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A POLIFONIA COMO ESTRATÉGIA ARGUMENTATIVA NA CONSTRUÇÃO DA

INFORMAÇÃO TELEVISIVA

GIANI DAVID SILVA

Do fato ao acontecimento midiático

Certos acontecimentos passam do privado ao social dependendo das regras


estabelecidas por aqueles que têm como função de destacá-los e torná-los públicos, nesse
âmbito encontram-se os jornalistas. Eles possuem a função de transformar o acontecimento
em notícia, daí possuírem um papel considerável na construção do espaço público
midiatizado. Obviamente, eles não são os únicos responsáveis nessa tarefa, outras instâncias
podem ser co-responsáveis na constituição do acontecimento midiático: os promotores de
informação (celebridades, políticos e seus porta-vozes, agências e profissionais de marketing
pessoal e político,...) e também os consumidores da informação (leitores, telespectadores,
ouvintes), destinatários da informação midiática que, pelo princípio da alteridade
comunicacional, contribuem na definição do que é relevante ser noticiado.Assim,um
terremoto,por exemplo, mesmo que em pequena escala, pode ser noticiável aqui, no Brasil, e
não no Japão.
Na definição de que acontecimento noticiar, entram em questão vários aspectos e,
segundo Moles (1972: 91), o grau de imprevisibilidade de um acontecimento é um fator
importante. No entanto, essa imprevisibilidade está condicionada necessariamente a um fator
sócio-cultural que faz com que determinado fato seja um acontecimento para uma
determinada sociedade e não para outras.
Outras dimensões do acontecimento são ainda merecedoras de destaque e, para a
produção de uma notícia, são muito significantes. O grau de implicação das pessoas
envolvidas em um determinado acontecimento. Por exemplo, a implicação de um engenheiro
civil na queda de um prédio, ou ainda, o envolvimento de um funcionário em um caso de
corrupção administrativa. É a taxa de implicação que vai fazer com que essas pessoas entrem,
ou não, na história. No entanto, o grau de implicação desses indivíduos pode, através de
recursos retóricos, ser artificialmente aumentado com intuito de se produzir uma “boa”
notícia.
Mas existe ainda um outro fator que, talvez, seja ainda mais determinante para se
considerar um acontecimento noticiável: a fama dos seres que dele participam ou a que a ele
são submetidos. A priori, as celebridades são as principais fontes de acontecimentos. No
entanto, um anônimo pode também ser levado à condição de celebridade, basta que um feito
ou acontecimento que lhe suceda seja amplificado pelos meios de comunicação de massa e
ganhe status de acontecimento público. Sendo assim, características, como imprevisibilidade,
grandeza, taxa de implicação do fato, são muitas vezes ampliadas nesse processo de
celebrização conduzido pela mídia.
Pierre Nora (1972; pi162) afirma ser a mídia, em todas as suas instâncias, imprensa,
rádio, televisão, não somente o meio pelo qual os acontecimentos ganhariam uma relativa
independência, mas a condição mesma de sua existência.
A importância dos acontecimentos noticiados pela mídia pode ser avaliada pelo
número de vozes desencadeadas por elas: vozes que informam, explicam, comentam, criticam,
parafraseiam, extrapolam, conjeturam, enfim, pelo alcance do eco público produzido pela
notícia.
Neveu e Queré (1996; pi12) diferem “acontecimento” de “fato notável”, para eles
nem tudo que é notícia é um acontecimento propriamente dito (quer dizer, uma ocorrência
singular, imprevista, sem repetição). Dessa forma, alguns acontecimentos midiáticos são, na
verdade, fatos notáveis – às vezes, nem tanto – cuja divulgação em um determinado contexto
é considerada relevante e pertinente pelos meios de comunicação.
Sendo o acontecimento algo que se encontra no passado, já que, mesmo que
presenciemos o momento exato de sua ocorrência, enquanto ocorrência, ele ainda não é um
acontecimento, não podemos apreender nesse momento toda a sua dimensão. Apenas a
posteriori, por um processo de redução de sua complexidade e indeterminação, é que
poderemos descrevê-lo e torná-lo inteligível.
Assim, os participantes de uma manifestação como as Diretas Já em 1984, tiveram,
no momento de sua ocorrência, uma visão difusa e fragmentada. De um lado, sabiam da
relevância do movimento, de outro não sabiam a dimensão que tomaria o acontecimento. Essa
dimensão simbólica e histórica dependeria, em primeira instância, dos meios de comunicação,
aos quais caberiam a divulgação, o destaque e a valorização do fato. Hoje, depois de mais de
vinte anos, podemos discernir melhor o significado desse momento na história de nosso país,
uma vez que muito se falou e se comentou a respeito desde então. No entanto, na época,
alguns meios de comunicação preferiram fazer de um acontecimento social; “As diretas já”,
um mini-acontecimento, que seria logo esquecido. Por sorte, outras instâncias se incumbiram
de inscrevê-lo nas páginas da história brasileira.
Maurice Mouillaud (2002; pi56), ao se referir à relação acontecimento-informação,
faz uma analogia entre esta e as noções de transparência e opacidade do signo, baseando-se
em Recanati, afirma: “O signo nem transparente, nem opaco, é, ao mesmo tempo,
transparente e opaco. Ele se reflete ao mesmo tempo em que apresenta algo que não é ele
próprio” (apud. op. cit).
Essa dualidade é constitutiva do signo, “mesmo quando o signo é opaco, ele
conserva a possibilidade de designar um referente” (op. cit: 57). A mesma dualidade é
presente na relação informação/acontecimento. A materialidade da informação é o
acontecimento (modalidade transparente); é o conjunto de acontecimentos que forma um
mundo que se supõe real. Assim, ao mesmo tempo em que a informação tem como referente o
acontecimento, este tem sempre a forma de informação. Logo, nem um nem o outro são
instâncias autônomas.
A informação midiática disponibiliza de formas diferenciadas de tratamento do
acontecimento dependendo do veículo, das circunstâncias e dos recursos, inclusive
econômicos. Assim, a escolha entre uma reportagem de capa (em uma revista), a manchete
(em um jornal impresso), levará em conta diversos fatores tais como: a relevância do
acontecimento, as pessoas envolvidas, a localização do palco do acontecimento e sua relação
com o local de produção e veiculação da matéria, as condições técnicas e econômicas do
veículo, mas também, e não menos importante, a valoração do acontecimento e do fazer
jornalístico.

A verdade jornalística
A verdade jornalística é resultado de um processo seletivo que se desenvolve, desde
a definição da pauta, a realização da matéria e a interação entre o público leitor e os
jornalistas. Essa verdade transita entre o princípio da correspondência, da coerência e da
utilidade.
Ao afirmar que seu compromisso primeiro é com a verdade, o jornalista estabelece
para si a função de buscá-la. A verdade aqui é a correspondência entre fato, acontecimento e
notícia. A notícia deve ser fiel aos fatos acontecidos. Há uma crença nesse mundo real e na
capacidade da mídia em mostrá-lo. No telejornal, que utiliza a imagem como prova da
existência desse real, isso fica ainda mais evidente. O jornalista não só “fala o mundo”, mas
também o mostra. Sendo assim, os enunciados sobre o mundo correspondem, na concepção
do jornalista, ao próprio mundo.
No entanto, ao fazer a notícia, essa verdade “real” dá lugar à verdade coerente. O que
é narrado, por ser uma visão parcial dos fatos (por mais que se informe, o jornalista não é
onipresente e não tem acesso a todas as informações), deve procurar ser coerente com o
universo de crenças do público alvo, ou, em outros termos, com a uma imagem que o
jornalista faz de seu público. Sendo assim, a linguagem, em seu sentido mais amplo, deve ser
coerente com o que se acredita poder ser verdade em uma determinada comunidade. Assim,
ao falar de extraterrestres, o jornalista adotará quase sempre um tom ficcional, já que esse não
é um conhecimento que faz parte, consensualmente, de nosso universo de crença. Acreditando
estar em função do público e ter o dever de informar, o jornalista cria de si mesmo e para si
mesmo uma identidade utilitária, logo tudo aquilo que ele informar será útil. A prestabilidade
da informação é reforçada pela crença do caráter missionário do jornalista, como já citado
anteriormente: “fornecer informação às pessoas para que estas sejam livres e capazes de se
autogovernar” (Kovach; Rosesntiel, 2003; pi22).
O mundo da informação jornalística tem, em sua concepção, um compromisso com a
realidade fatual. Mas de que natureza é a relação que se estabelece entre o mundo real e a
informação?
Um dos primeiros argumentos que surge para a mídia se autojustificar é de caráter
ético: “nós devemos manter as pessoas informadas, contribuindo, assim, para a formação de
cidadãos conscientes, e eles (vocês) têm o direito de se informar”.
Sendo assim, a mídia extrai a sua legitimidade do fato de que o seu dever é aliado ao
direito do cidadão. “Nós devemos informar e vocês, cidadãos, têm o direito de construir a
verdade”.
Para Charaudeau (1997; pi31), a verdade não existe em si mesma, ela não preexiste à
ação humana; de fato, ela resulta de um julgamento coletivo que representa idealmente a
opinião da maioria, vale para o conjunto da coletividade. E é dessa verdade que a mídia fala, a
verdade da maioria para a maioria.
A informação é essencialmente linguagem e, como linguagem, ela não se refere tão
somente ao sistema de signos internos da língua, mas ao sistema de valor de uso desses
signos, constituindo-se assim em discurso, testemunho da maneira pela qual se organiza a
circulação da palavra em uma comunidade social. Dessa forma informação é assunto do
discurso.
O discurso de legitimação do fazer midiático baseia-se em dois fortes argumentos: o
da complexidade e o da opacidade do mundo.
Sendo o mundo complexo, como um cidadão comum pode compreendê-lo?
Enquanto a ciência procura desvendar os segredos do mundo, a mídia assume para si a função
de explicá-los às pessoas. O grau de complexidade do mundo está relacionado com o
conhecimento que temos sobre ele. Nesse sentido, é verdadeira a aporia socrática quando ele,
Sócrates, diante de todo conhecimento que possuía, achava-se cada vez menos sábio (“Só sei
que nada sei”). É o que acontece com a informação que adquirimos sobre o mundo: quanto
mais informações, mais clara fica essa complexidade. Mas seria realmente a mídia capaz de
explicar a complexidade do mundo? Ao procurar uma forma de adequar suas explicações a
um conceito de verdade que pressupõe o julgamento da maioria, não estaria simplificando
demais o complexo? E, ao simplificá-lo, não estaria mascarando a sua complexidade?
Outro argumento para o discurso de legitimidade é a opacidade. O mundo real é
considerado opaco, e cabe à mídia iluminá-lo para que as pessoas passem a enxergá-lo melhor
e possam chegar às suas próprias conclusões. Charaudeau afirma o seguinte:

“O argumento da opacidade do mundo se funda sob a premissa de que o poder só se


exerce através de uma atividade de influência (princípio de delegação): ganhar poder é
o ao mesmo tempo ser legitimado em sua representatividade. Desta forma o “não dizer
tudo” (guardar segredo) é uma forma estratégica de influenciar o outro, de exercer o
poder. Isso produz uma relação de opacidade entre quem manda e quem é mandado.”
(CHARAUDEAU,1997,p.30)

E é pela luta para que o exercício do poder não seja obscurecido pelo interesse
político-pessoal dos governantes, que a mídia, em seu papel de desvelador do que está
escondido, legitima de forma pragmática o seu fazer.
Considerando esses dois argumentos o que definiria um fato como pertinente para ser
divulgado? Como se procede a seleção da informação?
A pertinência de uma informação depende das hipóteses que se faz em relação a(o):

1. “não-saber”do interlocutor (não se pode informar o que já é sabido);


2. seu interesse (só se informa alguém que deseja ser informado e sobre o que julga ser
capaz de despertar o interesse de ser informado);
3. sua capacidade de compreender (informa-se de maneiras diferentes de acordo com a
competência atribuída ao interlocutor).

Como é feito em qualquer escolha, evidenciam-se alguns fatos em detrimento de


outros. Fragmentos da realidade são focados e tratados (verbal e iconicamente) em função do
alvo pré-determinado, deixando-se grande parte dos fatos do mundo na sombra.
O sujeito informador deveria se questionar, não somente a respeito da fidelidade ou
objetividade do seu relato, mas também da forma como este pode ser tratado, dos efeitos que
podem produzir diferentes tipos de abordagem.
Esse é o ponto que nos interessa. Ao falarmos de forma de tratamento da informação,
efeitos visados, de público alvo, falamos, necessariamente, de análise discursiva da
informação. Abordarei, a seguir, alguns aspectos do discurso midiático de informação, à luz,
principalmente, da teoria semiolingüística.

O discurso de informação

Para Patrick Charaudeau, o termo discurso pode ser utilizado em dois sentidos.
Primeiramente, discurso está relacionado à “encenação” do ato de linguagem. Essa encenação
deve ser analisada pela sua inserção em dois circuitos: um externo que representa o espaço do
FAZER, espaço psicossocial, também chamado de Situacional, e um espaço interno, que
representa o espaço de organização do DIZER. É importante ressaltar que a encenação
discursiva não se realiza independentemente da outra, no entanto, possui dispositivos próprios
que lhe conferem uma certa autonomia. Pode-se, assim, estudar estratégias discursivas do
discurso político em outras situações como, por exemplo, a midiática.
O discurso pode também se referir a um conjunto de “savoirs partagés” (saberes
partilhados) construído por indivíduos de um dado grupo social. Esses discursos sociais, ou
imaginários, são testemunhos das representações de práticas sociais em um determinado
contexto sociocultural.
O discurso é direcionado para além das regras de uso da língua, ligando as
circunstâncias nas quais se diz algo ao que é dito. As circunstâncias englobam: local,
identidades, relação de intencionalidade e condições físicas da troca. O discurso é uma
maneira de dizer, que é mais ou menos esperada, codificada ou improvisada segundo um
conjunto de condições intencionais que a precedem. Há então, ao mesmo tempo, condições
extradiscursivas e realizações intradiscursivas cuja relação intrínseca produz o sentido.
Informar pressupõe estabelecer um processo pelo qual se deve identificar os seres do
mundo através da nomeação e qualificação, narrar suas ações e argumentar, explicar,
comentar os motivos, no jargão jornalístico, fazer o lead: O quê? Quem? Onde? Quando? Por
quê?
Para Kucinski (1998), os meios de comunicação de massa substituíram as praças
públicas na definição do espaço coletivo da política no mundo contemporâneo; dessa forma
muito da percepção popular de sociedade e de política provém da mídia, principalmente
através do rádio e da TV. Diferentemente da mídia impressa, a TV e o rádio têm adeptos em
todas as classes sociais, uma vez que a sua difusão é mais “eficiente” e a sua linguagem, em
parte por ser oral, mais acessível. Compreender o discurso utilizado pela televisão, no intuito
de “informar” um público tão vasto, é, também, uma forma de compreender um pouco a nossa
sociedade.
As mídias de informação funcionam segundo uma dupla lógica de ação, fator
determinante na transmissão de informações:

i. Econômica – O órgão de informação é uma empresa e como tal tem por finalidade a
fabricação de um produto competitivo no mercado. É ainda o aspecto econômico que
definirá um outro fator de grande relevância na produção da informação: a tecnologia
utilizada.
ii. Semiológica – Todo órgão de informação deve ser considerado como uma máquina
produtora de signos (formas e sentidos).

Assim, a televisão, que nos interessa mais de perto, tem um lado voltado para fora, o
mundo exterior, o mundo dos fatos, da recepção e um voltado para si mesma, para o estúdio e
para as condições de produção de seus programas, como afirma Charaudeau (1998; pi249): “A
televisão não é um conceito. Ela é um objeto empírico do qual é necessário fazer um objeto de
análise, um objeto empírico, heterogêneo e um objeto de análise plural”. Dessa forma,
analisar a informação televisiva implica considerar tanto a dimensão externa, dos fatos,
quanto a interna, do acontecimento midiático. E uma das perguntas mais freqüentes, feitas por
nós, analistas, é como se transforma um fato em notícia, quais os recursos utilizados e quais
os efeitos suscitados? Entre os diversos aspectos que podem ser estudados destacaremos a
seguir, a presença da polifonia nas matérias jornalísticas.

A polifonia em textos jornalísticos

Todo discurso, como afirma Kristeva “é um mosaico de citações, é a retomada de


outros textos.”O ato de ler, muitas vezes, já foi confundido com o simples processo de
decodificação ou de recuperação de dados, informações. No entanto, percebe-se que a
leitura/interpretação de um texto depende da relação que se estabelece entre este e outros
textos que estão na base de sua construção. “O discurso só adquire sentido no interior de um
universo de outros discursos”, segundo Maingueneau (2000), sendo assim, o texto visto como
a materialização do processo de construção discursivo adquirirá sentido na percepção e
confronto dos outros textos que o perpassam.
Bakhtin afirmava ser a polifonia (dialogismo) elemento constitutivo de qualquer ato de
linguagem. Na tentativa de especificar teoricamente esses conceitos, Authiers-Revus (1982)
reafirma o caráter heterogêneo do discurso. A heterogeneidade pode ser vista de duas formas
no interior de um determinado texto, dependendo de como se materializa a presença de
outros: a heterogeneidade mostrada e a heterogeneidade constitutiva. A heterogeneidade
constitutiva está na base de qualquer discurso, é o caráter polifônico propriamente dito. Um
discurso é sempre fruto de uma memória discursiva de seu enunciador, são os nossos
conhecimentos prévios, adquiridos ao longo de nossa história por meio de outros discursos,
que nos permitem a elaboração de um discurso que é ao mesmo tempo nosso e do outro. A
heterogeneidade mostrada é a parte visível da presença de um texto em outro. Para Bakhtin, a
citação é o modo mais evidente de se representar o discurso do outro, embora haja inúmeras
formas de manifestação do jogo polifônico.
A informação televisiva não é transmitida por um único sujeito. O sujeito
comunicante se desdobra em diversos enunciadores (apresentador, convidado, repórter,...). Esses,
por sua vez, constituem-se intermediários dos fatos, não podem ser vistos como fonte de
informação, mas sim como “pontes” na construção de sentido, já que o sentido não é dado por
eles, mas construído através deles.
Intermediário entre o enunciado de informação e a atualidade, o repórter ocupa um
lugar decisivo. Garantia da verossimilhança e da eficácia da informação, a abertura do estúdio
para o exterior e a afirmação de sua presença sobre o local do acontecimento deve ao mesmo
tempo produzir um efeito de verdade e de autoridade.
A análise do papel interdiscursivo do repórter deve levar em consideração: sua
relação com o apresentador – cabe ao repórter assegurar a credibilidade do apresentador,
através da confirmação do que foi anunciado anteriormente; sua relação privilegiada com o
acontecimento e seu estatuto de porta-voz da fala e saber dos outros.
Uma grande parte do discurso da mídia de informação consiste em transmitir
discursos de outros. Políticos, celebridades, entidades, enfim, os representantes do espaço
público utilizam as mídias para se fazerem ouvir e, muitas vezes, respondendo a críticas,
elogios, acusações por intermédio dos meios de informação de massa, estabelecem através
deles uma verdadeira arena polifônica.
Ao mesmo tempo em que o jornalista é enunciador de seu discurso, assumindo a
responsabilidade pelo que enuncia, abre, em seu texto, espaço para a manifestação de outras
vozes pelas quais não assume a responsabilidade, mas que, por outro lado, considera
relevantes para o seu intuito primeiro que é a informação. Na tentativa, às vezes, de garantir a
credibilidade da informação transmitida, o jornalista utiliza e valida a citação como estratégia
discursiva de autentificação de seu discurso. Na matéria telejornalística, o poder de
autentificação da citação é muitas vezes reforçado pela imagem, sendo os depoimentos não
apenas relatados mas mostrados. O discurso é autentificado pela presentificação dos
enunciadores.
Os enunciadores presentes em uma narrativa jornalística podem se agrupar em
diferentes categorias:
i. Apresentador – aquele responsável pela enunciação em estúdio, condutor do telejornal.
ii. Repórter – aquele que fora do estúdio faz a narração do fato a ser reportado.
iii. Testemunhos – atores dos fatos reportados que se pronunciam.
iv. Vox populi – pessoas interrogadas ao acaso pelo repórter e que transmitem a sua
opinião sobre o fato em questão.
v. Comentarista ou expert – aquele que é convidado a dar sua opinião sobre o fato e que
possui, a priori, autoridade sobre o assunto comentado.

Essas categorias são escolhidas em função da natureza da matéria divulgada, bem como do
material que o editor possui, sendo esse último um fator limitador na construção da notícia.
Não possuir um depoimento importante de alguém envolvido em um fato a ser relatado pode
comprometer os efeitos visados pela matéria.
O texto jornalístico caracteriza-se, então, por ser, em sua essência, polifônico. A inserção
da fala de outrem pode se dar pelo uso da citação (discurso direto) ou do discurso relatado
(discurso indireto).

Discurso Direto
O discurso direto reproduz literalmente a fala das pessoas envolvidas no fato relatado. O
jornalista, ao construir seu texto, reconstrói o passado, produzindo um efeito de
presentificação. O leitor, por sua vez, tem contato direto com a expressão ipsis litteris da fala
do citado, o que aumenta o grau de credibilidade do texto. O reconhecimento desse tipo de
recurso é facilitado,no texto escrito, pelo uso de aspas ou itálico, destacando a fala e a
distinguindo do restante do texto. O recurso da citação é utilizado quando o que foi dito e
quem disse possuem relevância para o cenário em questão. Em um texto acadêmico, por
exemplo, cita-se para, normalmente, referendar o próprio discurso através da posição de
prestígio ocupado pelo citado (citação de autoridade). Já no texto jornalístico, a citação é
usada em prol de três finalidades fundamentais para o discurso de informação midiático:
- autentificação do texto;
- distanciamento do enunciador (dissociação das situações de comunicação);
- garantia do caráter de seriedade do texto.
Na reportagem televisiva, há duas formas de se utilizar o discurso direto. A primeira
seria semelhante a do texto escrito, o jornalista ora repete o que foi dito, identificando a sua
autoria, ora, mostra, através da inserção da imagem de um texto entre aspas, o dito. A segunda
acontece por meio da imagem, mostrando o momento da enunciação do dito, que pode ter
sido provocado pelo próprio repórter (em uma entrevista, por exemplo), ou registrado de uma
outra situação (discurso em uma Assembléia, por exemplo).

Discurso indireto
Enquanto o discurso direto restitui as palavras do outro, o discurso indireto restitui o sentido
do que foi dito. No discurso indireto tem-se apenas uma situação de comunicação - a do
citante (o jornalista responsável pelo que diz). O jornalista enuncia através de sua voz a voz
do outro sem compromisso com a forma do texto original. Esse recurso visa, também,
garantir a credibilidade do texto informativo, no entanto vale ressaltar que o sentido restituído
é sempre mediado pela interpretação do citante (jornalista) . Ao incorporar em seu texto a
fala do outro, o jornalista-enunciador explicita a fonte de origem através de expressões como
de acordo com, segundo, ... ou através de orações subordinadas introduzidas por um verbo de
fala ( disse que... afirmou que... reconhece que...).

No entanto, não podemos perder de vista que a utilização da fala de um terceiro, tanto
em um quanto no outro caso, é fruto de uma escolha diretamente relacionada a uma
intencionalidade comunicativa. Assim, nem sempre, as notícias demonstram a imparcialidade
tão apregoada pelos jornalistas, que só poderia ser garantida pela presença igualitária das
diferentes vozes envolvidas em um determinado “conflito” reportado.
Outro fator relevante é o recorte do texto relatado ou citado. O trecho mostrado,
relatado nem sempre, ou melhor, quase nunca, corresponde à integra do que foi realmente
enunciado. O processo de destacamento e inserção em uma matéria posteriormente editada
constrói uma outra enunciação diferente daquela que lhe deu origem, o que não raro, pode
ocasionar interpretações não desejadas pelo sujeito enunciador primeiro.
A argumentação implícita na informação

De acordo com Soulages (1999; pi130), o modo argumentativo, diferentemente dos


outros, é menos visível e menos tangível no discurso de informação televisivo devido ao
próprio contrato de informação que prevê em seus princípios uma tentativa de neutralidade, e
argumentar seria tomar uma posição. No entanto, ele pode ser considerado um procedimento
subjacente, uma estratégia de persuasão que procura conduzir o telespectador a compartilhar o
ponto de vista da instância midiática.
A função argumentativa intervém em um nível macro-discursivo ao propor uma
configuração do espaço externo, através de uma suposta identidade do seu discurso com a
realidade histórica. Para Hanot (2001), toda construção fílmica passa por, pelo menos, três
etapas: a preparação da cena, ou a escolha de lugares, pessoas, objetos que comporão a cena
(nível profílmico), a filmagem propriamente dita, quando através de tomadas e planos
fílmicos serão mostrados os elementos anteriormente selecionados (nível icônico) e a
montagem ou edição, que, de acordo com a intencionalidade e com o tempo disponível para
transmissão, selecionará uma cena no lugar de outra, uma determinada seqüência relacionado-
as com o texto e criando o enredo (nível diegético). Nesse processo, várias escolhas são feitas,
às vezes, para garantir a credibilidade, às vezes, para aumentar a força de captação.
Concernente à presença de outras vozes, o mesmo acontece. Algumas reforçam a
credibilidade do que está sendo enunciado, outras mantêm o interesse do leitor/telespectador.
É no processo de escolhas que repousa sutilmente a argumentatividade da notícia. Evidenciar
fatos, pessoas e ditos pressupõe “esquecer” outros fatos, outras pessoas e outros ditos.
Perceber a quem é dado o direito de fala em uma matéria jornalística é uma das formas de se
tentar revelar esse procedimento implícito de posicionamento e de persuasão conduzido pela
instância de produção do discurso de informação midiatizada.

Giani David Silva


Doutora em Lingüítica-FALE/UFMG
Professora de Língua Portuguesa-CEFET/MG
Email: gianids@hotmail.com

Referências

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KUCINSKI, B. A Síndrome da antena parabólica: ética no jornalismo brasileiro. São Paulo:
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