Análise Coletiva do Trabalho dos Cortadores de Cana

da Região de Araraquara - São Paulo

Análise Coletiva do Trabalho dos Cortadores de Cana da Região de Araraquara, São Paulo

Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva Ministro do Trabalho e Emprego Carlos Lupi

FUNDACENTRO
Presidente Jurandir Boia Diretor Executivo Jorge Magdaleno Diretor Técnico Jófilo Moreira Lima Júnior Diretor de Administração e Finanças Paulo José de Souza Almeida Cavalcante

Análise Coletiva do Trabalho dos Cortadores de Cana
da Região de Araraquara, São Paulo

Leda Leal Ferreira Maria Cristina Gonzaga Sandra Donatelli Marco Antonio Bussacos

MINISTÉRIO
DO TRABALHO E EMPREGO

FUNDACENTRO
FUNDAÇÃO JORGE DUPRAT FIGUEIREDO
DE SEGURANÇA E MEDICINA DO TRABALHO

São Paulo 2008

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Serviço de Documentação e Biblioteca - SDB / Fundacentro São Paulo - SP
Erika Alves dos Santos - CRB-8/7110

123456Análise coletiva do trabalho dos cortadores de cana da região de 123456789Araraquara, São Paulo / Leda Leal Ferreira ... [et al.]. – 2. ed. – 123456São Paulo : FUNDACENTRO, 2008. 12345678947 P. 123456789ISBN 978-85-98117-34-8 1234567891. Cana-de-açúcar ‒ Trabalhador ‒ Condições de Trabalho. 123456I. Ferreira, Leda Leal. II. Gonzaga, Maria Cristina. III. Donatelli, 123456Sandra. IV. Bussacos, Marco Antonio.

123456CIS 123456Fags Wa Kob

CDU 633.61+316.343.633+331.471

CIS ‒ Classificação do “Centre International d’Informations de Sécurité et d’Hygiene du Travail” CDU ‒ Classificação Decimal Universal

Este trabalho foi fruto da colaboração entre pesquisadores da Divisão de Ergonomia da Fundacentro e dos dirigentes do Sindicato dos Empregados Rurais de Araraquara, nos anos de 1994/1995.

o segundo. E o que aconteceu com o trabalho dos cortadores de cana neste período? Nossos estudos mostram que a resposta a esta questão deve ser nuançada. Se considerarmos a atividade básica dos cortadores. carregando e organizando toneladas de canas diariamente. Esta intensificação do trabalho tem provocado um desgaste maior dos trabalhadores e está certamente relacionada à morte de vários deles. como sempre fizeram e como está descrito neste livro. Aliadas à nebulosa forma de pagamento por produção.Apresentação Muita água já passou por debaixo da ponte. Hoje. nada mudou. Eles continuam cortando. Estávamos no ano de 1994 e o setor canavieiro paulista. responsável que é pela produção do etanol. uma rigidificação de modos operatórios. considerado por muitos o combustível do futuro. . a cana-de-açúcar é a primeira fonte da matriz energética brasileira. pois interesses econômicos e geopolíticos de grande envergadura estão em jogo. agora muitas vezes chamados de “colaboradores”. embora já potente. O Brasil é o primeiro produtor mundial e o estado de São Paulo. ainda não tinha adquirido o destaque atual. geram uma corrida frenética nos campos e a um aumento da competição entre trabalhadores. Neste período de quase quinze anos. aumentaram muito tanto a área plantada como a produção de açúcar e álcool. anunciadas nos últimos quatro anos. que chegam a prescrever a posição em que seus corpos devem ficar para dar os golpes de facão. como diz o ditado. desde que este livro foi escrito. que também não mudou. Grandes grupos empresariais nacionais e internacionais ingressaram no ramo. O setor sucroalcooleiro brasileiro está sob holofotes nacionais e internacionais. As metas de produção estão cada vez mais altas e são estimuladas por sistemas de prêmios e punições. O que mudou foi a intensidade de seu trabalho: os “novos” modelos de gestão invadiram o agronegócio impondo aos cortadores.

embora as usinas insistam em dizer que agora a maioria dos cortadores é contratada pelas próprias usinas. falta de reposição de equipamentos de proteção individual. terceirização. O Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). transporte sem certidão liberatória). irregularidades na moradia (alojamentos insalubres. através de seus grupos de fiscalização rural. tem atuado com mais rigor no setor sucroalcooleiro. os cortadores. que foi eleito recentemente como prioritário. comida estragada. ferramentas de trabalho inadequadas. compasso de medição da produção de cana cortada irregular). irregularidades no transporte dos trabalhadores para os canaviais (ônibus sem condição de rodagem. pagamento de passagens a intermediários. superlotados. a menos. sem condições de higiene).Também não mudou o sistema de aferição da produção: as fraudes continuam ocorrendo na maneira de se medir e pagar. também podemos afirmar que muita coisa permanece igual à situação que descrevemos há quinze anos. salários inferiores ao mínimo. expedientes exaustivos). intermediários de mão-de-obra. irregularidades na duração do trabalho (excesso de jornada. desrespeito às pausas. falta de local para refeições. falta de equipamentos de proteção individual. salários com valores menores do que o estabelecido. como descrevemos em 1994. não cumprimento de promessas pelo contratante. Se considerarmos a forma de arregimentação e contratação dos cortadores de cana. trabalhadores sem acesso ao controle de sua produção). com falta de documentação. desrespeito ao horário de almoço. Ainda existem os “gatos”. atrasos no depósito do FGTS). irregularidades na contratação de trabalhadores (falta de registro de contrato de trabalho. falta de sanitários. que já conseguiu libertar centenas de tra- . Também digna de nota é a atuação do Grupo Especial de Fiscalização Móvel contra o trabalho escravo. carteiras de trabalho retidas. irregularidades nos salários (atrasos de pagamento. irregularidades no controle médico (falta de atestados médicos). O que de fato mais mudou neste período foi a atuação do poder público em relação ao setor. irregularidades nas frentes de trabalho (problemas de fornecimento de água potável. motoristas sem autorização do DER para a atividade). A lista de irregularidades encontradas e divulgadas pelo MTE é grande: irregularidades no aliciamento de trabalhadores vindos de outras regiões (aliciamento por intermediários.

Uma das soluções aventadas.balhadores em situação de escravidão por dívidas em usinas do setor sucroalcooleiro. é a mecanização do corte. infelizmente continuarão atuais. o Ministério Público. A coordenação de esforços de órgãos como o MTE. Está mais do que comprovado que o trabalho dos cortadores de cana não pode mais continuar como está. todas as mazelas deste trabalho tão duro e penoso. realizados por universidades e centros de pesquisa e divulgados em seminários e conferências. a Polícia Rodoviária e a Polícia Federal tem potencializado seu poder de fiscalização. Mas esta solução traz inúmeras questões: quando será possível. A pujança econômica atual do setor sucroalcooleiro no Brasil oferece todas as condições para que o trabalho dos cortadores de cana mude para melhor. mecanizar totalmente o corte de cana? Que medidas devem ser tomadas até que esta mecanização ocorra para melhorar o trabalho dos atuais cortadores? O que fazer com os milhares de trabalhadores que ficarão desempregados pela mecanização? Estas questões estão na ordem do dia. quase por unanimidade. Constatamos também um aumento do número de estudos técnicos sobre a penosidade do trabalho dos cortadores. técnica e economicamente. como descritas neste livro. Enquanto isso não acontecer. Leda Leal Ferreira Maria Cristina Gonzaga Sandra Donatelli Marco Antonio Bussacos .

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Sumário 1 Introdução 2 Informações Preliminares O espaço de trabalho Leiaute do canavial O processo produtivo e a divisão do trabalho 3 Tarefa e Atividade dos Cortadores de Cana Variações na cana Variações nos eitos e talhões Variações no número de ruas do eito Variações das condições climáticas 4 O Sistema de Pagamento por Produção Medição da cana cortada O sistema de pagamento 5 6 7 8 9 Corpos Sofridos Fazendo Contas Controle Constante As Várias Experiências dos Trabalhadores no Corte Conclusões 11 13 13 14 14 17 18 20 21 21 23 23 24 27 31 35 39 43 47 Bibliografia .

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Alguns chegam a cortar. num programa de TV transmitido em rede nacional. onde foram violentamente reprimidos pela polícia. De vez em quando. um Fusca pesa cerca de 1. que intensificava o trabalho. Foi o que aconteceu em 1984. é difícil saber seu número. exatamente nessa época. São cerca de 150 milhões de toneladas de cana cortadas por safra. eles viram matéria nos jornais. Segundo os usineiros. o triplo do Nordeste. processadas em pouco mais de uma centena de unidades produtivas. embora trabalhem muito e pesado. em todos os períodos de safra. Parece até que eles não existem. às vezes é incomodado por um cheiro ácido.000. Tudo parece deserto. foram apresentados como trabalhadores que. mais de dez vezes a produção de laranjas do Estado. em geral como vilões. com seus facões. A produtividade do cortador em São Paulo é a maior do país. D Quem percorre as rodovias da região se impressiona com a sua extensão. ninguém vê os trabalhadores. outros são da região. ou de fumaça negra vinda das queimadas. são por volta de 400. a metade da produção do país. quando lutavam contra a mudança do sistema de 5 para 7 ruas.Introdução 1 ois milhões de hectares cobrindo uma superfície equivalente a um país inteiro como a Suíça: o interior do Estado de São Paulo é uma imensa plantação de cana. Por coincidência. violentos baderneiros.2 tonelada). vinte toneladas de cana por dia (para fazer uma comparação. Muitos vêm de longe. do vinhoto. entre usinas e destilarias. Como a rotatividade é grande e os vínculos empregatícios precários. enfiados no meio dos canaviais. Recentemente. No entanto há milhares deles. tangidos pelo desemprego e a miséria. começa- 11 . também ganham muito. pequenos pontos perdidos e isolados. no episódio de Guariba. homens e mulheres.

O presente texto é o relatório deste estudo. No presente texto. trabalhando em várias usinas diferentes. no período de safra de 94/95. feitas na sede do sindicato. em média. Eram homens e mulheres. As reuniões com os trabalhadores foram previamente agendadas e os participantes convidados pelo sindicato. as fitas foram transcritas pelas próprias pesquisadoras. as palavras dos cortadores. Seu objetivo era conhecer melhor o trabalho dos cortadores de cana. para não serem prejudicados em virtude da ausência ao serviço. utilizando o método de pesquisa denominado Análise Coletiva do Trabalho (ACT). Alguns pontos foram corrigidos. porque estavam errados. A divisão dos temas e o seu conteúdo são de responsabilidade apenas das pesquisadoras. aparecem em caracteres itálicos. em alguns pontos. Em seguida. esta realidade era diferente da de outras regiões próximas. experientes ou novatos no corte da cana. o que poderá incentivar a realização de estudos semelhantes. Este método já havia sido utilizado no estudo de outras categorias (pilotos e petroleiros) e se mostrou bastante rico. originando um relatório preliminar que foi apresentado em reunião no sindicato para um grupo de cerca de 10 pessoas. quando reproduzidas literalmente. Cerca de 30 trabalhadores. Todo o material foi gravado com o consentimento deles. 12 . a Análise Coletiva do Trabalho se concretizou em 4 reuniões preparatórias com os dirigentes sindicais e em 3 reuniões de análise com os trabalhadores. que arcou com a diária de cada um. todos foram unânimes em afirmar que o relatório refletia a realidade do trabalho dos cortadores de cana de Araraquara e que. mas não é verdade que eles ganham muito. Porém. Neste caso. em Araraquara. a partir da descrição feita pelos próprios trabalhadores. que nasceu de um projeto de colaboração entre pesquisadores da Coordenadoria de Ergonomia da Fundacentro e o Sindicato dos Empregados Rurais de Araraquara. eles ganham muito pouco.mos a fazer nosso estudo sobre os cortadores de cana da região de Araraquara e constatamos outra realidade: é verdade que eles trabalham muito. em grupos de 10. entre dirigentes do Sindicato de Araraquara e convidados de outras regiões do interior de São Paulo. 2 horas cada. jovens e idosos. isto é. e 3 pesquisadoras participaram das reuniões que duraram.

por exemplo. não só à sua atividade como à região do Estado de São Paulo. metrão e metrinho. cana rolo. tanto pode medir 2 como 20 hectares. portanto. Um canavial é dividido em talhões e cada talhão é composto por várias linhas de canas plantadas paralelas. outras explicações surgirão. antes de entrar no trabalho propriamente dito dos cortadores de cana. 13 . onde circulam os tratores e caminhões que transportam a cana cortada para a usina. são tão familiares aos cortadores de cana. porém. varia conforme a topografia. eito. Os talhões são cercados por ruas mais largas. A extensão de cada eito também varia. nos canaviais do Nordeste. Também apresentaremos algumas informações gerais sobre o processo produtivo da cana. os carreadores. Assim. T O espaço de trabalho O espaço de trabalho dos cortadores de cana é o canavial. Em geral os eitos são compostos por 5 linhas de cana.Informações Preliminares 2 alhão. leira. Estas linhas são agrupadas formando os eitos. vamos tentar definir os termos que nos pareceram mais importantes para melhor entendê-los. formando as ruas. Acero é a divisa entre o talhão e a estrada principal. cana de soqueira. 7 ou 8 ruas. pirulito. não tem uma medida específica. sempre com o objetivo de facilitar a compreensão. o tipo de solo. No decorrer do texto. a designação dada a uma área cultivada.. Talhão é. alguns deles são empregados outros. O espaçamento entre as linhas. são desconhecidos. mas podem existir eitos de 6. São palavras cujo sentido é bem particular. no entanto. mas em geral. carreador. se mantém uniforme em cada talhão. Não adianta recorrer ao dicionário para entender o significado destes termos que.. a área. a variedade de cana etc.

usinas ou destilarias onde vão ser produzidos álcool. com técnicas modernas de gestão empresarial. a adubação. a escolha da variedade agrícola da cana. o mais produtivo do país. A divisão do trabalho é feita de tal forma que cada etapa empregue grupos de trabalhadores diferentes. açúcar ou outros produtos. a que emprega o maior contingente de trabalhadores rurais. o plantio. Este relatório tratará apenas da etapa do corte manual da cana. o carregamento e o transporte para as unidades de beneficiamento.Leiaute do Canavial Carreador Talhão Rua de cana Eito de 5 linhas Eito de 7 linhas O processo produtivo e a divisão do trabalho O processo produtivo da cana-de-açúcar possui diferentes etapas: o preparo do solo. No Estado de São Paulo. O corte e o carregamento tem sido rotulados de “sistema de colheita”. a conservação do solo. este processo é cuidadosamente planejado. Eles trabalham apenas na época da safra. o corte. 14 . de maio/junho a dezembro.

Eles põem a gente para cortar as canas ruins e a máquina para cortar as canas boas. este assunto não será abordado neste relatório. se a máquina cortar. Embora atual e polêmico. em virtude de aumentar o desemprego. Cana deitada mesmo já não corta. tem-se expandido em algumas usinas a “colheita mecanizada”. A cana rolo. 15 . onde o corte e o carregamento são realizados inteiramente por máquinas.. apenas registraremos a fala de um cortador: A máquina só corta no plano e cana em pé..Para aumentar a produtividade agrícola. estraga tudo.

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Parece que as usinas preferem o sistema de montes. Já para os trabalhadores. tratores carregadores. No sistema de montes. isto é. para que. formando montes ou leiras.. numa etapa posterior do processo produtivo. ela é pesada e você tem que fazer A 17 . tem que cortar os ponteiros fora. tem que repassar. isto é. a vassoura. as “carregadeiras” ou “guincheiras” . Quanto ao amontoamento da cana. despontá-la. mas de modo contínuo. a leira é melhor: Leira é bem melhor. é grande. quer dizer que para você jogar lá no monte. Não pode ir os gomos no ponteiro dela. No sistema de leiras. a transportem para os caminhões que irão para as usinas. a cana cortada vai sendo depositada também na terceira rua. eles devem cortar a(s) cana(s) com um ou vários golpes dados na sua base ou “pé”. cortar a sua “ponta” superior e carregá-la com os braços até um local preestabelecido. Há algumas exigências técnicas no corte: ele deve ser feito para aproveitar o máximo da cana. Senão. porque no sistema de leiras o trator carregador deve rolar as canas. porque você trabalha e não sofre tanto. ser bem rente ao solo porque a sacarose do açúcar fica toda no pé da cana e eles não querem perder a sacarose e desprezar a parte final. cortar o gomo e jogar na leira.Tarefa e Atividade dos Cortadores de Cana 3 tarefa dos cortadores de cana é aparentemente simples: munidos de facões devidamente afiados. há sistemas diferentes: o de montes e o de leiras.. os trabalhadores devem carregar a cana cortada até a terceira rua (ou rua do meio) e depositá-la em montes que devem ficar a uma distância aproximada de 2 metros um do outro. dessa forma carrega também a sujeira que se acumula entre elas. a cana é grossa.

cana tombada. por outros trabalhadores que não os cortadores. penetra muito no corpo da gente. • Cana queimada X cana na palha Antes de ser cortada. cana caída. tem que limpar a palha. a leira é melhor porque você vai cortando. vai para o chão. Estas são algumas denominações de cana dadas pelos trabalhadores na sua descrição do trabalho. ‒ Por quê? ‒ Porque a cana na palha. tornando-a mais fácil ou mais difícil.. é perigoso ficar cego. cana crua. cana na palha. cana impezinha. pega o olho na ponta. nos tipos de talhão e nas condições climáticas. A palha corta a gente. cana verde. como nas proximidades das zonas urbanas. cana reta. Porque a cana queimada. cana de soqueira.esforço. 18 . em geral. idade. cana queimada. sobra de cana. cana boa e cana ruim. A leira é melhor pra gente cortar e o monte é melhor para a usina. porém.. cana bisada. é um espinho pequenininho. cana trançada. o que é feito. cana grossa. Na prática. você abraça ela e corta. e dá muita coceira. cana fina. O único problema é que ela suja a roupa mas não te machuca. a cana é queimada. cana em pé.. cana nova. nas mãos. estas duas operações básicas de cortar e amontoar a cana exigem constante adaptação dos cortadores às variações das situações de trabalho que lhe são apresentadas: variações na cana.. Variações na cana Cana rolo. como peso. Elas refletem diferentes atributos da cana. tem muito joçal. cana pesada. tem que tirar a palha. A outra machuca. cana velha. na véspera do dia do corte à noite.. os cortadores devem cortar a cana crua ou “na palha”. cana de 3 anos e meio. cana de 18 meses. ‒ É mais difícil cortar cana queimada ou na palha? ‒ Na palha. Em algumas situações. puxar do lugar do monte. fica mais difícil do que a cana queimada. que influenciam a atividade do corte. onde passa a folha ela corta. cana de primeiro corte.. Então. na cara. estado.

Quando você tem uma cana como essa. É por isso que se fala em diferentes cortes de cana: primeiro.. passa a etapa do plantio. Quando acontece isso. entre outras coisas. picada de jararacão.... Ela não morreu mas ficou paralítica. Na usina X. Se ele plantou a cana. aquele resto de cana que tem e jogam todo mundo pra lá.. Eles chegam. começo de janeiro. Geralmente o plantio da cana se dá no final de dezembro.... tem que parar para tomar fôlego.. Então. ela deve ter um determinado tamanho. Fome não tem porque a cinza tira a fome. ‒ Você bate o facão no pé da cana. você vira um pouco a cara ‒ eu chego muito a fazer isso ‒ porque irrita muito o olho da gente... picou nas costas. Eles tocam fogo no outro talhão. então ela fica para o outro ano.. terminou a safra. vêem que você vai acabar [o corte] às 11 horas. ‒ Eu acho que uma das maiores desgraças que têm os cortadores de cana é a queima de cana de dia. fica cheio de pó. A tendência dessa cana. Então a gente não consegue trabalhar nem duas horas sem parar. As primeiras canas que foram plantadas não dão ponto de corte na safra seguinte. é sempre lá pelas duas horas da tarde e aí já tem o calor do dia e dobra com o calor da cana. Ela estava cortando cana na palha. ela trabalhando. terceiro cortes... segundo. • Cana reta X cana rolo Para a cana ser colhida.Quando a gente vai cortar na palha. além dela ficar pesada. tem que ter muito cuidado também. ela já está velha e começa a 19 . por exemplo.. ‒ Você fica todo ressecado. não dá... em janeiro e maio tem corte.. junho. depende muito da usina. ‒ Dá tanto ressecamento na garganta da pessoa que um garrafão de 5 litros de água não é capaz de dar para aquela pessoa. você não aguenta. mais grossa é de cair. você chega na sua casa.. decorrente. se não a gente não aguenta trabalhar o dia.. um ano e meio.. Você bate o facão no pé da cana e a cinza vem no seu rosto.. e solta na cara da gente. cana de 3 anos e meio etc.. que ela não esfria na hora que você vai.. teve uma mulher que foi picada nas costas. a cobra subiu na ponta da cana e. da sua idade.... ela fica com dezoito meses. ou da sua idade: cana de 18 meses. a cinza fica mais solta. A safra começa sempre em maio.. porque a cana está pequena.

às vezes você corta quatro. ela dá uns cinco. então tem que picar. se ele pegar um rodamoinho ou um vento mais forte. você não corta de uma vez e joga no monte.. ela brota. ralinho assim.... ‒ A rolo não é bom.. seis metros. Então ela rende menos. é uma atrás da outra... ‒ Se for uma cana reta.. agosto é um tempo que venta muito – essa cana cai. ela pega contato com o solo e a chuva. ela cai misturada e aí. tirar as raízes e muitas vezes você tem que cortar ela mais de uma vez. Dou as vezes cinco. você pega um talhão que está mais no alto. ela trança. Se você tinha que cortar naquele eito 500 metros. bato no pé dela. Variações nos eitos e talhões Além dos diferentes tipos de cana. porque você tem que cortar a cana e tirar ela da terra.. aí começa a chover. Porque tem rolo enraizada embaixo. Geralmente.. ‒ Qual outro tipo de cana que tem? ‒ Tem cana caída. Às vezes. Agora tem a rolo de pé. Para você cortar essa cana. que tem pouca cana. ou que foi plantado primeiro.. bastante falha.. 20 .... Então. Eu abraço seis. sete canas se não for muito pesado.ventar – julho. jogo no monte e continuo. você puxa. mesmo que ela caia toda para um lado. Então.. A gente abraça... é porque ela entra no meio das outras ruas. você não acredita. cinco vezes a mesma cana.... a tendência dele é cair. ‒ Como se chama isso? ‒ Cana rolo.. porque você atrapalha o serviço. ela fica enraizada no chão....... ‒ Outra vez. a tendência é você diminuir muito. ela cai uma em cima da outra. o corte é influenciado pela localização e o estado do eito e do talhão: Depende de onde está o talhão. ela não cai toda para um lado certo.. ‒ Tem umas que nem se sabe qual é o pé e qual é a ponta.. como ela fica velha.. Aí eu pego. que tem mais vento. ‒ Tem muita cana velha que você pega uma cana. além de você cortar o pé.. – O que é eito bom e eito ruim? – Eito ralo é bom.. Então você faz uma força maior. seis facãozada e corta. é igual uma velinha..

. Então.. facilita para a gente. – Nas terras da usina X tem pedra. Agora . 21 .. Na verdade. A gente está querendo trabalhar para não perder o dia. Variações das condições climáticas As condições climáticas também influenciam a atividade: Eu já me cortei no caso de chover e eu continuar cortando cana. tem que carregar a cana. o que está se falando é do esforço exigido em cada tipo de corte.– Só é ruim para tirar a média de cana. não tem jeito de você cortar a cana. a gente escorrega. ele engancha na outra cana.. aí já é ruim.. eles não querem dar outro.... – Por quê? – Porque aumenta duas ruas. O problema é que toda esta variação não é levada em conta na avaliação do desempenho dos cortadores. porque ele tem um bico atrás. – 5 ruas é perto.. No eito de 6 ruas. 7 ruas. escorrega. que varia muito de situação para situação.. Nisto.. ele é mais largo. que trata do sistema de pagamento por produção..... engancha o facão. eles estreitam para dar mais produção por pedaço de terra. quando está com a cana caída e forte de cana. complica a gente... Variações no número de ruas do eito Quando o eito é de 5 ruas. o cabo do facão fica muito liso. – Beirada de carreador com a cana amassada (acero). como será mostrado no próximo capítulo. muita cana no nível. O eito forte é aquele que tem aquelas touceironas de cana. o sulco. porque tem aquelas valetas. eles amassam para poder queimar.. Acaba tudo com o facão e quando acaba.... que eles plantam cana do primeiro corte. Este é horrível! – O pior é o nível. é longe. Você corta as pedras mas não corta as canas. o barro.. – É ruim para tirar a média. – O duro é cortar 7 ruas.

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a medição é feita na terceira rua e o seu valor é multiplicado pelo número de ruas do eito. a medida do eito é de 100 metros. Na região de Araraquara. a medição será de 600 metrinhos. ela é feita por meio de um compasso de dois metros de raio. No sistema de metrinho. teoricamente. que vai sendo rodado no solo e percorrendo toda a rua. tornan- do-se a mais penosa.4 O Sistema de Pagamento por Produção N o corte de cana. utiliza-se um sistema de pagamento por produção que enquadra toda a atividade dos trabalhadores. 23 . se uma rua tem 100 metros e o eito tem 6 ruas. Medição da cana cortada A primeira etapa da medição da cana cortada é realizada por um trabalhador que se chama “medidor”. Por exemplo. No metrão. quanto mais se corta mais se ganha. A avaliação da quantidade de cana cortada pelos trabalhadores é. Ela é feita por meio de um complicado sistema de medidas que será descrito a seguir. o medidor mede apenas uma rua do eito — a terceira — onde se amontoa a cana cortada. Neste sistema. portanto. Por exemplo. utilizado em geral nos eitos com mais de 5 ruas. se uma rua tem 100 metros e o eito tem 5 ruas. utilizado principalmente nos eitos de 5 ruas. seu ponto nevrálgico. Há dois sistemas diferentes para se fazer a medição da cana cortada: o metro corrido ou “metrão” e o “metrinho”.

Após a medição. Ele espera uma quantidade boa de pessoas cortarem. O sistema de pagamento Embora a produção de cada trabalhador seja medida por metro de linhas de cana plantada ou de rua de cana cortada. terminar o eito para depois vir medindo.. teoricamente. determina-se o valor do metro de cana cortado. em outras não. Multiplicando-se este valor pelo preço da tonelada de cana. porque às vezes a pessoa não está no eito... calcula-se o valor do metro linear de cana plantada em termos de tonelagem. isto não acontece: A maioria [dos medidores] começa a medir conforme vai acabando o eito. o medidor anota em um papel o número e a metragem de cada trabalhador: número cinco..No final da rua de medição há uma cana em pé na qual o cortador marca o seu número.200m² número de linhas: 5 espaçamento entre linhas: 1. o que exige um sistema de conversão de medidas que. com o próprio barro da terra — a gente não tem lápis. não tem nada para marcar — a gente pega um pedacinho de barro. segue os seguintes passos: Pesa-se a cana de uma determinada área. naquele dia tal. finca no chão e põe lá o seu número.40 metro produtividade: 300 toneladas 24 . A medição pode ser acompanhada pelo cortador mas. Então. É por isso que tem que ter o número na cana. tomemos o seguinte exemplo: • Características da área superfície: 1 alqueire ou 24. Esta folha se chama pirulito. A partir daí. É a partir destas anotações que se vai pagar o trabalhador. identificando que ele é o responsável por ela: Corta uma cana. Para ilustrar. da qual sabe-se uma das dimensões. 300 metros. em geral. seu pagamento é feito por tonelagem de cana. estabelecido em acordos entre usineiros e sindicatos de trabalhadores. Em algumas usinas os trabalhadores ficam com uma cópia do pirulito. descasca a cana no meio e marca.

457 metros O comprimento da área é a medida que se está procurando Se a produtividade do alqueire é de 300 toneladas. R$ 1.457 1 ― X onde X = (3. Além disso.200 ÷ 7 = 3. o valor para a tonelada de cana de 18 meses foi de R$ 1. portanto usa-se uma “regra de três”: Se 300 toneladas equivalem a 3. 25 . Na safra de 1994/95. o preço do metro será de: R$ 1.12. segundo o Sindicato. o valor do comprimento da área também é de 300 toneladas.• Cálculo do preço do metro largura da área: espaçamento entre linhas x número de linhas ou 1.40 x 5 = 7 metros comprimento da área: superfície ÷ largura da área ou 24. cria contradição entre situação “boa” de corte.18 ÷ 11. que paga melhor. 300 ― 3. 1 tonelada equivalerá a X. Na prática.52 = R$ 0.103 As usinas dispõem de tabelas com dados sobre a variação da produtividade e o espaçamento das áreas. são negociados apenas dois valores para a tonelada de cana: uma para a cana de 18 meses e outro para todos os outros tipos de cana. chamado de eito campeão que vai servir como padrão para o preço da cana daquela área. Este sistema faz com que o preço do metro de cana varie muito. e situação “boa” de preço. Pelo dissídio. porque exige um menor esforço físico. a cada dia de trabalho a usina escolhe “aleatoriamente” um eito.52 metros. o que facilita esses cálculos.457 x 1) ÷ 300 = 11.457 metros.18 e se uma tonelada equivale a 11.18 e para as outras.52 metros Se o preço da tonelada é de R$ 1.

Sei mais por metragem que é o primeiro ano que corto cana. 12 toneladas.” Minha tonelagem é de nove pra frente. Então não adianta você pegar uma cana que é reta e maneira demais e muito leve.. eles mandam embora. 70. por meio de vários mecanismos que redundam na pura e simples dispensa do trabalho para quem não alcançar uma determinada produtividade: Na usina Z.. é cortar uma cana que seja em pé. – Você pega uma cana reta e ela é pequenininha. quem cortar 10 toneladas todos os dias e não perder um dia. nem dá peso.. fina. incentivada por um sistema de prêmios por produção. que são 1500 metrinhos.. às vezes você corta 200 metros. O turmeiro.A diferença entre cana grossa.. eles (na usina X) entregam um cupom. Com isso a produção média dos cortadores é bastante alta: Eu corto umas 8 ou 9 toneladas por dia.. que serão discutidos nos próximos capítulos. você anda menos no eito. e o preço dela é melhor. Porque a intenção não é só cortar uma quantidade maior.. no eito de 5 ruas.. porque você trabalha aparentemente menos. se cortar menos de 8 toneladas.. além de dar o eito favorece umas pessoas e faz caveira das outras. tem a média de cortar cana. Se você pegar uma cana em pé que é pesada.. 26 . você ganha melhor do que uma cana que você corta 500 (metros). rádio. Os efeitos desse sistema sobre os trabalhadores se fazem sentir em vários níveis.... 60. Só tem 3 meses que eu corto cana. até uma acirrada competição entre os trabalhadores. Dependendo da cana. pesada e leve é porque o pessoal corta por metro mas não recebe por metro. A base de cálculo da usina não é o metro. inclusive o domingo. que seja boa de metro. ganha uma cesta básica no fim do mês e concorre a prêmios: televisão.. 13. Mas o ponto central deste sistema é que ele intensifica o trabalho. Minha tonelagem eu não sei. Eu sei que já estava cortando quase 300 metros de cana. Eu comecei com 50. é o peso da cana. por aí. Minha média é na base de 11. não tenho muita experiência... No fim do mês.

garrafão de água e os instrumentos de trabalho. Pode botar na balança que ele está esgotado. É uma loucura.. ele é uma coisa. emagrece bastante. está ensopada. É muito comum não saberem onde irão trabalhar. a camisa da gente pode torcer assim. se dentro do município em que moram ou nos municípios vizinhos. me sufoca. A viagem pode durar várias horas. depois de receberem o serviço dos empreiteiros.5 Corpos Sofridos uando o trabalhador chega no corte de cana. que vai aproxidamente de maio/junho a dezembro. café. Então. quando já trabalha 3 meses. todo dia pegando aquele batente pesado mesmo. pois as áreas de cultivo das usinas atingem grandes extensões de terra.. Durante o período da safra. a gente põe mangote. a gente coloca um lenço no nariz pra poder não respirar aquele pó. já é outra coisa. o suor cai mesmo. luva. seguindo uma espécie de ritual diário: A gente vai.. um pano no nariz porque ninguém aguenta o pó. lá. sinceramente é uma loucura. Q 27 . ‒ Aquele pó preto faz mal para qualquer um. porque o serviço é pesado. começam a jornada. a jornada dos cortadores é longa: eles saem de casa entre 5h e 6h30min da manhã e só retornam no fim da tarde. é o pulmão. lima e facões... Ao chegar no canavial.. ele fica uma pessoa desnaturada. levando consigo tudo o que é necessário para passar um dia inteiro no campo: marmita. Este depoimento reflete bem um sentimento generalizado entre os cortadores de cana: seu trabalho é muito pesado e sua vida muito dura. já com a roupa. Chega o sol quente. ‒ Eu não ponho lenço porque me estrova.

. Este intenso ritmo de trabalho exige grande esforço físico e provoca vários males. nos braços.. são comuns entre os cortadores: Eu sinto dor neste braço (direito) que vai das pontas dos dedos até aqui (ombro). lima. O jeito que a pessoa se sente quando acabou o eito. depois não dão mais.. O normal da câimbra é quando começa a esquentar mais. três e noventa. dói que não tem onde por o braço.. são os próprios trabalhadores que devem comprá-los: Eu compro luva. Então.... quatro reais. Lá. um facão está a quatro reais. barriga da perna. você tem que comprar. muito comum entre esses trabalhadores da cana. Porém. eles não dão mais soro.. Chega a dar câimbra na roça que a pessoa não pode se mexer.... eles davam soro. os cortadores são unânimes em afirmar que uma vez iniciado o trabalho. rasga. Em algumas usinas o horário de almoço é fixo.. a pessoa está vendo que o corpo não vai aguentar. você tem que comprar. mas acabou.. O normal de um cortador é descontar 20 minutos no almoço e mais 10 minutos no café. A pessoa quer trabalhar muito.. em todos os casos.. não é bom parar. mais ou menos uns três dias acaba. chega na hora. esperava um pouco. ela fura.. sente muita câimbra. põe um pouco de água e açúcar e bebe. é a câimbra. ele ia lá e tomava. porque não presta... na usina X. em tudo que é lugar do corpo. é mais livre.... camisa.. come rapidinho e já pega de novo. quase que se mata. você pode morrer de câimbra que nem caminhonete pra levar tem. É. quer passar do ponto dele.. Se a gente quiser sarar. O ideal é não perder tempo mesmo.. Puxa o corpo todo. a gente tem que fazer soro caseiro: mistura lá.. tem que ser bom. a hora que ele (o cortador) via que ia dar câimbra. depois continuava (no trabalho). ‒ A luva que eles dão. uma lima. em muitas usinas. E aí. As dores nos braços. Fica dormente. quatro e cinqüenta.. decorrentes do esforço contínuo feito para cortar cana. Um deles. tem que ser ligeiro mesmo pra cortar... Praticamente não descansa nada..Há um sério problema em relação aos equipamentos de trabalho. facão. A gente ganha. vai até uma certa hora da tarde e aí pára e já pega outra vez em seguida. em outras. ficava na mochila. Eles só dão quando você entra. Na usina X.. Agora. o corpo não aguenta de câimbra. tem que levantar da cama e por o 28 .

aí (minha mão) parou de rachar e eu passando um creme (remédio) direto. aqui na base do indicador. Foi um presente que ganhei e acho que vou morrer com ela. no canavial: O que cansa mais é você pegar uma cana pesada e precisar estar jogando no monte. E andar também. o cara quase não pode fechar. Conforme a gente for andando. Porque na outra mão não consigo pegar o podão com a luva. E cortando. a gente vai levando. que parece que está dando um negócio na sua cabeça. a falta de luva cria uma série de problemas na mão: calos. Cortei uma faixa de pneu de bicicleta enrolei no cabo. maneirar. a luva atrapalha mesmo. Tem vez que a gente anda mais de 5 quilômetros.. Foi até que enfim.. parece que meu pulso não segura. Eu mesmo só uso luva na mão que pego a cana.. Isto começou quando eu comecei a cortar cana. Tem muita gente que não acostuma com a luva. sob o sol. porque com a luva a gente tem que dar um golpe mais duro. os cortadores também se ressentem da falta de assistência médica em caso de doença ou acidente: 29 . aquele calor e poeira. fora o garrafão de água. Porque se você tem sede... Eu vi muito sujeito trabalhar com a base da mão arrebentada. vai e volta.. olhar para os lados.. O serviço chega a ser meio agonizante. rachaduras. Outro fator de cansaço e sofrimento são os longos percursos que o cortador deve fazer. o podão escapa. você deixando o garrafão perto. principalmente quando começam a cortar cana: Na primeira semana que o cara usa luva dói a mão mesmo.. bolhas. Aquele sol forte que treme assim.braço pra cima. Alguns relacionam também estas dores com o uso de luva de proteção. Entretanto.. emborrachei o cabo do facão e amenizou um pouco a coisa. Isolados no campo. vai e volta. você não precisa andar tanto.. Estes longos deslocamentos são feitos carregando pesadas mochilas: A minha mochila deve pesar uns cinco ou seis quilos. Tem uma hora que você tem que fracassar um pouco. Se a dor começar a meia noite não durmo mais. Foi quando parece que segurou mais.

.. a gente vai ver. 30 . molhar a luva. o que é embaraçoso principalmente para as mulheres: A gente chega. nem sente a canseira. quando o corpo esfria... não tem nada. Se você cortar uma veia na perna. Quando voltam para casa os cortadores estão extenuados: Tem dia da gente chegar em casa. Tem dias que pegamos um talhão assim que não tem cana crua. colocar a luva. tem a camioneta do “gato” (empreiteiro) mas se você está com uma dor de cabeça que você não aguenta. e nem quer jantar..... não vai nem tomar banho. lá não tem.. vai. E no outro dia é que levanta mais cansado de manhã cedo. fazer xixi. Depois de manhã cedo.. Também há um sério problema em relação aos hábitos de higiene pessoal: não há um local apropriado para as necessidades básicas. colocar o pano. como é que a gente está. colocar o mangote. não tem mato. Se você não levar pra tomar. eles não tem um Anador. vai amolar o facão.Lá onde a gente tá trabalhando. está tudo doendo. A gente tem que chegar na roça e fazer o corpo acostumar de novo. já almoça.. não tem Mercúrio. até você chegar no hospital esgotou todo o sangue... tem que ficar o dia inteiro segurando até chegar em casa. já vai dormir. porque tem hora que a gente está trabalhando..

18 (Reais). já vou no passo.. para ouvi-los descrever os cálculos e as contas que são obrigados a fazer durante a sua atividade. em grande parte das reuniões.. deu aí em torno de 11 centavos... Então. 1. se quiserem me roubar pode roubar a vontade.. dá em torno de 23 Reais. é o primeiro ano que corto cana. Divide o metro por 23.. Contas para entender o sistema de conversão entre metro e tonelada: Vamos supor que para encher um caminhão leve um eito de 200 metros. Então.. 80 varas de compasso. 20 toneladas. realizam um trabalho duro e penoso e seus principais instrumentos de trabalho são seus braços. Há um preconceito arraigado na sociedade. De fato. Basta. Um eito de 200 metros deu.6 Fazendo Contas inguém diria que uma das principais atividades dos cortadores de cana é fazer cálculos matemáticos.18 a tonelada. vai dar mais ou menos 160 metros... quando acabo um eito. achou o número! Então. dar a palavra aos cortadores. já sei o metro mais ou menos da perna e vou medindo. pelo menos. eu não fico olhando. ‒ No meu caso. porque eu não tenho uma base. expresso pela divisão entre os trabalhadores manuais e trabalhadores intelectuais. 20 mil quilos. N 31 . como fizemos nas reuniões de Análise Coletiva do Trabalho.. de diversos tipos e por diversos motivos. estico bem o passo. Contas para controlar a medição do “medidor”: ‒ A gente tem base de cana porque a gente corta faz tempo.. se falou de contas e se fez cálculos. porém... eles são trabalhadores braçais. dá em torno de 200 quilos por metro. Faz dois meses que eu trabalho.. se der uns 150 passos... que praticamente exclui dos primeiros a possibilidade da existência de qualquer atividade intelectual. dá quase um metro. divide o eito.. Afinal... Eu.. Vamos supor que 20 toneladas deu 1. em cima dessa quantidade de tonelagem de cana.

0. eles multiplicam. para as pessoas não entenderem.. Tiramos sempre a menos do que a X. está por metrinho [mostra o holerite]. A gente corta no meio de 7 ruas o mesmo tanto que a usina X. ‒ Tem número que para mim não existe. onde eu corto cana. que é 6 ruas.. é vezes 11. é de 35 para baixo.5 centavos.. nós cortamos também 200 metrão na usina Z. Então.0035. Eu acho que não existe menos de 0..0090.. Se você cortar 500 metros. por meio de uma série de operações matemáticas de divisão e multiplicação. é 7 ruas. não sabe nem fazer essas contas. Contas para se entender a relação entre os sistemas de metro e metrinho: “O metrinho é o seguinte: você corta 6 ruas. Nós nunca chegamos a cortar um metrinho de cana para dar meio centavo. Agora. Olha quanto milionésimo aqui! Este é o preço da cana.você sabe que aquela cana é 11 centavos.. se cortar 100 metros. Porque na usina X é metrinho e na Z é metrão.. eles medem: cortou 200 metros. a gente conversava em centavos. nós tiramos 18. ‒ 1000 metrinhos a 30... Então. Mas se uma pessoa da usina X tira 20 reais por dia. porque o sistema de medição e pagamento exige vários cálculos: que se converta unidades de comprimento (metros de terreno) em unidades de peso (toneladas de cana). eles puseram esse metrinho pra complicar as pessoas.. eles marcam 1200 metrinhos... eles põem em metrinho pra gente conversar em milésimo. ‒ Seria 1000 metrinhos dividido por 35.. Contas para se entender o holerite ‒ Aqui no holerite. vai dar 3 Reais. Não é todo mundo que entende essas coisas. se eles pagassem o metro. muitas delas feitas com várias casas decimais. que valem uma quantia em dinheiro. é vezes 11. valor unitário: 0.” Na usina Z... Todas essas contas acontecem por várias razões: 1. Ao invés deles marcarem 200 metros. 32 . Quando uma pessoa corta 200 metrão por 6 ruas na usina X..

é assim”. 004 a R$ 0. A multiplicação do número de metros cortados 33 . Nós estamos levando desvantagem: você trabalha muito mais. erro na anotação do medidor. cada usina apresenta suas folhas de pagamento de um modo diferente e com informações falhas ou ausentes. referente a duas semanas de trabalho. porque o sistema não é explicado para os trabalhadores. porque quanto mais ele trabalha. menos eles pagam. Diz um trabalhador: Empreita é correria mesmo..2. erro na identificação do cortador. é mais fácil para a gente”. E não passou mesmo e disse: “se quiser. que podem acontecer em cada uma das etapas: compasso não calibrado.. Com as coisas que eles fazem. que dificultam as comparações. Além disso. A variação do número de ruas dos eitos e a variação do sistema de medição “metrinho” e “metrão”. embora pelo dissídio esta informação lhes seja devida. o sistema utilizado era o “metrinho”. Mas se for ver.0175 (ou seja.. na qual estão discriminados para cada dia e para cada talhão os metros cortados e os valores unitários do metro. porque o sistema está sujeito a muitos erros não intencionais ou fraudes. 4. fazendo mais esforço e ganhando menos. erros na digitação dos dados.. Eu falei: “mas você tem que passar!” Aí. combinadas entre si. ele falou: “não dá certo”. erros nas operações de conversão. utilizamos um holerite de um trabalhador. etc. Para ilustrar isso. porque o sistema de pagamento não é uniforme entre todas as usinas nem entre todos os trabalhadores. quanto mais trabalha. a pessoa. Também é muito comum os cortadores desconhecerem o preço da cana que estão cortando.. mais esforço você faz e menos você está ganhando. compasso não fincado no solo. mais ganha. isto é.. vou ter que passar para trinta e poucas turmas. criam várias situações diferentes. mal ele come e já pega no trabalho. cujo preço unitário variou de R$ 0. 3. Mas a razão principal é que o fundamento do sistema de pagamento por produção.37 vezes). Eu pedi para o gerente: “por que não faz como as outras usinas. Neste caso. quanto mais trabalha. Ele falou: “se eu for passar para a turma de vocês. naquela ânsia de querer ganhar mais. as outras vão querer também”. quanto mais se corta mais se ganha não é verdadeiro. por metrão. 4. erro na pesagem da cana.

praticamante o mesmo do que ganhou no dia em que cortou 540 metros (R$ 7.2 vezes).14 03.pelo valor unitário dá o salário em Reais ganho por dia. 34 .01750 0.39 07.01204 0.00686 0. 3.83 13.01339 0. de um mínimo de 288 metros a um máximo de 1525 metros (5.17 07.00966 ‒ 0. A tabela abaixo foi feita a partir destes dados: dias da semana 5ª feira 6ª feira sábado domingo 2ª feira 3ª feira 4ª feira 5ª feira 6ª feira sábado domingo 2ª feira 3ª feira 4ª feira 5ª feira metros cortados 650 1024 420 ‒ 442 1302 1525 1335 545 288 ‒ faltou faltou 365 540 salários diários (R$) 07.99 preço diário do metro (R$) 0. no dia em que o trabalhador cortou 1525 metros. 2.02. mas ela foi menor do que a variação da quantidade: de um mínimo de R$ 3. No nosso exemplo.77 a um máximo de R$ 13.94 08.01479 A observação desta tabela mostra que: 1.00525 0.72 (3. regular sua atividade diária e garantir uma certa estabilidade financeira no mês.00882 0.02 09. ganhou R$ 8. os cortadores são obrigados a fazer uma série de cálculos para saber quanto vai valer seu trabalho diário. não houve correspondência direta entre a quantidade de cana cortada e o preço pago por ela. Uma vez que o princípio cortar mais para receber mais não é respeitado.72 04.06 ‒ 03.90 09.77 ‒ ‒ ‒ 06. houve grande variação na quantidade de metros cortados por dia por um mesmo trabalhador.99). houve também variação de salário diário.00763 0.01309 ‒ ‒ ‒ 0.01310 0.6 vezes).

cortadores com carteira assinada pela usina. A organização do trabalho no corte de cana é extremamente hierarquizada. É o empreiteiro que em geral transporta em seu ônibus (ou caminhão) os cortadores de suas casas para o canavial e vice-versa. 3. Excluindo os cortadores mencionados no item 1. todos os outros têm um vínculo maior ou menor com os empreiteiros. que pode chegar a 50 trabalhadores. Eis como funciona o sistema: Cada trabalhador é identificado por um número que obedece a uma ordem dentro de uma escala controlada pelo empreiteiro. que são cada vez mais raros. cortadores sem carteira assinada. A figura principal ‒ e a mais citada na ACT ‒ é a do empreiteiro. 4. cortadores com carteira assinada pelos empreiteiros ou cooperativas. sem intermediação dos empreiteiros. que são quatro: 1. cortadores com carteira assinada pela usina. As relações de trabalho dos empreiteiros com os cortadores dependem fundamentalmente das relações empregatícias existentes. também chamado de gato ou turmeiro. Também é ele quem distribui o serviço para sua “turma” de cortadores. mas contratados pelos empreiteiros. numa intrincada rede de controle. Os cortadores estão sempre na mira de um agente 35 . 2.7 Controle Constante da usina.

o medidor. O turmeiro... Cada trabalhador vai então receber o seu eito para cortar. Se o cara no meio do dia está doente ou com um problema qualquer.. um até o número cinqüenta. Além do empreiteiro tem o monitor. Ele dá o eito. Ele vai deixando e você vai ficando ali. ele não acredita. O empreiteiro fica assim como. Então. alguns cortadores tentam explicar seu comportamento como o de um simples trabalhador. dava uma turma para cortar cana.. ele olha pra ver se o serviço está certo. o empreiteiro é apenas o primeiro de uma extensa lista de “chefes”. 36 . quando ele obriga as pessoas a trabalhar é porque ele ganha uma participação. Primeiro. Para cada pessoa. Além disso. ele ganha na cana. Na verdade. José. Vamos supor que tenha 50 pessoas.. explicar como faz. tem dez olhando. o que é que é o lógico? Ele força as pessoas a trabalhar. Ele tem um salário e tem ainda a participação no corte. O empreiteiro marca o número da pessoa e o número do eito que lhe foi designado. Embora a figura do empreiteiro seja em geral mal vista.. se você cortou bem as pontas. também sujeito às leis de produção: O empreiteiro é empregado da usina também.. o fiscal.. tem o monitor. Ele ganha o frete conforme o quilômetro rodado (do ônibus) e ele ganha conforme a porcentagem do pessoal que corta. então você tem do número zero.A turma é dividida por número.. Ele força a pessoa para trabalhar. o empreiteiro é uma espécie de “fiscal do eito”. Ele manda lá. como amola o facão. Se você pegasse todo mundo.. no eito de outro. Terminou aquele eito. É este controle que servirá para se saber o quanto cada trabalhador cortou por dia. o gerente.. é só para ajudar quem não sabe cortar. a gente vai atrás: aqui Maria. um professor numa sala de aula. Eles põem muito fiscal na roça. que controlam o serviço dos cortadores. ele dá outro.... o fiscal geral. João. que vai determinar o seu pagamento. se você não deixou toco. A hora em que ele [o empreiteiro] está escalando o eito. um exemplo. Ele corta um pouquinho no eito de um.

. Aí.. é seu”. o trabalho dele além de fiscalizar. na hora que ele fosse medir a cana. Tem o fi scal geral da usina. ‒ E vocês mandam em quem? ‒ A gente não manda em ninguém. olhar o serviço.. é quem fala: “olha a turma de fulano de tal vai pegar tal talhão”.. O fi scal geral. O fiscal geral chegou e falou: “não vou medir cana de ninguém enquanto não repassar os tocos”. ele chega e se tiver que falar alguma coisa para mim... é o manda-chuva.. Pegar o facão e cortar. se tivesse faltando eu ia levar advertência.. É ele quem solta o trabalho para as turmas. Ele vai falar com o empreiteiro. é como uma escadinha: o gerente manda no fi scal geral.... eu falei para o fiscal. ‒ Ali... Ele vai falar: “Ô! vai lá e fala para aquela pessoa que o serviço dela está errado”. 37 . A turma até falou que concordava mas se ele medisse a cana.. desde as reprimendas e ameaças verbais até a demissão.. ele não vai falar. Todo esse controle e poder são alimentados por uma série de punições aos trabalhadores. tinha muita pedra e fazia muito dente no facão.. Acima dele é só o gerente. Como diz o ditado. Então. se o toco está baixo. O medidor falou que quem não respeitasse ele.. Eu fui medir. ‒ Na cana. se não tem gomo de cana nas pontas. ele é o encarregado por parte da usina em distribuir o serviço para as turmas.. eu desconfiei. Na terça-feira.. porque eu sou só o cortador de cana. vou descontar de você e te dar uma advertência.. Tinha um eito de 335 metros. os tocos ficaram altos. deu 350 metros.O monitor em geral já foi cortador. um bom cortador. O próximo da lista é o medidor: O medidor tem que medir a cana que o pessoal corta e olhar os eitos também. ele roubava de qualquer um e ninguém ficava sabendo. O fiscal falou: “se der menos. o fi scal geral manda no empreiteiro e o empreiteiro manda na gente. se der mais. por esse motivo. o medidor mediu 258 metros. é ele que manda na gente. ‒ Só na cana....... Eu não levei advertência porque estava certo. ele que tem que dar ordem.

. mas não: já me deu logo um dia de gancho. eles têm aquele poder de falar e tem horas que eles não tratam a gente nem como gente: é como cachorro. tomei o compasso da mão do medidor.. assobiando! A maior humilhação do mundo é o corte de cana. ‒ Você não trabalha sossegado. ele deu ordem para o medidor não medir a cana de ninguém.Ele falou que tinha que repassar primeiro.. ‒ O que cansa mais? ‒ Eu acho mais cansativo é você estar cortando cana e o fiscal do seu lado. só porque falei que não ia perder nem o dia nem o domingo. Aí. eu mesmo. ele me deu um dia de gancho (advertência). com 3 meses de serviço. Eu peguei. nem levei advertência. para ele poder me dar o gancho. Chego lá. medi meu eito e marquei no pauzinho e fui falar com o fiscal geral. Primeiro.. Não pode trabalhar direito. Ninguém repassou. fui no ônibus.. Fica meio inibido. 38 . Os fi scais. Eu. tinha que dar uma ou duas advertências.. nunca levei uma reclamação. não perdi nenhum dia na usina. É [dá um assobio].

quando eu fui pegar o facão. principalmente a luva de couro.. tem o lado certo pra jogar. a do corte de cana é simples só na aparência. Então. pegava no começo do podão... às vezes ele é rápido pra derrubar a cana e é lento pra despontar. como pegar na cana.. você não descansa. Se a experiência é fundamental. não sabia.. eu sonhava que estava cortando cana. eu mudava o jeito. diz uma jovem cortadora. então. no outro dia você está com um pouquinho mais de coragem. à noite.. que fazem com que os cortadores enfrentem de modo diferente todas as exigências do trabalho.8 As Várias Experiências dos Trabalhadores no Corte ssim como todas as atividades em situação de trabalho. mas se você sonha que está cortando cana. eu nunca tinha cortado.. ela não exclui o papel das diferenças individuais. mas ele tem dificuldades de fazer alguma coisa no serviço. eu levava o dia inteiro para cortar 180 metrinhos ‒ 180 metrinhos dá uns 50 do grandão ‒ corria o dia inteiro para cortar um pedacinho de nada e. tinha uma mão fina ‒ eu trabalhava de tratorista.. A 39 . No começo da safra. foi indo que a mão estava toda estourada. se você dorme bem à noite.. desde amolar o facão.. Às vezes. fazia uma bolinha aqui. que eu não conseguia. porque não sabia como pegar no facão... o que só se obtém com a experiência e a custa de muitos esforços como mostram os depoimentos a seguir: ‒ No começo. o cortador corta bem cana. Aí. ‒ O que você acha difícil? ‒ Ah! tudo. eu nunca descansava porque. A verdade é que tem que se aprender todos os segredinhos da cana. No começo. a minha mão virou calo de sangue. é super difícil de cortar.. ela cansa o nervo do braço. usar luva.

mas sempre com atenção no serviço. procurar o melhor. O melhor cortador tem que ser esperto. o que tiver mais fraco pra trabalhar..... aí é que eu me perco pra valer mesmo. Tem um cortador que chega a perder o facão de tanta preguiça. nem amolando nem nada. ele é velhinho mas corta cana! Ele vai devagarinho. ele odeia. ‒ Por quê? ‒ Não querem que se faça bagunça na roça. Algumas pistas.. embora não seja determinante: Tem um senhor de idade que cortava mais cana que um moço. Isto é o normal do melhor cortador.Eu.. corto cana faz 20 anos. 40 . porque a gente está ali com o facão. se torna mais difícil ainda do que se eu fosse levando devagarinho. Eu mesmo nunca me cortei com o facão. mais me atrapalho. como eu costumo fazer. Essas diferenças podem ocorrer em razão de vários fatores: ‒ A mulher é melhor ou pior que o homem? ‒ Tem mulher que corta mais cana que homem. faço a maior trapalhada. Mas o principal parece ser “não perder tempo”: O ideal é não perder tempo. zoada. É preciso também ter coragem. Aí. tem que ser ligeiro. Parece também que a idade influencia. Na verdade não há um consenso sobre as características de um bom cortador. que parece ser o oposto de ser preguiçoso. O tempo todo. tem que trabalhar com atenção. ele não suporta cana.. ‒ Tinha uma magrinha que não tinha quem pegasse ela. porém. podem ser seguidas: Tem que ter muita força de vontade. Ele odeia cortar cana. ‒ A maioria dos fiscais não deixa cantar.. Eles acham que é bagunça. Acabou o primeiro eito.. Quando eu tento ir mais rápido pra acompanhar a amiga da frente. normal. às vezes tento ser rápida.. ela ganhava de homem. uma característica mal vista. Quanto mais eu tento. ele chega perto da cana dá tontura.

Eu tenho minha mulher e meus dois filhos. Eu não tenho nada a não ser minha casinha. porque estou com o corpo todo quebrado de cansado. da cana. É que eles acham que é muita bagunça. eu chego em casa morto. eu não perco tempo para fumar.. só paro para almoçar.. Eu vou dentro do ônibus dormindo. chego na roça às 7 horas. Se conversar. não está prestando atenção no serviço.. Num trabalho tão pesado assim. a turma só me chama de fominha. ‒ Se eu cantar. meu colega. está perdendo tempo. A impressionante fala de um cortador de cana de 25 anos de idade é reveladora: ‒ Um cortador bom não pode perder tempo... A cana pode ser caída ou em pé. Chega a tarde. Às vezes. às vezes as crianças querem colo. pode fazer um serviço porco. Eu já ajudei muito a minha mulher.. O ônibus passa no ponto da gente às 5h30min. amolar o facão. nem pro colega que está do lado. fazer uma necessidade. a mulher quer fazer alguma coisa. eu começo a trabalhar.. é só o barraco.. eu não paro para conversar com meu irmão.. a pessoa tem que estar com atenção no serviço. ‒ Se ele está cantando. eu perco tempo. também muda. Eu saio de casa com o facão amolado.. tomar café e às vezes fazer alguma necessidade. perder tempo para conversar. trago os dois amolados de casa. eu sou o primeiro a começar a trabalhar e o último a parar. meu barraco.. Se você tem que fumar. chega a tarde. É. mas tenho certeza que corto bem mais. não deixa de ser comovente o depoimento de uma jovem cortadora: 41 .. Então.. 7h30min. também. aí que eu não ganho nada mesmo... A minha média do primeiro mês até o terceiro mês é de 18 toneladas [por dia]... A pessoa já pega o seu eito e começa a trabalhar. você carrega o seu cigarro no jeito porque na roça se você pára para beber água. tudo o que eu tenho nesses 8 anos. Eu trabalho com dois facões. nego briga comigo porque falam que sou fominha. até chegar no último ponto é 6 horas.‒ Mas muda a produção se cantar? ‒ Muda nada.. Agora. Então. Mas porque eu trago o facão amolado. pode dar uma facãozada na mão. muda sim. Ficar cantando. Eu não dou atenção pra fiscal. almoço no ônibus. Na minha turma. a gente está muito cansado. Então. pra empreiteiro.

é uma coisa que não é fácil. por que você trabalha? ‒ É claro que a gente trabalha porque precisa. você tem amigos pra valer! 42 .... você encontra amigos. Só que é super divertido.É um serviço sofrido.. Tem muitas pessoas que falam: o que você veio fazer na roça. Porque lá. E outra.

ao se desenrolar. tudo nos foi descrito com precisão e emoção. determinando seu ritmo e as relações com colegas e chefias. contribuem para este estado. para descobrir quanto vale o seu trabalho diário. que as condições atuais destes cortadores de cana não são muito diferentes daquelas que os historiadores descreveram há muitos anos: eles continuam a ser trabalhadores superexplorados. nos instrumentos de trabalho. Ao longo deste relatório. o que você faz no seu trabalho? funcionou como um fio condutor que. O sistema de pagamento por produção. quer pela ênfase com a qual nos foram apresentados. conhecer o trabalho dos cortadores de cana a partir da sua descrição sobre o mesmo. procuramos extrair da descrição dos próprios trabalhadores os pontos que nos pareceram mais significativos. em razão das diferenças nas condições da cana. tentando decifrar todos os complicados cálculos de produção e todos os macetes do sistema de medição.9 Conclusões creditamos que o objetivo deste estudo. trouxe consigo todos os aspectos da atividade dos cortadores. Podemos afirmar. quer pela freqüência com que apareceram as várias descrições: • o esforço físico exigido por cortar e carregar várias toneladas de cana por dia. foi alcançado. nos terrenos. aliado aos baixos salários pagos. A 43 . Dos gestos praticados no ato de cortar com o facão até a organização do trabalho. sem medo de exagerar. no clima. com os mais diferentes graus de dificuldade. A pergunta que norteou todas as nossas reuniões. • o trabalho mental de controlar a própria produção.

no modo de tratar os trabalhadores. porém. colocando a questão do que poderia e deveria melhorar no seu trabalho. nos “benefícios” que oferecem aos trabalhadores. A maioria dos trabalhadores vão para o campo de ônibus. como manda a legislação. é desconhecido dos cortadores de outras regiões. na apresentação do holerite. A usina X fornece equipamentos de proteção individual (EPI) com facilidade. não. O sistema de pagamento por “metrinho”. dependendo de vários fatores. Finalizaremos este estudo como finalizamos cada uma das reuniões de ACT com os trabalhadores. Algumas usinas aceitam atestados médicos com facilidade. que não podemos deixar de enfatizar.• o tratamento desumano e muitas vezes humilhante imposto por uma organização do trabalho extremamente hierarquizada e rígida que se baseia num sistema de punições arbitrário e estimula a competição entre os trabalhadores. Cada aspecto do trabalho que se analisa apresenta particularidades dificultando o estabelecimento de reinvidicações únicas: cada usina estabelece particularidades no sistema de pagamento. Um deles. Esta diversidade é ainda maior se compararmos o que se passa em regiões até próximas de Araraquara. outras. O conteúdo geral do relatório reflete as várias facetas da realidade do trabalho dos cortadores de cana da região de Araraquara. os empreiteiros são os empregadores. mas cada uma delas é vivida de modo particular por cada trabalhador. consciência de nossos limites. os empreiteiros são apenas intermediários entre os cortadores e as usinas. Algumas descrições de trabalhadores se chocavam com as de outros em aspectos específicos como o conhecimento ou não do preço da cana antes de se começar a jornada. parece que a política empresarial é a de dividir para reinar. Temos. com o empreiteiro do qual depende. tão comentado nas reuniões. não. Na verdade. em outras. 44 . alguns individuais e outros relacionados com a usina em que trabalha. que aparentemente não existe em Araraquara. é a realidade em regiões vizinhas. Mas alguns empreiteiros ainda usam caminhões. isto é. mas a usina Z. é o da generalização dos resultados. Em alguns casos. das quais eles são empregados. O emprego de crianças no corte de cana. os motivos das advertências etc.

. Outras. relacionadas com o próprio sistema de exploração dos trabalhadores e com a organização do trabalho: acabar com a figura do empreiteiro e com o atual sistema de medição da cana e de pagamento por produção. apresentavam algo mais profundo. O pior serviço que eu já enfrentei na vida é o corte de cana. porém. o que os trabalhadores exprimiam era o desejo de serem respeitados e tratados sem humilhação: Eu já fui um trabalhador que já fez quase todas as entidades de serviço: já colhi café.Algumas das sugestões só fizeram reafirmar direitos adquiridos e já estabelecidos na legislação trabalhista geral ou nos acordos da categoria. O cortador de cana não passa de um cortador de cana. Mas acima de cada proposta específica.. mas que não estavam sendo respeitados. 45 . essa mão já derrubou muitas árvores.

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Bibliografia DEPARTAMENTO INTERSINDICAL DE ESTATÍSTICA E ESTUDOS SOCIOECONÔMICOS. FERREIRA. A colheita da cana-de-açúcar em São Paulo. Projeto de pesquisa conjunto realizado pela FUNDACENTRO e APVAR. 1994. Revista Brasileira de Saúde Ocupacional. São Paulo: APVAR. n./jun. p. p. IGUTI. et al. L. São Paulo. TORRES. L. V. 7-19. In: ______. FERREIRA. v. São Paulo: Fundacentro. FERREIRA. Análise coletiva do trabalho dos cortadores de cana da região de Araraquara. São Paulo. 21. contínuo e coletivo. Condições de vida do trabalhador na agro-indústria do açúcar. L. L. abr. Análise coletiva do trabalho. 2.244-246. São Paulo: Scritta.. 47 . L. l992. São Paulo. 1993. M. Voando com os pilotos: condições de trabalho dos pilotos de uma empresa de aviação comercial. L. 78. FERREIRA. A. L. O trabalho dos petroleiros: perigoso. complexo. L. Trabalho e reestruturação produtiva: 10 anos de linha de produção. l995. ed. 1998. et al. Rio de Janeiro: Instituto do Açúcar e do Álcool. 1945.

000 Impressão: Gráfica da Fundacentro Equipe de realização Coordenação Editorial: Elisabeth Rossi Revisão gramatical: Maria Luiza Xavier de Brito Foto da capa: Maria Cristina Gonzaga Design gráfico e capa: Marila G.: 5594-7266 www.gov. Destro Apolinário Normalização: Erika Alves dos Santos MINISTÉRIO DO TRABALHO E EMPREGO FUNDACENTRO FUNDAÇÃO JORGE DUPRAT FIGUEIREDO DE SEGURANÇA E MEDICINA DO TRABALHO Rua Capote Valente.SP 05409-002 tel.fundacentro.Rua Mauro.br . 710 São Paulo . 552 São Paulo .: 3066-6000 Gráfica .Sobre o livro Corpo texto: Palatino Linotype 11 Corpo título: BenguiatGot Bk BT 17 pólen rustic 85 g/m² (miolo) e cartão supremo 250 g/m² (capa) no formato 16x23 cm 1ª edição: 1997 Reimpressão da 1ª edição: 1998 2ª edição: 2008 Tiragem: 5.SP 04055-041 tel.

ISBN 978-85-98117-34-8 9 788598 117348 .

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