças está diretamente relacionada à que ele possui sobre ele mesmo (Horley. como vai agir com outras pessoas está sempre relacionado a como se percebe (Horley. que é ainda maior. A maioria dos estudos tem se concentrado nas vítimas. além da focalização deste estudo sobre este aspecto individual dos abusadores. 2000. & Cunningham-Rathner. in Horley. Investigar a visão de abusadores sobre as crianças poderá auxiliar na identificação de aspectos prévios ao abuso. deve também ser reconhecida a possível influência dos aspectos contextuais para ocorrência do abuso. O abuso sexual infantil tem sido considerado um fenômeno que preocupa a saúde pública. Temas como empatia. mantenha e revise sua visão pessoal. O dano psicológico que provoca pode perdurar ao longo da vida das vítimas (La Fond. de modo a obter sua visão sobre as crianças. porque ao longo da vida o ser humano relaciona-se com outras pessoas e nestas relações vai construindo uma visão de si mesmo. 2000). 10 . Entretanto. & Ward 2005). 2000). já que crianças protagonizam os atos de abuso nos quais os perpetradores são importantes coadjuvantes (Abel. há uma importante lacuna em pesquisas sobre as vítimas. Gannon.CAPÍTULO I INTRODUÇÃO O presente estudo teve como objetivo investigar as relações de abusadores sexuais com crianças ao longo de suas vidas. em suas interações apresente. devido à freqüência com que tem sido identificado. No entanto.

através de obras de artes contendo figuras de crianças. descreveu. Ariès relata ainda que os pintores davam a estes quadros de crianças um . Ariès salienta que as crianças da época eram vistas como possuidoras das mesmas capacidades dos adultos.1 Modos de Perceber a Infância: Analisando as Crenças sobre as Crianças no Contexto Social e a partir da Fala de Adultos Ariès (1975/1981). pois eram retratadas como adultos em miniatura. Ariès (1975/1981) conclui que a infância retratada nas obras de artes desta época ainda não representava uma infância comum. É difícil crer que esta ausência se devesse à incompetência ou à falta de habilidade. Até o século XIII. com rostos. em seu livro “História Social da Criança e da Família”. Antes do século XIII. A partir disto. “a arte medieval desconhecia ou não tentava representar a infância.50). p. este fato revela que a vida diária das crianças estava misturada às das pessoas mais velhas. 1995) traz à tona importantes variáveis sociais envolvidas no cuidado e no abuso. Este autor foi um dos primeiros a investigar as concepções de infância no mundo ocidental. sendo retratada com características típicas da fase infantil. crianças começam a ser retratadas em cenas cotidianas. Surgiram figuras de anjos que representavam crianças que eram educadas para ajudar na missa. corpos e vestimentas típicas da fase adulta apenas em tamanho menor.11 1. descreve como as formas de conceber as crianças em uma determinada época ocasionaram também modos diferentes de lidar com elas. crianças não eram concebidas como seres em desenvolvimento. entre os séculos XIV e XV. representando a infância santa e sagrada. Este tipo de figura mantém-se presente até o século XV e. A partir de meados do século XIII. As crianças participavam de todas as atividades. como afirma Finkelhor (in Phelan. Para Ariès (1975/1981). É mais provável que não houvesse lugar para a infância nesse mundo” (Ariès. Tal análise sobre a visão social da criança ao longo da história. mas uma infância pertencente apenas aos santos católicos. então. o Menino Jesus e a Virgem Maria Menina aparecem na arte. que eram na maioria adultos. Ainda não havia separação cronológica entre os períodos da vida. a visão que os ocidentais possuíam sobre as crianças e como esta modificou-se através da história. diferenciando-se deles apenas pelo tamanho e força física. geralmente em grupos de pessoas. Nos séculos XV e XVI. não havendo também divisão entre as funções destinadas a adultos e crianças. inclusive das de trabalho. 1975/1981. a criança começa a obter destaque no mundo das artes.

que Ariès denomina como “paparicação” (p. A introdução das idéias malthusianas de controle da natalidade na sociedade européia começava a modificar a idéia de “desperdício necessário”. poderia ser conservada e sobreviver. Tal “sentimento” diz respeito à consciência sobre uma natureza particular da infância e é definido pela noção de que as crianças eram indivíduos pitorescos. 67). a criança. Um dos alvos deste movimento foi o modo de tratamento das crianças. não provocava importância e atenção devidas. então. pois era um fato costumeiro. que servem para o divertimento dos adultos. Por conseguinte. a partir deste momento. Tal “desperdício” era a idéia de que muitas crianças deveriam ser geradas.12 certo “ar pitoresco”. 69) e. Esta característica era conferida pela representação de crianças como seres “engraçadinhos” e graciosos. pois era livre dos pecados do sexo. como seres que tinham “movimento de alma” (p. Desta forma. Várias influências são apontadas como causa para o “nascimento” deste segundo “sentimento”. A morte precoce de crianças. pois o fato de morrer muito cedo. O gosto por tais cenas coincide com o surgimento do primeiro “sentimento” de infância. Além disso. Outro aspecto que influenciou o pensamento da época sobre as crianças. pode ser considerada uma atitude precoce. Estas passam a ser percebidas. Por conseguinte. não era sentida como algo desolador. Algumas idéias moralistas e o surgimento das escolas para crianças também foram fortes influências para o surgimento de um segundo “sentimento de infância”. mereceriam apreço e consideração dos adultos e da sociedade. a partir do século XVIII. as crianças passam a ser retratadas sozinhas nas obras de artes e é apenas no século seguinte que surge. o que Àries (1975/1981) chama de segundo “sentimento de infância”. a criança passou a ser vista como um ser inocente. Esta concepção denunciava a pouca importância dada à criança. por Ariès como um “sentimento” precoce. dar atenção às crianças. por ocasião da cristianização dos costumes. pois apenas algumas poucas sobreviveriam devido à alta mortalidade infantil da época. que consistia em propagar o catolicismo entre as pessoas leigas não ligadas diretamente ao clero. a maior parte destas crianças precisa de cuidados especiais o que fez com que os adultos prestassem mais atenção às necessidades delas. pois nesta época havia ainda o que ele chamou de “desperdício necessário”. Os preceitos moralistas dos organizadores dos primeiros bancos escolares . por conseguinte. foi a cristianização dos costumes. A “paparicação” foi identificada. A partir do século XVII. mesmo que fosse para fins de diversão dos adultos.

82). quando Ariès não encontra atitudes que mostrem o moderno “sentimento” de infância. contudo. tal abordagem da infância ao longo da história apresenta alguns aspectos que vem sendo contestados. que definem como uma forma de conceber os fenômenos a partir de uma perspectiva do presente. potencialidade e pouca responsabilidade. Este é o germe tanto das idéias atuais sobre a infância quanto da necessidade de oferecer cuidados e educação à criança para que se torne um adulto sadio (Ariès. antes do século XVIII. a criança seria o centro das atenções dos educadores e das famílias. Tais críticos alegam que analisar os “sentimentos de infância”. O valor dado a educação nos dias atuais ainda está associado a questão do desenvolvimento sadio da criança. A partir destes preceitos. para os pais ou pessoas que estavam em contato com a criança. Contudo. que merece ser tratada de uma maneira específica. Segundo Santos (1996). A análise de obras de arte revela que tais modos de perceber refletem-se diretamente em formas de tratamento que são dedicadas à criança. a partir de uma perspectiva do presente impossibilita a percepção de particularidades destes “sentimentos” nas épocas passadas. Esta. tais como nos dias atuais. conseqüentemente. A ênfase nesta revisão busca demonstrar a importância que o estudo de Ariès (1975/1981) dá aos modos de perceber as crianças ao longo da história ocidental e. Alguns autores criticam o presentismo de Ariès (Archad. Ou seja. não sendo tão essencial ajudá-la a se desenvolver nestas novas funções. de como a visão de infância foi se modificando através dos tempos. 1993. não havia a idéia de que os acontecimentos ocorridos em uma determinada fase eram importantes para as posteriores. asseguraria uma adultez também saudável. Pollock. alcança mais e mais importância social e cultural através dos tempos e passa a ser reconhecida como um ser em desenvolvimento. afirma que não havia a idéia de uma ligação entre a mentalidade do adulto e da criança. sendo “a passagem entre os estágios de desenvolvimento concebida como um problema de iniciação e não de formação” (p.13 tinham como alvo aqueles indivíduos que por estarem no início de suas vidas seriam mais propensos a serem educados. as crianças eram vistas a partir de características de vulnerabilidade. indicar como as crianças eram percebidas antes do século XVIII. conclui que há ausência deste “sentimento” ou da consciência da natureza particular da infância. . 1975/1981). Santos. Contudo. Os opositores de Ariès afirmam ainda que ele apenas constata esta ausência. 1996). o importante era iniciá-la em certas atividades. A idéia de que a criança é uma tábua rasa é oriunda dessa época. então. o que por sua vez. 1983. sem. Desta forma. Segundo os críticos.

. Analisar o cuidado com a prole em outras espécies é importante. apesar de ser uma característica recente na história humana. As crianças também são comumente vistas como seres dependentes dos adultos em todos os sentidos (biologicamente. entre os chimpanzés são percebidos pela sucessão da época de acasalamento e de cuidado com a prole que raramente se misturam. Os críticos de Ariès alegam que ele exagerou ao afirmar que o sentimento de infância não existia antes do século XVIII. Além das idéias de cuidados e educação voltadas às crianças apontadas por Ariès (1975/1981). meios de a criança reivindicar os mais variados direitos (Kramer. 1999). há ainda outras características.1989). já é percebida entre várias comunidades animais. contudo. na sociedade ocidental.14 As fases da vida eram vistas como uma repetição de experiências. por exemplo. ainda mais contundente. Enfim. pode-se perceber que a visão atual que se tem acerca da criança se faz a partir de várias “marcas” que a colocam. Há que se comentar ainda que os tratamentos diferenciados com os filhotes (no caso dos humanos. se dedicam ao cuidado integral de seus filhotes. inclusive entre os chimpanzés. 2003). mesmo que estas sejam abusivas. pois estes dependem delas (Duhram.). Phelan (1995). Este tipo de atitude perante as crianças pode ser um facilitador para as situações de abuso. no âmbito social. salientou que há na sociedade ocidental a concepção de que a criança deve ser sempre obediente aos adultos. associadas à fase infantil. Como conseqüência desta crítica há outra. financeiramente e etc. As crianças têm este direito assegurado pela Convenção sobre os Direitos da Criança promovida pela Organização das Nações Unidas (United Nations Organization. pois esse aspecto atesta a ligação humana com os outros animais na cadeia evolutiva. Santos (1996) destaca que a sociedade medieval já conhecia um sentimento de infância. era diferente daquele que se inaugurou na modernidade e que se faz presente nos dias de hoje. os estudos de Ariès foram importantes na medida em que impulsionaram várias outras pesquisas sobre a visão social de crianças ao longo da história ocidental. já que elas dificilmente irão se opor com veemência às decisões tomadas pelos adultos. Estes tratamentos. quando seus filhos nascem. como um indivíduo especial e como alguém que não é capaz de reivindicar os seus próprios direitos pela sua própria voz. que. ao mesmo tempo. com as crianças). e não como uma etapa de preparação para a fase adulta. UNO. Ao conceber a criança desta maneira. não haveria. atestando que as mães. De qualquer forma.

tal termo aparece associado à criança em situação de abandono e marginalidade. o termo “criança” associase freqüentemente ao termo “menor”. segundo Londoño. bem como ditava os modos de tratamento jurídico a algumas crianças e os direitos delas. não havia legislação voltada mais especificamente para crianças e adolescentes no Brasil. Um levantamento no acervo bibliográfico da Faculdade de Direito na Universidade de São Paulo realizado por Londoño (1999) revelou que desde o fim do século XIX. jovem ou adolescente era utilizada para definir os limites etários relativos à emancipação paterna ou às responsabilidades civis e criminais. apenas aos 21 anos sairiam da tutela do pátrio poder. Alguns artigos poderiam definir que menores de 17 anos fossem mandados às prisões. No entanto. apesar de já serem tidos como conscientes sobre seus atos criminais nesta idade. a partir da lei. Tais fatos revelam duas visões muito distintas sobre as crianças no Brasil: as “filhas de família” com seus direitos garantidos e os “menores”. em geral as abandonadas ou infratoras. naquela época. passou a ser dever da lei. sendo que quaisquer determinações legais estavam em outros conjuntos de leis. Uma revisão destes aspectos também auxilia no entendimento da percepção que a sociedade tem das crianças e de como uma criança em desenvolvimento constrói a visão de si mesmo e das demais crianças ao longo de seu ciclo vital. Antes do fim do século XIX. Em 1927. A definição do que é ser criança. Entretanto. era bastante indefinida. Este código tanto definia quem eram os “menores”. que além da sua situação de risco. As diferenças atribuídas às questões de idade demarcavam que em determinados momentos as crianças podiam ser concebidas como adultas. que estes indivíduos possuíam discernimento sobre o ato criminoso. Nestes códigos.15 No Brasil. Até fins da década de vinte do século passado. surge o Código de Menores baseado na Doutrina do Direito do Menor. havia disparidade entre os critérios de idade para definir responsabilidades civis e penais. 1999). além de indicar uma condição jurídica e civil e os direitos que lhe correspondiam. já que era entendido. a palavra menor como sinônimo de criança. Antes desse período “menor” não era comum na literatura jurídica e que a partir da década de 20. eram também vistos como perigos para a sociedade. do século passado. O surgimento desse termo representou o “nascimento” de uma nova categoria para a área jurídica (a figura do menor) e também de uma nova atitude perante algumas crianças. Tal noção de . as crianças que possuíam uma família continuavam a ter seus direitos regidos pelo código civil da época. alguns estudos foram desenvolvidos avaliando concepções por trás das leis direcionadas para crianças (ver Londoño.

estas crianças e adolescentes estavam sob a mesma insígnia da situação irregular. como salienta Londoño (1999). O Estado tinha. 2004). distinguindo os abandonados daqueles que eram “criminosos” (Silva. A criança é compreendida como um ser em desenvolvimento. Para o ECA. o ECA protege todos os direitos de todas as crianças sem distinção de raça. 1995) nas quais a criança é um ser que deve ser educado e controlado e. Além disso. A imagem da criança associada a noções negativas de abandono e marginalidade pode ser um facilitador de abuso de todos os gêneros. é inocente. Mesmo com esta distinção. condição socioeconômica. 1989). 1990) baseado na Doutrina da Proteção Integral. Mesmo com o advento promissor do ECA (Brasil. todas as crianças são vistas como dever do Estado. A contextualização dos modos de ver a criança em indivíduo que possui direitos a serem zelados. balizado pela Doutrina da Situação Irregular. o que acarretaria comportamentos inadequados. sendo também um sujeito de direitos e deveres. da família e da sociedade. Além disso. Em 1979. já que elas não teriam um cuidador responsável que lutasse por seus direitos. Em 1990. com base na Convenção sobre os Direitos da Criança (UNO. gênero. A contextualização dos modos de ver a criança em nível macrossocial suscita um entendimento sobre o que é ser criança . etc. ao mesmo tempo. A visão sobre as crianças na sociedade brasileira tem uma história que certamente afeta o macrossistema social. que tem direção oposta às duas anteriores (Doutrina do Direito do Menor e Doutrina da Situação Irregular). Apenas na década de 80 do século XX. as crenças e as ideologias compartilhadas pelos seus membros. a criança também é vista como um indivíduo que possui direitos a serem zelados. A visão brasileira da criança partilha da visão ocidental. Brasil. Phelan. que devem zelar pelo bem estar destes indivíduos. analisada na obra de Ariès (1975/1981) e outros autores (Kramer. agora. 1999. a tutela destas crianças e esta ameaça potencial exigia repressão. surge o segundo Código de Menores. então. o preconceito e a violência contra as crianças ainda existe. 1990).16 periculosidade associada à figura da criança baseava-se no entendimento que sem a tutela dos pais sua natureza seria descontrolada. foi promulgado o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA. pois não preconiza a repressão ou o tratamento diferenciado entre as crianças. a visão sobre as crianças e os adolescentes no Brasil começou a ser modificada (pelo menos na forma da lei).

neste caso a criança. Por conseguinte. Em estudo com professores. A disciplina tinha como objetivo esclarecer que tais concepções seriam uma construção determinada pelas mudanças sociais e . O trabalho. A adultez apareceu como ponto ótimo do desenvolvimento para estes professores.17 e o modo de lidar com ela. enquanto atividade remunerada e aprendizado de um ofício reveste-se de uma identidade social legítima para as crianças. sobre as representações sociais das fases do desenvolvimento humano revelou uma concepção de infância definida como fase de brincadeiras e dependência (Almeida & Cunha. pois influencia tanto a entrada e a manutenção de crianças no mercado informal de trabalho quanto o tipo de parentagem que elas estão recebendo. A compensação seria uma troca tanto pelos bens materiais quanto pelos cuidados físico-emocionais fornecidos pelos pais. Uma pesquisa realizada por Heilborn (1997) revelou que pais moradores de bairros periféricos do Rio de Janeiro concebiam seus filhos como indivíduos que precisam ajudar nos afazeres domésticos ou com trabalhos remunerados. como uma forma de recompensar seus cuidadores. viam as crianças como incapazes de cuidar de si mesmas e menos capazes cognitivamente. mesmo levando em conta estudos que tem como fonte de dados leis e obras de arte. Em um outro estudo. 2000). A dependência foi explicada como um “elemento estruturante” para a representação que estes adultos possuíam sobre as crianças. especialmente quando é abordada a violação de direitos da criança. Algumas pesquisas que investigaram o modo como as pessoas definem o que é ser criança podem expandir a compreensão sobre a visão social da infância na sociedade. O trabalho doméstico no caso das meninas e o trabalho remunerado no caso dos meninos seria algo permitido e estimulado. que influencia a visão pessoal. A criança vista como um ser lúdico e pueril e o adulto como um ser completo pode gerar uma relação de poder e atitudes de um ser superior dirigidas a quem não tem capacidade de se responsabilizar por si mesmo. Tal visão de que crianças precisam trabalhar para compensar os cuidados que lhe são dados é um fator importante. e as demais fases como incompletas em relação a esta. O estudo foi realizado em dois momentos: antes e depois de uma disciplina sobre as concepções da criança na atualidade. a partir da “dependência”. Gaiva e Paiao (1999) investigaram qual a visão que estudantes do curso de graduação de Enfermagem possuíam sobre as crianças. 2003). Os valores que embasam essa visão de mundo estão na base das escolhas que realizam em suas vidas (Heilborn.

A imagem da criança também foi associada à diversão e às brincadeiras. Os resultados dessa pesquisa sugerem que a concepção da criança na sociedade atual ainda é marcada por elementos da concepção da modernidade (imaturidade. passivas. Em uma pesquisa com pais de escolares. conforme pontuam Rosaldo e Lamphere (1979). As meninas foram tidas. ainda.) e por noções mais novas que compreendem a criança como sujeitos de direitos. as características anteriores continuaram a ser relatadas. etc. Esta idéia aparece no estudo de Bonamigo e Koller (1995). as respostas das enfermeiras realçaram a imaturidade. Entretanto. 1998). 2000). Os autores relatam que. Elas dedicariam boa parte do seu tempo a essa função. nessa segunda etapa. elementos estes que as distanciavam do mundo do trabalho. fortes. então. esportistas e as meninas foram vistas como mais educadas. que merecem um espaço no qual possam ser ouvidos. As funções femininas de cuidado com os filhos e com a casa foram tornando-se secundárias. A partir das funções executadas pelos dois sexos. duros. detectou-se que os meninos foram vistos como mais agressivos. e o conseqüente despreparo da criança para a vida. Essas características foram se . exercendo funções mais passivas e domésticas. foram se consolidando características determinadas a cada um deles. Há. A visão dos pais sobre as características de meninos e meninos foi estereotipada e esse tipo de visão é comum na sociedade. Tais diferenças podem se basear em vários fatores. funções adultas diferenciadas por gênero têm sua origem na infância e em como esta é percebida. A criança seria também um ser frágil que necessitaria da proteção e do cuidado dos adultos. No segundo momento. após o término da disciplina. as participantes destacaram que as crianças são sujeitos de direito. enquanto as masculinas por serem mais dinâmicas foram conservadas. no momento anterior a esta disciplina. 1981). competitivos e independentes (Biaggio. afetuosas. agitados. As diferenças entre meninos e meninas também são importantes para uma compreensão mais abrangente sobre a visão que as pessoas possuem sobre as crianças. que comentam que em qualquer cultura. inclusive no fato de as mulheres serem as responsáveis pelo nascimento e cuidado dos filhos. como dóceis. a idéia de que a mulher por possuir todas essas características seria um ser frágil que necessitaria dos cuidados masculinos (Strey.18 históricas. existem diferenças nas funções delegadas a homens e mulheres. pacientes enquanto os meninos foram vistos como agressivos. calmas e quietas (Souza. Certamente. Seriam também seres “engraçados” e “bonitinhos”. mostrando também que na época as crianças são vistas como sujeitos de direitos. até nas primitivas.

1994). Esses estereótipos são essenciais para a sociedade. dos papéis sexuais. servindo como mediadores de um acordo implícito em um grupo social. os comportamentos sexuais masculinos são mais permitidos. apesar de serem tão importantes. Outras questões são relevantes para um melhor entendimento da visão sobre as crianças. a valorização da virgindade feminina esteja declinando (Taquette. Os estereótipos sexuais podem ser considerados como aplicáveis a todas as idades. pois a infância a adolescência seriam etapas a serem ultrapassadas para que o desenvolvimento pleno (adultez) se estabeleça. Contudo. Além disso. 2005). comportamentos. os estereótipos sexuais são um grupo de características fixas e pré-concebidas sobre como gêneros diferentes devem se comportar e que. 1997). valores que são concebidos como adequados para cada sexo. então. essa premissa se aplica mais aos homens (Giffin. em uma determinada cultura. atuando como padrão fixo do que significa ser homem ou mulher. ditam o que é ou não permitido em seu comportamento. a definição da infância e da adolescência só seria possível pela contraposição às . Essas diferenças na concepção sobre a sexualidade de homens e mulheres se baseiam nas formas patriarcais da organização da sociedade (Narvaz.19 constituindo como os papéis sexuais que seriam o conjunto de normas referentes às atitudes. antes inexistente na sociedade ocidental foram fatores importantes na “invenção” do mais novo período da vida: a adolescência (Salles. Embora. como esta fase de preparo para a vida adulta. A nova concepção da infância e subdivisão das idades do ciclo vital. pois permitem a conservação. Em contraposição. Vinculados aos papéis sexuais estão os estereótipos sexuais. 2005). O homem possuiria uma natureza sexual irrefreável o que faria com que ele tivesse dificuldade em controlar tais impulsos. A adolescência surgiu. nesse caso. tendo como reflexo a diminuição na taxa de adolescentes virgens (Heilborn & Bozon. inclusive às crianças. É comum que esses estereótipos se associem também a questão da sexualidade: a virgindade seria valorizada para as mulheres e os comportamentos sexuais seriam mais permitidos para os homens (Giffin. 1978). em um determinado momento (Graciano. As crianças sendo concebidas como seres completamente distintos e dependentes dos adultos necessitariam de uma fase de preparação para a chegada a adultez. 1994). pos embora haja a noção de que o sexo é algo natural para a espécie humana. A partir dessa separação. 2001). necessitando ser modificado. O que não é permitido nesse grupo de características pode ser visto como anormal. muitas vezes. Salles comenta que a idéia da fase adulta como meta é inerente a idéia de desenvolvimento humano. a castidade feminina ainda é valorizada.

crianças e adolescentes. O acesso a informação pelas crianças adolescentes que faz com que este público entre em contato com conteúdos de violência.38). Se antes o acesso a informações e os comportamentos eram controlados pelos adultos de acordo com a faixa etária de crianças e jovens. Ou seja. sexo e conflitos íntimos. a idéia de que a adolescência seria um momento de crise e de conflitos. e a maior autonomia dada as crianças e adolescentes. Além disso. pois ela não se baseia mais na hierarquia entre as idades. Atualmente. agora não se pode mais afirmar que certos comportamentos são permitidos apenas na infância. entre outros. Uma importante discussão feita por Salles diz respeito às mudanças que têm ocasionado uma certa dificuldade em demarcar os limites entre os ciclos da vida. ausência de problemas. apesar de ainda válidos. questionam esse modelo de socialização. pela perda dos referenciais paternos. Essa fase seria atravessada pela descoberta da sexualidade.20 características do mundo adulto. o processo de ingresso na adultez agora é feito com outros parâmetros distintos daqueles originados na modernidade. questionam também o adultocentrismo (Salles. mas também à adolescência. além de desordenar as idades da vida. pois há uma “uma desconexão nas diferentes dimensões que definem a entrada na vida adulta” (Salles. no qual o adulto possuía autoridade e sabedoria superiores as do público infanto-juvenil. felicidade. Assim. apenas na adolescência ou apenas na adultez. 2005). Hall (in Newcombe. o público infanto-juvenil entra em contato com conteúdos que não são mais de posse exclusiva dos adultos. na ciência psicológica. o que determina uma posição adultocêntrica em relação às outras fases do desenvolvimento. a adolescência seria um período turbulento. Os critérios usados para a entrada na adultez a partir da era moderna se baseavam no modelo clássico de socialização. na atualidade é dado a adolescentes e criança o direito de questionar se o comportamento ditado pelo adulto é o mais adequado. etc. portanto. não seriam mais uma dimensão básica para delimitar os ciclos vitais. Essas modificações na sociedade. Este modelo fundamenta-se na idéia de desigualdade entre adultos. A partir dessas e de outras mudanças. por exemplo. p. tais concepções estão distribuídas pelo senso comum. Assim. A infância não se caracterizaria apenas pela oposição a adultez. ao contrário da infância tida como um momento destinado às brincadeiras. Assim. que as pessoas definam . Tais idéias de crise e estresse da adolescência a muito ultrapassaram os saberes da psicologia. 1999) inaugurou. os critérios cronológicos. a organização das idades da vida torna-se mais complexa. sendo corriqueiro. 2005.

& Weiland. outras podem ser fragilizadoras. devido à subnotificação e à carência de amostras que representem a população de vítimas (Rich. Como afirma Salles (2005): “Há uma correspondência entre a concepção de infância presente em uma sociedade. Por conseguinte. Entretanto. é . Gomby. pode-se notar que a visão de criança na sociedade atual. Nos Estados Unidos. Warkentin. esta dificuldade em ter estatísticas sobre os casos de abuso ocorre também em outros países. Larson. por não respeitarem os limites e as potencialidades que crianças e adolescentes apresentam. a parir da rebeldia e da revolta que naturais dessa época da vida (César. o abuso sexual). A visão sobre as crianças que é gerada tem forte influência sobre os hábitos. Terman. Muitas dessas crenças podem ser adequadas. Finkelhor. por exemplo. as estratégias dos pais para cuidar de seus filhos e a organização do ambiente familiar e escolar” (p. atitudes e crenças das pessoas no cotidiano e sobre a percepção de si mesmas. Após rever os estudos descritos até aqui. 2005). 1998). então. e entre cinco a 10% dos homens norteamericanos já tenham sofrido alguma espécie de abuso sexual. uma vez que revelam cuidados e proteção. Finkelhor (1994) examinou 19 artigos sobre abuso nos quais os números sobre a prevalência variavam de 3 a 62% entre as vítimas do sexo feminino e de 3 a 16% para as do sexo masculino. as trajetórias de desenvolvimento infantil. etc. por exemplo. No Brasil. No entanto. 33). mas também começa a ter outros contornos que impulsionam uma maior autonomia delas. Há. imaturidade. 1997). Os modos de ver as crianças podem ser partilhados entre pessoas de uma dada sociedade. 1. neste caso. estima que até 20% das mulheres.21 os adolescentes. ainda guarda elementos da modernidade (inocência.2 Abuso Sexual contra Crianças: Números. Conceitos e Definições Até 1997. a falta de dados uniformes é obstáculo tanto para a realização de pesquisas que se aproximem da realidade quanto para formulação de políticas nacionais voltadas à resolução deste problema. Quinn e Behrman (1994) relatam que os órgãos oficiais oferecem informações incompletas tanto sobre a incidência (número de casos relatados a cada ano) quanto sobre a prevalência (número de pessoas na população como um todo que já sofreu um determinado agravo de saúde. apenas estimativas para a prevalência dos casos de abuso. e dependem de contextos sociais e culturais.). não havia estatística sistematizada sobre o abuso sexual contra crianças e adolescente no Brasil (Safiotti. Gidcyz. O alcance dos casos de violência tanto física como sexual é difícil de ser estimado. Loh.

em 61. por outros parentes. 1998. hospital e departamento de polícia em 6. 1999): Abuso sexual infantil é todo envolvimento de uma criança em uma atividade sexual na qual não compreende completamente. o uso de crianças em atividades e materiais pornográficos. revelou o predomínio de casos em vítimas do sexo feminino (77%. torna-se incapaz de informar seu consentimento. É qualquer ato que pretende gratificar ou satisfazer as necessidades sexuais de outra pessoa. entre 1998 e 1999. uma análise realizada em 71 processos jurídicos do Ministério Público do Rio Grande do Sul. e. uma atitude contra estas idéias pode influenciar positivamente no desenvolvimento de uma criança (Koller & De Antoni. Para a compreensão do que é considerado abuso sexual será fornecida a definição usada pela Organização Mundial da Saúde (World Health Organization WHO.5% dos casos. . Azevedo. pela própria vítima em 29% dos casos. 2002). & Machado. em 15. Alguns números sobre as situações de abuso em geral são importantes para contextualização do estudo. seguidos pelos padrastos (16) das vítimas. já que não está preparada em termos de seu desenvolvimento.1%.6% dos casos. O abuso sexual infantil é evidenciado pela atividade entre uma criança com um adulto ou entre uma criança com outra criança ou adolescente que pela idade ou nível de desenvolvimento está em uma relação de responsabilidade. tais como. São também aqueles atos que violam leis ou tabus sociais em uma determinada sociedade. Estes dados chamam a atenção sobre a mobilização da sociedade contra a posse e o uso da criança por aqueles que devem ser unicamente os responsáveis por ela. 2005) apontou a maioria das vítimas do sexo feminino (80. 2001). na maioria em crianças de seis a nove anos de idade). Na atualidade. incluindo indução ou coerção de uma criança para engajar-se em qualquer atividade sexual ilegal. Entretanto. por conseguinte.7% dos casos. Pode incluir também práticas com caráter de exploração. por instituições. sendo o pai responsável pela maioria dos abusos (De Lorenzi. A violência sexual foi denunciada pela mãe da vítima em 37. Silva. Koller. Não entendendo a situação. alguém informou que já sabia da situação abusiva e não denunciou. como uso de crianças em prostituição.22 estimado que o abuso sexual contra crianças e adolescentes atinja mais de 30% da população (Picazio. Os pais foram os agressores em 79% dos casos (40).2%). com idades entre cinco e dez anos (36. & Flech. assim como quaisquer outras práticas sexuais ilegais. no período entre 1992 e 1998. confiança ou poder com a criança abusada. a criança.9%). Em Porto Alegre. 2004). Um levantamento realizado no Ambulatório de Maus Tratos de Caxias do Sul/RS. sobre abusos sexuais. escola. Pontalti. por violência sexual (Habigzang.

nem todos atos incestuosos podem ser considerados atos sexuais abusivos. O abuso sexual é considerado grave. mas que certamente todos influenciam na construção da identidade exposta ao risco. exposição à pornografia. não há nele só a violência sexual. Por conseguinte. que são patologias psiquiátricas caracterizadas por fantasias sexuais recorrentes e intensas com pessoas “não-autorizadas”. animais ou objetos. para fins deste estudo serão considerados como abuso atos de exibicionismo. toques. por exemplo) sem necessariamente envolver um adulto e uma criança ou um adolescente que mantenha uma relação de confiança. ou apenas alguns deles podem ser tidos como abuso sexual. Portanto.23 A definição fornecida pela WHO é ampla. mas também abuso físico e emocional. intensidade e duração dos episódios podem ter efeitos psicológicos variados de uma criança para outra. Neste estudo optou-se por esta definição. já que não define que atos específicos (exibicionismo. toques ou intercurso sexual) podem ser considerados como abuso. tal como a exibição sexual na presença de crianças. mesmo aqueles atos tidos como menos graves. havendo graves danos psicológicos para a vítima. pontuando que questões relacionadas à freqüência. Por conseguinte. 1993). Esta amplitude permite que se considere. Nem todo ato de abuso sexual contra criança pode ser considerado incestuoso e nem todo indivíduo que comete tal ato pode ser diagnosticado como pedófilo. embora estas palavras sejam comumente usadas como sinônimos. Koller e De Antoni (2004) chamam a atenção para os efeitos do abuso sobre o desenvolvimento. cuidado ou responsabilidade. como abuso sexual. A definição de abuso sexual contra criança pode ser diferenciada de incesto ou pedofilia. severidade. e toda e qualquer atividade sexual entre um adulto e uma criança. não esclarece se todos estes atos. O indivíduo portador deste tipo de distúrbio experimenta fantasias intensas e excitantes e impulsos sexuais cíclicos envolvendo crianças. A definição. mesmo que não haja intercurso sexual. pois ela não limita que atos específicos possam ser abuso. é levar em conta que mesmo os menos graves podem acarretar uma carga de sofrimento para a criança. A pedofilia é caracterizada como uma patologia sexual inserida no grupo das parafilias. em qualquer de suas nuances. assédio. Qualquer ato sexual entre um adulto e uma criança reconhecido como abuso. O incesto pode ser caracterizado como a união entre parentes com qualquer laço de parentesco podendo tal laço ser de consangüinidade ou adoção (Cohen. o incesto pode ocorrer entre parentes da mesma idade (entre irmãos. Além disso. porque como afirmam Amazarray e Koller (1998). o portador . intercurso sexual.

Para ser classificado como pedófilo. erotizando essa relação (Almeida. Esse conflito ocorreria entre os três e os cinco anos e seria vital para a estruturação da vida psíquica do indivíduo.au). critério esse estabelecido pelo Manual diagnóstico e Estatístico de Trantronos Mentais (American Psychiatric Association.au). pois é nele que se originam o superego. A partir da teoria da precipitação da vítima. embora de forma superficial. pois há percepção de que existe um terceiro (pai). o indivíduo precisa ter pelo menos 16 anos e ter uma diferença de idade em relação à vítima de pelo menos cinco anos. indivíduos portadores desse transtorno podem apresentar apenas os desejos e fantasias com crianças.secasa. demonstra que estas abordagens podem fornecer um panorama das formas como o conhecimento nesta área tem sido produzido. Desta forma. que se ocupam.com. O comportamento sexualmente desviante poderia resultar desta relação erotizada entre pais e filhos. Pessoas podem ter fantasias sexuais envolvendo crianças ou se sentirem excitados por elas. sem. A falha neste conflito ocorre quando os pais da criança não estão suficientemente amadurecidos. entretanto. principalmente. O conflito de Édipo se caracteriza pela saída de uma fase na qual o objeto da criança deixa de ser apenas a mãe. acarretaria sentimentos de inadequação sexual e necessidade de ser sexualmente dominante. e satisfazem desejos dela. principalmente nos aspectos psicopatológicos vinculados ao perpetrador do abuso. em geral. 2003).com. desconsiderando os fatores sociais e culturais. por exemplo. gerando ansiedade de castração. perturbados e perversos em conseqüência desse desenvolvimento psicossexual pobre (www.secasa. tais como o Complexo de Édipo e a inabilidade para ultrapassar esta etapa. chegar a cometer o ato de abuso propriamente dito. Uma breve compilação de diferentes teorias apresentadas neste site. As características atribuídas aos pedófilos dizem respeito tanto às tendências psicológicas quanto aos comportamentos sexuais propriamente ditos entre adultos e crianças. Uma limitação desta teoria é a sua focalização apenas nas dificuldades do desenvolvimento individual.24 de pedofilia pode chegar a manter atividades de caráter sexual com crianças prépúberes (de zero aos nove anos). 1994). que compete com ela pela atenção materna. sem se tornarem abusadores. com origem no . Assim. O papel dos abusadores tem sido explicado por diversas teorias. o que por sua vez. em definir as motivações para tais atos (ver www. os abusadores seriam. algumas situações vivenciadas ainda na infância. bem como outros eventos traumáticos podem explicar o comportamento abusivo. Para teoria psicanalítica. 1997). com a interiorização de normas e valores (Gabel.

datados da segunda metade do século XX. 1998). tais comportamentos produzidos pelas vítimas seriam interpretados como formas de consentimento para o abuso. a vítima pode apresentar gestos. assim. em famílias abusivas sexualmente. As acidentais eram aquelas que eram abusadas apenas uma única vez por um adulto desconhecido. as barreiras intergeracionais foram rompidas em algumas esferas das relações familiares. Baseada nas teorizações da área sistêmica.25 início do século XX. baseados nessa teoria. . e como filhos. A atividade sexual entre adultos e crianças (na maioria das vezes entre uma criança do sexo feminino e um adulto do sexo masculino) é vista como um desejo inconsciente da criança. ocasionando uma inversão de papéis entre pais e filhos. como disfuncional. o foco de análise sobre a situação abusiva centra-se na dinâmica que se estabelece entre os membros do grupo familiar. A responsabilização apenas da vítima é uma forte limitação desta teoria. Esse tipo de teoria é perigosa. abusadores e vítimas agem segundo uma mesma intenção ou objetivo. Apesar de essa teoria não ser usada atualmente. a repetição dos episódios só seria possível mediante o constimento dela (Rogers in Intebi. Portanto. ao procurar cuidados emocionais dos pais. eram aquelas que mantinham uma “relação” duradoura com um adulto conhecido. uma participação da vítima. A manutenção dessa “relação” pressupunha. A família tem sido descrita pela teoria da disfunção da família. embora o que ocorre seja uma situação clara de coação e violência. palavras que incentivam o agressor a cometer o ato abusivo. enquanto as crianças eram vistas como perversas e manipuladores (Intebi). 1998). separavam as vítimas de abuso em dois grupos: as acidentais e as participantes. olhares. pois revela um sintoma de desestruturação pela qual todos os membros são responsáveis. Outros estudos. e consequentemente de padecer de traumas sexuais” (Abrahan in Intebi. Seria um “desejo anormal da criança de obter satisfação sexual. classificavam os abusadores como seres amáveis e inofensivos. pois possuem um intuito masoquista nessas relações sexuais com adultos (Intebi. 1998). As crianças teriam um desejo semelhante aos das mulheres que sofrem violência física por parte de seus parceiros. ou seja. Alguns estudos baseados nessa teoria. as crianças recebem carinhos sexualizados. Essa ambigüidade é gerada quando. no caso de abuso. pois propicia uma visão de igualdade de condições entre elas e os seus abusadores. Com esta inversão. Intebi afirma que ainda em 1984 ainda havia estudos baseados nela. Segundo esta teoria. pois. pois pode ser usado como justificativa para os atos de violência cometidos pelo abusadores. filhos e filhas podem atuar ao mesmo tempo como parceiros de seus progenitores. Já as participantes.

Os autores da teoria sistêmica consideram também que há fatores de personalidade individuais que contribuem para etiologia dos abusos sexuais nas famílias. Pode-se afirmar que a maioria dos estudos sobre abusadores concentra-se neste tipo explicação. pois uma parcela significativa deles tem como objetivo investigar.26 caracterizando. Esse fator seria importante na manutenção do abuso através das gerações de uma mesma família (Furniss. O abusador (geralmente o pai) é tido por essa teoria como alguém que está no mesmo nível de maturidade emocional da criança (Furniss. Contudo. quando na realidade desejam expressar cuidado emocional. posteriormente. sentimentos de inadequação da masculinidade. 1993). tais como: introversão social. pois se considera que o abuso acontece por uma ausência dela no que diz respeito à satisfação de necessidades emocionais de seus filhos. Há. necessidade de exercer graus elevados de dominação e controle nas relações familiares. as vítimas do abuso podem apresentar. além de responsabilizar a vítima pelo acontecimento do ato. 1993). citados como comuns em ocorrências de abuso. outros estudos se dirigem para a análise das variáveis desenvolvimentais (tais como um ambiente violento na infância) que . Esta teoria possui claras limitações. a situação de abuso (Almeida. portanto. por exemplo. um comportamento sexualizado junto aos seus filhos. Além disso. 2003). doenças mentais. Algumas tendências psicológicas do agressor são destacadas. 2003). Na análise desta situação dois pontos são centrais: a identificação do perfil psicológico do agressor e o conhecimento das motivações para o abuso. Disfunções sexuais e comportamentos depressivos da mãe podem desencadear comportamentos abusivos nos quais os filhos tentam satisfazer suas necessidades emocionais. pois não aponta o pai como o principal responsável pelo abuso sexual. tornando-os mais vulneráveis ao abuso. outros fatores importantes tais como tendências criminosas. culpabilizando a mãe e todos os membros da família pelo início e manutenção dos atos de violência sexual contra crianças. alcoolismo e baixo controle interno. a personalidade ou as patologias que estes indivíduos apresentam. A mãe teria um papel central nestes casos. O pai que não é satisfeito pela esposa vai. ainda. então em busca da filha. para satisfazer-se sexualmente. buscando a figura do pai. O foco de teorias psicológicas desloca-se da vítima ou da família para a situação de abuso sexual propriamente dita. O foco de análise recai sobre como estas motivações individuais atreladas a de outros membros da família interagem para criar as situações de abuso (Almeida. Devido a confusão entre carinhos emocionais e gestos sexuais. os motivos pessoais para início das situações abusivas não são os fatores mais importantes para esta teoria.

no qual os homens (potenciais agressores) teriam direitos de explorar mulheres e crianças. entre elas o abuso sexual contra crianças. 2003). o perpetrador precisaria ter motivações para cometer o ato de abuso. Esse tipo de prerrogativa pode dificultar a crença de que o tratamento pode ser realmente eficaz para a vítima.br). quando há a exposição a um evento avassalador que compromete as estratégias de coping e de defesa da pessoa. haveria uma interação de fatores para que o abuso ocorra. Para esta teoria.secasa. Nesta abordagem não são considerados motivos psicológicos sendo citados apenas modelos sociais (ver www.27 podem contribuir para o surgimento de problemas psicológicos associados ao cometimento de atos de abuso sexual contra crianças. sobretudo em um contexto social de desigualdades.com. 1994) analisam a prevalência de abuso de todos os tipos em abusadores sexuais. Um exemplo de teoria psicológica é a cognitivo-comportamental. o abuso sexual ocorre. Finalmente. ele deveria ultrapassar a . realçando que estes se configurariam como traumas que influenciariam o surgimento de estratégias comportamentais disfuncionais. O trauma ocorreria. a prerrogativa fundamental de que a relação desigual entre homens e mulheres seria a variável mais importante para a ocorrência dos atos de abuso passa a ser questionada (Almeida. O trauma tem papel central nessa área. Quando esses eventos são percebidos como incontroláveis. As meninas (por serem do sexo feminino e crianças ao mesmo tempo) seriam as vítimas preferenciais para este tipo de violência (Almeida. As críticas a este modelo surgem a partir do momento em que houve um aumento nas denúncias de abuso sexual contra mulheres. pode estar idéia de que as vítimas de abuso sexual são “danificadas” de maneira irrecuperável (Almeida. 2003). 2003). As teorias feministas ganharam destaque nos 80 e 90 após a constatação de que a maioria das vítimas de abuso sexual era de meninas e que a maioria dos agressores era de homens adultos (Almeida. A teoria cognitivo-comportamental pode ser criticada na medida em que associada ao trauma. Em decorrência disto. Terceiro. Vários estudos (ver Widon & Ames. as terapias derivadas desse pressuposto estariam preocupadas com a resolução desse trauma e dos efeitos negativos gerados no comportamento (Almeida. ele precisaria superar inibições internas para executar o ato. Primeiro. A teoria de quatro pré-circunstâncias baseia-se nas idéias psicológicas e sociológicas de Finkelhor (in Krivacska 1989). o abusador necessitaria transpor as barreiras externas para chegar a abusar. 2003). Segundo. Assim. eles podem ser uma fonte de trauma psíquico. 2003). De acordo com esta teoria.

As inibições externas seriam as estratégias ambientais que impediriam os atos de abuso. Após ultrapassar esses fatores inibitórios. os outros não ocorrerão. Contudo. os abusadores racionalizam essas dificuldades. As inibições internas dizem respeito tanto à conscientização de que o contato sexual com crianças é inadequado quanto a habilidade de controlar tais impulsos sexuais dirigidos a elas. Esta pode ser vista como a principal crítica da teoria das quatro pré-circunstâncias. A presença de outra pessoa que poderia testemunhar o ato e o pouco tempo privativo de um abusador com uma criança figuram como estratégias possíveis na inibição do abuso sexual infantil. Azevedo e Guerra (1989) acrescentam três teorias às já mencionadas. Assim. mas fazer com que os potenciais abusadores os percebam como ameaçadores aos seus intentos contra as crianças. Um aspecto importante da teoria de Finkelhor (in Krivacska) é que esses quatro aspectos ocorrem sequencialmente. vale ressaltar que a resistência da criança não pode ser encarada como uma responsabilização dela. Assim. o abusador precisa vencer as resistências da criança. estimulando-a revelar os atos ou as tentativas de abuso. essas estratégias só são efetivas quando percebidas pelos abusadores como barreiras reais para o cometimento do ato. se o primeiro não está disponível. por fortes laços emocionais entre ela e a família que a deixam segura. Esse modelo pode ser entendido como um continuum no qual de um lado está a motivação para o ato de abuso e do outro os três fatores restantes que representariam as inibições. A motivação se relaciona aos fatores pessoais do abusador envolvidos no início dos atos de abuso. É . Entretanto. não é necessário apenas aumentar os impedimentos externos ao abuso. Contudo. 1989). A teoria psicodinâmica propõe que o comportamento sexual agressivo seja resultado de traços de personalidade patológicos do agressor. Estas resistências podem ser incrementadas. pois ela não explica os fatores primários nos quais se poderia concentrar a prevenção.28 resistência da criança (quarta pré-circunstância). para que o abuso ocorra. cometendo os abusos mesmo quando elas estão presentes. a teoria de Finkelhor é positiva na medida em que fornece uma visão mais contextual sobre o abuso. Assim. por exemplo. Em um número signitificativo de oportunidades. pois esse fator dependerá basicamente de como o entorno se organiza para lhe apoiar. buscando o entendimento do fenômeno do abuso sexual impetrado por adultos contra crianças. A teoria de Finkelhor não explica como ocorre o desenvolvimento das motivações sexuais desviantes do abusador (Krivacska. a motivação deveria ser mais intensa que a combinação das amplitudes dos fatores inibitórios.

Outras teorias. e se isso acontece é por que eles querem”. apesar de haver diversas explicações sobre as causas do abuso sexual. (Azevedo & Guerra. Como pondera Marques (2005). tais como “as mulheres podem resistir ao estupro. & MacKay. revela a escassez de estudos. Além disso. realizados sobre abusadores sexuais. uso de drogas. tais como posição social.bvspsi.217). com consulta ao Index-Psi-Periódicos (www. Bhana. cada situação de abuso é específica e as explicações que servem para um caso podem não ser úteis para outros. Em sua análise.29 necessário. estas sempre esbarrarão em algumas limitações. além de propiciar informações para ações interventivas. 1999). A teoria da aprendizagem social que tem como base o pressuposto de que o comportamento violento é aprendido. Um estudo com adolescentes na África do Sul revelaram que tanto os jovens do sexo masculino quanto os do sexo feminino entrevistados por eles afirmaram que os homens possuem impulsos sexuais incontroláveis e que cabe às mulheres o controle de tais impulsos (Petersen. Já a teoria sócio-psicológica considera a violência contra criança como resultado de uma multiplicidade de fatores. 1980. ocasionando a responsabilização das vítimas e salvando seus algozes das penas legais. “mulheres pedem pelo estupro” (p. já que o tema do abuso é complexo por sua multideterminação com as teorias explicando apenas parte das variáveis envolvidas. 2005). 1989. traços de personalidade. 1.apa.3 Abusadores Sexuais: Classificações e Características Uma revisão de literatura.org. atentar para o fato de que os casos que apresentam perturbações graves somam apenas 10% do total de registros dos casos de abuso sexual. entre outras. . Portanto. problemas neurológicos. provocam o aparecimento de algumas explicações que podem legitimar preconceitos e mitos. Alguns autores têm tentado classificar abusadores em grupos segundo semelhanças psicológicas e comportamentais (Azevedo & Guerra.org/psycinfo/). valores pessoais. portanto. socializado e. em sua tentativa de explicar a situação de abuso sexual. repassado. stress. entretanto. entender os abusadores sexuais e alguns aspectos que os constituem pode ser um esforço válido na direção da compreensão do fenômeno. etc. aponta que muitos casos de estupro nos Estados Unidos são julgados de acordo com tais idéias. Burt (1980) afirma que há algumas crenças quanto ao estupro que são apoiados socialmente. especialmente os brasileiros. Gijseghem.br) e ao PsycInfo (http://www.

um perito canadense e pesquisador com referencial na psicologia jurídica agrupou os abusadores em oito categorias. aproveitando-se de sua vulnerabilidade. A classificação usada por este autor é pouco prática. seu complexo narcísico. Age coagindo. Embora. não buscam atribuir um rótulo ao abusador sexual. ele abusa sexualmente de crianças. baseada fundamentalmente em características internas do abusador (tais como seus conflitos internos. Além disso. Por conseguinte. Classificar abusadores. geralmente como “seres irracionais” desprovidos de qualquer semelhança com outros seres humanos.) Dirigir um olhar de compreensão e empatia ao abusador não significa que se deseja isentá-lo de sua responsabilidade perante o ato de abuso. Gijseghem (1980). pois o abuso torna-se algo comum para ele. portanto. envolve uma questão ética conforme salientam Cohen e Gobetti (2002). que estes indivíduos são seres humanos que portam patologias e precisam de tratamento. 2005.30 Marcet. Possivelmente estes indivíduos colecionam pornografia infantil. É ainda sadomasoquista e coleciona . como reiteram Cohen (1993) e Marques (2005). Um segundo subtipo dos agressores sexuais situacionais é o moralmente indiscriminado. contudo. ou sua vontade de superioridade) sendo de difícil identificação e operacionalização em termos de pesquisa. com base em mais de noventa casos de abuso sexual. procuram fornecer um olhar compreensivo aos abusadores (Furniss. as possibilidades de recidiva e de tratamento. Há quatro subtipos dentro desse primeiro. É oportunista na escolha de suas vítimas. manipulando ou tentando sua vítima. 1993). que rotulam os indivíduos que cometem os atos de abuso. É necessário ter clareza. O primeiro subtipo é denominado regredido. Seu estudo referencial viabilizou a verificação do tipo de comportamento do abusador. Os estudos apresentados a seguir. a partir de algumas características. O primeiro tipo é chamado agressor sexual situacional. Smith & Sounders 1995). Este indivíduo abusa de pessoas em geral. O tema do abuso sexual de adultos contra crianças e adolescentes suscita opiniões indignadas. Ainda relatando as características dos abusadores. ainda seja também escassa a literatura sobre tais classificações. Em um estudo. o critério para escolha das vítimas é a disponibilidade e o método de abordagem das crianças geralmente é coercitivo. Estes indivíduos possuem como característica comum dificuldades para enfrentar desafios e sua motivação para a prática do abuso se dá pela substituição de parceiros sexuais adultos por crianças. Azevedo e Guerra (1999) diferenciam dois tipos de abusador sexual. Ao contrário.

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revistas de detetive. O terceiro subtipo é o sexualmente indiscriminado. Possuem
como característica básica uma ampla experimentação sexual. A motivação para o
abuso sexual infantil é o tédio e ele escolhe vítimas mais jovens e de aparência
diferente. É altamente provável que colecione pornografia de natureza variada.
Além disso, aborda a vítima se relacionando com elas em outras atividades
anteriores (brincadeiras, por exemplo). O inadequado é o quarto subtipo. Tal
indivíduo possui como característica básica demonstrar-se inadequado socialmente.
A insegurança e a curiosidade são os motivos para o abuso sexual infantil. Estes
escolhem vítimas que não pareçam ameaçadoras, abordando-as, explorando as
vantagens (tamanho, por exemplo) que possuem em relação a elas (Azevedo &
Guerra, 1999).
Um segundo tipo de abusador sexual infantil apontado por Azevedo e
Guerra (1999) é o agressor sexual infantil preferencial. Os três subtipos inseridos
nesta classificação compartilham as características de preferência sexual por
crianças e coleção de pornografia infantil. O primeiro subtipo é o sedutor. A
motivação para abusar de crianças é a identificação com as características infantis.
Eles, geralmente, escolhem as vítimas tendo como critério idade e sexo, abordandoas através de um processo de sedução. O segundo subtipo é denominado
introvertido. Eles se relacionam sexualmente com crianças por medo de
comunicação com as pessoas de sua idade. Escolhem crianças jovens e estranhas e
seu modo de operação para o abuso são contatos sexuais não-verbais. O terceiro e
último subtipo é o sádico. Este indivíduo é motivado pela necessidade de infligir
dor às suas vítimas. Operam com as vítimas através de várias tentativas ou força.
Estes indivíduos escolhem suas vítimas por idade e sexo. A caracterização feita por
Azevedo e Guerra é bastante útil para classificar abusadores, segundo suas práticas
abusivas e não de acordo com características de personalidade internas e abstratas.
Contudo, as classificações postas por estas autoras não podem ser vistas como
definitivas, pois corre-se o risco de reduzir as características dos abusadores apenas
a algumas categorias. Outros indivíduos podem agir de maneira distinta das
descritas, entretanto, eles continuarão a ser abusadores pelo fato de terem cometido
violência sexual contra crianças.
Outros estudiosos, apesar de não classificarem os abusadores em grupos,
identificaram uma série de patologias que podem estar associadas aos casos de
abuso. Walsh, MacMillan e Jamieson (2001) investigaram a associação entre
transtornos psiquiátricos de pais e o cometimento de vários tipos de abuso. Esta

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investigação foi conduzida junto a 8548 homens e mulheres que responderam se
haviam vivido algum tipo de abuso durante a infância. Os participantes também
responderam se seus pais sofreram com algum tipo de transtorno mental durante
suas vidas. Apesar de os dados não serem fornecidos pelos pais abusivos, os
resultados apresentados são importantes, porque associam algumas doenças
psiquiátricas a certos tipos de abuso. Foi encontrada uma alta correlação entre
doenças como depressão, mania e esquizofrenia e abuso físico e sexual contra
crianças. Esses três tipos de doenças apresentam índices semelhantes de correlação
com as situações de abuso. Contudo, quando foram identificados comportamentos
anti-sociais houve uma maior correlação com a ocorrência de abusos físicos e
sexuais do que quando foi detectada a presença dos outros tipos de doenças citados.
Portanto, a presença de comportamentos anti-sociais sugere um maior risco para
estes tipos de abuso. Os autores fazem uma ressalva quanto a estes achados, já que
nem em todos os questionários se pôde identificar quem foram os agressores. Ou
seja, não ficou claro neste estudo se foram os pais dos participantes da pesquisa que
cometeram os atos de abuso. A presença de transtorno, desta forma, não significa
que os pais sejam abusivos. Contudo, os sintomas destas patologias podem
acarretar alguns comportamentos negligentes por parte dos pais, o que pode deixar
seus filhos mais vulneráveis à violência de outros adultos.
Corroborando o estudo de Walsh et al. (2001), um estudo realizado com
abusadores incestuosos notou que em um quarto dos participantes havia algum
distúrbio de personalidade, com destaque para o Transtorno de Personalidade AntiSocial (Trepper, Niedner, Mika, & Barret, 1996). Um estudo realizado com pais
incestuosos e mães não-abusivas procurou investigar particularidades entre
abusadores foi o de Smith e Saunders (1995). Os abusadores foram definidos tanto
pelas mães das crianças vítimas quanto pelos pais abusadores de um lado como
dominantes, abusivos e autoritários e por outro lado como dependentes e passivos.
Esta diferença pode ser explicada pela ausência de uniformidade entre as
características dos abusadores evidenciada por vários estudos obtidos na literatura.
Uma parcela significativa de abusadores sofre de patologias que são
classificadas como parafilias (Becker, 1994). As parafilias são patologias
psiquiátricas caracterizadas por fantasias sexuais recorrentes e intensas com pessoas
“não-autorizadas”, animais ou objetos. Para que uma pessoa seja diagnosticada com
parafilia, é necessário também que ele aja segundo as suas fantasias ou que estas
tenham uma natureza intrusiva. No caso dos abusadores, reitera-se que a pedofilia é

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o tipo de parafilia diagnosticada mais comumente. Contudo, outras doenças
psiquiátricas do grupo deste mesmo grupo podem estar presentes.
No estudo realizado com três abusadores sexuais incestuosos, Marques
(2005) notou certas similaridades em seus funcionamentos. Entretanto, destaca que
apesar destas semelhanças não é possível deixar de observar a singularidade com
que cada um dos participantes agia, tanto em termos do abuso sexual como em
outros aspectos de suas vidas. A falta de uniformidade entre classificações de
abusadores pode, em parte, dificultar as pesquisas que busquem algum tipo de
categorização, já que não há um critério único a ser seguido. No Brasil, o perfil do
abusador será considerado o perfil fornecido, com base em 1565 denúncias feitas
entre os anos de 2000 e 2003, pela Associação Brasileira Multiprofissional de
Proteção à Infância e Adolescência (ABRAPIA) disponíveis on-line no ano de 2003
(www.abrapia.org.br). As denúncias foram realizadas através de telefonemas e
revelaram o seguinte perfil: 90% do abusadores são do sexo masculino; 58% estão
na faixa etária que se estende desde os 18 aos 45 anos; e 21% tinham mais de 45
anos, 59% possuíam vínculo biológico ou de responsabilidade com a vítima,
enquanto 41% não possuíam tal vínculo. Dados dos Estados Unidos que
corroboram este perfil. Do total de abusos cometidos naquele país, 96% foi
praticado por homens. Um outro dado importante mostrado no estudo americano é
que em grande parte dos casos as vítimas conhecem seus agressores (La Fond,
2005). Esta informação também está de acordo com o perfil traçado pela
ABRAPIA, já que na medida em que um pouco mais da metade dos agressores tem
vínculo com a vítima, está claro que no Brasil parte expressiva destas vítimas
também conhece seus agressores.
Considerando este perfil do abusador sexual no Brasil, na próxima seção
serão descritos alguns estudos que versam sobre a visão que eles possuem sobre
crianças. Serão apresentadas também algumas teorias que tentam explicar o modo
como os abusadores vêem as crianças.
1.4 Abusadores Sexuais e sua Visão sobre as Crianças
As cognições sobre o abuso tem sido um tema de interesse entre os
pesquisadores que se concentram em estudar os abusadores. Uma coletânea de
estudos apresentada a seguir tangenciam tais cognições e a visão de infância,
permitindo algumas inferências sobre características e crenças que abusadores
possuem sobre as crianças. Ward e Keenan (1999) afirmam que investigar como os

Beech. as crianças só teriam benefícios em ter contato sexual com adultos. que considera que as distorções cognitivas dos abusadores são erros consistentes no pensamento que ocorrem automaticamente (Beck. este contato sexual apenas despertaria impulsos que já existiam antes do momento do abuso. Três modelos predominantes têm sido empregados para descrever o papel das cognições em abusadores sexuais (Murphy. Becker.. Por exemplo. 2000). (2000). estas distorções não são causas dos atos de abuso. Por conseguinte. O segundo tipo de teoria diz respeito àquelas crenças intermediárias que categorizam os elementos em geral. Estupinan. Beckett e Fisher (2000) discutem que a percepção sobre características físicas e sobre tipo de relacionamento que o abusador pensa ter com a criança influenciam diretamente para a prática abusiva contra a criança. Hollin. in Geer et al. Swaffer. & Cunningham-Rathner. O terceiro e último modelo é proveniente da literatura criminal. Segundo este modelo. 2000). segundo os abusadores. 1986). 1997). Neste nível estão inclusas as teorias implícitas sobre uma vítima em especial. Os resultados de outro estudo demonstram que abusadores justificam o abuso informando que as crianças querem o contato sexual tanto quanto eles. Um segundo modelo sobre as distorções cognitivas é derivada da abordagem feminista. Em acordo com o estudo de Swaffer et al. pois. a investigação de Ward e Keenan (1999) revelou que os abusadores percebem as crianças como seres sexuais e que. aceitando o “mito do estupro” e atitudes relacionadas ao papel dos estereótipos (Malamuth. & MangunoMire. se ele acredita que pode manipulá-la para conseguir o que deseja. mas uma justificativa construída após os atos abusivos. elas não resistem e não contam a outros adultos. como por exemplo. A primeira delas abrange as crenças sobre as pessoas e o mundo em geral. Por último. in Geer. na medida . tal crença será importante para a prática do abuso. Descreve vários tipos de atitudes direcionadas às mulheres. os significados atribuídos às crianças. O primeiro modelo deriva-se da literatura clínica (Abel. Os abusadores parecem organizar três tipos de teorias implícitas sobre o abuso. afirmam que os abusadores percebem as crianças como seres sexuais. O terceiro e último tipo de teoria implícita está ligado àquelas crenças que o abusador possui sobre objetos ou pessoas específicos.34 abusadores pensam e percebem o mundo a sua volta é determinante para compreender o modo como eles agem. portanto. que propõe que os padrões de percepções e pensamentos distorcidos são causas para a agressão sexual e para outros domínios de comportamento. Citando mais especificamente estudos que mostram como abusadores vêem as crianças.

2005). no entanto. em situações hipotéticas de abuso. pode-se definir a empatia como a resposta emocional que origina-se da percepção do estado ou condição emocional de outrem e que é congruente com esse estado ou condição. Tais estratégias se baseiam na premissa da pouca responsabilidade do abusador e da culpabilização da criança. Então. segundo as autoras. perceber a situação como semelhante a uma já ocorrida . que empatia é uma resposta afetiva que resulta de compartilhar a percepção emocional de outra pessoa.). Os agressores sexuais percebem que as crianças cooperam durante o episódio de abuso e que são elas próprias que. revelou que 21 deles acreditavam que suas filhas gostaram da experiência do abuso.35 em que elas fazem perguntas sobre sexo (Gannon et al. Em estudo com 40 pais biológicos e adotivos que abusaram de suas filhas. Considera-se de acordo com a perspectiva de Eisenberg e Strayer (1990). 2002). pois não demonstraram nenhum sinal de oposição aos atos de abuso (Phelan. alegar que a relação entre ele a vítima era de natureza afetiva e não abusiva. A responsabilização pelo ato de abuso foi discutida por Waterman e Foss-Goodman (in Almeida. Tal reação afetiva pode ocorrer como resposta a dicas concretas do estado emocional alheio (tais como as expressões faciais). muitas vezes. significa “sentir com” o outro. Abusadores usam várias estratégias para justificar seus comportamentos abusivos. 1995). iniciam o contato. a relação é tida como menos abusiva. pode não levar a pessoa a sentir o mesmo incômodo emocional de outrem. Pode-se simplesmente. pois muitas vezes.. ou como conseqüência do reconhecimento de pistas indiretas desses estados emocionais (perceber a natureza da situação problemática pela qual o outro está sofrendo). fora. 2003). entre outras (Lawson. as adolescentes são mais culpabilizadas e aos abusadores é arrogada uma menor responsabilidade. 2003). Estes abusadores viam as crianças como menos ameaçadoras socialmente (Gannon et al. Estes autores afirmam que as atribuições de culpa. por exemplo. A empatia. Entre essas estratégias estão: afirmar que a vítima consentiu ou provocou o abuso. ou as que utilizam a divisão de responsabilidade entre abusador e criança parecem funcionar a favor do perpetrador. ou seja. A empatia parece ser uma questão-chave neste achado. Assim. não há necessariamente a tomada de perspectiva do ponto de vista do outro. As estratégias que depreciam as crianças. a vítima é desacreditada pela própria família (Morales & Scharamm. influenciados diretamente pela idade da vítima. acusar a vítima de contar mentiras. distorcendo assim os papéis de ambos. de modo que se fosse uma adolescente envolvida na acusação.

A angústia pessoal se diferenciaria da empatia por essa última não estar associada nem a uma resposta egoísta nem a uma orientada para a outra pessoa. Contudo. não demonstrando empatia. podem experienciar um estado aversivo de ansiedade e preocupação que não é congruente com o estado do outro. como uma variável que é influenciada pela idade e pelo nível de desenvolvimento. pois a primeira claramente seria uma resposta orientada para o alívio do sofrimento do outro. então. e aí reconhecer que aquele tipo de situação pode causar sofrimento. sem ter consciência de que esse estado não tem como fonte ela própria. A empatia em si se configuraria apenas quando já um grau mínimo de diferenciação eu-outro que permita que a pessoa reconheça que os estados emocionais não são originados da sua própria situação. Já a simpatia de diferenciaria da angústia pessoal. ainda não há tal diferenciação. por perceber seu sofrimento. A simpatia seria um estado posterior a empatia. 1990) afirma que experimentar angústia pessoal frente ao sofrimento do outro pode orientar as pessoas a desejarem o alívio de seu próprio estado aversivo. enquanto a segunda seria egoísta e auto-orientada. nesses estágios do desenvolvimento. pois ela define o estado no qual uma pessoa se preocupa em aliviar o sofrimento do outro. segundo as autoras a simpatia (assim como a empatia). as atoras adotam a empatia. Os homens entrevistados por Phelan (1995). De acordo com Eisenberg e Strayer (1990). ainda não haveria empatia propriamente dita. e que as crianças podem sentir afetos gerados pelo reconhecimento irrefletido dos estados emocionais dos outros. Eseinberg e Strayer comentam ainda que a angústia pessoal pode ser um estado precursor da empatia nas etapas mais precoces. Os construtos “simpatia” e “angústia pessoal” devem ser diferenciados entre si. algumas pessoas quando percebem o sofrimento do outro. Batson (citado por Eisenberg & Strayer. Claramente. Alguns .36 antes. mas que ela pode ocorrer mesmo em estágios mais avançados do desenvolvimento. existindo apenas um estado precursor da empatia. Assim. Eisenberg e Strayer (1990) afirmam que em estágios mais precoces do desenvolvimento. e o que é mais importante. Um deles se relaciona ao grau de diferenciação eu-outro. pode levar a reações ou preocupações auto-orientadas e egoístas. tais como tomada de perspectiva através do ponto de vista do outro. Alguns pontos importantes precisam ser clarificados para que se compreenda a conceituação de empatia. foram incapazes de perceber que a situação de abuso se constituía como prejudicial para suas filhas. sem estar portanto associada aos sentimentos empáticos. podem ser fruto de processos cognitivos.

por possuir um perfil específico. 42% responderam que procuravam por crianças bonitas. que tinham baixa auto-estima ou problemas familiares. também para entender como eles percebem as necessidades e os sentimentos delas. Além disso. Safiotti (1997) levantou dados sobre violência impetrada contra crianças. O instrumento utilizado abrangia diversos tipos de informação com relação à vida dos abusadores. 2000) demonstram que os abusadores teriam déficits em sua capacidade empática. 1995). Na cidade de São Paulo. Os dados deste estudo revelam uma visão de criança elegida como vítima. Os dados revelaram que crianças e adolescentes do sexo feminino sofrem mais violência sexual e as do sexo masculino sofrem mais violência física. Uma investigação com 91 homens que haviam cometido algum tipo de abuso sexual contra crianças verificou o modo como os abusadores se relacionam com crianças (Elliot. enquanto outros 27% justificaram sua escolha pela vestimenta “provocante” da vítima. os estudos sobre empatia em abusadores demonstram que eles possuem um índice normal de empatia geral. .5 anos. que “as meninas que eu procurava eram pequenas e usavam mini-blusas e mini-saias”. como comenta Fisher (in Webster & Beech. o que atuaria como um facilitador para a prática de abusos. portanto. a partir de registros de denúncias em uma delegacia da mulher. Já para a violência sexual vivida pelas meninas. Um resultado importante relacionou-se com o fato de 49% dos abusadores terem afirmado que procuravam por vítimas que pareciam não ter alguém de confiança. do ano de 1987 a 1993. A violência física aparece como forma disciplinar para os meninos. bem como dados do Programa SOS Criança. pode haver supressão dos sentimentos empáticos no momento do abuso. Verificar a capacidade empática dos abusadores com as crianças é importante. não comentariam o abuso com outras pessoas. enfatizando a influência do gênero como uma variável importante. dizendo. 2000). no período de 1990 a 1993. O que aconteceria no caso de abuso seria a pouca empatia direcionada a uma vítima específica. revela-se uma educação para a submissão. Quando não há incapacidade. Webster & Beech. por exemplo. Os resultados revelaram que eles informavam ter preferência por meninas na faixa de idade entre oito e 13 anos. Quando questionados sobre como selecionavam suas vítimas. Sessenta e seis por cento deles afirmaram conhecer as crianças com as quais cometeram o abuso. com idade média de 8. Um último resultado importante foi o fato de 13% dos abusadores terem selecionado suas vítimas pela aparência de inocência ou que pareciam crianças confiáveis e que. 1999. Browne. aos abusadores. & Kilcoyne.37 estudos (Pithers.

por sua vez. Mais uma vez. Além disso. quando questionados que tipo de atividades são mais típicos de crianças ou adolescentes. divergentes. pois. seria permitido manter relações sexuais com elas. Embora. 2004. em um relatório de pesquisa com caminhoneiros que abusaram sexualmente de crianças. Azevedo. se sentem com direito de ter relacionamento sexual com estas meninas submetendo-as a situações de violência sexual. Tal abuso sexual intrafamiliar é mantido em segredo. Moraes e Cerqueira-Santos (2005) mostraram a preferência destes participantes por crianças que possuíam um status diferente de suas filhas ou meninas de suas famílias. Abusadores sexuais preferiam crianças que possuam algum tipo de deficiência. . os participantes da pesquisa afirmaram que caso a menina abusada já não fosse mais virgem. por um lado indicam que estes indivíduos percebem que o sexo não é uma atividade típica da fase infantil e por outro que o sexo é permitido com algumas crianças. principalmente as meninas. Segundo Narvaz (2005). Koller. 1999). Habigzang. 1993. Habigzang & Caminha. O abuso sexual aparece aqui como um produto de uma relação de poder desigual entre as crianças e adolescentes do sexo feminino e homens adultos. 2005. como pessoas que devem ser obedientes e atender todas as ordens de adultos. Os homens. in press). “a obediência é um fator que predispõe a submissão às situações de violência no contexto das relações familiares” Desta forma. por serem mais fragilizadas ou não terem condições de revelar o fato (Koller. entender crianças. & Machado. fica evidente que a visão que os abusadores possuem sobre as crianças está diretamente envolvida em um contexto que propicia a situação de abuso. era permitido ter sexo com meninas que encontravam nas estradas. afirmando indiretamente que em alguma medida. contribui para a ocorrência de violência. A criança. não identifica o abuso e não a revela a ninguém (Furniss. não há apenas a submissão de meninas como fator importante para situação de abuso. pois o perpetrador em seu papel de cuidador utiliza-se da confiança e do afeto que a criança tem por ele.38 para atender todos os pedidos (ou ordens) de figuras de autoridade do sexo masculino. numa dinâmica complexa. Contudo. Os resultados são assim. claramente. eles responderam que as atividades lúdicas seriam mais característica da infância e o namoro da fase adolescente. Em complemento a este argumento. já que não é permitido a estas crianças recusar qualquer investida. os caminhoneiros tenham revelado esse tipo de idéia sobre as crianças exploradas sexualmente nas estradas. por sua vez. Koller.

como o abuso sexual contra crianças (Marshal.39 As distorções cognitivas (das quais se pode inferir a visão que eles possuem sobre as crianças) geralmente se associam a quatro fatores: a visão que o abusador sexual possui sobre si mesmo. Abusadores sexuais infantis possuem comportamentos auto-centrados. Anderson. mas também as questões contextuais. das crianças. eles lidariam com o estresse através de estratégias disfuncionais. A auto-estima. a sua visão sobre o papel que ele ocupa em uma dada estrutura social. Desta forma. a visão que ele possui sobre as crianças está diretamente ligada a como ele se relaciona com o mundo de uma maneira geral. Assim. pode-se inferir alguns pontos acerca da visão que os abusadores possuem sobre as crianças. já que os modos como ele foi tratado (abusado) pode ser um fator que predispõe a atos de abuso e aos modos como vê as crianças. Lidar com as crianças. mas como um objeto. seres mais frágeis usando-as para a satisfação de seus impulsos. parte do auto-conceito. anseios e desejos como mais importantes que as vontades alheias (Ward & Kennan. seria mais fácil que enfrentar as situações problemáticas. é válido destacar que os abusos . A baixa auto-estima em abusadores faria com que os abusadores receassem lidar com situações problemáticas. 1999). Assim. Crips. Ao analisar estas últimas conclusões. Aqui a vitimização do próprio abusador quando criança pode ser um fator chave. A criança. 1999). Para corroborar esta posição.. percebendo suas necessidades. & Cortoni. Um auto-conceito negativo e uma conseqüente baixa auto-estima são fatores importantes para a análise da percepção que os abusadores possuem sobre si mesmos. Contudo. suas vítimas infantis são vistas por ele como menos importantes. 2000). se a visão que o abusador tem sobre si mesmo influencia na sua visão das outras pessoas e. é vista aqui como o valor que a pessoa nutre sobre si mesmo (Tamayo et al. seria percebida por eles como menos importantes que eles. Gannon et al. Associado a estes dois fatores está o fato de alguns estudos demonstrarem que uma parcela significativa de abusadores foi abusada durante a infância. A visão que eles possuem acerca dos seres infantis estariam ligadas a questões individuais. por conseguinte. (2005) partilham de posição semelhante a de Horley quando afirmam que os atos de abuso sexual devem ser entendidos em relação a como o abusador pensa o mundo à sua volta. 2001). então. o reconhecimento e/ou aceitação dos valores éticos e das expectativas sociais e as características de seu contexto social (Horley. Amazarray e Koller (1998) destacam que o abusador sexual infantil não percebe a criança enquanto uma pessoa que possui sentimentos.

com estudos demonstrando nenhuma prevalência a 80% de abuso entre essa população (Widon & Ames. não houve diferença significativa entre aqueles que haviam sido vitimizados física ou sexualmente. Certos tipos de abuso podem levar ao aparecimento de desordens psiquiátricas. Na pesquisa realizada com 64 abusadores e 33 criminosos não-sexuais. & Ward. Intebi comenta que aquelas pesquisas que utilizam apenas uma entrevista podem subestimar o índice de abusadores que foram vitimizados na infância.40 sofridos pelos abusadores não são necessariamente apenas de ordem sexual. Eles comentaram ainda que se sentiam como objetos que os outros utilizavam segundo seus próprios desejos. Todos narraram que seus sonhos quando criança eram basicamente sobreviver às violências sofridas para conseguirem se distanciar de suas famílias de origem. com profundidade. Jackson. Devido a pouca estabilidade econômica e emocional de suas famílias. 1994). e que sempre se sentiram desvalorizados e solitários em . Em suas falas. descreveram ambientes familiares disfuncionais. tornando-se pessoas isoladas. 2001). Todos comentaram também ter usado álcool precocemente (antes dos 12 anos de idade). ou foram morar definitivamente com outros parentes. nos quais eles tiveram que assumir os papéis de cuidados com os irmãos. Os relacionamentos conjugais dos pais desses participantes foram descritos por eles como instáveis. Pesquisa realizada por Widon e Ames (1994) revelou que entre homens que haviam cometido algum ato de abuso sexual. Um estudo qualitativo com oito abusadores revelou que todos eles sofreram algum tipo de violência em suas infâncias (Garret. Em seu trabalho clínico e de pesquisa. Intebi (1998) comenta que apesar da variação desses índices. Assim. ficou evidente que suas infâncias se configuraram de maneira tão problemática que eles foram incapazes de recordar. É importante destacar que os números sobre a prevalência de vitimização entre os abusadores varia. Esses homens expuseram ainda que as pessoas a sua volta os chamavam de estúpidos e idiotas. Pattison. alguns deles disseram ter mudado de residência várias vezes. estes homens afirmaram não serem capazes de estabelecer laços de confiança e intimidade com outras pessoas. Em decorrência dos abusos sofridos. Ela comenta que a revelação dos abusos sofridos por eles foi feita após várias sessões de psicoterapia. 2004). ela pôde verificar que todos os abusadores atendidos foram vitimizados sexualmente quando crianças. o abuso sexual durante a infância apareceu associado à pedofilia (Lee. episódios positivos ocorridos nelas. Todos eles relatam também relações de violência ou abandono com suas figuras paternas. Além disso.

1994). conseqüentemente as crianças. pode ser algo natural para os abusadores. 2004.5 A Bioecologia do Desenvolvimento dos Abusadores Sexuais Os modos como os abusadores vêem o mundo a sua volta e. uma boa parcela destes afirmou que o abuso foi uma experiência percebida como normal. a idéia de que as crianças podem querer sexo e que podem desfrutar da experiência de abuso. Associado a isso. que ocorrem em decorrência de alguma patologia (Becker. Para responder pelo menos em parte a esta questão. Pode-se questionar por que os abusos sofridos na infância de um abusador sexual podem influenciar no seu modo de ver uma criança e. são explicados a partir de vários fatores. prática de violência) descritas pelos participantes deste último estudo são constatadas em outros estudos sobre violência intrafamiliar (Flores & Caminha. por conseguinte. Segundo eles: “Você aprende o que você vê!” (Garret. 1. 2002). A falta de uma pessoa de confiança para relatar o episódio foi uma importante variável. enquanto outras explicam as cognições dos abusadores como distorções cognitivas. Seymour. o estudo de Lambie. Devido a todos esses estressores. 2000. as teorias explicam apenas parte dos fatores importantes envolvidos nesta questão.41 decorrência dessa forma depreciativa e pejorativa com a qual foram tratados. Neste estudo foi adotado o . relatando que não sentiam como uma violência. clima afetivo pobre. p. Silva & Hutz. 1980). já que em suas experiências isso se mostrou verdadeiro. 1994). os abusadores da pesquisa desenvolvida por Garret foram taxativos em afirmar que não percebem outro modo de “ser no mundo” além de serem violentos. 1994. Além disso. Algumas teorias focalizam as interferências sociais (Burt. além de não terem uma figura de confiança para a qual pudessem relatar a violência sofrida. a escola e as relações experienciadas nelas foram lembradas de maneira negativa. Todos eles afirmaram ter desenvolvido uma baixa valorização de si mesmo. Lee e Adams (2002) respondem que alguns abusadores sexuais relatam ter fantasiado sobre o abuso sofrido em ocasiões posteriores. Os entornos de abusadores sexuais aparentam ser tão problemáticos que os primeiros atos de abuso cometidos por eles se iniciam já na adolescência (Abel & Harlow. 189). Desta forma. que reitera o fato de que os abusadores em sua infância não tiveram alguém para afirmar a eles que os atos de abuso não eram algo comum. Becker. no cometimento de atos de abuso. Desta forma. padrão este que perdurou até a adultez. As características familiares (inversão de papéis hierárquicos.

Bronfenbrenner desenvolveu um modelo teórico chamado PPCT. 1998. considerando tanto os fatores microssistêmicos quanto os macrossistêmicos. Além disso. p. Na revisão de literatura pode-se notar. proposto por Urie Bronfenbrenner (1979/1996). Com a descrição destas primeiras características. e que a pessoa esteja engajada em uma atividade. mais especificamente. p. a teoria utilizada corrobora as proposições de Horley (2000). através de sua história (tempo). a manipulação e a imaginação da pessoa em desenvolvimento (Bronfenbrenner. por exemplo. Além disso. Acessa-se o processo de desenvolvimento acompanhando as mudanças em função da exposição e interação de uma pessoa com o meio ambiente (Bronfenbrenner & Morris. que eles . a interação deve ocorrer em uma base regular através do tempo. A seguir cada um destes elementos será descrito. ou modelo Processo-Pessoa-Contexto-Tempo.42 Modelo Bioecológico do Desenvolvimento Humano. permitindo analisar. já que é através dele que as características dos outros elementos se expressam. Os processos proximais são “os principais motores do desenvolvimento” humano (Bronfenbrenner & Morris. O desenvolvimento é um processo no qual há uma interação recíproca da pessoa com seu contexto. que considera que “as características de uma pessoa em dado momento de sua vida são uma função conjunta das características individuais e do ambiente ao longo do curso de sua vida” (1989. que afirma que a visão que os abusadores possuem sobre as crianças e sobre o mundo em geral são influenciadas por fatores pessoais (como a visão que o abusador possui sobre ele mesmo) e por fatores de ordem social e cultural (como o sistema de crenças e valores da sociedade na qual o abusador está inserido). e que os símbolos e os objetos do ambiente imediato estimulem a atenção. por exemplo. as relações dos abusadores com crianças ao longo de suas vidas. Para que uma atividade seja considerada como tal é necessário que haja interação recíproca nas relações interpessoais. 996). foram descritas como disfuncionais. As relações destes indivíduos de com as pessoas em geral e com as crianças. 1998). as características da pessoa ou do contexto têm importância diferente em situações diversas. 1999). nota-se que abordar a visão que os abusadores possuem sobre a criança a partir do Modelo Bioecológico é uma tentativa de compreender o fenômeno de uma maneira global. É através do estudo dos processos proximais que se pode investigar como se dá o desenvolvimento de uma pessoa. 90). Tal interação não é simétrica.

explosividade. 2004). O contexto divide-se em quatro sistemas. 1979/1996). O primeiro deles relaciona-se com comportamentos de impulsividade. Assim. responsividade para as demandas dos outros. A primeira classe de forças envolve orientações ativas por parte da pessoa. indiferença. Garret. Os microssistemas são aqueles ambientes nos quais a pessoa em desenvolvimento tem suas interações face-a-face (Bronfenbrenner. O segundo tipo varia entre dois pólos. O mesossistema é o conjunto de microssistemas freqüentados pela pessoa e as relações entre eles . Estas duas forças são denominadas como desenvolvimentalmente-geradoras e desenvolvimentalmente-disruptivas. abrange tanto as características biopsicológicas quanto aquelas que foram adquiridas ao longo da vida. sentimento de insegurança. tendência para engajar-se em atividades sozinhas ou em companhia de outros. entre outras características negativas.43 estabeleceram relações de responsabilidade com seus irmãos e relações tumultuadas com seus pais e outros cuidadores (ver Garret. exo e macrossistema. incapacidade de adiar gratificações. agressividade. a saber: micro. O outro pólo designa comportamentos de apatia. problemáticos e violentos. Os microssistemas ao longo da vida dos abusadores foram descritos como turbulentos. auto-centradas. capacidade de adiar uma gratificação imediata e persistir numa meta a longo prazo. violentas.). A compreensão desses ambientes na infância são particularmente importantes. 1999. Modificações nas primeiras características podem alterar o curso do desenvolvimento da vida de um indivíduo. para o modelo bioecológico do desenvolvimento humano. vizinhança. bem como as relações com outras crianças em diversos ambientes podem ser investigadas. 2004) como pessoas isoladas. desatenção. eles poderiam ser classificados como pessoas que se movem basicamente através das forças desenvolvimentalmente-disruptivas. escola. Em 1983. tais como curiosidade. Os abusadores foram descritos por vários autores (ver Azevedo & Guerra. pois eles são determinates na formação psicológica dos abusadores (Garret. Apenas um dos tipos será relatado aqui. 2004). A pessoa. meso. etc. Brofenbrenner e Morris (1999) elaboraram o construto forças da pessoa que são aquelas características de uma pessoa que tem maior influência no seu desenvolvimento futuro. distrações e prontidão para recorrer a agressões e violência. timidez ou uma tendência geral de se retirar de atividades coletivas. permitindo o entendimento das interações em diversos microssistemas (família. O envolvimento em situações de abuso ao longo da vida. Bronfenbrenner categorizou os atributos das pessoas em três tipos.

Além disso. O tempo será considerado neste estudo. escola. Diante de todo este quadro. religiões. valores e crenças. mas que possuem influência direta sobre seu desenvolvimento. 1979/1996). foi fundamental também averiguar o modo como eles viam a si mesmos ao longo de suas vidas. Viver numa sociedade que acredita que os pais têm posse sobre uma criança é um aspecto macrossistêmico que pode influenciar no aparecimento de atitudes de violação de direitos destas crianças (Koller & De Antoni. A análise feita neste estudo tinha como foco a compreensão dessas relações nos ambientes (família. já que se reconhece que a visão que abusador possui sobre si mesmo e sobre as crianças foi construída ao longo de sua história de vida por concepções macro e micro. Finalmente. adolescência.44 (Bronfenbrenner. assim como o acompanhamento clínico. ainda escassa na literatura. A maior compreensão da visão sobre as crianças ao longo do ciclo vital por abusadores pode trazer contribuições teóricas. o objetivo deste estudo foi investigar a visão que abusadores sexuais possuem sobre as crianças. considerando assim o aspecto temporal. assim como subsidiar ações de prevenção e intervenção a estes casos. analisando as relações que eles estabeleceram com elas ao longo de seu ciclo vital. culturas e subculturas presentes no dia-a-dia das pessoas e que influenciam diretamente os modos de pensar e comportar dos indivíduos (Bronfenbrenner. 2004). O exossistema é composto pelos ambientes nos quais a pessoa não participa diretamente. bairro) nos quais estiveram inseridos nos diferentes momentos de suas vidas (infância. sobre o próprio desenvolvimento de pessoas que cometem abuso sexual. 1979/1996). Entradas e saídas em novos ambientes ocasionam uma alteração no mesossistema. formas de governo. Áries e outros trazem aspectos macrossistêmicos importantes das sociedades ocidentais ao longo dos séculos e como elas construíam a visão de infância de seus contemporâneos. o macrossistema é composto pelo conjunto de ideologias. O último elemento do modelo proposto por Bronfenbrenner (1999) é o tempo considerado tanto em termos de ciclo vital como em termos de mudanças do ambiente ao longo da história e a interação entre estes dois elementos. Políticas públicas e jurídicas podem ser influenciadas por estes achados. adultez). .

As idades dos entrevistados foram as seguintes: dois com 37. contudo. Quatro dos participantes estavam respondendo a processos judiciais pelas acusações de abuso sexual e por isso estavam nessa situação de encaminhamento compulsório. um com 38. chegou até o Departamento de Genética por livre e espontânea vontade à procura de ajuda psicológica. A amostra utilizada foi de conveniência pela dificuldade de acesso aos participantes. este fato teve influência significativa no número de casos disponíveis para pesquisa.2 Participantes Participaram deste estudo cinco homens que foram acusados de cometer abuso sexual contra crianças e adolescentes de até 13 anos. por eles não desejarem se expor por temer a condenação e a prisão. Um deles. Caso fosse detectada alguma deficiência cognitiva a entrevista seria interrompida. No entanto.. Apesar da obrigatoriedade da avaliação. tal critério de exclusão não foi aplicado. poucos casos quando denunciados são transformados em processos judiciais. O único critério de exclusão utilizado neste estudo foi a ausência de deficiências mentais. o participante agradecido e os dados excluídos da análise. Há também que se considerar que as questões criminais também influenciam na acessibilidade dos participantes. um com 70 e outro com 73 anos. Diante destas dificuldades. A faixa etária estabelecida (18 a 45 anos) no projeto para este estudo 45 . serviço ao qual eram encaminhados para avaliação psicológica solicitada compulsoriamente pela justiça. para realizar a pesquisa foram acessados participantes no Ambulatório do Departamento de Genética. A entrevista realizada neste estudo era profunda e permitia a análise desse tipo de transtorno. a participação na pesquisa era voluntária.1 Delineamento Realizou-se um estudo exploratório descritivo que investigou a visão que os abusadores sexuais infantis possuem sobre as crianças. Uma vez que a quantidade de denúncia para os casos de abuso é subestimada (Rich et al. A equipe de pesquisa avaliou aqueles que eram direcionados para a participação neste estudo.. 2. Além disso. analisando as relações que ele estabeleceu com elas ao longo de seu ciclo vital. 2005).CAPÍTULO II MÉTODO 2.

46
não pôde ser mantida devido às dificuldades em acessar um número suficiente de
casos no período de execução do estudo para análise.
Caracterização Bio-sócio-demográfica
As idades dos participantes variaram de 37 a 73 anos. Quanto à
escolaridade, dois afirmaram ser analfabetos, outros dois concluíram o ensino
médio e um concluiu apenas o ensino fundamental. No momento da pesquisa, um
dos participantes trabalhava como zelador, um outro com processamento geodésico
e um deles estava preso em decorrência da acusação de abuso sexual contra sua
filha. Por este motivo, ele não estava exercendo nenhuma atividade profissional.
Dois já eram aposentados devido à idade. A renda dos participantes variou entre um
e três salários mínimos da época, que correspondia a R$ 350,00 mensais. Os casos
estão inicialmente descritos um a um, em virtude das particularidades de cada uma
das histórias. Os nomes dos participantes e de seus familiares são fictícios para
resguardo de suas identidades.
Caso Marcos
Marcos tinha 38 anos e estava preso na época da pesquisa devido à acusação
de abuso sexual contra sua filha. No momento anterior a sua prisão, ele era
carroceiro e coletava materiais para reciclagem. Morava em uma cidade no interior
do Rio Grande do Sul, com sua companheira, um enteado e três filhos.
Marcos foi acusado de abusar de sua filha de dez anos, mas ele alega não ter
cometido nem esse nem qualquer outro tipo de violência contra ela. Em seu
depoimento, a filha afirmou que o pai friccionava os seus órgãos sexuais contra o
corpo dela. Ele já havia sido preso anteriormente acusado de abusar de seu enteado,
mas foi absolvido da acusação.
Marcos estava com aspecto bem cuidado, principalmente considerando o
fato de estar preso. Aparentou estar pouco a vontade durante a entrevista, sempre
olhando para baixo. Falou apenas o necessário para responder as perguntas da
entrevista, demonstrando-se assertivo em suas respostas.
Caso Osmar
Osmar tinha 73 anos, é estrangeiro e vive no Brasil há 35 anos. No
momento da pesquisa, residia em uma cidade na região metropolitana de Porto
Alegre. Antes de acusação de abuso sexual contra uma das filhas de sua enteada
(seis anos), ele morava com sua segunda esposa e vários filhos e netos. Após a

47
denúncia, passou a morar sozinho. Osmar também se declara inocente da acusação
de abuso sexual. A vítima declarou que Osmar tinha tocado sua genitália em troca
de presentes e dinheiro. Quando este fato foi denunciado, uma das filhas de Osmar
revelou que ele havia cometido abuso sexual contra ela na infância.
Destaca-se que no ano de 1986, ele foi acusado informalmente, por uma de
suas noras de observar uma de suas netas enquanto ela tomava banho. A ex-esposa
de Osmar expôs também que a vinda dele do país de origem para o Brasil ocorreu
em virtude de uma acusação de estupro. Ele teria estuprado uma filha de sua
primeira esposa, engravidando-a.
Osmar foi o único entrevistado que pode comparecer duas vezes ao
Departamento de Genética para a coleta de dados. Nesses dois momentos, ele
apresentou-se bem vestido. Desde o início, mostrou-se solícito e educado. Em
certos momentos, tentou manipular as entrevistadoras como um meio de descobrir o
resultado de sua avaliação. Além disso, muitas vezes Osmar foi evasivo com
relação as perguntas, relatando aspectos que não estavam associados diretamente a
elas. Mesmo assim, mostrou-se seguro ao responder todas as questões.
Caso Flávio
Flávio tinha 37 anos quando a entrevista foi realizada. Antes da acusação de
abuso sexual contra sua enteada, Flávio residia em uma cidade no interior do estado
junto com a esposa, um filho e uma enteada. Após a denúncia, Flávio e sua esposa
se separam e no momento da pesquisa, ele residia sozinho em sua cidade natal,
também no interior do estado.
Flávio havia sido preso, anteriormente, em decorrência da acusação de
abuso sexual de sua enteada de 13 anos, que o acusou de tentativa de estupro,
afirmando que o padrasto estava sob o efeito do álcool. Quando foi a delegacia para
prestar depoimento, Flávio admitiu que tentou violentar sexualmente a vítima.
Contudo, durante a entrevista desta pesquisa negou que tenha feito tal afirmação na
delegacia. Declarou que as policiais que ouviram seu depoimento estavam
emocionalmente perturbadas e que, portanto, compreenderam erroneamente as
afirmações. Flávio foi libertado da prisão e estava em liberdade provisória, quando
a pesquisa foi realizada.
Flávio apresentou-se bem vestido. Não parecia estar à vontade, observando
um relógio na parede durante quase toda a entrevista e falou apenas o necessário
para

responder

as

perguntas.

Algumas

vezes

demonstrou

hostilidade,

48
principalmente quando foi questionado sobre algum aspecto da acusação de abuso
sexual contra ele. Outras vezes hesitou em responder outras questões e, em vários
momentos, se contradisse sobre vários aspectos de sua vida.
Caso Francisco
Francisco tinha 37 anos e residia na periferia de Porto Alegre com sua
esposa e duas filhas na época da pesquisa. A denúncia de abuso sexual ainda não
havia se transformado em processo judicial quando a entrevista foi realizada.
Assim, Francisco não chegou ao serviço de atendimento encaminhado
compulsoriamente pela justiça, mas por sua própria vontade, em busca de
atendimento psicológico, com queixas de dificuldade de sono, irritabilidade e
sentimentos de culpa que começaram após o relacionamento com sua afilhada.
Francisco admitiu que manteve relações sexuais com a sua afilhada (13 anos),
sobrinha de sua esposa. Segundo ele, os encontros com ela aconteceram sete vezes
e duraram cerca de um mês. Quando se referiu a essa relação com sua afilhada, ele
nunca usou o termo “abuso”, pois segundo suas afirmações, as relações sexuais
entre eles foram consentidas por ela.
Francisco tinha um semblante casando no inicio da entrevista. Apesar disso,
mostrou-se loquaz e cooperativo ao responder as perguntas, acrescentando
informações importantes sem que isso lhe fosse solicitado. Demonstrou
assertividade em todos os questionamentos que lhe foram dirigidos.
Caso Paulo
Paulo tinha 70 anos e no momento da pesquisa, residia com sua esposa, dois
filhos, uma filha, genro e uma neta em uma cidade do interior do estado. Paulo foi
acusado de abusar sistematicamente de sua filha então com 14 anos. Apesar de a
denúncia só ter acontecido alguns meses antes da entrevista dessa pesquisa, há
indícios de que abuso vinha acontecendo a alguns anos antes, pois pessoas
próximas

da

vítima

revelaram

que

ela

apresentava

comportamentos

hipersexulizados. Tais comportamentos, quando são verificados em crianças e
adolescente, são típicos de vítimas de abuso sexual (Intebi, 1998). Além disso, o
próprio acusado comentou que a vítima já havia fugido de casa duas vezes,
afirmando que não sabia o motivo de tal comportamento. Assim, as fugas podiam
ser as expressões de que algo em sua casa a afetava. Paulo negou que fosse suspeito
de abusar sexualmente de sua filha, afirmando que a acusação que pesava sobre ele

Nestas etapas do ciclo vital. Paulo aparentava estar disposto a responder as perguntas no início da entrevista. Quase todos eles foram encaminhados compulsoriamente pela justiça ao Ambulatório do Departamento de Genética. Contudo. entre outros. os participantes foram questionados sobre suas relações com outras pessoas e. com crianças. e como se percebem ao longo do ciclo da vida. até o momento atual.4 Procedimentos O projeto foi encaminhado e aprovado pelo Comitê de Ética da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. a visão sobre as diferenças entre meninas e meninos. sob o protocolo de número 2006557. 16/2000 (2000). Este instrumento continha questões sobre idade. uma entrevista semi-estruturada que investigou o modo como os participantes vêem as crianças.3 Instrumentos Foi utilizada uma Ficha bio-sócio-demográfica (Anexo B) com o objetivo de identificar os participantes. metodológicos e éticos. tentou manipular as pesquisadoras na tentativa de conseguir saber qual era a opinião dela sobre seu comportamento. também. envolveu aspectos teóricos. A equipe de pesquisa foi treinada antes de ir a campo para a coleta de dados. os direitos e as necessidades das crianças. Ele se declarou inocente tanto de uma quanto de outra acusação. passando pela adolescência e vida adulta. escolaridade. o ambiente familiar durante suas vidas. realizado semanalmente. Investigaram-se suas visões sobre questões tais como: episódios positivos e negativos de suas vidas. profissão e estado civil. Além disso. Para finalizar a entrevista de forma positiva. em vários momentos manipulou as falas de modo a não responder a várias questões. os sentimentos de empatia com as crianças.49 era de que usava a filha para aliciar outras meninas menores de idade com o objetivo de manter relações sexuais com elas. 2. O treinamento. O recrutamento dos participantes ocorreu no Departamento de Genética da UFRGS. 2. Utilizou-se. iniciando com sua infância. Apenas um deles chegou até esse . 196 (1996) e pelo Conselho Federal de Psicologia na Resolução n. em acordo com as normas estabelecidas pelo Conselho Nacional de Saúde na Resolução n. renda mensal. foram acrescentadas perguntas sobre expectativas para o futuro (Anexo C). Mostrou segurança ao responder todas as perguntas. principalmente.

e como se percebem ao longo do ciclo da vida (Anexo D). aplicou-se a Ficha Bio-sócio-demográfica (Anexo B) e. já que diminuiu o risco de interpretações equivocadas que poderiam ser gerada pela presença de apenas um pesquisador. Inicialmente. Com um dos participantes a coleta de pode ser realizada em dois momentos. a coleta de dados ocorreu em apenas um encontro. deixando-os livre para participar. As entrevistas foram conduzidas pela mestranda e por um(a) aluno(a) de graduação. O tempo reduzido para a coleta de dados (um único encontro) ocorreu em virtude das dificuldades de deslocamento dos entrevistados até o serviço de atendimento.50 serviço de livre espontânea vontade. A duração média das entrevistas com cada um deles foi de duas horas e meia. Todos decidiram realizá-las sem intervalos. posteriormente. a Entrevista sobre o modo como os participantes vêem as crianças. deu-se liberdade para que o participante escolhesse o momento de interrupção da entrevista. Em todos esses casos. . houve a explicação aos participantes sobre a natureza da pesquisa. Logo em seguida. A presença de dois pesquisadores garantiu uma melhor discussão dos dados coletados. pois ele mostrou-se disponível para isto. Todas as entrevistas foram gravadas em áudio e posteriormente transcritas. As entrevistas foram marcadas com antecedência e com quatro participantes. a partir da assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (Anexo A). individualmente. foi realizada.

adolescência. sobre Análise de Conteúdo. na qual se objetiva apreender tanto o conteúdo quanto a lógica de cada uma das entrevistas. as principais falas dos participantes foram identificadas e. escola. Utilizou-se a modalidade temática. foi averiguada a visão que eles tinham de si mesmos ao longo de suas vidas. Tabela 1 Fases do Ciclo Vital dos Participantes Infância Pergunta Categoria Ser Criança na Família de Origem Pertencimento Positivo Lembranças Positivas e Negativas da Lembranças Positivas de Infância na Família Atividades. Sonhos e Aspirações Ausência de Lembranças Positivas Relação com Crianças na Mesma Casa Respostas Positivas Definição de Si Mesmos e dos Pais Características Positivas Quando Crianças Lembranças Positivas e Negativas na Lembranças Positivas Escola Lembranças Negativas 51 .CAPÍTULO III RESULTADOS E DISCUSSÃO Este estudo investigou a visão que abusadores sexuais possuem sobre as crianças. 2 e 3. analisando as relações estabelecidas com elas ao longo de seu ciclo vital. posteriormente. Após essa primeira etapa. foram criadas categorias a posteriori (núcleo de sentidos) que foram articuladas na discussão com o referencial teórico. No decorrer da análise de conteúdo das entrevistas surgiram as seguintes categorias que foram esquematizadas na Tabela 1. adultez). A análise focalizou na compreensão dessas relações nos ambientes (família. A análise fundamentou-se no estabelecimento de categorias de acordo com os critérios adotados por Bardin (1979). bairro) nos quais estiveram inseridos nos diferentes momentos de suas vidas (infância. Além disso.

52
Desempenho

Desempenho Escolar

Regular

com

Evasão Escolar
Bom Desempenho sem Evasão
Escolar
Relações com os Pares na Escola

Relações Positivas

Descrição das Professoras Sobre os

Aluno Inteligente/Agitado

Participantes

Aluno Tímido, mas
Participativo
Aluno nem Participativo nem
Quieto

Lembranças Positivas e Negativas de

Lembranças Positivas

Outros Espaços na Infância
Relação com os Pares em outros

Relações Positivas sem

Espaços na Infância

Descrição de Conflito
Relações Positivas com
Descrição de Conflito

Ocupação do Tempo na Infância

Atividades Lúdicas e de
Trabalho sem Estudo
Atividade de Trabalho e de
Estudo
Atividades Lúdicas e de Estudo

Brincadeiras Preferidas

Jogos e Brincadeiras com
Objetos
Adolescência

Pergunta

Categoria

Descrição de Si Próprios

Características Positivas
Características Negativas
Adolescente Normal

Pessoas com as Quais Convivia na
Adolescência

Apenas com a Família de
Origem
Com a Família de Origem e a
Companheira
Com a Família de Origem e
com Outras Pessoas

Relação com as Pessoas com as Quais
Convivia

Relações Positivas

53
Ocupação do Tempo Durante a

Trabalho e Atividades de Lazer

Adolescência

Trabalho e Encontro com os
Amigos
Trabalho e Estudo

Episódios Positivos e Negativos
Durante a Adolescência

Lembranças Positivas
Lembranças Negativas
Ausência de Lembranças
Negativas
Adultez

Pergunta

Categoria

Subcategoria

Auto-percepção

Temperamento

Temperamento
positivo

Auto-estima

Auto-estima positiva

Traços Morais

Pensamentos e ações
corretas

Outros Traços

Pessoa frustrada
Ausência de defeitos

Formação da Família e
Relação com Ela Antes e
Depois da Denúncia

Mudanças Familiares Após
a Denúncia

Desejos para o futuro

Respostas de Desesperança

Manutenção das Relações
Familiares após a Denúncia
Respostas Relacionadas à
Situação de Acusação de
Abuso Sexual
Desejo de Paz e
Tranqüilidade
Planos de Realização
Pessoal

Relação da História de
Vida com a Acusação de
Abuso

Ausência de Conexão entre
a História Vivida e a
Acusação

54
Tabela 2
Visão sobre as Crianças
Pergunta

Categoria

Subcategoria

O que é Ser Criança

Respostas Politicamente

Visão positiva e

Corretas e/ou

romanceada da

Estereotipadas

infância e das crianças
Incompletude das
crianças em relação
aos adultos
Infância como fase
importante para as
demais

Quem É uma Criança

Definição Cronológica

Definição cronológica
por gênero

Diferenças Entre

Diferenciação por

Crianças e Adolescentes

Identificação como Fase
de Transição do
Desenvolvimento em
Geral
Diferenciação por
Rebeldia
Diferenciação por
Autonomia
Diferenciação por
Autonomia de Pensamento
Diferenciação por Gostos
e Interesses

Diferenças Entre

Diferenciação por

Crianças e Adultos

Responsabilidades
Diferenciação por Deveres

Estudo como dever
para as crianças
Pequenos trabalhos
domésticos como
deveres para as crianças

55 Obediência como dever para as crianças Diferenciação por Atividades Lúdicas Diferenças da Infância Diferenciação por Necessidade de objetos para as Demais Fases Necessidades materiais Necessidade de alimentação Necessidade de carinho Necessidade de ser prontamente atendida Diferenciação por Direitos Direito de não trabalhar e de estudar Direito de higiene Direito de alimentação Direito de saúde Direito de afeto/cuidado Direito de não ser obrigado a ter deveres Direito de cuidado recebido/devido por adultos Prioridade de direitos Similaridade por Problemas Enfrentados Processos Importantes na Transição NãoTransição da Infância Cronológica para as para a Demais Fases Adolescência/Adultez Definição por Contestação para Transição da Infância para Adolescência Definição por Mudanças .

56 Biológicas na Transição de Criança para Adolescente Definição por Responsabilidade da Infância para a Adultez Definição Cronológica com Base na Adoção das Responsabilidades Jurídicas na Transição da Infância para a Adultez Definição por Entrada na Maioridade na Transição da adolescência para a Adultez Transformação de um Autonomia Menino em Adolescente/Adulto Mudanças Biológicas Contestação Definição Cronológica Transformação de uma Responsabilidade Menina em Mudanças Corporais Adolescente/Adulta Semelhantes as dos Meninos Perda da Virgindade Diferenças e Diferenças por Semelhanças Entre Atividade/Passividade Meninos e Meninas Diferenças por Proteção/Cuidado Diferenças por Brincadeiras com Aspecto Sexual Semelhanças Entre Meninos e Meninas .

57 Empatia Respostas Pragmáticas Respostas com Sentimentos Positivos Respostas de Angústia Pessoal Respostas Empáticas Relação Ideal entre Sentimentos e Adultos e Crianças Comportamentos Positivos Relação de Cuidado Respostas Sobre a Moralidade .

58 Tabela 3 Caracterização das Vítimas Pergunta Categoria Sexo das Vítimas Vítimas do Sexo Feminino Idade das Vítimas Vítimas Crianças Vítimas Adolescentes Aparência Física das Vítimas Beleza da Vítima Recusa em Avaliar a aparência da Vítima Ausência/Presença de Deficiências Ausência de Deficiências Atitudes Características Positivas Características Negativas Vínculo com o Abusador Relação de Proximidade Entre Vítima e Perpetrador Qualidade das Relações Entre os Participantes Relações Positivas e as Vítimas Relação de Vigilância Envolvimento Específico da Vítima na Envolvimento da Vítima pela Denúncia Ação de Terceiros Envolvimento da Vítima pela sua Própria Ação Envolvimento pela Ação do Participante Infância Embora a investigação sobre as fases dos ciclos vitais esteja descrita na entrevista após as perguntas sobre a visão acerca das crianças. na escola e em outros espaços (bairro. Serão descritas as experiências nos microssistemas familiares. Ser Criança na Família de Origem A seguir serão relatadas as respostas obtidas em relação à pergunta “Como era ser criança nessa família?”. As respostas foram agrupadas na categoria pertencimento positivo. por exemplo). . optou-se por descrevê-las antes para uma melhor compreensão dos resultados. A partir deste ponto serão relatadas as experiências infantis dos participantes deste estudo.

assim de.. era bom. 37 anos). 37 anos) . Levantava para ir pro colégio voltava. Sonhos e Aspirações Ao serem indagados sobre as lembranças boas de sua infância. pois o único estudo ao qual se teve acesso sobre experiências infantis de abusadores sexuais mostra que eles desejavam sair de suas casas assim que isso lhes fosse possível.. Um deles comentou. né. são descritas as respostas á pergunta: “Fale-me sobre sua infância. pois se sentiam prejudicados pelas violências sofridas (Garret. boa que eu tive. Isso aí” (Marcos. Outro lembrou que “Boas? Brincava. ausência de lembranças positivas. no tempo que da minha infância junto com meus pais. Flávio (37 anos) mencionou que “Era bom. Os sonhos de infância foram relatados por um deles. 38 anos). apesar que meus pais tinham dificuldades... assim. que ser criança em sua família “Era bom. a gente tinha horário. por exemplo.. jogava bola. né?”. 37 anos).. tempo suficiente trabalhando junto com meus pais” (Paulo. 38 anos). Lembranças Positivas de Atividades. Este dado parece contrastar com os dados obtidos na revisão de literatura. Lembranças Positivas e Negativas na Família Nesta parte. quase todos os participantes mencionam que uma lembrança boa seria “Lembrança que eu me lembro. era regrado.. 2004). nunca faltou carinho. Flávio (37 anos) recordou que “Acho que a lembrança boa da minha infância foi a minha primeira bicicleta.) nunca faltou. né? (. Finalmente. jogava bolita.. ausência de lembranças negativas. nota-se que os participantes avaliaram positivamente a sua condição de criança em suas famílias de origem. Era bom” (Flávio. Um deles relatou “sempre quis ser piloto de avião” (Flávio. sonhos e aspirações.59 Pertencimento Positivo Todos os participantes responderam a esta questão usando expressões positivas. nunca faltou nada pra nós.. eu. eu considero que era bom” (Marcos. sabe” (Francisco. um deles relatou que “Ah.. As falas dos participantes foram organizadas da seguinte maneira: lembranças positivas de atividades. sendo relembrados como um aspecto positivo de sua infância.. comida. lembranças negativas e ausência de lembranças negativas. tirava pra brincar ou então chamava outro pra brincar... que lembranças você tem de sua infância na sua família?”. 70 anos). E eu era uma criança bem feliz. Com essas respostas. de dar coisas pra nós.

Jogou todo o dinheiro e chegou em casa sem dinheiro. 38 anos)... Fui muito feliz quando menino. Os sonhos dos participantes daqui não se relacionaram em qualquer medida ao desejo de ser ver livre de maus-tratos. né? Quando fazia arte. pois “na época todos os .. Apenas um deles revelou que sofria abusos físicos “umas duas vezes por mês” (Marcos.... com vara (. que seus principais sonhos eram sobreviver às violências sofridas e sair da casa de suas famílias. que ele tinha ido receber. 37 anos) Os outros enfatizaram que não conseguiam lembrar de episódios negativos. que tenha me marcado na minha infância (. Os participantes desta pesquisa aparentaram ter vivido uma infância feliz e tranqüila em suas famílias. É a surra. eu não consigo me lembrar nenhuma agora.. né. quando fazia algo de errado.60 Ausência de Lembranças Negativas “Na minha infância coisas ruins eu não me lembro. 38 anos) Contudo.) E a lembrança boa. diferentemente dos participantes do estudo de Garret (2004). no momento” (Francisco. O caso de Marcos (38 anos) merece ser comentado.... Lembranças Negativas Quando questionados sobre as lembranças ruins. né. assim. Era com vara. outras coisas.. Essa é que era a parte mais difícil por que tinha que apanhar.. Alguns dos participantes desse último estudo relataram que suas infâncias foram tão difíceis e violentas.. 37 anos). apenas um dos participantes recordou que em um dado momento lembrança ruim: . fosse ruim.. Então essa é a lembrança ruim que eu tenho assim.. pois ele mencionou: Aí eles me castigavam. Marcos não lembrou de nada que em sua opinião.. (Marcos. com cinta. né? Surravam com cinto. um dia meu pai chegou em casa. era fim de mês e ele tinha ido receber . Espontaneamente.. Vivia no campo” (Osmar. Uns verdão no corpo. na época.)Ficava.. 73 anos). De alimentação. (Francisco. Contudo. né?. que descreveram uma infância turbulenta.. essa resposta só foi dada depois que a pesquisadora questionou especificamente se as surras que o participante sofria não era algo ruim que ele recordava da infância. na época todos os pais faziam isso.. me surravam. nós tava já sem as coisas em casa. nenhum. Só que daí ele pegou o dinheiro e gastou no jogo. Ausência de Lembranças Positivas Apenas um deles afirmou não recordar nenhum episódio positivo em sua infância: “Uma lembrança boa . as surras sofridas não foram lembradas como algo negativo.

por exemplo.) que viviam na mesma que eles durante a infância. O outro enfatizou que “Normal. respostas incoerentes e respostas ausentes. Esse que era da. as surras eram mais um dispositivo de correção da sua conduta do que atos de violência. Os participantes da pesquisa de Garret relataram que suas relações com os irmãos..” (Francisco. Paulo (70 anos) insistiu que “queria perguntar pra doutora se senhora sabe do que tão falando de mim. Eles citaram que seus pais delegavam a eles as tarefas de cuidados com os irmãos mais novos. minha avó. Que era quase da minha idade. Respostas Incoerentes Quando indagado sobre essa questão. Era só quando eu fazia algo de errado”. ora eram distantes. Relações com Crianças na Mesma Casa Nesta seção.. ora era de responsabilidade.. Tudo normal. Respostas Positivas As relações com crianças da mesma na casa na infância também foram descritas de maneira positiva. Eu e meu irmão. Desde guri se. . 38 anos). A única referência encontrada sobre a convivência de abusadores com outras pessoas de sua infância foi o de Garret (2004) que faz apenas uma pequena referência sobre a relação entre irmãos.61 pais faziam isso” e além disso. As respostas foram organizadas nas categorias respostas positivas. meu tio e minha bisavó” (Marcos. 70 anos) Respostas Ausentes Um participante revelou que “só morava eu. as surras ocorriam “só de vez em quando. Todos eles (irmãos). 37 anos). primos. serão expostas as respostas sobre como era a relação dos participantes com crianças (irmãos. quase da minha idade. Um deles revelou. mas é normal. a gente brigava direto. Nessa pesquisa. etc. 38 anos). que sempre se deu “Muito bem.” (Paulo. não foi observado esse tipo de relação com os irmãos. Assim. 73 anos). assim. a gente brigava direto.. sem que eles assumissem essa relação de responsabilidades com seus irmãos. A relação dos participantes com as crianças da mesma casa pode ser descrita como saudável. assim. (Marcos. muito bem” (Osmar.

feliz. um outro relatou que seus pais lhe descreveriam como “Uma criança normal. foram semelhantes as que os entrevistados deram sobre eles mesmos. assim como seus pais. se tornou . falaram sobre si como uma “criança levada” (Francisco. A coerência entre as respostas mostra que os participantes se percebiam de forma positiva. 70 anos) Além disso. Definição Positivas Os participantes definiram a si próprios como crianças usando expressões positivas. 70 anos) e que “brincava e trabalhava” (Paulo. as respostas às perguntas: “Como você acha que seus pais lhe descreveriam como criança?” “Fazendo de conta que voltássemos no tempo: Olhe pra você como criança e me descreva esta criança?”. 38 anos).. Garret informa que eles se atribuam definições como crianças estúpidas e idiotas. não me recordo de muita coisa. Francisco (37 anos) declarou que seus pais o viam como “Arteiro. Foi insistido pra que ele desse alguma informação.. ao mesmo tempo um deles relatou que era uma criança “regrada e (que) obedecia aos pais” (Flávio. As respostas foram organizadas em duas categorias: definições positivas e respostas ausentes ou inadequadas. né? Sempre vão chegar e te tratar como se tu não tivesse crescido. 73 anos). o carinho. Segundo Paulo (70 anos) seus pais falavam sobre ele da seguinte maneira: “Vou dizer o que eu me recordo. Mas. As respostas sobre como os pais dos participantes os descreveriam. de “crianças normais” (Flávio. muito arteiro”. né? Por mais velho que esteja. quieta” (Osmar.. A autodefinição foi. nesta seção. Respostas Ausentes ou Inadequadas Um dos participantes alegou não saber como responder a esta pergunta. ou como uma “criança carinhosa com meus pais” (Paulo. é sempre. 37 anos). Eles vão entender que tu cresceu. mas ele se recusou afirmando “Não sei mesmo!” (Marcos. 37 anos).62 Definição de Si Mesmo e dos Pais Quando Crianças Serão descritas. Um outro forneceu uma resposta incoerente: É que na verdade para pai e mãe a gente nunca cresce. sabe?” (Francisco. 37 anos). já que esta essa era a percepção que os outros tinham sobre eles. Os resultados encontrados no estudo de Garret (2004) sobre a autodescrição negativa e pejorativa de abusadores sexuais não são corroboradas nesta pesquisa. 37 anos). sobretudo. Definiram-se como “bem feliz. o pai e mãe dão carinho. Eles diziam que eu era trabalhador e educado” Além disso.

ao analisar a estimativa de crianças (30%) que já sofreram alguma espécie . Não foram encontradas estatísticas sobre a quantidade de homens que já praticaram algum tipo de abuso sexual contra crianças. não houve diferença significativa entre aqueles que haviam sido vitimizados física ou sexualmente na infância.. não poderiam ser generalizados para a população total de abusadores. 37 anos) Flávio parece não ter compreendido a pergunta. mas pra eles tu vai continuar sendo criança. embora ilustrativos. os participantes não foram capazes de ser mais específicos. pode-se notar que a infância desses homens. 1994) indicam que sofrer algum tipo de abuso (não apenas o sexual) é importante preditor para o cometimento de abusos sexuais contra crianças. Há que se considerar que a quantidade de participantes nesse estudo foi pequena e pode não ser representativa da população de abusadores. A ausência de lembranças A quase total ausência de relatos de maus-tratos na amostra deste estudo merece ser comentada. limitavam-se a repetir o que já havia sido dito sem realmente trazer novos dados e lembranças mais profícuas. 2005). que podem estar associados ao cometimento de certos delitos (Lee et al. a ocorrência de maus tratos na infância parece ser um fator comum nas infâncias de homens que cometem atos de abuso sexual. Vai ser eterna criança. Em uma pesquisa realizada por esses autores. Assim. 2001. é percebida ou descrita por eles como feliz e saudável. Contudo. Pelo menos eu acho assim. Contudo. Certos tipos de abuso podem levar ao aparecimento de desordens psiquiátricas. o relato dos episódios positivos parece vago. devido à subnotificação dos casos (Rich et al. Segundo Garret (2004). Isso pode ter acontecido por várias razões. (Flávio. A pesquisadora não a repetiu para uma melhor compreensão do participante. a descrição de momentos bons na infância dos participantes da pesquisa conduzida por ela também foi vaga. a vitimização sexual do abusador na infância esteve estaticamente associada a sintomas de pedofilia durante a adultez. Ela afirma que mesmo diante de sua “insistência” nas perguntas sobre tais episódios. Eles apontam ainda que ambos os maus-tratos são mais freqüentes em pessoas que cometem abuso sexual contra criança do que na população me geral.. com 64 abusadores e 33 criminosos não-sexuais. pois. Assim. Widon & Ames. os resultados desta amostra. Ao serem solicitados a descrever com mais profundidade suas lembranças. De maneira geral. Widon e Ames (1994) comentam que em uma pesquisa com homens que cometeram abusos sexuais contra crianças.63 adulto e tal. No presente trabalho não se encontrou esse tipo de resultado. em suas famílias. 2001). estudos (Lee et al.

que jogava em times. campeonatos que a gente ganhava. com exceção de um dos casos (o de Osmar). por sua vez relatou que “Ia no planetário e era muito legal... não houve contato mais prolongado da equipe de pesquisa com os participantes. as entrevistas aconteceram em apenas um momento com cada um dos participantes. gostava. Flávio (37 anos) falou que: Um episódio ruim que aconteceu na escola que eu lembro foi uma menina que nós ‘tavamos jogando vôlei e a gente se pexou. apenas após um contato prolongado com a terapeuta. Porque eu briguei com um colega” (Francisco. 37 anos). Só dos jogos que a gente jogava. A gente jogava. Lembranças Positivas e Negativas na Escola Questionou-se aos participantes que lembranças ele tinham do ambiente escolar. A não-obtenção de dados dos possíveis abusos sexuais sofridos na infância impossibilitou também a investigação de como esta situação foi sentida pelos participantes.2002) pode-se considerar que o número de homens que cometeram algum tipo de abuso certamente deve ser maior que os cinco casos detalhados neste estudo. 73 anos) Lembranças Negativas Francisco de 37 anos comentou que um episódio ruim que eles se recorda da época da escola foi “Aquela vez que eu fui expulso da escola.. Daí eu cai no chão assim. No estudo de Intebi (1998) que envolveu trabalho clínico e de pesquisa. o que pode ter dificultado a obtenção desse tipo de dado. né. Osmar mencionou que gostava da escola pois “Gosto. Assim. 37 anos). Outro aspecto importante foi o tempo de acompanhamento dos casos. né? Jogava basquete” (Flávio. 37 ano). A minha professora era muito querida. As respostas foram classificadas como lembranças positivas. Portanto. Sempre gostei de estudar.” (Osmar. 1998. Francisco. lembranças negativas e respostas ausentes. Eu gostava muito de ir” (Francisco. Só de episódio bom na escola. Lembranças Positivas Flavio (37 anos) comentou que os momentos positivos que vivenciou na escola foram “Ah! Episódio bom na escola.. se ela seria encarada como natural por parte dos participantes como afirmam Lambie et al. Neste estudo. (2002). ela pôde verificar que todos os homens que abusaram de crianças relataram terem sido abusados em suas infâncias. Silva. essa revelação não foi feita em uma entrevista inicial.64 de abuso sexual (Picazio. e quando . né.

65 levantei ela me deu um tapa. Não. Um outro não chegou a ter reprovações. Não. Sai chorando só. na quarta série. Mas parece que eu rodei uma ou duas vezes. tô perdendo tempo estudando. Acho que eu tinha uns 13. na . mas eu me encostava na parede e ai não podiam me bater”. daí em seguida a gente se acertou. minha família era a única nesse lugar que era.. Mas eu sai chorando só (Flávio. eu não me lembro. bom desempenho sem evasão escolar e respostas ausentes. Ela pediu desculpa. 37 anos) teve reprovações e um posterior abandono da escola: Olha. nas quais se recordavam de brigas e de sentirem pouco capazes em relação às atividades acadêmicas. então havia problema. um tapa no rosto. Eu levei um tapa no rosto e daí eu sai. eu rodei uma ou duas vezes. não vou mais estudando’ E aí eu larguei. Contudo. 70 anos). porque eu não vou ter certeza. 38 anos) freqüentou por pouco tempo e outro (Paulo.. mas também se evadiu do espaço escolar.. Desempenho Escolar O desempenho escolar dos participantes também foi questionado. eu rodei. no consenso que eu cheguei e disse pra minha mãe: ‘eu tô trabalhando. (Osmar. tô ganhando meu dinheiro. né? Sai da quadra e fui pra lá. Eu entrei. eu rodei. Não quis mais ir. As respostas foram classificadas nas categorias: desempenho regular com evasão escolar. Na escola umas vezes os guris se embestericavam pra me bater. assim. 70 anos) não chegou a freqüentar a escola e por isso não tinham recordações importantes sobre a escola. então o resto era católicos.. Não foram encontrados estudos específicos que versassem sobre o ambiente escolar de abusadores sexuais infantis. chegando a concluir o ensino médio quando tinha cerca de 24 anos: . 37 anos). Isso aí só olhando em boletim ou perguntando pra minha mãe. Respostas Ausentes Um participante (Marcos. 37 anos). por aí (Francisco. Osmar (70 anos) também comentou um episódio ruim da escola afirmando que “nós somos adventistas.. Garret (2004) relata que os abusadores entrevistados em seu estudo revelaram ter mais lembranças escolares negativas. assim.. Ah. Um deles (Francisco. Desempenho Regular com Evasão Escolar O desempenho escolar dos participantes variou. Não tenho certeza.. Mas. que eu me lembre. na verdade o que aconteceu é que eu desisti de estudar..

Francisco (37 anos) disse que possuía amigos na escola com os quais se relacionava bem. 37 anos). eu praticamente fui parar de estudar. uma escolaridade escassa. Osmar também foi o único participante que relatou perceber o estudo como uma atividade prazerosa: “Era normal. Respostas Ausentes Como já foi comentando anteriormente. E naqueles 4 anos que convivi. nem era um aluno totalmente desinteressado. apresentando.66 Normalmente eu fazia exame. Sempre gostei de estudar.. Nota-se que os participantes deste estudo apresentaram além de uma baixa escolaridade.. pois se sabe que pessoas provenientes da classe trabalhadora têm pouco acesso aos bancos escolares. lá pelos 24. Por isso. Contudo. Uma convivência saudável sempre. É. leio muito” (Osmar. 37 anos esclareceu que “Alguns eram da escola.. Depois dos 16. A . mas com pessoas. convivi muito bem com eles” (Flávio. 37 anos). uma história escolar de pouco sucesso. estes dois participantes não possuem recordações do espaço escolar. Relações com os Pares na Escola Foi questionado também como eram as relações dos participantes com seus amigos na escola... outras crianças. ainda gosto. Então eu não era um aluno muito estudioso. Este fator está diretamente ligado a questão da classe social dos participantes. Bom Desempenho Sem Evasão Escolar Apenas um deles completou o ensino médio no período adequado: “Terminei meus estudos no tempo certo.. que eu comecei a fazer o curso. Mas eu nunca rodei. quando eu parei.. 70 anos). eu estudei no colégio marista.. fui bolsista em colégio particular. era normal. Flávio. a gente sempre brigava muito. conseqüentemente. Relações Positivas Todos os participantes que freqüentaram a escola relataram que tinham amigos no espaço escolar. 25. 73 anos). Marcos (38 anos) freqüentou a escola por pouco tempo e Paulo (70 anos) não chegou a estudar. havia brigas entre a sua turma e outras crianças: “Ela (relação) sempre foi saudável. As respostas se organizaram em duas categorias: relações positivas e respostas ausentes. na escola militar” (Osmar. Por que eu estudei. crianças que não eram. quando eu me formei no curso de comercial. né? (Flávio.

mas tinha. assim” (Osmar. aluno nem participativo nem quieto e respostas ausentes. Então mas fazia. 73 anos). 73 anos). Aluno Tímido. Aluno nem Participativo nem Quieto Flávio (37 anos) disse que “Acho que eu não era muito participativo. (Francisco. 37 anos). Pode-se afirmar que os participantes possuíam relações saudáveis com os pares na escola. aluno tímido e participativo. que eu era muito inteligente. então havia participação nas comemorações pátria. Outro comentou também que “Tinha poucos. Atuar no palco isso eu fazia. assim. 37 anos). eu decorava e dava a poesia. As respostas foram organizadas em três categorias: Aluno inteligente e agitado. Assim.. Jogávamos bola” (Osmar. Me diziam para fazer um poesia. Que eu tinha condições de pá e tal”. nem muito quieto também” (Flávio. Daí dava para recitar uma poesia. . né e tal.67 gente brigava muito” (Francisco. Aluno Inteligente e Agitado Um dos participantes disse que em opinião da professora sobre o aluno que ele foi na infância certamente seria “É. da primavera. Diziam que eu era muito agitado. Mas. ele era um aluno participativo: Mas eu sei muito bem que até agora. sempre me acharam muito inteligente. mas com uma certa timidez.Fazia o que eles me mandavam. não era muito aberto. sempre fui tímido. Apesar de não fazer referencia específica ao ambiente escolar. Garret (2004) em seu estudo sobre as experiências infantis de abusadores sexuais de crianças verificou que seus participantes sentiam-se isolados. o que caracterizaria relações pouco íntimas e pouco profícuas. Eu era tímido. 37 anos).. Me dava muito bem. Descrição das Professoras sobre os Participantes Também foi perguntando aos participantes “Como você acha que sua professora lhe descreveria?”. constata-se novamente que as respostas dos participantes do presente estudo não corroboram os dados traçados por Garret. mas Participativo Osmar (73 anos) relatou que apesar de sua timidez. brigavam com seus colegas e não possuíam confiança em suas relações de uma maneira geral.

pro cinema direto. assim. 73 anos). E tinha mercado. As respostas foram organizada em uma única categoria denominada lembranças positivas. Osmar (73 anos) também disse: Era tudo tranqüilo. pois o primeiro freqüentou este espaço por pouco tempo e o segundo não chegou a estudar.. Desta forma. verificou-se que eles também não eram adjetivados com características pejorativas e depreciativas como ocorreu aos participantes do estudo de Garret (2004). Então a gente se reunia todo mundo e a gente ia pra Redenção. Nesta questão. participativo) e outras que não podem ser classificadas nem como negativas nem como positivas (nem quieto nem agitado. . Mais uma vez. pois os desta última pesquisa relataram um vida conturbada. padaria. que “Nessa época. Não havia gente desocupada. com a presença de muitos conflitos e violências.. perto da Oswaldo Aranha ali. 37 anos e Marcos. luz. Lembranças Positivas e Negativas de Outros Espaços na Infância Nesta seção. ali pra Oswaldo Aranha. praticamente uma cidade pequena. Duas respostas se refeririam as “brincadeiras” (Flávio. Então tínhamos casa. Um deles enfatizou. serão relatadas as respostas dos participantes sobre as lembranças positivas e negativas sobre outros espaços da infância. Tinha escola e coisa assim.68 Respostas Ausentes Como já foi dito. Lembranças Positivas Todos os participantes relataram apenas episódios positivos no bairro. E havia uns ônibus que levavam para a capital (Osmar. Marcos (38 anos) e Paulo (70 anos) não possuem lembranças do espaço escolar. 38) e uma última ao gosto pelo trabalho na lavoura. Mais de 40” (Francisco. dado este oposto àqueles encontrados no estudo de Garret (2004). tímido). as lembranças positivas foram destacadas pelos participantes. Nessa firma havia um acampamento para as famílias que a própria firma dava. nessa época eu morava aqui no bairro Santana. água tudo que dava a firma. nota-se que os participantes relataram características tanto positivas (inteligente. pois não houve recordações de episódios negativos. por exemplo. Era bastante gente. 37 anos). Então todos que moravam ali eram filhos de trabalhadores.

. Brincava” (Osmar. É o padrinho da minha filha” (Francisco. Os mesmos amigos que foram na minha infância. Ele é meu compadre. os amigos era de trabalho”. por sua vez. As respostas foram classificadas em duas categorias: relações positivas sem a descrição de conflito e relações positivas com descrição de conflito. Fica vadiando na esquina e tal.. Conserva até hoje. salientou que “Amigo a gente sempre tinha. se telefona (. 37 anos). né. . 73 anos). De maneira geral. Um dos participante salientou: Os mesmos que são hoje. Desde criança até hoje. já saía junto pra rua. já se procurava. 38 anos). nem ao ambiente familiar. Relações Positivas sem a Descrição de Conflitos Nesta categoria foram organizadas as respostas que descreviam apenas os aspectos positivos das relações com outras crianças que não pertenciam nem ao espaço escolar. No meio de tudo isso. os mesmos amigos que eram da infância continuam ate hoje (Flávio.. Essas coisas assim. A gente acordava. andar de skate. pois os participantes do estudo conduzido por ela relataram relações pouco íntimas e conflituosas com as pessoas de uma maneira geral durante a infância. tinha amigos sem dúvida. Relações Positivas com Descrição de Conflito Apenas um dos participantes salientou a presença de conflitos entre ele e outras crianças. Novamente. quer dizer a gente sempre foi super amigo desde criança. Nota-se que quase todos os participantes se refeririam aos amigos sem relatar nenhuma história de briga ou conflito. todos.69 Relações com os Pares em Outros Espaços Aqui são descritas as relações com crianças que não pertenciam nem ao espaço escolar e nem ao ambiente familiar durante a infância. Paulo (70 anos). Outro disse que havia um amigo especial com a qual ele estava em todos os momentos: “Porque ele tava sempre junto. ambos com 37 anos) enfatizaram que algumas amizades da infância permaneceram até a vida adulta. andar de bicicleta. Outro comentou que “Sim. tinha amigos. pode-se afirmar que as relações com os amigos podem ser classificadas como saudáveis. 37 anos). eu tinha amigos. Mas.. Alguns (Flávio e Francisco.) É. a gente foi criado junto e até hoje a gente se fala. Contudo. pra. este dado está em desacordo com os achados que Garret (2004). esses conflitos foram classificados algo “normal” (Marcos.

e brincava. Atividades Lúdicas e de Estudo Apenas um dos participantes ressaltou ter apenas estudado e brincado durante a infância. 37 anos). sem exercer nenhum trabalho remunerado... 70 anos) afirmaram que seu tempo na infância era dedicado ao trabalho remunerado e as atividades lúdicas. Não gostava muito de estudar. Cuidava. o que parece ter “encurtado” sua infâncias e . Segundo Francisco: “(A partir dos 11 anos) Trabalhava meio período e estudava. né? Brincar. As atividades laborais dos próprios participantes é um ponto que necessita ser um pouco mais discutido. por sua vez disse que “Até uma altura era brincava. Só estudava e brincava” (Osmar. 38 anos e Paulo. apenas atividades de estudo e atividades de trabalho e de estudo. ela (a avó) pedia pra mim ver lenha pra ela que era tudo fogão a lenha. Atividades Lúdicas e de Trabalho sem Estudo Dois dos participantes (Marcos. essas coisas” (Marcos. de quem fosse. As respostas dos dois participantes sugerem que eles enfrentaram uma rotina rígida de trabalho na qual não havia tempo suficiente para as brincadeiras. só fui começar a estudar mesmo na adolescência” (Francisco. a gente ia na casa do vizinho de um tio. Domingo. de Estudo e de Trabalho Dois dos participantes (Flávio e Francisco ambos com 38 anos) afirmaram que durante a infância.70 Ocupação do Tempo na Infância Aqui são descritas as respostas à pergunta “Como você ocupava seu tempo na infância?”.... Segundo Paulo (70 anos): “Do jeito que eu tava falando. 38 anos). Varria a casa também pra ela. o estudo e o trabalho remunerado. daí depois quando eu fiquei mais grandinho daí era mais era trabalhar mesmo. né? Fora brincar e estudar”. Quase todos eles se referiram ao trabalho como uma forma de ter mais responsabilidades. se não tivesse um serviço apertado. Atividades Lúdicas.” Marcos (38 anos). Osmar comentou que “Nenhuma outra atividade. As respostas foram classificadas nas categorias atividades lúdicas e de trabalhos sem estudos. aí eu ia quebrar lenha pra ela. Flávio (37 anos) também relatou que “Eu trabalho desde os doze anos de idade. dividiam seus tempos entre as brincadeiras. 73 anos).

Para exemplificar. pois exerciam atividades remuneradas desde muito cedo. Flávio também comentou que “jogava basquete”. né. a entrada no mundo do trabalho e das responsabilidades parece ser um aspecto prático que define a mudança de criança para adulto ou para adolescente.. Contudo. Comecei a trabalhar com 11 anos de idade. Francisco (37 anos). já que eles relatam que tornaram-se adultos mais cedo. determinada pelas experiências mais concretas. de skate. eu já trabalhava. afirmou que “Sempre gostei de bicicleta. pois segundo Garret (2004) a infância dos participantes em seu estudo foi atravessada por outras atividades de responsabilidade que não ao trabalho como o cuidado com a rotina dos irmãos mais novos ou ser responsável pelo bem-estar de suas irmãs. No meu caso antes de eu fazer 18 anos eu já tinha família. né. 37 anos e Osmar 73) citaram que gostavam de “jogar bola”. essas coisas assim..Marcos (38 anos) disse “Andar de bicicleta eu gostava”. então comigo não foi assim. A infância seria uma época feliz. Mas pra mim acho que a pessoa. Então com 17 anos eu já tinha família. né. E. não foi como estas descritas nesse estudo. já me autosustentava e. Jogos e Brincadeiras com Objetos Dois dos entrevistados (Flávio. Foi um pouco diferente (Francisco. Mais uma vez. teoricamente. enquanto na prática ser criança acontece de uma outra maneira. Assim... Esse tipo de afirmação fornece pistas de que em nível abstrato as respostas são dadas de uma maneira idealizada. as infâncias deles próprios.”. perante a sociedade. Osmar (73 anos) também comentou que “Brincava de bolita”. No meu caso. sem trabalhos e responsabilidades. esse encurtamento da infância a fala de Francisco. As . assinei carteira com 15 anos. brincar com skate/bicicleta e resposta incoerente. completa a maioridade. adolescente passa a ser adulto a partir do momento que. serão descritas as respostas á pergunta “Quais eram suas brincadeiras preferidas?” As respostas foram organizadas nas seguintes categorias: Jogos e brincadeiras com objetos como bola. as respostas dadas divergem dos dados encontrados na literatura. bolinhas de gude. por sua vez. não foi dessa maneira... Brincadeiras Preferidas Nesta parte. 37 anos é emblemática: Ah. Pra mim. 37 anos)..71 adolescências. Em suas falas sobre o que é ser criança ficou visível uma concepção ideal sobre as crianças e sobre a infância..

A baixa escolaridade se relaciona mais diretamente a classe social da qual esses homens participam. as relações com os pares também foram descritas de maneira positiva. Adolescência A partir desse ponto. em suas infâncias. também. Pois. e por isso. Verificou-se que eles possuem um sentimento de pertencimento positivo em relação a família. As lembranças no bairro também foram majoritariamente positivas. sem a presença de episódios de violência. ou um histórico escolar de pouco sucesso. As respostas se organizaram em três categorias: Características positivas. Também deram adjetivos positivos a si mesmos quando descreveram-se como crianças. afirmaram que seus pais os descreviam de maneira positiva quando crianças. os participantes possuíam um bom auto-conceito de si. . Há que se considerar que esta não deve ser uma característica associada ao perfil de homens acusados de cometer delitos sexuais contra crianças. família e bairro) foram construídas de maneira saudável. apresentam poucos anos de estudo. serão descritos alguns aspectos sobre a adolescência dos participantes. Esse último dado indica que. A baixa escolaridade dos participantes e uma história escolar de pouco sucesso foi constatada neste estudo. As perguntas sobre a infância tinham como objetivo analisar que avaliação os participantes faziam dela. Disseram também que se dava bem com os irmãos e não comentaram nenhum episódio de vitimização acontecido no ambiente familiar. Descrição de Si Próprios Quando Adolescentes A seguir serão descritas as respostas quando se questionou “Fale de você quando adolescente”. Na escola. verificou-se que as relações estabelecidas nos microssistemas (escola.72 brincadeiras descritas por eles dão a impressão de uma infância comum e tranqüila. sabe-se que pessoas provenientes da classe social com baixo poder aquisitivo possuem um acesso restrito aos bancos escolares. características negativas. Assim. As relações com outras crianças nesse espaço. relembrando majoritariamente episódios positivos em relação a ela. Além disso. adolescente normal e respostas ausentes.

evadindo-se da resposta. Pessoas com as Quais Convivia na Adolescência As respostas relacionadas nessa seção referem-se às perguntas “Com quais pessoas com quem convivia durante a adolescência”. ” (Marcos. Segundo ele: “O que eu mais gostava de fazer era de ir em festa. Paulo (70 anos) não respondeu a esta e outras questões sobre a adolescência. 37 anos). divertimento. pois desde o início da entrevista mostrou dificuldades em delimitar esta etapa da vida. Este seu comportamento tinha uma meta mais específica de conseguir obter dados que lhe fossem favoráveis. Características Negativas Francisco (37 anos). Paulo (70 anos) deu uma resposta semelhante afirmando que “morei com minha família até quando fui pro exército”. Observa-se pelas respostas dadas sobre a questão da descrição dos participantes enquanto adolescentes. com a família de origem e com a companheira e com a família de origem e com outras pessoas. A resposta ausente no caso de Osmar ocorreu devido ao seu comportamento manipulador que tinha por objetivo discutir apenas os aspectos relacionados com a denúncia. Respostas Ausentes Osmar (73 anos) não respondeu a essa questão. minha avó e minha irmã”. disse que “perdi um pouco o senso de responsabilidade que eu tinha quando eu era mais novo. 38 anos). . 37 anos).. minha mãe. As respostas foram classificadas nas categorias apenas com a família de origem. Normal. Adolescente Normal Outro participante se descreveu como “um adolescente normal”. que eles não possuíam uma visão pejorativa e depreciativa sobre eles próprios.” (Francisco. Diversão.73 Características Positivas Um dos participantes relatou que “Mas eu sempre fui obediente” (Flávio. por sua vez. Apenas com a Família de Origem Flávio (37 anos) relatou que convivia com “Meu pai.

A seguir são relatadas as respostas a essa questão que foram categorizadas da seguinte maneira: Relações positivas e respostas ausentes. E ela foi morar lá na minha casa..... “Muito novo. a gente ficou junto.. Com a Família de Origem.. Depois disso... 37 anos). ela é uma pessoa que eu me dou bem até hoje... com Parentes e com Outras Pessoas Osmar (70 anos) disse que em sua adolescência morou com seus pais e posteriormente “Sim. pelos tipos de conduta. briga... Essas coisas normal.. Com a minha mãe com meus.. não mudou nada”. “ (Francisco. Osmar (73 anos) também comentou se dar bem com a família. 70 anos).. 15 anos... por aí”. pelas normas. eu tinha uns 14.. né. Sempre foi boa. Relações com as Pessoas com as Quais Convivia Questionou-se aos participantes como era a relação deles com as pessoas com as quais eles conviviam na adolescência. tal.. uma relação boa. não. Inclusive ela tinha uns 60 anos (. Tinha eventual discussão e. nunca ninguém brigou de tirar sangue um do outro. Marcos (38 anos) também conviveu com uma companheira na adolescência: “A primeira vez. enfatizando que “Me dava bem principalmente com minha mãe”.74 Com a Família de Origem e com a Companheira Um deles afirmou que “(Com 17 anos) aí. durante a adolescência se relacionavam bem com as pessoas ao seu redor. De família normal. Sei. Francisco (37 anos) relatou que a relação com sua família “Sempre foi boa... (Osmar. viver junto com outra pessoa foi com 17 anos. pelo jeito que ela me regrou. era a mãe da minha mãe. Ele também comentou que “Sempre. Marcos (38 anos) também relatou que sua relação com sua família de origem “Continuou a mesma coisa. Mas sempre foi. E justamente por isso ela pediu para algum dos filhos para lhe fazer companhia”. 18.. sempre” se relacionou bem com sua companheira (outra pessoa com a qual conviveu na adolescência). Osmar também . Relações Positivas Todos os participantes.”... não morava ninguém com ela. Flávio (37 anos) disse que sua relação com sua mãe era especial durante a adolescência: “Pelos ensinamentos. sempre. casar eu num casei nenhuma vez.)E ela estava sozinha mesmo. E ai eu só fui para o exército. né”. para a escola militar”.

. tomava um banho. Trabalhava. daí.. Becker. né? Daí a gente se divertia. Ocupação do Tempo Durante a Adolescência As respostas relacionadas a seguir dizem respeito a pergunta “Como ocupava seu tempo durante a adolescência?” As respostas foram organizadas nas seguintes categorias: Trabalho e atividades de lazer. Nos agarramos os dois”.. Trabalho.) Nos batemos. 1994) aos primeiros atos de violência sexual.75 conviveu com os companheiros do exército. Muitos estudos fazem referência (Abel & Harlow. nota-se que este período não foi atravessada por grandes conflitos. ah. por não conseguir compreender o que significa a adolescência.. novamente mostrou dificuldade em responder a pergunta. Ele frisou que ocorrência de brigas no exército era “comum”. A partir do relato dos participantes sobre suas adolescências.. chagava em casa. normal. 2001.... Trabalho e Atividades de Lazer Marcos (38 anos) citou que sua rotina na adolescência era dividida entre o trabalho e a diversão: “Eu trabalhava bastante.... Pelas respostas dadas pelos participantes percebe-se que as relações que elas mantinham com as pessoas em geral durante a adolescência também eram saudáveis. Respostas Ausentes Paulo (70 anos). pegava o violão. trabalho e encontro com os amigo e trabalho e estudo.. assim. tinha também o final de semana como eu falei. inclusive contra crianças. né?” . uma . Encontro com os Amigos Um dos próprios participantes mencionou “Então.. Nas falas dos participantes da pesquisa. Assim. já nessa fase. mas era normal.. eu trabalhava.. através dos auto-relatos não puderam ser observadas relações disfuncionais com crianças na fase adolescente. me sentava na esquina com os guris e. a relação com crianças nessa fase nem chegou a ser mencionada. que não gostei (. Entretanto. pois foi interno em um colégio militar. ele comentou que se dava bem com seus companheiros do colégio militar e que brigou apenas uma vez com um deles: “Me lembro de uma vez que falaram de minha mãe.. Trabalhava bastante e.

Eu fazia pintura de antena. acho que a primeira. 38 anos). Era pintor. assim. As respostas foram organizadas nas categorias lembranças positivas. ausência de lembranças. por sua vez. Nessas classes não é incomum a evasão escolar na adolescência e a entrada precoce no mercado de trabalho. Osmar (73 anos) afirmou que: “De manhã ia para escola e voltava mais tarde. depois dos 16. Aos 14 comecei a trabalhar com oficina de moto”. é a primeira namorada que eu tive” (Marcos.. né? Fiquei conhecido aqui praticamente no Rio Grande do Sul inteiro. Eu estava trabalhando naquela firma que eu lhe falei que meu pai arrumou para mim e eu trabalhava como office-boy” . né”. Flávio (37 anos) citou comentou também que “Ah! Eu praticamente. 37 anos). Outro afirmou que sua melhor lembrança da época da adolescência é “Ah episódio bom.. É válido explicar que Francisco se evadiu da escola aos 13 anos. Flávio (37 anos).. A partir destes dados pode-se afirmar que as atividades exercidas pelos participantes em suas adolescências eram atividades típicas de pessoas de classes sociais menos favorecidas. Episódios Positivos e Negativos durante a Adolescência As respostas apresentadas a seguir referem-se à pergunta “Descreva episódios bons e ruins de sua adolescência”.. lembrou que “uma lembrança boa que eu tenho da parte da adolescência por que eu estudava bastante e viajava muito. foi bem bom” (Francisco. Conhecia muita gente importante também.76 adolescência acho que normal. Trabalho e Estudo Dois dos participantes citaram que as atividades mais freqüentes em suas vidas na adolescência eram trabalhar e estudar. . características estas expressas pelas falas dos participantes. conhecia muita gente diferente. que eu comecei a fazer o curso (de piloto de avião). E trabalhava. né? Viajava muito. assim” (Francisco. assim. 25. eu praticamente fui parar de estudar lá pelos 24. Lembranças Positivas Um dos participantes lembrou que um episódio bom foi “A parte boa digamos. festival que a gente foi tocar. lembranças negativas e respostas ausentes. 37 anos).

a pesquisadora optou por não fazer mais perguntas sobre a fase adolescente. Auto-percepção Nessa seção. pois notou que ele estava constrangido por não saber como responder. Osmar de 70 anos apresentou o mesmo tipo de resposta: “Ah.. auto-estima com a subcategoria auto-estima positiva e traços morais. Temperamento Temperamento positivo Quanto ao seu temperamento. 70 anos). com as subcategorias frustração e ausência de defeitos. com a subcategoria pensamento e ações corretas frente aos outro e outros traços. Adultez A partir desta parte. ruim..77 Ausência de Lembranças Negativas Ao serem indagados sobre episódios negativos de sua adolescência. A resposta de Flávio (37 anos) ilustra esse tipo de resposta: .. 38 anos).. Sinceramente. Lembranças Negativas O único que se referiu a um episódio negativo de sua adolescência foi Marcos (38 anos): “Uma das coisas tristes é quando a gente ta acostumando com uma pessoa e de repente aí termina. todos participantes descreveram a si mesmos como pessoas calmas. demonstrando bloqueio diante das perguntas. ruim da minha adolescência acredito que não teve. não. um deles afirmou que: “Ruim. Nada. Uma coisa ruim. Sobre as respostas ausente de um dos participantes (Paulo. num lembro de nenhum episódio que eu possa dizer que foi ruim. As respostas sobre a adolescência denotam mais uma fase tranqüila. Nenhum? Na minha adolescência. Não me lembro mais.. em um certo ponto. pode ser isso daí” (Marcos. são apresentadas as respostas referentes à pergunta “Fale-me de você como adulto”. Não teve episódio ruim” (Flávio. Francisco (37 anos) fez uma afirmação semelhante a dos dois participantes anteriores: “Ah.. são apresentadas as respostas às indagações feitas sobre a fase adulta dos participantes. nada”. As respostas foram organizadas nas categorias temperamento com a subcategoria temperamento positivo. sem conflitos ou violências. 37 anos). Não me lembro”.

Apenas Francisco (37 anos) admitiu que foi impulsivo quando se relacionou sexualmente com sua afilhada: “Não. eu fui sim (impulsivo). me dou com todo mundo”. né? Não sou agitado. Com tais respostas. posso dizer que já gostei mais de mim. Tamayo et al. Eu sou religioso.78 “Praticamente sou uma pessoa tranqüila.. sempre fui disciplinado. Não que eu me esconda atrás da religião. ele citou que esse não é seu padrão constante de comportamento. mas eu . A fala de Francisco (37 anos) serve para ilustrar esse tipo de resposta: “Bem. 73 anos). Dois deles relataram que depois da acusação sua autoestima diminuiu.. Evito de ter alguma coisa. nem nada”.. conclui-se que os participantes do presente estudo possuem uma boa avaliação de si mesmos. Como te disse.. nesse caso. Se eu posso. A resposta de Paulo (70 anos) exemplifica este tipo de resposta: “Sempre penso antes de fazer as cosias. né”.)”. o que for. fiz besteira”. Os outros afirmaram que se gostam e se valorizam. Auto-estima Auto-estima positiva A auto-estima é uma importante parte do auto-conceito. A fala de Osmar serve como exemplo deste tipo de pensamento: “Que eu saiba nunca fiz nada grave assim. 157)... depois que fiz isso. Além disso. Contudo. disseram não se arrepender de nenhuma ação que tenha executado. A resposta de Osmar (70 anos) exemplifica esse tipo de fala: “Eu gosto.. afirmando que “As pessoas sempre me dizem que sou uma pessoa calma. me sinto culpado demais por tudo que fiz. (2001) definem a auto-estima como a “avaliação global que a pessoa faz do seu próprio valor” (p. mas esse troço aí eu fiz sem pensar. Gosto de como sou. Acho que o certo. mulheres. As falas de Osmar e de Paulo também chamam a atenção pelo fato de os dois ressaltarem o respeito a mulheres e meninas: “Eu respeito totalmente as moças. todos os participantes relataram que sempre foram respeitadores. nunca teve motivo” (Osmar. pela minha esposa está como está”.. Também se descreveram como pessoas sem comportamentos impulsivos. errada.. pois sempre agiram corretamente com as pessoas. Traços Morais Pensamentos e Ações Corretas Sobre os traços morais dos entrevistados. assim. A resposta de Paulo (70 anos) exemplifica esse tipo de postura: “Eu sempre tive respeito na minha vida”. mas que ainda se valorizam. divido a paz como tudo mundo (.

não haveria motivos pelos quais eles se percebessem de maneira negativa e não se valorizassem. eles vivenciaram uma vida tranqüila. 217)..”. com relações saudáveis nas quais foram amados e respeitados.. Esse tipo de resposta diverge das idéias que apóiam o mito do estupro tais como “as mulheres podem resistir ao estupro. na medida em que as respostas de Paulo e Osmar enfatizam um respeito pela mulher em qualquer situação. conclui-se que os participantes têm um bom autoconceito e uma boa auto-estima. p. constata-se que os participantes possuem um bom conhecimento intelectual sobre as normas que regem o relacionamento entre as pessoas. embora dois deles afirmem que antes da acusação. Mais uma vez. agora no momento eu não lembro de defeito meu assim. que eu tenho na minha vida é que todas as coisas que eu decidi fazer. principalmente denuncia que ele respeitaria até as prostitutas. Com as respostas dadas. assim. e se isso acontece é por que eles querem”. De acordo com as declarações dos participantes..79 sou religioso.”. A fala de Flávio (37 anos) sobre seus defeitos pode ser útil para ilustrar o tipo de resposta dada: “Defeito mesmo. “mulheres pedem pelo estupro” (Burt. em um primeiro momento. de ir pra frente. A resposta de Paulo. da boate”.. Paulo (70 anos) também citou: “Eu dou o respeito até pra mulher pública. assim. ao longo de suas vidas. Outros Traços Pessoa Frustrada Um deles se definiu como uma pessoa frustrada pelos projetos que não conseguiu realizar. Ausência de Defeitos Quando questionados sobre seus defeitos. Apenas um deles afirmou que seu pior defeito era corrigir as pessoas quando essas emitiam alguma informação equivocada. aos dados do . eles afirmaram que não possuíam algum defeito que se lembrassem. Os auto-conceitos positivos e a boa auto-estima seriam reflexo da vivência de episódios positivos durante suas vidas.. foram definindo-se de maneira positiva.. Francisco citou que havia um grande pesar em sua vida: “Uma grande frustração. suas auto-estimas fossem mais elevadas. nenhuma deu certo. Assim. entendeu?” (Francisco. Pelas respostas dadas. Pode-se notar que o auto-conceito e a auto-estima dos participantes. 1980. não deu certo em termos. Não. 37 anos).

A baixa autoestima vem sendo associada à etiologia e à manutenção do cometimento de abuso sexual contra crianças. eram chamados de “estúpidos” (p. o auto-conceito e auto-estima são importantes de serem investigados. esse tipo de visão que os outros possuíam sobre eles tornou-se verdadeiro. eles aprenderiam . pois eles dão indícios de como os abusadores percebem a si mesmos. e que não possuem a visão de que suas vontades são mais importantes que as do outros e que devem ser cumpridas de maneira imediata. com as pessoas. nas quais os sentimentos de desvalorização e humilhação se fizeram presentes. pois quando os participantes reiteram que respeitam as outras pessoas. fazendo com que eles se sentissem especialmente desvalorizados até a fase adulta.80 presente estudo são completamente inversos aos encontrados na pesquisa realizada por Garret (2004). As falas deles. Alguns participantes frisaram inclusive que respeitam as meninas e as mulheres. Os abusadores da pesquisa realizada por ela enfatizam que suas vidas foram conturbadas. por exemplo. Horley afirma que a aceitação ou não das regras sociais está relacionada diretamente ao cometimento dos atos de abuso sexual contra crianças. Possuir baixa auto-estima faria com que os abusadores sintam-se inseguros em enfrentar situações de estresse. Nesta pesquisa constatou-se que eles possuem auto-conceito positivo e auto-estima elevada. Assim. citam que os comportamentos dos abusadores são auto-centrados. inclusive. (2005) e Horley (2000) comentam que o modo como abusadores vêem a si mesmos e o mundo são determinantes para compreender o modo como eles agem. Gannon et al.133) e se sentiam como objetos que serviam para o uso das outras pessoas segundo esses participantes. Uma última conclusão sobre este aspecto é que parece não haver “erros” nas cognições sobre o respeito que se deveria ter com as pessoas de uma maneira geral. reiteraram o que eles sentem respeito pelos outros. Gannon et al. resultando em auto-conceito negativo e baixa auto-estima. fato este que parece divergente quando se contata que todas as vítimas relacionadas a acusação de abuso sexual contra eles são meninas ou adolescentes do sexo feminino. implicitamente eles dizem que aceitam as normas sociais. inclusive com as crianças. O único dado que sugere uma autocentração é ausência de defeitos relatados por todos eles. Um aspecto sobre a auto-estima merece ainda ser comentado. com eles percebendo suas vontades e necessidades mais importantes que os dos outros. Desta forma. Os abusadores relatam. que na infância. Estas falas sobre respeito aos outros são importante para compreender a aceitação dessa regras.

Só pedia para ela não fazer mais aquilo. esta característica não estaria associada às denúncias de abuso sexual infantil contra eles. Mudanças Familiares Após a Denúncia Quatro participantes relataram que suas vidas familiares modificaram-se após a denúncia. né? Mas tinha que pagar. até o acontecido aí era mil maravilhas.. Formação da Família e Relação com Ela na Época da Entrevista Nesta parte. motivo pelo qual ele afirma que sua família no momento da entrevista era “A minha família é a mãe. a minha irmã que ta sempre do meu lado. mas parece que não adiantava . após a denúncia. Entretanto.81 desde cedo a adotar estratégias disfuncionais para lidar com as situações estressantes (Marshal et al. As respostas estão organizadas a partir das categorias mudanças familiares após a denúncia e manutenção nas relações familiares após a denúncia. O meu filho eu não sei se vou conseguir ver ele de novo”. Não ia encrencar com ela por causa disso.. serão relatadas as respostas às perguntas “Quem é sua Família” e “Como você se relaciona com ela”. A relação com sua esposa no momento imediatamente anterior à denúncia parecia conflituosa. seres mais frágeis e desprotegidos. mas o casal permanecia junto e ele se relacionava bem com sua enteada (vítima na denúncia de abuso sexual) e com seu filho: “Era bom. O senhor ficava chateado com ela quando ela fazia isso?Ficava chateado. que antes da denúncia sua esposa: Gastava com roupas chegava praticamente estourava o salário. né” (Flávio. sempre gostou muito de mim.. Francisco (37 anos). . por exemplo. Teoricamente. só. 1999). Flávio (37 anos) disse. 37 anos). é o pai. Meu sogro. O Ricardo (filho) não tem o que falar. Praticar atos de abuso sexual contra crianças seria uma dessas estratégias disfuncionais.. Muito bom. é falecido agora. disse quando a denúncia (no caso dele informal. seria mais fácil que lidar com as situações estressantes propriamente ditas.. ele rompeu o relacionamento com sua esposa e está impossibilitado de ver o filho. por sua vez. pois lidar com crianças. Minha sogra me tratava como se um filho dela. os meus amigos. não tinha muito problema. na metade do mês eu tinha que correr atrás. pois ainda não havia se transformado em processo judicial) veio a tona a relação com a família tornou-se conflituosa: Olha. só dizia pra ela que tinha que dar um jeito de pagar. Pode-se notar que uma baixa auto-estima não foi um dado encontrado no auto-relato dos participantes.

As pessoas tinham muita confiança em mim e. Sempre que eu podia dar eu dava. né. A relação de Marcos (38 anos): com sua ex-esposa.. “não vai dizer que nunca teve. botava de castigo. alguma palmadinha. que apesar dessas mudanças na relação familiar. Quando precisava corrigir alguma arte também.. Disse que depois da denúncia não concebe mais seus filhos e sua esposa como sua família. (.. eu trazia ela no toco. ainda... minha filha me acusou de algo muito grave”. Manutenção das Relações Familiares Após a Denúncia O relacionamento de Paulo (70 anos) com sua esposa e filhos. meus irmãos. como é que eles se comportam com os amiguinhos quando eles vão brincar. 38 anos). pois nunca houve um conflito grave entre eles. A mãe também. sua esposa e filhos foram lhe visitar “só uma vez”.. Eu sou um pai assim que me preocupo com que eles fazem. Normal de pai com filho. “Quer dizer ali. um presentinho. nota-se certo autoritarismo de Paulo com as pessoas de sua casa. Uma troquinha de palavras”.. Difícil eu vou poder perdoar a minha filha”. foi descrito como tranqüilo. os irmãos também como a irmã. que dá bastante problema sobre isso aí (Marcos. como eu falei” A relação de Marcos com sua esposa tornou-se conflituosa. que é eu. por causa do motivo dos caprichos dela (com a casa).. Francisco disse. pois “Todos sumiram. Marcos foi preso pela acusação de denúncia de abuso sexual contra sua filha e relata que desde que foi preso (40 dias antes da entrevista)..” . pra mim. a minha família. né. como é que eles vão no colégio. a minha esposa e minhas duas filhas. Este tipo de respostas sugere uma relação distante entre ele e sua família.. Tem um filho que tem quarenta e poucos anos. ele não separou-se da esposa e continua considerando que A minha família. né. hoje a minha família é bem grande.) E tem um filho também. agora tá um pouco complicado.. foi descrita da seguinte maneira: “A gente discutia bastante.. Osmar (73 anos) disse que antes da denúncia “Eu me dava com a minha filha. com meus filhos. Foi o único que chegou para mim e falou comigo”. Tem a minha família por parte da minha esposa. antes da denúncia. E comentou também que sua família naquele momento era apenas “Uma menina que tem oito anos que eu criei praticamente. Porque tem a minha família por parte dos meus pais. Uma briga. . Contudo. com agressões físicas entre eles: “Dei uns puxão de cabelo pra me defender”.82 Sempre dizia que era o genro que ele mais gostava. que eu considero a minha família mesmo. Ele também relatou que sua relação com os filhos era normal e saudável: Normal.

pois ambas se relacionam aos planos e desejos que os participantes pensam para seus futuros. Você fica no meio de um monte de gente que esta te acusando. dão risadas. Desejos Para o Futuro Nesta seção serão descritas as respostas das perguntas “Como você quer que seja sua vida no futuro?” e “Descreva para mim coisas boas que você gostaria que acontecessem no futuro”. 37 anos). É. Tenho pensado muito nisso e não vejo uma solução pra isso. você não tem mais. pois temia ser condenado no processo de acusação sexual que pesava sobre ele: “É. respostas relacionadas à acusação de abuso sexual. Ele comentou: Eu não penso mais no futuro. Praticamente você acorda no meio da noite e deu. Francisco (37 anos) também afirmou que sentia desesperança em relação ao seu futuro.. por exemplo... pais abusados na infância. 2002). esse aí eu acho que até não teria solução. pois segundo os estudos da área. Esse aí seria um problemão. prática freqüente de violência como forma de disciplina..83 A descrição desses resultados é importante para compreender como era a relação dos participantes com as pessoas de maneira geral e com outras crianças. Respostas de Desesperança Um dos participantes relatou. não tem mais nada. Silva & Hutz. A relação com outras crianças que não a vítima também foi apresentada de maneira positiva. que não percebe nenhuma solução para seu caso e acreditava que seria preso. as relações com suas esposas não era abusiva. inversão dos papéis hierárquicos entre pais e filhos. entre outras (ver Flores & Caminha. Segundo o relato de quase todos eles (exceto o de Marcos). As respostas foram classificadas nas categorias respostas de desesperança. as famílias nas quais os abusos ocorrem são freqüentemente disfuncionais. de repente você acorda na madrugada e tudo aquilo que você estava fazendo fica pra trás. né. Essas perguntas foram feitas com o objetivo de finalizar a entrevista de forma positiva. Novamente os dados apresentados nesse estudo entram em desacordo com aqueles apresentados na revisão de literatura. (Flávio. 1994. o futuro é muito longe agora. Pesquisadores citam que há um clima afetivo pobre. As respostas foram agrupadas.” . desejos de paz e tranqüilidade e desejos de realização pessoal.

né. ia ser melhor que antes. quem sabe. Além disso. assim. Alguns mostraram-se esperançosos e outros menos. A partir das respostas dadas. como eu já pedi (Paulo. da minha mente”. eu gostaria que um dia eu poder botar uma loja. 73 anos). E torcendo né. Eu já tenho a capa. tenho na cabeça o que vou escrever. Desejos de Paz e Tranqüilidade Osmar (73 anos) relatou que desejava “Recuperar essa parte (paz). de acuso não tenho medo. foi bom. . né. percebe-se que os participantes preocupam-se com as conseqüências futuras que as acusações contra eles podem gerar. (Francisco. eu espero eu cumpri as ordens que sempre eu cumpri. Com aquários. quem não deve não teme. 37 anos) Outro comentou que desejava escrever um livro: “Sim. assim. não com venda de rações e injeções. de venda de animais. Não. artista plástico. a ser melhor que antes. já comecei a fazer um esboço do livro. mesmo diante da preocupação. garota. Mas. que eu não sei a idéia do juiz.É tipo um pet shop. mas agora vou ter que escrever quando passar a edição” (Osmar. né? Cuidar dos meus filhos.. medicamentos..84 Respostas Relacionadas à Situação da Acusação de Abuso Sexual Marcos (38 anos) comentou que “Coisa boa pra mim que eu vejo agora é que termine tudo bem essa acusação contra mim. Voltaria. entendeu? Só que agora. mas é por gosto por Deus. Pra mim poder tocar minha vida. plantas e animais. como eu sou desenhista. para mim era o melhor do mundo. alguns deles. Paulo também relatou que desejava que a situação da acusação contra ele fosse resolvida: Olha. Não sei que o juiz vai mandar ela embora. se eu recuperar”. Agora só penso. e esperar a minha hora de eu ter que deixar eles né. né. Eu gostaria. eu não sei. por exemplo. Eu pretendo juntar um dinheiro pra isso. foram capazes de expressar algum desejo de realização pessoal. Escrever um livro.. no momento não tá dando.. Eu assim ó. Entendeu? Eu gostaria de trabalhar com animais. Um deles disse: Ah. Planos de Realização Pessoal Nesta categoria foram incluídas aquelas respostas que expressavam algum plano concreto de realização pessoal do participante. 70 anos).

né? Acho que seguida. na qual quase todos eles se encontravam. você acha que sua história influenciou em algo que acontece no momento atual?”. As respostas foram classificadas em única categoria: Ausência de conexão entre as histórias de vida e as denúncias.”. foram organizadas três subcategorias: Visão positiva e romanceada da infância. acho que a minha história de vida é uma paz só.85 Relações da História de Vida com o Momento Atual As respostas que serão descritas nessa seção se relacionam à pergunta “Pensando em sua vida hoje. pois na situação de envolvimento com a justiça. eles podem ter entendido que comentar que suas histórias de vida podem ter contribuído de alguma maneira para a acusação na qual se encontravam poderia afetá-los de maneira negativa. O tipo de resposta dado pelos participantes era. de certa forma. né? Só quero continuar com a minha profissão. Assim. Reiteraram que suas vidas foram tranqüilas e que por isso não conseguiam conectá-las as denúncias de abuso sexual contra eles. ajudando meus pais. Ausência de Conexão entre as Histórias de Vida e as Denúncias Quando foram questionados sobre suas histórias de vida e a relação com a denúncia. Dentro desta. A resposta de Flávio (37 anos) serve para ilustrar esse quesito: “Não.. talvez passe. esperado. a expectativa é de que eles não poderiam declarar nada que os comprometessem. O Que é Ser Criança As respostas dos participantes a esta pergunta foram agrupadas em uma categoria mais ampla denominada respostas politicamente corretas e/ou estereotipadas sobre a criança e a infância.. incompletude da criança em relação aos adultos e infância como fase importante para as demais. Visão Sobre a Criança A partir deste ponto serão descritas as respostas relacionadas à visão sobre a criança. os participantes revelaram que nenhum aspecto dessa história se relaciona com as acusações. Respostas Politicamente Corretas e/ou Estereotipadas sobre a Criança e Infância Visão Positiva e Romanceada da infância .

as crianças foram percebidas pelas estudantes como “uma como fonte de alegria e satisfação” para os adultos. e outro citou que a infância é aquela na qual se está “descobrindo o mundo e todas as coisas bonitas do mundo” (Flávio. 37 anos) e “bonita” (Flávio. algumas contradições podem ser apontadas. Pode-se notar. portanto. permeada pela felicidade. Contudo. Assim. esse tipo de resposta parece incoerente. Além disso. pois as crianças “pensa apenas em jogos e brincadeiras” (Osmar. que as respostas obtidas nessa pesquisa se aproximam das respostas da pesquisa de Gaiva e Paiao. suas respostas podem ter sido dadas de modo que eles não se comprometessem com elas. Além disso. 1998). não analisariam as crianças de maneira positiva. Neste último tópico. os participantes destacaram que ser criança é “não ter responsabilidades” (Francisco. pois os dois públicos percebem as crianças e a fase infantil de uma forma positiva. A frase seguinte serve para ilustrar essa idéia: “Ser criança é a idade mais feliz do mundo” (Osmar. 37 anos). Outro participante salientou que “ser criança é não ter problemas” (Francisco. pois esses indivíduos. seria coerente que as estudantes da pesquisa de Gaiva & Paiao vissem as crianças e a infância desse modo. as respostas positivas e romanceadas sobre as crianças e infância podem estar. 73 anos). a princípio. Gaiva e Paiao (1999) comentam que suas participantes também associaram a imagem da criança à diversão. associadas mais a uma estereotipia das respostas e ao que é socialmente aceitável do que as reais visões que esses homens possuem. como um ser gracioso com o qual se pode brincar. 37 anos). que ser criança é a “parte mais feliz” (Flávio.86 Ao serem questionados sobre o que é ser criança os participantes responderam. Gaiva e Paiao (1999) atestaram que a fase infantil e as crianças foram vistas por estudantes de Enfermagem como uma “coisa a ser admirada”. há que se considerar que esses indivíduos foram encaminhados compulsoriamente pela justiça até o local da coleta de dados. A essa função estaria associada a necessidade de se apreciar as crianças de maneira positiva. apesar de as respostas serem semelhantes. 37 anos). pode-se perceber mais uma vez que os resultados apresentados se . Assim. estudantes de enfermagem estão se preparando para a função de cuidar. para homens acusados de cometer delitos sexuais contra crianças. 73 anos). Incompletude da Criança em Relação aos Adultos Nessa segunda subcategoria. no contexto dessa pesquisa. por exemplo. A princípio. 37 anos). Contudo. Assim. considerando-os apenas como objetos (Amazzaray & Koller. ou seja. com o objetivo de serem avaliados psicologicamente.

a resposta de Francisco se assemelha as do professores. não trabalhar e apenas ter como interesses jogos e brincadeiras. como o trabalho. Pensar a infância como uma fase incompleta em relação à adultez implica pensar que a conduta da criança deve ser superada. distanciando-a do mundo do trabalho e das responsabilidades é uma “marca” do modo como são percebidas as crianças na sociedade moderna (Ariès. A criança é vista como um ser incompleto por ainda não possuir responsabilidades. ou seja. né?”. Relacionar a fase infantil com as idéias de diversão e lazer. que as experiências vividas em uma fase anterior da vida são importantes para as posteriores. Assim. Quando identifica-se as crianças e a fase infantil dessa maneira. Assim. pois a meta do desenvolvimento seria tornar-se adulto (Salles. Outro tipo de resposta está associado à incopletude da criança em relação aos adultos é expressa na fala de Francisco (37 anos): “criança é querer ser adulto” A idéia principal contida na fala do participante é de que criança é um vir a ser do adulto. Infância Como uma Fase Importante Para as Demais Fases Osmar (70 anos). verificou-se que esses participantes identificaram a infância e as demais fases da vida incompletas em relação à adultez. Pode-se afirmar que as respostas dos participantes dessa pesquisa parecem estar permeadas pelas noções sociais sobre o que é ser criança. está em acordo com essa concepção comum na sociedade ocidental. por exemplo. . às vezes lhe podem futuramente ser um trauma. Em um estudo com professores acerca das concepções das fases do desenvolvimento. pois esta última foi apontada por eles como ponto ótimo do desenvolvimento humano (Almeida & Cunha). A fala de Francisco. pois a infância.87 aproximam aqueles encontrados na pesquisa com as estudantes de enfermagem. por ser a etapa mais precoce teria conseqüências para as demais etapas do ciclo vital. A idéia de que problemas na infância podem causar traumas futuros está associada a essa noção de continuidade. é quase inevitável não limitar aquelas atividades que são permitidas ou não para elas. 2005). portanto. o “vir a ser adulto” seria a oportunidade de ter suas capacidades em pleno desenvolvimento. quando questionado sobre o que é ser criança enfatizou que “os problemas. problemas na fase infantil poderiam se transformar em traumas que perdurariam na vida futura. 1981). Além disso. Tal resposta expressa o que Santos (1996) aponta sobre a continuidade entre uma fase e outra do desenvolvimento.

Assim. 1999). 19875/1981. Isto indica que os participantes reconhecem que há uma norma social sobre o que é ser criança que dita como as crianças devem ser vistas e conseqüentemente como devem ser tratadas. Salles. Definição Cronológica Basicamente. há ainda a clara indicação que com estas respostas os participantes visavam a atender à expectativa da equipe de receber respostas positivas e socialmente aceitáveis. 2005) as visões positivas sobre a infância e a idéia de inclopetude delas em relação aos adultos são comuns na sociedade atual. comum em abusadores sexuais. Um outro participante identificou que pessoas podem ser consideradas como crianças até os dez e/ou 12 anos. As respostas foram categorizadas da seguinte maneira: Definição cronológica. Por outro lado. por exemplo. pode-se afirmar que os participantes apresentam uma visão positiva e romanceada das crianças e da infância. A seguir. Os critérios . os participantes definiram quem é uma criança através de critérios cronológicos. Ariés. pela ausência de responsabilidade. As falas dos participantes indicam que suas visões sobre as crianças são permeadas pelas noções da sociedade em geral. “a minha (filha) de cinco anos é criança e outra de 14 é adolescente”. Nenhum dos participantes revelou algum tipo de distorção cognitiva. devido às denúncias sobre abuso sexual que os acompanhavam.88 De maneira geral. pelo menos neste quesito não há uma indicação de erros cognitivos sobre as crianças. com a subcategoria definição cronológica por gênero e a categoria de resposta ausentes ou inadequadas. pois segundo vários autores (ver Almeida & Cunha. Quem É uma Criança A pergunta “Quem é uma criança” tinha por objetivo analisar quem os participantes poderiam indicar como sendo uma criança. Portanto. 2003. cada uma delas aparece descrita. já que todos eles enfatizaram apenas as noções socialmente aceitáveis. todas as respostas a questão “o que é ser criança” podem ser classificadas na categoria única respostas politicamente corretas e/ou estereotipadas sobre a criança e infância.. 2005. ainda que as considerem incompletas. Ward & Keenan. desfazendo a possível crença sobre si próprios como pessoas de mau caráter. identificando. na quais as crianças são percebidas como seres sexuais. que consentem relações dessa natureza ou iniciam contatos desse tipo de contato com adultos (Gannon et al.

sem. Definição Cronológica por Gênero Nesta subcategoria. Este aspecto demonstrou. mesmo que de .sd) e pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) de 1990. 70 anos). até os 18. mais uma vez. Um deles reagiu de maneira indiferente ao questionamento da pesquisadora. 19” (Paulo. ele usou critérios mais próximos da entrada na maioridade em vez de a idade limite para que alguém possa ser considerada criança (12 anos). percebe-se que alguns participantes usaram o critério cronológico (idades) como definição de quem é uma criança. As idades citadas aproximam-se dos limites etários ditados pelas leis (ECA. desculpa eu me explicar assim. Observando as respostas. 22. 2003). A mídia e o senso comum apresentam uma série de possibilidades para definir. uma visão sobre a criança permeada pelos ditames socialmente aceitáveis. No caso desse participante. não é justificável que alguns participantes que não soubessem responder. Embora haja uma certa confusão sobre os limites etários previstos por lei para classificação de pessoas como crianças. Ao falar sobre essas idades. mas não definiu que código jurídico seria esse. mencionarem essas fontes. deliberadamente falou sobre os critérios etários usados na lei. disse que pra passar de maior tem que ser com 21 anos. o participante disse que acreditava que esse era o critério definido pela lei. Respostas Ausentes ou Inadequadas Dois outros participantes não souberam responder. 1990) e por órgãos internacionais (WHO. A WHO define a idade de dez anos e o ECA 12 anos. Repetiu-se a pergunta para que ela ficasse mais compreensível. como limite para ser considerado criança. diz que é 18. foi classificada a resposta de um participante que indicou quem era uma criança usando parâmetros cronológicos de gênero: “Disse que pra passar. especialmente no que tange à discussão de direitos e deveres. enquanto o outro pareceu sentir-se envergonhado de não saber responder a questão. Na parte do homem. Já me falaram que é com 18 Quer dizer que na parte da menina disse que até de 21.89 utilizados por este último participante são semelhantes àqueles utilizados pela World Health Organization (WHO. mas ambos recusaram alegando que não sabiam como definir. no entanto. Um outro participante quando citou as idades. sem comentar a que código jurídico ele se referia. Ele citou que uma menina poderia ser considerada criança até os 21 anos e os meninos.

perdurando até os dias atuais. Contudo. esta maior responsabilidade não seria ainda como aquela assumida por um adulto. criançasdemais fases do desenvolvimento). A frase seguinte exemplifica essa idéia: “O adolescente para mim é uma criança que está passando por uma fase de transição. criança-adulto. Uma maior responsabilidade na adolescência marcaria a diferença entre uma criança e um adolescente. diferenciação por rebeldia. a distinção entre criança e adulto. As respostas foram categorizadas da seguinte maneira: diferenciação por identificação como fase de transição no desenvolvimento em geral. Como as diferenças foram descritas aos pares (criança-adolescente. mesmo que não consistente. Respostas inadequadas. comportamentos. diferenciação por gostos e interesses e respostas ausentes ou inadequadas. Segundo Salles (2005). A adolescência aqui é compreendida como uma fase de experimentação e de transição para vida adulta. que nem é mais criança e ainda não é adulto. Diferenças Entre Crianças e Adolescentes Questionou-se aos participantes quais seriam as diferenças entre crianças e adolescentes e adultos (gostos. da mesma forma. 1999).. iniciada ainda no século XVII. fez com que a adolescência começasse a ser percebida como um período à parte do desenvolvimento humano. 73 anos). etc. estão relatadas apenas as diferenças entre crianças e adolescentes. sendo a “ponte” que uniu uma fase a outra. indicam a confusão. em estruturar uma resposta. mas também não pode ser ainda classificada como adulto. Diferenciação por Identificação como Fase de Transição no Desenvolvimento em Geral A adolescência foi entendida por um dos participantes como uma fase de transição na qual a pessoa não é mais criança. à pergunta. diferenciação por autonomia com a subcategoria diferenciação por autonomia de pensamento. que pode ser gerada por alguma ansiedade..90 forma estereotipada ou pragmática quem é uma criança. quando os códigos jurídicos ainda traziam classificações etárias diversas sobre quem poderia ser considerado criança (Londoño. Nesta parte. a noção de que a adolescência é uma fase de transição se originou nessa época.). Mas já passa a ter mais responsabilidade” (Osmar. interesses. Assim. optou-se por descrevê-las em seções distintas. Os limites etários para ser considerado criança parecem ainda confusos como eram no início do século XX. como expressou esse .

Ao recordar as respostas dadas pelos participantes quando foram questionados sobre o que é ser criança. pois ela designa mais especificamente uma maior autônima de pensamento por parte dos adolescentes:“aquela fase que a gente . quer ir. 1999) que definiu a adolescência como uma fase de “tempestade e estresse”. esta ultrapassou tais limites há bastante tempo. in Newcomb. é justamente a contestação”. segundo este participante. diferenciando-se da fase infantil.91 participante. Ela tem. Apesar de esta idéia de crise adolescente ter sido gerada inicialmente no meio da disciplina psicológica. A idéia de rebeldia e contestação está intimamente ligada à concepção de “crise”. Outro respondeu que “Acho que o adolescente já é mais aquela fase de rebeldia” (Flavio. enquanto as crianças deveriam obedecer: A criança (. Quer fazer e faz. Os adolescentes. passar a ser adolescente. Mesmo que a gente não queira. Diferenciação por Rebeldia A adolescência foi concebida como uma fase de contestação e rebeldia. 37 anos). E adolescente não. 37 anos). onde que ela vai ir. seriam mais autônomos e não teriam que ser submissos aos adultos. mas a gente. que que ela vai fazer. pode-se verificar que a infância foi vista como uma fase sem problemas permeada pela felicidade. Ela quer ir.. e vai.. Segundo Francisco. Adolescente já tem vontade própria.. Esta noção pode ser notada claramente nas respostas obtidas. pela qual os adolescentes necessariamente passariam. A fase infantil diferenciar-se-ia da adolescência pela ausência desta rebeldia e/ou contestação. 37 anos: “Eu acho que o que faz isso aí.. pode-se sugerir que a etapa infantil seria uma contraposta à adolescência. Ela seria uma fase mista entre a infância e a adultez. Diferenciação por Autonomia de Pensamento Esta subcategoria foi criada. a gente é que sabe o que que vai fazer. Assim. tornando-se um conceito do senso comum (César. Esta concepção foi inaugurada na psicologia por Stanley Hall (1844-1924.) não tem vontade própria ainda. 1998). pois esta última seria problemática. elas têm que obedecer às ordens dos adultos” (Francisco. 37 anos). segundo um dos participantes foi expressa na seguinte sentença: “por mais que as crianças tenham suas próprias vontades. (Francisco. Diferenciação por Autonomia Outra diferença importante entre crianças e adolescentes.

novamente. 2005). Assim. segundo os participantes. (César. encarada como sendo uma conseqüência de um instinto sexual natural que irrompe nesta fase. as respostas dos participantes a esta questão foram. embora elas acreditem que sabem como agir. verificou-se que as brincadeiras foram vistas como sendo atividades infantis e o namoro como uma atividade tipicamente adolescente (Koller et al. permeadas pelas noções do que é socialmente aceitável. 1998). confundido-a tanto com a infância . Respostas Ausentes ou Inadequadas Houve também certa confusão de um dos participantes em definir características típicas da fase adolescente. Quando sai de férias da escola. os dois grupos foram capazes de abusar sexualmente das crianças. quer escutar música. em contraposição aos adolescentes. 1998). ainda não possuiriam bom senso suficiente para discernir sobre como proceder. A idéia de uma maior autonomia adolescente é aceita na sociedade contemporânea. pois ela seria necessária para que eles exercitassem as funções que desempenharão quando tornarem-se adultos (César. que há ainda pouca maturidade das pessoas nesta fase da vida. As crianças. mas. saírem com os amigos.92 acha que sabe das coisas. Muito” (Francisco.. Os interesses dos adolescentes foram descritos de maneira mais variada: “(adolescente) já quer sair. mesmo tendo ciência de que o sexo entre crianças e adultos não é uma atividade típica da fase infantil. quer ir ao cinema. mas a gente não sabe” (Flávio. quer viajar. Diferenciação por Gostos e Interesses Os interesses das crianças basicamente se associaram às brincadeiras. Quer namorar. Algumas dessas atividades (sair e viajar) associam-se diretamente à visão de uma maior já discutida anteriormente. Alguns dos participantes dessa última pesquisa declararam ter mantido relações sexuais com crianças durante suas viagens. ainda não teriam essa autonomia de pensamento para realizar este tipo de avaliação. já há uma autonomia de pensamento por parte dos adolescentes. Em uma pesquisa com caminhoneiros. pois em ambos os casos. Esta resposta denota que. A questão do namoro também é uma outra idéia aceita com sendo uma característica típica da fase adolescente. sobre a exploração sexual infanto-juvenil. 37 anos). As crianças se diferenciariam dos adolescentes. etc. Nota-se nas respostas dos caminhoneiros a mesma estereotipia de respostas dos participantes da pesquisa aqui relatada. para o participante. por não namorarem. pois. 37 anos).

O entrevistado distinguiu adolescentes de crianças apenas pela questão da idade.93 quanto com a adultez. quando ela pega mais idade. Pode-se perceber. né. adolescente. Diferenças Entre Crianças e Adultos Nesta seção. tem que. diferenciação por cuidados recebidos ou devidos por adultos e diferenciação pelas atividades lúdicas. nota-se que os participantes possuem idéias claras sobre as diferenças entre estes dois grupos. através das falas destes participantes. denotando que eles possuem ciência de que certas atividades são permitidas ou não para as crianças. sobretudo.. Essa pergunta eu num sei”. criança é igual a adolescente?) Não. A responsabilidade esteve associada. se tiver obrigação”. citadas pelos participantes. É uma criança. (Paulo. fazer a vida.. e o que é ser adulto para os participantes deste estudo. por exemplo. Francisco (37 anos). Tem que batalhar. A fala de Paulo (73 anos) também exemplifica essa idéia: “Quer dizer que o adulto vai ter que trabalhar. 70 anos).. são apresentadas as diferenças. ao trabalho e ao conseqüente ganho do dinheiro. entre crianças e adultos.. citou que “O adulto tem que ter responsabilidade. tem que correr atrás do dinheiro que é pra poder pagar as coisas. Elas foram agrupadas nas seguintes categorias: diferenciação pela responsabilidade. diferenciação por dever de obediência. né”. que é uma criança de repente. Ao analisar as respostas dadas sobre as diferenças entre crianças e adolescentes. Diferenciação pela Responsabilidade É marcante a questão da responsabilidade na diferenciação entre o que é ser criança. É diferente de criança. o reflexo do que Ariés comentava em 1981 sobre a moderna (e ainda contemporânea) concepção da infância. (Então. A separação da criança do mundo do trabalho e das responsabilidades . estudo como dever das crianças e diferenciação por pequenos trabalhos domésticos como deveres para as crianças). Todas as respostas indicaram que a principal diferença entre adultos e crianças é a presença de responsabilidade na adultez e ausência dela na fase infantil. diferenciação pelos deveres (com as subcategorias: deveres mais brandos para as crianças. cumprir as obrigações. Em suas palavras: “Quer dizer.

se comparadas aos adultos. A fase infantil não é simplesmente uma etapa a ser vivida por si só.. devíamos ensinar a ter deveres. Agora com pouquinho estudo.. A educação formal seria um aspecto fundamental para assegurar o futuro (adultez). Além disso. a criança estaria dissociada de tais responsabilidades por uma razão primordial: ela seria incapaz de manejá-las. Eles têm. mas não como os nossos (. 1975/1981. quando tais deveres existem. Diferenciação pelos Deveres Dentro desta categoria foram criadas subcategorias. sd)..”. é a preocupação com o vir a ser da criança e com seu futuro. A fala de Osmar (73 anos) ilustra esse tipo de resposta: “Quase não tem deveres. acrescentou que. Conceber a educação como um dever pode estar associado à idéia amplamente aceita de que as crianças se beneficiam quando ingressam na educação fundamental ou primária. ensiná-los tanto na escola quanto em casa tem que ensinar a ter dever. a mais importante idéia expressa pelo participante associada à questão da educação. que por sua vez. Agora no meu tempo. Contudo. tá estudando..94 revela-se em suas respostas. Tem deveres. Não como os nossos. Estudo Como Dever das Crianças Um dos deveres das crianças seria estudar: “Tem que ir à escola... eles seriam mais brandos que os dos adultos. pois. nem me lembro o grau que tem que ter. num precisava escrever.. Deveres Mais Brandos para as Crianças Um dos participantes respondeu que crianças. possuem menos deveres. asseguraria um futuro sadio para as crianças (Ariès.. não precisava ler.). 37 anos). Para Áries. encarada como meta máxima do desenvolvimento. A imagem da criança aparece novamente relacionada a menos responsabilidades. Num pega mais. Este ingresso garantiria um desenvolvimento pessoal (Ramirez. Pegava qualquer conta. tem que fazer os temas da escola” (Francisco. em qualquer lugar mesmo pra pegar em qualquer outra função.. Porque hoje em dia é o estudo que tá valendo.. A fala de Paulo (73 anos) sugere essa concepção: Agora tem que tá com um colégio na parte da noite. É uma preparação para a fase adulta. embora todas elas se relacionem a questão dos deveres diferentes para crianças e adultos. no lixo assim precisa ter. . cada um delas designa deveres específicos.

inclusive as crianças. mais uma vez percebe-se que a adultez é destinada ao trabalho e as . Para estes pais. os participantes expressam que uma das características das crianças é ser obedientes: “Tem que obedecer aos pais. ou seja. Em vários outros momentos. faixa social da qual emergem os participantes deste estudo. a criança precisaria ser submissa aos adultos. A obrigatoriedade da criança em ser obediente decorreria de uma outra característica dela: ter menos capacidade que os adultos. dependendo da idade que ele tem. 73 anos). 1999. Diferenciação por Dever de Obediência A questão da obediência também citada como um dever da criança é um importante ponto a ser discutido. fazer o quarto dele. Essa menor capacidade daria origem a uma relação de dependência entre o adulto e a criança.95 Diferenciação por Pequenos Trabalhos Domésticos como Deveres para as Crianças Apesar de o trabalho remunerado não ser visto pelos participantes como uma atividade aceitável para as o público infantil. quem sabe. Fazer a cama dele. Phelan. pois ele deve ensinála. 73 anos). Contudo. o trabalho doméstico seria uma forma de suas filhas retribuírem pelos cuidados físicos e emocionais fornecidos. a realização de pequenos trabalhos domésticos foi uma das respostas sobre os deveres das crianças: “Em casa às vezes lavar os pratos. Heilborn (1998) também detectou uma visão semelhante dos pais em relação às suas filhas em bairros periféricos do Rio de Janeiro. A realização desse último tipo de atividade foi discutida por Bastos (2002) como permitida para as crianças de baixa renda. 37 anos). a obediência não seria uma opção para criança. Acho que devia ser um dever que deviam ensinar para a criança” (Osmar. Esse tipo de resposta sugere que os adultos têm como dever a responsabilidade com a criança. ser dependente dos adultos faria com que a criança devesse obediência a ele (Kramer. Assim. Diferenciação por Cuidados Recebidos ou Devidos por Adultos Com relação aos deveres dos adultos. né?” (Francisco. Pelas respostas dadas sobre as diferenças de deveres entre esses dois públicos. Este tipo de trabalho seria uma forma de solidariedade entre os membros da família. os participantes citaram que “adultos deveriam ensinar as crianças” (Osmar. Esse tipo de concepção comentada pelos participantes pode ser reflexo da concepção sobre a criança da sociedade ocidental. sendo encarada como um dever. 1995).

se submeter. 70 anos). As repostas desta seção. Diferenciação por Necessidades Dentro dessa categoria estão as respostas que se relacionaram a necessidades das crianças como um ponto de diferenciação entre elas e as pessoas . estão reunidas as subcategorias: necessidades de objetos materiais. enquanto as crianças brincariam e estudariam. relatando essas distinções de maneira generalizada. Esta classificação está descrita a seguir. Entretanto. direito a higiene. Há ainda uma outra categoria denominada diferenciação por direitos das crianças com as seguintes subcategorias: direito de não trabalhar e de estudar. novamente. Diferenças das Crianças para as Demais Fases do Desenvolvimento Nas respostas desta seção os participantes não citaram diferenças entre as crianças e os adultos ou adolescentes especificamente. ou seja. direito a afeto e prioridade de direitos. eles podem praticar atos abusivos e as crianças deveriam. denotam uma visão sobre as fases do desenvolvimento a partir das noções socialmente aceitáveis. do mundo dos adultos já comentada anteriormente é uma característica marcante do modo de se conceber a criança desde a modernidade (Ariès. e adulto. necessariamente.96 responsabilidades (com a criança. adulto não brinca mais” (Paulo. pois na medida em que os adultos pensam ter esse direito sobre as crianças. Um dos participantes citou que “crianças brincam. mais responsabilidades. a questão da obediência como uma obrigação das crianças pode ser uma crença que pode favorecer aos abusos de todos os tipos. inclusive). As respostas foram reunidas da seguinte maneira: Diferenciação por necessidades. enquanto a infância é a etapa da vida na qual não há muitos deveres e responsabilidades e que necessita de cuidados do outro (adulto). Dentro desta.. Os adultos são vistos como tendo mais deveres em relação às crianças. Diferenciação Pelas Atividades Lúdicas A brincadeira foi outro importante tema usado pelos participantes para diferenciar crianças e adultos. 1975/1981) até os dias atuais. A imagem da criança ligada a diversão e conseqüente separação do mundo do trabalho. necessidades de carinho e necessidades da criança de ser prontamente atendidas. né. necessidades de alimentação. direito a alimentação.

como foi no caso dessa participante. Necessidades de Objetos Materiais Um dos participantes se respondeu que as necessidades da criança se relacionaram a aquisição de objetos materiais. Por que se eu tivesse tido oportunidade de estudar eu poderia ta vivendo bem melhor hoje em dia” (Flávio.97 das demais fases do desenvolvimento. Necessidades da Criança de Ser Prontamente Atendidas Paulo (73 anos) frisou a importância de sempre se atender prontamente às necessidades das crianças: “(Criança) tem que ter tudo pronto. Esse tipo de resposta indica que umas das necessidades básicas da criança seria alimentação. por que não tem o que os outros tem. na hora que pedir”. pois dentro desta categoria foram organizadas várias subcategorias. (Paulo 73 anos). 73 anos). pois cada uma delas associa a necessidades distintas. então a necessidade vem coisas que não pode ter. Estas respostas foram alocadas em uma subcategoria. enfatizando que essa também seria uma necessidade fundamental da criança é ser tratada com carinho. Direito de Não Trabalhar e de Estudar A resposta seguinte exemplifica esta categoria: “Eu acho que não (que criança não tem que trabalhar). que para ele é um problema. Direitos das Crianças Nesta questão ocorreu o mesmo com a categoria das necessidades. Outro participante também citou que a criança tinha direito a . 37 anos). Necessidades de Alimentação Paulo de 73 anos comentou que crianças precisam “ter o alimento na hora que pedir pro pai”. Ele citou que: “Caderno ou qualquer outra coisa. Essa resposta sugere que as crianças deveriam estudar e não trabalhar. por que as vezes os nosso pais não dão” (Osmar. Necessidades de Carinho Paulo de 73 anos relatou também que a criança “Precisa de carinho”.

são de responsabilidade do adulto. A idéia da criança como sujeito de direito. “Receber (. A resposta de Francisco indica que ter direito aos cuidados de higiene seriam um direito das crianças.. não sendo apenas um objeto a serviço das vontades adultas.. Direito à Afeto e Cuidado De acordo com um dos participantes. inclusive a ter deveres. principalmente. estaria para além da diversão das pessoas mais velhas. 1975/1981) na qual a criança serviria apenas para a diversão dos adultos é ultrapassada na concepção implícita na fala de Osmar. afirmando que em sua concepção as crianças tinham direito a saúde. saúde. tendo. 37 anos). portanto..) alimentação. por parte dos pais e tal” (Francisco. direito a cuidados por parte deles: “O adulto tem que cuidar da criança. Direito à Saúde Francisco (37 anos) também comentou que “é. mas não obrigá-los. Direito à Higiene Francisco (37 anos) destacou que crianças precisam de “Higiene.... né?”. pois a criança agora teria suas próprias vontades.98 educação. as crianças precisam de afeto e carinho: “carinho. A idéia de paparicação (Ariès.. Este tipo de concepção sugere uma criança que tem direito de ser respeitada e não deve ser obrigada a fazer nada. está associada a fala desse último participante. essas coisas tudo. afeto assim. ensiná-los tanto na escola quanto em casa tem que ensinar a ter dever”. Direito de Não ser Obrigada a ter Deveres Osmar (73 anos) comentou que “Eles têm. 37 anos). por não poderem cuidar de si sozinhas.. A importância da criança. . assim. Francisco também citou que as crianças. Direito à Alimentação Nessa categoria a alimentação aparece como um direito assegurado para a criança. né?”. tudo assim”. expressa pelo ECA (1990). devíamos ensinar a ter deveres. né?” (Francisco. essas coisas. embora não tenha comentado que a educação estava em contraposição com o trabalho como o fez Flávio.

um deles citou as semelhanças entre uma fase e outra do desenvolvimento. a forma como aparecem. as diferenças entre crianças e adultos. sentem dor. A prioridade de direitos é uma meta descrita pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (1990). No Brasil. do direito de ser bem tratado por todos e não ser abusado. A resposta é dada de acordo com o que seria esperado do participante pelos pesquisadores. o tipo de resposta dada por ele pode sugerir que há uma disseminação ampla na sociedade sobre as leis que protegem a criança que passam a fazer parte das imagens sociais da criança. Segundo Osmar (73 anos): “São seres humanos. os preceitos desta convenção basearam a formulação da Doutrina da Proteção Integral subjacente ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) promulgado em 1990. Esta doutrina apregoa que crianças e adolescentes sejam concebidos como sujeitos de direito. 73 anos: “Todos direitos. Isto se evidencia quando é solicitado um aprofundamento da resposta e o participante apenas consegue repetir o que já disse sem desenvolver a idéia. Similaridade por Problemas Enfrentados Embora os participantes tenham salientado. eu acho. etc. principalmente. pode ser visto como a garantia de proteção contra as violências e. O amor e afeto citado por eles. As respostas citadas tanto para as necessidades quanto para os direitos das crianças estão de acordo com nova visão sobre a prioridade de direitos das crianças (criança como sujeito de direito) inaugurada e propagada pela Convenção Mundial sobre os Direitos das Crianças (1949). de terem atendidas suas necessidades básicas que garantam a sua sobrevivência além de terem direito à participação nas decisões políticas e sociais que influenciam suas vidas e é exatamente esta convenção que embasa o ECA que os condena ou acusa. Prioridade em todos os sentidos”.99 Prioridade de Direitos Nesta categoria não foi frisado nenhum direito específico. mas um dos participantes comentou que as crianças teriam prioridades de direitos em todos sos aspectos. têm um conteúdo pragmático e estereotipado. Além disso. Foram citados pelos participantes direitos e necessidades que se relacionam. as crianças teriam que ter suas necessidades e direitos assegurados com prioridade frente a adolescentes e adultos.). . possuindo direito de ser protegido contra os mais variados tipos de violência. por conseqüência. Entretanto. De acordo com Osmar. sobretudo a garantia das necessidades básicas para a sobrevivência de uma criança (saúde. Apesar de o participante não ter se referido diretamente a esse código. alimentação.

Definição por Contestação para a Transição de Criança para Adolescente Um dos participantes afirmou que o que define a transformação de uma criança em adolescente é contestação: “Eu acho que o que faz isso aí. apenas citando que isso variava de indivíduo para indivíduo. definição por contestação para transição da infância para adolescência. Essas repostas denunciam que as crianças são concebidas como seres distintos que possuem necessidades e direitos e específicos. que “criança não assimila problema.100 sentem os problemas”. definição cronológica com base na adoção das responsabilidades jurídicas na transição da infância para adultez. As respostas aqui se referem tanto as perguntas “até que idade uma pessoa é criança?” e “O que faz com que uma criança passe a ser adolescente ou adulta”. definição por entrada na maioridade para transição da adolescência para adultez. adolescente e adulta. Transição Não-Cronológica para as Demais Fases A resposta de um participante destacou que não havia uma faixa etária exata na qual se possa classificar alguém como criança: “Acho que isso aí depende muito da pessoa. percebe-se que as diferenças entre crianças e as pessoas das demais fases do desenvolvimento são enfatizadas. e elas sentem os problemas”. A seguir. né. passar a ser . Optou-se por agrupar as respostas dessas duas perguntas. Processos Importantes na Transição da Infância para Adolescência/Adultez Nesta seção estão agrupadas todas as respostas que se referiram aos processos importantes na transição da fase infantil para a adolescência e/ou adultez inquiridos através da pergunta. Varia muito de pessoa pra pessoa. As respostas foram categorizadas da seguinte maneira: definição não-cronológica para a saída da infância para as demais fases. Acho que não tem uma idade definida” (Francisco. mas alguns problemas são levados para elas. definição por responsabilidade parta a transição da infância para adultez. enquanto as semelhanças não são frisadas. ainda. pois ambas se relacionam aos limites entre as fases infantil. Enfatizou. Observando as respostas dessa seção. dentre eles o direito de não ser tratado com carinho e afeto o que implicaria não ser violentada ou abusada. definição por mudanças biológicas para transição da infância para adolescência. cada uma delas foi detalhada. 37 anos). O participante não definiu que outros fatores seriam importantes para que uma criança passe a ser adolescente ou adulta.

se torna. Já me falaram que é com 18” (Paulo. Definição por Mudanças Biológicas na Transição de Criança para Adolescente Apenas um dos participantes fez referência às mudanças corporais e da sexualidade como marcas de identificação da passagem da infância para a adolescência. tendo certa idade. que se forma nos estudos.. ela já pode ser considerada adulta: A criança deixa de ser criança na medida em que ela toma outro rumo na vida. conclui a faculdade. a adolescência passou a ser vista como uma fase de rebeldia (César.. perante e lei.. A sexualidade pode ser entendida como um aspecto inexistente na vida de crianças. né. A citação seguinte expressa esta última concepção: . 73 anos). que já é responsável pelos seus atos. Chega. que é. disse que pra passar. com a ajuda dos meios de comunicação de massa. sendo apenas permitido (em parte) para os adolescentes. A partir do momento que ela começa a contestar. Nas palavras de Osmar (73 anos): “Muda ser atraído por outra pessoa e começar a gostar de alguém”. se não se acha responsável. Ah.. por isso seria inocente. Que é. disso a pessoa seria capaz de assumir as responsabilidades jurídicas.. Desde os anos 50. O critério responsabilidade para entrada na fase adulta já foi discutida anteriormente. mesmo deixando. o que ela deseja fazer. o que ela quer fazer. o que ela precisa de bem material” (Francisco. como se pode observar na fala desse participante.. As idéias de pureza e inocência da criança foram herdadas pela sociedade em geral principalmente dos preceitos cristãos vigentes no ocidente (Áries. A criança seria um ser puro. Depois. Essa última idéia permanece até os dias atuais.. 37 anos). 1998). Definição por Responsabilidade na Transição de Criança para Adulta Outro participou expressou que no momento em que a pessoa já sente-se responsável por si mesma. 1981).. é justamente a contestação.101 adolescente. O que ela quer. mas quando já é responsável pelos seus atos. disse que pra passar de maior tem que ser com 21 anos.. 22. na medida em que ela toma outro rumo. livre dos pecados ligados ao sexo. Definição Cronológica com Base na Adoção das Responsabilidades Jurídicas na Transição da Criança para Adulta Outro participante comentou que “. né? Acho que daí ela deixa de ser criança.. que já é responsável pelos seus atos. daí deixa de ser criança.

ela já pode se considerar adulta. que quando a pessoa já se sente responsável por si mesma. A citação seguinte exemplifica esta idéia: Ah.. se a pessoa já é responsável por si mesma e por outros. não foi dessa maneira. já me autosustentava e. independendo da idade. como um critério para a passagem da infância à adultez. uma pessoa será adulta apenas quando se tem permissão para assistir certos tipos de filmes ou dirigir. Eu mesmo lá comprei uns terrenos. Vocês têm que pegar o rumo de vocês. em ambas. Definição por Entrada na Maioridade na Transição da Adolescência para Adultez Já a passagem da adolescência para a fase adulta seria marcada pela maioridade. pois a responsabilidade poderia pertencer tanto a alguém mais jovem .. Pra mim. Mas pra mim acho que a pessoa. por exemplo. Embora os critérios cronológicos ainda sejam válidos. que eles num puder assumir quanto num completou 18 anos. perante a sociedade.. Esse critério da maioridade seria apenas teórico. pois na prática. E. No meu caso antes de eu fazer 18 anos eu já tinha família. 37 anos). (Francisco. incluindo a infância.. sem que fosse considerada a adolescência. As duas categorias anteriores possuem dois pontos em comum. teoricamente. Então com 17 anos eu já tinha família. 73 anos). Foi um pouco diferente. Quer dizer que num se governa. O que muda é que as eles vão ter que fazer a vida deles por si próprios. ela já pode ser considerada adulta. O segundo relaciona-se ao fato de as duas respostas sugerirem que há uma passagem direta da infância para a adultez. Contudo. assinei carteira com 15 anos. Nota-se que há certa confusão em definir as características de acordo com a faixa etária. né? Quer dizer que aí.. pra deixar pra cada filho no dia que Deus me levar. não é uma questão simples. umas coisas. A variedade de respostas denuncia que definição sobre as “fronteiras” para cada uma das fases da vida.. então comigo não foi assim. Arranjar um emprego e agarrar pra vocês terem um futuro (Paulo. No meu caso. Não é mais possível afirmar que uma pessoa por ser mais madura possui mais responsabilidade ou autonomia e que a criança por ser mais jovem não teria tais capacidades.102 Quer dizer que na parte da menina disse que até de 21. Esse tipo de concepção foi constatado nas falas dos participantes. pois eles afirmaram.. perante a sociedade. né. O primeiro é que a questão da responsabilidade surgiu. eu já trabalhava. a faixa etária não pode mais ser compreendida como uma característica básica para delimitar os períodos da vida (Salles. adolescente passa a ser adulto a partir do momento que. Comecei a trabalhar com 11 anos de idade. completa a maioridade.. 2005). né.

Autonomia Novamente. se referiu a ele ou como criança ou como adulto. e que por isso já se sentia adulto desde essa época. 37 anos). Assim.103 quanto a alguém mais velho. Outro ponto que precisa ser analisado é consideração de dois participantes sobre a passagem direta da infância para a adultez. uma vez que as crianças (e os meninos) não teriam que ser mais obedientes. considerem que a passagem da infância para a adultez ocorra diretamente. acho que é aquilo que eu lhe falei. como a questão da responsabilidade como marca da vida adulta e início da sexualidade em contraposição a pureza da criança. Assim. Um deles (Flávio) afirmou que desde os 12 ele começou a trabalhar. . mudanças biológicas. a partir do momento em que um menino assume uma postura de autonomia frente a sua vida ele se tornaria adulto. eles deixariam de ser crianças e se tornariam adolescentes. Vou ser dono do meu nariz” (Flávio. Mudanças Biológicas Apenas uma das respostas enfatizou as mudanças corporais (nascimento de pêlos) e atração pelo sexo oposto. Na fala de Flávio: “É. Esse tipo de resposta remete a questão da obediência já discutida anteriormente. As categorias foram agrupadas da seguinte maneira: Autonomia. as experiências pessoas podem ser importantes nas concepções que eles têm acerca dos ciclos da vida. marcando assim o inicio da sexualidade como critério para a entrada na adolescência: “Por si mesmo. serão apresentadas as respostas a pergunta “O que faz com que um menino passe a ser adolescente ou adulto?”. sentir certo impulso. contestação e critério cronológico. Acho que ele deixa de ser criança no momento que ele toma as rédeas da vida dele. né? Que ele diz assim ‘eu vou ser isso agora. as respostas a essa pergunta se relacionaram a responsabilidade e dessa vez mais especificamente a autonomia. Além disso. podendo ser mais autônomos. Transformação de um Menino em Adolescente/Adulto Nessa seção. Assim. as respostas m apresentadas aqui se relacionam em alguma medida com concepções sobre as fases da vida moderadamente já aceitas pela sociedade. As declarações dos participantes sugerem assim que eles por não terem passado por uma fase que eles possam chamar de adolescência. O outro (Paulo).

mudanças corporais semelhantes a dos meninos. A seguir. Contudo. demonstrando que os participantes possuem uma visão lógica sobre as crianças e as demais fases da vida. Contestação A “contestação” (Francisco. As respostas até este momento pareciam ser coerentes entre si. serão descritas cada uma dessas categorias.104 atração pelo sexo oposto. Nota-se que esse participante possui um conhecimento mais específico sobre as mudanças fisiológicas (nascimento de pêlos) e comportamentais (atração pelo sexo oposto relacionado ao inicio da sexualidade) envolvidas na transformação de um menino para adolescente. Assim. é. contestação. Autonomia Flávio (37 anos) respondeu que a menina a partir do momento que ela “tomar conta da vida dela” ela já pode ser considerada adulta. Contestação Ao ser questionado sobre qual aspecto seria importante na passagem da infância para a vida adulta ou para adolescência no caso das meninas. Transformação de uma Menina em Adolescente/Adulta As respostas foram bastante semelhantes as da pergunta anterior. o menino como uma pessoa qualquer. Mais uma vez a resposta sobre autonomia se repetiu. 37 anos) foi outra resposta dada como marca do início da adolescência de um menino. a dimensão perda da virgindade foi comentada apenas como um processo importante para a entrada das meninas na adultez. Francisco (37 . Segundo o participante. as categorias foram agrupadas de maneira semelhante: Autonomia. Definição Cronológica A questão da idade (18 anos) foi novamente reiterada por um dos participantes (Paulo. A as mudanças físicas. se transformaria em adolescente a partir do momento em que ele comece a ter comportamentos de contestação. 70 anos) como sendo o critério necessário para que um menino passe a ser adulto. mudanças no corpo e começar ver que esta a nascer é. Pêlos e coisas”.

105 anos) respondeu que “A responsabilidade. Não sei. ou se perder.. 70 anos).. De acordo com um dos participantes. respostas como a deste último participante revelam que a valorização da virgindade. Para a menina eu não conheço. (A mesma coisa?) A mesma coisa”. mas. conforme apontado por Taquette (1997) e Heilborn e Bozon (2001). Por haver uma diminuição na valorização da virgindade feminina. Embora o participante afirme que não acompanhou o desenvolvimento de suas filhas. esse seria o processo principal que caracterizaria a passagem da infantil para a fase adulta em uma menina: “Quer dizer que aí. as taxas de virgindade entre adolescentes são mais baixas na atualidade. 73 anos). Se perder uma guria quando não faz erro. eu sempre criei as minhas filhas assim. ele comentou que não poderia citar quais diferenças eram essas. Não tem diferença. pois não pode observar mais aproximadamente o desenvolvimento de suas filhas adolescentes.) ter contato com o marido dela ou se juntar. Essa valorização torna-se mais visível quando o participante associa a perda da virgindade ao “erro”. A frase seguinte ilustra a idéia desse participante: “Deve ser igual aos meninos. ela que sabia” (Osmar. De maneira geral. a mãe que dava orientação em tudo.. Contudo. pois ele afirma que “uma guria quando não faz erro” é aquela que é “virgem” (Paulo. como os cognitivos. a ficar mulher (. por exemplo. ainda é vista como um símbolo da pureza da menina. as respostas dos participantes denunciam que não foram consideradas diferenças entre meninos e meninas no que diz respeito à passagem da . nenhum tem aquele ditado: é virgem” (Paulo. ele ainda assim exibe algum conhecimento sobre as mudanças que ocorrem na vida de uma menina no período de transição da infância para adolescência. 73 anos). Essa foi a única resposta que apontou para diferenças na passagem da infância para adolescência/adultez de meninos e meninas. Perda da Virgindade A única resposta que se diferenciou das demais foi a categoria “perda da virgindade”. Pode-se concluir também que considerar a perda da virgindade como fator primordial na passagem da infância para a fase adulta pode negligenciar outros fatores importantes desse processo. Mudanças Corporais Semelhantes as dos Meninos Um dos participantes relatou também que acreditava que as mudanças que aconteciam para s meninos se assemelhariam aquelas das meninas Contudo..

Diferenças e Semelhanças entre Meninos e Meninas Nesta seção. Tal distinção seria ocasionada pela criação diferenciada dirigida a meninos e meninas. diferenças de brincadeiras que envolvam aspecto sexual e diferenças por autonomia. afirmando que os meninos foram vistos como duros. e que. comportadas. levados e as meninas como passivas. As semelhanças entre meninos e meninas foi mencionada por participante e foi classificada na categoria semelhanças entre meninos e meninas. Diferenças por Atividade/Passividade Os meninos foram tidos como “mais ativos” e as meninas como “mais quietas” (Flávio. serão relatadas as respostas a pergunta: “Meninos e meninas: No que são iguais? No que são diferentes?”. tendo mais facilidades. diferenças por proteção/cuidado e facilidade. a sua obediência e submissão facilitariam a violência sexual contra elas. A violência física seria a mais utilizada como um modo de repreensão e controle para a intensa impulsividade dos meninos. Já para as meninas. Isso aconteceria. educadas. dois dos participantes consideraram que há uma passagem direta entre a infância e a adultez. precisariam de menos proteção que as meninas. Mais uma vez. tanto no caso das meninas quanto no caso dos meninos.106 infância para adolescência ou para adultez. A educação para a submissão é um facilitador para este tipo de abuso contra meninas (Narvaz. Esta resposta repete o que Souza (2000) observou entre pais de escolares. esse tipo de concepção estaria associada ao pensamento machista vigente na sociedade que dita que os meninos são mais fortes. 37 anos: . portanto. as meninas foram vistas como “mais protegidas e cuidadas” tendo também mais facilidades: “(as meninas) levam a parte melhor” (Francisco. pois elas seriam mais vulneráveis. Safiotti (1998) comenta que esta diferenciação entre meninos e meninas baseada na dicotomia atividade/passividade geraria também diferentes tipos de violência contra estes dois públicos. sendo educadas até mesmo para não revelá-lo. agitados. agressivos. Diferenças por Proteção/Cuidado e Facilidades Segundo um dos participantes. 37 anos). 2005). entre outras. Segundo o próprio participante. já que elas seriam obrigadas a concordar com esse tipo de abuso. 37 anos). Segundo Francisco. As respostas foram categorizadas como diferenças por quantidade de atividade.

Esta percepção faz com que as condutas sexualizadas de meninos sejam mais bem aceitas. a guria não pode fazer. De acordo com esse participante. Assim.”. apesar de a sexualidade ser vista como algo natural para a espécie humana. mais aquilo. O menino é menino. Mas. Guri é guri. 1998).. Diferenças de Brincadeiras com Aspecto Sexual Outro participante (Paulo. O que o guri faz. No certo. Ele é o mais forte . Sei lá. Não precisa de tanto cuidado. como foi notado na fala desse último participante.. nenhum pode. é mais forte. constrói-se a noção de que os impulsos sexuais masculinos (e suas expressões) são incontroláveis. como por exemplo. Então os meninos sempre são mais deixados de lado. aquelas que os meninos “fica dizendo palavrão “. 1994). Além disso Paulo (70 anos) afirmou que: “O guri fica tirando o tiquinho pra fora. né. Na sociedade atual. Em estudo na África do Sul. Mas seria. assim. Porque. né?’ Nenhum pode. criadas a partir dos modos de organização patriarcais de organização da sociedade (Strey. é mais isso. Menos vulnerável. Aquele ditado: ‘um garotinho que tá se criando homem’. tipo assim. assim. 2005).. cabendo a mulher a tarefa de controlar os impulsos sexuais (Petersen et al. As coisas melhores são pra meninas. Pra menina fica. Ela pode servir como justificativa para as condutas de homens que cometeram violências sexuais contra crianças. A menina sempre leva a parte melhor. Esse último tipo de resposta revela que a noção de fragilidade e a conseqüente necessidade de proteção da mulher. Além de poder ser usada como justificativa no caso . E a guria já tem uma diferencinha”. um pouco por parte de .. essa concepção se aplicaria mais aos homens (Giffin. É. como se fosse machismo da parte da. Através dos resultados desse último estudo nota-se que a compreensão de que homens possuem impulsos sexuais irreprimíveis não é exclusiva de homens acusados de cometer delitos sexuais contra crianças. verificou-se que tanto adolescentes do sexo masculino quanto do sexo feminino destacaram que os homens possuem uma natureza sexual irrefreável.107 A menina ela é sempre mais protegida.. 70 anos) relatou que “eu acho conforme o brinquedo que o guri brinca. simplesmente por eles serem do sexo masculino. E mostrar também. Fica mais feio.. Esse último tipo de conduta seria reprovável para as meninas. Esse tipo de crença é especialmente perigoso no que diz respeito aos casos de abuso sexual.. que a menina... a guria não vai brincar. a conduta sexualizada seria mais permitida por parte dos meninos. ainda estão presentes nos dias atuais. na medida em que eles podem alegar que não tiveram meios de conter seus impulsos... é o mais saudável.

por que são humanos. enquanto as meninas teriam que comportar-se de maneira “moral”. por exemplo) podem também possuir a mesma percepção. e membros da área. até nas culturas mais primitivas.. Semelhanças Entre Meninos e Meninas Apenas um dos participantes dês te estudo realçou as semelhanças entre meninos e meninas. há uma visão majoritariamente estereotipada em relação às diferenças entre meninos e meninas. que seriam o conjunto de normas referentes às atitudes. Assim.108 do próprio abusador. em uma determinada cultura. Apenas esta última resposta frisou as semelhanças entre meninos e meninas. por sua vez. fortes. enquanto os homens foram vistos como agressivos.diferentes? Simplesmente no físico. passivas. Mas nos sentimentos são iguais” (Osmar. Agora. percebendo o sexo masculino como mais forte e ativo e as meninas como mais protegidas. comportamentos. foram conservadas e mais valorizadas por serem consideradas dinâmicas. competitivos e independentes (Biaggio. pois ao longo do tempo ela foi exercendo tarefas mais passivas e domésticas. 73 anos). Essas características foram se constituindo como papéis sexuais. em um determinado momento (Graciano. a visão de que os comportamentos de expressão sexual seriam mais permitidos aos meninos. Então seus sentimentos são iguais. Vinculados aos papéis sexuais estão os estereótipos sexuais. profissionais. A consolidação dessas diferenças baseou-se principalmente na função materna da mulher (Rosaldo & Lamphere. 1981). 1979). Iguais no sentimento. pode-se notar que os homens entrevistados compartilham dessa visão estereotipada dos sexos. as pessoas envolvidas na situação (parentes. valores que são tidos como apropriados para cada sexo. De acordo com Bonamigo e Koller (1995).. foram sendo consolidadas características determinadas a cada um dos sexos. As mulheres foram tidas então como dóceis. Acrescenta-se a isso. que não as impedissem de cuidar da prole. afetuosas e pacientes. A partir das funções exercidas pelos dois gêneros. livrando o abusador de sua responsabilidade. Com todas as respostas aqui descritas.. entre outras). As funções masculinas de manutenção (material. jurídica. comentando que “Eu acho. pode-se notar uma distinção nas funções arrogadas a homens e mulheres. . sem expressar sua sexualidade.. 1978). atuando como padrão do que significa ser homem ou mulher. tanto um como outro. frágeis e quietas.

As respostas foram agrupadas a partir das seguintes categorias: resposta pragmática. Finalmente. destacaram os sentimentos dos participantes congruentes com o estado emocional da criança. “O que você sente quando vê uma criança brincando?”. as respostas de angústia pessoal expressaram exclusivamente o estado emocional do participante. revelando capacidade de apresentar uma resposta empática. Nesse caso. por sua vez. 1990). sem. Em outra resposta. sem a expressão de sentimentos. se referir diretamente à condição emocional dela. O que Você Sente Quando Vê uma Criança Dormindo? Resposta Pragmática Um dos participantes quando indagado nesta questão citou que “É uma criança dormindo”. ou seja. cada um dessas categorias será exemplificada de acordo com as perguntas feitas aos participantes. Resposta Empática Outro participante disse que a criança por estar dormindo. no entanto. mostrando uma fuga da resposta na qual se utiliza os termos da própria pergunta. idade). 1990). posteriormente. Esses dois tipos de afirmações revelam que esses homens . cujo conteúdo indica a percepção do estado emocional de outrem (Eisenberg & Strayer. A seguir. ou seja. As respostas empáticas. Não foi expresso nenhum tipo de sentimento empático. comentou. “O que você sente quando vê uma criança chorando?” e “O que você sente quando vê uma criança gritando?” tinham como objetivo avaliar processos empáticos dos participantes. resposta empática. que “Simplesmente deixo dormir por que estava cansada. um deles apesar de afirmar que “Eu não sinto nada” (Osmar. As respostas pragmáticas foram aquelas nas quais houve uma definição utilitária e objetiva da situação. as respostas com sentimentos positivos. “ela tá em paz” (Flávio. sem expressão de sentimentos.109 Empatia As questões seguintes “O que você sente quando vê uma criança dormindo?”. 37 anos). a resposta sugere uma definição pratica. o participante inferiu o estado emocional da criança que dorme. se consideramos que a empatia é “sentir com” o outro (Eisenberg & Strayer. sinto que é uma necessidade da criança por que deve estar cansada” (nome. 73 anos). resposta de sentimentos positivos resposta e de angústia pessoal. enfatizaram o estado emocional da criança Já.

Esse tipo de resposta revela uma proximidade com aquilo que Eisenberg e Strayer (1990) denominaram de angústia pessoal. 70 anos). 73 anos).110 são capazes de perceber os estados emocionais das crianças (nesses casos. Respostas com Sentimentos Positivos Um dos entrevistados citou que “Eu me sinto tando brincando ta com saúde” (Paulo. O estado emocional do entrevistado (irritado) revela-se incongruente com o estado emocional da criança que brinca. Um dos apenas participantes afirmou: “Que ela tá brincando” (Flávio. que não fizer muito barulho assim eu acho legal. Talvez a expressão não seja clara do sentimento positivo do participante. correria. Aqui não é revelada diretamente a condição emocional da criança. através de pistas do seu comportamento (dormir) e que portanto. Gosto. pois em sua fala ele afirmou: “Isso varia um pouco do tipo de brincadeira. gritaria. os sentimentos positivos expressados pelos participantes mostram-se congruente com o comportamento lúdico da criança. Ah. mas dependendo se for uma brincadeira calma. O participante expressa claramente o estado emocional que a brincadeira da criança gera. Essas coisas assim” (Francisco. . O Que Você Sente Quando Vê uma Criança Brincando? Resposta Pragmática Mais uma vez aqui se repetiram as respostas pragmáticas. né. Resposta de Angústia Pessoal Outras respostas enfatizaram apenas o estado emocional do entrevistado. 37 anos). de acordo com a definição de Eisenberg e Strayer (1990). mas pode ser inferido que em sua compreensão a criança está bem para poder brincar. pois o participante revela seu incômodo com a brincadeira e em nenhum momento destaca o sentimento das crianças que brincam. são empáticos. “estar paz” ou “estar cansada”). Tem algumas brincadeiras que me irritam um pouco. 37 anos). Contudo. Uma outra resposta centrou-se no estado emocional positivo do participante: “Eu sinto felicidade” (Osmar.

eu sinto nervosismo. 37 anos). 73 anos).. ao notar e compreender a situação da criança. apesar de não enfatizar o estado emocional específico da criança. E tem crianças que choram porque tão com fome. se é que com um jeito que tá doente. Um deles enfatizou que “Que ela tá com algum problema” (Flávio. né. o motivo que ela ‘tá chorando. está claro que há mais consideração ao incômodo pessoal do participante do que aos sentimentos da criança que grita. frisando a perspectiva da criança e não o seu próprio estado emocional. Nesse caso. Esse tipo de declaração está claramente ligado a uma focalização sobre os próprios sentimentos aversivos. Resposta de Angústia Pessoal Um outro participante afirmou que sente “muita dor e tristeza” (Osmar. né?” (Paulo. Aí vai depender” (Francisco. tem que levar no posto de saúde ou no hospital. 37 anos). fica implícita a idéia de que o que ele sente vai depender da plausibilidade do motivo. Tem que ver que não caiu. A primeira resposta. dor” (Osmar. indicando assim estresse pessoal (Eisenberg & Strayer. 1990). Nessa frase. Tem crianças que choram porque não ganharam um iogurte.. 1990). 73 anos). ou tá com um gesto que tá doente. sem revelar o que ele sente ao presenciar a situação: “Aí depende do. e outro afirmou: “Quer dizer que aí depende. Resposta Empática Duas respostas denotaram empatia por parte dos participantes. sugerindo que há nesse caso angústia pessoal (Eisenberg & Strayer. . O Que Você Sente Quando Vê uma Criança Gritando? Resposta de Angústia Pessoal Uma das respostas relacionadas à angústia pessoal foi a seguinte: “Ah. né. 73 anos). Me incomoda. Realmente. assim. A segunda revela um sentimento aparentemente empático do participante. não se machucou. atesta que o participante pode identificar o desconforto dela expresso pelo choro. eu sinto tristeza.111 O Que Você Sente Quando Vê uma Criança Chorando? Resposta Pragmática Um dos participantes faz referência a uma resposta utilitária sobre os motivos do choro.

Com a criança ‘tando quieta. Webster & Beech. Todo mundo é igual. Ou ta triste. sentada. 2000). É porque eu também não sei qual é o motivo que ela tá gritando. montada em cima de um banco alguma vai ter. Ela pode tá gritando por socorro. Ela tá em apuros. as respostas de angústia pessoal não foram exclusivas. Estes mesmos autores respondem a este questionamento. Nos dois. Ela tá em emergência. Na execução dessas estratégias importaria apenas o alívio das “dores” dos participantes. se os déficits de empatia estão mesmo associados às situações de abuso como mostram alguns estudos (Pithers. esteja brincando pulando. pois em várias situações eles foram capazes de “sentir com” as crianças. . Fisher (in Webster & Beech. a criança ta alegre. né. na real. A resposta de Francisco (37 anos) também expressou um comportamento empático: “É aquilo que eu te falei. foi visto nos resultados aqui apresentados. 1990). Um outro participante relatou que “Uai. Todo mundo grita”. eu acho que nada ta existindo com ela” (Paulo. quando tá em apuros. né. Pode-se observar que as respostas variaram desde expressões genuínas de empatia. como afirmam Eisenberg e Strayer (1990) em estratégias auto-orientadas ao lidar com os sentimentos do outro. pois respostas empáticas também estiveram presentes. ela tá braba com alguma coisa. se ela tá gritando. Ela tá gritando por socorro. 2000) afirma que muitos abusadores apresentam um índice normal de empatia geral. pelo menos em parte. pra saber por que ela ‘tá assim”. né. então a gente tem que conversar com ela. Esse aspecto. como eu me sinto na minha memória. As perguntas feitas em relação aos comportamentos das crianças tinham como objetivo detectar os processos empáticos dos participantes. Isso aí vai depender também. Por outro lado. A expressão de sentimentos aversivos (angústia pessoal) frente aos comportamentos infantis é especialmente preocupante. 70 anos).112 Resposta Empática Flávio (37 anos) responde: “Se ela tá gritando? Ah. 1999. passando pelas respostas pragmáticas que não demonstraram nem os possíveis sentimentos da criança nem dos participantes até aquelas que destacaram apenas os estados emocionais (aversivos ou positivos) dos participantes. ou ta doente. Pode-se se questionar então. não havendo consideração pelos sentimentos alheios. pois tais sentimentos podem levar os participantes a se engajar. Pode-se pensar que o abuso sexual de crianças é uma estratégia auto-orientada e disfuncional executada pelos participantes quando sofrem de sentimentos aversivos frente às dores dos outros. houve a focalização no estado emocional da criança o que revela um verdadeiro sentimento empático (Einsenber & Strayer. Agora.

Apenas assim. os dados relatados não estarão permeados pelo que é socialmente aceitável.113 sugerindo que o que aconteceria nos casos de abuso contra crianças. revela que suas necessidades não possuem tanta visibilidade. o que não foi o caso deste estudo. percebe-se que os participantes possuem uma visão positiva da criança. não se pode afirmar isso com certeza. para só depois. já que todos eles apresentaram alguma empatia nas situações descritas. pois não houve meios de verificar esse aspecto. . haveria uma relação de cordialidade recíproca entre adultos e crianças na qual o adulto deveria ser cortês e ter respeito pelo adulto e vice-versa. Contudo. As respostas foram organizadas nas seguintes categorias: Sentimentos e comportamentos Positivos. por exemplo. essas idéias de uma infância na qual todas as necessidades são consideradas parecem se localizar mais em um nível abstrato. possuindo também prioridade de direitos. relação de cuidado e respostas sobre a moralidade. os participantes alegam que há uma necessidade de se analisar a plausibilidade dos motivos para tais comportamentos. Estudos que questionem como as relações com as vítimas se estabeleceram são essenciais para que se entenda se esses déficits específicos realmente ocorrem. Ao relembrar respostas anteriores sobre “o que é ser criança” e as sobre as necessidades e direitos delas. né? Cordialidade entre eles. esses estudos devem ser conduzidos junto a abusadores que reconheçam que tenham abusado das crianças. seria um déficit de empatia com uma vítima específica e não uma deficiência geral nos processos empáticos. em situações mais práticas e concretas. Aqui. 37 anos). Esse déficit específico em relação à vítima pode ter ocorrido com os participantes desta pesquisa. na qual suas necessidades devem ser prontamente atendidas. Um deles citou que “Adulto e a criança têm que ter respeito. quando ao chorar ou gritar. atender as necessidades delas. Isso é atestado. No entanto. Descrição da Relação Ideal entre Adultos e Crianças Nesta seção. pois as falas dos participantes sobre os estados emocionais das crianças. Contudo. né” (Flávio. Sentimentos e Comportamentos Positivos A maioria dos participantes citou sentimentos e comportamentos positivos que deveriam existir entre adultos e crianças. serão descritas as respostas para as pergunta “Descreva para mim como deve ser a relação entre uma criança e um adulto”.

eu não vou te levar’. sobretudo. Ela não quer fazer tema. Assim. 1975/1981). comentando também que “Pra quem cuida dela. Essa tipificação das crianças foi ultrapassada. nuclear) deveria ser o local privilegiado da educação pelo “futuro da nação” (Ribeiro.. enjeitados e delinqüentes. Tal idéia no Brasil foi difundida. ‘Não. 70 anos). Contudo. 37 anos). 2006). Tem que ter tudo pronto.. A visão da criança como alguém que precisa ser cuidada está historicamente associada à formação da família nuclear. como explicitam as respostas dos participantes. apesar de ela ser inteligente ela é muito preguiçosa. . que teria como um dos objetivos principais. família nenhuma pode fazer isso”. o cuidado dessa criança (Ariès. e afirmou: Vejo se a pequena tomou banho. cometer abusos contra estas crianças que não sejam da família pode ser mais permissível que abusar das crianças do próprio núcleo familiar. Que a minha grande. tem preguiça. ela é muito preguiçosa sabe. os cuidados da criança seriam dever de sua família e não mais de outros núcleos sociais. Assim. Percebe-se que estes dois participantes fizeram referência às pessoas da família como aquelas que teriam maior obrigação de acompanhar a rotina das crianças e de atender aos seus pedidos. (Francisco.114 Relação de Cuidado Um participante respondeu que “Adulto é que tem que tratar a criança bem” (Paulo. pelo menos em termos jurídicos pela ocasião da promulgação do Estatuto da Criança e do Adolescente. Esse tipo de atitude frente às crianças pode implicar na pouca consideração e até em violência contra crianças que não seriam de responsabilidade da família nuclear. pelos higienistas no século XIX. Outro foi mais específico sobre a questão dos cuidados com as crianças. no meu pensar que ta entristecendo a criança. não quer. Dou uma passada nos cadernos dela. justamente. O movimento ditava que a família (monogâmica. Então eu tô sempre coordenando. As crianças que não tinham família eram consideradas apenas dever do Estado que dirigia a elas uma disciplina opressiva. se a grande trouxe tema pra fazer. ele teria que coordenar as atividades diárias das suas filhas. como comenta Londoño (1999). Eu acho que é dever de família. Conceber a criança como sendo de responsabilidade apenas da família gerou a divisão entre os filhos de família e os órfãos. Assim. categorias opostas de crianças que estavam presentes como alegorias das crianças nos Códigos de Menores de 1924 e 1929. considerar a criança como sendo de responsabilidade apenas da família ainda pode ser vista nos dias atuais.

tem um comportamento sem pensar. De que aquilo ali pode ser alguma coisa errada. descritos por Ariés (1975/1981). que descreviam as crianças como seres assexuados ou livres dos pecados do sexo. pode ter um comportamento que ela mesmo não sabe que não é correto. Vítimas do Sexo Feminino Todas as vítimas envolvidas nas denúncias contra os participantes eram do sexo feminino. Não tem consciência. O adulto sabe o que está fazendo. a pessoa adulta que pode chegar a ultrapassar. De maneira geral.. não sabendo distinguir entre certo e errado: Criança. eles às vezes não sabem o que estão fazendo. quando questionados acerca das características que melhor descreveriam as crianças e a fase infantil. 73 anos). Apenas um dos participantes havia sido acusado anteriormente de . às vezes. revelando a idéia da inocência da criança. Sexo das Vítimas Perguntou-se as participantes o sexo das crianças envolvidas na denúncia. então o adulto está consciente do que faz e deve respeitar a criança. para começar.115 Respostas Sobre a Moralidade Para um dos participantes (Osmar. demonstram-se as respostas estereotipadas dos participantes da pesquisa. No estudo de Almeida e Cunha (2003) este mesmo tipo de concepção apareceu entre professores de crianças. pois elas possuem discernimento moral. não sabe o quê. os participantes demonstraram ter clareza sobre como adultos devem se comportar frente as crianças. ela não sabe. ele devia de evitar. a barreira dos limites da moral. os adultos teriam que corrigir as crianças. Com essa citação pode-se notar que o participante atribui ao adulto a obrigação de evitar “erros morais”. quem sabe. Caracterização das Vítimas A seguir são expostas as respostas dos participantes em relação às características das vítimas. A criança não conhece. Não. Não tem consciência que pode ser alguma coisa errada. e que a relação com o adulto deve ser pautada no respeito e nos sentimentos e comportamentos positivos. Agora. Tal concepção tem aparecido nos discursos sociais desde os preceitos moralistas e religiosos do século XVI. Mais uma vez.. Até a criança.. sem que haja coerção ou violência.. As respostas foram agrupadas em uma categoria única denominada vítimas do sexo feminino.

Idades das Vítimas Foram indagadas também as idades das vítimas envolvidas com a denúncia. Saffiotti. Elliot et al. 1998). As respostas se agruparam na categoria única: Beleza da vítima e recusa em avaliar a aparência da vítima. 1995. Aparência Física das Vítimas A aparência física da vítima também foi outro aspecto investigado.116 um abuso contra uma criança do sexo masculino.. Nesse estudo. Vítimas Crianças Duas das vítimas eram crianças com idades de 6 e 10 anos cada uma. Vítimas Adolescentes Três vítimas eram adolescentes. Essa característica foi discutida por Elliot et al.. 2001. Safiotti. Habigzang et al. pois elas seriam educadas para obediência e para submissão (Narvaz. A submissão e a obediência não estariam associadas apenas ao início do abuso. 2005. A preferência por vítimas do sexo feminino é relatada em diversos estudos (De Lorenzi.2005. et al. A faixa etária das vítimas parece estar de acordo com as médias dadas por Elliot et al (1995). (1995) como sendo uma . Beleza da Vítima Os participantes avaliaram como bonitas as crianças e adolescentes que eles foram acusados de abusar. estando intimamente intricada com a manutenção do segredo. mas também não revelá-lo a ninguém. 1998) A violência sexual contra meninas. cada um delas com 13 anos de idade. A resposta de Osmar (70 anos) serve para exemplificar o tipo de resposta dada pelos participantes de maneira geral: “Ela é bem bonitinha. pois segundo este estudo a idade das vítimas varia de 8 aos 13 anos. Estas teriam que se submeter a todos os pedidos e ordens advindas de homens mais velhos e com mais autoridade que elas. as idades das vítimas variaram. eu acho”. pois “faz parte do jogo” da obediência não apenas aceitar o abuso. é mais freqüente. As respostas foram agrupadas nas seguintes categorias: Vítimas crianças e vítimas adolescentes.

responderam que procuram por vítimas de boa aparência física. 42% de 91 abusadores sexuais infantis. pois seriam mais frágeis e vulneráveis. pois se o participante nem pode avaliar a beleza da filha. (Flávio. também. As vítimas foram descritas como “muito inteligente” (Francisco. As respostas foram organizadas em uma categoria única: Ausência de deficiências. pois isso não seria correto de sua parte. As respostas foram agrupadas em duas categorias: Características positivas e características negativas. Insistiu-se pra que ele justificasse o motivo pelo qual ele não podia se pronunciar. . Essa característica da vítima não esteve ligada. isso indicaria que ele jamais cometeria abuso sexual contra ela. Agora. A resposta desse participante parece ter como objetivo transparecer a idéia de uma posição politicamente correta. a nenhum dos casos dessa pesquisa. diz os antigos que pai não acha filha bonita. Ausência de Deficiências Todos os participantes afirmaram que a as crianças vítimas do abuso não possuíam nenhuma deficiência física e/ou mental. Atitudes Foi solicitado também que os participantes relatassem que outras características eles poderiam identificar nas crianças e adolescentes envolvidas na denúncia de abuso sexual contra eles. Penso eu na minha criação que eu tive”. Ausência/Presença de Deficiências Averiguou-se também se os participantes identificavam algum tipo deficiência (física e/ou mental) em suas vítimas. Recusa em Avaliar a Beleza da Vítima Um dado vale a pena ser comentado: um dos participantes respondeu que não poderia se pronunciar sobre a beleza da filha.117 importante característica para a escolha da vítima. não tendo como revelar o fato. no entanto. ela não serve pra feia e nem bonita. mas ele apenas respondeu o seguinte: “Olha. Koller (1999) comenta que algumas vezes crianças com deficiência física ou mental podem ser escolhidas como vítimas. Segundo esses autores. 37 anos) ou como “muita esperta”. 37 anos).

Mas. Quando ela vai falar alguma coisa ela chora. fazendo com que ela seja vista como mentirosa.. Um deles enfatizou inclusive que a vítima era a mais obediente de seus filhos: “Ela inclusive era mais obediente. Essa convicção teria feito com que as pessoas acreditassem em sua “mentira” sobre a tentativa de estupro. o participante tenta depreciar a vítima. Num era todas às vezes que eu chegava era que ela tava na rua. A autoridade do adulto nesse ponto pode valer mais que a fala da criança e do adolescente. A maioria delas foi descrita como “obediente” (Paulo.118 Atitudes Positivas As atitudes das crianças e adolescentes vítimas do abuso foi descrita de maneira diversa. Ela comenta que uma estratégia freqüente usada por abusadores é alegar que a vítima mentiu sobre o abuso sexual. Aqui o entrevistado claramente tentou utilizar uma característica da vítima para escapar a acusação. 2002). enfatizando que ela mentiu. acho que ela é muito convincente. 38 anos). né? Ela é assim. assim como fez Flávio. foram encontrados apenas alguns dados que estão de acordo com o perfil de vítima traçado pelos estudos.. 70 anos) pelos participantes. . ele sugeriu que ela estaria mentindo em suas alegações. Quando ela vai falar alguma coisa. Outros adjetivos usados para classificar as vítimas foram como “bacana” (Flávio.. Aqui cabe um comentário. A maioria feminina. Ela é muito chorona.. mas obediente um pouco que os outros. apenas a título de sugestão. Então. Neste estudo. Quando Flávio se referiu a sua vítima como convincente. 38 anos) e “educadas” (Paulo.70 anos). Lawson (2003) realizou um levantamento teórico em estudos de 1982 a 2001 sobre as principais razões que os abusadores alegavam para o cometimento de atos abuso sexual contra crianças. Atitudes Negativas Flávio (37 anos) classificou sua enteada como uma pessoa convincente: Eu não sei. Mais uma vez. as vítimas de abuso sexual são desacreditadas (Morales & Scharamm. Muitos abusadores se valem desse tipo de autoridade para desacreditar as vítimas perante os outros. Nesse caso. às vezes tava também” (Marcos... pois o adulto saberia mais sobre o certo e o errado. Talvez a menina tenha sido convincente na primeira declaração dela. Freqüentemente. essa característica pode ser vista como associada ao início e a manutenção do abuso sexual dessas meninas. né? Ela tem costume de. a beleza e a relação de proximidade com o abusador foram as respostas que se aproximaram com os dados apresentados respectivamente nos estudos de De Lorenzi et al.

Relações Positivas A relação com as vítimas foi particular em cada caso. Na entrevista. padrasto.. Os dados da literatura se confirmam nesse caso. Relação de Proximidade Entre a Criança e o Perpetrador Todas as vítimas eram crianças que possuíam uma relação de proximidade com os abusadores e no caso desse estudo uma relação de confiança. De acordo com Francisco: Então eu sempre fui muito agarrado a ela.. Sua proximidade com a vítima era vista com desconfiança pela família. pois é sabido que a maioria dos agressores conhece sua vítima (ABRAPIA. a fragilidade.. Habigzang. e .. Eliot (1995) e de Habigzang et al. Contudo. Francisco (idade) comenta que sua relação com sua enteada (e vítima) de 13 anos era de muita proximidade.119 (2001). combinados entre eu e a minha esposa a gente. 2005). não a considerava como filha. Qualidade das Relações entre os Participantes e as Vítimas A relação entre a criança vítima e os participantes foi outro quesito investigado.. Ela muito agarrada a mim. 1999) a baixa auto-estima. (1995)... 2003... confiabilidade da crianças e das adolescentes em nenhum dos casos. apenas como afilhada.. avó e padrinho). Ele e a esposa sempre atuaram como cuidadores secundários da adolescente. né.. né? E eu muito agarrado nela. a inocência. 2001. et al. E a gente. começou. pois todos exerciam papéis de cuidadores (pai. (2005) e outros. começou ela a crescer e o pessoal começou a buzinar tanto na minha cabeça que na dela.. Então. Elliot et al 1995. não foram encontradas as características relacionadas a deficiência física (Koller.. As respostas foram classificadas em uma única categoria chamada relação de proximidade entre a criança e o perpetrador. antes mesmo da acusação de abuso sexual. sempre que a gente podia a gente dava tudo pra ela. As respostas foram organizadas duas categorias: relações positivas e relação de vigilância. ele relatou que apesar de fornecer objetos materiais e cuidados. Vínculo com o Abusador Perguntou-se aos participantes qual era a relação com a vítima envolvida na denúncia de abuso contra eles. como comentam Elliot et al. De Lorenzi et al.. mas quase todas podem ser classificadas como positivas.

Ela não tem outro pai. Já foi tirado que eu trazia aqui ó.. seu eu achava que dava.. E sempre em cima. no colégio.. Sete horas eu largava a Marina (outra filha do participante).. Começaram a falar.. eu deixava”. nota-se que as relações dos participantes com as crianças envolvidas na denúncia se configuraram de maneira positiva. com exceção do caso de Paulo (70 anos). Mas eu nunca vi aquilo ali como um problema. que eu também tava sempre agarrado nela. De maneira geral. eu dava. muitas vezes. “Uma relação normal de pai com filho. avisava a diretora a Priscila (filha) já ta lá. Quinze pras onze. Osmar expôs que tratava a filha de sua enteada (a qual ele é acusado de abusar) como sua filha. aí dava sete horas.120 na dela também. podia ter vento.. boa. 2004.. (Furniss. Isso há uns dois anos já começaram a falar. já. descreve a sua relação com a filha da qual foi acusado de abusar como uma relação normal de um pai com uma filha. né. 1993. mas você tem que mandar a mais velha junto ou o irmão. essa que é casada que tá em casa e a Karina. Normal. eu ia buscar ela. Habigzang et al. quando ela pedia alguma coisa se eu achasse que dá. sempre. eu tava lá podia ter frio. No colégio. chegava lá deixava bater a entrada do colégio. As respostas relatadas na questão seguinte explicitam melhor a qualidade de relação que os participantes tinham com suas . Segundo Osmar (70 anos): “E ela me conhece como pai.. vítima do abuso pelo qual foi denunciado. Marcos (38). Se você ver ela junto comigo ela diz pai”. Tava lá esperando pra trazer pra casa. Quinze pras cinco. Flávio (37 anos) apenas relatou que se relacionava bem com a enteada e não entende o motivo de ele ter o acusado da tentativa de estupro. sempre cumprindo as minhas obrigações que eu tinha que ter de cuidar o filho.. Relação de Vigilância Paulo (70 anos) relatou que observava com rigidez a rotina de sua filha. sempre. tendo um excelente relacionamento com elas. que ela saía do meu colo. Se ela pedisse pra ir brincar com coleguinha. tava sempre agarrada em mim. na sala dela. Que ela era muito agarrada em mim.. eu levava numa hora. 2005. né?’ Nunca deixei ir sozinha. aí. A proximidade e o vínculo que perpetrador e vítima possuem.. Nunca dei corda. por sua vez.. faz com que o ele se valha da relação de afeto e confiança com a criança para cometer o abuso mantê-lo em segredo. De acordo com ele: Vai. in press). Era normal de um pai com filho. Habigzang & Caminha. que ela. Esse tipo de resposta pode indicar que os participantes usam esta relação positiva para se aproximar das vítimas para cometer os atos de abuso.

(Osmar. No caso de Osmar (73 anos).121 vítimas. pois: Essa última (denúncia) é para ficar com a casa.. característica essa apontada como importante por abusadores em outros estudos (Swaffer et al. Não tem nenhum outro motivo. os participantes apontaram uma relação de manipulação com as vítimas. eu num ia ficar com mulher nenhuma. Eu fui acusado por essa minha esposa de ter abusado da minha filha. Envolvimento da Vítima por sua Própria Ação Nesta subcategoria foram organizadas as respostas que expressavam o envolvimento da vítima a partir de sua própria ação. Então ela disse: ‘Não quer. ele alega que é inocente e que a denúncia contra ele só foi levada a cabo. ele foi acusado de abusar da filha de sua enteada.. Que elas me queriam tirar a casa. Ela me acusou na época (Marcos. E ai a minha mulher se aproveito de pegar a metade que ela queria.. Deu metade para tua filha a outra metade é minha. Envolvimento da Vítima pela Ação de Terceiros Dois participantes atribuíram o envolvimento da criança na denúncia. Contudo. tu que vai ter que sair’ E aí a raiz de tudo é isso. Esse é o. Daí ela pegou e disse que pra mim que se eu num ficasse com ela. envolvimento da vítima pela sua própria ação. As respostas foram organizadas nas categorias envolvimento da vítima pela ação de terceiros. Jamais teria coragem de fazer isso aí. Envolvimento Específico da Vítima na Denúncia As respostas seguintes referem-se à pergunta “Por que esta criança e não outra criança está relacionada a esta denúncia?”. por sua vez. o segundo homem que ela teve que eu não quis que entre na casa. pela vontade que alguns parentes tinham de prejudicá-los. o motivo da vingança seria um relacionamento extra-conjugal que ele vinha mantendo: Eu conheci uma outra mulher e comecei a ter um caso com a outra mulher. Os participantes usaram como justificativa características adolescentes das vítimas para esse envolvimento nas . 2000). Segundo o entrevistado. 38 anos). e envolvimento pela ação do participante. é da minha filha. e ai veio essa acusação. Assim. as crianças não se envolveram nessas acusações por vontade própria. relatou que sua esposa quis vingar-se dele e haveria encorajado sua filha a acusá-lo falsamente de abuso sexual. O homem. 73 anos) Marcos (38 anos). meu marido não vai sair. Só que não é verdade. A raiz de tudo é a minha filha que eu não quis que o marido entre na casa. Eu não fiz isso aí. Em nenhum dos casos.

né? Eu acho que eu devia ter dado mais liberdade pra ela. também. (Flávio.. com certeza.... Acho que nesse ponto eu agi errado. eu errei porque eu sou o maior... a partir do momento que... O caso de Francisco de 37 anos vale ser discutido separadamente. afirmou: Ah. eu não tinha direito. ele sabe que teve uma . Conceber a adolescência como uma fase de conflitos (Hall. Quando inquirido sobre a responsabilidade em relação com sua afilhada. que ela é uma criança como tão dizendo que ela é. o que. a responsabilidade pelo abuso seria dos dois. pois “Porque ela quis e eu quis”. Quando afirma que a adolescente não tem essa “inocência toda” isso significa que ele a concebe como uma pessoa que já possui responsabilidades sobre seus atos... a gente.. ele manteve um relacionamento afetivo-amoroso com sua a vítima. in Newcomb.. Mas ahn. com essa inocência toda. pois ele era o adulto.. Em suas palavras. Eu acho que ela sabia o que tava fazendo. né (ela também é responsável). que perante a lei é como se fosse” (Francisco.. Foi isso.. eu me meti no espaço dela. pois esta estava entrando para a adolescência e queria mais liberdade: (A vítima) Começou a mentir e andava com um pessoal na esquina que tudo se juntam numa esquina pra fazer uso de maconha. afirmou que sua enteada o acusou injustamente.. Que é uma coisa que como ela mesmo diz... sabe. Francisco não usou o termo “abuso sexual”. acho que ela devia de ter saído. queria ter os namorados dela. Ai andava junto com os caras e tal. O participante admitiu que tinha abusado de sua afilhada de 13 anos.122 denúncias... A entrada na adolescência e a busca pela liberdade seriam os motivos pela denúncia. eu não devia ter trancado ela. E eu acho que não tinha mesmo. Francisco admite que perante a lei. não foi forçado. 1999) pode servir como uma forma de desacreditar adolescentes que denunciam seus abusadores. eu acho que eu agi errado. hoje. Segundo ele: “Porque ela quis e eu quis. no caso.. entendeu?”. Das falas de Francisco percebe-se que. Talvez eu estivesse.... 37 anos). ele era pessoa que tinha a responsabilidade pela situação. Durante toda a entrevista. Então. né. Entretanto. É como se diz. Então ela sabia o que ela fazendo também. Por que eu tentei controlar de mais a vida dela. né? No caso ela queria sair. E. Como tu sabe se uma criança deixa de ser criança. Eu não sei. Eu acho. Segundo o abusador. né. entendeu? Mas eu tenho consciência. Eu não vejo ela. 37 anos).. e. assim.. Flávio (37 anos). pois é ciente do que é ou não uma conduta adequada.. Nessa parte ai. não. O entrevistado se vale das características da fase adolescente para se escusar da denúncia de abuso. talvez.. Ela é criança. pois a adolescente “não foi forçado. Eu acho que. por exemplo. perante a lei. assim. Ele justifica que não houve abuso.

teria convencido sua filha a mentir. E parou na frente e soltou a toalha no chão. entendeu? Ah. Ele conversou muito.. a cabeça dela é uma abóbora verde. na resposta desse entrevistado. Uma abóbora verde. (2005) discutem que em uma pesquisa com caminhoneiros sobre a exploração sexual comercial infanto-juvenil. 37 anos) (e.. ele relatou que sua filha o acusou. né. Ela entrou no banheiro e tomou o banho dela. Foi de adolescente dela. E fazer como o outro. inclusive quando o relacionamento sexual ocorre entre ela e uma pessoa de nível psicossexual mais adiantado. portanto. Koller et al. Além disso. era diminuída. Segundo Paulo: “A Priscila na idade que tá. Ele fez esse comentário também para justificar que ela já não “era tão inocente” (Francisco. só que ela não se vestiu. sem os parâmetros da lei. esses indivíduos enfatizaram que se uma menina não fosse mais virgem. nem tão criança) quanto outras pessoas alegavam. pois na idade em que está. Todavia. né?” (Francisco. Atrelado a pouca consciência de sua filha. A concepção de Francisco é análoga a dos caminhoneiros. A fala de Francisco esclarece que esse tipo de conduta pode ser típico de uma adolescente. 70 anos). as condutas sexuais podem ser vistas como mais aceitáveis para as adolescentes. E começou a me abraçar e aí. eu acho que ela agiu como uma adolescente. Francisco fez referência a outros relacionamentos sexuais que sua afilhada haveria mantido com outros homens “Ah. também.. mas não de uma criança. Assim.123 conduta inadequada. Ela veio até a cozinha enrolada na toalha. . pois queria que ele fosse preso para poder se relacionar com ela sem a vigilância do pai. Não tem miolo. foi que aconteceu. Sobre a denúncia de Paulo (70 anos). Foi questionado se a adolescente havia agido como uma criança ou como uma adulta.. pois ele enfatizou que ela já não era mais virgem e que por isso ela já seria permitido se relacionar sexualmente com ela. Mas podia ter se vestido no banheiro. 37 anos). e ela já teve outros homens. O entrevistado respondeu que agiu como uma adolescente capaz de provocá-lo: E ela foi pro banheiro e eu fique na cozinha tomando banho. 37 anos). sua filha estaria se relacionando com um homem com o dobro da idade dela. sua conduta de ter abusado da afilhada parece não ser tão grave. a responsabilidade deles em manter relação sexual com elas. que ela começou com essa cabeça” (Francisco. A questão de não ser mais virgem precisa ser mais aprofundada. segundo. pois a vítima já era adolescente e não mais criança. Essa pessoa. Ela agiu como uma adolescente agiria (Francisco. ela não tem consciência do que faz.

que eu sou um louco. pois jamais teriam coragem de manter relacionamento com elas. sabe. Aí eu achei uma coisa absurda. Ele associou esse tipo de conduta por parte de sua filha a entrada na adolescência... Lawson (2003) comenta que afirmar que a vítima está mentindo é uma das principais estratégias usadas por abusadores sexuais infantis. eles afirmaram que as meninas que se “prostituem” nas estradas não seriam como suas filhas. é descrita por Lawson (2003) como uma estratégia comumente usada por abusadores sexuais. 37 anos). mas que também nutria um sentimento mais profundo por ela. Mais uma vez. mas que não também não podia ser classificado como “amor” (Francisco. Além disso. (Francisco. como uma forma de esclarecer que com suas filhas jamais agiria dessa maneira. ela deve tá pensando que. Paulo alegou ainda que a sua filha estava mentindo quando a acusação que fez contra ele.124 Assim. Os sujeitos da pesquisa realizada por estes últimos autores. era pensar em suas filhas. a ausência de senso de sua filha facilitaria a persuasão. tenho a outra que tem 14 anos e tem a mesma idade da minha filha. A fala de Francisco mais uma vez este em concordância com os discursos dos caminhoneiros pesquisados por Koller et al. sei lá o que ela ta pensando de mim. Todas elas são bonitas. pois: Eu tenho várias sobrinhas. as características da fase adolescente funcionaram como um caminho para desqualificar a denúncia feita pela vítima. tão bonita quanto a minha filha e tão bonita quanto a Ana. da qual abusou. Então vou responder só o que eu acho que é certo. que é tão bonita quanto ela. se eu já tinha tido com a minha filha. mas depois eu parei pra pensar: ‘Bom. 37 anos). mas sim como uma relação afetiva. não foi apenas beleza. (2005) sobre a exploração sexual infantil. O entrevistado respondeu negativamente e enfatizou que sua afilhada não era sua filha. comentam que essa diferença de status (entre as meninas de suas próprias famílias e as outras) facilita o cometimento de . Exemplificando a fala de Francisco: Me atendeu uma senhora lá. ela perguntou se eu já tinha. que eu sou um tarado. Envolvimento pela Ação do Participante Francisco destacou também que nutria um afeto de natureza diferente pela sua afilhada. revelaram que uma das justificativas que os impediam de abusar de crianças nas estradas. sei lá. a mesma vontade que eu tinha tido com ela. Segundo ele. né. Koller et al. Neste ponto. Ele citou que sentiu atração sexual. foi questionado se ele já havia pensado em suas filhas de maneira sexualizada. Afirmar que a relação entre abusador e vítima não se configurou como abuso.

as vítimas foram acusadas pelos abusadores de mentir ou de consentirem o abuso. 2003). Contudo. tais como alegar que a que o ocorreu não foi um abuso sexual. a relação é tida como menos abusiva. pois notou-se que quando as vítimas eram crianças. de modo que se for uma adolescente envolvida na acusação. Pode-se concluir que os abusadores se valem desse tipo de percepção social que se tem acerca do abuso sexual de crianças como um modo de se escusar das acusações. mas sim de estarem envolvidas na denúncia. afirmam que as atribuições de culpa. mas sim uma relação afetivo-sexual consentida é comum entre os abusadores (Lawson. As meninas mais jovens vítimas dos homens entrevistados nesse estudo.125 atos de abuso sexual. em situações hipotéticas de abuso. quando a vítima era adolescente (caso Paulo. Waterman e Foss-Goodman (in Almeida. as adolescentes são mais culpabilizadas e aos abusadores é atribuída menos responsabilidades. o seu envolvimento na denúncia se deu pela ação de terceiros (caso Marcos e caso Osmar). Constata-se que a idade da vítima pode ser um importante fator que interfere nos modos como os abusadores justificarão os motivos pelos quais as vítimas se envolveram na denúncia. 2004). . pois pessoas mais velhas as teriam persuadido a mentir. caso Flávio e caso Francisco) os motivos que levaram a se envolver na denúncia foram provocados basicamente pela ação delas. pois esse tipo de conduta é tido como mais permitida com aquelas crianças não fariam parte das famílias dos caminhoneiros. Os motivos pelos quais as vítimas estariam envolvidas nas denúncias foram variados. não foram acusadas de mentir ou de provocar seus abusadores. são influenciados diretamente pela idade da vítima. Algumas estratégias usadas pelos entrevistados. Já no caso das meninas mais velhas.

advindas de classes sociais mais favorecidas também podem praticar abuso sexual infantil. que em geral. escola. classificar abusadores sexuais a partir de algumas características específicas envolve uma questão ética. adultez e até velhice para alguns). tomando-se o cuidado em discutir. pois nas demais classes socioeconômicas as pessoas estão mais preocupadas em manter sua privacidade. no entanto. de as denúncias sobre abuso sexual infantil terem provenientes de classes sociais menos favorecidas. mesmo quando são cometidas violações contra os direitos das crianças. Obviamente. Isto significa que pessoas com alta escolaridade e poder aquisitivo mais alto. mesmo que superficialmente. essas características não devem ser tomadas como típicas do perfil de homens acusados de delitos sexuais contra crianças. mesmo porque o número de participantes deste estudo não permite generalizações. apresentando relações saudáveis com as pessoas (inclusive com crianças) de todos os microssistemas (família. as características sócio-demográficas dos participantes. Ao analisar. se caracterizaram por informações sobre uma vida tranqüila. inicialmente. sem episódios de abuso. Desta forma. obtiveram-se dados sobre as relações dos participantes com criança ao longo do ciclo vital bem como sua visão sobre as crianças. as características sóciodemográficas dos participantes deste estudo observa-se que quase todos eles apresentaram uma história escolar de pouco sucesso. sendo provenientes de classes sociais menos favorecidas. há que se considerar que esta pesquisa foi realizada em um serviço gratuito e para o qual o encaminhamento era compulsório. Assim. Como afirmam Cohen e Gobetti (2002). nos casos deste estudo. Ocorreu. uma vez que. adolescência. De maneira coerente.CAPÍTULO IV CONCLUSÕES O presente estudo alcançou seus objetivos. neste estudo optou-se por não rotular esses indivíduos. suas histórias de vida também não pareciam ter contribuído para uma distorção da visão sobre as crianças levando-os a cometer abuso sexual. como em muitos outros. eles enfatizaram que suas histórias de vida (devido a esta suposta tranqüilidade) em nada se relacionavam com as denúncias de abuso sexual contra eles. o que foi 126 . Este fato é comum em classes pobres. Além disso. Um segundo ponto a ser considerado se refere às histórias de vida dos participantes. bairro) ao longo do ciclo vital (infância.

na qual as crianças seriam descritas como seres sexuais. soando como um aspecto manipulador de suas personalidades pouco vinculáveis. 2005. que espontaneamente desejariam relacionar-se sexualmente com adultos (Gannon et al. a denúncia de abuso sexual contra uma criança menor de 13 anos associada a outros dados de suas histórias mostram que suas visões sobre e as crianças não são tão positivas quanto eles gostariam de transparecer. como seres inocentes sobre os diversos aspectos da vida. Este dado fica ainda mais claro quando são inquiridos sobre situações mais práticas às quais tendem a ser mais pragmáticos e a emitirem respostas com definições utilitárias. responsabilidades ou deveres. as crianças foram vistas como tendo prioridades de direitos e necessidades. Além disso. Não furtaram-se ainda a emitir respostas inadequadas ou confusas. que ditariam que suas vontades são mais importantes que as de outrem. A visão que o abusador tem sobre si mesmo e a aceitação das regras sociais influenciariam diretamente na visão que eles possuem sobre o mundo e sobre as crianças (Gannon et al.não foi notado nenhum “erro” cognitivo que se associasse a uma visão distorcida. algumas respostas sugeriram que tais processos não se apresentavam de forma consistentes. 1990)... Expressam ainda reconhecimento e aceitação das normas sociais. especialmente quando afirmam que têm respeito pelos outros. alguns deles demonstraram crenças estereotipadas sobre os gêneros. Além disso. Todos esses fatores contribuiriam assim para uma visão romanceada e positiva destes participantes sobre os aspectos gerais de suas vidas e também com relação à criança e à infância. ora transparecendo angústia pessoal (Eisenberg & Strayer. no entanto. Ward & Keenan. aparentemente. Os participantes deste estudo. Portanto. Assim. 2000). 1999). Eles viam as crianças. de maneira positiva. para chegar à condição de abusadores. Contudo. 2005. sem expressão de sentimentos.127 demonstrado nas respostas dos participantes. principalmente com relação ao sexo. Horley. como seres felizes que se ocupam apenas das brincadeiras e não possuem muitas preocupações. A falta de empatia denunciou que as necessidades das crianças não possuem afinal tanta visibilidade para eles. como estando de acordo com elas. ora com respostas pragmáticas. Chegam a apresentam bom auto-conceito e auto-estima elevada. Nas questões sobre empatia. as pessoas em geral poderiam ser descritas como aquelas que teriam comportamentos auto-centrados e não aceitariam normas sociais. como uma alternativa à falta de resposta que também foi freqüente. como conceber . superficiais e objetivas da situação. não manifestaram comportamentos auto centrados. embora aparecem em seus discursos.

As respostas daquele que afirma ter cometido a violação parecem mais verazes do que as dos demais participantes. principalmente. eles não definiam apropriadamente a resposta a esta questão. não poderiam fornecer respostas que os comprometessem. estando. Nota-se. portanto. Contudo. revela a tentativa de transparecer apenas o que é socialmente aceitável: “Eu só vou falar o que é certo” (Francisco. . buscando sobrepujar a denúncia e o fato em si e passar a impressão geral de que foram inadequadamente culpabilizados. pode-se também pensar que aqueles que não admitiram ter praticado o abuso estejam fornecendo respostas ainda menos fidedignas. Evidentemente que embora pragmáticos quanto à visão de quem é uma criança. pode-se pensar que se o único que admitiu se coloca dessa maneira diante das perguntas sobre seus desejos sexuais. Esse tipo de crença pode contribuir para a justificativa de abuso sexual praticado por homens. As crenças sobre a obediência das meninas verificada neste estudo também é outro ponto que pode sublinhar o abuso sexual de crianças do sexo feminino (Narvaz. Além disso. 2005. pode-se questionar os motivos de algumas respostas serem tão “corretas” e outras apresentarem um pouco menos dessa retidão. Portanto.128 a expressão da sexualidade como mais permitida para meninos que para meninas. A primeira delas é quase todos participantes foram recrutados quando estavam envolvidos em avaliação psicológica compulsória determinada pela justiça. de qualquer forma. Mesmo parecendo mais “verdadeiro”. ao afirmarem que elas mentiam ou teriam a mesma responsabilidade que eles. As respostas politicamente corretas e estereotipadas podem ter sido dadas por duas razões principais. Safiotti. quando questionados sobre as acusações que pesam sobre eles. uma tentativa persistente de emitir respostas politicamente corretas e estereotipadas. Este dado é confirmado. 1997). em um estado psicossexual mais precoce que eles. 37 anos). na medida em que essa permissividade para os comportamentos masculinos se baseia na premissa de que a natureza sexual masculina é incontrolável. quando se comparam as respostas dadas pelos participantes que estavam no serviço compulsoriamente e do participante que estava neste mesmo local em busca de ajuda psicológica pelos sintomas relacionados à culpa sentida pelo abuso reveladamente cometido. 37 anos) sobre a resposta dele para uma profissional de saúde que questionou se ele possuía desejos sexuais por suas filhas. a fala desse mesmo participante. (Francisco. Neste ponto. menos sendo crianças ou adolescentes. os participantes desqualificaram os comportamentos de suas vítimas.

Esta coleta não deixa de ter validade ecológica. Outro aspecto que deve ser considerado é a brevidade do contato com os participantes em um contexto de pesquisa e a possibilidade escassa de vinculação com a equipe de pesquisa. à mentira patológica entre outros comportamentos. O tempo reduzido da coleta neste estudo (apenas um encontro com quatro participantes e dois com um outro) pode ter diminuído a chance de vinculação com os participantes. avaliações psicológicas de pessoas que cometem abuso sexual contra criança feitas em período limitado não podem ser descartadas. impedindo também o acesso a dados mais fidedignos. pois muitas vezes os profissionais envolvidos neste tipo de atividade dispõem de pouco tempo para a realização de tal tarefa. Entretanto. Assim.) tais como a Psychopathy CheckList Revised (Hare. Itenbi (1998) comenta que a acessibilidade a certos dados (como os de vitimização dos próprios abusadores) aconteceu apenas depois de várias sessões com estes indivíduos. uma vez que os índices de transtornos anti-sociais são indicados como elevados entre pessoas envolvidas com abuso sexual contra crianças (Trepper et al. 1991) pode ser uma sugestão para uma avaliação mais veraz da situação de um abusador sexual. não pode ser garantido. ou testes falométricos (Marshal and Laws. 2003) podem ser mais úteis.. que podem facilitar a expressão de respostas assertivas por parte destes indivíduos. uma vez que traz dados da expressão dos participantes nas condições expostas. no entanto. estudos que busquem outras fontes de dados. Instrumentos que usam dados de outras fontes (como registros escolares e médicos. como relatos de familiares. Certamente. sugere-se que haja uma maior preocupação com o tratamento das pessoas que cometeram o abuso sexual para que . O uso de instrumentos que não forneçam apenas auto-relatos (como os comentados anteriormente) são especialmente importantes quando se dispõe de pouco tempo para fazer avaliações. Além disso. 1996). Além disso. o uso de instrumentos Assim. como as usados neste estudo. têm sido criticadas. pois elas estão sujeitas a influência da do que é desejável socialmente (Tierney & MacCabe. investigações científicas em períodos nos quais os participantes estão envolvidos em processos judiciais pode ser considerada como uma limitação.129 Há que se comentar que as medidas de auto-relato. O estudo aqui descrito usou apenas os relatos dos próprios participantes para obter dados. mais encontros poderiam propiciar maior vinculação. quando se pretende ter dados de melhor qualidade sobre as vidas e os interesses sexuais de abusadores sexuais infantis. etc. Os sintomas deste transtorno associam-se à manipulação. o que. 2001).

pois com os resultados obtidos neste estudo demonstrou-se que os abusadores negam veementemente as acusações contra eles. o contexto no qual as respostas foram dadas . Acredita-se que apenas com uma intervenção mais focalizada nestes indivíduos pode-se alcançar este objetivo. Contudo. Ser criança para um abusador sexual pode ser carregado de uma definição funcional para alguns. Enfatiza-se ainda que outras fontes de dados. embora tenham por detrás uma denúncia de tamanho peso. já que a auto-culpabilização dos autores dos atos é um processo difícil. tais como uma melhor investigação do relato da criança e de seus familiares devem ser obtidas como provas em casos de abuso sexual. como já foi reiterado diversas vezes. a visão de criança que os participantes desta pesquisa têm revela o pragmatismo com que tratam a criança e como transferem para a sessão de pesquisa a atitude de responder às demandas socialmente aceitas. A responsabilização é particularmente importante. e que no curto período de tempo no qual se realiza a avaliação é quase impossível realizar alguma intervenção que se reflita na conscientização da gravidade do ato de violência por eles praticado. Finalmente.130 elas se responsabilizem pelo ato de violência que praticaram contra criança. ou quase ausente para outros.

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ANEXOS ANEXO A Fundado em 1994 Centro de Estudos Psicológicos sobre Meninos e Meninas de Rua Instituto de Psicologia. Andreína Moura e Sílvia Koller da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. do Instituto de Psicologia da UFRGS 1. ainda. 2. um momento para que você fale o que você quiser. 2600.br TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO Pesquisa: A Criança na Perspectiva do Abusador Sexual. Por isso. se recusar a continuar participando em qualquer momento sem qualquer prejuízo para 139 . As entrevistas serão feitas no Departamento de Genética em uma sala que estará reservada. 55(51) 33165150 Fax: 55(51) 33165473 Celular: 55(51) 81197091 E-mail: cep_rua@ufrgs. será oferecido ao fim de cada um dos encontros. 3. O tempo de cada um destes encontros será de mais ou menos uma hora e trinta minutos.90035-003 Porto Alegre RS Brasil Tel. que tem como finalidade saber sobre vários pontos da vida (vida escolar. sua visão sobre as crianças) de pessoas que cometeram ou estão sob suspeita de terem cometido abuso sexual contra crianças e adolescentes. Quem são as pessoas que participam desta pesquisa: Pessoas que cometeram ou que estão sob suspeita de terem cometido abuso sexual contra crianças e adolescentes. Sala 104 . UFRGS Rua Ramiro Barcelos. Como será a sua participação na pesquisa: Ao participar deste projeto. Coordenadora: Psicólogas Andreína Moura e Sílvia Koller. Algumas perguntas podem trazer algumas lembranças e sentimentos que podem incomodar. Você tem liberdade de não querer participar e pode. O que é esta pesquisa: Nós. Serão feitos mais ou menos três encontros com cada participante. você deve deixar que um membro do grupo de pesquisa faça algumas perguntas a você. convidamos você a participar desta pesquisa. vida familiar.

pedimos seu consentimento de forma livre para participar desta pesquisa. Dra. Entretanto. traga lembranças de alguns eventos que podem causar incômodo. Mas. 5. você poderá pedir mais informações sobre a pesquisa e você poderá falar com as coordenadoras da pesquisa Andreína Moura ligando para o telefone (51) 8442-4059 ou no telefone (51) 3316-5150 com a Profa.você. Você não terá nenhum tipo de despesa ao participar desta pesquisa. preencha os dados que se seguem: 140 . 196/96 do Conselho Nacional de Saúde. 6. Apenas os membros do grupo de pesquisa saberão sobre os dados. solicitamos sua ajuda para completar o roteiro de perguntas que lhe será solicitado. Sílvia Koller. esperamos que este estudo traga informações importantes sobre as questões relativas a pessoas que estão sob suspeita de terem cometido ou cometeram abuso sexual contra crianças e adolescentes. As gravações e aquilo que você falar nesta pesquisa serão identificados com um código e não com seu nome. 4. no Departamento de Genética serão os responsáveis por estes atendimentos. O que será feito durante esta pesquisa estão de acordo com os Critérios da Ética na Pesquisa com Seres Humanos conforme a Resolução n. Como e onde serão as entrevistas: As entrevistas serão marcadas com antecedência. garantindo assim um melhor resultado para pesquisa. Sempre que quiser. Riscos e desconfortos: A participação nesta pesquisa não tem relação com qualquer caso seu com a justiça. se você necessitar de atendimento psicológico durante ou imediatamente após a pesquisa. 8. e também nada será pago a você pela sua participação. 7. Após estes esclarecimentos. Ao participar desta pesquisa. Será pedido que você dê algumas informações básicas e que responda a uma entrevista sobre vários pontos de sua vida. As entrevistas serão realizadas nas dependências do Departamento de Genética. você não deverá ter nenhum ganho direto. você será atendido no serviço no qual serão realizadas as entrevistas. Portanto. Além disso. Os profissionais do próprio serviço. Talvez. Confidencialidade: Todas as informações obtidas neste estudo não serão reveladas a ninguém.

eu de forma livre e esclarecida. Identificação Local e Data Assinatura do participante da pesquisa Andreína Moura e Silvia Koller . Manifesto meu interesse em participar da pesquisa.CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO Tendo em vista os itens acima apresentados.Coordenadoras do projeto 141 .

90035-003 Porto Alegre RS Brasil Tel. UFRGS Rua Ramiro Barcelos. A qualquer momento. 2600. Para tanto solicitamos autorização para realizar este estudo. para que os mesmos apresentem sua concordância em relação a sua participação. Agradecemos a colaboração do Departamento de Genética para a realização desta atividade de pesquisa e colocamo-nos à disposição para esclarecimentos adicionais.br TERMO DE CONCORDÂNCIA PARA O DEPARTAMENTO DE GENÉTICA Estamos realizando uma pesquisa que tem como objetivo investigar a visão que pessoas que estão sob suspeita de terem cometido abuso sexual possuem sobre crianças. Data ____/____/___ ________________________________________________________________ Responsável pelo Departamento de Genética 142 . esperamos contribuir para o esclarecimento de algumas questões sobre o modo como abusadores sexuais vêem as crianças. A coleta de dados deverá envolver a realização de entrevistas individuais. Sílvia Koller do Curso de Pós-graduação em Psicologia do Desenvolvimento do Instituto de Psicologia. isto poderá ser feito pelo telefone 8442-4059 ou 3316-5150. A pesquisadora responsável por esta pesquisa é a psicóloga Andreína Moura sob supervisão da Profª Dra. informando este procedimento aos participantes da mesma. Todo o material desta pesquisa ficará sob responsabilidade dos pesquisadores no Instituto de Psicologia e será posteriormente destruído. Os participantes deste estudo serão claramente informados de que sua contribuição é voluntária e pode ser interrompida em qualquer etapa. Através deste trabalho. Também será encaminhado um Termo de Consentimento aos próprios participantes. Sala 104 . Caso queiram contatar com a equipe. tanto os participantes quanto os responsáveis pela instituição poderão solicitar informações sobre os procedimentos ou outros assuntos relacionados a este estudo. participem do presente estudo. nessa instituição. 55(51) 33165150 Fax: 55(51) 33165473 Celular: 55(51) 81197091 E-mail: cep_rua@ufrgs. Os instrumentos serão aplicados individualmente para aqueles que apresentarem sua concordância em horários previamente marcados. Optar-se-á por gravar as entrevistas. UFRGS. preservando a identidade dos participantes bem como das instituições envolvidas.ANEXO B Fundado em 1994 Centro de Estudos Psicológicos sobre Meninos e Meninas de Rua Instituto de Psicologia. sem nenhum prejuízo. Todos os cuidados serão tomados para garantir o sigilo e a confidencialidade das informações. _____/___/______ Data __________________________________ Psicóloga responsável Sílvia Koller CRP 07/2037 Concordamos que as pessoas que participam desta instituição. Tal estudo prevê a participação pessoas adultas do sexo masculino de 18 a 59 anos.

solteiro ( ) b. branco ( ) b. divorciado ( ) d.Identificação Nome (apenas as iniciais): Ficha: Data: ___/___/___ Entrevistador: Grupo étnico: a. separado e. mestiço ( ) e.ANEXO C FICHA BIO-SÓCIO-DEMOGRÁFICA 1. outro Cidade de origem: Endereço atual: Renda: Com quem você mora? Há quanto tempo mora com estas pessoas? 143 . negro ( ) c. casado ( ) c. viúvo ( ) f. outro Escolaridade: Estado civil: a. amarelo ( ) f. índio ( ) d.

. Visão sobre a infância Explique para mim o que é ser criança.. Infância: Relações (explorar esta fase do ciclo vital) Fale-me sobre sua infância. Explique.ANEXO D ENTREVISTA SEMI-ESTRUTURADA 1.). Até qual idade você acha que uma pessoa pode ser considerada criança? O que faz com que uma criança passe a ser adolescente ou adulta? O que faz com que um menino passe a ser adolescente ou adulta? O que faz com que uma menina passe a ser adolescente ou adulta? Meninas e meninos: no que são iguais? No que são diferentes? O que você sente quando vê uma criança dormindo? O que você sente quando vê uma criança brincando? O que você sente quando vê uma criança chorando? O que você sente quando vê uma criança gritando? Descreva para mim como deve ser a relação entre um adulto e uma criança. Que lembranças você tem de sua infância? (Explorar lembranças boas/ruins). agora. Conte-me sobre um episódio ruim (se não mencionar vitimização na infância por abuso sexual perguntar se passou por alguma experiência relacionada ao fato) (Explorar relações com irmãos. para mim quem é criança. Fazendo de conta que voltássemos agora no tempo: olhe para a criança que você era e me descreva esta criança. Como era ser uma criança nesta família? Como você acha que sua mãe/pai o descreveriam? Que lembranças você tem de sua infância na sua família? Conte-me sobre um episódio bom. etc. Fale-me de sua família. preferências. interesses. direitos. deveres. outras crianças que viviam na mesma casa) Fale-me de sua escola. Crianças.. primos. 144 .. adolescentes e adultos: no que são iguais? No que são diferentes? (explorar duas categorias de cada vez: criança-adolescente. criança-adulto – ver necessidades. 2.

Quem é sua família? Quem são as pessoas com as quais convive? Como é sua relação com elas? (Explorar relações com irmãos.. como um adolescente.Você tinha amigos(as) na escola? Fale-me sobre eles.. com as perguntas abaixo).. atividades no recreio. Conte-me um pouco sobre isto.. Conte-me sobre um episódio ruim.Vida adulta: Relações (explorar esta fase do ciclo vital) Fale-me de você hoje.. professores. outras crianças que vivem na mesma casa) 5. primos. desempenho escolar) Fale-me de seus amigos fora da escola. durante a adolescência) Como ocupava seu tempo? Conte-me sobre um acontecimento bom e um ruim em sua adolescência. Quem eram estes amigos(as)? Fale-me sobre eles. outras crianças que viviam na mesma casa. Quem é a criança? 145 .. Que lembranças você tem de sua infância no seu bairro? Conte-me sobre um episódio bom. como um adulto. (Explorar relações com colegas.. Situação atual: Relações Você foi encaminhado até aqui por um juiz. primos. (Focalizar na criança a qual está relacionada a suspeita de vitimização por ele. Como você acha que sua professora o descreveria? Que lembranças você tem de sua infância na sua escola? Conte-me sobre um episódio bom. Como era sua família quando você era adolescnete? Quem eram as pessoas com as quais convivia? Como era sua relação com elas? (Explorar relações com irmãos. Adolescência: Relações (explorar esta fase do ciclo vital) Fale-me de você. Do que você mais gostava de brincar? Por quê? Como ocupava seu tempo? 3.. 4. Conte-me sobre um episódio ruim.

O que você achou desta entrevista? Quer acrescentar alguma informação? 146 .Quantos anos ela tem? Qual o seu relacionamento com ela? Como é esta criança era? Descreva-a (explorar aspectos como aparência. Expectativas Pensando em sua vida hoje. etc. percepção de inteligência e maturidade. atitudes. deficiência. você acha que sua história influenciou em algo que acontece no momento atual? Como você quer que seja sua vida no futuro? Fale-me sobre coisas boas que você quer que aconteçam.) Por que você acha que esta criança e não outra está relacionada a esta denúncia? 6.

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