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Elementos de Direito das Obrigações

MÓDULO 1: PRINCÍPIOS E MODALIDADES

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

PONTO 0 (CP 0)
Contratos/responsabilidade civil/exclusão/CCGerais

ENQUADRAMENTO DOGMÁTICO

1. Exclusão unilateral de responsabilidade

1. Os princípios da autonomia privada

- igualdade
- vinculação: fontes
- sede legal

2. A responsabilidade civil

- sede legal
- espécies de responsabilidade

CASO PRÁTICO nº 0

A socidedade Parque Expo tem uma tabuleta numa vedação de segurança que contorna a doca
do Pavilhão de Portugal dizendo: “Perigo de afogamento. A ParqueExpo não se responsabiliza
por acidentes”.

Analise este quadro jurídico


1. Tal como se apresenta, para a Parque Expo e para terceiros
2. Havendo queda, sem culpa, à àgua, determine

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a) direitos e deveres da Parque Expo


b) direitos e deveres do acidentado

consoante haja dano ou não haja dano

- sede legal
- espécies de responsabilidade

Resposta A)

- a P Ex é uma sociedade privada


- em qualquer caso, trata-se de uma situação jurídicamente relevante, de
Direito Privado
- valem, por isso, as regras do Código Civil

- há um contrato?

Artigo 234º
(Dispensa da declaração de aceitação)

Quando a proposta, a própria natureza ou circunstâncias do negócio, ou os usos tornem


dispensável a declaração de aceitação, tem-se o contrato por concluído logo que a
conduta da outra parte mostre a intenção de aceitar a proposta.

- em qualquer caso, a Pex está obrigada a deveres estabelecidos em


normas administrativas quanto às regras de construção de uma vedação
- portanto, a construção pode estar ilegal, mas é um dado que não
podemos pressupor

- a pergunta é, pois, qual o sentido deste escrito?

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o Trata-se de um acto jurídico: i.e, de uma facto voluntário produzido


com a intenção de ter um dado efeito jurídico
o Há que interpretar a declaração que está contida nele: 236º
o O autor pretende exprimir que
▪ Ou não responde nunca por acidentes, mesmo que haja
violação de um dever de cuidado de sua parte (a)
▪ Ou não responde nunca por acidentes, salvo se houver
violação de dever de cuidado de sua parte (b)
▪ Ou não responde por acidentes, ainda que com violação de
dever de cuidado, mas com culpa do lesado (c)
o A hipótese a) é a mais pertinente
- Por, então, alguém auto-desresponsabilizar-se
- Qual o valor jurídico de uma auto-vinculação
- Qual o valor jurídico de uma pretensa auto-desoneração?

- Resposta:

- Forma

Artigo 5.º

Comunicação
1 - As cláusulas contratuais gerais devem ser comunicadas na íntegra aos aderentes
que se limitem a subscrevê-las ou a aceitá-las. 

2 - A comunicação deve ser realizada de modo adequado e com a antecedência
necessária para que, tendo em conta a importância do contrato e a extensão e
complexidade das cláusulas, se torne possível o seu conhecimento completo e efectivo
por quem use de comum diligência. 

3 - O ónus da prova da comunicação adequada e efectiva cabe ao contratante que
submeta a outrem as cláusulas contratuais gerais

- nulidade por imperatividade das normas de responsabilidade civil; só as


interpretações b) e c) conterão um sentido válido: não respondo salvo se
tiver culpa

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Artigo 18.º

Cláusulas absolutamente proibidas
São em absoluto proibidas, designadamente, as cláusulas contratuais gerais que: 

a) Excluam ou limitem, de modo directo ou indirecto, a responsabilidade por danos
causados à vida, à integridade moral ou física ou à saúde das pessoas; 

b) Excluam ou limitem, de modo directo ou indirecto, a responsabilidade por danos
patrimoniais extracontratuais, causados na esfera da contraparte ou de terceiros; 

c) Excluam ou limitem, de modo directo ou indirecto, a responsabilidade por não
cumprimento definitivo, mora ou cumprimento defeituoso, em caso de dolo ou de culpa
grave; 

d) Excluam ou limitem, de modo directo ou indirecto, a responsabilidade por actos de
representantes ou auxiliares, em caso de dolo ou de culpa grave;

Artigo 12.º

(Cláusulas proibidas)
As cláusulas contratuais gerais proibidas por disposição deste diploma são nulas nos
termos nele previstos.

Artigo 20.º

Âmbito das proibições
Nas relações com os consumidores finais e, genericamente, em todas as não
abrangidas pelo artigo 17.º, aplicam-se as proibições das secções anteriores e as
constantes desta secção

Artigo24.º

Declaração de nulidade
As nulidades previstas neste diploma são invocáveis nos termos gerais.

Artigo25.º

Acção inibitória
As cláusulas contratuais gerais, elaboradas para utilização futura, quando contrariem o
disposto nos artigos 15.º, 16.º, 18.º, 19.º, 21.º e 22.º podem ser proibidas por decisão
judicial, independentemente da sua inclusão efectiva em contratos singulares.

Artigo32.º

Consequências da proibição definitiva
1 - As cláusulas contratuais gerais objecto de proibição definitiva por decisão transitada
em julgado, ou outras cláusulas que se lhes equiparem substancialmente, não podem
ser incluídas em contratos que o demandado venha a celebrar, nem continuar a ser
recomendadas. 

2 - Aquele que seja parte, juntamente com o demandado vencido na acção inibitória, em

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contratos onde se incluam cláusulas gerais proibidas, nos termos referidos no número
anterior, pode invocar a todo o tempo, em seu benefício, a declaração incidental de
nulidade contida na decisão inibitória

Resposta B)
- regime geral da responsabilidade
- contratual, se houver contrato; abrangendo ainda um sujeito menor (i.e.,
não sendo de o remeter para uma responsabilidade delitual) se fizermos
uso de uma tese de extensão da eficácia dos deveres contratuais
acessórios, fundados na boa fé (Menezes Leitão, DOb I, 361-362).
- delitual, se não houver contrato
- não pelo risco – cf. 483/2

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PONTO nº 1
Direitos reais vs direitos de crédito / Contratos/oponibilidade a terceiros /
neminem laedere
CP nº 1

ENQUADRAMENTO DOGMÁTICO

2. Direitos reais vs direitos de crédito

M, DOb I, 103 ss.

Critérios: objecto, estrutura, oponibilidade a terceiros

Direitos de crédito: mediação do devedor, relatividade, oponibilidade a terceiros


limitada / fraca? (sem inerência, sem sequela, sem prevalência?)
Direitos reais: imediação, absolutidade, oponibilidade forte (inerência, sequela,
prevalência)

3. Eficácia externa, oponibilidade fraca

ML, DOb I, 95 ss.

4. Os direitos pessoais de gozo

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ML, DOb I, 106 ss.

CASO PRÁTICO Nº 1

Sara obrigou-se a cantar no bar de Raquel na noite de fim de ano. No dia 31 à tarde, Lia propôs a
Sara ir cantar a sua casa nessa noite, mas esta objectou que já se vinculara perante Raquel. Lia
ofereceu-lhe um preço superior, e Sara lá aceitou. Sara informou Raquel, que, todavia, já não
arranjou substituto. A festa de Raquel foi um fracasso total, alguns clientes insultaram-na pela
ausência de música ao vivo — ao contrário do que dizia a publicidade — e, em consequência,
Raquel vendeu menos € 10.000 de bebidas do que no ano anterior. Raquel propôs uma acção de
indemnização contra Sara e Lia, sendo certo, no entanto, que Sara é insolvente. Quid juris?

* Caso da autoria de Dr. Pedro Ferreira Múrias

Questões prévias

- Espécie de contrato? Prestação serviços


- Partes: Sara e Raquel
- Responsabilidade civil de Sara perante Raquel:

O devedor que falta culposamente ao cumprimento da obrigação torna-se responsável pelo


prejuízo que causa ao credor (art. 798º)

Resposta

- Lia é terceira:
- Pode ser responsabilizada?
o Nunca como parte
o Como terceiro que violasse um dever específico
- P1 – doutrina clássica (Cunha Gonçalves); irrelevância perante terceiros
(cf. 406/ 2 CC e a oposição 483 vs 798 CC)
- P2 – doutrina da eficácia externa (Gomes da Silva, Menezes Cordeiro,
Santos Júnior): neminem laedere (dever geral de respeito

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- P3 – doutrina mista (Andrade, Vaz Serra, Varela, Sinde Monteiro, Almeida


Costa, MENEZES LEITÃO): relevância em sede estrita de abuso de
direito (art. 334 CC), ou exercício inadmissível da autonomia privada/
liberdade de contratar; não há uma prevalência entre créditos, todos são
igualmente legítimos e válidos, seja qual for a situação contratual /
vínculos da contraparte (cf. 604/1)

JURISPRUDÊNCIA

STJ 15/7/1993 CJ/STJ 3 (1993), 88 ss


RC 10/11/1992

STJ 25-10-93 (Machado Soares) BMJ N430 ANO1993 PAG455


I - No caso de contrato de transporte seguido de subcontrato, o primeiro contraente não pode
valer-se, em geral, de "acção directa" contra o devedor do seu devedor, ou seja, contra o
subcontraente, mormente quando não seja exigida responsabilidade extracontratual, uma vez que
tal acção reveste a feição de uma acção de cumprimento.

II - O primeiro contraente poderá, todavia, agir contra o subcontratante, terceiro violador do seu
direito de crédito, ao abrigo do princípio da eficácia externa das obrigações, desde que se
verifiquem todos os pressupostos da responsabilidade civil exigidos por lei.

STJ 11-03-99 (Machado Soares)


I - Nada impede que as empresas transitárias exorbitando embora os limites da sua específica
actividade, possam ajustar contratos de transporte de mercadorias com os interessados,
directamente ou com recurso a terceiros.

II - É de prescrição, o prazo de um ano fixado no artigo 32 da Convenção CMR.

III - Se uma empresa se apresenta como mera auxiliar da transportadora, fica afastada a
possibilidade de existência de um subcontrato de transporte entre ambas.

RC 10-01-2006 (Jorge Arcanjo)


I – A responsabilidade civil da Brisa, enquanto concessionária de auto-estradas, pelos danos
decorrentes de um acidente de viação provocado pelo aparecimento súbito de um cão, é
simultaneamente extra-contratual, com o regime previsto no artº 493º, nº 1, do C. Civ., e
contratual, verificando-se uma situação de concurso aparente de responsabilidades, conferindo-se

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ao lesado a possibilidade de optar por um ou outro regime e até de cumular regras de uma e outra
modalidade da responsabilidade, segundo a chamada "teoria da opção" .

II – Em ambos os casos impende sobre a Brisa uma presunção legal de culpa – artºs 493º, nº 1, e
799º, nº 1, do C. Civ. - , mas sem qualquer restrição no modo de ilisão .
III – Fazer depender a ilisão da presunção do modo concreto da intromissão do animal é tornar
impossível a prova, implicando na prática uma situação de responsabilidade objectiva, e a norma
nesta dimensão interpretativa seria materialmente inconstitucional por violação do princípio da
proporcionalidade .
IV – Não é suficiente para ilidir a presunção a mera alegação genérica de que “junto ao local do
acidente existe vedação que estava em bom estado de conservação”, impondo-se a concreta
alegação das características físicas da vedação, designadamente o tipo de vedação, a estrutura
material, a altura da mesma, para se aquilatar da efectiva condição de segurança .

RC 13-03-2007 (Jacinto Meca)


I - Para que se decrete uma providência cautelar não especificada impõe-se a conjugação dos
seguintes requisitos: - a probabilidade séria da existência do direito invocado; - que muito
provavelmente esse direito – invocado – exista ou que venha a surgir em acção constitutiva já
proposta ou a propor; - o fundado receio de que outrem, antes da acção ser proposta ou na sua
pendência, cause lesão grave e dificilmente reparável a tal direito.
II – A probabilidade séria da existência do direito invocado basta-se com um mero juízo de
verosimilhança, isto é, com uma prova sumária.
III – Em relação aos factos integradores do chamado “periculum in mora”o requerente tem que
provar – não basta um mero juízo de verosimilhança – os danos que visa acautelar, sendo certo
que se exige a prova da gravidade e da difícil reparação das consequências danosas da
manutenção do “status quo”.
IV – O que significa que apenas merecem a tutela provisória consentida pelo procedimento
cautelar comum as lesões graves e de difícil reparação, ficando arredadas do círculo de interesses
acautelados pelo procedimento cautelar comum, ainda que se mostrem de difícil reparação, as
lesões sem gravidade ou de gravidade reduzida, do mesmo modo que são afastadas as lesões que,
apesar de serem graves, sejam facilmente reparáveis.
V – Os prazos fixados para a celebração do contrato prometido tanto podem ser absolutos como
relativos. Tratando-se de um prazo absoluto, decorrido o mesmo o contrato caduca; sendo um
prazo relativo, decorrido o prazo de cumprimento e verificando-se que o incumprimento não pode
ser imputado a nenhuma das partes, sendo ainda possível o cumprimento, então qualquer um dos
contraentes pode notificar o outro para o cumprir em prazo razoável a fixar.
VI – Este prazo suplementar admonitório será peremptório, pelo que o contrato se considera
definitivamente incumprido se não for respeitado.
VII – Uma vez que a nossa ordem jurídica não colhe a chamada eficácia externa das obrigações,
adere-se à tese que sustenta que a co-responsabilização de terceiro cúmplice pela indemnização
só é devida desde que este invada os terrenos interditos do abuso de direito.

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PONTO nº 2
Patrimonialidade das obrigações. Obrigações naturais
CP nº 2
CP nºs 3 e 4

ENQUADRAMENTO DOGMÁTICO

5. Patrimonialidade das obrigações

ML, DOb I, 90 ss

CASO PRÁTICO Nº 2

António tem uma frustração doentia por nunca ter conseguido aprender a tocar bem piano,
frustração que aumentou quando Benta, filha de um amigo seu, começou a aprendê-lo. Benta foi
evoluindo na sua arte até que, aos 18 anos, entrou no curso superior do Conservatório. António
ofereceu-lhe então € 25.000 para que nunca mais tocasse. Benta aceitou e António pagou-lhe.
Passado um ano, Benta arrependeu-se. Quid juris?

* Caso da autoria de Dr. Pedro Ferreira Múrias

ARTIGO 398º
(Conteúdo da prestação)

1. As partes podem fixar livremente, dentro dos limites da lei, o conteúdo positivo ou
negativo da prestação.

2. A prestação não necessita de ter valor pecuniário; mas deve corresponder a um


interesse do credor, digno de protecção legal.

- importância dos limites constantes do art. 280º e decorrentes do


princípio da boa fé
- Antecedentes do nº 2
▪ Art. 1174º CC/It: a prestação tem de ter conteúdo patrimonial,
mas o interesse não -> as obrigações têm de susceptíveis de
avaliação económica

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▪ art. 671º CC1867 afirmava que “não podem ser objecto de


contrato (...) as coisas ou actos que não se podem reduzir a um
valor exigível”; senão, havendo incumprimento, não é passível
de haver execução patrimonial, nem, tampouco, de danos
morais gerados pelo incumprimento; no entanto, as partes
poderiam dar-lhe valor patrimonial

Exemplo: A, doente, combinar com B que este não tocaria piano durante 2
horas; teria de haver uma cláusula penal que lhe desse uma patrimonialidade que ela
directamente não tem(2) um desmentido; (3) um pedido de desculpas

▪ VSerra: pai do art. 398/2, na esteira alemã


- “Não necessita de ter valor pecuniário”: tese da patrimonialidade
ampla”: não se exige a patrimonialidade da prestação, além de que
esta ou é patrimonial por si mesma ou não o é (não são as partes que,
por via da cláusula penal lhe conferem patrimonialidade); o que é
decisivo é o interesse do credor (i.e., a finalidade a satisfazer) ser
patrimonial, i.e., implicar um sacríficio/avaliação patrimonial/pecuniária
- No entanto, a afirmação legal de que o interesse do credor deve ser
“digno de protecção legal” parece dispensar essa mesma
patrimonialidade
▪ AV: a lei quis afastar: (I) as obrigações correspondentes a um
mero capricho ou simples mania do credor; (II) as obrigações
que sejam objecto de outros complexos normativos (v.g., moral,
religioso), mas não objecto do direito
▪ MC=ML: o grupo (I) não está excluído, se não existirem
quaisquer outros obstáculos (i.e., os do nº 1 do art. 398º);

Exemplo: (1) A, surdo, combinar com B que este não faria barulho (maxime, não tocaria
piano durante 2 horas por dia).

a patrimonialidade estrita não é requisito; o único requisito é


o da juridicidade: deve ser um interesse que seja objecto de

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tutela jurídica senão não se consegue distinguir de um dever


não jurídico; para isso devem existir indícios

Exemplo: A, surdo, combinar com B que este não faria barulho (maxime, não tocaria
piano durante 2 horas por dia), com uma cláusula penal (cf. art. 810º)
Outros INDÍCIOS haver/não haver acção directa, condenatória ou cautelar; haver/não
haver responsabilidade civil; haver/não haver direito a resolução por impossibilidade culposa
(art. 801/2)

Mas são situações raras, pelo que se pode dizer que as


obrigações são tendencialmente patrimoniais
▪ ML: patrimonialmente, o crédito, ainda que não vencido, é
sempre um activo e o débito um passivo e processualmente há
sempre lugar à condenação no cumprimento e à execução

Resposta

De duas uma:
- releva como mania (AV) pelo que não é uma obrigação digna de protecção
legal; há enriquecimento sem causa, com obrigação de restituição (472), sem
prejuizo de consideração de danos por violação da boa fé

- irreleva como mania (MC), mas importa apurar dos limites do 398/1 / 280 e
o ou se tem o acordo pode contrário aos princípios da ordem pública:
disposição inadmissível, porque desproporcionada no tempo, de um direito
de personalidade; logo, nulo, ab initio (cf. 81/1)
o ou se tem acordo por conforme aos princípios da ordem pública, mas pode
valer-se a parte passiva do 81/2

ENQUADRAMENTO DOGMÁTICO

6. Obrigações naturais

ML, DOb I, 125 ss.


Anexo 3 (Notas digitalizadas: Teses e regime, na doutrina de MC)

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Natureza jurídica (ML): não jurídica (relação de facto), para a qual o 403 não
vem dar juridicidade, mas uma causa jurídica à aquisição natural, em ordem a
proteger o credor natural. Não há na obrigação natural um direito primário à
prestação. Argumentos nesse sentido:
- a obrigação inclui um elemento de coercibilidade; não pode haver
crédito sem coercibilidade (donde a proibição do 809)
- sem esse elemento de coercibilidade o crédito natural não vale como
um activo no património do credor, nem como passivo no património
do devedor
- está, por isso, próximo, do regime das liberalidades, assim justificando
o art. 615/2
- o art. 476/1 mostra que o legislador reconhece que o cumprimento de
uma obrigação natural é juridicamente não devido, mas que esse
cumprimento espontaneo, por corresponder a um dever de justiça,
constitui uma causa jurídica para a recepção da prestação, que obsta
ao funcionamento do enriquecimento sem causa

CASO PRÁTICO nº 3

Por capricho, mas também por querer beneficiar Daniel, que estava desempregado, Célia
ofereceu-lhe € 50 pelo «serviço» de levar certa carrada de areia de construção do lugar onde
estava para outro lugar a 10 metros dali e trazê-la de volta ao ponto inicial. O trabalho devia ser
feito durante aquela tarde. Daniel aceitou e começou de imediato, mas Célia apareceu passado um
bocadinho dizendo-se arrependida. Quid juris?
* Caso da autoria de Dr. Pedro Ferreira Múrias

Resposta
Não há dúvidas de que se está perante obrigações com valor pecuniário,
por baixo que este seja. Além disso não se violam normas imperarivas. Portanto,
não se exclui que, em face do art. 398º, nº 2, não possamos estar perante uma
obrigação jurídica, seguindo MC.
Contudo, não será uma obrigação natural?

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Solução A (Mcordeiro):
➢ As referências a deveres morais e de justiça são de desvalorizar
porque são pouco produtivos; só interessa a incoercibilidade
➢ constituiu-se usando os procedimentos/normas atinentes à
constituição das obrigações (cf. art. 404º) , i.e., teria juridicidade
(MC);
➢ mas importa ainda que não seja judicialmente exigível: ora a
incoercibilidade não se presume, só podendo suceder nos casos
tipificados na lei (v.g., 304/2, 495/3, 1245, 1895/2) (MC)
➢ seria uma obrigação civil
Solução B (doutrina maioritária, maxime AVarela): obrigação natural é admitida
genericamente em todos os caso em que o cumprimento de um dever moral,
corresponde ao cumprimento de um dever de justiça (Acosta, ML), desde que
específico entre pessoas determinadas (AVarela); nada disso surge aqui: a
fundamentação psicológica/moral de Célia é demasiado vaga para justificar uma
tutela específica.

CASO PRÁTICO Nº 4

A sociedade Empacota, S.A. celebrou com a sociedade Lacticínios, S.A. um contrato nos termos
do qual a primeira se obrigava a entregar à segunda 10.000 embalagens Tetra Pak mediante o
pagamento de um preço. Regularam pormenorizadamente, entre outros aspectos, as
características das embalagens, o fraccionamento da entrega, os prazos de cumprimento e uma
cláusula penal para o caso de atraso de qualquer um dos contraentes. Do texto constava ainda
uma cláusula onde se estabelecia o seguinte: «As obrigações emergentes do presente contrato não
são judicialmente exigíveis».
A sociedade Empacota não forneceu quaisquer embalagens nas datas acordadas. A Lacticínios
pretende saber se pode pedir a condenação judicial da Empacota a fazê-lo e, no caso de tal não ser
possível, que outros direitos lhe assistem. Que resposta lhe daria?

Resposta

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Vale aqui a proibição de renúncia do credor aos seus direitos (cf. art.
809º), maxime, ao direito de exigir o cumprimento. A cláusula é nula, sem
prejuízo de um abuso de direito pela Lacticínios (que concordou com ela), em
casos eventuais. O meio judicial não está excluído.
Em todo o caso, o credor pode celebrar negócios jurídicos processuais
(cf. 293 ss CPC): unilaterais (desistência da instância/ processo e desistência do
pedido) e bilaterais (acordo de transacção judicial (1248), antes (1250) ou na
pendência de uma acção judicial (1248/1 in fine). Todos têm algo em comum: o
direito de crédito é inseparável do direito de acção. Efectivamente, o credor ou
renuncia total/parcialmente ao seu direito de crédito (assim, na desistência do
pedido ou na transacção) ou renuncia apenas àquele processo (assim, na
desistência da instância)

JURISPRUDÊNCIA

STJ 10/5/1983 (Corte Real), BMJ 327 (1983), 636


OBRIGAÇÃONATURAL

OBRIGAÇÃO

COMPETENCIA DO SUPREMO TRIBUNAL DE JUSTIÇA
CCIV66 ART228 ART402 ART405 ART443 ART448 ART457 ART595 N1 B N2
ART942.

I - Esta na competencia do Supremo qualificar uma obrigação como natural ou civil.



II - Não constitui obrigação natural mas civil o compromisso assumido por um socio-
gerente de sociedade por quotas, com vista a obter a aceitação de concordata a esta
respeitante, de satisfazer um credor da mesma sociedade na parte não incluida na
concordata, promovendo o pagamento no mais curto prazo como a alienação ou
oneração de todos os seus bens presentes e futuros.

RL 30/10/1985, CJ 10/IV (1985), 217



RETRIBUIÇÃO

OBRIGAÇÃO NATURAL
CCIV66 ART402

LCT69 ART87.

A entidade patronal pode pedir ao trabalhador a restituição do que lhe pagou a título de
vencimento e subsídio de gasolina, se se provar que o fez erradamente, visto não se tratar de
obrigação natural.
:
STJ 17/2/1994 (Guerra Pires), BMJ 434 (1994), 292

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HOMICÍDIO QUALIFICADO

ARMA NÃO MANIFESTADA

AGRAVANTE QUALIFICATIVA

CONCURSO DE INFRACÇÕES

ESPECIAL CENSURABILIDADE DO AGENTE

OFENSAS CORPORAIS COM DOLO DE PERIGO

INSTRUMENTO PERIGOSO

RESPONSABILIDADE CIVIL CONEXA COM A CRIMINAL

INDEMNIZAÇÃO

UNIÃO DE FACTO

ALIMENTOS

OBRIGAÇÃO NATURAL

ALTERAÇÃO NÃO SUBSTANCIAL DOS FACTOS

FACTO NOVO

CP82 ART72 ART78 ART131 ART132 N2 F ART142 ART144 N2 ART260.



CCIV66 ART124 ART402 ART483 ART495 N3 ART566 N3 ART1576 ART1881 N1
ART2009 N1 A ART2020.

CPP87 ART374 N2 ART379 A ART410 N2 N3 A.

CPC67 ART10 ART201 ART664.

AC STJ DE 1983/06/15 IN BMJ N328 PAG371



AC STJ DE 1984/02/08 IN BMJ N334 PAG25.

AC STJ DE 1990/03/22 TJ ANOIV T5 PAG284

(...)
II - O homicídio, a tiro de pistola de calibre 6,35 mm não manifestada, tipifica o crime da alínea
f) do citado n. 2, quando o uso da arma revelar uma especial censurabilidade do agente (v.g. já
com a bala no cano, disparada a curta distância).

III - A existência de uma tal agravante qualificativa não obsta ao concurso real do dito homicídio
com o crime do artigo 260.

IV - Cabe no n. 2 do artigo 144 a agressão levada a cabo com uma vara de ferro maciço,
susceptível de causar lesões graves e, portanto, instrumento particularmente perigoso.

V - A mulher que, há anos, vivia em concubinato com o assassinado, tem direito à indemnização
correspondente à perda dos alimentos que aquele lhe prestava, como sua obrigação natural.

VI - Constitui nulidade alterar os factos alegados ou acrescentar-lhes outros, mas só se isso tiver
influido na decisão é que ela será declarada.

RP 9/11/1994 (Moura Pereira)


ACIDENTE DE VIAÇÃO

INDEMNIZAÇÃO

ALIMENTOS

OBRIGAÇÃO NATURAL
CCIV66 ART495 N3 ART2004.
I - Por via de regra, só o lesado tem direito a ser indemnizado pelos danos resultantes da lesão que
experimentou, mas a lei reconhece a terceiros, que não o lesado directo, direito a indemnização,
encontrando-se entre esses os que podiam exigir alimentos ao lesado ou aqueles a quem o lesado
os prestava no cumprimento de uma obrigação natural.

II - Na hipótese de acidente de viação, provando-se apenas que a vítima vivia com seus pais, lhes
entregava metade do seu salário, mas não se provando que aqueles necessitavam desse dinheiro,
nem que a vítima prestava alimentos em razão de uma obrigação natural, não há que fixar
indemnização em função dessa matéria.

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

RP 16/9/1997 (Pelayo Gonçalves)


MASSA FALIDA

RECONVENÇÃO

OBRIGAÇÃO NATURAL
CCIV66 ART402 ART403.

CPC67 ART274 N2 ART1189 N3 ART1212 ART1213 N1 ART1241. Sumári
o
I - Tendo a massa falida do genro da ré intentado contra esta acção de condenação, não é
permitido

à ré pedir em reconvenção a condenação da autora no pagamento de determinadas quantias
respeitantes

à ocupação pelo genro da ré, que com esta habitava, do anexo destinado à oficina onde iniciou a
sua actividade comercial e do anexo onde colocava animais, porquanto, trata-se de prestações
espontâneas resultantes da integração no mesmo agregado familiar, livres de qualquer coacção,
o que as faz situar na categoria de obrigações naturais.

RP 15/1/1998 (Oliveira Vasconcelos)


OBRIGAÇÃO NATURAL

REQUISITOS

CCIV66 ART402 ART404.


:
I - A obrigação natural é aquela em que existe um dever moral ou social, o qual corresponde
também a um dever de justiça.

II - Constitui obrigação dessa natureza a que consta de documento escrito e assinado por um dos
cônjuges, em que assume " a obrigação moral " de, falecendo em primeiro lugar o outro cônjuge,
proprietário dos bens do casal, deixar certos bens a uma empregada doméstica, interna e a viver
com o referido casal desde há bastantes anos.

RP 28/4/1999 (Neves Magalhães)


CHEQUE

RECUSA DE PAGAMENTO

DÍVIDA

JOGO

OBRIGAÇÃO NATURAL

CONTA CANCELADA

CPP98 ART377 N1.



DL 316/97 DE 1997/11/19 ART3 N4.

CCIV66 ART402 ART403 ART1245.

I - Emitido para pagamento de dívida de jogo, que o arguido contraíu no casino gerido pela
queixosa, e descriminalizada a emissão, por se tratar de cheque pré-datado, é de manter a
condenação do arguido no pedido cível ( montante do cheque e juros ) proferida no
prosseguimento do processo a requerimento da queixosa, visto do não pagamento de cheque ter
resultado prejuízo patrimonial, concebido o conceito de património como o conjunto de utilidades
económicas detidas pelo sujeito cuja fruição ou exercício a ordem jurídica não desaprova, sendo
certo que mesmo que a dívida de jogo origine apenas uma obrigação natural, se o devedor
cumprir espontaneamente, a prestação não pode ser repetida.

STJ 1/7/1999 (Pereira da Graça)


INDEMNIZAÇÃO DE PERDAS E DANOS

DANOS MORAIS


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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

ALIMENTOS

OBRIGAÇÃO NATURAL
CCIV66 ART495 N3.

Têm direito a ser indemnizados, nos termos do artigo 495 do CC os pais que recebiam da filha, vítima
mortal de acidente de viação, uma prestação mensal, em cumprimento de um simples dever moral, e que,
segundo intenção firme dela, continuariam a receber enquanto vivos fossem.

:RP 21/6/2000 (Coelho da Rocha)



FALTA DE PAGAMENTO DA RENDA

PRESCRIÇÃO

DEPÓSITO CONDICIONAL

OBRIGAÇÃO NATURAL

RESTITUIÇÃO
CCIV66 ART304 N2 ART302 N2 ART402.

Tendo os Réus excepcionado a prescrição de rendas vencidas há mais de um ano, antes de instaurada a
acção de despejo com base na falta de pagamento de rendas, e tendo, à cautela, efectuado o seu depósito
condicional para impedir o despejo, tal depósito não consubstancia o cumprimento de uma obrigação
natural que impeça a restituição de tais quantias aos Réus, se procedente a excepção peremptória em
causa.

RP 04-03-2002 (Pinto Ferreira) CJ 27/II (2002), 177.


OBRIGAÇÃO NATURAL

ENRIQUECIMENTO SEM CAUSA

CCIV66 ART402 ART473.

I - Quem paga as despesas médicas e hospitalares de um irmão que permaneceu em estado de coma durante
mais de três anos, no convencimento de que esse irmão, se sobrevivesse, o reembolsaria do montante
despendido, não cumpre uma obrigação natural.

II - O fundamento jurídico para o reembolso dessas despesas é o enriquecimento sem causa.

RP 20/3/2002 (Dias Cabral)


RAPTO

VIOLÊNCIA

RAPTO RESULTANDO MORTE

INTENÇÃO DE MATAR

NEGLIGÊNCIA

CO-AUTORIA

PENA DE PRISÃO

MEDIDA DA PENA

INDEMNIZAÇÃO

DIREITO À VIDA

DANOS PATRIMONIAIS

OBRIGAÇÃO NATURAL

DANOS MORAIS

AGRAVAÇÃO PELO RESULTADO

CP95 ART13 ART15 A B ART71 ART158 N3 ART160 N1 D N2 B.



CCIV66 ART402 ART495 N3 ART562 ART564 ART566 N3 ART2009 N1 A.

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

: I – A intenção de matar deduz-se geralmente dos elementos materiais, conjugados ou não com a regras da
experiência comum, onde a presunção natural tem especial relevância.

II – Provado que o arguido agiu voluntária e conscientemente com a intenção de causar as lesões descritas,
sabendo que tais lesões causavam perigo para a vida da vítima e eram adequadas a causar-lhe a morte,
resultado que previu mas com o qual não se conformou, e dado como não provado que tivesse agido com o
propósito de produzir-lhe a morte (devido a outros elementos que abalaram a convicção da intenção de
matar), há que afastar a intenção de matar por subsistir no espírito do julgador dúvida séria sobre a
existência de tal intenção.

III – Provado que os arguidos, agindo de comum acordo, levaram a vítima, à força, para local diferente do
da sua residência (local para onde se dirigiam inicialmente) aí a mantendo, através do uso de violência, e
contra a sua vontade, tendo como finalidade obrigar os familiares da vítima a entregar-lhes determinada
quantia em dinheiro (que a vítima pretensamente lhes devia), a troco da sua libertação, tendo agido
voluntária e conscientemente, sabendo que tais condutas eram punidas por lei, mostra-se preenchido o tipo
de crime do artigo 160 ns.1 alínea d) e 2 alínea b) do Código Penal (crime de rapto agravado pelo resultado
morte), sendo indiferente que a vítima devesse ou não qualquer quantia aos arguidos.
(...) 


VII – Provado que a demandante foi casada com a vítima, tendo-se separado judicialmente de pessoa e
bens por mútuo acordo, mas apesar dessa separação sempre viveram em comunhão de mesa, leito,
habitação e economia até ao momento da morte da vítima e que do rendimento mensal desta cerca de 100
contos era afecto à economia comum do casal, composto pela vítima e pela demandante, haverá lugar a
indemnização a favor desta que deixou de receber uma quantia que era prestada no cumprimento de uma
obrigação natural (artigo 495 n.3 do Código Civil), apesar de não se ter dado como provado que a
demandante dependesse apenas dos rendimentos da vítima, pois também não se deu como provado que
tivesse outros rendimentos, que não necessitasse desses rendimentos ou qual a sua contribuição para a
economia comum.

RG 29/1/2004 (Araújo Barros)


ESPECIFICAÇÃO

REPETIÇÃO DO INDEVIDO

OBRIGAÇÃO NATURAL

ABUSO DE DIREITO

(...)


5. A repetição do indevido constitui um caso particular da figura do enriquecimento sem causa, revestindo,
por isso, natureza subsidiária, e dependendo a sua invocação da verificação dos pressupostos para este
exigidos pelo art. 473º do C.Civil.
6. O que for prestado com a intenção de cumprir uma obrigação pode ser repetido se esta não existia, salvo
se a prestação foi efectuada espontaneamente no cumprimento de uma obrigação natural.
7. Para que haja obrigação natural é necessário que exista, como fundamento da prestação, um dever
moral ou social específico entre pessoas determinadas, cujo cumprimento seja imposto por uma recta
composição de interesses (ditames da justiça), competindo, em cada caso, à jurisprudência, de harmonia
com as concepções predominantes e as circunstâncias concretas de cada situação, averiguar, primeiro, se
existe um dever moral ou social, e, seguidamente, se esse dever moral ou social é tão importante que o seu
cumprimento envolve um dever de justiça.
8. O cumprimento de obrigação inexistente confere, pura e simplesmente, ao seu autor, o direito à
repetição, não exigindo a lei o erro desculpável do solvens nem o conhecimento do erro pelo accipiens no
acto do cumprimento, nem tão pouco a ignorância da inexistência da obrigação para que aquele possa
actuar a repetição do indevido.
9. Não age com abuso de direito a seguradora que, por motivo a si próprio imputável, continuou a pagar a
um sinistrado em acidente de trabalho uma pensão que, entretanto, fora reduzida por decisão judicial, sendo
esta redução do conhecimento daquele sinistrado, vem requerer a repetição do indevido relativamente aos
montantes que pagou na parte em que excederam o quantum que estava obrigada a pagar.

:RP 4/5/2004 (Henrique Araújo)


ACIDENTE DE VIAÇÃO

DANOS FUTUROS


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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

OBRIGAÇÃO NATURAL

ALIMENTOS
Em caso de morte ocorrida em acidente de viação só existirá indemnização por danos cessantes se a vítima
estava obrigada a prestar alimentos ou se o fazia em cumprimento de uma obrigação natural, isto é,
obrigação fundada num mero dever de ordem moral ou social, não bastando ser seu cônjuge.

RP 11/4/2005

EXECUÇÃO

PRESCRIÇÃO

COMPENSAÇÃO

CRÉDITO

OBRIGAÇÃO NATURAL

I– A prescrição transforma a obrigação civil numa obrigação natural.



II – Não impede a compensação de créditos o facto do crédito do compensante – (crédito passivo)
dimanar de títulos cambiários exequendos já prescritos. R

RL 24/5/2005 (Pimentel Marcos)


INVENTÁRIO

BENFEITORIA

HERANÇA

RECONHECIMENTO DA DÍVIDA

OBRIGAÇÃO NATURAL

1) As benfeitorias realizadas por terceiros, ou mesmo por um herdeiro, em bens da herança, em


data posterior ao falecimento do “de cuius”, constituem matéria alheia ao inventário e, por isso,
não devem ser relacionadas como passivo da herança.

2) Apenas relevam para efeitos de inventário as benfeitorias realizadas em vida do autor da
herança, pelo que só estas devem ser relacionadas. 

3) Um documento escrito e assinado pelo declarante, que contenha o reconhecimento duma
determinada dívida, sem indicação da respectiva causa, constitui o reconhecimento dessa dívida
nos termos e para os efeitos do artigo 458º do CC. 

4) Compete ao autor da declaração, ou aos seus herdeiros, o ónus de provar que a presumida
relação fundamental nunca existiu, não é válida ou cessou .

5) Na averiguação sobre a existência duma obrigação natural compete à jurisprudência averiguar
em cada caso (excepto naqueles que são expressamente previstos na lei), de harmonia com as
concepções sociais predominantes e as circunstâncias concretas, primeiro, se existe um dever
moral ou social, e, seguidamente, se esse dever é de tal importância que o seu cumprimento
envolva um dever de justiça. 

6) Por isso, exige-se que o dever de prestar não respeite somente à consciência moral do agente;
deve respeitar também à sua consciência jurídica.

STJ 9/2/2006 (Salvador da Costa)

CEMITÉRIO

CONTRATO DE CONCESSÃO

USUCAPIÃO

CADÁVER

OBRIGAÇÃO NATURAL

TRANSLADAÇÃO DE CÁDAVER

CONDENAÇÃO

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

1. A contradição entre os fundamentos de facto e ou de direito e a decisão a que se reporta o


artigo 668º, nº 1, alínea c), do Código de Processo Civil é lógica, pelo que nada tem a ver com o
erro de interpretação fáctico-jurídica ou de aplicação normativa.

2. Expostas as pertinentes considerações de ordem jurídica no confronto dos factos apurados, a
não identificação das respectivas normas jurídicas não integra a nulidade do acórdão por falta de
fundamentação de direito a que se reporta o artigo 668º, nº 1, alínea b), do Código de Processo
Civil.

3. Os cemitérios municipais e paroquiais são bens integrados no domínio público cujo uso
privativo, designadamente para a construção de jazigos, é atribuído a particulares sob o regime de
contrato de concessão, que os não podem adquirir por usucapião. 

4. O cadáver em si é uma coisa que não integra a herança e que, por razões de piedade e respeito
pelos mortos, queda excluído do tráfico jurídico normal.

5. Não integra negócio jurídico sobre o cadáver o acordo entre a concessionária do jazigo e o
cônjuge do defunto no sentido de este ser inumado no jazigo daquela sob condição de
compensação patrimonial.

6. A circunstância de o cadáver ser de pessoa que residia no lar de idosos da concessionária do
jazigo não significa que a respectiva inumação nele pela última tenha ocorrido no cumprimento
de uma obrigação natural. 

7. O concessionário do direito de construção do jazigo tem sobre ele exclusivos poderes de uso e
fruição, no âmbito dos quais é livre de consentir ou de recusar o depósito no mesmo de cadáveres
de terceiros.

8. Inverificada a condição mencionada sob 5, pode a concessionaria do jazigo exigir do cônjuge
do falecido, em acção declarativa de condenação, a transladação do cadáver, mas não a exigir-lhe
o pagamento do que viesse a despender na remoção em substituição do primeiro, matéria própria
da acção executiva para prestação de facto.
to

STJ 19/12/2006 (Sebastião Póvoas)


OBRIGAÇÃO NATURAL

CULTO DOS MORTOS

1) Ninguém pode ser privado da possibilidade de prestar o culto aos seus mortos, de conviver
com a sua memória e com a sua saudade sendo que a exteriorização desse recolhimento varia com
os usos da comunidade, as tradições familiares ou de grupo, os ritos religiosos ou, enfim, a
personalidade de cada um.


2) A Constituição da República, o Código Civil e o direito mortuário - DL nºs 433/82, 422/98,
5/2000 e 138/2000 - não consagram expressamente o direito ao culto dos mortos.


3) São pressupostos das obrigações naturais o basear-se a obrigação num dever moral ou social e
o seu cumprimento corresponder a um dever de justiça. É requisito negativo a sua não
coercibilidade.


4) Privar os pais da proximidade possível do túmulo do filho é incumprir um dever social ou
moral, não permitindo que, no recolhimento intranquilo, chorem a sua perda.


5) O dever de consciência assume a natureza de dever de justiça quando não é um mero dever
social de cortesia ou uma liberalidade mas corresponde a uma situação tão socialmente relevante
que merece certa tutela do direito, embora não se transforme em dever jurídico gerador de
obrigação civil.


6) Cumpre aos tribunais decidir, após apreciação casuística, e com apelo ao sentir social e às
razoáveis concepções dominantes, se um determinado dever moral ou social tem ínsito um
principio jurídico de natureza geral e merece alguma tutela, por reconhecimento pelo direito
natural.


7) Da obrigação natural, que não se limita a obrigações pecuniárias, mas a qualquer tipo, ainda

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

que não remuneratório, estão arredadas as disposições das obrigações civis conectadas com a
realização coactiva da prestação.
Decisão Texto Integ
ral:
RC 22/5/2002 (Hélder Roque) 

OBRIGAÇÃO NATURAL

MÚTUO

LITIGÂNCIA DE MÁ FÉ

ARTS. 456º Nº2 AL. C) E 690º DO C.P.C.



ARST. 289º Nº1, 402º, 403º Nº1, 561º E 1145º Nº1 DO C.C.
(...)

II - O cumprimento espontâneo da obrigação natural do mutuário pagar ao mutuante os juros respeitantes à


remuneração do capital emprestado, presumindo-se o mútuo oneroso, em caso de dúvida, implica para
aquele, como um dos principais efeitos das obrigações naturais, a irrepetibilidade da prestação, e bem assim
como a impossibilidade da sua imputação no cumprimento da prestação do capital.

III - Se alguém paga, com o intuito de cumprir um dever moral ou social, mesmo que este não seja
daqueles que constituem obrigações naturais, a repetição não é de admitir, pois representa um «venire
contra factum proprium».

IV - A obrigação de restituição de determinada quantia, fundada no enriquecimento sem causa, só existe, na
hipótese de se haver provado que aquela foi entregue a outrem, a título de mútuo.

V - Tendo o réu negado a existência de um contrato de mútuo, da entrega do dinheiro, e da finalidade da
subscrição da letra, tudo isto factos de natureza pessoal que se vieram a provar, incorre em responsabilidade
processual subjectiva, determinate da situação de litigância de má-fé.

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

PONTO nº 3
Modalidades das obrigações. Prestações instântaneas/duradouras.
Obrigações de juros. Cumprimento, benefício do prazo, arts. 781º e 934º,
direito à resolução
CP nº 5

ENQUADRAMENTO DOGMÁTICO

7. Modalidades das obrigações

ML, DOb I, 125 ss

8. Prestações instantâneas

ML, DOb I, 135-138

Deve-se falar em prestações temporalmente independentes e


temporalmente dependentes.

Nas prestações temporalmente independentes o conteúdo não é


delimitado em função do tempo, i.e., a prestação seria sempre a mesma,
independentemente do tempo. São correntemente conhecidas por obrigações
instantâneas, podendo ser

— Integrais: a prestação realiza-se de num momento indivisível (a


prestação é temporalmente indivisível)

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

Exemplos: entrega da coisa pelo vendedor (art. 882º) [ML]; realização da obra
pelo empreiteiro (art. 1208º) [ML]

— Fraccionadas: a prestação realiza-se numa pluralidade de


momentos divididos (a prestação é temporalmente divisível); há
uma única obrigação, dividida em parcelas que se vencem
sucessivamente

Exemplos: a entrega do preço por prestações (art. 934º).

9. Prestações duradouras

Nas prestações temporalmente dependentes o conteúdo é delimitado


em função do tempo. São correntemente conhecidas por obrigações
duradouras, podendo ser

— Continuadas: a prestação não sofre interrupção

Exemplos: a obrigação de proporcionar à outra o gozo temporário de uma coisa


(art. 1022º) o fornecimento de eletricidade [ML]

— Periódicas: a prestação sofre interrupção, sendo repetida em


certo período de tempo. Há várias obrigações que se vencem
sucessivamente

Exemplos: a obrigação de entregar o valor da renda/aluguer de uma coisa (art.


1038º/a); o pagamento de juros pelo mutuário (art. 1145º/1)

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

10. O que são obrigações de juros?

ML, DOb I, 160 ss

São uma modalidade de obrigação com uma função de remuneração,


i.e., de mais-valia patrimonial, pela diferimento da entrega ou cedência de
coisas fungíveis (capital), por um certo período de tempo
São uma obrigação que tem por referência uma outra obrigação (a
entrega/restituição do capital) e, neste sentido, acessórias daquela (PL/AV),
sendo, economicamente, um rendimento
Por outro lado, uma vez que o tempo determina a extensão e o seu
conteúdo, trata-se de uma obrigação duradoura periódica.

Por isso, a lei qualifica a obrigação de juros como frutos civis

Art. 212º

2. Os frutos são naturais ou civis; dizem-se naturais os que provêm directamente


da coisa, e civis as rendas ou interesses que a coisa produz em consequência de uma
relação jurídica.

e não são juros os custos da concessão do crédito.

Exemplos: as obrigações de pagar a avaliação do imóvel ou de pagar a abertura


do processo não são obrigações de juros; no entanto o DL 359/91, de 21 de Setembro,
obriga à informação clara sobre a TAEG (taxa anual de encargos efectivos), o que quer
dizer que essa taxa não abrange somente os encargos com os juros

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

11. A obrigações de juros têm ou não autonomia em face da


obrigação de entrega/restituição do capital?

Trata-se obrigações autónomas. Portanto, não são uma parte da


obrigação de entrega/restituição do capital

ARTIGO 561º
(Autonomia do crédito de juros)

Desde que se constitui, o crédito de juros não fica necessariamente dependente do


crédito principal, podendo qualquer deles ser cedido ou extinguir-se sem o outro.

Exemplos dessa autonomia (segundo PL/AV): os arts. 310º/d e 785º:

ARTIGO 310º
(Prescrição de cinco anos)

Prescrevem no prazo de cinco anos: (...)

d) Os juros convencionais ou legais, ainda que ilíquidos, e os dividendos das


sociedades;

ARTIGO 785º
(Dívidas de juros, despesas e indemnização)

1. Quando, além do capital, o devedor estiver obrigado a pagar despesas ou juros, ou a


indemnizar o credor em consequência da mora, a prestação que não chegue para cobrir
tudo o que é devido presume-se feita por conta, sucessivamente, das despesas, da
indemnização, dos juros e do capital.

Exemplo dessa autonomia (segundo PL/AV): a não sujeição ao art. 763, ou seja,
quando o devedor paga os juros não lhe podem estes ser recusados com a
alegação de que deve entregar o capital

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

ARTIGO 763º
(Realização integral da prestação)

1. A prestação deve ser realizada integralmente e não por partes, excepto se outro for o
regime convencionado ou imposto por lei ou pelos usos.

12. O que são juros legais?

Os juros legais são os que vigoram residualmente, nos termos do art.


559º, na previsão legal de obrigação juros e na estipulação voluntária de juros,
sem a determinação destes.

Actualmente a taxa anual de juros legais é 4% (art. 1º, Port. 291/2003, de


8 de Abril, revogatória da Port. 263/99, de 12 de Abril).

ARTIGO 559º
(Taxa de juro)

1. Os juros legais e os estipulados sem determinação de taxa ou quantitativo são os


fixados em portaria conjunta dos Ministros da Justiça e das Finanças e do Plano.

2. A estipulação de juros a taxa superior à fixada nos termos do número anterior deve
ser feita por escrito, sob pena de serem apenas devidos na medida dos juros legais.

Exemplo de previsão legal: art. 806º (juros moratórios)

Exemplo de estipulação voluntária de juros, sem a determinação destes: o


contrato de mútuo oneroso (art. 1145º, nº 2).

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

ARTIGO 1142º
(Noção)

Mútuo é o contrato pelo qual uma das partes empresta à outra dinheiro ou outra coisa
fungível, ficando a segunda obrigada a restituir outro tanto do mesmo género e
qualidade.

ARTIGO 1145º
(Gratuidade ou onerosidade do mútuo)

1. As partes podem convencionar o pagamento de juros como retribuição do mútuo;


este presume-se oneroso em caso de dúvida.

2. Ainda que o mútuo não verse sobre dinheiro, observar-se-á, relativamente a juros,
o disposto no artigo 559º e, havendo mora do mutuário, o disposto no artigo 806º.

13. O que são juros convencionais?

Os juros convencionais são os que vigoram nos termos de uma


estipulação voluntária de juros.
Esses juros conhecem limites da usura no art. 1146º

ARTIGO 1146º
(Usura)

1. É havido como usurário o contrato de mútuo em que sejam estipulados juros


anuais que excedam os juros legais, acrescidos de 3% ou 5%, conforme exista
ou não garantia real.

2. É havida também como usurária a cláusula penal que fixar como


indemnização devida pela falta de restituição de empréstimo, relativamente ao
tempo de mora, mais do que o correspondente a 7% ou a 9% acima dos juros
legais, conforme exista ou não garantia real.

3. Se a taxa de juros estipulada ou o montante da indemnização exceder o


máximo fixado nos números precedentes, considera-se reduzido a esses
máximos, ainda que seja outra a vontade dos contraentes.

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

4. O respeito dos limites máximos referidos neste artigo não obsta à


aplicabilidade dos artigos 282º a 284º.
(Redacção do Dec.-Lei 262/83, de 16-6)

Ou seja:
— Derroga-se assim a regra geral do art. 292 (relevância da
vontade)
— Pode, em qualquer caso, o contrato ser anulado ou modificável
por ser usurário

ARTIGO 282º
(Negócios usurários)

1. É anulável, por usura, o negócio jurídico, quando alguém, explorando a situação de


necessidade, inexperiência, ligeireza, dependência, estado mental ou fraqueza de
carácter de outrem, obtiver deste, para si ou para terceiro, a promessa ou a concessão
de benefícios excessivos ou injustificados.

2. Fica ressalvado o regime especial estabelecido nos artigos 559º-A e 1146º.

(Redacção do Dec.-Lei 262/83, de 16-6)

ARTIGO 283º
(Modificação dos negócios usurários)

1. Em lugar da anulação, o lesado pode requerer a modificação do negócio segundos


juízos de equidade.

2. Requerida a anulação, a parte contrária tem a faculdade de opor-se ao pedido,


declarando aceitar a modificação do negócio nos termos do número anterior.

— Pode ainda constituir crime

ARTIGO 284º
(Usura criminosa)

Quando o negócio usurário constituir crime, o prazo para o exercício do direito


de anulação ou modificação não termina enquanto o crime não prescrever; e, se a
responsabilidade criminal se extinguir por causa diferente da prescrição ou no juízo

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

penal for proferida sentença que transite em julgado, aquele prazo conta-se da data da
extinção da responsabilidade criminal ou daquela em que a sentença transitar em
julgado, salvo se houver de contar-se a partir de momento posterior, por força do
disposto no nº 1 do artigo 287º.

Cf. art. 226 CP

14. Qual é a diferença entre juros remuneratórios, compensatórios,


moratórios e indemnizatórios?

Os juros remuneratórios são os que vigoram com a função de preço/


remuneração do empréstimo de capital, consoante a perspectiva do devedor/
credor desses juros.

Exemplo: art. 1145º/1 (mútuo oneroso)

ARTIGO 1145º
(Gratuidade ou onerosidade do mútuo)

1. As partes podem convencionar o pagamento de juros como retribuição do mútuo;


este presume-se oneroso em caso de dúvida.

Os juros compensatórios são os que vigoram com a função de


remuneração de privação de capital, que o credor não deveria ter suportado.

Exemplo: arts. 480 (objecto do enriquecimento sem causa) e 1167º/c


(obrigações do mandante).

ARTIGO 480º
(Agravamento da obrigação)

O enriquecido passa a responder também pelo perecimento ou deterioração culposa da


coisa, pelos frutos que por sua culpa deixem de ser percebidos e pelos juros legais

!31
RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

das quantias a que o empobrecido tiver direito, depois de se verificar algumas das
seguintes circunstâncias:

a) Ter sido o enriquecido citado judicialmente para a restituição;

b) Ter ele conhecimento da falta de causa do seu enriquecimento ou da falta do efeito


que se pretendia obter com a prestação.

ARTIGO 1167º
(Enumeração)

O mandante é obrigado:

a) A fornecer ao mandatário os meios necessários à execução do mandato, se outra


coisa não foi convencionada;

b) A pagar-lhe a retribuição que ao caso competir, e fazer-lhe provisão por conta dela
segundo os usos;

c) A reembolsar o mandatário das despesas feitas que este fundadamente tenha


considerado indispensáveis, com juros legais desde que foram efectuadas;

d) A indemnizá-lo do prejuízo sofrido em consequência do mandato, ainda que o


mandante tenha procedido sem culpa.

Os juros moratórios são os que vigoram com a função de reparar o credor


dos prejuízos sofridos pela mora no cumprimento de uma obrigação pecuniária

ARTIGO 806º
(Obrigações pecuniárias)

1. Na obrigação pecuniária a indemnização corresponde aos juros a contar do dia da


constituição em mora.

2. Os juros devidos são os juros legais, salvo se antes da mora for devido um juro mais
elevado ou as partes houverem estipulado um juro moratório diferente do legal.

3. Pode, no entanto, o credor provar que a mora lhe causou dano superior aos juros
referidos no número anterior e exigir a indemnização suplementar correspondente,
quando se trate de responsabilidade por facto ilícito ou pelo risco.

Os juros indemnizatórios são os que vigoram com a função de reparar o


credor dos prejuizos sofridos pela falta absoluta de cumprimento de uma
obrigação.

!32
RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

15. O que é o anatocismo?

Consiste na cobrança de juros sobre juros. É proibida por, mediante,


poder violar a proibição de juros usurários, salvo em dois casos. São nulas
cláusulas que não caibam nesses casos.

ARTIGO 560º
(Anatocismo)

1. Para que os juros vencidos produzam juros é necessária convenção posterior ao


vencimento; pode haver também juros de juros, a partir da notificação judicial feita
ao devedor para capitalizar os juros vencidos ou proceder ao seu pagamento sob
pena de capitalização.

2. Só podem ser capitalizados os juros correspondentes ao período mínimo de um ano.

3. Não são aplicáveis as restrições dos números anteriores, se forem contrárias a


regras ou usos particulares do comércio.

CASO PRÁTICO Nº 5

Maria emprestou €20.000,00 a Nuno em Outubro de 2005. Ficou acordado que os €20.000,00
seriam restituídos no início Outubro de 2007. Foi ainda convencionado que Nuno pagaria, no dia
um de cada mês, juros sobre a quantia mutuada, calculados à taxa anual de 6%, pelo que, durante
dois anos, deveria entregar mensalmente a Maria a quantia de €100,00.
1) Em Setembro de 2006, Nuno deixou de pagar os juros, alegando graves dificuldades
financeiras. Perante isto, Maria envi
ou-lhe uma carta exigindo:
1. A restituição imediata dos €20.000,00 mutuados;
2. O pagamento de €100,00, referentes aos juros devidos no mês de Outubro;
3. O pagamento de €1.100,00, referentes às prestações mensais de juros devidas até ao final do
contrato (Outubro de 2007), com fundamento no art. 781.º do CC.
Diga, fundamentadamente, se o terceiro pedido é procedente (pronuncie-se apenas sobre o
terceiro pedido).

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

2) Suponha agora que Maria e Nuno tinham acordado a seguinte cláusula: «A falta de pagamento
de uma das prestações mensais de juros, importa o vencimento das demais». A resposta à questão
anterior seria diferente?
3) Suponha que, em vez de um empréstimo em dinheiro, Maria tinha vendido a Nuno um carro,
tendo ambos convencionado que o preço seria pago em prestações mensais de €1.033,00,
repartidas por 24 meses. Nuno não pagou as prestações referentes aos meses de Setembro e
Outubro de 2006. Maria pretende exigir-lhe a totalidade das prestações ainda em dívida, com
fundamento no art. 781.º do CC. Pode fazê-lo?

Resposta
- tipo de contrato – mútuo oneroso
- real quoad effectum
- obrigações
▪ restituição de capital passados dois anos
▪ pagamento de juros mensalmente a 6%
- validade da taxa de juros estipulada
- pretensões:
▪ restituição da totalidade do capital mutuado, por vencimento
imediato > não: beneficio do prazo; inaplicabilidade do art. 781;
aplicabilidade do art. 1152º (resolução com restituição do capital
e pagamentos dos juros vencidos)
▪ pagamento dos juros em mora, já vencidos (sim: vencimento)
▪ pagamento dos juros futuros, porque vencidos ex vi art. 781º
(refª ao 934º) (não: são obrigações diferentes e não parcelas
de uma obrigação)
- análise da cláusula: admissibilidade positiva
- análise da Q 3: aqui vale o art. 934º e visto serem duas as prestações
em falta, já pode lançar mão do art. 781º

ARTIGO 781º
(Dívida liquidável em prestações)

Se a obrigação puder ser liquidada em duas ou mais prestações, a falta de realização


de uma delas importa o vencimento de todas.

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

ARTIGO 934º
(Falta de pagamento de uma prestação)

Vendida a coisa a prestações, com reserva de propriedade, e feita a sua entrega ao


comprador, a falta de pagamento de uma só prestação que não exceda a oitava parte
do preço não dá lugar à resolução do contrato, nem sequer, haja ou não reserva de
propriedade, importa a perda do benefício do prazo relativamente às prestações
seguintes, sem embargo de convenção em contrário.

JURISPRUDÊNCIA

STJ: 05-11-80 ABEL DE CAMPOS


HIPOTECA

EXECUÇÃO

JUROS COMPENSATORIOS
BMJ N301 ANO1980 PAG395
CIT VAZ SERRA BMJ N62 PAG243.

P LIMA A VARELA COD CIV ANOT VI PAG531.
CCIV66 ART693 N2 N3.
CPC67 ART660 N2 ART668 N1 D.
AC STJ DE 1979/07/10 IN BMJ N289 PAG235.

AC STJ DE 1973/06/29 IN BMJ N228 PAG245.
A garantia hipotecaria não cobre os juros superiores a tres anos, sem nova hipoteca, ainda que a execução
tenha demorado anormalmente mais tempo, pois o preceituado no artigo 693, n. 3, do Codigo Civil,
destina-se a evitar a acumulação de juros garantidos sem conhecimento de terceiros, sendo ate esse o seu
campo de aplicação por excelencia, sabido que em regra os credores não deixam acumular juros durante
tres anos sem recorrerem aos meios judiciais.

STJ 10-10-85 SOLANO VIANA


ERRO

OBJECTO NEGOCIAL

NULIDADE DO CONTRATO

EFEITOS

ENRIQUECIMENTO SEM CAUSA

JUROS COMPENSATORIOS
CCIV66 ART227 ART247 ART251 ART252 ART289 N2 N3 ART474 ART480 ART992 N2 ART1269.
I - O erro sobre o objecto do negocio e aquele que incide sobre a identidade deste ou sua substancia ou
suas qualidades essenciais.

II - E o caso de um contrato-promessa de compra de predio rustico, na convicção de ai o promitente poder
instalar uma fabrica, o que realmente não acontecia.

III - O dito acordo e anulavel, se o promitente vendedor sabia que so por tal convencionamento ele foi
celebrado.

IV - Anulada a promessa, o promitente vendedor tera de restituir quanto recebeu, mas sem juros, so devidos
nos casos de enriquecimento sem causa.

!35
RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

: STJ 08-02-90 JORGE VASCONCELOS

ANATOCISMO

ADMISSIBILIDADE

JUROS BANCÁRIOS

JUROS COMPENSATÓRIOS

CAPITALIZAÇÃO DE JUROS

PRAZO

: CCIV66 ART560.

DL 344/78 DE 1978/11/17 ART5 N4.

I - O anatocismo é admissível quando esteja de acordo com os usos e costumes existentes no comércio.

SJ1 25-10-90 MARTINS DA FONSECA Descritores:


JUROS COMPENSATORIOS

DECISÃO CONDENATORIA

PEDIDO

OBRIGAÇÃO PECUNIARIA
CCIV66 ART559 - ART561 ART798 ART804 ART805 ART806.

CPC67 ART661. Sumário :

I - Na simples mora o credor conserva o direito a prestação originaria, mas tem alem disso o direito a ser
indemnizado dos danos resultantes de essa prestação não haver sido efectuada em tempo, e a indemnização
moratoria constituida pelos juros correspondentes ao tempo que a mora perdurar (artigos 798, 804, 405 e
806 do Codigo Civil).

II - A obrigação de juros e sempre uma obrigação acessoria de outra, principal, a de capitais. Aquela não
nasce sem esta, mas uma vez gerada ou constituida, tem vida propria e autonomia relativa.

III - Se o pedido de juros não for formulado na acção de condenação de prestação originaria, o tribunal não
pode condenar o reu no seu pagamento (artigo 661 do Codigo de Processo Civil), mas a partir da citação da
primitiva acção, eles começam a ser devidos, dado o seu caracter acessorio em relação principal.

IV - Por isso, nada obsta em principio, se por lapso não foram anteriormente pedidos juros, que estes
possam constituir objecto de uma acção autonoma.

STJ 08-02-94 CESAR MARQUES


sJUROS

PRESCRIÇÃO EXTINTIVA

RENÚNCIA

CAPITALIZAÇÃO DE JUROS
CJSTJ 1994 ANOII TI PAG85
CCIV66 ART302 N1 N2 ART310 D ART560 N1.

CPC67 ART664.
AC STJ DE 1981/05/28 IN BMJ N307 PAG266.

AC STJ DE 1986/05/27 IN BMJ N357 PAG377.
: I - Reconhecendo o devedor, por extrato de conta dirigido aos credores, a dívida de juros, em momento
posterior

à eventual prescrição da mesma, isso significa expressa renúncia da prescrição, que é válida e nem
necessita de ser aceite pelos beneficiários.

II - Tendo o devedor, contra o acordado, deixado de capitalizar os juros vencidos a favor do credor,
competiria a este provocar a notificação judicial prevista no artigo 560 n. 1 do Código Civil, para que os
juros vencidos produzissem juros.

SJ1 26-11-97 JOAQUIM DIAS

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

OBRIGAÇÃO ILÍQUIDA

JUROS DE MORA

OBRIGAÇÃO DE INDEMNIZAR

DANO EMERGENTE

LUCRO CESSANTE

JUROS COMPENSATÓRIOS

ARMA PROIBIDA

DANOS MORAIS

DANOS PATRIMONIAIS

DIREITO À VIDA

BMJ N365 PAG15. GALVÃO TELES IN DIREITO DAS SUCESSÕES PAG87.


CPP87 ART77.

CP95 ART129 ART275 N2.

CCIV66 ART70 ART483 ART494 ART496 N2 ART564 N2 ART2004 ART2009.

: I - Sendo a obrigação ilíquida, não vence juros de mora, mas sim juros compensatórios ou
indemnizatórios.

II - A obrigação de indemnização é uma obrigação de valor. Só com a liquidação se converte em
obrigação pecuniária. Daí decorrem três corolários: a) na obrigação de indemnizar compreendem-
se os danos emergentes e os lucros cessantes, de modo a reconstruir a situação que existiria se não
se tivesse verificado o evento danoso (artigos 562 e 564, do CC); b) os juros de mora, próprios da
obrigação pecuniária, só são devidos após a liquidação; c) como os juros compensatórios fazem
parte da indemnização, não são cumuláveis com a correcção monetária em função das taxas de
inflação, pois isso redundaria em um enriquecimento indevido.

III - Os juros de mora, porque têm o seu fundamento em facto ilícito e culposo da mora do
devedor, são cumuláveis com aquela actualização, havendo direito aos mesmos sobre os
montantes da indemnização atribuídos.

STJ : 23-04-98 (MARTINS DA COSTA)


JUROS LEGAIS

TAXA

ANATOCISMO

LIVRANÇA

EMPRÉSTIMO BANCÁRIO

JUROS CONVENCIONAIS

JUROS COMPENSATÓRIOS

DOCUMENTO ESCRITO

DOCUMENTO PARTICULAR.
CCOM888 ART102 PAR1 PAR2.

CCIV66 ART559 ART560 N1.

LULL ART47 ART48 ART77.

CPC95 ART660 N2 ART668 N1 D ART676 N1.
DL 200-C/80 DE 1980/06/24.

I- A fixação por escrito da taxa de juros comerciais só é necessária no caso de ser diferente da legal.

II- Não ofende a proibição de anatocismo o pedido de juros de mora sobre o montante de livrança
que foi entregue "em branco" e regularmente preenchida com inclusão de juros remuneratórios, à
taxa legal, vencidos até à data desse preenchimento.

STJ 15-10-98 SOUSA INES


MÚTUO

JUROS DE MORA

ANATOCISMO

CRÉDITO DO ESTADO

TAXA DE JURO

OBRIGAÇÃO DE INDEMNIZAR


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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

BOA-FÉ

DEVER DE INFORMAR

CRÉDITO AGRÍCOLA DE EMERGÊNCIA
RCM 31/84 DE 1984/05/25.

DL 56/77 DE 1977/02/18.

DL 251/75 DE 1975/05/25.

CCIV66 ART762 N2 ART798 ART799 ART813. Sumário :

I - O Conselho de Ministros, através da sua Resolução n. 31/83 de 25 de Maio, veio estabelecer um regime
especial de regularização de débitos contraídos ao abrigo do crédito agrícola de emergência instituído pelo
DL 251/75 de 25 de Maio, depois reformulado pelo DL 56/77 de 18 de Fevereiro e sucessivos diplomas
legais posteriores.

II - Para tanto criou-se uma linha de crédito a conceder às entidades beneficiárias desse regime, ficando o
mutuário, em caso de incumprimento de qualquer prestação sujeito ao imediato vencimento e à cobrança
coerciva das prestações em dívida.

III - Se uma dada cooperativa mutuante não informou a respectiva mutuária, na observância das regras da
boa fé contratual e demais deveres conexos, de que sobre o montante da dívida e dos juros capitalizados
incidiam novos juros (anatocismo) - incidência que a mutuante não poderia ter operado - e do qual o
correcto montante da dívida, o que impossibilitou a mutuária de "aderir à supra-citada linha de crédito, há
que entender que a mutuante agiu com culpa (artigo 799 do C.Civil) assim se constituindo na obrigação de
indemnizar a mutuária pelo prejuízo sofrido (artigo 798 do mesmo diploma).

IV - Tal prejuízo consistirá na diferença entre o juro do regime do crédito agrícola de emergência e o juro
do regime especial da Resolução n 31/84 acima mencionados.

RE 14-10-2004 RUI VOUGA


ACIDENTE DE VIAÇÃO

INDEMNIZAÇÃO

TRIBUTAÇÃO DOS JUROS MORATÓRIOS
mário: 

I – Os juros a que se reporta o art. 805º, nº 3, 2ª parte, do Cód. Civil (na redacção introduzida pelo referido
DL. nº 262/83) destinam-se, a ressarcir os prejuízos advenientes da demora do processo .

II – Tais juros ainda fazem parte da indemnização devida por facto ilícito ou pelo risco, têm natureza
compensatória e por isso, não são juros de mora em sentido próprio e como tal também não podem ser
considerados rendimentos de capital.

III- Tais juros não são passíveis de tributação em IRS, pois não são rendimentos de capitais, para
efeitos do disposto na alínea g) do nº 1 do artigo 5º do Código do Imposto sobre o Rendimento das Pessoas
Singulares.

STJ 12-09-2006
SEBASTIÃO PÓVOAS
JUROS COMPENSATÓRIOS

MÚTUO

do Acordão:

: 1) Sendo o mútuo liquidável por forma dividida, fraccionada ou repartida, a falta de pagamento
de uma prestação têm as consequências do artigo 781º do Código Civil;


2) Os juros remuneratórios, que exprimem o rendimento financeiro do capital mutuado, não
podem ser incluídos nas prestações do capital cujo vencimento é antecipado, mas apenas nas
prestações vencidas;



3) As dívidas de capital e de juros são distintas, embora com forte conexão, valendo o princípio
da autonomia do artigo 561º do Código Civil.o Texto Integral:

!38
RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

:STJ 14-11-2006 MOREIRA CAMILO


CONTRATO DE MÚTUO

CRÉDITO AO CONSUMO

JUROS MORATÓRIOS

CAPITALIZAÇÃO DE JUROS

INTERPRETAÇÃO DA DECLARAÇÃO NEGOCIAL

CLÁUSULA CONTRATUAL GERAL

CONDENAÇÃO EM QUANTIA A LIQUIDAR
:

I - Os juros voluntários podem vencer-se findo o período de contabilização ou podem vencer-se
antecipadamente, mas, em ambos os casos, apenas existe o crédito aos juros se o período de tempo de
contabilização tiver efectivamente decorrido. Sem decurso do tempo, não existem

juros, não existe remuneração do capital.

II - Do art.º 781.º do CC resulta que a falta de pagamento de uma prestação de capital pode implicar o
vencimento das restantes prestações de capital. Porém, esse preceito não determina o vencimento

antecipado de prestações de juros.

III - Tendo as partes celebrado validamente um contrato de mútuo (art. 1142.º do CC), operação de crédito
realizada por uma instituição de crédito ou parabancária (art. 1.º do DL n.º 344/78, de 17-11), na
modalidade de crédito ao consumo (art. 2.º do DL n.º 359/91, de 21-09), o qual deve

ser qualificado como contrato de adesão (art. 1.º do DL n.º 446/85, de 25-10), a cláusula que determina que
“A falta de pagamento de uma prestação, na data do respectivo vencimento, implica o imediato vencimento
de todas as restantes” deve ser interpretada nos termos estabelecidos nos arts. 236.º do CC e 11.º do DL n.º
446/85.

IV - O seu sentido é o de que a falta de pagamento de uma mensalidade implica a perda do benefício do
pagamento escalonado do capital emprestado. Um declaratário normal não interpretaria essa cláusula no
sentido de que a falta de pagamento de uma mensalidade acarretaria o pagamento de todos os juros que
nasceriam até ao fim do contrato.

V - Para decidir da admissibilidade da exigência pelo Banco mutuante de juros remuneratórios das
prestações que foram consideradas vencidas face ao incumprimento do contrato pelo mutuário, é
irrelevante a permissão da capitalização de juros (art. 5.º, n.ºs 4 e 5, do DL n.º 344/78, de 17-

11 (na redacção dada pelo DL n.º 83/86, de 06-05). Não podendo considerar-se que tenha nascido a
obrigação de juros remuneratórios, esta não se venceu, inexistindo juros para capitalizar.

VI - Assim, haverá que deduzir de todo o peticionado os montantes referentes aos juros remuneratórios das
prestações em dívida cujo período de tempo ainda não decorreu, bem como a importância referente à
capitalização desses valores, condenando-se o devedor no pagamento de

quantia a liquidar. 


:STJ 03-05-2007 SALVADOR DA COSTA


CONTRATO-PROMESSA

EXTINÇÃO DO CONTRATO

CESSÃO DE QUOTA

EXCEPÇÃO DE NÃO CUMPRIMENTO

ALTERAÇÃO DAS CIRCUNSTÂNCIAS

MODIFICAÇÃO DO CONTRATO

AVAL

CLÁUSULA PENAL

JUROS COMPENSATÓRIOS

JUROS DE MORA

ANATOCISMO

1. A extinção do contrato-promessa de cessão de quotas por via da celebração do contrato prometido não
abrange a obrigação acessória relativa à remuneração pelo diferimento do pagamento do respectivo preço.

2. Cumprida por uma das partes a sua obrigação de transmissão do direito de propriedade sobre as referidas

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

quotas, não tem apoio legal a invocação pela outra da excepção de não cumprimento da obrigação de
pagamento do respectivo preço.

3. A afirmação por uma das partes da celebração do contrato de cessão de quotas sob erro acerca da
situação económica e financeira da sociedade de referência é insusceptível de se enquadrar no instituto da
modificação do contrato por alteração das circunstâncias.

4. As afirmações imprecisas - declaração de promessa de assunção pessoal do pagamento do que restava do
financiamento efectuado por identificada instituição bancária – por não revelarem a concreta estrutura
objectiva e subjectiva das obrigações de aval a que alude determinada cláusula contratual, são
insusceptíveis de constituir causa de pedir justificativa da condenação de uma das partes na assunção de
determinados avales constituídos pela outra. 

5. Não constitui cláusula penal a prestação remuneratória convencionada pelas partes como contrapartida
do diferimento do pagamento do preço contratualizado, antes devendo, pela respectiva similitude,
equiparar-se aos juros compensatórios, porque eles se traduzem na contraprestação da cedência do capital
correspondente ao seu rendimento em função do tempo em que dele o credor estiver privado.

6. Não infringe o princípio do anatocismo a solução de a mora do devedor no pagamento dos juros
compensatórios implicar a sua obrigação indemnizatória por referência ao montante dos juros de mora.

STJ 24-05-2007 SILVA SALAZAR


MÚTUO

JUROS REMUNERATÓRIOS

VENCIMENTO IMEDIATO DAS PRESTAÇÕES
I - Os juros remuneratórios distinguem-se dos juros moratórios, porque, enquanto aqueles constituem a
contraprestação onerosa pela disponibilidade do capital mutuado durante a vigência do contrato de mútuo
nos seus termos acordados, - pelo que só com o decurso do tempo em que esse capital foi sendo
disponibilizado ao mutuário vão nascendo e se vão vencendo como preço de tal disponibilização -, estes
constituem uma reparação pelos prejuízos resultantes do atraso no cumprimento da obrigação, ou seja, no
caso, pela não restituição do capital mutuado no momento do vencimento.
II – O vencimento imediato de todas as prestações em falta destinadas à restituição da quantia mutuada,
como consequência da falta de pagamento de qualquer das prestações na data do respectivo vencimento,
não abrange os juros remuneratórios que em tais prestações se integravam.

!40
RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

PONTO nº 4
Obrigações genéricas
CP nº 6

ENQUADRAMENTO DOGMÁTICO

16. O que é uma obrigação genérica?

A obrigação genérica é aquela em que o objecto da prestação se encontra


determinado quanto ao género e quantidade, mas não quanto ao objecto
concreto.

Exemplo: A vende a B 10 monitores de computador.

Por isso é necessário um acto de concentração do objecto da prestação,


porque o art. 280º, nº 1 comina de nulo o negócio cujo objecto é indeterminável.

ARTIGO 280º
(Requisitos do objecto negocial)

1. É nulo o negócio jurídico cujo objecto seja física ou legamente impossível,


contrário à lei ou indeterminável.

Por isso, ou o objecto da prestação está determinado ab initio ou deve ser


determinável em momento posterior, mediante critério legal ou contratualmente
estipulado, como se estatui no art. 400º.
A classificação apenas funciona na prestação de coisas.
A obrigação genérica contrapõe-se à obrigação específica em que a
prestação incide sobre um objecto concretamente determinado, mesmo que,
eventualmente, haja ainda de escolher entre dois objectos possíveis (obrigações
alternativas)

!41
RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

Exemplo: A vende a B 10 monitores de computador, BenQ, modelo


BQ-1100.

17. O que é a concentração?

É o acto ou complexo de actos de determinação específica do objecto de


uma prestação genérica.
Em face da funcionalidade da concentração podemos distinguir entre
obrigações genéricas de escolha e obrigações genéricas de quantidade.

18. O que é a obrigação genérica de escolha?

É aquela em que a concentração é qualitativa: consiste numa escolha da


espécie concreta ou qualidade (determinação strictu sensu)

Exemplo: A vende a B 30 kg de milho, sem especificação da qualidade


distintiva. Esta indeterminação apenas se resolve optando por uma dado tipo de
milho (e pesagem)

19. O que é uma obrigação genérica de quantidade?

É aquela em que a concentração é quantitativa: consiste numa medição,


pesagem ou contagem para escolher os exemplar(es) concreto(s)
(individualização).

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

Exemplo: A vende a B 30 kg de milho, com especificação da qualidade


distintiva. Esta indeterminação apenas se resolve por pesagem.

Mas já será específica a obrigação cujo objecto é a totalidade dos bens.


Eventual medição, pesagem ou contagem não são uma escolha.

Exemplo: A vende a B todo o seu milho; B poderá pesar este para saber
quanto é que tem.

20. Como é o regime legal da concentração pelo devedor?

O poder de escolher a espécie do objecto é da titularidade,


supletivamente, do devedor

ARTIGO 539º
(Determinação do objecto)

Se o objecto da prestação for determinado apenas quanto ao género, compete a sua


escolha ao devedor, na falta de estipulação em contrário.

21. Em que momento se dá a concretação e a inerente transferência


de propriedade e de risco

Conhecem-se 3 posições doutrinais:

!43
RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

— Tese da escolha (THÖL): no momento em que o devedor


separa o objecto,
— Tese do envio (PUNTSCHART): no momento do envio (i.e., a
saída da esfera de controle físico do devedor) após a
separação
— Tese da entrega (JEHERING): no momento do cumprimento

Vigora a tese da entrega, quando a escolha seja do devedor: a


concentração deve ser feita/releva apenas no momento do cumprimento (art.
541º contrario), ainda que dela tenha o credor conhecimento (PL/AV).
Antes disso são irrelevente tantos os actos de separação, como de envio:

ARTIGO 540º
(Não perecimento do género)

Enquanto a prestação for possível com coisas do género estipulado, não fica o
devedor exonerado pelo facto de perecerem aquelas com que se dispunha a cumprir.

Contudo, segundo o mesmo art. 541º a obrigação concentra-se, antes do


cumprimento, quando
- isso resultar de acordo das partes
- o género se extinguir a ponto de restar apenas uma das coisas nele
compreendidas
- o credor incorrer em mora (arts. 813º ss) : em ordem a o risco de
perecimento passar para o credor
- nos termos do artigo 797º: a concentração dá-se com a expedição

ARTIGO 797º
(Promessa de envio)

Quando se trate de coisa que, por força da convenção, o alienante deva enviar para
local diferente do lugar do cumprimento, a transferência do risco opera-se com a
entrega ao transportador ou expedidor da coisa ou à pessoa indicada para a execução
do envio.

!44
RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

22. Como é o regime legal da concentração por outrém?

Pode estipular-se, ou resultar da lei, que esse poder cabe ao credor ou a


terceiro, como decorre do art. 542º. Nessas eventualidades importa ter em conta
que

ARTIGO 542º
(Concentração por facto do credor ou de terceiro)

1. Se couber ao credor ou a terceiro, a escolha só é eficaz se for declarada,


respectivamente, ao devedor ou a ambas as partes [I], e é irrevogável [II].

2. Se couber a escolha ao credor e este a não fizer dentro do prazo estabelecido ou


daquele que para o efeito lhe for fixado pelo devedor, é a este que a escolha passa a
competir.

Portanto, vigora a tese da escolha (declarada), quando a escolha não seja


do devedor:

Essa escolha deverá ser feita nos termos do

ARTIGO 400º
(Determinação da prestação)

1. A determinação da prestação pode ser confiada a uma ou outra das partes ou a


terceiro; em qualquer dos casos deve ser feita segundo juízos de equidade, se outros
critérios não tiverem sido estipulados.

Por isso, não se pode escolher o pior objecto (art. 239º + boa fé [MC], art.
400º [PL/AV + ML)

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

Se a escolha competir a terceiro e este a não fizer vale

ARTIGO 400º
(Determinação da prestação)
(...)

2. Se a determinação não puder ser feita ou não tiver sido feita no tempo devido,
sê-lo-á pelo tribunal, sem prejuízo do disposto acerca das obrigações genéricas e
alternativas.

23. Tratando-se de contrato real quoad effectum, em que momento se


transmite o direito real sobre o bem?

A regra geral é a da transmissão da propriedade no momento do


consenso

ARTIGO 408º
(Contratos com eficácia real)

1. A constituição ou transferência de direitos reais

E, desse modo, a transferência do risco:

ARTIGO 796º
(Risco)

1. Nos contratos que importem a transferência do domínio sobre certa coisa ou que
constituam ou transfiram um direito real sobre ela, o perecimento ou deterioração da
coisa por causa não imputável ao alienante corre por conta do adquirente.

Porém, no caso de o bem ser objecto de obrigação genérica, vale o


disposto no nº 2 do art. 408º

ARTIGO 408º
(Contratos com eficácia real)

!46
RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

(...)

2. Se a transferência respeitar a coisa futura ou indeterminada, o direito transfere-se


quando a coisa for adquirida pelo alienante ou determinada com conhecimento de
ambas as partes, sem prejuízo do disposto em matéria de obrigações genéricas e
do contrato de empreitada; se, porém, respeitar a frutos naturais ou a partes
componentes ou integrantes, a transferência só se verifica no momento da colheita ou
separação.

Donde a transmissão do direito real apenas sucede no momento da


concentração, e não do conhecimento (pois esse é o desvio permitido às
obrigações genéricas).

Cf. ainda o 1212º.

CASO PRÁTICO Nº 6

António vendeu a Bernardo uns tantos metros cúbicos de cortiça, que o adquirente viria carregar a
certo montado de António «o mais tardar daqui a três dias». Durante esse tempo e nos dias
seguintes, António teve sempre cortiça disponível em quantidade suficiente para satisfazer
Bernardo, embora a cortiça fosse mudando, à medida que outros compradores levavam os seus
carregamentos e mais cortiça ia sendo cortada.

1) Ao sexto dia, e sem que Bernardo aparecesse, todo aquele montado e toda a cortiça aí
armazenada foram destruídos num incêndio fortuito. Dias depois, sabendo do sucedido, Bernardo
diz a António que, não obstante, este tem de lhe entregar cortiça vendida. António contrapõe que
nada tem de entregar e exige que lhe seja pago o preço acordado. Quem tem razão?
2) Suponha que o incêndio ocorreu no dia seguinte ao da celebração do contrato. A resposta seria
a mesma?

Pergunta nº 1
- obrigação genérica de quantidade
- mas houve uma condição (art. 790/2)
- aplica-se o art. 539 (devedor)
- aplica-se o art. 540 ( a concentração só se dá com o
cumprimento e não antes)
- mora do credor: (arts. 813º ss): concentração anterior ao
momento do cumprimento (art. 541) em ordem a o risco de
perecimento passar para o credor (cf. art. 815/1)

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

ARTIGO 815º
(Risco)

1. A mora faz recair sobre o credor o risco da impossibilidade superveniente da


prestação, que resulte de facto não imputável a dolo do devedor.

- houve transferência de propriedade (art. 408/2)


- não houve cumprimento, primeiro por mora do credor e,
depois, por impossibilidade absoluta não culposa > extinção
da obrigação (art. 790/1)
- mas vale o art. 815/2

ARTIGO 815º
(Risco)

2. Sendo o contrato bilateral, o credor que, estando em mora, perca total ou


parcialmente o seu crédito por impossibilidade superveniente da prestação não fica
exonerado da contraprestação; mas, se o devedor tiver algum benefício com a
extinção da sua obrigação, deve o valor do benefício ser descontado na
contraprestação

- Resposta: o António tem razão

Pergunta nº 2
- Não havia ainda mora do credor pelo que, em vez da excepção
do art. 541, valeria a regra do art. 540 ( a concentração só se dá
com o cumprimento )
- Por isso ainda não se tinha transferido nem a propriedade, nem
o risco
- não houve cumprimento, por impossibilidade absoluta não
culposa > extinção da obrigação (art. 790/1)
- vale o art. 795º/1

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

ARTIGO 795º
(Contratos bilaterais)

1. Quando no contrato bilateral uma das prestações se torne impossível, fica o credor
desobrigado da contraprestação e tem o direito, se já a tiver realizado, de exigir a sua
restituição nos termos prescritos para o enriquecimento sem causa.

JURISPRUDÊNCIA

STJ 05-12-95 SA COUTO


FIANÇA

NULIDADE

OBRIGAÇÃO GENÉRICA
CCIV66 ART280 ART654 E.
AC STJ DE 1993/01/21 IN CJSTJ ANO1993 TI PAG71.

AC STJ DE 1993/01/11 IN CJSTJ TII PAG98.

AC STJ DE 1994/05/10 IN CJSTJ TII PAG93.
Sendo indetermináveis as obrigações que constituem o objecto da fiança, esta é nula.

:RL 11-07-96 PAIXÃO PIRES


OBRIGAÇÃO GENÉRICA

OBRIGAÇÃO DE SUJEITO INDETERMINADO

NULIDADE ABSOLUTA
CCIV66 ART221 N1 ART238 N2 ART883 ART939.

I - Tendo sido acordado entre os outorgantes de um contrato de "cessão de exploração" que


passado um ano sobre a vigência desses contrato, o cessionário pagaria ao cedente uma prestação
mensal correspondente a um doze avos de um montante a determinar anualmente em função do
"prestigio comercial", do estabelecimento; esta prestação é indeterminável porque não foi
estabelecida clausula atinente à quantificação do "prestigio comercial" da respectiva loja e porque
não podem ser utilizados supletivamente os critérios de equidade do art. 883º "ex vi" art. 939º do
C. Civil para se alcançar esse "quantum".

RP 13-01-98 PIRES RODRIGUES


OBRIGAÇÃO

OBRIGAÇÃO GENÉRICA

OBRIGAÇÃO DE SUJEITO INDETERMINADO
CCIV66 ART539.

I - Uma das classificações das obrigações quanto ao seu objecto, é aquela que distingue entre obrigações
genéricas e obrigações específicas, reportando-se às primeiras os artigos 539 e seguintes do Código Civil.

Genérica, é a obrigação cujo objecto está apenas determinado pelo seu género e pela quantidade.

II - A extensão do género, há-de ser fixada pelas partes com maior ou menor amplitude, mas há-de ser
suficientemente definida para que seja determinável.

STJ 12-05-98 ARAGÃO SEIA

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

VENDA DE CORTIÇA

OBRIGAÇÃO GENÉRICA

AMPLIAÇÃO DA MATÉRIA DE FACTO
CCOM888 ART472.

CCIV66 ART236 N1 ART428 N1 ART770 ART879 A.

CPC67 ART650 N2 F ART712 N4 ART722 N2 N3 ART729 N2 N3.

DL 260/77 DE 1977/07/21.
ASS STJ DE 1997/04/22 IN DR IS-A DE 1997/06/21.

I - A declaração negocial que, na interpretação de um declaratário normal, exprime a vontade da


compradora de adquirir à vendedora toda a cortiça da extracção de 1978, ainda não extraída mas com
peso calculado por alto, cerca de 34000 arrobas, e com preço determinado no contrato,
consubstancia uma obrigação específica e não genérica, que transferiu para a esfera jurídica da
compradora a propriedade da cortiça.

RP 01-10-98 MANUEL RAMALHO


FIANÇA

GARANTIA DO PAGAMENTO

OBRIGAÇÃO FUTURA

OBRIGAÇÃO GENÉRICA

NULIDADE DO CONTRATO
:CCIV66 ART280.

I - A fiança pode ser prestada para garantia de obrigações futuras desde que no momento em que é
prestada seja determinado o título de que a obrigação poderá ou deverá resultar.

II - Se a fiança se reporta a importâncias que o afiançado deva ou venha a dever, bem como de
qualquer responsabilidade que tenha ou venha a ter, seja porque origem for, designadamente as
provenientes do desconto de letras, extractos de facturas, livranças ou aceites bancários, vindo a
aludida responsabilidade a consumar-se 17 anos depois da data do termo de fiança, esta é nula por
o seu objecto ser indeterminável.

RL 06-05-99 SANTOS BERNARDINO


OBRIGAÇÃO FUTURA

OBRIGAÇÃO GENÉRICA

FIANÇA

INVALIDADE

NULIDADE DO CONTRATO

COMPENSAÇÃO DE DÍVIDA
CCIV66 ART280 N1 ART289 N1 ART627 N1 ART628 N2 ART654 ART847.
AC STJ DE 1993/01/21 IN CJSTJ ANO1 T1 PAG73.

AC STJ DE 1994/12/14 IN CJSTJ ANO2 T3 PAG171.

I - A prestação é indeterminada e indeterminável quando não exista qualquer critério para


proceder à determinação. Nesse caso, a obrigação é nula.

II - O referido em I é aplicável à fiança, cujo objecto é a satisfação de direitos de crédito, já
constituídos ou a constituir (artigo 627º nº 1 C. Civil).

III - Para que a fiança de obrigações futuras seja válida, importa, pois, que estas, à data da
celebração do negócio jurídico, sejam determináveis por parâmetros objectivos.

IV - A expressão "toda e qualquer operação bancária em direito permitida" aposta em termo de
fiança exigida por Banco ao fiador não traduz a eleição de um critério de determinação das
obrigações futuras, ficando a concretização destas dependente de acontecimentos futuros incertos
e vagos , mesmo imprevisíveis.


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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

V - Sendo nula a fiança e tendo essa nulidade efeito retroactivo (nº 1 do artº 289º CC, é, também,
inválida, por falta de causa jurídica ou justificativa, a operação de compensação efectuada pelo
Banco sobre a conta de depósitos à ordem do fiador.

STJ: 16-12-99 LOPES PINTO


FIANÇA

COMPENSAÇÃO

NULIDADE

JUROS COMPENSATÓRIOS

JUROS DE MORA
CCIV66 ART280 N1ART289 N1 ART400 ART805 N1 ART806 N1.
AC STJ PROC1152/98 DE 1998/12/03 1SEC.

AC STJ PROC396/99 DE 1999/06/22 1SEC.

AC STJ PROC429/99 DE 1999/06/22 1SEC.

AC STJ PROC436/99 DE 1999/09/30 2SEC.

I- É nula, por indeterminabilidade de objecto a fiança em que o fiador se responsabiliza pelo


pagamento de todas e quaisquer responsabilidades que o afiançado assuma ou venha a assumir
perante o Banco proveniente de toda e qualquer operação bancária em direito permitida,
nomeadamente ...(não restringe, apenas clarifica alguma das operações incluídas; essa expressão
apenas se não poderá considerar vaga e imprecisa enquanto se reporte a uma categoria, o que,
contudo, não significa que, mesmo quanto a ela, haja determinabilidade).

II- É desde o início que o objecto da obrigação deve ser determinável, com base em critério(s)
objectivo(s), e não à época do vencimento.

III- À obrigação indeterminada e indeterminável, e, porque nula, é inaplicável o disposto no
artigo 400 CC.

IV- Tendo o Banco operado à compensação com o depositado numa conta que o fiador nele tinha
aberto, são devidos juros remuneratórios desde a operação até à data em que este reclamou a
restituição e, após, é devida a indemnização moratória.

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

PONTO nº 5
Obrigações alternativas e com faculdade alternativa
CP nº 7

ENQUADRAMENTO DOGMÁTICO

PL/AV, CCAnot I, 160 ss

ARTIGO 543º
(Noção)

1. É alternativa a obrigação que compreende duas ou mais prestações, mas em que o


devedor se exonera efectuando aquela que, por escolha, vier a ser designada.

2. Na falta de determinação em contrário, a escolha pertence ao devedor.

CASO PRÁTICO Nº 7

Zoroastro contratou Xenofonte para lhe decorar a casa de campo, um solar na região do Douro.
Acordouse a retribuição de € 1.500. Xenofonte, porém, anteviu dificuldades para a realização do
trabalho, porque talvez tivesse outras ocupações na altura acordada. Assim, ficou acordado que
Xenofonte, em vez de realizar aquele trabalho por aquele valor, podia simplesmente desincumbir
se pagando a Zoroastro € 250, desde que o fizesse com certa antecedência. Antes de tudo isso,
porém, o solar de Zoroastro foi destruído num incêndio fortuito. Quid juris?
* Autoria de Dr. Pedro Ferreira Múrias

- trata-se de uma obrigação com faculdade alternativa, à


semelhança do art. 558º, nº 1
- parece ter a natureza de cláusula penal (art. 810)
- para Pinto Monteiro esta figura é estruturalmente e tendo o
interesse do credor por referência, uma prestação alternativa
pela qual o devedor por optar ou não (cf. art. 811)

!52
RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

JURISPRUDÊNCIA (OBRIGAÇÕES ALTERNATIVAS)

STJ 21-06-83 SANTOS DE CARVALHO


LETRA

DESCONTO BANCÁRIO

PRESCRIÇÃO

NOVAÇÃO

OBRIGAÇÃO ALTERNATIVA :
CPC67 ART510 ART511.

CCIV66 ART543 N1 ART547 ART813.

CCOM888 ART362.

DL 344/78 DE 1978/11/17.

LULL ART70.
AC STJ DE 1974/04/19 IN BMJ N236 PAG170.

AC STJ DE 1976/06/01 IN BMJ N258 PAG242.

AC STJ DE 1978/07/02 IN BMJ N259 PAG235.

AC STJ DE 1981/12/03 IN BMJ N312 PAG265.
I - Na operação de desconto bancário, o banco descontador da letra, que a titula, é também credor originário
do descontário, podendo invocar como causa de pedir na acção o mútuo em que se traduz o desconto, se
não quiser ou não puder invocar a obrigação cambiária, uma vez que tudo se passa no domínio das relações
imediatas.

II - Em tal caso, é inaplicável o prazo prescricional do artigo 70 da Lei Uniforme sobre Letras e Livranças.

III - O endosso de nova letra em reforma da anterior não constitui novação, mas apenas uma "datio pro
solvendo", ficando a existir, além da relação subjacente (contrato de desconto) uma relação cambiária
destinada a tornar mais segura a satisfação do interesse do credor.

IV - No caso do desconto bancário, não se está perante uma obrigação alternativa sujeita à disciplina do
artigo 547 do Código Civil, uma vez que a prestação

é única, apenas podendo ser realizada coercivamente através de dois meios processuais diferentes.

STJ 17-06-87 PINHEIRO FARINHA


NULIDADES

CONTRATO-PROMESSA DE COMPRA E VENDA

INCUMPRIMENTO DO CONTRATO

JUROS DE MORA

OBRIGAÇÃO ALTERNATIVA

QUESTÃO NOVA

PODERES DO SUPREMO TRIBUNAL DE JUSTIÇA

COMODATO

POSSE DE BOA-FE

DIREITO DE RETENÇÃO

ENRIQUECIMENTO SEM CAUSA

INDEMNIZAÇÃO

SINAL

AUTONOMIA DA VONTADE

RESOLUÇÃO DO CONTRATO

EFEITOS

VARELA DAS OBG EM GERAL VI P786.


A DELGADO DO CONTRATO-PROMESSA P30.

A COSTA DIR DAS OBG P184.
P LIMA VARELA CCIV ANOTADO VI P288.
CPC67 ART668 N1 E ART716 N1 ART721 N2 ART731 N1.

CCIV66 ART9 ART212 N2 ART289 ART332 ART405 N1 ART432 ART433

ART434 ART442 N2 N3 N4 ART473 ART542 ART543 ART549 ART754 ART801 ART808 N1

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

ART1270 N1.

DL 236/80 DE 1980/07/18.

I - E alternativa a obrigação que compreende duas ou mais prestações, sendo certo que, para que haja
obrigação alternativa não basta que haja duas ou mais formas possiveis de cumprir a mesma prestação; e
necessario que haja duas ou mais distintas prestações em disfunção.

II - Salvo estipulação em contrario, não ha lugar, pelo não cumprimento do contrato-promessa, a qualquer
outra indemnização nos casos de perda de sinal ou de pagamento do dobro deste ou do valor da coisa ao
tempo do incumprimento.

III - Nada obsta, portanto, a que as partes estipulem uma indemnização superior ou inferior ao montante do
sinal.

IV - Os particulares, na area dos contratos, podem agir por sua propria e autonoma vontade, constituindo
excepção aos limites impostos por lei.

V - A resolução tem, por regra, efeito retroactivo e, quanto ao efeito da resolução, a lei não distingue entre
os casos em que ela se funda numa circunstancia imputavel ao contraente contra quem e proferida e aqueles
em que tal circunstancia lhe não e imputavel.

VI - O enriquecimento sem causa pressupõe a falta de uma causa justificativa.

STJ 22-06-89 JOSE CALEJO


CONTRATO-PROMESSA DE COMPRA E VENDA

TRADIÇÃO DA COISA

OBRIGAÇÃO ALTERNATIVA

INCUMPRIMENTO DO CONTRATO

EXECUÇÃO ESPECÍFICA
CCIV66 ART442 N2 ART543 N1 N2 ART830.

CPC67 ART468 ART684 N4.

I - No contrato-promessa de compra e venda de imóvel para habitação, em caso de incumprimento e tendo


havido tradição da coisa, pode ser exigido do faltoso o pagamento do valor do imóvel ao tempo do
incumprimento, ou, em alternativa, requerer-se a execução específica do contrato.

II - Numa obrigação alternativa o devedor fica exonerado efectuando, em primeira linha, a que vier a ser
designada por escolha do credor, logo na petição inicial.

RP 31-01-91 ARAGÃO SEIA


ACÇÃO DE DESPEJO

DENÚNCIA PARA HABITAÇÃO

DOAÇÃO

PRÉDIO INDIVISO

OBRIGAÇÃO ALTERNATIVA

REGIME

INTERPRETAÇÃO ANALÓGICA
CCIV66 ART879 ART954 A B ART1096 N1 ART1098 N1.

CPC67 ART468 ART803.
AC RL DE 1985/12/05 IN CJ ANOVIII T5 PAG129.

I - Para obter a denúncia do arrendado para habitação própria a lei apenas exige que o senhorio
não possua casa própria ou arrendada, e não que a não tenha emprestada ou cedida por tolerância.

II - O facto de o senhorio ter aceite, durante algum tempo, a situação precária de viver, por favor,
em casa de outrém, não pode converter-se num dever de perpétua sujeição a tal estado de coisas.

III - A doação, embora sujeita a colação, desde logo tem como consequência a transmissão da
propriedade da coisa ou da titularidade do direito e a obrigação de a entregar.

IV - Não obstante a unidade do prédio arrendado, se a necessidade habitacional do senhorio se
bastar com a ocupação de uma parte do prédio, designadamente um ou dois pisos, não pode este
pedir o despejo de todo o prédio.

V - Nesta situação, e por aplicação analógica do preceituado no artigo 468 do Código de Processo
Civil, quanto às obrigações alternativas, pertencerá ao senhorio a escolha da parte que pretende
ocupar, mas não tendo ele feito essa escolha, a mesma será devolvida ao arrendatário.

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

RP 02-11-92 SIMÕES FREIRE


OBRIGAÇÃO ALTERNATIVA

QUALIFICAÇÃO
CCIV66 ART543 ART799.

Havendo uma obrigação principal - dever de abstenção de actos que impeçam o exercício de uma
servidão de passagem - e prevendo-se para o caso de não quererem os obrigados cumpri-la, uma
outra alternativa- pagamento de uma indemnização de 500.000$00 - não estamos perante
obrigações alternativas, já que elas não se equivalem, mas antes se substitui a segunda

à primeira verificado certo pressuposto.

RL 12-01-96 ANDRE DOS SANTOS


OBRIGAÇÃO ALTERNATIVA

DEVEDOR

NOTIFICAÇÃO PESSOAL
CPC67 ART153 ART201 ART205 ART206 N2 ART802 ART803.

CCIV66 ART548.

I - Em caso de obrigação alternativa e pertencendo a escolha ao devedor deve o exequente


requerer que este seja notificado para declarar por qual das prestações opta dentro do prazo fixado
pelo Tribunal;

II - Essa notificação tem que ser pessoal.

RP 18-04-96 NORBERTO BRANDÃO


ACÇÃO REAL

ACÇÃO DE CONDENAÇÃO

INEPTIDÃO DA PETIÇÃO INICIAL

FALTA

PEDIDO

DIREITO DE PROPRIEDADE

OBRIGAÇÃO ALTERNATIVA ::
:CPC67 ART193 N3.

CCIV66 ART543 N1.
AC STJ DE 1990/11/27 IN BMJ N401 PAG532.

AC RP DE 1981/07/07 IN CJ T4 ANOVI PAG177.
ário:
I - Nas acções reais que não sejam de reivindicação, a petição inicial não poderá ser declarada
inepta por falta de pedido, expresso e prévio, do reconhecimento do direito de propriedade do
autor, embora este direito possa e deva ser alegado como fundamento lógico ou causa de pedir da
pretendida condenação.

II - Não é alternativa a obrigação em que se estabelece subsidiariamente um segundo objectivo
para o caso de não poder ser prestado o primeiro, ou para o caso de o credor não conseguir por
outra via o primeiro objectivo

RP 15-02-2000 SOARES DE ALMEIDA


CONTRATO-PROMESSA DE COMPRA E VENDA

OBRIGAÇÃO ALTERNATIVA

PEDIDO ALTERNATIVO

EXECUÇÃO ESPECÍFICA

SANÇÃO

INCUMPRIMENTO DEFINITIVO

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

CPC95 ART468.

CCIV66 ART442 N2 N3 ART830 ART801 ART808
AC STJ DE 1981/05/26 IN BMJ N307 PAG257.

AC STJ DE 1998/05/26 IN CJSTJ T2 ANOVI PAG100.

I - Nas obrigações alternativas, em que o direito de escolha pertença ao credor, este, se tiver de
recorrer ao tribunal, não precisa de formular pedido alternativo pois pode pedir apenas a prestação
que lhe convier.

II - O pedido de execução específica do contrato prometido não pode ser formulado em alternativa
com o pedido dos restantes direitos conferidos ao promitente-comprador; formulado esse pedido em
alternativa, trata-se de pedido irregular, que não deve por isso ser atendido.

III - Para a aplicação das sanções previstas no n.2 do artigo 442 do Código Civil, não basta a simples
mora do promitente, exigindo-se o incumprimento definitivo do contrato-promessa.

RL 28-10-2004 SILVEIRA RAMOS


OBRIGAÇÃO ALTERNATIVA

1- A escolha do devedor é irrevogável, tal como a do credor ou de terceiro, estas expressamente


previstas nos arts. 549º e 542º CC.

2- Mas não vale como declaração de escolha, a que se dirige, não directamente à pessoa da
declaratária, mas ao encarregado duma sua fábrica.

3- É questão de direito, a existência de declaração de vontade tácita, que resultará de
comportamentos significantes, positivos e inequívocos.

4- A exceptio non adimpleti contractus não é invocável quando a obrigação foi instituída por
sentença.

5- Se a escolha pertencer ao exequente, mesmo devedor da prestação, mas ainda credor após
compensação, e este ainda a não tiver feito, fá-la-á no requerimento inicial da execução.

STJ 31-05-2005 AZEVEDO RAMOS


EXECUÇÃO POR QUANTIA CERTA

EXCEPÇÃO DE NÃO CUMPRIMENTO

OBRIGAÇÃO ALTERNATIVA

I - A excepção do não cumprimento do contrato não se reconduz a qualquer inexigibilidade da


obrigação exequenda, mas antes se enquadra na previsão do art. 813, al. g) do C.P.C. 


II - Através da execução, não se trata de cumprir um contrato bilateral, mas antes de executar a
sentença , transitada em julgado, que já declarou e definiu o direito, impondo obrigações para
ambas as partes. 


III - Por isso, a excepção de não cumprimento do contrato já devia ter sido deduzida no processo
declarativo, para lá poder apreciada e considerada, na medida em que não respeita a factualidade
que só tenha ocorrido após o encerramento da discussão no processo de declaração.


IV- Na falta de determinação em contrário, a escolha da prestação alternativa pertence ao
devedor.


V - Tal escolha não carece de ser feita por escrito, por vigorar aqui o princípio da liberdade da
forma.

JURISPRUDÊNCIA (OBRIGAÇÃO COM FACULDADE ALTERNATIVA)

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

STJ 26-02-92 TAVARES LEBRE


EMBARGOS DE EXECUTADO

COMPENSAÇÃO DE DÍVIDA

MOEDA ESTRANGEIRA

BOA-FÉ

BMJ N414 ANO1992 PAG515


CPC67 ART813 H ART815 ART847.

CCIV66 ART558.

LULL ART17.

I - A compensação de crédito em dinheiro português com outro em dinheiro estrangeiro é possível


se este puder ser pago em dinheiro português.

II - Não há qualquer obstáculo à compensação se o embargante, ao deduzir a excepção da
compensação, não exige que o seu crédito seja compensado em moeda nacional e se o
embargado, como vem provado pelas instâncias, não respeitou na sua conduta as regras da boa-fé,
já que pretendia com o endosso prejudicar o embargante.

STJ 05-05-94 VOLIVEIRA BRANQUINHO


CONTRATO-PROMESSA DE COMPRA E VENDA

SINAL

LEI APLICÁVEL

LEI INTERPRETATIVA
CCIV66 ART442 N2.

DL 236/80 DE 1980/06/18.

DL 379/86 DE 1986/11/11.

CCIV66 ART805 N1.
AC STJ DE 1990/12/12 IN BMJ N402 PAG544.

AC STJ IN PROC80833 DE 1991/12/03.

I - É manifesto que a versão do n. 2 do artigo 442 do Código Civil introduzida pelo Decreto-Lei
236/80, de 18 de Junho, não referiu no seu contexto, apesar da faculdade alternativa da exigência
do dobro do sinal ou do valor de coisa que era objecto de contrato prometido, a restituição da
importância do sinal e da parte do preço pago que depois veio a constar da versão do Decreto-Lei
379/86, de 11 de Novembro.

II - A norma do n. 2 do artigo 442 do Código Civil, na versão do Decreto-Lei 379/86, nesta parte,
é interpretativa de anterior versão introduzida pelo Decreto-Lei 236/80.

STJ 23-05-2002 ABEL FREIRE


EMPREITADA

FACULDADE ALTERNATIVA
DESISTÊNCIA

RESPONSABILIDADE CIVIL CONTRATUAL
CCIV66 ART798 ART808 ART1208 ART1229.

I - Se o dono da obra desistir unilateralmente da empreitada, constitui-se na obrigação de


indemnizar o empreiteiro dos seus gastos e trabalho e do proveito que poderia tirar da obra - artº
1229º do C.Civil.


II - O incumprimento da empreitada (paralisação das obras) faz incorrer o empreiteiro em
responsabilidade pelos prejuízos, sendo ainda fundamento para a resolução do contrato se
invocada nos termos do artº 808º do C.Civil).

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Elementos de Direito das Obrigações

RG 07-12-2005 AMÍLCAR ANDRADE


EMBARGOS DE EXECUTADO

CLÁUSULA PENAL

: I- Com a cláusula penal é fixado previamente o montante da indemnização a satisfazer em caso


de eventual incumprimento do contrato.

II- Trata-se, pois, de uma sanção convencionada entre as partes, essencialmente ligada à ideia de
mora e do não cumprimento ou do cumprimento defeituoso do contrato.

III- Nestes casos não há que averiguar se o credor sofreu ou não prejuízos e muito menos qual o
seu montante, em caso afirmativo.

IV- Na prática tem vindo a entender-se que a cláusula penal desempenha uma dupla função:
função indemnizatória e função coercitiva.

V- A cláusula penal só poderá funcionar havendo culpa do devedor.

VI- No âmbito da cláusula de garantia o devedor responde independentemente de culpa.

VII- Tendo as partes convencionado uma cláusula de garantia com função penal, o montante
acordado é devido logo que se verifique a situação prevista – o incumprimento –
independentemente de culpa do devedor.

VIII- Segundo a interpretação a dar ao artigo 800º, nº1 do Código Civil, o devedor é responsável,
independentemente de qualquer culpa sua, pelos actos de terceiros que utilize para o cumprimento
da obrigação.

Acordam no Tribunal da Relação de Guimarães




Por apenso à execução que lhes move "A", vieram "B" e esposa, "C", deduzir oposição por
embargos, pedindo se reconheça e se declare que os executados-embargantes não respondem pela
mora no cumprimento da obrigação ainda não cumprida. 

O exequente-embargado alegou na execução apensa, em resumo, que adquiriu, por contrato de
cessão de exploração, a posição contratual de "D", Limitada, no contrato de arrendamento
comercial que esta celebrou com os executados relativo à fracção «B» de um prédio. Que nos
termos desse contrato os executados se obrigaram a facultar desde 07/05/01 o uso da fracção «C»
desse prédio enquanto durassem as obras na fracção «B». E que a reabertura do comércio nesta
fracção deveria ser facultada pelos primeiros executados ao exequente até ao dia quinze de
Agosto de 2001. A partir dessa data o exequente iniciaria as obras para abertura do comércio
nessa fracção «B». Foi acordado que o incumprimento por parte de qualquer dos contraentes dos
prazos atrás estipulados determinaria a obrigação de o contraente faltoso indemnizar o outro com
a quantia de cinquenta mil escudos por cada dia de mora no cumprimento. Os executados não
vêm cumprindo com o alegado.

Os executados-embargantes alegaram nos presentes embargos, em síntese, que se é verdade que
os embargantes estão impossibilitados de facultar ao exequente o uso da fracção “B” identificada
na petição executória, tal impossibilidade de poderem cumprir a obrigação a que estão adstritos é
devida à existência de infiltrações de água provocadas pelas obras realizadas no prédio por Laura
M.... Assim, a causa do incumprimento daquela obrigação não é imputável aos executados. Por
outro lado, e em relação à fracção «C», se é verdade que esta só foi disponibilizada em
18.05.2001, tal ficou a dever-se a atrasos na execução das obras nessa fracção «C» por parte de
Laura M... e ainda ao facto de entre 30 de Abril de 2001 e 21 de Maio de 2001 a pedido de Laura
M... terem decorrido obras de saneamento no subsolo da rua e do passeio, precisamente em frente
das portas de acesso às fracções «B» e «C». Assim, também nesta parte a causa do
incumprimento da obrigação não é imputável aos executados. 

Notificado, o embargado contestou, concluindo pela improcedência dos embargos.

Saneado, condensado e instruído o processo, procedeu-se a audiência de discussão e julgamento
e, a final, foi proferida sentença que decidiu julgar os presentes embargos procedentes e, em
consequência, determinou a extinção da execução apensa n.º 58/2002.

Inconformado com esta decisão, dela veio apelar o embargado, formulando na sua alegação as
conclusões que resumidamente se transcrevem:

A cláusula estabelecida entre o embargante e embargado (tal como a cláusula constante do termo

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de transacção no inventário nº 267/99) é uma Cláusula Penal de Garantia com função penal,
sendo, por isso, uma cláusula mista, já que pretendeu assegurar um resultado (cumprimento dos
prazos acordados para a entrega das fracções), bem como uma função sancionatória para o caso
de incumprimento, fixando, desde logo, o montante indemnizatório por cada dia de atraso.

A cláusula de garantia, ou mista, funciona independentemente da culpa do devedor.

“In casu” está demonstrado – o que até é confessado – o incumprimento dos prazos na entrega
das fracções: a fracção C deveria ser facultada até ao dia 7 de Maio e só foi facultado ao
embargado em 18 de Maio de 2001 e a fracção ”B” deveria ser facultada ao embargado-
arrendatário em 15 de Agosto de 2001 e só o foi em Dezembro de 2002 ou 31 de Maio de 2003
( o que se virá a apurar no incidente para fixação de exigibilidade que corre por apenso a este
processo).

Se o devedor, no caso da cláusula ser uma cláusula mista (de garantia com função penal)
responde independentemente de culpa, então os embargos deduzidos deveriam ter sido julgados
totalmente improcedentes).

Sem prescindir, mesmo na hipótese de se entender que a cláusula 14º do contrato de
arrendamento e que vinculou embargante e embargado é uma verdadeira cláusula penal e que só
esta poderia funcionar havendo culpa do devedor, entendemos que, face à matéria dada como
provada, o embargante não elidiu a culpa que sobre si impendia (e se presumia).

O que resulta da matéria de facto é exactamente o contrário do que foi decidido pelo Mmº Juiz “ a
quo”, isto é, que o embargante foi culpado pelo incumprimento verificado, pelo menos a título
negligente.

Ainda assim, sempre o embargante seria responsável, mesmo não havendo culpa sua, nos termos
do consagrado no artº 800º nº1 do Cód. Civil.

O Mmº Juiz a quo não cuidou de analisar devidamente o tipo de cláusula estabelecida entre as
partes, como que lhes vedando a liberdade contratual estabelecida no artº 405º do CC, que, por
isso, foi violado.

O Mmº Juiz a quo não interpretou/apreciou correctamente, os factos dados como provados,
violando, além do mais os artºs 799º e 342º do CC, pois se o fizesse teria concluído existir culpa
por parte do embargante.

As presentes alegações têm sustentação na Jurisprudência e na Doutrina mais conceituada, como
é o caso do Senhor Professor Doutor António Pinto Monteiro, que gentilmente acedeu a emitir o
seu parecer que ora se junta.

Finaliza, pedindo, a revogação da decisão recorrida, substituindo-a por outra que julgue os
embargos totalmente improcedentes.

Juntou parecer do Senhor Professor Doutor António Pinto Monteiro.


Não foram apresentadas contra-alegações.


Colhidos os vistos legais, cumpre apreciar e decidir.


Fundamentação de facto

São os seguintes os factos dados como provados na 1ª instância:
Da matéria assente:

1- Por escrito particular datado de 19 de Fevereiro de 2001, com cópia a fls. 6 a 8 dos autos
principais, cujo teor aqui se dá por reproduzido, os embargantes e um sócio gerente de "D",
emitiram e exararam por escrito as declarações aí constantes nomeadamente: 

a. “(…) Artigo 11.° - A segunda contraente ("D") deverá desocupar, totalmente de bens e pessoas
a fracção objecto deste contrato que vem ocupando, até ao dia sete de Maio de 2001, por forma a
viabilizar as obras descritas naquele citado inventário. Desde já declara a Primeira contraente
que tem conhecimento de todos os termos da conferência de interessados concluída naquele
inventário judicial.

b. Artigo 12.° - A partir dessa data os Primeiros contraentes (os embargantes) obrigam-se a
facultar o uso da fracção C do mesmo prédio para que a Segunda contraente instale aí o seu
comércio enquanto durarem as obras que inviabilizam a ocupação da fracção B. 

c. Artigo 13.° - O uso da fracção B, para início das obras necessárias para reabertura do
comércio nesta fracção, deverá ser facultado pelos Primeiros contraentes à Segunda, até ao dia
15 de Agosto de 2001. A partir dessa data a Segunda contraente, iniciará as obras para abertura

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do comércio nessa fracção B. 



d. Artigo 14.° - O incumprimento por parte de qualquer dos contraentes dos prazos atrás
estipulados determinará a obrigação de o contraente faltoso indemnizar o outro com a quantia
de cinquenta mil escudos por cada dia de mora no cumprimento. (…)”;

2- Por escrito particular datado de 23 de Fevereiro de 2001, com cópia junta a fls. 5 dos autos
principais, cujo teor aqui se dá por reproduzido, um sócio gerente de "D", declarou
nomeadamente que esta sociedade cedia ao embargado a sua posição contratual no negócio
referenciado em «1», tendo o embargado declarado aceitar tal cessão.

3- O uso da mencionada fracção “C” foi facultado ao embargado em 18 de Maio de 2001.

4- O uso da mencionada fracção “B” ainda não fora facultado ao embargado em 10 de Dezembro
de 2002.

5- Em finais de Novembro de 2001, quando a fracção “B” deixou de ter escoras dentro e o
embargante pretendia realizar a sua entrega ao embargado, constatou-se que esta apresentava
infiltrações de água na sua parede norte, o que tornava impossível a sua ocupação para exercício
do comércio.

6- Entre 30 de Abril de 2001 e 21 de Maio de 2001 manteve-se em frente às fracções “B” e “C”
um grande buraco na rua e no passeio, e a rua manteve-se fechada ao trânsito, o que inviabilizou a
transferência de mercadorias entre as fracções “B” e “C”.

Da base instrutória:

7- O embargado participou nas negociações dos acordos relativos às fracções autónomas em
causa, celebrados nos autos de inventário que correram termos neste tribunal sob o n.º 267/99, e
teve conhecimento do seu teor.

8- O embargado teve conhecimento do facto descrito em «5».

9- Desde Novembro e Dezembro de 2001, o embargante fez inúmeras diligências junto da sua
irmã Laura M... para que esta realizasse as obras necessárias à correcção do referido em «5»,
factos de que o embargado teve conhecimento.

10- Não tendo esta Laura até à data realizado as obras necessárias à eliminação das infiltrações
mencionadas em «5».

11- As infiltrações mencionadas em «5» foram provocadas pelas obras realizadas no edifício por
conta e determinação de Laura M....

12- O facto descrito em «6» foi provocado por obras de saneamento para ligação ao colector
público, realizadas a pedido de Laura M..., na sequência das obras que esta levava a cabo no
edifício.

Por documentos (cf. certidão junta de fls. 84 a 95):

13- Por sentença proferida em 21/02/2001, nos autos de processo especial de inventário por óbito
de João P..., que correram termos neste tribunal sob o n.º 267/99, e já transitada em julgado, foi
homologado um acordo de transacção, exarado a fls. 195 a 199 dos mesmos autos, em que
intervieram nomeadamente embargante e embargado, nos termos do qual foi adjudicada a verba
n. ° 55, correspondente a um prédio urbano, composto de casa de três pavimentos, sita na Praça
Deu-la-Deu, freguesia e concelho de Monção, a confrontar do norte com Praça Deu-la-Deu, sul
com Joaquim S..., nascente com Pedro L... e poente com Angelina S..., inscrito na respectiva
matriz sob o art. ...° urbano, e omisso na Conservatória do Registo Predial, aos interessados "B",
ora embargante, Laura M... e João M..., nas proporções resultantes da constituição de propriedade
horizontal que no mesmo acordo formalizaram. 

14- A formalização da referida propriedade horizontal encontra-se a fls. 196 e 197 dos supra
referidos autos e certidão de fls. 84 a 95 dos presentes autos, cujo teor aqui dou por reproduzido,
com constituição das fracções autónomas “A”, “B”, “C”, “D”, “E”, “F”, e “G”. 

15- Na sequência das referidas transacção e constituição de propriedade horizontal foi acordado
entre os interessados adjudicar a fracção “A” a João M..., as fracções “B” e “C” ao ora
embargante, e as fracções “D”, “E”, “F” e “G” a Laura M....

16- Na mesma transacção, foi ainda acordado e homologado o seguinte: 

a. “N.° 1 – Está licenciada pela Câmara Municipal de Monção um projecto de execução de
obras com o alvará n.º .../01 por via das quais se concretizará materialmente a mencionada
propriedade horizontal. 

b. N.° 2 – As obras constantes desse projecto serão executadas pela herdeira Laura M..., sob a
sua responsabilidade suportando, designadamente os seus custos, com as comparticipações que
adiante vão ser discriminadas. 


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c. N.° 3 – A execução de tais obras carece de desocupação dos actuais ocupantes das lojas de
rés-do-chão. As obras terão início, com a construção das lajes de cobertura de ou tecto todo os
rés-do-chão, lajes essas que vão servirão correspondente piso do 1° andar. 

d. N.°4-A dita execução dessa laje irá obedecer aos prazos e datas e execução seguintes: 

i. Primeira fase: - Com início a 12/3/2001 e conclusão em 16/4/2001, incidirá na atrás
identificada fracção “C” e consistirá na construção da correspondente laje de tecto. 

ii. Segunda fase: - Com início em 7/05/2001 e conclusão em 4/06/2001 incidirá na atrás
identificada fracção “B” e consistirá na correspondente construção da laje do tecto. 

iii. Terceira fase: - Com início em 25/06/2001 e conclusão em 23/07/2001, incidirá na acima
identificada fracção “A” e consistirá na construção da referida laje de tecto. 

iv. Entre 16/04 e 7/05 a fracção “C” ficará disponível para acabamentos e nesse mesmo prazo o
actual ocupante da fracção “B” instalar-se-á com todo o seu comércio na fracção “C” deixando
totalmente livre e disponível a fracção “B” para início execução das correspondentes obras. 

v. Entre 4/06 e 25/06 a fracção “B” ficará disponível para acabamentos e nesse mesmo prazo o
actual ocupante da fracção “A” instalar-se-á com todo o seu comércio na fracção “B” deixando
totalmente livre e disponível a fracção “A” para início de execução de execução das
correspondentes obras. 

vi. Entre 23/07/2001 a 15/08/2001 o herdeiro João M... deixará a fracção “B” livre e disponível
para ocupação. 

e. N° 5 – Com o início das obras os herdeiros "B" e João M... entregarão os dois, conjuntamente,
à herdeira Laura M... a quantia de 2.000.000$00. Na data de conclusão da dita laje de cobertura
de todo o r/c entregarão outra quantia igual, conjuntamente, de 2.000.000$00 fixando-se, assim,
a comparticipação única de ambos do custo total das obras da importância de 4.000.000$00. Os
pagamentos serão efectuados por intermediação dos mandatários Judiciais. 

f. N.° 6 – O pé direito e as áreas de r/c não poderão sofrer alterações. O não cumprimento de
todos os prazos atrás definidos, quer os que vinculam a herdeira Laura M..., quer os que
vinculam os herdeiros João M... e "B" determinará que quem tiver entrado em incumprimento
indemnizará a parte prejudicada com uma quantia que se fixa em 50.000$00 por dia. Entre o
início das obras atrás mencionadas, isto é a execução da laje de tecto e r/c os respectivos
espaços só poderão ser ocupados por aqueles que actualmente os ocupam. Os herdeiros João
M... e "B" não poderão opor-se de forma alguma à execução das obras do projecto atrás
mencionado. Durante a execução das obras o acesso às fracções ocupadas nos moldes atrás
definidos será garantida e dentro do possível a visão da rua para as montras.”
*
O Direito

Como é sabido, o âmbito do recurso é delimitado pelo teor das conclusões dos recorrentes – artºs
684º, nº3 e 690º, nº1 do Cód. Proc. Civil.

Das conclusões do apelante se vê que o objecto do recurso se prende essencialmente com a
qualificação da cláusula 14ª estipulada pelas partes, de acordo com a qual ”O incumprimento por
parte de qualquer dos contraentes dos prazos atrás estipulados determinará a obrigação de o
contraente faltoso indemnizar o outro com a quantia de cinquenta mil escudos por cada dia de
mora no cumprimento. (…)”.


Como resulta da matéria de facto assente, entre "B" e a sociedade "D", foi celebrado um contrato
de arrendamento urbano para comércio, tendo por objecto a fracção autónoma designada pela
letra B, a que corresponde uma loja de rés do chão, do prédio devidamente identificado nos autos.

Está ainda assente que:

Por escrito particular datado de 19 de Fevereiro de 2001, com cópia a fls. 6 a 8 dos autos
principais, cujo teor aqui se dá por reproduzido, os embargantes e um sócio gerente de "D",
emitiram e exararam por escrito as declarações aí constantes nomeadamente: 

g. “(…) Artigo 11.° - A segunda contraente ("D") deverá desocupar, totalmente de bens e pessoas
a fracção objecto deste contrato que vem ocupando, até ao dia sete de Maio de 2001, por forma a
viabilizar as obras descritas naquele citado inventário. Desde já declara a Primeira contraente
que tem conhecimento de todos os termos da conferência de interessados concluída naquele
inventário judicial.

h. Artigo 12.° - A partir dessa data os Primeiros contraentes (os embargantes) obrigam-se a
facultar o uso da fracção C do mesmo prédio para que a Segunda contraente instale aí o seu

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comércio enquanto durarem as obras que inviabilizam a ocupação da fracção B. 



i. Artigo 13.° - O uso da fracção B, para início das obras necessárias para reabertura do
comércio nesta fracção, deverá ser facultado pelos Primeiros contraentes à Segunda, até ao dia
15 de Agosto de 2001. A partir dessa data a Segunda contraente, iniciará as obras para abertura
do comércio nessa fracção B. 

j. Artigo 14.° - O incumprimento por parte de qualquer dos contraentes dos prazos atrás
estipulados determinará a obrigação de o contraente faltoso indemnizar o outro com a quantia
de cinquenta mil escudos por cada dia de mora no cumprimento. (…)”;

Por escrito particular datado de 23 de Fevereiro de 2001, com cópia junta a fls. 5 dos autos
principais, cujo teor aqui se dá por reproduzido, um sócio gerente de "D", declarou
nomeadamente que esta sociedade cedia ao embargado a sua posição contratual no negócio
referenciado em «1» (contrato de arrendamento para comércio), tendo o embargado declarado
aceitar tal cessão.

O uso da mencionada fracção “C” foi facultado ao embargado em 18 de Maio de 2001.

O uso da mencionada fracção “B” ainda não fora facultado ao embargado em 10 de Dezembro de
2002.


Na oposição à execução, os executados /embargantes alegam no essencial que o incumprimento
dos prazos não é de sua responsabilidade e que nele não têm culpa, atribuindo a sua irmã Laura a
responsabilidade por tais atrasos, uma vez que era ela quem estava incumbida de fazer as ditas
obras e que ao atrasos resultaram dessas obras.

O Tribunal a quo, considerando os factos provados, entendeu ser de concluir que a «culpa» pela
demora no atraso das fracções deve-se não aos embargantes, mas sim a terceiros, pelo que não
havendo culpa dos embargantes, a cláusula penal não pode funcionar. 


Quid iuris?

A questão técnico-jurídica que surge é fundamentalmente a da exacta qualificação da cláusula
contratual em causa – a cláusula 14ª do contrato.

Nos termos do disposto no artº 810º, nº1 do Código Civil «as partes podem fixar por acordo o
montante da indemnização exigível: é o que se chama cláusula penal».

A cláusula penal é a convenção através da qual as partes fixam por acordo o montante da
indemnização a satisfazer em caso de eventual incumprimento do contrato (incumprimento
definitivo ou de simples mora).

Com ela é fixado previamente o montante da indemnização devida.

Nestes casos não há que averiguar se o credor sofreu ou não prejuízos e muito menos qual o seu
montante, em caso afirmativo.

Pela cláusula penal opera-se a liquidação antecipada e convencional dos prejuízos que resultariam
do não cumprimento, evitando indagação e prova dos mesmos (Pessoa Jorge, in Direito das
Obrigações, p.615).

Como refere A. Pinto Monteiro, “Cláusula penal é a estipulação mediante a qual as partes
convencionam antecipadamente – isto é, antes de ocorrer o facto constitutivo de responsabilidade
– uma determinada prestação, normalmente uma quantia em dinheiro, que o devedor deverá
satisfazer ao credor em caso de não cumprimento perfeito (maxime em tempo) da
obrigação” (Cláusulas Limitativas e de Exclusão de Responsabilidade Civil, p. 136).

Trata-se, pois, de uma sanção convencionada entre as partes, essencialmente ligada à ideia de
mora e do não cumprimento ou do cumprimento defeituoso do contrato. Dessa forma se evitam as
dificuldades inerentes ao processo de avaliação da indemnização. O lesado terá direito à quantia
previamente acordada com o lesante, não havendo lugar a outra indemnização.

Na prática, tem vindo a entender-se que a cláusula penal desempenha uma dupla função: função
indemnizatória e função coercitiva.

A função indemnizatória constitui uma função muito importante da cláusula penal, sendo ela que
muitas das vezes determina as partes a recorrerem a esta figura.

Mas as partes poderão recorrer à cláusula penal a fim de pressionar o devedor ao cumprimento,
sendo a função coercitiva a que está, até historicamente (deve o seu nome à stipulatio poenae do
direito romano), mais próxima da cláusula penal.

Como destaca A. Pinto Monteiro, «Pensamos, com efeito, que o significado particular da cláusula
penal lhe é proporcionado pelo facto de ela ser uma importante medida de incentivo ao

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cumprimento, de reforço das obrigações, ao mesmo tempo que oferece ao credor uma forma
alternativa – em relação à obrigação de indemnização – de satisfazer o seu interesse, caso a
ameaça não haja resultado. Por isso a consideramos como cláusula penal em sentido estrito, ou
cláusula penal propriamente dita. Quando se recorre a esta figura, é para pressionar o devedor a
cumprir, ao mesmo tempo que o credor se previne contra as consequências de um eventual
inadimplemento» (Cláusula Penal e Indemnização, pág. 618).

Salienta o mesmo autor que a cláusula penal «se destina a compelir o devedor, ao mesmo tempo
que a pena substitui a indemnização» e que «ao ser celebrado o acordo, a fim de pressionar o
devedor a cumprir, o credor estipula uma sanção, que o primeiro aceita, nos termos da qual fica
legitimado a exigir uma prestação mais gravosa, em alternativa à prestação inicial, uma vez não
satisfeita esta. Trata-se, portanto, de uma ameaça exercida através de uma forma de satisfação
alternativa do interesse do credor, sem que a mesma passe pela via indemnizatória, uma vez que
ela é prosseguida por uma outra prestação – que nem tem que ser pecuniária, embora
normalmente revista esta índole – ao lado da que é inicialmente devida. (...) Compreender a
cláusula penal no quadro de uma obrigação com faculdade alternativa a parte creditoris, não é
novidade: trata-se de uma posição de há muito subscrita na doutrina. (...) concebendo a pena
como prestação que o credor poderá exigir, em alternativa àquela que era inicialmente devida,
isso permite compreender a razão por que a cláusula penal funciona como meio de pressão ao
cumprimento e, simultaneamente, como forma de o credor, através dessa outra prestação – isto é,
repete-se, da pena – satisfazer o interesse que o levara a contratar (op. cit., pág. 613 e segs.).

Mas a cláusula penal, como é sabido, oferece esta desvantagem: provando o devedor que não teve
culpa, afasta o direito do credor à pena.

Então, quando as partes pretendem assegurar um certo resultado, fazem-no através de uma
cláusula de garantia, que actua independentemente de culpa do devedor.

Através da cláusula de garantia, o devedor assegura ao credor determinado resultado, assumindo
o risco da não verificação do mesmo, qualquer que seja, em princípio, a sua causa. Tendo em
vista o seu confronto com a cláusula penal, A. Pinto Monteiro refere «a cláusula de garantia
enquanto convenção destinada a onerar o devedor com o risco da prestação, isto é, a fazê-lo
responder – pelos danos provados ou segundo o montante previamente estabelecido –
independentemente de culpa sua ou de qualquer circunstância de força maior que tenha
impossibilitado o cumprimento ou a obtenção do resultado garantido. Trata-se, pois, mais do que
de uma prestação dirigida a um certo resultado, de uma garantia, quer dizer, “de uma promessa de
indemnização caso o resultado não seja obtido”.

A particularidade da obrigação de garantia, estipulada pelos contraentes, reside na circunstância
de o credor ficar, por seu intermédio, plenamente assegurado, no que concerne ao facto de o
devedor não poder alegar a sua falta de culpa ou a ocorrência de circunstâncias de força maior
que tenham impossibilitado o cumprimento. Uma vez que o resultado garantido não haja sido
alcançado, o credor, sejam quais forem, em princípio, as razões por que o mesmo não foi obtido,
pode exigir do devedor, consoante o conteúdo da respectiva cláusula, a importância acordada ou a
indemnização dos prejuízos sofridos. A cláusula de garantia acaba por representar, assim, um
desvio, de ordem convencional, em relação às condições ou pressupostos da obrigação de
indemnização, na medida em que o credor, mercê daquela cláusula, poderá vir a exigir, no caso
concreto, independentemente de culpa do devedor, a reparação do dano sofrido» (Op. cit., pág.
265,ss).

Escreve ainda o mesmo autor, a respeito da cláusula de garantia “Ao lado da garantia, cujo efeito
consiste em fazer responder o devedor independentemente de culpa sua, surge, igualmente, deste
modo, uma função penal, na medida em que se fixa antecipadamente a indemnização devida.
Quando isto acontece, a soma acordada abstrai não só da culpa do devedor, como, igualmente, da
extensão do dano efectivo.

Reúnem-se, assim, na mesma cláusula ou convenção, características de duas figuras, mais
precisamente, da cláusula penal e da cláusula de garantia.

Daí que, a nosso ver, a cláusula de garantia coenvolva, neste caso, igualmente uma função penal,
pelo que na disciplina da mesma, ter-se-á de ter em devida conta estes dois aspectos. Assim, a não
obtenção do resultado prometido, implicará, de imediato, a exigibilidade da soma convencionada,
independentemente de qualquer consideração acerca da culpa do devedor – dado que se estipulou
uma garantia.

É nesta situação, que dizemos estar-se perante uma figura híbrida ou mista (cfr. Op. cit., pp.268 e

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269, 277 a 280). 



Afigura-se-nos ser esta a situação aplicável ao caso sub judice: as partes convencionaram uma
cláusula de garantia com função penal, pelo que o montante acordado é devido logo que se
verifique a situação prevista – o incumprimento dos prazos – independentemente de culpa do
devedor.

Como deflui da materialidade provada, o arrendatário obrigou-se no âmbito do contrato de
arrendamento, a desocupar, totalmente de bens e pessoas a fracção objecto do contrato, que vem
ocupando, até ao dia sete de Maio de 2001, por forma a viabilizar as obras descritas naquele
citado inventário. 

Por sua vez o senhorio obrigou-se a partir dessa data, a facultar o uso da fracção C do mesmo
prédio para que o arrendatário instale aí o seu comércio enquanto durarem as obras que
inviabilizam a ocupação da fracção B. 

O mesmo senhorio obrigou-se ainda a facultar ao arrendatário o uso da fracção B, para início
das obras necessárias para reabertura do comércio nesta fracção, até ao dia 15 de Agosto de
2001.

E foi estipulada, por ambas as partes, a cláusula 14ª, para garantia do cumprimento desses
prazos.

Este acordo, em que ambas as partes fixam prazos e datas limite para o cumprimento das
respectivas obrigações está ligado a um outro acordo estabelecido no quadro da transacção
homologada por sentença de 21/02/2001, nos autos de processo especial de inventário por óbito
de João P..., que correram termos naquele tribunal sob o n.º 267/99. Aí se estabelecem com
grande precisão e minúcia, os trabalhos a executar no prédio em causa, as fases em que se
desdobra a execução da obras, as datas de início e conclusão dos respectivos trabalhos, em cada
fase dos mesmos, e a necessidade de desocupação das lojas de rés-do-chão. 

Qualquer atraso de um teria necessárias e imediatas repercussões nos demais interessados e
inviabilizaria o cumprimento do projecto acordado, com os consequentes prejuízos advenientes.

Também aí se salienta que as referidas obras seriam executadas pela herdeira Laura M....

Neste quadro negocial, com a cláusula 14ª do contrato, e bem assim com a cláusula
correspondente contida no acordo de transacção, no processo de inventário, visaram as partes
assegurar o cumprimento dos prazos acordados, conferindo maior segurança ao acordado. E
fizeram-no através de uma cláusula que responsabilizasse as partes pelo cumprimento dos prazos
acordados, independentemente de culpa. Ligando o pagamento da indemnização ao não
cumprimento dos prazos acordados, sem cuidarem de ressalvar as razões por que esse
cumprimento poderia não ocorrer, as partes estipularam simultaneamente uma cláusula de
garantia, que prescinde da culpa e uma cláusula penal, que fixa antecipadamente a indemnização
devida. Como escreve o Prof. Pinto Monteiro, no seu douto Parecer, neste caso, depara-se-nos
uma figura mista, ou seja, uma cláusula de garantia que coenvolve uma função penal.

Cremos ser esse o sentido mais razoável que um declaratário normal, colocado na posição do real
declaratário, extrairá da cláusula 14º do contrato de arrendamento, assim como às cláusulas
correspondentes do acordo de transacção celebrado no inventário, de acordo com o critério
normativo previsto no nº1 do artigo 236º do Código Civil.

Pelo critério do nº1 do artº 236º, o sentido juridicamente relevante que deve ser atribuído à
declaração de vontade é o que lhe daria “um declaratário normal, colocado na posição do real
declaratário”, pelo que se supõe ser este “uma pessoa razoável, isto é, medianamente instruída,
diligente e sagaz, quer no tocante à pesquisa das circunstâncias atendíveis, quer relativamente ao
critério a utilizar na apreciação dessas circunstâncias” (Manuel de Andrade, Teoria Geral da
Relação Jurídica, II, pág. 309) ou “uma pessoa normalmente diligente, sagaz e experiente em face
dos termos da declaração e de todas as circunstâncias situadas dentro do horizonte concreto do
declaratário, isto é, em face daquilo que o concreto destinatário da declaração conhecia e daquilo
até onde ele podia conhecer” (Mota Pinto, Teoria Geral.., pág. 447).

Tendo em conta as regras de interpretação do negócio jurídico, a cláusula 14ª do contrato de
arrendamento deverá ser entendida , nos termos que vêm de ser expostos, ou seja, que as partes,
tendo em conta a segurança visada, e a interdependência das obrigações e prazos estabelecidos,
quiseram responsabilizar-se independentemente de culpa, pelo cumprimento dos prazos
acordados.

Por isso, estipularam as partes uma cláusula de garantia a que acrescentaram uma função penal.

Esta convenção é permitida, no âmbito da liberdade contratual afirmada no artigo 405º, segundo a

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

qual, dentro dos limites da lei, as partes têm a faculdade de fixar livremente o conteúdo dos
contratos e de incluir neles as cláusulas que lhes aprouver.

O Tribunal a quo ponderou, a nosso ver, bem, que “Conforme resulta dos factos provados o uso
da fracção «C» deveria ter sido facultado ao exequente em 7.05.2001 e tal só veio a ocorrer em
18.05.2001. E o uso da fracção «B» deveria ter sido facultado até ao dia 15.08.2001 e em
10.12.2002 tal ainda não tinha ocorrido”, pelo que “Constatamos, pois, existir uma situação de
incumprimento (mora) da prestação que cabia aos embargantes por força do citado acordo”. 

Mas, acabou, surpreendentemente, por concluir que “entendemos ser de concluir que a «culpa»
pela demora no atraso das fracções deve-se não aos embargantes, mas sim a terceiros,
responsáveis pelas obras no passeio, no caso da fracção “C” e à irmã do embargante, no caso da
fracção “B. Assim, não havendo culpa dos embargantes, a cláusula penal não pode funcionar”.

Quando foi estabelecida a cláusula 14ª do contrato de arrendamento, ambos embargante e
embargado, sabiam que as obras em causa ficariam a cargo de Laura M..., irmã do embargante, e
que a haver atrasos eles seriam provavelmente consequência das obras. Por que se teria, então, o
embargante obrigado a cumprir aqueles prazos, se as obras eram incumbência da irmã? Por que
razão o embargante estabeleceu cláusula idêntica no acordo de transacção celebrado no processo
de inventário?

Ora, todos os interessados sabiam que, em princípio, não seria o embargante a provocar os
atrasos.

Destas circunstâncias que vêm de ser expostas, resulta com segurança que as partes contraentes,
suposto serem pessoas razoáveis, normalmente instruídas e diligentes, ao estipularem a cláusula
14ª do contrato, quiseram assegurar um resultado, qual seja, o de garantir a entrega das fracções
em determinado prazo, e sem a fazer depender de culpa ou não do devedor. As partes ao
estabelecerem obrigações recíprocas de ocupação/desocupação quiseram obrigar-se a cumprir os
prazos fixados. Cientes que estavam de que qualquer incumprimento dos prazos por uma das
partes iria repercutir-se de imediato na outra. 

A esta luz, somos levados a concluir que as partes não poderiam deixar de atribuir à cláusula 14ª
do contrato aquele sentido – de cláusula de garantia com função penal – em que a indemnização
predeterminada é devida logo que se verifique a situação prevista, o incumprimento dos prazos,
independentemente de culpa do devedor ("B"). Cremos ser com esse sentido e alcance que se
manifestou a vontade das partes. 

Tendo em conta todo o circunstancialismo negocial e os objectivos pretendidos, afigura-se-nos
que outro sentido não poderia ser atribuído à cláusula 14ª do contrato.


Mas, se porventura, admitíssemos como exacta a qualificação de cláusula penal moratória,
atribuída pelo Tribunal a quo à cláusula 14ª, afigura-se-nos que mesmo assim, a solução
encontrada na 1ª instância não poderá ser sufragada.

A cláusula penal pressupõe a culpa do devedor.

Estabelecendo a lei uma presunção de culpa de devedor (artº 799º, nº1), incumbe ao devedor
provar que a falta de cumprimento ou o cumprimento defeituoso não procede de culpa sua.

A culpa é apreciada, na falta de outro critério legal, pela diligência de um bom pai de família, em
face das circunstâncias de cada caso – cf. artigos 799º, n.º 2 e 487º, n.º 2, ambos do Código Civil.

Relembremos a matéria de facto apurada, com relevo para a dilucidação desta questão:

O uso da mencionada fracção “C” foi facultado ao embargado em 18 de Maio de 2001.

O uso da mencionada fracção “B” ainda não fora facultado ao embargado em 10 de Dezembro de
2002.

Entre 30 de Abril de 2001 e 21 de Maio de 2001 manteve-se em frente às fracções “B” e “C” um
grande buraco na rua e no passeio, e a rua manteve-se fechada ao trânsito, o que inviabilizou a
transferência de mercadorias entre as fracções “B” e “C”. 

Desde Novembro e Dezembro de 2001, o embargante fez inúmeras diligências junto da sua irmã
Laura M... para que esta realizasse as obras necessárias à correcção do referido em «5», factos de
que o embargado teve conhecimento.


Quanto ao primeiro atraso – 7 de Maio de 2001 – afigura-se-nos que a materialidade provada não
é suficiente para afastar a presunção de culpa do embargante.

Não se mostra que o embargante tenha alegado factos que demonstrem a indispensabilidade dos
trabalhos realizados entre 30 de Abril de 2001 e 21 de Maio de 2001 ou que os mesmos não

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Elementos de Direito das Obrigações

pudessem ser realizados em menos tempo ou que não pudessem ser realizados noutra data, ou de
outra forma e que não houvesse outra solução capaz de acautelar o cumprimento do prazo em
causa.

Por outro lado, tendo-se provado que se manteve aberto um buraco na rua e no passeio, em frente
às lojas, até 21 de Maio e que a fracção foi facultada ao embargado em 18 de Maio, impõe-se
perguntar porque não foi facultada antes.

A presunção de culpa estabelecida no artº 799º, nº1, é também aplicável à culpa na
impossibilidade de cumprimento, a que se reporta o artº 801º (Galvão Telles, Obrigações, 3ª,
313).

No caso ocorrente, o embargante não logrou provar que a falta de cumprimento não procede de
culpa sua.

Quanto ao segundo atraso, relativo à fracção “B” – 15 de Agosto de 2001 – escreve-se na
sentença recorrida que “em relação à fracção “B”, resultou provado que em finais de Novembro
de 2001, quando a fracção “B” deixou de ter escoras dentro e o embargante pretendia realizar a
sua entrega ao embargado, se constatou que esta apresentava infiltrações de água na sua parede
norte, o que tornava impossível a sua ocupação para exercício do comércio e que desde
Novembro e Dezembro de 2001, o embargante fez inúmeras diligências junto da sua irmã Laura
M... para que esta realizasse as obras necessárias à eliminação das infiltrações, provocadas pelas
obras realizadas no edifício por conta e determinação desta, não tendo esta até à data realizado
aquelas solicitadas obras”.

Nada vem alegado pelo embargante em relação ao facto de não ter sido cumprido o prazo de 15
de Agosto de 2001. 

O devedor terá de provar – perante o disposto no nº1 do artº 799º - que foi diligente, que se
esforçou por cumprir, que usou daquelas cautelas e zelo que em face das circunstâncias do caso
empregaria um bom pai de família. Ou pelo menos que não foi negligente, que não se absteve de
tais cautelas e zelo, que não omitiu os esforços exigíveis, os que também não omitiria uma pessoa
normalmente diligente (Galvão Telles, Obrigações, 3ª, 310).

Ora, neste capítulo, o embargante nada alegou.

Mal andou, pois, o Tribunal a quo ao decidir que o embargante conseguiu provar que os atrasos
são da culpa de terceiros.


Importa ainda destacar um aspecto importante atinente à responsabilidade do embargante.

Mesmo que não houvesse culpa própria do embargante, pelas razões expostas, nem assim estaria
afastada a sua responsabilidade.

A responsabilidade lançada sobre o devedor abrange ainda os actos dos seus auxiliares, contanto
que o sejam no cumprimento da obrigação.

Em princípio, a impossibilidade da prestação, sendo imputável a terceiros, exonera o devedor de
responsabilidade. Mas a solução não seria justa, quando a impossibilidade provenha não de
estranhos ao processamento da relação obrigacional, mas de pessoas que legalmente representam
o devedor ou que o devedor utiliza no cumprimento, como seus auxiliares.

De contrário, o credor ficaria injustificadamente sujeito a que terceiros, estranhos à relação, em
cuja designação ele não teve nenhuma interferência, se substituíssem ao devedor originário em
grande parte da responsabilidade deste (cfr. Antunes Varela, Das Obrigações, vol.II, 98 e ss).

E estaria encontrada a fórmula para um devedor se eximir da responsabilidade: bastar-lhe-ia
recorrer a outrem para afastar a sua responsabilidade e depois argumentar que não tinha culpa,
que a culpa era de terceiro.

Precisamente para acudir a essas hipóteses prescreve o artº 800º, nº1, que “o devedor é
responsável perante o credor pelos actos dos seus representantes legais ou das pessoas que utilize
para o cumprimento da obrigação, como se tais actos fossem praticados pelo próprio devedor”.

Face a este normativo, o devedor é responsável, independentemente de qualquer culpa sua, pelos
actos de terceiros que utilize para o cumprimento da obrigação.

A lei portuguesa faculta de um modo geral ao devedor a utilização de auxiliares no cumprimento
da obrigação, seja qual for a natureza desta. Porém, e segundo a interpretação a dar ao artº 800º,
nº1, o devedor que confiou ao auxiliar a realização da prestação responde pela falta de
cumprimento ou pelo cumprimento defeituoso da obrigação nos mesmos termos em que
responderia se, em vez do auxiliar, fosse ele devedor, quem deixou de cumprir ou cumpriu
defeituosamente (A.Varela, RLJ, 119º-125). 


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Elementos de Direito das Obrigações

Como destaca Almeida Costa: “A responsabilidade prevista no nº1 do artigo 800º refere-se aos
actos praticados no cumprimento da obrigação, excluindo-se os que lhe sejam estranhos, embora
praticados por ocasião dele. Não se torna necessária uma relação de dependência ou subordinação
entre o devedor e o auxiliar, ao contrário do que sucede no artigo 500º” ( Obrigações, 4ª, 732,
nota 2).

No caso concreto, não foi convencionada entre as partes cláusula de irresponsabilidade nos
termos do nº2 do artº 800º.

Em face do disposto no artº 800º, nº1 o embargante "B" é responsável perante o embargado
Carlos V... pelos actos e omissões de terceiros – no caso, da irmã Laura – que utilizou para o
cumprimento da obrigação.

Nenhum dos prazos acordados foi respeitado e nisso se traduziu o incumprimento da obrigação.

O facto de o cumprimento da obrigação estar a cargo da irmã, não isenta o devedor de
responsabilidade, conforme dispõe o artº 800º, nº1.

Ainda neste particular, ensina o Professor A. Pinto Monteiro, com a profundidade habitual:

“Mas se o devedor se servir de auxiliares no cumprimento, haja a pena sido estipulada a título
indemnizatório ou como sanção compulsória, o facto de ele não ser pessoalmente culpado (nem
sequer por culpa “in eligendo”, “in instruendo” ou “in vigilando”) não o isenta da pena, desde que
o incumprimento seja imputável a qualquer dos seus auxiliares: qui facit per alium, facit per se,
the servant´s act is the master´s act, doutrina que subjaz à solução consagrada no artº 800º.
nº1” (Cláusula Penal e indemnização, p. 684, nota 1549).

De todo o exposto, resulta, sem margem para dúvidas, que o embargante "B" deve ao embargado
Carlos V... a quantia indemnizatória prevista na cláusula 14ª do contrato, mesmo que esta seja
uma cláusula penal e ainda que não haja culpa do devedor, pois sendo ele responsável por força
do artº 800º, nº1, a pena é devida.

Procedem, assim, as conclusões da alegação do recurso.

Decisão

Face ao anteriormente exposto, acorda-se em julgar procedente a apelação e, revogando-se a
sentença recorrida, julgam-se os embargos improcedentes, devendo a execução apensa prosseguir
os seus regulares trâmites.

Custas a cargo do recorrido.

Guimarães, 7 de Dezembro de 2005

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Elementos de Direito das Obrigações

PONTO nº 6
Obrigações parciárias e obrigações solidárias. Obrigações indivisíveis
CP nº 8

ENQUADRAMENTO DOGMÁTICO

ML, DOb I, 164 ss


PL/AV, CCAnot I, 497 ss, 515 ss e CCAnot II, 155 ss
Anexo 4 (Notas digitalizadas: conceitos e regime, na doutrina de MC)

CASO PRÁTICO Nº 8

a) Joana obrigouse a instalar um sistema comum de alarmes nas moradias de Luísa,


Manuela e Noémia. Estas ficaram solidariamente obrigadas a pagar o preço respectivo.
Feita a obra, Joana recebeu todo o dinheiro de Luísa. Esta exige agora 2/3 desse valor a
Manuela. Esta respondelhe que não paga coisa alguma, visto que, durante a instalação,
Joana lhe causou por negligência danos equivalentes a 1/3 do preço. Quid juris?

b) Suponha, pelo contrário, que Luísa recebeu 1/3 de Manuela, mas que Noémia, agora,
não paga a sua parte, tendo desaparecido para local incerto. Quid juris?
* Autoria de Dr. Pedro Ferreira Múrias

Pergunta nº 1
- qualificação do contrato: empreitada
- credores da prestação do serviço: L, M, N
- devedor da prestação do serviço: J
- credor do pagamento: J
- devedores solidários do pagamento: L, M, N
- cada uma comparticipa em um terço

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Elementos de Direito das Obrigações

ARTIGO 516º
(Participação nas dívidas e nos créditos)

Nas relações entre si, presume-se que os devedores ou credores solidários


comparticipam em partes iguais na dívida ou no crédito, sempre que da relação jurídica
entre eles existente não resulte que são diferentes as suas partes, ou que um só deles
deve suportar o encargo da dívida ou obter o benefício do crédito.

- a solidariedade é excepcional

ARTIGO 513º
(Fontes da solidariedade)

A solidariedade de devedores ou credores só existe quando resulte da lei ou da vontade


das partes.

- L pagou, solvendo a dívida em relação às demais co-devedoras

ARTIGO 512º
(Noção)

1. A obrigação é solidária, quando cada um dos devedores responde pela prestação


integral e esta a todos libera, ou quando cada um dos credores tem a faculdade de
exigir, por si só, a prestação integral e esta libera o devedor para com todos eles.

- L tem direito de regresso perante as demais co-devedoras, i.e.,


de 2/3 do valor pago,

ARTIGO 524º
(Direito de regresso)

O devedor que satisfizer o direito do credor além da parte que lhe competir tem direito
de regresso contra cada um dos condevedores, na parte que a estes compete.

- L, por isso, só pode pedir a M 1/3 e a N outro 1/3


- M está a procurar compensar

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Elementos de Direito das Obrigações

- A compensação do pagamento do serviço com a indemnização


do estrago é um meio de defesa pessoal pois refere-se apenas
a um dos condevedores

ARTIGO 514º
(Meios de defesa)

1. O devedor solidário demandado pode defender-se por todos os meios que


pessoalmente lhe competem ou que são comuns a todos os condevedores.

- Por isso a M (mas não outro condevedor, pois este


contracrédito não é seu) poderia tê-lo oposto directamente ao
credor,

ARTIGO 851º
(Reciprocidade dos créditos)

1. A compensação apenas pode abranger a dívida do declarante, e não a de terceiro,


ainda que aquele possa efectuar a prestação deste, salvo se o declarante estiver em
risco de perder o que é seu em consequência de execução por dívida de terceiro.

1. O declarante só pode utilizar para a compensação créditos que sejam


seus, e não créditos alheios, ainda que o titular respectivo dê o seu consentimento; e só
procedem para o efeito créditos seus contra o seu credor.

- verificados os requisitos da compensação

ARTIGO 847º
(Requisitos)

1. Quando duas pessoas sejam reciprocamente credor e devedor, qualquer delas pode
livrar-se da sua obrigação por meio de compensação com a obrigação do seu credor,
verificados os seguintes requisitos:

a) Ser o seu crédito exigível judicialmente e não proceder contra ele excepção,
peremptória ou dilatória, de direito material;

b) Terem as duas obrigações por objecto coisas fungíveis da mesma espécie e


qualidade.

2. Se as duas dívidas não forem de igual montante, pode dar-se a compensação na


parte correspondente.

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

3. A iliquidez da dívida não impede a compensação.

ARTIGO 848º
(Como se torna efectiva)

1. A compensação torna-se efectiva mediante declaração de uma das partes à


outra.
2. A declaração é ineficaz, se for feita sob condição ou a termo.

- Tal invocação extinguiria o crédito em 1/3 com benefício de


todos os credores

ARTIGO 523º
(Satisfação do direito do credor)

A satisfação do direito do credor, por cumprimento, dação em cumprimento, novação,


consignação em depósito ou compensação, produz a extinção, relativamente a ele,
das obrigações de todos os devedores.

- Nos demais 2/3 o devedor teria direito de regresso; ou seja: a


obrigação extingue-se, nos termos do art. 523º, em face do
credor, mas não em face dos demais condevedores

ARTIGO 524º
(Direito de regresso)

O devedor que satisfizer o direito do credor além da parte que lhe competir tem direito
de regresso contra cada um dos condevedores, na parte que a estes compete.

- Mas não foi isso que sucedeu e, por isso, a dúvida é se M


ainda poderia opor uma tal compensação ao condevedor que
extinguira o crédito em face do credor, por pagamento
- vale aqui o art. 525º

Artigo 525º
(Meios de defesa oponíveis pelos condevedores)

2. Os condevedores podem opor ao que satisfaz o direito do credor a falta de


decurso do prazo que lhes tenha sido concedido para o cumprimento da

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Elementos de Direito das Obrigações

obrigação, bem como qualquer outro meio de defesa, quer este seja comum,
quer respeite pessoalmente ao demandado.

3. A faculdade concedida no número anterior tem lugar, ainda que o condevedor


tenha deixado, sem culpa sua, de opor ao credor o meio comum de defesa,
salvo se a falta de oposição for imputável ao devedor que pretende valer-se do
mesmo meio.

- A este propósito AV, Ob I, 810, escreve que “os outros não


perdem a faculdade de invocar contra” o devedor que cumpriu
“quando exerça o direito de regresso, os meios de defesa que
lhes seria lícito opor ao credor”, tanto comuns
o Nulidade do contrato
o Excepção do não cumprimento
Como pessoais
o incapacidade
- por isso, pode a M invocar a compensação
- o que conduz à redução da obrigação em 1/3, com benefício de
todos, devendo a L pedir a restituição do 1/3 que pagou a mais

Pergunta nº 2

- L terá de colocar uma acção judicial contra N para esta lhe pagar
- Apenas uma situação de insolvência ou de impossibilidade de
cumprimento por parte de N é que funcionaria o art. 526º

ARTIGO 526º
(Insolvência dos devedores ou
impossibilidade de cumprimento)

1. Se um dos devedores estiver insolvente ou não puder por outro motivo cumprir a
prestação a que está adstrito, é a sua quota-parte repartida proporcionalmente entre
todos os demais, incluíndo o credor de regresso e os devedores que pelo credor hajam
sido exonerados da obrigação ou apenas do vínculo da solidariedade.

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Elementos de Direito das Obrigações

Pergunta extra: qualificação da obrigação de instalar um sistema comum

- Obrigação indivisível com pluralidade de credores, pois o


resultado contratado é comum; menos que isso é não cumprir a
prestação; vale o art. 538º

Exemplo adicional: A obriga-se a fazer uma reparação para o condomínio


de um prédio ou pertencente a vários comproprietários (AV, Ob I, 834):

ARTIGO 538º
(Pluralidade de credores)

1. Sendo vários os credores da prestação indivisível, qualquer deles tem o direito de


exigi-la por inteiro; mas o devedor, enquanto não for judicialmente citado, só
relativamente a todos, em conjunto, se pode exonerar.

CASO PRÁTICO Nº 8 E 1/2

Yehudi e Stéphane, violinistas, obrigaramse a tocar uma série de duetos por ocasião do
aniversário de Niccolò. Acordouse ainda que, «havendo motivo grave para isso»,
poderiam os artistas fazerse substituir, um deles ou ambos, por intérpretes de igual valor
(por assim dizer). Niccolò pagaria € 200.000 pelo serviço. Stéphane, sentindose
preguiçoso, solicitou ao credor que o libertasse da obrigação, o que foi concedido. Quid
juris? Qual a solução se o contrato inicial fosse gratuito?

Resposta

- Contrato de prestação de serviços, oneroso


- trata-se de uma obrigação indivisível (resultado: “duetos”) com
pluralidade de devedores; vale o art. 535º

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Elementos de Direito das Obrigações

ARTIGO 535º
(Obrigações indivisíveis com pluralidade de devedores)

1. Se a prestação for indivisível e vários os devedores, só de todos os obrigados pode o


credor exigir o cumprimento da prestação, salvo se tiver sido estipulada a solidariedade
ou esta resultar da lei.

- Estipulou-se uma faculdade alternativa, que NÃO é uma


CLÁUSULA PENAL
- “libertação da obrigação”
▪ pode o credor exonerar o devedor, sem consentimento do
outro devedor?
▪ Sim: remissão / perdão da obrigação na parte referente a S
▪ Trata-se de um acordo (contrato), pois é necessária a
vontade do devedor (ao contrário da unilateralidade da
renúncia)

ARTIGO 863º
(Natureza contratual da remissão)

1. O credor pode remitir a dívida por contrato com o devedor.

2. Quando tiver o carácter de liberalidade, a remissão por negócio entre vivos é


havida como doação, na conformidade dos artigos 940º e seguintes.

• O E não está obrigado a arranjar substituto, pois não só não é um


motivo grave, como a obrigação era de se substituir a si mesmo
• O N ou
o arranja substituto, a expensas suas e paga € 100 000,
adiconalmente aos € 100 000 que já teria de pagar

ARTIGO 865º

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

(Obrigações indivisíveis)

1. À remissão concedida pelo credor de obrigação indivisível a um dos devedores é


aplicável o disposto no artigo 536º.

ARTIGO 536º
(Extinção relativamente a um dos devedores)

Se a obrigação indivisível se extinguir apenas em relação a algum ou alguns dos


devedores, não fica o credor inibido de exigir a prestação dos restantes obrigados,
contanto que lhes entregue o valor da parte que cabia ao devedor ou devedores
exonerados.

o não arranja substituto e o cumprimento de E torna-se


definitivamente impossível por culpa do credor, mas N não
está desobrigado de pagar € 100 000 a S (art. 795/2)

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Elementos de Direito das Obrigações

PONTO nº 7
Obrigações pecuniárias
CP nº 9

ENQUADRAMENTO DOGMÁTICO

ML, DOb I, 153 ss


PL/AV, CCAnot I, 527 ss

CASO PRÁTICO Nº 9

Górgias obrigouse fazer certa investigação históricofilosófica para Heródoto, pelo preço de
€ 20.000. Para o bom sucesso da empresa, era necessário consultar várias bibliotecas espalhadas
pelo mundo e obter a colaboração de diversas entidades. Devido a dificuldades inesperadas e
alheias a qualquer das partes, as consultas e a colaboração só ocorreram um ano depois do
esperado. E só praticamente um ano depois do previsto, portanto, pôde o trabalho ser entregue.
Górgias exige agora € 20.599, dada a inflação de 3% nesse ano. Quid juris?

Quid juris se o preço fossem 20.000 dólares (USD)?

E se o preço fosse «o de 2 quilos de ouro»?


* Autoria de Dr. Pedro Ferreira Múrias

- Valem os princípios do curso legal e nominalista; por isso,


improcede a pretensão de G
- O que releva é a data do cumprimento e, não, a data do
vencimento, a despeito da mora (i.e., não se pode pagar em
escudos, quando à data do cumprimento, voluntário ou
judicialmente forçado, já vigoram euros) (neste sentido, PL/AV,
CCAnot I, 538)
- Há a cláusula geral do art. 437º para inflacções anómalas, o
que não é o caso

ARTIGO 550º
(Princípio nominalista)

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

O cumprimento das obrigações pecuniárias faz-se em moeda que tenha curso legal
no País à data em que for efectuado e pelo valor nominal que a moeda nesse
momento tiver, salvo estipulação em contrário.

ARTIGO 551º
(Actualização das obrigações pecuniárias)

Quando a lei permitir a actualização das prestações pecuniárias, por virtude das
flutuações do valor da moeda, atender-se-á, na falta de outro critério legal, aos índices
dos preços, de modo a restabelecer, entre a prestação e a quantidade de mercadorias a
que ela equivale, a relação existente na data em que a obrigação se constituiu.

Exemplos: arts. 2012º e 2109/2.

- Se o preço fosse em USD vale o câmbio à data do


cumprimento nos termos gerais do art. 550º (PL/AV, CCAnot I,
537)

- Mas há a faculdade alternativa para o devedor

ARTIGO 558º
(Termos do cumprimento)

1 - A estipulação do cumprimento em moeda com curso legal apenas no estrangeiro não


impede o devedor de pagar em moeda com curso legal no País, segundo o câmbio do
dia do cumprimento e do lugar para este estabelecido, salvo se essa faculdade houver
sido afastada pelos interessados. *

2. Se, porém, o credor estiver em mora, pode o devedor cumprir de acordo com o
câmbio da data em que a mora se deu.

* (Decreto-Lei n.º 343/98, de 6 de Novembro)

- O pagamento em ouro é, ainda, uma obrigação pecuniária pois


é uma prestação em dinheiro (moedas, notas, mercadorias,
metais) usada, precisamente, com a função de retribuição do
serviço

ARTIGO 555º
(Falta da moeda estipulada)

1. Quando se tiver estipulado o cumprimento em determinada espécie monetária, em


certo metal ou em moedas de certo metal, e se não encontrem as espécies ou as
moedas estipuladas em quantidade bastante, pode o pagamento ser feito, quanto à
parte da dívida que não for possível cumprir nos termos acordados, em moeda corrente
que perfaça o valor dela, segundo a cotação que a moeda escolhida ou as moedas do
metal indicado tiverem na bolsa no dia do cumprimento.

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

2. Se as moedas estipuladas ou as moedas do metal indicado não tiverem cotação na


bolsa, atender-se-á ao valor corrente, ou, na falta deste, ao valor corrente do metal; a
esse mesmo valor se atenderá, quando a moeda, devido à sua raridade, tenha atingido
uma cotação ou preço corrente anormal, com que as partes não hajam contado no
momento em que a obrigação se constituiu.

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

MÓDULO 2: CONTRATO-PROMESSA

PONTO nº 8
Contrato-promessa (documento particular, licença de utilização)
CP nº 10

ENQUADRAMENTO DOGMÁTICO

ML, DOb I, 216 ss

CASO PRÁTICO Nº 10

Perpétua e Rita assinaram um guardanapo de papel em que se escrevera que Perpétua se obrigava
a vender a Rita certo apartamento em certo edifício por € 200.000. Do contrato consta uma cláu-
sula do seguinte teor: «A contraente Rita leu a licença de utilização do apartamento, declarando
prescindir do reconhecimento notarial do contrato.»
* Autoria de Dr. Pedro Ferreira Múrias

Resposta

- Contrato-promessa de compra e venda: regime – arts. 410-413,


440-442 e 830
- Forma válida: 410/2 + 875
- Documento particular (cf. 362 e 363/1)

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

- Contrato unilateral (apenas P fica obrigada a uma prestação):


basta, por isso, a assinatura de P
- Invalidade formal, mista ou “anulabilidade”:
▪ nem terceiros, nem o tribunal a podem invocar;
▪ apenas o promitente comprador (R) tem legitimidade
para a invocar, salvo renúncia ou abuso de direito
▪ o promitente vendedor (P) apenas num caso pode
invocar o vício (quando tenha sido culposamente
causado pela outra parte; ora aqui foi culposamente
causado por ambos)
- já para a formalização do contrato final terá mesmo de ser
presente a licença de utilização

Decreto-Lei n.º 281/99



de 26 de Julho
Artigo 1.º

Apresentação da licença de utilização
1 - Não podem ser celebradas escrituras públicas que envolvam a transmissão da propriedade
de prédios urbanos ou de suas fracções autónomas sem que se faça perante o notário prova
suficiente da inscrição na matriz predial, ou da respectiva participação para a inscrição, e da
existência da correspondente licença de utilização, de cujo alvará, ou isenção de alvará, se faz
sempre menção expressa na escritura. 

2 - Para efeitos do disposto no número anterior, nos prédios submetidos ao regime de
propriedade horizontal, a menção deve especificar se a licença de utilização foi atribuída ao
prédio na sua totalidade ou apenas à fracção autónoma a transmitir.

JURISPRUDÊNCIA

Assento STJ 15/94 (28/6/1994), DR I (12/10/1994), 6171-6172


“No domínio do nº 3 do artigo 410º do Código Civil (redacção do Decreto-lei nº 236/80, de
18 de Julho), a omissão das formalidades previstas nesse número não pode ser invocada por
terceiros”
Assento STJ 3/95 (1/2/1995), DR I (22/4/1995), 2320-3223
“No domínio do nº 3 do artigo 410º do Código Civil (redacção do Decreto-lei nº 236/80, de
18 de Julho), a omissão das formalidades previstas nesse número não pode ser oficiosamente
conhecidas pelo Tribunal”

STJ 12/11/1998, ROA 58 (1998), 929-934


A invocação da invalidade mista do art. 410/3 pode ser restringida quando haja abuso de
direito

STJ 03/14/2002

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

I - Constituem formalidades "ad substantiam" a necessidade de, num contrato-promessa de


compra e venda do prédio destinado à habitação, reconhecimento presencial das assinaturas dos
promitentes, bem como a certificação notarial da respectiva licença de utilização ou de
construção.

II - Isto com vista à protecção da boa-fé do promitente comprador e ao combate à construção
clandestina.

III - Só ao promitente comprador cabe o direito de invocar a perfeição do negócio, não podendo a
omissão daquelas formalidades ser invocada por terceiro nem ser oficiosamente conhecida pelo
tribunal.

IV - Tal preterição integra uma nulidade mista, sui generis ou atípica que tem na base a tutela do
específico interesse da protecção do promitente comprador, cujo regime se aproxima do da mera
anulabilidade, designadamente no que respeita ao limite do prazo de arguição, podendo porém,
quanto à licença de construção ou utilização, ser sanada mediante prova na acção, da sua
existência ou desnecessidade.

V - A declaração, inequívoca e perentória, da intenção de não cumprir o contrato-promessa
equivale ao efectivo não cumprimento da obrigação.

VI - Actua com abuso do direito o promitente-comprador que, depois de uma série de actuações
tendentes a induzir no promitente-vendedor a convicção séria de que o negócio definitivo se
realizaria - como por ex - a solicitação das chaves para imediata ocupação com móveis seus - ao
que o mesmo anuiu, vem depois arguir a nulidade do negócio com base na alegada preterição das
formalidades aludidas em I.

PONTO nº 9
Contrato-promessa (legitimidade)
CP nº 11

CASO PRÁTICO Nº 11

Esopo prometeu vender a Anaximandro, que prometeu comprar, certa dona-elvira que tinha no
seu quintal. Anaximandro ignorava, no entanto, que o carro pertencia a Nabuco, que o emprestara
a Esopo. O contrato é válido? Acha sensata a celebração deste contratopromessa em vez de uma
simples compra e venda (suponha agora que o carro é de Esopo)?
* Autoria de Dr. Pedro Ferreira Múrias

Resposta

- Contrato-promessa de compra e venda: regime – arts. 410-413,


440-442 e 830
- forma válida: 216; não tem de ser firmado documento escrito
- contrato bilateral (E e A ficam obrigados a uma prestação):

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

- o contrato é válido: graças à salvaguarda do 410/1 em sde de


princípio da equiparação (“razão de ser”) não se aplicam as
normas que pressupõem a transmissão imediata da
propriedade, in casu, a propriedade do que se promete vender
(cf. art. 892)
- por isso, os bens alheios (de N) podem ser objecto de
promessa de venda, mas tal gera no promitente-vendedor uma
segunda obrigação: de adquirir o bem (art. 880 + art. 410/1)
- opção sensata? Trata-se de uma consideração extra-jurídica,
mas é preferível uma compra e venda a uma simples
promessa dessa mesma compra e venda

PONTO nº 10
Contrato-promessa (bilateral, assinado por uma parte)
CP nº 12

CASO PRÁTICO Nº 12

Noutro guardanapo de papel, escrito a meias, Joana prometeu vender e Luís prometeu
comprar certo terreno em que este espera vir a construir um arranhacéus. Só Joana
assinou o guardanapo, porém. Farto da demora de Joana, que nunca mais se dispunha a
celebrar a escritura, Luís intenta uma acção destinada a «forçar Joana a cumprir». Esta
invoca a nulidade do contrato e, de qualquer maneira, requer ao tribunal que determine
um prazo para Luís depositar o preço da compra. Quid juris?
Imagine que Luís havia entregue 10% do preço a Joana e exige agora a sua restituição em
dobro ou, subsidiariamente, a «condenação de Joana a cumprir».
* Autoria de Dr. Pedro Ferreira Múrias

Resposta 1

- Contrato-promessa de compra e venda: regime – arts. 410-413,


440-442 e 830
- Forma válida: 410/2 + 875
- Documento particular (cf. 362 e 363/1)
- Contrato bilateral (J e L ficam obrigados a uma prestação): por
isso, devem existir 2 assinaturas; contudo apenas uma
assinatura foi aposta

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

- Obrigações puras: não se fixou prazo (cf. art. 777/1), pelo que
o contrato deve ser realizado mal L interpele J
- A acção destinada a forçar o cumprimento de J é a de
execução específica (art. 443)
- J defende-se, invocando nulidade: seria por falta de assinatura
de L (art. 410/29;
▪ Sobre o ponto há 4 teses
• Tese nº 1: Conversão AUTOMÁTICA em contrato-
promessa unilateral
• Tese nº 2: Nulidade: a assinatura é essencial para
todo o contrato; a promessa bilateral é
sinalagmática; por isso, a invalidade de uma
obrigação (aquela cuja assinatura está omissa)
afecta a outra: o sinalagma genético não pode ser
válido apenas para uma das partes: não pode
haver redução, nem conversão
• Tese nº 3: Conversão (AV, GTelles): concorda-se
que há uma invalidade, mas que se deve
aproveitar o negócio; essa invalidade não é
parcial (art. 292º) (pelo que o negócio não pode
ser reduzido), mas total pois o vício formal é de
todo o negócio, além do já referido aspecto do
sinalagma; por isso todo o negócio é nulo e
apenas pode ser convertido noutro negócio (art.
293º); cabe à parte interessada na manutenção
invocar a vontade presumível a que se refere o
art. 293º, in fine
• Tese nº 4: Redução (AC, RibFaria, Calvão da Silva,
MLeitão): concorda-se que há uma invalidade,
parcial (art. 292); cabe à parte interessada na
nulidade invocar a ressalva do art. 292º, in fine; o
contrato passa a unilateral vinculando a parte que
assinou, salvo se a vontade hipotética das partes
iria em sentido contrário; a redução tutela melhor
os interesses da parte que assinou; maxime, o
sinal; há cindibilidade de posições: o 410/2
mostra que um contrato pode dar direito a outrém
(aquele não se obriga a firmar o contrato futuro)
sem se assinar; donde pode haver invalidade
parcial
• Tese nº 5: Intermédia (MC): o contrato bilateral,
não é a mesma coisa que uma duplicação de um
contrato unilateral; não há, por isso, uma
nulidade parcial e o contrato nulo deveria, por
isso, ser convertido; contudo, a tutela dos
interesses do signatário aconselha o uso
conjunto dos preceitos dos arts. 292 e 293,
devendo os princípios da boa fé ajudarem a
apurar a solução mais justa

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

- Depósito do preço: L não está obrigado a efectuar esse


depósito, nem convencional, nem legalmente (pois não se
aplica o art. 879/c); i.e., não se está em sede de arts. 440 ss
- Contudo, o que J pode é, condicionada à redução do contrato
de bilateral para unilateral, fazer uso do art. 411º

JUSRISPRUDÊNCIA FAVORÁVEL À TESE Nº 1

STJ 26/4/1977, BMJ 266 (1977), 156-159


STJ 7/11/1978, BMJ 281 (1978), 296-298
STJ 4/12/1979, BMJ 292 (1979), 352-354
STJ 3/6/1980, BMJ 298 (1980), 283-285
STJ 11/3//1982, BMJ 315 (1982), 249-255
STJ 28/2//1984, BMJ 334 (1984), 484-487= RLJ 117 (1985), 370-372
STJ 7/2//1985, BMJ 344 (1985), 411-415= RLJ 119 (1986), 17-19

JUSRISPRUDÊNCIA FAVORÁVEL À TESE Nº 2

STJ 25/4/1972, BMJ 216 (1972), 144-146 = RLJ 106 (1973), 123-125
STJ 2/7/1974, BMJ 239 (1974), 168-177 = RLJ 108 (1976), 280-286
STJ 3/1/1975, BMJ 243 (1975), 235-239 = RLJ 109, 68-71
STJ 18/11/1975, BMJ 251 (1975), 144-147
STJ 2/6//1977, BMJ 268 (1977), 211-217

JUSRISPRUDÊNCIA FAVORÁVEL À TESE Nº 3

STJ 16/12/1999, BMJ 492 (2000), 437-444.

JUSRISPRUDÊNCIA FAVORÁVEL À TESE Nº 4

Assento STJ 29/11/1989, BMJ 391 (1986), 101-106 = RLJ 125 (1992), 214-218, refuta uma
conversão automática e para alguns defende a conversão (AV, GTelles), para outros a
redução (AC)

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

RP 18/12/1995, CJ 20/5 (1995), 233-237


STJ 25/3/1993, CJ/STJ 1/2 (1993), 39-42
STJ 9/1/1997, BMJ 463 (1997), 544-559

Resposta 2

- Os 10% do preço valem como sinal (art. 441), entregue pelo


promitente-comprador
- L pode pedir a restituição do sinal em dobro (442/2, segunda
parte)
- A pretensão, subsidiária, de condenação em cumprir, é um
pedido de execução específico, aparentemente permitido pelo
art. 442/3 (primeira parte), mas o art. 830/1 (in fine) e 2, exclui
esse uso expressamente (sem prejuizo, de ilisão da
presunção)
- Articulação entre os preceitos
▪ O 442/3 quando alude a “qualquer dos casos previstos
no número anterior” = casos em que haja/não haja
tradição da coisa e não = casos em que haja sinal
▪ Donde a regra é a do art. 830/1 (in fine) e 2: onde há
sinal, não há execução específica
- Contudo, vale o 830/3, em que o direito à execução específica
não pode ser afastado mesmo por convenção, pelo que uma
convenção de sinal não afasta esse direito?
▪ Não, porque o 410/3 refere-se a um prédio urbano
construído ou a construir (i.e., um edifício), o que não é
o caso

PONTO nº 11
Contrato-promessa (sinal (art. 442/3))
CP nº 13

CASO PRÁTICO Nº 13

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

António prometeu vender a Bento certa quota numa sociedade.1 Bento pagou a totalidade do
preço. O absolutamente único elemento relevante do património dessa sociedade é a propriedade
de certo terreno, que foi desde logo entregue a Bento, tal como lhe foram entregues os arquivos
de documentos da sociedade.
Passou algum tempo. Mercê do anúncio público da construção de um centro comercial perto do
terreno em causa, o valor de mercado deste triplicou. António, aproveitandoo, vendeu a quota a
Carlos, que não sabia de nada. Como é tutelada a posição de Bento?
* Autoria de Dr. Pedro Ferreira Múrias

Resposta

- Contrato-promessa de compra e venda de uma participação


social de A a B
- Unilateral, vinculando-se A
- Há vários dados:
▪ B pagou a totalidade do preço: vale o 441
▪ E recebeu o terreno e arquivos
• uns e outros são da sociedade e, por isso,
“entrega” significa cedência provisória dos
poderes de gozo, acompanhada de deveres, que o
A tinham enquanto sócio sobre esses bens
• Não há aqui compra e venda, mas apenas um
acordo de uso das coisas que alguns qualificam
como actos de mera tolerência e outros de posse
em nome alheio, fundada em créditos atípicos
- Tutela da posição de B
▪ Não havendo eficácia real:
• direito ao dobro do sinal?
Ou
• direito ao valor do sinal + diferencial de o
aumento do valor da coisa? DISCUTIR aqui se
houve tradição; PPESSOAL: aqui não há tradição
do OBJECTO DO CONTRATO PROMETIDO
• não pode haver execução específica
▪ havendo eficácia real (cf. 413 e a sujeição da compra da
quota a registo comercial no art. 3º, nº 1, al. c) CRCm),
também não pode haver execução específica por causa
do sinal o que tornaria inútil uma acção contra o
terceiro ©

1
Nos termos do art. 228.º, n.º 1, CSC, a transmissão de quotas deve constar de escritura pública.

!86
RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

PONTO nº 12
Contrato-promessa (mora e incumprimento)
CP nº 14

ENQUADRAMENTO DOGMÁTICO

AC, Dob, 346 ss


AV, Ob I, 352 ss, maxime 356, 362-363
ML, DOb I, 233 ss

CASO PRÁTICO nº 14

Alberto e Carolina prometeram, respectivamente, vender e comprar um apartamento destinado a


habitação da compradora. A escritura deveria ser realizada num prazo não superior a três meses,
cabendo a Alberto marcá-la e comunicar a data a Carolina com a devida antecedência. Carolina
pagou-lhe imediatamente uma quantia correspondente a 10% do preço acordado. Alberto nada fez
e, decorrido um ano sobre a celebração do contrato, Carolina telefona-lhe, dizendo que já não está
interessada no apartamento e exigindo o dobro do que lhe havia entregue. Pode fazê-lo?
A resposta seria a mesma se, ao tempo do telefonema, Carolina já tivesse comprado outra casa e
estivesse a habitá-la?

Resposta 1

- Contrato-promessa de compra e venda de uma fracção


- Obrigações sujeitas a prazo
- Obrigação acessória de marcação e comunicação
- Sinal
- O dobro : art. 442/2, 2 ª parte; só vale se houver
incumprimento

2. Se quem constitui o sinal deixar de cumprir a obrigação por causa que lhe seja
imputável, tem o outro contraente a faculdade de fazer sua a coisa entregue; se o não
cumprimento do contrato for devido a este último, tem aquele a faculdade de exigir
o dobro do que prestou, ou, se houve tradição da coisa a que se refere o contrato
prometido, o seu valor, ou o do direito a transmitir ou a constituir sobre ela, determinado
objectivamente, à data do não cumprimento da promessa, com dedução do preço
convencionado, devendo ainda ser-lhe restituído o sinal e a parte do preço que tenha
pago.

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

- O A está em mora, mas ainda pode cumprir


- Vale o regime geral do art. 808/1

ARTIGO 808º
(Perda do interesse do credor ou recusa do cumprimento)

1. Se o credor, em consequência da mora, perder o interesse que tinha na prestação,


ou esta não for realizada dentro do prazo que razoavelmente for fixado pelo credor,
considera-se para todos os efeitos não cumprida a obrigação.

2. A perda do interesse na prestação é apreciada objectivamente.

▪ Ou a C perdeu o interesse de modo objectivo (i.e,


perdeu a necessidade daquele contrato), nos termos
desse nº1, primeira parte + nº 2
▪ Ou a C fixa um novo prazo para cumprimento (prazo
admonitório), nos termos desse nº 1, segunda parte
▪ Consequência: considera-se não cumprida a obrigação;
em face do que o credor pode retirar várias pretensões
logo
• Sinal + resolução
• E, em geral, como nestes casos se trata de um
não-cumprimento definitivo (PL/AV, Ccanot II, 72),
pode haver resolução, ex vi art. 801
• Execução específica (cf. 830/3) pois o
incumprimento não é sinónimo de extinção do
crédito

CASO PRÁTICO nº 15

Cícero e Virgílio prometeram respectivamente vender e comprar certa pirâmide no Egipto.


Virgílio entregou €500.000, a que as partes atribuíram expressamente natureza de sinal. Estipulou
se ainda: «Não se realizando a escritura por motivo imputável a Virgílio, este perde o sinal. Não
se realizando a escritura por motivo imputável a Cícero, este devolverá o sinal em singelo,
acrescido de juros à taxa Euribor + 2%.»
Passadas duas semanas, Cícero vendeu a pirâmide a Cleópatra. Sabendo disso, Virgílio intentou
uma acção de «execução específica» contra Cícero. Quid juris?
Quid juris se o registo da acção anteceder o da compra?
* Autoria de Dr. Pedro Ferreira Múrias

!88
RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

Resposta

- Contrato-promessa de compra e venda de um imóvel, cujo


direito privado aplicável não pode ser agora apurado, sendo
certo que se fosse um monumento nacional português o
contrato seria nulo por impossibilidade jurídica da venda
- Cláusula de sinal: estipulou-se
▪ Menos do que o legalmente estabelecido
▪ Uma taxa de juro que a jurisprudência aceita
▪ Se o juro fosse não sobre o valor do sinal, mas sobre o
valor do preço do contrato final, teríamos um juro
moratório que pode caber no art. 442/4 (início)
- Inutilidade da acção específica por impossibilidade de
cumprimento (a coisa foi vendida)
- Registo:
▪ confere à acção uma data anterior ao registo da
aquisição pelo terceiro
▪ importa distinguir:
• se a pirâmide já tinha sido vendida antes do
registo da acção > problema do art. 5º CRPred
(oponibilidade do facto não registado, a terceiros
de boa fé (in casu, o autor da acção de execução
específica)? Em face da lei SIM
• se a pirâmide foi vendida depois do registo da
acção, a procedência desta gerará a ineficácia
superveniente e retroactiva da venda

JUSRISPRUDÊNCIA

STJ 29/1/1987, BMJ 363 (1987), 529-33


I - Constitui revogação e não resolução do contrato a convenção pela qual os contraentes
entendem pôr fim a um contrato promessa de compra e venda recebendo o promitente-
comprador as quantias que havia desembolsado e respecttivos juros.
II - A revogação dos contratos fundamenta-se no artigo 406º do Código Civil e os seus efeitos
produzem-se para o futuro.
Cf. AC, Dob, 356

CASO PRÁTICO nº 16

!89
RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

Caso prático n.º 16.*


Ovídio estava em mora, já há meses, no cumprimento de certo contratopromessa de
arrendamento. Séneca, a contraparte, mandoulhe uma «interpelação admonitória, para efeitos do
art. 808.º CC», determinando como «prazo derradeiro» o dia 2 de Dezembro. Nada aconteceu. No
dia 3, Séneca intenta uma acção de «execução específica». Quid juris?
* Autoria de Dr. Pedro Ferreira Múrias

Resposta

- Valor da interpelação admonitória do art. 808/1 segunda parte


- Aplica-se em sede de contrato-promessa? Sim: 410/1
(equiparação)
- Perda de interesse automatica? Não: é uma faculdade cujo
uso e significado está na disposição do credor
- O credor ainda pode instaurar uma execução específica pois o
não cumprimento não é causa extintiva da obrigação, mas, em
alternativa (AVarela, 362-363)
▪ Resolução e sinal/ Indemnização
▪ Execução ou acção de cumprimento em geral, desde
que mantenha o interesse

!90
RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

MÓDULO 4: RESERVA DE PROPRIEDADE

PONTO nº 13
Cláusula de reserva de propriedade
CP nºs 17 e 18

ENQUADRAMENTO DOGMÁTICO

AV, Ob I, 313
GT, DOb, 462 ss
ML, DOb I, 198 ss e DOb II, 122 ss
PL/AV, CCAnot I, 356-357 e II, 52-53

CASO PRÁTICO nº 17

Antonino vendeu e entregou a sua quadriga a Benedito, devendo o preço ser pago em 48 suaves
prestações, cada uma até às calendas. Acordouse que Antonino ficaria proprietário até ao fim dos
pagamentos. Pouco depois, porém, uma alcateia de lobos maus comeu as quatro bestas. Deve
Benedito pagar o preço restante? Ou pode reaver o já pago?
* Autoria de Dr. Pedro Ferreira Múrias

Resposta

- Contrato de compra e venda com entrega imediata da coisa e


pagamento parcelado do preço (cf. art. 879) (vendedor-
reservatário e comprador-reservatário)

!91
RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

- Sujeição do efeito real (contrato real quoad effectum) a


reserva de propriedade do art. 409º (se assim não fosse
valeriam os arts. 408º/ 1 e 886
- É uma cláusula que atinge apenas o efeito real e não o
contrato na sua totalidade (i.e., o contrato NÃO está sujeito a
condição suspensiva): LOGO não se aplica o art. 790(2

ARTIGO 409º
(Reserva da propriedade)

1. Nos contratos de alienação é lícito ao alienante reservar para si a propriedade da


coisa até ao cumprimento total ou parcial das obrigações da outra parte ou até à
verificação de qualquer outro evento.

2. Tratando-se de coisa imóvel, ou de coisa móvel sujeita a registo, só a cláusula


constante do registo é oponível a terceiros.

- Sujeição do efeito real (contrato real quoad effectum) a reserva


de propriedade do art. 409º
- se assim não fosse valeriam os arts. 408º/ 1 e 886

ARTIGO 408º
(Contratos com eficácia real)

1. A constituição ou transferência de direitos reais sobre coisa determinada dá-


se por mero efeito do contrato, salvas as excepções previstas na lei.

ARTIGO 886º
(Falta de pagamento do preço)

Transmitida a propriedade da coisa, ou o direito sobre ela, e feita a sua entrega,


o vendedor não pode, salvo convenção em contrário, resolver o contrato por
falta de pagamento do preço.

- Natureza jurídica da reserva de propriedade


▪ Tese nº 1: Condição suspensiva apenas quanto á
alienação (GT, AV, AC)
• Consequências:
o sujeição aos arts. 273/274;
o o risco corre por conta do alienante (art.
796/3) (pois quem conserva a propriedade,

!92
RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

conserva, em contrapartida, as
desvantagens)
o perecimento da coisa = certeza da não
verificação da condição

▪ Tese nº 2 (Cgonçalves): condição resolutiva
▪ Tese nº 3: não se trata de uma condição suspensiva,
mas de uma cláusula inversão da ordem de produção de
efeito real (ML), com a função de constituir uma garantia
do pagamento; o comprador tem uma expectativa real
de aquisição do bem; o o risco deve ser distribuído de
acordo com o proveito efectivo
• Vendedor-reservatário: conserva o bem apenas
como garantia pelo que apenas sofre o risco da
perda
• Comprador-reservatário: goza já do bem pelo que
o risco deve correr contra ele,

- No caso concreto há que tomar posição:


▪ Há uma impossibilididade superveniente do efeito real:
a regra é a da caducidade do contrato art. 795 (extinção
recíproca das obrigações)
▪ Tese nº 1: comprador-reservatário fica exonerado do
pagamento do preço em caso de perda ou deterioração
fortuita e tem direito a tudo o que já pagou
▪ Tese nº 3: o comprador-reservatário não fica exonerado
do pagamento do preço em caso de perda ou
deterioração fortuita e deve continuar a pagar o preço

CASO PRÁTICO nº 18

Antonino alugou a sua quadriga a Benedito por quatro anos, e entregoua. Os alugueres seriam
pagos até às calendas de cada mês. Pouco depois, porém, uma alcateia de lobos maus comeu as
quatro bestas. O que é que acontece aos alugueres vencidos e vincendos?
* Autoria de Dr. Pedro Ferreira Múrias

Resposta

- contrato de locação de móveis (aluguer)


- prestação duradoura continuada (cedência do gozo da coisa)
- duradoura periódica (renda)
- vale aqui o regime especial do art. 1051/e), para o FUTURO

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

ARTIGO 1051º
(Casos de caducidade)
1. O contrato de locação caduca:

(...)
e) Pela perda da coisa locada;

- Conclusão: as rendas vencidas à data da perda devem ser


pagas, enquanto que extinguem as obrigações vincendas de
renda (ao contrário do que sucede na compra com reserva em
que todo o preço in solitum está em questão, por se tratar de
uma obrigação instantânea fraccionada)

NOTA: o mesmo resultado atingir-se-ia pelas regras gerais da


impossibilidade superveniente

- extinção da obrigação de assegurar o gozo da coisa por


impossibilidade objectiva superveniente de cumprimento, não
imputável ao devedor (art. 790/1)

ARTIGO 1031º
(Enumeração)

São obrigações do locador:

(...)

b) Assegurar-lhe o gozo desta para os fins a que a coisa se destina.

ARTIGO 790º
(Impossibilidade objectiva)

1. A obrigação extingue-se quando a prestação se torna impossível por causa


não imputável ao devedor.

- Cláusula resolutiva tácita da obrigação de pagara a renda: art.


795/1

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

(Contratos bilaterais)

1. Quando no contrato bilateral uma das prestações se torne impossível, fica o


credor desobrigado da contraprestação e tem o direito, se já a tiver realizado,
de exigir a sua restituição nos termos prescritos para o enriquecimento sem
causa.

- Conclusão: caducidade do contrato não retroactiva

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

MÓDULO 5: PACTO DE PREFERÊNCIA

PONTO nº 14
Pacto de preferência
CP nº 19

ENQUADRAMENTO DOGMÁTICO

ML, DOb I, 249 ss

24. O que é um pacto de preferência?

ARTIGO 414º
(Noção)

O pacto de preferência consiste na convenção pela qual alguém assume a obrigação de


dar preferência a outrem na venda de determinada coisa.

Também designado por pacto de prelação ou de preempção, consiste no


acordo pelo qual alguém se obriga a dar preferência a outrém, na eventual
conclusão futura de um determinado contrato, caso o obrigado venha a celebrá-
lo e o beneficiário queira contratar em condições iguais às que um terceiro aceita
(MC)

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

25. Qual o âmbito de aplicação?

Embora seja muito importante em relação à compra e venda — daí o


termo pacto de prelação ou de preempção — pode referir-se a quaisquer
contratos onerosos cuja natureza não seja incompatível com uma preferência,
como resulta do art. 423º.

ARTIGO 423º
(Extensão das disposições anteriores a outros contratos)

As disposições dos artigos anteriores relativas à compra e venda são extensivas, na


parte aplicável, à obrigação de preferência que tiver por objecto outros contratos com
ela compatíveis.

Exemplo: locação, sociedade, superfície, usufruto.

26. Não pode ser dada preferência para um contrato gratuito?

MC defende que sim.

Exemplo: A dá preferência a B numa doação futura de móveis.

AC defende que não, pois isso é contrário ao espírito de liberalidade —


dá-se a quem quiser.

27. Qual é a estrutura de um pacto de preferência?

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

Trata-se de um contrato, mas unilateral: apenas uma das partes — a que


dá preferência — está obrigada a uma prestação, enquanto a outra — o
preferente — permanece livre de contrair ou não o contrato proposto.

28. Qual é a função de um pacto de preferência?

Varia:

a. Contrato preparatório

Exemplo: A obriga-se a dar preferência a B na venda de X, que ainda não


está interessado, para o caso de B se decidir a contratar.

b. Cláusula de recuperação em pactos de alienação

Exemplo: A vende X a B, ficando com preferência em alienação futura de


X.

29. Quais são as modalidades de um pacto de preferência?

Valem aqui as categorias que se também se observam em sede de


contrato-promessa:

a. formal/consensual;
b. exclusivamente pessoal (intuitu personae)/não exclusivamente
pessoal;

!98
RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

c. com eficácia real/eficácia obrigacional nos termos do art. 421º >


direito real de aquisição

Mas há também preferências legais (v.g., no art. 1409º, nº 1), que são
sempre com eficácia real, cuja ratio é eliminar as situações de pluralidade de
direitos sobre uma mesma coisa (v.g., compriedade, propriedade/arrendamento,
propriedade/superfície)

30. Vigora um princípio de equiparação pacto de preferência/contrato


preferível quanto aos requisitos de forma e de substância, tal
como no contrato-promessa?

Conhece-se apenas o art. 415º, remetente para o art. 410/2, quanto à


forma de certos pactos.
Por isso, tradicionalmente a doutrina (AV; AC) nega um princípio de
equiparação (cf. art. 410/1), e sujeita o pacto de preferência ao regime geral dos
contratos.

Mas MC defende que existe esse princípio, salvo quanto às disposições


de forma e as que, pela sua razão de ser, não se devam considerar extensíveis
ao pacto de preferência. Impõe-se uma analogia dada a idêntica natureza
preparatória dos dois contratos, em ordem a suprir (art. 10/2) uma lacuna.
Ademais, o art. 415 estatui apenas quanto à forma, não se podendo dele retirar
que, a contrario, o regime do art. 410/1 está excluído. Também o art. 420º seria
excepcional na sua proibição de transmissão da preferência, muito diversamente
do que sucede no contrato preferível.

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

31. Qual é a forma do pacto de preferência?

I. O pacto de preferência não está submetido à forma do contrato


preferível, valendo a liberdade de forma (cf. art. 219).
Assim não será se, tal como no contrato-promessa

a. O contrato preferível seja formal, caso em que deve o pacto constar de


documento particular assinado por quem dá preferência

ARTIGO 415º
(Forma)

É aplicável ao pacto de preferência o disposto no nº 2 do artigo 410º.

b. Se se quiser atribuir eficácia real ao pacto de preferência, caso em que


deve o pacto constar de escritura pública ou de documento particular com
reconhecimento da assinatura da parte que se vincula

ARTIGO 421º
(Eficácia real)

1. O direito de preferência pode, por convenção das partes, gozar de eficácia real se,
respeitando a bens imóveis, ou a móveis sujeitos a registo, forem observados os
requisitos de forma e de publicidade exigidos no artigo 413º.

ARTIGO 413º
(Eficácia real da promessa)

2. Deve constar de escritura pública a promessa a que as partes atribuam eficácia real;
porém, quando a lei não exija essa forma para o contrato prometido, é bastante
documento particular com reconhecimento da assinatura da parte que se vincula ou de
ambas, consoante se trate de contrato-promessa unilateral ou bilateral.

II. Mas, e ainda, em qualquer caso deve o documento conter também a


assinatura do beneficiário/preferente (embora o contrato seja unilateral) quando
a situação não seja compatível com a aposição de uma só assinatura.

!100
RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

Exemplo 1: existência de preferências recíprocas entre as partes (i.e, de


dois pactos correlativos), como sucede entre os partilhantes de bens.

Exemplo 2: eficácia real do pacto, dado o disposto no nº 1 do art. 413º

ARTIGO 413º
(Eficácia real da promessa)

1. À promessa de transmissão ou constituição de direitos reais sobre bens imóveis, ou


móveis sujeitos a registo, podem as partes atribuir eficácia real, mediante declaração
expressa e inscrição no registo.

Exemplo 3: se o beneficiário estiver obrigado a uma contraprestação

Exemplo 4: quando as razões justificativas de forma (legal, convencional


ou voluntária) o exijam

32. Quais são os requisitos materais do pacto de preferência?

Valem as disposições gerais atinentes à capacidade, legitimidade,


idoneidade e validade do objecto e cumprimento. Já as disposições especiais
(v.g., 871/1, proibição de venda de pais a filhos) não se aplicam pois respeitam
ao contrato definitivo.

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

33. Podem-se transmitir a obrigação e o direito de preferência?

Supletivamente, não:

ARTIGO 420º
(Transmissão do direito e da obrigação de preferência)

O direito e a obrigação de preferência não são transmissíveis em vida nem por morte,
salvo estipulação em contrário.

34. Como se cumpre a obrigação de dar preferência?

O cerne do regime consta do

ARTIGO 416º
(Conhecimento do preferente)

1. Querendo vender a coisa que é objecto do pacto, o obrigado deve comunicar ao


titular do direito o projecto de venda e as cláusulas do respectivo contrato.

2. Recebida a comunicação, deve o titular exercer o seu direito dentro do prazo de oito
dias, sob pena de caducidade, salvo se estiver vinculado a prazo mais curto ou o
obrigado lhe assinar prazo mais longo.

Portanto, o procedimento é o seguinte, pressupondo que o obrigado quer


celebrar o contrato preferível:

1. O obrigado deve dar conhecimento do projecto e cláusulas


respectivas:

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

a. a proposta contratual feita pelo obrigado ou recebida de


terceiro, na íntegra, sem omissões ou falseamentos
b. identificada como se referindo ao contrato preferível, pois o
acto não cumpre uma função de proposta contratual que o
obrigado queira fazer directamente ao beneficiário, mas de
“projecto de venda” (art. 416); a boa fé objectiva também
impõe essa indicação (esta pode consistir numa proposta
que terceiro fez ao obrigado, mas como numa verdadeira
proposta contratual feita pelo obrigado quando a terceiro, o
que deve ser claramente referido para não se confundir com
a dita proposta que o obrigado queira fazer directamente ao
beneficiário)
c. identificação do terceiro contratante, salvo se houver sido
feita oferta ao público
2. Em qualquer um dos seguintes momentos:
a. Recepção da proposta do terceiro (não antes, nas
negociações, pois aí ainda não há proposta de terceiro, sem
prejuízo de comunicações exploratórias ao preferente)
b. Depois da recepção da proposta mas antes da aceitação
produzir efeitos
3. Segundo qualquer meio idóneo: extrajudicial, judicial (cf. arts. 1458
ss CPC(notificação para preferência));
4. o beneficiário deverá proferir no prazo de 8 dias salvo se estiver
vinculado a prazo mais curto ou o obrigado lhe assinar prazo mais
longo. (cf. art. 416/2) uma comunicação de
a. recusa (= renúncia ao direito de preferência)
b. aceitação
i. reunindo os requisitos formais de uma proposta
contratual > conclui-se logo o contrato
ii. não reunindo os requisitos formais de uma proposta
contratual > deve o obrigado fazer uma proposta e o
preferente depois aceitar, não havendo prazo para o
cumprimento (obrigação pura, salvo na via judicial em

!103
RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

que há um prazo de 20 dias fixado no art. 1458/2


CPC)
c. inércia; o direito de preferência extingue-se por caducidade

CASO PRÁTICO nº 19

António é proprietário de certa quinta e titular de uma servidão legal de passagem sobre uma
quinta vizinha. Decidido a vender a quinta, mandou uma carta a Bento, o dono do terreno
onerado, perguntandolhe «se pretendia exercer por € 100.000 o seu direito de preferência». Carlos
tinhalhe oferecido esse valor pela quinta. Bento nada disse, de modo que, passados 15 dias,
António a vendeu de facto a Carlos, por € 100.000, declarandose na escritura o preço de € 60.000.
Carlos pagou ainda a sisa e os emolumentos notariais e registais. Bento propõe uma acção contra
Carlos em que exige a propriedade sobre a quinta, depositando € 60.000. Quid juris?

Resposta

- Fonte: Preferência legal (cf. 1555º), logo de natureza real, com


desnecessidade de pacto de preferência
- Execução: vale o regime comum dos arts. 416º e 1410º
- Foi comunicado o projecto:
▪ Tese nº 1 (RPinto) sim, pois o que era decisivo era o
preço, além de que a hipótese não nos dá dados
suficientes; caducidade do direito de preferência por
falta de exercício em 8 dias
▪ Tese nº 2: não, pois não foram comunicadas as
cláusulas; o A continua obrigado a dar preferência
- A e C simularam uma compra e venda por € 60 000, mas
contrataram por € 100 000, para enganar o fisco
- A compra por € 60 000 é nula (negócio simulado), mas a
compra por € 100 000 é válida (negócio dissimulado)

ARTIGO 241º
(Simulação relativa)

1. Quando sob o negócio simulado exista um outro que as partes quiseram realizar, é
aplicável a este o regime que lhe corresponderia se fosse concluído sem dissimulação,
não sendo a sua validade prejudicada pela nulidade do negócio simulado.

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

2. Se, porém, o negócio dissimulado for de natureza formal, só é válido se tiver sido
observada a forma exigida por lei.

- Sobre o caso a doutrina divide-se:


▪ Tese nº 1 (AV):
• a nulidade da simulação pode ser invocada pelo 3º
preferente (art. 286)

ARTIGO 286º
(Nulidade)

A nulidade é invocável a todo o tempo por qualquer interessado e pode ser


declarada oficiosamente pelo tribunal.

• mas não pode ser invocada por A e C (art. 243),


desde que o B esteja de boa fé

ARTIGO 243º
(Inoponibilidade da simulação a terceiros de boa fé)

1. A nulidade proveniente da simulação não pode ser arguida pelo simulador contra
terceiro de boa fé.

2. A boa fé consiste na ignorância da simulação ao tempo em que foram constituídos os


respectivos direitos.

3. Considera-se sempre de má fé o terceiro que adquiriu o direito posteriormente ao


registo da acção de simulação, quando a este haja lugar.

• Por isso, nada impede o B de preferir pelo negócio


dos € 60 000 já que, repete-se, os A e C não lhe
podem opor a respectiva invalidade
▪ Tese nº 2 (MAndrade, MPinto, AC)

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

• O B não é um terceiro de boa fé, pois 3º de Bfé é o


sujeito que seria (ilicitamente) prejudicado pela
invalidação do negócio simulado e não aquele
sujeito (o B) que deixariam de lucrar com a
manutenção do negócio
• A Tese nº 1 conduz a um enriquecimento sem causa
de B à custa do A (vendedo) e numa fraude fiscal
• Por isso, o B apenas pode preferir pelo negócio dos
€ 100 000

NOTA: esta situação é diferente da simulação feita para prejudicar


o preferente (v.g., A comunicava a B e simulava vender por € 100
000 a C, mas vendia por € 60 000), de modo a este não querer
comprar. Também aí existiria um negócio inválido/simulado (por €
100 000) e um negócio válido/dissimulado (por € 60 000). A
doutrina é unânime em considerar que o B
▪ O alega e prova a simulação (cf. 286) e prefere
pelo valor do negócio válido
▪ Ou, no caso contrário, terá de pagar os € 100
000

- A acção adequada é a de preferência do art. 1410 (no prazo de


6 meses a contar do conhecimento), contra o C (mas AV
defende um litisconsórcio necessário: acção contra o
alienante (A) e o terceiro), a qual pressupõe uma eficácia real
da preferência (i.e., uma oponibilidade a terceiros), o que é o
caso, com os seguintes efeitos:

▪ Depósito do preço por que se prefere (cf. a discussão


atrás)
▪ Distrate do negócio com o C
▪ Exercício da preferência pelo B
▪ Devolução do preço pelo A, ao C

NOTA: esta situação é diferente de uma preferência com


eficácia apenas obrigacional: o direito de preferência
extingue-se por impossibilidade superveniente (a coisa já
não é do obrigado) e pode haver lugar a indemnização por
dano (art.798)

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

MÓDULO 6: CONTRATO A FAVOR DE TERCEIRO

PONTO nº 15
Contrato a favor de terceiro
CP nº 20

ENQUADRAMENTO DOGMÁTICO

ML, DOb I, 264-272

CASO PRÁTICO nº 20

Abelardo comprou 3.918 rosas a Anselmo, florista, combinandose que as ditas seriam entregues
em casa de Heloísa oito dias depois. Entretanto, Abelardo, a conselho de familiares de Heloísa,
desinteressouse do assunto. Heloísa, informada por uma amiga, pretende haver as rosas de
Anselmo, mas este reenvioua para o convento. Quid juris?

Resposta

- Contrato de compra e venda, a favor de terceiro:

..---! Heloísa (terceira/compradora quanto ao efeito real


e ao efeito obrigacional de entrega da coisa)
..
..
..

!107
RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

Anselmo (promitente (obrigado)/ vendedor) -! Abelardo


(promissário/comprador
quanto ao efeito real de
pagamento do preço)

ARTIGO 443º
(Noção)

1. Por meio de contrato, pode uma das partes assumir perante outra, que tenha
na promessa um interesse digno de protecção legal, a obrigação de efectuar
uma prestação a favor de terceiro, estranho ao negócio; diz-se promitente a
parte que assume a obrigação e promissário o contraente a quem a promessa
é feita.

- Há dois credores
▪ Abelardo tem direito a que a entrega seja feita a H
▪ H tem direito à entrega, independentemente de aceitar
( teoria do incremento)

ARTIGO 444º
(Direitos do terceiro e do promissário)

1. O terceiro a favor de quem for convencionada a promessa adquire direito à


prestação, independentemente de aceitação.

2. O promissário tem igualmente o direito de exigir do promitente o


cumprimento da promessa, a não ser que outra tenha sido a vontade dos
contraentes.

- Abelardo pode revogar a sua promessa enquanto a H não


aceitar expressamente

ARTIGO 448º

!108
RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

(Revogação pelos contraentes)

1. Salvo estipulação em contrário, a promessa é revogável enquanto o terceiro


não manifestar a sua adesão (...)

2. O direito de revogação pertence ao promissário (...)

- “desinteressouse do assunto”, não parece configurar uma


declaração expressa de revogaçºão: tem de ser declaração ao
promitente (i.e., ao Anselmo)

!109
RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

MÓDULO 7: CONTRATO PARA PESSOA A


NOMEAR

PONTO nº 16
Contrato para pessoa a nomear
CP nº 21

ENQUADRAMENTO DOGMÁTICO

ML, DOb I, 272-273

CASO PRÁTICO nº 21

Perpétua e Rui assinaram um guardanapo de papel em que se escrevera que Perpétua se obrigava
a vender certo apartamento a Sílvia por € 200.000. Rui tinha sido mandatado por Sílvia, a troco
de € 1.000, para lhe obter o direito de aquisição de um apartamento nessa zona.
Três semanas depois, Sílvia mandou uma cartinha a Perpétua mostrandose satisfeita com o
contrato celebrado. Pouco depois, Rui veio exigir os € 1.000 a Sílvia, mas esta pretende pagar
apenas € 500, usando desculpas de mau pagador e informando Rui da carta enviada. Rui escreve
então a Perpétua dizendo que «revoga o contrato». Perpétua ficou toda contente e está pronta para
vender o apartamento a Teresa. Quid juris?

Resposta

- Contrato-promessa de compra e venda para pessoa a nomear

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

..---! Sílvia (terceira, a nomear)


..
..
..

Perpétua (promitente-vendedora) -! Rui


(representante de S,
promitente-compradora,
nomear)

- Aqui não há um contrato a favor de terceiro pois a S não tem


nenhum direito em face de P, ao momento da celebração da
promessa; aqui apenas há duas partes sendo que R está a sob
condição (S não é credora de R)
- Mas haverá mesmo pessoa a nomear?
▪ Deve-se distinguir uma cláusula de pessoa a nomear
com o exercício de uma procuração

ARTIGO 452º
(Noção)

1. Ao celebrar o contrato, pode uma das partes reservar o direito de nomear um


terceiro que adquira os direitos e assuma as obrigações provenientes desse
contrato.

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

MÓDULO 8: RESPONSABILIDADE CIVIL

PONTO nº 17
Responsabilidade civil
CP nº 22 a 26

ENQUADRAMENTO DOGMÁTICO

AC, DOb, 433 ss, 648 ss


AV, DOb I, 536 ss, 905 ss
MC, DOb II, 257 ss
ML, DOb I, 283 ss

Figueiredo Dias/Sinde Monteiro, Responsabilidade médica em Portugal, BMJ


332, 48 ss
Sinde Monteiro, Erro de tratamento médico em Hospital (parecer jurídico), CJ 11/
IV (1986), 47 ss

CASO PRÁTICO nº 22

A, que iniciou recentemente uma carreira política, com funções governamentais, pretende ser
ressarcido de diversos danos, sofridos em consequência de várias circunstância:

1ª Hipótese: No Verão passado e sem o seu consentimento, A foi fotografado por C numa praia
onde se pratica nudismo. A fotografia foi publicada na 1ª página do jornal D, para onde C a
enviara. A pretende a condenação de C e de D pelo danos que alega ter sofrido, bem como,
agindo em nome dos seus filhos menores, pelos danos suportados por estes. Quid juris?

!112
RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

2ª Hipótese:
Na sequência de uma reunião com o seu advogado B e das indicações por este fornecidas, A
ultimou determinado negócio privado, o qual viria a ser desastroso para os seus interesses. A
descobriu, depois, que B ignorava totalmente a legislação em vigor sobre a matéria em causa.
Quid juris?

M. JANUÁRIO COSTA GOMES/CARLOS BARATA, Direito das Obrigações. Casos Práticos e


outros Elementos para as Aulas Práticas 2, Lisboa, AAFDL, 2007, 76-77

Resposta 1: danos de A

1. A obrigação de indemnização, objecto da condenação, de C e D


está dependente de vários pressupostos, que variam consoante
se esteja perante responsabilidade por culpa (RpC),
responsabilidade pelo risco (RpR) ou responsabilidade pelo
sacrifício (RpS) e dentro da primeira, consoante se esteja
perante responsabilidade delitual (RpCD) e responsabilidade
contratual (RpCC)
1.1. trata-se de RpC, por exclusão de partes dado não estarmos
nos casos legalmente previstos de RpR (cf. 499 ss) ou RpS
(vg., arts. 81/2, 339/2, 1170/1, 1172, 1322, 1349, 1367, 1554,
1559, 1560/3, 1561/1)
1.2. dentro da RpC não se trata de RpCc, pois o direito lesado
não é um crédito; i.e., estamos fora do art. 798º
1.3. Conclusão: temos de aplicar os pressupostos da RpCD
2. Esses pressupostos são, perante o 483
2.1. FACTO voluntário – verifica-se: é a publicação da fotografia;
não há causa de força maior ou uma actuação irresistível de
circunstâncias fortuitas
2.2. ILICITUDE
A. violação de direito subjectivo ou violação de normas de protecção
ou ainda configura um tipo delitual específico?
A.1. trata-se de uma possível violação de um direito
de personalidade:
A.1.1. direito à imagem (79/1), apesar do 79/2,
graças ao 79/3; não será de aplicar o art.
80º pois esse refere-se à divulgação de
factos, nem a norma especial do art. 484º
(bom nome/crédito) que também se refere
à divulgação de factos
A.1.2. ATENÇÃO: lateralmente discute-se se há
um direito geral de personalidade? ML
responde afirmativamente, com base no
âmbito genérico do art. 70/1 e 70/2; no

!113
RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

mesmo sentido, ORLANDO CARVALHO e


CAPELO DE SOUSA; contra OLIVEIRA
ASCENSÃO
B. Não haverá uma causa de exclusão de ilicitude? O exercício de um
direito Cf. LARENZ II, § 72, III a) sobre a liberdade de imprensa

2.3. CULPA
A. aferida pelo critério do art. 487/2
B. deve ser provada (art. 487/1)
C. não há inimputabilidade (cf. arts. 488/489)
D. não há uma causa de exclusão da cupla (erro desculpável, medo
invencível, desculpabilidade)
E. dolo? Negligência? A questão releva tanto em sede de art. 494º,
como de art. 496/3 3 497/2
2.4. DANO
A. real/patrimonial
B. presente/futuro
C. patrimonial/não patriimonial
2.5. NEXO de causalidade
A. a quem é imputável o facto “publicação de fotografia”?
2. OBRIGAÇÃO DE INDEMNIZAR
2.1. a prestação, dada a não patrimonialidade do dano, faz-se por
entrega de uma quantia pecuniária (566º/1)
2.2. vale o art. 566º/2 (teoria da diferença)? Não: ela vale para danos
patrimoniais e que sejam presentes; não sendo o caso, vale o
art. 496º, nº 3 + 494
2.3. é solidária (497/1)
2.4. o direito de regresso entre C e D mede-se pela medida da culpa,
que se presume igual (497/2)
2.5. prescreve ao fim de 3 anos a contar da data do conhecimento do
direito (i.e., sabe que está lesado) mas nunca depois de ter
ocorrido o prazo de prescrição ordinária (498/1)

Resposta 2: danos dos filhos

Valem as respostas anteriores?


Sim, salvo quanto à questão da ilicitude?
Qual foi o direito / interesse específicamente violado aos filhos?
Resposta:
o quem sofreu o dano ao direito à imagem foi o A
o os filhos se sofreram danos morais reflexamente eles não
serão valorados: tem de haver uma ilicitude directa, digamos
assim; só nos casos dos arts. 495 e 496/2 e 3 : os filhos não
são titulares de um direito a indmnização
o ter-se-de invocar que essas imagens violavam directamente
um direito geral de personalidade dos filhos (cf. art. 70º CC)

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

o não creio que se possa invocar a violação de uma norma de


protecção (cf. 483º, nº 1, segunda parte), pois a respectiva
ilicitude exige
▪ não realização do cumprimento exigido por uma norma
legal (ex. não indicação de que um alimento contém
lactose)
▪ que a norma proteja directamente um interesse/bem
jurídico directamente (e não apenas reflexamente)
▪ que haja sido esse o bem jurídico violado
- ora aqui falta uma norma concreta

Resposta 3: danos por indicações

1. Tipo de resposabilidade/ PRESSUPOSTOS


1.1. FACTO
1.2. ILICITUDE
1.2.1. Há um contrato de prestação de serviços
1.2.2. Logo, um dever jurídico (contratual) de prestar informações /
recomendações
1.2.3. estamos no âmbito da RpCC?
1.2.4. não: pois esta obriga a prestar informações
1.2.5. já as consequências são regulada por uma previsão
específica: a DO ART. 485
1.2.6. PODE haver responsabilidade por conselho, recomendação
ou informação dados com intuito de provocar dano (Dolo):
aparentemente a letra do nº 2 (o dolo só relevaria em deveres
jurídicos) levaria a concluir que não salvo abuso de direito)
(PESSOA JORGE E ALMEIDA COSTA (DOb 473), salvo abuso
de direito); já MC (DOb II, 350-351) e ML (DOb I, 304)
defendem que sim - esse compotamento doloso cai fora das
razões que justificam o nº 1 (ML) e configura uma violação
do princípio neminem laedere (MC)
1.2.7.
1.3. CULPA
A. aferida pelo critério do art. 487/2
B. deve ser provada (art. 487/1)
C. não há inimputabilidade (cf. arts. 488/489)
D. não há uma causa de exclusão da cupla (erro desculpável, medo
invencível, desculpabilidade)
1.4. DANO patrimonial
1.5. NEXO DE CAUSALIDADE

2. OBRIGAÇÃO DE INDEMNIZAR
2.6. dada a patrimonialidade do dano, faz-se por reparação in natura
(562) ou entrega de uma quantia pecuniária (566º/1)
2.7. vale o art. 566º/2 (teoria da diferença)? Sim, por serem danos
patrimoniais e desde que sejam presentes

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

CASO PRÁTICO nº 23

A, empregado de B, circulava com o carro deste quando perdeu o controlo do veículo e embateu
contra o snack-bar de C, tendo causado a morte de D, empregada de C, que se encontrava no
interior do estabelecimento e ainda de E, cliente habitual do mesmo.

1ª Hipótese: A conduzia sob o efeito de uma droga poderosíssima que lhe tinha sido colocada no
café por F, sua antiga namorada.

2ª Hipótese: A conduzia o carro respeitando escrupulosamente todas as regras de trânsito; o


acidente ocorreu porque A perdeu subitamente a visibilidade, quando um camião não identificado,
ao passar, partiu o pára-brisas com uma pedra projectada por um dos pneus.

3ª Hipótese: A conduzia o carro num domingo, contra as ordens expressas de B, que só


autorizava A a conduzir o veículo nos dias úteis. O acidente foi provocado por falta de travões do
veículo.

4ª Hipótese: a mesma do caso anterior, com a diferença de que o acidente foi provocado por
distracção de A, mais atento ao relato de um jogo de futebol do que à estrada.

5ª Hipótese: no automóvel conduzido por A seguia, também, à boleia, G. Este, não obstante
viajar sem cinto de segurança, apenas sofreu ferimentos ligeiros num braço, embora o seu valioso
relógio de pulso ficasse totalmente destruído.

6ª Hipótese: juntamente com A, viajava H, que aquele sempre transportava, mediante o


pagamento de metade da gasolina, segundo acordo entre ambos estabelecido. H morreu, depois
de vários meses no hospital, deixando viúva I que, desgostosa, pretende ser indemnizada. O
acidente deveu-se a falta de reflexos de A, que se encontrava embriagado.

M. JANUÁRIO COSTA GOMES/CARLOS BARATA, Direito das Obrigações. Casos Práticos e


outros Elementos para as Aulas Práticas 2, Lisboa, AAFDL, 2007, 79-80

INTRODUÇÃO

1. A obrigação de indemnização está dependente de vários pressupostos,


que neste caso parecem ser de responsabilidade pelo risco (RpR)

ARTIGO 503º
(Acidentes causados por veículos)

1. Aquele que tiver a direcção efectiva de qualquer veículo de circulação


terrestre e o utilizar no seu próprio interesse, ainda que por intermédio de

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

comissário, responde pelos danos provenientes dos riscos próprios do veículo,


mesmo que este não se encontre em circulação.

3. Aquele que conduzir o veículo por conta de outrem responde pelos danos que
causar, salvo se provar que não houve culpa da sua parte; se, porém, o conduzir
fora do exercício das suas funções de comissário, responde nos termos do nº 1.

2. PRIMA FACIE responde o B, pois tem a direcção efectiva (503/1),


limitado quantitativamente pelo art. 508º
2.1. Contudo, trata-se de uma responsabilidade subsidiária, que será
excluída quando os danos

2.2. sejam imputáveis ao próprio LESADO (505)


2.3. sejam imputáveis a TERCEIRO (505)
2.4. derivem de causa de força estranha ao funcionamento do
veículo (505)

ATENÇÃO: MENEZES CORDEIR0 defende se os danos forem imputáveis ao


CONDUTOR (503/3), não responde o B

ARTIGO 505º
(Exclusão da responsabilidade)

Sem prejuízo do disposto no artigo 570º, a responsabilidade fixada pelo nº 1 do


artigo 503º só é excluída quando o acidente for imputável ao próprio lesado ou a
terceiro, ou quando resulte de causa de força maior estranha ao funcionamento
do veículo.

2.5. em qualquer caso, o B poderá, em concurso, responder


enquanto comitente, caso o A responda; a diferença é que não
está sujeito aos limites do art. 508º

3. Neste caso, de duas uma

3.1. ou há FACTO voluntário de A (IMPUTABILIDADE AO CONDUTOR)


3.1.1. embate contra o estabelecimento comercial é um
comportamento objectivamente dominável pela vontade?
3.1.2. tampouco o A estava inconsciente ou foi um facto natural
3.1.3. obviamente que a falta de intenção de provocar dano também
não torna o facto em involuntário

!117
RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

3.1.4. perder o controlo não transforma o facto em involuntário, salvo se


isso significar uma causa de força maior ou uma actuação
irresistível de circunstâncias fortuitas – > ainda que quisesse
não evitaria a colisão: exemplo: UMA FALHA MECÂNICA
3.1.5. ILICITUDE
3.1.6. CULPA: atenção à inexistência de inimputabilidade e à sua
independência de o agente ter ou não capacidade jurídica
(cf. 488/489); há uma presunção legal de culpa (“salvo se
provar...”)
3.1.7. NEXO DE CAUSALIDADE
Então responderia o B + A, em solidariedade, nos termos do art. 507
3.1.8.
3.1.9. Em qualquer caso o B pode responder como comitente (art. 500º)

3.2.
ou não há FACTO voluntário de A
3.2.1. v.g., haveria mecânica
3.2.2. ILICITUDE
3.2.3. CULPA
3.2.4. NEXO DE CAUSALIDADE
3.2.5. então responderia apenas o B, já que mesmo uma avaria
mecânica não é estranha ao funcionamento do veículo
4. DANOS

1º dano > morte de D (empregado de C)


2º dano > morte de E (cliente) cf. a questão do dano-morte
3º dano > danos no estabelecimento C
4º dano> paragem temporária do seu negócio

ARTIGO 564º
(Cálculo da indemnização)

1. O dever de indemnizar compreende não só o prejuízo causado, como os


benefícios que o lesado deixou de obter em consequência da lesão.

5º danos> danos no automóvel de B


➢ respons. Contratual > 798/799

1ª HIPÓTESE (droga) > TODOS OS DANOS

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

A não responderia
➢ A droga torna o A inimputável pelo que ele não responde por
falta de culpa (cf. 488/1).
➢ Não se aplica o 503/2? Aplica-se: se, por um lado, ninguém
tem obrigação de o vigiar, dada a natureza transitória da
inimputabilidade, mas, contudo, o o art. 489º aplica-se mesmo
quando não haja vigilante legal
B não responderia
➢ nem como detentor, graças ao art. 505º, se a administração da
droga for causa adequada para imputação do acidente.
➢ Nem como comitente, graças pois falta o 3º requisito,
constante do art. 500º

Responderia a F, nos termos gerais do art. 483º.


Quid juris se ela não soubesse que ele era motorista?
Aqui é a questão da causalidade adequada: têm-se em conta as
“circunstâncias cognoscíveis, à data da produção do facto, por uma
pessoa normal, como às na realidade conhecidas [ou que tinha obrigação
de conhecer] pelo agente (AC, DOb cit., 655).
Portanto: devia a F presumir que o A podia conduzir veículos, em
geral?

2ª HIPÓTESE (pedra) ) > TODOS OS DANOS

A não responderia
➢ A falta de visibilidade torna o acto não censurável se foram
tomados todos os cuidados exigidos a um bom pai de família
(cf. art. 487/2) ou se houve um medo invencível/
comportamento automático

B não responderia se o acidente foi exclusivamente causado pela


projecção da pedra (art. 505); já se houve concausalidade (i.e., o dano foi
causado também pela despiste (o que até verdade também verdade)),

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

responderia o B não veria a sua responsabilidade pelo risco afastada,


salvo se à causalidade sobre 3º acrescesse também culpa deste (cf. art.
570/2, por maioria de razão

3ª HIPÓTESE (domingos) ) > TODOS OS DANOS

A responderia em sede de 503/1, pois passa a ter a direcção efectiva,


em razão de actuar fora da relação de comissão (não é enquanto motorista
de B...), mas tal não afasta a sua própria responsabilidade por culpa (483º),
que está isenta dos limites do art. 508º

B responderia dado não ter a direcção efectiva

JURISPRUDÊNCIA

STJ 25-2-82 MARIO DE BRITO


BMJ N314 ANO1982 PAG298

RESPONSABILIDADE CIVIL POR ACIDENTE DE VIAÇÃO



RESPONSABILIDADE PELO RISCO

COMODATO

DIRECÇÃO EFECTIVA DE VIATURA

CASO DE FORÇA MAIOR

LIMITE MAXIMO DA INDEMNIZAÇÃO

APLICAÇÃO DA LEI NO TEMPO

AC STJ DE 1975/04/01 IN RLJ ANO109 PAG154 PAG163.



AC STJ DE 1974/02/19 IN BMJ N234 PAG229.

AC STJ DE 1975/06/03 IN BMJ N248 PAG399.

AC STJ DE 1980/03/06 IN BMJ N295 PAG369.

AC STJ DE 1976/06/01 IN BMJ N259 PAG225.

AC STJ DE 1980/02/21 IN BMJ N294 PAG321.

II - Não constitui causa de força maior estranha ao funcionamento do veiculo, a derrapagem devida a oleo
derramado na estrada.

III - O Decreto-Lei n. 408/79, na falta de norma expressa nesse sentido, não e aplicavel aos acidentes
ocorridos antes da sua entrada em vigor.

STJ 16-02-90 SALVIANO DE SOUSA :

ACIDENTE DE TRABALHO

NEXO DE CAUSALIDADE


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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

LOCAL DE TRABALHO

TEMPO DE TRABALHO

L 2127 DE 1965/08/03 BV BVI BXXXVII.



D 360/71 DE 1971/08/21 ART12.

AC STJ DE 1988/11/03 IN AD N325 PAG117.



AC STJ PROC1603 DE 1982/07/03.

AC STJ DE 1980/12/12 IN BMJ N302 PAG212.

AC STJ PROC1013 DE 1985/06/18.

: I - Local de trabalho É toda a zona de laboração e exploração da enpresa que se relacione necessariamente
com a actividade laboral; tempo de trabalho é não sé o que se confina no periodo de trabalho, mas ainda nas
suas interrupções forçadas, e os actos que precedem ou sucedem aquele periodo.

II - Toda a actividade do trabalhador causadora do evento (introdução de uma mangueira de alta pressão no
(...) da vitima) foi completamente alheia ao trabalho em que o sinistrado se ocupava.

III - Não existindo o nexo de causalidade entre o acidente e o trabalho, não existe acidente de trabalho
indemnizavel.

RP 15-05-2001 NUNES RIBEIRO

RESPONSABILIDADE PELO RISCO



ACIDENTE DE VIAÇÃO

BRISA

NEGLIGÊNCIA

INDEMNIZAÇÃO

I - Provando-se, unicamente, que antes do acidente dos autos houve um outro acidente causado por uma
panela de escape abandonada na via , cujos interveniemtes reclamaram junto da portagem da auto-estrada,
não é possível inferir que tenha havido negligência por parte da Brisa, uma vez que não se sabe quanto
tempo mediou entre essa reclamação e o acidente em causa.

II - A projecção de uma panela de escape pela circulação de um veículo, embora peça caída de um outro
veículo, não poderá ser tida por estranha aos meios de circulação terrestre, da mesma forma que o não seria
a projecção de outro qualquer objecto ou de uma pedra caída de uma carrada mal acondicionada doutro
qualquer veículo, ou o acidente provocado por uma mancha de óleo de outra viatura, devendo, por isso,
considerar-se como um perigo ou um risco inerente à estrada e, como tal, próprio do veículo, para efeitos
do disposto no artº 503º nº1 do C.Civil.
III - Assim, o condutor do veículo não pode deixar de ser responsabilizado, com fundamento no risco, pelos
danos causados ao autor em consequência do acidente e, consequentemente, a seguradora, até ao limite
fixado no nº1 do artº 508º do C.Civil.

RP 02-06-2005 TELES DE MENEZES


RESPONSABILIDADE PELO RISCO

A derrapagem é um dos riscos próprios do veículo, por se tratar de fenómeno intimamente ligado às
características específicas de alguns veículos de circulação terrestre, entre eles os automóveis,
cabendo na vasta área do risco definido pelo art. 503.º/1 do CCivil.

4ª HIPÓTESE (distração) > TODOS OS DANOS

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

A responderia em sede de art. 503/3 pois actua de modo culposo


(negligente, violando um dever de cuidado imposto pelo Cestrada) e
causal. A sua responsabilidade não tem limite

B responderia em sede de art. 503/1 pois é um dano praticado no


exercício das funções?
AV> trata-se do caso próximo ao exemplo do incêndio causado, sem
querer, pelo empregado que instala uma máquina; exige-se uma conexão
causal entre função e os factos ilícitos: deve ser um dano provocado por
causa das funções
ML> pode ser um dano provocado no exercício das funções ainda
que visando um fim que lhes é estranho
Portanto, seguindo ML, dir-se-ia que ainda se está na relação de
comissão e, por isso, responde pelo risco. A sua responsabilidade tem o
limite do art. 508º

SOLIDARIEDADE: art 507

, embora indirectamente (pois a função não é ouvir rádio)

5ª HIPÓTESE (boleia de G)

Quanto aos danos PATRIMONIAIS

A responde

➢ [não há dever contratual principal ou acessório de transporte;


é um transporte de simples cortesia (não vinculativo), não
sendo um contrato de transporte gratuito: à prestação do

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

transportador não corresponde, segundo a intenção dos


contraentes, um correspectivo da outra parte (AV), não tendo
que ser no exclusivo interesse do interessado (AV, 696)] por
culpa em sede de art. 483º (art. 504/2 a contrario)
➢ contudo, valerá também o art. 570º/1 (culpa concorrente e não
exclusiva do lesado), para a determinação do montante
indemnizatório
➢ no caso, a culpa respeita ao acidente (facto ilícito causador do
dano) e não às suas consequências (agravamento), pois G
sofre o dano por embate causado pelo acidente + omissão de
colocar o cinto

ARTIGO 570º
(Culpa do lesado)

1. Quando um facto culposo do lesado tiver concorrido para a produção ou


agravamento dos danos, cabe ao tribunal determinar, com base na gravidade
das culpas de ambas as partes e nas consequências que delas resultaram, se a
indemnização deve ser totalmente concedida, reduzida ou mesmo excluída.

Quanto aos danos NÃO PATRIMONIAIS

A não responde

➢ por culpa presumida em sede de 503/3, ex vi art. 504/2


➢ pois valerá também o art. 570º/2 (culpa do lesado)

ARTIGO 570º
(Culpa do lesado)
2. Se a responsabilidade se basear numa simples presunção de culpa, a culpa
do lesado, na falta de disposição em contrário, exclui o dever de indemnizar

A apenas pode responder

!123
RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

➢ por culpa demonstrada em sede geral do art. 483, sem


prejuízo, novamente do art. 570/1

B não responderá como detentor

➢ é certo que, por força do art. 503/1, seria abrangido pela


extensão operada pelo art. 504/1 e 2 culpa, pois tratou-se de
um dano proveniente de risco próprio do veículo
➢ contudo vale o 505 (imputação causa ao lesado), mas de duas
uma
i. ou o lesado (G) foi o único responsável pelo acidente, caso
em que efectivamente o B não responderia
ii. ou o lesado foi apenas co-responsável pelo facto causal do
dano [é o caso]:
1. actuou sem culpa: valeria ainda a responsabilidade
de B
2. actuou com culpa [é o caso]: vale o art. 570 para
excluir/aliviar o B?
a. P1 (VAZ SERRA): aplica-se por analogia o art.
570/1: responde o B, mas com possibilidade
de diminuição da indemnização
b. P2 (PL/AV CPCanot I, 489-490), ML) não é
admissível ao mesmo tempo resp. por risco e
resp. por culpa (AV, CPCanot I, 489-490);
contra VAZ SERRA); maxime, por via do art.
570/2 por maioria de razão; o B não responde
c. Porventura esta última solução tem o inconveniente
de não permitir distinguir consoante o lesado
contribuiu muito ou pouco para o dano. Na verdade,
não faz sentido excluir o detentor, alegando que a
culpa do lesado afastada o mero risco do detentor:

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

no essencial, e como nota o acórdão, sem acidente o


DD não teria morrido. 

Parece, assim, fazer mais sentido a tese do uso do
art. 570/1, por analogia, aos casos de
concausalidade culposa do lesado com a
responsabilidade objectiva do detentor.

B responderá como comitente

Ex vi art. 500º, se for demonstrada a culpa de B; com direito de


regresso

6ª HIPÓTESE (transporte oneroso de H; morte de H)

6ª Hipótese: juntamente com A, viajava H, que aquele sempre transportava, mediante o


pagamento de metade da gasolina, segundo acordo entre ambos estabelecido. H morreu, depois
de vários meses no hospital, deixando viúva I que, desgostosa, pretende ser indemnizada. O
acidente deveu-se a falta de reflexos de A, que se encontrava embriagado.

A responde como comissário condutor

➢ Nos termos do art. 503/3, ex vi art. 504/2 [há contrato de


transporte, não gratuito]
➢ Danos: desgosto antes e depois da morte> art. 496/1
➢ Dano-morte? Discussão
➢ Pode A demonstrar que estava inimputável?
iii. Ou demonstra, mas haverá sempre culpa (488/1(, pelo
que responde
iv. Ou não demonstra e responde sempre

B responde como detentor

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

➢ a falta de reflexos do condutor insere-se nos “riscos próprios


do veículo” ( art. 501/3, ex vi art. 504/2)
➢ mas também pode responder como comitente, como garante
da responsai

CASO PRÁTICO nº 24

A, condutor do veículo X, propriedade do irmão B, que lho havia emprestado, deslocava-


se para Lisboa, pela marginal, a velocidade lenta, por causa do trânsito intenso e do sol que o
encadeava, quando, sem se aperceber, foi de encontro a C que, na beira da estrada, mas encostada
ao passeio e de costas para si, seguia na mesma direcção empurrando um carrinho de bébe.
Do embate resultou grave fractura exposta em toda a extensão da perna esquerda e ainda
grave lesão na bacia de C, para além de contusões de pequena importância.
Chamada a ambulância, esta só chegaria mais de uma hora depois, tendo então a vítima
sido transportada para o Hospital de S. José.
Aí, e apesar da gravidade do seu estado, aguardou durante hora e meia que a conduzissem
à sala de operações, tendo falecido logo após o início da operação a que ia ser submetida, em
consequência de “irreparável perda sanguínea”.
D, marido de C, em seu nome e também do filho de ambos, deseja accionar o condutor A,
a companha de seguros Y, o serviço de ambulâncias e o Hospital de S. José.

Analise, fundadamente, as situações jurídicas coenvolvidas e aprecie juridicamente a


pretensão de D.

[Rui Pinto

Imagine que, depois do atropelamento, A travou a fundo o que levou a que o veículo que o
antecedia, conduzido por F, o abalroasse por trás. Em consequência, A foi embater na mota de G,
que estava estacionada em cima do passeio.

F pretende que A lhe pague os danos que sofreu no seu carro.


A pretende que F lhe pague os danos que sofreu no seu carro.
G pretende que A lhe entregue uma mota nova]

M. JANUÁRIO COSTA GOMES/CARLOS BARATA, Direito das Obrigações. Casos Práticos e


outros Elementos para as Aulas Práticas 2, Lisboa, AAFDL, 2007, 80-81

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

Dano de perda da vida – responsabilidade de A

1. Tipo de resposabilidade/ PRESSUPOSTOS> os do art. 503


1.1. FACTO - > atropelamento
1.2. ILICITUDE: violação de direitos à integridade física e /vida
1.3. CAUSALIDADE
1.3.1. o atropelamento é adequado a produzir uma fractura exposta
1.3.2. Dano > causa – hemorragia
1.3.3. pode-se imputar a hemorragia ao atropelamento? Sim: está
na causalidade adequada, por muito raro ou excepcional que
possa ser
1.4. IMPUTAÇAO OBJECTIVA a A, a B ou aos dois?
1.4.1. ACOSTA quem tem a direcção efectiva é o comodatário A
1.4.2. AV: quem tem a direcção efectiva são o A e o B
1.4.3. Jurisprudência: quem tem a direcção efectiva é o
comodante, salvo se provar que passou a responb. de uso
para o comodatário
1.5. Pode A e B ou A + B invocarem o art. 505º?
1.5.1. O encadeamento pelo Sol: não, pois é um risco próprio do
veículo
1.5.2. andar fora do passeio pelo C: facto culposo imputável ao
lesado em termos de causalidade exclusiva, já que não cabe
nos riscos próprios de condução do veículo
1.5.3. conclusão: o A e o B não respondem pelas consequências
do atropelamentp
1.5.4. Mas pode o cônjuge pedir responsabilidades aos,
bombeiros, rectius a pessoa colectiva, e ao Hospital, rectius,
a pessoa colectiva?
A. Dano-morte>discussão
B. Dano de sofrimento > antes e após a morte: 496/1
1.6. Os terceiros seriam co-responsáveis pelo facto causal do dano
(facto voluntário omissivo, resultante de violação de dever de
actuação em tempo útil, legalmente fixado nos respectivos
diplomas reguladores das actividades em causa), contribuindo
para o agravamento das consequências do atropelamento, pelo
que de duas uma (para cada um deles), actuando com culpa e
respondendo em conformidade
i. 483> no caso do bombeiro, médico, enfermeiros
ii. entidade de bombeiros: art. 500º, se tiver personalidade
jurídica
iii. Hospital (desde que tenha personalidade jurídica):
1. regra geral: vale art. 501º (destina-se a fazer
aplicar igualmente o art. 500º quando o comitente

!127
RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

seja o Estado (ou pessoa colectiva pública) desde


que se trate de actos de gestão privada
a. ML: “aqueles em que as entidades públicas
actuam desprovidas de poderes de
autoridade” – v.g., condução de um veículo,
/PL/AV, CCAnot I, 483: actos sujeitos às
mesmas regras para a hipótese de serem
praticados por simples particulares – v.g.,
compra de um quadro
b. ML: se actuarem com ius imperii vale a Lei
nº 67/2007, de 12 de Dezembro (revogou o
DL 48 051 de 21 de Novembro de 1967) (cf.
ainda arts. 22º e 271º CRP) / PL/AV: os actos
que se regem por normas de direito
administrativo – v.g., dar aulas, examinar um
aluno, lavrar um registo
2. regime especial: art. 8º do DL 373/79, de 8 de
Setembro (Estatuto do Médico) e art. 12º da Lei
56/79 de 17 de Setembro (SNSaúde)

JURISPRUDÊNCIA 1

:STJ 15-11-83 LEITE DE CAMPOS


ACIDENTE DE VIAÇÃO

CULPA EXCLUSIVA

NEXO DE CAUSALIDADE

CE54 ART5 N3 ART40 N4. :

Não se tendo provado que a condutora de um veículo automóvel, dentro de uma localidade, circulasse
excessivamente próximo do passeio destinado aos peões, provando-se antes que a vítima (peão), circulando
no passeio, pretendeu atravessar a via sem se ter assegurado de que o podia fazer sem perigo, é no
comportamento desta que radica o nexo de causalidade do acidente que o vitimou, sendo a culpa
exclusivamente sua.

JURISPRUDÊNCIA 2

!128
RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

STJ 25-2-82 MARIO DE BRITO


BMJ N314 ANO1982 PAG298

RESPONSABILIDADE CIVIL POR ACIDENTE DE VIAÇÃO



RESPONSABILIDADE PELO RISCO

COMODATO

DIRECÇÃO EFECTIVA DE VIATURA

CASO DE FORÇA MAIOR

LIMITE MAXIMO DA INDEMNIZAÇÃO

APLICAÇÃO DA LEI NO TEMPO

AC STJ DE 1975/04/01 IN RLJ ANO109 PAG154 PAG163.



AC STJ DE 1974/02/19 IN BMJ N234 PAG229.

AC STJ DE 1975/06/03 IN BMJ N248 PAG399.

AC STJ DE 1980/03/06 IN BMJ N295 PAG369.

AC STJ DE 1976/06/01 IN BMJ N259 PAG225.

AC STJ DE 1980/02/21 IN BMJ N294 PAG321.

I - Tem a direcção efectiva do veiculo e como tal é responsavel civilmente pelo acidente que aquele cause,
o comodatario a quem aquele é emprestado, se o comodante da ao comodatário grande amplitude na sua
utilização e lhe exige as correspondentes responsabilidades na sua conservação e reparação.

II - Não constitui causa de força maior estranha ao funcionamento do veiculo, a derrapagem devida a oleo
derramado na estrada.

III - O Decreto-Lei n. 408/79, na falta de norma expressa nesse sentido, não e aplicavel aos acidentes
ocorridos antes da sua entrada em vigor.

STJ 23-10-83 JOAQUIM FIGUEIREDO

RESPONSABILIDADE CIVIL POR ACIDENTE DE VIAÇÃO



DIRECÇÃO EFECTIVA DA VIATURA

ONUS DE PROVA

COLISÃO DE VEICULOS

CONCORRENCIA DE CULPAS

MATERIA DE FACTO

MATERIA DE DIREITO

I - A direcção efectiva do veiculo a que alude o n. 1 do artigo 503 do Codigo Civil consiste no poder real

( de facto) sobre ele, tendo-a quem, de facto, goza ou usufrui das vantagens dele e a quem, por tal razão,
especialmente cabe controlar o seu funcionamento.

II - O interesse proprio na utilização do veiculo a que a mesma disposição se refere abrange o interesse
meramente espiritual ou moral.

III - Emprestado certo veiculo, é ao comodante, reu na acção, que incumbe a prova da transferencia para o
comodatario da respectiva direcção efectiva.


STJ 3-11-83 LIMA CLUNY


ACIDENTE DE VIAÇÃO

INDEMNIZAÇÃO DE PERDAS E DANOS

PRESCRIÇÃO

AMNISTIA DA CONTRAVENÇÃO CAUSAL

RESPONSABILIDADE CIVIL POR ACIDENTE DE VIAÇÃO

DANOS PATRIMONIAIS

DANOS MORAIS

AC STJ DE 1972/06/20 IN BMJ N218 PAG235.



AC STJ DE 1972/07/19 IN BMJ N219 PAG118.

AC STJ DE 1974/03/05 IN BMJ N235 PAG253.


!129
RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

AC STJ DE 1974/06/04 IN BMJ N238 PAG211.



AC STJ DE 1979/11/06 IN BMJ N291 PAG466.

AC STJ DE 1980/02/28 IN BMJ N294 PAG283.

AC STJ DE 1980/02/05 IN BMJ N294 PAG298.

AC STJ DE 1983/05/25 IN BMJ N323 PAG385.

III - O proprietario que entrega o seu automovel a um comissario



(no caso comodatario), para ser agradavel a este, mantém a direcção efectiva do veiculo e utiliza-o no seu
proprio interesse.


STJ 19-06-84 MOREIRA DA SILVA

RESPONSABILIDADE CIVIL POR ACIDENTE DE VIAÇÃO



DIRECÇÃO EFECTIVA DE VIATURA

PRESUNÇÃO

ÓNUS DA PROVA

RESPONSABILIDADE OBJECTIVA

ÂMBITO DO RECURSO

AC STJ DE 1980/03/06 IN BMJ N295 PAG369.



AC STJ DE 1983/10/25 IN BMJ N330 PAG511.

I - A direcção efectiva do veículo, nos termos e para efeitos do artigo 503, n. 1, do Código Civil, consiste
no poder real (de facto) sobre ele e tem-na, em regra, quem, gozando ou usufruindo das vantagens dele, tem
o encargo de cuidar do seu bom funcionamento.

II - Emprestado um veículo automóvel é de presumir, por ser o normal, que o comodante continua a ter a
sua direcção efectiva, pelo que demandado por acidente por ele causado, lhe incumbe a prova, como facto
impeditivo do direito contra ele invocado, de que, emprestando-o, transferiu essa direcção efectiva para o
comodatário.

III - A apreciação e a decisão do recurso são restringidas pelas conclusões das alegações do recorrente.

STJ 05-02-87 GOIS PINHEIRO

ACIDENTE DE VIAÇÃO

CAUSA DE PEDIR

RESPONSABILIDADE CIVIL

COMODATO

INDEMNIZAÇÃO POR PERDAS E DANOS

BMJ N364 ANO1987 PAG819

AC STJ DE 1980/03/06 IN BMJ N295 PAG369.



AC STJ DE 1975/04/01 IN BMJ N246 PAG126.

AC STJ DE 1967/12/09 IN BMJ N172 PAG247.

AC STJ DE 1970/10/27 IN BMJ N200 PAG236.

AC STJ DE 1971/03/19 IN BMJ N205 PAG212.

II - O comodatario, como detentor do veiculo, embora temporariamente, tem a direcção efectiva dele, dai a
sua responsabilidade, quer a cedencia tenha sido feita - o que por via de regra so sucede em cedencias de
longa duração - ou não com o encargo de cuidar da conservação e do bom funcionamento do veiculo.

III - O comodatario que usufrui das vantagens da utilização do veiculo, conduzido por outrem por conta e
no interesse daquele, responde como comitente pelos danos causados pelo veiculo com culpa do condutor
comissario, nos termos do artigo 500 do Codigo Civil.


!130
RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

STJ 5/3/1987 FERNANDES FUGAS

ACIDENTE DE VIAÇÃO

NEXO DE CAUSALIDADE

CULPA

MATERIA DE FACTO

COMPETENCIA DO SUPREMO TRIBUNAL DE JUSTIÇA

RESPONSABILIDADE PELO RISCO

DIRECÇÃO EFECTIVA DE VIATURA

UTILIZAÇÃO DE AUTOMOVEL

RESPONSABILIDADE OBJECTIVA

ESPECIFICAÇÃO

ASSENTO

COLISÃO DE VEICULOS

RETROACTIVIDADE

RESPONSABILIDADE CIVIL DO COMISSARIO

CULPA PRESUMIDA DO CONDUTOR

INDEMNIZAÇÃO

REDUÇÃO

PRESSUPOSTOS

AC STJ DE 1979/05/22 IN BMJ N287 PAG296. AC STJ DE 1979/10/09 IN BMJ N290 PAG352. AC
STJ DE 1979/10/23 IN BMJ N290 PAG390. AC STJ DE 1980/03/06 IN BMJ N295 PAG369. AC STJ
DE 1985/02/13 IN BMJ N344 PAG377. AC STJ DE 1971/05/07 IN BMJ N207 PAG149. AC STJ DE
1972/01/11 IN BMJ N213 PAG203. AC STJ DE 1974/02/19 IN BMJ N234 PAG229. AC STJ DE
1980/03/06 IN BMJ N254 PAG125. AC STJ DE 1981/05/19 IN BMJ N307 PAG242. ASS STJ DE
1983/04/14 IN DR IS 1983/06/28. AC STJ DE 1983/07/07 IN BMJ N329 PAG535.


III - Pelos danos provenientes do risco proprio de qualquer veiculo, responde aquele que tiver a sua
direcção efectiva e o utilize no seu proprio interesse.

IV - Em regra, o responsavel sera o dono do veiculo, bem como, designadamente, o usufrutuario, o
locatario, o comodatario, o adquirente com reserva de propriedade, o autor de furto de veiculo, a pessoa que
abusivamente o utilize.

V - A direcção efectiva do veiculo traduz-se na sua posse real.

VI - A expressão "no seu proprio interesse" visa afastar a responsabilidade objectiva daqueles que utilizam
o veiculo, não no seu proprio interesse, mas a ordem de outrem.

STJ 28/1/1997 PAIS DE SOUSA

RESPONSABILIDADE CIVIL POR ACIDENTE DE VIAÇÃO



VEÍCULO AUTOMÓVEL

EMPRÉSTIMO

DIRECÇÃO EFECTIVA DE VIATURA

ÓNUS DA PROVA

UTILIZAÇÃO DE AUTOMÓVEL

RESPONSABILIDADE PELO RISCO

I - A simples circunstância de o proprietário de um veículo o emprestar não tem por consequência


necessária perder a direcção efectiva do veículo emprestado, podendo decidir da sua utilização em qualquer
momento e fazer cessar a sua detenção pelo comodatário: a solução depende do que concretamente se
apurar em cada caso concreto.

II - O interesse na utilização do veículo tanto pode ser de carácter patrimonial como espiritual ou moral.

III - É ao proprietário da viatura que cabe provar a transferência para o comodatário da responsabilidade
pelo risco da circulação.

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

Danos patrimoniais

2. A pretende que F pague os estragos


2.1. É um caso de colisão de veículos> Vale o art. 506/1 + 503, salvo
se provar a culpa do F (o que não será fácil)
3. F pretende que A lhe pague os estragos
3.1. Sim, por força do art. 506/1 + 503; contudo, provada a sua culpa
(do lesado), o A nada tem a pagar graças ao art. 505º
4. G quer uma bicicleta nova
4.1. É um caso de abalroamento de um veículo parado por outro em
movimento > o estar no passeio é absolutamente alheio à
causalidade> vale o a art. 506/1 in fine + 503
4.2. Não tem direito a bicicleta nova, atenta o critério da diferença
consagrado no art. 566º/2
4.3. Em qualquer caso o A pode invocar que o seu abalroamento se
deveu a terceiro (maxime, F), pelo que, nos termos do art. 505º,
não responderia; nesse caso, seria viável fazer responder o F,
em sede de 503 + 506/1

A bicicleta também está sujeita ao regime dos arts. 503 e 506º

CASO PRÁTICO nº 25

A morreu afogado numa praia da Costa da Caparica.


Quais os direitos de B, sua mulher, e de C, seu filho, considerando, sucessivamente, que:

1ª Hipótese: A tinha ido passear de barco com o seu amigo D que, numa manobra mal executada
e perigosa, fez embater a embarcação contra uma rocha, na sequência do que A caíu à água,
morrendo de indigestão.

2ª Hipótese: E, praticante de surf, empenhava-se em exibir as suas habilidades a uma veraneante


solitária, quando atingiu A com a prancha na cabeça, fazendo-o perder os sentidos, motivo do
afogamento.

3ª Hipótese: A nadava esforçadamente quando se sentiu mal; não obstante ter insistentemente
pedido socorro, nenhum dos presentes na praia se predispôs a socorrê-lo, nem tão pouco a chamar
o banheiro que, mais afastado, dormia profundamente.

4ª Hipótese: Tudo começou quando F, de oito anos de idade, encontrou um prego a espreitar na
areia. F deslocara-se à praia na companhia do vizinho G, a quem os pais haviam confiado a
vigilância da criança naquele dia. Enquanto G discutia animadamente com o vendedor de gelados

!132
RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

as últimas do futebol, F, vendo que A adormecera a boiar sobre o colchão, espetou o prego no
colchão. Afastado pela corrente, A acabou por se afogar, visto não saber nadar.

M. JANUÁRIO COSTA GOMES/CARLOS BARATA, Direito das Obrigações. Casos Práticos e


outros Elementos para as Aulas Práticas 2, Lisboa, AAFDL, 2007, 81-82.

1ª HIPÓTESE

1. Pressupostos
a. Facto voluntário
b. Ilícito: violação do direito à vida
c. Culposo: negligente
i. Regime especial do art. 493º/1 ou nº 2
ii. Não: vale a resp. risco prevista no art. 41º DL 124/2004,
de 26 de Maio, para proprietário e comandante da ER,
desde que caiba na classificação do art. 2º
d. causal? Discussão

JURISPRUDÊNCIA

STJ 30-11-84 LICINIO CASEIRO

ACIDENTE DE TRABALHO

NEXO DE CAUSALIDADE

PENSÃO POR MORTE

ÓNUS DA PROVA

PRESUNÇÃO

LESÃO

DOENÇA

L 2127 DE 1965/08/03 BV N4 BVIII N4.



D 360/71 DE 1971/08/21 ART12 N2.


V - Não é normal que a fractura de uma perna tenha como consequência a morte passados mais de três
meses sobre essa fractura.

STJ 16-02-90 SALVIANO DE SOUSA :

ACIDENTE DE TRABALHO

NEXO DE CAUSALIDADE

LOCAL DE TRABALHO

TEMPO DE TRABALHO

L 2127 DE 1965/08/03 BV BVI BXXXVII.



D 360/71 DE 1971/08/21 ART12.

!133
RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

AC STJ DE 1988/11/03 IN AD N325 PAG117.



AC STJ PROC1603 DE 1982/07/03.

AC STJ DE 1980/12/12 IN BMJ N302 PAG212.

AC STJ PROC1013 DE 1985/06/18.

: I - Local de trabalho É toda a zona de laboração e exploração da enpresa que se relacione necessariamente
com a actividade laboral; tempo de trabalho é não sé o que se confina no periodo de trabalho, mas ainda nas
suas interrupções forçadas, e os actos que precedem ou sucedem aquele periodo.

II - Toda a actividade do trabalhador causadora do evento (introdução de uma mangueira de alta pressão no
(...) da vitima) foi completamente alheia ao trabalho em que o sinistrado se ocupava.

III - Não existindo o nexo de causalidade entre o acidente e o trabalho, não existe acidente de trabalho
indemnizavel.

STJ 09-11-95: COSTA SOARES

RESPONSABILIDADE CIVIL POR ACIDENTE DE VIAÇÃO



NEXO DE CAUSALIDADE

MATÉRIA DE FACTO

TEORIA DA CAUSALIDADE ADEQUADA

MATÉRIA DE DIREITO

ÓNUS DA PROVA

OBRIGAÇÃO DE INDEMNIZAR

EQUIDADE

FACTO NOTÓRIO

CPC67 ART514.

CCIV66 ART342 N1 ART562 ART563 ART566 N3.

AC STJ DE 1987/11/26 IN BMJ N371 PAG402.



AC STJ DE 1992/02/11 IN BMJ N414 PAG455.

AC STJ DE 1992/12/03 IN BMJ N422 PAG365.

I - No plano da causalidade, nos danos resultantes de acidente de viação, a primeira operação destina-se a
averiguar no puro plano naturalístico ou físico, se os danos resultam de um acto ou omissão da pessoa em
relação à qual se formula a pretensão indemnizatória; implica ou envolve unicamente uma questão de facto.

II - E tem de apurar-se, num segundo momento, se o facto, apreciado em abstracto, era apropriado
(adequado) para produzir os danos; esta segunda operação envolve uma questão de direito pois implica um
juízo normativo ou de valor que tem de ser emitido em conformidade com um critério - o critério da
causalidade adequada - fixado pelo legislador.

III - O ónus da prova da causalidade incumbe ao lesado.

IV - O nexo de causalidade desempenha a dupla função de pressuposto da responsabilidade civil e da
medida da obrigação de indemnizar em cujo cálculo prepondera a teoria da diferença com recurso, se
necessário, aos critérios da equidade.

V - É da exclusiva competência das instâncias apreciar se certo facto é ou não notório.

STJ 27-05-97 RIBEIRO COELHO

ELEMENTO CONSTITUTIVO

FACTO ILÍCITO

DANO

NEXO DE CAUSALIDADE

CULPA

PRESUNÇÃO DE CULPA

VEÍCULO

ILUMINAÇÃO

ACTUALIZAÇÃO DA INDEMNIZAÇÃO


!134
RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

JUROS DE MORA

DESVALORIZAÇÃO DA MOEDA

CAUSALIDADE NORMATIVA

RESPONSABILIDADE EXTRA CONTRATUAL

CCIV66 ART483 ART566 N2 ART570 N1.



CE54 ART7 N3 ART20 N1 N2 ART30 N2 B.

PORT 339/87 DE 1987/04/24.

PORT 1171/95 DE 1995/09/25.

AC STJ DE 1961/02/21 IN BMJ N104 PAG417.



AC STJ DE 1982/10/14 IN BMJ N320 PAG422.

AC STJ DE 1987/01/06 IN BMJ N363 PAG488.

AC STJ PROC161/96 DE 1997/01/22. Sumário :

I - A responsabilidade civil extra contratual pressupõe, fora dos casos em que se funda no risco, uma
conduta ilícita (porque ofende direitos alheios ou uma norma legal destinada a acautelá-los), a produção de
danos, um nexo de causalidade adequada entre aquela e estes e a culpa do agente.

II - Decorrendo a ilicitude da violação de um preceito de lei, pode até afirmar-se que há uma causalidade
normativa - ao formular o preceito, o legislador já partiu da idoneidade da sua inobservânica para ofender
interesses alheios.

A culpa na produção dos danos presume-se, então.

III - A circulação nocturna, mesmo em locais iluminados, obriga

à sinalização luminosa dos veículos, quer através de luz própria, quer pela instalação de reflectores.


STJ :25-11-98: MATOS NAMORA

TEORIA DA CAUSALIDADE ADEQUADA



MATÉRIA DE FACTO

MATÉRIA DE DIREITO

NEXO DE CAUSALIDADE

COMPETÊNCIA DO SUPREMO TRIBUNAL DE JUSTIÇA

RESPONSABILIDADE EXTRA CONTRATUAL

CCIV66 ART563 N1.



CPC67 ART722 N2 ART729 N2.

I - O nexo de causalidade apresenta não só aspectos de facto, mas também de direito.



II - O juízo sobre a causalidade, encarada no plano naturalístico, constitui matéria de facto, insindicável
pelo Supremo.

III - A interpretação e aplicação do conceito de causalidade, enquanto causalidade adequada - no sentido de
que é preciso que o dano tenha resultado da conduta do agente segurado o que era razoável esperar
conforme o uso normal das coisas -, constitui matéria de direito.

STJ 24-02-99 DIONISIO CORREIA

NEXO DE CAUSALIDADE

MATÉRIA DE FACTO

MATÉRIA DE DIREITO

CCIV66 ART342 N1 ART406.

!135
RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

I - Constitui questão de facto a averiguação do nexo de causalidade naturalística entre o tipo de embalagem
utilizada no transporte e o rompimento das mesmas embalagens e danos subsequentes.

II - Constitui, já, matéria de direito a questão de saber se, uma vez provada a dita causalidade naturalística,
ela releva como causa adequada, segundo os valores legais, daqueles danos.


STJ 18-05-99 NORONHA DO NASCIMENTO

NEXO DE CAUSALIDADE

CAUSALIDADE NORMATIVA

CCIV66 ART563.

I - A causalidade naturalística não pode ser valorada pelo Supremo, já que se reconduz à apreciação dos
factos; mas a causalidade jurídica, essa pode-o ser porque do que se trata é de saber se um conjunto de
factos pode e deve ser considerado causa adequada do evento danoso.

II - Se o condutor de um veículo pesado resolve circular numa estrada proíbida ao trânsito de pesados e
colide com um motociclista numa ponte onde só meia-faixa estava disponível ao trânsito e onde, por força
da largura do camião, não restava ao motociclista espaço para passar, uma tal conduta, do condutor do
pesado, é juridicamente causal do acidente.

III - No direito civil português, está consagrada a modalidade negativa da teoria da causalidade adequada,
que se encontra paredes-meias com a teoria da equivalência das condições.

2. Consequências
a. A questão da indemnização do dano-morte

2ª HIPÓTESE

3. Pressupostos
a. Facto voluntário
b. Ilícito: violação do direito à vida
c. Culposo: negligente
i. Regime especial do art. 492º/1 (para quem tem o dever
de vigilância – seja proprietário, seja detentor onerado
com esse mesmo dever) de coisas e animais
perigosos)? Não: explosivos, combustíveis, máquinas,
auto-estradas, elevadores, balizas, armas, venenos);
animais de companhia
ii. Regime especial do art. 493º, nº 2 (prática de actividades
perigosas pela sua natureza)?
É duvidoso : PL/AV, 469 (navegação marítima/aérea); tal
como a construção de barragens,, comércio de
substancias perigosas, fabrico de foguetes, lançamento
de foguetes, corridas automóveis
iii. Se sim, presume-se a culpa, ilidível, mas em termos
mais exigentes do que, v.g., a do art. 503/2 ou mesmo do
nº 1 do art. 493º, pois

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

1. é irrelevante a causa virtual, ao contrário do que


sucede no nº 1
(por regra, na responsabilidade civil há uma negação de uma
RELEVÂNCIA POSITIVA da causa virtual (i.e., de que o autor da
causa virtual seria responsável, como o autor da causa real> tal
seria contrário ao critério da causalidade adequada exigido pelo
art. 483, ao imputar o dano a quem não lhe deu causa) e uma
negação da RELEVÂNCIA NEGATIVA da causa virtual (i.e., de
que o autor da causa real seria desresponsabilizado se
demonstrar que o dano sempre ocorreria (v.g., no art. 493/1) ao
ignorar a imputação do dano a quem não lhe deu causa
Ora aqui apenas se afasta a culpa se se demonstrar
que empregou todas as providências exigidas pelas
circunstâncias com o fim de prevenir o dano (sendo
irrelevante uma causa virtual para o mesmo dano)
iv. Se não, valem as regras gerais do art. 487º

d. causal?

4. Consequências
a. A questão da indemnização do dano-morte

JURISPRUDÊNCIA

STJ 06-06-2002 ABEL FREIRE

CORRIDA DE AUTOMÓVEIS

ACTIVIDADES PERIGOSAS

PRESUNÇÃO DE CULPA

INVERSÃO DO ÓNUS DA PROVA

CE94 ART134.

DL 522/85 DE 1985/12/31 ART9.

CCIV66 ART493 N2.
AC STJ DE 1989/02/10 IN BMJ N384 PAG515.

AC RP DE 1991/11/05 IN BMJ N411 PAG647.

AC RP DE 1986/02/20 IN BMJ N361 PAG597.

I- É de considerar como "actividade perigosa" nos termos e para os efeitos do n. 2 do art. 493 do
C.Civil a realização, na via pública, de uma prova desportiva de "karting".

II- A organização de um tal tipo de provas desportivas com veículos terrestres motorizados só pode
ser efectuada mediante a realização de um seguro específico, extensivo aos proprietários desses
veículos e aos respectivos participantes.

III- A entidade organizadora responderá pelos danos causados pelo atropelamento de um intruso
peão entrado na pista para assistir a um concorrente seu filho acidentado se não provar ter usado
de todas as providências exigidas pelas circunstâncias para prevenir o sinistro.

!137
RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

3ª HIPÓTESE

1. Pressupostos
a. Facto voluntário omissivo
i. Art. 486
ii. A omissão não pode gerar fisicamente o dano sofrido,
mas entende-se que é causa jurídica do dano sempre
que haja o dever jurídico especial de praticar um acto
que seguramente, ou muito provavelmente, teria
impedido a consumação
b. Ilícito: violação do dever de auxílio
i. Banheiro: tem um dever legal
ii. E as pessoas, em geral?
c. Culposo: negligente
d. causal

4ª HIPÓTESE

Imputabilidade > art. 488/1: presunção de imputabilidade dos maiores de 7


anos

Resp. vigilantes + causa virtual (relevância negativa)> 491

Resp. Solidária (487) entre menor e vigilante

CASO PRÁTICO nº 26

A, acossado por uma fortíssima dor de dentes, foi ao odontologista que tinha consultório
junto à sua residência (B) tendo obtido claras melhoras depois de uma série de tratamentos
sofisticados à raiz de um dente cujo custo o forçou a vender a garagem.
Cinco anos depois, A teve de ser transportado de urgência para o hospital, na sequência de
fortíssimas dores no dente que fora objecto de intervenção, tendo sido diagnosticada uma
infecção gravíssima em consequência de um produto cancerígeno que fora introduzido na raiz do
dente. Apurou-se que, à data do tratamento, o produto já tinha sido retirado do mercado, dada a
sua perigosidade.
Dada a gravidade do caso, e perante a incapacidade dos médicos para resolverem a
situação, A decidiu ir para Hong-Kong, onde, depois de três meses de estadia, conseguiu curar-se
com recurso a um complexo e caro processo de medicina oriental.

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

A teve de vender a casa para acudir às despesas e agora exige a B uma indemnização
correspondente aos danos patrimoniais e não patrimoniais sofridos nos últimos cinco anos.
B refere que não tem culpa no acontecido, já que o produto fora ministrado, contra as
suas instruções, por uma enfermeira que, entretanto fora já despedida por crueldade para com os
pacientes; de qualquer modo, acrescenta, a sua responsabilidade, a existir, teria prescrito havia já
dois anos.
Quid juris?

M. JANUÁRIO COSTA GOMES/CARLOS BARATA, Direito das Obrigações. Casos Práticos e


outros Elementos para as Aulas Práticas 2, Lisboa, AAFDL, 2007, 82-83.

1. B, responde em concurso
- contratualmente (arts. 762º, 483º, 798º, 799º): violação de
deveres de cuidado decorrentes da boa fé
- extracontratualmente (art. 500/1 e 2), enquanto comitente
[e até extracontratualmente enquanto violação de deveres
gerais de cuidado
- discussão das situações de concurso entre Rccontratual e
extracontratual (cf. ALMEIDA COSTA); PPESSOAL: prevalece o
regime contratual por ser especial e mais favorável ao lesado
-
2. E (enfermeira) responde por culpa, nos termos do art. 483º
3. Prescrições:
a. contra o B: art. 498º (como comitente) e art. 309º ( como
prestador de serviços; discussão quanto à não aplicação do
art. 498 na res. contratual)
b. contra o E: art. 498
4. Danos: patrimoniais> apenas o valor do tratamento
5. Danos não patrimoniais> responde B por danos não patrimoniais,
enquanto prestador de serviços? Discussão (cf. MLEITÃO> sim).

JURISPRUDÊNCIA

STJ 04-03-2008 FONSECA RAMOS

RESPONSABILIDADE MÉDICA
CONTRATO DE PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS
RESPONSABILIDADE CONTRATUAL
RESPONSABILIDADE EXTRA CONTRATUAL
OBRIGAÇÕES DE MEIOS E DE RESULTADO
OBRIGAÇÃO DE INDEMNIZAR
DANOS NÃO PATRIMONIAIS
ACTUALIZAÇÃO DA INDEMNIZAÇÃO
JUROS

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

Sumário :
I - Tendo o Autor solicitado ao Réu, enquanto médico anatomopatologista, a realização de um exame
médico da sua especialidade, mediante pagamento de um preço, estamos perante um contrato de
prestação de serviços médicos - art. 1154.º do Código Civil.
II - A execução de um contrato de prestação de serviços médicos pode implicar para o médico uma
obrigação de meios ou uma obrigação de resultado, importando ponderar a natureza e objectivo do
acto médico para não o catalogar a prioristicamente naquela dicotómica perspectiva.
III - Deve atentar-se, casuisticamente, ao objecto da prestação solicitada ao médico ou ao laboratório,
para saber se, neste ou naqueloutro caso, estamos perante uma obrigação de meios – a demandar
apenas uma actuação prudente e diligente segundo as regras da arte – ou perante uma obrigação de
resultado com o que implica de afirmação de uma resposta peremptória, indúbia.
IV - No caso de intervenções cirúrgicas, em que o estado da ciência não permite, sequer, a cura mas
atenuar o sofrimento do doente, é evidente que ao médico cirurgião está cometida uma obrigação de
meios, mas se o acto médico não comporta, no estado actual da ciência, senão uma ínfima margem de
risco, não podemos considerar que apenas está vinculado a actuar segundo as legis artes; aí, até por
razões de justiça distributiva, haveremos de considerar que assumiu um compromisso que implica a
obtenção de um resultado, aquele resultado que foi prometido ao paciente.
V - Face ao avançado grau de especialização técnica dos exames laboratoriais, estando em causa a
realização de um exame, de uma análise, a obrigação assumida pelo analista é uma obrigação de
resultado, isto porque a margem de incerteza é praticamente nenhuma.
VI - Na actividade médica, na prática do acto médico, tenha ele natureza contratual ou
extracontratual, um denominador comum é insofismável – a exigência [quer a prestação tenha
natureza contratual ou não] de actuação que observe os deveres gerais de cuidado.
VII - Se se vier a confirmar a posteriori que o médico analista forneceu ao seu cliente um resultado
cientificamente errado, então, temos de concluir que actuou culposamente, porquanto o resultado
transmitido apenas se deve a erro na análise.
VIII - No caso dos autos é manifesto que se acha feita a prova de erro médico por parte do Réu, - a
realização da análise e a elaboração do pertinente relatório apontando para resultado desconforme
com o real estado de saúde do doente.
IX - Por causa da actuação do Réu, o Autor, ao tempo com quase 59 anos, sofreu uma mudança
radical na sua vida social, familiar e pessoal, já que se acha impotente sexualmente e incontinente,
jamais podendo fazer a vida que até então fazia, e é hoje uma pessoa cujo modo de vida, física e
psicologicamente é penoso, sofrendo consequências irreversíveis, não sendo ousado afirmar que a sua
auto-estima sofreu um abalo fortíssimo.
X - Os Tribunais Superiores têm vindo a aumentar as compensações por danos não patrimoniais, mas
a diversidade das situações e, sobretudo, não sendo comparáveis a intensidade dos danos e o grau de
culpa dos lesantes, que só casuisticamente podem ser avaliados, não é legítimo invocar as
compensações que são arbitradas, por exemplo, em caso de lesão mortal, com aqueloutras que
afectam distintos direitos de personalidade.
XI - Atendendo aos factos e ponderando os valores indemnizatórios que os Tribunais Superiores vêm
praticando, a compensação ao Autor pelos danos não patrimoniais sofridos deve ser, equitativamente,
fixada em € 224.459,05.
XII - No caso dos autos, não tendo havido actualização da indemnização, e radicando, em última
análise, o pedido indemnizatório, num facto ilícito cometido pelo Réu, tem pertinência a aplicação do
regime constante da 2.ª parte do n.º 3 do art. 805 º do Código Civil.

JURISPRUDÊNCIA sobre o ART. 509 CC

STJ 27-11-2007 RUI MAURICIO

RESPONSABILIDADE MÉDICA
RESPONSABILIDADE CONTRATUAL
RESPONSABILIDADE EXTRA CONTRATUAL
CUMPRIMENTO DEFEITUOSO
DEVER DE DILIGÊNCIA

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

OMISSÃO
OBRIGAÇÃO DE INDEMNIZAR

Sumário :
I - A responsabilidade civil médica pode apresentar - e será, porventura, a situação mais frequente -
natureza contratual, assentando na existência de um contrato de prestação de serviço, tipificado no
art. 1154.º do CC, celebrado entre o médico e o paciente, e advindo a mesma do incumprimento ou
cumprimento defeituoso do serviço médico. Mas também pode apresentar natureza extracontratual,
prima facie quando não há contrato e houve violação de um direito subjectivo, podendo ainda a
actuação do médico ser causa simultânea das duas apontadas modalidades de responsabilidade civil.
II - São os mesmos os elementos constitutivos da responsabilidade civil, provenha ela de um facto
ilícito ou de um contrato, a saber: o facto (controlável pela vontade do homem); a ilicitude; a culpa; o
dano; e o nexo de causalidade entre o facto e o dano.
III - Provado que, no dia 27 de Junho de 2001, o A. sofreu rotura traumática (parcial) da coifa dos
rotadores, ao nível do ombro esquerdo, em consequência de um acidente abrangido por um contrato
de seguro de acidentes de trabalho, tendo, por indicação da respectiva seguradora, o A., em 3 de
Agosto de 2001, sido submetido a intervenção cirúrgica no Hospital ...., efectuada pelo R. ora
recorrente, que é médico, na especialidade de ortopedia, in casu a responsabilidade médica é de
natureza contratual e o A. logrou provar, como lhe competia - cfr. n.º 1 do art. 342.º do CC -, o
cumprimento defeituoso, a saber, ter o R. na intervenção cirúrgica que efectuou deixado uma
compressa no interior do corpo do A..
IV - Apesar de se ter provado que a enfermeira instrumentista procedeu ao controlo, por contagem,
dos ferros, das compressas, das agulhas, das lâminas de bisturi e dos fios de sutura utilizados e que,
nem durante a realização da cirurgia, nem no final, foi verificada qualquer anomalia nas diversas
contagens que tiveram lugar, o médico tinha o dever de não suturar o A. sem previamente se
certificar que na zona da intervenção cirúrgica não deixava qualquer corpo estranho,
nomeadamente, uma compressa.
V - O esquecimento de compressas ou de instrumentos utilizados na cirurgia dentro do corpo do
doente tem sido considerado como a omissão de um dever de diligência.
VI - Não tendo o médico logrado ilidir a presunção legal de culpa no defeito verificado, impende
sobre si a obrigação de indemnizar.

de Justiça
Processo:
STJ: 05-06-85 Vot ALVES CORTES

RESPONSABILIDADE EXTRACONTRATUAL

ENERGIA ELECTRICA

NEXO DE CAUSALIDADE


BMJ N348 ANO1985 PAG397


CCIV66 ART480 ART483 ART486 ART509.

CPC67 ART664.

DL 46847 DE 1966/01/27 ART27 ART62 ART163.

I - Incluem-se entre os deveres de conservação das redes de distribuição de energia electrica o de prever a
acção do vento sobre os respectivos cabos, e o de, consequentemente, providenciar por que estes se não
tenham a entrechocar por efeito daquela acção.

II - A acção da força de ventos fortes não ciclonicos concorrentes para o entrechoque dos cabos da
mencionada rede não constitui força maior excludente da responsabilidade civil da empresa distribuidora
pelos danos provocados por esse entrechoque.


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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

MÓDULO 9: ENRIQUECIMENTO SEM CAUSA

PONTO nº 18
Enriquecimento sem causa
CP nº 27 a 29

ENQUADRAMENTO DOGMÁTICO

ML, DOb I, 407 ss

CASO PRÁTICO nº 27

A pretende intentar uma acção, com fundamento em enriquecimento sem causa com vista
a ser reembolsado de

1ª Hipótese: 100 000 euros que entregou a B, como pagamento de um apartamento que lhe
comprou por escrito particular

2ª Hipótese: 2 500 euros que emprestou há 24 anos a C, cuja devolução ainda não conseguiu
obter

Quid juris?

M. JANUÁRIO COSTA GOMES/CARLOS BARATA, Direito das Obrigações. Casos Práticos e


outros Elementos para as Aulas Práticas 2, Lisboa, AAFDL, 2007, 73

1ª HIPÓTESE

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

5. Categorias de ES/C: por prestação, por intervenção, por realização de


despesas em benefício alheio e por desconsideração de património
intermédio

ARTIGO 474º
(Natureza subsidiária da obrigação)

Não há lugar à restituição por enriquecimento, quando a lei facultar ao


empobrecido outro meio de ser indemnizado ou restituído, negar o direito à
restituição ou atribuir outros efeitos ao enriquecimento.

CASO PRÁTICO nº 28

A conseguiu identificar D como autor do furto do seu automóvel, ocorrido há 40 meses.


Por sua vez, a Seguradora X, com idêntico fundamento, exige de A o reembolso dos 25 000 euros,
pagos a título de indemnização pelo furto do carro agora recuperado.
Por outro lado, contratado por E, pelo preço de 1500 euros, para pintar o exterior do seu
armazém, A enganou-se e procedeu à pintura do armazém contíguo, propriedade de G, que assim,
de imediato, dispensou os serviços de H, a quem iria pagar 2 000 euros para proceder a idêntica
tarefa. O armazém de G ficou valorizado em 1 750 euros.

Quid juris?

M. JANUÁRIO COSTA GOMES/CARLOS BARATA, Direito das Obrigações. Casos Práticos e


outros Elementos para as Aulas Práticas 2, Lisboa, AAFDL, 2007, 73-74.

1ª HIPÓTESE: enriquecimento por prestação

1. Pressupostos (art. 473º)


a. Enriquecimento patrimonial
i. > valor da prestação (sentido patrimonial individual)
1. havendo destruição, perde-se o enriquecimento,
salvo sub-rogação
ii. > valor da diferença patrimonial (sentido patrimonial
global): incluem-se perdas e ganhos conexos
supervenientes; não se contariam bens que não se
traduzissem, ao menos, em poupança de despesas
iii. AC: segue P2
iv. ML: segue P1> o que conta é a aquisição concreta
injusta( = art. 473/1), seja de
1. um direito subjectivo
2. extinção de situação passiva

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

3. obtenção da faculdade de disposição sobre bem


alheio
4. obtenção de posse
b. À custa de outrém> ou seja à custa de bens do autor da
prestação
c. Sem causa justificativa: condictio ob causa finitam (ML, p. 425),
prevista no art. 473º/2

A obrigação de restituir, por enriquecimento sem causa, tem de modo especial


por objecto o que for indevidamente recebido, ou o que for recebido por virtude
de uma causa que deixou de existir ou em vista de um efeito que não se
verificou.

2. Objecto da obrigação de restituir (art. 479º)


a. ML: Enriquecimento real l > valor da prestação
b. AC: Teoria do duplo limite

2ª HIPÓTESE: enriquecimento por despesas efectuadas por outrém /


incremento do valor de coisas alheias

> REGIME DA ACESSÃO

1. Enriquecido> G
2. Empobrecido> E (A é um seu comissário), não chegando a haver um
enriquecimento mediato, sequer
3. Não há aqui um regime de enriquecimento sem causa (474)
4. Parece tratar-se de
4.1. uma acessão industrial imobiliária de boa fé> deve o
enriquecido indemnizar o empobrecido
4.2. e não de benfeitorias de boa fé (pois não há uma relação entre G
e F)

ARTIGO 1340º
(Obras, sementeiras ou plantações
feitas de boa fé em terreno alheio)

1. Se alguém, de boa fé, construir obra em terreno alheio, ou nele fizer sementeira ou
plantação, e o valor que as obras, sementeiras ou plantações tiverem trazido à
totalidade do prédio for maior do que o valor que este tinha antes, o autor da
incorporação adquire a propriedade dele, pagando o valor que o prédio tinha antes das
obras, sementeiras ou plantações.

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

2. Se o valor acrescentado for igual, haverá licitação entre o antigo dono e o autor da
incorporação, pela forma estabelecida no nº 2 do artigo 1333º.

3. Se o valor acrescentado for menor, as obras, sementeiras ou plantações pertencem


ao dono do terreno, com obrigação de indemnizar o autor delas do valor que tinham ao
tempo da incorporação.

4. Entende-se que houve boa fé, se o autor da obra, sementeira ou plantação


desconhecia que o terreno era alheio, ou se foi autorizada a incorporação pelo dono do
terreno.

5. O prédio foi valorizado em 1750 euros


6. Esse valor presume-se menor que o valor primitivo
7. Logo vale o nº 3: o G tem de dar o valor da pintura: 1500 euros?
10. Contudo, o regime da acessão pode pedir o uso de regras de
enriquecimento sem causa> v. 1334/1

> REGIME DE BENFEITORIAS

ARTIGO 1273º
(Benfeitorias necessárias e úteis)

1. Tanto o possuidor de boa fé como o de má fé têm direito a ser indemnizados das


benfeitorias necessárias que hajam feito, e bem assim a levantar as benfeitorias úteis
realizadas na coisa, desde que o possam fazer sem detrimento dela.

2. Quando, para evitar o detrimento da coisa, não haja lugar ao levantamento das
benfeitorias, satisfará o titular do direito ao possuidor o valor delas, calculado segundo
as regras do enriquecimento sem causa.

1. Pressupostos
1.1. Enriquecimento> poupança de despesas (2000), mais
valorização (1750) = 3750
1.1.1. tese da diferença se tivesse feito as obras tinha agora 9750
(a partir de uma base de 10 000); como não as fez tem agora
11750)> logo enriqueceu em 2000
1.2. Empobrecimento> 1500
2. Obrigação de restituir (art. 479)
2.1. Tese do duplo limite> deve restituir 1500
2.2. Tese de ML> deve restituir apenas
2.2.1. Tese de REUTER/MARTINEK: o enriquecimento consistiu na
poupança de despesas (2000 euros)?
2.2.2. Não: segue a tese de KOPPENSTEINER / KRAMER> o
enriquecimento consistiu em tudo o que se adquiriu por
virtude do direito obtido> 3750 euros ?

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

CASO PRÁTICO nº 29

A conhecido apresentador de televisão, assumiu a posição de fiador, garantindo uma dívida de


5 000 euros, contraída por I perante J, com vencimento a 31 de Dezembro. No início de
Novembro, A pagou os 5 000 euros a J., por transferência bancária, sem querer já que se
enganou ao escrever o NIB. Na verdade, pretendia pagar a sua renda de casa.

Por outro lado, sem o consentimento de A, O tirou-lhe algumas fotografias conduzindo o seu
carro de marca Ferrari, que depois
▪ veio a utilizar numa campanha publicitária de refrigerantes, produzidos
pela empresa de que é titular
▪ revendeu a uma revista cor-de-rosa de mexericos e eventos sociais
Finalmente, A foi pescar para as Berlengas no seu iate. L, seu melhor amigo, queria fazer o
mesmo mas, como não tinha iate, nem A lhe dava boleia, seguiu escondido no iate de A, sendo
apenas descoberto na viagem de regresso. L pescou 20 Kg de peixe.Pode A exigir-lhe esse peixe?

Quid juris?

M. JANUÁRIO COSTA GOMES/CARLOS BARATA, Direito das Obrigações. Casos Práticos e


outros Elementos para as Aulas Práticas 2, Lisboa, AAFDL, 2007, 74 (salvo a segunda pergunta
e a referência ao Ferrari)

1ª HIPÓTESE: pagamento antecipado do crédito

1. Pressupostos
1.1. Enriquecimento> poupança de despesas (2000), mais
valorização (1750) = 3750
1.2. Empobrecimento> 1500
2. Obrigação de restituir (art. 479)
2.1. Tese do duplo limite> deve restituir 1500
2.2. Tese de ML> deve restituir apenas
2.2.1. Tese de REUTER/MARTINEK: o enriquecimento consistiu na
poupança de despesas (2000 euros)?
2.2.2. Não: segue a tese de KOPPENSTEINER / KRAMER> o
enriquecimento consistiu nas benfeitorias adquiridas> 1500
euros ?
2.3. Momento do cálculo: 479/2 > enriquecimento actual
2.4. Agravamento> 480
2.5. Prescrição> 482

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

2ª HIPÓTESE: imagem

3ª HIPÓTESE: pescado

1. Obrigação de restituit
1.1. ACOSTA: Aqui não há empobrecimento> deve-se usar a ideia de
dano real, i.e., o valor objectivo do uso do barco
1.2. = ML; apenas o valor da exploração e não de todo o ganho
obtido: o valor locativo

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

MÓDULO 10: GESTÃO DE NEGÓCIOS

PONTO nº 19
Gestão de negócios
CP nº 30

ENQUADRAMENTO DOGMÁTICO

ML, DOb I, 485 ss

35. Quais são os pressupostos da gestão de negócios?

ARTIGO 464º
(Noção)

Dá-se a gestão de negócios, quando uma pessoa assume a direcção de


negócio alheio /no interesse e por conta do respectivo dono/, sem para tal
estar autorizada.

Portanto:

a. Assunção da direcção (gestão) de negócio alheio


i. Gestão: noção e objecto
ii. Alienidade
1. objectiva; por intervenção nos bens do dominus

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

2. subjectiva: sem intervenção nos bens do


dominus
b. Interesse e por conta do dominus
i. Utilidade
ii. Intenção
c. Falta de autorização

36. Quais são os deveres do gestor para com o dono do negócio?

ARTIGO 465º
(Deveres do gestor)

O gestor deve:

a) Conformar-se com o interesse e a vontade, real ou presumível, do dono do


negócio, sempre que esta não seja contrária à lei ou à ordem pública, ou
ofensiva dos bons costumes;

b) Avisar o dono do negócio, logo que seja possível, de que assumiu a gestão;

c) Prestar contas, findo o negócio ou interrompida a gestão, ou quando o dono


as exigir;

d) Prestar a este todas as informações relativas à gestão;

e) Entregar-lhe tudo o que tenha recebido de terceiros no exercício da gestão ou


o saldo das respectivas contas, com os juros legais, relativamente às quantias
em dinheiro, a partir do momento em que a entrega haja de ser efectuada.

ARTIGO 467º
(Solidariedade dos gestores)

Havendo dois ou mais gestores que tenham agido conjuntamente, são solidárias
as obrigações deles para com o dono do negócio.

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

37. O gestor está sujeito a algum tipo de responsabilidade para com


o dono do negócio?

Sim:

ARTIGO 466º
(Responsabilidade do gestor)

1. O gestor responde perante o dono do negócio, tanto pelos danos a que der
causa, por culpa sua, no exercício da gestão, como por aqueles que causar com
a injustificada interrupção dela.

2. Considera-se culposa a actuação do gestor, quando ele agir em


desconformidade com o interesse ou a vontade, real ou presumível, do dono do
negócio.

38. Quais são os deveres o dono do negócio perante o gestor?

ARTIGO 468º
(Obrigações do dono do negócio)

1. Se a gestão tiver sido exercida em conformidade com o interesse e a vontade,


real ou presumível, do dono do negócio, é este obrigado a reembolsar o gestor
das despesas que ele fundadamente tenha considerado indispensáveis, com
juros legais a contar do momento em que foram feitas, e a indemnizá-lo do
prejuízo que haja sofrido.

2. Se a gestão não foi exercida nos termos do número anterior, o dono do


negócio responde apenas segundo as regras do enriquecimento sem causa,
com ressalva do disposto no artigo seguinte.

!151
RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

1. Dependem, consoante seja uma gestão REGULAR ou uma gestão


IRREGULAR
a. REGULAR (exercida em conformidade com o interesse e a
vontade, real/presumível, do dominus = dever constante do
art. 465º, nº 1, al a))
i. obrigação de reembolso de todas as despesas
suportadas, desde que tenham sido “fundadamente “
considerado “indispensáveis” (art. 468º, nº 1, 1ª parte)

Portanto, a “lei não exige que as despesas sejam indispensáveis


[objectivamente] (...) pelo que o dono do negócio poderá em certos casos ver-se
forçado a indemnizar despesas de que objectivamente não beneficia” (ML, 497).
Ou seja: a lei quer que o gestor receba o que gastou, sem cuidar de uma
aprovação dessas despesas (basta a aprovação geral da gestão)
Por outro lado, não há uma remuneração ao lado desses reembolsos,
salvo se a gestão corresponder à actividade profissional do gestor (art. 470º/1).
Neste caso, a fixação da remuneração é feita segundo as regras do mandato
oneroso (art. 1158º, nº 2 ex vi art. 470º, nº 2): “não havendo ajuste entre as
partes, é determinada pelas tarifas profissionais; na falta destas, pelos usos; e,
na falta de umas e outros, por juízos de equidade”.
A ratio desta ausência de remuneração é ser desconforme ao espírito
(altruísta, não interessado) do instituto, além de que essa ausência só por si
mesma não é causa de dano.

ii. obrigação de juros legais sobre essas despesas (art.


468º, nº 1, 2ª parte), ou seja de 4%, ex vi art. 559º, nº 1 e
art. 1º, Port. 291/2003, de 8 de Abril
iii. obrigação de indemnização dos prejuizos sofridos (art.
468º, nº 1, 3ª parte)

b. IRREGULAR (exercida em desconformidade com o interesse e


a vontade, real/presumível, do dominus = com violação do
dever constante do art. 465º, nº 1, al a))

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

i. Obrigação de pagamento de despesas nos termos


gerais do enriquecimento (art. 468º, nº 2), eventualmente
por meio de uma acção de enriquecimento contra o
devedor/dominus, por por outrem, sem que possa
invocar compensação

2. Os direitos conferidos ao gestor no art. 468º, nº 1, existem por si


mesmos, independentemente da aprovação. Ou seja, se o dominus nada
disser bem pode o gestor alegar e demonstrar que actuou dentro do dever
constante do art. 465º, nº 1, al a)).

39. Quid juris se o dominus aprovar a gestão?

ARTIGO 469º
(Aprovação da gestão)

A aprovação da gestão implica a renúncia ao direito de indemnização pelos


danos devidos a culpa do gestor e vale como reconhecimento dos direitos que a
este são conferidos no nº 1 do artigo anterior.

1. Quanto à idemnização relembre-se que o respectivo direito


pressupunha uma desconformidade com o interesse/vontade real/presumível do
dominus (cf. art. 466º, nº 1O.
Ora a “aprovação implica um juizo global do dominus em relação à
actuação do gestor, significando que esta a considera em geral conforme com o
seu interesse e vontade”, ficando o dominus impedido de “isoladamente
considerar que, em determinado acto o gestor actuou em desconformidade com
os seus deveres” (ML, DOb I cit., 498)

!153
RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

2. Vimos que os direitos conferidos ao gestor no art. 468º, nº 1, eles


existem por si mesmos, independentemente da aprovação, mas caberá ao
gestor alegar e demonstrar que actuou dentro do dever constante do art. 465º,
nº 1, al a)). Ora o negócio jurídico unilateral de aprovação dispensa essa
prova, pois traduz-se num reconhecimento dos direitos.

40. Qual é a posição do dominus em face de terceiros, quando o


gestor realiza actos jurídicos?

1. Trata-se de uma questão que não se levanta quanto aos actos


materiais praticados pelo gestor – v.g., reparar pelos seus meios uma torneira do
vizinho.

2. Mas já se levanta quanto aos actos jurídicos praticados pelo gestor,


maxime de contratos celebrados entre este e terceiros. A solução consta do art.
471º

Sem prejuízo do que preceituam os artigos anteriores quando às relações


entre o gestor e o dono do negócio, é aplicável aos negócios jurídicos
celebrados por aquele em nome deste o disposto no artigo 268º; se o gestor os
realizar em seu próprio nome, são extensivas a esses negócios, na parte
aplicável, as disposições relativas ao mandato sem representação.

3. Deste modo temos de distinguir entre gestão de negócios representiva


(i.e., realizada pelo gestor em nome do dominus) e gestão de negócios não
representativa (i.e., realizada pelo gestor em nome de si próprio).

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41. Qual é o regime da gestão de negócios representativa?

1. Na gestão de negócios representativa o gestor celebra actos jurídicos


em nome do dominus, mas sem poderes de representação, i.e., sem uma
procuração, como, em termos gerais se dispõe no art. 268º, nº 1. Então, os
actos serão ineficazes salvo se forem ratificados pelo dominus (art. 268º, nº1 in
fine). A ratificação é assim o negócio jurídico unilateral “pelo qual o dono do
negócio se apropria dos efeitos jurídicos dos negócios celebrados pelo gestor
em nome daquele” (ML, DOb I cit., 499).

2. A ratificação está sujeita à forma exigida para a procuração e tem eficácia


retroactiva, sem prejuízo dos direitos de terceiro.
3. Considera-se negada a ratificação, se não for feita dentro do prazo que
outra parte fixar para o efeito.
4. Enquanto o negócio não for ratificado, tem a outra parte [o terceiro] a faculdade de
o revogar ou rejeitar, salvo se, no momento da conclusão, conhecia a falta de poderes
do representante.

2. Depois de duas:

--> ou o dominus ratifica, na forma exigida para a procuração, pelo que


por via retroactiva assumirá a posição jurídica respectiva na sua esfera
jurídica (nº 2)
--> ou o dominus não ratifica e o negócio é ineficaz em termos
absolutos como dispõe o art. 268º, nº1, pois ele não foi sequer celebrado em
nome do gestor. Não está excluída a possibilidade, porém, de este responder
por culpa in contrahendo (cf. art. 227º)

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Elementos de Direito das Obrigações

3. Quid juris se uma das partes (o gestor ou terceiro) já realizou uma


prestação (v.g., fez a obra, entregou o móvel, vendeu um bem) contando a
ratificação? A doutrina divide-se

P1 (PESSOA JORGE) > aplica-se o regime da nulidade, pois está-se


perante uma invalidade material por falta de um sujeitos do negócio:
valeria o art. 289º (restituição da prestação realizada)
P2 (MENEZES LEITÃO) > aplica-se o regime do enriquecimento sem
causa, por realização de uma prestação em vista de um efeito que não se
verificou (cf. art. 473º, nº 2, in fine), pois está-se perante a falta de uma das
declarações negociais, logo não se chegou a celebrar negócio

3. A ratificação dos actos jurídicos implica a aprovação da gestão de


negócios? A doutrina divide-se

P1 (PESSOA JORGE) > a ratificação implica uma aprovação tácita da


gestão
P2 (AV, AC) > são actos distintos, pelo que a ratificação não implica
a aprovação a evice-versa; No mesmo sentido, vai ML, DOb I cit., 500: “são
actos completamente diferentes”, sem que a realização de um implique
tacitamente o outro

! tanto nos requisitos de forma: a aprovação não segue forma


especial (valem os arts. 219º e 217), mas já a ratificação está sujeita à
forma prescrita para a procuração (art. 268º, nº 2)
! quanto nos efeitos jurídicos: a aprovação ocorre nas relações
internas e destina-se a reconhecer os direitos a reembolsos de despesas e
indemnização, enquanto a ratificação ocorre nas relações externas,
visando tornar eficaz um acto jurídico
PPESSOAL: parece ser possível que a ratificação implique
tacitamente a aprovação, se for uma circunstância de entre um quadro das
circunstâncias que vai globalmente nesse sentido

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RP – 2007/2008 (v. 1.0)
Elementos de Direito das Obrigações

42. Qual é o regime da gestão de negócios não representativa?

1. Na gestão de negócios não representativa o gestor celebra actos


jurídicos em nome próprio, pelo que está excluída uma possível ratificação.
Valem as regras do mandato sem representaçãoi

ARTIGO 1180º
(Mandatário que age em nome próprio)

O mandatário, se agir em nome próprio, adquire os direitos e assume as


obrigações decorrentes dos actos que celebra, embora o mandato seja
conhecido dos terceiros que participem nos actos ou sejam destinatários destes.

ARTIGO 1181º
(Direitos adquiridos em execução do mandato)

1. O mandatário é obrigado a transferir para o mandante os direitos adquiridos


em execução do mandato.

2. Relativamente aos créditos, o mandante pode substituir-se ao mandatário no


exercício dos respectivos direitos.

ARTIGO 1182º
(Obrigações contraídas em execução do mandato)

O mandante deve assumir, por qualquer das formas indicadas no nº 1 do artigo


595º [assunção de dívida], as obrigações contraídas pelo mandatário em
execução do mandato; se não puder fazê-lo, deve entregar ao mandatário os
meios necessários para as cumprir ou reembolsá-lo do que este houver
despendido nesse cumprimento.

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Elementos de Direito das Obrigações

43. O que é gestão de negócios julgados próprios?

1. É quando o sujeito gestor actuou convencido de que o negócio lhe


pertence. Confirma-se assim que um dos requisitos da gestão de negócios é
a intenção dessa gestão (animus aliena negotia gerendi), como já decorria do
art. 464º ao referir “por conta” do dono do negócio

2. De duas uma, como decorre do art. 472º

! ou há aprovação da gestão, nos termos do art. 469º, com a aquisição


de direitos a favor do gestor nos termos do art. 468º, nº1 e os deveres
deste perante o dominus (cf. art. 465º)
! ou, caso contrário, vale o regime do enriquecimento sem causa

Valem, então, as regras do art. 479º, nº 1

1. A obrigação de restituir fundada no enriquecimento sem causa compreende


tudo quando se tenha obtido à custa do empobrecido ou, se a restituição em
espécie não for possível, o valor correspondente.

Mas se esta ingerência foi culposa (i,e., negligente), manda o art. 472º, nº 2
que “ são aplicáveis ao caso as regras da responsabilidade civil”.

44. O que é gestão de negócios imprópria?

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Elementos de Direito das Obrigações

1. É quando o sujeito gestor actuou por conta própria, mas sabendo que
que o negócio não é seu; i.e., ele acha que pode fazer melhor que o dominus.
Conhece.-se a alienidade, mas move-se por um animu depraedandi.

ML: aplica-se por analogia o art. 472º, ainda: aprovação ou


enriquecimento sem causa

CASO PRÁTICO nº 30

A, colega de B, deparou, numa galeria de arte, com uma tela de Vieira da Silva que há
muito B, em gozo de férias no estrangeiro, tentava adquirir.
Convencido de que assim seria agradável a B, A convencionou com C, dono da galeria, e em
nome próprio, o seguinte:

a) C venderia o quadro dois dias depois, pelo preço de 5 000 euros, a pagar em 5 prestações
mensais iguais, vencendo-se a primeira no momento da entrega do quadro;
b) O pagamento do preço ficaria, pessoalmente, garantido por D, irmão de B;

Ficou também acordado que na data da venda C entregaria a A uma cópia de um quadro
de Salvador Dali, que este adquiriu em nome de B, por 500 euros, tendo pago metade do preço.

Dois dias depois, A deslocou-se à galeria, onde pagou a C 1 000 euros e recebeu os dois
quadros que, com a ajuda de D, colocou na parede do “hall” da vivenda de B.
Regressado do estrangeiro, B manifesta a sua discordância em relação ao comportamento
de A. Acrescenta, referindo-se a Dali, que A sabia perfeitamente que só se interessava por
originais. No entanto, ratifica a aquisição da cópia, a qual vende de imediato a E, por 750 euros.
A, magoado com B, deixa de pagar a 2ª prestação a C, exigindo a B o pagamento das
despesas efectuadas, o reembolso das quantias entregues a C com juros legais e o lucro obtido por
B na venda do Dali. C, por sua vez, exige o pagamento dos 4 000 euros em falta a D.

Caracterize juridicamente os deveres e direitos dos intervenientes

M. JANUÁRIO COSTA GOMES/CARLOS BARATA, Direito das Obrigações. Casos Práticos e


outros Elementos para as Aulas Práticas 2, Lisboa, AAFDL, 2007, 72

1. Negócio 1 (compra do VS por 5000, com fiador)

a. Gestão regular, pois conforme ao interesse e à vontade


presumível
b. Negócio em nome próprio

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Elementos de Direito das Obrigações

i. Regime do mandato s/ rep. (CC art..1180): as dívidas são


suas
c. Negócio não aprovado; que direitos?
i. > os do art. 468/1, se o gestor demonstrar que actuou de
acordo com a vontade real/presumível do dominus

1. obrigação de juros legais sobre essas despesas


(art. 468º, nº 1, 2ª parte), ou seja de 4%, ex vi art.
559º, nº 1 e art. 1º, Port. 291/2003, de 8 de Abril
2. obrigação de indemnização dos prejuizos
sofridos (art. 468º, nº 1, 3ª parte)
ii. se não demonstrar apenas se pode socorrer do
enriquecimento sem causa (468/2), o que aqui NÃO
ocorre por falta de enriquecimento do B: este não
viu o seu património aumentado (isso sucederia se, por
exemplo, tivesse havido uma alienidade objectiva – v.g.,
compor uma casa; aqui, como a alienidade é subjectiva)

2. Negócio 2 (compra do Dali)

a. Gestão irregular, pois contrária à vontade presumível do dono,


embora (porventura) conforme ao seu interesse (i.e., é
objectivamente útil para o dominus)
i. O que prevalece se o interesse é contrário à vontade
1. GTELLES / MC: o gestor deve abster-se de actuar
2. VSERRA/RIBEIRO MENDES: prevalece o interesse
3. ML: prevalece, embora em termos variáveis, a
vontade do dominus
b. negócio em nome alheio
i. Regime da rep. Sem poderes: 271
ii. Ratificação
c. Negócio não aprovado (apesar de ratificado), ainda que
tacitamente s/ rep. (CC art..1180):
i. Enriquecimento sem causa? Sim, porque in casu o
dominus viu o A pagar-lhe metade de uma obrigação
sua (enriq. Por pagamento de despesas)
ii. Qual a medida desse enriquecimento
1. Teoria Tradicional
2. Mleitão: apenas o valor do benfício (i.,e, da
liberação)

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