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MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL

Parecer nº 31367/2017 - SC

Mandado de Segurança nº 22.904 – DF


Impetrante : Gustavo Nogueira Beckhauser

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Impetrante : Erick Luiz Panini
Impetrado : Comandante do Exército Brasileiro
Relator : MINISTRO NAPOLEÃO NUNES MAIA FILHO – 1ª SEÇÃO

MANDADO DE SEGURANÇA. DIREITO


ADMINISTRATIVO. OFICIAL DO EXÉRCITO.
REINCLUSÃO NA CORPORAÇÃO. I – A
INTERPRETAÇÃO SISTÊMICA DO DISPOSTO NOS

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ARTIGOS 3º, § 1º, A, III, 121, § 2º, E 137, I, DA LEI N.
6880/80 PERMITE CONCLUIR PELO DIREITO DOS
IMPETRANTES DE SEREM REINCLUÍDOS NAS
FILEIRAS DO EXÉRCITO, APÓS DESISTÊNCIA DO
ESTÁGIO PROBATÓRIO EM CARGO ESTRANHO À
CARREIRA MILITAR. II – IGUAL SOLUÇÃO ADVIRIA
DA APLICAÇÃO SUBSIDIÁRIA DO INSTITUTO DA
RECONDUÇÃO, PREVISTO NA LEI Nº 8.112/90,
INCIDENTE AO CASO POR FORÇA DO ITEM 43 DO
PARECER VINCULANTE JT-03 DA PRESIDÊNCIA DA
REPÚBLICA. III - PARECER PELA CONCESSÃO DA
SEGURANÇA.

Excelentíssimo Senhor Ministro Relator,

Trata-se de mandado de segurança, impetrado por


GUSTAVO NOGUEIRA BECKHAUSER e ERICK LUIZ PANINI, contra atos
do Comandante do Exército Brasileiro, buscando, em síntese, a declaração de
nulidade dos despachos decisórios n.º 154/2016 e 155/2016 para que seja
permitida sua reinclusão nas fileiras do Exército Brasileiro, em razão da
desistência de estágio probatório em cargo público civil, de natureza permanente,
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anteriormente assumido perante a Comissão de Valores Mobiliários e o


Ministério da Fazenda, respectivamente.

Sustentam os impetrantes que o seu retorno às funções


militares está amparado pelos artigos 3º, § 1º, a, III, 121, § 2º, e 137, I, da Lei n.
6880/80, além do artigo 142, §,3º, X, da CF/88, sendo, portanto, aplicável em seu
favor o disposto no art. 2º, § 1º, da Portaria n. 1.347/2015, em sua redação

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original.

Neste ponto, entendem que as alterações trazidas pela


Portaria n.º 995, de 19/08/2016, por serem ilegais, não alcançam seu pedido
administrativo, realizado antes da edição do referido diploma.

Aduzem que: “mutatis mutandis, extrai-se do art. 121, § 2º,

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da Lei n. 6880/80, que a reinclusão é um instituto similar à recondução prevista
na Lei n. 8.112/90, pois, em sua essência, autoriza o retorno do agente público
ao cargo anteriormente ocupado, caso não tenha sido habilitado para a
investidura definitiva no novo cargo inacumulável com o primeiro” (fl. 15 e-
STJ).

Consideram, nesse prisma, ser possível sua reinclusão no


quadro ativo do Exército, uma vez que não obtiveram estabilidade em cargo
público civil permanente (desistência do estágio probatório).

Por fim, alegam que “os despachos decisórios não atendem


ao interesse público, pois inviabilizam a reinclusão de dois oficiais de carreira,
com ampla experiência profissional – após vultosos investimentos despendidos
pela União, no longo curso de formação, bem como na constante capacitação e
treinamento militar -, como forma de represália, pelo simples fato de terem
almejado galgar novos cargos públicos” (fl. 24 e-STJ).

Requerem, assim, seja concedida a segurança, “declarando-


se a ilegalidade dos despachos decisórios nº 154/2016 e 155/2016 e, por
conseguinte, seus efeitos, com a consequente determinação da reinclusão
definitiva dos autores nas fileiras do Exército Brasileiro” (fl. 29 e-STJ).
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A autoridade apontada como coatora prestou informações às


fls. 216/223 e-STJ.

Os autos foram, em seguida, remetidos a esta Procuradoria


Geral da República, para parecer.

É o relatório. Passo a opinar.

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Razão assiste aos impetrantes, pois o fundamento que
embasou a edição da Portaria nº 995/2016, que excluiu dos oficiais o direito de
reinclusão, por suposta ausência de autorição legal, não é veraz, o que, por sua
vez, também contamina a decisão tomada nos despachos decisórios n.º 154/2016
e 155/2016, ora guerreados.

Isso porque o artigo 3º, § 1º, a, III, da Lei n. 6.880/80 é

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cristalino ao prever o instituto da reinclusão para os militares, quando assim
estabelece:

Art. 3° Os membros das Forças Armadas, em razão de sua


destinação constitucional, formam uma categoria especial de
servidores da Pátria e são denominados militares.
§ 1° Os militares encontram-se em uma das seguintes situações:
a) na ativa:
(...)
III - os componentes da reserva das Forças Armadas quando
convocados, reincluídos, designados ou mobilizados;

Paralelamente, o mesmo diploma disciplina de modo


específico a reinclusão voluntária das “praças”:

Art. 121. (...)

§ 2º A praça com estabilidade assegurada, quando licenciada


para fins de matrícula em Estabelecimento de Ensino de
Formação ou Preparatório de outra Força Singular ou Auxiliar,
caso não conclua o curso onde foi matriculada, poderá ser
reincluída na Força de origem, mediante requerimento ao
respectivo Ministro.

E tal direito se estende aos oficiais a partir da interpretação


sistêmica do disposto no art. 134, § 3º da Lei nº 6.880/80, cuja redação, de
aplicação indistinta a praças e oficiais, assim preleciona:
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Art. 134. Os militares começam a contar tempo de serviço nas


Forças Armadas a partir da data de seu ingresso em qualquer
organização militar da Marinha, do Exército ou da Aeronáutica.
(...)
§ 3º O militar reincluído recomeça a contar tempo de serviço a
partir da data de sua reinclusão.

Ainda, de modo complementar, sucessivamente estabelece o


art. 137, inciso I (Lei nº 6.880/80):

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Art. 137. Anos de serviço é a expressão que designa o tempo de
efetivo serviço a que se refere o artigo anterior, com os seguintes
acréscimos:
I - tempo de serviço público federal, estadual ou municipal,
prestado pelo militar anteriormente à sua incorporação,
matrícula, nomeação ou reinclusão em qualquer organização
militar (…).

Portanto, ao que se pode ver, a motivação empregada na

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Portaria nº 995/2016, para minar o direito de reinclusão decorrente da inabilitação
voluntária em estágio probatório, é de todo equivocada, pois editada à revelia dos
dispositivos legais atinentes às formas de reingresso de militares na corporação,
razão pela qual deve incidir em favor dos impetrantes o disposto do art. 2º, § 1º,
da Portaria 1.347/2015, em especial, porque o teor deste dispositivo era
plenamente válido ao tempo em que os seus requerimentos individuais foram
apresentados ao Comando do Exército.

E, ainda que no Estatuto dos Militares houvesse lacuna


quanto às consequências da nomeação e posse de Oficial do Exército em cargo ou
emprego público civil, de natureza permanente e estranho à carreira de militar, o
deslinde do writ seria o mesmo, pois à hipótese incidiriam as previsões contidas
na Lei nº 8.112/96, no que tange ao instituto similar da “recondução”, por força
do que dispõe o item 43 do Parecer Vinculante JT-03 da Presidência da
República, mencionado na impetração:

“No que toca aos cargos da União submetidos a regime especial


ou estatuto próprio, importa recordar que a Lei nº 8.112/90 a
eles se aplica de forma subsidiária, ou seja, deverá incidir no que
não for conflitante com a legislação especial que rege o cargo,
vez que se trata de lei de caráter geral. Desse modo, se o estatuto
de determinado cargo federal não prevê o instituto da
recondução, deverá ser aplicada a regra geral da recondução
prevista no Estatuto dos Servidores Públicos Civis da União”.
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Assim, deve ser declarada a ilegalidade dos despachos


decisórios n. 154/2016 e 155/2016 e, por conseguinte, seus efeitos, com a
consequente determinação da reinclusão definitiva dos autores nas fileiras do
Exército Brasileiro.

Ante o exposto, opina o Ministério Público Federal pela


concessão da segurança.

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Brasília, 29 de março de 2017.

SANDRA CUREAU
Subprocuradora-Geral da República

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