A CRIANÇA NA PERSPECTIVA DO ABUSADOR SEXUAL

Andreína da Silva Moura

Dissertação de Mestrado

Porto Alegre/RS, 2007

A CRIANÇA NA PERSPECTIVA DO ABUSADOR SEXUAL

Andreína da Silva Moura

Dissertação apresentada como requisito parcial
para obtenção do Grau de Mestre em Psicologia
Sob Orientação da
Profª. Dr.ª. Silvia Helena Koller

Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Instituto de Psicologia
Programa de Pós-Graduação em Psicologia
Março, 2007

Dedico este trabalho, a todas as
famílias

que

sofrem

com

as

situações de abuso sexual.. a todos
as crianças, mães,

pais.. enfim

todos

sofrem

aqueles

que

ou

sofreram com esta experiência em
algum

momento

de

suas

vida.

Agradeço aos meus amigos. Isso me conforta e me deixa feliz. serei clara. dou-me conta de que muita gente (mas. Agradeço também aos meus tios.. os agradecimentos não são só por isso. Tita... a minha avó Isabel pela sua doçura e apoio e ao meu irmão (Júnior) pelo carinho e companheirismo. por ter sido um grande homem. não vou usar metáforas. pois ela que me apresentou ao CEP. todos vocês! Muitos foram chamados pelos apelidos. Kátya. quando eu chorei ao ver uma palestra com os integrantes do CEP-RUA. Mesmo estando tão distantes fisicamente. claro. Laali. a Júbis. como seu apelido. ao meu pai (Matos) por ter me dado o conselho certo na hora certa. muita mesmo) esteve me acompanhando nessa caminhada que começou em São Paulo no ano de 2002. pois eles são sim meu alicerce. Karin. tanto nos assuntos acadêmicos quanto nos pessoais. gurias! . por ter me ensinado a lutar pelo que desejo. Agradeço a minha mãe. a todos eles pelo GRANDE amor que sempre me dirigiram. meus primeiros e grades amores. e está é a última parte importante dessa dissertação. Primeiro. agradeço a minha família. de verdade. Obrigada. Ao pensar nisso. não está mais entre nós. Felipe que foram meus melhores espelhos. Alyson. vocês continuam em mim e continuarão pra sempre. E claro. carinhosamente. Minha amiga brilhante. Aninha. Mas. primos e Vó Maria pelo carinho. amo vocês! E tenho muitas saudades de nossa convivência diária. a David.. Agradeço por ter sido uma companheira de casa tão amável e agradável. Débora. Tenho tantos! Amigos de verdade! Primeiro aos de Natal: A Karlinha. Amo. por me apoiar sempre. com que divido minha vida em tudo! Te amo! Tu sabes que é irmã que não tive. Ao meu avô que. Como não sou poeta. Enfim.AGRADECIMENTOS É madrugada. Walda. a Lara. pois é assim que os conheço. Quero agradecer também aos amigos que fiz em terras gaúchas. Maíra. Um agradecimento especial a Sol. Agradeço a vocês por terem me ensinado a amar. Cris e Mel por terem sido sempre tão prestativas e tão amáveis mesmo quando éramos ilustres desconhecidas. Carlão. Família. Vou apenas agradecer a todas as pessoas que amo e que contribuíram direta ou indiretamente para que eu concluísse o mestrado. Rayanne. minha força. Ter tantas pessoas como companheiras denota que tenho ao meu lado muitas pessoas importantes em minha vida. João Felipe. Não poderia deixar de agradecer a Normanda. por terem me ensinado que na vida as pessoas são bem mais importantes que as coisas. Mateus.

Ao Lucas. Chefa! Terás para sempre minha admiração.. por dividir um momento profissional tão delicioso quanto aquele de Cruz Alta.. eu no mestrado. que sempre esteve ao meu lado. Agradeço a Deus por ter-me feito capaz de levar meus sonhos adiante. sempre. essa cearense tão carinhosa que entrou na minha vida.por você sempre. Riri! Meus agradecimentos vão também para Ana Paula e Samara. Agradeço a ele também pela lucidez das conversas. Agradeço aos meus queridos sogros (Sérgio e Valquíria Duvoisin) pelo cuidado expresso de tantas maneiras nos últimos meses. A Clarinha pela sua meiguice e por ter me acompanhado em momento difícil a minha vida. A Airi pela força que me deu em tantos momentos: Brigada. Ao amigo William pelas horas de conversa. A Carmem. agradeço ao meu amor eterno Christian Duvoisin. ela na graduação. apreço. Um agradecimento especial para o Renato que abriu as portas do Ambulatório de Genética para que eu pudesse realizar a coleta. pelo empréstimo do computador. Agradeço também ao CNPq por ter me proporcionado a oportunidade material de cursar o mestrado. correções e por acreditar em mim. tão querida.. Renata e Carol. pelas risadas. Rosangela e Magda. A minha querida orientadora Sílvia Koller. Obrigada.. Vera Ramirez e Renato Flores pelas suas disponibilidades e contribuições tão relevantes ao meu trabalho. Um agradecimento especial para Juliana. Finalmente. A Camila. pelo seu carinho. por ter sido uma boa amiga nessa fase final. pelas reuniões tão produtivas e prazerosas. pelas tardes de trabalho que passamos juntos. A Michele. pela sua dedicação. pela nossa amizade. amor mesmo! Agradeço a minha equipe de pesquisa: Juliana. Agradeço ao Vicente.. pois afinal eles me iniciaram na vida acadêmica. Agradeço também as minhas professoras Martha. Agradeço também as professores da banca: Cleonice Bosa. Serei sempre grata a vocês. e sempre acreditar . Te agradeço por tudo: pelas conversas. A Luísa e Martha por terem me ensinado tanto sobre esse difícil tema que é o abuso sexual contra crianças. pela paciência. pelas nossas brincadeiras. pois começamos juntas na UFRGS. Ao Jan. Marco. a Laíssa por mesmo antes de me conhecer ter me orientado. pelas piadas que me fizeram rir sempre. meu companheiro. ainda me lembro dela chegando com os livros pra me emprestar mesmo antes de eu pedir. pelos nossos planos.Outros amigos feitos aqui nos pampas: Michele. meu amado. pelas suas orientações. Laíssa e Clarinha.

por todo amor que me tens. meu amor! Sempre! Todas essas palavras não são capazes de expressar o quão feliz e grata sou a você.. sempre! Muito obrigada! É preciso fé cega E pé atrás Olho vivo Faro fino E tanto faz (Engenheiros do Havaí) É preciso ainda Mudar de perspectiva Mudar de ângulo Olhar por trás E isso exige que a gente Mude De ponta cabeça E de frente pra trás .. lágrimas de alegria por ter me dado conta que tenho pessoas admiráveis a minha volta! Obrigada. Acabo por aqui com tantas lágrimas nos olhos.em mim. Te amo.

........3 Instrumentos ..............................................3 Abusadores Sexuais: Classificações e Características........5 A Bioecologia do Desenvolvimento dos Abusadores Sexuais ............................ 41 CAPÍTULO II MÉTODO............................... 45 2................................................. 10 1.................................... 45 2.. 21 1.......................4 Procedimentos............................... 126 ANEXOS ANEXO A: Termo de Consentimento Livre e Esclarecido ...... 139 ANEXO B: Termo de Concordância para o Departamento de Genética ... 49 2...............................................2 Abuso Sexual contra Crianças: Números......1 Delineamento ........................................ 143 ANEXO D: Entrevista Semi-Estruturada.......... 142 ANEXO C: Ficha Bio-Sócio-Demográfica ............................................................................. 51 CAPÍTULO IV CONCLUSÕES.............................................................................................................1 Modos de Perceber a Infância: Analisando as Crenças sobre as Crianças no Contexto Social e a partir da Fala de Adultos ............................... 33 1..........................................................................................................................................SUMÁRIO CAPÍTULO I INTRODUÇÃO.....................2 Participantes ............4 Abusadores Sexuais e sua Visão sobre as Crianças..................................... Conceitos e Definições... 49 CAPÍTULO III RESULTADOS E DISCUSSÃO........... 144 .................................. 29 1......................................... 11 1........................................ 45 2....................................

LISTA DE TABELAS Tabela 1: Fases do Ciclo Vital dos Participantes 51 Tabela 2: Visão sobre as Crianças 54 Tabela 3: Caracterização das Vítimas 58 7 .

visão sobre as crianças.Resumo O objetivo deste estudo foi investigar as relações de abusadores sexuais com crianças ao longo de suas vidas. Estudos indicam que abusadores possuem distorções cognitivas sobre crianças. depreciando suas vítimas infantis. pois eles demonstraram capacidade empática limitada em relação às crianças. relações entre participantes e crianças. recrutados no Ambulatório do Departamento de Genética da UFRGS. etc. de 37 a 73 anos. Entretanto. Realizou-se um estudo exploratório descritivo com 5 homens. Os instrumentos utilizados foram: uma Ficha Bio-sócio-demográfica e uma Entrevista Semi-Estruturada contendo questões sobre visão acerca das crianças. essas respostas foram estereotipadas. e uma visão nãodistorcida e positiva sobre crianças. As entrevistas foram realizadas individualmente. 8 . Os resultados indicam relações saudáveis entre participantes e crianças. Reflexões sobre a utilização de autorelatos na pesquisa com abusadores sexuais são discutidas. Palavras-chave: abusadores sexuais. acusados de abuso sexual contra pessoas de até 13 anos. em sessão única. de modo a obter sua visão sobre as crianças. abuso infantil.

depreciating their child victims. accused of sexual abuse against 13 year old children. However. relationship between participants and children. who were recruited at an ambulatory of genetics studies at the university. as the participants demonstrated a limited emphatic capacity related to children. those answers were stereotyped. were applied to participants. 9 . A bio-social-demographic protocol and a semi-structuralized interview containing questions related to view about children. Keywords: Sexual abusers. A descriptive exploratory study has been carried out with 5 subjects. and a non-distorted and positive view about children. The results indicated healthy relationships between the participants and children. aged from 37 to 73 years old.Abstract The aim of this research was to analyze child sexual abusers’ view about children. Researches indicate that abusers have cognitive distortions about children. perceptions about children. Self-report measures used in sexual abusers research are discussed. etc. child sexual abuse. through their relationship with them along their life spam.

Polaschek. 2000. que é ainda maior. O dano psicológico que provoca pode perdurar ao longo da vida das vítimas (La Fond. como vai agir com outras pessoas está sempre relacionado a como se percebe (Horley. há uma importante lacuna em pesquisas sobre as vítimas. 1998. & Cunningham-Rathner. já que crianças protagonizam os atos de abuso nos quais os perpetradores são importantes coadjuvantes (Abel. in Horley. 2000). O próprio desenvolvimento ao longo do ciclo vital faz com que a pessoa. em suas interações apresente. No entanto.CAPÍTULO I INTRODUÇÃO O presente estudo teve como objetivo investigar as relações de abusadores sexuais com crianças ao longo de suas vidas. presença de vitimização dos próprios abusadores na infância e distorções cognitivas figuram em alguns estudos publicados. quando relaciona-se com dados sobre abusadores. O abuso sexual infantil tem sido considerado um fenômeno que preocupa a saúde pública. Este é um aspecto fundamental a ser investigado. que indicariam possíveis problemas futuros. sobretudo no âmbito nacional brasileiro. Temas como empatia. mantenha e revise sua visão pessoal. 10 . A visão que o abusador possui sobre as crianças está diretamente relacionada à que ele possui sobre ele mesmo (Horley. deve também ser reconhecida a possível influência dos aspectos contextuais para ocorrência do abuso. devido à freqüência com que tem sido identificado. Gannon. 2002). 2000). & Ward 2005). e uma das razões para isto é a dificuldade que os pesquisadores têm em acessar e manter vinculados os abusadores durante o processo de coleta de dados. Silva. Estima-se que a prevalência de abuso sexual na população brasileira seja de 30% (Picazio. porque ao longo da vida o ser humano relaciona-se com outras pessoas e nestas relações vai construindo uma visão de si mesmo. A maioria dos estudos tem se concentrado nas vítimas. Entretanto. Becker. 2005). de modo a obter sua visão sobre as crianças. além da focalização deste estudo sobre este aspecto individual dos abusadores. No entanto. Investigar a visão de abusadores sobre as crianças poderá auxiliar na identificação de aspectos prévios ao abuso.

com rostos. É difícil crer que esta ausência se devesse à incompetência ou à falta de habilidade. representando a infância santa e sagrada. Ainda não havia separação cronológica entre os períodos da vida. não havendo também divisão entre as funções destinadas a adultos e crianças. que eram na maioria adultos. p. 1975/1981. A partir de meados do século XIII. Até o século XIII. crianças não eram concebidas como seres em desenvolvimento. Este autor foi um dos primeiros a investigar as concepções de infância no mundo ocidental. 1995) traz à tona importantes variáveis sociais envolvidas no cuidado e no abuso. então. a criança começa a obter destaque no mundo das artes. através de obras de artes contendo figuras de crianças. É mais provável que não houvesse lugar para a infância nesse mundo” (Ariès. diferenciando-se deles apenas pelo tamanho e força física. este fato revela que a vida diária das crianças estava misturada às das pessoas mais velhas. Ariès (1975/1981) conclui que a infância retratada nas obras de artes desta época ainda não representava uma infância comum. descreve como as formas de conceber as crianças em uma determinada época ocasionaram também modos diferentes de lidar com elas. a visão que os ocidentais possuíam sobre as crianças e como esta modificou-se através da história. Antes do século XIII. pois eram retratadas como adultos em miniatura. Ariès relata ainda que os pintores davam a estes quadros de crianças um . Para Ariès (1975/1981). geralmente em grupos de pessoas. como afirma Finkelhor (in Phelan. corpos e vestimentas típicas da fase adulta apenas em tamanho menor. sendo retratada com características típicas da fase infantil. Ariès salienta que as crianças da época eram vistas como possuidoras das mesmas capacidades dos adultos. inclusive das de trabalho. em seu livro “História Social da Criança e da Família”. Este tipo de figura mantém-se presente até o século XV e.11 1. Tal análise sobre a visão social da criança ao longo da história. o Menino Jesus e a Virgem Maria Menina aparecem na arte. Nos séculos XV e XVI. descreveu. entre os séculos XIV e XV. As crianças participavam de todas as atividades. A partir disto. Surgiram figuras de anjos que representavam crianças que eram educadas para ajudar na missa. mas uma infância pertencente apenas aos santos católicos. “a arte medieval desconhecia ou não tentava representar a infância.1 Modos de Perceber a Infância: Analisando as Crenças sobre as Crianças no Contexto Social e a partir da Fala de Adultos Ariès (1975/1981).50). crianças começam a ser retratadas em cenas cotidianas.

mesmo que fosse para fins de diversão dos adultos. foi a cristianização dos costumes. Desta forma. a criança. pois apenas algumas poucas sobreviveriam devido à alta mortalidade infantil da época. pois era um fato costumeiro. as crianças passam a ser retratadas sozinhas nas obras de artes e é apenas no século seguinte que surge. 67).12 certo “ar pitoresco”. A “paparicação” foi identificada. por Ariès como um “sentimento” precoce. a criança passou a ser vista como um ser inocente. Por conseguinte. Além disso. Um dos alvos deste movimento foi o modo de tratamento das crianças. Os preceitos moralistas dos organizadores dos primeiros bancos escolares . Tal “desperdício” era a idéia de que muitas crianças deveriam ser geradas. não provocava importância e atenção devidas. Estas passam a ser percebidas. não era sentida como algo desolador. Esta característica era conferida pela representação de crianças como seres “engraçadinhos” e graciosos. por ocasião da cristianização dos costumes. A morte precoce de crianças. a partir do século XVIII. mereceriam apreço e consideração dos adultos e da sociedade. O gosto por tais cenas coincide com o surgimento do primeiro “sentimento” de infância. que Ariès denomina como “paparicação” (p. Tal “sentimento” diz respeito à consciência sobre uma natureza particular da infância e é definido pela noção de que as crianças eram indivíduos pitorescos. a maior parte destas crianças precisa de cuidados especiais o que fez com que os adultos prestassem mais atenção às necessidades delas. dar atenção às crianças. o que Àries (1975/1981) chama de segundo “sentimento de infância”. que servem para o divertimento dos adultos. Várias influências são apontadas como causa para o “nascimento” deste segundo “sentimento”. A partir do século XVII. Outro aspecto que influenciou o pensamento da época sobre as crianças. 69) e. pois era livre dos pecados do sexo. pois o fato de morrer muito cedo. Por conseguinte. Algumas idéias moralistas e o surgimento das escolas para crianças também foram fortes influências para o surgimento de um segundo “sentimento de infância”. pois nesta época havia ainda o que ele chamou de “desperdício necessário”. então. a partir deste momento. A introdução das idéias malthusianas de controle da natalidade na sociedade européia começava a modificar a idéia de “desperdício necessário”. poderia ser conservada e sobreviver. por conseguinte. pode ser considerada uma atitude precoce. que consistia em propagar o catolicismo entre as pessoas leigas não ligadas diretamente ao clero. como seres que tinham “movimento de alma” (p. Esta concepção denunciava a pouca importância dada à criança.

tal abordagem da infância ao longo da história apresenta alguns aspectos que vem sendo contestados. O valor dado a educação nos dias atuais ainda está associado a questão do desenvolvimento sadio da criança. potencialidade e pouca responsabilidade. Segundo os críticos. o importante era iniciá-la em certas atividades. Ou seja. 1983. que merece ser tratada de uma maneira específica. a criança seria o centro das atenções dos educadores e das famílias. indicar como as crianças eram percebidas antes do século XVIII. Contudo. 1996). alcança mais e mais importância social e cultural através dos tempos e passa a ser reconhecida como um ser em desenvolvimento. as crianças eram vistas a partir de características de vulnerabilidade. Pollock. 1993. contudo. .13 tinham como alvo aqueles indivíduos que por estarem no início de suas vidas seriam mais propensos a serem educados. Este é o germe tanto das idéias atuais sobre a infância quanto da necessidade de oferecer cuidados e educação à criança para que se torne um adulto sadio (Ariès. não havia a idéia de que os acontecimentos ocorridos em uma determinada fase eram importantes para as posteriores. afirma que não havia a idéia de uma ligação entre a mentalidade do adulto e da criança. para os pais ou pessoas que estavam em contato com a criança. não sendo tão essencial ajudá-la a se desenvolver nestas novas funções. Os opositores de Ariès afirmam ainda que ele apenas constata esta ausência. tais como nos dias atuais. Segundo Santos (1996). A partir destes preceitos. Contudo. então. a partir de uma perspectiva do presente impossibilita a percepção de particularidades destes “sentimentos” nas épocas passadas. o que por sua vez. Esta. A análise de obras de arte revela que tais modos de perceber refletem-se diretamente em formas de tratamento que são dedicadas à criança. Alguns autores criticam o presentismo de Ariès (Archad. A idéia de que a criança é uma tábua rasa é oriunda dessa época. conseqüentemente. asseguraria uma adultez também saudável. A ênfase nesta revisão busca demonstrar a importância que o estudo de Ariès (1975/1981) dá aos modos de perceber as crianças ao longo da história ocidental e. sem. Desta forma. 1975/1981). sendo “a passagem entre os estágios de desenvolvimento concebida como um problema de iniciação e não de formação” (p. conclui que há ausência deste “sentimento” ou da consciência da natureza particular da infância. que definem como uma forma de conceber os fenômenos a partir de uma perspectiva do presente. Tais críticos alegam que analisar os “sentimentos de infância”. quando Ariès não encontra atitudes que mostrem o moderno “sentimento” de infância. antes do século XVIII. de como a visão de infância foi se modificando através dos tempos. 82). Santos.

ao mesmo tempo. que. De qualquer forma. mesmo que estas sejam abusivas. pode-se perceber que a visão atual que se tem acerca da criança se faz a partir de várias “marcas” que a colocam. As crianças também são comumente vistas como seres dependentes dos adultos em todos os sentidos (biologicamente. na sociedade ocidental. contudo. meios de a criança reivindicar os mais variados direitos (Kramer. Este tipo de atitude perante as crianças pode ser um facilitador para as situações de abuso. . com as crianças). apesar de ser uma característica recente na história humana. não haveria. entre os chimpanzés são percebidos pela sucessão da época de acasalamento e de cuidado com a prole que raramente se misturam. ainda mais contundente. já que elas dificilmente irão se opor com veemência às decisões tomadas pelos adultos. Enfim. 2003). pois esse aspecto atesta a ligação humana com os outros animais na cadeia evolutiva. Analisar o cuidado com a prole em outras espécies é importante. e não como uma etapa de preparação para a fase adulta. Estes tratamentos. financeiramente e etc. inclusive entre os chimpanzés. já é percebida entre várias comunidades animais. 1999). se dedicam ao cuidado integral de seus filhotes. Há que se comentar ainda que os tratamentos diferenciados com os filhotes (no caso dos humanos. há ainda outras características. Santos (1996) destaca que a sociedade medieval já conhecia um sentimento de infância. por exemplo. UNO. associadas à fase infantil. As crianças têm este direito assegurado pela Convenção sobre os Direitos da Criança promovida pela Organização das Nações Unidas (United Nations Organization. Além das idéias de cuidados e educação voltadas às crianças apontadas por Ariès (1975/1981).1989). Como conseqüência desta crítica há outra. pois estes dependem delas (Duhram.14 As fases da vida eram vistas como uma repetição de experiências. atestando que as mães.). era diferente daquele que se inaugurou na modernidade e que se faz presente nos dias de hoje. os estudos de Ariès foram importantes na medida em que impulsionaram várias outras pesquisas sobre a visão social de crianças ao longo da história ocidental. quando seus filhos nascem. Phelan (1995). Ao conceber a criança desta maneira. no âmbito social. como um indivíduo especial e como alguém que não é capaz de reivindicar os seus próprios direitos pela sua própria voz. salientou que há na sociedade ocidental a concepção de que a criança deve ser sempre obediente aos adultos. Os críticos de Ariès alegam que ele exagerou ao afirmar que o sentimento de infância não existia antes do século XVIII.

Uma revisão destes aspectos também auxilia no entendimento da percepção que a sociedade tem das crianças e de como uma criança em desenvolvimento constrói a visão de si mesmo e das demais crianças ao longo de seu ciclo vital. naquela época. Tal noção de . Até fins da década de vinte do século passado. No entanto. surge o Código de Menores baseado na Doutrina do Direito do Menor. já que era entendido. tal termo aparece associado à criança em situação de abandono e marginalidade. passou a ser dever da lei. bem como ditava os modos de tratamento jurídico a algumas crianças e os direitos delas. alguns estudos foram desenvolvidos avaliando concepções por trás das leis direcionadas para crianças (ver Londoño. que estes indivíduos possuíam discernimento sobre o ato criminoso. sendo que quaisquer determinações legais estavam em outros conjuntos de leis. o termo “criança” associase freqüentemente ao termo “menor”. O surgimento desse termo representou o “nascimento” de uma nova categoria para a área jurídica (a figura do menor) e também de uma nova atitude perante algumas crianças. Entretanto. Em 1927. As diferenças atribuídas às questões de idade demarcavam que em determinados momentos as crianças podiam ser concebidas como adultas. era bastante indefinida. Nestes códigos. apesar de já serem tidos como conscientes sobre seus atos criminais nesta idade. não havia legislação voltada mais especificamente para crianças e adolescentes no Brasil. eram também vistos como perigos para a sociedade. Este código tanto definia quem eram os “menores”. em geral as abandonadas ou infratoras. a palavra menor como sinônimo de criança. do século passado. que além da sua situação de risco. além de indicar uma condição jurídica e civil e os direitos que lhe correspondiam. as crianças que possuíam uma família continuavam a ter seus direitos regidos pelo código civil da época.15 No Brasil. Antes do fim do século XIX. A definição do que é ser criança. jovem ou adolescente era utilizada para definir os limites etários relativos à emancipação paterna ou às responsabilidades civis e criminais. Antes desse período “menor” não era comum na literatura jurídica e que a partir da década de 20. havia disparidade entre os critérios de idade para definir responsabilidades civis e penais. segundo Londoño. apenas aos 21 anos sairiam da tutela do pátrio poder. Tais fatos revelam duas visões muito distintas sobre as crianças no Brasil: as “filhas de família” com seus direitos garantidos e os “menores”. Um levantamento no acervo bibliográfico da Faculdade de Direito na Universidade de São Paulo realizado por Londoño (1999) revelou que desde o fim do século XIX. Alguns artigos poderiam definir que menores de 17 anos fossem mandados às prisões. a partir da lei. 1999).

as crenças e as ideologias compartilhadas pelos seus membros. analisada na obra de Ariès (1975/1981) e outros autores (Kramer. A visão brasileira da criança partilha da visão ocidental. 1995) nas quais a criança é um ser que deve ser educado e controlado e. A contextualização dos modos de ver a criança em nível macrossocial suscita um entendimento sobre o que é ser criança . é inocente. Apenas na década de 80 do século XX. a visão sobre as crianças e os adolescentes no Brasil começou a ser modificada (pelo menos na forma da lei). que devem zelar pelo bem estar destes indivíduos. agora. o ECA protege todos os direitos de todas as crianças sem distinção de raça. Mesmo com esta distinção. A imagem da criança associada a noções negativas de abandono e marginalidade pode ser um facilitador de abuso de todos os gêneros. etc.16 periculosidade associada à figura da criança baseava-se no entendimento que sem a tutela dos pais sua natureza seria descontrolada. Phelan. A visão sobre as crianças na sociedade brasileira tem uma história que certamente afeta o macrossistema social. 2004). Em 1990. surge o segundo Código de Menores. 1990) baseado na Doutrina da Proteção Integral. estas crianças e adolescentes estavam sob a mesma insígnia da situação irregular. balizado pela Doutrina da Situação Irregular. Brasil. sendo também um sujeito de direitos e deveres. a criança também é vista como um indivíduo que possui direitos a serem zelados. que tem direção oposta às duas anteriores (Doutrina do Direito do Menor e Doutrina da Situação Irregular). ao mesmo tempo. condição socioeconômica. Para o ECA. 1989). Mesmo com o advento promissor do ECA (Brasil. o que acarretaria comportamentos inadequados. a tutela destas crianças e esta ameaça potencial exigia repressão. O Estado tinha. foi promulgado o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA. o preconceito e a violência contra as crianças ainda existe. com base na Convenção sobre os Direitos da Criança (UNO. 1999. então. todas as crianças são vistas como dever do Estado. A contextualização dos modos de ver a criança em indivíduo que possui direitos a serem zelados. pois não preconiza a repressão ou o tratamento diferenciado entre as crianças. distinguindo os abandonados daqueles que eram “criminosos” (Silva. Além disso. da família e da sociedade. Em 1979. já que elas não teriam um cuidador responsável que lutasse por seus direitos. gênero. A criança é compreendida como um ser em desenvolvimento. 1990). Além disso. como salienta Londoño (1999).

O trabalho doméstico no caso das meninas e o trabalho remunerado no caso dos meninos seria algo permitido e estimulado. a partir da “dependência”. enquanto atividade remunerada e aprendizado de um ofício reveste-se de uma identidade social legítima para as crianças. A criança vista como um ser lúdico e pueril e o adulto como um ser completo pode gerar uma relação de poder e atitudes de um ser superior dirigidas a quem não tem capacidade de se responsabilizar por si mesmo. viam as crianças como incapazes de cuidar de si mesmas e menos capazes cognitivamente. que influencia a visão pessoal. Tal visão de que crianças precisam trabalhar para compensar os cuidados que lhe são dados é um fator importante. sobre as representações sociais das fases do desenvolvimento humano revelou uma concepção de infância definida como fase de brincadeiras e dependência (Almeida & Cunha. neste caso a criança. A compensação seria uma troca tanto pelos bens materiais quanto pelos cuidados físico-emocionais fornecidos pelos pais. Algumas pesquisas que investigaram o modo como as pessoas definem o que é ser criança podem expandir a compreensão sobre a visão social da infância na sociedade. 2000). Em um outro estudo. Uma pesquisa realizada por Heilborn (1997) revelou que pais moradores de bairros periféricos do Rio de Janeiro concebiam seus filhos como indivíduos que precisam ajudar nos afazeres domésticos ou com trabalhos remunerados. A disciplina tinha como objetivo esclarecer que tais concepções seriam uma construção determinada pelas mudanças sociais e . Em estudo com professores. especialmente quando é abordada a violação de direitos da criança. Gaiva e Paiao (1999) investigaram qual a visão que estudantes do curso de graduação de Enfermagem possuíam sobre as crianças.17 e o modo de lidar com ela. 2003). A adultez apareceu como ponto ótimo do desenvolvimento para estes professores. O trabalho. O estudo foi realizado em dois momentos: antes e depois de uma disciplina sobre as concepções da criança na atualidade. e as demais fases como incompletas em relação a esta. Por conseguinte. Os valores que embasam essa visão de mundo estão na base das escolhas que realizam em suas vidas (Heilborn. pois influencia tanto a entrada e a manutenção de crianças no mercado informal de trabalho quanto o tipo de parentagem que elas estão recebendo. como uma forma de recompensar seus cuidadores. A dependência foi explicada como um “elemento estruturante” para a representação que estes adultos possuíam sobre as crianças. mesmo levando em conta estudos que tem como fonte de dados leis e obras de arte.

agitados. As diferenças entre meninos e meninas também são importantes para uma compreensão mais abrangente sobre a visão que as pessoas possuem sobre as crianças. passivas. conforme pontuam Rosaldo e Lamphere (1979). calmas e quietas (Souza. Certamente. A visão dos pais sobre as características de meninos e meninos foi estereotipada e esse tipo de visão é comum na sociedade. foram se consolidando características determinadas a cada um deles. Os resultados dessa pesquisa sugerem que a concepção da criança na sociedade atual ainda é marcada por elementos da concepção da modernidade (imaturidade. As funções femininas de cuidado com os filhos e com a casa foram tornando-se secundárias. existem diferenças nas funções delegadas a homens e mulheres. as participantes destacaram que as crianças são sujeitos de direito. Em uma pesquisa com pais de escolares. Seriam também seres “engraçados” e “bonitinhos”. mostrando também que na época as crianças são vistas como sujeitos de direitos. inclusive no fato de as mulheres serem as responsáveis pelo nascimento e cuidado dos filhos. 2000). que merecem um espaço no qual possam ser ouvidos.) e por noções mais novas que compreendem a criança como sujeitos de direitos. funções adultas diferenciadas por gênero têm sua origem na infância e em como esta é percebida. e o conseqüente despreparo da criança para a vida. 1998). elementos estes que as distanciavam do mundo do trabalho. enquanto as masculinas por serem mais dinâmicas foram conservadas. que comentam que em qualquer cultura. 1981). a idéia de que a mulher por possuir todas essas características seria um ser frágil que necessitaria dos cuidados masculinos (Strey. A partir das funções executadas pelos dois sexos. competitivos e independentes (Biaggio. exercendo funções mais passivas e domésticas. A imagem da criança também foi associada à diversão e às brincadeiras. Esta idéia aparece no estudo de Bonamigo e Koller (1995). etc. até nas primitivas. No segundo momento. detectou-se que os meninos foram vistos como mais agressivos. Entretanto. as características anteriores continuaram a ser relatadas. Há. duros. fortes. Tais diferenças podem se basear em vários fatores. as respostas das enfermeiras realçaram a imaturidade. nessa segunda etapa.18 históricas. no momento anterior a esta disciplina. como dóceis. após o término da disciplina. afetuosas. então. Elas dedicariam boa parte do seu tempo a essa função. pacientes enquanto os meninos foram vistos como agressivos. Os autores relatam que. As meninas foram tidas. Essas características foram se . esportistas e as meninas foram vistas como mais educadas. A criança seria também um ser frágil que necessitaria da proteção e do cuidado dos adultos. ainda.

muitas vezes. como esta fase de preparo para a vida adulta. As crianças sendo concebidas como seres completamente distintos e dependentes dos adultos necessitariam de uma fase de preparação para a chegada a adultez. A nova concepção da infância e subdivisão das idades do ciclo vital. Salles comenta que a idéia da fase adulta como meta é inerente a idéia de desenvolvimento humano. em um determinado momento (Graciano. a definição da infância e da adolescência só seria possível pela contraposição às . A adolescência surgiu. A partir dessa separação. Esses estereótipos são essenciais para a sociedade. pos embora haja a noção de que o sexo é algo natural para a espécie humana. Outras questões são relevantes para um melhor entendimento da visão sobre as crianças. ditam o que é ou não permitido em seu comportamento. necessitando ser modificado. valores que são concebidos como adequados para cada sexo. O que não é permitido nesse grupo de características pode ser visto como anormal. comportamentos. É comum que esses estereótipos se associem também a questão da sexualidade: a virgindade seria valorizada para as mulheres e os comportamentos sexuais seriam mais permitidos para os homens (Giffin. atuando como padrão fixo do que significa ser homem ou mulher. apesar de serem tão importantes. Embora. Essas diferenças na concepção sobre a sexualidade de homens e mulheres se baseiam nas formas patriarcais da organização da sociedade (Narvaz. Os estereótipos sexuais podem ser considerados como aplicáveis a todas as idades. 2005). os estereótipos sexuais são um grupo de características fixas e pré-concebidas sobre como gêneros diferentes devem se comportar e que. a valorização da virgindade feminina esteja declinando (Taquette. tendo como reflexo a diminuição na taxa de adolescentes virgens (Heilborn & Bozon. servindo como mediadores de um acordo implícito em um grupo social. os comportamentos sexuais masculinos são mais permitidos. nesse caso. antes inexistente na sociedade ocidental foram fatores importantes na “invenção” do mais novo período da vida: a adolescência (Salles. pois permitem a conservação. Contudo. 2005). Em contraposição. 1994). Vinculados aos papéis sexuais estão os estereótipos sexuais. 2001). 1997). a castidade feminina ainda é valorizada. 1994).19 constituindo como os papéis sexuais que seriam o conjunto de normas referentes às atitudes. em uma determinada cultura. inclusive às crianças. então. dos papéis sexuais. Além disso. essa premissa se aplica mais aos homens (Giffin. pois a infância a adolescência seriam etapas a serem ultrapassadas para que o desenvolvimento pleno (adultez) se estabeleça. O homem possuiria uma natureza sexual irrefreável o que faria com que ele tivesse dificuldade em controlar tais impulsos. 1978).

agora não se pode mais afirmar que certos comportamentos são permitidos apenas na infância. a organização das idades da vida torna-se mais complexa. na atualidade é dado a adolescentes e criança o direito de questionar se o comportamento ditado pelo adulto é o mais adequado. tais concepções estão distribuídas pelo senso comum. Se antes o acesso a informações e os comportamentos eram controlados pelos adultos de acordo com a faixa etária de crianças e jovens. sexo e conflitos íntimos. pois ela não se baseia mais na hierarquia entre as idades. sendo corriqueiro. Além disso. a adolescência seria um período turbulento. não seriam mais uma dimensão básica para delimitar os ciclos vitais. questionam esse modelo de socialização. que as pessoas definam . Essas modificações na sociedade.20 características do mundo adulto. crianças e adolescentes. pois há uma “uma desconexão nas diferentes dimensões que definem a entrada na vida adulta” (Salles. Este modelo fundamenta-se na idéia de desigualdade entre adultos. mas também à adolescência. apenas na adolescência ou apenas na adultez. por exemplo. ausência de problemas. apesar de ainda válidos. o que determina uma posição adultocêntrica em relação às outras fases do desenvolvimento. na ciência psicológica. Hall (in Newcombe. Ou seja. o processo de ingresso na adultez agora é feito com outros parâmetros distintos daqueles originados na modernidade. pela perda dos referenciais paternos.38). Essa fase seria atravessada pela descoberta da sexualidade. e a maior autonomia dada as crianças e adolescentes. ao contrário da infância tida como um momento destinado às brincadeiras. Assim. o público infanto-juvenil entra em contato com conteúdos que não são mais de posse exclusiva dos adultos. questionam também o adultocentrismo (Salles. p. A infância não se caracterizaria apenas pela oposição a adultez. Atualmente. portanto. Assim. O acesso a informação pelas crianças adolescentes que faz com que este público entre em contato com conteúdos de violência. 2005. no qual o adulto possuía autoridade e sabedoria superiores as do público infanto-juvenil. Uma importante discussão feita por Salles diz respeito às mudanças que têm ocasionado uma certa dificuldade em demarcar os limites entre os ciclos da vida. Assim. Os critérios usados para a entrada na adultez a partir da era moderna se baseavam no modelo clássico de socialização. a idéia de que a adolescência seria um momento de crise e de conflitos. 1999) inaugurou. os critérios cronológicos. Tais idéias de crise e estresse da adolescência a muito ultrapassaram os saberes da psicologia. entre outros. A partir dessas e de outras mudanças. etc. 2005). além de desordenar as idades da vida. felicidade.

neste caso. outras podem ser fragilizadoras.21 os adolescentes. Os modos de ver as crianças podem ser partilhados entre pessoas de uma dada sociedade. uma vez que revelam cuidados e proteção. devido à subnotificação e à carência de amostras que representem a população de vítimas (Rich. 2005). a parir da rebeldia e da revolta que naturais dessa época da vida (César. as estratégias dos pais para cuidar de seus filhos e a organização do ambiente familiar e escolar” (p. 33). por não respeitarem os limites e as potencialidades que crianças e adolescentes apresentam. ainda guarda elementos da modernidade (inocência. Após rever os estudos descritos até aqui. apenas estimativas para a prevalência dos casos de abuso. por exemplo. e dependem de contextos sociais e culturais. as trajetórias de desenvolvimento infantil. pode-se notar que a visão de criança na sociedade atual. Finkelhor (1994) examinou 19 artigos sobre abuso nos quais os números sobre a prevalência variavam de 3 a 62% entre as vítimas do sexo feminino e de 3 a 16% para as do sexo masculino. imaturidade. Muitas dessas crenças podem ser adequadas. atitudes e crenças das pessoas no cotidiano e sobre a percepção de si mesmas. então. 1998). e entre cinco a 10% dos homens norteamericanos já tenham sofrido alguma espécie de abuso sexual. Como afirma Salles (2005): “Há uma correspondência entre a concepção de infância presente em uma sociedade. 1997). Quinn e Behrman (1994) relatam que os órgãos oficiais oferecem informações incompletas tanto sobre a incidência (número de casos relatados a cada ano) quanto sobre a prevalência (número de pessoas na população como um todo que já sofreu um determinado agravo de saúde. Gomby. & Weiland. não havia estatística sistematizada sobre o abuso sexual contra crianças e adolescente no Brasil (Safiotti. Por conseguinte. Finkelhor.). Terman. Warkentin. 1. por exemplo. Há. esta dificuldade em ter estatísticas sobre os casos de abuso ocorre também em outros países.2 Abuso Sexual contra Crianças: Números. Nos Estados Unidos. estima que até 20% das mulheres. é . Conceitos e Definições Até 1997. Gidcyz. No Brasil. Loh. etc. Larson. a falta de dados uniformes é obstáculo tanto para a realização de pesquisas que se aproximem da realidade quanto para formulação de políticas nacionais voltadas à resolução deste problema. No entanto. mas também começa a ter outros contornos que impulsionam uma maior autonomia delas. A visão sobre as crianças que é gerada tem forte influência sobre os hábitos. Entretanto. o abuso sexual). O alcance dos casos de violência tanto física como sexual é difícil de ser estimado.

. A violência sexual foi denunciada pela mãe da vítima em 37. o uso de crianças em atividades e materiais pornográficos. por outros parentes. entre 1998 e 1999. Pode incluir também práticas com caráter de exploração. São também aqueles atos que violam leis ou tabus sociais em uma determinada sociedade. & Flech.6% dos casos. uma análise realizada em 71 processos jurídicos do Ministério Público do Rio Grande do Sul. Alguns números sobre as situações de abuso em geral são importantes para contextualização do estudo. uma atitude contra estas idéias pode influenciar positivamente no desenvolvimento de uma criança (Koller & De Antoni. 2005) apontou a maioria das vítimas do sexo feminino (80.1%. 2002). sendo o pai responsável pela maioria dos abusos (De Lorenzi. Em Porto Alegre. revelou o predomínio de casos em vítimas do sexo feminino (77%. incluindo indução ou coerção de uma criança para engajar-se em qualquer atividade sexual ilegal. 1999): Abuso sexual infantil é todo envolvimento de uma criança em uma atividade sexual na qual não compreende completamente. pela própria vítima em 29% dos casos. já que não está preparada em termos de seu desenvolvimento. É qualquer ato que pretende gratificar ou satisfazer as necessidades sexuais de outra pessoa. Koller. confiança ou poder com a criança abusada. e. Para a compreensão do que é considerado abuso sexual será fornecida a definição usada pela Organização Mundial da Saúde (World Health Organization WHO. seguidos pelos padrastos (16) das vítimas. por violência sexual (Habigzang. O abuso sexual infantil é evidenciado pela atividade entre uma criança com um adulto ou entre uma criança com outra criança ou adolescente que pela idade ou nível de desenvolvimento está em uma relação de responsabilidade. torna-se incapaz de informar seu consentimento.9%). Os pais foram os agressores em 79% dos casos (40). 2001). 2004). assim como quaisquer outras práticas sexuais ilegais. Não entendendo a situação. alguém informou que já sabia da situação abusiva e não denunciou. 1998. em 15. Na atualidade. por instituições. Pontalti. em 61. Azevedo. por conseguinte.5% dos casos. no período entre 1992 e 1998. na maioria em crianças de seis a nove anos de idade).7% dos casos. com idades entre cinco e dez anos (36. Estes dados chamam a atenção sobre a mobilização da sociedade contra a posse e o uso da criança por aqueles que devem ser unicamente os responsáveis por ela.22 estimado que o abuso sexual contra crianças e adolescentes atinja mais de 30% da população (Picazio. Um levantamento realizado no Ambulatório de Maus Tratos de Caxias do Sul/RS. a criança. Silva. como uso de crianças em prostituição. & Machado.2%). escola. tais como. Entretanto. sobre abusos sexuais. hospital e departamento de polícia em 6.

mesmo aqueles atos tidos como menos graves. Koller e De Antoni (2004) chamam a atenção para os efeitos do abuso sobre o desenvolvimento. já que não define que atos específicos (exibicionismo.23 A definição fornecida pela WHO é ampla. nem todos atos incestuosos podem ser considerados atos sexuais abusivos. o portador . embora estas palavras sejam comumente usadas como sinônimos. por exemplo) sem necessariamente envolver um adulto e uma criança ou um adolescente que mantenha uma relação de confiança. para fins deste estudo serão considerados como abuso atos de exibicionismo. havendo graves danos psicológicos para a vítima. Além disso. porque como afirmam Amazarray e Koller (1998). intercurso sexual. é levar em conta que mesmo os menos graves podem acarretar uma carga de sofrimento para a criança. toques. toques ou intercurso sexual) podem ser considerados como abuso. Nem todo ato de abuso sexual contra criança pode ser considerado incestuoso e nem todo indivíduo que comete tal ato pode ser diagnosticado como pedófilo. não esclarece se todos estes atos. 1993). mas também abuso físico e emocional. O abuso sexual é considerado grave. tal como a exibição sexual na presença de crianças. Por conseguinte. que são patologias psiquiátricas caracterizadas por fantasias sexuais recorrentes e intensas com pessoas “não-autorizadas”. Portanto. como abuso sexual. Neste estudo optou-se por esta definição. mesmo que não haja intercurso sexual. A pedofilia é caracterizada como uma patologia sexual inserida no grupo das parafilias. A definição de abuso sexual contra criança pode ser diferenciada de incesto ou pedofilia. animais ou objetos. intensidade e duração dos episódios podem ter efeitos psicológicos variados de uma criança para outra. e toda e qualquer atividade sexual entre um adulto e uma criança. A definição. cuidado ou responsabilidade. ou apenas alguns deles podem ser tidos como abuso sexual. severidade. o incesto pode ocorrer entre parentes da mesma idade (entre irmãos. assédio. exposição à pornografia. Esta amplitude permite que se considere. Qualquer ato sexual entre um adulto e uma criança reconhecido como abuso. O incesto pode ser caracterizado como a união entre parentes com qualquer laço de parentesco podendo tal laço ser de consangüinidade ou adoção (Cohen. pois ela não limita que atos específicos possam ser abuso. O indivíduo portador deste tipo de distúrbio experimenta fantasias intensas e excitantes e impulsos sexuais cíclicos envolvendo crianças. mas que certamente todos influenciam na construção da identidade exposta ao risco. em qualquer de suas nuances. não há nele só a violência sexual. pontuando que questões relacionadas à freqüência. Por conseguinte.

A partir da teoria da precipitação da vítima. bem como outros eventos traumáticos podem explicar o comportamento abusivo. As características atribuídas aos pedófilos dizem respeito tanto às tendências psicológicas quanto aos comportamentos sexuais propriamente ditos entre adultos e crianças. perturbados e perversos em conseqüência desse desenvolvimento psicossexual pobre (www. principalmente. Para teoria psicanalítica. O conflito de Édipo se caracteriza pela saída de uma fase na qual o objeto da criança deixa de ser apenas a mãe.secasa. o indivíduo precisa ter pelo menos 16 anos e ter uma diferença de idade em relação à vítima de pelo menos cinco anos. Uma breve compilação de diferentes teorias apresentadas neste site.com. gerando ansiedade de castração. pois é nele que se originam o superego. sem. O papel dos abusadores tem sido explicado por diversas teorias. e satisfazem desejos dela. com origem no . chegar a cometer o ato de abuso propriamente dito. Desta forma. 1997). pois há percepção de que existe um terceiro (pai). algumas situações vivenciadas ainda na infância. sem se tornarem abusadores. critério esse estabelecido pelo Manual diagnóstico e Estatístico de Trantronos Mentais (American Psychiatric Association. tais como o Complexo de Édipo e a inabilidade para ultrapassar esta etapa. os abusadores seriam. O comportamento sexualmente desviante poderia resultar desta relação erotizada entre pais e filhos.24 de pedofilia pode chegar a manter atividades de caráter sexual com crianças prépúberes (de zero aos nove anos). desconsiderando os fatores sociais e culturais. embora de forma superficial. por exemplo. com a interiorização de normas e valores (Gabel. Esse conflito ocorreria entre os três e os cinco anos e seria vital para a estruturação da vida psíquica do indivíduo. em geral.com. entretanto. 2003). indivíduos portadores desse transtorno podem apresentar apenas os desejos e fantasias com crianças. erotizando essa relação (Almeida. 1994).au). A falha neste conflito ocorre quando os pais da criança não estão suficientemente amadurecidos.secasa. Assim. em definir as motivações para tais atos (ver www. que se ocupam. acarretaria sentimentos de inadequação sexual e necessidade de ser sexualmente dominante. Pessoas podem ter fantasias sexuais envolvendo crianças ou se sentirem excitados por elas. Uma limitação desta teoria é a sua focalização apenas nas dificuldades do desenvolvimento individual. demonstra que estas abordagens podem fornecer um panorama das formas como o conhecimento nesta área tem sido produzido. principalmente nos aspectos psicopatológicos vinculados ao perpetrador do abuso. o que por sua vez. que compete com ela pela atenção materna.au). Para ser classificado como pedófilo.

as crianças recebem carinhos sexualizados. assim. ocasionando uma inversão de papéis entre pais e filhos. . Já as participantes. classificavam os abusadores como seres amáveis e inofensivos. datados da segunda metade do século XX.25 início do século XX. pois pode ser usado como justificativa para os atos de violência cometidos pelo abusadores. Com esta inversão. ou seja. Alguns estudos baseados nessa teoria. Portanto. Esse tipo de teoria é perigosa. Apesar de essa teoria não ser usada atualmente. 1998). olhares. 1998). A responsabilização apenas da vítima é uma forte limitação desta teoria. a repetição dos episódios só seria possível mediante o constimento dela (Rogers in Intebi. as barreiras intergeracionais foram rompidas em algumas esferas das relações familiares. e como filhos. Outros estudos. A família tem sido descrita pela teoria da disfunção da família. o foco de análise sobre a situação abusiva centra-se na dinâmica que se estabelece entre os membros do grupo familiar. A atividade sexual entre adultos e crianças (na maioria das vezes entre uma criança do sexo feminino e um adulto do sexo masculino) é vista como um desejo inconsciente da criança. uma participação da vítima. como disfuncional. tais comportamentos produzidos pelas vítimas seriam interpretados como formas de consentimento para o abuso. separavam as vítimas de abuso em dois grupos: as acidentais e as participantes. a vítima pode apresentar gestos. em famílias abusivas sexualmente. eram aquelas que mantinham uma “relação” duradoura com um adulto conhecido. filhos e filhas podem atuar ao mesmo tempo como parceiros de seus progenitores. 1998). pois possuem um intuito masoquista nessas relações sexuais com adultos (Intebi. embora o que ocorre seja uma situação clara de coação e violência. A manutenção dessa “relação” pressupunha. enquanto as crianças eram vistas como perversas e manipuladores (Intebi). Baseada nas teorizações da área sistêmica. Essa ambigüidade é gerada quando. Seria um “desejo anormal da criança de obter satisfação sexual. Segundo esta teoria. As crianças teriam um desejo semelhante aos das mulheres que sofrem violência física por parte de seus parceiros. pois propicia uma visão de igualdade de condições entre elas e os seus abusadores. baseados nessa teoria. pois revela um sintoma de desestruturação pela qual todos os membros são responsáveis. As acidentais eram aquelas que eram abusadas apenas uma única vez por um adulto desconhecido. e consequentemente de padecer de traumas sexuais” (Abrahan in Intebi. palavras que incentivam o agressor a cometer o ato abusivo. pois. no caso de abuso. abusadores e vítimas agem segundo uma mesma intenção ou objetivo. ao procurar cuidados emocionais dos pais. Intebi afirma que ainda em 1984 ainda havia estudos baseados nela.

Pode-se afirmar que a maioria dos estudos sobre abusadores concentra-se neste tipo explicação. a personalidade ou as patologias que estes indivíduos apresentam. citados como comuns em ocorrências de abuso. Esse fator seria importante na manutenção do abuso através das gerações de uma mesma família (Furniss. quando na realidade desejam expressar cuidado emocional. alcoolismo e baixo controle interno. um comportamento sexualizado junto aos seus filhos. Há. outros fatores importantes tais como tendências criminosas. necessidade de exercer graus elevados de dominação e controle nas relações familiares. além de responsabilizar a vítima pelo acontecimento do ato. Esta teoria possui claras limitações. O foco de análise recai sobre como estas motivações individuais atreladas a de outros membros da família interagem para criar as situações de abuso (Almeida. portanto. 1993). A mãe teria um papel central nestes casos. os motivos pessoais para início das situações abusivas não são os fatores mais importantes para esta teoria. O abusador (geralmente o pai) é tido por essa teoria como alguém que está no mesmo nível de maturidade emocional da criança (Furniss. pois se considera que o abuso acontece por uma ausência dela no que diz respeito à satisfação de necessidades emocionais de seus filhos. Disfunções sexuais e comportamentos depressivos da mãe podem desencadear comportamentos abusivos nos quais os filhos tentam satisfazer suas necessidades emocionais. culpabilizando a mãe e todos os membros da família pelo início e manutenção dos atos de violência sexual contra crianças. pois uma parcela significativa deles tem como objetivo investigar. tornando-os mais vulneráveis ao abuso. tais como: introversão social. doenças mentais. ainda. O pai que não é satisfeito pela esposa vai. 1993). outros estudos se dirigem para a análise das variáveis desenvolvimentais (tais como um ambiente violento na infância) que . Além disso. buscando a figura do pai. 2003). a situação de abuso (Almeida. Os autores da teoria sistêmica consideram também que há fatores de personalidade individuais que contribuem para etiologia dos abusos sexuais nas famílias. as vítimas do abuso podem apresentar.26 caracterizando. posteriormente. Contudo. Algumas tendências psicológicas do agressor são destacadas. sentimentos de inadequação da masculinidade. para satisfazer-se sexualmente. Devido a confusão entre carinhos emocionais e gestos sexuais. 2003). O foco de teorias psicológicas desloca-se da vítima ou da família para a situação de abuso sexual propriamente dita. então em busca da filha. por exemplo. Na análise desta situação dois pontos são centrais: a identificação do perfil psicológico do agressor e o conhecimento das motivações para o abuso. pois não aponta o pai como o principal responsável pelo abuso sexual.

De acordo com esta teoria. Quando esses eventos são percebidos como incontroláveis. 2003). o abuso sexual ocorre. O trauma ocorreria. eles podem ser uma fonte de trauma psíquico. Esse tipo de prerrogativa pode dificultar a crença de que o tratamento pode ser realmente eficaz para a vítima. no qual os homens (potenciais agressores) teriam direitos de explorar mulheres e crianças. Primeiro. A teoria cognitivo-comportamental pode ser criticada na medida em que associada ao trauma. Em decorrência disto. As meninas (por serem do sexo feminino e crianças ao mesmo tempo) seriam as vítimas preferenciais para este tipo de violência (Almeida.com. A teoria de quatro pré-circunstâncias baseia-se nas idéias psicológicas e sociológicas de Finkelhor (in Krivacska 1989). o abusador necessitaria transpor as barreiras externas para chegar a abusar. O trauma tem papel central nessa área. Um exemplo de teoria psicológica é a cognitivo-comportamental. sobretudo em um contexto social de desigualdades. 2003). Para esta teoria. Vários estudos (ver Widon & Ames. a prerrogativa fundamental de que a relação desigual entre homens e mulheres seria a variável mais importante para a ocorrência dos atos de abuso passa a ser questionada (Almeida. pode estar idéia de que as vítimas de abuso sexual são “danificadas” de maneira irrecuperável (Almeida. 2003). entre elas o abuso sexual contra crianças.br). 1994) analisam a prevalência de abuso de todos os tipos em abusadores sexuais. Terceiro. As críticas a este modelo surgem a partir do momento em que houve um aumento nas denúncias de abuso sexual contra mulheres. ele precisaria superar inibições internas para executar o ato.27 podem contribuir para o surgimento de problemas psicológicos associados ao cometimento de atos de abuso sexual contra crianças. 2003). quando há a exposição a um evento avassalador que compromete as estratégias de coping e de defesa da pessoa. Finalmente.secasa. realçando que estes se configurariam como traumas que influenciariam o surgimento de estratégias comportamentais disfuncionais. o perpetrador precisaria ter motivações para cometer o ato de abuso. Assim. ele deveria ultrapassar a . 2003). as terapias derivadas desse pressuposto estariam preocupadas com a resolução desse trauma e dos efeitos negativos gerados no comportamento (Almeida. Segundo. haveria uma interação de fatores para que o abuso ocorra. As teorias feministas ganharam destaque nos 80 e 90 após a constatação de que a maioria das vítimas de abuso sexual era de meninas e que a maioria dos agressores era de homens adultos (Almeida. Nesta abordagem não são considerados motivos psicológicos sendo citados apenas modelos sociais (ver www.

a motivação deveria ser mais intensa que a combinação das amplitudes dos fatores inibitórios. vale ressaltar que a resistência da criança não pode ser encarada como uma responsabilização dela. não é necessário apenas aumentar os impedimentos externos ao abuso. estimulando-a revelar os atos ou as tentativas de abuso. Assim. 1989). pois esse fator dependerá basicamente de como o entorno se organiza para lhe apoiar. A teoria de Finkelhor não explica como ocorre o desenvolvimento das motivações sexuais desviantes do abusador (Krivacska. para que o abuso ocorra. essas estratégias só são efetivas quando percebidas pelos abusadores como barreiras reais para o cometimento do ato. Assim. o abusador precisa vencer as resistências da criança. A teoria psicodinâmica propõe que o comportamento sexual agressivo seja resultado de traços de personalidade patológicos do agressor. As inibições externas seriam as estratégias ambientais que impediriam os atos de abuso. Esse modelo pode ser entendido como um continuum no qual de um lado está a motivação para o ato de abuso e do outro os três fatores restantes que representariam as inibições. É . Após ultrapassar esses fatores inibitórios. Contudo. Assim. Azevedo e Guerra (1989) acrescentam três teorias às já mencionadas. Um aspecto importante da teoria de Finkelhor (in Krivacska) é que esses quatro aspectos ocorrem sequencialmente. mas fazer com que os potenciais abusadores os percebam como ameaçadores aos seus intentos contra as crianças. As inibições internas dizem respeito tanto à conscientização de que o contato sexual com crianças é inadequado quanto a habilidade de controlar tais impulsos sexuais dirigidos a elas. os outros não ocorrerão. por exemplo. pois ela não explica os fatores primários nos quais se poderia concentrar a prevenção. Esta pode ser vista como a principal crítica da teoria das quatro pré-circunstâncias. A presença de outra pessoa que poderia testemunhar o ato e o pouco tempo privativo de um abusador com uma criança figuram como estratégias possíveis na inibição do abuso sexual infantil. A motivação se relaciona aos fatores pessoais do abusador envolvidos no início dos atos de abuso. Em um número signitificativo de oportunidades. buscando o entendimento do fenômeno do abuso sexual impetrado por adultos contra crianças. a teoria de Finkelhor é positiva na medida em que fornece uma visão mais contextual sobre o abuso. Entretanto. cometendo os abusos mesmo quando elas estão presentes.28 resistência da criança (quarta pré-circunstância). por fortes laços emocionais entre ela e a família que a deixam segura. Estas resistências podem ser incrementadas. os abusadores racionalizam essas dificuldades. se o primeiro não está disponível. Contudo.

entretanto. entre outras. 1999). stress. aponta que muitos casos de estupro nos Estados Unidos são julgados de acordo com tais idéias. apesar de haver diversas explicações sobre as causas do abuso sexual. atentar para o fato de que os casos que apresentam perturbações graves somam apenas 10% do total de registros dos casos de abuso sexual. & MacKay. uso de drogas. 1. Burt (1980) afirma que há algumas crenças quanto ao estupro que são apoiados socialmente. realizados sobre abusadores sexuais. Bhana. estas sempre esbarrarão em algumas limitações.apa. . (Azevedo & Guerra. Portanto. A teoria da aprendizagem social que tem como base o pressuposto de que o comportamento violento é aprendido.29 necessário. Além disso. Um estudo com adolescentes na África do Sul revelaram que tanto os jovens do sexo masculino quanto os do sexo feminino entrevistados por eles afirmaram que os homens possuem impulsos sexuais incontroláveis e que cabe às mulheres o controle de tais impulsos (Petersen. especialmente os brasileiros. Outras teorias.br) e ao PsycInfo (http://www. já que o tema do abuso é complexo por sua multideterminação com as teorias explicando apenas parte das variáveis envolvidas. valores pessoais. etc. tais como posição social. entender os abusadores sexuais e alguns aspectos que os constituem pode ser um esforço válido na direção da compreensão do fenômeno. com consulta ao Index-Psi-Periódicos (www. cada situação de abuso é específica e as explicações que servem para um caso podem não ser úteis para outros. em sua tentativa de explicar a situação de abuso sexual. Como pondera Marques (2005). ocasionando a responsabilização das vítimas e salvando seus algozes das penas legais. e se isso acontece é por que eles querem”. Em sua análise. Gijseghem. tais como “as mulheres podem resistir ao estupro. Já a teoria sócio-psicológica considera a violência contra criança como resultado de uma multiplicidade de fatores. traços de personalidade. revela a escassez de estudos.org.bvspsi. além de propiciar informações para ações interventivas. 1980.3 Abusadores Sexuais: Classificações e Características Uma revisão de literatura. socializado e.217). portanto. “mulheres pedem pelo estupro” (p. 1989. Alguns autores têm tentado classificar abusadores em grupos segundo semelhanças psicológicas e comportamentais (Azevedo & Guerra. repassado. provocam o aparecimento de algumas explicações que podem legitimar preconceitos e mitos. 2005). problemas neurológicos.org/psycinfo/).

30 Marcet. Além disso.) Dirigir um olhar de compreensão e empatia ao abusador não significa que se deseja isentá-lo de sua responsabilidade perante o ato de abuso. com base em mais de noventa casos de abuso sexual. Possivelmente estes indivíduos colecionam pornografia infantil. pois o abuso torna-se algo comum para ele. É oportunista na escolha de suas vítimas. o critério para escolha das vítimas é a disponibilidade e o método de abordagem das crianças geralmente é coercitivo. É necessário ter clareza. a partir de algumas características. Azevedo e Guerra (1999) diferenciam dois tipos de abusador sexual. que rotulam os indivíduos que cometem os atos de abuso. Gijseghem (1980). como reiteram Cohen (1993) e Marques (2005). portanto. as possibilidades de recidiva e de tratamento. Por conseguinte. Ao contrário. Age coagindo. ele abusa sexualmente de crianças. baseada fundamentalmente em características internas do abusador (tais como seus conflitos internos. A classificação usada por este autor é pouco prática. um perito canadense e pesquisador com referencial na psicologia jurídica agrupou os abusadores em oito categorias. Em um estudo. É ainda sadomasoquista e coleciona . seu complexo narcísico. aproveitando-se de sua vulnerabilidade. O primeiro subtipo é denominado regredido. geralmente como “seres irracionais” desprovidos de qualquer semelhança com outros seres humanos. não buscam atribuir um rótulo ao abusador sexual. Os estudos apresentados a seguir. Um segundo subtipo dos agressores sexuais situacionais é o moralmente indiscriminado. ainda seja também escassa a literatura sobre tais classificações. Estes indivíduos possuem como característica comum dificuldades para enfrentar desafios e sua motivação para a prática do abuso se dá pela substituição de parceiros sexuais adultos por crianças. Ainda relatando as características dos abusadores. ou sua vontade de superioridade) sendo de difícil identificação e operacionalização em termos de pesquisa. Smith & Sounders 1995). que estes indivíduos são seres humanos que portam patologias e precisam de tratamento. procuram fornecer um olhar compreensivo aos abusadores (Furniss. contudo. O tema do abuso sexual de adultos contra crianças e adolescentes suscita opiniões indignadas. Classificar abusadores. 1993). Este indivíduo abusa de pessoas em geral. O primeiro tipo é chamado agressor sexual situacional. manipulando ou tentando sua vítima. Há quatro subtipos dentro desse primeiro. Embora. envolve uma questão ética conforme salientam Cohen e Gobetti (2002). Seu estudo referencial viabilizou a verificação do tipo de comportamento do abusador. 2005.

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revistas de detetive. O terceiro subtipo é o sexualmente indiscriminado. Possuem
como característica básica uma ampla experimentação sexual. A motivação para o
abuso sexual infantil é o tédio e ele escolhe vítimas mais jovens e de aparência
diferente. É altamente provável que colecione pornografia de natureza variada.
Além disso, aborda a vítima se relacionando com elas em outras atividades
anteriores (brincadeiras, por exemplo). O inadequado é o quarto subtipo. Tal
indivíduo possui como característica básica demonstrar-se inadequado socialmente.
A insegurança e a curiosidade são os motivos para o abuso sexual infantil. Estes
escolhem vítimas que não pareçam ameaçadoras, abordando-as, explorando as
vantagens (tamanho, por exemplo) que possuem em relação a elas (Azevedo &
Guerra, 1999).
Um segundo tipo de abusador sexual infantil apontado por Azevedo e
Guerra (1999) é o agressor sexual infantil preferencial. Os três subtipos inseridos
nesta classificação compartilham as características de preferência sexual por
crianças e coleção de pornografia infantil. O primeiro subtipo é o sedutor. A
motivação para abusar de crianças é a identificação com as características infantis.
Eles, geralmente, escolhem as vítimas tendo como critério idade e sexo, abordandoas através de um processo de sedução. O segundo subtipo é denominado
introvertido. Eles se relacionam sexualmente com crianças por medo de
comunicação com as pessoas de sua idade. Escolhem crianças jovens e estranhas e
seu modo de operação para o abuso são contatos sexuais não-verbais. O terceiro e
último subtipo é o sádico. Este indivíduo é motivado pela necessidade de infligir
dor às suas vítimas. Operam com as vítimas através de várias tentativas ou força.
Estes indivíduos escolhem suas vítimas por idade e sexo. A caracterização feita por
Azevedo e Guerra é bastante útil para classificar abusadores, segundo suas práticas
abusivas e não de acordo com características de personalidade internas e abstratas.
Contudo, as classificações postas por estas autoras não podem ser vistas como
definitivas, pois corre-se o risco de reduzir as características dos abusadores apenas
a algumas categorias. Outros indivíduos podem agir de maneira distinta das
descritas, entretanto, eles continuarão a ser abusadores pelo fato de terem cometido
violência sexual contra crianças.
Outros estudiosos, apesar de não classificarem os abusadores em grupos,
identificaram uma série de patologias que podem estar associadas aos casos de
abuso. Walsh, MacMillan e Jamieson (2001) investigaram a associação entre
transtornos psiquiátricos de pais e o cometimento de vários tipos de abuso. Esta

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investigação foi conduzida junto a 8548 homens e mulheres que responderam se
haviam vivido algum tipo de abuso durante a infância. Os participantes também
responderam se seus pais sofreram com algum tipo de transtorno mental durante
suas vidas. Apesar de os dados não serem fornecidos pelos pais abusivos, os
resultados apresentados são importantes, porque associam algumas doenças
psiquiátricas a certos tipos de abuso. Foi encontrada uma alta correlação entre
doenças como depressão, mania e esquizofrenia e abuso físico e sexual contra
crianças. Esses três tipos de doenças apresentam índices semelhantes de correlação
com as situações de abuso. Contudo, quando foram identificados comportamentos
anti-sociais houve uma maior correlação com a ocorrência de abusos físicos e
sexuais do que quando foi detectada a presença dos outros tipos de doenças citados.
Portanto, a presença de comportamentos anti-sociais sugere um maior risco para
estes tipos de abuso. Os autores fazem uma ressalva quanto a estes achados, já que
nem em todos os questionários se pôde identificar quem foram os agressores. Ou
seja, não ficou claro neste estudo se foram os pais dos participantes da pesquisa que
cometeram os atos de abuso. A presença de transtorno, desta forma, não significa
que os pais sejam abusivos. Contudo, os sintomas destas patologias podem
acarretar alguns comportamentos negligentes por parte dos pais, o que pode deixar
seus filhos mais vulneráveis à violência de outros adultos.
Corroborando o estudo de Walsh et al. (2001), um estudo realizado com
abusadores incestuosos notou que em um quarto dos participantes havia algum
distúrbio de personalidade, com destaque para o Transtorno de Personalidade AntiSocial (Trepper, Niedner, Mika, & Barret, 1996). Um estudo realizado com pais
incestuosos e mães não-abusivas procurou investigar particularidades entre
abusadores foi o de Smith e Saunders (1995). Os abusadores foram definidos tanto
pelas mães das crianças vítimas quanto pelos pais abusadores de um lado como
dominantes, abusivos e autoritários e por outro lado como dependentes e passivos.
Esta diferença pode ser explicada pela ausência de uniformidade entre as
características dos abusadores evidenciada por vários estudos obtidos na literatura.
Uma parcela significativa de abusadores sofre de patologias que são
classificadas como parafilias (Becker, 1994). As parafilias são patologias
psiquiátricas caracterizadas por fantasias sexuais recorrentes e intensas com pessoas
“não-autorizadas”, animais ou objetos. Para que uma pessoa seja diagnosticada com
parafilia, é necessário também que ele aja segundo as suas fantasias ou que estas
tenham uma natureza intrusiva. No caso dos abusadores, reitera-se que a pedofilia é

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o tipo de parafilia diagnosticada mais comumente. Contudo, outras doenças
psiquiátricas do grupo deste mesmo grupo podem estar presentes.
No estudo realizado com três abusadores sexuais incestuosos, Marques
(2005) notou certas similaridades em seus funcionamentos. Entretanto, destaca que
apesar destas semelhanças não é possível deixar de observar a singularidade com
que cada um dos participantes agia, tanto em termos do abuso sexual como em
outros aspectos de suas vidas. A falta de uniformidade entre classificações de
abusadores pode, em parte, dificultar as pesquisas que busquem algum tipo de
categorização, já que não há um critério único a ser seguido. No Brasil, o perfil do
abusador será considerado o perfil fornecido, com base em 1565 denúncias feitas
entre os anos de 2000 e 2003, pela Associação Brasileira Multiprofissional de
Proteção à Infância e Adolescência (ABRAPIA) disponíveis on-line no ano de 2003
(www.abrapia.org.br). As denúncias foram realizadas através de telefonemas e
revelaram o seguinte perfil: 90% do abusadores são do sexo masculino; 58% estão
na faixa etária que se estende desde os 18 aos 45 anos; e 21% tinham mais de 45
anos, 59% possuíam vínculo biológico ou de responsabilidade com a vítima,
enquanto 41% não possuíam tal vínculo. Dados dos Estados Unidos que
corroboram este perfil. Do total de abusos cometidos naquele país, 96% foi
praticado por homens. Um outro dado importante mostrado no estudo americano é
que em grande parte dos casos as vítimas conhecem seus agressores (La Fond,
2005). Esta informação também está de acordo com o perfil traçado pela
ABRAPIA, já que na medida em que um pouco mais da metade dos agressores tem
vínculo com a vítima, está claro que no Brasil parte expressiva destas vítimas
também conhece seus agressores.
Considerando este perfil do abusador sexual no Brasil, na próxima seção
serão descritos alguns estudos que versam sobre a visão que eles possuem sobre
crianças. Serão apresentadas também algumas teorias que tentam explicar o modo
como os abusadores vêem as crianças.
1.4 Abusadores Sexuais e sua Visão sobre as Crianças
As cognições sobre o abuso tem sido um tema de interesse entre os
pesquisadores que se concentram em estudar os abusadores. Uma coletânea de
estudos apresentada a seguir tangenciam tais cognições e a visão de infância,
permitindo algumas inferências sobre características e crenças que abusadores
possuem sobre as crianças. Ward e Keenan (1999) afirmam que investigar como os

Citando mais especificamente estudos que mostram como abusadores vêem as crianças. & Cunningham-Rathner. (2000). portanto. in Geer et al. elas não resistem e não contam a outros adultos. in Geer.. 2000). pois. as crianças só teriam benefícios em ter contato sexual com adultos. Por conseguinte. mas uma justificativa construída após os atos abusivos. estas distorções não são causas dos atos de abuso. Em acordo com o estudo de Swaffer et al. os significados atribuídos às crianças. que considera que as distorções cognitivas dos abusadores são erros consistentes no pensamento que ocorrem automaticamente (Beck. segundo os abusadores. Becker. Hollin. 2000). afirmam que os abusadores percebem as crianças como seres sexuais. a investigação de Ward e Keenan (1999) revelou que os abusadores percebem as crianças como seres sexuais e que. Beech. Descreve vários tipos de atitudes direcionadas às mulheres. Beckett e Fisher (2000) discutem que a percepção sobre características físicas e sobre tipo de relacionamento que o abusador pensa ter com a criança influenciam diretamente para a prática abusiva contra a criança. Swaffer. Por exemplo. Neste nível estão inclusas as teorias implícitas sobre uma vítima em especial. A primeira delas abrange as crenças sobre as pessoas e o mundo em geral. Um segundo modelo sobre as distorções cognitivas é derivada da abordagem feminista. na medida . Por último. 1986). Os abusadores parecem organizar três tipos de teorias implícitas sobre o abuso. que propõe que os padrões de percepções e pensamentos distorcidos são causas para a agressão sexual e para outros domínios de comportamento. como por exemplo. & MangunoMire. O terceiro e último modelo é proveniente da literatura criminal. O segundo tipo de teoria diz respeito àquelas crenças intermediárias que categorizam os elementos em geral. O terceiro e último tipo de teoria implícita está ligado àquelas crenças que o abusador possui sobre objetos ou pessoas específicos. O primeiro modelo deriva-se da literatura clínica (Abel. este contato sexual apenas despertaria impulsos que já existiam antes do momento do abuso. Os resultados de outro estudo demonstram que abusadores justificam o abuso informando que as crianças querem o contato sexual tanto quanto eles. Segundo este modelo. tal crença será importante para a prática do abuso. aceitando o “mito do estupro” e atitudes relacionadas ao papel dos estereótipos (Malamuth. Três modelos predominantes têm sido empregados para descrever o papel das cognições em abusadores sexuais (Murphy.34 abusadores pensam e percebem o mundo a sua volta é determinante para compreender o modo como eles agem. se ele acredita que pode manipulá-la para conseguir o que deseja. 1997). Estupinan.

por exemplo. 2002). pode não levar a pessoa a sentir o mesmo incômodo emocional de outrem. As estratégias que depreciam as crianças. muitas vezes. a vítima é desacreditada pela própria família (Morales & Scharamm. entre outras (Lawson. 2003). Tal reação afetiva pode ocorrer como resposta a dicas concretas do estado emocional alheio (tais como as expressões faciais). Abusadores usam várias estratégias para justificar seus comportamentos abusivos. pois muitas vezes. 1995). no entanto. Então. que empatia é uma resposta afetiva que resulta de compartilhar a percepção emocional de outra pessoa. iniciam o contato. A responsabilização pelo ato de abuso foi discutida por Waterman e Foss-Goodman (in Almeida. não há necessariamente a tomada de perspectiva do ponto de vista do outro. perceber a situação como semelhante a uma já ocorrida . acusar a vítima de contar mentiras.35 em que elas fazem perguntas sobre sexo (Gannon et al. ou as que utilizam a divisão de responsabilidade entre abusador e criança parecem funcionar a favor do perpetrador. Em estudo com 40 pais biológicos e adotivos que abusaram de suas filhas. Estes autores afirmam que as atribuições de culpa. as adolescentes são mais culpabilizadas e aos abusadores é arrogada uma menor responsabilidade. em situações hipotéticas de abuso.). 2003). ou seja. Entre essas estratégias estão: afirmar que a vítima consentiu ou provocou o abuso. pois não demonstraram nenhum sinal de oposição aos atos de abuso (Phelan.. significa “sentir com” o outro. pode-se definir a empatia como a resposta emocional que origina-se da percepção do estado ou condição emocional de outrem e que é congruente com esse estado ou condição. influenciados diretamente pela idade da vítima. distorcendo assim os papéis de ambos. de modo que se fosse uma adolescente envolvida na acusação. A empatia. alegar que a relação entre ele a vítima era de natureza afetiva e não abusiva. A empatia parece ser uma questão-chave neste achado. revelou que 21 deles acreditavam que suas filhas gostaram da experiência do abuso. segundo as autoras. Pode-se simplesmente. a relação é tida como menos abusiva. Assim. Os agressores sexuais percebem que as crianças cooperam durante o episódio de abuso e que são elas próprias que. 2005). Considera-se de acordo com a perspectiva de Eisenberg e Strayer (1990). fora. Estes abusadores viam as crianças como menos ameaçadoras socialmente (Gannon et al. Tais estratégias se baseiam na premissa da pouca responsabilidade do abusador e da culpabilização da criança. ou como conseqüência do reconhecimento de pistas indiretas desses estados emocionais (perceber a natureza da situação problemática pela qual o outro está sofrendo).

podem ser fruto de processos cognitivos. Eseinberg e Strayer comentam ainda que a angústia pessoal pode ser um estado precursor da empatia nas etapas mais precoces. e aí reconhecer que aquele tipo de situação pode causar sofrimento. Os construtos “simpatia” e “angústia pessoal” devem ser diferenciados entre si. nesses estágios do desenvolvimento. as atoras adotam a empatia. Alguns pontos importantes precisam ser clarificados para que se compreenda a conceituação de empatia. podem experienciar um estado aversivo de ansiedade e preocupação que não é congruente com o estado do outro. e o que é mais importante. sem ter consciência de que esse estado não tem como fonte ela própria. não demonstrando empatia. A empatia em si se configuraria apenas quando já um grau mínimo de diferenciação eu-outro que permita que a pessoa reconheça que os estados emocionais não são originados da sua própria situação. pois a primeira claramente seria uma resposta orientada para o alívio do sofrimento do outro. mas que ela pode ocorrer mesmo em estágios mais avançados do desenvolvimento. sem estar portanto associada aos sentimentos empáticos. Batson (citado por Eisenberg & Strayer. pois ela define o estado no qual uma pessoa se preocupa em aliviar o sofrimento do outro. ainda não há tal diferenciação. A angústia pessoal se diferenciaria da empatia por essa última não estar associada nem a uma resposta egoísta nem a uma orientada para a outra pessoa. Já a simpatia de diferenciaria da angústia pessoal. Os homens entrevistados por Phelan (1995). A simpatia seria um estado posterior a empatia. Eisenberg e Strayer (1990) afirmam que em estágios mais precoces do desenvolvimento. De acordo com Eisenberg e Strayer (1990). Claramente. algumas pessoas quando percebem o sofrimento do outro. enquanto a segunda seria egoísta e auto-orientada. tais como tomada de perspectiva através do ponto de vista do outro. 1990) afirma que experimentar angústia pessoal frente ao sofrimento do outro pode orientar as pessoas a desejarem o alívio de seu próprio estado aversivo. Contudo. pode levar a reações ou preocupações auto-orientadas e egoístas. Alguns . existindo apenas um estado precursor da empatia. por perceber seu sofrimento. Assim. foram incapazes de perceber que a situação de abuso se constituía como prejudicial para suas filhas.36 antes. Um deles se relaciona ao grau de diferenciação eu-outro. então. e que as crianças podem sentir afetos gerados pelo reconhecimento irrefletido dos estados emocionais dos outros. segundo as autoras a simpatia (assim como a empatia). como uma variável que é influenciada pela idade e pelo nível de desenvolvimento. ainda não haveria empatia propriamente dita.

Um último resultado importante foi o fato de 13% dos abusadores terem selecionado suas vítimas pela aparência de inocência ou que pareciam crianças confiáveis e que. 1995). Na cidade de São Paulo. pode haver supressão dos sentimentos empáticos no momento do abuso. os estudos sobre empatia em abusadores demonstram que eles possuem um índice normal de empatia geral. que tinham baixa auto-estima ou problemas familiares. a partir de registros de denúncias em uma delegacia da mulher. O instrumento utilizado abrangia diversos tipos de informação com relação à vida dos abusadores. Os dados revelaram que crianças e adolescentes do sexo feminino sofrem mais violência sexual e as do sexo masculino sofrem mais violência física. revela-se uma educação para a submissão. dizendo. Browne. A violência física aparece como forma disciplinar para os meninos. 1999.37 estudos (Pithers. bem como dados do Programa SOS Criança. Verificar a capacidade empática dos abusadores com as crianças é importante. aos abusadores. por possuir um perfil específico. portanto. também para entender como eles percebem as necessidades e os sentimentos delas. o que atuaria como um facilitador para a prática de abusos. por exemplo. Os resultados revelaram que eles informavam ter preferência por meninas na faixa de idade entre oito e 13 anos. Webster & Beech. Safiotti (1997) levantou dados sobre violência impetrada contra crianças. Um resultado importante relacionou-se com o fato de 49% dos abusadores terem afirmado que procuravam por vítimas que pareciam não ter alguém de confiança. & Kilcoyne. enquanto outros 27% justificaram sua escolha pela vestimenta “provocante” da vítima. Os dados deste estudo revelam uma visão de criança elegida como vítima. do ano de 1987 a 1993. não comentariam o abuso com outras pessoas. enfatizando a influência do gênero como uma variável importante. Além disso. Sessenta e seis por cento deles afirmaram conhecer as crianças com as quais cometeram o abuso. com idade média de 8. Quando não há incapacidade. Uma investigação com 91 homens que haviam cometido algum tipo de abuso sexual contra crianças verificou o modo como os abusadores se relacionam com crianças (Elliot. 2000). que “as meninas que eu procurava eram pequenas e usavam mini-blusas e mini-saias”. Quando questionados sobre como selecionavam suas vítimas. como comenta Fisher (in Webster & Beech. no período de 1990 a 1993.5 anos. Já para a violência sexual vivida pelas meninas. 42% responderam que procuravam por crianças bonitas. 2000) demonstram que os abusadores teriam déficits em sua capacidade empática. O que aconteceria no caso de abuso seria a pouca empatia direcionada a uma vítima específica. .

por sua vez. por serem mais fragilizadas ou não terem condições de revelar o fato (Koller. Abusadores sexuais preferiam crianças que possuam algum tipo de deficiência. Mais uma vez. A criança. Os homens. fica evidente que a visão que os abusadores possuem sobre as crianças está diretamente envolvida em um contexto que propicia a situação de abuso. não identifica o abuso e não a revela a ninguém (Furniss. por um lado indicam que estes indivíduos percebem que o sexo não é uma atividade típica da fase infantil e por outro que o sexo é permitido com algumas crianças. Em complemento a este argumento. os participantes da pesquisa afirmaram que caso a menina abusada já não fosse mais virgem. pois. já que não é permitido a estas crianças recusar qualquer investida. Contudo. Embora. em um relatório de pesquisa com caminhoneiros que abusaram sexualmente de crianças. por sua vez. eles responderam que as atividades lúdicas seriam mais característica da infância e o namoro da fase adolescente. os caminhoneiros tenham revelado esse tipo de idéia sobre as crianças exploradas sexualmente nas estradas. claramente. “a obediência é um fator que predispõe a submissão às situações de violência no contexto das relações familiares” Desta forma. & Machado. 2005. era permitido ter sexo com meninas que encontravam nas estradas. principalmente as meninas. afirmando indiretamente que em alguma medida. quando questionados que tipo de atividades são mais típicos de crianças ou adolescentes. in press). Moraes e Cerqueira-Santos (2005) mostraram a preferência destes participantes por crianças que possuíam um status diferente de suas filhas ou meninas de suas famílias. não há apenas a submissão de meninas como fator importante para situação de abuso. como pessoas que devem ser obedientes e atender todas as ordens de adultos. Habigzang. divergentes. 1993. contribui para a ocorrência de violência. Tal abuso sexual intrafamiliar é mantido em segredo. . Além disso. 1999). pois o perpetrador em seu papel de cuidador utiliza-se da confiança e do afeto que a criança tem por ele. Koller. Azevedo. 2004. seria permitido manter relações sexuais com elas. Segundo Narvaz (2005). numa dinâmica complexa.38 para atender todos os pedidos (ou ordens) de figuras de autoridade do sexo masculino. O abuso sexual aparece aqui como um produto de uma relação de poder desigual entre as crianças e adolescentes do sexo feminino e homens adultos. se sentem com direito de ter relacionamento sexual com estas meninas submetendo-as a situações de violência sexual. Habigzang & Caminha. Koller. entender crianças. Os resultados são assim.

(2005) partilham de posição semelhante a de Horley quando afirmam que os atos de abuso sexual devem ser entendidos em relação a como o abusador pensa o mundo à sua volta. parte do auto-conceito. 2000). Anderson. Desta forma. já que os modos como ele foi tratado (abusado) pode ser um fator que predispõe a atos de abuso e aos modos como vê as crianças. como o abuso sexual contra crianças (Marshal. Crips. A criança. Gannon et al. 1999). Lidar com as crianças. seria mais fácil que enfrentar as situações problemáticas. pode-se inferir alguns pontos acerca da visão que os abusadores possuem sobre as crianças. anseios e desejos como mais importantes que as vontades alheias (Ward & Kennan. percebendo suas necessidades. Abusadores sexuais infantis possuem comportamentos auto-centrados. então. A visão que eles possuem acerca dos seres infantis estariam ligadas a questões individuais. Amazarray e Koller (1998) destacam que o abusador sexual infantil não percebe a criança enquanto uma pessoa que possui sentimentos. & Cortoni. seria percebida por eles como menos importantes que eles. Contudo.39 As distorções cognitivas (das quais se pode inferir a visão que eles possuem sobre as crianças) geralmente se associam a quatro fatores: a visão que o abusador sexual possui sobre si mesmo. suas vítimas infantis são vistas por ele como menos importantes. 1999). mas como um objeto.. por conseguinte. é válido destacar que os abusos . A baixa auto-estima em abusadores faria com que os abusadores receassem lidar com situações problemáticas. eles lidariam com o estresse através de estratégias disfuncionais. Aqui a vitimização do próprio abusador quando criança pode ser um fator chave. mas também as questões contextuais. 2001). a visão que ele possui sobre as crianças está diretamente ligada a como ele se relaciona com o mundo de uma maneira geral. Assim. o reconhecimento e/ou aceitação dos valores éticos e das expectativas sociais e as características de seu contexto social (Horley. a sua visão sobre o papel que ele ocupa em uma dada estrutura social. Para corroborar esta posição. das crianças. Associado a estes dois fatores está o fato de alguns estudos demonstrarem que uma parcela significativa de abusadores foi abusada durante a infância. Ao analisar estas últimas conclusões. seres mais frágeis usando-as para a satisfação de seus impulsos. Assim. A auto-estima. é vista aqui como o valor que a pessoa nutre sobre si mesmo (Tamayo et al. Um auto-conceito negativo e uma conseqüente baixa auto-estima são fatores importantes para a análise da percepção que os abusadores possuem sobre si mesmos. se a visão que o abusador tem sobre si mesmo influencia na sua visão das outras pessoas e.

Certos tipos de abuso podem levar ao aparecimento de desordens psiquiátricas. nos quais eles tiveram que assumir os papéis de cuidados com os irmãos. episódios positivos ocorridos nelas. Os relacionamentos conjugais dos pais desses participantes foram descritos por eles como instáveis. Intebi (1998) comenta que apesar da variação desses índices. 1994). com estudos demonstrando nenhuma prevalência a 80% de abuso entre essa população (Widon & Ames. Assim. 2004). Em seu trabalho clínico e de pesquisa. tornando-se pessoas isoladas. Um estudo qualitativo com oito abusadores revelou que todos eles sofreram algum tipo de violência em suas infâncias (Garret. descreveram ambientes familiares disfuncionais. & Ward. Intebi comenta que aquelas pesquisas que utilizam apenas uma entrevista podem subestimar o índice de abusadores que foram vitimizados na infância. não houve diferença significativa entre aqueles que haviam sido vitimizados física ou sexualmente. Esses homens expuseram ainda que as pessoas a sua volta os chamavam de estúpidos e idiotas. e que sempre se sentiram desvalorizados e solitários em . Na pesquisa realizada com 64 abusadores e 33 criminosos não-sexuais. Em decorrência dos abusos sofridos. alguns deles disseram ter mudado de residência várias vezes. com profundidade. Além disso. Pattison. o abuso sexual durante a infância apareceu associado à pedofilia (Lee. Todos comentaram também ter usado álcool precocemente (antes dos 12 anos de idade). Pesquisa realizada por Widon e Ames (1994) revelou que entre homens que haviam cometido algum ato de abuso sexual. Todos narraram que seus sonhos quando criança eram basicamente sobreviver às violências sofridas para conseguirem se distanciar de suas famílias de origem. Todos eles relatam também relações de violência ou abandono com suas figuras paternas.40 sofridos pelos abusadores não são necessariamente apenas de ordem sexual. Jackson. Ela comenta que a revelação dos abusos sofridos por eles foi feita após várias sessões de psicoterapia. 2001). ficou evidente que suas infâncias se configuraram de maneira tão problemática que eles foram incapazes de recordar. Em suas falas. ela pôde verificar que todos os abusadores atendidos foram vitimizados sexualmente quando crianças. ou foram morar definitivamente com outros parentes. Devido a pouca estabilidade econômica e emocional de suas famílias. estes homens afirmaram não serem capazes de estabelecer laços de confiança e intimidade com outras pessoas. Eles comentaram ainda que se sentiam como objetos que os outros utilizavam segundo seus próprios desejos. É importante destacar que os números sobre a prevalência de vitimização entre os abusadores varia.

Silva & Hutz. Lee e Adams (2002) respondem que alguns abusadores sexuais relatam ter fantasiado sobre o abuso sofrido em ocasiões posteriores. a idéia de que as crianças podem querer sexo e que podem desfrutar da experiência de abuso. conseqüentemente as crianças. Segundo eles: “Você aprende o que você vê!” (Garret. Desta forma.5 A Bioecologia do Desenvolvimento dos Abusadores Sexuais Os modos como os abusadores vêem o mundo a sua volta e. As características familiares (inversão de papéis hierárquicos. uma boa parcela destes afirmou que o abuso foi uma experiência percebida como normal. Associado a isso. p. Além disso. 1. já que em suas experiências isso se mostrou verdadeiro. prática de violência) descritas pelos participantes deste último estudo são constatadas em outros estudos sobre violência intrafamiliar (Flores & Caminha. são explicados a partir de vários fatores. 2002).41 decorrência dessa forma depreciativa e pejorativa com a qual foram tratados. o estudo de Lambie. Algumas teorias focalizam as interferências sociais (Burt. por conseguinte. além de não terem uma figura de confiança para a qual pudessem relatar a violência sofrida. no cometimento de atos de abuso. as teorias explicam apenas parte dos fatores importantes envolvidos nesta questão. Devido a todos esses estressores. Desta forma. Becker. 1994. padrão este que perdurou até a adultez. 1994). 2000. A falta de uma pessoa de confiança para relatar o episódio foi uma importante variável. Pode-se questionar por que os abusos sofridos na infância de um abusador sexual podem influenciar no seu modo de ver uma criança e. relatando que não sentiam como uma violência. 1980). Seymour. Para responder pelo menos em parte a esta questão. os abusadores da pesquisa desenvolvida por Garret foram taxativos em afirmar que não percebem outro modo de “ser no mundo” além de serem violentos. que reitera o fato de que os abusadores em sua infância não tiveram alguém para afirmar a eles que os atos de abuso não eram algo comum. que ocorrem em decorrência de alguma patologia (Becker. pode ser algo natural para os abusadores. a escola e as relações experienciadas nelas foram lembradas de maneira negativa. 2004. enquanto outras explicam as cognições dos abusadores como distorções cognitivas. clima afetivo pobre. Neste estudo foi adotado o . Todos eles afirmaram ter desenvolvido uma baixa valorização de si mesmo. 189). Os entornos de abusadores sexuais aparentam ser tão problemáticos que os primeiros atos de abuso cometidos por eles se iniciam já na adolescência (Abel & Harlow. 1994).

90). as características da pessoa ou do contexto têm importância diferente em situações diversas. Para que uma atividade seja considerada como tal é necessário que haja interação recíproca nas relações interpessoais. p.42 Modelo Bioecológico do Desenvolvimento Humano. e que os símbolos e os objetos do ambiente imediato estimulem a atenção. que considera que “as características de uma pessoa em dado momento de sua vida são uma função conjunta das características individuais e do ambiente ao longo do curso de sua vida” (1989. e que a pessoa esteja engajada em uma atividade. permitindo analisar. O desenvolvimento é um processo no qual há uma interação recíproca da pessoa com seu contexto. Acessa-se o processo de desenvolvimento acompanhando as mudanças em função da exposição e interação de uma pessoa com o meio ambiente (Bronfenbrenner & Morris. Além disso. Bronfenbrenner desenvolveu um modelo teórico chamado PPCT. Com a descrição destas primeiras características. foram descritas como disfuncionais. já que é através dele que as características dos outros elementos se expressam. por exemplo. a teoria utilizada corrobora as proposições de Horley (2000). As relações destes indivíduos de com as pessoas em geral e com as crianças. as relações dos abusadores com crianças ao longo de suas vidas. que eles . proposto por Urie Bronfenbrenner (1979/1996). p. 996). através de sua história (tempo). Tal interação não é simétrica. 1999). nota-se que abordar a visão que os abusadores possuem sobre a criança a partir do Modelo Bioecológico é uma tentativa de compreender o fenômeno de uma maneira global. Na revisão de literatura pode-se notar. Além disso. considerando tanto os fatores microssistêmicos quanto os macrossistêmicos. que afirma que a visão que os abusadores possuem sobre as crianças e sobre o mundo em geral são influenciadas por fatores pessoais (como a visão que o abusador possui sobre ele mesmo) e por fatores de ordem social e cultural (como o sistema de crenças e valores da sociedade na qual o abusador está inserido). Os processos proximais são “os principais motores do desenvolvimento” humano (Bronfenbrenner & Morris. mais especificamente. por exemplo. a manipulação e a imaginação da pessoa em desenvolvimento (Bronfenbrenner. a interação deve ocorrer em uma base regular através do tempo. 1998). ou modelo Processo-Pessoa-Contexto-Tempo. 1998. A seguir cada um destes elementos será descrito. É através do estudo dos processos proximais que se pode investigar como se dá o desenvolvimento de uma pessoa.

Em 1983. sentimento de insegurança. violentas. responsividade para as demandas dos outros. pois eles são determinates na formação psicológica dos abusadores (Garret. Os abusadores foram descritos por vários autores (ver Azevedo & Guerra. tais como curiosidade. capacidade de adiar uma gratificação imediata e persistir numa meta a longo prazo. O segundo tipo varia entre dois pólos. 2004) como pessoas isoladas. A pessoa. bem como as relações com outras crianças em diversos ambientes podem ser investigadas. A compreensão desses ambientes na infância são particularmente importantes.43 estabeleceram relações de responsabilidade com seus irmãos e relações tumultuadas com seus pais e outros cuidadores (ver Garret. 2004). para o modelo bioecológico do desenvolvimento humano. Os microssistemas ao longo da vida dos abusadores foram descritos como turbulentos. Apenas um dos tipos será relatado aqui. 2004). 1979/1996). A primeira classe de forças envolve orientações ativas por parte da pessoa. O envolvimento em situações de abuso ao longo da vida. O mesossistema é o conjunto de microssistemas freqüentados pela pessoa e as relações entre eles . Brofenbrenner e Morris (1999) elaboraram o construto forças da pessoa que são aquelas características de uma pessoa que tem maior influência no seu desenvolvimento futuro. Assim. exo e macrossistema. vizinhança. problemáticos e violentos. meso. O primeiro deles relaciona-se com comportamentos de impulsividade. tendência para engajar-se em atividades sozinhas ou em companhia de outros. agressividade. Bronfenbrenner categorizou os atributos das pessoas em três tipos. explosividade. escola. Modificações nas primeiras características podem alterar o curso do desenvolvimento da vida de um indivíduo. auto-centradas. incapacidade de adiar gratificações. Os microssistemas são aqueles ambientes nos quais a pessoa em desenvolvimento tem suas interações face-a-face (Bronfenbrenner. O outro pólo designa comportamentos de apatia. desatenção. permitindo o entendimento das interações em diversos microssistemas (família. Garret. distrações e prontidão para recorrer a agressões e violência. abrange tanto as características biopsicológicas quanto aquelas que foram adquiridas ao longo da vida. O contexto divide-se em quatro sistemas. timidez ou uma tendência geral de se retirar de atividades coletivas. eles poderiam ser classificados como pessoas que se movem basicamente através das forças desenvolvimentalmente-disruptivas. a saber: micro. indiferença. Estas duas forças são denominadas como desenvolvimentalmente-geradoras e desenvolvimentalmente-disruptivas.). etc. entre outras características negativas. 1999.

mas que possuem influência direta sobre seu desenvolvimento. foi fundamental também averiguar o modo como eles viam a si mesmos ao longo de suas vidas. considerando assim o aspecto temporal. já que se reconhece que a visão que abusador possui sobre si mesmo e sobre as crianças foi construída ao longo de sua história de vida por concepções macro e micro. bairro) nos quais estiveram inseridos nos diferentes momentos de suas vidas (infância. 1979/1996).44 (Bronfenbrenner. A análise feita neste estudo tinha como foco a compreensão dessas relações nos ambientes (família. assim como o acompanhamento clínico. ainda escassa na literatura. . Áries e outros trazem aspectos macrossistêmicos importantes das sociedades ocidentais ao longo dos séculos e como elas construíam a visão de infância de seus contemporâneos. Além disso. adolescência. Políticas públicas e jurídicas podem ser influenciadas por estes achados. religiões. 2004). sobre o próprio desenvolvimento de pessoas que cometem abuso sexual. Diante de todo este quadro. o macrossistema é composto pelo conjunto de ideologias. A maior compreensão da visão sobre as crianças ao longo do ciclo vital por abusadores pode trazer contribuições teóricas. culturas e subculturas presentes no dia-a-dia das pessoas e que influenciam diretamente os modos de pensar e comportar dos indivíduos (Bronfenbrenner. formas de governo. Finalmente. escola. O tempo será considerado neste estudo. Entradas e saídas em novos ambientes ocasionam uma alteração no mesossistema. O último elemento do modelo proposto por Bronfenbrenner (1999) é o tempo considerado tanto em termos de ciclo vital como em termos de mudanças do ambiente ao longo da história e a interação entre estes dois elementos. valores e crenças. analisando as relações que eles estabeleceram com elas ao longo de seu ciclo vital. assim como subsidiar ações de prevenção e intervenção a estes casos. 1979/1996). adultez). o objetivo deste estudo foi investigar a visão que abusadores sexuais possuem sobre as crianças. Viver numa sociedade que acredita que os pais têm posse sobre uma criança é um aspecto macrossistêmico que pode influenciar no aparecimento de atitudes de violação de direitos destas crianças (Koller & De Antoni. O exossistema é composto pelos ambientes nos quais a pessoa não participa diretamente.

um com 70 e outro com 73 anos. Apesar da obrigatoriedade da avaliação. Caso fosse detectada alguma deficiência cognitiva a entrevista seria interrompida. Há também que se considerar que as questões criminais também influenciam na acessibilidade dos participantes. contudo.1 Delineamento Realizou-se um estudo exploratório descritivo que investigou a visão que os abusadores sexuais infantis possuem sobre as crianças.CAPÍTULO II MÉTODO 2. um com 38.. por eles não desejarem se expor por temer a condenação e a prisão. Quatro dos participantes estavam respondendo a processos judiciais pelas acusações de abuso sexual e por isso estavam nessa situação de encaminhamento compulsório. 2005). A amostra utilizada foi de conveniência pela dificuldade de acesso aos participantes. chegou até o Departamento de Genética por livre e espontânea vontade à procura de ajuda psicológica. serviço ao qual eram encaminhados para avaliação psicológica solicitada compulsoriamente pela justiça. Uma vez que a quantidade de denúncia para os casos de abuso é subestimada (Rich et al. As idades dos entrevistados foram as seguintes: dois com 37. a participação na pesquisa era voluntária. No entanto. analisando as relações que ele estabeleceu com elas ao longo de seu ciclo vital. O único critério de exclusão utilizado neste estudo foi a ausência de deficiências mentais. tal critério de exclusão não foi aplicado. A equipe de pesquisa avaliou aqueles que eram direcionados para a participação neste estudo. 2. A entrevista realizada neste estudo era profunda e permitia a análise desse tipo de transtorno. Além disso. Diante destas dificuldades. A faixa etária estabelecida (18 a 45 anos) no projeto para este estudo 45 . o participante agradecido e os dados excluídos da análise.2 Participantes Participaram deste estudo cinco homens que foram acusados de cometer abuso sexual contra crianças e adolescentes de até 13 anos. poucos casos quando denunciados são transformados em processos judiciais. Um deles.. para realizar a pesquisa foram acessados participantes no Ambulatório do Departamento de Genética. este fato teve influência significativa no número de casos disponíveis para pesquisa.

46
não pôde ser mantida devido às dificuldades em acessar um número suficiente de
casos no período de execução do estudo para análise.
Caracterização Bio-sócio-demográfica
As idades dos participantes variaram de 37 a 73 anos. Quanto à
escolaridade, dois afirmaram ser analfabetos, outros dois concluíram o ensino
médio e um concluiu apenas o ensino fundamental. No momento da pesquisa, um
dos participantes trabalhava como zelador, um outro com processamento geodésico
e um deles estava preso em decorrência da acusação de abuso sexual contra sua
filha. Por este motivo, ele não estava exercendo nenhuma atividade profissional.
Dois já eram aposentados devido à idade. A renda dos participantes variou entre um
e três salários mínimos da época, que correspondia a R$ 350,00 mensais. Os casos
estão inicialmente descritos um a um, em virtude das particularidades de cada uma
das histórias. Os nomes dos participantes e de seus familiares são fictícios para
resguardo de suas identidades.
Caso Marcos
Marcos tinha 38 anos e estava preso na época da pesquisa devido à acusação
de abuso sexual contra sua filha. No momento anterior a sua prisão, ele era
carroceiro e coletava materiais para reciclagem. Morava em uma cidade no interior
do Rio Grande do Sul, com sua companheira, um enteado e três filhos.
Marcos foi acusado de abusar de sua filha de dez anos, mas ele alega não ter
cometido nem esse nem qualquer outro tipo de violência contra ela. Em seu
depoimento, a filha afirmou que o pai friccionava os seus órgãos sexuais contra o
corpo dela. Ele já havia sido preso anteriormente acusado de abusar de seu enteado,
mas foi absolvido da acusação.
Marcos estava com aspecto bem cuidado, principalmente considerando o
fato de estar preso. Aparentou estar pouco a vontade durante a entrevista, sempre
olhando para baixo. Falou apenas o necessário para responder as perguntas da
entrevista, demonstrando-se assertivo em suas respostas.
Caso Osmar
Osmar tinha 73 anos, é estrangeiro e vive no Brasil há 35 anos. No
momento da pesquisa, residia em uma cidade na região metropolitana de Porto
Alegre. Antes de acusação de abuso sexual contra uma das filhas de sua enteada
(seis anos), ele morava com sua segunda esposa e vários filhos e netos. Após a

47
denúncia, passou a morar sozinho. Osmar também se declara inocente da acusação
de abuso sexual. A vítima declarou que Osmar tinha tocado sua genitália em troca
de presentes e dinheiro. Quando este fato foi denunciado, uma das filhas de Osmar
revelou que ele havia cometido abuso sexual contra ela na infância.
Destaca-se que no ano de 1986, ele foi acusado informalmente, por uma de
suas noras de observar uma de suas netas enquanto ela tomava banho. A ex-esposa
de Osmar expôs também que a vinda dele do país de origem para o Brasil ocorreu
em virtude de uma acusação de estupro. Ele teria estuprado uma filha de sua
primeira esposa, engravidando-a.
Osmar foi o único entrevistado que pode comparecer duas vezes ao
Departamento de Genética para a coleta de dados. Nesses dois momentos, ele
apresentou-se bem vestido. Desde o início, mostrou-se solícito e educado. Em
certos momentos, tentou manipular as entrevistadoras como um meio de descobrir o
resultado de sua avaliação. Além disso, muitas vezes Osmar foi evasivo com
relação as perguntas, relatando aspectos que não estavam associados diretamente a
elas. Mesmo assim, mostrou-se seguro ao responder todas as questões.
Caso Flávio
Flávio tinha 37 anos quando a entrevista foi realizada. Antes da acusação de
abuso sexual contra sua enteada, Flávio residia em uma cidade no interior do estado
junto com a esposa, um filho e uma enteada. Após a denúncia, Flávio e sua esposa
se separam e no momento da pesquisa, ele residia sozinho em sua cidade natal,
também no interior do estado.
Flávio havia sido preso, anteriormente, em decorrência da acusação de
abuso sexual de sua enteada de 13 anos, que o acusou de tentativa de estupro,
afirmando que o padrasto estava sob o efeito do álcool. Quando foi a delegacia para
prestar depoimento, Flávio admitiu que tentou violentar sexualmente a vítima.
Contudo, durante a entrevista desta pesquisa negou que tenha feito tal afirmação na
delegacia. Declarou que as policiais que ouviram seu depoimento estavam
emocionalmente perturbadas e que, portanto, compreenderam erroneamente as
afirmações. Flávio foi libertado da prisão e estava em liberdade provisória, quando
a pesquisa foi realizada.
Flávio apresentou-se bem vestido. Não parecia estar à vontade, observando
um relógio na parede durante quase toda a entrevista e falou apenas o necessário
para

responder

as

perguntas.

Algumas

vezes

demonstrou

hostilidade,

48
principalmente quando foi questionado sobre algum aspecto da acusação de abuso
sexual contra ele. Outras vezes hesitou em responder outras questões e, em vários
momentos, se contradisse sobre vários aspectos de sua vida.
Caso Francisco
Francisco tinha 37 anos e residia na periferia de Porto Alegre com sua
esposa e duas filhas na época da pesquisa. A denúncia de abuso sexual ainda não
havia se transformado em processo judicial quando a entrevista foi realizada.
Assim, Francisco não chegou ao serviço de atendimento encaminhado
compulsoriamente pela justiça, mas por sua própria vontade, em busca de
atendimento psicológico, com queixas de dificuldade de sono, irritabilidade e
sentimentos de culpa que começaram após o relacionamento com sua afilhada.
Francisco admitiu que manteve relações sexuais com a sua afilhada (13 anos),
sobrinha de sua esposa. Segundo ele, os encontros com ela aconteceram sete vezes
e duraram cerca de um mês. Quando se referiu a essa relação com sua afilhada, ele
nunca usou o termo “abuso”, pois segundo suas afirmações, as relações sexuais
entre eles foram consentidas por ela.
Francisco tinha um semblante casando no inicio da entrevista. Apesar disso,
mostrou-se loquaz e cooperativo ao responder as perguntas, acrescentando
informações importantes sem que isso lhe fosse solicitado. Demonstrou
assertividade em todos os questionamentos que lhe foram dirigidos.
Caso Paulo
Paulo tinha 70 anos e no momento da pesquisa, residia com sua esposa, dois
filhos, uma filha, genro e uma neta em uma cidade do interior do estado. Paulo foi
acusado de abusar sistematicamente de sua filha então com 14 anos. Apesar de a
denúncia só ter acontecido alguns meses antes da entrevista dessa pesquisa, há
indícios de que abuso vinha acontecendo a alguns anos antes, pois pessoas
próximas

da

vítima

revelaram

que

ela

apresentava

comportamentos

hipersexulizados. Tais comportamentos, quando são verificados em crianças e
adolescente, são típicos de vítimas de abuso sexual (Intebi, 1998). Além disso, o
próprio acusado comentou que a vítima já havia fugido de casa duas vezes,
afirmando que não sabia o motivo de tal comportamento. Assim, as fugas podiam
ser as expressões de que algo em sua casa a afetava. Paulo negou que fosse suspeito
de abusar sexualmente de sua filha, afirmando que a acusação que pesava sobre ele

renda mensal. metodológicos e éticos. Ele se declarou inocente tanto de uma quanto de outra acusação. 16/2000 (2000). principalmente. 2. entre outros. realizado semanalmente. tentou manipular as pesquisadoras na tentativa de conseguir saber qual era a opinião dela sobre seu comportamento. Paulo aparentava estar disposto a responder as perguntas no início da entrevista. O recrutamento dos participantes ocorreu no Departamento de Genética da UFRGS. Apenas um deles chegou até esse . até o momento atual.49 era de que usava a filha para aliciar outras meninas menores de idade com o objetivo de manter relações sexuais com elas. A equipe de pesquisa foi treinada antes de ir a campo para a coleta de dados. escolaridade. profissão e estado civil. o ambiente familiar durante suas vidas. os direitos e as necessidades das crianças. passando pela adolescência e vida adulta. os participantes foram questionados sobre suas relações com outras pessoas e. Este instrumento continha questões sobre idade. sob o protocolo de número 2006557. com crianças. uma entrevista semi-estruturada que investigou o modo como os participantes vêem as crianças. em vários momentos manipulou as falas de modo a não responder a várias questões.4 Procedimentos O projeto foi encaminhado e aprovado pelo Comitê de Ética da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. iniciando com sua infância. Nestas etapas do ciclo vital. Quase todos eles foram encaminhados compulsoriamente pela justiça ao Ambulatório do Departamento de Genética. Além disso. também. Para finalizar a entrevista de forma positiva. 2. foram acrescentadas perguntas sobre expectativas para o futuro (Anexo C). Mostrou segurança ao responder todas as perguntas. Utilizou-se. Investigaram-se suas visões sobre questões tais como: episódios positivos e negativos de suas vidas. em acordo com as normas estabelecidas pelo Conselho Nacional de Saúde na Resolução n. a visão sobre as diferenças entre meninas e meninos.3 Instrumentos Foi utilizada uma Ficha bio-sócio-demográfica (Anexo B) com o objetivo de identificar os participantes. O treinamento. os sentimentos de empatia com as crianças. envolveu aspectos teóricos. 196 (1996) e pelo Conselho Federal de Psicologia na Resolução n. e como se percebem ao longo do ciclo da vida. Contudo.

Inicialmente. e como se percebem ao longo do ciclo da vida (Anexo D). Com um dos participantes a coleta de pode ser realizada em dois momentos. aplicou-se a Ficha Bio-sócio-demográfica (Anexo B) e. já que diminuiu o risco de interpretações equivocadas que poderiam ser gerada pela presença de apenas um pesquisador. a partir da assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (Anexo A). O tempo reduzido para a coleta de dados (um único encontro) ocorreu em virtude das dificuldades de deslocamento dos entrevistados até o serviço de atendimento. houve a explicação aos participantes sobre a natureza da pesquisa. a coleta de dados ocorreu em apenas um encontro. As entrevistas foram conduzidas pela mestranda e por um(a) aluno(a) de graduação. . Em todos esses casos. Todos decidiram realizá-las sem intervalos. pois ele mostrou-se disponível para isto. posteriormente. A duração média das entrevistas com cada um deles foi de duas horas e meia. Todas as entrevistas foram gravadas em áudio e posteriormente transcritas. individualmente. As entrevistas foram marcadas com antecedência e com quatro participantes. a Entrevista sobre o modo como os participantes vêem as crianças. Logo em seguida. foi realizada. deixando-os livre para participar.50 serviço de livre espontânea vontade. deu-se liberdade para que o participante escolhesse o momento de interrupção da entrevista. A presença de dois pesquisadores garantiu uma melhor discussão dos dados coletados.

A análise fundamentou-se no estabelecimento de categorias de acordo com os critérios adotados por Bardin (1979). sobre Análise de Conteúdo. 2 e 3. na qual se objetiva apreender tanto o conteúdo quanto a lógica de cada uma das entrevistas. analisando as relações estabelecidas com elas ao longo de seu ciclo vital. as principais falas dos participantes foram identificadas e. foi averiguada a visão que eles tinham de si mesmos ao longo de suas vidas. Utilizou-se a modalidade temática. bairro) nos quais estiveram inseridos nos diferentes momentos de suas vidas (infância. Sonhos e Aspirações Ausência de Lembranças Positivas Relação com Crianças na Mesma Casa Respostas Positivas Definição de Si Mesmos e dos Pais Características Positivas Quando Crianças Lembranças Positivas e Negativas na Lembranças Positivas Escola Lembranças Negativas 51 . Além disso. foram criadas categorias a posteriori (núcleo de sentidos) que foram articuladas na discussão com o referencial teórico. A análise focalizou na compreensão dessas relações nos ambientes (família. adolescência. Tabela 1 Fases do Ciclo Vital dos Participantes Infância Pergunta Categoria Ser Criança na Família de Origem Pertencimento Positivo Lembranças Positivas e Negativas da Lembranças Positivas de Infância na Família Atividades. adultez). posteriormente. Após essa primeira etapa.CAPÍTULO III RESULTADOS E DISCUSSÃO Este estudo investigou a visão que abusadores sexuais possuem sobre as crianças. escola. No decorrer da análise de conteúdo das entrevistas surgiram as seguintes categorias que foram esquematizadas na Tabela 1.

52
Desempenho

Desempenho Escolar

Regular

com

Evasão Escolar
Bom Desempenho sem Evasão
Escolar
Relações com os Pares na Escola

Relações Positivas

Descrição das Professoras Sobre os

Aluno Inteligente/Agitado

Participantes

Aluno Tímido, mas
Participativo
Aluno nem Participativo nem
Quieto

Lembranças Positivas e Negativas de

Lembranças Positivas

Outros Espaços na Infância
Relação com os Pares em outros

Relações Positivas sem

Espaços na Infância

Descrição de Conflito
Relações Positivas com
Descrição de Conflito

Ocupação do Tempo na Infância

Atividades Lúdicas e de
Trabalho sem Estudo
Atividade de Trabalho e de
Estudo
Atividades Lúdicas e de Estudo

Brincadeiras Preferidas

Jogos e Brincadeiras com
Objetos
Adolescência

Pergunta

Categoria

Descrição de Si Próprios

Características Positivas
Características Negativas
Adolescente Normal

Pessoas com as Quais Convivia na
Adolescência

Apenas com a Família de
Origem
Com a Família de Origem e a
Companheira
Com a Família de Origem e
com Outras Pessoas

Relação com as Pessoas com as Quais
Convivia

Relações Positivas

53
Ocupação do Tempo Durante a

Trabalho e Atividades de Lazer

Adolescência

Trabalho e Encontro com os
Amigos
Trabalho e Estudo

Episódios Positivos e Negativos
Durante a Adolescência

Lembranças Positivas
Lembranças Negativas
Ausência de Lembranças
Negativas
Adultez

Pergunta

Categoria

Subcategoria

Auto-percepção

Temperamento

Temperamento
positivo

Auto-estima

Auto-estima positiva

Traços Morais

Pensamentos e ações
corretas

Outros Traços

Pessoa frustrada
Ausência de defeitos

Formação da Família e
Relação com Ela Antes e
Depois da Denúncia

Mudanças Familiares Após
a Denúncia

Desejos para o futuro

Respostas de Desesperança

Manutenção das Relações
Familiares após a Denúncia
Respostas Relacionadas à
Situação de Acusação de
Abuso Sexual
Desejo de Paz e
Tranqüilidade
Planos de Realização
Pessoal

Relação da História de
Vida com a Acusação de
Abuso

Ausência de Conexão entre
a História Vivida e a
Acusação

54
Tabela 2
Visão sobre as Crianças
Pergunta

Categoria

Subcategoria

O que é Ser Criança

Respostas Politicamente

Visão positiva e

Corretas e/ou

romanceada da

Estereotipadas

infância e das crianças
Incompletude das
crianças em relação
aos adultos
Infância como fase
importante para as
demais

Quem É uma Criança

Definição Cronológica

Definição cronológica
por gênero

Diferenças Entre

Diferenciação por

Crianças e Adolescentes

Identificação como Fase
de Transição do
Desenvolvimento em
Geral
Diferenciação por
Rebeldia
Diferenciação por
Autonomia
Diferenciação por
Autonomia de Pensamento
Diferenciação por Gostos
e Interesses

Diferenças Entre

Diferenciação por

Crianças e Adultos

Responsabilidades
Diferenciação por Deveres

Estudo como dever
para as crianças
Pequenos trabalhos
domésticos como
deveres para as crianças

55 Obediência como dever para as crianças Diferenciação por Atividades Lúdicas Diferenças da Infância Diferenciação por Necessidade de objetos para as Demais Fases Necessidades materiais Necessidade de alimentação Necessidade de carinho Necessidade de ser prontamente atendida Diferenciação por Direitos Direito de não trabalhar e de estudar Direito de higiene Direito de alimentação Direito de saúde Direito de afeto/cuidado Direito de não ser obrigado a ter deveres Direito de cuidado recebido/devido por adultos Prioridade de direitos Similaridade por Problemas Enfrentados Processos Importantes na Transição NãoTransição da Infância Cronológica para as para a Demais Fases Adolescência/Adultez Definição por Contestação para Transição da Infância para Adolescência Definição por Mudanças .

56 Biológicas na Transição de Criança para Adolescente Definição por Responsabilidade da Infância para a Adultez Definição Cronológica com Base na Adoção das Responsabilidades Jurídicas na Transição da Infância para a Adultez Definição por Entrada na Maioridade na Transição da adolescência para a Adultez Transformação de um Autonomia Menino em Adolescente/Adulto Mudanças Biológicas Contestação Definição Cronológica Transformação de uma Responsabilidade Menina em Mudanças Corporais Adolescente/Adulta Semelhantes as dos Meninos Perda da Virgindade Diferenças e Diferenças por Semelhanças Entre Atividade/Passividade Meninos e Meninas Diferenças por Proteção/Cuidado Diferenças por Brincadeiras com Aspecto Sexual Semelhanças Entre Meninos e Meninas .

57 Empatia Respostas Pragmáticas Respostas com Sentimentos Positivos Respostas de Angústia Pessoal Respostas Empáticas Relação Ideal entre Sentimentos e Adultos e Crianças Comportamentos Positivos Relação de Cuidado Respostas Sobre a Moralidade .

Ser Criança na Família de Origem A seguir serão relatadas as respostas obtidas em relação à pergunta “Como era ser criança nessa família?”. Serão descritas as experiências nos microssistemas familiares. optou-se por descrevê-las antes para uma melhor compreensão dos resultados. na escola e em outros espaços (bairro. por exemplo).58 Tabela 3 Caracterização das Vítimas Pergunta Categoria Sexo das Vítimas Vítimas do Sexo Feminino Idade das Vítimas Vítimas Crianças Vítimas Adolescentes Aparência Física das Vítimas Beleza da Vítima Recusa em Avaliar a aparência da Vítima Ausência/Presença de Deficiências Ausência de Deficiências Atitudes Características Positivas Características Negativas Vínculo com o Abusador Relação de Proximidade Entre Vítima e Perpetrador Qualidade das Relações Entre os Participantes Relações Positivas e as Vítimas Relação de Vigilância Envolvimento Específico da Vítima na Envolvimento da Vítima pela Denúncia Ação de Terceiros Envolvimento da Vítima pela sua Própria Ação Envolvimento pela Ação do Participante Infância Embora a investigação sobre as fases dos ciclos vitais esteja descrita na entrevista após as perguntas sobre a visão acerca das crianças. As respostas foram agrupadas na categoria pertencimento positivo. A partir deste ponto serão relatadas as experiências infantis dos participantes deste estudo. .

38 anos).. E eu era uma criança bem feliz. 2004). são descritas as respostas á pergunta: “Fale-me sobre sua infância. sabe” (Francisco. Este dado parece contrastar com os dados obtidos na revisão de literatura.59 Pertencimento Positivo Todos os participantes responderam a esta questão usando expressões positivas. 37 anos). no tempo que da minha infância junto com meus pais. sendo relembrados como um aspecto positivo de sua infância. assim de. que ser criança em sua família “Era bom. tempo suficiente trabalhando junto com meus pais” (Paulo. né? (. 37 anos) . Outro lembrou que “Boas? Brincava. eu. sonhos e aspirações. Flávio (37 anos) recordou que “Acho que a lembrança boa da minha infância foi a minha primeira bicicleta. 70 anos).. né. ausência de lembranças positivas.. Flávio (37 anos) mencionou que “Era bom.. jogava bolita.. Finalmente. Isso aí” (Marcos. era regrado.) nunca faltou. nota-se que os participantes avaliaram positivamente a sua condição de criança em suas famílias de origem. Sonhos e Aspirações Ao serem indagados sobre as lembranças boas de sua infância. a gente tinha horário. eu considero que era bom” (Marcos. lembranças negativas e ausência de lembranças negativas. ausência de lembranças negativas. né?”. 37 anos). Lembranças Positivas e Negativas na Família Nesta parte. tirava pra brincar ou então chamava outro pra brincar. Era bom” (Flávio. nunca faltou nada pra nós. comida. de dar coisas pra nós. Levantava para ir pro colégio voltava. quase todos os participantes mencionam que uma lembrança boa seria “Lembrança que eu me lembro. que lembranças você tem de sua infância na sua família?”. apesar que meus pais tinham dificuldades.. Os sonhos de infância foram relatados por um deles. pois se sentiam prejudicados pelas violências sofridas (Garret.. Com essas respostas... por exemplo. 38 anos). assim. boa que eu tive. um deles relatou que “Ah... nunca faltou carinho.. Lembranças Positivas de Atividades. pois o único estudo ao qual se teve acesso sobre experiências infantis de abusadores sexuais mostra que eles desejavam sair de suas casas assim que isso lhes fosse possível. era bom.. As falas dos participantes foram organizadas da seguinte maneira: lembranças positivas de atividades. Um deles comentou. jogava bola. Um deles relatou “sempre quis ser piloto de avião” (Flávio.

37 anos).. O caso de Marcos (38 anos) merece ser comentado. Os sonhos dos participantes daqui não se relacionaram em qualquer medida ao desejo de ser ver livre de maus-tratos. eu não consigo me lembrar nenhuma agora. 38 anos). com vara (.. no momento” (Francisco. (Francisco. Alguns dos participantes desse último estudo relataram que suas infâncias foram tão difíceis e violentas. Era com vara. 38 anos) Contudo. era fim de mês e ele tinha ido receber . Espontaneamente. com cinta. Ausência de Lembranças Positivas Apenas um deles afirmou não recordar nenhum episódio positivo em sua infância: “Uma lembrança boa .. Essa é que era a parte mais difícil por que tinha que apanhar.. quando fazia algo de errado. fosse ruim. 37 anos) Os outros enfatizaram que não conseguiam lembrar de episódios negativos. que descreveram uma infância turbulenta. na época todos os pais faziam isso. apenas um dos participantes recordou que em um dado momento lembrança ruim: . que seus principais sonhos eram sobreviver às violências sofridas e sair da casa de suas famílias. pois ele mencionou: Aí eles me castigavam.. né?. na época. que tenha me marcado na minha infância (. Então essa é a lembrança ruim que eu tenho assim... né. Os participantes desta pesquisa aparentaram ter vivido uma infância feliz e tranqüila em suas famílias. Jogou todo o dinheiro e chegou em casa sem dinheiro.. assim.. nenhum. outras coisas. diferentemente dos participantes do estudo de Garret (2004). De alimentação.. nós tava já sem as coisas em casa.) E a lembrança boa. Vivia no campo” (Osmar. né? Surravam com cinto... né? Quando fazia arte. as surras sofridas não foram lembradas como algo negativo. Fui muito feliz quando menino.. Apenas um deles revelou que sofria abusos físicos “umas duas vezes por mês” (Marcos.. que ele tinha ido receber. né..)Ficava. (Marcos.. me surravam.. um dia meu pai chegou em casa. essa resposta só foi dada depois que a pesquisadora questionou especificamente se as surras que o participante sofria não era algo ruim que ele recordava da infância. pois “na época todos os . Uns verdão no corpo.. Contudo. Marcos não lembrou de nada que em sua opinião. É a surra. Só que daí ele pegou o dinheiro e gastou no jogo. 73 anos).60 Ausência de Lembranças Negativas “Na minha infância coisas ruins eu não me lembro.. Lembranças Negativas Quando questionados sobre as lembranças ruins..

ora eram distantes. . a gente brigava direto. Os participantes da pesquisa de Garret relataram que suas relações com os irmãos. Nessa pesquisa.” (Paulo. não foi observado esse tipo de relação com os irmãos.. ora era de responsabilidade. assim. que sempre se deu “Muito bem.. Todos eles (irmãos). Esse que era da. 73 anos).. respostas incoerentes e respostas ausentes. minha avó. primos. Relações com Crianças na Mesma Casa Nesta seção.. etc. Eu e meu irmão. Assim. 70 anos) Respostas Ausentes Um participante revelou que “só morava eu. 37 anos). Que era quase da minha idade. Respostas Positivas As relações com crianças da mesma na casa na infância também foram descritas de maneira positiva. quase da minha idade.61 pais faziam isso” e além disso.) que viviam na mesma que eles durante a infância.” (Francisco. muito bem” (Osmar. Era só quando eu fazia algo de errado”. As respostas foram organizadas nas categorias respostas positivas. O outro enfatizou que “Normal. 38 anos). serão expostas as respostas sobre como era a relação dos participantes com crianças (irmãos. a gente brigava direto. mas é normal. Desde guri se. 38 anos). assim. meu tio e minha bisavó” (Marcos. sem que eles assumissem essa relação de responsabilidades com seus irmãos. Paulo (70 anos) insistiu que “queria perguntar pra doutora se senhora sabe do que tão falando de mim. (Marcos. as surras ocorriam “só de vez em quando. as surras eram mais um dispositivo de correção da sua conduta do que atos de violência. A relação dos participantes com as crianças da mesma casa pode ser descrita como saudável. Respostas Incoerentes Quando indagado sobre essa questão. A única referência encontrada sobre a convivência de abusadores com outras pessoas de sua infância foi o de Garret (2004) que faz apenas uma pequena referência sobre a relação entre irmãos. Tudo normal. Eles citaram que seus pais delegavam a eles as tarefas de cuidados com os irmãos mais novos. Um deles revelou. por exemplo.

sabe?” (Francisco. Eles diziam que eu era trabalhador e educado” Além disso. foram semelhantes as que os entrevistados deram sobre eles mesmos. Segundo Paulo (70 anos) seus pais falavam sobre ele da seguinte maneira: “Vou dizer o que eu me recordo. 37 anos). as respostas às perguntas: “Como você acha que seus pais lhe descreveriam como criança?” “Fazendo de conta que voltássemos no tempo: Olhe pra você como criança e me descreva esta criança?”. nesta seção. Foi insistido pra que ele desse alguma informação. falaram sobre si como uma “criança levada” (Francisco. As respostas sobre como os pais dos participantes os descreveriam. Francisco (37 anos) declarou que seus pais o viam como “Arteiro. ao mesmo tempo um deles relatou que era uma criança “regrada e (que) obedecia aos pais” (Flávio. de “crianças normais” (Flávio. muito arteiro”. 38 anos). né? Por mais velho que esteja. Definiram-se como “bem feliz. se tornou . A coerência entre as respostas mostra que os participantes se percebiam de forma positiva. Garret informa que eles se atribuam definições como crianças estúpidas e idiotas. não me recordo de muita coisa. 37 anos). o pai e mãe dão carinho. Um outro forneceu uma resposta incoerente: É que na verdade para pai e mãe a gente nunca cresce. um outro relatou que seus pais lhe descreveriam como “Uma criança normal. o carinho. né? Sempre vão chegar e te tratar como se tu não tivesse crescido. As respostas foram organizadas em duas categorias: definições positivas e respostas ausentes ou inadequadas. Mas. Definição Positivas Os participantes definiram a si próprios como crianças usando expressões positivas. já que esta essa era a percepção que os outros tinham sobre eles.62 Definição de Si Mesmo e dos Pais Quando Crianças Serão descritas. A autodefinição foi. feliz. 70 anos) Além disso. 73 anos).. é sempre. Eles vão entender que tu cresceu. mas ele se recusou afirmando “Não sei mesmo!” (Marcos. 37 anos).. quieta” (Osmar. Respostas Ausentes ou Inadequadas Um dos participantes alegou não saber como responder a esta pergunta. assim como seus pais.. Os resultados encontrados no estudo de Garret (2004) sobre a autodescrição negativa e pejorativa de abusadores sexuais não são corroboradas nesta pesquisa. 70 anos) e que “brincava e trabalhava” (Paulo. 37 anos). ou como uma “criança carinhosa com meus pais” (Paulo. sobretudo.

que podem estar associados ao cometimento de certos delitos (Lee et al. 2005). os resultados desta amostra. A ausência de lembranças A quase total ausência de relatos de maus-tratos na amostra deste estudo merece ser comentada. 2001). Contudo. Certos tipos de abuso podem levar ao aparecimento de desordens psiquiátricas. Ao serem solicitados a descrever com mais profundidade suas lembranças. 2001. mas pra eles tu vai continuar sendo criança. Contudo. a vitimização sexual do abusador na infância esteve estaticamente associada a sintomas de pedofilia durante a adultez. Há que se considerar que a quantidade de participantes nesse estudo foi pequena e pode não ser representativa da população de abusadores. a descrição de momentos bons na infância dos participantes da pesquisa conduzida por ela também foi vaga.. Widon & Ames. pois. estudos (Lee et al. ao analisar a estimativa de crianças (30%) que já sofreram alguma espécie . De maneira geral. não houve diferença significativa entre aqueles que haviam sido vitimizados física ou sexualmente na infância. Assim. devido à subnotificação dos casos (Rich et al. A pesquisadora não a repetiu para uma melhor compreensão do participante. com 64 abusadores e 33 criminosos não-sexuais. o relato dos episódios positivos parece vago.. Em uma pesquisa realizada por esses autores. Pelo menos eu acho assim. não poderiam ser generalizados para a população total de abusadores. Ela afirma que mesmo diante de sua “insistência” nas perguntas sobre tais episódios. 37 anos) Flávio parece não ter compreendido a pergunta. pode-se notar que a infância desses homens. Eles apontam ainda que ambos os maus-tratos são mais freqüentes em pessoas que cometem abuso sexual contra criança do que na população me geral. a ocorrência de maus tratos na infância parece ser um fator comum nas infâncias de homens que cometem atos de abuso sexual. (Flávio. Segundo Garret (2004). Isso pode ter acontecido por várias razões. embora ilustrativos. Assim. em suas famílias. Não foram encontradas estatísticas sobre a quantidade de homens que já praticaram algum tipo de abuso sexual contra crianças. é percebida ou descrita por eles como feliz e saudável. Widon e Ames (1994) comentam que em uma pesquisa com homens que cometeram abusos sexuais contra crianças. os participantes não foram capazes de ser mais específicos. limitavam-se a repetir o que já havia sido dito sem realmente trazer novos dados e lembranças mais profícuas.63 adulto e tal. No presente trabalho não se encontrou esse tipo de resultado. 1994) indicam que sofrer algum tipo de abuso (não apenas o sexual) é importante preditor para o cometimento de abusos sexuais contra crianças. Vai ser eterna criança.

Assim. 37 ano). apenas após um contato prolongado com a terapeuta. 37 anos). ela pôde verificar que todos os homens que abusaram de crianças relataram terem sido abusados em suas infâncias. Flávio (37 anos) falou que: Um episódio ruim que aconteceu na escola que eu lembro foi uma menina que nós ‘tavamos jogando vôlei e a gente se pexou.. gostava. com exceção de um dos casos (o de Osmar). Sempre gostei de estudar. Eu gostava muito de ir” (Francisco.. o que pode ter dificultado a obtenção desse tipo de dado.2002) pode-se considerar que o número de homens que cometeram algum tipo de abuso certamente deve ser maior que os cinco casos detalhados neste estudo. Lembranças Positivas Flavio (37 anos) comentou que os momentos positivos que vivenciou na escola foram “Ah! Episódio bom na escola. né? Jogava basquete” (Flávio. Osmar mencionou que gostava da escola pois “Gosto. 1998. se ela seria encarada como natural por parte dos participantes como afirmam Lambie et al. As respostas foram classificadas como lembranças positivas.. 37 anos). Silva. né.64 de abuso sexual (Picazio. (2002). né. que jogava em times. lembranças negativas e respostas ausentes. 73 anos) Lembranças Negativas Francisco de 37 anos comentou que um episódio ruim que eles se recorda da época da escola foi “Aquela vez que eu fui expulso da escola. e quando . No estudo de Intebi (1998) que envolveu trabalho clínico e de pesquisa. Francisco. Porque eu briguei com um colega” (Francisco. Neste estudo. A gente jogava. as entrevistas aconteceram em apenas um momento com cada um dos participantes. por sua vez relatou que “Ia no planetário e era muito legal. Lembranças Positivas e Negativas na Escola Questionou-se aos participantes que lembranças ele tinham do ambiente escolar. Daí eu cai no chão assim. Só de episódio bom na escola. Portanto. não houve contato mais prolongado da equipe de pesquisa com os participantes. essa revelação não foi feita em uma entrevista inicial. A minha professora era muito querida. Outro aspecto importante foi o tempo de acompanhamento dos casos. Só dos jogos que a gente jogava. A não-obtenção de dados dos possíveis abusos sexuais sofridos na infância impossibilitou também a investigação de como esta situação foi sentida pelos participantes.” (Osmar. campeonatos que a gente ganhava..

38 anos) freqüentou por pouco tempo e outro (Paulo. Isso aí só olhando em boletim ou perguntando pra minha mãe. tô ganhando meu dinheiro. Não tenho certeza. Desempenho Escolar O desempenho escolar dos participantes também foi questionado. Na escola umas vezes os guris se embestericavam pra me bater. um tapa no rosto. Não. Eu levei um tapa no rosto e daí eu sai.. Contudo.. na . Acho que eu tinha uns 13. assim. 37 anos).. porque eu não vou ter certeza. mas também se evadiu do espaço escolar. Sai chorando só. Não foram encontrados estudos específicos que versassem sobre o ambiente escolar de abusadores sexuais infantis.. 70 anos). Respostas Ausentes Um participante (Marcos. Eu entrei.. Um outro não chegou a ter reprovações. assim. eu rodei. Desempenho Regular com Evasão Escolar O desempenho escolar dos participantes variou.. eu rodei. Não. Osmar (70 anos) também comentou um episódio ruim da escola afirmando que “nós somos adventistas. Não quis mais ir.. Ah. chegando a concluir o ensino médio quando tinha cerca de 24 anos: . eu não me lembro. nas quais se recordavam de brigas e de sentirem pouco capazes em relação às atividades acadêmicas. então o resto era católicos. no consenso que eu cheguei e disse pra minha mãe: ‘eu tô trabalhando. 37 anos). Mas eu sai chorando só (Flávio. na quarta série. né? Sai da quadra e fui pra lá. Mas.. mas eu me encostava na parede e ai não podiam me bater”.65 levantei ela me deu um tapa. bom desempenho sem evasão escolar e respostas ausentes. Ela pediu desculpa. na verdade o que aconteceu é que eu desisti de estudar. então havia problema. minha família era a única nesse lugar que era. eu rodei uma ou duas vezes. daí em seguida a gente se acertou. por aí (Francisco. 37 anos) teve reprovações e um posterior abandono da escola: Olha. As respostas foram classificadas nas categorias: desempenho regular com evasão escolar. Mas parece que eu rodei uma ou duas vezes. (Osmar. não vou mais estudando’ E aí eu larguei. que eu me lembre. tô perdendo tempo estudando. Garret (2004) relata que os abusadores entrevistados em seu estudo revelaram ter mais lembranças escolares negativas. Um deles (Francisco. 70 anos) não chegou a freqüentar a escola e por isso não tinham recordações importantes sobre a escola.

outras crianças. ainda gosto. Sempre gostei de estudar. pois se sabe que pessoas provenientes da classe trabalhadora têm pouco acesso aos bancos escolares. leio muito” (Osmar. Francisco (37 anos) disse que possuía amigos na escola com os quais se relacionava bem. Relações com os Pares na Escola Foi questionado também como eram as relações dos participantes com seus amigos na escola. convivi muito bem com eles” (Flávio. 37 anos).. quando eu me formei no curso de comercial. E naqueles 4 anos que convivi. Este fator está diretamente ligado a questão da classe social dos participantes. Por isso. havia brigas entre a sua turma e outras crianças: “Ela (relação) sempre foi saudável. mas com pessoas. conseqüentemente. nem era um aluno totalmente desinteressado. 37 anos esclareceu que “Alguns eram da escola. apresentando... eu estudei no colégio marista. Contudo. estes dois participantes não possuem recordações do espaço escolar. Uma convivência saudável sempre. que eu comecei a fazer o curso. 70 anos). né? (Flávio. Mas eu nunca rodei. Então eu não era um aluno muito estudioso. Relações Positivas Todos os participantes que freqüentaram a escola relataram que tinham amigos no espaço escolar. lá pelos 24. Respostas Ausentes Como já foi comentando anteriormente.. 73 anos). a gente sempre brigava muito. 25. Marcos (38 anos) freqüentou a escola por pouco tempo e Paulo (70 anos) não chegou a estudar. As respostas se organizaram em duas categorias: relações positivas e respostas ausentes.66 Normalmente eu fazia exame. uma história escolar de pouco sucesso. É... Flávio.. Por que eu estudei. 37 anos). uma escolaridade escassa. Nota-se que os participantes deste estudo apresentaram além de uma baixa escolaridade. Bom Desempenho Sem Evasão Escolar Apenas um deles completou o ensino médio no período adequado: “Terminei meus estudos no tempo certo. Depois dos 16. era normal. na escola militar” (Osmar.. Osmar também foi o único participante que relatou perceber o estudo como uma atividade prazerosa: “Era normal. crianças que não eram. A . eu praticamente fui parar de estudar. quando eu parei. fui bolsista em colégio particular.

o que caracterizaria relações pouco íntimas e pouco profícuas. . Aluno Inteligente e Agitado Um dos participantes disse que em opinião da professora sobre o aluno que ele foi na infância certamente seria “É. então havia participação nas comemorações pátria. Que eu tinha condições de pá e tal”. 73 anos).. sempre me acharam muito inteligente. aluno tímido e participativo.67 gente brigava muito” (Francisco. nem muito quieto também” (Flávio. Assim. 37 anos). As respostas foram organizadas em três categorias: Aluno inteligente e agitado. Mas. sempre fui tímido. assim. Me dava muito bem. Diziam que eu era muito agitado. né e tal. ele era um aluno participativo: Mas eu sei muito bem que até agora. Eu era tímido.Fazia o que eles me mandavam. que eu era muito inteligente. Aluno Tímido. mas com uma certa timidez. Apesar de não fazer referencia específica ao ambiente escolar. aluno nem participativo nem quieto e respostas ausentes. 73 anos). mas tinha. Jogávamos bola” (Osmar. Atuar no palco isso eu fazia. constata-se novamente que as respostas dos participantes do presente estudo não corroboram os dados traçados por Garret. brigavam com seus colegas e não possuíam confiança em suas relações de uma maneira geral.. assim” (Osmar. eu decorava e dava a poesia. Outro comentou também que “Tinha poucos. Garret (2004) em seu estudo sobre as experiências infantis de abusadores sexuais de crianças verificou que seus participantes sentiam-se isolados. (Francisco. 37 anos). Daí dava para recitar uma poesia. Me diziam para fazer um poesia. 37 anos). Aluno nem Participativo nem Quieto Flávio (37 anos) disse que “Acho que eu não era muito participativo. Descrição das Professoras sobre os Participantes Também foi perguntando aos participantes “Como você acha que sua professora lhe descreveria?”. da primavera. mas Participativo Osmar (73 anos) relatou que apesar de sua timidez. Pode-se afirmar que os participantes possuíam relações saudáveis com os pares na escola. Então mas fazia. não era muito aberto.

E tinha mercado. As respostas foram organizada em uma única categoria denominada lembranças positivas. água tudo que dava a firma. pois não houve recordações de episódios negativos.68 Respostas Ausentes Como já foi dito. padaria. 38) e uma última ao gosto pelo trabalho na lavoura. serão relatadas as respostas dos participantes sobre as lembranças positivas e negativas sobre outros espaços da infância. E havia uns ônibus que levavam para a capital (Osmar. pro cinema direto.. Lembranças Positivas e Negativas de Outros Espaços na Infância Nesta seção. Então todos que moravam ali eram filhos de trabalhadores. com a presença de muitos conflitos e violências. pois os desta última pesquisa relataram um vida conturbada. pois o primeiro freqüentou este espaço por pouco tempo e o segundo não chegou a estudar. Não havia gente desocupada.. as lembranças positivas foram destacadas pelos participantes. Mais de 40” (Francisco. verificou-se que eles também não eram adjetivados com características pejorativas e depreciativas como ocorreu aos participantes do estudo de Garret (2004). Então a gente se reunia todo mundo e a gente ia pra Redenção. Um deles enfatizou. Nessa firma havia um acampamento para as famílias que a própria firma dava. Desta forma. perto da Oswaldo Aranha ali. 73 anos). Duas respostas se refeririam as “brincadeiras” (Flávio. nessa época eu morava aqui no bairro Santana. 37 anos e Marcos. luz. Marcos (38 anos) e Paulo (70 anos) não possuem lembranças do espaço escolar. nota-se que os participantes relataram características tanto positivas (inteligente. 37 anos). Lembranças Positivas Todos os participantes relataram apenas episódios positivos no bairro. participativo) e outras que não podem ser classificadas nem como negativas nem como positivas (nem quieto nem agitado. Nesta questão. dado este oposto àqueles encontrados no estudo de Garret (2004). Então tínhamos casa. Tinha escola e coisa assim. por exemplo. que “Nessa época. Mais uma vez. tímido). ali pra Oswaldo Aranha. assim. praticamente uma cidade pequena. Era bastante gente. Osmar (73 anos) também disse: Era tudo tranqüilo. .

37 anos). .) É. Contudo.. 73 anos). tinha amigos sem dúvida. quer dizer a gente sempre foi super amigo desde criança. É o padrinho da minha filha” (Francisco. se telefona (. Nota-se que quase todos os participantes se refeririam aos amigos sem relatar nenhuma história de briga ou conflito. Ele é meu compadre. 37 anos). tinha amigos. Mas. De maneira geral. 38 anos). andar de skate. eu tinha amigos. Outro comentou que “Sim.69 Relações com os Pares em Outros Espaços Aqui são descritas as relações com crianças que não pertenciam nem ao espaço escolar e nem ao ambiente familiar durante a infância. já se procurava. os amigos era de trabalho”. Relações Positivas com Descrição de Conflito Apenas um dos participantes salientou a presença de conflitos entre ele e outras crianças. por sua vez. salientou que “Amigo a gente sempre tinha.. Os mesmos amigos que foram na minha infância. Um dos participante salientou: Os mesmos que são hoje. este dado está em desacordo com os achados que Garret (2004). pois os participantes do estudo conduzido por ela relataram relações pouco íntimas e conflituosas com as pessoas de uma maneira geral durante a infância. andar de bicicleta.. Desde criança até hoje. a gente foi criado junto e até hoje a gente se fala. Conserva até hoje. Fica vadiando na esquina e tal. A gente acordava. Brincava” (Osmar. já saía junto pra rua. Outro disse que havia um amigo especial com a qual ele estava em todos os momentos: “Porque ele tava sempre junto. Novamente. pra. ambos com 37 anos) enfatizaram que algumas amizades da infância permaneceram até a vida adulta. As respostas foram classificadas em duas categorias: relações positivas sem a descrição de conflito e relações positivas com descrição de conflito. esses conflitos foram classificados algo “normal” (Marcos. Relações Positivas sem a Descrição de Conflitos Nesta categoria foram organizadas as respostas que descreviam apenas os aspectos positivos das relações com outras crianças que não pertenciam nem ao espaço escolar. Alguns (Flávio e Francisco. né. todos. Paulo (70 anos). Essas coisas assim. nem ao ambiente familiar.. pode-se afirmar que as relações com os amigos podem ser classificadas como saudáveis. os mesmos amigos que eram da infância continuam ate hoje (Flávio. No meio de tudo isso.

por sua vez disse que “Até uma altura era brincava. Domingo... só fui começar a estudar mesmo na adolescência” (Francisco. ela (a avó) pedia pra mim ver lenha pra ela que era tudo fogão a lenha.. o que parece ter “encurtado” sua infâncias e . de Estudo e de Trabalho Dois dos participantes (Flávio e Francisco ambos com 38 anos) afirmaram que durante a infância. Atividades Lúdicas e de Trabalho sem Estudo Dois dos participantes (Marcos. se não tivesse um serviço apertado. Quase todos eles se referiram ao trabalho como uma forma de ter mais responsabilidades. Não gostava muito de estudar. 38 anos e Paulo.70 Ocupação do Tempo na Infância Aqui são descritas as respostas à pergunta “Como você ocupava seu tempo na infância?”.” Marcos (38 anos). a gente ia na casa do vizinho de um tio. As atividades laborais dos próprios participantes é um ponto que necessita ser um pouco mais discutido. Osmar comentou que “Nenhuma outra atividade. Atividades Lúdicas. de quem fosse. Cuidava. Segundo Francisco: “(A partir dos 11 anos) Trabalhava meio período e estudava. 38 anos). aí eu ia quebrar lenha pra ela. Segundo Paulo (70 anos): “Do jeito que eu tava falando. Varria a casa também pra ela. 73 anos). 37 anos). essas coisas” (Marcos. sem exercer nenhum trabalho remunerado. né? Fora brincar e estudar”. 70 anos) afirmaram que seu tempo na infância era dedicado ao trabalho remunerado e as atividades lúdicas. Flávio (37 anos) também relatou que “Eu trabalho desde os doze anos de idade. né? Brincar. dividiam seus tempos entre as brincadeiras. Atividades Lúdicas e de Estudo Apenas um dos participantes ressaltou ter apenas estudado e brincado durante a infância. As respostas foram classificadas nas categorias atividades lúdicas e de trabalhos sem estudos. e brincava. As respostas dos dois participantes sugerem que eles enfrentaram uma rotina rígida de trabalho na qual não havia tempo suficiente para as brincadeiras.. Só estudava e brincava” (Osmar.. o estudo e o trabalho remunerado. apenas atividades de estudo e atividades de trabalho e de estudo. daí depois quando eu fiquei mais grandinho daí era mais era trabalhar mesmo.

por sua vez. perante a sociedade. 37 anos e Osmar 73) citaram que gostavam de “jogar bola”. assinei carteira com 15 anos. pois segundo Garret (2004) a infância dos participantes em seu estudo foi atravessada por outras atividades de responsabilidade que não ao trabalho como o cuidado com a rotina dos irmãos mais novos ou ser responsável pelo bem-estar de suas irmãs. Mas pra mim acho que a pessoa. Contudo. No meu caso antes de eu fazer 18 anos eu já tinha família. Foi um pouco diferente (Francisco. Francisco (37 anos). não foi dessa maneira.Marcos (38 anos) disse “Andar de bicicleta eu gostava”. as respostas dadas divergem dos dados encontrados na literatura..71 adolescências. essas coisas assim. A infância seria uma época feliz. Pra mim. completa a maioridade. adolescente passa a ser adulto a partir do momento que. E. Para exemplificar. teoricamente. Assim. sem trabalhos e responsabilidades. né. enquanto na prática ser criança acontece de uma outra maneira. então comigo não foi assim. Brincadeiras Preferidas Nesta parte. Mais uma vez. bolinhas de gude.. Em suas falas sobre o que é ser criança ficou visível uma concepção ideal sobre as crianças e sobre a infância. Esse tipo de afirmação fornece pistas de que em nível abstrato as respostas são dadas de uma maneira idealizada. brincar com skate/bicicleta e resposta incoerente. eu já trabalhava. as infâncias deles próprios. afirmou que “Sempre gostei de bicicleta. Jogos e Brincadeiras com Objetos Dois dos entrevistados (Flávio. As . No meu caso... de skate. Flávio também comentou que “jogava basquete”.. esse encurtamento da infância a fala de Francisco. já que eles relatam que tornaram-se adultos mais cedo. a entrada no mundo do trabalho e das responsabilidades parece ser um aspecto prático que define a mudança de criança para adulto ou para adolescente. Comecei a trabalhar com 11 anos de idade. determinada pelas experiências mais concretas. né.”. 37 anos é emblemática: Ah.. Osmar (73 anos) também comentou que “Brincava de bolita”. Então com 17 anos eu já tinha família. já me autosustentava e. 37 anos)... né. não foi como estas descritas nesse estudo. serão descritas as respostas á pergunta “Quais eram suas brincadeiras preferidas?” As respostas foram organizadas nas seguintes categorias: Jogos e brincadeiras com objetos como bola. pois exerciam atividades remuneradas desde muito cedo.

Também deram adjetivos positivos a si mesmos quando descreveram-se como crianças. Há que se considerar que esta não deve ser uma característica associada ao perfil de homens acusados de cometer delitos sexuais contra crianças. sabe-se que pessoas provenientes da classe social com baixo poder aquisitivo possuem um acesso restrito aos bancos escolares. família e bairro) foram construídas de maneira saudável. serão descritos alguns aspectos sobre a adolescência dos participantes. relembrando majoritariamente episódios positivos em relação a ela. Verificou-se que eles possuem um sentimento de pertencimento positivo em relação a família. A baixa escolaridade dos participantes e uma história escolar de pouco sucesso foi constatada neste estudo. as relações com os pares também foram descritas de maneira positiva. A baixa escolaridade se relaciona mais diretamente a classe social da qual esses homens participam. Na escola. As relações com outras crianças nesse espaço. ou um histórico escolar de pouco sucesso. Descrição de Si Próprios Quando Adolescentes A seguir serão descritas as respostas quando se questionou “Fale de você quando adolescente”. Adolescência A partir desse ponto. Pois. características negativas. os participantes possuíam um bom auto-conceito de si. Assim. Esse último dado indica que. afirmaram que seus pais os descreviam de maneira positiva quando crianças. Além disso. e por isso. verificou-se que as relações estabelecidas nos microssistemas (escola. As lembranças no bairro também foram majoritariamente positivas. também. adolescente normal e respostas ausentes. As respostas se organizaram em três categorias: Características positivas. Disseram também que se dava bem com os irmãos e não comentaram nenhum episódio de vitimização acontecido no ambiente familiar. As perguntas sobre a infância tinham como objetivo analisar que avaliação os participantes faziam dela. sem a presença de episódios de violência. em suas infâncias. .72 brincadeiras descritas por eles dão a impressão de uma infância comum e tranqüila. apresentam poucos anos de estudo.

Apenas com a Família de Origem Flávio (37 anos) relatou que convivia com “Meu pai. minha mãe. Este seu comportamento tinha uma meta mais específica de conseguir obter dados que lhe fossem favoráveis. divertimento. evadindo-se da resposta. ” (Marcos. minha avó e minha irmã”. Observa-se pelas respostas dadas sobre a questão da descrição dos participantes enquanto adolescentes. Adolescente Normal Outro participante se descreveu como “um adolescente normal”. Características Negativas Francisco (37 anos). por sua vez. Paulo (70 anos) deu uma resposta semelhante afirmando que “morei com minha família até quando fui pro exército”. Segundo ele: “O que eu mais gostava de fazer era de ir em festa. 37 anos). pois desde o início da entrevista mostrou dificuldades em delimitar esta etapa da vida.” (Francisco. Paulo (70 anos) não respondeu a esta e outras questões sobre a adolescência.73 Características Positivas Um dos participantes relatou que “Mas eu sempre fui obediente” (Flávio. 38 anos). . com a família de origem e com a companheira e com a família de origem e com outras pessoas. 37 anos). A resposta ausente no caso de Osmar ocorreu devido ao seu comportamento manipulador que tinha por objetivo discutir apenas os aspectos relacionados com a denúncia.. Diversão. Respostas Ausentes Osmar (73 anos) não respondeu a essa questão. Normal. As respostas foram classificadas nas categorias apenas com a família de origem. Pessoas com as Quais Convivia na Adolescência As respostas relacionadas nessa seção referem-se às perguntas “Com quais pessoas com quem convivia durante a adolescência”. que eles não possuíam uma visão pejorativa e depreciativa sobre eles próprios. disse que “perdi um pouco o senso de responsabilidade que eu tinha quando eu era mais novo.

tal. nunca ninguém brigou de tirar sangue um do outro.. A seguir são relatadas as respostas a essa questão que foram categorizadas da seguinte maneira: Relações positivas e respostas ausentes. Sei. 70 anos). E ai eu só fui para o exército.)E ela estava sozinha mesmo.. né. pelas normas. ela é uma pessoa que eu me dou bem até hoje...74 Com a Família de Origem e com a Companheira Um deles afirmou que “(Com 17 anos) aí. com Parentes e com Outras Pessoas Osmar (70 anos) disse que em sua adolescência morou com seus pais e posteriormente “Sim. Com a minha mãe com meus. (Osmar... eu tinha uns 14. né”. Com a Família de Origem. pelos tipos de conduta. não morava ninguém com ela.. 15 anos... pelo jeito que ela me regrou. uma relação boa.. Osmar (73 anos) também comentou se dar bem com a família.. não. Ele também comentou que “Sempre. para a escola militar”. Tinha eventual discussão e.”. De família normal. “Muito novo.. não mudou nada”.. era a mãe da minha mãe... Sempre foi boa. “ (Francisco. enfatizando que “Me dava bem principalmente com minha mãe”... Osmar também . Marcos (38 anos) também conviveu com uma companheira na adolescência: “A primeira vez.. casar eu num casei nenhuma vez. briga. Marcos (38 anos) também relatou que sua relação com sua família de origem “Continuou a mesma coisa.. E justamente por isso ela pediu para algum dos filhos para lhe fazer companhia”.... durante a adolescência se relacionavam bem com as pessoas ao seu redor. Francisco (37 anos) relatou que a relação com sua família “Sempre foi boa. 18. 37 anos).. Relações Positivas Todos os participantes. sempre. viver junto com outra pessoa foi com 17 anos. Mas sempre foi. a gente ficou junto.. Essas coisas normal. por aí”. Inclusive ela tinha uns 60 anos (. Depois disso. E ela foi morar lá na minha casa. sempre” se relacionou bem com sua companheira (outra pessoa com a qual conviveu na adolescência). Flávio (37 anos) disse que sua relação com sua mãe era especial durante a adolescência: “Pelos ensinamentos. Relações com as Pessoas com as Quais Convivia Questionou-se aos participantes como era a relação deles com as pessoas com as quais eles conviviam na adolescência.

Encontro com os Amigos Um dos próprios participantes mencionou “Então.. Trabalhava. chagava em casa. normal. tomava um banho. me sentava na esquina com os guris e. trabalho e encontro com os amigo e trabalho e estudo..75 conviveu com os companheiros do exército.. nota-se que este período não foi atravessada por grandes conflitos.. 2001. pois foi interno em um colégio militar.. Nas falas dos participantes da pesquisa.. já nessa fase.. Nos agarramos os dois”. Assim... Pelas respostas dadas pelos participantes percebe-se que as relações que elas mantinham com as pessoas em geral durante a adolescência também eram saudáveis.. ah. através dos auto-relatos não puderam ser observadas relações disfuncionais com crianças na fase adolescente.. mas era normal. ele comentou que se dava bem com seus companheiros do colégio militar e que brigou apenas uma vez com um deles: “Me lembro de uma vez que falaram de minha mãe. Respostas Ausentes Paulo (70 anos). tinha também o final de semana como eu falei. Muitos estudos fazem referência (Abel & Harlow. 1994) aos primeiros atos de violência sexual. inclusive contra crianças. que não gostei (.. Trabalhava bastante e. pegava o violão. Entretanto. Trabalho e Atividades de Lazer Marcos (38 anos) citou que sua rotina na adolescência era dividida entre o trabalho e a diversão: “Eu trabalhava bastante. por não conseguir compreender o que significa a adolescência.. Ele frisou que ocorrência de brigas no exército era “comum”. A partir do relato dos participantes sobre suas adolescências. assim.. Ocupação do Tempo Durante a Adolescência As respostas relacionadas a seguir dizem respeito a pergunta “Como ocupava seu tempo durante a adolescência?” As respostas foram organizadas nas seguintes categorias: Trabalho e atividades de lazer.) Nos batemos. Becker. né? Daí a gente se divertia.. eu trabalhava. a relação com crianças nessa fase nem chegou a ser mencionada. novamente mostrou dificuldade em responder a pergunta. daí. uma . né?” .. Trabalho.

Aos 14 comecei a trabalhar com oficina de moto”.. . 37 anos). por sua vez. depois dos 16. Lembranças Positivas Um dos participantes lembrou que um episódio bom foi “A parte boa digamos. características estas expressas pelas falas dos participantes. lembrou que “uma lembrança boa que eu tenho da parte da adolescência por que eu estudava bastante e viajava muito. que eu comecei a fazer o curso (de piloto de avião). né”. Eu estava trabalhando naquela firma que eu lhe falei que meu pai arrumou para mim e eu trabalhava como office-boy” . Outro afirmou que sua melhor lembrança da época da adolescência é “Ah episódio bom.76 adolescência acho que normal. Eu fazia pintura de antena. 37 anos). A partir destes dados pode-se afirmar que as atividades exercidas pelos participantes em suas adolescências eram atividades típicas de pessoas de classes sociais menos favorecidas. E trabalhava. Nessas classes não é incomum a evasão escolar na adolescência e a entrada precoce no mercado de trabalho. eu praticamente fui parar de estudar lá pelos 24. É válido explicar que Francisco se evadiu da escola aos 13 anos. né? Fiquei conhecido aqui praticamente no Rio Grande do Sul inteiro. Flávio (37 anos).. é a primeira namorada que eu tive” (Marcos.. assim” (Francisco. Osmar (73 anos) afirmou que: “De manhã ia para escola e voltava mais tarde. festival que a gente foi tocar. As respostas foram organizadas nas categorias lembranças positivas. né? Viajava muito. acho que a primeira. conhecia muita gente diferente. Episódios Positivos e Negativos durante a Adolescência As respostas apresentadas a seguir referem-se à pergunta “Descreva episódios bons e ruins de sua adolescência”.. foi bem bom” (Francisco. Trabalho e Estudo Dois dos participantes citaram que as atividades mais freqüentes em suas vidas na adolescência eram trabalhar e estudar. assim. Era pintor. 25. ausência de lembranças. Flávio (37 anos) citou comentou também que “Ah! Eu praticamente. lembranças negativas e respostas ausentes. assim. 38 anos). Conhecia muita gente importante também.

. Francisco (37 anos) fez uma afirmação semelhante a dos dois participantes anteriores: “Ah. Uma coisa ruim. são apresentadas as respostas às indagações feitas sobre a fase adulta dos participantes. As respostas foram organizadas nas categorias temperamento com a subcategoria temperamento positivo... Sobre as respostas ausente de um dos participantes (Paulo. Não me lembro mais. com as subcategorias frustração e ausência de defeitos. Auto-percepção Nessa seção. Lembranças Negativas O único que se referiu a um episódio negativo de sua adolescência foi Marcos (38 anos): “Uma das coisas tristes é quando a gente ta acostumando com uma pessoa e de repente aí termina. As respostas sobre a adolescência denotam mais uma fase tranqüila. são apresentadas as respostas referentes à pergunta “Fale-me de você como adulto”. com a subcategoria pensamento e ações corretas frente aos outro e outros traços.. ruim. em um certo ponto. 37 anos).. Temperamento Temperamento positivo Quanto ao seu temperamento. Nenhum? Na minha adolescência.. Sinceramente. A resposta de Flávio (37 anos) ilustra esse tipo de resposta: . pode ser isso daí” (Marcos. Osmar de 70 anos apresentou o mesmo tipo de resposta: “Ah. pois notou que ele estava constrangido por não saber como responder. nada”. num lembro de nenhum episódio que eu possa dizer que foi ruim. auto-estima com a subcategoria auto-estima positiva e traços morais. todos participantes descreveram a si mesmos como pessoas calmas. um deles afirmou que: “Ruim. 70 anos). a pesquisadora optou por não fazer mais perguntas sobre a fase adolescente. Não me lembro”. Não teve episódio ruim” (Flávio. sem conflitos ou violências. Adultez A partir desta parte. demonstrando bloqueio diante das perguntas. ruim da minha adolescência acredito que não teve. Nada.77 Ausência de Lembranças Negativas Ao serem indagados sobre episódios negativos de sua adolescência. não. 38 anos).

depois que fiz isso. Evito de ter alguma coisa.)”. pela minha esposa está como está”.. nem nada”. Auto-estima Auto-estima positiva A auto-estima é uma importante parte do auto-conceito. Como te disse. mas eu . (2001) definem a auto-estima como a “avaliação global que a pessoa faz do seu próprio valor” (p. Tamayo et al. A resposta de Paulo (70 anos) exemplifica esse tipo de postura: “Eu sempre tive respeito na minha vida”. Traços Morais Pensamentos e Ações Corretas Sobre os traços morais dos entrevistados. A resposta de Osmar (70 anos) exemplifica esse tipo de fala: “Eu gosto. Com tais respostas. Se eu posso. conclui-se que os participantes do presente estudo possuem uma boa avaliação de si mesmos. 157)... né”. mulheres. fiz besteira”. disseram não se arrepender de nenhuma ação que tenha executado. assim.. todos os participantes relataram que sempre foram respeitadores.. As falas de Osmar e de Paulo também chamam a atenção pelo fato de os dois ressaltarem o respeito a mulheres e meninas: “Eu respeito totalmente as moças. Os outros afirmaram que se gostam e se valorizam. Contudo. Acho que o certo. Além disso. nesse caso. ele citou que esse não é seu padrão constante de comportamento. nunca teve motivo” (Osmar. Gosto de como sou. Eu sou religioso.. divido a paz como tudo mundo (. A fala de Francisco (37 anos) serve para ilustrar esse tipo de resposta: “Bem.. me dou com todo mundo”. Dois deles relataram que depois da acusação sua autoestima diminuiu. o que for. Também se descreveram como pessoas sem comportamentos impulsivos. eu fui sim (impulsivo). sempre fui disciplinado. mas esse troço aí eu fiz sem pensar. errada. A resposta de Paulo (70 anos) exemplifica este tipo de resposta: “Sempre penso antes de fazer as cosias. afirmando que “As pessoas sempre me dizem que sou uma pessoa calma. Não que eu me esconda atrás da religião. me sinto culpado demais por tudo que fiz.. pois sempre agiram corretamente com as pessoas.78 “Praticamente sou uma pessoa tranqüila. Apenas Francisco (37 anos) admitiu que foi impulsivo quando se relacionou sexualmente com sua afilhada: “Não.. 73 anos). A fala de Osmar serve como exemplo deste tipo de pensamento: “Que eu saiba nunca fiz nada grave assim. né? Não sou agitado. mas que ainda se valorizam. posso dizer que já gostei mais de mim.

”. Pelas respostas dadas. na medida em que as respostas de Paulo e Osmar enfatizam um respeito pela mulher em qualquer situação. Paulo (70 anos) também citou: “Eu dou o respeito até pra mulher pública.. conclui-se que os participantes têm um bom autoconceito e uma boa auto-estima. que eu tenho na minha vida é que todas as coisas que eu decidi fazer.. 1980. Assim. Francisco citou que havia um grande pesar em sua vida: “Uma grande frustração. assim. 37 anos). Os auto-conceitos positivos e a boa auto-estima seriam reflexo da vivência de episódios positivos durante suas vidas. Esse tipo de resposta diverge das idéias que apóiam o mito do estupro tais como “as mulheres podem resistir ao estupro. ao longo de suas vidas. 217). Pode-se notar que o auto-conceito e a auto-estima dos participantes. não deu certo em termos. A fala de Flávio (37 anos) sobre seus defeitos pode ser útil para ilustrar o tipo de resposta dada: “Defeito mesmo. eles vivenciaram uma vida tranqüila. Ausência de Defeitos Quando questionados sobre seus defeitos. com relações saudáveis nas quais foram amados e respeitados. foram definindo-se de maneira positiva. Apenas um deles afirmou que seu pior defeito era corrigir as pessoas quando essas emitiam alguma informação equivocada. Não.. e se isso acontece é por que eles querem”. assim. em um primeiro momento. principalmente denuncia que ele respeitaria até as prostitutas. aos dados do . de ir pra frente. eles afirmaram que não possuíam algum defeito que se lembrassem. entendeu?” (Francisco. embora dois deles afirmem que antes da acusação.. Mais uma vez. De acordo com as declarações dos participantes.. suas auto-estimas fossem mais elevadas. constata-se que os participantes possuem um bom conhecimento intelectual sobre as normas que regem o relacionamento entre as pessoas. da boate”. nenhuma deu certo. não haveria motivos pelos quais eles se percebessem de maneira negativa e não se valorizassem. Com as respostas dadas.. A resposta de Paulo.79 sou religioso.”. “mulheres pedem pelo estupro” (Burt. agora no momento eu não lembro de defeito meu assim. Outros Traços Pessoa Frustrada Um deles se definiu como uma pessoa frustrada pelos projetos que não conseguiu realizar. p.

O único dado que sugere uma autocentração é ausência de defeitos relatados por todos eles.133) e se sentiam como objetos que serviam para o uso das outras pessoas segundo esses participantes. Desta forma. Estas falas sobre respeito aos outros são importante para compreender a aceitação dessa regras. As falas deles. Assim. implicitamente eles dizem que aceitam as normas sociais. eram chamados de “estúpidos” (p. esse tipo de visão que os outros possuíam sobre eles tornou-se verdadeiro. Os abusadores relatam.80 presente estudo são completamente inversos aos encontrados na pesquisa realizada por Garret (2004). por exemplo. com as pessoas. Os abusadores da pesquisa realizada por ela enfatizam que suas vidas foram conturbadas. fazendo com que eles se sentissem especialmente desvalorizados até a fase adulta. Gannon et al. pois quando os participantes reiteram que respeitam as outras pessoas. fato este que parece divergente quando se contata que todas as vítimas relacionadas a acusação de abuso sexual contra eles são meninas ou adolescentes do sexo feminino. citam que os comportamentos dos abusadores são auto-centrados. inclusive com as crianças. com eles percebendo suas vontades e necessidades mais importantes que os dos outros. A baixa autoestima vem sendo associada à etiologia e à manutenção do cometimento de abuso sexual contra crianças. Possuir baixa auto-estima faria com que os abusadores sintam-se inseguros em enfrentar situações de estresse. Um aspecto sobre a auto-estima merece ainda ser comentado. Uma última conclusão sobre este aspecto é que parece não haver “erros” nas cognições sobre o respeito que se deveria ter com as pessoas de uma maneira geral. Horley afirma que a aceitação ou não das regras sociais está relacionada diretamente ao cometimento dos atos de abuso sexual contra crianças. inclusive. pois eles dão indícios de como os abusadores percebem a si mesmos. e que não possuem a visão de que suas vontades são mais importantes que as do outros e que devem ser cumpridas de maneira imediata. Gannon et al. Nesta pesquisa constatou-se que eles possuem auto-conceito positivo e auto-estima elevada. o auto-conceito e auto-estima são importantes de serem investigados. resultando em auto-conceito negativo e baixa auto-estima. eles aprenderiam . que na infância. (2005) e Horley (2000) comentam que o modo como abusadores vêem a si mesmos e o mundo são determinantes para compreender o modo como eles agem. Alguns participantes frisaram inclusive que respeitam as meninas e as mulheres. nas quais os sentimentos de desvalorização e humilhação se fizeram presentes. reiteraram o que eles sentem respeito pelos outros.

né? Mas tinha que pagar. esta característica não estaria associada às denúncias de abuso sexual infantil contra eles. sempre gostou muito de mim.. Praticar atos de abuso sexual contra crianças seria uma dessas estratégias disfuncionais. mas parece que não adiantava . a minha irmã que ta sempre do meu lado. Formação da Família e Relação com Ela na Época da Entrevista Nesta parte. Só pedia para ela não fazer mais aquilo. só dizia pra ela que tinha que dar um jeito de pagar. Teoricamente. que antes da denúncia sua esposa: Gastava com roupas chegava praticamente estourava o salário. Flávio (37 anos) disse. Não ia encrencar com ela por causa disso. os meus amigos. Muito bom. na metade do mês eu tinha que correr atrás. motivo pelo qual ele afirma que sua família no momento da entrevista era “A minha família é a mãe. após a denúncia. As respostas estão organizadas a partir das categorias mudanças familiares após a denúncia e manutenção nas relações familiares após a denúncia. Entretanto. pois ainda não havia se transformado em processo judicial) veio a tona a relação com a família tornou-se conflituosa: Olha. né” (Flávio. pois lidar com crianças. ele rompeu o relacionamento com sua esposa e está impossibilitado de ver o filho. Mudanças Familiares Após a Denúncia Quatro participantes relataram que suas vidas familiares modificaram-se após a denúncia.81 desde cedo a adotar estratégias disfuncionais para lidar com as situações estressantes (Marshal et al. é o pai. O Ricardo (filho) não tem o que falar. serão relatadas as respostas às perguntas “Quem é sua Família” e “Como você se relaciona com ela”. mas o casal permanecia junto e ele se relacionava bem com sua enteada (vítima na denúncia de abuso sexual) e com seu filho: “Era bom. A relação com sua esposa no momento imediatamente anterior à denúncia parecia conflituosa. Meu sogro. 37 anos). seria mais fácil que lidar com as situações estressantes propriamente ditas. O senhor ficava chateado com ela quando ela fazia isso?Ficava chateado. Pode-se notar que uma baixa auto-estima não foi um dado encontrado no auto-relato dos participantes. O meu filho eu não sei se vou conseguir ver ele de novo”.... 1999). não tinha muito problema. . é falecido agora. até o acontecido aí era mil maravilhas. por exemplo. Minha sogra me tratava como se um filho dela. só. seres mais frágeis e desprotegidos. disse quando a denúncia (no caso dele informal.. por sua vez. Francisco (37 anos).

Ele também relatou que sua relação com os filhos era normal e saudável: Normal. Normal de pai com filho. E comentou também que sua família naquele momento era apenas “Uma menina que tem oito anos que eu criei praticamente.) E tem um filho também. sua esposa e filhos foram lhe visitar “só uma vez”. Uma troquinha de palavras”. foi descrita da seguinte maneira: “A gente discutia bastante. minha filha me acusou de algo muito grave”. né.... a minha família. Este tipo de respostas sugere uma relação distante entre ele e sua família. ele não separou-se da esposa e continua considerando que A minha família.” . que dá bastante problema sobre isso aí (Marcos. com meus filhos. pra mim. os irmãos também como a irmã. . Marcos foi preso pela acusação de denúncia de abuso sexual contra sua filha e relata que desde que foi preso (40 dias antes da entrevista). A mãe também. botava de castigo. que é eu. Foi o único que chegou para mim e falou comigo”... né. Tem a minha família por parte da minha esposa. Sempre que eu podia dar eu dava.. A relação de Marcos (38 anos): com sua ex-esposa. Disse que depois da denúncia não concebe mais seus filhos e sua esposa como sua família. Eu sou um pai assim que me preocupo com que eles fazem. foi descrito como tranqüilo. pois “Todos sumiram. alguma palmadinha. Osmar (73 anos) disse que antes da denúncia “Eu me dava com a minha filha. como é que eles se comportam com os amiguinhos quando eles vão brincar. Quando precisava corrigir alguma arte também. Difícil eu vou poder perdoar a minha filha”. Uma briga... como é que eles vão no colégio. Francisco disse. As pessoas tinham muita confiança em mim e. eu trazia ela no toco.... agora tá um pouco complicado. como eu falei” A relação de Marcos com sua esposa tornou-se conflituosa. “Quer dizer ali. né. Porque tem a minha família por parte dos meus pais. pois nunca houve um conflito grave entre eles. antes da denúncia. que apesar dessas mudanças na relação familiar. nota-se certo autoritarismo de Paulo com as pessoas de sua casa.. Tem um filho que tem quarenta e poucos anos. 38 anos). por causa do motivo dos caprichos dela (com a casa). (. com agressões físicas entre eles: “Dei uns puxão de cabelo pra me defender”. ainda. a minha esposa e minhas duas filhas. Contudo. meus irmãos. um presentinho.82 Sempre dizia que era o genro que ele mais gostava. que eu considero a minha família mesmo. “não vai dizer que nunca teve. Manutenção das Relações Familiares Após a Denúncia O relacionamento de Paulo (70 anos) com sua esposa e filhos. hoje a minha família é bem grande.

né. pais abusados na infância. 37 anos). As respostas foram agrupadas. 2002). É. As respostas foram classificadas nas categorias respostas de desesperança. A relação com outras crianças que não a vítima também foi apresentada de maneira positiva. Segundo o relato de quase todos eles (exceto o de Marcos). Você fica no meio de um monte de gente que esta te acusando.83 A descrição desses resultados é importante para compreender como era a relação dos participantes com as pessoas de maneira geral e com outras crianças. (Flávio. dão risadas. você não tem mais. 1994. de repente você acorda na madrugada e tudo aquilo que você estava fazendo fica pra trás.” . as famílias nas quais os abusos ocorrem são freqüentemente disfuncionais. Praticamente você acorda no meio da noite e deu.. Novamente os dados apresentados nesse estudo entram em desacordo com aqueles apresentados na revisão de literatura. Francisco (37 anos) também afirmou que sentia desesperança em relação ao seu futuro. desejos de paz e tranqüilidade e desejos de realização pessoal... Silva & Hutz.. as relações com suas esposas não era abusiva. o futuro é muito longe agora. prática freqüente de violência como forma de disciplina. não tem mais nada. inversão dos papéis hierárquicos entre pais e filhos. que não percebe nenhuma solução para seu caso e acreditava que seria preso. esse aí eu acho que até não teria solução. Esse aí seria um problemão. pois segundo os estudos da área. pois temia ser condenado no processo de acusação sexual que pesava sobre ele: “É. respostas relacionadas à acusação de abuso sexual. Tenho pensado muito nisso e não vejo uma solução pra isso. por exemplo. Essas perguntas foram feitas com o objetivo de finalizar a entrevista de forma positiva. entre outras (ver Flores & Caminha. Pesquisadores citam que há um clima afetivo pobre. Ele comentou: Eu não penso mais no futuro. Respostas de Desesperança Um dos participantes relatou. Desejos Para o Futuro Nesta seção serão descritas as respostas das perguntas “Como você quer que seja sua vida no futuro?” e “Descreva para mim coisas boas que você gostaria que acontecessem no futuro”. pois ambas se relacionam aos planos e desejos que os participantes pensam para seus futuros.

não com venda de rações e injeções. a ser melhor que antes. Paulo também relatou que desejava que a situação da acusação contra ele fosse resolvida: Olha. né. Não sei que o juiz vai mandar ela embora. quem sabe. plantas e animais. Agora só penso.84 Respostas Relacionadas à Situação da Acusação de Abuso Sexual Marcos (38 anos) comentou que “Coisa boa pra mim que eu vejo agora é que termine tudo bem essa acusação contra mim. que eu não sei a idéia do juiz. por exemplo.. eu espero eu cumpri as ordens que sempre eu cumpri. artista plástico. mesmo diante da preocupação. tenho na cabeça o que vou escrever.. já comecei a fazer um esboço do livro. foram capazes de expressar algum desejo de realização pessoal. da minha mente”. Com aquários. Não. né. percebe-se que os participantes preocupam-se com as conseqüências futuras que as acusações contra eles podem gerar. Eu já tenho a capa.. de acuso não tenho medo. Escrever um livro. (Francisco. Voltaria. entendeu? Só que agora. Pra mim poder tocar minha vida. assim. mas agora vou ter que escrever quando passar a edição” (Osmar. E torcendo né. medicamentos. né? Cuidar dos meus filhos. Desejos de Paz e Tranqüilidade Osmar (73 anos) relatou que desejava “Recuperar essa parte (paz). A partir das respostas dadas. mas é por gosto por Deus. se eu recuperar”. Alguns mostraram-se esperançosos e outros menos. . garota. de venda de animais. Eu gostaria. Eu pretendo juntar um dinheiro pra isso. Além disso.. alguns deles. como eu já pedi (Paulo. 70 anos). 37 anos) Outro comentou que desejava escrever um livro: “Sim. assim. né. 73 anos). Planos de Realização Pessoal Nesta categoria foram incluídas aquelas respostas que expressavam algum plano concreto de realização pessoal do participante. eu não sei. Um deles disse: Ah. e esperar a minha hora de eu ter que deixar eles né. para mim era o melhor do mundo. Mas. quem não deve não teme.É tipo um pet shop. como eu sou desenhista. foi bom. Eu assim ó. Entendeu? Eu gostaria de trabalhar com animais. ia ser melhor que antes. eu gostaria que um dia eu poder botar uma loja. no momento não tá dando.

Dentro desta. Respostas Politicamente Corretas e/ou Estereotipadas sobre a Criança e Infância Visão Positiva e Romanceada da infância . né? Acho que seguida. O tipo de resposta dado pelos participantes era. né? Só quero continuar com a minha profissão. acho que a minha história de vida é uma paz só. talvez passe. incompletude da criança em relação aos adultos e infância como fase importante para as demais. a expectativa é de que eles não poderiam declarar nada que os comprometessem. ajudando meus pais.85 Relações da História de Vida com o Momento Atual As respostas que serão descritas nessa seção se relacionam à pergunta “Pensando em sua vida hoje. As respostas foram classificadas em única categoria: Ausência de conexão entre as histórias de vida e as denúncias. foram organizadas três subcategorias: Visão positiva e romanceada da infância. você acha que sua história influenciou em algo que acontece no momento atual?”. A resposta de Flávio (37 anos) serve para ilustrar esse quesito: “Não.. de certa forma. O Que é Ser Criança As respostas dos participantes a esta pergunta foram agrupadas em uma categoria mais ampla denominada respostas politicamente corretas e/ou estereotipadas sobre a criança e a infância.. Reiteraram que suas vidas foram tranqüilas e que por isso não conseguiam conectá-las as denúncias de abuso sexual contra eles. os participantes revelaram que nenhum aspecto dessa história se relaciona com as acusações. pois na situação de envolvimento com a justiça.”. eles podem ter entendido que comentar que suas histórias de vida podem ter contribuído de alguma maneira para a acusação na qual se encontravam poderia afetá-los de maneira negativa. Visão Sobre a Criança A partir deste ponto serão descritas as respostas relacionadas à visão sobre a criança. na qual quase todos eles se encontravam. Assim. Ausência de Conexão entre as Histórias de Vida e as Denúncias Quando foram questionados sobre suas histórias de vida e a relação com a denúncia. esperado.

Gaiva e Paiao (1999) atestaram que a fase infantil e as crianças foram vistas por estudantes de Enfermagem como uma “coisa a ser admirada”. as crianças foram percebidas pelas estudantes como “uma como fonte de alegria e satisfação” para os adultos. esse tipo de resposta parece incoerente. considerando-os apenas como objetos (Amazzaray & Koller. os participantes destacaram que ser criança é “não ter responsabilidades” (Francisco. Além disso.86 Ao serem questionados sobre o que é ser criança os participantes responderam. Outro participante salientou que “ser criança é não ter problemas” (Francisco. algumas contradições podem ser apontadas. Assim. Incompletude da Criança em Relação aos Adultos Nessa segunda subcategoria. A princípio. A essa função estaria associada a necessidade de se apreciar as crianças de maneira positiva. com o objetivo de serem avaliados psicologicamente. 1998). Assim. Contudo. seria coerente que as estudantes da pesquisa de Gaiva & Paiao vissem as crianças e a infância desse modo. Contudo. Além disso. e outro citou que a infância é aquela na qual se está “descobrindo o mundo e todas as coisas bonitas do mundo” (Flávio. A frase seguinte serve para ilustrar essa idéia: “Ser criança é a idade mais feliz do mundo” (Osmar. Gaiva e Paiao (1999) comentam que suas participantes também associaram a imagem da criança à diversão. pode-se perceber mais uma vez que os resultados apresentados se . que as respostas obtidas nessa pesquisa se aproximam das respostas da pesquisa de Gaiva e Paiao. as respostas positivas e romanceadas sobre as crianças e infância podem estar. Pode-se notar. estudantes de enfermagem estão se preparando para a função de cuidar. suas respostas podem ter sido dadas de modo que eles não se comprometessem com elas. 37 anos). por exemplo. ou seja. associadas mais a uma estereotipia das respostas e ao que é socialmente aceitável do que as reais visões que esses homens possuem. portanto. 37 anos). pois esses indivíduos. 37 anos) e “bonita” (Flávio. Neste último tópico. para homens acusados de cometer delitos sexuais contra crianças. pois os dois públicos percebem as crianças e a fase infantil de uma forma positiva. 37 anos). não analisariam as crianças de maneira positiva. 37 anos). como um ser gracioso com o qual se pode brincar. 73 anos). permeada pela felicidade. há que se considerar que esses indivíduos foram encaminhados compulsoriamente pela justiça até o local da coleta de dados. apesar de as respostas serem semelhantes. que ser criança é a “parte mais feliz” (Flávio. Assim. 73 anos). a princípio. no contexto dessa pesquisa. pois as crianças “pensa apenas em jogos e brincadeiras” (Osmar.

Pode-se afirmar que as respostas dos participantes dessa pesquisa parecem estar permeadas pelas noções sociais sobre o que é ser criança.87 aproximam aqueles encontrados na pesquisa com as estudantes de enfermagem. distanciando-a do mundo do trabalho e das responsabilidades é uma “marca” do modo como são percebidas as crianças na sociedade moderna (Ariès. quando questionado sobre o que é ser criança enfatizou que “os problemas. por exemplo. problemas na fase infantil poderiam se transformar em traumas que perdurariam na vida futura. A fala de Francisco. né?”. Assim. Assim. que as experiências vividas em uma fase anterior da vida são importantes para as posteriores. verificou-se que esses participantes identificaram a infância e as demais fases da vida incompletas em relação à adultez. a resposta de Francisco se assemelha as do professores. não trabalhar e apenas ter como interesses jogos e brincadeiras. 1981). Tal resposta expressa o que Santos (1996) aponta sobre a continuidade entre uma fase e outra do desenvolvimento. A idéia de que problemas na infância podem causar traumas futuros está associada a essa noção de continuidade. ou seja. Outro tipo de resposta está associado à incopletude da criança em relação aos adultos é expressa na fala de Francisco (37 anos): “criança é querer ser adulto” A idéia principal contida na fala do participante é de que criança é um vir a ser do adulto. 2005). pois esta última foi apontada por eles como ponto ótimo do desenvolvimento humano (Almeida & Cunha). por ser a etapa mais precoce teria conseqüências para as demais etapas do ciclo vital. pois a meta do desenvolvimento seria tornar-se adulto (Salles. é quase inevitável não limitar aquelas atividades que são permitidas ou não para elas. Pensar a infância como uma fase incompleta em relação à adultez implica pensar que a conduta da criança deve ser superada. Além disso. Quando identifica-se as crianças e a fase infantil dessa maneira. como o trabalho. o “vir a ser adulto” seria a oportunidade de ter suas capacidades em pleno desenvolvimento. às vezes lhe podem futuramente ser um trauma. Infância Como uma Fase Importante Para as Demais Fases Osmar (70 anos). Relacionar a fase infantil com as idéias de diversão e lazer. portanto. está em acordo com essa concepção comum na sociedade ocidental. . A criança é vista como um ser incompleto por ainda não possuir responsabilidades. Em um estudo com professores acerca das concepções das fases do desenvolvimento. pois a infância.

cada uma delas aparece descrita. As falas dos participantes indicam que suas visões sobre as crianças são permeadas pelas noções da sociedade em geral. A seguir. As respostas foram categorizadas da seguinte maneira: Definição cronológica. Um outro participante identificou que pessoas podem ser consideradas como crianças até os dez e/ou 12 anos. 2005) as visões positivas sobre a infância e a idéia de inclopetude delas em relação aos adultos são comuns na sociedade atual. há ainda a clara indicação que com estas respostas os participantes visavam a atender à expectativa da equipe de receber respostas positivas e socialmente aceitáveis. pelo menos neste quesito não há uma indicação de erros cognitivos sobre as crianças. ainda que as considerem incompletas. pela ausência de responsabilidade. devido às denúncias sobre abuso sexual que os acompanhavam. Ariés. 19875/1981. desfazendo a possível crença sobre si próprios como pessoas de mau caráter. que consentem relações dessa natureza ou iniciam contatos desse tipo de contato com adultos (Gannon et al. pode-se afirmar que os participantes apresentam uma visão positiva e romanceada das crianças e da infância. Assim. 1999). pois segundo vários autores (ver Almeida & Cunha. Definição Cronológica Basicamente. “a minha (filha) de cinco anos é criança e outra de 14 é adolescente”. Os critérios . 2003. comum em abusadores sexuais. por exemplo. com a subcategoria definição cronológica por gênero e a categoria de resposta ausentes ou inadequadas. todas as respostas a questão “o que é ser criança” podem ser classificadas na categoria única respostas politicamente corretas e/ou estereotipadas sobre a criança e infância. Nenhum dos participantes revelou algum tipo de distorção cognitiva. Isto indica que os participantes reconhecem que há uma norma social sobre o que é ser criança que dita como as crianças devem ser vistas e conseqüentemente como devem ser tratadas. Por outro lado. os participantes definiram quem é uma criança através de critérios cronológicos. identificando. já que todos eles enfatizaram apenas as noções socialmente aceitáveis. Quem É uma Criança A pergunta “Quem é uma criança” tinha por objetivo analisar quem os participantes poderiam indicar como sendo uma criança. na quais as crianças são percebidas como seres sexuais. Portanto.88 De maneira geral.. 2005. Ward & Keenan. Salles.

22. deliberadamente falou sobre os critérios etários usados na lei. Observando as respostas. As idades citadas aproximam-se dos limites etários ditados pelas leis (ECA. mas não definiu que código jurídico seria esse. Embora haja uma certa confusão sobre os limites etários previstos por lei para classificação de pessoas como crianças. Este aspecto demonstrou. Repetiu-se a pergunta para que ela ficasse mais compreensível. Na parte do homem. A WHO define a idade de dez anos e o ECA 12 anos. foi classificada a resposta de um participante que indicou quem era uma criança usando parâmetros cronológicos de gênero: “Disse que pra passar. Um outro participante quando citou as idades.sd) e pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) de 1990. enquanto o outro pareceu sentir-se envergonhado de não saber responder a questão. Já me falaram que é com 18 Quer dizer que na parte da menina disse que até de 21. especialmente no que tange à discussão de direitos e deveres. mesmo que de . Respostas Ausentes ou Inadequadas Dois outros participantes não souberam responder. Ao falar sobre essas idades. sem. A mídia e o senso comum apresentam uma série de possibilidades para definir. 1990) e por órgãos internacionais (WHO. disse que pra passar de maior tem que ser com 21 anos. Ele citou que uma menina poderia ser considerada criança até os 21 anos e os meninos. Definição Cronológica por Gênero Nesta subcategoria. mas ambos recusaram alegando que não sabiam como definir. até os 18. Um deles reagiu de maneira indiferente ao questionamento da pesquisadora. desculpa eu me explicar assim. 70 anos). No caso desse participante. uma visão sobre a criança permeada pelos ditames socialmente aceitáveis. ele usou critérios mais próximos da entrada na maioridade em vez de a idade limite para que alguém possa ser considerada criança (12 anos). mencionarem essas fontes. sem comentar a que código jurídico ele se referia. não é justificável que alguns participantes que não soubessem responder. percebe-se que alguns participantes usaram o critério cronológico (idades) como definição de quem é uma criança. diz que é 18. 2003). como limite para ser considerado criança.89 utilizados por este último participante são semelhantes àqueles utilizados pela World Health Organization (WHO. no entanto. o participante disse que acreditava que esse era o critério definido pela lei. mais uma vez. 19” (Paulo.

como expressou esse . criançasdemais fases do desenvolvimento).. Mas já passa a ter mais responsabilidade” (Osmar. Diferenciação por Identificação como Fase de Transição no Desenvolvimento em Geral A adolescência foi entendida por um dos participantes como uma fase de transição na qual a pessoa não é mais criança. optou-se por descrevê-las em seções distintas. Respostas inadequadas. Segundo Salles (2005). 1999). em estruturar uma resposta. etc. à pergunta. indicam a confusão. A adolescência aqui é compreendida como uma fase de experimentação e de transição para vida adulta. Assim. Diferenças Entre Crianças e Adolescentes Questionou-se aos participantes quais seriam as diferenças entre crianças e adolescentes e adultos (gostos. criança-adulto. Os limites etários para ser considerado criança parecem ainda confusos como eram no início do século XX.90 forma estereotipada ou pragmática quem é uma criança. Uma maior responsabilidade na adolescência marcaria a diferença entre uma criança e um adolescente. a noção de que a adolescência é uma fase de transição se originou nessa época. estão relatadas apenas as diferenças entre crianças e adolescentes. diferenciação por rebeldia. interesses. comportamentos. diferenciação por autonomia com a subcategoria diferenciação por autonomia de pensamento. a distinção entre criança e adulto. Contudo. Como as diferenças foram descritas aos pares (criança-adolescente. quando os códigos jurídicos ainda traziam classificações etárias diversas sobre quem poderia ser considerado criança (Londoño. que nem é mais criança e ainda não é adulto. sendo a “ponte” que uniu uma fase a outra. 73 anos). perdurando até os dias atuais. que pode ser gerada por alguma ansiedade. As respostas foram categorizadas da seguinte maneira: diferenciação por identificação como fase de transição no desenvolvimento em geral.). Nesta parte. da mesma forma. A frase seguinte exemplifica essa idéia: “O adolescente para mim é uma criança que está passando por uma fase de transição.. fez com que a adolescência começasse a ser percebida como um período à parte do desenvolvimento humano. diferenciação por gostos e interesses e respostas ausentes ou inadequadas. esta maior responsabilidade não seria ainda como aquela assumida por um adulto. iniciada ainda no século XVII. mesmo que não consistente. mas também não pode ser ainda classificada como adulto.

. 37 anos). Ela tem. Assim. 1998). Os adolescentes. A idéia de rebeldia e contestação está intimamente ligada à concepção de “crise”. é justamente a contestação”. 37 anos). e vai. pode-se sugerir que a etapa infantil seria uma contraposta à adolescência.) não tem vontade própria ainda. segundo este participante. pela qual os adolescentes necessariamente passariam. Apesar de esta idéia de crise adolescente ter sido gerada inicialmente no meio da disciplina psicológica. E adolescente não. que que ela vai fazer. segundo um dos participantes foi expressa na seguinte sentença: “por mais que as crianças tenham suas próprias vontades. Adolescente já tem vontade própria. 37 anos).. Esta concepção foi inaugurada na psicologia por Stanley Hall (1844-1924. diferenciando-se da fase infantil. A fase infantil diferenciar-se-ia da adolescência pela ausência desta rebeldia e/ou contestação. (Francisco. Mesmo que a gente não queira. Quer fazer e faz. Diferenciação por Autonomia Outra diferença importante entre crianças e adolescentes. in Newcomb. onde que ela vai ir. Ao recordar as respostas dadas pelos participantes quando foram questionados sobre o que é ser criança. pois ela designa mais especificamente uma maior autônima de pensamento por parte dos adolescentes:“aquela fase que a gente . seriam mais autônomos e não teriam que ser submissos aos adultos. enquanto as crianças deveriam obedecer: A criança (... Esta noção pode ser notada claramente nas respostas obtidas. mas a gente. pode-se verificar que a infância foi vista como uma fase sem problemas permeada pela felicidade. Outro respondeu que “Acho que o adolescente já é mais aquela fase de rebeldia” (Flavio. quer ir. a gente é que sabe o que que vai fazer. elas têm que obedecer às ordens dos adultos” (Francisco. Diferenciação por Autonomia de Pensamento Esta subcategoria foi criada. esta ultrapassou tais limites há bastante tempo. tornando-se um conceito do senso comum (César. Ela seria uma fase mista entre a infância e a adultez. passar a ser adolescente. 37 anos: “Eu acho que o que faz isso aí. pois esta última seria problemática. Ela quer ir. 1999) que definiu a adolescência como uma fase de “tempestade e estresse”.91 participante. Segundo Francisco. Diferenciação por Rebeldia A adolescência foi concebida como uma fase de contestação e rebeldia.

Algumas dessas atividades (sair e viajar) associam-se diretamente à visão de uma maior já discutida anteriormente. Muito” (Francisco. mesmo tendo ciência de que o sexo entre crianças e adultos não é uma atividade típica da fase infantil. embora elas acreditem que sabem como agir. em contraposição aos adolescentes. (César. 37 anos). A idéia de uma maior autonomia adolescente é aceita na sociedade contemporânea. A questão do namoro também é uma outra idéia aceita com sendo uma característica típica da fase adolescente. 1998). 37 anos). para o participante. quer ir ao cinema. Esta resposta denota que. segundo os participantes. pois ela seria necessária para que eles exercitassem as funções que desempenharão quando tornarem-se adultos (César. por não namorarem. Quando sai de férias da escola. que há ainda pouca maturidade das pessoas nesta fase da vida. mas a gente não sabe” (Flávio. pois. os dois grupos foram capazes de abusar sexualmente das crianças. pois em ambos os casos. novamente. quer escutar música. quer viajar. Quer namorar.92 acha que sabe das coisas. sobre a exploração sexual infanto-juvenil. Respostas Ausentes ou Inadequadas Houve também certa confusão de um dos participantes em definir características típicas da fase adolescente. ainda não teriam essa autonomia de pensamento para realizar este tipo de avaliação. Alguns dos participantes dessa última pesquisa declararam ter mantido relações sexuais com crianças durante suas viagens. Assim. 2005).. permeadas pelas noções do que é socialmente aceitável. Diferenciação por Gostos e Interesses Os interesses das crianças basicamente se associaram às brincadeiras. As crianças se diferenciariam dos adolescentes. mas. já há uma autonomia de pensamento por parte dos adolescentes. saírem com os amigos. ainda não possuiriam bom senso suficiente para discernir sobre como proceder. encarada como sendo uma conseqüência de um instinto sexual natural que irrompe nesta fase. Nota-se nas respostas dos caminhoneiros a mesma estereotipia de respostas dos participantes da pesquisa aqui relatada. Os interesses dos adolescentes foram descritos de maneira mais variada: “(adolescente) já quer sair. As crianças. etc. confundido-a tanto com a infância . verificou-se que as brincadeiras foram vistas como sendo atividades infantis e o namoro como uma atividade tipicamente adolescente (Koller et al. 1998). Em uma pesquisa com caminhoneiros. as respostas dos participantes a esta questão foram.

adolescente. estudo como dever das crianças e diferenciação por pequenos trabalhos domésticos como deveres para as crianças). Essa pergunta eu num sei”.93 quanto com a adultez.. por exemplo. Diferenciação pela Responsabilidade É marcante a questão da responsabilidade na diferenciação entre o que é ser criança. (Paulo. cumprir as obrigações. o reflexo do que Ariés comentava em 1981 sobre a moderna (e ainda contemporânea) concepção da infância. tem que. tem que correr atrás do dinheiro que é pra poder pagar as coisas. diferenciação pelos deveres (com as subcategorias: deveres mais brandos para as crianças. entre crianças e adultos. se tiver obrigação”. Francisco (37 anos). e o que é ser adulto para os participantes deste estudo.. né”. É diferente de criança. diferenciação por cuidados recebidos ou devidos por adultos e diferenciação pelas atividades lúdicas.. citou que “O adulto tem que ter responsabilidade. quando ela pega mais idade. O entrevistado distinguiu adolescentes de crianças apenas pela questão da idade. Pode-se perceber. Diferenças Entre Crianças e Adultos Nesta seção. citadas pelos participantes. denotando que eles possuem ciência de que certas atividades são permitidas ou não para as crianças. né. fazer a vida.. nota-se que os participantes possuem idéias claras sobre as diferenças entre estes dois grupos. Elas foram agrupadas nas seguintes categorias: diferenciação pela responsabilidade. são apresentadas as diferenças. 70 anos). sobretudo. diferenciação por dever de obediência. É uma criança. A fala de Paulo (73 anos) também exemplifica essa idéia: “Quer dizer que o adulto vai ter que trabalhar. A separação da criança do mundo do trabalho e das responsabilidades . (Então. A responsabilidade esteve associada. criança é igual a adolescente?) Não. Em suas palavras: “Quer dizer. ao trabalho e ao conseqüente ganho do dinheiro. Todas as respostas indicaram que a principal diferença entre adultos e crianças é a presença de responsabilidade na adultez e ausência dela na fase infantil. Tem que batalhar. através das falas destes participantes. que é uma criança de repente. Ao analisar as respostas dadas sobre as diferenças entre crianças e adolescentes.

A fala de Paulo (73 anos) sugere essa concepção: Agora tem que tá com um colégio na parte da noite.. num precisava escrever. asseguraria um futuro sadio para as crianças (Ariès. não precisava ler.). encarada como meta máxima do desenvolvimento. acrescentou que. Num pega mais. embora todas elas se relacionem a questão dos deveres diferentes para crianças e adultos. pois.. A imagem da criança aparece novamente relacionada a menos responsabilidades... Além disso. . se comparadas aos adultos. Diferenciação pelos Deveres Dentro desta categoria foram criadas subcategorias. mas não como os nossos (.. Eles têm. possuem menos deveres. Agora no meu tempo. sd).94 revela-se em suas respostas. que por sua vez. 37 anos). Agora com pouquinho estudo. a criança estaria dissociada de tais responsabilidades por uma razão primordial: ela seria incapaz de manejá-las. ensiná-los tanto na escola quanto em casa tem que ensinar a ter dever. quando tais deveres existem..”. eles seriam mais brandos que os dos adultos. Este ingresso garantiria um desenvolvimento pessoal (Ramirez. tá estudando.. É uma preparação para a fase adulta. é a preocupação com o vir a ser da criança e com seu futuro. cada um delas designa deveres específicos. Porque hoje em dia é o estudo que tá valendo. Conceber a educação como um dever pode estar associado à idéia amplamente aceita de que as crianças se beneficiam quando ingressam na educação fundamental ou primária. A educação formal seria um aspecto fundamental para assegurar o futuro (adultez). a mais importante idéia expressa pelo participante associada à questão da educação. tem que fazer os temas da escola” (Francisco.. A fase infantil não é simplesmente uma etapa a ser vivida por si só. no lixo assim precisa ter. Deveres Mais Brandos para as Crianças Um dos participantes respondeu que crianças.. A fala de Osmar (73 anos) ilustra esse tipo de resposta: “Quase não tem deveres. Contudo. devíamos ensinar a ter deveres. 1975/1981. Não como os nossos.. Para Áries. Estudo Como Dever das Crianças Um dos deveres das crianças seria estudar: “Tem que ir à escola. Pegava qualquer conta. nem me lembro o grau que tem que ter. em qualquer lugar mesmo pra pegar em qualquer outra função. Tem deveres.

a criança precisaria ser submissa aos adultos. ser dependente dos adultos faria com que a criança devesse obediência a ele (Kramer. dependendo da idade que ele tem. 73 anos). Esse tipo de concepção comentada pelos participantes pode ser reflexo da concepção sobre a criança da sociedade ocidental. A realização desse último tipo de atividade foi discutida por Bastos (2002) como permitida para as crianças de baixa renda. o trabalho doméstico seria uma forma de suas filhas retribuírem pelos cuidados físicos e emocionais fornecidos. Fazer a cama dele. 37 anos). 1999. Este tipo de trabalho seria uma forma de solidariedade entre os membros da família. Phelan. faixa social da qual emergem os participantes deste estudo.95 Diferenciação por Pequenos Trabalhos Domésticos como Deveres para as Crianças Apesar de o trabalho remunerado não ser visto pelos participantes como uma atividade aceitável para as o público infantil. mais uma vez percebe-se que a adultez é destinada ao trabalho e as . Diferenciação por Dever de Obediência A questão da obediência também citada como um dever da criança é um importante ponto a ser discutido. 73 anos). Contudo. A obrigatoriedade da criança em ser obediente decorreria de uma outra característica dela: ter menos capacidade que os adultos. fazer o quarto dele. Heilborn (1998) também detectou uma visão semelhante dos pais em relação às suas filhas em bairros periféricos do Rio de Janeiro. Esse tipo de resposta sugere que os adultos têm como dever a responsabilidade com a criança. inclusive as crianças. Em vários outros momentos. Diferenciação por Cuidados Recebidos ou Devidos por Adultos Com relação aos deveres dos adultos. ou seja. Assim. Essa menor capacidade daria origem a uma relação de dependência entre o adulto e a criança. a obediência não seria uma opção para criança. os participantes expressam que uma das características das crianças é ser obedientes: “Tem que obedecer aos pais. né?” (Francisco. sendo encarada como um dever. a realização de pequenos trabalhos domésticos foi uma das respostas sobre os deveres das crianças: “Em casa às vezes lavar os pratos. Para estes pais. quem sabe. pois ele deve ensinála. Pelas respostas dadas sobre as diferenças de deveres entre esses dois públicos. os participantes citaram que “adultos deveriam ensinar as crianças” (Osmar. 1995). Acho que devia ser um dever que deviam ensinar para a criança” (Osmar.

necessidades de alimentação. 70 anos). novamente. Diferenciação Pelas Atividades Lúdicas A brincadeira foi outro importante tema usado pelos participantes para diferenciar crianças e adultos. relatando essas distinções de maneira generalizada. eles podem praticar atos abusivos e as crianças deveriam. mais responsabilidades. né. necessidades de carinho e necessidades da criança de ser prontamente atendidas. e adulto. estão reunidas as subcategorias: necessidades de objetos materiais. denotam uma visão sobre as fases do desenvolvimento a partir das noções socialmente aceitáveis. As respostas foram reunidas da seguinte maneira: Diferenciação por necessidades. a questão da obediência como uma obrigação das crianças pode ser uma crença que pode favorecer aos abusos de todos os tipos. ou seja. Há ainda uma outra categoria denominada diferenciação por direitos das crianças com as seguintes subcategorias: direito de não trabalhar e de estudar. direito a alimentação.96 responsabilidades (com a criança. Um dos participantes citou que “crianças brincam. inclusive). Esta classificação está descrita a seguir. Dentro desta. direito a higiene. 1975/1981) até os dias atuais. pois na medida em que os adultos pensam ter esse direito sobre as crianças. As repostas desta seção. Os adultos são vistos como tendo mais deveres em relação às crianças. necessariamente. adulto não brinca mais” (Paulo. do mundo dos adultos já comentada anteriormente é uma característica marcante do modo de se conceber a criança desde a modernidade (Ariès. enquanto a infância é a etapa da vida na qual não há muitos deveres e responsabilidades e que necessita de cuidados do outro (adulto).. se submeter. Entretanto. A imagem da criança ligada a diversão e conseqüente separação do mundo do trabalho. Diferenciação por Necessidades Dentro dessa categoria estão as respostas que se relacionaram a necessidades das crianças como um ponto de diferenciação entre elas e as pessoas . Diferenças das Crianças para as Demais Fases do Desenvolvimento Nas respostas desta seção os participantes não citaram diferenças entre as crianças e os adultos ou adolescentes especificamente. direito a afeto e prioridade de direitos. enquanto as crianças brincariam e estudariam.

Estas respostas foram alocadas em uma subcategoria. 37 anos). Esse tipo de resposta indica que umas das necessidades básicas da criança seria alimentação. Essa resposta sugere que as crianças deveriam estudar e não trabalhar.97 das demais fases do desenvolvimento. Direito de Não Trabalhar e de Estudar A resposta seguinte exemplifica esta categoria: “Eu acho que não (que criança não tem que trabalhar). então a necessidade vem coisas que não pode ter. pois cada uma delas associa a necessidades distintas. Necessidades de Carinho Paulo de 73 anos relatou também que a criança “Precisa de carinho”. pois dentro desta categoria foram organizadas várias subcategorias. por que não tem o que os outros tem. Direitos das Crianças Nesta questão ocorreu o mesmo com a categoria das necessidades. que para ele é um problema. na hora que pedir”. Necessidades de Objetos Materiais Um dos participantes se respondeu que as necessidades da criança se relacionaram a aquisição de objetos materiais. enfatizando que essa também seria uma necessidade fundamental da criança é ser tratada com carinho. Ele citou que: “Caderno ou qualquer outra coisa. Outro participante também citou que a criança tinha direito a . como foi no caso dessa participante. Por que se eu tivesse tido oportunidade de estudar eu poderia ta vivendo bem melhor hoje em dia” (Flávio. Necessidades de Alimentação Paulo de 73 anos comentou que crianças precisam “ter o alimento na hora que pedir pro pai”. (Paulo 73 anos). por que as vezes os nosso pais não dão” (Osmar. Necessidades da Criança de Ser Prontamente Atendidas Paulo (73 anos) frisou a importância de sempre se atender prontamente às necessidades das crianças: “(Criança) tem que ter tudo pronto. 73 anos).

“Receber (. .. né?” (Francisco. está associada a fala desse último participante. Direito à Afeto e Cuidado De acordo com um dos participantes. 37 anos).. por não poderem cuidar de si sozinhas. né?”. né?”. A idéia de paparicação (Ariès. Direito à Higiene Francisco (37 anos) destacou que crianças precisam de “Higiene. ensiná-los tanto na escola quanto em casa tem que ensinar a ter dever”. estaria para além da diversão das pessoas mais velhas. Francisco também citou que as crianças. Direito à Alimentação Nessa categoria a alimentação aparece como um direito assegurado para a criança. expressa pelo ECA (1990). principalmente. mas não obrigá-los. portanto. Este tipo de concepção sugere uma criança que tem direito de ser respeitada e não deve ser obrigada a fazer nada. tudo assim”. 1975/1981) na qual a criança serviria apenas para a diversão dos adultos é ultrapassada na concepção implícita na fala de Osmar. por parte dos pais e tal” (Francisco.) alimentação. saúde. essas coisas tudo. as crianças precisam de afeto e carinho: “carinho. embora não tenha comentado que a educação estava em contraposição com o trabalho como o fez Flávio. assim. devíamos ensinar a ter deveres. afirmando que em sua concepção as crianças tinham direito a saúde.. direito a cuidados por parte deles: “O adulto tem que cuidar da criança. A resposta de Francisco indica que ter direito aos cuidados de higiene seriam um direito das crianças.98 educação. afeto assim. essas coisas. tendo.. não sendo apenas um objeto a serviço das vontades adultas. A idéia da criança como sujeito de direito. Direito de Não ser Obrigada a ter Deveres Osmar (73 anos) comentou que “Eles têm. pois a criança agora teria suas próprias vontades.... A importância da criança.. inclusive a ter deveres. Direito à Saúde Francisco (37 anos) também comentou que “é. 37 anos). são de responsabilidade do adulto.

possuindo direito de ser protegido contra os mais variados tipos de violência.99 Prioridade de Direitos Nesta categoria não foi frisado nenhum direito específico. mas um dos participantes comentou que as crianças teriam prioridades de direitos em todos sos aspectos. têm um conteúdo pragmático e estereotipado. do direito de ser bem tratado por todos e não ser abusado. sobretudo a garantia das necessidades básicas para a sobrevivência de uma criança (saúde. Apesar de o participante não ter se referido diretamente a esse código. Entretanto. Esta doutrina apregoa que crianças e adolescentes sejam concebidos como sujeitos de direito. Foram citados pelos participantes direitos e necessidades que se relacionam. os preceitos desta convenção basearam a formulação da Doutrina da Proteção Integral subjacente ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) promulgado em 1990. O amor e afeto citado por eles. etc. No Brasil.). Prioridade em todos os sentidos”. as crianças teriam que ter suas necessidades e direitos assegurados com prioridade frente a adolescentes e adultos. eu acho. o tipo de resposta dada por ele pode sugerir que há uma disseminação ampla na sociedade sobre as leis que protegem a criança que passam a fazer parte das imagens sociais da criança. 73 anos: “Todos direitos. A resposta é dada de acordo com o que seria esperado do participante pelos pesquisadores. principalmente. Isto se evidencia quando é solicitado um aprofundamento da resposta e o participante apenas consegue repetir o que já disse sem desenvolver a idéia. sentem dor. . alimentação. Segundo Osmar (73 anos): “São seres humanos. Além disso. De acordo com Osmar. As respostas citadas tanto para as necessidades quanto para os direitos das crianças estão de acordo com nova visão sobre a prioridade de direitos das crianças (criança como sujeito de direito) inaugurada e propagada pela Convenção Mundial sobre os Direitos das Crianças (1949). pode ser visto como a garantia de proteção contra as violências e. de terem atendidas suas necessidades básicas que garantam a sua sobrevivência além de terem direito à participação nas decisões políticas e sociais que influenciam suas vidas e é exatamente esta convenção que embasa o ECA que os condena ou acusa. A prioridade de direitos é uma meta descrita pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (1990). Similaridade por Problemas Enfrentados Embora os participantes tenham salientado. um deles citou as semelhanças entre uma fase e outra do desenvolvimento. a forma como aparecem. as diferenças entre crianças e adultos. por conseqüência.

definição por responsabilidade parta a transição da infância para adultez. Essas repostas denunciam que as crianças são concebidas como seres distintos que possuem necessidades e direitos e específicos. que “criança não assimila problema. ainda. definição por contestação para transição da infância para adolescência. As respostas foram categorizadas da seguinte maneira: definição não-cronológica para a saída da infância para as demais fases. Definição por Contestação para a Transição de Criança para Adolescente Um dos participantes afirmou que o que define a transformação de uma criança em adolescente é contestação: “Eu acho que o que faz isso aí. definição cronológica com base na adoção das responsabilidades jurídicas na transição da infância para adultez. As respostas aqui se referem tanto as perguntas “até que idade uma pessoa é criança?” e “O que faz com que uma criança passe a ser adolescente ou adulta”. A seguir. cada uma delas foi detalhada. definição por entrada na maioridade para transição da adolescência para adultez. Observando as respostas dessa seção. mas alguns problemas são levados para elas. adolescente e adulta. definição por mudanças biológicas para transição da infância para adolescência. Varia muito de pessoa pra pessoa. percebe-se que as diferenças entre crianças e as pessoas das demais fases do desenvolvimento são enfatizadas. né. 37 anos).100 sentem os problemas”. e elas sentem os problemas”. dentre eles o direito de não ser tratado com carinho e afeto o que implicaria não ser violentada ou abusada. Optou-se por agrupar as respostas dessas duas perguntas. Enfatizou. enquanto as semelhanças não são frisadas. Acho que não tem uma idade definida” (Francisco. pois ambas se relacionam aos limites entre as fases infantil. passar a ser . Processos Importantes na Transição da Infância para Adolescência/Adultez Nesta seção estão agrupadas todas as respostas que se referiram aos processos importantes na transição da fase infantil para a adolescência e/ou adultez inquiridos através da pergunta. Transição Não-Cronológica para as Demais Fases A resposta de um participante destacou que não havia uma faixa etária exata na qual se possa classificar alguém como criança: “Acho que isso aí depende muito da pessoa. O participante não definiu que outros fatores seriam importantes para que uma criança passe a ser adolescente ou adulta. apenas citando que isso variava de indivíduo para indivíduo.

.. né. livre dos pecados ligados ao sexo.. como se pode observar na fala desse participante. A sexualidade pode ser entendida como um aspecto inexistente na vida de crianças. Depois. sendo apenas permitido (em parte) para os adolescentes. ela já pode ser considerada adulta: A criança deixa de ser criança na medida em que ela toma outro rumo na vida. Que é.. o que ela deseja fazer. tendo certa idade. que é. se não se acha responsável. 73 anos). perante e lei. Desde os anos 50. Definição Cronológica com Base na Adoção das Responsabilidades Jurídicas na Transição da Criança para Adulta Outro participante comentou que “. com a ajuda dos meios de comunicação de massa. Chega. 1981). A partir do momento que ela começa a contestar. a adolescência passou a ser vista como uma fase de rebeldia (César. 22. é justamente a contestação. 1998).. o que ela precisa de bem material” (Francisco. por isso seria inocente. que já é responsável pelos seus atos. 37 anos). disse que pra passar. conclui a faculdade. O critério responsabilidade para entrada na fase adulta já foi discutida anteriormente..101 adolescente.. As idéias de pureza e inocência da criança foram herdadas pela sociedade em geral principalmente dos preceitos cristãos vigentes no ocidente (Áries. que já é responsável pelos seus atos. Essa última idéia permanece até os dias atuais. O que ela quer. Definição por Responsabilidade na Transição de Criança para Adulta Outro participou expressou que no momento em que a pessoa já sente-se responsável por si mesma. mesmo deixando. o que ela quer fazer.. Definição por Mudanças Biológicas na Transição de Criança para Adolescente Apenas um dos participantes fez referência às mudanças corporais e da sexualidade como marcas de identificação da passagem da infância para a adolescência.. daí deixa de ser criança.. A citação seguinte expressa esta última concepção: . disse que pra passar de maior tem que ser com 21 anos. se torna. Ah. que se forma nos estudos. disso a pessoa seria capaz de assumir as responsabilidades jurídicas. na medida em que ela toma outro rumo. Nas palavras de Osmar (73 anos): “Muda ser atraído por outra pessoa e começar a gostar de alguém”. né? Acho que daí ela deixa de ser criança. mas quando já é responsável pelos seus atos. Já me falaram que é com 18” (Paulo. A criança seria um ser puro.

. Foi um pouco diferente. umas coisas. completa a maioridade. né.. né. perante a sociedade.. Contudo. não foi dessa maneira. E. Eu mesmo lá comprei uns terrenos. As duas categorias anteriores possuem dois pontos em comum. pois eles afirmaram. Esse tipo de concepção foi constatado nas falas dos participantes. em ambas. 73 anos). No meu caso. como um critério para a passagem da infância à adultez.. Esse critério da maioridade seria apenas teórico. Definição por Entrada na Maioridade na Transição da Adolescência para Adultez Já a passagem da adolescência para a fase adulta seria marcada pela maioridade. Arranjar um emprego e agarrar pra vocês terem um futuro (Paulo. O que muda é que as eles vão ter que fazer a vida deles por si próprios. Embora os critérios cronológicos ainda sejam válidos.. incluindo a infância. Pra mim. já me autosustentava e. né? Quer dizer que aí. se a pessoa já é responsável por si mesma e por outros.. pois na prática. A variedade de respostas denuncia que definição sobre as “fronteiras” para cada uma das fases da vida. O segundo relaciona-se ao fato de as duas respostas sugerirem que há uma passagem direta da infância para a adultez. Comecei a trabalhar com 11 anos de idade. não é uma questão simples. perante a sociedade. 37 anos). então comigo não foi assim. pois a responsabilidade poderia pertencer tanto a alguém mais jovem . por exemplo. assinei carteira com 15 anos. Então com 17 anos eu já tinha família. (Francisco. uma pessoa será adulta apenas quando se tem permissão para assistir certos tipos de filmes ou dirigir.102 Quer dizer que na parte da menina disse que até de 21. teoricamente. Vocês têm que pegar o rumo de vocês. que eles num puder assumir quanto num completou 18 anos. No meu caso antes de eu fazer 18 anos eu já tinha família. a faixa etária não pode mais ser compreendida como uma característica básica para delimitar os períodos da vida (Salles. que quando a pessoa já se sente responsável por si mesma. independendo da idade. O primeiro é que a questão da responsabilidade surgiu.. eu já trabalhava. Mas pra mim acho que a pessoa. adolescente passa a ser adulto a partir do momento que. ela já pode ser considerada adulta. Quer dizer que num se governa. 2005).. Não é mais possível afirmar que uma pessoa por ser mais madura possui mais responsabilidade ou autonomia e que a criança por ser mais jovem não teria tais capacidades. Nota-se que há certa confusão em definir as características de acordo com a faixa etária. pra deixar pra cada filho no dia que Deus me levar. sem que fosse considerada a adolescência. A citação seguinte exemplifica esta idéia: Ah. ela já pode se considerar adulta.

podendo ser mais autônomos. e que por isso já se sentia adulto desde essa época. eles deixariam de ser crianças e se tornariam adolescentes. Autonomia Novamente. Além disso. . Esse tipo de resposta remete a questão da obediência já discutida anteriormente. as respostas m apresentadas aqui se relacionam em alguma medida com concepções sobre as fases da vida moderadamente já aceitas pela sociedade. Transformação de um Menino em Adolescente/Adulto Nessa seção. Vou ser dono do meu nariz” (Flávio. Outro ponto que precisa ser analisado é consideração de dois participantes sobre a passagem direta da infância para a adultez. se referiu a ele ou como criança ou como adulto. como a questão da responsabilidade como marca da vida adulta e início da sexualidade em contraposição a pureza da criança. Assim. As declarações dos participantes sugerem assim que eles por não terem passado por uma fase que eles possam chamar de adolescência. As categorias foram agrupadas da seguinte maneira: Autonomia. considerem que a passagem da infância para a adultez ocorra diretamente. sentir certo impulso. acho que é aquilo que eu lhe falei. serão apresentadas as respostas a pergunta “O que faz com que um menino passe a ser adolescente ou adulto?”. mudanças biológicas. né? Que ele diz assim ‘eu vou ser isso agora. as experiências pessoas podem ser importantes nas concepções que eles têm acerca dos ciclos da vida. a partir do momento em que um menino assume uma postura de autonomia frente a sua vida ele se tornaria adulto. Assim. 37 anos). uma vez que as crianças (e os meninos) não teriam que ser mais obedientes. contestação e critério cronológico. marcando assim o inicio da sexualidade como critério para a entrada na adolescência: “Por si mesmo. as respostas a essa pergunta se relacionaram a responsabilidade e dessa vez mais especificamente a autonomia. Acho que ele deixa de ser criança no momento que ele toma as rédeas da vida dele. Na fala de Flávio: “É. O outro (Paulo). Um deles (Flávio) afirmou que desde os 12 ele começou a trabalhar. Mudanças Biológicas Apenas uma das respostas enfatizou as mudanças corporais (nascimento de pêlos) e atração pelo sexo oposto.103 quanto a alguém mais velho. Assim.

a dimensão perda da virgindade foi comentada apenas como um processo importante para a entrada das meninas na adultez. Contudo. as categorias foram agrupadas de maneira semelhante: Autonomia. demonstrando que os participantes possuem uma visão lógica sobre as crianças e as demais fases da vida. Pêlos e coisas”. Autonomia Flávio (37 anos) respondeu que a menina a partir do momento que ela “tomar conta da vida dela” ela já pode ser considerada adulta. Francisco (37 . mudanças corporais semelhantes a dos meninos. Nota-se que esse participante possui um conhecimento mais específico sobre as mudanças fisiológicas (nascimento de pêlos) e comportamentais (atração pelo sexo oposto relacionado ao inicio da sexualidade) envolvidas na transformação de um menino para adolescente. A as mudanças físicas. contestação. A seguir. Assim.104 atração pelo sexo oposto. Mais uma vez a resposta sobre autonomia se repetiu. se transformaria em adolescente a partir do momento em que ele comece a ter comportamentos de contestação. o menino como uma pessoa qualquer. Contestação Ao ser questionado sobre qual aspecto seria importante na passagem da infância para a vida adulta ou para adolescência no caso das meninas. mudanças no corpo e começar ver que esta a nascer é. Contestação A “contestação” (Francisco. serão descritas cada uma dessas categorias. é. As respostas até este momento pareciam ser coerentes entre si. Segundo o participante. 70 anos) como sendo o critério necessário para que um menino passe a ser adulto. Transformação de uma Menina em Adolescente/Adulta As respostas foram bastante semelhantes as da pergunta anterior. 37 anos) foi outra resposta dada como marca do início da adolescência de um menino. Definição Cronológica A questão da idade (18 anos) foi novamente reiterada por um dos participantes (Paulo.

. a ficar mulher (. nenhum tem aquele ditado: é virgem” (Paulo.105 anos) respondeu que “A responsabilidade. ela que sabia” (Osmar. Não sei. a mãe que dava orientação em tudo. esse seria o processo principal que caracterizaria a passagem da infantil para a fase adulta em uma menina: “Quer dizer que aí. Se perder uma guria quando não faz erro. por exemplo. Embora o participante afirme que não acompanhou o desenvolvimento de suas filhas. ele ainda assim exibe algum conhecimento sobre as mudanças que ocorrem na vida de uma menina no período de transição da infância para adolescência. Mudanças Corporais Semelhantes as dos Meninos Um dos participantes relatou também que acreditava que as mudanças que aconteciam para s meninos se assemelhariam aquelas das meninas Contudo. (A mesma coisa?) A mesma coisa”. pois não pode observar mais aproximadamente o desenvolvimento de suas filhas adolescentes. Contudo. ou se perder. mas. Essa foi a única resposta que apontou para diferenças na passagem da infância para adolescência/adultez de meninos e meninas. Por haver uma diminuição na valorização da virgindade feminina. Pode-se concluir também que considerar a perda da virgindade como fator primordial na passagem da infância para a fase adulta pode negligenciar outros fatores importantes desse processo. De acordo com um dos participantes. Não tem diferença. conforme apontado por Taquette (1997) e Heilborn e Bozon (2001). eu sempre criei as minhas filhas assim.. Para a menina eu não conheço. ainda é vista como um símbolo da pureza da menina.. Perda da Virgindade A única resposta que se diferenciou das demais foi a categoria “perda da virgindade”. De maneira geral. como os cognitivos.) ter contato com o marido dela ou se juntar. pois ele afirma que “uma guria quando não faz erro” é aquela que é “virgem” (Paulo. as taxas de virgindade entre adolescentes são mais baixas na atualidade.. respostas como a deste último participante revelam que a valorização da virgindade. A frase seguinte ilustra a idéia desse participante: “Deve ser igual aos meninos. 73 anos). 70 anos). 73 anos). Essa valorização torna-se mais visível quando o participante associa a perda da virgindade ao “erro”. ele comentou que não poderia citar quais diferenças eram essas. as respostas dos participantes denunciam que não foram consideradas diferenças entre meninos e meninas no que diz respeito à passagem da .

tanto no caso das meninas quanto no caso dos meninos. a sua obediência e submissão facilitariam a violência sexual contra elas. já que elas seriam obrigadas a concordar com esse tipo de abuso. levados e as meninas como passivas. A educação para a submissão é um facilitador para este tipo de abuso contra meninas (Narvaz. Tal distinção seria ocasionada pela criação diferenciada dirigida a meninos e meninas. Esta resposta repete o que Souza (2000) observou entre pais de escolares. Já para as meninas. e que. esse tipo de concepção estaria associada ao pensamento machista vigente na sociedade que dita que os meninos são mais fortes. Diferenças e Semelhanças entre Meninos e Meninas Nesta seção. Segundo o próprio participante. diferenças de brincadeiras que envolvam aspecto sexual e diferenças por autonomia. precisariam de menos proteção que as meninas. as meninas foram vistas como “mais protegidas e cuidadas” tendo também mais facilidades: “(as meninas) levam a parte melhor” (Francisco. 37 anos). serão relatadas as respostas a pergunta: “Meninos e meninas: No que são iguais? No que são diferentes?”. comportadas. Diferenças por Proteção/Cuidado e Facilidades Segundo um dos participantes. Diferenças por Atividade/Passividade Os meninos foram tidos como “mais ativos” e as meninas como “mais quietas” (Flávio. educadas. Isso aconteceria. Mais uma vez. dois dos participantes consideraram que há uma passagem direta entre a infância e a adultez.106 infância para adolescência ou para adultez. Segundo Francisco. As semelhanças entre meninos e meninas foi mencionada por participante e foi classificada na categoria semelhanças entre meninos e meninas. 2005). As respostas foram categorizadas como diferenças por quantidade de atividade. A violência física seria a mais utilizada como um modo de repreensão e controle para a intensa impulsividade dos meninos. 37 anos: . portanto. sendo educadas até mesmo para não revelá-lo. Safiotti (1998) comenta que esta diferenciação entre meninos e meninas baseada na dicotomia atividade/passividade geraria também diferentes tipos de violência contra estes dois públicos. agitados. diferenças por proteção/cuidado e facilidade. 37 anos). agressivos. pois elas seriam mais vulneráveis. entre outras. tendo mais facilidades. afirmando que os meninos foram vistos como duros.

Mas. No certo. O menino é menino. Guri é guri.. 70 anos) relatou que “eu acho conforme o brinquedo que o guri brinca. assim. Não precisa de tanto cuidado. a guria não vai brincar. Além de poder ser usada como justificativa no caso . verificou-se que tanto adolescentes do sexo masculino quanto do sexo feminino destacaram que os homens possuem uma natureza sexual irrefreável. Pra menina fica.107 A menina ela é sempre mais protegida. O que o guri faz. Fica mais feio.. como foi notado na fala desse último participante. 1998). como se fosse machismo da parte da. Ela pode servir como justificativa para as condutas de homens que cometeram violências sexuais contra crianças. simplesmente por eles serem do sexo masculino. mais aquilo. Sei lá. apesar de a sexualidade ser vista como algo natural para a espécie humana. Diferenças de Brincadeiras com Aspecto Sexual Outro participante (Paulo.. Menos vulnerável. que a menina. ainda estão presentes nos dias atuais. é mais isso. Além disso Paulo (70 anos) afirmou que: “O guri fica tirando o tiquinho pra fora. né. 2005). As coisas melhores são pra meninas. Aquele ditado: ‘um garotinho que tá se criando homem’. na medida em que eles podem alegar que não tiveram meios de conter seus impulsos. Esse último tipo de conduta seria reprovável para as meninas. Em estudo na África do Sul. tipo assim. é mais forte. Ele é o mais forte . Esta percepção faz com que as condutas sexualizadas de meninos sejam mais bem aceitas. é o mais saudável. A menina sempre leva a parte melhor. nenhum pode. a conduta sexualizada seria mais permitida por parte dos meninos. essa concepção se aplicaria mais aos homens (Giffin. criadas a partir dos modos de organização patriarcais de organização da sociedade (Strey. né?’ Nenhum pode.. constrói-se a noção de que os impulsos sexuais masculinos (e suas expressões) são incontroláveis. assim. Esse tipo de crença é especialmente perigoso no que diz respeito aos casos de abuso sexual... cabendo a mulher a tarefa de controlar os impulsos sexuais (Petersen et al. Esse último tipo de resposta revela que a noção de fragilidade e a conseqüente necessidade de proteção da mulher.. De acordo com esse participante. É. um pouco por parte de . Então os meninos sempre são mais deixados de lado.. Porque. Através dos resultados desse último estudo nota-se que a compreensão de que homens possuem impulsos sexuais irreprimíveis não é exclusiva de homens acusados de cometer delitos sexuais contra crianças..”. a guria não pode fazer. E mostrar também. Na sociedade atual. como por exemplo.. E a guria já tem uma diferencinha”. 1994). aquelas que os meninos “fica dizendo palavrão “.. Mas seria. Assim.

As mulheres foram tidas então como dóceis. Mas nos sentimentos são iguais” (Osmar. a visão de que os comportamentos de expressão sexual seriam mais permitidos aos meninos. passivas. Então seus sentimentos são iguais. afetuosas e pacientes. por exemplo) podem também possuir a mesma percepção. Apenas esta última resposta frisou as semelhanças entre meninos e meninas. em um determinado momento (Graciano. 1979). 1981). profissionais. por que são humanos. fortes. comentando que “Eu acho. pode-se notar que os homens entrevistados compartilham dessa visão estereotipada dos sexos. valores que são tidos como apropriados para cada sexo. A partir das funções exercidas pelos dois gêneros. entre outras). até nas culturas mais primitivas. pode-se notar uma distinção nas funções arrogadas a homens e mulheres. sem expressar sua sexualidade. As funções masculinas de manutenção (material.diferentes? Simplesmente no físico. que seriam o conjunto de normas referentes às atitudes. Vinculados aos papéis sexuais estão os estereótipos sexuais. Agora. foram conservadas e mais valorizadas por serem consideradas dinâmicas. que não as impedissem de cuidar da prole... A consolidação dessas diferenças baseou-se principalmente na função materna da mulher (Rosaldo & Lamphere. Essas características foram se constituindo como papéis sexuais. as pessoas envolvidas na situação (parentes.108 do próprio abusador. Assim. . 73 anos). percebendo o sexo masculino como mais forte e ativo e as meninas como mais protegidas. foram sendo consolidadas características determinadas a cada um dos sexos. De acordo com Bonamigo e Koller (1995). livrando o abusador de sua responsabilidade. Iguais no sentimento. jurídica. 1978). enquanto os homens foram vistos como agressivos. em uma determinada cultura. pois ao longo do tempo ela foi exercendo tarefas mais passivas e domésticas. tanto um como outro. por sua vez. comportamentos. Semelhanças Entre Meninos e Meninas Apenas um dos participantes dês te estudo realçou as semelhanças entre meninos e meninas. frágeis e quietas.. Acrescenta-se a isso. e membros da área.. há uma visão majoritariamente estereotipada em relação às diferenças entre meninos e meninas. Com todas as respostas aqui descritas. atuando como padrão do que significa ser homem ou mulher. enquanto as meninas teriam que comportar-se de maneira “moral”. competitivos e independentes (Biaggio.

A seguir. sem expressão de sentimentos. por sua vez. cujo conteúdo indica a percepção do estado emocional de outrem (Eisenberg & Strayer. resposta empática. ou seja. Esses dois tipos de afirmações revelam que esses homens . se consideramos que a empatia é “sentir com” o outro (Eisenberg & Strayer. Não foi expresso nenhum tipo de sentimento empático. Resposta Empática Outro participante disse que a criança por estar dormindo. Finalmente. As respostas foram agrupadas a partir das seguintes categorias: resposta pragmática. enfatizaram o estado emocional da criança Já.109 Empatia As questões seguintes “O que você sente quando vê uma criança dormindo?”. As respostas empáticas. “O que você sente quando vê uma criança chorando?” e “O que você sente quando vê uma criança gritando?” tinham como objetivo avaliar processos empáticos dos participantes. sinto que é uma necessidade da criança por que deve estar cansada” (nome. posteriormente. as respostas de angústia pessoal expressaram exclusivamente o estado emocional do participante. no entanto. o participante inferiu o estado emocional da criança que dorme. destacaram os sentimentos dos participantes congruentes com o estado emocional da criança. Em outra resposta. O que Você Sente Quando Vê uma Criança Dormindo? Resposta Pragmática Um dos participantes quando indagado nesta questão citou que “É uma criança dormindo”. resposta de sentimentos positivos resposta e de angústia pessoal. Nesse caso. 73 anos). 1990). 37 anos). idade). sem a expressão de sentimentos. cada um dessas categorias será exemplificada de acordo com as perguntas feitas aos participantes. ou seja. mostrando uma fuga da resposta na qual se utiliza os termos da própria pergunta. que “Simplesmente deixo dormir por que estava cansada. 1990). um deles apesar de afirmar que “Eu não sinto nada” (Osmar. a resposta sugere uma definição pratica. revelando capacidade de apresentar uma resposta empática. comentou. sem. as respostas com sentimentos positivos. “ela tá em paz” (Flávio. As respostas pragmáticas foram aquelas nas quais houve uma definição utilitária e objetiva da situação. se referir diretamente à condição emocional dela. “O que você sente quando vê uma criança brincando?”.

73 anos). Aqui não é revelada diretamente a condição emocional da criança. mas dependendo se for uma brincadeira calma. mas pode ser inferido que em sua compreensão a criança está bem para poder brincar. pois o participante revela seu incômodo com a brincadeira e em nenhum momento destaca o sentimento das crianças que brincam. né. 37 anos).110 são capazes de perceber os estados emocionais das crianças (nesses casos. gritaria. O estado emocional do entrevistado (irritado) revela-se incongruente com o estado emocional da criança que brinca. Contudo. Esse tipo de resposta revela uma proximidade com aquilo que Eisenberg e Strayer (1990) denominaram de angústia pessoal. 70 anos). Um dos apenas participantes afirmou: “Que ela tá brincando” (Flávio. Tem algumas brincadeiras que me irritam um pouco. Resposta de Angústia Pessoal Outras respostas enfatizaram apenas o estado emocional do entrevistado. Essas coisas assim” (Francisco. de acordo com a definição de Eisenberg e Strayer (1990). pois em sua fala ele afirmou: “Isso varia um pouco do tipo de brincadeira. . através de pistas do seu comportamento (dormir) e que portanto. O participante expressa claramente o estado emocional que a brincadeira da criança gera. O Que Você Sente Quando Vê uma Criança Brincando? Resposta Pragmática Mais uma vez aqui se repetiram as respostas pragmáticas. Uma outra resposta centrou-se no estado emocional positivo do participante: “Eu sinto felicidade” (Osmar. que não fizer muito barulho assim eu acho legal. Respostas com Sentimentos Positivos Um dos entrevistados citou que “Eu me sinto tando brincando ta com saúde” (Paulo. são empáticos. 37 anos). “estar paz” ou “estar cansada”). Gosto. correria. Ah. os sentimentos positivos expressados pelos participantes mostram-se congruente com o comportamento lúdico da criança. Talvez a expressão não seja clara do sentimento positivo do participante.

Nessa frase. sugerindo que há nesse caso angústia pessoal (Eisenberg & Strayer. 73 anos). né. 1990). Me incomoda. tem que levar no posto de saúde ou no hospital. A segunda revela um sentimento aparentemente empático do participante. eu sinto nervosismo. e outro afirmou: “Quer dizer que aí depende.. . Realmente. Esse tipo de declaração está claramente ligado a uma focalização sobre os próprios sentimentos aversivos. Resposta Empática Duas respostas denotaram empatia por parte dos participantes. eu sinto tristeza. O Que Você Sente Quando Vê uma Criança Gritando? Resposta de Angústia Pessoal Uma das respostas relacionadas à angústia pessoal foi a seguinte: “Ah. A primeira resposta. Resposta de Angústia Pessoal Um outro participante afirmou que sente “muita dor e tristeza” (Osmar. ou tá com um gesto que tá doente. dor” (Osmar. Aí vai depender” (Francisco. fica implícita a idéia de que o que ele sente vai depender da plausibilidade do motivo. ao notar e compreender a situação da criança. 73 anos). 73 anos). assim. frisando a perspectiva da criança e não o seu próprio estado emocional. sem revelar o que ele sente ao presenciar a situação: “Aí depende do. Tem que ver que não caiu. E tem crianças que choram porque tão com fome. né. está claro que há mais consideração ao incômodo pessoal do participante do que aos sentimentos da criança que grita.111 O Que Você Sente Quando Vê uma Criança Chorando? Resposta Pragmática Um dos participantes faz referência a uma resposta utilitária sobre os motivos do choro. 37 anos). Um deles enfatizou que “Que ela tá com algum problema” (Flávio. 1990). o motivo que ela ‘tá chorando. indicando assim estresse pessoal (Eisenberg & Strayer.. né?” (Paulo. atesta que o participante pode identificar o desconforto dela expresso pelo choro. se é que com um jeito que tá doente. não se machucou. Nesse caso. Tem crianças que choram porque não ganharam um iogurte. 37 anos). apesar de não enfatizar o estado emocional específico da criança.

não havendo consideração pelos sentimentos alheios. 1990). eu acho que nada ta existindo com ela” (Paulo. Pode-se se questionar então. então a gente tem que conversar com ela. pra saber por que ela ‘tá assim”. pois respostas empáticas também estiveram presentes. pois tais sentimentos podem levar os participantes a se engajar. Nos dois. 1999. Com a criança ‘tando quieta. Um outro participante relatou que “Uai. né. Ela tá gritando por socorro. né. ela tá braba com alguma coisa. Agora. Todo mundo grita”. 2000). Isso aí vai depender também. houve a focalização no estado emocional da criança o que revela um verdadeiro sentimento empático (Einsenber & Strayer. É porque eu também não sei qual é o motivo que ela tá gritando. 70 anos). Pode-se observar que as respostas variaram desde expressões genuínas de empatia.112 Resposta Empática Flávio (37 anos) responde: “Se ela tá gritando? Ah. ou ta doente. Pode-se pensar que o abuso sexual de crianças é uma estratégia auto-orientada e disfuncional executada pelos participantes quando sofrem de sentimentos aversivos frente às dores dos outros. na real. Ela tá em apuros. Por outro lado. esteja brincando pulando. As perguntas feitas em relação aos comportamentos das crianças tinham como objetivo detectar os processos empáticos dos participantes. a criança ta alegre. Fisher (in Webster & Beech. Estes mesmos autores respondem a este questionamento. Webster & Beech. se os déficits de empatia estão mesmo associados às situações de abuso como mostram alguns estudos (Pithers. A expressão de sentimentos aversivos (angústia pessoal) frente aos comportamentos infantis é especialmente preocupante. como eu me sinto na minha memória. Ou ta triste. se ela tá gritando. sentada. 2000) afirma que muitos abusadores apresentam um índice normal de empatia geral. foi visto nos resultados aqui apresentados. como afirmam Eisenberg e Strayer (1990) em estratégias auto-orientadas ao lidar com os sentimentos do outro. Ela tá em emergência. A resposta de Francisco (37 anos) também expressou um comportamento empático: “É aquilo que eu te falei. as respostas de angústia pessoal não foram exclusivas. Na execução dessas estratégias importaria apenas o alívio das “dores” dos participantes. . Ela pode tá gritando por socorro. Esse aspecto. pelo menos em parte. Todo mundo é igual. montada em cima de um banco alguma vai ter. né. quando tá em apuros. pois em várias situações eles foram capazes de “sentir com” as crianças. passando pelas respostas pragmáticas que não demonstraram nem os possíveis sentimentos da criança nem dos participantes até aquelas que destacaram apenas os estados emocionais (aversivos ou positivos) dos participantes.

Contudo. quando ao chorar ou gritar. 37 anos). na qual suas necessidades devem ser prontamente atendidas. seria um déficit de empatia com uma vítima específica e não uma deficiência geral nos processos empáticos. Descrição da Relação Ideal entre Adultos e Crianças Nesta seção. Aqui. né” (Flávio. percebe-se que os participantes possuem uma visão positiva da criança. haveria uma relação de cordialidade recíproca entre adultos e crianças na qual o adulto deveria ser cortês e ter respeito pelo adulto e vice-versa. pois não houve meios de verificar esse aspecto. os dados relatados não estarão permeados pelo que é socialmente aceitável. relação de cuidado e respostas sobre a moralidade. pois as falas dos participantes sobre os estados emocionais das crianças. já que todos eles apresentaram alguma empatia nas situações descritas. possuindo também prioridade de direitos. não se pode afirmar isso com certeza. Sentimentos e Comportamentos Positivos A maioria dos participantes citou sentimentos e comportamentos positivos que deveriam existir entre adultos e crianças. . Ao relembrar respostas anteriores sobre “o que é ser criança” e as sobre as necessidades e direitos delas. o que não foi o caso deste estudo. serão descritas as respostas para as pergunta “Descreva para mim como deve ser a relação entre uma criança e um adulto”. para só depois. Contudo. atender as necessidades delas. em situações mais práticas e concretas. né? Cordialidade entre eles. As respostas foram organizadas nas seguintes categorias: Sentimentos e comportamentos Positivos. Isso é atestado. os participantes alegam que há uma necessidade de se analisar a plausibilidade dos motivos para tais comportamentos. essas idéias de uma infância na qual todas as necessidades são consideradas parecem se localizar mais em um nível abstrato. Um deles citou que “Adulto e a criança têm que ter respeito.113 sugerindo que o que aconteceria nos casos de abuso contra crianças. Apenas assim. Esse déficit específico em relação à vítima pode ter ocorrido com os participantes desta pesquisa. por exemplo. No entanto. Estudos que questionem como as relações com as vítimas se estabeleceram são essenciais para que se entenda se esses déficits específicos realmente ocorrem. esses estudos devem ser conduzidos junto a abusadores que reconheçam que tenham abusado das crianças. revela que suas necessidades não possuem tanta visibilidade.

Ela não quer fazer tema. Eu acho que é dever de família. Então eu tô sempre coordenando. pelos higienistas no século XIX.. Conceber a criança como sendo de responsabilidade apenas da família gerou a divisão entre os filhos de família e os órfãos. Esse tipo de atitude frente às crianças pode implicar na pouca consideração e até em violência contra crianças que não seriam de responsabilidade da família nuclear. eu não vou te levar’. As crianças que não tinham família eram consideradas apenas dever do Estado que dirigia a elas uma disciplina opressiva. 2006). O movimento ditava que a família (monogâmica. sobretudo. considerar a criança como sendo de responsabilidade apenas da família ainda pode ser vista nos dias atuais. justamente. no meu pensar que ta entristecendo a criança. cometer abusos contra estas crianças que não sejam da família pode ser mais permissível que abusar das crianças do próprio núcleo familiar. ‘Não. Dou uma passada nos cadernos dela. tem preguiça. 70 anos). Que a minha grande. e afirmou: Vejo se a pequena tomou banho. como comenta Londoño (1999). ela é muito preguiçosa sabe. A visão da criança como alguém que precisa ser cuidada está historicamente associada à formação da família nuclear. Tal idéia no Brasil foi difundida. comentando também que “Pra quem cuida dela. família nenhuma pode fazer isso”. Essa tipificação das crianças foi ultrapassada. Assim. 37 anos). 1975/1981). ele teria que coordenar as atividades diárias das suas filhas. Percebe-se que estes dois participantes fizeram referência às pessoas da família como aquelas que teriam maior obrigação de acompanhar a rotina das crianças e de atender aos seus pedidos. nuclear) deveria ser o local privilegiado da educação pelo “futuro da nação” (Ribeiro.114 Relação de Cuidado Um participante respondeu que “Adulto é que tem que tratar a criança bem” (Paulo. categorias opostas de crianças que estavam presentes como alegorias das crianças nos Códigos de Menores de 1924 e 1929. que teria como um dos objetivos principais. pelo menos em termos jurídicos pela ocasião da promulgação do Estatuto da Criança e do Adolescente. (Francisco. como explicitam as respostas dos participantes. Contudo.. os cuidados da criança seriam dever de sua família e não mais de outros núcleos sociais. o cuidado dessa criança (Ariès. apesar de ela ser inteligente ela é muito preguiçosa. Tem que ter tudo pronto. enjeitados e delinqüentes. Assim. não quer. Outro foi mais específico sobre a questão dos cuidados com as crianças. se a grande trouxe tema pra fazer. Assim. .

então o adulto está consciente do que faz e deve respeitar a criança. sem que haja coerção ou violência. pode ter um comportamento que ela mesmo não sabe que não é correto.. Caracterização das Vítimas A seguir são expostas as respostas dos participantes em relação às características das vítimas. que descreviam as crianças como seres assexuados ou livres dos pecados do sexo. Mais uma vez. eles às vezes não sabem o que estão fazendo. quando questionados acerca das características que melhor descreveriam as crianças e a fase infantil. A criança não conhece. No estudo de Almeida e Cunha (2003) este mesmo tipo de concepção apareceu entre professores de crianças. Não tem consciência que pode ser alguma coisa errada. às vezes.. a barreira dos limites da moral. descritos por Ariés (1975/1981). Vítimas do Sexo Feminino Todas as vítimas envolvidas nas denúncias contra os participantes eram do sexo feminino. Sexo das Vítimas Perguntou-se as participantes o sexo das crianças envolvidas na denúncia. revelando a idéia da inocência da criança. De maneira geral. Com essa citação pode-se notar que o participante atribui ao adulto a obrigação de evitar “erros morais”. O adulto sabe o que está fazendo. Agora. ele devia de evitar. os participantes demonstraram ter clareza sobre como adultos devem se comportar frente as crianças. Não.. e que a relação com o adulto deve ser pautada no respeito e nos sentimentos e comportamentos positivos. a pessoa adulta que pode chegar a ultrapassar. pois elas possuem discernimento moral. Não tem consciência. De que aquilo ali pode ser alguma coisa errada. demonstram-se as respostas estereotipadas dos participantes da pesquisa. Até a criança. os adultos teriam que corrigir as crianças. não sabendo distinguir entre certo e errado: Criança. Apenas um dos participantes havia sido acusado anteriormente de . para começar. As respostas foram agrupadas em uma categoria única denominada vítimas do sexo feminino. Tal concepção tem aparecido nos discursos sociais desde os preceitos moralistas e religiosos do século XVI. ela não sabe. quem sabe.115 Respostas Sobre a Moralidade Para um dos participantes (Osmar.. não sabe o quê. 73 anos). tem um comportamento sem pensar.

1995. Idades das Vítimas Foram indagadas também as idades das vítimas envolvidas com a denúncia. Vítimas Crianças Duas das vítimas eram crianças com idades de 6 e 10 anos cada uma. pois elas seriam educadas para obediência e para submissão (Narvaz. pois “faz parte do jogo” da obediência não apenas aceitar o abuso. é mais freqüente. Saffiotti. 2001. et al. Elliot et al. Estas teriam que se submeter a todos os pedidos e ordens advindas de homens mais velhos e com mais autoridade que elas. Beleza da Vítima Os participantes avaliaram como bonitas as crianças e adolescentes que eles foram acusados de abusar. Essa característica foi discutida por Elliot et al. estando intimamente intricada com a manutenção do segredo. As respostas foram agrupadas nas seguintes categorias: Vítimas crianças e vítimas adolescentes. (1995) como sendo uma . 1998) A violência sexual contra meninas..116 um abuso contra uma criança do sexo masculino. Vítimas Adolescentes Três vítimas eram adolescentes.2005. cada um delas com 13 anos de idade. 2005. 1998). Nesse estudo. A resposta de Osmar (70 anos) serve para exemplificar o tipo de resposta dada pelos participantes de maneira geral: “Ela é bem bonitinha. pois segundo este estudo a idade das vítimas varia de 8 aos 13 anos. A submissão e a obediência não estariam associadas apenas ao início do abuso. Habigzang et al. eu acho”. A preferência por vítimas do sexo feminino é relatada em diversos estudos (De Lorenzi.. Aparência Física das Vítimas A aparência física da vítima também foi outro aspecto investigado. mas também não revelá-lo a ninguém. Safiotti. as idades das vítimas variaram. A faixa etária das vítimas parece estar de acordo com as médias dadas por Elliot et al (1995). As respostas se agruparam na categoria única: Beleza da vítima e recusa em avaliar a aparência da vítima.

isso indicaria que ele jamais cometeria abuso sexual contra ela. A resposta desse participante parece ter como objetivo transparecer a idéia de uma posição politicamente correta. 37 anos) ou como “muita esperta”. Essa característica da vítima não esteve ligada. diz os antigos que pai não acha filha bonita. pois isso não seria correto de sua parte. Koller (1999) comenta que algumas vezes crianças com deficiência física ou mental podem ser escolhidas como vítimas. . pois se o participante nem pode avaliar a beleza da filha.117 importante característica para a escolha da vítima. As respostas foram agrupadas em duas categorias: Características positivas e características negativas. ela não serve pra feia e nem bonita. Ausência/Presença de Deficiências Averiguou-se também se os participantes identificavam algum tipo deficiência (física e/ou mental) em suas vítimas. não tendo como revelar o fato. Agora. também. no entanto. mas ele apenas respondeu o seguinte: “Olha. As vítimas foram descritas como “muito inteligente” (Francisco. Segundo esses autores. 42% de 91 abusadores sexuais infantis. Atitudes Foi solicitado também que os participantes relatassem que outras características eles poderiam identificar nas crianças e adolescentes envolvidas na denúncia de abuso sexual contra eles. (Flávio. As respostas foram organizadas em uma categoria única: Ausência de deficiências. Penso eu na minha criação que eu tive”. 37 anos). responderam que procuram por vítimas de boa aparência física. a nenhum dos casos dessa pesquisa. Ausência de Deficiências Todos os participantes afirmaram que a as crianças vítimas do abuso não possuíam nenhuma deficiência física e/ou mental. Insistiu-se pra que ele justificasse o motivo pelo qual ele não podia se pronunciar. pois seriam mais frágeis e vulneráveis. Recusa em Avaliar a Beleza da Vítima Um dado vale a pena ser comentado: um dos participantes respondeu que não poderia se pronunciar sobre a beleza da filha.

Lawson (2003) realizou um levantamento teórico em estudos de 1982 a 2001 sobre as principais razões que os abusadores alegavam para o cometimento de atos abuso sexual contra crianças.118 Atitudes Positivas As atitudes das crianças e adolescentes vítimas do abuso foi descrita de maneira diversa. Essa convicção teria feito com que as pessoas acreditassem em sua “mentira” sobre a tentativa de estupro. Num era todas às vezes que eu chegava era que ela tava na rua. Mas. enfatizando que ela mentiu. A maioria delas foi descrita como “obediente” (Paulo. A maioria feminina. Nesse caso. né? Ela tem costume de. o participante tenta depreciar a vítima. as vítimas de abuso sexual são desacreditadas (Morales & Scharamm.. 70 anos) pelos participantes. ele sugeriu que ela estaria mentindo em suas alegações. Neste estudo. . essa característica pode ser vista como associada ao início e a manutenção do abuso sexual dessas meninas. Quando ela vai falar alguma coisa ela chora.. A autoridade do adulto nesse ponto pode valer mais que a fala da criança e do adolescente. Um deles enfatizou inclusive que a vítima era a mais obediente de seus filhos: “Ela inclusive era mais obediente.. 2002). acho que ela é muito convincente. né? Ela é assim.70 anos). fazendo com que ela seja vista como mentirosa. Quando ela vai falar alguma coisa. mas obediente um pouco que os outros.. Aqui cabe um comentário. 38 anos). Mais uma vez.. assim como fez Flávio. Outros adjetivos usados para classificar as vítimas foram como “bacana” (Flávio. foram encontrados apenas alguns dados que estão de acordo com o perfil de vítima traçado pelos estudos.. a beleza e a relação de proximidade com o abusador foram as respostas que se aproximaram com os dados apresentados respectivamente nos estudos de De Lorenzi et al. Ela comenta que uma estratégia freqüente usada por abusadores é alegar que a vítima mentiu sobre o abuso sexual. Atitudes Negativas Flávio (37 anos) classificou sua enteada como uma pessoa convincente: Eu não sei. 38 anos) e “educadas” (Paulo. às vezes tava também” (Marcos. Ela é muito chorona. Muitos abusadores se valem desse tipo de autoridade para desacreditar as vítimas perante os outros. Quando Flávio se referiu a sua vítima como convincente. pois o adulto saberia mais sobre o certo e o errado. Então. Freqüentemente. apenas a título de sugestão. Talvez a menina tenha sido convincente na primeira declaração dela. Aqui o entrevistado claramente tentou utilizar uma característica da vítima para escapar a acusação.

et al. ele relatou que apesar de fornecer objetos materiais e cuidados. De acordo com Francisco: Então eu sempre fui muito agarrado a ela. a fragilidade. Vínculo com o Abusador Perguntou-se aos participantes qual era a relação com a vítima envolvida na denúncia de abuso contra eles. E a gente. a inocência. antes mesmo da acusação de abuso sexual. 1999) a baixa auto-estima. começou. padrasto. né? E eu muito agarrado nela... não a considerava como filha. mas quase todas podem ser classificadas como positivas. pois é sabido que a maioria dos agressores conhece sua vítima (ABRAPIA. né. Qualidade das Relações entre os Participantes e as Vítimas A relação entre a criança vítima e os participantes foi outro quesito investigado. Relações Positivas A relação com as vítimas foi particular em cada caso.119 (2001). Elliot et al 1995..... Sua proximidade com a vítima era vista com desconfiança pela família. As respostas foram organizadas duas categorias: relações positivas e relação de vigilância.. começou ela a crescer e o pessoal começou a buzinar tanto na minha cabeça que na dela. como comentam Elliot et al. Relação de Proximidade Entre a Criança e o Perpetrador Todas as vítimas eram crianças que possuíam uma relação de proximidade com os abusadores e no caso desse estudo uma relação de confiança. confiabilidade da crianças e das adolescentes em nenhum dos casos.. Na entrevista. Ela muito agarrada a mim. sempre que a gente podia a gente dava tudo pra ela.. Ele e a esposa sempre atuaram como cuidadores secundários da adolescente. As respostas foram classificadas em uma única categoria chamada relação de proximidade entre a criança e o perpetrador... Os dados da literatura se confirmam nesse caso. apenas como afilhada. (1995). De Lorenzi et al. e . Então. 2001. combinados entre eu e a minha esposa a gente. pois todos exerciam papéis de cuidadores (pai. Eliot (1995) e de Habigzang et al.. (2005) e outros. Habigzang. não foram encontradas as características relacionadas a deficiência física (Koller.. 2003.. Francisco (idade) comenta que sua relação com sua enteada (e vítima) de 13 anos era de muita proximidade. Contudo. 2005). avó e padrinho).

A proximidade e o vínculo que perpetrador e vítima possuem. boa. eu deixava”. Mas eu nunca vi aquilo ali como um problema. eu ia buscar ela... Já foi tirado que eu trazia aqui ó.. Segundo Osmar (70 anos): “E ela me conhece como pai. podia ter vento. mas você tem que mandar a mais velha junto ou o irmão. Era normal de um pai com filho. né. que eu também tava sempre agarrado nela... Quinze pras cinco.. De maneira geral. tendo um excelente relacionamento com elas. eu tava lá podia ter frio. As respostas relatadas na questão seguinte explicitam melhor a qualidade de relação que os participantes tinham com suas . No colégio. 2005. De acordo com ele: Vai. aí. Nunca dei corda. sempre cumprindo as minhas obrigações que eu tinha que ter de cuidar o filho. Relação de Vigilância Paulo (70 anos) relatou que observava com rigidez a rotina de sua filha. que ela saía do meu colo. 2004. descreve a sua relação com a filha da qual foi acusado de abusar como uma relação normal de um pai com uma filha. Esse tipo de resposta pode indicar que os participantes usam esta relação positiva para se aproximar das vítimas para cometer os atos de abuso.. Tava lá esperando pra trazer pra casa. Se você ver ela junto comigo ela diz pai”. Ela não tem outro pai.. já. com exceção do caso de Paulo (70 anos). avisava a diretora a Priscila (filha) já ta lá. que ela.. no colégio. “Uma relação normal de pai com filho. sempre.120 na dela também.. (Furniss. tava sempre agarrada em mim. por sua vez.. Começaram a falar. Que ela era muito agarrada em mim. faz com que o ele se valha da relação de afeto e confiança com a criança para cometer o abuso mantê-lo em segredo. muitas vezes. essa que é casada que tá em casa e a Karina. chegava lá deixava bater a entrada do colégio. Se ela pedisse pra ir brincar com coleguinha. E sempre em cima. Osmar expôs que tratava a filha de sua enteada (a qual ele é acusado de abusar) como sua filha. 1993. né?’ Nunca deixei ir sozinha. Quinze pras onze. sempre. Habigzang et al. Normal. Isso há uns dois anos já começaram a falar. Sete horas eu largava a Marina (outra filha do participante). Habigzang & Caminha.. seu eu achava que dava. Flávio (37 anos) apenas relatou que se relacionava bem com a enteada e não entende o motivo de ele ter o acusado da tentativa de estupro. eu levava numa hora. in press). na sala dela. quando ela pedia alguma coisa se eu achasse que dá. vítima do abuso pelo qual foi denunciado. Marcos (38). aí dava sete horas. nota-se que as relações dos participantes com as crianças envolvidas na denúncia se configuraram de maneira positiva. eu dava.

ele foi acusado de abusar da filha de sua enteada.121 vítimas. Então ela disse: ‘Não quer. e envolvimento pela ação do participante. 38 anos). envolvimento da vítima pela sua própria ação. característica essa apontada como importante por abusadores em outros estudos (Swaffer et al. Envolvimento da Vítima por sua Própria Ação Nesta subcategoria foram organizadas as respostas que expressavam o envolvimento da vítima a partir de sua própria ação. Que elas me queriam tirar a casa. o segundo homem que ela teve que eu não quis que entre na casa. Segundo o entrevistado. E ai a minha mulher se aproveito de pegar a metade que ela queria. Esse é o. Eu fui acusado por essa minha esposa de ter abusado da minha filha. o motivo da vingança seria um relacionamento extra-conjugal que ele vinha mantendo: Eu conheci uma outra mulher e comecei a ter um caso com a outra mulher. A raiz de tudo é a minha filha que eu não quis que o marido entre na casa. (Osmar. Jamais teria coragem de fazer isso aí. No caso de Osmar (73 anos). Em nenhum dos casos. Ela me acusou na época (Marcos. Envolvimento Específico da Vítima na Denúncia As respostas seguintes referem-se à pergunta “Por que esta criança e não outra criança está relacionada a esta denúncia?”. pois: Essa última (denúncia) é para ficar com a casa. pela vontade que alguns parentes tinham de prejudicá-los. 73 anos) Marcos (38 anos). eu num ia ficar com mulher nenhuma. Deu metade para tua filha a outra metade é minha. As respostas foram organizadas nas categorias envolvimento da vítima pela ação de terceiros. as crianças não se envolveram nessas acusações por vontade própria. por sua vez. tu que vai ter que sair’ E aí a raiz de tudo é isso. os participantes apontaram uma relação de manipulação com as vítimas. 2000). Não tem nenhum outro motivo. O homem. Contudo. Os participantes usaram como justificativa características adolescentes das vítimas para esse envolvimento nas .. meu marido não vai sair. é da minha filha.. relatou que sua esposa quis vingar-se dele e haveria encorajado sua filha a acusá-lo falsamente de abuso sexual. Só que não é verdade. ele alega que é inocente e que a denúncia contra ele só foi levada a cabo. Assim.. Daí ela pegou e disse que pra mim que se eu num ficasse com ela. Envolvimento da Vítima pela Ação de Terceiros Dois participantes atribuíram o envolvimento da criança na denúncia. e ai veio essa acusação. Eu não fiz isso aí.

Eu acho que ela sabia o que tava fazendo. (Flávio.. talvez.. A entrada na adolescência e a busca pela liberdade seriam os motivos pela denúncia. O entrevistado se vale das características da fase adolescente para se escusar da denúncia de abuso. Eu não vejo ela.. Em suas palavras. eu não tinha direito. ele sabe que teve uma . O caso de Francisco de 37 anos vale ser discutido separadamente. Entretanto. eu me meti no espaço dela. pois esta estava entrando para a adolescência e queria mais liberdade: (A vítima) Começou a mentir e andava com um pessoal na esquina que tudo se juntam numa esquina pra fazer uso de maconha.. né. afirmou que sua enteada o acusou injustamente. eu acho que eu agi errado. Quando afirma que a adolescente não tem essa “inocência toda” isso significa que ele a concebe como uma pessoa que já possui responsabilidades sobre seus atos.. perante a lei..122 denúncias. queria ter os namorados dela. Então. hoje... Eu não sei. com essa inocência toda. com certeza. pois é ciente do que é ou não uma conduta adequada. Talvez eu estivesse. pois ele era o adulto. não. Eu acho que. Foi isso. Acho que nesse ponto eu agi errado. o que..... Quando inquirido sobre a responsabilidade em relação com sua afilhada. por exemplo. entendeu? Mas eu tenho consciência. Flávio (37 anos)... que ela é uma criança como tão dizendo que ela é. pois a adolescente “não foi forçado. 37 anos). afirmou: Ah. Francisco admite que perante a lei.. a gente. 1999) pode servir como uma forma de desacreditar adolescentes que denunciam seus abusadores. acho que ela devia de ter saído. Então ela sabia o que ela fazendo também. Conceber a adolescência como uma fase de conflitos (Hall. assim..... que perante a lei é como se fosse” (Francisco... Que é uma coisa que como ela mesmo diz. in Newcomb.. Por que eu tentei controlar de mais a vida dela. Das falas de Francisco percebe-se que.. Francisco não usou o termo “abuso sexual”. né. sabe. e. ele era pessoa que tinha a responsabilidade pela situação. não foi forçado. também. E eu acho que não tinha mesmo. eu não devia ter trancado ela. 37 anos). Segundo o abusador. né (ela também é responsável).. Ele justifica que não houve abuso. a partir do momento que. Como tu sabe se uma criança deixa de ser criança. entendeu?”.. né? Eu acho que eu devia ter dado mais liberdade pra ela. a responsabilidade pelo abuso seria dos dois. assim. pois “Porque ela quis e eu quis”. Segundo ele: “Porque ela quis e eu quis. né? No caso ela queria sair. Mas ahn. Ela é criança. O participante admitiu que tinha abusado de sua afilhada de 13 anos. eu errei porque eu sou o maior.. no caso. É como se diz. Nessa parte ai. Durante toda a entrevista. E.. Ai andava junto com os caras e tal. ele manteve um relacionamento afetivo-amoroso com sua a vítima.. Eu acho.

teria convencido sua filha a mentir. Atrelado a pouca consciência de sua filha. pois queria que ele fosse preso para poder se relacionar com ela sem a vigilância do pai. Francisco fez referência a outros relacionamentos sexuais que sua afilhada haveria mantido com outros homens “Ah. 37 anos). ela não tem consciência do que faz. Assim. ele relatou que sua filha o acusou.. Todavia.. nem tão criança) quanto outras pessoas alegavam. (2005) discutem que em uma pesquisa com caminhoneiros sobre a exploração sexual comercial infanto-juvenil. 37 anos). Ela veio até a cozinha enrolada na toalha. a cabeça dela é uma abóbora verde. pois a vítima já era adolescente e não mais criança. Foi de adolescente dela. sua filha estaria se relacionando com um homem com o dobro da idade dela. sua conduta de ter abusado da afilhada parece não ser tão grave. portanto. Ele conversou muito. também.. A fala de Francisco esclarece que esse tipo de conduta pode ser típico de uma adolescente. segundo. Não tem miolo. Além disso. Uma abóbora verde. E parou na frente e soltou a toalha no chão.123 conduta inadequada. E começou a me abraçar e aí. 70 anos). entendeu? Ah. só que ela não se vestiu. Ela entrou no banheiro e tomou o banho dela. a responsabilidade deles em manter relação sexual com elas.. . mas não de uma criança. Segundo Paulo: “A Priscila na idade que tá. eu acho que ela agiu como uma adolescente. Sobre a denúncia de Paulo (70 anos). sem os parâmetros da lei. era diminuída. que ela começou com essa cabeça” (Francisco. A concepção de Francisco é análoga a dos caminhoneiros. na resposta desse entrevistado. O entrevistado respondeu que agiu como uma adolescente capaz de provocá-lo: E ela foi pro banheiro e eu fique na cozinha tomando banho. né?” (Francisco. Ele fez esse comentário também para justificar que ela já não “era tão inocente” (Francisco. Mas podia ter se vestido no banheiro. esses indivíduos enfatizaram que se uma menina não fosse mais virgem. Koller et al. as condutas sexuais podem ser vistas como mais aceitáveis para as adolescentes. pois na idade em que está. Foi questionado se a adolescente havia agido como uma criança ou como uma adulta. foi que aconteceu. inclusive quando o relacionamento sexual ocorre entre ela e uma pessoa de nível psicossexual mais adiantado. Ela agiu como uma adolescente agiria (Francisco. 37 anos) (e. Essa pessoa. E fazer como o outro. A questão de não ser mais virgem precisa ser mais aprofundada. pois ele enfatizou que ela já não era mais virgem e que por isso ela já seria permitido se relacionar sexualmente com ela. né. e ela já teve outros homens.

(2005) sobre a exploração sexual infantil. eles afirmaram que as meninas que se “prostituem” nas estradas não seriam como suas filhas.124 Assim. Ele citou que sentiu atração sexual. sei lá o que ela ta pensando de mim. Paulo alegou ainda que a sua filha estava mentindo quando a acusação que fez contra ele. Segundo ele. foi questionado se ele já havia pensado em suas filhas de maneira sexualizada. tenho a outra que tem 14 anos e tem a mesma idade da minha filha. Exemplificando a fala de Francisco: Me atendeu uma senhora lá.. 37 anos). a mesma vontade que eu tinha tido com ela. ela perguntou se eu já tinha. Os sujeitos da pesquisa realizada por estes últimos autores. ela deve tá pensando que. mas que não também não podia ser classificado como “amor” (Francisco. não foi apenas beleza. pois jamais teriam coragem de manter relacionamento com elas. a ausência de senso de sua filha facilitaria a persuasão. da qual abusou. 37 anos). mas sim como uma relação afetiva. que é tão bonita quanto ela. é descrita por Lawson (2003) como uma estratégia comumente usada por abusadores sexuais. A fala de Francisco mais uma vez este em concordância com os discursos dos caminhoneiros pesquisados por Koller et al.. que eu sou um tarado. as características da fase adolescente funcionaram como um caminho para desqualificar a denúncia feita pela vítima. Então vou responder só o que eu acho que é certo. comentam que essa diferença de status (entre as meninas de suas próprias famílias e as outras) facilita o cometimento de . (Francisco. Afirmar que a relação entre abusador e vítima não se configurou como abuso. se eu já tinha tido com a minha filha. sei lá. que eu sou um louco. era pensar em suas filhas. Além disso. sabe. Lawson (2003) comenta que afirmar que a vítima está mentindo é uma das principais estratégias usadas por abusadores sexuais infantis. como uma forma de esclarecer que com suas filhas jamais agiria dessa maneira. pois: Eu tenho várias sobrinhas. Aí eu achei uma coisa absurda. Ele associou esse tipo de conduta por parte de sua filha a entrada na adolescência. Mais uma vez. tão bonita quanto a minha filha e tão bonita quanto a Ana. revelaram que uma das justificativas que os impediam de abusar de crianças nas estradas. Neste ponto. Envolvimento pela Ação do Participante Francisco destacou também que nutria um afeto de natureza diferente pela sua afilhada. Todas elas são bonitas. mas que também nutria um sentimento mais profundo por ela. O entrevistado respondeu negativamente e enfatizou que sua afilhada não era sua filha. né. Koller et al. mas depois eu parei pra pensar: ‘Bom.

pois pessoas mais velhas as teriam persuadido a mentir. Já no caso das meninas mais velhas. não foram acusadas de mentir ou de provocar seus abusadores. 2003). 2004). mas sim uma relação afetivo-sexual consentida é comum entre os abusadores (Lawson. tais como alegar que a que o ocorreu não foi um abuso sexual. as adolescentes são mais culpabilizadas e aos abusadores é atribuída menos responsabilidades. Constata-se que a idade da vítima pode ser um importante fator que interfere nos modos como os abusadores justificarão os motivos pelos quais as vítimas se envolveram na denúncia. a relação é tida como menos abusiva. as vítimas foram acusadas pelos abusadores de mentir ou de consentirem o abuso. mas sim de estarem envolvidas na denúncia.125 atos de abuso sexual. o seu envolvimento na denúncia se deu pela ação de terceiros (caso Marcos e caso Osmar). caso Flávio e caso Francisco) os motivos que levaram a se envolver na denúncia foram provocados basicamente pela ação delas. Os motivos pelos quais as vítimas estariam envolvidas nas denúncias foram variados. quando a vítima era adolescente (caso Paulo. em situações hipotéticas de abuso. Waterman e Foss-Goodman (in Almeida. Pode-se concluir que os abusadores se valem desse tipo de percepção social que se tem acerca do abuso sexual de crianças como um modo de se escusar das acusações. Algumas estratégias usadas pelos entrevistados. As meninas mais jovens vítimas dos homens entrevistados nesse estudo. pois notou-se que quando as vítimas eram crianças. afirmam que as atribuições de culpa. pois esse tipo de conduta é tido como mais permitida com aquelas crianças não fariam parte das famílias dos caminhoneiros. de modo que se for uma adolescente envolvida na acusação. . Contudo. são influenciados diretamente pela idade da vítima.

pois nas demais classes socioeconômicas as pessoas estão mais preocupadas em manter sua privacidade. mesmo quando são cometidas violações contra os direitos das crianças. Desta forma. bairro) ao longo do ciclo vital (infância. adultez e até velhice para alguns). advindas de classes sociais mais favorecidas também podem praticar abuso sexual infantil. classificar abusadores sexuais a partir de algumas características específicas envolve uma questão ética. Um segundo ponto a ser considerado se refere às histórias de vida dos participantes. Este fato é comum em classes pobres. há que se considerar que esta pesquisa foi realizada em um serviço gratuito e para o qual o encaminhamento era compulsório. apresentando relações saudáveis com as pessoas (inclusive com crianças) de todos os microssistemas (família. Assim. sendo provenientes de classes sociais menos favorecidas. como em muitos outros. Ocorreu. eles enfatizaram que suas histórias de vida (devido a esta suposta tranqüilidade) em nada se relacionavam com as denúncias de abuso sexual contra eles. Obviamente. obtiveram-se dados sobre as relações dos participantes com criança ao longo do ciclo vital bem como sua visão sobre as crianças. tomando-se o cuidado em discutir. Além disso. mesmo que superficialmente. se caracterizaram por informações sobre uma vida tranqüila. Ao analisar. neste estudo optou-se por não rotular esses indivíduos. inicialmente. Como afirmam Cohen e Gobetti (2002). que em geral. Isto significa que pessoas com alta escolaridade e poder aquisitivo mais alto. as características sócio-demográficas dos participantes. escola. De maneira coerente.CAPÍTULO IV CONCLUSÕES O presente estudo alcançou seus objetivos. o que foi 126 . nos casos deste estudo. as características sóciodemográficas dos participantes deste estudo observa-se que quase todos eles apresentaram uma história escolar de pouco sucesso. adolescência. suas histórias de vida também não pareciam ter contribuído para uma distorção da visão sobre as crianças levando-os a cometer abuso sexual. uma vez que. mesmo porque o número de participantes deste estudo não permite generalizações. no entanto. essas características não devem ser tomadas como típicas do perfil de homens acusados de delitos sexuais contra crianças. sem episódios de abuso. de as denúncias sobre abuso sexual infantil terem provenientes de classes sociais menos favorecidas.

como estando de acordo com elas. que espontaneamente desejariam relacionar-se sexualmente com adultos (Gannon et al. alguns deles demonstraram crenças estereotipadas sobre os gêneros. 2005. as crianças foram vistas como tendo prioridades de direitos e necessidades. como seres inocentes sobre os diversos aspectos da vida. ora com respostas pragmáticas.não foi notado nenhum “erro” cognitivo que se associasse a uma visão distorcida. algumas respostas sugeriram que tais processos não se apresentavam de forma consistentes. a denúncia de abuso sexual contra uma criança menor de 13 anos associada a outros dados de suas histórias mostram que suas visões sobre e as crianças não são tão positivas quanto eles gostariam de transparecer. 1999). de maneira positiva. especialmente quando afirmam que têm respeito pelos outros. A falta de empatia denunciou que as necessidades das crianças não possuem afinal tanta visibilidade para eles. ora transparecendo angústia pessoal (Eisenberg & Strayer. Além disso. como conceber .127 demonstrado nas respostas dos participantes. sem expressão de sentimentos. Chegam a apresentam bom auto-conceito e auto-estima elevada. Ward & Keenan. Além disso. Eles viam as crianças. responsabilidades ou deveres. A visão que o abusador tem sobre si mesmo e a aceitação das regras sociais influenciariam diretamente na visão que eles possuem sobre o mundo e sobre as crianças (Gannon et al. Nas questões sobre empatia. 2000). no entanto. não manifestaram comportamentos auto centrados. como uma alternativa à falta de resposta que também foi freqüente. aparentemente. Este dado fica ainda mais claro quando são inquiridos sobre situações mais práticas às quais tendem a ser mais pragmáticos e a emitirem respostas com definições utilitárias. como seres felizes que se ocupam apenas das brincadeiras e não possuem muitas preocupações. principalmente com relação ao sexo. 1990). superficiais e objetivas da situação. Assim. Os participantes deste estudo. Contudo. Expressam ainda reconhecimento e aceitação das normas sociais. Horley. para chegar à condição de abusadores.. que ditariam que suas vontades são mais importantes que as de outrem.. as pessoas em geral poderiam ser descritas como aquelas que teriam comportamentos auto-centrados e não aceitariam normas sociais. na qual as crianças seriam descritas como seres sexuais. Não furtaram-se ainda a emitir respostas inadequadas ou confusas. embora aparecem em seus discursos. 2005. soando como um aspecto manipulador de suas personalidades pouco vinculáveis. Portanto. Todos esses fatores contribuiriam assim para uma visão romanceada e positiva destes participantes sobre os aspectos gerais de suas vidas e também com relação à criança e à infância.

. Esse tipo de crença pode contribuir para a justificativa de abuso sexual praticado por homens. revela a tentativa de transparecer apenas o que é socialmente aceitável: “Eu só vou falar o que é certo” (Francisco. As crenças sobre a obediência das meninas verificada neste estudo também é outro ponto que pode sublinhar o abuso sexual de crianças do sexo feminino (Narvaz. Mesmo parecendo mais “verdadeiro”. 37 anos) sobre a resposta dele para uma profissional de saúde que questionou se ele possuía desejos sexuais por suas filhas. Contudo. quando se comparam as respostas dadas pelos participantes que estavam no serviço compulsoriamente e do participante que estava neste mesmo local em busca de ajuda psicológica pelos sintomas relacionados à culpa sentida pelo abuso reveladamente cometido. a fala desse mesmo participante. eles não definiam apropriadamente a resposta a esta questão. (Francisco. principalmente. 2005. na medida em que essa permissividade para os comportamentos masculinos se baseia na premissa de que a natureza sexual masculina é incontrolável. As respostas politicamente corretas e estereotipadas podem ter sido dadas por duas razões principais. Além disso. buscando sobrepujar a denúncia e o fato em si e passar a impressão geral de que foram inadequadamente culpabilizados.128 a expressão da sexualidade como mais permitida para meninos que para meninas. ao afirmarem que elas mentiam ou teriam a mesma responsabilidade que eles. uma tentativa persistente de emitir respostas politicamente corretas e estereotipadas. em um estado psicossexual mais precoce que eles. os participantes desqualificaram os comportamentos de suas vítimas. Evidentemente que embora pragmáticos quanto à visão de quem é uma criança. menos sendo crianças ou adolescentes. Portanto. As respostas daquele que afirma ter cometido a violação parecem mais verazes do que as dos demais participantes. Neste ponto. Este dado é confirmado. pode-se questionar os motivos de algumas respostas serem tão “corretas” e outras apresentarem um pouco menos dessa retidão. não poderiam fornecer respostas que os comprometessem. estando. pode-se também pensar que aqueles que não admitiram ter praticado o abuso estejam fornecendo respostas ainda menos fidedignas. pode-se pensar que se o único que admitiu se coloca dessa maneira diante das perguntas sobre seus desejos sexuais. 37 anos). portanto. quando questionados sobre as acusações que pesam sobre eles. Nota-se. Safiotti. 1997). A primeira delas é quase todos participantes foram recrutados quando estavam envolvidos em avaliação psicológica compulsória determinada pela justiça. de qualquer forma.

à mentira patológica entre outros comportamentos. uma vez que traz dados da expressão dos participantes nas condições expostas. Certamente.129 Há que se comentar que as medidas de auto-relato. 2001). Assim. Instrumentos que usam dados de outras fontes (como registros escolares e médicos.) tais como a Psychopathy CheckList Revised (Hare. sugere-se que haja uma maior preocupação com o tratamento das pessoas que cometeram o abuso sexual para que . quando se pretende ter dados de melhor qualidade sobre as vidas e os interesses sexuais de abusadores sexuais infantis. Itenbi (1998) comenta que a acessibilidade a certos dados (como os de vitimização dos próprios abusadores) aconteceu apenas depois de várias sessões com estes indivíduos. Entretanto. no entanto. Além disso. o que. 2003) podem ser mais úteis. O uso de instrumentos que não forneçam apenas auto-relatos (como os comentados anteriormente) são especialmente importantes quando se dispõe de pouco tempo para fazer avaliações. têm sido criticadas. uma vez que os índices de transtornos anti-sociais são indicados como elevados entre pessoas envolvidas com abuso sexual contra crianças (Trepper et al. como as usados neste estudo. 1991) pode ser uma sugestão para uma avaliação mais veraz da situação de um abusador sexual. etc. Esta coleta não deixa de ter validade ecológica. Outro aspecto que deve ser considerado é a brevidade do contato com os participantes em um contexto de pesquisa e a possibilidade escassa de vinculação com a equipe de pesquisa. impedindo também o acesso a dados mais fidedignos. não pode ser garantido. mais encontros poderiam propiciar maior vinculação. como relatos de familiares. Os sintomas deste transtorno associam-se à manipulação. que podem facilitar a expressão de respostas assertivas por parte destes indivíduos. ou testes falométricos (Marshal and Laws. pois muitas vezes os profissionais envolvidos neste tipo de atividade dispõem de pouco tempo para a realização de tal tarefa. O estudo aqui descrito usou apenas os relatos dos próprios participantes para obter dados. 1996). investigações científicas em períodos nos quais os participantes estão envolvidos em processos judiciais pode ser considerada como uma limitação. o uso de instrumentos Assim. Além disso. avaliações psicológicas de pessoas que cometem abuso sexual contra criança feitas em período limitado não podem ser descartadas.. pois elas estão sujeitas a influência da do que é desejável socialmente (Tierney & MacCabe. O tempo reduzido da coleta neste estudo (apenas um encontro com quatro participantes e dois com um outro) pode ter diminuído a chance de vinculação com os participantes. estudos que busquem outras fontes de dados.

tais como uma melhor investigação do relato da criança e de seus familiares devem ser obtidas como provas em casos de abuso sexual. e que no curto período de tempo no qual se realiza a avaliação é quase impossível realizar alguma intervenção que se reflita na conscientização da gravidade do ato de violência por eles praticado. ou quase ausente para outros. o contexto no qual as respostas foram dadas . Acredita-se que apenas com uma intervenção mais focalizada nestes indivíduos pode-se alcançar este objetivo. Enfatiza-se ainda que outras fontes de dados.130 elas se responsabilizem pelo ato de violência que praticaram contra criança. a visão de criança que os participantes desta pesquisa têm revela o pragmatismo com que tratam a criança e como transferem para a sessão de pesquisa a atitude de responder às demandas socialmente aceitas. Ser criança para um abusador sexual pode ser carregado de uma definição funcional para alguns. já que a auto-culpabilização dos autores dos atos é um processo difícil. como já foi reiterado diversas vezes. Contudo. A responsabilização é particularmente importante. Finalmente. embora tenham por detrás uma denúncia de tamanho peso. pois com os resultados obtidos neste estudo demonstrou-se que os abusadores negam veementemente as acusações contra eles.

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Andreína Moura e Sílvia Koller da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. se recusar a continuar participando em qualquer momento sem qualquer prejuízo para 139 . um momento para que você fale o que você quiser. Por isso. 2600. Como será a sua participação na pesquisa: Ao participar deste projeto. sua visão sobre as crianças) de pessoas que cometeram ou estão sob suspeita de terem cometido abuso sexual contra crianças e adolescentes. UFRGS Rua Ramiro Barcelos. Quem são as pessoas que participam desta pesquisa: Pessoas que cometeram ou que estão sob suspeita de terem cometido abuso sexual contra crianças e adolescentes. você deve deixar que um membro do grupo de pesquisa faça algumas perguntas a você. Algumas perguntas podem trazer algumas lembranças e sentimentos que podem incomodar. que tem como finalidade saber sobre vários pontos da vida (vida escolar. 55(51) 33165150 Fax: 55(51) 33165473 Celular: 55(51) 81197091 E-mail: cep_rua@ufrgs.ANEXOS ANEXO A Fundado em 1994 Centro de Estudos Psicológicos sobre Meninos e Meninas de Rua Instituto de Psicologia. ainda.90035-003 Porto Alegre RS Brasil Tel. 2. convidamos você a participar desta pesquisa. Você tem liberdade de não querer participar e pode. O tempo de cada um destes encontros será de mais ou menos uma hora e trinta minutos. do Instituto de Psicologia da UFRGS 1. As entrevistas serão feitas no Departamento de Genética em uma sala que estará reservada.br TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO Pesquisa: A Criança na Perspectiva do Abusador Sexual. O que é esta pesquisa: Nós. 3. vida familiar. Sala 104 . Coordenadora: Psicólogas Andreína Moura e Sílvia Koller. Serão feitos mais ou menos três encontros com cada participante. será oferecido ao fim de cada um dos encontros.

no Departamento de Genética serão os responsáveis por estes atendimentos. Talvez. Além disso. As entrevistas serão realizadas nas dependências do Departamento de Genética. 8. Ao participar desta pesquisa. garantindo assim um melhor resultado para pesquisa. Mas. Riscos e desconfortos: A participação nesta pesquisa não tem relação com qualquer caso seu com a justiça. O que será feito durante esta pesquisa estão de acordo com os Critérios da Ética na Pesquisa com Seres Humanos conforme a Resolução n. 4. Você não terá nenhum tipo de despesa ao participar desta pesquisa. você não deverá ter nenhum ganho direto. Os profissionais do próprio serviço. traga lembranças de alguns eventos que podem causar incômodo. preencha os dados que se seguem: 140 . esperamos que este estudo traga informações importantes sobre as questões relativas a pessoas que estão sob suspeita de terem cometido ou cometeram abuso sexual contra crianças e adolescentes. pedimos seu consentimento de forma livre para participar desta pesquisa. 5. solicitamos sua ajuda para completar o roteiro de perguntas que lhe será solicitado. você poderá pedir mais informações sobre a pesquisa e você poderá falar com as coordenadoras da pesquisa Andreína Moura ligando para o telefone (51) 8442-4059 ou no telefone (51) 3316-5150 com a Profa. 7. Entretanto. Será pedido que você dê algumas informações básicas e que responda a uma entrevista sobre vários pontos de sua vida. 196/96 do Conselho Nacional de Saúde. Sílvia Koller. Confidencialidade: Todas as informações obtidas neste estudo não serão reveladas a ninguém. Portanto. e também nada será pago a você pela sua participação. se você necessitar de atendimento psicológico durante ou imediatamente após a pesquisa. Como e onde serão as entrevistas: As entrevistas serão marcadas com antecedência. Dra. Sempre que quiser. Após estes esclarecimentos.você. você será atendido no serviço no qual serão realizadas as entrevistas. Apenas os membros do grupo de pesquisa saberão sobre os dados. 6. As gravações e aquilo que você falar nesta pesquisa serão identificados com um código e não com seu nome.

eu de forma livre e esclarecida. Manifesto meu interesse em participar da pesquisa. Identificação Local e Data Assinatura do participante da pesquisa Andreína Moura e Silvia Koller .CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO Tendo em vista os itens acima apresentados.Coordenadoras do projeto 141 .

sem nenhum prejuízo. 55(51) 33165150 Fax: 55(51) 33165473 Celular: 55(51) 81197091 E-mail: cep_rua@ufrgs. Sílvia Koller do Curso de Pós-graduação em Psicologia do Desenvolvimento do Instituto de Psicologia. Data ____/____/___ ________________________________________________________________ Responsável pelo Departamento de Genética 142 . nessa instituição. preservando a identidade dos participantes bem como das instituições envolvidas. esperamos contribuir para o esclarecimento de algumas questões sobre o modo como abusadores sexuais vêem as crianças. participem do presente estudo. Também será encaminhado um Termo de Consentimento aos próprios participantes. UFRGS Rua Ramiro Barcelos. UFRGS.90035-003 Porto Alegre RS Brasil Tel. Todos os cuidados serão tomados para garantir o sigilo e a confidencialidade das informações. _____/___/______ Data __________________________________ Psicóloga responsável Sílvia Koller CRP 07/2037 Concordamos que as pessoas que participam desta instituição. Os instrumentos serão aplicados individualmente para aqueles que apresentarem sua concordância em horários previamente marcados. Optar-se-á por gravar as entrevistas. Tal estudo prevê a participação pessoas adultas do sexo masculino de 18 a 59 anos.ANEXO B Fundado em 1994 Centro de Estudos Psicológicos sobre Meninos e Meninas de Rua Instituto de Psicologia. Todo o material desta pesquisa ficará sob responsabilidade dos pesquisadores no Instituto de Psicologia e será posteriormente destruído. A qualquer momento. tanto os participantes quanto os responsáveis pela instituição poderão solicitar informações sobre os procedimentos ou outros assuntos relacionados a este estudo. informando este procedimento aos participantes da mesma. Caso queiram contatar com a equipe.br TERMO DE CONCORDÂNCIA PARA O DEPARTAMENTO DE GENÉTICA Estamos realizando uma pesquisa que tem como objetivo investigar a visão que pessoas que estão sob suspeita de terem cometido abuso sexual possuem sobre crianças. Para tanto solicitamos autorização para realizar este estudo. Os participantes deste estudo serão claramente informados de que sua contribuição é voluntária e pode ser interrompida em qualquer etapa. Agradecemos a colaboração do Departamento de Genética para a realização desta atividade de pesquisa e colocamo-nos à disposição para esclarecimentos adicionais. Sala 104 . A pesquisadora responsável por esta pesquisa é a psicóloga Andreína Moura sob supervisão da Profª Dra. para que os mesmos apresentem sua concordância em relação a sua participação. 2600. A coleta de dados deverá envolver a realização de entrevistas individuais. Através deste trabalho. isto poderá ser feito pelo telefone 8442-4059 ou 3316-5150.

índio ( ) d. divorciado ( ) d. solteiro ( ) b. viúvo ( ) f. branco ( ) b. outro Cidade de origem: Endereço atual: Renda: Com quem você mora? Há quanto tempo mora com estas pessoas? 143 . casado ( ) c. negro ( ) c. amarelo ( ) f.ANEXO C FICHA BIO-SÓCIO-DEMOGRÁFICA 1.Identificação Nome (apenas as iniciais): Ficha: Data: ___/___/___ Entrevistador: Grupo étnico: a. separado e. mestiço ( ) e. outro Escolaridade: Estado civil: a.

). preferências.. adolescentes e adultos: no que são iguais? No que são diferentes? (explorar duas categorias de cada vez: criança-adolescente. Infância: Relações (explorar esta fase do ciclo vital) Fale-me sobre sua infância. etc. Visão sobre a infância Explique para mim o que é ser criança. Que lembranças você tem de sua infância? (Explorar lembranças boas/ruins). 2. Crianças. Como era ser uma criança nesta família? Como você acha que sua mãe/pai o descreveriam? Que lembranças você tem de sua infância na sua família? Conte-me sobre um episódio bom. para mim quem é criança. deveres. 144 . Explique. agora. direitos. criança-adulto – ver necessidades. primos. Até qual idade você acha que uma pessoa pode ser considerada criança? O que faz com que uma criança passe a ser adolescente ou adulta? O que faz com que um menino passe a ser adolescente ou adulta? O que faz com que uma menina passe a ser adolescente ou adulta? Meninas e meninos: no que são iguais? No que são diferentes? O que você sente quando vê uma criança dormindo? O que você sente quando vê uma criança brincando? O que você sente quando vê uma criança chorando? O que você sente quando vê uma criança gritando? Descreva para mim como deve ser a relação entre um adulto e uma criança. outras crianças que viviam na mesma casa) Fale-me de sua escola.. Fale-me de sua família. interesses.. Fazendo de conta que voltássemos agora no tempo: olhe para a criança que você era e me descreva esta criança. Conte-me sobre um episódio ruim (se não mencionar vitimização na infância por abuso sexual perguntar se passou por alguma experiência relacionada ao fato) (Explorar relações com irmãos.ANEXO D ENTREVISTA SEMI-ESTRUTURADA 1..

com as perguntas abaixo). Conte-me sobre um episódio ruim. como um adulto..Você tinha amigos(as) na escola? Fale-me sobre eles. (Explorar relações com colegas. Como era sua família quando você era adolescnete? Quem eram as pessoas com as quais convivia? Como era sua relação com elas? (Explorar relações com irmãos. primos.. Que lembranças você tem de sua infância no seu bairro? Conte-me sobre um episódio bom.. primos. 4.. durante a adolescência) Como ocupava seu tempo? Conte-me sobre um acontecimento bom e um ruim em sua adolescência.. professores. Quem é a criança? 145 . outras crianças que viviam na mesma casa. atividades no recreio. Quem é sua família? Quem são as pessoas com as quais convive? Como é sua relação com elas? (Explorar relações com irmãos. desempenho escolar) Fale-me de seus amigos fora da escola.. Situação atual: Relações Você foi encaminhado até aqui por um juiz. como um adolescente. Conte-me um pouco sobre isto. Adolescência: Relações (explorar esta fase do ciclo vital) Fale-me de você.. Quem eram estes amigos(as)? Fale-me sobre eles. Do que você mais gostava de brincar? Por quê? Como ocupava seu tempo? 3.Vida adulta: Relações (explorar esta fase do ciclo vital) Fale-me de você hoje. Como você acha que sua professora o descreveria? Que lembranças você tem de sua infância na sua escola? Conte-me sobre um episódio bom. outras crianças que vivem na mesma casa) 5. (Focalizar na criança a qual está relacionada a suspeita de vitimização por ele.. Conte-me sobre um episódio ruim.

Quantos anos ela tem? Qual o seu relacionamento com ela? Como é esta criança era? Descreva-a (explorar aspectos como aparência. deficiência. Expectativas Pensando em sua vida hoje.) Por que você acha que esta criança e não outra está relacionada a esta denúncia? 6. percepção de inteligência e maturidade. etc. atitudes. O que você achou desta entrevista? Quer acrescentar alguma informação? 146 . você acha que sua história influenciou em algo que acontece no momento atual? Como você quer que seja sua vida no futuro? Fale-me sobre coisas boas que você quer que aconteçam.

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