Você está na página 1de 42

ANTROPOS

A $OOIEDA DE ÏRA l\l$P AREÌ'lTE Ì


r: j,:rli l': r:tt, , t: It.:rilt i:rl j,:r,r: ti:i:Il;rii:i.i::,rtiil:::ì:rï::i:,,:L;i:::riitijri+!Ì::i:t::-.:+:r+;i

ffi

ffiffi ffiffi Wffitrtrffiffi ffi


ffiffi

RELOGIO D'AGUA
Gianni Vattimo

ieb
Wí- lInL A Sociedade Transparente
Rua Sylvio Rebelo, 15
1000 Lisboa Tel. 8470775
-
@ Garzanti Editore, 1989

Título: A Sociedade Transparente


Título Original: ta Societá Transparente
Autor: Gianni Vattimo
Tradutor: Hossein Shooja e Isabel Santos
Capa: Fernando Mateus

@ Relógio D'Água, 1992

Composição: Relógio D'Água, Editores


Impressão: Arco-Íris, Artes Gráficas, Lda.
Depósito Legal ne 48 81s/91 Antropos
Pós-moderno: uma sociedade transparente?

Fala-se hoje muito de pós-modernidade; ou melhor, fala-se


tanto dela que já se tornou quase obrigatório ÍÌlÍÌnüer as distân'
cias em relação a este conceito, considerá-lo uma moda pas-
sageira, declará-lo mais uma vez um conceito <<ultrapassa-
do>... Pois bem, eu considero, pelo contrário, que o teÍmo
pós-moderno tern um sentido; e que este sentido está ligado ao
facto da sociedade em que vivemos ser uma sociedade de co-
municação generalizada, a sociedade dos rnass media.
Antes de mais: falamos de pós-moderno porque considera-
mos que, em alguns dos seus aspectos essenciais, a moderni-
dade ãcabou. O sentido em que se pode dizer que a moderni-
dade acabou está ligado àquilo que se entende por modernida-
de. Entre as muitas definições, creio que há uma sobre a qual
se pode concordar: a modernidade é a época em que se torna
valor determinante o facto de ser moderno. Em italiano, mas
creio que também em muitas outras línguas, é ainda uma
ofensa chamar a alguém <<reaccionário>>, isto é, aga:rado aos
valores do passado, à radição, a formas de pensamento <<su-
peradas>. Mais ou menos, esta consideração <<eulógicD>, elo-
giosa do ser moderno é aquilo que, na minha opinião, 9aÍac-
íenzatoda a cultura moderna. Esta atitude não é tão evidente
desde o final do século XV (início oficial da idade moderna),
é uma representação do passado consffuída pelos grupos e
embora, desde então, o novo modo de considerar o artista co- pelas claises sociáis dominantes. De facto, que se fansmite
mo génio criador, por exemplo, abra caminho a um culto cada
do passado? Nem tudo o que aconteceu' mas apenas aquilo
vez mais intenso pelo novo, pelo original, que não existia nas qu" p*"ce relevante: por exemplo, na escola estudamos mui-
épocas anteriores (em que, aliás, a imitaçãõ dos modelos era tàs datas de batalhas, tratados depaz, revoluções; mas nunca
um elemento de extrema importância). com o passar dos sé- nos narraram as ffansformações do modo de nutrição' do mo-
culos, tornar-se-á cadavezmais evidente que oìulto do novo do de viver a sexualidade, ou coisas semelhantes. Assim,
e do original na arte se liga a uma perspectìva mais geral que,
aquilo de que fala a história são as vicissitudes da gente que
como sucede na época do Iluminismo, considera ã história cónta, dos nobres, dos soberanos, ou da burguesia quando se
humana como um progrcssivo processo de emancipação, co_ torna classe de poder: mas os pobres, ou os aspectos da vida
mo a cada vez maii perreita reaiização do homem iA;;ii; ;r_ que são considerados <<baixos>>, não <<fazem história>.
crito de lrssing sobre L'educazione del genere umano, ì2g0, Se se desenvolvem observações como estas (segundo uma
é uma expressão típica desta perspectivã;. se a história tem via iniciada, antes de Benjamim, por Marx e Nietzsche), che-
este sentido progressivo, é evidente que terá mais valor aquilo ga-se à dissolução da ideia de história como curso unitário;
que. é mais <<avançado> em teÍmos de conclusão,
aquilo que nao ne uma história única, há imagens do passado propostas
está mais perto do final do processo. No entanto, a ôonaiçao por pontos de vista diversos, e é ilusório pensaÍ que existe um
para conceber a história como realização progressiva da Íru- ponio de vista supremo, global, capaz de unificar todos os
manidade autêntica, é que se possa ve-n ôorno um processo òutros (como seria.,a história>>, que engloba a história da arte,
unitiírio. só se existe a história éque se pode falarde progresso. da literatura, das gueÍras, da sexualidade, etc.).
Pois bem, a modernidade, na hipóiese que proponão, rcr_ A crise da ideia de história traz consigo a da ideia de pro-
m1n3
-Uua1d9.- por
múltiplas razõès já-não pÍrece possí_ glesso: se não há um curso unitário dos acontecimentos hu-
vel falar de história como qualquer coisa - de unitário. Deiacto, manos, também não se poderá sustentar que eles avançam pa-
-uma tal visão da história implicava a existência de um centro ra um fim, que realizam um plano racional de melhoramento,
em torno do qual se recolhem e se ordenam os acontecimen- educação, ernancipação. De resto, o fim que a modernidade
tos. Nós pensÍÌmos a história como ordenada em torno do ano acrediiava dirigir õ curso dos acontecimentos era também ele
zero do nascimento de Cristo: e mais especificamente, como representado do ponto de vista de um certo ideal do homem'
um encadeamento de vicissitudes dos povos da zona <<cen_ Iluministas, HegèI, Marx, positivistas, historicistas de todo o
fral>, o-Ocidente, que representa o lugar da civilização, para lá tipo, pensavam todos mais ou menos da mesma forma que o
do qual existem os <primitivosrr, oi povos .,em vias ãe de_ sôntido da história era a rcalização da civilização, isto é, da
senvolvimento>>. A filosofia entre os séculos XIX e XX criti- forma do homem europeu moderno. Tal como a história só se
cou radicalrnente a ideia de história unitária revelando precisa- pensa unitariamente de um ponto de vlsta determinado que se
mente o carácter ideológico destas representações. Assim, òoloca no cenffo (seja ele a vinda de Cristo ou o Sacro Impé-
W?Jto Benjamin, num breve escrito de 1933 (Tbsi suttaftto- rio Romano), ássim o progresso só se concebe assumindo
sofia della storia), afirmou que a história como cruso unitiário como critério um certo iãeal do homem; que na modernidade
foi sempre, porém, o do homem moderno europeu _
é como sustentada, dá lugar ao fim da modernidade, não surge apenas
dizer: nós europeus somos a melhor forma aË rru-uniáád",
tla srise do coloãia[smo e do imperialismo europeu; é tam-
todo o curso da história se ordena conforme rearize
menos completamente este ideal.
Àui, ou túrn, e talvez mais, o resultado do nascimento dos meios de
comunicação de massa. Estes meios jornais,.rádio, televi-
Se considerarmos tudo isto, compreende_se também
que a silo, em geral o que se chama hoje em dia - telemáti foram
crise actual da concepção unitária da históri", ;;;;;;ì,l"nr" pontos de vista
crise da ideia de progresso e o fim da modernidade, tletermiriantes nõ processo de dissolução dos
apenas acontecimentos determinado s por tran sformaç
náò sao centrais, daquelei que um filósofo francês, Jean François
õe s teó - l.yotard, designa como as grandes nÍuïativas. Este efeito dos
lgas pelas críticas que o historicismo do século-xtx que dele
- positivista,
(idealista, Ãass mediap.ere exactamente contrário à imagem
marxista, etc.) sofreu no fiuno-ãu, Na base da
ideias. Houve muito mais e de forma diferente:ï; tinha ainda üm filósofo como Theodor Adorno.
ú;o, sua experiência de vida nos Estados unidos durante a segun-
considerados <<primitivos>>, colonizados pelos
nome do bom direito da civilização .rsuperior> "urop"i, "_ rla Guèna Mundial, Adorno, em obras como A Dialéctíca do
da, rebelaram-se e tornaram de facto prõblemática
e maii evotuf_ Illuminismo (escrita em colaboração com Max Horkheimer) e
uma histó-
ria unitária, cenffalizada. o ideal eurôpeu de humanidade Minima Moìalia,previa que a rádio (e só mais tarde a TV) ti-
re- vesse o efeito de produzir uma geral homologação dasocie-
velou-se como um ideal entre outros, não necessariamente
pior, mas que não pode, sem violência, pretender valer rlade, permitindo è até favorecendo, por uma espécie de ten-
como .tência demoníaca inffínseca, a formação de ditaduras e de
go-
verdadeira essência do homem, de qualqüer homem. <<Grande Irmão>> de 1984'
A par do fim do colonialismo e áo imperialismo, um verros totalitiírios capazes, como o
os
grande factor foi determinante para a diisorução
outro rle George Orwell, dé exercer um controle minucioso sobre
d; id";â" cidadãoí através de uma distribuição de slogans, propaganda
história e para o fim da modernidade. Referimo-nos
vento da sociedade de comunicação. chego assim
ao ad- (comercial como política), visões do mundo estereotipadas-. o
uo r"gunâo
ponto, aquele que diz respeito à <socieãade transparãnterr. que de facto aconteceu, porém, não obstante todos os esfor-
ços dos monopólios e dai gandes
centrais capitalistas, é que
Como se terá observado, a expressão <<sociedade t de uma
ânrp*"n_ a rádio, a televisão, os jornais se tornüÍìm elementos
te> é aqui introduzida em terïnos interrogativos.
O q;;;; grande explo são e multiplicaç ã'9 W
!9 ! e tan s c hauun gen,
-de
vi-
tendo afirmar é: a) que no nascimento de úma socieduo" últimas décadas to-
íOes do mundo. Nos Esiadoi Unidos das
moderna um papel determinante é desempenhado petos ior-
áãss rnaram a palavra minorias de todo o género, apresentaram-se
media; b) que estes caractenzamesta socie^dade nao,o-o
na ribalta da opinião pública culturas e subculturas de toda
uÃu a
sociedade mais <<transparente>>, mais consciente de
si, *ais espécie. Podem certa-mente objectar-se que a esta tomadade
<iluminada>>, mas como uma sociedade mais políti-
co-ple*a, aié puìunru não correspondeu uma verdadeira emancipação
caótica; e por fim, c) que é precisamente neste relativo <<caos> do grande capi-
ca o poder económico está ainda nas mãos
tal.- serâ _ não quero aqui alargar demasiado a discussão
que residem as nossas esperanças de emancipação.
Ante de mais: a impossibilidade de pensar a história <<mer-
como neste campo; porém, o facto é que aprópria lóg-ica-do
um curso unitiírio, impossibilidade què, segundo a tese dilatação deste mer-
aqui cado>> da informação exige uma conínua

10 1l
cado, e exige consequentemente que <<tudo>>, de qualquer ma_ prtxlução exacta da realidade, a perfeita objectividade, a total
neira,.se torne objecto de comunicação. Esta multiplicação Itlcntificação do mapa com o território? De facto, a intensifi-
vertiginosa da comunicação, este <<toÍïut' a palavra>> po, parte cução das possibilidades de informação sobre a realidade nos
de um número crescente de subculturas, é ì efeito mais evi- sc,ús mais uariados aspectos torna cada vez menos concebível
dente dos nass media, e é também o facto que relacionado rr própria ideia de uma realidade. Realiza-se,talvez, no mundo
gom 9 fim, ou pelo menos com a transformação - radical, do ,1,ìs mass medía, uma profecia de Nietzsche: no fim, o mundo
imperialismo europeu determina a passagem da nossa so_ vcrdadeiro transforma-se em fábula. Se temos uma ideia da
- Não só relativamente
ciedade à pós-modernidade. aos ouffos rcalidade, esta, na nossa condição de existência tardo-
universos culturais (o <terceiro-mundo>> por exemplo), mas rnotlerna, não pode ser entendida como o dado objectivo que
tlmbém ao próprio interior, o Ocidente vive uma situação ex_ cstí abaixo, e para além, das imagens que nos são dadas pelos
plosiva, uma pluralização que pÍÌrece irresistível, e quê to-a tru,dia. Comoì onde poderíamos alcançar uma tal realidade
impossível conceber o mundo e a história segundo pïntos de ,<crìì si>>? Realidade, para nós, é mais o resultado do cruza-
vista uniti4rios. nrcrìto, da <<contaminação>> (no sentido latino) das múltiplas
A sociedade dos zass media,exactamente por estas razões, i rrragen s, interpretações, reconstruções que, em concorrência

é precisamente o contrário de uma sociedade mais iluminada, rrrtrè si ou, sejã como for, sem qualquer coordenação cenffal,
mas <<educada> (no sentido de Lessing, ou de Hegel, ou tam_ 0s media distribuem.
bem de Comte ou de Marx); os rnass media,que tõoricamente A tese que pretendo propor é que na sociedade dos media,
tornam possível uma informação <<em tempo real> sobre tudo ('rìì vez de um ideal de emancipação modelado pela autocons-
aquilo que acontece no mundo, poderiamiom efeito parecer ciôncia completamente definida, confonne o perfeito c9nh99i-
uma espécie de realização concreta do Espírito Absoluto de nìcrìto de quìm sabe como estão as coisas (seja ele o Espírito
Hegel, isto é, de uma perfeita autoconsciência de toda a hu_ Atrsoluto dè Hegel ou o homem não mais escravo da ideologia
manidade, a coincidência entre aquilo que acontece, a história corìro o pensa úarx), abre caminho a um ideal de emancipa-
e por
e a consciência do homem. Vendo bem, críticos de inspiração çiio que iem antes na sua base a oscilação, a pluralidade,
hegeliana e maniista como Adorno raciocinam pensando neste lirn o desgaste do próprio <princípio de realidade>>. O homem,
modelo, e baseiam o seu pessimismo no facto ãele (por culpa lro.je, podé finalmênte tornar-se consciente de que a perfeita
do mercado, afinal) não se realizar como poderia, oürealizar- tiúraaae não é a de Espinosa, não é como sempre sonhou
-se de maneira perversa e caricatural (como no mundo homo_
-
l rrrctafísica conhecer a estrutura necessária do real e adap-
logado, e talvez também <<feliz>> por meio da manipulação dos titr-se a ela.- A importância do ensino filosófico de autores
desejos, dominado pelo <Grande Irmão>). Mas â tiUórtaçao corÌÌo Nietzsche e Heidegger está toda aqui, no facto de que
das muitas culturas e das muitas weltanschauungen tornádu t:lcs nos oferecem os insfumentos para compreender o senti-
possível pelos zass media desmentiu precisamenó o ideal de tlo de emancipação do fim da modernidade e da sua ideia de
uma sociedade transparente: que sentido teria a liberdade de Iristória. De fãcto, Nietzsche mostrou que a imagem de uma
informação, ou mesmo apenas a existência de vários canais de r.r:alidade ordenada racionalmente com base num fundamento
rádio e de televisão, num mundo em que a noÍïna fosse a re- (a irnagem que a metafísica teve sempre do mundo) é apenas

I2 l3
um mito <tranquilizador>> próprio de uma humanidade ainda idcia de uma realidade cenEal da história, o mundo da comu-
primitiva e bárbara: a metafísica é ainda uma forma violenta de nicação generalizada explode como ulrÌÍt multiplicidade $e ra-
reagir a uma situação de perigo e de violência; procura, de c,ionalidãdes <<locais>> minorias étnicas, sexuais, religiosas,
facto, apoderar-se da realidade com um <golpe de mão>>, al- culturais ou estéticas
- que tomam a palavra, finalmente já
cançando (ou imaginando alcangar) o princípio primeiro de
-
rrüo silenciadas e reprimidas pela ideia de que só exista
uma
úrica forma de verdãdeira humanidade a realizar, com prejuí-
que tudo depende (e assegurando-se assim ilusoriamente o
2,() de todas as peculiaridades, de todas as caracterizações
li-
domínio dos acontecimentos). Heidegger, prosseguindo nesta
rnitadas, efémeras, contingentes. Este processo de libertação
linha de Nietzsche, mostrou que pensar o ser como funda-
o
mento, e a realidade como sistema racional de causa e efeitos, tlus cliferenças, diga-se de passagem, não é necesariamente
é apenas uma forma de alargar a todo o ser o modelo da ob- .handono de toaai as regrãs, a manifestação informe da {e-
jectividade <<científica>, da mentalidade que, para poder do- ,,,,ii.uçao, também os diilectos têm uma gtu-ltt:l.?uma sin-
minar e organizar rigorosamente todas as coisas, as deve re- ii,^., Àut só quando conquistam dignidade e visibilidade des-
duzir ao nível de puras presenças mensuráveis, manipuláveis, .l.,bre* a sua própria gramática. A libertação das diversidades
se
substituíveis reduzindo por fim a este nível também o pró- ú urn acto com que elas <<tomam a palavra>>, se apresentam'
prio homem, -a sua interioridade, a sua historicidade. (poem em formãr, de modo a poderem tornar-se reconhecidas;
Assim, se com a multiplicação das imagens do mundo per- tlc rnodo algum uma manifestação bruta de imediato'
demos o <<sentido da realidade>>, como se diz, talvez isso não O efeito ãmancipador da libertação das racionalidades locais
rriio é todavia apenas o de garantii a cada uma delas um
mais
seja afinal uma grande perda. Por uma espécie de lógica inter-
eman-
na perversa, o mundo dos objectos medidos e manipulados cornpleto reconhticimento e <<autenticidade>>; como se a
r.,lpaçao consistisse em manifestar finalmente aquilo que cada
pela ciência-técnica (o mundo do real, segundo a metafísica)
r,,ir d ,,verdadeiramente> (ainda em teÍnos metafísicos, espi-
tornou-se o mundo das mercadorias, das imagens, o mundo
fantasmagórico dos mass media. Teremos de contrapor a este rrosianos): negro, mulher, homossexual, protestante' etc'.O
<dia-
mundo a nostalgia de uma realidade sólida, unitária, estável e scntido emanc-ipador da libertação das diferenças e dos
que
<<autorizadar>? Uma tal nostalgia coÍre o risco de se transfor- lcctos>> consiste mais no efeito globat de desenraizamento
mar continuamente numa atitude neurótica, no esforço de re- itcompanhaoprimeiroefeitodeidentificação.Sefaloomeu
construir o mundo da nossa infância, onde as autoridades fa- rlialeóto, finalmente, num mundo de dialectos enffe ouffos, Se
professo o meu sistema de valores religiosos' estéticos'
miliares erÍÌm ao mesmo tempo ameaçadoras e tranquilizadoras.
políticos, étnicos neste mundo
-
de culturas plurais' terei
Mas em que consiste, mais especificamente, a possível ca-
pacidade de emancipação, de libertação, da perda do sentido
-
também uma consciência intensa da historicidade, contingên-
da realidade, do verdadeiro desgaste do princípio de realidade cirr- limitacão. de todos estes sistemas, a começar pelo meu'
no mundo dos nass media? Aqui a emancipação consiste mais É uqoifà que Nietzsche, numa página de A Gaia Ciência
chama o .,coïtinuar a sonhar sabendo que se sonha>>'
n p9s-
no desenratzamento, que é também, e ao mesmo tempo, li-
que Nietzsche cha-
bertação das diferenças, dos elementos locais, daquilo que sível uma coisa assim? A essência daquilo
poderíamos chamar, globalmente, o dialecto. Derrubada a rììou o <<super-homem>> (ou ultra-homem), o Uebermensch'

I4 15
estií tda aqui: é a tarefa que ele atribui
à humanidade do futu_ po, continua ainda radicada em nós, como indivíduos e como
ro, precisamente no mundo da comunicação '
intensificada. :;ocicclade. Filósofos niilistas como Nietzsche e Heidegger
Um exemplo daquilo que significu o
au (rrrls também pragmatistas como Dewey ou Wittgenstein), ao
<<confusão>> dos dialectoÀ podé encontrar-se "_u*ipuãf,
"f"ito na
-i"-ãï"rt*rç
descrição da ilrostrarem que o ser não coincide necessariamente com aquilo
experiência e stética que dã wihelm piitrrrv
que é decisiva rambéú para Heidegg.., a" tprc é estável, fixo, permanente, mas tem antes a ver com o
pensa que o encontro com a obra
no,í"ì ."""ã"r1.'ar" ir('orìtecinìento, o consenso, o diálogo, a interpretação, esfor-
de arte (como aliás o prJprio
conhecimento da história) é uma forma ç:uìì-se por nos tornar capazes de alcançar esta experiência de
de fazeru rrscilação do mundo pós-moderno como chance de um novo
ulaginação, de outras formas de existênciu, "*p"ãèn'.iu,
1a
dos de vida diferentes daquel"
a. oïtã;;"_ rrrrxlo de ser (talvez: finalmente) humanos.
qu" de facto;";;;;;"_
"-
mos na nossa quotidianidade concreta.
cada um de nós,-aÀa-
durecendo, restringe os seus próprios f,".irà"t"ìã;#;;r_
pecializa-se, fecha-se dentro de uma
esfera aeterminaJà oe
afectos, interesses, conhecimentos. A
experência estética faz-
-lhe viver outros mundos possíveis,
e mostra-lhe assim tam-
E- l contingência, a relatividade, o'Àá.t", não definitivo do
mundo <<real>> no qual se encerra.
Na sociedade da comunicação generalizada
e da pruraridade
das culturas, o enconfo combutãs
mundos e formas de vida
é talvez menos imagingg d9 que
era p*u Oittt ur..out uro
possibilidades de existência qu. uôtuu. "y,
sobre os nossos
olhos, são aquelas que se repreientam pelos
múltiplos ãa-
lectos>,.ou ainda peios universos culturà,
q"" uì"ïàúìJËiu
e a etnologia tornam acessíveis. viver nestè
mundo -.ittifrto
significa fazer experiência da liberdade como
oscilação contí-
nua entre pertença e desenraizamento.
E,.u-l liberdade problemática, não só porque este
efeito dos
medía não é garantido, é apenas uma poisibiìiaud"
u.."onrrà
:er "^u cultivar (os media podem tambem ser, sempre , a voz
do <Grande Irmão>; ou da banalidade estereotipada,
aóllazio
de signific?do...); mas també. porqu.
nós mesmos não sa_
bemos ainda muito bem que urpË"to
ì.- _ custa_nos a con_
esta oscilação como liberàade: a nostalgia
:"ry.
te s fec hado s, ameaçadore s
dos horizon_
e tranquilizador r"uo ;",i; ì;;

16 T7
(liências humanas e sociedade da comunicação

A relação entre ciências humanas e sociedade da comunica-


çilo a nossa sociedade caractenzada pela intensificação da
Inrca- de informações e pela tendencial identificação (televisão)
rrìtrc acontecimento e notícia é mais estrito e orgânico do
-
r;rre geralmente se acredita. Se é de facto verdade em geral que
irs ciências, na sua forma moderna de ciências experimentais e
,,1ócnicas>> (manipuladoras dos dados naturais), constituem
rrrlis o seu objecto do que exploram um <<real>> já constituído e
orrlcnado, isso é válido especialmente para as ciências huma-
rrirs. Estas não são apenas uma nova forma de enfrentar um
lcn(rmeno <<externo>>, o homem e as suas instituições, dado
rlcsrle sempre; mas tornaram-se possíveis, nos seus métodos e
no seu ideal cognitivo, pela transformação da vida individual e
;rssociada, pela constituição de um modo de existir social que,
lx)r sua vez, é directamente plasmado pelas formas da comu-
rricação moderna. Não seria concebível uma sociologia como
ciôrrcia, e mesmo tendencialmente como previsão de grandes
r'orÌìportamentos colectivos, ou ainda somente como tipologia
tlls diferenças destes comportamentos, não apenas se não
srrbsistisse a possibilidade de recolher as informações neces-
slirias (que supõem, portanto, um certo modo de comunica-
çiìo), mas, antes de mais, sem que alguma coisa como um
t9
comportamento colectivo se possa
determinar como facto; rt'lação de determinação recíproca, pela constituição da socie-
uma possibilidade que se tornì
efectiuu ap"nas ,"-ï""0o rllrle moderna como sociedade da comunicação. As ciências
em que a comunicação social
superou certos níveis. Tamúm,
e sobrerudo, um saber como Irrrrnanas são, ao mesmo tempo, efeito e meio de ulterior de-
o aã unËopologia ;;,;;;"r_
sível sem o facto-elementar a" st:rrvolvimento da sociedade da comunicação generalizada.
grupos humanos diferentes _
ã".*tro com civilizações e lirrrbora não se possa pretender dar uma definição exaustiva
rn.ontro que só se verificou de rrt'rn das ciências humanas nem da sociedade da comunicação
forma determinante com as uiagens
e descobertas modernas. rlois termos que peÌmanecem indeterminados exactamente
ou ainda, para vortar.à sociolo!ïr,-ïÃue-
sociedade que não se identifiqoã.o_ ".*ï"rirìãï a" rlt'vido à sua peculiar evidência no discurso da nossa cultura
u descrição, catalogação pode geralmente convir-se que chamemos ciências huma-
e comparação de regimes políticos
(como era a polítícaaristo_ rrirs a todos aqueles saberes que fazem parte (ou tendem a fa-
télica), não é conce6ív.r uït*ì",
transformação social moderna,
Àïr u-u vez no quadro da /,cr parte: por exemplo, a psicologia) do âmbito daquela que
r"'t", .onrtituído Alu.,,,uìãiru K:rrrt chamou antropologia pragmâtica
como a <sociedadeo,leuil, a que
i;;;;"
Hegef cframàua - isto é, que dão uma
civil, distinta do Estadó e das rlcscrição <<positiva>>, não filosófico-ffanscendental, do ho-
do poder. Observar-s9-á que o
i;;;"à" ;ú*;õã" pã"rïriru rrrc:rìr, não a partir do que ele é por natureza, mas daquilo que
up-"rr_ento e desenvolvi_ c[: f'ez de si; portanto, das instituições, das formas simbóli-
mento de uma sociedade ciul
airtinta do Estado não são, crrs, cla cultura. Uma tal definição das ciências humanas deixa
imediatamente, um íienómeno.doõ;';.
veja a relação directa ct'rtamente muitos problemas em aberto, e antes de mais
com os fenómenos.da,comuni.uçáo..o_
os novos meios de irrlrrele que diz respeito à antropologia de um Arnold Gehlen.
lrolmapao disponibilizados ü;;;i.r" a técnica.porém, é
possível mostrar Mirs aquilo que aqui nos interessanão é uma definição episte-
exernplo, referindo os estudos
Habermas sobre a -.por
opinião pública (rl de rrrologicamente exaustiva das ciências humanas, mas sim a
que mesmo no devir rclação destas formas de saber (quaisquer que sejam os limites
da sociedade civil, amïito ãÍerenciaao
Estado., tem um papel "-o*funda-";r"i;;;iniao relativamente ao ('xrìctos do seu âmbito) com a sociedade da comunicação ge-
geral de uma esferã pública, qur pãúìi*, ïlã.i. rn'ralizada. Assim, se supuseÍïnos muito em geral que as
.rìe t"ftamente rigada aos t'iôncias humanas são aquelas que descrevem <<positivamente>>
mecanismos da informação e dá
co_ìni"açao social. rrrlrrilo que o homem faz de si na cultura e na sociedade, então
Uma primeira abordãgem do norro-i.rnu
pode ser, portan_
to, a constatação _ que naturalmente devena ser
corroborada
porleremos também convir que a própria ideia de uma tal des-
por mais vastos anrofundam"nro, t' r' ç ão é e ssencialmente condicionada pelo desenvolvimento,
i

de que as.r,un-'àaur-".ìã;;t;;"uítias>
de factos rlc Íorma visível e acessível a análises comparativas, de uma
"-upresentações
-
nosso discurso, como na culrura
(um termo que no tirl positividade do fenómeno humano; o que, na forma mais
mente determinado em relação
u.tuí ,onilil;;;rü1";; cvirlente, se dá exactamente com o desenvolvimento da socie-
uo, ,"u, t mltes e ao seu âmbi_ rllrtle moderna nos seus aspectos comunicativos.
to de compreensão), desde a ,;.i"];gi;
a u"t oporãgì" 'fodavia, falar de sociedade da comunicação comporta tam-
própria.psicologia
modernidade ;_ as quais ,urgJq de facto, apenas "ï'a
na lx'nr uma outra hipótese, que alarga e complica a primeira que
são condici""rã.r,' para além de
-, uma l)rl)pusemos acerca da relação entre ciências humanas e socie-
20
2t
dade da comunicação; isto é, a hipórese de qu€
a intensil.icaçâo rrit rr, como fundamento da mentalidâde modema; define pro-
dos tenómenos çomunjcarivos. o aumento da circulaçâo
rnlormações aÉ à simultaneidade da reponagem
àas lr irrrrrnte a modemidade como aquela época em que o mundo
releviiiva em rc |cduz ou melhor, se constitui em imagenq não tanto
dÌrecto íe à.aldeia global"de McLuhM)não seja
apenas um isW(lta-scha unge como sistemas- de valorcs, perspectivas
âspecúo entre outros da modemizâçâo. mas
seju ã" oigurn .o. ìul)icctivas, objecto de uma possíveÌ <psicologia das visões
d^o. o,-centÍo e.o próprio senlido deste processo.
Esuiipótese rllr nrundo>, mas as imagens constÍuídas e verificadas pelas
retere-se obviamente às teses de Mcluhan.
segundo o qual r'i{riL:iâs, que se desenvolvem quer na manipulação da expe-
unìa sociedade é definida e caracterizada petus
tã*otogìaìãe rirrìcil, quer na aplicação dos rcsultados à técnica, e que, so-
que dispõe. nào em sentido genérico. mas
no sentido èspecí lnÌ1udo (o que Heidegger não explicita, aliás), se concentram
lÌco de lecnologias da comunicaçâo: eis porque falar
de uma rrtrrJl na cién(ia e na r€cnolo8ia da informaçào.
.gaiá xla (ìutenberg> ou de um mundo
teõnoúónico nào eqü_ l)izer que a sociedade modema é essencialmente a socieda-
vale a.sublinhaÌ apenas um aspecto. €mbora
essenciaj, da'so_ ìl(' (h oomunicação e das ciências sociais não significa, assim,
cledade moderna e da contemporânea, mas indica. pelo
con_ rN(llrccer a importância das ciências da natureza e da trecnolo-
lÌâno. o caúcter essencial desres dois tipos de sociedade.
lrü quc elas tomaram possível na determinação da estrutura
Quando falamos de cjviliza(ào da técnicâ, no senÌido mais rlrsln sociedade; mas antes constatar que: a) o <<sentido)t em
amolo€ <onlológico" a que alude a noção heideggeriana
de rlor'rc move a tecnologia não é só o domínio da natüeza affa-
ueJpíí. temos de compreender que aquilo a que aúãimos vfs (lirs máquinas, íÌas o desenvolvimento específico da in-
não
e apenas o conjunto dos aparelhos técnicos que
mediam a Íe- lrrrrírção e da consmrção do mundo como <<imagem); b) €sta
laçaoio.homem com a natureza. facilirando_lhe ,io{ic(lade em que a tecnologia tem o seu apogeu na <<informa-
a exjsténcia
atÌavés de todo- o género de urilizaçào das forças
hmbora esra definiçâo da recnologia valhâ em geral
naruraisl flkì' é também, essencialmente, a sociedade das ciências hu-
para rodas rììuÌls no duplo sentido, objectivo e subjectivo, do geniti-
as êpocas.ela Íevela-se hoje demasiado genélõa
e superficiJ: -
vo: urluela que é conhecida e conshuída, com o seu objecto
a tecnotogta que domina e modela o mundo em que
vivemos é ruk:r1rrado, pelas ciências humanas; e aquela que se exprime,
cenamente feita de máquiras ainda enrendidas no
sentido na_ I (' to num asp€cto deteÍninarte, nestas ciências.
crcronal do termo, que fornecem os meios para.dominar- 'lìxlo este conjunto de hipóteses se pode corroboÌaÌ, se não
a
natueza extema; mas é sobretudo definida, e de modo
ciaÌ, por sistemas de recoÌha e transmissão de intormaçOes.
essen_ "lrrovado>, mosfiando qu€ ele funciona paÌa comprcender,
Isso roma-se cada vez mais evidenre à medidu qu" lÌ ìr cxemplo, a cenfeÌidade que assumem nas sociedades tat-
aif"àniã 'l,r rrrrlrrstriais as tecnoìogias
informáticas, que sào como ^o
entre paises avançados e países aÌrasados se acenlua " como di_ iìrlÌiìo dos órgãos>r, o lugaÌ em que o sistema tecnológico tem
terença no desenvolvimenro da informálica. por
consequên_ o scrr <piìoto> ou cibemeta, a sua dire€ção, também entendida
c ra. quando HeideggeÍ fala tcomo
em Vcredas t nterrompidas ) r rrrrro tcndencial direcção de desenvolvimento. Outro campo
de -época das inügens do mundo- para definú a modemidaje
rrr rluo parece poder seÍvir esta descrição unitária do mundo
nâo ulÌtlza umâ expressâo metaÍórica. nem descreve
apenas r( rl{)lógico como mundo das ciências sociais e da informáti-
uma pafie entre ouÍas do modemo complexo da ( [, (orno hipótese unificante, é a definição da <(contempora-
ciência è téc_

22 23
neidade> do mundo contemporâneo: o qual, na perspectiva rrrlis. pcta consciência de que uma sociedade livre é aquela em
que pÌopusemos, não assume um tal teÍno segundo banais rlrrt, o homem se pode toÌnar consciente d€ si numa <esfera
critéflos de proximidade "cronológìca' (conèmporáneo é
|rrblica>, a da opinião pública, da livre discussão, etc.' não
aqullo qUe nOs ê ternporâlmente rÌÌajs próximoJ. mas mais cO oluscadiÌ por dogmas, preconceitos, supe$tições. O <cientis-
mo mundo em que se desenha e se começa a realizaÌ concre_ |l(ì' pos;tivistâ, que se concretizâ na rcivindicação de uma
Ìamente a tendència para a reduçào da hisrória no plano da si_
l|rssirgom ao estádio positivo do saber sobÌe o homem, não é
multaneidade. afavis de Ìécnicas como a da repoflatem lele_ l,ììrìirliDentg redìitível a uma sobrevaÌorização, quanto aos mé-
visiva em dte.to. trrrirs. cla ciência da natuÌeza, cuja aplicação também ao âmbi
Mesmo s€m qu€Ìer seguir até às suas extremas, e vertigi- to s(Ìciirl e moral deveria assegurar uma maior ceÍteza e eficá-
nosas, consequências esta definiçâo da contemporaneida<íe, r |r ir cstes tipos de sabel; mas compreende-se, p€lo menos no
que-compoÌ'ta cenãmente um reajusttrmento radical da própria r;rrl. tliz respeìto a Comte, se o virmos do ponto de vistâ da
noção da história, poder-se-á, poém, reconhecer a racionaÌi_ rrrr anatogia com o programa hegeliano da (realizâção> do
dade de um outro aspecto ligado a esta hipótese: ou seja, Irtìíito absoluto, da plena autotranspaÌêrcia da razão.
mostrar que à luz dela os ideais sociais da modemidadeìe lislc ideal d€ autotransparência, que atribui à comunicação
mosham unitariamente descritíveis como guiados pela utopia .,,x i l c às ciêicias humanas um cirácteÌ nâo só instrumental,
da absol:uta autotransparáncia. pelo menoi a pafti; do Ilu;i_ rrrrrr rlc algum modo final e substancial, no programa de
nirmo. tornou-se e\ idenÌe que o facÌo de submeÌer as realida_ , rrnrrcipação, encontÌa-se hoje la.rgamente na teoria social.
oes rìumalÌas
. - as lnsntuições sociais. acullura.a psicologiâ. I Ì st(: ponto de vista, é emblemático o pensamento de autorcs
a moral a uma aníise cienlúica nào é apenru urn p.ogriru r rrrrro Jiirgen HaLrermas e Karl Otto Apel, ambos diversamen-
epistemológico que se proponha perseguii interessei co-gniti_ t, lìgailos à herança do maÌxismo crítico, da hermenêutica, da
vos estendendo o método cienífico a novos âmbitos deistu_ lrlosolia da linguagem, mas sobretudo movidos por uma po-
do: é-uma decisâo revolucioná_rja. que só se compreende em rl('rosl inspiração neokantrana que se associa a uma ceÍta in-
relação a um. ideal de nanjformação da sociedadi. Nao. po_ (2), por exemplo, constrói to-
rtrt)rrlação da psicanálise. Apel
rem. no lenlido de considerar o saber sobre o homem e as
rllr rr suivisão ãa sociedade e da moral em tomo do ideal (que
in\tjtuiçóeì como um meio para agir com mais eficdciâ com
ri scrrpenha as funções de imperativo categórico kantiano) da
vrsla a sua modificaçào. O Auftl.tru gtàoé aprnas uma etapd um tetmo que se
ou.um momento preparatório da emancipação, mas é a súa "r'rnÌìÌrnidade ilimitada da comunicação> -
rrrlirnÌir de Peìrce e ao qr-ral ele atribui a função de uma meta-
própria essência. A sociedade das ciências humanas é aqueÌa
rl.lÌrir que torna possíveis todos os nossos múltiplos jogos
em que o humano se toma finalmente objecto de saber rigoro_
lrrj,rrísticos. Reférinclo-se ao conhecido aforismo de Witt
so, válido, verificável. A imponância de que se revestem, no pode jogar um jogo Ìin
lr, irstcin, segundo o qual nunca se
programa de emancipação iluminisra, a:Declos como os da li_
berdade de pensamenro e da Ìolerância nào é molivada apenas
)lllrslico sozinho, ApeÌ considera €star impÌícito a qualquer
orio rlc lillguag€m, e portanto em qualquer acto de pensamen
ou principaÌmente por uma geral reivindicação de liberdade,
t,,, rrrr ineviúvel assumÌ de responsabilidade relativtìnìente às
de que estes momentos fazem parte, mas ìambém e ainda
rIl'r'as linguísticas; esta Ìespons.rbilidade' porém, liga os fa-
24 25
luúÊs aos Í,artner, Íeais ou potenciais, do diálogo
social, pe_ rlillúctica destes dois momentos, com vista a uma síntese e a
rante os quais cadâ um é reponsável pelo respeiìo
das reús: ullrn lÍansposição, Ìealiza-se <no preciso momento em que a
o que.taÍnbem é váido quando se fazem jogoi
compleranienre Irrrrrunidade da comunicação, que constitui o sujeito fanscen-
que umÍalante renha invenrado para (hntiÌl da ciência, se toma ao mesmo tempo o objecto da çiên-
1,"_"_11ïl:-"- lTg""gens
sr-propno; também neste caso. o falanÍe qu€ inventa as regras ( iui no plano das ciências sociais no sentido mais lato do teÍ-
não é idénrico ao falanre que. num momenro
diferenrel as rÍ). Agora toma-se evidente que, por um lado, o suj€ito do
responsabitidade. perante um quâtquer
1l:11,:,q":^*r. g
potenctat pqrtn?r. pela sua correcta observância. lìossÍvel consenso com a verdade da ciência não é uma
ca. contudo, que todo o acto de pensamento,
Isso signifi_ 'rorìsciência em gelal) exhamundana, mas sim a sociedade
como acto lin_ Iistó.ico-Ìeal; mas que, por outÌo, a sociedade histórico-Ìeal
Surstrco,(como Apel considera, se desenvolve sempre no ho_ ü1 pode ser ad€quadamente comprc€ndida se for consideEda
nzonle-de uma comunidade ideal de aÌgumentantes.
aos quais ( orìro objecto virÍral da ciência, incluindo a ciência social, e se
-
o 5ujerlo pam quf o seujogar ojogo linguísÌico tenha
sen_ rr suâ realidade histórjca for s€mpr€ rcconhecida, de modo ao
-
trdo nào pode deixar de reconhecei os m-esmos direitos
reconhece a si mesmo. Daqui. enLâo. uma
que rìr{ srÌÌo t€mpo €mpírico e nomaÍvo-cítico, em rcferência ao
espécie de inmhle_ i(k'rl, a realizaÌ na sociedade, da comunidade ilimitada da co-
ca exrgencra de vera(jdad€ da liÍÌguagem. que
exige a elimina" ttttrrticação> (3).
çao de qualquer obstáculo à ransparènciã da cãmunicação:
lÌâsta obs€rvaÌ que aqui a expressão <sociedade de comu-
mais. dos obsláculos colocaLdos volunÌariamente'pe-
lnles 9e rrrr'lçío>, a que afibuímos inicialmente ì-rm sentido generica-
los suJe[os (que os podem colocaÍ. mas não
deixar de reio. rìrcÌlc desçÍitivo, toma-se um ideal nomativo, com a inÍo-
nhecer qu-e não deveriam agir assim. com
é aliás o caso de (hrçiio do temo (comunidade" que, além de retomaÌ Peirce,
qualqueÍ talrâ relativamente a imperalivos
morais): e depois rvoc também uma ideia de maior organicidade e de imediati-
todos os de ripo social, ideológico. psicoló8ico. qu.
to.uÀ |irlurle própria da conìunicação, assinalando uma das direc-
opl"u.: imperfeira a comunicaçào. Há aqui uma ex
:^:l::,o
lensao e radicaLzação daquilo que peirce ç()cs de significado em que certaÍnente Ap€l se move, um id€41
chamou .lsocialismo ( k t ipo <<compenetrativo> romântico, que coniinua a seÌ mui-
loglcoì. uma e\preçsão muìto significaÌiva para compreender
tIs vczes dominante nas teorias contemporâneas da comuni-
o rdۉt normativo de fundo em rodo esre diicurso;
o ideal da i [ção (4). A sociedade da comunicação ilimitada, aquela em
ransparéncia cogniüva.üma espécie d" n""y"-ìçãã
ryrfeiu
da soctedade num .sujeiÌo" de tjpo ciendíìco _ como
rlr(. se realiza a comunidade do socialismo lógico, é uma so-
o cièn_ { icrlird€ transpaÌ€nte, que precisamente na liquidação dos
lrsta no ìaboÍatório. sem pÍeconceitos. ou de algum
modo ca_ i'l)stítculos e das opacidad€s, mediante um prccedimento que
paz de prescindir del€s tendo €m vista uma medíção
objectiva ',r' lìnma Ìargamente a paÌtir de uma certa ideia de psicanálise,
dos facros. l\4omenro decisivo. segundo Apel, pía
a rËaliza_
çao de um socialismo lógico são prer.isamente as ciências hu_
[
, Ir( tanìtÉm a reduzir radicalmente os motivos de conflito.
manas ou sociais: eÌas são efectivamente a condição As posições de Apel são significativas não só porque atri-
positiva lìrcrn um papel essencial às ciências humanas na realização de
que torna possível uma autoconsciência
social que supere ti_ rrrrrl sociedade da comunicação entendida como ideaÌ norma-
mites quer do idealismo quer do detenninismo
muteriáfiiÀ, ì rrvo. rras também porque mosí?m s€m equívocos o que está
26 27
contido neste ideal como sua caÌacterística essenciaÌ, isto é, a llrnrìlc cxpectativa, isto é, do ideaÌ normativo da autolranspa
autoÍansparência (t€ndencia.lm€nte) conìpleta da soci€dade, I rrirì, encontramo-nos perante um conjunto de factos paÌo
sujeito-objecto de um sab€r reflexivo que, em certo sentido, ,|rnlis: os mesmos factos, por exemplo, que encontram os
r€aliza aquele absoluto do espíÌito que em Hegel em um puÌo lrrr,t()riirdores do mundo contemporâneo. Como escrcve Nico-
fantasma ideológico, um absoluto que, na sua <idealidaàe>, lu lìanlìglia (6), <<paÌadoxalmente, no momento em que o
rnântinha com o real concreto aquela relação de transcendência rrro|rllc desenvoÌvimento da comunicação e da troca de infoÌ-
<pÌatónica> típica das essências metafísicas com todas as suas rrrrrçrrcs culturais e políticas, tornav0m possível um projecto de
impÌicações, em grande sentido, tamÉm rcpressivas (na me- l it(iÍiir autenticamente mundial, o declínio da Europa € o
dida em que perman€ciam necessariamente transcendentes). Íl,n irncnto de mil outÍos cenÍos de história anulavam essa
Uma verificação da imporúncia deste ideal da autotranspiúên
lrìssil)ilidade e levavam a historiografia ocidental e europeia a
cia na çultuÌa contelÌìporânea pode encont?r-se na estrutura , (ìlllrrn]taÍem-se com a necessidade de uma fansfoÌmação
conceptual que rcge a grande inv€stigação de Sarhe sobÌe a
I'r olÜì(lâ na própria concepçâo do mundo)r. Em geral, o de
raáo dialéctica, onde o problema é pÌ.ecisamente o de c:ìIacte- '! rìv(ìlvimento int€nso das ciênçias hununas e a intensificação
rjzar os nìeios concrctos segundo os quais o saber em si da ,lrr r'orrrunicação social não parecem produzir um aumento da
sociedade se constitui em fomas não alienadas, €nquanto iIrlolrirnsparência da sociedade, mas, pelo contrário, parecem
efectivamente participadas por todos os membros daquela so- lllor ioniÌr em sentido oposto. Tratar-se-á apenas como as-
ciedade: Sartre pensa nâtuÌaÌmente ta revolução, enquanto nruitas vezes uma socioÌogia cítica t41v€z- demasiado
Flabemâs e Apel pensam na capacidade emancipadora das ',rrrrrt
rrlìsrrvicntemente herdeiÌade esqueÍnas daZiúlísatío s-Kri-
ciências sociais; mas o ideal de autotransparência é o mesmo. tt,( ,l(rs primórdios do século XX do facto de que o desen-
Será este, portanto, o ideal da autotransparência, a direcção \,rlvrììcnto tecnológico tem uma intrínseca - tendência para de-
paü a qual aponta hoje a relação entre a sociedade da comuni-
cação e ciências sociais? Estaremos linaúmente em çondìções
'í rrlx rìhar as funçõcs de apoio ao poder tal como é, toman-
,1,ì ,,(. lirtâlmente escmvo da propaganda, da publicídade, da
de reaÌizar um mundo em que, como diz SiLnÌ-e em Questão de , 0lr,.rvação € intensifìcação da ideologia? E, no entanto, a
Método, o sentido d^ história se dissolva naqueÌes que a fa- lrrtxrssibilidade de fazer veÍdadeiramente uma história uni-
zen em concreto? (5) De facio, urna tal possibiÌidade par.ece ao r, r r,rrl, por exemplo, perante a quaÌ se encontiam os historia-
alcance da Dìão: bastaria que os mass mzdú, que sâo os mo- i l, r s r lir contemporaneidade, não paÌece ligada principâlmente
'r
dos em qÌle a autoconsciência da sociedade se transmite a to, ,r lr ì rilcs deste tipo, mas a razões opostas; há uma espécie de
dos os seus membros, nâo se deixassem já condicionar por ì rrr,t)ia Ìigada à pÌópda multiplicação dos cenÍos de história,
ideologias, interesses de sectores, etc., e se tomassem de al- t',ro (, {los lugares de recolha, unificação e transmissão das
guma forma <<órgãos> das ciências sociais, se sujeitassenì à trrl,rrrrrções. A ideia de uma história mundiaÌ, nesta perspec
medida crítica de um saber figoroso, dìfundissem uma ima- tl\ r, rcvcla-se aquilo que de facto sempre foi: a redução do
gem <<científica> da sociedade, pÍecisamente aquela que as , rrr,r) rk)s acontecim€ntos humanos sob uma peÌsp€çtiva uni-
ciências hurÌìanas estãojá em condições de construir. lrtllir rlrc ó tamMm sempr€ função de um domínio, seja ele
Se medimos a situação actual com a bitola de uma seme ,l,,rrrrrio de classe, domínio colonial, etc. Algo do género,
28 29
provavflmen!e. sení válido também para o ideal
de auÌotrans_ , oisrrs nas ciôncias da natureza, o ceÍo é que nas ciências hu-
parencra da sociedade: ele funciona apenas
do ponÌo de vi\ta rrrrrrrs se impuserarn modelos de racionalidade, desde o cen-
oe um su1elo central. e que se toma poÍém cadã vez
mais im_ tr/r(l(t rìo ideal-tipo weberiano ao de Cassirer que se s€rve da
pensavet. â.medida que. no plaro técnico. se
tomaria - possr_ r('lc|incia à noção histórico-normativa de estiÌo (retomada por
vel' reaLzá-lo eÍèctjvamente. Ê njvez este o destino do hege_
linnismo, do AuJklàrurj. ou daqueìa que Heidegger Willlllin) (7), 6u a do <<modelo zero> de Popper (8), nos quais
metâtistca. na sociedade conlemporánea: tomando
chamà a . cvi{lcnte o caÌácter por sua vez intra-histórico dos modelos
se efecli- rrìl( rlrctativos de que as ciências humanas se servem. Este
vamente possível do ponto de vista da disponibiÌidade
estrita- r nri( ror intra-histórico exclui o facto de que as ciências huma-
mente técnica. a autoransparéncia da sociedad",.orno
a,socrotogra cniica de Adomo. revela_se, por um lado,
.oiou urs lx)ssam pensa!Ì se como totalmente reflexivas, isto é, en
como ,lrflrlo capazes d€ teflectir a realidad€ humana fora de esque-
rde^al-de domínio e não.de emancipação: por
outro . aquilo rrrls irrtcrpretativos que, sendo por sua vez factos histó cos,
que, em conÍapartida, Adomo não via_
desenvoÌvem_se no rrìr' r'( frcsentam uma (novidade) Ìelevante, e também por is-
próprio interior do sistema da comunicação
((apar€cim€nto de novos centros de históda,il -ecunis.ã.
,,, rìir() são um puro espelho daquilo que se trataÌia de conhe-
q"" t".""-ã._ ,, r objcctivamente. Não só: nesta tomada de consciência que
fi njtivamenrc impossivel a reâlizaçào dâ
autonansparência. ',i lìrxlc châmar hermenêutica, as ciências humanas reconhe-
{-rero que-à Iuz desta hipótese. deve repensar
se o desfn- ,( rrrÌì o caÌácter histódco, limirado e afinrl ideológico, do
vot-vlmenlo do debate. muito signiÍicarjvo na
cullura do \éculo t,ri)lnio ideal da autotranspaÌência, como do de uma história
xx. sobre o "carácler cienllfico, ou não das ciétìcias huma-
rrrrrvclsal a clue antes se fez ref€rência. O ideal da comunidade
nas e da hisloriografia. E sabido qÌre este
debaÌe, no decurso rlrrìrlilda da comunicação de Apel e Habermas é certamente
do qual as própriaç ciència\ humanaì definiram pela primeira
llr,xk lado no da comunidade dos investigadores e dos cienús-
a,lu.fltliongnua gspecÍfica. foi marcado na, suai origens
Ill
pela dÌstrnção (lormulada poÍ Wirìdelband)
t,r, rr rlre fazia referência Peiice ao falar de socialismo lógico.
enúe ciências'na_ Nlr\ soú legítimo modelar o sujeito humano emancipado, e
ruÍals nomotellcas e ciènciaj humanas ideogÌáficâs (ou,
em , !c r tuiÌlmente a própria soci€dade, pelo ideal do cientista no
Dilthey, ciências da natureza e ciências dúspflto,
com a ',, ll LrhoratóÌio, cuja objectividade e desinteresse são coman
oposição entre explicação causal e <compre€nsãõo).
Desde as
oÌlgens, e cada vez mais nas últimas déõadas, esta 'Lr,lo\ por um intercsse tecnológico de fundo, que só pensa a
contrapo_ Ìlrtlrl'Zil como obj€cto uma vez que a repÌesenta como um lu-
sição paÌece.insalis[atdria: náo só porque não se podiam
dei_ 1'rrr rlc possível domínio implicando assim uma séde de
xâr as cteJìctds do espírilo em poder de uma compreensão
qua\e exclusivarnente intuitjva e sitnpatélicat
-
r,li rrs, (ìc expectativâs, de motivações que hoje são Ìargamen-
mas lamL|em e r, ,'l'Í c1o de círica?
50breludo porque as próprias ciéncias da natuÍe/a
ram cada ve/ mai\ como determinadas. na sua
se revela_ lÌr vcz de avançar para a autoÍanspaÌência, a sociedade
constiÌuiçào. I r ( iarÌcias humaÌas e da comunicação geneÍalizada avançou
por modetoì tnlerprelaÌivos de Ìipo histórjco cultural
dos t,,r'rr rrrlucla que, pelo menos em geral, se pode chamar a <<fa-
quars acatìa-por faler paÌte lâmbém o preÌenro tipo -
neural- l,rlr(ir() (ìo mundo>. As imagens do mundo que nos sâo for-
da exptrcaçào causal. porim. qualquer que seja ã estado
da. rrlas pelos m?dia e peÌas ciências humanas, embora em
'r,,
30 3l
planos-diferenle),consliluem a própria obje{tividade do mun_ rrlrrr rr:conhecido o processo de fabulização do mundo co
oo, e nao apenas tnLerpretdçõeì diferente\ de uma u ir sc natunÌmente de foÌma urgente; e paÌa já existem poì.I-
-realidade. l,
de algum modo "dada-. -Nâo nos fizeram. âpenas inleÍpreta ,,ì.i lxnìtos de referência clatos: antes de mais, que a lógica
ções>, segundo o dito de Nietzsche, que escreveu tarnMm , ,'rrr blse na qual se pode descÌever e avaliar criticamente o
que <<o mundo verdadeiro afinaÌ toÌnou-se
fábula> (9). ,,rlx r das ciências humanas, e a possível <verdade> do mundo
Não tem. deceno, sentido negar pura e simplesmente ,lLr r onrunicação mediatizada, é uma lógica <<hermenêutico>,
uma
.realidade unilária" do mundo. numa eìpécie ,trr' l)rocuÌa a verdade como continuidade, <coüespondên-
de Íecalda nas
lorma_: de idea-liìmo emprÍico in!énuas. Mas lem , rrr", rliálogo entre os textos, e não comô conformidade do
mais sentido
reconhecer que aquilo que chamamos a .realidade do mundo , rrrrrrciado a um mítico estado de coisas. E esta lógica é tanto
-
é alguma coisa que se constitui como (contexto) das múltiplas r flis rigorosa quanto menos s€ deixa impor como definitivo,
fabulações e tematizaÌ rrr rcrto sistema de símboÌos, uma ç€rta <narnrção>. Neste, o
- e o significadoo mundo
mentre o d€ver
nestes termos é precisâ-
das ciências humanas.
' t, rrrro <hernenêutica> conserva também a sua refeÉncia à
Neste sentido. se bem que poÍ veres possa parcer vazio de ..l,r olr do suspeito> (segundo uma outra expressão de Nie-
o debare merodológico que ocupa úm targo espaço i/ ,, 1ì(Ì): se (já?) não pudemos iludir-nos sobre a possibilidade
::lre.u.{o.
nas crenctas humanas de hoje consritui um momenlo
nâo só ,l, r{ volar as mentims das ideologias € atingir um fundamento
rnsrumentaì e preliminar. mas central e substancial: conh-ibui c podemos, porém, explicit!Ì o caúcter pluÌal
pelo menos para as de\dogmatiztu-, pâÌa as Ìomar -labulas- 'rlirrrro estável,
lrr', ,,rrrr-rações>, fazê-lo agir çomo elemento de libertâção da
'
corìscrentes de Ìal. O recente sucesso que, no debate de hisÌo_ Ì | r(l( z das narrações monológicas, dos sistemas dogmáticos
fladores e socjólogos. obÌeve a noçào de narralividade, e o
rnquenlo sobre os modelos.,reldÍicos- e narfatológicos lLrtotransparência a que o coniunto dos /redia e ctêícias
da
historjografia. enrr perfeitamente neste quadro. de um saber ^
lrrrrrrrrrrs nos conduz, por oÌa, parece ser apenas esta, a sabeÌ,
oas crenctâs humanas que liquida criticamenle o miio dâ , \tì(ìsição da pluralidade, dos mecanismos e das aÌmações
'r
üaìÌsparéncia. Nâo já a favor de utn cepricismo totalmente re_ fr, llriìs da construção da nossa cultura. O srstema nÌedia-
laüvrsta: mas a ÍavoÍ de uma djsponibilidade menos ideológica
' r' rr, i.r' humanas funcìona. quando funciona. com emanci-
para a experiència do mundo. o qual. mais do que
o objiro tir,r() iìpenas enquanto nos coloca num mundo menos unitá-
de saberes tendencialmenÌe (mas sempre apenas tendencial_ ll,'. llrrno{ cefto, porttuìto também menos úanquilizador que o
m€nle) -obJectivos". é o lugal da produção de 5isremas sim_
'1,, Iìiro. E o mundo para o qual Nietzsch€ imaginaÌa, como
bolrcos. qìte se disúguem peloì milos precisaÌÌìente enquanto ,,ro su.jcito humano capaz de o viver sem neurose, a figura
sao ínr(loficorr lsto é, narÌaçde\ que manlèm crjticamenle lrl;(rnensch, do super homem; e ao qual a filosofia
'1,' I
as dlsl.iìnctaS. que çe sabem colocadas em Sistemas ,ìllcsponde> com aquela que se pode chamaÌjá e com razão
de coorde_
nadas.-que se sabem e se apresentdm explicitamenÌe r r rrrrllnr hermenêutica.
como
- tran\tormadaì!. nunca pretendendo ser natureza,,.
"
prúletna da criticidade do pensamenlo _ uma vez que
-O embora apenas
e\te. no senlido etpecifico de que se falou, ie_

32 33
O miÍo reencontrado
Ì lr) r dos problemas mais urgentes que se coloca à consciên-
(Ìrìlcmporânea, na medida em que se tome consciente da
' rr
(
IIrl'rrIização> do mundo operada pelo sistema media-çiências
,'r riris, ó redefinir a sua posição relativamente ao mito, so-
lÍ ( r 1lo paJa não vir a conclut (como muitos fazem) que uma
r, , k scobeÍa do mito pod€ repÍesentaÌ a respostâ adequada ao

t,Ì,'1ìlcrììà <que significa pensaD na condição de existência


trr,!rrrrodema.
Nir(i há, na filosofia contemporânea, uma satisfatória teoria
,l' 1 ll rilo de sua essência e das suas ligações a ouüas foÍÌnas
,Lr r( lirção - com o mundo. Por outro lado, é verdade qüe o teÌ-
r r,, c ir noção de mito, ainda que não precisamente definidos,
, r( IlifrÌÌ lffgamente na cultura corrente: desde as Mitologias,
,l' l{r'l nd Barthes, nasceu, ou consolidou-se, uma tendência
I rrrl Par-a analisar em termos de mitologia a cuÌtura de massa
, ' ,ìr, srtls produtos; enquanto çlu€ na base, remota mas nem
| , ir rss() rìenos eficaz, das ReJleions sur la riolence, de So-
r, L. ,i(' continua a pensar na prcsença, e na necessidade, do
r| ro crn política, como único agente capaz de mover as mas
,r', r irtó Claude Lévi-SÍauss, que, aliás, trata os mitos muito
r , rr.irnÌente, como anÍopólogo, escreve numa páginâ da
\ tt t'tr)bgia EstruluÌa1que nnada se assemelha mais ao pen-
35
samento mítico que a ideoÌogia poÍtica. Na sociedade hodier- lrLrrrrirnl. Também Lévi-Strauss, que deceÍto não tem uma
na, de certo modo esta limitou-se a substituir aqueÌe> (10). Se , ,,rl( cpção puramente evolucionista do mito como destinado a
bem que l-évi-StÌauss não possa ser acusado de usar o termo ,lL:,( IvolveÍ-se no /ogo.r, e que se apÌesenta aliás como um
mito de modo impreciso, uma afirmaçâo dest€ género, mesrno rrlrciìl a'Ìti-historicista, considera de algum modo o pensa-
vinda dele, rcfeÍe-se mais ao uso comum, não técnico, do ter- rnítico como um passado pala a nossa cuÌtura, de taÌ
rrr, rrtrr
mo nito; enÍa, portanto, naquela imprecisão da noção a que !iri() que se preocupa em indicaÌ ou o s€u sucedâneo na
fazíamos rcferêrìcia. De facto, quando na poslairot Mítolo?ia, r,l,r'lo8iâ política, ou os seus traços rcsiduais na música e na
Lévi Srrauss aplica urn üonceilo mais especifico de miró às lrtIriÍ ra.
suas possíveis sobrevivências no mundo de hoje, ele refere (.)uirndo explicitamos estes conteúdos impÌícitos na posição
ainda. como elementos e lormas da experiênciâ em que o mi T' ( rssirer e tambóm na de l;vi-Sfausspara não falar em
to, embora dissolvido, sobrevive, a música e q 1i1s1a1un ( l1). \!r'l'cr podemos expedmentaÌ um certo mal-estaÌ.
MÀs não é a este sentido mais limitado e técnico do termo miro Nr brse deste mal-estar está um facto evident€: a moderna
que se alude quando se fala de prcsença do mito na nossa cul , ,'rrrr lìlosófica do mito, até à mais recente, a de Cassirer, foi

tum; mas antes a um s€ntjdo mais vago qÌre, aproximadaÌnen ., rrlrrt tbrrnulaú no hodzonte de uma concepção metafísica,
te, entende o mito com base nestas caaacteísticas: ao contráÌio , r,rlrrtiva, da história; ola, exactamente esie horizonte de filo-
do pensamento científico, o mito não é um pensamento de- .,
'lrir
(|ì história já se peÌdeu hoje em dia. Por consequência,
monstrativo, tuìalítico, etc., mas nanativo, fantástico. envoÌ- t rr r l rri n I teoria filosófica do mito já não pode formular- se de
, r

vido nas emoções e, globaÌmente, tem menores ou nenhumas ' u"Í' prcciso: e o uso comum do lermo mi!o reËista e exprime
pretensões de objectividade; rem a ver com a religião e a aÍe, , ,rr (1nìÍìsão teórica: por um lado, o teÍno continua a signi-
com o rito e a magia, e a ciência nasce, pelo contráÍio, em It, rrr rrrna forma de satrer não actual, muitas vezes considerado
oposição a ele como desüritìficação, <<desencanto do mundo). r, rIr', Ir inritivo, mas ainda assim cancterizado, rclativamente

O saber racional sobre a realidade, (onde quer que procure r' ,,rlÌ(ì científico, por uma menor objectividade ou, pelo
constituir-se como consideração teorética e explicação do llI (ì\, por uma menor eficácia tecnológica. Por -outro lado,
mundo, vê-se oposto não tanto à realidade fenoménica ime- r lrr rk vido à crise que, em filosofia, sofreram os metafísicos
diata, como à transfiguração mítica destâ realidade. Muito an , ri'Ìr( ionistas da história (e, juntamente, o próprio ideal de
t?,t do mundo se apresentat à consciência como urn complexo t t, r,'rrrrlidade científica), seja devido a outras causas menos
de <coisas> empíricas e de propriedades empíricas, apresen- r, ,ìr rr irs c mais ligadas à históÌia política, a concepção do mito
tou se coDìo um conjunto de potênciâs e de acções míticast ','rx) l)cnsàmento primitivo piìrece indefensável. Estas con
(12). Nesta última
citação, do Ìivro de Cassirer de 1923, que é l|,r's c contradições podem surgi quando se procura recen-
taÌvez a última gÍande teorização filosófica do rnito no nosso , ,rr rrs utitudes que hoj€ mais Ìargamente condicionam o uso
século, surge clâ-ramente um eÌemento que está implícito e é ,1,' , oul'ciro de mito
atitudes que proponho descrcver com
essencial à modema teoria do miro: a ideia de que ele é um sa l ,., , ll ü Íros tipos de ideâi\ que. geralmente. não se encon-
ber <ânteìioÌ> ao científico, nìais antigo, menos maduro, nÌais rr,rrrr rr|rcssos teórica e praticamente no esÍido puro, mas es
ligado a aspectos infantis ou adoÌescentes da histórja da mente in, rlÌiirlnrcnte presentes e são caÌact€rísticos da situação cul-
'
36 37
luraÌ que nos movemos. Estas arjtudes predominanles
po_ rr,tr' :r|r.nar annopológico _ tenha podido surgir como uma
:::,.^.::ll *
_em -9q trrutos: arcarlmo. ràturiuir.o reórica -de
"ês Todoç lÍés. t,,tsr(ir-rt esquerda": na base de tud; isso, havia â
:ï::^:jraJrsmo
mrtrgado. como veremos "JtuiJ,
melhor, r,lcill (l,.que LdnÌo o estudo puramenÌe estÌxrural
sao camctenzados por.incoeréncias dos miÌos
e confusões que <lerivam ,h\ c lÌuras íselvagens.. como a geral consideraçâo do ho_e
oo problema de ÍilosoÍia dâ história por resolver
que estai na rrÍ rr crn lemlos não historicisras (..estudar or homens
basede toda a concepçáo do mjto: nrl".. como
nsrca oa nrstôna que regia a anterior
du ,."u* d, ..iá] l'rri|iìs-. dizia Lévi-Strauss contra Sarúe) eram um modo
leoria do mito, mas não rl'. lirluidaÌ a ideologia eurocènrjca do progÌesso com
conseguem formulaÌ_se em krmos teoricam""," rodas as
ru,;riuìã.iãì ,'rrlr irnplicações imperialisras
p-oÌque não elaboraÌam uma nova e colonialiiras; a favor de um
concepçào filosófica da his_ l)('Islrìento que recupeÌasse os valores (autênticos> de uma
LUlai puseraÍ) srmptesmente o problema
de lado. r( Lrçio do homem com a natureza não mediada pela
uescrevedd çomo arcaÍsmo uma alitude objecti-
que se poderia r',r(,ì(, cienül'ica esü"iramenle ügada _ como
mmbém.chamar apocalrbrica,. mos!?ra a cniica
"atirude fruru_i. Au á...on] ,rr'f frncotorre. mas rambém o Lukács de Hirtória e Cons.
na cutruri cienrifi co_recnorogica oci jeniJ,
li"!i^1111"qd.
(onsroeÌada como modo de rida que viola e Oeúfi ' tl't, i,t dp Cla\se - à organizâçào capitalista do rabalho. A
a aurênrica \rr , r Í ica e à má consciència relativamene ao imperialismo
reraçao do homem com si próprio ' e
e com a narureza, e que está vÍr'rrr formas de neocolonialìsmo uniram.çe, mais Íecenle_
rnelutaveìmete Iigada. lambém. ao 't,
sistema de exDloracào câ
prla"rsra e âs suas Ìendènciâs imperialisras. poá"
rÍ nt(', as pÍeocupaçôes ecológicas pelas consequèncias de_
prererencta da vanguarda anística
uei_r" n, Ír\tI(1,,ràs que a ciéncia. a tecnologia. a erploraçào capjtalista
do início do sécrrlo netr.
mâsciÌras alricanas um sinaì do vaìor proféúco
qra u un"'Oua
' rr corrida
iil
aos armamentos têm sobre a natureza externa e a
lÍa,ln natureza física do homem.
mutÌas vezeç, como neste caso, relativamente
a movimenÌos lÌ. todos esleì factores nasce aquele que proponho chamar
mais serais. Aquito que na vanguar
:: :y,Ì.ï1^.jl-S,":l"dade
oa-irluSEca htíónc2 era principalrnente um inieresse por'mo
,r{,r/.rrr,, em reìaçào ao mito: nâo só, deste ponto de vista,
o
oos oe representação do rcal não comprometjdos 'rìrr,' rìio é uma fase primiriva e superada da nossa hislória
coma uadi ' rlturill. mas anles uma forÌna de saber mais autênlica. não
Follas nnguagens artsxcas hereditárias. embora amplamente ,l, v.r\tlldr pelo fanaÌismo puramente quantiativo
e pela men_
iit]il.99l pll"com
presstontsmo).
menoi em cerÌas poéticas rsurreatirmo,
!ma profunda polémica confra a cuitura
er_ ,rlr,li(lc objectivante própria da ciènciamodema. da lecnologia
ouÍ8ue\a. lomou-se hoje uma aütude geral:
,,|ì ciìpitaÌismo. Espera-se, de um renovado contacto coÍ; o
oa tntettgcntsia 1íáel41 relarjvamenÍe ao
a má consciéncia trì - quea na forma dos mìtos das <outras) culturas (os
chamado terceirol ,.rI'hilus pelos anÌropdlogos no\ povos selvagens ainda
g.._"eno ramMm nas suas posiçóej ace rca
;Tig: ïpd..
oo,Í-ÌÌio. hm geral..."aliás, sem esta inspüaçâo.
' \r\r' I tes ). quer na foÍma do5 milos antjgos da nossa Uadjção
èm sãnrido laro, {,,,, rììrloc gregos, revisitados com métodos e mentalidaães
l::'].:..''Ìr".
t: -Ipreenderia nem a poputaridade de que.
como moda cultumÌ, gozou a artropologia esrutural. 'rrrtrr,l)Lrlógicas por filólogos e hisroriadorcs de foÌmação es-
nem tal- rr rrrrrlalista) uma possível
vez- mars em geral. o facto de que nos saída das deformações e õonna_
anos da sua maior di_ ,lrçocs da actual civilização cienrífico-tecnológióa. parece-me
lusao a ntvel de cultum comum o estruluralismo _
certamenE lll( lrirnde paÍ€ da popularidade de Nietzsche e Heidegg€r na
38 39
relrenle cultura europeio-conúnental se pode atribub ÌarÌ_ I'llrìcÍ)ios e os &\iomâs fundamentais que definem a raciona-
[Êm aFavés de equivocos interpretativos nos quais nâo me lrrln(lc, os critérios de verdade, a ética e que tomam, em geÌal,
derenho - a estas inspiraçòes. A cnLìca da civilização cientr._
. lrrssíveÌ a experiência de uma deteminada humanidade histó
rco lecnt(a e o tnteresse pelo pensamenlo arcaico. que se en_ rrlrr, rìe uma cultum, não são objecto de saber racional, de de-
contra. de formas diversa;. em Nielzsche e em Hàidegger, rrrorrstração, já que deles depende qualquer possibilidade de
são-assumidos como ponto de paflida para lenlar uma reiupe_
,l(-rÌroostrar o que quer que seja. Uma expressão de tal posi-
ração do mirot aindd que nem \ierische nem. sobretuào,
HeideggeÌ Jusrifiquem uÍÍÌa taÌ emprcsa. tttrì, que se tomou muito popular no debate epistemológico
,los riltimos anos, pode consideru-se a teoda dos paradigmas
De resto. seria ditíciì indicar posiçòes filosóficas ou pro
,lr"l hornas Kuhn, pelo menos na sua formulação originária
grtuìas cultumi\ que r,xplicitanente \e prcponham um regÌes_ I I l) Mils
também a h€Ìmenêutica que se rcclaÍna de Heidegger
so ao \aDermittco: se se excìuir uma paÌre daquele movimenlo
que. em Ìtália e em França. aperece sob o nome de ,nova
I rìllìilils vezes considerada uma teoria deste tipo, ainda que
d.i_ lnìr hoâs úzões para acrcditar que, paÌa ela, as coisas se pas,
reiu , e que reloÍna a polémica anticapiÌaüsta do nazismo e do r rrrr rlc forma diferente. No relativismo cultural não só falta
ta-scismo mislurando a com lemas saídos do movimenÌo
de ,lrrrlluer ideia de uma racionalidade unívoca à luz da qual se
63. Mas o arcaísmo, como aliás as outras duas atitudes <<ideal
típicas> que agora descreverei , não dá lugaÌ a veÌdadeiÌas po_ I"ìri\iìrn consid€rur <míticas> certas formas de sabeÌl mas
r.,,rìlÌ:rìr. e sobretudo, a ideia de que os pÍimeiJos-
sições douffinais acabadas, pelas razôes "princípios
{uejá apontei: naice ,'lrrc os quais se constrói um universo cultuml específico não
como consequência da crise do historiciamó mêtafísico mas
rit0 r)bjecto de saber racional, demonstrativo, deixa aberta a
não propóe uma âllÊmaLiva. e assim esú destjnddo a conlinuar
\ r lìrìrr os considemr mais como objecto de um sabeÌ de tipo
t€oricamente mudo, ou, seja como for, não enunciado em te_
rrlrrr{)r também a racionalidade científica que constituiu du-
ses precisas. Quando não amadurcce em pÌogmmas
de res- r,rrrtc nruitos séculos um valor directivo para a cultura euÌopeia
taunção da cultura tradicionaÌ, e em consequèntes posições
polidcas ..de direira-. esre arcaismo pode Ìa;bem dar lugar.
r rìc tììcto, um mito, uma crença paÌtilhada em cuja base se
e ,rlrrlrla a organização desta cultura; e assim (como escrcve,
é o caso de muira da culrura liDeral europeia recenre.
a iuras (14) é também um mito, uma
alitudes de cn'lica l,i,r ( xcmplo, Odo MaÌquardt
"ulópica" da civiìi/ação (ien!,lico-lecnoló
grca e do capilllismo. Admile-le aqui que nào tem
, r, rrçir'guia não demonstrada nem demonstrável, a própria
senlido. e é t,| rr ilc que a história da razão ocidental é a história do afas,
a Ia\ potttÌcamente perigoìo e inilceiúvel. procuÍaÌ
restaurar a 1,1r r( rìlo do mito, d^ Entmythologisierung,
cuÌtÌÌra <<ÍadicionaÌ>; mas o saber mítico,ìão compÌometido
com o racionalismo do Oüiden!e capitalista, conúnuà a conráÍio do arcaísmo. o relativismo cultural não atribui
urn , Lrrr^oL lLrcr (rnítica) superioridade ao saber mítico relativamente
ponlo_de relerèrìcia. pelo menos negalivo, pirra recusar "era mo_
;

i,, r rcltífico ípico da modemidadej em geral, nega apeniìs que


dernidade e os seus eÌÌos_
lrlrr rrrna oposição entre estes dois tipos de saber, já que am-
A segunda atitude que, na nossacuÌtuÌa actual. condicionâ e
lr r, .r() lundados em pressupostos que têm o caÌácter de mito
quâlrficâ a pre\ença do miÌ,o. dando-lhe uma acrualidáde
espe. ,Ir crença nâo demonstrada, mas mais imedratamente vivi-
cífrcè, é o relatívísmo cultural. Segundo €sta posição, os
'l
r NrrD sempre estas crenças-base própÍias de qualquer uni-
40 41
verso Cullural sâo chamadas milos. como porem vimos
fazer a ',. occessariamente a certas <<histórias) basilaÌ€s, a certos
MarquâÌrìl: mas e um faclo quf. no relâiivismo. o interes:\e
Írtr)s Nrrquétipos, que a fomam não como pdncípios abstrac-
pero mtÌo erta vtvo como no arcai\mo: nào
poÍque se procure l,r,r, jogos de forças, etc., mas precisamente como histórios.
oescoDrtr. no mÌlo. um saber mai5 autèntico. mas pórque
o ,lrrr rrão se deixam referir, afinaÌ, a modelos estruturais de que
eçludo dos mitos de ouras civiìizaçòes nos pode;nsinar
o r' riiüir apenas símbolos, alegorias, ou aplicações (neste senti-
mÉtodo coÍrecto para conhecer tamMm a nos;a. já que
Ìam- ,lrr, creio, Hillmann fala também de polit€ísmo) (15); b) na
bém ela tem uma estrutura fundamentaknente mítióa.
ômo se t, ,'riit da historiografia, em que o modelo da narraúvidade é
vô bem pelo uso do termo no texto citado d" Uarq"arJ1
uq"ì , rlln vez mais relevante não apenas enquanto revela os
mito equivale a saber nào demonsnado. imediaumente uiviáo.
ts.e. poÍanto. assumjdo ainda muito condicionado pela
-
rrr,rh:los retóricos sobre os quais se constrói a historiografia,
pura e sirnples oposição às caÌacrerísticas próprias
sua rís sobretudo enquanto descohe, na pluralidade destes mo,
ào saúi l, los, a base para negar a unidade da história, e para reco-
cientfico-
rlr(10r a sua i!ÌeduÍvel pluralidade a qual, na medida em
Por outlo lado, na terceiÌa das atitudes, da qual me parece
_ ,1rrl. rrìo reflecte já uma realidade-noma, se distingue cada vez
depender.hoje a consideração do mito, aqueÌa á que
clámaria rrrrrrs r lificilmente dos mitos; c) na sociologia dos flÌass medial
irracíonalkmo mitigado oü teona da ruciowlídlJdr límita(b,;
r' lu i, ü aplicação originária da noçâo de mito aos movim€ntos
milo é entendido num significâdo um tanro majs específico,
,l,r,r rr[ssas (revolucionfuias) proposta por Sorel foi substituí
que al ids se Iiga.ao^senrìdo erimológico
originrírio da palavra. ,|r {rrruito significativamente, cÌeio) pela análise em termos de
rvrto \rgntttca. de lacto. como se sâb€. nilnaçâo. Neìla forma
rrtologia dos conteúdos e das imagens distribuídas poÌ cin€
ele opõe-se. ou distingue se do saber cienúlico nào por
umir r,r, t(ìlcvisão, literatura e artes viírias de consumo.
simples inversão das características deste úÌtimo _ a de_ lÌxlcrn qualificar se estes dive$os modos de pensaÍ no mi-
monstratividade, a objectividade, €tc. _ mas poÌ um seu as- r,' r'rìì termos de aplicabilidade a vários campos da experiên-
pecto específico positivo: a estrutura narraiiva. podemos
, rrr, t orro irracionalismo mitigado ou teorias da racionalidade
efectivamente chamar leoria da racionalidad€ fimitaaa
àlueìc lfiìrlir(la na medida em que têm €m comum um pressuposto
conjunto de atitudes culturais que consideram o saU". mi'["à,
,lr( , iìliás, remonta a Platão (16),5sgu14q s qual certos cam-
na sua qualidade essencialmente narativa, corno uma
forma u', rlrt expeúência não se deixam compreendú mediante a ra-
de pensamento mais adequada a certos âmbitos da er,pe.iãn-
;iro (lcÌììonstrativa, ou o método científico, e exigem, pelo
cra. sem contestar. ou sem pôr expliciramente em queìtâo.
it ,,rrr Írio, um tipo de sabeÌ que não pode qualificar-se s€não
saber cienrfico-posirìvo para ouuos campos dir
""1id19" 9"
expenëncja.
, rÌìítico
''{ x)ììrìro
disse no início, julgo que estas várias atitudes (que
.Podemos enconuar exemplos de\ta posiçâo enì pelo menos rr't,ì rìspiram apenas determinadas posições rclativâmente ao
ÌÌes campos: â) na p\icânálise, na qual a vida inÌerior lende
il rrrrì, ìÌrts que encontÌam nele um dos seus cotteúdos mâis
ier constderadâ. tanto no seu funcionamento normal como nil
, rrrrr'tcr'ísticos) nascem todas, mais ou menos directamente, da
situação terapêutica, como esbìrtula de naÌrações; ou mesmo,
lr',,,'lução das filosofias metafísicas da história, sem porém
çomo aconiece na psicanálise de origem junguiana, referindo
',rr,,rrrrrir'(ou digeriÌ) esta dissolução suficientem€nt€; e que
42 43
por lsso mesmo apresentam equívocos e conffadiçõ€s
que as .rl,rlirlude de isolar os mundos çulturais um do outro
tomam teoricamente insatisfatórias. O ar.caÍJru pu.u e I1ão
pelo primeiro, não só não se coloca o probtemà
,'., rrrro em a), pelo nosso universo, de nós antropólogos e-
da "oi,"çui
nisrórìa. ,,rll{liosos do mito, que consftuímos a teoria. O problema que
como não consegle dar lÌrgar â uma poiiçào praticável
relaLi rìLlltirs vezes se coloca aos antropólogos que habalham <<na
vamente ao mundo modemo, que nâo seja, o que
llvo, a proporÌa da reslauração da cultuia
é significa_ ,ìr, tì" - o da rclação enffe eles, expoentes de uma cultura
"Lradicionít". por.
porre da direita. O radicionalismo da direira
l,,rtc, rnuitas v€zes coÌonialista, e os seus informadores indí-
I ' rrs
que represenia u é apelìas um aspecto do probìeÍna hemenêutico ÍÌrais
única saída poÌítica visível, do aÌcaísmo, é .i!rit"ãii*
pã._ \,r,t,r que o relativismo cultuÌal não se coloça. O estudo das
que revela, quarÌdo le\ ado ao exuemo. a \ua debjlidade
t;óÍi. ',llr,rs) cuÌturas âcontecejá sempre num contexto que toÌna
ca que constste em tràn\forma_r simplesmente o
milo do pro. r rl!ìssível, e aÌtificialmente falsa, a pÌetensão de as represen-
gÌe\so num mito das origens. as q uais. apenas enqutnto
senam mats autentrcamente humanas e dignas de
ul, 1 ü ( r)rÌìo objectos sepaÊdos; eÌas são, pelo conÍário, int€rlo-
constituir ou t Il( ìrirs de um diálogo que, no entanto, uma vez reconhecido,
o Iirn de uma re!oluçâo potrlica ou, p"fo-rnano., po"ìã
reterèncid pa_ra urÌÌa cnÌjca da modemidade.
o ã. ','li'( ir o problema do hodzonle comum em que de facto
r ,,rrtccc, tornando inútiÌ a s€paÌagão pressuposta pelo relati-
Idealizarcomo condìção perfeita o tempo das origens
é tão \ r'.llÍ,. Este hodzont€ comum é o problema da filosofia da
vago como idealizar o luluno como tal (como lez
e fàz ainda o l,r .1, n irì, que não s€ pode liquidar facilmente. Por fim, a teoria
Ideal secularizado do progÌesso. do desenvolvimenÌo.
etc..t. F
não sdr, reìacronamo.nos com as origens medianÌe 'Ìr rl( ior)alidade limitada isto é, a ideia difundida em várias
que delas surge. e chega ale nós: o arctusmo
o pro(es\(, l,,rr rrs segundo as quars o- mito enquaÌlto saber narrativo seia
pretende sim , I lrlx) de pensamento adequado a certos campos da expe-
plesmenre pôr de paÌ.re o problema constiruíd";";
so. e antes de Ìnais o seguinte: se e das oripéns
;ì;;"", , r, llr'rir (a cultunt de massa, a vida intedor, â historiogafia)
cue chec" r rlì(.rn ela deixa de parte o probÌema de definir a própria si
precrsamentc a condiçào de mal eslar. alienação.
.ri.. .rn qi,. rL r\rìr) histórica: não tem consciência de se fundaÌ numa úcita
nos encoflÍamos, então por que remontíLr a €las?
São probìe- ,, , rlir{rio da distinção enfte nqtur e Geisteswissenschaften;
mas deste tipo, problemas de filosofìa da h;srOria, quie
ã-ai ,1r t rçiio que se toÍnou cada vez mais problemática e duvidosa
caísmo põ€ de part€ sem os ter sufiçient€mente
d'ebatido, r rrrr',lirh que abria caminho a consciência de que tamMm a
na verdade, eles nâo se tornamm de
_quando, -oao uigìuì
deractuais pelo [acro dc rer pa.sado o rempo das meralísicJs
ri ll( irì cxacta é uma empresa social: portanto, que os métodos

evotuctonisÌas da hisrdriâ ',1 t,1


livantes das ciências da natureza são um momento no in,
r, | l,,r ( lo um contexto que, como tal, entaÌia de pleno diÌeito
O mesmo çe pode di,,er do relâtivismo cultur.al. Aliás.
_ arrur ,r,, r nìrpo das ciências hisrórico-sociais.
e ainda mais er idente que o problemà da hillorici,lâde
nem colo(ado nem resolvido. nìâs foi rjmplesmente
;;;ìi; I rrr vírios graus e formas diveÌsas que decerio poderiam
do": o reladvi^\mo cuhural nâo presta grrnd.
- ignorit , rris lrn'ìplament€ investigadas -as üês aútudes coÍentes
ro contexlo ele(lvO em que a tese da pluralidade"rençao
*ï-, ,,, ,, Ilrrrra actual a propósito do mito põem de paÌte com de-
iÍredultvcl r',r;r(lrì prcssa o pÌobl ema da própria contexrualização histó-
ooì rnundos cullurais é enuncjadal nem: b) à efectiva impo. ',,
,' r rtrr dizem orde eÌas mesmas, como posições teóricas, se
44 45
situam. O aÌcaísmo pretende voltar às oÌigens e ao saber níti- Lirr|il?, não equivale decerto ao sonhar puro e sìmples. Ìsso
co sem se perguntar o qu€ é o peÌíodo <inteÌmédio) que nos rlrl s{ com a d€smitificação: se quis€rmos ser fiéis à nossa ex-
separa daquele momento iniciaÌ; o relativismo cultural-fala de
univenos cuÌturais separados e autónomos, mas não diz a lÍ riirnciiÌ histórica, teremos de teÌ em conta que, uma vez Ìe
\ rl]r(lil iÌ desmitificação como um mito, a nossa Ìelação com o
qual destes universos peÌlence a própria teoria relativista; a rÍt(, rÌão emeÌge ingénua, mas fica marcada por esta expe-
racionaÌidade limitada nâo tem uma teoria explícita acerca da
r llrr in. Uma teoda da presença do mito na cultura de hoje de
possibilidade de distinguir verdadeiÌamente entÌe campos re v, vtÌltâr a paÍiÌ deste ponto. A paìavra de Nietzsche em À
seraados ao saber mítico e campos em qúe vale a racionalida, I itÌìt Ciêncía não é apenas um palradoxo filosófico, é a ex-
de científica. A todos estes prcblemas, a metafísica da históda
de tipo idealista ou positivista dava uma r€spostâ, concebendo
|rcssiìo de um destino da nossa cultun: este destino pode
lrrrrrlxim indicar-se com ouho termo, Ju cil/dri?açíZd. Nesta pa-
a história como um único processo de Áal<7ri rung e de eman_
lrrvrr cxprinrem-se os dois elementos indicados pela divisa de
cipação da razão, O processo de emancipação da razão, po-
\ t;úid Ciê cía: saber que se sonha e continuaÌ a sonhaÌ. A
rem. foi aJém daquilo que idealirmo e posirivismo esperavanÌ: r |rrlrrização do espíÌito eurcpeu da idade moderna não é
variados povos e culÌuros tomara- a pãlaum nu aan^ do
-ru-
do. e lornoll-se impossível acÌeditaÍ que a hi\tdÍia seja unl
rtx rìrs a descoberta e a desmitificação dos erros da religião,
ru! tunìMm a sobrevivência, em formas diversas e. num cer-
proceìso unr&ino. com urnà lìnha conlinuà rumo a um plo\.
r,, ',rrì1ido, degradadas, daqu€les <eros>. Uma cultura secu-
realização da univeÌsaÌidade da história tornou impossível ^I
I'rrrrrrtllì não é uma cultua que tenha simplesmente atirado pa-
históÍia universaÌ. Com isso, também a ideia de que o curso r,r ìrrs das costas os conleúdos Íeligiosos da tÍadição, mas que
hislórico pudesse pen sar-se como AuÍkldrurg, libeÍação dt , ,,rtirì uà a vivêJos como vestígios, modeÌos ocultos e detuÌ,
razão das sombras do sab€r mítico, perdeu a sua legitimidade.
1r,r,lrs, rnas profundamente pr€S€ntes.
A desmitihcação foi reconhec ida eÌa própria como um mito (17) lìrro coisas cÌue em Max Weber se ligam claranìeììte: o capi-
Mas a descobeÌ'ta do çaÌácter mítico da desmitificação legi rlr',rìl(ì ìììoderno não nasce como abandono da Íadição cristã
tima verdadeiramente as atitudes em rclação ao mito qúe aciÃu , rlrcvll, mas como sua aplicação <<fansfomadâ>. O mesmo
descrcvemos? , rlrrlo tem a investigação de Loewith sobre o historicismo
DesmiÌificar a dermitilicaçâo nào significa íeltauraÍ os dr rlrl( r rìo: tamÉm aqui, as várias metafísicas da história até
r(;lo\ do mito: peìo menos porque enne os mitos a que devc ll, I i.l, Marx, Comre nâo são mais do que (interpÌerações> da
mos reconhecer legitimidade existe também o da razão e do , cla história hebraico,cristâ, pensadas fora do quadÌo
',1,,11iir
seu progresso. A desmitificação, ou a ideia da históÌia conÌ) ,,,,r1]ico original. Não tanto em Loewitlì, mas decerto em
processo de emancìpação da razão, nâo é algo que se possiì \\ Ì lr'r. ou mesmo na oposição comunidade-sociedade de
exorcìzar tão facilmente. Nietzsche mostraÌajá que quanào se l,,llflcs, o pÍocesso através do qual a modernidade (como
descobre que tanbém o valor da verdade é uma õrença basea , rt,rtirlismo industriaÌ em \ryeb€Ì, como sociedadejá não ba-
da enr exigências vitais, portanto um <erro>, não se rèstaurarrr , r,lir rnì Laços orgânicos em Tônnies) se sepam das suas ma-
simplesmente os erros prccedentes: continuaÌ a sonhar saberr Ir, r' ( ligiosas origìnais surge como uma amálgama insepa-
do que se sonha, como diz a passagem já citada de ,4 Gílr/
' ' Ll( !onquisld e perda: a modemizaçio náo aconle(e atra-
46
do abaldgng
lé-Ì 9a qadiçào. mas arravés de uma espécje de
rnlerpreÌação irónica
,',rìr:rrìricismo dos seculos passados
nos ensinaram. Mas o
desta. uma .dislorçâo' (Heidegger fala.
t( ido de\ta no\t{lgia só se manifesta
num sentido não muito distante, de Verwintlun{ iú, que .rr'Irr com a e\periència
coÌseNa mns lâmbém,em pane. a esvazia. penú que
a 'l,r ,ft.smirificação levada aré ao fim. euardo tamHm a desmi
a i"tes
etemenúos d! conceito_de seculaÌizâçâo se poçsamjunuÌ 'llrr lr\ror. revelada como mito. o mito recupera legirìmidade,
lanto rL'\,\Ò no^quaúo de uma grral experiéncia -enfraqìrecida-
as te\e^s de Norbefl Elias sobre a hisrória da civili)ação da
euro_ \' r,rirdr. A presença do milo na nosra cullura
çrìa í19). corno as de Cirard sobre o sagÌado como violència e actual não ex_
lrrrnrc um movimento de altemativa ou de oposiçao a moaei_
sobre,o crislianismo como proceslo de desjacrajizaçào t20,. rrrrrção; é, pelo contrário, um resultado
tm ttras. o modemo pÍocesso de civilizaçâo desenvolve.se óonràqu"nt", u_
quando o poder e o exercício da foÌTa se con(enDam
l. rt de-chegada. pelo menos âté âgom. O mome'nro da des_
no sobe_ ,rl,rlrcrção da desmitificaçáo. aliás. pode
mno.,no.estado absolulo e depois constiÌucional. considerar_se o ver_
Em corres_ 'r,r'r,.llo momento de passagem do modemo ao pós_modemo.
ponoencta. a psrcoìogia colectiva solìe uma transformaçâo r .r:r l,jtssagem encontra_se em NieÌzsche. na ìua lorma
Ía.
drcal: os indìviduos jnteriorizam. em todas as classes filo-
sàciais, ."1Ì.^plftiJ" Depois deìe. depois du à...ìii"áção
as -bo^as maneiÍa\-. dos conesàos que pela primeira
vez ti lll.lf a expenencra
i,r'rril. da verdadejá nâo pode simplesmenrier
nham leito a experiência da renúncia à força , r'r',rna de anÌes: já nào há
à favor do ,obe evidènciâ apodícúia, aquela em
rano; as paixões já não são fortes e abertas como it,i
nas épocas p(nsadores dâ ipoca da memfíiica procL,raiam
passadas, a existência perde em vivacidade
e .u. fuìü ,i'\
rt,",r,nurnrun
urn
ahsolutum et incúnsussum. Oìujeito pós.mo.
em seguftlJrça e formalizaçào. Tambem aqui. "o, o progrei.o ." rr,J. se olÌra p?.ra dentro de si à procura
acompanha de uma menor jntensidade da expeiiêniia, de ,#u aari.ru pri
umr "'
, r. ,rir. nâo enconra a segurança
espécie de esvaziamenro ou de diluição. do aogio canesiano, mai a,
euanro a Girard, o rll r Illtenctas do coração pÍoustjano. os relatos dos apdia,
seu drscurso diz respejro à civilizaçào humana as
em geral: cuj0 ,arr,/,,{/r./.r evlclencradâs pela psicanáljse.
camtnho. setundo ele, vai do nascimento do,ugruão _ I ( \ta experiència. modemâ ou antes pós_moderna. que o
qú.
exoÌciza a violência d€ todos conffa todos concentrando_a rr'11r'csso> do mito na nossa
nlr çultura e na nossa linguagem
vítima do sacrifício, mas deixando a sobreuiver como
úuscj l,Ì,r' urâ.apreend€q e não d€cefio um renascimenb ão irito
das instiruiçôes aré à sua desmirificação por pafle
- do Vellx, , , rr u r satrer não inquinado
r
pela modernização e pela racionali_
I e5tamenÌo e de Jesus: este úlrimo mo:Lra ,\,r,'. 56 nesre senrjdo. o
que o sagrado e x
do milo": quando e na
violência, e abre caminho a uma nova históìa h".;;; q;", ," ' lr,lir em que re dá. parece"regÌes\o
aponlar para uma superação en.
embora conrra a teminologia e os propósiros de Cirard, r,. rir, ruiìâlismo e ifracionaliJmo: uma
ürìì superaçâo que ieabre,
podemos chamar sec ularizada
A clrllura modema europeia e5ú a\5im ligada ao proprj,, l,,,rrr. o problema de uma renovada coniide,ãçao fitosOnca
_ , r Iislúia.
,a],t'oro não.só por uma relâçâo de superaçaro .
flr.uo.o
emarìülpaçao. mas tamtìem. inseparavelmente. por umarel;r
çao de \on\er1',ação-distorçio-esvaziamenÌo: o progÍe\$ tctìr
uma espécie de natureza nostálgica, como o cússicismo
c ,,
48
49
A arte da oscilaçáo
( lnììo aconteceu em toda a idade moderna (21), é provável
rp( tlmbém hoje os aspectos saliçntes da existência, ou até,
lli[rr üsar temos heideggerianos, o <sentido do seD caracte-
rtrtrert rla nossa época. se anunciem de forÍna paíicularmente
, vrrlcIte. e anrecipadora na experiència estélica. E. pois. ne-
,,.rsír'io olhar para el& com especial atençâo se quisermos
r uìuprcender não só o que pertence à aÌte, mas mais em geÍal
ll (lllo pertence ao ser, na existência tardomoderna.
()
l)roblema da ane numa socìedade de comunicaçào gene-
l]llizüda foi enfrentado de forma deteÌminante, e ainda hoje
l
rrr trrrrl, pelo ensaio de alter Benjamin sobre A Obru de Arte
.t tiloca da sua Reprodutíbitídale Técníca, de 1936 (22); um
r',ü ilo â qu€ é pÌeçiso ÌegrcssaÍ continuamente, porque (pelo
rìrrr(,s, paÌ€ce-m€) nunca foi efeçtivamente assirnilado e <di-
F,rirkr>, por assim dizer, pela investigação estética posterior.
I rrr gcral, ele foi entendido como puÌo € simples r€conheci-
rrrr'rrto socioÌógico das novas condições em que actua a arte
r rÍrtcrì)porân€a, utilizando-o, quer como instrumento d€ polé-
lrlL n rontra o m€rcado da arte, quer como base teódca paÌa a
rrllcxío $obre todos os fenómenos artísticos que se situam
tl,rn (hs instituições tradicionais da arte (fora do teatro, como
I h l,lìt'níngt loft do museu e da galeria, como várias formas
5l
de aÌte comportamental, land art, etc,); otr então, acabou por I rllrça (com um certo affaso Íelativamente a ouÍos âmbitos
ser liquidado como expÌessão de uma ilusão, a de que a re-
' Ilrrrriris, como a Itália), da €stética d€ Adomo e também do
produtibilidade técnica pudess€ reprcsentar ]uma chance posi- l'flrslrììento de Ernst Bloch.
tiva para a rcnovação da aÍe, quando na realidade, como afir- { premissas para iniciar
',rìludo. em Benjarnin erisrem as
mou Adomo que viveu na América a experiência da civiliza- Lrrir reflexão sobre o novo l,Fe.ren da afte na sociedade taÌdo
ção massificada, esta está bem longe de r€alizd as condições ÍrillstriaÌ, superando precisamente a definição metafísica Ía-
da utopia de Benjamin, e representa, pelo contrário, o ,lr{ ()nal da aÍÊ como lugar da conciliação, da çoÍespondência
esmagamento total de qualquer arte na manipulâção do con, ' rll.(] ìnterior € €xteÌior. da catarse.
senso pol parte dos mdJJ,"aedia. Estas várias leituras do en- listas pÌemissas podem ser adequadamente desenvolvidas
saio de Benjamin parecem, poÉm, laÌgamente insuficientes. 1l1lrlindo de uma analogia à pdmeira vista paÌadoxal, para a
AquiÌo em que ó preciso voltar a reflectir é a intuição central rlrrrrl, que eu saiba, não se chamou ainda a atenção. No mes-
de tal ensaio, isto é, a ideia de que as novas condições da rrr,r uno de 1936, em que era escrito o entaio de Beniamin,
produção e da fixição artística que surgem na sociedade dos r/rsciir também outro escrito deteÌminante paÌa a estética con-
mass mediq lnodifrcam de maneira substancial a essência, o tlrrrlxrrânea, a saber, o ensaio de Heldegget sotlire A Orígem
Wesen da, aÍte (um teÌmo que aqui usaremos no sentido de (23). É o escrito
Heidegger: não a naturcza eterna da aÍte, mas o modo d€ ddr-
'h t )l,ru de Arte alora contido em Holzwege
i rrr rluc Heidegger elabora a sua noção central de obÍa de aÌte
-re na época acruaÌ). Relativanente a esta alteÌação de essên" I |rx) <lealização da verdade>, que se pÌocessâ no conflito
cia, nem Adomo, com a sua cílica radical da reprodutibilida- , rl(. os dois aspectos constitutivos da obm: a exposição do
de, nem as interpretações sociologizantes (que vão aré à espe- rrrrrrrrlo e a produção da tena. Oú, a obra assim çoncebida
rança de uma reconciljação estética da existência, como enì , \r'rrc sobre o observador um efeito que Heidegger define
Marcuse) disseram realmento nada de novo, e adequado Às llìtìt o termo slos,r choque, literalmente. No €nsaio de
pÌemissas colocadas por Benjamin. Quando Adorno nega quc -
llì llirìnlin encontramos com base em promissas completa-
a arte possa realrnente (ou deva) perder a arlr.a que a isola d0 -
n, rìlc diversas e, aparentemente, também com significado di-
quotidianidade, defende ceÌtanente o poder cítico da obra ent lrcntc uma teoria que atÌibui à aÌte mais caracteísúca da
relação à realidade existente; mas adopta também, e mantém, fl r,lxr( n da reprodutibilidade técnica o cinema um efeito
concepção da aÍe como lugaÌ de conciliação e de perfeiçâo - -
,| liri(lo precisamente em termos de s,i?oct. A tes€ que pre
que se exprime em toda a tradição metafísica ocidental, dcl tlrrrlrr pr-opor é: desenvolvendo a analogia entre o Sloss de
AÌistóteles a Hegel. Que a conciliação seja utópica, e esteja no ll rrlcgger e o sàock de Benjamin é possíveÌ alcançar os as-
domínio da aparência, como AdoÌno sublinha retomando jx r'trls essenciais da nova (essência> da afie na sociedade tar-
oportunamente Kant conJra Hegel, não significa porém unllt rl,r irxlLlsfiaÌ, aspectos que a reflexáo estética contempoÍân€a
verdadeira alteração de essência, mas apenas a sua colocação rrrr.rrrltr r rnais aguda e radical em primeiro ÌugaÌ, €nÍe to,
num futuro indefinido, que lhes conseÍva o papel de ideal rc. ,1,r, -
deixou €scapar.
guladoÍ. E este um ponto sobre o qual é preciso rcfleclir, ^(lomo
rolrodutibilidade técnica paÌece actuaÌ em sentido precj-
também perante as recentes recuperações, sobretudo etìt ^ lltc oposto ao .rÀdc,t: d€ facto, na época da reprodutibili-
r,Ír(
52 53
irllrÌs interpretações, à Wírkungsgeschichte Elobal, ou <his-
dade, quer a grand€ obra de aÌte do passado, quer os novos (2).
produtos qu€ nascem jâpata os media rcprodutíveis, como o ti,rirt tlos efeitos', da obra
Mns o ptoblema da relâção entre valor cultural ou <au-
cinema precisamentg, tendem a ffansformar-se em objectos de
rítirc>. n; sentido de Benjamin
-
e o valor expositívo da
rÍÌfl de aÍe só pode seÌ rcalmente- resolvido se se seguirem
consumo coÌrent€, e poÌtanto cada vez menos rclevantes num
fundo de çomunicaçâo intensificada: aparte este efeito de em-
botamento, que se pode identificaÌ como o <<consumiÌ-se> dos lltÍ o fim as implicações da teoÌiâ do J,oc,t. Até se pensar
símbolos muito rapidamente transmitidos e multiplicados, ,trrr a fruição da òbra àe alte é caÌacterizada como aÌcance da
r tcicao àa forma e como salisfação vivida
poÍ esla perfei-
tamMm sob ouho aspecto os meios técnicos da reprodutibiü- ',,
dade tendem a nivelaÌ as obms, porque, por mais aperfeiçoa- ç,r,,, sËrá impossível aceilaÍ que. como foidilo, o valor de uso
das que sejam, acabam por acentuaÍ e isolaÌ nas obras um u, ,iissolua no ualor de [oc&, ou que o valor cìlltuÌal da obra
conjunto de características que são as mais <(p€rcepíveís> pelo , niu a favor do seu valor expositivo.
próprio meio, ou de alguma forma restringe a obm aos limites No ensaio de Benjamin, o efeito de sltoct é caÍacterístico
ligados às condições do meio: Adomo insistiu, por exemplo, ,l,r rrÌema. ou" nari" uap*ro foi antecipado pelas poéúcas
na deformação dos tempos musicais que se produz para res- ,l,nluístasr a obra de arte àadar'sta é de faclo concebida como
tringft as gÌavações aos limites de um disco. r'rr nroiéctil lancado conua o especLadoÍ. contra quaJquer se-
NatuÌalmente, este conflito entre um <ser em sin da obra e ,,,,i,'.ã. .*p".uì iuu de sentido. úábirc perceptivo ocinemaé
uma sua adaptação às exigências do meio de reprodução só se i.'r,,, iambém ele. de projécleis. de projeççõe\: logo que uma
'

alcança atvés do ponto de vista que é o de Adomo que ,"ur,:cm é formada. iá é subsdruída por outra' à qual o olho e a
- -
distingue ainda entre um ideal <<valor de uso> da obra e o seu ,,u do espectador se devem readaptaJ. Numa nora' Benja-
'ìt"
rrrrrr compara expliciamenle as pÍestações peÌceptjvals exiSìdas
alienado e desusado vaÌor (de troca> (ligado às condições do
rr,' ('\neciador do 1ìlme com aquelas que sào necessárias
a um
mercado, às modas, etc.). Benjamin, pelo contrário, como é
sabido, no ensaio de 1936 saudara como uma novidade deçi- , rr,' rou- nodemos acreìcenur, a um aulomobilisÌa) que se

siva e positiva o facto da rcprodutibilidade técnica fazer desa- i'u*c no meio de Lrdfego de uma grande cidade modema 'O
palecer completalnente o valor (cultural> da obÌa a favor do I t|(Ìììa escreve Benjamin é a foma de arte que corres_
- -
maior de perder a vida, pedgo-s que
seu valor <.expositivo>; o que equivalia a dizeÌ qüe a obra não I'r,lìrt() ao perigo cada vez (25) p'-
tem um (valor de uso) que se distinga do seu valor de troca; .unt.-poràn"o, ,ão obrigado: a leÍ em c6n6 "
",
ou que, em suma, todo o seu significado estético se identífic0 aqui. numa forma curiosamente desmilificada
'., " "nrenáer-se
r rr:rluzida a dimensões de vida quotidiana o tráfego e os
com a história da sua l?ir,tang, do seu sucesso, recepção, in"
,,r'rrs |iscos aquilo que Heidegger
-
t€oriza no seu ensaio so-
terpretaçã0, na cultura € na sociedade (isto, diga-se de passa'
gem, não é o mesmo que assumir uma posição de puro e sinì-
-
ltt rL Oripem da Obra de Árlc cóm a noção de Srosr' Também
,,.,r.r Ileiáeseer. num sentido di[erente mas tÍIlvez profunda-
ples niilismo hermenêutico, expresso por Valéry: <Mes ve[l'
ont le sens qu' on leuÌ prête>; as interyretações singuÌares não i''.''r" ptó*ìíro do de Benjamim. a experiência.do.rliort da
se realizam no vazio, ligam-se com uma relação que é históÍi' ,rrtc tem a ver com a morte; não tanto ou não principalmente
, iìr!Ì o risço de ser aÍopelado por um autoc'uro
na rua' mas
co-factual mas t€m também um alcance normativo, a todas 0s

54 55
com.a mone como possibilidâde
constjtutjva da exisréncia. rrr cslado
Aqurlo que. na experiéncia da ,rt". , de suspensão a evidência do mundo, suscitar rrm
o Sror.. p*u H.ì-
obra"rrr,
dcAger,.é mais o próprio lacto da , 'Ì'rrrrto preocupado pelo facto, em si insignificante (em senti-
ser mais Oo qrle nao *.r'
llõ). O laclo de,e\istir. '1,' r iloroso. que nio remfte paÍa nada. ou qÌle remeÍe
o Ddl. como recordam os leiÌores paÍa o
Jer e ú l-cntfo tzt t. está tamMtn na de () rrr, Lt ). ilo mundo existir_
base da er.periència exis
noção de 5lorr tem reâtmente a veÍ. parâ
lencjai_ dr angústia. No pttrágÌafo
40 de O Scr p n T"_.^
angusra é d€scrila como o esrado emorivo "
.,..^:,',..qT
r'rì ,la ry."tg
proxrmtctade ïgterm;noldljcâ. com o Jloc,( de que Ìala
c. o nomem) vive quando e colocado perante
q* *i;; ii;,; 'r,
rrllltiIrìIì em relaçào aos nerlia da reproduribilidade?
" o facto nu de se, , ' r jìjrrece ttgar O 5Í,,rr da obra de ane ao lacto
Heidee

lïI"9i T:llo::-!nquanro que a\ coiras


uma. vez que \e inserem nu-a
.i;s;;;;;;;J: desta ser uria
'\,( r(lxde posta em acção>, isto é, uma nova abeÍura ontoló_
::'-,^"1.-,T.""9"
!v,,\Jpurucncta\, oe sttnrftcações (cada ,ède d. lÌr(!ì cpocal; neste sentido, de S/o,Í., só se deveria falar em re,
coisa é remerjda p r, rr rr. ia a grandes obras
que se apresenÌjÌm como decisiva) na
oütra\. como efeito. como causa. eomo r

rnsuumenÌo, conÌ, iìr\r,rr ril de uma cuìlura ou pelo


como rat. no seu conjunto, nâo Ìerìr menos nâ experiència vi\ ida
ìïl-jl",].. ".*"Í9
(o-rr crponoenc tas.
e in.ignificanre: a angúsúirepirra.rra
't' |,r,ta um: a Bíblia. os lrdgicoì ËreÊos, Drnte. Shale\neâ
i,r. t. . tt \hock de.Benjamin parece. pejo connário, alpó de
ll.gl]ll!11:'".a errrriridade lorat do tacró do .*irt,.. ,.,rt,) rtats simpìe\ e familiar. r.omo a rápida
da angúçÌia é uma erperiência -unao
À
sucessão de
:T:r'encla d...;";;;;;;r;-
(1" Un-hci.nli(hte .de IJn zu-Haute-seinl r28t -11 I Lrt(0\ na projecção do cinema que exige ao especlador uma
l.^Ì11: I'r, \r,rçilo análoËa à que se erige a urn condutoique .e
::i:gj:.:?:^1,:-d: *e com esrâ eÀperièn(.ia
ae angúsria i moue
'r" rr.rlrgo da crdâde. Conludo. or dois conceitoi, o de Hei_
r^u rp-rccìstvel ìe pensarmos que a obra
de arte nâo sle dei\r 'L r','L.r e o de Benjamin, Ìérn pelo meno5 um arpecÌo en)
repoflar a uma ordem de significados preesÍabelecidâ co_
menos no senrido em qur aào e dell
net,, 'I'Ill.ì.r tnsisténcia sobre o desenriÌizamenro. Num caro
e
sequencla togica: e também no
deduzivel .;;; ;; ã;. ' r rrr,
',
ü erperiéncia estética !urge como umd experiincia de
sentido em que náo se jtìserc
\lmplesmente no interior do mundo ' ,rriIrtmtnenlo. que e\ige um nabalho de rer.ornposiçào
e de
como é. au. praia,,.i"
l1Tï ,.,
1,191.:! o descreve.
(urru netoegger lova
tuz. o enconrro com a obra de ârk., ';
,L :llltllçdo;.E-rrejra?atho.
poÍém. nào aponra para o átcançar
conorçao ttnal de recompo\içàol a e\perjéncia
é como o cnconuo com uÌnl .rniì esedir.
t{ r" '_"nlÉno. vra se para a manulençáo do desenraizamcnto.
tem uma visào propria do mundo corn
ï:r:n,qr.
no55a deva_coníronar se interpretarìvamente.
o quof ii l',,rr.lìcnjümin, dado o exemplo do cinema que
ele escolhe, e
Íre\Ìe sentrdo que se deve enlender
E artes de mair ," ,l, rrrasiado evidente que nào podentos petjsâr que
a e\pe_
a rese ae Ueiaeggei* rr. ,,r rlo.liìme re electud qlando \e reduz
grndo o qual a ob'a de ane , | .Iir n(loegger, a expenencÌa d ìltn quadro para
Ju da um mundo, dadô ìLre ." ',,'
apÍesenlâ como urna nova -abenurt- do desenraizamento da afle
t i.ror;.u .".nrìàiaì fdmitiaridade do objecro de uso. no quat a
ser. Embora o.S.íor.t paleça descrilo
com termos , llllltg:. ì. d€ i
vos- que a angÚstia de O Ser e o [enpo-que tnâis posili
. r 'rrr.rtrcrdade do Da,4 {do qué} ..re dissolve nâ usabilidadc-.
r":p_T \eÍ,coÍn S,timnu
rem por seu lit. '," \( pode supor que Heidegger pelse numa ..conclusào-
::" o seu ^l
rr(,. Ec4 como o medo. a áDsirr, ' .' , \ l)rnen(ia do desetu aizamenlo eslilico numa recuper.açáo
\rgntltcado e. e\5encialmenÌ(. o mesmo:
colocl|| lr li niliãÌidade e da evidência, como se o destino da;br;de
56
5'l
arte fosse Íansformar,se, afinal, num simpÌes objecto de uso. ,,1ìrir de aÌre, isro é, a exposição (Auf-stellu g) do mundo e
O estado do desenraizamento tanto paÌa Heidegger como yrt lução Qler-stellulg) da <terra>. O mundo exposto pela
para Benjamin -
é constitutivo e não provisório. E isto é ,lrrrr é o sistema de significados que ela inaugura; a terra
-
prccisamente aquilo que constihri o elemcnto mais radical- t,r,rtluzida peÌa obra quando é apresentada, moitrada como o
é

mente novo nestas posições estéticas reìativamente à aeflexão lrrr obscuro, nunca totalmente consumável em enunciados
tradicional sobre o belo e tamHm da sobrevivência desta ' .tìlícitos, sobre a qual o mundo da obm s€ radica. Se, como
tradição nas teoÌias estéticas do nosso século. Desde a doutri- , v irr, o desenraizamento é o elemellto essencial e não pÌovi_
na de Aristóteles da catarse ao livre exercício das faculdades u,rro ila experiência estética, deste desenEizamento é réspon_
de Kant, ao belo como perfeita correspondência enfe interior ,r!( l nìuito mais a t€ÌÌa do que o mundo; só porque o mun<ìo
e çxtedoÌ em Hegel, a experiência estética parece ter sido ,Ì, rilnificados alargado à obra surge como obscuramente ra_
sempÌe descúta em termos de Geboryenheit de s€gurança, ,lr, r(lo (portanto, logicamente, não <fundado>) na teÌra, a
de <enÌaizamento) ou ceemaizamento>. ,í,rir produz um efeito de des€uaizamento: a telÌa não é o
Pode indicar se o elemento novo da posição de Heidegger c rrrrrrrrkr, não é sistema de relaçõ€s significativas, ó o outro, o
de Benjamin, aquele através do qual eles se sepamm de toda { rì,r,|r, ir geral gratuitidade e insignifiçância. A obra só é fun_
conc€pção da exp€riência estéúca em termos de Geborgenheit , ,lr!rto cnquanto produz um conínuo efeito de desenraizamen,
mediante a noção de oscilação. Isso exige uma hansferêncilt , rrrrnca recomponível nrlna Gehorgenheit final. A obra de
de acento no modo usual de interpretar o sentido da estética dc r, rrrrnca é tranquilizante, <<beÌa)> no sentido da perfeita con
Heidegger: esta resulta, de facto, numa doutrina cheia de ôn ' rlnçrìo de interior e ext€rior, essência e existênciã. etc. Talvez
fase romântica se insistirmos demasiado na função de <fun í,,1jr ti:Ìr algo da catarse de AdstóteÌes, mas só se a catarse for
dação> que a obrâ d€ aÌte exerce relativarnente ao mundo. Dc
' rrì rxlida colno exercício de ap€rfeiçoamento, Ìlm rcconìeci-
ceÍo em Heidegger há também esta insistência: <<Aquilo qu(. ,r, r1,) dos Ìimites intransponíveis, t€rrestres, da existência
dura fundam-no os poetas>, segundo a afirmação de Hôldel l,LrrìirÌiÌ; não como purificação perfeita, mas como phrónesis.
lin que ele ftequ€ntemente rctoma; o que quer dizer que nrr I stc sentjdo, não tanto fundante como <(desfundante)r, que
poesia se dão as viragens decisivas da linguagem, que é lr ,, \/,,\ I de Heidegg€r pode ser interprctado como análogo
ao
<casa do seD, isto é, o lugar em que se desenharn as coordt ,/r ,' I (lc que fala Benjamin. A analogia escapa e paÌec€ ab-
nadas fundamentais de qualquer possível experiência d0 r r,lrr sr, à aparente insignificância do slocl
de Benjamin, se
mundo. , ,rtrirl)user uma visão enfática da obra de aÌte como inaugu-
Todavia, aquiÌo qu€ impoÍa mais a Heidegger, e que sr. r',,1,ì c lìndação de mundos histórico cuÌturais. Mas entender
manifesta em muitas pági[as do ensaio de 1936, como n r , L l, \ t{rrnos a teoda de Heidegger sigÍLifica ainda interpretá-
suas leituras dos poetas (29), não é a definição positiva rlo t r rrrrlìl forma metafísica ou, paÌa falaÌ em termos heidegge-
mundo que a poesia abre e funda, mas sim a determinação (|r ,rr r,r ôntica: neste caso, o S/os.r depende a efectivamente
alcance de <<desfundamento> que a poesia, insepâÌav€lmentr, l, rrrrtrolência positiva, das propo4õ€s decisivas
sempE tem. Fundação e <desfundamento> são o sentido doÍ ,,, ,|r tlue aobra inaugura e fundai interpretaÌ e fruirdoa novo
obÌa
dois aspectos que Heidegger indica como constitrìtivos (lÍ ,1' r lrclrr-ia estalrelecer-se neste
mundo e na sua nova signifi
58 59
catividade. Mas, pelo conffário, é claro que a HeideggeÌ, n0 , rir(lor. São categorias que, embora essenciais à concepção
Stoss como na angústia, interessa o desenÌâiramento iãlativa- , rlÍrrrìl da obra de arte, são ÌâdicaÌmente estranhas à aborda-
mente ao mundo quer o mundo dado, quer o mundo ex- nìr heideggeriâna, para a qual â obra é <<verdâde realizada>
-
posto pela obra em termos positivos.
I
llrrrir vez que é sempre mais do que aÌte, mais do que foma
<<O cinema diz Benjamin é a foÌma de âÌte que coÍ.
- 'rrrlleta e perfeita ou resultado de um acto criador ou de uma
,
-
responde ao perigo cada vez maioÌ de perder a vida..." Mas, rr( slria. A obra funciona como abertum da verdade porque é
no cont€xto de todo o seu ensaio, ele é também a forma de uÍ Lrr <ircontecimento> (Er€igriJ) do sef, o qual rem, porém, a
te qu€ realiza a essência tardomoderna de qualquer arte, it ,ul (ìssência de acorÌtecimento no s€r envolvido e <<expÌopria,
única à luz da qual é possíveÌ uma qualquer experiência estéÌi. ,|r" no <jo*o O" do mundo>r (como Heidegger diz
ca, mesmo de obras de arte do passado. Esta expedêncja.ií Irì sLÌr ensaio sobrc "tp"lhos
<A coisa>). (30)
não pode ser caracterizada por quaÌquer Geborgenheít, pol é, todavia, mais importante apÌofundar outro proble-
qualquer segurança e conciliação; é essencialmente precáril, lllÍ,^qui
o da atitude de Heidegger relativamente aos aspectos d€
ligada não só aos perigos acidentais que a vida do peão mc, ,'\islência humana no mundo da técnicâ. Erclarecendo este
trololitano está suj€ita, mas à própria estrutura precária dlt
l,rìlllcma, podem encontrar-se importantes indicações no sig-
existência em geral. Osroa* caÌacterístico das novas formas Illicldo des€nraizante e <oscilatório> da experiência estética
de aÌte da reprodutibilidâde é apenas o modo em que de facto lrrr nìodeÍnidade avançada, indicações que servem também
se realiza, no nosso mundo, o S/oJ.r d€ que fala Heidegger,
oscilação essencial e desenraizamento que constitui i èxpc
l,rrl (leselvolveÌ os elementos implícitos nas propostas de
l! rìirmin. Digâ-se de passagem ser verosímil que ambos,
dência da afie. ll rrlcgger e Benjamin, retirem os çlem€ntos para a descrição
Porém, enquanto que no ensaio d€ Benjamin se verifica íÌt ,llr r'Íistência humana na nìetrópole modema a GeoÌg Simmel
cilmente uma oÍientação geml no sentido da avaÌiação positìvrr I rll. Ì)ebrucemo-nos
sobre as páginas de 1& ntidade e Dift-
da existência tecnológica, já que o fim do valor çulturãl e au
tt l\(t cde E saíos e Dlscrirsos (32), em que Heidegger ilustra
rátiço da obra de arte é por ele explicitamente entendido con10
,r ',rur noção de Ge-Stel1. Com este termo, que se pode trâduziÌ
uma cidrce positiva de lib€rtação da aÍe em relação à sup€t.s
,rl,r)xinradamente poÍ im-posição, Heidegger câÌacteriza todo
tição, à alienação, e enfim às amaÌras da m€tafísica, pãrecc {r r r i0nto da técnica modema, que é em geraÌ pensável como
que Heidegger é um juiz severo das condições de exiatêncill ',
' tt \ttllen, um -colocar-t o homem coloca as coisas como
modernas, tamMm e sobÌetudo poÌque a banalização da lilr ,rlrlcctos da sua manipuÌação, mas é por sua vez sempre obd-
guaeem que se verifica nâ sociedrde da (omunicâçào genell
trrrrlo a novas prcstações, de modo que o Ge-Srel/ é uma es-
lizada destruiria a próprìa possibilidade de existência ãa obrl
enquanto obra, r€duzindo-a a insignificância. Mas é difÍcil l{\'( de coníiua € desenfteada provocação Ìecíproca de ho-
trrlrr c ser. Mas a essência da técnica moderna assim definida
demonstrar que Heidegger é um teóriço da obra de a11e Dl'
lrlo Ú penas o ponto de ch€gada supremo do esquecimento
sentido cultural da palavra; isto é, que ele vê o vaÌor estétic0
If.tlrÍísico do ser; paÌa Hddegger, o Ge-Stel1é também <um
da obra Ìigado ao iic e/ Ítfic da sua presçnça de forma colscr (33), isto é, do even-
guida e peifeita, de produto do aÍista entendido como géni0 lrrrrrrciro epremente brilhar do Ererynrs>
t| iir ser, para além do seu esqu€cimento metafísico (34).
60 61
.rrtr' ícriatividade, originalidade. fruição da torma, conciliação.
Ëxactamente no G?-,St?/,/, isto é, na sociedade da técnica e da
manipulação total, Heidegger vê tamÉm uma chance de tl , r, .) das ameaças que as novas condições
de existéncia dã ci_
rrli,,üçáo de massa represenlam nào só para a ane. digamos.
r.aoaisar ô es,tuecimenÌo e a alienaçâo melalisica em que vi'
rrrrs para a própria essência do homem. As condiçõesda re_
vei até hoie o homem ocidenlal. O Ge stcllpode oferecer
una lal cr;rÌa? precisamenle porque se define em leÍmos qul Ir rxlutibilìdade, em particulaÌ, são considerudas inconciliáveis
, orìì as exigências da criatividade que parece
se idênticos aos usados por Benjamin paÌa falü do shock' indispensável na
De facto, escreve H€ideggeÌi no Ge-Stel/, (todo o nosso rrrtr, não só porque a rápida difusão das comunicafões tende a
ora jogado. lriflìirlizar imediatamente qualquer mensagem (que de resto,
existir se enconÍa por toda a paÌte provocado
-
ora impulsivamentè, orâ incitado, ora impelido-- a daÍ-se ì lürì satisfazer as exigências dos rzelta, nasce sèmpre já ba_
í15) A provocr' llllirâda); mas sobrctudo, po{lue se reage a este consumo dos
olaniliiaçào e ao cãlculo de qualqueÍ coisa" lrllrboÌos através da invenção de <<novidades>> que, como as
llo sob a oual a existència do homern modemo esú é análogrt
à condìção de peão melÌopolitano de Benjamin. para o qual rr 'Ir rÌroda, não possuem a mdicaÌidade que paÌece necessária à
( ,ìì,rr de arte, antes se apresentando como jogos superficiais.
ane nàó pode ier senào.trorÁ. desenÍaiTamento conúnuo
{ (ìnÌ efeito, a todos os conteúdos que divuig ãm, os'mass
afinaì exercício de mortalidade A cúance de ulffapassal a mo me_
ía ctnferem um peculiar carácte. de pÌecaridade e superficia_
tafísica que o Ge-Stel/ oferece está ligada ao facto de, nelc,
,

lr,l:ì,h.: esle choca duramente contra os preconceitoide uma


<homeÍÌr e ser perderem as determinações que a metafísicil
, r, ticd sempre inspiÌada. mais ou menos explicilamente, no
lhes atribui" (36): a naturezajá não é apenas o lugâr das leis
,l, iìl da obra de arte como <<monumentum aerc peaennius>, e
necessárias das (ciências positivas>, e o mundo humano
,l'r r.xpriência estética como expedência que envolve profun_
tamÉm el€ duÉmente submetido às técnicas de manipulaçiÌtt Llil (. lutenticaÍnente o sujeito, criador
- id nào é o comDlemenlal e simericamenle oposto reino
(l'r
(lc
ou espectador. Èstabili_
I'ril( e peÌenidade da obÌa, p.ofundidade e âutenticidade da
ìibËrdade. campo de "cièncias do espírito". Neste baralhar
, \lì{ riência produtiva fnridora são certamente coisas que já
cartas, o teatri da metaJísica com os seus papéis definitivor
r ro l)odemos espeÌar na experiência estética da modemidaáe
desaparece, e pol isso pode daÌ a si próprio iJíía chance rr
,r\,rrçâda, dominada pela porência (e impotência) dos media.
novo advento do ser, I ìxrtrir a nostalgia peÌa et€midade (da oba)
e pela autentjcida-
(([r experiência), é pÍ€ciso reconheceÌ clarament€ que o
A nossa teÌìninologia estética' os conc€itos de que disptr '1,
r1,,,,( é tudo aquilo que resta da criatividade da arte na época
mos para falaï de aÍte quer enquanto produção quer clì
quanio funçào -
e que aparecem sempre de novo. sob lì"
,1 r , (rnrunicação generalizada. E o
shock é delinido por dois
-
,na\ diversãs. na nossa reflexdo, \frão adequadas para pens rl
r l)( ( los que caÌactedziímos seguindo as indicações de Benja-
pcl'llr rrr rr c de Heidegger: antes de mais € fundamentalmente.
a exoeriència eslérica como desenÌaizamenlo. osciìâçào. eÌe
rl,ì (t rÌÌais do que uma mobiÌidade € hipersensibilidade dos
de fun<lamento, Jrd.l? lJm \inal de que não o são podcrr'r ,, rvos c da inteligência, característica do homem metropolita_
ver-se no facto da teoria estética não ter ainda feito justiça nrtl' ,r,, A csta excitabiÌidade e hipersensibitidade corresponde
mass medía e às possibilidades que eles oferecem lsto
continua a paÍeceique se Íata de <salvar> uma essênciiÌ {lrr
' ,r 1f rìr1c já não cenÍadan^ obra mas ía eTperíênciq, pens da

62 63
porém em termos de vírÍiações mínimas e contínuas (segundo ,rlìroriores, naquela metafísica cujo resultado, como bem viu
I l('i(leggeÍ, foi precisamente a organização total da sociedade.
o exemplo da percepção do cineÍn). São €lementos que, em-
boú sem desenvolver as suas úÌtimas consequências, a estéti- lllrie estamos talvez em condições de reconhecer que os ele-
ca oito-novecentrsta muitas vezes teoÌizoui aliás, Heideggel I r( ntos d€ sup€rflcialidade e pÌecaridade da experiência estéti-
r I tll como se Ì€aliza na sociedade tardomoderna não são ne-
assinala-os, por €xemplo, de modo polémico, na teoria da fflc
, rss0riamente sinais e manifestações de alienação, ligadas aos
de Nietzsche.
A segunda caracteística que constitui o ,tlroc,t como único ,r\lx\1os desumanizante\ da massificaçã0.
( 'ontrariamente ao que duÊnte muito tempo e çom boas
resíduo da criatividade na arte da modemidade avançada ú -
aquelâ que Heidegger Pensa sobre a noção de Sra.t.t: isto é, o r,,(ics, infeÌizmente acreditou a sociologia crítica, a massi
dósenraúamento e a oscilação que têm a ver com a angústia c ll('[ção niveladora, a manipulação do consenso, os eros do
a experiência da mortalidade. O fenómeno que Benjamin des'
rirtltitarismo r?.io sdo o único resuÌtado possível do advenio da
, , rr ru nicação generali zada, dos mass media, dâ Ìegodutibili-
co-o srocÀ, não diz rcspeito apenas às condições dll r

"r"v"
percepção, nem é apenas um facto a confiar à sociologia tilt |r(lc. Ao lado da possibilidad€ que deve ser decidida poli-
artel mas é sim o modo em que se rcaliza a obra de aÌte conl(ì
-
ttrl!)rcnte destes resultados, abre-se tamÉm uma possibi-
conflito entre mundo e teÍa. O sftoc,t-S/ost ó oWesen, a es liiìr(le alternativa: o advento dos rxedia comporta tamtÉm
i Ír( livamente uma acentuada mobilidade e superhcialidade da
sência, da aÍte nos dois sentidos que esta expressão tem nll
terminoÌogia de Heidegger: ou seja, o modo em que se dá I r \l)criência, que contrastâ com as tendêÍcias pam a generali-
/Íçrlo do domínio, ao mesmo tempo que dá lugar a um espécie
nós, na modernidade avançada, a experiência estética; e d,
também, aquilo que nos surge como essençial para a arte lí)lil
,lt ncDfranquecimento> da pÌópria noção de realidade, com o
corrÍ, isto è, o seu acontecer como Ìelação entre fundação ( , rrrrscquente enfraquecimento também dc toda a sua çoacçâo.

perdô de fundamento. na forma da oscilaçáo e do desenraiTlr A "\(.jiedade do espectiiculo. de que falaÌam os situacionislas
mentol afinal. como exercício de monalidade. |lìo ú apenas a sociedade das aparências manipuladas pelo
Acabará assim por se propor uma apologia demasiittltt trxk'f; é também a sociedade em que a r€alidade se apresenta
, rì1ìt caracteístiças mais brandas e fluidas, € em qu€ a expe-
expedita da cultì.Ìra de massa, rcsgatada, pârece' de todos (ìh
asóector alienantes tão eficazmente caracterizados por Adotnr' r1('rìciir pode adquirir os aspectos da oscilação, do desenraiza-
e pela socioloBia crítica? O equivoco desta sociologia. hoje ctrt ilr.llo, do jogo.
dú, aparece-nos bas€ado no facto de não ter distinguido llìr lÌrÌbiguidade que muitas teorias contemporâneas consi-
condições de alienação política próprias das sociedades dc
(ìr ^ caÌacteística da experiência estética não é uma ambi
,|flftìì
ganizáção total, dos elementos de novidade implícitos rình l,rrrrllItle provisória: isto é, através do uso mais livre e menos
õondiçòes de existência tardomodernas. O resultado dcllr r|rr(nììutizado da linguagem que se dá na poesia, não se trata
equívóco é que a perversidade da mâssificação e da organi''ll
,li os tornarmos como sujeitos mais donos da lingua-
- ca\o a ambiguidade poélica é apenaç
çio total foi condènada em nome de valores humanistas (lrlI rrrr urÌ l:eÍal. Nesle
átcance críúco esur a exclusivamente lìgddo ao 5eu anacrtnlli ','," 1,arã próduzir. afinal. uma mais plena apíopriaçào da
mo: efectivamente, eram valores inspirados, €m momelìllìrl ltrrllrrirgern por parte do sujeito; portanto, trata-se também de

64 65
um desenraizamento instrumental, que visa um reeüaizamen-
to conclusivo que fica prisioneiro se não da categoria de obra,
certamentg da de sujeito, que lhe é correspondente. A expe-
riência da ambiguidade é, pelo contrário, constitutiva da arte,
como a oscilação e o desenüizamento; sâo €stas as únicas vias
atrayés da quais, no mundo da comuÍÌicação generalizada, u
arte pode coúgurar-se (não ainda, mas talvez finaÌÍnente) co-
mo críatividade e liberdade.

Da utopia à heterotopia

A mais radical hansformaçâo que se verificou enhe os anos


r(ssenta e hoje no que diz respeito à relação entre aÍe e vida
(
llrotidiana paÌece-mg pod€Ì descrever-se como uma passagem
lü topia à heterotopid. Os anos sessenta (e decertò, princi,
lnì lrnente o ano sessenta e oito; rnas Íata-se de um movimento
(lrl( apenas culÌnina na contestaçáo daquele ano. estando vivo
'k
\ile o imediato pós-guerÌa ) conhecem uma gÌande difusão
'I lrcrspectjvas orientadas para um relgate estético da exis-
túrìcia. que nega. maiç ou menos explicilamen!e. a arte como
Iromento <<especializado>, como <(domingo da vida> no s€n-
li(lo de que falava Hegel. A utopia aprcsenta-se obviamente na
\Irì lorma mais explhiu e Ìadical no marxismo; mas lem Íun-
lx(n) uma veÌsão (burguesD, que se pode indicar na ideologia
rllr r&Jig/i que se impõ€ largamente, por exempto, atravésìa
lx)pularidade de Dewey (37) na filosofia e na crítica europeia
rl)s iìnos cinquenta. Também Dew€y, como os teóricos è os
r rllicos marxistas (de Lúács aos mestÍes de FÌancoforte, até
I\4Ircuse) tem ascendências hegelianas, Para Dewey, a exp€-
rl('rìcia do beÌo ostá ligada à percepção de umfulfilment que
loìl tudo a peÌder ao ser separado da concreta vida quotidiana:
llf lìí um campo da aÌte em sentido específico, ele alud€, to-
rhrvirì, a uma sensação mais geml de harmonia que tem as suÍìs
tnÍzcs no uso dos objectos, no estabelecimento d€ equilíbrios

66 6',|
satisfatódos enhe indivíduo e ambiente. Quanto às várias foÌ- Se oÌhaÌmos para aqueles anos com a relativa distância que
mas de manismo, elas têm em cotuum a ideia de que a de ,lcles hoje nOS separa, Surgem atenuadas também as não pe
marcação da arte e a especificidade da experiência estética são rlrrenas diferenças teóricas que distinguiam, por exemplo, a
aspectos da divisão do trabalho sociaÌ que se deve €liminâr r(loologia do d6ig, (o sonho de um resgatc estético da quoti
com a Ìevolução ou de algum modo com uma tansformação ,'irìnidade atravós da optimização das formas dos objectos, do
da sociedade no sentido da reapropriação, por parÌe de todos, rspecto do ambiente) da atitude revolucionária dos vários
da essência inteira do homem. Em Lukács esta perspe.ctiviì rrrarxismos. A paÍtir destes pontos de vista, diferentes entre
actua pÌincipalmente a nível de metodologia crítica (rcalismo ,.i, perseguia-se sempre uma unificação global
de significado
não é puro reflexo das coisas como sâo, mas representação drt |sléúco e significado existencial que pode considerar-se com
época e dos seus conflitos com uma referôncia implícita ì rìão como utopia. Utopia €m, segundo a famosa obra de
emancipação e à reapropriação); em Adomo (38) a promess( llloch de 1918 (41), o significado das vanguardas aÍísticas do
de bonheur çonstitutiva da aÍe dá-se sobretudo como instân rrrício do século; e estas vanguardas, ao mesmo tempo que
cia negatrva e desmascâÌamento da desarmonia do existent€ lriìssavam (historìcamente foi assim, atÌavés de Bauhaus) em
com a coÌÌelatlva reavaliação <revolucionária" das vtrnguardas ìuitos aspectos pela ideologia do desigtt, por outro lado,
históricas, que o realismo de Lukács consideÌa por sua vez nlüvés de um longo caminho (da recusa de Lukács a Adorno
puros sintomas de decadência. Esta reavaliação das vanguar r por fim a Marcuse), liquidavam as suas contas com o mar-
das em perspectiva utópica manifestâ-se, depois, até às suas rsrno revoÌucionário (esta liquidação, a nível de massas, ó
consequências extÌrmas, no sonho marcusiano de uma exis ,rlir'is um dos significados, ou a significado de 68).
tência esteticamente (tamlìém: sensível e sensualmente) resga l)esta grande utopia unificadora que era a utopia da uni-
tada na sua totalidade (39). Se Adomo abrira o caminho a unìir -
lrriÌção estética de exp€Íiência, e qu€ unificava orientações
consideração positiva, do ponto de vista mâÍxistâ, das van lcóricas e políticas difeÌentes, conferindolhes uma geral ati-
guaÌdas sobÌetudo enquanto revoluções formais das Ìinguit lll(lc de distânciação em relação àquela que Nietzsche chamou
gens das váÌias aÍes (a dodecafonia de Schoenb€rg, o silêncirì ,rr uÍe das obras de afte), a favor do desiga ou a favor do
de B€ckett...), MâÌcuse (sintetiza> igualmente nâ sua utopil rr\ltute revolucionáÌio de toda a existência já não paÌece
outros aspectos significativos da vanguarda, como, pol rr'sl Í hoje gÌande coisa. É .aro agora, tanto quanto sei, que o
exemplo, as instâncias de uma tÌansformação geraÌ das reltl ,lrscurso cúico sobre as artes coloque ainda explicitamente o
ções entre experiência estética e quotidianidade, valorizatils l,rohlema do significado geral da afle, juntamente com o do
peÌo surealismo e pelo situaÇionismo. Na base de tudo issrì ,.Lltrìilicado e valor da obra.
estão alguns gúndes úestres do maüismo crítico Benirl Àquela que segundo Adomo eÌa a essência da vanguarda, e
min para Adorno, Bloch paJa Marcuse; e personagens corÌìrì ,, x Lr verdadeiro alcance utópico, isto é, o facto de submeter a
Henri t-efebvle (40), mais explicitamente ligados à experiêncirr ,li lìrìle a púria essência da aÍe com determinada obra, já não
das vanguardas e do seu pÌoÌongamento até aos p meir lL l,rrrccc ser hoje uúa questão. Como se o <sistema do espírito>
anos da década de cinquentÂ, como é pÍecisamente o caso (lr ,, ns suas distinções e especializações se tivesse completa
'rrr
sìtuacionismo. rrrrrtc restabelecido: paradoxalmente, tamMm uma obra como

68 69
a de Hab€rmas, que se apresenta como rcivindicação
do per 'r'rrte a muitos fencimenos que lèm a ver com â cultum "este
manente valor do programa mod€mo da emancipação, assume rr'.r ' marst trcada. e que Habermas náo .quer.
r er e reconhe.
como ponto de referência não controverso a diitinção de .,r'r ro seu alcance. O regresso da
ori ane aos seus limiles. depoir
gem kantìana dos âmbitos de vários tipos de acçãô ,'l rrlopta dos ano\ \essenta.t apenaç um aspeclo da
social, o situaçào
teleológir.o. o ámbito reguìado por norÍnas e o erpressivo c ,líL.nos Ìnteressa; e que Habermas _ no que
crtunaturgtco djz respejto à
,resewando de algum modo para esre último il r'!lcllca paÌr€ce isoÌar em correspondênciã com alguns
eslera eslêUca (ar'. 0 agú comunicâtivo. que Íepresenta e t -
'- rrs preconceitos leóricos (isÍo e. da sua recusa da pós.mo_
dos
Habermas o momento cuÌminante desta tipologìa, nâo põc , h |lrìdade).

realftente em discussâo a dislinção dos outroç u-és, antes vJ


lendo como norma úansccndental que vela para que nâo sc . Ii. no
.,r,'Irir
enÌanlo. a uÌopia eìtérjca dos anos sessenta esrá,
modo. a reaÌizar_se. em forma distorcida e nanslorma_
de
operem colonizações indevidas (antes de mais dos vários in_ Lr. \ôb o\ nossos olhos. Se poÍ
um lado. a afle no seu sentr
teresses expressos nas ftês foÌmas d€ acções em detrimento
da '1r trrdtctonal. a ane das obras de ane. regressa à ordem, na
comunicatividade; mas provavelm€nte tamLÉm de cada unì .'r rr{tad€ o cenro da experiència estéÌica desloca_se:
dos três tipos de agir em cada um dos outros). Seja como for., nâo já
'r" n lllrdo do de.rit/? generali,/ado e de uma universal higicne
não preÌendo debarer âqui eçpecificanìente a Tcõrìa do Ayit-
(-omun i.aaional, de Habermasl mas '' r,rldus lormas. nem como respate estético revolucioìário
apenas mosúá-la colll(ì Lr , \rslèncra no sentido de Marcusel
mas como desenvolvi
e111Plo-de uma cena Íeslauraçáo ledrica da separação e espc
',r'rrro da capacidade que o pÌoduto estélico _ nâo dizemos
crarzaçao do eíe co. que aquì. segundo unìa râdiçâo dc r.',,hra de afle - lem de -fa.,ermundo..
criâÌcomunida.
pensamento prcfundamente radicada na modernidade,
se rc I Í )í5teponlo de vistâ. a jnterpreLaçâo maisde troricamenle fiel
fere à expressividade. r,k quìda ú experiència erÌédca lal
como se dá nos anos re_
O laclo de Hâbermâì relornar a tripartjçiio kanÌiana da Íâz:ìrr
.
e apent\ um stntoma da struação
' 'rt' ,i é talvez aquela que nos propõe a onrologia hermenèuti_
teral a que pretendo Íeferit ',r ,i CgiilrnçÌ". Para Gadamer {41), como se satte, a e\pe
'me: e nao e necessariamente citada como faclo -negatjvo", c
a criticar como um regÌesso teórico e prático (embía, conro
', u ir dtr belo é caracteÍi/ada pelo Ì-ecotìhecimenro numa co
,r,Iri,l.rde de fruidores do mesmo tipo de objecros
espero moslrar mais adianle. nào pretenda panilhar a posiçÍo belos, na.
' 'r,Iì
e de arte. O Juizo é reflexivo. segundo a !elmitìologia
dc Habcrmas e d sua estrenua defela da actualidade do ntrr de
l..r',r. não ipenas porque se refere náo ao objecto
deÍno). Habermus erprime. neste arpecto da rua teorit, mas io es.
quedd da ulopia e o regreììo a uma ranquila aceiraçáo (l,r
l .,1,' .lo \ujeilol mas ainda porque se refere
ao srüeilo corno
,'" lrl)r'' de uma comunidade {o que.
separação do€stético. Todavia, aquiÌo que acontece na rilaçrìrr em alguma rnedida, e"tri
l,l lìrL'senre.em certas páglnas dã Ct ÍÍica da Razào). A expe
entr€ arte e vida quotidiana nos anos mais recentes não é apc , reia do belo, em suma, mais
na\-i\to. ou pÍincipaìmente irro: a recuperaçâo da csteticid:r(l(. do que experiência rJe uira
rrrlura.que aprovamos (mas então, com base enl que
de Kanl poÍ palÌe de Habermas. poderia, aliás, ser cirada :rirr crité-
,'r..'r. e.lundamenUlmente experiència de penença
da como sina I do faclo da sua defe\a do llumjnijmo e da n],r a uma co
dernidade impÌicar tamLÉm uma surdez específica relativlì 'rrrrrirl e. E lácil.vercomoeporqueeqrre umalalconcepção
l. , .rctrco Je pode apresenÌal com paniculaI perrua*io
é"pe_
70 't1
cialmente hoje em dia: a cultuÌade massa fez com que se mul- r rìo seu modo de rcferir-se à vida quotidiana, não é apenas o
tiplicasse e tornass€ macroscópico este aspecto da;steticidô "rcgresso> da aÌte às suas sedes canóÍÌicas modernas; mas
de, evidenciando também a condição da problematicidade, re ti Dbém, e sobÌetudo, o esboço d€ uma exp€Íiência estética de
lativamente à quaÌ não se pode deixar d€ tomar posição. Nl ìiìssa como tomada de palavra por paÍ€ de muitos sistemas
sociedade em que pensava e escÌevia Kant, o consenso da co (k Íeconhecimento comunitáÌio, de múltiplas comunidades
munidade na fruição de um objecto beÌo podia aindâ viver-sc, ,lrc s€ manifestam, expímem, reconhecem em modeÌos for
pelo menos tendencialmente, como consenso da humanidâd(. rrriris e ern mitos diferentes. Deste modo a essência <modema>
em geral: é verdade, paÌa Kant, que quando gozo de um ob (lir cxperiência estética, que Kant descrcvera jáía Crítica da
jecto beÌo confirmo e vivo a minha peftença a uma comunidiì llírzíio. des€nvolveu se em todo o seu alcânce n1as foi tamMm
de, mas esta comunidade embora apenas pensada conÌ1) rrrlefinida: o belo é experiência de comunidade; mas a comu-
-
possível, contingente, probÌemática é a própria comunidir 1ri(lade, pr€cisament€ quando s€ rcaliza como facto <univer-
-
de humana. A cultura de massa não nivelou de forma algunrrr riirl", solÌe um pÌoc€sso de multiplicação, de pÌuralização ir-
a exp€riência estética homologando todo o <<belo> aos valol.(:s ,r'Primível. Nós vivernos numa sociedade inten\aJnente esteti.
daquela comunidade a $ciedade burguesa europeia qr,. /iì(la exactamente no sentido (kantiano> da palavra; isto é, em
se sentia portadoü priviìegiada do humano; p€lo contláÍio, LlUc o belo se Ì€aÌiza como instituição de comunidade; mas em
evidenciou de nìodo eÀplosivo a multiplicidade dos - belo\, . Llllc exactamente devido a esta intensificação parece ter se dis
dando a palavra â culturas diversas - com a pesquisa anll,ì $lvido o outro aspecto da univorsâlidade de Kant, a identifi-
pológica mas tamMm a (subsistemas>> intemoì à própr.irr L rìção, pelo m€nos tendencial e exigencial, dâ comunidade es

cuìluÍa ocidenLal. De faclo. o fim dâ utopia do resgare èsréìre,, Lt'licâ com a comunidade hvmaÍl Íout court.
da exisÌéncia mediânle a unificaçào do belo com ò quotiditn,, 'l ambém na estética esperamos aquilo qu€, com diveÍsas
aconteceu paÌalelamente, e pelos mesmos motivos, no fim (llt |r(xlâlidades e carga dÌamática, acontece na ciência, que sem-
utopia revolucionária dos anos sessenta: devido à explosão (l( ì lrÌc pâÌeceÌa (refiro-me ainda aqui ao modo em que HabeÌmas
sisteina, da impossibilidade de conceber a história como curso Ìrrla dela: o agiÌ teleológico supõe um mundo <objectivo>,
unitáÌio. Quando a históÍia se transforma, ou t€nde a farìr 0|(ì) o lugaÌ do daÌ-se do mundo como objecto únicoi esp€Ìa-
formar-se, efectivamente, em história universal dado (lU( rÍ)s que o mundo não seja uno, mas múltiplo, aquilo que
-
lhe tomaram a palavra os muitos excluídos, mudos, queixosol , hrrnramos o mundo é talvez apenas o âmbìto <residuabt, e o
torna-se impossíveÌ pensáJa verdadeiramente como titl. lr,rr izonte regulador(mas com que pÌobìemas) em qLre se arti-
-
como um curso unitário, ev€ntualmente destinado a ürìì , rrlnm os mundos. E verosímil que a experiência estéticâ da
emancipação. A utopia, tamÉm nos seus aspectos estéticol,, ,,,( icdade de massa, a vertiginosa pÌolìferação de <beÌezas>>
impÌicava este quadro de referência da história universal corrrrr ,lr( liÌzem mundos, seja profundam€nte modificada peÌo facto
cuÌso unitário. E dissolveu-se, também no plano estéúco, crnìr l( rlrnbém o mundo unitrário de <1ue a ciêrcia acreditava poder
a ef€ctiva reâlização de uma certa (universalidade) na fotlIlt lrlir se teÍ Ìevelado uma multiplicidade de mundos diversos.
da tomada de paÌavra de diferentes modeÌos de valor e do r'(. Lr io é possível falar de expeÍiência estética como pura ex-
conhecimento. O que aconteceu! quanto à experiência estétiür l'Ìr'ssividade, pura coloração emotiva múltipla do mundo, co-
'72 73
mo se fa,,ia quando se pensava que este mundo
bâse era dc IlrllipÌìcidade. O rcconhecimento de si que gnrpos e comunj_
alguma íbrma dâdo. ..encon[ráveì- com os mitodoì
dâ cié0- LIr(lcs fazem nos seus modelos de beleza tem intrinsecanìente
cia. Isso deixa certômente em aberto o problema
da redefini llrìâ norma, dada pelo modo de acontecer, pelo Wesen daaÍe
çâoda esrericidade, e rcrna ulvez possÍvel
"aelni_ta" Jtimi.
l-ando-à e distinguindo-à: ratnbéÌn aqui, parece
, rlo estético nal nossas condições de destino histórico: é que
estaÍmos pc r { xperiôncia do rcconhecimento de uma comunidade num
Ìante uma realização imprevista, e talvez (distorcida> (,t4)-
drr rrrrrlelo deve fazer-se em €xplícita Ìeferência, com explícita
utopra.
rrlx rrura, àmultiplicidade dos modelos. Sim, isto é provavel
, Odesenvolvimenro
oa
da erperiència esrérica como experiên.ijr
comuntdade e não como dvaliaçáo de esLr.,rura,
rr( nte como invert€i em positivo, tomaddo a um aânone. a
dá_s.- r,, lrrsição que o Nietzsche da segunda (Int€mpestiva>, (45) des-
oa^vla._apenas no mundo da cultuÍa de maìsa,
do historicism(, , r('vìa como típica do homem do século
dilundido. do fim dos \isremas uniliírios. E p", i..;ì;;;,i,, XIx, produto d€ uma
çe tÍara de uma realjzâçào pura e simples
irlllrra histórica exageÍada, o qual actua comò um turista no j
dá utopia. màs rk. rrlim da história, € como quem numa loja de másca&s tea-
llma \ua realizaçâo distorcida e tmns[ormada: a
utopia esreli( Iris procura disfarces semprc diferentes. A experiôncia esté_ 1
só se Ìealiza desenvolvendo se como lÌetel"otopta.
Viv€mos n lrL ir loÍna-se inautêntica quando, nas condições
experiência do b€lo como reconhecimento de modelos actuais de
que lÌt rlrralismo vertiginoso dos modelos, o reconhecimento que
zem mundo e que fazem comunidade apenas no lnonìento
ent rrrrr grupo rediza de si mesmo nos própdos modeÌos se vivè e
que estes mundos e €stas comunidades se
dão explicitamenk ,tirr\rnra aindd na forma de idenlificaçào da coÌnunidade com
como múltiplos. Nisso encontra_se taÌvez tamüém
um l.i0 ., l.r,ipria humaridade: i\to e. âpre\entã o Lìelo, e uma deler-
condutor norntativo. capaz de reìponder àqr"fu, prao",,i,,
rrrrrurcla comunidade qu€ o reconhece, como um valor absolu_
çoes que sublinham que se o belo e de alguma forma sernpt,.
apenas erpeÍiència de comunjdade, nào teremos
r,, A <verdade> possíveÌ da experiência estética da modemi-
iá oualtrut.r Lr(k. uvânçada é pÌovavelmente o (coleccionismo>. a mobiÌi_
cnterro para disúnguir a comunid?rde vjolenLa do-"s názis
luc ,lrk das modas, o museu também: € afinal, o próprio merca-
ouvem Wagner ou a dos fanáljcos de música,o.t que
*e pi" . rorno Iugar de circula(ào de objecÌos que desmjtificaram a
paÌam eventuaÌmente para violências e vandalismàs, "' l,.ri:ncia ao valor de uso e sào puros valores
da'co ' de troca: nào
Dunidade dos/ar.r de Beethoven ou da Z/?vldld...Na
constI rir rssàÌiamente apenas de troca monetária, mas de troca sim-
tâçio d_e que-d universalidade em que pensava Kant se
Íerli,,,l l',li(â. são Std/rs ,r)r?rol.r, caÍões de identificação de gru-
nu Ìorma da. mulriplicidade, podemos a:,sumir tegirr
!1_. l:* como.critéÍio
mamente ' Nio seria lalve./ arri5cado supor que muiros discu;ros
nomarjvo a plúâlidade explicitamcrrtr. ,'
vrvrda-como lil. Aquilo que. legitimamente e não ' i,,,r da estética filosdfica e da cniicâ das arres se deren-
só na fitl\n ,,, vcrn hoje como esforços para fazer valer, apesar de tudo,
conscÌencja da ìdeologia, era paÌa Kant o âpelo
à comunidtuft. llr{trios <inst'umentais> Íelativamente às obras de aÌ.te. Mas
humana uni\ersaì (a expectâliva de que. em lomo
do\ val(,Í.Ì r, llr lodas as t€orias se movem neste sentido de exoÍcismo e
oo Delo -burgues^. se aglutinasse o consen\o de qualquet.\ct
num€no verdâdetramente digno do nome). tomou_se 'I' lIJr.r reËreìsi!a: a paflirde Dillhel, cujas rfses se reencon
hòje. crrr ìrr crn Ricoeur € antes ainda em Heidegger, a capacidade
condições difeÌ.entes da hisrória do seÌ, a explícita referôïcil
h , Llf r obra de üÌe tem de <fazer mundo> é sempre pensada no
74 15
plural
- .porranto, nào em sen do utópico mas em senrjdrì
hererorópico: é exaclamenÌe no ensaio
!(luo, o chaÍrado mundo real. A essência ornamental da cul-
sobre e òrilìì'ii, tìlrt da sociedade de massa, o carácter efémerc dos s€us pro_
?!:^!!2;* 19J6. que Heideseer nao ruru.;e ao i-,""j,ì,
a"r , Tempo. mas de um mundó re ponant,,,
,hIos. o eclecÌismo que a domina. a impossibilidade
rllc(er_neles uma qualquer essencialidade que laz muitas
de reco_
::T,9-_.-T "
rmplrcrtamente. de Í muiÌos
mundos). E Dilúev (4ót
senlrdo profundo da experiència estética "a ir., vczcs fâlaÌ de k'ilj.l para esta cultura _ correìponde plena_
{e a, í,;".;. ncnte ao l4le,re, do estético na modemidade avançada.
nencraìisloriog.áfjcal na sua capacidade "J.,. euer
de f"i..ir, rlizcr, não é com base num regresso a avaliaçõei uestrìtu-
"i"i,r,
possibitidades de exisrência, rìis'), centradas no objecto belo, que se podj assumir uma
::i":lT:l11" l."ciltoia..ourÌas
os timires daquela possibilidade espee
i irlitude seleçtiva relativamente a esta cultura. ríifcr, a existiÌ,
i'l
I i-ra que. l^.rj:1.T"
ï1i.i" na quottdjanidade. Íealizamos. Bastará, rì r) é aquilo que não responde a critérios formais rigorosos
como Hcj
uetgeÌ. satr honzonte ainda fundamentaìmente cientisra
d_o
f,Ìt ,f (lÍ na inautenticidade da faÌta de um estilo fote.kltsch é
que-se move Dilúey. é,
pam ver o senLido da exp..ien"iu
..rlt i"ii lr( lo contrário, apenas aquiÌo que, na época do ornamento
de ír" mundo ormun.loÍ. que não sào -apenusu
:'1-dïlura mas
rmagrnanos.
|ll ral, pretende ainda valer como monumento mais perene
consritujndo o próprio ser. sendo acònteci rlrrc o bronze, reivindica ainda a estabilidade, o.rcârácter
mentos de sêr rlclinitivo), a perfeiçâo da forma <cláSsica> da aÌte. Não é
teórica. feira apenas em [aços targos. lrrgerado dizer que nem a estética teórica, nem a cítica pare_
,^"ï:^]:',,"*
rurrna(ao oa expenència estétjcâ dos rilÌimos
da ranr
viúe anos podc r. rìì hoje pr€paradas piÌÌa se oÌienta{em selectivamenie no
provisoriamenre. com a expricjlação (tc
l3li,,lr^f^. :l!".':
ouas ÌmptrcaçoesJá conridas em tudo que
rrrrrodo do estérico tard oínodemo jLva proptìa principìa.isto
o foi dito acìma: rr ' . lou da conrinuada relerência, irremediavelminte iàeológi_
llì""s:ï-11 :l:fli i Treroropia compona como seu aspecr(ì |u, à estrutura do objecto. poder-se-á discutir se e até q-ue
llrirrs sa enÌe a Ibertação do omamento e. como 5eu signìíjc! t!)rìto esra insuficiência da estética e da cítica se dá realmente.
do onrológico, o despojamento do ser_ Í\4ns se, como me paìÌece, eÌa é um facto, depende provavel
A lìbeíaçâo do omamento. melhor ainda: tttt nte também do reconheçimento falhado da segunda <impli_
a descob€na (fi,
carácler de ornâmentodo eçterico. da , rçiìo- da passagem da uropia
essèncio o.nurnanLui,l,, à heteÍoropia comõ caracterísri_
ocro. e o, pro-pno senlido da heEroropia ..r rl, experiéncia e,tetica: i5to é. dâs consequéncias que
da experiéncia esÌéti 5e si_
ca. u oelo nao é o ÌugaÌ de manifesÌaçào tlünì a nível ontológico. Daqui resulta a extraordinárà impor_
de uma verdade oLro
expreìsão sensívet. provirória. antecipadoin, tltrìcia da (ontologia> de Heidegger para o nosso pensamento:
::]1^:L.."""u
coucalrva-. como muitas vezes pretendeu
a esérica nreìafísiriir r) clil pÍrece capaz de nos abrir autentiçamente à experiência
iijiiiSji | leteza.é
srgntlcado exrslenciaÌ.
oÌnamenro no senrido em que o sqr
o interesse a que responde. é a dilatrt
,lrr rnodemidade avançada sem uma permanente,
subertendi_
iÌr, referência a cânones e princípios metafísicos. Isso é visí_
Ou vida nÌrm processo de chamadas a ourrol
!1!-9o Irndo \1 1, no caso da estética, precisamente na substancial
incapaci-
d., vida. que nâo sâ0. porém. apenas inì
f^'l:'.:'-.ld".r
ErnaÌios ou margrnajs ou complemenlares ao mundã real;
, Ìrrlc que esta revela
em consideüÌ como cll ance final, è não
rlr'nas como perversâo de valores e essências autônticas, a
nltn
compoem. conslituem. no seu jogo reciproco , rlrliência estética da cultura de massas. O esforço realizado
e como seu tc
'76 '71
por Benjamin com o e nsaio sobre A Obra
de Arte na Época tl,t
sua ReproduÍibílidade Técnica e$ dji'1ido n""" ,"nriãà. .,ìì
pÌovav€lmenre demasiado ligado a uma concepçâo
::tava di
lecrca dâ reaìidade para ter êxiro. Heidegger. pelo
co'ntrári,,,
ao critic.ar a identìficação metafísica do ser õomã
objecto, con r
a eÍâbilidade esruÌuÍal do -dádo-. desligjrima
tle riodo ra,ti
cal a nostalgia pela forma clássica. pela ivaliação
baseada rì,r
esuulum. Só se o ser nào tiver de ser pensado como
funrllt
mento,e estabiÌidade de esfutums etemâs, mas pelo
confário,
se_se deÌ como acontecimento, com toaas
as iÁplicafoes clir,:
rsso comporta antes de mais um enfianquecimento de baic,
devido ao qual, - como diz ramLém HeidÉgger, o nà,ji,
NOTAS
mas at.unte(e . . só nesEs condiçòes a
. experiència "",eçtélien
como helerolopia. mulüpl jcaçào do omamenlo, .fundamenl(,"
Ciências hümanas € sociedad€ de comüoicaçáo
do mundo quer no sentido da sua colocaçáo num fundo, qrrr.r
no senlido de.uma sua geral desrurorizaçao. aaquire
um lix ( l) Ci l. Habermiìs, //irrória e C tica da Opìnião púbticd 09A\
nrlÌcado e pode vir a ser o lema de uma reflexào ledrica
riìrir (2) Ct K. O. Ap!I, Co, nidade e C.,nuicação (t973).
cal. Sem esra referència otìloldgjca, procura_r ler como (1)
uDt,r tden,p.l'12.
vocaçao e um -desltno" as tJan:,formaçóes
da experiència cs (.1)Cf. sobre isto c. VaÍ|mo, L'eme eutica e il nlondo .te a cokrìÌ,
Lelrca dns últimas duâ: décadas {como as das
epocas antelrr, a,Í,), no vol. por U. Curi, Lu camunicazione tründ, Angeti, Milâo.
Íe5. alrás) parece apenas um coquetistno hisroriiista,
uma ec tr)115.
dència à moda. a lraqueza de quenr quer a rodo o
custo atÌ(llìt (5) Cf. J. P. Sárle, C/Írj.a ddRarão DiaÌéc tica (1960).
a par dos Ìempos que. conto se sabe. \ó andam
e revelam ur (6) Na sua introdução âo vol. X,2. de Il ondo contemporc eo. diÍì
drecçao quando lìdos, interpretados. A aposta com a hetcr,,
r'(li) p()r N. Tranfaglia. La Nüova tlâlia, Florença, 1983.
topra. chamemos-lhe assjm, pode nâo seÍ apenas lrivolirlarl.
17) CÍ., poÍ exemplo. E. Cass:trcÍ. Sobrc a Lógìca da Ciênda da C Ltt-
\e lrgar a eÀperiència c\térica uansformadi da sociedadc
rll, irlr,/ ( 1942), trâd. it. de M. Maggi. La Nuova lelia. Florcnça, 1975.
massa do apelo de Heidegger a uma erperiéncia
(át nâo nrr. (f) Cl. K. R. Popper, Miréria do HistoÍicismo (1944-45). Ìrad. it. dc
lâlrsrca do seÍ. Sci se de algum modo. seguin<jo
esperiìÌmos que o ser.\eia exactâmente aquilo que
ii ideggcr. I Mon(aleone, Feltrinelli, Milão, 1975.
não e. r1rr,, (()) É o dtulo dc um dos capítulos de It crcpuscolt) degti ido potc
:
oe:.lp:úece. que se afirma na rua diferença como nào
prescrr ,, r rc na trad. it. de F. Mâsini, iD Opílc. ed. Colli MonriììaÌi, vot. Vt. 3,
ça, errabilidade. esuuturar só as,im podèremos _ taivez Nl,lìo. 1970
enuontrdr uma vja por entÍe a e\plosáo de caÌácler
omamclìlltl
e heFroÌópico do esÌético de hoje.

78 79
O Ìnito reencontrado Senrie inteftoti, cit., p. 49-50.
(26)
(27) Cf. M. Heidegger, O Ser e o Tenpo (1927), $uJ. it. do P. Chio-
(10) C. Lévi-Strauss, Ártopologia Esír turut,plon, paris, 1958. p,
rli, Utot, Turim. 1969.
231.
(28) O Ser e o Te\Ìpo, cit. W. D6-97.
( l1) Cf.. por exemplo, de [;vi-StÌauss, o capíÍulo lirtal de O Homent
(29) Eslá finalmente drsponível uma Íadução itâliana, excolentemente
Nu (MitolóBica,lV. l97l) e a <Ouveíure) de O Cru e o Cozìdo (Mib.
r(ì lizâdâ por L. AmoÍoso, dos escritos de Heideggeí sobre A Poesìa de
Ìõgica,I. l9(A), :úad. it, de A. Bonomi, Il Saggiârore, Milão, 1966. /rlidcrfin, Adelphi, Milão, 1988.
(12) E. CassiÍEÍ, l.tlor"fd da FonM Siì,1bóÌicd (1923').
(30) O enúo está contido no volume saggi e dircarut (1954), lÍad. it.
(13) Ct Thomas Kuhn,Á Esítut ra da ReyoÌltçõo Cienttfita (1962).
rl(l G.Vattimo, Mursiâ, Milão. 1976.
(14) Ct O. MaÌquâÍdt, Ábschied yotk Ptìnzipietterl, Rectam. Stroc-
(31) Ci de C. Simmel o ensaio <A nelúpole e a rìda menlal>
carda, 1981,p.93.
{ I 903), no volume lrdger s da Honlem, Í)íepaÍ^do p$ Ch. WÍighl Mills.
(15) Ci, poÍ exemplo, D. L. Miller J.Hillmann, O Noya poÌiteÍsnxt
(32) I.lenÍidaíle e DìÍercnça (195'7),paÍa Sa88i e dìs.d/ri, v. a trad. ci-
o98r). trdn na nota 10.
(16) Cf., poÍ exemplo, Tìneo, 19 d. (33) Identi!tude e Difeíença, cit. p. 14,
(17) Ct ainda O. À{arquaÍdt, dp. .11., p. 93. e todo o ensaio {taá íJlÌ (34) Sobíe esle conceito de esquecimento do ser póprio dâ meláfísica,
r sobre outÍos termos da filosofia de Heidegger, podem enconlÌaÌ-se
(18) PaÌa a noção de VerÌdrdxxf em Heidegger e a suâ inter?retâçlt('
oriores iluslÍâções na milha.Inlrod zìone a HeideSS€r, Lâterza. Roma_
no sentido aqui referido. vejâ-se o cap. X do meu k frne deLh nodenìhl ,
l\lti., 1982. (lktodução a Herddgg?a Edìções 70, 1989)
CaÌzanti, Milão, 1985. (35, Identidadc e Diíerença. ctL., p. ll.
(19) De N. Eliâs ct especialmente podet e Civitizalão (193'7).
(36\ Ibìdem,p.13.
(20) De R. GiÌârd, âlém de AViolência e o Sagrado (1972), cÍ. cspo
cialmente DelÌe cose nasco$e nn da a Íondazione det mando (tg7ï\.

Dâ ulopiâ à het€ro3opi8
A ârte dâ oscilâção (37) Do Dewoy veja-se sobÍetu.do A A e canm E peiência (1934); e
*)lìc a estética de Dewey, o belo estltdo do R. Bârilli, Per una estetìca
(21) sobre isto vejâ-se o c ap. yI do mer La fine detta mo(le nità, C\t
,llrrddna, Il Mulino, Bolonha, l9g.
zanti, Milão, 1985. (38) De Adomo, cf. sobÍen\do Eslélica (1970), que sistemali-
(22) Foi publicado em ilaliãno, com rrâd. de E. Filippini, poÍ Einâu(ll, ^Teoia
/ , poróm, leses lamÉm já proposlas em obras anteÍioÍes de AdoÍno.
Turirn, 1966.
(39) De H. Marcuse, aléÍn do cl ssico Ercs e Cìúlizaçáa (1955), ve-
2l) M. Hcidegger. Á O'jBe'n da Oba Je Ad?.
' llul-se os ensaios recolhidos efi Cuburu e Socìedarle (1965) e a Dinen'
(2.+) Este é um dos teÍmos cen[âis do debate hemenêuaico contcüìlì{r
ttu Estética (1977).
Íâneo; cf. H. c. cadamer, yerdade e Método (19ú).
(40) De H€nri LefebvÍe veja-s€ sobretudo, sobÍe estes lemas, a Crítlcd
(25\ AObrc de Ane,cit.p.55, notâ 29.
út vida Quotdiana, Paris, 194'7.

80 8l
(41\ E . Blaf.h, O Espttito da Uopia (lgtï e tg13).
(42) Cf. J- Itubermas, ?e, ria do Agit Coüunìcacionat (Ig8r).
(43) De H. G. Gadamer. aÌ ém do jâ citúo Verdade
e Método. vajün-sai
Actulilìda.le do Belo e A p e\l&s1o da Literctura.
(44) Esta <distorção é pensâda com baso num
termo cenfial da filosofìlt
dÊ HeìdeggeÍ, a Verwindung; retativamente à metaÍïsicâ,
isto é, ao esquc.
cimenüo do seÍ, o pensamento pode âpenas exeÍceÍ uma
âcçâo de <distoÈ
ção,, que pÌoss,egue e aceita de âlguma forma â Eadição; sobre tüdo isto,
cf. o último capítulo do m ei La
Íine .lella üodentà, cit.
(45) Cf. Nietzsche, ra Ut tidade e dos ltconrenjentes
da História pat t
a Vida (segldJddo as Cotsideruções I tenpestiyas, lg74). iNDrcE
(46) Vejâm-se. de DiÌthey. os escriios recolhidos
em ilaliano em O./.
ticas da Rarão Histórica.por p. Rossi, Eìnaudi, Turim, 1954.
ltós modeíno: uma sociedade ÍanspâÌeÍle?

Ciôncias hümanas e sociedade de comunicação l9

O milo Íeencontrado 35

A aÌte da oscilâçâo 5l

Da utopia à heterotopia 6',1

82
Os ,?edrd des€mpenh:ìm papel de-
'ldrr
teminante nas sociedâdes âctuais.
Mas o desenvolvimento dos meios de
comunicação não torna a sociedade-mars
rânspâÍentre e consciente dc si.
Os ,rdrr m€did lendem a Íeproduir os
acontccimentos em tempo real, acentuan-
do â sua complciidade.
A les€ de Vatlimo, que retomâ WalteÍ
Benjamin e buscâ a sua pâÍâdoxâl con
fluênciâ com Heidegger. é de que é nesse
relativo caos que Íesidem as cspeÍanças de
emancipâção.
Õianni Vatlimo ensioa Filosofia na
Universidade de Turim e tem várias obÍqs
publicdas sobre a filosofia alemã dos d'
cülos XIX e XX. EnlÌc os seus livros pu-
blicados cm PortugaÌ destacam'se "As
Aventürôs da Diferença", "O Fim da Mo-
demjdade" e "IntÌodução a Niclzscbe". tsBN-972-708 155 X

ililililililililililllillll
qn 7ao727 troal554n