Você está na página 1de 127

UNIVERSIDADE POSITIVO

PROGRAMA DE MESTRADO E DOUTORADO EM ADMINISTRAÇÃO


DOUTORADO EM ADMINISTRAÇÃO
ÁREA DE CONCENTRAÇÃO: ORGANIZAÇÕES, GESTÃO E SOCIEDADE

TESE DE DOUTORADO

A ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO ARTESANAL


E A QUESTÃO DO NÃO-CRESCIMENTO

CLÁUDIO AURÉLIO HERNANDES

CURITIBA
2016
CLÁUDIO AURÉLIO HERNANDES

A ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO ARTESANAL


E A QUESTÃO DO NÃO-CRESCIMENTO

Tese apresentada como requisito parcial para


obtenção do grau de Doutor em Administração
pelo Programa de Mestrado e Doutorado em
Administração da Universidade Positivo.

Orientador: Prof. PhD. Rene Eugenio Seifert


Junior.

CURITIBA
2016
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
Biblioteca da Universidade Positivo - Curitiba - PR

H557 Hernandes, Cláudio Aurélio.


A organização do trabalho artesanal e a questão do
não-crescimento. / Cláudio Aurélio Hernandes. – Curitiba :
Universidade Positivo, 2016.
130 f. : il.

Tese (doutorado) – Universidade Positivo, Programa


de Pós-graduação em Administração, 2016.
Orientação : Prof. Dr. Rene Eugenio Seifert Junior.

1.Crescimento organizacional. 2. Trabalho artesanal.


3. Cutelaria. I. Seifert Junior, Rene Eugenio. II. Título.

CDU
65.011.8
Termo de Aprovação
À Luiza, minha filha.
À minha esposa, Alina.
Aos meus pais, Claudinei e Maria.
AGRADECIMENTOS

Uma tese é feita de muitas mãos. Tantas que jamais será possível fazer agradecimentos sem
cometer alguma injustiça. Talvez justo fosse não agradecer. Mas, não vejo como não agradecer
imensamente à três pessoas sem as quais esta tese não teria sido possível. A primeira é Peter
Hammer, mestre cuteleiro, artesão que veio a se tornar amigo. Ele inspirou este trabalho e a
mim de muitas outras formas, mas inspira diariamente outras pessoas. A segunda é minha
esposa, Alina. Sem sua presença, apoio e sobretudo amor eu realmente não teria conseguido
chegar aqui. A terceira, Rene Seifert, meu orientador. Ainda não sei como agradece-lo por tudo
que fez por mim nesse processo de doutoramento. Ele simplesmente acreditou mais em mim
que eu mesmo. Quando eu já tinha me abandonado, nas horas mais difíceis, estava lá ao meu
lado. Não há como não ser grato por isso. Eu o trataria como pai, se ele não fosse mais novo
que eu. Nesse caso, espero continuar tendo a honra se ser seu amigo. Aos demais, peço perdão
pelo não registro aqui. Estejam certos que também os levo comigo em meu coração.
O fogo destrói a madeira, mas fortalece o ferro.
Provérbio Oriental
RESUMO
Este trabalho teve por objetivo a criação de uma teoria substantiva que explicasse a relação
entre o crescimento organizacional e o trabalho artesanal no contexto de uma pequena
organização. A construção do problema de pesquisa e definição da área substantiva de
investigação contemplou a visitação das referências teóricas sobre crescimento organizacional
e trabalho artesanal. O crescimento organizacional foi inicialmente relacionado ao incremento
da produção, de insumos, de estrutura e de pessoas na organização. Trabalho artesanal foi
entendido inicialmente como aquele realizado manualmente pelo artesão, mesclando habilidade
técnica de produção e arte na criação e produção de objetos funcionais. A área substantiva de
investigação definida compreende pequenas organizações cuja essência do trabalho é artesanal
e fazem a opção pelo não crescimento. Para a geração de incidentes e amostras teóricas contou-
se com uma tradicional cutelaria artesanal localizada em Curitiba. Os dados foram coletados
por meio de entrevistas, observação, observação participante, participação observante.
Registros de notas de campo, de áudio e vídeo foram usados como auxiliares na coleta e análise
dos dados. Os dados foram analisados seguindo os pressupostos da Grounded Theory por meio
da codificação aberta, axial e seletiva. Das análises emergiram as categorias (i) centralidade no
artesão, (ii) corporeidade, (iii) relação entre pensar e fazer, (iv) valores substantivos e (v)
limites. A categoria limites foi identificado como categoria central, uma vez que se relaciona
com todas as outras categorias potencializando o poder explicativo de cada uma delas. Das
relações entre as categorias e delas com a categoria central foram edificadas as primeiras
proposições que culminaram na Teoria do Limite Artesanal. De acordo com essa teoria, o
artesão ocupa posição central no processo do trabalho artesanal. Quanto maior sua autoridade,
conhecimento, respeito, experiência e capacidade de executar peças que se aproximem ao
estado da arte do trabalho artesanal, maior será seu reconhecimento. O reconhecimento do
artesão se dá em relação aqueles que compartilham o interesse pelo seu produto. Esse
reconhecimento agrega valor ao produto artesanal que leva sua assinatura. Quanto maior o
conhecimento, experiência e capacidade de realização do artesão, maior o reconhecimento do
artesão, maior o potencial de agregação de valor ao produto. A agregação de valor ao produto
artesanal permite que a organização artesanal tenha uma produção em menor escala. O trabalho
artesanal se dá por intermédio das mãos, e a habilidade manual contribui para a qualidade do
fazer artesanal. Quanto maior o desenvolvimento das habilidades do corpo maior a possiblidade
de produção artesanal de qualidade superior. A vitalidade do corpo habilita ao mesmo tempo
em que limita o fazer artesanal. O aumento do condicionamento físico contribui até um
determinado limite a produção artesanal, mas a não vitalidade, ou doença, influencia limitando
ou impossibilitando essa produção. O fazer artesanal é uma ação reflexiva por meio da qual o
artesão materializa objetos pensados. O ato de criação artesanal aproxima o artesão da práxis e
o distancia do trabalho alienado. Desta forma, o trabalho artesanal possui sentido para o artesão.
A produção artesanal é permeada por valores substantivos que influenciam na produção e na
relação entre a organização artesanal e o mercado. A qualidade, a tradição e o ensino da
cutelaria artesanal estabelece a relação metre-aprendiz que potencializa a difusão da tradição
da cutelaria artesanal. A liberdade do fazer artesanal permite que o artesão desenvolva trabalhos
que lhe façam sentido. A manutenção da liberdade do fazer artesanal implica em um
desacoplamento total ou parcial do mercado. A produção artesanal é limitada por fatores ligados
à centralidade do cuteleiro no processo de criação e do fazer artesanal, a aspectos fisiológicos
relacionados à corporeidade e a valores substantivos que permeiam o trabalho artesanal
tradicional. Respeitar limites implica em limitar a produção artesanal.

Palavras –chave: Teoria do Limite Artesanal, Trabalho Artesanal, Crescimento Organizacional,


Cutelaria Artesanal, Grounded Theory,
ABSTRACT
This paper aimed at the creation of a substantive theory that explains the relationship between
organizational growth and craft work in the context of a small organization. The construction
of the research problem and definition of the substantive area of research contemplated the
visitation of theoretical references on organizational growth and craft work. Organizational
growth was initially related to the increase in production, inputs, structure and people in the
organization. Artisan work was initially understood as one done manually by the craftsman,
mixing technical skill of production and art in the creation and production of functional objects.
The substantive area of defined research comprises small organizations whose essence of work
is artisanal and make the choice for non-growth. For the generation of incidents and theoretical
samples there was a traditional handcrafted cutlery located in Curitiba. Data were collected
through interviews, observation, participant observation, observant participation. Records of
field, audio and video notes were used as ancillaries in data collection and analysis. The data
were analyzed following Grounded Theory assumptions through open, axial and selective
coding. From the analyzes emerged the categories (i) centrality in the artisan, (ii) corporeity,
(iii) the relation between thinking and doing, (iv) substantive values and (v) limits. The
boundaries category has been identified as a central category, since it relates to all other
categories, enhancing the explanatory power of each category. From the relations between the
categories and from them to the central category were built the first propositions that culminated
in the Artistic Limit Theory. According to this theory, the artisan occupies a central position in
the process of craft work. The greater his authority, knowledge, respect, experience and ability
to perform pieces that approach the state of art of artisan work, the greater his recognition. The
recognition of the artisan is given in relation to those who share the interest for his product.
This recognition adds value to the artisanal product that carries its signature. The greater the
craftsman's knowledge, experience and ability to perform, the greater the artisan's recognition,
the greater the potential for adding value to the product. The value added to the artisanal product
allows the craft organization to have a smaller scale production. Artisan work is done through
the hands, and manual craftsmanship contributes to the quality of craftsmanship. The greater
the development of the body's abilities, the greater the possibility of superior quality
craftsmanship. The vitality of the body enables at the same time that it limits the making of the
craft. The increase of the physical conditioning contributes to a certain limit to the artisanal
production, but the non-vitality, or disease, influences limiting or preventing this production.
Making craftsmanship is a reflexive action through which the craftsman materializes thought
objects. The act of artisanal creation brings the craftsman closer to praxis and distances from
alienated labor. In this way, craft work makes sense for the artisan. Artisanal production is
permeated by substantive values that influence the production and the relationship between the
craft organization and the market. The quality, tradition and teaching of handcrafted cutlery
establishes the relation between meter and apprentice that enhances the diffusion of the artisanal
cutlery tradition. The freedom of craftsmanship allows the craftsman to develop works that
make sense to him. Maintaining the freedom of artisanal production implies a total or partial
decoupling of the market. Artisanal production is limited by factors linked to the centrality of
the cutlery in the process of creation and artisan making, to physiological aspects related to
corporeity and to substantive values that permeate traditional craftsmanship. Respecting limits
implies limiting artisanal production.

Keywords: Handicraft Limit Theory, Handicraft, Organizational Growth, Handcrafted Cutlery,


Grounded Theory,
SUMÁRIO

LISTA DE QUADROS ........................................................................................................... XI


LISTA DE FIGURAS ............................................................................................................. XI
LISTA DE SIGLAS ............................................................................................................... XII
1 INTRODUÇÃO.................................................................................................................... 13
A COSTRUÇÃO DO PROBLEMA DE PESQUISA .......................................................... 13
OBJETIVOS DA PESQUISA .............................................................................................. 20
1.2.1 Objetivo Geral ......................................................................................................... 21
1.2.2 Objetivos Específicos .............................................................................................. 21
1.3 JUSTIFICATIVAS TEÓRICA E PRÁTICA ................................................................. 21
1.4 ESTRUTURA DA TESE ............................................................................................... 23
2 DEFINIÇÃO DE UMA ÁREA SUBSTANTIVA DE INVESTIGAÇÃO ........................ 24
2.1 CRESCIMENTO ORGANIZACIONAL ....................................................................... 24
2.1.1 Modernidade e contradições do crescimento........................................................... 28
2.1.2 Limites do crescimento............................................................................................ 32
2.1.3 Crescimento e tamanho organizacional ................................................................... 34
2.1.4 O crescimento como instituição .............................................................................. 35
2.2 O TRABALHO ARTESANAL ...................................................................................... 39
2.2.1 A Cutelaria artesanal ............................................................................................... 41
3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS ...................................................................... 46
3.1 ESPECIFICAÇÃO DO PROBLEMA DE PESQUISA ................................................. 46
3.1.1 Perguntas de Pesquisa.............................................................................................. 46
3.2 DELINEAMENTO DA PESQUISA .............................................................................. 47
3.2.1 Finalidade da Pesquisa............................................................................................. 47
3.2.2 Método de Pesquisa ................................................................................................. 47
3.2.3 Amostragem teórica ................................................................................................. 49
3.2.4 Coleta dos Dados ..................................................................................................... 51
3.2.5 Tratamento dos Dados ............................................................................................. 54
4 ANÁLISE DOS DADOS ...................................................................................................... 58
4.1 TRAGETÓRIA DO PESQUISADOR EM CAMPO ..................................................... 58
4.1.1 Investigação preliminar ........................................................................................... 59
4.1.2 Observação participante .......................................................................................... 60
4.1.3 Participação observante ........................................................................................... 66
4.2 ANÁLISE DESCRITIVA DO CONTEXTO DOS INFORMANTES .......................... 72
4.3 A DINÂMICA DO TRABALHO ARTESANAL NA CUTELARIA HAMMER ........ 78
4.5 CODIFICAÇÃO ABERTA E AXIAL ........................................................................... 85
4.5.1 Categorias emergentes ............................................................................................. 87
4.6 CODIFICAÇÃO SELETIVA ....................................................................................... 105
5 APRESENTACÃO DA TEORIA SUBSTANTIVA ........................................................ 106
6 CONCLUSÕES .................................................................................................................. 110
REFERÊNCIAS ................................................................................................................... 112
APÊNDICE 1 – LISTA DE PERIÓDICOS CONSULTADOS ......................................... 119
APÊNDICE 2A – ROTEIRO DE ENTREVISTAS ............................................................ 120
APÊNDICE 2B – ROTEIRO DE ENTREVISTAS 2 (ALUNOS)......................................... 122
APÊNDICE 2C – ROTEIRO DE ENTREVISTAS 3 (CLIENTES, AMIGOS) ...................... 123
APENDICE 3 – VALIDAÇÃO DE PROPOSIÇÕES ........................................................ 124
APENDICE 4 – FOTOS ....................................................................................................... 126

LISTA DE QUADROS

Quadro 1 - O termo crescimento em publicações nacionais .................................................... 25


Quadro 2 - Meios de coleta e análise de dados......................................................................... 54
Quadro 3 - Categoria centralidade no artesão .......................................................................... 91
Quadro 4 - Subcategoria controle ............................................................................................. 91
Quadro 5 - Categoria corporeidade .......................................................................................... 94
Quadro 6 - Categoria relação entre o pensar e o fazer............................................................. 97
Quadro 7 - Subcategoria liberdade .......................................................................................... 97
Quadro 8 - Categoria valores substantivos ............................................................................. 101
Quadro 9 - Categoria limites .................................................................................................. 104

LISTA DE FIGURAS

Figura 1 - Crescimento organizacional ..................................................................................... 14


Figura 2 - Espada de Damasco. ................................................................................................ 43
Figura 3 - Faca em aço damasco .............................................................................................. 44
Figura 4 - Esboço de forno típico de século XVI ..................................................................... 45
Figura 5 - Representação do processo de codificação .............................................................. 55
Figura 6 - Fachada lateral ......................................................................................................... 60
Figura 7 - Projeto ...................................................................................................................... 68
Figura 8 - Mãos ........................................................................................................................ 70
Figura 9 - A oficina .................................................................................................................. 74
Figura 10 - Faca Artknives ....................................................................................................... 82
Figura 11 - Aplicativo de transcrição de entrevistas ................................................................ 86
Figura 12 - Atlas.ti - codificação .............................................................................................. 86
Figura 13 - Dinâmica das relações no contexto da cutelaria .................................................... 90
Figura 14 - Limites qualitativos e quantitativos da produção ................................................ 104

LISTA DE SIGLAS

3BL Triple Bottom Line


3ES Encontro de Estudos em Estratégia
AFEBRAS Associação dos Fabricantes de Refrigerantes do Brasil
ANAV Associação dos Núcleos Artesanais de Vizinhança
ANVISA Agência Nacional de Vigilância Sanitária
CIC Cidade Industrial de Curitiba
ENANPAD Encontro Nacional da ANPAD
ENEO Encontro Nacional de Estudos Organizacionais
ENGPR Encontro de Gestão de Pessoas e Relações de Trabalho
FMI Fundo Monetário Internacional
IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
Imposto sobre Operações relativas à Circulação de Mercadorias e sobre Prestações de
ICMS
Serviços de Transporte Interestadual e Intermunicipal e de Comunicação
IPARDES Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social
IPCC Intergovernmenal Panel on Climate Change
IPHAN Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
IPTU Imposto Predial Territorial Urbano
IPUC Instituto de Pesquisa Planejamento Urbano de Curitiba
WI Worldwatch Institute
NEF New Economics Foundation
PAC Programa de Aceleração do Crescimento
PIB Produto Interno Bruto
ROA Return on Assets - Retorno dos ativos
ROE Return on Equity - Retorno sobre Patrimônio Líquido
SEBRAE Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas
13

1 INTRODUÇÃO

O objetivo desta tese foi a elaboração de uma teoria substantiva que explicasse
como se dá a relação entre o trabalho artesanal e o crescimento organizacional.
Ontologicamente, parte-se do pressuposto de que a realidade não é dada, mas construída
socialmente (BERGER e LUCKMANN, 2003). O papel do pesquisador social, nesse sentido,
é entre outras coisas, o de interpretar a realidade já interpretada pelos sujeitos (GIDDENS,
1978). Fica, portanto, explícito nisso o papel central do indivíduo no processo. Admite-se a
impossibilidade de isenção ou isolamento do pesquisador em relação ao fenômeno pesquisado.
Conforme Weber (2001), sempre há elemento de parcialidade presente nas análises sociais e
não há como exercer a prática científica livre de pressupostos.

A Grounded Theory reconhece o pesquisador como parte da pesquisa e


estabelece alguns parâmetros de ação. Nesse sentido, reproduzo isso textualmente redigindo o
texto em primeira pessoa. A objetividade que pretendo imprimir a esse trabalho é aquela
relacionada à explicitação de todos os fatores conhecidos de interferência no processo de
pesquisa conforme apontou Weber (2001). Nessa mesma linha, manifesto meu olhar moldado
por conceitos institucionalistas, mas me posiciono de forma crítica e dialética. Esclareço que,
embora minha vida acadêmica pregressa oportunize a visualização de estruturas institucionais
condicionantes do processo social (GIDDENS, 2003), considero a possiblidade de existência
de desequilíbrios sociais.

A COSTRUÇÃO DO PROBLEMA DE PESQUISA

A área substantiva que motivou esta pesquisa é representada por pequenas


organizações cuja essência do trabalho é artesanal e que optam pelo não crescimento. Nesse
sentido, parto do pressuposto que o não crescimento pode ser uma ação voluntária e que essa
ação advém de um processo social no qual estão imersos os indivíduos envolvidos.

Cabe dizer desde logo que o termo ‘pequena organização’ refere-se ao seu
tamanho, mas o conceito de tamanho organizacional não é consenso entre pesquisadores. A
forma mais comum de medir o tamanho de uma organização é por meio do número de
empregados (em tempo integral) (BLAU, 1970; INGHAM 1970), às vezes considernado
empregados em tempo parcial como a metade (CHILD 1973), ou vendas anuais
(SYMEONIDIS 1996). Em outros estudos, o património líquido, número de sites, (CHILD
14

1973) ou o número de clientes atendidos são usados para operacionalizar tamanho


(KIMBERLY 1976).

O tamanho parece ser uma variável simples. Algumas discussões sobre as fronteiras
organizacionais sugeriram que é problemático saber quem está dentro ou fora da organização.
O tamanho tem quatro componentes (KIMBERLY, 1976): o primeiro é a capacidade física das
organizações; o segundo é a quantidade de pessoal disponível na organização o terceiro e quarto
aspectos são representados pelos insumos e produtos organizacionais.

O tamanho é uma variável que está na interface da organização e do ambiente, pois o


mesmo é também definido pelas condições externas. O tamanho pode ser tratado como uma
variável independente que molda e determina outras variáveis estruturais. A maioria dos
estudos sobre organização e estrutura tem utilizado o número de participantes como indicador
de tamanho, no entanto nem sempre este indicador é adequado (SCOTT, 2001).

Em Grounded Theory abandonam-se teorias a priori, contudo, em meio ao texto,


apresento alguns conceitos que delimitam o problema de pesquisa que proponho, ainda que sem
intuito explicativo ou definitivo. Nesse estudo, o crescimento organizacional está relacionado
ao incremento na capacidade física das organizações; na quantidade de pessoal disponível na
organização e na quantidade de insumos e produtos organizacionais conforme a definição de
Kimberly (1976).

Figura 1 - Crescimento organizacional

Fonte: elaborado pelo autor com base no conceito de crescimento de Kimberly (1976)

Admite-se que o aumento da estrutura, da quantidade de insumos e da quantidade


de pessoas envolvidas é resultado do aumento da produção de produtos. Portanto, o termo
crescimento organizacional, ou simplesmente crescimento, neste estudo, está ligado ao aumento
15

da produção de produtos. A produção representa, desta forma, a componente quantitativa do


crescimento organizacional, uma vez que esta é a componente mais evidenciada nos estudos
organizacionais sobre crescimento organizacional. Os parágrafos seguintes auxiliam na
compreensão do contexto que motivou o estabelecimento do problema de pesquisa dessa tese.
A ideia de que as organizações devem necessariamente crescer o quanto puderem e que isso
depende de uma boa e bem implantada estratégia organizacional parece permear o imaginário
de administradores, estudantes e muitos pesquisadores organizacionais. Grande parte das
teorias e modelos gerenciais preconizam meios de fomento ao processo de crescimento
(ANSOFF, 1965; BARNEY, 1996; HARVARD, 1998; MINTZBERG, 1994; PORTER, 1980).
Nesse contexto, o crescimento organizacional é sinônimo de sucesso está associado a outros
termos muito disseminados no mundo dos negócios como eficiência, estratégia,
competitividade, qualidade e diferencial competitivo. Mello e seus colegas (2009) afirmaram
em seu caso de estudo que o crescimento é imperativo para a sobrevivência organizacional.
Boa parte da literatura associa o ato administrativo quase como sinônimo de crescimento dando
a ideia de que isso é sinônimo de desenvolvimento, progresso e prosperidade (SACHS, 2010,
JACKSON, 2009).

Desta forma, a visão dominante é a do crescimento organizacional necessário,


ilimitado e naturalizado. Há a naturalização da ambição do crescimento como objetivo
orientador da atividade empresarial. Segundo Penrose (1959, p. 1) crescimento é “increase in
size or an improvement in quality as a result of a process of development (...) in which an
interacting series of internal changes leads to increases in size accompanied by changes in the
characteristics of the growing object”. Embora a autora tenha incluído a ‘qualidade’ no conceito
de crescimento, a literatura especializada parece priorizar o fator quantitativo e financeiro. Para
ela, o incremento qualitativo resultará em crescimento quantitativo em tamanho. Assim,
relatórios organizacionais costumam apresentar em negrito lucro, vendas, retorno sobre ativos
(ROA), retorno sobre patrimônio líquido (ROE) (ACHTENHAGEN, NALDI, e MELIN, 2010;
DELMAR, 1997; PENROSE, 1959; STARBUCK, 1971; WEINZIMMER, NYSTROM, e
FREEMAN, 1998).

Crescimento é um tema recorrente também em outras áreas da vida social, como


na política e no pensamento econômico. A variação do PIB (Produto Interno Bruto) dos países
é comumente relacionada diretamente com o desenvolvimento em com benefícios sociais
consequentes. Em outras palavras, quanto maior o PIB, maior desenvolvimento e maiores
ganhos sociais. Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI, 2015) o PIB Mundial cresceu
16

a uma taxa anual média de 3,3% nos últimos anos. A taxa de crescimento do PIB brasileiro em
2014 ficou na ordem de 0,1% com estimativa de queda para -3,0% em 2015. Segundo esse
relatório, a China apresenta uma das maiores taxas médias anuais de crescimento: com projeção
de 6,8% em 2015, mas com média acima dos 10% na última década. No caso chinês, o
crescimento tem sido empurrado com grandes investimentos estatais. Fontes não oficiais
relatam supostos impactos negativos sobre a sociedade chinesa, em especial sobre o ambiente
natural e, sobretudo sobre a qualidade de vida das pessoas.

Dados e projeções do FMI são usados como parâmetros por muitos países a fim
de estabelecerem metas de crescimento. Basicamente o relatório do FMI traz dados referentes
ao crescimento ou decrescimento da economia mundial. O próprio termo crescimento (growth)
é citado 679 vezes no relatório mai recente (FMI, 2015).

Os impactos ambientais desenvolvidos em decorrência do crescimento


econômico têm sido motivo de preocupação há décadas, não apenas na China, mas em quase
todos os países do mundo (MEADOWS, MEADOWS, RANDERS, 1972; NEF, 2006, 2010;
WI, 2013; IPCC, 2013). Em especial o crescimento populacional preocupa especialistas. Nas
últimas décadas a população mundial aumentou de 5,5 bilhões para 7 bilhões de pessoas (21%).
No Brasil o crescimento populacional teve uma taxa de mais de 30% nesse mesmo período
(FMI, 2014). Uma das consequências desse crescimento é a maior necessidade de recursos e
algumas vezes desequilíbrios sociais e ambientais.

No Brasil, o crescimento econômico tem sido recorrentemente destaque nas


discussões políticas. Desde o início do fomento à industrialização promovido pela gestão do
presidente Getúlio Vargas na década de 1930, passando pelo ideal desenvolvimentista explícito
no Plano de Metas do governo de Juscelino Kubitschek até o Programa de Aceleração do
Crescimento (PAC) criado pelo governo Lula em 2007, o crescimento econômico tem sido não
apenas almejado, mas servido de referência para muitas ações governamentais.

O Programa de Aceleração do Crescimento (atualmente PAC-2) é um programa


governamental brasileiro cujo principal objetivo é o de fomentar o “planejamento e execução
de grandes obras de infraestrutura social, urbana, logística e energética do país, contribuindo
para o seu desenvolvimento acelerado e sustentável”. (BRASIL, 2014). O crescimento, que
nesse sentido possui grande aderência ao conceito de desenvolvimento, passou a agregar o
termo ‘sustentável’.
17

As diretrizes de Estado, por sua vez, ecoam em Estados e Municípios. Todos as


regiões brasileiras, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE,
acumulam crescimento econômico. O indicador mais usado para descrever a variação do
crescimento econômico é o PIB – Produto Interno Bruto, cujo conceito refere-se à soma, em
valores monetários, de todos os bens e serviços finais produzidos numa determinada região,
durante um período determinado. Segundo dados do IBGE (2014), nos últimos anos, o
crescimento econômico brasileiro tem acumulado saldos positivos. Em especial a região
Sudeste, que representa mais da metade do PIB nacional. Em 2011, o estado do São Paulo, foi
responsável por 32,6% do PIB nacional. Entre os Municípios, a cidade de São Paulo sozinha
foi responsável por 11% do PIB nacional. Em seguida, Rio de Janeiro, Brasília e Curitiba,
respectivamente com 5%, 4% e 1,4% do PIB (IBGE, 2014b).

Não raro, o crescimento econômico é diretamente relacionado à atividade


industrial (CORONEL, AZEVEDO e CAMPOS, 2014). Contudo, o crescimento econômico é
formando por outras variáveis que influenciam ou são influenciadas por ele. Aspectos
socioambientais estão entre elas. Segundo dados do Instituto Paranaense de Desenvolvimento
Econômico e Social (IPARDES), observou-se no Paraná, no final da década de 70 e início da
década de 80 a migração de pessoas do interior do Estado para a Capital região metropolitana.
A população de Curitiba dobrou em menos de 20 anos (de 1970 a 1990). Aumentou de 0,6
milhão para 1,6 milhão entre 1970 e 2000.

Acredita-se que pelos menos dois eventos contribuíram para esse fenômeno: um
deles, a crise provocada pela geada que dizimou plantações inteiras de café na década de 1970
prejudicando essa atividade cuja importância econômica para o Estado era, na época, muito
grande, e fez com que muitas famílias migrassem à procura de emprego. Outro, a criação da
Cidade Industrial de Curitiba (CIC), um distrito industrial de 43,4 milhões de metros quadrados
que correspondem a 10% da extensão territorial total da cidade. Como vetor de industrialização,
foram oferecidos incentivos fiscais como isenção de impostos (ICMS e IPTU) e áreas com
financiamento direto e de longo prazo (IPARDES, 2014; IPUC, 2014).

Nesse contexto, a região de Curitiba observou um significativo crescimento


econômico por meio da industrialização acelerada pela migração. Contudo, como aponta um
relatório do governo do Estado, “as populações que migram aumentam a pressão por
infraestrutura e serviços nas regiões mais concentradas e desenvolvidas” (PARANÁ, 2014).
Além disso, segue o relatório, “ao migrar, a população torna o desenvolvimento local ainda
18

mais difícil em seu local de origem por privar os pequenos municípios de sua principal riqueza
potencial, o capital humano, o que gera desperdício de suas potencialidades produtivas.”

Aparentemente em nossa vida cotidiana somos cercados por pressões vindas de


diversas esferas e áreas sociais no sentido do crescimento. As organizações, por sua vez,
parecem estar no centro desse processo, uma vez que elas, principalmente as pequenas, são
tidas como o motor que move essa economia que não pode parar de crescer. Seifert e Vizeu
(2015) apontam a lógica do crescimento como uma ideologia que permeia diversas áreas
sociais.

Do ponto de vista de um teórico institucionalista, há indícios que mostram


sentido em analisar o crescimento como uma instituição. Contudo, enquanto em uma visão
institucionalista se vê instituições em equilíbrio, a teoria crítica vê contradições e uma agenda
de dominação. A negação de conflitos é, segundo Burrel e Morgan (1979), uma das principais
características do pensamento teórico dominante.

Alguns casos empíricos conhecidos sugerem que a explicação não é


unidimensional nem completamente dada pelas teorias conhecidas. Exemplos de negócios que,
aparentemente não adequam-se à lógica do crescimento organizacional fazem crer é necessário
um olhar mais aprofundado para se ter alguma compreensão da dinâmica desse processo.
Nesses exemplos, a visão de mundo dos proprietários parece direcionar as práticas
organizacionais que, em grande medida, estão voltadas para questões familiares, religiosas de
tradição ou com a questão do fazer artesanal.

O fazer artesanal parece ser uma constante nesses casos. Interessante notar que,
muitas vezes, produtos de origem artesanal e de produção em baixa escala são reconhecidos
pela qualidade acima da média. Aristóteles (1973) afirma que “...toda arte visa à geração e se
ocupa em inventar e em considerar as maneiras de produzir alguma coisa que tanto pode ser
como não ser, e cuja origem está no que produz, e não no que é produzido. Para Sennett (2013,
p.34), “toda perícia artesanal é um trabalho voltado para a busca da qualidade”. O trabalho
artesanal é um tipo de trabalho no qual o sujeito tem controle de todas as suas fases. A perícia
do artesão, foi em certa medida, transferida para as máquinas industriais (HOBSBAWN, 1996).

Nos próximos parágrafos apresento alguns casos que serviram de inspiração para
a construção do presente problema de pesquisa, todos foram em algum momento objeto de
pesquisas e observações durante a elaboração do projeto da presente tese. Algumas vezes esses
negócios são destaque na mídia por sua característica de exceção. É o caso da Padaria América,
19

fundada em 1913 e que manteve-se uma pequena padaria até recentemente em Curitiba. Com
as novas gerações acabou por ganhar ares de modernidade com a abertura de filiais e divulgação
na world wide web. Nesse caso, a tradição parece ter se rendido a visão de negócios dos netos
herdeiros (REINHARDT, 2006). Outro caso parecido é o da Casa do Kibe, um pequeno negócio
da área ade alimentação iniciado em 1982. Seu proprietário optou pela não expansão para
shoppings ou filiais espalhadas pela cidade por valorizar o que chama de “viver bem”. Nesses
dois exemplos, contudo, talvez se possa considerar que no ramo de alimentação, padarias e
lanchonetes teriam facilidades ou tendência de manterem-se pequenas pela natureza do negócio.
Diferente da indústria, uma vez que indústrias parecem tender ao crescimento.

Também na região de Curitiba, dois casos chamam a atenção na indústria


alimentícia: a cervejaria Bodebrown e a fábrica de café III Milênio. Ambos pertencem a setores
dominados por grandes empresas, com concorrência interna forte e elevados custos (SANTOS,
2014). Ambos os proprietários admite algum esforço no sentido de manterem-se pequenos. No
caso da indústria de café III Milênio o proprietário associa a opção pelo não crescimento a dois
fatores: altos custos da indústria e necessidade de estar com a família. A opção declarada do
proprietário Welington é limitar sua produção para o bem da família, pois segundo ele, quando
a empresa cresce gera outras demandas que degrada a vida familiar. Observei essa mesma
lógica na indústria de chás Tribal Brasil que é mantida por uma comunidade composta por
várias famílias organizadas em torno dessa indústria1.

A Bodebrown foi eleita a cervejaria do ano em 2013 e em 2014 quando


acumulou mais de uma dezena de prêmios em cada ano no Festival Brasileiro de Cerveja em
Blumenau, o maior evento do segmento no Brasil2. De Acordo com a AFEBRAS (Associação
dos Fabricantes de Refrigerantes do Brasil), cerca de 98,6% do mercado brasileiro de cerveja é
dominado apenas por quatro companhias: Ambev (68%), Petrópolis (11,3%), Brasil Kirin
(10,7%) e Heineken (8,6%) (AFEREBRAS, 2014). Segundo Samuel, proprietário da
Bodebrown, “ser pequeno não é ruim, é bom também... porque sucesso é sentir-se bem com o
trabalho... o trabalho, nada mais é que uma forma que temos de expressar uma aptidão artística
que a gente tem...” (SANTOS, 2014).

No tocante à produção artesanal e de baixa escala, cuja notoriedade se dá pelo


reconhecimento da qualidade, tem-se outro destaque: o da produção de queijos mineiros. No

1
Ver http://goo.gl/LYc6Ug
2
Disponível em http://goo.gl/g2k0tr
20

Brasil, a região de Minas Gerais é famosa pela tradição da produção de queijos artesanais,
especialmente na Serra do Serro, Serra do Salitre e na Serra da Canastra (MENESES, 2006). O
modo artesanal de fazer queijo está registrado no livro de registro dos saberes do Instituto de
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Essa atividade é exercida por pequenos
produtores e além de ser uma alternativa bem sucedida de conservação e aproveitamento da
produção de leite regional, constitui um conhecimento tradicional e um traço marcante da
identidade cultural dessas regiões (IPHAN, 2014). Nesse caso, o não crescimento pode ser uma
forma de manutenção de práticas tradicionais que poderiam perder-se em um eventual processo
de industrialização e mesmo de manutenção de uma identidade local. Sobre os pequenos
produtores de queijo de Minas, Meneses (2006, p. 85) afirma: “...o mito de crescimento
econômico como via única de promover o desenvolvimento social não se aplica aqui. Espaços
rurais têm outra lógica e culturas rurais exigem outro tratamento...”.

A relação entre o trabalho artesanal e crescimento organizacional torna-se foco


de interesse dessa pesquisa no momento que se visualiza indícios de que o crescimento
organizacional ilimitado parece impossibilitar ou dificultar a manutenção das características do
trabalho artesanal.

Embora os limites do crescimento econômico estejam sendo discutidos por


economistas ecológicos, ambientalistas e filósofos, a literatura organizacional aponta o
crescimento como meta. Como uma instituição, o crescimento é tido como natural, desejável e
benéfico indistintamente. A revisão das publicações realizadas em cinco dos principais eventos
e 32 dos principais periódicos aponta preocupações com as possíveis causas do não crescimento
ou sua relação positiva com a eficiência organizacional. Mas deixa lacunas sobre motivos pelos
quais algumas pequenas organizações optam por não crescer e como mantêm-se pequenas.

Em todos os casos visitados durante a elaboração desta pesquisa foi comum a


associação feita pelos próprios indivíduos entrevistados entre o não crescimento e o trabalho
artesanal. Considerando o exposto, estabeleci a seguinte pergunta de pesquisa que direciona
essa tese:

Como se dá a relação entre produção artesanal e crescimento organizacional?

OBJETIVOS DA PESQUISA

Descrevo nas seções seguintes os objetivos da pesquisa. O objetivo geral que


apresenta a ideia básica e mais abrangente dessa tese e os objetivos específicos detalham as
21

principais atividades, ainda que essas atividades não representem necessariamente etapas
separadas ou hierarquizadas no processo de elaboração da teoria substantiva.

1.2.1 Objetivo Geral

Elaborar uma teoria fundamentada nos dados (substantiva) que explique a


relação entre o trabalho artesanal e crescimento organizacional.

1.2.2 Objetivos Específicos

• Analisar a dinâmica do trabalho artesanal no contexto de uma pequena organização


(organização de pequeno porte);

• Analisar o crescimento da organização no contexto do trabalho artesanal

• Analisar a relação entre o trabalho artesanal e o crescimento organizacional no contexto de


uma pequena organização (organização de pequeno porte);

1.3 JUSTIFICATIVAS TEÓRICA E PRÁTICA

Nesta pesquisa, propõe-se a análise de um tema fundamental nos estudos


organizacionais, o crescimento. Todavia, por uma ótica diferente daquela mais
costumeiramente usada. O crescimento organizacional é aqui tratado não como um problema
(quando ele não ocorre) ou como consequência de um processo sistemático e bem sucedido de
estratégia organizacional, mas como uma possibilidade derivada de um processo de escolha.

Segundo Strauss e Corbin (2008, p. 80) “algumas perguntas (tanto em ciência


social como em ciência natural) estimulam perguntas adicionais que, por sua vez, estimulam
mais perguntas, em um encadeamento de investigações estendidas”. A construção de uma teoria
de médio alcance de base construtivista sobre crescimento organizacional pode dar margem a
um vasto campo de questionamentos e lacunas que, por sua vez, poderão gerar novos
conhecimentos ao campo dos estudos organizacionais por meio de novas teorizações. Deste
modo, não é intenção deste estudo apresentar respostas conclusivas ao problema de
investigação. Sobretudo, pela possibilidade de discussões sobre decrescimento desenvolvida
em outras áreas do conhecimento, especialmente na economia (DOUTHWAITE, 1992,
JACKSON, 2009; LATOUCHE, 2009; SCHUMACHER, 1973; VICTOR, 2008; STARBUCK,
1971).
22

Ecoando alguns autores (JACKSON, 2009; LATOUCHE, 2009, 2009b; VIZEU,


MENEGHETTI, SEIFERT, 2012; SACHS, 2010; VANDANA SHIVA, 2001;
DOUTHWAITE, 2012; MEADOWS, MEADOWS, RANDERS, 1972), procura-se refletir
sobre os possíveis limites ao crescimento e potenciais contradições do discurso
desenvolvimentista oculto sob a forma de crescimento sustentável. Esse estudo pode lançar
outras argumentações no mesmo sentido das considerações de Vizeu, Meneghetti e Seifert
(2012) quando apontam a porção ideológica do conceito de desenvolvimento sustentável. O
conceito de desenvolvimento sustentável tem sido apresentado como ferramenta que permite
sanar deficiências, corrigir erros e conciliar o estilo de vida moderno com os limites naturais.
Entretanto há indícios suficientes que nos permitem ver tal conceito como mais uma forma
legitimadora da ação organizacional.

No mesmo sentido, esse estudo lançará sementes para reflexões sobre a questão
dos limites. No ambiente organizacional e mesmo na vida cotidiana civilizada moderna o
respeito aos limites parece ter sido deixado de lado. Limite é, nos dias atuais, sinônimo de
ineficiência, incapacidade ou deficiência. Aceitar certos limites parece não fazer parte do
homem civilizado moderno, uma vez que o triunfo da ciência sobre a natureza possibilitou ao
homem ultrapassar limites sistematicamente. Crescer superando limites seria, nesse sentido,
natural para as organizações e a tarefa da Administração é dar as ferramentas necessárias para
isso.

Talvez se possa futuramente compreender a possibilidade de crescimento


limitado, não como vê o senso comum, necessariamente ruim, mas eventualmente necessário
ou bom, como argumentam alguns autores (VICTOR, 2008; LATOUCHE, 2009;
DOUTHWITE, 1992).

Em termos de orientações práticas, pode-se esperar que este estudo ofereça


subsídios para que empresários avaliem a possibilidade de haver gestão sem crescimento ou,
que se vislumbrem o crescimento organizacional ser uma possibilidade e não uma imposição
(JACKSON, 2009; LATOUCHE, 2009, 2009b; VICTOR, 2008); Considerando que a maioria
das organizações brasileiras é formada de pequenas e micro empresas, talvez faça sentido para
gestores a ideia da relevância do pequeno negócio, como propõe Schumacher (1973). Ao se
colocar em pauta a noção de não crescimento na atividade organizacional, abre-se a
possibilidade para a emergência de conceitos esquecidos como convivialidade (ILLICH, 1973)
ou mais recentes como bem viver (GUDYNAS, 2011).
23

Além disso, ao olhar para o trabalho artesanal, coloca-se mais uma pedra no
caminho que busca a compreensão das relações entre indivíduos e trabalho no contexto da
modernidade (BRAVERMAN,1981; ANTUNES, 2002; SENNETT, 2013). Sabe-se que estas
relações passaram por modificações significativas durante e após a Revolução Industrial
ocorrida no século XVIII (HOBSBAWN, 1996). Muitas lacunas estão por serem preenchidas,
não obstante os esforços desprendidos até os dias atuais. A compreensão da dinâmica do
trabalho artesanal certamente lançará luzes sobre questões relacionadas ao trabalho não apenas
do ponto de vista teórico, mas também do ponto de vista da valorização da figura humana
enquanto transformadora do meio e de si própria.

Finalmente, pode-se contribuir com subsídios para reflexões acerca dos


conceitos de desenvolvimento e sustentabilidade. Aparentemente conciliados, ambos os
conceitos carregam potenciais contradições consigo.

1.4 ESTRUTURA DA TESE

Esta tese está organizada em seis capítulos. O primeiro trada da introdução e


apresentação do problema de pesquisa, objetivos geral e específicos e justificativa teórica e
prática. O segundo capítulo dedica-se à definição da área substantiva que motivou o uso da
Grounded Theory, pequenas organizações cuja essência do trabalho é artesanal e tenham
voluntariamente optado pelo não crescimento. Nesse capítulo apresentam-se reflexões acerca
do crescimento organizacional e do trabalho artesanal.

No capítulo três são apresentadas as bases metodológicas que sustentam esta


tese, começando pela especificação do problema e as perguntas de pesquisa, passando pelo
delineamento da pesquisa que envolve aspectos de finalidade, método, amostragem, coleta e
tratamento de dados. O capítulo quatro é dedicado à análise dos dados e inicia com a análise
descritiva da trajetória da pesquisadora em campo e do contexto dos informantes, em seguida
aspectos das codificações aberta, axial e seletiva, a apresentação das categorias, as proposições
para a formação da teoria substantiva.

O capítulo cinco contém a apresentação da teoria substantiva gerada e o capítulo


seis apresenta as conclusões geradas por este trabalho, limitações e sugestões para pesquisas
futuras. Por fim, as referências e apêndices.
24

2 DEFINIÇÃO DE UMA ÁREA SUBSTANTIVA DE INVESTIGAÇÃO

Este capítulo destina-se à apresentação das características da área substantiva a


ser investigada: pequenas organizações cuja essência do trabalho é artesanal e tenham
voluntariamente optado pelo não crescimento. A organização escolhida para objeto deste estudo
é uma cutelaria cujo mestre cuteleiro é reconhecido por seus pares nacionalmente. Nas seções
que se seguem, além de abordarem alguns aspectos ligados à área substantiva desse estudo,
abrangem conceitos utilizados como sensibilização teórica acessada durante a pesquisa.

Existem críticas segundo as quais a Grounded Theory não permite que os


pesquisadores façam uso de teorias ou conceitos anteriores (HAIG, 1995). Contudo, é um erro
dizer que o pesquisador de Grounded Theory vai a campo limpo de pressupostos. Primeiro
porque isso é inevitável (WEBER, 2001), segundo porque é necessário que se faça uma revisão
da literatura sobre o fenômeno em questão que aponte a lacuna a ser preenchida pela teoria
substantiva. Glaser e Strauss (1967), na verdade, reconheceram que a perspectiva inicial é
inevitável e necessária, a fim de visualizar os dados e desenvolver categorias. Strauss e Corbin
(2008, p. 58) afirmam que “não há necessidade de rever toda a literatura da área
antecipadamente, como é frequentemente feito por analistas que usam outras técnicas de
pesquisa. É impossível saber antes da investigação quais serão os problemas salientes ou quais
conceitos teóricos vão surgir”.

2.1 CRESCIMENTO ORGANIZACIONAL

A questão do crescimento organizacional nos estudos organizacionais tem se


pautado sobretudo em análises que privilegiam aspectos de estratégia, econômicos e
financeiros. O estudo da estratégia foi, por muito tempo, a tentativa de explicar como e algumas
organizações adquiririam vantagens competitivas sobre as outras (Mintzberg, 1994; Porter,
1980). Entre estes estudos ainda poderíamos classificar aqueles mais descritivos daqueles
prescritivos. Estes últimos dando mais atenção ao oferecimento de condutas que, quando
seguidas pelas organizações, proporcionariam a competitividade desejada.

No processo de revisão da literatura sobre o crescimento, inicialmente analisei


os artigos publicados nos eventos da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em
Administração (EnANPAD, EnEO, EnPQ, 3ES e EnGPR) e em 32 periódicos nacionais
(apêndice 1). No período compreendido entre 2004 e 2014 encontrei 130 artigos que tratavam
de algum aspecto relacionado ao crescimento. Em um primeiro momento, considerei todos os
25

artigos que tratavam do termo crescimento. Descartando artigos duplicados (publicados em


anais e posteriormente em periódico) e não alinhados a estudos organizacionais, restaram 107
artigos. No passo seguinte, criei categorias de referência para agrupar as publicações de acordo
com sua postura diante do tema crescimento.

Com isso foi possível criar um quadro que, embora parcial, possibilita uma
visualização panorâmica da alocação do termo crescimento. Metade das publicações
relacionam crescimento à estratégia, inovação, competitividade e aspectos financeiros. A
grande maioria dos trabalhos apresentados tem o crescimento com um objetivo organizacional
ou como a consequência de uma bem estruturada agenda estratégica. Crescimento como
resultado, objetivo ou ligado aos processos de estratégia, inovação ou de competitividade.
Vantagem competitiva, diversificação, estratégias de fusões e aquisições, mudança estratégica,
relação entre estratégia inovação e crescimento. Contribuições de estratégia e inovação para o
crescimento. A relação entre crescimento e aspectos financeiros, sendo o próprio crescimento
financeiro uma das definições de crescimento. Estudos sobre crescimento financeiro costumam
associar alavancagem financeira com os determinantes financeiros para o crescimento, bem
como a estrutura de capital e sua relação com o crescimento.

Aspectos econômicos costumam levar em conta a teoria da firma, aspectos do


crescimento econômico, gestão de recursos e a relação entre crescimento e acesso a recursos.
Algumas vezes aspectos do crescimento regional e políticas públicas são considerados ou
relacionados ao crescimento organizacional. Sobretudo, como do ponto de vista do
desenvolvimento local ou do crescimento econômico regional.

A promoção do desenvolvimento é associada ao sucesso alcançado pelo


crescimento das empresas. Alguns estudos apresentam a trajetória de organizações como
sinônimo de sucesso. Em alguns casos, o papel do empreendedor é destacado nesse processo
como condicionante ou facilitador do crescimento. Fatores que condicionam ou dificultam o
crescimento também são foco de atenção e são descritos como desafios na superação de limites.
O quadro 1 apresenta de forma resumida o conjunto das publicações analisadas.

Não apenas no Brasil, mas em outros países, pequenas empresas representam a


grande maioria e são vistas como reais fontes do crescimento econômico, fontes de inovação e
a solução para a questão do desemprego (CARTER; AUKEN, 2006; MORRISON; BREEN;
ALI, 2003). Deste modo, muitos estudos privilegiam a análise dos fatores da mortalidade
precoce de pequenas organizações. Albuquerque e Escrivão Filho (2011) fizeram uma análise
26

de uma década de produção acadêmica sobre mortalidade de pequenas organizações e apontam


que mais da metade da produção acadêmica desse período apresentou a ausência de
planejamento estratégico formal como principal causa da mortalidade das empresas.

Quadro 1 - O termo crescimento em publicações nacionais


Categoria de
Qtd.
referência
Crescimento como resultado, objetivo ou ligado aos processos de estratégia,
inovação ou de competitividade. Vantagem competitiva, diversificação,
Estratégia, inovação,
34 estratégias de fusões e aquisições, mudança estratégica, relação entre estratégia
competitividade
inovação e crescimento. Contribuições de estratégia e inovação para o
crescimento.
Crescimento com resultado ou tendo relação com aspectos financeiros. Estudos
sobre crescimento financeiro. Alavancagem, determinantes financeiros para o
20 Financeiro
crescimento, estrutura de capital e sua relação com o crescimento, relação entre
o sistema financeiro e crescimento, crescimento e arrecadação tributária.
Teoria da firma, crescimento econômico, gestão de recursos, relação entre
21 Econômico
crescimento e acesso a recursos,
Estudos de casos de crescimento de organizações. Análise de trajetória. O
11 História da organização processo de crescimento, relação entre crescimento e gestão, desafios ao
crescimento.
Crescimento da pequena empresa, evidências empíricas, competitividade da
9 Empreendedorismo
pequena empresa, desafios do crescimento, dilemas do crescimento.
Internacionalização como resultado do crescimento, crescimento das
5 Internacionalização
exportações, desafio do crescimento internacional, comércio exterior.
Fatores que condicionam o crescimento. Influências, desafios, fatores relevantes
4 Condicionantes
ao crescimento
Relação entre aglomeração industrial e crescimento. Financiamento do
crescimento industrial. Crescimento como ideologia, limites do crescimento pela
8 Outros inovação, crescimento econômico e sua relação com desenvolvimento
sustentável, relação entre planejamento e crescimento ambiente institucional e
crescimento.
Fonte: o autor

Weinzimmer, Nystrom e Freeman (1998) mostraram que a expansão em vendas


estava definindo o crescimento em mais de 80% dos 35 estudos publicados em periódicos na
área de estratégia e empreendedorismo. Em 55 estudos sobre o tema entre os anos de 1989 e
1996 Delmar (1997) observou que para 30,9% dos estudos crescimento é visto em termos de
expansão do faturamento/vendas, para 29,1%, como número de empregados, para 19,2% são
utilizados vários indicadores quantitativos e 12,2% definem crescimento por desempenho. Da
mesma forma Achtenhagen, Naldi e Melin (2010) confirmam esse viés com a análise de 56
artigos publicados sobre o tema entre 1997 e 2008. Os autores mostram que 41,8% dos estudos
refletem o crescimento organizacional como expansão das vendas e 27,3% utilizaram como
critério a quantidade de funcionários.

Não só na academia, mas também no mundo dos negócios, a ideia de


crescimento contínuo é central. Rankings com as maiores empresas são comuns nas publicações
27

da área. Em âmbito mundial a Fortune Magazine3 publica anualmente rankings das grandes
empresas mundiais. Os critérios avaliados são baseados nas receitas, lucro e retorno para os
acionistas. Em 2014, o Walmart ocupava o topo do ranking. No Brasil, algumas vezes as
publicações destacam as empresas brasileiras nos rankings internacionais, como costuma fazer
a Revista Exame (As 7 empresas brasileiras entre as 500 maiores do mundo4), outras vezes
repetem a metodologia para eleger as maiores brasileiras (Jornal Valor econômico: Ranking
das 1000 maiores5; revista Exame: As 100 maiores empresas do Brasil em 20136).

Interessante notar que a pequena empresa também é destaque, contudo, o


argumento invariavelmente tende para o crescimento da pequena empresa de modo que ela
produza mais, fature mais, tenha mais lucro. O crescimento é invariavelmente um dado de
destaque. Segundo o Mapa da Micro e Pequena Empresa, em publicação do Governo Federal,
“pequenas e médias empresas brasileiras representam 20% do PIB, são responsáveis por 60%
dos 94 milhões de empregos no País... enquanto a taxa de crescimento anual foi de 4% para o
total de empresas, independente do porte, para as pequenas empresas foi de 6,2%, e 3,8% para
as micro” (BRASIL, 2014b).

O Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas - SEBRAE, órgão


de serviço social autônomo destinado ao fomento para as pequenas empresas no Brasil,
promove, com apoio federal, o desenvolvimento dos pequenos negócios no país. Segundo
consta em seu sítio na internet “não importa o ramo de sua empresa ou há quanto tempo está no
mercado, o Sebrae está preparado para incentivá-lo a crescer cada vez mais.” (SEBRAE, 2014).
O órgão atua de forma a proporcionar “soluções para as empresas que já estão consolidadas no
mercado, mas não querem estacionar nos negócios”. Segundo a definição encontrada em seu
portal online, o SEBRAE destina-se a quem quer abrir seu negócio, quem já tem o seu negócio
e quer ir mais longe.

Almejar mais, ainda que se esteja consolidado, remete a uma insatisfação, ou


satisfação adiada. Bauman (2003) sugere que a modernidade criou condições para que a
insatisfação seja parte do cotidiano. Segundo o autor, “ser moderno significa estar à frente de
si mesmo, num Estado de constante transgressão... ter uma identidade que só pode existir como
projeto não realizado” (BAUMAN, 2003, p.37). Nestes termos, a insatisfação com a

3 http://fortune.com/fortune500/
4
http://goo.gl/s6DIqe
5
http://goo.gl/NZpz2
6
http://goo.gl/pEIHVB
28

continuidade e incessante preocupação com o crescimento alinha-se ao que Bauman (2003)


considera ser a essência do espirito da modernidade.

2.1.1 Modernidade e contradições do crescimento

O desejo ou expectativa de crescimento presente na maioria das organizações


modernas possui raízes profundas. Não diretamente ligadas ao crescimento organizacional, mas
a toda ideologia de progresso e desenvolvimento difundida durante a ascensão do pensamento
racional e da modernidade. A expansão do pensamento científico lastreado em Descartes
permitiu que todos os dogmas tradicionais pudessem ser questionados e todas as dúvidas
pudessem servir de fontes de certezas por meio do método científico. A passagem para a
modernidade, nesse sentido, pode ser vista como uma promessa otimista de um futuro sem
dúvidas ou limites, posto que toda dúvida poderia ser examinada por meio do método e a ciência
poderia dar ao homem o poder de previsão e controle sobre a natureza.

Segundo Hobsbawm (1996), após o Iluminismo, o avanço da ciência e da


tecnologia foi tamanho que fez o homem crer que ele sozinho teria condições de desvendar
todos os mistérios da natureza. Desde o Iluminismo, criou-se a expectativa do triunfo da razão;
passou-se a acreditar firmemente no progresso indefinido, ideologia fortemente difundida na
primeira parte do século XX. O autor aponta que o avanço da ciência e da razão foi paralelo ao
recuo da religião tradicional, ao menos no centro dos países europeus de sociedade burguesa.

A razão como orientadora da ação moderna por vezes ocupa o lugar da tradição.
A tradição é uma “orientação para o passado, de tal forma que o passado tem uma pesada
influência ou, mais precisamente, é constituído para ter uma pesada influência para o presente”.
(GIDDENS, 1997, p. 80). Para ele, vivemos uma época marcada por confusão, pela sensação
de que não entendemos de forma plena os eventos sociais e estamos sem controle. A
modernidade provocou alterações nas relações sociais, bem como a percepção dos indivíduos
e coletividades sobre questões de segurança e confiança, da mesma forma sobre os perigos e
riscos do viver (GIDDENS, 1991). O desenvolvimento social moderno tem, na visão de
Giddens, um processo marcado por ruptura ou descontinuidade.

Na modernidade, a reflexividade é introduzida na base da reprodução do sistema,


de forma que o pensamento e a ação se relacionam entre si. As práticas sociais são examinadas
e reformuladas a partir da informação auto-revelada conduzindo à sua alteração. A
reflexividade da modernidade, que está diretamente envolvida com a contínua geração de
29

autoconhecimento sistemático, não estabiliza a relação entre conhecimento perito e


conhecimento aplicado em ações leigas. O conhecimento reivindicado por observadores peritos
reúne-se a seu objeto, deste modo alterando-o.

Autores de tradição marxista tendem a analisar a modernidade do ponto de vista


da evolução do capitalismo e das contradições provocadas por seu desenvolvimento. Nesse
sentido, a visão é um tanto mais pessimista em relação às consequências da modernidade. A
visão negativa de Bauman (2003) acerca do capitalismo aborda o consumo, porém um tipo leve
e fluido, onde as autoridades não ordenam, mas sim atuam como conselheiros que tentam
seduzir e se tornam agradáveis às pessoas que escolhem seus modelos, com o uso da imagem
para passar credibilidade aos produtos e serviços que estão à disposição para o consumo. A
modernidade baumaniana tem aspecto fluídico, pois carrega em sua essência a propriedade de
adequar-se ao meio. Nada é sólido, perene e definitivo. A modernidade distingue-se de todas
as outras formas históricas de convívio humano,

...a compulsiva e obsessiva, continua, irrefreável e sempre incompleta modernização;


a opressiva e inerradicável, insaciável sede de destruição criativa (ou de criatividade
destrutiva, se for o caso: de "limpar o lugar" em nome de um "novo e aperfeiçoado"
projeto; de "desmantelar' "cortar' "defasar' "reunir" ou "reduzir' tudo isso em nome da
maior capacidade de fazer o mesmo no futuro - em nome da produtividade ou da
competitividade). (BAUMAN, 2003, p.37)

Para Bauman a modernidade criou condições para que a insatisfação seja parte
do cotidiano. Segundo o autor, “ser moderno significa estar à frente de si mesmo, num Estado
de constante transgressão... ter uma identidade que só pode existir como projeto não realizado”
(BAUMAN, 2003, p.37). Ser moderno significa ser incapaz de permanecer parado em uma
perene atividade que o leve a ser não apenas bom, mas ótimo. O ideal buscado pela atividade
moderna não é aquele que se alcança, mas aquela que nunca será atingido sob pena de não mais
cumprir sua função, a de manter a roda girando.

Schumacher (1973) argumenta que não obstante estejamos melhor alimentados,


melhor vestidos, melhor alojados e melhor educados (ainda que nem todos) também devemos
colocar nas estatísticas os níveis de criminalidade, uso de tóxicos, o vandalismo, o colapso
mental, a rebelião etc. Segundo este autor, o crescimento econômico, carrega consigo os efeitos
colaterais indesejados que, quando não tratados devidamente, causam mais malefícios que
benefícios.

Bauman (2003) sugere que a dinâmica social capitalista promove um estado de


fluidez no qual a permanente sensação de insatisfação é requisito necessário à manutenção da
30

dinâmica do sistema. Em outras palavras, a busca pelo bom e satisfatório foi substituída na vida
moderna pela busca do ótimo. Com isso, limites tornaram-se elásticos e a busca pelo ótimo
torna-se muitas vezes no encontro do ruim. A contradição no sistema por um lado sinaliza uma
vida melhor, mas que cria um estado de permanente insatisfação, uma vez que o melhor está
sempre à frente.

Segundo Szmrecsanyi (2008), o pressuposto do crescimento constante e


ilimitado é uma das teses centrais de A Teoria do Crescimento da Firma, segundo a qual não
há limites ao tamanho e à expansão das empresas através do tempo, mas apenas ao seu ritmo
do crescimento, num dado momento. Sendo o crescimento fruto da eficiência organizacional,
as firmas não se tornam menos eficientes à medida que crescem. O pensamento econômico
neoclássico admite a crescimento ilimitado.

Consequências desse crescimento, para os economistas, estariam no âmbito das


externalidades. Em economia, externalidades são efeitos adicionais a uma dada decisão sobre
aqueles que não participaram dela. Elas podem ter natureza negativa, quando geram custos para
os demais atores (poluição, comprometimento de recursos, problemas hídricos, sinistros, caos
urbano etc.), ou natureza positiva, quando os demais atores se beneficiam. Contudo as
externalidades não são computadas como custos organizacionais. Segundo Lima e Viegas
(2002) a intangibilidade das externalidades torna complexa sua objetivação fazendo com que
não haja consenso sobre a forma de registro. Dessa forma, esse custo permanece apenas no
âmbito social.

O papel do Estado, nesse contexto seria o de promover externalidades positivas


por meio de benefícios à população em geral, contudo Milton Santos (SANTOS, 2005) afirma
que a política de governo dos países ocidentais privilegia os interesses das corporações em
detrimento dos interesses da população. Polanyi (1980) sinaliza que a partir do século XVIII o
mercado transformou tudo em mercadoria com anuência do Estado. Para Dias e Cario (2014
p.396) “a hegemonia do econômico, expressão lógica do capitalismo, consolidou o mercado
como esfera responsável pelo direcionamento da racionalidade predominante”. Sem pretensão
teórica, mas à guisa de elementos para reflexão, cabe lembrar que em meados do ano de 2014
a justiça brasileira iniciou uma investigação em torno de um processo de institucionalização de
um sistema de subornos envolvendo várias instâncias estatais. O montante financeiro é
desconhecido, mas estima-se que houve desvios entre R$ 10 bilhões e R$ 20 bilhões
favorecendo políticos brasileiros de quase todos os níveis hierárquicos, segundo a mídia
31

internacional7. Dito isso, podemos afirmar que, embora faça sentido a afirmação de Milton
Santos (2005), não apenas o interesse corporativo é privilegiado em detrimento do interesse
púbico, mas muitas vezes também são privilegiados os interesses individualizados. Ainda, não
só o mercado transformou tudo em mercadoria com anuência do Estado (POLANYI, 1980),
mas o próprio Estado parece ter se tornado mercadoria.

Talvez uma das maiores contradições do mundo moderno é associar


crescimento, desenvolvimento e progresso. Esses termos são comumente associados e até tidos
como sinônimos. Stanworh e Curran (1976) argumentam que, na sociedade moderna,
crescimento é progresso. Contudo, esses três conceitos diferem. Enquanto desenvolvimento
econômico refere-se ao processo pelo qual ocorre uma variação positiva das variáveis
econômicas quantitativas (nível de renda, produção, PIB etc), o progresso relaciona-se ao
ideário otimista Comteano de fé na ciência e na humanidade.

Segundo Esteva (2010), houve a transferência da metáfora biológica para a


esfera social no final do século XVII com o uso do termo Entwicklung8 por Justus Moser, o
fundador conservador da história social, para referir-se ao processo gradual de mudança social,
a partir de 1768. No século XIX o positivismo de Auguste Conte adicionou o termo progresso
na agenda moderna (COMTE, 1983). Assim como o crescimento e desenvolvimento, o conceito
de progresso carrega consigo a visão otimista da contínua melhora social por meio da evolução
humana. Para Comte, essa evolução ocorre pela superação dos estágios iniciais, teológico e
metafísico até que se atinja o apogeu no estado científico, ou positivo. O pensamento positivista
influenciou a ciência de um modo geral, e ainda é uma das bases da ciência moderna. A
influência do pensamento positivista também pode ser vista na economia e na política.

O termo não se desvinculou da ideia de crescimento, com isso desenvolvimento


e crescimento tornaram-se praticamente sinônimos sendo que, não importa em que contexto ela
seja usada, implica sempre uma mudança favorável, um passo a partir do simples para o
complexo, do inferior para o superior, de pior para melhor. Conforme aponta Esteva (2010), a
palavra indica que se está fazendo bem, porque se está a avançar no sentido de uma lei
necessária, inevitável, universal e para um objetivo desejável.

O senso comum considera o termo desenvolvimento como um processo ou o


resultado de um processo que leva um objeto ou ser de um estado mais simples para outro mais

7
http://goo.gl/JvTc9p
8
Em tradução livre: desenvolvimento
32

complexo, partindo de uma situação pior para outra melhor. Assim, o termo é utilizado
metaforicamente para descrever o crescimento natural de animais e plantas que, em processo
final de desenvolvimento atingem seu máximo grau de potencialidades. A mesma metáfora
atinge as organizações vistas como organismos (MORGAN, 1996). Neste sentido, o
crescimento organizacional seria sinônimo de desenvolvimento tal como o é para os organismos
vivos (ESTEVA, 2010).

Contudo, aparentemente tanto a ciência quanto o sistema econômico capitalista


são fontes de problemas novos sem resolver os problemas antigos. Polanyi (1980, p. 248) diz
que “nem a liberdade nem a paz puderam ser institucionalizadas sob aquela economia, pois seu
propósito era criar lucros e bem-estar e não a paz e a liberdade”

2.1.2 Limites do crescimento

Os limites do crescimento econômico começaram a ser questionados por uma


série de autores, em especial após o documento que ficou conhecido por relatório de Meadows
(MEADOWS, MEADOWS, RANDERS, 1972) para o Clube de Roma. Nesse documento
alerta-se para as consequências do crescimento rápido da população do mundo considerando os
recursos naturais limitados. Esse foi o primeiro questionamento contundente sobre a lógica de
crescimento indefinido em um sistema caracterizado por recursos limitados. O que se seguiu
nas décadas seguintes foi um esforço de Estados e outras organizações para encontrar soluções
para o alinhamento entre crescimento econômico e equilíbrio ambiental.

Cechin (2010) chama atenção para o fato de que a economia não é um sistema
total, mas um subsistema pertencente a um sistema maior. Não pode haver crescimento
ilimitado em um sistema cujos recursos são limitados. Nesse sentido, a natureza é por si um
limite ao crescimento econômico.

Segundo dados do Intergovernmenal Panel on Climate Change (IPCC, 2014),


New Economics Foundation (NEF, 2014) e Worldwatch Institute (2014) há anos ultrapassamos
os limites razoáveis tanto em termos ambientais, quanto sociais e de crescimento econômico.
Estes relatórios apontam para efeitos ambientais irreversíveis demandados pelo crescimento
econômico sob a lógica da exploração contínua de recursos naturais e pela degradação
ambiental provocada pela poluição e falta de manejo desses recursos. Depois de anos de
trabalho, uma comissão independente liderada por Gro Harlem Brundtland, Primeira Ministra
33

da Noruega, publicou o livro "Nosso Futuro Comum" que ficou conhecido como "Relatório
Brundtland".

Nesse relatório, o termo "desenvolvimento sustentável" foi definido como "o


desenvolvimento que atende às necessidades presentes sem comprometer a habilidade das
gerações futuras em atenderem às suas próprias necessidades". Desde então, a ideia de
desenvolvimento sustentável permeia o discurso de diferentes setores da sociedade,
governamental, econômico, organizacional etc (BOFF, 2012).

Nesse sentido, a proposta de desenvolvimento sustentável seria uma forma de


contornar esses problemas decorrentes do crescimento. A atividade corporativa sustentável
seria aquela que poderia, simultaneamente, produzir lucros, ser socialmente justa e
ambientalmente correta (ELKINGTON, 1997). O modelo proposto pro Elkington ficou
conhecido como o tripé do desenvolvimento sustentável (Triple Bottom Line – 3BL): Lucros,
Pessoas, Planeta. Desse modo, os ideais da prosperidade econômica, qualidade ambiental e
justiça social estariam equilibrados e ação empresarial seria avaliada não só pelos retornos
financeiros, mas também pelos impactos ambientais e sociais.

Entretanto, a proposta de desenvolvimento sustentável não rompe com a lógica


do crescimento econômico ilimitado. Acredita-se que seja possível aliar crescimento sem
limites a um contexto ambiental naturalmente limitado. Situação que, para alguns autores, é
improvável (JACKSON, 2009; VICTOR, 2008; AYRES, 1998; LATOUCHE, 2009, 2009b;
DOUTHWAITE, 1992). Vizeu, Meneghetti e Seifert (2012) argumentam sobre as contradições
da ideia de desenvolvimento sustentável afirmando que esse conceito é, em essência, uma forma
ideológica que cria uma falsa conciliação entre o sistema capitalista e os problemas ambientais
por ele provocados. Dito de outra forma, o discurso organizacional aparentemente apropriou-
se do conceito de sustentabilidade, mas desde que esse não seja empecilho para a produção, o
crescimento e o lucro. Desta forma, continua havendo a predominância de uma lógica de
crescimento organizacional.

No mesmo sentido, Seifert e Vizeu (2015) apontam para o crescimento como


uma ideologia administrativa. Os autores concordam com Illich (2000) que sinaliza a questão
das “necessidades socialmente constituídas”. Uma das áreas organizacionais comumente
relacionadas à criação de necessidades é o marketing, contudo, Philip Kotler, um dos autores
mais conhecidos dessa área, afirma que
34

“...profissionais de marketing não criam necessidades: as necessidades existem antes


dos profissionais de marketing. Os profissionais de marketing, paralelamente a outras
influências da sociedade, influenciam desejos. Eles podem promover a ideia de que
um Mercedes satisfaz a necessidade de status social de uma pessoa. Eles não criaram,
entretanto, a necessidade de status social.” (KOTLER, 2000, p.33)

Nesse sentido, a ideologia do crescimento estaria relacionada a um projeto


desenvolvimentista, importante recurso ideológico que apoia o capitalismo de consumo, seja
esse consumo pelas necessidades ou pelos desejos humanos.

2.1.3 Crescimento e tamanho organizacional

Penrose (1959) refere-se ao aumento de tamanho, Starbuck (1971, p.11),


também se refere ao crescimento como "mudança no tamanho de uma organização, mas associa
isso à quantidade de pessoas envolvidas ou empregos oferecidos. A relação entre crescimento
e tamanho parece lógica, uma vez que crescer é tornar-se maior, mas o crescimento é também
comumente medido em termos de lucro, vendas, retorno sobre ativos (ROA), retorno sobre
patrimônio líquido (ROE) (ACHTENHAGEN, NALDI, & MELIN, 2010; DELMAR, 1997;
PENROSE, 1959; STARBUCK, 1971; WEINZIMMER, NYSTROM, & FREEMAN, 1998).

Segundo Hall (2001), existem alguns elementos básicos que compõem a


estrutura e que influenciam as características estruturais de uma organização. Dentre eles, a
complexidade, a formalização e a centralização. Além destes, existem outros fatores como o
tamanho, o ambiente, a cultura que também influenciam a estrutura organizacional. De acordo
com Scott (2003), estes componentes poderiam ser chamados de componentes periféricos da
estrutura, pois os mesmos não estão relacionados com a parte técnica e com o negócio da
organização, são elementos que se relacionam com os aspectos administrativos e institucionais
da organização. Ainda que tamanho pareça ser uma variável simples, algumas discussões sobre
as fronteiras organizacionais sugerem que é problemático saber quem está dentro ou fora da
organização.

Segundo Kimberly (1976), o tamanho organizacional tem três componentes: o


primeiro é a capacidade física das organizações; o segundo é a quantidade de pessoal na
organização e o terceiro aspecto é representado pelos insumos e produtos organizacionais.
Gupta (1980) sugere que o conceito de tamanho organizacional não deve ser tido como
unidimensional.

De acordo com Hall (2001), pode-se perceber um paradoxo. Uma vez que as
organizações complexas, embora possam diminuir custos por meio de economia de escala, ao
35

mesmo tempo, têm aumentados seus custos devido ao aumento do tamanho de sua organização
e a consequente complexidade. Necessitam, deste modo, de mais pessoal para a resolução de
conflitos, controle e coordenação das atividades.

Desta forma, conclui-se que as organizações complexas são mais complexas em


um número maior de aspectos do que simplesmente sua estrutura. Os processos também são
complexos. Técnicas eficientes em uma organização com uma estrutura simples podem não ser
tão eficientes em organizações com uma estrutura mais complexa, e mesmo dentro de uma
mesma organização complexa, existem diferentes graus de incerteza entre os departamentos e
os mesmos são estruturados de maneira diferente.

As referências acadêmicas e do mundo dos negócios invariavelmente


preconizam que as ações organizacionais devem levar a organização a posições de destaque
quanto à sua capacidade de produzir, vender e lucrar. Estudos clássicos sobre estratégia
sugerem que as organizações competem em mercados por recursos escassos (Barney, 1996) e
portanto precisam adquirir certas vantagens competitivas (Porter, 1980) que funcionem como
facilitadores da atuação organizacional nesse mercado.

O tamanho parece ser uma variável simples, entretanto algumas discussões sobre
as fronteiras organizacionais sugerem que é problemático saber quem está dentro ou fora da
organização. O tamanho é uma variável que está na interface da organização e do ambiente,
pois o mesmo é também definido pelas condições externas. O tamanho pode ser tratado como
uma variável independente que molda e determina outras variáveis estruturais. A maioria dos
estudos sobre organização e estrutura tem utilizado o número de participantes como indicador
de tamanho, no entanto nem sempre este indicador é confiável (Scott, 2003).

2.1.4 O crescimento como instituição

Não há na literatura qualquer referência ou análise do crescimento como uma


instituição. Este é, portanto, um exercício teórico no sentido de apoiar aspectos de sensibilidade
teórica nessa investigação. Strauss e Corbin (2008) destacam o uso da sensibilidade teórica
(capacidade de dar sentido aos dados) e a sistematização no uso da literatura e do conhecimento
prévio do pesquisador. Glaser e Strauss (1967) afirmam que a sensibilidade teórica é marcada
pelas próprias tendências pessoais do pesquisador, bem como por sua habilidade em ter insights
teóricos e saber trabalhá-los.
36

Assim, propõe-se a análise da questão do crescimento organizacional partindo-


se do princípio de que a ideia de crescimento foi socialmente construída e agrega em seu entorno
uma série de valores compartilhados que tanto legitimam as ações pró-crescimento quanto
favorecem sua perpetuação. Nesse sentido, essa ideia ecoa Berger e Luckmann (2003) por
considerar a realidade fruto de construções de significados compartilhados intersubjetivamente.
Ainda, pressupõe-se que os fenômenos são construídos no tempo e que sua compreensão deverá
abarcar seu contexto histórico. Segundo Tuchman (1994), só se pode entender um fenômeno
social em seu contexto histórico.

O crescimento organizacional como fenômeno pertenceria a uma estrutura social


multifacetada e durável com um sistema estruturado de regras e valores compartilhados.
Aparentemente, o crescimento de organizações não apenas aceito, mas desejável pela maioria
da sociedade. Contudo, o crescimento deve obedecer a regras e procedimentos padronizados
socialmente tanto na forma da lei quanto por aquiescência social. Na forma da lei, seguindo
princípios de legalidade jurídica e legislação pertinente e de forma socialmente aprovada em
termos conduta ética, moral etc. A repetição desse padrão dá a ideia de o crescimento
organizacional como uma instituição (SCOTT, 2001; SEARLE, 2005).

A perpetuação de determinadas ações ao ponto de cristalização do


comportamento social é objeto de estudos do institucionalismo organizacional. A compreensão
dos motivos pelos quais as organizações se comportam de certas maneiras e suas consequências
considerando esse processo em um contexto amplo é foco da teoria institucional
(GREENWOOD et al, 2008).

Conforme Meyer e Rowan (1977) argumentam, sociedades modernas são


constituídas de muitas regras institucionalizadas, sendo que muitas delas são mitos
racionalizados que raramente são postos à prova. Em outras palavras, certas normas sociais,
comportamentos, conhecimentos, costumes não são questionados por serem tidos como certos
ou legítimos. Aparentemente, a noção de crescimento organizacional, conforme é descrito por
diversas áreas sociais, tem tal reconhecimento. Deste modo, pode-se, como apoio de bases
teóricas institucionais, compreender como se dá o processo de resistência, ou questionamento
da necessidade de crescimento por parte de algumas organizações que não se submetem a essa
instituição.

De acordo com Scott (2001), as relações entre instituições e organizações


ocorrem por três vias, ou pilares: regulador, normativo e cognitivo. A esses três pilares são
37

associados, respectivamente, mecanismos coercitivos, normativos e miméticos como pressões


institucionais que moldam ou direcionam o posicionamento organizacional tem relação ao
ambiente. Neste contexto, um olhar institucionalista poderá perceber que esses três mecanismos
funcionam no contexto do crescimento organizacional. Pressões coercitivas podem ser
reconhecidas no mundo dos negócios como metas. Há metas de faturamento, de produção, de
market share etc. Normalmente as metas são de crescimento, não o contrário. Quando uma
organização depende de outra em uma relação de subordinação, esse mecanismo pode ser
direto, como no caso revendas de automóveis que se subordinam às montadoras. Pressões
normativas parecem ocorrer via organizações de fomento empresarial, como SEBRAE e
instituições de ensino (escolas de negócios). Orientações de órgãos legitimados ou a formação
direcionada ao mercado pode criar necessidade de adequação. O crescimento também pode
significar adequação por meio da repetição de ações de organizações que compartilham o
mesmo setor ou ambiente, uma vez que uma das formas de lidar com a insegurança e incerteza
ambiental pode ser o mimetismo.

A adequação à lógica do crescimento poderia proporcionar às organizações


motivos e a legitimidade suficiente para que as ações organizacionais sejam tidas como certas
ainda que os resultados dessas ações não sejam adequados do ponto de vista ético ou moral.
Legitimidade, conforme contextualizada na teoria institucional (MACHADO-DA-SILVA;
FONSECA; CRUBELLATE, 2005; SCOTT, 2001, ROSSONI, 2012) provê suporte para
manutenção de uma determinada organização em um determinado ambiente. Nesse ponto, cabe
observar que essa lógica não está presente apenas ao mundo organizacional, mas um discurso
social construído sobre a ideia do desenvolvimento como forma natural de se melhorar a
sociedade.

Desenvolvimento nesse sentido é o econômico. De certa forma a ideia de


desenvolvimento defendida pela maioria dos economistas ecoa no mundo social e está atrelado
ao discurso organizacional. Alguns economistas (JACKSON, 2009; VICTOR, 2008; AYRES,
1998; LATOUCHE, 2009, 2009b; DOUTHWAITE, 1992), entretanto, já têm sinalizado que a
questão do crescimento sem limites para a economia pode ser um problema e deve ser apreciada
com atenção.

Se o crescimento econômico pode ser entendido, a grosso modo, como a soma


dos crescimentos individuais de organizações de diversos setores, há uma lacuna a ser
preenchida com o entendimento sobre as possibilidades ou consequências do não crescimento
38

para as organizações. Assim, nesse trabalho, embora se possa referir também ao crescimento
econômico em aspecto amplo, busca-se o entendimento da questão do crescimento em nível
organizacional. Contudo, uma vez que se admita ser o crescimento uma instituição presente no
contexto organizacional moderno, como é possível explicar a existência de organizações que
voluntariamente optam pelo não crescimento? Especificamente este estudo focaliza a
organização de trabalho artesanal na medida que se entende esta constituir instância de
resistência ao crescimento, tal como será apresentado nas seções 5.3 e 5.4.

Friedland e Alford (1991), que enfatizam a necessidade de estudo


interinstitucionais, argumentam que, para além das instituições, deve-se acrescentar o conceito
de lógica institucional. Afirmam os autores que “lógicas institucionais são sistemas simbólicos,
maneiras de ordenar a realidade, tornando assim a experiência no tempo e espaço significante”
(FRIEDLAND; ALFORD, 1991, p. 243). Os autores apontam as principais instituições do
ocidente capitalista contemporâneo: mercado, Estado, democracia, família e religião.
Diferentes lógicas estariam presente nas diferentes instituições. Thornton, Jones e Kury (2005)
apresentam seis diferentes lógicas: a lógica de mercado, a lógica corporativa, a lógica de
profissões, a lógica de estado, a lógica de família e a lógica das religiões. Não obstante as
pesquisas envolvendo lógica institucional ainda sejam recentes e em desenvolvimento, os
autores parecem aceitar a coexistência de diferentes instituições e diferentes lógicas
institucionais

A existência de diferentes lógicas que coexistem em harmonia e dão coesão ao


mundo social é subjacente aos conceitos demostrados por Friedland e Alford (1991). Os autores
resgatam a ideia de instituição societal e propõe a ampliação do conceito de instituição. Para os
autores, os campos organizacionais podem apresentar suas lógicas próprias, contanto que se
considere que elas são hierárquicas na forma e imbricadas com as cinco instituições societais
centrais do capitalismo ocidental apresentadas por eles - o mercado capitalista, o Estado burocrático,
a democracia, o núcleo familiar, e a religião cristã.

Não obstante ao crescimento dos estudos institucionalistas, é relevante


considerar um dos pontos de maior ataque ao institucionalismo, sua ênfase na permanência e
homogeneidade e desconsideração da mudança e da agência (CARVALHO, VIEIRA,
GOULART, 2005). A questão da agência e da mudança tenha entrado na agenda dos
institucionalistas (MACHADO-DA-SILVA, FONSECA; CRUBELATTE, 2005) a abordagem
institucional ainda recebe críticas por ter em seu arcabouço a premissa do equilíbrio social e
39

tendência a homogeneidade. Em adição, a questão do poder é tida como ausente (MISOCZKY,


2003).

2.2 O TRABALHO ARTESANAL

O modo de produção artesanal contrasta hoje com a produção em larga escala da


grande indústria. A forma de trabalho mais comum até meados do século XVIII cedeu espaço
às atualizações tecnológicas, econômicas e da forma organizacional que perduram até os dias
atuais (HOBSBAWM, 1996; POLANY, 1980). A metáfora da transferência paulatina das
habilidades do artesão para as máquinas é usada para explicar como as habilidades antes
exclusivas dos artesões foram incorporadas, adaptadas, substituídas por práticas e processos
organizacionais burocráticos (WEBER, 1963; PRESTES MOTTA, BRESSER PEREIRA
1981; MOUZELIS, 1969). A organização burocrática descrita por Weber (1963), sob a forma
de tipo ideal por meio de suas características associa meios aos fins. Assim, ela seria
caracterizada principalmente por aspecto racional. Racionalizar, nesse contexto, seria a
adequação entre meios e fins. Conceito derivado deste primeiro é eficiência, segundo o qual a
economia de tempo e de recursos deve fazer parte de um processo de otimização que eleve a
produção industrial a um patamar no qual haja a maximização da produção com a minimização
de custos ou recursos. A burocratização das organizações parece ter feito com que fosse
necessário a despersonalização do trabalho do artesão. A eficiência desenvolvida nas fábricas
e os baixos custos associados à produção de grande escala proporcionaram às fábricas uma
capacidade de produção que nenhuma oficina artesanal jamais alcançaria.

Hoje, o trabalho artesanal talvez seja reflexo daquilo que já foi antes da
Revolução Industrial, mas adaptado aos tempos atuais com algumas características que
sobreviveram ao tempo. O artesão moderno dispõe de máquinas e ferramentas que facilitam o
trabalho. Muitas vezes máquinas e ferramentas produzidas por grandes indústrias. O trabalho
artesanal contudo, pressupõe em si uma componente artística no ato de produção de um objeto.
Arte, nesse sentido, denota que a produção de um objeto vai além da eficiência.

Na concepção platônica arte é uma forma de conhecimento e não se distingue a


arte das Ciências ou da Filosofia, uma vez que, como a arte, estas são também atividades
ordenadas. Arte e técnica estariam mais próximas que o julga o senso comum atual.
Consideravam-se dois tipos de artes ou técnicas: aquelas dedicadas ao conhecimento ou
judicativas, e aquelas voltadas para uma atividade baseada no conhecimento de suas regras
(ARGAN, 1992; JANSO, 1996). A arte definida pela Filosofia como criação caminhou por
40

séculos passando pelos conceitos ligados à imitação da natureza, passando pela valorização da
qualidade do objeto imitado até à visualização do artista como gênio e criador separado da
natureza e igualando-se à Deus.

Nesse estudo, entendo o trabalho artesanal como aquele realizado manualmente


pelo artesão mesclando habilidade técnica de produção e arte na criação e produção de objetos
funcionais. Fica desde logo explícito que não me atenho àquele artesanato destinado à produção
de adornos, decorações e similares comuns da cultura popular. Esse tipo de artesanato, ainda
que produto do trabalho manual e imbuído de valor, é em grande medida regido pela lógica
instrumental e não necessariamente expressa a substantividade da relação entre o artífice e sua
criação. O termo prático aqui também serve para destacar o fato de que o objeto não é apenas
belo ou para ser apreciado, como uma escultura ou uma pintura, mas que tenha funcionalidade
e possa ser útil. Cabe dizer que um objeto pode ser útil sem ter uma ampliação especifica, ou
ter uma função inútil (DORMER, 1997; RISATTI, 2007; ROWLEY, 1997). Parece natural que,
para atender a essa definição, o objeto tenha sido pensando antes de sua produção, o que faz
com que o artesão veja o objeto antes de sua produção. O objeto, portanto, nasce na mente do
artesão antes de nascer para outras pessoas. Utilidade, nesse contexto, relaciona-se ao fato de
que o objeto foi concebido para desempenhar uma função específica, como uma instrumento
musical, ou uma faca.

O entendimento do trabalho artesanal como um conjunto de habilidades e


conhecimentos empregados na produção de objetos ou desempenho de atividades é
compartilhado por diversos autores, alguns de diferentes orientações teóricas (ADAMSON,
2007; BECKER, 1978; RISATTI, 2007). Mas o conceito de trabalho artesanal é de certa forma
complexo, pois abarca uma vasta gama de possibilidades. O artesão aqui estudado aproxima-se
ao artífice de Sennet (2013), que tem em seu trabalho uma forma de relação prática com o
mundo. Esse artesão cria objetos e imprime em cada objeto um pouco de si, de modo que a
relação entre criador e criaturas torna-se indissociável. Dito de outra forma, o artesão é
reconhecido por isso no objeto que produz.

A relação entre o artesão e o fruto de seu trabalho envolve o controle do processo


de produção desde a concepção do objeto à verificação quanto à qualidade final do objeto
(Sennet, 2013). Muitas vezes o trabalho do artesão mescla-se com sua vida familiar, de modo
que a oficina ou atelier é uma extensão de sua própria casa e as pessoas que ali trabalham numa
extensão da própria família, quando não a família em si. O trabalho artesanal, mais que um
41

modo de produção, é uma forma de perpetuação cultural. O artesão é em si um repositório de


patrimônio cultural intangível (HARTOG, 2006). O saber fazer confunde-se com o por que
fazer e não está no sujeito, mas é inerente à existência desse sujeito.

2.2.1 A Cutelaria artesanal

Esta seção destina-se à apresentação da cutelaria enquanto atividade humana


contextualizada historicamente. Faço um breve relato histórico para situar o leitor sobre as bases
do trabalho do artesão cuteleiro. Este relato tem início no período imediatamente anterior à
descoberta dos metais e termina no período moderno. Contudo, não é uma descrição densa ou
exaustiva, apenas são pontuados aspectos considerados historicamente importantes e
tecnicamente relevantes para a compreensão do contexto relacionado à cutelaria.

A cutelaria é uma arte ou ofício daquele que se dedica à produção de


instrumentos de corte. O artesão cuteleiro ou simplesmente cuteleiro produz facas, espadas,
machados, tesouras, navalhas e outros itens similares. Normalmente, usando aços de diversos
tipos. A beleza dessa atividade está também relacionada à sua trajetória histórica. Basta
considerar que o início da manipulação de metais tirou o homem do período histórico conhecido
como Idade da Pedra (TYLECOTE, 2002). Embora o termo ‘Idade da Pedra’ esteja ligado ao
uso de rochas para a confecção de ferramentas, outros materiais também eram utilizados como
madeira, ossos e chifres de animais. Há registros de ferramentas de pedra encontradas em
estudos arqueológicos (machados, pedras afiadas) que datam de cerca de 2,5 milhões de anos
a.C.9 (MCNAB, 2010). O uso de metais, contudo, estabelece o fim da Idade da Pedra e início
da Idade dos Metais.

A descoberta dos metais e o domínio das técnicas necessárias à fabricação de


objetos proporcionou um significativo avanço tecnológico. Acredita-se que o cobre (Cu) e o
estanho (Sn) foram os primeiros metais manipulados pelo homem para confecção de objetos.
Estes metais apresentam-se em estado sólido na natureza, são maleáveis, e embora ainda frágeis
para a confecção de lâminas de corte, são melhores que os materiais usados anteriormente
(madeira, sílex, osso). Apesar de serem demasiadamente maleáveis, isoladamente a fusão destes
dois materiais dá origem à uma liga conhecida pelo nome de bronze, cuja a criação é
considerada a primeira grande revolução da humanidade, uma vez que proporcionou a
fabricação de melhores ferramentas, utensílios e armas (TYLECOTE, 2002). É possível que

9
A convecção aqui reproduzida a.C. representa o termo Antes de Cristo, conforme referências consultadas.
42

tenha ocorrido por acaso, mas a descoberta do bronze inaugurou o período conhecido como
Idade do Bronze e corresponde a mais ou menos 3300 a.C.

A lança e o arco eram as principais armas do soldado do Egito e da Mesopotâmia


antiga. Pontas de flechas foram feitas no início de Silex, em seguida, de bronze e os
melhores exemplares eram capazes de perfurar armaduras corporais contemporâneas
a curta distância. Lanças foram utilizadas principalmente como armas de arremeço e
machados de guerra também foram utilizados, a invenção do bronze facilitou o
desenvolvimento de várias formas de combate. Espadas, devido ao custo da sua
produção, eram mais raras, mas tornaram-se cada vez mais popular durante o primeiro
milênio a.C. Foram encontradas espadas-wielding de guerreiros do Oriente Médio
com inimigos de outros territórios (MCNAB, 2010, p. 16).

Embora o ferro também fosse conhecido na antiguidade, a dimensão temporal


do início de sua utilização é mais controversa. Registros arqueológicos de ferro são mais raros
devido à característica de oxidação desse metal. Estima-se que o ferro foi descoberto 7000 anos
depois do cobre. Os primeiros registros da produção de ferro a partir de minério datam de
aproximadamente 2500 a.C. Contudo, seu uso em escala parece não ter começado antes do
século XII ou XI a.C. Além de ser encontrado como minério, o ferro pode ser obtido pela
redução de outros minerais e também tem origem meteorítica (trazido à terra pela queda de
meteoros). Neste último, contém algum teor de níquel (Ni) (TYLECOTE, 2002).

A produção e uso de ferro foi concomitante ao uso bronze por um longo período,
mas por volta de 1000 a.C. o uso do ferro passou a ser predominante. A produção de ferro
envolvia seu derretimento em fornos primitivos tendo como primeiro resultado um tipo de ferro
fundido. Este ferro é duro e quebradiço, mas sua resistência é aumentada à medida que o ferro
ganha percentuais de carbono em sua composição. O carbono era adicionado ao ferro por meio
da contaminação do ferro pelo próprio carvão utilizado na fundição e forja10 das peças.
Inicialmente os ferreiros acreditavam que estavam purificando o ferro no processo de forja,
contudo, eles estavam na verdade transformando o ferro em aço por meio da adição de carbono
em sua composição química. A produção mais antiga de aço que se tem conhecimento é a de
aço wootz no Sul da Índia. Esse aço é produzido em cadinho e tem alto teor de carbono, tipicamente
entre 1,0 e 2,1%. Era produzido sob a forma de lingotes fundidos (FEUERBACH, 2006).

Quanto mais carbono em sua composição mais duro é o aço. A dureza é,


portanto, uma propriedade interessante quando falamos de lâminas de corte, mas uma peça de
aço muito dura pode se quebrar facilmente, como vidro. Por outro lado uma peça de aço muito

10
Forja é o processo de modelagem do metal por meio do aquecimento e choque mecânico. Forja também é o
nome que se dá ao forno utilizado para o aquecimento do metal que será moldado pelo ferreiro ou cuteleiro. Após
o aquecimento do metal a forma é dado por sucessivos golpes de martelo na peça sobre uma bigorna.
43

maleável não retém fio, como o ouro. Deste modo, deve haver um equilíbrio entre dureza e
maleabilidade. O teor de carbono dos primeiros aços fabricados variava de 0,07% até 0,8%
,sendo este último considerado um aço de verdade (SHERBY, 1999). Provavelmente, o
equilíbrio entre dureza e maleabilidade foi sendo desenvolvido empiricamente por tentativa e
erro.

A confecção de diferentes tipos de aço já na antiguidade proporcionou a


possibilidade de combinações entre esses aços, e por volta dos primeiros séculos da Era cristã
foram popularizadas as espadas de aço damasco (FEUERBACH, 2006; SHERBY, 1999;
TYLECOTE, 2002).

Figura 2 - Espada de Damasco.

Fonte: FIGIEL (1991)

A origem deste tipo de aço não é consenso, mas acredita-se que tenha recebido
o nome da primeira região em que este tipo aço foi visto pelos ocidentais, a cidade de Damasco,
Pérsia, atual Síria. As características das espadas de aço damasco impressionavam pela beleza,
leveza e habilidade de corte. Características nunca antes vistas reunidas em uma lâmina com
tanta harmonia. Atualmente as facas de aço damasco são bastantes valorizadas na produção de
44

facas artesanais. Não apenas na produção artesanal, mas também na produção industrial. Facas
de aço damasco são produzidas também em larga escala e até falsificadas. Atualmente muitas
facas de uso culinário são feitas usando essa técnica, como se pode observar na figura 2.

Figura 3 - Faca em aço damasco

Fonte: acervo Hammer

Finalizado a questão do aço carbono, para os padrões modernos o percentual de


carbono no aço varia de 0,008% até 2,11%. Aços de baixo teor de carbono, com [C] < 0,3%,
são aços que possuem grande ductilidade, bons para o trabalho mecânico e soldagem
(construção de pontes, edifícios, navios, caldeiras e peças de grandes dimensões em geral).
Estes aços não são temperáveis; Aços de médio carbono, com 0,3 < [C] < 0,7% são aços
utilizados em engrenagens, bielas, etc.. São aços que, temperados e revenidos, atingem boa
tenacidade e resistência; Aços de alto teor de carbono, com [C] > 0,7%. São aços de elevada
dureza e resistência após a tempera, e são comumente utilizados em molas, engrenagens,
componentes agrícolas sujeitos ao desgaste, pequenas ferramentas, etc.

Sabendo-se disso cuteleiros artesanais aproveitam-se de materiais descartados


para produzir suas peças. Na maioria das vezes aços de alto teor de carbono, principalmente de
molas de carros, capas de rolamento e pelas de componentes agrícolas.

No final do século XIX descobriu-se o aço inox. Diferente do aço carbono o aço
inox é extremamente resistente à corrosão e assim foi considerado um potencial substituto do
aço carbono na confecção de armas de fogo cujos gases resultantes da queima da pólvora negra
eram extremamente corrosivos ao aço carbono. Contudo, a primeira aplicação para o aço inox
não foi para armas, mas para utensílios de cozinha, como facas e talheres que oxidavam
facilmente em contato com ácidos presentes nos alimentos (TYLECOTE, 2002). Ainda assim,
apreciadores de facas costumam preferir facas de aço carbono por sua maior capacidade de
retenção de fio.

Na Europa várias cidades tornaram-se centros produtores de aço, normalmente


isso era relacionado à existência de ferro e de minas de carvão. Eventualmente uma cidade
possuía metais e a outra minas de carvão. Foi o caso de Sheffield e Birmingham na Inglaterra,
45

Solingen e Erfurt na Alemanha, Eskilstuna na Suécia, Maniago e Bréscia na Itália, Eibar e


Toledo na Espanha. Estas cidades atraiam cuteleiros e produtores de armas. São todas, ainda
hoje, referências na produção cuteleira.

No Brasil, a primeira experiência siderúrgica de que se tem notícia ocorreu em


Sorocaba quando bandeirantes encontraram uma jazida de ferro e fundiram uma cruz. Para
tanto, foi necessário construir uma olaria, fazer tijolos, construir o forno de fundição. Isso foi
feito para testar a qualidade do ferro encontrado.

É curioso que a metalurgia extrativa no país tenha sido inaugurada em São Paulo. Seu
início coincide com a união das Coroas portuguesa e espanhola entre 1580 e 1640, e
a principal preocupação colonial espanhola sempre foi a obtenção de metais preciosos.
Assim, os "engenhos de ferro" ligados ao nome de Afonso Sardinha, de 1590, em
Araçoiaba e Sorocaba, e o de Diogo de Quadros, em 1606, em Santo Amaro, são
incentivados pelo 7Q Governador Geral do Brasil, D. Francisco de Souza.

Ambos empreendimentos estavam encerrados por volta de 1620, e deles relata a


Câmara paulistana criticando o alto custo do ferro produzido e seus proprietários
justificando as dificuldades com a mão-de-obra.

Recentemente foram descobertas ruínas, em Sorocaba, que provavelmente são do


"engenho" de Afonso Sardinha2, e o local está sendo estudado pelo Museu Paulista.
A Figura 1 é uma reconstituição esquemática daqueles fornos. Por outro lado, o sítio
onde se localizou o engenho de Santo Amaro foi, também recentemente, atingido
pelas obras da Avenida Marginal do Rio Pinheiros, na altura da Ponte João Dias, em
São Paulo. (LANDGRAF, TSCHIPTSCHIN, GOLDENSTEIN, 1995, p. 107).

A figura de que trata o trecho acima está representada abaixo.

Figura 4 - Esboço de forno típico de século XVI

Fonte: (LANDGRAF, TSCHIPTSCHIN, GOLDENSTEIN, 1995, p. 107).

As forjas construídas por Sardinha operaram até a sua morte, em 1616. Após
essa data, a siderurgia brasileira entrou em um período de estagnação que durou até o século
seguinte.
46

Rever o contexto histórico é interessante a medida que auxilia a compreensão de


aspectos das práticas dos cuteleiros artesanais. A atividade do artesão cuteleiro esteve em
grande medida ligada à atividade siderúrgica, contudo só em meados do século XVIII percebeu-
se a produção de aço com algum padrão constante de qualidade. Desse modo, o conhecimento
sobre as características do metal e a habilidade para sua transformação foram desde o início
necessários ao artesão (FEUERBACH, 2006; SHERBY, 1999). Um dos aspectos da cutelaria
moderna é a utilização de materiais tradicionais e técnicas ancestrais ao mesmo tempo em que
utilizam aços de última geração e na fabricação de peças.

O próximo capítulo destina-se à apresentação dos procedimentos metodológicos


que orientaram esta pesquisa.

3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

Este capítulo é dedicado à descrição dos procedimentos metodológicos


orientadores da aplicação do método de pesquisa destinado a investigação na área substantiva
descrita anteriormente. Esses procedimentos estão detalhados a partir da especificação do
problema de pesquisa e do delineamento da pesquisa. Enquanto a especificação do problema
de pesquisa consistiu no desenvolvimento de perguntas de pesquisa, o delineamento traz o
detalhamento da estrutura de investigação proposta, desde sua finalidade até a tratamento dos
dados (BABBIE, 1998).

3.1 ESPECIFICAÇÃO DO PROBLEMA DE PESQUISA

A especificação do problema de pesquisa atende aqui o requisito de guiar o


pesquisador no trabalho de campo, sobretudo nos estágios iniciais da investigação empírica. Os
objetivos específicos dessa tese foram transformados em perguntas de pesquisa e apresentados
na seção seguinte.

3.1.1 Perguntas de Pesquisa

Os objetivos específicos deste trabalho foram transformados em perguntas de


modo a servir como guia no trabalho de campo, em especial nos estágios iniciais da investigação
empírica. Relacionam-se portanto ao crescimento organizacional e sua relação com trabalho
artesanal.
47

• Como ocorre a dinâmica do trabalho artesanal no contexto de uma pequena organização


(organização de pequeno porte)?

• Como se dá o crescimento da organização no contexto do trabalho artesanal?

• Como se dá a relação entre o trabalho artesanal e o crescimento organizacional no contexto


da pequena organização (organização de pequeno porte)?

3.2 DELINEAMENTO DA PESQUISA

Conforme Babbie (1998) o delineamento representa a descrição do plano geral


da pesquisa de um determinado fenômeno. Essa tese está delineada por meio dos seguintes
elementos: finalidade da pesquisa; método da pesquisa; delimitação; coleta de dados;
tratamento de dados e critérios de avaliação.

3.2.1 Finalidade da Pesquisa

De acordo com as especificações do problema de pesquisa, o objetivo desta


pesquisa é a construção de uma teoria substantiva que seja capaz de explicar como se dá a
relação entre o trabalho artesanal e o crescimento organizacional no contexto de uma pequena
organização.

3.2.2 Método de Pesquisa

Em razão da finalidade e dos objetivos da pesquisa optei pelo método da


Grounded Theory. Esse método foi proposto por Glaser e Strauss (1967). Diferente de outros
métodos por meio dos quais se testam teorias e hipóteses a partir de um referencial teórico, na
Grounded Theory propõe-se a construção de uma teoria que explique um determinado
fenômeno em uma dada área substantiva.

Conforme Bandeira-de-Mello e Cunha (2007, p. 247), teoria em ciências sociais


trata-se de “um conjunto integrado de proposições que explicam a variação da ocorrência de
um fenômeno social subjacente ao comportamento de um grupo ou à interação entre grupos”.
No caso da Grounded Theory propõe-se a construção de teoria substantiva que, diferentemente
das teorias formais, procura explicar fenômenos em uma determinada área empírica.

Por dispensar um referencial teórico, a priori não é método dedutivo, mas por
considerar teorias preexistentes, também não é indutiva. A lógica da Grounded Theory é
abdutiva e calcada em dois pilares principais: comparação constante e amostragem teórica
48

(REICHERTZ, 2007; GLASER; STRAUSS, 1967). A lógica abdutiva apresenta características


dedutivas e indutivas, uma vez que na geração do conhecimento alternam-se no mesmo
processo.

A primeira característica da Grounded Theory é a constante comparação.


Segundo Glaser e Strauss (1967) essa comparação se dá em estágios: (i) comparação entre
incidentes e sua junção em categorias; (ii) integração das categorias e suas propriedades; (iii)
determinação de dois níveis, de teoria e das categorias; e (iv) redação da teoria a partir dos
memorandos das categorias.

A segunda característica importante do método é a amostragem teórica. É uma


forma direcionada pelas categorias que emergem dos dados. A primeira amostragem, com
frequência, segue por meios comuns a outros métodos (MORSE, 2007), mas novas amostras
vão sendo necessárias à medida que os dados emergem categorias que necessita de comparação.
Nesse sentido, a amostragem não visa a representação de um universo, mas uma possibilidade
de encontrar variações (e.g., novas pessoas, grupos, organizações, países) nas dimensões
empíricas apontados pelos dados.

Ainda que os elementos (i) comparação constante e (ii) amostragem teórica se


mantenham como características principais, a Grounded Theory sofreu algumas mudanças em
relação à proposta original. Strauss e Corbin (2008) apresentaram as bases e o início de uma
forma mais construtivista do método (MILLS; BONNER; FRANCIS, 2006). Charmaz (2006)
e Clarke (2005) dão continuidade a essa base construtivista apresentando alternativas de
operacionalização do método, principalmente em relação ao processo de codificação. Strauss
e Corbin (2008) apresentam um detalhado processo de codificação e destaca a criatividade do
pesquisador no processo de coleta e de análise de dados. O pesquisador é visto como
instrumento de coleta de dados. Também destacam a função de diagramas, notas de análise e o
uso da sensibilidade teórica.

O que se pretende gerar em Grounded Theory é uma teoria substantiva, em


outras palavras, uma teoria focada em um determinado grupo ou uma determinada situação.
Não se visa generalizar conceitos além da sua área substantiva (BANDEIRA-DE-MELLO;
CUNHA, 2007). Diferente de uma teoria formal, que está no nível conceitual e é passível de
generalizações, a teoria substantiva visa explicar um fenômeno em uma limitada área empírica,
enquanto a teoria formal é desenvolvida para uma área conceitual (MACIEL, 2011 p. 60). Nesta
49

tese, a área empírica sobre a qual foi elaborada a teoria substantiva são as pequenas empresas
de trabalho artesanal que optam pelo não crescimento organizacional.

A elaboração de teoria substantiva também exige que ela seja relevante. Em


outras palavras, deve ser densa11 e de alto poder explicativo (TAROZZI, 2011). Segundo Glaser
e Strauss (1967, p. 3), “gerar teoria é uma forma de se chegar à teoria adequada ao seu uso
presumido”. A teoria gerada, na visão dos autores, deve ter ao menos quatro propriedades
relacionadas entre si:

A primeira propriedade necessária é que a teoria deve ajustar-se estreitamente à área


na qual será utilizada. Segunda: ela deve ser facilmente compreendida por leigos
interessados na área. Terceira: ela deve ser suficientemente geral para ser aplicável a
uma grande diversidade de situações cotidianas na área substantiva, não para somente
um tipo específico de situação. Quarta: ela deve permitir o controle parcial do usuário
sobre a estrutura e o processo de situações cotidianas, conforme elas mudam ao longo
do tempo (GLASER; STRAUSS, 1967, p. 237).

3.2.3 Amostragem teórica

Essa pesquisa é limitada à área substantiva já definida. Como não há


preocupação estatística ou de geração de amostras que representem um universo, o número de
organizações é irrelevante. Contudo, a pesquisa está restrita a organizações de produção
artesanal que, mesmo tendo possibilidade de crescimento, mantêm-se pequenas. A questão da
produção remete à possibilidade de amostras teóricas que envolvam empresas que ocupam
posição oposta (grandes indústrias) ou similares (outras pequenas empresas artesanais).
Produção artesanal refere-se à produção que envolva a arte, perícia, habilidade ou outra
expressão semelhante do sujeito. Modernamente, temos o artesanato como expressão cultural
popular, mas nesse estudo, a arte refere-se ao artificie (SENNETT, 2013), ao sujeito que domina
o processo de produção como um todo e assim é capaz de dar sentido ao seu trabalho.

Os critérios para escolha da amostra intencional seguiram a sugestão de Strauss


e Corbin (2008):

• Escolher um local ou grupo para estudo – escolha essa guiada pela questão principal da
pesquisa;

• Escolher os tipos de dados a serem usados – preferencialmente aqueles que tiverem


maior potencial de fornecer os dados relevantes para a pesquisa;

11
“as propriedades e as dimensões importantes de uma categoria foram identificadas, construindo variação, dando
precisão a uma categoria e aumentando o poder explanatório da teoria” (STRAUSS; CORBIN, 2008, p. 156).
50

• Determinar o tempo em que uma área será estudada; e

• No processo de amostragem teórica, considerar o acesso, o tempo e os recursos


disponíveis do pesquisador.

O local escolhido para a realização da pesquisa foi determinado após um longo


período de investigação. Para atender aos quatro quesitos acima foi necessário estabelecer o
seguinte processo: (i) pesquisa de possíveis empresas, seguido de (ii) investigação preliminar,
(iii) visita in loco, (iv) entrevista preliminar e (v) análise da viabilidade da pesquisa com base
nas características pré definidas em relação ao problema de pesquisa.

O processo de escolha do local da pesquisa precisou aliar vários fatores, mas um


se mostrou sensível em especial: a evidenciação da opção pelo não crescimento. Durante o
processo de investigação descobri que a declaração de intenção de crescimento é quase sempre
cercada de uma certa desconfiança. Algumas vezes percebi que os discursos de proprietários de
organizações que afirmavam não querer crescer eram, na verdade, justificativas de uma situação
de impossibilidade. Ou seja, eles gostariam de serem maiores, mas em não podendo adotam um
discurso pró manutenção da estrutura. Isso ocorreu em algumas organizações. Por outro lado,
percebi a dificuldade por parte dos proprietários em se admitir a opção pelo não crescimento.
Talvez por que o comportamento socialmente esperado é aquele direcionado ao crescimento
organizacional.

No processo de escolha do local procurei não deixar evidente aos possíveis


participantes da pesquisa minhas intenções de pesquisa no tocante ao crescimento
organizacional. Assim, fez-se necessário uma investigação inicial que me possibilitasse saber
com certo grau de segurança que havia uma escolha consciente quanto ao não crescimento da
organização. Em geral, pude descartar ou não a organização após a primeira entrevista e visita.

A organização escolhida para a realização inicial da pesquisa foi a Cutelaria


Hammer do mestre cuteleiro Peter Hammer. Dentre as opções para a realização da pesquisa
esta organização mostrou interessantes aspectos, tanto em relação às características da
organização quanto do ponto de vista do acesso aos dados e aos informantes.

Durante o processo de coleta de dados, tive acesso a outros cuteleiros que


frequentaram a cutelaria, e desse modo eles também fazem parte de minhas observações.
Também realizei observações em outras duas organizações que estavam dentro do escopo desta
pesquisa: A Cutelaria ALF do cuteleiro Altino Lopes e o atelier do luthier Luiz Amorin.
51

O processo de amostragem foi realizado até o ponto em que as categorias


mostraram-se saturadas, ou seja, quando (a) nenhum dado novo ou relevante pareceu surgir em
relação a uma categoria, (b) a categoria estivesse bem desenvolvida em termos de propriedades
e de dimensões, demonstrasse variação e (c) as relações entre categorias estivessem bem
estabelecidas e validadas (STRAUSS; CORBIN, 2008, p. 205).

Esse processo também esteve ligado à minha sensibilidade em relação aos


conceitos emergentes (STRAUSS; CORBIN, 2008). Assim, procurei desenvolver a
sensibilidade teórica usando como mecanismo a consulta sistemática de informações acerca do
trabalho artesanal de pequenas empresa por meio da produção acadêmica formal, vídeos, sítios
na internet etc. Algumas dessas fontes foram importantes para que eu pudesse “conceituar e
formular uma teoria da forma como ela emerge dos dados” (GLASER; STRAUSS, 1967, p. 46,
tradução livre).

3.2.4 Coleta dos Dados

A coleta e análise de dados ocorreram entre os meses de Abril e Novembro de


2015. Os dados foram coletados por meio de investigação de dados secundários, entrevistas,
observação, observação participante, participação observante. (ANGROSINO e FLICK, 2009;
DURHAM, 1986). Strauss e Corbin (2008) destacam a importância da análise dos documentos
englobando literatura não técnica, como “biografias, diários, documentos, manuscritos,
registros, relatórios, catálogos e outros (STRAUSS; CORBIN, 2008, p. 47).

Para Angrosino e Flick (2009), a técnica de observação participante é confiável


na medida em que se faz o registro sistemático das informações, a análise de dados e a repetição
das observações por um período de tempo. Nesse tempo, triangulando os resultados com outras
técnicas como análise de documentos, entrevistas, narrativas, a fim de confirmar as informações
obtidas por meio da participação. A participação observante, conforme Durham (1986),
representa uma relação mais próxima e mais ativa em meio aos sujeitos. O pesquisador ingressa
nas atividades participando efetivamente do cotidiano sob observação tendo acesso aos
significados e sentidos vivenciados pelos sujeitos.

Strauss e Corbin (2008) estimulam o uso da literatura não técnica como forma
de promover a sensibilidade teórica, uma vez que ela pode fornecer questões conceitos iniciais
e ideias para amostragem teórica e assim auxiliar na geração de subsídios para a formulação da
teoria. Encontrei uma vasta rede de cuteleiros, apreciadores, compradores, colecionadores de
52

facas em redes sociais e me inseri nelas. Desta forma, além de realizar observações e fazer
contatos face a face, também pude fazê-lo de forma virtual. Isso me possibilitou perceber mais
facilmente algumas nuances em minhas observações na cutelaria.

Glaser e Strauss (1967) chamam a atenção para o fato de que a análise


documental tem a mesma importância na Grounded Theory que o trabalho de campo. Segundo
esses autores esse material pode ser valioso para a geração da teoria. Encontrei na própria
cutelaria uma vasta literatura sobre cutelaria. Revistas, livros, manuais, apostilas etc. No início
da observação, até que tivesse mais íntimo do ambiente e das pessoas, recorria à leitura desse
material sempre que me sentia pouco à vontade. De fato, isso ocorreu algumas poucas vezes no
início. Após minha ambientação passei a fazer análise desse material em dias de pouco
movimento. Uma coleção de revistas digitalizadas me foi passada pelo cuteleiro, assim como
alguns livros, revistas e manuais por empréstimo.

(...) biografias, diários, documentos, manuscritos, registros, relatórios, catálogos e


outros materiais que podem ser usados como dados primários, para complementar
entrevistas e observações de campo ou para estimular o pensamento sobre
propriedades e dimensões dos conceitos que surgem dos dados (STRAUSS; CORBIN,
2008, p. 47).

Em adição, fiz registro de notas de campo conforme sugere Maciel (2011).


Sendo parte da pesquisa que elabora interessa também registrar “os objetivos, as dúvidas, o
estado emocional do pesquisador e as opções para transposição das dificuldades na execução
da coleta dos dados para consecução do trabalho”. Principalmente no início das observações fiz
um registro em separado de meu estado emocional durante o processo de coleta de dados.

Considero nesse estudo o não crescimento como processo, uma ação ou o


resultado de um conjunto de ações. Portanto o estudo priorizou o olhar pelo olhar dos sujeitos
envolvidos nesse processo. Na pesquisa qualitativa de cunho interpretativo, coleta e análise dos
dados são atividades simultâneas desenvolvendo-se em um processo interativo (MERRIAM,
1998) levando à sua interpretação. Essa interpretação se dá pela descrição que, de acordo com
Strauss e Corbin (2008), leva à organização dos dados em categorias.

Inicialmente, elaborei um roteiro de entrevistas conforme sugestão de Strauss e


Corbin (2008) que está apresentado no Apêndice 1. Esse roteiro foi baseado nas investigações
iniciais sobre o contexto da cutelaria artesanal. O roteiro é semi estruturado e foi pensado apenas
para servir de guia, devendo ser flexível o quanto necessário. A ideia é que essas perguntas
iniciais sejam o ponto de partida para a coleta de dados. Segundo os autores, as questões mudam
conforme o direcionamento que os dados derem à pesquisa. De fato, foi o que ocorreu. Algumas
53

perguntas que inicialmente faziam sentido foram postas de lado e outras não faziam parte do
roteiro emergiram naturalmente.

Minha experiência com entrevistas em pesquisas qualitativas foi importante, em


especial nas primeiras entrevistas. Contudo, iniciar uma conversa é sempre um momento
delicado. Segui as sugestões de Heyl (2001, p.367) quanto à condução de entrevistas: a) ouvir
bem e respeitosamente, desenvolvendo um compromisso ético com os participantes em todas
as fases da pesquisa; b) adquirir uma autoconsciência do nosso papel na construção de sentido
durante o processo da entrevista; c) estar ciente de que o relacionamento contínuo e amplo no
contexto social dos sujeitos pesquisados pode afetá-los e a pesquisa e d) reconhecer que o
diálogo é a descoberta de um conhecimento apenas parcial. Tais conselhos destinam-se às
entrevistas levadas a cabo por etnógrafos e mostraram-se pertinentes ao contexto da presente
pesquisa. No mesmo sentido, Seidman (1998) adverte que deve-se (i) ouvir mais e falar
menos; (ii) explorar ao invés de investigar; (iii) não conduzir a resposta do entrevistado;
e, (iv) tolerar e analisar o silêncio dos entrevistados.

Os dados foram registrados por meio de notas de campo, gravações de áudio e


gravações vídeos. As primeiras entrevistas em geral foram formais. Entrevistas formais refere-
se àquelas entrevistas em que houve uma determinação prévia de tempo e local para a sua
ocorrência. Essas entrevistas foram posteriormente transcritas e analisadas. Embora as
entrevistas em profundidade tenham gerado uma vasta gama de informações, a observação
participante e participação observante foram as técnicas de coleta de dados que demandaram
mais tempo e que parecem ter dado mais sentido aos dados bem como bases para compreensão
de informações acerca daquele ambiente em estudo. Em todo o período em campo os dos foram
coletados por meio de: (i) investigação por dados secundários, (ii) entrevistas formais não
estruturadas (iii), observação, (iv) observação participante, (v) participação observante. O
Gráfico 1 representa, por aproximação, o período de ocorrência das diversas formas de coleta
de dados durante a o decorrer da pesquisa.

Segundo Durham (1986) a participação observante representa uma relação mais


próxima e mais ativa em meio aos sujeitos. Durante o período de coleta de dados observei que
há diferenças significativas entre observar, observar participando e participar observando. No
início desse processo eu era apenas um pesquisador interessado em observar as pessoas
trabalhando.

Grafico1: Métodos de coleta de dados no tempo


54

Fonte: o autor

Depois de caída a barreira do estranhamento inicial, passei a ser visto como parte
daquele meio, mais ainda um observador externo. No final do período de observação, ou seja,
mais de sete meses depois eu já não era visto como um externo, mas como um dos tantos
frequentadores do local. Cabe dizer que, mais ou menos na metade do período de observação,
eu deixei de apenas observar e fui aceito como aprendiz do mestre cuteleiro.

A próxima seção diz respeito aos aspectos ligados ao tratamento dos dados.

3.2.5 Tratamento dos Dados

O tratamento de dados ocorreu de acordo com Strauss e Corbin (2008) e


Bandeira-de-Mello e Cunha (2003). Foi utilizado o software Atlas.ti 7.5 como ferramenta de
ordenação sistemática dos dados e sua codificação segundo sugestão de Maciel (2011). Ainda
que coleta e análise dos dados sejam processos fortemente entrelaçados na Grounded Theory,
procurei detalhar separadamente o exercício de tratamento dos dados em função do seu grau de
estruturação nesse método. Esse processo está descrito aqui, de acordo com Strauss e Corbin
(2008) e Bandeira-de-Mello e Cunha (2007).

No processo de codificação se faz o questionamento acerca de possíveis


significados que emergem dos dados e se faz comparações constantes (STRAUSS, CORBIN,
2008). No Quadro 2 estão dispostos os tipos de dados coletados, os meios de coleta desses
dados, bem como os instrumentos de apoio e facilitação da coleta e os métodos de análise
empregados.

Quadro 2 - Meios de coleta e análise de dados


Instrumento de apoio
Tipos de dado Meios de coleta Análise
e facilitação
Entrevistas Codificação aberta,
55

Histórias Diálogos. Gravações de áudio axial e seletiva


Narrativas Participação observante Gravações de vídeo
Depoimentos Observação participante
Testemunhos Anotações de campo

Equipamentos de
Registro de imagens Observação
registro em mídia Codificação aberta,
eletrônica Anotações axial e seletiva
Registro de vídeos Observação participante.
em diário.
Equipamentos de
Práticas, atividades, Participação observante registro em mídia Codificação aberta,
técnicas Observação participante eletrônica Anotações axial e seletiva
em diário.
Fonte: o autor

Codificação aberta

A codificação aberta consiste na quebra dos dados por seguimentos, sua


conceituação e categorização (BANDEIRA-DE-MELLO, 2003). A quebra pode ocorrer por
palavras, expressões, frases, parágrafos. A Figura 6 demonstra a representação do processo de
codificação

Esse processo é um exercício de sistematização complexo que vai se tornando


mais intuitivo à medida da prática. Maciel (2011) sugere que nas primeiras vezes após
terminado o processo de codificação o pesquisador deve refazer o trabalho. Com isso será
possível acostumar-se com a sistemática.

Os códigos de primeira ordem auxiliam na identificação das propriedades das


categorias. Assim, os códigos originam as categorias e essas apresentam propriedades. Por
exemplo, no caso da categoria ação, a ação pode ter duração (longa – curta), propósito
(manutenção – mudança), execução (individual – coletiva) etc.

Figura 5 - Representação do processo de codificação


56

Fonte: o autor

Codificação Axial

Segundo Strauss e Corbin (2008, p. 124), esse é o momento em que “as


categorias são relacionadas às suas subcategorias para gerar explicações mais precisas e
completas sobre os fenômenos”. Na codificação axial as categorias são criadas segundo suas
propriedades e dimensões. As subcategorias respondem questões sobre o fenômeno, o
especifica e caracteriza, dando um maior poder explicativo ao conceito (STRAUSS; CORBIN,
2008). Nem todas as categorias apresentaram subcategorias.
57

Codificação Seletiva

Para a formação da teoria substantiva, a codificação seletiva representa um passo


de integração e refinamento. Espera-se nesta fase o surgimento de uma categoria central.
Strauss e Corbin (2008) apontam alguns critérios

• Todas as outras categorias devem se relacionar a categoria central;

• A categoria central deve apresentar alta frequência nos dados;

• Deve haver lógica e consistente na relação entre a categoria central e as


demais;

• Deve ter um rótulo de alto nível de abstração na categoria central;

• Quando relacionada a outras categorias a categoria central deve apresentar


aumento no seu poder explanatório:

• A explicação da categoria central deve alcançar variações nas condições sem


perder seu poder explanatório.

Strauss e Corbin (2008) afirmam que a ajuda de outros pesquisadores, que estão
mais distantes do estudo, pode ser altamente benéfica na identificação da categoria central.
Assim, nessa fase da investigação os dados foram discutidos com colegas do grupo de pesquisa
de Formas de Organização e Gestão de modo que eles pudessem contribuir na construção dessa
teoria substantiva.
58

4 ANÁLISE DOS DADOS

Apresento, neste capítulo, o processo de análise dos dados que possibilitou a geração
da teoria substantiva. Nesse processo estão contidas a codificação aberta, axial e seletiva. Procuro
descrever elementos importantes para a compreensão do processo de pesquisa e da construção da
teoria substantiva, tais como a descrição da trajetória do pesquisador em campo e a análise descritiva
do contexto dos informantes, além das codificações. Cabe dizer que as etapas da pesquisa são
apresentadas separadamente em subseções, mas se sobrepuseram durante o processo de pesquisa
conforme orientam Strauss e Corbin (2008).

Esta análise, portanto, não é um processo estático ou rígido, mas dinâmico, criativo
e com constantes movimentos. Não houve pré definição de categorias analíticas como seria comum
na lógica dedutiva de investigação científica, mas definição a posteriori durante o processo de
tratamento dos dados seguindo a lógica abdutiva comum ao método da Grounded Theory (STRAUS
e CORBIN, 2008; MACIEL, 2011).

A organização desse capítulo segue lógica semelhante a de outras teses nas quais se
utilizaram do método da Grounded Theory (MACIEL, 2011; MENEGASSI, 2013). Descreve
importantes elementos para a construção da teoria substantiva como a trajetória do pesquisador em
campo e análise descritiva do contexto dos informantes.

A análise dos dados começa com o entendimento do meu processo de inserção ao


campo. Esse entendimento é importante na medida em que o pesquisador é, em Grounded Theory,
parte do processo de coleta de dados (CHAMARZ, 2009) e não um observador externo passivo.

Fazem parte destes tópicos como se deu o meu processo de inserção no meio
estudado, minhas impressões, dificuldades e o processo de adaptação. Conforme Charmaz (2009),
cabe o registro dos fatores que marcaram a passagem do pesquisador pelo campo, uma vez que é o
pesquisador parte do processo de coleta dos dados.

Nesta pesquisa, a análise descritiva do contexto dos informantes, da dinâmica do


trabalho artesanal e do crescimento organizacional permite sintetizar da condição situacional dos
informantes. Por fim, aspectos da codificação aberta, axial e seletiva dos dados são apresentados no
desenvolvimento da teoria substantiva.

4.1 TRAGETÓRIA DO PESQUISADOR EM CAMPO

Para descrever a minha jornada em campo foi necessário rever todo o histórico de
informações geradas a partir de documentos escritos, imagens e vídeos. Partindo disso, elaborei uma
59

descrição densa em primeira pessoa de toda a experiência. Lembrando ser este um método
interpretativista, passei a analisar minhas próprias impressões sobre os fatos que se apresentavam
diante de meus olhos. A sensibilidade teórica para fazer perguntas, como sugerido por Strauss e
Corbin (2008), foi sendo construída desde o início das investigações iniciais e se aprofundando dia
a dia com contato com o campo.

Mais que observar ou participar, eu experienciei a vida cotidiana de um cuteleiro, de


forma que é difícil colocar toda essa experiência vivida em um formato escrito e rigoroso tal qual
se preconiza pelo método científico. Compreendo pois, que este é o trabalho do cientista, mas faço
a ressalva de que a realidade vista por uma janela será sempre mais bela que aquela descrita em uma
folha. A experiência aguçou minha sensibilidade teórica, talvez por eu ter encontrado um ambiente
familiar aos meus próprios gostos vinculados às atividades de campo. De fato, meu processo de
inserção no mundo da cutelaria também foi facilitado pela empatia que eu sentia por aquele meio e,
também, de certa forma penso ter sido aceito por apresentar algum engajamento nos temas comuns
àquele meio. Bandeira-de-Mello e Cunha (2007), apontam, entre outras coisas, os interesses do
pesquisador para a escolha da área substantiva a ser estudada. Weber afirma que “só aquele que se
coloca pura e simplesmente ao serviço de sua causa possui, no mundo da ciência, ‘personalidade’”
(WEBER, 1999, p. 27). O autor afirma ser necessário colocar o coração em sua obra para ser digno
desta. No caso desta tese, meus interesses estiveram sempre presente, a própria escolha do tema é
reflexo disso, mas o tipo de organização especificamente pareceu ser mais uma união entre o
necessário e o agradável. Isso parece ter facilitado um pouco o trabalho de permanência no campo.

4.1.1 Investigação preliminar

As primeiras investidas para a definição do campo ocorreram nos primeiros meses


do ano de 2015. A investigação preliminar para encontrar uma organização com as características
necessárias foi feita em uma entrevista com a presidente da ANAV (Associação dos Núcleos
Artesanais de Vizinhança), em Curitiba. Contudo, não encontrei nessa associação nenhuma
organização ou artesão que se enquadrasse nos moldes então definidos para este estudo. Fiz visitas
à algumas organizações artesanais, comunidades tradicionais, conversei por telefone com
produtores de queijo artesanal de Minas Gerais e por fim me interessei pelo o ofício dos cuteleiros.
Inicialmente, realizei alguns contatos via e-mail e com alguns deles, especialmente do estado do Rio
Grande do Sul. Minha maior dificuldade, nesse momento, era que esses cuteleiros encontrados,
inicialmente eram entusiastas, realizando a atividade como passatempo ou complemento de renda,
ou ainda eram empresas imersas na lógica de mercado. Contudo, essas primeiras entrevistas geraram
subsídios sobre o setor e a cultura dessa atividade. A última dessas entrevistas durou mais de três
horas e me deu a segunda orientação para a cutelaria na qual foi realizada a observação.
60

Nesse momento eu já havia estudado um pouco sobre a história da cutelaria e


colecionado muitas informações sobre o tema. Contudo, a vivência em campo pôde me fazer
compreender e dar sentido a algumas coisas.

4.1.2 Observação participante

A cutelaria ocupa parte de uma grande casa antiga cuja fachada se parece com uma
antiga fábrica. Outra parte da casa é ocupada por uma outra organização que trabalha com madeira.
Há um espaço em frente a essa casa onde ficam estacionados os carros.

Figura 6 - Fachada lateral

Fonte: o autor

Antes do primeiro contato de fato, ocorreu o que eu convencionei chamar de pré


entrevista. A negociação inicial para a entrevista envolveu algumas ligações e idas à oficina. Nesse
período, passei por momentos de apreensão, pois eu queria fazer tudo certo para não perder um bom
61

local em potencial para a pesquisa. Além dos dados positivos já levantados, minha intuição dizia
ser o local ideal. Abaixo, trecho de minhas anotações iniciais12:

Fiquei com receio de lidar, resolvi ir direto à cutelaria, dar uma sapeada por lá. Lá
chegando, o cuteleiro não estava. Conversei com duas pessoas que estavam lá, não sei se
eram cuteleiros ou aprendizes. Esperei por 15 min. Como ele não chegou fui embora. Fiquei
um pouco frustrado, mas estou com medo de forçar a barra. Por outro lado preciso definir
logo o período de observação. Talvez eu devesse ser mais assertivo. Caso não seja possível
o campo nessa cutelaria, continuo o processo. Mas espero que isso se resolva logo. (Nota
de campo do dia 18/Março/2015)

Mais uma vez não quis ligar e resolvi vir direto à cutelaria novamente, cheguei lá por volta
das 14 horas. O cuteleiro não estava, então pedi às duas pessoas que estavam trabalhando
para aguardar por ele. Ele não apareceu. Disseram que ele poderia estar com enxaqueca,
que eventualmente isso ocorria. Acabei ficando e passei a tarde toda na oficina observando
e foi bastante agradável. Conversei muito com um dos alunos (Cláudio) que é chefe de
cozinha de São Paulo. Está fazendo curso de cuteleiro e nele está fazendo uma faca de
cozinha. Quando cheguei ele estava usando a furadeira para cortar uma chapa de metal. Em
breve essa chapa vai virar uma faca, disse ele. De quebra ele me ensinou uma receita de
tempero para carne de porco. (Nota de campo do dia 19/Março/2015)

Os primeiros contatos com o mestre cuteleiro Peter foram muito amistosos. Apesar
do ar intimidador imposto pela grande barba ruiva, estabelecemos inicialmente um diálogo amistoso
e informal. Na primeira entrevista formal eu tive muita preocupação de tudo gravar. Essa entrevista
ocorreu no início do mês de Março e determinou a escolha definitiva da cutelaria. No segundo
encontro eu levei a transcrição para sua apreciação, e solicitei a autorização para realizar a
observação que se iniciou imediatamente. Minhas notas contém, além das minhas impressões, o
descritivo mais apurado que pude fazer do ambiente.

Abaixo segue minha escrita feita após a primeira entrevista formal com o cuteleiro
onde relato minhas primeiras impressões. Esta entrevista marcou o início da observação
participante. Abaixo algumas notas sobre minha inserção no campo:

Pesquisando descobri que ele é uma referência na cutelaria nacional. Há muitas


reportagens, entrevistas e matérias diversas falando sobre seu trabalho. O que mais me
chamou a atenção foi uma entrevista no Programa do Jô, um talkshow de muito prestígio.
Contudo, apesar de ser uma figura “famosa”, me pareceu bem acessível em nosso contato
telefônico inicial. Solicitei uma entrevista e ele pediu que ligasse em alguns dias pela manhã
e confirmaríamos para o mesmo dia. Fiz isso e no dia quando me atendeu não lembrava do
combinado. Quando disse que era sobre a entrevista ele perguntou qual era o canal de TV.
Logo esclarecido marcamos para aquele mesmo dia à tarde. Lá chegando me deparei com
uma construção antiga, paredes altas de cor tom pastel. Embora estivéssemos em um bairro
residencial aquela construção me lembrava uma fachada de fábrica antiga. Era um prédio
grande, mas aparentemente meio abandonado em algumas partes e usado em outras. A
cutelaria de Peter ocupava apenas um espaço de uns 100 metros quadrados sem divisórias.
Outros espaços tinham outros usos por outras pessoa. Quando cheguei estava um tanto
apreensivo. Talvez ansioso. Temia um pouco pela qualidade da entrevista e, apesar da boa
impressão anterior, pela receptividade do entrevistado. Talvez estivesse um pouco

12
Serão citadas doravante trechos de anotações de campo e de entrevistas. Notas de campo corresponderão à anotações
feitas por mim sobre minhas próprias impressões de fatos observados ou experiências, mas podem também representar
a voz dos informantes, uma vez eu procurei anotar suas falas do modo como foram ditas em momentos diversos do
cotidiano da cutelaria. Trechos de entrevistas corresponderão sempre à fala literal de cuteleiros ou aprendizes que
concederam entrevistas formais e informais.
62

impressionado por falar com alguém “importante”. Uso as palavras que primeiro me vêm
à mente, talvez não sejam as melhores, mas o fato é que hesitei um pouco até adentrar à
cutelaria e perguntar sobre Peter. Depois de estacionar a moto, andei uns poucos passos ao
lado da construção e adentrei por uma porta. O local parecia um depósito cheio de máquinas
diversas, lixadeiras, estantes com coisas diversas, muitas delas antigas. Havia algumas
mesas sobre as quais muitas coisas eram amontoadas. Mais ou menos ao fundo, cerca de
2/3 da sala, havia uma escrivaninha, que se percebia ser escrivaninha depois de ver que
havia uma cadeira do outro lado. Em um dos lados da sala estavam as lixadeiras nas quais
dois alunos trabalhavam. Peter me recebeu com um grande sorriso. Estava vestindo calça
jeans surrada, uma jaqueta camuflada tipo gandola de exército e botas pesadas.
Naturalmente senti grande empatia. Tanto pelo local, que me lembrava a oficina de meu
pai onde cresci em meio ao cheiro de graxa (no caso da cutelaria não havia tal cheiro),
quanto pela aparência despojada do sujeito. Imediatamente me lembrou os tempos de
escoteiro. Ele é ruivo e apresenta uma grande barba. Sua figura lembra a de um lenhador
canadense. Ele parecia ter chegado a pouco tempo na cutelaria, parecia estar ainda se
arrumando. Enquanto nos apresentávamos ele ia guardando uma ou outra coisa. Me
orientou a deixar a mochila na cadeira e então percebi que conversaríamos ali mesmo, em
pé no meio da oficina enquanto ele cuidava de seus afazeres, e os alunos lixavam suas facas.
Pedi autorização para gravar e iniciamos o bate papo. (Nota de campo do dia
30/Março/2015)

Fui apresentado aos aprendizes como alguém que estava fazendo um estudo sobre
trabalho artesanal. Todos ficaram curiosos sobre o teor da minha pesquisa, mas procurei omitir os
detalhes. De fato, embora eu soubesse que ocorriam cursos nesse local, foi para mim uma surpresa
a forte relação entre o ensino da cutelaria com as demais atividades.

Nos primeiros dias tentei fazer uso do notebook para registros, mas desisti. Não havia
um local adequando e a limalha de ferro poderia causar problemas técnicos no equipamento.
Durante todo período de observação, os registros digitais foram realizados por meio de notas
adicionadas em um aparelho de celular, um tablet e um notebook de acordo com a conveniência.
Esses aparelhos faziam automaticamente a sincronia de anotações entre eles e também com o
computador, que utilizei para centralizar os dados. Áudio, imagens e vídeos também foram
registrados com auxílio desses equipamentos. Também usei em alguns momentos uma câmera
filmadora GoPro.

A primeira semana foi uma sensação de alívio por finalmente estar em meu local de
observação misturada com outras tantas sensações. Uma delas, a de observar sendo observado.
Desde o início de minha trajetória acadêmica relutei um pouco com o termo ‘observação não
participante’. Embora não tivesse dado maior atenção a isso antes, durante as primeiras visitas de
observação em campo me deparei com essa questão. Tive a mesmo impressão relatada por Maciel
(2011) quanto à impossibilidade de não participar de algum modo da rotina do meio em que me
encontrava. O simples fato de estar lá já causava alguma impressão nas pessoas e isso já era o
suficiente para ‘participar’ de algum modo. Por mais que eu tentasse me fazer despercebido, por
óbvio isso não era possível. Eu fingia estar fazendo alguma coisa, afiando uma faca, cortando um
couro ou folheando uma revista. Em uma conversa futura com um dos aprendizes tive uma pista de
como eu era visto. Registrei em minhas anotações:
63

... a frase de um cuteleiro me deixou meio sem jeito hoje... disse ele “aqui todo mundo está
sempre ocupado com alguma coisa, ninguém está à toa... ninguém fica perdendo tempo e
isso é bom porque cada um faz o seu trabalho... (Anotações de campo do dia 05/Maio/2015)

Quando percebi que minha presença era motivo de curiosidade, procurei ser discreto quanto
aos meus objetivos de pesquisador, ainda que tivesse que explicar por que ali estava.
Contudo, me pareceu que o fato de estar ali como observador não constituiu uma
preocupação para as pessoas. Alguns até pareciam gostar de mostrar o que estavam
fazendo. Com exceção de um cuteleiro mais antigo. Esse parecia se incomodar de me ver
parado, sem nada produzir. Esse me falou umas duas ou três vezes que ele gostava daquele
ambiente, porque, entre outras coisas, todos estavam sempre ocupados fazendo alguma
coisa, ninguém estava ocioso. (Anotações de campo do dia 01/Maio/2015)

Eu realmente gostaria de estar fazendo alguma coisa útil, mas por outro lado, não
queria interferir no andamento das atividades da oficina. Principalmente sem a orientação do mestre
cuteleiro. O desconforto perdurou por um bom tempo até que eu parei de me incomodar.
Eventualmente um dos aprendizes me perguntava quando eu começaria a fazer minha faca e eu
desconversava, pois isso não estava nos meus planos. Eu costumava conversar sobre as atividades
que estavam sendo desenvolvidas pelas pessoas. Com o cuidado para não incomodar, afastava-me
quando achava que cuteleiros ou aprendizes estavam concentrados. Mas o normal, na maioria das
vezes, era que quisessem trocar ideias, davam conselhos e ensinavam coisas. Algumas vezes bastou
que eu passasse meu canivete em uma pedra de afiar para que eu imediatamente recebesse algumas
lições de afiação.

Hoje estavam trabalhando dois cuteleiros e um ex-aluno, todos concentrados.


Cumprimentei-os e passei a escrever algumas observações. Ao mesmo tempo em que eu
procuro conversar e entender como as coisas acontecem, evito interferir no trabalho. Um
dos alunos costuma trabalhar com fones de ouvido e já comentou comigo que faz isso para
não ser incomodado. Percebi que ele é um dos que tem a maior frequência na oficina
(Anotações de campo do dia 15/Abril/2015)

Com o passar do tempo essa relação foi se estreitando e eu fui sendo aceito pelo
grupo. A relação de alteridade foi sendo modificada pela minha incorporação de alguns traços da
identidade daquele grupo. Como já mencionei, houve empatia desde o início. Então, foi-me natural
a aproximação. O fato de estar afastado do trabalho na faculdade me proporcionou um bom grau de
liberdade. Com o passar de alguns meses minha barba já se mostrava mais comprida como nunca
havia estado. Eu passei a usar roupas um pouco mais pesadas como calças de algodão, cinto e botas
e, para espanto de alguns, adicionei por algum tempo uma faca ao meu kit diário de coisas que
carregava. 13

Roupas mais pesadas são, além de estilo, necessárias para a proteção no ambiente da
oficina. Há materiais cortantes, perfurantes e principalmente a forja que eventualmente fica o dia
todo funcionando. Estas forjas usadas em cutelaria podem atingir facilmente mais de mil graus
Celsius e as lâminas são retiradas delas incandescentes. Botas de couro e roupas de algodão são,

13
Em alguma medida passei por um processo aproximação identitária.
64

portanto, necessárias. Eu diria que são usadas apenas pela questão de segurança, se não tivesse
percebido que alguns cuteleiros não possuem roupa de trabalho. Usam as mesmas roupas com as
quais chegam da rua. A maioria com botas de couro e calças com bolsos grandes. Alguns gostam
de jaquetas camufladas. Além de roupas apropriadas, usam-se equipamentos de proteção como
óculos, avental de couro e outros a depender da atividade a ser exercida.

Algo que me chamou muito a atenção foi o fato de que o porte de facas, para vários
cuteleiros com quem tive contato, é algo tão natural quanto usar um relógio de pulso. Isso me
pareceu inicialmente um traço muito natural para eles, ainda que socialmente tenha-se a ideia
construída de que uma faca é uma arma. Perguntado sobre isso, um cuteleiro disse que ninguém
pode ser preso pelo porte de uma faca.

De fato, a faca é tida como arma branca pelo artigo 3º do Decreto 3.665/2000
(BRASIL, 2000) que define como arma branca o “artefato cortante ou perfurante, normalmente
constituído por peça em lâmina ou oblonga”. Este decreto destina-se a estabelecer as normas
necessárias para a fiscalização de produtos controlados pelo Exército. Contudo, a Lei de
Contravenções Penais (BRASIL, 1941) não trata de armas brancas e assim objetos desta natureza
não estão tipificados. Em outras palavras: não estão proibidos pela lei, assim não se pode punir o
cidadão pelo simples porte de uma faca. A Constituição Federal de 1988, no Art. 5º, II diz que
“ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei” (BRASIL,
1988). Deste modo, abre-se uma brecha para interpretações jurídicas.

Sempre foi meu costume portar canivete. Sou apreciador dos canivetes suíços
Victorinox desde criança. Mas sempre tive um sentimento de estar fora da lei com isso.
Eventualmente, algum amigo questionava: Mas você anda armado? A mesma pergunta é feita
quando alguém vê o facão no porta malas do meu carro. Ainda assim, eu quis passar pela experiência
de portar uma faca tal qual fazem os cuteleiros. Vários dos cuteleiros que participaram dessa
pesquisa portavam sempre facas por eles próprios produzidas, uma vez que facas comerciais não
são vistas com bons olhos. Embora algumas marcas seja reconhecidas como boas, é nítido a
preferência pelas facas produzidas de forma artesanal. Além dos aspectos mecânicos, outros
aspectos elevam a faca artesanal a um patamar superior. Inicialmente achei isso uma questão de
marketing, como ocorre em qualquer outra situação de valorização de um produto. Mas essa questão
se mostrou um pouco mais profunda, tanto no relato de cuteleiros, descrito no primeiro trecho
abaixo, quanto no de aprendizes, descrito no segundo trecho:

Então, aquilo que o samurai e outros falavam que a espada... é claro que eles falavam muito
das espadas... que elas tinham alma, que elas tinham energia. A gente considera isso, até
nas facas. Porque quando eu faço uma faca, eu fico horas e horas trabalhando numa peça.
Ela, de alguma maneira, absorve a minha energia de trabalho. E eu já senti isso. Eu estudo
um pouco essas coisas, empiricamente, é claro. Eu já senti que às vezes você tá fazendo
65

uma faca para uma pessoa, encomendado por outra. Você não conhece a pessoa. Você
começa a sentir certas características de certas pessoas. É engraçado se a pessoa está
passando por um problema. Aí depois você comenta com o que encomendou: - Escuta, esse
cara aí...? A pessoa comenta com você... E bate, sabe? Parece que uma forma, assim, uma
antena. É um negócio interessante... místico, mas eu acho que não. É místico pela nossa
ignorância, mas eu acho que é uma coisa física. De alguma maneira ela ocorre, e a gente
não entende bem. O ferro tem propriedades magnéticas. Isso é fato. E a gente não conhece
muito sobre isso. Magnetismo é uma incógnita. (Entrevista com cuteleiro,
25/Fevereiro/2015)

Então, cara, é assim, as vezes a gente tá trabalhando em uma peça e tudo começa a dar
errado. Aí você percebe que você não está legal. Tem alguma coisa no ar. Então você vai
fazer alguma outra coisa, porque é um fato que se você não está bem vai passar isso pra
faca. Pra você trabalhar precisa estar sereno. É o lance que os orientais falam, tudo é energia
e a sua energia também vai pra faca... (Entrevista com aprendiz, 20/Maio/2015)

No início eu fazia muitas anotações e registros, mas à medida em que o tempo foi
passando e as coisas deixando de ser novidades, eu diminuí meu ritmo de registros. A codificação
já não exigia tantos códigos novos. Um tempo depois eu fiquei preocupado, pois tinha a sensação
de que estava deixando as coisas passarem sem registrar. Tudo parecia ser importante, e isso foi
tema de discussão com meu orientador. Também me senti mais integrado ao espaço à medida que
o tempo passava. Isso foi registrado em minhas anotações de campo:

Minhas primeiras observações na oficina ocorreram já há três meses. Durante todo esse
tempo estive quase todas as tardes acompanhando o trabalho dos cuteleiros e de seus
aprendizes. Se por alguns momentos eu procurava ficar invisível para que não fosse
percebido pelos olhares dos presentes, com o passar do tempo eu passei a me sentir parte
do lugar. Não apenas pela hospitalidade daqueles que me recebiam, mas pela minha
percepção de estar em local familiar. Esta percepção foi construída durante esse período.
Concluí, intimamente, que observações não participantes, fazem parte de um rol de
conceitos científicos deslocados da realidade, pois a minha experiência me mostrou que
não há como não participar de um grupo social quando se está inserido nele. Por mais que
tentasse passar despercebido tornou-se óbvio que eu era notado. (Anotações de campo do
dia 30/Junho/2015)

O orientação foi de que eu colocasse a “mão na massa”. Tivesse um contato maior


com o trabalho. Isso me deixou apreensivo e empolgado, porque eu não imaginava como isso seria
feito, mas há tempos gostaria de trabalhar. Após conversa com o cuteleiro, ficou acertado que eu
começaria a trabalhar nos próximos dias. Nos dias seguintes eu fique com um certo grau de
ansiedade mas, depois de alguns dias, ele me propôs fazer o curso básico. Desse modo, fui
convidado a ser seu aprendiz e, em troca disso, o auxiliaria na elaboração de um livro sobre cutelaria.
Assim, iniciei o curso. A partir de então ficou mais fácil explicar minha condição na cutelaria.
Quando alguém novo chegava eu podia simplesmente dizer que era um aluno e não um pesquisador
realizando uma pesquisa. Isso também me fez ter uma sensação maior de pertencimento, uma vez
que eu era um aprendiz, como que de certa forma eu tivesse subido de posto.

Eu observei uma hierarquia informal, mas muito clara na dinâmica daquele ambiente.
Embora ninguém precisasse dizer, sabia-se que os mais velhos e conhecedores do ofício tinham
66

autoridade sobre os mais novos. Curiosa foi a conversa que tive com um dos alunos, o mais velho
entre eles, na qual ele demonstra se posicionar nessa hierarquia:

– há quanto tempo você trabalha com cutelaria?


– uns 10 anos
– ah, então você não é mais aluno...
– aqui eu sou
(Nota de campo do dia 10/04/2015)

A relação de respeito e admiração sempre foi perceptível entre todos os membros da


cutelaria. Em momento algum eu percebi traços de competição interna. O normal, como já
mencionado, era um ambiente de colaboração e ajuste mútuo. Podemos imaginar que nessa
hierarquia o mestre cuteleiro se posiciona no topo da pirâmide, contudo, essa não parece ser a melhor
descrição para aquilo que se observa na prática. Talvez fosse a posição central em uma disposição
radial uma descrição melhor. A centralidade do mestre cuteleiro envolve autoridade derivada de sua
capacidade de realização, habilidade e conhecimento.

Não havia horário para entrar ou para sair, nem tampouco alguém controlando isso.
Aprendizes mais antigos podiam abrir a oficina ou ficar até mais tarde trabalhando, uma vez que
dispunham das chaves do local. Mas em geral a oficina era fechada quando dava o horário do Peter
ir embora.

Considero que o período de observação participante encerrou-se no momento em que


me tornei aprendiz. A partir desse momento minha relação foi muito mais próxima e ativa, fazendo
muito mais sentido para mim o termo participação observante (DURHAM, 1986). Segundo esse
autor, a participação observante é caracterizada por um maior envolvimento e uma participação mais
ativa junto aos sujeitos. De fato, mais próximo e mais envolvido com o trabalho, eu precisei de mais
energia para manter minhas atividades. Uma das coisas pouco comentadas nas aulas de metodologia
é que fazer uma pesquisa de campo desta monta exige muita energia física e mental. O cansaço, que
já era relativamente grande, aumentou a partir desse período.

4.1.3 Participação observante

A primeira aula do curso é teórica. Inicia-se com a história da relação que temos
como os metais desde a pré história até os dias atuais. Já havia ouvido essa história quando
acompanhei o início do curso de outro aprendiz, mas Peter pareceu fazer questão de cumprir o
protocolo. Mas o que para mim mais se destacou foi que nesse, e absolutamente em todos os outros
inícios de curso que acompanhei, ouvi o seguinte discurso:

... nesse momento você assume o compromisso moral comigo de repassar um pouco ou
muito do que aprender para outra pessoa. Pode ser para um futuro aluno seu, um amigo ou
mesmo para o cliente que vai comprar sua faca... (Anotação de campo do dia
08/junho/2015)
67

Na entrevista inicial achei que poderia ser um exagero do informante a questão do


ensino da cutelaria, contudo constatei durante todo o período de observação que isso era uma
questão importante. Talvez, em alguns momentos, mais importante que o próprio negócio de fazer
facas. Peter parece ter uma preocupação com a perpetuação do ofício. E sua fala:

Uma profissão fechada morre. Ela acaba. Hoje tem mais de 600 (cuteleiros). Eu posso te
garantir que mais da metade é por minha causa. Existe uma geração de alunos, de alunos
dos meus alunos. Todos os meus alunos saem daqui com o compromisso de ensinar alguém
um dia. E já foram bem uns 250 alunos nesse tempo todo. Existe gente que leva isso muito
a sério e deu muita aula. Esse meu primeiro aluno, exatamente dez anos depois de ter feito
suas aulas, era professor de biofísica e bioquímica, ele estava fazendo seu doutorado. De
família alemã, morando em Florianópolis. Era um camarada que tem uma visão muito
pragmática, muito lógica, muito clara das coisas, por efeito do próprio trabalho e pela
origem, da criação alemã. Dez anos exatamente depois que ele fez... no mesmo mês do ano
em que faziam dez anos ele trouxe o filho dele pra fazer o curso. (Entrevista do dia
26/Março/2015)

Houve muitas interrupções de pessoas que chegavam na oficina, e uma pausa grande
para que um ex-aluno contasse sua história de como conseguiu se livrar da rotina de trabalho do
“mundo normal” para fazer o que gostava. Uma história que parece corroborar com que o próprio
Peter diz desde o começo de nossas conversas sobre as pessoas que procuram pelas suas aulas,
frequentemente pessoas frustradas com os destinos que suas vidas seguiram. Procurando remediar
isso com uma atividade que lhes dê algum sentido e satisfação.

Na segunda aula iniciamos o trabalho depois de muito bate papo. Peter fez o projeto
de uma faca explicando como e por que fazia dessa ou daquela maneira e em seguida pediu que eu
fizesse. Não que copiasse, mas que refizesse obedecendo alguns limites que ele estabeleceu quanto
a comprimento, largura, proporção etc.

... Peter orientou “As médias são bem simples, você pode usar ¼ ou 5/8 ou 3/8. Porque é
isso que você vai encontrar para comprar”. Peter sempre se atém aos detalhes práticos como
coisas fáceis de se encontrar para comprar ou de fácil acesso na região do aluno. Tudo
muito prático e orientado à uma situação pragmática comprometida com a viabilização de
uma atividade futura. O primeiro aluno com quem conversei estava fazendo tudo sem usar
a lixadeira. Dava um trabalho muito menor se fizesse uso da máquina. Peter me explicou
depois que, como ele morava em uma outra cidade e não teria máquinas à sua disposição,
deveria aprender a fazer sem elas. (Anotações de campo do dia 09/Junho/2015)

Depois de algum tempo terminei o meu desenho, que era cópia quase fiel do desenho
dele. Preferi a segurança da cópia à aventura do desconhecido. Há muito tempo não desenhava e
não imaginava que faria um desenho tão bom, ainda que estivesse copiando. Peter insistia dizer que
ele nunca teve nenhuma habilidade inata, que precisou aprender como muita gente faz.
68

Figura 7 - Projeto

Fonte: o autor

Após realizar o desenho, fiz três cópias dele. Uma para fazer o molde da lâmina,
outra para fazer o cabo e uma reserva. Fazer o molde da lâmina é basicamente recortar a parte da
lâmina do desenho e colar em uma folha de metal que depois também é recortada. Essa lâmina de
metal é um tipo de zinco e se corta com uma tesoura especial. Segundo o Peter, o alicate que ele usa
é um alicate da Corneta14 que foi projetado sob encomenda para cortar alho. Honestamente, não dá
nem para imaginar como se cortaria alho com um alicate como aquele.

O processo de corte do molde é simples. Como na pré-escola. Cortar metal dá um


pouco de trabalho no começo, mas depois que se pega o jeito não há grandes problemas com isso.
Nessa etapa corta-se com meio centímetro de folga para depois fazer o corte mais preciso na folha
de metal. Engraçado que usamos a mesma tesoura para cortar tanto o papel quanto as folhas de
metal. Inicialmente é estranho, mas logo se vê que além de ser possível, é muito prático. Na verdade,
a precisão do corte é necessária apenas na parte final, quando se está cortando o metal, mas ainda

14
Corneta é nome de uma indústria brasileira que produz ferramentas e peças para indústria automobilística. Peter
trabalhou nessa indústria durante o desenvolvimento de um projeto de cutelaria. Nesse projeto houve a associação da
indústria com o cuteleiro de onde se resultou a faca Wotan, uma das facas nacionais mais valorizadas por colecionadores.
69

assim o arremate é feito no esmeril. O molde será usado depois, quando estivermos trabalhando na
lâmina. Será um guia para verificar se as medidas estão corretas de acordo com o projeto inicial.

Tendo o molde e uma peça de aço já é possível trabalhar na lâmina por desbaste.
Nesse caso, as próximas ferramentas seriam esmeril, lixadeira, lima, furadeira etc. Contudo, uma
opção ainda mais artesanal é moldar a peça por meio da forja. Forjar é dar forma ao aço por meio
de sucessivos golpes de martelo no aço quente. Assim, se você tem um pedaço de metal qualquer
pode transformá-lo em uma barra de comprimento, largura e espessura adequadas à faca que
pretende construir. Forjar é, portanto, dar forma.

Depois de escolhida uma barra de ferro, acendemos a forja e colocamos para


esquentar. Após alguns minutos, como sempre, Peter martelou e depois pediu que fizesse igual. A
prática que ele tem faz com que o trabalho pareça simples e fácil. Mas não é. As primeiras
marteladas são um desastre. O esforço inicial é simplesmente para não errar a peça. Muito longe de
se bater da forma correta em intensidade e ritmo. Ex-alunos me dão dicas e, às vezes, até atrapalham,
tentando me ensinar como fazer. Franco me chamou a atenção para o ritmo e posicionamento do
corpo.

Alguns pontos se mostraram importantes:

- a temperatura da peça: é preciso deixar a peça dentro da forja até que adquira uma
cor vermelho cereja. Lembrei disso quando me foi ensinado pelo aprendiz assistente de Peter15,
enquanto ele forjava sua própria peça. Antes disso (mais frio), o aço é mais duro, consequentemente
mais difícil de forjar. Depois disso (muito quente), pode perder suas propriedades químicas
tornando-se inútil para uma faca.

- a posição: inicialmente eu adotei uma posição de boxeador, com uma perna para
frente e outra bem para trás, o que fazia com que meu corpo se projetasse para frente para dar os
golpes de martelo. Com o tempo e dicas do Franco, adotei uma posição mais ereta e mais próxima
da bigorna. Isso facilitou muito o trabalho.

- o ritmo: as batidas exigem uma cadência, não basta força. Bater de forma ritmada
diminui o esforço e faz cansar menos. Mas eu não consegui chegar a esse ritmo sem antes ficar
exausto. Por vezes, pensei em parar e continuar outro dia, mas prossegui.

15
A maioria dos nomes foram alterados ou omitidos com a intenção de preservar a privacidade dos informantes. O
assistente de Peter era um jovem aprendiz que já havia terminado o curso básico de formação de cuteleiro, mas que
frequentava quase diariamente a oficina. Era aluno do curso de graduação em História e tinha predileção por facas e
armamentos medievais. Atuava como assistente do cuteleiro na oficina e em assuntos diversos.
70

- a intensidade: as batidas devem ser firmes e precisas. O martelo deve atingir a peça
em plano. Não se deve bater com a lateral, porque assim se faz “buracos” na peça

- a uniformidade: deve-se martelar em todos os sentidos da peça de forma uniforme


para não gerar irregularidades.

Ao final de umas duas horas eu já estava exausto, com as mãos inchadas, cheias de calos. Há muito
tempo não pegava no pesado dessa forma.

Figura 8 - Mãos

Fonte: o autor

Olhava para minhas mãos, lembrando-me de quando trabalhava com enxada quando era criança.
Seja na horta de minha mãe, seja carregando areia. As mãos são as primeiras que sofrem. Chegando
em casa eu mal conseguia fechar as mãos. Ainda estavam inchadas e avermelhadas com algumas
bolhas aparecendo. Deixei para o dia seguinte a tarefa de digitação das observações do dia. No dia
seguinte restavam as bolhas e os calos. As bolhas lembravam as queimaduras que sofro
eventualmente quando eu faço pão. Já os calos, esses voltaram depois de anos sem aparecer. Talvez
uma das grandes redescobertas que fiz foram minhas mãos. Quando nos referimos ao trabalho
artesanal, como aquele em que se trabalha com as mãos, e nunca trabalhamos com as nossa próprias
mãos, não temos a exata compreensão dessa definição em mente. Essa experiência me fez refletir
no modo como a experiência nos faz atribuir os sentidos das coisas.
71

No segundo dia forjando percebi que minhas marteladas não eram eficientes. Mas
Peter me deixava lá martelando. Nesse período tive a impressão de que de isso era proposital, para
que eu sentisse o peso do martelo e adquirisse a experiência necessária com esse trabalho. Nesse
dia, ele me deixou sozinho na oficina, pois precisava fazer algo fora. Fiquei horas martelando minha
peça. Já não machuquei tanto as mãos. Adquiri uma postura melhor para martelar. Ainda que me
sentisse ineficaz no trabalho, já conseguia martelar com muito mais jeito. Aproveitei para fazer
alguns vídeos do meu trabalho de forja.

Em uma tarde, chegando na oficina avistei uma senhor sentando esperando. Era um
homem negro, alto e forte, portando uma mochila camuflada. Cumprimentei-o e perguntei se
esperava por Peter. Ele disse que sim. Esse homem tinha por hobby trabalhar com madeira, e Peter
lhe fazia uma goiva16 enquanto ele estava por lá. Enquanto Peter fazia a ferramenta para o amigo
eles conversavam e eu trabalhava em minha peça. Depois que o homem foi embora Peter falou das
qualidades do amigo. A goiva não foi uma venda, nem tampouco um presente. Percebi que algumas
vezes não havia dinheiro envolvido nas trocas. O escambo era algo relativamente comum, tanto para
cuteleiros formados quanto para os aprendizes que estavam a fazer suas primeiras facas. No trecho
abaixo, um cuteleiro novato relata a finalidade de seus trabalhos recentes:

[...] essa faca é para minha mãe, depois vou fazer um para minha namorada e tenho que
terminar a Karambit17 pra pagar minha tatuagem [...] é uma Karambit, parece uma garra de
tigre né? Sua função é furar e rasgar, como um predador mesmo. É mais uma arma que uma
faca. É usada nas Filipinas. Conhece o Doug Marcaida? Tem uns vídeos dele no youtube.
Animal! (Nota de campo do dia 16/06/2015)

Peter alertava, contudo, para que, no caso de trocas, os cuteleiros valorizassem o


próprio trabalho. Como registrei no trecho abaixo em minhas notas de campo:

Hoje Peter estava orientando um cuteleiro novato sobre uma troca. Interessante que ele
valoriza e ensina a valorizar o trabalho. Ele dizia: “Você precisava valorizar seu trabalho.
O cara tá fazendo uma conta mental de quanto vale o item dele e você tem que ter em mente
quanto vale suas facas... não vai entregando de graça ou seu trabalho não vai valer nada.
Quanto vale cada faca dessas que você fez? Então, esse é o valor. (Nota de campo do dia
07/07/2015)

No dia da goiva, Peter criticou meu trabalho. Reclamou pelos defeitos que eu havia
deixado na peça. Eu fiquei chateado com isso. Principalmente porque o defeito, ao meu ver, estava
em uma parte da peça que não seria usada (porque tinha um furo) e era um defeito (dobra), e estava
lá desde o primeiro dia de trabalho. Fiquei brabo, porque o Peter foi áspero, seco, como sempre foi
com os demais alunos. Na verdade, esse seu jeito sempre foi assim. Desde que eu iniciei as
observações. Mas é diferente quando se está vivendo uma situação. Mas eu nada disse. Apenas

16
Um tipo de ferramenta parecido com um formão, mas de seção côncavo-convexa, com o corte do lado côncavo,
utilizada por artesãos e artistas para talhar os contornos de peças de madeira.
17
Karambit é uma pequena faca curva em forma de garra. É utilizada em combate e teve origem no sudeste asiático. É
comum ser associada a lutas Filipinas.
72

deixei de sorrir e me mantive mais sério. Penso que ele percebeu. Algum tempo depois, quando me
despedia senti que ele queria dizer algo, mas não disse, apenas houve uns segundos de silêncio
seguidos de algum comentário sobre o problema econômico nacional.

No dia seguinte, eu não estava com vontade de ir à oficina. Por um lado, não queria
ir, mas por outro me sentia no dever de fazer meu trabalho, ainda que pudesse estar chateado. Enrolei
em casa e resolvi ir já no final da tarde. Cheguei lá já tarde. Era sexta-feira e Peter iria para outra
cidade ministrar um curso de afiação. Acompanhei-o até uma serralheria próxima à cutelaria. Fiquei
impressionado por haver um local como aquele bem no meio da cidade. Um espaço muito grande
com muita madeira.

Peter foi comprar madeira para construir assentadores. Um assentador é uma


ferramenta para fazer o polimento final de uma faca no processo de afiação. Depois de fazer o fio,
trocando-se sucessivamente de pedras mais grossas para pedras mais finas, usa-se o assentador para
fazer o arremate final. Depois de compradas as ripas fizemos os assentadores. Eles seriam usados
no curso de afiação pelos alunos e alguns seriam vendidos lá também. Assim como essa, muita
ferramentas era confeccionadas na oficina. A ideia era de que seria melhor fazer do que comprar.

Depois que a peça atinge o comprimento e a largura adequandos, dá-se à peça o


formato de faca. Usa-se a lâmina de molde para que as médias da faca fiquem dentro do projetado.
O próximo passo é o lixamento que se segue até que a faca tenha o polimento adequado.

Neste ponto Peter me pediu que o ajudasse com numa apresentação que ele faria em
um congresso de gastronomia. Segundo ele, esse tipo de atividade ajuda a divulgar seu trabalho e
desperta no público o interesse para cutelaria. Nos dias que se seguiram eu trabalhei na pesquisa e
montagem da apresentação, que teve mais ou menos a mesma sequência do curso de cuteleria, mas,
obviamente, com muito menos conteúdo. Foi necessário de minha parte um pouco de estudo para
levantar algumas informações históricas e imagens ilutrativas, e isso me ajudou também a entende
melhor o contexto da indústria siderúrgica e suas contribuições para o desenvolvimento da
humanidade. A coleta de dados encerrou-se em meados de Novembro de 2015, uma vez que já se
havia atingido a saturação teórica.

4.2 ANÁLISE DESCRITIVA DO CONTEXTO DOS INFORMANTES

Como foi descrito na seção dos procedimentos metodológicos, a Cutelaria Hammer


foi escolhida para a obtenção de dados que pudessem fundamentar uma teoria substantiva que
explicasse a relação entre trabalho artesanal e crescimento organizacional. Esta organização é,
portanto, o meio no qual foram gerados dados e informações do contexto de vivência dos indivíduos
que estiveram envolvidos nesta pesquisa. Esta seção se destina à descrição desse contexto.
73

Antes de iniciar as observações na Cutelaria Hammer coletei uma série de


informações em outros locais. Conversei com artesãos, cuteleiros e proprietários de pequenas
empresas. Também fiz uma série de visitas à comunidade Doze Tribos, produtora de chás artesanais.
O processo de escolha do local de observação para esta pesquisa foi, portanto, definido com base
em um processo de investigação e descarte, até que se fosse encontrado um local adequado às
motivações deste estudo. Contudo, cada entrevista, visita ou mesmo conversa informal foi um
acréscimo de convicção sobre o tipo de ambiente necessário para a coleta de dados relevantes. Deste
modo, estão de alguma forma inclusas no arcabouço desta tese.

A Cutelaria Hammer foi fundada em 1993. Hammer é o nome fantasia da cutelaria e


esse nome também foi incorporado pelo artesão. Uma faca Hammer, contudo foi produzida pelo
cuteleiro Peter Hammer. Não raro pequenos negócios de trabalho artesanal são uma extensão da
família do artesão, em outras vezes o negócio é o próprio artesão. No caso da Hammer a oficina é
um local próprio, afastado da residência e destinado à atividade de cutelaria pelo cuteleiro
proprietário e outros. Contudo, o negócio confunde-se com o artesão. Isso ficou claro na fala de um
aprendiz que, em determinado momento em uma conversa, disse: “a Hammer é o Peter”. A frase do
aprendiz dá dimensão da relação entre o negócio em si e a figura do artesão que se colocou como
figura central desse negócio.

Sennet (2013) aponta que o trabalho artesanal demanda uma certa dose de tolerância
com bagunça. Para os olhos de um neófito aquela cutelaria não representava outra coisa além de
uma grande bagunça. Entretanto, com o passar do tempo percebe-se uma ordem sob o aparente caos.
Como se a bagunça fosse uma camada assentada sobre algo inicialmente organizado. Os locais de
trabalho foram organizados logicamente e eram usados de acordo com a tarefa a ser realizada. Havia
a bancada de morsas, de confecção de couro, o local das lixadeiras, a área de afiação, o local de
solda, a área da forja e das bigornas, bem como os locais das máquinas pesadas como a prensa e a
furadeira industrial.
74

Figura 9 - A oficina

Fonte: o autor

Cada um destes locais contava com os apetrechos próprios próximos. Na bancada


das bainhas estavam dispostos nas proximidades todas as ferramentas e insumos necessários para a
sua confecção como couro, agulhas, tintas, facas de corte, etc. Muitas ferramentas eram fabricadas
ali mesmo. Muito tempo depois de iniciar minhas visitas à oficina, eu ainda me surpreendia com
alguma coisa que ainda não havia reparado antes, como um cofre num canto de parede, uma bigorna
pouco usada. Muitas coisas lá não estavam diretamente ligadas à oficina, mas pertenciam ao mundo
pessoal de Peter. Algumas que ele guarda há muitos anos. Abaixo, um relato do início de sua história
com as facas:

...E aí naquele momento eu comecei a achar uma atividade funcional pra faca. Mais legal,
tinha instrução, cada um tinha seu facão... cada um tinha seu canivete, cada um tinha sua
faca... todos os escoteiros, todos... se o chefe encontrasse em qualquer momento na cidade:
você tinha que ter seu canivete, o apito e dois metros de cordel no bolso... e a sua carteira
de escoteiro. Era para ser assim. Na escola era assim, na rua era assim... porque o escoteiro
está sempre pronto. Sempre pronto. E a vida inteira eu gostei de faca, então quando eu vim
para o sul em 83 ou 84, que eu vim eu voltei para o estado de São Paulo, a gente via coisas
maravilhosas. Aí saía uma revista brasileira sobre armas e facas, mostrava coisas fantásticas
que eu não tinha a menor condição de comprar. Eu mal conseguia compra a revista, né? Era
a revista mais cara do Brasil e eu economizava as moedas para poder comprar. Quando eu
tinha... 20 anos... eu decidi fazer uma cutelaria. E até então existia sete cutelarias no Brasil.
E todas eram de caras bem, bem, bem mais velhos do que eu, o mais novo tinha 48 anos. E
a revista falava: o cara tem que ter um conhecimento técnico absurdo, tem que ter um
equipamento formidável, tem que ter uma habilidade sobre-humana para conseguir realizar
75

isso aqui. Eu fiz a primeira cutelaria de gente, na faixa dos 20 anos. E fez um enorme
sucesso. E dela se derivaram, quando ela se dissolveu como sociedade... os dois assistentes
montaram uma cutelaria que derivou depois em duas, o meu ex-sócio com o irmão dele
manteve a cutelaria, eu abri a Hammer, em 93, e daí pra frente eu venho trabalhando com
isso. Comecei como autodidata, eu não tive condição naquela época... sem internet... sem
ninguém falar inglês... sem nada disso. Daí você tinha que ir perguntando, acumulando
experiências exitosas, descartando as fracassadas e tentar nisso chegar a um resultado
estável... por um caminho razoável... (Entrevista do dia 27/02/2015)

O espaço descrito acima era, antes de tudo, uma área de encontro e convivência. Por
esta área passavam frequentemente, aprendizes, ex-aprendizes (cuteleiros novatos) cuteleiros,
clientes, fornecedores, parceiros e amigos.

Na maior parte do tempo em que lá permaneci, estavam na oficina o cuteleiro, dois


aprendizes veteranos e um ou dois aprendizes novatos. Do início ao fim das observações
frequentaram a oficina em torno de vinte a trinta pessoas diferentes. Cada qual lá permanecia por
tempo indeterminado, mas em geral característicos a cada grupo. Amigos e clientes costumavam
ficar pouco tempo. Entre os aprendizes havia duas classes. A primeira classe era composta por
aqueles que realizavam o curso em um curto espaço de tempo, e em geral frequentavam a oficina
por um período que variava de duas semanas a dois meses18. Os dois primeiros trechos abaixo são
notas de campo, o último, a fala de um aluno:

Hoje iniciou o curso um aluno novo. Leandro. Aparentemente ele já faz facas em casa. Ele
trouxe duas facas feitas por ele para mostrar. Esse intercâmbio é comum, como se fosse um
cartão de visitas. Disse que viu outras opções de curso, mas pesquisou e viu que na Hammer
poderia ter aula com ex professor dos outros cuteleiros que ensinam. Então ele preferiu
aprender com o Peter. Esse aluno parece ser bem envolvido no meio da cutelaria. Como
todos nesse meio, carrega sua própria faca, canivete, uma pequena lanterna etc...
(Anotações de campo do dia 25/06/2015)

Ivo estuda design. É um pouco diferente dos demais. Não tem um estilo tão rústico. Parece
que seus interesses são mais acadêmicos. Já terminou sua primeira faca e está trabalhando
na bainha. (Anotações de campo do dia 13/05/2015)

[...] moro em São Paulo, sou chef de cozinha. Vou ficar umas duas ou três semanas aqui
só. É só tempo de aprender. Tô aproveitando um tempo que tenho e depois eu volto... lá
também tem curso, mas achei melhor vir aqui em Curitiba (Entrevista realizada em
17/03/2015)

O segundo grupo de aprendizes era formado por aqueles que permaneciam um grande
período na cutelaria sob orientação do mestre cuteleiro. Embora já podendo ser considerados
cuteleiros pelo fato de terem autonomia para produzir suas próprias peças, consideravam-se ainda
aprendizes.

[...] Takao trabalha com cutelaria a dez anos, iniciou seu aprendizado com seu pai no Estado
de São Paulo. Trabalha muito quase todos os dias. É uma presença quase permanente na
oficina. Nunca está parado. Está sempre trabalhando em uma faca ou uma espada. Embora

18
Como não solicitei a autorização expressa de todos os envolvidos para referencia-los nessa tese adoto alguns nomes
fictícios nas descrições a fim de preservar suas privacidades.
76

tenha dito ser aluno ele é responsável por ensinar novatos. Na hierarquia da oficina ele é o
mais respeitado depois do mestre cuteleiro. (Anotações de campo do dia 24/06/2015)

[...] Fabio é uma figura. Aparenta ter não mais que 25 anos, mas tem muitas vezes o ar de
gente ainda mais jovem. É meio estabanado e vive recebendo repreensões do Peter. Seja
por estar fazendo algo errado ou por estar dizendo algo errado. É o mais novo na oficina e
a relação entre ele e o Peter muito se assemelha a uma relação paternal. Já está em um nível
avançado, pois faz suas próprias peças, mas tudo que faz mostra para o Peter e pede sua
opinião. Costuma ensinar os mais novos casualmente no dia a dia (Anotações dia
25/06/2015)

Ex-aprendizes às vezes passavam algumas poucas horas para visitar ou para mostrar
alguma peça produzida ou por tempo mais prolongado quando precisavam fazer uso da oficina.
Havia um custo a ser pago pelo uso das máquinas, mas eu percebi que a relação monetária ficava
em segundo ou terceiro plano. Em geral, havia sempre alguma troca ou colaboração. Alguém que
encontrou no ferro velho boas capas de rolamento que poderiam ser forjadas ou lâminas de zinco
para molde ou madeira para os cabos. Muitos materiais usados na produção de facas eram
aproveitados dessa forma por serem muito mais em conta.

Muitos dos amigos que frequentavam a cutelaria tinham atividades afins com a
cutelaria. Algumas vezes eram cuteleiros, outras vezes artesãos que trabalhavam com madeira ou
couro. Eventualmente artesãos em tempo integral, outras apenas hobbistas. Alguns desses eram
parceiros auxiliando em trabalhos específicos de suas áreas de conhecimento ou com recursos
específicos. Eventualmente tínhamos a visita de algum colecionar de facas, normalmente amigos ou
amigos de amigos.

O ambiente da cutelaria é basicamente masculino. Embora haja mulheres se


dedicando à cutelaria no Brasil, não se pode negar que o ambiente cuteleiro é basicamente formado
de homens. Durante minhas observações o uso de palavrões, piadas machistas e estórias com
conotação sexual não eram raras. Contudo, o ambiente era também muito amistoso. Havia respeito
mútuo em um ambiente de colaboração.

Havia muitos momentos de descontração, mas a natureza do trabalho em cutelaria


exigem um elevado grau de cuidados e de obediência quanto às normas de segurança. Isso era
abordado formalmente para os novatos, mas motivo de repreensão sempre que alguém cometia
alguma desatenção. Em uma ocasião, Fábio foi repreendido por seu descuido no uso da forja.

...Fabio, o que o senhor está fazendo? De costa pra forja? Você tá doido? Quantas vezes eu
já falei? (Anotação de campo do dia 12/04/2015)

Outras vezes, o culpado não aparecia e Peter fazia a repreensão em geral.

Quem deixou a cola aberta? Quantas vezes eu já falei que tem que fechar a maldita lata de
cola? Se não fechar seca tudo e é matéria que tem que ser reposta. (Anotação de campo do
dia 17/04/2015)
77

Não havia discussões ou desculpas com longas explicações. Nesse sentido, o


ambiente também tinha muita disciplina. Algumas vezes tive a impressão de haver uma relação
paternal entre o mestre cuteleiro e os aprendizes, mas nesse caso de um pai rigoroso que impõe
limites claros entre o permitido e o liberado. Segundo Peter, um dos seus papéis enquanto mestre
cuteleiro é resgatar um pouco do que se perdeu em termos de educação no Brasil. Assim, no
ambiente da oficina, mais que ensinar um ofício, ele estaria buscando cumprir uma missão auto
atribuída de instrução de pessoas mal encaminhadas ou que em algum momento perceberam que
fizeram escolhas erradas. Abaixo, dois trechos de falas do mestre cuteleiro:

[...] E a questão do trabalho do jovem ficou isso. A coisa mais legal que tinha antes: o pai
é carpinteiro, vai levar o filho dele para ver o trabalho dele desde pequeno, ele vai se
acostumando com aquele ambiente, vai se acostumando a ver o que é aquilo, para que na
hora que ele decidir procurar um trabalho ele sabe o que é o trabalho, o que é um dia de
trabalho, o que é um dia de esforço... não, o pessoal agora pega alguém com 16, 17 anos
que nunca bateu um prego numa barra de sabão e fala: olha, diante dessa lista aqui você
escolhe uma profissão e você vai seguir ela para o resto de sua vida. O resultado: são
profissionais horríveis que escolheram o curso porque era o que pagava mais, o que era
mais fácil de entrar... com o qual ele não tinha nenhuma afinidade e vai ficar um péssimo
dentista, um péssimo medico, um péssimo psicólogo, um péssimo professor... (Entrevista
do dia 30/Março/2015)

(...) veja, seu quisesse ganhar mais dinheiro eu teria que mandar meus alunos embora.
Aluno gasta mais material, quebra ferramenta, faz um monte de coisa que eu tenho que
repor depois. Mas se esse cara apareceu no meu caminho é porque eu tenho que lidar com
ele. Eu creio nisso. Há um motivo para cada um que veio aqui ter vindo pra cá. (Nota de
campo do dia 30/04/2015)

Abaixo, o relato de um ex-aluno, cuteleiro recém formado:

[...] Eu me formei em administração, mas queria mesmo ter feito desenho industrial ou
design. Mas eu precisava ganhar dinheiro e acabei fazendo algo prático. Depois de doze
anos fui demitido. Agora não sei bem o que fazer [...] Fazer facas sempre foi um sonho.
Então eu resolvi fazer o que queria pelo menos uma vez na vida. Duro é que eu tenho um
padrão de vida caro. Tá complicado. O Peter ajuda muito. Conversamos muito e ele me
ajuda a pensar. Eu sempre gostei de engenharia mecânica, quem sabe... talvez pudesse aliar
minha vontade de desenhar e produzir com retorno financeiro razoável... (Entrevista do dia
02/07/215)

A figura do mestre artesão, muito mais que apenas relacionada ao fazer, esteve muitas
vezes ligada à figura de orientador de conduta. Algumas vezes a técnica era o foco da explicação,
outras era a conduta diante da técnica. Dito de outra forma, algumas vezes se falava como fazer,
outra por que fazer desta ou daquela forma. Como se vê nas falas do mestre cuteleiro abaixo:

Ildo, você tem que pensar! Como um cara que tá fazendo faculdade faz as coisas sem ao
menos refletir antes? Cara, olha, pense no que está fazendo. Não se preocupe com o passo
seguinte. Se você não se concentrar no momento presente poderá estar vagando em outro
momento qualquer, mas a cagada vai acontecer no momento presente. Então presta atenção
no que tá fazendo agora! (Anotação de campo de 15/04/2015)

Aqui seguimos o modelo espartano. Se tem uma maneira difícil de fazer alguma coisa é
essa que ensinamos primeiro. Porque se o cara aprender o difícil, o fácil depois é moleza.
Hoje tudo é muito imediatizado, todo mundo quer as coisas para ontem como se tudo fosse
assim. Na cutelaria o cara tem que saber fazer as coisas com pau e pedra. Depois, se tiver
uma máquina que facilite o trabalho aí ele vai ter vantagem, porque não vai ser dependente
78

da máquina. A máquina vai ser apenas um facilitador. O cara que aprende a fazer tudo em
condições ideais não consegue fazer as coisas quando alguma variável muda. É isso que
acaba com a sociedade, porque a gente vê um bando de zumbi que não sabe fazer nada além
do que mandam ou além do que tá na receita de bolo. (Entrevista do dia 04/08/2015)

Alguns porquês, entretanto, permaneciam ocultos aos alunos. O trecho abaixo reflete
a fala de um ex-aluno:

...o Peter é fogo... ele não te mostra o caminho das pedras... ele coloca o cara novo pra
martelar e deixa o cara se ferrando por horas... outros cuteleiros passam as manhas e tal...
sei lá... eu não acho certo... o cara perde muito tempo... talvez seja pro cara achar o caminho
sozinho, tipo, aprender fazendo... (Entrevista do dia 04/08/2015)

Diante do exposto, é possível ter uma ideia aproximada do contexto compartilhado


com os informantes do decorrer das observações que fundamentam essa pesquisa. Cabe lembrar que
as observações foram realizadas no tempo e no espaço conforme foram passadas pelos filtros do
pesquisador. Não há, nesse sentido, a intenção de se encontrar verdades imutáveis, mas registrar o
que foi observado sistematicamente, analisar e fazer novas observações como orientam Strauss e
Corbin (2008). Nesse contexto, o local de observação foi adequado aos objetivos propostos nessas
tese.

4.3 A DINÂMICA DO TRABALHO ARTESANAL NA CUTELARIA HAMMER

Nesta seção, passo a descrever a dinâmica do trabalho na oficina de cutelaria


artesanal escolhida para fazer parte dessa tese. Assim, ao me referir sobre trabalho artesanal, não
estou generalizando, mas me referindo ao trabalho desenvolvido na Cutelaria Hammer no período
em que lá estive. Essa descrição evidencia o trabalho artesanal como sendo focado no objeto, com
valores substantivos, fruto do pensamento, levado a cabo pelas mãos e indissociável do artesão.

Na Cutelaria Hammer a produção é toda artesanal. Nesse sentido, as peças não são
fabricadas de forma seriada ou em uma linha de produção, mas por demanda individualizada. O
processo de produção de uma faca ou outro objeto tinha duas motivações principais. A primeira
delas, uma encomenda de algum cliente. A segunda, o desejo do próprio artesão em produzir uma
peça. Sendo que, no segundo caso, essa peça poderia ser vendida em algum espaço de tempo ou
permanecer disponível para algum futuro comprador. Desta forma, a demanda não era,
simplesmente uma demanda comercial, embora ficasse claro que há um valor comercial. Um
cuteleiro, ao me apresentar uma peça, na qual estava trabalhando há dias, referiu-se ao seu valor:

[...] não, essa aqui (uma espada estilo oriental) não é encomenda, não... mas poderá ser de
alguém se alguém estiver disposto a pagar por ela o quanto ela vale [...] ah, para alguém
tirar ela de mim, vai precisar de pelo menos uns mil e quinhentos... (Anotações de campo
do dia 03/08/2015)
79

Fato é que, além do valor material envolvido, o processo de trabalho parece agregar
outros valores substantivos tanto para o artesão que produz o objeto quanto para aqueles que
adquirem tais objetos. Sobretudo, para aquele que produz. Nas palavras de um cuteleiro:

[...] Então, aquilo que o samurai e outros falavam que a espada... é claro que eles falavam
muito das espadas... que elas tinha alma, que elas tinham energia. A gente considera isso,
até nas facas. Porque quando eu faço uma faca, eu fico hora e horas trabalhando numa peça,
ela, de alguma maneira, absorve a minha energia de trabalho. E eu já senti isso. Eu estudo
um pouco essas coisas, empiricamente, é claro. Eu já senti que às vezes você tá fazendo
uma faca para uma pessoa, encomendado por outra. Você não conhece a pessoa. Você
começa a sentir certas características de certas pessoas... [...] às vezes você faz uma faca e
deixa ali, meio que não quer vender, e de repente chega alguém que se apaixona por ela e
você fala, pra esse eu dou, para esse realmente eu dou, esse é o dono dela. Ela escolheu
esse camarada. (Entrevista do dia 25/02/2015)

Foco no objeto significa, entre outras coisas, que independente do desejo do


comprador o desejo do artesão é realizar um trabalho primoroso. Na Hammer, considerando a
notoriedade do cuteleiro, negociações não eram necessárias. A maioria dos compradores
simplesmente confiavam no resultado que teriam. As adequações eram limitadas sob os aspectos
técnicos, de estilo e aplicabilidade. Aspectos técnicos dizem respeito aos materiais, técnicas de
construção e medidas, basicamente. O estilo está ligado à uma série de variáveis históricos culturais.
A aplicabilidade, por sua vez, concerne à função que o objeto deverá exercer ou ao ambiente em
que o objeto será usado. Portanto, ao projetar uma faca, os materiais, o estilo e a aplicabilidade
deverão ser informados pelo comprador. O artesão, por sua vez, trabalhará tendo por limite estes
parâmetros.

À guisa de exemplo, na produção de uma verdadeira katana19 o processo de


construção deve obedecer certos preceitos técnicos específicos quanto aos materiais, técnicas de
construção e de forma, de acordo com os aspectos históricos culturais que se mantiveram durante a
história. Da mesma forma, uma faca gaúcha tem características próprias respeitadas e transmitidas
no decorrer do tempo no Sul do Brasil. Cabe dizer, nesse momento, que há no mundo uma enorme
riqueza histórico cultural relacionada à cutelaria. No que concerne à cutelaria no Brasil há cinco
escolas20: a escola gaúcha, a escola sorocabana, a escola de Franca, a escola mineira e a escola
nordestina. Cada uma dessas escolas possuem características herdadas historicamente de acordo
com os processos civilizatórios ocorridos em cada uma dessas regiões. A tradição, portanto, é uma
adequação importante no projeto de uma faca. Seja uma tradição japonesa, europeia, gaúcha ou
outra qualquer. Alguns cuteleiros especializam-se em uma dessas escolas, outros em algumas delas

19
Típica espada longa usada por Samurais
20
Refiro-me ao termo “escola” como sinônimo de estilo conforme foi verificado na fala de cuteleiros e nos materiais
consultados como fontes secundárias de informações.
80

ou em escola alguma. A versatilidade do artesão varia de acordo com o domínio desses estilos
tradicionais e também com o domínio de diferentes técnicas e tipos de materiais.

Todo o trabalho do cuteleiro na produção de uma faca é cuidadosamente pensado


previamente. Durante minhas observações vi as facas sendo projetadas com o uso de materiais de
desenho, mas percebi em comunidades de cuteleiros que às vezes se compartilham desenhos feitos
à mão em superfícies diversas. Porém, há sempre um projeto. O projeto prevê principalmente a
forma. Mas os materiais e os processos necessários para a sua execução costumam estar explícitos,
uma vez que são agregadores de valor ao item que se produz. Cabe ao cuteleiro determinar as
maneiras mais adequadas de se atingir um determinado resultado.

Aprendizes tendem a copiar ou inspirar-se em objetos clássicos. Espera-se que aos


poucos desenvolvam seu próprio estilo e consigam imprimir alguma identidade em suas peças.
Contudo, esse processo é lento, trabalhoso e requer persistência. Registrei algumas conclusões
depois de um dia de observação com as seguintes palavras:

É necessário dominar a técnica para que você não precise pensar nela. Se você não precisar
pensar na técnica pode se concentrar no que realmente importa: a criação. Um bom cuteleiro
pode até inspirar-se nos clássicos, mas precisa ser capaz de criar. (Anotações de campo do
dia 01/092015)

O fato de traduzir ideias e objetos concretos faz com que o artesão tenha domínio
sobre o processo de fabricação em sua totalidade. Isso implica em reconhecer os porquês envolvidos
nesse processo.

O ambiente era compartilhado, as ferramentas eram compartilhadas, bem como os


equipamentos. As únicas coisas individuais eram os equipamentos individuais de proteção. Ainda
assim eventualmente alguém não encontrava o seu próprio equipamento e usava o que estivesse
mais perto.

Muitas ferramentas são utilizadas no processo de produção, desde o lápis até lixa de
acabamento, mas todo o corpo é demandado no trabalho artesanal. As mãos podem simbolizar o
trabalho do artesão, contudo o trabalho do artesão tem cores, cheiros, sons, formas, texturas, peso...
As mãos, contudo, são a ligação entre o artesão e objeto durante o processo de transformação. A
técnica, a qual me referi anteriormente, também abarca a técnica corporal. O corpo enquanto
ferramenta do artesão é utilizado com técnica. Convencionei chamar o conjunto de habilidades
corporais necessárias à condução do trabalho artesanal como habilidades do corpo. Essas
habilidades são ligadas aos cinco sentidos da percepção e à força muscular em conjunto com o
equilíbrio e a coordenação motora. São desenvolvidas no decorrer do processo do trabalho artesão
de acordo com seu contexto e experiência.
81

Encontrei nos escritos de Marcel Mauss (2003) interessantes apontamentos sobre a


questão da corporeidade. Na perspectiva do estudo do corpo, enquanto locus da cultura nas Ciências
Sociais, construída por Marcel Mauss (2003), tem-se que os modos de agir que nos são
internalizados por força das relações sociais são entendidos como técnicas do corpo. No texto
‘Noção de Técnicas do Corpo’, originalmente publicado em 1934, o autor introduz o conceito do
habitus para referir-se a “‘exis’ [hexis], ao ‘adquirido’ à ‘faculdade’ de Aristóteles”; a
comportamentos que “variam não simplesmente com os indivíduos e suas imitações, mas variam
sobretudo com as sociedades, as educações, as conveniências e as modas, os prestígios” (MAUSS,
2003, p. 405). A utilização do corpo no fazer artesanal parece ser mais que uma ausência de
possibilidade em função da não disponibilidade de uma máquina, antes disso é derivada da relação
com o outro.

... primeiro o aluno aprende o mais difícil, depois quando ele dominar o que faz a ponto de
não precisar de uma máquina ele pode usar essa máquina. Por exemplo: ele deverá aprender
a afiar uma faca na pedra tão bem a ponto de não precisa usar uma lixadeira, ou o esmeril.
Depois, se ele quiser usar tudo bem, mas isso só pra ganhar tempo, pois ele não depende
disso. Quando você aprende a maneira complicada de fazer as coisas você pode se virar
bem em qualquer situação... (Anotações de campo do dia 23/07/2015)

Mauss (2003) aponta que o processo de incorporação das técnicas do corpo é um


modo de aquisição, modulado pela forma da técnica, a que ele chama de aprendizado: “toda técnica
propriamente dita tem sua forma”, diz o sociólogo, e “há para toda técnica um aprendizado”
(MAUSS, 2003, p. 405).

O processo de produção artesanal seguia princípios de adequação quanto à


aplicabilidade do objeto. Os trechos abaixo referem-se à anotações que fiz sobre isso:

[...] Tudo que deve estar presente em uma faca deve estar presente. Tudo que não deve estar
presente em uma faca não deve estar presente. (Anotação de campo do dia 03/06/2015).

[...] Facas são ferramentas e devem ser adequadas ao seu uso. Não se pode querer usar uma
faca de cozinha em uma caçada, nem uma Bowie como faca de pescoço (Anotação de
campo do dia 04/06/2015)

[...] o sujeito queria uma faca para sangria, é pra uso em ritual mesmo... ele gostou de uma
faca que viu na oficina, uma faca bonita, estilo gaúcha, era uma faca que estava sendo
trabalhada por alguém. Peter entendeu o qual era a necessidade do cara, explicou para ele
que aquela faca não seria adequada, por que não seria adequado e qual seria uma boa opção
para ele. O sujeito parecia bem seguro de si, mas aceitou a sugestão. Penso que fariam uma
faca gaúcha se ele quisesse mesmo, mas sob protesto. (Anotação de campo do dia
04/06/2015)

O trabalho artesanal parece visar satisfazer o desejo do artesão antes do desejo do


comprador. Assim, o foco do trabalho, no contexto artesanal, não vem de uma pressão externa por
custos baixos, mas por um desejo interno de excelência naquilo em que se está trabalhando. Em
várias conversas com o mestre cuteleiro essa questão ficou evidente. O trecho abaixo é a fala do
mestre cuteleiro e representa uma síntese dessa ideia:
82

Uma coisa muito importante nesse sentido é que o objetivo do artesão é fazer o melhor
possível não importa o custo. O da indústria é fazer o mínimo possível pra cobrir o custo.
(Entrevista do dia 26/Março/2015)

Depois de alguns meses na oficina já era, para mim, perfeitamente natural reconhecer
quem era o autor de uma faca sem saber de antemão quem a havia produzido. Em minha percepção,
não se tratava apenas de habilidade, embora esta também estivesse em jogo, mas de características
próprias que cada artesão imprime em suas peças. Reconhecer o artista em sua arte implica em
observar traços de personalidade em objetos artesanais cuja fonte repousa no artesão. Em
observações realizadas em um universo um pouco envolvendo cuteleiros brasileiros pude notar,
apesar de minha pouca experiência nisso, que as facas artesanais tinham elementos singulares de
acordo com o artesão que as produziu.

Mais uma vez, cuteleiros fazem escolhas e estas escolhas refletem-se na sua obra. A
capacidade de imprimir sua vontade ou desejo em uma peça está relacionada à sua habilidade, mas
também a esse processo de fazer uso da liberdade que tem para decidir entre materiais, formas,
processos e outros. Ao final do processo, vê-se que a faca produzida pelo cuteleiro tem uma história
e essa história é parte integrante daquela peça. Não por outro motivo, algumas facas tem seu valor
final aumentado de acordo com o cuteleiro que assina a peça. Há quem considere isso injusto, uma
vez que o valor de uma faca deve envolver aspectos mais objetivos como funcionalidade, qualidade
invisível (materiais e processos) e qualidade visível (design, estilo)21. Contudo, independentemente
de agregar mais ou menos valor a uma peça, parece ser fato que a obra do artesão espelha o próprio
artesão. Apenas como exemplo simples do que foi dito, apresenta-se a figura abaixo.

Figura 10 - Faca Artknives

21
O valor de uma faca é objeto de discussão em artigo da revista Magnum número 101 de Janeiro/Fevereiro de 2008.
83

Fonte: Artknives22

Considerando a apresentação e a faca talvez seja desnecessário dizer que esta peça
foi produzida por uma artesã. Na época em que esta tese foi escrita, essa artesã era uma das raras
cuteleiras em atividade no Brasil. Além da opção por diferentes formas e linhas podemos identificar
um artesão pela preferência de certos materiais ou processos. Enquanto alguns cuteleiros dedicam-
se ao uso de aços comuns, outros preferem aços mais elaborados como aço damasco 23, mas é o
conjunto da obra que permite que se identifique o cuteleiro em suas peças.

Os fatores que caracterizam o trabalho artesanal harmonizam-se à produção a uma


escala pequena. Os valores associados à lógica mercantil moderna tangenciam as relações internas
do trabalho artesanal, mas parecem influenciar com menos força que faria em uma organização
convencional24. Uma característica observada no caso da Hammer foi a relação com o ensino. Ainda
que não se possa afirmar que o ensino é essencial ao trabalho desenvolvido na cutelaria artesanal de
forma ampla, é relevante na Hammer e em algumas outras cutelarias com as quais tive contato
durante as investigações preliminares. Na fala de Peter:

Em 94 de tanto um cliente me aporrinhar que queria porque queria aprender a fazer facas...
eu falava: eu não sei ensinar, eu não faço ideia, eu não tenho didática pra isso... ele falou:
não, mas eu vou até sua oficina, você faz uma faca, eu vou imitando o que você vai fazendo

22
Artknives é a marca da cuteleira Silvana Mouzinho, a organizadora do Salão Paulista de Cutelaria, evento anual que
reúne cuteleiros brasileiros. Disponível em http://silvanaartknives.com/
23
O aço damasco é união de dois ou mais tipos de aço por meio de um processo conhecido por caldeamento. Uma
barra de aço damasco pode ter centenas de camadas resultando na peça linhas que formam padrões de desenho na
lâmina.
24
Pelo termo convencional refiro-me às organizações formais modernas inseridas na lógica de mercado.
84

e eu te pago pelas duas. Eu falei: ah, tá bom. Decidi que ia dar aula. E veio meu primeiro
aluno que não foi esse, foi outro. Porque esse quando eu decidi finalmente aceitar, ele não
podia. Comentei com outro cliente, e ele: tô indo aí. Isso foi em junho de 94. A partir daí
eu comecei a dar aula [...] O fato de eu dar aula criou inimizades absurdas com os outros
cuteleiros do Brasil. Eles achavam que eu ia estragar o mercado, porque ía por gente demais
para dividir o mercado. Eu falava: rapaz, você não sabe o que você está falando. Uma
profissão fechada morre. Ela acaba. Hoje tem mais de seiscentos (cuteleiros). Eu posso te
garantir que mais da metade é por minha causa. Existe uma geração de alunos, de alunos
dos meus alunos. Todos os meus alunos saem daqui com o compromisso de ensinar alguém
um dia. (Entrevista do dia 26/03/2015).

O ensino, além do processo de perpetuação de práticas e tradições, tem também um


papel relacionado à própria aprendizagem de quem ensina. Ao colocar alunos mais velhos como
monitores de alunos mais novos, espera-se que ambos aprendam com o processo, uma vez que os
alunos mais novos terão que dominar os porquês daquilo que estão a ensinar. Assim, estarão
aprofundando seus próprios conhecimentos acerca daquela prática. O trecho abaixo refere-se ao que
diz Peter sobre o fato de incentivar que seus alunos também participem do processo de ensino:

Eu gosto de fazer meus alunos darem aula... serem monitores dos outros alunos... É a
melhor coisa que tem. Quando você vai ensinar você tem que se questionar: por que, por
que isso, por que aquilo.... (Anotação de campo do dia 13/04/2015)

Segundo Peter, muitos de seus alunos continuam a tradição do ensino da cutelaria.


Alvino é um deles. Em suas palavras, o ensino ajuda a conservar a técnica.

(...) E outra coisa é não perder esta técnica, passar para outras gerações. Por isso que a gente
dá os cursos [...] Aí eu fiz um curso lá com o Peter. Melhorou muito a minha qualidade, e
tal, de … aprimorei... o Peter ele era muito perfeccionista. Ele é um perfeccionista. [...] Isso
aqui é um Tantô25. Eu faço esses Tantôs de inox... o Peter me enche o saco por fazer essas
coisas... me enche o saco, por que eu estava fazendo de inox. A gente, de vez em quando,
tem umas brigas assim técnicas. No bom sentido, né. (Entrevista do dia 23/03/2015)

O ensino é, de certa forma, uma maneira de se manter tradições, valores, técnicas e


também de ampliar uma cultura de valorização do trabalho artesanal. Contudo, também pode ser
visto como uma forma inteligente de se criar ou ampliar a comunidade de compradores.

Ninguém valoriza aquilo que não conhece. É preciso que as pessoas saibam como uma faca
artesanal é produzida e quais as diferenças entre estas facas e as facas comerciais. Facas
comerciais não podem ser comparadas às facas feitas por um cuteleiro. Facas artesanais
têm história. (Entrevista do dia 14/05/2015)

Conforme observei, a dinâmica do trabalho artesanal na Cutelaria Hammer possui


centralidade no artesão, é permeada por valores substantivos, pautada na relação reflexão-ação, no
processo de criação e na relação entre mestre e aprendiz.

25
Pequeno punhal estilo japonês feito originalmente em aço carbono com ou sem guarda. Era uma peça usada pelo
guerreiro samurai em conjunto com a katana. Essa era a lâmina utilizada nos rituais suicidas de Seppuku, mais conhecido
no ocidente por haraquiri ou haraquiri, por meio do qual o guerreiro samurai abria o próprio ventre morrendo em
decorrência do esventramento. Essa era considerada uma forma honrosa de se morrer.
85

4.5 CODIFICAÇÃO ABERTA E AXIAL

Esta seção descreve como se deu o processo de codificação que deu origem aos dados
dos quais foram extraídas as categorias com que se construiu a teoria substantiva. A codificação dos
dados é parte essencial do método da Grounded Theory. Diferente de outras metodologias, na
Grounded Theory o dados são analisados ao mesmo tempo em que são coletados (STRAUSS e
CORBIN, 2008). Portanto, não se faz aqui um retorno às descrições de metodologia, mas se continua
o processo descritivo da análise realizada dos dados à medida em eles foram emergindo.

O início do processo de análise deu-se com a leitura detalhada de documentos e


entrevistas. A codificação dos dados pressupõe a quebra desses dados em porções pequenas que
podem ser palavras, expressões, frases ou linhas. O processo combinado de codificação aberta e
axial resultam na microanálise (STRAUSS; CORBIN, 2008).

Codificar significa atribuir rótulos (códigos) a eventos com características


semelhantes. Nas fases iniciais é difícil a codificação, pois esse é um processo de escolha
ininterrupto. É preciso escolher os mesmos códigos para eventos com similaridades, mas as
similaridades podem variar de zero a cem por cento de modo que é necessário alguma experiência
para que a codificação seja fluida e dinâmica como sugerem Strauss e Corbin (2008). Desta forma,
realizei a codificação do material inicial e descartei essa codificação. Refiz toda a codificação de
forma que pudesse contar com essa experiência prévia adquirida pelo treino, conforme sugere
Maciel (2011). De fato, a recodificação foi mais dinâmica. Talvez porque eu já havia passado os
olhos pelos textos, talvez porque já havia desenvolvido alguma habilidade para codificar.

A comparação é constante de modo que eventos similares recebem os mesmos


códigos, contudo nada impede que códigos sejam mudados ou renomeados. Isso ocorre, porque não
há rigidez nesse processo. Como a análise é constante, as alterações igualmente o são. Também se
deve dizer que há o papel interpretativo do pesquisador que dá sentido aos dados. Quando há a
junção de códigos em categorias, tem-se o processo definido como categorização. Esse seria o
agrupamento de códigos em determinadas categorias que possibilitam a identificação de
propriedades e dimensões das categorias. Por conseguinte, a definição de propriedades e dimensões
possibilitam, ou demandam, a coleta de novos dados para análise.

As entrevistas formais, aquelas com hora e local definidos foram gravadas e


transcritas. Duraram entre 30 minutos e três horas. Houve entrevistas mais espontâneas que
denominei como não formais. Estas dependiam da dinâmica do convívio diário ou alguma
oportunidade como, por exemplo, a visita de um amigo cuteleiro na oficina ou o acontecimento de
algum evento envolvendo cutelaria. Para a tarefa de transcrição utilizei o software Express Scribe
Transcription, demonstrado na Figura 12.
86

Figura 11 - Aplicativo de transcrição de entrevistas

Fonte: o autor

As transcrições foram feitas de modo literal e em média o trabalho de transcrição


demandou cinco vezes o tempo da entrevista. As entrevistas não formais eram mais rápidas e mais
difíceis de serem gravadas. Foi possível a utilização de gravador na maioria das vezes. A prática,
contudo, fez-me fazer mais uso de anotações que gravações, especialmente quando meus sentidos
já estavam mais treinados tanto para ver quanto para ouvir. As gravações em meio magnético foram
mais interessantes no início do processo, momento em que minha capacidade de absorver
informações ainda estava em fase inicial de treinamento. A experiência também mostrou que a
qualidade dos dados não está necessariamente ligada à duração de uma entrevista. Alguns dos
insights mais relevantes ocorreram em momentos do cotidiano na oficina ou na revisão de notas de
campo que quando registradas não pareciam fazer tanto sentido, mas que em uma releitura
mostravam-se absolutamente relevantes.

A utilização do software Atlas.ti foi fundamental para a análise da grande quantidade


de dados produzida por meio de entrevistas, anotações e revisão de documentos. A quebra dos dados
foi feita linha a linha. Cada linha considerada um evento ou incidente (quotation), à medida que
esses eventos tinham o mesmo significado a eles eram atribuídos o mesmo código.

Figura 12 - Atlas.ti - codificação


87

Fonte: o autor

A primeiras codificações geraram 648 eventos e 242 códigos de primeira ordem.


Códigos provisórios foram sendo substituídos por outros códigos no decorrer da codificação e da
junção de códigos surgiram as primeiras categorias. Essas primeiras categorias, ainda que
provisórias, foram resultado do processo combinado de codificação aberta e axial conforme descrito
por Strauss e Corbin (2008). Categorias são conceitos abstratos construídos a partir da análise dos
dados gerados e que representam o fenômeno (STRAUSS E CORBIN, 2008). À medida que os
dados foram sendo analisados as categorias surgiram, e fiz novas observações para a geração de
novos incidentes. No processo de codificação inicial, foram geradas quinze categorias provisórias.

Com as primeiras categorias definidas, foi possível retornar ao campo com olhos
mais atentos para a geração de dados que fizessem sentido e pudessem contribuir para o
entendimento das categorias geradas ou gerar novas informações. Esse processo repetiu-se várias
vezes até que as propriedades das categorias fossem estabelecidas e que os conceitos fossem
refinados. As categorias resultantes desse processo são apresentadas na próxima seção.

4.5.1 Categorias emergentes

As categorias que inicialmente emergiram dos dados foram (i) ensino, (ii) liberdade,
(iii) mercado, (iv) trabalho, (v) valores substantivos, (vi) qualidade, (vii) limites, (viii) relação entre
pensar e fazer, (ix) adequação social, (x) centralidade no artesão (xi) experiência, (xii) controle,
(xiii) tradição, (xiv) hierarquia e (xv) corporeidade. Dessas categorias surgiram as primeiras
proposições acerca do problema de pesquisa que informa este estudo. Contundo, como essa ainda
era uma fase inicial, foi necessário retorno ao campo para o refinamento dos conceitos. Até que se
88

chegasse ao ponto de saturação, esse processo foi repetido várias vezes. Durante esse período, além
das observações em campo também procurei na literatura sensibilidade teórica que auxiliasse no
processo de geração de sentido em relação aos dados. A amostragem teórica em Grounded Theory
é um processo que, inicialmente, demanda mais esforço, mas com o passar do tempo e com a
experiência adquirida torna-se natural. Assim, dados são gerados, estes por sua vez geram questões
analíticas e insights de onde procurar por novos dados (STRAUS e CORBIN, 2008).

As sucessivas análises possibilitaram a consolidação das seguintes categorias: (i)


centralidade no artesão, (ii) corporeidade, (iii) relação entre pensar e fazer, (iv) valores substantivos,
e (v) limites. Estas categorias são descritas nas subseções seguintes. Cabe lembrar que estas
categorias emergiram dos dados analisados que incluíram as falas dos informantes e minhas
anotações de campo. A distinção em categorias é decorrência do método e com fins analíticos.
Quando observadas em seu contexto cotidiano, essas categorias estão interpenetradas. Dito de outra
forma, elas podem compartilhar características. Às categorias foram, atribuídas propriedades,
conforme orientam Strauss e Corbin (2008).

As próximas seções descrevem as categorias consolidadas no processo de


codificação aberta.

4.5.1.1 Centralidade no artesão

Essa categoria emergiu dos dados à medida em que percebi nos eventos (incidentes)
a associação da pessoa (o artesão) com o seu trabalho. Isso parece óbvio quando dito desta forma,
mas no trabalho que se faz em organizações modernas convencionais a relação do indivíduo com
seu trabalho não necessariamente se dá a estreita relação entre o indivíduo e seu trabalho. Um
trabalho, nesse contexto, pode ser apenas uma atividade com fins utilitários sem relação com quem
a desempenha. No caso de trabalho artesanal, há uma relação identitária forte que envolve o artesão
e seu ofício. O cuteleiro artesanal não está cuteleiro, ele é cuteleiro. Deste modo, se desenvolve uma
ligação forte entre a organização (cutelaria) e o artesão (cuteleiro). Perguntado sobre como a
cutelaria ficaria, caso o Peter, por algum motivo, estivesse mais ali, um aluno sintetizou esse
conceito em uma frase:

“A Hammer é o Peter” (Nota de campo do dia 15/04/2015)

Considerando o envolvimento de outros, o artesão é a autoridade central no processo


artesanal. A autoridade do artesão não se dá em função de normas estabelecidas e aceitas, mas em
função de seu notório conhecimento e habilidade. De sua capacidade de realização. Desta forma,
verifica-se uma hierarquia não formal que, de certa forma, funciona com auxilio organizador nas
relações. Essa categoria emergiu dos dados à medida que ficou evidente a relação intrínseca do
89

artesão com o trabalho artesanal e a necessidade que tem o artesão de dominar os processos
necessários à execução de um trabalho. Tem subjacente à sua formação a subcategoria (1) controle,
cujas propriedades estão descritas no quadro X. Nas primeiras linhas transcritas de conversas com
o cuteleiro Peter essa detalhe já foi evidenciado, conforme registrei:

Hoje tivemos a primeira entrevista formal. Foi em pé, no meio da oficinal, eu meio sem
jeito pela sensação de estar atrapalhando. Peter foi claro quando comentei isso: “Cara, você
não vai me atrapalhar, você tá fazendo que você tem o que fazer... eu concordei, então tá
beleza, só que a gente tem que ir conversando e fazendo ao mesmo tempo... como eu já dei
aula muito tempo e tal já tô bem acostumado a fazer três, quatro coisas ao mesmo tempo
[...] certas coisas eu não posso delegar. O meu trabalho eu preciso fazer. Então a gente vai
conversando e eu vou dando conta das coisas... (Nota de campo do dia 30/03/2015)

O controle sobre os processos na cutelaria artesanal é fator tido como base para a
realização e um bom trabalho. O objetivo do artesão é chegar ao estado da arte daquilo que faz,
portanto, o controle dos processos e materiais está vinculado ao resultado final do processo, que no
caso do trabalho artesanal, tem na qualidade um fator importante. Na fala de um cuteleiro:

“Quando você olha uma faca, ou uma espada comercial aquilo não tem história. Quando é
uma faca artesanal, aí sim, você sabe que ela percorreu um caminho longo até chegar a ser
o que é. Nós (cuteleiros), conhecemos todo esse caminho”. (Nota de campo do dia
02/04/2015).

A centralidade envolve o domínio do processo total. No caso de trabalho artesanal, a


especialização se dá ao nível do produto acabado. Em outras palavras, um cuteleiro pode ser
especializado em facas, ou espadas, ou ainda em facas de estilo oriental. Seja qual for sua
especialização, se a tiver, não será ele especializado em fabricação de moldes, ou ainda em
lixamento. A relação do cuteleiro artesanal está ligada ao resultado final do processo. Nos trechos
abaixo, cuteleiros citam a relação entre o controle do processo e a questão da qualidade:

[...] para se ter uma faca de qualidade você precisa ter uma serie de requisitos atendidos...
numa grande empresa você automatiza isso, depois que se estabelece um padrão você tem
uma segurança mais ou menos precisa de que aquele padrão vai ser seu resultado final.
Mesmo que o padrão estipulado seja uma merd*. Aqui quem cuida disso é o cuteleiro. O
cara precisa a todo momento verificar se o que tá fazendo tá bem feito e tal... isso faz com
que o trabalho demore mais que na indústria, mas ao final, você não tem um padrão como
resultado, você tem um resultado de qualidade... Quem detém o processo comanda a
produção, porque a produção depende do processo. (Entrevista do dia 28/05/2016)

Além de se referir a processos, esta categoria contempla também a centralidade na


dinâmica das relações. Embora houvesse muitas relações ocorrendo simultaneamente entre os
diversos grupos e subgrupos durante as atividades da oficina, Peter era quase sempre consultado
para orientações, solicitações de autorização ou outras demandas quaisquer. Talvez seja a
centralidade na figura do artesão uma das primeiras coisas constatadas durante as observações
iniciais de campo. A relação entre os aprendizes e o mestre cuteleiro era constante, enquanto eles
trabalhavam Peter costumava observar de longe e, por vezes, aproximava-se para verificar o
90

trabalho. Outras vezes os alunos traziam o resultado parcial de algum trabalho para exame do
cuteleiro.

Alunos mais antigos e cuteleiros formados também costumavam orientar, contudo,


sob a vigilância de Peter que não permitia que se facilitasse o trabalho que se tomassem atalhos
quaisquer. Peter parecia estar atento a tudo que acontecia na oficina, mesmo quando parecia estar
focado em alguma outra coisa.

Represento na figura 13 a dinâmica das relações desenvolvidas na oficina e a


centralidade do mestre cuteleiro na rede de relações

Figura 13 - Dinâmica das relações no contexto da cutelaria

Fonte: o autor

A figura do cuteleiro tinha, para alguns aprendizes, feições paternas. Não raro os
conselhos e orientações do cuteleiro extrapolavam os limites do trabalho cutelaria e invadiam as
esferas particulares. Peter dava broncas, conselhos, fazia elogios e orientava especialmente os mais
novos. Presenciei cuteleiros já formados que frequentavam a oficina recebendo conselhos. De fato,
algumas vezes também observei alunos mais antigos fazendo algo parecido com alunos mais novos.
Em minhas anotações de campo registrei um acidente ocorrido na oficina com um aluno:

Hoje minha estada na oficina terminou um pouco mais cedo. Ocorreu um pequeno acidente.
Fabio estava tentando consertar uma extensão de tomada. Um extensão bem velha,
emendada com fita crepe e aparentemente guardada há muito tempo. Ele parecia estar
refazendo a emenda. Eu, sabia que não estava fazendo direito, pois já fiz muito disso
quando trabalhava com eletrônica. Deu vontade de falar, de fazer no lugar dele, mas não
interferi, apenas fiquei olhando. Ele estava descascando o fio ressecado com sua faca. De
repente, fez um corte profundo entre os dedos. Imediatamente ele gritou pelo Peter e correu
em sua direção. O sangue pingava. Fabio ficou pálido e pareceu que ia desmaiar. Peter
olhou de perto e cuidadosamente e deu o veredito: “Precisa dar uns pontos aqui... não tem
91

agulha de sutura nem linha, se tivesse eu mesmo poderia costurar. Acho melhor você ir ao
pronto socorro de uma vez”. Peter estancou o sangramento, e improvisou uma proteção
com plástico. Levei o aluno no hospital Evangélico e fiquei com ele por algumas horas lá,
até que fosse atendido. Depois levei-o de volta à oficina. Me impressionou um pouco o fato
de que o aluno correu para o lado do Peter igual uma criança corre para os braços do pai
quando está assustada... (Anotações de campo do dia 09/07/2015)

De acordo com os dados analisados, não se verificou o artesão em uma posição de


controle de pessoas. A coordenação ocorria por ajuste mútuo. As propriedades características dessa
categoria foram: (i) autoridade, (ii) conhecimento, (iii) notoriedade, (iv) respeito, (v) experiência.
As dimensões dessas propriedades estão representadas no quadro. O resultado da codificação dos
dados possibilitou a delimitação de um conjunto de propriedades constitutivas da categoria
Centralidade no artesão a partir de características presentes no artesão e em sua relação com
processos e pessoas, as quais constam no Quadro 3. As propriedades relacionadas à categoria
centralidade no artesão foi verificada também sua dimensionalidade no continuum ausência-
presença, bem como a subcategoria Controle apresentada no quadro abaixo.

Quadro 3 - Categoria centralidade no artesão

Polo dimensional Polo dimensional


Propriedades
Ausência Autoridade Presença
Ausência Conhecimento Presença
Ausência Notoriedade Presença
Ausência Respeito Presença
Ausência experiência. Presença
Fonte: o autor

Quadro 4 - Subcategoria controle

Polo dimensional Polo dimensional


Propriedades
Ausência domínio de processos Presença
Ausência capacidade de liderança Presença
Ausência capacidade de execução Presença
Fonte: o autor

Dessa categoria resultaram as seguintes proposições:

Proposição 1: o artesão ocupa posição central no processo do trabalho artesanal. Quanto


maior sua autoridade, conhecimento, respeito, experiência e capacidade de executar peças
que se aproximem ao estado da arte do trabalho artesanal, maior será seu reconhecimento.

Proposição 2: o reconhecimento do artesão se dá em relação àqueles que compartilham o


interesse pela cutelaria. Esse reconhecimento acrescenta valor ao produto artesanal que leva
sua assinatura. Quanto maior o reconhecimento do artesão maior o potencial de agregação
de valor ao produto.
92

Proposição 3: quanto maior for o valor agregado às peças produzidas pelo artesão, maior
sua demanda de produção.

Proposição 4: a qualidade do produto artesanal está relacionada ao controle do processo de


produção pelo artesão.

4.5.1.2 Corporeidade

Esta categoria, emergiu da constatação de que o corpo é a primeira e mais importante


ferramenta usada pelo artesão. O trabalho do cuteleiro artesanal é realizado por intermédio das mãos.
Os sentidos situam o artesão diante daquilo que está a produzir.

As habilidades do corpo desenvolvidas do decorrer de sua evolução nas atividades


de cutelaria lhe possibilitam, eventualmente, até dispensar alguma ferramenta complexa. Por
exemplo, quando se coloca o aço na forja para aquecer há um limite de temperatura. Superando tal
limite o aço sofre alterações em sua estrutura interna e torna-se impróprio para o uso. Esta
temperatura pode se aferida com precisão por termômetros digitais, contudo, tradicionalmente
cuteleiros conseguem distinguir a temperatura pela cor do metal incandescente. Sabe-se que a cor
vermelho-cereja é a adequada para trabalhar o aço sem danificá-lo. Como registrei na conversa entre
um cuteleiro e um aprendiz:

... primeiro, fique atento à forja, nunca de costas para ela. Esse negócio chega a 1500 graus!
Você consegue ver pela cor, quanto mais perto do vermelho mais frio, quanto mais perto
do branco, mais quente. O ideal no seu caso é trabalhar com ela não muito quente, mais ou
menos 900 graus. Trabalhando nessa temperatura você não corre o risco de matar sua
peça26. Perceba, a cor ideal é o vermelho cereja, antes disso está muito frio, depois disso
muito quente. A tonalidade é importante você perceber. (Nota de campo do dia 14/05/2015)

Quando se põe a martelar o ferro quente em uma bigorna, as marteladas produzem


um som em um timbre que vai se alterando à medida que o aço esfria. Esse som é determinado
principalmente pelo tamanho e constituição da bigorna e pela temperatura do aço. Ouvidos treinados
conseguem identificar a alteração de timbre e assim saber que o ferro precisar ser novamente
aquecido. As marteladas no metal apenas produzem resultados quando o aço está aquecido27, e
quando frio, torna-se duro. Portanto, quando o ferro esfria precisa ser novamente aquecido à faixa
de temperatura adequada. Nas palavras do mestre cuteleiro:

Cada bigorna tem um timbre, um som característico. Isso depende do seu tamanho, quanto
maior a bigorna mais robusto é o som. É bonito. Parece uma música quando você aprende
a ouvir. Cuteleiro precisa ter bons ouvidos também. Pelo som da bigorna eu sei quando um
aluno tá forjando com aço frio. Não preciso nem olhar. (Nota de campo do dia 03/0/2015)

A posição do corpo durante o trabalho também é fator importante. Tanto do ponto de


vista da eficiência do trabalho quanto da manutenção da saúde. Além de perceber o mundo por meio

26
Matar é um jargão que significa inutilizar, prejudicar, tornar inútil, perder o material.
27
Talvez disto tenha resultado a expressão “malhar em ferro frio” que significa: perder tempo com algo que não ai
mudar. Trabalhar à toa, sem resultado.
93

do contato, são elas que produzem as transformações nos materiais. E por meio das mãos que os
artesãos transformam aço em lâminas. Abaixo, alguns trechos de falas de cuteleiros sobre o corpo:

A marreta é extensão da sua mão. Segure a marreta com firmeza. Não é força, é jeito. Como
você acha que as mulheres cuteleiras trabalham? Essa posição de boxeador tá errada, suas
pernas precisam ficar paralelas, e você perto da bigorna. Bata com jeito para não errar. Se
errar, precisará martelar outras três ou quatro vezes para consertar. Se você não se
posicionar e não tiver jeito, logo fica cansado e seu trabalho tem que parar. (Anotação de
campo do dia 04/05/2015 - orientação a aluno)

Um cuteleiro pode não ter um bom ouvido como um músico, ou um olfato apurado como
um enólogo, nem ter a visão de um piloto de caça. Mas sem as mãos um cuteleiro não é
nada. Portanto, cuide delas. Você vai fazer trabalhos pesados com a marreta, mas vai
precisar fazer trabalhos extremamente delicados quando estiver fazendo um acabamento,
por exemplo. Veja essa faca28, uma faca com acabamento de prata e cabo de madrepérola
exigem que você seja extremamente preciso. Esse trabalho é como o de um cirurgião. Não
pode titubear. (Nota de campo do dia 04/06/2015 – orientação a aluno)

[...] eu tive um acidente lá no restaurante 29. Prendi a mão numa porta. Sei lá, acho que não
quebrou, mas não dava para trabalhar não... Médico? Não, eu cuidei em casa mesmo.
Medicina oriental tradicional. Duro é ficar três semanas sem poder trabalhar. No restaurante
até dava para me virar, mas aqui, sem chance... melhor recuperar bem antes, ou pode até
piorar... (Nota de campo do dia 15/08/2015)

O corpo enquanto ferramenta, media as relações entre o cuteleiro e o objeto. Durante


o período de observações em campo, em alguns momentos pessoas ficaram impossibilitadas de
trabalhar por problemas relacionados ao corpo. Conforme registrei em notas de campo:

[...] Ele não apareceu. Disseram que ele poderia estar com enxaqueca, que eventualmente
isso ocorria. Acabei ficando e passei a tarde toda na oficina observando e foi bastante
agradável. (Nota de campo do dia 19/03/2015)

Um dos cuteleiros sofre de dores crônicas de cabeça, eventualmente ele fica um ou dois
dias sem aparecer na oficina. Ele diz que remédios comuns não fazem efeito, precisa de
analgésicos muito fortes. Isso o impossibilita de trabalhar. (Nota de campo do dia
05/05/2015)

Mesmo com todos os cuidados relativos à segurança, acidentes também ocorrem e


podem inviabilizar o trabalho por um período. Como em um caso, registrado em minhas notas de
campo, já mencionado, no qual um aluno cortou-se.

Há algum tempo um aluno se acidentou, cortou a mão. Teve que levar pontos e ficou um
tempo esperando melhorar. Engraçado que ele não esperou nem cicatrizar o corte e já tá
novamente na oficina. De fato, parece que ele tem uma boa capacidade de cicatrização, mas
se fosse em uma situação normal de trabalho convencional ele estaria ‘de atestado’ em casa.
Quando perguntei o porquê de ele não esperar a cicatrização completa do ferimento antes
de voltar à oficina, ele disse acidentes acontecem, que são normais, não acidentes tão
graves, mas acidentes de pequena monta. Disse que prefere não ficar em casa. (Nota de
campo do dia 18/07/2015)

28
Tratava-se de uma faca em que o mestre cuteleiro estava trabalhando há alguns dias. Uma faca de aço damasco,
guarda em prata e cabo de madrepérola.
29
Esse era o caso de um cuteleiro que trabalhava na oficina em tempo parcial. Em parte do tempo ele trabalhava em
um restaurante. Essa era a mesma situação de outros cuteleiros.
94

Se por um lado, as mãos fazem a ligação do artesão com o objeto, por outro os limites
do corpo representam limites à produção artesanal.

As propriedades dessa categoria estão representadas no Quadro 4. A atribuição ou


não dessas propriedades à categoria centralidade no artesão foi verificada também sua
dimensionalidade no continuum ausência-presença.

Quadro 5 - Categoria corporeidade

Polo dimensional Polo dimensional


Propriedades
Ausência utilização das mãos Presença
Ausência esforço físico Presença
Ausência habilidade Presença
Ausência condicionamento físico Presença
Fonte: o autor

Dessa categoria resultaram as seguintes proposições:

Proposição 5: o trabalho artesanal se dá por intermédio das mãos e a habilidade manual


contribui na aquisição de experiências exitosas no fazer artesanal. Quanto maior o
desenvolvimento das habilidades do corpo maior a possiblidade de se executar um trabalho
primoroso.

Proposição 6: a vitalidade do corpo habilita ao mesmo tempo em que limita o fazer


artesanal. O aumento do condicionamento físico contribui até certo ponto para a produção
artesanal, mas a não vitalidade ou doença, limita ou impossibilita essa produção.

Proposição 7: a qualidade do produto artesanal está relacionada às habilidades do corpo


desenvolvidas pelo artesão.

4.5.1.3 Relação entre pensar e fazer

Fazer e pensar fazem parte de um mesmo processo fluido no fazer artesanal.


Subjacente à essa categoria outra está associada: a categoria liberdade. O pensar e o fazer artesanal
é possível à medida que haja liberdade para tanto. O fazer é a materialização do pensar. A separação
entre o projeto de uma peça e sua execução é meramente ilustrativa, uma vez que o ato de projetar
funciona, para os cuteleiros, como um guia que os auxilia no direcionamento das ações que
aproximam o quanto possível o objetivo pensado do objeto material. Desse modo, o pensar não se
encerra com o planejamento. Ao questionar o mestre cuteleiro sobre a necessidade de se fazer um
projeto sua resposta foi:

Quando você vai fazer uma faca é necessário que você tenha em mente qual o resultado
que você deseja. Fazer um projeto é muito importante, mesmo que seja em um papel de pão
amassado. Talvez, com a experiência, você possa pegar um pedaço de ferro qualquer e fazer
dele uma faca, mas ainda assim, talvez o resultado seja apenas o resultado possível, não
aquilo que desejava. Talvez você cometa erros que não cometeria se tivesse planejado isso
antes. Quando a gente faz um desenho, muitas coisas acontecem durante o processo e as
vezes você não chega exatamente naquilo que desenhou. Imagina sem ele... se você tem
95

um molde pode, a cada etapa, fazer comparações para ver se o que você está fazendo está
dentro daquilo que você planejou. Outro fator é o cliente. Quando você senta com ele para
definir uma faca, você está combinando algo com ele. O projeto que sai dessa sentada é um
compromisso seu com ele. (Entrevista do dia 09/06/2015)

Alunos desatentos algumas vezes cometiam erros ou até causavam acidentes. Em um


desses eventos Peter chamou a atenção do aluno:

... você tem que pensar naquilo que tá fazendo! Você não pode simplesmente ir fazendo
p****! Cara, olha, pense no que está fazendo. Pensa se faz sentido fazer a coisa do jeito
que você tá fazendo. Quem não pensa o que tá fazendo é peão e ninguém faz cutelaria para
ser peão. Não quero desmiolado aqui. O trabalho precisa ter sentido, então você tem que se
perguntar: faz sentido isso que tô fazendo? Trabalho sem sentido é trabalho ruim.
(Anotação de campo de 15/04/2015)

A noção de não separação entre o fazer e o pensar é, deste modo transmitida ao alunos
que, principalmente quando mais jovens e no início do curso, ficam um pouco atrapalhados com
isso. Não que não saibam ou sejam incapazes, mas que, algumas vezes, se mostravam tendentes a
serem meros cumpridores de ordens. Isso era tolerada inicialmente, mas à medida que o aluno tinha
experiência suficiente, era lhe cobrado a reflexão sobre o próprio trabalho. Em minhas anotações
registrei uma situação a esse respeito:

Dois alunos são bem novos. Ambos são alunos de graduação, um faz história outro faz
Desenho Industrial, ou algo parecido. Um é meio estabanado, às vezes fica horas
trabalhando em algo e quando vai mostrar para o Peter leva uma bronca. Normalmente em
tom de brincadeira, mas com fundo sério. O outro é mais novo, ainda no meio do curso.
Presenciei uma situação na qual ele fez uma bainha para uma faca e foi mostrar. Peter fez
duas ou três perguntas e eu vi que o aluno ficou com cara de dúvida. Questionado, ele disse
que levou uma bronca, porque fez errado. “Deveria ter pensando antes de fazer”, disse ele.
Alunos universitários são cobrados pelo fato estarem cursando um curso superior. Cobrados
no sentido de que eles têm um nível educacional que os obriga a serem cognitivamente
mais ativos. Alunos mais velhos cometem menos erros, mas são mais exigidos quanto ao
domínio do seu processo de trabalho de forma plena. (Nota de campo do dia 19/09/2015)

O ato de pensar durante ação também está ligado ao fato de que o artesão tem controle
sobre seu trabalho, como já apontado na categoria ‘centralidade no artesão’, deste modo é
responsável sobre ele e precisa agir com responsabilidade que lhe é inalienável. Como se pôde
constatar nos dados, o artesão trabalha com seus próprios recursos e também faz parte do seu
trabalho gerir estes recursos. Planejar a execução do trabalho também está relacionado com melhor
utilização possível dos recursos. Pode-se identificar nesse trecho de uma conversa com um cuteleiro:

A gente aproveita os materiais que tem da melhor forma, antigamente era pior, porque você
tinha que aproveitar tudo que era retalho, porque não havia lojas de venda de aço. O aço
era um recurso escasso. Dizem que é uma das razões do surgimento do aço damasco. Porque
se misturavam um monte de peças de retalhos e no final aços diferentes não se misturavam.
Sei lá. Só sei que se você tem uma peça boa de aço planeja bem o uso dela para não
desperdiçar. A menos que você tenha dinheiro sobrando né, que só faça isso por hobby,
mas o cuteleiro experiente não faz isso. Ele aproveita bem. (Notas de campo do dia
15/08/2015)

Mas pensar, no sentido do trabalho artesanal, vai além do ato de racionalizar.


Relaciona-se também com o poder de abstração e de criação.
96

É necessário dominar a técnica para que você não precise pensar nela. Se você não precisar
pensar na técnica pode se concentrar no que realmente importa: a criação. Um bom cuteleiro
pode até inspirar-se nos clássicos, mas precisa ser capaz de criar. (Anotações de campo do
dia 01/092015)

O trabalho artesanal pressupõe liberdade para o artesão executar seu trabalho. Essa
liberdade pode estar relacionada ao processo criativo ou à dinâmica da execução do trabalho. Desse
modo, a liberdade relaciona-se também a escolha do ritmo adequado, seja pelas características do
material usado, seja por necessidades relacionadas ao corpo. Faz parte do processo de trabalho
artesanal liberdade para o controle do processo integral de trabalho. Nas palavras de um cuteleiro:

... se você não pode definir o que fazer, como fazer e quando fazer, já não será você fazendo,
mas outra pessoa fazendo através de você. Isso não tem nada a ver com o trabalho do
cuteleiro. Veja, eu tenho meus compromissos, claro, afinal, o que é combinado não é caro,
mas quem define meu trabalho sou eu. (Nota de campo do dia 25/09/2015)

Em verdade, o aspecto liberdade pode ser observado em seu contraponto: o


cerceamento. Imposições externas estavam invariavelmente relacionadas à restrições que impediam
o correto andamento do trabalho. Uma pessoa pode pedir que um cuteleiro lhe faça uma faca que
seja para essa ou aquela aplicação, que seja desse ou daquele estilo, ou ainda que contenha algum
tipo de material específico. Mas não poderá lhe dizer como fazer, ainda que o saiba. Nem tampouco
será de seu controle o tempo necessário para a execução do projeto. Há, eventualmente, uma
negociação entre o que o cliente quer e o cuteleiro está disposto a fazer. Como exemplo, destaco a
fala de Peter quanto ao processo de encomenda de uma faca:

Se você quiser uma faca a gente senta, você me diz mais ou menos como quer, que estilo
prefere e a gente faz um esboço. Não vou te garantir um prazo específico. [...] eu já fiz
muitas espadas cenográficas, espadas de decoração... hoje eu não faço mais isso. Se não for
para fazer algo de verdade prefiro não fazer. Tem gente que pede cada barbaridade... Não
dá para ficar fazendo salada de fruta, colocar um cabo de Bowie 30 em uma lâmina de uma
faca para cortar Sashimi.... Eu não faço. (Anotações de campo do dia 05/05/2015)

O cuteleiro é um especialista e como tal exerce o pleno domínio do seu trabalho. Essa
especialização lhe confere reconhecimento e também possibilita que tenha possiblidades de
escolhas em um curso de ação. Em muitos momentos, registrei aparentes sinais de rebeldia.
Rebeldias contra o sistema social, contra o Estado, contra o mercado. Interpretei que a possiblidade
de cerceamento das liberdades individuais ou o próprio cerceamento era algo visto com certo
repúdio. A liberdade para fazer escolhas pressupõe o controle do processo no fazer artesanal.

Pensar, portanto, está relacionado com o fazer em um processo contínuo da projeção


do pensamento à atribuição de sentido ao ato de fazer. As propriedades que fizeram parte desta

30
Bowie é um estilo de faca norte-americana bastante associada à expansão ao oeste dos Estados Unidos. É uma faca
de grandes dimensões, pontiaguda e de cabo não cilíndrico. Versões dessa faca foram muito popularizadas em filmes
como Crocodilo Dundee, Rambo e Os Mercenários.
97

categoria estão representadas abaixo no Quadro 6. O continuum ausência-presença compõe a


dimensionalidade desta categoria.

Quadro 6 - Categoria relação entre o pensar e o fazer

Polo dimensional Polo dimensional


Propriedades
Ausência projeção Presença
Ausência imaginação Presença
Ausência criatividade Presença
Ausência sentido Presença
Ausência recursos materiais Presença
Fonte: o autor

O Quadro 7 apresenta a subcategoria liberdade que compõe a categoria relação entre


pensar e o fazer e também foi verificada no continuum ausência-presença.

Quadro 7 - Subcategoria liberdade

Polo dimensional Polo dimensional


Propriedades
Ausência liberdade criativa Presença
Ausência Liberdade de ação Presença
Ausência escolhas Presença
Fonte: o autor

Proposição 8: o fazer artesanal é uma ação reflexionada por meio da qual o artesão
materializa objetos pensados. O ato de criação artesanal aproxima o artesão da práxis e o
distancia do trabalho alienado.

Proposição 9: o trabalho artesanal possui sentido para o artesão.

Proposição 10: a liberdade do fazer artesanal permite que o artesão desenvolva trabalhos
que lhe façam sentido.

Proposição 11: a manutenção da liberdade do fazer artesanal implica em um


desacoplamento total ou parcial do mercado convencional.

4.5.1.4 Valores substantivos

A categoria valores substantivos emergiu dos dados evidenciando que o fazer


artesanal é permeado por alguns valores substantivos. Estes valores colaboram no sentido de que no
trabalho artesanal não necessariamente é orientada para o mercado. Dito de outra forma, as
demandas de mercado não são a única e principal referência da produção. Qualidade, tradição e o
ensino foram evidenciadas como valores, mas questões metafísicas, ou espirituais, também podem
ser notadas nos dados. Valor, aqui, corresponde ao que foi dito pelo cuteleiro no trecho abaixo:

[...] Então, aquela conduta que você faz aquilo, porque você sabe que tem que fazer. Não é
porque alguém tá te impondo. Aliás, tem estudos filosóficos muito nesse tipo de... tem até
termos filosóficos sobre esses tipos de questões, né? De você fazer, não porque aquilo te
dá vantagens... às vezes, certas atitudes elas não vão te dar vantagens, pelo contrário elas
98

vão te dar desvantagem, vamos dizer material, financeira, mas é o certo a ser feito.
(Entrevista do dia 23/03/2015)

Práticas artesanais são mais ou menos orientadas por práticas repetidas e


retransmitidas por gerações. O ensino da cutelaria artesanal faz parte do rol de práticas tradicionais,
foi uma característica muito evidente no contexto estudado e é uma das formas de perpetuação
dessas práticas. A manutenção do processo de ensino talvez possua aspectos utilitários, uma vez que
a formação tem um custo para o aluno. Contudo, fortes valores substantivos estão envolvidos nesse
processo. Há, como já foi descrito anteriormente, um senso de dever e propósito na manutenção da
relação mestre-aprendizes. Embora haja um custo, a paga não é exclusiva em dinheiro, mas de outras
formas diversas. A relação com os alunos tem aspectos substantivos. Em uma conversa com o
mestre cuteleiro ele abordou um aspecto desta questão:

(...) veja, seu quisesse ganhar mais dinheiro, eu teria que mandar meus alunos embora.
Aluno gasta mais material, quebra ferramenta, faz um monte de coisa que eu tenho que
repor depois. Mas se esse cara apareceu no meu caminho é porque eu tenho que lidar com
ele. Eu creio nisso. Há um motivo para cada um que veio aqui ter vindo pra cá. [...] veja o
caso do Fulano, que já não é mais aluno, você acha que ele me dá algum lucro usando a
oficina? Acho que eu ganho alguma coisa? Não. Mas para ele, poder estar aqui é muito
bom. Ele é um cara meio perdido, até meio esquisito. Mas estando perto de mim, eu posso
eventualmente dar um conselho, jogar uma ideia... no fundo ele é um cara bom, mas precisa
de um direcionamento que eu não sei se teve alguma vez na vida. É assim.... (Nota de
campo do dia 30/04/2015)

Entre eles, o mestre cuteleiro, assumindo uma postura de orientador para assuntos
que extrapolam os limites da cutelaria. A relação mestre-aprendiz não é padrão, modifica-se de
acordo com o tipo de aluno, mas, no caso da Cutelaria Hammer, todos os alunos recebem uma carga
de dever moral no sentido de repassarem parte do que aprenderam.

Todos os meus alunos saem daqui com o compromisso de ensinar alguém um dia. E já
foram bem uns 250 alunos nesse tempo todo. Existe gente que leva isso muito a sério e deu
muita aula. Esse meu primeiro aluno, exatamente dez anos depois, de ter feito suas aulas,
era professor de biofísica e bioquímica, ele estava fazendo seu doutorado. De família alemã,
morando em Florianópolis. Era um camarada que tem uma visão muito pragmática, muito
lógica, muito clara das coisas, por efeito do próprio trabalho e pela origem, da criação
alemã. Dez anos exatamente depois que ele fez... no mesmo mês do ano em que faziam dez
anos ele trouxe o filho dele pra fazer o curso. (Entrevista do dia 26/Março/2015)

Embora se possa fazer uso de máquinas e equipamentos modernos, o fazer artesanal


conserva sempre algo do passado. Seja um modo de fazer, seja seguindo uma alguma prática
específica. De um modo geral olha-se e valoriza-se questões tradicionais. Valoriza-se a técnica, a
habilidade e o conhecimento do cuteleiro. Por outro lado, facilidades modernas em forma de
equipamentos ou materiais nem sempre são vistos com bons olhos.

... é uma questão simples. Antigamente o cara não tinha máquinas para fazer o serviço,
tinha que dar seus pulos e criar soluções pras coisas... hoje tem um monte de gente com
tudo à mão e não sabe usar... o cara foi criado com toda a comodidade e não aprendeu a se
virar... os moleques de hoje em dia não sabem martelar um prego numa barra de sabão...
isso é triste porque é uma geração perdida...
99

A questão da tradição também está presente na formação dessa categoria, uma vez
que orienta a ação artesão à manutenção de práticas tradicionais. Essa orientação, contudo, sofre
pressões contrárias. Um exemplo pode ser visto na cutelaria de tradição oriental. De acordo com os
preceitos que regem a cutelaria oriental, as facas orientais tem seus cabos construídos em madeira,
entretanto, normas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) proíbem o uso de
madeira, uma vez que estes não podem ser higienizados de acordo com tais normas.

[...] eles enchem o saco, mas não faz sentido uma faca de sushi com cabo de plástico... isso
é uma aberração... eu li num fórum esses dias que no Rio de Janeiro tão pegando forte, até
o oshibori (toalhinha) tá proibido... segundo um amigo meu, o jeito é usar o taron... taron
de cheques (risos). (Nota de campo do dia 18/08/2015)

Nesse contexto, algumas vezes há pressões no sentido de adoção de práticas


modernas. Não apenas de práticas, mas também de materiais, como no caso do aço inox. Tantôs
japoneses são tradicionalmente feitos em aço carbono, mas como se vê no relato do cuteleiro abaixo
há eventualmente alguma pressão no sentido de adoção de um material mais moderno em função da
praticidade.

Às vezes a pessoa quer ter um Tantô na mesa dele, e tal. Porque ele faz arte marcial. Aí
você faz um de carbono, todo mundo que chega lá, que é bobo alegre, enfia o dedo. Às
vezes você não limpa e tal. Daqui a pouco ele começa uma corrosão 31. Aí eu resolvi fazer
em inox. Porque se alguém puser o dedão e você não vê ou esquecer de limpar ele vai, né...?
(Entrevista do dia 23/03/2015)

A cutelaria artesanal foi descrita como uma forma de preservar habilidades ancestrais
de autossuficiência. Nesse sentido, os dados apontam a cutelaria atrelada à atividades ligadas à vida
natural em campo como camping, caça, pesca, sobrevivencialismo, escotismo, arqueria e outros
afins. São valores ligados à autossuficiência, ainda que o contexto de vida dos sujeitos seja urbano.

Outra coisa é preservar esse conhecimento, essa arte. Por quê? Porque a humanidade
sempre dependeu das lâminas de corte. A humanidade sempre dependeu disso daqui, vai
depender... vai ser a última coisa que nós vamos prescindir. Nos perdemos garra, perdemos
dente, por algum motivo aí do nosso processo, da nossa genética, e nós não podemos viver
sem isso daqui, em todas as etapas da vida. Até hoje nesses programas de sobrevivência, o
cara vai lá pro meio do mato... naquele “Perdidos e Pelados” 32 ... tem que levar uma faca.
Sempre né? Uma faca e uma pederneira. (Entrevista do dia 23/03/2015)

Os dados mostram que a qualidade é, por si, um valor substantivo na cutelaria


artesanal. Não são necessários motivos para se projetar e construir uma faca com qualidade.
Tradicionalmente os cuteleiros artesanais assinam suas peças, de modo que um determinado

31
Como se descreveu na seção 2.2.1, o aço carbono possui habilidade de corte superior ao aço inox, contudo, é mais
susceptível à corrosão. Modernamente o uso do aço inox é largamente difundido existindo inúmeras ligas de aço com
características inoxidáveis.
32
O cuteleiro se refere à série de televisão “Largados e Pelados”. É a versão traduzida do original americano “Naked
and Afraid”. Trata-se de um reality show norte-americano televisionado pelo Discovery Channel no qual duas pessoas,
um homem e uma mulher, são deixados nus em um ambiente natural desabitado (floresta, cerrado, ilha, deserto etc) e
devem sobreviver por 21 dias. Eles podem levar apenas um objeto cada. Em geral levam um facão ou faca além de outro
objeto como pederneira.
100

produto, de um determinado cuteleiro sempre poderá ser identificado. Isso reforça o fato de que, se
algo deve ser feito, deve ser bem feito. Na visão abaixo, exposta como exemplo desse conceito, o
cuteleiro descreve possíveis problemas decorrentes da falta de foco na qualidade.

... porque é uma coisa muito interessante, porque quem entende muito de cutelaria artesanal
não entende nada de indústria, quem entende de indústria não entende nada de qualidade
artesanal. Eu sou o único profissional no Brasil que entende os dois. A gente tem uma
supervalorização do grande, da empresa grande, de empresas. Que a empresa grande, pra
poder se manter, diante de tudo que eu falei, de impostos, e tal... É mínimo de custos,
máximo de retorno, e a qualidade compensa o valor que vai cobrar. Isso gera uma situação
de complicação, porque faz muito, produz muito, vende, a margem é pequena, mas produz
muito lixo. Isso desvaloriza, em termos de status o pequeno. Às vezes, você olhando lá
fora, empresas com administrações familiares de cinco gerações e estão bem pra caramba.
Por quê? Porque existe um compromisso qualitativo com aquela marca que só se perpetua
assim. Quando o pessoal começa a implantar plano Toyota pra todo lado, isso pode ser bom
para empresa em crise... mas não pra sobrevivência de longa data da organização. Produzir
mais barato, produzir mais barato, produzir mais barato... é um rumo a produzir com menos
qualidade. A Toyota tomou uma baita de uma sabocada (?) por implantar de forma muito
radical essa visão que chegou um momento que ela teve que puxar o frio de mão e, opa!
“Se não a gente vai quebrar”. Se fosse isso, a China nunca precisaria comprar marcas
importantes fora da China. Por que é que a China está comprando várias marcas ocidentais?
Porque elas carregam em si uma visão de qualidade que produto chinês nenhum, marca
chinesa nenhuma vai transmitir pra ninguém. Eles compram pra estragar a marca, eles são
cientes que o nome deles não vende. Eles têm que comprar o nome de alguém que tem
gerações ali produzindo com alta qualidade pra tentar emprestar um pouco desta qualidade
pra si. (Entrevista do dia 30/03/2015)

...você até pode ter qualidade numa faca comercial, mas é raro isso ocorrer, em geral a
indústria quer o máximo de retorno com o mínimo de investimento no menor prazo
possível, isso acaba no quê? Em lixo. Não é que os caras não possam fazer coisa boa, podem
sim, mas quem manda é o mercado. Então, os caras colocam a qualidade no mínimo, para
poder produzir muito e barato para poder vender para muita gente. O problema é que tem
gente para compra porcaria aos montes. Claro que o marketing ajuda... agora, uma faca
artesanal, produzida por um cuteleiro de verdade é garantia de qualidade. Por quê? Porque
nenhum cuteleiro de verdade coloca seu nome em uma faca porcaria. Quando o cara tá
começando e não tem as manhas ainda ele comete erros, mas vai evoluindo. Normalmente,
quando esse cara desponta e começa a fazer um trabalho primoroso, aquelas facas que ele
fez no começo de carreira ganham valor para os colecionadores. Tipo, seria como comprar
o primeiro carro do Airton Sena, ou ter a bola que o Pelé jogava quando era moleque...
(Nota de campo do dia 08/10/2015)

Adicionado a isso, entende-se no contexto da cutelaria artesanal que se uma faca


artesanal foi escolhida por um comprador é porque este comprador preza pela qualidade, uma vez
que se dispõe a pagar um valor maior pelo bem.

[...] uma faca artesanal é para um tipo específico de pessoa: a que está disposta a pagar três
ou quatro vezes o valor de uma faca comercial. Uma pessoa assim, ou valoriza a qualidade,
ou precisa de uma ferramenta de qualidade em função do seu trabalho, ou é um
colecionador. Estes três aspectos podem fazer parte da mesma pessoa, ou não. (Nota de
campo do dia 21/025/2015)

Questões metafísicas ou ligadas à espiritualidade são associadas ao objeto ou ao


contexto geral que envolve a arte da produção artesanal de lâminas. Foram, algumas vezes, como
nas falas destes cuteleiros abaixo:

Cara, a cutelaria de verdade é uma parada muito profunda. Quando eu comecei a aprender
com meu pai, era muito sério. Meu pai era muito rigoroso. Pro japonês as coisas são sérias.
101

Você imagina que antigamente se trabalhava meses a fio para fazer uma espada 33. E essa
espada podia valer mais que uma casa. Você acha que uma espada como essa é só um
pedaço de ferro afiado? Sem chance... Era muito mais do que isso. (Entrevista do dia
24/04/2015)

Eu tenho para mim que modificar a matéria é algo próximo de Deus. (Nota de campo do
dia 09/10/2015)

[...] Tudo é cíclico. Agora, as facas... aí tem um outro lado também, que eu quero falar: pra
mim elas tem uma conotação espiritual. Eu acho que isso é bonito de falar. Primeira coisa:
nós não damos valor pra ferro, porque o núcleo do nosso planeta tem 90% de ferro. Então,
nós achamos que o que abunda não vale nada, o que vale é aquilo que é raro. Tudo bem, de
certa forma tem uma razão. Mas o ferro é um dos elemento mais interessantes do universo.
Eu sempre repito isso, porque as pessoas não sabem: o ferro é que mata a estrela. O ferro é
produzido no núcleo da estrela. A maior parte dos minerais. Quando a estrela começa a
produzir ferro, só as estrelas muito grandes produzem ferro em quantidade, ela começa a
morrer. Só na maturidade... assim, seria o homem quando chega num ponto filosófico da
vida... da maturidade que ela começa a produzir o ferro. Só que o ferro consome mais
energia do que libera, pra estrela. Então ela começa a entrar num stress, que cada vez ela
quer produzir energia, pra produzir mais ferro, ela vai entrando num stress, num stress, num
stress, até que ela explode numa supernova. E no fim da vida dela, e na explosão, é que ela
produz uma série de metais pesados, que depois ela espalha no Universo. Então, o ferro é
produzido no núcleo da estrela, que é, entre aspas, o assassino da estrela. Ele tem tanta
energia... disse até alguns físicos aí, que ele tem mais energia que urânio. Nós não sabemos
retirar essa energia do ferro. E na verdade o ferro, eles são cristais 34. E ele tem uma série
de aspectos comportamentais, etc, e tal. Então, os cristais a gente sabe também eles têm
inúmeras propriedades que a gente não conhece. Algumas estamos conhecendo
ultimamente e tal, os quais assim pragmaticamente. (Entrevista do dia 23/03/2015)

Valores substantivos fortalecem os laços entre o artesão e o fruto do seu trabalho.


Isso se evidenciou na valorização que os artesãos conferem aos seus produtos, mas também sob a
forma de respeito que o artesão tem pela sua produção, como no trecho abaixo, de um cuteleiro:

[...] a gente tem um respeito pela peça. A gente tem quase que uma veneração pela peça.
Então aquele Tantô que ele comprou, que ele mostra lá no vídeo... Aí eu trouxe pra cá. E
eu fiquei aborrecido, porque isso daí dá um trabalho. É um negócio que a gente faz assim,
minucioso, e tal. E quando... eu já sabia, quando eu fui, depois de uns 6 meses, refazer o
Tantô, aquela peça que quebrou, eu tive que refazer tudo. Porque muda tudo, né? Aí
praticamente eu refiz toda a bainha dele de novo. Eu falei: eu não vou vender esse troço.
Eu tenho esse problema, eu faço as faca e não quero vender. Acontece demais. Por isso que
eu comecei a optar, uma época a fazer série. Mais ou menos série. Ainda não tá bem como
eu quero, porque, tudo bem, né... eu faço, sei lá, dez peças parecidas. Tá bom. Porque... eu
já fiz isso aqui... eu já vendi pra pessoa que caça javali. Isso aqui tá a dois anos aqui. Nem
afiei ela e não vendo. É uma adaga feita em aço inox. Essa adaga é baseada num tipo de
lâmina interessante. Era umas espadas que eles faziam que era pro cara morrer mesmo,
quando se tocava, porque, se você notar, a parte de trás ela é côncava. E a parte da frente
ela é quando o cara torcia. Então aquilo faz um corte enorme, de difícil recuperação, pelo
menos nas épocas mais antigas. E isso daí eu já fiz esse modelo pro pessoal que caça javali,
com arco e flecha. Principalmente com arco e flecha. A gente chama faca arrematadora,
finalizadora. Às vezes o bicho tá ali... Ele usa pra matar... pro bicho sofrer menos...
(Entrevista do dia 23/03/2015)

As propriedades que compuseram esta categoria foram estão dispostas no Quadro 6.


Sua dimensionalidade foi verificada no continuum ausência-presença.

Quadro 8 - Categoria valores substantivos

33
O aluno se referia às tradicionais katanas usadas por guerreiros japoneses no período feudal do Japão.
34
Sobre a presença de cristais no ferro, cabe dizer que
102

Polo dimensional Polo dimensional


Propriedades
Ausência qualidade Presença
Ausência tradição Presença
Ausência questões metafísicas Presença
Ausência manutenção de práticas Presença
Ausência perpetuação de práticas Presença
Ausência relação mestre-aprendiz Presença
Fonte: o autor

Proposição 12: o produto do fazer artesanal carrega significados atribuídos pelo artesão
durante o processo do fazer artesanal.

Proposição 13: a produção artesanal é permeada por valores substantivos que influenciam
na produção e nas negociações de produtos artesanais.

Proposição 14: a qualidade é um valor substantivo que condiciona a produção artesanal ao


máximo valor qualitativo possível ao mesmo tempo em que influencia no estabelecimento
de um limite máximo quantitativo.

Proposição 15: a tradição é uma valor substantivo que influencia no sentido da manutenção
de práticas e no compartilhamento de outros valores substantivos.

Proposição 16: o ensino da cutelaria artesanal estabelece a relação metre-aprendiz que


potencializa a difusão da tradição da cutelaria artesanal.

4.5.1.5 Limites

A categoria limites emergiu de forma densa dos dados. Contudo, se relaciona


fortemente com as demais categorias já descritas neste capítulo, de modo que muitos de seus
aspectos já foram abordados. Subjacente a ela, está a noção de crescimento. Alguns limites fazem
parte do processo do fazer artesanal, mas a noção de superação de limites, tão comum no mundo
dos negócios, não a acompanha. Em vez disso, observa-se a noção de respeito pelos limites. Como
se evidenciou nas falas abaixo, ambas de cuteleiros:

[...] há uma coisa muito importante quando se fala de administração em qualquer campo
que é você estabelecer o seu limite de crescimento... eu conheço casos, na Europa, aqui...
de pessoas que tem restaurantes fantásticos e que nunca transformaram eles numa rede,
nunca abriram uma filial, porque o objetivo é: fazer o melhor trabalho possível num
tamanho que eu possa administrar de forma pessoal, presencial o negócio para que ele não
deteriore em qualidade para que ele não crie fissuras difíceis que acabam se tornando depois
buracos sem fundo... Então, aqui no Brasil a gente nunca recusa um trabalho por mais que
a gente não possa fazer bem feito, a gente nunca recusa um contrato por mais que a gente
esteja lotado de serviço, a gente acha que jamais pode perder uma chance. Então a gente se
compromete sempre muito acima do que é às vezes nosso limite de capacidade. Quando a
gente estabelece limites para o crescimento de alguma coisa mesmo que por um tempo,
você está permitindo que aquela coisa amadureça. Nenhuma empresa nunca quebrou por ir
devagar demais, mas quebram frequentemente por irem rápido demais. (Entrevista do dia
23/03/2015)

[...] O problema do limite da capacidade é dificílimo das pessoas entenderem... o limite do


crescimento é uma coisa dificílima das pessoas entenderem. Tudo tem um limite. Você
pode ser gigante, mas ainda assim tem seus limites. (Entrevista do dia 20/08/2015)
103

Os problemas decorrentes da não observância de limites são citados nos trechos


abaixo e referem-se aos limites não respeitados pela indústria:

[...] Pois é, mas mesmo assim às vezes quando o cara começa ele não tem noção do limite
sustentável pra aquela atividade. Então tá, vou fazer uma cutelaria industrial, grande. Dez
funcionários é pouco, 50 funcionários, roda, 100 funcionários, roda com uma produção
muito boa, 200 funcionários, começa a ser perigoso.... Demais...

[...] Claro, claro, claro... aqui o pessoal tenta crescer na marra...chuta e corre atrás... ele
tenta fazer um investimento que vai dar um chute na produção pra cima sem que essa
demanda já exista... aí ele acha que: não... eu vou produzir mais, daí eu vou vender mais
independente de analisar se o mercado tá bom pra isso ou não. Eu penso que não. Eu penso
que se o mercado puder comprar 1000 unidades por mês eu estaria bem fabricando 700.
Enquanto o mercado estiver carente o produto se torna valorizado. Quando o cara encontrar
isso na prateleira do supermercado acabou o status do produto.

[...] Tudo tem limite... Às vezes você tem cara que é um excelente vendedor aí você acha
que ele é bom demais e passa ele para supervisor e ele se torna um supervisor ruim, aí você
acha que tá faltando espaço e joga ele para diretor... O limite de capacidade daquela pessoa
é ser o melhor vendedor da empresa... Dê um prêmio para ele, aumente o salário dele
mantenha ele no cargo... (Entrevista do dia 23/03/2015)

Quanto ao objeto, estabelecem-se limites desde sua concepção. Ao projetar uma faca
o cuteleiro estabelece seus próprios limites quanto à forma, aplicabilidade e materiais. Mas estes
limites são oriundos de outras esferas, como a que contempla valores substantivos. O impulso do
fazer, ou a demanda externa, não abre mão da qualidade nem tampouco de fatores tradicionais, como
estilo. O artesão deseja ser visto na peça que produz, deseja ser bem visto e assim estabelece limites
mínimos quanto à qualidade, uma vez que aquela peça o representa. Portanto, limites não se referem
apenas a fronteiras acima ou à frente, mas também há limites dos quais se partem. Então, valores
substantivos atuam no sentido de estabelecerem limites à produção artesanal.

A passagem para a modernidade, conforme apontou Bauman (2003), pode ser vista
como uma promessa otimista de um futuro sem dúvidas ou limites. Uma vez que toda dúvida poderia
ser examinada por meio do método e a ciência poderia dar ao homem o poder de previsão e controle
sobre a natureza. No caso do trabalho artesanal, conforme observado, embora a noção de controle
esteja presente, limites não são desafios a serem superados. Não é o constante superar de metas, que
se acumulam, que levam para o caminho do sucesso. O sucesso está ligado à noção de liberdade,
como descreveu Peter:

[...] sucesso é dormir quando tem sono, comer quando tem fome e ir fazer o que você gosta
quando você quer... (Nota de campo do dia 05/11/2015)

Além dos fatores associados ao trabalho artesanal, os dados apresentam outros


relacionados à ideia de que uma pequena empresa pode ser vantajosa, como na fala do cuteleiro
abaixo:

[...] eu digo, cara, você não imagina o quanto é bom ser pequeno! [...] crescer não é a única
forma de ter sucesso na vida (...) é absolutamente factível e muito fácil de acontecer de uma
empresa pequena ou média muito bem administrada ter mais lucro e mais tranquilidade na
104

vida que uma grande... eu tenho uma vantagem nas minhas mãos que eu posso trabalhar
para não perder. Crescer significa que eu tenho um monte de problemas que eu não quero
ter. Governo, funcionário, imposto, logística... (Entrevista do dia 21/10/2015)

A noção limites envolve a centralidade no artesão no processo artesanal, uma vez


que o trabalho artesanal é indissociável do artesão. Considerando ainda o artesão, envolve aspectos
relacionados ao corpo e ao processo de criação. Ainda, limites são estabelecidos por fatores
subjetivos inerentes ao fazer artesanal. A Figura 14 representa graficamente os limites quantitativo
e qualitativos do trabalho artesanal.

Figura 14 - Limites qualitativos e quantitativos da produção

Fonte: o autor

As propriedades dessa categoria estão dispostas no Quadro 9.

Quadro 9 - Categoria limites

Polo dimensional Polo dimensional


Propriedades
Ausência limites fisiológicos Presença
Ausência limites temporais Presença
Ausência limites substantivos Presença
Fonte: o autor

Proposição 17: a produção artesanal é limitada por fatores ligados à centralidade do


cuteleiro no processo de criação e do fazer artesanal, a aspectos fisiológicos relacionados à
corporeidade e a valores substantivos que permeiam o trabalho artesanal tradicional.

Proposição 18: respeitar limites implica em limitar a produção artesanal.


105

4.6 CODIFICAÇÃO SELETIVA

Ainda de acordo com Strauss e Corbin (2008) a próxima etapa da pesquisa foi a
codificação seletiva. Sua finalidade foi integrar as categorias a fim de se formar um esquema teórico
maior. Nesse processo se determina a categoria central, representada por aquela que reflete o tema
principal da pesquisa. Ela incorpora em si outras categorias importantes e também foi definida em
termos de suas propriedades e dimensões.

Durante o processo de codificação seletiva as categorias se sobrepuseram em


diversos momentos. Categorias foram mudadas, outras integradas à categorias existentes ou
formaram novas categorias. Isso era esperado e representa, de certa forma, a complexidade dos
fenômenos sociais com os quais nos deparamos na pesquisa. A centralidade no artesão está
intimamente relacionada à relação entre pensar e fazer, ainda que representem categorias distintas.
Importa que nesse processo se refine os conceitos abstratos de modo que a integração das categorias
faça sentido na explicação do fenômeno em estudo.

Da análise das categorias emergiu a categoria limites como sendo a categoria central,
uma vez que ela se relaciona com todas as demais categorias e ainda aumento o poder explicativo
de cada uma delas (STRAUSS E CORBIN, 2008). Os limites estabelecidos pelos valores
substantivos, pela relação entre pensar e fazer, pela corporeidade e pela centralidade no
artesão condicionam a produção artesanal qualitativamente e quantitativamente. A primeira
por limites mínimos e a segunda por limites máximos.

Partindo desse primeiro corpo explicativo formado pelas categorias iniciais procedi
com a validação da teoria conforme Strauss e Corbin (2008) orientam. Esta validação não tem
sentido quantitativo, mas visa verificar que há ajuste entre a abstração desenvolvida e os dados
brutos. Deste modo, elaborei um documento simples (Apêndice 4) com as dezoito proposições de
modo que os informantes pudessem ler e manifestar concordância ou discordância em relação aos
conceitos. Pedi que, em caso de não concordância, fosse apontando os porquês. Quatro pessoas
auxiliaram nesse processo, três cuteleiros e um aprendiz. Duas validações foram feitas
presencialmente e duas por e-mail. As dezoito proposições iniciais, resultaram em onze proposições
que são descritas no próximo capítulo.
106

5 APRESENTACÃO DA TEORIA SUBSTANTIVA

Apresento neste capítulo a teoria fundamentada nos dados (substantiva) que explica
a relação entre o trabalho artesanal e crescimento organizacional. A Teoria do Limite Artesanal é
uma explicação da relação entre o trabalho artesanal e o crescimento organizacional. O trabalho
artesanal é entendido como aquele que é fruto do pensamento, feito pelas mãos, permeado de valores
substantivos, focado no objeto e indissociável do artesão. Crescimento foi definido como aumento
na produção de produtos.

Ontologicamente, parte-se do pressuposto da realidade construída socialmente


(BERGER e LUCKMANN, 2003) e, sendo interpretativista, admite que a realidade deve ser
compreendida a partir do ponto de vista dos indivíduos que dela fazem parte.

Proposição 1: o artesão ocupa posição central no processo do trabalho artesanal. Quanto


maior sua autoridade, conhecimento, respeito, experiência e capacidade de executar peças
que se aproximem ao estado da arte do trabalho artesanal, maior será seu reconhecimento.

Só há trabalho artesanal se o um artesão ocupar posição de centralidade diante deste


trabalho. Centralidade implica que o artesão tenha domínio sobre o processo de concepção e
materialização de produtos. Implica também que o trabalho artesanal esteja sob o controle total do
artesão que, deste modo, poderá controlar todos os pontos de qualidade necessários à resultante de
um produto que atenda requisitos mínimos de qualidade por ele estabelecidos. Desta forma, o
envolvimento do artesão é pessoal e individualizado. Isso faz com que a produção artesanal tenha
possibilidades de alcançar o estado da arte na concepção de produtos. Contudo, também faz com
que a produção artesanal seja limitada às capacidades artesão.

Proposição 2: o reconhecimento do artesão se dá em relação aqueles que compartilham o


interesse pelo seu produto. Esse reconhecimento agrega valor ao produto artesanal que leva
sua assinatura. Quanto maior o conhecimento, experiência e capacidade de realização do
artesão, maior o reconhecimento do artesão, maior o potencial de agregação de valor ao
produto. A agregação de valor ao produto artesanal permite que a organização artesanal
tenha uma produção em menor escala.

A destaque do artesão se dá em função da sua capacidade de realização. Quanto mais


conhecimento e experiências adquiridas no campo do seu ofício, maior sua capacidade de
realização. Capacidade de realização significa ter competência para transformar pensamentos em
objetos concretos. Quando um artesão atinge um patamar de reconhecimento em função da sua
capacidade de projetar e construir produtos primorosos, suas peças passam a serem ainda mais
valorizadas por terem agregadas à si a assinatura do artesão. O valor de um produto artesanal é
definido, além das características visíveis, por características invisíveis ligadas ao prestígio do
artesão que assina a peça. Quanto maior o valor agregado ao produto artesanal, menor a necessidade
de produção parta atender ao equilíbrio econômico organizacional.
107

Proposição 3: o trabalho artesanal se dá por intermédio das mãos, e a habilidade manual


contribui para a qualidade do fazer artesanal. Quanto maior o desenvolvimento das
habilidades do corpo maior a possiblidade de produção artesanal de qualidade superior.

Proposição 4: a vitalidade do corpo habilita ao mesmo tempo em que limita o fazer


artesanal. O aumento do condicionamento físico contribui até um determinado limite a
produção artesanal, mas a não vitalidade, ou doença, influencia limitando ou
impossibilitando essa produção.

As habilidades do corpo possibilitam o fazer artesanal ao mesmo tempo em que o


limita. As mãos, enquanto ferramentas, possibilitam que o artesão trabalhe o objeto a fim de que
este se torne equivalente ao que foi mentalmente projetado pelo artesão. Assim, artesão depende das
mãos para levar a cabo seu ofício. As habilidades do corpo proporcionam a capacidade de
materialização dos objetos por meio de técnicas e procedimentos. O domínio das habilidades
corporais potencializa o fazer artesanal. As habilidades do corpo estão ligadas à capacidade
fisiológica do artesão, de modo que o seu condicionamento físico o habilita ou inabilita à produção
artesanal.

Proposição 5: o fazer artesanal é uma ação reflexiva por meio da qual o artesão materializa
objetos pensados. O ato de criação artesanal aproxima o artesão da práxis e o distancia do
trabalho alienado. Desta forma, o trabalho artesanal possui sentido para o artesão.

Proposição 6: a produção artesanal é permeada por valores substantivos que influenciam


na produção e relação entre a organização artesanal e o mercado.

Proposição 7: a qualidade é um valor substantivo que condiciona a produção artesanal ao


máximo valor qualitativo possível ao mesmo tempo em que influencia no estabelecimento
de um limite máximo quantitativo. A tradição é uma valor substantivo que influencia no
sentido da manutenção de práticas e no compartilhamento de outros valores substantivos.
O ensino da cutelaria artesanal estabelece a relação metre-aprendiz que potencializa a
difusão da tradição da cutelaria artesanal.

Produzir artesanalmente implica na atribuição de sentido ao trabalho. A atribuição


de sentido se desenvolve de modo que valores substantivos influenciem significativamente o
contexto do trabalho artesanal. A relação do artesão com o mercado pode ser influenciada por
valores substantivos de modo que haja um semi desacoplamento entre o artesão e o mercado. Esse
semi desacoplamento implica em que o artesão mantenha relação, mas não compartilhe os mesmos
significados e valores. O impulso para o crescimento sem limites é um exemplo de valor não
compartilhado com o mercado. A qualidade é um valor substantivo intrínseco ao fazer artesanal e
estabelece que a produção artesanal deve obedecer a um nível qualitativo mínimo, mas que seja
tanto maior quanto possível. Ao mesmo tempo, estabelece limites quantitativos máximos. Valores
substantivos também atuam no sentido de manter e difundir a tradição da cutelaria artesanal,
inclusive por meio da relação metre-aprendiz no ensino da cutelaria. Os produtos artesanais são
portadores dos sentidos atribuídos pelo artesão durante o processo do fazer artesanal. Além disso,
lhes são atribuídos valores substantivos que influenciam a relação artesão e mercado nos processos
108

de troca. A qualidade, a tradição são valores substantivos característicos do fazer artesanal que
podem promover aproximação ou afastamento do mercado. A aproximação ou acoplamento ao
mercado pode ocorrer mediante a incorporação dos valores qualidade e tradição pelo mercado ou o
distanciamento do artesão destes valores. O afastamento ou desacoplamento pode ocorrer à medida
em que o mercado não incorpore a qualidade e a tradição como valores.

Proposição 8: a liberdade do fazer artesanal permite que o artesão desenvolva trabalhos


que lhe façam sentido.

Proposição 9: a manutenção da liberdade do fazer artesanal implica em um desacoplamento


total ou parcial do mercado.

A liberdade característica do fazer artesanal relaciona-se à possibilita que tem o


artesão de fazer escolhas no âmbito do seu processo de trabalho. Mas inclui também aquelas ligadas
à possiblidade de não agir em função das pressões do mercado. Valores substantivos a capacidade
de realização, possibilitam que o artesão aja em sentido divergente do mercado. A opção pelo não
crescimento é um exemplo desse processo, uma vez que, como foi discutido anteriormente, há a
ideia naturalizada de crescimento ilimitado pelas organizações. Ideia essa não compartilhada no
contexto observado da cutelaria artesanal, conforme os dados sugerem. Nesse sentido, admite-se
que a ação desse sujeito pode receber influências de pressões externas, mas essa ação não é
necessariamente determinada por estas influencias.

Proposição 10: a produção artesanal é limitada por fatores ligados à centralidade do


cuteleiro no processo de criação e do fazer artesanal, a aspectos fisiológicos relacionados à
corporeidade e a valores substantivos que permeiam o trabalho artesanal tradicional.

Proposição 11: respeitar limites implica em limitar a produção artesanal.

A dinâmica da produção artesanal limita o crescimento organizacional na medida que


o trabalho artesanal é centrado no artesão e este por sua vez é limitado fisiologicamente e por valores
substantivos. Entretanto, os mesmos fatores que limitam o crescimento organizacional,
proporcionam ao artesão e ao produto do seu trabalho aspectos qualitativos únicos.

A ação artesanal é um ato reflexionado. Nela, o fazer e o pensar são facetas de um


único processo contínuo que vai da projeção mental à realização transformação de recursos
materiais em formas materializadas antes imaginadas e projetadas por meio de ferramentas manuais.
Deste modo, o trabalho artesanal é intrínseco ao artesão, inalienável. Só é possível que seja dessa
forma quando há liberdade para fazer escolhas que possibilitem ao artesão o desenvolvimento de
trabalhos que façam sentido para ele.

Uma vez que trabalho artesanal depende do corpo, é o corpo que possibilita e ao
mesmo tempo limita o artesão no desempenho do seu trabalho. Na produção artesanal inexiste a
automação industrial, de modo que o artesão desempenha seu trabalho diretamente. Esse trabalho
109

é, portanto um tipo de trabalho não delegável ou alienável como ocorre na produção industrial
convencional. A produção artesanal, portanto, limita-se à capacidade fisiológica do corpo.

A produção artesanal é caracterizada pela centralidade no artesão em relação a


processos e pessoas. Sua autoridade e respeito são derivados da experiência, conhecimento que lhe
confedere reconhecimento diante dos demais artesãos e da comunidade relacionada à produção
artesanal. O reconhecimento de um artesão advém de sua capacidade de execução de produtos de
elevado padrão de qualidade. Ao mesmo tempo em que a natureza do trabalho artesanal limita a
organização artesanal em um rol de ações possíveis, também a habilita a um rol de opções não
comuns a outros tipos de organizações. Não crescer é uma dessas escolhas possíveis.

O crescimento organizacional é, para a organização artesanal, uma possibilidade, não


uma preocupação. É uma possiblidade, porque não há restrição imposta ao crescimento, contudo
não bem aceita por artesões, uma vez que favorece o afastamento da lógica do trabalho artesanal
diante do aparecimento de valores diferentes daqueles que constituem o trabalho artesanal, como
foco no mercado e não no objeto, por exemplo.
110

6 CONCLUSÕES

Esta tese procurou explicar relação entre o trabalho artesanal e o crescimento


organizacional. Por meio da Grounded Theory foi possível constatar que a dinâmica do trabalho
artesanal é limitadora do crescimento organizacional por suas características intrínsecas. As mesmas
características que conferem ao trabalho artesanal seu destaque notório.

O crescimento organizacional enquanto fenômeno foi apresentado nas discussões


iniciais desta tesa, contudo, ainda deve ser melhor conhecido. Novos estudos poderão apontar outras
relações entre o crescimento organizacional e esferas não econômicas das organizações. Discutiu-
se nesse trabalho que o fazer artesanal tem uma relação própria com a questão, aparentemente
pacificada, do crescimento das organizações.

Evidenciou-se nessa pesquisa que a dinâmica do trabalho artesanal não alinha-se à


noção de crescimento econômico sem limites. Desse modo essas organizações, embora possam
sofrer pressões que direcionem no sentido do atendimento de demandas de crescimento, não
necessariamente respondem a ela. Pode-se especular que, em havendo alinhamento de uma
organização artesanal à lógica do crescimento, uma das possibilidades de ocorrência é a
descaracterização desta organização como artesanal. Contudo, essa fica sendo a primeira sugestão
para pesquisas futuras.

A dinâmica do trabalho artesanal e evidenciou a centralidade no artesão como


característica distintiva. Essa centralidade associada à relação entre pensar e fazer, sugere um tipo
de trabalho não alienado e não alienante. O trabalho artesanal, nesse sentido, é dotado de sentido e
agrega em si valores que são agregados aos produtos do trabalho artesanal. Os valores substantivos
associados ao fazer artesanal desacatados nesse estudo foram: a qualidade, a tradição e o ensino.
Todos associados entre si e permeados no fazer do artesão.

Pode-se repensar a noção de limites. A noção comum, segundo a qual o


desenvolvimento humano só se dá às custas da superação de limites, cede um pouco de espaço à
noção de convivência harmoniosa com os limites. Sejam os limites do corpo, da tradição ou da
natureza.

Ao relacionar crescimento organizacional a organizações de trabalho artesanal, o


foco inicial desse estudo estava centrado no crescimento organizacional. Contudo, em contato com
o campo, um leque muito grande de possibilidades e de matizes se abriu diante dos meus olhos de
pesquisador. O crescimento continuou sendo um polo importante da pesquisa e permaneceu como
uma pergunta a ser respondida, e a foi. Mas a complexidade e beleza da natureza do fazer artesanal
foi uma descoberta que rendeu matizes diferentes à tese. Vale dizer que o método da Grounded
111

Theory possibilitou isso, uma vez que nesse método se faz um esforço para ir ao campo sem o apego
de pressupostos. Todos temos os nossos pressupostos, mas a Grounded Theory pede que os
deixemos de lado, ainda que por um instante, para que possamos enxergar além do que já foi visto.
Nesse sentido, esse é um método que permite que se faça, ainda que modestamente, como nessa
tese, descobertas originais honestas. Mas isso só se faz com desapego.

Modestos foram as descobertas dessa pesquisa. Contudo, foram conseguidas a um


custo muito elevado. Se é verdade que poderia ter havido mais disciplina, mais detalhamentos, mais
precisão, mais trabalho, também é verdade que a melhor parte dessa tese não poderá ser escrita por
fazer parte de um rol de coisas que não se escreve. Se sente.

Este trabalho limita-se à sua área substantiva. Como característica do método


empregado, os resultados não são generalizáveis. Isso é tudo como uma limitação do trabalho
enquanto esforço científico. Mas não é, definitivamente, um demérito. As sugestões para trabalhos
futuros incluem a mesma investigação em outra área substantiva, a investigação da teoria formulada
em um outro contexto similar e a repetição da mesma pesquisa no mesmo contexto.
112

REFERÊNCIAS

ACHTENHAGEN, L.; NALDI, L.; MELIN, L. “Business Growth” - Do Practitioners and Scholars Really
Talk About the Same Thing? Entrepreneurship Theory and Practice (March), v. 34, p. 289-316, mar.
2010.

ADAMSON, G. Thinking Through Craft. Oxford: Berg Publishers, 2007.

ALBUQUERQUE, A. F.; ESCRIVÃO FILHO, E. Fatores de mortalidade de pequenas empresas: uma análise
da produção acadêmica no período 2000-2010. In: Encontro de Estudos em Estratégia (3Es), 2011, Bento
Gonçalves. V Encontro de Estudos em Estratégia (3Es). Bento Gonçalves: 2011. v. 5.

ANGROSINO, M.; FLICK, U. (Coord.). Etnografia e observação participante. Porto Alegre: Artmed,
2009.

ANSOFF, H. I. Corporate strategy: an analytic approach to business policy for growth and expansion. New
York: McGraw-Hill. 1965.

ANTUNES, R. Os sentidos do trabalho. São Paulo: Boitempo, 2002.

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Os Pensadores, São Paulo: Nova Cultural, 1996.

ARGAN, G. C. Arte moderna. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

AYRES, R. U. Turning point: the end of the growth paradigm. Nova Iorque: Earthscan, 1998.

BABBIE, E. R. The practice of social research. California: Wadsworth Publishing Company, 1998.

BANDEIRA-DE-MELLO, R.; CUNHA, C. J. C. A. Grounded Theory. In: GODOI, C. K.;BANDEIRA-DE-


MELLO, R.; SILVA, A. B. (Org.). Pesquisa qualitativa em estudos organizacionais: paradigmas,
estratégias e métodos. São Paulo: Saraiva, 2007. p. 241-266.

BARNEY, J. Gaining and sustained competitive advantage. Massachusetts: Addison-Wesley. 1996

BAUMAN, Z. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.

BERGER, P. B.; LUCKMANN, T. A construção social da realidade. São Paulo: Vozes, 2003.

BECKER, H. S. Arts and crafts. The American Journal of Sociology. v. 83, n. 4, p. 862-889, jan. 1978

BLAU, Peter M. A Formal Theory of Differentiation in Organizations. American Sociological Review, v.


35, n. 2, p. 201-218, abr. 1970.

BOFF, L. Sustentabilidade: O que é - o que não é. Petrópolis: Vozes, 2012.

BRAVERMAN, H. Trabalho e capital monopolista. Rio de Janeiro: Zahar, 1981.

BURRELL, G.; MORGAN, G. Sociological paradigms and organisational analysis. London: Heinemann
Education Books Inc., 1979.

CARTER, R.; AUKEN, H. V. Small firm bankruptcy. Journal of Small Business Management. v. 44, n.4,
p.493-512, 2006.

CARVALHO, C. A. D.;VIEIRA, M. M. F.; GOULART, S. A Trajetória conservadora da teoria institucional.


Revista Brasileira de Administração Pública. v. 39, n. 4, p. 849-74, Jul./Ago. 2005.

CECHIN, A. A natureza como limite da economia: a contribuição de Nicholas Georgescu-Roegen. São


Paulo: Edusp e Editora do Senac, 2010.
113

ILLICH (2000)
CHILD, J. Predicting and Understanding Organization Structure. Administrative Science
Quarterly, v. 18, n. 2, p. 167-185, jun. 1973.
COMTE, A. Curso de filosofia positiva. Os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1983.

CORONEL, D. A.; AZEVEDO, A. F. Z; CAMPOS, A. C. Política industrial e desenvolvimento econômico:


uma reatualização de hum debate histórico. Rev. Econ. Polit., São Paulo, v. 34, n.1, mar. 2014

DELMAR, F. Measuring growth: Methodological considerations and empirical results. In: Donckels, R.; A.
Miettinen, A. (Eds.), Entrepreneurship and SME research: On its way to the new millennium. Aldershot:
Ashgate. 1997. p. 199–216

DIAS, T.; CARIO, S. A. F. A relação entre Estado e sociedade no Século 21: a perspectiva paraeconômica
como estratégia neodesenvolvimentista. Desenvolvimento em Questão, v. 12, n. 27, p. 370-403, 2014.

DORMER, P. The culture of craft. Manchester: Manchester University Press, 1997.

DOUTHWAITE, R. J. The growth illusion: how economic growth has enriched the few, impoverished the
many and endangered the planet. Dublin: The Lilliput Press Ltd., 1992.

DURHAM, E. R.; Bronislaw Malinowski: antropologia. São Paulo: Atica, 1986.

ELKINGTON, J. Cannibals with Forks: the triple bottom line of 21st Century business. Oxford: Capstone,
1997.

FEUERBACH, A. Crucible Damascus Steel: A Fascination of Almost 2000 years. JOM Journal of the
Minerals, v. 58, n. 5, p. 48-50, Maio 2006.

FIGIEL, L. S. On Damascus Steel. New York: Atlantis Art Press. 1991.


FRIEDLAND, R.; ALFORD, R. R. Bringing society back in: symbols, practices, and institutional
contradictions. In: Powell, W.; DiMaggio, P. (Ed). The new institutionalism in organizational analysis.
Chicago: The University of Chicago Press. 1991. p. 232-263.

GIDDENS, A. A constituição da sociedade. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

______, A. Consequências da modernidade. São Paulo. UNESP, 1991.

______, A. Novas regras do método sociológico. Rio de Janeiro: Zahar, 1978.

______, A. A vida em uma sociedade Pós-Tradicional. In: BECK, U.; GIDDENS, A. ; LASH, S. (Orgs).
Modernização Reflexiva: política, tradição e estética na ordem social moderna, São Paulo: Editora
Unesp. 1997

GLASER, B. G.; STRAUSS, A. L. The discovery of grounded theory: strategies for qualitative research.
New Jersey: Aldine Transaction, 1967.

GREENWOOD, R. et al. Introdução In: ____ (Eds.). Sage Handbook of Organizational Institutionalism.
London: Sage. 2008. p. 648-670

GUDYNAS, E. América Latina em Movimento. ALAI, n. 462, p. 1-20, fev. 2011.

HAIG, Brian D. (1995): Grounded Theory as Scientific Method. Philosophy of Education Yearbook, 1995.

HALL, R. Organizations: structure, processes, and outcomes. 8. ed. New Jersey: Prentice Hall, 2001

HOBSBAWM, E. J. A era do capital. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996


HARTOG, F. Tempo e patrimônio. Varia História, v. 22, n. 36, p. 262-273, 2006.
114

HARVARD, Business Review. Harvard business review on strategies for growth. Boston, MA: Harvard
Business School Press. 1998.

HEYL, B. S.‘Ethnographic Interviewing.’ Handbook of Ethnography, London: Sage, 2001. p. 369–383.

ILLICH, I. Tools for conviviality. New York: Harper & Row, 1973.

IPHAN, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Modo artesanal de fazer Queijo de Minas,
nas regiões do Serro e das serras da Canastra e do Salitre. Disponível em: < http://goo.gl/qlVYbq>
Acesso em: 02 dez. 2014.

JACKSON, T. Prosperity without Growt: economics for a finite planet. London, Earthscan, 2009.

JANSO , H. W. Iniciação a História da Arte. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

KIMBERLY, J.R. Organizational size and the structuralist perspective: A review, critique and proposal.
Administrative Science Quarterly, v. 21, n. 4, p. 571-597, 1976.

KOTLER, P. Administração de Marketing. São Paulo: Prentice Hall, 2000.

LANDGRAF, F. J. G.; TSCHIPTSCHIN, A. P.; GOLDENSTEIN, H. O período de 1500-1700: "Engenhos


de ferro". In: VARGAS, M. (org.) História da Técnica e da Tecnologia no Brasil. Editora UNESP, p.107
a 129, 1995.

LATOUCHE, S. Farewell to growth. Cambridge: Polity. 2009.

______, S. Pequeno Tratado do Decrescimento Sereno. São Paulo: Editora WMF, 2009b.

LIMA, D. V.; VIEGAS, W. Tratamento contábil e evidenciação das externalidades ecológicas. Revista
Contabilidade & Finanças - USP, v. 13, n. 30, p. 46-53, 2002.

MACHADO-DA-SILVA, C. L.; FONSECA, V. S.; CRUBELLATE, J. M. Unlocking the Institutionalization


Process: Insights for an Institutionalizing Approach. Brazilian Administration Review. v. 2, n. 1, p. 01-20,
Jan./Jun. 2005.

MACIEL, C. O. Teoria da dotação social estratégica: uma explicação sobre a construção social de estratégias
e seus praticantes em setores emergentes da internet. Curitiba, 2011. 183 f. Tese (Doutorado), Pontifícia
Universidade Católica do Paraná.

MCNAB, C. (Org). Knives and swords: a visual history. New York: DK Piblishing, 2010.

MAUSS, M. Sociologia e antropologia. São Paulo: Cosac Naify, 2003.

MEADOWS, D. H.; MEADOWS, D. L.; RANDERS, J. Os Limites do Crescimento: um


relatório para o Projeto Clube de Roma sobre o Estado da Humanidade. New York: Universe
Books, 1972.

MELLO, R. D. C.; ROCHA, A.; MACULAN, A. M.; SILVA, J. F. Light Infocon Tecnologia S/A:
o imperativo do crescimento. In: II EnEPQ 2009 - Encontro de Ensino e Pesquisa em
Administração e Contabilidade, 2009, Curitiba. Anais do EnEPQ 2009, 2009.
MENESES, J. N. C. Queijo Artesanal de Minas: patrimônio cultural do Brasil. Dossiê interpretativo.
IPHAN. Belo Horizonte, 2006.

MENEGASSI, C. H. Martins. Teoria Axiológica de Comunhão: a construção social dos recursos constitutivos
da gestão de empresas de economia de comunhão. Curitiba, 2013. 172 f. Tese (Doutorado), Universidade
Positivo.
115

MERRIAM, S. Qualitative research and case study applications in education. San Francisco: Jossey-
Bass, 1998.

MEYER, J.; ROWAN, B. Institutionalized organizations: formal structure as myth and ceremony. American
Journal of Sociology. v. 83, n. 2, p. 340-363, 1977.

MINTZBERG, H. The rise and fall of strategic planning: reconceiving roles for planning, plans, planners.
New York; Toronto: Free Press; Maxwell Macmillan Canada. 1994

MISOCZKY, M. C. Poder e Institucionalismo: uma reflexão crítica sobre as possibilidades de interação


paradigmática. In: VIEIRA, M. M. F. e CARVALHO, C. A. D. (Ed.). Organizações, Instituições e Poder
no Brasil. Rio de Janeiro: FGV Editora, 2003. p.141-176.

MORGAN, G. Imagens da organização. 1.ed. São Paulo: Atlas, 1996.

MORRISON, A.; BREEN, J.; ALI, S. Small Business Growth: intention, ability e opportunity. Journal of
Small Business Management. v. 41, n. 4, p. 417-425, 2003.

MORSE, J. M. Sampling in Grounded Theory. In: BRYANT, A.; CHARMAZ, K. (Eds.). The Sage
Handbook of Grounded Theory. London: Sage, 2007, p. 229-244.

MOUZELIS, Nicos P. Organization and bureaucracy: an analysis of modern theories. Chicago, Illinois:
Aldine Publishing Company, 1969.

PENROSE, E. T. The theory of the growth of the firm. New York: Wiley. 1959.

POLANYI, K. A grande transformação: as origens da nossa época. Rio de Janeiro: Campus, 1980.

PORTER, M. E. Competitive strategy: techniques for analyzing industries and competitors. New York:
Free Press. 1980.

PRESTES MOTTA, F. C. P.; BRESSER PEREIRA, L. C. Introdução à organização burocrática. São


Paulo: Brasiliense, 1981.

REINHARDT, J. C. O pão nosso de cada dia: Padaria América e o pão das gerações curitibanas. Estudos
Ibero-Americanos, v. XXXIII, p. 133-153, 2006.

RISATTI, H. A theory of craft: function and aesthetic expression. Chapel Hill: The University of North
Carolina Press, 2007.

ROSSONI, L . O Que é Legitimidade Organizacional?. In: EnEO, 2012, Curitiba. Anais.... Rio de Janeiro:
ANPAD, 2012. p. 1-16.

ROWLEY, S. “There once lived”…: craft and narrative tradition. In: _____(Ed.). Craft and contemporary
theory. Sidney: Allen & Unwin, 1997.

SACHS, W. The development dictionary: a guide to knowledge as power. London: Zed Books, 2010.

SANTOS, M. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. 12 ed. Rio de
Janeiro: Record, 2005.

SANTOS, P. P. Menos é mais. Curtas Universitários. Canal Futura. Disponível em:


<http://www.futura.org.br/saladenoticias/videos/menos-e-mais/> Acesso em: 24 fev. 2014.

SEIDMAN, I. Interviewing as qualitative research. New York: Teachers College Press,


1998.
SCHUMACHER, E. F. Small is beautiful: economics as if people mattered. New York: Harper e Row. 1973
116

SCOTT, W. Institutions and organizations. 2. ed. London: Sage, 2001.

______, W. R. Organizations: rational, natural, and open systems. 5. ed. New Jersey: Prentice Hall, 2003.

SEARLE, J.R. What is institution? Journal of Institutional Economics, Berkeley, 2005.

SEIFERT, R. E.; VIZEU, F. Crescimento Organizacional: uma Ideologia Gerencial? Revista de


Administração Contemporânea, v. 19, n. 1, p. 127-141. Recuperado de:
<http://www.anpad.org.br/periodicos/arq_pdf/a_1550.pdf.> 2015.

SENNETT, R. O artífice. São Paulo: Record, 2013.

SHERBY, O. D. Ultrahight Carbon Steels, Damascus Steels and Ancient Black-smiths. ISIJ
International, v. 39, n. 7, p. 637-648, 1999.
STANWORTH, M. J. K., & CURRAN, J. Growth and the small firm – an alternative view. Journal of
Management Studies 13 (2), 94-110. 1976

STARBUCK, W. H. Organizational growth and development. In: W. H. Starbuck (Ed.), Organizational


growth and development. Harmondsworth: Penguin Books. 1971. p. 11-141.

ESTEVA, G. Development. In W. Sachs (Ed.), The development dictionary: a guide do knowledge as


power (pp. 1-23). New York: Zed Books. 2010

STRAUSS, A.; CORBIN, J. Pesquisa qualitativa: técnicas e procedimentos para o desenvolvimento de


teoria fundamentada. Porto Alegre: Artmed, 2008

SYMEONIDIS, G. Innovation, firm size and market structure: Schumpeterian hypotheses and some new
themes. Paris: Organisation for Economic Co-operation and Development, 1996.

TAROZZI, Massimiliano. O que é a grounded theory: metodologia de pesquisa e de teoria fundamentada


nos dados. Petrópolis: Vozes, 2011.

THORNTON, P. H.; JONES, C.; KURY, K. Institutional logics and institutional change in organizations:
Transformation in accounting, architecture, and publishing. Research in the Sociology of Organizations,
v. 23, p. 125–170, 2005.

TUCHMAN, G. Historical social science: methodologies, methods, and meanings. In: DENZIN, N.;
LINCOLN, Y. (Ed) Handbook of Qualitative Research.London: Sage, 1994. p. 306-323.

TYLECOTE, R. F. A history of metallurgy. 2 ed., London: The Institute of Metals, 2002.

VANDANA S. El mundo en el Limite. In: GIDDENS, A.; HUTTON, W. (Org.). En el límite: la vida en el
capitalismo global. Barcelona: Tusquets, 2001. p. 233-245.

VICTOR, P. A. Managing Without Growth: slower by design, not disaster. Cheltenham: Edward Elgar
Publishing Limited, 2008.

VIZEU, F.; MENEGHETTI, F. K.; SEIFERT, R. E. Por uma crítica ao conceito de desenvolvimento
sustentável. Cadernos EBAPE, Rio de Janeiro, v. 10, n. 3, p. 569-583, set. 2012.

WEBER, M. Ensaios de sociologia. Rio de Janeiro: Zahar, 1963.

______, M. Ciência e Política: duas vocações. 14 ed. São Paulo: Cultrix, 1999.

______, M. A “objetividade” do conhecimento na ciência social e na ciência política. In: Metodologia das
Ciências Sociais. 4. ed. São Paulo: Cortez, 2001. p. 107-154.
117

WEINZIMMER, L. G.; NYSTROM, P. C.; FREEMAN, S. J. Measuring organizational growth: Issues,


consequences and guidelines. Journal of Management, v. 24, p. 235-262, 1998
118

FONTES DE DADOS SECUNDÁRIOS

AFREBRAS, Associação dos Fabricantes de Refrigerantes do Brasil. Dados do Setor. Disponível em:
<http://goo.gl/Aqu36p> Acesso em: 02 dez. 2014

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Disponível em:


<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao.htm> Acesso em: 09 set. 2015

______. Ministério do Planejamento. PAC2 - Programa de Aceleração do Crescimento. Disponível em:


<http://www.pac.gov.br/sobre-o-pac> Acessado em: jun. 2014.

______. Portal Brasil. Mapa das micro e pequenas empresas. Disponível em: < http://goo.gl/ICHA6v>
Acesso em: 12 dez. 2014b

______. Regulamento para Fiscalização de Produtos Controlados (R-105): Decreto nº 3.665, de 20 de


Novembro de 2000. Disponível em <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/d3665.htm> Acesso em
09 set. 2015.

______. Lei das Contravenções Penais: Decreto-Lei n.º 3.688, de 3 de Outubro de 1941. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del3688.htm/ Acesso em: 09 set. 2015

FMI. World Economic Outlook. Washington: abr. 2015

IBGE. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Produto Interno Bruto das Grandes Regiões e
Unidades da Federação - 2002-2012. Disponível em: <http://goo.gl/DY36wg> Acesso em: 12 dez 2014

______. Posição ocupada pelos 100 maiores municípios, em relação ao Produto Interno Bruto - 2011.
Disponível em: < http://goo.gl/h7ymn8> Acesso em: 12 dez. 2014b

______Brasil: Produto Interno Bruto, 1901/2000: índices setoriais do Produto Real, 1900/1947. Disponível
em: <http://goo.gl/Sn5Pe4> Acesso em: 12 dez. 2014c

IPARDES. Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social. Disponível em:


<http://www.ipardes.gov.br/pdf/indices/tab_pib_01.pdf> Acesso em: jun. 2014

IPCC . Intergovernmenal Panel on Climate Change. Climate Change 2013. The Physical Science Basis.
Summary for Policymakers. Disponível em:
<http://www.climatechange2013.org/images/uploads/WGI_AR5_SPM_brochure.pdf> Acesso em: 05 maio
2014.

IPPUC. Instituto de Pesquisa Planejamento Urbano de Curitiba. Disponível em:


<http://www.ippuc.org.br> Acesso em: jun. 2014

NEF. New Economics Foundation (Growth isn’t working), 2006. Disponível em:
<http://s.bsd.net/nefoundation/default/page/-/files/Growth_Isnt_Working.pdf> Acesso em: 05 maio 2014.

PARANA. Situação do Paraná. Disponível em: <http://goo.gl/c2wbKV> Acesso em: 05 dez. 14


SEBRAE. Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas. Anuário do trabalho na micro e
pequena empresa. 6. ed. Brasília: DIEESE, 2013.

_____. O que fazemos. Porta Institucional. Disponível em: <http://goo.gl/cdF3Fl> Acesso em: 12 dez. 2014.

WI. Worldwatch Institute (The state of the world): 2013. Disponível em:
<http://www.worldwatch.org.br/EstadodoMundo2013.pdf> Acesso em: 05 maio 2014.
119

APÊNDICE 1 – LISTA DE PERIÓDICOS CONSULTADOS

Na revisão da literatura sobre crescimento organizacional foram consultados os anais dos principais
encontros de administração, estratégia e estudo organizacionais do Brasil - (EnANPAD, EnEO,
EnPQ, 3ES e EnGPR) e 32 periódicos. A lista dos periódicos consta abaixo em ordem alfabética.
Foram consideradas as últimas versões de artigos que eventualmente foram publicados em eventos
e posteriormente em periódico.

Periódicos
Brazilian Administration Review
Brazilian Business Review
Cadernos EBAPE
Contextus - Revista Contemporânea de Economia e Gestão
Desenvolvimento em Questão
Future Studies Research Journal
Gestão & Regionalidade
GESTÃO.Org - Revista Eletrônica de Gestão Organizaciona
NAVUS - Revista de Gestão e Tecnologia
Organizações & Sociedade
Organizações Rurais & Agroindustriai
RAE-eletrônica
RAE-Revista de Administração de Empresas
Revista ADM.MADE
Revista Brasileira de Estudos Organizacionais
Revista Brasileira de Gestão de Negócios
Revista Brasileira de Inovação
Revista Capital Científico
Revista Contabilidade & Finanças
Revista da Micro e Pequena Empresa
Revista de Administração
Revista de Administração Contemporânea
Revista de Administração da UFSM
Revista de Administração e Contabilidade da UNISINOS
Revista de Administração e Inovação
Revista de Administração Pública
Revista de Administração - USP
Revista de Ciências da Administração
Revista de Economia e Administraçã0
Revista de Gestão
Revista Eletrônica de Administração
Revista Eletrônica de Estratégia & Negócios
120

APÊNDICE 2A – ROTEIRO DE ENTREVISTAS

Como se deu o início de sua relação com a cutelaria?

Fez algum curso formal?

Teve orientação de algum mestre cuteleiro?

Como esse ofício terminou sendo sua profissão?

Como é ser cuteleiro em um contexto moderno?

Se pudesse voltar ao passado faria outro caminho? Por que?

Teve alguma experiência em alguma indústria de médio ou grande porte?

Como você vê as diferenças entre uma produção artesanal e uma produção industrial?

Você gostaria de ter uma indústria? Se sim, qual o tamanho?

Sendo uma pequena empresa, é possível competir com empresas maiores?

Quais vantagens de ser uma pequena empresa?

Quais os problemas de ser uma pequena empresa?

Tem funcionários? Quantos?

Como funciona a parte administrativa/gerencial do negócio?

Como fica a questão dos impostos?

Você usa ou já usou algum subsidio do Estado?

Como foi o crescimento de sua empresa desde sua fundação?

Como você imagina esse crescimento deste momento para o futuro?

Gostaria que sua empresa fosse maior?

Como você determina o valor de uma faca?

Pode-se dizer que uma faca tem alma?


121

Como seus clientes/compradores avaliam o valar das facas produzidas por você?

Você considera uma faca artesanal melhor que uma faca “comercial”? Por que?

É possível haver uma produção industrial com a mesma qualidade da produção artesanal ou
melhor?

Por que alguém se dispõe a pagar mais caro por uma faca artesanal?

Você rejeita pedidos?

Você assina todas as peças que produz?

Houve alguma ocasião em que preferiu não assinar um peça?

Qual a relação entre a demanda e sua capacidade produtiva?

Há algum limite para a produção?

Se em algum momento a demanda for maior que sua capacidade para produzir, qual sua ação?

Qual a relação da sua família com a cutelaria?

Seu(s) interessam-se por esse trabalho? Já se interessaram?

Quais suas atividades de passatempo?

Quais suas atividades não ligadas à cutelaria?

O que é mais importante para você em relação ao seu trabalho?

Você vê a faca como uma arma?

Como é a questão do tempo no trabalho artesanal?


122

APÊNDICE 2B – ROTEIRO DE ENTREVISTAS 2 (alunos)

Há quanto tempo mexe com facas?

Como começou a gostar dessa atividade?

Como soube do curso de cuteleiro?

Por que decidiu fazer?

O que lhe trouxe à Hammer?

Qual sua atividade principal?

Quantas vezes por semana dedica-se à cutelaria?

Como é a relação com o mestre cuteleiro?

Mudaria alguma coisa na dinâmica do curso?

Pretendo fazer disso uma atividade econômica?

Já vendeu alguma peça?

Como você vê a questão de ter que ensinar alguém depois que terminar o curso?

Você costuma auxiliar os alunos mais novos? Por que?

Como você concilia sua atividade principal com a atividade na cutelaria?

Você costuma ler pesquisar sobre cutelaria?

Tem ou gostaria de ter uma oficina em sua residência?

Como avalia uma faca?


123

APÊNDICE 2C – ROTEIRO DE ENTREVISTAS 3 (clientes, amigos)

Você é colecionador?

Qual sua relação com a cutelaria?

Já vez algum curso?

Conhece algum outro cuteleiro?

Qual sua ideia sobre facas artesanais?

Quantas facas tem?

Como é sua relação com a Hammer?

Como mede o valor de uma faca?


124

APENDICE 3 – VALIDAÇÃO DE PROPOSIÇÕES

Proposição 1: o artesão ocupa posição central no processo do trabalho artesanal. Quanto maior seu conhecimento,
habilidades e capacidade de executar peças que se aproximem do estado da arte do trabalho artesanal, maior será sua
notoriedade.
Concordo
Não concordo

Proposição 2: o notoriedade do artesão se dá em relação aqueles que compartilham o interesse pela cutelaria. Essa
notoriedade agrega valor ao produto artesanal que leva sua assinatura. Quanto maior a notoriedade do artesão, maior o
potencial de agregação de valor ao produto.
Concordo
Não concordo

Proposição 3: quanto maior for o valor agregado às peças produzidas pelo artesão, maior sua demanda de produção.
Concordo
Não concordo

Proposição 4: a qualidade do produto artesanal está relacionada ao controle do processo de produção pelo artesão.
Concordo
Não concordo

Proposição 5: o trabalho artesanal se dá por intermédio das mãos e a habilidade manual contribui na aquisição de
experiências exitosas no fazer artesanal. Quanto maior o desenvolvimento das habilidades do corpo maior a possiblidade
de notoriedade.
Concordo
Não concordo

Proposição 6: a vitalidade do corpo habilita ao mesmo tempo em que limita o fazer artesanal. O aumento do
condicionamento físico contribui até um determinado limite a produção artesanal, mas a não vitalidade, ou doença,
influencia limitando ou impossibilitando essa produção.
Concordo
Não concordo

Proposição 7: a qualidade do produto artesanal está relacionada às habilidades do corpo desenvolvidas pelo artesão.
Concordo
Não concordo

Proposição 8: o fazer artesanal é uma ação reflexionada por meio da qual o artesão materializa objetos pensados. O ato
de criação artesanal aproxima o artesão da arte e o distancia do trabalho alienado.
Concordo
Não concordo

Proposição 9: o trabalho artesanal possui sentido para o artesão.


Concordo
125

Não concordo

Proposição 10: a liberdade do fazer artesanal permite que o artesão desenvolva trabalhos que lhe façam sentido.
Concordo
Não concordo

Proposição 11: a manutenção da liberdade do fazer artesanal implica em um desacoplamento total ou parcial do mercado
convencional.
Concordo
Não concordo

Proposição 12: o produto do fazer artesanal carrega significados atribuídos pelo artesão durante o processo do fazer
artesanal.
Concordo
Não concordo

Proposição 13: a produção artesanal é permeada por valores substantivos que influenciam na produção e nas
negociações de produtos artesanais.
Concordo
Não concordo

Proposição 14: a qualidade é um valor substantivo que condiciona a produção artesanal ao máximo valor qualitativo
possível ao mesmo tempo em que influencia no estabelecimento de um limite máximo quantitativo.
Concordo
Não concordo

Proposição 15: a tradição é uma valor substantivo que influencia no sentido da manutenção de práticas e no
compartilhamento de outros valores substantivos.
Concordo
Não concordo

Proposição 16: o ensino da cutelaria artesanal estabelece a relação metre-aprendiz que potencializa a difusão da tradição
da cutelaria artesanal.
Concordo
Não concordo

Proposição 17: a produção artesanal é limitada por fatores ligados à centralidade do cuteleiro no processo de criação e
do fazer artesanal, a aspectos fisiológicos relacionados à corporeidade e à valores substantivos que permeiam o trabalho
artesanal tradicional.
Concordo
Não concordo
126

APENDICE 4 – FOTOS

Foto 1 – Pesquisador

Foto 2 – Alunos fazendo bainhas Foto 3 - Mestre e aprendiz

Foto 4 – Pão Foto 5 - Faca utilitária


127

Foto 6 - Aluno e monitor Foto 7 - Alunos

Foto 8 – Formatura Foto 9 - Facas de aluno

Foto 10 – Certificado Foto 11 - Ensino