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Crônica de uma morte anunciada

Publicado em: 1981

Autor: Gabriel García Márquez

O livro em tela conta a historia de uma jovem, Angela Vicario, que casa-
se com um forasteiro, muito rico e é devolvida logo após a noite de núpcias,
pois seu noivo havia constatado que ela não seria mais virgem. A família
incrédula pressiona a jovem a contar quem fora o “culpado” pela imoralidade
que se abatia sobre a família e ela revela que outro jovem rico o havia feito,
pensando assim que, por ter muitas posses, não haveria de acontecer nada ao
denunciado.

Assim, no intuito de limpar o nome da família, os irmãos da jovem


Ângela, sem querer lavar a honra com sangue, como era o costume, começam
a espalhar a noticia de que matarão o denunciado, esperando que assim,
alguém os pudesse impedir de cometer tal ato. Por obra do destino e muitas
outras intervenções, ocorre o assassinato, que não foi levado a serio por
nenhuma das pessoas que poderiam impedi-lo.

O presente trabalho tem como objetivo entender a ilicitude e concurso de


agentes presentes no crime retratado no livro. Assim, faz-se necessário
primeiro entender o que vem a ser a ilicitude, ou antijuridicidade. Esta pode ser
entendida como uma conduta contrária ao ordenamento jurídico. Ou seja, é
necessário que o agente contrarie uma norma positivada, do contrário, mesmo
que a atitude seja reprovável socialmente, não poderá ser considerada ilícita, já
que não estaria contrariando o ordenamento jurídico. Assis Toledo conceitua a
ilicitude como: “A relação de antagonismo que se estabelece entre uma
conduta humana voluntária e o ordenamento jurídico, de sorte a causar lesão
ou a expor a perigo de lesão um bem jurídico tutelado”.
Fernando Capez assim conceitua antijuridicidade formal e material:

Ilicitude Formal: mera contrariedade do fato ao ordenamento legal


(ilícito), sem qualquer preocupação quanto a efetiva danosidade
social da conduta. O fato é considerado ilícito porque não estão
presentes as causas de justificação, pouco importando se a
coletividade reputa-o reprovável.

Ilicitude Material: contrariedade do fato em relação ao sentimento


comum de justiça (injusto); O comportamento afronta o que o homem
médio tem por justo, correto. Há uma lesividade social inserida na
conduta, a qual não se limita a afrontar o texto legal, provocando um
efetivo dano à coletividade.

Devemos nos atentar, no entanto, a situações que excluem a ilicitude do


agente, previstas no artigo 23 do código penal, quais sejam: estado de
necessidade, legítima defesa, estrito cumprimento do dever legal e o exercício
regular do direito.

Por estas então, podemos concluir que não houve nenhuma situação no
livro que excluíssem a ilicitude do ato, pois lavar a honra com sangue não vem
a ser um direito. Ainda mais nos moldes do ocorrido, que horas antes estavam
amolando as facas que viriam a ser utilizadas para cometer o crime, o que
configura a premeditação.

Já no tocante ao concurso de agentes, temos que defini-lo primeiro,


enquanto cometimento de infração penal por duas pessoas ou mais, como no
caso em tela, em que dois irmãos cometem o crime.

Para que se configure o concurso de pessoas é necessária a presença de


dois ou mais agentes, nexo de causalidade material entre as condutas
realizadas e o resultado obtido, e, não faz-se necessário o ajuste prévio entre
os agentes, mas deve haver vontade de obtenção do resultado (vínculo de
natureza psicológica). Ou seja, mesmo que os agentes não se conheçam pode
haver o concurso de pessoas se existente a vontade de obtenção do mesmo
resultado. Por fim, é necessário também que haja reconhecimento da prática
do mesmo delito para todos os agentes e a existência de atipicidade e
antijuridicidade, já que se o fato não é punível para um dos coautores, também
não será para os demais.

Sobre o caso em tela, poderíamos entender que houve também a


coautoria por omissão ou conivência, já que foi anunciado aos quatro ventos
que tal crime viria a ocorrer? A participação por omissão ocorre quando a
pessoa que tinha o dever de impedir o resultado da ação não o faz, como a
autoridade jurídica da cidade que nada fez para impedir o assassinato.

E, sim, podemos identificar por parte de toda a sociedade, a participação


por conivência, que ocorre quando não havia vontade de obtenção do
resultado, mas não houve tentativa de impedi-lo. Para este no entanto, não há
punição.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRASIL. Código Penal. Disponível em:


http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del2848.htm. Acesso em 10 de
maio de 2015.

CAPEZ, Fernando. Curso de Direito Penal – Vol 1 – Parte Geral. 18ª Edição.
São Paulo: Saraiva, 2014.

NUCCI, Guilherme de Souza. Manual de Direito Penal. Editora Revista dos


Tribunais. 2ª Edição - 2006.

TOLEDO, Francisco de Assis. Princípios básicos de direito penal. São


Paulo: Saraiva, 2002.