A CRIANÇA NA PERSPECTIVA DO ABUSADOR SEXUAL

Andreína da Silva Moura

Dissertação de Mestrado

Porto Alegre/RS, 2007

A CRIANÇA NA PERSPECTIVA DO ABUSADOR SEXUAL

Andreína da Silva Moura

Dissertação apresentada como requisito parcial
para obtenção do Grau de Mestre em Psicologia
Sob Orientação da
Profª. Dr.ª. Silvia Helena Koller

Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Instituto de Psicologia
Programa de Pós-Graduação em Psicologia
Março, 2007

Dedico este trabalho, a todas as
famílias

que

sofrem

com

as

situações de abuso sexual.. a todos
as crianças, mães,

pais.. enfim

todos

sofrem

aqueles

que

ou

sofreram com esta experiência em
algum

momento

de

suas

vida.

muita mesmo) esteve me acompanhando nessa caminhada que começou em São Paulo no ano de 2002. os agradecimentos não são só por isso. Mas. com que divido minha vida em tudo! Te amo! Tu sabes que é irmã que não tive. Carlão. de verdade. pois ela que me apresentou ao CEP. Amo. pois é assim que os conheço.. a Júbis. Agradeço a vocês por terem me ensinado a amar. João Felipe. Maíra. gurias! . Obrigada. Walda. Ao pensar nisso. Cris e Mel por terem sido sempre tão prestativas e tão amáveis mesmo quando éramos ilustres desconhecidas. Um agradecimento especial a Sol. primos e Vó Maria pelo carinho.. por ter sido um grande homem. Ao meu avô que. por me apoiar sempre. Agradeço a minha mãe. não está mais entre nós. vocês continuam em mim e continuarão pra sempre.. Tenho tantos! Amigos de verdade! Primeiro aos de Natal: A Karlinha.. E claro. Minha amiga brilhante. Mesmo estando tão distantes fisicamente. Isso me conforta e me deixa feliz. carinhosamente. quando eu chorei ao ver uma palestra com os integrantes do CEP-RUA. tanto nos assuntos acadêmicos quanto nos pessoais. Família. Ter tantas pessoas como companheiras denota que tenho ao meu lado muitas pessoas importantes em minha vida. Karin.AGRADECIMENTOS É madrugada. minha força. Como não sou poeta. Primeiro. Agradeço também aos meus tios. e está é a última parte importante dessa dissertação. não vou usar metáforas. Agradeço aos meus amigos. meus primeiros e grades amores. Kátya. a David. Laali. agradeço a minha família. como seu apelido. Felipe que foram meus melhores espelhos. dou-me conta de que muita gente (mas. a minha avó Isabel pela sua doçura e apoio e ao meu irmão (Júnior) pelo carinho e companheirismo. Vou apenas agradecer a todas as pessoas que amo e que contribuíram direta ou indiretamente para que eu concluísse o mestrado. serei clara. Rayanne. Tita. pois eles são sim meu alicerce. por ter me ensinado a lutar pelo que desejo. a Lara. todos vocês! Muitos foram chamados pelos apelidos. Agradeço por ter sido uma companheira de casa tão amável e agradável. Não poderia deixar de agradecer a Normanda. Mateus. Alyson. amo vocês! E tenho muitas saudades de nossa convivência diária. Enfim. Débora. claro. por terem me ensinado que na vida as pessoas são bem mais importantes que as coisas. Aninha. Quero agradecer também aos amigos que fiz em terras gaúchas. ao meu pai (Matos) por ter me dado o conselho certo na hora certa. a todos eles pelo GRANDE amor que sempre me dirigiram.

eu no mestrado. A Camila. Um agradecimento especial para Juliana. Laíssa e Clarinha. Vera Ramirez e Renato Flores pelas suas disponibilidades e contribuições tão relevantes ao meu trabalho. Finalmente. Marco. tão querida. sempre. A Clarinha pela sua meiguice e por ter me acompanhado em momento difícil a minha vida. Agradeço a ele também pela lucidez das conversas. pelo empréstimo do computador.por você sempre. pelas risadas. Serei sempre grata a vocês. ela na graduação. pela paciência. correções e por acreditar em mim. Ao Lucas. por ter sido uma boa amiga nessa fase final. A Carmem. Te agradeço por tudo: pelas conversas. por dividir um momento profissional tão delicioso quanto aquele de Cruz Alta. Ao Jan. pelas piadas que me fizeram rir sempre. Um agradecimento especial para o Renato que abriu as portas do Ambulatório de Genética para que eu pudesse realizar a coleta. A minha querida orientadora Sílvia Koller.Outros amigos feitos aqui nos pampas: Michele. pela nossa amizade. pela sua dedicação. pelas suas orientações. Rosangela e Magda. e sempre acreditar . pelas nossas brincadeiras. essa cearense tão carinhosa que entrou na minha vida. Ao amigo William pelas horas de conversa. Renata e Carol. agradeço ao meu amor eterno Christian Duvoisin. amor mesmo! Agradeço a minha equipe de pesquisa: Juliana. pelo seu carinho. A Michele. pois começamos juntas na UFRGS. que sempre esteve ao meu lado. meu companheiro. A Airi pela força que me deu em tantos momentos: Brigada. A Luísa e Martha por terem me ensinado tanto sobre esse difícil tema que é o abuso sexual contra crianças. pelas tardes de trabalho que passamos juntos.. Obrigada.. Agradeço ao Vicente. Agradeço aos meus queridos sogros (Sérgio e Valquíria Duvoisin) pelo cuidado expresso de tantas maneiras nos últimos meses. Chefa! Terás para sempre minha admiração.. Agradeço também as minhas professoras Martha. ainda me lembro dela chegando com os livros pra me emprestar mesmo antes de eu pedir. pelas reuniões tão produtivas e prazerosas... Riri! Meus agradecimentos vão também para Ana Paula e Samara. a Laíssa por mesmo antes de me conhecer ter me orientado. pelos nossos planos. Agradeço também ao CNPq por ter me proporcionado a oportunidade material de cursar o mestrado. meu amado. apreço. Agradeço a Deus por ter-me feito capaz de levar meus sonhos adiante. pois afinal eles me iniciaram na vida acadêmica. Agradeço também as professores da banca: Cleonice Bosa.

. Te amo. sempre! Muito obrigada! É preciso fé cega E pé atrás Olho vivo Faro fino E tanto faz (Engenheiros do Havaí) É preciso ainda Mudar de perspectiva Mudar de ângulo Olhar por trás E isso exige que a gente Mude De ponta cabeça E de frente pra trás .. Acabo por aqui com tantas lágrimas nos olhos. meu amor! Sempre! Todas essas palavras não são capazes de expressar o quão feliz e grata sou a você. por todo amor que me tens.em mim. lágrimas de alegria por ter me dado conta que tenho pessoas admiráveis a minha volta! Obrigada.

................3 Instrumentos .5 A Bioecologia do Desenvolvimento dos Abusadores Sexuais ........................................... 49 CAPÍTULO III RESULTADOS E DISCUSSÃO............................................................................ 11 1......................................................... 33 1........ 41 CAPÍTULO II MÉTODO..................................................................... 45 2.................. 49 2......................................................................................................1 Modos de Perceber a Infância: Analisando as Crenças sobre as Crianças no Contexto Social e a partir da Fala de Adultos ........................................ 45 2............................... 10 1....................................... 51 CAPÍTULO IV CONCLUSÕES......... 139 ANEXO B: Termo de Concordância para o Departamento de Genética ........ Conceitos e Definições..................... 142 ANEXO C: Ficha Bio-Sócio-Demográfica . 21 1..................................................................................................2 Abuso Sexual contra Crianças: Números...................................... 144 ......2 Participantes .......................SUMÁRIO CAPÍTULO I INTRODUÇÃO................................................ 45 2.............4 Procedimentos......3 Abusadores Sexuais: Classificações e Características..............................................1 Delineamento ..................... 29 1......4 Abusadores Sexuais e sua Visão sobre as Crianças................................................ 126 ANEXOS ANEXO A: Termo de Consentimento Livre e Esclarecido ................................................... 143 ANEXO D: Entrevista Semi-Estruturada.....................

LISTA DE TABELAS Tabela 1: Fases do Ciclo Vital dos Participantes 51 Tabela 2: Visão sobre as Crianças 54 Tabela 3: Caracterização das Vítimas 58 7 .

recrutados no Ambulatório do Departamento de Genética da UFRGS. em sessão única. Reflexões sobre a utilização de autorelatos na pesquisa com abusadores sexuais são discutidas. relações entre participantes e crianças. Palavras-chave: abusadores sexuais. Realizou-se um estudo exploratório descritivo com 5 homens. visão sobre as crianças. Estudos indicam que abusadores possuem distorções cognitivas sobre crianças. Os instrumentos utilizados foram: uma Ficha Bio-sócio-demográfica e uma Entrevista Semi-Estruturada contendo questões sobre visão acerca das crianças. Entretanto. de modo a obter sua visão sobre as crianças. etc. 8 . As entrevistas foram realizadas individualmente. de 37 a 73 anos. pois eles demonstraram capacidade empática limitada em relação às crianças. acusados de abuso sexual contra pessoas de até 13 anos. e uma visão nãodistorcida e positiva sobre crianças. Os resultados indicam relações saudáveis entre participantes e crianças. abuso infantil. depreciando suas vítimas infantis. essas respostas foram estereotipadas.Resumo O objetivo deste estudo foi investigar as relações de abusadores sexuais com crianças ao longo de suas vidas.

9 . who were recruited at an ambulatory of genetics studies at the university. Self-report measures used in sexual abusers research are discussed. accused of sexual abuse against 13 year old children. and a non-distorted and positive view about children. child sexual abuse. aged from 37 to 73 years old. A bio-social-demographic protocol and a semi-structuralized interview containing questions related to view about children. through their relationship with them along their life spam. those answers were stereotyped. depreciating their child victims. were applied to participants. However. etc. The results indicated healthy relationships between the participants and children. relationship between participants and children. A descriptive exploratory study has been carried out with 5 subjects. perceptions about children.Abstract The aim of this research was to analyze child sexual abusers’ view about children. Researches indicate that abusers have cognitive distortions about children. Keywords: Sexual abusers. as the participants demonstrated a limited emphatic capacity related to children.

10 .CAPÍTULO I INTRODUÇÃO O presente estudo teve como objetivo investigar as relações de abusadores sexuais com crianças ao longo de suas vidas. e uma das razões para isto é a dificuldade que os pesquisadores têm em acessar e manter vinculados os abusadores durante o processo de coleta de dados. de modo a obter sua visão sobre as crianças. Temas como empatia. in Horley. porque ao longo da vida o ser humano relaciona-se com outras pessoas e nestas relações vai construindo uma visão de si mesmo. em suas interações apresente. No entanto. Polaschek. O próprio desenvolvimento ao longo do ciclo vital faz com que a pessoa. No entanto. & Ward 2005). sobretudo no âmbito nacional brasileiro. Estima-se que a prevalência de abuso sexual na população brasileira seja de 30% (Picazio. presença de vitimização dos próprios abusadores na infância e distorções cognitivas figuram em alguns estudos publicados. mantenha e revise sua visão pessoal. O abuso sexual infantil tem sido considerado um fenômeno que preocupa a saúde pública. além da focalização deste estudo sobre este aspecto individual dos abusadores. que indicariam possíveis problemas futuros. 2000). há uma importante lacuna em pesquisas sobre as vítimas. quando relaciona-se com dados sobre abusadores. 2002). & Cunningham-Rathner. Becker. 2000. Investigar a visão de abusadores sobre as crianças poderá auxiliar na identificação de aspectos prévios ao abuso. A visão que o abusador possui sobre as crianças está diretamente relacionada à que ele possui sobre ele mesmo (Horley. A maioria dos estudos tem se concentrado nas vítimas. que é ainda maior. 1998. O dano psicológico que provoca pode perdurar ao longo da vida das vítimas (La Fond. Entretanto. já que crianças protagonizam os atos de abuso nos quais os perpetradores são importantes coadjuvantes (Abel. 2005). Gannon. Este é um aspecto fundamental a ser investigado. Silva. deve também ser reconhecida a possível influência dos aspectos contextuais para ocorrência do abuso. devido à freqüência com que tem sido identificado. 2000). como vai agir com outras pessoas está sempre relacionado a como se percebe (Horley.

o Menino Jesus e a Virgem Maria Menina aparecem na arte.11 1. descreve como as formas de conceber as crianças em uma determinada época ocasionaram também modos diferentes de lidar com elas. representando a infância santa e sagrada. Para Ariès (1975/1981). em seu livro “História Social da Criança e da Família”. crianças começam a ser retratadas em cenas cotidianas. inclusive das de trabalho. 1995) traz à tona importantes variáveis sociais envolvidas no cuidado e no abuso. Ariès relata ainda que os pintores davam a estes quadros de crianças um . Ariès salienta que as crianças da época eram vistas como possuidoras das mesmas capacidades dos adultos. pois eram retratadas como adultos em miniatura. Ariès (1975/1981) conclui que a infância retratada nas obras de artes desta época ainda não representava uma infância comum. É mais provável que não houvesse lugar para a infância nesse mundo” (Ariès. como afirma Finkelhor (in Phelan. mas uma infância pertencente apenas aos santos católicos. não havendo também divisão entre as funções destinadas a adultos e crianças. Tal análise sobre a visão social da criança ao longo da história. sendo retratada com características típicas da fase infantil.50). p. corpos e vestimentas típicas da fase adulta apenas em tamanho menor. “a arte medieval desconhecia ou não tentava representar a infância. entre os séculos XIV e XV. Até o século XIII. a visão que os ocidentais possuíam sobre as crianças e como esta modificou-se através da história. geralmente em grupos de pessoas. As crianças participavam de todas as atividades. este fato revela que a vida diária das crianças estava misturada às das pessoas mais velhas. 1975/1981. Nos séculos XV e XVI. Surgiram figuras de anjos que representavam crianças que eram educadas para ajudar na missa. que eram na maioria adultos. Ainda não havia separação cronológica entre os períodos da vida. com rostos. então. A partir disto. diferenciando-se deles apenas pelo tamanho e força física.1 Modos de Perceber a Infância: Analisando as Crenças sobre as Crianças no Contexto Social e a partir da Fala de Adultos Ariès (1975/1981). A partir de meados do século XIII. Este tipo de figura mantém-se presente até o século XV e. É difícil crer que esta ausência se devesse à incompetência ou à falta de habilidade. descreveu. através de obras de artes contendo figuras de crianças. crianças não eram concebidas como seres em desenvolvimento. Este autor foi um dos primeiros a investigar as concepções de infância no mundo ocidental. Antes do século XIII. a criança começa a obter destaque no mundo das artes.

não era sentida como algo desolador. Esta concepção denunciava a pouca importância dada à criança. pois apenas algumas poucas sobreviveriam devido à alta mortalidade infantil da época. Tal “desperdício” era a idéia de que muitas crianças deveriam ser geradas. pois nesta época havia ainda o que ele chamou de “desperdício necessário”. a maior parte destas crianças precisa de cuidados especiais o que fez com que os adultos prestassem mais atenção às necessidades delas. que servem para o divertimento dos adultos. foi a cristianização dos costumes. como seres que tinham “movimento de alma” (p. pois era um fato costumeiro. A partir do século XVII.12 certo “ar pitoresco”. as crianças passam a ser retratadas sozinhas nas obras de artes e é apenas no século seguinte que surge. 69) e. Algumas idéias moralistas e o surgimento das escolas para crianças também foram fortes influências para o surgimento de um segundo “sentimento de infância”. dar atenção às crianças. Desta forma. a criança. Esta característica era conferida pela representação de crianças como seres “engraçadinhos” e graciosos. poderia ser conservada e sobreviver. Um dos alvos deste movimento foi o modo de tratamento das crianças. Os preceitos moralistas dos organizadores dos primeiros bancos escolares . pois era livre dos pecados do sexo. o que Àries (1975/1981) chama de segundo “sentimento de infância”. não provocava importância e atenção devidas. pois o fato de morrer muito cedo. que consistia em propagar o catolicismo entre as pessoas leigas não ligadas diretamente ao clero. Tal “sentimento” diz respeito à consciência sobre uma natureza particular da infância e é definido pela noção de que as crianças eram indivíduos pitorescos. por conseguinte. A morte precoce de crianças. mereceriam apreço e consideração dos adultos e da sociedade. Além disso. A “paparicação” foi identificada. O gosto por tais cenas coincide com o surgimento do primeiro “sentimento” de infância. Outro aspecto que influenciou o pensamento da época sobre as crianças. Por conseguinte. mesmo que fosse para fins de diversão dos adultos. Várias influências são apontadas como causa para o “nascimento” deste segundo “sentimento”. que Ariès denomina como “paparicação” (p. a criança passou a ser vista como um ser inocente. Por conseguinte. por ocasião da cristianização dos costumes. por Ariès como um “sentimento” precoce. então. a partir do século XVIII. Estas passam a ser percebidas. a partir deste momento. 67). A introdução das idéias malthusianas de controle da natalidade na sociedade européia começava a modificar a idéia de “desperdício necessário”. pode ser considerada uma atitude precoce.

Desta forma. afirma que não havia a idéia de uma ligação entre a mentalidade do adulto e da criança. Santos. O valor dado a educação nos dias atuais ainda está associado a questão do desenvolvimento sadio da criança. Este é o germe tanto das idéias atuais sobre a infância quanto da necessidade de oferecer cuidados e educação à criança para que se torne um adulto sadio (Ariès. asseguraria uma adultez também saudável. Pollock. Esta. quando Ariès não encontra atitudes que mostrem o moderno “sentimento” de infância. 1996). Segundo Santos (1996).13 tinham como alvo aqueles indivíduos que por estarem no início de suas vidas seriam mais propensos a serem educados. 1983. de como a visão de infância foi se modificando através dos tempos. conseqüentemente. que definem como uma forma de conceber os fenômenos a partir de uma perspectiva do presente. Tais críticos alegam que analisar os “sentimentos de infância”. não havia a idéia de que os acontecimentos ocorridos em uma determinada fase eram importantes para as posteriores. 1975/1981). Alguns autores criticam o presentismo de Ariès (Archad. sem. tais como nos dias atuais. contudo. não sendo tão essencial ajudá-la a se desenvolver nestas novas funções. que merece ser tratada de uma maneira específica. indicar como as crianças eram percebidas antes do século XVIII. potencialidade e pouca responsabilidade. as crianças eram vistas a partir de características de vulnerabilidade. o que por sua vez. antes do século XVIII. a criança seria o centro das atenções dos educadores e das famílias. sendo “a passagem entre os estágios de desenvolvimento concebida como um problema de iniciação e não de formação” (p. então. Segundo os críticos. o importante era iniciá-la em certas atividades. A ênfase nesta revisão busca demonstrar a importância que o estudo de Ariès (1975/1981) dá aos modos de perceber as crianças ao longo da história ocidental e. 1993. A análise de obras de arte revela que tais modos de perceber refletem-se diretamente em formas de tratamento que são dedicadas à criança. Contudo. a partir de uma perspectiva do presente impossibilita a percepção de particularidades destes “sentimentos” nas épocas passadas. para os pais ou pessoas que estavam em contato com a criança. . Os opositores de Ariès afirmam ainda que ele apenas constata esta ausência. Contudo. Ou seja. 82). alcança mais e mais importância social e cultural através dos tempos e passa a ser reconhecida como um ser em desenvolvimento. conclui que há ausência deste “sentimento” ou da consciência da natureza particular da infância. A partir destes preceitos. A idéia de que a criança é uma tábua rasa é oriunda dessa época. tal abordagem da infância ao longo da história apresenta alguns aspectos que vem sendo contestados.

como um indivíduo especial e como alguém que não é capaz de reivindicar os seus próprios direitos pela sua própria voz. Os críticos de Ariès alegam que ele exagerou ao afirmar que o sentimento de infância não existia antes do século XVIII. UNO. As crianças têm este direito assegurado pela Convenção sobre os Direitos da Criança promovida pela Organização das Nações Unidas (United Nations Organization. 1999). associadas à fase infantil. Santos (1996) destaca que a sociedade medieval já conhecia um sentimento de infância. Phelan (1995). . pois estes dependem delas (Duhram. Além das idéias de cuidados e educação voltadas às crianças apontadas por Ariès (1975/1981). não haveria. Há que se comentar ainda que os tratamentos diferenciados com os filhotes (no caso dos humanos. Analisar o cuidado com a prole em outras espécies é importante. mesmo que estas sejam abusivas. os estudos de Ariès foram importantes na medida em que impulsionaram várias outras pesquisas sobre a visão social de crianças ao longo da história ocidental. 2003). com as crianças). De qualquer forma. na sociedade ocidental. e não como uma etapa de preparação para a fase adulta. se dedicam ao cuidado integral de seus filhotes. atestando que as mães. já é percebida entre várias comunidades animais. contudo. no âmbito social. por exemplo. meios de a criança reivindicar os mais variados direitos (Kramer. apesar de ser uma característica recente na história humana. Como conseqüência desta crítica há outra. salientou que há na sociedade ocidental a concepção de que a criança deve ser sempre obediente aos adultos. Ao conceber a criança desta maneira. que. Estes tratamentos. financeiramente e etc.1989).). ao mesmo tempo. inclusive entre os chimpanzés. quando seus filhos nascem. pode-se perceber que a visão atual que se tem acerca da criança se faz a partir de várias “marcas” que a colocam. Este tipo de atitude perante as crianças pode ser um facilitador para as situações de abuso. já que elas dificilmente irão se opor com veemência às decisões tomadas pelos adultos. pois esse aspecto atesta a ligação humana com os outros animais na cadeia evolutiva. Enfim. As crianças também são comumente vistas como seres dependentes dos adultos em todos os sentidos (biologicamente.14 As fases da vida eram vistas como uma repetição de experiências. entre os chimpanzés são percebidos pela sucessão da época de acasalamento e de cuidado com a prole que raramente se misturam. ainda mais contundente. há ainda outras características. era diferente daquele que se inaugurou na modernidade e que se faz presente nos dias de hoje.

as crianças que possuíam uma família continuavam a ter seus direitos regidos pelo código civil da época. era bastante indefinida. O surgimento desse termo representou o “nascimento” de uma nova categoria para a área jurídica (a figura do menor) e também de uma nova atitude perante algumas crianças. sendo que quaisquer determinações legais estavam em outros conjuntos de leis. em geral as abandonadas ou infratoras.15 No Brasil. No entanto. Tal noção de . apesar de já serem tidos como conscientes sobre seus atos criminais nesta idade. Em 1927. segundo Londoño. surge o Código de Menores baseado na Doutrina do Direito do Menor. Uma revisão destes aspectos também auxilia no entendimento da percepção que a sociedade tem das crianças e de como uma criança em desenvolvimento constrói a visão de si mesmo e das demais crianças ao longo de seu ciclo vital. do século passado. já que era entendido. além de indicar uma condição jurídica e civil e os direitos que lhe correspondiam. Um levantamento no acervo bibliográfico da Faculdade de Direito na Universidade de São Paulo realizado por Londoño (1999) revelou que desde o fim do século XIX. Entretanto. Até fins da década de vinte do século passado. não havia legislação voltada mais especificamente para crianças e adolescentes no Brasil. alguns estudos foram desenvolvidos avaliando concepções por trás das leis direcionadas para crianças (ver Londoño. Este código tanto definia quem eram os “menores”. Tais fatos revelam duas visões muito distintas sobre as crianças no Brasil: as “filhas de família” com seus direitos garantidos e os “menores”. apenas aos 21 anos sairiam da tutela do pátrio poder. o termo “criança” associase freqüentemente ao termo “menor”. Alguns artigos poderiam definir que menores de 17 anos fossem mandados às prisões. passou a ser dever da lei. As diferenças atribuídas às questões de idade demarcavam que em determinados momentos as crianças podiam ser concebidas como adultas. Antes do fim do século XIX. Nestes códigos. 1999). a partir da lei. eram também vistos como perigos para a sociedade. bem como ditava os modos de tratamento jurídico a algumas crianças e os direitos delas. a palavra menor como sinônimo de criança. tal termo aparece associado à criança em situação de abandono e marginalidade. Antes desse período “menor” não era comum na literatura jurídica e que a partir da década de 20. que estes indivíduos possuíam discernimento sobre o ato criminoso. jovem ou adolescente era utilizada para definir os limites etários relativos à emancipação paterna ou às responsabilidades civis e criminais. que além da sua situação de risco. havia disparidade entre os critérios de idade para definir responsabilidades civis e penais. A definição do que é ser criança. naquela época.

1990). agora. A contextualização dos modos de ver a criança em nível macrossocial suscita um entendimento sobre o que é ser criança . a tutela destas crianças e esta ameaça potencial exigia repressão. o ECA protege todos os direitos de todas as crianças sem distinção de raça. é inocente. sendo também um sujeito de direitos e deveres. 2004). todas as crianças são vistas como dever do Estado. o que acarretaria comportamentos inadequados. 1989). A contextualização dos modos de ver a criança em indivíduo que possui direitos a serem zelados. A criança é compreendida como um ser em desenvolvimento. já que elas não teriam um cuidador responsável que lutasse por seus direitos. foi promulgado o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA. A visão sobre as crianças na sociedade brasileira tem uma história que certamente afeta o macrossistema social. Além disso. pois não preconiza a repressão ou o tratamento diferenciado entre as crianças. 1999. que devem zelar pelo bem estar destes indivíduos. o preconceito e a violência contra as crianças ainda existe. O Estado tinha. Brasil. Em 1990. Phelan. com base na Convenção sobre os Direitos da Criança (UNO. surge o segundo Código de Menores. etc. A imagem da criança associada a noções negativas de abandono e marginalidade pode ser um facilitador de abuso de todos os gêneros. distinguindo os abandonados daqueles que eram “criminosos” (Silva. analisada na obra de Ariès (1975/1981) e outros autores (Kramer. da família e da sociedade. a criança também é vista como um indivíduo que possui direitos a serem zelados. que tem direção oposta às duas anteriores (Doutrina do Direito do Menor e Doutrina da Situação Irregular). condição socioeconômica. as crenças e as ideologias compartilhadas pelos seus membros. 1990) baseado na Doutrina da Proteção Integral. 1995) nas quais a criança é um ser que deve ser educado e controlado e. A visão brasileira da criança partilha da visão ocidental. Mesmo com o advento promissor do ECA (Brasil. Além disso.16 periculosidade associada à figura da criança baseava-se no entendimento que sem a tutela dos pais sua natureza seria descontrolada. Mesmo com esta distinção. ao mesmo tempo. Apenas na década de 80 do século XX. a visão sobre as crianças e os adolescentes no Brasil começou a ser modificada (pelo menos na forma da lei). Para o ECA. como salienta Londoño (1999). estas crianças e adolescentes estavam sob a mesma insígnia da situação irregular. então. Em 1979. gênero. balizado pela Doutrina da Situação Irregular.

A adultez apareceu como ponto ótimo do desenvolvimento para estes professores. Os valores que embasam essa visão de mundo estão na base das escolhas que realizam em suas vidas (Heilborn. A compensação seria uma troca tanto pelos bens materiais quanto pelos cuidados físico-emocionais fornecidos pelos pais.17 e o modo de lidar com ela. especialmente quando é abordada a violação de direitos da criança. 2003). O trabalho doméstico no caso das meninas e o trabalho remunerado no caso dos meninos seria algo permitido e estimulado. que influencia a visão pessoal. mesmo levando em conta estudos que tem como fonte de dados leis e obras de arte. sobre as representações sociais das fases do desenvolvimento humano revelou uma concepção de infância definida como fase de brincadeiras e dependência (Almeida & Cunha. viam as crianças como incapazes de cuidar de si mesmas e menos capazes cognitivamente. como uma forma de recompensar seus cuidadores. O estudo foi realizado em dois momentos: antes e depois de uma disciplina sobre as concepções da criança na atualidade. Em estudo com professores. Uma pesquisa realizada por Heilborn (1997) revelou que pais moradores de bairros periféricos do Rio de Janeiro concebiam seus filhos como indivíduos que precisam ajudar nos afazeres domésticos ou com trabalhos remunerados. Gaiva e Paiao (1999) investigaram qual a visão que estudantes do curso de graduação de Enfermagem possuíam sobre as crianças. Tal visão de que crianças precisam trabalhar para compensar os cuidados que lhe são dados é um fator importante. enquanto atividade remunerada e aprendizado de um ofício reveste-se de uma identidade social legítima para as crianças. pois influencia tanto a entrada e a manutenção de crianças no mercado informal de trabalho quanto o tipo de parentagem que elas estão recebendo. A disciplina tinha como objetivo esclarecer que tais concepções seriam uma construção determinada pelas mudanças sociais e . neste caso a criança. e as demais fases como incompletas em relação a esta. a partir da “dependência”. Algumas pesquisas que investigaram o modo como as pessoas definem o que é ser criança podem expandir a compreensão sobre a visão social da infância na sociedade. A dependência foi explicada como um “elemento estruturante” para a representação que estes adultos possuíam sobre as crianças. Por conseguinte. Em um outro estudo. 2000). A criança vista como um ser lúdico e pueril e o adulto como um ser completo pode gerar uma relação de poder e atitudes de um ser superior dirigidas a quem não tem capacidade de se responsabilizar por si mesmo. O trabalho.

passivas. Há. existem diferenças nas funções delegadas a homens e mulheres. mostrando também que na época as crianças são vistas como sujeitos de direitos. até nas primitivas. Em uma pesquisa com pais de escolares. Os resultados dessa pesquisa sugerem que a concepção da criança na sociedade atual ainda é marcada por elementos da concepção da modernidade (imaturidade. As funções femininas de cuidado com os filhos e com a casa foram tornando-se secundárias. 2000). Seriam também seres “engraçados” e “bonitinhos”. inclusive no fato de as mulheres serem as responsáveis pelo nascimento e cuidado dos filhos. após o término da disciplina. A criança seria também um ser frágil que necessitaria da proteção e do cuidado dos adultos. que comentam que em qualquer cultura. etc. As meninas foram tidas. as respostas das enfermeiras realçaram a imaturidade. nessa segunda etapa. 1981). Essas características foram se . enquanto as masculinas por serem mais dinâmicas foram conservadas. então. que merecem um espaço no qual possam ser ouvidos. Elas dedicariam boa parte do seu tempo a essa função. e o conseqüente despreparo da criança para a vida. No segundo momento. ainda.18 históricas. 1998). Tais diferenças podem se basear em vários fatores. no momento anterior a esta disciplina. elementos estes que as distanciavam do mundo do trabalho. Esta idéia aparece no estudo de Bonamigo e Koller (1995). a idéia de que a mulher por possuir todas essas características seria um ser frágil que necessitaria dos cuidados masculinos (Strey. As diferenças entre meninos e meninas também são importantes para uma compreensão mais abrangente sobre a visão que as pessoas possuem sobre as crianças. A imagem da criança também foi associada à diversão e às brincadeiras. calmas e quietas (Souza. competitivos e independentes (Biaggio. afetuosas. Os autores relatam que.) e por noções mais novas que compreendem a criança como sujeitos de direitos. como dóceis. foram se consolidando características determinadas a cada um deles. Certamente. A partir das funções executadas pelos dois sexos. detectou-se que os meninos foram vistos como mais agressivos. as participantes destacaram que as crianças são sujeitos de direito. A visão dos pais sobre as características de meninos e meninos foi estereotipada e esse tipo de visão é comum na sociedade. Entretanto. funções adultas diferenciadas por gênero têm sua origem na infância e em como esta é percebida. exercendo funções mais passivas e domésticas. conforme pontuam Rosaldo e Lamphere (1979). fortes. agitados. esportistas e as meninas foram vistas como mais educadas. duros. as características anteriores continuaram a ser relatadas. pacientes enquanto os meninos foram vistos como agressivos.

1978). Salles comenta que a idéia da fase adulta como meta é inerente a idéia de desenvolvimento humano. pois permitem a conservação. a castidade feminina ainda é valorizada. Esses estereótipos são essenciais para a sociedade. a valorização da virgindade feminina esteja declinando (Taquette. Os estereótipos sexuais podem ser considerados como aplicáveis a todas as idades. 1994). então. Além disso. O que não é permitido nesse grupo de características pode ser visto como anormal. Embora. pos embora haja a noção de que o sexo é algo natural para a espécie humana. necessitando ser modificado. Outras questões são relevantes para um melhor entendimento da visão sobre as crianças. É comum que esses estereótipos se associem também a questão da sexualidade: a virgindade seria valorizada para as mulheres e os comportamentos sexuais seriam mais permitidos para os homens (Giffin. 2005). A nova concepção da infância e subdivisão das idades do ciclo vital. servindo como mediadores de um acordo implícito em um grupo social. como esta fase de preparo para a vida adulta. inclusive às crianças. 2001). 1997). 2005). Contudo. comportamentos. os comportamentos sexuais masculinos são mais permitidos. dos papéis sexuais. ditam o que é ou não permitido em seu comportamento. tendo como reflexo a diminuição na taxa de adolescentes virgens (Heilborn & Bozon. As crianças sendo concebidas como seres completamente distintos e dependentes dos adultos necessitariam de uma fase de preparação para a chegada a adultez. O homem possuiria uma natureza sexual irrefreável o que faria com que ele tivesse dificuldade em controlar tais impulsos. A partir dessa separação. a definição da infância e da adolescência só seria possível pela contraposição às . nesse caso. em uma determinada cultura. Essas diferenças na concepção sobre a sexualidade de homens e mulheres se baseiam nas formas patriarcais da organização da sociedade (Narvaz. A adolescência surgiu.19 constituindo como os papéis sexuais que seriam o conjunto de normas referentes às atitudes. em um determinado momento (Graciano. essa premissa se aplica mais aos homens (Giffin. antes inexistente na sociedade ocidental foram fatores importantes na “invenção” do mais novo período da vida: a adolescência (Salles. os estereótipos sexuais são um grupo de características fixas e pré-concebidas sobre como gêneros diferentes devem se comportar e que. muitas vezes. pois a infância a adolescência seriam etapas a serem ultrapassadas para que o desenvolvimento pleno (adultez) se estabeleça. atuando como padrão fixo do que significa ser homem ou mulher. 1994). valores que são concebidos como adequados para cada sexo. Vinculados aos papéis sexuais estão os estereótipos sexuais. apesar de serem tão importantes. Em contraposição.

2005. na ciência psicológica. pela perda dos referenciais paternos. o processo de ingresso na adultez agora é feito com outros parâmetros distintos daqueles originados na modernidade. questionam também o adultocentrismo (Salles. pois ela não se baseia mais na hierarquia entre as idades. a idéia de que a adolescência seria um momento de crise e de conflitos. Atualmente. não seriam mais uma dimensão básica para delimitar os ciclos vitais. Uma importante discussão feita por Salles diz respeito às mudanças que têm ocasionado uma certa dificuldade em demarcar os limites entre os ciclos da vida. Assim. 1999) inaugurou. Essas modificações na sociedade.20 características do mundo adulto. os critérios cronológicos. Tais idéias de crise e estresse da adolescência a muito ultrapassaram os saberes da psicologia. entre outros. a adolescência seria um período turbulento. ao contrário da infância tida como um momento destinado às brincadeiras. A partir dessas e de outras mudanças. Além disso. crianças e adolescentes. na atualidade é dado a adolescentes e criança o direito de questionar se o comportamento ditado pelo adulto é o mais adequado. apesar de ainda válidos. Se antes o acesso a informações e os comportamentos eram controlados pelos adultos de acordo com a faixa etária de crianças e jovens. tais concepções estão distribuídas pelo senso comum. Assim. questionam esse modelo de socialização. p. sexo e conflitos íntimos. além de desordenar as idades da vida. por exemplo. Hall (in Newcombe. Ou seja. pois há uma “uma desconexão nas diferentes dimensões que definem a entrada na vida adulta” (Salles. portanto. Este modelo fundamenta-se na idéia de desigualdade entre adultos. Assim. apenas na adolescência ou apenas na adultez. a organização das idades da vida torna-se mais complexa. 2005).38). etc. mas também à adolescência. felicidade. o que determina uma posição adultocêntrica em relação às outras fases do desenvolvimento. e a maior autonomia dada as crianças e adolescentes. agora não se pode mais afirmar que certos comportamentos são permitidos apenas na infância. Essa fase seria atravessada pela descoberta da sexualidade. o público infanto-juvenil entra em contato com conteúdos que não são mais de posse exclusiva dos adultos. O acesso a informação pelas crianças adolescentes que faz com que este público entre em contato com conteúdos de violência. no qual o adulto possuía autoridade e sabedoria superiores as do público infanto-juvenil. que as pessoas definam . A infância não se caracterizaria apenas pela oposição a adultez. sendo corriqueiro. Os critérios usados para a entrada na adultez a partir da era moderna se baseavam no modelo clássico de socialização. ausência de problemas.

imaturidade. devido à subnotificação e à carência de amostras que representem a população de vítimas (Rich. as estratégias dos pais para cuidar de seus filhos e a organização do ambiente familiar e escolar” (p. Os modos de ver as crianças podem ser partilhados entre pessoas de uma dada sociedade. O alcance dos casos de violência tanto física como sexual é difícil de ser estimado. por exemplo. por não respeitarem os limites e as potencialidades que crianças e adolescentes apresentam. etc. Após rever os estudos descritos até aqui. a parir da rebeldia e da revolta que naturais dessa época da vida (César. pode-se notar que a visão de criança na sociedade atual. Nos Estados Unidos. Warkentin. 1997). Loh.). Quinn e Behrman (1994) relatam que os órgãos oficiais oferecem informações incompletas tanto sobre a incidência (número de casos relatados a cada ano) quanto sobre a prevalência (número de pessoas na população como um todo que já sofreu um determinado agravo de saúde. estima que até 20% das mulheres. então. Como afirma Salles (2005): “Há uma correspondência entre a concepção de infância presente em uma sociedade. No Brasil. neste caso.21 os adolescentes. Finkelhor (1994) examinou 19 artigos sobre abuso nos quais os números sobre a prevalência variavam de 3 a 62% entre as vítimas do sexo feminino e de 3 a 16% para as do sexo masculino. Gidcyz. 1. por exemplo. uma vez que revelam cuidados e proteção. Finkelhor. e dependem de contextos sociais e culturais. outras podem ser fragilizadoras. esta dificuldade em ter estatísticas sobre os casos de abuso ocorre também em outros países. e entre cinco a 10% dos homens norteamericanos já tenham sofrido alguma espécie de abuso sexual. não havia estatística sistematizada sobre o abuso sexual contra crianças e adolescente no Brasil (Safiotti. & Weiland. o abuso sexual). Larson. Por conseguinte. é . No entanto. Há. atitudes e crenças das pessoas no cotidiano e sobre a percepção de si mesmas.2 Abuso Sexual contra Crianças: Números. apenas estimativas para a prevalência dos casos de abuso. Entretanto. ainda guarda elementos da modernidade (inocência. as trajetórias de desenvolvimento infantil. 1998). a falta de dados uniformes é obstáculo tanto para a realização de pesquisas que se aproximem da realidade quanto para formulação de políticas nacionais voltadas à resolução deste problema. Gomby. 33). 2005). Terman. Muitas dessas crenças podem ser adequadas. A visão sobre as crianças que é gerada tem forte influência sobre os hábitos. mas também começa a ter outros contornos que impulsionam uma maior autonomia delas. Conceitos e Definições Até 1997.

Na atualidade. pela própria vítima em 29% dos casos.22 estimado que o abuso sexual contra crianças e adolescentes atinja mais de 30% da população (Picazio. o uso de crianças em atividades e materiais pornográficos. incluindo indução ou coerção de uma criança para engajar-se em qualquer atividade sexual ilegal. assim como quaisquer outras práticas sexuais ilegais. torna-se incapaz de informar seu consentimento. sendo o pai responsável pela maioria dos abusos (De Lorenzi. Koller. escola. confiança ou poder com a criança abusada. a criança. Estes dados chamam a atenção sobre a mobilização da sociedade contra a posse e o uso da criança por aqueles que devem ser unicamente os responsáveis por ela. com idades entre cinco e dez anos (36. entre 1998 e 1999.1%. como uso de crianças em prostituição. por conseguinte. & Machado. Não entendendo a situação. São também aqueles atos que violam leis ou tabus sociais em uma determinada sociedade. e. . no período entre 1992 e 1998. uma atitude contra estas idéias pode influenciar positivamente no desenvolvimento de uma criança (Koller & De Antoni. hospital e departamento de polícia em 6. já que não está preparada em termos de seu desenvolvimento. seguidos pelos padrastos (16) das vítimas. alguém informou que já sabia da situação abusiva e não denunciou. por violência sexual (Habigzang. 2004). Entretanto. Os pais foram os agressores em 79% dos casos (40).9%). 1999): Abuso sexual infantil é todo envolvimento de uma criança em uma atividade sexual na qual não compreende completamente. O abuso sexual infantil é evidenciado pela atividade entre uma criança com um adulto ou entre uma criança com outra criança ou adolescente que pela idade ou nível de desenvolvimento está em uma relação de responsabilidade. em 15. em 61. 1998. Pontalti. Um levantamento realizado no Ambulatório de Maus Tratos de Caxias do Sul/RS. Em Porto Alegre. Para a compreensão do que é considerado abuso sexual será fornecida a definição usada pela Organização Mundial da Saúde (World Health Organization WHO. na maioria em crianças de seis a nove anos de idade).5% dos casos. Silva.2%). revelou o predomínio de casos em vítimas do sexo feminino (77%. sobre abusos sexuais. Pode incluir também práticas com caráter de exploração. Alguns números sobre as situações de abuso em geral são importantes para contextualização do estudo. É qualquer ato que pretende gratificar ou satisfazer as necessidades sexuais de outra pessoa. 2005) apontou a maioria das vítimas do sexo feminino (80. Azevedo.6% dos casos. por instituições. A violência sexual foi denunciada pela mãe da vítima em 37.7% dos casos. 2002). tais como. & Flech. por outros parentes. 2001). uma análise realizada em 71 processos jurídicos do Ministério Público do Rio Grande do Sul.

exposição à pornografia. toques. animais ou objetos. intercurso sexual. mas que certamente todos influenciam na construção da identidade exposta ao risco. já que não define que atos específicos (exibicionismo. é levar em conta que mesmo os menos graves podem acarretar uma carga de sofrimento para a criança. o incesto pode ocorrer entre parentes da mesma idade (entre irmãos. embora estas palavras sejam comumente usadas como sinônimos. havendo graves danos psicológicos para a vítima. cuidado ou responsabilidade. não há nele só a violência sexual. Neste estudo optou-se por esta definição. e toda e qualquer atividade sexual entre um adulto e uma criança. ou apenas alguns deles podem ser tidos como abuso sexual. Por conseguinte. Esta amplitude permite que se considere. para fins deste estudo serão considerados como abuso atos de exibicionismo. porque como afirmam Amazarray e Koller (1998). O abuso sexual é considerado grave. O incesto pode ser caracterizado como a união entre parentes com qualquer laço de parentesco podendo tal laço ser de consangüinidade ou adoção (Cohen. Além disso. tal como a exibição sexual na presença de crianças. Portanto. não esclarece se todos estes atos. mesmo aqueles atos tidos como menos graves. 1993). intensidade e duração dos episódios podem ter efeitos psicológicos variados de uma criança para outra. nem todos atos incestuosos podem ser considerados atos sexuais abusivos. Nem todo ato de abuso sexual contra criança pode ser considerado incestuoso e nem todo indivíduo que comete tal ato pode ser diagnosticado como pedófilo. pois ela não limita que atos específicos possam ser abuso. assédio. o portador . mas também abuso físico e emocional. mesmo que não haja intercurso sexual. que são patologias psiquiátricas caracterizadas por fantasias sexuais recorrentes e intensas com pessoas “não-autorizadas”. por exemplo) sem necessariamente envolver um adulto e uma criança ou um adolescente que mantenha uma relação de confiança. como abuso sexual. A pedofilia é caracterizada como uma patologia sexual inserida no grupo das parafilias. pontuando que questões relacionadas à freqüência. Por conseguinte.23 A definição fornecida pela WHO é ampla. severidade. Qualquer ato sexual entre um adulto e uma criança reconhecido como abuso. em qualquer de suas nuances. Koller e De Antoni (2004) chamam a atenção para os efeitos do abuso sobre o desenvolvimento. O indivíduo portador deste tipo de distúrbio experimenta fantasias intensas e excitantes e impulsos sexuais cíclicos envolvendo crianças. A definição. toques ou intercurso sexual) podem ser considerados como abuso. A definição de abuso sexual contra criança pode ser diferenciada de incesto ou pedofilia.

secasa. principalmente nos aspectos psicopatológicos vinculados ao perpetrador do abuso. critério esse estabelecido pelo Manual diagnóstico e Estatístico de Trantronos Mentais (American Psychiatric Association. por exemplo. sem.au). acarretaria sentimentos de inadequação sexual e necessidade de ser sexualmente dominante. Uma breve compilação de diferentes teorias apresentadas neste site. erotizando essa relação (Almeida. algumas situações vivenciadas ainda na infância. em geral. A falha neste conflito ocorre quando os pais da criança não estão suficientemente amadurecidos. As características atribuídas aos pedófilos dizem respeito tanto às tendências psicológicas quanto aos comportamentos sexuais propriamente ditos entre adultos e crianças. que se ocupam.au). bem como outros eventos traumáticos podem explicar o comportamento abusivo. Desta forma. 1997). que compete com ela pela atenção materna. O comportamento sexualmente desviante poderia resultar desta relação erotizada entre pais e filhos.24 de pedofilia pode chegar a manter atividades de caráter sexual com crianças prépúberes (de zero aos nove anos). o que por sua vez. pois há percepção de que existe um terceiro (pai). Assim. Esse conflito ocorreria entre os três e os cinco anos e seria vital para a estruturação da vida psíquica do indivíduo.secasa. em definir as motivações para tais atos (ver www. tais como o Complexo de Édipo e a inabilidade para ultrapassar esta etapa. Pessoas podem ter fantasias sexuais envolvendo crianças ou se sentirem excitados por elas. 2003). O papel dos abusadores tem sido explicado por diversas teorias. desconsiderando os fatores sociais e culturais. indivíduos portadores desse transtorno podem apresentar apenas os desejos e fantasias com crianças. Para teoria psicanalítica. perturbados e perversos em conseqüência desse desenvolvimento psicossexual pobre (www.com. entretanto. com a interiorização de normas e valores (Gabel. com origem no . Uma limitação desta teoria é a sua focalização apenas nas dificuldades do desenvolvimento individual. os abusadores seriam. chegar a cometer o ato de abuso propriamente dito. O conflito de Édipo se caracteriza pela saída de uma fase na qual o objeto da criança deixa de ser apenas a mãe. sem se tornarem abusadores. gerando ansiedade de castração. principalmente. o indivíduo precisa ter pelo menos 16 anos e ter uma diferença de idade em relação à vítima de pelo menos cinco anos. pois é nele que se originam o superego. demonstra que estas abordagens podem fornecer um panorama das formas como o conhecimento nesta área tem sido produzido. A partir da teoria da precipitação da vítima. Para ser classificado como pedófilo. 1994). e satisfazem desejos dela. embora de forma superficial.com.

as barreiras intergeracionais foram rompidas em algumas esferas das relações familiares. tais comportamentos produzidos pelas vítimas seriam interpretados como formas de consentimento para o abuso. Segundo esta teoria. pois. As crianças teriam um desejo semelhante aos das mulheres que sofrem violência física por parte de seus parceiros. Seria um “desejo anormal da criança de obter satisfação sexual. como disfuncional. filhos e filhas podem atuar ao mesmo tempo como parceiros de seus progenitores. A responsabilização apenas da vítima é uma forte limitação desta teoria. olhares. separavam as vítimas de abuso em dois grupos: as acidentais e as participantes. ocasionando uma inversão de papéis entre pais e filhos. pois revela um sintoma de desestruturação pela qual todos os membros são responsáveis. A manutenção dessa “relação” pressupunha. . abusadores e vítimas agem segundo uma mesma intenção ou objetivo. A família tem sido descrita pela teoria da disfunção da família. 1998). baseados nessa teoria. Essa ambigüidade é gerada quando. a vítima pode apresentar gestos. enquanto as crianças eram vistas como perversas e manipuladores (Intebi). Com esta inversão. em famílias abusivas sexualmente. assim. Já as participantes. Portanto.25 início do século XX. ou seja. datados da segunda metade do século XX. pois possuem um intuito masoquista nessas relações sexuais com adultos (Intebi. pois propicia uma visão de igualdade de condições entre elas e os seus abusadores. a repetição dos episódios só seria possível mediante o constimento dela (Rogers in Intebi. uma participação da vítima. Apesar de essa teoria não ser usada atualmente. Outros estudos. Baseada nas teorizações da área sistêmica. e consequentemente de padecer de traumas sexuais” (Abrahan in Intebi. embora o que ocorre seja uma situação clara de coação e violência. e como filhos. 1998). Esse tipo de teoria é perigosa. classificavam os abusadores como seres amáveis e inofensivos. A atividade sexual entre adultos e crianças (na maioria das vezes entre uma criança do sexo feminino e um adulto do sexo masculino) é vista como um desejo inconsciente da criança. o foco de análise sobre a situação abusiva centra-se na dinâmica que se estabelece entre os membros do grupo familiar. as crianças recebem carinhos sexualizados. As acidentais eram aquelas que eram abusadas apenas uma única vez por um adulto desconhecido. ao procurar cuidados emocionais dos pais. eram aquelas que mantinham uma “relação” duradoura com um adulto conhecido. palavras que incentivam o agressor a cometer o ato abusivo. pois pode ser usado como justificativa para os atos de violência cometidos pelo abusadores. Alguns estudos baseados nessa teoria. 1998). no caso de abuso. Intebi afirma que ainda em 1984 ainda havia estudos baseados nela.

O foco de teorias psicológicas desloca-se da vítima ou da família para a situação de abuso sexual propriamente dita. buscando a figura do pai. tais como: introversão social.26 caracterizando. Disfunções sexuais e comportamentos depressivos da mãe podem desencadear comportamentos abusivos nos quais os filhos tentam satisfazer suas necessidades emocionais. culpabilizando a mãe e todos os membros da família pelo início e manutenção dos atos de violência sexual contra crianças. 2003). necessidade de exercer graus elevados de dominação e controle nas relações familiares. citados como comuns em ocorrências de abuso. Algumas tendências psicológicas do agressor são destacadas. A mãe teria um papel central nestes casos. Além disso. pois se considera que o abuso acontece por uma ausência dela no que diz respeito à satisfação de necessidades emocionais de seus filhos. Os autores da teoria sistêmica consideram também que há fatores de personalidade individuais que contribuem para etiologia dos abusos sexuais nas famílias. as vítimas do abuso podem apresentar. sentimentos de inadequação da masculinidade. Esse fator seria importante na manutenção do abuso através das gerações de uma mesma família (Furniss. 1993). pois uma parcela significativa deles tem como objetivo investigar. para satisfazer-se sexualmente. Na análise desta situação dois pontos são centrais: a identificação do perfil psicológico do agressor e o conhecimento das motivações para o abuso. Esta teoria possui claras limitações. quando na realidade desejam expressar cuidado emocional. um comportamento sexualizado junto aos seus filhos. além de responsabilizar a vítima pelo acontecimento do ato. então em busca da filha. por exemplo. pois não aponta o pai como o principal responsável pelo abuso sexual. O foco de análise recai sobre como estas motivações individuais atreladas a de outros membros da família interagem para criar as situações de abuso (Almeida. Contudo. O abusador (geralmente o pai) é tido por essa teoria como alguém que está no mesmo nível de maturidade emocional da criança (Furniss. outros fatores importantes tais como tendências criminosas. alcoolismo e baixo controle interno. posteriormente. ainda. os motivos pessoais para início das situações abusivas não são os fatores mais importantes para esta teoria. tornando-os mais vulneráveis ao abuso. Pode-se afirmar que a maioria dos estudos sobre abusadores concentra-se neste tipo explicação. 1993). doenças mentais. O pai que não é satisfeito pela esposa vai. a situação de abuso (Almeida. portanto. Há. Devido a confusão entre carinhos emocionais e gestos sexuais. a personalidade ou as patologias que estes indivíduos apresentam. 2003). outros estudos se dirigem para a análise das variáveis desenvolvimentais (tais como um ambiente violento na infância) que .

no qual os homens (potenciais agressores) teriam direitos de explorar mulheres e crianças. Primeiro. ele deveria ultrapassar a . Esse tipo de prerrogativa pode dificultar a crença de que o tratamento pode ser realmente eficaz para a vítima. Para esta teoria. 2003). Segundo. quando há a exposição a um evento avassalador que compromete as estratégias de coping e de defesa da pessoa.27 podem contribuir para o surgimento de problemas psicológicos associados ao cometimento de atos de abuso sexual contra crianças. Nesta abordagem não são considerados motivos psicológicos sendo citados apenas modelos sociais (ver www. sobretudo em um contexto social de desigualdades. Terceiro. Quando esses eventos são percebidos como incontroláveis. A teoria cognitivo-comportamental pode ser criticada na medida em que associada ao trauma. 2003). De acordo com esta teoria. As críticas a este modelo surgem a partir do momento em que houve um aumento nas denúncias de abuso sexual contra mulheres. Em decorrência disto. Finalmente. Vários estudos (ver Widon & Ames. entre elas o abuso sexual contra crianças. o abuso sexual ocorre.com. o abusador necessitaria transpor as barreiras externas para chegar a abusar. A teoria de quatro pré-circunstâncias baseia-se nas idéias psicológicas e sociológicas de Finkelhor (in Krivacska 1989). ele precisaria superar inibições internas para executar o ato. As meninas (por serem do sexo feminino e crianças ao mesmo tempo) seriam as vítimas preferenciais para este tipo de violência (Almeida. realçando que estes se configurariam como traumas que influenciariam o surgimento de estratégias comportamentais disfuncionais. Um exemplo de teoria psicológica é a cognitivo-comportamental. 1994) analisam a prevalência de abuso de todos os tipos em abusadores sexuais.secasa. O trauma ocorreria. pode estar idéia de que as vítimas de abuso sexual são “danificadas” de maneira irrecuperável (Almeida. haveria uma interação de fatores para que o abuso ocorra. O trauma tem papel central nessa área. Assim. as terapias derivadas desse pressuposto estariam preocupadas com a resolução desse trauma e dos efeitos negativos gerados no comportamento (Almeida. a prerrogativa fundamental de que a relação desigual entre homens e mulheres seria a variável mais importante para a ocorrência dos atos de abuso passa a ser questionada (Almeida.br). 2003). o perpetrador precisaria ter motivações para cometer o ato de abuso. 2003). eles podem ser uma fonte de trauma psíquico. 2003). As teorias feministas ganharam destaque nos 80 e 90 após a constatação de que a maioria das vítimas de abuso sexual era de meninas e que a maioria dos agressores era de homens adultos (Almeida.

para que o abuso ocorra. estimulando-a revelar os atos ou as tentativas de abuso. A teoria psicodinâmica propõe que o comportamento sexual agressivo seja resultado de traços de personalidade patológicos do agressor. vale ressaltar que a resistência da criança não pode ser encarada como uma responsabilização dela. Assim. pois ela não explica os fatores primários nos quais se poderia concentrar a prevenção. A motivação se relaciona aos fatores pessoais do abusador envolvidos no início dos atos de abuso. os abusadores racionalizam essas dificuldades. As inibições externas seriam as estratégias ambientais que impediriam os atos de abuso. Contudo. Após ultrapassar esses fatores inibitórios. por exemplo. A teoria de Finkelhor não explica como ocorre o desenvolvimento das motivações sexuais desviantes do abusador (Krivacska. Um aspecto importante da teoria de Finkelhor (in Krivacska) é que esses quatro aspectos ocorrem sequencialmente. As inibições internas dizem respeito tanto à conscientização de que o contato sexual com crianças é inadequado quanto a habilidade de controlar tais impulsos sexuais dirigidos a elas. se o primeiro não está disponível. buscando o entendimento do fenômeno do abuso sexual impetrado por adultos contra crianças. A presença de outra pessoa que poderia testemunhar o ato e o pouco tempo privativo de um abusador com uma criança figuram como estratégias possíveis na inibição do abuso sexual infantil. Esta pode ser vista como a principal crítica da teoria das quatro pré-circunstâncias. não é necessário apenas aumentar os impedimentos externos ao abuso. a teoria de Finkelhor é positiva na medida em que fornece uma visão mais contextual sobre o abuso. o abusador precisa vencer as resistências da criança. mas fazer com que os potenciais abusadores os percebam como ameaçadores aos seus intentos contra as crianças. É . essas estratégias só são efetivas quando percebidas pelos abusadores como barreiras reais para o cometimento do ato. por fortes laços emocionais entre ela e a família que a deixam segura. Entretanto. 1989). Azevedo e Guerra (1989) acrescentam três teorias às já mencionadas. Estas resistências podem ser incrementadas.28 resistência da criança (quarta pré-circunstância). cometendo os abusos mesmo quando elas estão presentes. os outros não ocorrerão. Assim. Esse modelo pode ser entendido como um continuum no qual de um lado está a motivação para o ato de abuso e do outro os três fatores restantes que representariam as inibições. pois esse fator dependerá basicamente de como o entorno se organiza para lhe apoiar. Assim. Contudo. a motivação deveria ser mais intensa que a combinação das amplitudes dos fatores inibitórios. Em um número signitificativo de oportunidades.

br) e ao PsycInfo (http://www. repassado. Além disso. & MacKay. . A teoria da aprendizagem social que tem como base o pressuposto de que o comportamento violento é aprendido. Alguns autores têm tentado classificar abusadores em grupos segundo semelhanças psicológicas e comportamentais (Azevedo & Guerra. ocasionando a responsabilização das vítimas e salvando seus algozes das penas legais. Gijseghem. tais como posição social. com consulta ao Index-Psi-Periódicos (www. revela a escassez de estudos. (Azevedo & Guerra. valores pessoais. Bhana. etc. uso de drogas. problemas neurológicos. 1980. 1. 2005).3 Abusadores Sexuais: Classificações e Características Uma revisão de literatura. Já a teoria sócio-psicológica considera a violência contra criança como resultado de uma multiplicidade de fatores. stress. traços de personalidade. aponta que muitos casos de estupro nos Estados Unidos são julgados de acordo com tais idéias. entender os abusadores sexuais e alguns aspectos que os constituem pode ser um esforço válido na direção da compreensão do fenômeno.apa. 1999). cada situação de abuso é específica e as explicações que servem para um caso podem não ser úteis para outros. e se isso acontece é por que eles querem”. além de propiciar informações para ações interventivas. provocam o aparecimento de algumas explicações que podem legitimar preconceitos e mitos. Como pondera Marques (2005).29 necessário.org/psycinfo/). entre outras. especialmente os brasileiros. Em sua análise. tais como “as mulheres podem resistir ao estupro. atentar para o fato de que os casos que apresentam perturbações graves somam apenas 10% do total de registros dos casos de abuso sexual. “mulheres pedem pelo estupro” (p. entretanto.org. socializado e. realizados sobre abusadores sexuais. 1989. apesar de haver diversas explicações sobre as causas do abuso sexual. Um estudo com adolescentes na África do Sul revelaram que tanto os jovens do sexo masculino quanto os do sexo feminino entrevistados por eles afirmaram que os homens possuem impulsos sexuais incontroláveis e que cabe às mulheres o controle de tais impulsos (Petersen. estas sempre esbarrarão em algumas limitações. Outras teorias. já que o tema do abuso é complexo por sua multideterminação com as teorias explicando apenas parte das variáveis envolvidas.217). Burt (1980) afirma que há algumas crenças quanto ao estupro que são apoiados socialmente. em sua tentativa de explicar a situação de abuso sexual.bvspsi. portanto. Portanto.

Por conseguinte. Ainda relatando as características dos abusadores.30 Marcet. O primeiro subtipo é denominado regredido. Seu estudo referencial viabilizou a verificação do tipo de comportamento do abusador. 1993). A classificação usada por este autor é pouco prática. É ainda sadomasoquista e coleciona . portanto. baseada fundamentalmente em características internas do abusador (tais como seus conflitos internos. procuram fornecer um olhar compreensivo aos abusadores (Furniss. Além disso. Smith & Sounders 1995). aproveitando-se de sua vulnerabilidade. 2005. Ao contrário. Estes indivíduos possuem como característica comum dificuldades para enfrentar desafios e sua motivação para a prática do abuso se dá pela substituição de parceiros sexuais adultos por crianças. envolve uma questão ética conforme salientam Cohen e Gobetti (2002). Gijseghem (1980). como reiteram Cohen (1993) e Marques (2005). não buscam atribuir um rótulo ao abusador sexual. Este indivíduo abusa de pessoas em geral. geralmente como “seres irracionais” desprovidos de qualquer semelhança com outros seres humanos. Os estudos apresentados a seguir.) Dirigir um olhar de compreensão e empatia ao abusador não significa que se deseja isentá-lo de sua responsabilidade perante o ato de abuso. Em um estudo. o critério para escolha das vítimas é a disponibilidade e o método de abordagem das crianças geralmente é coercitivo. Age coagindo. que estes indivíduos são seres humanos que portam patologias e precisam de tratamento. O tema do abuso sexual de adultos contra crianças e adolescentes suscita opiniões indignadas. manipulando ou tentando sua vítima. ou sua vontade de superioridade) sendo de difícil identificação e operacionalização em termos de pesquisa. seu complexo narcísico. É oportunista na escolha de suas vítimas. ele abusa sexualmente de crianças. com base em mais de noventa casos de abuso sexual. É necessário ter clareza. Possivelmente estes indivíduos colecionam pornografia infantil. ainda seja também escassa a literatura sobre tais classificações. Um segundo subtipo dos agressores sexuais situacionais é o moralmente indiscriminado. Há quatro subtipos dentro desse primeiro. a partir de algumas características. Azevedo e Guerra (1999) diferenciam dois tipos de abusador sexual. Embora. as possibilidades de recidiva e de tratamento. Classificar abusadores. um perito canadense e pesquisador com referencial na psicologia jurídica agrupou os abusadores em oito categorias. pois o abuso torna-se algo comum para ele. O primeiro tipo é chamado agressor sexual situacional. contudo. que rotulam os indivíduos que cometem os atos de abuso.

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revistas de detetive. O terceiro subtipo é o sexualmente indiscriminado. Possuem
como característica básica uma ampla experimentação sexual. A motivação para o
abuso sexual infantil é o tédio e ele escolhe vítimas mais jovens e de aparência
diferente. É altamente provável que colecione pornografia de natureza variada.
Além disso, aborda a vítima se relacionando com elas em outras atividades
anteriores (brincadeiras, por exemplo). O inadequado é o quarto subtipo. Tal
indivíduo possui como característica básica demonstrar-se inadequado socialmente.
A insegurança e a curiosidade são os motivos para o abuso sexual infantil. Estes
escolhem vítimas que não pareçam ameaçadoras, abordando-as, explorando as
vantagens (tamanho, por exemplo) que possuem em relação a elas (Azevedo &
Guerra, 1999).
Um segundo tipo de abusador sexual infantil apontado por Azevedo e
Guerra (1999) é o agressor sexual infantil preferencial. Os três subtipos inseridos
nesta classificação compartilham as características de preferência sexual por
crianças e coleção de pornografia infantil. O primeiro subtipo é o sedutor. A
motivação para abusar de crianças é a identificação com as características infantis.
Eles, geralmente, escolhem as vítimas tendo como critério idade e sexo, abordandoas através de um processo de sedução. O segundo subtipo é denominado
introvertido. Eles se relacionam sexualmente com crianças por medo de
comunicação com as pessoas de sua idade. Escolhem crianças jovens e estranhas e
seu modo de operação para o abuso são contatos sexuais não-verbais. O terceiro e
último subtipo é o sádico. Este indivíduo é motivado pela necessidade de infligir
dor às suas vítimas. Operam com as vítimas através de várias tentativas ou força.
Estes indivíduos escolhem suas vítimas por idade e sexo. A caracterização feita por
Azevedo e Guerra é bastante útil para classificar abusadores, segundo suas práticas
abusivas e não de acordo com características de personalidade internas e abstratas.
Contudo, as classificações postas por estas autoras não podem ser vistas como
definitivas, pois corre-se o risco de reduzir as características dos abusadores apenas
a algumas categorias. Outros indivíduos podem agir de maneira distinta das
descritas, entretanto, eles continuarão a ser abusadores pelo fato de terem cometido
violência sexual contra crianças.
Outros estudiosos, apesar de não classificarem os abusadores em grupos,
identificaram uma série de patologias que podem estar associadas aos casos de
abuso. Walsh, MacMillan e Jamieson (2001) investigaram a associação entre
transtornos psiquiátricos de pais e o cometimento de vários tipos de abuso. Esta

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investigação foi conduzida junto a 8548 homens e mulheres que responderam se
haviam vivido algum tipo de abuso durante a infância. Os participantes também
responderam se seus pais sofreram com algum tipo de transtorno mental durante
suas vidas. Apesar de os dados não serem fornecidos pelos pais abusivos, os
resultados apresentados são importantes, porque associam algumas doenças
psiquiátricas a certos tipos de abuso. Foi encontrada uma alta correlação entre
doenças como depressão, mania e esquizofrenia e abuso físico e sexual contra
crianças. Esses três tipos de doenças apresentam índices semelhantes de correlação
com as situações de abuso. Contudo, quando foram identificados comportamentos
anti-sociais houve uma maior correlação com a ocorrência de abusos físicos e
sexuais do que quando foi detectada a presença dos outros tipos de doenças citados.
Portanto, a presença de comportamentos anti-sociais sugere um maior risco para
estes tipos de abuso. Os autores fazem uma ressalva quanto a estes achados, já que
nem em todos os questionários se pôde identificar quem foram os agressores. Ou
seja, não ficou claro neste estudo se foram os pais dos participantes da pesquisa que
cometeram os atos de abuso. A presença de transtorno, desta forma, não significa
que os pais sejam abusivos. Contudo, os sintomas destas patologias podem
acarretar alguns comportamentos negligentes por parte dos pais, o que pode deixar
seus filhos mais vulneráveis à violência de outros adultos.
Corroborando o estudo de Walsh et al. (2001), um estudo realizado com
abusadores incestuosos notou que em um quarto dos participantes havia algum
distúrbio de personalidade, com destaque para o Transtorno de Personalidade AntiSocial (Trepper, Niedner, Mika, & Barret, 1996). Um estudo realizado com pais
incestuosos e mães não-abusivas procurou investigar particularidades entre
abusadores foi o de Smith e Saunders (1995). Os abusadores foram definidos tanto
pelas mães das crianças vítimas quanto pelos pais abusadores de um lado como
dominantes, abusivos e autoritários e por outro lado como dependentes e passivos.
Esta diferença pode ser explicada pela ausência de uniformidade entre as
características dos abusadores evidenciada por vários estudos obtidos na literatura.
Uma parcela significativa de abusadores sofre de patologias que são
classificadas como parafilias (Becker, 1994). As parafilias são patologias
psiquiátricas caracterizadas por fantasias sexuais recorrentes e intensas com pessoas
“não-autorizadas”, animais ou objetos. Para que uma pessoa seja diagnosticada com
parafilia, é necessário também que ele aja segundo as suas fantasias ou que estas
tenham uma natureza intrusiva. No caso dos abusadores, reitera-se que a pedofilia é

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o tipo de parafilia diagnosticada mais comumente. Contudo, outras doenças
psiquiátricas do grupo deste mesmo grupo podem estar presentes.
No estudo realizado com três abusadores sexuais incestuosos, Marques
(2005) notou certas similaridades em seus funcionamentos. Entretanto, destaca que
apesar destas semelhanças não é possível deixar de observar a singularidade com
que cada um dos participantes agia, tanto em termos do abuso sexual como em
outros aspectos de suas vidas. A falta de uniformidade entre classificações de
abusadores pode, em parte, dificultar as pesquisas que busquem algum tipo de
categorização, já que não há um critério único a ser seguido. No Brasil, o perfil do
abusador será considerado o perfil fornecido, com base em 1565 denúncias feitas
entre os anos de 2000 e 2003, pela Associação Brasileira Multiprofissional de
Proteção à Infância e Adolescência (ABRAPIA) disponíveis on-line no ano de 2003
(www.abrapia.org.br). As denúncias foram realizadas através de telefonemas e
revelaram o seguinte perfil: 90% do abusadores são do sexo masculino; 58% estão
na faixa etária que se estende desde os 18 aos 45 anos; e 21% tinham mais de 45
anos, 59% possuíam vínculo biológico ou de responsabilidade com a vítima,
enquanto 41% não possuíam tal vínculo. Dados dos Estados Unidos que
corroboram este perfil. Do total de abusos cometidos naquele país, 96% foi
praticado por homens. Um outro dado importante mostrado no estudo americano é
que em grande parte dos casos as vítimas conhecem seus agressores (La Fond,
2005). Esta informação também está de acordo com o perfil traçado pela
ABRAPIA, já que na medida em que um pouco mais da metade dos agressores tem
vínculo com a vítima, está claro que no Brasil parte expressiva destas vítimas
também conhece seus agressores.
Considerando este perfil do abusador sexual no Brasil, na próxima seção
serão descritos alguns estudos que versam sobre a visão que eles possuem sobre
crianças. Serão apresentadas também algumas teorias que tentam explicar o modo
como os abusadores vêem as crianças.
1.4 Abusadores Sexuais e sua Visão sobre as Crianças
As cognições sobre o abuso tem sido um tema de interesse entre os
pesquisadores que se concentram em estudar os abusadores. Uma coletânea de
estudos apresentada a seguir tangenciam tais cognições e a visão de infância,
permitindo algumas inferências sobre características e crenças que abusadores
possuem sobre as crianças. Ward e Keenan (1999) afirmam que investigar como os

Um segundo modelo sobre as distorções cognitivas é derivada da abordagem feminista. 2000). elas não resistem e não contam a outros adultos. afirmam que os abusadores percebem as crianças como seres sexuais. Neste nível estão inclusas as teorias implícitas sobre uma vítima em especial. como por exemplo. Becker. este contato sexual apenas despertaria impulsos que já existiam antes do momento do abuso. in Geer. a investigação de Ward e Keenan (1999) revelou que os abusadores percebem as crianças como seres sexuais e que. mas uma justificativa construída após os atos abusivos. tal crença será importante para a prática do abuso. portanto. 2000). Em acordo com o estudo de Swaffer et al. Citando mais especificamente estudos que mostram como abusadores vêem as crianças.. A primeira delas abrange as crenças sobre as pessoas e o mundo em geral. Segundo este modelo. pois. na medida . in Geer et al. Hollin. Beckett e Fisher (2000) discutem que a percepção sobre características físicas e sobre tipo de relacionamento que o abusador pensa ter com a criança influenciam diretamente para a prática abusiva contra a criança. O primeiro modelo deriva-se da literatura clínica (Abel. que propõe que os padrões de percepções e pensamentos distorcidos são causas para a agressão sexual e para outros domínios de comportamento. & MangunoMire. Os abusadores parecem organizar três tipos de teorias implícitas sobre o abuso. estas distorções não são causas dos atos de abuso. O terceiro e último modelo é proveniente da literatura criminal. se ele acredita que pode manipulá-la para conseguir o que deseja. aceitando o “mito do estupro” e atitudes relacionadas ao papel dos estereótipos (Malamuth. Os resultados de outro estudo demonstram que abusadores justificam o abuso informando que as crianças querem o contato sexual tanto quanto eles. 1997). O segundo tipo de teoria diz respeito àquelas crenças intermediárias que categorizam os elementos em geral. Por exemplo. Três modelos predominantes têm sido empregados para descrever o papel das cognições em abusadores sexuais (Murphy. as crianças só teriam benefícios em ter contato sexual com adultos. & Cunningham-Rathner. Swaffer. segundo os abusadores.34 abusadores pensam e percebem o mundo a sua volta é determinante para compreender o modo como eles agem. Descreve vários tipos de atitudes direcionadas às mulheres. Beech. Estupinan. os significados atribuídos às crianças. Por conseguinte. O terceiro e último tipo de teoria implícita está ligado àquelas crenças que o abusador possui sobre objetos ou pessoas específicos. (2000). que considera que as distorções cognitivas dos abusadores são erros consistentes no pensamento que ocorrem automaticamente (Beck. 1986). Por último.

Os agressores sexuais percebem que as crianças cooperam durante o episódio de abuso e que são elas próprias que. pode não levar a pessoa a sentir o mesmo incômodo emocional de outrem. ou as que utilizam a divisão de responsabilidade entre abusador e criança parecem funcionar a favor do perpetrador. entre outras (Lawson. perceber a situação como semelhante a uma já ocorrida . ou seja. pois não demonstraram nenhum sinal de oposição aos atos de abuso (Phelan. significa “sentir com” o outro. não há necessariamente a tomada de perspectiva do ponto de vista do outro. muitas vezes. A responsabilização pelo ato de abuso foi discutida por Waterman e Foss-Goodman (in Almeida. Pode-se simplesmente. 2003). influenciados diretamente pela idade da vítima. Estes abusadores viam as crianças como menos ameaçadoras socialmente (Gannon et al. Estes autores afirmam que as atribuições de culpa. segundo as autoras. Abusadores usam várias estratégias para justificar seus comportamentos abusivos. Em estudo com 40 pais biológicos e adotivos que abusaram de suas filhas.). 2005). a relação é tida como menos abusiva. 2003). de modo que se fosse uma adolescente envolvida na acusação. iniciam o contato. Então. a vítima é desacreditada pela própria família (Morales & Scharamm. alegar que a relação entre ele a vítima era de natureza afetiva e não abusiva. Entre essas estratégias estão: afirmar que a vítima consentiu ou provocou o abuso. distorcendo assim os papéis de ambos. fora. em situações hipotéticas de abuso. 2002). Tais estratégias se baseiam na premissa da pouca responsabilidade do abusador e da culpabilização da criança. Assim. no entanto. Considera-se de acordo com a perspectiva de Eisenberg e Strayer (1990).35 em que elas fazem perguntas sobre sexo (Gannon et al. As estratégias que depreciam as crianças. revelou que 21 deles acreditavam que suas filhas gostaram da experiência do abuso. pode-se definir a empatia como a resposta emocional que origina-se da percepção do estado ou condição emocional de outrem e que é congruente com esse estado ou condição. pois muitas vezes. acusar a vítima de contar mentiras. 1995). Tal reação afetiva pode ocorrer como resposta a dicas concretas do estado emocional alheio (tais como as expressões faciais). A empatia parece ser uma questão-chave neste achado. que empatia é uma resposta afetiva que resulta de compartilhar a percepção emocional de outra pessoa. por exemplo. as adolescentes são mais culpabilizadas e aos abusadores é arrogada uma menor responsabilidade. ou como conseqüência do reconhecimento de pistas indiretas desses estados emocionais (perceber a natureza da situação problemática pela qual o outro está sofrendo). A empatia..

Alguns pontos importantes precisam ser clarificados para que se compreenda a conceituação de empatia. e que as crianças podem sentir afetos gerados pelo reconhecimento irrefletido dos estados emocionais dos outros. sem ter consciência de que esse estado não tem como fonte ela própria. não demonstrando empatia.36 antes. e aí reconhecer que aquele tipo de situação pode causar sofrimento. nesses estágios do desenvolvimento. Eisenberg e Strayer (1990) afirmam que em estágios mais precoces do desenvolvimento. Batson (citado por Eisenberg & Strayer. existindo apenas um estado precursor da empatia. Contudo. Alguns . De acordo com Eisenberg e Strayer (1990). Já a simpatia de diferenciaria da angústia pessoal. as atoras adotam a empatia. algumas pessoas quando percebem o sofrimento do outro. tais como tomada de perspectiva através do ponto de vista do outro. ainda não haveria empatia propriamente dita. A simpatia seria um estado posterior a empatia. segundo as autoras a simpatia (assim como a empatia). 1990) afirma que experimentar angústia pessoal frente ao sofrimento do outro pode orientar as pessoas a desejarem o alívio de seu próprio estado aversivo. mas que ela pode ocorrer mesmo em estágios mais avançados do desenvolvimento. ainda não há tal diferenciação. A empatia em si se configuraria apenas quando já um grau mínimo de diferenciação eu-outro que permita que a pessoa reconheça que os estados emocionais não são originados da sua própria situação. Assim. pois ela define o estado no qual uma pessoa se preocupa em aliviar o sofrimento do outro. A angústia pessoal se diferenciaria da empatia por essa última não estar associada nem a uma resposta egoísta nem a uma orientada para a outra pessoa. então. como uma variável que é influenciada pela idade e pelo nível de desenvolvimento. por perceber seu sofrimento. e o que é mais importante. Os construtos “simpatia” e “angústia pessoal” devem ser diferenciados entre si. foram incapazes de perceber que a situação de abuso se constituía como prejudicial para suas filhas. podem ser fruto de processos cognitivos. Um deles se relaciona ao grau de diferenciação eu-outro. Claramente. pode levar a reações ou preocupações auto-orientadas e egoístas. podem experienciar um estado aversivo de ansiedade e preocupação que não é congruente com o estado do outro. pois a primeira claramente seria uma resposta orientada para o alívio do sofrimento do outro. enquanto a segunda seria egoísta e auto-orientada. sem estar portanto associada aos sentimentos empáticos. Os homens entrevistados por Phelan (1995). Eseinberg e Strayer comentam ainda que a angústia pessoal pode ser um estado precursor da empatia nas etapas mais precoces.

& Kilcoyne. que tinham baixa auto-estima ou problemas familiares. 2000) demonstram que os abusadores teriam déficits em sua capacidade empática. Os dados revelaram que crianças e adolescentes do sexo feminino sofrem mais violência sexual e as do sexo masculino sofrem mais violência física. dizendo. Além disso. que “as meninas que eu procurava eram pequenas e usavam mini-blusas e mini-saias”. bem como dados do Programa SOS Criança. também para entender como eles percebem as necessidades e os sentimentos delas. 1995). 2000). Uma investigação com 91 homens que haviam cometido algum tipo de abuso sexual contra crianças verificou o modo como os abusadores se relacionam com crianças (Elliot. como comenta Fisher (in Webster & Beech. Sessenta e seis por cento deles afirmaram conhecer as crianças com as quais cometeram o abuso. o que atuaria como um facilitador para a prática de abusos. os estudos sobre empatia em abusadores demonstram que eles possuem um índice normal de empatia geral. por exemplo. O que aconteceria no caso de abuso seria a pouca empatia direcionada a uma vítima específica.5 anos. Já para a violência sexual vivida pelas meninas.37 estudos (Pithers. Quando não há incapacidade. revela-se uma educação para a submissão. do ano de 1987 a 1993. O instrumento utilizado abrangia diversos tipos de informação com relação à vida dos abusadores. enquanto outros 27% justificaram sua escolha pela vestimenta “provocante” da vítima. no período de 1990 a 1993. por possuir um perfil específico. Os resultados revelaram que eles informavam ter preferência por meninas na faixa de idade entre oito e 13 anos. não comentariam o abuso com outras pessoas. A violência física aparece como forma disciplinar para os meninos. . 42% responderam que procuravam por crianças bonitas. 1999. aos abusadores. com idade média de 8. Verificar a capacidade empática dos abusadores com as crianças é importante. Os dados deste estudo revelam uma visão de criança elegida como vítima. Webster & Beech. enfatizando a influência do gênero como uma variável importante. pode haver supressão dos sentimentos empáticos no momento do abuso. a partir de registros de denúncias em uma delegacia da mulher. Quando questionados sobre como selecionavam suas vítimas. Safiotti (1997) levantou dados sobre violência impetrada contra crianças. Um último resultado importante foi o fato de 13% dos abusadores terem selecionado suas vítimas pela aparência de inocência ou que pareciam crianças confiáveis e que. portanto. Um resultado importante relacionou-se com o fato de 49% dos abusadores terem afirmado que procuravam por vítimas que pareciam não ter alguém de confiança. Na cidade de São Paulo. Browne.

Moraes e Cerqueira-Santos (2005) mostraram a preferência destes participantes por crianças que possuíam um status diferente de suas filhas ou meninas de suas famílias. 1993. eles responderam que as atividades lúdicas seriam mais característica da infância e o namoro da fase adolescente. os caminhoneiros tenham revelado esse tipo de idéia sobre as crianças exploradas sexualmente nas estradas. & Machado. Abusadores sexuais preferiam crianças que possuam algum tipo de deficiência. em um relatório de pesquisa com caminhoneiros que abusaram sexualmente de crianças. Tal abuso sexual intrafamiliar é mantido em segredo. já que não é permitido a estas crianças recusar qualquer investida. Em complemento a este argumento. afirmando indiretamente que em alguma medida. pois. Habigzang. entender crianças. não identifica o abuso e não a revela a ninguém (Furniss. divergentes. 1999). Azevedo. Segundo Narvaz (2005). por sua vez. Os resultados são assim. Koller. Koller. os participantes da pesquisa afirmaram que caso a menina abusada já não fosse mais virgem. Além disso. 2004. por um lado indicam que estes indivíduos percebem que o sexo não é uma atividade típica da fase infantil e por outro que o sexo é permitido com algumas crianças. O abuso sexual aparece aqui como um produto de uma relação de poder desigual entre as crianças e adolescentes do sexo feminino e homens adultos. Mais uma vez.38 para atender todos os pedidos (ou ordens) de figuras de autoridade do sexo masculino. por sua vez. fica evidente que a visão que os abusadores possuem sobre as crianças está diretamente envolvida em um contexto que propicia a situação de abuso. se sentem com direito de ter relacionamento sexual com estas meninas submetendo-as a situações de violência sexual. 2005. Embora. principalmente as meninas. não há apenas a submissão de meninas como fator importante para situação de abuso. . numa dinâmica complexa. contribui para a ocorrência de violência. in press). pois o perpetrador em seu papel de cuidador utiliza-se da confiança e do afeto que a criança tem por ele. Os homens. quando questionados que tipo de atividades são mais típicos de crianças ou adolescentes. seria permitido manter relações sexuais com elas. A criança. era permitido ter sexo com meninas que encontravam nas estradas. Contudo. “a obediência é um fator que predispõe a submissão às situações de violência no contexto das relações familiares” Desta forma. claramente. por serem mais fragilizadas ou não terem condições de revelar o fato (Koller. como pessoas que devem ser obedientes e atender todas as ordens de adultos. Habigzang & Caminha.

A auto-estima. é vista aqui como o valor que a pessoa nutre sobre si mesmo (Tamayo et al. o reconhecimento e/ou aceitação dos valores éticos e das expectativas sociais e as características de seu contexto social (Horley. Lidar com as crianças. A criança. Aqui a vitimização do próprio abusador quando criança pode ser um fator chave. Crips. mas como um objeto. A baixa auto-estima em abusadores faria com que os abusadores receassem lidar com situações problemáticas. parte do auto-conceito. Anderson. anseios e desejos como mais importantes que as vontades alheias (Ward & Kennan. eles lidariam com o estresse através de estratégias disfuncionais. a visão que ele possui sobre as crianças está diretamente ligada a como ele se relaciona com o mundo de uma maneira geral. Amazarray e Koller (1998) destacam que o abusador sexual infantil não percebe a criança enquanto uma pessoa que possui sentimentos. & Cortoni. Contudo. então. Assim. seria mais fácil que enfrentar as situações problemáticas. por conseguinte. Desta forma. é válido destacar que os abusos . (2005) partilham de posição semelhante a de Horley quando afirmam que os atos de abuso sexual devem ser entendidos em relação a como o abusador pensa o mundo à sua volta. como o abuso sexual contra crianças (Marshal. das crianças. Associado a estes dois fatores está o fato de alguns estudos demonstrarem que uma parcela significativa de abusadores foi abusada durante a infância. 2001). já que os modos como ele foi tratado (abusado) pode ser um fator que predispõe a atos de abuso e aos modos como vê as crianças.. Abusadores sexuais infantis possuem comportamentos auto-centrados. Um auto-conceito negativo e uma conseqüente baixa auto-estima são fatores importantes para a análise da percepção que os abusadores possuem sobre si mesmos. se a visão que o abusador tem sobre si mesmo influencia na sua visão das outras pessoas e. 2000). seria percebida por eles como menos importantes que eles. 1999). 1999). Ao analisar estas últimas conclusões. a sua visão sobre o papel que ele ocupa em uma dada estrutura social. percebendo suas necessidades. Gannon et al. suas vítimas infantis são vistas por ele como menos importantes. mas também as questões contextuais. pode-se inferir alguns pontos acerca da visão que os abusadores possuem sobre as crianças. Para corroborar esta posição. seres mais frágeis usando-as para a satisfação de seus impulsos. A visão que eles possuem acerca dos seres infantis estariam ligadas a questões individuais.39 As distorções cognitivas (das quais se pode inferir a visão que eles possuem sobre as crianças) geralmente se associam a quatro fatores: a visão que o abusador sexual possui sobre si mesmo. Assim.

Todos comentaram também ter usado álcool precocemente (antes dos 12 anos de idade). não houve diferença significativa entre aqueles que haviam sido vitimizados física ou sexualmente. com estudos demonstrando nenhuma prevalência a 80% de abuso entre essa população (Widon & Ames. Pattison. Além disso. o abuso sexual durante a infância apareceu associado à pedofilia (Lee. & Ward. Eles comentaram ainda que se sentiam como objetos que os outros utilizavam segundo seus próprios desejos. 1994). Assim. com profundidade. Pesquisa realizada por Widon e Ames (1994) revelou que entre homens que haviam cometido algum ato de abuso sexual. Intebi (1998) comenta que apesar da variação desses índices.40 sofridos pelos abusadores não são necessariamente apenas de ordem sexual. Os relacionamentos conjugais dos pais desses participantes foram descritos por eles como instáveis. Esses homens expuseram ainda que as pessoas a sua volta os chamavam de estúpidos e idiotas. Um estudo qualitativo com oito abusadores revelou que todos eles sofreram algum tipo de violência em suas infâncias (Garret. e que sempre se sentiram desvalorizados e solitários em . Todos narraram que seus sonhos quando criança eram basicamente sobreviver às violências sofridas para conseguirem se distanciar de suas famílias de origem. Devido a pouca estabilidade econômica e emocional de suas famílias. Em decorrência dos abusos sofridos. alguns deles disseram ter mudado de residência várias vezes. Em suas falas. ela pôde verificar que todos os abusadores atendidos foram vitimizados sexualmente quando crianças. Ela comenta que a revelação dos abusos sofridos por eles foi feita após várias sessões de psicoterapia. Na pesquisa realizada com 64 abusadores e 33 criminosos não-sexuais. 2004). 2001). Jackson. ficou evidente que suas infâncias se configuraram de maneira tão problemática que eles foram incapazes de recordar. descreveram ambientes familiares disfuncionais. ou foram morar definitivamente com outros parentes. estes homens afirmaram não serem capazes de estabelecer laços de confiança e intimidade com outras pessoas. nos quais eles tiveram que assumir os papéis de cuidados com os irmãos. Intebi comenta que aquelas pesquisas que utilizam apenas uma entrevista podem subestimar o índice de abusadores que foram vitimizados na infância. Certos tipos de abuso podem levar ao aparecimento de desordens psiquiátricas. tornando-se pessoas isoladas. Todos eles relatam também relações de violência ou abandono com suas figuras paternas. Em seu trabalho clínico e de pesquisa. É importante destacar que os números sobre a prevalência de vitimização entre os abusadores varia. episódios positivos ocorridos nelas.

2004. Seymour. Algumas teorias focalizam as interferências sociais (Burt. Segundo eles: “Você aprende o que você vê!” (Garret. 1980). a escola e as relações experienciadas nelas foram lembradas de maneira negativa. Neste estudo foi adotado o . padrão este que perdurou até a adultez. que ocorrem em decorrência de alguma patologia (Becker. os abusadores da pesquisa desenvolvida por Garret foram taxativos em afirmar que não percebem outro modo de “ser no mundo” além de serem violentos.5 A Bioecologia do Desenvolvimento dos Abusadores Sexuais Os modos como os abusadores vêem o mundo a sua volta e. que reitera o fato de que os abusadores em sua infância não tiveram alguém para afirmar a eles que os atos de abuso não eram algo comum. no cometimento de atos de abuso. Todos eles afirmaram ter desenvolvido uma baixa valorização de si mesmo. 1994. Além disso. As características familiares (inversão de papéis hierárquicos. enquanto outras explicam as cognições dos abusadores como distorções cognitivas. Pode-se questionar por que os abusos sofridos na infância de um abusador sexual podem influenciar no seu modo de ver uma criança e. já que em suas experiências isso se mostrou verdadeiro. Lee e Adams (2002) respondem que alguns abusadores sexuais relatam ter fantasiado sobre o abuso sofrido em ocasiões posteriores. o estudo de Lambie. Os entornos de abusadores sexuais aparentam ser tão problemáticos que os primeiros atos de abuso cometidos por eles se iniciam já na adolescência (Abel & Harlow. A falta de uma pessoa de confiança para relatar o episódio foi uma importante variável. prática de violência) descritas pelos participantes deste último estudo são constatadas em outros estudos sobre violência intrafamiliar (Flores & Caminha.41 decorrência dessa forma depreciativa e pejorativa com a qual foram tratados. 1994). a idéia de que as crianças podem querer sexo e que podem desfrutar da experiência de abuso. 1994). além de não terem uma figura de confiança para a qual pudessem relatar a violência sofrida. Becker. são explicados a partir de vários fatores. conseqüentemente as crianças. Para responder pelo menos em parte a esta questão. por conseguinte. relatando que não sentiam como uma violência. as teorias explicam apenas parte dos fatores importantes envolvidos nesta questão. Desta forma. Devido a todos esses estressores. Desta forma. Associado a isso. 2002). p. 1. clima afetivo pobre. 189). uma boa parcela destes afirmou que o abuso foi uma experiência percebida como normal. 2000. Silva & Hutz. pode ser algo natural para os abusadores.

1998.42 Modelo Bioecológico do Desenvolvimento Humano. já que é através dele que as características dos outros elementos se expressam. p. ou modelo Processo-Pessoa-Contexto-Tempo. proposto por Urie Bronfenbrenner (1979/1996). É através do estudo dos processos proximais que se pode investigar como se dá o desenvolvimento de uma pessoa. Tal interação não é simétrica. 996). O desenvolvimento é um processo no qual há uma interação recíproca da pessoa com seu contexto. As relações destes indivíduos de com as pessoas em geral e com as crianças. foram descritas como disfuncionais. por exemplo. p. permitindo analisar. Na revisão de literatura pode-se notar. a interação deve ocorrer em uma base regular através do tempo. e que a pessoa esteja engajada em uma atividade. 90). Além disso. através de sua história (tempo). Além disso. que eles . a teoria utilizada corrobora as proposições de Horley (2000). que afirma que a visão que os abusadores possuem sobre as crianças e sobre o mundo em geral são influenciadas por fatores pessoais (como a visão que o abusador possui sobre ele mesmo) e por fatores de ordem social e cultural (como o sistema de crenças e valores da sociedade na qual o abusador está inserido). as relações dos abusadores com crianças ao longo de suas vidas. Os processos proximais são “os principais motores do desenvolvimento” humano (Bronfenbrenner & Morris. Bronfenbrenner desenvolveu um modelo teórico chamado PPCT. considerando tanto os fatores microssistêmicos quanto os macrossistêmicos. A seguir cada um destes elementos será descrito. 1998). que considera que “as características de uma pessoa em dado momento de sua vida são uma função conjunta das características individuais e do ambiente ao longo do curso de sua vida” (1989. Para que uma atividade seja considerada como tal é necessário que haja interação recíproca nas relações interpessoais. mais especificamente. por exemplo. as características da pessoa ou do contexto têm importância diferente em situações diversas. nota-se que abordar a visão que os abusadores possuem sobre a criança a partir do Modelo Bioecológico é uma tentativa de compreender o fenômeno de uma maneira global. e que os símbolos e os objetos do ambiente imediato estimulem a atenção. 1999). a manipulação e a imaginação da pessoa em desenvolvimento (Bronfenbrenner. Acessa-se o processo de desenvolvimento acompanhando as mudanças em função da exposição e interação de uma pessoa com o meio ambiente (Bronfenbrenner & Morris. Com a descrição destas primeiras características.

tais como curiosidade. O primeiro deles relaciona-se com comportamentos de impulsividade. 2004). tendência para engajar-se em atividades sozinhas ou em companhia de outros. pois eles são determinates na formação psicológica dos abusadores (Garret. Os microssistemas ao longo da vida dos abusadores foram descritos como turbulentos. eles poderiam ser classificados como pessoas que se movem basicamente através das forças desenvolvimentalmente-disruptivas. A pessoa. auto-centradas.). para o modelo bioecológico do desenvolvimento humano. agressividade. O envolvimento em situações de abuso ao longo da vida. incapacidade de adiar gratificações. permitindo o entendimento das interações em diversos microssistemas (família. Os abusadores foram descritos por vários autores (ver Azevedo & Guerra. abrange tanto as características biopsicológicas quanto aquelas que foram adquiridas ao longo da vida. bem como as relações com outras crianças em diversos ambientes podem ser investigadas. exo e macrossistema. responsividade para as demandas dos outros. A compreensão desses ambientes na infância são particularmente importantes. 2004). desatenção. indiferença. Apenas um dos tipos será relatado aqui. vizinhança. Os microssistemas são aqueles ambientes nos quais a pessoa em desenvolvimento tem suas interações face-a-face (Bronfenbrenner. Garret. escola. entre outras características negativas. a saber: micro. meso. Em 1983. A primeira classe de forças envolve orientações ativas por parte da pessoa. violentas. explosividade. 1979/1996). O segundo tipo varia entre dois pólos. 1999. Estas duas forças são denominadas como desenvolvimentalmente-geradoras e desenvolvimentalmente-disruptivas. Modificações nas primeiras características podem alterar o curso do desenvolvimento da vida de um indivíduo. O mesossistema é o conjunto de microssistemas freqüentados pela pessoa e as relações entre eles . capacidade de adiar uma gratificação imediata e persistir numa meta a longo prazo. 2004) como pessoas isoladas. sentimento de insegurança. distrações e prontidão para recorrer a agressões e violência. Bronfenbrenner categorizou os atributos das pessoas em três tipos. Assim.43 estabeleceram relações de responsabilidade com seus irmãos e relações tumultuadas com seus pais e outros cuidadores (ver Garret. O contexto divide-se em quatro sistemas. problemáticos e violentos. Brofenbrenner e Morris (1999) elaboraram o construto forças da pessoa que são aquelas características de uma pessoa que tem maior influência no seu desenvolvimento futuro. etc. O outro pólo designa comportamentos de apatia. timidez ou uma tendência geral de se retirar de atividades coletivas.

o objetivo deste estudo foi investigar a visão que abusadores sexuais possuem sobre as crianças. Áries e outros trazem aspectos macrossistêmicos importantes das sociedades ocidentais ao longo dos séculos e como elas construíam a visão de infância de seus contemporâneos. Viver numa sociedade que acredita que os pais têm posse sobre uma criança é um aspecto macrossistêmico que pode influenciar no aparecimento de atitudes de violação de direitos destas crianças (Koller & De Antoni. Diante de todo este quadro. analisando as relações que eles estabeleceram com elas ao longo de seu ciclo vital.44 (Bronfenbrenner. assim como o acompanhamento clínico. 1979/1996). o macrossistema é composto pelo conjunto de ideologias. adultez). Além disso. religiões. escola. A análise feita neste estudo tinha como foco a compreensão dessas relações nos ambientes (família. O último elemento do modelo proposto por Bronfenbrenner (1999) é o tempo considerado tanto em termos de ciclo vital como em termos de mudanças do ambiente ao longo da história e a interação entre estes dois elementos. considerando assim o aspecto temporal. O tempo será considerado neste estudo. formas de governo. assim como subsidiar ações de prevenção e intervenção a estes casos. . 1979/1996). A maior compreensão da visão sobre as crianças ao longo do ciclo vital por abusadores pode trazer contribuições teóricas. Políticas públicas e jurídicas podem ser influenciadas por estes achados. Finalmente. adolescência. bairro) nos quais estiveram inseridos nos diferentes momentos de suas vidas (infância. Entradas e saídas em novos ambientes ocasionam uma alteração no mesossistema. foi fundamental também averiguar o modo como eles viam a si mesmos ao longo de suas vidas. O exossistema é composto pelos ambientes nos quais a pessoa não participa diretamente. valores e crenças. sobre o próprio desenvolvimento de pessoas que cometem abuso sexual. já que se reconhece que a visão que abusador possui sobre si mesmo e sobre as crianças foi construída ao longo de sua história de vida por concepções macro e micro. ainda escassa na literatura. 2004). mas que possuem influência direta sobre seu desenvolvimento. culturas e subculturas presentes no dia-a-dia das pessoas e que influenciam diretamente os modos de pensar e comportar dos indivíduos (Bronfenbrenner.

A faixa etária estabelecida (18 a 45 anos) no projeto para este estudo 45 . para realizar a pesquisa foram acessados participantes no Ambulatório do Departamento de Genética. este fato teve influência significativa no número de casos disponíveis para pesquisa. As idades dos entrevistados foram as seguintes: dois com 37. No entanto. por eles não desejarem se expor por temer a condenação e a prisão.. tal critério de exclusão não foi aplicado. um com 38. 2. A equipe de pesquisa avaliou aqueles que eram direcionados para a participação neste estudo.2 Participantes Participaram deste estudo cinco homens que foram acusados de cometer abuso sexual contra crianças e adolescentes de até 13 anos. chegou até o Departamento de Genética por livre e espontânea vontade à procura de ajuda psicológica. Há também que se considerar que as questões criminais também influenciam na acessibilidade dos participantes. serviço ao qual eram encaminhados para avaliação psicológica solicitada compulsoriamente pela justiça. A entrevista realizada neste estudo era profunda e permitia a análise desse tipo de transtorno. Apesar da obrigatoriedade da avaliação. A amostra utilizada foi de conveniência pela dificuldade de acesso aos participantes. 2005). Além disso.1 Delineamento Realizou-se um estudo exploratório descritivo que investigou a visão que os abusadores sexuais infantis possuem sobre as crianças. a participação na pesquisa era voluntária. O único critério de exclusão utilizado neste estudo foi a ausência de deficiências mentais. analisando as relações que ele estabeleceu com elas ao longo de seu ciclo vital.. Quatro dos participantes estavam respondendo a processos judiciais pelas acusações de abuso sexual e por isso estavam nessa situação de encaminhamento compulsório. Diante destas dificuldades. Caso fosse detectada alguma deficiência cognitiva a entrevista seria interrompida. Uma vez que a quantidade de denúncia para os casos de abuso é subestimada (Rich et al. o participante agradecido e os dados excluídos da análise.CAPÍTULO II MÉTODO 2. um com 70 e outro com 73 anos. Um deles. poucos casos quando denunciados são transformados em processos judiciais. contudo.

46
não pôde ser mantida devido às dificuldades em acessar um número suficiente de
casos no período de execução do estudo para análise.
Caracterização Bio-sócio-demográfica
As idades dos participantes variaram de 37 a 73 anos. Quanto à
escolaridade, dois afirmaram ser analfabetos, outros dois concluíram o ensino
médio e um concluiu apenas o ensino fundamental. No momento da pesquisa, um
dos participantes trabalhava como zelador, um outro com processamento geodésico
e um deles estava preso em decorrência da acusação de abuso sexual contra sua
filha. Por este motivo, ele não estava exercendo nenhuma atividade profissional.
Dois já eram aposentados devido à idade. A renda dos participantes variou entre um
e três salários mínimos da época, que correspondia a R$ 350,00 mensais. Os casos
estão inicialmente descritos um a um, em virtude das particularidades de cada uma
das histórias. Os nomes dos participantes e de seus familiares são fictícios para
resguardo de suas identidades.
Caso Marcos
Marcos tinha 38 anos e estava preso na época da pesquisa devido à acusação
de abuso sexual contra sua filha. No momento anterior a sua prisão, ele era
carroceiro e coletava materiais para reciclagem. Morava em uma cidade no interior
do Rio Grande do Sul, com sua companheira, um enteado e três filhos.
Marcos foi acusado de abusar de sua filha de dez anos, mas ele alega não ter
cometido nem esse nem qualquer outro tipo de violência contra ela. Em seu
depoimento, a filha afirmou que o pai friccionava os seus órgãos sexuais contra o
corpo dela. Ele já havia sido preso anteriormente acusado de abusar de seu enteado,
mas foi absolvido da acusação.
Marcos estava com aspecto bem cuidado, principalmente considerando o
fato de estar preso. Aparentou estar pouco a vontade durante a entrevista, sempre
olhando para baixo. Falou apenas o necessário para responder as perguntas da
entrevista, demonstrando-se assertivo em suas respostas.
Caso Osmar
Osmar tinha 73 anos, é estrangeiro e vive no Brasil há 35 anos. No
momento da pesquisa, residia em uma cidade na região metropolitana de Porto
Alegre. Antes de acusação de abuso sexual contra uma das filhas de sua enteada
(seis anos), ele morava com sua segunda esposa e vários filhos e netos. Após a

47
denúncia, passou a morar sozinho. Osmar também se declara inocente da acusação
de abuso sexual. A vítima declarou que Osmar tinha tocado sua genitália em troca
de presentes e dinheiro. Quando este fato foi denunciado, uma das filhas de Osmar
revelou que ele havia cometido abuso sexual contra ela na infância.
Destaca-se que no ano de 1986, ele foi acusado informalmente, por uma de
suas noras de observar uma de suas netas enquanto ela tomava banho. A ex-esposa
de Osmar expôs também que a vinda dele do país de origem para o Brasil ocorreu
em virtude de uma acusação de estupro. Ele teria estuprado uma filha de sua
primeira esposa, engravidando-a.
Osmar foi o único entrevistado que pode comparecer duas vezes ao
Departamento de Genética para a coleta de dados. Nesses dois momentos, ele
apresentou-se bem vestido. Desde o início, mostrou-se solícito e educado. Em
certos momentos, tentou manipular as entrevistadoras como um meio de descobrir o
resultado de sua avaliação. Além disso, muitas vezes Osmar foi evasivo com
relação as perguntas, relatando aspectos que não estavam associados diretamente a
elas. Mesmo assim, mostrou-se seguro ao responder todas as questões.
Caso Flávio
Flávio tinha 37 anos quando a entrevista foi realizada. Antes da acusação de
abuso sexual contra sua enteada, Flávio residia em uma cidade no interior do estado
junto com a esposa, um filho e uma enteada. Após a denúncia, Flávio e sua esposa
se separam e no momento da pesquisa, ele residia sozinho em sua cidade natal,
também no interior do estado.
Flávio havia sido preso, anteriormente, em decorrência da acusação de
abuso sexual de sua enteada de 13 anos, que o acusou de tentativa de estupro,
afirmando que o padrasto estava sob o efeito do álcool. Quando foi a delegacia para
prestar depoimento, Flávio admitiu que tentou violentar sexualmente a vítima.
Contudo, durante a entrevista desta pesquisa negou que tenha feito tal afirmação na
delegacia. Declarou que as policiais que ouviram seu depoimento estavam
emocionalmente perturbadas e que, portanto, compreenderam erroneamente as
afirmações. Flávio foi libertado da prisão e estava em liberdade provisória, quando
a pesquisa foi realizada.
Flávio apresentou-se bem vestido. Não parecia estar à vontade, observando
um relógio na parede durante quase toda a entrevista e falou apenas o necessário
para

responder

as

perguntas.

Algumas

vezes

demonstrou

hostilidade,

48
principalmente quando foi questionado sobre algum aspecto da acusação de abuso
sexual contra ele. Outras vezes hesitou em responder outras questões e, em vários
momentos, se contradisse sobre vários aspectos de sua vida.
Caso Francisco
Francisco tinha 37 anos e residia na periferia de Porto Alegre com sua
esposa e duas filhas na época da pesquisa. A denúncia de abuso sexual ainda não
havia se transformado em processo judicial quando a entrevista foi realizada.
Assim, Francisco não chegou ao serviço de atendimento encaminhado
compulsoriamente pela justiça, mas por sua própria vontade, em busca de
atendimento psicológico, com queixas de dificuldade de sono, irritabilidade e
sentimentos de culpa que começaram após o relacionamento com sua afilhada.
Francisco admitiu que manteve relações sexuais com a sua afilhada (13 anos),
sobrinha de sua esposa. Segundo ele, os encontros com ela aconteceram sete vezes
e duraram cerca de um mês. Quando se referiu a essa relação com sua afilhada, ele
nunca usou o termo “abuso”, pois segundo suas afirmações, as relações sexuais
entre eles foram consentidas por ela.
Francisco tinha um semblante casando no inicio da entrevista. Apesar disso,
mostrou-se loquaz e cooperativo ao responder as perguntas, acrescentando
informações importantes sem que isso lhe fosse solicitado. Demonstrou
assertividade em todos os questionamentos que lhe foram dirigidos.
Caso Paulo
Paulo tinha 70 anos e no momento da pesquisa, residia com sua esposa, dois
filhos, uma filha, genro e uma neta em uma cidade do interior do estado. Paulo foi
acusado de abusar sistematicamente de sua filha então com 14 anos. Apesar de a
denúncia só ter acontecido alguns meses antes da entrevista dessa pesquisa, há
indícios de que abuso vinha acontecendo a alguns anos antes, pois pessoas
próximas

da

vítima

revelaram

que

ela

apresentava

comportamentos

hipersexulizados. Tais comportamentos, quando são verificados em crianças e
adolescente, são típicos de vítimas de abuso sexual (Intebi, 1998). Além disso, o
próprio acusado comentou que a vítima já havia fugido de casa duas vezes,
afirmando que não sabia o motivo de tal comportamento. Assim, as fugas podiam
ser as expressões de que algo em sua casa a afetava. Paulo negou que fosse suspeito
de abusar sexualmente de sua filha, afirmando que a acusação que pesava sobre ele

Paulo aparentava estar disposto a responder as perguntas no início da entrevista. os direitos e as necessidades das crianças. 196 (1996) e pelo Conselho Federal de Psicologia na Resolução n. 2. também. metodológicos e éticos. entre outros. iniciando com sua infância. até o momento atual. o ambiente familiar durante suas vidas. envolveu aspectos teóricos. Nestas etapas do ciclo vital. realizado semanalmente. Para finalizar a entrevista de forma positiva. Utilizou-se. Além disso. Investigaram-se suas visões sobre questões tais como: episódios positivos e negativos de suas vidas. A equipe de pesquisa foi treinada antes de ir a campo para a coleta de dados. sob o protocolo de número 2006557. Ele se declarou inocente tanto de uma quanto de outra acusação. os participantes foram questionados sobre suas relações com outras pessoas e. O treinamento.3 Instrumentos Foi utilizada uma Ficha bio-sócio-demográfica (Anexo B) com o objetivo de identificar os participantes. foram acrescentadas perguntas sobre expectativas para o futuro (Anexo C). Contudo. passando pela adolescência e vida adulta. os sentimentos de empatia com as crianças. principalmente. em acordo com as normas estabelecidas pelo Conselho Nacional de Saúde na Resolução n. O recrutamento dos participantes ocorreu no Departamento de Genética da UFRGS. em vários momentos manipulou as falas de modo a não responder a várias questões. Este instrumento continha questões sobre idade. escolaridade. Mostrou segurança ao responder todas as perguntas. Apenas um deles chegou até esse . Quase todos eles foram encaminhados compulsoriamente pela justiça ao Ambulatório do Departamento de Genética. profissão e estado civil. e como se percebem ao longo do ciclo da vida. com crianças. a visão sobre as diferenças entre meninas e meninos. 16/2000 (2000). renda mensal.4 Procedimentos O projeto foi encaminhado e aprovado pelo Comitê de Ética da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.49 era de que usava a filha para aliciar outras meninas menores de idade com o objetivo de manter relações sexuais com elas. 2. uma entrevista semi-estruturada que investigou o modo como os participantes vêem as crianças. tentou manipular as pesquisadoras na tentativa de conseguir saber qual era a opinião dela sobre seu comportamento.

Em todos esses casos. Todos decidiram realizá-las sem intervalos. deixando-os livre para participar. individualmente. O tempo reduzido para a coleta de dados (um único encontro) ocorreu em virtude das dificuldades de deslocamento dos entrevistados até o serviço de atendimento. . houve a explicação aos participantes sobre a natureza da pesquisa. Todas as entrevistas foram gravadas em áudio e posteriormente transcritas. a coleta de dados ocorreu em apenas um encontro.50 serviço de livre espontânea vontade. foi realizada. A duração média das entrevistas com cada um deles foi de duas horas e meia. posteriormente. aplicou-se a Ficha Bio-sócio-demográfica (Anexo B) e. A presença de dois pesquisadores garantiu uma melhor discussão dos dados coletados. Logo em seguida. e como se percebem ao longo do ciclo da vida (Anexo D). As entrevistas foram conduzidas pela mestranda e por um(a) aluno(a) de graduação. Com um dos participantes a coleta de pode ser realizada em dois momentos. As entrevistas foram marcadas com antecedência e com quatro participantes. deu-se liberdade para que o participante escolhesse o momento de interrupção da entrevista. a Entrevista sobre o modo como os participantes vêem as crianças. já que diminuiu o risco de interpretações equivocadas que poderiam ser gerada pela presença de apenas um pesquisador. a partir da assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (Anexo A). pois ele mostrou-se disponível para isto. Inicialmente.

A análise fundamentou-se no estabelecimento de categorias de acordo com os critérios adotados por Bardin (1979). Utilizou-se a modalidade temática. 2 e 3. Além disso. as principais falas dos participantes foram identificadas e.CAPÍTULO III RESULTADOS E DISCUSSÃO Este estudo investigou a visão que abusadores sexuais possuem sobre as crianças. bairro) nos quais estiveram inseridos nos diferentes momentos de suas vidas (infância. adolescência. foi averiguada a visão que eles tinham de si mesmos ao longo de suas vidas. na qual se objetiva apreender tanto o conteúdo quanto a lógica de cada uma das entrevistas. Sonhos e Aspirações Ausência de Lembranças Positivas Relação com Crianças na Mesma Casa Respostas Positivas Definição de Si Mesmos e dos Pais Características Positivas Quando Crianças Lembranças Positivas e Negativas na Lembranças Positivas Escola Lembranças Negativas 51 . adultez). escola. posteriormente. Tabela 1 Fases do Ciclo Vital dos Participantes Infância Pergunta Categoria Ser Criança na Família de Origem Pertencimento Positivo Lembranças Positivas e Negativas da Lembranças Positivas de Infância na Família Atividades. Após essa primeira etapa. sobre Análise de Conteúdo. No decorrer da análise de conteúdo das entrevistas surgiram as seguintes categorias que foram esquematizadas na Tabela 1. analisando as relações estabelecidas com elas ao longo de seu ciclo vital. foram criadas categorias a posteriori (núcleo de sentidos) que foram articuladas na discussão com o referencial teórico. A análise focalizou na compreensão dessas relações nos ambientes (família.

52
Desempenho

Desempenho Escolar

Regular

com

Evasão Escolar
Bom Desempenho sem Evasão
Escolar
Relações com os Pares na Escola

Relações Positivas

Descrição das Professoras Sobre os

Aluno Inteligente/Agitado

Participantes

Aluno Tímido, mas
Participativo
Aluno nem Participativo nem
Quieto

Lembranças Positivas e Negativas de

Lembranças Positivas

Outros Espaços na Infância
Relação com os Pares em outros

Relações Positivas sem

Espaços na Infância

Descrição de Conflito
Relações Positivas com
Descrição de Conflito

Ocupação do Tempo na Infância

Atividades Lúdicas e de
Trabalho sem Estudo
Atividade de Trabalho e de
Estudo
Atividades Lúdicas e de Estudo

Brincadeiras Preferidas

Jogos e Brincadeiras com
Objetos
Adolescência

Pergunta

Categoria

Descrição de Si Próprios

Características Positivas
Características Negativas
Adolescente Normal

Pessoas com as Quais Convivia na
Adolescência

Apenas com a Família de
Origem
Com a Família de Origem e a
Companheira
Com a Família de Origem e
com Outras Pessoas

Relação com as Pessoas com as Quais
Convivia

Relações Positivas

53
Ocupação do Tempo Durante a

Trabalho e Atividades de Lazer

Adolescência

Trabalho e Encontro com os
Amigos
Trabalho e Estudo

Episódios Positivos e Negativos
Durante a Adolescência

Lembranças Positivas
Lembranças Negativas
Ausência de Lembranças
Negativas
Adultez

Pergunta

Categoria

Subcategoria

Auto-percepção

Temperamento

Temperamento
positivo

Auto-estima

Auto-estima positiva

Traços Morais

Pensamentos e ações
corretas

Outros Traços

Pessoa frustrada
Ausência de defeitos

Formação da Família e
Relação com Ela Antes e
Depois da Denúncia

Mudanças Familiares Após
a Denúncia

Desejos para o futuro

Respostas de Desesperança

Manutenção das Relações
Familiares após a Denúncia
Respostas Relacionadas à
Situação de Acusação de
Abuso Sexual
Desejo de Paz e
Tranqüilidade
Planos de Realização
Pessoal

Relação da História de
Vida com a Acusação de
Abuso

Ausência de Conexão entre
a História Vivida e a
Acusação

54
Tabela 2
Visão sobre as Crianças
Pergunta

Categoria

Subcategoria

O que é Ser Criança

Respostas Politicamente

Visão positiva e

Corretas e/ou

romanceada da

Estereotipadas

infância e das crianças
Incompletude das
crianças em relação
aos adultos
Infância como fase
importante para as
demais

Quem É uma Criança

Definição Cronológica

Definição cronológica
por gênero

Diferenças Entre

Diferenciação por

Crianças e Adolescentes

Identificação como Fase
de Transição do
Desenvolvimento em
Geral
Diferenciação por
Rebeldia
Diferenciação por
Autonomia
Diferenciação por
Autonomia de Pensamento
Diferenciação por Gostos
e Interesses

Diferenças Entre

Diferenciação por

Crianças e Adultos

Responsabilidades
Diferenciação por Deveres

Estudo como dever
para as crianças
Pequenos trabalhos
domésticos como
deveres para as crianças

55 Obediência como dever para as crianças Diferenciação por Atividades Lúdicas Diferenças da Infância Diferenciação por Necessidade de objetos para as Demais Fases Necessidades materiais Necessidade de alimentação Necessidade de carinho Necessidade de ser prontamente atendida Diferenciação por Direitos Direito de não trabalhar e de estudar Direito de higiene Direito de alimentação Direito de saúde Direito de afeto/cuidado Direito de não ser obrigado a ter deveres Direito de cuidado recebido/devido por adultos Prioridade de direitos Similaridade por Problemas Enfrentados Processos Importantes na Transição NãoTransição da Infância Cronológica para as para a Demais Fases Adolescência/Adultez Definição por Contestação para Transição da Infância para Adolescência Definição por Mudanças .

56 Biológicas na Transição de Criança para Adolescente Definição por Responsabilidade da Infância para a Adultez Definição Cronológica com Base na Adoção das Responsabilidades Jurídicas na Transição da Infância para a Adultez Definição por Entrada na Maioridade na Transição da adolescência para a Adultez Transformação de um Autonomia Menino em Adolescente/Adulto Mudanças Biológicas Contestação Definição Cronológica Transformação de uma Responsabilidade Menina em Mudanças Corporais Adolescente/Adulta Semelhantes as dos Meninos Perda da Virgindade Diferenças e Diferenças por Semelhanças Entre Atividade/Passividade Meninos e Meninas Diferenças por Proteção/Cuidado Diferenças por Brincadeiras com Aspecto Sexual Semelhanças Entre Meninos e Meninas .

57 Empatia Respostas Pragmáticas Respostas com Sentimentos Positivos Respostas de Angústia Pessoal Respostas Empáticas Relação Ideal entre Sentimentos e Adultos e Crianças Comportamentos Positivos Relação de Cuidado Respostas Sobre a Moralidade .

Serão descritas as experiências nos microssistemas familiares.58 Tabela 3 Caracterização das Vítimas Pergunta Categoria Sexo das Vítimas Vítimas do Sexo Feminino Idade das Vítimas Vítimas Crianças Vítimas Adolescentes Aparência Física das Vítimas Beleza da Vítima Recusa em Avaliar a aparência da Vítima Ausência/Presença de Deficiências Ausência de Deficiências Atitudes Características Positivas Características Negativas Vínculo com o Abusador Relação de Proximidade Entre Vítima e Perpetrador Qualidade das Relações Entre os Participantes Relações Positivas e as Vítimas Relação de Vigilância Envolvimento Específico da Vítima na Envolvimento da Vítima pela Denúncia Ação de Terceiros Envolvimento da Vítima pela sua Própria Ação Envolvimento pela Ação do Participante Infância Embora a investigação sobre as fases dos ciclos vitais esteja descrita na entrevista após as perguntas sobre a visão acerca das crianças. na escola e em outros espaços (bairro. . A partir deste ponto serão relatadas as experiências infantis dos participantes deste estudo. As respostas foram agrupadas na categoria pertencimento positivo. por exemplo). Ser Criança na Família de Origem A seguir serão relatadas as respostas obtidas em relação à pergunta “Como era ser criança nessa família?”. optou-se por descrevê-las antes para uma melhor compreensão dos resultados.

boa que eu tive. no tempo que da minha infância junto com meus pais. 38 anos). Um deles relatou “sempre quis ser piloto de avião” (Flávio. eu. de dar coisas pra nós. que lembranças você tem de sua infância na sua família?”. era regrado. 70 anos). assim de. Um deles comentou. E eu era uma criança bem feliz.) nunca faltou.... ausência de lembranças positivas.. ausência de lembranças negativas. assim. nota-se que os participantes avaliaram positivamente a sua condição de criança em suas famílias de origem. As falas dos participantes foram organizadas da seguinte maneira: lembranças positivas de atividades. são descritas as respostas á pergunta: “Fale-me sobre sua infância. comida.. Sonhos e Aspirações Ao serem indagados sobre as lembranças boas de sua infância. tempo suficiente trabalhando junto com meus pais” (Paulo. Outro lembrou que “Boas? Brincava. Este dado parece contrastar com os dados obtidos na revisão de literatura. 2004). nunca faltou carinho. 37 anos). Lembranças Positivas e Negativas na Família Nesta parte. Os sonhos de infância foram relatados por um deles. sabe” (Francisco. nunca faltou nada pra nós. sendo relembrados como um aspecto positivo de sua infância. Era bom” (Flávio.. né? (. que ser criança em sua família “Era bom. eu considero que era bom” (Marcos. quase todos os participantes mencionam que uma lembrança boa seria “Lembrança que eu me lembro. jogava bola.. tirava pra brincar ou então chamava outro pra brincar. era bom. Flávio (37 anos) recordou que “Acho que a lembrança boa da minha infância foi a minha primeira bicicleta. 37 anos). 38 anos).. pois se sentiam prejudicados pelas violências sofridas (Garret. Finalmente. Com essas respostas. lembranças negativas e ausência de lembranças negativas.. Levantava para ir pro colégio voltava. jogava bolita. 37 anos) . Isso aí” (Marcos.. sonhos e aspirações.. um deles relatou que “Ah.59 Pertencimento Positivo Todos os participantes responderam a esta questão usando expressões positivas. né?”. pois o único estudo ao qual se teve acesso sobre experiências infantis de abusadores sexuais mostra que eles desejavam sair de suas casas assim que isso lhes fosse possível. Lembranças Positivas de Atividades. a gente tinha horário.. Flávio (37 anos) mencionou que “Era bom. né. apesar que meus pais tinham dificuldades.. por exemplo.

Os participantes desta pesquisa aparentaram ter vivido uma infância feliz e tranqüila em suas famílias. Os sonhos dos participantes daqui não se relacionaram em qualquer medida ao desejo de ser ver livre de maus-tratos.. né?... 38 anos) Contudo. 37 anos).60 Ausência de Lembranças Negativas “Na minha infância coisas ruins eu não me lembro... né? Surravam com cinto. quando fazia algo de errado. com cinta. né. Só que daí ele pegou o dinheiro e gastou no jogo. pois “na época todos os .. Então essa é a lembrança ruim que eu tenho assim. as surras sofridas não foram lembradas como algo negativo. Lembranças Negativas Quando questionados sobre as lembranças ruins... Alguns dos participantes desse último estudo relataram que suas infâncias foram tão difíceis e violentas. O caso de Marcos (38 anos) merece ser comentado. apenas um dos participantes recordou que em um dado momento lembrança ruim: . Contudo.. Apenas um deles revelou que sofria abusos físicos “umas duas vezes por mês” (Marcos. me surravam. (Marcos.. pois ele mencionou: Aí eles me castigavam. 37 anos) Os outros enfatizaram que não conseguiam lembrar de episódios negativos..)Ficava. na época.. assim.. nenhum. que tenha me marcado na minha infância (. na época todos os pais faziam isso. né. 73 anos). Essa é que era a parte mais difícil por que tinha que apanhar. que descreveram uma infância turbulenta. que ele tinha ido receber. Marcos não lembrou de nada que em sua opinião. diferentemente dos participantes do estudo de Garret (2004).. É a surra. fosse ruim. Jogou todo o dinheiro e chegou em casa sem dinheiro. né? Quando fazia arte. Uns verdão no corpo. no momento” (Francisco.. essa resposta só foi dada depois que a pesquisadora questionou especificamente se as surras que o participante sofria não era algo ruim que ele recordava da infância.. Ausência de Lembranças Positivas Apenas um deles afirmou não recordar nenhum episódio positivo em sua infância: “Uma lembrança boa . eu não consigo me lembrar nenhuma agora. que seus principais sonhos eram sobreviver às violências sofridas e sair da casa de suas famílias. outras coisas..) E a lembrança boa. um dia meu pai chegou em casa. nós tava já sem as coisas em casa. Era com vara. De alimentação. Espontaneamente.. com vara (. Fui muito feliz quando menino. Vivia no campo” (Osmar. (Francisco. era fim de mês e ele tinha ido receber ... 38 anos).

Paulo (70 anos) insistiu que “queria perguntar pra doutora se senhora sabe do que tão falando de mim. respostas incoerentes e respostas ausentes.) que viviam na mesma que eles durante a infância. por exemplo. Respostas Incoerentes Quando indagado sobre essa questão. Relações com Crianças na Mesma Casa Nesta seção. Nessa pesquisa... quase da minha idade. minha avó. (Marcos. mas é normal. a gente brigava direto. ora era de responsabilidade. primos. que sempre se deu “Muito bem. etc. Assim. Eu e meu irmão. não foi observado esse tipo de relação com os irmãos. as surras eram mais um dispositivo de correção da sua conduta do que atos de violência. assim.. A relação dos participantes com as crianças da mesma casa pode ser descrita como saudável.61 pais faziam isso” e além disso. a gente brigava direto. 70 anos) Respostas Ausentes Um participante revelou que “só morava eu. Eles citaram que seus pais delegavam a eles as tarefas de cuidados com os irmãos mais novos. serão expostas as respostas sobre como era a relação dos participantes com crianças (irmãos. assim. sem que eles assumissem essa relação de responsabilidades com seus irmãos. as surras ocorriam “só de vez em quando. 37 anos).” (Paulo. 38 anos). Desde guri se. 73 anos). Esse que era da. . meu tio e minha bisavó” (Marcos. ora eram distantes. Tudo normal. Que era quase da minha idade. Um deles revelou. Todos eles (irmãos). Respostas Positivas As relações com crianças da mesma na casa na infância também foram descritas de maneira positiva. Era só quando eu fazia algo de errado”.. 38 anos).” (Francisco. muito bem” (Osmar. O outro enfatizou que “Normal. As respostas foram organizadas nas categorias respostas positivas. Os participantes da pesquisa de Garret relataram que suas relações com os irmãos. A única referência encontrada sobre a convivência de abusadores com outras pessoas de sua infância foi o de Garret (2004) que faz apenas uma pequena referência sobre a relação entre irmãos.

se tornou . Definiram-se como “bem feliz. mas ele se recusou afirmando “Não sei mesmo!” (Marcos. sobretudo. As respostas sobre como os pais dos participantes os descreveriam. 37 anos). foram semelhantes as que os entrevistados deram sobre eles mesmos. Respostas Ausentes ou Inadequadas Um dos participantes alegou não saber como responder a esta pergunta. 37 anos). muito arteiro”. Garret informa que eles se atribuam definições como crianças estúpidas e idiotas. feliz. assim como seus pais. A autodefinição foi. um outro relatou que seus pais lhe descreveriam como “Uma criança normal. Um outro forneceu uma resposta incoerente: É que na verdade para pai e mãe a gente nunca cresce. Eles vão entender que tu cresceu.62 Definição de Si Mesmo e dos Pais Quando Crianças Serão descritas. Os resultados encontrados no estudo de Garret (2004) sobre a autodescrição negativa e pejorativa de abusadores sexuais não são corroboradas nesta pesquisa. Francisco (37 anos) declarou que seus pais o viam como “Arteiro. Mas. não me recordo de muita coisa. 70 anos) e que “brincava e trabalhava” (Paulo. Definição Positivas Os participantes definiram a si próprios como crianças usando expressões positivas. 37 anos). 73 anos). Segundo Paulo (70 anos) seus pais falavam sobre ele da seguinte maneira: “Vou dizer o que eu me recordo. nesta seção.. ao mesmo tempo um deles relatou que era uma criança “regrada e (que) obedecia aos pais” (Flávio. já que esta essa era a percepção que os outros tinham sobre eles. As respostas foram organizadas em duas categorias: definições positivas e respostas ausentes ou inadequadas. 70 anos) Além disso. as respostas às perguntas: “Como você acha que seus pais lhe descreveriam como criança?” “Fazendo de conta que voltássemos no tempo: Olhe pra você como criança e me descreva esta criança?”. falaram sobre si como uma “criança levada” (Francisco. 37 anos). né? Por mais velho que esteja. o carinho.. ou como uma “criança carinhosa com meus pais” (Paulo. é sempre. A coerência entre as respostas mostra que os participantes se percebiam de forma positiva. Eles diziam que eu era trabalhador e educado” Além disso. 38 anos).. quieta” (Osmar. Foi insistido pra que ele desse alguma informação. de “crianças normais” (Flávio. o pai e mãe dão carinho. sabe?” (Francisco. né? Sempre vão chegar e te tratar como se tu não tivesse crescido.

Eles apontam ainda que ambos os maus-tratos são mais freqüentes em pessoas que cometem abuso sexual contra criança do que na população me geral. Assim. o relato dos episódios positivos parece vago. pois. Não foram encontradas estatísticas sobre a quantidade de homens que já praticaram algum tipo de abuso sexual contra crianças. 37 anos) Flávio parece não ter compreendido a pergunta. De maneira geral. não houve diferença significativa entre aqueles que haviam sido vitimizados física ou sexualmente na infância. Ao serem solicitados a descrever com mais profundidade suas lembranças. a vitimização sexual do abusador na infância esteve estaticamente associada a sintomas de pedofilia durante a adultez. Em uma pesquisa realizada por esses autores. os participantes não foram capazes de ser mais específicos. 2001). Widon & Ames. Segundo Garret (2004). mas pra eles tu vai continuar sendo criança. Isso pode ter acontecido por várias razões. a descrição de momentos bons na infância dos participantes da pesquisa conduzida por ela também foi vaga. os resultados desta amostra. é percebida ou descrita por eles como feliz e saudável. embora ilustrativos. Ela afirma que mesmo diante de sua “insistência” nas perguntas sobre tais episódios. Contudo. não poderiam ser generalizados para a população total de abusadores. estudos (Lee et al.. com 64 abusadores e 33 criminosos não-sexuais. No presente trabalho não se encontrou esse tipo de resultado. A ausência de lembranças A quase total ausência de relatos de maus-tratos na amostra deste estudo merece ser comentada. 2001. limitavam-se a repetir o que já havia sido dito sem realmente trazer novos dados e lembranças mais profícuas. A pesquisadora não a repetiu para uma melhor compreensão do participante. Pelo menos eu acho assim. Assim. 1994) indicam que sofrer algum tipo de abuso (não apenas o sexual) é importante preditor para o cometimento de abusos sexuais contra crianças. que podem estar associados ao cometimento de certos delitos (Lee et al. ao analisar a estimativa de crianças (30%) que já sofreram alguma espécie . Contudo.. Certos tipos de abuso podem levar ao aparecimento de desordens psiquiátricas. em suas famílias. devido à subnotificação dos casos (Rich et al. pode-se notar que a infância desses homens.63 adulto e tal. (Flávio. 2005). Vai ser eterna criança. Widon e Ames (1994) comentam que em uma pesquisa com homens que cometeram abusos sexuais contra crianças. a ocorrência de maus tratos na infância parece ser um fator comum nas infâncias de homens que cometem atos de abuso sexual. Há que se considerar que a quantidade de participantes nesse estudo foi pequena e pode não ser representativa da população de abusadores.

Flávio (37 anos) falou que: Um episódio ruim que aconteceu na escola que eu lembro foi uma menina que nós ‘tavamos jogando vôlei e a gente se pexou. que jogava em times. né. 73 anos) Lembranças Negativas Francisco de 37 anos comentou que um episódio ruim que eles se recorda da época da escola foi “Aquela vez que eu fui expulso da escola. 37 anos). (2002). Outro aspecto importante foi o tempo de acompanhamento dos casos. as entrevistas aconteceram em apenas um momento com cada um dos participantes.. o que pode ter dificultado a obtenção desse tipo de dado. ela pôde verificar que todos os homens que abusaram de crianças relataram terem sido abusados em suas infâncias.64 de abuso sexual (Picazio. Eu gostava muito de ir” (Francisco. A minha professora era muito querida. né. se ela seria encarada como natural por parte dos participantes como afirmam Lambie et al. gostava. Porque eu briguei com um colega” (Francisco. A não-obtenção de dados dos possíveis abusos sexuais sofridos na infância impossibilitou também a investigação de como esta situação foi sentida pelos participantes. Só de episódio bom na escola.. né? Jogava basquete” (Flávio. Osmar mencionou que gostava da escola pois “Gosto. por sua vez relatou que “Ia no planetário e era muito legal. A gente jogava.. Neste estudo.” (Osmar.2002) pode-se considerar que o número de homens que cometeram algum tipo de abuso certamente deve ser maior que os cinco casos detalhados neste estudo. e quando . essa revelação não foi feita em uma entrevista inicial. não houve contato mais prolongado da equipe de pesquisa com os participantes. Portanto. Silva. Só dos jogos que a gente jogava. Lembranças Positivas Flavio (37 anos) comentou que os momentos positivos que vivenciou na escola foram “Ah! Episódio bom na escola. Francisco. No estudo de Intebi (1998) que envolveu trabalho clínico e de pesquisa.. 37 anos). 37 ano). Assim. Lembranças Positivas e Negativas na Escola Questionou-se aos participantes que lembranças ele tinham do ambiente escolar. com exceção de um dos casos (o de Osmar). As respostas foram classificadas como lembranças positivas. Daí eu cai no chão assim. campeonatos que a gente ganhava. 1998. Sempre gostei de estudar. lembranças negativas e respostas ausentes. apenas após um contato prolongado com a terapeuta.

Eu levei um tapa no rosto e daí eu sai. Não. chegando a concluir o ensino médio quando tinha cerca de 24 anos: . bom desempenho sem evasão escolar e respostas ausentes. minha família era a única nesse lugar que era. que eu me lembre.65 levantei ela me deu um tapa. daí em seguida a gente se acertou. não vou mais estudando’ E aí eu larguei. mas eu me encostava na parede e ai não podiam me bater”. tô ganhando meu dinheiro.. eu rodei.. Não foram encontrados estudos específicos que versassem sobre o ambiente escolar de abusadores sexuais infantis. 70 anos). assim. Sai chorando só. Osmar (70 anos) também comentou um episódio ruim da escola afirmando que “nós somos adventistas. 37 anos). As respostas foram classificadas nas categorias: desempenho regular com evasão escolar.. Contudo. Ah. 37 anos). Um deles (Francisco. porque eu não vou ter certeza. por aí (Francisco. na verdade o que aconteceu é que eu desisti de estudar. no consenso que eu cheguei e disse pra minha mãe: ‘eu tô trabalhando. um tapa no rosto. Mas eu sai chorando só (Flávio. Não tenho certeza. Eu entrei. Desempenho Escolar O desempenho escolar dos participantes também foi questionado. Isso aí só olhando em boletim ou perguntando pra minha mãe. tô perdendo tempo estudando. Um outro não chegou a ter reprovações.. nas quais se recordavam de brigas e de sentirem pouco capazes em relação às atividades acadêmicas. 37 anos) teve reprovações e um posterior abandono da escola: Olha.. Desempenho Regular com Evasão Escolar O desempenho escolar dos participantes variou. né? Sai da quadra e fui pra lá. Mas parece que eu rodei uma ou duas vezes. então o resto era católicos. Acho que eu tinha uns 13. Não. 38 anos) freqüentou por pouco tempo e outro (Paulo. eu rodei uma ou duas vezes. Não quis mais ir.. assim. (Osmar. na quarta série.. na . eu não me lembro. Respostas Ausentes Um participante (Marcos. mas também se evadiu do espaço escolar. Na escola umas vezes os guris se embestericavam pra me bater. Mas. Garret (2004) relata que os abusadores entrevistados em seu estudo revelaram ter mais lembranças escolares negativas. 70 anos) não chegou a freqüentar a escola e por isso não tinham recordações importantes sobre a escola.. Ela pediu desculpa. então havia problema. eu rodei.

crianças que não eram. mas com pessoas. era normal. 37 anos esclareceu que “Alguns eram da escola. apresentando. a gente sempre brigava muito. fui bolsista em colégio particular. conseqüentemente. na escola militar” (Osmar. 37 anos).. A . Então eu não era um aluno muito estudioso. Contudo. convivi muito bem com eles” (Flávio. Uma convivência saudável sempre. havia brigas entre a sua turma e outras crianças: “Ela (relação) sempre foi saudável. quando eu parei. eu estudei no colégio marista. Nota-se que os participantes deste estudo apresentaram além de uma baixa escolaridade. outras crianças.. 73 anos). quando eu me formei no curso de comercial. né? (Flávio..66 Normalmente eu fazia exame. Marcos (38 anos) freqüentou a escola por pouco tempo e Paulo (70 anos) não chegou a estudar. leio muito” (Osmar. Flávio.. Por que eu estudei. É.. nem era um aluno totalmente desinteressado. Depois dos 16. lá pelos 24. Relações com os Pares na Escola Foi questionado também como eram as relações dos participantes com seus amigos na escola.. Relações Positivas Todos os participantes que freqüentaram a escola relataram que tinham amigos no espaço escolar. Bom Desempenho Sem Evasão Escolar Apenas um deles completou o ensino médio no período adequado: “Terminei meus estudos no tempo certo. Respostas Ausentes Como já foi comentando anteriormente. Este fator está diretamente ligado a questão da classe social dos participantes. Mas eu nunca rodei. Por isso. pois se sabe que pessoas provenientes da classe trabalhadora têm pouco acesso aos bancos escolares. ainda gosto. que eu comecei a fazer o curso. Sempre gostei de estudar. 37 anos). 25. uma escolaridade escassa. E naqueles 4 anos que convivi. eu praticamente fui parar de estudar.. uma história escolar de pouco sucesso. Francisco (37 anos) disse que possuía amigos na escola com os quais se relacionava bem. As respostas se organizaram em duas categorias: relações positivas e respostas ausentes. estes dois participantes não possuem recordações do espaço escolar.. 70 anos). Osmar também foi o único participante que relatou perceber o estudo como uma atividade prazerosa: “Era normal.

Outro comentou também que “Tinha poucos. ele era um aluno participativo: Mas eu sei muito bem que até agora. As respostas foram organizadas em três categorias: Aluno inteligente e agitado. 73 anos). constata-se novamente que as respostas dos participantes do presente estudo não corroboram os dados traçados por Garret. Assim. eu decorava e dava a poesia. Descrição das Professoras sobre os Participantes Também foi perguntando aos participantes “Como você acha que sua professora lhe descreveria?”. Eu era tímido. Mas. Pode-se afirmar que os participantes possuíam relações saudáveis com os pares na escola. nem muito quieto também” (Flávio.67 gente brigava muito” (Francisco. (Francisco. 37 anos).. Atuar no palco isso eu fazia. 37 anos). Aluno Tímido.Fazia o que eles me mandavam. assim. Que eu tinha condições de pá e tal”. Garret (2004) em seu estudo sobre as experiências infantis de abusadores sexuais de crianças verificou que seus participantes sentiam-se isolados. brigavam com seus colegas e não possuíam confiança em suas relações de uma maneira geral. Então mas fazia. mas com uma certa timidez. 37 anos). né e tal. aluno nem participativo nem quieto e respostas ausentes. mas Participativo Osmar (73 anos) relatou que apesar de sua timidez. . da primavera. o que caracterizaria relações pouco íntimas e pouco profícuas. então havia participação nas comemorações pátria. assim” (Osmar. não era muito aberto. Me diziam para fazer um poesia. que eu era muito inteligente. sempre me acharam muito inteligente. Me dava muito bem. 73 anos). Aluno Inteligente e Agitado Um dos participantes disse que em opinião da professora sobre o aluno que ele foi na infância certamente seria “É. aluno tímido e participativo. Apesar de não fazer referencia específica ao ambiente escolar. sempre fui tímido. Daí dava para recitar uma poesia. Aluno nem Participativo nem Quieto Flávio (37 anos) disse que “Acho que eu não era muito participativo. Diziam que eu era muito agitado. mas tinha.. Jogávamos bola” (Osmar.

E tinha mercado. Lembranças Positivas Todos os participantes relataram apenas episódios positivos no bairro. água tudo que dava a firma. participativo) e outras que não podem ser classificadas nem como negativas nem como positivas (nem quieto nem agitado. perto da Oswaldo Aranha ali. Era bastante gente. pois os desta última pesquisa relataram um vida conturbada. nessa época eu morava aqui no bairro Santana. Um deles enfatizou. Mais de 40” (Francisco. com a presença de muitos conflitos e violências. 38) e uma última ao gosto pelo trabalho na lavoura.. que “Nessa época. assim. Duas respostas se refeririam as “brincadeiras” (Flávio. As respostas foram organizada em uma única categoria denominada lembranças positivas. 73 anos). Desta forma. luz. dado este oposto àqueles encontrados no estudo de Garret (2004). Marcos (38 anos) e Paulo (70 anos) não possuem lembranças do espaço escolar. padaria. E havia uns ônibus que levavam para a capital (Osmar. pois o primeiro freqüentou este espaço por pouco tempo e o segundo não chegou a estudar. Nesta questão. . pois não houve recordações de episódios negativos. Lembranças Positivas e Negativas de Outros Espaços na Infância Nesta seção. Mais uma vez. Tinha escola e coisa assim.. praticamente uma cidade pequena. ali pra Oswaldo Aranha. Então a gente se reunia todo mundo e a gente ia pra Redenção.68 Respostas Ausentes Como já foi dito. Osmar (73 anos) também disse: Era tudo tranqüilo. tímido). 37 anos e Marcos. Então tínhamos casa. nota-se que os participantes relataram características tanto positivas (inteligente. Então todos que moravam ali eram filhos de trabalhadores. as lembranças positivas foram destacadas pelos participantes. serão relatadas as respostas dos participantes sobre as lembranças positivas e negativas sobre outros espaços da infância. verificou-se que eles também não eram adjetivados com características pejorativas e depreciativas como ocorreu aos participantes do estudo de Garret (2004). pro cinema direto. Nessa firma havia um acampamento para as famílias que a própria firma dava. 37 anos). por exemplo. Não havia gente desocupada.

No meio de tudo isso. tinha amigos sem dúvida. ambos com 37 anos) enfatizaram que algumas amizades da infância permaneceram até a vida adulta. quer dizer a gente sempre foi super amigo desde criança. já se procurava. por sua vez. Contudo. Relações Positivas sem a Descrição de Conflitos Nesta categoria foram organizadas as respostas que descreviam apenas os aspectos positivos das relações com outras crianças que não pertenciam nem ao espaço escolar. já saía junto pra rua. Outro comentou que “Sim. De maneira geral. pois os participantes do estudo conduzido por ela relataram relações pouco íntimas e conflituosas com as pessoas de uma maneira geral durante a infância. Brincava” (Osmar. nem ao ambiente familiar. os amigos era de trabalho”. pra. Ele é meu compadre. É o padrinho da minha filha” (Francisco. Paulo (70 anos).69 Relações com os Pares em Outros Espaços Aqui são descritas as relações com crianças que não pertenciam nem ao espaço escolar e nem ao ambiente familiar durante a infância. Alguns (Flávio e Francisco. Mas. 37 anos). Essas coisas assim. andar de skate. andar de bicicleta. este dado está em desacordo com os achados que Garret (2004). esses conflitos foram classificados algo “normal” (Marcos... eu tinha amigos. Relações Positivas com Descrição de Conflito Apenas um dos participantes salientou a presença de conflitos entre ele e outras crianças. Nota-se que quase todos os participantes se refeririam aos amigos sem relatar nenhuma história de briga ou conflito. os mesmos amigos que eram da infância continuam ate hoje (Flávio. Novamente. Desde criança até hoje. 73 anos). a gente foi criado junto e até hoje a gente se fala. Fica vadiando na esquina e tal. As respostas foram classificadas em duas categorias: relações positivas sem a descrição de conflito e relações positivas com descrição de conflito. 37 anos). todos. Conserva até hoje. salientou que “Amigo a gente sempre tinha. . Outro disse que havia um amigo especial com a qual ele estava em todos os momentos: “Porque ele tava sempre junto. Um dos participante salientou: Os mesmos que são hoje. né.) É.. A gente acordava. 38 anos).. pode-se afirmar que as relações com os amigos podem ser classificadas como saudáveis. tinha amigos. Os mesmos amigos que foram na minha infância. se telefona (.

Atividades Lúdicas e de Trabalho sem Estudo Dois dos participantes (Marcos. Osmar comentou que “Nenhuma outra atividade. essas coisas” (Marcos. 73 anos). o estudo e o trabalho remunerado. apenas atividades de estudo e atividades de trabalho e de estudo. né? Brincar.. se não tivesse um serviço apertado. Atividades Lúdicas e de Estudo Apenas um dos participantes ressaltou ter apenas estudado e brincado durante a infância. Atividades Lúdicas. As respostas dos dois participantes sugerem que eles enfrentaram uma rotina rígida de trabalho na qual não havia tempo suficiente para as brincadeiras. a gente ia na casa do vizinho de um tio.” Marcos (38 anos). Varria a casa também pra ela. de Estudo e de Trabalho Dois dos participantes (Flávio e Francisco ambos com 38 anos) afirmaram que durante a infância. Quase todos eles se referiram ao trabalho como uma forma de ter mais responsabilidades.70 Ocupação do Tempo na Infância Aqui são descritas as respostas à pergunta “Como você ocupava seu tempo na infância?”. 70 anos) afirmaram que seu tempo na infância era dedicado ao trabalho remunerado e as atividades lúdicas.. 37 anos). Segundo Francisco: “(A partir dos 11 anos) Trabalhava meio período e estudava. As atividades laborais dos próprios participantes é um ponto que necessita ser um pouco mais discutido.. aí eu ia quebrar lenha pra ela. Só estudava e brincava” (Osmar. só fui começar a estudar mesmo na adolescência” (Francisco. 38 anos e Paulo. Flávio (37 anos) também relatou que “Eu trabalho desde os doze anos de idade. Domingo. ela (a avó) pedia pra mim ver lenha pra ela que era tudo fogão a lenha.. Cuidava. 38 anos). né? Fora brincar e estudar”. dividiam seus tempos entre as brincadeiras. de quem fosse. daí depois quando eu fiquei mais grandinho daí era mais era trabalhar mesmo. As respostas foram classificadas nas categorias atividades lúdicas e de trabalhos sem estudos. Segundo Paulo (70 anos): “Do jeito que eu tava falando. sem exercer nenhum trabalho remunerado. por sua vez disse que “Até uma altura era brincava. Não gostava muito de estudar. e brincava. o que parece ter “encurtado” sua infâncias e ..

.. No meu caso antes de eu fazer 18 anos eu já tinha família. Assim. as respostas dadas divergem dos dados encontrados na literatura. Mais uma vez. pois exerciam atividades remuneradas desde muito cedo. brincar com skate/bicicleta e resposta incoerente. esse encurtamento da infância a fala de Francisco. determinada pelas experiências mais concretas. completa a maioridade. Brincadeiras Preferidas Nesta parte. enquanto na prática ser criança acontece de uma outra maneira. já que eles relatam que tornaram-se adultos mais cedo. as infâncias deles próprios. E. então comigo não foi assim. perante a sociedade. já me autosustentava e. Pra mim.. Para exemplificar.”. né. sem trabalhos e responsabilidades. 37 anos).. A infância seria uma época feliz. né. a entrada no mundo do trabalho e das responsabilidades parece ser um aspecto prático que define a mudança de criança para adulto ou para adolescente. essas coisas assim... Foi um pouco diferente (Francisco. assinei carteira com 15 anos. não foi dessa maneira. As . né. afirmou que “Sempre gostei de bicicleta. Contudo. Flávio também comentou que “jogava basquete”.71 adolescências.. Francisco (37 anos). No meu caso. Então com 17 anos eu já tinha família. Osmar (73 anos) também comentou que “Brincava de bolita”. por sua vez. Jogos e Brincadeiras com Objetos Dois dos entrevistados (Flávio. Mas pra mim acho que a pessoa. Em suas falas sobre o que é ser criança ficou visível uma concepção ideal sobre as crianças e sobre a infância. adolescente passa a ser adulto a partir do momento que.Marcos (38 anos) disse “Andar de bicicleta eu gostava”. bolinhas de gude. teoricamente. 37 anos é emblemática: Ah. não foi como estas descritas nesse estudo. serão descritas as respostas á pergunta “Quais eram suas brincadeiras preferidas?” As respostas foram organizadas nas seguintes categorias: Jogos e brincadeiras com objetos como bola. Comecei a trabalhar com 11 anos de idade. eu já trabalhava. de skate. pois segundo Garret (2004) a infância dos participantes em seu estudo foi atravessada por outras atividades de responsabilidade que não ao trabalho como o cuidado com a rotina dos irmãos mais novos ou ser responsável pelo bem-estar de suas irmãs.. Esse tipo de afirmação fornece pistas de que em nível abstrato as respostas são dadas de uma maneira idealizada. 37 anos e Osmar 73) citaram que gostavam de “jogar bola”.

A baixa escolaridade dos participantes e uma história escolar de pouco sucesso foi constatada neste estudo. os participantes possuíam um bom auto-conceito de si. família e bairro) foram construídas de maneira saudável. Disseram também que se dava bem com os irmãos e não comentaram nenhum episódio de vitimização acontecido no ambiente familiar. sabe-se que pessoas provenientes da classe social com baixo poder aquisitivo possuem um acesso restrito aos bancos escolares. adolescente normal e respostas ausentes. em suas infâncias. Também deram adjetivos positivos a si mesmos quando descreveram-se como crianças. As relações com outras crianças nesse espaço. ou um histórico escolar de pouco sucesso. Além disso. As respostas se organizaram em três categorias: Características positivas. Verificou-se que eles possuem um sentimento de pertencimento positivo em relação a família. serão descritos alguns aspectos sobre a adolescência dos participantes. as relações com os pares também foram descritas de maneira positiva. Adolescência A partir desse ponto. As lembranças no bairro também foram majoritariamente positivas. As perguntas sobre a infância tinham como objetivo analisar que avaliação os participantes faziam dela. Há que se considerar que esta não deve ser uma característica associada ao perfil de homens acusados de cometer delitos sexuais contra crianças. sem a presença de episódios de violência. e por isso. relembrando majoritariamente episódios positivos em relação a ela.72 brincadeiras descritas por eles dão a impressão de uma infância comum e tranqüila. verificou-se que as relações estabelecidas nos microssistemas (escola. Descrição de Si Próprios Quando Adolescentes A seguir serão descritas as respostas quando se questionou “Fale de você quando adolescente”. Assim. apresentam poucos anos de estudo. afirmaram que seus pais os descreviam de maneira positiva quando crianças. também. Na escola. características negativas. . Pois. Esse último dado indica que. A baixa escolaridade se relaciona mais diretamente a classe social da qual esses homens participam.

Apenas com a Família de Origem Flávio (37 anos) relatou que convivia com “Meu pai. que eles não possuíam uma visão pejorativa e depreciativa sobre eles próprios. 38 anos). evadindo-se da resposta.” (Francisco. pois desde o início da entrevista mostrou dificuldades em delimitar esta etapa da vida. por sua vez. divertimento. Pessoas com as Quais Convivia na Adolescência As respostas relacionadas nessa seção referem-se às perguntas “Com quais pessoas com quem convivia durante a adolescência”. minha avó e minha irmã”. disse que “perdi um pouco o senso de responsabilidade que eu tinha quando eu era mais novo. . Normal. com a família de origem e com a companheira e com a família de origem e com outras pessoas. Este seu comportamento tinha uma meta mais específica de conseguir obter dados que lhe fossem favoráveis. minha mãe. 37 anos). As respostas foram classificadas nas categorias apenas com a família de origem. ” (Marcos. 37 anos). Paulo (70 anos) não respondeu a esta e outras questões sobre a adolescência. Adolescente Normal Outro participante se descreveu como “um adolescente normal”. Diversão.. Características Negativas Francisco (37 anos). A resposta ausente no caso de Osmar ocorreu devido ao seu comportamento manipulador que tinha por objetivo discutir apenas os aspectos relacionados com a denúncia. Segundo ele: “O que eu mais gostava de fazer era de ir em festa. Observa-se pelas respostas dadas sobre a questão da descrição dos participantes enquanto adolescentes.73 Características Positivas Um dos participantes relatou que “Mas eu sempre fui obediente” (Flávio. Paulo (70 anos) deu uma resposta semelhante afirmando que “morei com minha família até quando fui pro exército”. Respostas Ausentes Osmar (73 anos) não respondeu a essa questão.

“ (Francisco.. pelos tipos de conduta. para a escola militar”. uma relação boa. era a mãe da minha mãe. Relações com as Pessoas com as Quais Convivia Questionou-se aos participantes como era a relação deles com as pessoas com as quais eles conviviam na adolescência. Francisco (37 anos) relatou que a relação com sua família “Sempre foi boa...)E ela estava sozinha mesmo. A seguir são relatadas as respostas a essa questão que foram categorizadas da seguinte maneira: Relações positivas e respostas ausentes. viver junto com outra pessoa foi com 17 anos. 70 anos). sempre. casar eu num casei nenhuma vez.. Marcos (38 anos) também conviveu com uma companheira na adolescência: “A primeira vez. Mas sempre foi. Inclusive ela tinha uns 60 anos (. Ele também comentou que “Sempre. De família normal.... não mudou nada”. ela é uma pessoa que eu me dou bem até hoje.. por aí”. enfatizando que “Me dava bem principalmente com minha mãe”... pelo jeito que ela me regrou. (Osmar. nunca ninguém brigou de tirar sangue um do outro.. não morava ninguém com ela.. E justamente por isso ela pediu para algum dos filhos para lhe fazer companhia”.. Essas coisas normal. Tinha eventual discussão e. Osmar também . né. sempre” se relacionou bem com sua companheira (outra pessoa com a qual conviveu na adolescência). 18. 15 anos.. Com a minha mãe com meus. Com a Família de Origem.”.. pelas normas. Osmar (73 anos) também comentou se dar bem com a família. com Parentes e com Outras Pessoas Osmar (70 anos) disse que em sua adolescência morou com seus pais e posteriormente “Sim. a gente ficou junto. E ela foi morar lá na minha casa. tal. Depois disso. Relações Positivas Todos os participantes.. Sei.. eu tinha uns 14. durante a adolescência se relacionavam bem com as pessoas ao seu redor.. “Muito novo. né”. E ai eu só fui para o exército. Flávio (37 anos) disse que sua relação com sua mãe era especial durante a adolescência: “Pelos ensinamentos. 37 anos).... Sempre foi boa... não..74 Com a Família de Origem e com a Companheira Um deles afirmou que “(Com 17 anos) aí. briga. Marcos (38 anos) também relatou que sua relação com sua família de origem “Continuou a mesma coisa.

novamente mostrou dificuldade em responder a pergunta. uma .. né?” . Respostas Ausentes Paulo (70 anos).. Pelas respostas dadas pelos participantes percebe-se que as relações que elas mantinham com as pessoas em geral durante a adolescência também eram saudáveis. me sentava na esquina com os guris e... Trabalho e Atividades de Lazer Marcos (38 anos) citou que sua rotina na adolescência era dividida entre o trabalho e a diversão: “Eu trabalhava bastante... trabalho e encontro com os amigo e trabalho e estudo. mas era normal. Ocupação do Tempo Durante a Adolescência As respostas relacionadas a seguir dizem respeito a pergunta “Como ocupava seu tempo durante a adolescência?” As respostas foram organizadas nas seguintes categorias: Trabalho e atividades de lazer. Nas falas dos participantes da pesquisa. A partir do relato dos participantes sobre suas adolescências. eu trabalhava. pois foi interno em um colégio militar.. Nos agarramos os dois”.. Muitos estudos fazem referência (Abel & Harlow. Ele frisou que ocorrência de brigas no exército era “comum”. Encontro com os Amigos Um dos próprios participantes mencionou “Então. ele comentou que se dava bem com seus companheiros do colégio militar e que brigou apenas uma vez com um deles: “Me lembro de uma vez que falaram de minha mãe. que não gostei (. já nessa fase. Trabalhava. Trabalhava bastante e. nota-se que este período não foi atravessada por grandes conflitos. daí. tinha também o final de semana como eu falei.. inclusive contra crianças. através dos auto-relatos não puderam ser observadas relações disfuncionais com crianças na fase adolescente. chagava em casa.. assim...75 conviveu com os companheiros do exército. a relação com crianças nessa fase nem chegou a ser mencionada. normal. né? Daí a gente se divertia. ah. pegava o violão. tomava um banho. Trabalho. Becker.. Entretanto. por não conseguir compreender o que significa a adolescência. Assim.. 2001..) Nos batemos. 1994) aos primeiros atos de violência sexual..

Flávio (37 anos) citou comentou também que “Ah! Eu praticamente.. Nessas classes não é incomum a evasão escolar na adolescência e a entrada precoce no mercado de trabalho. depois dos 16. É válido explicar que Francisco se evadiu da escola aos 13 anos. foi bem bom” (Francisco.. A partir destes dados pode-se afirmar que as atividades exercidas pelos participantes em suas adolescências eram atividades típicas de pessoas de classes sociais menos favorecidas. assim” (Francisco. ausência de lembranças. Eu fazia pintura de antena. Trabalho e Estudo Dois dos participantes citaram que as atividades mais freqüentes em suas vidas na adolescência eram trabalhar e estudar. assim. 25. 38 anos). é a primeira namorada que eu tive” (Marcos. Episódios Positivos e Negativos durante a Adolescência As respostas apresentadas a seguir referem-se à pergunta “Descreva episódios bons e ruins de sua adolescência”.76 adolescência acho que normal. 37 anos).. Aos 14 comecei a trabalhar com oficina de moto”. Flávio (37 anos). eu praticamente fui parar de estudar lá pelos 24. 37 anos). acho que a primeira. As respostas foram organizadas nas categorias lembranças positivas. festival que a gente foi tocar. Lembranças Positivas Um dos participantes lembrou que um episódio bom foi “A parte boa digamos. conhecia muita gente diferente. né? Viajava muito. Outro afirmou que sua melhor lembrança da época da adolescência é “Ah episódio bom. né”. por sua vez. Era pintor. características estas expressas pelas falas dos participantes. assim. que eu comecei a fazer o curso (de piloto de avião). Eu estava trabalhando naquela firma que eu lhe falei que meu pai arrumou para mim e eu trabalhava como office-boy” .. . lembranças negativas e respostas ausentes. né? Fiquei conhecido aqui praticamente no Rio Grande do Sul inteiro. lembrou que “uma lembrança boa que eu tenho da parte da adolescência por que eu estudava bastante e viajava muito. Osmar (73 anos) afirmou que: “De manhã ia para escola e voltava mais tarde. Conhecia muita gente importante também. E trabalhava.

37 anos). Nada. As respostas foram organizadas nas categorias temperamento com a subcategoria temperamento positivo. com as subcategorias frustração e ausência de defeitos. sem conflitos ou violências. Sobre as respostas ausente de um dos participantes (Paulo. num lembro de nenhum episódio que eu possa dizer que foi ruim. todos participantes descreveram a si mesmos como pessoas calmas... Temperamento Temperamento positivo Quanto ao seu temperamento. um deles afirmou que: “Ruim. Osmar de 70 anos apresentou o mesmo tipo de resposta: “Ah. Adultez A partir desta parte. ruim da minha adolescência acredito que não teve. demonstrando bloqueio diante das perguntas. pois notou que ele estava constrangido por não saber como responder.. Sinceramente. Nenhum? Na minha adolescência. são apresentadas as respostas referentes à pergunta “Fale-me de você como adulto”.. Não me lembro mais. são apresentadas as respostas às indagações feitas sobre a fase adulta dos participantes. Uma coisa ruim. auto-estima com a subcategoria auto-estima positiva e traços morais. nada”. 70 anos). em um certo ponto. As respostas sobre a adolescência denotam mais uma fase tranqüila.77 Ausência de Lembranças Negativas Ao serem indagados sobre episódios negativos de sua adolescência. Auto-percepção Nessa seção. Não me lembro”. não. ruim.. Lembranças Negativas O único que se referiu a um episódio negativo de sua adolescência foi Marcos (38 anos): “Uma das coisas tristes é quando a gente ta acostumando com uma pessoa e de repente aí termina. 38 anos). pode ser isso daí” (Marcos. A resposta de Flávio (37 anos) ilustra esse tipo de resposta: .. Não teve episódio ruim” (Flávio. Francisco (37 anos) fez uma afirmação semelhante a dos dois participantes anteriores: “Ah. a pesquisadora optou por não fazer mais perguntas sobre a fase adolescente. com a subcategoria pensamento e ações corretas frente aos outro e outros traços.

. fiz besteira”. me dou com todo mundo”. A resposta de Paulo (70 anos) exemplifica esse tipo de postura: “Eu sempre tive respeito na minha vida”.)”. Tamayo et al. ele citou que esse não é seu padrão constante de comportamento.. A fala de Francisco (37 anos) serve para ilustrar esse tipo de resposta: “Bem. Acho que o certo.. mas eu .. Além disso. assim. conclui-se que os participantes do presente estudo possuem uma boa avaliação de si mesmos. pela minha esposa está como está”. o que for. né”. Não que eu me esconda atrás da religião. né? Não sou agitado. disseram não se arrepender de nenhuma ação que tenha executado. Traços Morais Pensamentos e Ações Corretas Sobre os traços morais dos entrevistados.. Dois deles relataram que depois da acusação sua autoestima diminuiu. pois sempre agiram corretamente com as pessoas. mulheres. Eu sou religioso. Contudo. nesse caso. sempre fui disciplinado. eu fui sim (impulsivo). posso dizer que já gostei mais de mim. afirmando que “As pessoas sempre me dizem que sou uma pessoa calma. Com tais respostas.. Evito de ter alguma coisa. Se eu posso. Apenas Francisco (37 anos) admitiu que foi impulsivo quando se relacionou sexualmente com sua afilhada: “Não. todos os participantes relataram que sempre foram respeitadores. Os outros afirmaram que se gostam e se valorizam. errada. Auto-estima Auto-estima positiva A auto-estima é uma importante parte do auto-conceito. Também se descreveram como pessoas sem comportamentos impulsivos. Como te disse. A resposta de Paulo (70 anos) exemplifica este tipo de resposta: “Sempre penso antes de fazer as cosias. As falas de Osmar e de Paulo também chamam a atenção pelo fato de os dois ressaltarem o respeito a mulheres e meninas: “Eu respeito totalmente as moças. mas que ainda se valorizam... A fala de Osmar serve como exemplo deste tipo de pensamento: “Que eu saiba nunca fiz nada grave assim. 157). depois que fiz isso. A resposta de Osmar (70 anos) exemplifica esse tipo de fala: “Eu gosto. (2001) definem a auto-estima como a “avaliação global que a pessoa faz do seu próprio valor” (p.78 “Praticamente sou uma pessoa tranqüila.. 73 anos). mas esse troço aí eu fiz sem pensar. nem nada”. divido a paz como tudo mundo (. me sinto culpado demais por tudo que fiz. nunca teve motivo” (Osmar. Gosto de como sou.

Ausência de Defeitos Quando questionados sobre seus defeitos. “mulheres pedem pelo estupro” (Burt. com relações saudáveis nas quais foram amados e respeitados. Assim. A fala de Flávio (37 anos) sobre seus defeitos pode ser útil para ilustrar o tipo de resposta dada: “Defeito mesmo.79 sou religioso. assim. Os auto-conceitos positivos e a boa auto-estima seriam reflexo da vivência de episódios positivos durante suas vidas. eles vivenciaram uma vida tranqüila. p.”. Mais uma vez.. não haveria motivos pelos quais eles se percebessem de maneira negativa e não se valorizassem... entendeu?” (Francisco. principalmente denuncia que ele respeitaria até as prostitutas. Francisco citou que havia um grande pesar em sua vida: “Uma grande frustração. embora dois deles afirmem que antes da acusação. De acordo com as declarações dos participantes. 217). aos dados do . Apenas um deles afirmou que seu pior defeito era corrigir as pessoas quando essas emitiam alguma informação equivocada. A resposta de Paulo. 1980. Esse tipo de resposta diverge das idéias que apóiam o mito do estupro tais como “as mulheres podem resistir ao estupro. 37 anos). foram definindo-se de maneira positiva. da boate”.. Não. constata-se que os participantes possuem um bom conhecimento intelectual sobre as normas que regem o relacionamento entre as pessoas.. suas auto-estimas fossem mais elevadas. conclui-se que os participantes têm um bom autoconceito e uma boa auto-estima. Paulo (70 anos) também citou: “Eu dou o respeito até pra mulher pública. Pelas respostas dadas. agora no momento eu não lembro de defeito meu assim. em um primeiro momento. eles afirmaram que não possuíam algum defeito que se lembrassem. Outros Traços Pessoa Frustrada Um deles se definiu como uma pessoa frustrada pelos projetos que não conseguiu realizar.. e se isso acontece é por que eles querem”. de ir pra frente. Pode-se notar que o auto-conceito e a auto-estima dos participantes. nenhuma deu certo. ao longo de suas vidas. assim. na medida em que as respostas de Paulo e Osmar enfatizam um respeito pela mulher em qualquer situação. que eu tenho na minha vida é que todas as coisas que eu decidi fazer.”. não deu certo em termos. Com as respostas dadas.

A baixa autoestima vem sendo associada à etiologia e à manutenção do cometimento de abuso sexual contra crianças. por exemplo.80 presente estudo são completamente inversos aos encontrados na pesquisa realizada por Garret (2004). Assim. Um aspecto sobre a auto-estima merece ainda ser comentado. Desta forma. (2005) e Horley (2000) comentam que o modo como abusadores vêem a si mesmos e o mundo são determinantes para compreender o modo como eles agem.133) e se sentiam como objetos que serviam para o uso das outras pessoas segundo esses participantes. Os abusadores relatam. com as pessoas. e que não possuem a visão de que suas vontades são mais importantes que as do outros e que devem ser cumpridas de maneira imediata. citam que os comportamentos dos abusadores são auto-centrados. fazendo com que eles se sentissem especialmente desvalorizados até a fase adulta. que na infância. inclusive com as crianças. com eles percebendo suas vontades e necessidades mais importantes que os dos outros. inclusive. reiteraram o que eles sentem respeito pelos outros. o auto-conceito e auto-estima são importantes de serem investigados. implicitamente eles dizem que aceitam as normas sociais. Possuir baixa auto-estima faria com que os abusadores sintam-se inseguros em enfrentar situações de estresse. esse tipo de visão que os outros possuíam sobre eles tornou-se verdadeiro. Os abusadores da pesquisa realizada por ela enfatizam que suas vidas foram conturbadas. As falas deles. eles aprenderiam . resultando em auto-conceito negativo e baixa auto-estima. Alguns participantes frisaram inclusive que respeitam as meninas e as mulheres. Uma última conclusão sobre este aspecto é que parece não haver “erros” nas cognições sobre o respeito que se deveria ter com as pessoas de uma maneira geral. Gannon et al. fato este que parece divergente quando se contata que todas as vítimas relacionadas a acusação de abuso sexual contra eles são meninas ou adolescentes do sexo feminino. nas quais os sentimentos de desvalorização e humilhação se fizeram presentes. Gannon et al. Nesta pesquisa constatou-se que eles possuem auto-conceito positivo e auto-estima elevada. Estas falas sobre respeito aos outros são importante para compreender a aceitação dessa regras. eram chamados de “estúpidos” (p. pois quando os participantes reiteram que respeitam as outras pessoas. O único dado que sugere uma autocentração é ausência de defeitos relatados por todos eles. Horley afirma que a aceitação ou não das regras sociais está relacionada diretamente ao cometimento dos atos de abuso sexual contra crianças. pois eles dão indícios de como os abusadores percebem a si mesmos.

.. é o pai.. Mudanças Familiares Após a Denúncia Quatro participantes relataram que suas vidas familiares modificaram-se após a denúncia. né? Mas tinha que pagar. a minha irmã que ta sempre do meu lado. não tinha muito problema. ele rompeu o relacionamento com sua esposa e está impossibilitado de ver o filho. Entretanto. Teoricamente. Flávio (37 anos) disse. seres mais frágeis e desprotegidos. disse quando a denúncia (no caso dele informal. Não ia encrencar com ela por causa disso. Formação da Família e Relação com Ela na Época da Entrevista Nesta parte. 37 anos). 1999). Francisco (37 anos). . por exemplo. até o acontecido aí era mil maravilhas. após a denúncia.. que antes da denúncia sua esposa: Gastava com roupas chegava praticamente estourava o salário. O senhor ficava chateado com ela quando ela fazia isso?Ficava chateado. Meu sogro. Muito bom. Só pedia para ela não fazer mais aquilo. A relação com sua esposa no momento imediatamente anterior à denúncia parecia conflituosa.. só dizia pra ela que tinha que dar um jeito de pagar. né” (Flávio. pois lidar com crianças. Pode-se notar que uma baixa auto-estima não foi um dado encontrado no auto-relato dos participantes. As respostas estão organizadas a partir das categorias mudanças familiares após a denúncia e manutenção nas relações familiares após a denúncia. pois ainda não havia se transformado em processo judicial) veio a tona a relação com a família tornou-se conflituosa: Olha.81 desde cedo a adotar estratégias disfuncionais para lidar com as situações estressantes (Marshal et al. Praticar atos de abuso sexual contra crianças seria uma dessas estratégias disfuncionais. é falecido agora. seria mais fácil que lidar com as situações estressantes propriamente ditas. esta característica não estaria associada às denúncias de abuso sexual infantil contra eles. O Ricardo (filho) não tem o que falar. motivo pelo qual ele afirma que sua família no momento da entrevista era “A minha família é a mãe. os meus amigos. sempre gostou muito de mim. Minha sogra me tratava como se um filho dela. O meu filho eu não sei se vou conseguir ver ele de novo”. por sua vez. serão relatadas as respostas às perguntas “Quem é sua Família” e “Como você se relaciona com ela”. mas o casal permanecia junto e ele se relacionava bem com sua enteada (vítima na denúncia de abuso sexual) e com seu filho: “Era bom. na metade do mês eu tinha que correr atrás. só. mas parece que não adiantava .

.. que dá bastante problema sobre isso aí (Marcos. Marcos foi preso pela acusação de denúncia de abuso sexual contra sua filha e relata que desde que foi preso (40 dias antes da entrevista). um presentinho. agora tá um pouco complicado. Difícil eu vou poder perdoar a minha filha”. As pessoas tinham muita confiança em mim e. que apesar dessas mudanças na relação familiar. foi descrita da seguinte maneira: “A gente discutia bastante. pra mim. com meus filhos. né.. E comentou também que sua família naquele momento era apenas “Uma menina que tem oito anos que eu criei praticamente... né.. 38 anos). alguma palmadinha. a minha família. Sempre que eu podia dar eu dava. Manutenção das Relações Familiares Após a Denúncia O relacionamento de Paulo (70 anos) com sua esposa e filhos. meus irmãos. pois nunca houve um conflito grave entre eles. Tem a minha família por parte da minha esposa. a minha esposa e minhas duas filhas. foi descrito como tranqüilo. botava de castigo. que é eu.) E tem um filho também. Uma briga. Francisco disse. A relação de Marcos (38 anos): com sua ex-esposa. sua esposa e filhos foram lhe visitar “só uma vez”.. Normal de pai com filho. Uma troquinha de palavras”. como eu falei” A relação de Marcos com sua esposa tornou-se conflituosa. Disse que depois da denúncia não concebe mais seus filhos e sua esposa como sua família.” . que eu considero a minha família mesmo. Ele também relatou que sua relação com os filhos era normal e saudável: Normal. (. Osmar (73 anos) disse que antes da denúncia “Eu me dava com a minha filha. eu trazia ela no toco.82 Sempre dizia que era o genro que ele mais gostava. Eu sou um pai assim que me preocupo com que eles fazem. ainda. os irmãos também como a irmã. “não vai dizer que nunca teve. Foi o único que chegou para mim e falou comigo”. por causa do motivo dos caprichos dela (com a casa). Este tipo de respostas sugere uma relação distante entre ele e sua família. “Quer dizer ali.. como é que eles se comportam com os amiguinhos quando eles vão brincar... nota-se certo autoritarismo de Paulo com as pessoas de sua casa. com agressões físicas entre eles: “Dei uns puxão de cabelo pra me defender”.. Tem um filho que tem quarenta e poucos anos. A mãe também. hoje a minha família é bem grande. Contudo. né. ele não separou-se da esposa e continua considerando que A minha família. como é que eles vão no colégio. Porque tem a minha família por parte dos meus pais. antes da denúncia. Quando precisava corrigir alguma arte também. minha filha me acusou de algo muito grave”.. pois “Todos sumiram. .

1994. Praticamente você acorda no meio da noite e deu. pois temia ser condenado no processo de acusação sexual que pesava sobre ele: “É. né. pois segundo os estudos da área.. entre outras (ver Flores & Caminha. prática freqüente de violência como forma de disciplina. Pesquisadores citam que há um clima afetivo pobre. Silva & Hutz. por exemplo. Desejos Para o Futuro Nesta seção serão descritas as respostas das perguntas “Como você quer que seja sua vida no futuro?” e “Descreva para mim coisas boas que você gostaria que acontecessem no futuro”. As respostas foram classificadas nas categorias respostas de desesperança. respostas relacionadas à acusação de abuso sexual. desejos de paz e tranqüilidade e desejos de realização pessoal. o futuro é muito longe agora. Esse aí seria um problemão. as relações com suas esposas não era abusiva. Tenho pensado muito nisso e não vejo uma solução pra isso. esse aí eu acho que até não teria solução. Ele comentou: Eu não penso mais no futuro.. de repente você acorda na madrugada e tudo aquilo que você estava fazendo fica pra trás. não tem mais nada. Essas perguntas foram feitas com o objetivo de finalizar a entrevista de forma positiva. as famílias nas quais os abusos ocorrem são freqüentemente disfuncionais. inversão dos papéis hierárquicos entre pais e filhos.83 A descrição desses resultados é importante para compreender como era a relação dos participantes com as pessoas de maneira geral e com outras crianças. É. pois ambas se relacionam aos planos e desejos que os participantes pensam para seus futuros. As respostas foram agrupadas. Francisco (37 anos) também afirmou que sentia desesperança em relação ao seu futuro.. dão risadas. Você fica no meio de um monte de gente que esta te acusando. Respostas de Desesperança Um dos participantes relatou.. A relação com outras crianças que não a vítima também foi apresentada de maneira positiva. você não tem mais. Novamente os dados apresentados nesse estudo entram em desacordo com aqueles apresentados na revisão de literatura. 2002). pais abusados na infância. (Flávio.” . 37 anos). que não percebe nenhuma solução para seu caso e acreditava que seria preso. Segundo o relato de quase todos eles (exceto o de Marcos).

né. Voltaria. Alguns mostraram-se esperançosos e outros menos. Com aquários. como eu já pedi (Paulo. percebe-se que os participantes preocupam-se com as conseqüências futuras que as acusações contra eles podem gerar. Um deles disse: Ah.. e esperar a minha hora de eu ter que deixar eles né.84 Respostas Relacionadas à Situação da Acusação de Abuso Sexual Marcos (38 anos) comentou que “Coisa boa pra mim que eu vejo agora é que termine tudo bem essa acusação contra mim. 70 anos). quem não deve não teme. né? Cuidar dos meus filhos. não com venda de rações e injeções. alguns deles. Mas. né. foi bom. . ia ser melhor que antes.. assim. mas agora vou ter que escrever quando passar a edição” (Osmar.É tipo um pet shop.. 37 anos) Outro comentou que desejava escrever um livro: “Sim. Paulo também relatou que desejava que a situação da acusação contra ele fosse resolvida: Olha. Pra mim poder tocar minha vida. da minha mente”. E torcendo né. garota. a ser melhor que antes. eu espero eu cumpri as ordens que sempre eu cumpri. medicamentos. artista plástico. 73 anos).. né. Entendeu? Eu gostaria de trabalhar com animais. Planos de Realização Pessoal Nesta categoria foram incluídas aquelas respostas que expressavam algum plano concreto de realização pessoal do participante. eu gostaria que um dia eu poder botar uma loja. no momento não tá dando. eu não sei. Não. que eu não sei a idéia do juiz. foram capazes de expressar algum desejo de realização pessoal. Eu assim ó. quem sabe. entendeu? Só que agora. mesmo diante da preocupação. por exemplo. assim. Não sei que o juiz vai mandar ela embora. Eu gostaria. plantas e animais. (Francisco. Escrever um livro. já comecei a fazer um esboço do livro. Agora só penso. para mim era o melhor do mundo. mas é por gosto por Deus. Eu pretendo juntar um dinheiro pra isso. de venda de animais. tenho na cabeça o que vou escrever. de acuso não tenho medo. Desejos de Paz e Tranqüilidade Osmar (73 anos) relatou que desejava “Recuperar essa parte (paz). como eu sou desenhista. A partir das respostas dadas. Eu já tenho a capa. Além disso. se eu recuperar”.

né? Acho que seguida. incompletude da criança em relação aos adultos e infância como fase importante para as demais.85 Relações da História de Vida com o Momento Atual As respostas que serão descritas nessa seção se relacionam à pergunta “Pensando em sua vida hoje.. Dentro desta.. foram organizadas três subcategorias: Visão positiva e romanceada da infância. ajudando meus pais. a expectativa é de que eles não poderiam declarar nada que os comprometessem. A resposta de Flávio (37 anos) serve para ilustrar esse quesito: “Não. você acha que sua história influenciou em algo que acontece no momento atual?”. Ausência de Conexão entre as Histórias de Vida e as Denúncias Quando foram questionados sobre suas histórias de vida e a relação com a denúncia. esperado. acho que a minha história de vida é uma paz só. né? Só quero continuar com a minha profissão. Assim. As respostas foram classificadas em única categoria: Ausência de conexão entre as histórias de vida e as denúncias. eles podem ter entendido que comentar que suas histórias de vida podem ter contribuído de alguma maneira para a acusação na qual se encontravam poderia afetá-los de maneira negativa. talvez passe. Respostas Politicamente Corretas e/ou Estereotipadas sobre a Criança e Infância Visão Positiva e Romanceada da infância . na qual quase todos eles se encontravam.”. os participantes revelaram que nenhum aspecto dessa história se relaciona com as acusações. Reiteraram que suas vidas foram tranqüilas e que por isso não conseguiam conectá-las as denúncias de abuso sexual contra eles. pois na situação de envolvimento com a justiça. Visão Sobre a Criança A partir deste ponto serão descritas as respostas relacionadas à visão sobre a criança. O tipo de resposta dado pelos participantes era. O Que é Ser Criança As respostas dos participantes a esta pergunta foram agrupadas em uma categoria mais ampla denominada respostas politicamente corretas e/ou estereotipadas sobre a criança e a infância. de certa forma.

portanto. associadas mais a uma estereotipia das respostas e ao que é socialmente aceitável do que as reais visões que esses homens possuem. suas respostas podem ter sido dadas de modo que eles não se comprometessem com elas. não analisariam as crianças de maneira positiva. algumas contradições podem ser apontadas. Pode-se notar. apesar de as respostas serem semelhantes. Assim. Contudo. permeada pela felicidade. Incompletude da Criança em Relação aos Adultos Nessa segunda subcategoria. as crianças foram percebidas pelas estudantes como “uma como fonte de alegria e satisfação” para os adultos. 37 anos). Neste último tópico. para homens acusados de cometer delitos sexuais contra crianças. 37 anos) e “bonita” (Flávio. Assim. pois as crianças “pensa apenas em jogos e brincadeiras” (Osmar. por exemplo. Outro participante salientou que “ser criança é não ter problemas” (Francisco. seria coerente que as estudantes da pesquisa de Gaiva & Paiao vissem as crianças e a infância desse modo. Contudo. no contexto dessa pesquisa. A essa função estaria associada a necessidade de se apreciar as crianças de maneira positiva. ou seja. 37 anos). que ser criança é a “parte mais feliz” (Flávio. Gaiva e Paiao (1999) atestaram que a fase infantil e as crianças foram vistas por estudantes de Enfermagem como uma “coisa a ser admirada”. as respostas positivas e romanceadas sobre as crianças e infância podem estar. 37 anos). que as respostas obtidas nessa pesquisa se aproximam das respostas da pesquisa de Gaiva e Paiao. 37 anos). 1998). 73 anos). estudantes de enfermagem estão se preparando para a função de cuidar. a princípio. Além disso. Assim. pode-se perceber mais uma vez que os resultados apresentados se . e outro citou que a infância é aquela na qual se está “descobrindo o mundo e todas as coisas bonitas do mundo” (Flávio. A princípio. Além disso. esse tipo de resposta parece incoerente. A frase seguinte serve para ilustrar essa idéia: “Ser criança é a idade mais feliz do mundo” (Osmar. 73 anos). com o objetivo de serem avaliados psicologicamente.86 Ao serem questionados sobre o que é ser criança os participantes responderam. os participantes destacaram que ser criança é “não ter responsabilidades” (Francisco. considerando-os apenas como objetos (Amazzaray & Koller. como um ser gracioso com o qual se pode brincar. pois os dois públicos percebem as crianças e a fase infantil de uma forma positiva. pois esses indivíduos. Gaiva e Paiao (1999) comentam que suas participantes também associaram a imagem da criança à diversão. há que se considerar que esses indivíduos foram encaminhados compulsoriamente pela justiça até o local da coleta de dados.

Em um estudo com professores acerca das concepções das fases do desenvolvimento. Outro tipo de resposta está associado à incopletude da criança em relação aos adultos é expressa na fala de Francisco (37 anos): “criança é querer ser adulto” A idéia principal contida na fala do participante é de que criança é um vir a ser do adulto. Pode-se afirmar que as respostas dos participantes dessa pesquisa parecem estar permeadas pelas noções sociais sobre o que é ser criança. 1981). quando questionado sobre o que é ser criança enfatizou que “os problemas. né?”. a resposta de Francisco se assemelha as do professores. pois esta última foi apontada por eles como ponto ótimo do desenvolvimento humano (Almeida & Cunha). está em acordo com essa concepção comum na sociedade ocidental. A idéia de que problemas na infância podem causar traumas futuros está associada a essa noção de continuidade. Quando identifica-se as crianças e a fase infantil dessa maneira. problemas na fase infantil poderiam se transformar em traumas que perdurariam na vida futura.87 aproximam aqueles encontrados na pesquisa com as estudantes de enfermagem. por exemplo. A criança é vista como um ser incompleto por ainda não possuir responsabilidades. pois a meta do desenvolvimento seria tornar-se adulto (Salles. A fala de Francisco. às vezes lhe podem futuramente ser um trauma. distanciando-a do mundo do trabalho e das responsabilidades é uma “marca” do modo como são percebidas as crianças na sociedade moderna (Ariès. Assim. verificou-se que esses participantes identificaram a infância e as demais fases da vida incompletas em relação à adultez. por ser a etapa mais precoce teria conseqüências para as demais etapas do ciclo vital. como o trabalho. portanto. 2005). Infância Como uma Fase Importante Para as Demais Fases Osmar (70 anos). Tal resposta expressa o que Santos (1996) aponta sobre a continuidade entre uma fase e outra do desenvolvimento. o “vir a ser adulto” seria a oportunidade de ter suas capacidades em pleno desenvolvimento. Relacionar a fase infantil com as idéias de diversão e lazer. Além disso. é quase inevitável não limitar aquelas atividades que são permitidas ou não para elas. Assim. Pensar a infância como uma fase incompleta em relação à adultez implica pensar que a conduta da criança deve ser superada. não trabalhar e apenas ter como interesses jogos e brincadeiras. que as experiências vividas em uma fase anterior da vida são importantes para as posteriores. ou seja. . pois a infância.

Definição Cronológica Basicamente. Por outro lado. os participantes definiram quem é uma criança através de critérios cronológicos. comum em abusadores sexuais. 1999).. todas as respostas a questão “o que é ser criança” podem ser classificadas na categoria única respostas politicamente corretas e/ou estereotipadas sobre a criança e infância. Quem É uma Criança A pergunta “Quem é uma criança” tinha por objetivo analisar quem os participantes poderiam indicar como sendo uma criança. Salles. devido às denúncias sobre abuso sexual que os acompanhavam. com a subcategoria definição cronológica por gênero e a categoria de resposta ausentes ou inadequadas. 2005. 19875/1981. pelo menos neste quesito não há uma indicação de erros cognitivos sobre as crianças. que consentem relações dessa natureza ou iniciam contatos desse tipo de contato com adultos (Gannon et al. já que todos eles enfatizaram apenas as noções socialmente aceitáveis. As falas dos participantes indicam que suas visões sobre as crianças são permeadas pelas noções da sociedade em geral. cada uma delas aparece descrita. pela ausência de responsabilidade. pois segundo vários autores (ver Almeida & Cunha. Nenhum dos participantes revelou algum tipo de distorção cognitiva. pode-se afirmar que os participantes apresentam uma visão positiva e romanceada das crianças e da infância. Assim. desfazendo a possível crença sobre si próprios como pessoas de mau caráter. Ariés. Portanto. há ainda a clara indicação que com estas respostas os participantes visavam a atender à expectativa da equipe de receber respostas positivas e socialmente aceitáveis. identificando. “a minha (filha) de cinco anos é criança e outra de 14 é adolescente”. na quais as crianças são percebidas como seres sexuais. Os critérios . 2003. Ward & Keenan. Um outro participante identificou que pessoas podem ser consideradas como crianças até os dez e/ou 12 anos. por exemplo.88 De maneira geral. A seguir. 2005) as visões positivas sobre a infância e a idéia de inclopetude delas em relação aos adultos são comuns na sociedade atual. ainda que as considerem incompletas. Isto indica que os participantes reconhecem que há uma norma social sobre o que é ser criança que dita como as crianças devem ser vistas e conseqüentemente como devem ser tratadas. As respostas foram categorizadas da seguinte maneira: Definição cronológica.

Ele citou que uma menina poderia ser considerada criança até os 21 anos e os meninos. 2003).sd) e pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) de 1990. mas não definiu que código jurídico seria esse. Já me falaram que é com 18 Quer dizer que na parte da menina disse que até de 21. disse que pra passar de maior tem que ser com 21 anos. Um outro participante quando citou as idades. Embora haja uma certa confusão sobre os limites etários previstos por lei para classificação de pessoas como crianças. Na parte do homem. especialmente no que tange à discussão de direitos e deveres. A mídia e o senso comum apresentam uma série de possibilidades para definir. Observando as respostas. percebe-se que alguns participantes usaram o critério cronológico (idades) como definição de quem é uma criança. No caso desse participante. mencionarem essas fontes. não é justificável que alguns participantes que não soubessem responder. até os 18. 22. sem. 1990) e por órgãos internacionais (WHO. no entanto. Definição Cronológica por Gênero Nesta subcategoria. A WHO define a idade de dez anos e o ECA 12 anos.89 utilizados por este último participante são semelhantes àqueles utilizados pela World Health Organization (WHO. mesmo que de . o participante disse que acreditava que esse era o critério definido pela lei. sem comentar a que código jurídico ele se referia. deliberadamente falou sobre os critérios etários usados na lei. enquanto o outro pareceu sentir-se envergonhado de não saber responder a questão. Respostas Ausentes ou Inadequadas Dois outros participantes não souberam responder. desculpa eu me explicar assim. mas ambos recusaram alegando que não sabiam como definir. As idades citadas aproximam-se dos limites etários ditados pelas leis (ECA. ele usou critérios mais próximos da entrada na maioridade em vez de a idade limite para que alguém possa ser considerada criança (12 anos). uma visão sobre a criança permeada pelos ditames socialmente aceitáveis. foi classificada a resposta de um participante que indicou quem era uma criança usando parâmetros cronológicos de gênero: “Disse que pra passar. 19” (Paulo. Ao falar sobre essas idades. Um deles reagiu de maneira indiferente ao questionamento da pesquisadora. como limite para ser considerado criança. mais uma vez. Este aspecto demonstrou. diz que é 18. 70 anos). Repetiu-se a pergunta para que ela ficasse mais compreensível.

indicam a confusão. Diferenciação por Identificação como Fase de Transição no Desenvolvimento em Geral A adolescência foi entendida por um dos participantes como uma fase de transição na qual a pessoa não é mais criança. As respostas foram categorizadas da seguinte maneira: diferenciação por identificação como fase de transição no desenvolvimento em geral. Segundo Salles (2005). Contudo. 1999). estão relatadas apenas as diferenças entre crianças e adolescentes. que nem é mais criança e ainda não é adulto.). diferenciação por rebeldia. que pode ser gerada por alguma ansiedade. A frase seguinte exemplifica essa idéia: “O adolescente para mim é uma criança que está passando por uma fase de transição. Como as diferenças foram descritas aos pares (criança-adolescente.90 forma estereotipada ou pragmática quem é uma criança. criançasdemais fases do desenvolvimento). Respostas inadequadas. esta maior responsabilidade não seria ainda como aquela assumida por um adulto. diferenciação por gostos e interesses e respostas ausentes ou inadequadas. Nesta parte. A adolescência aqui é compreendida como uma fase de experimentação e de transição para vida adulta. mas também não pode ser ainda classificada como adulto. Diferenças Entre Crianças e Adolescentes Questionou-se aos participantes quais seriam as diferenças entre crianças e adolescentes e adultos (gostos. em estruturar uma resposta.. mesmo que não consistente. optou-se por descrevê-las em seções distintas. sendo a “ponte” que uniu uma fase a outra. perdurando até os dias atuais. Mas já passa a ter mais responsabilidade” (Osmar. criança-adulto. diferenciação por autonomia com a subcategoria diferenciação por autonomia de pensamento. quando os códigos jurídicos ainda traziam classificações etárias diversas sobre quem poderia ser considerado criança (Londoño. Os limites etários para ser considerado criança parecem ainda confusos como eram no início do século XX. Assim. interesses. iniciada ainda no século XVII. como expressou esse . à pergunta. Uma maior responsabilidade na adolescência marcaria a diferença entre uma criança e um adolescente. comportamentos. etc. fez com que a adolescência começasse a ser percebida como um período à parte do desenvolvimento humano.. a noção de que a adolescência é uma fase de transição se originou nessa época. 73 anos). a distinção entre criança e adulto. da mesma forma.

tornando-se um conceito do senso comum (César. E adolescente não. Ela seria uma fase mista entre a infância e a adultez. pode-se verificar que a infância foi vista como uma fase sem problemas permeada pela felicidade. Assim.. segundo este participante. pois ela designa mais especificamente uma maior autônima de pensamento por parte dos adolescentes:“aquela fase que a gente . 37 anos: “Eu acho que o que faz isso aí. 37 anos). esta ultrapassou tais limites há bastante tempo. Diferenciação por Autonomia Outra diferença importante entre crianças e adolescentes. é justamente a contestação”. Ao recordar as respostas dadas pelos participantes quando foram questionados sobre o que é ser criança. onde que ela vai ir. 1999) que definiu a adolescência como uma fase de “tempestade e estresse”.91 participante. elas têm que obedecer às ordens dos adultos” (Francisco. Ela quer ir. que que ela vai fazer.) não tem vontade própria ainda. pois esta última seria problemática. Os adolescentes. A fase infantil diferenciar-se-ia da adolescência pela ausência desta rebeldia e/ou contestação. 37 anos). Mesmo que a gente não queira. Segundo Francisco. segundo um dos participantes foi expressa na seguinte sentença: “por mais que as crianças tenham suas próprias vontades. in Newcomb. diferenciando-se da fase infantil. e vai. enquanto as crianças deveriam obedecer: A criança (. Esta concepção foi inaugurada na psicologia por Stanley Hall (1844-1924. mas a gente. Esta noção pode ser notada claramente nas respostas obtidas. quer ir. pela qual os adolescentes necessariamente passariam. Quer fazer e faz. Diferenciação por Autonomia de Pensamento Esta subcategoria foi criada. Outro respondeu que “Acho que o adolescente já é mais aquela fase de rebeldia” (Flavio. Apesar de esta idéia de crise adolescente ter sido gerada inicialmente no meio da disciplina psicológica. (Francisco. A idéia de rebeldia e contestação está intimamente ligada à concepção de “crise”. Adolescente já tem vontade própria. Diferenciação por Rebeldia A adolescência foi concebida como uma fase de contestação e rebeldia.. 1998). pode-se sugerir que a etapa infantil seria uma contraposta à adolescência. seriam mais autônomos e não teriam que ser submissos aos adultos. Ela tem. a gente é que sabe o que que vai fazer... 37 anos). passar a ser adolescente.

encarada como sendo uma conseqüência de um instinto sexual natural que irrompe nesta fase. ainda não teriam essa autonomia de pensamento para realizar este tipo de avaliação. Em uma pesquisa com caminhoneiros. saírem com os amigos. quer ir ao cinema. Quando sai de férias da escola. embora elas acreditem que sabem como agir. Nota-se nas respostas dos caminhoneiros a mesma estereotipia de respostas dos participantes da pesquisa aqui relatada. que há ainda pouca maturidade das pessoas nesta fase da vida. etc. Esta resposta denota que. Muito” (Francisco. (César. Respostas Ausentes ou Inadequadas Houve também certa confusão de um dos participantes em definir características típicas da fase adolescente. 1998). em contraposição aos adolescentes. Alguns dos participantes dessa última pesquisa declararam ter mantido relações sexuais com crianças durante suas viagens. Diferenciação por Gostos e Interesses Os interesses das crianças basicamente se associaram às brincadeiras. pois em ambos os casos. 1998). As crianças. Quer namorar. ainda não possuiriam bom senso suficiente para discernir sobre como proceder. os dois grupos foram capazes de abusar sexualmente das crianças. as respostas dos participantes a esta questão foram. mesmo tendo ciência de que o sexo entre crianças e adultos não é uma atividade típica da fase infantil. Algumas dessas atividades (sair e viajar) associam-se diretamente à visão de uma maior já discutida anteriormente. pois. pois ela seria necessária para que eles exercitassem as funções que desempenharão quando tornarem-se adultos (César. 2005). quer escutar música. sobre a exploração sexual infanto-juvenil. verificou-se que as brincadeiras foram vistas como sendo atividades infantis e o namoro como uma atividade tipicamente adolescente (Koller et al. As crianças se diferenciariam dos adolescentes. quer viajar. 37 anos). permeadas pelas noções do que é socialmente aceitável.. 37 anos). segundo os participantes. mas a gente não sabe” (Flávio. já há uma autonomia de pensamento por parte dos adolescentes. A questão do namoro também é uma outra idéia aceita com sendo uma característica típica da fase adolescente. Os interesses dos adolescentes foram descritos de maneira mais variada: “(adolescente) já quer sair. por não namorarem. A idéia de uma maior autonomia adolescente é aceita na sociedade contemporânea.92 acha que sabe das coisas. Assim. mas. confundido-a tanto com a infância . novamente. para o participante.

70 anos). É diferente de criança. adolescente. o reflexo do que Ariés comentava em 1981 sobre a moderna (e ainda contemporânea) concepção da infância. através das falas destes participantes. Todas as respostas indicaram que a principal diferença entre adultos e crianças é a presença de responsabilidade na adultez e ausência dela na fase infantil.. nota-se que os participantes possuem idéias claras sobre as diferenças entre estes dois grupos. (Então. e o que é ser adulto para os participantes deste estudo. tem que.. criança é igual a adolescente?) Não. Tem que batalhar. A fala de Paulo (73 anos) também exemplifica essa idéia: “Quer dizer que o adulto vai ter que trabalhar. Francisco (37 anos).. É uma criança. quando ela pega mais idade. A responsabilidade esteve associada. Pode-se perceber. né. são apresentadas as diferenças. (Paulo.. citou que “O adulto tem que ter responsabilidade. sobretudo. A separação da criança do mundo do trabalho e das responsabilidades . por exemplo. Elas foram agrupadas nas seguintes categorias: diferenciação pela responsabilidade. tem que correr atrás do dinheiro que é pra poder pagar as coisas. Em suas palavras: “Quer dizer. entre crianças e adultos. estudo como dever das crianças e diferenciação por pequenos trabalhos domésticos como deveres para as crianças). que é uma criança de repente. se tiver obrigação”. denotando que eles possuem ciência de que certas atividades são permitidas ou não para as crianças. né”. cumprir as obrigações. citadas pelos participantes. fazer a vida. Diferenças Entre Crianças e Adultos Nesta seção.93 quanto com a adultez. Essa pergunta eu num sei”. O entrevistado distinguiu adolescentes de crianças apenas pela questão da idade. diferenciação por dever de obediência. diferenciação pelos deveres (com as subcategorias: deveres mais brandos para as crianças. Ao analisar as respostas dadas sobre as diferenças entre crianças e adolescentes. ao trabalho e ao conseqüente ganho do dinheiro. diferenciação por cuidados recebidos ou devidos por adultos e diferenciação pelas atividades lúdicas. Diferenciação pela Responsabilidade É marcante a questão da responsabilidade na diferenciação entre o que é ser criança.

Porque hoje em dia é o estudo que tá valendo. A fala de Osmar (73 anos) ilustra esse tipo de resposta: “Quase não tem deveres.. sd). acrescentou que. Contudo. Não como os nossos.. Para Áries. ensiná-los tanto na escola quanto em casa tem que ensinar a ter dever. no lixo assim precisa ter. A fala de Paulo (73 anos) sugere essa concepção: Agora tem que tá com um colégio na parte da noite. 1975/1981.. a criança estaria dissociada de tais responsabilidades por uma razão primordial: ela seria incapaz de manejá-las.). embora todas elas se relacionem a questão dos deveres diferentes para crianças e adultos. mas não como os nossos (.. possuem menos deveres. não precisava ler. 37 anos). Eles têm.. Conceber a educação como um dever pode estar associado à idéia amplamente aceita de que as crianças se beneficiam quando ingressam na educação fundamental ou primária. Diferenciação pelos Deveres Dentro desta categoria foram criadas subcategorias. A educação formal seria um aspecto fundamental para assegurar o futuro (adultez). eles seriam mais brandos que os dos adultos.. que por sua vez. num precisava escrever. se comparadas aos adultos. devíamos ensinar a ter deveres.. A imagem da criança aparece novamente relacionada a menos responsabilidades.. . asseguraria um futuro sadio para as crianças (Ariès. É uma preparação para a fase adulta. tá estudando. Agora com pouquinho estudo. Agora no meu tempo.. Pegava qualquer conta. Tem deveres.94 revela-se em suas respostas. Num pega mais. Estudo Como Dever das Crianças Um dos deveres das crianças seria estudar: “Tem que ir à escola. cada um delas designa deveres específicos. em qualquer lugar mesmo pra pegar em qualquer outra função. pois. Deveres Mais Brandos para as Crianças Um dos participantes respondeu que crianças. encarada como meta máxima do desenvolvimento. a mais importante idéia expressa pelo participante associada à questão da educação. A fase infantil não é simplesmente uma etapa a ser vivida por si só. é a preocupação com o vir a ser da criança e com seu futuro. nem me lembro o grau que tem que ter. Além disso. Este ingresso garantiria um desenvolvimento pessoal (Ramirez.. quando tais deveres existem.”. tem que fazer os temas da escola” (Francisco.

Heilborn (1998) também detectou uma visão semelhante dos pais em relação às suas filhas em bairros periféricos do Rio de Janeiro. os participantes citaram que “adultos deveriam ensinar as crianças” (Osmar. Essa menor capacidade daria origem a uma relação de dependência entre o adulto e a criança. né?” (Francisco. ser dependente dos adultos faria com que a criança devesse obediência a ele (Kramer. Esse tipo de concepção comentada pelos participantes pode ser reflexo da concepção sobre a criança da sociedade ocidental. Esse tipo de resposta sugere que os adultos têm como dever a responsabilidade com a criança. sendo encarada como um dever. inclusive as crianças. 1999. Contudo. Acho que devia ser um dever que deviam ensinar para a criança” (Osmar. os participantes expressam que uma das características das crianças é ser obedientes: “Tem que obedecer aos pais. dependendo da idade que ele tem. fazer o quarto dele. Assim. pois ele deve ensinála. Fazer a cama dele. A obrigatoriedade da criança em ser obediente decorreria de uma outra característica dela: ter menos capacidade que os adultos. ou seja. Diferenciação por Dever de Obediência A questão da obediência também citada como um dever da criança é um importante ponto a ser discutido. quem sabe. Diferenciação por Cuidados Recebidos ou Devidos por Adultos Com relação aos deveres dos adultos. 73 anos). mais uma vez percebe-se que a adultez é destinada ao trabalho e as . Este tipo de trabalho seria uma forma de solidariedade entre os membros da família. o trabalho doméstico seria uma forma de suas filhas retribuírem pelos cuidados físicos e emocionais fornecidos. Phelan. a criança precisaria ser submissa aos adultos. 37 anos). 73 anos).95 Diferenciação por Pequenos Trabalhos Domésticos como Deveres para as Crianças Apesar de o trabalho remunerado não ser visto pelos participantes como uma atividade aceitável para as o público infantil. Pelas respostas dadas sobre as diferenças de deveres entre esses dois públicos. Para estes pais. Em vários outros momentos. A realização desse último tipo de atividade foi discutida por Bastos (2002) como permitida para as crianças de baixa renda. a obediência não seria uma opção para criança. a realização de pequenos trabalhos domésticos foi uma das respostas sobre os deveres das crianças: “Em casa às vezes lavar os pratos. faixa social da qual emergem os participantes deste estudo. 1995).

direito a alimentação. direito a higiene. e adulto. Dentro desta. 1975/1981) até os dias atuais. adulto não brinca mais” (Paulo. 70 anos). As respostas foram reunidas da seguinte maneira: Diferenciação por necessidades. enquanto a infância é a etapa da vida na qual não há muitos deveres e responsabilidades e que necessita de cuidados do outro (adulto). relatando essas distinções de maneira generalizada.. Um dos participantes citou que “crianças brincam. necessidades de carinho e necessidades da criança de ser prontamente atendidas. do mundo dos adultos já comentada anteriormente é uma característica marcante do modo de se conceber a criança desde a modernidade (Ariès. mais responsabilidades. Diferenciação por Necessidades Dentro dessa categoria estão as respostas que se relacionaram a necessidades das crianças como um ponto de diferenciação entre elas e as pessoas . se submeter. denotam uma visão sobre as fases do desenvolvimento a partir das noções socialmente aceitáveis. ou seja. necessidades de alimentação. Diferenças das Crianças para as Demais Fases do Desenvolvimento Nas respostas desta seção os participantes não citaram diferenças entre as crianças e os adultos ou adolescentes especificamente. a questão da obediência como uma obrigação das crianças pode ser uma crença que pode favorecer aos abusos de todos os tipos. direito a afeto e prioridade de direitos. As repostas desta seção. Há ainda uma outra categoria denominada diferenciação por direitos das crianças com as seguintes subcategorias: direito de não trabalhar e de estudar. Diferenciação Pelas Atividades Lúdicas A brincadeira foi outro importante tema usado pelos participantes para diferenciar crianças e adultos. necessariamente. enquanto as crianças brincariam e estudariam. Os adultos são vistos como tendo mais deveres em relação às crianças. Esta classificação está descrita a seguir. pois na medida em que os adultos pensam ter esse direito sobre as crianças. eles podem praticar atos abusivos e as crianças deveriam. novamente.96 responsabilidades (com a criança. Entretanto. A imagem da criança ligada a diversão e conseqüente separação do mundo do trabalho. estão reunidas as subcategorias: necessidades de objetos materiais. inclusive). né.

por que as vezes os nosso pais não dão” (Osmar. Necessidades da Criança de Ser Prontamente Atendidas Paulo (73 anos) frisou a importância de sempre se atender prontamente às necessidades das crianças: “(Criança) tem que ter tudo pronto. na hora que pedir”. enfatizando que essa também seria uma necessidade fundamental da criança é ser tratada com carinho.97 das demais fases do desenvolvimento. Direitos das Crianças Nesta questão ocorreu o mesmo com a categoria das necessidades. Esse tipo de resposta indica que umas das necessidades básicas da criança seria alimentação. (Paulo 73 anos). Direito de Não Trabalhar e de Estudar A resposta seguinte exemplifica esta categoria: “Eu acho que não (que criança não tem que trabalhar). 73 anos). 37 anos). Necessidades de Objetos Materiais Um dos participantes se respondeu que as necessidades da criança se relacionaram a aquisição de objetos materiais. Necessidades de Carinho Paulo de 73 anos relatou também que a criança “Precisa de carinho”. Outro participante também citou que a criança tinha direito a . então a necessidade vem coisas que não pode ter. pois cada uma delas associa a necessidades distintas. Por que se eu tivesse tido oportunidade de estudar eu poderia ta vivendo bem melhor hoje em dia” (Flávio. Estas respostas foram alocadas em uma subcategoria. Essa resposta sugere que as crianças deveriam estudar e não trabalhar. que para ele é um problema. pois dentro desta categoria foram organizadas várias subcategorias. Necessidades de Alimentação Paulo de 73 anos comentou que crianças precisam “ter o alimento na hora que pedir pro pai”. como foi no caso dessa participante. Ele citou que: “Caderno ou qualquer outra coisa. por que não tem o que os outros tem.

Direito à Alimentação Nessa categoria a alimentação aparece como um direito assegurado para a criança. estaria para além da diversão das pessoas mais velhas.. Este tipo de concepção sugere uma criança que tem direito de ser respeitada e não deve ser obrigada a fazer nada. né?”. embora não tenha comentado que a educação estava em contraposição com o trabalho como o fez Flávio. A resposta de Francisco indica que ter direito aos cuidados de higiene seriam um direito das crianças. principalmente. essas coisas. A idéia da criança como sujeito de direito. . essas coisas tudo. né?”. A importância da criança. mas não obrigá-los. “Receber (. Direito à Higiene Francisco (37 anos) destacou que crianças precisam de “Higiene. expressa pelo ECA (1990). Direito de Não ser Obrigada a ter Deveres Osmar (73 anos) comentou que “Eles têm. afeto assim. tendo. pois a criança agora teria suas próprias vontades. ensiná-los tanto na escola quanto em casa tem que ensinar a ter dever”. 37 anos). portanto.. são de responsabilidade do adulto. 37 anos). Direito à Saúde Francisco (37 anos) também comentou que “é.. direito a cuidados por parte deles: “O adulto tem que cuidar da criança. Direito à Afeto e Cuidado De acordo com um dos participantes. as crianças precisam de afeto e carinho: “carinho. 1975/1981) na qual a criança serviria apenas para a diversão dos adultos é ultrapassada na concepção implícita na fala de Osmar. né?” (Francisco. afirmando que em sua concepção as crianças tinham direito a saúde. está associada a fala desse último participante.. não sendo apenas um objeto a serviço das vontades adultas.. assim. Francisco também citou que as crianças. A idéia de paparicação (Ariès.) alimentação. saúde.. tudo assim”. por não poderem cuidar de si sozinhas.. inclusive a ter deveres.98 educação. devíamos ensinar a ter deveres. por parte dos pais e tal” (Francisco..

Foram citados pelos participantes direitos e necessidades que se relacionam. De acordo com Osmar. Similaridade por Problemas Enfrentados Embora os participantes tenham salientado. Apesar de o participante não ter se referido diretamente a esse código.).99 Prioridade de Direitos Nesta categoria não foi frisado nenhum direito específico. pode ser visto como a garantia de proteção contra as violências e. do direito de ser bem tratado por todos e não ser abusado. Prioridade em todos os sentidos”. A resposta é dada de acordo com o que seria esperado do participante pelos pesquisadores. . um deles citou as semelhanças entre uma fase e outra do desenvolvimento. as diferenças entre crianças e adultos. as crianças teriam que ter suas necessidades e direitos assegurados com prioridade frente a adolescentes e adultos. sentem dor. possuindo direito de ser protegido contra os mais variados tipos de violência. Entretanto. etc. principalmente. sobretudo a garantia das necessidades básicas para a sobrevivência de uma criança (saúde. a forma como aparecem. Além disso. eu acho. alimentação. A prioridade de direitos é uma meta descrita pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (1990). Esta doutrina apregoa que crianças e adolescentes sejam concebidos como sujeitos de direito. Segundo Osmar (73 anos): “São seres humanos. No Brasil. os preceitos desta convenção basearam a formulação da Doutrina da Proteção Integral subjacente ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) promulgado em 1990. mas um dos participantes comentou que as crianças teriam prioridades de direitos em todos sos aspectos. de terem atendidas suas necessidades básicas que garantam a sua sobrevivência além de terem direito à participação nas decisões políticas e sociais que influenciam suas vidas e é exatamente esta convenção que embasa o ECA que os condena ou acusa. o tipo de resposta dada por ele pode sugerir que há uma disseminação ampla na sociedade sobre as leis que protegem a criança que passam a fazer parte das imagens sociais da criança. 73 anos: “Todos direitos. O amor e afeto citado por eles. por conseqüência. Isto se evidencia quando é solicitado um aprofundamento da resposta e o participante apenas consegue repetir o que já disse sem desenvolver a idéia. têm um conteúdo pragmático e estereotipado. As respostas citadas tanto para as necessidades quanto para os direitos das crianças estão de acordo com nova visão sobre a prioridade de direitos das crianças (criança como sujeito de direito) inaugurada e propagada pela Convenção Mundial sobre os Direitos das Crianças (1949).

passar a ser . definição por entrada na maioridade para transição da adolescência para adultez. A seguir. Definição por Contestação para a Transição de Criança para Adolescente Um dos participantes afirmou que o que define a transformação de uma criança em adolescente é contestação: “Eu acho que o que faz isso aí. que “criança não assimila problema. definição por responsabilidade parta a transição da infância para adultez. cada uma delas foi detalhada. definição por contestação para transição da infância para adolescência. definição por mudanças biológicas para transição da infância para adolescência. O participante não definiu que outros fatores seriam importantes para que uma criança passe a ser adolescente ou adulta.100 sentem os problemas”. enquanto as semelhanças não são frisadas. Observando as respostas dessa seção. Essas repostas denunciam que as crianças são concebidas como seres distintos que possuem necessidades e direitos e específicos. adolescente e adulta. mas alguns problemas são levados para elas. apenas citando que isso variava de indivíduo para indivíduo. Transição Não-Cronológica para as Demais Fases A resposta de um participante destacou que não havia uma faixa etária exata na qual se possa classificar alguém como criança: “Acho que isso aí depende muito da pessoa. 37 anos). Acho que não tem uma idade definida” (Francisco. dentre eles o direito de não ser tratado com carinho e afeto o que implicaria não ser violentada ou abusada. pois ambas se relacionam aos limites entre as fases infantil. ainda. Optou-se por agrupar as respostas dessas duas perguntas. percebe-se que as diferenças entre crianças e as pessoas das demais fases do desenvolvimento são enfatizadas. As respostas foram categorizadas da seguinte maneira: definição não-cronológica para a saída da infância para as demais fases. Varia muito de pessoa pra pessoa. né. definição cronológica com base na adoção das responsabilidades jurídicas na transição da infância para adultez. e elas sentem os problemas”. Processos Importantes na Transição da Infância para Adolescência/Adultez Nesta seção estão agrupadas todas as respostas que se referiram aos processos importantes na transição da fase infantil para a adolescência e/ou adultez inquiridos através da pergunta. Enfatizou. As respostas aqui se referem tanto as perguntas “até que idade uma pessoa é criança?” e “O que faz com que uma criança passe a ser adolescente ou adulta”.

. o que ela quer fazer. disso a pessoa seria capaz de assumir as responsabilidades jurídicas. Ah.. 37 anos). o que ela precisa de bem material” (Francisco. Já me falaram que é com 18” (Paulo.101 adolescente.. como se pode observar na fala desse participante... o que ela deseja fazer. se não se acha responsável. se torna. A partir do momento que ela começa a contestar. Nas palavras de Osmar (73 anos): “Muda ser atraído por outra pessoa e começar a gostar de alguém”. O critério responsabilidade para entrada na fase adulta já foi discutida anteriormente. mesmo deixando. A sexualidade pode ser entendida como um aspecto inexistente na vida de crianças. com a ajuda dos meios de comunicação de massa. 1981). mas quando já é responsável pelos seus atos. ela já pode ser considerada adulta: A criança deixa de ser criança na medida em que ela toma outro rumo na vida. livre dos pecados ligados ao sexo. A citação seguinte expressa esta última concepção: . 1998). que já é responsável pelos seus atos. por isso seria inocente. né. perante e lei. que se forma nos estudos. Desde os anos 50. O que ela quer. Essa última idéia permanece até os dias atuais. 22. que já é responsável pelos seus atos.. Depois. Que é.. conclui a faculdade. daí deixa de ser criança. Definição Cronológica com Base na Adoção das Responsabilidades Jurídicas na Transição da Criança para Adulta Outro participante comentou que “. A criança seria um ser puro. As idéias de pureza e inocência da criança foram herdadas pela sociedade em geral principalmente dos preceitos cristãos vigentes no ocidente (Áries. que é. 73 anos). Definição por Responsabilidade na Transição de Criança para Adulta Outro participou expressou que no momento em que a pessoa já sente-se responsável por si mesma. Chega.. disse que pra passar de maior tem que ser com 21 anos. é justamente a contestação.. na medida em que ela toma outro rumo. disse que pra passar.. né? Acho que daí ela deixa de ser criança. sendo apenas permitido (em parte) para os adolescentes. a adolescência passou a ser vista como uma fase de rebeldia (César. tendo certa idade. Definição por Mudanças Biológicas na Transição de Criança para Adolescente Apenas um dos participantes fez referência às mudanças corporais e da sexualidade como marcas de identificação da passagem da infância para a adolescência.

ela já pode ser considerada adulta. perante a sociedade. independendo da idade. Arranjar um emprego e agarrar pra vocês terem um futuro (Paulo. Vocês têm que pegar o rumo de vocês. Embora os critérios cronológicos ainda sejam válidos. Não é mais possível afirmar que uma pessoa por ser mais madura possui mais responsabilidade ou autonomia e que a criança por ser mais jovem não teria tais capacidades. que quando a pessoa já se sente responsável por si mesma. Comecei a trabalhar com 11 anos de idade. não é uma questão simples. por exemplo. eu já trabalhava. A citação seguinte exemplifica esta idéia: Ah. O primeiro é que a questão da responsabilidade surgiu. Definição por Entrada na Maioridade na Transição da Adolescência para Adultez Já a passagem da adolescência para a fase adulta seria marcada pela maioridade.. Contudo.102 Quer dizer que na parte da menina disse que até de 21. pois eles afirmaram. adolescente passa a ser adulto a partir do momento que. As duas categorias anteriores possuem dois pontos em comum. né. No meu caso antes de eu fazer 18 anos eu já tinha família.. Eu mesmo lá comprei uns terrenos. incluindo a infância.. que eles num puder assumir quanto num completou 18 anos. assinei carteira com 15 anos.. O que muda é que as eles vão ter que fazer a vida deles por si próprios. se a pessoa já é responsável por si mesma e por outros. já me autosustentava e. pra deixar pra cada filho no dia que Deus me levar. A variedade de respostas denuncia que definição sobre as “fronteiras” para cada uma das fases da vida. Esse tipo de concepção foi constatado nas falas dos participantes. Então com 17 anos eu já tinha família. umas coisas. Nota-se que há certa confusão em definir as características de acordo com a faixa etária. (Francisco. uma pessoa será adulta apenas quando se tem permissão para assistir certos tipos de filmes ou dirigir. não foi dessa maneira. Pra mim. Quer dizer que num se governa.. sem que fosse considerada a adolescência. Mas pra mim acho que a pessoa. E.. né? Quer dizer que aí. 73 anos). 37 anos). Esse critério da maioridade seria apenas teórico. como um critério para a passagem da infância à adultez.. perante a sociedade. teoricamente. Foi um pouco diferente. completa a maioridade. né. pois na prática.. O segundo relaciona-se ao fato de as duas respostas sugerirem que há uma passagem direta da infância para a adultez. pois a responsabilidade poderia pertencer tanto a alguém mais jovem . 2005). então comigo não foi assim. No meu caso. em ambas. a faixa etária não pode mais ser compreendida como uma característica básica para delimitar os períodos da vida (Salles. ela já pode se considerar adulta.

Outro ponto que precisa ser analisado é consideração de dois participantes sobre a passagem direta da infância para a adultez. as respostas a essa pergunta se relacionaram a responsabilidade e dessa vez mais especificamente a autonomia. uma vez que as crianças (e os meninos) não teriam que ser mais obedientes. considerem que a passagem da infância para a adultez ocorra diretamente. e que por isso já se sentia adulto desde essa época. serão apresentadas as respostas a pergunta “O que faz com que um menino passe a ser adolescente ou adulto?”. Autonomia Novamente. Assim. acho que é aquilo que eu lhe falei. Um deles (Flávio) afirmou que desde os 12 ele começou a trabalhar. as respostas m apresentadas aqui se relacionam em alguma medida com concepções sobre as fases da vida moderadamente já aceitas pela sociedade. Assim. 37 anos). Assim. Vou ser dono do meu nariz” (Flávio. contestação e critério cronológico. eles deixariam de ser crianças e se tornariam adolescentes. as experiências pessoas podem ser importantes nas concepções que eles têm acerca dos ciclos da vida. Na fala de Flávio: “É. O outro (Paulo). Acho que ele deixa de ser criança no momento que ele toma as rédeas da vida dele. marcando assim o inicio da sexualidade como critério para a entrada na adolescência: “Por si mesmo. Transformação de um Menino em Adolescente/Adulto Nessa seção. como a questão da responsabilidade como marca da vida adulta e início da sexualidade em contraposição a pureza da criança. Mudanças Biológicas Apenas uma das respostas enfatizou as mudanças corporais (nascimento de pêlos) e atração pelo sexo oposto. né? Que ele diz assim ‘eu vou ser isso agora. Esse tipo de resposta remete a questão da obediência já discutida anteriormente. sentir certo impulso. As categorias foram agrupadas da seguinte maneira: Autonomia. . Além disso. a partir do momento em que um menino assume uma postura de autonomia frente a sua vida ele se tornaria adulto. mudanças biológicas.103 quanto a alguém mais velho. se referiu a ele ou como criança ou como adulto. podendo ser mais autônomos. As declarações dos participantes sugerem assim que eles por não terem passado por uma fase que eles possam chamar de adolescência.

Transformação de uma Menina em Adolescente/Adulta As respostas foram bastante semelhantes as da pergunta anterior. Contestação Ao ser questionado sobre qual aspecto seria importante na passagem da infância para a vida adulta ou para adolescência no caso das meninas. Pêlos e coisas”. demonstrando que os participantes possuem uma visão lógica sobre as crianças e as demais fases da vida. Contudo. serão descritas cada uma dessas categorias. A seguir. 37 anos) foi outra resposta dada como marca do início da adolescência de um menino. se transformaria em adolescente a partir do momento em que ele comece a ter comportamentos de contestação. contestação.104 atração pelo sexo oposto. A as mudanças físicas. 70 anos) como sendo o critério necessário para que um menino passe a ser adulto. as categorias foram agrupadas de maneira semelhante: Autonomia. Francisco (37 . Definição Cronológica A questão da idade (18 anos) foi novamente reiterada por um dos participantes (Paulo. Mais uma vez a resposta sobre autonomia se repetiu. mudanças no corpo e começar ver que esta a nascer é. Nota-se que esse participante possui um conhecimento mais específico sobre as mudanças fisiológicas (nascimento de pêlos) e comportamentais (atração pelo sexo oposto relacionado ao inicio da sexualidade) envolvidas na transformação de um menino para adolescente. o menino como uma pessoa qualquer. é. Assim. mudanças corporais semelhantes a dos meninos. Contestação A “contestação” (Francisco. Segundo o participante. a dimensão perda da virgindade foi comentada apenas como um processo importante para a entrada das meninas na adultez. Autonomia Flávio (37 anos) respondeu que a menina a partir do momento que ela “tomar conta da vida dela” ela já pode ser considerada adulta. As respostas até este momento pareciam ser coerentes entre si.

De maneira geral. Embora o participante afirme que não acompanhou o desenvolvimento de suas filhas. Não sei. as taxas de virgindade entre adolescentes são mais baixas na atualidade. Pode-se concluir também que considerar a perda da virgindade como fator primordial na passagem da infância para a fase adulta pode negligenciar outros fatores importantes desse processo. Mudanças Corporais Semelhantes as dos Meninos Um dos participantes relatou também que acreditava que as mudanças que aconteciam para s meninos se assemelhariam aquelas das meninas Contudo. por exemplo. pois ele afirma que “uma guria quando não faz erro” é aquela que é “virgem” (Paulo. nenhum tem aquele ditado: é virgem” (Paulo. ainda é vista como um símbolo da pureza da menina. a mãe que dava orientação em tudo. eu sempre criei as minhas filhas assim. Por haver uma diminuição na valorização da virgindade feminina. a ficar mulher (.. Essa valorização torna-se mais visível quando o participante associa a perda da virgindade ao “erro”. ou se perder. respostas como a deste último participante revelam que a valorização da virgindade. esse seria o processo principal que caracterizaria a passagem da infantil para a fase adulta em uma menina: “Quer dizer que aí. A frase seguinte ilustra a idéia desse participante: “Deve ser igual aos meninos. 73 anos). Perda da Virgindade A única resposta que se diferenciou das demais foi a categoria “perda da virgindade”. como os cognitivos.) ter contato com o marido dela ou se juntar.105 anos) respondeu que “A responsabilidade. conforme apontado por Taquette (1997) e Heilborn e Bozon (2001). as respostas dos participantes denunciam que não foram consideradas diferenças entre meninos e meninas no que diz respeito à passagem da .. 70 anos). Contudo. Para a menina eu não conheço. ele ainda assim exibe algum conhecimento sobre as mudanças que ocorrem na vida de uma menina no período de transição da infância para adolescência. pois não pode observar mais aproximadamente o desenvolvimento de suas filhas adolescentes. 73 anos). Essa foi a única resposta que apontou para diferenças na passagem da infância para adolescência/adultez de meninos e meninas.. Se perder uma guria quando não faz erro. ele comentou que não poderia citar quais diferenças eram essas. (A mesma coisa?) A mesma coisa”.. De acordo com um dos participantes. mas. ela que sabia” (Osmar. Não tem diferença.

Segundo Francisco. 37 anos). dois dos participantes consideraram que há uma passagem direta entre a infância e a adultez. Diferenças por Proteção/Cuidado e Facilidades Segundo um dos participantes. Diferenças por Atividade/Passividade Os meninos foram tidos como “mais ativos” e as meninas como “mais quietas” (Flávio. 37 anos). Safiotti (1998) comenta que esta diferenciação entre meninos e meninas baseada na dicotomia atividade/passividade geraria também diferentes tipos de violência contra estes dois públicos. educadas. As respostas foram categorizadas como diferenças por quantidade de atividade. As semelhanças entre meninos e meninas foi mencionada por participante e foi classificada na categoria semelhanças entre meninos e meninas. já que elas seriam obrigadas a concordar com esse tipo de abuso.106 infância para adolescência ou para adultez. portanto. diferenças de brincadeiras que envolvam aspecto sexual e diferenças por autonomia. 2005). Esta resposta repete o que Souza (2000) observou entre pais de escolares. tanto no caso das meninas quanto no caso dos meninos. afirmando que os meninos foram vistos como duros. as meninas foram vistas como “mais protegidas e cuidadas” tendo também mais facilidades: “(as meninas) levam a parte melhor” (Francisco. Diferenças e Semelhanças entre Meninos e Meninas Nesta seção. serão relatadas as respostas a pergunta: “Meninos e meninas: No que são iguais? No que são diferentes?”. precisariam de menos proteção que as meninas. Segundo o próprio participante. agitados. pois elas seriam mais vulneráveis. entre outras. agressivos. Mais uma vez. Isso aconteceria. diferenças por proteção/cuidado e facilidade. e que. sendo educadas até mesmo para não revelá-lo. esse tipo de concepção estaria associada ao pensamento machista vigente na sociedade que dita que os meninos são mais fortes. Já para as meninas. Tal distinção seria ocasionada pela criação diferenciada dirigida a meninos e meninas. tendo mais facilidades. levados e as meninas como passivas. comportadas. 37 anos: . a sua obediência e submissão facilitariam a violência sexual contra elas. A educação para a submissão é um facilitador para este tipo de abuso contra meninas (Narvaz. A violência física seria a mais utilizada como um modo de repreensão e controle para a intensa impulsividade dos meninos.

né. a guria não vai brincar.. Sei lá. a guria não pode fazer.”. 2005). é mais forte. assim. constrói-se a noção de que os impulsos sexuais masculinos (e suas expressões) são incontroláveis. é o mais saudável. ainda estão presentes nos dias atuais. Esse tipo de crença é especialmente perigoso no que diz respeito aos casos de abuso sexual. Menos vulnerável.. O que o guri faz. 1994). É. na medida em que eles podem alegar que não tiveram meios de conter seus impulsos.. Então os meninos sempre são mais deixados de lado. tipo assim. As coisas melhores são pra meninas. Guri é guri. como foi notado na fala desse último participante. Na sociedade atual.. que a menina. Mas seria. O menino é menino. Porque. Além disso Paulo (70 anos) afirmou que: “O guri fica tirando o tiquinho pra fora. verificou-se que tanto adolescentes do sexo masculino quanto do sexo feminino destacaram que os homens possuem uma natureza sexual irrefreável. essa concepção se aplicaria mais aos homens (Giffin. Aquele ditado: ‘um garotinho que tá se criando homem’. Pra menina fica.. Mas. Através dos resultados desse último estudo nota-se que a compreensão de que homens possuem impulsos sexuais irreprimíveis não é exclusiva de homens acusados de cometer delitos sexuais contra crianças. a conduta sexualizada seria mais permitida por parte dos meninos. nenhum pode. né?’ Nenhum pode. Esse último tipo de conduta seria reprovável para as meninas. assim. um pouco por parte de .. aquelas que os meninos “fica dizendo palavrão “. é mais isso.. Assim.. Ele é o mais forte . Esse último tipo de resposta revela que a noção de fragilidade e a conseqüente necessidade de proteção da mulher. Em estudo na África do Sul. Diferenças de Brincadeiras com Aspecto Sexual Outro participante (Paulo. cabendo a mulher a tarefa de controlar os impulsos sexuais (Petersen et al. 70 anos) relatou que “eu acho conforme o brinquedo que o guri brinca. Esta percepção faz com que as condutas sexualizadas de meninos sejam mais bem aceitas. simplesmente por eles serem do sexo masculino. mais aquilo. apesar de a sexualidade ser vista como algo natural para a espécie humana.. como se fosse machismo da parte da. E a guria já tem uma diferencinha”. como por exemplo. Não precisa de tanto cuidado. E mostrar também. De acordo com esse participante.. Além de poder ser usada como justificativa no caso . Fica mais feio.107 A menina ela é sempre mais protegida. criadas a partir dos modos de organização patriarcais de organização da sociedade (Strey. A menina sempre leva a parte melhor.. 1998). Ela pode servir como justificativa para as condutas de homens que cometeram violências sexuais contra crianças. No certo.

108 do próprio abusador. jurídica. passivas. foram conservadas e mais valorizadas por serem consideradas dinâmicas. e membros da área. atuando como padrão do que significa ser homem ou mulher. em um determinado momento (Graciano. valores que são tidos como apropriados para cada sexo. entre outras). enquanto os homens foram vistos como agressivos. frágeis e quietas. por sua vez. afetuosas e pacientes... Mas nos sentimentos são iguais” (Osmar. Então seus sentimentos são iguais. Essas características foram se constituindo como papéis sexuais. por que são humanos. 73 anos). há uma visão majoritariamente estereotipada em relação às diferenças entre meninos e meninas. comentando que “Eu acho. percebendo o sexo masculino como mais forte e ativo e as meninas como mais protegidas. competitivos e independentes (Biaggio. Semelhanças Entre Meninos e Meninas Apenas um dos participantes dês te estudo realçou as semelhanças entre meninos e meninas. por exemplo) podem também possuir a mesma percepção. sem expressar sua sexualidade. Agora. Iguais no sentimento. Assim. pois ao longo do tempo ela foi exercendo tarefas mais passivas e domésticas. em uma determinada cultura. De acordo com Bonamigo e Koller (1995). fortes. pode-se notar uma distinção nas funções arrogadas a homens e mulheres. profissionais. a visão de que os comportamentos de expressão sexual seriam mais permitidos aos meninos. 1979).. que não as impedissem de cuidar da prole. que seriam o conjunto de normas referentes às atitudes. tanto um como outro. enquanto as meninas teriam que comportar-se de maneira “moral”.. até nas culturas mais primitivas. livrando o abusador de sua responsabilidade. As funções masculinas de manutenção (material. Acrescenta-se a isso. as pessoas envolvidas na situação (parentes. Apenas esta última resposta frisou as semelhanças entre meninos e meninas. pode-se notar que os homens entrevistados compartilham dessa visão estereotipada dos sexos. comportamentos.diferentes? Simplesmente no físico. 1981). Vinculados aos papéis sexuais estão os estereótipos sexuais. foram sendo consolidadas características determinadas a cada um dos sexos. A consolidação dessas diferenças baseou-se principalmente na função materna da mulher (Rosaldo & Lamphere. A partir das funções exercidas pelos dois gêneros. 1978). . As mulheres foram tidas então como dóceis. Com todas as respostas aqui descritas.

As respostas foram agrupadas a partir das seguintes categorias: resposta pragmática. enfatizaram o estado emocional da criança Já. as respostas de angústia pessoal expressaram exclusivamente o estado emocional do participante. ou seja. A seguir. cujo conteúdo indica a percepção do estado emocional de outrem (Eisenberg & Strayer. “O que você sente quando vê uma criança chorando?” e “O que você sente quando vê uma criança gritando?” tinham como objetivo avaliar processos empáticos dos participantes. Esses dois tipos de afirmações revelam que esses homens . sem expressão de sentimentos. Finalmente. posteriormente. 73 anos). que “Simplesmente deixo dormir por que estava cansada. Nesse caso. resposta de sentimentos positivos resposta e de angústia pessoal. “O que você sente quando vê uma criança brincando?”. 37 anos). um deles apesar de afirmar que “Eu não sinto nada” (Osmar. cada um dessas categorias será exemplificada de acordo com as perguntas feitas aos participantes. Não foi expresso nenhum tipo de sentimento empático. idade). se referir diretamente à condição emocional dela. ou seja. resposta empática. destacaram os sentimentos dos participantes congruentes com o estado emocional da criança. por sua vez. “ela tá em paz” (Flávio. sinto que é uma necessidade da criança por que deve estar cansada” (nome. As respostas pragmáticas foram aquelas nas quais houve uma definição utilitária e objetiva da situação. as respostas com sentimentos positivos. Resposta Empática Outro participante disse que a criança por estar dormindo. no entanto. se consideramos que a empatia é “sentir com” o outro (Eisenberg & Strayer. sem. 1990). Em outra resposta. comentou.109 Empatia As questões seguintes “O que você sente quando vê uma criança dormindo?”. O que Você Sente Quando Vê uma Criança Dormindo? Resposta Pragmática Um dos participantes quando indagado nesta questão citou que “É uma criança dormindo”. As respostas empáticas. sem a expressão de sentimentos. revelando capacidade de apresentar uma resposta empática. 1990). o participante inferiu o estado emocional da criança que dorme. a resposta sugere uma definição pratica. mostrando uma fuga da resposta na qual se utiliza os termos da própria pergunta.

os sentimentos positivos expressados pelos participantes mostram-se congruente com o comportamento lúdico da criança. Respostas com Sentimentos Positivos Um dos entrevistados citou que “Eu me sinto tando brincando ta com saúde” (Paulo. pois o participante revela seu incômodo com a brincadeira e em nenhum momento destaca o sentimento das crianças que brincam. . Ah. 73 anos). mas dependendo se for uma brincadeira calma. 37 anos). Aqui não é revelada diretamente a condição emocional da criança. Contudo. O estado emocional do entrevistado (irritado) revela-se incongruente com o estado emocional da criança que brinca. Resposta de Angústia Pessoal Outras respostas enfatizaram apenas o estado emocional do entrevistado. de acordo com a definição de Eisenberg e Strayer (1990). Tem algumas brincadeiras que me irritam um pouco. Uma outra resposta centrou-se no estado emocional positivo do participante: “Eu sinto felicidade” (Osmar. Essas coisas assim” (Francisco. que não fizer muito barulho assim eu acho legal. são empáticos. Gosto.110 são capazes de perceber os estados emocionais das crianças (nesses casos. “estar paz” ou “estar cansada”). correria. O Que Você Sente Quando Vê uma Criança Brincando? Resposta Pragmática Mais uma vez aqui se repetiram as respostas pragmáticas. gritaria. né. O participante expressa claramente o estado emocional que a brincadeira da criança gera. Esse tipo de resposta revela uma proximidade com aquilo que Eisenberg e Strayer (1990) denominaram de angústia pessoal. Talvez a expressão não seja clara do sentimento positivo do participante. Um dos apenas participantes afirmou: “Que ela tá brincando” (Flávio. 70 anos). mas pode ser inferido que em sua compreensão a criança está bem para poder brincar. 37 anos). pois em sua fala ele afirmou: “Isso varia um pouco do tipo de brincadeira. através de pistas do seu comportamento (dormir) e que portanto.

Me incomoda. 1990). 73 anos). se é que com um jeito que tá doente. apesar de não enfatizar o estado emocional específico da criança. né. 1990). ou tá com um gesto que tá doente. 73 anos). Resposta de Angústia Pessoal Um outro participante afirmou que sente “muita dor e tristeza” (Osmar. está claro que há mais consideração ao incômodo pessoal do participante do que aos sentimentos da criança que grita.. né. Tem que ver que não caiu. frisando a perspectiva da criança e não o seu próprio estado emocional. 37 anos).111 O Que Você Sente Quando Vê uma Criança Chorando? Resposta Pragmática Um dos participantes faz referência a uma resposta utilitária sobre os motivos do choro. Um deles enfatizou que “Que ela tá com algum problema” (Flávio. indicando assim estresse pessoal (Eisenberg & Strayer. Resposta Empática Duas respostas denotaram empatia por parte dos participantes. atesta que o participante pode identificar o desconforto dela expresso pelo choro. Esse tipo de declaração está claramente ligado a uma focalização sobre os próprios sentimentos aversivos.. . eu sinto tristeza. Tem crianças que choram porque não ganharam um iogurte. A primeira resposta. eu sinto nervosismo. Nesse caso. O Que Você Sente Quando Vê uma Criança Gritando? Resposta de Angústia Pessoal Uma das respostas relacionadas à angústia pessoal foi a seguinte: “Ah. 73 anos). né?” (Paulo. 37 anos). Aí vai depender” (Francisco. E tem crianças que choram porque tão com fome. Nessa frase. ao notar e compreender a situação da criança. fica implícita a idéia de que o que ele sente vai depender da plausibilidade do motivo. A segunda revela um sentimento aparentemente empático do participante. e outro afirmou: “Quer dizer que aí depende. tem que levar no posto de saúde ou no hospital. o motivo que ela ‘tá chorando. sem revelar o que ele sente ao presenciar a situação: “Aí depende do. assim. sugerindo que há nesse caso angústia pessoal (Eisenberg & Strayer. dor” (Osmar. não se machucou. Realmente.

sentada. Nos dois. eu acho que nada ta existindo com ela” (Paulo. a criança ta alegre. quando tá em apuros. se os déficits de empatia estão mesmo associados às situações de abuso como mostram alguns estudos (Pithers. 2000) afirma que muitos abusadores apresentam um índice normal de empatia geral. pois em várias situações eles foram capazes de “sentir com” as crianças. Fisher (in Webster & Beech. não havendo consideração pelos sentimentos alheios. montada em cima de um banco alguma vai ter. As perguntas feitas em relação aos comportamentos das crianças tinham como objetivo detectar os processos empáticos dos participantes. né. pelo menos em parte. Todo mundo é igual. 2000). como afirmam Eisenberg e Strayer (1990) em estratégias auto-orientadas ao lidar com os sentimentos do outro. na real. houve a focalização no estado emocional da criança o que revela um verdadeiro sentimento empático (Einsenber & Strayer. Pode-se observar que as respostas variaram desde expressões genuínas de empatia. Ou ta triste. 1999. pra saber por que ela ‘tá assim”. Ela tá em apuros. Estes mesmos autores respondem a este questionamento. pois tais sentimentos podem levar os participantes a se engajar. ela tá braba com alguma coisa. como eu me sinto na minha memória. É porque eu também não sei qual é o motivo que ela tá gritando. ou ta doente. A resposta de Francisco (37 anos) também expressou um comportamento empático: “É aquilo que eu te falei. Por outro lado. Todo mundo grita”. Pode-se se questionar então. então a gente tem que conversar com ela. 1990). A expressão de sentimentos aversivos (angústia pessoal) frente aos comportamentos infantis é especialmente preocupante. Com a criança ‘tando quieta. 70 anos). né. Webster & Beech. se ela tá gritando. Ela tá em emergência. né. Um outro participante relatou que “Uai. Ela pode tá gritando por socorro. foi visto nos resultados aqui apresentados. as respostas de angústia pessoal não foram exclusivas. Isso aí vai depender também. Esse aspecto. . Pode-se pensar que o abuso sexual de crianças é uma estratégia auto-orientada e disfuncional executada pelos participantes quando sofrem de sentimentos aversivos frente às dores dos outros. Agora.112 Resposta Empática Flávio (37 anos) responde: “Se ela tá gritando? Ah. Ela tá gritando por socorro. esteja brincando pulando. pois respostas empáticas também estiveram presentes. Na execução dessas estratégias importaria apenas o alívio das “dores” dos participantes. passando pelas respostas pragmáticas que não demonstraram nem os possíveis sentimentos da criança nem dos participantes até aquelas que destacaram apenas os estados emocionais (aversivos ou positivos) dos participantes.

pois não houve meios de verificar esse aspecto. Sentimentos e Comportamentos Positivos A maioria dos participantes citou sentimentos e comportamentos positivos que deveriam existir entre adultos e crianças. os participantes alegam que há uma necessidade de se analisar a plausibilidade dos motivos para tais comportamentos. essas idéias de uma infância na qual todas as necessidades são consideradas parecem se localizar mais em um nível abstrato. os dados relatados não estarão permeados pelo que é socialmente aceitável. Um deles citou que “Adulto e a criança têm que ter respeito. No entanto. Esse déficit específico em relação à vítima pode ter ocorrido com os participantes desta pesquisa. Ao relembrar respostas anteriores sobre “o que é ser criança” e as sobre as necessidades e direitos delas. para só depois. seria um déficit de empatia com uma vítima específica e não uma deficiência geral nos processos empáticos. já que todos eles apresentaram alguma empatia nas situações descritas. revela que suas necessidades não possuem tanta visibilidade. né” (Flávio. o que não foi o caso deste estudo. relação de cuidado e respostas sobre a moralidade. não se pode afirmar isso com certeza. Estudos que questionem como as relações com as vítimas se estabeleceram são essenciais para que se entenda se esses déficits específicos realmente ocorrem. por exemplo. As respostas foram organizadas nas seguintes categorias: Sentimentos e comportamentos Positivos. possuindo também prioridade de direitos. pois as falas dos participantes sobre os estados emocionais das crianças. percebe-se que os participantes possuem uma visão positiva da criança. Apenas assim. 37 anos). Isso é atestado. em situações mais práticas e concretas. na qual suas necessidades devem ser prontamente atendidas. atender as necessidades delas. haveria uma relação de cordialidade recíproca entre adultos e crianças na qual o adulto deveria ser cortês e ter respeito pelo adulto e vice-versa. Aqui. né? Cordialidade entre eles. Contudo. Contudo. serão descritas as respostas para as pergunta “Descreva para mim como deve ser a relação entre uma criança e um adulto”. esses estudos devem ser conduzidos junto a abusadores que reconheçam que tenham abusado das crianças. .113 sugerindo que o que aconteceria nos casos de abuso contra crianças. Descrição da Relação Ideal entre Adultos e Crianças Nesta seção. quando ao chorar ou gritar.

Percebe-se que estes dois participantes fizeram referência às pessoas da família como aquelas que teriam maior obrigação de acompanhar a rotina das crianças e de atender aos seus pedidos. ela é muito preguiçosa sabe. 37 anos). nuclear) deveria ser o local privilegiado da educação pelo “futuro da nação” (Ribeiro. apesar de ela ser inteligente ela é muito preguiçosa. o cuidado dessa criança (Ariès. Conceber a criança como sendo de responsabilidade apenas da família gerou a divisão entre os filhos de família e os órfãos. que teria como um dos objetivos principais. cometer abusos contra estas crianças que não sejam da família pode ser mais permissível que abusar das crianças do próprio núcleo familiar. categorias opostas de crianças que estavam presentes como alegorias das crianças nos Códigos de Menores de 1924 e 1929. Tal idéia no Brasil foi difundida. Assim. considerar a criança como sendo de responsabilidade apenas da família ainda pode ser vista nos dias atuais. Que a minha grande. pelo menos em termos jurídicos pela ocasião da promulgação do Estatuto da Criança e do Adolescente. Assim. As crianças que não tinham família eram consideradas apenas dever do Estado que dirigia a elas uma disciplina opressiva. e afirmou: Vejo se a pequena tomou banho. comentando também que “Pra quem cuida dela. (Francisco. enjeitados e delinqüentes. como comenta Londoño (1999). ele teria que coordenar as atividades diárias das suas filhas. eu não vou te levar’. Ela não quer fazer tema. sobretudo. 70 anos).. Tem que ter tudo pronto. tem preguiça. pelos higienistas no século XIX. Contudo. os cuidados da criança seriam dever de sua família e não mais de outros núcleos sociais. como explicitam as respostas dos participantes. . O movimento ditava que a família (monogâmica. Essa tipificação das crianças foi ultrapassada. Outro foi mais específico sobre a questão dos cuidados com as crianças. Esse tipo de atitude frente às crianças pode implicar na pouca consideração e até em violência contra crianças que não seriam de responsabilidade da família nuclear. 2006). Então eu tô sempre coordenando. não quer.. no meu pensar que ta entristecendo a criança. família nenhuma pode fazer isso”. Dou uma passada nos cadernos dela. A visão da criança como alguém que precisa ser cuidada está historicamente associada à formação da família nuclear. ‘Não.114 Relação de Cuidado Um participante respondeu que “Adulto é que tem que tratar a criança bem” (Paulo. Eu acho que é dever de família. Assim. 1975/1981). se a grande trouxe tema pra fazer. justamente.

. pode ter um comportamento que ela mesmo não sabe que não é correto. Sexo das Vítimas Perguntou-se as participantes o sexo das crianças envolvidas na denúncia. Não. Tal concepção tem aparecido nos discursos sociais desde os preceitos moralistas e religiosos do século XVI. De que aquilo ali pode ser alguma coisa errada. para começar. não sabe o quê. demonstram-se as respostas estereotipadas dos participantes da pesquisa. revelando a idéia da inocência da criança. No estudo de Almeida e Cunha (2003) este mesmo tipo de concepção apareceu entre professores de crianças. pois elas possuem discernimento moral. descritos por Ariés (1975/1981). ele devia de evitar. Apenas um dos participantes havia sido acusado anteriormente de . a pessoa adulta que pode chegar a ultrapassar. os participantes demonstraram ter clareza sobre como adultos devem se comportar frente as crianças. Mais uma vez. e que a relação com o adulto deve ser pautada no respeito e nos sentimentos e comportamentos positivos. Agora. a barreira dos limites da moral. Caracterização das Vítimas A seguir são expostas as respostas dos participantes em relação às características das vítimas. então o adulto está consciente do que faz e deve respeitar a criança.115 Respostas Sobre a Moralidade Para um dos participantes (Osmar. quem sabe. às vezes. 73 anos). Não tem consciência. Vítimas do Sexo Feminino Todas as vítimas envolvidas nas denúncias contra os participantes eram do sexo feminino. os adultos teriam que corrigir as crianças. A criança não conhece.. Não tem consciência que pode ser alguma coisa errada. De maneira geral. tem um comportamento sem pensar. eles às vezes não sabem o que estão fazendo. As respostas foram agrupadas em uma categoria única denominada vítimas do sexo feminino. ela não sabe. que descreviam as crianças como seres assexuados ou livres dos pecados do sexo.. quando questionados acerca das características que melhor descreveriam as crianças e a fase infantil. Com essa citação pode-se notar que o participante atribui ao adulto a obrigação de evitar “erros morais”. sem que haja coerção ou violência. não sabendo distinguir entre certo e errado: Criança.. Até a criança. O adulto sabe o que está fazendo.

116 um abuso contra uma criança do sexo masculino. Aparência Física das Vítimas A aparência física da vítima também foi outro aspecto investigado. A preferência por vítimas do sexo feminino é relatada em diversos estudos (De Lorenzi. 2005. 1998)..2005. eu acho”. Vítimas Crianças Duas das vítimas eram crianças com idades de 6 e 10 anos cada uma. estando intimamente intricada com a manutenção do segredo. Nesse estudo. pois elas seriam educadas para obediência e para submissão (Narvaz. Beleza da Vítima Os participantes avaliaram como bonitas as crianças e adolescentes que eles foram acusados de abusar. Idades das Vítimas Foram indagadas também as idades das vítimas envolvidas com a denúncia. (1995) como sendo uma . pois “faz parte do jogo” da obediência não apenas aceitar o abuso. A faixa etária das vítimas parece estar de acordo com as médias dadas por Elliot et al (1995). Elliot et al. et al.. Estas teriam que se submeter a todos os pedidos e ordens advindas de homens mais velhos e com mais autoridade que elas. As respostas se agruparam na categoria única: Beleza da vítima e recusa em avaliar a aparência da vítima. pois segundo este estudo a idade das vítimas varia de 8 aos 13 anos. mas também não revelá-lo a ninguém. A submissão e a obediência não estariam associadas apenas ao início do abuso. Safiotti. cada um delas com 13 anos de idade. Essa característica foi discutida por Elliot et al. 2001. 1998) A violência sexual contra meninas. Habigzang et al. as idades das vítimas variaram. As respostas foram agrupadas nas seguintes categorias: Vítimas crianças e vítimas adolescentes. é mais freqüente. 1995. Vítimas Adolescentes Três vítimas eram adolescentes. Saffiotti. A resposta de Osmar (70 anos) serve para exemplificar o tipo de resposta dada pelos participantes de maneira geral: “Ela é bem bonitinha.

Insistiu-se pra que ele justificasse o motivo pelo qual ele não podia se pronunciar. 37 anos) ou como “muita esperta”. Recusa em Avaliar a Beleza da Vítima Um dado vale a pena ser comentado: um dos participantes respondeu que não poderia se pronunciar sobre a beleza da filha. Koller (1999) comenta que algumas vezes crianças com deficiência física ou mental podem ser escolhidas como vítimas. As respostas foram organizadas em uma categoria única: Ausência de deficiências. 42% de 91 abusadores sexuais infantis. isso indicaria que ele jamais cometeria abuso sexual contra ela. Penso eu na minha criação que eu tive”. . Ausência/Presença de Deficiências Averiguou-se também se os participantes identificavam algum tipo deficiência (física e/ou mental) em suas vítimas. no entanto. pois isso não seria correto de sua parte. pois se o participante nem pode avaliar a beleza da filha. Agora. Segundo esses autores. mas ele apenas respondeu o seguinte: “Olha. (Flávio. As vítimas foram descritas como “muito inteligente” (Francisco. diz os antigos que pai não acha filha bonita. ela não serve pra feia e nem bonita. não tendo como revelar o fato. As respostas foram agrupadas em duas categorias: Características positivas e características negativas. Atitudes Foi solicitado também que os participantes relatassem que outras características eles poderiam identificar nas crianças e adolescentes envolvidas na denúncia de abuso sexual contra eles. Ausência de Deficiências Todos os participantes afirmaram que a as crianças vítimas do abuso não possuíam nenhuma deficiência física e/ou mental. responderam que procuram por vítimas de boa aparência física. pois seriam mais frágeis e vulneráveis. Essa característica da vítima não esteve ligada. também. A resposta desse participante parece ter como objetivo transparecer a idéia de uma posição politicamente correta. 37 anos). a nenhum dos casos dessa pesquisa.117 importante característica para a escolha da vítima.

Muitos abusadores se valem desse tipo de autoridade para desacreditar as vítimas perante os outros. Quando ela vai falar alguma coisa. essa característica pode ser vista como associada ao início e a manutenção do abuso sexual dessas meninas. fazendo com que ela seja vista como mentirosa. 38 anos). 70 anos) pelos participantes.. as vítimas de abuso sexual são desacreditadas (Morales & Scharamm. o participante tenta depreciar a vítima. Essa convicção teria feito com que as pessoas acreditassem em sua “mentira” sobre a tentativa de estupro. A autoridade do adulto nesse ponto pode valer mais que a fala da criança e do adolescente.. às vezes tava também” (Marcos. a beleza e a relação de proximidade com o abusador foram as respostas que se aproximaram com os dados apresentados respectivamente nos estudos de De Lorenzi et al. Neste estudo. . Lawson (2003) realizou um levantamento teórico em estudos de 1982 a 2001 sobre as principais razões que os abusadores alegavam para o cometimento de atos abuso sexual contra crianças. A maioria feminina. Mas. Nesse caso.. Talvez a menina tenha sido convincente na primeira declaração dela. Outros adjetivos usados para classificar as vítimas foram como “bacana” (Flávio. 2002).. Freqüentemente. Num era todas às vezes que eu chegava era que ela tava na rua. Quando ela vai falar alguma coisa ela chora. né? Ela é assim. Um deles enfatizou inclusive que a vítima era a mais obediente de seus filhos: “Ela inclusive era mais obediente.. acho que ela é muito convincente. A maioria delas foi descrita como “obediente” (Paulo. 38 anos) e “educadas” (Paulo. enfatizando que ela mentiu..70 anos). Atitudes Negativas Flávio (37 anos) classificou sua enteada como uma pessoa convincente: Eu não sei. Aqui o entrevistado claramente tentou utilizar uma característica da vítima para escapar a acusação. Então. ele sugeriu que ela estaria mentindo em suas alegações. Ela é muito chorona. né? Ela tem costume de. apenas a título de sugestão. pois o adulto saberia mais sobre o certo e o errado. assim como fez Flávio.118 Atitudes Positivas As atitudes das crianças e adolescentes vítimas do abuso foi descrita de maneira diversa. Aqui cabe um comentário. Mais uma vez. foram encontrados apenas alguns dados que estão de acordo com o perfil de vítima traçado pelos estudos. Ela comenta que uma estratégia freqüente usada por abusadores é alegar que a vítima mentiu sobre o abuso sexual. Quando Flávio se referiu a sua vítima como convincente. mas obediente um pouco que os outros.

2005). combinados entre eu e a minha esposa a gente.. antes mesmo da acusação de abuso sexual. não a considerava como filha. como comentam Elliot et al. Contudo.. Eliot (1995) e de Habigzang et al. a inocência.. né? E eu muito agarrado nela. e . Então. não foram encontradas as características relacionadas a deficiência física (Koller.. Qualidade das Relações entre os Participantes e as Vítimas A relação entre a criança vítima e os participantes foi outro quesito investigado. avó e padrinho).. mas quase todas podem ser classificadas como positivas.119 (2001).. As respostas foram organizadas duas categorias: relações positivas e relação de vigilância. (1995). né. sempre que a gente podia a gente dava tudo pra ela.. apenas como afilhada.. pois todos exerciam papéis de cuidadores (pai. 2001. De Lorenzi et al. Habigzang. Vínculo com o Abusador Perguntou-se aos participantes qual era a relação com a vítima envolvida na denúncia de abuso contra eles. (2005) e outros. Relações Positivas A relação com as vítimas foi particular em cada caso. começou ela a crescer e o pessoal começou a buzinar tanto na minha cabeça que na dela. Ela muito agarrada a mim.. As respostas foram classificadas em uma única categoria chamada relação de proximidade entre a criança e o perpetrador... confiabilidade da crianças e das adolescentes em nenhum dos casos. De acordo com Francisco: Então eu sempre fui muito agarrado a ela. Elliot et al 1995. padrasto. ele relatou que apesar de fornecer objetos materiais e cuidados. E a gente. Relação de Proximidade Entre a Criança e o Perpetrador Todas as vítimas eram crianças que possuíam uma relação de proximidade com os abusadores e no caso desse estudo uma relação de confiança. Sua proximidade com a vítima era vista com desconfiança pela família.. começou. Francisco (idade) comenta que sua relação com sua enteada (e vítima) de 13 anos era de muita proximidade. 1999) a baixa auto-estima. Ele e a esposa sempre atuaram como cuidadores secundários da adolescente. a fragilidade... 2003. pois é sabido que a maioria dos agressores conhece sua vítima (ABRAPIA. Os dados da literatura se confirmam nesse caso. et al. Na entrevista.

. podia ter vento. sempre. Se você ver ela junto comigo ela diz pai”.. E sempre em cima. nota-se que as relações dos participantes com as crianças envolvidas na denúncia se configuraram de maneira positiva. Segundo Osmar (70 anos): “E ela me conhece como pai. eu tava lá podia ter frio. Tava lá esperando pra trazer pra casa. no colégio. Sete horas eu largava a Marina (outra filha do participante). vítima do abuso pelo qual foi denunciado. por sua vez.. Quinze pras onze. 2005.. Habigzang et al.. que ela saía do meu colo. sempre.. Quinze pras cinco. De acordo com ele: Vai. (Furniss. 1993. Que ela era muito agarrada em mim. descreve a sua relação com a filha da qual foi acusado de abusar como uma relação normal de um pai com uma filha. aí. Relação de Vigilância Paulo (70 anos) relatou que observava com rigidez a rotina de sua filha. Começaram a falar. tava sempre agarrada em mim. seu eu achava que dava. Era normal de um pai com filho. Ela não tem outro pai. “Uma relação normal de pai com filho. aí dava sete horas.120 na dela também. tendo um excelente relacionamento com elas. mas você tem que mandar a mais velha junto ou o irmão. na sala dela.. Nunca dei corda.. Normal... né. Esse tipo de resposta pode indicar que os participantes usam esta relação positiva para se aproximar das vítimas para cometer os atos de abuso. Marcos (38). A proximidade e o vínculo que perpetrador e vítima possuem. Habigzang & Caminha. Mas eu nunca vi aquilo ali como um problema. Se ela pedisse pra ir brincar com coleguinha. avisava a diretora a Priscila (filha) já ta lá. quando ela pedia alguma coisa se eu achasse que dá.. eu ia buscar ela. De maneira geral. boa. eu levava numa hora. Flávio (37 anos) apenas relatou que se relacionava bem com a enteada e não entende o motivo de ele ter o acusado da tentativa de estupro. essa que é casada que tá em casa e a Karina. muitas vezes. No colégio. que eu também tava sempre agarrado nela. eu deixava”. As respostas relatadas na questão seguinte explicitam melhor a qualidade de relação que os participantes tinham com suas . Osmar expôs que tratava a filha de sua enteada (a qual ele é acusado de abusar) como sua filha. com exceção do caso de Paulo (70 anos). já. que ela. Já foi tirado que eu trazia aqui ó.. chegava lá deixava bater a entrada do colégio. eu dava. faz com que o ele se valha da relação de afeto e confiança com a criança para cometer o abuso mantê-lo em segredo. né?’ Nunca deixei ir sozinha. Isso há uns dois anos já começaram a falar. sempre cumprindo as minhas obrigações que eu tinha que ter de cuidar o filho. in press). 2004.

. e envolvimento pela ação do participante. A raiz de tudo é a minha filha que eu não quis que o marido entre na casa. Eu fui acusado por essa minha esposa de ter abusado da minha filha.121 vítimas.. O homem. o motivo da vingança seria um relacionamento extra-conjugal que ele vinha mantendo: Eu conheci uma outra mulher e comecei a ter um caso com a outra mulher. eu num ia ficar com mulher nenhuma. Jamais teria coragem de fazer isso aí.. tu que vai ter que sair’ E aí a raiz de tudo é isso. o segundo homem que ela teve que eu não quis que entre na casa. Deu metade para tua filha a outra metade é minha. E ai a minha mulher se aproveito de pegar a metade que ela queria. Contudo. No caso de Osmar (73 anos). relatou que sua esposa quis vingar-se dele e haveria encorajado sua filha a acusá-lo falsamente de abuso sexual. Daí ela pegou e disse que pra mim que se eu num ficasse com ela. Envolvimento da Vítima pela Ação de Terceiros Dois participantes atribuíram o envolvimento da criança na denúncia. pela vontade que alguns parentes tinham de prejudicá-los. envolvimento da vítima pela sua própria ação. Envolvimento Específico da Vítima na Denúncia As respostas seguintes referem-se à pergunta “Por que esta criança e não outra criança está relacionada a esta denúncia?”. Envolvimento da Vítima por sua Própria Ação Nesta subcategoria foram organizadas as respostas que expressavam o envolvimento da vítima a partir de sua própria ação. as crianças não se envolveram nessas acusações por vontade própria. Só que não é verdade. (Osmar. Os participantes usaram como justificativa características adolescentes das vítimas para esse envolvimento nas . Eu não fiz isso aí. Então ela disse: ‘Não quer. Que elas me queriam tirar a casa. ele alega que é inocente e que a denúncia contra ele só foi levada a cabo. 38 anos). meu marido não vai sair. Segundo o entrevistado. As respostas foram organizadas nas categorias envolvimento da vítima pela ação de terceiros. Ela me acusou na época (Marcos. Em nenhum dos casos. Assim. ele foi acusado de abusar da filha de sua enteada. e ai veio essa acusação. é da minha filha. característica essa apontada como importante por abusadores em outros estudos (Swaffer et al. pois: Essa última (denúncia) é para ficar com a casa. os participantes apontaram uma relação de manipulação com as vítimas. por sua vez. 73 anos) Marcos (38 anos). Esse é o. 2000). Não tem nenhum outro motivo.

Eu acho que ela sabia o que tava fazendo.. eu me meti no espaço dela. assim. assim. Flávio (37 anos).. hoje.. não foi forçado. Por que eu tentei controlar de mais a vida dela. pois esta estava entrando para a adolescência e queria mais liberdade: (A vítima) Começou a mentir e andava com um pessoal na esquina que tudo se juntam numa esquina pra fazer uso de maconha. 37 anos). né. pois a adolescente “não foi forçado. queria ter os namorados dela. ele sabe que teve uma . a gente. no caso. Eu acho. Das falas de Francisco percebe-se que. pois é ciente do que é ou não uma conduta adequada. 37 anos). pois ele era o adulto. Ai andava junto com os caras e tal.. Mas ahn... Eu não vejo ela. que ela é uma criança como tão dizendo que ela é. sabe.. afirmou: Ah. E eu acho que não tinha mesmo. a responsabilidade pelo abuso seria dos dois. né? Eu acho que eu devia ter dado mais liberdade pra ela. Durante toda a entrevista.. por exemplo.. acho que ela devia de ter saído. entendeu?”. Então ela sabia o que ela fazendo também. E. eu errei porque eu sou o maior... né. talvez. Segundo ele: “Porque ela quis e eu quis.. Quando inquirido sobre a responsabilidade em relação com sua afilhada. Segundo o abusador. Como tu sabe se uma criança deixa de ser criança. que perante a lei é como se fosse” (Francisco. entendeu? Mas eu tenho consciência. Francisco admite que perante a lei.. 1999) pode servir como uma forma de desacreditar adolescentes que denunciam seus abusadores. perante a lei. Acho que nesse ponto eu agi errado. né (ela também é responsável). O participante admitiu que tinha abusado de sua afilhada de 13 anos.. o que.. eu não tinha direito. Foi isso. Em suas palavras. ele manteve um relacionamento afetivo-amoroso com sua a vítima.. né? No caso ela queria sair... O caso de Francisco de 37 anos vale ser discutido separadamente. A entrada na adolescência e a busca pela liberdade seriam os motivos pela denúncia. com certeza. com essa inocência toda. eu não devia ter trancado ela. Conceber a adolescência como uma fase de conflitos (Hall. Entretanto. e. O entrevistado se vale das características da fase adolescente para se escusar da denúncia de abuso.. Ele justifica que não houve abuso. Que é uma coisa que como ela mesmo diz... não. também. Então. eu acho que eu agi errado..122 denúncias. É como se diz. ele era pessoa que tinha a responsabilidade pela situação. Ela é criança... afirmou que sua enteada o acusou injustamente. Eu não sei.. Nessa parte ai. Eu acho que... Francisco não usou o termo “abuso sexual”. a partir do momento que.. pois “Porque ela quis e eu quis”. Quando afirma que a adolescente não tem essa “inocência toda” isso significa que ele a concebe como uma pessoa que já possui responsabilidades sobre seus atos. Talvez eu estivesse. in Newcomb. (Flávio.

a cabeça dela é uma abóbora verde. Uma abóbora verde. Ela entrou no banheiro e tomou o banho dela.123 conduta inadequada. Koller et al. Atrelado a pouca consciência de sua filha. O entrevistado respondeu que agiu como uma adolescente capaz de provocá-lo: E ela foi pro banheiro e eu fique na cozinha tomando banho. ela não tem consciência do que faz. . pois a vítima já era adolescente e não mais criança. sem os parâmetros da lei. Ela veio até a cozinha enrolada na toalha. era diminuída. 37 anos). também. A fala de Francisco esclarece que esse tipo de conduta pode ser típico de uma adolescente. Ele fez esse comentário também para justificar que ela já não “era tão inocente” (Francisco. Foi questionado se a adolescente havia agido como uma criança ou como uma adulta. Não tem miolo. Foi de adolescente dela. Ele conversou muito. pois na idade em que está. sua filha estaria se relacionando com um homem com o dobro da idade dela. né?” (Francisco. Essa pessoa. ele relatou que sua filha o acusou. E parou na frente e soltou a toalha no chão. E fazer como o outro. a responsabilidade deles em manter relação sexual com elas. foi que aconteceu. pois ele enfatizou que ela já não era mais virgem e que por isso ela já seria permitido se relacionar sexualmente com ela. Assim. Sobre a denúncia de Paulo (70 anos). 37 anos). inclusive quando o relacionamento sexual ocorre entre ela e uma pessoa de nível psicossexual mais adiantado. A concepção de Francisco é análoga a dos caminhoneiros. E começou a me abraçar e aí. mas não de uma criança. Mas podia ter se vestido no banheiro. A questão de não ser mais virgem precisa ser mais aprofundada.. Segundo Paulo: “A Priscila na idade que tá. Além disso. nem tão criança) quanto outras pessoas alegavam. sua conduta de ter abusado da afilhada parece não ser tão grave. 37 anos) (e. 70 anos). as condutas sexuais podem ser vistas como mais aceitáveis para as adolescentes.. portanto. esses indivíduos enfatizaram que se uma menina não fosse mais virgem. Francisco fez referência a outros relacionamentos sexuais que sua afilhada haveria mantido com outros homens “Ah. teria convencido sua filha a mentir. pois queria que ele fosse preso para poder se relacionar com ela sem a vigilância do pai.. segundo.. eu acho que ela agiu como uma adolescente. só que ela não se vestiu. que ela começou com essa cabeça” (Francisco. (2005) discutem que em uma pesquisa com caminhoneiros sobre a exploração sexual comercial infanto-juvenil. e ela já teve outros homens. né. Todavia. Ela agiu como uma adolescente agiria (Francisco. na resposta desse entrevistado. entendeu? Ah.

37 anos). tenho a outra que tem 14 anos e tem a mesma idade da minha filha. Além disso. é descrita por Lawson (2003) como uma estratégia comumente usada por abusadores sexuais. Envolvimento pela Ação do Participante Francisco destacou também que nutria um afeto de natureza diferente pela sua afilhada. Todas elas são bonitas. mas que não também não podia ser classificado como “amor” (Francisco. como uma forma de esclarecer que com suas filhas jamais agiria dessa maneira. A fala de Francisco mais uma vez este em concordância com os discursos dos caminhoneiros pesquisados por Koller et al. mas depois eu parei pra pensar: ‘Bom. ela perguntou se eu já tinha. Segundo ele. Paulo alegou ainda que a sua filha estava mentindo quando a acusação que fez contra ele. Os sujeitos da pesquisa realizada por estes últimos autores. da qual abusou. as características da fase adolescente funcionaram como um caminho para desqualificar a denúncia feita pela vítima. pois: Eu tenho várias sobrinhas. 37 anos). (Francisco. comentam que essa diferença de status (entre as meninas de suas próprias famílias e as outras) facilita o cometimento de . mas que também nutria um sentimento mais profundo por ela. Mais uma vez. eles afirmaram que as meninas que se “prostituem” nas estradas não seriam como suas filhas. não foi apenas beleza. sei lá o que ela ta pensando de mim.. era pensar em suas filhas. que eu sou um tarado. se eu já tinha tido com a minha filha. ela deve tá pensando que. que eu sou um louco. né. Aí eu achei uma coisa absurda.124 Assim. foi questionado se ele já havia pensado em suas filhas de maneira sexualizada. Ele citou que sentiu atração sexual. mas sim como uma relação afetiva. a ausência de senso de sua filha facilitaria a persuasão. O entrevistado respondeu negativamente e enfatizou que sua afilhada não era sua filha. Ele associou esse tipo de conduta por parte de sua filha a entrada na adolescência. Neste ponto. que é tão bonita quanto ela. (2005) sobre a exploração sexual infantil. revelaram que uma das justificativas que os impediam de abusar de crianças nas estradas. tão bonita quanto a minha filha e tão bonita quanto a Ana. a mesma vontade que eu tinha tido com ela. sei lá. Afirmar que a relação entre abusador e vítima não se configurou como abuso. Koller et al. pois jamais teriam coragem de manter relacionamento com elas.. Então vou responder só o que eu acho que é certo. Lawson (2003) comenta que afirmar que a vítima está mentindo é uma das principais estratégias usadas por abusadores sexuais infantis. Exemplificando a fala de Francisco: Me atendeu uma senhora lá. sabe.

Já no caso das meninas mais velhas. Waterman e Foss-Goodman (in Almeida. pois pessoas mais velhas as teriam persuadido a mentir. não foram acusadas de mentir ou de provocar seus abusadores.125 atos de abuso sexual. 2003). as adolescentes são mais culpabilizadas e aos abusadores é atribuída menos responsabilidades. a relação é tida como menos abusiva. 2004). Contudo. em situações hipotéticas de abuso. Pode-se concluir que os abusadores se valem desse tipo de percepção social que se tem acerca do abuso sexual de crianças como um modo de se escusar das acusações. caso Flávio e caso Francisco) os motivos que levaram a se envolver na denúncia foram provocados basicamente pela ação delas. o seu envolvimento na denúncia se deu pela ação de terceiros (caso Marcos e caso Osmar). são influenciados diretamente pela idade da vítima. pois esse tipo de conduta é tido como mais permitida com aquelas crianças não fariam parte das famílias dos caminhoneiros. As meninas mais jovens vítimas dos homens entrevistados nesse estudo. quando a vítima era adolescente (caso Paulo. . as vítimas foram acusadas pelos abusadores de mentir ou de consentirem o abuso. afirmam que as atribuições de culpa. Algumas estratégias usadas pelos entrevistados. Constata-se que a idade da vítima pode ser um importante fator que interfere nos modos como os abusadores justificarão os motivos pelos quais as vítimas se envolveram na denúncia. mas sim de estarem envolvidas na denúncia. mas sim uma relação afetivo-sexual consentida é comum entre os abusadores (Lawson. Os motivos pelos quais as vítimas estariam envolvidas nas denúncias foram variados. pois notou-se que quando as vítimas eram crianças. tais como alegar que a que o ocorreu não foi um abuso sexual. de modo que se for uma adolescente envolvida na acusação.

no entanto. adolescência. Isto significa que pessoas com alta escolaridade e poder aquisitivo mais alto. as características sócio-demográficas dos participantes. nos casos deste estudo. Um segundo ponto a ser considerado se refere às histórias de vida dos participantes. obtiveram-se dados sobre as relações dos participantes com criança ao longo do ciclo vital bem como sua visão sobre as crianças. Este fato é comum em classes pobres. Desta forma. mesmo que superficialmente. neste estudo optou-se por não rotular esses indivíduos. Assim. classificar abusadores sexuais a partir de algumas características específicas envolve uma questão ética. inicialmente. De maneira coerente. tomando-se o cuidado em discutir. eles enfatizaram que suas histórias de vida (devido a esta suposta tranqüilidade) em nada se relacionavam com as denúncias de abuso sexual contra eles. Ao analisar. essas características não devem ser tomadas como típicas do perfil de homens acusados de delitos sexuais contra crianças. Como afirmam Cohen e Gobetti (2002). Além disso. adultez e até velhice para alguns). apresentando relações saudáveis com as pessoas (inclusive com crianças) de todos os microssistemas (família. escola. há que se considerar que esta pesquisa foi realizada em um serviço gratuito e para o qual o encaminhamento era compulsório. mesmo porque o número de participantes deste estudo não permite generalizações. o que foi 126 . Ocorreu. Obviamente. sem episódios de abuso. sendo provenientes de classes sociais menos favorecidas. que em geral. as características sóciodemográficas dos participantes deste estudo observa-se que quase todos eles apresentaram uma história escolar de pouco sucesso.CAPÍTULO IV CONCLUSÕES O presente estudo alcançou seus objetivos. mesmo quando são cometidas violações contra os direitos das crianças. uma vez que. de as denúncias sobre abuso sexual infantil terem provenientes de classes sociais menos favorecidas. como em muitos outros. suas histórias de vida também não pareciam ter contribuído para uma distorção da visão sobre as crianças levando-os a cometer abuso sexual. advindas de classes sociais mais favorecidas também podem praticar abuso sexual infantil. pois nas demais classes socioeconômicas as pessoas estão mais preocupadas em manter sua privacidade. bairro) ao longo do ciclo vital (infância. se caracterizaram por informações sobre uma vida tranqüila.

no entanto. 1990). as crianças foram vistas como tendo prioridades de direitos e necessidades. como seres felizes que se ocupam apenas das brincadeiras e não possuem muitas preocupações.. soando como um aspecto manipulador de suas personalidades pouco vinculáveis. principalmente com relação ao sexo. 2005.127 demonstrado nas respostas dos participantes. superficiais e objetivas da situação. ora com respostas pragmáticas. Nas questões sobre empatia. Contudo. responsabilidades ou deveres. Além disso. algumas respostas sugeriram que tais processos não se apresentavam de forma consistentes. 2000). para chegar à condição de abusadores. ora transparecendo angústia pessoal (Eisenberg & Strayer.não foi notado nenhum “erro” cognitivo que se associasse a uma visão distorcida. não manifestaram comportamentos auto centrados. como estando de acordo com elas. embora aparecem em seus discursos. Todos esses fatores contribuiriam assim para uma visão romanceada e positiva destes participantes sobre os aspectos gerais de suas vidas e também com relação à criança e à infância. A falta de empatia denunciou que as necessidades das crianças não possuem afinal tanta visibilidade para eles. Horley. sem expressão de sentimentos. Portanto. as pessoas em geral poderiam ser descritas como aquelas que teriam comportamentos auto-centrados e não aceitariam normas sociais. que ditariam que suas vontades são mais importantes que as de outrem. como seres inocentes sobre os diversos aspectos da vida. como uma alternativa à falta de resposta que também foi freqüente. a denúncia de abuso sexual contra uma criança menor de 13 anos associada a outros dados de suas histórias mostram que suas visões sobre e as crianças não são tão positivas quanto eles gostariam de transparecer. Chegam a apresentam bom auto-conceito e auto-estima elevada. Além disso. de maneira positiva. Eles viam as crianças. A visão que o abusador tem sobre si mesmo e a aceitação das regras sociais influenciariam diretamente na visão que eles possuem sobre o mundo e sobre as crianças (Gannon et al. como conceber . Não furtaram-se ainda a emitir respostas inadequadas ou confusas.. Os participantes deste estudo. 2005. Ward & Keenan. 1999). aparentemente. Assim. na qual as crianças seriam descritas como seres sexuais. Este dado fica ainda mais claro quando são inquiridos sobre situações mais práticas às quais tendem a ser mais pragmáticos e a emitirem respostas com definições utilitárias. especialmente quando afirmam que têm respeito pelos outros. alguns deles demonstraram crenças estereotipadas sobre os gêneros. Expressam ainda reconhecimento e aceitação das normas sociais. que espontaneamente desejariam relacionar-se sexualmente com adultos (Gannon et al.

Além disso. Mesmo parecendo mais “verdadeiro”. Este dado é confirmado.128 a expressão da sexualidade como mais permitida para meninos que para meninas. Neste ponto. em um estado psicossexual mais precoce que eles. menos sendo crianças ou adolescentes. pode-se questionar os motivos de algumas respostas serem tão “corretas” e outras apresentarem um pouco menos dessa retidão. As respostas daquele que afirma ter cometido a violação parecem mais verazes do que as dos demais participantes. Nota-se. não poderiam fornecer respostas que os comprometessem. principalmente. ao afirmarem que elas mentiam ou teriam a mesma responsabilidade que eles. revela a tentativa de transparecer apenas o que é socialmente aceitável: “Eu só vou falar o que é certo” (Francisco. na medida em que essa permissividade para os comportamentos masculinos se baseia na premissa de que a natureza sexual masculina é incontrolável. os participantes desqualificaram os comportamentos de suas vítimas. 37 anos) sobre a resposta dele para uma profissional de saúde que questionou se ele possuía desejos sexuais por suas filhas. 1997). Evidentemente que embora pragmáticos quanto à visão de quem é uma criança. . Esse tipo de crença pode contribuir para a justificativa de abuso sexual praticado por homens. a fala desse mesmo participante. de qualquer forma. quando se comparam as respostas dadas pelos participantes que estavam no serviço compulsoriamente e do participante que estava neste mesmo local em busca de ajuda psicológica pelos sintomas relacionados à culpa sentida pelo abuso reveladamente cometido. estando. A primeira delas é quase todos participantes foram recrutados quando estavam envolvidos em avaliação psicológica compulsória determinada pela justiça. As crenças sobre a obediência das meninas verificada neste estudo também é outro ponto que pode sublinhar o abuso sexual de crianças do sexo feminino (Narvaz. quando questionados sobre as acusações que pesam sobre eles. Portanto. portanto. eles não definiam apropriadamente a resposta a esta questão. pode-se pensar que se o único que admitiu se coloca dessa maneira diante das perguntas sobre seus desejos sexuais. pode-se também pensar que aqueles que não admitiram ter praticado o abuso estejam fornecendo respostas ainda menos fidedignas. 37 anos). 2005. Contudo. As respostas politicamente corretas e estereotipadas podem ter sido dadas por duas razões principais. (Francisco. Safiotti. uma tentativa persistente de emitir respostas politicamente corretas e estereotipadas. buscando sobrepujar a denúncia e o fato em si e passar a impressão geral de que foram inadequadamente culpabilizados.

investigações científicas em períodos nos quais os participantes estão envolvidos em processos judiciais pode ser considerada como uma limitação. etc. não pode ser garantido. Assim. o uso de instrumentos Assim. pois elas estão sujeitas a influência da do que é desejável socialmente (Tierney & MacCabe. no entanto. 2001). O uso de instrumentos que não forneçam apenas auto-relatos (como os comentados anteriormente) são especialmente importantes quando se dispõe de pouco tempo para fazer avaliações.) tais como a Psychopathy CheckList Revised (Hare.129 Há que se comentar que as medidas de auto-relato. Os sintomas deste transtorno associam-se à manipulação. 1991) pode ser uma sugestão para uma avaliação mais veraz da situação de um abusador sexual. que podem facilitar a expressão de respostas assertivas por parte destes indivíduos. impedindo também o acesso a dados mais fidedignos. mais encontros poderiam propiciar maior vinculação. como as usados neste estudo. estudos que busquem outras fontes de dados. O estudo aqui descrito usou apenas os relatos dos próprios participantes para obter dados. quando se pretende ter dados de melhor qualidade sobre as vidas e os interesses sexuais de abusadores sexuais infantis. Entretanto. têm sido criticadas. Esta coleta não deixa de ter validade ecológica. pois muitas vezes os profissionais envolvidos neste tipo de atividade dispõem de pouco tempo para a realização de tal tarefa. Outro aspecto que deve ser considerado é a brevidade do contato com os participantes em um contexto de pesquisa e a possibilidade escassa de vinculação com a equipe de pesquisa. à mentira patológica entre outros comportamentos. Além disso. como relatos de familiares. 2003) podem ser mais úteis. O tempo reduzido da coleta neste estudo (apenas um encontro com quatro participantes e dois com um outro) pode ter diminuído a chance de vinculação com os participantes. Instrumentos que usam dados de outras fontes (como registros escolares e médicos. sugere-se que haja uma maior preocupação com o tratamento das pessoas que cometeram o abuso sexual para que . Além disso. Certamente. avaliações psicológicas de pessoas que cometem abuso sexual contra criança feitas em período limitado não podem ser descartadas.. 1996). Itenbi (1998) comenta que a acessibilidade a certos dados (como os de vitimização dos próprios abusadores) aconteceu apenas depois de várias sessões com estes indivíduos. ou testes falométricos (Marshal and Laws. uma vez que traz dados da expressão dos participantes nas condições expostas. o que. uma vez que os índices de transtornos anti-sociais são indicados como elevados entre pessoas envolvidas com abuso sexual contra crianças (Trepper et al.

Ser criança para um abusador sexual pode ser carregado de uma definição funcional para alguns. já que a auto-culpabilização dos autores dos atos é um processo difícil. A responsabilização é particularmente importante. tais como uma melhor investigação do relato da criança e de seus familiares devem ser obtidas como provas em casos de abuso sexual. como já foi reiterado diversas vezes. embora tenham por detrás uma denúncia de tamanho peso. ou quase ausente para outros. Contudo. e que no curto período de tempo no qual se realiza a avaliação é quase impossível realizar alguma intervenção que se reflita na conscientização da gravidade do ato de violência por eles praticado. pois com os resultados obtidos neste estudo demonstrou-se que os abusadores negam veementemente as acusações contra eles.130 elas se responsabilizem pelo ato de violência que praticaram contra criança. Finalmente. o contexto no qual as respostas foram dadas . Acredita-se que apenas com uma intervenção mais focalizada nestes indivíduos pode-se alcançar este objetivo. a visão de criança que os participantes desta pesquisa têm revela o pragmatismo com que tratam a criança e como transferem para a sessão de pesquisa a atitude de responder às demandas socialmente aceitas. Enfatiza-se ainda que outras fontes de dados.

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Como será a sua participação na pesquisa: Ao participar deste projeto.ANEXOS ANEXO A Fundado em 1994 Centro de Estudos Psicológicos sobre Meninos e Meninas de Rua Instituto de Psicologia. Você tem liberdade de não querer participar e pode. se recusar a continuar participando em qualquer momento sem qualquer prejuízo para 139 . Por isso. O tempo de cada um destes encontros será de mais ou menos uma hora e trinta minutos. convidamos você a participar desta pesquisa. será oferecido ao fim de cada um dos encontros. As entrevistas serão feitas no Departamento de Genética em uma sala que estará reservada. UFRGS Rua Ramiro Barcelos. Andreína Moura e Sílvia Koller da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.90035-003 Porto Alegre RS Brasil Tel. um momento para que você fale o que você quiser. ainda. sua visão sobre as crianças) de pessoas que cometeram ou estão sob suspeita de terem cometido abuso sexual contra crianças e adolescentes. Coordenadora: Psicólogas Andreína Moura e Sílvia Koller. que tem como finalidade saber sobre vários pontos da vida (vida escolar. Algumas perguntas podem trazer algumas lembranças e sentimentos que podem incomodar. 3. O que é esta pesquisa: Nós. você deve deixar que um membro do grupo de pesquisa faça algumas perguntas a você. 2600. vida familiar. do Instituto de Psicologia da UFRGS 1. Serão feitos mais ou menos três encontros com cada participante. 55(51) 33165150 Fax: 55(51) 33165473 Celular: 55(51) 81197091 E-mail: cep_rua@ufrgs. Quem são as pessoas que participam desta pesquisa: Pessoas que cometeram ou que estão sob suspeita de terem cometido abuso sexual contra crianças e adolescentes. Sala 104 . 2.br TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO Pesquisa: A Criança na Perspectiva do Abusador Sexual.

Portanto. preencha os dados que se seguem: 140 . Apenas os membros do grupo de pesquisa saberão sobre os dados. garantindo assim um melhor resultado para pesquisa. Sempre que quiser. As entrevistas serão realizadas nas dependências do Departamento de Genética. O que será feito durante esta pesquisa estão de acordo com os Critérios da Ética na Pesquisa com Seres Humanos conforme a Resolução n. e também nada será pago a você pela sua participação. Riscos e desconfortos: A participação nesta pesquisa não tem relação com qualquer caso seu com a justiça. 5. Após estes esclarecimentos. 6. Além disso. 4. 7. você não deverá ter nenhum ganho direto. se você necessitar de atendimento psicológico durante ou imediatamente após a pesquisa. você poderá pedir mais informações sobre a pesquisa e você poderá falar com as coordenadoras da pesquisa Andreína Moura ligando para o telefone (51) 8442-4059 ou no telefone (51) 3316-5150 com a Profa. solicitamos sua ajuda para completar o roteiro de perguntas que lhe será solicitado. Mas. Entretanto. Sílvia Koller.você. Você não terá nenhum tipo de despesa ao participar desta pesquisa. traga lembranças de alguns eventos que podem causar incômodo. As gravações e aquilo que você falar nesta pesquisa serão identificados com um código e não com seu nome. 8. Os profissionais do próprio serviço. no Departamento de Genética serão os responsáveis por estes atendimentos. Será pedido que você dê algumas informações básicas e que responda a uma entrevista sobre vários pontos de sua vida. esperamos que este estudo traga informações importantes sobre as questões relativas a pessoas que estão sob suspeita de terem cometido ou cometeram abuso sexual contra crianças e adolescentes. 196/96 do Conselho Nacional de Saúde. Ao participar desta pesquisa. Como e onde serão as entrevistas: As entrevistas serão marcadas com antecedência. Confidencialidade: Todas as informações obtidas neste estudo não serão reveladas a ninguém. Talvez. Dra. você será atendido no serviço no qual serão realizadas as entrevistas. pedimos seu consentimento de forma livre para participar desta pesquisa.

CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO Tendo em vista os itens acima apresentados. Identificação Local e Data Assinatura do participante da pesquisa Andreína Moura e Silvia Koller . Manifesto meu interesse em participar da pesquisa. eu de forma livre e esclarecida.Coordenadoras do projeto 141 .

55(51) 33165150 Fax: 55(51) 33165473 Celular: 55(51) 81197091 E-mail: cep_rua@ufrgs. informando este procedimento aos participantes da mesma. Para tanto solicitamos autorização para realizar este estudo. Data ____/____/___ ________________________________________________________________ Responsável pelo Departamento de Genética 142 . UFRGS. Agradecemos a colaboração do Departamento de Genética para a realização desta atividade de pesquisa e colocamo-nos à disposição para esclarecimentos adicionais. 2600. sem nenhum prejuízo. A pesquisadora responsável por esta pesquisa é a psicóloga Andreína Moura sob supervisão da Profª Dra. para que os mesmos apresentem sua concordância em relação a sua participação. Os instrumentos serão aplicados individualmente para aqueles que apresentarem sua concordância em horários previamente marcados. UFRGS Rua Ramiro Barcelos.90035-003 Porto Alegre RS Brasil Tel. Tal estudo prevê a participação pessoas adultas do sexo masculino de 18 a 59 anos. Optar-se-á por gravar as entrevistas. participem do presente estudo. A qualquer momento. Também será encaminhado um Termo de Consentimento aos próprios participantes.br TERMO DE CONCORDÂNCIA PARA O DEPARTAMENTO DE GENÉTICA Estamos realizando uma pesquisa que tem como objetivo investigar a visão que pessoas que estão sob suspeita de terem cometido abuso sexual possuem sobre crianças. Sílvia Koller do Curso de Pós-graduação em Psicologia do Desenvolvimento do Instituto de Psicologia. nessa instituição. tanto os participantes quanto os responsáveis pela instituição poderão solicitar informações sobre os procedimentos ou outros assuntos relacionados a este estudo.ANEXO B Fundado em 1994 Centro de Estudos Psicológicos sobre Meninos e Meninas de Rua Instituto de Psicologia. Todos os cuidados serão tomados para garantir o sigilo e a confidencialidade das informações. Os participantes deste estudo serão claramente informados de que sua contribuição é voluntária e pode ser interrompida em qualquer etapa. A coleta de dados deverá envolver a realização de entrevistas individuais. Sala 104 . Caso queiram contatar com a equipe. _____/___/______ Data __________________________________ Psicóloga responsável Sílvia Koller CRP 07/2037 Concordamos que as pessoas que participam desta instituição. preservando a identidade dos participantes bem como das instituições envolvidas. esperamos contribuir para o esclarecimento de algumas questões sobre o modo como abusadores sexuais vêem as crianças. Através deste trabalho. isto poderá ser feito pelo telefone 8442-4059 ou 3316-5150. Todo o material desta pesquisa ficará sob responsabilidade dos pesquisadores no Instituto de Psicologia e será posteriormente destruído.

outro Cidade de origem: Endereço atual: Renda: Com quem você mora? Há quanto tempo mora com estas pessoas? 143 .Identificação Nome (apenas as iniciais): Ficha: Data: ___/___/___ Entrevistador: Grupo étnico: a. amarelo ( ) f. separado e. viúvo ( ) f. negro ( ) c.ANEXO C FICHA BIO-SÓCIO-DEMOGRÁFICA 1. mestiço ( ) e. outro Escolaridade: Estado civil: a. casado ( ) c. solteiro ( ) b. índio ( ) d. divorciado ( ) d. branco ( ) b.

preferências. adolescentes e adultos: no que são iguais? No que são diferentes? (explorar duas categorias de cada vez: criança-adolescente. Infância: Relações (explorar esta fase do ciclo vital) Fale-me sobre sua infância. interesses.. Que lembranças você tem de sua infância? (Explorar lembranças boas/ruins).. outras crianças que viviam na mesma casa) Fale-me de sua escola.). Visão sobre a infância Explique para mim o que é ser criança. Explique. 2. 144 . deveres.. direitos. Conte-me sobre um episódio ruim (se não mencionar vitimização na infância por abuso sexual perguntar se passou por alguma experiência relacionada ao fato) (Explorar relações com irmãos. para mim quem é criança. agora. Como era ser uma criança nesta família? Como você acha que sua mãe/pai o descreveriam? Que lembranças você tem de sua infância na sua família? Conte-me sobre um episódio bom. Fazendo de conta que voltássemos agora no tempo: olhe para a criança que você era e me descreva esta criança. criança-adulto – ver necessidades.. etc. primos. Crianças. Até qual idade você acha que uma pessoa pode ser considerada criança? O que faz com que uma criança passe a ser adolescente ou adulta? O que faz com que um menino passe a ser adolescente ou adulta? O que faz com que uma menina passe a ser adolescente ou adulta? Meninas e meninos: no que são iguais? No que são diferentes? O que você sente quando vê uma criança dormindo? O que você sente quando vê uma criança brincando? O que você sente quando vê uma criança chorando? O que você sente quando vê uma criança gritando? Descreva para mim como deve ser a relação entre um adulto e uma criança. Fale-me de sua família.ANEXO D ENTREVISTA SEMI-ESTRUTURADA 1.

Você tinha amigos(as) na escola? Fale-me sobre eles. outras crianças que vivem na mesma casa) 5.Vida adulta: Relações (explorar esta fase do ciclo vital) Fale-me de você hoje. como um adulto. Quem é sua família? Quem são as pessoas com as quais convive? Como é sua relação com elas? (Explorar relações com irmãos.. Como você acha que sua professora o descreveria? Que lembranças você tem de sua infância na sua escola? Conte-me sobre um episódio bom. outras crianças que viviam na mesma casa. Como era sua família quando você era adolescnete? Quem eram as pessoas com as quais convivia? Como era sua relação com elas? (Explorar relações com irmãos. Conte-me um pouco sobre isto. Que lembranças você tem de sua infância no seu bairro? Conte-me sobre um episódio bom... Conte-me sobre um episódio ruim. Situação atual: Relações Você foi encaminhado até aqui por um juiz. professores.. desempenho escolar) Fale-me de seus amigos fora da escola. Conte-me sobre um episódio ruim. atividades no recreio.. (Explorar relações com colegas. como um adolescente. Quem eram estes amigos(as)? Fale-me sobre eles.. 4. primos.. primos. Adolescência: Relações (explorar esta fase do ciclo vital) Fale-me de você. Quem é a criança? 145 . (Focalizar na criança a qual está relacionada a suspeita de vitimização por ele. durante a adolescência) Como ocupava seu tempo? Conte-me sobre um acontecimento bom e um ruim em sua adolescência. Do que você mais gostava de brincar? Por quê? Como ocupava seu tempo? 3.. com as perguntas abaixo).

) Por que você acha que esta criança e não outra está relacionada a esta denúncia? 6. O que você achou desta entrevista? Quer acrescentar alguma informação? 146 . Expectativas Pensando em sua vida hoje. percepção de inteligência e maturidade. deficiência. etc.Quantos anos ela tem? Qual o seu relacionamento com ela? Como é esta criança era? Descreva-a (explorar aspectos como aparência. atitudes. você acha que sua história influenciou em algo que acontece no momento atual? Como você quer que seja sua vida no futuro? Fale-me sobre coisas boas que você quer que aconteçam.

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