A CRIANÇA NA PERSPECTIVA DO ABUSADOR SEXUAL

Andreína da Silva Moura

Dissertação de Mestrado

Porto Alegre/RS, 2007

A CRIANÇA NA PERSPECTIVA DO ABUSADOR SEXUAL

Andreína da Silva Moura

Dissertação apresentada como requisito parcial
para obtenção do Grau de Mestre em Psicologia
Sob Orientação da
Profª. Dr.ª. Silvia Helena Koller

Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Instituto de Psicologia
Programa de Pós-Graduação em Psicologia
Março, 2007

Dedico este trabalho, a todas as
famílias

que

sofrem

com

as

situações de abuso sexual.. a todos
as crianças, mães,

pais.. enfim

todos

sofrem

aqueles

que

ou

sofreram com esta experiência em
algum

momento

de

suas

vida.

Vou apenas agradecer a todas as pessoas que amo e que contribuíram direta ou indiretamente para que eu concluísse o mestrado. de verdade. Um agradecimento especial a Sol. Walda. Débora. a Lara. Agradeço a minha mãe. por terem me ensinado que na vida as pessoas são bem mais importantes que as coisas. João Felipe. Aninha.. como seu apelido. Kátya. tanto nos assuntos acadêmicos quanto nos pessoais. E claro. meus primeiros e grades amores. Laali. a minha avó Isabel pela sua doçura e apoio e ao meu irmão (Júnior) pelo carinho e companheirismo.. gurias! . os agradecimentos não são só por isso. Tenho tantos! Amigos de verdade! Primeiro aos de Natal: A Karlinha. Agradeço por ter sido uma companheira de casa tão amável e agradável. Mas. Agradeço a vocês por terem me ensinado a amar. Família. Tita. e está é a última parte importante dessa dissertação. dou-me conta de que muita gente (mas. serei clara. primos e Vó Maria pelo carinho. Alyson. Amo.AGRADECIMENTOS É madrugada. a Júbis. ao meu pai (Matos) por ter me dado o conselho certo na hora certa. Não poderia deixar de agradecer a Normanda. por ter me ensinado a lutar pelo que desejo. por ter sido um grande homem. Mesmo estando tão distantes fisicamente.. Como não sou poeta. Obrigada. com que divido minha vida em tudo! Te amo! Tu sabes que é irmã que não tive. Cris e Mel por terem sido sempre tão prestativas e tão amáveis mesmo quando éramos ilustres desconhecidas. vocês continuam em mim e continuarão pra sempre. Isso me conforta e me deixa feliz. Minha amiga brilhante. Felipe que foram meus melhores espelhos. Ter tantas pessoas como companheiras denota que tenho ao meu lado muitas pessoas importantes em minha vida. Mateus. Ao pensar nisso. todos vocês! Muitos foram chamados pelos apelidos. a David. Primeiro. Ao meu avô que. carinhosamente. Karin. não vou usar metáforas. minha força. muita mesmo) esteve me acompanhando nessa caminhada que começou em São Paulo no ano de 2002. Maíra. quando eu chorei ao ver uma palestra com os integrantes do CEP-RUA.. pois é assim que os conheço. não está mais entre nós. Carlão. amo vocês! E tenho muitas saudades de nossa convivência diária. a todos eles pelo GRANDE amor que sempre me dirigiram. Enfim. Agradeço aos meus amigos. pois ela que me apresentou ao CEP. claro. agradeço a minha família. por me apoiar sempre. pois eles são sim meu alicerce. Agradeço também aos meus tios. Rayanne. Quero agradecer também aos amigos que fiz em terras gaúchas.

Um agradecimento especial para Juliana. pelas nossas brincadeiras. Te agradeço por tudo: pelas conversas.. Agradeço também ao CNPq por ter me proporcionado a oportunidade material de cursar o mestrado. A Michele. Rosangela e Magda. Agradeço ao Vicente. sempre. Obrigada. A Luísa e Martha por terem me ensinado tanto sobre esse difícil tema que é o abuso sexual contra crianças. Vera Ramirez e Renato Flores pelas suas disponibilidades e contribuições tão relevantes ao meu trabalho. pelo seu carinho. a Laíssa por mesmo antes de me conhecer ter me orientado. A Camila. meu amado. Marco. pelos nossos planos. Laíssa e Clarinha. por dividir um momento profissional tão delicioso quanto aquele de Cruz Alta.. eu no mestrado. pelas suas orientações. Agradeço também as professores da banca: Cleonice Bosa. meu companheiro. pelo empréstimo do computador. Ao amigo William pelas horas de conversa. A Airi pela força que me deu em tantos momentos: Brigada. A Clarinha pela sua meiguice e por ter me acompanhado em momento difícil a minha vida. correções e por acreditar em mim. pelas reuniões tão produtivas e prazerosas. essa cearense tão carinhosa que entrou na minha vida. por ter sido uma boa amiga nessa fase final.. Agradeço aos meus queridos sogros (Sérgio e Valquíria Duvoisin) pelo cuidado expresso de tantas maneiras nos últimos meses. amor mesmo! Agradeço a minha equipe de pesquisa: Juliana. pois afinal eles me iniciaram na vida acadêmica. Riri! Meus agradecimentos vão também para Ana Paula e Samara. ela na graduação. A Carmem. Renata e Carol. Agradeço a ele também pela lucidez das conversas. Finalmente. pelas risadas. ainda me lembro dela chegando com os livros pra me emprestar mesmo antes de eu pedir. pela nossa amizade. Agradeço também as minhas professoras Martha. Um agradecimento especial para o Renato que abriu as portas do Ambulatório de Genética para que eu pudesse realizar a coleta. Serei sempre grata a vocês. pelas piadas que me fizeram rir sempre. pela paciência. pela sua dedicação. e sempre acreditar . pois começamos juntas na UFRGS. Ao Lucas. Chefa! Terás para sempre minha admiração. Agradeço a Deus por ter-me feito capaz de levar meus sonhos adiante.por você sempre... que sempre esteve ao meu lado. apreço. A minha querida orientadora Sílvia Koller. pelas tardes de trabalho que passamos juntos. Ao Jan. agradeço ao meu amor eterno Christian Duvoisin.Outros amigos feitos aqui nos pampas: Michele. tão querida.

Acabo por aqui com tantas lágrimas nos olhos.em mim. Te amo. meu amor! Sempre! Todas essas palavras não são capazes de expressar o quão feliz e grata sou a você.. lágrimas de alegria por ter me dado conta que tenho pessoas admiráveis a minha volta! Obrigada.. por todo amor que me tens. sempre! Muito obrigada! É preciso fé cega E pé atrás Olho vivo Faro fino E tanto faz (Engenheiros do Havaí) É preciso ainda Mudar de perspectiva Mudar de ângulo Olhar por trás E isso exige que a gente Mude De ponta cabeça E de frente pra trás .

.. 41 CAPÍTULO II MÉTODO........................................................... 45 2..................... 139 ANEXO B: Termo de Concordância para o Departamento de Genética ............ Conceitos e Definições..........2 Participantes .. 126 ANEXOS ANEXO A: Termo de Consentimento Livre e Esclarecido ........................4 Abusadores Sexuais e sua Visão sobre as Crianças................2 Abuso Sexual contra Crianças: Números........ 21 1........................ 29 1............................. 11 1.....................1 Modos de Perceber a Infância: Analisando as Crenças sobre as Crianças no Contexto Social e a partir da Fala de Adultos ..................... 49 CAPÍTULO III RESULTADOS E DISCUSSÃO.............. 142 ANEXO C: Ficha Bio-Sócio-Demográfica ......5 A Bioecologia do Desenvolvimento dos Abusadores Sexuais .................................................................3 Abusadores Sexuais: Classificações e Características.....4 Procedimentos...... 144 ........... 51 CAPÍTULO IV CONCLUSÕES.........3 Instrumentos ............................................................................................................................................................................................................................................................................. 45 2................. 10 1......................................................... 49 2..................................... 45 2.....................................1 Delineamento ...............................................................................SUMÁRIO CAPÍTULO I INTRODUÇÃO....................................... 33 1......... 143 ANEXO D: Entrevista Semi-Estruturada.......................................................

LISTA DE TABELAS Tabela 1: Fases do Ciclo Vital dos Participantes 51 Tabela 2: Visão sobre as Crianças 54 Tabela 3: Caracterização das Vítimas 58 7 .

de modo a obter sua visão sobre as crianças. Estudos indicam que abusadores possuem distorções cognitivas sobre crianças. abuso infantil. Os resultados indicam relações saudáveis entre participantes e crianças. acusados de abuso sexual contra pessoas de até 13 anos. Palavras-chave: abusadores sexuais. visão sobre as crianças. pois eles demonstraram capacidade empática limitada em relação às crianças. em sessão única. depreciando suas vítimas infantis. etc. recrutados no Ambulatório do Departamento de Genética da UFRGS. Realizou-se um estudo exploratório descritivo com 5 homens. essas respostas foram estereotipadas. Reflexões sobre a utilização de autorelatos na pesquisa com abusadores sexuais são discutidas. 8 . Entretanto. de 37 a 73 anos. Os instrumentos utilizados foram: uma Ficha Bio-sócio-demográfica e uma Entrevista Semi-Estruturada contendo questões sobre visão acerca das crianças. relações entre participantes e crianças.Resumo O objetivo deste estudo foi investigar as relações de abusadores sexuais com crianças ao longo de suas vidas. e uma visão nãodistorcida e positiva sobre crianças. As entrevistas foram realizadas individualmente.

A descriptive exploratory study has been carried out with 5 subjects. A bio-social-demographic protocol and a semi-structuralized interview containing questions related to view about children. child sexual abuse. aged from 37 to 73 years old. The results indicated healthy relationships between the participants and children. depreciating their child victims. and a non-distorted and positive view about children. those answers were stereotyped. perceptions about children. Keywords: Sexual abusers.Abstract The aim of this research was to analyze child sexual abusers’ view about children. who were recruited at an ambulatory of genetics studies at the university. However. Researches indicate that abusers have cognitive distortions about children. through their relationship with them along their life spam. were applied to participants. as the participants demonstrated a limited emphatic capacity related to children. accused of sexual abuse against 13 year old children. relationship between participants and children. etc. Self-report measures used in sexual abusers research are discussed. 9 .

Silva. e uma das razões para isto é a dificuldade que os pesquisadores têm em acessar e manter vinculados os abusadores durante o processo de coleta de dados. 2002). Becker. A visão que o abusador possui sobre as crianças está diretamente relacionada à que ele possui sobre ele mesmo (Horley. 1998. em suas interações apresente. presença de vitimização dos próprios abusadores na infância e distorções cognitivas figuram em alguns estudos publicados. Temas como empatia. Este é um aspecto fundamental a ser investigado. O dano psicológico que provoca pode perdurar ao longo da vida das vítimas (La Fond. 2000). devido à freqüência com que tem sido identificado. 10 . Entretanto. 2005). No entanto. há uma importante lacuna em pesquisas sobre as vítimas. de modo a obter sua visão sobre as crianças. No entanto. sobretudo no âmbito nacional brasileiro. Estima-se que a prevalência de abuso sexual na população brasileira seja de 30% (Picazio. porque ao longo da vida o ser humano relaciona-se com outras pessoas e nestas relações vai construindo uma visão de si mesmo. & Cunningham-Rathner. 2000). além da focalização deste estudo sobre este aspecto individual dos abusadores. 2000. O abuso sexual infantil tem sido considerado um fenômeno que preocupa a saúde pública. A maioria dos estudos tem se concentrado nas vítimas. & Ward 2005).CAPÍTULO I INTRODUÇÃO O presente estudo teve como objetivo investigar as relações de abusadores sexuais com crianças ao longo de suas vidas. Polaschek. Gannon. quando relaciona-se com dados sobre abusadores. O próprio desenvolvimento ao longo do ciclo vital faz com que a pessoa. in Horley. Investigar a visão de abusadores sobre as crianças poderá auxiliar na identificação de aspectos prévios ao abuso. deve também ser reconhecida a possível influência dos aspectos contextuais para ocorrência do abuso. que indicariam possíveis problemas futuros. mantenha e revise sua visão pessoal. já que crianças protagonizam os atos de abuso nos quais os perpetradores são importantes coadjuvantes (Abel. como vai agir com outras pessoas está sempre relacionado a como se percebe (Horley. que é ainda maior.

11 1. este fato revela que a vida diária das crianças estava misturada às das pessoas mais velhas. Este tipo de figura mantém-se presente até o século XV e. a criança começa a obter destaque no mundo das artes. As crianças participavam de todas as atividades. diferenciando-se deles apenas pelo tamanho e força física. geralmente em grupos de pessoas. como afirma Finkelhor (in Phelan. não havendo também divisão entre as funções destinadas a adultos e crianças. descreve como as formas de conceber as crianças em uma determinada época ocasionaram também modos diferentes de lidar com elas. Até o século XIII. mas uma infância pertencente apenas aos santos católicos. entre os séculos XIV e XV. Ainda não havia separação cronológica entre os períodos da vida.1 Modos de Perceber a Infância: Analisando as Crenças sobre as Crianças no Contexto Social e a partir da Fala de Adultos Ariès (1975/1981). A partir de meados do século XIII. Nos séculos XV e XVI. É mais provável que não houvesse lugar para a infância nesse mundo” (Ariès. “a arte medieval desconhecia ou não tentava representar a infância. Tal análise sobre a visão social da criança ao longo da história. que eram na maioria adultos. Ariès (1975/1981) conclui que a infância retratada nas obras de artes desta época ainda não representava uma infância comum. a visão que os ocidentais possuíam sobre as crianças e como esta modificou-se através da história. 1995) traz à tona importantes variáveis sociais envolvidas no cuidado e no abuso. Este autor foi um dos primeiros a investigar as concepções de infância no mundo ocidental. pois eram retratadas como adultos em miniatura. corpos e vestimentas típicas da fase adulta apenas em tamanho menor. p. através de obras de artes contendo figuras de crianças. em seu livro “História Social da Criança e da Família”. Para Ariès (1975/1981). A partir disto. Surgiram figuras de anjos que representavam crianças que eram educadas para ajudar na missa. inclusive das de trabalho. sendo retratada com características típicas da fase infantil. 1975/1981.50). Antes do século XIII. representando a infância santa e sagrada. crianças começam a ser retratadas em cenas cotidianas. com rostos. então. crianças não eram concebidas como seres em desenvolvimento. É difícil crer que esta ausência se devesse à incompetência ou à falta de habilidade. descreveu. Ariès salienta que as crianças da época eram vistas como possuidoras das mesmas capacidades dos adultos. Ariès relata ainda que os pintores davam a estes quadros de crianças um . o Menino Jesus e a Virgem Maria Menina aparecem na arte.

Estas passam a ser percebidas. foi a cristianização dos costumes. Um dos alvos deste movimento foi o modo de tratamento das crianças. por Ariès como um “sentimento” precoce. Várias influências são apontadas como causa para o “nascimento” deste segundo “sentimento”. pois era um fato costumeiro. dar atenção às crianças. pois o fato de morrer muito cedo. as crianças passam a ser retratadas sozinhas nas obras de artes e é apenas no século seguinte que surge. A introdução das idéias malthusianas de controle da natalidade na sociedade européia começava a modificar a idéia de “desperdício necessário”. que servem para o divertimento dos adultos. Tal “sentimento” diz respeito à consciência sobre uma natureza particular da infância e é definido pela noção de que as crianças eram indivíduos pitorescos. pode ser considerada uma atitude precoce. poderia ser conservada e sobreviver. A partir do século XVII. a criança passou a ser vista como um ser inocente. que Ariès denomina como “paparicação” (p. A “paparicação” foi identificada. Por conseguinte. Tal “desperdício” era a idéia de que muitas crianças deveriam ser geradas. 69) e. por conseguinte. A morte precoce de crianças. que consistia em propagar o catolicismo entre as pessoas leigas não ligadas diretamente ao clero. pois apenas algumas poucas sobreviveriam devido à alta mortalidade infantil da época. pois nesta época havia ainda o que ele chamou de “desperdício necessário”. a partir deste momento. Esta característica era conferida pela representação de crianças como seres “engraçadinhos” e graciosos. como seres que tinham “movimento de alma” (p. por ocasião da cristianização dos costumes. Os preceitos moralistas dos organizadores dos primeiros bancos escolares . a maior parte destas crianças precisa de cuidados especiais o que fez com que os adultos prestassem mais atenção às necessidades delas.12 certo “ar pitoresco”. Outro aspecto que influenciou o pensamento da época sobre as crianças. Desta forma. a criança. então. Esta concepção denunciava a pouca importância dada à criança. o que Àries (1975/1981) chama de segundo “sentimento de infância”. Algumas idéias moralistas e o surgimento das escolas para crianças também foram fortes influências para o surgimento de um segundo “sentimento de infância”. mesmo que fosse para fins de diversão dos adultos. Além disso. Por conseguinte. a partir do século XVIII. pois era livre dos pecados do sexo. mereceriam apreço e consideração dos adultos e da sociedade. não provocava importância e atenção devidas. 67). O gosto por tais cenas coincide com o surgimento do primeiro “sentimento” de infância. não era sentida como algo desolador.

Alguns autores criticam o presentismo de Ariès (Archad. A idéia de que a criança é uma tábua rasa é oriunda dessa época. O valor dado a educação nos dias atuais ainda está associado a questão do desenvolvimento sadio da criança. a criança seria o centro das atenções dos educadores e das famílias. 1993. potencialidade e pouca responsabilidade. Contudo. afirma que não havia a idéia de uma ligação entre a mentalidade do adulto e da criança. . Contudo. não sendo tão essencial ajudá-la a se desenvolver nestas novas funções. o importante era iniciá-la em certas atividades. A análise de obras de arte revela que tais modos de perceber refletem-se diretamente em formas de tratamento que são dedicadas à criança. conclui que há ausência deste “sentimento” ou da consciência da natureza particular da infância. Tais críticos alegam que analisar os “sentimentos de infância”. 1983. contudo. de como a visão de infância foi se modificando através dos tempos. que merece ser tratada de uma maneira específica. não havia a idéia de que os acontecimentos ocorridos em uma determinada fase eram importantes para as posteriores. Este é o germe tanto das idéias atuais sobre a infância quanto da necessidade de oferecer cuidados e educação à criança para que se torne um adulto sadio (Ariès. Os opositores de Ariès afirmam ainda que ele apenas constata esta ausência. as crianças eram vistas a partir de características de vulnerabilidade. antes do século XVIII. indicar como as crianças eram percebidas antes do século XVIII. Segundo Santos (1996). Pollock. A partir destes preceitos. Esta. Ou seja. alcança mais e mais importância social e cultural através dos tempos e passa a ser reconhecida como um ser em desenvolvimento. tais como nos dias atuais. 1996). A ênfase nesta revisão busca demonstrar a importância que o estudo de Ariès (1975/1981) dá aos modos de perceber as crianças ao longo da história ocidental e. tal abordagem da infância ao longo da história apresenta alguns aspectos que vem sendo contestados.13 tinham como alvo aqueles indivíduos que por estarem no início de suas vidas seriam mais propensos a serem educados. então. o que por sua vez. a partir de uma perspectiva do presente impossibilita a percepção de particularidades destes “sentimentos” nas épocas passadas. sendo “a passagem entre os estágios de desenvolvimento concebida como um problema de iniciação e não de formação” (p. conseqüentemente. sem. Santos. asseguraria uma adultez também saudável. que definem como uma forma de conceber os fenômenos a partir de uma perspectiva do presente. para os pais ou pessoas que estavam em contato com a criança. 1975/1981). Segundo os críticos. 82). Desta forma. quando Ariès não encontra atitudes que mostrem o moderno “sentimento” de infância.

já é percebida entre várias comunidades animais. 2003). era diferente daquele que se inaugurou na modernidade e que se faz presente nos dias de hoje. ainda mais contundente. Há que se comentar ainda que os tratamentos diferenciados com os filhotes (no caso dos humanos. Phelan (1995). não haveria. 1999).). Além das idéias de cuidados e educação voltadas às crianças apontadas por Ariès (1975/1981). com as crianças). como um indivíduo especial e como alguém que não é capaz de reivindicar os seus próprios direitos pela sua própria voz. se dedicam ao cuidado integral de seus filhotes. pois estes dependem delas (Duhram. Ao conceber a criança desta maneira. As crianças têm este direito assegurado pela Convenção sobre os Direitos da Criança promovida pela Organização das Nações Unidas (United Nations Organization. De qualquer forma. salientou que há na sociedade ocidental a concepção de que a criança deve ser sempre obediente aos adultos. Santos (1996) destaca que a sociedade medieval já conhecia um sentimento de infância. entre os chimpanzés são percebidos pela sucessão da época de acasalamento e de cuidado com a prole que raramente se misturam. . e não como uma etapa de preparação para a fase adulta. contudo. Os críticos de Ariès alegam que ele exagerou ao afirmar que o sentimento de infância não existia antes do século XVIII. há ainda outras características.14 As fases da vida eram vistas como uma repetição de experiências. já que elas dificilmente irão se opor com veemência às decisões tomadas pelos adultos. ao mesmo tempo. os estudos de Ariès foram importantes na medida em que impulsionaram várias outras pesquisas sobre a visão social de crianças ao longo da história ocidental. Enfim.1989). no âmbito social. pode-se perceber que a visão atual que se tem acerca da criança se faz a partir de várias “marcas” que a colocam. Analisar o cuidado com a prole em outras espécies é importante. Este tipo de atitude perante as crianças pode ser um facilitador para as situações de abuso. Estes tratamentos. UNO. por exemplo. inclusive entre os chimpanzés. apesar de ser uma característica recente na história humana. associadas à fase infantil. na sociedade ocidental. que. pois esse aspecto atesta a ligação humana com os outros animais na cadeia evolutiva. mesmo que estas sejam abusivas. financeiramente e etc. Como conseqüência desta crítica há outra. meios de a criança reivindicar os mais variados direitos (Kramer. atestando que as mães. quando seus filhos nascem. As crianças também são comumente vistas como seres dependentes dos adultos em todos os sentidos (biologicamente.

Em 1927. a partir da lei. naquela época. 1999). a palavra menor como sinônimo de criança. já que era entendido. havia disparidade entre os critérios de idade para definir responsabilidades civis e penais. surge o Código de Menores baseado na Doutrina do Direito do Menor. o termo “criança” associase freqüentemente ao termo “menor”. segundo Londoño. Este código tanto definia quem eram os “menores”. jovem ou adolescente era utilizada para definir os limites etários relativos à emancipação paterna ou às responsabilidades civis e criminais. Um levantamento no acervo bibliográfico da Faculdade de Direito na Universidade de São Paulo realizado por Londoño (1999) revelou que desde o fim do século XIX. que estes indivíduos possuíam discernimento sobre o ato criminoso.15 No Brasil. além de indicar uma condição jurídica e civil e os direitos que lhe correspondiam. era bastante indefinida. em geral as abandonadas ou infratoras. sendo que quaisquer determinações legais estavam em outros conjuntos de leis. passou a ser dever da lei. A definição do que é ser criança. alguns estudos foram desenvolvidos avaliando concepções por trás das leis direcionadas para crianças (ver Londoño. Antes do fim do século XIX. eram também vistos como perigos para a sociedade. Tal noção de . Alguns artigos poderiam definir que menores de 17 anos fossem mandados às prisões. bem como ditava os modos de tratamento jurídico a algumas crianças e os direitos delas. Nestes códigos. Até fins da década de vinte do século passado. No entanto. Uma revisão destes aspectos também auxilia no entendimento da percepção que a sociedade tem das crianças e de como uma criança em desenvolvimento constrói a visão de si mesmo e das demais crianças ao longo de seu ciclo vital. que além da sua situação de risco. apesar de já serem tidos como conscientes sobre seus atos criminais nesta idade. não havia legislação voltada mais especificamente para crianças e adolescentes no Brasil. tal termo aparece associado à criança em situação de abandono e marginalidade. Tais fatos revelam duas visões muito distintas sobre as crianças no Brasil: as “filhas de família” com seus direitos garantidos e os “menores”. apenas aos 21 anos sairiam da tutela do pátrio poder. Entretanto. As diferenças atribuídas às questões de idade demarcavam que em determinados momentos as crianças podiam ser concebidas como adultas. as crianças que possuíam uma família continuavam a ter seus direitos regidos pelo código civil da época. Antes desse período “menor” não era comum na literatura jurídica e que a partir da década de 20. O surgimento desse termo representou o “nascimento” de uma nova categoria para a área jurídica (a figura do menor) e também de uma nova atitude perante algumas crianças. do século passado.

condição socioeconômica. Phelan. a visão sobre as crianças e os adolescentes no Brasil começou a ser modificada (pelo menos na forma da lei).16 periculosidade associada à figura da criança baseava-se no entendimento que sem a tutela dos pais sua natureza seria descontrolada. 1990) baseado na Doutrina da Proteção Integral. como salienta Londoño (1999). todas as crianças são vistas como dever do Estado. foi promulgado o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA. as crenças e as ideologias compartilhadas pelos seus membros. que tem direção oposta às duas anteriores (Doutrina do Direito do Menor e Doutrina da Situação Irregular). Em 1979. 1999. Mesmo com o advento promissor do ECA (Brasil. A imagem da criança associada a noções negativas de abandono e marginalidade pode ser um facilitador de abuso de todos os gêneros. A visão brasileira da criança partilha da visão ocidental. Além disso. que devem zelar pelo bem estar destes indivíduos. o ECA protege todos os direitos de todas as crianças sem distinção de raça. ao mesmo tempo. já que elas não teriam um cuidador responsável que lutasse por seus direitos. A contextualização dos modos de ver a criança em nível macrossocial suscita um entendimento sobre o que é ser criança . pois não preconiza a repressão ou o tratamento diferenciado entre as crianças. com base na Convenção sobre os Direitos da Criança (UNO. da família e da sociedade. é inocente. 1990). o que acarretaria comportamentos inadequados. analisada na obra de Ariès (1975/1981) e outros autores (Kramer. distinguindo os abandonados daqueles que eram “criminosos” (Silva. agora. Além disso. a criança também é vista como um indivíduo que possui direitos a serem zelados. Para o ECA. 2004). sendo também um sujeito de direitos e deveres. o preconceito e a violência contra as crianças ainda existe. Mesmo com esta distinção. surge o segundo Código de Menores. Brasil. A contextualização dos modos de ver a criança em indivíduo que possui direitos a serem zelados. Apenas na década de 80 do século XX. então. 1989). estas crianças e adolescentes estavam sob a mesma insígnia da situação irregular. A criança é compreendida como um ser em desenvolvimento. Em 1990. balizado pela Doutrina da Situação Irregular. a tutela destas crianças e esta ameaça potencial exigia repressão. 1995) nas quais a criança é um ser que deve ser educado e controlado e. O Estado tinha. A visão sobre as crianças na sociedade brasileira tem uma história que certamente afeta o macrossistema social. etc. gênero.

Algumas pesquisas que investigaram o modo como as pessoas definem o que é ser criança podem expandir a compreensão sobre a visão social da infância na sociedade. que influencia a visão pessoal. e as demais fases como incompletas em relação a esta. neste caso a criança. O trabalho doméstico no caso das meninas e o trabalho remunerado no caso dos meninos seria algo permitido e estimulado. viam as crianças como incapazes de cuidar de si mesmas e menos capazes cognitivamente. como uma forma de recompensar seus cuidadores. O trabalho. Uma pesquisa realizada por Heilborn (1997) revelou que pais moradores de bairros periféricos do Rio de Janeiro concebiam seus filhos como indivíduos que precisam ajudar nos afazeres domésticos ou com trabalhos remunerados. Em estudo com professores. sobre as representações sociais das fases do desenvolvimento humano revelou uma concepção de infância definida como fase de brincadeiras e dependência (Almeida & Cunha. A disciplina tinha como objetivo esclarecer que tais concepções seriam uma construção determinada pelas mudanças sociais e . A compensação seria uma troca tanto pelos bens materiais quanto pelos cuidados físico-emocionais fornecidos pelos pais. Por conseguinte. 2003). 2000). O estudo foi realizado em dois momentos: antes e depois de uma disciplina sobre as concepções da criança na atualidade. pois influencia tanto a entrada e a manutenção de crianças no mercado informal de trabalho quanto o tipo de parentagem que elas estão recebendo. Tal visão de que crianças precisam trabalhar para compensar os cuidados que lhe são dados é um fator importante. Os valores que embasam essa visão de mundo estão na base das escolhas que realizam em suas vidas (Heilborn. A adultez apareceu como ponto ótimo do desenvolvimento para estes professores. Em um outro estudo. Gaiva e Paiao (1999) investigaram qual a visão que estudantes do curso de graduação de Enfermagem possuíam sobre as crianças.17 e o modo de lidar com ela. mesmo levando em conta estudos que tem como fonte de dados leis e obras de arte. enquanto atividade remunerada e aprendizado de um ofício reveste-se de uma identidade social legítima para as crianças. especialmente quando é abordada a violação de direitos da criança. A criança vista como um ser lúdico e pueril e o adulto como um ser completo pode gerar uma relação de poder e atitudes de um ser superior dirigidas a quem não tem capacidade de se responsabilizar por si mesmo. a partir da “dependência”. A dependência foi explicada como um “elemento estruturante” para a representação que estes adultos possuíam sobre as crianças.

até nas primitivas. conforme pontuam Rosaldo e Lamphere (1979). As diferenças entre meninos e meninas também são importantes para uma compreensão mais abrangente sobre a visão que as pessoas possuem sobre as crianças. após o término da disciplina.18 históricas. esportistas e as meninas foram vistas como mais educadas. exercendo funções mais passivas e domésticas. Em uma pesquisa com pais de escolares. 2000). funções adultas diferenciadas por gênero têm sua origem na infância e em como esta é percebida. existem diferenças nas funções delegadas a homens e mulheres. Os autores relatam que. Elas dedicariam boa parte do seu tempo a essa função. elementos estes que as distanciavam do mundo do trabalho. no momento anterior a esta disciplina. agitados. A criança seria também um ser frágil que necessitaria da proteção e do cuidado dos adultos. Os resultados dessa pesquisa sugerem que a concepção da criança na sociedade atual ainda é marcada por elementos da concepção da modernidade (imaturidade. foram se consolidando características determinadas a cada um deles. e o conseqüente despreparo da criança para a vida. Essas características foram se . então. enquanto as masculinas por serem mais dinâmicas foram conservadas. As meninas foram tidas. que merecem um espaço no qual possam ser ouvidos. calmas e quietas (Souza. competitivos e independentes (Biaggio. Seriam também seres “engraçados” e “bonitinhos”.) e por noções mais novas que compreendem a criança como sujeitos de direitos. pacientes enquanto os meninos foram vistos como agressivos. como dóceis. fortes. 1981). A partir das funções executadas pelos dois sexos. as respostas das enfermeiras realçaram a imaturidade. 1998). afetuosas. mostrando também que na época as crianças são vistas como sujeitos de direitos. duros. as características anteriores continuaram a ser relatadas. As funções femininas de cuidado com os filhos e com a casa foram tornando-se secundárias. detectou-se que os meninos foram vistos como mais agressivos. Tais diferenças podem se basear em vários fatores. as participantes destacaram que as crianças são sujeitos de direito. Há. que comentam que em qualquer cultura. Entretanto. passivas. inclusive no fato de as mulheres serem as responsáveis pelo nascimento e cuidado dos filhos. etc. nessa segunda etapa. No segundo momento. ainda. a idéia de que a mulher por possuir todas essas características seria um ser frágil que necessitaria dos cuidados masculinos (Strey. Certamente. A imagem da criança também foi associada à diversão e às brincadeiras. Esta idéia aparece no estudo de Bonamigo e Koller (1995). A visão dos pais sobre as características de meninos e meninos foi estereotipada e esse tipo de visão é comum na sociedade.

valores que são concebidos como adequados para cada sexo. então. A adolescência surgiu. nesse caso. necessitando ser modificado. ditam o que é ou não permitido em seu comportamento. Salles comenta que a idéia da fase adulta como meta é inerente a idéia de desenvolvimento humano. muitas vezes. a castidade feminina ainda é valorizada. tendo como reflexo a diminuição na taxa de adolescentes virgens (Heilborn & Bozon. O homem possuiria uma natureza sexual irrefreável o que faria com que ele tivesse dificuldade em controlar tais impulsos. 2001). em uma determinada cultura. Contudo. 2005). comportamentos. como esta fase de preparo para a vida adulta. A partir dessa separação. os comportamentos sexuais masculinos são mais permitidos. os estereótipos sexuais são um grupo de características fixas e pré-concebidas sobre como gêneros diferentes devem se comportar e que.19 constituindo como os papéis sexuais que seriam o conjunto de normas referentes às atitudes. Embora. servindo como mediadores de um acordo implícito em um grupo social. 1978). dos papéis sexuais. essa premissa se aplica mais aos homens (Giffin. 1994). 2005). atuando como padrão fixo do que significa ser homem ou mulher. Vinculados aos papéis sexuais estão os estereótipos sexuais. Outras questões são relevantes para um melhor entendimento da visão sobre as crianças. pois permitem a conservação. É comum que esses estereótipos se associem também a questão da sexualidade: a virgindade seria valorizada para as mulheres e os comportamentos sexuais seriam mais permitidos para os homens (Giffin. pois a infância a adolescência seriam etapas a serem ultrapassadas para que o desenvolvimento pleno (adultez) se estabeleça. A nova concepção da infância e subdivisão das idades do ciclo vital. 1997). a valorização da virgindade feminina esteja declinando (Taquette. Os estereótipos sexuais podem ser considerados como aplicáveis a todas as idades. Essas diferenças na concepção sobre a sexualidade de homens e mulheres se baseiam nas formas patriarcais da organização da sociedade (Narvaz. Esses estereótipos são essenciais para a sociedade. antes inexistente na sociedade ocidental foram fatores importantes na “invenção” do mais novo período da vida: a adolescência (Salles. O que não é permitido nesse grupo de características pode ser visto como anormal. Além disso. apesar de serem tão importantes. pos embora haja a noção de que o sexo é algo natural para a espécie humana. em um determinado momento (Graciano. a definição da infância e da adolescência só seria possível pela contraposição às . 1994). As crianças sendo concebidas como seres completamente distintos e dependentes dos adultos necessitariam de uma fase de preparação para a chegada a adultez. Em contraposição. inclusive às crianças.

A infância não se caracterizaria apenas pela oposição a adultez. portanto. O acesso a informação pelas crianças adolescentes que faz com que este público entre em contato com conteúdos de violência. 2005). tais concepções estão distribuídas pelo senso comum. além de desordenar as idades da vida. o processo de ingresso na adultez agora é feito com outros parâmetros distintos daqueles originados na modernidade. Hall (in Newcombe. Assim. A partir dessas e de outras mudanças.38). mas também à adolescência. e a maior autonomia dada as crianças e adolescentes. Ou seja. entre outros. agora não se pode mais afirmar que certos comportamentos são permitidos apenas na infância. que as pessoas definam . o público infanto-juvenil entra em contato com conteúdos que não são mais de posse exclusiva dos adultos. p. apenas na adolescência ou apenas na adultez. pois ela não se baseia mais na hierarquia entre as idades. pela perda dos referenciais paternos. Se antes o acesso a informações e os comportamentos eram controlados pelos adultos de acordo com a faixa etária de crianças e jovens. não seriam mais uma dimensão básica para delimitar os ciclos vitais. na atualidade é dado a adolescentes e criança o direito de questionar se o comportamento ditado pelo adulto é o mais adequado. pois há uma “uma desconexão nas diferentes dimensões que definem a entrada na vida adulta” (Salles. Assim. ausência de problemas. a idéia de que a adolescência seria um momento de crise e de conflitos. 2005. Este modelo fundamenta-se na idéia de desigualdade entre adultos. crianças e adolescentes. Essa fase seria atravessada pela descoberta da sexualidade. Os critérios usados para a entrada na adultez a partir da era moderna se baseavam no modelo clássico de socialização. Além disso. Uma importante discussão feita por Salles diz respeito às mudanças que têm ocasionado uma certa dificuldade em demarcar os limites entre os ciclos da vida. Tais idéias de crise e estresse da adolescência a muito ultrapassaram os saberes da psicologia. sendo corriqueiro. no qual o adulto possuía autoridade e sabedoria superiores as do público infanto-juvenil. ao contrário da infância tida como um momento destinado às brincadeiras. na ciência psicológica. apesar de ainda válidos. o que determina uma posição adultocêntrica em relação às outras fases do desenvolvimento. felicidade. Essas modificações na sociedade. a organização das idades da vida torna-se mais complexa. questionam esse modelo de socialização. por exemplo. Atualmente. questionam também o adultocentrismo (Salles. a adolescência seria um período turbulento. 1999) inaugurou. etc. os critérios cronológicos. sexo e conflitos íntimos. Assim.20 características do mundo adulto.

Os modos de ver as crianças podem ser partilhados entre pessoas de uma dada sociedade. 2005). Após rever os estudos descritos até aqui. outras podem ser fragilizadoras. esta dificuldade em ter estatísticas sobre os casos de abuso ocorre também em outros países. então. etc.). estima que até 20% das mulheres. e entre cinco a 10% dos homens norteamericanos já tenham sofrido alguma espécie de abuso sexual. Como afirma Salles (2005): “Há uma correspondência entre a concepção de infância presente em uma sociedade. Conceitos e Definições Até 1997. por exemplo. o abuso sexual). 33). Warkentin. não havia estatística sistematizada sobre o abuso sexual contra crianças e adolescente no Brasil (Safiotti. pode-se notar que a visão de criança na sociedade atual. Há. ainda guarda elementos da modernidade (inocência. e dependem de contextos sociais e culturais. Gomby. 1997).2 Abuso Sexual contra Crianças: Números. Terman. as estratégias dos pais para cuidar de seus filhos e a organização do ambiente familiar e escolar” (p. No Brasil. por exemplo. A visão sobre as crianças que é gerada tem forte influência sobre os hábitos. & Weiland. por não respeitarem os limites e as potencialidades que crianças e adolescentes apresentam. Gidcyz. Entretanto. a parir da rebeldia e da revolta que naturais dessa época da vida (César. Finkelhor. Finkelhor (1994) examinou 19 artigos sobre abuso nos quais os números sobre a prevalência variavam de 3 a 62% entre as vítimas do sexo feminino e de 3 a 16% para as do sexo masculino. Muitas dessas crenças podem ser adequadas. é . Loh. atitudes e crenças das pessoas no cotidiano e sobre a percepção de si mesmas. apenas estimativas para a prevalência dos casos de abuso. mas também começa a ter outros contornos que impulsionam uma maior autonomia delas. a falta de dados uniformes é obstáculo tanto para a realização de pesquisas que se aproximem da realidade quanto para formulação de políticas nacionais voltadas à resolução deste problema. O alcance dos casos de violência tanto física como sexual é difícil de ser estimado. imaturidade.21 os adolescentes. 1998). Nos Estados Unidos. uma vez que revelam cuidados e proteção. as trajetórias de desenvolvimento infantil. Quinn e Behrman (1994) relatam que os órgãos oficiais oferecem informações incompletas tanto sobre a incidência (número de casos relatados a cada ano) quanto sobre a prevalência (número de pessoas na população como um todo que já sofreu um determinado agravo de saúde. No entanto. 1. Por conseguinte. Larson. devido à subnotificação e à carência de amostras que representem a população de vítimas (Rich. neste caso.

Pontalti. Alguns números sobre as situações de abuso em geral são importantes para contextualização do estudo. escola. com idades entre cinco e dez anos (36. & Machado. São também aqueles atos que violam leis ou tabus sociais em uma determinada sociedade. já que não está preparada em termos de seu desenvolvimento. uma análise realizada em 71 processos jurídicos do Ministério Público do Rio Grande do Sul. Silva. o uso de crianças em atividades e materiais pornográficos. Os pais foram os agressores em 79% dos casos (40). tais como. Em Porto Alegre. . 2002). O abuso sexual infantil é evidenciado pela atividade entre uma criança com um adulto ou entre uma criança com outra criança ou adolescente que pela idade ou nível de desenvolvimento está em uma relação de responsabilidade. em 61.2%). 2001).6% dos casos. Estes dados chamam a atenção sobre a mobilização da sociedade contra a posse e o uso da criança por aqueles que devem ser unicamente os responsáveis por ela. em 15. É qualquer ato que pretende gratificar ou satisfazer as necessidades sexuais de outra pessoa. 2004). Azevedo. Na atualidade. assim como quaisquer outras práticas sexuais ilegais.5% dos casos. Não entendendo a situação. Pode incluir também práticas com caráter de exploração. seguidos pelos padrastos (16) das vítimas. incluindo indução ou coerção de uma criança para engajar-se em qualquer atividade sexual ilegal. uma atitude contra estas idéias pode influenciar positivamente no desenvolvimento de uma criança (Koller & De Antoni. na maioria em crianças de seis a nove anos de idade). por violência sexual (Habigzang. por conseguinte. torna-se incapaz de informar seu consentimento. Um levantamento realizado no Ambulatório de Maus Tratos de Caxias do Sul/RS. pela própria vítima em 29% dos casos.1%. Para a compreensão do que é considerado abuso sexual será fornecida a definição usada pela Organização Mundial da Saúde (World Health Organization WHO. e. a criança. 2005) apontou a maioria das vítimas do sexo feminino (80. como uso de crianças em prostituição. por outros parentes.22 estimado que o abuso sexual contra crianças e adolescentes atinja mais de 30% da população (Picazio.9%).7% dos casos. sendo o pai responsável pela maioria dos abusos (De Lorenzi. por instituições. sobre abusos sexuais. Entretanto. alguém informou que já sabia da situação abusiva e não denunciou. A violência sexual foi denunciada pela mãe da vítima em 37. 1999): Abuso sexual infantil é todo envolvimento de uma criança em uma atividade sexual na qual não compreende completamente. hospital e departamento de polícia em 6. entre 1998 e 1999. Koller. revelou o predomínio de casos em vítimas do sexo feminino (77%. confiança ou poder com a criança abusada. no período entre 1992 e 1998. 1998. & Flech.

animais ou objetos. embora estas palavras sejam comumente usadas como sinônimos. assédio. A definição de abuso sexual contra criança pode ser diferenciada de incesto ou pedofilia. Além disso. intensidade e duração dos episódios podem ter efeitos psicológicos variados de uma criança para outra. pontuando que questões relacionadas à freqüência. já que não define que atos específicos (exibicionismo. nem todos atos incestuosos podem ser considerados atos sexuais abusivos. Koller e De Antoni (2004) chamam a atenção para os efeitos do abuso sobre o desenvolvimento. mas que certamente todos influenciam na construção da identidade exposta ao risco. exposição à pornografia. como abuso sexual. em qualquer de suas nuances. A pedofilia é caracterizada como uma patologia sexual inserida no grupo das parafilias. Nem todo ato de abuso sexual contra criança pode ser considerado incestuoso e nem todo indivíduo que comete tal ato pode ser diagnosticado como pedófilo. e toda e qualquer atividade sexual entre um adulto e uma criança. Por conseguinte. mesmo que não haja intercurso sexual. não esclarece se todos estes atos. severidade. toques ou intercurso sexual) podem ser considerados como abuso. 1993). para fins deste estudo serão considerados como abuso atos de exibicionismo. Portanto. O abuso sexual é considerado grave. O indivíduo portador deste tipo de distúrbio experimenta fantasias intensas e excitantes e impulsos sexuais cíclicos envolvendo crianças. Neste estudo optou-se por esta definição. por exemplo) sem necessariamente envolver um adulto e uma criança ou um adolescente que mantenha uma relação de confiança. toques. Qualquer ato sexual entre um adulto e uma criança reconhecido como abuso. tal como a exibição sexual na presença de crianças. Esta amplitude permite que se considere. mas também abuso físico e emocional. mesmo aqueles atos tidos como menos graves. que são patologias psiquiátricas caracterizadas por fantasias sexuais recorrentes e intensas com pessoas “não-autorizadas”.23 A definição fornecida pela WHO é ampla. porque como afirmam Amazarray e Koller (1998). pois ela não limita que atos específicos possam ser abuso. o incesto pode ocorrer entre parentes da mesma idade (entre irmãos. A definição. Por conseguinte. ou apenas alguns deles podem ser tidos como abuso sexual. cuidado ou responsabilidade. não há nele só a violência sexual. é levar em conta que mesmo os menos graves podem acarretar uma carga de sofrimento para a criança. intercurso sexual. o portador . O incesto pode ser caracterizado como a união entre parentes com qualquer laço de parentesco podendo tal laço ser de consangüinidade ou adoção (Cohen. havendo graves danos psicológicos para a vítima.

com. chegar a cometer o ato de abuso propriamente dito. gerando ansiedade de castração. 2003). com a interiorização de normas e valores (Gabel. desconsiderando os fatores sociais e culturais. O papel dos abusadores tem sido explicado por diversas teorias. pois há percepção de que existe um terceiro (pai). por exemplo. Para teoria psicanalítica.au). bem como outros eventos traumáticos podem explicar o comportamento abusivo. A falha neste conflito ocorre quando os pais da criança não estão suficientemente amadurecidos. As características atribuídas aos pedófilos dizem respeito tanto às tendências psicológicas quanto aos comportamentos sexuais propriamente ditos entre adultos e crianças. critério esse estabelecido pelo Manual diagnóstico e Estatístico de Trantronos Mentais (American Psychiatric Association. que compete com ela pela atenção materna. Para ser classificado como pedófilo. e satisfazem desejos dela. principalmente nos aspectos psicopatológicos vinculados ao perpetrador do abuso. entretanto. sem. algumas situações vivenciadas ainda na infância. demonstra que estas abordagens podem fornecer um panorama das formas como o conhecimento nesta área tem sido produzido. que se ocupam. os abusadores seriam. erotizando essa relação (Almeida. acarretaria sentimentos de inadequação sexual e necessidade de ser sexualmente dominante. O conflito de Édipo se caracteriza pela saída de uma fase na qual o objeto da criança deixa de ser apenas a mãe. indivíduos portadores desse transtorno podem apresentar apenas os desejos e fantasias com crianças.au). 1994). embora de forma superficial. o indivíduo precisa ter pelo menos 16 anos e ter uma diferença de idade em relação à vítima de pelo menos cinco anos. Uma limitação desta teoria é a sua focalização apenas nas dificuldades do desenvolvimento individual. Uma breve compilação de diferentes teorias apresentadas neste site.24 de pedofilia pode chegar a manter atividades de caráter sexual com crianças prépúberes (de zero aos nove anos). Esse conflito ocorreria entre os três e os cinco anos e seria vital para a estruturação da vida psíquica do indivíduo. pois é nele que se originam o superego. em definir as motivações para tais atos (ver www. O comportamento sexualmente desviante poderia resultar desta relação erotizada entre pais e filhos. em geral. Assim. sem se tornarem abusadores. Pessoas podem ter fantasias sexuais envolvendo crianças ou se sentirem excitados por elas. perturbados e perversos em conseqüência desse desenvolvimento psicossexual pobre (www.com. A partir da teoria da precipitação da vítima. o que por sua vez. Desta forma.secasa.secasa. com origem no . 1997). principalmente. tais como o Complexo de Édipo e a inabilidade para ultrapassar esta etapa.

pois propicia uma visão de igualdade de condições entre elas e os seus abusadores. Apesar de essa teoria não ser usada atualmente. embora o que ocorre seja uma situação clara de coação e violência. a repetição dos episódios só seria possível mediante o constimento dela (Rogers in Intebi. olhares. ou seja. As acidentais eram aquelas que eram abusadas apenas uma única vez por um adulto desconhecido. as barreiras intergeracionais foram rompidas em algumas esferas das relações familiares. 1998). 1998). A responsabilização apenas da vítima é uma forte limitação desta teoria. eram aquelas que mantinham uma “relação” duradoura com um adulto conhecido. abusadores e vítimas agem segundo uma mesma intenção ou objetivo. palavras que incentivam o agressor a cometer o ato abusivo. pois possuem um intuito masoquista nessas relações sexuais com adultos (Intebi. classificavam os abusadores como seres amáveis e inofensivos. pois pode ser usado como justificativa para os atos de violência cometidos pelo abusadores. enquanto as crianças eram vistas como perversas e manipuladores (Intebi).25 início do século XX. Já as participantes. assim. e como filhos. baseados nessa teoria. Outros estudos. Segundo esta teoria. Portanto. o foco de análise sobre a situação abusiva centra-se na dinâmica que se estabelece entre os membros do grupo familiar. pois. datados da segunda metade do século XX. no caso de abuso. as crianças recebem carinhos sexualizados. ocasionando uma inversão de papéis entre pais e filhos. A manutenção dessa “relação” pressupunha. e consequentemente de padecer de traumas sexuais” (Abrahan in Intebi. Esse tipo de teoria é perigosa. Baseada nas teorizações da área sistêmica. A família tem sido descrita pela teoria da disfunção da família. filhos e filhas podem atuar ao mesmo tempo como parceiros de seus progenitores. Alguns estudos baseados nessa teoria. 1998). Seria um “desejo anormal da criança de obter satisfação sexual. tais comportamentos produzidos pelas vítimas seriam interpretados como formas de consentimento para o abuso. como disfuncional. Intebi afirma que ainda em 1984 ainda havia estudos baseados nela. ao procurar cuidados emocionais dos pais. a vítima pode apresentar gestos. uma participação da vítima. . Com esta inversão. Essa ambigüidade é gerada quando. pois revela um sintoma de desestruturação pela qual todos os membros são responsáveis. separavam as vítimas de abuso em dois grupos: as acidentais e as participantes. A atividade sexual entre adultos e crianças (na maioria das vezes entre uma criança do sexo feminino e um adulto do sexo masculino) é vista como um desejo inconsciente da criança. em famílias abusivas sexualmente. As crianças teriam um desejo semelhante aos das mulheres que sofrem violência física por parte de seus parceiros.

Esta teoria possui claras limitações. Os autores da teoria sistêmica consideram também que há fatores de personalidade individuais que contribuem para etiologia dos abusos sexuais nas famílias. Devido a confusão entre carinhos emocionais e gestos sexuais. os motivos pessoais para início das situações abusivas não são os fatores mais importantes para esta teoria. O pai que não é satisfeito pela esposa vai. outros fatores importantes tais como tendências criminosas. Disfunções sexuais e comportamentos depressivos da mãe podem desencadear comportamentos abusivos nos quais os filhos tentam satisfazer suas necessidades emocionais. quando na realidade desejam expressar cuidado emocional. ainda. por exemplo. a situação de abuso (Almeida. além de responsabilizar a vítima pelo acontecimento do ato. alcoolismo e baixo controle interno. pois uma parcela significativa deles tem como objetivo investigar.26 caracterizando. O foco de análise recai sobre como estas motivações individuais atreladas a de outros membros da família interagem para criar as situações de abuso (Almeida. Há. Pode-se afirmar que a maioria dos estudos sobre abusadores concentra-se neste tipo explicação. para satisfazer-se sexualmente. O foco de teorias psicológicas desloca-se da vítima ou da família para a situação de abuso sexual propriamente dita. sentimentos de inadequação da masculinidade. Algumas tendências psicológicas do agressor são destacadas. doenças mentais. Além disso. então em busca da filha. pois se considera que o abuso acontece por uma ausência dela no que diz respeito à satisfação de necessidades emocionais de seus filhos. pois não aponta o pai como o principal responsável pelo abuso sexual. posteriormente. culpabilizando a mãe e todos os membros da família pelo início e manutenção dos atos de violência sexual contra crianças. 2003). outros estudos se dirigem para a análise das variáveis desenvolvimentais (tais como um ambiente violento na infância) que . tais como: introversão social. portanto. buscando a figura do pai. as vítimas do abuso podem apresentar. Na análise desta situação dois pontos são centrais: a identificação do perfil psicológico do agressor e o conhecimento das motivações para o abuso. tornando-os mais vulneráveis ao abuso. citados como comuns em ocorrências de abuso. um comportamento sexualizado junto aos seus filhos. 1993). a personalidade ou as patologias que estes indivíduos apresentam. necessidade de exercer graus elevados de dominação e controle nas relações familiares. 2003). Contudo. A mãe teria um papel central nestes casos. Esse fator seria importante na manutenção do abuso através das gerações de uma mesma família (Furniss. 1993). O abusador (geralmente o pai) é tido por essa teoria como alguém que está no mesmo nível de maturidade emocional da criança (Furniss.

no qual os homens (potenciais agressores) teriam direitos de explorar mulheres e crianças. 2003). o abusador necessitaria transpor as barreiras externas para chegar a abusar. pode estar idéia de que as vítimas de abuso sexual são “danificadas” de maneira irrecuperável (Almeida. Nesta abordagem não são considerados motivos psicológicos sendo citados apenas modelos sociais (ver www. Finalmente. 2003). As críticas a este modelo surgem a partir do momento em que houve um aumento nas denúncias de abuso sexual contra mulheres. A teoria de quatro pré-circunstâncias baseia-se nas idéias psicológicas e sociológicas de Finkelhor (in Krivacska 1989). Em decorrência disto.27 podem contribuir para o surgimento de problemas psicológicos associados ao cometimento de atos de abuso sexual contra crianças. sobretudo em um contexto social de desigualdades.com. 2003). Vários estudos (ver Widon & Ames. ele deveria ultrapassar a . as terapias derivadas desse pressuposto estariam preocupadas com a resolução desse trauma e dos efeitos negativos gerados no comportamento (Almeida. Para esta teoria. As teorias feministas ganharam destaque nos 80 e 90 após a constatação de que a maioria das vítimas de abuso sexual era de meninas e que a maioria dos agressores era de homens adultos (Almeida. A teoria cognitivo-comportamental pode ser criticada na medida em que associada ao trauma. Primeiro. Assim. haveria uma interação de fatores para que o abuso ocorra. 2003). a prerrogativa fundamental de que a relação desigual entre homens e mulheres seria a variável mais importante para a ocorrência dos atos de abuso passa a ser questionada (Almeida. As meninas (por serem do sexo feminino e crianças ao mesmo tempo) seriam as vítimas preferenciais para este tipo de violência (Almeida. Quando esses eventos são percebidos como incontroláveis. 2003). Segundo. entre elas o abuso sexual contra crianças.secasa. ele precisaria superar inibições internas para executar o ato. 1994) analisam a prevalência de abuso de todos os tipos em abusadores sexuais. quando há a exposição a um evento avassalador que compromete as estratégias de coping e de defesa da pessoa. o abuso sexual ocorre. Um exemplo de teoria psicológica é a cognitivo-comportamental. Esse tipo de prerrogativa pode dificultar a crença de que o tratamento pode ser realmente eficaz para a vítima. O trauma tem papel central nessa área. o perpetrador precisaria ter motivações para cometer o ato de abuso.br). eles podem ser uma fonte de trauma psíquico. O trauma ocorreria. Terceiro. realçando que estes se configurariam como traumas que influenciariam o surgimento de estratégias comportamentais disfuncionais. De acordo com esta teoria.

28 resistência da criança (quarta pré-circunstância). cometendo os abusos mesmo quando elas estão presentes. A teoria psicodinâmica propõe que o comportamento sexual agressivo seja resultado de traços de personalidade patológicos do agressor. por fortes laços emocionais entre ela e a família que a deixam segura. Entretanto. vale ressaltar que a resistência da criança não pode ser encarada como uma responsabilização dela. As inibições externas seriam as estratégias ambientais que impediriam os atos de abuso. Esse modelo pode ser entendido como um continuum no qual de um lado está a motivação para o ato de abuso e do outro os três fatores restantes que representariam as inibições. A motivação se relaciona aos fatores pessoais do abusador envolvidos no início dos atos de abuso. por exemplo. A presença de outra pessoa que poderia testemunhar o ato e o pouco tempo privativo de um abusador com uma criança figuram como estratégias possíveis na inibição do abuso sexual infantil. essas estratégias só são efetivas quando percebidas pelos abusadores como barreiras reais para o cometimento do ato. Um aspecto importante da teoria de Finkelhor (in Krivacska) é que esses quatro aspectos ocorrem sequencialmente. para que o abuso ocorra. mas fazer com que os potenciais abusadores os percebam como ameaçadores aos seus intentos contra as crianças. não é necessário apenas aumentar os impedimentos externos ao abuso. Estas resistências podem ser incrementadas. É . 1989). pois ela não explica os fatores primários nos quais se poderia concentrar a prevenção. estimulando-a revelar os atos ou as tentativas de abuso. Contudo. Esta pode ser vista como a principal crítica da teoria das quatro pré-circunstâncias. o abusador precisa vencer as resistências da criança. As inibições internas dizem respeito tanto à conscientização de que o contato sexual com crianças é inadequado quanto a habilidade de controlar tais impulsos sexuais dirigidos a elas. se o primeiro não está disponível. Em um número signitificativo de oportunidades. A teoria de Finkelhor não explica como ocorre o desenvolvimento das motivações sexuais desviantes do abusador (Krivacska. Assim. a motivação deveria ser mais intensa que a combinação das amplitudes dos fatores inibitórios. pois esse fator dependerá basicamente de como o entorno se organiza para lhe apoiar. Assim. buscando o entendimento do fenômeno do abuso sexual impetrado por adultos contra crianças. a teoria de Finkelhor é positiva na medida em que fornece uma visão mais contextual sobre o abuso. os outros não ocorrerão. Assim. Após ultrapassar esses fatores inibitórios. Contudo. Azevedo e Guerra (1989) acrescentam três teorias às já mencionadas. os abusadores racionalizam essas dificuldades.

uso de drogas. 1999). atentar para o fato de que os casos que apresentam perturbações graves somam apenas 10% do total de registros dos casos de abuso sexual. Já a teoria sócio-psicológica considera a violência contra criança como resultado de uma multiplicidade de fatores. Bhana.org/psycinfo/).29 necessário. em sua tentativa de explicar a situação de abuso sexual. Gijseghem. revela a escassez de estudos. traços de personalidade. apesar de haver diversas explicações sobre as causas do abuso sexual. Portanto.org. & MacKay. estas sempre esbarrarão em algumas limitações. A teoria da aprendizagem social que tem como base o pressuposto de que o comportamento violento é aprendido. 1980. “mulheres pedem pelo estupro” (p.3 Abusadores Sexuais: Classificações e Características Uma revisão de literatura. entretanto. entender os abusadores sexuais e alguns aspectos que os constituem pode ser um esforço válido na direção da compreensão do fenômeno. 1989. Burt (1980) afirma que há algumas crenças quanto ao estupro que são apoiados socialmente. 2005).217).apa. entre outras.br) e ao PsycInfo (http://www. Outras teorias. e se isso acontece é por que eles querem”. repassado. provocam o aparecimento de algumas explicações que podem legitimar preconceitos e mitos. etc. Além disso. portanto. realizados sobre abusadores sexuais. . 1. tais como posição social. aponta que muitos casos de estupro nos Estados Unidos são julgados de acordo com tais idéias. (Azevedo & Guerra. além de propiciar informações para ações interventivas. especialmente os brasileiros. socializado e.bvspsi. Um estudo com adolescentes na África do Sul revelaram que tanto os jovens do sexo masculino quanto os do sexo feminino entrevistados por eles afirmaram que os homens possuem impulsos sexuais incontroláveis e que cabe às mulheres o controle de tais impulsos (Petersen. com consulta ao Index-Psi-Periódicos (www. cada situação de abuso é específica e as explicações que servem para um caso podem não ser úteis para outros. tais como “as mulheres podem resistir ao estupro. Como pondera Marques (2005). problemas neurológicos. stress. valores pessoais. Em sua análise. Alguns autores têm tentado classificar abusadores em grupos segundo semelhanças psicológicas e comportamentais (Azevedo & Guerra. ocasionando a responsabilização das vítimas e salvando seus algozes das penas legais. já que o tema do abuso é complexo por sua multideterminação com as teorias explicando apenas parte das variáveis envolvidas.

Há quatro subtipos dentro desse primeiro.) Dirigir um olhar de compreensão e empatia ao abusador não significa que se deseja isentá-lo de sua responsabilidade perante o ato de abuso. É necessário ter clareza. Este indivíduo abusa de pessoas em geral. É ainda sadomasoquista e coleciona . Gijseghem (1980). a partir de algumas características. não buscam atribuir um rótulo ao abusador sexual. geralmente como “seres irracionais” desprovidos de qualquer semelhança com outros seres humanos. O tema do abuso sexual de adultos contra crianças e adolescentes suscita opiniões indignadas. ele abusa sexualmente de crianças. Ainda relatando as características dos abusadores. manipulando ou tentando sua vítima. Em um estudo. 1993). o critério para escolha das vítimas é a disponibilidade e o método de abordagem das crianças geralmente é coercitivo. A classificação usada por este autor é pouco prática. Possivelmente estes indivíduos colecionam pornografia infantil. Embora. Os estudos apresentados a seguir. Além disso. Smith & Sounders 1995). ainda seja também escassa a literatura sobre tais classificações. aproveitando-se de sua vulnerabilidade. O primeiro tipo é chamado agressor sexual situacional. como reiteram Cohen (1993) e Marques (2005). Age coagindo. um perito canadense e pesquisador com referencial na psicologia jurídica agrupou os abusadores em oito categorias. Ao contrário. Por conseguinte. baseada fundamentalmente em características internas do abusador (tais como seus conflitos internos. O primeiro subtipo é denominado regredido.30 Marcet. Seu estudo referencial viabilizou a verificação do tipo de comportamento do abusador. É oportunista na escolha de suas vítimas. Um segundo subtipo dos agressores sexuais situacionais é o moralmente indiscriminado. portanto. ou sua vontade de superioridade) sendo de difícil identificação e operacionalização em termos de pesquisa. pois o abuso torna-se algo comum para ele. que rotulam os indivíduos que cometem os atos de abuso. Azevedo e Guerra (1999) diferenciam dois tipos de abusador sexual. envolve uma questão ética conforme salientam Cohen e Gobetti (2002). procuram fornecer um olhar compreensivo aos abusadores (Furniss. as possibilidades de recidiva e de tratamento. que estes indivíduos são seres humanos que portam patologias e precisam de tratamento. com base em mais de noventa casos de abuso sexual. contudo. Classificar abusadores. 2005. seu complexo narcísico. Estes indivíduos possuem como característica comum dificuldades para enfrentar desafios e sua motivação para a prática do abuso se dá pela substituição de parceiros sexuais adultos por crianças.

31
revistas de detetive. O terceiro subtipo é o sexualmente indiscriminado. Possuem
como característica básica uma ampla experimentação sexual. A motivação para o
abuso sexual infantil é o tédio e ele escolhe vítimas mais jovens e de aparência
diferente. É altamente provável que colecione pornografia de natureza variada.
Além disso, aborda a vítima se relacionando com elas em outras atividades
anteriores (brincadeiras, por exemplo). O inadequado é o quarto subtipo. Tal
indivíduo possui como característica básica demonstrar-se inadequado socialmente.
A insegurança e a curiosidade são os motivos para o abuso sexual infantil. Estes
escolhem vítimas que não pareçam ameaçadoras, abordando-as, explorando as
vantagens (tamanho, por exemplo) que possuem em relação a elas (Azevedo &
Guerra, 1999).
Um segundo tipo de abusador sexual infantil apontado por Azevedo e
Guerra (1999) é o agressor sexual infantil preferencial. Os três subtipos inseridos
nesta classificação compartilham as características de preferência sexual por
crianças e coleção de pornografia infantil. O primeiro subtipo é o sedutor. A
motivação para abusar de crianças é a identificação com as características infantis.
Eles, geralmente, escolhem as vítimas tendo como critério idade e sexo, abordandoas através de um processo de sedução. O segundo subtipo é denominado
introvertido. Eles se relacionam sexualmente com crianças por medo de
comunicação com as pessoas de sua idade. Escolhem crianças jovens e estranhas e
seu modo de operação para o abuso são contatos sexuais não-verbais. O terceiro e
último subtipo é o sádico. Este indivíduo é motivado pela necessidade de infligir
dor às suas vítimas. Operam com as vítimas através de várias tentativas ou força.
Estes indivíduos escolhem suas vítimas por idade e sexo. A caracterização feita por
Azevedo e Guerra é bastante útil para classificar abusadores, segundo suas práticas
abusivas e não de acordo com características de personalidade internas e abstratas.
Contudo, as classificações postas por estas autoras não podem ser vistas como
definitivas, pois corre-se o risco de reduzir as características dos abusadores apenas
a algumas categorias. Outros indivíduos podem agir de maneira distinta das
descritas, entretanto, eles continuarão a ser abusadores pelo fato de terem cometido
violência sexual contra crianças.
Outros estudiosos, apesar de não classificarem os abusadores em grupos,
identificaram uma série de patologias que podem estar associadas aos casos de
abuso. Walsh, MacMillan e Jamieson (2001) investigaram a associação entre
transtornos psiquiátricos de pais e o cometimento de vários tipos de abuso. Esta

32
investigação foi conduzida junto a 8548 homens e mulheres que responderam se
haviam vivido algum tipo de abuso durante a infância. Os participantes também
responderam se seus pais sofreram com algum tipo de transtorno mental durante
suas vidas. Apesar de os dados não serem fornecidos pelos pais abusivos, os
resultados apresentados são importantes, porque associam algumas doenças
psiquiátricas a certos tipos de abuso. Foi encontrada uma alta correlação entre
doenças como depressão, mania e esquizofrenia e abuso físico e sexual contra
crianças. Esses três tipos de doenças apresentam índices semelhantes de correlação
com as situações de abuso. Contudo, quando foram identificados comportamentos
anti-sociais houve uma maior correlação com a ocorrência de abusos físicos e
sexuais do que quando foi detectada a presença dos outros tipos de doenças citados.
Portanto, a presença de comportamentos anti-sociais sugere um maior risco para
estes tipos de abuso. Os autores fazem uma ressalva quanto a estes achados, já que
nem em todos os questionários se pôde identificar quem foram os agressores. Ou
seja, não ficou claro neste estudo se foram os pais dos participantes da pesquisa que
cometeram os atos de abuso. A presença de transtorno, desta forma, não significa
que os pais sejam abusivos. Contudo, os sintomas destas patologias podem
acarretar alguns comportamentos negligentes por parte dos pais, o que pode deixar
seus filhos mais vulneráveis à violência de outros adultos.
Corroborando o estudo de Walsh et al. (2001), um estudo realizado com
abusadores incestuosos notou que em um quarto dos participantes havia algum
distúrbio de personalidade, com destaque para o Transtorno de Personalidade AntiSocial (Trepper, Niedner, Mika, & Barret, 1996). Um estudo realizado com pais
incestuosos e mães não-abusivas procurou investigar particularidades entre
abusadores foi o de Smith e Saunders (1995). Os abusadores foram definidos tanto
pelas mães das crianças vítimas quanto pelos pais abusadores de um lado como
dominantes, abusivos e autoritários e por outro lado como dependentes e passivos.
Esta diferença pode ser explicada pela ausência de uniformidade entre as
características dos abusadores evidenciada por vários estudos obtidos na literatura.
Uma parcela significativa de abusadores sofre de patologias que são
classificadas como parafilias (Becker, 1994). As parafilias são patologias
psiquiátricas caracterizadas por fantasias sexuais recorrentes e intensas com pessoas
“não-autorizadas”, animais ou objetos. Para que uma pessoa seja diagnosticada com
parafilia, é necessário também que ele aja segundo as suas fantasias ou que estas
tenham uma natureza intrusiva. No caso dos abusadores, reitera-se que a pedofilia é

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o tipo de parafilia diagnosticada mais comumente. Contudo, outras doenças
psiquiátricas do grupo deste mesmo grupo podem estar presentes.
No estudo realizado com três abusadores sexuais incestuosos, Marques
(2005) notou certas similaridades em seus funcionamentos. Entretanto, destaca que
apesar destas semelhanças não é possível deixar de observar a singularidade com
que cada um dos participantes agia, tanto em termos do abuso sexual como em
outros aspectos de suas vidas. A falta de uniformidade entre classificações de
abusadores pode, em parte, dificultar as pesquisas que busquem algum tipo de
categorização, já que não há um critério único a ser seguido. No Brasil, o perfil do
abusador será considerado o perfil fornecido, com base em 1565 denúncias feitas
entre os anos de 2000 e 2003, pela Associação Brasileira Multiprofissional de
Proteção à Infância e Adolescência (ABRAPIA) disponíveis on-line no ano de 2003
(www.abrapia.org.br). As denúncias foram realizadas através de telefonemas e
revelaram o seguinte perfil: 90% do abusadores são do sexo masculino; 58% estão
na faixa etária que se estende desde os 18 aos 45 anos; e 21% tinham mais de 45
anos, 59% possuíam vínculo biológico ou de responsabilidade com a vítima,
enquanto 41% não possuíam tal vínculo. Dados dos Estados Unidos que
corroboram este perfil. Do total de abusos cometidos naquele país, 96% foi
praticado por homens. Um outro dado importante mostrado no estudo americano é
que em grande parte dos casos as vítimas conhecem seus agressores (La Fond,
2005). Esta informação também está de acordo com o perfil traçado pela
ABRAPIA, já que na medida em que um pouco mais da metade dos agressores tem
vínculo com a vítima, está claro que no Brasil parte expressiva destas vítimas
também conhece seus agressores.
Considerando este perfil do abusador sexual no Brasil, na próxima seção
serão descritos alguns estudos que versam sobre a visão que eles possuem sobre
crianças. Serão apresentadas também algumas teorias que tentam explicar o modo
como os abusadores vêem as crianças.
1.4 Abusadores Sexuais e sua Visão sobre as Crianças
As cognições sobre o abuso tem sido um tema de interesse entre os
pesquisadores que se concentram em estudar os abusadores. Uma coletânea de
estudos apresentada a seguir tangenciam tais cognições e a visão de infância,
permitindo algumas inferências sobre características e crenças que abusadores
possuem sobre as crianças. Ward e Keenan (1999) afirmam que investigar como os

Os abusadores parecem organizar três tipos de teorias implícitas sobre o abuso. Um segundo modelo sobre as distorções cognitivas é derivada da abordagem feminista. Descreve vários tipos de atitudes direcionadas às mulheres. A primeira delas abrange as crenças sobre as pessoas e o mundo em geral. Os resultados de outro estudo demonstram que abusadores justificam o abuso informando que as crianças querem o contato sexual tanto quanto eles. elas não resistem e não contam a outros adultos. (2000). O primeiro modelo deriva-se da literatura clínica (Abel. & Cunningham-Rathner. 2000). O terceiro e último modelo é proveniente da literatura criminal. 1986). 1997). se ele acredita que pode manipulá-la para conseguir o que deseja. Citando mais especificamente estudos que mostram como abusadores vêem as crianças. a investigação de Ward e Keenan (1999) revelou que os abusadores percebem as crianças como seres sexuais e que. Segundo este modelo.34 abusadores pensam e percebem o mundo a sua volta é determinante para compreender o modo como eles agem. Becker. O segundo tipo de teoria diz respeito àquelas crenças intermediárias que categorizam os elementos em geral. O terceiro e último tipo de teoria implícita está ligado àquelas crenças que o abusador possui sobre objetos ou pessoas específicos. afirmam que os abusadores percebem as crianças como seres sexuais. que considera que as distorções cognitivas dos abusadores são erros consistentes no pensamento que ocorrem automaticamente (Beck. tal crença será importante para a prática do abuso. portanto. mas uma justificativa construída após os atos abusivos. Em acordo com o estudo de Swaffer et al. Beckett e Fisher (2000) discutem que a percepção sobre características físicas e sobre tipo de relacionamento que o abusador pensa ter com a criança influenciam diretamente para a prática abusiva contra a criança. in Geer. Por último. & MangunoMire. que propõe que os padrões de percepções e pensamentos distorcidos são causas para a agressão sexual e para outros domínios de comportamento. Estupinan. os significados atribuídos às crianças. Beech. Hollin. estas distorções não são causas dos atos de abuso. segundo os abusadores. como por exemplo. Três modelos predominantes têm sido empregados para descrever o papel das cognições em abusadores sexuais (Murphy. Por conseguinte. Swaffer. 2000). in Geer et al. este contato sexual apenas despertaria impulsos que já existiam antes do momento do abuso.. pois. Por exemplo. as crianças só teriam benefícios em ter contato sexual com adultos. Neste nível estão inclusas as teorias implícitas sobre uma vítima em especial. na medida . aceitando o “mito do estupro” e atitudes relacionadas ao papel dos estereótipos (Malamuth.

Considera-se de acordo com a perspectiva de Eisenberg e Strayer (1990). as adolescentes são mais culpabilizadas e aos abusadores é arrogada uma menor responsabilidade. iniciam o contato. ou seja. pode-se definir a empatia como a resposta emocional que origina-se da percepção do estado ou condição emocional de outrem e que é congruente com esse estado ou condição. 2005). ou como conseqüência do reconhecimento de pistas indiretas desses estados emocionais (perceber a natureza da situação problemática pela qual o outro está sofrendo). não há necessariamente a tomada de perspectiva do ponto de vista do outro. influenciados diretamente pela idade da vítima. pois não demonstraram nenhum sinal de oposição aos atos de abuso (Phelan. por exemplo. A empatia. 2003). Tais estratégias se baseiam na premissa da pouca responsabilidade do abusador e da culpabilização da criança.). a relação é tida como menos abusiva. que empatia é uma resposta afetiva que resulta de compartilhar a percepção emocional de outra pessoa. Pode-se simplesmente. Estes autores afirmam que as atribuições de culpa. alegar que a relação entre ele a vítima era de natureza afetiva e não abusiva. Os agressores sexuais percebem que as crianças cooperam durante o episódio de abuso e que são elas próprias que. Entre essas estratégias estão: afirmar que a vítima consentiu ou provocou o abuso. em situações hipotéticas de abuso. Em estudo com 40 pais biológicos e adotivos que abusaram de suas filhas. distorcendo assim os papéis de ambos. revelou que 21 deles acreditavam que suas filhas gostaram da experiência do abuso. ou as que utilizam a divisão de responsabilidade entre abusador e criança parecem funcionar a favor do perpetrador. 2002). segundo as autoras. Assim. Estes abusadores viam as crianças como menos ameaçadoras socialmente (Gannon et al. perceber a situação como semelhante a uma já ocorrida . 1995). de modo que se fosse uma adolescente envolvida na acusação. a vítima é desacreditada pela própria família (Morales & Scharamm. significa “sentir com” o outro. entre outras (Lawson. As estratégias que depreciam as crianças. pois muitas vezes. A responsabilização pelo ato de abuso foi discutida por Waterman e Foss-Goodman (in Almeida. Abusadores usam várias estratégias para justificar seus comportamentos abusivos. Tal reação afetiva pode ocorrer como resposta a dicas concretas do estado emocional alheio (tais como as expressões faciais). fora.. no entanto. muitas vezes.35 em que elas fazem perguntas sobre sexo (Gannon et al. pode não levar a pessoa a sentir o mesmo incômodo emocional de outrem. A empatia parece ser uma questão-chave neste achado. acusar a vítima de contar mentiras. Então. 2003).

36 antes. então. Eseinberg e Strayer comentam ainda que a angústia pessoal pode ser um estado precursor da empatia nas etapas mais precoces. podem ser fruto de processos cognitivos. ainda não haveria empatia propriamente dita. A simpatia seria um estado posterior a empatia. Um deles se relaciona ao grau de diferenciação eu-outro. Assim. como uma variável que é influenciada pela idade e pelo nível de desenvolvimento. Contudo. sem ter consciência de que esse estado não tem como fonte ela própria. pode levar a reações ou preocupações auto-orientadas e egoístas. algumas pessoas quando percebem o sofrimento do outro. Claramente. pois ela define o estado no qual uma pessoa se preocupa em aliviar o sofrimento do outro. podem experienciar um estado aversivo de ansiedade e preocupação que não é congruente com o estado do outro. mas que ela pode ocorrer mesmo em estágios mais avançados do desenvolvimento. Alguns pontos importantes precisam ser clarificados para que se compreenda a conceituação de empatia. pois a primeira claramente seria uma resposta orientada para o alívio do sofrimento do outro. não demonstrando empatia. foram incapazes de perceber que a situação de abuso se constituía como prejudicial para suas filhas. nesses estágios do desenvolvimento. Eisenberg e Strayer (1990) afirmam que em estágios mais precoces do desenvolvimento. e o que é mais importante. Os construtos “simpatia” e “angústia pessoal” devem ser diferenciados entre si. e que as crianças podem sentir afetos gerados pelo reconhecimento irrefletido dos estados emocionais dos outros. tais como tomada de perspectiva através do ponto de vista do outro. enquanto a segunda seria egoísta e auto-orientada. existindo apenas um estado precursor da empatia. as atoras adotam a empatia. por perceber seu sofrimento. Os homens entrevistados por Phelan (1995). A empatia em si se configuraria apenas quando já um grau mínimo de diferenciação eu-outro que permita que a pessoa reconheça que os estados emocionais não são originados da sua própria situação. ainda não há tal diferenciação. sem estar portanto associada aos sentimentos empáticos. A angústia pessoal se diferenciaria da empatia por essa última não estar associada nem a uma resposta egoísta nem a uma orientada para a outra pessoa. Já a simpatia de diferenciaria da angústia pessoal. segundo as autoras a simpatia (assim como a empatia). 1990) afirma que experimentar angústia pessoal frente ao sofrimento do outro pode orientar as pessoas a desejarem o alívio de seu próprio estado aversivo. Batson (citado por Eisenberg & Strayer. e aí reconhecer que aquele tipo de situação pode causar sofrimento. De acordo com Eisenberg e Strayer (1990). Alguns .

Quando não há incapacidade. O instrumento utilizado abrangia diversos tipos de informação com relação à vida dos abusadores. Uma investigação com 91 homens que haviam cometido algum tipo de abuso sexual contra crianças verificou o modo como os abusadores se relacionam com crianças (Elliot. Verificar a capacidade empática dos abusadores com as crianças é importante. que “as meninas que eu procurava eram pequenas e usavam mini-blusas e mini-saias”. 2000) demonstram que os abusadores teriam déficits em sua capacidade empática. revela-se uma educação para a submissão. 1995). enfatizando a influência do gênero como uma variável importante. por possuir um perfil específico. Sessenta e seis por cento deles afirmaram conhecer as crianças com as quais cometeram o abuso. Quando questionados sobre como selecionavam suas vítimas. com idade média de 8. Webster & Beech. Safiotti (1997) levantou dados sobre violência impetrada contra crianças. Na cidade de São Paulo. portanto. também para entender como eles percebem as necessidades e os sentimentos delas. enquanto outros 27% justificaram sua escolha pela vestimenta “provocante” da vítima. o que atuaria como um facilitador para a prática de abusos. Browne. não comentariam o abuso com outras pessoas. Um resultado importante relacionou-se com o fato de 49% dos abusadores terem afirmado que procuravam por vítimas que pareciam não ter alguém de confiança. O que aconteceria no caso de abuso seria a pouca empatia direcionada a uma vítima específica.37 estudos (Pithers. aos abusadores. . 1999. por exemplo. no período de 1990 a 1993. 2000). os estudos sobre empatia em abusadores demonstram que eles possuem um índice normal de empatia geral. Um último resultado importante foi o fato de 13% dos abusadores terem selecionado suas vítimas pela aparência de inocência ou que pareciam crianças confiáveis e que. pode haver supressão dos sentimentos empáticos no momento do abuso. A violência física aparece como forma disciplinar para os meninos. Já para a violência sexual vivida pelas meninas. que tinham baixa auto-estima ou problemas familiares. como comenta Fisher (in Webster & Beech. Os resultados revelaram que eles informavam ter preferência por meninas na faixa de idade entre oito e 13 anos. & Kilcoyne. Os dados revelaram que crianças e adolescentes do sexo feminino sofrem mais violência sexual e as do sexo masculino sofrem mais violência física.5 anos. Além disso. Os dados deste estudo revelam uma visão de criança elegida como vítima. do ano de 1987 a 1993. dizendo. 42% responderam que procuravam por crianças bonitas. bem como dados do Programa SOS Criança. a partir de registros de denúncias em uma delegacia da mulher.

afirmando indiretamente que em alguma medida. Azevedo. Koller. por sua vez. Habigzang & Caminha. Contudo. . O abuso sexual aparece aqui como um produto de uma relação de poder desigual entre as crianças e adolescentes do sexo feminino e homens adultos. era permitido ter sexo com meninas que encontravam nas estradas.38 para atender todos os pedidos (ou ordens) de figuras de autoridade do sexo masculino. 2005. in press). Habigzang. já que não é permitido a estas crianças recusar qualquer investida. Segundo Narvaz (2005). Os homens. Mais uma vez. Abusadores sexuais preferiam crianças que possuam algum tipo de deficiência. pois. entender crianças. seria permitido manter relações sexuais com elas. 1999). Koller. principalmente as meninas. Além disso. os participantes da pesquisa afirmaram que caso a menina abusada já não fosse mais virgem. se sentem com direito de ter relacionamento sexual com estas meninas submetendo-as a situações de violência sexual. 2004. por um lado indicam que estes indivíduos percebem que o sexo não é uma atividade típica da fase infantil e por outro que o sexo é permitido com algumas crianças. os caminhoneiros tenham revelado esse tipo de idéia sobre as crianças exploradas sexualmente nas estradas. Moraes e Cerqueira-Santos (2005) mostraram a preferência destes participantes por crianças que possuíam um status diferente de suas filhas ou meninas de suas famílias. Tal abuso sexual intrafamiliar é mantido em segredo. & Machado. quando questionados que tipo de atividades são mais típicos de crianças ou adolescentes. Em complemento a este argumento. pois o perpetrador em seu papel de cuidador utiliza-se da confiança e do afeto que a criança tem por ele. 1993. A criança. não há apenas a submissão de meninas como fator importante para situação de abuso. contribui para a ocorrência de violência. por serem mais fragilizadas ou não terem condições de revelar o fato (Koller. como pessoas que devem ser obedientes e atender todas as ordens de adultos. numa dinâmica complexa. claramente. em um relatório de pesquisa com caminhoneiros que abusaram sexualmente de crianças. não identifica o abuso e não a revela a ninguém (Furniss. Os resultados são assim. por sua vez. eles responderam que as atividades lúdicas seriam mais característica da infância e o namoro da fase adolescente. fica evidente que a visão que os abusadores possuem sobre as crianças está diretamente envolvida em um contexto que propicia a situação de abuso. divergentes. Embora. “a obediência é um fator que predispõe a submissão às situações de violência no contexto das relações familiares” Desta forma.

1999). mas como um objeto. seres mais frágeis usando-as para a satisfação de seus impulsos. então. é válido destacar que os abusos . 2001). Abusadores sexuais infantis possuem comportamentos auto-centrados. A criança. (2005) partilham de posição semelhante a de Horley quando afirmam que os atos de abuso sexual devem ser entendidos em relação a como o abusador pensa o mundo à sua volta. A auto-estima. Contudo. eles lidariam com o estresse através de estratégias disfuncionais. como o abuso sexual contra crianças (Marshal.39 As distorções cognitivas (das quais se pode inferir a visão que eles possuem sobre as crianças) geralmente se associam a quatro fatores: a visão que o abusador sexual possui sobre si mesmo. já que os modos como ele foi tratado (abusado) pode ser um fator que predispõe a atos de abuso e aos modos como vê as crianças. percebendo suas necessidades.. A visão que eles possuem acerca dos seres infantis estariam ligadas a questões individuais. Desta forma. das crianças. se a visão que o abusador tem sobre si mesmo influencia na sua visão das outras pessoas e. mas também as questões contextuais. suas vítimas infantis são vistas por ele como menos importantes. pode-se inferir alguns pontos acerca da visão que os abusadores possuem sobre as crianças. Associado a estes dois fatores está o fato de alguns estudos demonstrarem que uma parcela significativa de abusadores foi abusada durante a infância. Anderson. é vista aqui como o valor que a pessoa nutre sobre si mesmo (Tamayo et al. 2000). seria percebida por eles como menos importantes que eles. & Cortoni. o reconhecimento e/ou aceitação dos valores éticos e das expectativas sociais e as características de seu contexto social (Horley. Assim. a visão que ele possui sobre as crianças está diretamente ligada a como ele se relaciona com o mundo de uma maneira geral. 1999). Gannon et al. Aqui a vitimização do próprio abusador quando criança pode ser um fator chave. Crips. por conseguinte. Para corroborar esta posição. Ao analisar estas últimas conclusões. Um auto-conceito negativo e uma conseqüente baixa auto-estima são fatores importantes para a análise da percepção que os abusadores possuem sobre si mesmos. A baixa auto-estima em abusadores faria com que os abusadores receassem lidar com situações problemáticas. Amazarray e Koller (1998) destacam que o abusador sexual infantil não percebe a criança enquanto uma pessoa que possui sentimentos. Lidar com as crianças. seria mais fácil que enfrentar as situações problemáticas. anseios e desejos como mais importantes que as vontades alheias (Ward & Kennan. a sua visão sobre o papel que ele ocupa em uma dada estrutura social. parte do auto-conceito. Assim.

Além disso. alguns deles disseram ter mudado de residência várias vezes. estes homens afirmaram não serem capazes de estabelecer laços de confiança e intimidade com outras pessoas. Jackson. 2001). descreveram ambientes familiares disfuncionais. episódios positivos ocorridos nelas. Eles comentaram ainda que se sentiam como objetos que os outros utilizavam segundo seus próprios desejos. ficou evidente que suas infâncias se configuraram de maneira tão problemática que eles foram incapazes de recordar.40 sofridos pelos abusadores não são necessariamente apenas de ordem sexual. ou foram morar definitivamente com outros parentes. Pattison. 2004). Esses homens expuseram ainda que as pessoas a sua volta os chamavam de estúpidos e idiotas. Intebi comenta que aquelas pesquisas que utilizam apenas uma entrevista podem subestimar o índice de abusadores que foram vitimizados na infância. Todos narraram que seus sonhos quando criança eram basicamente sobreviver às violências sofridas para conseguirem se distanciar de suas famílias de origem. com profundidade. 1994). Em decorrência dos abusos sofridos. É importante destacar que os números sobre a prevalência de vitimização entre os abusadores varia. Em suas falas. nos quais eles tiveram que assumir os papéis de cuidados com os irmãos. Em seu trabalho clínico e de pesquisa. Ela comenta que a revelação dos abusos sofridos por eles foi feita após várias sessões de psicoterapia. com estudos demonstrando nenhuma prevalência a 80% de abuso entre essa população (Widon & Ames. tornando-se pessoas isoladas. Na pesquisa realizada com 64 abusadores e 33 criminosos não-sexuais. e que sempre se sentiram desvalorizados e solitários em . não houve diferença significativa entre aqueles que haviam sido vitimizados física ou sexualmente. Todos eles relatam também relações de violência ou abandono com suas figuras paternas. Assim. & Ward. o abuso sexual durante a infância apareceu associado à pedofilia (Lee. Um estudo qualitativo com oito abusadores revelou que todos eles sofreram algum tipo de violência em suas infâncias (Garret. Intebi (1998) comenta que apesar da variação desses índices. Devido a pouca estabilidade econômica e emocional de suas famílias. ela pôde verificar que todos os abusadores atendidos foram vitimizados sexualmente quando crianças. Todos comentaram também ter usado álcool precocemente (antes dos 12 anos de idade). Certos tipos de abuso podem levar ao aparecimento de desordens psiquiátricas. Os relacionamentos conjugais dos pais desses participantes foram descritos por eles como instáveis. Pesquisa realizada por Widon e Ames (1994) revelou que entre homens que haviam cometido algum ato de abuso sexual.

Segundo eles: “Você aprende o que você vê!” (Garret. 2000. as teorias explicam apenas parte dos fatores importantes envolvidos nesta questão. Lee e Adams (2002) respondem que alguns abusadores sexuais relatam ter fantasiado sobre o abuso sofrido em ocasiões posteriores. o estudo de Lambie. 1980). 1994). uma boa parcela destes afirmou que o abuso foi uma experiência percebida como normal. A falta de uma pessoa de confiança para relatar o episódio foi uma importante variável. Além disso. pode ser algo natural para os abusadores. Desta forma. por conseguinte. a idéia de que as crianças podem querer sexo e que podem desfrutar da experiência de abuso. Todos eles afirmaram ter desenvolvido uma baixa valorização de si mesmo. enquanto outras explicam as cognições dos abusadores como distorções cognitivas. são explicados a partir de vários fatores. 189). As características familiares (inversão de papéis hierárquicos. 2004. que reitera o fato de que os abusadores em sua infância não tiveram alguém para afirmar a eles que os atos de abuso não eram algo comum. Devido a todos esses estressores. Pode-se questionar por que os abusos sofridos na infância de um abusador sexual podem influenciar no seu modo de ver uma criança e. padrão este que perdurou até a adultez. Neste estudo foi adotado o . além de não terem uma figura de confiança para a qual pudessem relatar a violência sofrida. prática de violência) descritas pelos participantes deste último estudo são constatadas em outros estudos sobre violência intrafamiliar (Flores & Caminha.41 decorrência dessa forma depreciativa e pejorativa com a qual foram tratados. Associado a isso. os abusadores da pesquisa desenvolvida por Garret foram taxativos em afirmar que não percebem outro modo de “ser no mundo” além de serem violentos. relatando que não sentiam como uma violência. Algumas teorias focalizam as interferências sociais (Burt.5 A Bioecologia do Desenvolvimento dos Abusadores Sexuais Os modos como os abusadores vêem o mundo a sua volta e. no cometimento de atos de abuso. já que em suas experiências isso se mostrou verdadeiro. Desta forma. Silva & Hutz. 1994). 1994. clima afetivo pobre. que ocorrem em decorrência de alguma patologia (Becker. 2002). a escola e as relações experienciadas nelas foram lembradas de maneira negativa. conseqüentemente as crianças. 1. Seymour. Os entornos de abusadores sexuais aparentam ser tão problemáticos que os primeiros atos de abuso cometidos por eles se iniciam já na adolescência (Abel & Harlow. Becker. Para responder pelo menos em parte a esta questão. p.

p. 1998). Os processos proximais são “os principais motores do desenvolvimento” humano (Bronfenbrenner & Morris. que considera que “as características de uma pessoa em dado momento de sua vida são uma função conjunta das características individuais e do ambiente ao longo do curso de sua vida” (1989. a interação deve ocorrer em uma base regular através do tempo. Acessa-se o processo de desenvolvimento acompanhando as mudanças em função da exposição e interação de uma pessoa com o meio ambiente (Bronfenbrenner & Morris. Além disso. Na revisão de literatura pode-se notar.42 Modelo Bioecológico do Desenvolvimento Humano. que eles . permitindo analisar. já que é através dele que as características dos outros elementos se expressam. As relações destes indivíduos de com as pessoas em geral e com as crianças. ou modelo Processo-Pessoa-Contexto-Tempo. A seguir cada um destes elementos será descrito. considerando tanto os fatores microssistêmicos quanto os macrossistêmicos. que afirma que a visão que os abusadores possuem sobre as crianças e sobre o mundo em geral são influenciadas por fatores pessoais (como a visão que o abusador possui sobre ele mesmo) e por fatores de ordem social e cultural (como o sistema de crenças e valores da sociedade na qual o abusador está inserido). por exemplo. mais especificamente. através de sua história (tempo). Além disso. Com a descrição destas primeiras características. Para que uma atividade seja considerada como tal é necessário que haja interação recíproca nas relações interpessoais. p. O desenvolvimento é um processo no qual há uma interação recíproca da pessoa com seu contexto. 1998. por exemplo. É através do estudo dos processos proximais que se pode investigar como se dá o desenvolvimento de uma pessoa. as características da pessoa ou do contexto têm importância diferente em situações diversas. Tal interação não é simétrica. a teoria utilizada corrobora as proposições de Horley (2000). nota-se que abordar a visão que os abusadores possuem sobre a criança a partir do Modelo Bioecológico é uma tentativa de compreender o fenômeno de uma maneira global. 1999). e que os símbolos e os objetos do ambiente imediato estimulem a atenção. 996). Bronfenbrenner desenvolveu um modelo teórico chamado PPCT. a manipulação e a imaginação da pessoa em desenvolvimento (Bronfenbrenner. proposto por Urie Bronfenbrenner (1979/1996). foram descritas como disfuncionais. as relações dos abusadores com crianças ao longo de suas vidas. 90). e que a pessoa esteja engajada em uma atividade.

agressividade. problemáticos e violentos. 1979/1996). auto-centradas. meso.). Bronfenbrenner categorizou os atributos das pessoas em três tipos. Assim. a saber: micro. etc. Apenas um dos tipos será relatado aqui. tendência para engajar-se em atividades sozinhas ou em companhia de outros. para o modelo bioecológico do desenvolvimento humano. O contexto divide-se em quatro sistemas. escola. A compreensão desses ambientes na infância são particularmente importantes. incapacidade de adiar gratificações. Modificações nas primeiras características podem alterar o curso do desenvolvimento da vida de um indivíduo. Em 1983. 2004) como pessoas isoladas. 2004). exo e macrossistema. Brofenbrenner e Morris (1999) elaboraram o construto forças da pessoa que são aquelas características de uma pessoa que tem maior influência no seu desenvolvimento futuro. 2004). abrange tanto as características biopsicológicas quanto aquelas que foram adquiridas ao longo da vida. permitindo o entendimento das interações em diversos microssistemas (família. sentimento de insegurança. explosividade. Os microssistemas ao longo da vida dos abusadores foram descritos como turbulentos. Garret. O outro pólo designa comportamentos de apatia. violentas. Os abusadores foram descritos por vários autores (ver Azevedo & Guerra. O primeiro deles relaciona-se com comportamentos de impulsividade. timidez ou uma tendência geral de se retirar de atividades coletivas. bem como as relações com outras crianças em diversos ambientes podem ser investigadas. distrações e prontidão para recorrer a agressões e violência. indiferença. entre outras características negativas. A pessoa. Os microssistemas são aqueles ambientes nos quais a pessoa em desenvolvimento tem suas interações face-a-face (Bronfenbrenner. desatenção. responsividade para as demandas dos outros. capacidade de adiar uma gratificação imediata e persistir numa meta a longo prazo. eles poderiam ser classificados como pessoas que se movem basicamente através das forças desenvolvimentalmente-disruptivas. O mesossistema é o conjunto de microssistemas freqüentados pela pessoa e as relações entre eles . Estas duas forças são denominadas como desenvolvimentalmente-geradoras e desenvolvimentalmente-disruptivas. O envolvimento em situações de abuso ao longo da vida.43 estabeleceram relações de responsabilidade com seus irmãos e relações tumultuadas com seus pais e outros cuidadores (ver Garret. vizinhança. tais como curiosidade. O segundo tipo varia entre dois pólos. 1999. pois eles são determinates na formação psicológica dos abusadores (Garret. A primeira classe de forças envolve orientações ativas por parte da pessoa.

escola. O exossistema é composto pelos ambientes nos quais a pessoa não participa diretamente. O último elemento do modelo proposto por Bronfenbrenner (1999) é o tempo considerado tanto em termos de ciclo vital como em termos de mudanças do ambiente ao longo da história e a interação entre estes dois elementos. Áries e outros trazem aspectos macrossistêmicos importantes das sociedades ocidentais ao longo dos séculos e como elas construíam a visão de infância de seus contemporâneos. bairro) nos quais estiveram inseridos nos diferentes momentos de suas vidas (infância. considerando assim o aspecto temporal. assim como subsidiar ações de prevenção e intervenção a estes casos. assim como o acompanhamento clínico.44 (Bronfenbrenner. formas de governo. já que se reconhece que a visão que abusador possui sobre si mesmo e sobre as crianças foi construída ao longo de sua história de vida por concepções macro e micro. Diante de todo este quadro. sobre o próprio desenvolvimento de pessoas que cometem abuso sexual. culturas e subculturas presentes no dia-a-dia das pessoas e que influenciam diretamente os modos de pensar e comportar dos indivíduos (Bronfenbrenner. o macrossistema é composto pelo conjunto de ideologias. A análise feita neste estudo tinha como foco a compreensão dessas relações nos ambientes (família. analisando as relações que eles estabeleceram com elas ao longo de seu ciclo vital. A maior compreensão da visão sobre as crianças ao longo do ciclo vital por abusadores pode trazer contribuições teóricas. Finalmente. . 2004). O tempo será considerado neste estudo. religiões. Entradas e saídas em novos ambientes ocasionam uma alteração no mesossistema. mas que possuem influência direta sobre seu desenvolvimento. valores e crenças. 1979/1996). Políticas públicas e jurídicas podem ser influenciadas por estes achados. ainda escassa na literatura. Além disso. adolescência. 1979/1996). Viver numa sociedade que acredita que os pais têm posse sobre uma criança é um aspecto macrossistêmico que pode influenciar no aparecimento de atitudes de violação de direitos destas crianças (Koller & De Antoni. o objetivo deste estudo foi investigar a visão que abusadores sexuais possuem sobre as crianças. adultez). foi fundamental também averiguar o modo como eles viam a si mesmos ao longo de suas vidas.

um com 38. o participante agradecido e os dados excluídos da análise. Há também que se considerar que as questões criminais também influenciam na acessibilidade dos participantes. por eles não desejarem se expor por temer a condenação e a prisão. A amostra utilizada foi de conveniência pela dificuldade de acesso aos participantes. um com 70 e outro com 73 anos. serviço ao qual eram encaminhados para avaliação psicológica solicitada compulsoriamente pela justiça.. A faixa etária estabelecida (18 a 45 anos) no projeto para este estudo 45 . para realizar a pesquisa foram acessados participantes no Ambulatório do Departamento de Genética. Um deles. 2. a participação na pesquisa era voluntária. Apesar da obrigatoriedade da avaliação. A equipe de pesquisa avaliou aqueles que eram direcionados para a participação neste estudo. 2005). chegou até o Departamento de Genética por livre e espontânea vontade à procura de ajuda psicológica. Uma vez que a quantidade de denúncia para os casos de abuso é subestimada (Rich et al. O único critério de exclusão utilizado neste estudo foi a ausência de deficiências mentais. A entrevista realizada neste estudo era profunda e permitia a análise desse tipo de transtorno. contudo. Diante destas dificuldades. tal critério de exclusão não foi aplicado. No entanto. poucos casos quando denunciados são transformados em processos judiciais. analisando as relações que ele estabeleceu com elas ao longo de seu ciclo vital. Caso fosse detectada alguma deficiência cognitiva a entrevista seria interrompida.2 Participantes Participaram deste estudo cinco homens que foram acusados de cometer abuso sexual contra crianças e adolescentes de até 13 anos. As idades dos entrevistados foram as seguintes: dois com 37. Quatro dos participantes estavam respondendo a processos judiciais pelas acusações de abuso sexual e por isso estavam nessa situação de encaminhamento compulsório.1 Delineamento Realizou-se um estudo exploratório descritivo que investigou a visão que os abusadores sexuais infantis possuem sobre as crianças.CAPÍTULO II MÉTODO 2. este fato teve influência significativa no número de casos disponíveis para pesquisa.. Além disso.

46
não pôde ser mantida devido às dificuldades em acessar um número suficiente de
casos no período de execução do estudo para análise.
Caracterização Bio-sócio-demográfica
As idades dos participantes variaram de 37 a 73 anos. Quanto à
escolaridade, dois afirmaram ser analfabetos, outros dois concluíram o ensino
médio e um concluiu apenas o ensino fundamental. No momento da pesquisa, um
dos participantes trabalhava como zelador, um outro com processamento geodésico
e um deles estava preso em decorrência da acusação de abuso sexual contra sua
filha. Por este motivo, ele não estava exercendo nenhuma atividade profissional.
Dois já eram aposentados devido à idade. A renda dos participantes variou entre um
e três salários mínimos da época, que correspondia a R$ 350,00 mensais. Os casos
estão inicialmente descritos um a um, em virtude das particularidades de cada uma
das histórias. Os nomes dos participantes e de seus familiares são fictícios para
resguardo de suas identidades.
Caso Marcos
Marcos tinha 38 anos e estava preso na época da pesquisa devido à acusação
de abuso sexual contra sua filha. No momento anterior a sua prisão, ele era
carroceiro e coletava materiais para reciclagem. Morava em uma cidade no interior
do Rio Grande do Sul, com sua companheira, um enteado e três filhos.
Marcos foi acusado de abusar de sua filha de dez anos, mas ele alega não ter
cometido nem esse nem qualquer outro tipo de violência contra ela. Em seu
depoimento, a filha afirmou que o pai friccionava os seus órgãos sexuais contra o
corpo dela. Ele já havia sido preso anteriormente acusado de abusar de seu enteado,
mas foi absolvido da acusação.
Marcos estava com aspecto bem cuidado, principalmente considerando o
fato de estar preso. Aparentou estar pouco a vontade durante a entrevista, sempre
olhando para baixo. Falou apenas o necessário para responder as perguntas da
entrevista, demonstrando-se assertivo em suas respostas.
Caso Osmar
Osmar tinha 73 anos, é estrangeiro e vive no Brasil há 35 anos. No
momento da pesquisa, residia em uma cidade na região metropolitana de Porto
Alegre. Antes de acusação de abuso sexual contra uma das filhas de sua enteada
(seis anos), ele morava com sua segunda esposa e vários filhos e netos. Após a

47
denúncia, passou a morar sozinho. Osmar também se declara inocente da acusação
de abuso sexual. A vítima declarou que Osmar tinha tocado sua genitália em troca
de presentes e dinheiro. Quando este fato foi denunciado, uma das filhas de Osmar
revelou que ele havia cometido abuso sexual contra ela na infância.
Destaca-se que no ano de 1986, ele foi acusado informalmente, por uma de
suas noras de observar uma de suas netas enquanto ela tomava banho. A ex-esposa
de Osmar expôs também que a vinda dele do país de origem para o Brasil ocorreu
em virtude de uma acusação de estupro. Ele teria estuprado uma filha de sua
primeira esposa, engravidando-a.
Osmar foi o único entrevistado que pode comparecer duas vezes ao
Departamento de Genética para a coleta de dados. Nesses dois momentos, ele
apresentou-se bem vestido. Desde o início, mostrou-se solícito e educado. Em
certos momentos, tentou manipular as entrevistadoras como um meio de descobrir o
resultado de sua avaliação. Além disso, muitas vezes Osmar foi evasivo com
relação as perguntas, relatando aspectos que não estavam associados diretamente a
elas. Mesmo assim, mostrou-se seguro ao responder todas as questões.
Caso Flávio
Flávio tinha 37 anos quando a entrevista foi realizada. Antes da acusação de
abuso sexual contra sua enteada, Flávio residia em uma cidade no interior do estado
junto com a esposa, um filho e uma enteada. Após a denúncia, Flávio e sua esposa
se separam e no momento da pesquisa, ele residia sozinho em sua cidade natal,
também no interior do estado.
Flávio havia sido preso, anteriormente, em decorrência da acusação de
abuso sexual de sua enteada de 13 anos, que o acusou de tentativa de estupro,
afirmando que o padrasto estava sob o efeito do álcool. Quando foi a delegacia para
prestar depoimento, Flávio admitiu que tentou violentar sexualmente a vítima.
Contudo, durante a entrevista desta pesquisa negou que tenha feito tal afirmação na
delegacia. Declarou que as policiais que ouviram seu depoimento estavam
emocionalmente perturbadas e que, portanto, compreenderam erroneamente as
afirmações. Flávio foi libertado da prisão e estava em liberdade provisória, quando
a pesquisa foi realizada.
Flávio apresentou-se bem vestido. Não parecia estar à vontade, observando
um relógio na parede durante quase toda a entrevista e falou apenas o necessário
para

responder

as

perguntas.

Algumas

vezes

demonstrou

hostilidade,

48
principalmente quando foi questionado sobre algum aspecto da acusação de abuso
sexual contra ele. Outras vezes hesitou em responder outras questões e, em vários
momentos, se contradisse sobre vários aspectos de sua vida.
Caso Francisco
Francisco tinha 37 anos e residia na periferia de Porto Alegre com sua
esposa e duas filhas na época da pesquisa. A denúncia de abuso sexual ainda não
havia se transformado em processo judicial quando a entrevista foi realizada.
Assim, Francisco não chegou ao serviço de atendimento encaminhado
compulsoriamente pela justiça, mas por sua própria vontade, em busca de
atendimento psicológico, com queixas de dificuldade de sono, irritabilidade e
sentimentos de culpa que começaram após o relacionamento com sua afilhada.
Francisco admitiu que manteve relações sexuais com a sua afilhada (13 anos),
sobrinha de sua esposa. Segundo ele, os encontros com ela aconteceram sete vezes
e duraram cerca de um mês. Quando se referiu a essa relação com sua afilhada, ele
nunca usou o termo “abuso”, pois segundo suas afirmações, as relações sexuais
entre eles foram consentidas por ela.
Francisco tinha um semblante casando no inicio da entrevista. Apesar disso,
mostrou-se loquaz e cooperativo ao responder as perguntas, acrescentando
informações importantes sem que isso lhe fosse solicitado. Demonstrou
assertividade em todos os questionamentos que lhe foram dirigidos.
Caso Paulo
Paulo tinha 70 anos e no momento da pesquisa, residia com sua esposa, dois
filhos, uma filha, genro e uma neta em uma cidade do interior do estado. Paulo foi
acusado de abusar sistematicamente de sua filha então com 14 anos. Apesar de a
denúncia só ter acontecido alguns meses antes da entrevista dessa pesquisa, há
indícios de que abuso vinha acontecendo a alguns anos antes, pois pessoas
próximas

da

vítima

revelaram

que

ela

apresentava

comportamentos

hipersexulizados. Tais comportamentos, quando são verificados em crianças e
adolescente, são típicos de vítimas de abuso sexual (Intebi, 1998). Além disso, o
próprio acusado comentou que a vítima já havia fugido de casa duas vezes,
afirmando que não sabia o motivo de tal comportamento. Assim, as fugas podiam
ser as expressões de que algo em sua casa a afetava. Paulo negou que fosse suspeito
de abusar sexualmente de sua filha, afirmando que a acusação que pesava sobre ele

o ambiente familiar durante suas vidas. 16/2000 (2000).4 Procedimentos O projeto foi encaminhado e aprovado pelo Comitê de Ética da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. profissão e estado civil. 2. Nestas etapas do ciclo vital. a visão sobre as diferenças entre meninas e meninos. O recrutamento dos participantes ocorreu no Departamento de Genética da UFRGS. Para finalizar a entrevista de forma positiva. renda mensal. A equipe de pesquisa foi treinada antes de ir a campo para a coleta de dados. em acordo com as normas estabelecidas pelo Conselho Nacional de Saúde na Resolução n. envolveu aspectos teóricos.3 Instrumentos Foi utilizada uma Ficha bio-sócio-demográfica (Anexo B) com o objetivo de identificar os participantes. realizado semanalmente. 2. com crianças. iniciando com sua infância. Quase todos eles foram encaminhados compulsoriamente pela justiça ao Ambulatório do Departamento de Genética. Mostrou segurança ao responder todas as perguntas. principalmente. os sentimentos de empatia com as crianças. sob o protocolo de número 2006557. entre outros. tentou manipular as pesquisadoras na tentativa de conseguir saber qual era a opinião dela sobre seu comportamento. passando pela adolescência e vida adulta. até o momento atual. Este instrumento continha questões sobre idade. os direitos e as necessidades das crianças. Contudo. O treinamento.49 era de que usava a filha para aliciar outras meninas menores de idade com o objetivo de manter relações sexuais com elas. Investigaram-se suas visões sobre questões tais como: episódios positivos e negativos de suas vidas. escolaridade. Paulo aparentava estar disposto a responder as perguntas no início da entrevista. 196 (1996) e pelo Conselho Federal de Psicologia na Resolução n. uma entrevista semi-estruturada que investigou o modo como os participantes vêem as crianças. Ele se declarou inocente tanto de uma quanto de outra acusação. Além disso. os participantes foram questionados sobre suas relações com outras pessoas e. em vários momentos manipulou as falas de modo a não responder a várias questões. também. metodológicos e éticos. Utilizou-se. Apenas um deles chegou até esse . e como se percebem ao longo do ciclo da vida. foram acrescentadas perguntas sobre expectativas para o futuro (Anexo C).

e como se percebem ao longo do ciclo da vida (Anexo D). a partir da assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (Anexo A). Com um dos participantes a coleta de pode ser realizada em dois momentos. a Entrevista sobre o modo como os participantes vêem as crianças. Logo em seguida. Inicialmente. As entrevistas foram marcadas com antecedência e com quatro participantes. pois ele mostrou-se disponível para isto. . foi realizada. deu-se liberdade para que o participante escolhesse o momento de interrupção da entrevista. houve a explicação aos participantes sobre a natureza da pesquisa. posteriormente. O tempo reduzido para a coleta de dados (um único encontro) ocorreu em virtude das dificuldades de deslocamento dos entrevistados até o serviço de atendimento. Em todos esses casos. As entrevistas foram conduzidas pela mestranda e por um(a) aluno(a) de graduação. a coleta de dados ocorreu em apenas um encontro.50 serviço de livre espontânea vontade. Todas as entrevistas foram gravadas em áudio e posteriormente transcritas. já que diminuiu o risco de interpretações equivocadas que poderiam ser gerada pela presença de apenas um pesquisador. individualmente. aplicou-se a Ficha Bio-sócio-demográfica (Anexo B) e. deixando-os livre para participar. A presença de dois pesquisadores garantiu uma melhor discussão dos dados coletados. A duração média das entrevistas com cada um deles foi de duas horas e meia. Todos decidiram realizá-las sem intervalos.

adolescência. escola. Sonhos e Aspirações Ausência de Lembranças Positivas Relação com Crianças na Mesma Casa Respostas Positivas Definição de Si Mesmos e dos Pais Características Positivas Quando Crianças Lembranças Positivas e Negativas na Lembranças Positivas Escola Lembranças Negativas 51 . foi averiguada a visão que eles tinham de si mesmos ao longo de suas vidas. foram criadas categorias a posteriori (núcleo de sentidos) que foram articuladas na discussão com o referencial teórico. na qual se objetiva apreender tanto o conteúdo quanto a lógica de cada uma das entrevistas. Além disso. Tabela 1 Fases do Ciclo Vital dos Participantes Infância Pergunta Categoria Ser Criança na Família de Origem Pertencimento Positivo Lembranças Positivas e Negativas da Lembranças Positivas de Infância na Família Atividades. Utilizou-se a modalidade temática. adultez).CAPÍTULO III RESULTADOS E DISCUSSÃO Este estudo investigou a visão que abusadores sexuais possuem sobre as crianças. 2 e 3. Após essa primeira etapa. bairro) nos quais estiveram inseridos nos diferentes momentos de suas vidas (infância. A análise fundamentou-se no estabelecimento de categorias de acordo com os critérios adotados por Bardin (1979). as principais falas dos participantes foram identificadas e. analisando as relações estabelecidas com elas ao longo de seu ciclo vital. No decorrer da análise de conteúdo das entrevistas surgiram as seguintes categorias que foram esquematizadas na Tabela 1. A análise focalizou na compreensão dessas relações nos ambientes (família. posteriormente. sobre Análise de Conteúdo.

52
Desempenho

Desempenho Escolar

Regular

com

Evasão Escolar
Bom Desempenho sem Evasão
Escolar
Relações com os Pares na Escola

Relações Positivas

Descrição das Professoras Sobre os

Aluno Inteligente/Agitado

Participantes

Aluno Tímido, mas
Participativo
Aluno nem Participativo nem
Quieto

Lembranças Positivas e Negativas de

Lembranças Positivas

Outros Espaços na Infância
Relação com os Pares em outros

Relações Positivas sem

Espaços na Infância

Descrição de Conflito
Relações Positivas com
Descrição de Conflito

Ocupação do Tempo na Infância

Atividades Lúdicas e de
Trabalho sem Estudo
Atividade de Trabalho e de
Estudo
Atividades Lúdicas e de Estudo

Brincadeiras Preferidas

Jogos e Brincadeiras com
Objetos
Adolescência

Pergunta

Categoria

Descrição de Si Próprios

Características Positivas
Características Negativas
Adolescente Normal

Pessoas com as Quais Convivia na
Adolescência

Apenas com a Família de
Origem
Com a Família de Origem e a
Companheira
Com a Família de Origem e
com Outras Pessoas

Relação com as Pessoas com as Quais
Convivia

Relações Positivas

53
Ocupação do Tempo Durante a

Trabalho e Atividades de Lazer

Adolescência

Trabalho e Encontro com os
Amigos
Trabalho e Estudo

Episódios Positivos e Negativos
Durante a Adolescência

Lembranças Positivas
Lembranças Negativas
Ausência de Lembranças
Negativas
Adultez

Pergunta

Categoria

Subcategoria

Auto-percepção

Temperamento

Temperamento
positivo

Auto-estima

Auto-estima positiva

Traços Morais

Pensamentos e ações
corretas

Outros Traços

Pessoa frustrada
Ausência de defeitos

Formação da Família e
Relação com Ela Antes e
Depois da Denúncia

Mudanças Familiares Após
a Denúncia

Desejos para o futuro

Respostas de Desesperança

Manutenção das Relações
Familiares após a Denúncia
Respostas Relacionadas à
Situação de Acusação de
Abuso Sexual
Desejo de Paz e
Tranqüilidade
Planos de Realização
Pessoal

Relação da História de
Vida com a Acusação de
Abuso

Ausência de Conexão entre
a História Vivida e a
Acusação

54
Tabela 2
Visão sobre as Crianças
Pergunta

Categoria

Subcategoria

O que é Ser Criança

Respostas Politicamente

Visão positiva e

Corretas e/ou

romanceada da

Estereotipadas

infância e das crianças
Incompletude das
crianças em relação
aos adultos
Infância como fase
importante para as
demais

Quem É uma Criança

Definição Cronológica

Definição cronológica
por gênero

Diferenças Entre

Diferenciação por

Crianças e Adolescentes

Identificação como Fase
de Transição do
Desenvolvimento em
Geral
Diferenciação por
Rebeldia
Diferenciação por
Autonomia
Diferenciação por
Autonomia de Pensamento
Diferenciação por Gostos
e Interesses

Diferenças Entre

Diferenciação por

Crianças e Adultos

Responsabilidades
Diferenciação por Deveres

Estudo como dever
para as crianças
Pequenos trabalhos
domésticos como
deveres para as crianças

55 Obediência como dever para as crianças Diferenciação por Atividades Lúdicas Diferenças da Infância Diferenciação por Necessidade de objetos para as Demais Fases Necessidades materiais Necessidade de alimentação Necessidade de carinho Necessidade de ser prontamente atendida Diferenciação por Direitos Direito de não trabalhar e de estudar Direito de higiene Direito de alimentação Direito de saúde Direito de afeto/cuidado Direito de não ser obrigado a ter deveres Direito de cuidado recebido/devido por adultos Prioridade de direitos Similaridade por Problemas Enfrentados Processos Importantes na Transição NãoTransição da Infância Cronológica para as para a Demais Fases Adolescência/Adultez Definição por Contestação para Transição da Infância para Adolescência Definição por Mudanças .

56 Biológicas na Transição de Criança para Adolescente Definição por Responsabilidade da Infância para a Adultez Definição Cronológica com Base na Adoção das Responsabilidades Jurídicas na Transição da Infância para a Adultez Definição por Entrada na Maioridade na Transição da adolescência para a Adultez Transformação de um Autonomia Menino em Adolescente/Adulto Mudanças Biológicas Contestação Definição Cronológica Transformação de uma Responsabilidade Menina em Mudanças Corporais Adolescente/Adulta Semelhantes as dos Meninos Perda da Virgindade Diferenças e Diferenças por Semelhanças Entre Atividade/Passividade Meninos e Meninas Diferenças por Proteção/Cuidado Diferenças por Brincadeiras com Aspecto Sexual Semelhanças Entre Meninos e Meninas .

57 Empatia Respostas Pragmáticas Respostas com Sentimentos Positivos Respostas de Angústia Pessoal Respostas Empáticas Relação Ideal entre Sentimentos e Adultos e Crianças Comportamentos Positivos Relação de Cuidado Respostas Sobre a Moralidade .

optou-se por descrevê-las antes para uma melhor compreensão dos resultados. As respostas foram agrupadas na categoria pertencimento positivo. . por exemplo). A partir deste ponto serão relatadas as experiências infantis dos participantes deste estudo. na escola e em outros espaços (bairro. Ser Criança na Família de Origem A seguir serão relatadas as respostas obtidas em relação à pergunta “Como era ser criança nessa família?”. Serão descritas as experiências nos microssistemas familiares.58 Tabela 3 Caracterização das Vítimas Pergunta Categoria Sexo das Vítimas Vítimas do Sexo Feminino Idade das Vítimas Vítimas Crianças Vítimas Adolescentes Aparência Física das Vítimas Beleza da Vítima Recusa em Avaliar a aparência da Vítima Ausência/Presença de Deficiências Ausência de Deficiências Atitudes Características Positivas Características Negativas Vínculo com o Abusador Relação de Proximidade Entre Vítima e Perpetrador Qualidade das Relações Entre os Participantes Relações Positivas e as Vítimas Relação de Vigilância Envolvimento Específico da Vítima na Envolvimento da Vítima pela Denúncia Ação de Terceiros Envolvimento da Vítima pela sua Própria Ação Envolvimento pela Ação do Participante Infância Embora a investigação sobre as fases dos ciclos vitais esteja descrita na entrevista após as perguntas sobre a visão acerca das crianças.

2004). são descritas as respostas á pergunta: “Fale-me sobre sua infância. Flávio (37 anos) mencionou que “Era bom. jogava bolita. era bom. ausência de lembranças negativas. 37 anos). boa que eu tive. Com essas respostas. 70 anos). eu considero que era bom” (Marcos... a gente tinha horário.. Outro lembrou que “Boas? Brincava. assim. um deles relatou que “Ah. Sonhos e Aspirações Ao serem indagados sobre as lembranças boas de sua infância. sabe” (Francisco.) nunca faltou. né?”. ausência de lembranças positivas. Este dado parece contrastar com os dados obtidos na revisão de literatura. As falas dos participantes foram organizadas da seguinte maneira: lembranças positivas de atividades.. Era bom” (Flávio. né.. jogava bola.59 Pertencimento Positivo Todos os participantes responderam a esta questão usando expressões positivas. Os sonhos de infância foram relatados por um deles. Isso aí” (Marcos. nunca faltou carinho. sendo relembrados como um aspecto positivo de sua infância. 37 anos) . nunca faltou nada pra nós. era regrado. 38 anos). assim de. Um deles relatou “sempre quis ser piloto de avião” (Flávio. quase todos os participantes mencionam que uma lembrança boa seria “Lembrança que eu me lembro.. que ser criança em sua família “Era bom. eu. E eu era uma criança bem feliz. pois se sentiam prejudicados pelas violências sofridas (Garret. que lembranças você tem de sua infância na sua família?”.. tempo suficiente trabalhando junto com meus pais” (Paulo. nota-se que os participantes avaliaram positivamente a sua condição de criança em suas famílias de origem. apesar que meus pais tinham dificuldades. Flávio (37 anos) recordou que “Acho que a lembrança boa da minha infância foi a minha primeira bicicleta. Lembranças Positivas e Negativas na Família Nesta parte.. 37 anos). Finalmente. pois o único estudo ao qual se teve acesso sobre experiências infantis de abusadores sexuais mostra que eles desejavam sair de suas casas assim que isso lhes fosse possível.. de dar coisas pra nós. por exemplo.. sonhos e aspirações. lembranças negativas e ausência de lembranças negativas... Levantava para ir pro colégio voltava. Lembranças Positivas de Atividades. Um deles comentou. 38 anos). né? (. no tempo que da minha infância junto com meus pais.. comida. tirava pra brincar ou então chamava outro pra brincar.

Essa é que era a parte mais difícil por que tinha que apanhar.) E a lembrança boa. eu não consigo me lembrar nenhuma agora. Marcos não lembrou de nada que em sua opinião.. 73 anos).. 37 anos) Os outros enfatizaram que não conseguiam lembrar de episódios negativos. Alguns dos participantes desse último estudo relataram que suas infâncias foram tão difíceis e violentas. 38 anos)... que seus principais sonhos eram sobreviver às violências sofridas e sair da casa de suas famílias.. era fim de mês e ele tinha ido receber ... Os participantes desta pesquisa aparentaram ter vivido uma infância feliz e tranqüila em suas famílias. me surravam. outras coisas.. né?. que descreveram uma infância turbulenta. Só que daí ele pegou o dinheiro e gastou no jogo. né. essa resposta só foi dada depois que a pesquisadora questionou especificamente se as surras que o participante sofria não era algo ruim que ele recordava da infância. Lembranças Negativas Quando questionados sobre as lembranças ruins. Espontaneamente. né? Quando fazia arte. nós tava já sem as coisas em casa. pois “na época todos os . com vara (...60 Ausência de Lembranças Negativas “Na minha infância coisas ruins eu não me lembro. O caso de Marcos (38 anos) merece ser comentado.. Jogou todo o dinheiro e chegou em casa sem dinheiro. né.. no momento” (Francisco. nenhum. diferentemente dos participantes do estudo de Garret (2004). (Francisco. fosse ruim. Contudo.. assim. as surras sofridas não foram lembradas como algo negativo. Uns verdão no corpo. pois ele mencionou: Aí eles me castigavam.. na época todos os pais faziam isso. Então essa é a lembrança ruim que eu tenho assim. que tenha me marcado na minha infância (. Era com vara. né? Surravam com cinto.. que ele tinha ido receber.. Ausência de Lembranças Positivas Apenas um deles afirmou não recordar nenhum episódio positivo em sua infância: “Uma lembrança boa . na época. (Marcos. 38 anos) Contudo... apenas um dos participantes recordou que em um dado momento lembrança ruim: . Vivia no campo” (Osmar. Apenas um deles revelou que sofria abusos físicos “umas duas vezes por mês” (Marcos. De alimentação. Fui muito feliz quando menino. com cinta. Os sonhos dos participantes daqui não se relacionaram em qualquer medida ao desejo de ser ver livre de maus-tratos. É a surra. quando fazia algo de errado.)Ficava. 37 anos). um dia meu pai chegou em casa...

Era só quando eu fazia algo de errado”. Esse que era da. Relações com Crianças na Mesma Casa Nesta seção. sem que eles assumissem essa relação de responsabilidades com seus irmãos. A única referência encontrada sobre a convivência de abusadores com outras pessoas de sua infância foi o de Garret (2004) que faz apenas uma pequena referência sobre a relação entre irmãos. Nessa pesquisa.” (Francisco. Que era quase da minha idade. primos. por exemplo. serão expostas as respostas sobre como era a relação dos participantes com crianças (irmãos. não foi observado esse tipo de relação com os irmãos. Todos eles (irmãos).. assim. ora era de responsabilidade. etc.” (Paulo. Os participantes da pesquisa de Garret relataram que suas relações com os irmãos. 38 anos).. A relação dos participantes com as crianças da mesma casa pode ser descrita como saudável.) que viviam na mesma que eles durante a infância. a gente brigava direto. as surras ocorriam “só de vez em quando. a gente brigava direto. As respostas foram organizadas nas categorias respostas positivas. minha avó. as surras eram mais um dispositivo de correção da sua conduta do que atos de violência. ora eram distantes. mas é normal. 37 anos).. assim. Eu e meu irmão. Respostas Positivas As relações com crianças da mesma na casa na infância também foram descritas de maneira positiva. 70 anos) Respostas Ausentes Um participante revelou que “só morava eu.61 pais faziam isso” e além disso. 73 anos).. O outro enfatizou que “Normal. muito bem” (Osmar. quase da minha idade. Desde guri se. respostas incoerentes e respostas ausentes. Assim. . Paulo (70 anos) insistiu que “queria perguntar pra doutora se senhora sabe do que tão falando de mim. meu tio e minha bisavó” (Marcos. que sempre se deu “Muito bem. 38 anos). Respostas Incoerentes Quando indagado sobre essa questão. (Marcos. Um deles revelou. Eles citaram que seus pais delegavam a eles as tarefas de cuidados com os irmãos mais novos. Tudo normal.

né? Por mais velho que esteja. já que esta essa era a percepção que os outros tinham sobre eles. assim como seus pais. se tornou . Eles vão entender que tu cresceu. Definição Positivas Os participantes definiram a si próprios como crianças usando expressões positivas. 73 anos).62 Definição de Si Mesmo e dos Pais Quando Crianças Serão descritas. 70 anos) Além disso. o pai e mãe dão carinho. o carinho. Mas. ao mesmo tempo um deles relatou que era uma criança “regrada e (que) obedecia aos pais” (Flávio. A autodefinição foi. Eles diziam que eu era trabalhador e educado” Além disso. Garret informa que eles se atribuam definições como crianças estúpidas e idiotas. muito arteiro”. mas ele se recusou afirmando “Não sei mesmo!” (Marcos. 37 anos). As respostas sobre como os pais dos participantes os descreveriam. sobretudo.. As respostas foram organizadas em duas categorias: definições positivas e respostas ausentes ou inadequadas. Respostas Ausentes ou Inadequadas Um dos participantes alegou não saber como responder a esta pergunta. nesta seção. Segundo Paulo (70 anos) seus pais falavam sobre ele da seguinte maneira: “Vou dizer o que eu me recordo. 70 anos) e que “brincava e trabalhava” (Paulo. sabe?” (Francisco. 37 anos). Foi insistido pra que ele desse alguma informação. 37 anos). ou como uma “criança carinhosa com meus pais” (Paulo. de “crianças normais” (Flávio. feliz. A coerência entre as respostas mostra que os participantes se percebiam de forma positiva. Francisco (37 anos) declarou que seus pais o viam como “Arteiro. um outro relatou que seus pais lhe descreveriam como “Uma criança normal. não me recordo de muita coisa. 38 anos). né? Sempre vão chegar e te tratar como se tu não tivesse crescido. Definiram-se como “bem feliz.. Os resultados encontrados no estudo de Garret (2004) sobre a autodescrição negativa e pejorativa de abusadores sexuais não são corroboradas nesta pesquisa. é sempre. 37 anos). as respostas às perguntas: “Como você acha que seus pais lhe descreveriam como criança?” “Fazendo de conta que voltássemos no tempo: Olhe pra você como criança e me descreva esta criança?”. quieta” (Osmar.. falaram sobre si como uma “criança levada” (Francisco. foram semelhantes as que os entrevistados deram sobre eles mesmos. Um outro forneceu uma resposta incoerente: É que na verdade para pai e mãe a gente nunca cresce.

A ausência de lembranças A quase total ausência de relatos de maus-tratos na amostra deste estudo merece ser comentada. A pesquisadora não a repetiu para uma melhor compreensão do participante. Contudo. Widon & Ames. Assim. Eles apontam ainda que ambos os maus-tratos são mais freqüentes em pessoas que cometem abuso sexual contra criança do que na população me geral. Em uma pesquisa realizada por esses autores. Há que se considerar que a quantidade de participantes nesse estudo foi pequena e pode não ser representativa da população de abusadores. não houve diferença significativa entre aqueles que haviam sido vitimizados física ou sexualmente na infância.. Isso pode ter acontecido por várias razões. a descrição de momentos bons na infância dos participantes da pesquisa conduzida por ela também foi vaga. Assim. embora ilustrativos. com 64 abusadores e 33 criminosos não-sexuais. De maneira geral. pois. pode-se notar que a infância desses homens. 2005). limitavam-se a repetir o que já havia sido dito sem realmente trazer novos dados e lembranças mais profícuas. 2001). 1994) indicam que sofrer algum tipo de abuso (não apenas o sexual) é importante preditor para o cometimento de abusos sexuais contra crianças. mas pra eles tu vai continuar sendo criança. em suas famílias. ao analisar a estimativa de crianças (30%) que já sofreram alguma espécie . o relato dos episódios positivos parece vago. Contudo. que podem estar associados ao cometimento de certos delitos (Lee et al. os participantes não foram capazes de ser mais específicos. Ela afirma que mesmo diante de sua “insistência” nas perguntas sobre tais episódios. No presente trabalho não se encontrou esse tipo de resultado.. Não foram encontradas estatísticas sobre a quantidade de homens que já praticaram algum tipo de abuso sexual contra crianças. a ocorrência de maus tratos na infância parece ser um fator comum nas infâncias de homens que cometem atos de abuso sexual. Pelo menos eu acho assim. estudos (Lee et al. Widon e Ames (1994) comentam que em uma pesquisa com homens que cometeram abusos sexuais contra crianças. é percebida ou descrita por eles como feliz e saudável.63 adulto e tal. 37 anos) Flávio parece não ter compreendido a pergunta. a vitimização sexual do abusador na infância esteve estaticamente associada a sintomas de pedofilia durante a adultez. devido à subnotificação dos casos (Rich et al. (Flávio. 2001. Ao serem solicitados a descrever com mais profundidade suas lembranças. não poderiam ser generalizados para a população total de abusadores. Vai ser eterna criança. os resultados desta amostra. Segundo Garret (2004). Certos tipos de abuso podem levar ao aparecimento de desordens psiquiátricas.

não houve contato mais prolongado da equipe de pesquisa com os participantes. Silva. 73 anos) Lembranças Negativas Francisco de 37 anos comentou que um episódio ruim que eles se recorda da época da escola foi “Aquela vez que eu fui expulso da escola.2002) pode-se considerar que o número de homens que cometeram algum tipo de abuso certamente deve ser maior que os cinco casos detalhados neste estudo. lembranças negativas e respostas ausentes. A não-obtenção de dados dos possíveis abusos sexuais sofridos na infância impossibilitou também a investigação de como esta situação foi sentida pelos participantes. (2002). essa revelação não foi feita em uma entrevista inicial. o que pode ter dificultado a obtenção desse tipo de dado. As respostas foram classificadas como lembranças positivas. Francisco. Flávio (37 anos) falou que: Um episódio ruim que aconteceu na escola que eu lembro foi uma menina que nós ‘tavamos jogando vôlei e a gente se pexou. campeonatos que a gente ganhava.. Neste estudo. 37 anos). Osmar mencionou que gostava da escola pois “Gosto.. Só dos jogos que a gente jogava. por sua vez relatou que “Ia no planetário e era muito legal. 37 ano). Só de episódio bom na escola. as entrevistas aconteceram em apenas um momento com cada um dos participantes. apenas após um contato prolongado com a terapeuta. né? Jogava basquete” (Flávio. né. No estudo de Intebi (1998) que envolveu trabalho clínico e de pesquisa.64 de abuso sexual (Picazio. 1998. A gente jogava. Portanto. Lembranças Positivas e Negativas na Escola Questionou-se aos participantes que lembranças ele tinham do ambiente escolar. Lembranças Positivas Flavio (37 anos) comentou que os momentos positivos que vivenciou na escola foram “Ah! Episódio bom na escola. Daí eu cai no chão assim. né. ela pôde verificar que todos os homens que abusaram de crianças relataram terem sido abusados em suas infâncias. 37 anos).. com exceção de um dos casos (o de Osmar). A minha professora era muito querida. Porque eu briguei com um colega” (Francisco. Eu gostava muito de ir” (Francisco. se ela seria encarada como natural por parte dos participantes como afirmam Lambie et al. Outro aspecto importante foi o tempo de acompanhamento dos casos. gostava. Sempre gostei de estudar. que jogava em times.. Assim.” (Osmar. e quando .

Isso aí só olhando em boletim ou perguntando pra minha mãe. não vou mais estudando’ E aí eu larguei. Sai chorando só. assim. Mas eu sai chorando só (Flávio. na verdade o que aconteceu é que eu desisti de estudar. porque eu não vou ter certeza. 38 anos) freqüentou por pouco tempo e outro (Paulo. assim. na . então havia problema. Ela pediu desculpa. mas eu me encostava na parede e ai não podiam me bater”. né? Sai da quadra e fui pra lá. minha família era a única nesse lugar que era. 37 anos). (Osmar. Um deles (Francisco. Osmar (70 anos) também comentou um episódio ruim da escola afirmando que “nós somos adventistas. tô perdendo tempo estudando. Não.. que eu me lembre. eu rodei... Não tenho certeza. Mas parece que eu rodei uma ou duas vezes. Mas. Eu levei um tapa no rosto e daí eu sai. tô ganhando meu dinheiro. no consenso que eu cheguei e disse pra minha mãe: ‘eu tô trabalhando. nas quais se recordavam de brigas e de sentirem pouco capazes em relação às atividades acadêmicas.. Não quis mais ir. daí em seguida a gente se acertou.. Desempenho Regular com Evasão Escolar O desempenho escolar dos participantes variou. um tapa no rosto.. por aí (Francisco. Respostas Ausentes Um participante (Marcos. 37 anos). 70 anos) não chegou a freqüentar a escola e por isso não tinham recordações importantes sobre a escola. As respostas foram classificadas nas categorias: desempenho regular com evasão escolar. Eu entrei. eu não me lembro. eu rodei uma ou duas vezes. Desempenho Escolar O desempenho escolar dos participantes também foi questionado.65 levantei ela me deu um tapa. então o resto era católicos. eu rodei. Garret (2004) relata que os abusadores entrevistados em seu estudo revelaram ter mais lembranças escolares negativas. na quarta série.. Acho que eu tinha uns 13. Ah. chegando a concluir o ensino médio quando tinha cerca de 24 anos: . Não foram encontrados estudos específicos que versassem sobre o ambiente escolar de abusadores sexuais infantis.. Um outro não chegou a ter reprovações. 37 anos) teve reprovações e um posterior abandono da escola: Olha. mas também se evadiu do espaço escolar. Contudo. bom desempenho sem evasão escolar e respostas ausentes. Não. Na escola umas vezes os guris se embestericavam pra me bater. 70 anos).

Flávio. crianças que não eram. leio muito” (Osmar. né? (Flávio. Francisco (37 anos) disse que possuía amigos na escola com os quais se relacionava bem. 70 anos). E naqueles 4 anos que convivi. quando eu me formei no curso de comercial. estes dois participantes não possuem recordações do espaço escolar. Mas eu nunca rodei. conseqüentemente. Relações com os Pares na Escola Foi questionado também como eram as relações dos participantes com seus amigos na escola. fui bolsista em colégio particular. Contudo. Por que eu estudei. Bom Desempenho Sem Evasão Escolar Apenas um deles completou o ensino médio no período adequado: “Terminei meus estudos no tempo certo. 37 anos). 37 anos).. ainda gosto. A . havia brigas entre a sua turma e outras crianças: “Ela (relação) sempre foi saudável. Marcos (38 anos) freqüentou a escola por pouco tempo e Paulo (70 anos) não chegou a estudar. Nota-se que os participantes deste estudo apresentaram além de uma baixa escolaridade.. Relações Positivas Todos os participantes que freqüentaram a escola relataram que tinham amigos no espaço escolar. Depois dos 16. apresentando. na escola militar” (Osmar. Por isso.. É.. 25. que eu comecei a fazer o curso. eu praticamente fui parar de estudar. Osmar também foi o único participante que relatou perceber o estudo como uma atividade prazerosa: “Era normal. Uma convivência saudável sempre. quando eu parei.. eu estudei no colégio marista.. Este fator está diretamente ligado a questão da classe social dos participantes. uma escolaridade escassa.66 Normalmente eu fazia exame. era normal. 73 anos). pois se sabe que pessoas provenientes da classe trabalhadora têm pouco acesso aos bancos escolares. 37 anos esclareceu que “Alguns eram da escola. convivi muito bem com eles” (Flávio. Então eu não era um aluno muito estudioso.. nem era um aluno totalmente desinteressado. Respostas Ausentes Como já foi comentando anteriormente. outras crianças. As respostas se organizaram em duas categorias: relações positivas e respostas ausentes. a gente sempre brigava muito. lá pelos 24. mas com pessoas. uma história escolar de pouco sucesso.. Sempre gostei de estudar.

eu decorava e dava a poesia. Atuar no palco isso eu fazia. 37 anos). Me diziam para fazer um poesia. constata-se novamente que as respostas dos participantes do presente estudo não corroboram os dados traçados por Garret.. Me dava muito bem. Que eu tinha condições de pá e tal”. assim. Pode-se afirmar que os participantes possuíam relações saudáveis com os pares na escola. Aluno nem Participativo nem Quieto Flávio (37 anos) disse que “Acho que eu não era muito participativo. Descrição das Professoras sobre os Participantes Também foi perguntando aos participantes “Como você acha que sua professora lhe descreveria?”.Fazia o que eles me mandavam. 37 anos). Jogávamos bola” (Osmar. Eu era tímido. brigavam com seus colegas e não possuíam confiança em suas relações de uma maneira geral. né e tal.. da primavera. Mas. nem muito quieto também” (Flávio. 37 anos). Assim.67 gente brigava muito” (Francisco. Então mas fazia. As respostas foram organizadas em três categorias: Aluno inteligente e agitado. assim” (Osmar. Diziam que eu era muito agitado. 73 anos). mas tinha. que eu era muito inteligente. Daí dava para recitar uma poesia. então havia participação nas comemorações pátria. Aluno Tímido. Aluno Inteligente e Agitado Um dos participantes disse que em opinião da professora sobre o aluno que ele foi na infância certamente seria “É. o que caracterizaria relações pouco íntimas e pouco profícuas. ele era um aluno participativo: Mas eu sei muito bem que até agora. (Francisco. 73 anos). mas com uma certa timidez. aluno tímido e participativo. Apesar de não fazer referencia específica ao ambiente escolar. mas Participativo Osmar (73 anos) relatou que apesar de sua timidez. sempre fui tímido. Garret (2004) em seu estudo sobre as experiências infantis de abusadores sexuais de crianças verificou que seus participantes sentiam-se isolados. aluno nem participativo nem quieto e respostas ausentes. sempre me acharam muito inteligente. . não era muito aberto. Outro comentou também que “Tinha poucos.

As respostas foram organizada em uma única categoria denominada lembranças positivas. as lembranças positivas foram destacadas pelos participantes. água tudo que dava a firma. pro cinema direto. Um deles enfatizou. Lembranças Positivas Todos os participantes relataram apenas episódios positivos no bairro. Desta forma. praticamente uma cidade pequena. que “Nessa época. Era bastante gente. Nessa firma havia um acampamento para as famílias que a própria firma dava. Não havia gente desocupada. 73 anos).68 Respostas Ausentes Como já foi dito. Mais de 40” (Francisco.. dado este oposto àqueles encontrados no estudo de Garret (2004). 38) e uma última ao gosto pelo trabalho na lavoura. padaria. Então a gente se reunia todo mundo e a gente ia pra Redenção. E havia uns ônibus que levavam para a capital (Osmar. luz. Mais uma vez. pois os desta última pesquisa relataram um vida conturbada. nota-se que os participantes relataram características tanto positivas (inteligente. Marcos (38 anos) e Paulo (70 anos) não possuem lembranças do espaço escolar. assim. participativo) e outras que não podem ser classificadas nem como negativas nem como positivas (nem quieto nem agitado. Osmar (73 anos) também disse: Era tudo tranqüilo. por exemplo. 37 anos). serão relatadas as respostas dos participantes sobre as lembranças positivas e negativas sobre outros espaços da infância. Nesta questão. verificou-se que eles também não eram adjetivados com características pejorativas e depreciativas como ocorreu aos participantes do estudo de Garret (2004). perto da Oswaldo Aranha ali. nessa época eu morava aqui no bairro Santana. Então todos que moravam ali eram filhos de trabalhadores. Então tínhamos casa. Tinha escola e coisa assim. tímido). . Lembranças Positivas e Negativas de Outros Espaços na Infância Nesta seção. com a presença de muitos conflitos e violências.. Duas respostas se refeririam as “brincadeiras” (Flávio. pois não houve recordações de episódios negativos. ali pra Oswaldo Aranha. pois o primeiro freqüentou este espaço por pouco tempo e o segundo não chegou a estudar. 37 anos e Marcos. E tinha mercado.

né. Nota-se que quase todos os participantes se refeririam aos amigos sem relatar nenhuma história de briga ou conflito. Relações Positivas sem a Descrição de Conflitos Nesta categoria foram organizadas as respostas que descreviam apenas os aspectos positivos das relações com outras crianças que não pertenciam nem ao espaço escolar. Um dos participante salientou: Os mesmos que são hoje. tinha amigos. esses conflitos foram classificados algo “normal” (Marcos. quer dizer a gente sempre foi super amigo desde criança.69 Relações com os Pares em Outros Espaços Aqui são descritas as relações com crianças que não pertenciam nem ao espaço escolar e nem ao ambiente familiar durante a infância. De maneira geral. A gente acordava. 73 anos). Os mesmos amigos que foram na minha infância. Outro disse que havia um amigo especial com a qual ele estava em todos os momentos: “Porque ele tava sempre junto. Alguns (Flávio e Francisco. já se procurava. 37 anos). Desde criança até hoje. 38 anos). pois os participantes do estudo conduzido por ela relataram relações pouco íntimas e conflituosas com as pessoas de uma maneira geral durante a infância. se telefona (. Contudo. este dado está em desacordo com os achados que Garret (2004). eu tinha amigos. . As respostas foram classificadas em duas categorias: relações positivas sem a descrição de conflito e relações positivas com descrição de conflito. Essas coisas assim.. Fica vadiando na esquina e tal. já saía junto pra rua. nem ao ambiente familiar. pode-se afirmar que as relações com os amigos podem ser classificadas como saudáveis. tinha amigos sem dúvida.. 37 anos). ambos com 37 anos) enfatizaram que algumas amizades da infância permaneceram até a vida adulta. por sua vez. salientou que “Amigo a gente sempre tinha.. Relações Positivas com Descrição de Conflito Apenas um dos participantes salientou a presença de conflitos entre ele e outras crianças. É o padrinho da minha filha” (Francisco. Novamente. a gente foi criado junto e até hoje a gente se fala. os amigos era de trabalho”. Conserva até hoje. pra. Outro comentou que “Sim. andar de skate. No meio de tudo isso. Ele é meu compadre. Paulo (70 anos). todos.) É. Brincava” (Osmar.. os mesmos amigos que eram da infância continuam ate hoje (Flávio. andar de bicicleta. Mas.

Segundo Francisco: “(A partir dos 11 anos) Trabalhava meio período e estudava. dividiam seus tempos entre as brincadeiras. Não gostava muito de estudar. Cuidava. Atividades Lúdicas. o que parece ter “encurtado” sua infâncias e .. o estudo e o trabalho remunerado. ela (a avó) pedia pra mim ver lenha pra ela que era tudo fogão a lenha. 38 anos e Paulo. Segundo Paulo (70 anos): “Do jeito que eu tava falando. apenas atividades de estudo e atividades de trabalho e de estudo. por sua vez disse que “Até uma altura era brincava. essas coisas” (Marcos. sem exercer nenhum trabalho remunerado. Domingo. 38 anos). né? Fora brincar e estudar”. daí depois quando eu fiquei mais grandinho daí era mais era trabalhar mesmo.” Marcos (38 anos). e brincava. Osmar comentou que “Nenhuma outra atividade. só fui começar a estudar mesmo na adolescência” (Francisco. Flávio (37 anos) também relatou que “Eu trabalho desde os doze anos de idade.. se não tivesse um serviço apertado. a gente ia na casa do vizinho de um tio.. As respostas foram classificadas nas categorias atividades lúdicas e de trabalhos sem estudos. 70 anos) afirmaram que seu tempo na infância era dedicado ao trabalho remunerado e as atividades lúdicas.. de quem fosse. As respostas dos dois participantes sugerem que eles enfrentaram uma rotina rígida de trabalho na qual não havia tempo suficiente para as brincadeiras.70 Ocupação do Tempo na Infância Aqui são descritas as respostas à pergunta “Como você ocupava seu tempo na infância?”. Atividades Lúdicas e de Estudo Apenas um dos participantes ressaltou ter apenas estudado e brincado durante a infância. né? Brincar. 73 anos).. aí eu ia quebrar lenha pra ela. Quase todos eles se referiram ao trabalho como uma forma de ter mais responsabilidades. As atividades laborais dos próprios participantes é um ponto que necessita ser um pouco mais discutido. Atividades Lúdicas e de Trabalho sem Estudo Dois dos participantes (Marcos. Varria a casa também pra ela. de Estudo e de Trabalho Dois dos participantes (Flávio e Francisco ambos com 38 anos) afirmaram que durante a infância. Só estudava e brincava” (Osmar. 37 anos).

Comecei a trabalhar com 11 anos de idade. né. adolescente passa a ser adulto a partir do momento que. No meu caso. determinada pelas experiências mais concretas.. serão descritas as respostas á pergunta “Quais eram suas brincadeiras preferidas?” As respostas foram organizadas nas seguintes categorias: Jogos e brincadeiras com objetos como bola. as respostas dadas divergem dos dados encontrados na literatura. 37 anos e Osmar 73) citaram que gostavam de “jogar bola”.. sem trabalhos e responsabilidades.. Brincadeiras Preferidas Nesta parte. completa a maioridade. né. teoricamente.. Para exemplificar. 37 anos).. A infância seria uma época feliz. Jogos e Brincadeiras com Objetos Dois dos entrevistados (Flávio. né. já me autosustentava e. Assim. Contudo. Flávio também comentou que “jogava basquete”. 37 anos é emblemática: Ah..Marcos (38 anos) disse “Andar de bicicleta eu gostava”.. não foi dessa maneira. Osmar (73 anos) também comentou que “Brincava de bolita”. por sua vez.”. Mas pra mim acho que a pessoa. perante a sociedade. eu já trabalhava. enquanto na prática ser criança acontece de uma outra maneira. as infâncias deles próprios. então comigo não foi assim. a entrada no mundo do trabalho e das responsabilidades parece ser um aspecto prático que define a mudança de criança para adulto ou para adolescente.. brincar com skate/bicicleta e resposta incoerente. já que eles relatam que tornaram-se adultos mais cedo. E. Pra mim. As . esse encurtamento da infância a fala de Francisco. Então com 17 anos eu já tinha família. bolinhas de gude. essas coisas assim. afirmou que “Sempre gostei de bicicleta.71 adolescências. Mais uma vez. assinei carteira com 15 anos. Em suas falas sobre o que é ser criança ficou visível uma concepção ideal sobre as crianças e sobre a infância. Esse tipo de afirmação fornece pistas de que em nível abstrato as respostas são dadas de uma maneira idealizada. Foi um pouco diferente (Francisco. pois segundo Garret (2004) a infância dos participantes em seu estudo foi atravessada por outras atividades de responsabilidade que não ao trabalho como o cuidado com a rotina dos irmãos mais novos ou ser responsável pelo bem-estar de suas irmãs. No meu caso antes de eu fazer 18 anos eu já tinha família. pois exerciam atividades remuneradas desde muito cedo. Francisco (37 anos). não foi como estas descritas nesse estudo. de skate.

Na escola. ou um histórico escolar de pouco sucesso. Pois. relembrando majoritariamente episódios positivos em relação a ela. família e bairro) foram construídas de maneira saudável. adolescente normal e respostas ausentes. os participantes possuíam um bom auto-conceito de si. A baixa escolaridade se relaciona mais diretamente a classe social da qual esses homens participam. . e por isso. Disseram também que se dava bem com os irmãos e não comentaram nenhum episódio de vitimização acontecido no ambiente familiar. também. As lembranças no bairro também foram majoritariamente positivas. sem a presença de episódios de violência.72 brincadeiras descritas por eles dão a impressão de uma infância comum e tranqüila. sabe-se que pessoas provenientes da classe social com baixo poder aquisitivo possuem um acesso restrito aos bancos escolares. verificou-se que as relações estabelecidas nos microssistemas (escola. A baixa escolaridade dos participantes e uma história escolar de pouco sucesso foi constatada neste estudo. Descrição de Si Próprios Quando Adolescentes A seguir serão descritas as respostas quando se questionou “Fale de você quando adolescente”. As perguntas sobre a infância tinham como objetivo analisar que avaliação os participantes faziam dela. Esse último dado indica que. Há que se considerar que esta não deve ser uma característica associada ao perfil de homens acusados de cometer delitos sexuais contra crianças. Adolescência A partir desse ponto. Assim. Verificou-se que eles possuem um sentimento de pertencimento positivo em relação a família. As relações com outras crianças nesse espaço. afirmaram que seus pais os descreviam de maneira positiva quando crianças. apresentam poucos anos de estudo. serão descritos alguns aspectos sobre a adolescência dos participantes. As respostas se organizaram em três categorias: Características positivas. em suas infâncias. Além disso. as relações com os pares também foram descritas de maneira positiva. características negativas. Também deram adjetivos positivos a si mesmos quando descreveram-se como crianças.

A resposta ausente no caso de Osmar ocorreu devido ao seu comportamento manipulador que tinha por objetivo discutir apenas os aspectos relacionados com a denúncia. Diversão. evadindo-se da resposta. que eles não possuíam uma visão pejorativa e depreciativa sobre eles próprios. Observa-se pelas respostas dadas sobre a questão da descrição dos participantes enquanto adolescentes. por sua vez. com a família de origem e com a companheira e com a família de origem e com outras pessoas. Pessoas com as Quais Convivia na Adolescência As respostas relacionadas nessa seção referem-se às perguntas “Com quais pessoas com quem convivia durante a adolescência”.” (Francisco. Segundo ele: “O que eu mais gostava de fazer era de ir em festa. minha mãe. Apenas com a Família de Origem Flávio (37 anos) relatou que convivia com “Meu pai.73 Características Positivas Um dos participantes relatou que “Mas eu sempre fui obediente” (Flávio. Paulo (70 anos) não respondeu a esta e outras questões sobre a adolescência. 37 anos). As respostas foram classificadas nas categorias apenas com a família de origem. pois desde o início da entrevista mostrou dificuldades em delimitar esta etapa da vida. Este seu comportamento tinha uma meta mais específica de conseguir obter dados que lhe fossem favoráveis. 38 anos). . Respostas Ausentes Osmar (73 anos) não respondeu a essa questão. Adolescente Normal Outro participante se descreveu como “um adolescente normal”. Características Negativas Francisco (37 anos). 37 anos).. Paulo (70 anos) deu uma resposta semelhante afirmando que “morei com minha família até quando fui pro exército”. Normal. minha avó e minha irmã”. ” (Marcos. disse que “perdi um pouco o senso de responsabilidade que eu tinha quando eu era mais novo. divertimento.

sempre. E ela foi morar lá na minha casa. ela é uma pessoa que eu me dou bem até hoje. eu tinha uns 14. Depois disso. Tinha eventual discussão e. não mudou nada”.)E ela estava sozinha mesmo. pelo jeito que ela me regrou.... Marcos (38 anos) também relatou que sua relação com sua família de origem “Continuou a mesma coisa. né. sempre” se relacionou bem com sua companheira (outra pessoa com a qual conviveu na adolescência).. (Osmar.. Relações Positivas Todos os participantes. Flávio (37 anos) disse que sua relação com sua mãe era especial durante a adolescência: “Pelos ensinamentos.. uma relação boa.74 Com a Família de Origem e com a Companheira Um deles afirmou que “(Com 17 anos) aí. E justamente por isso ela pediu para algum dos filhos para lhe fazer companhia”. 70 anos).. Osmar também . pelos tipos de conduta.. “ (Francisco. Sei... Sempre foi boa. a gente ficou junto. Osmar (73 anos) também comentou se dar bem com a família.. Com a Família de Origem. casar eu num casei nenhuma vez... E ai eu só fui para o exército.. briga. durante a adolescência se relacionavam bem com as pessoas ao seu redor.. com Parentes e com Outras Pessoas Osmar (70 anos) disse que em sua adolescência morou com seus pais e posteriormente “Sim. 37 anos). enfatizando que “Me dava bem principalmente com minha mãe”.. nunca ninguém brigou de tirar sangue um do outro. Ele também comentou que “Sempre.. Marcos (38 anos) também conviveu com uma companheira na adolescência: “A primeira vez. viver junto com outra pessoa foi com 17 anos. Essas coisas normal. né”. Com a minha mãe com meus. por aí”. A seguir são relatadas as respostas a essa questão que foram categorizadas da seguinte maneira: Relações positivas e respostas ausentes. para a escola militar”. pelas normas.... tal. não morava ninguém com ela..”. Inclusive ela tinha uns 60 anos (. Relações com as Pessoas com as Quais Convivia Questionou-se aos participantes como era a relação deles com as pessoas com as quais eles conviviam na adolescência. De família normal. era a mãe da minha mãe.. Mas sempre foi. 15 anos.. 18. Francisco (37 anos) relatou que a relação com sua família “Sempre foi boa. “Muito novo.. não.

que não gostei (. Trabalhava bastante e. Trabalho e Atividades de Lazer Marcos (38 anos) citou que sua rotina na adolescência era dividida entre o trabalho e a diversão: “Eu trabalhava bastante.. mas era normal. A partir do relato dos participantes sobre suas adolescências. tinha também o final de semana como eu falei. Becker. Encontro com os Amigos Um dos próprios participantes mencionou “Então.... Muitos estudos fazem referência (Abel & Harlow. né? Daí a gente se divertia.. uma .. tomava um banho. novamente mostrou dificuldade em responder a pergunta.. ele comentou que se dava bem com seus companheiros do colégio militar e que brigou apenas uma vez com um deles: “Me lembro de uma vez que falaram de minha mãe.. normal. né?” .) Nos batemos. já nessa fase. Entretanto. eu trabalhava. Respostas Ausentes Paulo (70 anos). Nos agarramos os dois”. inclusive contra crianças. daí. Pelas respostas dadas pelos participantes percebe-se que as relações que elas mantinham com as pessoas em geral durante a adolescência também eram saudáveis. me sentava na esquina com os guris e. Trabalhava. Assim.75 conviveu com os companheiros do exército.. a relação com crianças nessa fase nem chegou a ser mencionada. Nas falas dos participantes da pesquisa. pois foi interno em um colégio militar. assim. Trabalho. Ocupação do Tempo Durante a Adolescência As respostas relacionadas a seguir dizem respeito a pergunta “Como ocupava seu tempo durante a adolescência?” As respostas foram organizadas nas seguintes categorias: Trabalho e atividades de lazer.. 1994) aos primeiros atos de violência sexual. ah. Ele frisou que ocorrência de brigas no exército era “comum”... trabalho e encontro com os amigo e trabalho e estudo. nota-se que este período não foi atravessada por grandes conflitos. através dos auto-relatos não puderam ser observadas relações disfuncionais com crianças na fase adolescente. pegava o violão. chagava em casa. por não conseguir compreender o que significa a adolescência. 2001.....

acho que a primeira. eu praticamente fui parar de estudar lá pelos 24. Flávio (37 anos) citou comentou também que “Ah! Eu praticamente. Episódios Positivos e Negativos durante a Adolescência As respostas apresentadas a seguir referem-se à pergunta “Descreva episódios bons e ruins de sua adolescência”. ausência de lembranças. Eu fazia pintura de antena. 37 anos). né”. 38 anos). características estas expressas pelas falas dos participantes. É válido explicar que Francisco se evadiu da escola aos 13 anos. é a primeira namorada que eu tive” (Marcos. lembranças negativas e respostas ausentes. 37 anos). E trabalhava. Eu estava trabalhando naquela firma que eu lhe falei que meu pai arrumou para mim e eu trabalhava como office-boy” . conhecia muita gente diferente.. Flávio (37 anos). festival que a gente foi tocar.. depois dos 16. 25. foi bem bom” (Francisco. por sua vez. lembrou que “uma lembrança boa que eu tenho da parte da adolescência por que eu estudava bastante e viajava muito. Conhecia muita gente importante também. assim” (Francisco. assim. Nessas classes não é incomum a evasão escolar na adolescência e a entrada precoce no mercado de trabalho. que eu comecei a fazer o curso (de piloto de avião). né? Fiquei conhecido aqui praticamente no Rio Grande do Sul inteiro.. Outro afirmou que sua melhor lembrança da época da adolescência é “Ah episódio bom. assim. né? Viajava muito. A partir destes dados pode-se afirmar que as atividades exercidas pelos participantes em suas adolescências eram atividades típicas de pessoas de classes sociais menos favorecidas. Trabalho e Estudo Dois dos participantes citaram que as atividades mais freqüentes em suas vidas na adolescência eram trabalhar e estudar.. Osmar (73 anos) afirmou que: “De manhã ia para escola e voltava mais tarde. Era pintor. Lembranças Positivas Um dos participantes lembrou que um episódio bom foi “A parte boa digamos.76 adolescência acho que normal. Aos 14 comecei a trabalhar com oficina de moto”. . As respostas foram organizadas nas categorias lembranças positivas.

Lembranças Negativas O único que se referiu a um episódio negativo de sua adolescência foi Marcos (38 anos): “Uma das coisas tristes é quando a gente ta acostumando com uma pessoa e de repente aí termina. Não me lembro”. são apresentadas as respostas referentes à pergunta “Fale-me de você como adulto”. 70 anos). Sobre as respostas ausente de um dos participantes (Paulo. pode ser isso daí” (Marcos. Sinceramente. A resposta de Flávio (37 anos) ilustra esse tipo de resposta: . Não teve episódio ruim” (Flávio. todos participantes descreveram a si mesmos como pessoas calmas. Adultez A partir desta parte.. As respostas sobre a adolescência denotam mais uma fase tranqüila. Osmar de 70 anos apresentou o mesmo tipo de resposta: “Ah. Francisco (37 anos) fez uma afirmação semelhante a dos dois participantes anteriores: “Ah. 38 anos). Uma coisa ruim. em um certo ponto. ruim.. um deles afirmou que: “Ruim. num lembro de nenhum episódio que eu possa dizer que foi ruim.. auto-estima com a subcategoria auto-estima positiva e traços morais.. Auto-percepção Nessa seção. a pesquisadora optou por não fazer mais perguntas sobre a fase adolescente. sem conflitos ou violências.. As respostas foram organizadas nas categorias temperamento com a subcategoria temperamento positivo. 37 anos). Nada. pois notou que ele estava constrangido por não saber como responder.77 Ausência de Lembranças Negativas Ao serem indagados sobre episódios negativos de sua adolescência. com as subcategorias frustração e ausência de defeitos. demonstrando bloqueio diante das perguntas. nada”.. Não me lembro mais. não. ruim da minha adolescência acredito que não teve. são apresentadas as respostas às indagações feitas sobre a fase adulta dos participantes. com a subcategoria pensamento e ações corretas frente aos outro e outros traços. Temperamento Temperamento positivo Quanto ao seu temperamento. Nenhum? Na minha adolescência.

né”. Eu sou religioso. errada. mas esse troço aí eu fiz sem pensar. A resposta de Osmar (70 anos) exemplifica esse tipo de fala: “Eu gosto. posso dizer que já gostei mais de mim. Gosto de como sou. o que for. Não que eu me esconda atrás da religião. eu fui sim (impulsivo). Apenas Francisco (37 anos) admitiu que foi impulsivo quando se relacionou sexualmente com sua afilhada: “Não.. Tamayo et al. mas que ainda se valorizam. me sinto culpado demais por tudo que fiz. Com tais respostas. A fala de Francisco (37 anos) serve para ilustrar esse tipo de resposta: “Bem. A resposta de Paulo (70 anos) exemplifica esse tipo de postura: “Eu sempre tive respeito na minha vida”.. disseram não se arrepender de nenhuma ação que tenha executado. ele citou que esse não é seu padrão constante de comportamento. Como te disse. 73 anos). Auto-estima Auto-estima positiva A auto-estima é uma importante parte do auto-conceito... nem nada”. nesse caso. sempre fui disciplinado. pois sempre agiram corretamente com as pessoas.. Se eu posso. Contudo. mas eu . assim. todos os participantes relataram que sempre foram respeitadores. divido a paz como tudo mundo (.)”.. nunca teve motivo” (Osmar. Acho que o certo. Além disso. me dou com todo mundo”. pela minha esposa está como está”.. afirmando que “As pessoas sempre me dizem que sou uma pessoa calma. Dois deles relataram que depois da acusação sua autoestima diminuiu. fiz besteira”. mulheres. As falas de Osmar e de Paulo também chamam a atenção pelo fato de os dois ressaltarem o respeito a mulheres e meninas: “Eu respeito totalmente as moças. Evito de ter alguma coisa. depois que fiz isso. A fala de Osmar serve como exemplo deste tipo de pensamento: “Que eu saiba nunca fiz nada grave assim. Traços Morais Pensamentos e Ações Corretas Sobre os traços morais dos entrevistados.. 157). Também se descreveram como pessoas sem comportamentos impulsivos.. conclui-se que os participantes do presente estudo possuem uma boa avaliação de si mesmos. né? Não sou agitado. A resposta de Paulo (70 anos) exemplifica este tipo de resposta: “Sempre penso antes de fazer as cosias. (2001) definem a auto-estima como a “avaliação global que a pessoa faz do seu próprio valor” (p.78 “Praticamente sou uma pessoa tranqüila. Os outros afirmaram que se gostam e se valorizam.

não deu certo em termos.”. e se isso acontece é por que eles querem”. assim. da boate”. De acordo com as declarações dos participantes. 37 anos).. com relações saudáveis nas quais foram amados e respeitados. A resposta de Paulo. Ausência de Defeitos Quando questionados sobre seus defeitos. 217). Francisco citou que havia um grande pesar em sua vida: “Uma grande frustração. Os auto-conceitos positivos e a boa auto-estima seriam reflexo da vivência de episódios positivos durante suas vidas. eles afirmaram que não possuíam algum defeito que se lembrassem. foram definindo-se de maneira positiva. Assim. eles vivenciaram uma vida tranqüila. Esse tipo de resposta diverge das idéias que apóiam o mito do estupro tais como “as mulheres podem resistir ao estupro. embora dois deles afirmem que antes da acusação. Não. assim. de ir pra frente. que eu tenho na minha vida é que todas as coisas que eu decidi fazer. agora no momento eu não lembro de defeito meu assim. Pelas respostas dadas. nenhuma deu certo. não haveria motivos pelos quais eles se percebessem de maneira negativa e não se valorizassem. constata-se que os participantes possuem um bom conhecimento intelectual sobre as normas que regem o relacionamento entre as pessoas. aos dados do . entendeu?” (Francisco. ao longo de suas vidas. 1980. conclui-se que os participantes têm um bom autoconceito e uma boa auto-estima. principalmente denuncia que ele respeitaria até as prostitutas. suas auto-estimas fossem mais elevadas. na medida em que as respostas de Paulo e Osmar enfatizam um respeito pela mulher em qualquer situação. Com as respostas dadas. Apenas um deles afirmou que seu pior defeito era corrigir as pessoas quando essas emitiam alguma informação equivocada.”. Paulo (70 anos) também citou: “Eu dou o respeito até pra mulher pública. “mulheres pedem pelo estupro” (Burt.. em um primeiro momento. Outros Traços Pessoa Frustrada Um deles se definiu como uma pessoa frustrada pelos projetos que não conseguiu realizar..79 sou religioso. Pode-se notar que o auto-conceito e a auto-estima dos participantes. p... A fala de Flávio (37 anos) sobre seus defeitos pode ser útil para ilustrar o tipo de resposta dada: “Defeito mesmo. Mais uma vez..

implicitamente eles dizem que aceitam as normas sociais. pois eles dão indícios de como os abusadores percebem a si mesmos. Desta forma.133) e se sentiam como objetos que serviam para o uso das outras pessoas segundo esses participantes. e que não possuem a visão de que suas vontades são mais importantes que as do outros e que devem ser cumpridas de maneira imediata. inclusive com as crianças. Os abusadores da pesquisa realizada por ela enfatizam que suas vidas foram conturbadas. Gannon et al. com as pessoas. Horley afirma que a aceitação ou não das regras sociais está relacionada diretamente ao cometimento dos atos de abuso sexual contra crianças. citam que os comportamentos dos abusadores são auto-centrados. por exemplo. resultando em auto-conceito negativo e baixa auto-estima. nas quais os sentimentos de desvalorização e humilhação se fizeram presentes. Um aspecto sobre a auto-estima merece ainda ser comentado. Estas falas sobre respeito aos outros são importante para compreender a aceitação dessa regras. que na infância.80 presente estudo são completamente inversos aos encontrados na pesquisa realizada por Garret (2004). fato este que parece divergente quando se contata que todas as vítimas relacionadas a acusação de abuso sexual contra eles são meninas ou adolescentes do sexo feminino. reiteraram o que eles sentem respeito pelos outros. As falas deles. Nesta pesquisa constatou-se que eles possuem auto-conceito positivo e auto-estima elevada. Gannon et al. eles aprenderiam . eram chamados de “estúpidos” (p. esse tipo de visão que os outros possuíam sobre eles tornou-se verdadeiro. Alguns participantes frisaram inclusive que respeitam as meninas e as mulheres. O único dado que sugere uma autocentração é ausência de defeitos relatados por todos eles. com eles percebendo suas vontades e necessidades mais importantes que os dos outros. o auto-conceito e auto-estima são importantes de serem investigados. Uma última conclusão sobre este aspecto é que parece não haver “erros” nas cognições sobre o respeito que se deveria ter com as pessoas de uma maneira geral. inclusive. Possuir baixa auto-estima faria com que os abusadores sintam-se inseguros em enfrentar situações de estresse. A baixa autoestima vem sendo associada à etiologia e à manutenção do cometimento de abuso sexual contra crianças. pois quando os participantes reiteram que respeitam as outras pessoas. fazendo com que eles se sentissem especialmente desvalorizados até a fase adulta. Os abusadores relatam. Assim. (2005) e Horley (2000) comentam que o modo como abusadores vêem a si mesmos e o mundo são determinantes para compreender o modo como eles agem.

Flávio (37 anos) disse. seres mais frágeis e desprotegidos. após a denúncia. até o acontecido aí era mil maravilhas. que antes da denúncia sua esposa: Gastava com roupas chegava praticamente estourava o salário. só. Meu sogro. só dizia pra ela que tinha que dar um jeito de pagar. Muito bom. Pode-se notar que uma baixa auto-estima não foi um dado encontrado no auto-relato dos participantes.. Teoricamente. disse quando a denúncia (no caso dele informal. . pois lidar com crianças. O meu filho eu não sei se vou conseguir ver ele de novo”. seria mais fácil que lidar com as situações estressantes propriamente ditas. Entretanto. na metade do mês eu tinha que correr atrás. Francisco (37 anos). serão relatadas as respostas às perguntas “Quem é sua Família” e “Como você se relaciona com ela”. não tinha muito problema. ele rompeu o relacionamento com sua esposa e está impossibilitado de ver o filho.. As respostas estão organizadas a partir das categorias mudanças familiares após a denúncia e manutenção nas relações familiares após a denúncia. Formação da Família e Relação com Ela na Época da Entrevista Nesta parte. Praticar atos de abuso sexual contra crianças seria uma dessas estratégias disfuncionais. por exemplo. né” (Flávio. pois ainda não havia se transformado em processo judicial) veio a tona a relação com a família tornou-se conflituosa: Olha. Minha sogra me tratava como se um filho dela. mas parece que não adiantava . O Ricardo (filho) não tem o que falar. esta característica não estaria associada às denúncias de abuso sexual infantil contra eles. 37 anos). mas o casal permanecia junto e ele se relacionava bem com sua enteada (vítima na denúncia de abuso sexual) e com seu filho: “Era bom. é o pai.. sempre gostou muito de mim. O senhor ficava chateado com ela quando ela fazia isso?Ficava chateado. a minha irmã que ta sempre do meu lado. Mudanças Familiares Após a Denúncia Quatro participantes relataram que suas vidas familiares modificaram-se após a denúncia. Não ia encrencar com ela por causa disso. os meus amigos. 1999). motivo pelo qual ele afirma que sua família no momento da entrevista era “A minha família é a mãe. A relação com sua esposa no momento imediatamente anterior à denúncia parecia conflituosa. né? Mas tinha que pagar.. é falecido agora.. por sua vez.81 desde cedo a adotar estratégias disfuncionais para lidar com as situações estressantes (Marshal et al. Só pedia para ela não fazer mais aquilo.

A relação de Marcos (38 anos): com sua ex-esposa. Disse que depois da denúncia não concebe mais seus filhos e sua esposa como sua família. com agressões físicas entre eles: “Dei uns puxão de cabelo pra me defender”. que apesar dessas mudanças na relação familiar. A mãe também... botava de castigo. Marcos foi preso pela acusação de denúncia de abuso sexual contra sua filha e relata que desde que foi preso (40 dias antes da entrevista). pois nunca houve um conflito grave entre eles.. .) E tem um filho também. pois “Todos sumiram.. minha filha me acusou de algo muito grave”. foi descrito como tranqüilo. nota-se certo autoritarismo de Paulo com as pessoas de sua casa. Eu sou um pai assim que me preocupo com que eles fazem. Contudo. sua esposa e filhos foram lhe visitar “só uma vez”. Tem um filho que tem quarenta e poucos anos. (. Foi o único que chegou para mim e falou comigo”. eu trazia ela no toco. ele não separou-se da esposa e continua considerando que A minha família. Normal de pai com filho. Ele também relatou que sua relação com os filhos era normal e saudável: Normal. que é eu. Este tipo de respostas sugere uma relação distante entre ele e sua família.” . As pessoas tinham muita confiança em mim e. alguma palmadinha. a minha família. por causa do motivo dos caprichos dela (com a casa).. antes da denúncia. 38 anos).. Francisco disse. Sempre que eu podia dar eu dava. pra mim.. Uma troquinha de palavras”. com meus filhos. como é que eles vão no colégio. Manutenção das Relações Familiares Após a Denúncia O relacionamento de Paulo (70 anos) com sua esposa e filhos. “não vai dizer que nunca teve. como eu falei” A relação de Marcos com sua esposa tornou-se conflituosa. E comentou também que sua família naquele momento era apenas “Uma menina que tem oito anos que eu criei praticamente. Quando precisava corrigir alguma arte também. hoje a minha família é bem grande. a minha esposa e minhas duas filhas.. Tem a minha família por parte da minha esposa.82 Sempre dizia que era o genro que ele mais gostava. “Quer dizer ali.. que dá bastante problema sobre isso aí (Marcos. Uma briga. foi descrita da seguinte maneira: “A gente discutia bastante. né. os irmãos também como a irmã... que eu considero a minha família mesmo.. meus irmãos. Difícil eu vou poder perdoar a minha filha”. como é que eles se comportam com os amiguinhos quando eles vão brincar. Osmar (73 anos) disse que antes da denúncia “Eu me dava com a minha filha. Porque tem a minha família por parte dos meus pais. um presentinho. agora tá um pouco complicado. né. né. ainda.

É. Você fica no meio de um monte de gente que esta te acusando. (Flávio. pais abusados na infância. pois segundo os estudos da área. dão risadas. 2002).. As respostas foram classificadas nas categorias respostas de desesperança.. 37 anos). Silva & Hutz. inversão dos papéis hierárquicos entre pais e filhos. o futuro é muito longe agora. Francisco (37 anos) também afirmou que sentia desesperança em relação ao seu futuro. respostas relacionadas à acusação de abuso sexual. Desejos Para o Futuro Nesta seção serão descritas as respostas das perguntas “Como você quer que seja sua vida no futuro?” e “Descreva para mim coisas boas que você gostaria que acontecessem no futuro”. Novamente os dados apresentados nesse estudo entram em desacordo com aqueles apresentados na revisão de literatura. as relações com suas esposas não era abusiva. Praticamente você acorda no meio da noite e deu. pois ambas se relacionam aos planos e desejos que os participantes pensam para seus futuros. Segundo o relato de quase todos eles (exceto o de Marcos). prática freqüente de violência como forma de disciplina. Tenho pensado muito nisso e não vejo uma solução pra isso.” . As respostas foram agrupadas. Esse aí seria um problemão. A relação com outras crianças que não a vítima também foi apresentada de maneira positiva. de repente você acorda na madrugada e tudo aquilo que você estava fazendo fica pra trás.. né. desejos de paz e tranqüilidade e desejos de realização pessoal.83 A descrição desses resultados é importante para compreender como era a relação dos participantes com as pessoas de maneira geral e com outras crianças.. não tem mais nada. Essas perguntas foram feitas com o objetivo de finalizar a entrevista de forma positiva. 1994. pois temia ser condenado no processo de acusação sexual que pesava sobre ele: “É. você não tem mais. Ele comentou: Eu não penso mais no futuro. Respostas de Desesperança Um dos participantes relatou. por exemplo. Pesquisadores citam que há um clima afetivo pobre. entre outras (ver Flores & Caminha. que não percebe nenhuma solução para seu caso e acreditava que seria preso. esse aí eu acho que até não teria solução. as famílias nas quais os abusos ocorrem são freqüentemente disfuncionais.

foi bom. quem não deve não teme. Não sei que o juiz vai mandar ela embora. E torcendo né. Agora só penso. Eu assim ó. alguns deles. A partir das respostas dadas. Eu já tenho a capa..84 Respostas Relacionadas à Situação da Acusação de Abuso Sexual Marcos (38 anos) comentou que “Coisa boa pra mim que eu vejo agora é que termine tudo bem essa acusação contra mim. Um deles disse: Ah. entendeu? Só que agora.. Com aquários. Mas. Paulo também relatou que desejava que a situação da acusação contra ele fosse resolvida: Olha. plantas e animais. Escrever um livro. Eu gostaria. que eu não sei a idéia do juiz. Eu pretendo juntar um dinheiro pra isso. 37 anos) Outro comentou que desejava escrever um livro: “Sim. 70 anos). assim. né. Não. como eu já pedi (Paulo. né? Cuidar dos meus filhos. 73 anos). e esperar a minha hora de eu ter que deixar eles né.. não com venda de rações e injeções. medicamentos. mas é por gosto por Deus. garota. . no momento não tá dando. a ser melhor que antes. quem sabe. se eu recuperar”.. tenho na cabeça o que vou escrever. Planos de Realização Pessoal Nesta categoria foram incluídas aquelas respostas que expressavam algum plano concreto de realização pessoal do participante. Além disso. foram capazes de expressar algum desejo de realização pessoal. percebe-se que os participantes preocupam-se com as conseqüências futuras que as acusações contra eles podem gerar. da minha mente”. eu não sei. mesmo diante da preocupação. Entendeu? Eu gostaria de trabalhar com animais. de venda de animais.É tipo um pet shop. eu espero eu cumpri as ordens que sempre eu cumpri. como eu sou desenhista. ia ser melhor que antes. né. Alguns mostraram-se esperançosos e outros menos. mas agora vou ter que escrever quando passar a edição” (Osmar. né. Desejos de Paz e Tranqüilidade Osmar (73 anos) relatou que desejava “Recuperar essa parte (paz). Voltaria. eu gostaria que um dia eu poder botar uma loja. artista plástico. já comecei a fazer um esboço do livro. Pra mim poder tocar minha vida. para mim era o melhor do mundo. (Francisco. de acuso não tenho medo. por exemplo. assim.

ajudando meus pais.85 Relações da História de Vida com o Momento Atual As respostas que serão descritas nessa seção se relacionam à pergunta “Pensando em sua vida hoje. Ausência de Conexão entre as Histórias de Vida e as Denúncias Quando foram questionados sobre suas histórias de vida e a relação com a denúncia.”. os participantes revelaram que nenhum aspecto dessa história se relaciona com as acusações. você acha que sua história influenciou em algo que acontece no momento atual?”.. eles podem ter entendido que comentar que suas histórias de vida podem ter contribuído de alguma maneira para a acusação na qual se encontravam poderia afetá-los de maneira negativa. talvez passe. na qual quase todos eles se encontravam. Reiteraram que suas vidas foram tranqüilas e que por isso não conseguiam conectá-las as denúncias de abuso sexual contra eles.. A resposta de Flávio (37 anos) serve para ilustrar esse quesito: “Não. né? Só quero continuar com a minha profissão. Dentro desta. acho que a minha história de vida é uma paz só. de certa forma. pois na situação de envolvimento com a justiça. foram organizadas três subcategorias: Visão positiva e romanceada da infância. incompletude da criança em relação aos adultos e infância como fase importante para as demais. O Que é Ser Criança As respostas dos participantes a esta pergunta foram agrupadas em uma categoria mais ampla denominada respostas politicamente corretas e/ou estereotipadas sobre a criança e a infância. a expectativa é de que eles não poderiam declarar nada que os comprometessem. O tipo de resposta dado pelos participantes era. né? Acho que seguida. Visão Sobre a Criança A partir deste ponto serão descritas as respostas relacionadas à visão sobre a criança. Assim. As respostas foram classificadas em única categoria: Ausência de conexão entre as histórias de vida e as denúncias. esperado. Respostas Politicamente Corretas e/ou Estereotipadas sobre a Criança e Infância Visão Positiva e Romanceada da infância .

86 Ao serem questionados sobre o que é ser criança os participantes responderam. Gaiva e Paiao (1999) atestaram que a fase infantil e as crianças foram vistas por estudantes de Enfermagem como uma “coisa a ser admirada”. 37 anos). não analisariam as crianças de maneira positiva. Assim. permeada pela felicidade. apesar de as respostas serem semelhantes. 37 anos). que as respostas obtidas nessa pesquisa se aproximam das respostas da pesquisa de Gaiva e Paiao. Gaiva e Paiao (1999) comentam que suas participantes também associaram a imagem da criança à diversão. Contudo. 37 anos). como um ser gracioso com o qual se pode brincar. as crianças foram percebidas pelas estudantes como “uma como fonte de alegria e satisfação” para os adultos. Contudo. associadas mais a uma estereotipia das respostas e ao que é socialmente aceitável do que as reais visões que esses homens possuem. os participantes destacaram que ser criança é “não ter responsabilidades” (Francisco. Assim. Além disso. suas respostas podem ter sido dadas de modo que eles não se comprometessem com elas. 37 anos) e “bonita” (Flávio. Incompletude da Criança em Relação aos Adultos Nessa segunda subcategoria. considerando-os apenas como objetos (Amazzaray & Koller. pode-se perceber mais uma vez que os resultados apresentados se . seria coerente que as estudantes da pesquisa de Gaiva & Paiao vissem as crianças e a infância desse modo. 37 anos). pois esses indivíduos. algumas contradições podem ser apontadas. Assim. portanto. para homens acusados de cometer delitos sexuais contra crianças. as respostas positivas e romanceadas sobre as crianças e infância podem estar. Além disso. estudantes de enfermagem estão se preparando para a função de cuidar. A frase seguinte serve para ilustrar essa idéia: “Ser criança é a idade mais feliz do mundo” (Osmar. 73 anos). pois as crianças “pensa apenas em jogos e brincadeiras” (Osmar. há que se considerar que esses indivíduos foram encaminhados compulsoriamente pela justiça até o local da coleta de dados. pois os dois públicos percebem as crianças e a fase infantil de uma forma positiva. ou seja. A essa função estaria associada a necessidade de se apreciar as crianças de maneira positiva. 73 anos). Neste último tópico. no contexto dessa pesquisa. a princípio. que ser criança é a “parte mais feliz” (Flávio. Pode-se notar. 1998). com o objetivo de serem avaliados psicologicamente. por exemplo. A princípio. Outro participante salientou que “ser criança é não ter problemas” (Francisco. e outro citou que a infância é aquela na qual se está “descobrindo o mundo e todas as coisas bonitas do mundo” (Flávio. esse tipo de resposta parece incoerente.

pois a infância. Quando identifica-se as crianças e a fase infantil dessa maneira. verificou-se que esses participantes identificaram a infância e as demais fases da vida incompletas em relação à adultez. é quase inevitável não limitar aquelas atividades que são permitidas ou não para elas. Assim. que as experiências vividas em uma fase anterior da vida são importantes para as posteriores. por ser a etapa mais precoce teria conseqüências para as demais etapas do ciclo vital. Assim. por exemplo. Em um estudo com professores acerca das concepções das fases do desenvolvimento. Pode-se afirmar que as respostas dos participantes dessa pesquisa parecem estar permeadas pelas noções sociais sobre o que é ser criança. quando questionado sobre o que é ser criança enfatizou que “os problemas. 2005). A criança é vista como um ser incompleto por ainda não possuir responsabilidades. . Relacionar a fase infantil com as idéias de diversão e lazer. 1981). como o trabalho. portanto. pois esta última foi apontada por eles como ponto ótimo do desenvolvimento humano (Almeida & Cunha). está em acordo com essa concepção comum na sociedade ocidental. Além disso. Infância Como uma Fase Importante Para as Demais Fases Osmar (70 anos). o “vir a ser adulto” seria a oportunidade de ter suas capacidades em pleno desenvolvimento. distanciando-a do mundo do trabalho e das responsabilidades é uma “marca” do modo como são percebidas as crianças na sociedade moderna (Ariès. A idéia de que problemas na infância podem causar traumas futuros está associada a essa noção de continuidade. Outro tipo de resposta está associado à incopletude da criança em relação aos adultos é expressa na fala de Francisco (37 anos): “criança é querer ser adulto” A idéia principal contida na fala do participante é de que criança é um vir a ser do adulto. às vezes lhe podem futuramente ser um trauma. não trabalhar e apenas ter como interesses jogos e brincadeiras. a resposta de Francisco se assemelha as do professores. pois a meta do desenvolvimento seria tornar-se adulto (Salles. né?”. problemas na fase infantil poderiam se transformar em traumas que perdurariam na vida futura. Tal resposta expressa o que Santos (1996) aponta sobre a continuidade entre uma fase e outra do desenvolvimento.87 aproximam aqueles encontrados na pesquisa com as estudantes de enfermagem. ou seja. Pensar a infância como uma fase incompleta em relação à adultez implica pensar que a conduta da criança deve ser superada. A fala de Francisco.

Ward & Keenan. todas as respostas a questão “o que é ser criança” podem ser classificadas na categoria única respostas politicamente corretas e/ou estereotipadas sobre a criança e infância.88 De maneira geral. na quais as crianças são percebidas como seres sexuais. 1999). pois segundo vários autores (ver Almeida & Cunha. desfazendo a possível crença sobre si próprios como pessoas de mau caráter. por exemplo. As falas dos participantes indicam que suas visões sobre as crianças são permeadas pelas noções da sociedade em geral. Os critérios . que consentem relações dessa natureza ou iniciam contatos desse tipo de contato com adultos (Gannon et al. há ainda a clara indicação que com estas respostas os participantes visavam a atender à expectativa da equipe de receber respostas positivas e socialmente aceitáveis. com a subcategoria definição cronológica por gênero e a categoria de resposta ausentes ou inadequadas. Um outro participante identificou que pessoas podem ser consideradas como crianças até os dez e/ou 12 anos. Quem É uma Criança A pergunta “Quem é uma criança” tinha por objetivo analisar quem os participantes poderiam indicar como sendo uma criança. os participantes definiram quem é uma criança através de critérios cronológicos. 19875/1981. Ariés. Definição Cronológica Basicamente. cada uma delas aparece descrita. Por outro lado. Portanto. já que todos eles enfatizaram apenas as noções socialmente aceitáveis. comum em abusadores sexuais. devido às denúncias sobre abuso sexual que os acompanhavam. 2005. pela ausência de responsabilidade. pode-se afirmar que os participantes apresentam uma visão positiva e romanceada das crianças e da infância. “a minha (filha) de cinco anos é criança e outra de 14 é adolescente”. As respostas foram categorizadas da seguinte maneira: Definição cronológica. 2005) as visões positivas sobre a infância e a idéia de inclopetude delas em relação aos adultos são comuns na sociedade atual.. ainda que as considerem incompletas. pelo menos neste quesito não há uma indicação de erros cognitivos sobre as crianças. A seguir. 2003. Assim. Nenhum dos participantes revelou algum tipo de distorção cognitiva. Salles. identificando. Isto indica que os participantes reconhecem que há uma norma social sobre o que é ser criança que dita como as crianças devem ser vistas e conseqüentemente como devem ser tratadas.

As idades citadas aproximam-se dos limites etários ditados pelas leis (ECA. A mídia e o senso comum apresentam uma série de possibilidades para definir. 2003). 70 anos). sem. Na parte do homem. Definição Cronológica por Gênero Nesta subcategoria. Ao falar sobre essas idades. Repetiu-se a pergunta para que ela ficasse mais compreensível. o participante disse que acreditava que esse era o critério definido pela lei. Este aspecto demonstrou. especialmente no que tange à discussão de direitos e deveres. disse que pra passar de maior tem que ser com 21 anos. como limite para ser considerado criança. até os 18. Respostas Ausentes ou Inadequadas Dois outros participantes não souberam responder. no entanto. deliberadamente falou sobre os critérios etários usados na lei. mencionarem essas fontes. foi classificada a resposta de um participante que indicou quem era uma criança usando parâmetros cronológicos de gênero: “Disse que pra passar. Já me falaram que é com 18 Quer dizer que na parte da menina disse que até de 21.sd) e pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) de 1990. 1990) e por órgãos internacionais (WHO. Um deles reagiu de maneira indiferente ao questionamento da pesquisadora. A WHO define a idade de dez anos e o ECA 12 anos. enquanto o outro pareceu sentir-se envergonhado de não saber responder a questão. ele usou critérios mais próximos da entrada na maioridade em vez de a idade limite para que alguém possa ser considerada criança (12 anos). uma visão sobre a criança permeada pelos ditames socialmente aceitáveis. No caso desse participante. não é justificável que alguns participantes que não soubessem responder. mas não definiu que código jurídico seria esse. Ele citou que uma menina poderia ser considerada criança até os 21 anos e os meninos. percebe-se que alguns participantes usaram o critério cronológico (idades) como definição de quem é uma criança.89 utilizados por este último participante são semelhantes àqueles utilizados pela World Health Organization (WHO. mas ambos recusaram alegando que não sabiam como definir. desculpa eu me explicar assim. 22. mesmo que de . mais uma vez. diz que é 18. Observando as respostas. 19” (Paulo. Um outro participante quando citou as idades. Embora haja uma certa confusão sobre os limites etários previstos por lei para classificação de pessoas como crianças. sem comentar a que código jurídico ele se referia.

à pergunta. quando os códigos jurídicos ainda traziam classificações etárias diversas sobre quem poderia ser considerado criança (Londoño. indicam a confusão. Contudo. Mas já passa a ter mais responsabilidade” (Osmar. fez com que a adolescência começasse a ser percebida como um período à parte do desenvolvimento humano. As respostas foram categorizadas da seguinte maneira: diferenciação por identificação como fase de transição no desenvolvimento em geral. etc. a distinção entre criança e adulto. estão relatadas apenas as diferenças entre crianças e adolescentes. Diferenciação por Identificação como Fase de Transição no Desenvolvimento em Geral A adolescência foi entendida por um dos participantes como uma fase de transição na qual a pessoa não é mais criança. 1999). esta maior responsabilidade não seria ainda como aquela assumida por um adulto. Segundo Salles (2005). mesmo que não consistente. criança-adulto. Nesta parte. a noção de que a adolescência é uma fase de transição se originou nessa época.. optou-se por descrevê-las em seções distintas. Assim. que pode ser gerada por alguma ansiedade. Como as diferenças foram descritas aos pares (criança-adolescente. diferenciação por rebeldia. como expressou esse . Uma maior responsabilidade na adolescência marcaria a diferença entre uma criança e um adolescente. Diferenças Entre Crianças e Adolescentes Questionou-se aos participantes quais seriam as diferenças entre crianças e adolescentes e adultos (gostos. mas também não pode ser ainda classificada como adulto. A frase seguinte exemplifica essa idéia: “O adolescente para mim é uma criança que está passando por uma fase de transição. Respostas inadequadas. diferenciação por autonomia com a subcategoria diferenciação por autonomia de pensamento. A adolescência aqui é compreendida como uma fase de experimentação e de transição para vida adulta.). em estruturar uma resposta.. diferenciação por gostos e interesses e respostas ausentes ou inadequadas. comportamentos. que nem é mais criança e ainda não é adulto. sendo a “ponte” que uniu uma fase a outra. 73 anos). Os limites etários para ser considerado criança parecem ainda confusos como eram no início do século XX. criançasdemais fases do desenvolvimento). perdurando até os dias atuais. interesses. iniciada ainda no século XVII. da mesma forma.90 forma estereotipada ou pragmática quem é uma criança.

E adolescente não. Apesar de esta idéia de crise adolescente ter sido gerada inicialmente no meio da disciplina psicológica. 37 anos). in Newcomb. mas a gente. pois esta última seria problemática. esta ultrapassou tais limites há bastante tempo. Os adolescentes. Quer fazer e faz. Ela quer ir. quer ir. passar a ser adolescente. Outro respondeu que “Acho que o adolescente já é mais aquela fase de rebeldia” (Flavio. (Francisco. elas têm que obedecer às ordens dos adultos” (Francisco. pela qual os adolescentes necessariamente passariam.. e vai. segundo este participante. que que ela vai fazer. Esta concepção foi inaugurada na psicologia por Stanley Hall (1844-1924. Mesmo que a gente não queira. Segundo Francisco. Diferenciação por Autonomia de Pensamento Esta subcategoria foi criada. é justamente a contestação”. 37 anos: “Eu acho que o que faz isso aí. a gente é que sabe o que que vai fazer.91 participante. enquanto as crianças deveriam obedecer: A criança (. seriam mais autônomos e não teriam que ser submissos aos adultos. A fase infantil diferenciar-se-ia da adolescência pela ausência desta rebeldia e/ou contestação. tornando-se um conceito do senso comum (César. Diferenciação por Autonomia Outra diferença importante entre crianças e adolescentes. Esta noção pode ser notada claramente nas respostas obtidas. pode-se verificar que a infância foi vista como uma fase sem problemas permeada pela felicidade. Ao recordar as respostas dadas pelos participantes quando foram questionados sobre o que é ser criança. diferenciando-se da fase infantil. Diferenciação por Rebeldia A adolescência foi concebida como uma fase de contestação e rebeldia.. A idéia de rebeldia e contestação está intimamente ligada à concepção de “crise”.) não tem vontade própria ainda. Ela tem. 1999) que definiu a adolescência como uma fase de “tempestade e estresse”. pois ela designa mais especificamente uma maior autônima de pensamento por parte dos adolescentes:“aquela fase que a gente . 37 anos). Ela seria uma fase mista entre a infância e a adultez. pode-se sugerir que a etapa infantil seria uma contraposta à adolescência.. segundo um dos participantes foi expressa na seguinte sentença: “por mais que as crianças tenham suas próprias vontades. Adolescente já tem vontade própria. onde que ela vai ir. 1998).. 37 anos). Assim.

As crianças se diferenciariam dos adolescentes. permeadas pelas noções do que é socialmente aceitável. Esta resposta denota que. ainda não teriam essa autonomia de pensamento para realizar este tipo de avaliação. embora elas acreditem que sabem como agir. Assim. saírem com os amigos. etc. as respostas dos participantes a esta questão foram. 37 anos). já há uma autonomia de pensamento por parte dos adolescentes. confundido-a tanto com a infância .92 acha que sabe das coisas. Muito” (Francisco. Os interesses dos adolescentes foram descritos de maneira mais variada: “(adolescente) já quer sair. pois. novamente. em contraposição aos adolescentes. que há ainda pouca maturidade das pessoas nesta fase da vida. A questão do namoro também é uma outra idéia aceita com sendo uma característica típica da fase adolescente. mas a gente não sabe” (Flávio. ainda não possuiriam bom senso suficiente para discernir sobre como proceder. 37 anos). Nota-se nas respostas dos caminhoneiros a mesma estereotipia de respostas dos participantes da pesquisa aqui relatada. Diferenciação por Gostos e Interesses Os interesses das crianças basicamente se associaram às brincadeiras. os dois grupos foram capazes de abusar sexualmente das crianças. quer viajar. verificou-se que as brincadeiras foram vistas como sendo atividades infantis e o namoro como uma atividade tipicamente adolescente (Koller et al. Em uma pesquisa com caminhoneiros. Quando sai de férias da escola. mas. encarada como sendo uma conseqüência de um instinto sexual natural que irrompe nesta fase. por não namorarem. Alguns dos participantes dessa última pesquisa declararam ter mantido relações sexuais com crianças durante suas viagens. Respostas Ausentes ou Inadequadas Houve também certa confusão de um dos participantes em definir características típicas da fase adolescente. Quer namorar. segundo os participantes. Algumas dessas atividades (sair e viajar) associam-se diretamente à visão de uma maior já discutida anteriormente. 2005). quer ir ao cinema. 1998). quer escutar música. As crianças. pois em ambos os casos.. mesmo tendo ciência de que o sexo entre crianças e adultos não é uma atividade típica da fase infantil. A idéia de uma maior autonomia adolescente é aceita na sociedade contemporânea. pois ela seria necessária para que eles exercitassem as funções que desempenharão quando tornarem-se adultos (César. (César. 1998). para o participante. sobre a exploração sexual infanto-juvenil.

Francisco (37 anos). são apresentadas as diferenças. né.. (Então. adolescente. fazer a vida.93 quanto com a adultez.. citou que “O adulto tem que ter responsabilidade. cumprir as obrigações. criança é igual a adolescente?) Não. 70 anos). entre crianças e adultos. diferenciação por cuidados recebidos ou devidos por adultos e diferenciação pelas atividades lúdicas. se tiver obrigação”. Ao analisar as respostas dadas sobre as diferenças entre crianças e adolescentes. citadas pelos participantes. A fala de Paulo (73 anos) também exemplifica essa idéia: “Quer dizer que o adulto vai ter que trabalhar. diferenciação pelos deveres (com as subcategorias: deveres mais brandos para as crianças. A separação da criança do mundo do trabalho e das responsabilidades . o reflexo do que Ariés comentava em 1981 sobre a moderna (e ainda contemporânea) concepção da infância. Essa pergunta eu num sei”. tem que. sobretudo. e o que é ser adulto para os participantes deste estudo. Diferenciação pela Responsabilidade É marcante a questão da responsabilidade na diferenciação entre o que é ser criança. através das falas destes participantes. É uma criança. Pode-se perceber. Elas foram agrupadas nas seguintes categorias: diferenciação pela responsabilidade. por exemplo. né”. tem que correr atrás do dinheiro que é pra poder pagar as coisas. Em suas palavras: “Quer dizer. Tem que batalhar. denotando que eles possuem ciência de que certas atividades são permitidas ou não para as crianças. Todas as respostas indicaram que a principal diferença entre adultos e crianças é a presença de responsabilidade na adultez e ausência dela na fase infantil. estudo como dever das crianças e diferenciação por pequenos trabalhos domésticos como deveres para as crianças).. A responsabilidade esteve associada. Diferenças Entre Crianças e Adultos Nesta seção. quando ela pega mais idade. que é uma criança de repente. É diferente de criança. nota-se que os participantes possuem idéias claras sobre as diferenças entre estes dois grupos.. O entrevistado distinguiu adolescentes de crianças apenas pela questão da idade. (Paulo. diferenciação por dever de obediência. ao trabalho e ao conseqüente ganho do dinheiro.

Conceber a educação como um dever pode estar associado à idéia amplamente aceita de que as crianças se beneficiam quando ingressam na educação fundamental ou primária. no lixo assim precisa ter. A imagem da criança aparece novamente relacionada a menos responsabilidades. eles seriam mais brandos que os dos adultos. quando tais deveres existem.. Tem deveres. encarada como meta máxima do desenvolvimento.. Diferenciação pelos Deveres Dentro desta categoria foram criadas subcategorias.. sd). pois.). ensiná-los tanto na escola quanto em casa tem que ensinar a ter dever... que por sua vez. nem me lembro o grau que tem que ter. Contudo. 37 anos). acrescentou que. A educação formal seria um aspecto fundamental para assegurar o futuro (adultez). a mais importante idéia expressa pelo participante associada à questão da educação. 1975/1981. É uma preparação para a fase adulta.”. Porque hoje em dia é o estudo que tá valendo. tem que fazer os temas da escola” (Francisco. Agora com pouquinho estudo.. .94 revela-se em suas respostas. é a preocupação com o vir a ser da criança e com seu futuro. Este ingresso garantiria um desenvolvimento pessoal (Ramirez. asseguraria um futuro sadio para as crianças (Ariès. Num pega mais. Deveres Mais Brandos para as Crianças Um dos participantes respondeu que crianças. mas não como os nossos (. Estudo Como Dever das Crianças Um dos deveres das crianças seria estudar: “Tem que ir à escola. embora todas elas se relacionem a questão dos deveres diferentes para crianças e adultos.. Agora no meu tempo. num precisava escrever. Para Áries. a criança estaria dissociada de tais responsabilidades por uma razão primordial: ela seria incapaz de manejá-las. tá estudando. cada um delas designa deveres específicos. Pegava qualquer conta. possuem menos deveres. A fase infantil não é simplesmente uma etapa a ser vivida por si só.. se comparadas aos adultos. devíamos ensinar a ter deveres. A fala de Paulo (73 anos) sugere essa concepção: Agora tem que tá com um colégio na parte da noite. Além disso. em qualquer lugar mesmo pra pegar em qualquer outra função. Eles têm... A fala de Osmar (73 anos) ilustra esse tipo de resposta: “Quase não tem deveres. não precisava ler. Não como os nossos.

Heilborn (1998) também detectou uma visão semelhante dos pais em relação às suas filhas em bairros periféricos do Rio de Janeiro. A obrigatoriedade da criança em ser obediente decorreria de uma outra característica dela: ter menos capacidade que os adultos. Contudo. os participantes citaram que “adultos deveriam ensinar as crianças” (Osmar. Assim. Diferenciação por Dever de Obediência A questão da obediência também citada como um dever da criança é um importante ponto a ser discutido. 73 anos). Fazer a cama dele. Phelan. fazer o quarto dele. o trabalho doméstico seria uma forma de suas filhas retribuírem pelos cuidados físicos e emocionais fornecidos. Para estes pais. Pelas respostas dadas sobre as diferenças de deveres entre esses dois públicos. Esse tipo de concepção comentada pelos participantes pode ser reflexo da concepção sobre a criança da sociedade ocidental. inclusive as crianças. ser dependente dos adultos faria com que a criança devesse obediência a ele (Kramer. ou seja. A realização desse último tipo de atividade foi discutida por Bastos (2002) como permitida para as crianças de baixa renda. Diferenciação por Cuidados Recebidos ou Devidos por Adultos Com relação aos deveres dos adultos. 73 anos). Este tipo de trabalho seria uma forma de solidariedade entre os membros da família. né?” (Francisco. dependendo da idade que ele tem. faixa social da qual emergem os participantes deste estudo. a obediência não seria uma opção para criança. os participantes expressam que uma das características das crianças é ser obedientes: “Tem que obedecer aos pais.95 Diferenciação por Pequenos Trabalhos Domésticos como Deveres para as Crianças Apesar de o trabalho remunerado não ser visto pelos participantes como uma atividade aceitável para as o público infantil. a criança precisaria ser submissa aos adultos. 1995). mais uma vez percebe-se que a adultez é destinada ao trabalho e as . Essa menor capacidade daria origem a uma relação de dependência entre o adulto e a criança. Esse tipo de resposta sugere que os adultos têm como dever a responsabilidade com a criança. quem sabe. 1999. a realização de pequenos trabalhos domésticos foi uma das respostas sobre os deveres das crianças: “Em casa às vezes lavar os pratos. Acho que devia ser um dever que deviam ensinar para a criança” (Osmar. sendo encarada como um dever. pois ele deve ensinála. Em vários outros momentos. 37 anos).

Entretanto. necessidades de alimentação. né. enquanto as crianças brincariam e estudariam. do mundo dos adultos já comentada anteriormente é uma característica marcante do modo de se conceber a criança desde a modernidade (Ariès. Diferenciação por Necessidades Dentro dessa categoria estão as respostas que se relacionaram a necessidades das crianças como um ponto de diferenciação entre elas e as pessoas . a questão da obediência como uma obrigação das crianças pode ser uma crença que pode favorecer aos abusos de todos os tipos. Um dos participantes citou que “crianças brincam. Diferenças das Crianças para as Demais Fases do Desenvolvimento Nas respostas desta seção os participantes não citaram diferenças entre as crianças e os adultos ou adolescentes especificamente. A imagem da criança ligada a diversão e conseqüente separação do mundo do trabalho. mais responsabilidades. necessariamente. 1975/1981) até os dias atuais. Diferenciação Pelas Atividades Lúdicas A brincadeira foi outro importante tema usado pelos participantes para diferenciar crianças e adultos. direito a higiene. relatando essas distinções de maneira generalizada. necessidades de carinho e necessidades da criança de ser prontamente atendidas.96 responsabilidades (com a criança. Os adultos são vistos como tendo mais deveres em relação às crianças. As respostas foram reunidas da seguinte maneira: Diferenciação por necessidades. enquanto a infância é a etapa da vida na qual não há muitos deveres e responsabilidades e que necessita de cuidados do outro (adulto). As repostas desta seção. estão reunidas as subcategorias: necessidades de objetos materiais. denotam uma visão sobre as fases do desenvolvimento a partir das noções socialmente aceitáveis. 70 anos).. inclusive). Dentro desta. novamente. ou seja. adulto não brinca mais” (Paulo. pois na medida em que os adultos pensam ter esse direito sobre as crianças. direito a alimentação. e adulto. direito a afeto e prioridade de direitos. Esta classificação está descrita a seguir. eles podem praticar atos abusivos e as crianças deveriam. Há ainda uma outra categoria denominada diferenciação por direitos das crianças com as seguintes subcategorias: direito de não trabalhar e de estudar. se submeter.

Direitos das Crianças Nesta questão ocorreu o mesmo com a categoria das necessidades. Necessidades de Carinho Paulo de 73 anos relatou também que a criança “Precisa de carinho”. Outro participante também citou que a criança tinha direito a . Esse tipo de resposta indica que umas das necessidades básicas da criança seria alimentação. então a necessidade vem coisas que não pode ter. como foi no caso dessa participante. pois dentro desta categoria foram organizadas várias subcategorias. 73 anos). Estas respostas foram alocadas em uma subcategoria. Necessidades de Objetos Materiais Um dos participantes se respondeu que as necessidades da criança se relacionaram a aquisição de objetos materiais. (Paulo 73 anos). por que não tem o que os outros tem. enfatizando que essa também seria uma necessidade fundamental da criança é ser tratada com carinho.97 das demais fases do desenvolvimento. Ele citou que: “Caderno ou qualquer outra coisa. que para ele é um problema. Necessidades da Criança de Ser Prontamente Atendidas Paulo (73 anos) frisou a importância de sempre se atender prontamente às necessidades das crianças: “(Criança) tem que ter tudo pronto. Essa resposta sugere que as crianças deveriam estudar e não trabalhar. Direito de Não Trabalhar e de Estudar A resposta seguinte exemplifica esta categoria: “Eu acho que não (que criança não tem que trabalhar). por que as vezes os nosso pais não dão” (Osmar. pois cada uma delas associa a necessidades distintas. Por que se eu tivesse tido oportunidade de estudar eu poderia ta vivendo bem melhor hoje em dia” (Flávio. na hora que pedir”. 37 anos). Necessidades de Alimentação Paulo de 73 anos comentou que crianças precisam “ter o alimento na hora que pedir pro pai”.

mas não obrigá-los. tudo assim”. A idéia da criança como sujeito de direito. 1975/1981) na qual a criança serviria apenas para a diversão dos adultos é ultrapassada na concepção implícita na fala de Osmar. A importância da criança. . Direito à Alimentação Nessa categoria a alimentação aparece como um direito assegurado para a criança. portanto.. 37 anos). ensiná-los tanto na escola quanto em casa tem que ensinar a ter dever”. “Receber (. por parte dos pais e tal” (Francisco. assim. por não poderem cuidar de si sozinhas. Direito de Não ser Obrigada a ter Deveres Osmar (73 anos) comentou que “Eles têm. direito a cuidados por parte deles: “O adulto tem que cuidar da criança. Este tipo de concepção sugere uma criança que tem direito de ser respeitada e não deve ser obrigada a fazer nada. Francisco também citou que as crianças. principalmente. Direito à Saúde Francisco (37 anos) também comentou que “é. tendo. 37 anos). estaria para além da diversão das pessoas mais velhas. essas coisas tudo. A resposta de Francisco indica que ter direito aos cuidados de higiene seriam um direito das crianças.) alimentação.. né?” (Francisco. não sendo apenas um objeto a serviço das vontades adultas.. A idéia de paparicação (Ariès... saúde. afeto assim. Direito à Afeto e Cuidado De acordo com um dos participantes. está associada a fala desse último participante. essas coisas. embora não tenha comentado que a educação estava em contraposição com o trabalho como o fez Flávio. pois a criança agora teria suas próprias vontades. Direito à Higiene Francisco (37 anos) destacou que crianças precisam de “Higiene. as crianças precisam de afeto e carinho: “carinho. né?”. expressa pelo ECA (1990). inclusive a ter deveres. são de responsabilidade do adulto... afirmando que em sua concepção as crianças tinham direito a saúde.98 educação. devíamos ensinar a ter deveres. né?”..

possuindo direito de ser protegido contra os mais variados tipos de violência. a forma como aparecem. de terem atendidas suas necessidades básicas que garantam a sua sobrevivência além de terem direito à participação nas decisões políticas e sociais que influenciam suas vidas e é exatamente esta convenção que embasa o ECA que os condena ou acusa. A resposta é dada de acordo com o que seria esperado do participante pelos pesquisadores. as diferenças entre crianças e adultos. o tipo de resposta dada por ele pode sugerir que há uma disseminação ampla na sociedade sobre as leis que protegem a criança que passam a fazer parte das imagens sociais da criança. De acordo com Osmar. pode ser visto como a garantia de proteção contra as violências e. O amor e afeto citado por eles. . as crianças teriam que ter suas necessidades e direitos assegurados com prioridade frente a adolescentes e adultos. etc. Esta doutrina apregoa que crianças e adolescentes sejam concebidos como sujeitos de direito. A prioridade de direitos é uma meta descrita pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (1990). Além disso. No Brasil. um deles citou as semelhanças entre uma fase e outra do desenvolvimento. sobretudo a garantia das necessidades básicas para a sobrevivência de uma criança (saúde. Isto se evidencia quando é solicitado um aprofundamento da resposta e o participante apenas consegue repetir o que já disse sem desenvolver a idéia.).99 Prioridade de Direitos Nesta categoria não foi frisado nenhum direito específico. Foram citados pelos participantes direitos e necessidades que se relacionam. mas um dos participantes comentou que as crianças teriam prioridades de direitos em todos sos aspectos. Apesar de o participante não ter se referido diretamente a esse código. sentem dor. têm um conteúdo pragmático e estereotipado. 73 anos: “Todos direitos. eu acho. os preceitos desta convenção basearam a formulação da Doutrina da Proteção Integral subjacente ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) promulgado em 1990. Prioridade em todos os sentidos”. do direito de ser bem tratado por todos e não ser abusado. Similaridade por Problemas Enfrentados Embora os participantes tenham salientado. por conseqüência. As respostas citadas tanto para as necessidades quanto para os direitos das crianças estão de acordo com nova visão sobre a prioridade de direitos das crianças (criança como sujeito de direito) inaugurada e propagada pela Convenção Mundial sobre os Direitos das Crianças (1949). alimentação. Segundo Osmar (73 anos): “São seres humanos. Entretanto. principalmente.

definição por entrada na maioridade para transição da adolescência para adultez. adolescente e adulta. pois ambas se relacionam aos limites entre as fases infantil. Enfatizou. Varia muito de pessoa pra pessoa. né. Optou-se por agrupar as respostas dessas duas perguntas. que “criança não assimila problema.100 sentem os problemas”. apenas citando que isso variava de indivíduo para indivíduo. As respostas foram categorizadas da seguinte maneira: definição não-cronológica para a saída da infância para as demais fases. Transição Não-Cronológica para as Demais Fases A resposta de um participante destacou que não havia uma faixa etária exata na qual se possa classificar alguém como criança: “Acho que isso aí depende muito da pessoa. Observando as respostas dessa seção. 37 anos). O participante não definiu que outros fatores seriam importantes para que uma criança passe a ser adolescente ou adulta. As respostas aqui se referem tanto as perguntas “até que idade uma pessoa é criança?” e “O que faz com que uma criança passe a ser adolescente ou adulta”. Acho que não tem uma idade definida” (Francisco. definição por responsabilidade parta a transição da infância para adultez. percebe-se que as diferenças entre crianças e as pessoas das demais fases do desenvolvimento são enfatizadas. dentre eles o direito de não ser tratado com carinho e afeto o que implicaria não ser violentada ou abusada. mas alguns problemas são levados para elas. Definição por Contestação para a Transição de Criança para Adolescente Um dos participantes afirmou que o que define a transformação de uma criança em adolescente é contestação: “Eu acho que o que faz isso aí. enquanto as semelhanças não são frisadas. A seguir. e elas sentem os problemas”. definição cronológica com base na adoção das responsabilidades jurídicas na transição da infância para adultez. Essas repostas denunciam que as crianças são concebidas como seres distintos que possuem necessidades e direitos e específicos. Processos Importantes na Transição da Infância para Adolescência/Adultez Nesta seção estão agrupadas todas as respostas que se referiram aos processos importantes na transição da fase infantil para a adolescência e/ou adultez inquiridos através da pergunta. passar a ser . cada uma delas foi detalhada. ainda. definição por mudanças biológicas para transição da infância para adolescência. definição por contestação para transição da infância para adolescência.

é justamente a contestação.. Ah. Essa última idéia permanece até os dias atuais. ela já pode ser considerada adulta: A criança deixa de ser criança na medida em que ela toma outro rumo na vida. a adolescência passou a ser vista como uma fase de rebeldia (César. na medida em que ela toma outro rumo. o que ela deseja fazer.. que se forma nos estudos.. A sexualidade pode ser entendida como um aspecto inexistente na vida de crianças. Definição por Responsabilidade na Transição de Criança para Adulta Outro participou expressou que no momento em que a pessoa já sente-se responsável por si mesma. Depois. se torna... As idéias de pureza e inocência da criança foram herdadas pela sociedade em geral principalmente dos preceitos cristãos vigentes no ocidente (Áries. perante e lei. tendo certa idade. sendo apenas permitido (em parte) para os adolescentes. mesmo deixando. O que ela quer. 73 anos). com a ajuda dos meios de comunicação de massa. livre dos pecados ligados ao sexo. Já me falaram que é com 18” (Paulo. Que é. se não se acha responsável. Nas palavras de Osmar (73 anos): “Muda ser atraído por outra pessoa e começar a gostar de alguém”.. 37 anos). Definição Cronológica com Base na Adoção das Responsabilidades Jurídicas na Transição da Criança para Adulta Outro participante comentou que “. disso a pessoa seria capaz de assumir as responsabilidades jurídicas. Desde os anos 50. o que ela precisa de bem material” (Francisco. A criança seria um ser puro. né? Acho que daí ela deixa de ser criança. como se pode observar na fala desse participante. A partir do momento que ela começa a contestar. 1998). A citação seguinte expressa esta última concepção: . né.101 adolescente.. 1981). o que ela quer fazer. O critério responsabilidade para entrada na fase adulta já foi discutida anteriormente. mas quando já é responsável pelos seus atos. daí deixa de ser criança. por isso seria inocente. que já é responsável pelos seus atos. Chega. Definição por Mudanças Biológicas na Transição de Criança para Adolescente Apenas um dos participantes fez referência às mudanças corporais e da sexualidade como marcas de identificação da passagem da infância para a adolescência. conclui a faculdade. disse que pra passar de maior tem que ser com 21 anos... disse que pra passar.. que é. 22. que já é responsável pelos seus atos.

. não é uma questão simples. 73 anos). Então com 17 anos eu já tinha família.. Esse tipo de concepção foi constatado nas falas dos participantes. adolescente passa a ser adulto a partir do momento que. Vocês têm que pegar o rumo de vocês.. incluindo a infância. Pra mim. por exemplo. uma pessoa será adulta apenas quando se tem permissão para assistir certos tipos de filmes ou dirigir. em ambas. pois na prática. Esse critério da maioridade seria apenas teórico. completa a maioridade. ela já pode se considerar adulta. né. né? Quer dizer que aí. E. O segundo relaciona-se ao fato de as duas respostas sugerirem que há uma passagem direta da infância para a adultez. independendo da idade. já me autosustentava e. então comigo não foi assim. Mas pra mim acho que a pessoa. não foi dessa maneira.. 2005). né. a faixa etária não pode mais ser compreendida como uma característica básica para delimitar os períodos da vida (Salles. Embora os critérios cronológicos ainda sejam válidos. que quando a pessoa já se sente responsável por si mesma. No meu caso. (Francisco. O que muda é que as eles vão ter que fazer a vida deles por si próprios. 37 anos). pra deixar pra cada filho no dia que Deus me levar. Foi um pouco diferente. Arranjar um emprego e agarrar pra vocês terem um futuro (Paulo. As duas categorias anteriores possuem dois pontos em comum. Definição por Entrada na Maioridade na Transição da Adolescência para Adultez Já a passagem da adolescência para a fase adulta seria marcada pela maioridade. que eles num puder assumir quanto num completou 18 anos. Nota-se que há certa confusão em definir as características de acordo com a faixa etária. Comecei a trabalhar com 11 anos de idade. eu já trabalhava. teoricamente.102 Quer dizer que na parte da menina disse que até de 21.. perante a sociedade. Quer dizer que num se governa.. pois eles afirmaram. A citação seguinte exemplifica esta idéia: Ah. assinei carteira com 15 anos.. Não é mais possível afirmar que uma pessoa por ser mais madura possui mais responsabilidade ou autonomia e que a criança por ser mais jovem não teria tais capacidades. A variedade de respostas denuncia que definição sobre as “fronteiras” para cada uma das fases da vida. pois a responsabilidade poderia pertencer tanto a alguém mais jovem . No meu caso antes de eu fazer 18 anos eu já tinha família. umas coisas. ela já pode ser considerada adulta. Eu mesmo lá comprei uns terrenos. como um critério para a passagem da infância à adultez. Contudo. O primeiro é que a questão da responsabilidade surgiu. se a pessoa já é responsável por si mesma e por outros.. sem que fosse considerada a adolescência. perante a sociedade.

Transformação de um Menino em Adolescente/Adulto Nessa seção. Outro ponto que precisa ser analisado é consideração de dois participantes sobre a passagem direta da infância para a adultez. né? Que ele diz assim ‘eu vou ser isso agora. Assim. contestação e critério cronológico. Autonomia Novamente. Mudanças Biológicas Apenas uma das respostas enfatizou as mudanças corporais (nascimento de pêlos) e atração pelo sexo oposto. como a questão da responsabilidade como marca da vida adulta e início da sexualidade em contraposição a pureza da criança. a partir do momento em que um menino assume uma postura de autonomia frente a sua vida ele se tornaria adulto. Vou ser dono do meu nariz” (Flávio. Assim. podendo ser mais autônomos. As categorias foram agrupadas da seguinte maneira: Autonomia. Além disso. Esse tipo de resposta remete a questão da obediência já discutida anteriormente. Assim. Na fala de Flávio: “É. serão apresentadas as respostas a pergunta “O que faz com que um menino passe a ser adolescente ou adulto?”. uma vez que as crianças (e os meninos) não teriam que ser mais obedientes.103 quanto a alguém mais velho. se referiu a ele ou como criança ou como adulto. e que por isso já se sentia adulto desde essa época. As declarações dos participantes sugerem assim que eles por não terem passado por uma fase que eles possam chamar de adolescência. as experiências pessoas podem ser importantes nas concepções que eles têm acerca dos ciclos da vida. eles deixariam de ser crianças e se tornariam adolescentes. sentir certo impulso. Um deles (Flávio) afirmou que desde os 12 ele começou a trabalhar. O outro (Paulo). as respostas m apresentadas aqui se relacionam em alguma medida com concepções sobre as fases da vida moderadamente já aceitas pela sociedade. . mudanças biológicas. marcando assim o inicio da sexualidade como critério para a entrada na adolescência: “Por si mesmo. 37 anos). as respostas a essa pergunta se relacionaram a responsabilidade e dessa vez mais especificamente a autonomia. Acho que ele deixa de ser criança no momento que ele toma as rédeas da vida dele. acho que é aquilo que eu lhe falei. considerem que a passagem da infância para a adultez ocorra diretamente.

Assim. contestação. Autonomia Flávio (37 anos) respondeu que a menina a partir do momento que ela “tomar conta da vida dela” ela já pode ser considerada adulta. se transformaria em adolescente a partir do momento em que ele comece a ter comportamentos de contestação. a dimensão perda da virgindade foi comentada apenas como um processo importante para a entrada das meninas na adultez. Mais uma vez a resposta sobre autonomia se repetiu. demonstrando que os participantes possuem uma visão lógica sobre as crianças e as demais fases da vida. A as mudanças físicas. Segundo o participante. serão descritas cada uma dessas categorias. Contestação A “contestação” (Francisco. 70 anos) como sendo o critério necessário para que um menino passe a ser adulto. o menino como uma pessoa qualquer.104 atração pelo sexo oposto. Transformação de uma Menina em Adolescente/Adulta As respostas foram bastante semelhantes as da pergunta anterior. mudanças corporais semelhantes a dos meninos. as categorias foram agrupadas de maneira semelhante: Autonomia. Nota-se que esse participante possui um conhecimento mais específico sobre as mudanças fisiológicas (nascimento de pêlos) e comportamentais (atração pelo sexo oposto relacionado ao inicio da sexualidade) envolvidas na transformação de um menino para adolescente. Pêlos e coisas”. Francisco (37 . é. mudanças no corpo e começar ver que esta a nascer é. Contestação Ao ser questionado sobre qual aspecto seria importante na passagem da infância para a vida adulta ou para adolescência no caso das meninas. 37 anos) foi outra resposta dada como marca do início da adolescência de um menino. As respostas até este momento pareciam ser coerentes entre si. A seguir. Definição Cronológica A questão da idade (18 anos) foi novamente reiterada por um dos participantes (Paulo. Contudo.

a mãe que dava orientação em tudo. A frase seguinte ilustra a idéia desse participante: “Deve ser igual aos meninos. ela que sabia” (Osmar. as respostas dos participantes denunciam que não foram consideradas diferenças entre meninos e meninas no que diz respeito à passagem da . Não tem diferença. ele comentou que não poderia citar quais diferenças eram essas. De maneira geral. pois não pode observar mais aproximadamente o desenvolvimento de suas filhas adolescentes. Essa foi a única resposta que apontou para diferenças na passagem da infância para adolescência/adultez de meninos e meninas. conforme apontado por Taquette (1997) e Heilborn e Bozon (2001). eu sempre criei as minhas filhas assim. 73 anos). por exemplo. a ficar mulher (. Para a menina eu não conheço. De acordo com um dos participantes. 70 anos). esse seria o processo principal que caracterizaria a passagem da infantil para a fase adulta em uma menina: “Quer dizer que aí. ou se perder.. ainda é vista como um símbolo da pureza da menina. Não sei. Pode-se concluir também que considerar a perda da virgindade como fator primordial na passagem da infância para a fase adulta pode negligenciar outros fatores importantes desse processo. pois ele afirma que “uma guria quando não faz erro” é aquela que é “virgem” (Paulo. como os cognitivos....105 anos) respondeu que “A responsabilidade. Mudanças Corporais Semelhantes as dos Meninos Um dos participantes relatou também que acreditava que as mudanças que aconteciam para s meninos se assemelhariam aquelas das meninas Contudo. ele ainda assim exibe algum conhecimento sobre as mudanças que ocorrem na vida de uma menina no período de transição da infância para adolescência. Por haver uma diminuição na valorização da virgindade feminina. Contudo. Essa valorização torna-se mais visível quando o participante associa a perda da virgindade ao “erro”. respostas como a deste último participante revelam que a valorização da virgindade. (A mesma coisa?) A mesma coisa”. 73 anos). as taxas de virgindade entre adolescentes são mais baixas na atualidade. Embora o participante afirme que não acompanhou o desenvolvimento de suas filhas. mas. nenhum tem aquele ditado: é virgem” (Paulo. Perda da Virgindade A única resposta que se diferenciou das demais foi a categoria “perda da virgindade”.) ter contato com o marido dela ou se juntar. Se perder uma guria quando não faz erro.

esse tipo de concepção estaria associada ao pensamento machista vigente na sociedade que dita que os meninos são mais fortes. comportadas. agitados. entre outras. Diferenças por Atividade/Passividade Os meninos foram tidos como “mais ativos” e as meninas como “mais quietas” (Flávio. serão relatadas as respostas a pergunta: “Meninos e meninas: No que são iguais? No que são diferentes?”. Esta resposta repete o que Souza (2000) observou entre pais de escolares. Já para as meninas. As respostas foram categorizadas como diferenças por quantidade de atividade. agressivos. diferenças por proteção/cuidado e facilidade. dois dos participantes consideraram que há uma passagem direta entre a infância e a adultez. Segundo Francisco. Mais uma vez. e que. Tal distinção seria ocasionada pela criação diferenciada dirigida a meninos e meninas. 37 anos). levados e as meninas como passivas. já que elas seriam obrigadas a concordar com esse tipo de abuso. tendo mais facilidades. tanto no caso das meninas quanto no caso dos meninos. a sua obediência e submissão facilitariam a violência sexual contra elas. Safiotti (1998) comenta que esta diferenciação entre meninos e meninas baseada na dicotomia atividade/passividade geraria também diferentes tipos de violência contra estes dois públicos. 37 anos: . As semelhanças entre meninos e meninas foi mencionada por participante e foi classificada na categoria semelhanças entre meninos e meninas. precisariam de menos proteção que as meninas. 2005). pois elas seriam mais vulneráveis. 37 anos). sendo educadas até mesmo para não revelá-lo. afirmando que os meninos foram vistos como duros. diferenças de brincadeiras que envolvam aspecto sexual e diferenças por autonomia.106 infância para adolescência ou para adultez. portanto. Diferenças por Proteção/Cuidado e Facilidades Segundo um dos participantes. Isso aconteceria. Segundo o próprio participante. A educação para a submissão é um facilitador para este tipo de abuso contra meninas (Narvaz. as meninas foram vistas como “mais protegidas e cuidadas” tendo também mais facilidades: “(as meninas) levam a parte melhor” (Francisco. educadas. Diferenças e Semelhanças entre Meninos e Meninas Nesta seção. A violência física seria a mais utilizada como um modo de repreensão e controle para a intensa impulsividade dos meninos.

O que o guri faz. De acordo com esse participante.. Pra menina fica. é mais isso.. essa concepção se aplicaria mais aos homens (Giffin. Então os meninos sempre são mais deixados de lado. Além de poder ser usada como justificativa no caso . assim. a guria não pode fazer. 70 anos) relatou que “eu acho conforme o brinquedo que o guri brinca. constrói-se a noção de que os impulsos sexuais masculinos (e suas expressões) são incontroláveis. No certo. Porque.. como foi notado na fala desse último participante. Assim.. verificou-se que tanto adolescentes do sexo masculino quanto do sexo feminino destacaram que os homens possuem uma natureza sexual irrefreável. E mostrar também. Esta percepção faz com que as condutas sexualizadas de meninos sejam mais bem aceitas. na medida em que eles podem alegar que não tiveram meios de conter seus impulsos. simplesmente por eles serem do sexo masculino.”. nenhum pode. 2005). é mais forte.. Além disso Paulo (70 anos) afirmou que: “O guri fica tirando o tiquinho pra fora... Sei lá. Esse tipo de crença é especialmente perigoso no que diz respeito aos casos de abuso sexual. assim. Não precisa de tanto cuidado. a conduta sexualizada seria mais permitida por parte dos meninos. ainda estão presentes nos dias atuais. aquelas que os meninos “fica dizendo palavrão “. cabendo a mulher a tarefa de controlar os impulsos sexuais (Petersen et al. Guri é guri.. Esse último tipo de resposta revela que a noção de fragilidade e a conseqüente necessidade de proteção da mulher. é o mais saudável. E a guria já tem uma diferencinha”. como se fosse machismo da parte da. como por exemplo. Na sociedade atual.. Ele é o mais forte .. Aquele ditado: ‘um garotinho que tá se criando homem’. tipo assim. a guria não vai brincar.107 A menina ela é sempre mais protegida. que a menina. 1994).. Diferenças de Brincadeiras com Aspecto Sexual Outro participante (Paulo. Ela pode servir como justificativa para as condutas de homens que cometeram violências sexuais contra crianças. Mas seria. Em estudo na África do Sul. A menina sempre leva a parte melhor. Fica mais feio. 1998). um pouco por parte de . Menos vulnerável. né?’ Nenhum pode. criadas a partir dos modos de organização patriarcais de organização da sociedade (Strey. Esse último tipo de conduta seria reprovável para as meninas. Mas. É. Através dos resultados desse último estudo nota-se que a compreensão de que homens possuem impulsos sexuais irreprimíveis não é exclusiva de homens acusados de cometer delitos sexuais contra crianças. mais aquilo. As coisas melhores são pra meninas. né. apesar de a sexualidade ser vista como algo natural para a espécie humana. O menino é menino.

As funções masculinas de manutenção (material. 1979).. valores que são tidos como apropriados para cada sexo. por que são humanos. por exemplo) podem também possuir a mesma percepção. Agora. comentando que “Eu acho. Apenas esta última resposta frisou as semelhanças entre meninos e meninas. Iguais no sentimento.. pode-se notar que os homens entrevistados compartilham dessa visão estereotipada dos sexos. 1978). A consolidação dessas diferenças baseou-se principalmente na função materna da mulher (Rosaldo & Lamphere. Com todas as respostas aqui descritas. há uma visão majoritariamente estereotipada em relação às diferenças entre meninos e meninas. Vinculados aos papéis sexuais estão os estereótipos sexuais. e membros da área. até nas culturas mais primitivas. que seriam o conjunto de normas referentes às atitudes. em um determinado momento (Graciano. livrando o abusador de sua responsabilidade. competitivos e independentes (Biaggio. Acrescenta-se a isso. A partir das funções exercidas pelos dois gêneros. fortes. As mulheres foram tidas então como dóceis. a visão de que os comportamentos de expressão sexual seriam mais permitidos aos meninos. . De acordo com Bonamigo e Koller (1995). tanto um como outro. Semelhanças Entre Meninos e Meninas Apenas um dos participantes dês te estudo realçou as semelhanças entre meninos e meninas. enquanto as meninas teriam que comportar-se de maneira “moral”.108 do próprio abusador. pois ao longo do tempo ela foi exercendo tarefas mais passivas e domésticas. por sua vez. percebendo o sexo masculino como mais forte e ativo e as meninas como mais protegidas. afetuosas e pacientes. profissionais. enquanto os homens foram vistos como agressivos. passivas. foram conservadas e mais valorizadas por serem consideradas dinâmicas. Assim. Então seus sentimentos são iguais. em uma determinada cultura. frágeis e quietas.. pode-se notar uma distinção nas funções arrogadas a homens e mulheres. Essas características foram se constituindo como papéis sexuais. jurídica.diferentes? Simplesmente no físico. comportamentos. 1981). entre outras). Mas nos sentimentos são iguais” (Osmar. que não as impedissem de cuidar da prole.. sem expressar sua sexualidade. atuando como padrão do que significa ser homem ou mulher. 73 anos). as pessoas envolvidas na situação (parentes. foram sendo consolidadas características determinadas a cada um dos sexos.

sinto que é uma necessidade da criança por que deve estar cansada” (nome. As respostas pragmáticas foram aquelas nas quais houve uma definição utilitária e objetiva da situação. “O que você sente quando vê uma criança brincando?”. As respostas empáticas. comentou. 73 anos). As respostas foram agrupadas a partir das seguintes categorias: resposta pragmática. Resposta Empática Outro participante disse que a criança por estar dormindo. no entanto. se consideramos que a empatia é “sentir com” o outro (Eisenberg & Strayer. sem. cujo conteúdo indica a percepção do estado emocional de outrem (Eisenberg & Strayer. idade). Não foi expresso nenhum tipo de sentimento empático. A seguir. revelando capacidade de apresentar uma resposta empática. ou seja. Em outra resposta. ou seja. sem expressão de sentimentos. Nesse caso. um deles apesar de afirmar que “Eu não sinto nada” (Osmar. as respostas de angústia pessoal expressaram exclusivamente o estado emocional do participante. 1990). 1990). sem a expressão de sentimentos. por sua vez. resposta de sentimentos positivos resposta e de angústia pessoal. cada um dessas categorias será exemplificada de acordo com as perguntas feitas aos participantes. mostrando uma fuga da resposta na qual se utiliza os termos da própria pergunta.109 Empatia As questões seguintes “O que você sente quando vê uma criança dormindo?”. que “Simplesmente deixo dormir por que estava cansada. as respostas com sentimentos positivos. 37 anos). o participante inferiu o estado emocional da criança que dorme. resposta empática. enfatizaram o estado emocional da criança Já. a resposta sugere uma definição pratica. Esses dois tipos de afirmações revelam que esses homens . destacaram os sentimentos dos participantes congruentes com o estado emocional da criança. posteriormente. se referir diretamente à condição emocional dela. O que Você Sente Quando Vê uma Criança Dormindo? Resposta Pragmática Um dos participantes quando indagado nesta questão citou que “É uma criança dormindo”. “ela tá em paz” (Flávio. Finalmente. “O que você sente quando vê uma criança chorando?” e “O que você sente quando vê uma criança gritando?” tinham como objetivo avaliar processos empáticos dos participantes.

Aqui não é revelada diretamente a condição emocional da criança. gritaria. Respostas com Sentimentos Positivos Um dos entrevistados citou que “Eu me sinto tando brincando ta com saúde” (Paulo. Resposta de Angústia Pessoal Outras respostas enfatizaram apenas o estado emocional do entrevistado. né. . 37 anos). Gosto. 73 anos). Tem algumas brincadeiras que me irritam um pouco. “estar paz” ou “estar cansada”). Ah. mas dependendo se for uma brincadeira calma. O estado emocional do entrevistado (irritado) revela-se incongruente com o estado emocional da criança que brinca.110 são capazes de perceber os estados emocionais das crianças (nesses casos. através de pistas do seu comportamento (dormir) e que portanto. 70 anos). pois o participante revela seu incômodo com a brincadeira e em nenhum momento destaca o sentimento das crianças que brincam. Contudo. mas pode ser inferido que em sua compreensão a criança está bem para poder brincar. os sentimentos positivos expressados pelos participantes mostram-se congruente com o comportamento lúdico da criança. correria. Uma outra resposta centrou-se no estado emocional positivo do participante: “Eu sinto felicidade” (Osmar. são empáticos. Essas coisas assim” (Francisco. 37 anos). O participante expressa claramente o estado emocional que a brincadeira da criança gera. Um dos apenas participantes afirmou: “Que ela tá brincando” (Flávio. de acordo com a definição de Eisenberg e Strayer (1990). Talvez a expressão não seja clara do sentimento positivo do participante. O Que Você Sente Quando Vê uma Criança Brincando? Resposta Pragmática Mais uma vez aqui se repetiram as respostas pragmáticas. que não fizer muito barulho assim eu acho legal. Esse tipo de resposta revela uma proximidade com aquilo que Eisenberg e Strayer (1990) denominaram de angústia pessoal. pois em sua fala ele afirmou: “Isso varia um pouco do tipo de brincadeira.

né?” (Paulo. né. fica implícita a idéia de que o que ele sente vai depender da plausibilidade do motivo. está claro que há mais consideração ao incômodo pessoal do participante do que aos sentimentos da criança que grita. Tem crianças que choram porque não ganharam um iogurte. Me incomoda. Realmente. Resposta de Angústia Pessoal Um outro participante afirmou que sente “muita dor e tristeza” (Osmar. eu sinto nervosismo. tem que levar no posto de saúde ou no hospital. Resposta Empática Duas respostas denotaram empatia por parte dos participantes. Nessa frase. Esse tipo de declaração está claramente ligado a uma focalização sobre os próprios sentimentos aversivos. né. 37 anos). 73 anos). 37 anos). Tem que ver que não caiu. E tem crianças que choram porque tão com fome. apesar de não enfatizar o estado emocional específico da criança. Um deles enfatizou que “Que ela tá com algum problema” (Flávio. assim. O Que Você Sente Quando Vê uma Criança Gritando? Resposta de Angústia Pessoal Uma das respostas relacionadas à angústia pessoal foi a seguinte: “Ah. . sem revelar o que ele sente ao presenciar a situação: “Aí depende do. e outro afirmou: “Quer dizer que aí depende. frisando a perspectiva da criança e não o seu próprio estado emocional. 73 anos). dor” (Osmar. o motivo que ela ‘tá chorando. não se machucou.111 O Que Você Sente Quando Vê uma Criança Chorando? Resposta Pragmática Um dos participantes faz referência a uma resposta utilitária sobre os motivos do choro.. eu sinto tristeza. 1990). se é que com um jeito que tá doente. 73 anos). 1990).. A segunda revela um sentimento aparentemente empático do participante. atesta que o participante pode identificar o desconforto dela expresso pelo choro. ou tá com um gesto que tá doente. sugerindo que há nesse caso angústia pessoal (Eisenberg & Strayer. ao notar e compreender a situação da criança. Aí vai depender” (Francisco. indicando assim estresse pessoal (Eisenberg & Strayer. A primeira resposta. Nesse caso.

Ela tá em apuros. como afirmam Eisenberg e Strayer (1990) em estratégias auto-orientadas ao lidar com os sentimentos do outro. Fisher (in Webster & Beech. pois em várias situações eles foram capazes de “sentir com” as crianças. pois tais sentimentos podem levar os participantes a se engajar. eu acho que nada ta existindo com ela” (Paulo. Agora. Todo mundo é igual. 1999. Webster & Beech. Estes mesmos autores respondem a este questionamento. Todo mundo grita”. passando pelas respostas pragmáticas que não demonstraram nem os possíveis sentimentos da criança nem dos participantes até aquelas que destacaram apenas os estados emocionais (aversivos ou positivos) dos participantes. É porque eu também não sei qual é o motivo que ela tá gritando. pelo menos em parte. A expressão de sentimentos aversivos (angústia pessoal) frente aos comportamentos infantis é especialmente preocupante. Pode-se pensar que o abuso sexual de crianças é uma estratégia auto-orientada e disfuncional executada pelos participantes quando sofrem de sentimentos aversivos frente às dores dos outros. foi visto nos resultados aqui apresentados. né. pra saber por que ela ‘tá assim”. se ela tá gritando. Pode-se observar que as respostas variaram desde expressões genuínas de empatia. A resposta de Francisco (37 anos) também expressou um comportamento empático: “É aquilo que eu te falei. como eu me sinto na minha memória. Um outro participante relatou que “Uai. ela tá braba com alguma coisa. na real. ou ta doente. montada em cima de um banco alguma vai ter. . não havendo consideração pelos sentimentos alheios. 70 anos). Com a criança ‘tando quieta. 1990). quando tá em apuros. houve a focalização no estado emocional da criança o que revela um verdadeiro sentimento empático (Einsenber & Strayer. Isso aí vai depender também. então a gente tem que conversar com ela. né. Ela tá em emergência. né. Por outro lado. Esse aspecto. Pode-se se questionar então. 2000) afirma que muitos abusadores apresentam um índice normal de empatia geral.112 Resposta Empática Flávio (37 anos) responde: “Se ela tá gritando? Ah. Ela tá gritando por socorro. Na execução dessas estratégias importaria apenas o alívio das “dores” dos participantes. pois respostas empáticas também estiveram presentes. se os déficits de empatia estão mesmo associados às situações de abuso como mostram alguns estudos (Pithers. Ou ta triste. 2000). as respostas de angústia pessoal não foram exclusivas. Ela pode tá gritando por socorro. esteja brincando pulando. As perguntas feitas em relação aos comportamentos das crianças tinham como objetivo detectar os processos empáticos dos participantes. sentada. Nos dois. a criança ta alegre.

essas idéias de uma infância na qual todas as necessidades são consideradas parecem se localizar mais em um nível abstrato. esses estudos devem ser conduzidos junto a abusadores que reconheçam que tenham abusado das crianças. Isso é atestado. Um deles citou que “Adulto e a criança têm que ter respeito. pois as falas dos participantes sobre os estados emocionais das crianças. As respostas foram organizadas nas seguintes categorias: Sentimentos e comportamentos Positivos. né” (Flávio. pois não houve meios de verificar esse aspecto. em situações mais práticas e concretas. não se pode afirmar isso com certeza. relação de cuidado e respostas sobre a moralidade. Sentimentos e Comportamentos Positivos A maioria dos participantes citou sentimentos e comportamentos positivos que deveriam existir entre adultos e crianças. Contudo. Contudo. No entanto. seria um déficit de empatia com uma vítima específica e não uma deficiência geral nos processos empáticos. atender as necessidades delas. Esse déficit específico em relação à vítima pode ter ocorrido com os participantes desta pesquisa. 37 anos). né? Cordialidade entre eles. revela que suas necessidades não possuem tanta visibilidade. Aqui. na qual suas necessidades devem ser prontamente atendidas. por exemplo.113 sugerindo que o que aconteceria nos casos de abuso contra crianças. quando ao chorar ou gritar. haveria uma relação de cordialidade recíproca entre adultos e crianças na qual o adulto deveria ser cortês e ter respeito pelo adulto e vice-versa. os dados relatados não estarão permeados pelo que é socialmente aceitável. . para só depois. possuindo também prioridade de direitos. Ao relembrar respostas anteriores sobre “o que é ser criança” e as sobre as necessidades e direitos delas. serão descritas as respostas para as pergunta “Descreva para mim como deve ser a relação entre uma criança e um adulto”. Descrição da Relação Ideal entre Adultos e Crianças Nesta seção. percebe-se que os participantes possuem uma visão positiva da criança. Estudos que questionem como as relações com as vítimas se estabeleceram são essenciais para que se entenda se esses déficits específicos realmente ocorrem. já que todos eles apresentaram alguma empatia nas situações descritas. os participantes alegam que há uma necessidade de se analisar a plausibilidade dos motivos para tais comportamentos. Apenas assim. o que não foi o caso deste estudo.

e afirmou: Vejo se a pequena tomou banho. o cuidado dessa criança (Ariès. ele teria que coordenar as atividades diárias das suas filhas. nuclear) deveria ser o local privilegiado da educação pelo “futuro da nação” (Ribeiro. ‘Não. 70 anos). enjeitados e delinqüentes. como explicitam as respostas dos participantes. que teria como um dos objetivos principais. comentando também que “Pra quem cuida dela.114 Relação de Cuidado Um participante respondeu que “Adulto é que tem que tratar a criança bem” (Paulo. Assim. apesar de ela ser inteligente ela é muito preguiçosa. Esse tipo de atitude frente às crianças pode implicar na pouca consideração e até em violência contra crianças que não seriam de responsabilidade da família nuclear. A visão da criança como alguém que precisa ser cuidada está historicamente associada à formação da família nuclear. justamente. pelos higienistas no século XIX.. Contudo. Conceber a criança como sendo de responsabilidade apenas da família gerou a divisão entre os filhos de família e os órfãos. cometer abusos contra estas crianças que não sejam da família pode ser mais permissível que abusar das crianças do próprio núcleo familiar. no meu pensar que ta entristecendo a criança. categorias opostas de crianças que estavam presentes como alegorias das crianças nos Códigos de Menores de 1924 e 1929. considerar a criança como sendo de responsabilidade apenas da família ainda pode ser vista nos dias atuais. Tal idéia no Brasil foi difundida. Então eu tô sempre coordenando. como comenta Londoño (1999). Outro foi mais específico sobre a questão dos cuidados com as crianças. O movimento ditava que a família (monogâmica. Dou uma passada nos cadernos dela. Ela não quer fazer tema. Tem que ter tudo pronto. sobretudo. Assim. (Francisco. . pelo menos em termos jurídicos pela ocasião da promulgação do Estatuto da Criança e do Adolescente. Eu acho que é dever de família. tem preguiça. família nenhuma pode fazer isso”. 37 anos). ela é muito preguiçosa sabe. Percebe-se que estes dois participantes fizeram referência às pessoas da família como aquelas que teriam maior obrigação de acompanhar a rotina das crianças e de atender aos seus pedidos. Essa tipificação das crianças foi ultrapassada. os cuidados da criança seriam dever de sua família e não mais de outros núcleos sociais. As crianças que não tinham família eram consideradas apenas dever do Estado que dirigia a elas uma disciplina opressiva.. eu não vou te levar’. se a grande trouxe tema pra fazer. não quer. 2006). 1975/1981). Assim. Que a minha grande.

pode ter um comportamento que ela mesmo não sabe que não é correto. De que aquilo ali pode ser alguma coisa errada. demonstram-se as respostas estereotipadas dos participantes da pesquisa. os adultos teriam que corrigir as crianças. às vezes. descritos por Ariés (1975/1981). a barreira dos limites da moral. Com essa citação pode-se notar que o participante atribui ao adulto a obrigação de evitar “erros morais”. Caracterização das Vítimas A seguir são expostas as respostas dos participantes em relação às características das vítimas.115 Respostas Sobre a Moralidade Para um dos participantes (Osmar. ele devia de evitar.. A criança não conhece. Agora. O adulto sabe o que está fazendo. 73 anos). os participantes demonstraram ter clareza sobre como adultos devem se comportar frente as crianças. que descreviam as crianças como seres assexuados ou livres dos pecados do sexo. As respostas foram agrupadas em uma categoria única denominada vítimas do sexo feminino. revelando a idéia da inocência da criança. Sexo das Vítimas Perguntou-se as participantes o sexo das crianças envolvidas na denúncia. não sabe o quê. para começar. Não.. Vítimas do Sexo Feminino Todas as vítimas envolvidas nas denúncias contra os participantes eram do sexo feminino. Tal concepção tem aparecido nos discursos sociais desde os preceitos moralistas e religiosos do século XVI. quem sabe. quando questionados acerca das características que melhor descreveriam as crianças e a fase infantil. eles às vezes não sabem o que estão fazendo. sem que haja coerção ou violência. Até a criança. No estudo de Almeida e Cunha (2003) este mesmo tipo de concepção apareceu entre professores de crianças. tem um comportamento sem pensar. Não tem consciência que pode ser alguma coisa errada. então o adulto está consciente do que faz e deve respeitar a criança.. Mais uma vez. a pessoa adulta que pode chegar a ultrapassar. Não tem consciência. não sabendo distinguir entre certo e errado: Criança. e que a relação com o adulto deve ser pautada no respeito e nos sentimentos e comportamentos positivos.. pois elas possuem discernimento moral. De maneira geral. Apenas um dos participantes havia sido acusado anteriormente de . ela não sabe.

A preferência por vítimas do sexo feminino é relatada em diversos estudos (De Lorenzi. Aparência Física das Vítimas A aparência física da vítima também foi outro aspecto investigado. A resposta de Osmar (70 anos) serve para exemplificar o tipo de resposta dada pelos participantes de maneira geral: “Ela é bem bonitinha. pois segundo este estudo a idade das vítimas varia de 8 aos 13 anos.116 um abuso contra uma criança do sexo masculino.. é mais freqüente. as idades das vítimas variaram. et al. estando intimamente intricada com a manutenção do segredo. Essa característica foi discutida por Elliot et al. As respostas foram agrupadas nas seguintes categorias: Vítimas crianças e vítimas adolescentes. pois elas seriam educadas para obediência e para submissão (Narvaz. pois “faz parte do jogo” da obediência não apenas aceitar o abuso. Vítimas Adolescentes Três vítimas eram adolescentes. Saffiotti. (1995) como sendo uma . Beleza da Vítima Os participantes avaliaram como bonitas as crianças e adolescentes que eles foram acusados de abusar. Vítimas Crianças Duas das vítimas eram crianças com idades de 6 e 10 anos cada uma. 1998) A violência sexual contra meninas. 1995. 2005. cada um delas com 13 anos de idade. A faixa etária das vítimas parece estar de acordo com as médias dadas por Elliot et al (1995). Nesse estudo.. As respostas se agruparam na categoria única: Beleza da vítima e recusa em avaliar a aparência da vítima. Safiotti. 2001. mas também não revelá-lo a ninguém.2005. Elliot et al. Estas teriam que se submeter a todos os pedidos e ordens advindas de homens mais velhos e com mais autoridade que elas. Habigzang et al. eu acho”. 1998). Idades das Vítimas Foram indagadas também as idades das vítimas envolvidas com a denúncia. A submissão e a obediência não estariam associadas apenas ao início do abuso.

Essa característica da vítima não esteve ligada. (Flávio. As vítimas foram descritas como “muito inteligente” (Francisco. Ausência/Presença de Deficiências Averiguou-se também se os participantes identificavam algum tipo deficiência (física e/ou mental) em suas vítimas.117 importante característica para a escolha da vítima. Koller (1999) comenta que algumas vezes crianças com deficiência física ou mental podem ser escolhidas como vítimas. Insistiu-se pra que ele justificasse o motivo pelo qual ele não podia se pronunciar. As respostas foram agrupadas em duas categorias: Características positivas e características negativas. Ausência de Deficiências Todos os participantes afirmaram que a as crianças vítimas do abuso não possuíam nenhuma deficiência física e/ou mental. no entanto. pois seriam mais frágeis e vulneráveis. Atitudes Foi solicitado também que os participantes relatassem que outras características eles poderiam identificar nas crianças e adolescentes envolvidas na denúncia de abuso sexual contra eles. A resposta desse participante parece ter como objetivo transparecer a idéia de uma posição politicamente correta. não tendo como revelar o fato. 37 anos). As respostas foram organizadas em uma categoria única: Ausência de deficiências. diz os antigos que pai não acha filha bonita. pois isso não seria correto de sua parte. também. pois se o participante nem pode avaliar a beleza da filha. Recusa em Avaliar a Beleza da Vítima Um dado vale a pena ser comentado: um dos participantes respondeu que não poderia se pronunciar sobre a beleza da filha. mas ele apenas respondeu o seguinte: “Olha. a nenhum dos casos dessa pesquisa. 37 anos) ou como “muita esperta”. ela não serve pra feia e nem bonita. . responderam que procuram por vítimas de boa aparência física. 42% de 91 abusadores sexuais infantis. isso indicaria que ele jamais cometeria abuso sexual contra ela. Segundo esses autores. Agora. Penso eu na minha criação que eu tive”.

mas obediente um pouco que os outros. Quando Flávio se referiu a sua vítima como convincente. a beleza e a relação de proximidade com o abusador foram as respostas que se aproximaram com os dados apresentados respectivamente nos estudos de De Lorenzi et al. . apenas a título de sugestão. Atitudes Negativas Flávio (37 anos) classificou sua enteada como uma pessoa convincente: Eu não sei. 70 anos) pelos participantes. Quando ela vai falar alguma coisa. Essa convicção teria feito com que as pessoas acreditassem em sua “mentira” sobre a tentativa de estupro. as vítimas de abuso sexual são desacreditadas (Morales & Scharamm. Então. 38 anos) e “educadas” (Paulo. 38 anos). pois o adulto saberia mais sobre o certo e o errado.. essa característica pode ser vista como associada ao início e a manutenção do abuso sexual dessas meninas. né? Ela tem costume de. Outros adjetivos usados para classificar as vítimas foram como “bacana” (Flávio. Um deles enfatizou inclusive que a vítima era a mais obediente de seus filhos: “Ela inclusive era mais obediente.. A autoridade do adulto nesse ponto pode valer mais que a fala da criança e do adolescente.. Quando ela vai falar alguma coisa ela chora. assim como fez Flávio..70 anos). ele sugeriu que ela estaria mentindo em suas alegações. Neste estudo. foram encontrados apenas alguns dados que estão de acordo com o perfil de vítima traçado pelos estudos. às vezes tava também” (Marcos. Lawson (2003) realizou um levantamento teórico em estudos de 1982 a 2001 sobre as principais razões que os abusadores alegavam para o cometimento de atos abuso sexual contra crianças. o participante tenta depreciar a vítima. 2002). né? Ela é assim. fazendo com que ela seja vista como mentirosa.. Aqui o entrevistado claramente tentou utilizar uma característica da vítima para escapar a acusação. Mais uma vez. Mas.. Ela é muito chorona. enfatizando que ela mentiu. Talvez a menina tenha sido convincente na primeira declaração dela. Ela comenta que uma estratégia freqüente usada por abusadores é alegar que a vítima mentiu sobre o abuso sexual. A maioria feminina. Nesse caso. Num era todas às vezes que eu chegava era que ela tava na rua. A maioria delas foi descrita como “obediente” (Paulo. Muitos abusadores se valem desse tipo de autoridade para desacreditar as vítimas perante os outros.118 Atitudes Positivas As atitudes das crianças e adolescentes vítimas do abuso foi descrita de maneira diversa. Freqüentemente. acho que ela é muito convincente. Aqui cabe um comentário.

119 (2001). sempre que a gente podia a gente dava tudo pra ela. Vínculo com o Abusador Perguntou-se aos participantes qual era a relação com a vítima envolvida na denúncia de abuso contra eles. (1995).. mas quase todas podem ser classificadas como positivas. Na entrevista. 1999) a baixa auto-estima. né? E eu muito agarrado nela. a inocência. começou ela a crescer e o pessoal começou a buzinar tanto na minha cabeça que na dela. não a considerava como filha. Ele e a esposa sempre atuaram como cuidadores secundários da adolescente. antes mesmo da acusação de abuso sexual. 2003. As respostas foram organizadas duas categorias: relações positivas e relação de vigilância.. avó e padrinho)... Ela muito agarrada a mim.. e . como comentam Elliot et al. As respostas foram classificadas em uma única categoria chamada relação de proximidade entre a criança e o perpetrador. Relações Positivas A relação com as vítimas foi particular em cada caso. Habigzang..... a fragilidade. Relação de Proximidade Entre a Criança e o Perpetrador Todas as vítimas eram crianças que possuíam uma relação de proximidade com os abusadores e no caso desse estudo uma relação de confiança. E a gente. Contudo. Os dados da literatura se confirmam nesse caso. De acordo com Francisco: Então eu sempre fui muito agarrado a ela. pois todos exerciam papéis de cuidadores (pai. apenas como afilhada. Elliot et al 1995.. combinados entre eu e a minha esposa a gente. Então. Qualidade das Relações entre os Participantes e as Vítimas A relação entre a criança vítima e os participantes foi outro quesito investigado... 2005). et al. não foram encontradas as características relacionadas a deficiência física (Koller. ele relatou que apesar de fornecer objetos materiais e cuidados. De Lorenzi et al. (2005) e outros. Sua proximidade com a vítima era vista com desconfiança pela família. confiabilidade da crianças e das adolescentes em nenhum dos casos. padrasto. começou.. Eliot (1995) e de Habigzang et al. pois é sabido que a maioria dos agressores conhece sua vítima (ABRAPIA. né. Francisco (idade) comenta que sua relação com sua enteada (e vítima) de 13 anos era de muita proximidade.. 2001.

no colégio. E sempre em cima. (Furniss.. Habigzang & Caminha. Marcos (38). Flávio (37 anos) apenas relatou que se relacionava bem com a enteada e não entende o motivo de ele ter o acusado da tentativa de estupro. Ela não tem outro pai. que ela saía do meu colo. tava sempre agarrada em mim. Quinze pras cinco.. Se você ver ela junto comigo ela diz pai”.. muitas vezes. Segundo Osmar (70 anos): “E ela me conhece como pai. por sua vez.. boa. sempre. já. sempre cumprindo as minhas obrigações que eu tinha que ter de cuidar o filho. Sete horas eu largava a Marina (outra filha do participante). 2005.. né?’ Nunca deixei ir sozinha.120 na dela também. aí. quando ela pedia alguma coisa se eu achasse que dá. De acordo com ele: Vai. Que ela era muito agarrada em mim. eu dava. eu deixava”. A proximidade e o vínculo que perpetrador e vítima possuem. descreve a sua relação com a filha da qual foi acusado de abusar como uma relação normal de um pai com uma filha. 2004. vítima do abuso pelo qual foi denunciado. mas você tem que mandar a mais velha junto ou o irmão. Começaram a falar. Já foi tirado que eu trazia aqui ó. que ela. “Uma relação normal de pai com filho. podia ter vento... com exceção do caso de Paulo (70 anos). chegava lá deixava bater a entrada do colégio. faz com que o ele se valha da relação de afeto e confiança com a criança para cometer o abuso mantê-lo em segredo. Mas eu nunca vi aquilo ali como um problema. As respostas relatadas na questão seguinte explicitam melhor a qualidade de relação que os participantes tinham com suas . eu levava numa hora. eu ia buscar ela.. Isso há uns dois anos já começaram a falar. Se ela pedisse pra ir brincar com coleguinha. Esse tipo de resposta pode indicar que os participantes usam esta relação positiva para se aproximar das vítimas para cometer os atos de abuso. que eu também tava sempre agarrado nela. No colégio.. De maneira geral. 1993. Relação de Vigilância Paulo (70 anos) relatou que observava com rigidez a rotina de sua filha. eu tava lá podia ter frio. na sala dela. seu eu achava que dava. nota-se que as relações dos participantes com as crianças envolvidas na denúncia se configuraram de maneira positiva.. Quinze pras onze.. aí dava sete horas.. tendo um excelente relacionamento com elas. Habigzang et al. in press). né. Normal. sempre. Osmar expôs que tratava a filha de sua enteada (a qual ele é acusado de abusar) como sua filha. avisava a diretora a Priscila (filha) já ta lá. Nunca dei corda. Tava lá esperando pra trazer pra casa. Era normal de um pai com filho. essa que é casada que tá em casa e a Karina.

Envolvimento da Vítima pela Ação de Terceiros Dois participantes atribuíram o envolvimento da criança na denúncia. eu num ia ficar com mulher nenhuma. (Osmar. 38 anos). pela vontade que alguns parentes tinham de prejudicá-los. as crianças não se envolveram nessas acusações por vontade própria. os participantes apontaram uma relação de manipulação com as vítimas. e envolvimento pela ação do participante.. ele foi acusado de abusar da filha de sua enteada. Que elas me queriam tirar a casa. As respostas foram organizadas nas categorias envolvimento da vítima pela ação de terceiros. Assim. 2000). Daí ela pegou e disse que pra mim que se eu num ficasse com ela. pois: Essa última (denúncia) é para ficar com a casa. Deu metade para tua filha a outra metade é minha. A raiz de tudo é a minha filha que eu não quis que o marido entre na casa. envolvimento da vítima pela sua própria ação. o segundo homem que ela teve que eu não quis que entre na casa. o motivo da vingança seria um relacionamento extra-conjugal que ele vinha mantendo: Eu conheci uma outra mulher e comecei a ter um caso com a outra mulher. por sua vez. relatou que sua esposa quis vingar-se dele e haveria encorajado sua filha a acusá-lo falsamente de abuso sexual. ele alega que é inocente e que a denúncia contra ele só foi levada a cabo. é da minha filha. característica essa apontada como importante por abusadores em outros estudos (Swaffer et al.. Ela me acusou na época (Marcos. 73 anos) Marcos (38 anos).. meu marido não vai sair. tu que vai ter que sair’ E aí a raiz de tudo é isso. Então ela disse: ‘Não quer. Envolvimento Específico da Vítima na Denúncia As respostas seguintes referem-se à pergunta “Por que esta criança e não outra criança está relacionada a esta denúncia?”. Eu não fiz isso aí. Eu fui acusado por essa minha esposa de ter abusado da minha filha. Em nenhum dos casos. Só que não é verdade. Não tem nenhum outro motivo. Esse é o.121 vítimas. e ai veio essa acusação. Segundo o entrevistado. Jamais teria coragem de fazer isso aí. Envolvimento da Vítima por sua Própria Ação Nesta subcategoria foram organizadas as respostas que expressavam o envolvimento da vítima a partir de sua própria ação. Os participantes usaram como justificativa características adolescentes das vítimas para esse envolvimento nas . Contudo. O homem. E ai a minha mulher se aproveito de pegar a metade que ela queria. No caso de Osmar (73 anos).

entendeu? Mas eu tenho consciência. e.... afirmou: Ah. assim. in Newcomb. Eu acho. Ai andava junto com os caras e tal.... acho que ela devia de ter saído. a responsabilidade pelo abuso seria dos dois. a partir do momento que. assim. Nessa parte ai. né.. E eu acho que não tinha mesmo.. por exemplo.. né? No caso ela queria sair. A entrada na adolescência e a busca pela liberdade seriam os motivos pela denúncia. não. Quando inquirido sobre a responsabilidade em relação com sua afilhada. né (ela também é responsável). Então ela sabia o que ela fazendo também.. que ela é uma criança como tão dizendo que ela é.. Acho que nesse ponto eu agi errado. O entrevistado se vale das características da fase adolescente para se escusar da denúncia de abuso. pois é ciente do que é ou não uma conduta adequada. com essa inocência toda... ele era pessoa que tinha a responsabilidade pela situação. com certeza. Talvez eu estivesse. 37 anos). Das falas de Francisco percebe-se que. Eu acho que. né. queria ter os namorados dela. eu não devia ter trancado ela.. eu me meti no espaço dela. hoje. eu não tinha direito. Eu não vejo ela.. ele sabe que teve uma . né? Eu acho que eu devia ter dado mais liberdade pra ela. Segundo o abusador. afirmou que sua enteada o acusou injustamente. Mas ahn.. o que. Por que eu tentei controlar de mais a vida dela. Ele justifica que não houve abuso.122 denúncias. Eu não sei. O participante admitiu que tinha abusado de sua afilhada de 13 anos. pois a adolescente “não foi forçado. perante a lei... Que é uma coisa que como ela mesmo diz. 1999) pode servir como uma forma de desacreditar adolescentes que denunciam seus abusadores.. 37 anos).. Como tu sabe se uma criança deixa de ser criança. pois esta estava entrando para a adolescência e queria mais liberdade: (A vítima) Começou a mentir e andava com um pessoal na esquina que tudo se juntam numa esquina pra fazer uso de maconha. pois ele era o adulto... É como se diz. O caso de Francisco de 37 anos vale ser discutido separadamente. Francisco não usou o termo “abuso sexual”. Eu acho que ela sabia o que tava fazendo. Conceber a adolescência como uma fase de conflitos (Hall. Segundo ele: “Porque ela quis e eu quis. Flávio (37 anos).. pois “Porque ela quis e eu quis”. (Flávio.. ele manteve um relacionamento afetivo-amoroso com sua a vítima. não foi forçado. Ela é criança. eu errei porque eu sou o maior. Quando afirma que a adolescente não tem essa “inocência toda” isso significa que ele a concebe como uma pessoa que já possui responsabilidades sobre seus atos. a gente. Então. sabe. eu acho que eu agi errado.. no caso. Francisco admite que perante a lei. entendeu?”.. Durante toda a entrevista. Entretanto. Foi isso. que perante a lei é como se fosse” (Francisco. Em suas palavras. talvez. E. também...

O entrevistado respondeu que agiu como uma adolescente capaz de provocá-lo: E ela foi pro banheiro e eu fique na cozinha tomando banho. Essa pessoa. . ela não tem consciência do que faz. A fala de Francisco esclarece que esse tipo de conduta pode ser típico de uma adolescente. 37 anos). 37 anos) (e.. Foi questionado se a adolescente havia agido como uma criança ou como uma adulta. as condutas sexuais podem ser vistas como mais aceitáveis para as adolescentes. Ela agiu como uma adolescente agiria (Francisco.123 conduta inadequada. e ela já teve outros homens. pois queria que ele fosse preso para poder se relacionar com ela sem a vigilância do pai.. que ela começou com essa cabeça” (Francisco. A concepção de Francisco é análoga a dos caminhoneiros. inclusive quando o relacionamento sexual ocorre entre ela e uma pessoa de nível psicossexual mais adiantado. na resposta desse entrevistado. Sobre a denúncia de Paulo (70 anos). 37 anos). Uma abóbora verde. pois a vítima já era adolescente e não mais criança. 70 anos). pois na idade em que está. segundo. Atrelado a pouca consciência de sua filha. Foi de adolescente dela. portanto. teria convencido sua filha a mentir. a cabeça dela é uma abóbora verde. Assim. só que ela não se vestiu. Koller et al. né. (2005) discutem que em uma pesquisa com caminhoneiros sobre a exploração sexual comercial infanto-juvenil. E parou na frente e soltou a toalha no chão. Todavia. foi que aconteceu. Não tem miolo. Mas podia ter se vestido no banheiro. esses indivíduos enfatizaram que se uma menina não fosse mais virgem. Ele fez esse comentário também para justificar que ela já não “era tão inocente” (Francisco. sua conduta de ter abusado da afilhada parece não ser tão grave. A questão de não ser mais virgem precisa ser mais aprofundada. Segundo Paulo: “A Priscila na idade que tá. era diminuída. E começou a me abraçar e aí. ele relatou que sua filha o acusou. mas não de uma criança. nem tão criança) quanto outras pessoas alegavam.. Além disso. pois ele enfatizou que ela já não era mais virgem e que por isso ela já seria permitido se relacionar sexualmente com ela. a responsabilidade deles em manter relação sexual com elas. entendeu? Ah. eu acho que ela agiu como uma adolescente. também. E fazer como o outro. sem os parâmetros da lei.. né?” (Francisco. Ela veio até a cozinha enrolada na toalha. Ele conversou muito. Ela entrou no banheiro e tomou o banho dela. Francisco fez referência a outros relacionamentos sexuais que sua afilhada haveria mantido com outros homens “Ah. sua filha estaria se relacionando com um homem com o dobro da idade dela.

que eu sou um tarado. 37 anos). pois: Eu tenho várias sobrinhas. a mesma vontade que eu tinha tido com ela. A fala de Francisco mais uma vez este em concordância com os discursos dos caminhoneiros pesquisados por Koller et al. Paulo alegou ainda que a sua filha estava mentindo quando a acusação que fez contra ele. Segundo ele. a ausência de senso de sua filha facilitaria a persuasão. Afirmar que a relação entre abusador e vítima não se configurou como abuso. 37 anos). não foi apenas beleza. revelaram que uma das justificativas que os impediam de abusar de crianças nas estradas. ela perguntou se eu já tinha. Além disso. que eu sou um louco. O entrevistado respondeu negativamente e enfatizou que sua afilhada não era sua filha. Koller et al. Lawson (2003) comenta que afirmar que a vítima está mentindo é uma das principais estratégias usadas por abusadores sexuais infantis. as características da fase adolescente funcionaram como um caminho para desqualificar a denúncia feita pela vítima. ela deve tá pensando que. Mais uma vez. (2005) sobre a exploração sexual infantil. da qual abusou. mas depois eu parei pra pensar: ‘Bom. Ele associou esse tipo de conduta por parte de sua filha a entrada na adolescência. sei lá o que ela ta pensando de mim. comentam que essa diferença de status (entre as meninas de suas próprias famílias e as outras) facilita o cometimento de .. sei lá. mas que não também não podia ser classificado como “amor” (Francisco. Exemplificando a fala de Francisco: Me atendeu uma senhora lá. tão bonita quanto a minha filha e tão bonita quanto a Ana. eles afirmaram que as meninas que se “prostituem” nas estradas não seriam como suas filhas. mas sim como uma relação afetiva. (Francisco. que é tão bonita quanto ela. mas que também nutria um sentimento mais profundo por ela. né. era pensar em suas filhas. Envolvimento pela Ação do Participante Francisco destacou também que nutria um afeto de natureza diferente pela sua afilhada. é descrita por Lawson (2003) como uma estratégia comumente usada por abusadores sexuais. sabe. se eu já tinha tido com a minha filha.124 Assim. Os sujeitos da pesquisa realizada por estes últimos autores.. como uma forma de esclarecer que com suas filhas jamais agiria dessa maneira. Ele citou que sentiu atração sexual. foi questionado se ele já havia pensado em suas filhas de maneira sexualizada. Aí eu achei uma coisa absurda. pois jamais teriam coragem de manter relacionamento com elas. Neste ponto. Todas elas são bonitas. Então vou responder só o que eu acho que é certo. tenho a outra que tem 14 anos e tem a mesma idade da minha filha.

afirmam que as atribuições de culpa. são influenciados diretamente pela idade da vítima. Já no caso das meninas mais velhas. pois pessoas mais velhas as teriam persuadido a mentir. de modo que se for uma adolescente envolvida na acusação. Algumas estratégias usadas pelos entrevistados. Pode-se concluir que os abusadores se valem desse tipo de percepção social que se tem acerca do abuso sexual de crianças como um modo de se escusar das acusações. 2003). . As meninas mais jovens vítimas dos homens entrevistados nesse estudo. pois esse tipo de conduta é tido como mais permitida com aquelas crianças não fariam parte das famílias dos caminhoneiros. em situações hipotéticas de abuso. mas sim uma relação afetivo-sexual consentida é comum entre os abusadores (Lawson. Os motivos pelos quais as vítimas estariam envolvidas nas denúncias foram variados. pois notou-se que quando as vítimas eram crianças. quando a vítima era adolescente (caso Paulo. Constata-se que a idade da vítima pode ser um importante fator que interfere nos modos como os abusadores justificarão os motivos pelos quais as vítimas se envolveram na denúncia. não foram acusadas de mentir ou de provocar seus abusadores. tais como alegar que a que o ocorreu não foi um abuso sexual. caso Flávio e caso Francisco) os motivos que levaram a se envolver na denúncia foram provocados basicamente pela ação delas. as vítimas foram acusadas pelos abusadores de mentir ou de consentirem o abuso. 2004). Waterman e Foss-Goodman (in Almeida. Contudo.125 atos de abuso sexual. a relação é tida como menos abusiva. o seu envolvimento na denúncia se deu pela ação de terceiros (caso Marcos e caso Osmar). mas sim de estarem envolvidas na denúncia. as adolescentes são mais culpabilizadas e aos abusadores é atribuída menos responsabilidades.

Assim. mesmo quando são cometidas violações contra os direitos das crianças. Este fato é comum em classes pobres. obtiveram-se dados sobre as relações dos participantes com criança ao longo do ciclo vital bem como sua visão sobre as crianças. o que foi 126 . Ao analisar. Ocorreu. sem episódios de abuso. neste estudo optou-se por não rotular esses indivíduos. mesmo que superficialmente. que em geral.CAPÍTULO IV CONCLUSÕES O presente estudo alcançou seus objetivos. De maneira coerente. Além disso. Como afirmam Cohen e Gobetti (2002). as características sócio-demográficas dos participantes. Isto significa que pessoas com alta escolaridade e poder aquisitivo mais alto. apresentando relações saudáveis com as pessoas (inclusive com crianças) de todos os microssistemas (família. tomando-se o cuidado em discutir. bairro) ao longo do ciclo vital (infância. como em muitos outros. nos casos deste estudo. uma vez que. sendo provenientes de classes sociais menos favorecidas. eles enfatizaram que suas histórias de vida (devido a esta suposta tranqüilidade) em nada se relacionavam com as denúncias de abuso sexual contra eles. adolescência. Desta forma. adultez e até velhice para alguns). inicialmente. advindas de classes sociais mais favorecidas também podem praticar abuso sexual infantil. mesmo porque o número de participantes deste estudo não permite generalizações. pois nas demais classes socioeconômicas as pessoas estão mais preocupadas em manter sua privacidade. essas características não devem ser tomadas como típicas do perfil de homens acusados de delitos sexuais contra crianças. suas histórias de vida também não pareciam ter contribuído para uma distorção da visão sobre as crianças levando-os a cometer abuso sexual. há que se considerar que esta pesquisa foi realizada em um serviço gratuito e para o qual o encaminhamento era compulsório. as características sóciodemográficas dos participantes deste estudo observa-se que quase todos eles apresentaram uma história escolar de pouco sucesso. Um segundo ponto a ser considerado se refere às histórias de vida dos participantes. se caracterizaram por informações sobre uma vida tranqüila. de as denúncias sobre abuso sexual infantil terem provenientes de classes sociais menos favorecidas. no entanto. escola. Obviamente. classificar abusadores sexuais a partir de algumas características específicas envolve uma questão ética.

Horley. soando como um aspecto manipulador de suas personalidades pouco vinculáveis. superficiais e objetivas da situação. que espontaneamente desejariam relacionar-se sexualmente com adultos (Gannon et al. para chegar à condição de abusadores. ora com respostas pragmáticas.127 demonstrado nas respostas dos participantes. as pessoas em geral poderiam ser descritas como aquelas que teriam comportamentos auto-centrados e não aceitariam normas sociais. como seres felizes que se ocupam apenas das brincadeiras e não possuem muitas preocupações. que ditariam que suas vontades são mais importantes que as de outrem. Este dado fica ainda mais claro quando são inquiridos sobre situações mais práticas às quais tendem a ser mais pragmáticos e a emitirem respostas com definições utilitárias. Nas questões sobre empatia. ora transparecendo angústia pessoal (Eisenberg & Strayer.. não manifestaram comportamentos auto centrados. 2005. aparentemente. como seres inocentes sobre os diversos aspectos da vida. Assim. Todos esses fatores contribuiriam assim para uma visão romanceada e positiva destes participantes sobre os aspectos gerais de suas vidas e também com relação à criança e à infância. Ward & Keenan. principalmente com relação ao sexo. Não furtaram-se ainda a emitir respostas inadequadas ou confusas. Eles viam as crianças. Os participantes deste estudo. como estando de acordo com elas. 2000). Além disso.. algumas respostas sugeriram que tais processos não se apresentavam de forma consistentes. sem expressão de sentimentos. como conceber . Expressam ainda reconhecimento e aceitação das normas sociais. de maneira positiva. responsabilidades ou deveres. A falta de empatia denunciou que as necessidades das crianças não possuem afinal tanta visibilidade para eles. no entanto. especialmente quando afirmam que têm respeito pelos outros. alguns deles demonstraram crenças estereotipadas sobre os gêneros. as crianças foram vistas como tendo prioridades de direitos e necessidades. na qual as crianças seriam descritas como seres sexuais.não foi notado nenhum “erro” cognitivo que se associasse a uma visão distorcida. 2005. Contudo. Além disso. a denúncia de abuso sexual contra uma criança menor de 13 anos associada a outros dados de suas histórias mostram que suas visões sobre e as crianças não são tão positivas quanto eles gostariam de transparecer. Chegam a apresentam bom auto-conceito e auto-estima elevada. 1990). embora aparecem em seus discursos. 1999). Portanto. A visão que o abusador tem sobre si mesmo e a aceitação das regras sociais influenciariam diretamente na visão que eles possuem sobre o mundo e sobre as crianças (Gannon et al. como uma alternativa à falta de resposta que também foi freqüente.

os participantes desqualificaram os comportamentos de suas vítimas. pode-se também pensar que aqueles que não admitiram ter praticado o abuso estejam fornecendo respostas ainda menos fidedignas. As respostas daquele que afirma ter cometido a violação parecem mais verazes do que as dos demais participantes. Portanto. na medida em que essa permissividade para os comportamentos masculinos se baseia na premissa de que a natureza sexual masculina é incontrolável.128 a expressão da sexualidade como mais permitida para meninos que para meninas. não poderiam fornecer respostas que os comprometessem. Além disso. As crenças sobre a obediência das meninas verificada neste estudo também é outro ponto que pode sublinhar o abuso sexual de crianças do sexo feminino (Narvaz. pode-se pensar que se o único que admitiu se coloca dessa maneira diante das perguntas sobre seus desejos sexuais. A primeira delas é quase todos participantes foram recrutados quando estavam envolvidos em avaliação psicológica compulsória determinada pela justiça. menos sendo crianças ou adolescentes. ao afirmarem que elas mentiam ou teriam a mesma responsabilidade que eles. buscando sobrepujar a denúncia e o fato em si e passar a impressão geral de que foram inadequadamente culpabilizados. (Francisco. . As respostas politicamente corretas e estereotipadas podem ter sido dadas por duas razões principais. estando. 37 anos) sobre a resposta dele para uma profissional de saúde que questionou se ele possuía desejos sexuais por suas filhas. uma tentativa persistente de emitir respostas politicamente corretas e estereotipadas. eles não definiam apropriadamente a resposta a esta questão. 2005. principalmente. a fala desse mesmo participante. revela a tentativa de transparecer apenas o que é socialmente aceitável: “Eu só vou falar o que é certo” (Francisco. 1997). Mesmo parecendo mais “verdadeiro”. Nota-se. quando questionados sobre as acusações que pesam sobre eles. portanto. 37 anos). Contudo. Este dado é confirmado. de qualquer forma. Evidentemente que embora pragmáticos quanto à visão de quem é uma criança. Esse tipo de crença pode contribuir para a justificativa de abuso sexual praticado por homens. Neste ponto. em um estado psicossexual mais precoce que eles. Safiotti. quando se comparam as respostas dadas pelos participantes que estavam no serviço compulsoriamente e do participante que estava neste mesmo local em busca de ajuda psicológica pelos sintomas relacionados à culpa sentida pelo abuso reveladamente cometido. pode-se questionar os motivos de algumas respostas serem tão “corretas” e outras apresentarem um pouco menos dessa retidão.

o que. Instrumentos que usam dados de outras fontes (como registros escolares e médicos. no entanto. Entretanto. Além disso. não pode ser garantido. etc. como relatos de familiares. como as usados neste estudo. O estudo aqui descrito usou apenas os relatos dos próprios participantes para obter dados. investigações científicas em períodos nos quais os participantes estão envolvidos em processos judiciais pode ser considerada como uma limitação. Assim. mais encontros poderiam propiciar maior vinculação. avaliações psicológicas de pessoas que cometem abuso sexual contra criança feitas em período limitado não podem ser descartadas. sugere-se que haja uma maior preocupação com o tratamento das pessoas que cometeram o abuso sexual para que .129 Há que se comentar que as medidas de auto-relato. o uso de instrumentos Assim. 1991) pode ser uma sugestão para uma avaliação mais veraz da situação de um abusador sexual. 1996). impedindo também o acesso a dados mais fidedignos.) tais como a Psychopathy CheckList Revised (Hare. que podem facilitar a expressão de respostas assertivas por parte destes indivíduos. O tempo reduzido da coleta neste estudo (apenas um encontro com quatro participantes e dois com um outro) pode ter diminuído a chance de vinculação com os participantes. O uso de instrumentos que não forneçam apenas auto-relatos (como os comentados anteriormente) são especialmente importantes quando se dispõe de pouco tempo para fazer avaliações. uma vez que traz dados da expressão dos participantes nas condições expostas. pois muitas vezes os profissionais envolvidos neste tipo de atividade dispõem de pouco tempo para a realização de tal tarefa. Outro aspecto que deve ser considerado é a brevidade do contato com os participantes em um contexto de pesquisa e a possibilidade escassa de vinculação com a equipe de pesquisa. Além disso.. quando se pretende ter dados de melhor qualidade sobre as vidas e os interesses sexuais de abusadores sexuais infantis. uma vez que os índices de transtornos anti-sociais são indicados como elevados entre pessoas envolvidas com abuso sexual contra crianças (Trepper et al. 2003) podem ser mais úteis. têm sido criticadas. ou testes falométricos (Marshal and Laws. estudos que busquem outras fontes de dados. Itenbi (1998) comenta que a acessibilidade a certos dados (como os de vitimização dos próprios abusadores) aconteceu apenas depois de várias sessões com estes indivíduos. à mentira patológica entre outros comportamentos. 2001). Os sintomas deste transtorno associam-se à manipulação. Certamente. Esta coleta não deixa de ter validade ecológica. pois elas estão sujeitas a influência da do que é desejável socialmente (Tierney & MacCabe.

a visão de criança que os participantes desta pesquisa têm revela o pragmatismo com que tratam a criança e como transferem para a sessão de pesquisa a atitude de responder às demandas socialmente aceitas. como já foi reiterado diversas vezes. Ser criança para um abusador sexual pode ser carregado de uma definição funcional para alguns. embora tenham por detrás uma denúncia de tamanho peso. pois com os resultados obtidos neste estudo demonstrou-se que os abusadores negam veementemente as acusações contra eles. Contudo. tais como uma melhor investigação do relato da criança e de seus familiares devem ser obtidas como provas em casos de abuso sexual.130 elas se responsabilizem pelo ato de violência que praticaram contra criança. e que no curto período de tempo no qual se realiza a avaliação é quase impossível realizar alguma intervenção que se reflita na conscientização da gravidade do ato de violência por eles praticado. o contexto no qual as respostas foram dadas . A responsabilização é particularmente importante. Acredita-se que apenas com uma intervenção mais focalizada nestes indivíduos pode-se alcançar este objetivo. Finalmente. Enfatiza-se ainda que outras fontes de dados. já que a auto-culpabilização dos autores dos atos é um processo difícil. ou quase ausente para outros.

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vida familiar. 2. 2600. se recusar a continuar participando em qualquer momento sem qualquer prejuízo para 139 . Como será a sua participação na pesquisa: Ao participar deste projeto. Algumas perguntas podem trazer algumas lembranças e sentimentos que podem incomodar. As entrevistas serão feitas no Departamento de Genética em uma sala que estará reservada.br TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO Pesquisa: A Criança na Perspectiva do Abusador Sexual. um momento para que você fale o que você quiser. sua visão sobre as crianças) de pessoas que cometeram ou estão sob suspeita de terem cometido abuso sexual contra crianças e adolescentes. Coordenadora: Psicólogas Andreína Moura e Sílvia Koller.ANEXOS ANEXO A Fundado em 1994 Centro de Estudos Psicológicos sobre Meninos e Meninas de Rua Instituto de Psicologia. que tem como finalidade saber sobre vários pontos da vida (vida escolar. Andreína Moura e Sílvia Koller da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Serão feitos mais ou menos três encontros com cada participante. Sala 104 . O que é esta pesquisa: Nós. convidamos você a participar desta pesquisa. ainda. você deve deixar que um membro do grupo de pesquisa faça algumas perguntas a você.90035-003 Porto Alegre RS Brasil Tel. Por isso. do Instituto de Psicologia da UFRGS 1. UFRGS Rua Ramiro Barcelos. O tempo de cada um destes encontros será de mais ou menos uma hora e trinta minutos. será oferecido ao fim de cada um dos encontros. 55(51) 33165150 Fax: 55(51) 33165473 Celular: 55(51) 81197091 E-mail: cep_rua@ufrgs. 3. Você tem liberdade de não querer participar e pode. Quem são as pessoas que participam desta pesquisa: Pessoas que cometeram ou que estão sob suspeita de terem cometido abuso sexual contra crianças e adolescentes.

pedimos seu consentimento de forma livre para participar desta pesquisa. 196/96 do Conselho Nacional de Saúde. se você necessitar de atendimento psicológico durante ou imediatamente após a pesquisa. Apenas os membros do grupo de pesquisa saberão sobre os dados.você. Riscos e desconfortos: A participação nesta pesquisa não tem relação com qualquer caso seu com a justiça. esperamos que este estudo traga informações importantes sobre as questões relativas a pessoas que estão sob suspeita de terem cometido ou cometeram abuso sexual contra crianças e adolescentes. você poderá pedir mais informações sobre a pesquisa e você poderá falar com as coordenadoras da pesquisa Andreína Moura ligando para o telefone (51) 8442-4059 ou no telefone (51) 3316-5150 com a Profa. 5. no Departamento de Genética serão os responsáveis por estes atendimentos. Será pedido que você dê algumas informações básicas e que responda a uma entrevista sobre vários pontos de sua vida. garantindo assim um melhor resultado para pesquisa. Os profissionais do próprio serviço. Além disso. 6. e também nada será pago a você pela sua participação. você não deverá ter nenhum ganho direto. Confidencialidade: Todas as informações obtidas neste estudo não serão reveladas a ninguém. Você não terá nenhum tipo de despesa ao participar desta pesquisa. Dra. Sílvia Koller. 7. Após estes esclarecimentos. Mas. preencha os dados que se seguem: 140 . Entretanto. 8. traga lembranças de alguns eventos que podem causar incômodo. Talvez. solicitamos sua ajuda para completar o roteiro de perguntas que lhe será solicitado. As entrevistas serão realizadas nas dependências do Departamento de Genética. Portanto. As gravações e aquilo que você falar nesta pesquisa serão identificados com um código e não com seu nome. Ao participar desta pesquisa. você será atendido no serviço no qual serão realizadas as entrevistas. O que será feito durante esta pesquisa estão de acordo com os Critérios da Ética na Pesquisa com Seres Humanos conforme a Resolução n. Como e onde serão as entrevistas: As entrevistas serão marcadas com antecedência. Sempre que quiser. 4.

Manifesto meu interesse em participar da pesquisa. Identificação Local e Data Assinatura do participante da pesquisa Andreína Moura e Silvia Koller . eu de forma livre e esclarecida.Coordenadoras do projeto 141 .CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO Tendo em vista os itens acima apresentados.

A pesquisadora responsável por esta pesquisa é a psicóloga Andreína Moura sob supervisão da Profª Dra. Através deste trabalho. nessa instituição. Optar-se-á por gravar as entrevistas. Sílvia Koller do Curso de Pós-graduação em Psicologia do Desenvolvimento do Instituto de Psicologia. esperamos contribuir para o esclarecimento de algumas questões sobre o modo como abusadores sexuais vêem as crianças. Todos os cuidados serão tomados para garantir o sigilo e a confidencialidade das informações. Também será encaminhado um Termo de Consentimento aos próprios participantes. _____/___/______ Data __________________________________ Psicóloga responsável Sílvia Koller CRP 07/2037 Concordamos que as pessoas que participam desta instituição. Os instrumentos serão aplicados individualmente para aqueles que apresentarem sua concordância em horários previamente marcados. A coleta de dados deverá envolver a realização de entrevistas individuais. Tal estudo prevê a participação pessoas adultas do sexo masculino de 18 a 59 anos. informando este procedimento aos participantes da mesma. sem nenhum prejuízo. UFRGS Rua Ramiro Barcelos. 2600. A qualquer momento. para que os mesmos apresentem sua concordância em relação a sua participação. Caso queiram contatar com a equipe. Todo o material desta pesquisa ficará sob responsabilidade dos pesquisadores no Instituto de Psicologia e será posteriormente destruído.90035-003 Porto Alegre RS Brasil Tel. Para tanto solicitamos autorização para realizar este estudo. Sala 104 . Data ____/____/___ ________________________________________________________________ Responsável pelo Departamento de Genética 142 . tanto os participantes quanto os responsáveis pela instituição poderão solicitar informações sobre os procedimentos ou outros assuntos relacionados a este estudo.br TERMO DE CONCORDÂNCIA PARA O DEPARTAMENTO DE GENÉTICA Estamos realizando uma pesquisa que tem como objetivo investigar a visão que pessoas que estão sob suspeita de terem cometido abuso sexual possuem sobre crianças. participem do presente estudo. UFRGS. Agradecemos a colaboração do Departamento de Genética para a realização desta atividade de pesquisa e colocamo-nos à disposição para esclarecimentos adicionais.ANEXO B Fundado em 1994 Centro de Estudos Psicológicos sobre Meninos e Meninas de Rua Instituto de Psicologia. 55(51) 33165150 Fax: 55(51) 33165473 Celular: 55(51) 81197091 E-mail: cep_rua@ufrgs. preservando a identidade dos participantes bem como das instituições envolvidas. Os participantes deste estudo serão claramente informados de que sua contribuição é voluntária e pode ser interrompida em qualquer etapa. isto poderá ser feito pelo telefone 8442-4059 ou 3316-5150.

branco ( ) b. negro ( ) c. amarelo ( ) f. outro Escolaridade: Estado civil: a. separado e.ANEXO C FICHA BIO-SÓCIO-DEMOGRÁFICA 1. mestiço ( ) e.Identificação Nome (apenas as iniciais): Ficha: Data: ___/___/___ Entrevistador: Grupo étnico: a. divorciado ( ) d. solteiro ( ) b. casado ( ) c. outro Cidade de origem: Endereço atual: Renda: Com quem você mora? Há quanto tempo mora com estas pessoas? 143 . viúvo ( ) f. índio ( ) d.

adolescentes e adultos: no que são iguais? No que são diferentes? (explorar duas categorias de cada vez: criança-adolescente. 2. etc. Que lembranças você tem de sua infância? (Explorar lembranças boas/ruins).. Até qual idade você acha que uma pessoa pode ser considerada criança? O que faz com que uma criança passe a ser adolescente ou adulta? O que faz com que um menino passe a ser adolescente ou adulta? O que faz com que uma menina passe a ser adolescente ou adulta? Meninas e meninos: no que são iguais? No que são diferentes? O que você sente quando vê uma criança dormindo? O que você sente quando vê uma criança brincando? O que você sente quando vê uma criança chorando? O que você sente quando vê uma criança gritando? Descreva para mim como deve ser a relação entre um adulto e uma criança. interesses. Explique. Crianças. Visão sobre a infância Explique para mim o que é ser criança. primos.).. para mim quem é criança. agora. direitos. Conte-me sobre um episódio ruim (se não mencionar vitimização na infância por abuso sexual perguntar se passou por alguma experiência relacionada ao fato) (Explorar relações com irmãos. preferências. Como era ser uma criança nesta família? Como você acha que sua mãe/pai o descreveriam? Que lembranças você tem de sua infância na sua família? Conte-me sobre um episódio bom. criança-adulto – ver necessidades. 144 .ANEXO D ENTREVISTA SEMI-ESTRUTURADA 1. outras crianças que viviam na mesma casa) Fale-me de sua escola. deveres.. Fale-me de sua família. Infância: Relações (explorar esta fase do ciclo vital) Fale-me sobre sua infância. Fazendo de conta que voltássemos agora no tempo: olhe para a criança que você era e me descreva esta criança..

durante a adolescência) Como ocupava seu tempo? Conte-me sobre um acontecimento bom e um ruim em sua adolescência.. Que lembranças você tem de sua infância no seu bairro? Conte-me sobre um episódio bom. primos... outras crianças que vivem na mesma casa) 5. Do que você mais gostava de brincar? Por quê? Como ocupava seu tempo? 3. Quem é a criança? 145 . Como era sua família quando você era adolescnete? Quem eram as pessoas com as quais convivia? Como era sua relação com elas? (Explorar relações com irmãos.. (Explorar relações com colegas.Vida adulta: Relações (explorar esta fase do ciclo vital) Fale-me de você hoje.. Quem eram estes amigos(as)? Fale-me sobre eles.Você tinha amigos(as) na escola? Fale-me sobre eles. como um adulto. (Focalizar na criança a qual está relacionada a suspeita de vitimização por ele.. Adolescência: Relações (explorar esta fase do ciclo vital) Fale-me de você.. primos. com as perguntas abaixo). professores. Quem é sua família? Quem são as pessoas com as quais convive? Como é sua relação com elas? (Explorar relações com irmãos. como um adolescente. outras crianças que viviam na mesma casa. Situação atual: Relações Você foi encaminhado até aqui por um juiz. 4. Conte-me um pouco sobre isto. Conte-me sobre um episódio ruim. atividades no recreio.. Conte-me sobre um episódio ruim. desempenho escolar) Fale-me de seus amigos fora da escola. Como você acha que sua professora o descreveria? Que lembranças você tem de sua infância na sua escola? Conte-me sobre um episódio bom.

deficiência. percepção de inteligência e maturidade. você acha que sua história influenciou em algo que acontece no momento atual? Como você quer que seja sua vida no futuro? Fale-me sobre coisas boas que você quer que aconteçam.Quantos anos ela tem? Qual o seu relacionamento com ela? Como é esta criança era? Descreva-a (explorar aspectos como aparência. Expectativas Pensando em sua vida hoje.) Por que você acha que esta criança e não outra está relacionada a esta denúncia? 6. O que você achou desta entrevista? Quer acrescentar alguma informação? 146 . etc. atitudes.

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