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DOI: http://dx.doi.org/10.22296/2317-1529.

2003v5n1p85
R E S E N H A

A CIDADE DA A coletânea também indica, através de novos pro-


INFORMALIDADE: cessos, a retomada da temática da oposição formal-in-
O DESAFIO DAS CIDADES formal, de longa presença no pensamento latino-ame-
LATINO-AMERICANAS ricano dedicado ao urbano. Impossível seria, neste
Pedro Abramo (Org.) sentido, esquecer estudos que, já nos anos 60, demons-
Rio de Janeiro: Livraria Sette Letras/Faperj/ traram os limites político-analíticos desta categoria e,
Lincoln Institute, 2003. simultaneamente, a relevância dos processos por ela in-
dicados, bastando citar, aqui, os nomes de Aníbal Qui-
Ana Clara Torres Ribeiro (UFRJ) jano, José Nun, Paul Singer e Francisco de Oliveira.
Grandes esforços teóricos e de análise histórica apoia-
A coletânea A cidade da informalidades, organiza- ram estes estudos e neles tiveram origem. A valorização
da por Pedro Abramo, aparece num momento particu- desta tradição, em diálogo com a coletânea, poderá es-
larmente relevante. Existem, atualmente, novas pers- timular a reflexão dos rumos tomados pela moderniza-
pectivas para a superação de mecanismos de natureza ção latino-americana e, especialmente, pelo desenvol-
econômica e político-institucional responsáveis pela re- vimento urbano. Esta reflexão é indispensável num
produção das faces mais cruéis da urbanização. Estas momento em que a adesão às pautas modernas, como
perspectivas decorrem da aprovação do Estatuto da Ci- permite ver o artigo de Pedro Abramo sobre as trajetó-
dade e da criação do Ministério das Cidades. A coletâ- rias familiares de favelados, demonstra a falência (ain-
nea contribui ao tratamento enriquecido de um dos da que relativa) de estratégias associadas à educação e à
temas centrais da atuação deste Ministério, a regulariza- preparação para o trabalho.
ção fundiária, e para a apropriação social da legislação Na atualização do pensamento crítico, será indis-
relativa aos direitos urbanos. Nas palavras de Edésio pensável a análise dos vínculos entre o agravamento
Fernandes: “a aprovação do importante Estatuto da Ci- das condições urbanas de vida e características do capi-
dade consolidou a ordem constitucional quanto ao talismo periférico, tão bem sugerida pelo estudo tran-
controle jurídico do desenvolvimento urbano, visando sescalar realizado por Susana Pastenack para o caso
reorientar a ação do Poder Público, do mercado imobi- brasileiro. Será igualmente indispensável o conheci-
liário e da sociedade (…) Sua efetiva materialização em mento aprofundado da experiência urbana popular,
leis e políticas públicas, porém, dependerá fundamen- como demonstra o artigo de Jane Souto de Oliveira,
talmente da ampla mobilização da sociedade brasileira, Denise Britz do Nascimento Silva, José Matias de Li-
dentro e fora do aparato estatal” (p.166-7). ma e Doriam Luis Borges de Melo. Nos anos 90, o
Por outro lado, o fato de a coletânea incluir tex- diagnóstico da exclusão substituiu o da marginalidade
tos de especialistas latino-americanos estimula a refle- socioespacial. Também neste período, a regularização
xão de fenômenos comuns aos países periféricos, tanto fundiária adquiriu por vezes, como indicam Emilio
relacionados à história da urbanização quanto às for- Duhau e Maria Cristina Cravino, a anódina fisiono-
mas de enfrentamento das carências sociais, sejam es- mia de uma política pública que mal esconde o desin-
tas concebidas por cada sociedade/governo ou difundi- teresse dos governantes pela proposição de políticas ha-
das por agências multilaterais de desenvolvimento. bitacionais abrangentes e pelo controle do, sem
Nesta direção, o livro apresenta uma tensa tessitura de exagero retórico, capitalismo selvagem. Como nomear
informações e análises, em que a regularização emerge de outra forma uma experiência urbana na qual, como
de mobilizações sociais, mas também como solução afirma Martim Smolka, “muitos pagam muito pelo
precária para as necessidades sociais ou, ainda, como pouco que recebem, em contraste aos poucos que rece-
estratégia acionada por diferentes atores políticos. bem muito pelo pouco que entregam” (p.123)?
Rompe-se, desta maneira, com interpretações da reali- Neste contexto, existe a possibilidade de que a re-
dade urbana latino-americana que apresentam a regu- gularização fundiária alimente-se, como alerta Maria
larização como estímulo seguro aos investimentos em Cristina Cravino, dos discursos e práticas de uma con-
habitação ou como “direito”, desacompanhado de pro- servadora ideologia comunitária, que esconde confli-
jetos para o alcance da justiça social. tos, despolitiza reivindicações e estimula táticas popu-

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lares subalternizantes. Há ainda a possibilidade, segun- a democratização do acesso à terra; a garantia universal
do Martim Smolka, que a regularização seja acionada de condições básicas de vida urbana e o fortalecimen-
por governos indispostos para o enfrentamento amplo to dos sujeitos populares, o que pressupõe muito mais
e conseqüente da questão social. Em oposição a estas do que a participação usualmente estimulada (e, até
tendências, a coletânea A cidade da informalidade indi- mesmo, exigida) nas políticas urbanas. Afinal, como
ca que a regularização fundiária e urbanística pode ser também afirma Edésio Fernandes: “é essencial que se
conduzida pela análise crítica das formas sociais domi- reconheça que em casos como o do Brasil, nos quais a
nantes (jurídicas e espaciais) e pela valorização da con- ilegalidade deixou de ser exceção e passou a ser a regra,
quista diária da cidade. Deste último ângulo, trata-se o fenômeno é estrutural e estruturante dos processos
de resistências e vitórias parciais que configuram a de- de produção da cidade” (p.139).
nominada, por Emilio Duhau, urbanização popular, Os artigos reunidos na coletânea resistem a pro-
conceito que reconhece a natureza coletiva da expe- postas de regularização que a apresentam como uma
riência da irregularidade. inovadora panacéia para o drama social vivido nas me-
Nesta experiência, segundo dados citados por trópoles da América Latina, desconhecendo, como diz
Martim Smolka, encontra-se envolvida, por vezes, Cláudia Pilla Damasio, os seus vínculos com a indis-
mais da metade da população urbana, em precárias pensável humanização da experiência urbana. Com es-
condições ambientais, reconhecidas por Alex Kenya tes artigos, fica claro que a regularização é um conceito
Abiko e Fernando Cavallieri. Como denominar esta em disputa, que inclui o confronto entre concepções
real estruturação popular da experiência urbana? Será de política urbana. Por outro lado, verifica-se não ser
suficiente indicar o seu afastamento da forma domi- aceitável a regularização como um fim em si mesma, já
nante, como propõem as noções de informalidade e ir- que os processos indicados por esta noção não geram
regularidade? Estas noções não estimulariam o cômo- resultados plenamente previsíveis e controláveis. Além
do esquecimento das múltiplas vivências populares da disto, a coletânea permite afirmar que a desregulamen-
cidade, que incluem fatos tão distintos quanto favelas tação e/ou a regulamentação simplista e simplificado-
(antigas e novas, com diferentes dimensões), loteamen- ra, ao gosto das diretrizes neoliberais, não constituem
tos clandestinos, ocupações de prédios, assentamentos uma saída. De fato, tanto uma regularização resumida
populares e cortiços, além da experiência extrema da à legalização como o simples ajuste estratégico de nor-
moradia na rua? Como reconhecer os processos econô- mas “ao que existe” redundam, por estranhas sinoní-
micos e político-institucionais que unificam as formas mias, na indesejável valorização da norma instituída
urbanas populares, sem pieguismo e ocultamento da frente a dinâmica da própria sociedade, como se a lei
dominação e da espoliação? Como apreender, como ditasse, por si só, comportamentos coletivos, garantin-
propõe Pedro Abramo, a complexidade dos elos exis- do a legitimidade aos governantes.
tentes entre a dinâmica interna das favelas, a dinâmica Desta ótica, deixa-se de compreender o marco ju-
interfavelas e, ainda, com o entorno imediato de cada rídico como construção política que garante direitos
assentamento? de cidadania, o que estreita a democracia e o espaço
Na coletânea, são identificáveis algumas respostas público. Porém, como desconhecer que a legalização
a estas perguntas na crítica de diretrizes para a política pode colaborar na redução da violência, retendo a ação
urbana que apenas reconhecem benefícios na regulari- de grileiros e os despejos? O núcleo da problemática
zação; na denúncia da omissão dos governos no deli- da regularização é a propriedade, este fundamento da
neamento de políticas habitacionais abrangentes; na (des)ordem urbana e real sustentáculo da versão domi-
crítica, como propõe Cláudia Pilla Damasio, a propos- nante do Estado de Direito. Enfrentar este núcleo é
tas que não incorporem a experiência urbana das clas- também dispor de uma oportunidade para refletir/re-
ses populares. Estas respostas são indicativas da urgên- ver a experiência urbana e, ainda, a organização políti-
cia com que precisam ser desenvolvidas análises co-jurídica das relações Sociedade–Estado. O aprovei-
estruturais da urbanização latino-americana, orienta- tamento desta oportunidade poderá reaproximar o
das por compromissos com: a ruptura do círculo vicio- que décadas de neoliberalismo afastou, isto é, políticas
so que une desigualdade, pobreza e ilegalidade urbana; urbanas socialmente justas e projetos dirigidos à inte-

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gração social, implementados nos diferentes níveis de sua capacidade de propor novos universais e, assim, o
governo. que afinal é legítimo. As práticas solidárias observadas
Não há dúvida de que os países periféricos encon- em favelas constituem elementos morais a serem refle-
tram-se em mais uma encruzilhada. Nesta, os cami- tidos no desenho de políticas urbanas, diante do estí-
nhos estão marcados por estratégias para a economia e mulo ao individualismo. De fato, receitas e receituários
por percepções de democracia. As políticas de regulari- ou, noutros termos, práticas curativas, no mínimo, não
zação estão posicionadas nos termos desta encruzilha- bastam. Os obstáculos existentes à regularização, ana-
da, o que pode ser reconhecido, por exemplo, através lisados por Rosana Denaldi e Solange Gonçalves Dias,
de uma comparação entre o artigo de Julio Calderón confirmam esta insuficiência. Também dizem dos limi-
Cockburn, dedicado à experiência peruana, e os textos tes da regularização, a sua indispensável associação
de Emilio Duhau e Maria Cristina Cravina. A reflexão com um plano muito mais abrangente de mudanças
crítica dos erros cometidos em políticas de regulariza- institucionais e administrativas.
ção colabora para que sejam superados o clientelismo Há necessidade de uma nova sistematização (e
existente em práticas de legalização e as formas especu- apropriação) dos recursos concentrados nas metrópo-
lativas de enfrentamento da pobreza, como a que ago- les latino-americanas que transforme a própria idéia de
ra busca associar, desconhecendo a cultura popular, o regularização e apóie a territorialização de instrumen-
acesso à propriedade individual à ação dos bancos pri- tos jurídicos e urbanísticos. Para tal, é indispensável o
vados e ao crédito. diálogo interdisciplinar, valorizador da percepção de
No âmbito dos direitos urbanos, desconhecer direitos originada na experiência popular e das estraté-
culturas – como exposto por Julio Calderón Cockburn gias intergeracionais de sobrevivência e mobilidade so-
no que concerne aos registros de propriedade e, por cial, tratadas nos artigos de Julio Calderón Cockburn
Edésio Fernandes, com relação aos instrumentos jurí- e Pedro Abramo. Nestes artigos, surge a indicação de
dicos – significa impedir a formação de sujeitos sociais. que a experiência da pobreza – dos homens lentos de
Significa, ainda, conceber falsos projetos, que disper- Milton Santos – resiste aos formuladores das políticas
sam investimentos e anulam a face extremamente ati- públicas, quando orientados por uma racionalidade
va da experiência popular, demonstrada no dinamismo que desconhece o tecido urbano. Este desconhecimen-
do mercado informal de terras e moradias. Tal desco- to, aliás, explica o fracasso de intervenções calcadas nu-
nhecimento, como indica o texto de Julio Calderón ma participação popular, que, simplesmente, não
Cockburn, é impeditivo da territorialização de direitos acontece. Trata-se de afastamentos Sociedade–Estado
e da emergência de novas territorialidades, efetivamen- que marcaram a urbanização periférica, com enormes
te democráticas. O mercado abstrato renega o merca- custos sociais, redundando, como esclarece o artigo de
do concreto, da mesma maneira que normas jurídicas Alex Kenia Abiko, em obstáculos financeiros para a ad-
abstratas rejeitam práticas sociais. Estes espelhos desfo- ministração pública.
cados, presentes em políticas públicas estimuladas por Há, realmente, esperança de que a radicalização
agentes desterritorializados, estimulam uma cegueira da democracia integre a urbanização popular à estru-
ainda mais profunda. turação dominante da cidade? A coletânea demons-
Esta cegueira impede o aprendizado com a expe- tra, claramente, que a dicotomia formal–informal
riência das classes populares urbanas dos países perifé- precisará ser superada, como afirma Fernando Caval-
ricos, que constroem cidades e desvendam recursos em lieri ao indicar a sua simbiose orgânica, da mesma
ambientes marcados por carência e exclusão. Por que forma que deverá ser superado o recurso a técnicas es-
regularizar, apenas, os seus resultados materiais imedia- tatísticas que desconhecem a dinâmica da pobreza.
tos? Por que não reconhecer propostas latentes (e ain- Existe a necessidade de (re)conhecimento profundo
da subordinadas) na urbanização popular, inclusive no dos lugares e de sua intensa vitalidade, indicada no
que concerne à renovação do direito e do urbanismo? texto de Pedro Abramo e no artigo de Jane Souto de
Institucionalizar a carência ou reproduzir a estratégia Oliveira, Denise Britz do Nascimento Silva, José Ma-
de indutos e anistia é realmente muito pouco… Reco- tias de Lima e Dorian Luis Borges de Melo. Deste
nhecer a potência do “outro” é também admiti-lo na (re)conhecimento dependerá a esperada renovação da

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política e a multiplicação das formas de vida aceitas e APOLOGIA DA DERIVA:


valorizadas, além da superação de barreiras – envol- ESCRITOS SITUACIONISTAS
vendo concepções do direito e do urbanismo – até SOBRE A CIDADE
hoje preservadas entre economia e sociedade. Esta su- Paola Berenstein Jacques (Org.)
peração, exigida pelo conteúdo da coletânea, repre- Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2003.
senta enorme desafio para as disciplinas inscritas no
campo do planejamento territorial. Thais de Bhanthumchinda Portela (UFRJ)

O supra-sumo do espetáculo é o planejamento da felicidade.


Raoul Vaneigem, 1961

No período entre guerras, o campo da arquitetu-


ra e do urbanismo presenciou o fortalecimento do dis-
curso poético – na busca de soluções dos problemas so-
ciais – e pragmático – no uso da racionalidade técnica
para a reconstrução das cidades arrasadas pela guerra –
propostos nos primeiros CIAMs (Congressos Interna-
cionais de Arquitetura Moderna). Já no pós-guerra, em
1947, no retorno dos Congressos, a cada encontro pas-
sou a dominar a figura de Le Corbusier, com o discur-
so do funcionalismo separatista apresentado na Carta
de Atenas (1933) e encaminhado por princípios racio-
nais cartesianos.
Em um contexto de grande destruição que gera-
va a necessidade de rápida reconstrução dos espaços ur-
banos e de grandes investimentos na habitação, aliado
ao fortalecimento de uma produção industrial de mo-
delo fordista – produção estandardizada, uso de carros,
trabalho na fábrica com horários para a produção e pa-
ra o descanso bem determinados etc. – fizeram que os
princípios da Carta de Atenas para o funcionamento da
cidade – trabalhar, circular, habitar e recrear – fossem
utilizados em larga escala por todo continente euro-
peu, sendo depois transformado em um grande mode-
lo de construção de cidades em diversos países com
pretensão a se “modernizar/desenvolver”.
Este modernizar as cidades mundo afora seguin-
do a cartilha do funcionalismo racionalista cartesiano
virou cânone, tanto na Academia quanto nos escritó-
rios de projetos, marca do que viria a ser considerado a
boa arquitetura e o urbanismo de qualidade. Além dis-
so, na medida em que acontecia a modernização das ci-
dades o Urbanismo fortalecia-se como disciplina, ga-
nhando espaços nos poderes públicos e privados para
projetar e planejar as cidades. Aliás, cidade que se pres-
tasse, que fosse desenvolvida, era sinônimo de cidade
bem planejada.

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