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INFORMAÇÕES SOBRE O AUTOR

LUIZ Antônio SIGNATES Freitas é jornalista, graduado pela Universidade Federal de Goiás em 1984. Desde 1981 exerce a profissão na Rádio da UFG, tendo, também, trabalhado no Diário da Manhã, Rá- dio Musical FM, O Regional, Jornal Opção e TV Brasil Central, todos veículos situados em Goiânia, e alguns hoje extintos.

Nascido em 30 de julho de 1960 em Goiánia, tornou-se espírita em 1976. Foi presidente da Mocidade Espírita da Irradiação Espírita Cristã em 1978 e, no fim da década de 70, passou a cooperar com a Fede- ração Espírita do Estado de Goiás, onde dirigiu o Departamento de Divulgação Doutrinária por sete anos consecutivos. Desde 1983, coordena os “Cursos de Formação e Aprimoramento de Expositores Espíritas” atarefado do qual surgiu este livro.

Atualmente, é secretário do Conselho Deliberativo da Feego e prossegue atuando na coordenação da área de exposição doutrinária no Departamento de Divulgação.

CARIDADE DO VERBO

Métodos e Técnicas de Exposição Doutrinária Espírita

Luiz Signates

CARIDADE DO VERBO Métodos e Técnicas de Exposição Doutrinária Espírita Luiz Signates

1ª Edição (1992) - l .000 Exemplares

2ª Edição (1992) – 1.000 Exemplares

Capa: Nádia Valentina Fretta

FICHA CATALOGRÁFICA

Signates, Luiz

S578c Caridade do Verbo; Métodos e Técnicas de Exposição Doutrinária Espírita. Goiânia: Federação Espírita do Estado de Goiás, 1991.

120 págs. Edit. Kelps

1. Espiritismo – Exposição Doutrinária. 2 – Oratória – Espiritismo.

l. Título.

C.D.U. 291.211:82.085

Todos os direitos cedidos à FEDERAÇÃO ESPÍRITA DO ESTADO DE GOIAS

Al. Ricardo Paranhos esq. c/ 1133 - Marisla

Goiânia - GO (CP. 239) Fone: (062) 241-6393

Impresso no Brasil

Presita en Brazillo

Caridade doVerbo

APRESENTAÇÃO

A Doutrina Espírita tem sido, ao longo de nossa convivência com seus postulados, uma das mais exube-

rantes escolas que ensinam um roteiro seguro e confiante na arte de falar em público.

Impulsionado pelo livre arbítrio vigente no movimento e alimentado por uma bibliografia vastíssima, nasce o expositor espírita usando palavras e ensinamentos coordenados, que lhe permitem expor o pen- samento doutrinário, nas Casas Espíritas que o acolhem.

Esta água cristalina, derramada de fontes e mananciais do mundo espiritual, muitas vezes complemen- tada pela interpretação inteligente dos vivos do lado de cá, são informações afluentes que facilitam as pesquisas e consultas do pregador. A tarefa de vivificar a fala doutrinária carece de ser desempenhada em caráter permanente, sem recompensa material de qualquer natureza. Nada de escolas especializadas, ou cursos regulares, a maneira de currículos profissionalizantes, com fins remuneratórios, a exemplo de outros agrupamentos religiosos.

E tem sido muito gratificante esta forma de comportamento espírita. Quanta gente simples obtém as

relevâncias da palavra segura na seara espírira, sem abusar dos recursos de decorar textos evangélicos,

mas alicerçados numa convivência diária com as mensagens e páginas de natureza espiritual. Também

os jovens, percorrendo uma longeva caminhada nas diferentes etapas de evangelização, passando pelas

reuniões da mocidade espírita, adquirem um aperfeiçoamento tão relevante, que espontaneamente, no convívio social a que estão vinculados, sustentam com galhardia uma posição desinibida, adquirida na experiência cotidiana da Casa Espírita.

Depois de "O Orador Espírita", da lavra de nosso confrade Eliseu Rigonatti, pouca coisa tem sido es- crita como forma suplementar de enriquecer as experiências do expositor espírita.

Isto levou nosso Departamento de Divulgação Doutrinária a elaborar a presente contribuição. Fruto do

II Curso de Formação e Aprimoramento de Expositores Espíritas, que nos trouxe à presença mais de

uma dezena de expositores seguros e amadurecidos, militantes na tribuna espírita e de profissionais na

arte de elaborar bem a palavra articulada, como fonte inestimável de orientação e consolo.

Nesta fase tão áspera da caminhada humana, não se pode prescindir da palavra cristã. Ainda mais quan- do alguns pensamentos mais afoitos indicam reparos à orientação altaneira de Kardec, outros militantes religiosos tentam nos distanciar da presença de Jesus Cristo.

Coesão doutrinária na palavra escrita. Segurança e pureza na palavra verbalizada, exposta aos carentes de toda natureza.

Assim, num primeiro momento, vem à luz CARIDADE DO VERBO, para receber sugestões de outros valiosos companheiros, capazes de enriquecer o trabalho, na sua tarefa especifica de significar mais uma ferramenta à disposição do expositor espírita.

Na tribuna espírita, modelar a linguagem verbalizada, como instrumento de socorro espiritual, pronto a aliviar dores ocultas, levantar corações combalidos e oferecer ao homem eterno orientação e interpreta- ção seguras, na grande viagem que empreende para a educação de sua alma.

Wolney da Costa Martins

Caridade doVerbo

AGRADECIMENTOS

Nossos agradecimentos aos companheiros que, direta ou indiretamente, cooperaram com o enriqueci- mento do conteúdo desta obra, especialmente:

Wolnev da Costa Martins, hoje no Plano Espiritual, pela revisão dos textos;

Delfino da Costa Machado, pela orientação inicial relativa ao método de estudo;

Silvia Alessandri, pela instrução quanto à exposição doutrinária como método de aprendizagem

Umberto Ferreira, pelo capítulo acerca do "Público;

Mário de Andrade Filho, o Marinho" pelo conteúdo de "como contar histórias"';

e Lauro Carvalho, por significativa parcela do texto sobre "Temas".

E aos muitos que concorreram para a realização dos diversos cursos para expositores, ministrados na Federação Espírita do Estado de Goiás e no Interior goiano, especia!mente a

Derila Rodrigues,

Gersi Luis Cararo,

Nathália Athaídes Sandoval (hoje desencarnada)

Rinalda Golineli

e João Dias.

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INTRODUÇÃO

As leis espirituais da vida ensinam que é dando que recebemos, e, de fato, apenas retemos de verdade o que doamos. Se isso é certo do ponto de vista das trocas materiais, quando se concretiza o ideal da cari- dade, o que não se dirá do intercâmbio de idéias e princípios, no ingente esforço evolutivo das coletivi- dades e indivíduos.

Com os livros e palestras alheias aprendemos enormemente. Porém, com a prática do escrever e do en- sinar, as idéias se sedimentam e o aprendizado se fixa para sempre, incorporando-se à própria vida. Dando de graça os ensinos imortais do Evangelho à Luz do Espiritismo, os quais gratuitamente recebe- mos, o ato de doar consolida o reter, a ponto de somente conhecermos profundamente as lições que ensinamos. A semente apenas se realiza em grandeza após semeada.

O expositor, portanto, é o primeiro - e talvez o maior beneficiário das bençãos que exparge; à maneira do frasco de perfume. ainda que doe todo o seu conteúdo, jamais perde a fragrância.

Ao lado disso, identificamos também a imensa multidão dos que sofrem e dos que erram - os necessita- dos de consolo e esclarecimento, para cujo socorro o estudioso da doutrina é chamado a todo momento. "Apascenta as minhas ovelhas, se me amas", encarregou a Simão Pedro o Mestre Divino. E não é outra a missão dos oradores espíritas.

Daí a denominação CARIDADE DO VERBO ao trabalho despretencioso, que busca conduzir e des- pertar o interesse de caminheiros de boa vontade. Um manual nascido da experiência e do estudo de muitos, que anseia, nem tanto asfaltar, mas tornar menos pedregosa a estrada a seguir, ao encontro da condição de mensageiro efetivo e seguro do Senhor, procurada por todos os que se consagram à semea- dura das verdades imorredouras do Evangelho.

LUIZ SIGNATES

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NOSSO PROPÓSITO

Este opúsculo não pretende formar oradores, artistas do verbo e da eloquência, cujas palavras empol- guem e seduzam platéias superlotadas e atentas. Dirigimo-nos, sim aos iniciames na expressão espírita e aos iniciados de porte mediano, a fim de auxiliá-los no aprimoramento da arte de expor.

E, dentro dos ensinamentos espíritas, expor não será fazer da palavra faláda um fim em si mesma, des- tinada a exaltar seus portadores, mas, na verdade, utilizá-la como precioso instrumento do esclareci- mento e da consolação que o Espiritismo, bem conduzido, é capaz de prodigalizar.

Quem procura auxiliar através da tribuna doutrinária, deve se expressar bem e, para isso, não será de- mais buscar o aperfeiçoamento de suas potencialidades, nesse sentido. Um pouco de técnica e muito de estudo torna-lo-ão, senão orador de êxito, ao menos expositor, ou explicador, ou explanador, ou escla- recedor do Evangelho de Jesus à luz da candeia sublime que Kardec e a Espiritualidade Superior acen- deram, para que compreendêssemos a vida e saíssemos a semear essas verdades imortais.

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A COMUNICAÇÃO SOCIAL ESPÍRITA

"Comunicar Unifica"

- slogan do I Congresso de Comunicação Social

Espírita, ocorrido em fevereiro de 1990, em

Goiânia, sob o patrocfnio da Feego.

Aquilo que se convencionou chamar de "divulgação doutrinária" tem sido objeto de meditações e apro- fundamento, tanto histórico quanto prático, com a evolução do movimento espírita. Organização, siste- matização, atualização tecnológica e unificação são conceitos cada vez mais presentes nas discussões relacionadas ao aprimoramento da difusão espírita.

Esta obra surge hoje de um desses esforços. Há alguns anos os cooperadores do Departamento de Di- vulgação Doutrinária da Federação Espírita do Estado de Goiás iniciaram um trabalho que culminou no Projeto de Comunicação Social Espírita, uma proposta de dinamização das atividades de divulgação a partir de uma perspectiva mais ampla e reunindo, numa só fórmula, dois dos mais caros conceitos vi- gentes no Espiritismo brasileiro: a divulgação e a unificação.

Do ponto de vista teórico, o projeto começa ampliando a noção de "divulgação doutrinária", consagrada pelos espíritas mas tecnicamente incompleta. O termo comunicação, universalmente utilizado, abrange a multilateralidade conceptual que a palavra “divulgação”, não expõe. Dentro dessa ótica, por exemplo, não bastaria ao expositor espírita tão somente "expor" unilateralmente, mas vincular-se-ia à complexa tarefa de “comunicar”, isto é, dialogar, analisar o público, dosar a mensagem, ouvir, além, é claro, de estudar e preparar-se. A adoção do conceito de comunicação desenvolve profundas alterações técnicas na forma como o Espiritismo tem sido emitido ao público. A margem disso, nunca será demais afirmar que o repensar técnico deixa intocado o critério de fidelidade doutrinária a Kardec e Jesus, sem o qual não se concebe comunicação efetivamente espírita.

Em seguida à retificação conceptual, o projeto goiano vincula-se ao ideal da Unificação e instala nesse ponto um de seus pilares fundamentais. A difusão da Doutrina caracteriza o recurso maior da riqueza do conteúdo, através do qual se processa o despertamento espiritual dos homens, mas a intercomunicação de homens e instituições arregimenta bases para o exercício prático da fraternidade. Um ideal que, no meio espírita, se convencionou chamar de “unificação". Sob esta visão, o espírita bem informado con- tribui para o progresso das instituições. "Comunicar unifica". Na prática, o projeto estabelece no Centro Espírita a central produtora da informação doutrinária e geracional e prevê a Federação Espírita como entidade coordenadora do processo de comunicação social espírita. Essa definição de papéis, visível em outras áreas das atividades espiritistas, ainda não havia sido definida no campo da difusão.

Reunidos os conceitos de divulgação e unificação, o projeto definiu os veículos de comunicação social espírita. Numa interpretação o mais pragmática possível, encarando inclusive as carências materiais do movimento espírita, elegeu-se inicialmente oito instrumentos: o livro, a mensagem, o periódico, a expo- sição, a rádio, a televisão, a assessoria de comunicação e a promoção de eventos. Após o I Congresso, ocorrido em fevereiro de 90, passou-se a inserir mais um: a publicidade. As repercussões práticas da filosofia de comunicação em cada veículo foram, após longa pesquisa e demoradas consultas a especia- listas e profissionais espíritas ou não, enfeixadas na apostila "Métodos e técnicas de CSE", distribuída aos Centros Espíritas de Goiás durante o Congresso em Goiânia.

Daí então, até a data de hoje, o projeto vive o esforço de implantação nos centros espíritas de todo o Estado. Dos resultados desse esforço surgirá a conclusão acerca de sua validade teórica e técnica.

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COMUNICAÇÃO E EXPOSIÇÃO

As orientações contidas neste livro são inteiramente moldadas nos princípios da Comunicação Social Espírita. Segundo os critérios reunidos nessas páginas, o orador não é somente "a pessoa que fala”:, mas o comunicador por excelência. Respeitando, como é evidente, as prévias limitações pessoais, ele é con- vidado a escolher temas e abordagens, argumentações e recursos, de conformidade com o público ao qual se dirigirá Médium da Doutrina, o expositor que seguir a metodologia aqui recomendada se sinto- nizará com o livro espírita, garimpando idéias puras e fiéis, e manterá igualmente sintonia com sua au- diência, escupindo as idéias-gemas com as palavras e imagens que melhor traduzam a necessária efici- ência. Além disso, o orador-comunicador despir-se-á dos melindres e será um ouvinte atento das carên- cias das críticas alheias, objetivando aprender mais para trabalhar melhor. E, por fim, far-se-á ele um elemento vivo de contato das casas espíritas entre si, apoiando o esforço federativo da unificação.

No relacionamento da Feego com as instituições espíritas goianas, é necessário aditar que o CARIDA- DE DO VERBO é o livro-texto do "Curso de Formação e Aperfeiçoamento de Expositores Espíritas".

A princípio anualmente e, após o sexto curso, em 1990, bienalmente, a Feego ministra em sua sede. Nos

anos de final ímpar trabalha-se pela interiorização do Curso. Em 1991, diversos Cursos foram ministra-

dos simultaneamente em várias regiões do Estado, numa arregimentação de esforços de lideranças espí- ritas goianas dignas de nota.

O expositor espírita prestará relevante papel à causa da Comunicação Social Espírita tomando consci-

ência de seus objetivos, divulgando-a, prestigiando-a e, por onde passa, incentivando as casas espíritas a adotá-la para organização e engajamento das atividades comunicadoras à Federação e ao Movimento em geral. É óbvio que, hoje, estas palavras são dirigidas especialmente aos explanadores goianos, em-

bora estejamos abertos a prestar informações a todos.

Ante a dor e a ignorância espiritual, o erro e o desespero humanos, o esclarecimento espírita surge como sol nas trevas da sociedade. É fundamental, por isso, que o espírita se aprimore na condição de comunicador. Ao abraçar a sublime tarefa, converter-se-á em lâmpada viva, constantemente alimentada pelas energias divinas e colocada sempre mais alto pelo conhecimento haurido do estudo.

Nessa posição, deixará incandescer o filamento do coração. vertendo a luz de Deus em toda parte. Ao recomendar o Sermão da Montanha. que “o que vos digo aos ouvidos, proclamai-o sobre os telhados", o Cristo determinara o nível de responsabilidade de cada um de nós.

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PARTE 1

TEORIA DA EXPOSIÇÃO

1 - EXPOSIÇÃO DOUTRINÁRIA

Validade, Importância e Objetivos.

"Ninguém acende uma candeia para pô-la

debaixo do alqueire; põe-na, ao contrário,

sobre o candeeiro, afim de que ilumine a todos

os que estão na casa".

- JESUS 1

A exposição doutrinária é um dos mais utilizados métodos de divulgação do Espiritismo. Atualmente,

inúmeros esforços vêm sendo feitos para que cumpra realmente suas finalidades. Muitos, entretanto, a questionam como metodologia eficiente. Desde confrades mais ortodoxos até profissionais da psicolo- gia educacional. Há quem sugira a anulação pura e simples da prática explanadora, nos Centros Espíri- tas, substituindo-a pelas reuniões em grupo, pelos debates e pelo estudo através de leituras dirigidas.

Num estudo a respeito das vantagens e desvantagens do método expositivo, a educadora Ruth Berard 2

enumera:

VANTAGENS - a economia de tempo, a possibilidade de despertar os ouvintes para o estudo, a facili- tação do aprendizado inicial de assuntos novos ou difíceis, a simplicidade para aquisição de conheci- mentos e a oportunidade de aprendizado para ouvintes analfabetos ou menos dados a discussões grupais ou leituras exaustivas.

DESVANTAGENS - a apassivação do ouvinte, a impossibilidade de discordar ou sanar dúvidas, a su- perficialidade do aprendizado, a interpretação unilateral do conteúdo, a personillcação do assunto pela centralização do expositor e a dificuldade de se dominarem técnicas de falar, a fim de realizarem pales- tras interessantes.

Como se vê, há aspectos positivos e negativos. A experiência educacionai, nesse sentido, tem demons- trado que resulta em erro o desprezo desse ou daquele método. O que o torna mais ou menos eficicnte é a forma de aplicá-lo, respeitando as situações vigentes. Em síntese, não há métodos bons ou ruins, e sim, bem ou mal aplicados.

A arte de palestrar será, portanto, a de aproveilar-se de seus recursos e vantagens, reduzindo, o quanto

possível suas desvantagens. E, para isso, com o auxílio da tecnologia da educação, as casas espíritas vêm experimentando novas formas de apresentar o conteúdo doutrinário.

O auxílio de recursos visuais, por exemplo, sem prejudicar nenhum aspecto positivo da exposição, po-

derá, se bem conduzido, reduzir o índice de imperfeições, na condução dos assuntos apresentados, A "exposição dialogada", ou a palestra seguida de debates com o público, possibilitará a atuação do ou- vinte, eliminando dúvidas e aperfeiçando o aprendizado, além de facultar ao expositor o atendimento às

necessidades do público 3 .

1 Mateus 5:15

2 BERARD- Ruth - Teaching and Leanning in higher education. Penguin Books Ltda. Copyright, 1970. Capitulo 4, pg. 90 a 109. Tradução de Norma Pereira e Maria de Oliveira, Texto: “Vantagens e Desvantagens do Método Expositivo”

3 O método da exposição dialogada vem sendo experimentado com sucesso nas Casas Espíritas. Há, basicamente, dois tipos de aplicação: a “palavra sob inscrição”, próprio para públicos reduzidos, em que um coordenador, na mesa diretora da reuni- ão anota os nomes dos que desejam fazer perguntas ao expositor aos quais será concedida a palavra dentro da ordem das

Caridade doVerbo

A exposição espírita tem dois papéis fundamentais: esclarecer e consolar. Esclarecer é a tarefa de reve-

lar a Doutrina., emitindo seus postulados básicos e a moral espírita; consolar será transmitir ânimo, fé, esperança, soerguimento, otimismo. De modo geral, a consolação é o objetivo do auditório, e o esclare-

cimento, o propósito do pregador. Sabendo disso, o expositor buscará sempre esclarecer consolando e consolar esclarecendo.

O Centro Espírita é a escola da alma. Se há métodos diversificados de se divulgar os conteúdos doutri-

nários, seria injustiça negar que o processo expositivo é um dos primeiros à eles. Desde o próprio Alan

Kardec, até os dias de hoje, a Doutrina Espírita tem avançado no cumprimento de sua missão através do verbo iluminado de inúmeros seareiros. Em Cristianismo, renegar a metodologia expositiva será olvidar

o

próprio Cristo, que se utilizou sobejamente dela, para compor a divina sinfonia de seus ensinamentos

e

mudar o curso da História.

inscrições; a “pergunta escrita”, recomendável em auditórios maiores: antes e/ou durante (nunca depois) da exposição, tiras de papel em branco para formulação de perguntas são distribuídas. O público, esclarecido previamente, passará as indaga- ções a pessoas selecionada, que encarregarão de conduzi-las á mesa diretora, a qual selecionará as indagações da platéia e as transmitirá em voz alta ao expositor. Este método é excelente, pois impede a repetição de assuntos já esclarecidos, ou a per- da de tempo com perguntas menos importantes.

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2- ELOQUÊNCIA

A experiência do expositor .

“Em toda parte, a palavra é índice

de nossa posição evolutiva. Indispensável

aprimorá-la, iluminá-la e enobrecê-la”.

- EMMANUEL 4 .

A eloquência é a qualidade do orador, assim como a caridade é a do cristão sincero. Eliseu Rigonatti 5

define eloquência como sendo “a arte de convencer”. Conceituação melhor encontramos em João de Oliveira Filho 6 : "consiste a eloquência em se conceber a idéia clara, expressá-la com a palavra e ade- quá-la ao auditório, dependendo esta última condição dos tempos, das pessoas, dos lugares e das coi- sas”.

Reconhece-se o expositor espírita eloquente pelas características globais que reúna, especialmente o domínio de cinco qualidades essenciais:

a) RIQUEZA DE CONTEÚDO DOUTRINÁRIO: Alcançada no estudo metódico da Doutrina e na preparação antecipada da palestra. Característica primordial, sem a qual toda a técnica expositiva cai por terra.

b) CLAREZA: De conteúdo e pronúncia. Ouanto à clareza de conteúdo, esta se conseque quando se pensa claramente. João de Oliveira Filho 7 define: “A idéia se torna clara quando pode ser reduzida a uma frase simples”. Na mesma obra, ele indica o método 8 : “Exprimir em voz alta o pensamento para sentir se está claro ou obscuro é boa prática”.

c) OBJETIVIDADE: Ou concisão, o que envolve capacidade de síntese e controle do tempo de expo- sição.

d) CRIATIVIDADE: Exercício da criação própria de argumentos e ilustrações, tornando a preleção interessante e original.

e) VERSATILIDADE: Bom repertório temático. Capacidade de falar com segurança sobre diversos assuntos e de compor palestras sobre um mesmo tema, com enfoques e argumentações diferentes.

À luz da técnica expositiva, a eloquência pode ser enfeixada nesses ítens, os quais, se medianamente

dominados, já possibilitam ao expositor bom rendimcntó nas preleções.

Há um qualificativo, contudo, que não faz parte da técnica de falar, mas é fundamental para a eloquên- cia espírita: a exemplificação dos princípios pregados. O padre Antonio Vieira 9 recomendava que o pregador não deve pregar ciência alheia. O orador que não vive o que ensina, jamais ensina com pro- fundidade. Poderá transmitir conhecimentos, dar informações, gerar dados, entretanto, não modificará corações. Por conseguinte, não poderá figurar entre os eloquentes de fato.

4 EMMANUEL - Vinha de Luz Psicografia de Francisco Cândido Xavier, cap. 73 FEB. 1ª Edição, 1979

5 RIGONATTI, Eliseu. O Orador Espírita. Lake - SP 2º Cap (A Eloquência)

6 OLIVEIRA Fº, João de. Falar em Público. 2ª Ed. Civilização Brasileira, 1963, pg. 18.

7 OLIVEIRA Fº, João de. (Opus Cit) pg. 23.

8 OLIVEIRA Fº, João de. (Opus Cit) pg. 51.

9 VIEIRA, Pe. Antonio. Sermão da Sexagésima, in “Os Sermões”, Livro, 1968.

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A esse respeito, será útil meditar na admiração dos discípulos, diante de Jesus 10 : “E ele falava como

quem tinha autoridade, e não como os escribas”. À eloquência do Senhor devemos todo o movimento

de renovação espiritual que transformou a mentalidade humana, até os dias de hoje.

10 Mateus, 7:29. Palavras ditas pelo evangelista, logo após o Sermão da Montanha. Expressiva referência sobre a autoridade moral do Cristo também pode ser encontrada em João, 8:46 “Nunca homem algum falou assim com este homem”

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3 - PREPARAÇÃO

O alicerce imprescindível.

“Dá conta de tua administração”.

- JESUS 11 .

A preparação da palestra é, em todos os sentidos, fundamental. Através dela, o expositor conseguirá

selecionar idéias, desenvolver a melhor maneira de expô-las e ter coerência e ordem no pensamento. Mesmo se sua prática aparentar-se cansativa, nem por isso pode ser dispensada, por ser de enorme valia para o melhoramento, não apenas das exposições, como da cultura individual, da memória e da capaci- dade de raciocinar com lógica. Qualquer atividade, quando planejada com antecedência, torna-se mais útil e garante sua qualidade. Mais do que isso, a preparação constitui atitude de responsabilidade, indis- pensável ao bom orador.

O expositor que não prepara pode ser um excelente improvisador, ter verbo fácil e rara inteligência,

além de razoável conhecimento dos princípios doutrinários, mas representa árvore a produzir dez frutos, quando poderia gerar mil. Há os que afirmam receber amparo.espiritual, no instante da explanação. Isso é indiscutível, contudo, seria licito o menor esforço, transferindo aos Espíritos a responsabilidade que

nos pertence? Ainda porque, não poderia a Espirituaiidade se utilizar da inspiração no instante do pre- paro? Não seria até mais simples e eficiente para os Instrutores Desencarnados influírem no momento do estudo e do recolhimcnto ?

Na verdade, ninguém se livra totalmente do improviso. Sempre surgem oportunidades de urgência em que o orador deverá falar sem planejamento anterior. Mas devem ser casos de exceção e, se for assim,

ver-se-á que a improvisação não é difícil para quem guarda o costume de preparar sempre. Aliás, João

de Oliveira Filho 12 afirma que “improvisar é falar aquilo que já se tem por muito bem pensado. Só im-

provisa quem tenha conhecimentos sobre o assunto. Achar o que é preciso dizer é o mesmo que já ter dito o que vai dizer”. Os bons improvisos apenas são felizes para quem os faz excepcionalmente, guar- dando como regra a preparação.

Assim, em síntese, preparar é alicerçar-se para eventuais improvisos, e improvisar é falar sobre o que já

se preparou. Por isso, a preparação é imprescindível.

11 Lucas, l6:2. A citação em epígrafe abrange a palavra “administração” num conceito mais amplo confome, inclusive ja a analisou Emmanuel, capítulo 75 de “Fonte Viva”, psicografia de Francisco Cândido Xavier.

12 OLIVEIRA Fº, João de, (Opus Cit) pg. 24

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PARTE 2

OS PASSOS DA PREPARAÇÃO

COMO PREPARAR

Sinteticamente, resumiremos em cinco os passos da preparação de uma palestra espírita:

1º PASSO - ESCOLHER O TEMA, caso já não tenha sido determinado.

2º PASSO - PESQUISAR NA BIBLIOGRAFIA DISPONÍVEL, espírita ou não, desde que idônea, o tema a enfocar, selecionando textos e páginas.

3º PASSO - ESTUDAR, metodicamente, AS PÁGINAS ESCOLHIDAS, selecionando as idéias que podem servir para a palestra.

4º PASSO - FORMULAR A IDÉIA MÃE, definindo a abordagem, que o tema receberá na exposição.

5º PASSO - ESBOÇAR E ESCREVER A PALESTRA, prevendo introdução, desenvolvimento e conclusão, tendo em vista a finalidade de cada uma dessas partes.

Nos capítulos seguintes, desta Parte, desenvolveremos essa sequência de recomendações, indicando maneiras fáceis de colocá-las em prática e interpondo exercícios para o desenvolvimento de cada passo.

Recomenda-se ao expositor iniciante não ter pressa de fazer bem da primeira vez, cuidando de aperfei- çoar-se, seja estudando detidamente cada passo, seja repetindo os exercícios que o compõem quantas vezes se fizerem necessárias, até que adquira absoluta segurança e vá adaptando o método às situações práticas, conquistando, com isso, sua própria disciplina e seu estilo pessoal.

Caridade doVerbo

1º PASSO: ESCOLHER O TEMA

“Ao falar, utilizando a tribuna espírita,

o expositor deve atentar cuidadosamenle

para a questão do assunto, de modo

que ele seja sempre doutrinário, ou de

um outro assunto, encarado e analisado

doutrinariamente, de importância para a

moralização dos ouvintes”.

- FEB 13 .

Expositores e dirigentes enfrentam naturais dificuldades nesse setor. Como a Doutrina Espírita versa com amplitude sobre todo, os assuntos, a própria variedade às vezes confunde e, daí não é rara a esco- lha de temas pouco apropriados à situação ou ao público.

Boa parte utiliza as sequências de "O Evangelho Segundo o Espiritismo” e "O Livro dos Espíritos". É o procedimento mais simples e cômodo de todos, e tanto é assim que a FEB, em seu opúsculo "Orienta- ção ao Centro Espírita", o recomenda para os diversos tipos de reuniões públicas. O expositor deve acatar sempre o tema fornecido pela instituição que o convidou.

Há, no entanto, os casos de exceção ou busca de novas modalidades. Em inúmeras ocasiões, o expositor é convidado a palestrar e os anfitriões deixam o tema “livre”, à sua escolha. Existem dirigentes ou equi- pes nos Centros que procuram melhorar o arranjo temático das reuniões, o que não deixa de ser louvá- vel, apesar de os índices das Obras Básicas serem bastante amplos. Finalmente, encontramos quem não empresta importância à questão do temário.

E verdade que o conteúdo das exposições tem primazia, na ordem das prioridades; contudo, saber es- colher os temas das palestras e fundamental porque os resultados do esforço educativo tenderão a ser maiores se os assuntos abordados causarem interesse.

TEMAS INTERESSANTES

Para que um assunto desperte interesse, serão quatro as considerações básicas a serem feitas:

a) RECURSOS PRÓPRIOS - O expositor saberá identificar suas limitações intelectuais e morais, de maneira a evitar abordagem de assuntos que desconheça ou dos quais lhe falte experiência e que, sem lhe serem proibitivos - afinal, ensinar é até uma forma de aprender -, não estão entre os que es- colherá com mais facilidade. O expositor responsável apenas abordará um tema difícil, em relação às suas possibilidades, se dispuser de tempo suficiente para pesquisá-lo e preparar sua alocução, e quando o assunto lhe for designado. Para isso, entretanto, a consciência de suas capacidades é indis- pensável. *

b) CIRCUNSTÂNCIA - Usualmente, os fatos do dia-a-dia, mais recentes, e geograficamente próximos ao público, causam maior interesse do que aqueles que se distanciam da vida comum dos ouvintes. Há, nesse ponto, uma escala de valores que poderá auxiliar a análise:

13 FEB, Orientação ao Centro Espírita

* Importante acentuar que a recomendação expressa é "não falar sobre tema que desconheça" e não "falar apenas sobre o que seja especializado". O repertório de um bom expositor deve ser o mais amplo possível e as limitações podem ser, com o tempo, superadas através do estudo e do esforço.

Caridade doVerbo

b.1) TEMPO: Quanto mais próximo da data atual, mais interessante o assunto tenderá a ser.

b.2) ESPAÇO: Quanto mais perto e ligado à realidade vivencial do ouvinte, mais causará interesse.

b.3) IMPORTÂNCIA: Utilizar exemplos e temas sugeridos por fatos que estejam motivan- do a opinião pública, pode tornar a preleção mais interessante. Deve-se, no caso, tomar cuidado para não se distanciar nem desviar dos objetivos da exposição ou da fidelidade doutrinária, evitando abordar assuntos de polêmica inútil ou que envolvam ocorrências e personalidades de cunho político.

Essas regras de interesse, porém, não são rigorosas. É comum ter-se que fazer composições entre esses fatores, ou seja, a palestra será uma curva que passa ora mais próximo, ora mais distante do centro de interesse da assistência, mas dependendo da habilidade como tece as considerações, poderá motivar bastante (justamente porque sabe demonstrar que aquilo que parece distante, na verdade não o está:

interessa muito de perto a quem o ouve). As passagens da vida de Jesus ou dos Apóstolos, por exemplo, podem ser mostradas com incontestável atualidade, se se evidenciar a semelhança dos fatos de ontem com os de hoje e a persistência das mesmas necessidades espirituais, através das épocas, demonstrando com isso, inclusive, a "atemporaiidade" dos ensinos evangélicos e suas soluções para os problemas hu- manos.

De qualquer maneira, é sempre bom o orador ter em mente a Escala de Interesse, porque, tanto quanto possível, procurará aproximar-se daquilo que mais diretamente toca aos ouvintes.

c) PÚBLICO - Este ítem abrange desde as características até as necessidades dos ouvintes. A vivência e a convivência do expositor no meio doutrinário dar-lhe-á condições de verificar se falará a uma platéia de cultos ou não, especializada ou heterogênca, grande ou pequena. Identificará ele as preo- cupações do público e os problemas que mais o afligem. E, sobre esse alicerce, terá maior segurança de decidir sobre o tema. Ainda quando o assunto escolhido for de natureza generalizada, como “O Amor", "Espiritismo", etc., apenas o conhecimento prévio do gênero de platéia que o espera poderá fornecer dados para o enfoque da alocução. Maiores detalhes sobre esse assunto serão fornecidos adiante.

d) INSPIRAÇÃO - Não é raro contar o expositor dedicado com a assistência espiritual no sentido de determinar o assunto de sua palestra. Sem que se dependa dela, o orador poderá utilizar-se da inspi- ração, sobretudo se encontra dificuldades de definir o tema, e poderá conseguí-la mantendo o culto à oração e ao estudo. Em oportunidade alguma faltará à sua boa vontade o amparo dos Benfeitores da Vida Maior, que, em verdade, detém melhor as informações necessárias para que um planeja- mento expositivo vá de encontro pleno a seus sagrados objetivos.

Há, portanto, como se pôde facilmente constatar, a necessidade de se combinar a adequação do tema escolhido com o público, o local ou as circunstãncias da palestra, aliada à desejável criatividade e capa- cidade inspirativa do expositor, na escolha de temas diversos e interessantes e na forma de desenvolvê- los. Para isso, são necessários estudo, hábito de pensar, método, ordenação e registro de tudo quanto se assimile de interessante e aproveitável.

Chegamos, assim, ao âmago da questão: onde e como arranjar temas para a palestra?

AS FONTES

A Doutrina Espírita oferece uma grande variedade de assuntos que, infelizmente, não tem sido bem aproveitada. Por pouca afeição ao estudo e ao aprimoramento constante, boa parte dos oradores espíri- tas deixa de utilizar esse leque de alternativas, limitando-se a escolhas restritas, rígidas e repetitivas.

Caridade doVerbo

Sendo assim, a primeira atitude será a própria disposição em assimilar a Doutrina, numa visão de con- junto, desenvolvendo a capacidade de compreender suas aplicações práticas e ficando em condições de transmiti-la. No que respeita, porém, ao estudo, as principais fontes de inspiração e pesquisa do prega- dor espírita estão no quadro abaixo:

a)

OBRAS DA CODIFICAÇÃO:

!

Mais divulgadas

!

Menos divulgadas

b)

BÍBLIA:

!

Velho Testamento

!

Novo Testamento

c)

LITERATURA ESPÍRITA:

!

Clássica

!

Atual

d)

LITERATURA EM GERAL:

!

Literatura Universal

!

Autores espiritualistas

!

Fatos históricos

!

Biografias de grandes personalidades

e)

TEMAS CIRCUNSTANCIAIS:

!

Datas comemorativas

!

Finalidades específicas

f)

EXPERIÊNCIA PRÓPRIA.

Repassemos ligeiramente cada uma dessas fontes.

a) OBRAS DA CODIFICAÇÃO:

Por razões óbvias, as Obras da Codificação Espírita hão de constituir a fonte principal dos temas para preleções.

Dentre as mais divulgadas, destacamos aqui, pela ordem de incidência, "O Evangelho Segundo o Espi- ritismo" e "O Livro dos Espíritos", bastante difundidos e utilizados pelos Centros, que os usam, inclusi- ve, para estudo em sequência. Conquanto repisados e comentados de memória por muitos oradores, essas obras, em seus tópicos mais marcantes, constituem ainda vasto campo a explorar, sobretudo se o pregador tiver a habilidade de escolher questões menos lembradas, que contêm um mundo de revela- ções quando se souber cotejá-las com problemas da atualidade ou enriquecer seus comentários trazendo

Caridade doVerbo

à baila conhecimentos de outras fontes. Vem, a seguir, "O Livro dos Médiuns”, o qual, pela sua especi- ficade, se presta mais a temas que versem sobre mediunidade.

No rol das menos divulgadas, colocamos as demais obras: “O Céu e o Inferno”, “A Gênese”, e "Obras Póstumas”, para só falar das principais. Se o confrade se dá ao trabalho de folhear essas obras, mesmo não as lendo inteiramente, irá encontrar temas interessantes e oportuníssimos para compor suas alocu- ções.

Quanto às obras já citadas, uma boa medida seria ir elaborando uma palestra para cada capítulo de “O

Evangelho Segundo o Espiritismo”; uma sobre cada parte de “O Livro dos Espiritos” (sendo que o Li- vro Terceiro dessa obra, que trata das Leis Morais, comporta bem uma palestra para cada capítulo); e diversas com base no "O Livro dos Médiuns".

b)

A BÍBLIA:

O

Espirirismo é uma Doutrina que tem por lastro o Cristianismo. É o Cristianismo Redivivo. Por isto

mesmo, não podemos nos distanciar do livro básico da Cristandade.

No que respeita ao estudo da Bíblia, não devemos chegar ao ponto de nos limitarmos unicamente a essa obra e citar capítulos e versículos a qualquer pretexto.

Importante será saber localizar as passagens que forneçam subsídio para a escolha ou desenvolvimento de temas. Para tanto, é de inestimável utilidade o índice remissivo, dos quais existem algumas boas pu- blicações no gênero. As casas que editam e divulgam as escrituras sagradas geralmente têm “chave bí- blica”, prático manual que nos ajuda a loca1izar passagens bíblicas a partir de um único termo. Ou a mais ampla e completa "Concordância Bíblica" 14 .

VELHO TESTAMENTO - O que nos interessa de imediato na Bíblia é o Novo Testamento, embora o

Antigo Testamento não seja de todo desprezível. Quando o lemos com o sadio propósito de nos esclare- cer (e transmitir elucidações a terceiros), muita coisa surpreendente vamos encontrar. Senão pelo ensino em si, que às vezes pode se afigurar anacrônico, pelo menos para encontrar passagens que se prestam admiravelmente à ilustração deste ou daquele argumento. Por uma questão de ordem cronológica, fala- remos primeiro do Velho Testamento e citemos, a título de ilustração, algumas passagens interessantes que favorecerão o orador espírita na elaboração ou enriquecimento de suas palestras. Vejamos alguns

exemplos:

GÊNESIS, 18 - Útil para abordagem da reforma íntima, enfocando a dificuldade de Abraão de encon- trar homens justos no meio do povo hebreu.

I SAMUEL, 28 - "Saul consulta a médium de En-Dor", segundo a tradução revista e atualizada de João

Ferreira de Almeida. Trecho que serve admiravelmente para ilustrar a validade da tese espírita e o fato

de que a comunicação com os "mortos" era prática conhecida e adotada desde os tempos bíblicos.

ISAÍAS, 5:8 - O tema "Ambição, Desapego dos Bens Terrenos", serve para reforçar o alertamento do erro dos que juntam terras, bens, sem proveito real para os semelhantes.

E assim inúmeras outras passagens interessantes serão localizadas e exploradas com inteligência pelo

pregador arguto, ilustrando suas palestras. Mas, para tanto, é preciso que leia com espírito perquiridor e

que vá anotando e guardando classificadamente todos os trechos interessantes que encontrar, para uso oportuno.

14 As “Harmonias dos Evangelhos” também podem ser ótimas fontes de consulta. São livros que transcrevem os quatros Evangelhos (Mateus, Marcos, Lucas, João) na ordem dos acontecimentos e com as passagens paralelas. Edição recomendá- vel a “Harmonia dos Evangelho”, de S. L. Watson e W.E. Allan, publicada pela Junta de Educação Religiosa e Publicações da Convenção Batista Brasileira. Através desse tipo de obra, os versículos e passagens podem ser estudados, comparando as interpretações de cada evangelista.

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NOVO TESTAMENTO - Poderá ser utilizado praticamente todo, com exceção do Apocalipse, por ser difícil de interpretar e as interpretações existentes não serem fundamentadas doutrinariamente. O Novo Testamento contém o cerne da mensagem cristã, com notícia da vida e dos ensinos de Jesus, seus apóstolos e discípulos. Mormente quando, habilidoso e atento, o pregador consegue encarar a passagem pela ótima espírita e trazer o ensinamento a uma aplicação prática na vida moderna. Justamente pela grande riqueza que contém o Novo Testamento, contudo, o orador deverá ter o cuidado de evitar o lugar comum.

c) LITERATURA ESPíRITA:

A literatura espírita é vasta. Aqui, a divisão fez-se entre CLÁSSICA e ATUAL, com o intuito de mos-

trar que, além dessas obras que todos geralmente lemos, como a produção mediúnica de Chico Xavier, Divaldo Franco, Ivone Pereira e alguns autores encarnados, existe todo um manancial de literatura tal- vez não tão atual e de leitura um pouco mais difícil, mas que nem por isso pode ser desprezado.

Citemos, por exemplo, Gabriel Delanne, Alexandre Akzakof, William Crookes, Léon Denis, Camille Flammarion, César Lombroso e outros.

Há obras que, pela maneira precisa e atraente como abordam princípios doutrinários e questões morais diversas, já constituem, por assim dizer, coletânea de "palestras preparadas", bastando que o expositor saiba extrair delas todo o proveito. Tais são, por exemplo, os livros desse extraordinário mestre de re- lato ligeiro e do apólogo cativante, Humberto de Campos (que também assina Irmão X) Néio Lúcio, Hilário Silva e outros autores espirituais igualmente trazem temas muito amenos e edificantes.

A obra de Emmanuel é vastíssima, havendo mesmo as que possibilitam completar as indicações anteri-

ores. A chamada "Coleção Fonte Viva”, por exemplo (Fonte Viva, Caminho Verdade e Vida, Vinha de Luz, Pão Nosso e Palavras de Vida Eterna), auxilia no entendimento e na interpretação dos textos evan- gélicos. A sequência "Religião do Espíritos", "Seara dos Médiuns", "Benção de Paz", "Justiça Divina", "Livro da Esperança" e "Opinião Espírita" colaboram enormemente na pesquisa e no entendimento das Obras Básicas. E assim por diante, passando-se pelos livros especializados em perispírito e evolução (Evolução em Dois Mundos), em mediunidade {autoria de André Luiz e Ivone Pereira), além de outros, fornecem inumerável lista de temas e conteúdos preciosos.

d) LITERATURA EM GERAL:

Em geral, toda a literatura é fonte de temas em que o orador espírita pode se inspirar. Até nas obras que pareçam mais distantes da religião e do Espiritismo podem encontrar-se verdadeiras jóias, senão para constituir o argumento principal de uma palestra, pelo menos para emprestar-lhe vivo colorido.

No âmbito da Literatura Universal, em muitos textos e apólogos sintonizados com a idéia espírita, po- dem ser encontrados temas para palestras doutrinárias. Os grandes filósofos, como Platão e Sócrates (citados por Kardec como precursores do Espiritismo); romancistas de vulto, como Victor Hugo; enfim, poetas, teatrólogos e literatos de difusão universal são sempre fonte tanto de temas como, mais especi- almente, de subsídios para enriquecimento e abordagem destes.

Excelente fonte de temas são também os autores espiritualistas, ainda que sejam filiados a outros credos religiosos. Humberto Rohden, Khalil Gibran, Tomás de Aquino, Santo Agostinho e inúmeros outros constituem interessantes referências para a coleta de assuntos. O mesmo se dá em relação aos fatos históricos, especialmente aqueles que tenham ligação direta ou indireta com a Doulrina, e com a vida de personalidade que hajam se notabilizado pela exemplificação, tais como Gandhi, Madre Tereza de Cal- cutá, Chico Xavier, Francisco de Assis, e inúmeros outros missionários de áreas diversas.

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e) TEMAS CIRCUNSTANCIAIS:

Por temas circunstanciais, entenda-se aqueles adotados em palestras para reuniões comemorativas ou de finalidades específicas. Dentre estas, há as que pressupõem o tema a ser tratado e as que admitem livre escolha. No primeiro caso, por exemplo, estão o "Natal", o "Dia das Mães", reuniões com grupos me- diúnicos, etc. Nas reuniões que admitam livre escolha do tema, dever-se-á ter o cuidado de mencionar a efeméride em causa: Dia do Livro Espírita, aniversário da instituição, etc.

f) TEMAS DA EXPERIÊNCIA PESSOAL:

Todas as fontes já citadas não excluem as que nascerem da vivência pessoal do expositor. Muitos temas surgem de fatos do cotidiano ou da intuição, sem que haja a obrigatoriedade de se recorrer a livros e referências outras. Não será demais relembrar que essa é a fonte em que se deve observar maior cautela, por ser a mais sujeita aos desvios das idéias pessoais.

Em síntese, uma vez o expositor conhecendo, a partir dos pârametros indicados (recursos próprios, cir- cunstâncias, público e inspiração), buscará nas obras ou em sua experiência pessoal o melhor e mais claramente definido tema.

Expressa-lo-á em uma, duas, ou, no máximo, três palavras e, assim, deterá o âmago do conteúdo de sua exposição, podendo, metodicamente, partir para a pesquisa bibliográfica e o estudo, com proveito ga- rantido.

Caridade doVerbo

EXERCÍCIOS PARA O lº PASSO:

1. Enumere dez assuntos que considera fáceis de abordar, numa palestra.

2. Enumere dez outros que acha difíceis.

3. Escolha, nos vinte temas obtidos, pelo menos cinco que julgue mais atuais.

4. Escolha cinco que considere mais adequados à realidade do lugar em que mora.

5. Escolha, entre os vinte, os cinco que ache mais importantes.

6. Sem repetir os vinte, crie cinco temas diferentes, que julgue apropriados para um auditório espírita.

7. Faça o mesmo, em relação a uma suposta platéia não-espírita.

8. Tome da Bíblia. Ache nela cinco temas fáceis e cinco difíceis, sem repetir os anteriores.

9. Ache os vinte assuntos dos ítens 1 e 2 em "O Livro dos Espíritos".

10. Encontre os cinco temas do ítem 3 em "O Evangelho Segundo o Espiritismo".

11. Procure, na literatura disponível de Emmanuel, dez temas diferentes de todos os que já enunciou, nas respostas anteriores.

12. Faça o mesmo com a liteIatura de André Luiz.

13. Encontre, em livros não espíritas (literatura em geral) sub-temas ou exemplos para pelo menos dez dos temas que ençontrou até agora.

14. Descubra cinco temas vinculados a datas ou acontecimentos especiais, que não haja citado nas res- postas anteriores.

15. Crie cinco temas quaisquer, diferentes de todos os anteriores.

16. Coloque em ordem alfabética todos os temas que encontrou. Escreva, diante de cada um deles, uma "nota" que vai de 1 (tema" difíceis) até 5 (lema" fáceis). Se deixou exercícios sem resposta, não in- clua.

17. Avalie-se, conforme o sistema abaixo:

Soma de Pontos:

De zero a 80 - Sofrível: Estude mais, sobretudo Kardec.

De 61 a 150 - Regular: Baseando-se em Kardec, busque aprofundar-se, no estudo das obras comple- mentares.

De 151 a 320 - Bom: Prossiga estudando. Crie métodos.

De 321 a 350 - Ótimo: Não pare de estudar, nem se esqueça que o exemplo é a base do verdadeiro, saber.

OBS.: Você, provavelmente, escolheu 70 temas diferentes, os quais já constituem vasto leque de op- ções, para as palestras a preparar. Não pare de enriquecer essa lista, seja melhorando-a, seja acrescen- tando novos assuntos. De posse das informações do capítulo, escolha, para cada palestra, o tema apro- priado. Você deu o 1º PASSO, o qual lhe dará base para todos os outros.

Se a auto-avaliação indicou-lhe a categoria "sofrível" ou "regular", não desanime. Continue o estudo e os exercícios deste livro, que, com o trabalho indicado seu nível melhorará cada vez mais.

Caridade doVerbo

2º PASSO: PESQUISAR NA BIBLIOGRAFIA DISPONÍVEL

"Estudar sempre, a fim de

oferecer recursos verbais sempre

mais vastos à inspiração da

vida Maior".

- EMMANUEL 15 .

O segredo da eloquência repousa no domínio do tema, propiciado pelo conhecimento doutrinário. E a

Doutrina Espírita está contida nos livros que a divulgam. Estudar, portanto, é prática indispensável ao

expositor.

Para ser proveitoso, o estudo exige método. Não basta a biblioteca enorme, ou a grande quantidade de temas ou textos. Sem o pressuposto da disciplina, as numerosas referências e informações confundirão sem enriquecer, e atrapalharão, quando deviam ajudar.

Metodizar significa harmonizar tempo e atividade, seguindo através de caminhos previstos. Este livro

sugere um método, que se baseia na busca literária, desde o princípio, com a escolha do tema, caso este

já não tenha sido determinado pela instituição promotora.

De posse do tema, ainda que provavelmente desconhecendo a abordagem específica a ser dada, próxi- mo passo é pesquisar na bibliografia disponível.

COMO PESQUISAR

Definimos "pesquisar" como sendo "selecionar textos a serem posteriormente estudados". No intuito de preservar a fidelidade doutrinária, o expositor começará por Kardec, e, em seguida, partirá para os de- mais autores, podendo, com cuidado, socorrer-se de obras não-espíritas, jornais e demais informações

ou fontes. A classificação do capítulo anterior pode ser útil, para metodizar a pesquisa.

A seleção de textos não é difícil. O expositor estudioso sempre terá na memória essa ou aquela página,

onde encontre o assunto a ser tratado. Esgotada a busca por esse critério, abordará outros livros de ma- neira metódica:

a) No índice, procurará identificar o assunto nos títulos.

b) Encontrada a referência, irá ao texto e lerá:

b.l) O primeiro parágrafo;

b.2) As primeiras palavras de cada parágrafo subsequente;

b.3) O último parágrafo.

Desse modo, saberá identificar o assunto com precisão, verificando se aborda ou não o tema em pes- quias. Se aprovado, bastará anotá-lo ou marcá-Io, reservando-o para estudo aprofundado.

Deve-se, nesse ponto, tomar o cuidado de não exagerar na escolha dos textos, reservando quantidade demasiada para o estudo posterior, o que inviabilizaria até certo ponto uma palestra simplificada. Ex- ceto se houver exigência que a isso obrigue, a consulta exagerada é plenamente dispensável, pois não há obrigação e nem mesmo a possibilidade de se esgotar o assunto de uma só vez. Com o tempo, a experi- ência facultará ao expositor o domínio da arte de consultar os livros certos para cada tema e saber a quantidade de assuntos ou sub-temas de que necessita para compor sua palestra.

15 EMMANUEL - Bênção de Paz. Psicografia de Francisco Candido Xavier. 1ª Ed. FEB. 1971. Cap. 20.

Caridade doVerbo

Em síntese, cada pesquisa feita engrandece um pouco o cabedal de conhecimentos do expositor. A ex- periência adquirida auxilia muito mais na composição das melhores palestras, do que a pesquisa mo- mentânea, a qual, se feita com aproveitamento, trará enriquecimento na forma de informações novas. Assim, o esforço de agora se une às conquistas efetivadas de ontem e ampliam, cada vez mais as possi- bilidades do orador dedicado.

A BIBLIOTECA DO EXPOSITOR ESPÍRIT A

a formação de uma biblioteca está subordinada aos

gostos e inclinações de quem a forma, como reflexo que ela é da personalidade e do adiantamento inte- lectual de seu possuidor. No entanto, há livros que se relacionam intimamente com a atividade que cada

um exerce e, portanto, são indispensáveis. ( prescindíveis ao desempenho de sua tarefa".

O orador espírita reunirá em sua estante os livros im-

Com propriedade, afirma Eliseu Rigonatti 16 : "

)

Rigonatti, em sua obra, enumera obras e autores úteis, os quais citamos em parte, abaixo, e desenvol- vemos, ante a própria evolução dos tempos.

a)

OBRAS ESPÍRITAS:

-

Obras completas - Allan Kardec

-

Obras completas - Léon Denis

-

Obras completas - Francisco Cândido Xavier

-

Obras completas - Ivone Pereira

-

Obras biográficas sobre vultos espíritas

-

Demais obras da bibliografia espírita, estudando-lhe sempre, qualquer seja, o nível de idoneidade.

b)

OBRAS REFERENTES AO CRISTIANISMO E À RELIGIÃO:

-

O Novo Testamento

-

Obras que sintetizem o pensamento doutrinário de outros credos religiosos.

-

Obras que sintetizem a história do pensamento religioso e, em especial, do Cristianismo.

-

Obras biográficas sobre vultos do Cristianismo e das demais correntes religiosas.

c)

OBRAS ESPIRITUALISTAS E PARAPSICOLÓGICAS

d)

OBRAS VOLTADAS PARA A LÍNGUA PORTUGUESA:

-

Pequeno Dicionário da Língua Portuguesa - Aurélio Buarque de Hollanda.

-

Gramática da Língua Portuguesa (sugerimos a de Napoleão Mendes de Almeida, uma das mais apreciadas por especialistas no assunto).

-

Obras que versem sobre a literatura brasileira ou mundial.

e)

OBRAS SOBRE ORATÓRIA:

- (Ver bibliografia no final deste livro).

16 RIGONATTI, Eliseu (Opus Cit) pgs. 43 e seg

Caridade doVerbo

f) OBRAS LITERÁRIAS:

- Conhecer os principais autores de cada escola literária brasileira e ler suas melhores obras.

- Conhecer os principais autores da literatura universal e ler suas melhores obras, pesquisando, tam- bém, nesse caso, as melhores traduções.

OBS.: Evitamos, o quanto possível - sobretudo no que se refere às obras não espíritas - citar títulos e

autores, a fim de não influenciar em excesso o trabalho de pesquisa e afinação do expositor pelos livros

e, também, para evitar fatos desagradáveis, como citações de títulos esgotados, superados ou indesejá-

veis.

O expositor consciencioso formará sua biblioteca com paciência e carinho, observando antes a qualida-

de e proveito que a quantidade e a aparência. Cada obra que adquirir será lida, relida e comentada, com

calma e critério. Com o passar dos anos, os resultados se farão sentir naturalmente.

Caridade doVerbo

EXERCÍCIOS PARA O 2º PASSO:

1. Analise-se, atribuindo de zero (não) até 5 (sim) pontos, a cada pergunta abaixo:

a) Já leu todos os livros que possui?

b) Conhece o assunto de que tratam todas as Obras de Kardec?

c) Das cinco "obras básicas" de Kardec, dê um ponto para cada obra lida.

d) Participa, com proveito, de algum grupo espírita de estudos?

e) Estuda sempre, com antecedência, os temas do currículo?

f) Pelo menos uma vez por semana, em hora marcada, no ambiente doméstico, senta-se para estudar a doutrina?

g) Nos estudos e leituras que faz, aprecia mais as obras de estudo do que as romanceadas?

h) Costuma demorar para a leitura de uma obra inteira?

i) Considera tarefa perfeitamente exequível, diante de suas condições de vida, encontrar tempo para um estudo necessário?

j) Costuma sempre ler mais de uma vez, cada obra interessante?

k) Suas palestras são sempre preparadas?

l) Acha o improviso um método dispensável?

m) Considera as obras espíritas que dispõe suficientes para embasar uma boa e variada palestra?

n) Tem facilidade em manusear livros, localizando temas, sub-temas e ilustrações para suas palestras?

o) É capaz de sugerir, de memória, cinco localizações bibliográficas que versem o tema "Caridade"? (Dê um ponto para cada uma)

p) Atribua um ponto para cada uma das obras abaixo, cujo conteúdo conheça:

p.1) O Livro dos Espíritos (Kardec)

p.2) O Evangelho Segundo o Espiritismo (Kardec)

p.3) O Livro dos Médiuns (Kardec)

p.4) A Gênese (Kardec)

p.5) O Céu e o Inferno (Kardec)

p.6) O Consolador (Emmanuel/Chico Xavier)

p.7) Nosso Lar (Andre Luiz/Chico Xavier)

p.8) A Caminho da Luz (Emmanuel/Chico Xavier)

p.9) Emmanuel (Emmanuel/Chico Xavier)

p.10) Evolução em Dois Mundos (André Luiz/Chico/Waldo)

p.11) Problema do Ser, do Destino e da Dor (Léon Denis)

p.12) Voltei (Irmão Jacob/Chico Xavier)

p.13) Nos Domínios da Mediunidade (André Luiz/Chico Xavier)

p.14) Conduta Espírita (André Luiz/Waldo Vieira)

p.15) Estude e Viva (André Luiz-Emmanuel/Chico Xavier- Waldo)

Caridade doVerbo

p.16) Fonte Viva (Emmanuel/Chico Xavier)

p.17) Religião dos Espíritos (Emmanuel/Chico Xavier)

p.18) Libertação (André Luiz/Chico Xavier)

p.19) Recordações da Mediunidade (Ivonne Pereira)

p.20) Paulo e Estevão (Emmanuel/Chico Xavier)

p.21) Revista Espírita (Kardec)

p.22) Pensamento e Vida (Emmanuel/Chico Xavier)

p.23) Mecanismos da Mediunidade (André Luiz/Chico - Waldo)

p.24) Desobsessão (André Luiz/Chico - Waldo)

p.25) Sinal Verde (André Luiz/Chico Xavier)

OBS.: Some os pontos obtidos. O resultado dará, em termos percentuais, o nível aproximado de seu conhecimento da literatura espírita. Para se aperfeiçoar, detenha-se nos ítens cujas notas foram baixas e trabalhe por melhorar seu desempenho nos casos referentes a eles.

2. Exercícios de Pesquisa:

a) Escolha, aleatoriamente, dez números, de 001 a 180. Em seguida, vá ao índice de qualquer destas obras psicografadas por Chico Xavier: "Fonte Viva", "Caminho, Verdade e Vida", "Vinha de Luz", "Pão Nosso" ou "Palavras de Vida Eterna". Copie os títulos do índice, nos números escolhidos, numa folha de papel. Depois, escreva cinco linhas, no máximo, sobre o tema sugerido pelo título. Faça isso em todos os dez títulos escolhidos. Na sequência, leia os capítulos de Emmanuel e compa- re-os com seus escritos. Atribua zero se o assunto que abordar não for o mesmo de Emmanuel e de 1 a 5, se ocorrer o contrário.

b) No mesmo livro, abra “ao acaso” uma página qualquer, diferente das dez anteriores. Leia, rapida- mente o primeiro parágrafo e, de chofre, as primeiras palavras da cada parágrafo subsequente e, sem se deter, todo o último parágrafo. Feche o livro e escreva, numa folha de papel, o tema sugerido pela rápida leitura. Em seguida, leia detida mente o capítulo e verifique se percebeu corretamente o as- sunto comentado. Repita a experiência por dez vezes. A valie, de zero a cinco, seu desempenho em cada vez.

OBS.: Some os pontos obtidos. O resultado dará, em percentagem, sua capacidade de pesquisa rápida de qualquer tema, segundo o método sugerido pelo capítulo em referência. Se a nota geral ficou abaixo de 50 pontos, repita os exercícios, utilizando-se de outro livro, dos citados na questão 2.ª, até que obte- nha desempenho melhor.

ATENÇÃO: Ambos os exercícios acima não são propriamente do método de pesquisa, e sim, de per- cepção de temas através da olhadela rápida em páginas pesquisadas. Não devem, portanto, substituir o método, o qual poderá ser procedido com calma e vagar. O exercício citado apenas aumentará o nível de eficiência nesse trabalho.

c) Escolha cinco dos temas da lista que fez nos exercícios do 1º Passo (capítulo anterior) e exercite-se no método de pesquisa ensinado no capítulo que trata do 2º Passo. Faça-o com calma e buscando o pro- veito máximo.

Caridade doVerbo

3º PASSO: ESTUDAR AS PÁGINAS ESCOLHIDAS:

"Valorizemos, quanto possível, o

estudo humano, em louvor dos

experimentos, técnicas, profissões

ciências que glorificam a

civilização passageira; entretanto,

prestigiemos também, e seriamente,

o estudo abençoado da Doutrina

espírita, combatendo negligência e

dispersão, preguiça e desânimo,

destaque de superfície e esforço

deficitário, para que

possamos entender os Estatutos Divinos da

Criação Eterna, de cuja grandeza

todos participamos, sob as bênçãos

de Deus".

- DIVERSOS ESPÍRITOS 17 .

Definidos os textos que se relacionam com o tema, estará completo o mapeamento das minas, de onde extrairá o expositor as gemas com as quais enriquecera os seus ouvintes. Cada texto é um indicador precioso, uma fonte a ser explorada. E é a esta exploração que denominamos "estudo".

Antes, porém, de adentrarmos a questão das técnicas, é útil tecermos algumas considerações, visando dar à atividade do estudo um proveito maior.

a) ESTUDAR É PENSAR - Não apenas ler ou memorizar. Leitura que possibilite entendimento gene- ralizado, e memorização, a oferecer maiores condições à inteligência, são úteis, mas não bastam. Quando o Apóstolo Paulo orientou-nos a "ler de tudo e reter o que for bom" 18 adentrava o espírito do ato de estudar. Será preciso, mais do que entender ou reter palavras, analisar e criticar o texto, de maneira a separar o "joio do trigo", conforme ensinou Jesus 19 . Quem procura estudar, logo desco- bre que entendimento e memorização são consequências naturais do exercício da análise e da crítica de idéias, em relação ao texto. Paulo Freire, educador brasileiro, desaconselha a "educação bancá- ria", em que se "engolem" idéias, sem as "mastigar". Esse posicionamento, diante dos livros, é re- comendado pelo próprio Kardec, que preferia "repelir dez verdades, a admitir uma única falsidade, uma só teoria errônea" 20 .

b) TEMPO DISPONÍVEL - Há métodos mais rápidos, ou mais lentos. Em situação normal, apressa reduz o rendimento. Sabendo disso, o expositor dedicado irá agir com responsabilidade e zelo, esta- belecendo critérios que disciplinem seu procedimento, seja atribuindo mais tempo ao seu esforço de preparar, seja optando por métodos mais simples ou, ainda, assumido um número limitado de pa- lestras por mês. O essencial é que a suposta falta de tempo não prejudique o necessário dever de

17 DIVERSOS ESPIRITOS. Seareiros de Volta. Psicografia de Waldo Vieira. 2ª Ed. FEB 1969. Pg. 120.

18 I Tessalonicenses, 5:21.

19 Referência à parábola do joio e do trigo, in Mateus, 13:20-30.

20 KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. 49ª Ed. FEB. Cap. XX, item: 230. pg. 283.

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preparar . Para isso, recomenda-se estabelecer um horário fixo, periódico, para a preparação das palestras, e cumpri-lo, rigorosamente.

c) FIDELIDADE A KARDEC - O embasamento doutrinário na Codificação é pressuposto de tal rele- vância que deve ser considerado regra de método. Sem o respaldo das Obras Básicas, a exposição se enquadrará na célebre alegoria com a qual Jesus encerrou o seu Sermão da Montanha: a de uma casa edificada sobre a areia, sujeita a desabar, ao sopro das tempestades.

Feitas estas recomendações, passemos às técnicas.

FOLHA DAS IDÉIAS

Antes de iniciar o estudo dos textos, o expositor deve tomar de uma folha avulsa de papel, destinada a anotações, visando já a estruturação da palestra. Será ela a “folha das idéias”. A' medida em que os textos são estudados, conforme uma ou mais das técnicas abaixo, o expositor recolherá as idéias que julgue provavelmente proveitosas, ou seja, que poderão servir, para o desenvolvimento da palestra.

Deve-se, nesse ponto, tomar o cuidado de não escrever demasiadamente na "folha das idéias". Para isso, o expositor precisa fazer exata diferença entre IDÉIA e PALAVRA. Essa diferenciação, inclusive, será útil o tempo todo, daqui para diante, no esforço de preparar.

Idéia é espírito; palavra é corpo. Idéia é energia; palavra é o fio que a transporta. Idéia é pensamento; palavra é sinal gráfico, é articulação vocal. Quando se recomenda "anotar idéias", fala-se em "encarná- las" no mínimo de palavras possível. Carlos Drummond de Andrade, O famoso poeta, dizia que "escre- ver é cortar palavras", expressando, assim, o segredo da síntese.

Na "folha das idéias", portanlo, busque as palavras exatas que indiquem a idéia a ser lembrada ao prati- carmos o 5º Passo. Evite frases inteiras, a não ser as indispensáveis. Em seguida, anote, abreviadamen- te, o endereço bibliográfico da idéia, para eventual consulta posterior. Isso, repetimos, deverá ser feito durante o estudo de cada texto, não importa qual das técnicas de leitura esteja sendo praticada.

TÉCNICAS DE LEITURA

Recomendando-se sempre de que "estudar é pensar"; com a visão do tempo disponível; atento à fideli- dade doutrinária; e de posse dos textos pesquisados e da "folha das idéias", o expositor ater-se-á ao conteúdo dos textos. Estudar, aqui, significa compreender para sintetizar o pensamento útil dos autores.

Há quatro técnicas básicas de leitura, as quais podem ser utilizadas em sequência ou separadamente, conforme a conveniência do expositor:

a) TÉCNICA DA LEITURA REPETIDA: Leia diversas vezes e com atenção cada texto, até certificar- sc de que apreendeu o(s) pensamento(s) do autor. Anote, numa folha de papel, as idéias que julgar interessantes e/ou proveitosas para o discurso.

b) TÉCNICA DA LEITURA SUBLINHADA: Procede-se a uma leitura inicial, atenciosa, porém des- contraída, visando perceber o sentido global do texto. Em seguida, faz-se uma segunda leitura, desta vez sublinhando as palavras e frases consideradas "chaves" do texto, ou seja, que resumam em si o pensamento expressado em cada parágrafo. Feito isso, será fácil retornar à leitura, selecionando os assuntos para a exposição, e os anotando em folha à parte. Se o candidato a expositor tiver dificul- dades em praticar este método, não sabendo identificar bem as "palavras-chaves", ou ignorando o que se deve ou não sublinhar num texto, recorra aos exercícios no final deste capítulo.

c) TÉCNICA DA LEITURA COM RESUMO: Apreendido o sentido global e conhecendo as idéias desenvolvidas pelo texto, faz-se um resumo, de onde, depois, poderão ser retirados os pontos apro- veitáveis para a palestra. Este método pode ser aplicado como complemento de qualquer dos anteri- ores.

Caridade doVerbo

d)

TÉCNICA DA LEITLRA COMENTADA: Com papel e lápis à mão, fará o leitor a reurada das principais opiniões do autor e as comentará, citando outros textos e acrescentando idéias aos pen- samentos em estudo. Em seguida, extrai-se o conteúdo de que necessita para preparar a exposicão.

A

arte de tecer comentários não é das mais simples. Apesar disso, o expositor necessita exercitar-se nela

o

quanto puder, vez que falar em público não será fazer outra coisa, que não comentar. Explicar, definir,

reiterar e tirar conclusões representam partes didáticas desse oficio. E tanto isso é verdade que o feste- jado diciotiafista Aurélio Buarque de Hollanda Ferreira conceitua comentar como "falar sobre, conver-

sar acerca de”.

Neste capítulo, apenas fazemos uma diferenciação, para facilitar o entendimento. Expor, ou palestrar, será comentar um tema ou assunto, conforme depreende-se do capítulo anterior. Comentar, no sentido exato como pretendemos neste ítem, significa analisar, interpretar, criticar e concluir sobre um texto em exame. Essa separação é puramente didática e apenas procura evitar generalizações que resultariam confusas e sem proveito.

Em Doutrina Espírita, um dos vícios menos recomendáveis e mais perigosos, no exercício da análise de seus textos, são as idéias próprias, o germe do personalismo.

Se o Espiritismo não é dogmático e todos estão guindados ao dever de raciocinar, nem por isso poderá o corpo doutrinário permanecer sujeito aos pontos de vista dos principiantes que mal o conhecem com profundidade. Destarte, todo cuidado é pouco com as idéias pessoais.

Feita essa ressalva, comentar os textos em estudo será como dialogar com o autor, exercitando o pen-

samento e interiorizando a lição, o que tornará bem mais fácil a tarefa de expor e, mesmo, de vivenciar

os ensinamentos aprendidos.

EXEMPLO PRÁTICO

Em Espiritismo, o edifício da convicção é algo admirável, porque toda a sua construção se baseia no alicerce da lógica.

A certeza da sobrevivência. no clima da experimentação científica, assegura a fé racionada que dúvidas

não carcomem.

A criatura, favorecida por semelhante conhecimento, não ignora que os Espíritos desencarnados se ma-

terializam, que se comunicam na Terra, que a vida se derrama eterna e infinita por outros mundos, que a alma reencama miríades de vezes buscando o aperfeiçoamento, que a justiça determina seja dado a cada um na pauta das obras que efetue, que a mediunidade permanece no campo da mente por fonte de re- cursos quase inimagináveis

Entretanto, isso é o domicílio da convicção, gerando o problema do rendimento.

De que valeria um palácio construído para um homem viciado e egoísta, se ele continuasse viciado e egoísta ? Que merecimento atribuir à máquina estruturada para o bem, se o dono a conserva no desvio da inutilidade ?

Intervém, nesse ponto, a Doutrina Espírita como sendo a legislação necessária à ordem e ao trabalho, à evolução e ao aprimoramento, no Estado da Consciência.

É

assim que, na condição de espíritas sobre a Terra, nos são facultados o êxtase à frente das revelações,

o

júbilo diante das concessões do Alto, a honra de falar a verdade perante auditórios atentos e a satisfa-

ção de praticar o intercâmbio espiritual pelo exercício das faculdades mediúnicas, porém, se essas mani-

festações não se orientam pelos princípios de regeneração pessoal que esposamos nos compromissos de reforma íntima, tanto será possível agirmos para o bem como para o mal.

Por isso mesmo, se nos afeiçoamos ao trato com a verdade, é muito fácil reconhecer que há aconteci- mentos de fundo espírita, conversas de feição espírita, referências de caráter espírita, e realizações de inspiração espírita, mas o de que necessitamos, sobretudo, é de orientacão espírita no sentimento e na

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experiência individual, de conformidade com o Espiritismo, porque o espírita que aceitou a supervisão do Cristo já não pode agir como quer e, sim, agir como deve querer.

(Transcrição "Seareiros de Volta", pág. 112 - "Estado da Consciência")

Resumo:

No Espiritismo, a convicção se baseia na lógica. As dúvidas não carcomem a fé raciocinada. A criatura com esse conhecimento não ignora as realidades espirituais.

Mas, em convicção, há o problema do rendimento. De que servem o palácio e a máquina, se o homem

se mantém egoísta ou inútil? A Doutrina é legislação para a ordem e o trabalho, no Estado da Consciên- cia. Os benefícios gerados pelo Espiritismo devem nos orientar à reforma íntima.

Necessitamos, assim, de orientação espírita no sentimento e na experiência individual. O espírita não pode agir como quer, e sim, como deve querer.

Comentário:

A razão é, como já demonstrara Kardec, a base da fé espírita. Em Espiritismo, os métodos da investiga-

ção científica e do pensamento filosófico não podem ser desprezados. As conclusões de Espiritismo devem sempre ter base na lógica, para que não nos percamos no dogmatismo.

Contudo, a fé raciocinada deve ser, também, fé operante (vide Emmanuel, in Fonte Viva, Cap. 139). Fé

trabalhadora, fé exemplificadora e, sobretudo, fé transformadora de nossa realidade interior. A razão da

se confirma com a fé na razão, a manifestar-se através da prática na vida. Reforma íntima, por tanto.

O

Espiritismo orienta, mas são nossos próprios pés os agentes da caminhada.

Á

Luz do Espiritismo, modular sentimento e experiência, para que a construção íntima, baseada na ra-

zão, se faça bela e forte, à maneira da casa construída sobre a rocha.

OBSERVAÇÃO IMPORTANTE: Em momento algum, pretenda superar, de chofre, a sequência das técnicas. Repita cada exercício quantas vezes se fizerem necessárias. Seja sincero consigo mesmo e tenha a paciência que seu aprendizado requerer, não passando ao próximo sem haver realmente domi- nado o anterior. Isso poderá exigir mais tempo, mas o proveito repercutirá no futuro, tornando a tarefa de estudar cada vez mais prazeirosa e menos árdua.

SUGESTÕES PRÁTICAS PARA SE ESTUDAR 21

a) COMO ESTUDAR VERSÍCULOS.

Os versículos do Evangelho são como flores, embelezando e formando a frondosa árvore dos ensinos de Jesus. E, como tal, podem ser admirados e estudados tanto como integrantes da ramagem secular, como separados dela.

Ou seja, podemos entendê-lo no conjunto, dentro da situação prática em que está colocado, ou separa- damente, a partir do conteúdo próprio que encerra. Assim, sugerimos o seguinte roteiro:

a.l) Apreenda-o no contexto em que está colocado. Verifique a circunstância, o tempo, o lugar em que foi dito. Avalie a posição de quem o disse, e por que o fez.

a.2) Compreenda-o em seu conteúdo particular. Se facilitar, divida-o em partes, examinando em segui- da o propósito de cada uma.

21 Obra simples e excelente acerca de métodos e aproveitamento em leitura e estudo é “Por que Lemos Mal e Como Ler e Estudar Melhor”, de Eli Rozendo dos Santos publicação da Editora Tecnoprint (Cx. P. 1880-Rio). sob o n° CR-8601.

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a.3) Recorra às obras doutrinárias que o comentam, enriquecendo as interpretações.

EXEMPLO: Observemos o versículo 15, do capítulo 10, de Atos dos Apóstolos. "Pela segunda vez a voz lhe falou: Não faças tu Comum o que Deus purificou".

a.l) Em seu contexto, o versículo se refere ao costume judaico que proibia as relações entre hebreus e gentios. Um centurião romano, integrame da corte italiana, chamado Cornélio teve uma visão, em que um anjo lhe ordenou que mandasse mensageiros a Jope, a fim de convocar Simão Pedro à sua presença. Enquanto os mensageiros se encaminhavam. Pedro, em Jope, subira a um monte, a fim de orar, en- quanto lhe preparavam o alimento, pois tinha fome. Nesse instante, "sobreveio-lhe um êxtase": viu um grande lençol baixando dos céus à terra, contendo toda sorte de quadrúpedes, répteis e aves. Uma voz lhe disse: Levanta-te, Pedro: mata e come. Ao que a Apóstolo replicou: "De modo nenhum, Senhor, por que jamais comi cousa alguma comum e imunda". E a voz, pela segunda vez, replicou: "Não faças tu comum o que Deus purificou" (o versículo em estudo). Isso ocorreu três vezes. Enquanto Pedro estava perplexo, sem compreender a significado da visão, chegam os enviados de Cornélio. Sem demora, no dia seguinte Pedro parte com eles rumo a Cesaréia. encontrando-se com o centurião e, antes de contar- lhe o ocorrido, comenta: "Vós bem sabeis que é proibido a um judeu ajuntar-se ou mesmo aproximar-se de alguém de outra raça; mas Deus me demonstrou que a nenhum homem considerasse comum ou imundo".

A partir do contexto, esse versículo é fundamento para excelente palestra acerca do tema: "Deus não faz

acepção de pessoas".

a.2) Em seu conteúdo particular, deter-nos-emos nas palavras: "Não faças tu comum o que Deus purifi- cou", e aprenderemos com Emmanuel, no capítulo 23 de "Fonte Viva", psicografado por Chico Xavier. Leiamos o resumo abaixo, dessa página:

"Existem expressões no Evangelho que, à maneira de flores a se salientarem num ramo divino, devem ser retiradas do conjunto para que nos deslumbremos ante o seu brilho e perfume peculiares.

"A voz celeste, que se dirige a Simão Pedro, nos Atos, abrange horizontes muito mais vastos que o pro- blema individual do apóstolo.

"O homem comum está rodeado de glórias na Terra, entretanto, considera-se um campo de vulgarida- des, incapaz de valorizar as riquezas que o cercam.

"Cego diante do espetáculo soberbo da vida que lhe emoldura o desenvolvimento, tripudia sobre as pre- ciosidades do mundo, sem meditar no paciente esforço dos séculos que a Sabedoria Infinita utilizou no

aperfeiçoamento e na seleção dos valores que o rodeiam. (

"A razão é luz gradativa, diante do sublime.

"Não te esqueças, meu irmão, de que o Senhor te situou a experiência terrestre num verdadeiro paraíso, onde a semente minúscula retribui na média do infinito por um e onde águas e flores, solo e atmosfera

te convidam a produzir, em favor da multiplicação dos Tesouros Eternos.

"Cada dia, louva o Senhor, que te agraciou com as oportunidades valiosas e com os dons divinos

"Pensa, estuda, trabalha e serve.

"Não suponhas comum o que Deus purificou e engrandeceu".

a.3) Além da citada página, de Fonte Viva, salientamos, em "O Evangelho Segundo o Espiritismo", de Allan Kardec, os ítens 8 a 10 do capítulo XXIV, entitulado "Não vades ter com os gentios", no qual o Codificador analisa as seguintes palavras de Jesus: "Não procureis os gentios e não entreis nas cidades do samaritanos. Ide, antes, em busca das ovelhas perdidas da casa de Israel, e, nos lugares onde fordes,

)

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pregai, dizendo que o Reino dos Céus está próximo" 22 . Estes versículos estão em aparente contradição aos do livro dos Atos, e pode ser motivo de excelente análise, em palestra.

b) COMO ABORDAR COM CRIATIVIDADE E VERSATILIDADE:

Há temas conhecidos e cansativamente comentados, para os quais o expositor não poderá dispensar criatividade e versatilidade, do contrário sua palestra será desinteressante e repetitiva. Muitos exposito- res trazem essa aptidão por dom, mas, na medida em que sabemos ser o dom uma conquista reencarna- tória, existem medidas práticas que podem ser sugeridas, a fim de que o orador iniciante o desenvolva através do exercício:

b.1) PROCURE TEXTOS POUCO LEMBRADOS, OU INÉDITOS, PARA CITAÇÕES. EXEMPLO:

"O amor" é, sem dúvida, tema fundamental, mas excessivamente generalizado e extenso e, como abran- ge a essência de qualquer assunto que venhamos a pregar, nada mais fácil do que, em plena palestra, enfeixarmo-nos em citações já cansativamente recitadas, com "Amar a Deus acima de todas as coisas, e ao próximo como a si mesmo", etc. Pode-se, de preferência, citar a Primeira Epístola de João, capítulo 2 e, versículos 7 e seguintes: "Amados, amemo-nos uns aos outros, porque o amor procede de Deus e todo aquele que ama é nascido de Deus, e conhece a Deus. Aquele que não ama, não conhece a Deus, pois Deus é amor". A partir daí, exploraremos a riqueza desses ensinos, estabelecendo o amor como caminho único para o conhecimento e a compreensão da vida e da Divindade.

b.2) NOS COMENTÁRIOS SOBRE TEMAS COMUNS, BUSOUE ENSINOS NOVOS. EXEMPLOS:

Ao estudarmos o carinhoso convite do Divino Mestre: "Vinde a mim todos vós que estais aflitos e so- brecarregados, que eu vos aliviarei" 23 , poderemos comentar: "Há dois tipos de sofredores, de acordo com a luminosa palavra de Jesus - os aflitos e os sobrecarregados. Aflitos, são os que sofrem espiritu- almente (dores morais, decepções, tristeza, angústia, etc.); e sobrecarregados, os que sofrem material- mente (dores físicas, doenças, pobreza, aleijumes, etc.) A ambos Jesus convida ao seu regaço de con- solo e felicidade.

b.3) TRAGA OS ENSINAMENTOS PARA SITUAÇÕES PRÁTICAS E OBJETIVAS. EXEMPLO: A caridade pode ser praticada nos menores gestos. Um abraço, um aperto de mão, uma frase otimista, etc.

b.4) CITE EPISÓDIOS DA VIDA DE HOMENS ILUSTRES, OUE EXEMPLIFIQUEM O ENSINO COMENTADO. EXEMPLO: Para uma exposição a respeito da morte, excelente narrativa é a morte de Sócrates, contada por Platão em seu diálogo "Fédon". O grande filósofo desencarnou vivenciando de maneira impressionante suas idéias a respeito da imortalidade da alma e da sobrevivência após o corpo, pontos de vista que se enquadram de forma magnífica com os postulados espíritas.

b.5) ADICIONE AOS COMENTÁRIOS HISTÓRIAS, LENDAS, FATOS HISTÓRICOS. EXEMPLO:

Emmanuel, numa página entitulada "Meditemos" 24 , comentando a existência de Deus, cita a Segunda Grande Guerra de modo interessante e envolvente. Outro autor que se vale com êxito deste instrumento é Humberto de Campos (Irmão X), em seus livros, os quais, inclusive, são ótima fonte de informações para o expositor ilustrar sua palestra.

OBSERVAÇÃO: Não procure ser criativo e versátil o tempo todo. Você poderá cansar a platéia ou, pior ainda, destoar da Doutrina, pelo exagero na busca de novidades. Toda a criatividade do mundo não vale a despropositada fuga da fidelidade doutrinária imprescindível. Todo cuidado é pouco, com as idéias próprias.

22 Mateus, 10:5-7.

23 Mateus, 11:28-30.

24 EMMANUEL, Religião dos Espíritos. Psicografia de Francisco Cândido Xavier. 3ª Ed. FEB, 1974. Pg. 175.

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c) O PROBLEMA DA MEMORIZAÇÃO:

A memória é um dispositivo mental muito importante e que se desenvolve pelo exercício. Porém, não representa o principal fator para o êxito no estudo. O aprendizado proveitoso não é feito por quem lê muito ou grava com facilidade, e sim por aquele que compreende e pensa. Em Roma, Catão, o Velho, afirmava aos candidatos a orador: "Domina o tema, e as palavras brotarão por si próprias". Em caso de citações e poemas, nos quais é precípua a fidelidade às palavras, do autor, não há mal algum em o expo- sitor levar uma folha ou ficha com as anotações, e lê-las, no instante dá preleção.

d) NÃO LEIA "VOCALIZANDO":

Vocalizar é "ler com os lábios", imperfeição técnica de leitura que prejudica a concentração e a rapidez do estudo. Contra esse defeito, aconselha Robert M. Bear, citado por João de Oliveira Filho 25 :

"1. Leia em silêncio durante cinco minutos. Conte depois as palavras lidas, e divida-as por cinco. Se o resultado não for pelo menos 175, ter-se-á lido palavra por palavra.

"2. Peça a um amigo que repare nos seus lábios, enquanto lê silenciosamente; os que leem cada palavra em separado acompanham muitas vezes a leitura com um movimento de lábios;

"3. Leia em silêncio, colocando as pontas dos dedos sobre o pescoço, à altura das cordas vocais. Se as sentir vibrar, isso significa que as cordas estarão formando as palavras na sua garganta.

"Para corrigir esses hábitos, esforçe-se por manter os lábios bem fechados, e afrouxar as cordas vocais.

Se as sentir vibrar, isso significa que as cordas estarão formando as palavras em sua garganta. Isso de soletrar corr as cordas vocais tende também a desaparecer, quando lê mais rapidamente, porque não há tempo, então, para soletrar.

c) EM TUDO, BUSQUE A SÍNTESE

"A síntese é a alma da verdade. Prolixidade não significa lógica" 26 . Ao anotar, faça-o sempre com o mínimo de palavras. Ao escrever, faça-o como se telegrafasse. Verifique se cada vocábulo tem semido especifico e utilidade certificada, ante as idéias a serem expressas. Suprima adjetivos, economize subs- tantivos e verbos, evite floreios. Prefira as frases curtas e diretas. Entre os encarnados, observe o estilo de Graciliano Ramos. Entre os desencarnados, faça o mesmo com Emmanuel e André Luiz, sobretudo nos pequenos textos.

25 OLI\'EIRA Fº João. de. (Opus Cit) pg 37 26 Palavras do Espírito Joaquim Pedro d’Oliveira Martins in Palavras do Infinito, de Humberto de Campos, através de Frar- cisco Cândido Xavier. 5ª Ed. Núcleo Espírita Caminheiros do Bem, 1978. Pg. 82.

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EXERCÍCIOS PARA O 3º PASSO:

1. Tome dois ou três livros de capítulos relativamente curtos (até três páginas cada) e abra-os, aleatori-

amente, utilizando-se, em cada um, do método da leitura repetida.

Pegue uma folha, de papel em branco e divida-a em cinco partes. Faça a primeira leitura do capítulo escolhido, em seguida, anote na 1ª divisão as idéias percebidas. Faça uma 2ª leitura e anote na 2ª divi- são. E, assim, consecutivamente, sem repetir as idéias.

2. Tome uma das pesquisas iniciadas na reposta à questão 3, dos exercícios do capítulo anterior, e faça

o mesmo, tendo, contudo, o cuidado de apenas escrever idéias relacionadas ao tema da palestra. Utilize- se da mesma folha de papel para os diversos livros e capítulos pesquisados.

OBSERVAÇÃO: Quanto maior for a quantidade dos assuntos nas primeiras divisões, mais rápida e facilmente está sendo sua leitura. Se os assuntos de maior interesse e em maior quantidade vierem nas últimas divisões, é sinal de que necessita ler com maior atenção, a cada vez.

3. SE ENFRENTA DIFICULDADES COM O MÉTODO DE SUBLINHAMENTO. Escolha textos

diversos e proceda conforme o enunciado:

3.a) Sublinhe TODOS os substantivos.

3.b) Circule os PRINCIPAIS (Aqueles que considera imprescindíveis para enunciar a idéia do autor).

3.c) Sublinhe TODOS os verbos.

3.d) Circule os PRINCIPAIS (com atenção aos que se liguem aos substantivos circulados).

3.e) Circule as principais palavras ainda não marcadas, independente da função gramatical (as que completem o sentido dos verbos e substantivos circulados).

3.f) Copie, numa folha de papel, as palavras circuladas. Coloque um hífen entre as que estiverem sepa- radas no texto; dê, nesta cópia, uma linha para cada idéia enunciada.

3.g) Elimine as palavras que puder, desde que não prejudique o entendimento das idéias (palavras inú- teis ou ideias repetitivas).

3.h) Complete aquelas cujo sentido está obscuro.

3.i) Escreva, a partir da cópia,um resumo.

3.j) Repita esta técnica, até dominar o método.

3.k) Ao sentir que já o domina, dispense o processo de sublinhar e circular, passando somente a subli- nhar o principal.

Nessa fase, você já estará prático na identificação da "palavras-chaves".

3.l) Superando as dificuldades, dispense a cópia. Passe a resumir diretamente do sublinhado no texto.

3.m) Com o tempo, poderá ou não dei.xar de resumir, conforme o método de estudo que preferir, entre os quatro sugeridos no 3º Passo.

4. Tome um livro de Emmanuel em que ele comente textos de versículos ou das obras básicas e exercite

assim:

4.a) Leia o versículo, sem ler o capítulo de Emmanuel.

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4.b) Copie o versículo, numa folha em branco, e escreva uma página, comentando-o, a partir do conhe- cimento que tem.

4.c) Compare sua página à de Emmanuel, analisando-se em todos os sentidos (conteúdo, capacidade de síntese, correção gramatical, vocabulário, etc.).

4.d) Faça isso sempre. Se preferir, estude metodicamente, com esse método, os livros de comentários, como Fonte Viva, Caminho, Verdade e Vida, etc., fazendo do exercicio da escrita e do comentário um eficiente meio de aprender os postulados espíritas.

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4º PASSO: FORMULAR A IDÉIA-MÃE

“Não morre a idéia pura! Ei-la

no firmamento! ”

- DURVAL DE MORAIS/WALDO VIEIRA *

O expositor, ao chegar a este ponto da preparação, terá certamente diante de si uma razoável quantidade de anotações, selecionadas de modo desordenado, extraídas dos textos pesquisa dos e estudados. É a matéria bruta, recém saída da mina de extração. Contém imenso valor, porém carece de burilamento e organização. Este, o nosso próximo trabalho.

Não se cria, contudo, ordem sem diretriz. As idéias, para servirem com eficácia à palestra, demandam ser dispostas em sequência e de modo coerente. Precisam, enfim, ter entre si algo em comum, para que possam "se amarrar" umas às outras, e, sobretudo, formar um conjunto que aponte para um objetivo claro e definido.

A definição desse objetivo é proporcionado pela idéia-mãe, que será o critério fundamcntal a nortear o expositor a respeito do que lhe serve ou não, dentre os assuntos coletados durante os primeiros passos da preparacão. Aliás, alguns oradores mais experimentados penetram a pesquisa e o estudo já com a idéia-mãe definida, ou semidefinida, para que se obtenha um melhor rendimento, no esforço seletivo de textos, assuntos e apontamentos. Transformar este quarto passo no primeiro, no segundo ou no terceiro, é de livre escolha do expositor. Entretanto, não é possível ultrapassar deste ponto sem a exata precisão da idéia-mãe que norteará a palestra.

CONCEITO

IDÉIA-MÃE é um pensamento único, expresso numa frase simples, clara e, se possível, direta, e que resuma a essência do que se quer provar ou demonstrar através da palestra inteira. Em torno dela e/ou em direção a ela se encaminharão todos os assuntos e ilustrações.

Os adjetivos grifados acima não comparecem por acaso. Expliquemo-los:

! "pensamento único" - Não há lugar para duas "idéias-mães" na mesma palestra. O alvo deve ser um só.

! "frase simples" - Ou, sem rebuscamentos ou adjetivações. A idéia-mãe não precisa nem mesmo ser "bonita".

!

clara" - Há, para esse caso, uma fórmula simples: frase clara é a que pode ser compreen-

"frase (

)

dida numa primeira e única leitura. Mais uma razão para ser simples.

se possível, direta" - A frase direta é aquela que se compõe de sujeito-verbo comple-

mento. Um exemplo: “João comeu a maçã”. Em caso de se compor de outro modo, verifique-se se

se mantém a unicidade do pensamento e a simplicidade e a clareza de expressão.

! "frase (

)

IMPORTANTE: A idéia-mãe não deve ser confundida com o tema, que é o assunto da palestra. A idéia-mãe é a definição, objetivo específico dentro do tema. Um único tema pode ter várias idéias-mães; aliás, tantas quantas forem as abordagens possíveis a este tema. E justamente isso que torma diversas exposições sobre o mesmo assunto serem estranhas umas às outras e, por vezes, até opostas. Eis um dos segredos da versatilidade, de que falamos, ao definir eloquência. Ilustremos, exemplificando:

TEMA: Obsessão

* MORAIS. Durval Borges de Antologia dos Imortais Psicografia de Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira 2ª Ed Feb Pàg 246

Caridade doVerbo

1ª SUGESTÃO DE PALESTRA

Idéia-Mãe: "A cura da obsessão está ligada à evangelização do obsidiado"

Sugestão de assuntos: Pode-se falar sobre: os processos de sintonia, em que obsessor e obsidiado se afinizam através de ondas mentais de mesmo teor; o espaço mental concedido pelo encarnado para idéi- as infelizes favorece o processo obsessivo; o estudo edificante, a prática do bem e oração mudam a fre- quência vibratória das ondas mentais e proporcionam a libertação do processo obsessivo

2ª SUGESTÃO DE PALESTRA

Idéia-Mãe: "O obsessor é um irmão desencamado em desequili'brio, a quem devemos auxiliar"

Sugestão de assuntos: Pode-se falar sobre: os dramas aflitivos de existências anteriores, nas quais a vítima não consegue perdoar e se transforma em algoz no Plano Espiritual; a triste condição espiritual de quem se vinga; odiar os obsessores é responder, de novo, ao mal com o mal; a oração e o nosso es- forço em melhorar podem sensibilizá-lo e, então, o ódio se converte em perdão e fraternidade

3ª SUGESTÃO DE PALESTRA

Idéia-Mãe: "Nós somos os causadores das obsessões que nos vitimam

Sugestão de assuntos: Pode-se falar sobre: o costume, inclusive em Centros, de se culpar os obsessores e as aflições da vida pelos desequilíbrios espirituais; a lei da responsabiíidade individual, pela qual Deus nos entregou o comando pleno de nós mesmos, desde o desenvolvimento da razão; é sinal de pro- gresso o assumirmos os próprios problemas; se mudarmos o nosso padrão mental, a obsessão não so- brevive

Caridade doVerbo

5º PASSO: ESBOÇAR E ESCREVER A PALESTRA:

"Na tarefa de explicação dos princípios espíritas

para a mente popular, medita na

importância do seviço que a

Providência Divina te confiou".

- EMMANUEL 27 .

Se o expositor cumpriu bem o terceiro passo, terá diante de si uma folha - talvez extensa - de anotações sintéticas, as quais reúnem todos os textos pesquisados e estudados, e todas as idéias, coletadas. O 5º Passo será selecionar, e ordenar as idéias, interessado, neste ponto, em esquematizar, com clareza, sim- plicidade e coerência, a palestra que proferirá.

Essa fase tem duas partes:

1º - ESBOÇAR:

Concatenar, de maneira lógica e coerente, as idéias selecionadas, de acordo com os tipos de introdução, corpo e conclusão, conforme veremos adiante, neste capítulo. O esboço simplifica a coordenação das idéias e, em fichas apropriadas, pode ser excelente recurso de socorro no momento da palestra, além de servir igualmente para possibilitar repetições da mesma exposição e análise posterior do trabalho des- envolvido.

2º - ESCREVER:

Entre as práticas mais difíceis para o orador, está a de harmonizar os diversos assuntos da palestra, fa- zendo com que sigam naturalmente, como um riacho tranquilo, que serpenteia entre as pedras sem in- terrupções. Ora, escrever a palestra esboçada é uma das melhores maneiras de facilitar essa tarefa, além de desenvolver no orador a memorização profunda da sequência organizada e de, igualmente, aperfei- çoá-lo no manejo da língua, do vocabulário e da gramática, tornando-o, quiçá, um escritor ou comenta- rista de proveito nas questões doutrinárias. Um aspecto importante, entretanto, é o expositor não pre- tender fazer a leitura ou a recitação memorizada da palestra escrita. Esta será uma base sólida, a partir da qual, falará espontaneamente o tema previsto.

COMO ESTRUTURAR A EXPOSIÇÃO

Para que haja coerência, é necessário, como afirma o dito popular, que "um assunto puxe o outro”. E isso, sem que o expositor fuja do tema da palestra. Sem aquela qualidade, não haverá sequência: sem esta última} não existirá lógica. Ambas denunciarão dispersão de idéias e poderão confundir a platéia.

Assim, é indispensável que:

1º - A exposição siga o tema, a partir de uma "idéia-mãe", ou seja, a mensagem principal do expositor, em relação ao tema. Por exemplo: Se o tema for "Mediunidade". Idéia-mãe: "Bom médium é o que bus- ca seguir o Evangelho, e não o que produz fenômenos extraordinários, sem os princípios de Jesus".(Vide capítulo anterior).

2º - Os assuntos ou "sub-temas" da palestra estejam interligados. Como esse trabalho nem sempre é fácil, aconselha Herculano Gouvêa Jr. o "princípio da associação de idéias" 28 . Desse modo, o orador poderá agrupar as idéias, utilizando-se de uma ou mais das “leis de associação":

27 EMMANUEL. Encontro Marcado. Psicografia de Francisco Cândido Xavier. 1ª Ed. FEB. 1967. Cap. 37.

28 GOUVEA JR. Rev. Prof, Herculano, Lições de Retórica Sagrada, Ed Maratona. 1974. Pg. 17.

Caridade doVerbo

a) SIMULTANEIDADE - Fatos ou idéias surgidas na mesma época. EXEMPLO: "E, enquanto Allan Kardec desencarnava, na França, surgia no Brasil as primeiras experiências mediúnicas, que dariam surgimento ao Espiritismo na Pátria do Evangelho".

b) CONTINUIDADE - Fatos ou idéias que se sucedem, cronológica ou geograficamente. EXEMPLO:

"Ao Cristo, sucederam os Apóstolos. Se ao Mestre devemos o Exemplo Divino, aos discípulos aprendemos o esforço humano na direção de Deus".

c) SEMELHANÇA- Fatos ou idéias cujo conteúdo se assemelham e, por isso, são dispostos por analo- gia. EXEMPLO: "E, ao falarmos do Amor - o sentimento por excelência -, lembramo-nos da Cari- dade - o amor posto em prática".

d) ANTÍTESE - Fatos ou idéias que se contradigam, sendo, destarte, superpostos por contraste. EXEMPLO: "E, ao nos referirmos ao ódio, esse fruto apodrecido do egoísmo e da imperfeição hu- mana, entendemos a necessidade do amor o qual, conforme afirmou o Mahatma Gandhi, pode, quando atinge a plenitude em um único homem, "neutralizar o ódio de milhões".

e) CAUSALIDADE - Fatos ou idéias que se sucedem, numa relação de causa e efeito. EXEMPLO:

"Foi o trabalho humilde do Mestre Divino, nas cercanias da Galiléias longínqua, que criou a revolu- ção espiritual que até hoje atua no mundo. Somos todos filhos do impulso primeiro, procedido de Jesus, e, se o seguirmos, a Humanidade terminará por regenerar-se, criando a felicidade verdadeira, para a qual fomos criados".

No exercício dessas sugestões, o expositor ganhará a experiência necessária para aprimorar-se.

ESTRUTURA DA EXPOSIÇÃO

Independentemente do tema e do arranjo dos assuntos ou sub-temas, toda exposição precisa estar es- truturada em suas PARTES FUNDAMENTAlS. Aristóteles 29 considerou-as duas: afirmação e prova, ou seja, o palestrante enuncia e, em seguida, demonstra que seu enunciado é verdadeiro, Marques de Olivcira 30 e João de Oliveira Filho 31 , porém, determinam quatro: exórdio (introdução), afirmação, prova, e peroração (conclusão). Já Herculano Gouvêa Jr o 32 divide o sermão em cinco partes: exór- dio, explicação, tema, argumentação e conclusão. Aproveitando-nos de todas, e concedendo um to- que espírita de simplicidade, recomendamos que o expositor pense sua palestra em três partes:

a) INTRODUÇÃO OU EXÓRDIO:

A primeira tarefa do expositor é despertar na assistência uma atenção instantânea, suscitando o interesse imediato. As primeiras palavras devem ser expressivas. E preciso dizer algo que prenda a atenção. In- trodução quer dizer "Conduzir para dentro" do assunto da palestra. Não deve, portanto, divagar ou con- fundir, e sim ser dita com confiança e calma, sem meios termos, adentrando efetivamente o tema. Cíce- ro emprestou tanta importância ao exórdio que recomendava não compô-lo em primeiro lugar, na pre- paração.

Há vários tipos de introdução:

POR FATO HISTÓRICO - Iniciar chamando a atenção para um fato histórico que conduza diretamente ao tema, narrando-o com concisão. EXEMPLO: A morte de Sócrates, narrada por Platão 33 , pode ser

29 ARISTÓTELES. Arte Retórica e Poética. Coleção Universidade. Ed Tecnoprint. Livro Terceiro. Cap. XIII. Pg. 246.

30 OLIVEIRA. Marques de. Como vencer falando. Edições de Ouro Tecnoprint Parte 3. Pg. 65.

31 OLIVEIRA Fº . João de. (Opus Cit) Pg. 67

32 GOUVEA JR. Rev Prof. Herculano. (Opus Cit) Pg. 25

33 A narrativa encontra-se no “Fédon” um dos mais populares diálogos de Platão, em que se vê com clareza meridiana as idéias praticamente espíritas de Sócrates, acerca da morte.

Caridade doVerbo

excelente introdução desse tipo, quando o tema for "imortalidade" ou "morte", e é claro, se narrada com

a brevidade possível.

POR CONTO OU FÁBULA - Apelando para a imaginação, começar com uma fábula ou conto, conhe- cido ou não, cujo tema central seja o assunto da palestra. EXEMPLO: Ver "Crónicas de Além Túmulo" 34 , Capítulo 22.

POR CITAÇÕES - um provérbio popular, um princípio aceito ou dito por alguma personalidaàe ilustre, um versículo. EXEMPLO: Ver "Lázaro Redivivo" 35 , capítulo 9. As vezes, pode-se usar uma frase ab- surda, consertando-a em seguida: "Deus não existe: (pausa) É o que dizem os ”

POR PARTIÇÃO - Informações aos ouvintes, logo no começo, dos pontos principais a ser abordados. Se for feita de modo atrativo e correto, causa bom efeito. EXEMPLO: "Falaremos hoje acerca da medi- unidade. Como o tema é amplo e, tendo em vista os objetivos desta reunião, abordaremos as seguintes "

particularidade

BARRAGEM DE PERGUNTAS - Indagações estimulantes para a curiosidade geral. Dúvidas a respeito do tema. No caso de se utilizar essa introdução, dever-se-á ter o cuidado de não deixar as dúvidas sem resposta, com o decorrer da explanação. EXEMPLO. Lázaro Redivivo 35 , cap. 7 e 12.

SUSCITANDO UM PROBLEMA - Semelhante à anterior. EXEMPLO: Lázaro Redivivo 35 , cap. 19.

POR AFIRMAÇÃO - Variante da introdução por citação. A diferença é que, nesse caso, o expositor colocará de saída a sua "idéia-mãe", ou dirá uma frase de impacto. É uma das introduções mais comuns. Apenas causa interesse quando a afirmação é clara e criativa. EXEMPLO: Lázaro Redivivo 35 , cap. 42.

A introdução deve ser curta, e bem feita. Se for bem planejada, depois de proferida, a assistência estará

em atitude mental de espectativa e atenção, preparada, portanto, para o corpo da palestra.

b) CORPO OU DESENVOLVIMENTO:

É a parte central e mais volumosa e explícita. Constitui o desenvolvimcnto do assunto, tendo como ca-

racterística principal a clareza. Deve ser minuciosa e sua estrutura deve contar uma lógica, dentro da qual o expositor dirá tudo o que tenha a dizer.

Vejamos alguns métodos de desenvolvimento do corpo da explanação.

SEGUNDO A. IMPORTÂNCIA - Coloca as coisas de menor importância em primeiro lugar, condu- zindo o assunto aos temas de maior interesse, na direção de um clímax. Como uma espiral concêntrica. pode adotar o critério de começar abordando as generalidades e, aos poucos, passando para os temas mais específicos e contraditórios. Pode-se, também, de de acordo com o tema, começar por analisar argumentações adversárias ou falsas, encerrando-se nas verdadeiras ou espíritas.

SEGUNDO A LÓGICA - A aristotélica "afirmação- prova". Tomar do assunto e, num vivo apelo ao raciocínio lógico, argumentar a exatidão das idéias, buscando comprová-las. Um bom exemplo a res- peito talvez seja a argumentação de Paulo, acerca da ressurreição, em I Coríntios, 15. Note-se que ele cita exemplos e argumenta, convincente, buscando comprovar a veracidade de sua opinião a respeito do assunto.

CRONOLÓGICO - Segundo o tempo ou a ordem dos acontecimentos. Uma palestra, por exemplo, so-

bre os dias atuais pode começar na pré-história e, de acordo com o objetivo, ressaltando-se os fatos que

o destaquem, terminar nos tempos atuais, comprovando-se a autencidade histórica da argumentação.

ARRANJO TÓPICO - Utilizado para um assunto que contém diversos ítens não interligados. Por exemplo: Uma exposição sobre "As Obras Básicas", cujo objerivo fosse dar à platéia leiga uma idéia do conteúdo de cada uma delas. O efeito é excelente, quando o expositor consegue a proeza de descobrir

34 CAMPOS. Hurnberto de. Crômcas de Além Túmulo. Psicografia de Francisco Cândido Xavier. 8ª Ed FEB 1975. Cap 22.

35 IRMÃO X. Lázaro Redivino. Psicografia de Francisco Cândido Xavier Ed FEB 1978.

Caridade doVerbo

um ponto comum, interligando os assuntos. No caso citado, em que cada livro do Codificador pode aparentar nada ter em comum com os outros, o palestrante pode referir-se por exemplo, ao indiscutível bom senso de Allan Kardec, presente em todos os seus textos; ou ao fato de os últimos quatro livros do pentateuco serem desenvolvimentos das quatro partes de “O Livro dos Espíritos”, o que comprova o planejamento espiritual da Codificação e os liga de maneira harmoniosa e interessante.

SEGUNDO A CAUSA E EFEITO - É um tipo especial de desenvolvimento lógico. Pode-se enumerar diversas causas, para um único efeito que se queira demonstrar ou discutir, ou falar de um fato que foi causa de diversos efeitos. Exemplos: a vida de Jesus (causa) gerou uma verdadeira revolução de pensa- mentos (efeitos); a simples falta de paciência (causa) pode culminar em males inúmeros (efeitos); a soma dos pequeninos erros formam a grande queda; etc.

DIVISÃO EM PARTES - Tipo especial de desenvolvimento por tópicos. Quando não se tem obrigação

de dividir, pois o tema é naturalmente unificado, e, ainda assim, fraciona-se, com finalidades didáticas.

A análise de uma página, ou um versículo do Evangelho, embora abordando um único assunto, pode ser

dividido, para facilitar o entendimento geral.

De acordo com a extensão, a palestra pode ser desenvolvida combinando-se esses diversos métodos. Em geral, a maior parte deles irá dos pontos de menor para os de maior importância e empregará a lógi- ca, a fim de convencer o ouvinte. Discutirá causas e efeitos, irá de problema a solução, e empregará a ordem cronológlca ao focalizar história e tempo.

Seja qual for o método, o importante é não se tornar obscuro, nem confuso, nem vago. Procurar ilustrar a exposição com exemplos vivos, contos, histórias, etc., dando especial importância a tudo aquilo que diga respeito a vida e a reforma íntima. Esse assunto será desenvolvido em outro capítulo.

Ao falar sobre um vulto do Cristianismo ou da Doutrina é preciso evitar a todo custo o culto à persona- lidade. Ainda quando o tema seja de natureza biográfica, a palestra deve enfatizar e culminar em moti- vos de ordem doutrinária.

Observemos Jesus, o modelo perfeito, em seu "Sermão da Montanha” 36 . Vejamos como soube citar, indagar, explicar, argumentar e, sobretudo, dar exemplos ilustrativos. O Cristo, por sinal, falava por parábolas.

Aplicando esses princípios, será fácil tornar a palestra coerente, instrutiva, compreensível, interessante, eficaz e, mais do que isso, ser lembrada, o que, pela experiência, o explanador descobrirá ser muito im- portante.

c) CONCLUSÃO:

Pela introdução bem planejada, o expositor conquista o interesse do público; pelo corpo bem conduzi- do, conserva esse interesse; porém, pela conclusão fraca, pode desfigurar todo o trabalho apresentado.

A finalização é a parte que ficará na lembrança dos ouvintes em primeiro lugar. As últimas palavras

determinam em grande parte a impressão e a opinião sobre a palestra inteira.

E sumamente necessária. Através dela é que se devem atingir os objetivos.

São diversos os tipos de conclusão:

RECAPITULANTE - Opção para corpos cujo tema contiver assuntos variados, numerosos e/ou com- plexos. É a mais simples e a mais enfadonha das conclusões. Indicam-se os pontos principais num re- sumo breve da palestra inteira. Geralmente carece de encerramento, com algum apelo, convite, ou coisa parecida.

DE APLICAÇÃO - Mostra aos ouvintes que a informação se aplica a cada um deles e explica como podem aplicá-la. Excelente exemplo desse tipo de encerramento é o final do Sermão da Montanha 37 .

36 Mateus, 5 a 7.

Caridade doVerbo

MOTIVADORA - Convite à platéia ao desempenho da ação positiva, cuja validade a explanação procu- rou demonstrar. Chamamento à prática, sob a forma de apelo ao sentimento, à iniciativa do ouvinte. É útil se evitar apelos vulgares, como "façamos isso", "façamos aquilo". Trata-se de um dos tipos mais comuns de conclusão, mas bastante eficaz, quando o expositor conseguir entusiasmar a platéia. Na obra "Livro da Esperança", 38 Emmanuel tece, no capítulo 70, um ótimo exemplo desse tipo de conclusão. Observe-se, no caso, como ele procura tocar o coração do leitor, sem cair no vulgar ou nos chamados “lugares comuns”.

CULMINANTE - Exige hábil composição e proferimento. O expositor deixa o ponto melhor e mais excitante para o clímax e o fim abrupto. Começa moderadamente, avança lentamente, sobe mais, atinge o ponto culminante e, então, pára e se senta. Não faz resumo, não insta, não faz apelos. É conclusão potente e repentina. e emprega-se quando se deseja ação imediata. A página “Meditemos" de Emma- nuel no Livro "Religião dos Espíritos", 24 possui uma interessante conclusão desse tipo.

ILUSTRATIVA - Conclusão não muito recomendada, pois o encerramento com uma fábula ou conto pode deixar o ouvinte sem saber o que concluir, a não ser que haja plenamente entendido toda a pales- tra. Esta conclusão é melhor aplicada quando se explica brevemente o sentido da narrativa, após contá- la. Ver o capítulo 9, a respeito.

COM CITAÇÃO - Conclusão fácil, de bom efeito, quando a citação é impressionante. Uma palestra, por exemplo, sobre Morte, em que o expositor ressalta a importância de se ter vivido bem, para morrer com felicidade, pode ser encerrada com a bela expressão de Confúcio: "Quando nasceste, todos riam, só tu choravas. Vive de tal maneira para que, quando morreres, ainda que todos chorem, tu rias".

POÉTICA - Usada por bons declamadores, e cujo conteúdo sistetize a idéia-mãe da palestra, a conclu- são através de um poema imprime beleza e suavidade à palestra.

Nunca se deve terminar de maneira inexpressiva ou com uma enumeração ("Eis tudo o que eu poderia dizer sobre o assunto"). Da mesma forma, jamais pedir desculpas por não ter falado tão bem quanto poderia.

De bom alvitre é saber como e com que palavras irá terminar a exposição.

Em síntese, a boa conclusão deverá ter as seguintes qualidades gerais: Deve ser curta. Não tome ela o lugar do discurso. As frases devem ser concisas. Deve ser bem preparada, evitando ficar o expositor vagando de modo incerto e cansativo, procurando onde finalizar. A exposição deve ter uma conclusão só. Profira-a com convicção, deliberação e finalidade conclusiva, como no cravar dum prego, com uma única martelada.

Falando da importância da introdução e da conclusão nas palestras, João de Oliveira Filho 39 cita Dale Carnegie: "Em que parte do seu discurso poderá o orador mais facilmente revelar sua inexperiência ou sua habilidade, sua inaptidão ou sua fineza? No princípio e no fim. Há uma velha frase no teatro, refe- rente aos atores, que diz: "Pela entrada e pela saída se conhece o ator". Há oradores que sabem tudo quando têm a dizer, porém, não sabem como finalizar".

Neste ponto, praticamente encerramos a parte que trata da "preparação da palestra". Diante de tantas informações e sugestões, o expositor neófito poderá esbarrar na dificuldade de transferir muitas reco- mendações à prática. Que não se perturbe, pois é natural que isso aconteça. Apenas o estudo, a experi- ência, o exercício e a perseverança possibilitam o domínio da técnica e do conteúdo.

Fundamente-se, contudo, num princípio fundamental: o plano da palestra deve ser, sobretudo, SIM- PLES. Evite, o quanto puder, cair na tentação de dizer tudo, através de todos os métodos, na primeira palestra. De maneira sintética, João de Oliveira Filho 40 justifica: "A simplicidade do plano impede que

37 Mateus. 7:24-27

38 EMMANUEL. Livro da Esperança. Psicografia de Francisco Cândido Xavier. 3. Ed. CEC. 1969. Cap. 70.

39 OLIVEIRA Fº, João de. (Opus Cit) Pg. 99.

40 OLIVEIRA Fº João de. (Opus Cit) Pg. 70.

Caridade doVerbo

o orador caia no perigo de se perder nas transições dos fatos e nas transições de uma para outra parte do discurso".

Caridade doVerbo

EXERCÍCIOS DO 5º PASSO:

1. Crie um ou mais exemplos de cada tipo de "lei de associação".

2. Elabore um tipo de introdução diferente para cada um dos temas abaixo:

"O Consolador Prometido"

"Eutanásia"

"SuicÍdio"

"Obsessão"

"Criança"

"O Dever"

"Brasil - Pátria do Evangelho"

3. Faça o mesmo com relação aos tipos de conclusão.

4. Ao preparar suas palestras, verifique se costuma usar todos os tipos de desenvolvimento, criando a variedade de argumentação e, por conseguinte, o enriquecimento das explanações.

IMPORTANTE:

Chegado neste ponto, o candidato a expositor deve manter-se atento para o auto-aprimoramento cons- tante, cadenciando os cinco passos da preparação, até que se sinta seguro na utilização dos diversos métodos.

Caridade doVerbo

PARTE 3

NO USO DA PALAVRA

9 – CONTAR HISTÓRIAS – O DOM QUE SE CONQUISTA:

"Naquele mesmo dia, tendo saído de casa, Jesus

sentou-se à borda do mar; em torno dele logo

reuniu-se grande multidão de gente; pelo que entrou

numa barca, onde sentou-se, permanecendo na margem

todo o povo. Disse-lhes, então, muitas coisas por

parábolas, falando-lhes assim: Aquele que semeia

saiu a semear

"

41

.

Contar histórias sempre foi a arte necessária, no setor da fala e da exposição. Todos os grandes divul- gadores de idéias se utilizaram da narração para esclarecer e consolar as massas. Trata-se de um dos recursos mais educativos e eficientes de que se tem notícia, pois, além de fixar a atenção do ouvinte, auxilia-o no entendimento do tema exposto, oferece exemplos práticos e torna a palestra interessante e amena, livrando-a da monotonia.

A arte de narrar não é simplesmente um "dom", que o expositor precise trazer do berço 42 . Constitui um método de exprimir idéias, que pode ser desenvolvido pelo exercício. Afinal, o que são dons, senão conquistas efetuadas no esforço do pretérito? Bastará, portanto, um pouco de técnica, aliada à perseve- rança e ao esforço.

41 Mateus, 13:1 42 Acerca da questão do “Dom”, um estudo doutrinário pode ser feito a partir do item: "Ideias Inatas", em “O Livro dos Espí- ritos”, cap. IV da 2ª Parte. Na Resposta à pergunta 219, afirmam os Espiritos a Kardec que a origem das faculdades extraor- dinárias dos indivíduos que, sem estudo previo, parecem ter a intuição de certos conhecimentos, e a “Lembrança do passado:

regresso anterior da alma, mas de que ele não tem consciência”. Referindo-se à vocação, Emmanuel assinala em “O Conso- lador”, questão 50: A vocação é um impulso natural oriundo da repetição de analogas experiências, através de muitas vidas“. Em razão disso, depreende-se facilmente que os “dons”, tanto quanto as habilidades aprendidas, constituem resultado do "exercicio" e da “prática”, diferindo-se apenas na quantidade de tempo para a efetivação da conquista espiritual. Um narra- dor dotado de dom já o desenvolveu em vida precedente. Os expositores que não a possuem ainda, conquista-la-ão, através do esforço.

Caridade doVerbo

ESTRUTURA DA NARRATIVA

A narrativa compõe-se de começo, meio, apogeu e fim. Introdução, corpo, clímax e conceito. A intro- dução pode ser o comentário iniciante, a apresentação de um personagem, a descrição de um cenário ou

a anunciação de que exemplificará com um "causo", retirado deste ou daquele livro ou passado em de-

terminado lugar ou época. O meio, ou corpo, é o caminho dos fatos, a composição das diálogos, a apre- sentação do drama que deverá levar ao clímax. O apogeu, como diz a palavra, é a culminância da nar- rativa, o fato-surpresa, que fará rir ou chorar e sobretudo ficará lembrado, como objeto de meditação e

ensinamento. É do clímax que os cronistas retiram os títulos de suas histórias. Em seguida, o fim, ou conceito, ou seja, a explicação do sentido da narrativa trará luz aos que provavelmente não a tenham compreedido.

Cada parte da história comportará tipos diferentes de voz. Isso, contudo, é assunto de outro capítulo.

COMO NARRAR

Há pessoas que têm a faculdade natural de contar histórias, outras podem desenvolver a aptidão, quando seguem alguns passos fundamentais, abaixo enumerados:

a) ESCOLHER A(S) NARRATIVA(S) - Para isso, toma-se por base o tema e o público. A conclusão educativa (ou, se quiser, "moral da história") deverá coincidir com os objetivos da palestra. Deve-se também, dar preferêrlcia a histórias cujos personagens sejam semelhantes ao público, facilitando o processo de identificação.

b) SITUÁ-LA(S) NO CONTEXTO DA PALESTRA - Sinteticamente, as histórias poderão entrar no início, no meio ou no final da exposição. As de início são aquelas que podem ter maior duração. Se- rão como o arado sobre a terra, preparando a semeadura do tema. As colocáveis no meio devem ser curtas. "Causos" interessantes ou engraçados, retirados de livros ou pequenos fatos da vida. Usadas normalmente quando o público manifesta cansaço. As narrativas de final são bem mais raras. Exi- gem ser muito bem escolhidas, dada a responsabilidade de concluírem a palestra. Deverão ser obri- gatoriamente curtas e dificilmente dispensarão explicação posterior, como veremos adiante. Corres- ponde à "Conclusão ilustrativa".

c) APRENDÊ-LA(S) - A narrativa jamais deverá ser lida, pois essa prática causa desatenção da platéia e dispersão do conteúdo da palestra. O aprendizado da história pode ser feito através da seguinte técnica:

c.1) ENTENDIMENTO - Compreender a narrativa em seus pormenores, conhecendo a função e o des- tino de cada personagem e o fundo moral que encerra.

c.2) MEMORIZAÇÃO - Não das palavras, caso seja apanhada de livro, mas da sequência da narrativa em si. Para isso, há que se conhecer antes o tipo de memória que detém: visual ou auditiva. Verificar de que modo memoriza com mais facilidade, se lendo ou ouvindo. No primeiro caso, bastará a leitura re- petida e atenta; no segundo, conta-se com o auxílio de um gravador ou de outra pessoa que se disponha

a lê-la ou contá-la.

c.3) TREINAMENTO - Narrar frente ao espelho, ou para outras pessoas, antes de enfrentar a exposi- ção. A prática da evangelização infantil poderá ser excelente meio de desenvolver a aptidão do narra- dor. Será muito mais fácil manter atenta uma platéia de adultos, se o expositor já consegue prender a atenção de crianças.

Se o quiser, pode criar o costume de esboçar e arquivar suas narrativas, a fim de, com o tempo, reuni- las em prestimoso acervo.

Caridade doVerbo

d) EXERCITAR A CRIATIVIDADE - Nem só de memorização e prática se torna um narrador efici- ente. O expositor precisará também cultivar a arte de "dar cor e vida" ao que narra. Enriquecer e embe- lezar situações e paisagens, complementando os detalhes, sem evidentemente, desfigurá-la.

Esta, sem dúvida, é a parte que requer talento e improvisação. Criar diálogos interessantes entre, os per- sonagens de uma história curta; ampliar os detalhes de um cenário ou, ate mesmo, improvisar nomes a personagens originalmente não identificados ou em caso de esquecimento. Será o nível de criatividade que conferirá a emoção precisa para sensibilizar o público no aprendizado do tema.

Para que se torne um bom narrador, o palestrante necessitará desenvolver hábitos que se iniciam na vivenciação do que prega. Afinal, a narrativa bem feita faz parte da eloquência do expositor.

O narrador deve sobretudo ter sentimento. Por mais curta e desinteressante, uma historieta contada com expressividade, embora sem exageros de dramatização, pode surtir bom efeito. Ao contrário, a narrativa mais perfeita, se exposta de modo mecânico, sem vida, dificilmente causará interesse. Em síntese, o expositor deve narrar com entusiasmo.

Um hábito imprescindível ao narrador eficiente é o de observar. O mundo à sua volta possui infinitos detalhes e singularidades capazes de fornecer-lhe elementos preciosos para o enriquecimento de sua narrativa.

COMO OBSERVAR

Podem ser observados:

a) PESSOAS - Pelas suas características físicas, como expressão dos olhos, sinais particulares, etc. Ou pelo tipo psicológico. quando observaremos tiques nervosos e hábitos. Sem que caiamos na indis- crição ou na crítica inútil, através do estudo das pessoas que nos cercam, saberemos identificar e descrever os caracteres dos personagens de nossas narrativas, que a elas se assemelhe, imprimindo no pensamento dos ouvintes uma idéia mais nítida de suas personalidades.

b) LOCAIS – Detalhes de luz, sombra ou cores. Identificar como se formam os jardins, as minunciosi- dades das flores e folhas. Bosques e campinas receberão vista mais atenta, a perceber-lhes a beleza natural que poucos notam. Residências, arquiteturas, recantos, logradouros, ruas em movimento, a

Nada se repete, e o bom nar-

rador sabe perceber onde se esconde a originalidade das coisas, a sua beleza de fundo e forma es- sência e exterioridade, generalidade e minúncia.

c) MOVIMENTOS - Observar a maneira pela qual as coisas e pessoas transitam ou agem. O que ocor- re, quando um automóvel freia bruscamente no asfalto; como a louça se quebra, ao cair do armário; de que modo as estrelas despontam no firmamento, à medida em que o sol morre, em direção ao po-

Numa narrativa, há instantes nos quais a descrição de um movimento confere impressionante

“florzinha humilde e anônima germinando onde o concreto quebrou”

ente

vida aos acontecimcntos contados.

d) SITUAÇÕES - Fatos do dia-a-dia, cenas surpreendentes, episódios cômicos, trágicos e, mesmo, inexpressivos. O narrador eficiente entende que tudo, em a Natureza, é belo e instrutivo. Chama a atenção e colhe ensinamentos até dos fatos corriqueiros da vida.

Da disposição de observar e da leitura habitual de livros que contenham narrativas, o expositor terá sempre vasto arsenal de contos e histórias, curtas e extensas, com as quais facilitará o entendimento e despertará o interesse do público para a sua explanação.

Caridade doVerbo

10 - POEMAS

A ARTE DE DECLAMAR NA PALESTRA:

“A arte deve ser o Belo criando o Bom”.

- André Luiz 43

A poesia espírita é riquíssima, em todos os sentidos. Emprestam tal expressividade ao tema que rara-

mente se adaptam a lugares que não sejam o princípio ou o final da palestra. Exigem, entretanto, boa técnica, para atingir suas finalidades.

A declamação de poesias envolve memorização, interpretação e impostação de voz. Neste capítulo,

falaremos apenas dos dois primeiros.

A memorização deve ser mais cuidadosa do que a das narrativas. Se esta pode ser contada com as pala-

vras do próprio expositor, o mesmo não acontece em relação aos poemas. Precisam ser absolutamente

memorizados.

O processo mnemônico deve atender às mesmas prerrogativas da memorização de histórias, quanto ao

tipo de memória (auditiva ou visual - ver do capítulo anterior). Em caso de memória auditiva, utilizar o auxílio de alguém que lhe facilite guardar o poema. São, enfim, três os passos:

a) ENTENDER - Compreender todo o sentido do poema.

b) MEMORIZAR - Grave na memória um verso, repita-o várias vezes em voz alta e, ao senti-lo me- morizado, recorde o(s) anterior(es) e, não havendo erros, passe ao verso seguinte. E assim Sucessi- vamente.

c) INTERPRETAR - Esqueça a palavra “declamação”. Ignore a estrutura de versos, estrofes e, até mesmo, as rimas. Em seguida, fale o poema, com naturalidade, como se ele não fosse um poema. Procure transmitir conteúdo, e não palavras, apenas.

43 LUIZ, André, Conduta Espírita Psicografla de Waldo Vieira. 9ª Ed., FEB, 1983. Cap.43.

Caridade doVerbo

11 - RECURSOS AUDIO-VISUAIS

A EXPOSIÇÃO ACOMPANHANDO OS TEMPOS:

"Por nenhum motivo, desprezar o

apuro e a melhoria dos processos

técnicos no aprimoramento

constante das programações, a fim

de não prejudicar a elevação do ensino".

- André Luiz 44 .

Deixar de utilizar os recursos técnicos de enriquecimento da exposição é desaproveitar excelente meio de estimular o aprendizado. Na era da imagem, fazer uso dela será acompanhar os tempos, em proveito do êxito da tarefa encetada.

Os recursos técnicos mais comuns são 45 :

a) QUADRO-DE-GIZ - Também chamado de "quadro-negro". Munido de apagador e gizes, de prefe- rência de várias cores, utilizar o branco para a escrita normal; o colorido para destacar. Evitar rabis- cos, traços distorcidos ou gráficos complexos. Simplicidade e clareza. Ao escrever, cuidar para que

a letra não seja muito pequena e esteja legível, Não superlotar o quadro de escritos. O quadro-de-giz

Ao apagar, fazê-lo sempre vertical-

registrará a ilustração e a síntese, jamais a palestra inteira mente, de cima para baixo, para evitar espalhamento de giz.

b) DIAPOSITIVOS - Ou slydes, como são usualmente chamados. Recurso mais aprimorado, demanda

a utilização de um projetar próprio. Fotogratlas e desenhos fixados em diapositivos e projetados na

semi-obscuridade oferecem conteúdo visual bem mais aprimorado que a simples fala do expositor. Recomendável sobretudo para salas pequenas. Em condições de utilizar semelhante recurso, pode- se fazer uma palestra, enquanto projeta, ou conectar uma gravação, de boa qualidade, com leituras e textos, dissertando sobre o tema, com opção até mesmo dc fundo musical.

c) CARTAZES - Um dos recursos mais simples. Em cartolina, ou papel adequado, será simples recur- so para expor imagens e tópicos escritos, desenhos e recortes, fixando a atenção e estimulando a memória dos ouvintes.

d) RETROPROJETOR E EPISCÓPIO - Dois aparelhos especiais de projeção. O primeiro, para proje- ções a partir de fotolitos e transparências. O segundo, projeção de escritos diretameme de livros ou desenhos no papel.

e) RECURSO VIVO - Uma técnica revestida de simplicidade. Através de um ou mais objetos levados

à tribuna, poder-se-á colorir de realidade uma palesrra. Um evangelizador, certa vez, levou a uma

aula sua, a cerca do tema "DEUS", uma flor natural e uma de plástico. Através de comparações, em que as crianças participaram, todas perceberam a lógica da existência de um Criador, que haveria de

ser o autor da flor natural, como o homem o fora da artificial.

f) RECURSO MUSICAL - Se o auditório tiver aparelhagem de som, o expositor poderá preparar um encerramento tocante através de uma mensagem ou pocma, e prever a entrada de um fundo musical suave, quando iniciar a declamação, com excelentes resultados.

44 LUIZ, André. (Opus Cit) Cap. 16

45 Excelente fonte de conhecimento específico de recursos audio visuais é a Apostila com esse título, distribuída pela FEB, para apoio à Evangelização Infanto-Juveníl.

Caridade doVerbo

Sempre útíl, o recurso áudio-visual se presta a embelezar ou prender a atenção e despertar o interesse da platéia para o tema. Serve também para apresentar provas, demonstrar argumentos, estabelecer elos de comparação entre a teoria explanada e a prática cotidiana.

Ninguém pode desprezar o enriquecimento técnico de suas exposições. Jesus, quando indagado a res- peito do tributo a César, antes de dar ao mundo a imortal lição do "dar a César o o que é de César e a Deus o que é de Deus", fez uso de um recurso visual: a moeda, na qual buscou a efígie do imperador romano, para demonstrar o ensinamento e fixá-lo de vez na mente dos que ouviam 46 .

46 Mateus, 22:15-22; Marcos, 12:13-17; Lucas, 20:20-26.

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12- DICÇÃO E IMPOSTAÇÃO DE VOZ

APRENDER A FALAR CORRETAMENTE:

"Educar a voz, para que se faça

construtiva e agradável".

- Emmanuel 47 .

Conhecer a própria voz e suas possibilidades será a primeira atitude do expositor que deseje educá-la, para que se faça agradável a quem ouve. A experiência de pessoas que ouviram a própria voz gravada é de que a maioria manifesta estranheza, donde se conclui que a maior parte desconhece os recursos ver- bais de que dispõe, com isso, não sabe como melhorá-los. Adotar o costume de gravar leituras e pales- tras, a fim de ouvi-las mais tarde, anotando erros para corrigi-los posteriormente, é providência útil.

Educar a voz é importante para torná-la audível e facilitar o entendimento das palavras que pronuncia. Quem educa sua voz, aumenta suas chances como expositor .

RESPIRAÇÃO

A base da voz é a respiração. Para que se tenha voz perfeita é necessário saber respirar. A respiração

correta é aquela que enche os pulmões de ar, aumentando o fôlego. Para isso, deve-se respirar através do diafragma, ou, pela barriga. A respiração torácica, ou pelo peito, preenche os pulmões de maneira muito imperfeita e, com a palestra, o cansaço advém cedo, prejudicando a fala. Além disso. os pulmões repletos permitem um alcance maior de voz, que, assim, ganha em poder.

Após esses cuidados, será preciso ainda educar a saída do ar. A garganta e a boca devem se abrir farta e tranquilamente, ao falar; todos os músculos faciais e o aparelho de fonação necessitam estar relaxados, para evitar mudanças e defeitos de voz, como hipertonia vocal (defeito de falar alto em demasia) ou hipotonia (falar muito baixo). Para evitar o nervosismo relaxamento muscular e oração são alternativas recomendáveis.

PRONÚNCIA

Aprendida a arte de respirar, deverá a pessoa esforçar-se por pronunciar corretamente as palavras. A regra geral é simples: dizer as consoantes e as vogais com naturalidade e sem prejudicar a pontução. Dizer as palavras inteiras, evitando "engolir" sílabas, sobretudo as de final de frase, mantendo ritmo e tonalidade. Nas gravações das próprias vozes, cada um podera identIficar falhas de pronúncia, e exer- citar-se nelas em especial. Veja exercícios, no final deste capítulo.

PONTUAÇÃO

Outra questão básica, sobretudo nas leitura em público, (o bom expositor deve ser um bom leitor) é a pontuação. O princípio geral, para leitura ou declamação, de texto em prosa ou verso, será dizê-lo em tom conversativo. O ritmo e o sinal enfático, a entonação e a pontuação devem ser normais, de acordo com o sentido das frases, e não com a estrutura formal de versos ou estrofes.

A pontuação é profundamente vinculada à respiração. O expositor, quando lê, apenas respira nos pontos

e ponto-evírgula, salvo o caso da frase demasiadamente extensa, quando procurará um lugar no qual se possa fazer uma pausa major. Se o expositor se acostumar a encher plenamente os pulmões de ar, fará isso tranquila e naturalmente.

47 EMMANUEL. Bênção de Paz (idem. Ibidem) Cap 20.

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ENTONAÇÃO

Outro ponto importante é a entonação. O "colorido" da voz que deverá variar, de maneira a não tornar monótona a palestra, cansando o público. Há vários tipos de tonalidade, que podem ser treinados pelo expositor. A voz de ouro é carregada de emoção, elevada, confiante. A voz de prata é a comum, que usamos para conversar, explanar, ou explicar algo. A voz de bronze é a irritada, severa, gritada, vibran- te. A voz de veludo é a terna, macia. A voz impessoal é aquela usada pelos noticiaristas e locutores, no Rádio e na TV. A voz cavernosa é a ressonante.

Da mesma forma, devem ser evitadas os defeitos de tonalidade, como a voz manhosa, a rouca, o falsete, a anasalada e a inspirada ("falar para dentro"). Tais imperfeições de voz apenas são perdoáveis nos ex- positores que tragam problemas fisiológicos no mecanismo da fala.

Muitos poderão pensar que se trata de exagero de minúncias técnicas, impossíveis de serem lembradas

no instante da palestra. E, de fato, neste momento, não é preciso estar recordando técnica alguma, e sim manter-se fixado no conteúdo. Nos intervalos entre uma exposição e outra, é que surgem os momentos

de estudá-las e treiná-las.

Ora, para exprimir-se com voz de ouro, bastará sentir o que esteja falando, colocando o coração sincero no que diz. A gravação, contudo, depois, irá dizer-lhe se está realmente exprimindo a emoção desejada, cuja avaliação permitirá melhorá-la, se necessário.

Há os que gritam, ao exprimirem emoções. Não raro, a voz surge estridente e desagradável, ferindo os ouvidos de quem escuta. Auto-analisando-se, descobrirá isso, e saberá ajustar o tom de voz, para que seja agradável e transmita de fato a emoção sentida. Se, contudo, houver preocupação excessiva com a técnicá, será sacrificada a emoção do conteúdo e falsificara a voz, podendo tornar-se ridículo

Portanto, o expositor deve sentir profundamente o que preza, "trazendo o coração aos lábios", na feliz expressão de Emmanuel 27 , e estar sempre voltado ao reajuste de voz, amigo da auto-crítica, treinando

as diversas tonalidades. Quem possui estes quesitos, e é sincero no que fala, domina toda e qualquer técnica, espontaneamente.

SINAL ENFÁTICO

O orador deve saber não apenas entonar a voz de acordo com a emoção do assunto, mas precisa tam-

bém a dar às palavras a ênfase que merecem. É o sinal enfático, de que utilizamos, às vezes, de maneira

incorreta sobretudo em leíturas. Uma frase pode ter seu sentido completamente adulterado, se não colo- carmos o sinal enfático no lugar certo.

Façamos uma análise da importância do sinal enfático.

Atentando na pergunta: "Você abriu a porta?", se a ênfase for dada a VOCÊ (Você abriu a porta?), a pessoa indagada será influenciada a responder: "Sim, eu".

No caso de "Você abriu a porta?", ela responderá: "Sim, abri".

E, em "Você abriu a porta?", ela retrucará: "Sim, foi a porta".

Outro exemplo:

Se, em pleno comentário evangélico, for citado o Evangelho de Marcos, capitulo 15, vcrsículo 32, O expositor deverá saber entonar as palavras de acordo com o que queira expressar:

"O' Cristo, Rei de Israel, desça agora da cruz, para que o vejamos e acreditemos".

Usando a voz de bronze, naturalmente, pois o fato relrata um desafio que os algozes de Jesus faziam a ele, que já se encontrava preso à cruz, o expositor dará maior inflexão à palavra:

a) CRISTO: Em quaisquer situações, porque o nome, num chamamento, sempre é importante.

b) REI: Se se quiser exprimir a galhofa e a zombaria com que o tratavam.

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c)

DESÇA: Se o expositor estiver comentando a exigência para que ele descesse.

d)

AGORA: Caso esteja falando sobre a imposição a respeito do tempo.

E

daí por dianle. Enfatizar uma palavra, como o próprio nome já diz, é dar-lhe maior importância, vita-

lizando e "puxando" o sentido da frase para seu significado.

EXERCÍCIOS DE RESPIRAÇÃO E DICÇÃO 48

A respiração é a base fundamental das palavras, em sua função fônica, pois o som vocal depende da

força motora com que o ar é expelido pelos pulmões.

O gesto respiratório compreende dois tempos:

a) INSPIRAÇÃO - Trazer o ar para os pulmões. Deverá ser nasal, suave, lenta, profunda e silenciosa.

b) EXPIRAÇÃO - Soltar o ar. Deverá ser bucal, suave, lenta, prolongada e silenciosa,

EXERCÍCIOS:

1)

Expirar contando em voz alta: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7

até 60 (Exercício de fôlego).

2)

Inspirar e Expirar várias vezes lentamente: P B T D G Q. (Exercício de domínio da expiração. Estas são as consoantes "oclusivas" as que gastam mais ar na pronúncia.

3)

Respirar profundamente e ler numa só inspiração:

A

gata branca capenga que gostava de regar camundongos na copa da casa de campo do Conde Guatin-

guetacal corre atrás da bola que rebola e bate no peito do papagaio que grita e depois no bico do galo pedrês que bebe água no balde da bica do quintal e também no pato pintado que dá bicadas na pata do pacato boi preto e branco qu estava no gramado.

(Exercício de fôlego a partir das consoantes oclusivas).

4) Dizer numa só Inspiração:

João amava Tereza que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém. João foi para os Estados Unidos Tereza foi para o convento Raimundo morreu em de- sastre Maria ficou para tia Joaquim suicidou-se e Lili casou-se com J. Pinto Fernandes que não tinha entrado na história.

NOTA IMPORTANTE: O exercício de respiração pode ser feito, a partir destes exemplos, com qual- quer texto, de jornal ou livro. A repetição ampliará o controle do fôlego, o que possibilita que as pala- vras mesmo das frases longas, sejam pronunciadas inteiras e corretamente.

-.:oOo:.-

AS REGRAS GERAIS DE PRONÚNCIA SÃO

a) As palavras devem ser pronunciadas em todas as suas sílabas, evitando-se "engolir" sons.

48 Retirado das Cartilhas de Teatro II. Manual de Voz e Dicção. Lilian Nunes. Adaptado a partir de Apostila do Departa- mento de Cornunicação Social, do ICHL, da Universidade Federal de Goiás.

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b) Observar os sons em que há mais dificuldade de pronunciar, para exercitar neles com maior fre- quência.

c) Exercitar a pronúncia periodicamente.

1) EXERCÍCIOS COM VOGAIS:

A - A arataca gaga macabra na cabala. A dança da barca fantasma arrastada nas vagas da catarata. As

vacas malhadas e as cabras mansas pastavam na vala da chácara.

E - Mercedes sempre reverente perenes mercês celestes. Excelentes pretendentes vêm receber presentes

resplendecentes. Zé perequeté é serelepe mequetrefe, pé de lebre, leve, mexe e remexe.

I - Rififi de piriquiribi viril chincrin e tiguimirim, inimissíssimos de pirlimpimpim. Imbiri incio, pirim, quis distinguir piriquitis de chibis miris, timbris de dissímil piriquiti.

O – Gostosos bombons, bolos odorosos, ovos mornos no cofo do colono. Os olhos do horroroso mocho

no tronco lodoso do Cômoro. No soçobro o comodoro colocou o formoso condor no topo do toldo.

U - O grugru dos murututus, mutuns, tuputus, jutus, juburus e urutumuns. O lusco-fusco do morundu do

sul púrpuro de lux. O zumzum do fundo do mundo é imundo.

2 - EXERCÍCIOS COM DITONGOS, TRITONGOS E HIATOS

Ler soletrando cada vogal, antes de juntá-las em palavras:

ai

- A gaita do pai de Adelaide está embaixo da caixa.

ãi

- A faina de debulhar painas dá cãimbras.

eu

- O apedeuta plebeu leu com fleuma no Ateneu.

éu

- Leléu fez um escarcéu por causa do chapéu do réu.

iu

- Titio viu quem caiu riu e fugiu.

io

- O doido afoito comeu de noite dezoito biscoitos.

ui

- Fui colher flores ruivas e azuis nos pauis.

ãe

- Os cães da mãe dos capitães levam-lhe pães.

ão

- O cristão leva no jibão lição e pão.

õe

- Põe os botões dos cordões sobre os corações.

- As fuinhas são ruins e causam muito prejuízo.

em - Ninguém vem a Belém sem vintém.

ua - Quatro guardas esquálidos aguardam a esquadra.

uo - O quorum pagará uma quota quotidiana.

uo - O contínuo do frotuoso é impetuoso.

ua

- Enquan