Geossistemas e Paisagens Do Brasil

GEOSSISTEMAS E GEOGRAFIA NO BRASIL

Lucas Costa de Souza Cavalcanti, Antônio Carlos de Barros Corrêa
Universidade Federal de Pernambuco

Resumo Abstract

A geografia brasileira tem dispensado atenção especial Brazilian geography has paid special attention to geo-
à ideia de geossistemas, considerada base teórica e systems as a theoretical and methodological base in-
metodológica inspirada em trabalhos de geógrafos spired by foreign geographers, moreover French and
estrangeiros, sobretudo franceses e soviéticos. Este Soviet former. This paper deals with the question of
trabalho analisa aspectos conceituais e terminológicos geosystems use in Brazilian geography evaluating this
da teoria dos geossistemas visando uma melhor com- understanding and application. The results allow us to
preensão de seu significado e aplicação. Para tanto, understand the epistemological horizon reached by the
diversas interpretações sobre os geossistemas foram theory of geosystems to integrate different perspectives
avaliadas, tendo por critério a biografia dos autores, as to the study of natural areas. Notwithstanding, the the-
suas referências e ferramentas interpretativas disponí- ory in question still has some difficulty in interpretation
veis, bem como seus pressupostos. O trabalho permite and acceptance in Brazil for several reasons.
compreender que o horizonte epistemológico alcança-
do pela teoria dos geossistemas permitiu integrar dife- Key words: physical geography; geosystems; Brazilian
rentes perspectivas para o estudo de áreas naturais. geography.
Não obstante, a teoria em questão ainda apresenta
certa dificuldade de interpretação e aceitação no Brasil
por vários motivos.
Palavras-chave: geografia física; geossistemas; geo-
grafia brasileira.

A
ssim como em outros países, o Brasil também assistiu, e tem assistido, ao desenvolvimen-
to da ideia de áreas naturais como produto das relações entre os componentes da nature-
za na superfície terrestre. Esta ideia pós-iluminista foi incorporada às agendas das institui-
ções de ensino e pesquisa, assumindo conotações e objetivos distintos e, materializando-se na
forma de termos também diferentes como regiões naturais, ecorregiões, unidades geoambientais,
geossistemas, entre tantos outros (CAVALCANTI & CORRÊA, 2014).
Entre os geógrafos brasileiros, o termo geossistema passou a figurar constantemente como
aplicação da teoria dos sistemas ao estudo de áreas naturais. Pesquisadores renomados da ciên-
cia geográfica de nosso país não se eximiram de tecer suas considerações sobre os geossiste-
mas e/ou a teoria geossistêmica e sua aplicabilidade à compartimentação e estudo da dinâmica e
evolução das paisagens do Brasil, destacando-se os nomes de Antonio Christofoletti, Aziz Nacib
Ab’Sáber, Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro e Helmut Troppmair.
Muitos dos artigos publicados por estes autores encontram na epígrafe ‘geossistema’, uma

base teórica e metodológica inspirada em trabalhos de geógrafos estrangeiros, sobretudo france-
ses e soviéticos. Esta filiação deriva do fato de que o termo geossistema foi introduzido no Brasil a
partir do artigo “Paysage et géographie physique globale: esquisse méthodologique” escrito pelo
francês Georges Bertrand1 em 1968 e publicado no Brasil em 1972, sob tradução de Olga Cruz.
Contudo, poucos anos depois, em 1975, por ocasião do 24º Congresso Geográfico Internacional
(realizado pela União Geográfica Internacional, em Moscou), Carlos Augusto de Figueiredo Mon-
teiro teve oportunidade de conhecer as práticas físico-geográficas que se desenvolviam na União
das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), chegando inclusive a receber livros de presente do
letão Adolph A. Krauklis, com quem fez amizade (MONTEIRO, 2009, comunicação pessoal).
Recebendo também uma versão em inglês de um texto preparado pelo geógrafo Viktor B.
Sochava2, denominado “The Study of Geosystems”, Carlos A.F. Monteiro introduziu no nosso país
a concepção siberiana da Ciência da Paisagem soviética, que difere grandemente daquela de
Georges Bertrand. Contudo, as interpretações posteriores dos geógrafos brasileiros passaram,
muitas vezes a tomar a posição de Sochava como sinônima da de Bertrand, além de tecer consi-
derações sobre as dimensões espaciais e temporais dos geossistemas como sendo entidades de
grande abrangência areal, que é coerente com a concepção desenvolvida pelo francês, mas não
com a do russo.
Considerando tudo isto, o objetivo deste trabalho é esclarecer aspectos conceituais e termi-
nológicos da teoria dos geossistemas, na acepção de Sochava e no contexto da geografia russo-
soviética, contribuindo assim, para desfazer e evitar confusões de nomenclaturas e metodologia
que possam surgir (ou que já surgiram) quando se faz a apreciação do termo geossistema.

Aspectos metodológicos

A difusão de qualquer conhecimento se depara com os limites dos horizontes cognitivos dos sujei-
tos e só compreendemos aquilo que nos está disponível para conhecer (HACKING, 2008). Numa
apreciação hermenêutica, toda ideia exposta (seja em texto ou outro meio de informação) possui
um sentido impresso pelo autor, mas está sujeita a uma variação de significados em função dos
métodos de interpretação utilizados, tanto quanto das ferramentas e referências disponíveis para
sua compreensão (LOPES, 2004).
Buscando o esclarecimento de aspectos fundamentais da teoria dos geossistemas e sua di-
fusão no Brasil, foram analisadas diversas interpretações sobre a concepção de geossistemas em

1
Georges Bertrand (1932-) professor da Universidade de Toulouse – Le Mirail (França). Foi diretor do Centro Interdisci-
plinar para o Estudo do Ambiente Natural e da Organização Rural (CIMA) do Conselho Nacional de Pesquisa da França
(CNRS). Na década de 1970 foi um dos grandes expoentes da renovação da geografia física francesa, juntamente com
Jean Tricart (VEYRET & VIGNEAU, 2002).
2
Viktor Borisovich Sochava (1905-1978) nasceu em São Petersburgo (Rússia) e foi diretor do Instituto de Geografia da
Sibéria e do Extremo Oriente (hoje Instituto Viktor Sochava de Geografia). Formado em ciências agrárias e com douto-
rado em biologia, foi um dos maiores contribuintes da história da geografia russo-soviética. Propôs a Teoria dos geos-
sistemas como uma renovação e revisão da noção de paisagem como entidade real, integrando e ampliando o espectro
epistemológico e metodológico da geografia física.

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Bertrand e em Sochava. Neste sentido, diversos textos produzidos no Brasil sobre a referida epí-
grafe, tiveram suas interpretações avaliadas tendo por critério a biografia dos autores, as suas
referências e ferramentas interpretativas disponíveis, bem como seus pressupostos.
De forma a esclarecer e justificar nossa empresa, na medida em que fomos avaliando os
textos, foi realizada uma análise comparativa mais ampla destes em relação às propostas de Ber-
trand e Sochava. Deste modo, contribuímos para dirimir a criação de significados que se afastem
do sentido proposto originalmente pelos autores.
Assim, nossos resultados se iniciam com uma exposição simples sobre as relações entre as
propostas de Bertrand e Sochava e desenvolve-se tratando das dimensões espaciais e temporais
dos geossistemas, destacando divergências na compreensão do sentido original proposto pelo
geógrafo francês e pelo russo também. Por fim, apresenta-se uma breve proposição acerca das
raízes das divergências enlevadas, expondo, deste modo, limites e perspectivas para o desenvol-
vimento e difusão da teoria dos geossistemas no Brasil.

Geossistemas em Bertrand e em Sochava

Existe uma diferença fundamental na concepção de geossistemas entre Bertrand e Sochava, ou
seja, mesmo ambos utilizando a mesma epígrafe, apresentam concepções distintas da palavra.
Mesma palavra, ideias diferentes.
No artigo de 1968, Bertrand utiliza a palavra geossistema para se referir a uma das escalas
espaço-temporais da paisagem, abrangendo a 4ª e 5ª ordem de grandeza na classificação de
Cailleux e Tricart, abrangendo escalas espaciais da ordem de 10 a 10² km² e temporais da ordem
de 106 a 107 anos. Neste momento, a concepção de geossistema em Bertrand tem dimensões
espaciais e temporais bem definidas.
Isto seria modificado posteriormente, quando Bertrand passa a escrever artigos com o geor-
giano Nikolai L. Beruchashvili e assume que seu conceito de geossistema como uma dimensão de
ordem de grandeza definida é menos coerente que aquela da proposta de Sochava, afirmando
que:
Em 1964-1965, nós havíamos definido o geossistema como uma unidade taxocorológica
entre outras (geótopo – geofácies – geossistema – região natural – domínio geográfico –
zona). O geossistema representava um espaço natural homogêneo dividido em geofácies.
[...] Num esforço de uniformização conceitual e de simplificação da linguagem, nós, entre-
tanto, estamos de acordo, com a definição mais lógica de V.B. Sochava, que faz do
geossistema, como do ecossistema, uma abstração e um conceito (BEROUTCHACHVILI &
3
BERTRAND, 1978, p. 168, tradução nossa).

3
“En 1964-1965, nous avions defini Le géosystème comme une unité taxochorologique parmi d’autres (géotope –
géofaciès – géosystème – région naturelle – domaine géographique – zone). Le géosystème représentait um espace
naturel homogéne divisé en géofaciès. Cette définition taxonomique a été utilsée par d’autres auteurs aussi bien dans la
recherche fondamentale que dans dês travaux d’application. Les études que sont contenues dans ce numéro de la Re-
vue Géographique des Pyrénées et du Sud-Ouest et lês légends des cartes se conforment à CET usage.Dans un souci
d’uniformisation conceptuelle et de simplification du language, nous nous rallions cependant, avec le CIMA, à la
définition plus lógique de V.B. Sochava, qui fait Du géosystème, comme de l’écosystème, une abstraction et un
concept.”

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. a fácies físico-geográfica ou simplesmente fácies . a hidrosfera. a origem do conceito de geossistema está associada à decisão da Sociedade Russa de Geografia em propor a unificação terminológica de conceitos e termos em geografia física. Bras. 2015). Viktor Borisovich Sochava (1905-1978). 1973). em Abolin (1904). na qual o geossistema pode possuir uma ampla gama de dimensões espaciais na superfície terrestre. p. 2002). sobretudo com a publicação dos trabalhos de Nicolai A. Sochava formula o termo geossistema em 1963. Esta nova concepção. Ela já aparecia em trabalhos do final do sé- culo 19 e início do século 20. como a noção de epimorfo. Georges Bertrand muda sua concepção do termo geossistema. Contudo. 3-33. 2. 2015). que vamos apresentar em detalhes a seguir. ISACHENKO. inclusive é utilizada para formular seu modelo Geossistema-Território-Paisagem (GTP). sobretudo em função de sua po- lissemia e seu uso em diversas disciplinas. a troposfera (altitude entre 8 e 16 km) e a biosfera. que era comumente utiliza- do na então geografia soviética (SEMENOV & SNYTKO. Esta região do planeta funciona como um sistema complexo em que elementos bióticos. n. indo desde a fácies físico-geográfica até o envelope geográfico (toda a superfície planetária). no artigo intitulado “Defini- ção de alguns conceitos e termos da geografia física”. Ambos os termos já estavam plenamente desenvolvidos na geografia soviética pelo menos desde a década de 1940. 61. diferentemente de uma escala espacial bem definida. que o termo geossistema fosse utilizado para substituir o termo paisagem. pas- sando a compreendê-lo como uma entidade natural formada pelas relações entre os componentes da natureza e impactada pela ação da sociedade. 1964. respectivamente associados às noções de source. 1) consti- tui a menor unidade numa divisão natural do terreno. como é o caso da proposta de Bertrand.фация (Fig. jul. Geogr. propôs em 1963./dez.: o topo do morro. No outro extremo. Rio de Janeiro.). ou sopé da encosta. v. a conceituação de Sochava é genérica. o geógrafo russo faz referência a estes dois conceitos (envelope geográ- fico e fácies físico-geográfica). definindo-o como: “unidade natural de todas as categorias possíveis. sendo caracterizada pela uni- R. p. 2016 6 . Assim. Unidades físico-geográficas Uma definição detalhada de envelope geográfico é apresentada por Isachenko (1973) e corres- ponde à parte externa da crosta terrestre que inclui a litosfera (com 4 a 5 km de espessura). Assim. Neste sentido. Para Sochava. 2004). 53). definida como uma unidade de relevo (ex. do geossistema planetário (envelope geográfico ou ambiente geográfico em geral) ao geossistema elementar (fácies físico-geográfica)” (SOCHAVA. resource e resourcement (BERTRAND & BERTRAND. Viktor B. o termo paisagem deveria ser substituído. o termo geossistema seria mais ade- quado ao referir especificamente às formações naturais que se manifestam na superfície terrestre (SEMENOV & SNYTKO. 1963. Em sua definição.. etc. Refletindo sobre isso. Solntcev (KALESNIK. produ- zindo como estrutura emergente as paisagens (RODRIGUEZ et al. A partir deste desafio inicial. abióticos e humanos interagem.

Entre as fácies e o envelope geográfico é descrita uma série de unidades naturais que. microclima. 2. Na Geografia russo-soviética. 1973. Exemplos correspondentes são os complexos biogeocenóticos de Walter (1986) ou as famílias de ecossistemas de Ab’Sáber (2003). Rio de Janeiro. Geogr. 1. Bras. . regime de drenagem e umedecimento do solo. seria possível encontrar. Figura 1. v. migração geoquímica. 3-33. uma associação funcional de fácies (chamada por Sochava de geócoro elementar) é definida em função da hidrodinâmica da encosta ou do ambiente fluvial. n. sobretudo a partir de N. Contudo. sendo inclusive incorporado na proposta de Sochava. pédon e localização dentro de uma comunidade ecológica (ISACHENKO. Neste caso. Sochava (1978) denominou a fácies de geômero elementar. No referido modelo. p. Fonte: os autores. Fácies ao longo de uma encosta no semiárido brasi- leiro. diferentes comunidades vegetais. em russo) (Fig. 2 – Tálus com Anadenanthera colubrina. em russo)./dez. jul. Esta unidade foi anteriormente chamada por Solntcev de subtrato (Podurochische – подурочище. 1991).. 2). espé- cie de fácies ou ainda fácies elementar. A. pode-se subdividir a fácies em unidades intermediárias denominadas biogeocenoses. o mesmo fez a res- salva de que em área afetadas pelo uso da terra. em sínteses naturalistas recebem nomes diversos.Segmento de encosta rochosa com bromélias e cactos. R. A associação funcional de geócoros elementares constitui um microgeócoro ou trato (Urochische - урочище.formidade da rocha-mãe. num mesmo segmento de encosta com único litotipo e condições de drenagem. como já foi visto. Este modelo inclui agrupamentos hierárquicos de fácies para distinção do ambiente geográfico de dimensões locais a mesorregionais. Solntcev. um modelo destas subunidades físico-naturais intermediárias se tornou consagrado. 61. 2016 7 .

Geogr. Em 1948. Neste contexto. microclimas. jul. Solntcev destaca as áreas naturais formadas pela interação fun- cional de tratos.5 Internamente. que ele denominou de paisagem (landschaft4 . Ia – Subtrato (geócoro elementar) com associação lajedo- tálus. solos. Para os referidos autores. Seguindo a mesma lógica. formas de relevo. o conceito de Estilos Fluviais (River Styles®) em Brierley e Fryirs (2000) po- de ser encarado como um subtrato. consiste numa associação entre processos geológico-geomorfológicos e bioclimá- ticos mesorregionais. p./dez. 2016 8 . I – Trato (microgeócoro) de inselberg com caatinga de Anadenanthera colubrina com cactos e bromélias em lajedos. p. Fonte: os autores. Figura 2. ou seja. CAVALCANTI. desta forma eles emprestam o termo alemão landschaft. sendo denominadas por Sochava de macrogeócoros (ver a seguir). um estilo fluvial abrange uma seção do ambiente fluvial com mesmo tipo de confinamento das margens e que apresenta mesmo conjunto de unidades geomór- ficas com gênese comum. Associação funcional de fácies (geó- coros). em que cada geomorphic unit corresponderia a uma fácies distinta. Percebe-se que mesmo se tratando de uma abordagem holística. entende-se que tanto a pedogênese quanto a sucessão ecológica podem-se dar apenas num con- texto de menor instabilidade morfodinâmica. As paisagens. n. 61. 2. a paisagem (macrogeócoro) apresenta um mesmo conjunto funcional de tra- tos. Uma Paisagem geralmente reflete um mesoclima atuando sobre uma determinada morfoes- trutura. Este conjunto é denominado de estrutura morfológica da paisagem 4 A língua russa não possui uma palavra para paisagem.ландшафт). com uma repetição regular de combinações inter-relacionadas da estrutura geológica. Esta noção é análoga à de geócoro elementar. p. 1 a 6 – Fácies. águas superficiais e subterrâneas. estão mais próximas do concei- to de geossistema de Bertrand (1968). 2006. geral- mente apresentando uma dimensão mesorregional (10 a 10² km²). 5 Aqui fica claro o quanto a concepção de paisagem da geografia russo-soviética destoa de algumas concepções no Brasil (Cf. Solntcev definiu uma paisagem geográfica como “uma área gene- ticamente homogênea. Bras. Assim. 2014). R. a morfodinâmica é uma limitação”. É um princípio que pode ser melhor compreendido pela afirmação de Tricart (1977. Rio de Janeiro.. 19).29): “do ponto de vista ecológico. 3). v. 3-33. subtratos e fácies (Fig. Ib – Subtrato (geócoro elementar) com associação lajedo-patamar estrutural-lajedo- sopé coluvial. a morfodinâmica condi- ciona a definição das unidades. fito e zooceno- ses” (SOLNETSEV.

G. em sua estrutura morfológica. 1991). SOLNETSEV. Um exemplo é a Localidade (Mesogeócoro ou Mest- nost . Corrêa (2013). Paisagem (macrogeócoro) de pedi- mentos com inselbergs. Em princípio. 1991.). sendo denominadas de unidades regionais. p. 2 – Trato de Pedimento com Mimosa e Poincianella. Chernykh e Zolotov (2007). ora mais complexa em função do contexto ambiental. 1 – Trato de inselberg com Anadenanthera colubrina com cactos e bromélias em lajedos. Figura 3. Aleschenko (2007). Merekalova. Na proposta de Solntcev. Geralmente isso se dá em função de variações no litótipo bem como a presença de condicionantes sobre os padrões de drenagem. n. Fonte: os autores. 2006). divisão esta que se baseia em fatores bioclimáticos (denominados zonais) e geológico-geomorfológicos (de- nominados azonais) (ISACHENKO. Nesta estrutura. 3 – Trato de canal fluvial intermitente. algum tipo de trato pode ser mais co- mum do que outros..(ISACHENKO. unidades intermediá- rias formadas pelo agrupamento de Tratos. na proposta taxonômica de A. Isachenko.G. dentro de uma mesma Paisagem. sendo chamado de dominante. Diferentemente do agrupamento utilizado para identificar as unidades da estrutura morfoló- gica da paisagem (fácies. macro e megarregionais são diferenciadas a partir de uma divisão lógica do Envelope Geográfico da Terra. condições distintas para a formação de Tratos. tratos. Cabe salientar que a rigidez de ocorrência das unidades descritas acima tem sido questio- nada para muitas áreas. tal como faixas com mes- R.местност). quando ocorrem em menor proporção. Geogr. raros. Rio de Janeiro. 3-33. a estrutura morfológica da Paisagem é composta de Localidades. Para discussões específicas sobre essa ques- tão ver Khoroshev. Subtratos e Fácies agrupadas hierarquicamente. 61. As Localidades se caracterizam por oferecer. 2. que foram sistematicamente organizadas por A. Cavalcanti. Tratos. as paisagens ainda estão con- tidas em diversas subunidades do Envelope Geográfico da Terra. Contudo. etc. as unidades de dimensões meso. jul. Mamay (2007). Bras./dez. diferenciam-se unidades e subu- nidades geradas por condicionantes cósmicos e atmosféricos (zonais). 1991). v. Outros tipos de tratos podem ainda ser consi- derados secundários ou ainda. Uma paisagem ainda pode apresentar. As variações e ausência de consenso entre as diferentes sínteses em diferentes áreas su- gerem que essa distinção entre a quantidade de níveis hierárquicos e os modos de identificá-los possa estar relacionada a uma adaptação de tais esquemas classificatórios à realidade das pai- sagens locais. Cavalcanti (2014). Isachenko (1973. como nos indica Monteiro (2000). que aparentam ter uma hierarquia de unidades ora mais simples. 2016 9 .

O menor geômero seria uma fácies ou biogeocenose (ver acima).. 2016 10 . As unidades e subunidades decorrentes de processos geológico-geomorfológicos (Azonais) são: Continente (континент). País (страна). sobretudo nos níveis hierárquicos de menor ordem (fácies. Solntcev que. Distrito (округ). etc. 2. estes tipos foram chamados por Sochava de geômeros (cf. Subdistrito (подокруг).) a partir disso ele propôs. Foi baseada nesta noção de unidades físico-geográficas que a análise genético-estrutural da paisagem já havia se consolidado na Rússia na metade do século passado. Subzona (подзона). Por fim. jul./dez. Um exemplo foi a diferenciação disciplinar que existia entre a ciência da paisagem e a regionali- zação físico geográfica. ambos os conjuntos são correlacionados de modo a se obter unidades e subunida- des derivadas. muito pouco havia sido feito no sentido de uma abordagem integrada sobre a dinâmica e evolução das paisagens. 61. localidades. Subcontinente (субконтинент). Nos exem- plos das figuras 2 e 3. sendo esta a grande contribuição de Viktor B. tratos. percebe-se que os geócoros Ia e Ib se repetem em diferentes inselbergs. denominadas Setor (сектор) e Subsetor (подсектор). para poupar esforço. 1973). A adoção da linguagem sistêmica aplicada à ideia de paisagens permitiu a Sochava resolver alguns entraves da geografia física soviética através da formulação da Teoria dos geossistemas. Detalhes da classificação regional de Isachenko (1991) já foram apresentados por Cavalcanti (2010) e Cavalcanti. Cada uma destas áreas naturais identificadas foi chamada de indivíduo geográfico. Rio de Janeiro. que apresentam as seguintes categorias: Província (провинция). inclui-se uma categoria de unidades azonais definidas pelo efeito da continentalidade que. mas sim seus tipos (ISACHENKO. mesmo possuindo localizações dife- rentes. Bras. Domínio (область) e Subdomínio (подобласть). diferenciam-se unidades e subunidades naturais formadas por processos geológico-geomorfológicos (azonais). em seguida. p. Grupos de fácies podem ser agrupados em classes de fácies. os diferentes inselbergs podem ser agrupados numa única classe de fácies: Inselbergs com Anadenanthera colubrina. Isachenko (1991) propõe unidades e subunidades geradas por processos cósmicos e/ou atmosféricos (Zonais) compreendem as seguintes categori- as: Cinturão (пояс). às ve- zes substituem as unidades Zonais. funcionalmente são semelhantes. Contudo. No caso do exemplo da figura 3. tal como morfoestruturas com diferentes dimen- sões. bromélias e cactos. que os mapas apresentas- sem não os indivíduos.mo clima regional. Subprovíncia (подпровинция). Corrêa e Araújo Filho (2011). Além destas. que após Sochava passaram a fazer parte do Estudo de Geossistemas. No desenvolvimento de sua sistemática. por isso. permitiram ser agrupadas em grupos de fácies. Isto significa que. n. pertencem ao mesmo tipo de associação funcional – grupo de fácies. v. foi percebido por Nikolai A. tópico 5). A Figu- ra 4 sumariza as características de cada categoria de unidades bem como os elementos necessá- rios e/ou auxiliares à sua identificação. Todavia. Sochava. correspondendo aos geossistemas regionais. Diferentes áreas possuin- do as mesmas associações de fácies. diferenciando-se apenas a escala dos fenômenos considerados. Além disso. numa mesma região é possível que existam indivíduos com características muito similares. O cruzamento das unidades zonais e azonais permite classificar geossistemas regionais. Geogr. 3-33. só a partir da fusão da teoria dos sistemas com a compreensão realista de á- R. Zona (зона).

Rio de Janeiro. mas também sobre uma compreen- são temporal dos geossistemas (Cf.. pois. representada por conjuntos de relevo. 61. Bras. sedimentos e sua transformação pelos diferentes componentes do geossistema. Foi.: retroalimentação). realizada por Sochava. 3-33. passaram a ser aplicados à análise da paisagem. passa a integrar. principalmente a preocupação com a dimensão temporal das paisagens. revelando a consideração da paisagem dentro de uma trajetória e não apenas como um quadro de natureza. solos e biota. p.: fases. nutrientes. 2016 11 . a geografia física inte- grada. é consenso que a proposta de Sochava trouxe um avanço na compreensão integrativa dos fenômenos espaciais e temporais que formam as paisagens. evolutivo e antropogênico. equilíbrio). alargando o horizonte epistemológico da análise da paisagem. da complexidade (trocas de energia e matéria com o entorno). Revolução conceitual porque a partir da incorporação da visão sistêmica. da cibernética (ex. n. bem como num esclarecimento das dimensões epistemológicas da própria geogra- fia física em sua versão integrada. entre outros. é que a ciência da paisagem pôde crescer não apenas sobre a análise espacial. a partir da teoria dos sistemas. que representou uma revolução conceitual e metodológica para a geografia física. 2. o tratamento das unidades de paisagem como complexos dinâmicos. drenagem. sob um mesmo clima e estrutura geológica. Isto facilitou a integração entre informações provenientes de áreas distintas. Não obstante. princípios de sis- temas dinâmicos (ex. dinâmico-funcional. da análise da paisagem que. v./dez. na literatura geográfica soviética. A estrutura da paisa- gem é. mas não menos importante. passa a estar circunscrita dentro de quatro enfoques ou direciona- mentos de pesquisa principais: genético-estrutural. resultantes da transformação da matéria e energia pelos geossistemas. A vegetação e os solos. jul. Isto é realizado determinando-se as entradas e saídas de radiação solar. A cartografia das paisagens é um dos métodos fundamentais aplicados pa- ra este fim. Como a interpretação sistêmica se presta a uma teoria das paisagens? Nos países influenciados pela geografia da antiga URSS. pois. Geogr. coletando dados meteorológicos. Neste sentido. passam a ser compreendidos co- mo estados vegetacionais e estados pedológicos. Este é o enfoque tradicional. a introdução da palavra geossistema.reas naturais (paisagens) da geografia russo-soviética. água. O enfoque genético-evolutivo trata da investigação da expressão espacial resultante das in- terações entre elementos e processos que compõem a superfície da Terra. O enfoque dinâmico-funcional consiste na investigação de regularidades no funcionamento dos geossistemas. A proposta de Sochava para os estudos dinâmico-evolutivos. abertos e hierarquicamente organizados. envolve o estabelecimento de estações de pesquisa permanente. por exemplo. demandou mudanças metodológicas no sentido de abarcar a demanda por uma compreensão integrada das paisagens. como Ciência da Terra. biogeoquímicos e outros com o objetivo de responder questões do tipo: como diferentes geossistemas respondem à sazo- R. tópicos a seguir sobre as dimensões espaciais e temporais dos geossistemas).

p. enquanto teoria da paisagem. decomposição de matéria orgânica. juntos. Isto é realizado a partir dos diferentes direcionamen- tos que. do potencial e limitações de uso dos geossistemas. biológicos e biogeoquímicos. Nesta linha o ob- jetivo é definir mudanças nos componentes e taxas de operação de processos naturais em função de atividades econômicas e de uso da terra no geral. n. seja por causas naturais ou pela intervenção da sociedade. é uma ferramenta podero- sa para o estreitamento do diálogo entre as diferentes áreas da geografia física. paleofauna. etc. v. 2. morfotectônica.). a definição do russo é completamente diferente daquela R. a avaliação de risco de desastres naturais. de nutrientes. determinando momentos de estabilidade e de ruptura do equilíbrio ambiental a partir da reconstrução de paleogeossistemas. funcionamento e mudanças. Bras. revelando sua estrutura. fenologia. à menor (ex. permitem uma explicação integrada da paisagem. uma delas é a reconstrução de momentos de estabilidade do espaço de fase dos geossistemas.: estalactites). 3-33. geocronologia. dados paleoclimáticos (ex. O enfoque antropogênico lida com as derivações na estrutura e funcionamento dos geossis- temas decorrente do aumento na entropia dos sistemas em função das atividades da sociedade. A partir da perspectiva sistêmica a análise da paisagem passa a integrar métodos e temas diversos para compreender o funcionamento conjunto dos sistemas ambientais e seu comporta- mento diante da interação com a sociedade. biogeografia. produtividade primária. Não obstante.. investigando diferentes fases nos geossistemas. etc. Este enfoque desenvolve-se pela avaliação e previsão de impactos ambientais. fitólitos. definindo mudanças no espaço de fase. da trajetória das mudanças (desenvolvimento) ocorridas nos geossistemas ao longo do tempo. assinatura geoquímica e outras fontes similares. Dimensão espacial dos geossistemas O geossistema em Sochava é compreendido como uma unidade natural dinâmica de qualquer dimensão. isto é. a teoria dos geossistemas. Nestes termos./dez. morfoestratigrafia. Deste modo. Este enfoque trabalha em duas frentes principais.: um pe- queno setor morfodinâmico de encosta com mesmo sistema de transformação pedológica e está- gio de sucessão florestal). permite a reconstrução do espaço de fase. Geogr. A integração dos dados dos mo- mentos de estabilidade e de ruptura desta. entre outros. jul. o monitoramento permanente de geossistemas permite não apenas definir as realimentações e ritmos sazonais na transformação da matéria e da energia. anéis de crescimento. A outra frente de trabalho busca determinar rupturas na estabilidade ambiental. O enfoque evolutivo trata das mudanças nos geossistemas. da maior dimensão espaço-temporal (toda a superfície terrestre). representadas principalmente por pulsos na produção de sedimen- tos. 2016 12 . indicada pelos registros botânicos (pólen. ori- gem. Rio de Janeiro. Os dados são oriundos da geomorfologia do Quaternário. 61.nalidade do balanço de radiação? As respostas são avaliadas em função do balanço hídrico. como também avali- ar o efeito das mudanças climáticas sobre a resposta de cada geossistema em termos hidrológi- cos. paleossolos e trans- formação da cobertura pedológica (micromorfologia de solos).

KRAUKLIS. alguns autores brasileiros tenderam a interpretar a proposta de Sochava pela de Ber- trand. na qual se baseia para formular seu modelo de análise integrada das relações entre sociedade e natureza. Isso definitivamente não funciona. Segundo o geógrafo russo. apesar de usarem o mesmo termo (geos- sistema). Geogr. somado ao já referido desconhecimento do artigo de Beroutchachvili e Bertrand (1978). como foi visto. de termos como geômeros e geócoros. do não conhecimento do artigo de Beroutchachvili e Bertrand.que Bertrand propõe em 1968. como veremos a seguir. por parte de Sochava. n. de 1978. Bras. quando utilizava o termo geossistema. o território e a paisagem (o modelo GTP). p. para o seu modelo de Geografia Física Global. A seguir vamos avaliar e tentar esclarecer algumas dessas confusões conceituais. se torna mais fácil apreender uma série de desentendimentos conceituais que ocorrem na literatura geográfica brasileira em função. ao trabalho de Sochava e tenta-se com- preender o trabalho do geógrafo russo em função de partilhar o mesmo termo que o do francês. Com base na compreensão destas diferenças. Rio de Janeiro. 1978. Bertrand em 68 e Sochava referem-se a coisas distintas./dez. onde o geógrafo fran- cês explicitamente abre mão de sua definição inicial para propor algo mais abrangente. 2016 13 . nos únicos dois textos seus que foram traduzidos para o português. mais do que pela perspec- tiva de outros autores como Sochava. Sochava (1978. 61. Além disso. definitivamente. chegando a sugerir a elaboração de mapas nas escalas 1:500 e 1:350 para estudar o funcionamento dos geossistemas locais e suas trocas de matéria e energia com os geossistemas adjacentes em transectos com 1. em francês. o que. na perspectiva das definições dadas por Bertrand em seu artigo de 1968. 3-33. o que gera uma compreensão bastante distin- R. estepes.000). uma vez que para Sochava os geossistemas podem possuir qualquer dimensão (de alguns metros até toda superfí- cie terrestre). eles divergem em termos da abrangência espacial dos ge- ossistemas.. 2. a exemplo de Troppmair e Galina (2006. Um primeiro problema que encontramos na interpretação da ideia de geossistemas no Brasil é quando se estende a definição de Bertrand em 1968. Em seu livro Introdução à Teoria dos geossistemas. 101-102) chega a comentar a diferença entre sua proposta e a de Bertrand. enquanto para o francês. Assim. afirmam ter concluído que o geógrafo russo se referia a áreas de dimensões subcontinentais (tundra. não é coerente com as escalas que Sochava propõe para cartografia de fácies (1:5. Contudo. É neste sentido que sempre se tratou a ideia de geossistema na geografia brasileira. o geossistema de Bertrand seria o seu macrogeócoro. v.). conduziu a erros interpretativos sobre a dimensão dos geossistemas em Sochava. baseados na ideia de que a antiga URSS seria um país de dimensões continentais. etc. sobretu- do. p. os geossistemas são da ordem das dezenas às centenas de quilômetros quadrados. porque. a partir das relações entre os geossistemas. o não esclarecimento. Assim. pp. 1979). expondo que existe uma divergência escalar na acepção do termo. como vimos. sendo a conceituação do geógrafo francês um pouco mais restrita (como vimos aci- ma) e a do russo mais geral e abrangente.81) que. Bertrand abre mão de sua definição anterior e abraça a concepção soviética. começando pela com- preensão das dimensões espaço-temporais dos geossistemas. por exemplo.5km (SOCHAVA. jul.

ou seja. quando o geógrafo francês adota uma nova concep- ção. em alguns casos. o espectro terminológico relacionado às propostas de Bertrand e Sochava também pode levar a interpretações errôneas. MONTEIRO. uma compreensão mais ampla da ideia de geossistema. permite um en- tendimento distinto daquele da autora sobre a dimensão temporal dos geossistemas (cf. inverteu o significado atribuído à uma determinada palavra. Um exemplo é a concepção associada aos termos geofácies. os geossistemas seriam unidades da 4ª ou 5ª ordem de grandeza.. cit. geótopos e tantos outros termos De forma similar à diferença conceitual entre o termo geossistema em Bertrand e em Sochava. p. que implica o uso do termo geomassa. 2005). Todavia. op. Bras. Rio de Janeiro. foi feito da abordagem geossistêmica no Brasil. geômeros. Além disso. que é aplica- do para definir a ideia de matéria geográfica. dez anos depois se torna sinônimo do que antes era chamado de geótopo. no caso. 2003. geócoros. v. Geofácies. jul.ta sobre a teoria em questão (Cf. 2000. no sentido de que ignora escalas e processos evolutivos de ordem morfoestrutural. Em Beroutchachvili e Bertrand (1978).. ou seja. simples complicação terminológica. a saber: litosfera (litomassa). Esta mudança de concepção do geógrafo francês foi acompanhada também por uma mudança terminológica que.128-129) afirma que a perspectiva geossistêmica desconsi- dera a dimensão temporal dos processos naturais. hidrosfera (hidromassa).131). Sales. 61. Igualmente. geofácies. 1986). Assim. antes da 6ª ordem de grandeza. a autora emite uma opinião crítica sobre aquilo que. atmosfera (aeromassa). a autora resume muitas das abordagens que se dizem “geossistêmicas” à simples agrupamentos de informações temáticas sobre o meio ambiente (cf. o geofácies da proposta de Ber- trand em 1968. Assim. na maioria das vezes. en- quanto os geofácies seriam da 6ª ordem. AB’SÁBER. Geogr. De outro modo. R. 2016 14 . mais adiante). Já o termo geohorizonte foi introduzido por Nikolai Beruchashvili para descrever os diferen- tes componentes da estrutura vertical de uma fácies. VICENTE & PEREZ FILHO. Deste modo. en- quanto os termos geócoro e geômero são bastante peculiares aos trabalhos desenvolvidos pelo antigo Instituto de Geografia da Sibéria (hoje Instituto Viktor Sochava de Geografia). tópico 7. o geohorizonte é descrito em termos das associações das diferentes substancias. os termos geofácies e geótopo também possuem conotações ambíguas na literatura geográfica. como veremos a seguir. O termo geofácies é referido inicialmente por Bertrand (1968) como uma subdivisão espacial do geossistema. NASCIMENTO & SAMPAIO. aquela que pode ser agrupada conforme sua posição entre as esferas geográficas. Além da confusão sobre a dimensão espacial dos geossistemas. 1976. Sales (2004. sinônima ao conceito de fácies de Sochava. 2. 3-33. biosfera (biomassa) (BERUCHASHVILI./dez. geótopos. 2003. sendo definido como uma associação de geohorizontes. Assim. n. en- tre outros. p. os geótopos seriam subdivisões dos geofá- cies manifestando-se na 7ª ordem de grandeza de Cailleux e Tricart. o termo geofácies aparece em outra acepção. p.

M – Necromassa. presença de lianas. 2008). 2. Transporte de biosubstâncias./dez. CAVALCANTI et al. Considerando toda esta variabilidade de terminologias e acepções intercambiantes e ainda. (ISACHENKO. EGOROV. raízes e umidade insuficiente com limite de profundidade em 30 cm. p. 2016 15 . isto é. Figura 4. L – Litomassa.Rocha aflorante. P – Fitomassa. lianas e limite em 0. para evitar maiores confusões. Além disso. 61. limite na linha de superfície. CAVALCANTI et al. V .Atmosfera sem interferência da vegetação com limite em 3 metros. Rio de Janeiro. 3-33. 2010. Como exemplo de geofácies na concepção de Beroutchachvili e Bertrand (1978) podemos apresentar o caso observado no semiárido brasileiro (CAVALCANTI.3 me- tros. Transporte de biosubstâncias. geohorizontes e distribuição da geomassa. no município de Poço das Trincheiras (Alagoas) (Fig. Espera-se que o quadro colabore R. lianas e limite inferior em 1. Observando um segmento de en- costa com aproximadamente 20m². 2010). Assim.7 metros. VI . etc. Os números indicam a altu- ra/profundidade do geohorizonte. líquens nos troncos das árvores e em algumas rochas. Geofácies.. fitomassa. foi elaborado um perfil de geofácies contendo os seguintes geohorizontes (descritos de cima para baixo): I . Sochava e Bertrand e Beroutchachvili (Quadro 1). As letras minúsculas representam variações da geomassa. Bras. ne- cromassa. 4).Rocha aflorante.Rocha e cascalho. Folhas anuais de árvores e arbustos em queda. jul. 1998. pois também deveria incluir as condições da hidrosfera e atmosfera. folhas e caules de herbáceas. IV . transporte de biosubstâncias. a diferenciação não es- taria relacionada apenas à sequência de estratos vegetais e dos horizontes do solo. elaborou-se um quadro de correlação entre os termos utilizados por Bertrand. n. VII - Rocha com limite de profundidade desconhecido. (2010). III – Rocha aflorante. zoomassa. Geogr. H – Hidromassa.1 metro. A – Aeromassa. Fonte: CAVALCANTI (2010). II – Folhas anuais de árvores e arbustos em queda. v. a geomassa pode ser subdividida em pedomassa.. presença de lianas. um geohorizonte seria um estrato da paisagem onde houvesse a mesma combinação de geomassa. folhas e caules de herbáceas com limite de 0. Serrapilheira não destruída.

1991). Rio de Janeiro. Em termos comparativos. 2. Correspondência de termos em Bertrand e Sochava. Bras. geócoros./dez. 1978). Organizado pelos autores. R. subtratos. p. n. 3-33. Termo Bertrand (1968) Beroutchachvili & Sochava (1978) Bertrand (1978) Associação funcional Geócoro Não utilizado Não utilizado de geossistemas Utilizado como sinônimo Subdivisão dos Geos. jul. 2016 16 . ISACHENKO. É importante destacar que o geógrafo russo prefere o uso das palavras fácies físico- geográfica ou simplesmente fácies em detrimento de geofácies (SOCHAVA. 174) acreditam que é um problema aplicar a ideia de geossistema em função de os geômeros estarem relacionados às escalas das zonas climáticas. de tipologia e de regionalização. tratos. dificultando sua compreensão. respectivamente.para solucionar dúvidas e auxiliar o entendimento sobre a natureza distinta das propostas apre- sentadas. por exemplo. este é associado a qualquer dos geossistemas lo- cais (localidades. 1963. o geótopo para o geógrafo russo não representa uma unidade natural com di- mensão determinada. v. regional e planetária (SOCHAVA. quando na verdade os conceitos relacionam-se a duas formas de or- ganização da informação. de fácies. 1978. epigeômeros e outros. Geogr. em Sochava. Con- tudo. a fácies de Sochava é o geótopo de Bertrand em 1968/1971 e o geofá- cies de Beroutchachvili e Bertrand em 1978. Deste modo. enquanto os geócoros possuírem escala regional. Sochava (1978). Quanto ao termo geótopo. que se preocupa com os geossistemas regionais e glo- bais. possuem uma definição bastante simples. Beroutchachvili e Bertrand (1978). p. fácies) e seu estudo é denominado geotopologia. 5ª.. abrangendo uma unidade físico-geográfica da 7ª or- dem de grandeza. 1977. Sochava ainda propõe mais termos como geômeros. Quadro 1. os termos geócoro e geômero. Unidade com Geofácies sistemas da 6ª ordem mesma associação de Não utilizado de grandeza geohorizontes. mas cuja tradução não foi realizada em idioma português. 6ª grandeza e 7ª ordens de gran- deza) Fonte: Bertrand (1968). ambos abrangendo as escalas local. 61. Nascimento e Sampaio (2005. 7ª ordem de grandeza Geohorizonte Não utilizado Estrato de um geofácies Não utilizado Qualquer tipo de matéria Geomassa Não utilizado Não utilizado componente da paisagem Geômero Não utilizado Não utilizado Tipo de geossistema Termo genérico que se refere a qualquer Subdivisão dos Geofá- ordem de geossiste- Geótopo cies da 7ª ordem de Não utilizado mas locais (4ª. mas um termo genérico para designar geossistemas de pequenas dimen- sões. em contra- ponto à regionalização físico-geográfica.

mesogeócoros (sinônimo de Localidades). do- mínio (область). regional. Na sua proposta. Em 1965. os geócoros são unidades naturais de qualquer dimen- são. enquanto o termo tipologia é associado aos tipos de unidades. Neste contexto. cinturão (пояс). a saber: epigeosfera (эпигеосфера). Em 1991. fazendo parte de um geômero (especificamente uma classe de fácies). enquanto os geômeros são tipos de unidades naturais (ex. Isachenko publica uma segunda edição de seu livro (sem tradução para in- glês) e revisa as denominações aplicadas aos geossistemas de diferentes dimensões pelos auto- res soviéticos e verifica a recorrência de algumas terminologias. subtrato (подурочище) e fácies (фация). mas que não se afastam grandemente daquelas citadas acima. terreno (местност). subdomínio (подобласть). Berg antes do final da década de 1940. 2016 17 .G. A. p. entre os geógrafos russo- soviéticos.G. intitulado “Princípios de Ciência da Paisagem e Regionalização Físico-Geográfica”. o termo regionalização é utilizado para diferenciar unidades naturais. as aproximações regionais e tipológicas já haviam sido desenvolvidas por Lev S. com versão em inglês de 1973. subzona (подзона). Foi levando em conta a inserção real dos geócoros de níveis mais baixos naqueles de níveis mais elevados que Sochava (1978) se refere a eles como possuindo diferentes ordens.: Inselbergs com caatinga arbórea de Anadenanthe- ra colubrina). inde- pendentemente de sua dimensão espacial (local. província (провинция). De acordo com Mamay (2007). No exemplo dado. respectivamente (Quadro 2). que é sinônima à Geotopologia de Sochava e. o envelope geográfico e toda a gama de unidades intermediárias como entida- des reais. 3-33. deve-se ressaltar que a geografia soviética. ma- crogeócoros (sinônimo de Paisagens) etc. v. Rio de Janeiro. Bras. paisagem (ландшафт). como a presença dominante da leguminosa angico-de-caroço (Anadenanthera colubrina). a partir dos quais é possível dife- renciar um conjunto de unidades taxonômicas largamente aceitas. identificadas individualmente (ex. jul. a Serra da Santa (em Petrolina-PE) constitui um geócoro (especi- ficamente um microgeócoro). planetária). R. zona (зона). subcontinente (субконтинент). Isachenko lança o primeiro livro dedicado inteiramente ao tema. Geogr. que partilha características com outros inselbergs vizinhos. n. classifi- cando-os em microgeócoros (sinônimo de Tratos). continente (континент). 2. o referido geógrafo apresenta categorias e ordens de geossistemas. A. distrito (округ). Apesar de toda inovação terminológica trazida por Sochava. A proposta taxonômica de Sochava (1978) apresenta uma nomenclatura bem particular para as unidades naturais (geossistemas). cor- respondendo aos geômeros e geócoros. à época em que Sochava pro- move o desenvolvimento da epígrafe ‘geossistema’ (décadas de 1960 e 1970) já apresentava di- recionamentos bastante consolidados na discussão sobre uma teoria de áreas naturais. subdistrito (подокруг). a Regionalização Físico-Geográfica tratando do estudo de unidades superiores a 10² km² (grosseiramente falando)../dez. subsetor (подсектор). compre- endendo a fácies. subprovíncia (подпровинция). muitos dos conceitos já apre- sentavam definição bem claras na geografia russo-soviética. Neste sentido. setor (сектор). trato (урочище). Neste livro o autor divide a Geografia Física Integrada em duas disciplinas: Ciência da Paisagem que busca o estudo das unidades de dimensões locais (<10² km²).: o inselberg da Serra da Santa em Petrolina). 61. Assim.

. v. grupos de geomas e assim por diante. constituída por um agrupamento de classes de fácies com atributos estruturais e dinâmicos simila- res. 61. classes de fácies. No primeiro caso. Cherkashin. Geômeros Dimensão Geócoros Geossistema Planetário Conjuntos de Tipos de Mei. os domínios montanhosos de Baikal a Dzhugdzhursky (Quadro 4). aqueles condicionados pela dis- tribuição latitudinal da radiação e gradientes termo-hídricos e os que se definem pelo gradiente hipsométrico. Bras. Macrogeócoro (Distritos. No caso da Ásia Setentrional. p. por sua vez. assim tem-se: grupos de fácies. O conceito de geoma./dez. R. p.Quadro 2. 2016 18 . n. Geogr. Esta. eles são referidos como possuindo diferentes categorias definidas pela generalização tipológica das fácies. que constituem Classes de Geomas (Quadro 3). que pode ser representado pelo tipo de vegetação regional e sua posição morfoestrutural. 2. geomas (agrupamento de classes de fácies). Rio de Janeiro. Sochava (1978. o autor destaca o domínio das planícies drenadas pelos rios Ob e Irtysh e. Dando exemplos de geômeros de dimensões planetária e regional. sendo os geômeros correspondentes a diferentes tipos de unidades. por exemplo. Os geócoros de diferentes ordens são nomeados a partir de elementos físico-geográficos de destaque para a área estudada. p. 3-33.92. Sochava (1978. p. Subdivisão taxo-corológica dos geossistemas. 1978. em Sochava. no segundo caso. Com Diferenciação Regional tudinal Vertical Subgrupos de Geomas Grupos de Províncias Zonas Naturais Subzonas/Províncias Províncias Geomas ----------------------. distribui-se sobre as Planícies e Montanhas Euroasiáticas. Paisagens) Classes de Fácies Topogeócoro (Raion) Grupos de Fácies Mesogeócoro (Localidades e grupos de Tratos) Fácies Local Microgeócoros (Tratos) Geômero elementar Geócoro elementar (Subtrato) (fácies elementar) Fonte: Sochava. subgrupos de geomas. 2011. Modificado pelos autores. As diferentes categorias de geômeros seriam determinadas com base em algum atributo que reflita sua natureza similar de um conjunto de geócoros. jul. Cinturão físico-geográfico e Grupos de Domí- os Naturais nios físico-geográficos Planetária Subcontinentes e conjuntos de suas megaposi- Tipos de Meios Naturais ções Classes de Geomas Domínios físico-geográficos Subclasses de Geomas Grupos de Geomas Com Zonalidade Lati. Não obstante.94) propõe um Cinturão de Paisagens Extra- tropicais Setentrionais que contém a Taiga.99) diferencia dois critérios para regionalização de domínios físico-geográficos. consiste numa representação tipológica mesorregional.

também chamada taxonomia. 3-33. Exemplos de geômeros planetários e regionais. p. Categorias de Geômeros Exemplos Conjuntos de Tipos de Cinturão de Paisagens Boreais Intertropicais Meios Naturais Tipos de Meios Naturais Taiga Classes de Geomas Planícies Euroasiáticas Montanhas Euroasiáticas Subclasses de Geomas Ob-Irtysh Baikal-Dzhugdzhursky Taiga Decidual de Baikal- Grupos de Geomas Taiga Escura de Ob-Irtysh Dzhugdzhursky Geomas da Taiga Deci- Geomas da Taiga Escura Meridio- Subgrupos de Geomas dual Montana Otimamen- nal de Ob-Irtysh te Desenvolvida 1. 1978. percebe-se que. Nota-se que a proposta de Sochava destoa ligeiramente daquela de Isachenko. Outros exemplos de geômeros planetários e regionais. Geogr.. Aqui vamos destacar algumas das propostas taxonômicas comuns à geografia russo-soviética. Taiga Decidual de En- costa Fonte: Sochava. 2. De forma a complementar e auxiliar a diferenciação (regionalização) das unidades físico- geográficas. p. Rio de Janeiro. 2016 19 . não faz referência a unidades derivadas do cruzamento de elementos zonais e azonais. o modo de agrupar a informação difere largamente. também se propõe a classificação destas unidades. R. p. Bras. Taiga Cen- Províncias Transbaikal em Áreas nas/Províncias tral/Yenisey Rochosas de Cimeira Taiga Escura das Cimeira Rochosa de Local Macrogeócoro (Distrito) Planícies sinuosas Preangara de Chulym Fonte: Sochava. 61. sobretudo no tocante à identificação das unidades de dimensões regionais. O primeiro autor. o agrupamento de uni- dades semelhantes em tipos. 94.Quadro 3. caracterizando uma tipologia. ou seja. v. Quadro 4./dez. 99. jul. apesar de haver certo consenso acerca das unidades físico-geográficas existen- tes. n. Organizado pelos autores. Organizado pelos autores. Assim. 1978. por exemplo. Dimensão Ordens de Geócoros Exemplos Cinturão físico-geográfico Cinturão Extratropical Setentrional Grupos de Domínios físico-geográficos Ártico Boreal Planetária Subcontinentes Ásia Setentrional Domínio físico-geográfico Com Zonalidade Com Diferenciação Ob-Irtysh Baikal-Dzhugdzhursky Latitudinal Vertical Grupos de Provín- Zonas Naturais cias Taiga Vitimo-Aldansk Regional Taiga ao Oeste de Subzo. Taiga Decidual de Ba- cia Intra-Montana Geomas Taiga de Picea abies das Planícies 2.

1989). Para as montanhas existem três subclasses: sub- montana. Atualmente. • Subtipo: definidos com base em pequenos contrastes no interior dos tipos. Bras. Pode ser dividido em subespécies. etc. • Família: Localização regional no país físico-geográfico (Boreal temperado continental – Europa Setentrional). • Subclasse: inclui partes de planícies e montanhas. Pode ser dividido em subsistemas de acordo com o grau de continentalidade. v. 3-33. jul. • Sistema: base energética das paisagens – distinções zonais dos balanços de água e calor (sistemas de paisagens subárticas.). etc. n. a saber: • Tipo: definidos pelo caráter geral do funcionamento hidrotérmico.). paisagens boreais. SHLIAPNIKOV. No livro ‘Mundo Natural: Paisagens’ Isachenko e Shliapnikov (1989) determinam tipos. • Subclasses: Sub-Montana. vegetação. Pode ser dividido em subgêneros de acordo com a litologia superficial (argila. solos. sub- tipos. Terras Altas e Terras Baixas. classes e subclasses das paisagens do mundo. • Classe: morfoestruturas de alta ordem (elementos do megarrelevo). areia. • Tipo: características dos solos e vegetação no nível de tipos de solos e classes de formação de plantas (tipos zonais de paisagens. Estudando a região do Cáucaso. Alto Montana. saber: • Divisão: tipo de contato e interação entre as esferas geográficas com a esfera da paisagem (divisão de paisagens terrestres. etc.. montana e alto montana. cascalho. baseada na determinação dos Stexe (ver mais adiante) para a catego- ria dos gêneros (ver abaixo). Rio de Janeiro. 61. tipo de zonalidade natural – vertical ou horizontal (classes de paisagens planas e montanhosas). etc. p. Beruchashvili (1989) também propôs um sistema para taxonomia da paisagem. 2. etc. o georgiano Nikolai L. Na proposta taxonômica de Isachenko (1991) e também no seu mapa de paisagens do mundo (ISACHENKO.). 2016 20 . Nikolaev (1979). mas apresentam as espécies congregadas em pouco mais de 600 grupos.) e estrutura morfológica. paisagens aquáticas. R. preferindo o termo ‘Complexos Territoriais Naturais’.). Na proposta de Vladimir A. lacustre. de Dokuchaev. esta proposta serve de referência para a determinação do funcionamento das paisagens da Geórgia. Montana. precipitação. Geogr. com base em índices derivados de elementos climáticos (temperatura. Pode ser dividido em subtipos. Pode ser dividido em subclasses de acordo com diferenças internas do megarrelevo. fluvial. como o índice de umidade. • Classe: envolve duas classes: Montanhas e Planícies. o índice de continentalidade e a soma das temperaturas ativas. é apresentada uma sistemática que enquadra as diferenças paisagísticas numa série de categorias. Para as planícies existem duas subclasses: terras baixas e terras altas. tundras. componentes característicos (relevo. da Universidade Estatal de Moscou. • Espécie: inclui áreas com máxima similaridade em termos de gênese. tundras florestais./dez. • Gênero: tipos genéticos de relevo (denudacional. • Classe: inclui duas classes: montanhas e planícies. etc.).). são apre- sentadas sete categorias. etc. • Espécie: similaridade dos Tratos predominantes nas Paisagens.

Assim.: Depressões intermontanas e submontanas • Grupos de Fácies: agrupamento de fácies com características estruturais e dinâmicas se- melhantes.. v. assim como para Solntcev (1967). Rio de Janeiro.: Taiga). o Formações vegetais.. • Subtipo: é determinado de acordo com diferenças identificadas dentro de um mesmo tipo. a saber: • Conjuntos de Tipos de Meios Naturais (Conjuntos de Tipos de Paisagens): inclui as grandes faixas geográficas da Terra (Ex.: Taiga Decidual de Bacia Intra-Montana • Classes de Fácies: conjunto de grupos de fácies com características estruturais e dinâmi- cas semelhantes. 6 Para Sochava (1978). • Tipo: usualmente é baseada principalmente em atributos hidrometeorológicos. 61. p.: Stipa-Aneurolepidium em solo castanho comumente siltoso e carbonático salino. 2. Sochava (1978). Bras.: Encostas com mescla de abeto musgo e arbustos. R. • Geomas: agrupamento de classes de fácies com características estruturais e dinâmicas semelhantes. Ex. Diferentemente dos anteriores. Ex. 2007).: Taiga Decidual de Baikal-Dzhugdzhursky). vulcânico. jul. 3-33. • Subclasses de Geomas: divisões do megarrelevo com base em sua posição e outras ca- racterísticas (Ex. uma mesma fácies pode apresentar diferentes associações de plantas. para Socha- va. • Geômero elementar (ainda fácies elementar ou biogeocenose)6: estágio de transformação pedológica e sucessão vegetal num segmento geomórfico.: Segmentos de encostas côncavas transeluviais com Stipa-Aneurolepidium em solo castanho comumente siltoso e carbonático salino.: Cinturão de Paisagens Boreais). etc. SEMENOV. o Complexidade e diversidade da estrutura morfológica. em áreas modificadas. apresentando onze categorias de geômeros. migração de elementos químicos. parâmetros biológicos e etc. Ex. • Subgrupos de Geomas: divisão de um grupo de geomas (Ex. o Atributos da hidrologia (planície de inundação. a tipologia dos geossistemas (geômeros) deve ser realizada pelo agrupamento sucessivo de fácies (SUVOROV. tipo de solo e espécies vegetais domi- nantes. 2016 21 . Ex. ANTIPOV.: Montanhas de Baikal-Dzhugdzhursky). • Classes de Geomas: Divisões dos meios naturais com base no megarrelevo (Ex. delta. mas na estrutura e dinâmica das fácies.: Montanhas Euroasiáticas). • Grupos de Geomas: conjuntos naturais de uma subclasse de geoma (Ex. n. siliciclástico). uma biogeocenose não alterada pelo uso da terra é equiva- lente a uma fácies. sugere que a tipologia dos geossistemas não deva se basear nas característi- cas similares de tratos ou paisagens. Contudo. Ex. considerando também atributos gerais da estrutura. o Litotipo (carbonático. Geogr. etc. • Tipos de Meios Naturais (Tipos de Paisagens): grandes conjuntos naturais de uma faixa geográfica (Ex. acumulativo. Viktor B.). • Fácies: segmento de relevo com mesmo substrato. • Gênero: determinado de acordo os seguintes atributos: o Tipo de relevo dominante (erosivo.). sendo necessário a diferenciação entre fácies e biogeocenoses.: Taiga Decidual Montana). o Grau de continentalidade./dez. em seu livro Introdução à Teoria dos Geossistemas.

Dito isto. musgos e mirtilos Fonte: Sochava. 2. A seguir destacamos o exemplo apresentado por Sochava em seu livro (Quadro 5). bem como as classes de fácies. p. A partir delas é possível definir. Do ponto de vista metodológico. o leitor pode achar que a teoria dos geossistemas ocupa-se única e exclusiva- mente da cartografia de área naturais. De acordo com Mamay (2007). Kuzmenko (2010) deixa claro que. amieiro.). é importante que se compreenda o modo como a referida teoria pas- sou a tratar a dimensão temporal das paisagens. 61. v. 225-226. um aspecto relevante para identificação dos grupos de fá- cies é a utilização de informações geomorfológicas combinadas com informações vegetacionais. grupos e subgrupos de geomas. n. pelo estabelecimento de estações de monitoramento da dinâmica dos geossistemas. Sobre isso. Geogr. Quadro 5. É interessante notar que. pequenas ervas e musgo verde 4) Encostas com mescla de pinheiros. Bras. nota-se a ausência das seguintes categorias de geômeros: subclasses. dinâmica e evolução das paisagens.. jul. R. na taxonomia dos geossistemas. mirti- Grupos de fácies los. etc. Nas páginas 225 e 226. 1978. subgrupos de geomas. por agrupa- mento. nem sempre todos os níveis po- dem ocorrer. 2016 22 . 3-33. arbustos e musgos verdes 5) Encostas com pinheiros em rochas com líquens. Categorias de geômeros Exemplo Conjunto de tipos de Cinturão de Paisagens Extratropicais Setentrionais paisagem Tipo de paisagem Tundra Alpina da Ásia Setentrional e Taiga Classe de Geomas Planícies e Planaltos da Sibéria Central Taiga central e taiga de lariço em afloramentos de planalto Geoma dissecado e cadeias de colinas (Taiga clara de montanha) 1) Superfícies de aplanamento com vegetação arbustiva pequena./dez. trabalhando em grandes áreas. Sochava foi pioneiro no estudo integrado das va- riações periódicas da paisagem. herbáceas e musgo verde 2) Encostas com mescla de abeto musgo e arbustos 3) Encostas em afloramentos com mescla de cedro. indo muito além dos mapas e cartas. os geômeros de categoria superior (classes de fácies. os grupos de fácies são as principais unidades iniciais de mapeamento. o autor detalha a tipologia dos geossistemas para as Planícies e Planaltos da Sibéria Central. a grande inovação trazida pela teoria foi a inte- gração dos estudos sobre a estrutura. pp. Neste ponto. gramíneas (Limna). Contudo. Rio de Janeiro. Exemplo de taxonomia de geossistemas. geomas.

n. eles propõem que cada etapa de transformação pedológica e sucessão vegetal sobre um mesmo sítio seja denominada de estado.Geossistemas no tempo: dinâmica e evolução das paisagens Retomando a crítica de Sales (2004). 1978) e. para a geografia física. sua forma de relevo e seu regime de drenagem. Tratada como um sistema dinâmico. enquanto que as alterações nas variáveis de estado representam a dinâmica dos geossistemas. Isachenko & Reznikov (1996) propõem o termo sítio como unidade formada pela relação entre um tipo de substrato. mas busca compreender as relações entre os diversos elementos e processos naturais. ou polissistemas. sem deixar de lado sua relação com as intervenções da sociedade. Sochava./dez. a seguir). ecossistêmicas e atmosféricas sobre ele.. Pensando sobre isso. no dizer de Cherkashin (2008). É similar ao conceito de balanço entre morfogênese e pedogênese de Tricart (1977). estes conceitos permitiram clarear e expandir os horizontes epistemológicos do estudo integrado da natureza. Uma mudança na invariante significa uma evolução da paisagem. sobre o fato de a dimensão temporal dos geossistemas não considerar as qualidades morfoestruturais das paisagens. não há possibilidade de formação de solos nem de exploração biológica do substrato. Geogr. mas que não impliquem na mudança completa de suas características (I- SACHENKO. Aplicados à geografia. Rio de Janeiro. uma unidade geomorfológica (forma+estrutura superficial) corresponde à invari- ante do geossistema. Quan- do os processos formadores do relevo estão em ação intensa.: morfoestruturas). 2007). A grande contribuição da teoria do geossistema foi a incorporação dos conceitos de invari- antes e variáveis de estado. p. Deste modo. é preciso destacar pelo menos dois pontos: • Os procedimentos de diferenciação de geossistemas regionais (cf. • Com isso. os estados compreendem as mudanças ocorridas na paisagem a partir do es- tabelecimento do sítio. Traduzindo. é a invariante em transformação (evolução da R. Bras. A partir do momento em que um sítio se estabelece. Com base nisso. daquilo que é chamado de regionalização físico-geográfica (cf. enquanto os processos e elementos pedoedáficos. É possível então medir a idade da paisagem como a época em que a invariante se formou. 61. e isso traz uma série de implicações epistemológicas para o estudo e ensino da referida teoria (cf. a paisagem passou a ser observada como um conjunto de componentes com temporalidades distintas. 2016 23 . determinam áreas naturais de grandes dimensões pela correlação entre morfoestruturas e unidades bioclimáticas. hídricos e atmosféricos representam as variáveis de estado. v. emprestados da física de sistemas dinâmicos. ecológicos. 1991). 3-33. toma lugar uma série de transformações pedogenéticas. 2. a teoria dos geossistemas não se baseia puramente em um critério para análise da natureza (ex. Em complemento. limitando-se às variações de curto prazo. destaca-se o fato de que. é possível distinguir duas categorias de geossistemas componentes (ou geo- componentes): aqueles que possuem uma taxa de mudança muito lenta (invariantes) e aqueles que possuem uma taxa de mudança mais rápida (variáveis de estado). Cada uma destas trans- formações compreende um estado. jul. grosso modo. tópico. Isachenko.

n. 2006). v. eles não são suficientes para explicar o funcionamento da paisagem atual.Macrogeócoro). É neste sentido. De forma mais abrangente. Os estados da paisagem (ou Estados do Complexo Territorial) abrangem as variações que um geossistema apresenta em seu funcionamento (dinâmica). 2016 24 . que a consideração da dinâmica das paisagens permitiu (e permite) à geo- grafia integrar estudos evolutivos às perspectivas de monitoramento ambiental. seu propo- nente. 61. algumas técnicas de análise e datação de per- fis estratigráficos (a exemplo da Luminescência Opticamente Estimulada – LOE. De outro modo. toma lugar a transformação pedológica e a dinâmica dos seres vivos (sucessão vegetal). palinológicas. mas também temporal./dez. o geógrafo Nikolai Levanovich Beruchashvili propôs o conceito de Estado do Complexo Territorial (Stexe). a necessidade de estudos dinâmicos e funcionais. com o obje- tivo de melhor espacialização das informações (SOCHAVA.. jul. diferentes métodos permitem abordar escalas distintas. etc. transportando a geografia física ao status de ciência histórica (CORRÊA. p. Contudo. sobretudo através do desenvolvimento do conceito de estados da paisa- gem. não apenas em termos de resolu- ção espacial. Sochava propôs o monitoramento estacional e semiestacional. Rio de Janeiro. 1978). Bras. Na época da URSS. Por exemplo. associada a aná- lises sedimentológicas e morfoestratigráficas). a saber: de curto prazo (duração inferior a 24h). Um deslizamento pode ser suficiente para fazer evoluir uma fácies ou mesmo um geócoro ele- mentar (subtrato . é só a partir da visão geossistêmica que se torna possível tratar dados de fontes diversas (geomorfológicas.7 Um stexe é definido por um regime homogêneo de trocas de matéria e energia num deter- minado geossistema.paisagem). Em português significa Estado do Complexo Territorial. Seguindo o modelo de estudos estacionais desenvolvido por Viktor Sochava. algumas destas não puderam ser mantidas com o fim do regime comunista (MAMAY. médio prazo (>24h a 1 ano) e de longo prazo (>1 ano) (BERUCHASHVILI. A partir dos resultados obtidos pelo monitoramento na estação de Martkopi (Geórgia). Deste ponto de vista. É claro que isso se dá em escalas concomitantes à magnitude dos processos envolvidos. Geogr. Para o estudo da dinâmica da paisagem.) dentro de um mesmo horizonte epistemológico. na busca de co- nhecer estágios funcionais e acompanhar com precisão as mudanças em patamares formativos de novos geossistemas. permitem determinar não apenas a idade e nature- za da invariante atual. quando cessa a atividade geomorfológica intensiva. apesar de os estudos evolutivos auxiliarem na compreensão de pale- opaisagens. foram estabelecidas 20 estações fixas no território soviético. os es- tados da paisagem atual incluem três categorias de fenômenos. sedimentológicas.podurochische). 2007). sendo o primeiro de caráter fixo e com objetivo de controle das observações e. de caráter variável e com observações em intervalos de tempo mais largos. fitólitos. mas não uma paisagem (landschaft . 1989). em russo. R. foi construída na Geórgia (região de Martkopi) uma estação físico-geográfica que chega a mensurar entre 6 e 7 mil medidas diárias em 100 diferentes atributos das paisagens e funciona há mais de 40 anos. 2. 3-33. emergindo assim. Neste sentido. Os estudos estacionais têm demonstrado que um stexe geralmente dura um 7 Stexe é uma sigla para sostoiania territorialniykh komplexov ou Ctekc (Cостояния Территориальных Комплексов). o segundo. entretanto. mas também o conhecimento de quadros sucessivos de paleopaisagens.

Como foi dito. Fonte: Ferreira Júnior em CAVALCANTI (2014). n. o balanço hídrico. Isso inclui: definir o balanço de radiação. Como exemplo.dia. É fácil perceber como os referidos processos (ex. jul. Assim. Para ser mais claro. podendo atingir um mês ou mais (ISACHENKO. p. Figura 5. Geogr. Diferentes geossistemas possuem diferentes taxas de operação de processos naturais. Rio de Janeiro. a cartografia e classificação sistemática das paisagens. a produti- vidade de biomassa. representada pelos estudos estruturais. os estudos estacionais permitem auxiliar na compreensão dos processos evo- lutivos. na cartografia e classificação dos geossistemas. me- tais pesados e outras substâncias. além de fornecerem informações preciosas ao planeja- mento territorial. mas ambos carecem da fonte primária. que têm. observe a fotografia abaixo (Fig. busca definir aspectos geofísicos e geo- químicos dos geossistemas. 1998). À direita: tálus com árvores e arbustos.: balanço hídrico) podem variar de uma fácies para outra. 2016 25 . 3-33. a circulação de sedimentos. a decomposição de serapilheira. À esquerda: encosta rochosa com bromélias. o monitoramento de geossistemas assemelha-se ao que tem chamado de Pesquisa Ecológica de Longa Duração. nutrientes.. Agora pense sobre os processos naturais citados no parágrafo anterior. Bras. 5). Em particular. v. Ela apresenta duas fácies distintas: uma encosta rochosa com bromélias e um tálus com árvores e arbustos. mas pode prolongar-se por vários dias. seu principal objetivo. 2. 61. servem de estratificação da amostragem para determinação de pontos de coleta R./dez.

tais como aquelas discutidas por Corrêa (2006) e Silva (2013). no contexto da Climatologia Geográfica de Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro e dos estudos sobre balanço hídrico e de radiação. a exemplo do modelo de vulnerabilidade ambiental de Crepani et al. Exemplos são os estudos geoquímicos de Nascimento et al. Bras. Paleobotânica. Esta integração e interdependência de perspectivas estruturais. em Moscou). antropogênico e cultural-histórico. (2001) e outros similares. Paleoclimatologia. n. corresponderia à ideia de geografia física aplicada. Observando os trabalhos da 11ª Conferência Internacional da Paisagem (realizada em 2006. o viés cultural-histórico. 61. v. etc. tais como os domínios de natureza de Aziz N. O direcionamento evolucionário ou paleopaisagístico está preocupado com o desenvolvi- mento das paisagens. Dyakonov (2007) aponta cinco direcionamentos gerais desta disciplina: genético-estrutural. principalmente no Holoceno e Pleistoceno. A direção dinâmico-funcional tem interesse no funcionamento atual das paisagens. avaliação de impactos das atividades econômicas e riscos para a saúde humana. É uma abordagem característica das sínte- ses naturalistas. poderíamos traçar várias hipóte- ses. dinâmico-funcional. regionais e planetários. (2001). Em termos da geografia brasileira. p. Envolve questões paleoambien- tais (Geomorfologia do Quaternário. O estudo de geossistemas pertence a qual área da Geografia? Acima. sobretu- do a partir de ferramentas geoquímicas e geofísicas. Contudo./dez. podemos observar que o pri- meiro deles se dedica a explanar daquilo que se trata a Ciência da Paisagem russa. permitida pelo horizonte epistemológico da teoria dos geossistemas. O autor. jul. 3-33. na medida em que abarca a dimensão imaterial da paisagem e não apenas seu sentido físico-natural (Cf. sua diversidade nos níveis locais. 2016 26 . e do ponto de vista geofísico. na biogeografia ecológica ou mesmo numa climatolo- gia geográfica ou ecologia/geoecologia da paisagem. a seguir). A linha antropogênica foca no desenvolvimento das paisagens provocado pela atividade humana. Rio de Janeiro. Geogr. vamos preferir analisar o contex- to da geografia russa. incluindo-o na geomorfologia dinâmica. das unidades geoambi- entais de Silva et al.para estudos evolutivos. 8 A Ciência da Paisagem ainda é mais ampla que o estudo de geossistemas. onde esta epígrafe se desenvolveu. 2. cabe uma pergunta quanto à natureza epistemológica deste direcionamento de estudo: a qual área da geografia pertence? Analisando o contexto de aplicação do termo geossistema. Kiril N.). evolucionário/paleopaisagístico. A linha genético-estrutural estuda a gênese e estrutura das paisagens (geossistemas). havíamos dito que o Estudo de Geossistemas é similar8 ao que se chama na Rússia de Ciência da Paisagem e Regionalização Físico-Geográfica. nos leva à necessidade de uma reflexão sobre o lugar do estudo de geossistemas no âmbito formal da geografia científica. dinâmicas e evolutivas. Ab’Saber. (2008). Entretanto. que foram reunidos em um livro contendo 31 artigos. R.. tanto quanto para seleção de áreas para observações fixas (estacionais) e variáveis (semiestacionais).

. questões relativas às desigualdades sociais e que poderiam ameaçar a imagem do Estado./dez. R. muitas vezes esquecendo-se das desigualdades sociais. Este foi. Este interesse acadêmico é muito próximo ao que se convencionou chamar no Brasil de Geografia Cultural. o crescimento de uma perspectiva marxista. é fragmentado em diversas outras disciplinas (climatologia. ganhou força uma proposta de revisão da geografia que então servia ao Estado (capitalista). geografia cultural. ela é tratada como uma disciplina à parte da geomorfologia. Paleoclimatologia e Morfotectônica. p. Biogeografia. Numa abordagem reducionista. Geografia Econômica. Bras. pelo contrário. contudo. da hidrologia. o ensino superior da Geografia foi sempre organizado em um único departamento. tais como: Na antiga URSS. • No século XX os geógrafos soviéticos conduziram a organização de sua ciência numa preocupação de explicá-la com base no materialismo histórico e da sua utilidade para o então Estado socialista. 2. patrimoniais. como vimos acima. n. Car- tografia. Isto ocorre por pelo menos quatro motivos: • No Brasil. 3-33. geografia econômica e assim por diante.) o que dificulta ainda mais o seu entendimento. ou seja. • No Brasil. 2007). Ciência da Paisagem. Este fato foi acompanhado de uma consequente desvalorização das temáticas da natureza. fomentou intensos debates que resultaram na supervalorização do papel político da disciplina. a Ciência da Paisagem não esgota as a- tividades da geografia russa. onde os alunos fazem um curso de cinco anos e estudam detalha- damente cada um de seus direcionamentos. v. etc. sobretudo no último quartel do mesmo século. Existe um departamento inteiro exclusivo para a prá- tica da Ciência da Paisagem. principalmente aquelas tais como a Geomorfologia Estrutural. na URSS pôde crescer com mais facilidade uma perspectiva geográfica como ciência da Terra e da sociedade. ela é apenas um entre diversos de seus componen- tes. jul. Não obstante toda esta gama de direcionamentos. O viés cultural-histórico é preocupado com as paisagens criadas materialmente e espiritual- mente pela sociedade. no contexto de profundas desigualdades sociais do país. focando em aspectos estéticos. No Brasil. Rio de Janeiro. • Em resultante disso. Deste modo gostaríamos de sumarizar alguns aspectos. geralmente nas faculdades de Ciências da Terra ou Ciências Humanas. no que Sales (2004) denominou de uma tentativa de eliminar a Geografia Física do Brasil. não se compreende isto sem que antes seja buscado um entendimento da estrutu- ra acadêmica da geografia como é praticada na Rússia. Climatologia. Geogr. 61. climatologia. muitos chegaram a afirmar que estas temáticas não pertenciam à Geografia. pedologia. o curso de Geografia recebeu o prestígio de possuir uma faculdade volta- da unicamente para seu estudo. um dos maiores erros de alguns dos adeptos da geografia crítica brasileira. sem dúvida. esta disciplina nem mesmo existe e seu conteúdo. sobretudo a partir da década de 1970. entre outros). fenomenológicos e etnográfi- cos (KALUTSKOV. Todavia. valorizando tanto a promoção de abordagens integrativas quanto especializadas ignorando. organizada em departamentos exclusivos para cada uma de suas disciplinas especializadas (Geomorfologia. No Brasil. 2016 27 . biogeogra- fia.

a fim de desvinculá-la daquela perspectiva francesa. p./dez. foram realizadas sem o devido conhecimento da proposta do geógrafo russo. Por fim. fica mais fácil compreender as diferenças nos horizontes cognitivos de geógrafos brasileiros e russo-soviéticos. a teoria em questão apresenta certa dificuldade de interpretação e aceitação no Brasil por vários motivos. v. bem como nas relações de trocas de matéria e energia no âm- bito dos diferentes sistemas ambientais que compõem a superfície terrestre. O horizonte epistemológico alcançado pela teoria dos geossistemas permitiu integrar. Rio de Janeiro. sem conhecimento de sua publicação posterior com Beroutchachvili em 1978 ou mesmo de seu modelo GTP. que o termo geossistema passa a ser associado a uma teoria explicativa das relações entre os diversos campos da geografia física. • Pouco material disponível em português. estrutura acadêmica e história de desenvolvimento do conhecimento geográfico. en passant. Nestes termos. • Falta de compreensão da diferença entre o conceito de geossistema em Sochava e em Bertrand 72. o geossistema tratava-se de uma unidade mesor- regional da paisagem. Considerando estas informações sobre os diferentes contextos.. jul. estas críticas e interpretações. Geogr. sobre as ideias de Sochava e de outros geógrafos russo-soviéticos e. é na geografia soviética. Bertrandiana de 1968. desconsideram as próprias mudanças de concepção do pesquisador de Toulouse. Neste sentido. 2016 28 . dinâmica e evolução de áreas naturais derivadas das relações entre os componentes da natureza. Contudo. a teoria dos geossiste- mas de Sochava consiste numa proposição realista acerca da estrutura. feitas por geógrafos brasileiros. que tanto tem dominado as interpretações realizadas pelos geógrafos brasileiros e que. podemos considerar que muitas interpretações e até críticas pouco assertivas à teo- ria dos geossistemas de Sochava. • Diferenças na organização da estrutura acadêmica e história do pensamento geográfico no Brasil e nos países formadores da antiga URSS. 2. que partilham apenas a mesma epígrafe. Bras. de modo mais homogêneo. dinâmicas e evolutivas para o estudo de áreas naturais no âmbito da Geografia. Assim. 61. da 4ª ou 5ª ordem de grandeza na escala de Cailleux e Tricart. Na geografia inicial de Georges Bertrand. Isto ocorre em função dos seguintes obstáculos: • Larga divulgação do texto de Bertrand de 1968/1972. n. Nesta visão realista. Conclusões Este trabalho tentou apresentar uma sucinta descrição da teoria dos geossistemas nos termos da geografia russo-soviética. com base apenas em textos disponíveis em português e lín- R. destacam-se os conceitos de invariantes e variáveis de estado para compreensão das relações entre os com- ponentes da natureza. Apesar disso. Distinguem-se em termos de contexto político. realizadas sumariamente. 3-33. a referida teoria se baseia na aceitação da existência real de determi- nadas unidades físico-geográficas. perspectivas estruturais.

Cabe destacar que a grande vantagem da teoria dos geossistemas é que ela permite inves- tigar diferentes aspectos da natureza (estrutura./dez. como praticantes de uma geografia física compromissada com a melhoria da qualidade ambiental. é preciso que os geógrafos brasileiros (aqueles interessados no estudo de geossistemas) se engajem e busquem a integração entre levantamentos sistemáticos dos geossistemas (cartografia de paisagens). sem medo. Entretanto. Geogr. jul. dinâmica e evolução) sob uma base unificada em termos de perspectiva e tratamento dos problemas.guas mais acessíveis (principalmente o francês). do ponto de vista epistemológico (e isso tem implicações curriculares) para seu estudo. 3-33. Bras. 2016 29 . v. vale a ressalva de que é preciso um direcionamento distinto. mormente pela incorporação de elementos de geografias tão distintas quanto àquelas das terras da Rússia e arredores. n. Aceito para publicação em 10 de novembro de 2016 R. Debate este que traz a promessa de tornar a geografia brasileira ainda mais rica do que já é. e também.. De um ponto de vista prático. mais prejudicam do que colaboram construtiva- mente com o debate sobre áreas naturais. Rio de Janeiro. estudos de reconstrução paleoambiental e na avaliação do efeito das intervenções da sociedade sobre os geossistemas. sua classificação e estudo. 61. 2. pesquisas ecológicas de longa duração (com ênfase no monitoramento dos geossistemas). Submetido em 30 de setembro de 2016. Não obstante. p. os geógrafos brasileiros precisam passar a se ver.

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