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ed.

24
ARTE, CULTURA E EDUCAÇÃO
NA AMÉRICA LATINA

A imaginação é um valor para educar


e aprender?

Educação continuada para a formação


do indivíduo e da coletividade

Espaços culturais: integrando esforços


para educar ao longo da vida
ARTE, CULTURA E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA  3
Centro de Memória, Documentação e Referência Itaú Cultural

Revista Observatório Itaú Cultural - N. 24 ( jun./dez. 2018). – São Paulo :


Itaú Cultural, 2007-.

Semestral

ISSN 1981-125X (versão impressa)


ISSN 2447-7036 (versão on-line)

1. Arte e educação. 2. Educação. 3 Arte e cultura. 4. Cultura e sociedade.


5. Cultura e desenvolvimento.
expediente
REVISTA Ilustração NÚCLEO DE
OBSERVATÓRIO André Toma INOVAÇÃO/
OBSERVATÓRIO
Conselho editorial Supervisão de revisão
Carlos Gomes Polyana Lima Gerência
Eneida Labaki Marcos Cuzziol
Luciana Modé Revisão
Marcel Fracassi Karina Hambra Coordenação
Marta Porto e Rachel Reis Luciana Modé
Samara Ferreira (terceirizadas)
Produção
Edição Tradução Marcel Fracassi
Marta Porto Carmen Carballal
Marisa Shirasuna
Preparação de texto NÚCLEO DE
Adriana Ferreira e Silva COMUNICAÇÃO E
Leticia de Castro EQUIPE ITAÚ RELACIONAMENTO
CULTURAL
Projeto gráfico Gerência
Marina Chevrand/ Presidente Ana de Fátima Sousa
Serifaria Milú Villela
Coordenação editorial
Design Diretor Carlos Couto
Serifaria Eduardo Saron
Coordenação de arte
Produção gráfica Superintendente Liane Tiemi
Lilia Góes e administrativo
Toninho Amorim Sérgio Miyazaki Curadoria de imagens
(terceirizados) André Seiti

Ensaio artístico Produção editorial


Fernando Vilela Bruna Guerreiro
aos leitores
“Toda criança é um artista,
o problema é permanecer
artista depois que cresce.”
Pablo Picasso

Quando começamos a pensar o projeto vidas, outras formas de ser e estar no mun-
editorial deste número 24 da Revista Obser- do, de conviver e ficcionar outras realidades
vatório, as ruas do Brasil já testemunhavam possíveis, é um dos mais importantes lega-
cenas de intolerância cultural explícitas, dos e virtudes das artes e da ciência para a
que, somadas ao avanço das pautas conser- educação e os processos de aprendizagem de
vadoras nos parlamentos do país, recomen- crianças e jovens, vamos chegar à pergunta
davam a urgência de colocar em pauta as central desta edição: A imaginação é um va-
perguntas que movem a relação essencial lor para educar e aprender?
entre arte, cultura e educação. Com quais Muito se fala da importância da cultu-
valores culturais a cultura se compromete ra e das artes nos processos de aprendiza-
para construir uma democracia que vá além do, mas comumente essa ideia está ligada a
do voto na urna? E como é possível acelerar, noções de ludicidade e mesmo de entreteni-
a partir das artes, da literatura e da educação mento, como se elas fossem um antídoto para
visual, a “capacidade de abrir o terceiro olho interromper a mesmice das aulas regulares.
em nossa testa” – frase-testamento do poeta O que pesquisas internacionais de-
israelense Amós Oz – ou, em outras palavras, monstram é que, quando as escolas se de-
a capacidade de estarmos “nos lugares e nas dicam a integrar as linguagens artísticas
peles dos outros, estranhos, às vezes odio- como um fim em si mesmo dos processos
sos, seres humanos, dom Quixote, os Iagos, de aprendizagem, pensadas como uma di-
os Raskolnikovs deste mundo?” (OZ, 2004). mensão própria do saber e de suas diversas
Para dar respostas a essas perguntas, expressões – como o corpo, a educação do
muito caminho ainda teremos para trilhar. olhar, a universalidade das histórias literá-
Mas, se consideramos que imaginar outras rias, a dramaturgia –, as possibilidades de
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desenvolver áreas esquecidas e habilidades quais os espaços culturais – museus, biblio-


importantes são acionadas. tecas, pontos de cultura – integrem esses
O contato com textos clássicos e con- esforços de educar para a vida valorizando
temporâneos do teatro e da literatura simula a ética, a estética, a criatividade e o poder da
muitas vezes dilemas éticos e sociais; a dança imaginação como pilares dessa refundação
e o teatro associam entrega, confiança e al- do tempo, da experiência escolar e dos pro-
teridade como princípios para um resultado cessos de aprendizagem? E qual o impacto
comum. A filosofia nos ajuda a fazer pergun- dessa aposta na economia que eclode hoje
tas, não somente a respondê-las. A história ancorada na criatividade e na inovação?
da arte e o pensamento cultural traduzem Encontrar essas dimensões, muitas ve-
noções práticas de diversidade e de luta zes esquecidas, da contribuição das artes e da
contra a opressão e a guerra. A performance cultura para a educação foi a espinha dorsal
desnuda a solidão do ato artístico como me- deste projeto editorial.
táfora da vida, crua, singular, radical. Quando Se o nosso principal papel é ensinar o
o escritor Italo Calvino nos conta Por que Ler ser humano a criar, experimentar livremente
os Clássicos, coloca-nos diante da universa- e se “colocar na pele do outro” – esse difícil
lidade da tragédia, do riso, da opressão e da exercício de alteridade que parece cada vez
luta pela liberdade que a literatura, a drama- mais escasso nos dias de hoje –, é preciso re-
turgia, as artes proporcionam. pensar o lugar muitas vezes supérfluo ou la-
Em um mundo onde o aprendizado está teral que as artes e a cultura têm na educação
intimamente ligado ao domínio de conteúdos brasileira. Apostar que a imaginação como
e ferramentas para o mercado de trabalho – e pilar educativo pode ser uma dimensão para
de forma frágil, como demonstram nossos reinventar as crenças que orientam a vida
indicadores –, é possível recuperar o papel pública, salvando-nos de um presente-futuro
da educação ao longo da vida de forma que de anomia, comodismo e repetição.
ela contribua para a formação do indivíduo Nesta edição 24, apresenta-se um painel
e da coletividade, em todas as dimensões que de ideias, experiências e possibilidades que
nos instrumentalizam para a vida e para a as artes e a cultura trazem para a educação.
convivência? De que forma podemos come- A educação que pode e deve priorizar a cria-
çar? Quais os exemplos que nos inspiram? tividade, o afeto, a construção de valores e
Como pensar redes sociopedagógicas nas os talentos pessoais, e não a transmissão de
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informações para o adestramento de cérebros separação entre educação e cultura legou


voltados para a repetição de um modelo eco- para a formação do brasileiro e, por conse-
nômico e de vida que parece esgotado. Para quência, para o desenvolvimento do país.
os autores, que colaboraram com artigos, en- Em um país onde “raras são as residências
trevistas, depoimentos, perguntamos quais em que se veem livros, quadros, esculturas,
são o valor e o lugar das artes e da cultura na instrumentos musicais […], os valores éticos,
educação, entendida como processo formal morais e estéticos da indústria do entreteni-
que se dá a partir das escolas e também como mento se tornaram a referência”. É natural
processos não formais, realizados a partir de que médicos, advogados, engenheiros – os
espaços, projetos e redes socioculturais. nomeados a elite do país – formem-se sem
A primeira seção, intitulada A Criativi- nunca terem lido um romance, ouvido uma
dade e a Imaginação como Pilares da Educa- sinfonia, visto uma peça de teatro ou uma ex-
ção, traz uma entrevista com o ítalo-chileno posição. Ele pergunta: Que cidadão é esse?
Claudio di Girólamo, artista formado em Que profissional é esse?
pedagogia das artes que destaca a urgência Passados 13 anos que Alcione Araújo es-
da invenção como um atributo do aprender creveu o artigo, a resposta a essas perguntas
capaz de romper com um sistema cujo único nunca esteve tão clara.
objetivo é se perpetuar infinitamente. Para Ana Mae Barbosa nos mostra o desen-
Girólamo, com sua longa experiência e pro- volvimento da arte/educação no Brasil e a
dução intelectual nesse campo, a escola deve importância das artes para o desenvolvimen-
ser o ponto cultural de uma comunidade, o to de habilidades que conduzem ao sucesso
espaço onde é possível inventar e reinventar de outras disciplinas, a partir de dados de
o tempo que vivemos. pesquisas internacionais sobre transferên-
A segunda seção da revista, Arte, Edu- cias de aprendizagem da arte para as ciên-
cação e a Ideia de Viver Juntos, integra três cias, a leitura, a compreensão de problemas
artigos inéditos e uma homenagem póstuma complexos e a estratégia de resolução de pro-
a Alcione Araújo, dramaturgo e intelectual blemas e habilidades não cognitivas, como
morto em 2012, que foi um dos maiores ati- autoconfiança, colaboração, liderança, per-
vistas e defensores da relação entre cultu- sistências e empatia. A autora também escla-
ra e educação. Em Educação e Cultura ou rece o quão relevante é, na nossa sociedade
Morte, Alcione nos lembra do custo que a hiperimagética, saber decodificar imagens,
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seus significados e atributos em diferentes atuarem para uma compreensão plural da


contextos. Algo que ganhou uma relevância memória cultural e das artes brasileiras.
enorme no Brasil de hoje, quando obras e ex- A terceira seção, Manifesto Poético: o
posições de artes tornaram-se alvo das mais Sentido da Educação para os Artistas, reúne
absurdas interpretações e estereótipos, que depoimentos e reflexões em primeira pessoa
motivam atos de censura e reação social. Ana sobre o potencial das artes como processo
Mae nos lembra que, ao se associarem ao sis- político e de formação para a vida e a pro-
tema educacional, o que as artes ambicionam fissão. Benjamim Taubkin, Denise Stoklos,
é não só a criatividade individual, mas sim a Chico Pelúcio, Guti Fraga, Kiko Dinucci e
criatividade coletiva, a coragem de revelar a tatiana nascimento abrem suas reflexões,
“discrepância entre o pensamento escolar experiências e imagens sobre a ideia de arte
reinante e a vida real”. e educação. O comum em todos os textos é a
Lucina Jiménez López, a partir de ex- defesa da arte como direito à transgressão e
periência realizada em escolas mexicanas, à liberdade criativa inerente a todo ser hu-
reflete sobre as possibilidades, os cami- mano, o direito de ter “uma vida e uma obra
nhos e os limites da educação em artes para com sentido e significado”, que “pode fazer
formar pessoas capazes de atuar por uma da arte uma contribuição fundamental à
convivência cidadã e promover mudanças experiência humana” (Taubkin), ou de um
culturais nos modelos de desenvolvimento encontro com suas raízes identitárias e a me-
que criem as condições para uma vida futura mória coletiva esquecida, como nos lembra
mais plena e sustentável. Kiusam de Oliveira a poeta tatiana nascimento: “Fazendo parte
finaliza essa seção com artigo publicado na de uma comunidade palavreira imaginada e
versão digital da revista, no qual destaca a imagética fértil, frutífera, afiada, futurista, a
importância da formação de professoras(es) qual elabora uma pedagogia literária outra:
para a compreensão da Base Nacional Co- a literatura negra/lésbica afronta padrões
mum Curricular (BNCC) no tocante ao en- representativos vigentes e oferece possibi-
sino das artes, para que sejam capazes de lidades novas, insurgentes”.
“descolonizar o olhar e a mente sobre o que Vem das artes cênicas, com os textos de
tem sido considerado arte até hoje em nos- Chico Pelúcio, Guti Fraga e Denise Stoklos,
so país”. Propõe uma formação que ofereça o manifesto político mais contundente do
aos educadores as condições concretas de papel das artes – no caso, as cênicas – como
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constructo do ser coletivo, do espaço de rup- e as salas de aula, incentivando a imaginação,


tura com a estagnação cultural e política, da o senso crítico, o afeto e a cooperação.
distopia e da desesperança social. Stoklos Germán Rey, a partir de experiências
afirma: “Pode-se pensar que as artes cênicas colombianas, revela os profundos desafios
representam uma das salvaguardas da cultu- que três instituições culturais em particu-
ra contra o lugar-comum – que é a expressão lar – museus, bibliotecas e laboratórios de
de um forte sintoma da estagnação cultural. artes – têm enfrentado com as mudanças
A performance é sempre uma atitude insti- nos modos de leitura e com as transforma-
gadora do pensamento, pois não comporta a ções nas representações museográficas e nas
repetição e a mesmice”. Já Kiko Dinucci pro- experimentações de fruição. Para ele, são
duz uma imagem-obra-manifesto aberta, que essas as três instituições que estão reinven-
pede para ser lida e interpretada livremente. tando de forma mais acelerada os sentidos
Por último, a quarta seção, O Lugar da educativos, rompendo com o formalismo da
Experimentação para a Aprendizagem: a instrução para criar uma potente pedagogia
Educação que Nasce de Espaços, Projetos, sociocultural de construção cidadã. Para dar
Grupos e Coletivos Culturais, traz cinco ar- concretude a suas ideias, apresenta as expe-
tigos de pensadores e gestores culturais que riências dos Parques Bibliotecas de Bogotá e
lideram em seus países – Colômbia, Argen- Medellín e do Centro Ático, criado dentro da
tina, Portugal e Brasil – redes, programas e Pontificia Universidad Javeriana em Bogotá,
projetos que inovam as visões, os recursos, como uma plataforma multimídia que rapi-
as ferramentas e as plataformas voltadas damente se converteu em um espaço onde
para sistemas de aprendizados para crian- confluíam “o pensamento e a memória, a
ças, jovens e adultos. Nessa seção, pergun- formação e a experimentação, o empreen-
tamos como museus, bibliotecas, centros e dimento e a inclusão social”, tensionando o
mostras culturais, bienais e festivais de arte espaço universitário para o encontro entre
se tornaram usinas de reflexão e experimen- disciplinas e saberes e a formação profissio-
tação de práticas educativas, produção de re- nal com as práticas culturais. Por fim, apre-
cursos e materiais educacionais e estudos senta dois museus: o Museo Itinerante de la
de linguagem. E de que forma esses espaços Memoria (MIM), dos Montes de María, uma
podem converter-se em referências para experiência museológica comunitária em
tornar mais criativos os modelos de ensino uma das regiões mais violentas da Colômbia;
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e o Museo del Caribe, em Barranquilla, que realizado no Brasil e protestos ao redor do


propõe aos seus visitantes interações senso- mundo, a autora nos pergunta se podemos
riais e cognitivas diretas. O autor destaca, em continuar descolando o debate das políti-
cada um dos projetos, o valor das práticas e cas culturais e seus processos formativos
experiências culturais para repensar visões, dos valores que deveriam sustentar regimes
compromissos e modelos educativos. democráticos. E, diante da evolução do con-
Ricardo Dal Farra, em Arte, Educação e ceito de democratização do acesso à cultura
Meios Eletrônicos, pergunta-nos como pen- para o de criação de uma democracia cul-
sar a educação em um mundo que vive trans- tural, a formação de cidadãos informados,
formações tão rápidas. Qual é hoje o lugar da críticos e envolvidos na construção de uma
ética, da filosofia e da arte? Para responder, sociedade mais justa, solidária e tolerante
reflete sobre a experiência de três projetos deveria ser um compromisso ético das po-
que vinculam arte, educação e meios ele- líticas e dos projetos de educação culturais.
trônicos, realizados no Peru e na Argentina. São apresentados conceitos e iniciativas
Ele descreve, à luz de cada projeto narrado, realizadas na Europa – especialmente em
o desafio que é formar as novas gerações em Portugal, onde Vlachou vive e trabalha – que
condições tão desiguais de acesso aos novos podem colaborar de maneira prática com
meios de comunicação e o papel da cultura caminhos possíveis.
neste processo de integrar memória e expe- Consuelo Bassanesi escreve sobre As
rimentação, tradição e inovação. Residências Artísticas como Espaços de
Maria Vlachou, por sua vez, em um ar- Reflexão e Produção de Artes, e nos lembra
tigo provocativo cujo título é a pergunta “Ha- já na abertura do texto que, “mais do que
verá Democracia Política sem Democracia oportunidades pessoais de deslocamento,
Cultural?”, coloca em perspectiva o impacto as residências artísticas são janelas para
que os acontecimentos políticos em vários a construção de novas narrativas não ape-
países do mundo têm no debate sobre a qua- nas artísticas, mas também geopolíticas”.
lidade da nossa democracia e o questiona- A partir da lembrança de suas vivências de
mento sobre o papel da cultura na sociedade. infância passadas no litoral gaúcho, do en-
Em um contexto de Brexit, movimentos contro com “forasteiros” e uma fita cassete
independentistas na Catalunha, vitória de do Siouxsie and the Banshees encontrada
Donald Trump, processo de impeachment na areia que embala a juventude da autora,
ARTE, CULTURA E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA  15

mostra-se a importância dos trânsitos, dos Carlos Gomes finaliza essa última se-
deslocamentos, não só para as artes, mas ção com o artigo Onde Há Espaço, que emo-
para a vida. O artigo destaca o deslocamento, ciona pelo tom intenso, no qual a narrativa
autodeterminado e voluntário, e a desterri- da cena cultural da periferia de São Paulo na
torialização como noções que nos permitem década de 1990 ganha estatuto de manifesto
fazer escolhas relacionadas a nossa identi- contra o conformismo e os lugares que a so-
dade, muitas vezes determinadas por regras ciedade define para cada um dos atores so-
e predefinições sociais. “Ali, onde ainda não ciais. O autor inicia seu texto afirmando que
somos, podemos ser outro”, propõe para em o convite do artista é sempre para “imaginar
seguida defender que há uma obrigação das outros mundos e nos convidar para neles en-
organizações públicas e privadas de promo- trar”. O risco e a dissonância são inerentes
ver programas de residências como política ao trabalho artístico e Gomes usa a metá-
de desenvolvimento das artes. Em um país fora do trapezista que se lança sem rede de
de imensas possibilidades e pluralidades proteção e que encontra o público na cena
artísticas, a ausência de políticas para resi- aberta. O encontro vai lhe mostrar “o quanto
dências e trânsitos artísticos, assim como suas urgências reverberam perante o públi-
de apoio a espaços independentes, choca co”. Com essa abertura que, como também o
pela falta de visão de que é essa a principal fez Denise Stoklos em seu texto, coloca-nos
porta de formação para jovens artistas e de diante da radicalidade do processo criativo
desenvolvimento de artistas profissionais. da arte e de sua não submissão ao status quo,
Consuelo dá o alerta: “Com a instabilidade a narrativa abre para os movimentos cultu-
de espaços independentes e gerados por rais nascidos no Jardim Ângela e no Capão
artistas, perdemos todos não só as possibi- Redondo como resistência e desobediência
lidades de intercâmbio, aperfeiçoamento e “à ordem violenta imposta àquela população
desenvolvimento crítico por meio de resi- divulgada pela grande mídia”. A reconstru-
dências, mas também espaços que se desti- ção de um imaginário de violência para um
nam à experimentação, à exibição de artistas de potência cultural, de poética da insub-
jovens em suas práticas, ao frescor do under- missão, dá-se por vários atores, projetos e
ground. Enfim, perdemos a parte do sistema experiências, como os saraus da Cooperifa
de arte que vive à margem do mercado e das e do Binho, o Samba da Vela, o Racionais
grandes instituições por definição”. MC’s, as ações do Centro Cultural Monte
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Azul e da Biblioteca Trópis, o Panelafro, as e estabelecer noções de estar juntos, ao mes-


mostras culturais e os movimentos de gra- mo tempo que se garante o espaço da criação
fiteiros e do hip-hop. Ao negar a condição como ato singular, autoral e transgressor que
de vulnerabilidade e o lugar proposto pe- constitui a essência da arte? Com toda a sua
las estatísticas de violência, esses atores e riqueza plural, diversa, trágica, cômica, irô-
movimentos evidenciam o poder da arte e nica e violenta, permeada de conflitos, amor
da cultura para inverter a percepção subja- e morte amalgamados na longa aventura da
cente às lógicas perversas de uma sociedade história da humanidade, a cultura nos ofe-
desigual, onde a voz do pobre, do preto, do rece aquilo que o poeta Amós Oz chama de
favelado é sempre uma voz sem autoria, um “abertura do terceiro olho”, o espaço onde é
corpo objetificado pelo trabalho e pela falta. possível se sintonizar com formas mais cons-
Ao vincular a memória desses movimentos cientes, afetivas e ativas de se relacionar com
culturais à essência do processo criativo que a realidade e mudá-la.
faz da arte o lugar per se da insurgência, da A edição 24 da Revista Observatório
transgressão e do novo, o autor traduz os propõe um mergulho nessas questões. Em
elementos que deveriam orientar a relação sua versão digital, apresenta um relato
e o trabalho de arte, cultura e educação, aju- do caleidoscópio de experiências latino-­
dando a levantar perguntas. americanas em arte e educação e outras
Em um mundo marcado por mudanças reflexões que foram apresentadas durante
culturais aceleradas, redes de comunicação o seminário sobre o tema realizado entre os
que definem sociabilidades, maneiras de dias 21 e 22 de março de 2018 na sede do
criar, investigar, fruir e se conectar com os Itaú Cultural. Trocas que podem inspirar
fragmentos de imagens, sons e ruídos que caminhos e mudanças desejáveis neste ter-
percebemos como “o mundo”, o “outro” e ritório ainda pouco explorado nas escolas e
o “nós”, como propor um lugar afirmativo especialmente nas políticas de educação e
na educação para as artes, a memória e a de cultura. Escritos com humor, franqueza,
experimentação culturais? E como equili- algum ceticismo e boa dose de leveza, os ar-
brar a necessária educação cultural capaz tigos devem proporcionar um aprendizado
de promover valores e significados para a prazeroso aos leitores.
vida comum, esse lugar onde todos se en-
contram para forjar valores de convivência Marta Porto
9. Aos leitores
Marta Porto

1. A CRIATIVIDADE E A
IMAGINAÇÃO COMO PILARES
3. MANIFESTO POÉTICO:
O SENTIDO DA EDUCAÇÃO
DA EDUCAÇÃO PARA OS ARTISTAS

26. Digestão cultural 88. Arte e cultura – ampliação


Entrevista com Claudio di Girólamo da experiência humana

2.
Benjamim Taubkin

95. Escritas negras/lésbicas:


ARTE, EDUCAÇÃO plantando espelhos para brotar
E A IDEIA DE VIVER JUNTOS futuros possíveis
tatiana nascimento
59. Educação e cultura ou morte
Alcione Araújo 100. Arte para quê? – ilustração
Kiko Dinucci
66. Em defesa da arte-educação
Ana Mae Barbosa 104. O longo caminho mais
próximo para o pleno encontro
76. A educação em artes em entre o artista e o cidadão
um mundo em convulsão: direitos, Chico Pelúcio
convivência e cultura de paz
Lucina Jiménez López 106. Arte e reinvenção da vida
Guti Fraga

110. Performance solo na educação


Denise Stoklos
sumário

4. O LUGAR DA
EXPERIMENTAÇÃO PARA A
5. SEMINÁRIO ARTE,
CULTURA E EDUCAÇÃO NA
APRENDIZAGEM: A EDUCAÇÃO AMÉRICA LATINA, REALIZADO
QUE NASCE DE ESPAÇOS, PROJETOS, NOS DIAS 21 E 22 DE MARÇO DE 2018
GRUPOS E COLETIVOS CULTURAIS
176. Relatoria
115. Mutações simbólicas, Leticia de Castro
redesenhos culturais e educação: [conteúdo on-line]
a biblioteca, o museu e o laboratório
Germán Rey

132. Arte, educação e meios


eletrônicos: experiências,
desafios e propostas
Ricardo Dal Farra

146. Haverá democracia política


sem democracia cultural? O lugar
das “periferias” em Portugal
Maria Vlachou

160. As residências artísticas como


espaços de reflexão e produção de artes
Consuelo Bassanesi

169. Onde há espaço Os textos/entrevistas desta revista não


Carlos Gomes necessariamente refletem a opinião do Itaú Cultural.
Fernando Vilela (1973) é artista, ilustrador, escritor e designer. Mestre em artes visuais
pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP), é autor
de 20 livros e ilustrou mais de 90, publicados em dez países. Lampião & Lancelote (Cosac
Naify, 2006) recebeu menção honrosa na Feira Internacional do Livro Infantil de Bolonha
(Itália) e dois prêmios Jabuti. Vilela expôs no Brasil e no exterior, possuindo obras na
coleção do Museum of Modern Art (MoMA), em Nova York, e da Pinacoteca do Estado de
São Paulo, entre outras instituições. Sua obra pode ser vista no site fernandovilela.com.br.
“As gravuras que concebi para esta edição da Revista do Observatório nasceram de
uma leitura poética dos assuntos tratados. A sequência de ilustrações sugere possíveis
narrativas nas quais um personagem atravessa cenas com elementos que rementem a
estruturas, destruições, situações de violência, expressão, opressão e resistência. Os ele-
mentos gráficos em constante mutação nessa travessia buscam dialogar com o universo
complexo da arte, da cultura, da educação e da política na América Latina, em seus desvios,
suas fricções, invenções e contradições.”
24 OBSERVATÓRIO ITAÚ CULTURAL
ARTE, CULTURA E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA  25

1. A CRIATIVIDADE E A
IMAGINAÇÃO COMO
PILARES DA EDUCAÇÃO

26. DIGESTÃO CULTURAL


Entrevista com Claudio di Girólamo
26 OBSERVATÓRIO ITAÚ CULTURAL

ilustração: André Toma


ARTE, CULTURA E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA PORTO E SOTO ENTREVISTAM DI GIRÓLAMO 27

DIGESTÃO CULTURAL

E
ntrevista com Claudio di Girólamo Carlini. A pauta de perguntas foi
elaborada por Marta Porto, como editora, e adaptada a um diálogo
presencial com Paulina Soto, realizado em Santiago do Chile em
­ ovembro de 2017.
n
28 OBSERVATÓRIO ITAÚ CULTURAL

MUDANÇAS CULTURAIS, VALORES


E ESCOLA COMUNITÁRIA

ESTAMOS VENDO EM BOA PARTE DO MUNDO globais e colocadas em prática certas defini-
A VOLTA DA XENOFOBIA, DO RACISMO E DOS ções antes de se entender claramente o que
MOVIMENTOS CONSERVADORES COM MUI- queriam dizer também colaborou para esse
TAS NUANCES RELIGIOSAS. A UTOPIA QUE cenário. Após a Segunda Guerra, por exem-
ALIMENTOU O OCIDENTE NO PÓS-GUERRA, plo, falou-se apenas da utopia da coexistên-
DE QUE ERA POSSÍVEL TER MAIS JUSTIÇA, cia pacífica, não de convivência. Esta última
PROTEÇÃO E PAZ ENTRE OS POVOS, PARECE é muito mais difícil e demorada de conseguir.
TER FRACASSADO. O MODELO EDUCACIONAL A coexistência pacífica foi atingida. De
ADOTADO NO SÉCULO XX E QUE PERDURA fato, passaram-se muitos anos antes que co-
ATÉ OS DIAS DE HOJE CONTRIBUIU PARA meçassem novamente os conflitos em dife-
ESSE FRACASSO? POR QUÊ? rentes partes do mundo – que se tornaram
Claro que o modelo educacional contri- guerras locais, tribais, de todos os tipos –,
buiu para isso, porém ele não é o único res- no início principalmente no Oriente Médio,
ponsável. A forma como foram tomadas as depois no Extremo Oriente, até chegarem
decisões, impulsionadas as políticas gerais e à América Latina. Diante dos inúmeros
ARTE, CULTURA E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA PORTO E SOTO ENTREVISTAM DI GIRÓLAMO 29

surtos de violência e de inconsistências baixo custo. O mundo todo pode se comuni-


nas Nações Unidas como sistema mundial car instantaneamente, e não só uma elite, o
de coordenação, faltou o entendimento das que representa uma mudança de paradigma
grandes diferenças que existiam e persis- de caráter cultural.
tem, até que chegou a globalização da infor- Achávamos que as intransigências no
mação, cuja contribuição mais precisa foi a tocante à cor da pele, à forma de ser das pes-
sua contemporaneidade. soas ou às outras crenças haviam acabado.
Antes, era necessário um tipo de diges- Até o antissemitismo havia chegado ao fim,
tão de todas as mudanças para chegar ao má- assim como soluções tão drásticas e horrí-
ximo de pontos possíveis no globo terrestre. veis quanto o Holocausto. Mas não se levou
Começou pouco a pouco, mas nunca se achou em conta que, ao mesmo tempo, brotavam
que seria tão rápida [a globalização informa- outras divisões, que primeiramente vieram
cional]. Além disso, as redes sociais signifi- dos interesses econômicos e depois se trans-
caram a distribuição maciça, em razão de seu formaram em sociais e culturais.
30 OBSERVATÓRIO ITAÚ CULTURAL

ENTÃO A REALIZAÇÃO POLÍTICA DA UTOPIA o convencimento das pessoas, a apropriação


NÃO SÓ FOI DEFICITÁRIA EM SEU PARADIG- da sociedade civil não é possível.
MA COMO TAMBÉM NÃO TEVE UM CORRE- Começa com um protesto nas ruas e
LATO COM A SUA REALIZAÇÃO CULTURAL, acaba em uma revolução. Não se pode pro-
PORQUE ESTA É MUITO MAIS LONGA E PRE- meter em longo prazo. Se você fizer uma
CISA DE MAIS TEMPO. promessa, será cobrado a cumpri-la imedia-
Estamos sofrendo os estragos des- tamente, sem perder tempo. Isso é coisa do
sa falta de percepção do tempo necessário mercado, que suscita a competitividade e o
para instalar esse tipo de comportamento, de sucesso. As pessoas também querem ter su-
transformações, acentuando-se tanto as de- cesso em suas buscas, e ter sucesso equivale
mandas quanto as promessas a esse respeito. a ter uma resposta imediata.
Os governos duram quatro anos. Quatro anos A intransigência não é somente no to-
não são suficientes para que ocorram as reais cante à xenofobia, mas em relação a tudo.
mudanças: as culturais. Pode-se obrigar, mas, Não se pactua o tempo que demora qual-
cuidado, não existirá o convencimento. Sem quer ajuste social.
ARTE, CULTURA E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA PORTO E SOTO ENTREVISTAM DI GIRÓLAMO 31

E A ESCOLA TAMBÉM SE JUNTA A ESSE IME- saber ler e escrever era poder, hoje você tem
DIATISMO, QUE DEIXA DE LADO O TEMPO aparelhos. Por que eu preciso escrever bem
QUE OS PROCESSOS SOCIOCULTURAIS DE- se, por meio deles, tenho até um tradutor?
MANDAM? Mas é muito perigoso delegar à máquina as
Acontece em qualquer lugar do mundo. decisões que são do ser humano.
A escola, a escolarização – que foi uma in- A inteligência artificial, a sensibilidade
venção do império para poder lidar com es- artificial e toda a emoção artificial, nós não
ses processos magnificamente – tinha outro as conhecemos. É preciso cuidado com o que
tempo, outro ritmo. Hoje é imediato. Antes, pode acontecer com isso.
32 OBSERVATÓRIO ITAÚ CULTURAL

EU GOSTARIA QUE VOCÊ DESENVOLVESSE A aplicada. Mas talvez isso seja pertinente a ela.
IDEIA DESSA TRANSFORMAÇÃO BRUSCA GE- Esse imediatismo, por exemplo, não dei-
RADA PELA GLOBALIZAÇÃO TECNOLÓGICA xa tempo para repensar, para digerir o pensa-
E QUE IMPACTOU NA ESCOLA. UMA ESCOLA mento. Qualquer erro, qualquer decisão ruim
QUE FICOU PRESA EM TEMPOS E RITMOS QUE já foi para o ar. É tudo abrupto. Se antes esses
NÃO RESPEITAM O QUE É PRÓPRIO DA CULTU- erros permaneciam, podendo até adquirir
RA; SE ANTES A LEITURA E A ESCRITA COMO outra forma, outra fisionomia, outro simbo-
TRANSMISSORES DE CONHECIMENTO NOS lismo, hoje não é assim, é imediato. Isso nos
DAVAM TEMPO PARA MASTIGAR, DIGERIR, obriga a pensar muito mais. A rapidez pode
HOJE NÃO É MAIS ASSIM. FALE UM POUCO servir para olhar, não para enxergar. Ou seja,
SOBRE ESSA “DIGESTÃO CULTURAL”. é necessário olhar até enxergar.
Antes, por exemplo, a comunicação e a Assim, a digestão cultural levada à
distância eram longas jornadas, hoje são se- dimensão social e institucional da escola
gundos. Somos órfãos no uso dessa tecnologia. implica repor tempos de processamento de
Não sabemos exatamente as consequências como são concebidas as ideias, as utopias.
do seu uso. Então, quando suas consequências Como, por exemplo, a autodisciplina não
não são agradáveis, achamos que ela foi mal seria diferente da disciplina muito prematura?
ARTE, CULTURA E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA 33
34 OBSERVATÓRIO ITAÚ CULTURAL

EM SEUS ARTIGOS E ENTREVISTAS, VOCÊ é verdade? Uma coisa é dizer: “Eu tenho o
AFIRMA QUE O MODELO DE ESCOLA QUE meu ponto de vista, mas respeito o ponto de
TEMOS HOJE FOI CONCEBIDO NO SÉCULO vista dos outros”. Por exemplo, se eu tiver
ANTEPASSADO E PRIORIZA UM TIPO DE DIS- que enxergar algo que está atrás de mim,
CIPLINA ORIENTADA À EFICÁCIA E À COM- tenho que virar para olhar.
PETITIVIDADE. EM SUA OPINIÃO, COMO O Então tenho que escolher, sim, é limita-
ENSINO DAS ARTES E A ESCOLA DO SÉCULO do. Se eu quiser ter pontos de vista ilimitados,
XXI PODEM DIALOGAR COM ESSES VALORES, não terei um prognóstico, que é a mesma coisa
OU MELHOR, ANTIVALORES? que não ter nada. Assim, diante dessa compe-
Primeiramente, é muito importante en- titividade na escola, proponho a comunidade,
tender que cada um de nós tem um ponto de a escola comunitária. Se não for comunitária,
vista. O que eu exijo é ponto de vista. Hoje, não serve. Hoje, após as grandes descobertas
parece que a pessoa mais culta é aquela que científicas, existe uma equipe que está con-
tem menos pontos de vista ou que pode se cebendo, confirmando e formando vários
adaptar a qualquer um deles. Parece ótimo, pensamentos em torno de um único objetivo.
uma vida superficialmente mais harmonio- Evidentemente, isso se enriquece mais com
sa, mas, por dentro, continua a bagunça, não colaboração do que com competitividade.
ARTE, CULTURA E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA PORTO E SOTO ENTREVISTAM DI GIRÓLAMO 35

O GÊNIO SOLIPSISTA1 VERSUS A INTELIGÊN- querem fazer da melhor forma as transfor-


CIA COLABORATIVA. mações por meio da arte.
Em segundo lugar, ensinar arte é mui- Os gregos, grandes criadores da lingua-
to diferente de ensinar pela arte. Tenho pro- gem da humanidade, não tinham a palavra
blemas com artistas que falam: “Mas você arte em seu vocabulário. Eles tinham a pala-
diz que a arte pode ser usada. Não se usa a vra techné. E nós imediatamente a relaciona-
arte, ela é livre”. Não, desculpe-me, a arte é mos com técnica. O que a arte tem a ver com a
uma expressão humana que posso usar para técnica? A arte é muito mais do que a técnica,
melhorar outros tipos de expressão humana, mas techné significa fazer “Bem” algo, com le-
para fazer entender muito melhor e muito tra maiúscula. Então o que deve ser ensinado
mais facilmente as diferentes gerações que é a excelência e a rigorosidade em fazer arte.
36 OBSERVATÓRIO ITAÚ CULTURAL

A COMPETITIVIDADE É ALGO QUE DEFINI- você procura por meio do sistema de tentati-
TIVAMENTE DEVERIA SER MODIFICADO NA va e erro. Não existe uma fórmula melhor do
ESCOLA DO SÉCULO XXI. MAS NÃO ESTARIA A que um laboratório para lhe dizer que algo é
DISCIPLINA LIGADA À RIGOROSIDADE? possível – ou eu ainda não a encontrei.
Disciplina é diferente de rigorosidade. Com relação à disciplina, não sou con-
A disciplina imposta não chega a lugar ne- tra. Não à toa, falo de disciplina artística. Mas
nhum… “A letra com sangue entra” é castigo. a disciplina imposta é muito diferente da au-
O erro é castigado para que a pessoa não erre todisciplina. Se eu não me autodisciplinar,
mais, em vez de se considerar o erro – como nunca vou entender nada. Tenho que ter a
eu sugiro na escola comunitária – um degrau experiência humana de me autodisciplinar.
para subir mais: “Parabéns pelo seu erro, por- Então não é que o professor perde o poder ou
que agora já é o infinito menos um”. O erro a sua linha de ação de acompanhar o apren-
como uma possibilidade. diz em seu aprendizado, em sua apreensão
O rigor e a excelência não são orientados da realidade por um caminho que ele mes-
ao mercado, mas ao próprio ser humano. Na mo constrói. Começamos a entender que a
escola tradicional, dizem a você o que deve ser pessoa humana é o cerne da questão. Não o
feito. Na escola comunitária, há um sistema aluno, nem o discípulo, nem o mestre, nem o
de oficina no qual o orientador lhe diz qual é professor, nem o esquema do edifício, nem a
o assunto. Você participa da atividade porque organização da escola, mas a pessoa que dá
se interessa pelo assunto e pelo tipo de ensino vida a isso, o aprendiz que quer apreender.
oferecido. Quando você faz um laboratório, Então, em que se reflete essa dignida-
a equipe é o que importa. Para tanto, todos de? Ela se reflete no fato de que a vontade
são igualmente capazes de propor um tema, de aprender nunca é abalada. Concordo
mas têm que negociá-lo com os outros, para com Carlos Calvo quando ele diz que todos
verificar se todos estão de acordo. Ou seja, nós nascemos com a vontade de aprender.
isso o obriga, por meio das tarefas, a levar em Não há ninguém que sofra por isso, todos
consideração a opinião alheia. No laboratório, nós o desejamos.
ARTE, CULTURA E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA PORTO E SOTO ENTREVISTAM DI GIRÓLAMO 37

A CURIOSIDADE É UMA CONDIÇÃO HUMANA? afetiva, ao ambiente, à disciplina imposta,


A curiosidade é a mãe da criatividade. à uniformidade na forma de se vestir. Tudo
Por que ela começa a ser cerceada? Porque muda esse paradigma do ser humano único,
é muito antipática, cria muito barulho em porque tentamos uniformizá-lo.
uma escola organizada. Por quê? Porque a As crianças são tratadas como se fossem
criança curiosa pergunta, movimenta-se, é um regimento e, por mais que você queira
hiperativa. Então, para cada quilo de inquie- suavizar essa sensação, ao entrar na escola,
tação da criança, toneladas de Ritalina. Se elas sentem uma rejeição absoluta, que des-
tivermos um pouco de paciência, ela será gasta os professores ou os pedagogos mais
muito recompensada pelo resultado, por- idôneos. Eles precisam de muita habilidade e
que uma criança se entrega mais facilmen- tempo para romper esse esquema de enfren-
te. Ao chegar à escola, ela a sente como uma tamento. E nós desrespeitamos as crianças
adversária. Quanto a quê? Quanto à parte todos os dias, impondo-lhes esse tipo de coisa.
38 OBSERVATÓRIO ITAÚ CULTURAL

O APRENDIZ NO CENTRO E A DOCÊNCIA


COMO TESTEMUNHO DE VIDA

OU SEJA, DEFINITIVAMENTE, A ESCOLA DO SÉ- E VOCÊ DEVE DAR A ELA A LIBERDADE DE ES-
CULO XXI TEM QUE COLOCAR O APRENDIZ NO COLHER E PROPOR.
CENTRO. E ESSE APRENDIZ TEM QUE FAZER A liberdade de escolher e a possibilidade
UM PROCESSO DE AUTODISCIPLINA, QUE FI- de propor. Não de escolher a resposta entre
NALMENTE VAI PERMITIR A COLABORAÇÃO... A, B, C, mas começar pela pergunta que ela
E é muito mais rápido. A autodisciplina se formula e responder aos questionamentos
é mais eficaz, porque a criança começa a se feitos por outros. Em segundo lugar, deve ela-
rebelar justamente quando você está fazendo borar a possibilidade de respostas infinitas,
resistência a ela. Então, não se deve resistir. perceber que há muitas, não somente aquela
Ao contrário: “Olha, eu tenho essa ideia. O que o professor sabe.
que você acha?”. No começo, a criança não
acredita quando você fala: “Diga-me o que
acha. Traga uma proposta amanhã”. “Mas que
projeto eu devo trazer?” “O que você quiser.”
ARTE, CULTURA E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA PORTO E SOTO ENTREVISTAM DI GIRÓLAMO 39

OU SEJA, HÁ UMA ESPÉCIE DE GENUÍNA HU- SÓ SE A ATITUDE CORPORAL DELE O DENUN-


MANIZAÇÃO NO SENTIDO DE QUE A ESCOLA CIAR...
DEVE DEIXAR DE SER UM CENTRO HIERÁR- Só se, quando ele começar a falar, disser
QUICO DE CONHECIMENTO ONDE HÁ SOMEN- coisas que o revelem claramente. Não é algo a
TE UM DISPOSITIVO. priori. Sempre digo: “Vejam, senhores, vocês
Sim. Existem hierarquias na espécie falam muito de autoridade. A autoridade não
humana, mas também existem hierarquias deve ser imposta, mas conquistada”. E con-
naturais, não impostas. De fato, se você não quistada com respeito ao outro.
colocar os distintivos e as insígnias nos solda- Desde que a criança entra na escola,
dos superiores, se você deixar todos nus, qual nós a desrespeitamos. Ou seja, essa possi-
será o chefe? Não será possível reconhecê-lo. bilidade de voltar a colocá-la no centro da
escola do século XXI é a garantia da huma-
nização da instituição.
40 OBSERVATÓRIO ITAÚ CULTURAL

A DIMENSÃO DE VALOR DA AUTODISCIPLINA capazes de tomar as nossas próprias decisões


DÁ AO SUJEITO A VANTAGEM DE CONHECER no momento certo e sem cair nas mentiras
A SI MESMO. ESSA É A VERDADEIRA INTE- vitais, no exagero ou no que for.
LIGÊNCIA? Seria interessante esclarecer e lembrar
Parto do que o pedagogo e educador ita- que a palavra profissão vem de testemunho. Se
liano Loris Malaguzzi2 diz e que, de repente, uma pessoa quiser ser professor, ensinar, ser
pode até parecer uma loucura: “Nunca se pedagogo e não tiver a verdade da sua missão,
deve ensinar às crianças o que elas podem da sua vocação, não poderá sê-lo. É um teste-
aprender sozinhas”. A disciplina imposta é munho de vida. No fundo, nós não somos o que
uma dessas coisas. É importante que o ser dizemos, somos o que fazemos. Assim, uma
humano aprenda a se autodisciplinar, porque pessoa pode até ter uma trajetória muito bri-
nem sempre ele vai ter ao seu lado uma pes- lhante, pode ter ideias geniais, mas, se na hora
soa que, por bem ou por mal, vá discipliná-lo. de ensinar, demonstrar ao discípulo que não é
Então, todos os desajustes que há em capaz de respeitá-lo como pessoa e de confiar
nossa vida em sociedade se devem a isto: não que ele vá se a­ uto-organizar para aprender so-
sabemos nos autodisciplinar para sermos zinho, significa que está mentindo.
ARTE, CULTURA E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA PORTO E SOTO ENTREVISTAM DI GIRÓLAMO 41

ENTÃO A AUTONOMIA É COMO A CONSCIÊN- VOCÊ TEM TODA A RAZÃO. ALÉM DISSO, EM
CIA? OUTRA OCASIÃO, VOCÊ MENCIONOU QUE
Veja, as pessoas têm medo da autono- ESSA AUTODISCIPLINA TAMBÉM É OUTRA
mia. Inclusive, chamam os idosos de inde- PONTE OU OUTRO CAMINHO PARA A DESCO-
pendentes. Mas é bom ser independente? BERTA DAS PRÓPRIAS LINGUAGENS.
Significa que eu me viro sozinho? Então Isso é muito importante. Muitas vezes,
por que a autonomia seria ruim quando principalmente na arte, quando a criança
sou muito jovem? A mensagem é que você não se autoformou, é preciso acompanhar
tem que estar bem velhinho para ter o di- sua autoformação e sua autodecisão. Então,
reito de ser independente. Quando se tem se você deixá-la, ela começará a se formar
mais força, a melhor imaginação, quando conforme certas modas, certos momentos.
se está em sua plenitude. E, se a criança in- E a graça é quando ela é capaz de se formar
ventar qualquer coisa, dizem: “Bom, quando apesar desses momentos ou modas. Em 60
você for mais velho, quando não significar anos de atividade ininterrupta, já aconteceu
nenhum perigo para a sociedade nem fizer de tudo comigo. Não que esteja revendo o
coisas muito ousadas, sim”. que eu fazia certo ou errado. Não que isso
42 OBSERVATÓRIO ITAÚ CULTURAL

me interesse. É ver uma linguagem. Ou seja, específico de forma de fazer ou de fazer


estou retomando o fio do antigo discurso, estética, é preciso perguntar: “O que posso
mas a partir do hoje. Não estou fazendo aca- tirar daqui?”. A simplicidade do traço não
demia, estou revisando, revisitando, ven- significa outra coisa além da síntese. Reto-
do de novo, voltando a me visitar e vendo mar um momento de síntese, de pureza, de
também com o desprendimento vindo não pulcritude. E as pessoas me diziam: “Que
só o tempo passado, mas também a idade, bonito isso”. Mas eu não estou aqui para
da experiência vivida. Em todos os tipos de fazer coisas bonitas, estou fazendo coisas
coisas humanas, não somente artísticas ou que tenham um significado. É a minha lin-
do ponto de vista da estrutura de um tipo guagem para dizer algo.
ARTE, CULTURA E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA PORTO E SOTO ENTREVISTAM DI GIRÓLAMO 43

AS LINGUAGENS ARTÍSTICAS CONTRIBUEM APROFUNDE-SE UM POUCO MAIS NISSO. POR


FORTEMENTE PARA ISSO PORQUE LHE DÃO QUE OS COMPARTIMENTOS ESTANQUES SÃO
MUITA LIBERDADE. UM ARTIFÍCIO?
Não só liberdade, elas lhe dão a possibili- Porque com isso se justifica que tudo
dade de atravessar um mundo que, na realida- é mais fácil. Mas é mais difícil, porque os
de não artística, você não consegue atravessar. seres humanos nascem totalmente inte-
Não posso atravessar a geografia, a física, a grados. A criança tem uma visão absoluta
música. Chegamos a tal extremo que temos do todo. E nós lhe dizemos: “Não, isso não
todo o conhecimento separado em compar- é como você está vendo. Para entender me-
timentos estanques e agora somos obrigados lhor, feche os olhos e ouça, abra os olhos e
a tentar recompor esse quebra-cabeça. tampe os ouvidos”.
46 OBSERVATÓRIO ITAÚ CULTURAL

DESARTICULAMOS O SEU CORPO E OS SEUS NÓS TIRAMOS DELA O MISTÉRIO.


SENTIDOS. Nós tiramos dela o mistério, além de
Sim, sendo que a criança é absoluta- muitas outras coisas. O que temos que fazer
mente espontânea. Não somente espon- é dizer à criança como colocar em atividade
tânea, ela também junta tudo com tudo. tudo o que ela tem. Mas as disciplinas foram
Quando ela entra na escola, a primeira coisa reproduzidas na instituição escolar com base
que ouve é que o que viveu até os cinco ou nesses currículos monossilábicos, não é?
seis anos, todo dia, toda noite, a forma como Veja, há um exemplo muito claro que pode
ela se posicionou no mundo não é a certa. convencer qualquer um. O método Suzuki3
Por quê? Porque se tenta tirar dela o motor de tocar violino. Ela não faz solfejo, não faz
da curiosidade e da exploração. Porque ela nada. Bach, direto. Aí dizem: “Você está lou-
se distrai, ela se dispersa. co. Como essa criança vai interpretar Bach?”.
Apenas deixe-a. Ela descobrirá sozinha a
alma que Bach colocou na matemática. E es-
tuda matemática enquanto toca Bach. Ela é
capaz. Nós os chamamos de alunos “sem luz”.
Eles têm toda a luz do mundo. Podem fazer
tudo. Não são “gênios” de seis anos de idade.
Mas, se você deixá-los sozinhos, eles apren-
dem a tocar. Sabem de ritmo, sabem de tudo.
Há também a ideia do professor como
um modelo que deve ser emulado e repetido.
Evidentemente, esse professor-modelo este-
ve presente na história da escola da arte ou
da educação artística e também é algo que
deve ser questionado na escola comunitá-
ria deste século XXI. Por exemplo, sobre a
criação coletiva, diz-se que “os preguiçosos
vão para Jauja”. Isso é mentira. Por quê?
Porque cada um encontra o seu lugar, o seu
ARTE, CULTURA E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA PORTO E SOTO ENTREVISTAM DI GIRÓLAMO 47

papel, e vivencia diferentes papéis, até en- AQUILO QUE SE APRENDE DE FORMA FELIZ,
contrar um. Lembro-me de que Grotowski4 POR ASSIM DIZER, FICA IMPRESSO E SE IN-
tinha um método circular. Ele fazia todo o CORPORA AO SUJEITO? NA SOCIEDADE TAM-
seu elenco vivenciar Hamlet, o barrigudo, o BÉM É ASSIM? OU SEJA, QUANDO SE APRENDE
rapaz, o feio, o velho, até que o personagem UM BOM HÁBITO SEM PERCEBER COMO ISSO
saía sozinho. Vemos o que se está buscando a OCORREU, A CULTURA LIGADA A ELE PASSA A
serviço do todo, da história, de muitas coisas SER UM SENSO COMUM?
que não são o ego. Então a criação coletiva A centralidade do pensamento, que
tem a vantagem de fazer todos os participan- também sempre foi muito associada à ideia
tes se apropriarem da obra, ao mesmo tempo de uma escola que permitiria a convivência
que lhes diz que ninguém é dono da criação. a partir da equiparação das diferenças, é res-
Dessa perspectiva, há um valor no processo ponsável, de alguma forma, pela intolerância.
da autodescoberta que também tem a ver O que nos incomoda nos transexuais?
com tirar algo de você. O fato de eles se sentirem em um corpo es-
Ou seja, o professor, esse velho profes- tranho e quererem mudá-lo. Como vou en-
sor autoritário que quer que você se pareça tender isso? “São doentes.” Não, são pessoas
com ele, como um robô, não serve mais. Isso de uma coragem infinita, capazes de dizer:
está claríssimo, não é? Ele encontra muita “Olha, está errado. Esse corpo não me per-
resistência no dia a dia. Mas, sim, esse pro- tence, houve um erro aqui”. Assim, equiparar
fessor condutor tem que ter habilidades que as diferenças é como reduzir a realidade. Há
não estão necessariamente escritas em mo- reducionismo no ser humano de uma forma
nossílabos ou em um currículo. espantosa, nos homens e nas mulheres. Você
Você se lembra do professor que o liber- viu o que querem fazer agora? Vagões espe-
tou, não daquele que o restringiu. Você quer ciais no metrô para que as mulheres não se-
esquecer os sofrimentos. Você quer esquecer jam assediadas. Isso é medieval! É como o
o quanto foi difícil aprender. Seria lindo se gineceu nas primeiras catedrais românicas,
as pessoas se lembrassem de como foram porque os homens e as mulheres podiam ter
felizes aprendendo. Como mudar esse para- atos impuros durante a celebração da missa.
digma, essa ideia de que “a letra com sangue Ou seja, é uma loucura, realmente uma lou-
entra”, do ensino como trauma? cura. Uma regressão!
48 OBSERVATÓRIO ITAÚ CULTURAL

BOM, ISSO NOS LEVA DE VOLTA À PRIMEI- MAS VOCÊ AUMENTOU A LISTA DOS ANTI-
RA PERGUNTA. POR QUE ESTÃO VOLTANDO VALORES QUE ESTÃO PRESENTES NESSE
ESSAS EXPRESSÕES TÃO REGRESSIVAS NA COTIDIANO, QUE É A FORMATAÇÃO DAS ES-
EVOLUÇÃO CULTURAL? COLAS PARA AS CRIANÇAS. SÃO PRÁXIS QUE,
Nós estamos semeando isso na escola. ÀS VEZES, COM A INTENÇÃO DE SER POSITI-
VAS OU CONTRIBUIR PARA O MÁXIMO REN-
DIMENTO DE UM SER HUMANO, DISTORCEM
TOTALMENTE OS VALORES E CAUSAM UM
CURTO-CIRCUITO NO PROCESSO COGNITIVO
E AFETIVO DOS PEQUENOS. HÁ EXPERIÊN-
CIAS DO MUNDO ARTÍSTICO, NÃO MAIS NO
NÍVEL DO PROCESSO FORMATIVO, MAS DA
CRIAÇÃO DE OBRA, EM QUE SE CENSURA E SE
CASTIGA MESMO PROFISSIONAIS. VOCÊ VI-
VENCIOU, COMO DIRETOR NACIONAL DE CUL-
TURA DO CHILE, OS CASOS DE DUAS OBRAS
ARTE, CULTURA E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA PORTO E SOTO ENTREVISTAM DI GIRÓLAMO 49

CENSURADAS: UMA SOBRE UM COMANDANTE o melhor estudante é aquele que expõe de


DO MUNDO NAVAL E OUTRA QUE FOI O EXPE- forma verbal e escrita suas ideias com cer-
RIMENTO DA CASA DE VIDRO, INSTALADA NO ta ordem lógica –, e se você levar isso para
CENTRO DE SANTIAGO. ESSAS EXPERIÊNCIAS o âmbito da arte pública, todo o seu corpo
COLOCAM UM ESPELHO DIANTE DAS CON- tem que se expor se você quiser mostrar
TRADIÇÕES DE UMA SOCIEDADE ADULTA, emoções, por exemplo. Portanto, a escola
FORMADA POR ESSA ESCOLA QUE CASTIGA. do século XXI deveria treinar esses futuros
É muito bom o que você está me lem- cidadãos do espaço público para enfrentar
brando. Porque aí há tabus que não podem certas provocações.
ser tocados: o herói pátrio, a bandeira, o re- Uma maneira de fazê-los se acostu-
lato de nós e a questão sexual. São casos de mar a elas é ter não somente um professor,
obscurantismo. É medieval. mas um grupo de dois ou três professores,
Se formos para o campo da escola clás- que espero que sejam interdisciplinares,
sica e de seu mecanismo de avaliação, que para discutirem entre si diante das crian-
normalmente tem a ver com a valorização ças. Isso já as ensina a fazer cidadania sem
de enlaçar certas ideias de forma lógica – medo de discordar.
50 OBSERVATÓRIO ITAÚ CULTURAL

AQUI TAMBÉM HÁ OUTRO COMPONENTE DA PARTE DAS EMOÇÕES DE SUA EXPERIÊNCIA,


ESCOLA CLÁSSICA QUE ATENTA CONTRA A E, PORTANTO, ESSA MEMÓRIA DO POVO TAM-
CIDADANIA E A CONVIVÊNCIA COM A DIVER- BÉM É INTERROMPIDA E SEGMENTADA. EU
SIDADE, OU SEJA, ESSE NÚCLEO QUE É DES- OUVI VOCÊ FALAR DISSO, DA IMPORTÂNCIA
TRUÍDO PELA IDADE E PELOS ESTAMENTOS DE DESTRUIR TAMBÉM ESSA LIMITAÇÃO IM-
ESTANQUES. SEPARÁ-LOS POR IDADE É OU- POSTA PELA IDADE.
TRA CARACTERÍSTICA CLÁSSICA DA ESCOLA. A escola, por definição, carece de uma
AS DIFERENTES GERAÇÕES FAZEM COM QUE valorização do idoso. Dentro das escolas não
A MEMÓRIA CULTURAL DE UM POVO SE SEG- há idosos. Isso é bastante interessante, não
MENTE CONFORME INTERESSES ETÁRIOS. é? A ideia de que visualmente os idosos estão
OU SEJA, EU ME INTERESSO POUCO PORQUE incapacitados. As capacidades não têm nada
FUI TREINADA PARA ESTAR SOMENTE COM a ver com o corporal. Quando aceitarmos a
OUTROS DA MINHA IDADE. EU ME INTERESSO inclusão dos diferentes na escola, aceitare-
POUCO EM OUVIR UM IDOSO E TORNAR-ME mos a inclusão dos diferentes na sociedade.
ARTE, CULTURA E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA PORTO E SOTO ENTREVISTAM DI GIRÓLAMO 51

SONHOS E LIBERDADE

NO TOCANTE ÀS POLÍTICAS CULTURAIS OU ENTÃO A ÉTICA E A UTOPIA MODERNA CON-


INICIATIVAS DAS INSTITUIÇÕES CULTURAIS TRIBUÍRAM PARA A CONSCIÊNCIA E A LI-
EM DIÁLOGO COM A ESCOLA, O ASPECTO CIEN- BERDADE. E ESSA SERIA UMA DAS GRANDES
TÍFICO-HUMANISTA E O ESPORTE TIVERAM CONTRIBUIÇÕES DA ARTE PARA A NOVA ES-
UMA VALORIZAÇÃO SUPERLATIVA A PARTIR COLA DO SÉCULO XXI?
DA ÉPOCA VITORIANA. NAS UNIVERSIDADES, Não somente isso, mas acredito que
HÁ ESTUDANTES QUE ENTRAM COMO BOLSIS- também devemos olhar para nós mesmos –
TAS POR MEIO DO ESPORTE. MAS A VALORIZA- que nos queixamos tanto da falta de ética dos
ÇÃO DAS HABILIDADES DA ARTE, QUE TAMBÉM políticos, de todos os outros – e ver o quanto
SÃO TREINADAS, NÃO ESTÁ NA MESMA CATE- somos éticos ou não. A utopia é feita, os ou-
GORIA. VOCÊ É UM ARTISTA E, PORTANTO, tros não a fazem por mim. Essa é a diferença.
SABE QUE NEM TODA A SOCIEDADE É ARTISTA. Tudo isso, metáforas muito preciosas, tem
MAS A EDUCAÇÃO PELA ARTE PODE CONTRI- que aterrissar em coisas muito concretas
BUIR PARA INSTALAR NA ESCOLA DO SÉCULO para que as pessoas possam entender.
XXI CERTOS VALORES QUE VOCÊ DESCREVEU? Acredito que a utopia é o que desejo.
Malaguzzi, nas escolas da Reggio Emi- Por dizer isso, fui chamado de estalinista.
lia, fala muito do ensino pela arte, e suas Porque eu disse: “Você me traz um projeto de
propostas não sugerem que todas as crian- país”. Eu tenho um desejo de projeto de país.
ças sejam artistas, mas também nenhum ser Não vou obrigar ninguém a segui-lo, mas te-
humano chega a ser escravo. Por isso há arte, nho o dever e o direito de apresentar o meu
porque a arte é libertadora. E essa sociedade desejo à sociedade. E como eu posso expres-
quer seres livres? Na sociedade moderna, de- sar e realizar esse desejo publicamente? Sei
claradamente, sim. Mas devemos começar a que é muito lento, mas as coisas lentas são
levar isso a sério. Temos que ser livres. A de- como a gotinha que vai escavando a pedra,
mocracia é liberdade. É necessário começar ou seja, é saber que estamos trabalhando
por baixo e por cima ao mesmo tempo. para o futuro, não para o hoje.
52 OBSERVATÓRIO ITAÚ CULTURAL

EM OUTRAS PALAVRAS, A ESCOLA COMUNI- que podem nos dizer o que temos que defen-
TÁRIA PODE SER UMA ESCOLA PARA SONHAR. der. Os sonhos, além disso, são individuais
UMA ESCOLA PARA OS SONHOS. e coletivos. “Quero uma sociedade melhor.
Claro, os sonhos são a única coisa sub- Quero uma sociedade em que as pessoas se-
versiva que nos resta. Contudo, as pessoas jam felizes.” Mas sabe o que isso significa?
têm medo dos sonhos porque eles lutam Que é preciso mudar todo o paradigma de
em seu interior, não as deixam tranquilas. toda a sociedade atual.
Se tem sonhos, ao apagá-los, você se ani- Os sonhos estão se limitando a procu-
maliza. E isso se faz por medo de sofrer. rar adquirir coisas, meios ou formas de ser
Você não quer sonhar porque não quer ter diferentes daquelas que tenho – e que espero
frustrações. Um sonho significa a frustra- que sejam mais do que tenho. O sonho, em
ção batendo à porta, porque os sonhos não todos os comerciais de televisão, é o desejo
podem ser realizados. Porém, são os únicos de possuir um produto.
ARTE, CULTURA E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA PORTO E SOTO ENTREVISTAM DI GIRÓLAMO 53

E VOCÊ ACREDITA QUE A ESCOLA, ESSA um farol, um centro cultural da comunidade.


INSTITUIÇÃO QUE TEM EDIFÍCIO, GRADES O centro cultural tem que ser a escola, como
CURRICULARES, PROFESSORES FORMADOS sempre foi. Esse é o diferencial quando se faz
E COM TÍTULOS, ESTRUTURAS ADMINIS- o contraponto com essa coisa mais artificial.
TRATIVAS ETC., PODE COMPETIR HOJE COM Claro, antes era assim. Ou seja, a Uni-
A FORÇA DA MÍDIA MODELANDO AS NOSSAS versidade de Bolonha, no século X, quando
CRIANÇAS DIARIAMENTE PELA TELEVISÃO, começou a ser criada, mudou a cidade de Bo-
PELOS CELULARES, PELOS TABLETES? lonha, a mais antiga. Foi um grupo que disse:
Acho que sim. Muitos locais dependem “Veja, o senhor tem interesse em entrar nis-
de uma escola para mudar o bairro. Acho que so. Vamos pedir para nos ensinar o que sabe”.
a nova educação pública ou a escola aberta E aí começou e foi crescendo.
para a comunidade, os laboratórios cultu- Então não sejamos incrédulos. Pode-se
rais, permitem que as crianças do segundo acreditar e esperar das coisas. O pessimismo
ano primário até o ensino médio aprendam é a pior coisa que pode nos acontecer. Sou
serviços com a comunidade. Elas têm aulas, otimista por natureza. Por que eu posso ser
por exemplo, nos institutos de formação téc- otimista? Porque sou sobrevivente. Então
nica, onde fazem o projeto elétrico de todo o ninguém pode dizer que sou ingênuo. Antes
bairro e aprendem de tudo: física, química, de morrer, Anne Frank disse: “Sei que esta-
além de fazerem um serviço social, coletivo e mos em um momento ruim da humanidade,
comunitário. Devemos transformar a escola mas acho que isso vai passar. Apesar de tudo,
em parte integrante da comunidade, como ainda acredito na bondade humana”.
54 OBSERVATÓRIO ITAÚ CULTURAL

Marta Porto
Marta Porto é jornalista, especialista em políticas de comunicação, arte e cultura,
curadora, conferencista e ensaísta com atuação internacional. Foi cofundadora da XBrasil,
premiada internacionalmente como case de comunicação de impacto social. Atualmente,
é líder executiva da Juntos, agência de comunicação especializada em projetos sociais
corporativos. Com uma equipe interdisciplinar, mantém o Plano A Studio, que atua como
laboratório de ideias para criar espaços e ambientes que associam arte e cultura a políticas
de educação e comunicação. Foi professora do programa de pós-graduação internacional
em competências criativas do Centro Universitário UMA/MG e leciona no programa de
estudos culturais e sociais da Universidade Candido Mendes e no Centro de Pesquisa e
Formação do Sesc/SP, além de coordenar o programa de residência artística Inquietudes,
do Instituto Tomie Ohtake.

Claudio di Girólamo
Pintor, cenógrafo, arquiteto, diretor e apresentador de TV, Claudio di Girólamo nasceu
em Roma, na Itália, em 1929, onde estudou pintura, arquitetura e cenografia na Escola
de Belas-Artes da Universidade de Roma. Expôs suas pinturas em galerias de Santiago,
Buenos Aires e Milão. Mudou-se para o Chile em 1948, dedicando-se intensamente à
atividade como pintor muralista em igrejas e edifícios públicos de várias cidades. Como
cenógrafo, integrou os grupos de teatro Ensayo, da Pontifícia Universidade Católica do
Chile, e Ictus, no qual permaneceu por 30 anos. No final da década de 1960, ingressou
na televisão, trabalhando como diretor e apresentador. Na área de cultura e educação,
lecionou na Pontifícia Universidade Católica do Chile, entre 1952 e 1969, e na Escola de
Trabalho Social do país. Foi chefe da Divisão de Cultura do Ministério da Educação do
Chile e conselheiro do mesmo órgão. Em 2011, junta-se ao Projeto de Coesão Social e
Contenção Psicossocial em áreas de desastre, uma parceria entre o Ministério da Educa-
ção e a União Europeia, colaborando na criação de um espaço de arte audiovisual com
crianças da educação básica da VII região do país.
ARTE, CULTURA E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA PORTO E SOTO ENTREVISTAM DI GIRÓLAMO 55

Notas

1 Solipsismo: teoria filosófica segundo a qual nada existe fora do pensamento


individual, sendo a percepção (das coisas/das pessoas) uma impressão sem
existência real. Pode ser considerado ainda o modo de vida de quem prefere
criar ou viver na solidão.

2 O pedagogo e educador italiano Loris Malaguzzi (1920-1994) construiu um


princípio de ensino em que não existem disciplinas formais e todas as atividades
pedagógicas se desenvolvem por meio de projetos, que surgem a partir de ideias
dos próprios alunos, desenvolvidas pelo intercâmbio de diferentes linguagens.
Sua metodologia foi primeiro colocada em prática na cidade italiana de Reggio
Emilia, onde, após o fim da Segunda Guerra, as mulheres decidiram erguer
e administrar uma escola para os filhos, pois todas as que existiam na região
haviam sido destruídas durante os combates.

3 Desenvolvido nos anos 1940 pelo violinista, educador e filósofo japonês


Shinichi Suzuki (1898-1998), o processo de educação musical tem como
uma de suas intenções ensinar paz e compreensão às crianças por meio da
música. Entre as bases de sua concepção, o método Suzuki considera: que o
talento não é inato; para desenvolvê-lo é necessário ambiente favorável; prevê
participação dos pais; é estruturado em aulas coletivas; é baseado na repetição;
e é baseado na autodisciplina.

4 Dramaturgo, teórico e educador, o polonês Jerzy Grotowski (1933-1999) é figura


seminal e influência para o teatro de vanguarda e experimental do século XX.
Seu método de exercícios dramatúrgicos continuados propõe uma ética do ator
como sujeito de experiências autênticas e define o grupo teatral como lugar de
investigação pessoal e artística.
56 OBSERVATÓRIO ITAÚ CULTURAL
ARTE, CULTURA E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA 57
2. ARTE, EDUCAÇÃO E A
IDEIA DE VIVER JUNTOS

59. EDUCAÇÃO E
CULTURA OU MORTE
Alcione Araújo

66. EM DEFESA
DA ARTE-EDUCAÇÃO
Ana Mae Barbosa

76. A EDUCAÇÃO EM ARTES EM UM


MUNDO EM CONVULSÃO: DIREITOS,
CONVIVÊNCIA E CULTURA DE PAZ
Lucina Jiménez López
ARTE, CULTURA E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA Alcione Araújo 59

EDUCAÇÃO E CULTURA OU MORTE


Alcione Araújo

Educação e cultura são áreas inseparáveis do conhecimento, mas não é essa a convergência
que se tem visto nos últimos anos. A educação é hoje entendida como instrução profissional,
reduzindo-se ao papel subalterno de preparação de mão de obra e adestramento para a produção.
É na confluência entre educação e cultura, no entanto, que a educação ganha um significado
mais profundo, pois, além de promover a formação racional, passa também a enriquecer a
experiência humana, revelando a sensibilidade e a criatividade por meio da fruição das artes.

E
u sonho com um Brasil em que a história e a utilização que faz da natureza, a
educação e a cultura sejam enten- sensibilidade é indispensável para abrir as
didas como frutos da mesma árvore portas da percepção do mundo simbólico, o
sagrada do conhecimento. E não que coexis- acesso à produção do imaginário, da subje-
tam nesta esquizofrênica separação. Cultura tividade e das emoções.
é tudo o que foi tocado pela mão e pelo espí- Porém, não é essa convergência o que
rito criador do homem. A mesa que o enge- se tem visto nos últimos anos. A educação
nho do homem extrai do tronco da árvore é considerada eficiente atualmente é a que ofe-
cultura. Assim como o romance, produção rece uma formação apoiada exclusivamente
de um mundo simbólico que enriquece o no saber racional, de preferência moldado
imaginário do homem. ao funcionalismo imediato daquilo que se
A educação, que nos aproxima da ciên- entende por desempenho produtivo.
cia e da tecnologia, deveria nos aproximar Segundo a Constituição de 1988, é obri-
também das artes. Quando se trata das ili- gação do Estado oferecer a todos a educação
mitadas potencialidades do ser humano, do convencional necessária. Mas isso é insufi-
domínio da natureza, do conhecimento da ciente. É preciso mais. Muito mais. Com a
espécie ou do que, genericamente, se chama autoestima abalada, é preciso que a educa-
produção do espírito, a educação, com todo o ção seja motivo de orgulho do brasileiro. O
peso de sua importância, reproduz a paideia conhecimento da ciência, da história e da
grega como processo de transmissão do saber própria língua falada e amada é uma neces-
e deve ser entendida como o braço organiza- sidade tão fundamental que se tornou direito,
do, sistematizado e hierarquizado da cultura. tornou-se lei. Cumprir a lei é obrigação do
Da mesma maneira que a racionalidade é in- governante, assim como do cidadão. Os go-
dispensável para compreender o homem, sua vernantes devem se orgulhar quando fazem
60 OBSERVATÓRIO ITAÚ CULTURAL

escolas, distribuem merenda ou pagam com Expulsaram a cultura da escola. E ninguém


decência os professores. mais é responsável pela aproximação da edu-
Educação e cultura sempre andaram cação com a cultura. Se é grave a existência
juntas. Além de tudo o que as professoras de um apartheid social, é muito mais grave
nos ensinavam, estudávamos os escritores o apartheid cultural. O primeiro se resolve
e líamos suas obras; estudávamos os compo- pela vontade política de acabar com a fome e
sitores e ouvíamos suas músicas; estudáva- a miséria. O segundo exige anos de vivências,
mos dramaturgos e cineastas e assistíamos a práticas e percepções culturais.
suas peças e seus filmes. Entendíamos cada Um rápido recuo no tempo ajudará a
uma dessas formas de expressão, o significa- compreender. Os jesuítas chegaram ao Bra-
do da linguagem artística, e nos emocioná- sil na metade do século XVI, com a inten-
vamos com as obras – ou seja, aprendíamos ção de impor um novo modelo aos bárbaros
que éramos gente. que viviam aqui em meio à natureza. Mas
A educação é o braço sistematizado da a catequese dos índios foi um fracasso. Os
cultura, é a ordenação do que se deve tratar religiosos se concentraram no que era a sua
em cada faixa etária para dar eficiência ao real vocação, a preparação da elite – o bran-
aprendizado, com professores habilitados a co europeu imigrante. Mais tarde, quando
transmitir a quantidade e a especificidade se iniciou o tráfico de escravos, os jesuítas
de saber para uma pessoa de determinada nem olharam para os negros, que acabaram
idade. E esse professor, hoje desvalorizado, não sendo escolarizados. Com eles, houve
é também referência de valores morais e éti- uma das mais agressivas subalternidades
cos, de atitudes etc. que o mundo já viu. Há pouco mais de cem
O homem é, sobretudo, subjetividade. anos, havia aqui seres humanos que eram
A convivência com a arte comove, enterne- propriedade privada de seus senhores, tendo
ce, dá esperança, enriquece a experiência de de trabalhar dia e noite, sem direito a lazer, a
estar no mundo. A arte e a cultura nos permi- descanso, a nada. O negro era invisível. Com
tem adquirir vivências do que não vivemos, a abolição, vira um pária. Não há alfabetiza-
tornando-nos seres humanos não apenas ção para ex-escravos nem para seus filhos.
mais sensíveis, solidários, participantes e Eles ainda não têm direito a nada.
conscientes, como também capazes de co- Esse quadro inicial da formação misci-
nhecer a plenitude da vida. genada da população brasileira, tendo as eli-
Investir na educação e na cultura per- tes abrigadas em seus privilégios e a grande
mite entrarmos, de fato, no século XXI. A cul- massa segregada das escolas e dos valores
tura começa na escola, e, assim, a educação econômicos, educacionais e culturais, leva à
ganha um significado mais profundo e mais grande questão atual: essa sociedade produ-
amplo, porque vai formar profissionais, ci- ziu um tipo de cidadão cujos ancestrais não
dadãos e seres humanos. Porém, em algum tiveram escolaridade. Ele próprio não a tem.
momento da história, ocorreu uma separa- Só entende o mundo até onde o seu discer-
ção esquizofrênica entre educação e cultura. nimento intuitivo alcança. Um cidadão que
ARTE, CULTURA E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA Alcione Araújo 61

não consegue verbalizar o que sente, que não ouvido uma sinfonia, visto uma exposição,
tem possibilidade de parlamentar, de dialo- uma peça etc. No entanto, é o que acontece.
gar, substitui, em seu desespero, a falta de Que cidadão é esse? Que profissional é esse?
palavras pela truculência. É uma linguagem É a vítima de um modelo educacional
que ele compreende. que renunciou aos fundamentos universais
Por isso, só se vai resolver a violên- da formação – do profissional, do cidadão e
cia urbana substituindo o armamento dos do homem – para se tornar uma maratona de
bandidos e da polícia pela interlocução. A adestramento para a produção. Não assegu-
educação e a cultura abrem as portas para a rar a todo cidadão o direito constitucional de
interlocução. Atribuo à educação e à cultu- acesso à produção cultural, não aproximar
ra a saída da barbárie que nossa civilização a educação da cultura é deixar queimando o
está vivendo. Se a educação não se incumbir rastilho que vai detonar a bomba.
da missão de desvelar o mundo mágico da São quatro as faces do mais grave e
arte, vamos continuar a ver formarem-se aparentemente despercebido problema
médicos, engenheiros, advogados, econo- brasileiro: a insuficiente escolarização da
mistas – cuja trajetória, população, a ineficiência
muitas vezes por empe- O homem é, sobretudo, do modelo educacional, a
subjetividade. A convivência
nho, talento pessoal ou esquizofrênica separação
com a arte comove, enternece,
sorte, chega a alcançar a entre educação e cultura,
dá esperança, enriquece a
competência técnica es- experiência de estar no mundo. e a elitização da cultura.
pecífica – que nunca vi- Infiltrando-se simultanea-
braram com a leitura de um romance, nunca mente, funcionam como uma bomba com o
umedeceram os olhos com um soneto nem silencioso rastilho aceso. É nessa insidiosa
se enlevaram ao ouvir uma sinfonia. A edu- confluência que cresce o ovo da serpente.
cação é irmã inseparável da cultura. Afas- Secular periferia do mundo, a grande
tá-las é matá-las de inanição – e limitar o maioria das famílias brasileiras não teve
homem à sua face mais fria, ao seu coração educação formal e está alijada do mercado
mais duro. Será que há aí um ser humano cultural tradicional. Raras são as residên-
em plenitude? Mas que ser humano é esse? cias em que se veem livros, quadros, es-
Que educação é essa? culturas, instrumentos musicais etc. Já a
E eis-nos de volta à questão central: a televisão, desde que surgiu, foi entronizada
educação. É aqui que os impasses e incer- como o meio, por excelência, para veicula-
tezas se dirimem, que o caminho se define ção da indústria do entretenimento. Como
entre um ou outro extremo. Por isso, é incon- audiência, ela arrebatou pessoas que ainda
cebível que alguém possa formar-se médi- não tinham adquirido os hábitos culturais
co, engenheiro, advogado ou o que seja – e, tradicionais. Os valores éticos, morais e esté-
concluindo o chamado curso superior, fazer ticos da indústria do entretenimento se tor-
parte da elite, com pelo menos 16 anos de es- naram a referência – para as massas, a única
colaridade – sem nunca ter lido um romance, referência cultural – de um povo com baixa
62 OBSERVATÓRIO ITAÚ CULTURAL

escolaridade, afastado da cultura tradicional A educação, entendida exclusivamente


e despreparado para a fruição estética. como formação profissional, abandonando
O Brasil não desenvolveu um público a formação do cidadão e do ser humano, fica
para a cultura porque a maior parte da po- reduzida ao papel subalterno de adestra-
pulação sempre esteve do lado excluído da mento para a produção, preparação de mão
sociedade, murada pelo apartheid econômico, de obra amesquinhada, linha auxiliar de acir-
educacional e cultural. O que poderia mudar ramento da perversa concentração de renda.
esse quadro seriam políticas de distribuição Os professores não podem ter a atividade
de renda menos perversas, de modo a fazer degradada pelo progressivo aviltamento de
crescer a classe média. Enquanto essa evolu- seus salários e das condições de trabalho. Da
ção não se efetiva, o país vai ter, se é que já não mesma forma, a cultura não pode se resignar
tem, duas culturas numa mesma geografia. às migalhas que caem da mesa do poder, em
E tudo se deu com a mudança do eixo de que o interesse está apenas na exploração
referência. Após a guerra, a orientação dou- marqueteira dos valores do espírito. A cul-
trinária de nossa educação e cultura cruzou o tura oficial tem sido fachada para a ambição
Atlântico, da França para os Estados Unidos. de suntuosas nulidades ou para o narcisismo
Na Europa, abandonamos o clássico tripé dos de obscuros serviçais.
compromissos fundamentais da universida- O que dá algum alento é surgirem ato-
de: a formação do profissional, a formação do res sem outros interesses que não o de con-
cidadão e a formação do homem. Esquecemos tribuir para trazer mais luz aos jovens. Eles
o ideal aristotélico do homem integral, pecu- beneficiarão todos com um saber transfor-
liar à longa tradição do humanismo europeu mador da realidade, ao mesmo tempo que
– francês, em particular –, e passamos a comer serão mais sensíveis, mais humanos e mais
poeira na estrada desbravada pelo pragma- profundos – justamente pela percepção do
tismo norte-americano. Com uma diferença novo mundo sugerida pela arte e pela cul-
substancial: nos Estados Unidos, não apenas a tura. São melhores profissionais, porque
família, mas também a escola e a igreja intro- exigiram melhores cursos. São melhores
duzem os jovens no mundo da cultura, assim cidadãos, porque sabem os seus deveres e
como no exercício do conceito de cidadania. direitos; o que é justo e injusto; têm clare-
Formar o cidadão é dar-lhe a dimensão za quanto ao certo e ao errado. São homens
de seus direitos e deveres em relação à sua melhores, portanto, porque descobriram o
família, à sua comunidade, à vida política, outro como semelhante, que pensa diferente,
ao seu trabalho e à sua pátria. Como pensar mas tem igual direito à vida, aos sonhos e à
em cidadania no último país a abolir a escra- luta pela felicidade.
vidão? Em vez de escravos, deveríamos ter A educação deve desvelar a arte e des-
estudantes, professores, trabalhadores, in- cobrir a cultura, que gera um homem novo
telectuais, artistas, ombro a ombro, exigindo e um novo país. Quero sonhar que essa ideia
o direito de todos ao saber e à plenitude da generosa e transformadora há de se espa-
experiência de estar no mundo. lhar por aí.
ARTE, CULTURA E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA Alcione Araújo 63

Alcione Araújo
O professor, escritor e dramaturgo mineiro foi autor de espetáculos de teatro como
Há Vagas para Moças de Fino Trato (1974), Doce Deleite (1981) e Muitos Anos de Vida
(1984) – que lhe deu o Prêmio Molière de Melhor Autor. Durante 12 anos, lecionou na
Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Uni-Rio) e na Escola de Teatro Mar-
tins Pena, entre outras instituições. Desde a década de 1980, dedicava-se ao trabalho de
roteirista de cinema e televisão.
64 OBSERVATÓRIO ITAÚ CULTURAL
ARTE, CULTURA E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA Alcione Araújo 65
66 OBSERVATÓRIO ITAÚ CULTURAL

EM DEFESA DA ARTE-EDUCAÇÃO
Ana Mae Barbosa

O artigo destaca a boa qualidade da arte-educação no Brasil. Em consonância com o


contextualismo social, procura demonstrar a importância das artes para o desenvolvimento
de habilidades que auxiliam na aprendizagem de outras disciplinas. Demonstra, ainda, a
existência de outros argumentos em defesa da arte na educação, como a corrente essencialis-
ta, para a qual a disciplina não precisa de justificativa, é importante por si só, e a corrente do
contextualismo psicológico, que defende as artes nas escolas por sua influência na educação
afetiva, emocional e criativa.

Uma introdução otimista a arte-educação no Brasil por quase

A
50 anos, o pós-modernismo articulou
arte-educação se desenvolveu mui- concepções baseadas nas pedagogias
to no Brasil nos últimos 25 anos. críticas, culturais e visuais, atribuin-
Hoje, as exposições, os teatros, os do igual importância aos processos de
espetáculos de dança com ingressos gratui- fazer arte, contextualizá-la e saber ler
tos ou baratos estão cheios de diferentes pú- a imagem, a obra de arte ou o campo
blicos. Não vemos mais apenas as elites cir- de sentido da arte (abordagem trian-
culando nos eventos culturais, mas pessoas gular). Como a maioria dos teóricos
de todas as classes sociais. Em São Paulo, não contemporâneos da educação com-
estamos muito longe de alcançar a utopia da prova, a contextualização é condição
democratização cultural. epistemológica básica de nosso mo-
Isso se deve principalmente a três va- mento histórico e não poderia ser vis-
riáveis: ta apenas como um dos lados ou um
• a mudança operada nas teorias e prá- dos vértices do processo de aprendi-
ticas da aprendizagem da arte nas zagem. O fazer arte exige contextuali-
escolas públicas durante as gestões zação, que é a conscientização do que
de Paulo Freire (1989-1991) e Mario foi feito, assim como qualquer leitura,
Sergio Cortella (1992-1993) na Secre- como processo de significação, exige
taria Municipal de Educação de São a contextualização para que a com-
Paulo. Sem desprezar o modernismo preensão seja completa;
expressionista, que dinamizou de • as bem-sucedidas ações de recons-
modo apaixonado, mas incompleto, trução social de ONGs comunitárias
ARTE, CULTURA E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA Ana Mae Barbosa 67

demonstraram o poder da arte para voltar a uma fase há muito tempo superada
desenvolver a cognição. Essas orga- no Brasil, da advocacia das artes na educação.
nizações ensinaram ao sistema es- Eu já havia sepultado com orgulho mi-
colar como usar arte para ajudar no nha função de ativista, lentamente substi-
aprendizado de outras disciplinas; tuindo-a pela de pesquisadora em tempo
• a criação e a atuação de coletivos integral, que condiz melhor com a dignidade
artísticos, principalmente na peri- da velhice. Entretanto, agora, todos nós, que
feria da cidade, compostos de jovens sabemos da importância da arte em nossas
artistas visuais, músicos, poetas e vidas, na constituição de nossas personali-
produtores culturais em geral que dades e em nossas profissões, precisamos
mantiveram contato com a arte mes- polir nossos discursos de convencimento a
mo fora da escola. Por meio de uma respeito da necessidade da arte para pelo me-
aprendizagem que inclui o fazer, a in- nos não perdermos as conquistas das últimas
terpretação e a contextualização, es- décadas na educação de nossos jovens.
ses jovens foram contaminados pelas Não se discute mais, nos países ditos
artes, que passaram a ser necessidade desenvolvidos, a importância do ensino das
básica em suas vidas, fato que os levou artes nos vários níveis escolares, inclusive
corajosamente a forçar as portas das nas universidades, para alunos de medicina,
instituições públicas, que não podem enfermagem, direito, economia etc. Por que
mais fingir que eles não existem. não podem frequentar disciplinas de arte
se quiserem? Um dos meus sonhos – e do
Advocacia da arte na educação reitor com quem trabalhei na Universidade
Dois fatores tornaram o Brasil um dos de São Paulo (USP) – era criar no Museu de
países mais bem-sucedidos no ensino das Arte Contemporânea (MAC) cursos abertos
artes: a ampliação das práticas pedagógi- aos alunos de toda a universidade, valendo
cas – que eram restritas à expressão – em créditos nos seus currículos. Consegui fazer
direção ao conceito de arte como cultura na isso na teoria, mas não na prática artística.
educação; e a ação de ONGs e coletivos geo- O Programa Nascente era um preâmbulo
gráfica e socialmente periféricos. No entanto, desse sonho na sua versão prática.
corremos o risco de perder essa posição em Nos Estados Unidos, foi fundamental a
razão de medidas provisórias, como a que re- descoberta, nos anos 1990, de que os alunos
centemente estabeleceu a reforma do ensino que por dez anos tiveram as melhores notas no
médio, tirando a obrigatoriedade do ensino de SAT, teste equivalente ao Enem, haviam tido
artes em nossas escolas. Agora, só nos resta alguma disciplina de artes em seu currículo.
68 OBSERVATÓRIO ITAÚ CULTURAL

Passou-se, então, a estudar transferência cog- design) e matemática.2 Com a nova confi-
nitiva no ensino das artes. As perguntas eram: guração, verificaram que a imaginação e os
O que se aprende nas artes e o modo como esse processos de criação foram intensificados.
aprendizado se dá podem ser transferidos para Portanto, sem artes no currículo es-
outras disciplinas? O desenvolvimento mental colar, habilidades também importantes em
que as artes proporcionam é aplicável ao modo outras disciplinas terão menos chance de
como se aprende as outras disciplinas? serem desenvolvidas. Sem obrigatoriedade
legal, dificilmente teremos ensino da arte.
Transferência de aprendizagem da Vale a pena uma economia tão pequena em
arte para outras disciplinas relação às grandes verbas do Estado?
James Catterall1 (1948-2017), profes-
sor da Universidade da Califórnia em Los Leitura de imagens
Angeles (Ucla), dedicou grande parte de sua Por outro lado, que outra disciplina de-
vida a analisar pesquisas que provam que as senvolve o que é específico das artes? Qual
artes desenvolvem a cognição do indivíduo, disciplina no currículo desenvolve especifica-
cognição esta que pode ser aplicada a outras mente a percepção e a discriminação visuais?
áreas do conhecimento. Chegou à conclusão Qual prepara para a leitura da imagem? As ar-
de que as artes desenvolvem até mesmo a tes visuais. A leitura do discurso visual, que
parte racional da inteligência, mensurável não se resume só a uma análise de forma, cor,
pelo teste de QI. linha, volume, equilíbrio, movimento, ritmo,
As diversas pesquisas analisadas pelo mas, principalmente, é centrada na signifi-
professor mostraram de que forma o ensino cação que esses atributos conferem à imagem
de artes opera na cognição (veja quadro nas em diferentes contextos, é um imperativo da
próximas páginas). contemporaneidade. Os modos de recepção da
Tendo em vista o fraco desempenho de obra de arte e da imagem, ao ampliarem o sig-
estudantes norte-americanos em ciências, nificado da própria obra, a ela se incorporam.
foi criado nos Estados Unidos, nos ensinos Não se trata mais de perguntar o que o
fundamental e médio, o sistema interdiscipli- artista quis dizer em uma obra, mas o que a
nar Stem (abreviação de Science, Technology, obra nos diz, aqui e agora, em nosso contex-
Engineering and Mathematics), que propõe to, e o que disse a outros leitores em outros
a inter-relação entre o ensino de ciências, contextos históricos.
tecnologia, engenharia e matemática. En- Em nossa vida diária, estamos rodeados
tretanto, as pesquisas não demonstraram a por imagens veiculadas pela mídia, vendendo
melhoria esperada no ensino de ciências. A produtos, ideias, conceitos, comportamen-
pesquisadora e professora Georgette ­Yakman, tos, slogans políticos etc. Uma leitura crítica
ao incluir as artes, conseguiu melhores re- das imagens é muito importante como ins-
sultados. A partir do seu trabalho, o Stem se trumento de legítima defesa ideológica.
transformou em Steam, sistema que inclui A leitura das imagens fixas e móveis da
ciências, tecnologia, engenharia, artes (e publicidade, do que vemos nas ruas e das artes
ARTE, CULTURA E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA Ana Mae Barbosa 69

nos exercita a consciência acerca daquilo que aparecem na arte, de como eles têm sido
aprendemos por meio da imagem. Por outro percebidos, redefinidos, redesignados, dis-
lado, a leitura e o contato com obras de arte torcidos, descartados, reapropriados, refor-
na escola possibilitam a criação de público mulados, justificados e criticados em seus
para a produção artística, e, nesse sentido, a processos construtivos, ilumina a prática
­arte-educação é também a mediação entre artística, mesmo quando essa prática é me-
arte e público. Tirar as artes da escola e depois ramente comercial.
clamar por meios de “ampliação de plateia”
para teatro ou cinema é uma contradição. Essencialismo, contextualismo social
Outro aspecto importante da arte na e contextualismo psicológico
educação em nossos dias é o fato de se re- Até agora, usei argumentos de ordem
conhecer que o conhecimento da imagem é objetiva e pesquisas para demonstrar a
de fundamental importância não só para o importância do ensino das artes, mas jus-
desenvolvimento da subjetividade, mas tam- tificando essa necessidade em razão do
bém para o desenvolvimento profissional. desenvolvimento de qualidades mentais
Um grande número de trabalhos e pro- aplicáveis a outras áreas da aprendizagem
fissões está direta ou indiretamente rela- ou à vida profissional.
cionado à produção de imagens, seja na arte Portanto, estava operando com o que
comercial e na propaganda, como outdoors, Elliot Eisner denominou de justificativas
cinema, vídeo, fotografia; seja na publicação contextualistas sociais da função da arte
de livros e revistas; na produção de CDs, ce- na sociedade e na educação. Isto é, a valori-
nários para a televisão ou múltiplos eventos e zação das artes pelos seus efeitos colaterais
nos campos do design para a moda, indústria benéficos no desempenho do ser humano em
têxtil, design gráfico, design digital, games, sociedade, uma espécie de valor agregado a
decoração etc. Não posso conceber um bom outros valores. Entretanto, há argumentos
designer gráfico que não possua algumas in- de ordem diversa, como o contextualismo
formações de história da arte. psicológico e o essencialismo, mais radical.
Não só designers gráficos, mas muitos Os essencialistas jamais convencerão os bu-
outros profissionais similares poderiam ser rocratas que querem se ver livres das artes
mais eficientes se conhecessem e fizessem nos currículos. Eles afirmam que as artes
arte e tivessem desenvolvido sua capacida- precisam estar nas escolas pela contribuição
de analítica por meio da interpretação dos única que elas oferecem aos seres humanos.
trabalhos artísticos em diferentes contextos. Para eles, se a arte não fosse necessidade bá-
Tomei conhecimento de uma pesquisa que sica, não teria resistido da caverna aos dias
constatou que cinegrafistas da televisão são de hoje, apesar das guerras e repressões, das
mais eficientes quando têm algum contato proibições e censuras, enfim, da desquali-
sistemático com apreciação da arte. ficação programada dos poderes políticos
O conhecimento crítico de como os através dos tempos ou de sua apropriação
conceitos visuais, sociais e históricos pelos poderosos para fins espúrios.
70 OBSERVATÓRIO ITAÚ CULTURAL

ENSINO DE ARTES E SEUS RESULTADOS SOCIAIS E ACADÊMICOS

APRENDIZAGEM DE ARTES CAPACIDADES COGNITIVAS E MOTIVAÇÕES PARA APRENDER

Artes visuais

Desenho Conteúdo e organização da redação

Treinamento visual Competências para leitura/interpretação de texto

Raciocínio sobre arte Raciocínio sobre imagens científicas

Instrução em arte visual Prontidão de leitura

Música

Instrução musical na primeira infância Desenvolvimento cognitivo

Ouvir música Raciocínio temporal e espacial


Qualidade de redação
Prolixidade na redação

Piano/teclado Proficiência matemática


Raciocínio especial

Piano e voz Raciocínio temporal e espacial de longo prazo

Teatro em sala de aula

Encenação dramática Compreensão oral e escrita


Identificação de personagens
Compreensão da motivação de personagens
Maior interação entre pares
Proficiência e prolixidade na redação
Competências para solução de conflitos
Concentração
Compreensão de relações sociais
Capacidade de entender questões e emoções complexas
Engajamento
Disposição/estratégia para solução de problemas
ARTE, CULTURA E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA Ana Mae Barbosa 71

APRENDIZAGEM DE ARTES CAPACIDADES COGNITIVAS E MOTIVAÇÕES PARA APRENDER

Dança

Dança tradicional Autoconfiança


Persistência
Competências de leitura
Raciocínio não verbal
Competências de expressão
Criatividade poética
Tolerância social
Apreciação do desenvolvimento social individual e coletivo

Dança criativa Pensamento criativo geral – fluência, originalidade, flexibilidade

Programas multiartes

Artes/acadêmicos integrados Leitura e competências verbais e matemáticas


Pensamento criativo
Motivação para a realização
Engajamento cognitivo
Prática pedagógica na escola
Cultura profissional da escola
Clima escolar
Engajamento e identidade da comunidade

Experiência intensiva nas artes Autoconfiança


Tomada de risco
Atenção
Perseverança
Empatia pelos outros
Autoiniciação
Persistência na tarefa
Apropriação do aprendizado
Competências de colaboração
Liderança
Redução das taxas de evasão
Aspirações educacionais
Competências de pensamento de ordem superior

Ambiente escolar rico em artes Criatividade


Engajamento/assistência
Gama de desenvolvimento pessoal e social
Competências de pensamento de ordem superior

Fonte: CATTERALL, James. The arts and the transfer of learning.


ARTE, CULTURA E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA Ana Mae Barbosa 73

Quero ressaltar ainda os argumentos do Para aquela educação modernista, entre os


contextualismo psicológico, que dá especial processos mentais envolvidos na criação, a
importância às experiências com artes na fluência e a originalidade eram os mais valo-
adolescência em função da educação emo- rizados, daí o apego do modernismo à ideia de
cional. Justamente os jovens no ensino mé- vanguarda. Nos dias de hoje, a flexibilidade e
dio estão em uma idade difícil, de mudanças a elaboração, reelaboração, recombinação e
hormonais, corporais, de modo de pensar e mixagem são os fatores da criatividade mais
sentir, de início de autonomia na vida priva- ambicionados pela educação.
da e na sociedade, ora sendo tratados como O que as artes ambicionam hoje é pro-
adultos, ora sendo vistos como crianças. A mover no sistema educacional uma me-
linguagem das artes articula a cognição in- tástase criativa, não apenas criatividade
tegrando o pensamento racional, afetivo e individual ou histórica, mas criatividade
emocional numa escola que se interessa ape- coletiva, como fizeram os alunos do ensino
nas pela linguagem discursiva e científica das médio na ocupação das escolas em 2015.
evidências. Os jovens vivem sob a ameaça do Por isso, quero terminar este artigo com a
certo e do errado, e as artes visuais não se imagem de uma performance dos nossos
pautam por essa dicotomia. Por último, hoje estudantes, que fizeram em pequena esca-
testemunhamos o creative turn – a “volta à la, mas com coragem semelhante, o mesmo
criatividade” – como um dos objetivos do que os estudantes de Paris em 1968: mostrar
contextualismo psicológico. Não se trata da a discrepância entre o pensamento escolar
criatividade concebida na década de 1970. reinante e a vida real.

Como parte da Virada Ocupação, estudantes da Escola Estadual Maria José (região central de São Paulo) fazem uma perfor-
mance em frente ao Museu de Arte de São Paulo (Masp), na Avenida Paulista. Fonte: Publifolha
74 OBSERVATÓRIO ITAÚ CULTURAL

Ana Mae Barbosa


A autora fez pós-doutorados nas universidades de Columbia e Central England,
doutorado na Universidade de Boston e mestrado na Universidade de Connecticut. Foi
professora na Universidade de Yale e na Universidade Estadual de Ohio. Tem 22 livros
publicados. Recebeu vários prêmios nacionais e internacionais por suas pesquisas, além
da Ordem Nacional do Mérito Científico e da Ordem do Mérito Cultural. Foi presidenta
da International Society of Education Through Art (Insea) e da Associação Nacional
de Pesquisadores em Artes Plásticas (Anpap) e consultora da Organização de Estados
Ibero-Americanos (OEI). É professora dos mestrados e doutorados do CAP/USP (Depar-
tamento de Artes Plásticas) e da pós-graduação em artes, design e novas tecnologias da
Universidade Anhembi Morumbi.

Referências bibliográficas

BARBOSA, Ana Mae. Redesenhando o desenho: educadores, política, história. São


Paulo: Cortez Editora, 2015.

BURTON, Judith M. et al. Learning in and through the arts: the question of transfer
studies in art education. dez. 2015. Disponível em: <http://thesis1.weebly.com/
uploads/8/3/5/5/8355270/1320379.pdf>. Acesso em: dez. 2017.

CATTERALL, James. The arts and the transfer of learning. Disponível em:
<http://209.59.135.52/resources/toolkits/criticallinks/cl_overview.pdf>. Acesso
em: 21 nov. 2017.

EISNER, Elliot. Educating artistic vision. New York: Macmillan Company, 1972, p. 2-3.

HAANSTRA, Folkert. Dutch studies of the effects of arts education programs on school
success. Studies in Art Education, v. 42, n. 1, 2000, p. 20-35. Alexandria (EUA),
dez. 2015. Disponível em: <http://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/003935
41.2000.11650472>. Acesso em: dez. 2017.

HETLAND, Lois; WINNER, Ellen. The arts and academic achievement: what the
evidence shows. Arts Education Policy Review, mar. 2010, Washington (EUA),
v. 102, n. 5, 2001, p. 3-6. Disponível em: <http://www.tandfonline.com/doi/
abs/10.1080/10632910109600008>. Acesso em: dez. 2017.

MORAES, Paula Ariane da Silva. Steam: arte e design no currículo do ensino médio.
Tese de mestrado. Universidade Anhembi Morumbi, 2017.
ARTE, CULTURA E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA Ana Mae Barbosa 75

Notas

1 CATTERALL, James. The arts and the transfer of learning. Disponível em:
<http://209.59.135.52/resources/toolkits/criticallinks/cl_overview.pdf>.
Acesso em: 21 nov. 2017.
As pesquisas sobre transferência de aprendizagem das artes para outras áreas
que James Catterall examinou foram imediatas, não houve um decurso de tempo
entre as aulas de artes e os testes aplicados.
Provavelmente, se houvesse um tempo de espera, os resultados seriam mais
positivos ainda do ponto de vista da transferência.

2 Para melhor conhecer o Steam, consultar: MORAES, Paula Ariane da Silva. Steam:
arte e design no currículo do ensino médio. Tese de mestrado. Universidade
Anhembi Morumbi, 2017.
76 OBSERVATÓRIO ITAÚ CULTURAL

A EDUCAÇÃO EM ARTES EM
UM MUNDO EM CONVULSÃO:
DIREITOS, CONVIVÊNCIA E CULTURA DE PAZ

Lucina Jiménez López

No recente contexto do México, a autora reflete a respeito da necessidade de formar cida-


dãos ativos e sensíveis, capazes de compreender os atuais dilemas sociais e ambientais a partir
de lógicas que incluam as dimensões éticas e estéticas da vida. É também uma reflexão sobre as
possibilidades, os desafios e os limites da educação em artes, entendida como direito humano,
para formar pessoas e comunidades resilientes, melhorar a convivência cidadã e propiciar a
mudança cultural necessária para sustentar a vida no planeta.

Violências, conflito social e artes 19 anos que morava em Puebla, onde mais

P
de 82 mulheres perderam a vida neste ano,
roduzo este artigo em um contexto sem que o governo estadual aceite declarar
diferente daquele que eu percebia um “alerta de violência de gênero”.
no México quando a Marta Porto Não tenho a intenção de sugerir que
me convidou para escrever. Em setembro há uma atmosfera de catástrofe no México,
de 2017, o país viveu dois grandes desastres porque esse país tem uma grande força que
naturais: as intensas chuvas que arrasaram reside principalmente em seu povo, em seus
a Cidade do México1 e o maior terremoto da recursos naturais e culturais, em seus artistas
história recente, que destruiu povoados in- e em sua diversidade – apesar do clima social
teiros em Oaxaca e Chiapas. Testemunhei atualmente pesaroso, incerto, cético e de uma
conflitos em uma das comunidades mais raiva crescente diante da impunidade. Mes-
distantes do estado de Guerrero (região su- mo assim, a solidariedade flui e muitas co-
doeste do país), onde nasceu Carlos Lorenzo munidades crescem diante das adversidades.
Hernández, um dos 43 estudantes normalis- O leitor deve estar se perguntando: o
tas desaparecidos há quase três anos sem ne- que isso tudo tem a ver com a educação em
nhuma explicação plausível. Senti de perto, artes? A minha resposta é: tudo; tem tudo a
mais do que gostaria, a crescente inseguran- ver. Um dos grandes desafios que temos pela
ça na Cidade do México. Em muitos lugares, frente é justamente fazer os responsáveis
as pessoas estavam abaladas pelo sequestro e pelas políticas públicas de desenvolvimen-
assassinato de Mara Castilla, uma jovem de to, educação, segurança pública e cultura
ARTE, CULTURA E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA Lucina Jiménez López 77

compreenderem a importância das artes educação em artes para restabelecer a ética


como uma ferramenta vital na melhoria da e a estética como fatores-chave na reconfi-
educação para a vida, na criação de cidada- guração dos pactos sociais que sustentam a
nia democrática, de resiliência individual e convivência em comunidades fraturadas, ou
comunitária, na formação de consciência até para conseguir a afirmação de um sentir
de gênero, na formação de e uma consciência cidadã que
habilidades interculturais, Os conflitos são parte se definam e trabalhem indi-
tão necessárias hoje em dia, essencial da vida, por isso vidual e coletivamente não
nos processos de reinserção é necessário que as bases somente pela vida humana,
social de pessoas que parti- da cultura se transformem mas por todas as espécies que
não para tentar eliminar o
ciparam ou foram vítimas da habitam o planeta.
conflito, mas para que se
criminalidade e da violência, saiba conviver e crescer Proponho a cultura de
mas, principalmente, como no contexto da diferença. paz como um conjunto de
elemento estrutural de uma desejos, habilidades, atitu-
subjetividade pessoal e coletiva que deve des, disposição emocional, conhecimentos
estar presente, como direito humano, antes e práticas que permitem construir acordos,
que ocorram fatos violentos, tragédias ou gerenciá-los, respeitá-los e, no contexto do
conflitos irremediáveis. conflito e da diversidade, reduzir a desi-
Quando esses elementos estão pre- gualdade e fortalecer a equidade, a partir do
sentes, a educação em artes se torna im- reconhecimento e do exercício dos direitos
prescindível, embora ainda não totalmente humanos. Os conflitos são parte essencial
reconhecida e valorizada em sua justa di- da vida, por isso é necessário que as bases
mensão. No entanto, não quero cair aqui na- da cultura se transformem não para tentar
quilo que chamo de “o buenismo da cultura”, eliminar o conflito, mas para que se saiba
para me referir a esse olhar acrítico e sim- conviver e crescer no contexto da diferen-
plista que procura em qualquer expressão ça. Assim, a proposta de educação em artes
ou oficina de artes objetivos para os quais que busca contribuir para a convivência em
aquilo não foi pensado. uma comunidade deve considerar o respeito
Procuro compartilhar algumas refle- à dignidade e à identidade das pessoas, em
xões sobre por que as sociedades contempo- sua diversidade, como a base de qualquer
râneas em tensão precisam urgentemente da proposta formativa, e não tentar impor um
78 OBSERVATÓRIO ITAÚ CULTURAL

único critério estético, uma única corrente de inclusão. Em alguns povoados, certas
ou uma única visão. Deve considerar o direito danças e carnavais terminaram cedendo às
das pessoas à alegria e à felicidade. narrativas do machismo, como no caso do
Para assumir com responsabilidade Carnaval de Tenancingo (Tlaxcala),2 ou do
essa possibilidade, é necessário estabele- narcotráfico, como é abundante na música
cer algumas nuances, deixando claro que mexicana e colombiana.
nem toda experiência artística é capaz ou Ser um bom músico não necessaria-
tem a obrigação de gerar essas condições, mente significa estar livre de preconceitos
assim como a educação em artes não pode e estereótipos. Em Michoacán, estado que
ser a substituição de políticas ambientais, atualmente trabalha na recuperação de suas
de emprego, de equidade e de busca de jus- culturas comunitárias, um excelente grupo
tiça, de inclusão e participação das pessoas musical causou incômodo no auditório quan-
com deficiência em toda a vida social, eco- do, ao apresentar as bailarinas acompanhan-
nômica, cultural e política. tes, o diretor declarou: “Eu pedi as bonitas,
O ensino de artes não é responsável por mas me mandaram estas” – referindo-se às
combater o aquecimento global que prece- jovens que já se preparavam para dançar o
de a crise ambiental que vivemos em mui- folclore da região. “Olhem para elas. São o
tas regiões, nem pode fazer plano B”, insistiu. Ser pintor,
os desaparecidos voltarem, É na cultura, e compositor, ator, músico de
nem pode garantir a redu- especialmente nas artes, uma orquestra sinfônica ou
que reside a possibilidade
ção da pobreza econômica. dançarino de uma compa-
de resposta individual e
Além disso, eu nem mesmo nhia de dança contempo-
coletiva para toda condição
concordo totalmente que que coloque em tensão a rânea também não implica
a educação em artes tenha dignidade das pessoas. necessariamente uma postu-
que se encarregar de redu- ra livre da discriminação ou
zir a violência, se a entendermos no sentido da intolerância estética, política, ideológica
estrito e respeitoso da liberdade criativa e etc. Não faltaram métodos violentos para o
da autonomia artística. Nem toda formação ensino do solfejo ou do balé nem para a for-
artística deve ser associada a esse objetivo, mação de grupos de poder e conflitos basea-
mas aos seus próprios fins. dos em certa dose de intolerância estética.
Por outro lado, as artes não necessa- No entanto, não há nada mais poderoso
riamente trazem bandeira branca. Muitos do que a arte para mobilizar a consciência,
sistemas de ensino artístico ratificam as hie- a subjetividade, a energia e a disposição de
rarquias que provêm de outros contextos de uma pessoa ou uma comunidade para mudar
poder, podendo ser excludentes ou coloniza- a sua própria circunstância e seu ambien-
dores. Nem sempre a tradição ou o folclore, te. A arte é o elemento mais profundo para
aos quais muitos grupos sociais, por razões acender a faísca da mudança. É capaz de ge-
naturais, têm tanto apego, expressam os me- rar desejo, de estimular a imaginação para
lhores valores democráticos, de equidade e criar outros cenários, permitindo ver além
ARTE, CULTURA E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA Lucina Jiménez López 79

do imediato ou das aparências da percepção expressão artística individual ou coletiva,


do ser individual ou coletivo. É na cultura, e que jamais questionaram a si mesmas a par-
especialmente nas artes, que reside a pos- tir da ética e da estética.
sibilidade de resposta individual e coletiva Destaco a experiência artística pensada
para toda condição que coloque em tensão a para criar cidadania democrática, porque,
dignidade das pessoas. quando a formação artística se baseia única
e exclusivamente na parte técnico-pedagó-
A educação em artes como gica da linguagem (a execução de um ins-
um direito humano trumento, a repetição de uma coreografia,
Todas as pessoas, independentemente a técnica da pintura etc.), ela não necessaria-
da sua condição econômica, política e social, mente propicia uma mudança ética e social.
do gênero, de terem ou não deficiências, de- A educação em artes, para ser transforma-
vem ter acesso ao ensino de artes, porque dora, precisa ser uma experiência crítica,
ele é a educação dos sentidos de forma in- um exercício de liberdade aberto à diversi-
tegral. Enriquece as capacidades cognitivas, dade, ao imprevisível.
expressivas, comunicativas e sociais. É um Apresentar a educação em artes como
direito humano. O mundo contemporâneo antídoto para a violência sem as nuances
não pode ser compreendido sem as estraté- necessárias pode ter alguns riscos. Um de-
gias de pensamento e apreensão do mundo les é pensar que somente comunidades com
fornecidas pelas artes. elevados índices de violência ou pobreza
A educação em artes é, portanto, a porta extrema podem ter acesso a ela. Nessas
de entrada para os direitos culturais, que, no comunidades, uma proposta pertinente de
âmbito dos direitos humanos, se baseiam no educação em artes pode ajudar a promover a
respeito à dignidade das pessoas. Isso é fun- igualdade social, inclusive como mecanismo
damental porque muda o discurso a partir gerador de resiliência. Mas isso não elimina
do qual se propõe trabalhar com as comuni- o fato de que as pessoas que vivem nessas
dades que vivem em contextos de violência, circunstâncias, na verdade, estão exercendo
pobreza ou com deficiências. seu legítimo direito de acesso a uma forma-
Quem dera alguns dos responsáveis ção artística, que não deveria ser suspenso
pelas políticas públicas ou de desenvolvi- quando os indicadores de violência são redu-
mento, os líderes das câmaras industriais zidos – como no caso de Ciudad Juárez, onde
ou de comércio, os legisladores ou líderes de o triunfalismo governamental e o desejo de
opinião pudessem ser formados a partir de uma imagem competitiva deixaram nova-
alguma experiência artística pensada para mente muitas comunidades urbanas sem o
criar cidadania democrática. Tenho certeza exercício de direitos culturais.3
de que eles tomariam outras decisões. Mas É urgente entender a educação em ar-
estamos diante de gerações de pessoas com tes como direito humano. Sua ausência criou
poder que jamais sentiram o prazer inter- um dos novos analfabetismos deste século
no e a alegria gerada pela criação ou pela XXI. Ela não só contribui para a prevenção
80 OBSERVATÓRIO ITAÚ CULTURAL

da violência – fortalecendo as capacidades, da cidadania democrática, da convivência e da


os pontos de encontro e de expressão, a vi- cultura de paz, nem uma fórmula que garan-
sibilidade e a convivência comunitária, a re- ta os seus resultados. Na minha experiência,
siliência pessoal e coletiva, entendida como quando aplicada em contexto de violências
recursos próprios que se sociais, ela precisa estar
mobilizam para encontrar A educação em artes, para ser acompanhada de muitos
transformadora, precisa ser
soluções para as situações processos de mediação,
uma experiência crítica, um
difíceis e tentar mudá-las – educação intercultural e de
exercício de liberdade aberto
como também é necessária à diversidade, ao imprevisível. conectividade com outros
para o desenvolvimento de sistemas que promovam
habilidades interculturais fundamentais no direitos, emprego ou busca de justiça, pers-
mundo atual, como criatividade, flexibilidade pectiva de gênero, consciência ambiental,
e capacidade de adaptação aos ambientes de economia solidária e redes de cooperação.
incerteza ou de diversidade cultural. Como É preciso ter a dimensão intercultural e
esperar melhores resultados educacionais de reconhecimento da diversidade cultural,
nas escolas se não houver uma revolução na sem confundir tal diversidade com a desi-
relação entre arte, ciência e tecnologia na for- gualdade ou a tradição com a imposição de
mação de qualquer criança ou adolescente? uma única forma de expressão; saber quais
Em alguns discursos, acredita-se que são os valores e as atitudes diante dos quais
a educação em artes é algo que “evita que se deseja fortalecer a coesão social, pois não
a atenção das pessoas se concentre na vio- podemos esquecer que o fascismo também
lência existente”, que elas “caiam em más enfatizou isso. A educação em artes não age
companhias e más práticas”. Essa visão, até por meio da censura aos gostos e práticas
certo ponto instrumental, é correta e inclu- artísticas existentes, mesmo que venham
sive necessária, mas também é simplista. das culturas dominantes, mas enriquece a
Desconhece a profundidade que o ensino capacidade de escolha.
artístico pode ter se pensado como estraté- Ela pode ter muitos focos, sendo o
gia educacional construtora de novas formas mais acolhido aquele que busca favorecer
de pensamento, não somente transforma- a apreciação estética. Por isso se considera
dora do estado de ânimo e da subjetividade suficiente a mera exposição do sujeito à obra
individual e coletiva, mas também geradora de arte. Então, a proposta é fazer caravanas
de cultura de paz. Já existem pesquisas que artísticas ou shows como meio de fortale-
mostram essas mudanças.4 cimento do tecido social. A vida cultural é
um fator protetor porque estimula o senso
Educação em artes e novas formas de pertencimento quando promove a dina-
de construção de conhecimento e mização e o enriquecimento dos recursos
práxis social culturais e artísticos próprios de tal comu-
Não há uma regra para afirmar quando a nidade. O espetáculo pode ser parte desses
educação em artes colabora para a construção fatores, desde que venha acompanhado de
82 OBSERVATÓRIO ITAÚ CULTURAL

outras ações que permitam que os cidadãos região sudoeste do México, onde a pobre-
transitem de espectadores a atores, sujeitos za açoita a grande maioria da população e
construtores de experiência. se vive o conflito com a igreja – que vê nas
A arte é uma experiência vital para a práticas comunitárias formas de paganis-
transformação social. Dewey propunha que mo –, a experiência artística e festiva e a
a educação em artes transforma a práxis cultura cênica e performativa do povo per-
social ao promover o processo criativo mitem que a população argumente, com um
como rota de autoconheci- novo sacerdote, que a tradição
Por isso, a arte e
mento, experimentação, des- da festa é a própria essência
a ciência são duas
coberta e transformação de do povo e que as necessidades
formas de conhecer e
si mesmo e do mundo cir- transformar o mundo. econômicas da igreja não po-
cundante.5 Eu acrescento: ao dem ser mais importantes que
promover a inovação social, a consciência a luta da conquista narrada pela chamada
crítica, ética, a diversidade estética, a autor- dança do touro – com a presença cênica dos
regulação e a autonomia pessoal e coletiva a vaqueiros, que dançam com facões e roupas
partir da criação artística. Quando dá asas coloridas a partir de uma organização que
ao jogo e à liberdade criativa. mobiliza a economia do povo.
A emoção estética, diz Dewey, modi- Os sistemas tradicionais de formação
fica-se na medida em que se reelabora, por artística incluem, nesse caso, o envolvimen-
meio da experiência, até se tornar expressão to das crianças e dos jovens na tradição por
artística. Não é somente a inspiração ou a meio da vida familiar ou no espaço de pre-
imaginação espontânea o que permite a paração para a festa. Ainda falta promover a
sua existência, mas a possibilidade de que perspectiva de gênero, pois, enquanto os me-
ocorram simultaneamente, em uma única ninos praticam a dança da Chilena e brincam
operação, dois fenômenos: o conhecimento na rua, as meninas trabalham ajudando suas
do manejo da matéria-prima (o som, as co- mães, fazendo encomendas ou vendendo.
res, o movimento, a imagem etc.) e os pro- Quando Ciudad Juárez (localizada na
cessos internos e mentais que conectam os fronteira com os Estados Unidos, ao norte do
sentimentos, as ideias, os desejos, a emoção, país) estava em guerra com o narcotráfico,
até adquirirem forma perceptível. Por isso, uma forma de as mães superarem a depres-
a arte e a ciência são duas formas de conhe- são pela perda de um filho era se juntar à
cer e transformar o mundo. RedeseArte Cultura de Paz.6 Embora fosse
difícil para as autoridades federais, esta-
Artes, práticas comunitárias duais e municipais compreendê-lo, a músi-
e resiliências ca, a dança, o canto, a possibilidade de criar
Em algumas comunidades, a educação em meio à morte fortaleceram a vontade de
informal em artes tem um papel importante crianças e jovens de abraçar outros cami-
para a convivência e é imprescindível re- nhos. A arte como experiência, como compo-
conhecê-las e fortalecê-las. Em Guerrero, nente formativo, cognitivo e desestruturante
ARTE, CULTURA E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA Lucina Jiménez López 83

da zona de conforto, aberta ao jogo e à liber- a alma; que a água pode nos inundar, mas não
dade, permitiu que milhares de crianças não nos fazer perder a esperança de nos reconci-
vissem nas artes um entretenimento, um liarmos com o planeta.
“tranquilizante” para “suportar” essa reali-
dade, mas um exercício disciplinar, divertido
e atrevido de se reconstruir.
Há alguns dias, conversando com parti-
cipantes da Oficina de Fotografia – Imagens
para Contar Histórias, realizada no ConArte7
com o Instituto de Reinserción Social, eles
diziam que se aproximar dessa experiência
lhes havia dado a oportunidade de olhar para
si mesmos com outros olhos, reconstruir sua
autobiografia a partir de uma reflexão sobre
suas habilidades e as possibilidades de um
novo conceito de liberdade, mais do que sa-
ber que se está fora da reclusão. Sem essa
educação em artes – perguntam-se –, para
onde teriam ido os sentimentos de dor, as
marcas do desconsolo, as cinzas acesas da
raiva, o remorso da culpa? Lucina Jiménez López
Essa capacidade de ressignificar expe- Mexicana, doutora em ciências antropológi-
riências que o ensino de artes promove nos cas pela Universidad Autónoma Metropolitana de
remete novamente à situação da população Iztapalapa. Membro do grupo de especialistas em
afetada pelos desastres naturais no México governança para a cultura e o desenvolvimento da
em 2017. As crianças de Oaxaca perderam Unesco; especialista da Comissão de Cultura da
suas escolas com o terremoto que assolou CGLU (Cidades e Governos Locais Unidos) para a
o país. Como exorcizar dos seus corações o implementação da Agenda 21 da cultura; fundadora
deslocamento que o terremoto trouxe con- e diretora-geral do Consorcio Internacional Arte y
sigo? Por acaso existe outra possibilidade Escuela, criado em 2006 no México, com progra-
de recuperar o seu centro que não por meio mas e colaborações em mais de dez cidades do
da arte, que permite simbolizar e apren- México, da Colômbia e da Espanha. É autora de
der com a vivência? Arte para la Convivencia y Educación para la Paz,
A educação em artes, assim pensada, Políticas Culturales en Transición; e coautora de De-
ajuda a configurar uma arquitetura interna mocracia Cultural, un Diálogo a Cuatro Manos e de
que permite sentir que um terremoto pode Educación Artística, Cultura y Ciudadanía. Acaba
derrubar as nossas casas, mas não a nossa de receber o Prêmio Universum Donna (2017) e a
capacidade de reconstruí-las; que um assalto nomeação para participar do Comitê Científico da
pode nos fazer perder um objeto, mas jamais Universidade da Paz, da Suíça.
84 OBSERVATÓRIO ITAÚ CULTURAL

Referências bibliográficas

DEWEY, John. Arte como experiencia. Barcelona: Paidós, 2008, p. 86-87.

JIMÉNEZ, Lucina López. Educación en artes, ciudadanía y cultura de paz:


acompañamientos artístico-culturales en escenarios de violencia.
In: HERNÁNDEZ, Alberto Hernández; CAMPOS-DELGADO, Amalia E. Actores,
redes y desafíos. Juventudes e infancias en América Latina. México: El Colegio
de la Frontera Norte, Clacso, 2015.

Notas

1 Disponível em: <https://www.elsoldemexico.com.mx/metropoli/cdmx/Intensas-


lluvias-al-sur-de-la-CDMX-dejan-400-viviendas-da%C3%B1adas-251086.html>.
Acesso em: 29 nov. 2017.

2 Disponível em: <http://politicapuebla.com.mx/noticias/index.php/noticias/


region/investigacion-especial-el-carnaval-de-los-padrotes-de-tenancingo>.
Acesso em: 29 nov. 2017.

3 JIMÉNEZ, Lucina López. Educación en artes, ciudadanía y cultura de


paz: acompañamientos artístico-culturales en escenarios de violencia. In:
HERNÁNDEZ, Alberto Hernández; CAMPOS-DELGADO, Amalia E. Actores, redes
y desafíos. Juventudes e infancias en América Latina. México: El Colegio de la
Frontera Norte, Clacso, 2015.
ARTE, CULTURA E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA Lucina Jiménez López 85

4 O programa ¡Ah que la Canción!, promovido pelo Consorcio Internacional Arte


y Escuela (ConArte) no estado de Tlaxcala (México), foi avaliado pela consultoria
Algo en Común, A.C. e indicadores mostraram que o canto coral fortalece a
empatia com os demais e o senso de pertencimento, assim como promove a
valorização da igualdade entre os homens e as mulheres.

5 DEWEY, John. Arte como experiencia. Barcelona: Paidós, 2008, p. 86-87.


[Publicado no Brasil pela editora Martins Fontes em 2010.]

6 ONG de agentes culturais dedicada a fortalecer o desenvolvimento


comunitário e os processos de coesão social por meio do uso de ferramentas
da arte contemporânea.

7 Consorcio Internacional Arte y Escuela, ONG mexicana que atua na promoção


do ensino de artes na educação básica do país.
86 OBSERVATÓRIO ITAÚ CULTURAL
ARTE, CULTURA E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA  87

3. MANIFESTO POÉTICO:
O SENTIDO DA EDUCAÇÃO
PARA OS ARTISTAS

88. ARTE E CULTURA –


AMPLIAÇÃO DA EXPERIÊNCIA HUMANA
Benjamim Taubkin

95. ESCRITAS NEGRAS/LÉSBICAS:


PLANTANDO ESPELHOS PARA BROTAR
FUTUROS POSSÍVEIS
tatiana nascimento

100. ARTE PARA QUÊ? – ILUSTRAÇÃO


Kiko Dinucci

104. O LONGO CAMINHO MAIS


PRÓXIMO PARA O PLENO ENCONTRO
ENTRE O ARTISTA E O CIDADÃO
Chico Pelúcio

106. ARTE E REINVENÇÃO DA VIDA


Guti Fraga

110. PERFORMANCE SOLO


NA EDUCAÇÃO
Denise Stoklos
88 OBSERVATÓRIO ITAÚ CULTURAL

ARTE E CULTURA –
AMPLIAÇÃO DA EXPERIÊNCIA HUMANA

Benjamim Taubkin

Uma visão do potencial da arte como processo de vida, mas também de seus limites em
nossa época e sociedade.

C
reio que a experiência criativa de Paradoxalmente, poucos artistas têm
composição, de interpretação, de levado os princípios da arte a sério. Eles
vivência na música ou em outros acabaram também se contaminando com
campos da arte tem muito a acrescentar no mecanismos de mercado, valorizando mais
enriquecimento da vida do ser humano em o reconhecimento de seu trabalho pelo
qualquer lugar e tempo. público do que as etapas que envolvem
Em nossa época e lugar, o mundo oci- os processos criativos. E os jovens artis-
dental contemporâneo, esse conhecimento tas terminam seguindo o exemplo de seus
criativo se faz essencial pela ênfase que a contemporâneos reconhecidos, introjetan-
sociedade atribui ao conhe- do as visões pragmáticas da
cimento racional, científico, A arte muitas vezes se indústria cultural como seus
aliada à valorização desequili- travestiu do que não é objetivos e anseios.
para poder ser aceita pela
brada da economia como fon- Na verdade, excetuando
coletividade, abrindo
te de sentido na organização alguns momentos da história
mão de suas mais
da vida. Assim, só o universo importantes qualidades. em que a arte foi um valor por
da criação artística, com seus si só, a experiência artística
princípios e norte, pode trazer à balança um foi quase sempre refém da visão dominante
ponto mais central, equilibrado. de uma sociedade, seja religiosa, seja políti-
Entre esses princípios estão a estética ca ou econômica.
como um fim, o diálogo com algo intangível, A arte muitas vezes se travestiu do que
o mistério que envolve a criação e a alegria não é para poder ser aceita pela coletivida-
do jogo artístico. Todos eles são um antído- de, abrindo mão de suas mais importantes
to a esse extremismo que, a cada dia, torna qualidades. A arte sempre vai lidar com o
mais fria e limitante nossa experiência no imponderável – e com o inesperado. Em
mundo contemporâneo. sua essência, ela está associada à liberdade.
ARTE, CULTURA E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA Benjamim Taubkin 89

A ideia de um conhecimento científico vai, científico em busca de legitimidade, uma vez


muitas vezes, pressupor controle – e domínio que seus valores mais abstratos e humanis-
de todas as possibilidades. tas, ou mesmo inocentes e infantis, são des-
A maneira como se efetua a transmissão qualificados como irrealidades ou “sonhos”.
de seu conhecimento é uma delas. Em geral, Essa ideia envolve o conceito de tá-
ela assume uma postura tímida quanto aos bula rasa, tratando alunos como folhas em
seus valores mais significativos. São os mes- branco sobre as quais os conhecimentos
mos conceitos explicitados anteriormente – transmitidos serão impressos – quase que
aos quais adicionaria a experimentação, o sem questionamento – por uma autoridade
risco, o reconhecimento de um contato di- incontestável, legitimada por sua formação
reto e vivo com a experiência artística, mais qualificada nesse mesmo processo, numa
importante do que a teoria. Dá-se muita im- fórmula que se repete por anos, determinan-
portância ao conhecimento formal. do como a música é ensinada.
Na verdade, o que muitas vezes ocorre é Se na educação formal das ciências esse
o processo inverso: os métodos tradicionais processo pode, de alguma forma, ser justi-
de educação influenciam ficado – particularmente,
na forma como a música A relação com a criação acho que não, embora pos-
é ensinada no mundo oci- artística existe potencialmente sa atender áreas do mer-
em todos os seres. O papel
dental (e também no Orien- cado de trabalho que se
da educação deveria ser o de
te). Na Rússia socialista, beneficiam de profissio-
acordar, de despertar aspectos
por exemplo, um compo- criativos diversos nos alunos. nais formados sem visão
sitor como Shostakovich1 crítica da vida, do trabalho
teve que atender às pressões de Stalin, que e da própria sociedade –, no campo da arte
interferia diretamente em algumas de suas ele é ainda menos interessante.
composições; assim como grande parte dos A relação com a criação artística existe
músicos hoje, acatando as demandas de um potencialmente em todos os seres. O papel
“mercado” – ou ainda a atuação de algumas da educação deveria ser o de acordar, de des-
igrejas evangélicas, ao afirmarem que a músi- pertar aspectos criativos diversos nos alunos.
ca afro-brasileira é algo demoníaco, processo Uns terão maior capacidade de assimilar a
semelhante ao que enfrenta a música tradi- música “oficial” de uma comunidade, seja ela
cional coreana na própria Coreia do Sul. erudita ou popular; outros terão interesse em
Em nossos tempos, a educação musi- linguagens menos conhecidas, experimen-
cal incorporou procedimentos do ensino tais ou tradicionais.
90 OBSERVATÓRIO ITAÚ CULTURAL

Creio – e isso é uma profissão de fé – Nesse caso específico, quando um es-


que cada pessoa tem uma música dentro de tudante de música se vê com recursos sufi-
si. E creio também que os aspectos cogniti- cientes para tentar seus primeiros passos
vos e técnicos da música – harmonia, leitu- na carreira profissional, há grande proba-
ra/solfejo, habilidade manual bilidade de que seu comple-
no instrumento etc. – não são Esse espaço de uma vida mento educacional seguirá
suficientes para formar um e uma obra com sentido e acontecendo no ambiente de
significado, conquistados trabalho. A cada novo proje-
bom músico. Questões como
em geral a duras penas,
confiança, coragem (algo vital to, novas habilidades serão
pode fazer da arte uma
na vida de um artista) e au- contribuição fundamental necessárias, novos conhe-
toconhecimento têm partes à experiência humana cimentos serão exigidos e,
iguais nessa instrução, como seguramente, adquiridos
também saber se relacionar com os outros, no contato com outros colegas. Nos dias
saber ouvir e falar. Perceber o momento de de hoje, a troca segue também na inter-
tocar e o momento de escutar, tanto na músi- net, ferramenta fundamental no processo
ca quanto nas relações pessoais. Todos esses de ­aprimoramento.
aspectos formam, qualificam um artista – Mas nem sempre a aquisição dessas
sem mencionar ainda outras capacidades habilidades e desse conhecimento vem
e conhecimentos, como filosofia, artes em acompanhada de um maior aprofundamen-
geral e humanidades. to na criação, de uma visão mais ampla do
Há, por outro lado, outras formas de fazer artístico.
transmissão do conhecimento artístico e, Esse espaço de uma vida e uma obra com
entre elas, uma que me chama atenção, pra- sentido e significado, conquistados em geral
ticada nas comunidades ligadas à música a duras penas, pode fazer da arte uma contri-
tradicional. Nesse universo, todos são esti- buição fundamental à experiência humana.
mulados a participar. Todos “podem” tocar: É uma busca que envolve inúmeros de-
crianças, idosos, homens, mulheres. Todos safios, tanto no desenvolvimento específico
parecem aptos a executar suas funções den- de cada linguagem – e também da técnica
tro daquela tradição. a ela necessária – quanto em lidar com as-
Não existe a questão de que um possa pectos ligados à sobrevivência num mundo
ter talento e outro não. Embora a formação basicamente limitado e agressivo.
acabe se restringindo a uma música especí- Talvez o ponto principal seja como olhar
fica, numa dada comunidade, esse exemplo de maneira inteligente os grandes problemas
deveria nos servir de estímulo para experi- do presente e poder responder por meio de
mentar e buscar outras formas de ensino sua obra de maneira criativa e inspiradora
e aprendizagem. para si mesmo e para toda a sua comunidade.
Na música popular instrumental, que é a Só então um artista estará desperto e, a partir
minha área de atuação, o que existe é um mis- daí, poderá influenciar de maneira positiva o
to de transmissão oral com educação formal. mundo ao seu redor.
92 OBSERVATÓRIO ITAÚ CULTURAL

Mas quais seriam as aquisições por quando realizado de maneira cons-


parte daqueles que se aproximam desse co- tante, honesta e dedicada. Como
nhecimento? laboratório e ofício. Como mente e
Gostaria de reforçar algumas ideias coração em harmonia.
mencionadas – partes que são de um univer-
so tão extenso e desconhecido –, buscando
uma fresta num mundo próximo, mas para-
doxalmente distante de nosso cotidiano.

1. A percepção de uma ordem cósmica: a


música pode lidar com a ideia de har-
monia plena, equilíbrio, construção.
2. A intuição, a capacidade de perceber
o conhecimento de forma direta: não
precisamos pensar, sabemos o que
fazer. Na improvisação espontânea,
essa percepção é constante.
3. O valor de todas as culturas, ao contrá-
rio do medo do diferente: desenvolve-
mos interesse e curiosidade saudáveis
em relação à produção musical de to-
dos os povos, em todos os tempos.
4. A busca pelo autoconhecimento: a
partir da experiência criativa, entra-
mos em contato com novos territórios
internos, que nos instigam questões e,
eventualmente, lançam-nos à eterna Benjamim Taubkin
pergunta – quem somos, de onde vie- A música brasileira e seu diálogo com outras
mos e para onde vamos. culturas é o campo de atuação do pianista, arran-
5. Equilíbrio emocional: aprendemos jador, compositor e produtor Benjamim Taubkin.
a observar os movimentos mais su- Como músico e/ou produtor, participa de mais de
tis, tanto na criação, na execução, 150 projetos, entre eles o Núcleo Contemporâneo –
quanto em nossa vida diária. Esse gravadora, produtora e centro cultural em São Pau-
processo continuado, sem dúvida, lo –, a Orquestra Popular de Câmara, o conjunto de
­aproxima-nos da compaixão – tal- choro Moderna Tradição, o grupo de música tradi-
vez o sentimento mais em falta no cional Abaçaí, o quarteto de jazz Trio + 1 e o Coletivo
mundo hoje. América Contemporânea. É autor do livro Viver de
6. Essas são algumas das vivências Música (2011; Bei) e dos documentários O Piano que
proporcionadas pelo fazer artístico Conversa e Música pelos Poros (ambos de 2017).
ARTE, CULTURA E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA Benjamim Taubkin 93

Nota

1 Nascido em São Petersburgo, Dmitri Shostakovich (1906-1975) é um dos


compositores russos cujos quartetos e sinfonias estão entre os melhores
exemplos das formas clássicas do século XX. No início de sua carreira,
Shostakovich foi influenciado pelos conterrâneos Prokofiev e Stravinsky,
especialmente em uma de suas composições mais emblemáticas, a Sinfonia
Nº 1. O caráter experimental e vanguardista de suas interpretações irritou Stalin,
e o músico foi atacado pela imprensa oficial soviética, numa perseguição que o
acompanhou por toda a vida, levando-o constantemente a lidar com a censura
imposta pelas autoridades. Entre suas composições mais importantes estão a
Sinfonia Nº 7 “Leningrado”, criada após a invasão alemã da Rússia em 1941 e
lançada no Ocidente com grande repercussão; e a Sinfonia Nº 10, feita em 1953,
ano da morte de Stalin. (Fontes: Enciclopédia Britânica; <allmusic.com>.)
ARTE, CULTURA E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA tatiana nascimento 95

ESCRITAS NEGRAS/LÉSBICAS:
PLANTANDO ESPELHOS PARA BROTAR
FUTUROS POSSÍVEIS
tatiana nascimento

A literatura, engrenagem fundamental de pedagogias opressivas, como racismo, sexis-


mo e cis-heteronormatividade, assume outros significados quando feita por sujeitos outros,
em especial negras e lésbicas? Aposto nessa diferença como fonte que denuncia repetições
representativas – as quais criam confinamentos de raça, sexo, gênero e classe a personagens
e autoras(es) – e que as desmonta ao criar novas imagens, novas palavras, novos mundos.

A
prendi poesia lendo e ouvindo poe- impressiona até hoje, e o cheiro que subia de lá
sia. Sorte ter uma mãe bibliotecá- algumas pessoas diziam que era cheiro de chi-
ria, sempre incentivando a leitura queiro, mas, para mim, sempre parecia cheiro
ao trazer livros para casa ou nos levando a de morte. A vizinha da casa quase em frente
bibliotecas. Cresci uma leitora ávida de li- (morávamos na casa 4 do bloco 1.145; ela, na 3
vros (e de mundos, descobrindo Freire de- do 1.125) era Cínthia, minha melhor amigui-
pois), em especial poesia. Morávamos numa nha. O pai era um espancador. Os gritos de sua
rua de casas de alvenaria simples, lugar que mãe também atravessavam a madrugada.
antes tinha sido um brejo. Abaixo da aveni- Eu me lembro que nada me tirava a
dazinha perpendicular ao conjunto de nove atenção das leituras, que fazia geralmente à
quadras cartesianamente designadas por noite, até o começo da madrugada, quando
números crescentes, um “setor de cháca- a casa era mais silenciosa, a não ser pelos
ras”, um pouco mais lascadas que as casas da gritos todos. Lembro ainda que a leitura era
rua: muitas ali eram de madeira, e as pessoas uma atividade muito sozinha mesmo, porque
viviam de plantar, de criar bichos, de fazer na rua, durante o dia, as crianças (logo ado-
faxina (as mulheres). lescentes, todas nós) brincavam de correr,
Numa dessas chácaras, o pai branco de de jogar queimada, de soltar pipa, de andar
uma amiga preta criava porcos que matava de bicicleta, de falar da vida comum, o que
no meio da madrugada. Ele vendia a carne. não incluía ler livros; então, eu me sentia
Sempre tive sono leve e muitas vezes já estava esquisita e nerd, e achava que aquele devia
acordada quando ouvia os gritos dos porcos, ser um prazer secreto, a ser guardado comigo
que chegavam aos meus ouvidos como gri- mesma. Os poemas, os poetas nem cabiam
tos humanos mesmo, apenas gritos. Isso me naquela realidade que vivíamos, na real.
96 OBSERVATÓRIO ITAÚ CULTURAL

Isso me fez sentir, por muito tempo, Então, de novo, a poesia era prazer secreto. O
que as coisas que eu gostava de ler eram ler e o escrever. Relendo algumas coisas des-
estranhas ao meu lugar. Eu gostava muito ses tempos, eu sinceramente acho tudo ruim,
daquele poeta famoso de Minas, sabe? Ou porque, de novo, a mimese, o espelho: mas um
aquele outro do Rio de Janeiro, lembra? Lia que não me reflete. Tinha muito masculino
também aquela poeta doce, a do interior de genérico no eu poético, por exemplo. Que eu
Goiás... Você deve conhecer, né? Ou já ou- era aquele que não uma aquela?
viu falar daquela outra, d’além-mar, que era Já adulta, com 23, fiz vestibular pra Uni-
triste, que era freira, que fazia sonetos... Ler versidade de Brasília (UnB) de novo. Dessa
isso me ensinava poesia: eu escrevia poemas vez, a seleção tinha cotas para pessoas negras
como os que lia. E tinha muita vergonha des- afrodescendentes. Passei em letras – portu-
ses poemas: o jeito que não cabiam na boca, guês (brasileiro) e respectivas literaturas. No
na língua, no ouvido de quem estava ao meu primeiro semestre, um professor de filosofia
redor, as outras crianças, minha família. As- ofereceu uma disciplina especial em celebra-
sim, meus poemas ficaram tão clandestinos ção da adoção do sistema de cotas, e o con-
quanto minhas leituras. teúdo era a literatura de mulheres negras na
Isso mudou um pouco na quinta série diáspora. Ele me convidou pro curso porque
(agora sexto ano), com uma professora de re- tinha me conhecido anos antes, no ativismo
dação que punha a gente para fazer cadernos autônomo em que eu, entre outras coisas,
de textos e elogiava muito as produções, es- traduzia artigos teóricos de autoras negras,
pecialmente as minhas. Uma vez, até ganhei especialmente bell hooks1 e Audre Lorde.2
um concurso de poesia com um poema que Naquelas aulas, conheci Toni M ­ orrison3 e
fiz sobre a árvore que, anos depois, eu des- estudei a fundo a poesia de Lorde.
cobriria como oitizeiro, de frutinha arenosa, E achei um espelho em que podia me
doce, cheirosa, de folhas cobertas de um algo- ver! Nele, a literatura deixou de ser uma or-
dãozinho ralo. A escola ficava no plano piloto, ganização apática de histórias clássicas, he-
longe de casa, e eu me lembro também que, gemônicas, distantes, pra se desdobrar numa
nessa época, fui destreinando meu sotaque arqueologia preciosa de histórias enterradas
de satélites para falar como se falava ali, no pelo esquecimento programado: branqueado,
centro, onde cabiam os poemas que, na volta colonial, burguês, heteronormativo, cisgênero.
para casa, eram constrangedores. Aprendi com Cheryl Clarke,4 outra dessas lés-
Só com uns 16, 17 anos li uma poesia que bicas negras escritoras/teóricas/visionárias,
parecia caber no lugar de onde eu vinha. Mas que: “Para pessoas negras, a poesia sempre
agora constrangia o machismo do poeta e, tem sido a grande professora da conscientiza-
nos princípios do meu feminismo, pegava ção, da história e do amor próprio” (CLARKE,
mal dizer que gostava dele (você deve saber 2006, p. 140, tradução nossa). Porque a poesia,
qual, um gringo, bêbado, “velho imoral” – nis- a literatura, as artes mesmas têm potencial
so parecia com o carioca de quem falei antes, imagético poderoso, podendo criar imagens
mas que fingia uma finesse, uma bossa...). estereotipadas ou outras.
ARTE, CULTURA E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA tatiana nascimento 97

Para os povos negros no Brasil, por lésbica afronta padrões representativos vigen-
exemplo, a literatura tem sido espaço históri- tes e oferece possibilidades novas, insurgen-
co de estereotipia, de papéis fixos designados tes. É quilombismo literário mesmo, dizendo
para personagens negras [empregada, puta, “nunca precisamos dos textos da casa-gran-
bandido, criança de rua, bêbado, indigente, de”. Nada do clichê de isolamento e solidão da
louca(o)]. Isso quando aparecemos. Mas, escrita, nada da ideia da ­poesia-redoma, que
além do diagnóstico dessa ausência pro- distancia a poeta da realidade num formalis-
gramada (ou presença confinada), que cria mo de conteúdos abstratos.
uma pedagogia da invisibilidade, séculos de Assumir a pluralidade de sujeitos ne-
cânone racista enfrentam resistência negra gros, seja no plano ficcional das persona-
literária firme, abundante. A obra poética de gens literárias, seja no plano material de
escritoras(es) como Conceição Evaristo,5 So- autoras(es) negras(os), produtoras(es) de
lano Trindade,6 Miriam Alves,7 Oliveira Sil- episteme e alimentadoras(es) de imaginá-
veira,8 Carolina de Jesus,9 Cristiane Sobral,10 rios vastos, significa que nossa arte pode ser
Cuti11 e Elisa Lucinda,12 entre tantos outros, inclusive “apolítica”, formalista, luxo este-
é mais que denuncista. ta descompromissado. Mas nossa poética,
A produção literária negra, por meio como diz Audre Lorde, raramente tem sido
das palavras, cria mundos possíveis para um luxo, mas sim:
existências negras plurais – não só apon-
ta o funcionamento sistemático do racis- [...] uma destilação revelatória da ex-
mo em suas engrenagens de apagamento periência, e não o jogo de palavras estéril
de personagens negras, de um lado, e as que, muitas vezes, foi distorcido pelo pa-
formas sistemáticas de exclusão de auto- triarca branco como o significado da pala-
ras(es) negras(os) dos espaços tradicionais vra poesia – assim mascarando um desejo
de produção literária, de outro. Formas que desesperado por imaginação sem deslum-
vão desde mecanismos econômicos, impe- bramento. [...] a poesia não é um luxo. É uma
dindo o acesso de pessoas negras à autoria necessidade vital de nossa existência. Ela
e à publicação, até simbólicos, como a falta forma a qualidade da luz com a qual esta-
de espelhos: só pude me imaginar autora, e belecemos nossas esperanças e sonhos em
autora publicada, quando vi autoras negras direção à sobrevivência e mudança, primei-
publicadas. Ouvir a poesia de Lucinda em ro, forjada em linguagem; depois, em ideia;
CD me fez imaginar falar meus poemas. então, em ação mais tocável. Poesia é a ma-
Mergulhando nessas palavras pretas, co- neira com que contribuímos à nomeação
mecei a montar meu relicário de escritoras da do inominado, pra que possa ser pensado.
diáspora nas Américas, talhando minha pró- O horizonte mais distante de nossas espe-
pria escrita. Fazendo parte de uma comuni- ranças e medos é pavimentado por nossos
dade palavreira imaginada e imagética fértil, poemas, talhado na pedra da experiência de
frutífera, afiada, futurista, a qual elabora uma nossas vidas diárias (LORDE, 1984, p. 37,
pedagogia literária outra: a literatura negra/ tradução nossa).
98 OBSERVATÓRIO ITAÚ CULTURAL

tatiana nascimento
Palavreira: poeta, cantora, compositora brasiliense. Publica autoras negras e/ou lés-
bicas, bissexuais, transexuais, cuíer/queer pela padê editorial, editora de livros artesanais
que montou com barbara esmênia em 2015, e que hoje é um coletivo editorial, que conta
ainda com as poetas Nina Ferreira, Daisy Serena, Kika Sena e Nanda Fer Pimenta. tatiana
é também cineasta, tradutora, zineira, blogueira e doutora em estudos da tradução pela
Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Referências bibliográficas

CLARKE, Cheryl. Saying the least said, telling the least told: the voices of black lesbian
writers. The days of good looks: the prose and poetry of Cheryl Clarke, 1980 to
2005. New York: Da Capo Press, 2006, p. 133-144.

LORDE, Audre. Poetry is not a luxury. Sister outsider: essays and speeches. New York:
The Crossing Press Feminist Series, 1984, p. 36-39.

Notas

1 A autora se refere a bell hooks (1952-), escritora norte-americana feminista e


ativista social. Nascida Gloria Jean Watkins, ela adotou o nome bell hooks em
homenagem à bisavó. Teve um de seus muitos livros traduzido e publicado no
Brasil: Ensinando a transgredir – A educação como prática de liberdade (WMF
Martins Fontes).

2 Audre Lorde (1934-1992), escritora norte-americana lésbica, feminista e


visionária, é autora de livros de poesia e prosa como Sister outsider [Irmã
marginal] (1984) e The cancer journals [Os diários do câncer] (1980), escrito
quando Lorde descobriu ter câncer de mama.

3 Toni Morrison (1931-) é professora e escritora celebrada por prêmios como o


Nobel (1993) e o Pulitzer (1988), autora de livros que tratam de temas épicos,
com ricos detalhes sobre a cultura afro-americana, entre eles O olho mais azul,
Jazz e Amada (todos com traduções publicadas no Brasil pela Cia. das Letras).
Amada foi adaptado para o cinema em 1998 pelo diretor Jonathan Demme, sob o
título Bem-amada, com Danny Glover, Thandie Newton e Oprah Winfrey.
ARTE, CULTURA E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA tatiana nascimento 99

4 Cheryl Clarke (1947-) é escritora norte-americana e ativista lésbica, autora de


livros como Living as a Lesbian [Vivendo como uma lésbica] (1986) e Narratives:
poems in the tradition of black women [Narrativas: poemas na tradição das
mulheres negras] (1983).

5 Nascida em Belo Horizonte (MG), Conceição Evaristo (1946-) é romancista,


contista e poeta. Seus textos têm por tema a afro-brasilidade, tratando de
questões como discriminação racial, gênero, homoafetividade e classe. Entre seus
livros estão Olhos d’água (Pallas) e Ponciá Vicêncio (Pallas).

6 Francisco Solano Trindade (1908-1974), “o poeta do povo”, nasce no Recife (PE)


e começa a compor seus primeiros poemas em meados da década de 1920.
É autor de livros como Poemas de uma vida simples (1944) e Seis tempos de
poesia (1958). Foi ainda um dos responsáveis pela fundação do Teatro Folclórico
Brasileiro, do Teatro Experimental do Negro – ao lado de Abdias Nascimento
(1914-2011) – e do Teatro Popular Brasileiro.

7 A paulistana Miriam Alves (1952-) é poeta, dramaturga, autora dos livros


Momentos de busca (1983) e Estrelas nos dedos (1985) e da peça Terramara
(1988), em coautoria com Arnaldo Xavier e Cuti, entre outras publicações.

8 O poeta e jornalista gaúcho Oliveira Silveira (1941-2009) é um dos criadores


do Grupo Palmares, de Porto Alegre, e responsável por sugerir que o 20 de
novembro se tornasse o Dia da Consciência Negra. Entre suas publicações estão
Germinou (1962), Pelo escuro (1977) e Roteiro dos tantãs (1981).

9 Nascida em Sacramento (MG), Carolina Maria de Jesus (1914-1977) foi escritora de


diários, contos, poemas e romances. Sua obra clássica é Quarto de despejo: diário
de uma favelada (Editora Ática), cuja primeira edição foi lançada em 1960.

10 A carioca Cristiane Sobral (1974-) é atriz, escritora, poeta e diretora de teatro.


Entre seus livros estão Não vou mais lavar os pratos (Dulcina) e Espelhos,
miradouros, dialéticas da percepção (Dulcina).

11 Poeta e escritor, Luiz Silva (1951-), o Cuti, nasce em Ourinhos (SP), sendo um dos
fundadores do Quilombhoje Literatura e um dos criadores da série Cadernos
negros. Entre suas obras estão Literatura negro-brasileira (Selo Negro), Contos
crespos (Mazza Edições) e Consciência negra do Brasil (Mazza Edições).

12 Poeta, jornalista, cantora e atriz, Elisa Lucinda (1958-) nasce em Vitória (ES),
onde se gradua em jornalismo. Desde a década de 1990, quando se mudou
para o Rio de Janeiro, atua como atriz no teatro, no cinema e na televisão. Seu
primeiro livro de poesias, O semelhante (1994), é adaptado para o teatro, em
cartaz por mais de seis anos. Entre seus livros estão ainda Vozes guardadas
(Record) e Contos de vista (Global Editora).
100 OBSERVATÓRIO ITAÚ CULTURAL

Kiko Dinucci
ARTE, CULTURA E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA Kiko Dinucci 101
102 OBSERVATÓRIO ITAÚ CULTURAL

Kiko Dinucci
Nascido em São Paulo e criado em Guarulhos (SP), é integrante dos grupos Metá
Metá e Passo Torto. Recentemente, lançou Cortes Curtos, seu primeiro disco solo. 
104 OBSERVATÓRIO ITAÚ CULTURAL

O LONGO CAMINHO MAIS PRÓXIMO


PARA O PLENO ENCONTRO ENTRE O
ARTISTA E O CIDADÃO
Chico Pelúcio

Ator, diretor de teatro e gestor cultural, Chico Pelúcio destaca a importância da educa-
ção como único caminho para conectar o cidadão à arte e à cultura; e o papel do Estado como
responsável por integrar arte, cultura e educação, por meio do ensino público formal, e criar
uma política que faça a produção cultural chegar à população.

V
er para crer o trágico é algo inde- longevidade de seus programas. Em ambos
sejável, por sua irreversibilidade. os casos, há uma nítida sensação de falta de
Experimentar na prática e pelos aderência e de continuidade das ações junto
cinco sentidos a imperfeição de uma socie- às instituições públicas ou privadas e, funda-
dade é se fortalecer para construir mudan- mentalmente, junto ao cidadão.
ças. Há muito a fazer. A política pública para a cultura tem
Há mais de 35 anos, participo ativamen- como objetivo, em última instância, fazer
te de todas as atividades do Grupo Galpão de chegar à população a produção de arte e
teatro; há 20 anos, coordeno cultura. Há sempre uma me-
A política pública para a
o centro cultural Galpão Cine diação entre o artista e esse
cultura tem como objetivo
Horto, voltado para as artes fazer chegar à população a cidadão. Há sempre um in-
cênicas; e, por dois anos, produção de arte e cultura termediário que se pretende
estive à frente da Fundação facilitador do encontro entre
Clóvis Salgado/Palácio das Artes – todos a obra artística e aquele que dela irá fruir – ga-
sediados em Belo Horizonte. rantindo a este último condições de sobrevi-
Todos os meus cinco sentidos estão vência de seus valores simbólicos e culturais.
congestionados de urgências, entre elas a Esse reiniciar periódico e constante,
mais difícil: a cada ano que se inicia, é raro entretanto, nos dá a sensação de “enxugar
não sermos tomados pela sensação de estar gelo” e impede a evolução do trabalho na
começando do zero. Seja como ator e diretor sociedade. Os motivos são muitos e não é o
de teatro, que sonha com melhores condi- caso de citá-los aqui.
ções para se chegar ao ser humano; seja como Dois aspectos fundamentais me aju-
gestor cultural, que busca a permanência e a daram a ver (e sentir) essa realidade. O
ARTE, CULTURA E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA Chico Pelúcio 105

primeiro é a sistemática vontade de ga- educação, arte e cultura. A ele, entre outras
rantir a perenidade dos projetos do Gal- funções nessa área, ficam também a respon-
pão Cine Horto. O segundo é a tentativa de sabilidade de ações estruturantes e o papel de
elaborar um planejamento de longo prazo articulador de boas experiências, como as de
para o Grupo Galpão. Ambas as iniciativas diversas ONGs que desenvolvem trabalhos
sempre apresentaram dificuldades que não sérios em educação, arte e cultura.
conseguimos resolver de um ano para ou-
tro. Não conseguimos, somente por meio
de nosso planejamento interno, caminhos
facilitadores. Estudando o porquê dessa
impossibilidade, verifiquei de forma cris-
talina e prática a necessidade de existirem
consistentes nichos externos mantenedores
e multiplicadores das experiências produzi-
das nesse contexto. A cada ano, as parcerias
estabelecidas, os alunos atendidos, o público
atingido e as instituições contempladas se
perdem e, consequentemente, comprome-
tem a continuidade, o amadurecimento, os Chico Pelúcio
indicadores de avaliação e a consolidação Ator, diretor de teatro e gestor cultural, é for-
das ações e de seus objetivos. mado em administração de empresas e contabili-
Assim, em dimensão mais profunda, por dade pela Pontifícia Universidade Católica de Minas
meio da prática e da percepção dos “cinco Gerais (PUC Minas), com especialização em cinema
sentidos” da gestão, torna-se óbvio o que já pelo Instituto de Educação e Cultura de Minas Ge-
era o “óbvio do óbvio”, ou seja, que a educação, rais (IEC/MG). Integra o Grupo Galpão desde a sua
pensada de forma ampla, coexistindo com criação, em 1982; é diretor-geral do centro cultural
diversos segmentos da sociedade, é o único Galpão Cine Horto desde 1998; e foi presidente da
caminho para conectar diretamente a arte e Fundação Clóvis Salgado/Palácio das Artes entre
a cultura ao cidadão. Ao Estado cabe a prin- 2005 e 2006. É autor do livro Do Grupo Galpão ao
cipal responsabilidade: reestruturar o ensino Galpão Cine Horto – Uma Experiência de Gestão
público formal, fazendo a integração entre Cultural, escrito em parceria com Romulo Avelar.
106 OBSERVATÓRIO ITAÚ CULTURAL

ARTE E REINVENÇÃO DA VIDA


Guti Fraga

O autor narra a sua experiência à frente do Nós do Morro, grupo de teatro fundado há
mais de 30 anos no Morro do Vidigal, no Rio de Janeiro, e defende a importância do ensino do
teatro como ferramenta de transformação social e da realidade de jovens da periferia.

A
arte e a educação são irmãs sia- lutou contra os estereótipos. Nunca fui dar
mesas, como aprendi com Alcione aula pensando em coitadinhos. Eu dou aula
Araújo. São duas dimensões da de teatro para pessoas que desejam sonhar
vida que igualam as pessoas pelo conheci- ou abrir seu leque de sonhos. E o gatilho é
mento e pelo intelecto. E isso independe de sempre perguntar:
poder aquisitivo.
Há alguns dias, encontrei uma amiga – Você gosta disso?
que foi estudar em Moscou quando éramos – Não.
jovens. Nós nos conhecemos na escola públi- – Você já experimentou?
ca fazendo teatro. Era ali, naquela escola, que – Não.
todos que queriam estudar teatro, pobres e ri- – Então tem que experimentar.
cos, disputavam uma vaga. E isso criava uma
noção de igualdade, de cumplicidade, que era Para crianças e jovens que têm poucas
independente da grana que cada um tinha. oportunidades, a oferta para experimentar
Hoje, eu sinto pena desse andar para é a primeira abertura para a vida, o conhe-
trás da escola e dos professores que pararam cimento e a autotransformação. Olhando
de pensar caminhos metodológicos em que para a metodologia do Nós, percebemos que
as artes, o teatro e a cultura são matéria-pri- é igual no Vidigal e em Ipanema, na Espanha
ma para a transformação do ser humano e da e em Londres. Em todos os lugares em que
própria forma de ensinar e aprender. As artes damos aulas, oficinas e cursos, o processo
oferecem à educação a estrutura transforma- educativo do Nós do Morro é o mesmo. Obe-
dora que Paulo Freire pregava. dece aos mesmos critérios de disciplina, ri-
O Nós do Morro, em seus mais de 30 gor artístico e leitura, muita leitura. Falo que
anos de atuação, inspira-se na poesia de ele pode mudar com o tempo, mas não em
Cecília Meireles, na maneira como ela via relação ao lugar onde estivermos.
e lia o mundo: “a vida só é possível reinven- Hoje, com crianças e adolescentes, o
tada”.1 Durante toda essa caminhada, o Nós que eu mais trabalho é a memória, porque ela
ARTE, CULTURA E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA Guti Fraga 107

é a essência da cultura e da educação. A Flup Há poucos dias, visitei uma escola mu-
20172 homenageou o Vianninha.3 Que coisa nicipal e me emocionei com as crianças de
linda falar de Vianninha em uma favela! E 9, 10 anos falando da memória do Vidigal, do
por que não poderia ser em uma favela? Será trabalho do Nós do Morro, do orgulho que
que os jovens da Zona Sul do Rio de Janeiro sentiam ao entrevistar o grupo e dizer “Isso é
sabem quem foi Vianninha? nosso”. Essa é a reinvenção do lugar-comum.
Não existe classe ou distinção social A arte tem este poder de transgredir, de dar
quando se fala de memória e cultura. E os instrumentos simbólicos para que as pessoas
jovens do Nós do Morro aprendem desde saiam do lugar-comum, de um destino im-
cedo a dar valor à memória cultural do país posto pela sociedade. Isso é revolucionário.
e do mundo. Do Teatro Oficina aos dias de Se eu tivesse que deixar uma mensa-
hoje, de Shakespeare a Machado de Assis. gem em uma garrafa para ficar como uto-
Isso dá uma consistência de formação éti- pia pessoal de futuro, escreveria o hino que
ca, pedagógica e artística que faz com que carrego na alma.
eles não sejam levados apenas pelo glamour “A vida vivida com arte é mais bonita,
da televisão, mas pelo amor à reinvenção. porque um homem sem sonhos é como um
Reinventar-se no dia a dia, como ser so- pássaro de asas quebradas.”
cial e como cidadão. Essa é a transformação que a arte e a
A arte passa a ser uma ação para a vida, educação juntas são capazes de promover. A
um modo de se estabelecer e se relacionar nossa pequena revolução que garante a cada
com a vida. O que desestrutura e às vezes pessoa ser e atuar na medida do seu sonho.
interrompe esse processo é a urgência da
sobrevivência que o jovem pobre tem. Colo-
car comida na mesa, contribuir na família.
E nosso desafio, como escola, como grupo e
como país, é criar as condições para que os
jovens que queiram viver da sua arte, que
foram formados para isso, conquistem esse
direito. Temos que oferecer um leque de
possibilidades que não pode ser só alcançar
o sucesso na televisão ou virar celebridade.
Eu sigo tentando, experimentando, me rein-
ventando a cada dia. E me surpreendo toda Guti Fraga
hora com a potência desse trabalho. Ator, diretor e fundador do Grupo Nós do Morro.
108 OBSERVATÓRIO ITAÚ CULTURAL

Notas

1 Frase do poema “Reinvenção”, de Cecília Meireles.

2 Festa Literária das Periferias, cuja edição de 2017 foi realizada no Vidigal (RJ).

3 Oduvaldo Vianna Filho, conhecido como Vianinha, foi ator e diretor de teatro e
televisão.
110 OBSERVATÓRIO ITAÚ CULTURAL

PERFORMANCE SOLO
NA EDUCAÇÃO
Denise Stoklos

Criadora do método Teatro Essencial, no qual o ator é responsável por todo o processo
criativo e de produção do espetáculo, a autora fala sobre sua experiência com cursos on-line
sobre performance solo. Neles, são propostos exercícios que visam à libertação do ator, ao
tratamento amoroso de sua expressão e à intenção de comunicar com responsabilidade.
A autora defende que o ensino de artes contribui para a formação de cidadãos corajosos,
resistentes e positivos.

T
enho me dedicado a desenvolver o mesmo processo. Assim, os espetáculos
os princípios do que chamo Teatro resultantes serão um detonador de amor e
Essencial com alunos de diversas de liberdade na plateia. O sistema de pro-
áreas, pela internet. O fundamento dessa duzir uma compreensão de si mesmo com
ideia, que pratico há 20 anos, é o exercício extrema gentileza e aceitação é acompanha-
da performance solo. Nesse trabalho, o ator do da percepção do que pode ser expandido
é também responsável por autoria, direção, em suas condições. Essa prática, sugerida
coreografia, cenografia, figurino, iluminação aos educandos, contém um sistema revolu-
e até produção de cena, sem nenhuma inter- cionário. Isso porque, via de regra, atores de
face que não a do seu criador. Isso – tenho grandes espetáculos, de televisão ou even-
enfatizado nas aulas – carrega a noção de tualmente até de pequenas companhias não
que o essencial é que seu trabalho chegue ao costumam participar de todo o processo. O
outro, que é o público, proporcionando amor fato de dar ao ator o espaço de buscar-se
e liberdade. Educar, sabemos, é sobretudo a si mesmo e de permitir-se extrapolar os
um ato revolucionário. O conteúdo, portan- limites dos costumes resulta em aceitação
to, do que se elabora em classe há de tocar na própria e em estudos mais amplos sobre sua
essência da libertação do ator, o tratamento condição. Como isso se reflete na sua parti-
amoroso de sua expressão e a intenção de cipação no mundo, temos um ator mais en-
querer comunicá-la com responsabilidade. gajado nos processos e, eu diria, até mesmo
Quando isso é atingido, o resultado apare- provocador de muitos movimentos.
ce na deflagração de sua obra criativa em Pode-se pensar que as artes cênicas re-
direção ao público, que será atingido para presentam uma das salvaguardas da cultura
ARTE, CULTURA E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA Denise Stoklos 111

contra o lugar-comum – que é a expressão É visível a importância que as artes


de um forte sintoma da estagnação cultural. têm na educação.
A performance é sempre uma atitude insti- No teatro, na dança, no canto, pelas
gadora do pensamento, pois não comporta a regras políticas, o ator está sempre reco-
repetição e a mesmice. E, nas artes cênicas, a meçando. Inclusive por sua própria luta
performance solo representa uma contínua para afirmação desses
das possibilidades artísticas mais [...] o essencial é hercúleos trabalhos, o que con-
educativas, pois pretende atingir que seu trabalho tinuamente renova a classe, mas
chegue ao outro,
o espectador de uma forma “fric- também provoca muitas baixas
que é o público,
cionada”. O trabalho nasce para pelo caminho. Já aos sobrevi-
proporcionando
isto e só acaba se atingir este ob- amor e liberdade. ventes apresenta-se a questão de
jetivo de levar ao outro o próprio precisarem conviver com perma-
eu em acontecimento de mudança. É esse nentes negativas, que são decepcionantes
o motivo pelo qual a plateia veio a­ ssisti-lo, e desanimadoras. O exercício nesse esque-
para sair transformada. ma forja seres que representam um povo
Existe uma pergunta generalizada so- corajoso, resistente, positivo. A definição
bre por que, no nosso país, com uma classe política de um artista se dá nessa práxis
política tão corrupta, ainda assim, ninguém de sua vida diária.
vai às ruas. Distribuir aos educandos esse exercí-
É de acreditar que não se está indo às cio de conviver com negativas e dificulda-
ruas no Brasil principalmente porque não des constitui-se em patrimônio de um país.
há ninguém no poder falando em melhorar O artista de performance solo aparece então
as políticas da classe artística. Isso move- como um ser social que explicita seus posi-
ria – já que são os artistas quem primor- cionamentos por sua própria natureza. Um
dialmente movimenta as ruas, por meio de de seus desafios está, portanto, no aprofun-
sua comunicação e corporeidade (sem falar damento cada vez maior de suas técnicas,
do intrincado das grandes empresas), e os mas em plena conjunção com sua respon-
de artes cênicas têm a força política de não sabilidade política.
representar nenhum poder. Isso vai ganhan- Esse é mais um dos pontos que permi-
do sentido quanto mais se leva em conta a tem um interesse grande dos que procuram
ideia de que o poder eleito está presente- na educação essa atividade tão específica
mente despedaçado. da performance solo.
112 OBSERVATÓRIO ITAÚ CULTURAL

Denise Stoklos
Encenadora brasileira, já apresentou sua obra em 36 países e em sete idiomas di-
ferentes. Formou-se em ciências sociais pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná
(PUC/PR) e em jornalismo pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Publicou seis
livros e criou 28 peças como atriz, autora e diretora. É criadora do método chamado
Teatro Essencial. Recebeu inúmeros prêmios e menções, como Mambembe, Shell, Ordem
do Rio Branco, Ordem do Mérito Cultural, Ordem do Pinheiro e doutora honoris causa
da Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro). Em 2015, participou do projeto
de lançamento do primeiro curso on-line de teatro do Brasil. Tem se dedicado à arte e à
educação. Em 2018, completará 50 anos de trabalho ininterrupto em teatro. Atualmente,
além de suas apresentações nos palcos, prepara um curso on-line de performance solo.
114 OBSERVATÓRIO ITAÚ CULTURAL

4.
O LUGAR DA EXPERIMENTAÇÃO
PARA A APRENDIZAGEM:
A EDUCAÇÃO QUE NASCE DE
ESPAÇOS, PROJETOS, GRUPOS
E  COLETIVOS CULTURAIS

115. MUTAÇÕES SIMBÓLICAS,


REDESENHOS CULTURAIS E EDUCAÇÃO:
A BIBLIOTECA, O MUSEU E O LABORATÓRIO
Germán Rey

132. ARTE, EDUCAÇÃO E MEIOS


ELETRÔNICOS: EXPERIÊNCIAS, DESAFIOS
E PROPOSTAS
Ricardo Dal Farra

146. HAVERÁ DEMOCRACIA POLÍTICA


SEM DEMOCRACIA CULTURAL? O LUGAR
DAS “PERIFERIAS” EM PORTUGAL
Maria Vlachou

160. AS RESIDÊNCIAS ARTÍSTICAS COMO


ESPAÇOS DE REFLEXÃO E PRODUÇÃO DE ARTES
Consuelo Bassanesi

169. ONDE HÁ ESPAÇO


Carlos Gomes
ARTE, CULTURA E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA Germán Rey 115

MUTAÇÕES SIMBÓLICAS,
REDESENHOS CULTURAIS
E EDUCAÇÃO:
A BIBLIOTECA, O MUSEU E O LABORATÓRIO

Germán Rey

Três instituições culturais – a biblioteca, o museu e o laboratório – estão enfrentando pro-


fundos desafios gerados pela transformação dos modos de ler, pelas mudanças da representação
museográfica e pelos extravasamentos da experimentação. As variações de tempo, a inserção
de suas propostas na vida urbana, a irrupção das tecnologias e os novos rituais do público são
somente alguns exemplos dessa mutação. Lugares do conhecimento e da sensibilidade, as três
vivências culturais estão reformulando seu sentido educacional, que rompe com os formalismos
da instrução e se abre para uma potente pedagogia social e cidadã.

E
m “A Linguagem da Educação”, No fórum contemporâneo, encontram­-
­Jerome Bruner escreveu: “Da con- se a educação e a cultura, as aprendizagens e
cepção da cultura como ‘elaboração os significados, por meio de práticas, proces-
de cultura’ que propus, resulta que a iniciação sos e invenções e de linhas de interlocução
a ela por meio da educação, se vai preparar os que os atravessam. A biblioteca, o museu e o
jovens para viver a vida, deve participar desse laboratório são algumas dessas instituições
espírito de fórum, de negociação, de recriação que participam do espírito do fórum, da
de significado”.1 Em Carne e Pedra, Richard negociação educacional e dos significados
Sennett define o fórum romano como um local sociais. Milenar como a escola, a biblioteca
similar à ágora dos tempos de Péricles, onde se esteve durante séculos relacionada à conser-
mesclavam a “política, a economia, a religião e vação e à circulação de conhecimento e ao
a vida social”.2 Na mesma obra, S­ ennett lem- longo caminho da instrução e da reprodução
bra que pela ágora se perambulava, entretinha simbólica; o museu, em seus rituais de exibi-
e argumentava numa praça onde se reuniam ção, faz parte de uma pedagogia da visibili-
engolidores de fogo, magistrados que delibera- dade, daquilo que é legitimado pelo cânone
vam e podiam ser observados pelos cidadãos, do destacável; e o laboratório sempre foi um
comerciantes e filósofos que conversavam âmbito da experimentação, como ensaio da
animadamente com o público. criação e da aprendizagem.
116 OBSERVATÓRIO ITAÚ CULTURAL

Mas a mescla produzida no fórum é de seus perigos. Entre os pesquisadores


cada vez maior. Junto com a reformulação da leitura existe a preocupação com o que
profunda do sentido da escola e da educação acontece com as crianças quando, vindo
temos as transformações da biblioteca, do de práticas de leitura mais íntimas e pre-
museu e do laboratório. Da biblioteca porque coces – por exemplo, com a mãe –, entram
seu lugar, como demonstram as enquetes de no ciclo escolar, do qual nem sempre saem
consumo cultural, resulta em práticas coti- como leitores. Às aprendizagens da lectoes-
dianas de apropriação e seu perfil é redese- crita soma-se a relação do ler com o dever,
nhado a partir das mudanças que não costuma se vincular à
Explodida a partir de
que estão ocorrendo nos mo- dentro, a biblioteca enciclopédia cultural trazida
dos de ler. Como escreve Roger está reafirmando suas pelas crianças e pelos jovens ao
Chartier, “a revolução digital do relações com o exterior colégio, com sua sintonia com
nosso presente modifica tudo de forma mais plural e o mundo digital e as comoções
ao mesmo tempo: os suportes também mais atrevida. axiológicas que a leitura tem
da escrita, a técnica de sua re- em sua vida cotidiana. Mas as
produção e a difusão e as formas de ler”.3 O mudanças na leitura correm em paralelo ao
museu, por sua vez, é visto como um lugar redesenho das bibliotecas. Suas políticas se
afastado das necessidades e preocupações abriram para a oralidade e o tecnológico e se
das pessoas; como um espaço icônico, po- inscrevem no longo tempo da vida, rompendo
rém anacrônico, que compartilha o íntimo sua concentração na escola e descobrindo e
da memória em seus relatos canônicos. Já potencializando sua pedagogia social. Essas
nos laboratórios, ficaram para trás – embora alterações também se articulam com as ar-
não totalmente – os tempos nos quais as ló- tes, o patrimonial e as manifestações das in-
gicas positivistas determinavam as práticas dústrias da criação (o cinema, o desenho, as
de ensino e os processos da aprendizagem. músicas), encontrando convergências entre
Esses, como acontece em sua representação a biblioteca e a cidade e unindo, por exemplo,
cinematográfica, são o lugar das aspirações a leitura à mobilidade do transporte, ao lúdi-
humanas, incluindo aquelas que transgridem co dos parques ou aos diálogos intergeracio-
os limites ligados à vida e à liberdade.4 nais – que permitem situar o ler na conversa
Esses redesenhos se concretizam nas entre os avós e os jovens. Explodida a partir
políticas públicas que buscam determinar de dentro, a biblioteca está reafirmando suas
sua orientação na sociedade,5 na diversifi- relações com o exterior de forma mais plural
cação de sua oferta mutável, nas interações e também mais atrevida.
com outras dimensões culturais – nas quais Observam-se com frequência as longas
arriscam uma nova caracterização – e até em filas de crianças nas portas dos museus. Mas
sua imaginação arquitetônica e espacial. os museus também fazem a sua parte, redefi-
Milenar como a escola, a biblioteca nindo-se a partir de dentro para se adequar,
sempre esteve ligada à educação. Essa é cada vez mais, às aprendizagens sociais e às
uma de suas vantagens, mas também um novas demandas educacionais inscritas em
ARTE, CULTURA E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA Germán Rey 117

sua missão. As transformações dos roteiros de gestão pública e de formação de cidadania.


museográficos; as mudanças nas hierarquias Revitalizados pela crise do ecossistema mi-
daquilo que é exposto; a renúncia à distân- diático, os Media Lab e suas variadas formas
cia física e simbólica dos objetos para dar de imaginação são percebidos como locais de
protagonismo às interações; o audiovisual encontro de cidadãos e cidadãs onde há pos-
e o imaterial; a diversificação e os entrecru- sibilidades de criação e de inovação e onde
zamentos de campos antes considerados são acentuados os diálogos entre os saberes
separadamente; e a renovação temática que e propostas relações com as tecnologias que
permite a entrada de assuntos que, excluídos transcendem seus usos padronizados.
das preocupações museográficas, fazem parte
da readequação. Os novos olhares para a his- A biblioteca na cidade
tória, despojada das épicas centradas em pró- Duas cidades colombianas, Bogotá e
ceres e batalhas, transformaram os museus Medellín, construíram redes consistentes
históricos em locais mais permeáveis aos e plurais de bibliotecas públicas. Com se-
processos sociais e culturais, que apareciam melhanças e diferenças, as experiências se
somente como cenografia. A reformulação transformaram em exemplos internacionais.
da ciência por meio de efeitos comunicativos Ambos os casos estão profundamente ligados
explícitos fez com que seus museus sejam in- a uma nova forma de conceber a vida urbana
terativos, irreverentes e lúdicos, conseguindo e a gestão pública; ambos também estão re-
uma transmutação do saber científico em lin- lacionados com processos de médio e longo
guagem corrente. Mesmo os trajetos dos jar- prazo de transformação da convivência, da
dins botânicos são conturbados a partir das formação cidadã e da participação social.
novas experiências do habitat e do ambiental, Talvez essa seja a dimensão fundamental
e os museus de arte, desde os coloniais até os das bibliotecas: elas não foram desenhadas
contemporâneos, envolvem muito mais os es- simplesmente como uma resposta aos índi-
pectadores, articulam suas exibições com a ces de leitura, mas como uma contribuição
vida cotidiana dos visitantes e renovam seus às mudanças da cidade.
propósitos educacionais, levando-os muito Dessa forma, as bibliotecas se inserem
além do que tradicionalmente se conhece ativamente na vida urbana, fazem parte dos
como educação artística. planos de desenvolvimento e, principal-
O laboratório se voltou para as ruas, mente, significam uma possibilidade real de
como o Parque Explora, em Medellín, ou se construção de esperança em conglomerados
tornou um dos eixos dos projetos de educa- urbanos afetados pela pobreza, pelas desi-
ção mais inovadores, a exemplo da École 42, gualdades e pelas violências. As bibliotecas
em Paris. Mais do que laboratórios, há uma fazem isso a partir da sua especificidade, ou
dimensão desses espaços que atravessa as seja, a partir do seu modo particular de ser.
propostas educacionais mais interessantes, Transformadas progressivamente em cen-
com uma pluralidade de possibilidades que tros polivalentes, elas oferecem os serviços
se estende a laboratórios de criação artística, de acesso ao conhecimento e à informação,
118 OBSERVATÓRIO ITAÚ CULTURAL

mas também são locais de interação com a integração de cidades fragmentadas pela
cultura, o jogo, as artes e de mobilização so- pobreza. Por isso, as bibliotecas estão loca-
cial das comunidades de influência. lizadas em diferentes regiões geográficas da
As duas redes estão ligadas à educa- cidade, particularmente naquelas que, du-
ção e à produção, circulação e apropriação rante anos, foram excluídas ou desprovidas
de conhecimentos e saberes. Em Medellín, desse tipo de serviço ou onde se destacavam
é priorizada a construção social de uma ci- a concentração das moradias, as deficiências
dade educadora,6 enquanto em Bogotá as dos serviços públicos e a precariedade dos
bibliotecas fazem parte da ênfase da admi- mobiliários culturais de caráter público. Ao
nistração da cidade na valorização da espa- ­fazê-lo, reformulam o próprio sentido da
cialidade pública – composta, conforme o cidade e as filiações e o pertencimento de
geógrafo brasileiro Milton Santos, “de fixos seus habitantes, que assumem as bibliote-
e fluxos” – e da eficiência educacional. É uma cas como lugares acolhedores e próprios.
abordagem da educação que ultrapassa a for- Essa projeção política e ética está ligada a
malidade do próprio sistema educacional e uma clara consciência estética. As biblio-
descobre que há gestos sociais que se trans- tecas foram concebidas como obras belas,
formam não somente em exemplo-cidadão, conversando com os bairros e seus habitan-
mas também em uma oportunidade para a tes. Dessa forma, a estética é um ganho dos
formação da cidadania. cidadãos, um estímulo de pedagogia social e
As bibliotecas confirmam a importância um poderoso símbolo de inclusão. Em am-
do conhecimento nas sociedades contem- bientes físicos dominados pelas carências
porâneas, mas, principalmente, a necessi- e pela desordem urbana, as bibliotecas se
dade de ampliar e diversificar seu acesso, elevam como testemunhos de qualidade e
e entrelaçam a informação com o jogo e o beleza a serviço dos habitantes do bairro, que
entretenimento. Nesse propósito, as novas as utilizam e preservam. Surgiram intencio-
tecnologias são fundamentais, porque possi- nalmente unindo o social e, simbolicamente,
bilitam a construção de redes, ampliam seu as cidades, combinando sua estrutura física
uso social e criam contextos de encontro, com o espaço público que renova – com áreas
colaboração e intercâmbio. verdes e parques – o ambiente urbano. As
A governança se expressa por meio da maiores bibliotecas de Bogotá e os Parques
representação dos governos locais e dos Bibliotecas de Medellín são construções
operadores institucionais, embora em am- onde se relacionam a disposição multifun-
bas as experiências se estimule a partici- cional do recinto e propostas arquitetônicas
pação das comunidades e existam diversos de excelência. A estética é uma oportunidade
comitês para fazer o acompanhamento de para a formação de cidadãos e cidadãs.
todos os processos. A sustentabilidade das bibliotecas se
Um aspecto fundamental das duas consolida na participação da comunidade.
redes é sua intenção explícita de propor A partir de seu desenho, são estabelecidas
espaços de encontro e contribuir para a mesas de trabalho e de socialização das
ARTE, CULTURA E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA Germán Rey 119

quais participam os habitantes dos bairros cultura cidadã. Como destaca seu artífice, o
de influência, que também são supervisores ex-prefeito Antanas Mockus, a cultura cida-
de seus serviços e, em geral, de seu funcio- dã é “o conjunto de atitudes, ações e regras
namento. A comunidade, como ocorre em mínimas compartilhadas pelos indivíduos de
Medellín, assina pactos de comportamento uma comunidade, que permite a convivência
e apropriação social de suas bibliotecas, in- e gera senso de pertencimento”.7
terfere no planejamento, participa dos fóruns As bibliotecas são emblemáticas porque
e está a par do que acontece nos diferentes manifestam a importância do conhecimento
comitês. Trata-se de “construir sociedade”, e da educação para a vida da cidade e de seus
como aponta Gloria Palomino, ex-diretora habitantes, e, ao mesmo tempo, tornam-se
da Biblioteca Pública Piloto de Medellín, que um espaço aberto para todos, uma condição
destaca como a principal conquista dessa fundamental daquilo que é público. Dessa
rede a promoção da participação cidadã. forma, o propósito funcional da biblioteca
Em um terreno cheio de escombros, como suporte educacional se desloca para
surgiu a Biblioteca Virgilio Barco, em Bo- uma relação com a educação, que a abre para
gotá. Naquele momento, seu arquiteto, o a vida do bairro e da cidade. É também um
colombiano Rogelio Salmona, apontou que lugar de convergência do jogo com a informa-
a biblioteca “deveria ser como um centro ção, das novas tecnologias com as artes. Esse
cerimonial”. “A cerimônia da cultura, a ceri- projeto emblemático foi possível porque se
mônia do errar, até a cerimônia de descobrir relacionou com a transformação da cidade,
uma paisagem. Isso foi o que busquei ao pro- ou seja, com outro modo de entender a gestão
por esse projeto: que se descobrisse a cidade pública e outra forma de se sentir partícipe
onde está essa biblioteca e que, portanto, ti- de seus processos e suas mudanças. As bi-
vesse os atributos da geografia e da paisagem bliotecas são uma das dobradiças simbólicas
desta cidade”, afirmou Salmona. Essa ligação que unem a cidade e os cidadãos, seu presen-
com a cidade é uma das características fun- te e os significados de futuro.
damentais da BibloRed. E é assim por di- No alto de um dos municípios mais
versos motivos: geograficamente, porque as populosos de Medellín, destaca-se a figura
bibliotecas estão dispostas sobre o traçado da emblemática da Biblioteca España. De toda
cidade de tal forma que se situam em um eixo a cidade é possível observar sua construção
que a atravessa de norte a sul, o mesmo que como um ícone, uma promessa. Porque não
interliga duas cidades diferenciadas por seu é simplesmente um edifício que se sobres-
nível de vida; socialmente, porque são locais sai na altura, mas uma nova proposta de vida
de encontro e de expressão da vida pública; pública em um conjunto de bairros que fo-
e politicamente, porque a iniciativa de criar ram açoitados por pobreza, criminalidade e
a rede e construir grandes bibliotecas é o re- violência. A subida e a descida são feitas por
sultado de uma mudança na compreensão da metrocable (bonde aéreo), uma obra que in-
gestão pública – que em Bogotá está ligada, terligou as diversas cidades – principalmente
há duas décadas, ao conceito e à prática da as excluídas – que se estendem pelo Valle de
122 OBSERVATÓRIO ITAÚ CULTURAL

Aburrá. “Quando iniciamos o projeto, fize- com os conhecidos e ficam fisicamente con-
mos um estudo, e as regiões com menor ín- finadas. Isso é péssimo, porque todos nós fi-
dice de desenvolvimento humano foram os camos alheios aos demais. Não há cidadania,
locais escolhidos para construirmos os Par- não há solidariedade. Por isso, temos que ir
ques Bibliotecas”, comenta Jorge Melguizo, derrubando todas as paredes e, onde havia
que foi secretário da Cultura Cidadã de Me- violência, trocar a pele da cidade. Por isso,
dellín. “Eram regiões de altíssima violência, decidimos que devem ser construídos novos
baixa renda e escassez de recursos. Os Par- espaços públicos em Medellín para nos en-
ques Bibliotecas deram um sentido fundacio- contrarmos. E, nos espaços onde havia de-
nal à promoção da leitura; oferecem acesso sesperança, onde havia as piores condições
gratuito à internet onde antes de pobreza, de dificuldades
não havia; trazem para o bair- O museu é cada vez e de violência, estamos rea-
ro eventos culturais, tanto da mais percebido como lizando uma transformação
comunidade quanto realiza- componente de uma urbana. Um urbanismo novo
dos pela prefeitura, fazendo pedagogia social e cidadã para uma cidade nova, para
que fala de identidades
com que tenhamos apresen- voltarmos a nos encontrar…
ou de ciência, de artes
tações de primeira qualidade Nós não estamos resolvendo
ou de momentos e
em todos os lugares; e geram processos históricos. um problema de leitura em
uma afluência de turismo in- Medellín, queremos que as
terno e externo, pois se tornaram locais de pessoas leiam mais, obviamente, mas o nos-
circulação para as pessoas da cidade que so problema original não é como fazermos
antes não se atreviam nem a pensar em ir a para que os habitantes de Medellín leiam
um desses bairros.” mais de um livro por ano. Não. Nós estamos
Ao percorrer cultural e socialmente a falando de como nos encontrarmos para
metrópole, observa-se um traçado urbano construir”.8 Essa visão da leitura e da bi-
físico e simbólico que liga o Jardim Botânico blioteca vai muito além de certas políticas
e o Parque Explora, os Parques Bibliotecas culturais ­latino-americanas, preocupadas
e o Planetário, as universidades e o Centro com os índices estatísticos, mais do que com
Cultural Moravia. Mas o que esse traçado as mudanças cidadãs que, finalmente, são as
testemunha é a intenção de aproximar o que que sustentam o ler.9
antes estava separado, fragmentado, propon-
do como eixo a educação, o conhecimento e O museu na memória
a fruição. O ex-prefeito de Medellín Sergio No Museu do Amanhã, construído por
Fajardo, fomentador dos primeiros Parques Santiago Calatrava no Rio de Janeiro, cha-
Bibliotecas, diz: “a palavra-chave para nós mou-me atenção o fato de que o percurso
é voltarmos a nos encontrar, porque a vio- pelas salas, onde eram representadas visual
lência contínua confina física, social e cul- e ficcionalmente as invenções para o futuro,
turalmente. As pessoas se movem em um terminava em uma esplêndida e gigantesca
espaço reduzido na cidade, falam somente janela de vidro com vista para a contundente
ARTE, CULTURA E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA Germán Rey 123

beleza da baía. Visualidade e realidade, mon- e cognitivas mais diretas, transitando do ecos-
tagem e natureza contrastavam entre si e, em sistema ambiental para as vozes e músicas da
suas diferenças, completavam-se com uma região, sem criar divisões artificiais e possi-
simetria em que nenhuma abria mão de ser bilitando uma imersão na qual ocorre uma
ela mesma. O Museo de la Memoria de Mon- proximidade maior dos participantes.
tes de María, uma das regiões da Colômbia A proposta educacional do museu vai
mais assoladas pela violência, foi imaginado muito além de onde começam as longas filas
pela comunidade como um pássaro transu- das crianças das escolas. O museu é cada vez
mante que vai percorrer o território – essa mais percebido como componente de uma
realidade não somente física, mas princi- pedagogia social e cidadã, que fala de iden-
palmente simbólica e cultural –, com seus tidades ou de ciência, de artes ou de momen-
espaços de silêncio e suas salas audiovisuais tos e processos históricos. “Uma exposição
e interativas, suas afirmações do sofrimento não deve tentar tomar o poder sobre os es-
e suas cadeiras de balanço na porta, porque, pectadores, mas proporcionar recursos que
como indica Soraya Bayuelo, “na costa sem- aumentem a potência do pensamento”, diz
pre ficamos fora: na porta, contando histórias Georges Didi-Huberman.11
e fofocando, também cantando ou falando.
Mas a guerra nos fez voltar para dentro e nos A ubiquidade do laboratório
colocou em um silêncio profundo, no qual Há alguns anos, escrevi que o labo-
começamos a falar sussurrando, porque ratório é teste, mistura, precipitado. No
qualquer barulho nos assustava”.10 laboratório se experimenta, busca, cria.
“O Museo Itinerante de la Memoria Possivelmente, esta é uma das razões mais
(MIM) é uma plataforma de comunicação relevantes de um laboratório: nele, a criação
para promover, dar visibilidade e dinami- é um empenho alcançável, que se confronta
zar as reivindicações das vítimas por terra, com a natureza por meio da razão, que de-
palavra, memória, ação coletiva e reparação sentranha seus mistérios. O laboratório foi
simbólica, assim como para derrotar o es- uma das invenções mais profanas, porque
quecimento e propiciar uma reflexão crítica se imiscuiu num terreno onde somente Deus
sobre os fatos de violência ocorridos na região sobrevivia. “Numerosos teólogos e metafísi-
dos Montes de María (Colômbia) durante a cos foram longe o suficiente para discernir,
década passada. O MIM busca destacar dife- na absoluta equivalência entre Deus e o ato
rentes estratégias comunitárias de superação de criar, o único limite para a liberdade de
da violência, assim como fortalecer mecanis- Deus: esse só pode criar”, diz Steiner em Gra-
mos sociais de não repetição”, conforme des- máticas da Criação.12
crito na plataforma digital do museu. Por isso, apesar de terem existido alqui-
Em Barranquilla, o Museo del Caribe re- mistas nos tempos medievais – época em que
nuncia à exagerada catalogação de objetos e o crescimento pessoal era mais o nome de
coleções para ser um grande ambiente de ima- um processo do que de um resultado, con-
gens e sons, que permite interações sensoriais forme aponta Mircea Eliade –, o laboratório
124 OBSERVATÓRIO ITAÚ CULTURAL

é um assunto moderno, que passou da magia os laboratórios sociais se tornaram articula-


para a ciência, como se confirma na histó- dores da criatividade social, da participação
ria da Florença dos Médicis. À sua maneira, cidadã e da incorporação das tecnologias aos
laboratório e democracia pertencem a um processos de participação coletiva. Conceber
mesmo terreno. E, vale dizer, embora soe os projetos educacionais como laboratórios,
estranho, que também demo- ou instalar o significado de
A noção e a prática do
cracia e monstruosidade. “A laboratório nos currículos e,
laboratório se expandem
democracia”, diz Paolo Flores em geral, na formação, é re-
para as artes, as
d’Arcais, “é um sistema frágil e tecnologias, as ciências lativamente frequente hoje.
contra a natureza.” Talvez um e as práticas sociais. É interessante observar que a
pouco disso possa ser a chave biblioteca e o museu se abri-
para entender por que os conservadores fun- ram para a experimentação: na primeira,
damentalistas querem retornar a um criacio- junto com a digitalização de seus acervos
nismo a todo custo. e serviços, existem laboratórios de escrita
A experimentação, ao contrário, expan- e leitura presencial e on-line; enquanto, no
diu-se além do campo das ciências, como a segundo, os espectadores deixaram de sê-lo
química, a biologia, a hidráulica ou a física, para intervir em curadorias interativas, exer-
para agir na música, nas artes plásticas, no cícios de formação de público e laboratórios
vídeo, no teatro ou nas tecnologias.13 de experimentação dentro de um museu, que
Há alguns anos, dirigi um grande labo- deixou de ser um simples espaço de exibição
ratório de tecnologias para a criação, as artes e de distância apreciativa.
e a educação, o Centro Ático, que colocava O projeto C4, da Secretaria de Educa-
a educação para conversar com as artes vi- ção de Bogotá e do Centro Ático da Pontifi-
suais, a pesquisa com os sons, os videoga- cia Universidad Javeriana, foi uma proposta
mes ou a animação digital.14 Os laboratórios para encontrar essas conexões de forma mais
também reformularam a educação. Como direta, articulando a variedade criativa das
aconteceu com o museu e a biblioteca, o la- crianças, dos jovens e dos professores de
boratório escolar era um lugar da compro- escolas e colégios públicos de Bogotá com
vação dos conhecimentos, de sua réplica, a experiência do laboratório, ou seja, com a
mais do que de sua criação, voltada para a multiplicidade de intervenções criativas e
universidade e os centros de pesquisa. Con- a espacialidade educacional do laboratório.
centrava-se na biologia, na química e na fí- A experiência mais interessante e
sica e sua função era fundamentalmente de recente que eu tive, porém, foi no Centro
constatação e verificação dos conhecimentos Ático, uma plataforma multimídia concen-
teóricos adquiridos nas salas de aula. Hoje, trada em um edifício15 de 9 mil metros qua-
a noção e a prática do laboratório se expan- drados, onde as tecnologias audiovisuais se
dem para as artes, as tecnologias e, inclusi- encontram com o desenho, a arquitetura, a
ve, para as ciências e as práticas sociais. E a engenharia e a comunicação. Inicialmen-
expansão é ainda mais forte: os Media Lab e te concebido como um centro de serviços
ARTE, CULTURA E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA Germán Rey 125

clássico, rapidamente passou a ser visto de busca de conhecimento mútuo, em que as


como uma “margem” onde poderiam con- cosmovisões de uns e de outros eram coloca-
fluir o pensamento e a memória, a formação das à prova, e as aprendizagens tecnológicas
e a experimentação, o empreendimento e a eram interpeladas a partir de visões muito
inclusão social. A educação universitária, mais integrais e compreensivas.
tradicionalmente vista de “dentro”, com seus Desse modo, explica-se que, quando os
rituais e procedimentos cada vez mais preo- índios começaram as gravações do primei-
cupantemente padronizados e endogâmicos, ro documentário totalmente feito por eles,
voltava-se para fora – ou seja, para a cidade e Resistencia en la Línea Negra [Resistência
as realidades de um país complexo e contra- na Linha Negra], fizeram um “pagamento”
ditório. Esse “fora” tem um enorme potencial num dos locais cerimoniais, presidido pelo
pedagógico e, principalmente, de encontro senhor Mamos, para recompensar antecipa-
das disciplinas com os saberes, da formação damente a natureza pelos eventuais danos
profissional com as práticas culturais. que pudessem provocar com seu trabalho
Esse foco ajuda a pensar e intervir no audiovisual. Dessa forma, conectavam ime-
desenho dos apoios das tecnologias aos pro- diatamente o aparelho e sua interferência
cessos de ensino-aprendizagem da educação técnica com a natureza, ligações que pratica-
superior. Como ratifica o pesquisador brasi- mente desapareceram nos circuitos formais
leiro Muniz Sodré: “Na abordagem contra-he- da produção comercial.
gemônica da diversidade, cabe considerar, em Em segundo lugar, também foi muito
primeiro lugar, que não se trata de transfor- interessante o diálogo entre educação e
mar a diversidade no código predominante tecnologias. Habitualmente, essa relação
da tecnologia (como permite ver o argumen- se retrai ao nexo funcional e instrumental,
to isolado da ‘inclusão digital’), mas integrar seja para servir de suporte para o desenho
‘ecologicamente’ o universo simbólico da de conteúdos que fornecem as fontes de co-
diversidade na urbe tecnológica”.16 nhecimento (textos, professores), seja para
Quando relembro dos potenciais do Áti- facilitar a circulação da informação pelas
co, observo algumas conexões que foi pos- redes até seus potenciais consumidores
sível comparar nesses anos. Em primeiro ou para administrar plataformas e outros
lugar, a relação entre tecnologias, saberes e recursos que permitam a participação das
experiências ancestrais. Inaugurei o labora- comunidades formativas. O próprio Muniz
tório Matrix, da Universidad Javeriana, com Sodré afirma que: “Uma educação compa-
um projeto que, durante anos, envolveu os tível com a diversidade cultural e com o
índios arhuacos, wiwas e koguis, de Sierra sensorium da novíssima tecnologia da in-
Nevada de Santa Marta,17 na formação e formação e da comunicação não será aquela
criação de tecnologias audiovisuais – uma pautada exclusivamente pelo uso instru-
proposta afastada da ideia de “treinamento” mental dos meios de comunicação e/ou dos
ou de “capacitação”. Por outro lado, tratou-se objetos técnicos avançados – o que importa
de uma experiência criativa de intercâmbio e não é somente a diversidade de conteúdos
126 OBSERVATÓRIO ITAÚ CULTURAL

culturais a serem acionados, mas sim a co- O Laboratório de Tecnologias e Edu-


municação que incorpore pedagogicamente cação é uma proposta de pesquisa da apro-
a dimensão do sentir, a mesma que forma priação por parte de crianças de escolas
o mundo vital”.18 públicas de Bogotá, inicialmente de tablets.
Eu observei essas tensões de várias O desenvolvimento do laboratório destacou
formas: por meio das compreensões que a a participação das tecnologias da informação
academia ainda tem, das estranhezas que e comunicação (TICs) nos processos de au-
os produtores de conhecimento percebem toaprendizagem e aprendizagem entre pares;
no mundo digital, das potencialidades que o estímulo de dinâmicas de colaboração; a
existem em outros modos de relação entre ruptura das assimetrias professor-aluno;
os desafios educacionais e os nexos entre tecnologias,
Quando a educação passa
as tecnologias. Eu me inte- práticas e perspectivas pe-
pela biblioteca, pelo museu e
resso muito mais por esses dagógicas (tempos, rotinas
pelo laboratório, ela mesma
últimos. Por isso, foram se repensa e se redesenha. e ritmos escolares); as pro-
construídos no Ático “por- ximidades entre jogo e tec-
tais do conhecimento”; foi gerado um labo- nologias; a contribuição das tecnologias para
ratório onde os protagonistas não foram os as produções criativas das crianças; e a inter-
aparelhos, mas as crianças, numa nova situa- venção das tecnologias nos modos cooperati-
ção de aprendizagem; foi coordenado o C4; e vos para resolver desafios de aprendizagem.
foram estabelecidas conexões entre o dese- O projeto C4, anteriormente mencio-
nho, a música, as artes visuais, a animação nado, é uma tentativa de conectar as práti-
e a arquitetura. Um exemplo foi a recriação cas das artes com a inovação tecnológica e a
das “Siete Visiones del Amén”, de Messiaen, aprendizagem das ciências nos planos edu-
com coreografia de El Colegio del Cuerpo, de cacionais dos colégios públicos de Bogotá.19
Cartagena das Índias. É muito sugestivo constatar que um
Os “portais do conhecimento” são luga- laboratório como esse tenha uma grande
res de produção e circulação de sabedorias quantidade de possibilidades para os novos
locais em espaços globais. Um dos entraves desenhos pedagógicos, a interação com as
mais persistentes nas indústrias culturais disciplinas, a construção de material educa-
regionais é precisamente este que impe- cional, a vinculação com processos sociais,
de que a criação nacional seja ativamente arte e ciência, o diálogo com os saberes an-
compartilhada. Por isso, foi criado no Ático cestrais, a circulação e a criação simbólicas
o GeoAtico, um portal sobre viagens e via- em sociedades, nas quais a internet e as no-
jantes naturalistas pela Colômbia; o Pensa- vas tecnologias ainda pisam nas areias mo-
dores.co, sobre pensadores colombianos do vediças das desigualdades e do isolamento.
século XX; e o Maguaré, um portal intera- Que distância existe entre Messiaen e
tivo dirigido às crianças sobre patrimônio o porro, entre a champeta e o conhecimento,
imaterial, realizado com o Ministério da entre os cantos das crianças em Maguaré e
Cultura da Colômbia. uma escola na região rural da Colômbia, com
ARTE, CULTURA E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA Germán Rey 127

a ausência da internet e os saberes sobre as- museu e da biblioteca e o laboratório per-


tronomia de seus pais? Que incríveis labi- maneceu num isolamento que o tornava
rintos unem a música para computadores atrativo e misterioso. Mas esses tempos mu-
de John Chowning, o registro da memória daram e, em meio ao vendaval ou à calmaria
audiovisual de instrumentos musicais pra- depois da tempestade, a biblioteca, o museu
ticamente desaparecidos e a transmídia? e o laboratório se reconectam com o mun-
É esse o tipo de preocupação e de vín- do que lhes dá sentido, rompem amarras,
culo que exploramos sobre a criação e as envolvem-se de um modo diferente com o
tecnologias nas periferias – não somente público e exploram, possivelmente de forma
geográficas, mas também das artes, da vida mais livre, a extensa tradição da qual pro-
social e da educação. vêm e da qual se distanciam.
A nova representação da biblioteca, do
museu e do laboratório passa por uma re-
formulação profunda de sua própria forma
cultural, ou seja, de seu modo de ser e de fun-
cionar, assim como de suas relações com a
educação e, em geral, com a sociedade.
Há uma grande simetria nas transfor-
mações dessas três instituições que reagem
diante das mudanças radicais da leitura, dos
desafios das pautas e dos modos de represen-
tação e da renovação da experimentação e de
seu significado social. Na biblioteca, no mu-
seu e no laboratório, estão pendentes a ideia
de conservação, os movimentos do conhe-
cimento, as formas da interação e o sentido Germán Rey
da aprendizagem. Tudo isso transcorre em Foi diretor do Centro Ático, da Pontificia Uni-
meio a relações muito mais profundas com versidad Javeriana (Bogotá, Colômbia), laboratório
os cidadãos, o público e as variadas expres- para a criação audiovisual, o desenho e as artes.
sões da vida urbana. Participou do processo de construção da Política
Quando a educação passa pela bibliote- de Museus e de Leitura e Bibliotecas da Colômbia.
ca, pelo museu e pelo laboratório, ela mesma É coordenador do Compêndio de Políticas Cultu-
se repensa e se redesenha. Fica para trás a rais do Ministério da Cultura, assessor de Políticas
época em que essas três instituições foram Culturais da Secretaria da Cultura de Bogotá e
definidas como educacionais não tanto pela participou da linha estratégica, um dos setores do
paideia que geravam, mas pelo uso funcio- Instituto de Artes de Bogotá (Idartes), do Artes,
nal do instrucional e divulgador agregado Tecnologias, Culturas Científicas e Cidade, do Ins-
às outras funções missionais. Apareceram, tituto Distrital de las Artes (Idartes), e do desenho
então, os departamentos de educação do da Biblioteca Digital de Bogotá.
128 OBSERVATÓRIO ITAÚ CULTURAL

Notas

1 BRUNER, Jerome. Acción, pensamiento y lenguaje. Madri: Alianza Editorial,


1989, p. 4.

2 SENNETT, Richard. Carne y piedra. El cuerpo y la ciudad en la civilización


occidental. Madri: Alianza Editorial, 1994, p. 120.

3 CHARTIER, Roger. Aprender a leer, leer para aprender. Disponível em:


<https://nuevomundo.revues.org/58621>. Acesso em: 22 nov. 2017.

4 Em outro texto, La comunicación en el laboratorio [A comunicação no


laboratório], aproximei-me da noção de laboratório de Mary Shelley e de diversas
variações cinematográficas de Frankenstein; de A Mosca, de David Cronenberg;
e de Edward Mãos de Tesoura, de Tim Burton.

5 Leer es volar. Plan de Lectura de Bogotá (2016). Plan Departamental de Lectura


y Bibliotecas de Antioquia. Medellín: 2014-2020.

6 Crónicas de barrios, lecturas, libros y esquinas. Historias detrás del Plan Municipal
de Lectura y Escritura de Medellín. Medellín: Alcaldía de Medellín, Tragaluz
Editores, 2015.
REY, Germán. Una lectura del Plan Municipal de Lectura. Medellín, una ciudad
para leer y escribir 2009-2014. Medellín: Universidad de Antioquia, 2015.

7 MOCKUS, Antanas. La ciudad es un aula. In: BERTRÁN, Roser; MANITO, Félix


(Ed.). Aprendiendo de Colombia. Cultura y educación para transformar la ciudad.
Barcelona: Fundación Kreanta, 2008, p. 70.

8 Cambiarle la Piel a la Ciudad. Entrevista com Sergio Fajardo. In: BERTRÁN,


Roser; MANITO, Félix (Ed.). Aprendiendo de Colombia. Cultura y educación para
transformar la ciudad. Barcelona: Fundación Kreanta, 2008, p. 172.

9 REY, Germán. Del dicho al hecho. El trecho recorrido por algunas políticas
culturales colombianas. Revista Calle 14, v. 12, n. 22, Universidad Distrital, 2017.

10 El Espectador, Bogotá, 29 jul. 2015.

11 DIDI-HUBERMAN, Georges. La exposición como máquina de guerra, Círculo de


Bellas Artes de Madrid, p. 25.

12 STEINER, George. Gramáticas de la creación. Madri: Editorial Siruela, 2001, p. 28.

13 La comunicación en el laboratorio. Bogotá: Facultad de Comunicación y


Lenguaje, p. 17.
ARTE, CULTURA E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA Germán Rey 129

14 Existe uma reflexão específica sobre o Ático e a educação em: FERLA, Jorge La;
QUEVEDO, Luis Alberto (Ed.). El cine hace escuela. In: REY, Germán. Ático: la
formación desde la creación. Buenos Aires: Espacio Telefónica, 2012.

15 Edifício que o arquiteto diz ter concebido como “uma caixa de música”.

16 SODRÉ, Muniz. Educación, hegemonía y diversidad. Palestra na Cátedra Unesco.


Pontificia Universidad Javeriana, Facultad de Comunicación y Lenguaje, 2015, p. 9.

17 Sierra Nevada de Santa Marta, na Colômbia, é o conjunto montanhoso mais


alto junto ao mar do planeta, sendo habitado por quatro etnias: os arhuacos, os
koguis, os wiwas e os kankuamos.

18 SODRÉ, Muniz. Educación, hegemonía y diversidad. Palestra na Cátedra Unesco.


Pontificia Universidad Javeriana, Facultad de Comunicación y Lenguaje, 2015, p. 10.

19 O projeto foi promovido e patrocinado pela Secretaria de Educação de Bogotá


(2014-2015). Seus vídeos podem ser vistos no YouTube.
132 OBSERVATÓRIO ITAÚ CULTURAL

ARTE, EDUCAÇÃO E
MEIOS ELETRÔNICOS:
EXPERIÊNCIAS, DESAFIOS E PROPOSTAS

Ricardo Dal Farra

Como pensar a educação para um mundo que vive uma transformação tão rápida? Qual
é hoje o lugar da ética, da filosofia e da arte? Por meio de três projetos que unem arte, educação
e meios eletrônicos, desenvolvidos no Peru e na Argentina, o seguinte texto propõe aproximar
modos diferentes dos convencionais de formar jovens gerações e permitir que possamos ir
crescendo e nos adaptando melhor a um ambiente que nos surpreende a cada dia.

Em busca de novos caminhos sobreviver? Qual é hoje o lugar da ética, da

C
filosofia e da arte?
ertos acontecimentos parecem Muitas das sociedades que habitam
ocorrer cada vez com mais veloci- o nosso planeta em breve enfrentarão cer-
dade. Mal ficamos sabendo de algo e tas dificuldades que não procuraram nem
há outras notícias nos surpreendendo. Inde- provocaram. A crise ambiental provavel-
pendentemente do interesse que tenhamos mente trará como consequência migrações
num assunto, o tempo parece fluir de forma em massa para evitar o perecimento. A
diferente hoje. Os modos de comunicação inteligência artificial poderia ser fonte de
baseados em novas tecnologias da informa- bem-estar ou desencadear uma crise so-
ção nos impactam com suas inovações. cioeconômica global. Como educar crianças,
Assim, como pensar a educação para jovens e também adultos num contexto tão
um mundo que vive uma transformação complexo quanto incerto e de alto impacto?
tão rápida? Quais são os objetivos que pre- Se considerarmos a educação supe-
cisamos considerar para elaborar modelos rior, o sistema de formação e certificação
educacionais úteis, que permitam enfren- que aplicamos na maior parte dos países da
tar os desafios inimagináveis que logo po- Europa e da América enfrenta sérias dificul-
dem ocorrer? Que futuro nos espera daqui dades. Podemos imaginar qual é a universi-
a dez ou 20 anos? A pesquisa científica e dade de que vamos precisar daqui a três ou
o desenvolvimento de novas tecnologias cinco décadas? A discussão sobre conteúdos
permitirão à espécie humana passar a uma ou competências continua sendo relevante
nova etapa de bem-estar coletivo ou, talvez, ou temos outras urgências a discutir antes?
ARTE, CULTURA E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA Ricardo Dal Farra 133

O papel da arte e da educação já tem Argentina: viajar durante alguns dias pela
controvérsias demais para somar-se a ou- província de Misiones – fronteiriça com o
tras novas. Mas, analisando a realidade atual, Brasil – com um contingente de jovens de 15
entendo que é indispensável olhar para o a 17 anos, oferecendo-lhes a possibilidade de
passado para entender melhor por que es- se aproximarem de cada lugar percorrido a
tamos onde estamos, assim como refletir partir da escuta do ambiente. A intenção des-
considerando os possíveis cenários futuros sa experiência inovadora era, para aqueles
para decidir quais caminhos percorrer, ou, jovens, naquele momento, ajudar a desper-
se esses não existirem ainda, criar os rumos tar uma reflexão sobre a sociedade na qual
que acharmos necessários. viviam, a cultura própria dessa região e seu
Sobre essa densa trama, as chamadas modo de entender a música e a arte sonora.
“artes eletrônicas” aparecem, algumas ve- O grupo teve a oportunidade de viajar
zes, bem diferenciadas da realidade cotidia- por várias cidades e povoados. O mundo
na que a maioria vive; noutras, ao contrário, sonoro de cada um foi se expandindo: eles
convivendo conosco em momentos e espaços começaram a reconhecer um universo com
impensáveis até pouco tempo atrás. As artes sons que já existiam, talvez, mas que agora
poderiam ser um modo de ligar e interconec- apareciam de outro modo, com uma presen-
tar aquilo que, em certas culturas, temos ça destacada e desencadeando pensamentos
identificado como arte, ciência e tecnologia, inovadores, reflexões profundas e criações
para retomar um encontro quase esquecido inesperadas. Tudo isso após apenas algumas
que nos remeta a uma visão mais integrada jornadas de experimentação.
do que acontece no mundo? Aproximadamente 30 participantes fi-
zeram parte dessa vivência na Argentina. A
Os sons que ouvimos agora série de experimentos sonoro-musicais e as
Alguns exemplos podem ajudar a estu- atividades realizadas foram muito diversifi-
dar situações que nos proponham um olhar cadas. E provavelmente ninguém esperava
diferente, que facilite a percepção do que nos resultados tão positivos em um tempo tão
rodeia e do que somos e, ao mesmo tempo, breve, já que toda a viagem não durou mais
nos leve a uma reflexão que resulte em ação. do que três ou quatro dias. Entretanto, o
Em 1985, a Direção Nacional de Mú- processo de imersão, no qual praticamente
sica propôs uma experiência inédita na cada momento da viagem foi compartilhado,
134 OBSERVATÓRIO ITAÚ CULTURAL

permitiu obter resultados notáveis. Entre individual. Uma experiência ao mesmo tem-
eles, vale destacar a jornada na qual todo o po coletiva e pessoal, imersiva, porém, natu-
grupo foi levado até uma ilha desabitada, no ral. Estávamos juntos e rodeados somente
meio de um rio, e deixado ali por algumas por um mundo sobre o qual o ser humano
horas. Isso aconteceu após um intenso pro- ainda não havia feito intervenção. 
cesso – proposto e guiado pelos professores O reconhecimento da vivência chegou
responsáveis – que levou os participantes quase ao final da experiência para a maioria
a refletirem sobre o som, sua percepção e a desses jovens. Então, eles puderam pensar,
organização que ele pode adotar conforme o analisar e avaliar o que aconteceu durante
nosso próprio desejo e interesse. aqueles poucos dias que tiveram para com-
Percorremos a ilha caminhando, quase partilhar. Um tempo breve, mas que abriu a
o tempo todo sem falar, mas com uma série porta para que eles pudessem transformar a
de ideias claras sobre como enfrentar a si- forma como se relacionavam com a música,
tuação. Pouco a pouco, o aparente silêncio, com a arte. A oportunidade de se conectar
que inicialmente acreditávamos ser causado de outra forma com um mundo que apare-
pela falta de comunicação verbal entre nós ceu de repente foi impactante para quase
que estávamos caminhando pela ilha, foi se todos os participantes.
transformando em um espaço onde os sons Quando, em um primeiro momento,
do ambiente inundavam as nossas mentes e nós docentes responsáveis pelo grupo com-
passavam a ocupar a nossa atenção. preendemos que a experiência musical de
A intenção, então, passou a ocupar um todos esses jovens passava, em sua maioria,
papel preponderante, e a decisão tácita de por certa música que era identificada como
cada um aceitar e incorporar o que havia folclórica – ou que, eventualmente, eles ou-
sido proposto antes do desembarque pos- viam através das rádios que transmitiam do
sibilitou que a música começasse a aconte- outro lado da fronteira, mas que raramente
cer dentro de nós. Uma música que surgia ouviam rock e quase nunca música clássica
da organização que cada um propunha para (de tradição europeia) –, custamos a imagi-
os sons que ia percebendo. Sons que cada nar que em apenas poucas jornadas eles per-
jovem podia ouvir de forma diferente do mitiriam se abrir à música contemporânea,
restante do grupo, sons que se agrupavam e até à eletroacústica.
ou se diferenciavam, ocupando um tempo Um sintetizador (analógico, monofôni-
e um espaço especial, pessoal. co), que levávamos como parte do material
O reconhecimento do som gerado ao pedagógico para trabalhar com o grupo de jo-
dar cada passo, dos pássaros, do vento atra- vens, foi o elemento-chave para poder repen-
vés daquelas árvores e, depois, o da chuva sar o som e a relação de cada um deles com
inesperada – que nos molhou durante um o universo circundante. Após a mencionada
bom tempo –, foi se transformando em um passagem temporária pela ilha, e já de volta à
presente, que cada um se abriu para rece- terra ocupada e acondicionada por humanos,
ber, que cada participante aceitou de forma ocorreu um rico intercâmbio entre todos, a
ARTE, CULTURA E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA Ricardo Dal Farra 135

partir do qual se reconheceu que essa cami- nosso percurso turístico-musical por terras
nhada “silenciosa” havia permitido que certa missionárias. Conseguimos concretizar a
música fosse se organizando e se tornasse visita à emissora de rádio do povoado e falar
protagonista para cada um. A descoberta in- com os seus operadores.
dividual de que não só a música podia chegar Embora a música que eles programa-
até nós de fora, como também nós mesmos vam diariamente nessa emissora, que fazia
poderíamos criá-la dentro de nós – sem nem parte da rede da Rádio Nacional da Argen-
mesmo fazer nossos canais auditivos inter- tina, fosse reconhecida pela maioria desses
virem – foi uma revelação. jovens, durante a troca que mantivemos com
A partir daquele momento, tudo mudou os operadores da rádio apareceu algo diferen-
para os membros do grupo e o interesse que te. Um técnico pegou um disco (um velho LP)
foi sendo despertado por meio de simples do acervo que continha música eletrônica
experimentos fez com que tudo o que pare- elaborada nos estúdios Philips, da Holanda.
cia distante ficasse muito mais perto, desde Apesar do seu interesse pessoal, o operador
a percepção de um pequeno inseto, que fazia não podia tocar esse tipo de música na rádio,
uma folha estalar tenuemente, até a abertura por isso, após nos fazer ouvir parte das faixas,
para o conhecimento de desenvolvimentos sem que fossem ao ar, decidiu que o melhor
intelectuais, como aqueles que podiam vir era entregar o disco ao grupo de visitantes,
de pensadores como o John Cage.  que – conforme ele mesmo disse – com cer-
Aquele grupo era o mesmo que havía- teza faria um melhor uso.
mos surpreendido ao começar o nosso en- E foi assim que partimos com esse
contro com uma simples experiência, por material e com uma nova experiência que
meio da qual os participantes perceberam reforçou a proposta de que é possível ouvir
que conheciam mais o que alguém decidia de outro modo, é possível estarmos abertos
colocar na rádio – e que eles aceitavam pas- e pensarmos que há múltiplas formas de
sivamente – do que a música própria das entender o mundo que nos rodeia. E, final-
culturas originárias daquelas terras que ha- mente, é possível crescer aprendendo a criar,
bitavam. Foi tão forte e súbito o impacto pro- e todos podemos fazê-lo sem esperar que o
vocado ao se abrir e ouvir diversos tipos de conhecimento já venha pronto e, como por
expressões sonoro-musicais que, ao passar osmose, ocorra em nós uma iluminação que
por um pequeno povoado, vários dos jovens nos indique o caminho a seguir.
nos pediram para visitar a emissora de rádio Eles ouviram e nós também. Aprende-
local e conversar com os seus operadores. mos juntos, por incentivo e motivação de
O fato, que não fazia parte do plano que uma forma de conhecimento diferente, um
havíamos traçado para eles, ocorreu quando encontro cultural rico e uma troca profun-
faltava pouco para nos despedirmos. Essa da – algumas vezes, até comovente – sobre
parada no caminho ajudou a completar a a vida, nosso encontro, quem somos, o que
cadeia de novas possibilidades que foram fazemos aqui e, quando decidimos seguir em
surgindo para o grupo nos poucos dias do outra direção, por que o fazemos.
ARTE, CULTURA E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA Ricardo Dal Farra 137

Talvez pareça exagerado tirar conclu- de participar de processos formativos tanto


sões tão impactantes, considerando que fun- a artistas com educação superior quanto a
damentalmente se tratou de uma proposta camponeses que ainda viviam nas monta-
baseada em experiências sonoro-musicais nhas e quase não haviam tido contato com
relativamente simples. No entanto, possivel- qualquer tipo de meios eletrônicos.
mente tenha ocorrido um momento de infle- O Centro Andino de Arte y Nuevos Me-
xão nas vidas de alguns desses jovens quando dios Amauta existiu por pouco mais de cinco
lhes foi dada a oportunidade de repensar o anos, a partir de 2003. Teve sua sede no Cen-
entorno e, a partir disso, o seu próprio ser. tro de Estudios Regionales Andinos Bartolo-
mé de las Casas, uma ONG que já funcionava
Montanhas de arte na cidade de Cusco havia várias décadas. O
Ainda que a eletrônica pareça estar mui- Amauta, ao ser um projeto independente, não
to longe do que foi descrito no trecho anterior, estava ligado a nenhuma estrutura educacio-
não foi assim. Muito pelo contrário: foi parte nal formal controlada pelo Estado. O trabalho
do pensamento que vem do desenvolvimento realizado no centro estava organizado a partir
da música eletroacústica que facilitou nosso de quatro eixos ou programas: (a) Programa
caminho rumo à construção de novos modos de Pesquisa; (b) Programa de Educação; (c)
de escuta. A possibilidade de trabalhar pela Programa de Criação; e (d) Programa de Di-
primeira vez com um sintetizador eletrônico vulgação. O projeto realizava também um pla-
de sons – quando ainda não existiam os com- no de residências de criação e pesquisa para
putadores pessoais, e tudo o que a maioria de artistas locais e internacionais.
nós tem ao alcance hoje era algo impensável – Um dos elementos-chaves desse centro
provocou no citado grupo de jovens uma mo- era o seu laboratório de pesquisa e criação,
tivação significativa, que os ajudou a repensar um espaço aberto à comunidade artística,
seu mundo e sua participação nele. que propiciava os trabalhos em torno das
A experiência do percurso por vários chamadas media arts. Outro aspecto fun-
povoados, enquanto se propunha um reco- damental proposto pelo Amauta era levar
nhecimento do entorno a partir de múltiplas às diferentes comunidades rurais da região
perspectivas, teve um suporte claramente atividades que não somente fossem reserva-
institucional, mas sem apontar para um de- das para artistas, mas que estivessem abertas
senvolvimento que tivesse uma rígida base a todos os seus membros.
formativa, e sim como parte de uma moda- Um exemplo do que foi realizado nesse
lidade aberta, simples e direta, que pudesse sentido é a Oficina de Pesquisa/Criação Au-
produzir resultados duradouros por meio de diovisual, que, durante 2007, foi feita com a
ações de curto prazo. comunidade de Cachin, na província de Cal-
O seguinte projeto, realizado na região ca. Essa atividade, que interligava o mundo
de Cusco, no Peru, também foi proposto andino rural com algumas das possibilida-
como um modo de chegar à comunidade de des do mundo urbano, foi o resultado de um
forma flexível, oferecendo uma oportunidade longo processo de preparação da equipe do
138 OBSERVATÓRIO ITAÚ CULTURAL

Amauta, assim como de um intenso e elabo- e decididas em conjunto. Foi num desses en-
rado trabalho multidisciplinar. contros que eles começaram a manifestar
A proposta da oficina era estabelecer interesse em conseguir equipamento audio-
um rico diálogo intercultural entre todos os visual para usar e adaptar às suas necessida-
participantes, no qual pudéssemos aprender des, suas intenções e aos seus desejos. Nessa
juntos. Procurou-se, então, “criar pontes que oficina, não houve professores no sentido tra-
aproximem os pontos de vista de cada um, as- dicional, mas um modo dinâmico de ensinar
sim como as diversas reflexões sobre a vida, e aprender num ambiente onde a alegria do
tendo a arte, as possibilidades tecnológicas conhecimento superava qualquer dificuldade.
atuais e a exploração de técnicas diversas no O Centro Andino de Arte y Nuevos Me-
tocante à comunicação e à expressão como dios desenvolveu projetos tão diversificados
um elemento integrado a tal diálogo”.1 Nesse como as Películas Andinas para Pueblos An-
contexto em que todos estávamos aprenden- dinos [Filmes Andinos para Povos Andinos],
do, ensinando e compartilhando, como são que levou a 12 comunidades camponesas de
avaliados os resultados? Cusco e Apurímac filmes de Jorge ­Sanjinés –
A comunidade com a qual se trabalhou que o Amauta traduziu do aimará e do espa-
tem tradições e uma cosmologia que a acom- nhol para o quéchua –, fazendo o cinema
panha desde que a memória chegar a locais onde antes
se perde. Aproximadamente Aprendemos com o jamais havia sido vista uma
20 jovens participaram, mu- passado para entender projeção. Também organizou
melhor nosso presente e ir
lheres e homens de Cachin oficinas dedicadas a diversos
tomando as decisões que
que desciam a montanha para desenhem, pelo menos tipos de media arts, realizadas
o povoado ocasionalmente e em parte, nosso futuro por Barbara Layne, da Con-
não conheciam as ferramen- cordia University; Alvaro Me-
tas tecnológicas que teriam à disposição, tais jía, do Peru; Bruce Yonemoto, da University of
como câmeras de vídeo e sistemas de edição California em Irvine; David McIntosh e Patri-
para os registros audiovisuais. cio Dávila, da Ocad University; Gerardo Della
O plano de trabalho para a oficina foi Vecchia, do Centro de Experimentación e In-
sendo elaborado em conjunto, e todos apren- vestigación en Artes Electrónicas (CEIArtE),
demos em um processo no qual era necessá- da Universidad Nacional de Tres de Febrero;
rio manter a mente aberta para compreender Joanne Lalonde, da Université du Québec à
outros pontos de vista, outros modos de en- Montréal; e Walter Aparicio, do Amauta, en-
tender a vida. Um dos elementos de avaliação tre outros artistas. Criou, ainda, documen-
importantes apareceu quando, após terminar tários, instalações, trabalhos de videoarte e
a primeira Oficina de Pesquisa/Criação Au- videomapping, além de numerosas mostras
diovisual, as pessoas da comunidade desce- com projeções de curtas e longas-metragens
ram até o povoado para uma de suas reuniões e trabalhos de campo gravando sons que, de-
periódicas (t’inkuy) – durante as quais as pois, seriam transformados digitalmente para
ações a serem desenvolvidas são informadas fazer parte de obras eletroacústicas.
ARTE, CULTURA E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA Ricardo Dal Farra 139

A avaliação dos resultados pode ser a especialistas do âmbito profissional, assim


medida quantitativamente pelas atividades como do mundo da educação. Finalmente,
produzidas, pelas obras criadas utilizando tal perfil foi estruturado com base em quatro
os recursos do centro, pela quantidade de jo- áreas de competência:
vens artistas que frequentaram as oficinas
no laboratório do Amauta e pelo número de • roteiro e pré-produção;
pessoas das comunidades rurais que parti- • gestão técnico-administrativa;
ciparam – por exemplo, em Cachin – da Ofi- • realização;
cina de Pesquisa/Criação Audiovisual, e de • comercialização.
espectadores que foram assistir aos filmes
traduzidos de Sanjinés em espaços públi- O perfil profissional descrevia as ativi-
cos de diversas comunidades, entre outros. dades e os critérios de realização, bem como
Mas também é possível avaliar o impacto do a abrangência e as condições do exercício
Amauta de forma qualitativa, pelos trabalhos profissional do técnico para cada uma das
criados por muitos daqueles que participa- áreas propostas.
ram desse enriquecedor projeto realizado A partir da definição do perfil profissio-
durante vários anos, e que não pôde mais nal, foram elaboradas as bases curriculares,
ser mantido, já que não conseguiu alcançar que finalmente se plasmaram em um sistema
autonomia financeira a tempo. modular ágil e flexível, construído com base
em 16 módulos, cuja carga horária somava
Comunicação multimídia aproximadamente 1.580 horas. Conseguir o
O Trajeto Técnico Profissional (TTP) título de nível médio como técnico em co-
em Comunicação Multimídia foi concebido municação multimídia exigia cursar e ser
na Argentina como um projeto educacional aprovado em todos os módulos do TTP em
cujo objetivo é que os estudantes desenvol- Comunicação Multimídia, além de ter com-
vam competências profissionais na área da pletado a educação polimodal (sistema edu-
multimídia. Diferentemente dos casos citados cacional argentino que substituía o segundo
anteriormente, este teve uma forte base insti- grau e era cursado ao término da educação
tucional: foi elaborado no Instituto Nacional geral básica). Os módulos que constituíam
de Educación Tecnológica (Inet), do Minis- a estrutura do TTP se agrupavam em áreas
tério da Educação da Nação, e aprovado em modulares, ou seja, em áreas de formação
1998 para ser aplicado em nível federal. Esse definidas em torno de um agrupamento de
curso técnico de nível médio permitia obter capacidades profissionais afins, do ponto de
um título final como técnico em comunica- vista dos processos de ensino e aprendiza-
ção multimídia ou certificados parciais em gem. As áreas modulares definidas naquele
diversas áreas próprias do mundo audiovisual. momento foram:
O processo de elaboração do perfil pro-
fissional do técnico em comunicação multi- • roteiro;
mídia foi nutrido por permanentes consultas • imagem;
140 OBSERVATÓRIO ITAÚ CULTURAL

• som e música; infraestrutura para poder realizar a formação


• multimídia; proposta, além de terem sido analisados os
• gestão; ciclos de renovação tecnológica necessários.
• tecnologias. A proposta formativa dos TTP, fun-
damentada no desenvolvimento de com-
A essas áreas (cada uma delas forma- petências profissionais, em vez de na
da por um número variável de módulos) aprendizagem de conteúdos, foi a base de
somava-se o módulo centrado em estágios, um projeto inovador que conjugava um só-
concebido para conseguir a integração das lido modelo educacional com a flexibilidade
capacidades profissionais adquiridas pelos e a adaptação necessárias que permitissem
estudantes ao longo do curso técnico em si- enfrentar melhor as permanentes e rápidas
tuações reais do mundo do trabalho. mudanças no mundo do trabalho. Facilitar
Durante o processo de desenho do o constante crescimento profissional foi a
curso técnico em comunicação multimí- chave e o motor de toda a elaboração desse
dia, também foram elaboradas instâncias plano. O Trajeto Técnico Profissional em Co-
de certificação intermídias: os chamados municação Multimídia foi aprovado em nível
itinerários formativos – processos de ensi- nacional pelo Conselho Federal de Cultura e
no/aprendizagem que certificavam o desen- Educação da Argentina.
volvimento de um conjunto de capacidades
ligadas a um agrupamento de competências Desenhando o futuro
profissionais, reconhecidas no mundo do Este breve texto apresentou ao leitor três
trabalho. A aprovação em certos módulos exemplos claramente diferentes que vincu-
do TTP permitia receber essa certificação lam arte, educação e meios eletrônicos. Mo-
profissional. Dessa forma, certo conjunto delos possíveis que propõem modos diversos
articulado de competências certificáveis dos tradicionais de formar jovens gerações e
(conhecido como qualificação profissio- permitir que todos possamos ir crescendo e
nal) permitia obter, mediante aprovação nos adaptando melhor a um mundo que nos
nos módulos, reconhecimentos sob o nome surpreende a cada dia. Aprendemos com o
de itinerário formativo em: passado para entender melhor nosso presente
e ir tomando as decisões que desenhem, pelo
• desenho gráfico editorial; menos em parte, nosso futuro.
• síntese de imagem e animação; Primeiro, o percurso pela região nordes-
• realização audiovisual; te da Argentina e a experiência descrita com
• gravação e tratamento do som. aqueles jovens, descobrindo novos mundos
sonoro-musicais, trabalhando pela primeira
O total de horas referentes a cada iti- vez com um sintetizador eletrônico de sons,
nerário formativo oscilava entre 480 e 672. para compreender melhor o mundo da cria-
Também foram elaborados padrões ção, aguçar a percepção e mobilizar-nos para
de equipamento e propostas mínimas de a reflexão sobre o que conhecemos e o que
ARTE, CULTURA E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA Ricardo Dal Farra 141

pode estar muito perto de nós e, no entanto, se aproximam a um ritmo que não conse-
passar despercebido. guimos compreender, muito menos admi-
Depois, o trabalho de pesquisa, criação nistrar e controlar. Se a arte é um elemento
e divulgação realizado na região de Cusco, característico e fundamental que distingue
tanto em ambientes urbanos quanto rurais, uma cultura, qual será o seu papel no futuro?
com artistas com formação superior, assim Quem faz arte e por quê? Por meio da arte é
como com camponeses que nunca haviam possível fazer a diferença neste futuro apo-
visto cinema, muito menos tido contato com calíptico que alguns dizem que está por vir?
equipamento audiovisual, tudo a partir de Como funcionará a educação nessa equação?
um projeto que aproximava o mundo andino As mídias eletrônicas, nesse encon-
e as chamadas artes eletrônicas. tro entre arte e educação, muito em breve
E, finalmente, o desenho e a imple- deixarão de ser uma novidade para ser algo
mentação de uma estrutura institucional habitual e cotidiano, e talvez o resto seja es-
para formar estudantes em temas de arte e quecido por aqueles que já nasceram pen-
comunicação multimídia durante aproxima- sando que tudo o que era desconhecido há
damente três anos, aprovada apenas uma década é hoje algo
em nível federal na Argentina, Se a arte é um natural e estabelecido, que não
após ser avaliada por especia- elemento característico corre risco de extinção.
e fundamental que
listas, sindicatos, empresas Se quisermos construir
distingue uma cultura,
do setor e conselhos de classe um futuro melhor, o trabalho
qual será o seu papel
profissionais. no futuro? é cotidiano e é nosso, de cada
Tudo o que foi escrito até um. O encontro entre arte,
aqui pode adquirir sentido – para além do va- educação e meios eletrônicos não dá garan-
lor do que foi realizado – se pensarmos sob tias de melhorar nosso entorno, mas talvez
uma perspectiva ampla, com uma direção e dê uma oportunidade de pesquisar e criar,
um pensamento que nos permitam avançar compreendendo que o pensamento dividi-
para a construção de uma sociedade mais jus- do entre arte, ciência e tecnologia é somente
ta. A arte, a educação e os meios eletrônicos uma construção que já pode ser modificada.
em interação, funcionando de forma que seja Precisamos de uma forma de com-
possível construir outra realidade, uma que preender o mundo que aproveite a possibi-
entendamos coletivamente que nos daria a lidade de cruzar os nossos múltiplos campos
oportunidade de viver em um mundo melhor. de conhecimento. Não somente a ultraes-
Atualmente, a inteligência artificial é pecialização e a transdisciplina podem
vista por alguns como uma panaceia que conviver, mas suas ações coordenadas po-
pode transformar o nosso modo de viver, deriam ser a chave do futuro. E, assim como
enquanto outros a consideram o passo que geralmente colocamos nossas esperanças de
leva a espécie humana à sua própria destrui- mudança na educação, a arte pode ser parte
ção. Não sabemos o que vai acontecer, mas substancial dessa fórmula, em que os meios
podemos intuir que mudanças profundas eletrônicos vieram para ficar.
142 OBSERVATÓRIO ITAÚ CULTURAL

Os casos mencionados neste texto são do texto, são iniciativas que consegui levar
somente alguns de muitos. Podem nos ajudar adiante impulsionando e elaborando uma
a pensar em novas possibilidades, conside- visão inter e, às vezes, transdisciplinar, na
rando alguns passos já ocorridos. Eles nos qual continuo trabalhando.
mostram que o caminho que percorremos
hoje vem sendo construído há muitos anos,
e que o encontro entre arte, educação e meios
eletrônicos foi trazendo ricos resultados, que
precisam continuar sendo aprofundados.
Entre as referências, incluem-se tam-
bém outros exemplos que seguem o mesmo
sentido e que são – diferentemente dos casos
descritos neste texto – ações relativamente
recentes, como a edição de 2015 da bienal me-
xicana de artes eletrônicas Transitio_MX2,
dedicada ao potencial da combinação entre
jogos e arte eletrônica para provocar mudan-
ças sociais positivas. Há também projetos que
continuam sendo desenvolvidos, entre eles Ricardo Dal Farra
o trabalho iniciado há mais de uma década Compositor e artista eletrônico, é professor
pelo Centro de Experimentación e Inves- de música eletroacústica e media art na Concordia
tigación en Artes Electrónicas (CEIArtE), University (Canadá) e diretor fundador do Centro
da Universidad Nacional de Tres de Febre- de Experimentación e Investigación en Artes Elec-
ro, na Argentina3; o simpósio internacional trónicas (CEIArtE), da Universidad Nacional de Tres
­Balance-Unbalance, focado em considerar as de Febrero (Untref), na Argentina. Foi diretor do
artes eletrônicas como elemento catalisador Programa Nacional de Comunicação Multimídia
na busca de soluções para as consequências do Ministério Nacional de Educação na Argentina;
da crise ambiental em geral e da mudança cli- coordenador da aliança internacional de pesquisa
mática em particular4,5,6; o concurso de mi- Documentação e Conservação do Patrimônio de
niaturas sonoras ‘art! ⋈ climate’, organizado Media Art (Docam); e consultor e pesquisador da
pelo CEIArtE e pelo Red Cross Climate Cen- Unesco para o projeto Digi-Arts. Em 2015, atuou
tre7,8; e o simpósio internacional Understan- como diretor artístico da bienal mexicana de artes
ding Visual Music (UVM), que interliga arte, eletrônicas Transitio_MX. Integra o Conselho Edito-
ciência e tecnologia em diversos contextos rial do Leonardo (MIT Press) e o Organised Sound
audiovisuais9, aproveitando muitas vezes as (Cambridge Press). Também é membro do conselho
situações de imersão coletiva oferecidas pelo da Fundação Internacional Isea. Realizou concertos
formato fulldome nos planetários10. em mais de 40 países e gravou 23 álbuns. Criou
Todos esses projetos, assim como aque- e dirige os simpósios Understanding Visual Music
les que apareceram nas seções anteriores (UVM) e Balance-Unbalance (BunB).
144 OBSERVATÓRIO ITAÚ CULTURAL

Referências bibliográficas

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MIT Press, v. 46, n. 2, 2013, p. 110. Disponível em: <http://www.mitpressjournals.
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Comunicación multimedial – Documento base. CFCyE Res 86/98 [DAL FARRA,
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TRUAX, Barry. Acoustic communication. Estados Unidos: AblexPublishing, 1984 (1. ed.),
2001 (2. ed.), incluindo versão em CD-ROM do Handbook for Acoustic Ecology.
Estados Unidos: Greenwood Press.

Notas

1 Transcrito do site do projeto Amauta.

2 CENTRO MULTIMEDIA. Festival de Artes Electrónicas y Video Transitio_MX 06.


México: Centro Nacional de las Artes, 2015. Disponível em:
<www.06.transitiomx.net>.

3 CENTRO DE EXPERIMENTACIÓN E INVESTIGACIÓN EN ARTES ELECTRÓNICAS


(CEIArtE). Informe de Actividades. Argentina: Universidad Nacional de Tres de
Febrero. Disponível em: <http://www.ceiarteuntref.edu.ar/>.

4 BALANCE-UNBALANCE – BunB International Conference:


BunB 2017 – Plymouth, Reino Unido: <www.balance-unbalance2017.org/>.
BunB 2016 – Manizales, Colômbia: <www.balance-unbalance2016.org>.
BunB 2015 – Arizona, Estados Unidos: <www.balance-unbalance2015.org>.
BunB 2013 – Noosa, Austrália: <www.balance-unbalance2013.org>.
ARTE, CULTURA E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA Ricardo Dal Farra 145

BunB 2011 – Montreal, Canadá: <www.balance-unbalance2011.hexagram.ca>.


BunB 2010 – Buenos Aires, Argentina: <www.ceiarteuntref.edu.ar/eq-deseq-en>.

5 DAL FARRA, Ricardo. Brisserles paradigms: arts électroniques et actions


humanitaires. Circuit, musiques contemporaines. Canadá: Les Presses de l’Université
de Montréal, v. 25, n. 2, 2015, p. 9-20. Disponível em: <http://www.revuecircuit.ca>.

6 DAL FARRA, Ricardo. Balance-Unbalance: art and environmental crisis. Leonardo/


The Journal of the International Society for the Arts, Sciences, and Technology.
Estados Unidos: The MIT Press, v. 47, n. 5. 2014. Disponível em:
<http://www.mitpressjournals.org/toc/leon/47/5>.

7 CEIArtE y RED CROSS CLIMATE CENTRE. 3rd ‘art! ⋈ climate’ sound miniatures
contest, 2017. Disponível em: <http://www.ceiarteuntref.edu.ar/art_climate_2017>.

8 DAL FARRA, Ricardo; SUAREZ, Pablo. Red Cross/Red Crescent Climate Centre
and Balance-Unbalance: The Art! ⋈ Climate Project. Leonardo/The Journal of the
International Society for the Arts, Sciences, and Technology. Estados Unidos: The
MIT Press, v. 47, n. 5, 2014. Disponível em: <http://www.mitpressjournals.org/
toc/leon/47/5>.

9 UNDERSTANDING VISUAL MUSIC – UVM International Conference:


UVM 2015 – Brasília, Brasil: <https://goo.gl/NNUEbh>.
UVM 2013 – Buenos Aires, Argentina:
<http://ceiarteuntref.edu.ar/uvm_symposium>.
UVM 2011 – Montreal, Canadá: <http://uvm2011.hexagram.ca>.

10 UNDERSTANDING VISUAL MUSIC; CEIArtE. Taller fulldome – UVM 2015/2016.


Disponível em: <http://www.ceiarteuntref.edu.ar/taller_fulldome>.
146 OBSERVATÓRIO ITAÚ CULTURAL

HAVERÁ DEMOCRACIA POLÍTICA


SEM DEMOCRACIA CULTURAL?
O LUGAR DAS “PERIFERIAS” EM PORTUGAL

Maria Vlachou

Acontecimentos políticos em vários países do mundo nos fazem questionar a qualidade


das nossas democracias. Levam-nos inclusive a questionar a função da cultura na socieda-
de. Seu papel na formação de cidadãos informados, críticos, engajados e na criação de uma
sociedade mais tolerante e capaz de voltar a mostrar empatia. Com a evolução do conceito da
democratização do acesso à cultura para o da criação de uma democracia cultural, é também
tempo de olhar para o trabalho desenvolvido fora dos grandes centros urbanos.

“Nós estamos vivendo os resultados violentos


de exclusividade e de uma cultura estratificada.”
(Stella Duffy, escritora e diretora; 2017)

Da qualidade da nossa cidade, o teatro reunia toda a comunidade.


democracia política Era um elemento-chave para o autoconhe-
Apesar de o teatro ter as suas origens cimento do grupo, que, por meio das tragé-
no período em que o sistema político de dias e comédias, era chamado a questionar
Atenas era a tirania (final do século VI a.C.), as suas próprias dimensões políticas, cultu-
todas as obras completas que chegaram a rais e morais. Na entrevista, Edith Hall ex-
nós (32 tragédias e 11 comédias) são produ- plica que o teatro era considerado útil por
to da democracia ateniense (século V a.C.). Aristóteles, na sua Arte Poética, pois edu-
Alessandro Brambilla, professor de história cava mesmo as pessoas “não filosóficas” e
grega da Universidade Católica do Sagrado tinha, igualmente, benefícios emocionais
Coração, em Milão, numa entrevista com (BRAMBILLA, 2015), elevando o espírito e
Edith Hall, professora do King’s College de purificando a alma (catarse).
Londres, comenta que o teatro era o com- Recentes acontecimentos políticos –
plemento natural da assembleia. Enquanto em países da União Europeia, nos Estados
esta reunia apenas os homens que tinham a Unidos, no Brasil, na Turquia e na Venezue-
responsabilidade de tomar decisões para a la, entre outros – fazem-nos questionar a
ARTE, CULTURA E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA Maria Vlachou 147

qualidade das nossas democracias. Políticos, local de encontro, um lugar para a formação
intelectuais e os próprios cidadãos parecem, de uma identidade comunal partilhada como
em muitos casos, reduzir a cidadania a um ‘o público’” (COSTA, 2014).
ato eleitoral de quatro em quatro anos, ao Deborah Cullinan, CEO do Yerba Buena
mesmo tempo que se cultiva o medo e os Center for the Arts, em São Francisco, reflete
dissidentes são perseguidos e castigados. sobre o seu país e diz: “A matéria-prima da
A cidadania, no entanto, deve ser nossa democracia é a criatividade individual
vista como um estado de permanente en- e a imaginação coletiva. Num momento de
volvimento. No atual contexto político de imensa atomização, precisamos mudar o
sociedades polarizadas, nas quais são ali- rumo da cultura da nossa nação e olhar para
mentadas ideias populistas, reforçado o trás, para os seus ideais básicos – e as nossas
“eu” em detrimento do “nós”, desvalorizado instituições culturais devem liderar essa ca-
o conhecimento e promovidos “fatos alter- minhada” (CULLINAN, 2017).
nativos”, o questionamento em relação à Poderá haver democracia política de
qualidade das nossas democracias leva-­ qualidade sem democracia cultural? Não se-
nos a questionar a função da cultura na so- rão essas as duas faces de uma mesma moeda?
ciedade, seu papel na formação de cidadãos
informados, críticos, engajados e na criação Rumo à democracia cultural
de uma sociedade mais tolerante e capaz de Nas últimas décadas, a nossa reflexão
voltar a mostrar empatia. centrou-se na questão da democratização
Em 2014, o relatório do Brooklyn do acesso à cultura. Conscientes de que a
Commune Project1 The View from Here2 produção e a oferta cultural apoiadas com
refletia sobre a relação entre teatro e ci- dinheiro público são usufruídas por uma
dadania. Dizia que as artes performativas minoria (branca, com formação universi-
são, inerentemente, artes sociais e propor- tária), sentimos a responsabilidade de fazer
cionam uma oportunidade necessária para essa oferta chegar a mais pessoas, a outras
desenvolver as capacidades de socialização pessoas. Usamos repetidamente a expres-
e comunicação exigidas por uma democracia são “criação de novos públicos” e as palavras
saudável. E continuava: “As atividades cultu- acesso, diversidade, inclusão. Este processo
rais e, especificamente, as artes performati- de “democratização” é, no entanto, pouco
vas são um meio único que pode servir como democrático. É um processo controlado por
148 OBSERVATÓRIO ITAÚ CULTURAL

guardiões, por “quem sabe”, e centra-se numa consciência de que estão se dirigindo a
versão específica da cultura: aquela que se pessoas com diferentes capacidades. No
torna legítima pelo fato de receber financia- entanto, ­parece-nos essencial garantir que
mento público. “Democratização” significa, todos tenham as mesmas oportunidades
aqui, criar canais de acesso ao que se con- de participação em algo que constitui uma
sidera “cultura de mérito”, “cultura que faz construção e um bem comum.
bem”. É um processo que não reconhece a Quase uma década depois, no Reino
existência de outras pessoas (daí a necessi- Unido, a reflexão acerca da democracia cul-
dade de “criar” os tais novos públicos) e de tural e do acesso à cultura continua forte,
outras formas de cultura, e, portanto, não se inquieta e sempre associada à questão da
baseia no diálogo, na discussão, na partilha democracia política. Num estudo recen-
da responsabilidade. te do King’s College de Londres, afirma-se
Em 2008, o britânico John Holden es- que: “No contexto da profunda e generalizada
creve Democratic Culture – Opening Up the divisão política expressa por meio da campa-
Arts to Everyone e alerta que, se o objetivo nha e do voto no referendo da União Euro-
é contribuir para a formação de cidadãos peia em 2016, é cada vez mais claro que novas
informados e engajados, é abordagens para muitos dos
preciso constatar que exis- [...] só quando todos processos políticos do Reino
tem diferenças marcantes tiverem a mesma Unido exigem uma atenção
nas capacidades individuais capacidade e oportunidade urgente e radical. Isso inclui
para participar na vida
para fazer escolhas informa- a forma como funciona a po-
cultural teremos a chance
das, e existem ainda partes lítica cultural – e para quem
de atingir uma verdadeira
do mundo cultural das quais democracia política. e para que se faz política cul-
a grande maioria das pes- tural. Como a cultura é feita e
soas se sente alienada. Nesse mesmo texto, por quem, e quais atividades criativas são re-
Holden argumenta que a democracia cultu- conhecidas e apoiadas são questões nas quais
ral seria muito parecida com a democracia temos todos um interesse profundo e cada
política e que, idealmente, teria caracterís- vez mais urgente”. Aqui, a cultura não é vista
ticas de universalismo, pluralismo, igual- apenas como um fim que se atinge quando
dade, transparência e liberdade. Por fim, a democracia é assegurada, mas como uma
defende que só quando todos tiverem a ferramenta contributiva que possa alimentar
mesma capacidade e oportunidade para e apoiar a própria democracia. Realça-se em
participar na vida cultural teremos a especial a “substantiva liberdade social” de
chance de atingir uma verdadeira demo- criar versões da cultura, a liberdade real e
cracia política (HOLDEN, 2008). No nos- concreta de escolher que cultura fazer e que
so ver, não se pode esperar que as pessoas cultura apreciar. Para isso, é essencial que
tenham as mesmas capacidades – aliás, um todos os cidadãos possam ter a “oportunida-
dos grandes desafios para os profissionais de de ver e ouvir coisas; coisas novas, coisas
da cultura é, justamente, trabalhar tendo antigas, coisas estranhas, coisas bonitas,
ARTE, CULTURA E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA Maria Vlachou 149

coisas divertidas e coisas ferozes; coisas um projeto de cooperação cultural criado


que mobilizam, confundem e tocam; coisas em 2005, constituído hoje de 15 municípios
que trazem conforto e coisas que inspiram” no centro de Portugal, que trabalha a espe-
(WILSON; GROSS; BULL, 2017). As orga- cificidade dos territórios por meio do apoio
nizações culturais não devem ficar alheias à criação artística, à programação cultural
a esse processo, mas também não devem se em rede, à qualificação e formação e às es-
assumir, como o fizeram até agora, como ár- tratégias de mediação cultural.3 A associação
bitros do gosto. Devem ser uma casa criativa foi constituída poucos anos depois da revi-
para as pessoas (CULLINAN, 2017). talização da rede de cineteatros municipais
pelo Ministério da Cultura, no final dos anos
Construir em e com as “periferias” 1990. Nos primeiros anos, investiu-se muito
A existência de desigualdades entre na formação profissional das equipes e na ga-
centro e periferias não diz respeito apenas rantia de uma programação cultural regular,
ao Reino Unido. Também em Portugal, a um fator importante, considerando que se
produção e a oferta cultural concentram-­ procurou criar uma relação com populações
se nos grandes centros urbanos e, mesmo que não tinham o hábito de frequentar esses
dentro deles, em zonas e equipamentos espaços, que, por sua vez, estiveram fecha-
específicos. Do ponto de vista das políticas dos durante muito tempo. Consolidada essa
culturais estatais, Portugal carece de planos parte, por meio de um trabalho consisten-
estratégicos de longo prazo, sólidos, conti- te e permanente, deu-se o passo seguinte,
nuados, com objetivos concretos, baseados e hoje o foco da associação são os projetos
em estudos, que acompanhem os desenvol- plurianuais de intervenção no território e de
vimentos na sociedade e que sejam perio- trabalho com as comunidades locais. Nes-
dicamente revistos, avaliados, ajustados. sa nova fase do trabalho da associação, são
Ainda assim, pode se orgulhar de profis- de especial interesse os projetos Odisseia
sionais e de projetos que se mostram cons- e Visionários. O primeiro visa à formação e
cientes do papel da cultura na sociedade e à capacitação artísticas de jovens entre os
sensíveis às suas necessidades. Trata-se de 16 e os 25 anos residentes em municípios
projetos que olham para o território e associados da Artemrede. É dada formação
para as suas pessoas, e que não procu- certificada por grupos artísticos nas áreas de
ram impor uma cultura “que faz bem”, teatro/dramaturgia, artes de rua e cinema/
mas criar oportunidades para construir música, tendo-se como resultado final a cria-
algo e crescer em conjunto. ção de um objeto artístico. O próximo passo,
Um trabalho dessa natureza não se o projeto Visionários, levará alguns dos par-
cria de um momento para o outro. As rela- ticipantes a fazer parte dos processos deci-
ções levam tempo para ser construídas, para sórios de programação da Artemrede. Esse
“provar” suas boas intenções, para gerar con- grupo, que mais tarde incluirá participantes
fiança. Nesse sentido, é interessante acom- de várias faixas etárias, irá assistir a vários
panhar o desenvolvimento da Artemrede, espectáculos e workshops e poderá discutir
152 OBSERVATÓRIO ITAÚ CULTURAL

propostas artísticas a serem integradas na fazendo sobressair a cultura e a memória


programação da Artemrede. Muito cautelosa como projeção de futuro, o estilo de vida
e realista, Marta Martins, diretora-execu- humanizado, o papel das relações de pro-
tiva da Artemrede, alerta que “não se pode ximidade, o ambiente de autenticidade ou
esperar que, de um momento para o outro, o saber expresso em técnicas que se foram
as pessoas passem a participar em processos tornando raras” (BELANCIANO, 2015). Há
de discussão e decisão sobre a sua cidade, se uma forte aposta nas residências artísticas,
nunca ou raramente foram chamadas para nas quais os artistas incentivam os artesãos
fazê-lo ou se, caso o fizeram, as suas opiniões locais a repensar as suas práticas e os arte-
não foram tidas em conta. É importante que sãos desafiam os artistas a expandir as suas
exista uma continuidade nesses processos, capacidades; artistas, artesãos e residentes
que eles possam acontecer em diversos ní- descobrem novos limites à sua imaginação;
veis (de freguesia, de cidade, do país) e que partilham casa; partilham histórias de vida.
tenham resultados visíveis e que reflitam os Não há dúvida de que esses são processos
contributos daqueles que neles participa- lentos, processos que pressupõem a criação
ram” (BERNARDINO, 2017). de respeito e confiança. Jesse James acredi-
Muitos dos profissionais que tra- ta que dez anos mais tarde “vamos estar uns
balham em campo referem-se ao fator degraus acima nesse envolvimento e ques-
“tempo”, conscientes das especificidades tionamento de todos, seja da comunidade,
do trabalho que estão a desenvolver. O seja dos artistas, que são também comuni-
­Walk&Talk Azores teve a sua sétima edição dade” (BELANCIANO, 2016).
em julho de 2017 e define-se como um festi- Elisabete Paiva, diretora artística do
val que incentiva a criação artística em diá- festival Materiais Diversos, começou a
logo permanente com o território, a cultura identificar os primeiros sinais de que a or-
e a comunidade açoriana.4 Os seus funda- ganização do festival e a comunidade local
dores, Jesse James e Diana Sousa, sentiam vão, juntos, subindo degraus. O festival con-
que a comunidade local não se relacionava sidera-se pioneiro na promoção do acesso
com a arte contemporânea e que, talvez, um à criação e na descentralização artística,
primeiro passo fosse levar a arte até as pes- levando desde 2009 uma seleção de proje-
soas. Sete anos depois, as pessoas aguardam tos nas áreas de dança, teatro e música a
ansiosamente as propostas do festival e pro- populações fora dos grandes centros urba-
curam, em primeiro lugar, os murais de arte nos.5 O projeto é apoiado pelos municípios
urbana, que marcaram as primeiras edições. de Alcanena e Cartaxo, no centro do país.
Só que o festival apresenta-lhes agora tam- Elisabete Paiva assumiu a direção artística
bém outros tipos de trabalhos. À medida em 2015 e viu-se envolvida com uma comu-
que foi crescendo, o Walk&Talk procurou nidade que não conhecia. Essa relação vai
envolver mais a comunidade no festival e crescendo e vai sendo afinada. Elisabete pro-
os que vêm de fora na vida da comunida- cura espetáculos que possam dizer algo às
de, “estimulando a troca de experiências, populações a que se dirigem. Considera que
ARTE, CULTURA E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA Maria Vlachou 153

está desenvolvendo um trabalho pedagógi- que a de uma festa. Quer dar aos artistas a
co de formação de públicos e o seu desejo é oportunidade de passarem mais tempo neste
“lhes dar autonomia crítica para ver não só território, pensá-lo de forma mais profunda,
um espectáculo de dança ou teatro contem- criar relações de proximidade com a popu-
porâneo em que possam reconhecer-se em lação, especialmente com a camada mais
palco, mas também outros em que às vezes jovem, “numa zona bastante envelhecida e
não se reconhecem diretamente, e nos quais muito industrializada, [onde] estudar artes
identificam questões importantes”. E acres- ou viver a cultura contemporânea não é, para
centa: “É clara a evolução na desinibição e muitos daqueles jovens, uma questão pri-
até na produção de discurso desse público meira” (FROTA, 2017).
face aos objetos mais estranhos” (FROTA, Esses são apenas três dos projetos que
2017). Essa não é apenas uma constatação se desenvolvem nas “periferias” de Portugal.
(ou um desejo) de Elisabete Paiva. Filipa Não são, obviamente, os únicos. Em 2016, o
Achega, empresária da freguesia de Min- jornal Público publicou um artigo que mostra-
de que acompanha o festival há bastante va o trabalho desenvolvido em vários municí-
tempo, fala num depoimento de “crianças pios do país e com o apoio destes, afirmando
que viviam numa vila com pouca atividade que, perante a fraca presença do poder cen-
cultural transformarem-se em público, mais tral fora das grandes cidades, os municípios
tarde em voluntários e, por fim, em agentes tomam conta do recado (OLIVEIRA; DIAS;
da produção cultural local; [...] Nas plateias, REVEZ, 2016). Esse é um fato significativo
vi sentadas senhoras de 70 anos, jovens, no funcionamento do setor cultural portu-
crianças. Ouvi as conversas após os espe- guês, que, por um lado, pode ter resultados
táculos, ingênuas a princípio, e imersas em positivos, mas que levanta também outras
espontaneidade. Algumas plateias depois questões, como a da continuidade do apoio
dessas conversas já desenvolviam um pen- municipal com a mudança de Executivo ou a
samento crítico mais profundo; [...] Assisti nomeação política de pessoas sem conheci-
ao número cada vez maior de reuniões e dis- mentos específicos para gerir equipamentos
cussões em que se debatia o território em culturais e coordenar uma política cultural.
termos culturais e se propunham soluções Entretanto, não podemos deixar fora
conjuntas apontando sinergias; [...] Assisti a dessa reflexão as “periferias” que existem
cafés e chás entre pastores e artistas algures dentro dos grandes centros urbanos, onde
da Alemanha. Entre cerzideiras da indústria residem grandes partes da população que
têxtil e encenadores”.6 Um depoimento des- se mantêm afastadas da cultura apresenta-
ses não constitui por si uma avaliação, mas da em determinados equipamentos cultu-
não deixa de ser um sinal. rais. Essas pessoas existem, não é preciso
Depois desta edição, o festival Mate- “criá-las”, mas não se relacionam com esses
riais Diversos regressará em 2019 no for- equipamentos e essa cultura porque muitos
mato de bienal. Elisabete Paiva quer que o elementos na forma como se apresentam e
festival deixe uma marca mais duradoura comunicam – desde o edifício até os códigos
154 OBSERVATÓRIO ITAÚ CULTURAL

de comportamento, a divulgação, a progra- mainstream, para desenvolver projetos com


mação em si – fazem-nas sentir que aqueles eles com o intuito de criar mobilidade entre
espaços não são para elas. Por isso, é impor- diferentes áreas da cidade.
tante referir aqui dois projetos municipais.
Cultura em Expansão nasceu em 2014 Um caminho possível
no Porto e procura contrariar a concentração No contexto político atual, torna-se par-
da produção e da oferta cultural em deter- ticularmente preocupante o fato de grandes
minados eixos e equipamentos da cidade. partes da população, em vários países, conti-
Pretende “que a noção de espaços de cultura nuarem a sentir-se excluídas, “não dignas” de
perca sentido e se dilua com o usufruir determinada cultura,
tempo, a partir da ideia de que [...] torna-se urgente sendo que, ao mesmo tempo,
repensar a forma como
não existem lugares definidos não é reconhecida a contribui-
a cultura se desenvolve
para a sua oferta e que a cidade, ção que elas próprias possam
e se alimenta, com
em toda a sua variedade e ex- quem e para quem. ter na cocriação de outras ver-
tensão, deve ser um palco ativo sões de cultura. Os profissio-
de cultura”.7 Assim, a cultura “expande-se” nais do setor começam a ficar conscientes
e procura envolver os habitantes de outras de que têm vivido em uma bolha, alheios ao
zonas da cidade do Porto, quer individual- que se passa à sua volta e apanhados de sur-
mente, quer por meio de grupos já formados, presa com certos desenvolvimentos políticos
e juntá-los a artistas conhecidos. (ABRAMS, 2016).
A Biblioteca de Marvila foi inaugurada Num momento em que o conhecimento
no final de 2016, numa área de Lisboa que en- científico é menosprezado, em que os “fatos
frenta vários desafios socioeconômicos e que alternativos” se tornam retórica oficial e o
não possuía equipamentos culturais formais. “outro” é, mais uma vez, a fonte de todos os
Nasceu numa zona cuja população desejava males, torna-se urgente repensar a forma
sobretudo ter mais um posto policial e con- como a cultura se desenvolve e se alimen-
siderava que não merecia uma biblioteca. Os ta, com quem e para quem. Os projetos aqui
responsáveis tiveram a inteligência de envol- referidos, e outros que não o foram, não dão
ver a comunidade local no desenvolvimento resposta a uma política cultural oficial. Em
do projeto, de dá-lo a conhecer antecipada- Portugal, o Estado ainda fala na “democrati-
mente, e hoje a biblioteca apresenta uma pro- zação do acesso à cultura” e vê a sua concre-
gramação muito rica, que inclui a produção tização nas entradas gratuitas e no acesso a
cultural e artística local. Ao mesmo tempo, e conteúdos digitais, continuando a ignorar as
porque não se quer que a população do bairro questões mais complexas relacionadas com
continue isolada, limitada a usufruir um es- o acesso e a participação cultural.
paço cultural na sua própria zona e não sair Os responsáveis por esses projetos
dela, a biblioteca está buscando estabelecer respondem à sua própria consciência e vi-
parcerias com outros equipamentos cultu- são em relação ao papel da cultura – e deles
rais da cidade, que se localizam nos eixos próprios, como profissionais do setor – na
ARTE, CULTURA E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA Maria Vlachou 155

sociedade. Falam-nos da necessidade de e garantir que esta não será feita de cima para
perceber o território, de conhecer as suas baixo, mas incluirá todas as partes. Devemos
necessidades e ansiedades, os seus gostos, procurar construir uma cultura democrática,
as suas possibilidades e capacidades. Mos- porque todos somos necessários para imagi-
tram-se constantes, têm uma presença per- nar o futuro; o melhor futuro possível.
manente, dão tempo ao desenvolvimento da
relação. Observam, ouvem, procuram ir mais
longe. Mas, sobretudo, não o fazem sozinhos,
não o fazem com arrogância. Envolvem-se
com as pessoas, sabem que todos têm algo a
ensinar e algo a aprender.
Essa é uma aprendizagem conjunta. As
pessoas são convidadas a participar, a refle-
tir, tal como o eram na Grécia Antiga. Olham
para elas próprias, partilham os seus sa-
beres, descobrem novas possibilidades e
caminhos de vida, desinibem-se e sentem-­
se capazes de superar o medo, acreditar
nas suas capacidades e imaginar o futuro.
Terão esses projetos o impacto deseja-
do? A viragem que se verifica neste momento
no financiamento da cultura no Reino Unido
resulta de décadas e décadas de apoios para Maria Vlachou
o setor cultural que privilegiaram as elites Consultora em gestão e comunicação cultu-
urbanas. Além disso, e apesar de alguns pro- ral. Membro fundador e diretora-executiva da as-
jetos terem já alguns anos de vida (também sociação Acesso Cultura. Autora do blog Musing
em Portugal), o seu desenvolvimento até on Culture (e do livro homônimo). Foi diretora de
agora não estava ligado às questões que se comunicação do São Luiz Teatro Municipal (2006-
levantam atualmente: o déficit democrático, 2012) e responsável pela comunicação no Pavilhão
a falta de empatia, a polarização da sociedade do Conhecimento – Ciência Viva (2001-2006), em
etc. Vai funcionar? Não sabemos. Neste mo- Lisboa. Também membro dos corpos gerentes do
mento, é mais uma questão de fé no poder da Internacional Council of Museums (Icom) Portugal
cultura. E mesmo quem tem essa fé na cul- (2005-2014) e editora do seu boletim. Foi consultora
tura sabe que ela não faz milagres sozinha. de várias entidades culturais portuguesas. Aluna do
O esforço deve ser conjunto, as condições DeVos Institute of Arts ­Management, do ­Kennedy
sociais e financeiras têm o seu impacto e Center for the Performing Arts (­Washington,
são fortes e determinantes. Será, por isso, 2011-2013); mestra em museologia pela University
necessário acompanhar esses projetos e ­College London e licenciada em história e arqueolo-
iniciativas, estabelecer formas de avaliação gia pela Universidade de Ioannina, na Grécia.
156 OBSERVATÓRIO ITAÚ CULTURAL

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Notas

1 Sediado em Nova York, o Brooklyn Commune Project é uma plataforma de


pesquisa colaborativa sobre a economia da produção artística.

2 Ver COSTA, 2014.

3 Disponível em: <https://www.artemrede.pt/>. Acesso em: 4 dez. 2017.

4 Disponível em: <http://www.walktalkazores.org/>. Acesso em: 4 dez. 2017.

5 Disponível em: <http://www.materiaisdiversos.com/>. Acesso em: 4 dez. 2017.

6 Os depoimentos foram reunidos e partilhados pelo festival Materiais Diversos.

7 Disponível em: <http://www.cm-porto.pt/cultura/festivais-e-programas-


publicos/cultura-em-expansao>. Acesso em: 4 dez. 2017.
160 OBSERVATÓRIO ITAÚ CULTURAL

AS RESIDÊNCIAS ARTÍSTICAS
COMO ESPAÇOS DE REFLEXÃO
E PRODUÇÃO DE ARTES
Consuelo Bassanesi

Mais do que oportunidades pessoais de deslocamento, as residências artísticas são janelas


para a construção de novas narrativas não apenas artísticas, mas também geopolíticas. Essas
aberturas, entretanto, dependem da consolidação de programas e oportunidades inclusivos e
contínuos, capazes de transformar mobilidade em desterritorialização e produção material
em reflexão intelectual. A jornada ainda é longa.

Ode, desassossego e canetas ouvimos Siouxsie and the Banshees, banda


vermelhas nas residências artísticas que embalou nossas vidas por muito tempo

A
e que abriu todo um prisma de descobertas
li, na praia do litoral gaúcho, para musicais. Dizem que os forasteiros levam
onde íamos todo verão da minha tanto quanto trazem. Concordo, ainda que
infância, fomos crescendo, ano não queira entrar em detalhes sobre a vida
após ano, entre amigos, conhecidos, primos sexual da minha turma de infância. No ano
e primos dos amigos e dos conhecidos. Na- seguinte, nada foi como antes.
quela paisagem de mar aberto e dunas, os É somente sob uma perspectiva que
dias passavam como em uma vila pequena entende o trânsito como uma teia composta
com casas e ruas conhecidas. Tudo estava de diversos ângulos, camadas, temporali-
mais ou menos domado, as relações estavam dades, memórias, responsabilidades, geo-
desenhadas. Até que, em meados dos anos grafias e agentes que me permito discorrer
1980, um grupo de forasteiros, um pouco sobre “as residências artísticas como es-
mais velhos que meu grupo de amigos e que paços de reflexão e produção de artes”.
pareciam infinitamente mais livres e mais Uma perspectiva que entende residências
barulhentos do que nós, apareceu. artísticas como algo mais complexo e mais
Foi depois de uma festa organizada por potente do que o artista que viaja para de-
eles, com fogueira na beira da praia, que mi- senvolver suas práticas fora das suas obri-
nha irmã e eu encontramos, na areia, uma gações cotidianas e do seu habitat natural.
fita cassete que levamos para casa. Lim- Uma que transcende o artista e a própria
pamos assoprando e, pela primeira vez, arte, sem desmerecer a importância de tal
ARTE, CULTURA E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA Consuelo Bassanesi 161

experiência no âmbito pessoal, mas reivin- partem nas malas, e assim novas narrativas,
dicando outras camadas e lógicas. novas redes colaborativas e outros desenhos
No deslocamento – autodeterminado micropolíticos e geográficos se formam.
e voluntário –, desconstruções poderosas Quando pensamos em produção num
acontecem para o errante. Ali, onde ainda programa de residências, a mais signifi-
não somos, podemos ser outro. Muito foi cativa, ou possível, talvez não seja aquela
definido, em relação a quem podemos ser e construção material física, mas a de pen-
ao tipo de vida que vamos ter, samentos e reflexões, de
antes mesmo de nascermos – Um programa de tentativas e erros. Se assim
o quão liberal e próspero é residências se fortalece por for, os resultados de uma
meio da construção de uma
nosso país de origem, a que residência persistem para
relação horizontal, tendo
classe social pertencemos, afeto e empatia como além de sua duração. Ela
o tipo de família que temos, pilares tão preciosos quanto continua acontecendo no er-
para citar alguns fatores de- a história da arte [...] rante se ele conseguir reunir,
terminantes. “Os pequenos intelectual e afetivamente,
muros de Berlim”, como Bauman (2001) as ­ferramentas desse trânsito, os cruzamen-
descreveu a série de limitações impostas tos de lá e de cá.
quando estamos inseridos numa sociedade, A mobilidade só se traduz em dester-
significam que o direito de fazer escolhas ritorialidade se vínculos e entendimentos
relacionadas a identidade é restringido por sobre o novo território forem estabeleci-
regras e condições predeterminadas. dos. Como fazer com que sejam deixadas
A desterritorialização é uma fer- aqui fitas cassete para serem desvenda-
ramenta não somente para repensar das? Como impedir que as residências
identidade – catalisando outra tempora- reproduzam a lógica do colonizador ou do
lidade, deslocada dos anseios e urgências nomadismo tradicional, em que o caça-
da vida cotidiana –, mas também para re- dor chega, apropria-se do que o interes-
formular práticas, conceitos e narrati- sa, exaure os recursos e move para outro
vas. A contaminação cruzada também é um lugar? Como garantir que o trânsito de es-
benefício da errância. O errante contamina trangeiros pelos espaços de arte não sucum-
e é contaminado, dado o cenário ideal, em ba nem provoque a gentrificação do espaço,
igual medida. “Fitas” ficam para trás, outras dos corpos, das práticas?
162 OBSERVATÓRIO ITAÚ CULTURAL

A responsabilidade de fazer com que que muitas vezes existem relações ou ex-
numa residência exista um leva e traz é tam- pectativas de valorização, de escambo e de
bém do artista, mas, acima de tudo, é das or- acumulação financeira. Mas principalmente
ganizações, públicas e privadas, e também o capital enquanto facilitador desse tipo de
dos articuladores de políticas culturais. O trânsito – deslocar-se tem um custo, receber
artista em residência tem ambições, expec- um artista tem um custo.
tativas e objetivos e é necessário abrir o leque Em 2014, a Fundação Nacional de Artes
para que pontes sejam não só construídas, (Funarte), sob gestão de Guti Fraga, lançou
mas atravessadas. Para que muros sejam um mapeamento de residências artísticas
destruídos e o desconhecimento do outro no Brasil organizado por Ana Vasconcelos
seja superado até que não haja outro e nós. e André Bezerra. Na época, alguns editais
Até que relações de reciprocidade positivas contemplavam o setor de residências, mas
sejam estabelecidas para todos os lados: já era possível notar a fragilidade dos pro-
quem está, quem vem, quem fica, quem vol- gramas. Apenas 58 tinham periodicidade
ta e quem recebe de volta. Um programa de definida, 31 ocorreram apenas uma vez, 22
residências se fortalece por meio da constru- não tinham uma segunda edição prevista e
ção de uma relação horizontal, tendo afeto e 80 deles ocorreram mais de uma vez, mas
empatia como pilares tão preciosos quanto sem periodicidade definida. Hoje, consul-
a história da arte, das práticas contempo- tando a lista das organizações participantes
râneas, e os aspectos sociais e políticos que no mapeamento, fica evidente a dificuldade
permeiam aquele espaço. de projetos pontuais que incluem residências
Um artista em residência não é um bi- artísticas de se consolidarem como progra-
cho de estimação para ser exibido, não é um mas de residências artísticas – a maioria das
gringo para ser explorado nem um trabalha- iniciativas nasce no momento em que é con-
dor disposto a trocar casa, comida e roupa templada por editais e hiberna já na etapa da
lavada por trabalho numa relação de pa- prestação de contas. Foram 191 iniciativas
tronagem contemporânea. Uma residência de residências artísticas mapeadas, e hoje
artística não é um jogo de produção de bens no país não temos mais do que 15 programas
culturais para além de fronteiras e taxações de residência artística regulares.
nem um sistema de mecenato moderno. Isso porque muitos dos projetos que
A construção de um programa de re- envolvem residências são pensados e exe-
sidências sério demanda tempo, aprendi- cutados por iniciativas independentes, que
zados, ajustes, envolvimento, espaço físico. são a ponta mais fraca de um sistema de arte
Se os benefícios são grandes, os desafios focado em mercado e de editais destinados
são maiores. A beleza e o potencial das a projetos, que raramente apoiam espaços.
residências artísticas são atravessados O desenvolvimento de um programa de re-
por diversos mecanismos e camadas. O sidência, por sua natureza, pela dificuldade
capital permeia todos eles. Não apenas de equiparação de realidades e, portanto,
o capital enquanto lógica de mais-valia, já ausência de modelos a serem seguidos,
ARTE, CULTURA E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA Consuelo Bassanesi 163

acontece muito no empirismo, na constân- Na nossa trajetória, percebemos


cia, na regularidade e no aprendizado que é que, demarcado pelo capital, pelas fron-
próprio do fazer em cultura. teiras e pela natureza dos financiamen-
Com a instabilidade de espaços inde- tos, o desenho dos corpos que podem se
pendentes e gerados por artistas, perdemos propor a esses deslocamentos e cons-
todos não só as possibilidades de intercâmbio, truções é excludente. Por essa razão, os
aperfeiçoamento e desenvolvimento crítico artistas que participam de nossa residência
por meio de residências, mas também es- são majoritariamente brancos, europeus ou
paços que se destinam à experi- ­norte-americanos. Mas não são
A diversidade é
mentação, à exibição de artistas esses os corpos que sempre ti-
chave para pensar
jovens em suas práticas, ao fres- as residências como veram as viagens como escolha?
cor do underground. Enfim, per- espaços de reflexão. Esse trânsito já não ocorre inde-
demos a parte do sistema de arte pendentemente de políticas cul-
que vive à margem do mercado e das grandes turais públicas e privadas? O desafio é criar
instituições por definição. A solução não é a mecanismos para que pontes novas sejam
inclusão dessas iniciativas no mercado, mas construídas, para que mais artistas sem re-
a valorização do que está fora dele. Produção cursos, de países periféricos e com padrões
imaterial é também produção, talvez a mais desviantes – com dificuldade de mobilida-
valiosa em se tratando de cultura, pois é ela de, por exemplo – também possam explorar
que possibilita também a produção material. seu potencial e acrescentar novas camadas
Em janeiro de 2013, iniciamos o proje- de entendimento aos lugares para os quais
to que hoje chamamos Despina, uma asso- se deslocam, aos seus locais de origem e ao
ciação cultural sem fins lucrativos que gere próprio sistema de arte, que também opera
um espaço independente de arte no Centro muitas vezes sob o signo da exclusão. A di-
do Rio de Janeiro, com exposições, progra- versidade é chave para pensar as residências
ma de residências, ateliês e uma agenda de como espaços de reflexão.
workshops, cursos, cineclubes e conversas. Se dinheiro tem uma agenda, tem tam-
Despina é também uma das cidades invisí- bém um recorte geográfico. A plataforma
veis do livro homônimo de Italo Calvino, a digital On the Move (<www.on-the-move.
mais magnífica de todas, uma ilha vista com org/>) é um excelente banco de dados sobre
um aspecto diferente dependendo de onde oportunidades de apoio à mobilidade cultu-
se chega. Os navegantes a veem como um ral. Por meio dela, pode-se visualizar o quanto
camelo; os beduínos, como um barco. Ali, geografia e capital estão atrelados. Separados
assim como na nossa Despina, a bagagem por regiões, cada guia traz um apanhado das
é determinante na experiência. E o lugar se diversas organizações que disponibilizam
transforma conforme os viajantes passam. algum tipo de financiamento para esse fim.
Desde a inauguração, já recebemos em nosso A disparidade de oportunidades é gritante.
programa de residências cerca de 90 artistas, São 133 funding schemes para a África, por
vindos de mais de 15 países. E seguimos. exemplo. Toda a África. E 37 para a Áustria.
166 OBSERVATÓRIO ITAÚ CULTURAL

No caso do Brasil, um novo guia está sendo segundo convênios e acordos. Para
preparado e será lançado em março de 2018. que um artista que pretende fazer
No atual, chamado de “projeto piloto”, bas- uma residência em Nairóbi, por
ta uma caneta vermelha para ir riscando as exemplo, não termine em Londres;
oportunidades uma a uma, muitas delas ex- • disponibilização de recursos para o
tintas. Das 23 oportunidades listadas, ape- financiamento de programas de re-
nas oito seguem em operação. Devastador. sidência inclusivos, voltados para
E o problema não é somente a desigualdade grupos historicamente sub-repre-
entre a quantidade de ofertas e editais dis- sentados, marginalizados e excluí-
poníveis, a meu ver, mas também as próprias dos: homens e mulheres trans, não
limitações impostas nessas ofertas, por meio binários, negros, periféricos, indíge-
de acordos bilaterais que restringem a mobi- nas, idosos, com mobilidade limita-
lidade a destinos específicos ou de requisitos da e outros;
seletivos danosos, como os que delimitam • políticas públicas de apoio de longo
idade ou nacionalidades. Também demar- prazo a espaços independentes e a
cados pelo capital, pelas fronteiras e pela programas regulares de residências.
natureza dos financiamentos, mesmo quan- Toda a energia dispendida para es-
do nós, enquanto organização, conseguimos crever, captar, executar e contabili-
desenhar parcerias e captar recursos, ainda zar um projeto de curta duração seria
ficamos muito limitados em promover a di- mais bem aproveitada na manuten-
versidade que idealizamos. ção de um programa de três, quatro
Pontuar a necessidade da construção de anos – o que também permitiria a
políticas públicas para o setor de residências, evolução do programa por meio de
para experimentação, internacionalização, aprendizados e resultados;
intercâmbios e construção de pontes e cone- • desenvolvimento de editais públi-
xões intelectuais é mais importante do que cos e privados de natureza aberta,
nunca neste Brasil e neste mundo atual. Listo de modo que projetos com as mais
algumas práticas que fomentariam positiva- diversas propostas possam partici-
mente a diversidade e potencializariam os par sem ter que ser moldados para se
programas de residência: enquadrar em editais. Os artistas, as
instituições e os produtores culturais
• políticas culturais que incentivem a têm uma expertise sobre as necessi-
internacionalização para além das dades do setor que seria, com isso,
feiras de arte, descolando a produção mais bem aproveitada.
artística do mercado;
• editais públicos e privados que per- E assim encerro este texto, que pode
mitam aos artistas decidir o local da ser lido como uma ode, como desassossego,
residência com base em seus pro- como desabafo – depende de por qual lado
jetos, afinidades e pesquisas, e não você chega à nossa ilha.
ARTE, CULTURA E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA Consuelo Bassanesi 167

Consuelo Bassanesi
Fundadora e diretora artística e de projetos da Despina, uma associação cultural
sem fins lucrativos cuja missão é desenvolver e implementar plataformas para o desen-
volvimento da produção artística, de intercâmbios culturais e do pensamento crítico no
campo da arte contemporânea e do ativismo cultural. Localizada no Centro do Rio de
Janeiro, a Despina já idealizou, coordenou e produziu diversas exposições no local, além
de projetos especiais, como o Iran-Rio Art Connection e o Arte e Ativismo na América
Latina. É também responsável por articular relações institucionais, tendo realizado projetos
em parceria com diversas instituições, entre elas Prince Claus Fund e University of the
Arts London – Central Saint Martins. Jornalista de formação, tem mestrado em política
global pela Birkbeck, University of London.

Referências bibliográficas

BAUMAN, Z. The individualized society. Cambridge: Polity, 2001.

______. Identity. Cambridge: Polity, 2004.

BEZERRA, A.; VASCONCELOS, A. (Org.). Mapeamento de residências artísticas no


Brasil. Rio de Janeiro: Funarte, 2014.

CALVINO, I. Cidades invisíveis. Brasil: Companhia das Letras, 2000.

MAFFESOLI, M. Sobre o nomadismo: vagabundagens pós-modernas. Rio de Janeiro:


Record, 2001.
ARTE, CULTURA E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA Carlos Gomes 169

ONDE HÁ ESPAÇO
Carlos Gomes

Discute-se o papel do artista na sociedade: o sujeito provocador e questionador, cujo tra-


balho é capaz de reinterpretar a realidade e apontar novos horizontes. O artigo ainda levanta
importantes projetos artísticos desenvolvidos na extrema periferia paulistana, criados como
resposta a um cotidiano de violência, exclusão e miséria.

“Respeitável público! Não vos pedimos palmas, pedimos


bombeiros! Se quiserdes salvar as vossas tradições e a vossa
moral, ide chamar os bombeiros ou se preferirdes a polícia! Somos
como vós mesmos, um imenso cadáver gangrenado! Salvai nossas
podridões e talvez vos salvareis da fogueira acesa do mundo!”
(Oswald de Andrade, A Morta; 1937.)

V
er, observar, enxergar, compreen- perito da percepção; foi Marshall McLuhan1
der. Ver-se, observar-se, enxer- quem escreveu. O artista propõe outras pos-
gar-se, compreender-se. Confun- sibilidades por meio de sua arte, seu ofício,
dir-se. Reconstruir-se nas possibilidades e seja um quadro, seja uma peça de teatro. Ele
brechas. O artista está sempre neste exercí- faz a sua arte porque é uma necessidade; se
cio de buscar outras percepções e trazê-las, não a fizer, morre, não sobrevive no mundo
imaginar outros mundos e nos convidar para com que ele não consegue concordar.
neles entrar. Como Tom Zé, que explicando Não concordar é o primeiro movimento
nos confundiu e nos confundindo esclareceu. do artista. Não significa simplesmente ser
Não sendo o bastante, ilumina para cegar e contra tudo e contra todos. A ação do artis-
se torna cego para guiar. E vamos com ele, ta é como a ação de Eva, que se arrisca, que
com eles. O artista no mundo está errante, morde a maçã para saber o que está além, o
dissonante. Mira outros rumos. Ele deso- que ultrapassa aquilo que está dado como
bedece. Ele diz não. Ele discorda. Para so- única possibilidade. É necessário desobede-
breviver, para viver neste lugar, ele precisa cer para desestabilizar as normas. Há algo
criar outros lugares. Coloca-se fora para ver, na realidade cotidiana que o artista precisa
observar, enxergar. É sair para voltar mais desarranjar, desordenar. A necessidade de
forte. O artista não tem a verdade, mas tem o falar, pesquisar, chafurdar, colocar-se, com-
questionamento. Uma vez li que o artista é o preender outros pontos. Nesse processo, vai
170 OBSERVATÓRIO ITAÚ CULTURAL

buscar seus pares, seus parceiros, mas tam- criativas: a que diz respeito ao processo cria-
bém compreender o que segue na contramão tivo e artístico e a que diz respeito às elabo-
de suas premissas, inferências, certezas. Vai rações feitas pelo público. Ou seja, o público
criar as relações consigo, com o espaço, com também é um criador a partir do contato
o outro. Estar conectado consigo é funda- estabelecido com a obra. Nesse sentido, po-
mental para estar conectado com o espaço e, demos dizer que o espectador recria a partir
finalmente, com o outro. Suas questões farão de sua leitura de mundo, tornando-se um
sentido? Encontrarão ressonância? Esse é cocriador junto com o artista.
o seu risco. Lançar-se ao trapézio sem rede O ser humano, com sua capacidade ex-
de proteção. Que equilíbrio deverá manter? pressiva, permitiu a criação de diversas rea-
Que força apresentará? Com o que encantará lidades artificiais no desenrolar histórico da
o outro? Ver-se diante e, ao mesmo tempo, humanidade. Se levarmos em conta o pressu-
dentro da realidade que ele próprio criou. posto de que as manifestações artísticas par-
Como João Nogueira e Paulo César Pi- tem de uma escolha, de uma proposta estética
nheiro eternizaram: “ninguém faz samba só de criar uma realidade artificial, podemos di-
porque prefere / Força nenhuma no mundo zer que essa realidade se dá por uma necessi-
interfere / Sobre o poder da criação”.2 O ar- dade criativa de repensar o mundo a partir de
tista, na busca da inspiração, na escuta de outro ponto de vista, de outra percepção. Pode
suas forças imaginativas, investe seus co- funcionar, inclusive, como uma desobediência
nhecimentos, sua técnica, sua persuasão da estética e do funcionamento de cotidiano.
comunicativa. Tudo a serviço de sua criati- Quando a arte pode fazer a diferença no dia
vidade, que configura certa compreensão de a dia das pessoas? Quando ela estará aqui
contextos e abre portas para o imaginário na transformando relações? É diante de ques-
elaboração de estéticas, na investigação do tões como essas que sistemas de recepção da
belo, na investida de tornar o seu universo arte podem apresentar debates desafiadores.
particular comum a outros. É seu processo Esse questionamento sempre me faz
para adentrar o universo do mythos. Uma pensar em quando uma realidade perversa
construção de signos e significados, de dra- se apresentava aos moradores do extremo
maturgias compostas de suas inquietações sul da cidade de São Paulo na década de 1990.
na constituição de um leitmotiv que pretende Para além de jornais e outras mídias que
compartilhar. Resta ao artista a escuta atenta sempre registravam a violência dos bairros
para compreender o quanto suas urgências periféricos, pobres e pretos, havia ressonân-
reverberam perante o público. cia e concordância com o que se anunciava
A exposição e a comunicação conver- como visão de mundo de lugares com realida-
gem para o momento artístico, o que depende de similar em programas de televisão, como
da relação estabelecida com o interlocutor, telejornais ou outros ficcionais. Entretan-
com o público. Eis a busca de uma cumpli- to, algo marcou os moradores da região do
cidade proposta pelo artista e seu público, Jardim Ângela e Capão Redondo quando
o que resultará em ao menos duas esferas a emissora de televisão com o maior Ibope
ARTE, CULTURA E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA Carlos Gomes 171

nacional anunciou que se tratava do lugar Jardim Ibirapuera, propõe ações de pedago-
em que mais se matava no mundo, em plena gia e arte com crianças, adolescentes e jovens
Guerra do Golfo. Aquilo era espantoso. Duas por meio do brincar e outras ações coletivas.
pessoas eram assassinadas por dia. O pro- Celebrações da vida se dão também no Sarau
grama mostrou ainda o drama no cemitério do Binho, no Samba da Vela, no Panelafro, na
Jardim São Luís, que não tinha mais espaço Mostra de Teatro Monte Azul, no Sacolão das
para enterrar seus mortos e, por isso, usava Artes, pela Cia. Teatral ManiCômicos, pela
de covas rasas. Pois bem, o grande público Brava Companhia, no Capão Pecado e em
respondeu a essa narrativa com o medo e a outras importantes obras de escritores da
aflição. Porém, seus moradores desejosos literatura marginal, pela Capulanas, no Pa-
da transformação entenderam o quanto os norama – Arte na Periferia, por meio dos gra-
movimentos artísticos poderiam fortalecer fiteiros e de todo o movimento hip-hop, pela
as relações entre eles e o lugar. Cia. Sansacroma, nos projetos aprovados pelo
Naquela região, já estavam presentes programa VAI3, nos grupos de estudantes de
alguns pontos culturais importantes, como dança, teatro e música pelo programa Voca-
o Centro Cultural Monte Azul, que desen- cional,4 na escuta do programa Santo Amaro
volveu trabalhos artísticos, intercâmbios e em Rede, do Sesc5 – que foi responsável por
serviu de espaço de encontro para jovens que um mapeamento de todas as ações culturais
estudavam teatro e música. Destes, muitos se e artísticas dos espaços da Zona Sul paulista
envolviam nas discussões filosóficas, políti- que têm ligação com a região de Santo Amaro
cas e literárias da Biblioteca Trópis. Também (dos bairros de Campo Limpo a Parelheiros).
já havia os Racionais MC’s, que levaram para São ações concretas. Uma série de deso-
as emissoras de rádios os nomes dos bair- bediências à ordem violenta imposta àquela
ros pobres, periféricos, pretos e paulistanos, população divulgada pela grande mídia. Uma
trazendo para o foco das discussões regiões resposta popular que buscou o fortalecimen-
muitas vezes desconhecidas por quem ali to e foi preponderante na transformação que
não morava. O Grupo Espírito de Zumbi de- se deu naquele bairro. Ainda hoje, apresen-
senvolvia pesquisas de dança afro, capoeira, ta-se como foco de resistência e de outras
percussão e teatro na primeira Casa de Cul- percepções para se relacionar e rever-se no
tura da cidade, a M’Boi Mirim. mundo. Em tempos de crise, esses artistas
Junto com esse movimento, outras dobraram a atenção, reconstruíram estéticas
vozes fortaleceram uma vocação artística e e propuseram ausências de uma realidade
potente dessa região e de seu entorno. Reu- dura para que todos – artistas e público, os
nião de professoras, professores, empregadas moradores daquela extrema Zona Sul – se
domésticas, donas de casa, desempregados, voltassem para seus cotidianos. E não fragili-
jovens, velhos e crianças no Sarau da Coope- zados, mas mais fortes. Mostraram que, para
rifa, com a apresentação de poesias e músi- viver, para sobreviver, é necessário usar toda
cas, sendo grande parte autoral. O Bloco do a sua força e maestria para dançar do seu jei-
Beco, que, no cinturão das quatro favelas no to a música que impositivamente tocam.
172 OBSERVATÓRIO ITAÚ CULTURAL

Carlos Gomes
Nasceu em Araruama (RJ), mas, em 1980, foi morar na periferia de São Paulo, no
Jardim Santa Margarida, um bairro entre o Jardim Ângela e o Parque Santo Antônio.
Sempre estudou em escolas e universidades públicas. Foi cobrador de ônibus clandestino,
office boy e catequista. Vendia rosas nos bares à noite, além de ser frequentador assíduo
dos sebos e das programações culturais da cidade. São suas referências da década de
1990 morar na região mais violenta do mundo, em plena Guerra do Golfo, os espetáculos
Des-Medeia, de Denise Stoklos, e Bacantes, do Teatro Oficina, além do romance Manuelzão
e Miguilim, de Guimarães Rosa. É bacharel em artes cênicas pela Universidade Estadual
de Campinas (Unicamp) desde 2001 e em pedagogia pela Universidade Federal de São
Carlos (UFSCar) desde 2016.

Referências bibliográficas

CHAUI, Marilena. Cidadania cultural: o direito à cultura. São Paulo: Editora Fundação
Perseu Abramo, 2006.

D’ANDREA, Tiarajú Pablo. A formação dos sujeitos periféricos: cultura e política na


periferia de São Paulo. Tese de doutorado. Universidade de São Paulo, 2013.

DUCHAMP, Marcel. O ato criador. In: BATTCOCK, Gregory. A nova arte. São Paulo:
Editora Perspectiva, 1980.

MCLUHAN, Marshall. Os meios de comunicação como extensões do homem. São Paulo:


Editora Cultrix, 1964.

Notas

1 MCLUHAN, Marshall. Os meios de comunicação como extensões do homem.


São Paulo: Editora Cultrix, 1964.

2 “O Poder da Criação”, gravada no álbum Boca do Povo (1980).

3 Programa para a Valorização de Iniciativas Culturais, criado pela Secretaria


Municipal de Cultura de São Paulo em 2003, para apoiar projetos artísticos
liderados por jovens de baixa renda.
ARTE, CULTURA E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA Carlos Gomes 173

4 Programa de educação artística da Prefeitura de São Paulo.

5 Para mais informações sobre o projeto, ver: <https://ceapg.fgv.br/sites/ceapg.fgv.


br/files/u60/sesc_-_polis_-_relatorio_tecnico_sto_amaro_em_rede.pdf>.
5.
SEMINÁRIO ARTE, CULTURA
E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA
LATINA, REALIZADO NOS DIAS
21 E 22 DE MARÇO DE 2018

176. RELATORIA
CONTEÚDO Leticia de Castro
ON-LINE

A Revista Observatório Itaú Cultural é disponibilizada gratuitamente


nas e-stores Amazon, Apple, Google, Iba, Kobo e Saraiva, além do site
do Itaú Cultural (itaucultural.org.br/secoes/observatorio-itau-cultural/
revista-observatorio).
176 OBSERVATÓRIO ITAÚ CULTURAL

RELATORIA SEMINÁRIO ARTE,


CULTURA E EDUCAÇÃO NA
AMÉRICA LATINA
Por Leticia de Castro

Entre os dias 21 e 23 de março, os institutos Itaú Cultural, Itaú Social e Unibanco promo-
veram, em parceria com a Fundação Bienal São Paulo, o Seminário Arte, Cultura e Educação
na América Latina. Foram mais de trinta palestrantes em três workshops, duas conferências e
mais quatro mesas de discussão, que abordaram os temas da edição 24 da revista Observartório.
Gestores, artistas e educadores de diversas instituições, de diferentes lugares do Brasil e da Amé-
rica Latina apresentaram suas experiências e análises sobre diferentes aspectos do tema. Este
texto apresenta um panorama das discussões que aconteceram nesses três dias de seminário.

“Ensinar é um ato teatral. E é esse aspecto do nosso


trabalho que proporciona espaço para as mudanças, a
invenção e as alterações espontâneas (...)”
bell hooks

C
omecemos pelo final. Sexta-feira de cultural e o papel da arte como uma ferra-
sol e céu azul no Parque Ibirapuera. menta de transformação social.
Os participantes dos workshops do Para assimilar tantas ideias, o artista
Seminário Arte, Cultura e Educação na Amé- paulista Jorge Menna Barreto e a curadora
rica Latina são recebidos no prédio da Bienal mexicana Sofia Olascoaga criaram o Encon-
para um balanço dos dois primeiros dias do tro Metabólico, uma atividade de encerra-
evento que aconteceu na sede do Itaú Cultu- mento que pretendia sintetizar, no corpo dos
ral, na avenida Paulista. Artistas, gestores e participantes, aquela experiência. Na manhã
educadores dos mais diversos estados bra- daquela sexta-feira, o grupo foi recebido no
sileiros e da América Latina, de países como prédio da Bienal, com mesas de frutas como
Chile, Colômbia e Cuba, haviam mergulha- pitaya, uva e banana; pães; torradas e geleias
do em uma programação intensa com quase diversas, águas aromatizadas, sucos integrais
doze horas de atividades diárias. Workshops, e café. Tudo orgânico, selecionado pela equi-
palestras e debates discutiram temas como a pe do Instituto Chão, associação paulistana
mediação em espaços culturais, democracia que comercializa e fomenta a produção de
ARTE, CULTURA E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA LETICIA DE CASTRO 177

alimentos orgânicos junto a pequenos produ- palestras que eu, mas que podem ter tido ou-
tores da capital. “Foram dias de muitas dis- tra compreensão”, disse Daniella Zanellato,
cussões e muitas informações novas. Agora doutoranda em arte-educação em São Paulo
é a hora de metabolizar no nosso organismo que participou do evento.
essa vivência”, anunciou Menna Barreto. Questões como a importância do corpo
Após uma apresentação sobre a origem nos processos de aprendizagem e de criação
dos alimentos que seriam consumidos, os artística, a resistência e articulação políticas
participantes se dividiram em quatro gru- como práticas centrais na arte e na educação
pos para um piquenique entre as rampas e e a integração desses universos com a defe-
galerias vazias do prédio de Oscar Niemeyer. sa do meio ambiente estiveram presentes de
Em esteiras de palha e almofadas coloridas, diferentes formas e com diferentes enfoques
havia chocolates, bananas chips, que eram, em todas as mesas e workshops do seminário
digamos, a entrada do piquenique. Depois, e ecoaram nas falas dos participantes duran-
o artista Jonas van Holandas ainda serviu te o piquenique na Bienal.
saladas e sobremesas preparadas no local. “Para mim, esse seminário se mostrou
No centro de cada grupo, uma toalha branca um ótimo ensaio para a unificação das lutas
e canetinhas coloridas para registrar os in- sociais. A arte, a educação, a agroecologia
sights de cada participante. e o meio ambiente devem fazer parte de
“O que vocês trouxeram de experiências uma mesma luta para a criação de um novo
para o evento? O que ficou das discussões? mundo, de um novo fazer”, disse Flavia Ca-
O que vocês levam? Quais partes do corpo valcanti, gestora da ONG Cetra – ganhadora
foram sensibilizadas pelo seminário?” Ins- do prêmio Itaú Unicef em 2017 no nordeste –
pirados por essas questões, propostas por que atua no sertão do Ceará, com populações
Jorge e Sofia, os grupos iniciaram o pique- indígenas, quilombolas e agricultores, em
nique metabólico, um tanto aliviados, vale projetos de cultura e direitos humanos que
dizer, por uma atividade lúdica e divertida trabalham linguagens como a fotografia, a
após dois dias de intenso trabalho intelec- dança e a música.
tual. “Foi tudo muito interessante, mas não A palestra do pajé Ianomâmi Davi
sobrou muito tempo para dialogar. Essa é Kopenawa na abertura do evento, “A Poética
uma ótima oportunidade para trocar ideias da Biodiversidade e o Saber da Cosmovisão”,
com outras pessoas que ouviram as mesmas foi a que mais a sensibilizou. “Estamos no
178 OBSERVATÓRIO ITAÚ CULTURAL

campo, na zona rural, tentando entender seja esse outro o aluno, parceiros ou público.
a ética da biodiversidade. Nosso trabalho “Reconhecer a força dos nossos pares, e sair
é fortalecer a identidade cultural daquela do egoísmo é o que pode mudar o mundo. Es-
população, que está intimamente ligada à tar aberto para essa escuta e ­incorporá-la à
luta e ao respeito pela terra, que são temas nossa prática artística ou pedagógica é fun-
fundamentais para a população indígena”. damental”, disse a artista.
O líder dos Ianomâmi discutiu a relação da Foi nessa linha da escuta, da abertura
educação com os saberes tradicionais a par- para o outro, que o professor de literatura
tir da cultura de seu povo. [veja na íntegra das redes pública e privada da Baixada Flu-
aqui: https://bit.ly/2uCpwnz] minense Bruno Santoro falou sobre sua ex-
periência, na mesa “Da Criação à Recepção:
Poemas e desenhos Construindo o Conhecimento por meio das
Aos poucos os grupos começaram a Artes”, no segundo dia do evento. Em um
preencher o branco das toalhas com as ideias contexto em que a literatura deixou de ser
e sensações mais marcantes daqueles dias. A obrigatória no currículo mínimo do ensino
repentista e presidente da Associação Comu- médio do Estado do Rio de Janeiro, ele elegeu
nitária Sociocultural de Major Sales – Ponti- a poesia para trabalhar conteúdo de semân-
nho de Cultura Tear Cultural, do Rio Grande tica, fonética e sintaxe, mas também como
Norte, Maria Fernandes de Carlos Oliveira um instrumento para desenvolver o exercício
registrou em poema: “Gosto de poesia/sabor da cidadania nos alunos da periferia carioca.
de troca/um bom dia/vai e fica/na volta/na “Eles não se reconhecem como parte inte-
vinda/um dia”. Para ela, a principal marca grante da escola, nem do município. Não se
do evento foi a diversidade de experiências e reconhecem como indivíduos”, afirmou.
pontos de vista a respeito de educação e cul- Por meio da literatura, Santoro cria em
tura que convergiam em torno de um mesmo sala de aula um espaço de afeto, confiança e
propósito e se complementavam. “Foi inte- troca. Partindo do conceito de antropofagia
ressante ver tanta gente diferente, trazendo cultural de Oswald de Andrade, ele apresen-
histórias de lugares tão distantes, mas que no ta autores como Carlos Drummond de An-
fundo compartilham os mesmos valores. Isso drade, Zé Keti, Manuel Bandeira e Cartola,
fortalece muito o nosso trabalho lá no sertão e os alunos reverberam essas leituras em
porque vemos que estamos no caminho cer- poemas sobre suas realidades, seus sonhos,
to, não estamos sós”, disse. seus mundos. Conforme podemos ver em um
Para a atriz, pesquisadora, professora e dos trabalhos que ele apresentou durante o
crítica de teatro cubana Roxana Pineda, fun- seminário, elaborado a partir da leitura da le-
dadora do Estúdio Teatral de Santa Clara, a tra da canção “Subúrbio”, de Chico Buarque.
ideia mais marcante do seminário foi o valor
da alteridade na sociedade contemporânea, Tem quem diz que não tem talento nela
a importância de se perceber e valorizar “o Pelo asfalto quente que dói
outro” nos processos artísticos e educativos, Pelas escadas e becos
ARTE, CULTURA E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA LETICIA DE CASTRO 179

Pelos barulhos de tiro e de gritaria como observadores e consumidores, mas


Mas lá no fundo se ouve o som do violino também como difusores e produtores, ga-
O canto de Maria rantindo, dessa forma, o reconhecimento
O teclado do Lucas legítimo da diversidade da sociedade.
Nela tem esperança É um passo adiante na ideia da demo-
Mas no jornal só sai morte todo dia cratização do acesso à cultura, já assimila-
Esse lugar tem que mudar da nas políticas públicas mundo afora, que
Porque o fuzil fala mais alto que a dignidade? se preocupa apenas em facilitar o acesso da
Maria, Lucas, João, Vitória merecem população a equipamentos culturais, com
o seu valor seus acervos e programações baseadas na
E não morrer de bala perdida produção artística “de mérito”. “Um proces-
Todo dia chora uma mãe aos pés do seu so que não reconhece a existência de outras
filho inocente pessoas, outras formas de cultura e de par-
Por que, meu Deus, o que eu fiz pra merecer? ticipação cultural, portanto, não se baseia
Vamos, favela, reage no diálogo, na discussão, na partilha da res-
Teus frutos merecem progredir ponsabilidade”, observou Vlachou em sua
Sem serem arrancados verdes do pé participação na mesa “Haverá democracia
sem democracia cultural”.
(Stella e Gabrielle, 3º ano do EM - ESTA- Já no primeiro workshop do evento, so-
MOS LEVANTANDO O NOME DA ESCO- bre mediação em espaços culturais, que teve a
LA, CIDADE E ESTADO) participação de gestores de instituições como
a Fundação Bienal, o Museu de Arte do Rio de
Ao colocar os alunos na condição de Janeiro (MAR), a Escolinha de Arte do Re-
sujeitos não apenas do processo pedagógi- cife, Parque Cultural do Caribe e o Museu da
co mas também de sua relação com a lite- Memória e dos Direitos Humanos no Chile, o
ratura, sujeitos capazes de compreender e tema foi abordado. “As instituições têm o pa-
interpretar o cânone literário mas também pel de fomentar a democracia cultural e pos-
de produzir sua própria poesia a partir de sibilitar que um número cada vez maior de
suas referências e experiências, Bruno nos pessoas participe desse processo de criação
mostra um exemplo simples mas vigoroso de e circulação artística”, disse Felipe Arruda,
algo que está no centro dos debates culturais diretor do Núcleo de Cultura e Participação
contemporâneos e que esteve presente em do Instituto Tomie Ohtake em São Paulo
todas as discussões do seminário: a impor- A gerente de educação da Escola do
tância da democracia cultural. Olhar, do MAR, Janaína Melo, citou um
O conceito, amplamente discutido no exemplo de como a mediação tem sido pensa-
artigo de Maria Vlachou nesta edição da da a partir desse conceito no museu carioca,
revista Observatório, baseia-se na ideia de de forma a possibilitar intervenções criativas
assegurar a todos os indivíduos o direito à do público. “Durante uma visita de estudan-
participação na vida cultural, não apenas tes à exposição Pernambuco Experimental
180 OBSERVATÓRIO ITAÚ CULTURAL

notamos que um grupo de jovens, ao final, para 6.26 (em um universo de 0 a 10) em
começou uma performance de passinho na relação a 2016. Em 2006, o continente atin-
área dos pilotis. Aquela potência da prática gira 6.37, enquanto a América do Norte, re-
cotidiana nos chamou a atenção e decidimos gião com maior pontuação, chegara a 8.64.
montar uma atividade que viabilizasse o diá- O único país latino-americano considerado
logo entre aquela manifestação tão carioca, uma democracia plena desde o início da pes-
que é o passinho, e o universo da exposição, quisa foi o Uruguai.
que é a arte pernambucana”, conta Janaína. O estudo atribui a piora geral na média
A equipe educativa criou, então, a Batalha do global de democracia no último ano (de 5.52
Frevo com o Passinho, que juntou, nos pilo- em 2016 para 5.48 em 2017), entre outros fa-
tis do museu, alunos de workshops das duas tores, a uma queda na liberdade de expressão.
modalidades de dança. “A censura não é mais prerrogativa de regi-
mes autoritários, está sendo implementada
Democracia política X cultural de modo crescente também nas democra-
Desde 2006 a divisão de pesquisas da cias”, afirma o relatório da pesquisa. Para
revista britânica The Economist realiza um ilustrar a conclusão dos pesquisadores bri-
levantamento em 167 países sobre o estado tânicos podemos ficar apenas em exemplos
da democracia no mundo. A partir de cinco brasileiros ocorridos no ano passado: o caso
critérios – processo eleitoral e pluralismo, Queermuseu – exposição em Porto Alegre
liberdade civis, funcionamento do governo, cancelada após manifestações de grupos
participação política e cultura política –, o conservadores contra o que consideravam
países podem ser classificados como “demo- uma obra com apologia à pedofilia –; a po-
cracia plena”, “democracia falha”, “regime lêmica em torno da performance La bête, de
híbrido” ou “regime autoritário”. Wagner Schwartz, na abertura do 35ª. Pano-
No ano passado, a pesquisa1 teve seu rama da Arte Brasileira do MAM/SP – tam-
pior resultado desde 2010: 89 países ti- bém acusado de pedofilia ao ter seu corpo nu
veram seus índices rebaixados, enquanto tocado por uma criança da plateia –; a cen-
apenas 27 melhoraram e 51 permaneceram sura para menores de 18 anos na exposição
estagnados. A comparação com a primeira Histórias da Sexualidade, do Masp; a prisão,
pesquisa, de 2006, é mais preocupante. O em Brasília, do artista Maikon K durante a
número de democracias plenas caiu de 28 performance DNA de DAN, em que fica nu;
para 19 entre 2006 e 2017, as democracias e a liminar judicial que proibiu a encenação
falhas cresceram de 54 para 57, os regimes da peça teatral O evangelho segundo Jesus,
híbridos cresceram de 30 para 39 e os auto- rainha do céu, em que Cristo é interpretado
ritários caíram de 55 para 52. O Brasil, desde por uma atriz trans, em Jundiaí.
a primeira edição do estudo figura entre as Qual seria, então, o papel da cultura,
democracias falhas. das artes e da educação nesse cenário? O
No ano passado, a América Latina teve tema foi objeto de discussão na mesa “Ha-
uma queda em sua pontuação geral de 6.33 verá democracia sem democracia cultural?”,
ARTE, CULTURA E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA LETICIA DE CASTRO 181

que investigou as relações imbricadas entre utilizada como uma ferramenta de distinção
arte, política e cultura. O diretor geral da e de legitimação das hierarquias”, afirma.
Pinacoteca do Estado de São Paulo Jochen Ele cita como exemplo desse uso per-
Volz lembrou de sua experiência à frente da verso a oposição entre alta cultura e a cultura
32ª Bienal de São Paulo, Incerteza Viva, que popular: ao se estabelecer uma diferenciação
abriu as portas no dia 7 de setembro de 2016, entre a produção das elites, que seria con-
apenas uma semana após o impeachment da siderada superior, e a do povo, colabora-se
presidente Dilma Rousseff ser aprovado no para reforçar a desigualdade social. “A arte
Senado Federal e seu então vice Michel Te- é usada no Brasil como um instrumento de
mer assumir a presidência anunciando que legitimação de um modo de ser que desqua-
a “incerteza havia acabado”. lifica o saber popular. Tudo relativo à cul-
Volz contou que, horas antes da aber- tura popular é citado de forma pejorativa”,
tura, equipe de produção, curadores e ar- comenta. Para ele, é necessário romper com
tistas ainda discutiam a possibilidade de as hierarquias tradicionais entre a alta cul-
cancelar a programação diante da tensão tura e a popular: levar o funk para o Teatro
política do país, mas optaram por manter o Municipal e as artes visuais para a favela.
evento. A coletiva de imprensa, que teve 150 Chefe de museografia e design do Mu-
jornalistas do mundo inteiro, e a cerimônia seu da Memória e dos Direitos Humanos do
de abertura viraram palco de protestos dos Chile, Lucrecia Conget, que também parti-
próprios artistas participantes. Faixas, ca- cipou da mesa, seguiu a mesma linha de ra-
misetas e palavras de ordem pedindo “Fora, ciocínio. Citando o filósofo francês Michel
Temer!” conviviam com obras de arte con- Foucault (1926-1984), ela afirmou que a cul-
temporânea do mundo inteiro, bem como tura pode ser uma estratégia de governabili-
com os recados dos patrocinadores. “Foi um dade, que usa de um discurso especializado
dos poucos momentos em que uma Bienal de para doutrinar e controlar a população. E
São Paulo teve participação tão direta dos chamou a atenção para o fato de que a imple-
artistas se manifestando no momento da mentação da democracia na América Latina,
coletiva”, disse o curador, lembrando que, conduzida por uma elite branca de origem
após a intervenção, retomou a palavra para europeia, deixou uma parcela considerável
continuar a apresentação do evento e avisar da população, como os indígenas, à margem
que aquilo tudo era apenas “o início”. do processo, restringindo o exercício demo-
Fundador do Observatório das Favelas crático a esse grupo hegemônico.
e professor da Universidade Federal Flumi- Consolidar uma democracia cultural
nense, Jaílson Souza e Silva analisou o papel passa, portanto, por dar visibilidade e legi-
da cultura na construção de uma sociedade timidade para as identidades e produções
democrática. “A cultura pode ser um ins- artísticas desses grupos excluídos. Ofere-
trumento fundamental para o exercício da cer as condições para que isso aconteça,
democracia, mas, em geral, não apenas no contemplando toda a diversidade da socie-
Brasil como em outros países do mundo, ela é dade, é o desafio das instituições culturais e
182 OBSERVATÓRIO ITAÚ CULTURAL

educacionais. É dessa forma que “a cultura está fora de contexto, não nos damos conta,
deixa de ser uma tática de governabilidade e te tira do centro, desarticula o cotidiano, cau-
passa a ser um instrumento de reivindicação sa atração e temor, é feio, é frágil”) e passou
social e política, fazendo com que esses gru- a explorar em cena e nos workshops que mi-
pos tomem parte dos processos de decisão e nistra o estranhamento e a falta de entendi-
governança”, conclui Lucrecia. mento do público em relação ao seu corpo.
Se as instituições têm papel chave É também baseado na consciência e
para fomentar e dar visibilidade à plurali- a inteligência do corpo que se fundamenta
dade de pontos de vista e identidades, qual o trabalho do coletivo de teatro gaúcho Ói
seria o papel social dos artistas, o que eles Nóis Aqui Traveiz. Fundado em plena dita-
teriam a ensinar nesse contexto? Ou ainda, dura militar, em 1978, o grupo tem um forte
como questionou a mesa seguinte do even- trabalho de militância e ação social basea-
to, “Transgressão e resistência podem ser do em três princípios: o teatro de vivência,
transmitidas?” A cubana Roxana Pineda, que pressupõe uma participação ativa do
professora da Faculdade de Artes Cênicas público durante as apresentações; o teatro
do Instituto Superior de Arte de Cuba, uma de rua, que transfere para o espaço público
das integrantes da mesa, não tem dúvidas: “a a experiência teatral; e as ações político-
docência tem que inspirar o espírito de resis- -pedagógicas, com a realização de oficinas
tência e romper com as estruturas de poder. de formação e fomento à criação de novos
A arte é, por essência, transgressora”, disse. grupos de teatro popular. “A gente aprende
um monte e justifica a nossa própria exis-
Corpo político tência com pessoas vivas que têm muito a
No caso da dançarina e performer Es- nos ensinar. É uma relação viva, profícua e
tela Lapponi, que também participou da interessada”, diz a atriz Tânia Farias, inte-
mesa, insistir na carreira artística foi, por grante do coletivo, que participou do evento.
si só, uma atitude de resistência e transgres- Para ela, as oficinas são um dos prin-
são. Vítima de um AVC (acidente vascular cipais espaços de resistência do grupo, e a
cerebral) enquanto estreava um espetácu- ferramenta fundamental nesse processo é o
lo de teatro, ela ficou com o lado esquerdo corpo. Nos bairros periféricos, encontro cor-
comprometido, mas decidiu continuar no pos de adolescentes enrijecidos e duros, pela
mundo das artes mesmo estando fora do violência, pela ausência de rituais cotidianos.
padrão. Seu corpo parcialmente paralisa- São esses corpos que a gente precisa libertar,
do tornou-se não apenas um instrumento porque corpos livres pensam melhor”, conta.
de expressão, mas também um território de Pensar com o corpo e ouvir a inteligên-
resistência e transgressão. cia do corpo é uma parte fundamental do tra-
Em sua nova condição, Estela passou balho que o grupo desenvolve com o teatro de
a desenvolver um discurso cênico do corpo vivência, no qual o processo criativo preten-
com deficiência. Criou o conceito do “corpo de estimular os sentidos do público atuante:
intruso” (“tudo o que não está convidado, “a gente quer esse corpo que pensa e reage às
ARTE, CULTURA E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA LETICIA DE CASTRO 183

sensações. Mais do que pensar através de um impressões do seminário, mas também em


discurso, queremos que o espetáculo e a cena relação às próprias práticas e realidades com
tragam sensações reflexivas”, diz a artista. maior intimidade e de um jeito fluido’, com-
Sensações capazes de articular o corpo polí- pletou Sofia Olascoaga.
tico, de artistas e cidadãos, para que saiam de Como resultado das conversas e trocas
um estado de letargia e partam para a ação. de informações durante o Encontro Metabó-
lico, um grande mural foi montado na lateral
Digestão cultural do prédio da Bienal, em meio ao verde de um
E foi também pensando no corpo que dos maiores parques de São Paulo, o Ibira-
reage às sensações e estímulos, que é capaz puera. Um varal com as toalhas ilustradas
de sintetizar e interpretar informações co- pelos participantes do seminário criava um
nectando-se também com o meio-ambiente, panorama dos últimos dias. Colagens, dese-
que o encerramento do seminário foi pensa- nhos, marcas de mãos e palavras de ordem
do. Organizado em um dos maiores parques davam o tom: “Eco/ruído/descolonizar/po-
da cidade São Paulo, o Ibirapuera, um espaço lifonia”; “sem feminismo não há socialismo”,
verde no meio da metrópole que possibilita “a terra é mãe/ a terra é de todos”. “Foi muito
uma conexão não apenas com as ideias, mas surpreendente ver os resultados que apare-
também com a terra e toda a sua biodiversi- ceram nas toalhas e observar o ‘clima diges-
dade. Nesse cenário, o Encontro Metabólico tivo/metabólico’ que se instaurou no grupo,
na Bienal, proposto por Jorge Menna Barr- não apenas discursivamente, mas celular-
reto e Sofia Olascoaga, foi um espaço para mente”, concluiu Jorge. Um daqueles raros
reflexão, troca e digestão, em que o cardápio momentos em que o corpo assimila ideias e
trazia conceitos e experiências sobre arte as ideias se fundem no corpo.
e educação e também alimentos orgânicos,
selecionados especialmente para a ocasião.
“Entendemos que esses alimentos, com
uma origem que preza pela diversidade, con-
tém em si uma informação de complexidade
que pode ser lida e estimula nossos corpos
e mentes a produzir relações que também
sejam complexas. A leitura desses alimen-
tos, no entanto, não é algo intelectual, mas
metabólico/digestivo. É o nosso sistema di-
gestório quem faz essa leitura, digamos, e
Nota
foi nessa chave que investimos”, diz Menna
Barreto. “A gente pensou na dinâmica do
1 Disponível em “The Economist Inteligence
encontro como um espaço de conversa que, Unit: Democracy Index 2017” (https://www.
organizado em grupos pequenos, permitis- eiu.com/topic/democracy-index), acessado
se aos participantes trocar experiências e em abril de 2018
186 OBSERVATÓRIO ITAÚ CULTURAL

COLEÇÃO OS LIVROS
DO OBSERVATÓRIO

Com o Cérebro na Mão As Metrópoles Regionais e


Teixeira Coelho a Cultura: o Caso Francês,
1945-2000
Françoise Taliano-des Garets

A Economia Afirmar os Direitos


Artisticamente Criativa Culturais – Comentário à
Xavier Greffe Declaração de Friburgo
Patrice Meyer-Bisch e
Mylène Bidault

O Lugar do Público Arte e Mercado


Jacqueline Eidelman, Xavier Greffe
Mélanie Roustan e
Bernardette Goldstein

Identidade e Violência: Cultura e Estado.


a Ilusão do Destino A Política Cultural na
Amartya Sen França, 1955-2005
Teixeira Coelho
ARTE, CULTURA E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA  187

Cultura e Educação A Cultura pela Cidade


Teixeira Coelho (org.) Teixeira Coelho (org.)

Saturação Leitores, Espectadores


Michel Maffesoli e Internautas
Néstor García Canclini

O Medo ao Pequeno Número A República dos


Arjun Appadurai Bons Sentimentos
Michel Maffesoli

A Cultura e Seu Contrário Cultura e Economia


Teixeira Coelho Paul Tolila
188 OBSERVATÓRIO ITAÚ CULTURAL

SÉRIE RUMOS PESQUISA

Os Cardeais da Cultura Por uma Cultura Pública:


Nacional: o Conselho Federal Organizações Sociais, Oscips
de Cultura na Ditadura Civil- e a Gestão Pública Não
Militar − 1967-1975 Estatal na Área da Cultura
Tatyana de Amaral Maia Elizabeth Ponte

Discursos, Políticas A Proteção Jurídica de


e Ações: Processos de Expressões Culturais
Industrialização do Campo de Povos Indígenas na
Cinematográfico Brasileiro Indústria Cultural
Lia Bahia Victor Lúcio Pimenta de Faria
ARTE, CULTURA E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA  189

AS REVISTAS

Revista Observatório Revista Observatório


Itaú Cultural No 23 – Itaú Cultural No 19 –
Economia da Cultura: Tecnologia e Cultura:
Estatísticas e Indicadores uma Sociedade em Redes
para o Desenvolvimento

Revista Observatório Revista Observatório


Itaú Cultural No 22 – Itaú Cultural No 18 –
Memórias, Resistências Perspectivas sobre
e Políticas Culturais Política e Gestão Cultural
na América Latina na América Latina

Revista Observatório Revista Observatório


Itaú Cultural No 21 – Itaú Cultural No 17 –
Política, Transformações Livro e Leitura:
Econômicas e Identidades das Políticas Públicas
Culturais ao Mercado Editorial

Revista Observatório Revista Observatório


Itaú Cultural Itaú Cultural No 16 –
No 20 – Políticas Culturais Direito, Tecnologia
para a Diversidade: e Sociedade: uma
Lacunas Inquietantes Conversa Indisciplinar
190 OBSERVATÓRIO ITAÚ CULTURAL

Revista Observatório Revista Observatório


Itaú Cultural No 15 – Itaú Cultural No 11 –
Cultura e Formação Direitos Culturais:
um Novo Papel

Revista Observatório Revista Observatório


Itaú Cultural No 14 – Itaú Cultural No 10 –
A Festa em Múltiplas Cinema e Audiovisual
Dimensões em Perspectiva: Pensando
Políticas Públicas e Mercado

Revista Observatório Revista Observatório


Itaú Cultural No 13 – Itaú Cultural No 9 –
A Arte como Objeto Novos Desafios da
de Políticas Públicas Cultura Digital

Revista Observatório Revista Observatório


Itaú Cultural No 12 – Itaú Cultural No 8 –
Os Públicos da Cultura: Diversidade Cultural:
Desafios Contemporâneos Contextos e Sentidos
ARTE, CULTURA E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA  191

Revista Observatório Revista Observatório


Itaú Cultural No 7 – Lei Itaú Cultural No 3 –
Rouanet. Contribuições para Valores para uma
um Debate sobre o Incentivo Política Cultural
Fiscal para a Cultura

Revista Observatório Revista Observatório


Itaú Cultural No 6 – Itaú Cultural No 2 –
Os Profissionais da Mapeamento de Pesquisas
Cultura: Formação sobre o Setor Cultural
para o Setor Cultural

Revista Observatório Revista Observatório


Itaú Cultural No 5 – Itaú Cultural No 1 –
Como a Cultura Pode Indicadores e Políticas
Mudar a Cidade Públicas para a Cultura

Revista Observatório
Itaú Cultural No 4 –
Reflexões sobre
Indicadores Culturais
192 OBSERVATÓRIO ITAÚ CULTURAL
ARTE, CULTURA E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA  193
Esta revista utiliza as fontes Sentinel e Gotham
sobre o papel Pólen Bold 90 g/m2. Os pantones
805 e Blue 072 foram os escolhidos para esta
edição. Duas mil unidades foram impressas pela
gráfica Margraf Editora e Indústria Gráfica Ltda
em São Paulo, no mês de abril do ano de 2018.
ARTE, CULTURA E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA  195
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